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CASA NOBRE Volume II / James Clavell
CASA NOBRE Volume II / James Clavell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CASA NOBRE

Volume II

Primeira Parte

 

                 Quinta-feira, 4h50m

Cerca de uma hora antes do amanhecer, sob a chuva torrencial, Poon Bom Tempo olhou para o corpo meio despido de John Chen e soltou um palavrão. Revistara as roupas dele cuidadosamente, e examinara vários quilos de lama do túmulo que os dois jovens, Kin Pak e Chen Orelha de Cão, haviam cavado. Mas nada encontrara — nem moedas, nem partes de moedas ou jóias, nada. E Wu Quatro Dedos lhe dissera, anteriormente:

— Trate de achar aquela meia moeda, Poon Bom Tempo. Então, o velho lhe dera novas instruções, e Poon Bom

Tempo ficara muito satisfeito, porque aquilo o aliviava de qualquer responsabilidade, e assim não poderia cometer erro algum. Mandara que Chen Orelha de Cão e Kin Pak carregassem o cadáver para baixo e ameaçara Kin Bexiguento, que segurava a mão mutilada, de cortar fora a sua língua, caso o jovem gemesse mais uma vez. Deixaram o cadáver do Pai Kin num beco. A seguir, Poon Bom Tempo procurou o rei dos mendigos de Kowloon City, que era primo afastado de Wu Quatro Dedos. Todos os mendigos eram membros da Associação dos Mendigos e havia um rei em Hong Kong, um em Kowloon e um em Kowloon City. Antigamente, a mendicância era uma profissão rendosa, mas não agora, devido a severas sentenças de prisão, multas e muitos empregos que pagavam bem.

— Sabe, Honrado Rei Mendigo, esse conhecido nosso acaba de morrer — Poon Bom Tempo explicou pacientemente ao velho distinto. — Não tem parentes, portanto foi colocado no Beco dos Floristas. Meu Grande Dragão apreciaria muito uma ajudazinha. Quem sabe o senhor não poderia providenciar um enterro discreto? — Negociou polidamente, depois pagou o preço combinado, e encaminhou-se para o táxi e o carro deles, que estavam esperando fora dos limites da cidade, satisfeito porque o corpo agora ia desaparecer para sempre, sem deixar vestígios. Kin Pak já estava no banco da frente do táxi. Entrou ao seu lado. — Leve-nos a John Chen — ordenou. — E depressa!

— Pegue a Sha Tin Road — disse Kin Pak, com ar importante, para o motorista. Chen Orelha de Cão encolhia-se no banco de trás com outros combatentes de Poon Bom Tempo. Kin Bexiguento e os outros iam no carro.

Os dois veículos seguiram para o noroeste, para os Novos Territórios, pela Sha Tin-Tai Po Road, que atravessava aldeias, zonas de recolonização e favelas, cruzava a garganta da montanha, ladeando a ferrovia que se dirigia para a fronteira norte, passando por hortas férteis que exalavam um forte cheiro de estrume. Pouco antes da aldeia pesqueira de Sha Tin, com o mar à sua direita, eles viraram à esquerda numa estrada lateral, saindo da via principal. A superfície da estrada estava rachada, cheia de poças. Pararam numa clareira e saltaram.

Estava quentinho, na chuva. A terra cheirava bem. Kin Pak pegou a pá e foi mostrando o caminho, por entre a vegetação rasteira. Poon Bom Tempo segurava a lanterna elétrica, enquanto Kin Pak, Chen Orelha de Cão e Kin Bexiguento procuravam. Ficava difícil para eles, na escuridão, encontrar o local exato. Duas vezes começaram a cavar antes que Kin Pak se lembrasse de que o pai havia marcado o local com uma pedra em forma de meia-lua. Praguejando, ensopados, finalmente encontraram a pedra e começaram a cavar. A terra estava ressecada, sob a superfície. Logo desenterraram o corpo, enrolado num cobertor. O cheiro era forte. Embora Poon Bom Tempo os tivesse feito despir o corpo e o tivesse revistado cuidadosamente, nada fora encontrado.

— Mandaram todo o resto para o Chen da Casa Nobre? — perguntou novamente, a chuva no seu rosto, as roupas ensopadas.

— Sim — respondeu o jovem Kin Pak, com truculência.

— Quantas vezes tenho que lhe repetir, porra?

Estava muito cansado, as roupas encharcadas, e tinha certeza de que ia morrer.

— Vocês todos, tirem essas roupas infestadas de estrume. Sapatos, meias, tudo. Quero revistar os seus bolsos.

Obedeceram. Kin Pak usava um cordão à volta do pescoço, do qual pendia um disco de jade barato. Quase todo mundo na China usava um pedaço de jade para dar sorte, porque todos sabiam que, se um deus malvado fizesse você tropeçar, o espírito do jade se meteria entre você e o mal, agüentaria o tranco da queda e se despedaçaria, evitando que você se despedaçasse. E se não o fizesse, então o Deus do Jade devia estar dormindo, infelizmente, e era azar seu.

Poon Bom Tempo não achou nada nos bolsos de Kin Pak. Jogou as roupas de volta para ele. A essa altura também ele estava ensopado, e muito irritado.

Podem se vestir, e vestir o cadáver também. E andem depressa com isso!

Chen Orelha de Cão tinha quase quatrocentos HK e uma pulseira de jade de boa qualidade. Um dos homens ficou com a pulseira, Poon embolsou a grana e virou-se para Kin Bexiguento. Os olhos de todos saltaram ao ver o grande maço de notas que ele achou no bolso das calças do jovem.

Poon Bom Tempo protegeu-o cuidadosamente da chuva.

— Onde, em nome da Puta Celestial, arranjou tudo isso? Ele lhes contou como achacara o pessoal de dinheiro diante do Ho-Pak, e eles riram e o cumprimentaram pela sua sagacidade.

— Muito bem, quanta esperteza! — disse Poon. — Você é um bom negociante. Vista-se. Como se chamava a velha?

— Disse que se chamava Ah Tam. — Kin Bexiguento tirou a água da chuva dos olhos com a mão, os dedos do pé retorcendo-se na lama, a mão mutilada em fogo, agora, e doendo demais. — Eu o levarei até ela, se quiser.

— Ei, preciso da porra da luz aqui! — exclamou Kin Pak. Estava de quatro, tentando enfiar as roupas no cadáver de John Chen. — Alguém pode me dar uma ajuda?

— Ajudem-no!

Chen Orelha de Cão e Kin Bexiguento apressaram-se a ajudar, enquanto Poon Bom Tempo dirigia o jato de luz de volta ao cadáver. O corpo estava inchado e tumefato, e a chuva lavava a terra de cima dele. A parte de trás da cabeça de John Chen estava esmagada e cheia de sangue pisado, mas seu rosto ainda era reconhecível.

— Ayeeyah — disse um dos homens de Poon —, vamos andando com isso. Sinto espíritos maus a rondarem por aqui.

— Basta pôr as calças e a camisa — falou Poon Bom Tempo, com azedume. Esperou até o corpo estar parcialmente vestido. Depois, fitou os três. — Agora, qual de vocês, seus safados sem mãe, ajudou o velho a matar este pobre fornicador?

Kin Pak começou a dizer:

— Já lhe cont...

Parou ao ver que os outros dois apontavam para ele e diziam a uma voz, afastando-se dele:

— Foi ele.

— Era o que eu já suspeitava! — Poon Bom Tempo ficou satisfeito por ter finalmente chegado ao fundo do mistério. Apontou o dedo rombudo para Kin Pak. — Entre no buraco e deite-se.

— Temos um plano fácil para seqüestrar o próprio Chen da Casa Nobre, um plano que nos renderá a todos duas, três vezes o que rendeu este fornicador. Eu lhes conto, heya? — falou Kin Pak.

Poon Bom Tempo hesitou um momento diante da nova idéia. Depois, lembrou-se das instruções de Quatro Dedos.

— Enfie a cara na terra do buraco!

Kin Pak fitou seus olhos inflexíveis, e soube que era um homem morto. Deu de ombros. Joss.

— Mijo em toda a sua descendência — falou. Entrou na cova e se deitou.

Apoiou a cabeça sobre os braços, na terra, e começou a apagar a luz da sua vida. Do nada ao nada, sempre parte da família Kin, de todas as suas gerações, vivendo para sempre na sua corrente perpétua, de geração a geração, através da história para o futuro eterno.

Poon Bom Tempo pegou uma das pás e, por causa da coragem do jovem, despachou-o instantaneamente, colocando a parte cortante da lâmina entre as suas vértebras e empurrando para baixo. Kin Pak morreu sem saber,

— Encham a cova!

Chen Orelha de Cão estava apavorado, mas apressou-se a obedecer. Poon Bom Tempo riu, fê-lo tropeçar e deu-lhe um chute violento pela sua covardia. O homem caiu em parte dentro da cova. Prontamente a pá na mão de Poon girou num arco e atingiu a parte de trás da cabeça de Chen Orelha de Cão, e ele desabou com um suspiro em cima de Kin Pak. Os outros acharam graça, e um deles falou:

— Eeee, você usou a pá como se fosse um bastão de críquete dos demônios estrangeiros! Ótimo. Ele está morto?

Poon Bom Tempo não respondeu, apenas olhou pata o último Lobisomem, Kin Bexiguento. Todos os olhares se voltaram para ele, que ficou parado, rígido, sob a chuva. Foi então que Poon Bom Tempo notou o cordão atado ao seu pescoço. Pegou a lanterna elétrica, foi até junto dele e viu que a outra extremidade pendia pelas suas costas abaixo. Na ponta dela estava uma meia moeda partida, em que fora feito um furo com cuidado. Era uma moeda de cobre e parecia antiqüíssima.

— Que todos os deuses peidem na cara de Tsao Tsao! Onde arranjou isto? — perguntou, abrindo um sorriso.

— Foi meu pai quem me deu.

— Onde ele a arranjou, seu bostinha?

— Não me contou.

Será que a tirou do Filho Número Um Chen?

Ele deu de ombros, novamente.

Não sei. Não estava lá quando ele foi morto. Juro pela minha mãe que sou inocente!

Com um movimento repentino, Poon Bom Tempo arrancou o cordão do seu pescoço.

— Levem-no para o carro — disse para dois dos seus homens. — Vigiem-no com muito cuidado. Vamos levá-lo conosco. É, vamos levá-lo, sim. O resto de vocês, terminem de encher a cova, e camuflem-na cuidadosamente.

A seguir, mandou que os dois últimos homens pegassem o cobertor que continha o corpo de John Chen e o seguissem. Assim o fizeram, desajeitadamente, na escuridão.

Ele foi se dirigindo para a Sha Tin Road, desviando-se das poças d'água. Ali perto ficava uma parada de ônibus coberta, meio desmoronada. Quando a estrada ficou desimpedida, ele fez sinal para os seus homens, e eles rapidamente tiraram o corpo de dentro do cobertor e encostaram-no num canto do abrigo. A seguir, tirou o cartaz que os Lobisomens haviam feito anteriormente e grudou-o com cuidado no corpo.

— Para que está fazendo isso, Poon Bom Tempo, heya? Para que está fazen...

— Porque o Quatro Dedos mandou! Como vou saber? Feche essa porra de bo...

Os faróis de um carro que fazia a curva os iluminaram, repentinamente. Eles ficaram gelados, e viraram o rosto, fingindo ser passageiros à espera do ônibus. Depois que o carro passou, deram no pé. A aurora pintava o céu, a chuva diminuía.

O telefone tocou, e Armstrong acordou com dificuldade. Na semi escuridão, tateou em busca do fone e atendeu. A mulher dele remexeu-se, inquieta, e acordou.

— Segundo-sargento comissionado Tang-po, senhor. Lamento acordá-lo, senhor, mas encontramos John Chen. Os Lobiso...

Armstrong sentiu-se instantaneamente desperto.

— Vivo?

— Dew neh loh moh, não, senhor. Encontraram o corpo dele numa parada de ônibus coberta, senhor, e aqueles safados dos Lobisomens deixaram um bilhete no peito dele, senhor:

Este Filho Número Um Chen cometeu a estupidez de tentar escapar de nós. Ninguém pode escapar dos Lobisomens! Que toda a Hong Kong se cuide. Nossos olhos estão em toda parte!" Ele est...

Armstrong ficou escutando, horrorizado, enquanto o homem agitado contava que a polícia de Sha Tin fora chamada por um passageiro de ônibus madrugador. Imediatamente, toda a área fora isolada, e eles tinham ligado para o DIC de Kowloon.

— O que devemos fazer, senhor?

— Mande um carro vir me buscar, imediatamente. Armstrong desligou e esfregou os olhos, tentando afastar o cansaço. Usava um sarongue, que caía bem no seu corpo musculoso.

— Problemas?

Mary abafou um bocejo e se espreguiçou. Tinha apenas quarenta anos, dois anos menos que ele. Era rija, de cabelos castanhos, o rosto simpático, embora vincado.

Ele lhe contou, observando-a.

— Oh! — O rosto dela ficara sem cor. — Que terrível! Oh, que terrível! Pobre John!

— Vou fazer o chá — falou Armstrong.

— Não, não, deixe que eu faço. — Saltou da cama, o corpo firme. — Vai ter tempo de tomá-lo?

— Só uma xícara. Ouça só a chuva... estava mais do que na hora! — Pensativo, Armstrong foi para o banheiro, barbeou-se e vestiu-se rapidamente, como só um policial e um médico sabem fazer. Dois goles do chá quente e doce, e pouco antes de morder a torrada a campainha tocou. — Ligo para você mais tarde. Que tal um curry hoje à noite? Podemos ir ao Singh's.

— Está bem — respondeu ela —, está bem, se você quiser.

A porta se fechou atrás dele.

Mary Armstrong ficou olhando para a porta. "Amanhã faremos quinze anos de casados", pensou. "Será que ele vai se lembrar? Provavelmente não. Em catorze anos, oito vezes ele estava trabalhando num caso, uma vez eu estava no hospital, e o resto... bem, o resto foi tudo bem, imagino. "

Foi até a janela e afastou as cortinas. Torrentes de chuva manchavam as vidraças, à meia-luz, mas agora estava fresco e agradável. O apartamento tinha dois dormitórios, e os móveis eram deles, embora o apartamento pertencesse ao governo.

"Pombas, que emprego!

"É um nojo ser mulher de um policial. Você passa a vida esperando que ele volte para casa, esperando que algum maldito bandido o apunhale, atire nele ou o machuque... na maioria das noites, você dorme sozinha, ou é acordada nas horas mais estranhas, com mais desgraças, e lá se vai ele de novo. Mal pago, e com excesso de trabalho. Ou então vai ao Clube da Polícia e fica sentada com as outras mulheres, enquanto os homens tomam um porre, e você permuta mentiras com as mulheres, e bebe gim demais. Pelo menos, elas têm filhos.

"Filhos! Ah, Deus... como queria que tivéssemos filhos!

"Mas, afinal, a maioria das mulheres vive se queixando de como estão cansadas, de como as crianças são exaustivas, das amahs, dos colégios, das despesas... e de tudo. Mas que diabo significa essa vida? Que maldito desperdício! Que absoluto desesper...

O telefone tocou.

— Cale a bocal — berrou, depois riu nervosamente. — Mary, Mary, mas que mau gênio! — repreendeu a si mesma e atendeu: — Alô?

— Mary, é Brian Kwok. Desculpe acordá-la, mas o Rob...

— Oh, alô, querido. Não, desculpe, ele acaba de sair. Algo a ver com os Lobisomens.

— É, eu também soube, e foi por isso que liguei. Ele foi para Sha Tin?

— Foi. Você também vai?

— Não. Estou com o Velho.

— Pobrezinho!

Ouviu a risada dele. Bateram papo por mais um momento, depois ele desligou.

Ela soltou um suspiro, serviu-se de outra xícara de chá, adicionou leite e açúcar, e pensou em John Chen. Houve uma época em que fora loucamente apaixonada por ele. Os dois tinham sido amantes por mais de dois anos, e ele fora o seu primeiro homem. Tudo acontecera no campo japonês de prisioneiros de guerra da Prisão Stanley, na parte sul da ilha.

Em 1940, ela passara com distinção no concurso para o funcionalismo público, na Inglaterra, e depois de alguns meses fora enviada para Hong Kong, por mar. Chegara no fim de 1941, com dezenove anos, bem a tempo de ser internada, junto com todos os civis europeus, no campo de prisioneiros, onde permaneceu até 1945.

"Eu tinha vinte e dois anos quando saí de lá, e nos dois últimos anos fomos amantes, John e eu. Pobre John, atormentado constantemente pelo pai nojento, e a mãe doente, sem meio de fugir a eles, e quase sem privacidade no campo, confinado com famílias, crianças, bebês, maridos, mulheres, ódio, fome, inveja e muito pouco riso, todos aqueles anos. Amá-lo tornou o campo suportável.

"Não quero pensar naqueles tempos horríveis.

"Ou naquela época horrível, depois do campo, em que ele se casou com a escolhida do pai, uma sujeitinha nojenta, mas com dinheiro, influência e ligações familiares em Hong Kong. Eu não tinha nada disso. Devia ter ido para casa, mas não queria ir para casa... o que havia lá a me esperar? Então fiquei e trabalhei na Secretaria Colonial e me diverti bastante. E então conheci Robert.

"Ah, Robert. Você foi um bom homem, bom para mim. Nós nos divertimos, e fui boa mulher para você, ainda tento ser. Mas não posso ter filhos, e você... nós dois queremos filhos. Certo dia, há alguns anos, você descobriu sobre John Chen. Nunca me perguntou sobre ele, mas sei que você sabe, e desde então você o odiou. Tudo aconteceu muito antes de eu conhecer você, e você sabia sobre o campo, mas não sobre o meu amante. Lembra-se de que, antes de nos casarmos, quando lhe perguntei: 'Quer saber do passado, meu querido?', você respondeu: 'Não, minha velha'?

"Você costumava me chamar de 'minha velha' o tempo todo. Agora, não me chama de nada. Apenas Mary, às vezes.

"Pobre Robert!

"Como devo tê-lo desapontado!

"Pobre John, como você me desapontou! No passado tão belo, agora tão morto!

"Queria estar morta, também."

Começou a chorar.

 

                   7h15m

— Vai continuar a chover, Aleksei — disse Dunross, a pista já encharcada, o dia escuro e nublado.

— Concordo, tai-pan. Se chover amanhã também, mesmo que seja um pouco, a coisa vai ser feia no sábado.

— O que acha, Jacques?

— Concordo — disse De Ville. — Graças a Deus pela chuva. Mas, merde, seria uma pena se as corridas fossem canceladas.

Dunross concordou.

Estavam de pé na grama perto do círculo do vencedor no Hipódromo Happy Valley, os três vestindo capas de chuva e chapéu. O rosto de Dunross exibia um vergão feio, e equimoses, mas seus olhos estavam firmes e desanuviados. Postava-se com uma confiança serena, fitando o toldo de nuvens, a chuva ainda caindo, mas sem a mesma força da noite anterior. Outros treinadores, donos de cavalos e curiosos, espalhavam-se pelo paddock e pelas tribunas, igualmente pensativos. Alguns cavalos estavam sendo exercitados, entre eles Noble Star, Buccaneer Lass, montada por um cavalariço, e o Pilot Fish de Gornt. Todos os cavalos estavam sendo exercitados com muito cuidado, com a rédea bem curta: a pista e o caminho que levava à pista estavam muito escorregadios. Mas Pilot Fish estava saltitante, curtindo a chuva.

— O boletim meteorológico da manhã informou que o temporal vai ser imenso. — Os olhos pretos de Travkin, vermelhos de cansaço, observavam Dunross. — Se a chuva parar amanhã, a pista ainda vai estar mole no sábado.

— Isso vai ajudar ou atrapalhar as chances de Noble Star, Aleksei? — perguntou Jacques.

— Deus é quem sabe, Jacques. Ela nunca correu em pista molhada.

Travkin não conseguia concentrar-se. Na noite anterior o telefone tocara. De novo o estranho do KGB, que interrompera grosseiramente as suas perguntas quando ele quisera saber por que sumira tão repentinamente.

— Não é privilégio seu fazer perguntas, príncipe de Kurgan. Basta contar-me tudo o que sabe sobre Dunross. Agora. Tudo. Seus hábitos, boatos a seu respeito, tudo.

Travkin obedecera. Sabia que estava numa camisa de onze varas, sabia que o estranho devia ser do KGB e estaria gravando tudo o que ele dizia, para verificar a veracidade de suas palavras, a mais leve variação da verdade significando talvez um dobre de finados para a mulher, ou o filho, ou a mulher do filho, ou os filhos do filho... se é que realmente existiam.

E existiam?, perguntou-se agoniado, mais uma vez.

— O que há, Aleksei?

— Nada, tai-pan — respondeu Travkin, sentindo-se sujo. — Estava pensando no que o senhor passou, ontem à noite. — As notícias do incêndio em Aberdeen tinham inundado os meios de comunicação, especialmente o testemunho ocular impressionante de Vênus Poon, que fora o foco de todos os noticiários. — Terrível sobre os outros, não é?

— É. — Até aquele momento, o total de mortos conhecido era de quinze queimados e afogados, inclusive duas crianças. — Vai levar dias para se descobrir realmente quantos se perderam.

— Terrível! — manifestou-se Jacques. — Quando ouvi a notícia... se Susanne estivesse aqui, teríamos ficado presos no incêndio. Ela... como a vida é curiosa, às vezes!

— Maldito convite ao incêndio! Nunca me dei conta disso antes — falou Dunross. — Todos nós já comemos lá dúzias de vezes... vou falar ao governador logo mais sobre todos esses restaurantes flutuantes.

— Mas o senhor está bem, pessoalmente? — perguntou Travkin.

— Ah, estou, sem problemas. — Dunross sorriu sombriamente. — A não ser que todos peguemos crupe por termos nadado naquela cloaca.

Quando o Dragão Flutuante subitamente emborcara, Dunross, Gornt e Peter Marlowe estavam na água, bem embaixo do barco. O megafone da lancha da polícia berrara um aviso desesperado, e todos começaram a nadar alucinadamente. Dunross nadava muito bem, e ele e Gornt conseguiram se livrar, embora a água os sugasse para trás. Quando sua cabeça submergiu, ele viu o escaler quase cheio ser arrastado para o redemoinho, e emborcar, e percebeu que Marlowe estava em apuros. Deixou-se ir com a torrente que remoinhava quando o navio afundou de lado, e atirou-se sobre Marlowe. Os dedos dele pegaram a camisa do outro, e eles remoinharam juntos por um momento, arrastados alguns metros para o fundo, batendo contra o convés. O golpe quase o atordoou, mas não largou Marlowe, e quando o repuxo diminuiu, subiu à superfície. Marlowe agradeceu com voz ofegante e nadou em direção a Fleur, que se agarrava com outras pessoas ao escaler virado. À sua volta havia o caos, gente sufocando, afogando-se e sendo salva pelos marujos e por outros homens. Dunross viu Casey mergulhar no encalço de alguém. Gornt não estava à vista. Bartlett veio à tona com Christian Toxe e saiu à cata de um salva-vidas. Certificou-se de que Toxe estivesse firmemente agarrado à bóia antes de gritar para Dunross:

— Acho que Gornt foi tragado, e havia uma mulher... Depois, mergulhou de novo.

Dunross olhou ao seu redor. O Dragão Flutuante agora estava quase completamente deitado de lado. Sentiu uma ligeira explosão submarina, e a água ferveu à sua volta, por um momento. Casey subiu para tomar ar, encheu os pulmões e voltou para baixo d'água. Dunross também mergulhou. Era quase impossível enxergar, mas ele foi tateando ao longo do convés superior, que agora estava quase vertical, dentro d'água. Nadou ao redor do navio sinistrado, procurando. Permaneceu embaixo d'água o máximo que agüentou, depois subiu à tona com cuidado, pois havia muitos nadadores se debatendo por ali. Toxe estava vomitando água do mar, agarrado precariamente à bóia. Dunross nadou até junto dele e o arrastou na direção de um marinheiro, pois sabia que ele não sabia nadar.

— Agüente firme, Christian... tudo bem, agora. Toxe tentava desesperadamente falar, em meio às ânsias de vômito:

— Minha... minha mulher... ela está lá embaixo... lá embaixo... lá...

O marinheiro chegou junto deles.

— Já o peguei, senhor. Tudo bem?

— Sim... sim... ele disse que a mulher dele foi tragada.

— Meu Deus! Eu não vi ninguém... vou buscar ajuda!

O marujo se virou e berrou para a lancha da polícia, pedindo ajuda. Imediatamente vários marujos mergulharam e começaram a procurar. Dunross procurou Gornt, sem achá-lo. Casey veio à tona, ofegante, e agarrou-se ao escaler emborcado para recobrar o fôlego.

— Está bem?

— Sim... sim... graças a Deus você está bem... — falou ela, a voz ofegante, o peito arfante. — Há uma mulher Iá embaixo, acho que é chinesa, eu a vi sendo tragada.

— Viu Gornt?

— Não... Talvez esteja...

Ela indicou a lancha. Havia gente subindo pela escada do costado, mais gente encolhida no convés. Bartlett veio à tona por um instante, depois mergulhou de novo. Casey tomou ar novamente e deslizou para as profundezas. Dunross a seguiu, ligeiramente à sua direita.

Os três procuraram até que todos os demais estivessem a salvo na lancha ou nas sampanas. Não conseguiram encontrar a mulher.

Quando Dunross chegou a casa, Penelope estava profundamente adormecida. Acordou momentaneamente.

— Ian?

— É. Durma de novo, querida.

— Divertiu-se? — perguntou ela, sem estar realmente desperta.

— Sim, durma de novo.

Naquela manhã, uma hora antes, ele não a acordara quando saíra da Casa Grande.

— Ouviu dizer que Gornt se salvou, Aleksei? — perguntou.

— Ouvi, sim, tai-pan. Foi a vontade de Deus.

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que, depois do que houve ontem na Bolsa, teria sido muito conveniente que não tivesse se salvado.

Dunross abriu um sorriso e esticou-se para aliviar uma dor na coluna.

— Ah, mas nesse caso eu teria ficado muito chateado, muito chateado mesmo, pois não teria o prazer de aniquilar a Rothwell-Gornt pessoalmente, não é?

— É espantoso que não tenha morrido mais gente — comentou De Ville após uma pausa.

Ficaram vendo Pilot Fish passar por eles num meio galope, parecendo ótimo. Os olhos de De Ville correram o hipódromo.

— É verdade que Bartlett salvou a mulher de Peter Marlowe? — quis saber Travkin.

— Saltou com ela. É. Tanto Linc quanto Casey fizeram um belo trabalho. Maravilhoso.

— Quer me dar licença, tai-pan? — Jacques de Ville fez um gesto de cabeça na direção das tribunas. — Lá está Jason Plumm. Devo jogar bridge com ele hoje à noite.

— Vejo você na hora das preces, Jacques. — Dunross sorriu para ele, e De Ville se afastou. Dunross soltou um suspiro, triste pelo amigo. — Vou para o escritório, Aleksei. Ligue para mim às seis.

— Tai-pan...

— Sim?

Travkin hesitou. Depois falou, simplesmente:

— Só queria que soubesse... que eu o admiro imensamente.

Dunross ficou intrigado com o gesto inesperado, e com a melancolia curiosa e sem disfarce que emanava do outro homem.

— Obrigado — disse, com carinho, e bateu no ombro do outro. Nunca anteriormente havia tocado nele como amigo. — Você também não é nada mau.

Travkin ficou olhando enquanto ele se afastava, sentindo uma dor no peito, lágrimas de vergonha misturando-se à chuva. Enxugou o rosto com as costas da mão, e voltou a observar Noble Star, tentando concentrar-se.

Na periferia da sua visão, viu alguém e se virou, espantado. O homem do KGB estava num canto das tribunas, e outro homem vinha reunir-se a ele. 0 homem era velho e curtido pelo tempo, e muito conhecido como apostador em Hong Kong. Travkin procurou lembrar-se do nome. Clinker. Era isso! Clinker!

Estupefato, fitou-os por um momento. Jason Plumm estava nas tribunas, logo atrás do homem do KGB, e ele viu Plumm levantar-se para retribuir o aceno de Jacques de Ville, depois descer os degraus para ir ao seu encontro. Nesse momento o homem do KGB olhou na sua direção, e ele se virou cautelosamente, tentando não ser muito brusco de novo. O homem levou o binóculo aos olhos, e Travkin não sabia se fora notado ou não. Ficou arrepiado ao imaginar aquele binóculo potente focalizado na sua pessoa. "Será que o homem conhece leitura labial?", pensou, aterrorizado. "Jesus, Maria e José, graças a Deus não contei a verdade ao tai-pan. "

Seu coração batia dolorosamente, e sentia-se nauseado. Um raio cortou o céu, no oriente. A chuva fazia poças no concreto e na parte inferior e descoberta das tribunas. Tentou acalmar-se e olhou ao seu redor, impotente, sem saber o que fazer, desejando muito saber quem era o homem do KGB. Distraidamente, notou que Pilot Fish estava terminando o seu treino em excelente forma. Atrás dele, Richard Kwang conversava animadamente com um grupo de outros chineses que ele não conhecia. Linbar Struan e Andrew Gavallan apoiavam-se nas grades com o americano Rosemont e outros do consulado, que conhecia de vista. Todos observavam os cavalos, indiferentes à chuva. Perto do vestiário, abrigado, Donald McBride conversava com outros administradores, Sir Shi-teh T'Chung, Pugmire e Roger Crosse entre eles. Viu McBride olhar para o lado de Dunross, acenar e pedir-lhe que se reunisse a eles. Brian Kwok esperava por Roger Crosse, um pouco afastado dos administradores. Travkin conhecia os dois, mas não sabia que pertenciam ao sei.

Involuntariamente, seus pés começaram a impulsioná-lo na direção deles. O gosto amargo de bile subiu-lhe à boca. Dominou o impulso de correr até eles e contar-lhes toda a verdade. Ao invés disso, falou para o seu principal ma-foo:

— Mande os nossos cavalos para casa. Todos eles. Certifique-se de que estejam secos antes de alimentá-los.

— Sim, senhor.

Desanimado, Travkin foi se arrastando para o vestiário. Pelo canto dos olhos, viu que o homem do KGB focalizava-o com o binóculo. A chuva escorreu pelo seu pescoço, misturando-se ao suor provocado pelo medo.

— Ah, Ian, estávamos pensando que, se chover amanhã, é melhor cancelarmos a corrida. Digamos amanhã às seis da tarde — disse McBride. — Concorda?

— Não, para falar a verdade, não concordo. Sugiro que tomemos a decisão final às dez horas de sábado.

— Não é um pouco tarde, meu chapa? — perguntou Pugmire.

— Não, se os administradores alertarem o pessoal do rádio e da TV. Vai aumentar a animação. Especialmente se vocês derem a notícia hoje.

— Boa idéia — disse Crosse.

— Então, está resolvido — disse Dunross. — Mais alguma coisa?

— Não acha... é por causa da pista — disse McBride. — Não queremos estragá-la.

— Concordo inteiramente, Donald. Tomaremos a decisão final no sábado às dez. Todos a favor? — Não houve votos contrários. — Ótimo! Nada mais? Lamento, mas tenho uma reunião daqui a meia hora.

— Ah, tai-pan, lamento muito o que houve ontem... foi terrível — disse Shi-teh, constrangido.

— É. Shitee, quando nos reunirmos com o governador no conselho ao meio-dia, devemos sugerir que implante regulamentos contra incêndio novos e muito severos em Aberdeen.

— De acordo — falou Crosse. — É um milagre que mais gente não tenha morrido.

— Está falando em fechar os restaurantes, meu chapa?

— Pugmire estava chocado. Sua companhia tinha participação em dois deles. — Isso prejudicaria demais o turismo. Não dá para se colocar mais saídas... Teria que se começar do zero! Dunross voltou a olhar para Shi-teh.

— Por que não sugere ao governador que ordene que todas as cozinhas sejam instaladas imediatamente em barcaças que possam ser atracadas ao lado do navio-mãe? Carros de bombeiro poderiam ficar por perto até que todas as alterações tenham sido feitas. O custo seria modesto, haveria facilidade de operação, e o risco de incêndio seria eliminado de uma vez por todas.

Eles o fitaram. Shi-teh abriu um amplo sorriso.

— Ian, você é um gênio!

— Não. Só lamento que não tenhamos pensado nisso antes. Nunca me ocorreu. Foi uma pena a morte do Zep... e da mulher do Christian, não é? Já acharam o corpo dela?

— Acho que não.

— Sabe lá Deus quantos outros se foram! Os deputados se salvaram, Pug?

— Sim, meu velho. Exceto Sir Charles Pennyworth. O pobre coitado esmagou a cabeça contra uma sampana, quando caiu.

Dunross ficou chocado.

— Simpatizei com ele! Mas que azar desgraçado!

— Dois outros deputados estiveram perto de mim, a certa altura. Aquele filho da mãe radical, como se chama? Grey? Ah, sim, Grey, é isso. E o outro, o maldito cretino socialista, Broadhurst. Achei que os dois até que se comportaram muito bem.

— Ouvi dizer que o seu Superfoods também escapou, Pug. O nosso "Chame-me Chuck" não foi o primeiro a chegar a terra?

Pugmire deu de ombros, sem jeito.

— Não sei dizer. — Depois, abriu um sorriso. — Eu... ouvi dizer que Casey e Bartlett fizeram um belo trabalho, não foi? Quem sabe não deviam receber uma medalha?

— Por que não o sugere? — falou Dunross, ansioso por partir. — Se houver mais alguma coisa...

Crosse falou:

— Ian, se eu fosse você, tomaria uma vacina. Deve haver micróbios naquela baía que ainda nem foram inventados.

Todos riram junto com ele.

— Para falar a verdade, fiz mais do que isso. Depois que saímos da água, agarrei Linc Bartlett e Casey, e nos man­damos para o dr. Tooley. — Dunross sorriu de leve. — Quando lhe contei que estivéramos nadando na baía de Aberdeen, ele quase teve um derrame. "Bebam isso", disse, e, como um bando de cretinos, nós bebemos; antes de nos darmos conta do que acontecia, estávamos vomitando até as tripas. Se eu tivesse alguma força sobrando, teria dado um soco nele, mas estávamos todos de quatro, procurando a privada, feito uns alucinados. Depois, Casey começou a rir, por entre as ânsias de vômito, e logo estávamos rolando de rir no chão! — Acres­centou, com tristeza fingida: — Depois, antes de nos darmos conta do que estava acontecendo, o velho doutor enfiou com­primidos aos montes pela nossa goela abaixo, até que Bartlett disse "Pela madrugada, doutor, agora só falta um supositório para completar o serviço!" Eles riram de novo.

— É verdade sobre Casey? Que se despiu e mergulhou como se fosse uma campeã olímpica? — perguntou Pugmire.

— Melhor ainda! E nuazinha em pêlo, meu velho — exa­gerou Dunross. — Como a Vênus de Milo! Provavelmente o melhor... de tudo... que já vi.

— É? — comentaram eles, de olhos saltados.

— É.

— Meu Deus, mas nadar na baía de Aberdeen! Naquele esgoto! — falou McBride, as sobrancelhas erguidas. — Se vo­cês sobreviverem vai ser um milagre!

— O dr. Tooley disse que o mínimo que teremos será gastroenterite, disenteria ou a peste. — Dunross revirou os olhos. — Bem, para morrer basta estar vivo. Alguma coisa mais?

— Tai-pan — disse Shi-teh. — Eu... espero que não se incomode, mas... bem... gostaria de dar início a um fun­do beneficente para as famílias das vítimas.

— Boa idéia! O Turf Club também devia contribuir. Do­nald, quer procurar os outros administradores hoje, e obter a aprovação deles? Que tal cem mil?

— É um pouco generoso demais, não é? — comentou Pugmire.

Dunross empinou o queixo.

— Não. Vamos contribuir com cento e cinqüenta mil, então. A Casa Nobre contribuirá com a mesma quantia. — Pugmire ruborizou-se. Ninguém disse nada. — Reunião encer­rada? Ótimo. Bom dia.

Dunross ergueu o chapéu polidamente, e afastou-se.

— Com licença um momento! — Crosse fez sinal a Brian Kwok para segui-lo. — Ian!

— Sim, Roger?

Quando Crosse chegou junto de Dunross, falou suave-

Ian, está confirmada a chegada de Sinders no vôo da boac de manhã. Iremos do aeroporto direto para o banco, se for conveniente.

O governador também estará presente?

Pedirei a ele que vá. Devemos estar lá por volta das seis.

Se o avião chegar no horário — disse Dunross, sor­rindo.

Já conseguiu a liberação formal do Eastern Cloud?

— Já, obrigado. Recebi a notícia por telex ontem, de Delhi. Mandei que ele voltasse para cá, imediatamente, e zar­pou com a maré. Brian, lembra-se da aposta que você queria fazer... aquela sobre Casey? Sobre os peitos dela... cin­qüenta dólares contra uma moeda de cobre que são os melhores em Hong Kong?

Brian Kwok enrubesceu, cônscio do olhar gélido de Crosse.

— Bem... lembro, sim, por quê?

— Não sei se são os melhores, mas como o julgamento de Paris, você teria um problema e tanto se... eles fossem realmente avaliados!

— Então é verdade que ela estava pelada?

— A própria Lady Godiva em ação de salvamento. — Dunross despediu-se com um gesto de cabeça amável e foi saindo, dizendo: — Até amanhã.

Os dois ficaram olhando enquanto ele se afastava. À saída, um agente do sei esperava para acompanhá-lo.

— Ele está tramando alguma coisa — disse Crosse.

— Concordo, senhor.

Crosse desviou os olhos de Dunross e olhou para Brian Kwok.

— Você costuma fazer apostas sobre as glândulas mamárias de uma senhora?

— Não, senhor. Sinto muito, senhor.

— Ótimo. Felizmente, as mulheres não são as únicas fon­tes de beleza, são?

— Não, senhor.

— Existem os cães de caça, os quadros, a música, até mesmo uma boa bolada, não é?

— É, sim, senhor.

— Espere aqui, por favor — falou Crosse, voltando para junto dos outros administradores.

Brian Kwok soltou um suspiro. Estava entediado e can­sado. A equipe de homens-rãs havia se encontrado com ele em

Aberdeen, e embora ele houvesse sabido quase imediatamente que Dunross estava a salvo, e já tinha até ido para casa, tivera que passar metade da noite ajudando a organizar a busca dos corpos. Fora uma tarefa lúgubre. Então, quando estava prestes a ir para casa, Crosse ligara para ele, mandando que estivesse em Happy Valley ao alvorecer. Portanto, não havia por que ir dormir. Ao invés disso, fora ao Restaurante Para e ficara olhan­do com cara feia para os tríades e para Ko Um Pé Só.

Agora observava Dunross. "O que aquele sacana guarda no mais íntimo da sua mente?", perguntou-se, sentindo uma pontada de inveja. "O que eu não faria com o poder e o dinhei­ro dele!"

Viu Dunross mudar de direção, indo para a tribuna mais próxima. Depois notou Adryon sentada ao lado de Martin Haply, ambos fitando os cavalos, sem perceber a presença de Dunross. "Dew neh loh moh", pensou, surpreso. "Curioso, esses dois estarem juntos. Puxa, mas que beldade! Graças a Deus não sou o pai daquela garota. Ficaria doido."

Crosse e os outros também haviam notado Adryon e Mar­tin Haply, com espanto.

— O que aquele filho da mãe está fazendo com a filha do tai-pan? — perguntou Pugmire, com azedume.

— Boa coisa não pode ser — disse alguém.

— Aquele desgraçado só cria problemas! — resmungou Pugmire, e os outros concordaram. — Não sei por que o Toxe não o despede!

— O cretino é socialista, esse é o motivo! Também devia ser dispensado.

— Ora, corta essa, Pug! Toxe é legal... assim como alguns socialistas — disse Shi-teh. — Mas ele devia despedir o Haply. Seria melhor para todos nós!

Todos eles haviam sido alvo dos ataques de Haply. Algu­mas semanas antes, ele escrevera uma série de artigos revela­dores e mordazes sobre algumas das transações comerciais de Shi-teh dentro do seu imenso conglomerado de companhias, e insinuara que todo tipo de contribuições dúbias estavam sendo feitas para diversos VIPS no governo de Hong Kong, em troca de favores.

— Concordo — disse Pugmire, cheio de ódio por ele, também. Haply, com a sua precisão, relatara os detalhes parti­culares da próxima fusão de Pugmire com a Superfoods, e deixara bem evidente que Pugmire lucraria bem mais do que seus acionistas da General Stores, que mal haviam sido consul­tados quanto aos termos da fusão. — Filho da mãe safado! Gostaria de saber onde obtém suas informações.

— É curioso que Haply esteja com ela — disse Crosse,observando os lábios deles, esperando que falassem. — A única grande companhia que ainda não atacou é a Struan.

Acha que agora é a vez da Struan, e que Haply está tentando extrair informações de Adryon? — perguntou um dos outros. — Mas seria fantástico!

Excitados, ficaram olhando enquanto Dunross entrava nas tribunas, ainda sem ter sido notado pelos dois jovens.

— Talvez o Ian vá surrá-lo como surrou aquele outro filho da mãe — comentou Pugmire, alegremente.

— Hem? — disse Shi-teh. — Quem? Que história é essa?

— Ora, pensei que você soubesse. Faz uns dois anos um jovem executivo do Vic recém-chegado da Inglaterra começou a perseguir Adryon. Ela tinha dezesseis, talvez dezessete anos... ele tinha vinte e dois. Era como uma casa, maior do que o Ian, e se chamava Byron. Pensava que era lorde Byron no ataque, e montou uma campanha. A pobre garota ficou fascinada. Ian advertiu-o uma última vez. O safado continuava a procurá-la. Então Ian convidou-o para ir ao seu ginásio em Shek-O, calçou luvas de boxe (sabia que o cretino se considerava um boxeador) e deu-lhe uma surra em regra. — Os outros acharam graça. — Até o final da semana o banco o dispensara.

— Você assistiu à luta? — perguntou Shi-teh.

— Claro que não. Estavam a sós, é claro, mas o infeliz ficou num estado lastimável. Não gostaria de me opor ao tai-pan... não quando está irritado.

Shi-teh voltou a olhar para Dunross.

— Quem sabe não fará o mesmo com aquele cretino? — falou, satisfeito.

Todos ficaram olhando, esperançosos. Crosse afastou-se com Brian Kwok, chegando mais para perto.

Dunross agora subia correndo os degraus das tribunas, com sua força serena, e parou ao lado deles.

— Alô, querida, acordou cedo — falou.

— Oh, alô, papai — disse Adryon, espantada. — Não o tinha vis... O que houve com o seu rosto?

— Bati na traseira de um ônibus. Bom dia, Haply.

— Bom dia, senhor.

Haply fez menção de se levantar, mas voltou a se sentar.

— Um ônibus? — falou ela, e então, subitamente: — Amassou o Jaguar? Foi multado? — perguntou, esperançosa, tendo sido já multada três vezes naquele ano.

— Não. Acordou cedo, não foi? — falou, sentando-se ao lado dela.

— Para falar a verdade, ainda nem dormi. Passamos a noite toda acordados.

— Ah, é? — Guardou as quarenta e oito perguntas ime­diatas que vieram à sua mente, e comentou: — Deve estar cansada.

— Não, para falar a verdade, não estou.

— Estão comemorando alguma coisa?

— Não, na verdade o problema é o pobre Martin.

Colocou a mão meigamente no ombro do rapaz. Com es­forço, Dunross manteve o sorriso tão meigo quanto a mão dela. Depois, virou-se para o jovem canadense:

— O que está havendo?

Haply hesitou, depois contou-lhe o que acontecera no jor­nal, quando o editor telefonara e Christian Toxe mandara que ele suspendesse a sua série de artigos sobre os boatos.

— O filho da mãe nos vendeu. Permitiu que o editor nos censurasse. Sei que estou certo. Sei que estou certo.

— Como? — indagou Dunross, pensando "Mas que filho da mãe insensível você é!"

— Desculpe, não posso revelar minha fonte.

— Não pode mesmo, papai, estaria violando a liberdade de imprensa — disse Adryon, na defensiva.

Haply mantinha os punhos cerrados. Depois, distraida­mente, pôs a mão no joelho de Adryon. Ela a cobriu com a sua própria mão.

— O Ho-Pak está sendo enfiado na terra por nada.

— Por quê?

— Não sei. Mas Gor... mas há tai-pans por trás do ataque, e isso não tem sentido.

— Gornt está por trás disso? — perguntou Dunross, franzindo o cenho ante a nova idéia.

— Eu não falei Gornt, senhor, não falei mesmo.

— Ele não falou, papai — disse Adryon. — O que Mar­tin deve fazer? Deve se demitir ou engolir o orgulho e...

— Isso eu não posso fazer, Adryon — disse Martin Haply.

— Deixe meu pai falar, ele saberá o que você deve fazer. Dunross viu que ela voltava para ele seus lindos olhos, e sentiu uma emoção ante a sua confiança inocente que nunca sentira antes.

— Duas coisas: primeiro, volte para o jornal imediata­mente. Christian vai precisar de toda a ajuda que puder obter, segundo, vo...

— Ajuda?

— Não soube o que houve com a mulher dele?

— O que foi?

Não sabe que está morta?

Eles o fitaram, assustados. Rapidamente, contou-lhes sobre Aberdeen. Os dois ficaram chocados, e Haply gaguejou:

__ Meu Deus, nós... não ouvimos rádio, nem nada... estávamos apenas dançando e conversando... — Pôs-se de pé num salto, e começou a se retirar, depois voltou: — É... é melhor eu ir logo para lá. Meu Deus!

Adryon também se levantara.

— Deixo você lá.

Haply — disse Dunross —, peça ao Christian para enfatizar em negrito que qualquer pessoa que submergiu ou nadou naquelas águas deve procurar com urgência o seu mé­dico... é muito importante.

— Entendido!

Papai, você foi consultar o dr. Too... — perguntou Adryon, ansiosa.

— Claro que sim — disse Dunross. — Estou limpo por dentro e por fora. Vão andando!

— Qual era a segunda coisa, tai-pan? — perguntou Haply.

— A segunda é que você deve se lembrar de que o dinhei­ro é do editor. O jornal é dele, e ele pode fazer o que bem entender. Mas os editores podem ser persuadidos. Eu me per­gunto, por exemplo, quem entrou em contato com ele, ou com ela, e por que eles concordaram em ligar para o Christian... se você tem tanta certeza de que sua história é verdadeira.

Subitamente, Haply abriu um amplo sorriso.

— Vamos, meu bem — falou, e gritou os seus agradeci­mentos. Saíram correndo de mãos dadas.

Dunross ficou sentado nas tribunas, por um momento. Sol­tou um profundo suspiro, depois se levantou e foi embora.

Roger Crosse e Brian Kwok estavam ocultos junto ao ves­tiário dos jóqueis. Crosse fizera a leitura labial da conversa do tai-pan. Observou enquanto ele se afastava, seguido pelo guar­da do sei.

— Não há motivo para perdermos mais tempo aqui, Brian. Vamos indo. — Dirigiu-se para a saída mais afastada. — Será que Robert achou alguma coisa em Sha Tin?

— Aqueles malditos Lobisomens vão ficar numa boa. Hong Kong inteira vai morrer de medo. Aposto que nós... — Brian Kwok se deteve, subitamente. — Senhor! Olhe! — Indicou com um gesto de cabeça as tribunas, tendo percebido Suslev e Clinker no meio dos grupos dispersos que olhavam os cavalos, protegidos da chuva. — Não imaginei que ele já estaria acordado!

Os olhos de Crosse se estreitaram.

— É curioso. — Hesitou, depois mudou de direção, obser­vando atentamente os lábios deles. — Já que ele nos honrou com a sua presença, é melhor batermos um papinho. Ah... já nos viram. Clinker não gosta nem um pouquinho de nós.

Vagarosamente, caminhou para as arquibancadas, Kwok atrás.

O russo grandão armou um sorriso, pegou um frasco fino e tomou um gole. Ofereceu-o a Clinker.

— Não, obrigado, companheiro, só tomo cerveja. — Os olhos frios de Clinker estavam pousados nos policiais que se aproximavam. — O ambiente está meio esnobe, não está? — falou em voz alta.

— Bom dia, Clinker — disse Crosse, com igual frieza. Depois, sorriu para Suslev. — Bom dia, comandante. Diazinho horrível, não é?

— Estamos vivos, továrich. Como o dia pode ser horrível, hem? — Suslev estava cheio de bonomia exterior, continuando a representar o seu papel de boa-praça. — Vai haver corrida no sábado, superintendente?

— Provavelmente. A decisão final será tomada no sábado de manhã. Quanto tempo vai ficar atracado aqui?

— Não muito, superintendente. Os reparos do timão são feitos com certo vagar.

— Não com vagar demasiado, espero. Ficamos muito ner­vosos se os nossos convidados importantes ancorados não são atendidos com toda a presteza. — A voz de Crosse era viva. — Falarei com o mestre do porto.

— Obrigado, é... muita gentileza da sua parte. E foi gentileza do seu departamento... — Suslev hesitou, depois virou-se para Clinker. — Amigão, importa-se de nos deixar a sós um instante?

— Nem um pouco — falou Clinker. — Os meganhas me deixam nervoso. — Brian Kwok olhou para ele. Clinker devol­veu-lhe o olhar, sem medo, — Estou no meu carro.

Afastou-se.

A voz de Suslev endureceu.

— Foi gentileza do seu departamento devolver o corpo do nosso pobre camarada Voranski. Já achou os assassinos?

— Infelizmente, não. Podiam ser mercenários... de qual­quer ponto da bússola. Naturalmente, se ele não tivesse se esgueirado para terra misteriosamente, ainda seria um operador útil do... do departamento a que servia.

— Era apenas um marujo, e um bom homem. Pensei que Hong Kong fosse um lugar seguro.

__ Passou adiante as fotos dos assassinos e a informação sobre o telefonema deles para os seus superiores do KGB?

— Não sou do KGB, dane-se o KGB! É, a informação foi passada adiante... pelo meu superior — disse Suslev, irritado.

__ Sabe como é, superintendente. Mas, pelo amor de Deus,

Voranski era um bom homem, e seus assassinos precisam ser apanhados.

— Logo os encontraremos — disse Crosse, serenamente.

__ Sabia que Voranski era na realidade o major Iúri Bakian, do Primeiro Diretório, Departamento 6, KGB?

Viram o choque estampado no rosto de Suslev.

— Ele era... apenas um amigo, para mim, e vinha conos­co de vez em quando.

— Quem organiza isso, comandante? — perguntou Crosse. Suslev olhou para Brian Kwok, que lhe devolveu o olhar com antipatia sem disfarces.

— Por que está com tanta raiva? O que lhe fiz?

— Por que o império russo é tão ganancioso, especial­mente quando se trata do solo chinês?

— Política! — exclamou Suslev, com azedume, depois acrescentou para Crosse: — Não me meto em política.

— Vocês se metem o tempo todo, seus sacanas! Qual o seu posto no KGB?

— Não tenho nenhum.

— Um pouquinho de cooperação poderia ser de muita utilidade — disse Crosse. — Quem organiza as suas tripula­ções, comandante Suslev?

Suslev lançou-lhe um olhar. Depois, disse:

— Que tal uma palavrinha em particular?

— Pois não — falou Crosse. — Espere aqui, Brian. Suslev deu as costas a Brian Kwok e foi descendo a escada da saída que levava ao gramado. Crosse foi atrás dele.

— O que acha das chances de Noble Star? — perguntou Suslev, cordialmente.

— Boas. Mas ela nunca correu no molhado.

— Pilot Fish?

— Olhe para ele... veja por si mesmo. Adora o molhado. Será o favorito. Pretende estar aqui no sábado? Suslev apoiou-se na cerca. E sorriu.

— Por que não? Crosse riu baixinho.

— É mesmo, e por que não? — Tinha certeza de que agora estavam realmente a sós. — Você é um bom ator, Grigóri, muito bom.

— Você também, camarada.

— Está se arriscando pra burro, não está? — disse Cros­se, os lábios mal se movendo enquanto falava.

— Estou, mas afinal a vida toda é um risco. O Centro ordenou que eu assumisse até que chegue o substituto do Voranski... há muitos contatos e decisões importantíssimos a serem realizados nesta viagem. Um deles, sem dúvida, a Sevrin. E, de qualquer modo, como sabe, é isso o que Arthur queria.

— Às vezes eu me pergunto se ele está sendo sensato.

— Está sendo sensato. — Suslev sorriu, e algumas peque­nas rugas se formaram ao redor dos seus olhos. — Oh, sim. Muito sensato. Estou satisfeito em vê-lo. O Centro está muito satisfeito com o seu trabalho. Tenho muito o que lhe contar.

— Quem foi o sacana que "vazou" a Sevrin para A. M. Grant?

— Não sei. Algum desertor. Assim que o descobrirmos, será um homem morto.

— Alguém atraiçoou um grupo do meu pessoal para a RPC. O "vazamento" deve ter vindo do relatório de Alan. Você leu a minha cópia. Quem mais no seu navio leu? Alguém se infiltrou na sua operação aqui!

Suslev empalideceu.

— Vou ordenar uma imediata verificação de segurança. O traidor poderia ter vindo de Londres, ou de Washington.

— Duvido. Não haveria tempo. Acho que veio daqui. E ainda há o caso de Voranski. Há alguém infiltrado na operação de vocês.

— Se a RPC... é, a investigação será feita. Mas quem? Apostaria a minha vida que não há nenhum espião a bordo.

Crosse estava igualmente sombrio.

— Há sempre alguém que pode ser subornado.

— Tem um plano de fuga?

— Vários.

— Tenho ordens de ajudá-lo de todas as maneiras. Quer um beliche no Ivánov?

Crosse hesitou.

— Vou esperar até ler as pastas de A. M. Grant. Seria uma pena, depois de tanto tempo...

— Concordo.

— Para você, é fácil concordar. Se o prenderem, será de­portado, e eles lhe pedirão, educadamente, para fazer o favor de não voltar. Eu? Não gostaria de ser apanhado com vida.

— Claro. — Suslev acendeu um cigarro. — Você não será apanhado, Roger. É esperto demais. Tem algo para mim?

— Olhe lá para baixo, junto da cerca. O homem alto.

Com naturalidade, Suslev levou o binóculo aos olhos. Demorou até focalizar o homem indicado, depois olhou para outro lado.

— Aquele é Stanley Rosemont, CIA. Sabe que estão seguindo você?

— Ah, sei. Posso despistá-los, se quiser.

— O homem ao seu lado é Ed Langan, do FBI. O sujeito de barba é Mishauer, do Serviço de Informações da Marinha americana.

— Mishauer? O nome me parece familiar. Tem o dossiê deles?

— Ainda não, mas há um homossexual no consulado que está tendo um caso com o filho de um dos nossos mais destacados advogados chineses. Quando você voltar, na próxima viagem, ele terá o maior prazer em atender ao seu menor desejo.

Suslev deu um sorriso sombrio.

— Ótimo. — Outra vez, com naturalidade, olhou para Rosemont e os outros, cimentando suas fisionomias na memória. — O que ele faz?

— É o subchefe da estação. Pertence à CIA há quinze anos, oss¹, e tudo o mais. Têm mais de doze negócios de fachada aqui, e casas seguras por toda parte. Mandei uma lista em micropontos para 32.

 

¹ Office of Strategic Services, Departamento de Serviços Estratégicos. (N. do E.)

 

— Ótimo. O Centro quer que se aumente a vigilância sobre todos os movimentos da CIA.

— Não há problema. Eles são descuidados, e estão se atolando cada vez mais.

— No Vietnam?

— Claro que no Vietnam. Suslev deu uma risadinha abafada.

— Aqueles pobres idiotas não sabem em que fria foram forçados a entrar. Ainda pensam que podem lutar na selva com táticas da Coréia ou da Segunda Guerra Mundial.

— Não são todos idiotas — disse Crosse. — Rosemont é bom, muito bom. A propósito, estão sabendo da base aérea de Iman.

Suslev praguejou baixinho e apoiou-se numa das mãos, mantendo-a com naturalidade junto da boca, para impedir a leitura labial.

— ... Iman e quase tudo sobre Petropavlovsk, a nova base de submarinos em Korsakov, em Sacalina... Suslev soltou outro palavrão.

— Como descobriram?

— Traidores — disse Crosse, com um débil sorriso.

— Por que você é agente duplo, Roger?

— Por que me faz essa pergunta sempre que nos encon­tramos?

Suslev soltou um suspiro. Recebera ordens específicas para não sondar Crosse e para ajudá-lo de todas as maneiras possí­veis. E, embora fosse o controlador de todas as atividades de espionagem do KGB no Extremo Oriente, somente no ano ante­rior tinham-lhe permitido tomar conhecimento do segredo da identidade de Crosse. Nos arquivos do KGB, Crosse tinha a mais alta classificação secreta, ao nível de um Philby. Mas, nem mesmo Philby sabia que Crosse vinha trabalhando para o KGB durante os últimos sete anos.

— Pergunto porque sou curioso.

— Não recebeu ordens de não ser curioso, camarada?

— Nenhum de nós obedece às ordens o tempo todo, não é? — disse Suslev, rindo. — Lá no Centro gostaram tanto do seu último relatório, que me mandaram lhe dizer que no dia 15 do mês que vem será creditada na sua conta da Suíça uma bonificação extra de cinqüenta mil.

— Ótimo. Obrigado. Mas não é uma bonificação, é um pagamento pelos serviços prestados.

— O que o sei sabe sobre a delegação visitante do Par­lamento?

Crosse contou-lhe o que já dissera ao governador.

— Por que quer saber?

— Verificação de rotina. Três deles são potencialmente muito influentes: Guthrie, Broadhurst e Grey. — Suslev ofe­receu-lhe um cigarro. — Estamos manobrando Grey e Broad­hurst para entrarem no nosso Conselho para a Paz Mundial. Seus sentimentos antichineses serão de grande ajuda para nós. Roger, quer pôr alguém na cola de Guthrie? Talvez ele tenha alguns maus hábitos. Se fosse pego com a boca na botija, quem sabe fotografado com uma garota de Wanchai, poderia ser útil mais tarde, não?

— Verei o que posso fazer — concordou Crosse.

— Pode encontrar a escória que assassinou o pobre Voranski?

— Talvez. — Crosse o observava. — Ele já devia estar marcado há algum tempo. E isso é de mau agouro para to­dos nós.

— Seria gente do Kuomintang? Ou bandidos de Mao?

— Não sei. — Crosse sorriu com sarcasmo. — A Rússia não é muito popular junto a chinês algum.

— É essa a política?

— Os líderes deles são traidores do comunismo. Devemos esmagá-los antes que fiquem fortes demais.

— Desde Genghis Khan. — Suslev riu. — Mas, agora... agora temos que ser pacientes. Você não precisa ser. — Indicou com um gesto do polegar a figura de Brian Kwok. — Por que não desacreditar aquele matieriebiets? Não gosto dele nem um pouquinho.

— O jovem Brian é muito bom. Preciso de gente boa. Informe ao Centro que Sinders, da MI-6, chega amanhã de Londres para receber os papéis de Alan Medford Grant. Tanto a MI-6 quanto a CIA suspeitam que Alan foi assassinado. Foi?

— Não sei. Devia ter sido, há anos. Como vai obter uma cópia?

— Não sei. Tenho quase certeza de que Sinders deixará que eu leia os documentos antes de voltar.

— E se não deixar? Crosse deu de ombros.

— Nós os leremos, de uma forma ou de outra.

— Dunross?

— Só em último caso. Ele é valioso demais onde está, e prefiro tê-lo sob meus olhos. E quanto ao Travkin?

— Sua informação não tem preço. Tudo foi confirmado. — Suslev contou-lhe o resumo do seu encontro com Travkin, acrescentando: — Agora, ele será nosso cão eternamente. Fará qualquer coisa que quisermos. Qualquer coisa. Acho que até mataria Dunross, se necessário.

— Ótimo. Quanto do que você lhe contou era verdade?

— Não muito — respondeu Suslev, sorrindo.

— A mulher dele está viva?

— Oh, sim, továrich, está viva.

— Mas não na sua própria dacha?

— Agora, está.

— E antes?

Suslev deu de ombros.

— Contei a ele o que me mandaram que contasse.

— O que sabe sobre o Irã? — perguntou Crosse, acen­dendo um cigarro.

Suslev olhou para ele vivamente, de novo.

— Um bocado. É um dos nossos oito grandes alvos res­tantes, e há uma grande operação funcionando lá, agora.

— A 92a Divisão de Pára-Quedistas dos Estados Unidos esta na fronteira soviético-iraniana neste exato momento! — O quê? — exclamou Suslev, boquiaberto. Crosse relatou tudo o que Rosemont lhe contara sobre a Dry Run. Quando se referiu às armas nucleares que as forças americanas possuíam, Suslev empalideceu visivelmente.

— Mãe de Deus! Qualquer dia esses americanos amaldi­çoados vão cometer um erro, e então nós não conseguiremos nos safar! São idiotas de desenvolver tais armas.

— Vocês podem combatê-los?

— Claro que não, ainda não — disse Suslev, com irrita­ção. — A essência da nossa estratégia é evitar um confronto direto até que os Estados Unidos estejam totalmente isolados e não haja dúvidas sobre a vitória final. Um confronto direto agora seria suicídio. Vou me comunicar com o Centro imedia­tamente.

— Enfatize que os americanos consideram a operação ape­nas experimental, um exercício. Mande o Centro evacuar as suas forças e acalmar a situação. Que eles o façam imediata­mente, caso contrário haverá encrenca. Não ofereçam nenhuma provocação às forças americanas. Daqui a alguns dias os ameri­canos irão embora. Não deixem "vazar" a invasão para os seus espiões internos em Washington. Deixe que a informação ve­nha primeiro do seu pessoal na CIA.

— A 92a está mesmo lá? Parece impossível.

— É melhor que vocês aumentem o seu poderio de pára-quedistas, tornem seus exércitos mais móveis, com mais po­tência de fogo.

Suslev resmungou.

— As energias e recursos de trezentos milhões de russos estão canalizados para a solução desse problema, továrich. Se tivermos vinte anos... só mais vinte anos...

— E então?

— Na década de 80 dominaremos o mundo.

— Já estarei morto há muito tempo.

— Não você. Governará a província ou o país que dese­jar. A Inglaterra?

— Lamento, o clima lá é terrível. Exceto por um ou dois dias no ano, quando é o lugar mais belo do mundo.

— Ah, devia ver minha casa na Geórgia e as redondezas de Tiflis. — Os olhos de Suslev brilhavam. — É o Éden.

Crosse não deixava de olhar para todos os lados, enquanto conversavam. Sabia que não podiam ser ouvidos. Brian Kwok estava sentado na tribuna, esperando, quase dormindo. Rose-mont e os outros observavam-no disfarçadamente. Junto do círculo dos vencedores Jacques de Ville passeava naturalmente com Jason Plumm.

— Já falou com o Jason?

— Claro que sim, enquanto estávamos nas tribunas.

__ Ótimo. O que ele disse de De Ville?

__ Que também duvida de que Jacques seja escolhido tai-pan. Depois do encontro que tive com ele, ontem à noite, concordo, ele é obviamente fraco demais, ou amoleceu com o tempo. — E Suslev acrescentou: — Isso geralmente acontece com os agentes supersecretos que não têm nada pra fazer, só esperar. É o trabalho mais duro de todos.

— É.

__ Ele é um bom homem, mas temo que não leve a cabo a sua missão.

— O que planeja fazer com ele? — Ainda não decidi.

— Convertê-lo de espião interno em espião condenado?

— Apenas se você ou os outros da Sevrin forem ameaça­dos. — Para impressionar os possíveis observadores, Suslev levou o frasco aos lábios, e ofereceu-o a Crosse, que sacudiu a cabeça. Ambos sabiam que ele continha apenas água. Suslev baixou a voz. — Tenho uma idéia. Estamos aumentando nossas atividades no Canadá. É evidente que o Movimento Separatista Francês é uma tremenda oportunidade para nós. Se Quebec se desligasse do Canadá, isso abalaria o continente norte-ameri­cano inteiro, criando uma estrutura de poder inteiramente nova. Estava pensando que seria perfeito se De Ville assumisse a direção da Struan no Canadá. Que tal?

— Muito bom. Muito, muito bom — disse Crosse, sor­rindo. — Também gosto de Jacques. Seria uma pena desperdi­çá-lo. É, seria um golpe muito inteligente.

— É mais do que isso, Roger. Ele tem alguns amigos franco-canadenses muito importantes, dos seus dias de Paris do pós-guerra, todos abertamente separatistas, todos esquerdistas. Alguns estão se tornando uma força política nacional de desta­que no Canadá.

— Ele revelaria sua posição falsa?

— Não. Jacques poderia dar impulso ao movimento sepa­ratista sem pôr sua posição e disfarce em risco. Como chefe de um ramo importante da Struan... e se um dos seus amigos especiais se tornasse ministro do Exterior, ou primeiro-minis­tro, hem?

— Isso é possível?

— É possível.

Crosse soltou um assobio.

Se o Canadá se bandeasse para longe dos Estados Uni­dos, seria o golpe dos golpes.

Depois de uma pausa, Crosse falou:

— Era uma vez um sábio chinês a quem um amigo pediu que abençoasse o seu filho recém-nascido. Sua bênção foi "Reze­mos para que ele viva numa época interessante". Bem, Grigóri Petróvitch Suslev, cujo nome verdadeiro é Piotr Oleg Mzitrik, certamente vivemos numa época interessante. Não vivemos?

Suslev fitava-o, chocado.

— Quem lhe contou o meu nome?

— Seus superiores. — Crosse fitava-o, os olhos subita­mente impiedosos. — Você me conhece, eu o conheço. É jus­to, não?

— Mas... claro. Eu... — A risada do homem era for­çada. — Eu não uso esse nome há tanto tempo que... quase tinha me esquecido dele. — Voltou a fitar os olhos do outro, lutando para controlar-se. — O que há? Por que está tão nervoso, hem?

