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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CAVALO DE TRÓIA (9–CANÀ) / J. J. Benitez
CAVALO DE TRÓIA (9–CANÀ) / J. J. Benitez

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CAVALO DE TRÓIA 9

CANÀ

Primeira Parte

 

Síntese do Publicado

 

                     Janeiro de 1973

Em um projeto secreto, dois pilotos da USAF (Força Aérea Norte-Americana) viajam no tempo, ao ano 30 de nossa era. Especificamente, à província romana da Judéia (atual Israel). Objetivo aparente: seguir os passos de Jesus de Nazaré e comprovar, com o máximo rigor, como foram seus últimos dias. Por que foi condenado à morte? Quem era aquele Homem? Tratava-se de um Deus, como garantem seus seguidores?

Jasão e Eliseu, responsáveis pela exploração, vivem passo a passo as terríveis horas da chamada Paixão e Morte do Galileu. Jasão, em seu diá­rio, é claro e categórico: "Os evangelistas não contaram toda a verdade". Os fatos, ao que parece, foram tergiversados, censurados e mutilados, obedecendo a determinados interesses. O que hoje se conta sobre os derradeiros momentos do Mestre é uma sombra do que aconteceu na realidade. Mas algo falhou no experimento, e a Operação Cavalo de Tróia foi repetida. (Isso foi o que fizeram que o Major norte-americano acreditasse.)

 

                   Março de 1973

Os pilotos norte-americanos "viajam" de novo no tempo, retornan­do à Jerusalém do ano 30. Lá, comprovam a realidade do sepulcro vazio e as sucessivas "presenças" de um Jesus ressuscitado. Os cientistas ficam desconcertados: a Ressurreição do Galileu foi inquestionável. A nave de exploração foi levada para o norte, junto ao mar de Tiberíades, e Jasão, o Major da USAF, assiste a novas aparições do Ressuscitado. A ciência não sabe, não compreende o porquê do "corpo glorioso".

Jasão se aventura em Nazaré e reconstrói a infância e a juventude de Jesus. Nada é como foi contado. Jesus jamais permaneceu oculto. Du­rante anos, as dúvidas consomem o jovem carpinteiro. Ainda não sabe quem é realmente.

Aos 26 anos, Jesus abandona Nazaré e empreende uma série de via­gens "secretas", sobre as quais os evangelistas não falam.

O Major vai conhecendo e entendendo a personalidade de muitos dos personagens que cercaram o Mestre. É assim que Cavalo de Tróia desmitifica e coloca em seu lugar exato protagonistas como Maria, a mãe do Galileu, Pôncio e os discípulos. Nenhum dos que lhe foram íntimos entendeu o Mestre, muito menos sua família.

Fascinado pela figura e pelo pensamento de Jesus de Nazaré, Jasão toma a decisão de acompanhar o Mestre durante sua vida pública, ou de pregação, registrando tudo que vê e ouve. Eliseu o segue, mas por razões que mantém ocultas. Nada é o que parece. Eles precisam agir à margem do estabelecido oficialmente por Cavalo de Tróia. E, embora a vida de todos eles se encontre ameaçada por um mal irreversível - consequên­cia do próprio experimento -, Jasão e Eliseu arriscam-se em um terceiro "salto" no tempo, retrocedendo ao mês de agosto do ano 25 de nossa era. Procuram Jesus e o encontram no monte Hermon, ao norte da Galiléia. Permanecem com Ele durante várias semanas e assistem a um aconteci­mento transcendente na vida do Filho do Homem: no alto da montanha sagrada, Jesus "recupera" sua divindade. Agora é um Homem-Deus. Jesus de Nazaré acaba de completar 31 anos.

Nada disso foi narrado pelos evangelistas...

Em setembro do ano 25 de nossa era, Jesus desce do monte Hermon e se reintegra à vida cotidiana, na margem norte do yam, ou mar de Tiberíades. Não chegou sua hora. Parte de sua família mora em Nahum (Cafarnaum), na casa de propriedade do Mestre. Os pilotos descobrem uma tensa relação familiar. Maria, a mãe, e parte dos irmãos não entendem o pensamento do primogênito. A Senhora, especialmente, acredita em um Messias político, libertador de Israel, que expulsará os romanos e condu­zirá o povo escolhido ao total domínio do mundo. Trata-se de uma grave crise - jamais mencionada pelos evangelistas - que desembocará em uma não menos lamentável situação.

Movidos pelo Destino, Jasão e Eliseu, após uma série de aparentes coin­cidências, viajam para o vale do rio Jordão e conhecem Yehohanan, também chamado o Anunciador (hoje lembrado como João Batista). Nada é como a História e a tradição contam. O diário do Major é esclarecedor. De volta a Nahum, os exploradores descobrem um Jesus operário, que espera o momen­to de iniciar sua vida pública. Tudo está pronto para a grande aventura.

O Major volta com João Batista e descobre nele uma grave doen­ça, da qual os evangelistas também não falam. Descobre também que as idéias do Anunciador sobre o reino nada têm a ver com as do Mestre. Descobre que alguns discípulos de Yehohanan - Pedro, André e Judas - são os futuros apóstolos de Jesus. E Jasão percebe que há algo suspeito na Operação Cavalo de Tróia. O Major encontra um Jesus lenhador e ajuda no batismo do Galileu, mas não no rio Jordão. Nada foi como contaram. Por fim, Jesus se retira para as colinas situadas a leste do Jordão e lá per­manece durante 40 dias. Não era o deserto, e também não jejuou. O lugar se chamava Beit Ids. Lá ocorreram alguns fatos extraordinários que tam­bém não foram transmitidos pelos evangelistas. Jesus planejou o que, em breve, seria sua vida pública. Trabalhou na colheita da azeitona e...

 

O Diário

 

                   30 de janeiro, quarta-feira (ano 26)

                   Terceira semana em Beit Ids

Jesus de Nazaré continuou descendo a encosta com seus habituais passos longos. O objetivo, parecia claro, era "Matador", o maldito rapazi­nho que governava o bando dos dawa zrad (a "praga dos gafanhotos" na linguagem dos badu, beduínos de Beit Ids). Por trás, perto dali, seguia-o Dgul, o capataz do olival, com o "vibrador de tronco" nas mãos. Ambos pareciam dispostos a acabar com aquela lamentável situação. E eu, sem pensar, fui atrás deles. Mas, infelizmente, após dar apenas dois passos, o árabe agitou de novo a tocha que segurava na mão direita e a jogou dentro do cesto. Parei, espantado. As chamas tomaram as roupas da criança, e imediatamente Ajashdarpan se transformou em uma bola de fogo. O zim­bro (uma espécie de aguardente), derramado por aquele canalha sobre os andrajos do menino dos ossos de "vidro", foi determinante. As chamas se propagaram velozes. E o árabe conseguiu gritar pela segunda vez:

- Smiyt... i... qatal! (Meu nome é "Matador"!)

Senti o mundo desabar. O Mestre e o capataz não chegaram a tempo.

Foi tudo tão rápido...

E nisso, assim que jogou o archote no cesto e gritou seu nome, "Ma­tador" caiu fulminado. O que havia acontecido? Jesus e Dgul estavam quase alcançando o cesto em que o menino ardia.

Compreendi.

Por trás daquele mal-nascido, surgiu a figura da mendiga, cambaleante, com uma pedra na mão esquerda. A mulher o havia acertado na cabeça, e Qatal caiu a seus pés. O resto do bando, ao se dar conta da sorte de seu chefe, soltou as panelas que brandiam como maçãs, e com as quais haviam esmagado Ajashdarpan, e fugiu pelo olival.

Tudo ficou em silêncio. Todo mundo olhava para o cesto de madeira no qual o menino se consumia.

Imaginei que estivesse morto.

Ao chegar diante do fogo, o Mestre, sem hesitar, despojou-se da túnica e a jogou dentro do cesto, dando palmadas no corpo da infortunada criatu­ra em uma tentativa de abafar as chamas. Dgul se juntou a Jesus, e os dois resgataram a criança de dentro do cesto. E no chão, de joelhos, prossegui­ram com o incerto trabalho, em uma mais que difícil tentativa de salvar a vida da criança. Os demais felah se mobilizaram e correram para ajudar Jesus e o capataz. Eu, desconcertado e abalado, fui atrás deles.

Alguém começou a apagar o fogo, que praticamente havia consu­mido o cesto. O Mestre continuava de joelhos. O menino não se mexia. Também não ouvi um único gemido. Deduzi que, depois dos golpes e do incêndio, Ajashdarpan estivesse morto. Ninguém, em seu estado, teria resistido a algo parecido.

E durante alguns segundos, eternos, ninguém fez nada; ninguém disse nada. Jesus, com o cabelo preso em seu habitual rabo de cavalo, permanecia imóvel, mudo, com os olhos fixos na túnica branca que envolvia a criança.

"Que infortúnio", pensei.

E o capataz retirou a túnica. Ao contemplar a criança, um murmúrio se ergueu entre os camponeses. Quem isto escreve baixou o olhar, horrorizado.

"Ajashdarpan está morto". Esse foi meu pensamento ao olhar para o menino. Dgul tentou encontrar algum vestígio de vida no corpo car­bonizado. Eu tentei superar aquele momento dramático e me concentrei em observar atentamente a criatura. O capataz negou com a cabeça. Era a primeira vez que não o via sorrir. Procurei o pulso e, para minha sur­presa, vi que o bondoso capataz estava enganado. O menino tinha um pulso fraco e filiforme, como uma linha. Fiquei assombrado. Aquela cria­tura resistia com todas as suas forças. O panorama, porém, era desolador. As chamas o haviam praticamente consumido. O corpo, sem roupas nem cabelo, era uma crosta negra, enrugada até o desbridamento, e colonizado por um bom número de flictenas (bolhas) de todos os tamanhos, que variavam entre o branco e o vermelho-cereja. Não pude ver parte do corpo que não houvesse sido afetada pelo fogo. As queimaduras do tórax e das extremidades eram particularmente graves. As chamas, que por certo haviam ultrapassado os 70°C, tinham deixado exposta, sob a escara, ou crosta enegrecida, parte dos músculos e dos ossos. Embora o fogo tivesse afetado gravemente a cabeça e o rosto dele, provocando a atresia (oclu­são das aberturas naturais, especialmente do nariz), Ajashdarpan manti­nha uma respiração fraquíssima, mas suficiente. O restante do exame foi igualmente terrível. Era um milagre que a criança continuasse viva. As queimaduras nos pés e nos genitais externos eram muito profundas, e o mesmo acontecia com as dobras de flexão, pescoço e zonas de cicatrização queloidianas (região deltoidiana e face anterior do tórax). Recorri à cha­mada "regra dos 9",[1] de Wallace, para tentar conhecer a extensão aproxi­mada das queimaduras, mas sabia que esse procedimento não era o ideal no caso de uma criança, devido às proporções, relativamente diferentes, da cabeça, das extremidades e do tronco. Repeti a operação, e o resulta­do, sempre aproximado, deixou-me sem fôlego: mais de 80 por cento do corpo fora consumido pelas chamas. O prognóstico, portanto, era muito grave. A probabilidade de morte era elevadíssima.

Dgul me observou, impaciente. E fiz a única coisa que podia fazer. Disse a verdade. O menino tinha poucas possibilidades de sobreviver. Mesmo assim, o obstinado capataz se dirigiu ao grupo defelah que conti­nuava atento e ordenou às mulheres que arranjassem água gelada e limpa e azeite em abundância. Não repliquei.

O Mestre continuava imóvel, atento à criança e, suponho, aos meus exames.

Não pude ser preciso ao avaliar o tipo e a profundidade das queima­duras. O corpo, como disse, era só bolhas e carne carbonizada. Havia quei­maduras de segundo grau e, principalmente, de terceiro e quarto.[2] Supus que, afora a intensa dor inicial, Ajashdarpan não havia sofrido demais. As queimaduras de terceiro e quarto graus haviam destruído as terminações nervosas, e isso, embora não fosse um consolo, pelo menos me fez suspeitar que a dor havia desaparecido. Outra questão era o choque e as possíveis infecções que podiam decorrer das terríveis queimaduras. O mais prová­vel é que o menino dos ossos de "vidro" já houvesse sofrido um choque hipovolêmico, como consequência da enorme perda de fluidos corporais.

Eu não o podia medir naquele momento, mas deduzi que o aporte sanguí­neo havia caído bruscamente. Aquilo tornava sua situação mais crítica. Para compensar o choque, teria sido necessário administrar-lhe entre 100 e 200 milímetros por hora de um ringer lactato. Mas isso, claro, era impossível. Examinei novamente as queimaduras e compreendi que, se sobrevivesse, as infecções não tardariam a assaltá-lo. Com a destruição da epiderme, a invasão bacteriana surgiria de imediato. Primeiro os estreptococos e estafi­lococos; depois, em poucos dias, as bactérias gram-negativas e uma extensa flora mista.[3]

Fiquei desolado. Havia começado a sentir afeto por aquele infeliz...

Quanto às fraturas, sinceramente, neguei-me a examiná-las. O me­nino, como já relatei, padecia de uma doença estranha, uma osteogênese imperfeita,[4] como resultado de um defeito genético. Seus ossos apresenta­vam uma extrema fragilidade, como o vidro, com deformações esqueléti­cas, articulações sem força, musculatura fraca e uma pele frágil, com cica­trizes hiperplásticas, sempre cheia de hematomas. Os golpes, com certeza, haviam pulverizado seus ossos, provocando todo tipo de fratura; algumas, imaginei, de especial gravidade. Mas me neguei a uma palpação inicial. Não queria acrescentar dor à dor.

A morte chegaria em questão de minutos; talvez, com sorte (?), em horas. E eu não podia fazer absolutamente nada. Fiquei frustrado. Mais que isso: eu me senti esmagado pela impotência e por uma tristeza infi­nita, como havia muito tempo não sentia. Precisava me afastar daquele lugar. E pensei em voltar ao olival, ou talvez à caverna. Dei uma olhada à minha volta. Foi quando reparei em "Matador". Quase o havia esqueci­do. Permanecia imóvel, a pouca distância. E necessitado de um respiro, afastei-me da criança e dos que a cercavam.

Aquele outro infeliz - porque disso se tratava -, sem dúvida, esta­va morto. A afiada pedra usada pela mendiga havia aberto a base de seu crânio. E lá ficara, incrustada no osso occipital, relativamente próxima à nuca. Da mendiga, aliás, nem sinal. Ninguém se preocupava com o árabe por enquanto. E deduzi que o resto do bando não tardaria a voltar. Aquele assunto não estava encerrado. E temi o pior. Devia convencer o Mestre a abandonar aquele lugar? Aquilo estava começando a ter um aspecto ruim.

O céu continuava se encobrindo. A chuva "dócil" - es-sa ra -, como a chamavam os badu, não tardaria a chegar. O que fazer? O instinto me aler­tava. Teria sido mais prudente afastar-se da colina "800" e voltar ao nosso lar, na caverna da chave. Mas eu era só um observador. Não devia decidir.

E naquele momento, enquanto me debatia entre esses pensamentos, ouvi aquela voz familiar. Era Jesus. Cantava em hebraico. Levantei-me e contemplei o grupo. As mulheres estavam voltando. Traziam a água e o azeite solicitados por Dgul. Haviam estendido uma esteira de folha de pal­ma no chão e, ao que parecia, aguardavam a ordem para cuidar do meni­no. Todos pareciam desconcertados. Voltei para junto do capataz e o que vi também me deixou perplexo.

O Mestre havia tomado Ajashdarpan no braços e o mantinha perto de seu peito. Os braços do menino pendiam inermes. A cabeça, carboni­zada, descansava sobre o poderoso ombro esquerdo do Mestre.

Senti um calafrio.

Jesus, de joelhos, ninava o menino com um suave movimento dos braços. Todos estávamos perplexos.

O Galileu mantinha os olhos baixos e entoava um salmo.

Os teus mortos viverão, os seus corpos ressuscitarão; despertai e exultai, vós que habitais no pó...

Julguei reconhecer os versículos. Eram do profeta Isaías (26,19).

Dgul, pouco a pouco, foi perdendo seu habitual sorriso, até que de­sapareceu. O que estava acontecendo? Imaginei que todos os ali presentes entenderam que Jesus se despedia do menino Ajashdarpan. Isso foi o que interpretei, mas, uma vez mais, estava enganado.

E foi a evidência que me devolveu ao bom caminho. Jesus elevou o tom de sua voz e levantou o rosto para o nublado e denso céu. Abriu os olhos, e a cor mel alcançou todos nós.

... porque o teu orvalho é orvalho de luz...

Foi instantâneo. Julguei compreender. Um Homem-Deus havia des­cido para abraçar a mais humilde das criaturas, e a abraçava e a ninava com ternura; a ternura infinita de um Deus.

E voltaram os calafrios.

A infinita misericórdia de um Deus estava diante de mim! E o Mestre prosseguiu com a canção, e com o leve movimento, e com seu amor pelo desventurado mestiço.

- ... e sobre a terra das sombras fá-lo-ás cair...

A voz tremeu. Jesus baixou a cabeça, e duas lágrimas rolaram por sua face, perdendo-se, tímidas e rápidas, na barba. E a emoção que escapava do Mestre dominou os que contemplavam a cena. Senti um nó na gargan­ta e vi os olhos do capataz se umedecerem.

Não sei explicar, mas, naquele momento, enquanto o Homem-Deus estava com a cabeça baixa, abraçando amorosamente o menino dos os­sos de "vidro", uma brisa vinda de algum lugar se juntou a nós, e todos percebemos: o lugar se encheu de um intenso perfume de tangerina. Eu, naquele momento, compreendi só um pouco.

Jesus não voltou a cantar e ficou um tempo na mesma posição, abra­çando o agonizante Ajashdarpan. Depois, com a mesma ternura, deu um longo beijo na pele enegrecida do menino.

Calculo que devia ser a quinta hora (por volta de 11 da manhã) quan­do aconteceu o que aconteceu. Todos vimos. Todos fomos testemunhas. Não foi uma alucinação. Foi algo real e inexplicável. Eu havia visto aquilo em outras ocasiões, e assim foi narrado nestes diários. E, mesmo hoje, ainda não fui capaz de encontrar uma explicação lógica e racional. Mas devo me ater aos fatos tal como aconteceram.

De repente, enquanto assistíamos ao terno abraço, tudo à nossa vol­ta, incluindo as roupas, as mãos, os rostos, as árvores, as pedras, tudo ficou azul. Olhamos uns aos outros atemorizados. As mulheres e os felah, instintivamente, deram um passo atrás. Dgul e eu trocamos um olhar, tentando encontrar uma explicação. Nenhum dos dois conseguiu abrir a boca. Aquele azul nos mantinha hipnotizados.

E em menos de cinco segundos tudo voltou ao normal.

Devia ter imaginado. Devia ter recordado o que acontecera em ou­tras oportunidades. Aquele azul era um aviso. Algo extraordinário estava prestes a acontecer.

Jesus, então, dirigiu-se às mulheres e pediu que cuidassem do meni­no. Foi naquele momento que me pareceu ver nas têmporas de Ajashdar­pan umas gotas de suor. Era um suor azul, mas não me atrevo a afirmar com cem por cento de certeza.

Que tolo eu...

Precisaria de um tempo para perceber o especialíssimo valor sim­bólico daquele salmo sobre o orvalho, e do suor azul. Na realidade, meu irmão, Eliseu, é quem o saberia interpretar. Mas essa é outra história.

A partir desse momento, tudo aconteceu a grande velocidade.

Mais ou menos esta foi a ordem, conforme recordo:

O Mestre se levantou. Pegou a túnica branca de volta. Vestiu-a e, sem uma palavra, afastou-se rumo ao olival com seus típicos passos longos. Recordo que a lã da túnica me chamou a atenção. Estava chamuscada em alguns pontos. E quem isto escreve, novamente desconcertado, não soube o que fazer. Olhei para o capataz, e ele, compreendendo, devolveu-me um sorriso. O trabalho havia terminado, pelo menos por aquele dia. E, con­fuso, fui atrás dos passos de Jesus de Nazaré. O Homem-Deus já se perdia em meio aos zayit, as corpulentas oliveiras da colina que eu havia batizado como "800", por conta de sua altitude.

E poucos passos depois comecei a ouvir gritos. Voltei-me e contem­plei outra cena estranha: as mulheres, os camponeses, o capataz, todos corriam em desordem tropeçando uns nos outros. Eu não entendia.

Voltei e tentei, em vão, interrogar os felah. Ninguém me ouviu. Pa­reciam histéricos. Corriam. Gritavam. Choravam. Estavam pálidos. E, de repente, dei-me conta: a criança não estava no mesmo lugar. Busquei, mas foi inútil. E nisso, encontrei Dgul. Estava de joelhos, com os olhos per­didos no horizonte, com seu eterno sorriso. Não consegui arrancar dele uma só palavra. Por um momento, pensei no bando do "gafanhoto". Te­riam voltado, como cheguei a supor? Mas não vi nenhum dos rapazes. O corpo de Qatal ("Matador") continuava no mesmo lugar.

Tornei a interrogar o capataz, e dessa vez perguntei por Ajashdarpan. Que diabos aconteceu nesses poucos minutos, enquanto eu me afastava para o olival? Finalmente, sem palavras, o bom homem apontou com a mão em direção a Beit Ids. Foi então que vi a familiar figura daquele per­sonagem. Afastava-se pela trilha de terra que, efetivamente, conduzia à aldeia. Não devia estar a mais de 50 metros de nós.

Meu coração deu um pulo.

Aquele indivíduo era o sujeito de dois metros de altura que eu havia visto surgir no alto da "800". Mas, absorto no ataque de "Matador" e sua gente, a verdade é que o perdera de vista, e o esqueci.

Não havia dúvida. Era ele.

Sua singular roupa mudava de cor, como eu havia visto no poço de Tantur. Era o homem do sorriso encantador.

Ia para Beit Ids, de fato, e levava uma criança pela mão. Um menino nu.

Senti outro calafrio.

Não era possível. Neguei-me a aceitar uma idéia tão absurda.

Ajashdarpan?

Não era viável. Não era... O menino estava agonizante. Aquele, porém, ca­minhava com toda a naturalidade. Além disso, Ajashdarpan padecia de uma osteogênese imperfeita. Simplesmente não podia andar com tanta desenvoltura.

Não sei como explicar. Senti medo. De repente, fui assaltado por um pânico irracional. Talvez não quisesse enfrentar a realidade.

E, sem pensar, dei meia-volta e fugi dali.

Havia começado a chover mansamente.

Ao adentrar o olival da "800", compreendi que o Mestre havia desa­parecido. Eu não sabia quais eram suas intenções. Simplesmente o havia perdido, mais uma vez. E hesitei. Dirigia-se à caverna? O Galileu havia ido à colina da "escuridão", a "778"? Deixei-me levar pelo instinto e tomei o caminho da caverna. Enganei-me novamente. Ou não? Jesus não estava na caverna que nos servia de refúgio. E me sentei ao pé do caminho, perto do arco de pedra que preservava a entrada da caverna. Tentei me acalmar. Jesus voltaria. Talvez estivesse no alto da colina dos znun, a citada "778", em comunicação com seu Pai, como fazia habitualmente. E aquele súbito e incompreensível medo que havia me assaltado ao ver o homem do sorriso encantador sentou-se ao meu lado. O que estava acontecendo? Por que tan­ta confusão? Por que eu me negava a aceitar o que parecia evidente? E reagi como um perfeito idiota: eu era um cientista, não podia aceitar que um ser agonizante, gravemente queimado, voltasse à vida em questão de minutos, de segundos. Porque tratava-se disso: de aceitar um milagre. Jesus havia abraçado a criança, certo, e a manteve em seus poderosos braços, certo; e todos presenciamos aquela singular luminosidade azul. Mas não; eu me neguei a admitir que Jesus houvesse feito o prodígio. O mais provável é que Ajashdarpan estivesse em outro lugar. Alguém, na confusão, poderia tê-lo levado. Mas, então, a que se devia o pânico dos felah? Por que o capataz não articulou palavra alguma quando o interroguei? E o mais importante: quem era aquela criança que andava rumo à aldeia de Beit Ids de mão dada com a personagem do sorriso encantador? Censurei minha falta de coragem. Devia ter alcançado o homem de dois metros de altura e solucionado o mistério. Mas estava onde estava, e isso eu não podia mudar.

E, mergulhado nesses tormentosos pensamentos, por volta da nona hora (três da tarde) vi chegar pelo caminho um dos abed, um dos escravos negros de Yafé, o sheik ou chefe dos beduínos de Beit Ids. Perguntou pelo Mestre. Eu não soube lhe informar. E, decidido, indicou-me que o seguisse.

Yafé, o belo, o homem que nunca terminava as frases, também queria me interrogar. Tive um pressentimento, e não me enganei. Dessa vez não. O Destino sabia...

Havia parado de chover. O sheik esperava sentado em frente ao grande casarão, a nuqrah, cercado de seus cães, os fiéis galgos persas. De início, de acordo com o costume, nem sequer levantou a vista. E continuou fazendo uns nós de marinheiro. Nós, como já expliquei, que ele desfazia imediatamente. Por fim, ergueu o olhar e me convidou para sentar. Seus atraentes olhos verdes, perfilados de preto pelo kohl, foram mudando para o cinza prateado conforme decaía a luz. Calculei que fal­tavam duas horas para o ocaso.

E "o belo que, além de tudo, pensa" (esse era o significado completo de seu apelido) perguntou pelo Príncipe Yuy (assim os badu de Beit Ids se refe­riam a Jesus). Eu lhe disse a verdade. Não sabia onde estava. E a seguir inte­ressou-se pelo ocorrido nas proximidades do olival da "800". Compreendi. Naquele remoto lugar, as notícias voavam. E supus que se referia ao brutal ataque de "Matador" e seu bando.