— Alan Medford Grant. Acho melhor encerrarmos esta reunião, por hoje. Nossa desculpa é que tentei suborná-lo, mas você se recusou. Vamos nos encontrar amanhã, às sete. — Sete era o número de código para o apartamento vizinho ao de Ginny Fu, em Mong Kok. — Tarde. Lá pelas onze horas.

— Dez é melhor.

Crosse indicou cautelosamente Rosemont e os outros. — Antes de você ir, preciso de alguma coisa para eles.

— Está certo. Amanhã ter...

— Tem que ser agora. — Crosse ficou duro. — Algo especial... se eu não conseguir ler a cópia de Sinders, terei que barganhar com eles.

— Você não divulgará a fonte para ninguém. Para ninguém.

— Está bem.

— Nunca?

— Nunca.

Suslev pensou por um momento, sopesando as possibi­lidades.

— Esta noite um dos nossos agentes receberá material ultra-secreto do porta-aviões. Que tal?

O rosto do inglês se iluminou.

— Perfeito! Foi por esse motivo que você veio?

— Um dos motivos.

— Quando e onde vai ser feita a entrega? Suslev lhe contou, depois acrescentou:

— Mas ainda vou querer cópias de tudo.

— Naturalmente. Ótimo, isso servirá muito bem. Rose­mont ficará me devendo de verdade. Há quanto tempo seu auxiliar está infiltrado a bordo?

Dois anos, pelo menos foi quando começou a trabalhar para nós.

Ele lhe dá bom material?

Qualquer coisa que se tire daquele prostituto é valiosa.

— Qual o preço dele?

— Para isso? Dois mil dólares. Ele não é caro, nenhum dos nossos auxiliares o é, exceto você.

Crosse deu um sorriso igualmente sem alegria.

— Ah, mas eu sou o melhor que vocês têm na Ásia, e provei minha qualidade cinqüenta vezes. Até agora tenho tra­balhado praticamente por amor, meu velho.

— Seus custos, meu velho, são os maiores que temos! Compramos todo o plano de batalha da OTAN, códigos, tudo, anualmente por menos de oito mil dólares.

— Esses amadores safados estão arruinando o nosso ne­gócio. É um negócio, não é?

— Não para nós.

— Não, uma ova! O pessoal do KGB é mais do que bem-recompensado. Dachas, casas em Tiflis, lojas especiais para fa­zer compras. Amantes. Mas, deixe que lhe diga: tirar dinheiro da sua companhia está ficando pior a cada ano que passa. Es­pero um grande aumento pela notícia da Dry Run e pelo caso Alan Medford Grant, quando estiver concluído.

— Fale diretamente com eles. Não tenho jurisdição sobre o dinheiro.

— Mentiroso! Suslev achou graça.

— É bom... e seguro... lidar com um profissional. Prosit!

Ergueu o frasco e esvaziou-o.

— Por favor, retire-se raivosamente. Sinto binóculos so­bre nós! — disse Crosse abruptamente.

Prontamente, Suslev começou a xingá-lo em russo, em voz baixa, mas com veemência, depois sacudiu o punho cerrado no rosto do policial e se retirou.

Crosse ficou olhando para a figura que se afastava.

Na Sha Tin Road, Robert Armstrong estava olhando para o cadáver de John Chen, enquanto policiais de capa de chuva o enrolavam novamente no cobertor, depois o carregavam por entre a multidão embasbacada até a ambulância que esperava, peritos em impressões digitais e outros estavam por toda parte, procurando pistas. A chuva caía agora mais intensamente, e havia grande quantidade de lama em todo canto.

— Está tudo remexido, senhor — disse o sargento Lee, com azedume. — Há pegadas, mas podem ser de qualquer pessoa.

Armstrong concordou com um gesto de cabeça, e usou o lenço para secar o rosto. Havia muitos espectadores por trás das barreiras toscas erigidas ao redor da área. O tráfego que passava pela rua estreita estava vagaroso, quase congestionado, todo mundo buzinando, irritado.

— Que os homens continuem revistando numa área de cem metros. Mande alguém à aldeia mais próxima, alguém pode ter visto alguma coisa. — Deixou Lee e foi até o carro da polícia. Entrou, fechou a porta e apanhou o transmissor. — Aqui fala Armstrong. Ligue-me com o inspetor-chefe Donald Smyth em Aberdeen Leste, por favor.

Começou a esperar, sentindo-se péssimo.

O motorista era jovem, esperto e ainda estava seco.

— A chuva é uma maravilha, não é, senhor? Armstrong olhou para ele, com azedume. O jovem empa­lideceu.

— Fuma?

— Sim, senhor. — O rapaz pegou o seu maço e ofere­ceu-o. Armstrong ficou com o maço inteiro. — Por que não se reúne aos outros? Precisam de um rapaz esperto como você para ajudá-los. Ache algumas pistas, tá?

— Sim, senhor — respondeu o jovem, fugindo para den­tro da chuva.

Cuidadosamente, Armstrong apanhou um cigarro. Contem­plou-o. De cara fechada, devolveu-o ao maço, e enfiou-o num bolso lateral. Encolhendo-se no banco do carro, resmungou:

— Danem-se todos os cigarros, dane-se a chuva, dane-se aquele sabichão, e, mais do que tudo, danem-se os danados dos Lobisomens!

Dali a pouco o intercomunicador começou a funcionar.

— Fala o inspetor-chefe Donald Smyth.

— Bom dia! Estou aqui em Sha Tin — começou Arm­strong, contando-lhe o que acontecera e como encontrara o cor­po. — Estamos examinando toda a área, mas não creio que possamos encontrar alguma coisa nesta chuva. Quando os jor­nais souberem do cadáver e da mensagem, vão cair no nosso pêlo. Acho melhor prendermos a velha amah imediatamente. Ainda é a única pista que temos. Vocês ainda a mantêm sob vigilância?

— Ora, ainda!

— Ótimo. Espere por mim, depois atacaremos. Quero revistar a casa dela. Deixe uma equipe a postos.

Quanto tempo você vai demorar?

__ Vou levar umas duas horas para chegar até aí. O trá­fego está engarrafado daqui até as balsas.

Aqui também. Por toda a área de Aberdeen. Mas não é só por causa da chuva, meu rapaz. Deve haver uns mil mórbidos espiando o desastre de ontem, e ainda temos as malditas turbas no Ho-Pak, no Victoria... para falar a verdade, em toda porra de banco da vizinhança, e já me contaram que deve haver umas quinhentas pessoas se reunindo diante do Vic, na zona central.

— Santo Deus! Todas as minhas economias de merda es­tão lá, porra!

— Não lhe falei ontem para retirar tudo, meu velho? — Armstrong ouviu a risada do Cobra. — E, a propósito, se tiver algum dinheiro sobrando, venda ações da Struan a descober­to... ouvi dizer que a Casa Nobre vai entrar em colapso.

 

                     8h29m

Claudia apanhou um bolo de notas, cartas e respostas da bandeja de "saída" de Dunross e começou a folheá-las. Chuva e nuvens baixas obscureciam a vista, mas a temperatura era baixa e muito confortável, depois da forte umidade da semana anterior. O relógio antigo, preso por argolas de prata, que ficava sobre a cornija da lareira, bateu oito e meia.

Um dos telefones tocou. Ela ficou olhando, mas sem fazer menção de atender. Continuou tocando e tocando, até cessar. Sandra Yi, a secretária de Dunross, entrou com nova leva de documentos e correspondência e voltou a encher a bandeja de "entrada".

— A minuta do contrato da Par-Con está em cima, Irmã Mais Velha. Eis aqui a lista dos compromissos dele para hoje, pelo menos aqueles de que tenho conhecimento. O superinten­dente Kwok ligou faz dez minutos. — Ela enrubesceu ante o olhar de Claudia, o cheong-sam justo e fendido até em cima, o colarinho alto, como estava na moda. — Ligou para o tai-pan, não para mim, Irmã Mais Velha. Pediu para o tai-pan fazer a gentileza de telefonar depois para ele.

— Mas espero que tenha batido um longo papo com o Honorável Jovem Garanhão, e soltado suspiros e gemidos ma­ravilhosos — replicou Claudia em cantonense. Depois passou para o inglês, sem perceber, ainda folheando os papéis enquan­to falava, arrumando-os em duas pilhas diferentes. — Afinal de contas ele deve ser traçado e anexado rapidamente à família, antes que alguma puxa-saco de outro clã o agarre.

— É, sim. Também acendi cinco velas em cinco templos diferentes.

— Espero que nas suas horas de folga, não no horário de trabalho da companhia.

— Oh, sem dúvida! — As duas riram. — Mas temos um encontro marcado... vamos jantar amanhã.

— Excelente! Seja recatada, vista-se discretamente, mas não use sutiã... como Orlanda.

— Oh, então foi verdade! Puxa, acha que devo? — per­guntou Sandra Yi, chocada.

— Para o jovem Brian, deve. — Claudia deu uma risa­dinha abafada. — Ele tem faro, o rapaz!

— Minha cartomante disse que este ia ser um ano mara­vilhoso para mim. Que coisa terrível o incêndio, não foi?

— Foi. — Claudia examinou a lista de compromissos. Linbar dali a alguns minutos, Sir Luís Basílio às oito e qua­renta e cinco. — Quando Sir Luís chegar...

— Sir Luís está esperando agora na minha sala. Sabe que chegou cedo... já lhe dei café, e os jornais da manhã. — A fisionomia de Sandra Yi ficou apreensiva. — O que vai acon­tecer às dez?

— A Bolsa de Valores vai abrir — falou Claudia viva­mente, e entregou-lhe a pilha maior. — Cuide disso aqui, San­dra. Ah, e ele também cancelou duas reuniões de diretoria e o almoço, mas desses cuido eu.

Ambas ergueram os olhos quando Dunross entrou.

— Bom dia — cumprimentou ele. Seu rosto estava mais sério do que antes, as equimoses realçando sua austeridade.

Sandra Yi disse, meigamente:

— Todos estão muito felizes porque o senhor não se ma­chucou, tai-pan.

— Obrigado.

Ela se retirou. Ele ficou observando o andar dela, depois notou o olhar de Claudia. Um pouco da sua austeridade o abandonou.

— Nada como uma gatinha bonita, não é? Claudia achou graça.

— Enquanto você não estava, seu telefone particular to­cou duas vezes.

Referia-se ao telefone que não constava do catálogo, que só ele atendia, e cujo número só era dado aos familiares e a um punhado de pessoas especiais.

— Ah, obrigado. Cancele todos os compromissos até o meio-dia, exceto Linbar, o velho Sir Luís Basílio e o banco. Certifique-se de que o tratamento vip será dado a Penn e à srta. Kathy. Gavallan vai levá-la ao aeroporto. Primeiro, ligue-me com Tung Pão-Duro. Com Lando Mata também... per­gunte se posso vê-lo, de preferência às dez e vinte, no Coffee Place. Leu meu bilhete sobre o Zep?

— Li, é terrível. Cuidarei de tudo. O ajudante-de-ordens do governador telefonou: você estará presente à reunião do meio-dia?

— Estarei — respondeu Dunross, pegando um telefone e discando enquanto Claudia saía, fechando a porta atrás de si.

— Penn? Queria falar comigo?

— Oh, Ian, sim, mas não liguei para você. É isso o que quer dizer?

— Pensei que fosse você na linha particular.

— Não, mas como estou contente que tenha ligado. Ouvi a notícia do incêndio logo cedo no rádio e... não tinha muita certeza se tinha sonhado ou não com sua volta para casa ontem à noite. Eu... fiquei muito preocupada, desculpe. Ah Tat disse que você tinha saído bem cedo, mas não confio naquela bruxa velha... às vezes não diz coisa com coisa. Desculpe. Foi muito ruim?

— Não. Não de verdade. — Relatou-lhe tudo sucinta­mente. Agora que sabia que tudo estava bem com ela, queria que desligasse. — Contarei os mínimos detalhes quando for buscá-la para levá-la ao aeroporto. Já verifiquei o vôo, e está no horário... — Seu intercomunicador tocou. — Espere um instantinho, Penn... Sim, Claudia?

— O superintendente Kwok na linha 2. Diz que é im­portante.

— Está bem. Desculpe, Penn, tenho que desligar. Apanho você com tempo de sobra para o seu vôo. Tchau, querida... Mais alguma coisa, Claudia?

— O avião de Bill Foster, de Sydney, está atrasado mais de uma hora. O sr. Havergill e Johnjohn o receberão às nove e meia. Liguei para confirmar. Parece que estão no banco desde as seis horas.

A inquietação de Dunross aumentou. Tentara falar com Havergill desde as quinze horas do dia anterior, mas o vice-pre­sidente da junta diretora não pudera atender, e não achara que fosse adequado falar-lhe à noite, durante a festa.

"Isso não é bom. Já havia uma multidão do lado de fora do banco quando cheguei, às sete e meia.”

— O Vic não vai quebrar, vai? Ele notou a ansiedade na voz dela.

— Se quebrar, estamos todos ferrados. — Apertou a linha 2. — Oi, Brian, o que há de novo?

Brian Kwok contou-lhe sobre John Chen.

— Meu Deus, pobre John! Depois do dinheiro do res­gate ter sido entregue ontem à noite, pensei que... mas que filhos da mãe! Já está morto há algum tempo?

— Já. Pelo menos há três dias.

— Mas que filhos da mãe! Já contou a Phillip e a Dianne?

— Não, ainda não. Quis lhe contar primeiro.

— Quer que eu ligue para eles? Phillip está em casa, agora. Depois de ter feito o pagamento, ontem à noite, disse a ele que não precisava vir à reunião das oito horas. Ligarei agora para ele.

— Não, Ian, isso compete a mim. Desculpe ser o porta­dor de más notícias, mas achei que você devia saber sobre o John.

— Sim... sim, amigo velho, obrigado. Escute, tenho um compromisso na casa do governador Iá pelas sete, que acabará por volta das dez e meia. Quer tomar um drinque, ou comer alguma coisa?

— Boa idéia. Que tal o Quance Bar, no Mandarim?

— Às dez e quarenta e cinco?

— Ótimo. A propósito, deixei ordens para que sua tai-tai passasse direto pela Imigração. Lamento ter dado a má notícia. Tchau.

Dunross desligou o telefone, levantou-se e ficou olhando pela janela. O intercomunicador tocou, mas ele não escutou.

— Pobre infeliz! — resmungou. — Que desperdício! Ouviu-se uma ligeira batida, depois a porta se abriu um pouquinho, e Claudia disse:

— Com licença, tai-pan, Lando Mata na linha 2. Dunross sentou-se na borda da mesa.

— Alô, Lando, podemos nos encontrar às dez e vinte?

— Sim, claro. Soube do Zeppelin. Que terrível! Eu mal consegui salvar a pele! Maldito incêndio! Apesar de tudo, nós nos safamos, hem? Joss!

— Já entrou em contato com o Pão-Duro?

— Já. Vai chegar pela próxima barca.

— Ótimo. Lando, posso precisar de você para me apoiar hoje.

— Mas, Ian, já conversamos sobre isso ontem à noite. Pensei que tinha sido bem cla...

— É. Mas quero o seu apoio hoje — falou Dunross, a voz mais dura.

Houve uma longa pausa.

— Vou... vou falar com o Pão-Duro.

— Também vou falar com o Pão-Duro. Nesse meio tem­po, gostaria de saber que conto com o seu apoio, agora.

— Já reconsiderou a nossa oferta?

— Tenho o seu apoio, Lando? Ou não?

Outra pausa. A voz de Mata revelava maior nervosismo.

— Eu lhe... eu lhe direi quando o vir, às dez e vinte. Lamento, Ian, mas tenho que falar primeiro com o Pão-Duro. Encontro você para tomarmos um café. Tchau.

O telefone foi desligado. Dunross recolocou o fone no gancho, com suavidade, e murmurou docemente:

— Dew neh loh moh, Lando, velho amigo. Pensou por um momento, depois discou.

— O sr. Bartlett, por favor.

— O telefone dele não responde. Quer deixar recado? — indagou a telefonista.

— Por favor, transfira a chamada para a srta. K. C. Tcholok.

— Como?

— Casey... srta. Casey!

O telefone tocou e Casey atendeu, com voz de sono.

— Alô?

— Ah, desculpe, ligo mais tarde...

— Ian? Não... não, tudo bem, eu já devia... estar de pé há horas... — Ouviu-a abafar um bocejo. — Meu Deus, como estou cansada! O incêndio não foi um sonho, foi?

— Não. Ciranoush, só queria me certificar de que vocês dois estavam bem. Como se sente?

— Não muito legal. Acho que devo ter distendido alguns músculos... não sei se foram as risadas ou os vômitos. Você está bem?

— Estou. Até agora. Não está com febre, nem nada? O dr. Tooley recomendou que prestássemos atenção a isso.

— Acho que não. Ainda não vi o Linc. Já falou com ele?

— Não... não respondem do quarto dele. Escute, quero convidar os dois para um drinque, às seis.

— Para mim, está ótimo. — Outro bocejo. — Estou contente de que você esteja bem.

— Ligo mais tarde para... Novamente o intercomunicador.

— O governador na linha 2, tai-pan. Disse-lhe que você iria à reunião matinal.

— Está certo. Ouça, Ciranoush, drinque às seis. Se não for possível, quem sabe uma ceia. Ligo mais tarde para confirmar.

— Certo, Ian. E Ian, obrigada pelo telefonema.

— De nada. Tchau. — Dunross apertou a linha 2. — Bom dia, senhor.

— Lamento incomodá-lo, Ian, mas preciso falar com você sobre aquele incêndio pavoroso — disse Sir Geoffrey. — É um milagre que não tenha morrido mais gente, o ministro está uma fera com a morte do pobre Sir Charles Pennyworth, e danado da vida porque os nossos regulamentos de segurança permitiram que tal coisa acontecesse. O gabinete foi infor­mado, portanto podemos esperar repercussões de alto nível. Dunross falou-lhe da sua idéia sobre as cozinhas em Aberdeen, fingindo que era de Shi-teh T'Chung.

— Excelente! Shitee é esperto! Já é um começo. Enquan­to isso, Robin Grey, Julian Broadhurst e os outros deputados já telefonaram solicitando um encontro para protestarem contra os nossos inadequados regulamentos contra incêndio. Meu aju-dante-de-ordens disse que Grey estava irritadíssimo. — Sir Geoffrey soltou um suspiro. — Com toda a razão, talvez. De qualquer modo, o cavalheiro vai agitar o mais que puder, pode crer. Parece que até já marcou uma entrevista coletiva com Broadhurst, para amanhã. Agora que o pobre Sir Charles mor­reu, Broadhurst ficou sendo o membro mais antigo, e sabe Deus o que acontecerá se aqueles dois começarem a meter o pau na China.

— Peça ao ministro para amordaçá-lo, senhor.

— Já pedi, e ele respondeu "Santo Deus, Geoffrey, amor­daçar um deputado? Isso seria pior do que tentar atear fogo no Parlamento!" É tudo muito exasperante. Minha idéia foi que você poderia acalmar um pouco o sr. Grey. Vou sentá-lo ao seu lado, logo mais.

— Não acho que seja boa idéia, senhor. O sujeito é um lunático.

— Concordo plenamente, Ian, mas ficaria muito grato se você tentasse. É o único em quem posso confiar. Quillan bate­ria nele. Ele acabou de telefonar, recusando formalmente o convite, só por causa do Grey. Quem sabe você também não poderia convidar o sujeito para as corridas do sábado?

Dunross lembrou-se de Peter Marlowe.

— Por que não convida Grey e os outros para a sua tribuna? Eu cuidarei dele, durante parte do tempo.

"Graças a Deus Penn não estará aqui", pensou.

— Está certo. Mais uma coisa: Roger me pediu para en­contrar você no banco, amanhã às seis horas.

Dunross deixou o silêncio pesar.

— Ian?

— Sim, senhor?

— Às seis. O Sinders já deverá estar lá, a essa altura.

— O senhor o conhece? Pessoalmente?

— Sim. Por quê?

Só queria me certificar.

Dunross escutou o silêncio do governador. Sua tensão aumentou.

— Ótimo. Às seis. Mais uma coisa: já soube do pobre John Chen?

— Sim, senhor, faz alguns minutos. Uma desgraça.

— Concordo. Pobre coitado! Essa confusão dos Lobiso­mens não podia ter chegado numa hora pior. Certamente se tornará uma cause célèbre para todos os que se opõem a Hong Kong. Um aborrecimento dos diabos, além da tragédia propria­mente dita. Ora, ora, bem, ao menos vivemos numa época interessante, com problemas para todo lado.

— É, sim, senhor. O Victoria está encrencado? Dunross fez a pergunta com naturalidade, mas estava bem atento, e notou a ligeira hesitação antes de Sir Geoffrey res­ponder, despreocupadamente:

— Santo Deus, não! Meu caro, mas que idéia espantosa! Bem, Ian, obrigado. O resto pode esperar até a nossa reunião do meio-dia.

— Sim, senhor.

Dunross desligou o telefone e enxugou a testa. "Aquela hesitação foi de muito mau agouro", pensou com os seus bo­tões. "Se alguém realmente sabe a extensão dos problemas, esse alguém é Sir Geoffrey. "

Uma rajada de chuva fustigou as vidraças. Tanta coisa para fazer! Seus olhos se dirigiram para o relógio. Agora o Linbar, depois Sir Luís. Já decidira o que queria do presidente da Bolsa, o que precisava obter dele. Não havia tocado no assunto na reunião da assembléia interna, logo cedo. Os outros o haviam deixado irritado. Todos eles — Jacques, Gavallan, Linbar — estavam convencidos de que o Victoria apoiaria a Struan até o fim.

— E se não apoiar? — perguntara ele.

— Temos o negócio com a Par-Con. É inconcebível que o Victoria não ajude!

— E se não ajudar?

— Quem sabe, depois de ontem à noite, Gornt pare de vender.

— Não vai parar. O que faremos?

— A não ser que consigamos detê-lo, ou adiemos os pagamentos à Toda e ao Orlin, estaremos encrencadíssimos.

"Não podemos adiar os pagamentos", pensou mais uma vez. "Sem o banco, ou Mata, ou Pão-Duro... até mesmo o negócio com a Par-Con não deterá o Quillan. Ele sabe que tem todo o dia de hoje e toda a sexta-feira para vender, vender e vender, e eu não posso comprar nem... "

— O jovem Linbar, tai-pan.

Mande-o entrar, por favor. — Lançou um olhar ao relógio. O homem mais moço entrou e fechou a porta. — Está quase dois minutos atrasado.

— É? Desculpe.

— Parece que não consigo convencê-lo da necessidade da pontualidade. É impossível dirigir sessenta e três companhias sem a pontualidade dos executivos. Se acontecer mais uma vez, você perde a sua gratificação anual.

Linbar enrubesceu.

— Desculpe.

— Quero que você ocupe o lugar de Bill Foster na nossa operação em Sydney.

Linbar Struan animou-se.

— Claro! Gostaria muito. Há bastante tempo que tenho vontade de ter uma operação só minha.

— Ótimo. Quero você no vôo da Qantas de amanhã e...

— Amanhã? Impossível! — exclamou Linbar, sua feli­cidade se evaporando. — Vou levar umas duas semanas para aprontar tu...

A voz de Dunross ficou tão suave, mas tão cortante, que Linbar Struan perdeu a cor.

— Sei disso, Linbar. Mas quero que vá para lá amanhã. Fique lá duas semanas e depois volte para me apresentar seu relatório. Compreendeu?

— Sim, compreendi. Mas... mas e quanto ao sábado? E quanto às corridas? Quero ver Noble Star correr.

Dunross simplesmente olhou para ele.

— Quero-o na Austrália. Amanhã. Foster não conseguiu se apossar das Propriedades Woolara. Sem a Woolara, não temos fretador para nossos navios. Sem fretador, nossos atuais acordos bancários são nulos e sem efeito. Você tem duas sema­nas para corrigir este fiasco e se apresentar de volta.

— E se não o fizer? — perguntou Linbar, furioso.

— Pela madrugada, não perca tempo! Sabe muito bem a resposta. Se falhar, não pertencerá mais à assembléia interna. E se não estiver naquele avião amanhã, está fora da Struan, e fi­cará fora enquanto eu for tai-pan.

Linbar começou a dizer alguma coisa, mas mudou de idéia.

— Ótimo — disse Dunross. — Se tiver êxito com a Woolara, seu salário será dobrado.

Linbar apenas fitou-o.

— Mais alguma coisa, senhor? — Não. Bom dia, Linbar.

Linbar balançou a cabeça e saiu, com largas passadas.

Quando a porta se fechou, Dunross permitiu-se a sombra de um sorriso.

— Sacaninha atrevido — resmungou. Levantou-se e foi até a janela de novo, sentindo-se confinado, desejando estar no seu barco a motor, ou melhor ainda, no seu carro, fazendo as curvas depressa demais, forçando o carro, e a si mesmo, um pouco mais a cada volta, para desanuviar a cabeça. Distraida­mente, endireitou um dos quadros e ficou olhando as gotas de chuva, imerso em pensamentos, entristecido por causa de John Chen.

Uma gotinha percorreu uma pista de obstáculos molhada, e desapareceu, para ser seguida por outra e mais outra. Ainda não se enxergava a vista, e a chuva caía torrencialmente.

Seu telefone particular deu sinal de vida.

— Sim, Penn? — atendeu Dunross. Uma voz estranha perguntou:

— Sr. Dunross?

— Sim, quem está falando? — indagou ele, espantado, sem conseguir identificar a voz do homem, ou seu sotaque.

— Meu nome é Kirk, Jamie Kirk, sr. Dunross. Sou... sou amigo do sr. Grant, Alan Medford Grant... — Dunross quase deixou cair o aparelho. — Alô? Sr. Dunross?

— Sim, continue, por favor. — Dunross já superara o seu choque. Alan era um dos poucos a quem dera o número particular, e ele sabia que só devia ser usado em caso de emer­gência, e nunca passado adiante, exceto por um motivo muito especial. — Em que posso servi-lo?

— Sou... de Londres; da Escócia, para falar a verdade. Alan mandou que eu lhe telefonasse tão logo chegasse a Hong Kong. Ele... me deu o número do seu telefone. Espero não estar incomodando.

— Não, absolutamente, sr. Kirk.

— Alan me deu um pacote para lhe ser entregue, e tam­bém queria que eu conversasse com o senhor. Minha... minha mulher e eu passaremos três dias em Hong Kong, portanto eu... gostaria de saber se podemos nos encontrar.

— Naturalmente. Onde está hospedado? — perguntou calmamente, embora seu coração estivesse disparado.

— No Nove Dragões, em Kowloon, quarto 455.

— Quando viu Alan pela última vez, sr. Kirk?

— Quando saímos de Londres, está fazendo agora duas semanas. É, exatamente duas semanas. Estivemos... estivemos em Cingapura e na Indonésia. Por quê?

— Seria conveniente para o senhor depois do almoço?

Lamento, mas estarei ocupadíssimo até três e vinte. Poderia recebê-lo, então, se for conveniente para o senhor.

— Para mim, três e vinte está ótimo.

— Mandarei um carro ir apanhá-lo e...

— Oh, não há necessidade de se... incomodar. Sabere­mos como chegar ao seu escritório.

— Não é incômodo algum. Um carro os apanhará às duas e meia.

Dunross desligou o telefone, imerso em pensamentos.

O relógio bateu oito e quarenta e cinco. Uma batidinha. Claudia abriu a porta.

— Sir Luís Basílio, tai-pan.

Johnjohn, do Victoria, estava berrando ao telefone:

— ... estou me lixando para o que vocês, cretinos, em Londres pensem, estou lhe dizendo que estamos com um co­meço de corrida aqui, e a coisa está fedendo mesmo. Eu... o quê? Fale mais alto, homem! A ligação está péssima... O quê?... Pouco se me dá que seja uma e meia da madrugada... onde diabo você estava metido?... há quatro horas que venho tentando falar com você!... O quê?... Aniversário de quem? Deus todo-poderoso... — Suas sobrancelhas avermelhadas su­biram bem alto, e ele tentou se controlar. — Ouça, vá para a City e a Casa da Moeda o mais cedo possível e diga a eles... Alô?... É, diga-lhes que esta porra de ilha pode ficar com­pletamente sem dinheiro e... Alô?... Alô?... Ora, puta que o pariu! — Começou a apertar repetidamente o interrup­tor. — Alô? — Largou com violência o fone no gancho, soltou alguns palavrões, e depois apertou o botão do intercomunica­dor. — Srta. Mills, a ligação foi cortada, por favor, refaça a ligação o mais depressa que puder.

— Certamente — respondeu a voz serena, muito inglesa. — O sr. Dunross está aqui.

Johnjohn olhou para o relógio e empalideceu. Eram nove e trinta e três.

— Ah, meu Deus! Não faça a ligação agora, é... não faça, eu... — Apressadamente, largou o fone, correu até a por-ta, forçou uma fisionomia serena e abriu a porta com naturali­dade estudada. — Meu caro Ian, desculpe tê-lo feito esperar. Como vão as coisas?

— Muito bem, e com você?

— Tudo maravilhoso!

Maravilhoso? Que interessante! Deve haver uns seis­centos ou setecentos clientes impacientes formando fila do lado de fora, e ainda falta meia hora para o banco abrir. Também há alguns diante do Blacs.

— Mais do que alguns... — Johnjohn interrompeu-se a tempo. — Não há motivo para preocupação, Ian. Quer tomar um café ou vamos direto para a sala de Paul?

— Para a sala do Paul.

— Ótimo. — Johnjohn foi na frente, descendo o corredor forrado de espesso carpete. — Não, não há nenhum problema, só alguns chineses supersticiosos... sabe como são, boatos e tudo o mais. Uma coisa horrível, o incêndio. Ouvi dizer que Casey tirou a roupa e mergulhou como um salva-vidas. Esteve no hipódromo, hoje? Esta chuva está formidável, hem?

A inquietação de Dunross aumentou.

— É. Ouvi dizer que há filas diante de quase todos os bancos da colônia. Exceto do Banco da China.

Johnjohn soltou uma risada oca.

— Nossos amigos comunistas não veriam com bons olhos uma corrida ao seu banco. Enviariam tropas!

— Então a corrida existe?

— Ao Ho-Pak, sim. Ao nosso banco? Não. De qualquer maneira, não estamos nem de longe tão fora dos nossos limites quanto Richard Kwang. Parece que ele realmente fez alguns empréstimos bem perigosos. Infelizmente, o Ching Prosperity também não está numa boa. Bem, mas o Ching Sorridente bem que merece uma esfrega depois de tantos anos lidando com empreendimentos tão dúbios.

— Drogas?

— Não sei dizer, Ian. Não oficialmente. Mas os boatos são fortes.

— Mas você afirma que a corrida não vai alcançar vocês?

— Não mesmo. Se alcançar... bem, tenho certeza de que tudo ficará bem.

Johnjohn continuou a descer o largo corredor de lambris. Tudo no ambiente era faustoso, sólido e seguro. Fez um gesto de cabeça para a secretária inglesa idosa, passou por ela e abriu a porta em que se lia paul Havergill, vice-presidente da junta diretora. A sala era ampla, com lambris de carvalho, a escrivaninha imensa e livre de papéis. As janelas davam para a praça.

— Ian, meu caro! — Havergill se levantou e estendeu a mão. — Lamento muito não ter podido atendê-lo ontem, e a festa de ontem à noite não era exatamente o local para se tratar de negócios, não é? Como está se sentindo?

— Bem. Acho. Até agora. E você?

— Estou um pouco desarranjado, mas Constance está bem, graças a Deus. Logo que chegamos a casa, os dois tomamos uma boa dose do velho e bom Remédio do Dr. Colicos.

Era um elixir inventado durante a Guerra da Criméia pelo dr. Colicos para curar distúrbios estomacais quando deze­nas de milhares de soldados britânicos morriam de tifo, cólera e disenteria. A fórmula ainda era um segredo.

— Um remédio fantástico! O dr. Tooley também nos deu um pouco.

— Uma desgraça o que houve com os outros, não? A mulher de Toxe, hem?

Johnjohn disse, solenemente:

— Ouvi dizer que encontraram o corpo dela sob uma das estacas, hoje de manhã. Se eu não tivesse recebido um bilhete cor-de-rosa, Mary e eu também teríamos estado lá.

Um bilhete cor-de-rosa significava que você tinha a per­missão da sua mulher para sair sem ela à noite, para jogar cartas com amigos, para ir ao Clube, para mostrar a cidade a visitantes, ou lá o que fosse... mas com a permissão benevo­lente dela.

— É? — Havergill sorriu. — Quem era a moça de sorte?

— Eu estava jogando bridge com McBride no Clube. Havergill riu.

— Bem, a discrição é uma coisa importantíssima, e temos que pensar na reputação do banco.

Dunross sentiu a tensão na sala entre os dois homens. Sorriu educadamente, esperando.

— Em que posso servi-lo, Ian? — indagou Havergill.

— Quero cem milhões extras de crédito por trinta dias. Fez-se um silêncio mortal. Os dois homens o fitavam.

Dunross pensou ver a sombra de um sorriso surgir por trás dos olhos de Havergill.

— Impossível! — ouviu-o dizer.

— O Gornt está preparando um ataque contra nós, é óbvio para qualquer um. Vocês dois sabem que estamos firmes, seguros e em boa forma. Preciso do seu apoio aberto e maciço, então ele não ousará prosseguir, e eu não precisarei realmente do dinheiro. Mas preciso do compromisso de vocês. Agora.

Novo silêncio. Johnjohn esperava e observava. Havergill acendeu um cigarro.

— Como está a situação com a Par-Con, Ian? Dunross contou-lhes.

Assinamos na terça-feira — concluiu. Podemos confiar no americano?

— Fizemos um trato.

Outro silêncio. Constrangido, Johnjohn rompeu-o.

— É um negócio muito bom, Ian.

— É. Com o apoio aberto de vocês, Gornt e o Blacs reti­rarão o seu ataque.

— Mas cem milhões? — exclamou Havergill. — Está além de qualquer possibilidade.

— Já disse que não precisarei da quantia toda.

— Isso são suposições, meu caro. Poderíamos nos envol­ver num grande jogo de forças contra a nossa vontade. Ouvi boatos de que Quillan tem financiamento externo, apoio ale­mão. Não podemos correr o risco de entrar em luta com um consórcio de bancos alemães. Você já ultrapassou o limite do seu crédito. E ainda há as quinhentas mil ações que você com­prou hoje, que terão que ser pagas até segunda-feira. Desculpe, mas a resposta é não.

— Submeta o meu pedido à apreciação da diretoria. Dunross sabia que tinha votos suficientes para derrubar a oposição de Havergill. Novo silêncio.

— Muito bem. É o que farei... na próxima reunião de diretoria.

— Não. Só será realizada daqui a três semanas. Por favor, convoque uma reunião de emergência.

— Desculpe, mas não.

— Por quê?

— Não tenho que lhe dar satisfações dos meus motivos, Ian — retrucou Havergill, vivamente. — A Struan não possui nem controla esta instituição, embora tenha grande participação no nosso banco, como temos nela, que é nossa cliente valiosa. Terei prazer em submeter seu pedido à apreciação da junta diretora, na próxima reunião. Convocar reuniões de emergência cabe a mim. Exclusivamente.

— Concordo. Assim como conceder crédito. Você não precisa de uma reunião. Poderia fazer isso agora.

— Terei prazer em submeter seu pedido à apreciação da junta diretora, na próxima reunião. Mais alguma coisa?

Dunross controlou o impulso de arrancar da cara do ini­migo a satisfação mal disfarçada.

— Preciso do crédito para apoiar as minhas ações. Agora.

— Claro, e Bruce e eu compreendemos que o sinal da Par-Con lhe permitirá completar suas transações com o estalei­ro, e fazer um pagamento parcial ao Orlin. — Havergill soltou uma baforada do cigarro. — A propósito, estou sabendo que o Orlin não renovará... você terá que fazer o pagamento inte­gral dentro de trinta dias, como consta do contrato.

Dunross enrubesceu.

— Como soube disso?

— Pelo presidente da junta, é claro. Liguei para ele ontem à noite para perguntar se...

— Você fez o quê?

— Naturalmente, meu caro — dizia Havergill, agora sa­boreando abertamente o choque de Dunross e Johnjohn —, temos todo o direito de perguntar. Afinal de contas, somos os banqueiros da Struan, e precisamos saber. Na qualidade de acionistas, também corremos riscos se você fracassar, não é?

— E você ajudará isso a acontecer?

Havergill apagou o cigarro com imenso prazer.

— Não é do nosso interesse que qualquer grande firma fracasse na colônia, muito menos a Casa Nobre. Claro que não! Não precisa se preocupar. Na hora certa interviremos e com­praremos suas ações. Jamais permitiremos que a Casa Nobre fracasse.

— Quando é a hora certa?

— Quando as ações estiverem a um preço que conside­rarmos correto.

— E qual é ele?

— Terei que estudar o assunto, Ian.

Dunross sabia que estava derrotado, mas não deixou isso transparecer.

— Você vai permitir que as ações baixem até ficarem a preço de banana, e depois comprará o controle acionário.

— A Struan agora é uma companhia de capital aberto, não importa como as várias companhias se encadeiem — falou Havergill. — Talvez tivesse sido de bom alvitre seguir os con­selhos de Alastair, e os meus... nós ressaltamos os riscos que você correria como empresa de capital aberto. E você deveria ter nos consultado antes de comprar aquela quantidade maciça de ações. É evidente que Quillan acha que você está no papo, e você realmente passou um tanto dos limites. Bem, não tema, Ian, jamais permitiremos que a Casa Nobre fracasse.

Dunross achou graça. Levantou-se.

— A colônia será um lugar muito melhor quando você estiver fora daqui.

— É — disse Havergill, bruscamente. — Meu exercício vai até 23 de novembro. Você pode estar fora da colônia antes de mim!

— Não acha que... — começou Johnjohn, abismado com a fúria de Havergill. Mas interrompeu-se quando este se virou para ele, raivosamente.

Seu exercício começa a 24 de novembro. Desde que a assembléia geral anual confirme a sua indicação. Até então, eu dirijo o Victoria.

Dunross riu de novo.

— Não tenha tanta certeza disso. Retirou-se.

Raivosamente, Johnjohn rompeu o silêncio.

— Você poderia facilmente ter convocado uma reunião de emergência. Poderia facilmente te...

— O assunto está encerrado! Entendeu? Encerrado! — Furiosamente, Havergill acendeu outro cigarro. — Temos nos­sos próprios problemas, que precisam ser resolvidos primeiro. Mas se esse filho da mãe conseguir sair do aperto desta vez, ficarei muito surpreso. Ele está numa posição perigosa, muito perigosa. Nada sabemos sobre esse maldito americano e sua namorada. Sabemos que Ian é teimoso, arrogante e incapaz. É o homem errado para esse cargo.

— Não é ver...

— Somos uma instituição com fins lucrativos, não bene­ficente, e os Dunrosses e os Struans já se meteram demais nos nossos negócios, há tempo demais! Se pudermos ficar com o controle acionário, nós nos tornaremos a Casa Nobre da Ásia... sem dúvida! Pegamos de volta o bloco das nossas ações que eles possuem. Despedimos todos os diretores e colocamos novos imediatamente, dobramos o nosso dinheiro, e eu deixaria para o banco um legado eterno. É para isso que estamos aqui... para ganhar dinheiro para o nosso banco e para os nossos acionistas! Sempre considerei o seu amigo Dunross um risco muito grande, e agora ele está indo para o brejo! E se puder ajudar a enforcá-lo, eu o farei!

O médico estava contando as pulsações de Fleur Marlowe pelo seu relógio antigo de bolso, de ouro. Cento e três. Rápido demais, pensou, com tristeza. O pulso dela era delicado. Ele colocou de novo sobre as cobertas seus dedos sensíveis, per­cebendo a febre. Peter Marlowe saiu do pequeno banheiro do apartamento deles.

— Nada bom, não é? — falou Tooley, com o seu jeitão áspero.

O sorriso de Peter Marlowe era cansado.

— Um tanto enfadonho, para falar a verdade. Só cólicas e muito pouca coisa saindo, só um pouco de líquido. — Seus olhos pousaram na mulher, largada na pequena cama de casal. — Como vai, boneca?

— Bem — disse ela. — Bem, obrigada, Peter.

O médico apanhou a maleta e guardou o estetoscópio.

— Saiu... saiu algum sangue, sr. Marlowe?

Peter Marlowe balançou a cabeça e sentou-se, cansado. Nem ele nem a mulher haviam dormido muito. As cólicas haviam começado por volta das quatro da madrugada, e con­tinuavam desde então, com maior intensidade.

— Não, pelo menos ainda não — disse. — Parece-me um ataque comum de disenteria... cólicas, muita conversa fia­da, e pouca coisa de concreto.

— Comum? Já teve disenteria? Quando? Que tipo de disenteria?

— Acho que foi entérica. Eu... eu fui prisioneiro de guerra em Changi, em 45... na verdade entre 42 e 45. Algum tempo em Java, mas principalmente em Changi.

— Ah, sei. Lamento muito. — O dr. Tooley lembrava-se de todas as histórias de horror saídas da Ásia depois da guerra, sobre o tratamento dado às tropas americanas e britânicas pelo exército japonês. — Sempre me senti traído, de uma maneira curiosa — disse o médico, com tristeza. — Os japoneses sem­pre foram nossos aliados... são uma nação insular, nós tam­bém. Bons combatentes. Fui médico dos Chindits. Acompanhei Wingate duas vezes. — Wingate era um excêntrico general britânico que concebera um plano de batalha completamente he­terodoxo para enviar colunas altamente móveis de soldados britânicos saqueadores, de codinome Chindits, da Índia para as selvas da Birmânia, bem atrás das linhas japonesas, lançando-lhes suprimentos por avião. — Tive sorte... toda a Operação Chindit era meio arriscada — falou. Enquanto falava, observa­va Fleur, sopesando as pistas, observando-a com sua experiên­cia, tentando identificar a moléstia agora, tentando isolar o inimigo entre uma infinidade de possibilidades, antes que ele danificasse o feto. — Os malditos aviões viviam errando o lugar onde deviam largar os suprimentos.

— Conheci dois dos seus companheiros em Changi. — O homem mais moço forçava a memória. — Em 43 ou 44, não me lembro exatamente de quando. Ou dos nomes. Foram man­dados para Changi depois de capturados.

— Deve ter sido em 43. — O rosto do médico estava solene. — Uma coluna inteira foi pega numa emboscada, logo no começo. Aquelas selvas são inacreditáveis, se você nunca esteve numa. Nós nem sabíamos a quantas andávamos, na maior parte das vezes. Temo que muitos dos rapazes não te­nham sobrevivido para chegar a Changi. — O dr. Tooley era um velho simpático, narigudo, cabelos ralos e mãos carinhosas, e sorriu para Fleur. — Então, mocinha — falou, com sua voz áspera e bondosa. — Está com uma pontinha de fe...

— Oh... desculpe, doutor — disse ela rapidamente, interrompendo-o, subitamente muito branca. — Eu... acho...

Saiu da cama e dirigiu-se rápida e desajeitadamente para o banheiro. A porta se fechou atrás dela. Havia uma gota de sangue nas costas da sua camisola.

— Ela está bem? — perguntou Marlowe, a fisionomia rígida.

— Está com trinta e oito e meio de febre, a pulsação está alta. Pode ser apenas uma gastroenterite... — disse o médico, olhando para ele.

— Pode ser hepatite?

— Não, não tão depressa. O período de incubação vai de seis semanas a dois meses. Infelizmente, essa espada está pen­dendo sobre a cabeça de todos. Lamento. — Uma rajada de chuva e vento fustigou as vidraças. Ele olhou naquela direção e franziu o cenho, lembrando-se de que não havia mencionado o perigo de hepatite a Dunross e aos americanos. "Talvez seja melhor esperar para ver no que dá, e ser paciente. Joss", pensou. — Dois meses, para ficar completamente seguro. Os dois to­maram todas as vacinas, portanto não deve haver perigo de tifo.

— E o bebê?

— Se as cólicas piorarem, ela poderá sofrer um aborto espontâneo, sr. Marlowe — disse o médico, suavemente. — Lamento, mas é melhor saber. Seja como for, não será fácil para ela. Só Deus sabe os vírus e bactérias que existem em Aberdeen. O lugar é um esgoto público, faz já um século. É chocante, mas nada podemos fazer a respeito. — Remexeu no bolso, procurando o bloco de receitas. — Não se pode modificar os chineses, ou os hábitos de séculos. Sinto muito.

— Joss — disse Peter Marlowe, sentindo-se péssimo. — Todo mundo vai ficar doente? Devia haver uns quarenta ou cinqüenta de nós nos debatendo na água... era impossível não engolir um pouco daquela sujeira.

O médico hesitou.

— Dos cinqüenta, talvez cinco fiquem muito doentes. Cinco ficarão incólumes, e o resto vai ficar no meio. Os yan de Hong Kong, o pessoal local, deverão ser menos afetados do que os visitantes. Mas, como você disse, tem muito a ver com Joss. — Achou o bloco. — Vou lhe receitar um antibiótico intestinal moderno, mas continuem com o velho e bom Remédio do Dr. Colicos... vai dar um jeito nas suas barriguinhas, Vigie-a com muito cuidado. Tem um termômetro?

— Sim, claro! Com... — Um espasmo percorreu Peter

Marlowe, sacudiu-o e se foi. — Viajando com crianças, a gente tem que ter um estojo de emergência.

Os dois homens tentavam não olhar para a porta do ba­nheiro. Podiam ouvi-la parcialmente, enquanto sua dor aumen­tava e diminuía.

— Quantos anos têm seus filhos? — perguntou o dr.

Tooley, distraidamente, tentando não demonstrar na voz a preocupação que sentia. Ao chegar, notara o caos alegre do minúsculo segundo dormitório que dava para a sala pequena e singela. No quartinho mal cabia o beliche duplo, e havia brin­quedos espalhados por toda parte. — Minhas filhas já são crescidas. Tenho três moças.

— Como? Ah, as nossas têm quatro e oito anos... duas meninas.

— Têm uma amah?

— Temos, sim. Com toda essa chuva, hoje de manhã, ela levou as crianças à escola. Vão até o porto e pegam um bo-pi.

— O bo-pi era um táxi sem licença, totalmente ilegal, mas quase todo mundo se utilizava dele, de vez em quando. — A escola fica numa transversal da Garden Road. Na maior parte dos dias, elas insistem em ir por conta própria. Sentem-se perfei­tamente seguras.

— Mas, sim, claro que sim.

Estavam agora de ouvidos atentos ao tormento dela. Cada esforço abafado refletia-se nos dois homens.

— Bem, não se preocupe — disse o médico, hesitante.

— Mandarei entregar aqui os remédios... há uma farmácia no hotel. Mandarei pôr na sua conta. Voltarei logo mais às seis horas, o mais próximo das seis que puder. Se houver algum problema... — Estendeu gentilmente uma folha do receituário.

Aqui está meu telefone. Não hesite em me chamar, ouviu?

— Obrigado. Bem, e quanto à sua conta?

— Não se preocupe com isso, sr. Marlowe. O que impor­ta primeiro é que fiquem bem. — O dr. Tooley concentrava-se na porta. Estava com receio de ir embora. — Pertenceu ao exercito?

— Não. À força aérea.

— Ah! Meu irmão foi piloto. Espatifou-se em... Interrompeu-se. Fleur Marlowe chamava, hesitante, do ou­tro lado da porta:

— Doutor... será que... por favor... Tooley foi até junto da porta. — Sim, sra. Marlowe? Está bem? — Será que... que... por favor...

Ele abriu a porta e fechou-a atrás de si. O fedor azedo no banheiro minúsculo era intenso, mas ele não ligou.

— Eu... — começou ela, interrompendo-se ao sentir novo espasmo.

— Vamos, não se preocupe — disse, acalmando-a, e co­locou uma das mãos nas costas dela e outra no seu estômago, ajudando-a a sustentar seus torturados músculos abdominais. As mãos a massagearam suavemente, e com perícia. — Pronto, pronto! Pode relaxar, não vou deixá-la cair. — Sentiu os mús­culos retesados sob os dedos, e transmitiu sua força e calor para ela. — Você tem mais ou menos a idade de minha filha, a mais moça. Tenho três, e a mais velha tem dois filhos... Pronto, pode relaxar, pense que a dor vai passar. Logo vai se sentir bem, sem dor...

Dali a pouco as cólicas passaram.

— Eu... Deus, des... desculpe. — A moça tateou em busca de papel higiênico, mas logo foi tomada por outra cólica, e mais outra. Era desconfortável para ele, ali no banhei-rinho, mas cuidou dela e manteve as mãos fortes sustentando-a da melhor maneira possível. Sentiu uma pontada nas costas. Ela disse: — Estou... estou bem, agora. Obrigada.

Ele sabia que não era verdade. Estava ensopada de suor. Ele passou um pano molhado no rosto dela, depois secou-o. A seguir, ajudou-a a se levantar, sustentando-lhe o peso, acal­mando-a o tempo todo. Limpou-a. O papel deixava ver vestígios de sangue, e havia vestígios de muco com sangue também na água suja do vaso, mas ela ainda não estava tendo hemorragia, e ele soltou um suspiro de alívio.

— Vai ficar boa — disse ele. — Pronto, espere um mi­nuto. Não tenha medo! — Fez com que ela se segurasse na pia. Rapidamente, dobrou uma toalha seca ao comprido e amarrou-a na barriga dela, bem apertada, dobrando as pontas para dentro para ficar bem firme. — Isso é o melhor que existe para dor de barriga, o melhor mesmo. Sustenta a barriga e aquece-a. Meu pai também era médico, no exército indiano, e jurava que não havia coisa melhor. — Olhou para ela, atentamente. — É uma moça muito corajosa. Vai ficar boa. Pronta?

— Sim. Des... desculpe o que...

Ele abriu a porta. Peter Marlowe correu a ajudar. Puse­ram-na na cama.

Ela ficou largada ali, exausta, uma mecha de cabelo molha­do na testa. O dr. Tooley afastou-a e fitou-a, pensativo.

— Acho, mocinha, que vamos interná-la numa casa de saúde, por um ou dois dias.

— Ah, mas... mas...

— Não há com que se preocupar. Mas é melhor darmos ao futuro bebê todas as chances, não é? E com duas crianças pequenas aqui para cuidar... Dois dias de descanso serão o bas­tante. — A voz áspera dele os tocou, acalmando-os. — Tomarei as providências e voltarei daqui a um quarto de hora. — Olhou para Peter Marlowe por sob as sobrancelhas espessas. — A casa de saúde fica em Kowloon. Isso evitará qualquer viagem longa para a ilha. Muitos de nós a usamos, e é boa, limpa, e equipada para qualquer emergência. Não quer arrumar uma maleta para ela? — Anotou o endereço e o telefone. — Pronto, mocinha, volto daqui a pouquinho. Vai ser melhor. Assim não terá que se preocupar com as crianças. Sei como isso angustia, quando se está doente. — Sorriu para ambos. — Não se preocupe com coisa alguma, ouviu, sr. Marlowe? Vou falar com o seu criado e pedir-lhe que ajude a manter tudo em ordem por aqui. E não se preocupem com dinheiro. — As rugas fun­das ao redor dos seus olhos ficaram ainda mais fundas. — Somos muito filantrópicos, aqui em Hong Kong, com nossos jovens convidados.

Retirou-se. Peter Marlowe sentou-se na cama. Descon­solado.

— Espero que as crianças tenham chegado direitinho ao colégio — disse ela.

— Claro que sim. Ah Sop é ótima.

— Como vai se arranjar?

— Muito bem. Vou bancar a dona-de-casa por um dia ou dois.

Ela se moveu, cansada, apoiando-se numa das mãos e observando a chuva, e, para além dela, o hotel cinzento do outro lado da rua estreita, que ela detestava porque tirava a vista do céu.

— Eu... espero que não vá... custar muito — falou, a voz tênue.

— Não se preocupe com isso, Fleur. Não haverá proble­mas. A Associação dos Escritores pagará.

— Pagará mesmo? Aposto que não, Peter, não a tempo. Droga! O nosso... nosso orçamento já está tão apertado!

— Sempre posso fazer um empréstimo contando com o dinheiro do dane-se do ano que vem. Não...

— Oh, não! Não vamos fazer isso, Peter. Não podemos. Já resolvemos. Caso... contrário, você vai ficar enredado de... novo.

— Alguma coisa vai aparecer — disse ele, confiante. — mês que vem há uma sexta-feira 13, e isso sempre nos trouxe sorte. — Seu romance tinha sido publicado num dia 13, e entrara para a lista de best sellers num dia 13. Há três anos, quando eles estavam na pior, fora num dia 13 que ele assinara um bom contrato como roteirista. Seu primeiro trabalho como diretor fora confirmado num dia 13. E em abril do ano ante­rior, na sexta-feira 13, um dos estúdios de Hollywood com­prara os direitos cinematográficos do seu romance por cento e cinqüenta e sete mil dólares. O agente ficara com dez por cento, e então Peter Marlowe dividira o restante pelos pró­ximos cinco anos. Cinco anos de dinheiro do dane-se para a família: vinte e cinco mil a cada mês de janeiro. O suficiente, com controle, para despesas médicas e escolares, hipoteca, carro e outros pagamentos... cinco anos gloriosos de libertação de todos os problemas de costume. E liberdade de recusar um serviço de diretor-roteirista para vir passar um ano em Hong Kong, sem ganhar nada, mas livre para pesquisar o segundo livro. "Oh, Deus", pensou Peter Marlowe, subitamente ater­rorizado. "Que diabo estou procurando afinal? Que diabo estou fazendo aqui?" — Meu Deus — falou, infeliz —, se eu não tivesse insistido para irmos àquela festa, isso não teria acon­tecido.

— Joss. — Ela deu um débil sorriso. — Joss, Peter. Lembre-se do que você está... sempre me dizendo. Destino, sorte, azar, é só joss, Peter. Ah, Meu Deus, como me sinto mal!

 

                 10h01m

Orlanda Ramos abriu a porta do seu apartamento e pôs o guarda-chuva ensopado num porta-guarda-chuvas.

— Entre, Linc — disse, radiante. — Minha casa é sua casa — falou em português, traduzindo depois.

— Tem certeza? — perguntou Linc, sorrindo. Ela riu e falou, brincalhona:

— Ah! Isso vamos ver. É só um velho costume português, de oferecer a casa da gente.

Ela estava tirando a capa de chuva brilhante, na última moda. No corredor, ele fazia o mesmo com um impermeável ensopado e muito usado.

— Pronto, deixe que eu penduro — disse a moça. — Ah, e não ligue para o molhado, a amah enxugará. Entre.

Ele notou que a sala era jeitosa e impecável, muito femi­nina, de bom gosto e acolhedora. Ela fechou a porta atrás dele e pendurou seu casaco num gancho. Ele foi até as portas envidraçadas que davam para uma varandinha. O apartamento ficava no oitavo andar do Rose Court, na Kotewall Road.

— A chuva é sempre assim tão forte? — perguntou ele.

— Num tufão de verdade é muito pior. Talvez de trezen­tos a quatrocentos e cinqüenta milímetros num dia. Há também os deslizamentos de lama, e as áreas de recolonização são des­truídas pelas águas.

Ele olhava para baixo, através da neblina. A maior parte da vista era bloqueada pelos prédios altos, construídos ao longo das estradas sinuosas cavadas na encosta das montanhas. Aqui e ali ele podia ver trechos da zona central e da orla marítima, lá embaixo.

— É como estar num avião, Orlanda. Numa noite gostosa deve ser fantástico.

— É. É, sim. Eu adoro isso aqui. Dá para se ver Kowloon inteira. Antes de construírem o Sinclair Towers, aquele prédio bem em frente, tínhamos a vista mais linda de Hong Kong.

Sabia que a Struan é dona do Sinclair Towers? Acho que Ian Dunross mandou construí-lo para irritar a Quillan. Quillan tem o apartamento de cobertura aqui no prédio... pelo menos, tinha.

— E atrapalhou a vista dele?

— Arruinou-a.

— Foi um ataque dispendioso.

— Não. Os dois prédios são altamente rendosos. Quillan me contou que tudo em Hong Kong é amortizado ao longo de três anos. Tudo. O negócio é possuir imóveis. Você podia fi­car... — Ela riu. — Podia aumentar sua fortuna se quisesse.

— Se eu ficar, onde devo morar?

— Aqui em Mid Leveis. Subindo mais o Pico, é tudo muito úmido, as paredes suam, tudo fica mofado.

Ela tirou o lenço de cabeça, sacudiu a cabeleira, depois sentou-se no braço de uma cadeira, olhando para as costas dele, esperando pacientemente.

— Há quanto tempo você mora aqui? — indagou ele.

— Há cinco, quase seis anos. Desde que o prédio foi construído.

Ele se virou, apoiando-se na janela.

— É formidável — disse ele. — E você também é.

— Obrigada, gentil senhor. Quer um pouco de café?

— Por favor. — Linc Bartlett correu os dedos pelos cabe­los, olhando para um quadro a óleo. — É um Quance?

— É. É, sim. Foi Quillan quem me deu. Espresso?

— Sim. Preto, por favor. Gostaria de entender mais de pintura... — Já ia acrescentar "Casey entende", mas se dete­ve e ficou vendo a moça abrir uma das portas. A cozinha era grande, moderna e muito bem equipada. — Puxa, está pare­cendo coisa de Casa e Jardim!

— Foi tudo idéia do Quillan. Ele adora comida e adora cozinhar. Tudo aqui foi ele que projetou... o resto do apar­tamento foi decorado por mim, embora tenha aprendido com ele a diferenciar o bom do cafona.

— Lamenta ter acabado tudo com ele?

— Sim e não. É o destino, carma. Ele... era joss. Tinha chegado a hora. — A serenidade dela emocionou-o. — Nunca poderia ter durado. Nunca. Não aqui. — Notou que uma tris­teza a invadiu, momentaneamente, mas ela a afastou e se ocupou com a impecável máquina de café. Todas as prateleiras brilhavam. — Quillan era maníaco por ordem e limpeza, e graças a Deus eu peguei o hábito. Minha amah, Ah Fat, me deixa maluca.

— Ela mora aqui?

— Ah, sim, naturalmente, mas saiu para fazer compras... o quarto dela fica no fim do corredor. Pode dar uma olhada por aí, se quiser. Não vou demorar quase nada.

Cheio de curiosidade, ele aceitou a sugestão. Uma boa sala de jantar com uma mesa redonda de oito lugares. O quarto dela era branco e rosa, leve e delicado, com cortinas macias cor-de-rosa que caíam do teto ao redor da cama enorme. Havia flores, num arranjo delicado. Um banheiro moderno, ladrilhado e perfeito, com toalhas combinando. Um segundo dormitório, com livros, telefone, hi-fi e uma cama menor, tudo muito arru­mado e de bom gosto.

"Ela é mais organizada do que Casey", pensou, lembrando-se da desarrumação gostosa e informal da sua casinha no vale de Los Angeles, tijolinhos vermelhos, pilhas de livros por toda parte, churrasqueira, telefones, copiadoras e máquinas de es­crever elétricas. Aborrecido por ter pensado e por estar auto­maticamente comparando-as, voltou à cozinha com passos silen­ciosos, ignorando o quarto da amah. Orlanda concentrava-se na máquina de fazer café, sem perceber que ele agora a observava. Gostava de observá-la.

Pela manhã ligara para ela bem cedo, muito preocupado, acordando-a, querendo lembrar-lhe de procurar um médico, por via das dúvidas. Na confusão da véspera, quando ele e Casey tinham finalmente chegado em terra, ela já tinha ido para casa.

— Ah, obrigada, Linc, quanta gentileza em me telefonar! Não, estou bem — disse, atropelando as palavras, contente. — Pelo menos, agora estou. Você está bem? E Casey está bem? Ah, nem sei como agradecer, eu estava apavorada... Você salvou minha vida, você e Casey...

Tagarelaram alegremente ao telefone, e ela prometeu ir ao médico, de qualquer forma, e depois ele a convidou para toma­rem café juntos. Ela aceitou imediatamente, e ele se mandou para o lado de Hong Kong, curtindo a chuvarada, a tempera­tura agradável. Tomaram o desjejum no topo do Mandarim, ovos Benedict, torradas e café, sentindo-se ótimos, Orlanda animadíssima e muito agradecida a ele e a Casey.

— Pensei que era uma mulher morta. Sabia que ia me afogar, Linc, mas estava assustada demais para gritar. Se você não tivesse agido tão rapidamente, eu jamais... Mal mergu­lhei a querida Casey estava lá, e eu estava viva de novo, e segura, antes de me dar conta do que acontecera...

Foi o melhor desjejum que já tivera. Ela o paparicou, em pequenas coisas, passando-lhe a torrada, servindo o café, sem que ele precisasse pedir, apanhando o guardanapo dele quando caiu, entretendo, e sendo entretida, confiante e feminina, fazendo com que ele se sentisse masculino e forte. E uma vez esten­deu a mão e apoiou-a no braço dele, dedos longos, unhas bem-tratadas. A sensação daquele toque permanecia na sua pele. De­pois, ele a levara para casa, e dera um jeito para que ela o convidasse a subir, e agora ali estava ele, observando-a concen­trar-se na cozinha, saia de seda e botas de chuva de estilo russo, uma blusa solta ajustada na cintura minúscula, deixando seus olhos percorrerem-na.

"Meu Deus", pensou, "é melhor eu tomar cuidado. "

— Oh, não o tinha visto, Linc. Você tem o andar leve para um homem da sua altura!

— Desculpe.

— Não se desculpe, Linc! — O vapor chiou até um cres­cendo. Gotinhas negras começavam a encher as xícaras. — Um pouquinho de limão?

— Obrigado. E você?

— Não. Prefiro cappuccino.

Ela esquentou o leite, o barulho gostoso e o cheiro do café fantástico, depois levou a bandeja até a copa. Colheres de prata e porcelana fina, ambos cônscios do clima reinante no aposento, mas fingindo não haver nenhum.

Bartlett sorveu o seu café.

— Está uma delícia, Orlanda! O melhor que já tomei. Mas é diferente.

— É a pitada de chocolate.

— Gosta de cozinhar?

— Gosto, sim, muito. Quillan disse que eu era boa aluna. Adoro cuidar da casa e organizar festas, e Quillan sempre... — Havia uma pequena ruga no seu rosto, agora. Olhou direta­mente para ele. — Parece que estou sempre falando nele. Des­culpe, mas ainda é... ainda é automático. Ele foi o primeiro homem na minha vida... o único... portanto é uma parte indelével de mim.

— Não precisa explicar, Orlanda, eu compreen...

— Eu sei, mas quero explicar. Não tenho amigos de ver­dade, nunca falei dele com ninguém, nunca tive vontade, mas agora... bem, gosto de estar com você e... — Um sorriso imenso e repentino iluminou-a. — Mas é claro! Tinha me esquecido! Agora você é responsável por mim!

Ela riu e bateu palmas com as mãozinhas delicadas.

— O que quer dizer?

— Segundo os costumes chineses, você interferiu no joss, ou o destino. Foi, sim. Interferiu nos desígnios dos deuses. Vo­cê salvou minha vida, porque sem você eu teria morrido na cer­ta, ou provavelmente teria morrido, mas cabia aos deuses decidir. Mas porque você interferiu e assumiu as responsabilidades deles, agora tem que cuidar de mim para sempre! É um costu­me chinês sensato e bom! — Os olhos dela dançavam, e ele nunca tinha visto brancos dos olhos tão brancos, pupilas castanho-escuras tão límpidas, ou um rosto tão agradável. — Para sempre!

— Negócio feito! — riu ele junto com a moça, a força da alegria dela a cercá-lo.

— Ah, que bom! — falou, depois ficou um pouco mais séria, e tocou-lhe o braço. — Estava só brincando, Linc. Você é tão galante... e não estou acostumada com tanta galanteria. Eu o libero formalmente... a minha metade chinesa o libera.

— Talvez eu não queira ser liberado. Imediatamente, notou que os olhos dela estavam maiores.

Sentia uma opressão no peito, o coração batendo mais rápido. O perfume dela o tantalizava. Abruptamente, a força entre eles se manifestou. Estendeu a mão e tocou o cabelo dela, sedoso e fino, sensual. Primeiro toque. Acariciando-a. Um pequeno arrepio, e logo estavam se beijando. Sentiu os lábios macios dela, acolhedores, só um pouco úmidos, sem batom, o gosto tão limpo e bom!

A paixão aumentou. A mão dele moveu-se para o seio dela, e o calor atravessou a seda. Ela estremeceu de novo e tentou debilmente recuar, mas ele a segurava com firmeza, o coração disparado, acarinhando-a. Depois as mãos dela dirigiram-se para o peito dele, e ali ficaram por algum tempo, tocando-o. Depois o empurraram de leve, e ela interrompeu o beijo, mas continuou junto dele, recobrando o fôlego, o coração disparado, tão intoxicada quanto ele.

— Linc... você...

— Você é tão gostosinha! — disse ele, suavemente, abraçando-a. Inclinou-se para beijá-la de novo, mas ela evitou o beijo.

— Espere, Linc, primeiro...

— Primeiro beijar, depois esperar!

Ela riu. A tensão foi rompida. Ele se xingou por ter come­tido aquele erro, o seu desejo forte, atiçado pelo dela. Agora, o momento havia passado, e estavam esgrimindo de novo. A raiva o invadiu, mas, antes que ela tomasse conta dele, a moça se esticou e beijou-o com toda a perfeição. A raiva desapareceu imediatamente. Só o calor permaneceu.

— Você é forte demais para mim, Linc — disse, a voz roufenha, os braços ao redor do pescoço dele, mas cautelosa­mente. — Forte demais, atraente demais e simpático demais, e verdadeiramente, verdadeiramente devo-lhe a vida.

A mão dela acariciou-lhe o pescoço, e ele sentiu a carícia aquecer-lhe o sexo, enquanto ela erguia os olhos para ele, suas defesas estabelecidas, fortes, mas invioláveis. "Talvez", pensou ele.

— Primeiro conversar — disse ela, afastando-se —, de­pois, quem sabe, nos beijamos de novo.

— Ótimo — disse ele, dirigindo-se de imediato para perto dela, os dois agora de bom humor, mas ela tocou-lhe os lábios com o dedo, impedindo-o.

— Sr. Bartlett! Será que todos os americanos são como o senhor?

— Não — respondeu ele, prontamente, mas ela não engo­liu a isca.

— É, eu sei. — A voz dela estava séria. — Eu sei. Era sobre isso que queria lhe falar. Café?

— Sim — disse, esperando, perguntando-se como agir, avaliando-a, desejando-a, sem conhecer direito essa selva, fas­cinado por ela e pela moça.

Ela serviu o café com cuidado. Tinha o mesmo gosto bom da primeira xícara. Ele estava controlado, embora a dor conti­nuasse.

— Vamos para a sala — disse ela. — Eu levo a sua xícara. Ele se pôs de pé, a mão à volta da cintura dela. Ela não fez objeção, e ele sentiu que o contato dele lhe agradava, tam­bém. Sentou-se numa das poltronas fundas e chamou-a:

— Sente-se aqui — disse, batendo no braço da poltrona. — Por favor.

— Depois. Primeiro quero conversar. — Sorriu um tanto timidamente e sentou-se no sofá em frente, de veludo azul-escuro, combinando com o tapete chinês no chão de parquete lustroso. — Linc, só o conheço há dias, e não sou... não sou uma garota de programa. — Orlanda enrubesceu ao pronunciar essas palavras, e continuou, rapidamente, abafando o que ele pretendia dizer: — Desculpe, mas não sou. Quillan foi o pri­meiro e único, e não estou querendo um caso. Não quero uma trepada amistosa ou alucinada, e uma despedida tímida ou dolo­rosa. Aprendi a viver sem amor, não posso passar por tudo aquilo de novo. Amei Quillan, agora não amo. Tinha dezessete anos quando... começamos, e agora tenho vinte e cinco. Esta­mos separados há quase três anos. Tudo já acabou há três anos, e não mais o amo. Não amo ninguém, e sinto muito, sinto muito, mas não sou uma garota de programa.

— Nunca pensei que fosse — disse ele, sabendo no ínti­mo que era mentira, e amaldiçoou o seu azar. — Que diabo, o que pensa que sou?

— Acho que é um bom homem — retrucou ela, de pron­to, com sinceridade —, mas na Ásia uma moça, qualquer moça, descobre muito depressa que os homens querem ir para a cama, e que é só o que querem. Desculpe, Linc, mas ir para a cama por ir não faz o meu gênero. Pode ser que venha a fazer, mas não faz agora. É, sou eurasiana, mas não sou... sabe o que estou querendo dizer?

— Claro — falou, e acrescentou, antes que pudesse se conter —, está querendo dizer que é intocável, proibida.

O sorriso dela desapareceu, e ela o fitou. O coração dele confrangeu-se ao notar sua tristeza.

— É — disse, levantando-se devagar, quase em lágrimas. — É, acho que sou.

— Meu Deus, Orlanda! — Ele foi para junto dela, abra­çou-a. — Não quis ser grosseiro, não quis falar no mau sen­tido.

— Linc, não estou tentando provocar ou gozar com a sua cara ou bancar a difí...

— Compreendo. Que diabo, não sou criança e não estou forçando ou... nem uma coisa nem outra.

— Ah, mas que bom! Por um momento... — Ela ergueu os olhos para ele, e sua inocência derreteu-o. — Não está com raiva de mim, Linc? Quero dizer... não lhe pedi para subir, foi você que insistiu.

— Eu sei — disse ele, abraçando-a e pensando: "É ver­dade, e também é verdade que quero você agora, e que não sei o que você é, quem é, mas quero você. Mas o que quero de você? O que realmente quero? Quero magia? Ou só uma tre­pada? Você é a magia que venho buscando eternamente, ou mais uma fulana qualquer? Como se compara com a Casey? Será que devo medir a lealdade contra a seda da sua pele?" Lembrou-se do que Casey dissera, certa vez: "O amor consiste em muitas coisas, Linc. Apenas uma parte do amor é o sexo. Apenas uma. Pense em todas as outras partes. Julgue uma mu­lher pelo seu amor, sem dúvida, mas compreenda o que uma mulher é". Mas o calor dela o invadia, seu rosto contra o peito dele, e mais uma vez sentiu-se excitado. Beijou o pescoço dela, não querendo conter sua paixão.

— O que é você, Orlanda?

— Sou... só posso lhe dizer o que não sou — falou, na sua vozinha. — Não sou uma provocadora. Não quero que pense que estou tentando excitá-lo. Gosto de você, gosto muito, mas não sou... garota para uma noite.

— Eu sei. Meu Deus, quem meteu isso na sua cabeça?

— Viu que os olhos dela estavam úmidos. — Não precisa cho­rar. Mesmo. Está bem?

— Está bem. — Ela se afastou, abriu a bolsa, pegou um lencinho de papel e usou-o. — Ayeeyah, estou agindo como uma adolescente ou como uma vestal. Desculpe, mas foi tudo muito repentino. Eu não estava preparada para... senti que ia ceder. — Inspirou fundo. — As mais abjetas desculpas.

— Recusadas — disse ele, rindo.

— Graças a Deus! — Ela o fitou. — Na verdade, Linc, geralmente sei lidar com os fortes, os mansos, os astutos, até mesmo os muito astutos, sem muita dificuldade. Acho que já recebi todo tipo de cantada que é possível uma garota rece­ber, e sempre achei que já tinha um plano de jogo automático para driblá-las quase antes que começassem. Mas com você...

— Hesitou, depois acrescentou: — Desculpe, mas com quase todo homem que conheço, bem, é sempre a mesma coisa.

— Isso é errado?

— Não, mas é exasperante entrar numa sala ou num res­taurante e sentir aqueles olhares obscenos. Gostaria de saber como vocês, homens, se sentiriam. Você é moço e bonitão. O que faria se as mulheres agissem assim com você, em todo lugar a que fosse? Digamos que, quando atravessou o saguão do Victoria, hoje de manhã, tivesse visto que todas as mulheres de todas as idades, as vovós de dentadura postiça, as bruxas de peruca, as gordas, as feias, as grosseiras, todas elas lhe lançavam abertamente olhares lascivos, despindo-o mentalmente, pro­curando chegar perto de você, tentando passar a mão no seu traseiro, olhando abertamente para a sua virilha ou o seu peito, a maioria com mau hálito, a maioria suando e fedendo, e você sabendo que elas o imaginam na cama delas, entusiástica e ale­gremente fazendo as coisas mais íntimas com elas.

— Não gostaria nem um pouco. Casey disse a mesma coisa com palavras diferentes quando veio trabalhar comigo. Sei o que quer dizer, Orlanda. Pelo menos, posso imaginar. Mas é assim que o mundo é.

— É, e às vezes é horrível. Oh, não gostaria de ser ho­mem, Linc, estou muito feliz sendo mulher. Mas, realmente, às vezes é um horror. Saber que a consideram apenas um recipien­te que pode ser comprado, e que depois de tudo deve agradecer muito ao velho safado e corpulento de mau hálito, aceitar sua nota de vinte dólares e ir embora, esgueirando-se como um ladrão dentro da noite.

— Como foi que esse assunto começou? — disse ele, franzindo o cenho.

Ela riu.

— Você me beijou.

Ele abriu um sorriso, contente por estarem juntos.

— Isso mesmo. Vai daí que talvez eu tenha merecido o sermão que levei. Sou culpado das acusações. Bem, e quanto àquele beijo que me prometeu... — Mas não se mexeu. Esta­va tateando, sondando. "Tudo mudou agora", pensou. "Claro que queria ir para a cama com ela. Claro. Ainda quero, mais do que antes. Mas agora estamos mudados. Agora estamos num jogo diferente. Não sei se quero participar. As regras mudaram. Antes, era simples. Agora, quem sabe não é mais simples?" — Você é bonita. Já lhe disse isso? — falou, desviando-se do assunto que ela queria esclarecer.

— Eu ia falar sobre esse beijo. Sabe, Linc, a verdade é que não estava preparada para o modo como, falando franca­mente, como fui levada de roldão, acho que foi isso.

Ele deixou a frase no ar.

— Isso é bom ou ruim?

— Ambos. — Os olhos dela apertaram-se quando ela sorriu. — É, levada de roldão pelo meu próprio desejo. Você é demais, sr. Bartlett, e isso também é muito ruim, ou muito bom. Eu, eu gostei do seu beijo.

— Eu também. — Novamente, sorriu para ela. — E pode me chamar de Linc.

Depois de uma pausa, ela disse:

— Nunca me senti tão carente e envolvida, e por isso estou muito assustada.

— Não precisa ficar assustada — falou. Mas perguntava-se o que fazer. Seus instintos diziam-lhe que partisse. Seus ins­tintos diziam-lhe que ficasse. O bom senso dizia-lhe que ficasse calado e esperasse. Podia ouvir seu coração bater e a chuva fustigar as vidraças. "É melhor eu ir", pensou. — Orlanda, acho que está...

— Tem tempo para conversar? Só um pouquinho? — perguntou, sentindo a indecisão dele.

— Claro. Claro que sim.

Ela afastou os cabelos do rosto.

— Queria lhe falar a meu respeito. Quillan era o patrão do meu pai em Xangai, e parece que o conheci toda a minha vida. Ajudou a pagar meus estudos, especialmente nos Estados Unidos, e sempre foi muito bondoso para mim e para minha família... tenho quatro irmãs e um irmão, e sou a mais velha, e estão todos em Portugal, agora. Quando voltei a Xangai, vinda de San Francisco, após me formar, estava com dezessete, quase dezoito anos, e... Bem, ele é um homem atraente, ao me­nos para mim, embora muito cruel, às vezes. Muito.

— Como?

— Acredita em vingança pessoal, que a vingança é um direito do homem, se ele for homem. E Quillan é homem à beça. Sempre foi bom para mim, ainda é. — Olhou-o atenta­mente. — Quillan ainda me dá mesada, ainda paga este aparta­mento.

— Não precisa me contar nada.

— Eu sei. Mas quero contar... se você quiser ouvir. Depois, pode decidir.

Ele a olhou atentamente.

— Está bem.

— Sabe, parte do problema é o fato de eu ser eurasiana. A maioria dos europeus nos despreza, aberta ou secretamente, especialmente os britânicos daqui... Linc, acabe de me ouvir. A maioria dos europeus despreza os eurasianos. Todos os chi­neses os desprezam. Assim, estamos sempre na defensiva, quase sempre desconfiados, quase sempre suspeitos de sermos ilegí­timos, e sem dúvida uma trepada fácil. Deus, como odeio essa expressão! Como é nojenta, vulgar e barata! E reveladora da mentalidade do homem americano, que sempre a usa... embo­ra tenha sido nos Estados Unidos, estranhamente, que adquiri respeito próprio e superei o meu complexo de culpa eurasiano. Quillan me ensinou muita coisa, e me formou, de muitas manei­ras. Devo muito a ele. Mas não o amo. Era o que eu queria dizer. Quer mais um pouco de café?

— Quero, sim, obrigado.

— Vou fazer café fresco.

Ela se levantou, o andar inconscientemente sensual, e no­vamente ele amaldiçoou o seu azar.

— Por que rompeu com ele? Gravemente, ela lhe contou sobre Macau.

— Eu me deixei persuadir a ir para a cama com o tal sujeito, e dormi com ele, embora nada tenha acontecido, nada... o pobre coitado estava bêbado e impotente. No dia seguinte, fingi que ele tinha sido ótimo. — A voz dela era calma e natural, mas podia-se sentir a sua angústia. — Nada aconteceu, mas alguém contou a Quillan. Ele ficou furioso, e com razão. Eu não tenho justificativa. Foi... Quillan estava fora. Sei que isso não é desculpa, mas eu tinha aprendido a gostar de sexo e... — Uma sombra toldou-lhe o semblante. Deu de ombros. — Joss. Carma. — Na mesma voz apagada ela lhe contou a vingança de Quillan. — É o modo de ele ser, Linc. Mas tinha razão de estar furioso comigo. Eu estava erra­da. — O vapor chiou, e o café começou a gotejar. As mãos dela pegavam xícaras limpas, biscoitos feitos em casa e guardanapos limpos e engomados enquanto falava, mas os pensamentos deles estavam concentrados no triângulo amoroso.

— Eu ainda me encontro com ele, de vez em quando. Só para conversar. Agora somos apenas amigos, ele é bom para mim, e faço o que quero, saio com quem quero. — Desligou o aparelho e ergueu os olhos para ele. — Nós... tivemos uma filha, há quatro anos. Eu queria o bebê, ele não. Disse que eu poderia ter a criança, mas na Inglaterra. Ela agora está em Portugal, com meus pais... meu pai é aposentado, e ela mora com eles — concluiu ela, uma lágrima rolando-lhe pela face.

— Foi idéia dele manter a criança lá?

— Foi. Mas ele está certo. Uma vez por ano vou até lá. Meus pais... minha mãe queria a criança, pediu para criá-la. Quillan também é generoso com eles. — Às lágrimas agora corriam pelo seu rosto, mas o choro era silencioso. — Agora você já sabe de tudo, Linc. Nunca contei a mais ninguém, só a você, e agora você sabe que não sou, não fui uma amante fiel, e não sou, não sou boa mãe e, e...

Ele foi para junto dela, abraçou-a bem apertado e sentiu que ela se derretia de encontro a ele, tentando sufocar os solu­ços, agarrando-se a ele, assimilando o seu calor e a sua força. Ele a acalmava, abraçando-a, o corpo contra o dele, inteirinho, quente, macio, tudo se encaixando.

Quando ela conseguiu se controlar, ergueu-se na ponta dos pés, beijou-o levemente, mas com grande carinho, e olhou para ele.

Ele retribuiu o beijo.

Olharam-se nos olhos, profundamente, depois beijaram-se de novo. A paixão aumentou, e parecia uma eternidade, mas não era, e ambos ouviram a chave na fechadura na mesma hora. Separaram-se, tentando recobrar o fôlego, escutando as batidas de seus corações, e ouvindo a voz áspera da amah, vinda do corredor:

— Weyyyyy?

Debilmente, Orlanda endireitou o penteado, deu ligeira­mente de ombros, como a pedir desculpas.

— Estou na cozinha — disse em xangaiense. — Por favor, vá para o seu quarto até que eu a chame.

— Ah, quer dizer que o demônio estrangeiro ainda está aqui? E as minhas compras? Fiz algumas compras!

— Deixe junto à porta!

— Ah, está bem, Jovem Patroa — respondeu a amah, e se afastou, resmungando. A porta bateu com força às suas costas.

— Elas sempre batem as portas? — perguntou Linc, o coração ainda disparado.

— É, é, parece que sim. — Ela voltou a pôr a mão no ombro dele, as unhas acariciando o seu pescoço. — Desculpe.

— Não há do que se desculpar. Vamos jantar? Ela hesitou.

— Se você levar a Casey.

— Não. Só você.

— Linc, acho melhor não. Agora não estamos em perigo. É melhor dizermos adeus agora.

— Jantar. Às oito. Virei buscá-la. Você escolhe o restau­rante. Comida de Xangai.

Ela fez que não com a cabeça.

— Não. Já está mexendo demais comigo. Desculpe.

— Virei buscá-la às oito. — Bartlett beijou-a de leve, depois foi até a porta. Ela apanhou o impermeável dele e lhe entregou. — Obrigado — falou Linc, meigamente. — Não há perigo, Orlanda. Tudo vai ficar numa boa. Até às oito. Está bem?

— É melhor não.

— Quem sabe? — Ele sorriu para ela, estranhamente. — Isso seria joss... carma. Temos que nos lembrar dos deuses, não? — Ela não respondeu. — Estarei aqui às oito.

Ela fechou a porta atrás dele, caminhou devagar até a poltrona e se sentou, imersa em pensamentos, imaginando se o teria afugentado, apavorada de o ter feito. Imaginando se ele realmente voltaria às oito, e, se voltasse, como poderia mantê-lo afastado, como manobrá-lo até que estivesse louco de desejo, louco o bastante para casar-se com ela.

Seu estômago deu voltas. "Tenho que agir depressa", pen­sou. "Casey o mantém cativo, enredou-o, e minha única saída é comida gostosa, lar e carinho, carinho, carinho, carinho, e tudo o que Casey não é. Mas nada de cama. Foi assim que Casey o prendeu. Tenho que fazer o mesmo.

"Então, ele será meu.”

Orlanda sentia-se fraca. Tudo saíra perfeito, concluiu. Depois, novamente se lembrou do que Quillan dissera: "É a lei imemorial que todo homem é forçado pelas circunstâncias a se casar, preso na armadilha da sua luxúria, do seu sentimen­to de posse, da avareza, do dinheiro, do medo, da preguiça, ou seja lá o que for, mas forçado. E nenhum homem jamais se casa de bom grado com a sua amante".

"É. Quillan está certo, mais uma vez", pensou. "Mas está errado a meu respeito. Não vou me contentar com a metade do prêmio. Vou tentar conquistá-lo todo. Vou ter não apenas o Jaguar, e este apartamento, e tudo o que ele contém, mas uma casa na Califórnia e, principalmente, fortuna americana, longe da Ásia, onde não serei mais uma eurasiana, mas uma mulher como qualquer outra, bela, despreocupada e carinhosa.

"Ah, serei para ele a melhor mulher que um homem pode­ria ter. Atenderei a todos os seus desejos, farei o que ele quiser. Senti sua força, e serei boa para ele, maravilhosa para ele.”

— Ele já foi? — Ah Fat entrou na sala sem fazer baru­lho, arrumando as coisas automaticamente, enquanto falava no dialeto de Xangai. — Bom, muito bom. Quer que faça um chá? Deve estar cansada. Um pouco de chá, heya?

— Não. Sim, sim, faça um chá, Ah Fat.

— Faça um chá! Trabalho, trabalho, trabalho! — A velha foi arrastando os pés até a cozinha. Usava calças pretas tipo bombacha, uma bata branca e uma trança comprida que lhe descia pelas costas. Cuidava de Orlanda desde o seu nascimen­to. — Dei uma boa olhada nele, lá embaixo, quando chegaram. Ele é bem apresentável para uma pessoa incivilizada — disse, com ar especulador.

— É? Não a vi. Onde você estava?

— Junto das escadas. — Ah Fat casquinou. — Eeeee, tomei o cuidado de me esconder direitinho, mas queria olhar para ele. Hum! Você manda a sua pobre escrava para a rua na chuva, com seus pobres ossos velhos, quando pouco importa se estou aqui ou não? Quem vai levar os seus doces e chá ou bebidas na cama quando você acabar seus afazeres, heya?

— Ora, cale a boca, cale a boca!

— Não mande a sua pobre e velha mãe calar a boca! Ela sabe como cuidar de você! Ah, sim, Pequena Imperatriz, mas era bem evidente que em ambos o yang e o yin estavam pron­tos para combater. Vocês dois pareciam tão contentes quanto gatos num barril de peixes! Mas não havia necessidade de eu sair!

— Os demônios estrangeiros são diferentes, Ah Fat. Que­ria ficar sozinha com ele. Os demônios estrangeiros são tími­dos. Agora, vá fazer o chá e fique quieta, senão mando você à rua de novo!

— Ele vai ser o novo Patrão? — perguntou Ah Fat, espe­rançosa. — Está mais do que na hora de ter um Patrão. Não é bom para uma pessoa não ter um Talo Ardente às portas do Portão de Jade. O seu Portão vai enferrujar e ficar seco como pó, com o pouco uso que tem! Ah, esqueci de lhe dar duas notícias. Parece que os Lobisomens são estrangeiros de Macau; atacarão de novo antes da lua nova. É o que se fala. Todos juram que é a verdade. E a outra notícia é que o Velho Tok

Tosse-Tosse, da barraca de peixe, disse que este demônio es­trangeiro da Montanha Dourada tem mais ouro que o Tung Eunuco! — Tung era um eunuco lendário da corte imperial da Cidade Proibida de Pequim, cuja ambição de ouro era tão imensa que nem toda a China podia satisfazê-la; era tão odiado que o imperador seguinte empilhou sobre ele toda a sua fortu­na ilícita, até que o peso do ouro o esmagou, e ele morreu. — Você já não é mais tão jovem, Mãezinha! Devemos levar isso a sério. Ele vai ser o tal?

— Espero que sim — disse Orlanda, devagar.

"Ah, sim", pensou fervorosamente, tonta de ansiedade, sabendo que Linc Bartlett era a oportunidade mais importante de toda a sua vida. Abruptamente, ficou apavorada outra vez de ter exagerado o seu jogo, e que ele não fosse voltar. Desa­tou a chorar.

Oito andares abaixo, Bartlett atravessou o pequeno saguão e saiu para se reunir à meia dúzia de pessoas que esperavam impacientes por um táxi. A chuva torrencial caía agora cons­tantemente, e descia do ressalto de concreto para se misturar à torrente que descia, como um pequeno rio, pela Kotewall Road, alagando as sarjetas, os bueiros há muito entupidos, carregando consigo pedras, lama e vegetação que despencavam das en­costas e ladeiras altas. Carros e caminhões que subiam ou des­ciam cuidadosamente a rua íngreme espadanavam nos redemoi­nhos e torvelinhos, os limpadores de pára-brisa funcionando à toda, os vidros embaçados.

Do outro lado da rua, a montanha se erguia, muito íngre­me, e Bartlett viu a infinidade de fios de água que cascateavam pelas altas barragens de concreto que escoravam a terra. Ervas daninhas nasciam entre as rachaduras. Parte de um torrão enso­pado se destacou e veio caindo para se juntar a mais entulho, pedras e lama. Um dos lados da barragem era uma garagem murada, e, subindo a encosta, havia uma mansão chinesa meio escondida, toda enfeitada, com um telhado de ladrilhos verdes e dragões nas empenas. Ao lado dela havia o andaime de uma construção e escavações para um prédio de muitos andares. Ao lado, outro prédio de apartamentos, cujo topo desaparecia entre a neblina.

"Tantas construções!", falou Bartlett com seus botões. "Talvez devamos nos meter nesse ramo, aqui. Gente demais catando terra de menos significa lucro, muito lucro. E amorti­zado ao longo de três anos... Meu Deus!"

Um táxi se aproximou, indiferente às poças d'água. Alguns passageiros saltaram e outros entraram, resmungando. Um casal chinês saiu da porta do prédio e foi passando por ele e pelos outros, até a frente da fila... uma matrona tagarela e baru­lhenta, com um imenso guarda-chuva, um impermeável caro por cima do cheong-sam, o marido manso e humilde ao lado. "Foda-se, boneca", pensou Bartlett, "não vai tirar a minha vez. " Ajeitou-se numa posição melhor. Seu relógio marcava dez e trinta e cinco.

"E agora?", perguntou-se. "Não deixe que Orlanda o perturbe!

"A Struan, ou Gornt?

"Hoje é dia de escaramuça, amanhã — sexta-feira —, amanhã é dia de arrasar, o fim de semana é para reagrupar as forças, segunda é o dia do ataque final, e lá pelas três horas devemos conhecer o vencedor.

"Quem estou querendo que vença? Dunross ou Gornt?

"Gornt é um cara de sorte... foi um cara de sorte", pen­sou, confuso. "Meu Deus, Orlanda é uma parada! Será que a teria largado, se fosse ele? Claro. Claro que sim. Bem, talvez não... nada aconteceu. Mas teria me casado com ela no minu­to em que isso fosse possível, e não mandado a nossa filha para Portugal... Gornt é um filho da puta safado. Ou danado de esperto. Qual dos dois?

"Ela botou as cartas na mesa direitinho... como a Casey, mas de modo diferente, embora o resultado seja o mesmo. Agora tudo está complicado, ou simples. Qual dos dois?

"Será que quero me casar com ela? Não.

"Quero deixá-la na mão? Não.

"Quero ir para a cama com ela? Claro. Então, planeje uma campanha, manobre até levá-la para a cama, sem compro­misso. Não faça o jogo da vida pelas regras femininas. Vale tudo na guerra e no amor. E o que é o amor, afinal de contas? É como disse a Casey: o sexo é apenas uma parte dele.

"Casey. E quanto a ela? Não vai ser preciso esperar muito pela Casey, agora. E então vai ser a cama, o casamento, um adeus, ou o quê? Deus me livre de me casar de novo. Uma vez só já foi terrível. É estranho, há muito tempo que não penso nela. "

Quando Bartlett voltara do Pacífico, em 45, conhecera-a em San Diego, e casara-se em uma semana, cheio de amor e ambição. Jogara-se de corpo e alma no ramo de construções, no sul da Califórnia, começando o seu próprio negócio. A épo­ca era adequada na Califórnia, todo tipo de construção flores­cendo. O primeiro filho nascera dali a dez meses, o segundo um ano mais tarde, e o terceiro dez meses depois. E ele trabalhando o tempo todo, inclusive sábados e domingos, curtindo o trabalho. Era moço e forte, e estava tendo um êxito imenso. Mas estavam se afastando cada vez mais. Depois as brigas e as lamentações, e o "Você não tem mais tempo para passar conos­co, e fodam-se os negócios, não me importam os negócios, e quero ir para a França e Roma, e por que você não vem cedo para casa?, você tem uma namorada, sei que tem uma namo­rada... "

Mas não havia namorada, só trabalho. E então, certo dia, a carta do advogado. Pelo correio.

"Merda", pensou Bartlett com raiva, sentindo ainda a mesma dor. "Mas, sou apenas um entre milhões, e já aconteceu antes e vai acontecer outra vez. Mesmo assim, uma carta dela, um telefonema dela, ainda machuca. Machuca e custa dinheiro. Custa um bocado de dinheiro, e os advogados ficam com a maior parte, uma boa parte, e habilmente atiçam o fogo entre nós para lucrarem ainda mais. Claro. Somos o ganha-pão deles, todos somos! Do berço à maldita sepultura, os advogados fo­mentam encrencas e se alimentam do nosso sangue. Merda. Os advogados é que são a verdadeira praga dos Estados Unidos. Só encontrei quatro bons em toda a minha vida! E o resto? São parasitas de todos nós. Ninguém está a salvo!

"É. Aquele filho da mãe do Stone! Ganhou uma fortuna à minha custa, transformou-a numa megera, virou-a, e às crian­ças, contra mim para todo o sempre e quase me destruiu, e ao meu negócio. Espero que o filho da mãe apodreça por toda a eternidade!"

Com esforço, Bartlett desviou o pensamento da ferida aberta e olhou para a chuva. Lembrou-se de que era apenas dinheiro, e que estava livre, livre, e isso o fez sentir-se ótimo.

"Deus! Estou livre, e existem Casey e Orlanda. "

Orlanda.

"Meu Deus!", pensou, a dor do desejo ainda presente, "eu estava doidão ainda há pouco. E Orlanda também. Puta merda, já é ruim o bastante com a Casey, mas agora são duas."

Há dois meses não dormia com uma garota. A última vez fora em Londres, um encontro casual, um jantar casual, depois a cama. Ela estava hospedada no mesmo hotel, era divorciada, e não tinha havido problema. "O que foi que Orlanda disse? Uma trepada amistosa e um adeus encabulado? É, isso aí. Mas aquela moça não era encabulada. "

Ficou na fila, satisfeito, sentindo-se imensamente vivo, olhando a chuvarada, achando fantástico o cheiro da chuva na terra, a rua atulhada de pedras e lama, a torrente fazendo redemoinhos numa fenda grande do calçamento, e dançando no ar como cascatas de um riacho.

"A chuva vai trazer muita encrenca", pensou. "E Orlanda é muita encrenca, meu chapa. Claro. Mesmo assim, tem que haver um meio de levá-la para a cama. O que há nela que o deixa assim pirado? Parte é o rosto dela, parte é o corpo, parte é o olhar, parte é... Deus, admita, ela é toda mulher, e toda encrenca. É melhor esquecer Orlanda. Juízo, juízo, meu chapa. Como disse Casey, a fulana é dinamite!"

 

                  10h50m

Chovia há quase doze horas, e o solo da colônia estava encharcado, embora os reservatórios vazios mal tivessem sido tocados. A terra ressequida recebeu prazerosamente a chuva. A maior parte dela escorreu pela superfície endurecida e foi inundar os níveis mais baixos, transformando estradas de terra em lamaçais e locais de construção em lagos. Parte da água se infiltrou fundo. Nas áreas de recolonização que pontilhavam as encostas, a chuvarada foi um desastre.

Favelas de choças desconjuntadas feitas de sobras, pape­lão, tábuas, ferro corrugado, pedaços de cerca, lonas, pedaços de madeira, paredes de compensado e telhados para os abasta­dos, encostadas umas às outras, grudadas umas às outras, umas em cima das outras, camada sobre camada, subindo e descendo as montanhas... todas com chão de terra batida e becos es­curos, agora alagados e enlameados, empoçados, esburacados, perigosos. A chuva que entrava pelo telhado ensopava as camas, as roupas e os pertences de toda uma vida, gente empilhada em cima de gente, cercada de gente, que estoicamente dava de ombros e esperava que a chuva passasse. Becos ordinários se entrelaçavam numa confusão, sem planejamento algum, exceto arranjar mais um espaçozinho para colocar outra família de refugiados e estrangeiros ilegais, mas não realmente estrangei­ros, pois aqui era a China, e, uma vez cruzada a fronteira, qualquer chinês se tornava legalmente colono e poderia ficar o tempo que quisesse, segundo antiga permissão do governo de Hong Kong.

A força da colônia sempre residira na mão-de-obra barata, abundante e livre de contendas. A colônia oferecia um santuá­rio permanente e pedia em troca apenas o trabalho pacífico, ao preço do momento. Hong Kong não buscava imigrantes, mas o povo da China sempre vinha. Vinha de dia e de noite, de navio, a pé, de maca. Cruzava a fronteira sempre que a fome ou uma convulsão abalava a China, famílias inteiras, homens, mulheres e crianças, vinham para ficar, para serem absor­vidas, para no futuro voltarem para casa, porque a China era sempre a casa deles, mesmo depois de dez gerações.

Mas os refugiados não eram sempre bem-vindos. No ano anterior a colônia fora praticamente inundada por uma massa humana. Por algum motivo ainda desconhecido, e sem aviso prévio, os guardas da República Popular da China relaxaram o férreo controle na fronteira, e em uma semana os refugiados entravam aos milhares, diariamente. Na sua maioria vinham à noite, sobre e através da cerca simbólica de seis cordas que separava os Novos Territórios de Kwantung, a província vizi­nha. A polícia era impotente para conter o fluxo. Tiveram que chamar o exército. Numa noite de maio, quase seis mil da horda ilegal foram presos, alimentados, e no dia seguinte man­dados de volta para o outro lado... porém outros milhares escaparam da rede da fronteira e se tornaram habitantes legais. A catástrofe continuou noite após noite, dia após dia. Dezenas de milhares de recém-chegados. Logo turbas de chineses irados e compassivos reuniram-se na fronteira, tentando atrapalhar as deportações. As deportações eram necessárias porque a colônia estava sendo engolida pelos ilegais, e era impossível alimentar, acomodar e absorver um aumento tão vasto e repentino de população. Já havia os quatro milhões e tantos com que se preocupar, e a pequena porcentagem de ilegais que costumava entrar de cada vez.

Então, da mesma maneira repentina como começou, o jorro humano cessou, e a fronteira se fechou. Outra vez, sem nenhum motivo aparente.

Num período de seis semanas, quase setenta mil tinham sido presos e recambiados. Cerca de cem ou duzentos mil ti­nham conseguido furar o cerco e ficar, embora ninguém sou­besse o número exato. Os avós, os quatro tios de Wu Óculos e suas famílias eram alguns desses, dezessete pessoas ao todo, e desde a sua chegada estavam vivendo numa área de recoloni­zação bem acima de Aberdeen. Wu Óculos ajeitara tudo para eles. A terra era de propriedade da família Chen da Casa Nobre desde o começo da colônia, e, até recentemente, não tinha valor algum. Agora tinha valor. Os Chens a alugavam, metro por metro, a quem estivesse disposto a pagar. Wu Óculos alugara, agradecido, um pedaço de seis por três metros, a três HK o metro por mês, e, ao longo dos meses, ajudara a família a catar o material para fazer duas moradias, que, até a chegada da chuva, tinham se mantido secas. Havia uma bica de água para cem famílias. Não havia esgotos, nem eletricidade, mas a cidade de favelados florescia e era muito organizada, na sua maior parte. Um dos tios já tinha uma pequena fábrica de flores de plástico num barraco que alugava a quatro HK e meio o metro por mês; um pouco mais abaixo na encosta, outro alugara uma barraca no mercado para vender bolinhos de arroz temperados e mingau de arroz à moda da sua aldeia de Ning-tok. Todos os dezessete estavam trabalhando... agora havia dezoito bocas para alimentar, contando com o bebê que nascera na semana anterior. Até mesmo as crianças de dois anos tinham tarefas simples a executar, separando as pétalas para as flores de plás­tico que os jovens e os velhos faziam, e que davam a muitos dos moradores da favela o dinheiro para comprar comida, e para o jogo.

"É", pensou Wu Óculos fervorosamente, "que todos os deuses me ajudem a ganhar um pouco do dinheiro da recom­pensa pela captura dos Lobisomens até o sábado, a tempo para as corridas, para apostar em Pilot Fish, o garanhão negro que, segundo todas as previsões, vai ser definitivamente o vence­dor. "

Abafou um bocejo enquanto descia descalço por um dos becos estreitos e sinuosos na zona de recolonização, ao lado da sobrinha de seis anos, também descalça. A chuva embaçava as lentes grossas dos seus óculos. Ambos andavam com cuidado, evitando pisar nos cacos de vidro e peças enferrujadas que esta­vam sempre presentes. Às vezes, a lama chegava à altura dos tornozelos. Ambos usavam as calças enroladas até o alto, e ela tinha na cabeça um chapelão de palha, de cule, que a engolia. O chapéu dele era comum, e de segunda mão, como suas rou­pas, e não fazia parte do uniforme da polícia. Eram as únicas roupas que possuía, com exceção dos sapatos, que levava num saco de plástico sob a capa de chuva, para protegê-los. Ao pular por cima de um buraco malcheiroso, quase escorregou e caiu.

— Fodam-se todos os perigos — xingou, contente por não morar ali e porque o quarto alugado que dividia com a mãe, perto da delegacia de Aberdeen Leste, era seco e não estava sujeito aos caprichos dos deuses dos climas. "Graças a todos os deuses que não tenho que fazer esta viagem todos os dias. Minhas roupas ficariam destruídas, e então todo o meu futuro estaria em perigo, porque o Serviço Especial de Infor­mações admira o capricho e a pontualidade. Oh, deuses, que este seja o meu grande dia!"

Sentiu uma onda de cansaço. Estava de cabeça baixa, e sentia a chuva escorrer-lhe pelo pescoço. Estivera de serviço a noite toda. Quando saíra da delegacia, bem cedinho, disseram-lhe que iam dar uma batida na casa da velha amah, Ah Tam, aquela ligada aos Lobisomens, que ele descobrira e seguira até o seu covil. Então, ele dissera que faria uma visita ao seu avô, que ficara doente e estava quase morrendo, e voltaria a tempo para a batida.

Deu uma olhada no relógio. Ainda havia tempo de sobra para caminhar o quilômetro e meio até a delegacia. Tranqüili­zado, continuou o seu caminho, passou por um monte de lixo e entrou num beco maior, que rodeava o bueiro. O bueiro tinha um metro e meio de profundidade e servia normalmente de esgoto, lavanderia ou pia, dependendo da quantidade de água ali existente. Agora estava transbordando, o excesso de água aumentando o sofrimento dos moradores mais abaixo.

— Tome cuidado, Quinta Sobrinha — disse.

— Sim, claro, Sexto Tio. Posso ir até o fim com o senhor? — perguntou ela, alegremente.

— Só até a barraquinha de doces. Cuidado! Olhe, mais um caco de vidro!

— O Honorável Avô vai morrer?

— Cabe aos deuses decidir. A hora da morte é decisão dos deuses, não nossa, portanto, para que nos preocuparmos, heya?

— É — concordou ela, com ar importante. — É, os deu­ses são os deuses.

"Que todos os deuses afaguem o Honorável Avô e tornem suave o resto da sua vida", rezou ele, depois acrescentou, com cuidado, por medida de segurança:

— Ave Maria Mãe e José, abençoem o velho Avô. "Quem sabe se o Deus cristão, ou mesmo os deuses reais existem?", perguntou-se. "Melhor apaziguar a todos, se possí­vel. Não custa nada. Talvez ajudem. Talvez estejam dormindo, ou tenham saído para almoçar, mas tudo bem. A vida é a vida, os deuses são os deuses, o dinheiro é o dinheiro, as leis têm que ser obedecidas, e hoje tenho que ser muito vivo. "

Na noite anterior, ele saíra com o sargento comissionado Mok e o Cobra. Fora a primeira vez que eles o levaram numa de suas batidas especiais. Haviam invadido três antros de jogo, mas, curiosamente, haviam deixado em paz cinco outros, muito mais prósperos, embora estivessem localizados no mesmo andar do mesmo cortiço, e ele pudesse ouvir o barulho das pedras de mah-jong e os gritos dos crupiês de fan-tan.

"Dew neh loh moh", pensou, "quem me dera poder ficar com parte do suborno!" Mas logo acrescentou mentalmente: "Afaste-se de mim, Satã! Prefiro muito mais fazer parte do sei, porque então terei um emprego seguro e importante para o resto da vida, conhecerei todo tipo de segredos, e esses segredos me protegerão, e então, quando me aposentar, os se­gredos farão de mim um homem rico".

Viraram uma esquina e chegaram à barraquinha de doces. Ele pechinchou com a velha desdentada por um minuto ou dois, depois pagou-lhe duas moedas de cobre, e ela deu à garo­tinha um bolinho de arroz-doce e uma boa porção de pedaços de casca de laranja seca ao sol, puxa-puxa, agridoces e cheirosos, enrolados num pedaço de jornal.

— Obrigada, Sexto Tio — disse a garotinha, abrindo um sorriso sob o chapelão.

— Espero que goste, Quinta Sobrinha — retrucou ele, cheio de carinho, satisfeito porque ela era bonita. "Se os deuses nos favorecerem, ela vai crescer e ser muito bonita", pensou, contente, "e então poderemos vender a virgindade dela por uma boa quantia, e depois os seus serviços, lucrativamente, para o bem da família. "

"Wu Óculos sentia-se muito orgulhoso por ter podido fazer tanto por esse ramo da família, nas horas de dificuldade. "To­dos seguros e alimentados, e agora a minha porcentagem da fábrica de flores de plástico do Nono Tio, negociada tão pacien­temente, pagará, com sorte, o meu aluguel daqui a um ou dois anos, e posso comer um bom mingau de arroz de Ning-tok grátis, três vezes por semana, o que me ajuda a poupar dinhei­ro, e evita que arranje dinheiro de suborno, tão fácil de obter, mas que arruinaria o meu futuro.

"Não. Que todos os deuses sejam testemunhas! Não vou aceitar dinheiro de suborno enquanto houver chance de entrar para o sei, mas não é sensato pagarem-nos tão pouco. Recebo trezentos e vinte HK por mês, depois de dois anos de serviço. Ayeeyah, é impossível compreender os bárbaros!"

— Agora, trate de ir andando, que eu volto amanhã — disse ele. — Cuidado onde pisa.

— Claro, Tio!

Ele se inclinou e ela o abraçou. Ele retribuiu o abraço e foi embora. Ela foi subindo a colina, com parte do bolinho de arroz já na boca, o gosto adocicado e enjoativo do doce de laranja, tão delicioso!

A chuva era forte e monótona. A água que extravasava do bueiro inundado carregava entulho pela trilha entre os bar­racos, mas ela subia a trilha com cuidado, desviando-se do entu­lho, fascinada pela corrente. Havia lugares em que a água era funda, e ali, onde o caminho era mais íngreme, parecia quase uma cascata. Sem aviso prévio, uma lata de cinco galões, com as beiradas irregulares, veio descendo com violência na direção dela, deixando de atingi-la por pouco e indo furar uma parede de papelão.

Ela ficou paralisada de susto.

— Vá andando, não há nada para roubar aqui! — berrou para ela um morador furioso. — Vá para casa! Não devia estar aqui. Vá para casa!

— Sim... sim — disse ela, e começou a andar depressa, a subida agora mais difícil. Nesse momento, a terra logo abaixo dela cedeu, e começou o deslizamento. Centenas de toneladas de lama, pedra e terra desataram a deslizar, enterrando tudo em sua descida. Em questão de segundos, descera mais de cin­qüenta metros, destruindo as estruturas frágeis, dispersando homens, mulheres e crianças, enterrando alguns, mutilando outros, abrindo uma clareira lamacenta onde antes era a aldeia.

Então parou. Tão subitamente como começara.

Em toda a encosta fez-se um grande silêncio, quebrado apenas pelo ruído da chuva. Abruptamente, o silêncio cessou. Começaram os gritos e pedidos de socorro. Mulheres e crianças saíram correndo dos seus barracos poupados, abençoando os deuses pela sua segurança, aumentando o pandemônio e os la­mentos de socorro. Amigos ajudavam amigos, vizinhos ajuda­vam vizinhos, mães procuravam os filhos, filhos, os pais, mas a grande maioria ficava apenas parada na chuva, abençoando a sua sorte por ter escapado do deslizamento.

A garotinha ainda se equilibrava na beirada do abismo onde a terra desabara. Olhava para dentro dele, incrédula. Uns três metros abaixo dos seus pés havia agora pontas agudas de rochas e lama, morte onde segundos antes era terra firme. A beirada estava desmoronando, e pequenas avalanches de lama e pedra desciam para dentro do abismo, ajudadas pelas águas que transbordavam do bueiro. Sentiu que escorregava. Com cuidado, deu um passo para trás; porém, um outro tanto de terra cedeu. Então ela parou, apavorada, os restos do bolinho de arroz ainda firmemente seguros nas mãos. Enterrou os dedos dos pés no solo macio, para tentar manter o equilíbrio.

— Não se mexa! — gritou um velho.

— Afaste-se da beirada! — berrou outro, e os demais olhavam, esperavam e prendiam a respiração para ver o que os deuses decidiriam.

Então uma lasca de dez metros da beirada desabou, e caiu dentro do buraco, levando consigo a garotinha. Ela ficou enter­rada, mas só um pouquinho. Até os joelhos. Certificou-se de que seu bolinho de arroz estava seguro, e só então desatou a chorar.

 

                  11h30m

O carro de polícia do superintendente Armstrong abriu caminho entre as multidões iradas que lotavam a rua diante do Ho-Pak, transbordando das calçadas, dirigindo-se para a delegacia de Aberdeen Leste. Outras turbas congestionavam as ruas diante de todos os outros bancos da área, pequenos ou grandes (até mesmo o Victoria, que ficava do outro lado da rua, em frente ao Ho-Pak), todo mundo esperando impaciente para sacar seu dinheiro.

Por toda parte a atmosfera estava volátil e perigosa, com a chuva torrencial aumentando a tensão. As barricadas erguidas para controlar a entrada e a saída das pessoas nos bancos eram guarnecidas por policiais igualmente irritados e ansiosos — vinte para mil pessoas, desarmados, exceto pelos cassetetes.

— Graças a Deus pela chuva — resmungou Armstrong.

— Senhor? — perguntou o motorista, o barulho irritante dos limpadores de pára-brisa mal adaptados abafando a sua voz.

Armstrong repetiu em voz mais alta, e acrescentou:

— Se estivesse quente e úmido, toda esta porra de lugar estaria pegando em armas. A chuva é uma dádiva dos céus.

— Sim, senhor. É, sim.

Dali a pouco o carro parou diante da delegacia. Ele en­trou, apressado. O inspetor-chefe Donald C. C. Smyth estava à sua espera, com o braço esquerdo na tipóia.

— Desculpe ter demorado tanto — disse Armstrong. — O maldito tráfego está com um engarrafamento de quilômetros.

— Não faz mal. Desculpe, mas estou com pouca gente, meu velho. Aberdeen Oeste está colaborando, e a Central tam­bém, mas também têm lá os seus problemas. Merda de bancos! Teremos que nos contentar com um tira nos fundos — já está em posição, para o caso de algum dos bandidos querer levantar vôo — e nós na frente, com Wu Óculos.

Smyth contou seu plano a Armstrong.

— Ótimo.

— Vamos indo? Não quero ficar afastado muito tempo.

— Claro. A barra está pesada, aí fora.

— Espero que a porra da chuva dure até que a porra dos bancos cerrem as portas ou paguem até o último tostão. Você sacou o que tinha?

— Está brincando! A mixaria que tenho não faz diferen­ça! — Armstrong esticou-se, com as costas doendo. — Ah Tam está no apartamento?

— Ao que nos consta. A família para a qual trabalha chama-se Ch'ung. Ele é lixeiro. Um dos bandidos também pode estar lá, portanto teremos que entrar rapidamente. Tenho a permissão do comissário para levar um revólver. Quer um, também?

— Não. Não, obrigado. Vamos indo, então?

Smyth era mais baixo do que Armstrong, mas forte, e a farda caía-lhe bem. Desajeitadamente, por causa do braço, pe­gou a capa de chuva e começou a sair na frente, depois se deteve.

— Pombas, esqueci! Desculpe, o sei... Brian Kwok tele­fonou, pediu que ligasse para ele. Quer usar a minha sala?

— Obrigado. Tem café por aí? Bem que eu gostaria de uma xícara.

— Num instante.

A sala era arrumada, eficiente e simples, embora Arm­strong notasse as cadeiras, a mesa, o rádio e atavios dispen­diosos.

— Presentes de fregueses agradecidos — disse Smyth, despreocupadamente. — Vou deixá-lo a sós por uns dois mi­nutos.

Armstrong sacudiu a cabeça e começou a discar.

— Sim, Brian?

— Oh, alô, Robert! Como vão as coisas? O Velho man­dou que a trouxessem para o QG e não a interrogassem em Aberdeen Leste.

— Está certo. Estamos de saída. Qg, hem? Qual o mo­tivo?

— Não me contou, mas está de bom humor, hoje. Parece que temos um 16/2, logo mais à noite.

O interesse de Armstrong aumentou. Um 16/2, em ter­mos de sei, queria dizer que haviam descoberto um aparelho inimigo e iam prender o espião ou espiões.

— Algo a ver com o nosso problema? — perguntou cau­telosamente, referindo-se à Sevrin.

— Talvez. — Fez-se uma pausa. — Lembra-se do que lhe falei sobre o nosso toupeira? Estou mais convencido do que nunca de que estou certo.

Brian Kwok começou a falar em cantonense, usando frases de duplo sentido e alusões indiretas, para o caso de estar sendo ouvido. Armstrong escutava com crescente preocupação, en­quanto seu melhor amigo lhe contava o que acontecera no hipódromo, a conversa longa e particular entre Crosse e Suslev.

— Mas isso não quer dizer nada. Crosse conhece o sacana. Eu mesmo já bebi com ele uma ou duas vezes, sondando-o.

— Talvez. Mas se Crosse é o nosso homem, seria bem típico dele ter um encontro em público. Heya?

Armstrong sentiu-se doente de apreensão.

— Agora não é hora, amigão — falou. — Logo que eu chegar ao QG, bateremos um papo. Quem sabe almoçamos jun­tos e conversamos.

Outra pausa.

— O Velho quer que se apresente a ele logo que trouxer a amah.

— Está bem. Até logo.

Armstrong desligou o aparelho. Smyth veio voltando. Pen­sativo, passou-lhe a xícara de café.

— Más notícias?

— Nada exceto encrenca — disse Armstrong, com aze­dume. — Sempre uma porra de encrenca. — Sorveu o seu café. A xícara era de excelente porcelana, e o café, fresco, caro e delicioso. — Mas que café bom! Muito bom. Crosse quer que eu a leve diretamente para o QG, não a traga para cá.

As sobrancelhas de Smyth ergueram-se bem alto.

— Pombas, o que há de tão importante sobre uma bruxa amah? — perguntou, bruscamente. — Está na minha jurisdi...

— Porra, e eu lá sei! Estou me cagan... — O homem maior interrompeu a sua explosão. — Desculpe, quase não tenho dormido nos últimos dias. Não sou eu quem dá as ordens. Crosse mandou levá-la para o QG. Sem explicação. Ele pode passar por cima de qualquer um. O sei passa por cima de qual­quer um, sabe como é!

— Filho da mãe arrogante! — Smyth acabou o seu café. — Graças a Deus não sou do sei. Detestaria ter que lidar com aquele sacana todos os dias.

— Não sou do sei, e mesmo assim ele me cria problemas.

— Foi sobre o nosso toupeira? Armstrong ergueu os olhos para ele.

— Que toupeira? Smyth soltou uma risada.

— Ora, qual é! Corre um boato entre os Dragões de que nossos intrépidos líderes foram aconselhados a descobrir o sacana bem depressinha. Parece que o ministro está caindo na pele até do governador! Londres está tão puta da vida que está mandando para cá o chefe da MI-6... imagino que saiba que o Sinders chega amanhã no vôo da boac. Armstrong soltou um suspiro.

— Que diabo, onde conseguem todas essas informações?

— Telefonistas, amahs, varredores de rua... que impor­ta! Mas pode apostar, meu velho, que pelo menos um deles sabe tudo. Conhece o Sinders?

— Não, nunca o vi. — Armstrong sorvia o seu café, sa­boreando a qualidade, o gosto forte que o revigorava. — Se eles sabem tudo, quem é o toupeira?

Depois de uma pausa, Smyth falou:

— Esse tipo de informação sai caro. Quer que pergunte o preço?

— Sim, por favor. — O grandalhão pousou a xícara na mesa. — O toupeira não o incomoda, não é?

— Não, nem um pouco. Estou fazendo o meu trabalho, muito obrigado, e não faz parte do meu trabalho me preocupar com agentes infiltrados ou tentar pegá-los. No momento em que vocês pegarem o sacana e o tirarem de circulação, haverá outro sacana subornado no lugar dele, e nós faremos o mesmo com eles, sejam eles quem forem. Nesse meio tempo, se não fosse por essa maldita confusão do Ho-Pak, esta delegacia ain­da seria a mais bem dirigida, e minha área de Aberdeen Leste a mais tranqüila da colônia, e é só isso o que me interessa. — Smyth ofereceu um cigarro de uma cara cigarreira de ouro. — Fuma?

— Não, obrigado. Parei.

— Muito bem. Não, contanto que me deixem em paz até me aposentar, daqui a quatro anos, tudo vai bem no mundo. — Acendeu o cigarro com um isqueiro de ouro, e Armstrong odiou-o ainda mais um pouco. — A propósito, acho que é bo­bagem sua não aceitar o envelope deixado na sua mesa, men­salmente.

— Não diga! — falou Armstrong, a fisionomia endu­recendo.

— Digo. Não precisa fazer nada para ganhá-lo. Nada mes­mo. Garantido.

— Mas depois que a gente aceita um deles, fica no mato sem cachorro.

— Não. Aqui é a China, e não é a mesma coisa. — Os olhos azuis de Smyth também se tornaram mais duros. — Mas, afinal, você sabe disso melhor do que eu,

— Um dos seus "amigos" lhe pediu para me dar o re­cado?

Smyth deu de ombros.

— Ouvi outro boato. Sua parte da recompensa do Dragão por ter encontrado John Chen será de quarenta mil HK e...

— Não o encontrei! — exclamou Armstrong, com a voz áspera.

— Mesmo assim, estará num envelope na sua mesa, logo mais à noite. Foi o que ouvi dizer. Boatos, é claro.

A mente de Armstrong digeria a informação. Os quarenta mil HK cobririam exata e lindamente a sua dívida mais pre­mente, e de há muito vencida, que ele tinha que saldar até segunda-feira, referente a perdas na Bolsa. Tinham-lhe dito: "Sabe como é, meu velho, precisa mesmo pagar. Já faz mais de um ano e temos as nossas regras. Embora não o esteja pres­sionando, preciso sem falta resolver esse assunto... "

"Smyth tem razão de novo", pensou com amargura, "os filhos da mãe sabem de tudo, e seria tão fácil saber quais as minhas dívidas. Como é, vou aceitar ou não?"

— Só quarenta? — perguntou, com um sorriso retorcido.

— Imagino que seja o bastante para cobrir o seu proble­ma mais premente — disse Smyth, com o mesmo olhar duro. — Não é?

Armstrong não estava zangado porque o Cobra sabia tanto sobre sua vida particular. "Sei igualmente muito sobre a dele, embora não saiba quanto tem, ou onde está guardado. Mas seria fácil descobrir, seria fácil dobrá-lo, se eu quisesse. Muito fácil. "

— Obrigado pelo café. É o melhor que já tomei em mui­tos anos. Vamos indo?

Desajeitadamente, Smyth vestiu a capa de chuva do uni­forme sobre a farda bem-cortada, ajeitou o braço na tipóia, pôs o quepe no ângulo atrevido de costume e saiu na frente. Enquanto estavam a caminho, Armstrong fez Wu repetir o que tinha acontecido, o que fora dito pelo jovem que afirmava ser um dos Lobisomens, e depois pela velha amah.

— Muito bem, Wu — disse Armstrong, quando o rapaz acabou. — Um excelente trabalho de vigilância e investigação. Excelente. O inspetor-chefe Smyth me falou que você quer entrar para o sei.

— Sim, senhor.

— Por quê?

— É importante, um setor importante do Departamento Especial, senhor. Sempre me interessei pela segurança, por manter nossos inimigos longe e a colônia, segura, e acho que seria muito interessante e importante. Gostaria de ajudar, se pudesse, senhor.

Momentaneamente, ficaram de ouvido atento ao gemido distante dos carros de bombeiro que vinha da colina acima.

— Algum filho da mãe cretino derrubou mais um foga­reiro — comentou Smyth, com azedume. — Pombas, graças a Deus pela chuva!

— É — concordou Armstrong, depois virou-se para Wu. — Se os fatos confirmarem o que você relatou, indicarei o seu nome para a de ou para o sei.

Wu Óculos não pôde conter o amplo sorriso.

— Sim, senhor. Obrigado, senhor. Ah Tam é mesmo da minha aldeia. É sim, senhor.

Dobraram num beco. Multidões de fregueses, barraqueiros e lojistas debaixo de guarda-chuvas ou toldos de lona obser­varam-nos sombria e desconfiadamente, pois Smyth era o quai loh mais conhecido e temido em Aberdeen.

— É ali, senhor — sussurrou Wu.

Conforme o combinado, Smyth parou casualmente na bar­raca, do lado de fora da porta de entrada, olhando ostensiva­mente os legumes, o que deixou o proprietário imediatamente em choque. Armstrong e Wu passaram pela entrada, depois viraram-se abruptamente, e os três convergiram para o mesmo ponto. Subiram as escadas rapidamente, enquanto os dois poli­ciais fardados que os seguiam a uma distância segura se apro­ximaram para cobrir a porta da entrada. Logo que a passagem estreita ficou segura, um deles subiu depressa um beco ainda menor, e deu a volta para se certificar de que o detetive à pai­sana ainda estava em posição, vigiando a única saída existente. Depois voltou correndo para reforçar as barricadas pouco guarnecidas diante do Victoria.

Por dentro o cortiço era tão esquálido e sujo quanto por fora, com entulho e lixo em cada patamar. Smyth ia na frente. Parou no terceiro patamar, desabotoou o coldre do revólver e se afastou para o lado. Sem hesitar, Armstrong jogou o corpo contra a porta frágil, arrombou-a e entrou rapidamente. Smyth seguiu-o de imediato, e Wu Óculos ficou de guar­da na porta, nervoso. A sala era suja, com sofás e poltro­nas velhos, cortinas velhas e encardidas, o cheiro adocicado e rançoso de ópio e óleo de cozinha no ar. Uma matrona corpu­lenta de meia-idade fitou-os, boquiaberta, e largou o jornal. Os dois homens se dirigiram para as portas internas. Smyth abriu uma delas e deparou com um quarto de dormir desmazelado, a outra revelou um banheiro e uma privada sujos, a terceira outro quarto atulhado com catres para quatro pessoas, ainda por arrumar. Armstrong abriu a última porta, que dava para uma cozinha minúscula, atulhada, nojenta, onde Ah Tam se debruçava sobre uma pilha de louça suja na pia encardida. Ela o fitou, assustada. Às suas costas, outra porta. Imediatamente, ele se dirigiu para ela e a escancarou. Também estava vazio. Era mais um armário do que um quarto, sem janelas, com um respiradouro aberto na parede e espaço suficiente apenas para encaixar o pequeno catre de cordas, sem colchão, e uma cômoda desconjuntada.

Ele voltou para a sala, Ah Tam atrás dele, arrastando os pés. A respiração dele era normal, e seu coração estava se acalmando. A busca levara apenas alguns segundos. Smyth pegou os papéis e disse, meigamente:

— Lamento interromper, madame, mas temos um mandado de busca.

— Wat?

— Traduza para nós, Wu — ordenou Smyth, e imediatamente o jovem policial repetiu o que fora dito, e, como fora previamente combinado, começou a agir como se fosse o intérprete de dois policiais quai loh ignorantes que não sabiam falar cantonense.

A mulher ficou de queixo caído.

— De busca? — esganiçou-se. — Para revistar o quê? Nós aqui obedecemos a lei! Meu marido trabalha para o governo e tem amigos importantes, e se vocês estão procurando a escola de jogatina, não temos nada a ver com ela, e fica no quarto andar, nos fundos, e também não sabemos nada das piranhas fedorentas que se instalaram no 16 e que trabalham até altas horas, fazendo com que o resto de nós, gente civi...

— Chega! — falou Wu, bruscamente. — Somos policiais tratando de assuntos importantes! Esses senhores da polícia são importantes! Você é a mulher de Ch'ung, o lixeiro?

— Sou — respondeu, carrancuda. — O que quer da gente? Não fizemos na...

— Chega! — interrompeu Armstrong, em inglês, com arrogância deliberada. — Aquela é Ah Tam?

— Você! É Ah Tam?

— Quem, eu? Wat? — disse a velha amah, puxando nervosa o avental, sem reconhecer Wu.

— Então é Ah Tam! Está presa.

Ah Tam ficou branca, e a mulher de meia-idade soltou um palavrão e disse, atropeladamente:

— Ah! Então estão atrás de você! Hum, não sabemos nada sobre ela, exceto que a tiramos das ruas há alguns meses e lhe demos casa e um sala...

— Wu, diga a ela para calar a boca!

Ele disse, com maus modos. Ela obedeceu, ainda mais carrancuda.

— Esses senhores querem saber se tem mais alguém aqui.

— Claro que não. São cegos? Não violaram a minha casa, como assassinos, e viram com seus próprios olhos? — disse a megera, com truculência. — Não sei nada de nada.

— Ah Tam! Esses senhores querem saber onde fica o seu quarto.

A amah conseguiu falar, e começou a atropelar as palavras:

— O que quer comigo, Honorável Policial? Não fiz nada, não entrei ilegalmente, tenho meus documentos desde o ano passado. Não fiz nada. Sou uma pessoa civilizada, cumpridora das leis, que trabalhou a vida to...

— Onde fica o seu quarto? A mulher mais moça apontou.

— Ali — disse, na sua voz esganiçada e irritante —, onde mais poderia ficar? Claro que fica ali, depois da cozinha! Esses demônios estrangeiros não têm juízo? Em que outro lugar morariam as criadas? E você, seu verme velho! Metendo gente honesta em encrenca! O que foi que ela fez? Se roubou legumes, não tenho nada a ver com isso!

— Quieta, ou a levaremos para o nosso quartel-general, e na certa o juiz vai querer mantê-la sob custódia! Quieta!

A mulher ia começar a xingar, mas se conteve.

— Bem, agora... — começou a dizer Armstrong. Então, notou que vários chineses curiosos espiavam do patamar para dentro da sala. Ele os fitou, deu um passo repentino na direção deles, e eles sumiram. Fechou a porta, disfarçando o seu divertimento. — Agora, pergunte às duas o que sabem sobre os Lobisomens.

A mulher fitou Wu, boquiaberta. Ah Tam ficou ainda mais cinzenta.

— Quem, eu? Lobisomens? Nada! Por que iria saber sobre aqueles seqüestradores nojentos? O que têm a ver comiGo? Nada, absolutamente nada!

— E quanto a você, Ah Tam?

— Eu? Absolutamente nada — disse, em tom queixoso. — Sou uma amah respeitável, que faz o seu serviço, e nada mais!

Wu traduziu as respostas delas. Os dois homens notaram que a tradução era precisa, rápida e fácil. Os dois eram pacientes, e continuaram a fazer o joguinho que já tinham feito tantas vezes antes.

— Diga a ela que é melhor falar a verdade, e depressa

— falou Armstrong, olhando para ela de cara fechada. Não tinha raiva dela, e nem Smyth tinha. Só queriam a verdade. A verdade poderia levar à identidade dos Lobisomens, e quanto mais cedo os bandidos fossem enforcados por assassinato, mais fácil seria controlar Hong Kong, e mais cedo os cidadãos cumpridores da lei, incluindo eles próprios, poderiam ir tratar da sua vida, ou dos seus passatempos — ganhar dinheiro, andar com mulheres, apostar nas corridas. "É", pensou Armstrong, com pena da velha. "Vinte dólares contra um grampo quebrado como a megera não sabe de nada, mas Ah Tam sabe mais do que jamais nos contará. " — Quero a verdade. Diga-lhe isso!

— Verdade? Que verdade, Honorável Senhor? Como poderia esta pobre coitada ser...

Armstrong ergueu a mão dramaticamente.

— Chega!

Esse era outro sinal combinado. Imediatamente Wu Óculos começou a falar no dialeto de Ning-tok, que sabia que os outros dois não compreendiam.

— Irmã Mais Velha, sugiro que fale rápida e claramente. Já sabemos de tudo!

Ah Tam fitava-o, boquiaberta. Possuía apenas dois dentes tortos na arcada inferior.

— Hem, Irmão Mais Moço? — replicou no mesmo dia­leto, desprevenida. — O que quer de mim?

— A verdade! Sei tudo a seu respeito! Ela olhou para ele, sem reconhecê-lo.

— Que verdade? Nunca o vi mais gordo!

— Não se lembra de mim? No mercado de aves? Você me ajudou a comprar uma galinha, e depois tomamos chá jun­tos. Ontem. Não se lembra? Contou-me sobre os Lobisomens, disse que iam dar-lhe uma enorme recompensa...

Os três viram o lampejo momentâneo nos olhos dela.

— Lobisomens? — começou, em tom de queixume. — Impossível! Foi outra pessoa. Você me acusa falsamente. Diga aos Nobres Senhores que nunca o vi...

— Cale a boca, seu bagulho velho! — disse Wu, brusca­mente, e soltou um monte de palavrões. — Você trabalhava para Wu Ting-top, e sua patroa se chamava Fang-ling. Ela morreu há três anos, e eles eram donos da farmácia da encru­zilhada! Eu mesmo conheço bem o local!

— Mentiras... mentiras...

— Diz que é tudo mentira, senhor.

— Ótimo. Diga-lhe que vamos levá-la para a delegacia. Lá, ela falará.

Ah Tam começou a tremer.

— Tortura? Vão torturar uma velha? Ai, ai, ai...

— Quando é que esse Lobisomem vai voltar? À tarde?

— Ai, ai, ai... não sei... disse que viria me ver, mas o ladrão não voltou mais. Emprestei-lhe cinco dólares para ir para casa e...

— Onde era a casa dele?

— Hem? Quem? Oh, ele... falou que era parente de um parente e... não me lembro. Acho que falou em North Point... não me lembro de nada.

Armstrong e Smyth esperaram, sondaram, e logo ficou evidente que a velha pouco sabia, embora se esquivasse às son­dagens, enfeitando cada vez mais as mentiras.

— Vamos levá-la, de qualquer modo — disse Armstrong. Smyth concordou.

— Dá para você segurar as pontas até que eu mande uns dois homens? Acho que já está na hora de eu voltar.

— Claro. Obrigado.

Ele se retirou. Armstrong mandou Wu ordenar às duas mulheres que ficassem sentadas e caladas, enquanto ele fazia a revista. Elas obedeceram, assustadas. Ele entrou na cozinha e fechou a porta. Imediatamente, Ah Tam começou a puxar a sua longa trança suja.

— Jovem Irmão — sussurrou astutamente, sabendo que a patroa não entendia o dialeto de Ning-tok —, não sou culpa­da de nada. Só conheci o jovem demônio, como conheci você. Não fiz nada. As pessoas da mesma aldeia devem se manter unidas, heya? Um homem bonitão como você precisa de dinhei­ro... para as garotas, ou para a mulher. É casado, Honorável Irmão Mais Moço?

— Não, Irmã Mais Velha — disse Wu cortesmente, dando-lhe corda, como mandaram que desse.

Armstrong estava na porta do quartinho de Ah Tam, per­guntando-se pela milionésima vez por que os chineses tratavam seus criados tão mal, por que os criados aceitavam trabalhar em condições tão miseráveis e nojentas, por que dormiam, moravam e prestavam serviços leais durante uma vida inteira, em troca de uma ninharia, pouco respeito e nenhum amor.

Lembrava-se de ter perguntado isso ao pai. O velho poli­cial dissera:

— Não sei, meu rapaz, mas acho que é porque eles se tornam parte da família. Geralmente, é um serviço vitalício. Geralmente, a família deles também faz parte do trato. O cria­do se integra, e o how chew, ou seja, os aspectos positivos, é considerável. Não é preciso dizer que todos os criados se apos­sam de uma parte do dinheiro das despesas da casa, da comida, das bebidas, do material de limpeza, de tudo o que houver, não importa que seja de valor ou não, naturalmente com o conhe­cimento e aprovação integrais dos patrões, desde que isso seja mantido ao nível costumeiro... caso contrário, como poderiam pagar-lhes tão pouco, se eles não pudessem ganhar por fora?