Yafé negou com a cabeça e acrescentou:

Isso eu sei, mas não...

Deduzi que alguém o havia informado pontualmente sobre o caos que ocorreu depois. Mas me fiz de rogado:

Não sei a que te referes.

O que aconteceu? Aquele animal teve o que mereceu, mas depois...

O que aconteceu depois? Não sei.

Sim, depois do ataque. Ajashdarpan...

Ajashdarpan?

O sheik começou a se impacientar. Estava claro que dispunha de toda a informação, mas queria se certificar.

Sim, depois... Sei que tu e o Príncipe Yuy estáveis lá. Ajashdarpan, então...

O Príncipe se afastou. Quanto a mim, sim, estava lá, mas foi como se não estivesse.

O sheik me olhou sem entender.

Estavas, mas não estavas?

Algo assim - resumi. - Sinceramente, não sei o que aconteceu. To­dos ficaram loucos.

Yafé chamou o escravo negro. Sussurrou algo em seu ouvido, e o abed se perdeu sob o qanater, o arco de pedra do casarão. Pouco depois, atrás do escravo surgiu Dgul, o capataz, e vários varejadores que assistiram aos tristes acontecimentos nas proximidades da "800". Para que negar: fiquei surpreso. A que vinha tudo aquilo? E a um sinal do "belo", Dgul começou a falar, fazendo um detalhado percurso pelos mencionados acontecimen­tos. Falou de "Matador" e de sua gente, do incêndio do acampamento e da brutal surra na criança dos ossos de "vidro". Por último, referiu-se a Ajashdarpan e afirmou que, depois do abraço de Jesus de Nazaré, assim que depositou o agonizante nas mãos das mulheres, o menino se levantou como se nada houvesse acontecido. Estava curado! Havia recuperado a saúde! Os felah assentiram. Depois - concluiu Dgul - chegou aquele ho­mem estranho, cuja vestimenta brilhava, e levou a criança pela mão.

Meu assombro não passou despercebido para o sheik.

Foi ele, o Príncipe Yuy, quem fez o prodígio e o salvou?

Dei de ombros. E, como pude, mostrei-lhe que não sabia nada sobre tal prodígio. E mais: duvidava que aquela criança, que eu havia visto de longe, fosse Ajashdarpan.

Olhei para o capataz e fiquei envergonhado. Aquele homem jamais mentia, e era um excelente observador. Mas eu não podia aceitar algo tão inacreditável. Nunca vou aprender...

Era como se Yafé estivesse esperando aquele momento. E, sem parar de olhar para mim, bateu palmas. De dentro da casa, saíram quatro mulhe­res. Eram as que haviam cuidado do menino quando Jesus assim solicitara.

Pressenti alguma coisa.

Então, ele apareceu. Era o menino que eu vira no caminho para Beit Ids, aquele que se afastava de mão dada com o homem do sorriso encantador.

Acho que empalideci.

O sheik continuou em silêncio. Todos me observavam com curiosidade.

Não era possível, repetia para mim mesmo.

O menino estava coberto com um lenço.

Este é Ajashdarpan - disse Yafé, sem disfarçar seu regozijo. - Podes perguntar-lhe, se é teu desejo.

Enchi-me de coragem e me aproximei do menino. Todos ficaram em um respeitoso silêncio.

Acho que esbocei um sorriso e retirei o lenço. O menino ficou com­pletamente nu.

Bastou uma primeira olhada para entender que havia uma confusão ali. Aquela criatura não tinha queimadura alguma. Sua pele era lisa, limpa, sem rastros de crostas nem de bolhas. Eu havia visto os ossos, a gordura e os músculos calcinados em algumas queimaduras de terceiro e quarto graus.

Eu havia examinado a cabeça, sem cabelo, e os canais nasais obstruídos e deformados pelas chamas. Nas queimaduras profundas, com a destruição da epiderme e de boa parte da derme, a reepitelização é um processo lento, dando lugar a cicatrizes deformantes. Mas que bobagens estava pensan­do? Com uma extensão de 80 por cento, as queimaduras - aceitando que Ajashdarpan houvesse se recuperado, o que era demais - teriam necessi­tado de meses de recuperação, e, insisto, as cicatrizes teriam sido terríveis. Não, aquilo não tinha nada a ver com o que eu vira. Havia algum engano, necessariamente. Seu aspecto também não era o que eu recordava. Aque­la criança não tinha nenhuma malformação aparente. Ajashdarpan, como expliquei, sofria de uma osteogênese imperfeita, com um singular desen­volvimento do crânio. Chamava a atenção justamente pela forma triangu­lar da cabeça, em forma de pera invertida, provocada pela pressão do encéfalo. Isso, por sua vez, dava lugar a uma micrognatia, ou tamanho anor­malmente pequeno do maxilar inferior. Seu nariz era pontudo e os olhos, exageradamente separados (hipertelorismo). Tudo isso, enfim, dava-lhe um aspecto monstruoso. O menino que estava diante de mim tinha um crânio normal, com um cabelo preto cacheado e uns olhos claros, cheios de vida. Era o único detalhe - os olhos - que recordava o "olhar azul" de Ajashdarpan. Não, aquele não era o menino que eu havia conhecido. Disso tinha certeza. Quanto aos movimentos, também não tinham nada a ver com os de Ajashdarpan. Aquele menino caminhava sem problemas. Não tinha escoliose, desvio lateral da coluna. Seus músculos pareciam fortes e saudáveis, assim como também as articulações. Não, aquela aparência não era, nem remotamente, a de uma pessoa com osteogênese imperfeita.

Voltei-me para o sheik e neguei com a cabeça.

- Esse menino - disse, categórico - não tem nada a ver com aquele que vi no olival. É impossível. Deve haver algum engano.

Sem perceber, acertei em minha apreciação. Aquele menino não ti­nha nada a ver com o que eu havia examinado. Mas não compreendi.

E antes que alguém se pronunciasse, o menino abriu a boca e emitiu uns sons guturais, confusos. Voltei-me e o vi sorrir. Seus dentes também não eram desarranjados nem tinham aquele brilho céreo e azulado que caracterizava a dentição de Ajashdarpan. Ele me chamou, e me aproximei, intrigado. Manteve o sorriso. Ergueu a mão esquerda e repetiu uma cena que eu havia contemplado no dia anterior, quando perguntei a Ajashdarpan se ele entendia aramaico. Levou a mão esquerda à altura da orelha, mui­to lentamente. Senti um calafrio. Depois, com a mesma lentidão, sempre sorrindo, tocou a orelha duas vezes. Por último, muito devagar, levou os dedos aos lábios. E negou com a cabeça.

Oh, Deus! Era ele! Era Ajashdarpan! Mas como podia ser?

Se eu não recordava mal, naquela terça-feira, 29 de janeiro, ao lhe oferecer minha cuia de madeira com tahine e lhe perguntar se entendia aramaico, ali, ao lado do menino, só estava a mendiga, mais que ébria, e um pouco mais atrás, os três rapazes que acompanhavam Ajashdarpan na colheita da azeitona. Nem a mendiga nem os rapazes prestaram atenção à cena em que Ajashdarpan me informou que era surdo. Foi um "diálo­go" entre mim e ele, exclusivamente. Ninguém mais foi testemunha, que eu soubesse.

Mas então...

Tornei a examiná-lo. Ajashdarpan não se opôs.

Nem sinal das queimaduras... Nem rastro da osteogênese.

Caí de joelhos, perplexo. E perguntei:

Podes me ouvir?

O menino assentiu com a cabeça, enquanto emitia aqueles sons guturais.

Meu Deus!

Julguei compreender. O menino havia recuperado a audição, mas, obviamente, não sabia falar.

Tu és Ajashdarpan?

Ele assentiu pela segunda vez, e imediatamente. Vi-o sorrir. Não sei se ele tinha consciência do que havia acontecido. Provavelmente não. Mas que importava isso? E senti meu coração se apertar. Não entendia absolutamente nada, mas sabia que me encontrava diante de um prodí­gio. Algo extraordinário acabava de acontecer naquela remota paragem da Decápole. Algo que jamais seria relatado pelos evangelistas.

E, confuso, ergui-me e me coloquei de frente para o capataz. Supliquei seu perdão, e Dgul simplesmente me presenteou com seu melhor sorriso.

Despedi-me do sheik e afastei-me, em direção à caverna.

Estava impressionado, sim.

O Mestre não havia voltado. E sentei-me ao pé do caminho, em fren­te à caverna, em uma péssima tentativa de ordenar os pensamentos. Nada era lógico. Nada fazia sentido. Eu era um cientista! O que aconteceu na "800"? Nunca vi algo como aquilo! A ciência não pode aceitar uma coisa assim. Estava alucinando? Tratava-se de um sonho? Talvez estivesse pres­tes a acordar... Não, não era um sonho. Outros também viram. O menino estava lá, a dois passos, e saudável. O menino ouvia. E as queimaduras?

Quem transformou sua pele e seu crânio? Que singular poder o havia curado em questão de minutos?

Precisei de tempo para me acalmar. Os pensamentos, porém, continuaram em desordem. Rememorei o ocorrido várias vezes e ten­tei racionalizar o assunto. Sempre tropeçava no mesmo obstáculo: Ajashdarpan estava agonizante, com 80 por cento do corpo queimado. Ninguém, nem no século XX, teria podido regenerar aquela catástrofe em segundos, ou em décimos de segundo. Teria eu assistido à primeira cura milagrosa de Jesus de Nazaré? Fui testemunha de seu primeiro prodígio? Ou seria o segundo? E recordei as cenas vividas em 17 de setembro no kan de Assis, o essênio, às margens do lago Hule, quan­do caminhávamos do monte Hermon ao yam, ou mar de Tiberíades. Naquela ocasião, diante do desconcerto geral, o Filho do Homem se ajoelhou também ante de um negro tatuado, de nome Aru, que pade­cia de uma espécie de loucura que o transformava em um ser violento e muito perigoso. Jesus aliviou uma de suas feridas e acariciou o rosto do jovem negro. A partir desse momento, Aru mudou e, que eu sai­ba, nunca mais foi assaltado pela referida síndrome. A cena foi rela­tivamente parecida: Jesus ajoelhado diante de um ser desvalido; Jesus acariciando sua criatura; Jesus, comovido, derrama uma lágrima, uma misteriosa lágrima azul; Jesus, misericordioso...

Duas situações quase similares com resultado idêntico. Um resul­tado inviável para a lógica, mas lá estava, desafiador. E era só o começo. Este explorador não imaginava, naquele momento, o que o Destino lhe reservava. Foi tudo mágico.

Mas, obtuso, continuei insistindo no "como fez aquilo". Como con­seguiu? Como era possível? Como pôde curar aquela pele e aqueles ossos e músculos carbonizados? Como modificou a doença que transformava Ajashdarpan em uma criatura com ossos de "vidro"? A osteogênese im­perfeita tem origem em um defeito genético. Especificamente, em um dos dois loci que codificam o colágeno tipo I. O colágeno, como já expliquei em outro momento, é o principal elemento orgânico do tecido conjuntivo e da substância orgânica dos ossos e das cartilagens. O transtorno pode ser expresso por uma síntese anormal ou por uma estrutura deficiente do protocolágeno I. Em outras palavras: o Mestre, ou quem houvesse propi­ciado o prodígio, teria que manipular e modificar toda a carga genética que provocava o mal. Isso significava uma alteração em cada célula de Ajashdarpan. Quintilhões de células modificadas!

Meu cérebro se sentiu sufocado novamente.

O que eu estava enfrentando? Ou melhor, a quem? E naquele momen­to fui visitado pela lucidez: aquele Homem, apesar das aparências, não era só um Homem; era um Deus. Ele tinha o poder. Ele simplesmente sabia como fazê-lo e, além de tudo, era misericordioso. Isso era suficiente. Isso era o importante e o que eu devia transmitir. O resto era secundário. Mas, pouco depois, a lucidez se afastou e quem isto escreve continuou enroscado no circunstancial e no puramente factual. Como fez aquilo? Como?

Cheguei a pensar nos nemos. Eu poderia inoculá-los dentro da crian­ça e descobrir, talvez. Pareceu-me ridículo. De que mais precisava para me convencer? Saltava aos olhos. E decidi falar com o Mestre assim que chegasse à caverna. Precisava esclarecer aquelas terríveis dúvidas.

O sol já se despedia pelo caminho que levava a Hawi. Segundo os cro­nômetros do "berço", naquela quarta-feira, 30 de janeiro do ano 26, o sol se esconderia às 17 horas, 7 minutos e 35 segundos de um suposto Tempo Uni­versal. A escuridão não tardaria a cair sobre o lugar. Eu havia me descuidado. Mergulhado nessas reflexões, não reparei no passar do tempo. Também a isso teria que me acostumar. A vida ao lado do Galileu era como um suspiro.

Recordei o prometido: quem isto escreve, enquanto Jesus permane­cesse naquelas colinas, cuidaria da intendência e das coisas menores. Ele devia se dedicar, por inteiro, a seu Pai.

Preparei um bom fogo e o jantar. O Mestre não tardaria a aparecer.

 

Jesus voltou pouco antes do ocaso. Esse era seu costume. Cantarolava. Pareceu-me alegre, como se nada houvesse acontecido. Pegou suas coisas e se afastou em direção ao rio. Supus que quisesse se lavar. E assim foi.

Pouco depois, voltou para a caverna. Havia trocado a chamuscada túnica branca pela vermelha. Estava com o cabelo solto. Algumas lampa­rinas, estrategicamente distribuídas pela caverna, arrancaram cintilações de sua mais que crescida barba e da mansa cabeleira. Imaginei que o Mestre havia se permitido umas gotas de kimah, o perfume que usava com frequência, mais especificamente desde o histórico 14 de janeiro desse ano 26, data de seu batismo nas águas do Artal, um dos afluentes do rio Jordão. E digo isso porque, ao entrar na caverna, o recinto se encheu de um intenso e agradabilíssimo cheiro de sândalo branco. Um perfume que eu associava à paz interior e à serenidade.

O Mestre me viu mexer com os utensílios de cozinha e se colocou ao meu lado, curioso. Não disse nada. Limitou-se a sorrir, mostrando aquela dentição impecável, branca, perfeitamente alinhada.

Não sei explicar.

Senti medo.

Ou talvez não tenha sido isso. Senti uma mistura de medo, admira­ção e respeito. Não pude evitar. Era a primeira vez que isso me acontecia. Nunca, até esse momento, senti algo parecido. Jamais senti medo ao lado do Mestre, até esse momento. A lembrança do ocorrido durante a manhã com Ajashdarpan me fez tremer. Acho que Ele percebeu. Então, deixando cair sua mão esquerda sobre meu ombro direito, olhou-me como só Ele sabia olhar. Transpassou-me com aqueles olhos cor de mel, e o perfume de sândalo me embriagou. Não pronunciou uma só palavra. O gesto e o olhar foram suficientes. Aquele Homem havia conseguido o que ninguém conseguira em toda a história da humanidade, mas isso não devia levantar uma barreira entre nós. E o medo, ou o que quer que fosse, dissolveu-se.

Mensagem recebida.

E Ele, intrigado, começou a perguntar o que eu estava cozinhando. Dessa vez, fui eu quem sorriu. E expliquei:

É quiabo.

O Mestre conhecia esse legume, tão habitual entre os árabes. E, apon­tando, interessou-se pelos ingredientes.

O medo, de fato, havia se afastado. Foi um mistério. Não sei como Ele fez aquilo.

Azeite - expliquei. - Aquece-se azeite, depois, cebola. Picada e frita.

O Mestre assentiu com a cabeça, muito sério.

Depois de dourada a cebola - prossegui -, acrescenta-se o quiabo.

E pegando uns generosos punhados de alho picado, pimenta e sal, cobri o verde e suculento legume, presente de Yafé. Mexi e misturei tudo cuidadosamente. Jesus, atento, não perdia nenhum detalhe.

Eu não me conformava. O Homem mais poderoso da Terra, um Deus, estava absorto em uma simples receita culinária. Assim era o Filho do Homem.

E deixei o quiabo cozinhando nas chamas do fogão a lenha. Com um grosso molho de tomate, eu teria arrematado o delicioso prato, mas o tomate não era conhecido ainda no velho mundo.

Calculei cerca de 45 minutos. Era o tempo necessário para o jantar ficar pronto. E me desculpei pela demora. O Galileu foi se sentar perto do fogo. Não prestou atenção em minhas palavras. Inclinou a cabeça para trás e semicerrou os olhos, desfrutando o tímido cheiro que começava a escapar da panela. Do lado de fora, a chuva voltara e repicava nas folhas da azinheira sagrada e das amendoeiras, como se brincasse. Eu me sentei em frente ao Mestre, atento ao quiabo, e também desfrutei daqueles instantes. Acho que o silêncio, muito atento, foi até a caverna.

Não pude evitar. Ao vê-lo diante de mim, tão sereno e tão próximo, voltaram os velhos pensamentos: como fez aquilo? Como obteve a cura do menino mestiço? Como?

Jesus permaneceu em silêncio.

E pensei que aquele era um bom momento para perguntar. Como fez aquilo? Como pôde obter tamanho prodígio? Onde estava o segredo? Como conseguiu algo tão incrível quanto a modificação da carga genética de Ajashdarpan? Como? Eu precisava dos detalhes.

Porém, algo me deteve. Não consegui abrir a boca e perguntar. Senti pudor. Aquele era um Homem maravilhoso. Que direito tinha eu de in­comodá-lo com esse tipo de pergunta? Mas, por outro lado, eu precisava saber. Como diabos fez aquilo?

E nisso estava, debatendo-me entre o sim e o não, quando o Mestre abriu os olhos e me contemplou com aquela extrema doçura. Vi nascer em seu rosto um fraco, mas promissor, sorriso.

Pressenti. Ele sabia o que eu estava pensando.

E o sorriso foi se abrindo como uma flor. Senti que me abraçava na­quele sorriso. Era outra forma de abraçar do Filho do Homem.

Não me enganei.

Querido malak (mensageiro), por que te preocupas tanto com o como?

A penumbra da caverna me protegeu e disfarçou minha falta de jeito.

Corei, acho. Era tão difícil me acostumar! Era tão difícil aceitar que Ele podia entrar e acessar os pensamentos!

Por que te atormentas com os detalhes - prosseguiu com aquela voz doce e calma - se o importante é que foi feita a vontade do Pai?

Deixou o silêncio rolar. E eu, sem saber o que dizer, refugiei-me no quiabo. Mexi-o várias vezes.

E, generoso, Ele aceitou me satisfazer, em partes. Então, começou a falar de sua "gente", que o assistia. Já havíamos falado disso em dias anteriores, por conta das misteriosas luzes que surgiram sobre Beit Ids, principalmente no cume da colina dos znun, ou da "escuridão", como a chamavam os nativos do lugar. Foram eles, sua gente, que cuidaram dos "detalhes" e do "como". Não sei se entendi bem, mas essa foi a explicação: não foi o Mestre quem realizou o prodígio; foi sua gente. E aí concluiu o esclarecimento. Eu precisaria de tempo para compreender o que Ele ten­tava me transmitir.

Nada teria sido possível - acrescentou - se não contasse com o beneplácito do Pai. Isso é a única coisa que conta.

O Pai.

Havíamos conversado sobre Ele em outras oportunidades, mas eu sem­pre ficava sedento. Quem é? Estava eu diante de uma pessoa? Eu sabia que isso não era possível. O Pai - Abba - tinha que ser uma criatura (?) puramente espiritual, longe da matéria e do tempo, mas eu não entendia. Também nisso precisava de detalhes. E aproveitei a ocasião para me aprofúndar no assunto. Eu sabia que Abba era o tema favorito de Jesus. Falar d'Ele o encantava.

Preciso de detalhes - urgi. - Fala-me do Pai. Talvez assim eu com­preenda melhor o que aconteceu esta manhã no olival.

Sorriu, divertido. Não o consegui enganar, mas Ele aceitou falar, a sua maneira.

Pegou um dos galhos que este explorador havia separado para man­ter o fogo vivo e se inclinou sobre a terra que cobria a caverna. Alisou-a cuidadosamente e disse o seguinte, caso eu houvesse esquecido:

Tu és um malak, um enviado. Lembra que minhas palavras são sempre uma aproximação à verdade.

Assenti em silêncio. Eu lembrava.

O que eu disser não tem por que ser a verdade, literalmente falan­do. Vós, agora, não podeis sequer vos aproximar do que tento transmitir, compreendeste?

Assenti pela segunda vez, sem me dar conta da importância do que Ele acabava de dizer.

E o vi desenhar na terra. Traçou primeiro a letra hebraica yod. Olhou-me com curiosidade e sorriu. Depois, desenhou o heh, o vav e, por último, de novo a consoante heh. Reconheci imediatamente. Era o terceiro Nome de Deus, segundo os hebreus: Yaveh ou YOD-HEH-VAV-HEH, as quatro letras que, segundo a tradição, não deviam ser pronunciadas. E uma vez terminado o Tetragrama, o Mestre permaneceu em silêncio com expressão grave. Pres­senti que o que ia dizer era importante. Não me enganei.

Entendo que desejes conhecer o Pai.

O rosto do Galileu se iluminou de novo.

É a aspiração de todo filho do tempo e do espaço, mas isso chegará no momento certo. Não agora. Tu vives na matéria e na imperfeição, vives no tempo, e, em consequência, não é possível ao Pai manifestar-se tal como é. É Ele quem aceita se manifestar na consciência humana, e só assim podes alcançar uma compreensão - limitadíssima - do Não Limitado.

Jesus utilizou a expressão hebraica ein sof (o não limitado; acho que deveria ter usado letra maiúscula).

Agora - prosseguiu, compreendendo minha inépcia para desven­dar suas palavras e seus conceitos -, neste momento a natureza humana não pode se aventurar na Divindade. Não está preparada. Mesmo que eu atendesse a teus desejos, as palavras me limitariam. Não posso te dar deta­lhes sobre o Pai porque tua mente é humana, e Ele, por outro lado, não é.

Fez uma pausa. O perfume de sândalo se misturou com o do quiabo refogado e julguei intuir: eu estava mergulhado em um aroma no qual se cruzavam o sentimento de paz interior e a delícia de um fruto da ter­ra. O sublime e o humano, por assim dizer. O divino e o material. Jesus também tentava brincar com os dois conceitos, mas não era fácil. Abba, o Pai, descia até o quiabo e o impregnava. O quiabo, porém, jamais poderia entender o que estava acontecendo.

E te direi mais. Se o Pai aparecesse diante de ti agora mesmo, em toda sua glória, ficarias anulado.

Por quê?

Acreditas em minha palavra?

Sempre acreditei.

Era verdade.

Pois bem, aceita o que te digo. Se Ele, agora, aparecesse diante de ti com sua verdadeira luz, não desejarias prosseguir. E tamanha sua gran­deza que cairias na Unidade e teu eu se extinguiria. Simplesmente, malak, renunciarias a tua própria evolução. E por isso que deves ser paciente. Ele aparecerá diante de ti quando estiveres preparado.

Tenta. Dá-me detalhes.

Eu mesmo me surpreendi. Estava começando a me parecer com Eliseu.

O Mestre sorriu com benevolência, mas não disse nada. Foi pegar uma das brasas que aquecia o quiabo e a ergueu, agitando-a no ar. O fogo se animou e ficou mais vermelho. Então, comentou:

Se fores capaz de explicar ao fogo quem sou eu, então, querido amigo, eu te explicarei quem é o Pai.

Eu me rendi. Mais ou menos.

Então, depois de morto, também não verei Deus.

Repito: tu o verás quando estiveres preparado, não antes. Chegarás a Ele quando já não fores matéria. É a primeira condição.

E, enquanto isso, o que devo fazer?

O que começaste a fazer: buscá-lo, interessar-te por Ele, querer ser como Ele.

Fez uma estudada pausa e prosseguiu.

E, acima de tudo, colocar-te em suas mãos e deixar que se faça sua vontade. Já sabes: o segredo dos segredos.

Sim, havia nos dito isso no Hermon.

Mas não te atormentes - sentenciou. - Tua análise de Deus será sempre uma tentativa medíocre de compreender o inefável. Não pode ser de outra maneira. Eu te disse: é Ele quem desce à matéria, a tua mente, e quem permite que te aproximes, remotamente, de sua essência. Nunca é ao contrário. Não esqueças. A concepção humana do Pai será sempre limitada e fragmentada. Ninguém, insisto, está capacitado para entender Deus enquanto estiver sujeito ao tempo e ao espaço.

Mas tenta.

Acho que se rendeu.

Está bem: recorre aos símbolos. Eles te ajudarão a fazer o trabalho. Eles contêm os detalhes que tanto te preocupam.

E, apontando para as letras hebraicas que havia desenhado na terra, piscou para mim.

Naquele momento não captei o profundo significado de suas pala­vras. Captaria dias depois, em outra inesquecível conversa na caverna da chave. Mas tenho que seguir em ordem.

O que me veio à mente - suponho que tenha sido uma associação de idéias - foi a descoberta de Gödel, o matemático que trouxe à luz a existência de um número infinito de teoremas que são verdadeiros e que ninguém pode demonstrar.[5] Com o Pai, suponho, acontece a mesma coi­sa. A genial idéia de Leibniz (1686), contida no ensaio filosófico Discurso da metafísica, dava razão ao Mestre: uma teoria há de ser mais simples que os fatos que explica. Deus (Abba) é tanto que é indemonstrável.

Os símbolos... Nunca pensei que poderiam conter Deus.

O Galileu me olhou, surpreso. E disse:

Eu não disse isso, mas pode ser.

Pegou de novo o galho com que acabara de desenhar o nome de Yaveh e colocou-o sobre a letra yod, a primeira do Tetragrama.

Queres que te fale do Pai.

Sim.