"Talvez seja essa a resposta", pensou Armstrong. "É ver­dade que antes de um chinês aceitar um emprego, qualquer emprego, terá considerado o how chew do emprego com muito cuidado, e o valor do how chew é sempre o fator decisivo. "

O quarto fedia, e ele tentou ignorar o cheiro. Borrifos de água da chuva entravam pelo respiradouro, o barulho da chuva ainda forte, a parede inteira mofada e manchada por mil tem­porais. Ele fez uma revista metódica e cuidadosa, todos os sen­tidos aguçados. Havia pouco espaço onde esconder alguma coisa. A cama e os lençóis estavam relativamente limpos, em­bora houvesse muitos percevejos nos cantos do catre. Nada havia debaixo da cama, salvo um urinol lascado e malcheiroso e uma mala vazia. Umas velhas sacolas e uma bolsa a tiracolo nada revelaram. A cômoda continha umas poucas roupas, algu­mas jóias baratas, uma pulseira de jade de qualidade inferior. Escondida sob algumas roupas havia uma bolsa bordada de qualidade muito melhor. Dentro dela havia algumas cartas. Um recorte de jornal. E duas fotos.

O coração dele pareceu parar de bater.

Depois de um momento, foi para a cozinha, onde havia luz melhor, e olhou de novo para as fotos, mas não se havia enganado. Leu o recorte, com a cabeça tonta. Havia uma data no recorte e uma data numa das fotos.

No porão de estrutura semelhante a um favo de mel do QG da polícia, Ah Tam sentava-se numa cadeira dura e sem costas no centro de uma grande sala à prova de som, forte­mente iluminada e pintada de branco, paredes brancas, teto branco, piso branco e uma única porta branca que parecia fazer parte da parede. Até mesmo a cadeira era branca. Ela estava sozinha, apavorada, e agora falava livremente.

— Bem, e o que sabe sobre o bárbaro que aparece no fundo da foto? — perguntou a voz seca e metálica de Wu, no dialeto de Ning-tok, vinda de um alto-falante oculto.

— Já contei e contei e não há... não sei, senhor — choramingou ela. — Quero ir para casa... já lhe contei, mal vi o demônio estrangeiro... ele só nos visitou essa única vez, ao que eu saiba, senhor... Não me lembro; faz anos, oh, posso ir agora? Já contei tudo, tudo...

Armstrong a espiava pelo falso espelho da sala de observação pouco iluminada, com Wu ao seu lado. Os dois ho­mens estavam constrangidos e sérios. O suor orlava a testa de Wu, embora a sala fosse agradavelmente refrigerada. Um gra­vador girava, silencioso. Havia microfones e um monte de equipamentos eletrônicos às costas deles.

— Acho que ela já nos contou tudo o que precisamos saber — disse Armstrong, com pena dela.

— Sim, senhor — disse Wu, não deixando o seu nervo­sismo transparecer na voz. Era a primeira vez que fazia parte de um interrogatório do sei. Estava assustado e excitado, e doía-lhe a cabeça.

— Pergunte-lhe novamente onde arranjou a bolsa.

Wu fez o que ele mandou. Sua voz estava calma e auto­ritária.

— Mas já lhe contei inúmeras vezes — choramingou a velha. — Por favor, posso ir...

— Conte-nos mais uma vez, e depois poderá ir.

— Está bem... está bem... Vou contar de novo... Pertencia à minha patroa, que a deu para mim no seu leito de morte, ela me deu, juro e...

— Na última vez você falou que ela a deu na véspera de morrer. Bem, qual é a verdade?

Ansiosa, Ah Tam ficou puxando a trança suja.

— Eu... não me lembro, senhor. Estava com ela... quando morreu... não me lembro. — A velha ficou mexendo a boca, sem emitir som, depois falou aos borbotões, em tom queixoso: — Eu a peguei e escondi, depois que ela morreu, e havia aquelas velhas fotos... não tenho nenhum retrato da minha patroa, portanto peguei-as, e havia um tael de prata, também, que pagou parte da minha viagem para Hong Kong, durante a grande fome. Eu a peguei porque nenhum dos filhos, filhas ou família nojentos dela, que a odiavam e me odiavam, me teriam dado coisa alguma. Portanto, eu a peguei quando ninguém estava... ela me deu antes de morrer, e eu a escondi, é minha, ela me deu...

Ficaram ouvindo a velha falar e falar, até cansar. O reló­gio de parede marcava uma e quarenta e cinco. Há meia hora que a interrogavam.

— Por ora, chega, Wu. Vamos repetir tudo daqui a três horas, por precaução, mas acho que nos contou tudo. — Can­sadamente, Armstrong pegou um telefone e discou. — Arm­strong... pode levá-la agora de volta à cela — falou. — Cer­tifiquem-se de que esteja confortável e seja bem tratada, e mandem o médico examiná-la outra vez.

Era procedimento normal do sei examinar os prisioneiros antes e depois de cada interrogatório. O médico dissera que Ah Tam tinha o coração e a pressão de uma moça de vinte anos.

Dali a um momento viram a porta branca, quase escon­dida, se abrir. Uma policial fardada do sei fez sinal para Ah Tam, bondosamente. Ela foi saindo, andando com dificuldade. Armstrong baixou as luzes, ligou o gravador para voltar atrás a fita. Wu enxugou a testa.

— Saiu-se muito bem, Wu. Aprende depressa.

— Obrigado, senhor.

O gemido estridente do gravador aumentou. Armstrong olhava para ele em silêncio, ainda em choque. O barulho ces­sou, e o grandalhão tirou a fita da máquina.

— Sempre marcamos a data, a hora exata e a duração exata do interrogatório, e usamos um codinome para o suspei­to. Para segurança e sigilo. — Procurou um número num livro, marcou a fita, depois começou a preencher um formulário. — Fazemos a verificação comparando com este formulário. Nós o assinamos, como interrogadores, e colocamos aqui o código de Ah Tam — V-11-3. É altamente secreto, e arquivado no cofre. — Os olhos dele tornaram-se muito duros. Wu quase se enco­lheu. — Repito: É melhor você acreditar que em boca fechada não entra mosca, e que tudo no sei, tudo aquilo de que você participou hoje, é altamente secreto.

— Sim, senhor. Sim, pode contar comigo, senhor.

— É melhor também lembrar que o sei só obedece às próprias leis, ao governador e ao ministro em Londres. Somen­te. As boas leis inglesas, o jogo limpo e os códigos normais da polícia não se aplicam ao de ou ao sei... habeas-corpus, jul­gamentos públicos e apelações. Num caso do sei, não há julga­mento, nem apelação, apenas uma ordem de deportação para a RPC ou Formosa, o que for pior. Entendeu?

— Sim, senhor. Quero ser parte do sei, senhor. Portanto, pode crer em mim. Não sou de saciar a sede com veneno — assegurou-lhe Wu, doente de esperança.

— Ótimo. Durante os próximos dias, está confinado a este QG.

Wu ficou de queixo caído.

— Mas, senhor, meu... sim, senhor.

Armstrong saiu na frente, e depois fechou a porta atrás de si. Entregou a chave e o formulário a um agente do sei que estava de guarda na recepção.

— Vou guardar a fita, por enquanto. Já assinei o recibo.

— Sim, senhor.

— Quer cuidar do guarda Wu? Vai ser nosso hóspede por alguns dias. Comece a anotar os dados dele... tem sido muito, muito, muito prestimoso. Vou recomendá-lo para o sei.

— Sim, senhor.

Deixou-os, foi para o elevador e saltou no seu andar, com um gosto nauseante e adocicado de apreensão na boca. Os inter­rogatórios do sei eram um anátema para ele. Odiava-os, embo­ra fossem rápidos, eficientes e sempre apresentassem resulta­dos. Preferia a batalha de intelectos à moda antiga, o uso da paciência, e não esses instrumentos psicológicos novos e mo­dernos.

— É tudo danado de perigoso, se querem a minha opi­nião — resmungou, cruzando o corredor, o leve cheiro mofado do quartel-general nas narinas, odiando Crosse, o sei e tudo o que representavam, odiando os fatos que descobrira. Sua porta estava aberta.

— Ah, alô, Brian — disse, fechando a porta, a fisionomia sombria. Brian Kwok estava com os pés sobre a mesa, lendo pachorrentamente um dos matutinos comunistas chineses, com as vidraças molhadas de chuva às costas. — O que há de novo?

— Um artigo bem grande sobre o Irã — disse o amigo, entretido com o que lia. — Diz: "Os senhores supremos capi­talistas da CIA, em conjunção com o xá tirano, acabaram com uma revolução popular no Azerbaijão. Milhares foram mortos", etc. Não acredito em tudo isso, mas parece que a CIA e a 92a Divisão de Pára-Quedistas apagaram o estopim naquela área, e os ianques agiram certo, pelo menos uma vez.

— Não vai adiantar porra nenhuma!

Brian Kwok ergueu os olhos. Seu sorriso desapareceu.

— O que foi?

— Estou me sentindo um lixo. — Armstrong hesitou. — Mandei buscar duas cervejas, depois almoçaremos. Que tal um curry? Está bem?

— Está, mas se está se sentindo um lixo, vamos deixar o almoço para outro dia.

— Não, não é a esse tipo de "lixo", que estou me refe­rindo. É... é que detesto fazer interrogatórios brancos... isso me dá nos nervos.

Brian Kwok fitou-o.

— Interrogaram a velha amah ali? Porra, mas por quê?

— Ordens de Crosse. É um filho da mãe. Brian Kwok largou o jornal.

— É, sim, e estou certo de que tenho razão quanto a ele — falou, suavemente.

— Agora não, Brian. Quem sabe durante o almoço, mas agora não. Deus meu, mas como preciso de um drinque! Maldito Crosse e maldito sei! Não sou do sei, e no entanto ele age como se eu fosse um dos seus.

— É? Mas você vem junto no 16/2 desta noite. Pensei que tinha sido convocado.

— Ele não mencionou nada. O que é?

— Se ele não mencionou, é melhor eu ficar calado.

— Claro. — Era um procedimento normal do sei, para fins de segurança, minimizar a divulgação de informações, para que nem mesmo os agentes da mais alta confiança trabalhando no mesmo caso soubessem de todos os fatos. — Não vou ser convocado porra nenhuma — falou Armstrong, de cara feia, sabendo que, se Crosse ordenasse, não havia nada que ele pu­desse fazer. — A batida tem algo a ver com a Sevrin?

— Não sei. Espero que sim. — Brian Kwok olhou aten­tamente para ele, depois sorriu. — Anime-se, Robert, tenho boas novas para você — disse, e Armstrong notou mais uma vez como o amigo era bonitão, dentes brancos e fortes, pele dourada, linhas do queixo firmes, olhos vivos e um ar de con­fiança atrevida.

— Você é um sacana bonitão — falou. — Quais são as boas novas? Deu um aperto no amigo Um Pé Só do Restau­rante Para, e ele lhe contou quais os quatro primeiros lugares para sábado?

— Sonhador! Não, é sobre aquelas pastas que você apa­nhou ontem no escritório de Lo Dentuço, e passou para a Anticorrupção. Está lembrado? Do Ng Fotógrafo?

— Hem? Ah, sim.

— Parece que o nosso simpático convidado sino-americano, Thomas K. K. Lim, que está "em algum lugar do Brasil", é uma figura e tanto. As pastas dele são de ouro. De ouro mesmo! E em inglês, sendo assim o nosso pessoal da Anticorrupção não teve trabalho para lê-las. Você descobriu um tesouro!

— Ele tem ligações com Tsu-yan? — perguntou Arm­strong, com a atenção imediatamente desviada.

— Tem. E com muitas outras pessoas. Pessoas muito importantes, mui...

— Banastasio? Brian Kwok sorriu.

— O próprio. Isso engloba direitinho John Chen, as armas, Tsu-yan, Banastasio e a teoria de Peter Marlowe.

— Bartlett?

— Ainda não. Mas Marlowe conhece alguém que sabe muita coisa que não sabemos. Acho que devemos investigá-lo. Você o fará?

— Claro! O que mais havia nos papéis?

— Thomas K. K. Lim é católico, um sino-americano de terceira geração que é uma verdadeira pega. Coleciona todo tipo de correspondência comprometedora, cartas, bilhetes, me­morandos, etc. — Brian Kwok sorriu de novo o seu sorriso sem humor. — Nossos amigos ianques são piores do que pensá­vamos.

— Por exemplo?

— Por exemplo: uma certa família da Nova Inglaterra, muito conhecida e bem relacionada, está envolvida com certos generais, americanos e vietnamitas, na construção de diversas bases da força aérea americana, muito grandes e muito desne­cessárias, em termos muito lucrativos para eles.

— Aleluia! Nomes?

— Nomes, postos e números. Se os principais envolvidos soubessem que o amigo Thomas tem tudo documentado, um estremecimento de horror percorreria os Augustos Corredores da Fama, o Pentágono, e diversos salões caros e cheios de fumaça.

Armstrong resmungou.

— Ele é o intermediário?

— Organizador, é como chama a si mesmo. Ah, está em excelentes termos com muita gente notável. Americanos, ita­lianos, vietnamitas, chineses, os dois lados da cerca. Os papéis documentam toda a fraude. Outro plano é o de canalizar mi­lhões de fundos dos Estados Unidos em mais um programa falso de ajuda ao Vietnam. Oito milhões, para ser preciso. Um milhão já foi até pago. O amigo Lim até mesmo discutiu como o h'eung yau de um milhão vai ser desviado para a Suíça.

— Podemos fazer com que tudo isso cole?

— Oh, sim, se pegarmos Thomas K. K. Lim, e se quiser­mos fazer com que cole. Perguntei ao Crosse, mas ele apenas deu de ombros e disse que não era da nossa conta. Que se os ianques quiserem roubar o governo deles, problema deles. — Brian Kwok sorriu, mas seus olhos, não. — É uma informação valiosa, Robert. Se até mesmo parte dela tornar-se conhecida, criará uma zorra dos diabos, até bem lá em cima.

— Ele vai passar a informação adiante, ao Rosemont? Deixar "vazar"?

— Não sei. Acho que não. Numa coisa ele está certo. Não tem nada a ver conosco. Que burrice incrível anotar tudo isso! Uma burrice. Merecem se ferrar. Quando tiver um minu­to leia os papéis, são uma parada!

— Alguma ligação entre Lim e os outros bandidos? Lo Dentuço e o outro homem? Estão roubando os fundos da CARE?

— Oh, sim, devem estar, mas todas as pastas deles estão em chinês, portanto vai demorar mais para meter-lhes a mão. — Brian Kwok acrescentou, de modo estranho: — Curioso o Crosse ter farejado isso, quase como se soubesse que haveria uma ligação. — Baixou a voz. — Sei que estou certo a respeito dele.

O silêncio tornou-se mais pesado. A boca de Armstrong estava ressecada, com um gosto ruim. Desviou os olhos da chuva e olhou para Brian Kwok.

— O que é que sabe?

— Sabe o tal vice-cônsul americano, o bicha, aquele que está vendendo os vistos?

— O que é que tem?

— No mês passado Crosse jantou com ele. No aparta­mento dele.

Armstrong esfregou o rosto, nervosamente.

— Isso não prova nada. Ouça, amanhã pegamos as pastas. Amanhã o Sind...

— Talvez nós não as possamos ler.

— Pessoalmente, estou me cagando. Isso é assunto do sei, e eu sou do DIC, e é por isso...

Uma batida o interrompeu. A porta se abriu. Um garçom chinês entrou com uma bandeja e dois canecões de cerveja ge­lada, e abriu um sorriso cheio de dentes.

— Boa tarde, senhor — cumprimentou, oferecendo um deles para Brian Kwok. Entregou o outro a Armstrong, e se retirou.

— Boa sorte — falou Armstrong, odiando-se. Bebeu avi­damente, depois foi trancar a fita no seu cofre.

Brian Kwok olhou-o atentamente.

— Tem certeza de que está bem, amigão?

— Claro que sim.

— O que foi que a velha falou?

— No começo, contou um monte de mentiras, um monte. E depois, a verdade. Inteirinha. Conto para você durante o almoço, Brian. Sabe como é... a gente acaba descobrindo as mentiras, se for paciente. Estou cheio de mentiras. — Arm­strong terminou a sua cerveja. — Pombas, mas estava preci­sando disso.

— Quer a minha, também? Tome.

— Não, não, obrigado, vou tomar um uísque com soda antes do curry, e quem sabe mais outro. Acabe logo e vamos nos mandar.

Brian Kwok largou o canecão pela metade.

— Para mim já chega. — Acendeu um cigarro. — Como vai indo com a sua decisão de não fumar mais?

— Está duro. — Armstrong ficou vendo-o tragar pro­fundamente. — Alguma coisa sobre o Voranski? Ou os assas­sinos dele?

— Sumiram em pleno ar. Temos as fotos deles. Portan­to, nós os pegaremos, a não ser que estejam do outro lado da fronteira.

— Ou em Formosa.

Depois de uma pausa, Brian Kwok balançou a cabeça.

— Ou em Macau, ou na Coréia do Norte, ou no Vietnam, ou seja lá onde for. O ministro está uma arara com o Crosse por causa do Voranski, a MI-6 também, e a CIA também. O primeiro escalão da CIA em Londres está criando o maior rebu com o ministro, e ele está passando a bronca adiante para nós. É melhor que a gente agarre aqueles sacanas antes do Rosemont, senão vamos ficar desmoralizados. O Rosemont também está sendo superpressionado para entre­gar a cabeça deles. Ouvi dizer que ele pôs todos os seus ho­mens atrás deles, achando que têm algo a ver com a Sevrin, e o porta-aviões. Ele está apavorado de que haja um incidente envolvendo o porta-aviões nuclear. — Brian Kwok acrescen­tou, com a voz mais dura: — Uma cretinice dos diabos ofender a RPC, trazendo-o para cá. Aquele monstro é um convite declarado para todos os agentes na Ásia.

— Se eu fosse soviético, estaria tentando infiltrá-lo. O sei está provavelmente tentando fazer o mesmo, agora. Crosse adoraria ter um agente a bordo. Por que não? — O grandalhão ficou olhando a fumaça em espiral. — Se eu fosse nacionalista, talvez colocasse algumas minas nele, para depois culpar a RPC... ou, vice-versa, para depois culpar Chang Kai-chek.

— É o que a CIA faria para deixar todo mundo puto da vida com a China.

— Corta essa, Brian!

Brian Kwok tomou um último gole, depois se levantou.

— Para mim chega. Vamos indo.

— Um momentinho. — Armstrong foi discar. — Aqui fala Armstrong, preparem outra sessão às dezessete para V-11-3. Vou querer...

Parou, vendo os olhos do amigo piscarem, depois ficarem vidrados, e segurou-o com facilidade quando ele caiu, deixan­do-o largado na cadeira. Fora de si, quase como se estivesse observando a si mesmo, repôs o fone no gancho. Agora, nada havia a fazer, senão esperar.

"Fiz o meu trabalho", pensou.

A porta se abriu e Crosse entrou, seguido de três agentes do sei à paisana, todos britânicos, todos graduados, todos ten­sos e sérios. Rapidamente, um dos homens colocou um capuz grosso e negro na cabeça de Brian Kwok, levantou-o com faci­lidade e saiu, seguido pelos outros.

Agora que tudo acabara, Robert Armstrong não sentia nada, nem remorso, nem choque, nem raiva. Nada. Sua mente lhe dizia que não havia nenhum engano, embora lhe dissesse igualmente que seu amigo de quase vinte anos não podia ser um agente comunista infiltrado. Mas era. As provas eram irrefutáveis. As provas que descobrira demonstravam conclusivamente que Brian Kwok era o filho de Fang-ling Wu, a anti­ga patroa de Ah Tam, quando, segundo sua certidão de nasci­mento e registros pessoais, sua mãe e seu pai tinham o sobre­nome Kwok e haviam sido assassinados pelos comunistas em Cantão, em 43. Uma das fotografias mostrava Brian Kwok de pé ao lado de uma senhora chinesa miudinha, diante de uma farmácia numa encruzilhada de uma aldeia. A qualidade da foto era má, porém boa o suficiente para que se pudessem ler os caracteres do cartaz da loja e para que se reconhecesse um rosto, o rosto dele. Ao fundo, via-se um carro antigo. Por trás dele havia um europeu, com o rosto meio desviado. Wu Óculos identificara a loja como a farmácia da encruzilhada em Ning-tok, propriedade da família Tok-ling Wu. Ah Tam identificara a mulher como sua patroa.

— E o homem? Quem é o homem ao lado dela?

— Ah, é o filho dela, senhor. Já lhe contei. É o Segundo Filho Chu-toy. Agora, vive com os demônios estrangeiros do outro lado do mar, no norte, o norte da Terra das Montanhas Douradas — choramingara a mulher, lá no Quarto Branco.

— Está mentindo outra vez.

— Ah, não, senhor, é o filho dela, Chu-toy. É o seu Segundo Filho, nasceu em Ning-tok, e ajudei no parto dele com estas mãos. Era o Filho Número Dois da Mãe, que foi embora quando era pequeno...

— Foi embora? Para onde?

— Para... o País da Chuva, depois para a Montanha Dourada. Agora tem um restaurante e dois filhos... É comer­ciante lá, e veio para ver o Pai... O Pai estava morrendo, e ele veio como um filho obediente deve vir, mas depois foi em­bora, e a Mãe chorou e chorou...

— Com que freqüência visitava os pais?

— Ah, foi só essa vez, senhor, só essa vez. Agora mora longe, num lugar tão afastado, tão afastado... mas veio como deve vir um filho obediente, e depois foi embora. Foi por puro acaso que eu o vi, senhor. À Mãe me mandara ir visitar uns parentes na aldeia vizinha, mas eu me senti só, e voltei cedo e o vi... Foi pouco antes de ele ir embora. O Jovem Patrão foi embora num carro dos demônios estrangeiros...

— Onde ele arranjou o carro? Era dele?

— Não sei, senhor. Não havia carro em Ning-tok. Até mesmo o comitê da aldeia não tinha carro, nem mesmo o Pai, que era o farmacêutico da aldeia. O pobre Pai, que morreu sofrendo tanto! Ele era membro do comitê... Eles nos deixa­vam em paz, os homens do presidente Mao, os Estranhos... É, agiam assim porque, embora o Pai fosse um intelectual e um farmacêutico, sempre fora um seguidor secreto de Mao, embora eu jamais soubesse, senhor, juro que jamais soube. O pessoal do presidente Mao nos deixava em paz, senhor.

— Como se chamava o filho da sua Patroa? O homem do retrato? — repetira ele, tentando abalá-la.

— Chu-toy Wu, senhor, era o segundo filho dela... lem­bro quando foi mandado de Ning-tok para... este lugar horrí­vel, este Porto Fragrante. Tinha cinco ou seis anos e foi man­dado para um tio aqui e...

— Como se chamava o tio?

— Não sei, senhor, nunca me contaram, só me lembro da Mãe chorando e chorando quando o Pai o mandou estudar fora... Posso ir para casa agora? Por favor, estou cansada, por favor...

— Quando você nos disser o que queremos saber. Se nos contar a verdade.

— Ah, eu conto a verdade, qualquer coisa, qualquer coi­sa...

— Mandaram-no estudar em Hong Kong? Onde?

— Não sei, senhor. Minha Patroa nunca falou, só que foi estudar, e depois ela o tirou do pensamento, e eu também, oh, sim, era melhor, porque ele tinha ido embora para sempre. Sabe que sempre os segundos filhos têm que ir embora...

— Quando Chu-toy Wu voltou para Ning-tok?

— Foi há alguns anos, quando o Pai estava morrendo. Só voltou aquela vez, foi só uma vez, senhor, não se lembra de eu ter lhe dito? Eu me lembro de ter dito isso. É, foi só a vez da foto. A Mãe insistiu na foto, e chorou e suplicou que ele tirasse uma foto com ela... Ela devia estar sentindo a mão da morte, agora que o Pai se fora, e ela estava verdadeiramente só... Oh, ela chorou e chorou, e então Chu-toy fez a vontade dela, como compete a um filho obediente, e minha Patroa ficou tão contente...

— E o bárbaro da foto, quem é?

O homem estava meio virado de costas, ao fundo, não era fácil reconhecê-lo, de pé ao lado do carro estacionado junto da farmácia. Era um homem alto, europeu, as roupas amassadas e comuns.

— Não sei, senhor. Era o motorista, e foi ele que levou Chu-toy embora, mas o comitê da aldeia e o próprio Chu-toy curvaram-se diante dele muitas vezes, e comentou-se que era muito importante. Foi o primeiro demônio estrangeiro que vi na vida, senhor...

— E as pessoas do outro retrato? Quem são?

O retrato era antiqüíssimo, quase sépia, e mostrava um casal constrangido, em roupas de casamento malfeitas, fitando desanimadamente a câmera.

— Ah, mas é claro que são o Pai e a Mãe, senhor. Não lembra que já lhe disse? Disse muitas vezes. São a Mãe e o Pai. O nome dele era Ting-top Wu, e a sua tai-tai, a minha Patroa, era Fang-ling...

— E o recorte?

— Não sei, senhor, estava colado ao retrato, então deixei-o lá mesmo. A Mãe o havia colado ali, então não mexi nele. O que eu ia querer com essa bobagem de escrita dos demônios estrangeiros...

Robert Armstrong soltou um suspiro. O recorte amarelado era de um jornal chinês de Hong Kong, datado de 16 de julho de 1937, que falava de três jovens chineses que tinham se saído tão bem nos exames finais, que o governo de Hong Kong lhes concedera bolsas para irem estudar num colégio da Inglaterra. Kar-shun Kwok era o primeiro nome citado. Kar-shun era o nome chinês formal de Brian Kwok.

— Saiu-se muito bem, Robert — disse Crosse, fitando-o.

— Foi? — replicou, em meio à névoa do seu sofrimento.

— Foi, muito bem. Trouxe-me as provas diretamente, seguiu as instruções ao pé da letra, e agora o nosso toupeira está dormindo direitinho. — Crosse acendeu um cigarro e sentou-se à mesa. — Felizmente você tomou a cerveja certa. Ele suspeitou de alguma coisa?

— Não, Acho que não. — Armstrong tentou controlar-se. — Quer me dar licença, senhor, por favor? Sinto-me imundo. Tenho... tenho que tomar um banho. Desculpe.

— Sente-se um minuto, por favor. É, deve estar muito cansado. Muito cansativas, essas coisas.

"Deus!", Armstrong sentia vontade de gritar, angustiado, "é impossível! Impossível o Brian ser um agente secreto infil­trado, mas tudo se encaixa. Por que outro motivo teria um nome completamente diferente, uma certidão de nascimento diferente? Por que outro motivo teria uma cobertura tão cuida­dosamente construída — que os pais dele foram mortos em Cantão durante a guerra, assassinados pelos comunistas? Por que outro motivo teria se arriscado a voltar secretamente para Ning-tok, arriscando tudo aquilo que construíra tão cuidado­samente ao longo de trinta anos, a não ser que o seu próprio pai estivesse mesmo morrendo? E se todos esses fatos são reais, então os outros automaticamente se sucedem: que devia estar em contato permanente com o continente, para saber que o pai estava à morte, que como superintendente da polícia de Hong Kong teria que ser persona-grata à RPC, para que lhe fosse permitido entrar e sair secretamente. E se era persona-grata, então tinha que ser um deles, preparado ao longo dos anos, estimulado ao longo dos anos. "

— Meu Deus! — murmurou —, teria facilmente se tor­nado comissário assistente, quem sabe até comissário...

— O que sugere agora, Robert? — perguntou Crosse, a voz suave.

Armstrong forçou a mente a voltar ao presente, o treina­mento superando a angústia.

— Verifique o passado dele. Vamos encontrar o elo. É, o pai dele era uma minúscula engrenagem comunista, mas uma engrenagem de Ning-tok, apesar de tudo. Portanto, o parente de Hong Kong a quem foi enviado também deveria ser de lá. Devem ter mantido o Brian sob rédea curta na Inglaterra, no Canadá, aqui, em qualquer lugar... tão fácil fazer isso, tão fácil alimentar o ódio pelos quai loh, tão fácil para um chinês esconder esse ódio... Não é o povo mais paciente e reservado do mundo? É, vá investigar o passado e acabará por encontrar o elo e encontrar a verdade.

— Robert, tem razão de novo. Mas, primeiro, deve-se começar o interrogatório dele.

Armstrong sentiu uma onda gélida de horror invadir seu estômago.

— É — falou.

— Estou encantado em participar-lhe que essa honra será sua.

— Não.

— Você supervisionará o interrogatório. Nenhum chinês tomará parte nele, apenas agentes britânicos graduados. Exceto o Wu, Wu Óculos. É, será útil... apenas ele. É bom aquele rapaz.

— Não posso... não vou.

Crosse soltou um suspiro e abriu o grande envelope pardo que trouxera consigo

— O que acha disso?

Com mãos trêmulas, Armstrong pegou a foto. Era uma ampliação de 20 X 25 de um pedacinho da foto de Ning-tok, a cabeça do europeu que aparecia no último plano, ao lado do carro. O rosto do homem estava meio virado e indistinto, o granulado da ampliação denso.

— Eu... diria que ele viu a câmera e se virou, para evitar ser fotografado.

— Foi o que também pensei. Você o reconhece? Armstrong espiou o rosto, tentando desanuviar a cabeça.

— Não.

— Voranski? O nosso amigo soviético morto?

— Talvez. Não, acho que não.

— E quanto ao Dunross, o Ian Dunross?

Mais abalado, Armstrong levou a foto para junto da luz.

— É possível... mas improvável. Se... se for Dunross, então... acha que ele é o agente infiltrado da Sevrin? Im­possível.

— Improvável, não impossível. É amigo do peito de Brian. — Crosse pegou de novo a foto e examinou-a. — Seja quem for, é familiar o que se consegue ver dele, mas não consigo identificar o homem, ou onde o vi. Ainda. Bem, não faz mal. Brian se lembrará. É. — A voz dele tornou-se sedosa. — Ah, não se preocupe, Robert, vou preparar o Brian para você, mas caberá a você dar o golpe de misericórdia. Quero saber quem é esse sujeito bem ligeiro. Na verdade, quero saber tudo o que o Brian sabe, bem, bem ligeiro.

— Não. Arranje outro...

— Ora, Robert, não seja tão chato! Chu-toy Wu, aliás Brian Kar-shun Kwok, é um agente inimigo que nos tapeou durante anos, só isso. — A voz de Crosse parecia penetrar em Armstrong. — A propósito, você vai participar do 16/2 logo mais às seis e meia, e também foi convocado para o sei. Já falei com o comissário.

— Não, e não posso interro...

— Ora, meu caro, pode e vai. É o único que pode. Brian é esperto demais para ser pego como um amador. Claro que estou tão espantado ao saber que era o toupeira quanto você, quanto o governador!

— Por favor. Não...

— Ele traiu Fong-fong, outro amigo seu, não foi? Deve ter "vazado" os documentos de A. M. Grant. Deve ser ele a pessoa que tem fornecido todos os nossos dossiês para o inimi­go, e todas as outras informações. Sabe Deus a quanta coisa teve acesso no curso do estado-maior e em todos os outros cursos! — Crosse fumava o seu cigarro, a fisionomia normal.

— No sei ele tinha autorização para saber de quase tudo ligado à segurança, e certamente concordo que estava sendo prepa­rado para um altíssimo cargo... eu ia fazer dele o meu número 2! Portanto, é melhor sabermos bem ligeiro tudo a seu respeito. Curioso, estávamos procurando um agente soviético infiltrado, e não é que encontramos um da República Popular da China!

— Apagou o cigarro. — Já mandei que começassem a fazer com ele um interrogatório classificação 1.

A cor fugiu do rosto de Armstrong, e ele fitou Crosse, odiando-o abertamente.

— Você é um filho da mãe, um filho da mãe nojento e sacana.

Crosse riu suavemente.

— É verdade.

— É bicha, também?

— Talvez. Talvez apenas ocasionalmente, e apenas quan­do me agrada. Talvez. — Crosse fitava-o calmamente. — Ora, vamos, Robert, acha mesmo que posso ser chantageado? Eu? Chantageado? Francamente, Robert, não compreende a vida? Parece que o homossexualismo é bastante normal, mesmo nas altas esferas.

— É?

— Hoje em dia é bastante normal, quase "na moda", para alguns. Ah, é, sim, meu caro, e é praticado, de tempos em tempos, por um grupo muito católico de vips em toda parte. Até em Moscou. — Crosse acendeu outro cigarro. — É claro, é preciso ser discreto, seletivo, e de preferência não assumir compromisso, mas uma queda para o exótico podia dar todo tipo de vantagens na nossa profissão. Não é?

— Quer dizer que você justifica qualquer tipo de mal­dade, qualquer tipo de merda, assassinato, trapaça, mentira, em nome do maldito sei... é isso?

— Robert, não justifico nada. Sei que você está muito perturbado, mas acho que já chega.

— Você não pode me forçar a me meter no sei. Pedirei demissão.

Crosse soltou uma risada de deboche.

— Mas, meu caro, e quanto a todas as suas dívidas? E quanto aos quarenta mil até segunda-feira? — Levantou-se, os olhos duros como granito. Sua voz mal se alterara, mas agora havia nela uma nota de maldade. — Somos ambos maiores de idade, Robert. Dobre-o, e faça-o bem depressa.

 

                   15h

A campainha que encerrava o pregão da Bolsa de Valores tocou, mas o ruído foi abafado pelo fétido pandemônio dos corretores amontoados tentando desesperadamente completar sua transação final.

Para a Struan, o dia fora desastroso. Imensas quantidades de ações haviam sido empurradas no mercado para serem com­pradas vacilantemente, depois jogadas de volta de novo, enquan­to os boatos se alimentavam de mais boatos, e mais ações eram oferecidas. A cotação caiu de 24, 70 para 17, 50 e ainda havia trezentas mil ações na coluna de venda. Todas as ações de ban­cos estavam em baixa, o mercado estava tonto. Todos espera­vam que o Ho-Pak entrasse em colapso no dia seguinte... só o fato de Sir Luís Basílio ter suspendido as negociações com as ações de bancos ao meio-dia evitara que o banco soçobrasse, então,

— Puta que o pariu, que droga! — falou alguém. — Fodido pela porra da campainha.

— Olhe só para o tai-pan — exclamou outro. — Santo Deus, dá a impressão de que foi um dia como os outros, e não o dobre de finados da Casa Nobre!

— Ele tem peito, o nosso Ian, não há dúvida. Olhe como ainda sorri. Meu Deus, as ações dele baixam de 24, 70 para 17, 50 em um só dia, quando jamais estiveram abaixo de 25 desde que a empresa passou a ser de capital aberto, e é como se nada houvesse acontecido. Amanhã o Gornt vai obter o con­trole acionário!

— Concordo... ou o banco.

— O Vic? Não, já tem seus próprios problemas — disse outro, unindo-se ao grupo excitado e suarento.

— Pela madrugada! Acha mesmo que Gornt vai conse­guir? Gornt, tai-pan da nova Casa Nobre?

— Nem posso imaginar! — gritou outro, acima da bal­búrdia.

— É melhor ir se acostumando, meu velho. Mas, eu con­cordo, ninguém diria que o mundo do Ian está desmoronando sob seus pés...

— E já está tarde! — exclamou um outro.

— Ora, qual é? O tai-pan é um bom sujeito, o Gornt é um filho da mãe arrogante.

— Os dois são filhos da mãe! — disse um outro.

— Ah, não sei. Mas concordo que o Ian é um bocado frio, o Ian é tão frio quanto a caridade, e isso é ser frio à beça!

— Mas não tão frio quanto o pobre Willy, que está mor­to, ora essa!

— Willy, Willy quem? — perguntou alguém em meio às risadas. — Hem?

— Ora, Charlie, pela madrugada! É só uma brincadeira, uma rima! "À beça" com "ora essa". Que tal foi o seu dia?

— Faturei uma nota em comissões. — Eu também.

— Fantástico. Eu me desfiz de cem por cento de todas as minhas próprias ações. Agora não tenho nada aplicado, graças a Deus! Vai ser duro para alguns dos meus clientes, mas quem ganha fácil perde fácil, e eles podem agüentar o repuxo!

— Ainda estou com cinqüenta e oito mil ações da Struan, e não tenho compradores...

— Puta que o pariu!

— O que foi?

— O Ho-Pak chegou ao fim da linha! Fechou as portas.

— Como?

— Todas as porras das agências!

— Deus todo-poderoso! Tem certeza?

— Claro que tenho, e estão dizendo que o Vic também não vai abrir amanhã, que o governador vai declarar feriado bancário! Soube por fonte seguríssima, meu velho!

— Sagrado Coração de Jesus, o Vic vai fechar?

— Ah, Deus, estamos todos arruinados...

— Ouçam, acabei de falar com Johnjohn. A corrida che­gou até eles, mas ele disse que ficarão bem... para não nos preocuparmos.

— Graças a Deus!

— Ele disse que houve um tumulto em Aberdeen há meia hora, quando a agência do Ho-Pak de lá fechou, mas Richard Kwang acaba de fazer uma declaração à imprensa. "Fechou temporariamente" todas as agências deles, exceto a matriz. Não há com que se preocupar, ele tem dinheiro de sobra e...

— Filho da mãe mentiroso!

— ... e qualquer um que tenha fundos no Ho-Pak pode ir até lá com a sua caderneta de depósito e receberá o seu dinheiro.

— E quanto às ações deles? Quando as liquidarem, quan­to acha que vão valer? Dez centavos por dólar!

— Sabe Deus! Mas milhares vão perder as cuecas nesse colapso!

— Ei, tai-pan! Vai deixar suas ações irem lá para baixo, ou vai comprar?

— A Casa Nobre é tão forte quanto sempre foi, meu velho — disse Dunross, serenamente. — Meu conselho para vocês é que comprem!

— Quanto tempo pode esperar, tai-pan?

— Vamos superar este ligeiro problema, não se preocupe.

Dunross continuou a abrir caminho entre o povo, dirigin­do-se para a saída, seguido por Linc Bartlett e Casey, bombar­deado por perguntas. Ignorou a maioria com uma palavrinha amável, respondeu a algumas, e então viu-se frente a frente com Gornt, e os dois se enfrentaram em meio a um grande silêncio.

— Ah, Quillan, como se saiu hoje? — indagou, cortes­mente.

— Muito bem, obrigado, Ian, muito bem. Meus sócios e eu estamos com três ou quatro milhões de vantagem.

— Tem sócios?

— Claro. Não se inicia um ataque à Struan de qualquer maneira... é claro que é preciso ter um apoio financeiro muito substancial. — Gornt sorriu. — Felizmente, a Struan é ampla­mente detestada por um bocado de gente boa, e isso há um século ou mais. Tenho prazer em lhe dizer que acabo de adqui­rir mais trezentas mil ações que vão estar à venda logo que a Bolsa abrir. Isso deve ser o bastante para fazer a sua casa desabar.

— Não somos um castelo de cartas. Somos a Casa Nobre.

— Até amanhã. É. Ou quem sabe até depois de amanhã, no máximo até segunda-feira. — Gornt olhou para Bartlett. — Nosso jantar de terça-feira ainda está de pé?

— Está. Dunross sorriu.

— Quillan, um homem pode se queimar, vendendo a des­coberto num mercado tão volúvel. — Virou-se para Bartlett e Casey, e falou, de modo agradável: — Não concordam?

— Pode apostar que isso aqui não é como a nossa Bolsa em Nova York — replicou Bartlett, provocando uma risada ge­ral. — O que está acontecendo aqui hoje mandaria toda a nossa economia para o diabo, hem, Casey?

— É — respondeu Casey, sem jeito, sentindo o olhar fixo de Gornt. — Alô — cumprimentou, olhando-o de relance.

— Sentimo-nos honrados por tê-los aqui — disse Gornt, com grande charme. — Posso cumprimentá-los pela sua coragem ontem à noite? Aos dois.

— Não fiz nada de especial — disse Bartlett.

— Nem eu — falou Casey, constrangida, tendo plena consciência de ser a única mulher na sala, e agora o centro de tantas atenções. — Se não tivesse sido pelo Linc e pelo Ian... pelo tai-pan, e você, e os outros, eu teria entrado em pânico.

— Ah, mas não entrou. Seu mergulho foi uma perfeição — disse Gornt, em meio a vivas.

Ela ficou calada, mas aquele pensamento a aqueceu, e não pela primeira vez. De alguma forma, sua vida estava diferente desde que tirara a roupa, sem pensar. Gavallan ligara para ela pela manhã, para saber como estava passando. Outros também. Na Bolsa, sentira a força dos olhares. Recebera muitos elogios. Muitos deles de estranhos. Sentia que Dunross, Gornt e Bartlett se lembravam, porque ela não os havia decepcionado. Ou a si mesma. "É", pensou, "você ganhou muito prestígio perante todos os homens. E fez crescer a inveja das mulheres. Curioso. "

— Está vendendo a descoberto, sr. Bartlett? — dizia Gornt.

— Não pessoalmente — disse Bartlett, com um sorrisi­nho. — Ainda não.

— Devia — disse Gornt, amavelmente. — Pode-se ganhar muito dinheiro num mercado em baixa, como estou certo de que sabe. Um bocado de dinheiro vai mudar de mãos com o controle da Struan. — Voltou a fitar Casey, excitado por sua coragem, seu corpo, e pela idéia de que iria passear com ela de barco no domingo. — E você, Ciranoush, está no mercado? — perguntou.

Casey ouviu o seu nome, e o modo como ele o pronunciou. Ficou excitada. "Cuidado", advertiu a si mesma. "Esse homem é perigoso. É. E o Dunross também, e o Linc também.

"Qual?

"Acho que quero os três", pensou, invadida por uma onda de calor. "

O dia fora excitante e formidável desde o primeiro mo­mento, quando Dunross lhe telefonara, solícito. Depois, levan­tara-se, sem sentir nenhum mal-estar por causa do fogo ou dos vomitórios do dr. Tooley. Em seguida, passara toda a manhã trabalhando nos telefonemas, telegramas e telex para os Estados Unidos, alegremente, acertando problemas do imenso conglo­merado da Par-Con, cimentando uma fusão que estava na agenda deles há meses, vendendo uma companhia com muito lucro, para adquirir uma outra que fortaleceria ainda mais a investida da Par-Con na Ásia... fosse lá quem fosse o parceiro deles. Depois, inesperadamente, fora convidada para almoçar com Linc... O querido, bonito, confiante e atraente Linc, pensou, lembrando-se do almoço deles no topo do Victoria and Albert, no imenso salão de refeições verde com vista para o porto, Linc tão atencioso, a ilha de Hong Kong e as estradas costeiras obscurecidas pela chuva torrencial. Meia toronja, uma pequena salada, Perrier, tudo perfeitamente servido, do jeito que ela queria. Depois, o café.

— Que tal irmos à Bolsa de Valores, Casey? Lá pelas duas e meia? — dissera ele. — O Ian nos convidou.

— Ainda tenho muita coisa a fazer, Linc, e...

— Mas aquele lugar é um barato, e as coisas que aqueles caras conseguem fazer são incríveis. Negociações escusas aqui são um meio de vida, e absolutamente legais. Deus, é fantástico, maravilhoso, um grande sistema! O que eles fazem aqui legal­mente todos os dias daria uma pena de vinte anos nos Estados Unidos.

— O que não torna a coisa correta, Linc.

— Não, mas aqui é Hong Kong, suas regras os agradam. É o país deles, eles se sustentam, e o governo tira apenas quinze por cento em impostos. É o que eu lhe digo, Casey, se você quer dinheiro do "dane-se", é aqui que ele está.

— Tomara! Vá você, Linc, tenho um monte de coisas ainda por fazer!

— Podem esperar. Hoje pode ser o dia decisivo. Temos que estar lá para o golpe final.

— O Gornt vai ganhar?

— Claro, a não ser que Ian consiga um financiamento ma­ciço. Ouvi dizer que o Victoria não vai apoiá-lo. E o Orlin não vai renovar o empréstimo, como previ!

— Foi o Gornt quem lhe contou?

— Pouco antes do almoço. Mas todo mundo sabe de tudo neste lugar. Nunca vi nada parecido.

— Então pode ser que o Ian saiba que você adiantou os dois milhões para o Gornt começar o ataque.

— Pode ser. Não importa, contanto que não saibam que a Par-Con está prestes a se tornar a nova Casa Nobre. Que tal soa "tai-pan Bartlett"?

Casey lembrou-se do sorriso repentino dele, e do calor que se transmitira a ela. Sentia-o de novo agora, ali, de pé na Bolsa de Valores, olhando para ele, montes de homens à volta dela, mas só três importantes: Quillan, Ian e Linc, os homens mais excitantes e cheios de vitalidade que conhecera em toda a vida. Sorriu para eles, igualmente, depois disse a Gornt:

— Não, não estou no mercado, não pessoalmente. Não gosto de jogar... o custo do meu dinheiro sai caro demais.

Alguém resmungou:

— Que coisa horrível de dizer!

Gornt não prestou atenção, e manteve os olhos fitos nela.

— Sensato, muito sensato. Claro, às vezes há uma coisa absolutamente certa, às vezes pode-se faturar alto, com um golpe mortal. — Olhou para Dunross, que ostentava seu sorriso curioso. — Em sentido figurado, é claro.

— É claro. Bem, Quillan, até amanhã.

— Ei, sr. Bartlett — chamou alguém —, já fechou negó­cio com a Struan, ou não?

— É — falou outro. — E o que o Incursor Bartlett pensa de uma incursão à moda de Hong Kong?

Novo silêncio. Bartlett deu de ombros.

— Uma incursão é uma incursão, seja onde for — disse, com cuidado —, e eu diria que esta está armada e iniciada. Mas a gente nunca sabe se ganhou até a contagem dos votos estar terminada. Concordo com o sr. Dunross. A gente pode se quei­mar. — Abriu novo sorriso, os olhos brejeiros. — Também concordo com o sr. Gornt. Às vezes também se pode faturar alto, com um golpe mortal. Em sentido figurado.

Nova explosão de risos. Dunross aproveitou-se dela para chegar à porta, Bartlett e Casey atrás dele. Junto ao seu Rolls com chofer, Dunross falou:

— Vamos, entrem... desculpem, tenho um compromisso, mas o carro os levará para casa.

— Não, tudo bem, tomaremos um táxi...

— Não, entrem. Nessa chuva, terão que esperar meia hora.

— Nas barcas estará ótimo, tai-pan — falou Casey. — Ele poderá nos deixar lá.

Entraram e o carro arrancou, o trânsito confuso.

— O que vai fazer quanto ao Gornt? — perguntou Bartlett.

Dunross riu, e Casey e Bartlett tentaram calcular a since­ridade da risada.

— Vou esperar — disse. — É um velho costume chinês: paciência. Tudo chega às mãos daquele que espera. Obrigado por ficar de boca fechada sobre o nosso acordo. Saiu-se muito bem.

— Vai anunciá-lo amanhã, depois que o mercado fechar, conforme o planejado? — quis saber Bartlett.

— Prefiro deixar minhas opções em aberto. Conheço o mercado, você não. Talvez amanhã. — Dunross olhou para os dois, fixamente. — Talvez não antes de terça-feira, quando já tivermos assinado o contrato. Imagino que o negócio ainda esteja de pé, não? Até terça à meia-noite?

— Claro — disse Casey.

— A hora da participação pode ficar ao meu encargo? Aviso-lhes antes, mas posso precisar escolher outra hora... para manobrar.

— Sem dúvida.

— Obrigado. Claro, se já tivermos entrado pelo cano, ne­gócio cancelado. Compreendo perfeitamente.

— O Gornt pode obter o controle? — indagou Casey. Ambos notaram a alteração nos olhos do escocês. O sorriso ainda permanecia, mas apenas na superfície.

— Não, na verdade não. Mas é claro que com ações sufi­cientes, poderá forçar sua presença imediatamente na diretoria, e indicar outros diretores. Uma vez na diretoria, ficará por dentro da maioria dos nossos segredos, perturbará e destruirá. — Dunross lançou um olhar para Casey. — O propósito dele é destruir.

— Por causa do passado?

— Parcialmente. — Dunross sorriu, mas dessa feita eles notaram um cansaço profundo no sorriso. — É um jogo muito alto, envolve prestígio, muito prestígio, e estamos em Hong Kong. Aqui, os fortes sobrevivem e os fracos perecem, mas nesse meio tempo o governo não rouba você, nem o protege. Se não quiser ser livre e não gostar das nossas regras, ou da ausência delas, não venha para cá. Você veio atrás de lucro, heya? — Observava Bartlett. — E terá lucro, de uma maneira ou de outra.

— É — concordou Bartlett, serenamente, e Casey se per­guntou até que ponto Dunross saberia do trato feito com Gornt. A idéia a perturbou.

— Nosso motivo é lucro, sim — disse ela. — Mas não é destruir.

— Isso é sensato — falou Dunross. — É melhor criar do que destruir. Ah, a propósito, Jacques perguntou se os dois gostariam de jantar com ele, logo mais, lá pelas oito e meia. Eu não posso ir, tenho uma festa oficial com o governador, mas talvez possa encontrá-los para um drinque, depois.

— Obrigado, mas hoje não posso — disse Bartlett des­preocupadamente, embora não estivesse nada despreocupado ao lembrar-se de Orlanda. — E você, Casey?

— Não, obrigada, tenho um monte de trabalho para fazer, tai-pan. Que tal deixarmos para um outro dia? — perguntou, feliz, achando que ele era sensato por ficar de boca fechada, e Linc Bartlett igualmente sensato por deixar a Struan um pouco de lado, por enquanto. "É", pensou com seus botões, "vai ser ótimo jantar com o Linc, só nós dois, como no almoço. Quem sabe até a gente possa ir ao cinema, depois. "

Dunross entrou no seu escritório.

— Oh... oh, alô, tai-pan — cumprimentou Claudia. — O sr. e a sra. Kirk estão na sala de espera do andar de baixo. O pedido de demissão de Bill Foster está na sua bandeja.

— Ótimo. Claudia, não quero deixar de ver o Linbar antes que ele viaje.

Ele a observou atentamente, e embora ela fosse extrema­mente hábil em disfarçar os sentimentos, ele podia sentir o seu medo. Sentia o medo no prédio todo. Todos fingiam o contrá­rio, mas a confiança estava abalada.

"Sem confiança no general", escrevera Sun Tse, "nenhuma batalha pode ser ganha, não importa o grande número de tropas e armas. "

Inquieto, Dunross reviu seu plano e sua posição. Sabia que tinha poucos movimentos a realizar, que a única defesa verdadeira era o ataque, e que ele não podia atacar sem fundos maciços. Pela manhã, quando se encontrara com Lando Mata, obtivera apenas um relutante talvez.

— ... já lhe disse que tenho que consultar primeiro o Tung Pão-Duro. Deixei recado, mas ainda não consegui me comunicar com ele.

— Ele está em Macau?

— É, acho que está. Disse que ia chegar hoje, mas não sei por que balsa. Não sei mesmo, tai-pan. Se não estiver na última balsa para cá, eu próprio irei a Macau vê-lo... se ele estiver disponível. Ligarei para você hoje à noite, tão logo tenha falado com ele. A propósito, já reconsiderou nossas ofertas?

— Já. Não posso vender-lhes o controle acionário da Struan. E não posso deixar a Struan e ir administrar o jogo em Macau.

— Com o nosso dinheiro esmagará o Gornt, poderá...

— Não posso passar adiante o controle.

— Talvez pudéssemos combinar as duas ofertas. Nós o apoiaremos contra Gornt em troca do controle da Struan, e você dirigirá o nosso sindicato do jogo, secretamente, se quiser. É, podia ser em segredo...

Dunross mudou de posição na poltrona, certo de que Lando Mata e Pão-Duro estavam usando a armadilha em que estava preso para atender aos próprios interesses. "Como Bart­lett e Casey", pensou, sem raiva. "Que mulher interessante! Linda, corajosa e leal... a Bartlett. Será que ela sabe que ele tomou café com Orlanda, hoje de manhã, e depois foi ao apar­tamento dela? Será que eles sabem que eu sei dos dois milhões da Suíça? Bartlett é esperto, muito esperto, e está fazendo todas as jogadas corretas, mas está desguarnecido no ataque, porque é previsível, e sua jugular é uma moça asiática. Talvez Orlanda, talvez não. Mas sem dúvida uma Pele Dourada cheia de juventude. Quillan foi muito vivo em colocá-la como isca na armadilha. É. Orlanda é uma isca perfeita", pensou, depois voltou a se concentrar em Lando Mata e seus milhões. "Para conseguir esses milhões, teria que quebrar o meu Juramento Sagrado, e isso não farei. "

— Quais os telefonemas que tenho, Claudia? — pergun­tou, uma súbita pontada gelada no estômago. Mata e Pão-Duro tinham sido o seu trunfo, o último que restava.

Ela hesitou, depois olhou para a lista.

— Hiro Toda ligou de Tóquio, ligação pessoal. Por favor, ligue para ele quando tiver um momento sobrando. E também Alastair Struan, de Edimburgo... David MacStruan, de Toronto... seu pai, de Ayr... o velho Sir Ross Struan, de Nice...

— O tio Trussler, de Londres — disse ele, interrompen­do-a —, o tio Kelly, de Dublin... o primo Cooper, de Atlanta, o primo...

— De Nova York — completou Claudia.

— De Nova York. As más notícias voam — disse ele, cal­mamente.

— É. Depois, teve... — Seus olhos ficaram cheios de lágrimas. — O que vamos fazer?

— Tudo menos chorar — falou, sabendo que uma grande porção das economias dela estavam investidas em ações da Struan.

— Sim. Oh, sim. — Fungou e usou o lenço, triste por causa dele, mas grata aos deuses por ter tido a previdência de vender na alta e não comprar quando o chefe da Casa de Chen murmurara a todo o clã que comprasse maciçamente. — Ayeeyah, tai-pan, desculpe, por favor, desculpe... sim. Mas tudo vai muito mal, não é?

— Vai, mocinha — disse ele, imitando um sotaque esco­cês —, mas só quando a gente está "morrido". Não era assim que o velho tai-pan costumava dizer? — O velho tai-pan era

Sir Ross Struan, o pai de Alastair, o primeiro tai-pan de que se lembrava. — Continue com os telefonemas.

— O primo Kern, de Houston, e o primo Deeks, de Sydney. É o último da família.

— É a família toda.

Dunross soltou a respiração. O controle acionário da Casa Nobre estava com aquelas famílias. Cada uma tinha lotes de ações que havia herdado, embora pela lei da Casa só ele tivesse o poder de voto... enquanto fosse o tai-pan. Os bens da fa­mília Dunross, descendentes de Winifred, filha de Dirk Struan, constituíam dez por cento; dos Struans de Robb Struan, meio irmão de Dirk, cinco por cento; dos Trusslers e dos Kellys, descendentes de Culum e da filha mais moça da Bruxa Struan, cinco por cento cada; dos Coopers, Kerns e Derbrys, des­cendentes do comerciante americano Jeff Cooper, da Cooper-Tillman, o amigo de toda a vida de Dirk, que se casara com a filha mais velha da Bruxa Struan, cinco por cento cada; dos MacStruans, que se acreditava serem descendentes ilegítimos de Dirk, dois e meio por cento; e dos Chens, sete e meio por cento. O grosso das ações, cinqüenta por cento, propriedade pessoal e legado da Bruxa Struan, ficava num fideicomisso perpétuo, a ser votado pelo tai-pan "quem quer que ele seja, e o lucro obti­do será dividido anualmente, cinqüenta por cento para o tai-pan, o resto proporcionalmente aos bens das famílias... mas so­mente se o tai-pan assim o decidir", escrevera ela, na sua letra ousada e firme. "Se ele resolver reter os lucros das minhas ações por qualquer motivo, poderá fazê-lo. Depois esse incremento irá para o fundo particular do tai-pan, para o uso que ele achar conveniente. Mas que todos os futuros tai-pans tomem tento: a Casa Nobre passará de Mão segura para Mão segura, e os clãs de Porto seguro para Porto seguro, como o tai-pan em pessoa decretou, perante Deus, acrescentarei a minha maldição à dele, sobre aquele ou aquela que nos falhar... "

Dunross sentiu um arrepio percorrê-lo ao se lembrar da primeira vez que lera o testamento dela... tão dominador quan­to o legado de Dirk Struan. "Por que somos tão possuídos por esses dois?", perguntou-se novamente. "Por que não podemos livrar-nos do passado, por que temos que viver à disposição de fantasmas, e de fantasmas que nem são lá muito bons?

"Eu não vivo assim", disse para si mesmo, com firmeza, "estou apenas tentando me equiparar aos seus padrões. "

Voltou a olhar para Claudia, matronal, durona e muito segura de si, mas agora assustada, assustada pela primeira vez. Ele a conhecera a vida inteira, e ela servirá ao velho Sir Ross, depois ao seu pai, depois a Alastair, e agora a ele próprio com uma lealdade fanática, assim como Phillip Chen. "Ah, Phillip, pobre Phillip. "

— Phillip telefonou? — perguntou.

— Telefonou, tai-pan. E Dianne também. Ligou quatro vezes.

— Quem mais?

— Uma dúzia, ou mais. Os mais importantes são John­john, do banco, general Jean, de Formosa, Gavallan père, de Paris, Wu Quatro Dedos, Pug...

— Quatro Dedos? — Dunross ficou esperançoso. — Quando ligou?

Ela consultou sua lista.

— Às duas e cinqüenta e seis.

"Será que o velho pirata mudou de idéia?", pensou Dun­ross, sua excitação aumentando.

No final da tarde anterior, ele fora a Aberdeen procurar Wu e pedir-lhe ajuda, mas, como no caso de Lando Mata, só conseguira vagas promessas.

— Escute, Velho Amigo — ele lhe dissera, em dialeto haklo, hesitante. — Nunca lhe pedi um favor antes.

— Uma longa linhagem de seus ancestrais tai-pans pedi­ram muitos favores e obtiveram grandes lucros dos meus ances­trais — o velho respondera, os olhos astutos e irrequietos. — Favores? Fodam-se todos os cães, tai-pan, não tenho tanto di­nheiro. Vinte milhões? Como é que um pobre pescador como eu ia ter tanta grana?

— Mais do que isso saiu do Ho-Pak ontem, Velho Amigo.

— Ayeeyah, fodam-se todos aqueles que murmuram in­formações erradas! Pode ser que eu tenha sacado o meu dinhei­ro em segurança, mas todo ele já se foi para pagar mercadorias, mercadorias que eu devia.

— Espero que não seja o Pó Branco — dissera Dunross, severamente. — O Pó Branco dá um azar terrível. Correm boa­tos de que você está interessado nele. Aconselho-o a desistir, como amigo. Meus ancestrais, o Velho Demônio de Olhos Ver­des e a Bruxa Struan do Mau-Olhado e dos Dentes do Dragão, rogaram uma praga sobre aqueles que negociarem com o Pó Branco, não o ópio, mas todos os Pós Brancos e aqueles que ne­gociarem com eles — falou, alterando a verdade, sabendo como o velho era supersticioso. — Aconselho-o a não lidar com o Pó que Mata. Sem dúvida, seu negócio de ouro é mais do que lu­crativo.

— Não sei nada de Pó Branco algum. — O velho forçara um sorriso, mostrando as gengivas e alguns dentes tortos. — E não tenho medo de pragas, nem mesmo deles!

— Ótimo — disse Dunross, sabendo que era mentira. — Nesse meio tempo, ajude-me a obter crédito. Cinqüenta milhões durante três dias, é só do que preciso!

— Vou perguntar entre os meus amigos, tai-pan. Talvez possam ajudar, talvez possamos ajudar juntos. Mas não espere água de um poço vazio. A que juros?

— Juros altos, se for amanhã.

— Não é possível, tai-pan.

— Convença o Pão-Duro, você é associado e velho ami­go dele.

— O Pão-Duro é a única merda de amigo que o Pão-Duro tem — dissera o velho, carrancudo, e nada do que Dunross dissesse conseguiu mudar sua atitude.

Dunross estendeu a mão para o telefone.

— Que outros telefonemas recebi, Claudia? — perguntou, enquanto discava.

— Johnjohn, do banco, Phillip e Dianne... ah, já lhe falei deles. O superintendente Crosse, todos os nossos grandes acionistas, todos os diretores administrativos de todas as subsi­diárias, a maior parte do Turf Club... Travkin, seu treina­dor... uma lista sem fim.

— Um momentinho, Claudia. — Dunross disfarçou a an­siedade e falou ao aparelho, em haklo: — Aqui fala o tai-pan. O meu Velho Amigo está?

— Claro, claro, sr. Dunross — disse a voz americana, edu­cadamente, em inglês. — Obrigado por responder ao telefone­ma. Ele já vem atender, senhor.

— Sr. Choy, sr. Paul Choy?

— Sim, senhor.

— Seu tio me falou a seu respeito. Bem-vindo a Hong Kong.

— Eu... aqui está ele, senhor.

— Obrigado.

Dunross concentrou-se. Estivera se perguntando por que Paul Choy estava agora com Quatro Dedos, e não ocupado em imiscuir-se nos negócios de Gornt, e por que Crosse telefonara, e por que Johnjohn...

— Tai-pan?

— Sim, Velho Amigo. Queria falar comigo?

— Sim. Podemos... nos encontrar hoje à noite? Dunross tinha vontade de berrar "Mudou de idéia?" Mas as boas maneiras o impediam, e os chineses não gostavam de telefones, preferindo sempre falar cara a cara.

— Claro. Por volta das oito badaladas, no turno do meio — falou, com naturalidade. Perto da meia-noite. — O mais aproximado possível — acrescentou, lembrando-se que devia encontrar-se com Brian Kwok às dez e quarenta e cinco.

— Ótimo. No meu molhe. Haverá uma sampana à espera. Dunross desligou o telefone, o coração disparado.

— Primeiro o Crosse, Claudia, depois mande entrar os Kirks. Depois, correremos a lista. Marque um telefonema cole­tivo com meu pai, Alastair e Sir Ross, para as cinco horas, o que dá nove para eles, e dez em Nice. Ligarei para David e os outros nos Estados Unidos logo mais à noite. Não há neces­sidade de acordá-los no meio da noite.

— Sim, tai-pan.

Claudia já estava discando. Crosse atendeu, ela passou o fone para Dunross e saiu, fechando a porta atrás de si.

— Sim, Roger?

— Quantas vezes já esteve na China?

A pergunta inesperada espantou Dunross, momentanea­mente.

— Isso consta dos registros — falou. — É fácil você verificar.

— Sei, Ian, mas será que pode me responder agora? Por favor.

— Quatro vezes em Cantão, para a feira, todos os anos, nos últimos quatro anos. E uma vez em Pequim, com uma comissão comercial, no ano passado.

— Alguma vez saiu de Cantão... ou de Pequim?

— Por quê?

— Saiu?

Dunross hesitou. A Casa Nobre tinha muitas associações de longa data na China, muitos amigos antigos e de confiança. Alguns eram agora comunistas dedicados. Outros eram exter­namente comunistas, mas por dentro totalmente chineses, e portanto de visão ampla, reservados, cautelosos e apolíticos. Esses homens variavam de importância. Havia até um na junta governamental. E todos eles, sendo chineses, sabiam que a his­tória se repetia, que as eras podiam mudar rapidamente, e que o imperador da manhã poderia tornar-se o cão escorraçado da tarde, que as dinastias se sucediam segundo os caprichos dos deuses, que o primeiro de cada dinastia inevitavelmente subia ao trono do Dragão com as mãos tintas de sangue, que sempre se devia estar de olho numa rota de fuga... e que certos bár­baros eram Velhos Amigos em quem se podia confiar.

Mas ele sabia que, acima de tudo, os chineses eram um povo prático. A China precisava de mercadorias e ajuda. Sem mercadorias e ajuda, ficava indefesa contra seu inimigo histó­rico, e único inimigo real, a Rússia.

Muitas vezes, por causa da confiança especial depositada na Casa Nobre, Dunross fora procurado oficial e não-oficialmente, mas sempre secretamente. Tinham muitos negócios par­ticulares em vista, para todo tipo de maquinarias e mercadorias em falta, incluindo a esquadrilha de aviões a jato. Freqüen­temente, tinha ido a lugares aonde outros não podiam ir. Uma vez tinha comparecido a uma reunião em Hangchow, a região mais linda da China, realizada para receber particularmente ou­tros membros do Clube 49, que iam ser homenageados com um jantar, como convidados de honra da China. O Clube 49 era formado por empresas que tinham continuado a comerciar com a RPC após 1949, na maioria firmas britânicas. A Grã-Bretanha reconhecera o governo de Mao Tsé-tung como o go­verno da China, pouco depois que Chang Kai-chek abandonou o continente e fugiu para Formosa. Mesmo assim, as relações entre os dois governos sempre tinham sido tensas. Mas, por definição, as relações entre os Velhos Amigos não o eram, a não ser que um Velho Amigo traísse uma confiança, ou tra­paceasse.

— Ah, fiz algumas viagens por fora — disse Dunross, despreocupadamente, sem querer mentir para o chefe do sei. — Nada de especial. Por quê?

— Poderia me dizer aonde foi, por favor?

— Sem dúvida, se você for mais específico, Roger — replicou, a voz endurecendo. — Somos comerciantes, e não políticos, e não espiões, e a Casa Nobre tem uma posição especial na Ásia. Há muitos anos estamos aqui, e é por causa dos comerciantes que a bandeira inglesa flutua... costumava flutuar sobre a metade do mundo. O que você quer saber exata­mente, meu velho?

Fez-se uma longa pausa.

— Nada, nada de especial. Pois bem, Ian, vou esperar até termos o prazer de ler os documentos, depois serei mais específico. Obrigado, desculpe incomodá-lo. Até logo.

Dunross fitou o aparelho, preocupado. O que o Crosse queria saber?, perguntou-se. Muitas das transações que havia feito e que ainda faria certamente não se enquadrariam na polí­tica oficial do governo em Londres, e mais ainda em Wash­ington. Sua atitude a curto e a longo prazo, em relação à China, era nitidamente oposta à deles. O que eles considera­riam contrabando ele não considerava.