Pois bem, observa.

Dirigiu o olhar para a citada letra yod e explicou:

Esta letra está representando o Pai. Ela é o ponto primordial do qual tudo procede. É um símbolo. Ela representa o projeto do Pai, do Criador, para a criação. Em yod está contida toda a potencialidade do Pai. Dele nas­cem as linhas, as superfícies, os volumes, a potência espiritual e todas as possibilidades de formas e de evoluções. As que conheces e as que nunca conhecerás. As que são e as que nunca serão. Nele estão os caminhos e os não caminhos.

Eu estava me perdendo, e Ele sabia.

Tu sabes que o valor de yod é 10.

Isso era Cabala. O Mestre, acho que já disse, era um perfeito cabalista; o grande cabalista, atrever-me-ia a dizer.

Pois bem, desse ponto de vista simbólico - prosseguiu, medindo as palavras -, pode ser representado igualmente como o ponto primordial inscrito no círculo da eternidade.

E desenhou um círculo com um ponto no centro.

Esse ponto, como te dizia, essa singularidade anterior à criação, contém tudo.

Fez outra pausa e deixou que me aproximasse de suas idéias.

Pois bem, querido malak, esse yod, esse 10, esse símbolo, represen­ta o que chamamos Deus Pai. Mas atenção! Não é que o Pai seja do sexo masculino. Somos nós, os humanos, em nossa pequenez, que o limitamos e lhe outorgamos um caráter de masculinidade que Ele nunca teve. E Ele quem permite que tu penses assim, por ora. Mais além, como também te insinuei, está o "EIN SOF" (o NÃO LIMITADO).

O Não Limitado - interrompi-o. - Gostei.

Por enquanto, é suficiente que saibas que daí, do Não Limitado, surge a força espiritual do poder de Deus.

O Mestre interrompeu sua exposição e me observou com curiosida­de. Teria eu compreendido? Mais ou menos. Então, perguntou:

Sabes a que me refiro? Sabes qual é o verdadeiro poder de Deus?

Fiquei perdido. Não lembrava.

O amor - adiantou-se, tirando-me do apuro. - Esse é o verdadeiro poder do Pai. Recordas?

Assenti em silêncio. Falamos sobre isso no cume da montanha sagra­da, no Hermon. Amor é igual a ação.

E perguntei uma coisa aparentemente tola.

Se o Pai não é homem, é mulher?

Jesus sorriu de novo, mas não caiu na armadilha; porque era exata­mente isso.

Voltou ao desenho das quatro letras hebraicas e, apontando de novo o yod, retomou o simbolismo:

-Yod é igual a 10. Certo?

Sim, Mestre.

Heh é igual a 5.

A letra heh, como expliquei, ocupava o segundo e o quarto lugar na palavra Yaveh (YOD-HEH-VAV-HEH).

-Bem, somos nós, os humanos, que outorgamos um caráter feminino às duas letras heh, que somam 10, e que nascem do yod. Não esqueças. Somos nós que associamos Deus a nossos próprios concei­tos. Porém, isso não é correto; mas, está bem, pensa o que considerares mais oportuno.

Sorriu com prazer.

Isso, ao Pai, não desagrada. Ao contrário. Quanto mais imaginares, melhor.

Eu estava perdido, uma vez mais, e assombrado. Eu não era especialis­ta em Cabala. Não o conseguia acompanhar. Ao mesmo tempo, aquelas pa­lavras - "somos nós, os humanos" - me deixaram perplexo. Como Ele po­dia falar assim? Ele era humano, naturalmente, mas também era um Deus.

E decidi me desapegar daquelas reflexões. Se seguisse por esse cami­nho, eu me enroscaria.

Não quis insistir no assunto da suposta feminilidade de Deus. Ele havia deixado isso mais ou menos claro. Porém, em minha memória flutuou aquela canção, tão querida pelo Mestre, que Ele repetia quando trabalhava no estalei­ro de Nahum: "Deus é ela... Ela, a primeira heh, a que segue yod... Ela, a bela... o cálice do segredo... Pai e Mãe não são 15, e sim 9 mais 6... Ela é Deus...".

Sim, esqueci por um momento. Tinha que consultar meu irmão. Eli­seu tinha conhecimentos de Cabala. Ele me ajudaria a entender.

O Mestre sabia que eu estava confuso e soube descer ao meu nível.

Alguma pergunta?

Sorri como pude. Tinha tantas...

Não temas. É suficiente. O importante, por enquanto, é que saibas, e que saibas transmitir.

Destacou o transmitir.

Que Ele te habita.

E repetiu, ciente da importância de suas palavras:

Que saibas, e que saibas transmitir que Ele te habita.

Eu recordo, Senhor. Falaste disso: a nitzutz,[6] a "centelha" divina, a fração (?) que procede do Pai e que se instala no ser humano a partir de sua primeira decisão moral.

E recordei, com certa angústia, a cena com o Mestre, lá mesmo, em frente à caverna, incitando-me para que lhe batesse com uma das tábuas de tola branca, que se acumulavam em um canto da caverna. Jesus fingiu que era um cão e insistiu para que eu me imaginasse como uma criança com a tábua nas mãos. Eu me neguei, naturalmente.

O Mestre, ao se referir à centelha divina, utilizou a expressão nishmat hayim, ou "Espírito de origem divina". Disse que essa "vibração" era o Pai, em miniatura. Também a chamou de "presente" e "dom do fogo branco". A centelha (como a chamarei a partir de agora) é o que nos distingue. Trata-se do grande sinal de identidade dos seres humanos.

E formulei a mesma questão:

Dá-me detalhes... Que é exatamente a centelha?

O Mestre me olhou sem saber por onde começar. Foi o que intuí. E decidi lhe dar uma mão.

Recordas? Tu nos disseste no Hermon que a centelha chega quando a criança toma sua primeira decisão moral. Eu me neguei a te bater com a tábua. Foi uma decisão moral. E creio que falaste dos cinco ou seis anos. Essa é a idade na qual a centelha chega.

De repente, Ele me interrompeu.

2.134 dias, para ser exato.

Como?

A centelha, como tu a chamas, desce do Paraíso aos 2.134 dias do nascimento da criatura humana.

Ah! Compreendo.

Para dizer a verdade, nunca soube se estava brincando.

E como o Pai sabe que esse menino ou menina tomou sua primeira decisão moral?

Pareceu-me que Jesus prosseguiu com tom festivo. Ou não?

É que O avisam.

Claro. E uma vez instalada na mente da criança, o que acontece?

O Mestre ficou pensativo por alguns segundos. Por fim, desconcer­tou-me de novo:

Eu disse isso?

Sim, no Hermon, no mês de ab (agosto) do ano passado. A centelha se instala na mente humana. Não no coração, mas na mente.

Ora! Que Deus mais desmemoriado!

E piscou para mim de novo. Naquela ocasião, no topo da montanha sagrada, quando tivemos a oportunidade de assistir ao histórico momen­to da "recuperação" de sua divindade, Eliseu, quem isto escreve e o Gali­leu nos envolvemos em uma gentil discussão sobre o lugar onde a cente­lha se instala. A coisa não ficou totalmente clara. E interpretei a piscada de Jesus como uma rememoração daquele interessante momento. Aquele Homem-Deus não tinha jeito...

E então - retomei o fio principal da conversa -, o que acontece quando a centelha entra na mente do homem?

Outro prodígio, e muito mais destacado que o desta manhã.

Ele leu em meu rosto. Mais importante que a cura de Ajashdarpan?

O bondoso Deus, o Pai, tão distante para a criatura humana, aban­dona o Paraíso e se torna sócio do mais humilde e do mais primitivo de Sua criação material. Eu te disse: é o mistério dos mistérios. Nem os anjos sabem como se dá essa descida. Ele se fraciona e aparece na mente huma­na. Deus dentro de ti e como garantia de que serás eterno. A centelha é a promessa do Pai de que um dia serás imensamente feliz. Essa presença divina, tão real quanto este fogo que nos aquece, é que te empurrará constantemente a buscá-lo, a saber d'Ele, a querer ser como Ele. A centelha, uma vez em ti, acende a chama da necessidade.

Que necessidade?

A necessidade de saber quem és, por que estás na vida e o que te espera depois da morte. A necessidade e o anseio de encontrá-lo.

Deus dentro de mim! Não posso imaginar.

Jesus deixou que a revelação - porque é o que era - se assentasse em minha mente. Depois prosseguiu:

Sim, o Pai dentro de ti e não diluído.

Deus, Abba, e em estado puro.

Isso, querido malak. O Pai, fracionado, mas não condicionado. O Pai sem misturas. Deus mesmo. Tal qual. Ele e só Ele. Hut nehat.

A expressão é equivalente a "Espírito que desce" e que acaba se unin­do à criação. Assim reza o Levítico (9, 22): "Desceu."

Fiquei em silêncio; um respeitoso silêncio. Jesus de Nazaré nunca mentia. Se Ele afirmava que o Pai desce do distante Paraíso e se acomoda na mente do homem, assim é.

E me perguntei: por que essas coisas não são ensinadas pelas igrejas?

Mas o Mestre não permitiu que me distraísse. O que estava me re­velando era extremamente importante, e Ele tinha que ter certeza de que este pobre explorador o saberia transmitir.

Segundo grande prodígio, igualmente notável.

Deixou-me alguns segundos no ar, pendurado no suspense. Sorriu levemente e disse com uma segurança que ainda me assombra:

Ao se instalar dentro de ti, a presença do Pai, da centelha, provoca o nascimento de uma criatura belíssima que, pouco a pouco, muito lenta­mente, vai despertando. Essa criatura é o cálice sagrado no qual se forma­rá tua verdadeira personalidade, teu eu. Uma criatura imortal.

Eu sabia a que se referia. Jesus falava da nismah, a alma.

Invadiu-me de novo, e, ao ler meus pensamentos, seu sorriso me envolveu.

Mente mais centelha é igual a alma.

A simplificação não o desagradou. Era válida. Mas me recordou:

Aproximação à verdade, não esqueças.

Sim, Mestre. Suponho que a realidade seja muito mais fantástica.

Assentiu com a cabeça.

Mensagem recebida.

- Já falaste disso, mas dá-me mais detalhes. Como funciona a cente­lha? Qual é sua missão?

Preparar-te para a verdadeira vida. Não te confundas: preparar-te para aquela que é e será tua verdadeira realidade.

Tu te referes à vida depois da morte?

Exato. A centelha não cuida dos problemas que surgem nesta exis­tência. Ela os conhece e pode aconselhar-te sobre o particular, mas sua missão é outra: ajustar tua mente humana ao que realmente interessa, à vida que te aguarda, à vida eterna. Ou seja: ela te prepara, te dirige e tenta te mostrar teu destino final, a verdadeira vida que te espera. Ela é um pi­loto. Deus faz as coisas tão bem que muito antes de entrares na eternidade já está te preparando para isso.

Vamos ver se eu entendi. Deus vem para dentro de mim e capacita mi­nha jovem alma para que ascenda, seguindo justamente o mesmo caminho que tomou o Pai em sua descida do Paraíso. Correto?

Corretíssimo, malak.

Ele desce e eu subo.

Corretíssimo. E vai chegar o momento (não esqueças que minhas palavras são uma aproximação à verdade) em que ambos, a centelha e tu, sereis uma só criatura. Vós vos fusionareis. Deus e a alma humana imor­tal. Uma coisa só. A divinização do mais baixo e do último.

E isso, quando acontece? Nesta vida?

Pouquíssimos conseguem nesta existência. E depois da morte quando se dá o ansiado encontro: Ele (Deus) e tu, por fim.

Para sempre?

"Sempre" só existe em tua mente. No reino de meu Pai não há tem­po. Não fales, portanto, de "sempre".

Ela ajusta meu pensamento. Gosto disso.

E o molda e o dirige para o belo, para o sábio, para o misericordioso e para o serviço a teus semelhantes. Ela consegue o grande prodígio: acaba apa­gando o medo de tua mente, e tua alma começa a conhecer a paz, a verdadeira paz espiritual. É a centelha que te proporciona a tranquilidade e a segurança. Ela te mostra o caminho. Ela te faz a grande revelação: tu és filho de um Deus.

Estás falando da voz da consciência?

Não. Dificilmente chegarás a ouvir a voz da centelha. Ela se con­funde na confusão de tua mente. Às vezes sim, podes descobri-la. É como um eco distante.

Então, quase ninguém tem consciência da presença desse fragmen­to divino.

Na realidade, não foi uma pergunta, e sim uma reflexão pessoal. O Mestre, porém, a complementou:

O Pai é tão bondoso, tão respeitoso, que caminha na ponta dos pés dentro de ti. Por isso quase ninguém sabe.

Os olhos do Galileu se umedeceram.

Eis outra razão pela qual vim ao mundo: para gritar que não estais sozinhos nem abandonados. Ele reside em nós e garante a imortalidade e a felicidade futuras. Estou aqui, querido mensageiro, para despertar o mun­do. Quando chegar a hora, volta e transmite o que estou te revelando.

Procurei aliviar a emoção e me desviei do assunto capital.

Falas também da mente. O que é?

Jesus resumiu tudo em três palavras:

Uma criatura emprestada. Desaparece com a morte.

E não tive mais remédio que voltar ao assunto principal. Jesus pare­cia mais calmo.

E o que o Pai ganha instalando-se dentro dos seres humanos?

O Mestre esperava essa pergunta. E se esvaziou:

Recorda que é o mistério dos mistérios.

Sim, mas dize-me.

Jesus tornou a sorrir, feliz. Meu interesse pelo bom Deus, para que negar, fascinava-o.

Está bem. Farei o que puder. Deus, Abba, não está capacitado para o mal. Seu conhecimento das coisas é absoluto e preexistencial. Mas nada substitui a experiência direta. E isso é o que o Pai faz: desce até o mais baixo e vive, por si mesmo, cada aventura na matéria. Vive contigo (e não é uma metáfora) tuas solidões, teus erros, tuas alegrias, tuas lágrimas, tuas dúvidas, teus ódios, tuas humilhações, tuas riquezas e tuas pobrezas, tuas ansiedades, tuas doenças, tua ignorância, tua covardia ou tua coragem, tua generosidade ou teu serviço aos outros. Ele está aí, quase desde o prin­cípio, e vive contigo, em silêncio. Ele te dá de presente a imortalidade, e tu, em troca, o ajudas a experimentar diretamente.

Mas isso é um ato de humilhação!

E, querido malak. Deus, o maior, humilha-se. Deus "cresce" em direção ao homem e este "cresce" em direção ao Número Um. Ambos se beneficiam, não te parece?

Que me dizes dos animais? Também desfrutam da centelha divina?

Jesus foi categórico.

Não. Os animais podem expressar emoções, mas não são capazes de transmitir ideias nem ideais. Eles não sentem necessidade de buscar Deus, nem se fazem perguntas a respeito. A centelha é um presente do Pai, mas só para o ser humano. Os anjos, por exemplo, se pudessem sentir inveja, vos invejariam por algo assim.

O que aconteceria se o homem deixasse de receber a centelha?

O Mestre sorriu diante de minha insaciável curiosidade.

Isso não está nos planos do Pai.

Mas imagina...

A humanidade retrocederia. Da noite para o dia perderíamos a necessidade de experimentar a beleza, a generosidade e a bondade. Tudo isso foi dado ao mundo pela presença do Pai em cada um de nós. Essa é a função da nitzutz. Não compreendeste? A beleza está em ti, fisicamente, embora não tenhas consciência disso. E assim será, para "sempre".

E como faço para lhe prestar maior atenção?

Eu te disse, e me ouvirás repeti-lo uma infinidade de vezes: deixa que se faça a vontade do Pai, abandona-te em suas mãos, aninha-te na centelha. Ela fará o resto. Aceita que és um filho de Deus e que nada mu­dará essa realidade-presente. A centelha, então, trabalhará, e tu percebe­rás a mudança, pouco a pouco. O medo, como te dizia, desaparecerá. Já não te acovardarão as dificuldades, nem concederás tanta importância às angústias próprias da vida na matéria. A dor e o sofrimento chegarão, mas não te derrubarão. A velhice não te assustará. Nada poderá te ate­morizar. Serás livre, enfim. Estarás no caminho do reino.

Assim terminou aquela inesquecível conversa sobre a presença do Pai dentro do ser humano: a centelha.

Servi o jantar, e Jesus se mostrou afetuoso e feliz. Falamos de outros assuntos, mas uma ideia em minha mente permaneceu: agora, quando abro os olhos, vejo Deus, e quando os fecho, continuo vendo-o.

A chuva parou e nos retiramos para descansar.

Nunca esquecerei aquela quarta-feira, 30 de janeiro do ano 26. Ele abriu minha mente para uma realidade que sempre esteve ali.

 

Aquela quinta-feira, 31 de janeiro, amanheceu tranquila. O céu estava limpo. A es-sa ra, a chuva dócil, deu-nos uma folga.

Jesus havia desaparecido. Esse era seu costume, como já mencionei. O mais provável é que houvesse se dirigido à colina dos znun,[7] também cha­mada da "escuridão", porque, segundo os badu (beduínos), quem se arrisca­va a entrar nela "ficava às escuras", e para sempre. Como também registrei nestes diários, "ficar às escuras", para os arab, não era padecer de cegueira, e sim de loucura. Eram os znun, os diabos que habitavam o alto da colina, que provocavam essa "escuridão" ou demência. Como disse, em Beit Ids tinham um exemplo eloquente.

Eu conhecia essa colina. Já a havia visitado. Chamava-a de "778", por conta de sua altitude. Era um monte pelado, sem uma única oliveira. Os habitantes de Beit Ids não punham os pés nela. Era por isso que suas en­costas estavam improdutivas. Ninguém na região teria se atrevido a inva­dir o território dos znun.

Tomei o café da manhã e pensei em sair ao seu encontro. A "778" se erguia a cerca de dois quilômetros da caverna rumo ao nordeste. Se andasse rápido conseguiria alcançar o topo em uns 45 minutos. Não tinha pressa nenhuma. Na realidade, eu não tinha nada para fazer. Após o inci­dente com "Matador" e seu bando, dei por certo que o Mestre não voltaria a trabalhar na colheita da azeitona. E assim foi.

E nisso, percebi a tábua de tola branca que Jesus havia deixado perto da palha sobre a que dormia este explorador. Fazia parte do jogo do shelem, ou da "estátua", ao qual também me referi no momento oportuno. O Mestre, ao abandonar a caverna, escrevia algo na madeira, geralmente uma frase ou uma palavra, e quando voltava, ao entardecer, isso servia de guia para uma nova conversa.

"A pérola do sonho."

Isso foi o que Galileu escrevera. Eu pensei muito, mas não soube como interpretar aquilo. Fiquei feito uma estátua, de fato. Teria que es­perar sua volta. Aliás, ao pensar nisso, em sua volta, surgiram em minha memória outras palavras, pronunciadas na noite anterior por Jesus de Na­zaré, quando conversávamos sobre a centelha. Deixaram-me novamente impactado. Era a segunda vez que ele se referia a isso, que eu recordasse.

"Estou aqui, querido mensageiro, para despertar o mundo. Quando chegar a hora, volta e transmite o que estou te revelando."

Por que o Mestre falou no singular? Por que disse "volta"? Por que não falou no plural? Éramos dois...

E aí ficou a advertência. E eu acabei esquecendo-a.

Não precisei continuar hesitando. O Destino, efetivamente, tem tudo escrito.

Quando ia sair da caverna e rumar para a "778", apareceu o escravo negro de Yafé, sheik de Beit Ids. Yafé, o belo, estava me chamando.

Quando apareci na nuqrah, o lar do sheik, descobri uma notável ativida­de. Em frente ao casarão, as mulheres se ocupavam na montagem de uma bait sharar, uma tenda, ou "casa de pelo". Animavam umas às outras para estender as saqqah, pedaços de pele de cabra, e para levantar os postes e firmar as cor­das. Yafé queria obsequiar o Príncipe Yuy (o Mestre) com uma ceia. Eu devia transmitir o convite. Yafé não foi muito explícito. E deduzi que o gentil gesto podia ter sido motivado pela cura do menino mestiço. Sim e não.

A questão é que o sheik preparou tudo como se se tratasse de um convidado ilustre. Ele nunca soube até que ponto acertou.

A tenda, toda ela branca, foi borrifada com água. Os beduínos ti­nham esse sábio costume. Ao ser molhada, a lã incha e fica mais fechada. Era uma excelente proteção contra a chuva.

Em pouco tempo tudo estava pronto. A tenda, muito espaçosa, foi di­vidida em duas partes: al shigg (o lado dos homens) e al mahram (a seção das mulheres). Os dois compartimentos foram separados por uma cortina de cores vivas, tecida também pelas mulheres do sheik; chamavam-na de sahah. O primeiro habitáculo, o dos homens, era mais amplo e confortável. Em um dos cantos, perto da porta, destacava-se um lenço verme­lho amarrado a um dos postes de madeira, chamado raffah. Era um pano obrigatório em qualquer refeição importante. Era com ela que os hóspe­des se limpavam depois de cada prato e ao fim da refeição. Que alguém não o fizesse era considerado uma descortesia, ou sinal de que o banquete não havia sido de seu agrado. O chão foi coberto com esteiras de palma e sobre elas colocaram um bom número de sacos que continham trigo e tâmaras. Os sacos, por sua vez, foram cobertos com tapetes. As mulheres os chamavam pelo nome. Cada tapete, como os postes de madeira ou as cordas, recebia um nome. Recordo alguns: saggad, besal, maanek e labbad agoumieh, entre outros. Do lado das mulheres, colocaram o necessário para a preparação da ceia: panelas para a carne; vasilhas para amassar a fa­rinha; recipientes para a água; pratos de couro; o laqen, a grande travessa de metal, sempre funda, que servia para a comida comunitária; os hatais, uns curiosos pratos de madeira pintados com a boca; as pinças para mani­pular as brasas, e outros utensílios que não consegui identificar.

Em uma dessas inspeções encontrei uma velha amiga: Nasrah, a pri­meira esposa do sheik, afaqireh ou feiticeira do clã de Beit Ids. Ela me olhou com desconfiança. Tinha a mesma aparência grosseira: o rosto maquiado de verde, um grande nezem, ou brinco de prata que perfurava seu nariz, e aquele thob’ob, uma peça de lã preta que ela enrolava no magro e mínimo corpo.

Eu sabia. Tinha que ter cuidado com a "gritona" (esse era o significa­do de Nasrah). Eu não gostava daquela bruxa. E não me enganei.

Ouvi-a falar com as demais mulheres. Dava ordens sem parar. E pa­recia não dar importância ao incidente do dia anterior. Pelo que pude ouvir e deduzir, a faqireh não gostava da presença de Jesus, e muito menos do fato de ele ter obrado um prodígio no local que ela considerava seu território. A notícia da milagrosa cura de Ajashdarpan, de fato, havia se espalhado por toda a região. Aquilo - pensei - só podia criar problemas.

Quase não conversei com o sheik. Quando ficou tudo pronto, sentou- -se dentro da tenda, recostado nos sacos de grãos. As mulheres cuidaram da limpeza de seu cabelo e das unhas de mãos e pés.

Compreendi. O sheik queria causar a melhor impressão.

E voltei à caverna da chave. Lá, esperei a chegada do Mestre.

Jesus ficou encantado. Não era conveniente fazer desfeita a nosso ge­neroso anfitrião. Uma boa comida, e quente, não cairia mal. Esse foi nosso principal pensamento. Pelo menos o meu.

E no ocaso, com o bosque de amendoeiras tingido de vermelho, fo­mos para o povoado.

Yafé estava à porta da tenda, esperando. Vestia uma longa e imacula­da dishasha (uma espécie de túnica), toda de seda. Inclinou-se levemente e deixou seus negros e brilhantes cabelos balançarem. Seus cílios estavam pintados com um azul metálico. No cinto levava seu inseparável khanja, símbolo da virilidade para os badu: uma adaga curva, muito larga, com empunhadura de ouro.

E os escravos deram início ao ritual. Ofereceram água para lavarmos as mãos, especialmente a direita, e suplicaram que tirássemos os calçados.

No lado dos homens, aguardava um grande grupo de filhos, netos e outros parentes de Yafé. Todos, um por um, cumprimentaram o Príncipe Yuy e quem isto escreve. Calculei cerca de 30 pessoas. Na seção de mu­lheres ouviam-se os cochichos e percebia-se o vaivém dos últimos prepa­rativos da ceia. Algumas mocinhas olhavam furtivamente pela cortina e sorriam maliciosas. Era parte do ritual.

Yafé deu a ordem, e os escravos passaram à cerimônia da imolação, também conhecida como dabihet ed-deif. Colocaram um cordeiro em fren­te à tenda e, após invocar o favor de Sahar e de Sami, "os únicos deuses arab que ouvem", degolaram-no. Vi o Mestre empalidecer. A seguir, parte do san­gue foi vertida sobre um denso galho de louro. Yafé pegou as folhas, deu alguns passos em direção ao olival e espalhou o sangue no ar. Depois, voltou para dentro da tenda. A dabihet era um rito obrigatório na sagrada cerimô­nia da dorah, a hospitalidade, mas só estava ao alcance dos poderosos.

Acenderam-se as lamparinas de óleo, e os escravos colocaram três gran­des laqen, ou travessas de cobre, no chão da tenda. Continham parte do menu.

Jesus continuava sério. Deduzi que a imolação do cordeiro não fora de seu agrado.

As travessas de metal, fumegantes, traziam uma abundante porção de codornas com uvas, temperadas com canela em pó, suco de gengibre, sal e pimenta em abundância.

Yafé cuidou pessoalmente da distribuição dos comensais perto das apetitosas travessas. Foi acomodando um a um. Reclinou-se em um dos sacos, e o Mestre, a convite do sheik, fez o mesmo, a sua direita. Eu me sentei à esquerda do belo. Para dizer a verdade, estava faminto. Além do mais, a comida parecia ótima. Alegrei-me pelo Mestre. Finalmente pode­ria jantar decentemente.