"Bem, enquanto eu for tai-pan", disse a si mesmo, com firmeza, "haja o que houver, fogo ou tufão, nossos elos com a

China continuarão sendo nossos elos com a China, e fim de papo. A maioria dos políticos em Londres e Washington não se dá conta de que os chineses são chineses em primeiro lugar e comunistas em segundo. E Hong Kong é vital para a paz na Ásia. "

— Sr. e sra. Jamie Kirk, senhor.

Jamie Kirk era um homenzinho pedante, de rosto rosado, mãos rosadas e um sotaque escocês agradável. A mulher dele era alta, grande e americana.

— Oh, quanto prazer em conhe... — começou Kirk.

— É, temos muito, sr. Dunross — interrompeu o vozei­rão bem-humorado da mulher. — Diga logo o que tem para dizer, Jamie, benzinho, o sr. Dunross é um homem muito ocupado, e temos que ir fazer compras. Meu marido tem um embrulho para o senhor.

— É, da parte de Alan Medford G...

— Ele sabe que é da parte de Alan Medford Grant, ben­zinho — disse ela, satisfeita, tomando-lhe a palavra de novo. — Entregue-lhe o embrulho.

— Ah. Ah, sim, e também...

— Uma carta dele, também — disse ela. — O sr. Dunross é muito ocupado. Entregue logo tudo para ele, e vamos fazer compras.

— Ah, é, bem... — Kirk entregou o embrulho a Dun­ross. Media uns trinta e cinco por vinte e dois centímetros, e tinha uns dois centímetros e meio de espessura. Pardo, comum, e preso com muita fita adesiva. O envelope estava selado com lacre vermelho. Dunross reconheceu o lacre. — Alan disse para...

— Para entregar-lhe tudo pessoalmente, com lembranças dele — falou ela, com outra risada. Levantou-se. — Você é tão vagaroso, doçura! Bem, obrigada, sr. Dunross, vamos indo, benzi...

Interrompeu-se, espantada, quando Dunross ergueu uma mão imperiosa e falou com autoridade absoluta, embora cortês.

— Que tipo de compras quer fazer, sra. Kirk?

— Hem? Oh, algumas roupas... bem... quero mandar fazer algumas roupas, e o benzinho precisa de camisas, e...

Dunross ergueu a mão outra vez e apertou um botão. Claudia apareceu.

— Leve a sra. Kirk a Sandra Yi, imediatamente. Ela de­verá levá-la imediatamente ao Lee Foo Tap, lá embaixo, e, por Deus, diga-lhe para fazer o melhor preço possível para ela, ou mandarei que o deportem! O sr. Kirk se encontrará lá com ela daqui a um momento!

Tomou a sra. Kirk pelo braço, e, antes que ela se desse conta, já estava fora da sala, toda satisfeita, Claudia solícita ao seu lado, ouvindo-a contar o que queria comprar.

Kirk soltou um suspiro que encheu o silêncio que se fez. Era um suspiro longo e sofrido.

— Ah, como gostaria de poder fazer isso! — disse som­briamente. Depois abriu um sorriso. — Och aye, tai-pan — falou, à moda escocesa —, o senhor é tudo o que Alan falou que era.

— É? Mas não fiz nada. Sua mulher queria fazer com­pras, não queria?

— É, mas... — Depois de uma pausa, Kirk acrescen­tou: — Alan falou que o senhor devia... bem... devia ler a carta enquanto eu estivesse aqui. Não... não contei isso a ela. Acha que devia?

— Não — disse Dunross, bondosamente. — Olhe, sr. Kirk, lamento ter que lhe dar más notícias, mas infelizmente Alan morreu num acidente de moto, na segunda passada.

Kirk ficou de queixo caído.

— O quê?

— Lamento lhe contar, mas achei melhor que soubesse. Kirk fitava as manchas deixadas pela chuva na vidraça, imerso em pensamentos.

— Que terrível! — disse, finalmente. — Malditas motos, são um perigo mortal. Ele foi atropelado?

— Não. Foi encontrado na estrada, caído ao lado da moto. Sinto muito.

— Terrível! Coitado do Alan. Ah, meu Deus! Fico con­tente que o senhor não tenha dito nada na frente da Frances, ela... gostava dele também. Eu... bem... eu... é melhor o senhor ler a carta, então... A Frances não era uma grande amiga, por isso não acho... coitado do Alan! — Baixou os olhos para as mãos. As unhas eram roídas e deformadas. — Coitado do Alan!

Para dar tempo a Kirk, Dunross abriu a carta, que dizia:

"Meu caro sr. Dunross: Por meio desta apresento-lhe um velho colega, Jamie Kirk, e sua mulher, Frances. Por favor, abra em particular o embrulho que ele está levando. Quero que lhe seja entregue em segurança, e Jamie concordou em dar uma paradinha em Hong Kong. Pode-se confiar nele o quanto se pode confiar em alguém, hoje em dia. E, por favor, não ligue para a Frances. Ela não é má. Na realidade, é boa para o meu velho amigo, está muito bem de vida, com o que herdou de maridos anteriores, o que dá ao Jamie a liberdade de que precisa para ficar sentado e pensar... um privilégio raríssimo, hoje em dia. A propósito, eles não trabalham no mesmo ramo que eu, embora saibam que sou um historiador amador com renda própria".

Dunross teria sorrido, se não fosse pelo fato de estar len­do a carta de um homem morto. A carta terminava assim:

"Jarnie é geólogo, geólogo marinho, um dos melhores do mundo. Pergunte-lhe sobre o seu trabalho nos últimos anos, de preferência se Frances não estiver presente... não que ela não esteja por dentro de tudo o que ele sabe, mas intromete-se um pouco. Ele tem algumas teorias interessantes que talvez pos­sam beneficiar a Casa Nobre e seu planejamento para uma even­tualidade. Afetuosas lembranças, Alan Medford Grant".

Dunross ergueu os olhos.

— Alan disse que vocês são antigos colegas...

— Ah, é. Fomos colegas de escola em Charterhouse. De­pois, fui para Cambridge, ele, para Oxford. É. Mantivemos contato ao longo dos anos, ocasionalmente, é claro. É. Já o conhecia há muito tempo?

— Há uns três anos. Eu também gostava dele. Talvez não se sinta com vontade de falar agora.

— Oh, não, tudo bem. Eu... é um choque, é claro, mas... bem... a vida continua. O velho Alan... um tipo gozado, não é? Com todos os seus papéis, livros, cachimbos, cinzas e chinelos de feltro. — Kirk juntou os dedos em triân­gulo, tristemente. — Suponho que deva dizer que ele era um tipo gozado. Ainda não me parece direito falar nele no passa­do... mas suponho que devamos. É. Ele sempre usava chinelos de feltro. Acho que nunca estive nos seus aposentos sem que ele estivesse de chinelos de feltro.

— Está se referindo ao apartamento dele? Nunca estive lá. Sempre nos encontrávamos em Londres, no meu escritório, embora ele tivesse ido a Ayr, uma vez. — Dunross forçou a memória. — Não me lembro dele usando chinelos de feltro, ali.

— Ah, sim, ele me falou de Ayr, sr. Dunross. É, me falou. Foi... bem... um ponto alto na vida dele. O senhor... tem muita sorte de ter uma propriedade daquelas.

— O Castelo Avisyard não é meu, sr. Kirk, embora per­tença à minha família há mais de cem anos. Dirk Struan com­prou-o para a mulher e a família... uma mansão, digamos assim. — Como sempre, Dunross sentiu uma súbita emoção ao pensar em toda aquela beleza, colinas suaves, lagos, charnecas, florestas, clareiras, seis mil acres ou mais, bom lugar para se atirar, para se caçar, o melhor que a Escócia tinha a oferecer.

__ Faz parte da tradição que o tai-pan atual seja sempre o senhor de Avisyard... enquanto for o tai-pan. Mas, é claro, todas as famílias, em especial as crianças das várias famílias, o conhecem bem. Férias de verão... O Natal em Avisyard é uma tradição maravilhosa. Carneiros inteiros, flancos de boi, miúdos de carneiro no Ano-Novo, uísque e grandes lareiras acesas, as gaitas de fole tocando. É um belo lugar. E uma fa­zenda produtiva. Gado, leite, manteiga... sem falar na desti­laria de Loch Vey! Gostaria de poder passar mais tempo lá... minha mulher foi para lá hoje, para preparar tudo para as férias de Natal. Conhece aquela região?

— Um pouquinho. Conheço mais a região montanhosa. Minha família é de Inverness.

— Ah, então precisa vir visitar-nos quando estivermos em Ayr, sr. Kirk. Alan disse em sua carta que o senhor é geólogo, um dos melhores do mundo.

— Ah, bondade dele. Bem... foi bondade dele. Minha... especialidade é a geologia marinha. É, especialmente...

Interrompeu-se, abruptamente. — O que foi?

— Oh, hã... nada, nada mesmo, mas acha que Frances está bem?

— Sem dúvida. Quer que eu conte a ela sobre Alan?

— Não. Não, eu mesmo conto, depois. Não... pensando melhor, acho que vou fingir que ele não morreu, sr. Dunross. Farei de conta que o senhor não me contou, assim não estra­garei o passeio dela. É. É o melhor, não acha? — Kirk ani­mou-se um pouco. — Assim, poderemos saber da má notícia quando voltarmos para casa.

— Como queira. O senhor dizia? Especialmente o quê?

— Ah, sim... petrologia, que, como sabe, é o estudo amplo das rochas, incluindo sua interpretação e descrição. Den­tro da petrologia, meu campo se restringiu recentemente às rochas sedimentares. Eu... bem... nos últimos anos tenho trabalhado num projeto de pesquisas como consultor sobre as rochas sedimentares paleozóicas, as porosas. É. O estudo se concentrou na plataforma costeira oriental da Escócia. Alan achou que o senhor gostaria de saber algo a respeito.

— Claro. — Dunross controlou sua impaciência. Fitava o embrulho sobre a mesa. Queria abri-lo e ligar para Johnjohn, e havia mais uma dúzia de coisas prementes. Havia tanto a ser feito, e ele ainda não tinha entendido a ligação que Alan fizera entre a Casa Nobre e Kirk. — Parece muito interessante — falou. — Para que era o estudo?

— Hem? — Kirk o fitava, espantado. — Hidrocarbonetos. — Diante do olhar inexpressivo de Dunross, apressou-se a acrescentar: — Os hidrocarbonetos são encontrados apenas nas rochas porosas sedimentares da era paleozóica. Petróleo, sr. Dunross, petróleo bruto.

— Ah! Estavam procurando petróleo?

— Ah, não! Era um projeto de pesquisas para determinar a possibilidade da presença de hidrocarbonetos a pouca distân­cia da costa. Da costa da Escócia. Agrada-me poder dizer que acho que os haverá em abundância. Não muito perto, mas no mar do Norte. — O rosto rosado do homenzinho tornou-se mais rosado ainda, e ele enxugou a testa. — É. É, acho que deve haver um bom número de campos por lá.

Dunross estava perplexo, ainda sem entender a ligação.

— Bem, conheço alguma coisa sobre a perfuração em alto mar, no Oriente Médio e no golfo do Texas. Mas lá no mar do Norte? Santo Deus, sr. Kirk, aquele mar é o pior do mundo, provavelmente o mais inconstante do mundo, quase sempre turbulento, com ondas gigantescas. Como seria possível perfurar ali? Como seria possível instalar os equipamentos com segu­rança, como seria possível levar o petróleo a granel para terra, mesmo que fosse encontrado? E se fosse levado para terra, meu Deus, o custo seria proibitivo.

— Ah, sem dúvida, sr. Dunross — concordou Kirk. — Tudo o que o senhor disse está certíssimo, mas não é minha tarefa preocupar-me com o lado comercial, e sim descobrir nos­sos hidrocarbonetos, supremamente valiosos. — Acrescentou orgulhosamente: — É a primeira vez que se levanta a hipótese de eles existirem ali. Claro que é apenas uma teoria, minha teo­ria. Nunca se sabe ao certo antes de se perfurar, mas parte de minha perícia reside nas interpretações sísmicas, ou seja, estudo das ondas resultantes de explosões induzidas, e o enfoque que dei às últimas descobertas foi um tanto heterodoxo...

Dunross escutava agora apenas com a superfície da mente, tentando ainda entender por que Alan teria considerado isso importante. Deixou Kirk continuar por algum tempo, depois trouxe-o educadamente ao presente.

— O senhor me convenceu, sr. Kirk. Dou-lhe os parabéns. Quanto tempo vai ficar em Hong Kong?

— Ah, só até segunda-feira. Depois... bem... vamos para a Nova Guiné.

Dunross concentrou-se, muito preocupado.

— Onde, na Nova Guiné?

— Um lugar chamado Sukanapura, na costa setentrional. Fica na parte que pertence à Indonésia. Fui... — Kirk sorriu. — Desculpe, claro que o senhor sabe que o presidente Sukarno assumiu o controle da Nova Guiné holandesa em maio.

— "Tomou-a" seria mais apropriado. Se não fosse pelas pressões americanas imprudentes, a Nova Guiné holandesa ain­da seria holandesa, e em situação bem melhor, acho eu. Não creio que seja boa idéia o senhor e sua esposa viajarem para lá, por enquanto. É arriscado, a situação política é muito instável, e o presidente Sukarno é hostil. A insurreição em Sarawak é patrocinada e apoiada pela Indonésia... ele se opõe franca­mente ao Ocidente, a toda a Malásia, e coloca-se a favor dos seus marxistas. Além disso, Sukanapura é um porto quente, nojento, antipático, com muitas moléstias para coroar todos os outros problemas.

— Oh, não precisa se preocupar, tenho uma saúde de escocês, e fomos convidados pelo governo.

— O que eu queria enfatizar é que, atualmente, existe muito pouca influência governamental.

— Ah, mas lá existem algumas rochas sedimentares mui­to interessantes que querem que eu examine. Não precisa se preocupar, sr. Dunross. Somos geólogos, não políticos. Tudo está combinado... na verdade, esse é o objetivo de toda a nossa viagem... não há com que se preocupar. Bem, tenho que ir andando.

— Ah! Vou oferecer um coquetel no sábado, das sete e meia às nove da noite — falou. — Quem sabe o senhor e sua mulher não gostariam de comparecer? Então poderemos con­versar um pouco mais sobre a Nova Guiné.

— Oh, oh, mas quanta gentileza! Eu... bem... iremos com prazer. Onde...

— Mandarei um carro ir buscá-los. Agora talvez queira ir se encontrar com a sra. Kirk. Não tocarei em Alan, se é o que deseja.

— Ah! Ah, sim. Pobre Alan! Por um momento, dis­cutindo as rochas sedimentares, cheguei a me esquecer dele. É curioso, não é?, como a gente se esquece com facilidade.

Dunross despachou-o com outra assistente e fechou a por­ta. Cuidadosamente, rompeu as fitas adesivas que selavam o pacote de Alan. Lá dentro havia um envelope e outro pacote. O envelope estava endereçado a "Ian Dunross, particular e confidencial". Ao contrário da outra carta, que fora escrita à mão, esta fora batida à máquina:

"Caro sr. Dunross: Esta lhe chegará às mãos, às pressas, por intermédio do meu velho amigo Jamie. Recebi notícias mui­to inquietantes. Há um outro 'vazamento' de segurança muito sério no nosso sistema britânico ou americano, e está bem claro que nossos adversários estão aumentando seus ataques clandes­tinos. Um pouco dessa atividade pode extravasar em cima até de mim, até o senhor, daí minha ansiedade. Do senhor porque pode ser que a existência da nossa série de documentos alta­mente secretos tenha sido descoberta. Se alguma coisa fora do comum me acontecer, por favor ligue para 871-6565, em Ge­nebra. Peça para falar com a sra. Riko Gresserhoff. Para ela, meu nome é Hans Gresserhoff. O nome verdadeiro dela é Riko Anjin. Fala alemão, japonês e inglês... e um pouco de fran­cês... e se eu ainda tiver algum dinheiro a receber, por favor, entregue-o a ela. Existem alguns papéis que ela lhe dará, alguns para transmissão. Por favor, entregue-os pessoalmente, quando for conveniente. Como já disse, é raro encontrar alguém em quem confiar. Confio no senhor. É a única pessoa na terra que sabe da existência dela, e seu nome real. Lembre-se, é vital que nem esta carta nem meus documentos anteriores saiam de suas mãos para as de qualquer pessoa.

"Primeiro, quero explicar sobre o Kirk: acredito que, den­tro de uns dez anos, as nações árabes deixarão de lado suas diferenças e usarão o poder real que têm, não contra Israel diretamente, mas contra o mundo ocidental... forçando-nos a uma posição intolerável: abandonamos Israel... ou morremos de fome? Eles usarão o seu petróleo como arma de guerra.

"Se conseguirem se unir, um punhado de xeques e reis feudais na Arábia Saudita, Irã, Estados do golfo Pérsico, Iraque e Líbia poderão, quando lhes der na telha, cortar os suprimen­tos ocidentais e japoneses da única matéria-prima que lhes é indispensável. Terão uma oportunidade ainda mais sofisticada: aumentar os preços a níveis sem precedentes, e manter nossas economias nas suas mãos. O petróleo é a arma definitiva para os árabes. Invencível, enquanto dependermos do seu petróleo. Daí meu interesse imediato na teoria de Kirk.

"Hoje em dia, trazer um barril de petróleo à superfície de um deserto árabe custa cerca de oito cents. Um barril a granel, trazido do mar do Norte para terra, na Escócia, custaria sete dólares. Se o petróleo árabe pulasse do seu preço atual de três dólares o barril no mercado mundial para nove... acho que entendeu imediatamente aonde quero chegar. Então, o mar do Norte passaria a ser imensamente viável, e um tesouro nacional britânico.

"Jamie disse que os campos ficam ao norte e a leste da Escócia. O porto de Aberdeen seria o lugar lógico para trazê-lo para terra. Um homem sensato começaria a se interessar por desembarcadouros, imóveis, campos de pouso, em Aberdeen. Não se preocupe com o mau tempo. Os helicópteros serão os elos de conexão com os poços de perfuração. Dispendiosos, sim, mas viáveis. Além do mais, se aceitar minha previsão de que os trabalhistas ganharão a eleição próxima por causa do escândalo Profumo... "

O caso ganhara todos os jornais. Seis meses antes, em março, o secretário de Estado da Guerra, John Profumo, ne­gara formalmente ter tido um caso com uma call girl notória, Christine Keeler, uma das várias moças que subitamente ganha­ram destaque internacional, assim como o seu cáften, Stephen Ward, até então apenas um renomado osteopata da alta socie­dade londrina. Tinham circulado rumores não-confirmados de que a garota também estava tendo um caso com um dos adidos soviéticos, um conhecido agente do KGB, comandante Ievguêni Ivánov, que tinha sido chamado de volta à Rússia no mês de dezembro anterior. Durante o escândalo que se seguira, Profu­mo pedira demissão, e Stephen Ward se suicidara.

"É curioso que o caso tenha sido revelado à imprensa na hora perfeita para os soviéticos. Ainda não tenho provas, mas na minha opinião não foi apenas uma coincidência. Lembre-se de que faz parte da doutrina soviética fragmentar os países — Coréias do Norte e do Sul, Alemanhas Oriental e Ocidental, e daí por diante —, e depois deixar seus doutrinados subalter­nos fazerem o serviço para eles. Assim, acho que os socialistas pró-soviéticos vão ajudar a fragmentar a Grã-Bretanha em Ingla­terra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Sul e do Norte (pense no Eire e na Irlanda do Norte, uma arena feita de encomenda para as diabruras soviéticas).

"Agora, quanto à minha sugestão para o Plano de Contin­gência Número Um da Casa Nobre: ser circunspecto em relação à Inglaterra e concentrar-se na Escócia como base. O petróleo do mar do Norte tornaria a Escócia abundantemente auto-sufi­ciente. A população é pequena, valente e nacionalista. Como entidade, a Escócia seria viável, e defensável... com um abun­dante suprimento exportável de petróleo. Uma Escócia forte talvez pudesse equilibrar a balança e ajudar uma Inglaterra claudicante... o nosso pobre país, sr. Dunross. Temo imensa­mente pela Inglaterra.

"Talvez esta seja mais uma das minhas teorias exageradas. Mas reconsidere a Escócia, Aberdeen, à luz de um novo mar do Norte. "

— Ridículo! — explodiu Dunross, e parou de ler por um momento, o pensamento incendiado. Depois aconselhou a si próprio: "Não perca a cabeça! Às vezes o Alan é muito imagi­nativo, dado a exageros. É um imperialista de direita que en­xerga quinze vermelhos debaixo de cada cama. Mas, o que diz poderia ser possível. Se for possível, tem que ser levado em consideração. Se houvesse uma escassez mundial de petróleo e nós estivéssemos preparados, poderíamos ganhar uma fortuna", pensou, sua agitação aumentando. "Seria fácil começar a investir em Aberdeen agora, fácil começar uma retirada calculada de Londres sem prejudicar coisa alguma... Edimburgo oferece todas as modernas facilidades bancárias, de comunicação, por­tos, campos de pouso, tudo de que precisaríamos para operar eficientemente. A Escócia para os escoceses, com petróleo abun­dante para exportar? Completamente viável, mas não separada, e sim dentro de uma Grã-Bretanha forte. Mas, se a cidade de Londres, o Parlamento e a Threadneedle Street ficassem entu­pidos de esquerdistas... "

Os pêlos de sua nuca arrepiaram-se à idéia de uma Grã-Bretanha enterrada sob uma mortalha de socialismo de es­querda. "E quanto a Robin Grey? Ou Julian Broadhurst?", perguntou-se, gelado. "Sem dúvida nacionalizariam tudo, agar­rariam o petróleo do mar do Norte, se houvesse algum, e dariam cabo de Hong Kong... já disseram que o fariam. "

Com esforço, guardou essa idéia para mais tarde, virou a página e continuou a ler.

"A seguir, acho que identifiquei três dos agentes infiltra­dos da Sevrin. A informação saiu cara (posso precisar de mais dinheiro antes do Natal), e não estou certo da sua exatidão. (Estou tentando reconferi-la imediatamente, pois dou-me conta da importância que tem para o senhor. ) Acredita-se que os toupeiras sejam: Jason Plumm, de uma companhia chamada Propriedades Asiáticas; Lionel Tuke, da companhia telefônica; e Jacques de Ville, da Struan... "

— Impossível! — exclamou Dunross, em voz alta. — Alan ficou maluco! É tão impossível que seja Plumm quanto Jacques. Total e absolutamente impossível! De jeito algum po­deriam...

Seu telefone particular começou a tocar. Automaticamen­te, ele atendeu.

— Pronto?

— Aqui é a telefonista internacional chamando o sr. Dunross.

— Quem quer falar com ele, por favor? — disse brus­camente.

— O sr. Dunross aceita um telefonema a cobrar de Syd­ney, Austrália, da parte de um sr. Duncan Dunross?

O coração do tai-pan falhou uma batida.

— Mas, claro! Alô, Duncan... Duncan?

— Papai?

— Alô, filho, você está bem?

— Oh, sim, estou ótimo! — ouviu o filho dizer, e sua ansiedade desapareceu. — Desculpe ligar no horário de traba­lho, papai, mas meu vôo de segunda está com excesso de reservas e...

— Pombas, você tem reserva confirmada, rapaz. Vou ligar...

— Não, papai, obrigado, está tudo bem. Agora estou num vôo que sai mais cedo. Estou no vôo 6 da Singapore Airlines, que chega a Hong Kong ao meio-dia. Não precisa ir me receber, pego um táxi e...

— Espere o carro, Duncan. Lee Choy irá recebê-lo. Mas passe pelo escritório antes de ir para casa, ouviu?

— Tudo bem. Já confirmei meus bilhetes e tudo. Dunross notou o orgulho na voz do filho, e ficou satisfeito.

— Ótimo. Bom trabalho. A propósito, o primo Linbar vai chegar amanhã pelas Qantas, às vinte horas, de Sydney. Tam­bém vai ficar hospedado na casa. — A Struan tinha uma casa da companhia em Sydney desde 1900, e um escritório perma­nente ali desde a década de 1880. A Bruxa Struan fizera a sociedade com um plantador de trigo imensamente rico, cha­mado Bill Scragger, e a firma deles florescera até o craque da Bolsa em 1929. — Divertiu-se nas férias?

— Puxa, demais! Muito mesmo. Quero voltar no ano que vem. Conheci uma garota fantástica, papai.

— É? — comentou Dunross, e metade dele queria sorrir, a outra metade ainda estava aprisionada no pesadelo da possi­bilidade de que Jacques fosse um traidor. E se fosse traidor e membro da Sevrin, teria sido ele quem fornecera alguns dos segredos mais íntimos da firma a Linc Bartlett? Não, Jacques não podia ter feito isso. Não teria possibilidade de conhecer a situação bancária da empresa. Quem estaria a par dela? Quem...

— Papai?

— Sim, Duncan?

Percebeu a hesitação, depois o filho falou de uma vez só, tentando parecer viril.

— Tudo bem se um cara namora uma garota um pouco mais velha do que ele?

Dunross sorriu de leve, e começou a pensar que aquilo não tinha importância, pois o filho só tinha quinze anos. Mas de­pois lembrou-se de Jade Elegante, quando ele próprio tinha pouco menos de quinze anos, certamente mais homem do que Duncan. "Não necessariamente", pensou, com toda a honesti­dade. "Duncan é alto, e está crescendo, e é tão homem quanto eu era. E não a amei até a loucura naquele ano, e no ano seguinte, e não pensei que ia morrer no ano seguinte, quando ela sumiu?"

— Bem — disse, de igual para igual —, depende de quem seja a garota, de quantos anos o homem tenha, e de quantos anos a garota tenha.

— Ah! — Fez-se uma longa pausa. — Ela tem dezoito anos.

Dunross ficou imensamente aliviado. "Isso quer dizer que ela tem idade bastante para não brincar com fogo", pensou.

— Eu diria que é perfeito — disse, no mesmo tom de voz —, especialmente se o rapaz tem uns dezesseis anos, é alto, forte e conhece os fatos da vida.

— Ah! Ah, eu não... Oh! Não iria...

— Não estava sendo crítico, meu rapaz, apenas respondi à sua pergunta. Um homem tem que ser cuidadoso neste mun­do, e deve escolher com muito cuidado as namoradas. Onde a conheceu?

— Na "estação". Chama-se Sheila.

Dunross conteve um sorriso. As garotas na Austrália eram chamadas de sheilas, assim como em outros lugares são cha­madas de gatas.

— Que lindo nome! — falou. — Sheila do quê?

— Sheila Scragger. É sobrinha do velho sr. Tom, e está de visita, vinda da Inglaterra. Está estudando para ser enfer­meira no Guy's Hospital. Foi muito legal comigo, e Paldoon também é muito legal. Nem sei como lhe agradecer por ter me dado umas férias tão legais.

Paldoon, o rancho dos Scraggers, ou "estação", como era chamado na Austrália, era a única propriedade que eles haviam conseguido salvar da derrocada. Paldoon ficava a oitocentos quilômetros a sudoeste de Sydney, perto do rio Murray, nas terras de arroz da Austrália, sessenta mil acres — trinta mil cabeças de ovelha, dois mil acres de trigo e mil cabeças de gado —, e o melhor lugar para um jovem passar as férias, trabalhando o dia todo, do alvorecer ao anoitecer, reunindo as ovelhas ou os bois a cavalo, galopando trinta quilômetros em qualquer direção dentro da mesma propriedade.

— Dê lembranças minhas ao Tom Scragger, e não deixe de mandar-lhe uma garrafa de uísque antes de partir.

— Ah, mandei-lhe uma caixa, está bem?

— Bem, meu rapaz — riu-se Dunross. — Uma garrafa teria sido o bastante, mas uma caixa é perfeito. Ligue para mim se houver alguma alteração no seu vôo. Fez muito bem em tomar todas as providências por sua conta, muito bem. Oh, a propósito, mamãe e Glenna foram para Londres hoje, junto com tia Kathy, portanto terá que voltar sozinho para a escola e...

— Oh, que barato, papai! — disse o filho, feliz. — Afi­nal de contas, sou um homem agora, e estou quase na univer­sidade!

— É, é isso mesmo. — Uma ponta de tristeza doce tocou Dunross, sentado em sua cadeira, a carta de Alan na mão, praticamente esquecida. — Não está precisando de dinheiro?

— Não, quase não gastei nada na "estação", só uma cer­veja ou duas. Papai, não fale da minha garota a mamãe.

— Está certo. Ou a Adryon — falou, e imediatamente sentiu um aperto no peito à lembrança de Martin Haply com Adryon, e de como os dois tinham saído de mãos dadas. — Você mesmo deve contar a Adryon.

— Oh, que legal! Tinha esquecido dela. Como vai ela?

— Em forma — disse Dunross, ordenando a si mesmo para ser sensato, e não se preocupar, e que era bastante normal que os moços e as moças fossem moços e moças. "É, mas, pombas, como é difícil quando a gente é o pai!" — Bem, Duncan, até segunda! Obrigado por ter ligado.

— De nada. Papai, foi Sheila que me trouxe de carro até Sydney. Ela... vai passar o fim de semana com uns amigos, e vai me levar ao aeroporto! Hoje à noite vamos ao cinema, ver Lawrence da Arábia. Você já viu?

— Já, está passando em Hong Kong. Você vai adorar.

— Que legal! Bem, até logo, papai... tenho que ir an­dando... amo você.

— Amo você — disse, mas a linha já estava muda. "Que sorte tenho com a minha família, minha mulher e meus filhos", pensou Dunross, acrescentando imediatamente: "Por favor, Deus, não deixe que nada lhes aconteça!"

Com esforço, voltou a olhar para a carta. "É impossível que Jason Plumm ou Jacques sejam espiões comunistas", disse para si mesmo. "Nada que jamais tenham dito ou feito sugere tal coisa. Lionel Tuke? Não, ele também não. É um sujeito feio e impopular, que não se mistura com os outros, mas faz parte do time de críquete, é membro do Turf Club, e está aqui desde a década de 30. Não chegou a ser confinado em Stanley, entre 1942 e 1945? Talvez ele... mas os outros dois? Impossível!

"Que pena que Alan esteja morto. Ligaria para ele ime­diatamente a respeito do Jacques e...

"Primeiro acabe a carta, depois considere suas partes", ordenou a si próprio. "Seja correto, eficiente. Santo Deus! Duncan e uma sheila de dezoito anos! Graças a Deus não foi a filha mais moça de Tom Scragger. Quantos anos tem Priscilla, agora? Catorze, bonitinha, corpo de moça bem mais velha. Parece que as meninas amadurecem cedo na Austrália. "

Soltou a respiração. "Será que devo fazer pelo Duncan o que Chen-chen fez por mim?"

A carta continuava:

"Como já disse, não estou completamente certo, mas mi­nha fonte geralmente é impecável.

"Lamento dizer que a guerra de espionagem tornou-se mais quente desde que descobrimos e prendemos os espiões Blake, Vassal (que trabalhava com códigos no Almirantado), Philby, Burgess e Maclean, todos desertores. A propósito, todos têm sido vistos em Moscou. Pode contar com o aumento radical da espionagem na Ásia. (Conseguimos provas contra o primeiro-secretário Skripov, da embaixada soviética em Camberra, Austrália, e o expulsamos do país em fevereiro, o que rompeu o círculo de espionagem dele, que era, creio eu, ligado à sua Sevrin e também tinha envolvimentos em Bornéu e na Indonésia. )

"O mundo livre agora está abundantemente infiltrado. A MI-5 e MI-6 estão maculadas. Até mesmo a CIA. Enquanto fomos ingênuos e confiantes, nossos oponentes perceberam, desde cedo, que o equilíbrio futuro dependeria tanto do poder econômico quanto do poder militar, e assim se puseram em campo para adquirir (roubar) nossos segredos industriais.

"Curiosamente, os meios de comunicação do mundo livre omitem-se em ressaltar que todos os avanços soviéticos baseiam-se originariamente em uma das nossas invenções ou técnicas roubadas, que sem os nossos cereais eles morreriam de fome, e que sem a nossa imensa e sempre crescente assistência finan­ceira e créditos para comprar nossos cereais e tecnologia eles não poderiam abastecer e reabastecer toda a sua infra-estrutura militar-industrial, que mantém o seu império e povo embe­vecidos.

"Recomendo que use seus contatos na China para cimen­tá-los ainda mais. Os soviéticos cada vez mais encaram a China como o seu inimigo número 1. O que é igualmente estranho.

Parecem não ter mais aquele medo paranóico dos Estados Uni­dos, que, sem dúvida, atualmente são a potência militar e eco­nômica mais forte da terra. A China, que é econômica e militarmente fraca, exceto no número de soldados disponíveis, não representa uma ameaça militar real para eles. Mesmo assim, a China os deixa apavorados.

"Um dos motivos é a fronteira de oito mil quilômetros que partilham. Outro é o sentimento de culpa nacional pelas vastas áreas de território chinês histórico que a Rússia sovié­tica engoliu ao longo dos séculos; outro é o fato de saberem que os chineses são um povo paciente, de excelente memória. Um dia os chineses retomarão suas terras. Sempre retomaram suas terras, quando era militarmente viável fazê-lo. Já ressaltei muitas vezes que a pedra angular da política soviética (imperialista) é isolar e fragmentar a China, para conservá-la fraca. O grande bicho-papão deles é uma aliança tríplice entre a China, o Japão e os Estados Unidos. A sua Casa Nobre deve trabalhar neste sentido. (Também no sentido da criação de um mercado comum entre os Estados Unidos, o México e o Canadá, total­mente essencial, na minha opinião, a um continente americano estável. ) Por onde mais, senão através de Hong Kong — e portanto das suas mãos —, irá toda a riqueza destinada à China?

"Por último, voltando à Sevrin: corri um grande risco e me aproximei do nosso melhor auxiliar, de valor inestimável, no âmago do ultra-secreto Departamento 5 do KGB. Hoje ele me respondeu que a identidade de Arthur, o líder da Sevrin, é Classificação Um, fora até mesmo do alcance dele. A única pista que ele pôde me dar foi que o homem é inglês, e que uma de suas iniciais é R. Não é lá grande coisa, infelizmente.

"Aguardo poder revê-lo. Lembre-se: meus papéis não de­vem jamais cair nas mãos de qualquer outra pessoa. Lembran­ças, A. M. Grant. "

Dunross guardou de memória o número do telefone de Genebra, anotou-o em código no seu caderno de endereços e acendeu um fósforo. Ficou vendo o papel da carta encrespar-se e começar a queimar.

"R. Robert, Ralph, Richard, Robin, Rod, Roy, Rex, Rupert, Red, Rodney, e sempre de volta a Roger. E Robert. Robert Armstrong ou Roger Crosse ou... ou quem?

"Santo Deus!", pensou Dunross, sentindo-se fraco.

— Genebra 871-6565, ligação direta — pediu, no seu aparelho particular. O cansaço o envolveu. Dormira mal na noite anterior, os sonhos arrastando-o de volta aos tempos da guerra, de volta à sua cabine em chamas, o cheiro de queimado nas narinas. Depois acordara, gelado, escutando o barulho da chuva. Logo se levantara, silenciosamente, deixando Penn ferrada no sono, a Casa Grande quieta, exceto pela velha Ah Tat, que, como sempre, fizera o seu chá. A seguir, fora para o hipódromo, e depois fora perseguido o dia todo, os inimigos fechando o cerco, e nada senão más notícias. "Coitado do John Chen", pensou, depois esforçou-se para afastar o cansaço. "Talvez possa tirar uma soneca entre as cinco e as seis. Vou precisar estar alerta, hoje à noite. "

A telefonista fez a ligação, e ele ouviu o telefone tocar.

— Ja? — disse a voz suave.

— Hier ist Herr Dunross in Hong Kong. Frau Gresserhoff, bit te — falou, em bom alemão.

— Oh! — Uma longa pausa. — Ich bin Frau Gresserhoff, Tai-pan?

— Ah so desu! Ohayo gozaimasu. Anata wa Anjin Riko-san? — perguntou, em excelente japonês. Bom dia. Seu nome é também Riko Anjin?

— Hai. Hai, dozo. Ah, nihongo wa jouzu desu. — É. Ah, o senhor fala japonês muito bem.

— Iye, sukoshi, gomen nasai, — Não, lamento, só um pouquinho.

Como parte do seu treinamento, passara dois anos no es­critório de Tóquio.

— Ah, sinto muito — continuou, em japonês —, mas estou ligando a respeito do sr. Gresserhoff. Já soube?

— Já. — Dava para notar a tristeza dela. — Já. Soube na segunda-feira.

— Acabo de receber uma carta dele. Disse que a senhora tem... tem algumas coisas para mim — falou, cautelosa­mente.

— Sim, tai-pan, tenho.

— Seria possível a senhora trazê-las para mim aqui? In­felizmente não posso ir aí.

— Sim. Sim, claro — falou, hesitante, num japonês suave e agradável. — Quando quer que eu vá?

— O mais depressa possível. Se for ao nosso escritório na Avenue Bern, daqui a duas horas, digamos ao meio-dia, haverá passagens e dinheiro à sua espera. Acredito que haja uma conexão da Swissair partindo hoje à tarde... se fosse possível...

Nova hesitação. Ele esperou pacientemente. A carta de Alan se contorcia no cinzeiro, enquanto queimava.

— É — falou. — Seria possível.

— Tomarei todas as providências para a senhora. Quer que alguém a acompanhe?

— Não, não, obrigada. — Ela falava tão baixo que ele teve que tapar a orelha com a mão para escutar melhor. — Por favor, desculpe-me por dar-lhe tanto trabalho. Eu mesma tomo as providências.

— Não é trabalho algum — disse, satisfeito por estar falando num japonês fluente e coloquial. — Por favor, vá ao meu escritório ao meio-dia... A propósito, o tempo aqui está quente e úmido. Ah, sinto muito, desculpe perguntar, mas seu passaporte é suíço ou japonês, e com que nome vai viajar?

Uma pausa ainda mais longa.

— Bem... acho que devo... é suíço, e devo viajar com o nome de Riko Gresserhoff.

— Obrigado, sra. Gresserhoff. Aguardo a sua chegada. Kiyotsukette — terminou. Boa viagem.

Pensativo, colocou o fone no gancho. A carta de Alan terminou de queimar, num filete de fumaça. Cuidadosamente, esmigalhou as cinzas, transformando-as em pó.

"Bem, e quanto a Jacques?"

 

                 17h45m

Jacques de Ville subiu pesadamente as escadarias do Hotel Mandarim, até o mezanino, cheio de gente tomando o chá do fim da tarde.

Tirou a capa de chuva e passou por entre a multidão, sentindo-se muito velho. Acabara de falar com a mulher, Susane, em Nice. O especialista de Paris fizera novo exame em Avril, e achara que os ferimentos internos dela talvez não fos­sem tão graves quanto se pensara inicialmente.

— Ele falou que temos que ser pacientes — dissera-lhe Susanne no seu francês parisiense arrebatado. — Mas, Deus, como podemos? A pobre criança está desesperada, e perdendo o juízo. Fica repetindo: "Mas era eu quem estava dirigindo. Era eu, mamãe. Se não fosse por mim o meu Borge estaria vivo, se não fosse por mim... " Estou com medo do que possa acon­tecer com ela, chéri!

— Ela já sabe da... dos ferimentos internos?

— Não, ainda não. O médico achou melhor não contar até ter certeza — falou Susanne, começando a chorar.

Sofrendo muito, ele a acalmou como pôde, e disse que ligaria para ela dali a um hora. Durante algum tempo, ficou pensando no que devia fazer. Depois tomou suas providências, saiu do escritório e foi para o hotel.

A cabine telefônica pública perto da banca de jornais esta­va ocupada. Então ele comprou um jornal vespertino e olhou as manchetes. "Vinte mortos nos deslizamentos de lama na área de recolonização... A chuva deverá continuar... Será cance­lado o Grande Dia das Corridas de sábado?... Kennedy adverte aos soviéticos para não interferirem no Vietnam... Tratado de Proscrição de Testes Atômicos assinado em Moscou por Dean Rusk, Andrei Gromiko e Sir Alec Douglas-Home, rejeitado pela França e pela China... Os comunistas malaios aumentam sua ofensiva... O segundo filho homem de Ken­nedy, que nasceu prematuramente, morre... Continua a caçada humana aos responsáveis pelo grande assalto ao trem, na Ingla­terra... O escândalo Profumo prejudica o Partido Conser­vador... ''

— Com licença, senhor, está esperando pelo telefone? — perguntou uma americana, às suas costas.

— Ah, estou, sim. Desculpe, obrigado! Não notei que estava vazia.

Entrou na cabine, fechou a porta, usou a moeda e discou. O telefone do outro lado começou a tocar. Sentiu sua ansie­dade aumentar.

— Pronto.

— O sr. Lop-sing, por favor — começou, ainda sem ter certeza de que aquela era a voz certa.

— Aqui não há nenhum sr. Lop-ting. Desculpe, é engano.

— Quero deixar um recado — falou, aliviado ao reco­nhecer a voz de Suslev.

— Discou o número errado. Procure no catálogo. Quando o código foi completado corretamente, ele come­çou a dizer:

— Desculpe ter liga...

— Qual é o seu número? — Suslev interrompeu-o com brusquidão.

Jacques deu-o imediatamente.

— É de uma cabine telefônica?

— É.

Imediatamente, a linha ficou muda. Enquanto desligava, sentiu um súbito suor nas mãos. O número de Suslev devia ser usado apenas numa emergência, mas era uma emergência. Ficou fitando o aparelho.

— Com licença, senhor — chamou a americana, do outro lado da porta de vidro. — Posso usar o telefone? É só um minutinho.

— Oh! Oh, eu... não vou demorar nada — falou Jac­ques, momentaneamente perturbado. Notou que agora havia três chineses esperando impacientes atrás dela. Olhavam-no com cara feia. — Eu... só mais um segundo. — Fechou de novo a porta, as costas molhadas de suor. Esperou, esperou, esperou, e então o telefone tocou. — Alô?

— Qual é a emergência?

— Eu... acabo de ter notícias de Nice. — Cuidadosa­mente, Jacques contou a Suslev a conversa que tivera com a mulher, sem mencionar nomes. — Vou para lá imediatamente, no vôo da noite... e achei melhor contar-lhe pessoalmente para que...

— Não, hoje à noite é muito cedo. Faça a reserva para amanhã, no vôo da noite.

Jacques sentiu seu mundo desabar.

— Mas falei com o tai-pan faz alguns minutos, e ele disse que eu podia ir esta noite. Já fiz a reserva. Volto daqui a três dias. Ela parecia muito perturbada ao telefone. Não acha que...

— Não! — disse Suslev, ainda mais bruscamente. — Ligo para você hoje à noite, conforme o combinado. Isso podia ter esperado até lá. Não use este número de novo a não ser que haja uma emergência de verdade!

Jacques abriu a boca para dar uma resposta malcriada, mas o aparelho já tinha sido desligado. Ele percebera a raiva do outro. "Mas é uma emergência", disse consigo mesmo, fu­rioso, começando a discar de novo. "Susanne precisa de mim, assim como Avril. E o tai-pan aprovou a idéia. "

"Boa idéia, Jacques", dissera Dunross imediatamente. "Fi­que o tempo que for preciso. Andrew pode fazer a sua parte. "

"E agora... Merde, o que vou fazer? Suslev não é o meu guardião.

"Não é?"

De Ville parou de discar, suando frio, e desligou.

— Terminou, senhor? — chamou a americana, com seu sorriso insistente. Estava na casa dos cinqüenta, o cabelo tin­gido num tom azulado. — Tem uma fila esperando.

— Ah... ah, sim, desculpe. Abriu a porta.

— O senhor esqueceu o seu jornal — disse ela, educa­damente.

— Oh, sim, obrigado.

Jacques de Ville voltou para pegá-lo e saiu da cabine, desalentado. Imediatamente, todos os chineses, três homens e uma mulher, adiantaram-se violentamente, tirando Jacques e a americana do caminho, a cotoveladas. A matrona corpulenta chegou primeiro até a porta, e bateu-a atrás de si, enquanto os outros se empurravam para ser o seguinte.

— Ei... era a minha vez — começou a americana, irada, mas eles nem lhe deram atenção, apenas xingaram-na, e à sua ascendência, de maneira direta e vulgar.

Suslev estava no apartamento pequeno de Kowloon, um dos locais seguros de Arthur, o coração ainda disparado pelo inesperado telefonema. Na sala havia um cheiro forte, úmido, sujo, de comida velha, e ele fitava o telefone, furioso com Jacques de Ville. "Seu bosta cretino sem mãe! Jacques está se tornando um risco. Hoje à noite direi ao Arthur o que deve ser feito com ele. Quanto mais cedo, melhor! É, e quanto mais cedo você se acalmar, melhor", advertiu a si mesmo. "Gente com raiva comete erros. Guarde a sua raiva!"

Com esforço, foi o que fez. Depois, saiu para o patamar escuro e descascado, trancando a porta atrás de si. Outra chave destrancou a porta de Ginny Fu, colada à dele.

— Quer vodca? — perguntou ela, com seu sorriso atre­vido.

— Quero.

Ele retribuiu o sorriso, gostando de olhar para ela. A moça estava sentada de pernas cruzadas no sofá, usando apenas o sorriso. Estavam se beijando quando o telefone tocou pela pri­meira vez. Havia dois telefones no apartamento. O dela e o outro, o secreto, dentro do armário, que apenas ele usava. Arthur lhe dissera que era seguro, clandestino, não constava do catálogo, e era impossível colocar-lhe uma escuta. Mesmo assim, Suslev somente usava o outro apartamento e o seu tele­fone, para as emergências.

"Matieriebiets, Jacques", pensou, ainda nervoso devido ao toque repentino do seu telefone particular.

— Beba, továrich — falou Ginny, oferecendo-lhe o copo. — Depois me beba, heya?

Ele devolveu o sorriso, pegou a vodca e correu uma mão apreciativa pelo traseirinho jeitoso dela.

— Ginny, gólubuchka¹, você é uma boa garota.

 

¹ "Pombinha", em russo. (N. do E. )

 

— É claro. Eu a melhor garota para você. — Estendeu a mão e acariciou o lóbulo da orelha dele. — Nós fuque-fuque, heya?

— Por que não? — Ele bebeu o líquido ardente devagar, querendo que durasse bastante. Os dedinhos ágeis dela desabotoavam-lhe a camisa. Ele fez com que ela parasse por um mo­mento e beijou-a. Ela gostou do beijo, e retribuiu-o da mes­ma forma.

— Espere até sem roupa, heya? — disse Ginny, com uma risadinha abafada.

— Na semana que vem vou embora, sabe? — disse ele, dando-lhe um abraço apertado. — Que tal você vir junto, hem? O passeio que sempre lhe prometi?

— Oh! Oh, verdade? — O sorriso dela era imenso. — Quando? Quando? Não está brincando?

— Você pode vir comigo. Vamos parar em Manila. Nossa primeira parada será em Manila, depois vamos para o norte, e voltamos para cá dentro de um mês.

— Ah, um mês inteiro... ah, Gregy! — Ela o abraçou com toda a sua força. — Vou ser a melhor garota de coman­dante de navio de toda a China!

— É, vai, sim.

— Quando vai... quando vamos?

— Na semana que vem. Aviso quando.

— Ótimo. Amanhã, vou tirar passaporte...

— Não, nada de passaporte, Ginny. Jamais o darão a você. Aqueles vibliadoks impedirão você. Jamais deixarão que venha comigo... ah, não, gólubuchka, aquela polícia suja não deixará que venha comigo.

— Então, que faço, heya?

— Vou contrabandeá-la para dentro do navio numa arca!

— Ele soltou uma risada gostosa. — Ou quem sabe num tapete mágico. Hem?

Ela ergueu para ele os olhos escuros, marejados e ansiosos.

— Verdade você me leva? Verdade? Um mês no seu navio, heya?

— Pelo menos um mês. Mas não conte a ninguém. A polícia me vigia o tempo todo, e se souber, não deixará que você venha comigo. Compreendeu?

— Todos os deuses sejam testemunhas não vou contar ninguém, nem minha mãe — jurou Ginny com veemência, depois abraçou-o de novo com a imensidão da sua felicidade.

— Eeee, fico com muito prestígio, como mulher de comandan­te! — Outro abraço, e ela deixou os dedos vagarem, e ele estremeceu involuntariamente. Ela riu e começou a despi-lo de novo. — Vou dar você o melhor, agora. O melhor.

Ela usou os dedos e os lábios com perícia, tocando, ta­teando, movendo-se contra ele, concentrando-se na sua tarefa até que ele soltou uma exclamação e tornou-se um só, jun­tamente com os deuses, nas Nuvens e Chuva. As mãos e os lábios dela continuaram nele, sem deixá-lo, até que a última fraçãozinha de prazer se esgotasse. Depois, ela parou, e enros­cou-se contra ele, escutando o seu respirar profundo, muito con­tente por ter feito bem o seu trabalho. Ela própria não expe­rimentara as Nuvens e Chuva, embora tivesse fingido várias vezes, para aumentar o prazer dele. Apenas duas vezes, entre todas as que tinham dormido juntos, ela chegara ao clímax, e em ambas estava muito bêbada, e não tinha mesmo certeza se chegara ou não. Era somente com o Terceiro Cozinheiro de Sanduíches Noturno Tok, do Victoria and Albert, que ela che­gava ao clímax todas as vezes. "Que todos os deuses abençoem a minha sorte!", pensou, contente. "Com um mês de viagem e o dinheiro extra que Grigóri vai me dar, e, com sorte, mais um ano com ele, teremos dinheiro bastante para abrir o nosso restaurante. Poderei ter filhos e netos, e tornar-me uma só pessoa com os deuses. Ah, que sorte tenho!"

Ela agora estava cansada, pois esforçara-se muito. Por isso, acomodou-se mais confortavelmente de encontro ao corpo dele, fechando os olhos, gostando dele, grata aos deuses por terem-na ajudado a superar o nojo inicial que sentia pelo tamanho dele, pela sua pele de sapo branca e o cheiro rançoso do seu corpo. "Graças a todos os deuses!", pensou, satisfeita, pegan­do no sono.

Suslev não estava dormindo. Deixava o pensamento vagar, mente e corpo em paz. O dia fora bom, a não ser por um pe­queno detalhe ruim. Depois de ter-se encontrado com Crosse na pista de corridas, voltara para o navio, abismado de que pudesse estar havendo um "vazamento" de segurança no Ivánov. Codificara a informação de Crosse sobre a Operação Dry Run e todas as outras coisas, e transmitira-as da segurança do seu camarote. Mensagens recebidas alertavam-no de que Voranski só seria substituído na próxima visita do Soviétski Ivánov, que o psicólogo perito em interrogatórios com substâncias químicas, Koronski, estava à disposição para vir de Bangkok com aviso prévio de doze horas, e que ele, Suslev, devia assu­mir a direção da Sevrin, e manter contato direto com Arthur.

"Não falhe na obtenção das pastas de A. M. Grant. "

Ele se recordava do arrepio que tomara conta dele às palavras "não falhe". Tão poucos fracassos, tantos sucessos! Mas só as falhas e fracassos eram lembrados. "Onde estará o 'vazamento' de segurança a bordo? Quem mais leu as pastas de A. M. Grant, além de mim? Apenas Dmítri Metkin, meu imediato. Não pode ser ele. O 'vazamento' deve vir de outro lugar.

"Até onde posso confiar em Crosse?

"Não demais, mas sem dúvida o sujeito é o agente mais valioso que temos no campo capitalista da Ásia, e tem de ser protegido custe o que custar. "

A sensação do corpo de Ginny contra o dele era agradável. Ela respirava suavemente, com um leve estremecimento de vez em quando, o peito subindo e descendo. Os olhos dele atraves­saram a porta e foram se fixar no relógio antigo que ficava num nicho numa das prateleiras desarrumadas da cozinha, em meio a garrafas, latas e recipientes meio usados. A cozinha fi­cava numa recâmara que dava para a sala. Ali, no único dor­mitório, a cama era imensa e ocupava quase todo o quarto. Ele a comprara para ela logo que se haviam conhecido, havia dois, quase três anos. Era uma boa cama, limpa, macia, mas não macia demais, uma mudança para melhor do seu beliche a bordo.

E Ginny também era uma amante agradável. Dócil, tran­qüila, não criava caso. Seu cabelo negro-azulado era curto, uma franja reta caindo sobre a testa alta, como ele gostava... que contraste com Vertinskaia, sua amante em Vladivostok, de olhos cor de avelã rasgados, a longa cabeleira castanha ondulada e o gênio de uma gata selvagem. A mãe dela era uma verdadeira princesa Zergueiev, e o pai, um insignificante comerciante mes­tiço chinês que comprara a mãe num leilão quando ela estava com treze anos. Ela estava num dos caminhões de gado cheio de crianças que fugiam da Rússia depois do holocausto de 17.

"Liberação, não holocausto", disse alegremente para si mesmo. "Ah, mas é bom deitar com a filha de uma princesa Zergueiev quando se é neto de um camponês que trabalhava nas terras dos Zergueiev. "

Pensar nos Zergueiev fez com que se lembrasse de Aleksei Travkin. Sorriu consigo mesmo. "Pobre Travkin, que idiota! Será que eles realmente vão mandar a princesa Nestorova, a mulher dele, para Hong Kong, no Natal? Duvido. Mas talvez o façam, e Travkin morrerá de choque ao ver aquela bruxa velha das neves, desdentada, enrugada e cheia de artrite. Me­lhor poupar-lhe essa agonia", pensou, apiedado. "Travkin é russo, e não é um mau homem. "

Olhou de novo para o relógio. Agora, marcava seis e vinte. Sorriu consigo mesmo. Nada a fazer durante algumas horas, exceto dormir, comer, pensar e planejar. Depois, o en­contro cuidadoso com o deputado inglês, e, no fim da noite, encontrar-se com Arthur de novo. Soltou uma risadinha abafada. Divertia-o muito saber segredos que Arthur não conhecia. "Mas, afinal, o Arthur também guarda lá os seus segredos", pensou, sem raiva. "Talvez já esteja sabendo dos deputados. É inteli­gente, muito inteligente, e também não confia em mim.

"Esta é a grande lei: nunca confie noutra pessoa (homem, mulher ou criança) se quiser permanecer vivo, em segurança e longe das garras inimigas.

"Eu estou em segurança porque conheço as pessoas, sei como ficar de boca fechada, e sei como incrementar a política do Estado puramente como parte do meu próprio plano de vida.

"Tantos planos maravilhosos para levar a cabo! Tantos golpes excitantes a serem dados e nos quais tomar parte! E ainda há a Sevrin... "

Deu nova risadinha, e Ginny se mexeu...

— Durma, princesinha — murmurou carinhosamente, como se falasse a uma criança. — Durma.

Obediente, ela não acordou de verdade, apenas tirou o cabelo dos olhos e se ajeitou melhor.

Suslev deixou seus olhos se fecharem, o corpo dela, gos­toso, contra o seu. Pousou o braço sobre as ancas dela. A chuva diminuíra durante a tarde. Agora, notou que tinha parado. Bocejou e pegou no sono, sabendo que o temporal ainda não terminara o seu serviço.

 

                      18h25m

Robert Armstrong esvaziou o copo de cerveja.

— Mais uma — falou, com voz pastosa, fingindo estar bêbado. Estava no Namorada Boa Sorte, um bar lotado e baru­lhento de Wanchai, no cais do porto, cheio de marujos ameri­canos do porta-aviões nuclear. Recepcionistas chinesas assedia­vam os fregueses com bebidas, e aceitavam em troca pilhérias, toques e drinques aguados, a preços altos. Ocasionalmente, uma delas pedia um uísque de verdade e o mostrava ao parceiro, para provar que aquele era um bar dos bons, onde não havia trapaça.

Acima do bar ficavam os quartos, mas não era conve­niente para os marujos se utilizarem deles. Nem todas as garotas eram limpas ou cuidadosas, não por livre escolha, mas por igno­rância. E, no final da noite, podiam afanar-lhes a grana, embora só os muito bêbados fossem roubados. Afinal de contas, não havia necessidade: os marujos estavam dispostos a gastar tudo o que tinham.

— Quer fuque-fuque? — perguntou a criança excessiva­mente pintada.

"Dew neh loh moh para todos os seus ancestrais", teve vontade de lhe dizer. "Você devia estar em casa, na cama, lendo livros escolares. " Mas não o disse. Não ia adiantar nada. Pro­vavelmente, os próprios pais lhe haviam arranjado aquele em­prego, agradecidos, para que toda a família pudesse sobreviver um pouco melhor.

— Quer tomar alguma coisa? — perguntou, sem revelar que falava cantonense.

— Escocês, escocês — pediu a criança, imperiosamente.

— Por que não pede chá, e eu lhe dou o dinheiro, de qualquer maneira? — disse ele, com azedume.

— Fodam-se todos os deuses e as mães dos deuses, não sou trapaceira! — Altivamente, a garota mostrou-lhe o copo sujo que o garçom jogara sobre a mesa. Continha mesmo uísque, dos mais baratos. A garota esvaziou o copo sem uma careta. — Garçom! Outro escocês e outra cerveja! Você bebe, eu bebo, depois nós fuque-fuque. Armstrong olhou para ela.

— Como se chama?

— Lily. Lily Chop. Vinte e cinco dólares, pouco tempo.

— Quantos anos tem?

— Bastante. Quantos anos você?

— Dezenove.

— Hum, tiras sempre mentem!

— Como sabia que sou um tira?

— Patroa contou. Só vinte dólares, heya?

— Quem é a patroa? Onde está?

— Atrás do bar. Ela mama-san.

Armstrong forçou a vista, em meio à fumaceira. A mu­lher era uma magricela na casa dos cinqüenta que suava e dava duro, mantendo um papo constante e vulgar com os marinhei­ros enquanto atendia aos pedidos.

— Como ela soube que sou tira? Lily deu de ombros de novo.

— Escute, ela mandou deixar você contente, ou eu no olho da rua. Vamos subir, heya? Por conta da casa, nada de vinte dólares.

A menina se levantou. Dava para ver o medo dela, agora.

— Sente-se — ordenou.

Ela sentou-se, com mais medo ainda.

— Se eu não agrado, ela me joga na...

— Você me agrada. — Armstrong soltou um suspiro. Era um truque antigo. Se você ia, pagava, se não ia, pagava, e o patrão sempre mandava uma jovenzinha. Entregou-lhe cin­qüenta dólares. — Tome. Vá e dê para a mama-san, com meus agradecimentos. Diga a ela que agora não posso fuque-fuque porque estou incomodado! O Honorável Vermelho está comigo!

Lily fitou-o, boquiaberta, depois casquinou como uma velha.

— Eeee, fodam-se todos os deuses! Essa é boa!

E lá se foi ela, equilibrando-se com dificuldade, sobre os saltos altos, o cheong-sam vulgar fendido bem alto, mostrando as pernas e nádegas magras, muito magras.

Armstrong acabou a cerveja, pagou a conta e ficou de pé. Imediatamente, tomaram conta da sua mesa, e ele foi abrindo caminho até a porta por entre os marujos suados e ruidosos.

— Será sempre bem-vindo — disse a mama-san, quando ele passou por ela.

— Claro — respondeu ele, sem malícia.

A chuva agora não passava de uma garoa, e estava ficando escuro. Na rua havia muitos outros marujos bagunceiros, todos americanos — os comandantes dos navios britânicos tinham dado ordem ao seu pessoal para não entrar naquela área por alguns dias. Sentia a pele úmida e quente sob a capa de chuva. Dali a um momento, tinha saído da Gloucester Road e do cais do porto e subia a O'Brien Road, no meio do povo, pisando nas poças d'água, a cidade com cheiro bom de coisa limpa e lavada. Na esquina, dobrou a Lochart Road, e finalmente achou o beco que procurava. Estava movimentado, como de costume, com barraquinhas de rua, lojas e cães esqueléticos, galinhas engaioladas, patos secos fritos e carnes pendendo de ganchos, legumes e frutas. Pouco além do começo do beco ficava uma barraquinha com bancos, sob um toldo de lona para proteger da garoa. Ele fez um gesto de cabeça para o proprietário, esco­lheu um canto na sombra, pediu um prato de talharim de Cingapura — fininho, levemente frito, seco, com pimenta, tem­peros, camarão cortidinho e verduras frescas — e esperou.

Brian Kwok.

Sempre de volta a Brian Kwok.

E sempre de volta aos quarenta mil em notas usadas que encontrara na gaveta da sua mesa, aquela que mantinha sempre trancada.

"Concentre-se", disse para si mesmo, "ou vai escorregar. Vai cometer um erro. Não pode se dar a esse luxo!"

Estava exausto, e sentia-se sujo, uma sujeira que água quente e sabonete não conseguiam limpar. Com esforço, fez os olhos buscarem a presa, os ouvidos escutarem os sons da rua, e o nariz saborear a comida.

Tinha acabado de esvaziar a tigela quando viu o marujo americano. O homem era magro, usava óculos, e era bem mais alto que os pedestres chineses, embora caminhasse levemente curvado. Estava abraçado a uma mulher da rua. Ela segurava um guarda-chuva, cobrindo-os, e puxava o braço dele.

— Não. Por aí, não, benzinho — pedia. — Meu quarto outro lado... compreende?

— Claro, boneca, mas primeiro vamos para este lado, e depois para o seu lado. Tá? Vamos, querida.

Armstrong encolheu-se mais na sombra. Observou-os en­quanto se aproximavam, perguntando-se se ele seria o tal. O sotaque era sulista, doce, e ele tinha vinte e tantos anos. En­quanto andavam pela rua movimentada, ele olhava de um lado para outro, procurando se orientar. Depois, Armstrong notou que ele vira a loja do alfaiate num dos cantos do beco, cha­mada Ternos Feitos à Mão, de Pop-ting, e, do lado oposto, um restaurante pequeno e aberto, iluminado com lâmpadas nuas e com um cartaz toscamente escrito pregado num poste: bem-vindos os marinheiros americanos. A coluna de caracteres chineses que encimava a porta dizia: mil anos de saúde para O RESTAURANTE MAO TSÉ-TUNG.

— Vamos, boneca — disse o marujo, animando-se. — Vamos tomar uma cerveja aqui.

— Lugar não presta, benzinho, melhor vir meu bar, heya? Melhor...

— Porra, vamos tomar uma cerveja aqui! — Entrou no restaurante aberto e sentou-se a uma das mesas de plástico, volumoso no seu impermeável. Ela o seguiu, de cara amarrada. — Cerveja! Duas cervejas! San Miguel, tá? Sacou?

De onde estava, Armstrong podia vê-los nitidamente. Uma das mesas estava ocupada por quatro cules, que tomavam sopa de talharim ruidosamente. Lançaram um breve olhar para o marujo e a garota. Um deles fez um comentário obsceno, e os outros riram. A garota enrubesceu e deu-lhes as costas. O ma­rinheiro cantarolava enquanto olhava ao seu redor com cuida­do, bebericando a cerveja. Depois levantou-se.

— Tenho que ir à privada.

Sem hesitar, dirigiu-se para a parte dos fundos, atraves­sando a cortina de contas carcomidas, o empregado do balcão a observá-lo com azedume. Armstrong soltou um suspiro e rela­xou. A armadilha fora acionada.

Dali a um momento, o marinheiro voltou.

— Vamos — disse —, vamos sair daqui.

Esvaziou o copo, pagou, e eles se retiraram de braços da­dos, como haviam chegado.

— Quer mais talharim de Cingapura? — o dono da barraquinha perguntou grosseiramente a Armstrong, os olhos hostis meras fendas no rosto de maçãs altas.

— Não, obrigado. Só outra cerveja.

— Não tem cerveja.

— Fodam-se você e toda a sua descendência — sibilou Armstrong num perfeito cantonense de sarjeta. — Será que sou algum idiota da Montanha Dourada? Não, sou um freguês da sua merda de restaurante. Arranje-me uma merda duma cer­veja ou mandarei meus homens abrirem o seu Saco Secreto e darem os amendoins que você chama de tesouro ao cachorro mais próximo!

O homem ficou calado. Emburrado, foi até a barraquinha vizinha, pegou uma San Miguel, trouxe-a e colocou-a sobre o balcão, aberta. Os outros fregueses ainda fitavam Armstrong, espantados. Abruptamente, ele escarrou ruidosamente e lançou um olhar gélido ao homem mais próximo. Viu que ele estre­meceu e desviou o olhar. Inquietos, os demais voltaram a se concentrar nas suas tigelas, constrangidos por estarem na pre­sença de um policial bárbaro que tinha as péssimas maneiras de soltar palavrões daquele jeito, na língua deles.

Armstrong ajeitou-se mais confortavelmente no banquinho, depois correu os olhos pela rua e pelo beco, esperando pacientemente.

Não teve que esperar muito até ver o europeu pequeno, atarracado e robusto subindo o beco, junto à parede, parando e espiando a vitrine de uma loja de sapatos baratos por trás das barraquinhas que lotavam o beco estreito.

"Ah, é um profissional", pensou Armstrong, muito satis­feito, sabendo que o homem estava usando o vidro como espe­lho para observar o restaurante. O homem não tinha pressa. Usava um impermeável de plástico e um chapéu informe, e não chamava a atenção. Seu corpo ficou momentaneamente oculto quando um cule passou por ele, oscilando sob a carga de pesados embrulhos em cada extremidade do pedaço de bam­bu que levava aos ombros. Armstrong notou as panturrilhas retesadas do cule, cheias de varizes, enquanto vigiava os pés do outro homem. Eles se moveram, e o homem saiu do beco, coberto pelo cule, e não parou, subindo a rua.

"Ele é muito bom", pensou o policial com admiração, sem perdê-lo de vista. "O sacana já fez isso antes. Deve ser do KGB, para ser esperto assim. Bem, não vai demorar muito, agora, meu rapaz, para você ser fisgado", falou com seus botões, sem rancor, como o faria um pescador ao ver uma truta gorda ron­dando a isca.