E esperamos. Esse era o costume.

Foi Yafé quem autorizou o início da ceia, após agradecer os favores da brilhante estrela da manhã, da welieh da fonte e de outras 50 divindades árabes. Permanecemos em um respeitoso silêncio. A seguir, a um gesto do sheik, todos os presentes atacaram suas respectivas bandejas, utilizando sempre os dedos polegar, indicador e médio da mão direita para pegar o alimento. Era assombroso. Cada convidado tinha especial cuidado para não coincidir com o restante na hora de levar a mão às codornas. Dava azar, diziam. E quem isto escreve se esforçou para não cometer uma gafe. Para Jesus, aquilo era divertido.

A refeição era algo tão especial para os badu que ninguém falava. De minha parte, agradeci. Já era bastante o jogo de não coincidir com o movimento de mãos dos demais comensais.

As codornas estavam saborosas. E notei que Jesus ia recuperando a força.

Yafé, segundo o costume, não comeu. Ficou atento para que nada faltasse. As mulheres também não comeram. O papel delas era espiar e rir.

De vez em quando, os escravos iam até Jesus, e até este aturdido ex­plorador, e ofereciam água e um lenço. Limpávamos a mão direita e con­tinuávamos a comer, em silêncio. Ninguém se atrevia a falar. Os demais convidados (não considerados especiais) tinham que se levantar e ir até a porta, limpando as mãos no raffah, o lenço vermelho próprio para isso. Quanto mais sujo - diziam os badu -, mais generosidade e poderio por parte do anfitrião.

Passados alguns minutos, satisfeita a fome, teve início a rodada de arrotos. Foi difícil me acostumar. Os convidados, tentando não desmere­cer a "gentileza", começaram a expelir os gases, sem o menor pudor. Era a melhor demonstração de agradecimento que podiam dar. A cada arroto, o sheik correspondia com uma leve inclinação de cabeça e agradecia. E todos felizes. Em especial as mulheres, que replicavam, a cada arroto, com risos. Também Jesus se viu obrigado a praticar aquela forma de "cortesia" para com o anfitrião. Quanto a mim, na verdade, consegui mais ou me­nos. Mas o sheik não me levou em conta. Sabia que eu era um barrani, um estrangeiro.

Restou alguma coisa nas travessas de metal. Os beduínos tinham por costume não esvaziar os pratos. Se sobrasse, o anfitrião distribuía os res­tos entre os mais pobres e necessitados do lugar. Os escravos retiraram os laqen e voltaram com mais três travessas de cobre cheias de carne de vaca com favas e uma verdura parecida com o espinafre. Chamavam-na de lahma bi foul ahdar wa sabanekh, ou algo assim. A carne estava cortada em pequenos cubos, com a inevitável e abundante pimenta. A cebola, o sal e um fruto que me fez recordar a lima arrematavam o delicioso manjar.

E repetiu-se a sequência dos três dedos.

Nisso, enquanto dávamos conta da carne, apareceu na tenda um indivíduo de cabelo branco. Era um ancião, e só lhe restavam os ossos. Aguardou em pé, em frente à "mesa" do sheik. Portava nas mãos um pe­queno "violino" (?) de uma corda só e o correspondente arco.

Yafé o incitou a tocar, e assim foi feito. E o lugar se encheu de um som doce e ondulado, entre a tristeza e a poesia. Ninguém respirou. Ayed - essa era sua graça - era um grande músico. Tocava seu rabab, seu violino, onde o requisitassem, por um punhado de sal ou de comida. Jesus acompanhou os lamentos do violino com verdadeiro interesse. E o vi transportar-se, mas não pude penetrar seus pensamentos.

A música nos acompanhou o resto da ceia, até que retiraram as ban­dejas e apareceram o chá e o kafia, aquela espécie de café procedente dos montes de Sidamo, Gamud e Dulla, na atual Etiópia.

Ao fim de cada melodia, os badu, em vez de aplaudir, inclinavam a cabeça em sinal de reconhecimento. E o ancião prosseguia, sempre grave e concentrado.

A sobremesa me deixou igualmente perplexo. Yafé havia se esme­rado. Os escravos mostraram aos comensais uma travessa com uma m’hencha, uma serpente confeccionada com uma deliciosa massa assada que chamavam de ouarka, mistura de farinha, ovos, amêndoas moídas, canela, mel, manteiga e água de flor de laranjeira.

Os olhos de Jesus se iluminaram.

Eu comi duas vezes.

Ao chegar o chá, a situação mudou. O músico se retirou a um canto e esperou as ordens do sheik. Era a hora das conversas.

O Mestre escolheu o chá. Tratava-se de uma infusão com essência de ismim. Eu me inclinei pelo kafia, mais forte. Alguma coisa me preveniu. Devia me manter atento.

De início, os comensais falaram de assuntos mais ou menos amenos: a situação do gado, a colheita da azeitona, quase concluída, e os últimos rilecimentos da região. Mas todo mundo observava o chamado Príncipe Yuy. A verdade é que estavam lá por pura curiosidade. E murmuravam: "Será esse o autor do prodígio?".

Jesus também ouviu os comentários, mas não disse nada. Ficou mudo, bebendo de sua pequena xícara de chá.

Imagino que Yafé, o sheik, ardia de desejos de formular a pergunta que corria de convidado em convidado, mas, cortês, esperou.

E vencida a terceira xícara de chá, como ditava o costume, um dos comensais ergueu a voz e interrogou diretamente o hóspede principal. Fez-se silêncio. Chegara o grande momento.

O Mestre não respondeu e continuou sério. Parecia meditar a resposta.

Mas o Galileu não teve opção. Não chegou a responder. Outros comensais, ansiosos, intervieram com seus comentários, enroscando-se, por sua vez, em uma acre polêmica. O sheik não podia acreditar no que estava acontecendo. Alguns repudiaram a opinião dos primei­ros. Não foram os "macacos", ou "os que atiçam fogo" (circunlóquios utilizados para evitar o nome dos znun) que curaram o menino mes­tiço. Foram os wely, os espíritos benéficos, que provavelmente - foi o que disseram - se apiedaram de Ajashdarpan. Outros, inclusive, invocaram os nomes de Kabar, o planeta Vênus, e dos ba’al, os prote­tores do lar.

A situação começou a se complicar. Ninguém dava o braço a torcer. Jesus, impassível, ouvia todas as versões.

Por fim, o sheik, erguendo as mãos, restituiu a ordem à tenda. To­dos se calaram.

Ao fundo, por um vão na cortina colorida, vi o rosto verde da faqireh. Sorria maliciosamente.

- Qual é tua opinião, Yuy? Foram aqueles que habitam o monte da escuridão que...? Ou acreditas que...?

Jesus conhecia o jeito de falar do sheik, sem terminar as frases. Diri­giu um olhar aos presentes e, ao notar a expectativa, sorriu levemente. O que estavam propondo?

E o Mestre, sempre em arab, explicou quem era o "sheik das Estrelas", de quem eu já havia falado com Yafé. Os convidados, perplexos, não se atreveram a interromper.

Jesus explicou que o Pai era o único Deus. D'Ele procedia sua força. Ele, o Príncipe Yuy, era seu enviado. Viera à Terra para trazer a luz e ven­cer o medo.

E disse mais.

Devo reconhecer que o Mestre era valente.

Referindo-se aos espíritos maléficos, aos znutt, esclareceu, cate­górico, que não existiam. Ou melhor: que Ele acabara de derrotá-los. Não tinham mais nada a temer. Podiam subir à colina da escuridão quando quisessem.

As afirmações do Mestre deixaram os presentes de boca aberta. Mas foi por pouco tempo. Quando os convidados compreenderam, simples­mente explodiram. Primeiro foi um murmúrio generalizado de desapro­vação. Depois, gesticularam e gritaram entre si. Por fim, dirigindo-se a Jesus, insultaram-no.

O sheik empalideceu e tentou pôr ordem no recinto mais uma vez.

Foi inútil.

O clamor dos badu e os protestos foram crescendo.

"Como se atrevia a duvidar dos znun? Quem era aquele homem para se considerar enviado dos céus?"

O volume dos gritos aumentou.

Jesus continuava impassível, com rosto grave.

Bendito Deus! Que eu recordasse, aquela era a primeira vez que o Mestre falava em público. Algo histórico e jamais registrado pelos evan­gelistas. E também foi a primeira vez que colheu um estrepitoso fracasso.

O sheik, a duras penas, erguendo a voz acima de seus parentes e ami­gos, solicitou bom-senso e respeito aos convidados. Ninguém obedeceu.

"Quem era aquele barrani para se considerar à altura dos deuses?"

Jesus ouviu a envenenada pergunta e ergueu a mão esquerda.

Foi instantâneo. As vozes cessaram e todos aguardaram a palavra de Yuy.

O Mestre, então, com voz firme, ratificou o que disse e foi além: os deuses, tal como eles os entendiam, eram pura invenção. Só o Pai, o sheik das Estrelas, era uma realidade física. Ele, o Príncipe Yuy, havia se limita­do a cumprir a vontade do único Deus.

 

- Isso - concluiu Jesus, lançando mão da filosofia dos badu - é as sime.[8] Vós, se houvessem conhecido o Pai, teríeis feito o mesmo.

Mas alguém, indignado, interrompeu-o:

Blasfemo! Como te atreves a negar a existência dos deuses?

E o tumulto explodiu de novo.

O sheik pediu paz e recordou que, enfim, estavam ali para celebrar uma husna (uma boa obra).

Ninguém ouviu as conciliadoras palavras do sheik de Beit Ids.

O Mestre, resignado, fez silêncio. E respondeu aos insultos baixando os olhos.

Meu Deus! Eu havia assistido (ou melhor, assistiria no futuro) a uma cena parecida, quando os judeus arremeteram contra o Mestre, na manhã de 7 de abril do ano 30, em um dos pátios da fortaleza Antônia, em Jerusalém.

Parecia um aviso do Destino.

Sharwaya! Sharwaya!

E os convidados gritaram em coro um dos piores insultos dos badu. Sharwaya eram todos aqueles que não eram árabes e que, supunham, se dedicavam à criação de ovelhas. Os nobres e os verdadeiros beduínos - diziam - não trabalhavam nessas tarefas.

E o escândalo, longe de amainar, encheu a tenda e os arredores. Os escravos e as mulheres abandonaram suas posições e surgiram à porta da casa de pelo. Estavam desconcertados. Eu, mais que todos. O que podia acontecer? Passariam dos insultos e gritos às mãos? Pensei na "vara de Moisés". Nem sequer estava ao meu alcance.

E aconteceu o menos pior.

Alguns comensais se levantaram e abandonaram a tenda, indigna­dos. Outros, depois de chutar as chaleiras, foram atrás deles, cuspindo ao passar pelo Mestre.

Yafé se levantou e tentou convencer seus convidados a manter a com­postura. Ninguém obedeceu. E em pouco tempo ficaram na tenda só o Mestre, o Sheik, quem isto escreve e o músico, imóvel em seu canto.

O silêncio voltou, felizmente, e Yafé se desculpou pela enésima vez:

Eu te suplico que os perdoes porque...

Jesus o abraçou com um de seus doces sorrisos e amenizou a situação.

São al-arab...

Yafé, ao utilizar a expressão al-arab, quis dizer que seu povo era as­sim: gente que fala claramente.

Jesus aceitou as desculpas e ameaçou se levantar, com o claro pro­pósito de se despedir do bom e confuso sheik. Mas o belo não permitiu. Tornou a se acomodar ao lado do Galileu e chamou o velho do violino. Ele rapidamente se postou em frente a nós e começou uma nova melodia.

A situação era embaraçosa. Não sei o que mais o sheik pretendia.

Não demorei a descobrir.

Yafé, adoçando as palavras, sempre inconclusas, fez uma proposta a Jesus. Essa era a segunda grande razão que o havia levado a organizar a ceia.

Soube - comentou - que és um excelente carpinteiro naval e que construíste...

O Mestre, adivinhando, dirigiu-me um olhar. Corei. Mas ele con­tinuou atento às meias frases do sheik. Tempos atrás, como já relatei, eu havia informado o sheik da habilidade do Mestre para construir embarca­ções. Yafé não esqueceu e prosseguiu com sua proposta. Queria que tor­nasse seu grande sonho realidade: o barco-templo em homenagem a seu amor, o mar. E relatou, à sua maneira, as tentativas anteriores de construído em uma das colinas de Beit Ids. O projeto não prosperou, e parte da estrutura acabou indo parar na caverna da chave. Essa era a madeira de tola branca na qual Jesus escrevia e que sempre acabava no fogo. O frus­trado barco-templo tinha um nome: Faq ("Despertar").

E repetiu o que me havia dito:

Nenhum naggar (carpinteiro naval) acreditou em meu sonho por­que dizem...

Talvez não tenhas encontrado o naggar adequado - replicou o Galileu.

Fiquei estupefato. Essa foi a resposta que dei ao belo naquela "con­versa". Como Ele podia saber?

Yafé mudou de expressão. Seu rosto se iluminou e seus incríveis olhos verdes cintilaram.

Estás dizendo que aceitas, e que, além de tudo...

Jesus sorriu abertamente, com agrado. Yafé e eu não podíamos acreditar.

Aceito - concluiu o Mestre. - Com uma condição.

Seja qual for; além do mais...

O Filho do Homem pediu calma. E o músico, como se adivinhasse, foi baixando a melodia muito lentamente.

Construirei teu "Despertar" - prosseguiu o Mestre - desde que a notícia da cura da criança não se espalhe.

O sheik aceitou sem demora.

Eu te pagarei. Eu te pagarei, e, além de tudo...

Levantou-se de novo. Andou em direção à cortina que dividia a ten­da e chamou alguém.

Quando as vi, fiquei sem fôlego. Imaginei algo.

Eram as gêmeas, que eu havia visto em diversas oportunidades. Como se pode recordar, ambas fizeram fugir vários membros do bando dos dur-dar ("os que se viravam e mostravam o traseiro") quando inco­modavam o Mestre no meio do rio que corria em frente à caverna. Eram netas do sheik. Desta vez vestiam seus thob, ou túnicas, de cor clara e se adornavam com cinco colares de conchas cada uma. Os olhos, escuros como a noite, pareciam perdidos. Olharam para nós sem enxergar. Estavam belíssimas, como sempre. Uma, se não me recordava mal, chamava-se Endaiá, ou "cheia de orvalho". A outra, idêntica, respondia à graça de Masi-n’ass, que poderia ser traduzido como "a porta dos felizes sonhos".

Tremi.

Jesus fez silêncio e esperou uma explicação. Estava muito claro...

Não me enganei.

Yafé fez um detalhado e enfático elogio às garotas (creio que não tinham mais de 15 anos) e, finalmente, tomando uma delas pela mão, fez que desse um passo adiante. Mostrou-a a Jesus e lha ofereceu como esposa.

Fiquei sem fôlego.

Depois, fez o mesmo com a segunda e repetiu a oferta, incitando-me a aceitar o "presente".

Para os badu, aquele era um costume relativamente habitual. Não era necessário o consentimento das mulheres para que fossem entregues em matrimônio. De fato, quase nunca ocorria a aceitação prévia da noiva. Os pais e demais familiares negociavam o mohar (o dote), que ficava a cargo da família do noivo, e fechava-se o acordo com a entrega do dinheiro ou dos animais e bens combinados. Às vezes se assinava um contrato, mas isso também não era imprescindível. A palavra de um badu era sagrada.

Jesus, então, se levantou. Colocou as mãos nos ombros do sheik e agradeceu o gesto; mas suave e delicadamente, sabendo que a rejeição da gêmea melindraria o sheik, explicou-lhe que não podia aceitar a garota. Seu trabalho - disse - era revelar a existência do Pai, e isso era prioritário. Construiria o barco, como prometera, mas isso seria tudo. E agradeceu a hospitalidade e seu bom coração.

E dando meia-volta, afastou-se da tenda. Eu o vi desaparecer na es­curidão da noite.

Yafé não teve tempo de reagir. O músico continuou tocando. Quanto a este confuso explorador, não lembro bem o que argumentei, mas aban­donei a presença do belo na mesma velocidade.

Dado o forte caráter das gêmeas, entendo que foi o melhor que pude fazer.

Quando cheguei à caverna, o Mestre tentava acender o fogo. Não falamos nada. Na verdade, tudo estava dito, ou quase tudo. Perguntei se queria tomar alguma coisa. Negou com a cabeça. E me sentei em frente a Ele, como tinha por costume. Durante um tempo, fiquei observando-o. Parecia triste. Não me atreveria a dizer preocupado. E recordei o ocorrido na tenda de Yafé.

Não pude evitar aquele pensamento: o Filho do Homem era um ser maravilhoso, mas condenado ao fracasso.

Jesus levantou o rosto e me olhou intensamente. Sabia o que eu esta­va pensando. E sustentei aquela idéia.

Ele, a sua maneira, me deu razão. Não disse nada. Baixou de novo o rosto e continuou pensativo. O fogo e eu tentamos consolá-lo. Cada um como pôde. As chamas jogaram reflexos nos cabelos d'Ele, e eu o acariciei com a mente. Teria dado minha vida por aquele Homem.

Por fim, não sei se para tirá-lo daquele poço, eu me atrevi a pergun­tar. Sabia a resposta, em parte, mas isso não me importou. Queria que emergisse, que fosse o de sempre.

E questionei diretamente o assunto da gêmea. Por que a havia rejeita­do? Ele também tinha direito a ter uma esposa, uma companhia.

Jesus captou minha boa intenção e aceitou voltar à realidade. Isso foi suficiente.

E lenta e tranquilamente, expôs o que este explorador já sabia. Tam­bém falamos disso no Hermon. Não era aconselhável que Jesus de Na­zaré deixasse descendência nem escritos permanentes. Isso teria provocado inúmeras controvérsias entre seus seguidores. Assim lhe recomendara Emanuel, seu irmão maior no reino.

Emanuel? Não sabia de quem estava falando e perdi a oportunidade ie perguntar. Foram tantos os temas que caíram no esquecimento...

Finalizada a exposição, Jesus voltou a ler meus pensamentos. Eu o ouvira com atenção e concordava com boa parte do dito, mas aquela dúvida continuava me intrigando: ele era ou não partidário do casamento?

O Mestre recuperou a força. Voltava a ser o de sempre. Sorriu e res­pondeu assim:

Como podes duvidar? O casamento não foi inventado pelo ho­mem. O casamento é uma opção legítima, à qual eu tenho direito.

Deixou-me perplexo.

Mas sempre me submeterei à vontade do Pai. Eu poderia ter optado relo caminho do casamento, e isso não teria obscurecido meu trabalho, mas decidi ouvir os que sabem mais que eu.

O casamento não foi inventado pelo homem?

O Mestre compreendeu minha surpresa.

Não, querido mensageiro, como tantas outras coisas.

E foi diretamente ao importante:

Não te enganes. Mesmo não sendo uma criação do homem, o casa­mento não tem caráter sagrado.

Intuí por que dizia isso.

Foi o homem que, uma vez mais, colocou Deus em seus assuntos. O casamento é um acordo entre duas partes. E deve ser formalizado com base no amor.

Deixou o silêncio rolar, e eu absorvi suas palavras.

Mas, insisto, isso não o torna divino.

Então, se for rompido...

Não misture Deus nos negócios puramente materiais. Ele existe para coisas mais importantes. Se o casamento fosse sagrado, querido malak, seria na matéria e também no reino espiritual de meu Pai. Lá, po­rém, não existe casamento tal como vós o interpretais na Terra.

Mensagem recebida.

Estávamos cansados. E de mútuo acordo, adiamos a conversa sobre a pérola do sonho" para outra oportunidade.

O Galileu saiu da caverna. Supus que quisesse urinar. Depois, voltou e se acomodou sobre a palha que nos servia de leito. Logo dormia calma e profundamente.

Eu fiquei em frente ao fogo, ruminando as recentes palavras do Mestre sobre o caráter não sagrado do casamento. Nunca havia pensado nisso sob esse ponto de vista. As igrejas, de fato, não têm razão, e, o que é pior, arrastam seus seguidores para um mar de confusão e de angústias desnecessárias.

Então, apareceu diante de mim.

Brilhava timidamente.

Estava entre meus pés, ao alcance da mão, meio sepultado na terra da caverna.

Peguei-o com curiosidade. Observei-o e fiquei maravilhado.

Não o havia visto até esse momento.

Dirigi o olhar para Jesus. Era assombroso!

Aos meus pés apareceu um cravo de ferro, novo e reluzente, habilmen­te martelado em forma de "J". Passei-o por entre meus dedos e deduzi que fazia parte de alguma coisa. Talvez fosse um dos cravos inseridos na viga de carvalho que cruzava a caverna. Talvez houvesse caído. Não sabia naquele momento. E, de repente, recordei algo... O sonho! Foi durante uma de minhas estadias em Salem, a aldeia onde conheci o velho e sábio Abba Saul, ao passear pelo chamado "lugar do príncipe", quando adormeci em meio às ruínas de uma fortaleza supostamente erguida por Malki Sedeq (ou Melquisedec), o príncipe que, ao que tudo indica, ensinou Abraão. Nesse cochilo tive um es­tranho sonho: um homem de cabelos brancos e longos até a cintura, com uma túnica de seda branco gelo, aproximou-se de quem isto escreve e sussurrou-lhe palavras de luz. No peito tinha um emblema que me pareceu familiar: três círculos concêntricos, bordados em azul. E o homem falou com "palavras luminosas": "Eu sou o verdadeiro precursor do Filho do Homem".

Bar Nasa... Filho do Homem...

Por último, antes que acordasse, o homem dos três círculos afirmou:

"Quando chegar o momento, busca a teus pés. Então, compreenderás que isto não é sonho."

Fiquei desconcertado. Era a segunda vez que encontrava algo aos meus pés. A primeira, como já relatei, aconteceu no estaleiro de Nahum, no quarto secreto de Yu, o chinês. Naquela ocasião, encontrei entre meus pés um pequeno disco de jade preto, o "beijo interior". Segundo Yu, en­contrar um jade preto era uma bênção especialíssima dos deuses.

Querida Mach...

A qual dos dois achados se referia o sonho?

E, esgotado, abandonei o misterioso assunto. Esqueci o cravo e fui dormir. Pouco depois já estava profundamente adormecido. Mas aconteceu algo estranho, difícil de explicar. Eu o atribuí ao fato recente de ter encontrado um cravo com uma forma tão curiosa.

A questão é que nessa noite tive outro sonho. Mais ou menos, isto é o que recordo:

Eu estava do lado de fora da caverna. Era dia. Eu era um simples espectador. Não fazia parte da ação. Chegaram várias pessoas. Vestiam-se como no século XX. Estavam procurando alguma coisa. Entraram na caverna. Depois, saíram. Reparei bem em cada um deles. Havia quatro árabes. Os demais eram europeus. Eu conhecia um dos europeus. Anos lepois de nossas aventuras no Israel de Jesus de Nazaré, tive oportunidade ir conversar com ele. Nós estávamos em Yucatán. Eu, naquele momento do sonho, não o conhecia ainda. Falavam e discutiam. Então, a pessoa a quem eu conhecia entrou de novo na gruta e ficou sozinha, sentada em uma das pedras. Parecia preocupada. Foi naquele momento que vi aquilo. No céu, surgiu uma pequena cruz vermelha. Voou por sobre a cabeça dos que discutiam e pousou em uma chapa de metal situada à esquerda da caverna. Ninguém viu a cruz. Eu me aproximei e verifiquei que, de fato, se tratava de uma cruz vermelha. Era como se alguém houvesse acabado de pintá-la na citada chapa metálica. Uma chapa que cobria e protegia o manancial que havia perto da caverna. Por último, no sonho, também vi aparecer um cravo de ferro. Era o que eu havia desenterrado essa noite! Tinha a mesma forma, como um "J". Voou da mesma maneira sobre os ali presentes, mas ninguém notou sua presença. Minto: a única mulher do grupo ergueu a cabeça, como se percebesse algo. E o cravo em forma de T acabou se perdendo na boca da caverna. E ali desapareceu.

Curiosamente, o nome de batismo do homem que entrou na caver­na, aquele que eu conhecia e a quem acabaria entregando meu legado, começava com "J".

O sonho acabou aí. Nunca soube o significado dele, mas fica registrado (Em 2 de outubro de 1997, seguindo as pistas fornecidas pelo Major, cheguei à caverna da chave, acompanhado por um guia e vários arqueólogos jordânios. Nessa viagem me acom­panhavam Blanca, minha mulher, e Iván, meu filho mais velho. E foi nessa visita à tal caver­na perto de Beit Ids que encontrei um cravo em forma de "J" enterrado na esponjosa terra que cobria o piso da caverna. O cravo tinha 2 mil anos. O Major não podia saber dessa visita porque faleceu muito antes, em agosto de 1981. Para mais informação: Planeta encantado: El mensaje enterrado. (N. de J. J. Benitez.).

 

                   Quarta semana em Beit Ids

Naquela quarta semana de permanência nas proximidades da aldeia de Beit Ids, ao leste do rio Jordão, testemunhei um acontecimento digno de destaque. Ou melhor, dois.