O homem estava olhando as vitrines de novo. "Venha, peixinho. "

O homem agia exatamente como uma truta. Desfilava lon­gamente, afastava-se e voltava, mas sempre com muito cuidado, e sem chamar a atenção. Finalmente, entrou no restaurante aberto, sentou-se e pediu uma cerveja. Armstrong soltou um suspiro, agora feliz.

Pareceu haver passado um tempo interminável até que o homem também se levantasse, perguntasse onde ficava o banhei­ro, caminhasse por entre os poucos fregueses e atravessasse a cortina de contas. Dali a pouco reapareceu, e foi para a sua mesa. Imediatamente os quatro cules que jantavam atacaram-no pelas costas, prendendo-lhe os braços e deixando-o indefeso, enquanto outro amarrava-lhe uma coleira alta e dura no pescoço. Os ou­tros fregueses do restaurante, fregueses de verdade, e não poli­ciais disfarçados do sei, ficaram boquiabertos. Um deles largou os pauzinhos com que comia, dois fugiram, e os outros fica­ram imóveis.

Armstrong levantou-se calmamente do seu banquinho e foi para lá. Viu o chinês carrancudo de trás do balcão tirar o avental.

— Cale a boca, seu filho da mãe — disse o sujeito, em russo, para o homem que xingava e se debatia, impotente. — Boa noite, superintendente — disse a Armstrong com um sor­riso maroto. Chamava-se Malcolm Sun, era um agente graduado do sei, e o chinês mais antigo naquele 16/2. Fora ele que organizara a intercepção, pagara ao cozinheiro que trabalhava nesse turno e tomara o seu lugar.

— Boa noite, Malcolm. Saiu-se muito bem. — Armstrong voltou a atenção para o agente inimigo. — Como se chama? — perguntou, amavelmente.

— Quem você? Solta... Solta! — falou o homem, num inglês com forte sotaque.

— Ele é todo seu, Malcolm — disse Armstrong. Imediatamente Sun falou, em russo:

— Escute, seu filho da puta, sabemos que você é do Ivánov, que é um mensageiro, e que acaba de pegar um ma­terial deixado pelo americano do porta-aviões nuclear. O filho da mãe já está sob custódia, e é melhor...

— Mentiras! Cometeram um erro — gaguejou o homem em russo. — Não sei nada de nenhum americano. Soltem-me!

— Como se chama?

— Vocês cometeram um erro. Soltem-me!

Uma multidão de espectadores boquiabertos cercava agora o restaurante.

Malcolm Sun virou-se para Armstrong.

— Este está preparado, senhor. Não entende russo direi­to. Parece que teremos que prendê-lo — falou, com um sorriso retorcido.

— Sargento, vá buscar o camburão.

— Sim, senhor.

Um outro agente se afastou rapidamente, enquanto Arm­strong chegava mais perto. O russo era grisalho, um homem atarracado, de olhos pequenos e irados. Estava absolutamente preso, sem chance de escapar ou de pôr a mão no bolso ou na boca, para destruir as provas ou a si mesmo.

Armstrong revistou-o habilmente. Nenhum manual ou rolo de filme.

— Onde o colocou? — perguntou.

— Eu não compreendo!

O ódio do homem não incomodava Armstrong. Não tinha raiva dele. O sujeito era apenas um alvo que fora preso na armadilha. "Quem será que denunciou esse pobre sacana, que está morto de medo, e com razão, que agora está arruinado para sempre junto ao KGB e ao seu pessoal, e que pode se considerar um homem morto? Por que será que a batida é nossa, e não de Rosemont e da sua turma da CIA? Como foi que nós ficamos sabendo da entrega do material, e não os ianques? Como foi que Crosse ficou sabendo de tudo isso?" Crosse apenas lhe dissera onde e como, e que o material ia ser deixado por um marujo do porta-aviões e apanhado por alguém do Ivánov.

— É o responsável, Robert. E, por favor, não entorne o caldo.

— Não o farei. Mas, por favor, arranje outra pessoa para o Brian...

— Pela última vez, Robert, vai fazer o interrogatório de Kwok, e está subordinado ao sei até que eu o libere. E se você reclamar mais uma vez, farei com que o expulsem da polícia, de Hong Kong, com que perca sua aposentadoria. E não preciso lembrar-lhe de que o braço do sei é muito com­prido. Duvido que voltasse a trabalhar, a não ser que virasse criminoso. E, então, que Deus tenha piedade de você. Fui claro?

— Sim, senhor.

— Ótimo. Brian estará pronto para você às seis horas, amanhã de manhã.

Armstrong estremeceu. "Que sorte impossível tivemos ao pegá-lo! Se Wu Óculos não fosse de Ning-tok... se a velha amah não tivesse falado com o Lobisomem... se a corrida ao banco... Deus, meu, quantos ses! Mas é assim que se pega um peixe dos grandes. Na maioria das vezes, sorte pura, e nada mais. Santo Deus, Brian Kwok! Pobre coitado!

Estremeceu de novo.

— Está bem, senhor? — perguntou Malcolm Sun.

— Estou. — Armstrong voltou a olhar para o russo. — Onde enfiou o filme, o rolo de filme?

O homem fitava-o, desafiador.

— Não compreende! Armstrong soltou um suspiro.

— Compreende, e muito bem. — O camburão preto atra­vessou a multidão espantada e parou. Dele saltaram mais ho­mens do sei. — Ponham-no lá dentro e não o soltem — disse Armstrong para aqueles que o seguravam. A multidão olhava, tagarelava e vaiava enquanto o homem era carregado para o camburão. Armstrong e Sun entraram atrás dele e fecharam a porta.

— Pode arrancar, motorista — ordenou Armstrong.

— Sim, senhor.

O motorista atravessou a multidão com cuidado e entrou no tráfego congestionado, dirigindo-se para o QG da Central.

— Pois bem, Malcolm. Pode começar.

O agente chinês pegou uma faca ultra-afiada. O soviético empalideceu.

— Como se chama? — perguntou Armstrong, sentado num banco à sua frente.

Malcolm Sun repetiu a pergunta em russo.

— D... Dmítri Metkin — resmungou o homem, ainda seguro firmemente pelos quatro homens, e incapaz de mover um dedo, quer da mão quer do pé. — Marinheiro, primeira classe.

— Mentiroso — falou Armstrong. — Prossiga, Malcolm. Malcolm Sun pôs a faca sob o olho esquerdo do homem, e ele quase desmaiou.

— Isso fica para mais tarde, espião — falou Sun, em russo, com um sorriso gélido. Habilmente, com violência ma­lévola e deliberada, Sun cortou fora rapidamente a capa de chuva. Armstrong revistou-a com muito cuidado, enquanto Sun usava a faca com perícia, cortando fora a camiseta de marinhei­ro e o resto das roupas que o homem vestia, até deixá-lo nu. A faca não o cortara uma só vez, nem mesmo de leve. Uma revista cuidadosa, feita duas vezes, nada revelou. Nem nos sapatos, ou na sola dos sapatos.

— A não ser que seja uma cópia em micropontos, e nós a tenhamos deixado passar até agora, tem que estar nele — falou Armstrong.

Prontamente os homens que seguravam o russo o dobra­ram ao meio e Sun pegou as luvas cirúrgicas, a pomada cirúr­gica e sondou profundamente. O homem se crispou e gemeu, e lágrimas de dor escorreram-lhe dos olhos.

— Dew neh loh moh — exclamou Sun, contente. Seus dedos retiraram um pequeno tubo de celofane.

— Não o soltem! — falou Armstrong rapidamente. Quando se certificou de que o homem estava seguro, fitou o pacotinho cilíndrico. Dentro dele podia enxergar os círculos de ponta dupla de um rolo de filme.

— Parece um Minolta — falou, distraidamente. Usando alguns lenços de papel, embrulhou com cuidado o tubo de celofane e sentou-se de novo em frente ao homem.

— Sr. Metkin, é acusado segundo a Lei dos Segredos Ofi­ciais de tomar parte num ato de espionagem contra o governo de Sua Majestade e seus aliados. Qualquer coisa que disser será anotada e usada como prova contra o senhor. Bem, senhor — continuou, suavemente —, foi apanhado. Todos pertence­mos ao Serviço Especial de Informações, e não estamos sujei­tos às leis normais, da mesma forma que o seu KGB. Não que­remos machucá-lo, mas podemos detê-lo para sempre, se qui­sermos. Na solitária, se quisermos. Queremos um pouco de cooperação. Apenas as respostas a algumas perguntas. Se o senhor se recusar, extrairemos as informações que queremos. Usamos muitas das suas técnicas do KGB, e podemos, às vezes, até ir além delas. — Notou um lampejo de terror nos olhos do homem, mas algo lhe dizia que aquele homem seria difícil de ser dobrado. — Qual o seu nome verdadeiro? O seu nome oficial no KGB?

O homem apenas o fitava.

— Qual o seu posto no KGB?

O homem ainda o fitava. Armstrong soltou um suspiro.

— Posso deixar meus amigos chineses se encarregarem de você, se preferir, meu velho. Eles não gostam nem um pou­quinho de vocês. Seus exércitos soviéticos invadiram a aldeia de Malcolm Sun, na Manchúria, e a destruíram, assim como à família dele. Lamento, mas preciso ter o seu nome oficial no KGB, seu posto no Soviétski Ivánov, e sua posição oficial.

Novo silêncio hostil. Armstrong deu de ombros.

— Vá em frente, Malcolm.

Sun estendeu a mão e arrancou o pé-de-cabra grosseiro, e, enquanto os quatro homens viraram Metkin brutalmente de bruços e abriram-lhe as pernas, Sun enfiou a ponta. O homem berrou.

— Espere... espere... — falou, ofegante, no seu inglês gutural — espere... sou Dmítri... — Outro berro. — Nikolai Leonov, major, comissário político...

— Chega, Malcolm — falou Armstrong, abismado com a importância da sua presa.

— Mas, senhor...

— Chega — falou Armstrong com aspereza, deliberada­mente protetor, assim como Sun era deliberadamente hostil. Com força e violência, Sun devolveu o pé-de-cabra ao gancho onde estivera preso. — Levantem-no — ordenou Armstrong, sentindo pena do homem, da indignidade sofrida. Mas o truque jamais deixava de produzir nome e posto verdadeiros, se fosse feito imediatamente. Era um truque, pois jamais enfiariam fun­do, e o primeiro grito era sempre de pânico, nunca de dor. A não ser que o agente inimigo desse logo o serviço, eles se deteriam, e depois continuariam o interrogatório no QG, de modo adequado e supervisionado. A tortura não era necessária, em­bora alguns fanáticos a utilizassem, contrariando ordens. "Esta é uma profissão perigosa", pensou, amargamente. "Os métodos do KGB são mais brutais e os chineses têm uma atitude dife­rente em relação à vida e à morte, ao vitorioso e ao derrotado, à dor e ao prazer... e ao valor de um berro. "

— Não nos leve a mal, major Leonov — disse, bondo­samente, quando os outros o haviam erguido e sentado no ban­co, ainda firmemente agarrados a ele. — Não queremos ma­chucá-lo... ou deixar que se machuque.

Metkin cuspiu nele e começou a soltar palavrões, lágrimas de terror, ódio e frustração escorrendo-lhe pelo rosto. Armstrong fez um sinal para Malcolm Sun, que pegou o chumaço de algodão preparado e segurou-o com firmeza sobre o nariz e a boca de Metkin.

O cheiro pesado, adocicado e enjoativo do clorofórmio en­cheu a atmosfera abafada. Metkin se debateu, impotente por um momento, depois cedeu. Armstrong verificou os olhos e o pulso dele, para se certificar de que não estava fingindo in-consciência.

— Podem largá-lo, agora — disse-lhes. — Todos traba­lharam muito bem. Providenciarei para que conste um elogio nas suas folhas de serviço. Malcolm. É melhor cuidarmos muito bem dele. Pode tentar o suicídio.

— É. — Sun recostou-se com os outros, no camburão em movimento, que se arrastava pelo tráfego intenso de manei­ra irritante, parando e andando. Mais tarde, ele deu voz ao pensamento que estava em todas as cabeças. — Dmítri Metkin, aliás Nikolai Leonov, major, KGB, comissário político do Ivánov. O que um peixão desses está fazendo num trabalhinho simples como esse?

 

                  19h5m

Linc Bartlett escolheu com cuidado a gravata. Estava usan­do uma camisa azul-clara, um terno marrom-claro e a gravata era marrom com uma listra vermelha. Havia uma cerveja aberta sobre a cômoda, a lata orvalhada pelo frio. O dia inteiro ele debatera consigo mesmo se devia ou não sair com Orlanda, se devia ou não contar a Casey.

O dia fora excelente para ele. Primeiro, o desjejum com Orlanda, depois uma ida a Kai Tak, para dar uma olhada no seu avião e certificar-se de que poderia usá-lo para o vôo com Dunross a Taipé. O almoço com Casey, depois a emoção na Bolsa. Depois que a Bolsa fechara, ele e Casey haviam tomado a balsa para Kowloon. Toldos de lona para proteger da chuva impediam a visão e tornavam o convés claustrofóbico, a tra­vessia desagradável. Mas era agradável estar com Casey, e ele sentia ainda mais a sua presença devido à existência de Orlanda, e a seu dilema.

— Ian chegou ao fim da linha, não é, Linc?

— Eu diria que sim, claro. Mas ele é esperto. A batalha ainda não terminou, somente o primeiro ataque.

— Como pode se pôr de pé? As ações dele estão a preço de banana.

— Claro, comparando com a semana passada, mas não conhecemos a sua taxa de rentabilidade. Esta Bolsa é como um ioiô — você mesma o disse —, e perigosa. Nisso Ian tem razão.

— Aposto que ele está sabendo dos dois milhões que você entregou ao Gornt.

— Talvez. Não é nada que ele próprio não fizesse, se ti­vesse a oportunidade. Vai receber Seymour e Charlie Forrester?

— Vou. O vôo da Pan Am está no horário, e uma limusine irá me buscar. Sairei assim que chegarmos. Acha que eles vão querer jantar?

— Não. Os dois estarão bombardeados com a diferença dos fusos horários. — Ele abrira um sorriso. — Espero. —

Tanto Seymour Steigler III, o advogado deles, quanto Charlie Forrester, o chefe da divisão de espuma, tinham uma vida social muito intensa. — A que horas chega o vôo deles?

— Às quatro e cinqüenta. Voltaremos lá pelas seis da tarde.

Às seis, tinham tido uma reunião com Seymour Steigler... Forrester não se sentia bem, e fora direto para a cama.

O advogado deles era nova-iorquino, um homem bonitão, de cabelos pretos ondulados, ficando grisalhos, olhos escuros e olheiras profundas.

— Casey me contou os detalhes, Linc — dissera ele. — Parece que estamos em grande forma.

Como tinham previamente combinado, Bartlett e Casey haviam explicado toda a transação ao advogado, excluindo a combinação secreta com Dunross quanto aos navios dele.

— Há umas duas cláusulas que quero incluir, Linc, para nos proteger — dissera Steigler.

— Tudo bem. Mas não quero a transação renegociada. Quero tudo encerrado até terça-feira, como planejamos.

— E quanto à Rothwell-Gornt? Que tal eu dar uma son­dada nela, hem? Podemos passar a perna na Struan.

— Não — dissera Casey. — Deixe o Gornt e o Dunross em paz, Seymour. — Eles também não haviam contado a Steigler sobre a transação particular de Bartlett com Gornt. — Hong Kong é mais complicada do que pensávamos. Melhor deixarmos como está.

— É isso aí — concordara Bartlett. — Deixe Gornt e Dunross comigo e com Casey. Cuide dos advogados deles.

— E que tal são eles?

— Ingleses. Muito certinhos — dissera Casey. — Estive com John Dawson ao meio-dia... é o sócio mais antigo da firma. Dunross devia estar presente, mas mandou Jacques de Ville no seu lugar. Ele é um dos diretores da Struan, trata de todos os negócios corporativos deles, e de alguns financiamen­tos. Jacques é muito bom, mas Dunross é que dirige e decide tudo. É isso aí.

— Que tal ligar para esse tal... Dawson agora mesmo? Falarei com ele durante o café da manhã. Digamos... às oito horas?

Bartlett e Casey tinham achado graça.

— Nem pensar, Seymour! — ela dissera. — Ele o rece­berá com calma às dez horas, e vocês conversarão durante um almoço de duas horas. Eles aqui comem e bebem como se não houvesse um amanhã, e tudo é "meu velho" para cá, "meu velho" para lá.

— Então conversarei com ele depois do almoço, quando ele estiver amolecido, e quem sabe poderei ensinar-lhe uma ou duas coisinhas — dissera Seymour Steigler, os olhos tornando-se duros. Abafara um bocejo. — Tenho que ligar para Nova York antes de ir para a cama. Ei, já estou com todos os do­cumentos da fusão da gxr e...

— Pode dá-los a mim, Seymour — dissera Casey.

— E comprei o bloco de duzentos mil ações da Rothwell-Gornt a 23, 50. A quanto estão hoje?

— A 21.

— Meu Deus, Linc, você perdeu quinhentos mil — dis­sera Casey, perturbada. — Por que não vende e recompra?

— Não. Manteremos as ações. — Bartlett não estava preo­cupado com o prejuízo das ações da Rothwell, pois estava tendo grande lucro na sua parte do esquema de venda a descoberto de Gornt. — Por que não encerra suas atividades por hoje, Seymour? Se já estiver acordado, poderemos tomar café, os três juntos, lá pelas oito. Que tal?

— Boa noite. Casey, você marca com o Dawson para mim?

— Pode deixar. Eles o receberão pela manhã. O tai-pan... Ian já disse a eles que nosso negócio é de alta prioridade.

— E deve ser — dissera Steigler. — Nosso pagamento inicial tirará Dunross do aperto.

— Se ele sobreviver — dissera Casey.

— Hoje estamos aqui. Amanhã não estaremos mais. Então, vamos aproveitar!

Era uma das máximas de Steigler, e a frase ainda ecoava na cabeça de Bartlett. "Hoje estamos aqui, amanhã não esta­remos mais... ", como o incêndio da véspera. "Eu podia ter acabado mal. Podia ter esmagado a cabeça, como aconteceu com aquele infeliz do Pennyworth. Nunca se sabe quando é a nossa vez, nosso acidente, nossa bala, ou nosso ato de Deus. Vindo de fora ou de dentro. Como aconteceu com papai. Meu Deus! Bronzeado e sadio, quase nunca estivera doente na vida, e então o médico diz que está com câncer. E em três meses ele definhou, fedeu e morreu em meio a grandes dores. "

Bartlett sentiu um suor repentino molhando-lhe a testa. Fora uma época muito ruim, aquela, durante o seu divórcio, enterrando o pai, a mãe abaladíssima, e tudo caindo aos pedaços. Depois, a conclusão do divórcio. O acordo fora uma barra, mas ele conseguira pagar tudo a ela sem ter que vender sua parte nas companhias, conseguindo manter o controle acionário. Ainda lhe pagava pensão, embora ela tivesse se casado de novo... assim como uma pensão com correção monetária para as crianças, e futuros dotes para elas... e cada centavo doía. "Não o dinheiro em si, mas a injustiça da lei da Califórnia, o advo­gado recebendo uma terça parte até que a morte nos separe. Fodido pelo meu advogado e pelo dela. Um dia ainda me vin­garei deles", prometeu Bartlett a si mesmo, mais uma vez. "Deles e de todos os outros malditos parasitas. "

Com esforço, deixou de pensar neles. Por ora.

"Hoje estamos aqui, amanhã não estaremos mais. Então, vamos aproveitar", repetiu, enquanto tomava a sua cerveja, dava o nó na gravata e se olhava ao espelho. Sem vaidade. Gostava de viver dentro de si próprio. Havia feito as pazes con­sigo mesmo, sabendo quem era e o que pretendia. A guerra o ajudara a fazer isso. E a sobreviver ao divórcio, sobreviver a ela, descobrir como era, e viver com isso. Casey fora a única coisa decente em todo aquele ano.

Casey.

"E quanto a Casey?

"Nossas regras são bem claras, sempre foram. Foi ela que as estabeleceu: se qualquer um de nós tiver um encontro, não haverá perguntas ou recriminações.

"Então, por que estou nervoso, agora que resolvi sair com Orlanda sem contar a Casey?"

Lançou um olhar ao relógio. Quase hora de sair.

Bateram muito de leve à porta e ela se abriu instantanea­mente; Song Noturno sorriu para ele.

— Senholita — anunciou o velho, dando um passo para o lado. Casey vinha descendo o corredor, um maço de papéis e um caderno de notas na mão.

— Oi, Casey — falou Linc. — Já ia ligar para você.

— Oi, Linc — retrucou ela, e falou em cantonense para o velho, enquanto passava: — Doh jeh. — O andar dela era animado ao entrar na suíte de dois quartos. — Tenho algumas coisas para você. — Entregou-lhe um maço de cartas e de telex e foi até o bar servir-se de um martíni seco. Usava calças justas cinzentas, tipo esporte, sapatos baixos cinzentos e camisa de seda cinzenta. Tinha o cabelo preso para trás, com um lápis espetado como único enfeite. Usava óculos, não as lentes de contato de costume. — As duas primeiras tratam da fusão da gxr. Está tudo assinado, selado e sacramentado, e tomamos posse a 2 de setembro. Há uma reunião de diretoria confirmada às três da tarde em Los Angeles... o que nos dá tempo de sobra para estar de volta. Já pedi...

— Tiro coberta da cama, Patrão? — interrompeu Song Noturno, com ar de importância, da porta.

Bartlett começou a dizer que não, mas Casey já estava sa­cudindo a cabeça.

— Um ho — falou amavelmente, em cantonense, pro­nunciando as palavras bem e com cuidado. — Cha z'er, doh jeh. — Não, obrigada, por favor, deixe para mais tarde.

Song Noturno olhou para ela, com cara de bobo.

— Wat?

Casey repetiu. O velho bufou, irritado porque a Pêlos Púbicos Dourados tinha a falta de educação de dirigir-se a ele no seu próprio idioma.

— Tiro coberta da cama, heya? Agora, heya? — per­guntou num inglês ruim.

Casey repetiu as palavras em cantonense, novamente sem obter reação, começou de novo, depois parou e falou, desani­mada, em inglês:

— Qual, deixe pra lá! Agora não. Mais tarde.

Song Noturno abriu um sorriso, tendo feito com que ela ficasse desprestigiada.

— Sim, senholita! — falou, e saiu, batendo a porta com força suficiente para deixar aquilo bem claro.

— Cretino — ela murmurou. — Ele não podia deixar de entender. Falei direito, sei que falei, Linc. Por que é que eles insistem em não entender? Tentei a mesma coisa com a minha criada, e tudo o que ela falou também foi: "Wat?" — Riu a contragosto, imitando a fala grosseira e gutural: — Wat você falou, heya?

Bartlett riu.

— São simplesmente turrões. Mas onde foi que aprendeu chinês?

— É cantonense. Arranjei um professor. Arrumei uma horinha para ele hoje de manhã. Pensei que ao menos devia ser capaz de dizer "Oi", "Bom dia", "A conta, faça o favor"... coisas comuns. Porra, mas é complicado. Todos os tons... em cantonense há sete tons... sete modos de se dizer a mesma palavra. Se você pedir a conta, é "mai dan", mas se falar um pouquinho errado, quer dizer "ovos fritos", que também é "mai dan". E pode apostar que o garçom trará os ovos fritos, só para sacanear você. — Ela sorveu o seu martíni e acrescentou uma azeitona extra. — Estava precisando disso. Quer outra cerveja?

Bartlett sacudiu a cabeça.

— Não, chega.

Já lera todos os telex.

Casey sentou-se no sofá e abriu o bloco de notas.

— A secretária de Vincenzo Banastasio telefonou e pediu que eu confirmasse a suíte dele para sábado, e...

— Não sabia que ele vinha para Hong Kong. Você sabia?

— Acho que lembro de tê-lo ouvido dizer qualquer coisa sobre vir para a Ásia na última vez que o vimos... no hipódromo, mês passado... em Del Mar... quando John Chen estava lá. Que coisa terrível o que houve com o John, não é?

— Espero que prendam aqueles Lobisomens. Que filhos da mãe, assassinarem-no e colocarem nele um cartaz daqueles!

— Escrevi um bilhete de pêsames em nosso nome para o pai dele e a mulher, Dianne... Lembra que a conhecemos na casa do Ian, e em Aberdeen?... Meu Deus, parece que foi há um milhão de anos!

— É. — Bartlett franziu o cenho. — Ainda não me lem­bro de ter ouvido o Vincenzo dizer nada. Ele vai ficar aqui?

— Não, quer ficar no lado de Hong Kong. Confirmei a reserva no Hilton por telefone, e amanhã vou confirmar pessoal­mente. Ele chegou no vôo da jal de sábado de manhã, de Tóquio. — Casey olhou-o por cima dos óculos. — Quer que eu marque uma reunião?

— Quanto tempo ele vai ficar?

— O fim de semana. Alguns dias. Sabe como ele é im­preciso. Que tal no sábado, após as corridas? Estaremos no lado de Hong Kong, e é uma caminhada curta do Happy Valley até o hotel, se não arranjarmos uma carona.

Bartlett já ia dizer "Vamos marcar no domingo", mas de­pois lembrou-se de Taipé.

— Claro, no sábado depois das corridas. — Foi então que notou a expressão dela. — O que é?

— Só estava me perguntando qual é a do Banastasio.

— Quando ele comprou quatro por cento das nossas ações da Par-Con — retrucou ele —, verificamos a ficha dele com o Seymour, o sec e mais outros serviços, e todos afirmaram que o dinheiro dele era limpo. Nunca foi preso nem acusado, embo­ra corram muitos boatos. Ele nunca nos criou problemas, nunca quis se meter na diretoria, nunca aparece na assembléia dos acionistas. Sempre me deu sua procuração e entrou com o di­nheiro quando precisamos. — Fitou-a. — E então?

— E então, nada, Linc. Sabe qual é a minha opinião a respeito dele. Concordo que não podemos retomar as ações. Ele as comprou livremente, e perguntou primeiro, e sem dúvida estávamos precisando do dinheiro dele, e o utilizamos bem. — Ajeitou os óculos e fez uma anotação. — Vou marcar a reunião e ser cortês como sempre. Mais uma coisa: nossa conta comercial no Victoria foi movimentada. Depositei vinte e cinco mil dólares nela, e aqui está o seu talão de cheques. Criamos um fundo, e o First Central está pronto para transferir os sete milhões iniciais para a conta, quando mandarmos. Aí há um telex de confirmação. Também abri uma conta pessoal para você no mesmo banco... eis seu talão de cheques com mais vinte e cinco mil, vinte mil em letras do Tesouro de Hong Kong reaplicáveis diariamente. — Ela abriu um sorriso. — Isso deve dar para comprar duas tigelas de chop suey e um bom peda­ço de jade, embora me digam que é difícil distinguir os falsos dos legítimos.

— Não o jade. — Bartlett tinha vontade de olhar para o relógio, mas não o fez. Apenas bebeu sua cerveja. — Que mais?

— Clive Bersky telefonou e pediu um favor.

— Mandou ele ir torrar o saco de outro?

Ela riu. Clive Bersky era o executivo-chefe da agência de­les do First Central de Nova York. Era muito meticuloso, pe­dante, e deixava Bartlett maluco, exigindo documentação perfeita.

— Pediu que, se o negócio com a Struan for fechado, depositemos nossos fundos através do... — Consultou o seu bloco. — do Royal Belgium and Far East Bank, aqui.

— Por que esse?

— Não sei. Estou fazendo averiguações. Temos um en­contro para tomar um drinque com o executivo-chefe local às oito. O First Central acaba de comprar o banco dele. Tem agên­cias aqui, em Cingapura e em Tóquio.

— Cuide você dele, Casey.

— Claro. Posso tomar uma bebida e dar no pé. Quer comer depois? Podíamos ir ao Escoffier, ou aos Sete Dragões, ou quem sabe subir a Nathan Road e jantar comida chinesa. Algum lugar não muito longe daqui... a meteorologia diz que vem mais chuva por aí.

— Obrigado, mas hoje não. Vou para o lado de Hong Kong.

— É? On... — Casey se deteve. — Ótimo. A que horas vai sair?

— Agorinha. Mas não há pressa. — Bartlett viu o mesmo sorriso tranqüilo no rosto dela enquanto seus olhos corriam a lista, mas teve certeza de que ela soubera instantaneamente aonde ele ia, e de repente ficou furioso. Manteve a voz calma. — O que mais tem aí?

— Nada que não possa esperar — disse, na mesma voz agradável. — Tenho um encontro amanhã cedo com o coman­dante Jannelli, sobre sua viagem a Taipé... o escritório de Armstrong mandou a documentação que tira temporariamente o embargo do seu avião. Tudo o que você tem a fazer é assinar o formulário comprometendo-se a voltar a Hong Kong. Pus a data de terça-feira. Está certo?

— Claro. A terça é o Dia D. Ela se levantou.

— Por hoje chega, Linc. Cuidarei do banqueiro e do resto disto aqui. — Terminou o seu martíni e colocou o copo de volta no bar espelhado. — Ei, Linc, essa gravata! A azul combinaria melhor. Até logo, no café da manhã. — Jogou-lhe o beijo de costume, saiu como sempre, e fechou a porta com as palavras de costume: — Durma com os anjos, Linc!

— Porra, por que estou tão puto da vida? — resmungou ele com raiva. — Casey não fez nada. Filha da puta!

Sem sentir, amassou a lata de cerveja vazia. "Filha da puta! E agora? Esqueço o que houve e saio, ou o quê?"

Casey subia o corredor, fumegando, na direção do seu quarto. "Aposto a vida como ele vai sair com aquela vagabunda de uma figa. Devia tê-la afogado quando tive a chance. "

Então notou que Song Noturno tinha aberto a porta para ela, e segurava-a para que passasse, com um sorriso que ela considerou de deboche.

— E você também pode ir pra puta que o pariu! — rosnou para ele, antes que pudesse se conter. Depois bateu a porta, jogou os papéis e o bloco em cima da cama, e já ia começar a chorar. — Você não vai chorar — ordenou a si mesma em voz alta, com lágrimas na voz. — Porra de homem nenhum vai derrubar você, mas não vai mesmo! — Ficou olhan­do para os dedos, que tremiam com a raiva de que estava pos­suída. — Ah, que todos os homens vão à merda!

 

                     19h40m

— Com licença, Excelência, telefone para o senhor.

— Obrigado, John. — Sir Geoffrey Allison voltou-se para Dunross e os outros. — Será que me dão licença um momento, senhores?

Estavam no Palácio do Governo, a residência oficial do governador, acima da zona central, as portas envidraçadas aber­tas para deixar entrar o frescor da noite, o ar puro e lavado, árvores e arbustos gotejando agradavelmente. O governador atravessou a ante-sala lotada, onde estavam sendo servidos os coquetéis e os canapés que precediam o jantar, muito satisfeito com a maneira como tudo correra até ali. Todos pareciam estar se divertindo bastante. Havia brincadeiras e boa conversa, risa­das e, até agora, nenhum atrito entre os tai-pans de Hong Kong e os deputados. A seu pedido, Dunross se esforçara ao máximo para apaziguar Grey e Broadhurst, e até mesmo Grey parecia mais calmo.

O ajudante-de-ordens fechou a porta do escritório, dei­xando-o a sós com o telefone. O escritório era verde-escuro e agradável, com papel de parede azul, belos tapetes persas trazi­dos da sua temporada de dois anos na embaixada de Teerã, excelentes cristais e pratarias, e mais vitrines com fina porcelana chinesa.

— Alô?

— Desculpe-me por incomodá-lo, senhor — falou Crosse.

— Oh, alô, Roger. — O governador sentiu um aperto no peito. — Não é incômodo algum — disse.

— Tenho duas informações muito boas, senhor. De certa importância. Será que posso dar uma passadinha por aí?

Sir Geoffrey olhou para o relógio de porcelana sobre a cornija da lareira.

— O jantar será servido daqui a quinze minutos, Roger. Onde está você?

— A três minutos de sua casa, senhor. Não vou atrasar o seu jantar. Mas, se preferir, posso ir mais tarde.

— Venha agora, bem que estou precisando de umas boas notícias. Com toda essa história do banco e do mercado de ca­pitais... Use a porta do jardim, se quiser. John irá recebê-lo.

— Obrigado, senhor.

O aparelho foi desligado. Era costume o chefe do sei ter uma chave do portão de ferro que ficava nos muros que cir­cundavam a casa.

Em exatamente três minutos, Crosse atravessava o terraço com passos leves. O chão estava muito molhado. Ele enxugou os pés com cuidado, antes de entrar pela porta envidraçada.

— Pegamos um peixe dos gordos, senhor, um agente ini­migo. Pegamo-lo com a mão na massa — disse, suavemente. — É um major do KGB, serve no Ivánov, é o seu comissário político. Nós o pegamos em pleno ato de espionagem com um perito em computadores americano que serve no porta-aviões nuclear.

O rosto do governador ficou rubro.

— Aquele maldito Ivánov! Santo Deus, Roger, um ma­jor? Tem idéia da tempestade política e diplomática que isso precipitará com a URSS, os Estados Unidos e Londres?

— Tenho, sim, senhor. Foi por isso que achei melhor vir consultá-lo imediatamente.

— Que diabo o tal sujeito estava fazendo? Crosse narrou-lhe os fatos. Terminou:

— Ambos estão sob a ação de sedativos, agora, e bem seguros.

— O que havia no filme?

— Estava em branco, senhor, nublado.

— Como?

— É. Naturalmente, os dois homens negaram que esti­vessem envolvidos em algum ato de espionagem. O marujo negou que tivesse entregue qualquer material, negou tudo, disse que ganhara os dois mil dólares encontrados com ele jogando pôquer. É uma criancice mentir quando já se foi apanhado, uma criancice tornar as coisas difíceis. Sempre acabamos por chegar à verdade. Pensei que, ou tínhamos deixado passar o filme verdadeiro, ou que fosse uma cópia em micropontos. Exa­minamos de novo as roupas deles, e ordenei uma lavagem intestinal imediata e exame das fezes. O major... o agente do KGB evacuou o rolo de negativos verdadeiro há uma hora. — Crosse estendeu o grande envelope de papel pardo. — Aqui tem cópias de 20 X 25, senhor, de todos os negativos.

O governador não abriu o envelope.

— Do que tratam? Em geral?

— Uma série mostra parte do manual do sistema de orien­tação por radar do navio. — Crosse hesitou. — A outra série é uma fotocópia do manifesto de carga completo do porta-aviões, arsenal, munições, mísseis e ogivas de combate. Quan­tidades, qualidades, os números deles, e onde ficam armazena­dos no navio.

— Santo Deus! Inclusive as ogivas nucleares? Não, por favor, não responda a isso. — Sir Geoffrey fitava Crosse. De­pois de uma pausa, falou: — Bem, Roger, é uma maravilha que essa informação não tenha caído em mãos inimigas. Está de parabéns. Nossos amigos americanos ficarão igualmente aliviados, e lhe devendo diversos grandes favores. Santo Deus, nas mãos de peritos essa informação poria a nu toda a capa­cidade de ataque do navio!

— Sim, senhor — falou Crosse, com um débil sorriso. Sir Geoffrey olhava atentamente para ele.

— Mas, o que vamos fazer com esse seu major?

— Eu mandaria o major para Londres com uma escolta especial, em avião da raf, imediatamente. Acho que devem fazer lá o interrogatório, embora aqui estejamos mais bem equi­pados, e sejamos mais práticos e eficientes. O que me preocupa é que os superiores dele com certeza saberão do fato dentro de cerca de uma hora, e poderão tentar salvá-lo, ou inutilizá-lo. Po­dem até mesmo exercer uma pressão diplomática extrema para forçar-nos a devolvê-lo ao Ivánov. Além disso, quando a RPC e os nacionalistas souberem que prendemos um funcionário de tal quilate, poderão tentar pôr as mãos nele.

— E quanto ao marujo americano?

— Pode ser boa política entregá-lo imediatamente à CIA, com o negativo do filme e estas cópias... são as únicas que fiz. Eu mesmo as revelei e preparei, por motivos óbvios de segurança. Imagino que Rosemont seja a pessoa indicada.

— Ah, sim, Rosemont. Está aqui agora.

— Sim, senhor.

Os olhos de Sir Geoffrey tornaram-se mais duros.

— Tem cópias de todas as minhas listas de convidados, Roger?

— Não, senhor. Liguei há meia hora para o consulado, para saber onde ele estava. Eles me informaram.

Sir Geoffrey olhou de novo para ele, por sob as sobrance­lhas espessas, sem acreditar nele, certo de que o chefe do sei sabia muito bem quem ele convidava, e quando. "Não faz mal", pensou, irritado, "é o serviço dele. E aposto um guinéu de ouro contra uma rosquinha que estas cópias não são as únicas que Roger fez, pois sabe que o nosso Almirantado adoraria vê-las, também, e é dever dele fornecê-las. "

— Isso pode ter alguma ligação com o caso de A. M. Grant?

— Não, absolutamente — falou Crosse, e o governador pensou ter notado um tremor momentâneo na voz de Crosse. — Não creio que haja nenhuma ligação.

Sir Geoffrey ergueu-se da poltrona alta e andou de um lado para outro por um momento, a mente examinando as pos­sibilidades. "Roger tem razão. Os serviços de informação chi­neses, de ambos os lados da cerca de bambu, devem saber logo do fato, já que cada um dos nossos policiais chineses tem sim­patias comunistas ou nacionalistas. Portanto, é melhor mandar o espião para longe do alcance deles. Ninguém sofrerá tenta­ções... pelo menos, não aqui. "

— Acho que devo falar com o ministro imediatamente.

— Talvez, dadas as circunstâncias, o senhor pudesse in­formar ao ministro o que já fiz em relação ao major... mandá-lo para Londres sob escolta...

— Ele já foi?

— Não, senhor. Mas eu não estaria exorbitando da minha autoridade se o fizesse... se o senhor concordasse.

Pensativo, Sir Geoffrey olhou de novo para o relógio. Fi­nalmente disse, com um sorrisinho:

— Pois bem. Está na hora do almoço, em Londres. Eu informarei a ele, dentro de mais ou menos uma hora. É tempo suficiente?

— Sim, senhor, obrigado. Tudo já está providenciado.

— Foi o que imaginei.

— Vou respirar bem melhor quando o sujeito estiver a caminho de casa, senhor. Obrigado.

— Sim. E quanto ao marujo?

— Talvez o senhor pudesse pedir ao ministro que aprove a nossa idéia de entregá-lo ao Rosemont, senhor.

Havia uma dúzia de perguntas que Sir Geoffrey gostaria de ter feito, mas não fez nenhuma. Sabia, graças a longa expe­riência, que não era um bom mentiroso. Portanto, quanto menos soubesse, melhor.

— Muito bem. E agora, qual é a segunda novidade? Espero que seja melhor do que essa.

— Prendemos o toupeira, senhor.

— Ah! Que bom. Excelente. Ótimo. Quem?

— O superintendente Kwok.

— Impossível!

Crosse não deixou transparecer na fisionomia o seu prazer.

— Concordo, senhor. Mesmo assim, o superintendente Kwok é um agente comunista infiltrado e um espião da Repú­blica Popular da China. — Crosse contou como fora descoberto o disfarce de Brian Kwok. — Sugiro que o superintendente Armstrong receba um voto de louvor... assim como Wu Óculos. Vou recrutá-lo para o sei, senhor.

Sir Geoffrey olhava pela janela, atônito.

— Santa Mãe de Deus! O jovem Brian! Por quê? Teria o posto de comissário assistente dentro de um ano ou dois... Não pode ter havido um engano?

— Não, senhor. Como já disse, as provas são irrefutáveis. Claro que ainda não sabemos como ou por quê, mas logo saberemos.

Sir Geoffrey ouviu a nota de decisão na voz de Crosse, viu o rosto magro e duro, os olhos frios, e sentiu muita pena de Brian Kwok, de quem gostava há muitos anos.

— Quero estar a par de tudo sobre ele. Talvez possamos descobrir o que leva um homem a fazer uma coisa dessas. Santo Deus, um rapaz tão simpático e um jogador de críquete de primeira! É, quero estar a par.

— Pois não, senhor. — Crosse se pôs de pé. — Interes­sante. Nunca pude compreender por que ele era tão antiamericano... era a sua única falha. Agora, é evidente. Eu devia ter notado isso. Lamento, senhor, e lamento ter estragado a sua noite.

— Merece os parabéns, Roger. Se o agente soviético vai ser mandado para Londres, não é melhor enviar também Brian Kwok? As mesmas razões não se aplicam a ele?

— Não, senhor, acho que não. Podemos cuidar de Kwok aqui muito mais depressa e melhor. Nós é que precisamos sa­ber o que ele sabe... Londres não compreenderia. Kwok é uma ameaça a Hong Kong, não à Grã-Bretanha. É um agente da RPC... o outro sujeito é soviético. Os dois nem se com­param.

Sir Geoffrey soltou um forte suspiro, sabendo que Crosse tinha razão.

— Concordo. Hoje foi um dia terrível, Roger. Primeiro, a corrida aos bancos, depois a Bolsa de Valores... as mortes, e ontem à noite o pobre Sir Charles Pennyworth e a mulher do Toxe... e hoje de manhã, as mortes por deslizamento de lama, em Aberdeen... a Casa Nobre oscilando... e parece que esta frente de temporal vai se transformar num maldito tufão que provavelmente acabará com as corridas de sábado... e agora as suas notícias, um marujo americano trai o seu país, seu navio e sua honra por uns míseros dois mil dólares?

Crosse deu novamente o seu sorriso débil.

— Talvez dois mil dólares não sejam uma ninharia para ele.

"Vivemos uma época terrível", ia dizer Sir Geoffrey, mas sabia que não era a época. Simplesmente as pessoas eram pes­soas, a cobiça, o orgulho, a luxúria, a avareza, o ciúme, a gula, a raiva e o desejo de poder ou dinheiro governavam as pessoas, e as governariam para sempre. A maioria delas.

— Obrigado por ter vindo, Roger. Novamente, devo dar-lhe os parabéns. Direi isso também ao ministro. Boa noite.

Viu Crosse se afastar, alto, confiante e mortífero. Quando a porta de ferro no muro alto foi trancada atrás dele pelo seu ajudante-de-ordens, Sir Geoffrey Allison deixou vir à tona mais uma vez a verdadeira pergunta que não fora feita.

"Quem ê o agente infiltrado na minha polícia?"

O documento de A. M. Grant era bem claro. O traidor era agente soviético, não chinês. Brian Kwok fora descoberto por puro acaso. Por que Roger não chamara a atenção para o óbvio?

Sir Geoffrey estremeceu. Se Brian podia ser um toupeira, qualquer um podia. Qualquer um.

 

                       20h17m

Quase antes de ele ter tirado o dedo da campainha, a porta se abriu.

— Ah, Linc — disse Orlanda, sem fôlego, extravasando felicidade. — Pensei que não viria mais. Entre, por favor.

— Desculpe o atraso — disse Bartlett, ofuscado pela sua beleza e carinho. — O tráfego está terrível, as balsas con­gestionadas, e não pude arranjar um telefone.

— Você está aqui, portanto não está atrasado, nem um pouco. Estava com medo de que... — Acrescentou, atropelan­do as palavras: — Estava com medo de que você não voltasse, e eu ficaria arrasada. Pronto, já falei, e todas as minhas defesas estão por terra, mas estou tão feliz por vê-lo que não me im­porto.

Ela ficou na ponta dos pés e beijou-o, um beijo ligeiro e feliz. Tomou-lhe o braço e fechou a porta atrás dele.

Seu perfume era delicado e leve, mas ele o sentia como uma presença física. Usava um vestido de gaze branca à altura dos joelhos, que farfalhava quando ela se movia, justo no pes­coço e nos pulsos. Mostrava, e ao mesmo tempo não mostrava, a sua pele dourada.

— Estou tão feliz por você estar aqui — repetiu ela, pe­gando o guarda-chuva dele e colocando-o no porta-guarda-chuvas.

— Eu também.

A sala ainda era mais bonita à noite, na sua maior parte iluminada por velas, as portas de vidro altas que davam para o terraço abertas. Eles estavam logo abaixo da cerração, e a ci­dade se esparramava montanha abaixo, na direção do mar, as luzes tornando-se nubladas à passagem de grupos de nuvens baixas. O nível do mar ficava duzentos metros abaixo deles. Kowloon e o porto estavam na penumbra, mas ele sabia que os navios estavam lá, e podia ver o grande porta-aviões atra­cado, seu grande convés inclinado todo iluminado, os jatos de nariz afilado iluminados, a ponte cinzenta tentando tocar o céu... a bandeira americana pendendo úmida e sem vida.

— Ei — disse ele, debruçando-se na amurada do terraço —, mas que bela noite, Orlanda!

— Ah, é. É, sim. Venha se sentar.

— Prefiro ficar olhando a vista, se você não se importa.

— Claro, o que você quiser está bem, o que quiser. Seu terno lhe fica muito bem, Linc, e adoro a sua gravata. — Ela falou alegremente, querendo elogiá-lo, embora achasse que a gravata não combinava muito bem. "Não faz mal", pensou, "ele não liga para as cores, como o Quillan, e precisa de ajuda. Vou fazer o que Quillan me ensinou, não criticar, mas sair e comprar uma do meu gosto e dá-la a ele. Se gostar, ótimo. Se não gostar, tudo bem, pois que importância tem... quem vai usar é ele. O azul, o azul combinaria com os olhos de Linc e ficaria melhor com a camisa. " — Você se veste muito bem.

— Obrigado, você também.

Estava se lembrando do que Casey dissera sobre a gravata, e como ele ficara furioso com ela o tempo todo, enquanto via­java de balsa, enquanto esperava um táxi. E a velha que pisara no pé dele, empurrando-o para roubar o seu táxi, mas ele a passara para trás, xingando-a também.

Só agora sua febre de raiva tinha passado. "O prazer de Orlanda ao me ver foi o responsável", pensou. "Faz anos que Casey não fica iluminada, como uma árvore de Natal, ou diz alguma coisa quando... ora, pro diabo tudo isso. Hoje não vou me preocupar com Casey. "

— A vista é fantástica, e você é uma boneca linda! Ela riu.

— Você também é lindo e... oh, a sua bebida, des­culpe... — Rodopiou na direção da cozinha, a saia esvoaçan­do. — Não sei por quê, mas você me faz sentir-me como uma colegial — disse ela. Voltou dali a um momento. Na bandeja havia um pote de cerâmica com patê, torradinhas frescas e uma garrafa de cerveja gelada. — Espero que goste.

Era Anweiser.

— Como soube a minha marca?

— Você me contou hoje de manhã, não se lembra? — Ela ficou radiante ao notar o prazer evidente dele. — Contou também que gosta de beber pelo gargalo.

Ele pegou a cerveja, abrindo um sorriso.

— Isso também vai constar do artigo?

— Não. Não, decidi não escrever a seu respeito.

— Por quê? — perguntou ele, notando a súbita serieda­de dela.

Ela se servia de um copo de vinho branco.

— Decidi que nunca poderia fazer-lhe justiça num artigo. Por isso não o escreverei. Além disso, não creio que lhe agra­dasse esse artigo pendendo sobre você. — Levou a mão ao coração. — Juro por Deus, nada de artigo, tudo é particular. Nada de artigo, nem de jornalismo, juro por Nossa Senhora — acrescentou, falando sério.

— Ei, não precisa ser dramática!

Ela estava de costas para a amurada, apoiando-se nela, uma queda de vinte e quatro metros até o concreto lá em baixo. Ele viu a sinceridade no seu rosto, e acreditou nela piamente. Estava aliviado. O artigo era a única falha, o único ponto perigoso para ele... isso, e o fato de ela ser jornalista. Inclinou-se e beijou-o de leve, deliberadamente de leve.

— Selado com um beijo. Obrigado.

— Certo.

Ficaram olhando a vista, por um momento.

— A chuva acabou de vez?

— Espero que não, Linc. Precisamos de uma boa série de temporais para encher os reservatórios. Ficar limpo é tão difícil, e ainda só temos água de quatro em quatro dias. — Deu um sorriso maroto, como o de uma criança. — Ontem à noite, durante a chuvarada, despi-me e tomei banho aqui. Foi fan­tástico. Deu até para lavar o cabelo.

Pensar nela ali, à noite, nua, mexeu com ele.

— É melhor tomar cuidado — disse. — A amurada não é muito alta. Não quero você escorregando.

— É gozado, morro de medo do mar, mas as alturas não me incomodam nem um pouco. Você salvou mesmo a minha vida.

— Que nada! Você teria se salvado sem mim.

— Talvez, mas você salvou o meu prestígio. Sem você ali, eu teria feito um papelão. Portanto, obrigada pelo meu prestígio.

— E, aqui, isso é mais importante do que a vida, não é?

— Às vezes, é, sim. Por que diz isso?

— Estava pensando em Dunross e em Quillan Gornt. Esses dois estão se digladiando, principalmente, por causa de prestígio.

— É. Tem razão, naturalmente. — Acrescentou, pensati­va: — Os dois são homens excelentes, por um lado, e demônios, por outro.

— O que quer dizer?

— São ambos implacáveis, ambos muito, muito fortes, muito duros, competentes e... dão-se bem com a vida. — Enquanto falava, passava patê numa torradinha e oferecia-a a ele, as unhas longas e perfeitas. — Os chineses têm um ditado: Chan ts'ao, chu ken... quando arrancar ervas daninhas, cuide de se livrar das raízes. As raízes daqueles dois vão fundo na Ásia, muito fundo, fundo demais. Seria difícil livrar-se dessas raízes. — Sorveu o seu vinho, e deu um ligeiro sorriso. — E provavelmente não é uma boa idéia, não para Hong Kong. Quer mais patê?

— Por favor. Está uma delícia. Foi você quem fez?

— Foi. É uma velha receita inglesa.

— Por que não seria bom para Hong Kong?

— Ah, talvez porque eles se equilibram. Se um destruir o outro... ah, não estou me referindo apenas ao Quillan ou ao Dunross. Estou me referindo às hongs em si, às companhias, a Struan e a Rothwell-Gornt. Se uma devorar a outra, talvez a remanescente torne-se forte demais, pois não haverá concor­rência. Então talvez o tai-pan tome-se ambicioso demais, talvez resolva esvaziar Hong Kong. — Ela deu um sorriso hesitante. — Desculpe, estou falando demais. É só uma idéia. Outra cerveja?

— Claro, daqui a pouco, obrigado. Mas é uma idéia in­teressante.

"É", pensava Bartlett, "uma idéia que não tinha me ocor­rido... ou a Casey. Esses dois são necessários um ao outro? "E Casey e eu? Somos necessários um ao outro?" Ele viu que ela o observava, e retribuiu-lhe o sorriso.

— Orlanda, não é segredo que estou pensando em fazer negócio com um dos dois. Se fosse eu, por qual dos dois você se decidiria?

— Por nenhum dos dois — falou imediatamente, e achou graça.

— Por quê?

— Você não é britânico, não é um dos "rapazes", não é sócio hereditário de nenhum dos clubes, e, não importa quanto dinheiro e poder tenha aqui, é a rede dos "rapazes" que final­mente decidirá o que vai ser.

Ela pegou a garrafa vazia e foi buscar outra.

— Acha que eu não me sairia bem?

— Oh, não foi isso o que eu quis dizer, Linc. Você per­guntou sobre a Struan ou a Rothwell-Gornt, sobre fazer negó­cios com uma delas. Se fizer, eles serão os vencedores, no final.

— São assim tão espertos?

— Não. Mas são asiáticos, e aqui é o lugar deles. Aqui o ditado é T'ien hsia wu ya i pan hei.., todos os corvos sob os céus são negros... o que significa que todos os tai-pans são iguais, e que se unirão para destruir quem vem de fora.

— Quer dizer que nem Ian nem Quillan aceitariam de bom grado um sócio?

Ela hesitou.

— Acho que estou falando do que não entendo, Linc. Não sei nada de negócios. Apenas nunca soube de um america­no que tenha vindo para cá e feito grande sucesso.

— E quanto ao Biltzmann, Superfoods, e à sua compra de controle acionário da General Stores?

— Biltzmann é uma piada. Todos o odeiam e torcem para que se dê mal, até mesmo o Pug... Pugmire. Quillan tem certeza de que se dará mal. Não, nem mesmo Cooper e Tillman obtiveram sucesso. Eles eram mercadores ianques dos primeiros dias, Linc, mercadores de ópio... estavam até mesmo sob a proteção de Dirk Struan. São até aparentados, os Struans e os Coopers. A Bruxa Struan casou a filha mais velha, Emma, com o velho Jeff Cooper. Velho Nariz de Gancho era o seu apelido quando ficou senil. Conta-se que o casamento foi sua retribui­ção a ele por tê-la ajudado a destruir Tyler Brock. Já ouviu falar neles, Linc? Os Brocks, Sir Morgan, e o pai dele, Tyler, e a Bruxa?

— Peter Marlowe contou-nos algumas das histórias.

— Se quiser conhecer a verdadeira Hong Kong, deve fa­lar com a Titia Olhos Vivos... Sarah Chen, a tia solteirona de Phillip Chen. É uma figura, Linc, e vivíssima! Dizem que tem oitenta e oito anos. Acho que é mais velha. Ela é filha de Sir Gordon Chen, o filho ilegítimo de Dirk Struan com a sua aman­te Kai-sung, e da famosa beldade Karen Yuan.

— Quem é essa?

— Karen Yuan era neta de Robb Struan. Robb era meio irmão de Dirk, e tinha uma amante chamada Yau Ming Soo, com quem teve uma filha, Isobel. Isobel casou-se com John Yuan, um filho ilegítimo de Jeff Cooper. John Yuan tornou-se um famoso pirata e contrabandista de ópio, e Isobel morreu como jogadora notória, tendo, por duas vezes, perdido a fortuna do marido jogando mah-jong. Assim, foi a filha de Isobel e John, Karen, que se casou com Sir Gordon Chen... na reali­dade, ela foi a segunda mulher dele, mais uma concubina do que uma mulher, embora o casamento fosse perfeitamente legal. Aqui, mesmo nos dias de hoje, se você é chinês, pode ter legalmente quantas mulheres quiser.

— Muito conveniente!

— Para o homem! — sorriu Orlanda. — Então, esse pequeno ramo dos Yuans descende dos Coopers... os T'Chungs e os Chens de Dirk Struan, os Sungs, Tups e Tongs, de Aris­totle Quance, o pintor... Aqui em Hong Kong é costume os filhos herdarem o sobrenome da mãe, geralmente uma garota insignificante vendida pelos pais como concubina.

— Pelos pais?

— Quase sempre — disse ela, naturalmente. — Tung t'ung yu ming, ouça os céus e siga o destino. Especialmente quando se está morrendo de fome. — Ela deu de ombros. — Não há vergonha nisso, Linc, nem desprestígio, não na Ásia.

— Como é que você sabe tanto sobre os Struans, os Coopers, e amantes e coisa e tal?

— Aqui é um lugar pequeno, e todos gostamos de segre­dos, mas não existem segredos de verdade em Hong Kong. O pessoal daqui, o verdadeiro pessoal de Hong Kong, sabe quase tudo sobre os outros. Como já disse, nossas raízes aqui são profundas. E não se esqueça de que os Chengs, Yuans e Sungs são eurasianos. Como já lhe contei, os eurasianos casam-se com eurasianos. Portanto, temos que conhecer as nossas origens. Não somos desejados pelos britânicos ou chineses como maridos ou esposas, somente como amantes. — Ela sorveu o vinho, e ele ficou encantado com a delicadeza de seus movimentos, sua gra­ça. — É costume das famílias chinesas anotarem sua genealogia no livro da aldeia, é a única legalidade que possuem. Isso lhes dá continuidade. Nunca tiveram certidões de nascimento. — Ela sorriu para ele. — Voltando à sua pergunta: tanto Ian Dunross quanto Quillan Gornt adorariam seu dinheiro e seu conheci­mento do mercado americano. E com qualquer um deles você teria lucro aqui... se se contentasse em ser o sócio comanditário.

Pensativo, Bartlett fixou os olhos na vista da cidade.

Ela esperou pacientemente, deixando que ele pensasse, imóvel. "Ainda bem que Quillan foi um bom professor, e um homem tão esperto!", pensou. "E, oh, tão sensato! Tinha razão de novo."

Pela manhã, ligara para ele, em lágrimas, na sua linha particular, para relatar o que havia acontecido.

— Ah, Quillan, acho que estraguei tudo...

— O que foi que você disse, e o que foi que ele disse? Ela lhe contara, exatamente, e ele a tranqüilizara.

— Acho que não tem com que se preocupar, Orlanda. Ele vai voltar. Se não esta noite, amanhã.

— Ah, tem certeza? — dissera ela, agradecida. Tenho. Agora enxugue essas lágrimas e escute.

A seguir, ele lhe dissera o que fazer e o que usar, e, acima de tudo, como ser mulher.

"Ah, como sou feliz de ser mulher!", pensou, lembrando, agora com tristeza, os velhos tempos em que ela e Quillan tinham sido felizes, ela com dezenove anos, amante dele já há dois, e não mais tímida ou temerosa — da cama, dele ou de si mesma —, e como às vezes saíam à noite no iate dele, só os dois, e ele lhe dava conselhos.

— Você é mulher e yan de Hong Kong. Portanto, se qui­ser ter uma boa vida e coisas bonitas, ser querida, amada, levada para a cama e ter segurança neste mundo, seja fêmea.

— Como, meu querido?

— Pense apenas na minha satisfação e no meu prazer. Dê-me paixão quando eu estiver precisando, tranqüilidade quan­do eu estiver precisando, privacidade quando eu estiver pre­cisando, e felicidade e discrição o tempo todo. Cozinhe como um gourmet, conheça os bons vinhos, seja sempre discreta, proteja sempre a minha imagem, o meu prestígio, e nunca seja ranzinza.

— Mas, Quillan, você faz a coisa parecer tão unilateral!

— Sei. E é, claro que é. Em troca, eu farei a minha parte com igual paixão. Mas é isso o que quero de você, nada menos do que isso. Você quis ser minha amante. Expliquei-lhe tudo antes de começarmos, e você concordou.

— Sei que concordei, e adoro ser sua amante, mas... mas às vezes o futuro me preocupa.

— Ah, minha boneca, não tem com que se preocupar. Sabe que as nossas regras foram combinadas previamente. Nós renovaremos a nossa combinação anualmente, desde que você o queira, até completar vinte e quatro anos, e depois, se você resolver me deixar, eu lhe darei o apartamento, dinheiro bas­tante para necessidades razoáveis, e um belo dote para um marido adequado. Nós concordamos, e seus pais aprovaram...

Tinham aprovado mesmo. Orlanda se recordava de como a mãe e o pai haviam aprovado entusiasticamente a ligação... como até mesmo a tinham sugerido. Ela acabara de voltar do colégio, nos Estados Unidos, quando eles lhe contaram que Quillan lhes tinha pedido permissão para aproximar-se dela, dizendo que havia se apaixonado por ela.

— Ele é um bom homem — dissera o pai —, e prometeu cuidar bem financeiramente de você, se você concordar. A es­colha é sua, Orlanda. Achamos que devemos recomendá-la.

— Mas, papai, só faço dezoito anos no mês que vem, e além disso quero voltar para os Estados Unidos, para morar lá. Estou certa de que posso conseguir um cartão verde para per­manecer lá.

— É, você pode ir, filha — dissera a mãe —, mas será pobre. Nós não lhe podemos dar nada, nenhuma ajuda. Que emprego vai conseguir? Quem vai sustentá-la? Se aceitar, den­tro de pouco tempo você poderá ir com uma renda, com pro­priedades aqui para sustentá-la.

— Mas ele é tão velho! Ele...

— O homem não envelhece como a mulher — ambos haviam dito. — Ele é forte, respeitado, e há anos que tem sido bom para nós. Prometeu cuidar de você com carinho, e os arranjos financeiros são generosos, não importa quanto tempo fique com ele.

— Mas eu não o amo.

— Você fala bobagem em oito direções! Sem a proteção dos lábios, os dentes ficam frios! — dissera a mãe, zangada. — Esta oportunidade que lhe está sendo oferecida é como o cabelo da fênix e o coração do dragão! O que precisa fazer em troca? Apenas ser mulher, honrar e obedecer a um bom homem durante alguns anos, compromisso renovado anualmente. E, mesmo depois, os anos poderão não ter fim, se você quiser, e for fiel e esperta. Quem sabe? A mulher dele é inválida, e está definhando. Se você o satisfizer e o respeitar, por que não se casaria com você?

— Casar com uma eurasiana? Quillan Gornt? — excla­mou ela.

— Por que não? Você não é apenas eurasiana, é portu­guesa. Ele já tem filhos e filhas britânicos, heya? Os tempos estão mudando, mesmo aqui em Hong Kong. Se você fizer o melhor possível, quem sabe? Dê-lhe um filho daqui a um ano ou dois, com a permissão dele, e quem sabe? Os deuses são os deuses, e se quiserem, podem fazer trovejar num céu claro. Não seja burra! Amor? O que é essa palavra para você?

Orlanda Ramos agora olhava para a cidade lá embaixo, sem vê-la. "Que burra e ingênua eu era então!", pensou. "In­gênua e muito burra. Mas agora não sou mais. Quillan foi um bom professor. "

Ergueu os olhos para Linc Bartlett, sem se mover, não querendo perturbá-lo.

"É, fui muito bem treinada", falou com seus botões. "Fui treinada para ser a melhor mulher que qualquer homem pode ter, que Bartlett jamais terá. Nada de erros, desta vez. Ah, não, nada de erros. Quillan me orientará, ajudará a remover Casey. Serei a sra. Linc Bartlett. Que todos os deuses e demônios se­jam testemunhas, é isso o que tem que acontecer.

Não demorou para que ele desviasse os olhos da cidade, tendo pensado bastante no que ela havia dito. Ela o observava, com um sorrisinho que ele não pôde decifrar.

— O que foi?

— Só estava pensando em como tive sorte em conhecê-lo,

— Sempre elogia os homens?

— Não, só aqueles que me agradam... e são tão raros quanto o cabelo da fênix ou o coração de um dragão. Patê?

— Obrigado. — Ele o aceitou. — Não está comendo?

— Vou aguardar o jantar. Tenho que cuidar da minha dieta. Não sou como você.

— Eu me exercito diariamente. Jogo tênis, quando posso, e golfe. E você?

— Jogo um pouco de tênis. Sou boa andarilha, mas ainda estou tomando lições de golfe. — "É", pensou ela, "esforço-me ao máximo para ser a melhor em tudo o que faço, e sou a me­lhor para você, Linc Bartlett, no mundo inteirinho. "O tênis dela era muito bom, e o golfe também, porque Quillan insistira em que ela fosse competente em ambos os jogos... porque ele gostava deles. — Está com fome?

— Morrendo.

— Você falou em comida chinesa. É o que realmente quer?

— Para mim tanto faz — disse ele, dando de ombros.

— O que você quiser.

— Tem certeza?

— Absoluta. Por quê? O que você está querendo?

— Venha aqui um momento.

Ele a seguiu. Ela abriu a porta da sala de jantar. A mesa estava elegantemente posta para dois. Flores, e uma garrafa de Verdicchio no gelo.

— Linc, faz tanto tempo que não cozinho para ninguém — disse ela, naquele seu jeito de atropelar as palavras que ele achava uma graça. — Mas quis cozinhar para você. Se você quiser, tenho um jantar italiano preparado. Macarrão fresco aglio e olio, piccata de vitela, uma salada, zabaione, café espresso e conhaque. Que tal? Levo só vinte minutos para dar os toques finais, e você pode ler o jornal enquanto espera. De­pois, podemos deixar tudo para a amah arrumar quando voltar, e ir dançar ou passear de carro. O que acha?

— A comida italiana é a minha preferida, Orlanda! — exclamou, entusiasticamente. A seguir, uma lembrança vadia veio à tona, e por um momento ele ficou se perguntando com quem comentara que a comida italiana era a sua preferida. Teria sido com Casey... ou com Orlanda, pela manhã?

 

                       20h32m

Brian Kwok acordou sobressaltado. Num momento estava tendo um pesadelo, no outro já acordara, mas de alguma forma ainda estava na cova funda e escura do sono, o coração baten­do, a mente desordenada, e não havia diferença entre o sono e a vigília. Ficou tomado de pânico. Depois, percebeu que es­tava nu, e ainda na mesma escuridão morna da cela, e lembrou-se de quem era, e onde estava.

"Eles devem ter me drogado", pensou. Tinha a boca seca, a cabeça lhe doía. Recostou-se no colchão pegajoso, tentando pôr as idéias em ordem. Lembrava-se vagamente de ter estado na sala de Armstrong, e antes disso com Crosse, discutindo o 16/2, mas não por muito tempo. Depois disso, lembrava-se ape­nas de ter acordado naquela escuridão, tateando em busca das paredes, para se orientar, sentindo-as bem perto, abafando o terror de saber que fora traído e estava indefeso nas entranhas do qg da polícia, dentro de uma caixa sem janelas e com uma porta em algum lugar. "Depois, adormeci, exausto, e acordei com vozes iradas... ou será que sonhei isso?... e depois ador­meci de novo e... não, comi primeiro. Não comi primeiro? ... foi, uma lavagem a que chamaram de jantar, e chá frio... Vamos, pense, é importante pensar e se lembrar... É, eu me lembro, um ensopado horrível e chá frio. Depois, mais tarde, o desjejum. Ovos. Será que foram os ovos primeiro, depois o ensopado, ou vice-versa? É, as luzes se acenderam por um mo­mento enquanto eu comia, o tempo suficiente para eu comer... Não, as luzes se apagaram e lembro-me de ter ficado no escuro, e detestei comer na escuridão. E depois mijei no balde, na escuridão, voltei para o colchão e me deitei de novo.

"Há quanto tempo estou aqui? Preciso contar os dias."

Exausto, girou as pernas para fora do catre e foi trope­çando até uma parede, os membros doendo tanto quanto a ca­beça. "Preciso me exercitar", pensou, "tenho que limpar meu organismo das drogas e ficar com a cabeça desanuviada e pronta para o interrogatório. Preciso preparar minha cabeça para quan­do eles me atacarem, quando começarem de verdade... quando pensarem que amoleci... aí eles me manterão acordado até me dobrarem.

"Não, não vão me dobrar. Sou forte, estou preparado, e conheço algumas das armadilhas.

"Quem me denunciou?"

O esforço para solucionar esse problema era demasiado. Portanto, reuniu suas forças e tentou alguns débeis movimentos de ginástica, flexionando os joelhos. A seguir, ouviu passos abafados que se aproximavam. Apressadamente, tateou em bus­ca do catre e voltou a deitar-se, fingindo que dormia, sentindo o coração doendo dentro do peito enquanto sufocava o seu terror.

Os passos se detiveram. Ouviu-se o barulho de um ferrolho correndo, e um alçapão se abriu. Um raio de luz penetrou na cela, e uma mão que mal se via pousou um prato e uma xí­cara de metal.

— Coma o desjejum, e depressa! — disse a voz, em can­tonense. — Vai ser interrogado dentro em breve.

— Escute, quero... — chamou Brian Kwok, mas o al­çapão já se fechara, o ferrolho já fora corrido, e ele estava sozinho no escuro, com o eco das próprias palavras.

"Fique calmo", ordenou a si mesmo. "Acalme-se e pense. "

Abruptamente, a cela se inundou de luz. A luz lhe doía nos olhos. Quando sua vista se adaptou à claridade, Brian viu que a luz vinha de apliques no teto, e lembrou-se de já tê-los visto antes. As paredes eram escuras, quase negras, e pareciam fechar-se sobre ele. "Não se preocupe com elas", pensou. "Já viu celas escuras antes, e, embora nunca tenha tomado parte em um interrogatório, conhece os princípios e alguns dos macetes. "

Sentiu uma onda de náusea subir-lhe à boca ao pensar no que o esperava.

Mal se distinguia a porta, e o alçapão ficava igualmente oculto. Podia sentir os olhares, embora não pudesse ver ne­nhum visor. No prato havia dois ovos fritos e um pedaço grosso de pão. O pão estava levemente torrado. Os ovos estavam frios, engordurados e inapetecíveis. Na xícara havia chá frio. Não havia talheres.

Bebeu o chá sofregamente, tentando sorvê-lo devagar. Mas num instante acabou, e a pequena quantidade não havia saciado a sua sede. "Dew neh loh moh, o que eu não daria por uma escova de dentes, uma garrafa de cerveja e... "

As luzes se apagaram da mesma maneira inesperada com que tinham sido acesas. Ele levou muito tempo para se adaptar de novo à escuridão. "Fique calmo, é só escuridão e luz, luz e escuridão. É só para confundir e desorientar. Fique calmo. Acei­te cada dia por vez, cada interrogatório por vez. "

O terror voltou. Tinha consciência de que não estava real­mente preparado, que não tinha experiência suficiente, que não sabia o que fazer se o inimigo o capturasse, o inimigo comunis­ta da RPC, embora tivesse recebido algum treinamento de so­brevivência contra captura. "Mas a RPC não é o inimigo. O inimigo real são os britânicos e os canadenses, que fingiram ser amigos e mestres. Eles é que são o inimigo real.

"Não pense nisso. Não tente convencer-se. Tente apenas convencê-los.

"Preciso agüentar firme. Preciso fingir que é um engano durante o máximo de tempo que puder, e depois... depois contar a história que inventei ao longo dos anos, e confun­di-los. É o meu dever. "

A sede era alucinante. E a fome.

Brian Kwok tinha vontade de jogar a xícara vazia e o prato contra a parede, gritar e pedir socorro, mas isso seria um erro. Sabia que era preciso controlar-se e conservar cada partí­cula de força disponível, para poder lutar.

"Use a cabeça. Use o seu treinamento. Ponha a teoria em prática. Pense no curso de sobrevivência na Inglaterra, no ano passado. Agora, o que faço?"

Lembrou-se que parte da teoria de sobrevivência dizia que era preciso comer, beber e dormir sempre que possível, pois nunca se sabia quando o alimento, a bebida e o sono iam ser cortados. E que se devia usar os olhos, o nariz, o tato e a inteligência para manter a noção do tempo no escuro, e lembrar que os captores sempre cometem algum erro, e que, se se per­cebe o erro, pode-se ter noção de tempo, e se se tiver noção de tempo, então será possível manter-se equilibrado e engabelá-los, e não divulgar o que não pode ser divulgado — nomes exatos e contatos verdadeiros. "Confronte a sua inteligência com a deles", era a regra. "Mantenha-se ativo, force-se a observar. "

"Será que eles cometeram algum erro? Será que esses de­mônios bárbaros britânicos já cometeram algum deslize? Só uma vez", pensou, excitado. "Os ovos! Os britânicos estúpidos e os seus ovos no café da manhã!"

Sentindo-se agora melhor e totalmente desperto, saiu do catre, tateou até achar o prato de metal e pousou suavemente a xícara ao lado dele. Os ovos estavam frios, e a gordura, en­durecida, mas ele os mastigou, comeu o pão e sentiu-se melhor. Comer com as mãos no escuro era esquisito e desconfortável, especialmente sem ter onde limpar os dedos, a não ser na pró­pria nudez.

Estremeceu. Sentia-se abandonado e sujo. A bexiga estava cheia, e ele foi tateando até chegar ao balde preso à parede. O balde fedia.

Com o dedo indicador, mediu habilmente o nível do balde. Estava parcialmente cheio. Urinou, e mediu o novo nível. Cal­culou mentalmente a diferença. "Se não acrescentaram nada para me confundir, mijei três ou quatro vezes. Duas vezes por dia? Ou quatro vezes por dia?"

Esfregou o dedo sujo contra o peito, e sentiu-se mais sujo ainda, mas era importante usar toda e qualquer coisa para se manter equilibrado e com noção do tempo. Deitou-se de novo. Não saber se estava claro ou escuro, se era dia ou noite, dava-lhe náuseas. Sentiu um enjôo subir-lhe à boca, mas dominou-o e forçou-se a lembrar do Brian Kwok que eles, os inimigos, pensavam que era Brian Kar-shun Kwok, e não o outro homem, o homem quase esquecido cujo sobrenome era Wu, o nome de família era Pah, e cujo nome adulto era Chu-toy.

Lembrou-se de Ning-tok, do pai e da mãe, e de ter sido mandado para Hong Kong no seu sexto aniversário, para es­tudar, querendo aprender e crescer para ser um patriota como os pais e o tio, que vira ser açoitado até a morte na praça da aldeia, por ser patriota. Aprendera com os parentes de Hong Kong que "patriota" e "comunista" queriam dizer a mesma coisa, e não "inimigos do Estado". Que os suseranos do Kuo­mintang eram tão maus quanto os demônios estrangeiros que haviam forçado a China a assinar tratados desiguais, e que o único patriota verdadeiro era aquele que seguia os ensinamentos de Mao Tsé-tung. Lembrava-se de quando entrara para a pri­meira das muitas fraternidades secretas, trabalhando para ser o melhor pela causa da China e de Mao, que era a causa da China, aprendendo com mestres secretos, sabendo que era par­te da nova grande onda de revolução que devolveria o poder à China, tirando-o dos demônios estrangeiros e seus lacaios, jogando-os para sempre ao mar.

Ganhara a bolsa de estudos! Aos doze anos!

Ah, como tinham ficado orgulhosos seus mestres secretos! Depois, a ida para o país dos bárbaros, agora falando perfeita­mente a língua deles, e a salvo contra seus pensamentos e cos­tumes nefastos. A ida para Londres, a capital do maior império que o mundo já vira, que ia ser humilhado e destroçado algum dia, mas, naquela época, em 1937, ainda vivia o seu último florescer.

Dois anos lá. Odiando a escola inglesa e os meninos in­gleses... "Lig-lig-lé, lá vai o seu China na ponta do pé... ", mas disfarçando, disfarçando as lágrimas, os mestres da sua nova fraternidade ajudando-o, orientando-o, colocando pergun­tas e respostas dentro do contexto, mostrando-lhe a beleza da dialética, de fazer parte da verdadeira revolução inquestionável. Nunca questionar, nunca haver a necessidade de questionar.

Depois, a guerra com a Alemanha, e a evacuação com todos os outros escolares para a segurança no Canadá, todo aquele período maravilhoso em Vancouver, Colúmbia Britânica, na cos­ta do Pacífico, toda aquela imensidão, as montanhas e o mar, o Bairro Chinês florescente, com boa comida de Ning-tok... e um novo ramo da fraternidade mundial, e mais mestres, sem­pre alguém sábio com quem conversar, sempre alguém pronto a explicar e aconselhar... sem ser aceito pelos colegas de es­cola, mas derrotando-os academicamente, no boxe e nos outros esportes, tornando-se monitor, jogando bem críquete e tênis... parte de seu treinamento.

"Sobressaia, Chu-toy, meu filho, sobressaia e seja paciente para a glória do partido, para a glória de Mao Tsé-tung, que é a China", tinham sido as últimas palavras que o pai lhe dissera, palavras secretas gravadas na sua mente desde os seis anos, e repetidas no seu leito de morte.

Entrar para a Real Polícia Montada Canadense fora parte do plano. Fora fácil sobressair na rpmc, designado para o Bairro Chinês, os molhes e os atalhos, falando inglês, mandarim e cantonense (o seu dialeto de Ning-tok enterrado bem fundo). Fora fácil tornar-se um bom policial naquela bela cidade por­tuária. Logo se tornara único, o perito chinês de Vancouver, de confiança, destacado, lutando implacavelmente contra os cri­mes que os bandidos tríades do Bairro Chinês exploravam: ópio, morfina, heroína, prostituição e a eterna jogatina ilegal.

Seu trabalho fora elogiado tanto por seus superiores quan­to pelos líderes da fraternidade, que eram igualmente contra o domínio das quadrilhas, o tráfico de drogas e o crime, aju­dando-o a prender e a descobrir, sendo seu único interesse se­creto o funcionamento interno da rpmc: como a rpmc con­trata, despede, promove, examina, investiga, vigia, e quem con­trola o quê, onde e como. Mandado de Vancouver para Ottawa, por seis meses, emprestado por um chefe de polícia agradecido para dar assistência a uma investigação sigilosa de uma qua­drilha de tóxicos chinesa, fizera novos e importantes conta­tos canadenses, e contatos com a fraternidade, aprendendo mais e mais, desbaratando a quadrilha e sendo promovido. Não é difícil controlar o crime e ser promovido quando se trabalha e se tem amigos secretos às centenas, com olhos secretos por toda parte.

Então, viera o fim da guerra, e o pedido de transferência para a polícia de Hong Kong... a parte final do plano.

Mas não queria ir, não queria partir, amando o Canadá e amando-a. Jeannette. Jeannette de Bois. Tinha dezenove anos, era franco-canadense de Montreal, e falava francês e inglês. Os pais dela, franco-canadenses de muitas gerações, gostavam dele, aprovavam-no, não se importavam que ele fosse chinois, como o chamavam, carinhosamente. Ele tinha então vinte e um anos, e em breve seria comandante, com uma grande carreira à frente, casamento à vista, para dali a mais ou menos um ano...

Brian Kwok mudou de posição no colchão, angustiado. Sentia a pele pegajosa, e a escuridão parecia sufocá-lo. Fechou as pálpebras pesadas e deixou o pensamento voltar para ela e para aquela época ruim de sua vida. Lembrava-se de como dis­cutira com a fraternidade, com o líder, dizendo que podia servir melhor no Canadá do que em Hong Kong, onde seria apenas um entre muitos. No Canadá era único. Em alguns anos faria parte da hierarquia da polícia de Vancouver.

Mas todos os seus argumentos tinham fracassado. Com tristeza, reconhecera que eles tinham razão. Sabia que, se ti­vesse ficado, acabaria por passar para o outro lado, romperia com o partido. Havia então muitas perguntas sem resposta, gra­ças à leitura de documentos oficiais sobre os soviéticos, o KGB, os gulags, e muitos amigos, canadenses e nacionalistas. Hong Kong e a China eram remotas, seu passado era remoto. Jean­nette estava ali, ele a amava, e à vida deles, seu carro "enve­nenado" e o prestígio entre os seus pares, encarando-os agora como iguais, não mais como bárbaros.

O líder lhe recordara o seu passado, que os bárbaros são apenas bárbaros, que precisavam dele em Hong Kong, onde a batalha apenas começava, onde Mao ainda não era o presidente Mao, ainda não era vitorioso, ainda lutava contra Chang Kai-chek.

Amargamente, obedecera, odiando estar sendo forçado, sa­bendo que estava em poder deles, e que obedecia apenas por causa desse poder. Em seguida, os quatro anos excitantes até 1949, e a vitória total, incrível, inacreditável, de Mao. Depois, entocara-se de novo, usando suas brilhantes habilidades para lutar contra o crime, que para ele era um anátema, uma des­graça para Hong Kong e uma mancha na face da China.

E então a vida tornara-se boa de novo. Fora escolhido para altas promoções, e os britânicos ligados a ele o respeitavam porque vinha de uma excelente escola inglesa, tinha um belo sotaque inglês de "alta classe", e era um desportista inglês como a elite do império o fora, antes dele.

"E agora estamos em 1963, e tenho trinta e nove anos; amanhã... não, amanhã não, no domingo, no domingo vai haver a subida do morro, e no sábado as corridas, e Noble Star... será Noble Star, ou Pilot Fish de Gornt, ou Butter-scotch Lass de Richard Kwok, não, Richard Kwang, ou o azarão de John Chen, Golden Lady? Acho que apostaria meu dinheiro em Golden Lady... cada tostão, é, as economias de toda a vida. E também vou apostar no Porsche, embora seja uma burrice, mas vou. Tenho que fazê-lo, porque o Crosse mandou, e Robert concorda, e os dois disseram que tenho que apostar também a minha vida, mas, meu Deus, agora Golden Lady está mancando no paddock, mas a aposta já foi feita, e foi dada a largada, e eles estão correndo. Vamos, Golden Lady, vamos, pelo amor de Mao, não ligue para as nuvens escuras e para os raios! Vamos, todas as minhas economias e a minha vida dependem da sua amaldiçoada, nojenta, oh, Deus, presidente, não me desampare... "

Estava agora entregue profundamente aos sonhos, sonhos maus, sonhos induzidos por drogas, e o Vale Feliz¹ era o Vale da Morte. Seus olhos não sentiram as luzes se acenderem nem a porta se abrir.

 

¹ Em inglês, Happy Valley, nome do hipódromo de Hong Kong. (N. do E. )

 

Estava na hora de recomeçar.

Armstrong olhou para o amigo, apiedado dele. As luzes foram cuidadosamente diminuídas. Ao lado dele estava o agente Malcolm Sun, um guarda e o médico do sei. O dr. Dorn era um especialista, um homem garboso, levemente calvo, com a vivacidade de um passarinho. Tomou o pulso de Brian Kwok, tirou-lhe a pressão e auscultou-lhe o coração.

— Fisicamente o cliente está bem, superintendente — disse, com um leve sorriso. — A pressão e os batimentos do coração estão um pouco alterados, mas isso era de se esperar.

Fez as anotações no gráfico e entregou-o a Armstrong, que lançou um olhar ao relógio, anotou a hora e também assinou o gráfico.

— Pode prosseguir — disse.

O médico encheu a seringa com cuidado. Com o mesmo cuidado, aplicou a injeção nas nádegas de Brian Kwok com uma agulha nova. Quase não deixou marca, apenas uma gotinha de sangue, que ele enxugou.

— Hora do jantar, quando quiserem — disse, com um sorriso.

Armstrong apenas balançou a cabeça. O guarda do sei havia acrescentado mais um pouco de urina ao balde, e aquilo também foi anotado no gráfico.

— Esperteza dele ter medido o nível, não pensei que faria isso — comentou Malcolm Sun. Raios infravermelhos instalados nas luzes do teto tornavam fácil controlar os mínimos movimentos de um cliente. — Dew neh loh moh, quem teria imaginado que ele fosse um toupeira? Ele era sempre tão danado de esperto!

— Vamos torcer para que o pobre sacana não seja esperto demais — falou Armstrong, com azedume. — Quanto mais cedo falar, melhor. O Velho não vai desistir dele.

Os outros olharam para ele. O jovem guarda do sei es­tremeceu.

O dr. Dorn rompeu o silêncio, constrangido.

— Devemos manter ainda o ciclo de duas horas, senhor? Armstrong lançou um olhar para o amigo. A primeira droga fora ministrada, através da caneca de cerveja, por volta da uma e meia da tarde. Desde então, Brian Kwok tinha estado numa Classificação Dois — uma rotina de dormir-acordar-dormir-acordar conseguida com substâncias químicas. A cada duas horas. Injeções para acordar pouco antes das quatro e meia, seis e meia e oito e meia, e isso continuaria até as seis e meia da manhã, quando começaria o primeiro interrogatório sério. Dez minutos depois de cada injeção, o cliente era arrancado artificialmente do sono, a fome e a sede aumentadas pela droga. Engolia a comida e o chá frio, e logo as drogas neles contidas começavam a fazer efeito, rapidamente. Um sono profundo, muito profundo, logo ajudado por outra injeção. Escuridão e luzes fortes alternadas, vozes metálicas e silêncio alternados. Depois, o despertar. Desjejum. Duas horas depois, jantar. E duas horas depois, desjejum de novo. Para uma mente incri­velmente desorientada, doze horas virariam seis dias... mais, se o cliente agüentasse: doze dias a cada hora exata. Nenhuma necessidade de tortura física, apenas escuridão e desorientação, o bastante para se descobrir o que se quer do cliente inimigo, ou para fazê-lo assinar o que se quiser, acreditando que a ver­dade dos seus captores é a sua verdade.

Qualquer um.

Qualquer um, depois uma semana de dormir-acordar-dor-mir, seguida de dois ou três dias de nenhum sono.

Qualquer um.

"Oh, Deus todo-poderoso", pensou Armstrong, "seu pobre

sacana desgraçado! Você vai tentar se agüentar e não vai adian­tar nada. Nada mesmo. "

Mas, então, parte da mente de Armstrong lhe gritou: "Mas ele não é seu amigo, e sim um agente inimigo, apenas um 'cliente' e inimigo que atraiçoou você, e tudo, e todos du­rante anos. Provavelmente foi ele quem entregou Fong-fong e seus rapazes, que estão agora numa cela nojenta e fétida re­cebendo o mesmo tratamento, mas sem médicos, controle e cuidados.

"Apesar disso, será que se pode sentir orgulho deste tipo de tratamento... será que alguma pessoa civilizada pode?

"Não.

"É necessário entupir um corpo indefeso com um monte de substâncias químicas nojentas?

"Não... é, sim, às vezes é. E matar às vezes é necessário, cães danados, gente... ah, sim, há gente má, e os cães danados são maus. É. É preciso usar essas técnicas psíquicas modernas, criadas por Pávlov e outros soviéticos, criadas pelos comunis­tas sob o regime do KGB. Ah, mas será preciso segui-los?

"Meu Deus, sei lá! Mas sei que o KGB está tentando nos destruir a todos, e rebaixar-nos ao nível dele e... "

Os olhos de Armstrong voltaram a entrar em foco, e viu que todos o fitavam.

— O quê?

— Devemos manter o ciclo de duas horas, senhor? — repetiu o médico, inquieto.

— Sim, e às seis e meia começaremos a primeira en­trevista.

— O senhor mesmo vai fazê-la?

— Está nas ordens, puta que o pariu! — explodiu Arm­strong. — Porra, não sabe ler?

— Oh, desculpe — replicou o médico imediatamente. Todos sabiam da amizade de Armstrong pelo cliente, e das ordens de Crosse para ele conduzir o interrogatório. — Quer um sedativo, meu velho? — perguntou o dr. Dorn, solícito.

Armstrong xingou-o obscenamente e saiu, zangado porque o médico conseguira fazê-lo perder a paciência. Subiu ao andar mais alto do prédio, onde ficava o salão de reunião dos oficiais,

— Garçom!

— Pronto, senhor!

Sua caneca de cerveja logo apareceu, mas daquela vez o liquido suave e escuro que adorava, amargo e maltado, não lhe saciou a sede ou limpou sua boca. Mil vezes ele se perguntava o que faria se fosse pego por eles e colocado, nu, dentro de uma cela daquelas, conhecendo a maioria das técnicas e práticas, e estando preparado. "Melhor do que o desgraçado do Brian", pensou amargamente. "O pobre sacana sabe tão pouco! É, mas será que saber mais ajuda alguma coisa, quando se é o cliente?"

Sentiu a pele pegajosa do suor provocado pelo medo, ao pensar no que esperava Brian Kwok.

— Garçom!

— Sim, senhor, já vou!

— Boa noite, Robert. Posso sentar-me com você? — per­guntou o inspetor-chefe Donald C. C. Smyth.

— Oh, alô. Sim... sente-se — disse, sem entusiasmo, ao homem mais moço.

Smyth sentou-se no banquinho ao lado dele e ajeitou mais confortavelmente o braço na tipóia.

— Como vai indo a coisa?

— Rotina.

Armstrong viu Smyth balançar a cabeça, e pensou como lhe caía bem o seu apelido. O Cobra. Smyth era bonitão, suave, sinuoso como uma cobra, com o mesmo tipo mortal de ameaça e o mesmo hábito de lamber os lábios de vez em quando com a ponta da língua.

— Pombas! Ainda acho impossível acreditar que seja o Brian. — Smyth era um dos poucos que sabia sobre Brian. — Que coisa chocante!

— É

— Robert, o diretor do Departamento de Investigações Criminais — o chefe supremo de Robert — me ordenou que assumisse o caso dos Lobisomens enquanto você estiver ocu­pado. E quaisquer outros que você queira que eu assuma.

— Está tudo nos arquivos. O sargento Tang-po é meu número 2... é um bom detetive. Muito bom, na verdade. — Armstrong tomou grandes goles de cerveja e acrescentou, com cinismo: — E muito bem relacionado.

Smyth sorriu.

— Ótimo, isso ajuda.

— Só não vá organizar a porra do meu distrito.

— Deus me livre, amigão. Aberdeen Leste exige todas as minhas habilidades. Bem, e quanto aos Lobisomens? Con­tinua a vigilância sobre Phillip Chen?

— Sim. E a mulher.

— Interessante que antes de Dianne se casar com aquele velho sovina ela era Mai-wei T'Chung, hem? Interessante que um dos primos dela seja o Sung Colibri.

Armstrong fitou-o.

— Andou fazendo o seu dever de casa?

— Tudo parte do serviço. — Smyth acrescentou, som­briamente: — Gostaria de pegar esses Lobisomens bem rapi­dinho. Já recebemos três telefonemas apavorados em Aberdeen Leste. De gente que recebeu telefonemas dos Lobisomens, exi­gindo h'eung yau "muito lapidinho", caso contrário, um se­qüestro. Parece que a coisa se repete por toda a colônia. Se três cidadãos apavorados ligaram para nós, pode apostar que trezentos outros não tiveram coragem. — Smyth sorvia o seu uísque com soda. — Isso não é bom para os negócios, nada bom. A vaca tem apenas uma certa quantidade de gordura. Se não pegarmos logo os Lobisomens, os sacanas terão sua própria Casa da Moeda... alguns telefonemas rápidos e o dinheiro irá pelo correio, as pobres vítimas felizes por pagarem para fugir às atenções deles... e qualquer outro bandido sa­fado com visão também vai entrar nessa jogada.

— Concordo. — Armstrong terminou a cerveja. — Quer outra?

— É por minha conta. Garçom! Armstrong ficou vendo sua cerveja ser servida.

— Acha que há alguma ligação entre John Chen e Sung Colibri? — Lembrava-se de Sung, o rico armador seqüestrado há seis anos, e sorriu amargamente. — Pombas, há anos que não penso nele!

— Nem eu. Os casos não são semelhantes, e pusemos os seqüestradores por vinte anos na cadeia, onde vão apodrecer, mas nunca se sabe. Pode ser que haja uma ligação. — Smyth deu de ombros. — Dianne Chen devia odiar John Chen, e estou certo de que ele a odiava, todo mundo sabe disso. Assim como o velho Colibri. — Ele riu. — O outro apelido do Colibri no... digamos... no comércio é Intrometido.

Armstrong soltou um resmungo. Esfregou os olhos can­sados.

— Pode valer a pena ir ver a mulher de John, Barbara. Ia fazê-lo amanhã, mas... bem, pode valer a pena.

— Já marquei hora. E vou em primeiro lugar para Sha Tin. Pode ser que os sacanas locais tenham deixado escapar alguma coisa, na chuva.

— Boa idéia. — Inquieto, Armstrong ficou observando o Cobra tomar o seu uísque. — No que está pensando? — perguntou, sabendo que havia algo.

Smyth olhou-o nos olhos.

— Há muita coisa que não entendo nesse seqüestro. Por exemplo: por que os Grandes Dragões ofereceram uma recom­pensa tão grande pela recaptura de John, vivo ou morto?

— Pergunte-lhes.

— Já perguntei. Pelo menos, pedi a alguém que conhece um deles. — O Cobra deu de ombros. — Nada. Absolutamen­te nada. — Hesitou. — Vamos ter que escarafunchar o pas­sado de John.

Armstrong sentiu uma pontada gélida, que disfarçou.

— Boa idéia.

— Sabia que Mary o conhecia? Da época em que foram prisioneiros de guerra, em Stanley?

— Sabia — disse Armstrong, tomando sua cerveja sem sentir-lhe o gosto.

— Ela podia nos dar uma pista... digamos... se o John estava ligado ao mercado negro, no campo. — Seus olhos azul-claros mantinham-se fitos nos olhos azul-claros de Armstrong. — Pode valer a pena perguntar.

— Vou pensar no assunto. É, vou pensar. — O granda­lhão não tinha raiva do Cobra. Se estivesse no lugar dele, tam­bém teria perguntado. Os Lobisomens eram uma barra pesada, e a primeira onda de terror já varrera a sociedade chinesa. "Quantas outras pessoas sabem do caso de Mary com John Chen?", perguntou a si mesmo. "Ou sabem dos quarenta mil que ainda estão abrindo um buraco a fogo na minha mesa, ainda abrindo um buraco a fogo na minha alma?" — Faz mui­to tempo.

— É.

Armstrong ergueu a cerveja.

— Seus "amigos" o estão ajudando?

— Digamos que recompensas e pagamentos substanciais estão sendo feitos... prazerosa e agradecidamente, devo acres­centar, pela nossa fraternidade do jogo. — O sorriso sardônico deixou o rosto de Smyth. E a gozação. — Temos que pegar aqueles malditos Lobisomens depressa, ou eles vão realmente bagunçar o nosso coreto.

 

                     21h15m

Wu Quatro Dedos estava na popa alta do junco motori­zado que se agitava nas ondas encapeladas, em alto-mar, todas as luzes diminuídas.

— Escute, seu Lobisomem de bosta — sibilou, irritado, para Kin Bexiguento, que jazia trêmulo aos seus pés, no tom­badilho, alucinado de dor, amarrado com cordas e grossas cor­rentes. — Quero saber quem mais faz parte da sua quadrilha de merda, e onde você conseguiu a moeda, a meia moeda. — Não houve resposta. — Acorde o filho da mãe!

De bom grado, Poon Bom Tempo derramou outro balde de água do mar sobre o jovem largado no chão. Como isso não surtiu efeito, debruçou-se com a faca na mão. Imediata­mente Kin Bexiguento berrou e saiu do seu estupor.

— O que é, o que é, senhor? — berrava. — Chega... o que é, o que deseja?

Wu Quatro Dedos repetiu o que dissera. O jovem soltou outro berro agudo quando Poon Bom Tempo o cutucou com a faca.

— Já lhe contei tudo... tudo... — Desesperadamente, sem acreditar que pudesse haver tanta dor no universo, sem ligar para mais nada, ele balbuciou de novo quem eram os membros da quadrilha, todos os seus nomes e endereços ver­dadeiros. Falou até na velha amah de Aberdeen. —... meu pai me deu a moeda... não sei onde... ele a deu para mim sem dizer onde... a conseguiu... juroooooo...

Sua voz foi sumindo. Desmaiou de novo. Quatro Dedos soltou uma cusparada de nojo.

— Os jovens de hoje não têm resistência!

A noite estava escura, e um vento mal-humorado soltava rajadas de vez em quando sob uma cerração baixa, o motor po­tente e redondo ronronando gostoso, o junco andando apenas o suficiente para diminuir o inevitável balanço e caturro das ondas. Estavam alguns quilômetros a sudoeste de Hong Kong, pouco além das rotas marítimas, as águas da RPC e a vasta foz do rio Pearl a bombordo, o mar aberto a boreste. Todas as velas tinham sido recolhidas.

Ele acendeu um cigarro e tossiu.

— Que todos os deuses amaldiçoem todos os desgraçados dos tríades!

— Quer que o acorde outra vez? — perguntou Poon Bom Tempo.

— Não. Não, o filho da mãe contou a verdade, o quanto sabia da verdade. — Os dedos calosos de Wu se estenderam e tocaram nervosamente a meia moeda que usava agora ao redor do pescoço, sob a camiseta de meia esmolambada, certificando-se de que ainda estava ali. Um nó de ansiedade subiu-lhe à garganta à idéia de que a moeda pudesse ser genuína, pudesse ser o tesouro perdido de Phillip Chen. — Saiu-se muito bem, Poon Bom Tempo. Hoje à noite receberá uma gratificação. — Seus olhos dirigiram-se para o sudeste, buscando o sinal, que já estava atrasado. Mas Wu ainda não estava preocupado. Au­tomaticamente, seu nariz farejou o vento, e sua língua provou-o, travoso e cheio de sal. Os olhos varreram o céu, o mar e o horizonte. — Logo vai chover mais — resmungou.

Poon acendeu outro cigarro na sua guimba, depois apagou a guimba no convés com o pé descalço, caloso.

— Será que vai estragar as corridas de sábado? O velho deu de ombros.

— Se for a vontade dos deuses. Acho que vai chover a cântaros amanhã, de novo. A não ser que o vento mude de direção. A não ser que o vento mude de direção, podemos ter os Ventos do Demônio, os Ventos Supremos, e esses sacanas podem nos espalhar pelos Quatro Mares. Mijo nos Ventos Supremos!

— Eu mijarei neles se não houver corrida. Meu faro me diz que quem vai ganhar é o cavalo do Banqueiro Kwang.

— Hum! Aquele meu sobrinho fedorento, bajulador, bem que está precisando que sua sorte mude! O idiota perdeu o seu banco!

Poon escarrou e cuspiu, para dar sorte.

— Graças a todos os deuses por Choy Lucrativo! Como Quatro Dedos, seus capitães e seu pessoal tinham sacado os seus fundos do Ho-Pak, graças à informação de Paul Choy... e como ele próprio ainda estava curtindo os grandes lucros obtidos pela manipulação ilícita das ações da Struan, feitas pelo filho, Wu batizara-o de Choy Lucrativo. Por causa do lucro, perdoara a transgressão do filho. Mas apenas no co­ração. Como era prudente, o velho nada demonstrava externamente, exceto para seu amigo e confidente, Poon Bom Tempo.

— Traga-o para o convés.

— E quanto a este Lobisomem filho da puta? — O dedo do pé caloso de Poon cutucou Kin. — O jovem Lucrativo não gostou nada dele, nem desse assunto, heya?

— Está na hora de ele crescer, de saber como tratar os inimigos, de conhecer os valores reais, não os valores agouren­tos, xexelentos, insensatos da Montanha Dourada. — O velho cuspiu no convés. — Ele esqueceu quem é e onde estão seus interesses.

— Você mesmo disse que não se manda um coelho contra um dragão. Ou um peixinho contra um tubarão. Você deve levar em consideração o seu investimento, e não se esqueça de que Choy Lucrativo lhe devolveu vinte vezes tudo o que gastou com ele em quinze anos. No mercado do dinheiro, é um Grande Dragão, e tem só vinte e seis anos. Deixe-o onde fica melhor, melhor para você e melhor para ele, heya?

— Hoje ele fica melhor aqui. O velho marujo coçou a orelha.

— Não sei, não, Quatro Dedos. Isso os deuses é que de­cidirão. Quanto a mim, eu o teria deixado em terra. — Agora, Poon Bom Tempo estava observando o sudeste. Sua visão pe­riférica percebera alguma coisa. — Está vendo?

Depois de algum tempo, Quatro Dedos sacudiu a cabeça.

— Há tempo de sobra, de sobra.

— É. — O velho marujo olhou para o corpo amarrado com correntes feito uma galinha depenada. Seu rosto se abriu num sorriso. — Eeee, mas quando Choy Lucrativo ficou branco como uma água-viva ao primeiro grito e primeiro sangue deste filho da puta, tive que peidar para soltar o riso e não o des­moralizar!

— Os jovens de hoje não têm resistência — repetiu Wu. Depois acendeu um outro cigarro e balançou a cabeça. — Mas tem razão. Depois desta noite, Lucrativo vai ficar no seu lugar para se tornar ainda mais lucrativo. — Lançou um olhar para Kin Bexiguento. — Está morto?

— Ainda não! Que puto sujo e sem mãe! Bater no Filho Número Um do Chen da Casa Nobre com uma pá, e depois nos contar mentiras, heya? E cortar a orelha do Chen e culpar o pai e os irmãos, e também mentir sobre isso! E depois pegar o resgate mesmo sem poder entregar a mercadoria! Terrível!

— Revoltante! — O velho deu uma risadinha. — E mais terrível ainda deixar-se prender. Mas você mostrou ao sacana o erro das suas atitudes nojentas, Poon Bom Tempo. Os dois riram, sentindo-se felizes juntos.

— Quer que corte fora a outra orelha dele, Quatro Dedos?

— Ainda não. Breve, muito breve. Poon coçou a cabeça de novo.

— Há uma coisa que não entendo. Por que me mandou colocar o cartaz deles no Filho Número Um, e deixá-lo lá, como eles planejavam? — Olhou para Quatro Dedos, franzindo o cenho. — Quando este fornicador estiver morto, todos os Lo­bisomens estarão mortos, heya? Então, para que vai servir o cartaz?

Quatro Dedos casquinou.

— Tudo fica claro para aquele que espera. Paciência — disse, muito satisfeito consigo mesmo. O cartaz insinuava que os Lobisomens estavam vivos. Se apenas ele e Poon soubessem que estavam mortos, a qualquer hora ele poderia ressuscitá-los, ou a ameaça deles. Ao seu bel-prazer. "É", pensou, feliz, "mate um para aterrorizar dez mil! Os Lobisomens podem facilmente tornar-se uma fonte contínua de renda extra, a um custo muito baixo. Alguns telefonemas, um ou dois seqüestros criteriosos, quem sabe outra orelha. Paciência, Poon Bom Tempo. Logo vai compreen... " Interrompeu-se. Os dois homens focali­zaram os olhos no mesmo local, na escuridão. Um cargueiro pequeno e mal-iluminado acabava de aparecer. Dali a um mo­mento, duas luzes piscaram no seu mastro. Imediatamente, Wu foi para a torre de comando e lampejou um sinal em resposta. O cargueiro lampejou a confirmação. — Ótimo — disse Wu, feliz, lampejando a reconfirmação. A tripulação no convés tam­bém tinha visto as luzes. Um deles desceu para buscar o resto dos marujos, e os outros foram para seus postos. Os olhos de Wu pousaram em Kin Bexiguento. — Primeiro ele — falou, com ar malévolo. — Tragam meu filho aqui.

Debilmente, Paul Choy subiu ao convés. Sorveu com gosto o ar fresco, pois o fedor lá embaixo era de amargar. Subiu a escada que levava à popa. Quando viu a nojeira vermelha e o corpo mutilado no convés, seu estômago se revoltou mais uma vez e ele deitou cargas ao mar.

— Dê uma mão ao Poon Bom Tempo — disse Quatro Dedos.

— O quê?

— Está com os ouvidos cheios de vômito? — berrou o velho. — Dê-lhe uma mão.

Assustado, Paul Choy cambaleou para junto do velho ma-rujo, enquanto o timoneiro observava, interessado.

— O que quer... que eu faça?

— Pegue as pernas dele!

Paul Choy tentou dominar a náusea que sentia. Fechou os olhos. Suas narinas estavam cheias do cheiro de vômito e san­gue. Abaixou-se, pegou as pernas e parte da grossa corrente, cambaleou e quase caiu. Poon Bom Tempo estava carregando a maior parte do peso, e podia tê-lo carregado todo, e mais Paul Choy, se fosse preciso. Sem esforço, equilibrou Kin Be­xiguento na amurada.

— Deixe-o aí!

Como já havia combinado com Quatro Dedos, o velho marujo se afastou, deixando Paul Choy por sua conta, com o corpo inconsciente e mutilado largado precariamente contra si.

— Jogue-o ao mar! — ordenou Wu.

— Mas, pai... por favor... ele... não está morto... ainda não está morto. Por favor...

— Jogue-o ao mar!

Desnorteado de medo e repulsa, Paul Choy tentou puxar o corpo de novo para bordo, mas o vento soprou e inclinou o junco, e o último dos Lobisomens caiu no mar e afundou sem deixar vestígios. Impotente, Paul Choy ficou olhando as ondas batendo contra a madeira. Notou que havia sangue em suas mãos e em sua camisa. Outra onda de náusea tomou conta dele, atormentando-o.

— Tome!

Asperamente, Wu entregou um frasco ao filho. Continha uísque, dos bons. Paul Choy engasgou um pouco, mas seu es­tômago não devolveu o uísque. Wu voltou-se para a torre de comando, fez sinal ao timoneiro para que guiasse o barco em direção ao cargueiro, a todo o vapor. Paul Choy quase caiu, mas conseguiu agarrar-se à amurada e ficar de pé, despreparado para o inesperado do ronco do motor e do aumento da veloci­dade. Quando voltou a se equilibrar, olhou para o pai. Agora, o velho estava junto da casa do leme, com Poon Bom Tempo perto dele, e ambos olhavam para dentro da escuridão. Paul Choy pôde ver o naviozinho, e seu estômago deu voltas. Odiou novamente o pai, odiou estar a bordo, envolvido no que obvia­mente era contrabando... e, para coroar, o horror do Lobi­somem.

"Seja lá o que aquele pobre filho da puta tenha feito", pensou, enraivecido, "isso não lhe dava o direito de fazer jus­tiça com as próprias mãos. Ele tinha que tê-lo entregue à po­lícia, para ser preso, enforcado, ou lá o que fosse. "

Wu sentiu o olhar do outro fito nele, e olhou para trás. Sua fisionomia não se alterou.

— Venha cá — ordenou, a mão sem um dos dedos apon­tando para a amurada à sua frente. — Fique aqui.

Entorpecido, Paul Choy obedeceu. Era muito mais alto que o pai e Poon Bom Tempo, mas não passava de um pedaço de palha comparado com qualquer um dos dois.

O junco varava a escuridão num rumo de intercepção, o mar negro e a noite negra, iluminados apenas por um raio de luar que penetrava a cerração. Logo estavam perto da popa da embarcação, a boreste, cada vez mais próximos. A embarcação era pequena, vagarosa e muito velha, e mergulhava de modo inquietante nas vagas que se formavam.

— É um cargueiro costeiro — explicou Poon Bom Tempo —, uma traineira Tai, é como as chamamos. Há dúzias das sa­canas em águas asiáticas. São a escória dos mares, Choy Lucra-tico, tripuladas por lixo humano, capitaneadas por lixo humano, e todas vazam como armadilhas de pegar lagostas. A maioria infesta a rota de Bangkok, Cingapura, Manila, Hong Kong, ou qualquer outro lugar para onde tenham carga. Essa vem de Bangkok. — Escarrou e cuspiu, enojando de novo o rapaz. — Não gostaria de viajar numa dessas putas fedorentas. Ela...

Interrompeu-se. Houve outro breve sinal faiscante. Wu respondeu. Então, todos os que estavam a bordo viram a água espadanar a boreste da traineira, quando algo pesado caiu no mar. Imediatamente Quatro Dedos deu o sinal de "parar má­quinas". O súbito silêncio era ensurdecedor. Os vigias da proa olhavam para dentro da escuridão. O junco oscilou e deu uma guinada, enquanto diminuía de velocidade.

Então, um dos vigias da proa fez sinal com uma bandeira. Imediatamente, Wu mandou ligar as máquinas e fez uma cor­reção. Outro sinal silencioso, outra mudança de direção, e depois um movimento mais brusco e excitado da bandeira.

Imediatamente, Wu inverteu a marcha. A hélice girou com mais força na água. Depois, ele desligou o motor, e o junco dirigiu-se, guinando, para mais perto da linha de bóias oscilan­tes. O velho nodoso parecia fazer parte do barco, enquanto Paul Choy o observava, os olhos fitos no mar à frente. Habil­mente, Wu manobrou o junco pesado no rumo das bóias. Dali a alguns momentos, um marujo com uma vara comprida e en-curvada debruçou-se do convés superior e enganchou a linha. As bóias grosseiras foram trazidas para bordo habilmente pelos outros marujos, e a linha foi presa com firmeza a um balaústre. Com perícia e prática, o marinheiro-chefe do convés cortou fora as bóias e lançou-as ao mar, enquanto outros marujos se cer­tificavam de que os fardos presos à outra extremidade da linha, abaixo da superfície, estavam a salvo. Paul Choy agora podia ver os fardos nitidamente. Eram dois, de cerca de um metro por um e oitenta, e estavam bem amarrados a uma corda, de­baixo d'água, seu peso mantendo a linha grossa esticada. Com a carga atrelada em segurança ao lado do navio, embora ainda cerca de um metro e meio abaixo da superfície, o mari-nheiro-chefe do convés fez um sinal. Imediatamente, Quatro Dedos fez zarpar o junco a uma velocidade de cruzeiro e lá se foram eles, num curso diferente.

Toda a operação fora feita em silêncio, sem esforço, e em segundos. Dali a um momento as luzes de âncora fracas da trai­neira Tai haviam desaparecido na escuridão, e eles estavam sozinhos no mar mais uma vez.

Wu e Poon Bom Tempo acenderam cigarros.

— Muito bom — disse Poon Bom Tempo. Quatro Dedos não replicou, os ouvidos atentos ao ronco agradável dos mo­tores. "Não há problema com eles", pensou. Seus sentidos tes­taram o vento. "Nenhum problema com ele. " Seus olhos var­reram a escuridão. "Também nada ali", disse a si mesmo. "Então, por que você está inquieto? Será o Sétimo Filho?"

Lançou um olhar para Paul Choy, que estava a bombordo, de costas para ele. Não, ali também não havia perigo.

Paul Choy fitava os fardos. Deixavam um pequeno rastro. Sua curiosidade aumentou. Estava se sentindo um pouquinho melhor agora, o uísque a aquecê-lo e o sal cheirando bem, e mais a emoção do encontro e o fato de estar longe e seguro.

— Por que não os traz para bordo, pai? Pode perdê-los. Wu fez sinal a Poon para responder.

— É melhor deixar a colheita do mar para o mar, Choy Lucrativo, até que seja bem seguro levá-la para terra. Heya?

— Meu nome é Paul, não Lucrativo. — O rapaz voltou a olhar para o pai, e estremeceu. — Não havia necessidade de assassinar aquele fornicador!

— Não foi o comandante que o fez — disse Poon Bom Tempo, respondendo pelo velho. — Foi você, Choy Lucrativo. Foi você que o jogou ao mar, vi nitidamente. Eu estava a meio passo de distância.

— Mentiras! Tentei puxá-lo de volta! E de qualquer ma­neira, foi ele que ordenou. Ele me ameaçou.

O velho marujo deu de ombros.

— Diga isso a um bom juiz dos demônios estrangeiros, Choy Lucrativo, e isso não será nem um pouquinho lucrativo, porra!

— Meu nome não é Lu...

— O Comandante das Frotas chamou-o de Lucrativo. Por­tanto, por todos os deuses, você é Lucrativo para sempre. Heya? — acrescentou, rindo para Quatro Dedos.

O velho nada disse, apenas sorriu, deixando ver seus pou­cos dentes quebrados, o que fez sua careta mais assustadora.

A cabeça calva e o rosto curtido balançaram, concordando. Depois, fitou o filho. Paul Choy estremeceu, apesar de toda a sua força de vontade.

— Seu segredo está a salvo comigo, meu filho. Não tema. Ninguém a bordo deste barco viu coisa alguma. Não é, Poon Bom Tempo?

— Não, nada. Por todos os deuses, grandes e pequenos! Ninguém viu nada.

Paul Choy devolveu-lhe o olhar, carrancudo.

— Não se pode embrulhar fogo com papel!

— Neste barco se pode — riu-se Poon Bom Tempo.

— É — concordou Wu, a voz áspera. — Neste barco po­de-se guardar um segredo para sempre. — Acendeu outro ci­garro, escarrou e cuspiu. — Não quer saber o que há naqueles fardos?

— Não.

— É ópio. Entregue em terra, o trabalho desta noite ren­derá duzentos mil para mim, só para mim, com muitas grati­ficações para a tripulação.

— O lucro não vale o risco, não para mim. Ganhei para você... — Paul Choy se interrompeu.

Wu Quatro Dedos olhou para ele. Cuspiu no convés, pas­sou o governo do barco para Poon Bom Tempo e dirigiu-se aos grandes assentos estofados que circundavam a popa.

— Venha cá, Choy Lucrativo — ordenou. Assustado, Paul Choy sentou-se no lugar indicado. Agora, estavam sozinhos.

— Lucro é lucro — disse Wu, muito zangado. — Dez mil é o seu lucro. O bastante para comprar uma passagem aérea de ida e volta para Honolulu, e tirar dez dias de férias.

Viu o lampejo momentâneo de alegria inundar o rosto do filho, e sorriu intimamente.

— Nunca vou voltar — disse Paul Choy, corajosamente.

— Nunca.

— Ah, vai. Agora vai. Pescou em águas muito perigosas.

— Nunca voltarei. Tenho um passaporte americano e... — E uma prostituta japonesa, heya?

Paul Choy fitou o pai, surpreso de que ele soubesse. De­pois ficou louco de raiva e pôs-se de pé num salto, cerrando os punhos.

— Ela não é uma prostituta, por todos os deuses! É formidável, é uma dama, e a família dela é...

— Quieto! — Wu abafou com cuidado uma imprecação.

— Muito bem, então não é uma prostituta, embora para mim todas as mulheres sejam prostitutas. Não é uma prostituta, mas uma imperatriz. Mas ainda é uma diaba do mar do Leste, da raça que estuprou a China.

— Ela é americana, americana como eu — explodiu Paul Choy, os punhos cerrados com mais força ainda, pronto para saltar sobre o outro. O timoneiro e Poon Bom Tempo prepa­raram-se para interferir, sem dar na vista. Poon segurou uma faca. — Sou americano, ela é nissei americana, o pai dela serviu com o 442 na Itália e...

— Você é haklo, é um dos Wu Marítimos, gente de navio, e vai me obedecer! Vai, Choy Lucrativo, vai, ora se vai obe­decer! Heya?

Paul Choy ficou de pé diante dele, tremendo com fúria igual, tentando conservar a coragem, pois a raiva do velho era assustadora e ele podia sentir Poon Bom Tempo e o outro ho­mem atrás de si.

— Não a ofenda! Ouviu?

— Ousa cerrar os punhos para mim? Eu, que lhe dei a vida, que lhe dei tudo? Todas as oportunidades, até a de co­nhecer essa... essa imperatriz do mar do Leste? Heya?

Paul Choy rodopiou como se tivesse sido atingido por um vendaval. Poon Bom Tempo erguia os olhos para ele.

— Este é o Comandante das Frotas. Trate de respeitá-lo. — A mão de ferro do marujo empurrou-o de volta aos assen­tos. — O comandante falou para se sentar. Sente-se!

Depois de um momento, Paul Choy perguntou, emburrado:

— Como soube dela? Exasperado, o velho exclamou:

— Que todos os deuses sejam testemunhas desse roceiro a quem gerei, esse macaco com o cérebro e os modos de um roceiro! Acha que não mandei que o vigiassem? Que o pro­tegessem? Vou mandar uma toupeira para o meio de cobras, ou um filhote civilizado para o meio de demônios estrangeiros, sem proteção? Você é o filho de Wu Sang Fang, chefe dos Wu Marítimos, e protejo os meus contra todos os inimigos. Não sabe que temos um bom número de inimigos que cortariam o seu Saco Secreto e me enviariam o seu conteúdo só para me irritar? Heya?

— Não sei.

— Pois então fique sabendo, meu filho!

Wu Quatro Dedos sabia que aquela era uma batalha mor­tal e que tinha que ser sábio como um pai precisa ser quando o filho finalmente o contesta. Não tinha medo. Fizera isso com muitos filhos, e só perdera um. Mas era grato ao tai-pan, que lhe dera a informação sobre a garota e sua ascendência. "Essa e a chave", pensou, "a chave para este filho desaforado de uma Terceira Mulher cuja Ravina Dourada era doce e tenra como um peixinho prateado fresco, enquanto viveu. Talvez eu o deixe trazer para cá a sua prostituta. O pobre precisa de uma, seja lá que nome lhe dê. Dama? Pois sim! Ouvi dizer que os de­mônios do mar do Leste não têm pêlos púbicos! Revoltante! No mês que vem ele pode trazer para cá a meretriz. Se os pais deixarem que venha sozinha, isso provará que é uma prostituta. Se não deixarem, é o fim dela. Nesse meio tempo, vou arrumar uma mulher para ele. É. Quem? Uma das netas de Pão-Duro? Ou do Lando Mata ou... Ah, a fedelha mais nova do mestiço não foi treinada na Montanha Dourada, também, numa escola para moças, uma famosa escola para moças? Que diferença faz para este idiota, sangue puro ou não?

"Tenho muitos filhos", pensou, sem sentir nada por ele. "Dei-lhes a vida. O dever deles é para comigo, e, quando eu morrer, para com o clã. Talvez uma boa garota barqueira haklo de quadris largos e pés ásperos fosse a mulher certa para ele", pensou, sombriamente. "É, mas, eeee, não há necessidade de cortar fora o seu Talo por causa de uma bexiga fraca, não im­porta o quanto o bestalhão seja grosseiro e mal-educado. "

— Daqui a um mês o Barba Negra lhe dará umas férias — disse, encerrando o assunto. — Eu me encarrego disso. Com os seus dez mil de lucro, pode comprar uma passagem numa máquina voadora... Não! É melhor trazê-la para cá — acres­centou, como se estivesse pensando naquilo pela primeira vez.

— Você a trará para cá. Você deve ir visitar os nossos capi­tães em Manila, Cingapura e Bangkok. É, traga-a para cá daqui a um mês, os seus dez mil darão para a passagem e todo o...

— Não, de jeito nenhum. E não quero dinheiro de tó­xicos! Jamais aceitarei dinheiro de tóxicos, e aconselho-o a largar o tráfico imedia...

Todo o junco foi inundado de luz. Todos ficaram cegos por momentos.

— Parem! — A ordem foi dada em inglês, pelo megafo­ne, repetida depois em haklo, depois em cantonense.

Wu e Poon Bom Tempo foram os primeiros a reagir, e numa fração de segundo se puseram em movimento. Wu girou o timão com força para bombordo, para longe do barco de patrulha da polícia marítima, e acelerou os dois motores, à velocidade máxima. Poon saltara escada abaixo para a coberta principal, e agora cortava a linha da carga, e o rastro dos fardos desapareceu quando eles afundaram no mar.

— Parem para abordagem!

As palavras metálicas penetraram violentamente em Paul Choy, que estava paralisado de medo. Viu o pai tirar de um armário próximo uns quepes pontudos de soldado da RPC, meio amassados, e enfiar um deles na cabeça.

— Depressa — ordenou, jogando-lhe um.

Apavorado, obedeceu, metendo-o na cabeça. Por um mi­lagre, toda a tripulação agora usava o mesmo tipo de chapéu, e alguns marujos lutavam para entrar em túnicas do exército igualmente amassadas e sujas.

O coração dele parou. Outros estavam tirando de dentro de armários rifles do exército e metralhadoras portáteis da RPC, enquanto outros se dirigiam para o lado que ficava mais perto do barco-patrulha e começavam a gritar obscenidades. O barco era luzidio e cinzento, com um canhão de convés, e agora dois holofotes e as luzes de âncora estavam acesos. Estava a uns cem metros a boreste, os motores roncando, acompanhando-os com facilidade. Podiam ver os marujos impecáveis, de branco, e, na ponte, os quepes pontudos dos oficiais britânicos.

Quatro Dedos agora também segurava um megafone. Di­rigiu-se mais para perto da amurada, o quepe enfiado o mais possível na cabeça, e rugiu:

— Vão se foder, bárbaros! Olhem para as nossas cores! — A mão apontou para o topo do mastro. A bandeira da marinha da RPC tremulava ali. Na popa via-se um número de registro falso de Cantão. — Não incomodem uma patrulha pacífica... estão em nossas águas!

O rosto de Poon ostentava um sorriso amplo e malévolo. Com uma pistola automática da RPC nas mãos, ele permanecia junto à amurada, recortado contra a luz, o quepe bem enfiado na cabeça para impedir a identificação pelos binóculos que ele sabia estarem varrendo o navio. Seu coração batia disparado, e havia um gosto acre-doce e nauseante de bile em sua boca. Estavam em águas internacionais. A segurança e as águas da República Popular da China estavam a quinze minutos de dis­tância. Engatilhou a arma. As ordens eram claras. Ninguém os iria abordar naquela noite.

— Parem! Vamos subir a bordo!

Todos viram o barco-patrulha diminuir a velocidade e o escaler ser lançado ao mar, e muitos a bordo perderam a con­fiança inicial. Quatro Dedos empurrou o acelerador de mão todo à frente, para obter o máximo de potência. Xingou-se por não ter visto o barco da polícia antes, ou pressentido sua presença, mas sabia que eles tinham dispositivos eletrônicos que varavam a escuridão, enquanto ele tinha que confiar nos olhos, no nariz e no sexto sentido que até agora o haviam mantido vivo, assim como a maior parte do seu pessoal.

Era raro encontrar um barco-patrulha tão perto de águas chinesas. Mas o barco estava ali, e embora sua carga tivesse sumido, havia armas a bordo, e havia Paul Choy. "Que azar! Que todos os deuses defequem no barco-patrulha! Poon Bom Tempo estava parcialmente certo", disse consigo mesmo. "Os deuses decidirão se foi ou não sensato ter trazido o rapaz para bordo. "

— Vão se foder! Nenhum demônio estrangeiro sobe a bordo de um barco-patrulha da República Popular da China!

Toda a tripulação deu vivas entusiásticos, acrescentando suas obscenidades à barulheira.

— Parem!

O velho não lhes deu atenção. O junco dirigia-se a toda a velocidade para o estuário do rio Pearl, e ele e todos a bordo rezavam para que não houvesse patrulhas da RPC por ali. À luz do holofote, podiam ver o escaler, com dez marujos armados, num curso de intercepção, mas ele não tinha velocida­de bastante para alcançá-los.

— Pela última vez, pareeeeeem!

— Porra, pela última vez, deixem a patrulha pacífica da RPC sossegada nas suas próprias águas...

De repente, as sirenes do barco-patrulha começaram a to­car, e ele pareceu dar um salto para a frente, devido à violenta aceleração de suas máquinas, deixando atrás de si um rastro alto e espumante. O holofote ainda os focalizava, quando ele se jogou para a frente e se meteu bem no caminho da proa do junco, parando ali, os motores roncando malevolamente, bloqueando a passagem para a segurança.

Paul Choy ainda fitava a embarcação cinzenta, de proa afilada, pronto para acionar o canhão de convés e as metralha­doras grandes, com quatro vezes a potência das que eles ti­nham. A distância diminuía cada vez mais, sem que eles tives­sem espaço para manobrar. Podiam ver os marujos fardados no convés, os oficiais na ponte, as antenas de radar varrendo o espaço.

— Abaixe a cabeça — avisou Wu a Paul Choy, que obe­deceu imediatamente. Então, Wu saiu correndo para a proa, Poon Bom Tempo ao seu lado. Ambos carregavam metralha­doras automáticas.

— Agora!

Cuidadosamente, ele e o amigo dispararam no mar, na direção do barco-patrulha, que agora estava quase em cima deles, tomando um cuidado extremo para que nenhuma das balas atingisse o convés. Imediatamente, o holofote foi desli­gado, e, na escuridão cegante, o timoneiro prontamente guinou com força o barco para boreste, rezando para que Wu tivesse tomado a decisão certa. O junco passou pelo barco-patrulha, vencendo os poucos metros de espaço de manobra, enquanto a outra embarcação acelerava para a frente, tentando escapar do alcance das balas. O timoneiro voltou a colocar o junco no curso e na sua fuga para a segurança.

— Ótimo — resmungou Wu, sabendo que havia ganho mais uns cem metros. O mapa daquelas águas estava impresso em sua mente. Estavam agora na área cinzenta entre as águas de Hong Kong e da RPC, a poucas centenas de metros da verdadeira segurança. Na escuridão, todos no convés haviam mantido os olhos bem fechados. No momento em que sentiram de novo o holofote, abriram os olhos e se adaptaram com muito mais rapidez. O atacante estava adiante e a bombordo, fora do alcance das metralhadoras, mas ainda à frente, e ainda inter-ceptando-lhes o caminho. Wu deu um sorriso sombrio.

— Lee Narigudo! — O marinheiro-chefe de convés apre­sentou-se imediatamente, e ele lhe entregou a metralhadora. — Não a use antes que eu mande, e não atinja nenhum dos sacanas!

Subitamente, a escuridão foi rasgada, e o estouro do ca­nhão de convés os ensurdeceu. Uma fração de segundo e um chafariz de água subiu do mar perto da proa deles. Wu ficou chocado e sacudiu o punho cerrado na direção do navio.

— Fodam-se vocês e todas as suas mães! Deixem-nos em paz, ou o presidente Mao afundará Hong Kong inteira! — Correu em direção à ré. — Dê-me o leme.

O timoneiro estava assustado. Paul Choy também, mas ao mesmo tempo sentia-se curiosamente excitado, e impressiona-díssimo pelo modo de comandar do pai e pela disciplina com que todos a bordo reagiam. Certamente não eram o bando de piratas desmazelados e desorganizados que imaginava que fossem.

— Parem!

Novamente a distância começou a diminuir, mas o barco-patrulha continuava fora do alcance das metralhadoras, e o escaler se mantinha fora do alcance, à ré. Estoicamente, Wu manteve o curso. Outro clarão, depois outro, e parrang par-rannng. Duas balas caíram de cada lado do junco, sacudindo-o.

— Fodam-se todas as mães! — exclamou Wu, ofegante. Que todos os deuses mantenham a boa mira dos artilhei­ros! — Sabia que aqueles tiros eram apenas para assustá-los, Seu amigo Cobra tinha-lhe assegurado que todas as patrulhas tinham ordem de não atingir ou afundar um junco em fuga que levasse as cores da RPC, pois elas poderiam ser mesmo verdadeiras, de nunca abordar à força um deles, a não ser que um dos marujos do barco-patrulha fosse morto ou ferido. — Soltem uma rajada neles — ordenou.

Obedientemente, mas com extremo cuidado, os dois ho­mens na proa dispararam uma rajada nas águas. O farol con­tinuou firme, mas subitamente se apagou.

Wu ficou firme no curso. "E agora?", perguntou-se, de­sesperado. "Para onde vai o fornicador?" Seus olhos varreram a escuridão, esforçando-se para enxergar o barco-patrulha e o promontório que sabia estar próximo. Então, viu a silhueta à ré e a bombordo. Vinha à toda, num esforço de emparelhar com ele e caçá-lo com arpéus. A segurança estava cem metros à frente. Se ele se afastasse do novo perigo, correria paralelamente à área de segurança e continuaria em águas internacionais. Então o navio faria o mesmo de novo, e o forçaria a ir para o mar aberto, até que sua munição acabasse ou alvorecesse, e ele estaria perdido. Não ousava combater de verdade, pois sabia que a lei britânica tinha um braço comprido, e a morte de um dos seus marujos era punida com enforcamento, e nem dinheiro nem amigos influentes poderiam impedi-lo. Se mantivesse o seu curso, o navio poderia usar os arpéus, e ele sabia como eram competentes e bem-treinados os marinheiros cantonenses, e como odiavam os haklos.

Seu rosto abriu-se numa careta. Esperou até o barco-patru­lha estar a cinqüenta metros à ré, aproximando-se velozmente, a sirene tocando ensurdecedoramente, depois, sombriamente, girou o leme para cima dele, e rezou para que o comandante estivesse atento. Por um momento, os dois barcos ficaram suspensos. Então, o barco-patrulha se desviou para evitar a colisão, borrifando-os com a água levantada. Wu girou o leme para boreste, e empurrou para a frente todos os aceleradores de mão, embora eles já estivessem dando o máximo. Ganhou mais uns poucos metros.

Viu o barco-patrulha se recuperar rapidamente. Fez a volta, roncando, e voltou para cima deles, numa rota diferente. Estavam praticamente dentro das águas chinesas. Sem espe­rança, Quatro Dedos largou o leme, pegou outra metralhadora automática e varreu a escuridão, o barulho das balas e o cheiro de cordite tornando o seu medo mais intenso. Abruptamente, a luz forte do holofote o pegou em cheio. Virou a cabeça, cego por ela, e piscou os olhos, mantendo a cabeça e o quepe bem abaixados. Quando conseguiu enxergar de novo, apontou a automática diretamente para a luz e soltou palavrões obscenos, com medo de que eles pudessem enganchar o seu navio e rebocá-lo para longe da segurança. O cano quente balançava en­quanto ele mirava a luz, o dedo no gatilho. Seria a morte se ele disparasse, e a prisão, se não o fizesse. O medo o dominou, e espalhou-se por todo o seu navio.

Mas a luz não veio para cima dele rapidamente, como esperava. Permaneceu à ré, e agora ele via que as ondas da proa diminuíam, assim como as ondas do rastro, e seu coração começou a bater de novo. O barco-patrulha estava deixando que ele se fosse. O Cobra tinha razão!

Com mãos trêmulas, largou a arma. Pegou o megafone próximo e levou-o à boca.

— Vitória ao presidente Mao! — berrou, com quantas forças tinha. — Fiquem fora das nossas águas, demônios estran­geiros de merda!

As palavras cheias de alegria ecoavam pelas águas. A tripu­lação soltava vaias, sacudindo os punhos cerrados para a luz. Até Paul Choy foi envolvido pelo entusiasmo, e berrou também, quando todos se deram conta de que o barco-patrulha não ia se aventurar em águas chinesas.

O holofote se apagou. Quando seus olhos se adaptaram, viram o barco-patrulha ao largo quase sem se mover, as luzes de âncora agora acesas.

— Deve estar nos observando pelo radar — resmungou Paul Choy, em inglês.

— Wat?

Ele repetiu a frase em haklo, usando a palavra "radar", mas explicando-a como um olho mágico. Tanto Poon quanto Quatro Dedos conheciam o princípio do radar, embora nunca tivessem visto nenhum.

— E daí? — debochou Wu. — As telas mágicas e os olhos mágicos deles não vão ajudá-los agora. Podemos sumir da vida deles com toda a facilidade nos canais perto de Lan Tao. Não há provas contra nós, nem contrabando a bordo, nem nada!

— E quanto às armas?

— Podemos lançá-las ao mar, ou podemos fugir desses cães danados e ainda ficar com as nossas armas! Eeeee, Poon Bom Tempo, quando as balas dos canhões nos cercaram, pensei que meu ânus fosse ficar entupido para sempre!

— É — concordou Poon alegremente —, e quando atira­mos no escuro contra os sacanas... que todos os deuses se fodam! Sempre tive vontade de usar aquelas armas!

Wu também riu, até as lágrimas lhe correrem pela face.

— É, é, sim, Velho Amigo. — Depois, explicou a Paul Choy a estratégia que o Cobra havia preparado para eles. — Boa, heya?

— Quem é esse tal Cobra? — perguntou Paul Choy.

Wu hesitou, os olhinhos brilhando.

— Um empregado, um empregado da polícia, digamos assim, Choy Lucrativo.

— Perdida a carga, a noite não foi nada lucrativa — falou Poon, com azedume.

— É — concordou Wu, com igual azedume. Prometera a Vênus Poon um anel de brilhantes que planejara pagar com o lucro daquela noite. Agora, ia ter que mexer nas suas econo­mias, o que era contra todos os seus princípios. "A gente paga às prostitutas com o dinheiro que se está ganhando, jamais com as economias. Portanto, que se dane aquele barco da polí­cia!", pensou. "Sem o presente prometido... Eeee, mas a Caixa Formosa dela é tudo aquilo que Richard Kwang alegava, e o rebolar do seu traseiro tudo o que os boatos prometiam. E hoje... hoje, depois que a estação de tv fechar, seu Portão Encantador vai se abrir mais uma vez!

— Que azar dos diabos aquele bandido da proa afilada ter nos encontrado hoje! — falou, seu membro dando sinais de vida quando ele pensou em Vênus Poon. — Todo aquele dinheiro perdido, e as nossas despesas tão grandes!

— A carga está perdida? — perguntou Paul Choy, muito surpreso.

— Claro que sim. Foi para o fundo do mar — replicou o velho, irritado.

— Não puseram nela um marcador, ou um sinalizador, um beeper? — Paul Choy usou a palavra inglesa, explicando o que era. — Imaginei que teria um... ou uma bóia que se soltasse daqui a um ou dois dias, quimicamente... para que vocês a pudessem recuperar, ou mandar homens-rãs irem bus­cá-la quando fosse seguro. — Os dois homens o fitavam, boquiabertos. — O que foi?