O primeiro aconteceu quatro dias depois do acordo entre Jesus e o sheik para a construção do barco-templo. Yafé - não sei como conseguiu - juntou madeira, reuniu um grupo de trabalhadores (todos judeus) e preparou a infra-estrutura mínima necessária para tocar o ansiado projeto. O lugar escolhido foi a cota 575, em uma clareira existente entre o povoado e a caverna. O simulacro de mézah (estaleiro) reunia o básico para a tarefa: — um pequeno fosso, dois depósitos de lenha, um defumadouro, um depósito para as ferramentas, tintas e demais materiais, e a obrigatória serraria. O Mestre dirigiu as operações, encantado. Yafé, por sua vez, recuperou o otimismo, e aparecia, pontual, assim que amanhecia. A conselho do Mestre o sheik mandou chamar dois dos melhores naggar, ou carpinteiros navais, do yam (mar de Tiberíades). Não houve problemas. Yafé pagava, e de maneira esplêndida. Eu não os conhecia. Eram do sul do yam, da região de Taríquia. O belo queria o melhor para seu "templo" e conseguiu excelente carregamento de ciprestes de Sanir e de azinheiras de Basan, ambas cantadas pelo profeta Ezequiel. A primeira era excelente para as quilhas e a segunda, para os remos e o madeirame em geral. Um terceiro carregamento de pinheiro chegaria dias depois. Quanto ao buxo, incrustado de marfim (pura fantasia do sheik), jamais chegou a Beit Ids, como era de esperar.

Jesus traçou os desenhos básicos e calculou as medidas. Faq, o barco-templo, teria oito metros de comprimento. Yafé se deu por satisfeito.

E na quarta-feira, 6 de fevereiro, ao amanhecer, teve início a construção de um barco que não navegaria jamais. Os olhos de Yafé se encheram de lágrimas.

O Galileu se entregou à tarefa com absoluta dedicação, como era habitual n'Ele.

À sexta hora (meio-dia), de acordo com o combinado com o sheik, Jesus de Nazaré abandonava o estaleiro e um dos naggar o substituía na direção e na construção do barco. Jesus, então, dirigia-se sozinho à colina da "escuridão" e lá permanecia, em comunicação com seu Pai, até pouco antes do ocaso. Yafé sempre respeitou o acordado. Abba, o sheik das Es­trelas, tinha prioridade absoluta.

Eu o via se afastar rumo à "778" e continuava com minhas tinturas. Era uma forma de distração que não desperdicei. Ao entardecer, como era habitual, eu preparava tudo para o jantar.

O segundo caso digno de menção teve origem dias antes, no decor­rer da tumultuada ceia na tenda de peles de cabra do sheik. Lá começou o mal-estar entre os moradores de Beit Ids. Mas foi na citada quarta-feira, 6 de fevereiro desse ano 26 de nossa era, que me dei conta da gravidade do assunto. Nesse dia, houve um eclipse parcial do sol. Segundo os dados registrados no "berço", 73 por cento do disco solar foi coberto pela lua às nove da manhã. O acontecimento fez parar o trabalho no estaleiro e provocou pânico na gente de Beit Ids. Jesus simplesmente se limitou a contemplar o fenômeno astronômico. Pouco tempo depois, uma vez restabelecida a normalidade, chegou um grande grupo de moradores. A faqireh marchava à frente. Aquilo não me agradou.

Falaram com Yafé e eu os vi discutir. Por fim, o grupo deu meia-volta e se afastou. Quando perguntei, o sheik baixou a cabeça e concordou em explicar o ocorrido, desde que eu não contasse ao Mestre. Eu não disse nem sim nem não. E o sheik, resignado, sabendo que a notícia acabaria chegando aos ouvidos de Jesus, anunciou que o povo, à vista do ocorrido no céu, havia exigido que Yuy abandonasse a caverna e se afastasse da re­gião. Compreendi. O eclipse foi tomado como um sinal de mau augúrio e como resultado das "blasfêmias" do Galileu. Estava claro. Os badu, com a bruxa à frente, exigiam que Jesus e quem isto escreve fossem embora dali.

Yafé tentou acalmá-los. Foi inútil. E ameaçaram com represálias se suas exigências não fossem atendidas.

O sheik, desarmado, sentou-se novamente em frente ao fosso e ficou contemplando o trabalho de Jesus e de seu grupo.

Foi um aviso.

A partir desse dia, a atmosfera em Beit Ids continuou ficando pesada. Contribuiu para isso - e não pouco - a chegada de gente de toda a comar­ca. A notícia da milagrosa cura do menino mestiço continuou correndo de boca em boca. Era inevitável. E desfilou por Beit Ids um variado grupo de pessoas de todas as classes e condições. Todas queriam conhecer o faqir, ou feiticeiro, que havia obrado aquele milagre. Chegaram lesados, doentes de diferentes naturezas, aproveitadores, vendedores ambulantes, curiosos e desocupados.

Vi com clareza. Aquilo foi um anúncio do que estava por chegar. A vida de pregação de Jesus de Nazaré não havia começado ainda, pelo menos não oficialmente, mas o Destino já desenhava a paisagem que o aguardava.

As pessoas, informadas pelos moradores da aldeia, acabavam desembocando nos arredores do estaleiro. E o trabalho dos operários começou a se complicar. Haviam chegado de longe e queriam, desejavam, necessitavam ver e falar com tão poderoso faqir. A situação ficou tão tensa que em mais de uma oportunidade o Mestre teve necessidade de fugir do improvisado mézah.

Yafé, o sheik, não sabia o que fazer. E por recomendação de um dos maggar, estabeleceu um cordão de segurança perto do improvisado estaleiro. Foram outros badu, contratados nas aldeias próximas, que assumiram a vigilância para que ninguém se aproximasse de Jesus e de seus operários. Eram homens armados com longos sabres curvos e maças de espinhos de ferro.

O sheik, como tinha por costume, sentava-se perto de seu barco e o acariciava com o olhar, enquanto fazia e desfazia nós de marinheiro.

Eu continuava espantado.

Jesus de Nazaré, protegido por guardas armados de origem árabe, trabalhava na construção de um barco no meio dos olivais. Nada disso foi contado pelos erroneamente chamados "escritores sagrados". E tenho informação de que o Mestre falou disso a seus discípulos. Eu estava na frente.

A grande beneficiada com aquela caótica situação e com o constante ir e vir da gente que procurava o faqir foi Nasrah, a "gritona", a primeira kafia do sheik. A faqireh soube tirar partido da situação. Lia as borras do kafia a quem podia, vaticinava sobre o humano e sobre o divino e cobrava, naturalmente. E chegou a propalar a mentira de que a verdadeira autora da cura de Ajashdarpan era ela mesma. Muitos acreditaram, e seus benefícios se multiplicaram.

Para o Mestre, e para este explorador, a tática da maldita bruxa não representou nenhum respiro. As pessoas continuavam acossando o Filho do Homem, e Ele simplesmente se limitava a fugir. A situação ficou insustentável. E imaginei que estávamos com os dias contados na caverna da chave. Na realidade, tudo dependia do "trabalho" de Jesus na "778", e não da construção do barco chamado "Despertar", como cheguei a pensar em algum momento. O Mestre, para isso, era inflexível.

E, com o ocaso, ambos nos refugiávamos na caverna e desfrutávamos da ceia e do jogo do Shelem, ou da estátua. O medo da welieh da fonte e a própria escuridão mantiveram afastados conhecidos e estranhos. Era nosso momento.

Foi em uma dessas noites da quarta semana em Beit Ids que Jesus reto­mou a conversa sobre a nismah, a alma do ser humano. Ele havia anotado a frase escrita em uma das madeiras de tola branca: "A pérola do sonho".

Não recordo bem como surgiu a conversa, mas isso é o de menos. Jesus falou em primeiro lugar da beleza dessa criatura que muitos confun­dem com a centelha. Uma não tem nada a ver com a outra - afirmou -, mas a alma não poderia ser sem a centelha. A nismah é filha da mente e da centelha divina e, portanto, duplamente bela. Sua natureza - explicou com dificuldade - não é material, mas também não é cem por cento espiritual.

Não compreendo, Senhor.

É lógico. É outra das maravilhas do Pai, às quais vais te acostuman­do quando passares para o outro lado, como diz teu irmão.

Nem material nem espiritual.

Jesus assentiu com a cabeça e sorriu, divertido.

Uma criatura duplamente bela.

Isso mesmo. A nismah és tu, realmente. Ou melhor, serás. Agora, em vida, ela vai se enchendo, como uma taça.

Enchendo-se de quê?

De todas as tuas experiências. Isso a faz crescer. Essa é sua missão: crescer de dentro e para dentro.

Pensei que a alma estava aqui, na Terra, para ser testada.

Seria injusto testar um recém-nascido, não acha? Não, malak, a nismah nasce e vive para atingir a perfeição, mas não aqui. Nesta vida começa sua capacitação. E o princípio sem fim. Ela está destinada à eter­nidade, recordas? Ela, pouco a pouco, irá descobrindo quem é e qual é seu futuro. Ela intui que foi criada para algo muito grande: a fusão com Deus, com a centelha. Mas dá-lhe tempo. É conveniente que ela digira as experiências como uma criança, mastigando-as. Mais ainda: convém que não saiba demais.

Olhei para Ele, desconcertado. Ele acrescentou:

Se ela soubesse tudo, de repente, fugiria. Não sejas impaciente. Tudo está ordenado, e para o bem. Ou melhor, para teu bem.

Então, o que me aconselhas fazer?

É bom que saibas que a nismah é uma criatura real, e que é de tua posse. É o presente do Pai quando te imagina e apareces. Vive, portanto, e de acordo com o bom-senso. Isso é tudo.

Hesitou alguns segundos e finalmente concluiu;

Vive o bom e o mau. Vive! É disso que se trata. Esta experiência na carne é única. A nismah guarda tudo, mas alimenta-a especialmente com a imaginação. Sonha o quanto puderes. Os sonhos são sua fraqueza. Os sonhos a fazem crescer. Em cada sonho se esconde uma pérola, e tu deves encontrá-la.

E recordei o que defendiam os velhos alquimistas: somnia dea missa (“os sonhos são mensagens de Deus").

A pérola do sonho é o símbolo da nismah. Imagina quanto pude­res, e ela, a alma, encher-se-á de paz.

E concluiu com uma frase que me acompanhará para sempre:

Vive mais o que sonhas.

Depois falou da intuição, essa outra forma de alimentar a alma. A intuição, esse "presente" do Espírito. Mas essa é outra história.

 

                   Quinta semana em Beit Ids

Em 14 de fevereiro, quinta-feira, tive uma grande alegria. Em nosso trabalho, as satisfações não eram frequentes. Mas nesse dia, os céus se apiedaram de quem isto escreve.

O Mestre voltou de suas meditações à hora prevista. Eu ainda não havia preparado o jantar. Estava juntando lenha pelos arredores. E ao entrar na caverna, encontrei-o sentado. Parecia esperar. Apressei-me para acen­der o fogo e continuei observando-o furtivamente. Não falamos. Notei-o tranquilo. Ele me olhava, divertido. Eu conhecia essa expressão. Estava tramando alguma coisa.

Ele se levantou, aproximou-se e, sempre sorrindo, pediu-me que fechasse os olhos. Pegou-me tão de surpresa que alguns troncos que eu ainda segurava nos braços escorregaram e caíram nas chamas. O fogo, alterado, pegou a barra de minha túnica. Eu me assustei. Mas o Mestre, sem perder um segundo, precipitou-se sobre o tecido batendo nele com as palmas das mãos e apagando as chamas.

Sentamo-nos e respiramos aliviados.

E Jesus exclamou:

Outra vez não, por favor!

Rimos com gosto.

Por fim, repetiu seu pedido e fechei os olhos, intrigado. Três segundos depois, Ele pedia que os abrisse. E assim fiz.

Jesus estava com o braço esquerdo estendido para este explorador. Na palma da mão mexia-se, tímida, uma velha e querida "amiga": a pequena esfera de pedra branca que soltava aqueles belíssimos reflexos azuis.

Felicidades! É para ti.

Não soube o que dizer. Não era meu aniversário. Ninguém, naquele “agora" conhecia essa data. Por que, então?

E o intenso olhar do Galileu chegou até as profundezas de meu coração.

Peguei a galgal e a acariciei. Estava morna. Conforme havia explicado o Filho do Homem dias antes, aquela ortoclasita[9] lhe havia sido dada em Tuspa (Armênia), nas cercanias do lago Van (atual Turquia oriental), em uma de suas misteriosas viagens secretas pelo Oriente. A pequena esfera, de uns três centímetros de diâmetro, sorriu para mim, a sua maneira. Ao girá-la, emitiu cintilações azuis, como se dissesse: "Olá!" Quem isto escreve havia tomado especial afeto por ela, em especial após suas "peripécias" na "778", quando Jesus ficava lançando-a ao vazio enquanto conversávamos sentados em um dos precipícios. O Mestre, como se pode recordar, falava e jogava a pobre galgal para o alto, pegando-a depois com precisão na palma de sua mão. Sofri ao vê-la subir e descer. Se Jesus não a pegasse, adeus es­fera. Teria se estatelado nas rochas da colina dos znun. Desde então, sentia uma especial atração pela galgal. E ela me correspondia, tenho certeza.

Ao movimentá-la, o "número" que flutuava no mercúrio recuperou lentamente a verticalidade. Aquele "755", ou "557", conforme o ângulo, era outro enigma para quem isto escreve. Provavelmente se tratava de algo natural, pura coincidência, mas...

Tornei a interrogá-lo com o olhar. A que se devia aquele súbito presente?

Jesus entendeu minha perplexidade e esclareceu que estávamos em 14 de adar (fevereiro), uma das festas mais populares do povo judeu: Purim, ou a "festa das sortes". Outros a denominavam festa de Ester[10], em lembrança ao ocorrido na Pérsia no ano 200 a.C., quando a bela Ester conseguiu salvar milhares de judeus de uma morte certa. Eu sabia algo a respeito. A celebração, de menor peso religioso que outras, era muito bem-recebida pelo povo. As pessoas saíam às ruas fantasiadas, trocavam presentes e faziam tronar as sinagogas com matracas e todo tipo de artefato quando, na leitura da Megillah, ou rolo de Ester, mencionava-se o nome de Aman, o ministro do rei Assuero, que quis aniquilar os judeus. Um dia antes, em 13 de adar, os judeus ortodoxos - e os mais piedosos - celebravam também a chamada festa de Nicanor, em homenagem à vitória de Judas Macabeu sobre os assírios. Na pátria dos asmoneus - Modin - acendia-se um grande fogo e uma série de velozes corredores levava as tochas para todos os cantos de Israel.

Purim, por fim, com o passar dos séculos, transformar-se-ia em uma festa na qual o povo judeu comemora sua vitória sobre todos aqueles que os perseguiram.

A leitura do rolo de Ester era obrigatória, inclusive para as mulheres. Em Jerusalém, cidade amuralhada, celebrava-se um dia depois: em 15 de adar.

Era assombroso.

Aquele Homem não só lia pensamentos; também adivinhava as emoções e os desejos. Nunca me acostumei.

Não soube como lhe agradecer. Acho que Ele entendeu. Abraçou-me de novo com o olhar e pediu que não cuidasse do jantar. Dessa vez, ele cuidaria.

E, sem mais esclarecimentos, pegou um dos galhos que ardia no fo­gão e saiu. Eu o vi desaparecer na escuridão da noite, em direção ao casa­rio do sheik. O que pretendia?

Por um momento fiquei preocupado. Os ânimos do povo continuavam alterados.

Eu tinha que aprender a me acalmar. Ele sabia cuidar de si mesmo, e, além de tudo, havia sua "gente".

Instintivamente, olhei para o céu. A lua surgiria essa noite às 23 horas e 53 minutos. Algumas nuvens, velozes, dirigiam-se para o leste. Não percebi rastro algum das enigmáticas luzes. Fazia tempo que não as via.

E me sentei em frente ao fogo, desfrutando da companhia da galgal. Aproximei-a das chamas, e as nuvens azuis se multiplicaram.

Aquele Homem era uma criatura maravilhosa. Quem podia querer machucá-lo? E, sem que pudesse evitar, de repente se ergueram em mi­nha memória as trágicas e infames imagens da Paixão e Morte do Ga­lileu. "Como era possível?" eu me perguntava sem parar. Como era possível que a condição humana fosse tão vil e primitiva? E todos esses miseráveis que o condenaram e que o torturaram eram portadores da centelha divina? Segundo Ele, sim.

A presença do Mestre me resgatou daquele sofrimento. Chegou com várias cestas. Compreendi. Havia recorrido de novo à generosidade de Yafé. E este o satisfez com abundância.

Jesus começou a cantarolar e preparou o jantar. Eu me limitei a olhar e a servir de auxiliar de cozinha, como na montanha sagrada. Não me can­sarei de repetir: o Mestre gostava de cozinhar. Era ágil, criativo e paciente.

Trouxe uma massa preparada. Recheou-a com carne e a colocou so­bre o fogo. Chamou-a de kreplej. Ao que parece, era um prato típico na festa de Purim. Aprendera com sua mãe, a Senhora. Colocou também umas verduras e, para terminar, aplicou-se na confecção de umas boli­nhas. Usou fermento fresco, sal, manteiga (previamente derretida), farinha, três ovos batidos, água e mel. "Assou" tudo em uma vasilha fechada de barro e depois mostrou, orgulhoso, exclamando:

Orelhas de Aman!

O Galileu usou a expressão ha-man-tash-em.

Tentei pegar uma das bolinhas, agora douradas, mas o Filho do Homem, rápido como o pensamento, retirou o recipiente e me deixou a ver navios.

Era uma ceia típica de 14 de adar. Estávamos longe do yam, mas o Mestre tentou fazer que não se notasse.

E uma última surpresa...

Havia arranjado uma pequena abóbora oca, cheia de raki, uma espécie de mosto levemente fermentado e sabiamente misturado com iogurte batido com suco de frutas. Não era vinho do Hebron, mas caía bem do mesmo jeito.

E foi assim que festejamos o que chamavam de seudá, ou ceia de 14 de adar.

Jesus de Nazaré celebrou o fato de tudo estar delicioso. A verdade é que se esforçou ao máximo. Mas não seria aquela a última vez que desfru­taria de sua arte como cozinheiro.

E a noite correu tranquila, à luz da lamparina. Eu fiquei com meu mishloach manot (meu presente) nas mãos e conversamos "até que já não soubéssemos mais", como exigia a tradição de Purim.

Foi em um daqueles mágicos instantes, enquanto brincava com a esfera e com suas cintilações azuis, que o Filho do Homem exclamou, subitamente:

Sabes que o Pai também fala por meio desses azuis?

Olhei para a esfera, atônito. Jesus nunca mentia. Mas não compreendi.

E Ele acabou esclarecendo que se referia à linguagem dos símbolos. Então, entendi menos ainda.

Os símbolos? E lhe expliquei que minha vida havia corrido por caminhos mais prosaicos. Não sabia do que estava falando.

Sorriu, benevolente.

Pois já é hora de mudares.

Continuei não entendendo. E Ele, paciente, apontou para a galgal.

Observa os azuis.

Fiz isso. As "nuvens", de fato, saíam da esfera a cada reflexo do fogo. E ali começou aquela que, sem dúvida, foi a conversa mais críptica de todas que cheguei a entabular com o Mestre. Não consegui esclarecer alguns pontos que Ele esgrimiu. Talvez Eliseu, mais iniciado que eu, conseguisse. Foi o que pensei, mas o Destino tinha outros planos. Peço desculpas, portanto, ao hipotético leitor destes diários por não ter sabido resolver o enigma de algumas palavras de Jesus de Nazaré.

Observa estes azuis - repetiu o Mestre.

E utilizou a palavra techelet ("azul-celeste" em hebraico).

Essas letras (kaph e tet), que compõem techelet, podem ser traduzi- b como "todo" e "debaixo".

Isso era Cabala, de novo. Tet podia ser traduzido também como "sub" e debaixo de". E deixei que se explicasse.

O azul está debaixo de tudo.

Ele me observou e compreendeu que estava começando a me perder.

O azul - esclareceu - aparece sempre por cima do homem e por baixo de Deus, do Infinito, da Eternidade e da Unidade. O azul sustenta tudo. Compreendes agora quando te digo que o Pai fala também por meio do azul?

E prosseguiu, entusiasmado.

O azul é o símbolo do amor porque aproxima. O azul une e faz que dois sejam um. Sabes o que representa a cor azul?

Neguei com a cabeça. Efetivamente, estava mais que perdido. O Mestre acabava de dizer...

Amor, em hebraico, como sabes, se diz áhab.

Assenti.

Pois bem, essa palavra, áhab, contém os conceitos de ab (Pai) e heh (Espírito).

Dessa vez julguei entender.

O amor (o azul) une o Pai e o Espírito, a grande força. O amor (o azul) sustenta tudo. O amor (o azul) une o que está em cima e o que permanece embaixo...

Apontou de novo para a galgal e acentuou:

Ela está no meio dos céus.

Jesus utilizou a expressão leb ha-shamaim ("o coração dos céus"), como afirma o Deuteronômio (4, 11).

Ela - prosseguiu -, o azul, o amor, não tem que ser compreendida: tem que ser sentida.

Nisso tinha razão, como em quase tudo, suponho. Quanto à galgail, era suficiente contemplá-la e perceber sua beleza. Senti-la, sim.

O mundo dos símbolos...

Nunca me aventurei nele. Jesus havia começado a navegar pela in­tuição, um oceano desconhecido para mim, embora eu, como médico, soubesse que a simbologia é a linguagem do hemisfério cerebral direito.

Jesus insistiu:

Não temas. Deus, o Pai, é o primeiro a lançar mão dos símbolos. Eles foram imaginados pela Divindade para contribuir com o desenvolvi­mento espiritual do homem.

Nunca havia pensado nisso.

E naquele momento me veio à mente aquela assombrosa cena, no batismo de Jesus no Artal, um dos afluentes do rio Jordão. Uma peque­na esfera, do diâmetro de uma mão fechada, desceu do céu encapotado, buscou o peito do Mestre e acabou desaparecendo (?) dentro do tórax do Galileu. Foi isso que vi, ou julguei ver, naquele 14 de janeiro.

A esfera era azul safira.

Os símbolos - prosseguiu o Mestre - são os degraus pelos quais desce a Divindade. Não temas, querido mensageiro; que não te assus­tem. Observa-os como outra semeadura do Pai. Eles te pegarão pela mão e te aproximarão d'Ele. Eles te abrirão um horizonte que negam a razão. Eles, os símbolos, ampliarão tua consciência e te darão medida do que não tem medida.

A consciência... - murmurei.

Sim, a consciência, essa lenta e progressiva corrida para ti mesmo. Recordas? O trabalho da alma.

E pensei: "A consciência, como afirmava Ruyer, a antecipação do tempo futuro".

O Mestre sorriu, se divertindo. E pontuou:

Sim, a finalidade do símbolo é criar consciência nas criaturas ma­teriais. Consciência do inefável.

Tornei a me perder.

E Ele, paciente, insistiu em algo que já havia apontado:

Deixa a razão de lado. Ela não te serve na viagem da intuição. A razão se desfaz quando pretende analisar e fragmentar o símbolo.

E não seria melhor que o ser humano fosse sempre intuitivo?

Deixa isso para depois da morte. Estás onde estás.

Então, o símbolo, se não compreendi mal, é outra categoria do invisível.

O Galileu sorriu, satisfeito. Este pobre explorador já havia captado alguma coisa.

Eu te disse: eles, os símbolos, levam diretamente às profundezas da Divindade. Eles afastam e aproximam, conforme o caso. Eles te aproxima­ria d'Ele e te afastarão de ti. Eles são uma ponte, mas só poderás cruzá-la de mãos dadas com a intuição. Pressente-os. Só assim serão símbolos nos. Se o símbolo não te transmitir, é porque está por nascer.

Aconteceu de novo. Naquele momento, não sei como, a caverna se encheu de um intenso perfume de malva. Eu o associei ao sentimento de amizade. Jesus continuava falando e agitava suas longas e peludas mãos; na realidade, acho que o que agitava era seu enorme e generoso coração.

E desfrutei do aroma, com certeza muito mais que das difíceis e - para mim - distantes palavras.

Os símbolos, acima de tudo, estão aí para que o pressintas a Ele. É uma forma de te dizer: "ei, ze’er!" ("ei, menino!").

E Jesus piscou para mim. Era assim que me chamavam no estaleiro, em Nahum: "ei, ze'er!"

Sim, claro...

Para que mentir? Eu estava concentrado no perfume de malva. Lereach nijoach... Um cheiro agradável... Hut nehat... O Espírito que desce, como já mencionei.

Os símbolos te levarão além das palavras.

O Mestre me interrogou com o olhar. Acompanhava-o? Disse que sim por puro compromisso. Ele sabia que não estava. Fazia tempo que eu estava perdido. Mas Ele prosseguiu:

Te conduzirão aonde desejar o Espírito, tua centelha.

Eu havia lido Jung em minha juventude e recordei uma citação sua: “O símbolo remete para além de si mesmo, para um além inapreensível, obscuramente pressentido, que nenhuma palavra poderia expressar de forma satisfatória". Sim, o Mestre tinha razão, como sempre.

Veja a arte. Ela se alimenta do símbolo.

Eu concordava. É a simbologia que torna a arte inovadora.

E voltamos à imaginação, querido malak, à necessidade de sonhar acordado, à busca da pérola do sonho, recordas?

Disse que sim.

O que pensas que havia antes da criação?

Ele me pegou de surpresa. Mas, sempre atencioso, adiantou-se:

Imaginação. Antes da matéria estava o Pensamento, o Símbolo por excelência. Tudo existia antes de ser, na mente do Pai. Tudo que puderes imaginar, já foi.

Queres dizer que nada do que o ser humano imaginar é novo?

Nada. Tudo foi, mas está bem: deves utilizar a imaginação para ser como Ele. Eu te disse: a imaginação é o único caminho. Quanto mais cres­ceres nesse sentido, quanto mais imaginares, quanto mais sonhares, quan­to mais te empenhares na busca da pérola, menos precisarás da realidade.

Olhou para mim com curiosidade e perguntou:

Gostarias de viver outra realidade?