— É fácil arranjar esses beepers, ou uma bóia de efeito retardado para um ou dois dias depois? — perguntou Wu.

— Ou para uma semana ou duas, se quiser, Pai.

— Quer anotar tudo isso, como fazê-lo? Ou você mesmo se encarrega disso?

— Claro. Mas por que também não têm um olho mágico, como o deles?

— Para que precisamos deles? E quem saberia lidar com eles? — O velho deu nova risada de deboche. — Temos nari­zes, ouvidos e olhos.

— Mas foram pegos hoje!

— Cuidado com a língua! — disse Wu, zangado. — Foi joss, joss, uma brincadeira dos deuses. Estamos salvos, e é só o que interessa!

— Discordo, comandante — disse Paul Choy, agora sem medo, percebendo que tudo começava a se encaixar. — Seria fácil equipar este barco com um olho mágico... então você poderia vê-los na mesma hora, ou antes que eles o vissem. Eles não poderiam surpreendê-lo. Assim, você poderia fazer careta para eles sem medo, e nunca perderia uma carga. Heya?

— Sorriu intimamente, vendo que eles estavam no papo. — Nunca mais um erro, nem mesmo um pequenino. Nunca mais o perigo. E nunca mais uma carga perdida. E cargas com sinalizadores. Não precisa nem estar perto do local da entrega. Só uma semana mais tarde, heya?

— Isso seria perfeito — disse Poon fervorosamente. — Mas se os deuses estiverem contra você, Choy Lucrativo, nem os olhos mágicos o ajudarão. Hoje escapamos por pouco. Aquele puto nem devia estar aqui.

Todos voltaram os olhos para o barco, à ré, esperando. Algumas centenas de metros à ré. Wu colocou o motor em mar­cha lenta.

— Não queremos entrar demais em águas da RPC — disse, inquieto. — Os fornicadores civilizados não são tão polidos ou cumpridores da lei. — Sentiu um arrepio. — Bem que podíamos usar um olho mágico, Poon Bom Tempo.

— Por que não compra um desses barcos-patrulha? — disse Paul Choy, colocando isca no anzol de novo. — Ou um ainda mais veloz. Assim, poderia correr mais rápido que eles.

— Um desses? Está maluco? E quem nos venderia um?

— perguntou Wu, impaciente.

— Os japoneses.

— Fodam-se todos os demônios do mar do Leste! — falou Poon.

— Pode ser, mas eles construiriam um assim para você, equipado com radar. Eles...

Interrompeu-se quando o barco-patrulha acelerou seus mo­tores possantes e, com a sirene uivando, arremessou-se para dentro da noite, deixando um rastro de espuma.

— Olhem só para ele! — disse Paul Choy em inglês, com admiração. — Grandíssimo filho da puta!

Repetiu a frase em haklo.

— Aposto que ainda está vendo a traineira Tai com o seu olho mágico. Podem ver tudo, cada junco, navio, gruta e promontório a quilômetros de distância... até uma tempestade.

Pensativo, Wu Quatro Dedos deu um curso novo ao timo­neiro, que os mantinha no comecinho das águas da RPC, diri­gindo-se para o norte, para as ilhas e recifes ao redor da ilha de Lan Tao, onde ficaria seguro para se preparar para o próximo encontro. Lá eles se transfeririam para um outro junco com registros reais, da RPC e de Hong Kong, e voltariam para Aberdeen. Aberdeen! Os dedos nervosos tocaram outra vez a meia moeda. Em meio a toda aquela emoção, tinha se esquecido da moeda. Agora, seus dedos tremiam e sua ansiedade voltava, ao pensar no encontro com o tai-pan, logo mais. Havia tempo de sobra. Não ia chegar atrasado. Mesmo assim, ordenou que se aumentasse a velocidade.

— Vamos — ordenou a Poon e Paul Choy, fazendo-lhes sinal para se reunirem a ele nas almofadas da popa, onde teriam mais privacidade.

— Talvez fosse mais sensato continuarmos com nossos juncos, e não comprarmos um daqueles putos, meu filho. — O dedo de Wu indicou a escuridão, no local onde estivera o barco-patrulha. — Os demônios estrangeiros ficariam ainda mais furiosos se eu tivesse um desses na minha frota. Mas esse seu olho mágico... poderia instalá-lo e ensinar-nos como usá-lo?

— Poderia arranjar peritos para isso. Gente do mar do Leste... seria melhor usá-los, e não britânicos ou alemães.

Wu olhou para o velho amigo.

— Heya?

— Não quero um desses bostas ou seus olhos mágicos no meu navio. Logo estaríamos dependendo dos fornicadores, e perderíamos nossos tesouros, juntamente com nossas cabeças — resmungou o outro.

— Mas... enxergar quando os outros não enxergam?

— Wu soltava baforadas do cigarro. — Existe outro vendedor, Choy Lucrativo?

— Eles seriam os melhores, Pai. E os mais baratos.

— Mais baratos, heya? Quanto isso vai custar?

— Não sei. Talvez vinte mil dólares americanos, talvez quarenta...

O velho explodiu:

— Quarenta mil dólares americanos? Acha que sou feito de ouro? Tenho que trabalhar para ganhar dinheiro. Acha que sou o imperador Wu?

Paul Choy deixou o velho deblaterar. Não sentia mais nada por ele, não depois do horror e da matança, da cilada, da crueldade e da chantagem da noite, e especialmente depois das palavras do pai contra a sua garota. Respeitaria o pai pela sua perícia no mar, sua coragem e seu comando. E como chefe da Casa. Nada mais. E de agora em diante, tratá-lo-ia como a qual­quer outro homem.

Quando sentiu que o velho já tinha deblaterado bastante, disse:

— Posso mandar instalar o primeiro olho mágico e treinar dois homens sem que lhe custe nada, se quiser.

Wu e Poon o fitaram. Wu instantaneamente fechou a guarda.

— Como, sem que me custe nada?

— Eu pagaria.

Poon começou a dar risada, mas Wu sibilou:

— Cale a boca, idiota, e escute. O Choy Lucrativo sabe coisas que você não sabe! — Seus olhos brilhavam ainda mais. "Se um olho mágico, por que também não um brilhante? E se um brilhante, por que não um casaco de vison e toda a pilha­gem que a putazinha bajuladora exige para continuar oferecen­do sua fenda, mãos e boca entusiásticas?"

— Como vai pagá-lo, meu filho?

— Com o lucro.

— Que lucro?

— Quero o controle, por um mês, de seu dinheiro no Victoria.

— Impossível!

— Abrimos contas no valor de vinte e dois milhões qua­trocentos e vinte e três mil dólares. Controle por um mês.

— Para fazer o que com ele?

— A Bolsa de Valores.

— Ah, jogar? Jogar com o meu dinheiro? Meu dinheiro suado? Jamais.

— Um mês. Rachamos os lucros, Pai.

— Ah, rachamos, é? É a porra do meu dinheiro, mas você quer a metade. Metade do quê?

— Talvez outros vinte milhões.

Paul Choy deixou a quantia no ar. Viu a avareza na fisio­nomia do pai, e soube que, embora as negociações fossem acaloradas, o negócio ia ser feito. Era apenas questão de tempo.

— Ayeeyah, é impossível, fora de cogitação!

O velho sentiu uma coceira lá embaixo, e coçou o lugar. O membro deu sinal de vida. Instantaneamente pensou em Vênus Poon, que o fizera ficar duro como não ficava há anos, e da peleja deles de logo mais.

— Quem sabe eu apenas pague esse olho mágico — disse, testando a firmeza do rapaz.

Paul Choy encheu-se de coragem.

— É, pode fazer isso, mas então eu vou embora de Hong Kong.

A língua de Wu dardejou, rancorosamente.

— Você irá embora quando eu mandar que vá.

— Mas, se eu não puder ser útil e pôr o meu treinamento dispendioso para funcionar, para que ficar? Pagou todo aquele dinheiro para que eu fosse um cafetão num dos seus Barcos do Prazer? Um marinheiro de convés num junco que pode ser violado à vontade pelo escaler dos demônios estrangeiros mais próximo? Não, é melhor que eu me vá! É melhor eu me tornar lucrativo para outra pessoa, para poder começar a lhe devolver o que investiu em mim. Darei um aviso prévio de um mês ao Barba Negra e vou embora.

— Você irá embora quando eu mandar que vá! — Wu acrescentou, malévolo. — Você pescou em águas perigosas.

— É. — "E você também", quis acrescentar Paul Choy, sem medo. "Se acha que pode me chantagear, que estou preso a você, está enganado. Você é que está preso a mim, e tem mais a perder. Nunca ouviu falar em testemunhas de acusação em favor da Coroa, ou em acordos com base no testemunho?" Mas manteve em segredo a sua trama futura, para ser usada quando fosse necessário, e manteve o rosto polido e inexpressivo. — Todas as águas são perigosas, se os deuses decidirem que são perigosas — falou, enigmaticamente.

Wu deu uma profunda tragada no cigarro, sentindo a fumaça dentro de si. Percebera a mudança no jovem à sua frente. Havia visto muitas mudanças semelhantes, em muitos homens. Em muitos filhos e filhas. A experiência de seus longos anos de vida gritava: "Cautela! Este filhote é perigoso, muito perigoso! Acho que Poon Bom Tempo tinha razão: foi um erro trazer o Choy Lucrativo para bordo hoje. Agora sabe demais a nosso respeito.

"É. Mas isso é fácil de retificar, quando eu precisar", lembrou a si mesmo. "Qualquer dia ou qualquer noite. "

 

                   22h03m

— Bem, que diabo você vai fazer, Paul? — perguntou o governador a Havergill. Johnjohn estava com eles, no terraço do Palácio do Governo, depois do jantar, encostados à balaustrada baixa. — Santo Deus! Se o Victoria também ficar sem dinheiro, a ilha inteira estará arruinada, não é?

Havergill olhou ao seu redor para se certificar de que não estavam sendo ouvidos, e baixou a voz.

— Estivemos em contato com o Banco da Inglaterra, se­nhor. Até a meia-noite de amanhã, hora de Londres, haverá um avião-transporte da RAF em Heathrow atulhado de notas de cinco e dez libras. — Sua confiança habitual estava voltando. — Como já disse, o Victoria é perfeitamente seguro, tem abso­luta liquidez, e nossos bens aqui e na Inglaterra são substanciais o bastante para cobrir qualquer eventualidade... bem... quase qualquer eventualidade.

— Nesse meio tempo, vocês podem não ter suficientes dólares de Hong Kong para agüentar a corrida?

— Não se... bem... o problema continuar. Mas tenho certeza de que tudo sairá bem, senhor.

Sir Geoffrey fitou-o.

— Que diabo! Como fomos nos meter nessa confusão?

— Joss — disse Johnjohn, com voz cansada. — Infeliz­mente, a Casa da Moeda não conseguirá imprimir suficientes dólares de Hong Kong para nós a tempo. Levaria semanas para imprimir e despachar a quantia de que precisamos, e não seria saudável termos todas essas notas extras na nossa economia. A moeda britânica será um tapa-buraco, senhor. Podemos anun­ciar que a... Casa da Moeda está trabalhando em regime de urgência para suprir nossas necessidades.

— E de quanto estamos realmente precisando? — per­guntou o governador. Viu Paul Havergill e Johnjohn se entreo-lharem, o que aumentou a sua inquietação.

— Não sabemos, senhor — falou Johnjohn. — Em toda a colônia, além de nós mesmos, todos os outros bancos terão que penhorar seus títulos (assim como nós penhoramos os nossos temporariamente ao Banco da Inglaterra) para obterem o dinheiro de que precisam. Se cada depositante da colônia quiser cada um dos seus dólares de volta... — O suor agora era evidente no rosto do banqueiro. — Não temos meios de saber exatamente qual o grau de dificuldade dos outros bancos, ou a quantia dos seus depósitos. Ninguém sabe.

— Será que um avião-transporte da raf será suficiente? — Sir Geoffrey tentou não parecer sarcástico. — Quero di­zer... bem... um bilhão de libras em notas de cinco e dez? Que diabo! Como vão conseguir reunir tal quantidade de notas?

Havergill enxugou a testa.

— Não sabemos, senhor, mas prometeram que o primeiro carregamento chegará na segunda à noite, o mais tardar.

— Não antes?

— Não, senhor. Antes é impossível.

— Não há mais nada que possamos fazer? Johnjohn engoliu em seco.

— Pensamos em pedir-lhe que declarasse feriado bancário para conter a maré, mas... concluímos (e o Banco da Ingla­terra concordou) que, se o senhor o fizesse, a ilha ia endoidar.

— Não há com que se preocupar, senhor. — Havergill tentou parecer convincente. — No final da semana que vem já estará tudo esquecido.

— Eu não vou esquecer, Paul. E duvido que a China esqueça... ou nossos amigos, os deputados trabalhistas. Pode ser que tenham razão sobre a necessidade de alguma forma de controle bancário.

Os dois banqueiros reagiram ao comentário, e Paul Haver­gill disse, reprovadoramente:

— Aqueles dois cretinos não sabem distinguir os próprios traseiros de um buraco na parede! Tudo está sob controle.

Sir Geoffrey ia discutir esse ponto, mas acabara de ver Rosemont, o vice-diretor da CIA, e Ed Langan, o homem do FBI, aparecerem no terraço.

— Quero estar a par de tudo. Quero um relatório com­pleto ao meio-dia. Podem me dar licença um minuto? Por favor, sirvam-se de mais bebida.

Saiu para interceptar Rosemont e Langan.

— Como vão?

— Muito bem, senhor, obrigado. Bela festa. — Os dois americanos observaram Havergill e Johnjohn voltarem para dentro da casa. — Como vão nossos amigos banqueiros? — indagou Rosemont.

— Bem, muito bem.

— Aquele deputado socialista, o Grey, estava deixando Havergill irritado como o diabo!

— E o tai-pan também — acrescentou Ed Langan, com uma risada.

— Ah, não sei, não — comentou o governador, despreo­cupadamente. — Um pouquinho de oposição é uma boa coisa, não é? Não é assim que deve ser a democracia, no seu melhor aspecto?

— E o Vic, senhor? Como vai indo a corrida?

— Nenhum problema que não possa ser solucionado — replicou Sir Geoffrey, com o seu charme tranqüilo. — Não há com que se preocupar. Quer me dispensar um momento, sr. Langan?

— Mas certamente, senhor. — O americano sorriu. — Eu já ia embora.

— Não da minha festa! Só para ir se servir de mais uma bebida, não é?

— Sim, senhor.

Sir Geoffrey foi para o jardim com Rosemont. As árvores ainda estavam pingando, e a noite estava escura. Ele se man­teve numa trilha que estava empoçada e lamacenta.

— Temos um probleminha, Stanley. O sei acaba de pegar um dos seus marujos do porta-aviões passando segredos para um sujeito do KGB. Ambos...

Rosemont parou, estupefato.

— Alguém do Ivánov?

— É.

— O Suslev? O comandante Suslev?

— Não, não, o nome não é esse. Posso sugerir-lhe que entre em contato com Roger imediatamente? Ambos estão sob custódia, ambos foram acusados segundo a Lei dos Segredos Oficiais, mas já falei com o ministro em Londres, e ele con­corda em que você se encarregue do seu sujeito imediata­mente... fica menos embaraçoso, não é? Parece que ele... bem... lida com computadores.

— Filho da puta! — murmurou Rosemont, enxugando com a palma da mão o suor repentino da face. — O que foi que ele entregou?

— Não sei exatamente. Roger lhe dará todos os detalhes.

— Também vamos poder interrogar... entrevistar o su­jeito do KGB?

— Por que não discute isso com Roger? O ministro tam­bém está em contato direto com ele. — Sir Geoffrey hesitou. — Eu... bem... estou certo de que você entende que...

— Sim, naturalmente. Desculpe, senhor. É... melhor eu ir imediatamente.

O rosto de Rosemont estava completamente sem cor, e ele se retirou rapidamente, levando Ed Langan consigo.

Sir Geoffrey soltou um suspiro. "Malditos espiões, maldi­tos bancos, malditos toupeiras e malditos socialistas idiotas, que não entendem nada de Hong Kong. " Olhou para o relógio. Hora de encerrar a festa.

Johnjohn entrou na ante-sala. Dunross estava perto do bar.

— Ian?

— Oh, alô! Quer a saideira? — perguntou Dunross.

— Não, obrigado. Posso lhe falar um instante em par­ticular?

— Claro. Terá que ser rapidamente, estou de saída. Disse que deixaria os nossos simpáticos deputados nas balsas.

— Você também está de posse de um "bilhete rosa?" Dunross deu um leve sorriso.

— Na verdade, meu velho, estou de posse de um sempre que quero, quer Penn esteja aqui, quer não.

— É. Você tem sorte, sempre teve a vida bem organizada — falou Johnjohn, sombriamente.

— Joss.

— Eu sei. — Johnjohn foi na frente, até a varanda. — Que horrível o que houve com John Chen, não é?

— É. Phillip está sofrendo demais. Onde está Havergill?

— Saiu faz alguns minutos.

— Ah, foi por isso que você falou em "bilhete rosa"! Ele está farreando?

— Não sei.

— E quanto a Lily Su, de Kowloon? Johnjohn fitou-o.

— Ouvi dizer que Paul está apaixonado — continuou Dunross.

— Como é que você consegue saber tanta coisa? Dunross deu de ombros. Estava se sentindo cansado e inquieto. Fora difícil não perder a paciência várias vezes, na­quela noite, cada vez que Grey se metia em outra discussão acalorada com alguns dos tai-pans.

— A propósito, Ian, tentei fazer com que Paul convocasse uma reunião de diretoria, mas isso não é da minha competência.

— Claro.

Estavam numa ante-sala menor. Boas pinturas em seda chinesa, lindos tapetes persas e prataria. Dunross notou que a tinta estava descascando nos cantos da sala e nas molduras do teto, e isso o ofendeu. "Esta é a sede do governo britânico, e não devia haver tinta descascando. "

O silêncio ficou pesado. Dunross fingiu examinar alguns dos exóticos vidros de rapé que estavam numa prateleira.

— Ian... — começou Johnjohn, e mudou de idéia. Co­meçou de novo. — Isso é só entre nós. Conhece o Tiptop Toe muito bem, não é?

Dunross fitou-o. Tiptop Toe era o apelido que davam a Tip Tok-toh, um homem de meia-idade de Hunan, a província natal de Mao Tsé-tung, que chegara a Hong Kong durante o êxodo de 1950. Ninguém parecia saber nada a seu respeito. Ele não incomodava ninguém, tinha um pequeno escritório no Edi­fício Princes e vivia bem. Ao longo dos anos ficou evidente que tinha contatos muito particulares dentro do Banco da China, e passou-se a presumir que ele era o contato não-oficial oficial do banco. Ninguém conhecia a posição dele na hierarquia, mas corria o boato de que era muito alta. O Banco da China era o único braço comercial da RPC fora da China, portanto, todos os seus compromissos e contatos eram firmemente controlados pela hierarquia governante em Pequim.

— O que é que tem o Tiptop? — perguntou Dunross, fechando a guarda, pois simpatizava com Tiptop, um homem encantador, de fala mansa, que gostava de conhaque e falava um inglês excelente, embora, em obediência ao costume, quase sempre utilizasse os serviços de um intérprete. Suas roupas eram bem-talhadas, embora a maioria das vezes usasse um paletó maoísta, se parecesse um pouco com Chu En-lai e fosse tão sagaz quanto este. Na última vez que Dunross negociara com ele fora sobre alguns aviões civis que a RPC queria. Tip Tok-toh arranjara as letras de crédito e financiamento atra­vés de vários bancos suíços e estrangeiros, em vinte e quatro horas.

"O Tiptop é sagaz, Ian", dissera Alastair Struan muitas vezes. "Você tem que ficar de olho aberto, mas ele é o homem com quem se deve lidar. Eu diria que ocupa uma posição muito alta no partido, em Pequim. Muito. "

Dunross observava Johnjohn, disfarçando sua impaciência. O homem menor pegara um dos vidros de rapé. Os vidros eram minúsculos, de cerâmica, de jade ou de vidro puro... muitos deles lindamente pintados por dentro do vidro: paisagens, dan­çarinas, flores, pássaros, marinhas, até mesmo poemas numa caligrafia incrivelmente delicada.

— Como é que fazem isso, Ian? Pintar assim por dentro?

— Ah, usam um pincelzinho muito fino. O cabo do pincel fica num ângulo de noventa graus. Em mandarim dão-lhe o nome de li myan huai, "pintura na face interna".

Dunross segurou um vidro elíptico que tinha uma paisa­gem num dos lados, um buquê de camélias no outro, e caligrafia miudinha sobre as pinturas.

— Espantoso! Que paciência! O que está escrito? Dunross olhou para a coluna miúda de caracteres.

— Ah, é uma das máximas de Mao: "Conheça a si mes­mo, conheça o seu inimigo; uma centena de batalhas, uma centena de vitórias". Na realidade, o presidente Mao copiou isso de Sun Tse.

Pensativo, Johnjohn examinou o vidro. As janelas às suas costas estavam abertas. Uma leve brisa torcia as cortinas.

— Quer falar com Tiptop por nós?

— Sobre quê?

— Queremos pedir emprestado o dinheiro do Banco da China.

— Hem? — exclamou Dunross, fitando-o, boquiaberto.

— É, por uma semana, mais ou menos. Eles estão cheios até a tampa de dólares de Hong Kong, e não há corrida ao banco deles. Chinês algum ousaria fazer fila diante do Banco da China. Eles têm dólares de Hong Kong como parte de suas operações cambiais no exterior. Pagaríamos bons juros pelo em­préstimo, e daríamos a garantia de que precisassem.

— É um pedido formal do Victoria?

— Não. Não pode ser formal. A idéia é minha. Nem a discuti com Paul... só com você. Quer falar com ele?

A excitação de Dunross chegou ao auge.

— Vocês me darão o empréstimo de cem milhões amanhã às dez horas?

— Lamento, não posso fazer isso.

— Mas Havergill pode.

— Pode, mas não o fará.

— Então, por que eu deveria ajudar?

— Ian, se o banco não estiver tão sólido quanto o Pico, o mercado vai entrar em colapso, e a Casa Nobre também.

— Se eu não conseguir algum financiamento rapidinho, estou na merda, de qualquer maneira.

— Farei o que puder, mas quer falar logo com o Tiptop? Peça-lhe. Eu não posso procurá-lo... ninguém pode, oficial­mente. Você estaria prestando um grande serviço à colônia.

— Garanta o meu empréstimo e falo com ele ainda hoje. Olho por olho, empréstimo por empréstimo.

— Se você conseguir dele a promessa de um crédito de meio bilhão em espécie até as duas da tarde de amanhã, arran­jarei o apoio de que você precisa.

— Como?

— Não sei!

— Dê-me isso por escrito até as dez da manhã de amanhã, assinado por você, Havergill e a maioria da diretoria, e eu irei vê-lo.

— Não é possível.

— Que pena! Olho por olho, empréstimo por empréstimo.

— Dunross se levantou. — Por que o Banco da China deveria salvar a pele do Victoria?

— Somos Hong Kong — disse Johnjohn, com grande confiança. — Nós somos. Somos o Victoria Bank of Hong Kong and China! Somos velhos amigos da China. Sem nós nada existe... a colônia cairia aos pedaços, e a Struan também, com elas a maior parte da Ásia.

— Não aposte nisso!

— Sem os bancos, especialmente o nosso, a China estaria numa pior. Há anos que somos sócios da China.

— Então peça ao Tiptop você mesmo.

— Não posso. — O queixo de Johnjohn estava empinado.

— Sabia que o Banco Mercantil de Moscou pediu novamente licença para operar em Hong Kong?

Dunross soltou uma exclamação abafada.

— Se eles entrarem na jogada, vamos todos ficar atrapa-lhadíssimos!

— Ofereceram-nos, particularmente, uma quantidade substancial de dólares de Hong Kong, imediatamente.

— A diretoria vai votar contra.

— A questão, meu caro, é que se você já não fizer parte da diretoria, a nova diretoria pode fazer o que lhe der na telha

— disse Johnjohn, simplesmente. — Se a "nova" diretoria concordar, o governador e o escritório colonial podem ser facil­mente persuadidos. Seria um preço pequeno a pagar... para salvar os nossos dólares. Tão logo um banco oficial soviético se instale aqui, que outras coisas poderiam aprontar, hem?

— Você é pior do que o maldito Havergill!

— Não, amigão, melhor! — O ar de pilhéria deixou o rosto do banqueiro. — Qualquer mudança maior, e nós nos tornamos a Casa Nobre, quer você queira, quer não. Muitos dos nossos diretores preferem vê-lo pelas costas, a qualquer preço. Estou apenas lhe pedindo um favor em benefício de Hong Kong, e portanto, de você mesmo. Não se esqueça, Ian, o Victoria não vai afundar. Vamos sair feridos, mas não arrui­nados. — Enxugou uma gota de suor. — Sem ameaças, Ian, estou lhe pedindo um favor. Algum dia, posso ser o presidente da junta diretora, e não vou esquecer.

— Haja o que houver.

— Exatamente, meu velho — disse Johnjohn, docemente, e foi até o aparador. — Que tal a saideira agora? Conhaque?

Robin Grey estava sentado no banco de trás do Rolls de Dunross com Hugh Guthrie e Julian Broadhurst. Dunross sen­tava-se à frente, ao lado do chofer uniformizado. As vidraças estavam embaçadas. Ociosamente, Grey procurou desemba-çá-las, apreciando o luxo do couro cheiroso.

"Logo vou ter um desses", pensou. "Um Rolls só meu. Com chofer. E em breve todos esses filhos da mãe vão estar rastejando, inclusive o maldito Ian Dunross. E Penn! Ah, é, a minha querida e meiga irmã vai assistir à humilhação dos pode­rosos. "

— Será que vai chover de novo? — perguntava Broad­hurst.

— Vai — replicou Dunross. — Este temporal pode se transformar num tufão em alta escala... pelo menos é o que disse o Departamento de Meteorologia. Hoje recebi um informe do Eastern Cloud, um dos nossos cargueiros que está vindo para cá, e está próximo de Cingapura. Ele diz que o mar está agitado até por lá, bem ao sul.

— O tufão vai atingir Hong Kong, tai-pan? — perguntou Guthrie, o deputado liberal.

— Nunca se sabe. Eles podem vir direto para cima de você, depois se desviar no último minuto. Ou o contrário.

— Lembro-me de ter lido sobre o tufão Wanda, no ano passado. Foi uma barra, não?

— O pior que já vi. Mais de duzentos mortos, milhares de feridos, dezenas de milhares desabrigados. — Dunross es­tava com o braço no encosto, meio virado para trás. — O tai-fun, Ventos Supremos, atingiu uma velocidade de duzen­tos e setenta quilômetros por hora no Observatório Real, de trezentos em Tate's Cairn. O olho do furacão caiu sobre nós na maré alta. Portanto, em certos lugares, nossas marés ficaram a sete metros acima do normal.

— Céus!

— É. Em Sha Tin, nos Novos Territórios, as rajadas de vento sopraram o macaréu canal acima, destruíram o abrigo contra tempestade, empurraram os barcos de pesca uns oito­centos metros terra adentro, na rua principal, e afogaram a maior parte da aldeia. Um total de mil barcos de pesca desapa-

receram, oito cargueiros encalharam. Milhões de dólares em danos, a maioria das nossas favelas lançadas ao mar. — Dun­ross deu de ombros. — Uma pena! Mas, considerando a enor­midade da tormenta, até que os danos marítimos foram incri­velmente pequenos. — Seus dedos tocaram o assento de couro. Grey notou o anel de ouro pesado e heliotrópio, com o timbre de Dunross. — Um tufão de verdade nos mostra como somos realmente insignificantes — falou Dunross.

— Pena não termos tufões diariamente — disse Grey, sem conseguir se conter. — Bem que podíamos ver os pode­rosos de Whitehall humilhados duas vezes ao dia.

— Você é realmente um chato, Robin — disse Guthrie.

— Tem sempre que fazer um comentário amargo?

Grey voltou a ficar macambúzio, e fechou os ouvidos à conversa dos outros. "Para o diabo todos eles!", pensou.

Logo o carro parou diante do Mandarim. Dunross saltou.

— O carro os levará para casa, para o Vic. Até sábado, se não nos virmos antes. Boa noite.

O carro se afastou. Rodeou o imenso hotel, depois dirigiu-se para a balsa que ficava ligeiramente a leste do Terminal da Balsa Dourada, na Connaught Road. No terminal, uma fila malfeita de carros e caminhões esperava. Grey saltou.

— Acho que vou esticar as pernas, voltar para o terminal e atravessar numa das barcas — disse, com simpatia forçada.

— Estou precisando de exercício. Boa noite.

Caminhou ao longo do cais da Connaught Road rapida­mente, aliviado por ter se livrado deles com tanta facilidade. "Malditos idiotas", pensou, a excitação crescendo. "Bem, não vai demorar muito para que todos recebam o que merecem, principalmente Broadhurst. "

Quando teve certeza de que estava livre, parou sob um poste de luz, criando um remoinho no fluxo de pedestres que andavam, apressados, e fez sinal para um táxi.

— Tome — disse, e entregou ao motorista um endereço datilografado num pedaço de papel.

O motorista segurou-o, fitou-o, e coçou a cabeça, carran­cudo.

— Está em chinês. Está em chinês no verso — disse Grey, para ajudar.

O motorista nem deu bola. Simplesmente fitou, com cara de bobo, o endereço em inglês. Grey estendeu a mão e virou o papel para que ele lesse.

— Olhe!

Prontamente o motorista virou outra vez o papel, com insolência, e olhou de novo para o endereço em inglês. Depois arrotou, engrenou o carro com um solavanco e se meteu no trânsito barulhento.

"Cachorrão grosseiro", pensou Grey, subitamente enrai­vecido.

O táxi mudava de marcha ruidosa e continuamente, ao entrar na cidade, andando por ruas de mão única e becos estrei­tos para voltar para a Connaught Road.

Finalmente, pararam diante de um prédio de apartamentos velho e sujo, numa rua suja. A calçada estava quebrada, era estreita e empoçada. Os veículos atrás deles buzinavam com impaciência para o carro parado. Grey não via número algum. Saltou, disse ao motorista para esperar e andou até o que pa­recia ser uma porta lateral. Havia um velho sentado numa cadeira surrada, fumando e lendo um jornal de corridas sob uma lâmpada nua.

— Aqui é a Kwan Yik Street, 68, Kennedy Town? — indagou Grey, educadamente.

O velho olhou para ele como se fosse um monstro do espaço, depois desandou a falar num cantonense rabugento.

— Kwan Yik Street, 68 — repetiu Grey, mais devagar e mais alto. — Ken-ned-dy Town?

Mais um fluxo de cantonense gutural e um aceno insolente na direção de uma portinha. O velho escarrou, cuspiu e voltou a ler o seu jornal com um bocejo.

— Filho da mãe cretino — murmurou Grey, com a raiva subindo à cabeça. Abriu a porta. Lá dentro viu um saguão pequenino e encardido, com a tinta descascando, uma fila des-conjuntada de caixas de correio com nomes. Com grande alívio, viu o nome que buscava.

Voltando para junto do táxi, abriu a carteira e olhou para o valor marcado no taxímetro cuidadosamente, duas vezes, antes de pagar ao homem.

O elevador era minúsculo, claustrofóbico, nojento, e ran­gia à medida que subia. No quarto andar ele saltou e apertou o botão do número 44. A porta se abriu.

— Sr. Grey, mas que honra! Molly, Sua Excelência che­gou! — Sam Finn abriu um amplo sorriso ao vê-lo. Era natural de Yorkshire, grande, robusto, rosado, olhos azul-claros, ex-mineiro de carvão e representante sindical com amigos impor­tantes no Partido Trabalhista e no Conselho dos Sindicatos. Tinha o rosto profundamente vincado e marcado, o pó de carvão entranhado nos poros. — Puxa vida, mas que prazer!

— Obrigado, sr. Finn. Para mim também é um prazer conhecê-lo. Ouvi muita coisa a seu respeito

Grey tirou a capa de chuva e aceitou agradecido uma cerveja.

— Sente-se.

O apartamento era pequeno, imaculadamente limpo, o mo­biliário, barato. Cheirava a lingüiça frita, batata frita e pão frito. Molly Finn saiu da cozinha, as mãos e os braços verme­lhos de anos de esfregar e lavar. Era baixinha e rotunda, da mesma cidade mineira, da mesma idade, sessenta e cinco anos, e forte como o marido.

— Ora essa — exclamou, calorosamente —, foi a maior surpresa que tivemos quando soubemos que o senhor viria nos visitar.

— Nossos amigos comuns queriam saber em primeira mão como vão indo vocês.

— Vamos indo muito bem. Muito bem mesmo — falou Finn. — Claro que não é como o nosso lar em Yorkshire, e sentimos falta dos nossos amigos e do sindicato, mas temos cama e um pouco de comida. — Ouviu-se o ruído de uma privada dando descarga. — Temos um amigo que achamos que gostaria de conhecer — disse Finn, sorrindo de novo.

— É?

— É — disse Finn.

A porta do banheiro se abriu. O barbudo grandão estendeu a mão, calorosamente.

— Sam já me falou muito do senhor, sr. Grey. Sou o comandante Grigóri Suslev, da marinha soviética. Meu navio é o Ivánov. Estamos fazendo pequenos reparos neste refúgio capitalista.

Grey apertou a mão dele, formalmente.

— Prazer em conhecê-lo.

— Temos alguns amigos comuns, sr. Grey.

— É?

— É, Zdenek Hanzolova, de Praga.

— Ah, mas claro! — Grey sorriu. — Conheci-o numa visita da Delegação Comercial Parlamentar à Tchecoslováquia, no ano passado.

— O que achou de Praga?

— Muito interessante. Muito. Mas não gostei da repres­são... ou da presença soviética.

Suslev achou graça.

— Foram eles que nos convidaram. Gostamos de cuidar dos nossos amigos. Mas há muita coisa que eu também não aprovo. Lá, na Europa. Até mesmo na Mãe Rússia.

— Sentem-se, por favor. Sentem-se — disse Finn. Sentaram-se ao redor da mesa de jantar, na sala de estar que agora exibia uma toalha de mesa branca e limpa, sobre a qual havia um vaso de aspidistras.

— Naturalmente, o senhor sabe que não sou comunista, nem nunca fui — disse Grey. — Não aprovo um Estado poli­cial. Estou totalmente convencido de que o nosso socialismo democrático britânico é o caminho do futuro. Parlamento, re­presentantes eleitos, e tudo o que isso significa, embora muitas das idéias marxistas-leninistas tenham grande valor.

— Política! — exclamou Grigóri Suslev, reprovadora-mente. — Devemos deixar a política para os políticos.

— O sr. Grey é um dos nossos melhores porta-vozes no Parlamento, Grigóri. — Molly Finn virou-se para Grey. — Grigóri também é um bom sujeito, sr. Grey. Não é um desses safados. — Sorveu o seu chá. — Grigóri é um bom sujeito.

— É isso aí, garota — disse Finn.

— Não bom demais, espero — disse Grey, e todos acha­ram graça. — O que fez com que resolvesse residir aqui, Sam?

— Quando nos aposentamos, Molly e eu, queríamos ver um bocado do mundo. Tínhamos posto de lado um pouco de dinheiro. Descontamos uma apólice de seguros que tínhamos e arrumamos vaga num cargueiro...

— Puxa, mas nos divertimos muito — interrompeu Molly Finn. — Estivemos em tantos lugares estrangeiros. Foi mesmo uma beleza. Mas, quando viemos para cá, Sam não estava se sentindo muito bem. Portanto, desembarcamos e ficamos espe­rando a volta do cargueiro.

— É isso aí, garota — disse Sam. — Então, conheci um sujeito muito simpático, e ele me ofereceu um emprego. — Abriu um sorriso e esfregou as marcas pretas no rosto. — Eu ia ser consultor de algumas minas das quais ele era o superin­tendente, num lugar chamado Formosa. Estivemos lá uma vez, mas não havia necessidade de ficar, por isso voltamos para cá. É só isso, sr. Grey. Ganhamos um dinheirinho, a cerveja é boa, por isso Molly e eu achamos melhor ficar. Nossos filhos estão todos crescidos... — Abriu outro sorriso, mostrando os den­tes obviamente falsos. — Agora somos cidadãos de Hong Kong.

Bateram papo, amigavelmente. Grey teria sido completa­mente convencido pela história criada pelos Finns como "cober­tura" se não tivesse lido o dossiê particular dele antes de sair de Londres. Muito pouca gente sabia que durante anos Finn havia sido membro do pcb, o Partido Comunista Britânico. Ao se aposentar, fora enviado para Hong Kong por um de seus comitês internos secretos. Sua missão era servir como fonte de informação sobre qualquer coisa relacionada com a burocracia e legislação de Hong Kong.

 

Dali a alguns minutos, Molly Finn abafou um bocejo.

— Puxa vida, como estou cansada! Se me derem licença, acho que vou para a cama

Sam falou:

— Pode ir, garota.

Conversaram mais um pouco sobre assuntos corriqueiros, depois também bocejou.

— Se me derem licença, acho que também vou dormir. — E acrescentou, apressadamente: — Podem ficar, conversem à vontade. Nós nos veremos antes que deixe Hong Kong, sr. Grey... Grigóri.

Apertou a mão deles e fechou a porta atrás de si. Suslev foi até o aparelho de tv e ligou-o, com uma risada.

— Já assistiu à televisão de Hong Kong? Os comerciais são gozadíssimos.

Ajustou o som numa altura suficiente para que pudessem conversar sem serem ouvidos.

— Todo o cuidado é pouco, hem?

— Trago-lhe saudações fraternas de Londres — disse Grey, a voz igualmente suave. Desde 1947 era um comunista atuante, porém ainda mais secretamente que Finn, sua identi­dade conhecida apenas por uma meia dúzia de pessoas na In­glaterra.

— E eu as retribuo. — Suslev indicou com o polegar a porta fechada. — O que eles sabem?

— Apenas que sou esquerdista e material em potencial para o partido.

— Excelente. — Suslev descontraiu-se. O Centro fora muito astuto em providenciar aquele encontro particular tão habilmente. Roger Crosse, que nada sabia de sua ligação com Grey, lhe contara que não havia espias do sei atrás dos deputados. — Estamos seguros aqui. O Sam é muito bom. Tam­bém recebemos cópias dos relatórios dele. E ele não faz pergun­tas. Vocês, britânicos, são muito reservados e eficientes, sr. Grey. Dou-lhe os parabéns.

— Obrigado.

— Como foi sua reunião em Pequim? Grey pegou uma pilha de papéis.

— Eis uma cópia dos nossos relatórios públicos e parti­culares para o Parlamento. Leia-os antes que eu me vá... vocês receberão o relatório completo através dos canais competentes. Em resumo, acho que os chineses são totalmente hostis e revi­sionistas. O maluco do Mao e seu capanga Chu En-lai são ini­migos implacáveis do comunismo internacional. A China é fraca em tudo, exceto na vontade de lutar, e lutará até o fim para proteger sua terra. Quanto mais vocês esperarem, mais difícil será contê-los. Mas, enquanto não obtiverem armas nucleares e sistemas de lançamento de longo alcance, jamais serão uma ameaça.

— Sei. E quanto ao comércio? O que queriam?

— Indústrias pesadas, aparelhagem para destilação de pe­tróleo sob pressão, equipamentos para extração do petróleo, laboratórios químicos, usinas de aço.

— E como vão pagar?

— Dizem que suas operações cambiais no exterior são significativas. Hong Kong tem um papel importante nisso.

— Pediram armamentos?

— Não. Não diretamente. São espertos, e não era sempre que nos falávamos ou nos encontrávamos em grupo. Foram avi­sados sobre mim e Broadhurst, e não éramos apreciados... nem confiavam em nós. Pode ser que tenham conversado em particular com Pennyworth ou outro dos conservadores... em­bora isso de nada lhes adiantasse. Soube que ele morreu?

— Soube.

— Menos mal. Era um inimigo. — Grey sorveu sua cer­veja. — A China Vermelha quer armas, estou certo disso. Uma turma reticente e nojenta.

— Que tal é Julian Broadhurst?

— Um intelectual que se julga socialista. É o fim da pi­cada, mas é útil, no momento. Aristocrático, fiel às tradições do seu colégio — debochou Grey. — Por causa disso, vai ser um homem forte no próximo governo trabalhista.

— Os trabalhistas vão vencer as próximas eleições, sr. Grey?

— Não, não creio, embora estejamos dando duro para ajudar os trabalhistas e os liberais.

Suslev franziu o cenho.

— Por que apoiar os liberais? São capitalistas. Grey deu uma risada sardônica,

— Não compreende o nosso sistema britânico, coman­dante Suslev. Temos muita sorte. Uma eleição de três partidos num sistema bipartidário. Os liberais dividem os votos, a nosso favor. É preciso encorajá-los. — Alegremente, acabou sua cer­veja e pegou mais duas da geladeira. — Se não fosse pelos liberais, o Partido Trabalhista nunca teria ganho, nunca! E nunca poderia ganhar outra vez.

— Não estou entendendo.

— Na melhor das hipóteses, os votos dos trabalhistas cor­respondem a apenas quarenta e cinco por cento da população, um pouco menos. Os dos tories, o Partido Conservador, atingem a mesma proporção, geralmente um pouquinho mais. A maior parte dos dez por cento restantes votam nos liberais. Se não houvesse candidatos do Partido Liberal, a maioria votaria nos conservadores. São todos uns idiotas — falou, com ar com­placente. — Os britânicos são burros, camarada, o Partido Liberal é o passaporte permanente dos trabalhistas para o poder... e, portanto, o nosso. Em breve o pcb controlará o Conselho Sindical, e deste modo, o Partido Trabalhista... secretamente, é claro. — Bebeu a cerveja em longos goles. — A grande maioria dos pobres ingleses são burros, a classe média é burra, a classe alta é burra... quase já deixou de ser um desafio. São todos uns lemingues. Pouquíssimos acreditam no socialismo democrático. Mesmo assim — acrescentou com grande satisfação —, derrubamos o seu império podre e mija­mos em cima deles com a Operação Leão. — A Operação Leão fora formulada tão logo os bolcheviques obtiveram o poder. Seu propósito era a destruição do Império Britânico. — Em apenas dezoito anos, desde 1945, o maior império que o mundo já conheceu deixou de existir.

— Exceto por Hong Kong.

— Em breve também ela não existirá mais.

— Tenho prazer em lhe dizer que meus superiores consi­deram muito importante o seu trabalho — disse Suslev, com uma admiração declarada e fingida. — Seu e de todos os nossos irmãos britânicos fraternos.

Recebera ordens de tratar aquele homem com deferência, para descobrir tudo o que ele vira em sua missão chinesa, e passar adiante instruções como pedidos. E de adulá-lo. Lera os dossiês de Grey e dos Finns. Robin Grey tinha uma classifica­ção Béria-KGB 4/22/a: "Um importante traidor britânico fin-gidamente devotado aos ideais marxistas-leninistas. Deve ser usado, mas sem que se confie nele jamais, e, caso o Partido Comunista Britânico suba ao poder, está sujeito à liquidação imediata".

Suslev observava Grey. Nem Grey nem os Finns conhe­ciam seu verdadeiro posto. Sabiam apenas que era um membro de pouca importância do Partido Comunista de Vladivostok — o que também constava do seu dossiê do sei.

— Tem alguma informação para mim? — indagou Grey.

— Tenho, továrich. E, com a sua permissão, também algumas perguntas. Pediram-me que lhe perguntasse acerca da implementação da Diretriz 72/Praga,

Essa diretriz altamente secreta dava prioridade máxima à infiltração de peritos dedicados e secretos na função de repre­sentantes sindicais em todas as fábricas de automóveis dos Estados Unidos e do Ocidente. A indústria automobilística, devido às suas inúmeras indústrias afins, era o âmago de qualquer sociedade capitalista.

— Estamos indo a todo o vapor — disse Grey, entusiasti­camente. — As greves não autorizadas são o caminho do futu­ro. Com essas greves, podemos driblar as hierarquias sindicais sem desintegrar o sindicalismo existente. Nossos sindicatos estão fragmentados. Deliberadamente. Cinqüenta homens po­dem formar um sindicato independente, e esse sindicato pode dominar milhares... e enquanto não houver voto secreto, a minoria sempre dominará a maioria! — Ele riu. — Já estamos com a programação adiantada, e agora temos irmãos fraternos no Canadá, na Nova Zelândia, Rodésia, Austrália... especial­mente na Austrália. Dentro de alguns anos teremos agitadores treinados em cada sindicato-chave metalúrgico do mundo de língua inglesa. Um britânico liderará os operários sempre que houver uma greve... em Sydney, Vancouver, Johannesburg, Wellington. Será sempre um britânico!

— E o senhor é um dos líderes, továrich! Que maravilha!

— Suslev deixou que ele continuasse, dando-lhe corda, enojado por ser tão fácil adulá-lo. "Como os traidores são nojentos!", pensou. — Logo o senhor terá o paraíso democrático que pro­cura, e haverá paz na terra.

— Não vai demorar muito — disse Grey, fervorosamente.

— Fizemos cortes nas forças armadas, e faremos cortes ainda maiores no ano que vem. A guerra acabou para sempre. A bomba conseguiu isso. O único obstáculo são os nojentos ame­ricanos, e sua corrida armamentista, mas logo os forçaremos a depor as armas, e todos seremos iguais.

— Sabia que os americanos estão armando secretamente os japoneses?

— Hem? — exclamou Grey, fitando-o.

— Ah, não sabia? — Suslev sabia muito bem que Grey passara três anos e meio em campos de prisioneiros de guerra japoneses. — Não sabia que uma missão militar americana está no país, oferecendo-lhes armas nucleares?

— Não teriam coragem!

— Mas tiveram, sr. Grey — disse Suslev, mentindo com facilidade. — Claro que é totalmente secreto.

— Pode me dar detalhes para usar no Parlamento?

— Bem, é claro que pedirei a meus superiores para forne­cê-los, se acha que terão valor.

— Por favor, o mais breve possível... Bombas nuclea­res... Santo Deus!

— Seu pessoal, seus peritos treinados, também estão infil­trados nas usinas nucleares britânicas?

— Como? — Grey concentrou-se com esforço, desviando o pensamento do Japão. — Usinas nucleares?

— É. Seu pessoal está sendo utilizado lá também?

— Bem... não. Há apenas uma ou duas usinas no Reino Unido, e não são importantes. Os ianques estão mesmo arman­do os japoneses?

— O Japão não é capitalista? O Japão não é um protegido dos Estados Unidos? Não estão construindo também usinas nucleares? Se não fosse pelos Estados Unidos...

— Aqueles calhordas americanos! Graças a Deus vocês também têm as bombas, ou todos teríamos que rastejar!

— Talvez devam concentrar algum esforço nas usinas nu­cleares — disse Suslev, suavemente, impressionado por Grey ser tão crédulo.

— Por quê?

— Existe um novo estudo, feito por um conterrâneo seu, Philby.

— Philby? — Grey lembrava-se de como ficara chocado e assustado com a descoberta e a fuga de Philby, e do alívio que sentira quando Philby e os outros conseguiram escapar sem fornecer as listas do círculo interno do pcb, que obviamente deviam ter. — Como vai ele?

— Ao que me consta, muito bem. Está trabalhando em Moscou. Conhecia-o?

— Não. Ele era do Ministério do Exterior, das altas esferas. Nenhum de nós sabia que ele era um dos nossos.

— Ele ressalta no seu estudo que uma usina nuclear é auto-suficiente, que uma usina pode gerar combustível para si mesma e para outras. Uma vez instalada, é quase perpétua. Necessita apenas de uns poucos técnicos altamente preparados e especializados para operá-la, nada de trabalhadores, ao con­trário do petróleo ou do carvão. No momento, todas as indús­trias do Ocidente dependem do carvão ou do petróleo. Ele sugere que seja nossa política encorajar o uso do petróleo, não do carvão, e desencorajar completamente a força nuclear. En­tendeu?

— Ah, entendi! — A fisionomia de Grey ficou mais dura. — Vou fazer parte do comitê parlamentar para estudo da energia atômica.

— E isso será fácil?

— Fácil demais, camarada! Os ingleses são uma cambada de preguiçosos. Não querem problemas. Só querem trabalhar o mínimo possível, pelo máximo de dinheiro possível, ir aos bares e ao futebol aos sábados... e nada de trabalho voluntário, nada de comitês aborrecidos depois do expediente, nada de discussão. É fácil demais... quando se tem um plano, e eles não.

Suslev soltou um suspiro, muito satisfeito, seu trabalho quase encerrado.

— Outra cerveja? Não, deixe que eu pego. É uma honra para mim, sr. Grey. O senhor por acaso conhece um escritor que está aqui no momento, um cidadão americano, Peter Marlowe?

Grey levou um susto.

— Marlowe? Conheço-o muito bem, mas não sabia que era cidadão americano. Por quê?

Suslev disfarçou seu interesse e deu de ombros.

— Pediram-me que lhe perguntasse, já que o senhor é inglês, e ele era originariamente inglês.

— Ele é um calhorda nojento da classe alta, com a mora­lidade de um mascate. Há anos que não o vejo, desde 45, até que apareceu aqui. Também esteve em Changi. Só ontem fiquei sabendo que era escritor, ou um desses roteiristas de cinema. O que há de tão importante nele?

— É um escritor — disse Suslev, prontamente. — Faz filmes, Com a televisão, os escritores podem atingir milhões de pessoas. O Centro se mantém a par das atividades dos escri­tores ocidentais, por uma questão de orientação política. Ah, sim, sabemos como são importantes os escritores na Mãe Rússia. Nossos escritores sempre nos indicaram o caminho, sr. Grey. Formaram nossos pensamentos e sentimentos, Tolstói, Dos-toiévski, Tchékhov, Bunin... — Acrescentou, com orgulho: — Os escritores são nossos batedores. É por isso que, atualmente, precisamos orientá-los em sua formação e controlar o seu tra­balho, ou enterrá-lo. — Olhou para Grey. — Vocês deveriam fazer o mesmo.

— Nós apoiamos os escritores simpatizantes, comandante, e infernizamos o outro tipo como podemos, seja pública ou particularmente. Quando chegar a casa, vou pôr Marlowe na nossa lista negra do pcb nos meios de comunicação. Será fácil causar-lhe algum prejuízo... temos muitos amigos nos meios de comunicação.

— Já leu o livro dele? — indagou Suslev, acendendo um cigarro.

— O tal sobre Changi? Não, não li. Nunca ouvira falar nele até chegar aqui. Provavelmente não foi publicado na In­glaterra. Além disso, não tenho muito tempo para ler ficção. E se foi ele quem o escreveu, deve ser uma merda de livro de "gente bem", e mal escrito, e... bem, Changi é Changi, e é melhor esquecê-la. — Um arrepio o percorreu, e ele nem o notou. — É, melhor esquecê-la.

"Mas não posso", tinha vontade de gritar. "Não posso esquecer, e ainda é um pesadelo sem fim, aqueles dias no cam­po, ano após ano, dezenas de milhares morrendo, tentando fazer cumprir a lei, tentando proteger os fracos contra os nojentos do mercado negro, que se aproveitavam dos fracos, todo mun­do morrendo de fome, e sem esperança de jamais sair dali, meu corpo apodrecendo, e eu com apenas vinte e um anos, sem mulheres, risos, comida ou bebida, vinte e um anos quando fui preso em Cingapura, em 1942, e vinte e quatro, quase vinte e cinco, quando o milagre aconteceu e sobrevivi, voltando à Inglaterra... minha casa não existia mais, meus pais não exis­tiam mais, o mundo não existia mais, e minha única irmã, vendida aos inimigos, agora falava como eles, comia como eles, vivia como eles, estava casada com um deles, envergonhada do nosso passado, querendo que o passado tivesse morrido, que eu tivesse morrido, ninguém se importava comigo, e... oh, Deus, a mudança. Voltar para a vida depois da ausência de vida de Changi, todos os pesadelos e a insônia à noite, morto de medo da vida, sem conseguir falar no assunto, chorando sem saber por quê, tentando me adaptar ao que os idiotas chamavam de normalidade. E finalmente me adaptando. Mas a que preço, ah, meu Deus, a que preço...

"Pare com isso!"

Com esforço, Grey desprendeu-se da espiral descendente de Changi.

"Chega de Changi! Changi está morta! Deixe que conti­nue morta. Está morta... Changi tem que ficar enterrada. Mas Changi... "

— O que foi? — disse, trazido de volta ao presente.

— Estava dizendo que seu governo atual está completa­mente vulnerável.

— É? Por quê?

— Lembra-se do escândalo Profumo? Do seu ministro da Guerra?

— Claro. Por quê?

— Faz alguns meses, a MI-5 começou uma investigação secreta e minuciosa da pretensa ligação entre a call girl agora famosa, Christine Keeler, e o comandante Ievguêni Ivánov, nosso adido naval, e outras figuras sociais londrinas.

— Ela já acabou? — indagou Grey, subitamente muito atento.

— Já. Documenta conversas que a mulher teve com o comandante Ivánov. Ele lhe pedira para descobrir com Profumo quando armas nucleares seriam entregues à Alemanha. A investigação afirma — disse Suslev, agora mentindo delibe­radamente para excitar Grey — que Profumo fora avisado pela MI-5 sobre Ivánov alguns meses antes de o escândalo estou­rar... que o comandante Ivánov era do KGB e também aman­te dela.

— Santo Deus! E o comandante Ivánov corroborará isso?

— Ah, não, de forma alguma. Isso não seria correto... nem necessário. Mas o relatório da MI-5 apresenta os fatos com exatidão — mentiu Suslev, habilmente. — O relatório é verdadeiro!

Grey soltou uma risada alta.

— Puxa vida, mas isso vai derrubar a supremacia do go­verno e promover uma eleição geral!

— E os trabalhistas vão ganhar o poder!

— É! Durante cinco anos maravilhosos! Ah, é, e uma vez tendo ganho... oh, meu Deus! — Grey soltou outra risada estrondosa. — Primeiro ele mentiu sobre a Keeler! E agora o senhor diz que ele sabia do Ivánov o tempo todo! Ah, puta que o pariu, isso vai causar a derrubada do governo! Isso vai valer todos os anos de comer merda daqueles cretinos da classe média. Tem certeza? — perguntou, com repentina ansiedade.

— É mesmo verdade?

— E eu lhe mentiria? — exclamou Suslev, rindo inti­mamente.

— Vou me utilizar disso. Por Deus, vou me utilizar disso.

— Grey estava doido de alegria. — Tem certeza absoluta? Mas, e o Ivánov? O que aconteceu com ele?

— Uma promoção, é claro, por uma manobra brilhante­mente executada para desacreditar um governo inimigo. Se o trabalho dele ajudar a derrubá-lo, será condecorado. No mo­mento, está em Moscou, esperando ser designado para nova missão. A propósito, em sua entrevista coletiva de amanhã, pretende mencionar o seu cunhado?

Grey fechou a guarda, prontamente.

— Como soube disso?

Suslev devolveu-lhe o olhar, calmamente.

— Meus superiores sabem de tudo. Pediram-me que lhe sugerisse mencionar seu parentesco na entrevista coletiva, sr. Grey.

— Por quê?

— Para realçar sua posição, sr. Grey. Uma associação tão íntima com o tai-pan da Casa Nobre daria muito maior peso às suas palavras aqui. Não é?

— Mas se sabem a respeito dele — disse Grey, a voz

dura —, sabem também a respeito de mim e de minha irmã, que temos um acordo de não tocar no parentesco. É um assunto de família.

— Assuntos de Estado têm precedência sobre assuntos de família, sr. Grey.

— Quem é o senhor? — Grey estava repentinamente desconfiado. — Quem é, na realidade?

— Só um mensageiro, sr. Grey, na realidade. — Suslev colocou as manoplas nos ombros de Grey, calorosamente. — Továrich, sabe que precisamos usar tudo em nosso poder para fortalecer a causa. Estou certo de que meus superiores estavam apenas pensando no seu futuro. Uma ligação familiar tão ín­tima com tal família capitalista ajudá-lo-ia muito no Parla­mento. Não é? Quando o senhor e seu Partido Trabalhista vencerem no ano que vem, precisarão de homens e mulheres bem relacionados, hem? A nível ministerial, é preciso ter-se relações. O senhor mesmo disse isso. O senhor será o perito em Hong Kong, com ligações especiais. Poderá nos ajudar enormemente a conter a China, a conduzi-la de volta ao ca­minho certo, e a pôr Hong Kong e todo o povo de Hong Kong no seu lugar... no esgoto. Certo?

Grey pensou nisso, o coração disparado.

— Será possível aniquilar Hong Kong?

— Oh, sim — sorriu Suslev. O sorriso tornou-se mais amplo. — Não precisa se preocupar. Não partirá do senhor palavra alguma sobre o tai-pan, não faltará ao compromisso com sua irmã. Posso dar um jeito para que lhe façam uma pergunta. Que tal?

 

                   23h05m

Dunross esperava por Brian Kwok no Quance Bar, do Mandarim, bebericando um conhaque com Perrier. O bar era exclusivo para homens e estava quase vazio. Brian Kwok nunca se atrasara antes, mas agora estava atrasado.

"É a coisa mais fácil do mundo surgir uma emergência no serviço dele", pensou Dunross, sem se preocupar. "Vou espe­rar mais uns minutinhos. "

Naquele dia, Dunross não se incomodava de ter de esperar. Tinha tempo de sobra para chegar a Aberdeen e encontrar Wu Quatro Dedos, e, como Penn estava a caminho da Ingla­terra, não havia pressão para voltar para casa.

"A viagem lhe fará bem", pensou. "Londres, teatros, depois o Castelo Avisyard. Lá será formidável. Logo será o outono, as manhãs ficarão frias, o hálito das pessoas, visível, começará a temporada dos tetrazes, e depois virá o Natal. Será fantástico passar o Natal em casa, com neve. O que esse Natal nos trará, e no que estarei pensando ao recordar esta época, esta época ruim? Há problemas demais, agora. O plano funcionando, mas já entrando areia, tudo fora de controle, do meu controle. Bartlett, Casey, Gornt, Quatro Dedos, Mata, Pão-Duro, Haver­gill, Johnjohn, Kirk, Crosse, Sinders, Alan M. Grant, a sua Riko, todos mariposas ao redor da chama... e agora uma nova, Tiptop, e Hiro Toda, que chega amanhã, ao invés de sábado. "

À tarde, conversara longamente com seu amigo japonês e sócio armador. Toda fizera perguntas sobre o mercado de capi­tais e sobre a Struan, não diretamente, à moda inglesa, mas oblíqua e polidamente, à moda japonesa. Mesmo assim, fizera perguntas. Dunross percebera a gravidade na voz suave e com leve sotaque americano, produto de dois anos de pós-graduação em Harvard.

— Vai dar tudo certo, Hiro — dissera-lhe Dunross. — É um ataque temporário. Vamos receber os navios, conforme o planejado.

"Vamos mesmo?

"Vamos. De um jeito ou de outro. Linbar vai para Sydney amanhã, tentar ressuscitar o negócio da Woolara e renegociar a fretagem. Uma tentativa a esmo. "

Inexoravelmente, sua mente se voltava para Jacques. "Será que Jacques é realmente um traidor comunista? E Jason Plumm e Tuke? Quem será R. ? Roger Crosse ou Robert Armstrong? Mas é claro que nenhum dos dois, e é claro que Jacques também não é! Pelo amor de Deus, conheço Jacques por quase a vida inteira... conheço os De Villes por quase toda a vida. É verdade que Jacques podia ter dado ao Bart­lett algumas informações sobre o nosso funcionamento interno, mas não todas. Não a parte da companhia, de conhecimento apenas dos tai-pans. O que significa Alastair, papai, eu ou o velho Sir Ross, e isso é inconcebível.

"É.

"Mas alguém é traidor, e não sou eu. E, depois, há a Sevrin. "

Dunross olhou ao redor. O bar ainda estava praticamente vazio. Era uma sala pequena, agradável, confortável, com ca­deiras de couro verde-escuro e velhas mesas de carvalho ence­rado, as paredes cheias de telas de Quance. Eram todas cópias. Muitos dos originais estavam na Galeria Longa da Casa Gran­de, a maioria dos restantes nos corredores do Victoria e do Blacs. Alguns faziam parte de coleções particulares. Recostou-se confortavelmente, satisfeito por estar cercado por uma parte tão grande do seu passado, sentindo-se protegido por ele. Logo acima de sua cabeça havia o retrato de uma barqueira haklo com um garoto louro nos braços, os cabelos dela trançados. Dizia-se que Quance o pintara como presente de aniversário para Dirk Struan, encomendado pela moça do quadro, May-may T'Chung, e presumia-se que o garoto nos braços dela fosse o filho deles, Duncan.

Seus olhos dirigiram-se para o outro lado da sala, fitando os retratos de Dirk e de seu meio irmão Robb, ao lado de outro retrato do mercador americano, Jeff Cooper, e paisagens do Pico e da praia, em 1841. "Imagino o que Dirk diria se pudesse ver agora a sua criação. Florescendo, construindo, incorporando, ainda o centro do mundo, o mundo asiático, que é o único mundo. "

— Quer mais um, tai-pan?

— Não, obrigado, Feng — disse ao barman chinês. — Só uma Perrier, por favor.

Havia um telefone próximo. Ele discou.

— Quartel-general da polícia — atendeu uma voz feminina.

— Superintendente Kwok, por favor.

— Um momento, senhor.

Enquanto esperava, Dunross tentou decidir o que fazer com Jacques. "Impossível", pensou, angustiado, "não sem ajuda. Se eu o mandar à França buscar Susanne e Avril, isso o deixará isolado por cerca de uma semana. Talvez eu fale com o Sinders, talvez eles já saibam. Santo Deus, se Alan não tivesse colocado a letra R na carta, eu teria me dirigido diretamente ao Crosse. Será possível que ele seja o Arthur?

"Lembre-se de Philby, do Ministério das Relações Exte­riores", disse com seus botões, revoltado com o fato de que um inglês com aqueles antecedentes e num tal cargo de confiança pudesse ser um traidor. Do mesmo modo os outros dois, Burgess e Maclean. E Blake. Até onde era possível acreditar em Alan? Pobre coitado. Até onde era possível confiar em Jamie Kirk?

— Por favor, quem quer falar com o superintendente Kwok? — perguntou uma voz de homem ao telefone.

— O sr. Dunross, da Struan.

— Um momentinho, por favor.

Uma pequena espera, depois uma voz masculina que reco­nheceu imediatamente.

— Boa noite, tai-pan. É Robert Armstrong... desculpe, mas o Brian não está aqui. É alguma coisa importante?

— Não. Tínhamos marcado um encontro para tomar um drinque, e ele está atrasado.

— Ah, ele nem mencionou o encontro... geralmente é muito correto nessas coisas. Quando foi que o marcaram?

— Hoje de manhã. Ele me ligou para falar sobre John Chen. Alguma novidade sobre aqueles filhos da mãe?

— Não. Lamento. Brian teve que sair da cidade... uma viagem às pressas, sabe como é.

— Mas claro. Se falar com ele, diga-lhe que o verei no domingo, na subida do morro, se não antes.

— Ainda pretende ir a Formosa?

— Pretendo. Com Bartlett. Vou domingo, volto na terça. Parece que poderemos usar o avião dele.

— É. Por favor, certifique-se de que ele volte na terça.

— Se não voltar antes.

— Quer alguma coisa de mim?

— Não; obrigado, Robert.

— Tai-pan, nós... bem... tivemos um outro encontro muito perturbador, aqui em Hong Kong. Não precisa se preocupar, mas cuide-se até o encontro de amanhã com o Sinders, certo?

— Claro. Brian disse a mesma coisa. E Roger também. Obrigado, Robert. Boa noite.

Dunross desligou. Tinha esquecido que um guarda-costas do sei o estava seguindo. "O sujeito deve ser melhor do que os outros. Nem o notei. Bem, o que vou fazer com ele? Sem dúvida não será bem-vindo com o Quatro Dedos. "

— Volto daqui a um instante — falou.

— Sim, tai-pan — disse o barman.

Dunross dirigiu-se para o banheiro dos homens, observan­do sem observar. Ninguém o seguiu. Quando saiu do banhei­ro, entrou no mezanino lotado e barulhento, atravessou-o e desceu a escadaria principal até o saguão, onde foi comprar o jornal vespertino na banca de jornais. Havia gente por toda parte. Ao voltar, deparou com um chinês magro e de óculos, que o observava por cima de uma revista, sentado numa cadei­ra do saguão. Dunross hesitou, voltou para o saguão e notou que os olhos o acompanhavam. Satisfeito, subiu de novo as escadas lotadas.

— Oh, alô, Marlowe — exclamou, quase colidindo com ele.

— Oh, alô, tai-pan.

Dunross notou imediatamente o grande cansaço na fisio­nomia do outro.

— O que aconteceu? — perguntou instantaneamente, pressentindo problemas e afastando-se do caminho das outras pessoas.

— Ora, nada... nada mesmo.

— Aconteceu alguma coisa — disse Dunross, com um sorriso suave.

Peter Marlowe hesitou.

— É, é a Fleur — disse, contando o que se passara. Dunross ficou imensamente preocupado.

— O velho Tooley é um bom médico, o que já é uma grande coisa. — Contou a Marlowe como Tooley os enchera, a ele, Bartlett e Casey, de antibióticos. — Está se sentindo bem?

— Estou. Só um pouco desarranjado. Não há com que me preocupar, por cerca de um mês. — Peter Marlowe contou-lhe o que Tooley dissera sobre a hepatite. — Isso não me preocu­pa, é a Fleur e o bebê que estão me preocupando.

— Vocês têm uma amah?

— Temos, e o hotel é maravilhoso. Todos os criados de quarto estão dando uma mão.

— Tem tempo para tomar alguma coisa?

— Não, não, obrigado, é melhor eu voltar. A amah não... não há lugar para ela ficar, portanto está só olhando as crianças. Preciso dar uma passada na casa de saúde, no caminho, só para ver como vão as c