Naturalmente.

Pois imagina, sonha acordado, e esta realidade que agora te cerca se diluirá.

Sorriu feliz e recordou algo que repetiria até cansar:

O reino do Pai é outra realidade. Vim ao mundo para recordar isso. Prepara-te imaginando, então. Utiliza os símbolos. Ele os deixa cair in­tencionalmente. Não analises. Sente. Estás aqui para experimentar a vida e o tempo. Deus quer que penses, sim, mas, especialmente, que sintas. Os símbolos te ajudarão a decifrar as escuridões da vida. Eles revelam velan­do, e velam desvelando. Eles são a explosão do Um para o Todo. Eles são a porta do reino que estou te oferecendo. E depois, quando abandonares a matéria, tu serás um símbolo.

Ele tinha toda a razão. Que seria do mundo sem a simbologia? Os símbolos nos ajudam a iluminar o Destino e, enfim, são a chave que abre a mente para o desconhecido. Eu concordava com o Mestre: um mundo sem símbolos seria irrespirável.

E naquele momento, já avançada a noite, ela cruzou diante de nós.

Eu continuava espantado. Coincidência? Sinceramente, duvido.

Jesus, ao vê-la a seus pés, fez silêncio. E ambos a seguimos com o olhar. Andava tranquila, exibindo aquele "emblema" no alto.

Era uma aranha de dimensões regulares. Dias depois, de volta à nave, "Papai Noel", nosso computador central, a identificou como uma Araneus diadematus, muito comum em Israel. Tinha uma tonalidade dourada. Era

m d rensiva. Provavelmente havia tecido sua teia em algum canto da caver- No alto da viga notei outras redes e outras aranhas, mas não eram da mesma família.

E ela seguiu seu caminho.

A diadematus tinha nas costas uma pequena cruz branca, de uns 20 milímetros. Popularmente era conhecida por esse "emblema": a aranha da cruz.

Sim, muito oportuna. Outro símbolo.

E senti um fogo dentro de mim.

Faltavam quatro anos e dois meses para aquele fatídico 7 de abril do ano 30 de nossa era, data da Crucificação do Galileu.

Falávamos de símbolos e ela apareceu, carregando a cruz...

"Ele, o Pai, deixa cair os símbolos intencionalmente." Esse foi o final daquela intrigante conversa.

 

                     Sexta e última semana em Beit Ids

As coisas não mudaram muito naquela última semana entre os badu. Ou mudaram?

A construção do barco chamado "Despertar" prosseguiu em um bom pn: Segundo os cálculos de Jesus e dos demais carpinteiros navais, em três ou quatro semanas poderia "navegar". Todos riram. Todos menos Yafé.

Quanto à aldeia, os ânimos se acalmaram, aparentemente. Só a faqireh mostrava seu rosto, sempre verde, pelas imediações do estaleiro. Resmungava e acabava cuspindo aos pés daqueles que montavam guarda. O número de visitantes também caiu consideravelmente. E no dia 20 desse mês de fevereiro, quarta-feira, o Mestre, ao voltar à caverna, anunciou o fim de nossa estadia em Beit Ids. Seu "trabalho" - disse - havia terminado.

Achei-o mais que feliz. Seu rosto, bronzeado, irradiava uma luminosidade como eu nunca havia visto. Estava exuberante. Cantava sem parar. E falou bastante, sem que lhe perguntasse. Acho que precisava daquilo.

Havia chegado ao fim daquele período de reflexão e de intensa comunicação com sua centelha, com o bondoso Deus. No total, segundo meus cálculos, 39 dias.

Seu ambicioso "plano de trabalho" para a vida de pregação estava concluído. Foi o que disse. E foi enumerando as decisões (suponho que as mais importantes) que havia tomado. Adiantou-me alguma coisa em jornadas anteriores, e assim registrei em outras páginas destes diários.

Começou pelo que Ele denominava At-attah-ani[11], um processo (?) incompreensível para quem isto escreve, e que poderia ser porcamente definido como "o ajuste entre a natureza humana e a natureza divina do Filho do Homem". Preferi não perguntar. Bastava-me sua palavra. Esse processo havia acabado. As duas naturezas "conviviam" (?).

Depois, enquanto jantávamos, aprofundou-se no "plano de trabalho". Meticuloso e paciente, o Galileu traçou o que poderíamos denominar as linhas mestras de sua iminente vida de pregação. Uma bateria de decisões.

Dominou-me com seu entusiasmo. Poucas vezes o vi tão efusivo e com tanta vontade de se comunicar.

Decisões - pontuou - que foram tomadas em conformidade com seu Pai Azul.

E tornou a se referir a um fato do qual também me falou em outras oportunidades e que compreendi mais ou menos, como era de se esperar.

Afirmou que sua vida na Terra havia chegado ao fim.

Fiquei perplexo. Em agosto desse ano 26 completaria 32 anos. Por que dizia que sua vida havia terminado?

Parou um momento. Percebeu que eu não o acompanhava e esclareceu:

Agora mesmo eu poderia voltar a meu Pai. Meu trabalho está ter­minado. Recuperei a soberania de meu universo. Encarnei neste mundo para experimentar, como vós, e isso está satisfeito. Mas não será assim. Tomei a decisão de voltar ao mundo e terminar minha vida na carne. Será como Ele quiser.

E pronunciou com especial ênfase:

Minha vontade é que se cumpra a vontade do Pai.

Por um momento pensei: "O que teria acontecido se Jesus de Na­zaré tivesse abandonado a Terra nesse ano 26? Poderia tê-lo feito, como disse. Nesse caso, as igrejas haveriam se cristalizado? Saberíamos algo sobre o Filho do Homem?"

E prosseguiu. Jesus, naquele momento, tinha plena consciência de sua natureza divina e, em consequência, de seu imenso poder. Era um Deus. Ou melhor, um Homem-Deus. Se quisesse, podia alterar as leis da natureza. Porém, propôs-se a não utilizar esse poder, salvo se fosse desejo do Pai. Simplesmente renunciou aos prodígios. Ele bem sabia que o povo judeu o aclamaria e o seguiria se lhe fornecesse sinais e lhe desse mostras de seu poder. Mas não. Ele queria atrair as pessoas com sua palavra. Que­ria convencer, não vencer. Seu trabalho era revelar o Pai, e faria isso da forma mais simples e, se possível, de acordo com o natural.

Não pude me conter e o interrompi:

Pois eu sei de um prodígio, talvez dois...

Eu me referia à milagrosa cura do menino mestiço de Beit Ids e, talvez - disso não tinha tanta certeza -, à misteriosa recuperação de Aru, o negro tatuado que conhecemos no kan de Assis, que padecia o mal de amok.

Jesus baixou a cabeça e ficou mudo por alguns instantes. Acho que estava buscando as palavras adequadas. Por fim, diante de minha surpresa reconheceu que era verdade; as duas curas haviam sido reais, mas Ele - disse - não havia participado desses prodígios.

Minha confusão foi imensa. E paciente, medindo as palavras, explicou que, apesar de sua firme decisão de não fazer milagres, sua "gente", seus anjos, para simplificar, estavam capacitados para realizar obras assim. Se fosse desejo do Pai, sua "gente" poderia fazer o prodígio, independentemente, inclusive, da vontade do Mestre. Bastava que o Filho do Homem assim desejasse. Era suficiente que o Galileu sentisse piedade ou misericórdia. Se esses sentimentos fossem registrados, e se fosse a vontade de Abba, sua "gente" faria o resto e ocorreria o milagre.

Eu não quis entrar em detalhes, e Ele também não o teria feito.

Agora eu entendia.

Jesus, ao abraçar e beijar Aru e Ajashdarpan, ao sentir piedade por eles, acionou o prodígio sem querer. E nesse momento eu me perguntei: quantos portentos Jesus de Nazaré levou a cabo e nunca soubemos nada sobre isso?

Depois, falou de outra decisão não menos importante: na colina dos znun, estudou o que fazer com esse extraordinário poder de se alimentar ou se proteger. Podia transformar pedras em pão ou voar por aí, se esse fosse seu desejo. Poderia ter impedido seu trágico fim na carne, mas optou por não se beneficiar desse poder. Era verdade: ajudara a muitos, mas não ajudara a si mesmo.

E decidiu ser fiel ao devir da natureza e do Destino. Procuraria não correr riscos desnecessários, mas não se valeria de sua divindade para evitar o que o pudesse ameaçar. Seria um homem apenas, dentro do que cabe, e sempre sujeito à vontade do Pai. Ele devia se preocupar não com sua segurança, mas com algo mais sublime: despertar o mundo para a realidade de outra realidade.

E me veio à mente um assunto narrado pelos evangelistas que eu não havia vivido ainda: Jesus caminhando sobre as águas do yam. Essa cena, ou suposta cena, não combinava com o estilo do Mestre, nem com sua decisão de não recorrer aos prodígios. Mas eu teria que ser paciente. Tudo à sua hora, como Ele defendia.

Por último, sintetizando muito, anunciou que não cuidaria dos assuntos terrenos. Ele era um enviado dos céus para revelar assuntos espirituais. Prescindiria da política. Não entraria em problemas sociais ou econômicos. Não era sua tarefa. Ele não viera para mudar a ordem do mundo. Ele trazia a esperança e o "reabastecimento" espiritual. Jesus sabia muito bem que não era o Messias esperado. Sua missão era infinitamente mais importante. Ele não era um "quebrador de dentes" nem um libertador político ou religioso, como apregoavam os profetas. Ele era um Homem-Deus, algo que jamais imaginaram aqueles que procla­mavam a iminente chegada do Messias. Simplesmente decidiu se afastar do poder temporal.

Sorri com meus botões. Aquilo não tinha nada a ver com a posterior "montagem" dos homens, incluindo seus seguidores.

Jesus aceitou que seu trabalho não seria fácil.

Fez silêncio durante alguns segundos, e à nossa mente, creio, voltou a imagem da aranha da cruz. Mas o Mestre estava disposto: beberia do cálice, se essa fosse a vontade do Pai. O Destino já lhe havia dado um "aviso" na tenda de peles de cabra do sheik, quando os badu o acusaram de blasfemo.

Não importava. Jesus tinha clareza: voltaria à Galiléia, aguardaria sua hora calado e se prepararia para levar a boa-nova a todos que a quisessem ouvir. Éramos portadores de um Deus! Somos imortais! Somos filhos de um Pai que não faz contas! Ele nos imaginou e aqui estamos! Deus não é o que dizem, e muito menos o que vendem!

Voltar à Galiléia? Quando? E Ele, feliz, insinuou que em breve.

Aí terminou a informação. Supus que esse "em breve" significava em questão de dias.

E aproveitei a oportunidade para tocar em um tema - como diria? - delicado: João Batista, Yehohanan.

Ele me olhou e compreendeu.

E foi tão sincero quanto pôde.

Disse que conhecia seu Destino e seu trágico final. Não pregaria ao mesmo tempo que seu primo distante. Esperaria. Foi outra decisão que tomou no alto da colina da "escuridão" durante aqueles dias de retiro.

Não houve mais perguntas.

Se eu tivesse que fazer uma síntese desses 39 dias nas colinas, entre as oliveiras de Beit Ids, diria o seguinte:

 

Jesus de Nazaré não jejuou. Não era essa sua intenção. Se houvesse ficado em jejum durante esse tempo, teria corrido grave perigo[12], e sua mente teria se debilitado.

Não se retirou ao deserto, como afirmam os evangelistas.

Não foi tentado pelo diabo.

Realizou - sem querer - seu segundo grande prodígio.

Planejou o que deveria ser sua vida pública e fez At-attah-ani.

Iniciou a construção de um barco de oito metros chamado Faq ("Despertar").

Colheu seu primeiro fracasso e foi acusado de blasfemo.

Não foi alimentado pelos anjos. Bem, em parte, sim.

Sua "gente" (cerca de 72 mil criaturas celestes) permaneceu com Ele dia e noite. E assim foi até o fim dos seus dias.

 

Essa noite dormi mal. Eu estava inquieto, como se algo fosse aconte­cer. Supus que se tratava das informações recebidas durante aqueles ines­quecíveis 39 dias na aldeia beduína de Beit Ids. Tinha que processá-las e retê-las. Eram valiosas demais.

Saí da caverna em várias ocasiões. O firmamento se desfizera das nu­vens e me saudava, vivo e brilhante. Fiquei um bom tempo contemplando as estrelas e desejoso, para que negar, de que as "luzes" aparecessem. Não apareceram. Explorei as regiões da Polar, do Dragão e de Capela, mas foi inútil. Sua "gente" estava lá, eu sabia, mas invisível aos olhos humanos.

O Mestre dormia como um anjo.

Em uma daquelas saídas, sentado no caminho em frente à caverna da chave, compreendi o sentido das palavras do Galileu quando, tempo atrás, Eliseu e eu estávamos na pousada de Sitio, na encruzilhada de Qazrin, na alta Galiléia. Naquele 18 de setembro do ano 25, quando nos despedíamos de Sitio, o homossexual, este perguntou a Jesus:[13]

 

Tu és como Hillel, o sábio[14]?

O Mestre colocou as mãos nos ombros de Sitio e replicou:

Amigo, não sou como Hillel.

Sacudiu levemente os ombros do homossexual, chamando a atenção do ruborizado Sitio, e acrescentou:

Sou a esperança. A esperança sempre está contigo. Agora está dor­mindo. Um dia, despertará.

Um dia? - perguntou Sitio, impaciente. - Quando?

Não chegou minha hora.

Mas quem és tu?

Eu te disse - confirmou o Mestre -, sou a esperança. Quem me conhece, confia.

Quero conhecer-te melhor.

Jesus, então, comovido, atendeu em parte ao pedido.

Se tanto desejas, procura Aru. A esperança vai com ele.

Sim, agora eu entendia. Aru, o negro tatuado, foi seu primeiro mila­gre na Terra. A esperança ia com ele.

Como dizia o Mestre, quem tiver ouvidos, que ouça.

Pena que os evangelistas não mencionaram o ocorrido no kan de Assis e no olival de Beit Ids. Tudo teria sido mais lógico e mais bonito.

E perto da última vigília da noite (às 5h30 da madrugada), com o surgimento da lua cheia, quem isto escreve voltou para a caverna. Pre­cisava dormir, mesmo que só um pouco. O sol, segundo os relógios do "berço", nesse 21 de fevereiro sairia às 6h14.

Esse dia foi tranquilo, preso à rotina habitual. Mas, com a sexta-feira, 22, tudo mudou.

Quando acordei, Jesus já não estava na caverna. Imaginei que havia ido ao estaleiro, como toda manhã. Não deixou nenhuma tábua escrita, como era seu costume. Estranhei.

E nisso, quando estava pegando minhas coisas para ir ao rio, para a higiene matutina, ouvi vozes.

Fiquei atento. Eu conhecia essas vozes.

Saí cautelosamente e vi uma densa névoa. Navegava rápida e espessa para o leste. Não se via nada, nem mesmo a ramagem da azinheira sagra­da. Prestei atenção e, de fato, tornei a ouvir as vozes. Vinham do caminho que levava a Tantur, o povoado que ficava a oeste de Beit Ids.

Sim, eram vozes familiares.

Uma delas era a de João Zebedeu, discípulo de Jesus; ou melhor, aquele que seria seu apóstolo. A outra me recordou a de seu irmão Tiago. Mas per­cebi mais gente. Gritavam uns para os outros, como se orientando.

Eu me escondi no túnel de entrada e tentei pensar.

O que estavam fazendo ali?

Só me ocorreu uma coisa: estavam procurando o Mestre.

As vozes se aproximavam.

Então, julguei distinguir outra voz familiar. E comecei a tremer: era a de Eliseu! Ao que tudo indicava, acompanhava os Zebedeu.

E tentei pensar velozmente. O que devia fazer? Ia a seu encontro e delatava a presença do Galileu? Por que o estavam procurando?

E em segundos compreendi.

Os irmãos Zebedeu tentavam encontrar Jesus para descobrir o que ocorrera no batismo, no Artal. Foi o que eu supus. Propagou-se rapidamente a notícia dos fatos extraordinários registrados naquele 14 de janeiro, dos quais foram testemunhas Yehohanan, Tiago e Judas, os irmãos carnais do Mestre, e quem isto escreve. Era lógico. Alguém, em Ômega, entre os discí­pulos do Batista, pode ter explicado que o Filho do Homem havia se dirigi­do para o leste. E os Zebedeu, suponho, decidiram passar um pente fino na região. Por fim, apareceram em Beit Ids.

Essas suposições eram verossímeis, mas o que pensar de Eliseu? Também estava procurando Jesus? Descartei a possibilidade. Suas inten­ções, sem dúvida, eram outras.

Fazia quase dois meses que não o via. Como se pode recordar, nossa relação havia piorado. Ele pretendia algo que eu não estava disposto a permitir. Eliseu, cumprindo ordens, tentava pegar novas amostras de ca­belo ou de sangue do Filho do Homem, necessárias para os abomináveis experimentos dos militares que dirigiam a Operação Cavalo de Tróia. Em 30 de dezembro do ano 25, quando tentava decolar com o "berço" com a intenção de abandoná-lo, descobri que Eliseu havia cancelado a senha que ativava a SNAP 27, a pilha atômica do módulo. Sem essa senha, li­gar os motores era inviável. Eliseu inutilizou a nave. Dias depois, durante nossa estadia nos bosques do Attiq, na alta Galileia, Eliseu atingiu seus propósitos: pegou uma mecha de cabelo do Mestre e a escondeu no cilin­dro de aço que continha as amostras de sangue, cabelo etc. de Jesus, da Senhora, de José, o pai terreno do Galileu, e de Amós, o irmão do Naza­reno prematuramente falecido em 3 de dezembro do ano 12 de nossa era, provavelmente em decorrência de uma epiglotite aguda. Obtendo o que necessitava, Eliseu tentou me convencer a voltar ao nosso tempo. Eu me neguei, e aí se rompeu definitivamente a relação. E em 11 de janeiro, após abrir o cilindro de aço e descobrir as maquinações do engenheiro, optei por pegar o cilindro e abandonar o cume do Ravid, indo em direção ao Jordão. Não foi possível enterrar o cilindro em Ômega, então deixei para uma melhor ocasião. Em Beit Ids, alguém abriu meu saco de viagem e roubou o cilindro de aço. Eu sabia que, cedo ou tarde, ao chegar à nave, Eliseu descobriria o desaparecimento do importante invólucro. Por isso estava ali, em Beit Ids. O engenheiro só se preocupava com a recuperação do cilindro. Por isso estava me procurando.

Maldito!

Reagi com rapidez. Retirei as mochilas que pendiam da viga de car­valho e me escondi em um canto da caverna. A escuridão me protegia.

Alguém surgiu na boca da gruta. Deu dois passos pelo túnel de aces­so, mas parou. E gritou, em aramaico, perguntando se havia alguém ali. Era João Zebedeu.

Não respirei.

Logo percebi que vários de seus acompanhantes se juntavam ao fu­turo discípulo. Eu os ouvi conversar. Um deles, sem a menor dúvida, era o engenheiro. Pensaram que a caverna estava desabitada e se afastaram.

Deixei passar alguns minutos. Depois, com extrema cautela, saí no­vamente. A névoa não me permitiu saber se o grupo havia se distanciado ou se continuava pelos arredores. Eu não podia ficar ali. Os Zebedeu aca­bariam falando com gente da aldeia e voltariam à caverna da chave. Eu tinha que encontrar o Mestre.

Peguei os sacos de viagem e corri, velozmente, para a cota "575", para a clareira onde estava se construindo o barco. Tive sorte. Não tornei a ou­vir as vozes dos Zebedeu nem a de Eliseu. Supus que haviam seguido pelo caminho em direção à aldeia do Hawi, a oeste. Era o mais lógico. Com aquela névoa, não era bom se arriscar a explorar as colinas, caminhando às cegas pelos olivais.

Yafé, o sheik, não sabia nada sobre a presença dos estrangeiros. Jesus, segundo disse, aparecera no estaleiro bem cedo e se despedira. O belo estava consternado. O Mestre encarregara seus ajudantes da conclusão do Faq e se negou a receber o estipulado. Yafé estava perplexo. Segundo o sheik, oGalileu pediu que guardasse o dinheiro "até que Ele regressasse".

Fiquei tão desconcertado quanto o sheik.

O Mestre pretendia voltar às colinas de Beit Ids? Com que propósito?

Yafé perguntou timidamente se eu conhecia as intenções do Príncipe Yuy. Eu disse a verdade: não fazia idéia. Mas garanti que, se Yuy havia manifestado sua intenção de voltar, assim seria.

Deixei os sacos de viagem aos cuidados de Yafé e fui para o norte. Julgava saber onde estava o Galileu: na colina dos znun, na "778".

Contornei facilmente a colina "661", ao norte da aldeia, e, ao deixar para trás outro olival, a névoa desapareceu. Foi muito estranho. Ela só cobria Beit Ids e um pequeno raio, não superior a um quilômetro. Não sabia o que pensar. A densa névoa, além de tudo, parecia cortada a faca. Ao sair do olival, simplesmente acabava. Aquilo não era normal. Mas, preocupado com a presença dos Zebedeu, e acima de tudo de Eliseu, não prestei muita atenção ao estranha fenômeno. E dei início à subida da pelada colina dos znun.

Jesus, provavelmente, estava no alto, como sempre.

E comecei a me perguntar: O que lhe diria? Avisava-o dos que procuravam por Ele? Eu só era um observador...

E prossegui a laboriosa subida. As rochas formavam um todo. Não havia trilha.

Parei ao conquistar um terço dos 778 metros. Suava copiosamente. Apoiei-me na "vara de Moisés" e tentei recuperar o fôlego. Talvez pre­cisasse de um descanso. Aqueles dias com os badu, embora agradáveis no geral, haviam sido de grande tensão. E prometi que assim seria. Na primeira oportunidade, eu me presentearia uns dias de repouso absoluto. Não tardei a rir de mim mesmo. Essa idéia, enquanto estivesse ao lado do Filho do Homem, não era viável. Resignei-me. Além de tudo, por que me lamentava? Conviver com o Galileu era a maior coisa a que um ser humano podia aspirar. E eu era esse afortunado ser humano.

Retomei a marcha entre esses e outros pensamentos, com a vista fixa no cume.

"Ânimo!" disse a mim mesmo. O Mestre saberá o que fazer.

E, ao deixar para trás uma grande rocha, fiquei petrificado.

Em frente a mim, sentados nas pedras azuis, estavam dois persona­gens com os quais eu não contava.

Olhamo-nos, incrédulos. Acho que nos surpreendemos mutuamen­te. Eles não me esperavam, nem eu a eles.

Um eu havia visto anteriormente. O outro não.

O que estavam fazendo ali?

Surpreendera o mais velho nessa mesma colina da "escuridão" em uma incursão anterior. Era Ámar ("Lua"), o louco da panela na cabeça. Para os badu, como expliquei, era um madjnoun, uma espécie de possuído dos znun, os diabos maléficos. Morava na área e aparecia de vez em quando. Chamavam-no de "Lua" justamente porque "crescia e decrescia, e aparecia e desaparecia".

Ao me ver, pegou uma pedra e começou a bater na panela que lhe servia de capacete.

O segundo personagem era uma menina de uns 10 ou 12 anos, com­pletamente nua, de cabelo preto, embaraçado e sujo, até a cintura. Tinha o corpo tomado por um bom número de cicatrizes e por dezenas de incha­ços ou nódulos subcutâneos que me fizeram suspeitar de algum tipo de doença; talvez uma neurofibromatose[15]. Não era muito alta. Sua magreza, como a de Ámar, era extrema. Tinha olhos vivíssimos e muito azuis. Ima­ginei que se tratasse de uma menina abandonada, como tantas.

A seus pés descansava um objeto de minha propriedade: o cilindro de aço!

E compreendi. Aquela menina selvagem - que os beduínos chamavam de hamazi - era a responsável pelo roubo da lamparina, quando eu estava junto ao manancial, e também a causadora da misteriosa oscilação da mochila pendura­da na viga. Aquela criatura era a que este explorador havia visto durante a noite no meio da ramagem da azinheira sagrada, e, evidentemente, a ladra. Foi ela que, não sei como, abriu minha mochila e pegou o cilindro com as amostras de cabelo e sangue. O cilindro que o engenheiro estava procurando.

Os badu, de fato, tomaram-na por uma welieh, um gênio benéfico: a welieh da fonte, como a chamavam.

Foi tudo muito rápido.

A menina, ao me ver, pegou o cilindro de aço e, com um salto, fugiu entre os penhascos, colina acima.

O descerebrado, como dizia o sheik, continuou batendo a pedra na panela. Pensei na "vara". Se ativasse os ultrassons, talvez pudesse deter a hamazi. Mas a menina, agilíssima, escapuliu por entre as rochas. Desisti. Era muito difícil acertar o alvo.

E optei pela única possibilidade a meu alcance. Saí atrás dela. Era importante que eu recuperasse o cilindro.

Não contei, porém, com o louco da panela na cabeça.

Quando comecei a correr por entre as rochas, Ámar se ergueu e, sem parar de martelar o metal, gritou, cortando meu passo:

Znun! Eles voltaram!

E me derrubou.

A vara escorregou de minha mão e caiu no penhasco, rebotando aqui e ali colina abaixo.

Maldição!

Levantei-me como pude e hesitei: seguia a menina selvagem ou recuperava a "vara de Moisés"?

O bom-senso me fez desistir da perseguição. A vara tinha prioridade, pelo menos naquele momento. Além de tudo, dificilmente a teria alcançado.

Recuperei a "vara de Moisés" e levantei a vista: Ámar se perdia no meio das pedras. Saltava com a mesma agilidade que a menina. E deduzi que se dirigiam ao cume.

Bem. Cedo ou tarde, eu os encontraria. Então, veríamos.

Ajeitei minha roupa e minha não menos afetada dignidade e retomei o caminho rumo ao cume.

Por que aquele infeliz repetia aquilo dos znun? Haviam voltado? Quem eram?

O resto da subida correu sem incidentes. Não tornei a ver a estranha dupla. E, ao coroar o cume, uma brisa fria e relaxante me recebeu e me serenou.

O cume da colina da "escuridão", como já descrevi em outra ocasião, era uma plataforma rochosa, moldada caprichosamente pelos ventos e pela fúria da chuva. Era um pedregal azul, cheio de buracos, como um queijo gruyère.

Dei uma primeira olhada, mas não vi o Mestre. Isso já havia acontecido antes. Em outra ocasião, andei muito perto, mas o Filho do Homem, recostado em uma das grutas e profundamente adormecido, passou des­percebido para quem isto escreve. E optei por sentar e descansar.

Poucos minutos depois, diante de minha surpresa, vi-o aparecer per­to de onde eu estava. Uma das rochas o havia escondido. Deu três ou quatro passos e parou à beira do precipício onde nos sentáramos semanas atrás; o precipício onde brincara com a galgal.

Já ia me levantar e ir para junto d'Ele quando, por trás do mesmo monte, vi surgir outro personagem igualmente familiar.

Foi como se me houvessem pregado no solo. Fiquei novamente sem fôlego. E deslizei por entre as rochas, escondendo-me. Sei que foi uma reação infantil. Repeti a mesma coisa que havia feito nas proximidades do poço de Tantur. Não sei exatamente por que, mas me escondi. E fiquei observando-os.

O segundo personagem se aproximou do Mestre. Conversaram. E, subitamente, o sujeito do sorriso encantador colocou o braço direito nos ombros do Filho do Homem. Era evidente que se conheciam e que se apreciavam.

Fiquei fascinado, mais uma vez. Quem era aquele indivíduo tão sin­gular? A túnica, à plena luz do dia, era mate, de um branco sem brilho. Os braços eram enormes e desproporcionais. Pareciam bambus. Superava bastante a estatura do Mestre (1,81 metro). Calculei 2 metros, como no caso de Yehohanan.

Como já insinuei, embora seu aspecto não fosse agradável, seu incrí­vel e terno sorriso fazia esquecer tudo o mais.

Por que aparecia em momentos tão especiais? Que relação tinha com Jesus de Nazaré?

Cheguei a pensar em algo que, obviamente, não podia provar. Mas não mencionarei uma idéia tão descabida. Seria fantasiar, e gratuitamente.

Parei de especular nessa direção. Talvez não houvesse mistério. Tal­vez se tratasse de um conhecido, apenas. A idéia também não me conven­ceu. Isso não fazia sentido. Como explicar que houvesse encontrado com o Mestre em um lugar tão remoto como Beit Ids? E outra coisa que me deixava perplexo: por que não consegui trocar com ele uma só palavra? Era tudo muito estranho.

Não sei quanto tempo fiquei escondido, atento ao Galileu e ao gi­gante do sorriso encantador. Falaram bastante, mas não consegui captar uma só palavra. Em algumas ocasiões os vi rir. Estavam desfrutando do momento, evidentemente.

Passada uma hora, mais ou menos, deram meia-volta e se afastaram, desaparecendo por entre as rochas e as agulhas azuis do cume.

E ficou este explorador, mais confuso que nunca.

Um tempo depois, certo de que haviam abandonado o penhasco dos znun, levantei-me e tentei recapitular. Não havia conseguido falar com o Mestre. Não fora capaz de adverti-lo da presença dos Zebedeu. Estava como no início.

E deixei que o Destino resolvesse. Era isso que Ele ensinava. Aproveitei o momento e colhi uma boa quantidade de funchos que havia des­coberto dias atrás, que mostravam sinais de desidratação. As plantas, normelmente olorosas, estavam amarelas e mortas. Algo as havia danificado, aquilo à visão da enigmática "luz" que descera sobre a colina da “escuridão". De volta ao "berço", faria a análise.

Dei uma última olhada no cume e depois na névoa que havia caído sobre Beit Ids e seus arredores. Era desconcertante. Não estava desfiada nas bordas, como teria sido lógico e natural. Como disse, era como se a houvessem cortado com uma faca. Mas isso era impossível. Eu estava me deixando levar pela fantasia.

Na nona hora (três da tarde), muito mais tranquilo, comecei a descer.

Não encontrei rastro nem do louco da panela nem da menina selvagem. E no meio da colina parei, intrigado. Como podia ser? Esfreguei meus olhos. Mas, ao tornar a abri-los, vi que era verdade. Não estava sonhando. A névoa havia desaparecido! Extinguiu-se em questão de minutos, talvez segundos.

A aldeia de Beit Ids, as colinas circundantes, o caminho, as oliveiras, tudo se via com nitidez. O sol, fugindo para o oeste, pintava tudo de vermelho e laranja. Nunca entendi o porquê do súbito desaparecimento daquela névoa. A não ser que...

Es queci o mistério e prossegui a bom passo.

E tornei a hesitar.

Para onde estava indo? Voltava ao estaleiro? Aventurava-me na caverna? E os Zebedeu e o engenheiro? Teriam abandonado a região?

Evitei o povoado e, seguindo o instinto, contornei de novo a "661". Desemboquei no caminho de terra que corria em frente à caverna da chave.

Lá tornei a parar, desconcertado.

Uma fumaceira preta saía pela boca da gruta. Os badu se aglomeravam perto da caverna. Alguns gritavam, gesticulavam e pediam água.

Aproximei-me devagar. Que diabos estava acontecendo? Distingui Jesus e o sheik.

Ao chegar ao local, Yafé, ao me ver, jogou-se em meus braços e, com lágrimas nos olhos, agradeceu aos deuses que me houvessem conservado a vida. De início não compreendi. Depois, um pouco mais sereno, expli­cou que todos achavam que eu estava dentro e que havia morrido quei­mado. Alguém, ao que tudo indica, pusera fogo na palha e nas madeiras de tola branca armazenadas na caverna.

O Mestre me olhou, tranquilo. Ele sabia que eu não estava lá dentro.

E, como puderam, tentaram apagar o fogo. E em minha mente ficou flutuando uma dúvida: quem fora o responsável pelo incêndio? Talvez o bando dos dawa-zrad, cujo líder morrera no olival? Ou devia pensar na maldita feiticeira, a faqireh?. Fora um dos badu?

Yafé, o sheik, pediu desculpas pela confusão e ofereceu que passás­semos a noite no casarão. Jesus declinou o convite. Evidentemente, tinha outros planos.

E fomos para o estaleiro. Lá passaríamos a última noite em Beit Ids.

Quase não falamos, nem eu lhe contei o fugaz "encontro" com os irmãos Zebedeu. Deixei que os acontecimentos seguissem seu curso. Ele, eu sei, agradeceu sem palavras.

E dormi na companhia das estrelas. Ela, Ruth, estava lá, longe e perto. Ela brilhava para mim. E a estrela Alnitak piscou para mim. Eu a amava.

 

                   23 de fevereiro, sábado

Alguém me acordou.

Vi que estava amanhecendo. Todos dormiam.

Os relógios do "berço" apontaram o orto solar desse dia às seis horas e 12 minutos.

Era o Mestre. Tocou meu ombro suavemente e sussurrou:

- Vamos, malak! Vamos acordar o mundo!

Pensei que ele quisesse acordar os demais trabalhadores que dormiam no estaleiro. Mas não. Sua intenção era outra.

Ele estava com o cabelo preso no habitual rabo de cavalo e usava uma faixa branca de lã, na cabeça. Isso significava que Jesus estava disposto a caminhar durante um tempo considerável.

Pegamos as mochilas e, em silêncio, sem nos despedirmos de ninguém, descemos da cota "575" até o caminho de terra batida que lambia a entrada da caverna.

Ele se adiantou e caminhou sozinho, com seus passos longos e decididos. Aquele era outro "sinal" para quem isto escreve. Quando o Mestre queria ficar sozinho, tinha o costume de se distanciar alguns metros. Eu respeitei, naturalmente. Era difícil aceitar, mas eu era só um observador.

Pegou o caminho de Pella, para o oeste. Será que ele se dirigia à Galiléia, conforme comentara dias antes? Também não quis me preocupar. Meu trabalho era segui-lo.

Não podia me queixar. Eu estava fisicamente bem. Quanto à péssima relação com o engenheiro, alguma coisa ocorreria, tinha certeza. Algo acabaria acontecendo e tudo voltaria a ser como antes. Talvez Eliseu houvesse se arrependido e sua presença em Beit Ids se devesse ao desejo de fazer as pazes e dar prosseguimento à missão normalmente.

Desses últimos pensamentos não tive tanta certeza.

Segundo meus cálculos, precisaríamos de duas ou três horas para chegar à cidade de Pella. Eram só 12 quilômetros, mas o Destino era imprevisível. Depois, ao lado, encontravam-se o meandro Ômega e o rio Artal, de recordações tão gratificantes. Yehohanan ainda estaria lá? Jesus pararia no guilgal onde o Batista parava? E me lembrei do não menos imprevisível gigante das pupilas vermelhas e das sete tranças louras, que se estendiam até quase os joe­lhos. Senti pena dele. Ou muito me equivocava ou não fazia parte do "plano de trabalho" que o Mestre havia traçado em seu retiro, na aldeia dos badu.

Logo descobriria...

Quando já havíamos percorrido quase três quilômetros - à vista da encruzilhada que conduzia à aldeia de Rakib, ao norte, aos povoados de Abil e Tantur, ao oeste e à Pereia, ao sul -, em uma das ocasiões em que olhei para trás, eu as vi.

Não podia ser.

Meu Deus!

Sim, eram elas. O que devia fazer? Avisar o Galileu? Esperá-las? Não, isso seria uma loucura.

Jesus não notou a presença das gêmeas. Seguia rápido e decidido. Endaiá e Masi-n’ass andavam muito perto, a uns 200 metros. Carregavam um saco de couro cada uma e portavam as temidas varas de aveleira. Di­minuí o passo, tentando pensar. E em um minuto, creio, por minha cabe­ça passou um mundo inteiro. As belíssimas badu haviam sido rejeitadas. Mas lá estavam. As gêmeas tinham um caráter endiabrado. Pretendiam se juntar a nós? Queriam que as tomássemos como esposas? Santo Deus! Comecei a suar, de puro medo.

Como reagiria o Galileu quando as descobrisse? Porque, logicamen­te, em algum momento viraria a cabeça.

Não, aquilo não era justo.

E se fosse só uma coincidência? Descartei a idéia. Ali não havia ne­nhuma coincidência. As gêmeas provavelmente nos espiavam e saíram atrás de nós. Era óbvio que nos seguiam.

O que devia fazer? Eu não podia me responsabilizar por ninguém. As normas da Operação proibiam isso terminantemente. Quanto ao Mestre...

Eu me senti preso, sem solução.

E, ao pisar a referida encruzilhada, aconteceu de novo.

A nossa esquerda, ao pé da colina "481", entre as oliveiras, vi surgir o homem do sorriso encantador. Parei.

Não podia ser...

O homem caminhou decidido para as badu. Juntou-se a elas, conver­saram um instante, e ele as pegou pela mão, tomando o caminho de volta a Beit Ids.

Não sei se empalideci. Aquilo era surreal.

As gêmeas, de vez em quando, viravam a cabeça e olhavam para mim. Respirei aliviado. E retomei a marcha. Pouco depois, porém, outro pensamento me inquietou: voltaria a vê-las?

A hora prevista, sem percalços, contornamos a cidade de Pella e fomos descendo para o vale do Jordão. A temperatura aumentou consideravelmente. Devia beirar os 30 °C.

Jesus deixou que eu me aproximasse, e conversamos de assuntos banais. Eu não disse nada sobre as gêmeas, mas pouco faltou para que lhe perguntasse sobre o homem do sorriso encantador. Não o fiz.

O Mestre respirava otimismo. Parecia querer engolir o mundo.

E logo descobri nosso destino imediato. Pegou a estrada que ligava Pella a Bet She’an, e, ao chegar à ponte de pedra que burlava o rio Artal, virou à esquerda e procurou a margem direita do referido afluente. Dirigia-se ao acampamento de Yehohanan, no bosque dos "lenços", com árvores de 20 metros de altura que se espremiam no chamado meandro Ômega. Aquelas belas árvores (as davidia) exibiam milhares de flores brancas e pendentes. E a brisa as balançava e agitava como lenços ao vento. Quem isto escreve batizou o lugar de bosque dos lenços. O resto do meandro, em forma de grande ferradura, era povoado por tamariscos e uma moita baixa, parecida com a sempre-viva, que tingia os pés do arvoredo de uma cor violeta muito relaxante. Não muito longe da ponte, nessa margem direita, os bambus, perto das águas, destacavam-se quatro ou cinco grandes lajes de basalto negro, quase planas. O Batista, seguindo seu costume, havia traçado um círculo perto de uma das davidia. Era seu guilgal, o círculo protetor, desenhado com pedras. Nele se movia e nele permanecia com seus discípulos sempre que estivesse no acampamento. Nessa ocasião, o guilgal estava a uns 300 metros das lajes de pedra e quase no centro geométrico da "ferradura". Dos galhos da árvore, como expliquei, pendiam óstracos (pedaços de argila), com inscrições como as seguintes: "Pois eis que vem o Dia, abrasador como um forno", "Pisei-os com ira", "As nações tremerão diante de ti", "E os farei chocar, cada um contra seu irmão". Eram frases de Isaías, Jeremias, Malaquias e outros profetas; os preferidos do gigante das pupilas vermelhas. Aquele, como disse, era o conceito de Yehohanan sobre o Pai. Nada tinha a ver com a idéia que o Filho do Homem tentava transmitir.

No meio das árvores, distingui cerca de 30 tendas. Supus que fossem os seguidores habituais do Batista.

Tudo parecia tranquilo. O sol já corria alto. Calculo que não deví­amos estar além da terceira hora (nove da manhã). Alguns acampados notaram nossa presença e avisaram os do guilgal. Pude ouvir os gritos. Jesus continuou caminhando, decidido.

Então, vi o gigante de dois metros se levantar. Retirou o xale de ca­belo humano com que se cobria e saiu do círculo de pedras. Eu o vi correr para as lajes do rio. O Mestre parou. Estávamos a um passo das citadas pedras negras.

Yehohanan pulou em uma das rochas e, dirigindo-se a seu primo distante, clamou com aquela voz rouca e áspera que o caracterizava:

"Vede o Filho de Deus, o Libertador do mundo!"

Fez uma pausa e esperou que os seus e os demais acampados se aproxi­massem da margem do rio. E continuou apontando para o Filho do Homem.

"... Deste é de quem disse: atrás de mim virá o escolhido que foi antes que eu!"

Observei Jesus. Ouvia impassível. E me perguntei: quem era aquele que gritava? Aquele não era o estilo de Yehohanan. E lá mesmo, ao ouvir o que ouvi, cheguei à conclusão de que não era o Batista quem falava. Não sei explicar. Aquela lucidez não era própria de um desequilibrado.

"...por causa disso saí do deserto! Para pregar o arrependimento e para batizar com água!"

Ergueu a voz, e todos estremeceram:

"Aproxima-se o Reino do Céu! Aqui o tendes!"

Tornou a apontar para Jesus. Depois, prosseguiu em sua estranha lucidez:

"Já vem aquele que os batizará com o Espírito da Verdade!"

O Mestre estava tranquilo e deixou que falasse.

"Eu vi o Espírito descer sobre este Homem, e ouvi a voz de Deus, que dizia: 'Este é meu filho muito amado com quem estou satisfeito'!"

Definitivamente, aquele não era o Yehohanan que eu conhecia.

Concluído o anúncio, o Batista voltou ao guilgal. Ninguém disse nada. Não sei se compreenderam.

E o Mestre, em silêncio, foi se juntar a Yehohanan e seus íntimos. Eu o segui, intrigado.

Jesus se sentou no guilgal, perto do Batista. Lá encontrei todos os "justos". Acho que se alegraram ao me ver, mas ninguém pronunciou uma só palavra. Olhavam para o Mestre e para Yehohanan alternadamente, mas isso era tudo. Lá estavam André e seu irmão Simão, e também Judas, o Iscariotes, e Belsa, o velho amigo, o corpulento persa do sol na testa. Fazia tempo que não os via - pelo que me lembrava, desde o passado mês de kisléu (dezembro), nos lagos de Enavan.

Não haviam mudado muito.

André, mais magro que Simão, continuava carregando sua timidez. Olhou-me e sorriu brevemente. Como creio ter mencionado, era mais velho que Jesus. Nesse ano 26 completava 33 anos. Tinha o mesmo rosto infantil e cuidadosamente barbeado. Seu irmão Simão - a quem posteriormente o Galileu batizaria com o apelido de "Pedra" (Pedro) tinha um ventre um pouco mais volumoso. Havia engordado. Olhava sem ver. Pareceu-me indeciso. Quanto a Judas, contemplava Jesus com seus olhos negros e profundos e parecia se fazer mil perguntas. Porém, não abriu a boca.

O ambiente, insisto, era tenso. O que estava acontecendo? Por que ninguém falava?

Foram minutos embaraçosos.

Alguns discípulos do Batista, os chamados "justos", baixaram a cabeça. Outros mantiveram o olhar no Filho do Homem. Eram olhares acusadores. Não entendi. Alguma coisa havia acontecido em nossa ausência.

Yehohanan, em outro de seus típicos arroubos, cobriu-se de novo com xale. E ficou mudo, deixando que a desagradável situação se prolongasse.

Simão pigarreou, sem saber o que fazer. André, ao seu lado, pediu calma com as mãos.

Foi Jesus de Nazaré quem pôs um ponto final à tensa cena. Sem dizer palavra, levantou-se, pegou a mochila e saiu do guilgal. Ninguém disse nada. Abner, o pequeno grande homem, o imediato de Yehohanan, balançou a cabeça negativamente, mas eu não soube o que lamentava.

O Mestre caminhou devagar por entre as davidia. Parecia procurar um para descansar ou passar a noite. Fui atrás d'Ele, atento. De repente, Estava ao pé de uma das frondosas árvores. Suponho que tenha lhe o, e acabou amarrando o saco de viagem em um dos galhos.

E nisso, quando me aproximava para dividir com Ele a davidia, alguém me ultrapassou. Era André. Estava com pressa. Encaminhou-se para Jesus. E, ao passar ao meu lado, cumprimentou-me:

Que a paz esteja contigo, "Esrin".

Yehohanan e os íntimos me chamavam assim: "Vinte".

Não tive tempo de responder. Teria gostado de interrogá-lo e de descobrir o que estava acontecendo com seus companheiros, os "justos".

Chegou ao Galileu e começaram a conversar. Fiquei quieto, a uns dez, doze passos, expectante. Não consegui ouvir suas palavras. E o Mes­tre, em outro de seus típicos gestos, acabou depositando as mãos nos om­bros do irmão de Simão. André baixou a cabeça. Depois, aproximando-se do saco, o Filho do Homem o abriu e começou a remexer lá dentro. Eu não sabia o que pretendia.

Aí, eu me perdi.

De repente, atrás de mim, ouvi gritos. Alguém pronunciava meu nome com entusiasmo.

Ao me voltar vi Kesil, nosso fiel e querido serviçal. Carregava uma mochila e corria para quem isto escreve.

Não cheguei a reagir. Não o esperava. Ou melhor, não os esperava.

O bondoso felah jogou o saco no chão e, correndo, jogou-se em meus braços. Quase me derrubou. Kesil chorava e tentava se explicar. Disse algo sobre Beit Ids. Havia dias que me procuravam. Por fim, na aldeia dos badu, os ajudaram e voltaram.

E nisso o vi. Entrou no bosque correndo. Era o engenheiro.

Tinha um aspecto lamentável.

Parou a poucos passos e me olhou, desafiador. Suava copiosamente e sua túnica estava suja e rasgada.

O olhar, incendiado de ódio, deixou-me inquieto. As ilusões sobre um possível acerto naufragaram à vista daquele Eliseu nervoso e alterado. Quis dizer algo, mas não consegui. Kesil também havia ficado mudo. Ele sabia que algo não estava bem entre nós e ficou de fora.

Eliseu continuou caminhando. Alcançou-me e passou por mim. Não era eu quem lhe interessava, por ora.

Alcançou minha mochila e se ajoelhou, abrindo-a.

Eu estava tão perplexo que não fiz um só movimento.

E o vi remexer lá dentro. Julguei compreender. Julguei saber o que estava procurando.

Jesus e André estavam perto, conversando. Não prestaram atenção à chegada de Kesil e do engenheiro. Eu me contive. Não queria contribuir para um escândalo na presença do Mestre. Esperaria.

Mas Eliseu, vermelho de raiva, levantou a vista e perguntou:

Onde está?

Não me permitiu responder.

Onde o colocou? Maldito filho da...

Kesil, espantado, deu um passo para trás.

Eu sabia que era o cilindro de aço que o interessava, mas permaneci mudo, com a atenção dividida entre Jesus e aquele energúmeno.

Colocou de novo as mãos na mochila e tirou o estojo de primeiros socorros. Mostrou as ampolas de barro com os medicamentos e gritou com cinismo:

- Não vai mais precisar disto. E vai me suplicar.

André, alertado pelo tom de Eliseu, voltou a cabeça, intrigado. Jesus continuava de costas, aparentemente ocupado com o saco de viagem. Sei que ele ouviu o engenheiro.

O que era aquilo que eu não ia precisar? Naquele momento não percebi. Maldito bastardo!

E exclamou, levantando-se:

Vamos fazer um trato, Major.

Apontou com a vista para as ampolas de barro que segurava nas mãos e arrematou com frieza:

O cilindro em troca dos oxidantes.

Sim, Eliseu era um desgraçado. Ele sabia que a dimetilglicina era fundamental para minha sobrevivência. Se deixasse de ingeri-la, podia ter uma recaída.

Percebeu minha angústia e sorriu, triunfante.

Passou diante de mim, abriu o saco de viagem de Kesil e guardou os remédios. Pegou a mochila e, dando meia-volta, distanciou-se. Eu sentia um nó no estômago.

No entanto, parou, depois de dar três ou quatro passos. Voltou-se para nós e clamou, ameaçador:

Não vai ter outro jeito senão devolvê-lo. Não é propriedade sua. Eu garanto: voltaremos quando você o devolver.

Não está comigo - repliquei.

Eliseu voltou. Postou-se a poucos centímetros de quem isto escreve e me olhou nos olhos. Sim, havia ódio naquele rapaz.

Está mentindo.

Gostaria de ter lhe explicado como o perdera, mas não fazia sentido. Além de tudo, o Mestre continuava ali.

Ao me ver hesitar, enchendo-se de coragem, jogou-me na cara o que mais podia me doer. E falou em voz baixa, em inglês:

Você não tem o que precisa. Não me estranha que Ruth o tenha desprezado. Maldito efeminado!

A seguir, deu meia-volta e se afastou apressado. Kesil, aturdido, foi atrás dele.

Foi uma paulada. Eu não era um efeminado, e também não tinha consciência de ter sido desprezado por Ruth.

As forças me abandonaram e me deixei cair no chão.

Como havíamos chegado a esse desastre? Não foi a perda dos antio­xidantes que me fez desmoronar. Nem mesmo a ameaça do engenheiro sobre o retorno ao nosso tempo. O que me feriu profundamente foi a alu­são a minha amada.

E cheguei a questionar: ela havia me desprezado? Talvez Eliseu tives­se razão. Eu era um velho.

Não sei quanto tempo se passou. A questão é que, ao voltar à realida­de, o Mestre e André não estavam mais lá.

Procurei-os pelo acampamento. Nem sinal. Ninguém sabia de nada.

E, derrotado, voltei ao centro do bosque dos lenços. Sentei-me e ten­tei ordenar os pensamentos. O Galileu não estava em Ômega. Voltaria? Ao que parecia, estava acompanhado por André. Este guardava suas coi­sas no guilgal. Ali estava Simão, seu irmão. Segundo me explicou, queriam seguir com o vidente. André, portanto, teria que voltar ao meandro. Mas não tinha tanta certeza das intenções do Galileu. Levara consigo o saco de viagem. Pretendia voltar ou seguiria para o norte, para a Galiléia?

E amaldiçoei minha falta de sorte.

Foi quando, com o sol no zênite, apareceram Abner e Belsa. Eles ha­viam me visto de um lado para o outro perguntando pelo Mestre. Minha preocupação não passou despercebida. E o imediato de Yehohanan, toman­do a palavra, interessou-se por minha pessoa e por minha longa ausência. Apesar de seu aspecto repulsivo, de gengivas vermelhas e sangrantes, com sua voz aflautada e as costelas quase aparecendo, aquele ari, um verdadeiro leão, segundo a linguagem dos judeus, era um ser afetuoso e sincero. Belsa também se mostrou interessado em minhas andanças. Por fim, havia en­contrado seu líder. Foi o que disse. E tornou-se o braço direito de Abner.

Eu me estendi até onde julguei oportuno, evitando o assunto da cura de Ajashdarpan e, evidentemente, sem mencionar as decisões a que o Mestre havia chegado em seu retiro, nas colinas de Beit Ids.

O corpulento Belsa foi quem mais perguntou: como era Jesus? O que pretendia? Qual era sua mensagem? Era verdade o que afirmava Yehoha­nan? Tratava-se do Messias esperado? Levantaria a nação judaica contra Roma? Despedaçaria seus inimigos? Era um quebrador de dentes, como afirmavam os profetas antigos? Era zelote? Portava armas? Quem eram seus "justos"? Por que havia voltado?

Tantas perguntas me fizeram recear. E respondi com evasivas ou com verdades.

Depois, satisfeita em parte a curiosidade dos discípulos do Batista, fui eu que passei à ofensiva e me interessei pelo ocorrido em Ômega desde que partira para o leste naquele histórico 14 de janeiro, dia do batismo de Jesus e Nazaré. O que estava acontecendo com os íntimos de Yehohanan? Por que tanta frieza quando o Mestre apareceu?

Abner fez um esclarecedor resumo da situação.

Depois dos portentosos acontecimentos registrados no rio Artal naquele 14 de janeiro, as notícias sobre vozes celestes e chuvas azuis se propagaram em todas as direções. E foram muitos os que se dirigiam ao meandro Ômega com a esperança de ver e ouvir o responsável por tais maravilhas. Mas esse suposto Messias não estava ali, e as notícias acabaram se desvanecendo. As pessoas foram embora, decepcionadas. “E perdemos outra magnífica oportunidade", afirmou o pequeno grande homem. - "Tudo estava ao nosso favor. Yehohanan só precisava se levantar em armas. O povo o teria seguido."

Abner, o homem-sorte, como o chamavam no grupo, tinha razão, em parte. Yehohanan não teria tido problemas para liderar uma sublevação contra os invasores, os kittim, ou romanos. Mas o vidente recuou e decidiu esperar o retorno de seu parente. Isso atiçou a polêmica entre os seus e entre os seus seguidores. Ele era o verdadeiro Messias. Não tinham por que esperar o tal Jesus, nem ninguém. Como já relatei antes, a visão messiânica dos judeus não tinha relação alguma com os planos do Mestre. Para a maioria dos judeus, esse ansiado Messias seria um libertador político-social que levaria Israel à liderança das nações. Esse Messias em questão não buscaria um reino espiritual, como defendia Jesus de Nazaré, e sim a vitória sobre os inimigos do povo escolhido. O novo reino, em suma, era, para eles, um assunto de poder, de poder e de poder.

Foi nesses dias de ausência que surgiu no bosque dos lenços uma nova representação dos sacerdotes de Jerusalém. Abner foi muito explícito em suas explicações:

Chegaram aqui com toda sua pompa, certos de que o vidente era um louco ou um iluminado. E perguntaram a Yehohanan se ele era Elias. O vidente disse que não era. E tornaram a perguntar pela segunda vez: “Tu és o Messias de que falam as Escrituras?” O vidente disse: 'Não sou eu'. E os sacerdotes argumentaram: 'Se tu não és Elias, nem o profeta que Moisés prometeu, nem o Messias, por que batizas as pessoas com tanto alvoroço?'. E o vidente disse: 'Eles, os batizados, é que deveriam dizer-vos quem sou eu. Mas responderei à vossa pergunta: eu vos digo que, embora batize com água, um dia voltará aquele que o faz com o Espírito da Verdade'."

"E os malditos sacerdotes e fariseus voltaram à Cidade Santa, mas não compreenderam. E nós também não."

Abner foi sincero. Aquele, sem dúvida, foi outro momento de espe­cial lucidez na vida pública do Batista.

Aqueles 39 dias, enfim, desataram algo inevitável, do meu modes­to ponto de vista. Parte dos íntimos de Yehohanan repudiou o Mestre, mesmo sem tê-lo visto e sem saber de sua mensagem. Jesus de Nazaré se tornou inimigo do líder deles. Por isso, ao vê-lo sentado no guilgal, desprezaram-no. Era um conflito que cedo ou tarde ia explodir.

Outros discípulos, poucos, jogaram na cara do vidente o fato de não fazer milagres. A notícia sobre a cura milagrosa do menino mestiço chegou até Ômega, mas foi situada erroneamente na cidade de Pella. Por isso não encontraram Ajashdarpan. E Yehohanan ficou em silêncio. A situação foi tão crítica e tão penosa que o vidente parou de batizar e entrou em um estado de permanente mutismo. Quando Jesus e quem isto escreve chega­mos ao bosque dos lenços, a decepção e a confusão dominavam os "justos". Ninguém sabia o que fazer. Qual seria o futuro daquele nascente movimen­to revolucionário? Quem seria o líder? E ocorreu um grave cisma entre os seguidores do Batista. Esdras, um dos discípulos, era o líder dos que cri­ticavam duramente Yehohanan por não ter se rebelado contra Roma. Em breve, quem isto escreve seria testemunha da primeira grande ruptura entre os referidos "justos".

E à décima hora (quatro da tarde) apareceu no bosque Jesus de Na­zaré e o bom e doce André. Respirei aliviado.

 

O Mestre não parou no círculo de pedra onde estava Yehohanan com sua gente. Seguiu até o centro do bosque das davidia e se juntou a quem isto escreve. André parecia intimamente feliz. Sorria por qualquer coisa.

O Galileu abriu o saco e me dedicou um longo olhar. Eu sabia que Ele sabia. Sabia que Ele sabia de minha tristeza.

Jesus abandonou o intenso olhar e desenhou um sorriso que me foi conquistando. Retirou a faixa branca de lã que cobria suas têmporas e da mochila aquilo que seria nosso jantar: carne salgada, nozes sem pele, azeitonas em salmoura, tâmaras de Jericó recém-chegadas a Pella, e pão preto, outra especialidade dos badu.

André explicou que o Mestre havia cuidado pessoalmente da compra. E a pagara com seu dinheiro.

- Agora, acorda, querido malak.

E acrescentou, piscando para mim:

Confia. A esperança está comigo, não é?

Assenti.

Mensagem recebida.

E corri para preparar o fogo. André cuidou do corte da carne.

Ergui a vista brevemente e explorei o guilgal pela enésima vez. Que grande diferença entre aqueles homens e os deste lado do bosque. Os “justos”, confusos, haviam perdido a esperança. Nós viajávamos com ela.

Jesus procurou o sol em meio à ramagem das davidia. Faltava uma e meia, aproximadamente, para o ocaso. Voltou à mochila, tirou a de reserva e os instrumentos para o asseio e dirigiu-se ao Artal. era outro costume seu.

André e eu continuamos com nosso trabalho. O irmão de Simão estava feliz. E não era para menos.

Acabou me contando. Precisava. Queria abrir o coração e dividir sua alegria. Foi ssim que eu soube daquelas horas vividas pelo Mestre e por André em meio às pessoas da populosa cidade de Pella, também conhecida como Fahil.

Ao abandonar o meandro Ômega, ambos se dirigiram diretamente à cidade. Jesus queria comprar provisões. E assim fizeram. E conversaram durante horas.

André conhecia Jesus há muito tempo. Embora nascido em Nahum, o irmão de Simão vivia fazia anos na pequena aldeia de Saidan, vila pes­queira de Nahum. Chegaram a trabalhar juntos no estaleiro dos Zebedeu e se encontraram mais de uma vez no yam para pescar.

Aquele Homem sempre me chamou a atenção - resumiu André. - Eu sabia que Ele era especial.

André morava na casa de Simão. Naquele momento, estava solteiro. Tinha mãe e três irmãs. O pai falecera anos antes.

No meio da gente que enchia um dos mercados de Fahil, aconteceu que um dos operários que trabalhava na construção de uma casa se preci­pitou ao chão. As pessoas se aglomeraram em volta do rapazinho e viram que estava ferido. Jesus e André estavam lá. O Mestre abriu caminho por entre os curiosos e examinou o rapaz. Estava com um braço quebrado. O Mestre procurou umas tábuas e improvisou uma tala, imobilizando o braço do rapaz. Depois, com a ajuda de André, levaram-no para casa. A família era de origem persa, muito humilde.

E o ferido, curou-se?- perguntei com impaciência.

André não podia imaginar o sentido de minhas palavras. Negou com a cabeça e acrescentou:

Que eu saiba, lá ficou, com o braço imobilizado.

Tens certeza? Recordas se o braço foi curado?

Não, não foi curado.

Não insisti. Estava começando a parecer um perfeito idiota. A lem­brança do ocorrido com o menino mestiço no olival de Beit Ids me deixa­va um tanto transtornado. Via milagres por todos os lados.

E o paciente André prosseguiu com o que realmente importava.

A caminho de Ômega, não pôde se conter e disse ao Mestre o que me revelava naquele momento:

Eu te observei durante muito tempo - disse - e sei que és alguém muito especial. Embora não entenda o que dizes, eu gostaria de estar ao teu lado e aprender.

Dada a timidez do rapaz, imaginei o esforço que teve que fazer para pronunciar estas palavras.

Se permitires, eu me sentarei a teus pés e aprenderei a verdade so­bre esse novo reino de que falas.

André fez silêncio, rememorando aquele histórico momento. Histó­rico para mim, não para ele. Ele ainda não sabia.

E então, o que aconteceu?

Nada.

Como nada?

Jesus disse que sim, que me admitia como discípulo.

E me olhou, atônito, como se o assunto não tivesse maior importância.

Eu não disse nada e continuei preparando o jantar. Definitivamente, André não tinha consciência do que havia acontecido de volta ao meandro Ômega. André havia se tornado o primeiro apóstolo do Filho do Homem. Isso aconteceu entre a nona e a décima (entre três e quatro horas da tarde) daquele sábado, 23 de fevereiro do ano 26 de nossa era. Era importante que eu recordasse.

André não soube explicar, mas a partir desse momento sentiu-se pleno e feliz. E soube transmitir isso.

Ao voltar ao "berço" e atualizar estes diários, peguei a "ficha técnica que havia elaborado para cada um dos "12", assim como para outros personagens, inclusive mais destacados, e complementei o já escrito. Naquele momento, a ficha de André dizia assim:

“Nascido em Nahum. Família de estirpe. Escolhido apóstolo em pri­meiro lugar: ao entardecer de 23 de fevereiro do ano 26, de volta ao bosque dos lenços. Solteiro. Habita a casa de Pedro, em Saidan. A mãe é viva. Tem tês irmãs. Chamam-no de segan (chefe). Completou 33 anos ao ser escolhido apóstolo. É o mais velho dos 12. Um ano mais velho que o Mes­tre: 1,60 metro. Mais magro que Pedro, seu irmão, mas também forte e robusto. Cabeça pequena, cabelo fino e abundante. Olhos azuis. Rosto infantil. Sempre bem barbeado.

Personalidade: o mais capaz dos 12, embora nulo para a oratória. Bom organizador e melhor administrador. Pensamento lógico. Clara visão. Acertado em seus juízos. Muito estável. Grande serenidade. Nervos equilibrados. Bastante incrédulo e pragmático. Desconfia de todos, em especial de seu irmão Simão Pedro. Relaciona-se bem com ele. Em geral, sério e distante. Silencioso e tímido. Introvertido. Parece sempre preocupado. Bons reflexos e rápido em suas decisões. Quando o problema é demais para ele, procura o Mestre e o consulta. Sempre desconfiou de Judas Iscariotes. Defeito principal: falta de entusiasmo. Não gosta de elogiar ninguém. Odeia mentira e adulação. Tem dificul­dade para reconhecer os méritos alheios. Muito trabalhador. Tudo que conseguiu foi com seu esforço. Admira Jesus por sua sinceridade e por sua grande dignidade.

Ofício: pescador e construtor de barcos.

Seu pai (falecido) foi sócio de Zebedeu no negócio de pescado salgado. Sócio de Tiago e João Zebedeu.

Vestimenta: sempre limpo. Habitualmente armado (gladius hispanicus).

E, à medida que o bondoso André ia confessando a grande notícia, fui percebendo algo estranho. Ele falava e trabalhava com desenvoltura, sempre que podia, escondia as mãos. Quis examiná-las, mas ele não permitiu, categórico, e as escondeu nas mangas da túnica. Ele corou, e pedi desculpas. Não era minha intenção.

Sorriu sem vontade. Compreendi, em parte. O mal que o acometia não era bem-visto pela sociedade judaica em geral. André padecia de um tipo de psoríase, uma doença que provoca a inflamação da pele. As mãos, pelo que pude ver, tinham as típicas placas escamosas, arredondadas e de diferentes tamanhos, eritematosas e cobertas por escamas imbricadas, de um branco acinzentado e prateado. As unhas quase não existiam. Sofria onicólise, ou desprendimento das unhas por alterações tróficas. Nos po­legares, notei as típicas "manchas de óleo". No couro cabeludo também se viam outras lesões similares. E imaginei que a psoríase devia ter dominado outras partes do corpo, como as faces extensoras dos membros (especial­mente as espinhas tibiais) e a região sacral. A doença em questão, como algumas alopecias e outras enfermidades dermatológicas, era considerada pela ortodoxia judaica como um dos diferentes tipos de lepra. E os portado­res, qualificados de impuros, e consequentemente afastados da sociedade. Não entendi como André, doente de sapahat (psoríase), havia conseguido se dar bem. Questão de sorte, pensei. Mas o que mais estranhei foi o fato de essa doença não aparecer no discípulo no ano 30, quando o vira pela pri­meira vez. A única explicação é que a psoríase acabou entrando em remis­são. Mas, como disse, achei estranho. E aí o assunto ficou meio esquecido.

André voltou ao normal e confessou que tinha um grande desejo. Seu irmão Simão era um bom homem, um tanto inepto em suas decisões, mas honrado e sincero. André não o via como discípulo do vidente. E pensou que seria bom que seguisse seus passos e aceitasse se tornar seguidor do Mestre.

Ouvi com atenção. Ele, logicamente, não sabia que esse desejo estava prestes a se realizar.

E perguntou minha opinião. Dei de ombros. Não podia nem queria influenciá-lo.

Dito e feito. André parou o que estava fazendo e foi para o guilgal.

Eu estava prestes a presenciar outro acontecimento histórico.

André conversou com o irmão. Ambos saíram do círculo de pedras e continuaram dialogando. André deu-lhe a notícia de sua recente nomea­ção e Simão, a julgar pelos gestos, não recebeu a designação de André com muita alegria. Levou as mãos à cabeça em várias oportunidades e andou de um lado parao outro, inquieto.

Por fim se separaram. Simão voltou ao guilgal e André voltou a este intrigado explorador. Perguntei o que havia acontecido.

André balançou cabeça negativamente. Parecia desanimado. Seu ir­mão, como suspeitei, não ficou feliz com a nomeação de André. Eram discípulos de Yehohanan. Não o deviam abandonar. Isso seria traição. Essa era a opinião de Simão. E voltou para junto do vidente e dos "justos".

Então - perguntei -, rejeitou a possibilidade?

André pediu que eu aguardasse. Simão era assim. Primeiro dizia uma coisa e depois mudava de idéia. Era seu jeito de ser.

Eu sabia. Tive a oportunidade de presenciar essa fraqueza de caráter quando negara o Mestre em quatro ocasiões: três em público e uma em particular. E já estava havia anos com Ele.

Observei o comportamento de Simão. Ficou sentado um bom tempo com a cabeça afundada nas grandes mãos. E, de repente, levantou-se e abandonou o círculo de pedras. Caminhou decidido para nós e parou em frente ao irmão. André tinha razão.

Não farei isso! - clamou com os olhos arregalados. - Será que não compreendes?

Seu irmão continuou com o jantar, aparentemente alheio à preocupação do impetuoso Pedro.

Não farei isso! - repetiu, não tão convicto. - Eles, os "justos", não merecem uma coisa dessas. Além de tudo, eles nos desprezariam.

André abandonou o que estava fazendo e dedicou-lhe doces e firmes palavras:

É nossa oportunidade. Esse Homem não é como o vidente. Ouve o que eu digo. Tenta, pelo menos.

Simão era inteligente e sabia que André tinha toda a razão.

Então, com o rosto grave, sem pronunciar uma só palavra, Simão deu meia-volta e se encaminhou de novo para o guilgal.

André sorriu para mim. Conhecia bem o irmão.

Vi-o entrar no círculo sagrado e falar com Abner, o pequeno homem. O homem-sorte ouviu-o em silêncio. Depois, aproximaram-se de Yehohanan e falaram com o gigante das sete tranças louras. O Batista pareceu não se alterar e ficou em silêncio. Supus que Abner estivesse lhe comunicando a decisão de Simão e de André de abandonar o grupo.

Não houve reação do vidente no momento.

André e eu nos olhamos, desconcertados.

Porém, instantes depois, Yehohanan se levantou e começou a andar da árvore dos óstracos. Era sua liturgia. E os demais discípulos, obedientes, seguiram-no. Simão não se juntou ao ritual. Girou sobre os calcanhares e afastou-se do círculo. Ao chegar junto ao irmão levou o dedo indicador esquerdo à têmpora e o girou duas ou três vezes, querendo dizer que o vidente não estava em seu juízo perfeito.

Concordo - encerrou o assunto. - Onde está teu Mestre? Falarei com Ele.

Os relógios do módulo indicavam 17 horas. Faltava meia hora, ou pouco mais, para o pôr do sol.

E Jesus não tardou a aparecer. Usava a branca e chamuscada túnica sem costuras, presente de sua mãe. "Preciso consertar isso", pensei.

O Mestre, descontraído, sentou-se perto do fogo. Senti um cheiro...

 

Perfume de sândalo branco.

Eu o associava ao sentimento de amizade, à serenidade no coração de Jesus de Nazaré.

E Ele ratificou meus pensamentos com uma nova piscada. Ou foi pelo negócio da túnica?

Estávamos famintos. E o jantar correu em paz e em silêncio, ao estilo dos badu. Naquele momento, percebi a brusca mudança de cenário. Os judeus eram muito diferentes dos arab. Eu tinha que ser muito prudente.

Findo o jantar, pouco antes da primeira vigília da noite, André decidiu falar. Fez certo rodeio. Falou de Nahum e de Saidan, dos Zebedeu, do tra­balho no lago e do tempo que fazia que Simão e ele conheciam o Galileu.

Observei o Mestre. Havia estendido as palmas das mãos para a ner­vosa fogueira. Parecia esperar algo importante.

E assim foi. André, engasgando, acabou dizendo que seu irmão Si­mão adoraria poder servir o Filho do Homem, assim como havia acon­tecido com ele próprio.

Simão ouvia em silêncio. De vez em quando coçava a calva, nervoso. E torcia as pequenas e toscas mãos. Mas sua atenção não estava centrada nas palavras do irmão ou no rosto grave de Jesus. Notei que olhava várias vezes em direção ao círculo de pedras onde se agrupavam os "justos", com Yehohanan à frente. Intuí que continuava preocupado com a ideia da traição ao vidente e a seus íntimos. Aquele homem não tinha jeito...

E André, então, bem ou mal propôs a Jesus que Simão fosse acei­to como discípulo. O Mestre replicou imediatamente. Suponho que fazia tempo que esperava essa proposta.

Simão - disse -, és um homem entusiasta, mas não pensas quando falas.

O rude pescador esqueceu o guilgal e voltou ao rosto de Jesus. Ficou de boca aberta, com os olhos azuis fixos nos do Mestre. Temi uma de suas loucas reações. Mas não. André assentiu com a cabeça, em silêncio, corroborando o afirmado pelo Galileu. E Simão, imaginando o pior, baixou o rosto mole e redondo, reconhecendo que aquele Homem tinha razão. Conversei com ele em outras oportunidades, e ele soube enfrentar a verdade: naquele momento, pensou que Jesus o rejeitaria. Mas o Mestre, obviamente, tinha outros planos, e prosseguiu:

Isso é perigoso para a tarefa que vou te atribuir.

As várias rugas do rosto de Simão relaxaram. André sorriu, satisfeito.

Eu te recomendo que penses no que dizes.

Simão respondeu como um autômato. Balançou a cabeça afirmativamente, mas não disse nada.

E o Mestre concluiu:

- A partir de agora, chamar-te-ei de "pedra".

Jesus pronunciou a palavra aramaica êben, que poderia ser traduzida por “rocha" ou "pedra". Estava claro. Jesus o aceitara e, de quebra, demonstrara seu finíssimo senso de humor. Chamara-o de "pedra" justamente por sua fraqueza de caráter. Mas Simão só captou a sutileza muito tempo depois.

Calculo que estávamos por volta das nove da noite quando ocorreu o não menos histórico momento da escolha de Simão como o segundo discípulo do Mestre. Pedro também não teve consciência do ocorrido nessa noite às margens do silencioso rio Artal. Sua mente, naquele momento, em outro lugar: no guilgal de Yehohanan.

E Pedro e André, principalmente o segundo, esforçaram-se para per­guntar a Jesus tudo que lhes vinha à mente. (Na realidade, tanto o Mestre quanto os outros 12 nunca chamaram Simão pelo nome de "Pedro", mas pelo já citado apelido: Êben. Porém, por questão de comodidade e para tornar mais compreensível este texto, chamarei Simão como é denomina­do na atualidade: Pedro ou Simão Pedro.)

O Mestre fez o que pôde. Respondeu às perguntas, mas os irmãos pescadores do yam não conseguiam entender. A linguagem de Jesus era clara e muito didática, mas aquelas alusões a um Pai Azul, substitutivo do colérico Yaveh, iam além de sua compreensão.

O Filho do Homem acabava de inaugurar ensinamentos que se pro­longariam durante muitos meses.

Ouvi em silêncio. Tudo isso estava claro entre o Mestre e quem isto escreve. Eu me senti feliz. Esqueci as penúrias da missão e as agressões verbais de Eliseu. Assistir a essa cena não tinha preço. Era o nascimento de um grupo, um lindo grupo, com uma bela utopia nas mãos. A propó­sito, o que tinha a ver isso que eu acabava de presenciar com o relatado pelos evangelistas?

Mateus (4, 18-22) diz literalmente: "E Jesus, andando ao longo do mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, os quais lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: 'Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens'. Eles, pois, deixando imediatamente as redes, o seguiram. E, passando mais adiante, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, no barco com seu pai Zebedeu, consertando as redes; e os cha­mou. Estes, deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no."

Marcos, por sua vez (1, 16-20), copia praticamente o narrado por Mateus. Quanto ao inefável Lucas (5, 1-12), seu texto também não se desaproveita: "Certa vez, quando a multidão se aglomerava ao redor de Jesus para ouvir a palavra de Deus, estava junto ao lago de Genezaré; viu dois barcos junto à borda do lago; mas os pescadores haviam des­cido dos barcos, e estavam lavando as redes. Entrando ele em um dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da ter­ra; e, sentando-se, ensinava, de dentro do barco, as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: 'Faze-te ao largo e lançai as vossas redes rara a pesca. Ao que disse Simão: 'Mestre, trabalhamos a noite toda, e nada pescamos; mas, porque tu o dizes, lançarei as redes'. Feito isto, apanharam uma grande quantidade de peixes, de modo que as redes se rompiam. Acenaram então aos companheiros que estavam no outro rarco, para virem ajudá-los. Eles, pois, vieram, e encheram ambos os barcos, de maneira tal que quase iam a pique. Vendo isso, Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: 'Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador'. Pois, à vista da pesca que haviam feito, o espanto se apoderara dele e de todos os que com ele estavam, bem como ae Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão. Disse Je­sus a Simão: 'Não temas; de agora em diante serás pescador de homens'. E, levando eles os barcos para a terra, deixaram tudo e o seguiram".

Os evangelistas, os três, confundem o cenário. A escolha de André e de Simão Pedro não foi no yam ou mar de Tiberíades, mas muito mais ao sul, no referido afluente do rio Jordão, e relativamente perto da cidade de Pella, na Decápole. Também não fazem referência à tensa situação com o Batista, e muito menos às dúvidas de Pedro. Nenhum deles fala de como s e deu a escolha de André, o primeiro selecionado. Quanto a Lucas, habituado já a seu caótico evangelho, não me espanta que confundisse Simão Pedro com outro pescador, também chamado Simão. Mas essa é uma história, muito rica, que contarei mais adiante. Ou melhor... Mas não devo me antecipar aos acontecimentos.

E resisto a ignorar outro "detalhe" que evidencia o desastre evangéli­co, para utilizar uma expressão caritativa.

Marcos (1, 12-13), ao falar do retiro de Jesus de Nazaré após o batis­mo, diz literalmente: "Imediatamente, o Espírito o impeliu para o deserto. E passou 40 dias sentado no deserto, tentado por Satanás; estava entre as feras, e os anjos o serviam".

Assombroso. Quem pode ter informado Marcos? Em Beit Ids, que não tinha nada a ver com o deserto, havia feras: lobos, javalis, cobras e escorpiões, mas Jesus não viu nem um só animal, que eu saiba. A não ser que o bondoso Marcos se refira a "Matador" e seu bando. Mas acho que não. Quanto a Satanás, o escritor sagrado deve ter ouvido alguma coisa (?), mas também não acertou.

Dito isto, acho que devo fazer uma retificação. Eu também cometo erros, e muitos.

Dizia que me senti feliz ao ouvir o Mestre e seus dois primeiros após­tolos naquela noite de 23 de fevereiro do ano 26. E dizia igualmente que foi o nascimento de um grupo, com uma bela utopia nas mãos. Pois bem, esse foi meu erro. Não se tratava de uma utopia. Uma utopia é um projeto ideal e perfeito, mas impossível de executar. Eu me enganei. O projeto de Jesus - revelar a verdadeira face do Pai e a irmandade entre os seres humanos - é um assunto belíssimo e esperançoso, mas não utópico; eu o considero real. A julgar pelo que me coube viver ao lado do Galileu, entendo que esse Pai Azul é muito mais real que a realidade.

A conversa se prolongou por um bom tempo; não muito. Todos es­távamos esgotados.

Pedro, como estava dizendo, não parava de olhar para a árvore sob a qual se abrigava o grupo dos "justos". Estava com receio.

Por fim, de mútuo acordo, fomos descansar. Jesus usou seu saco de via­gem como travesseiro e se deitou ao pé de uma das davidia, perto do fogo. André fez o mesmo, ao lado. Pedro, por sua vez, foi se sentar a três ou quatro passos da fogueira, e reclinou-se em outra árvore corpulenta. Eu fiquei em frente ao fogo durante alguns minutos. Precisava absorver tudo aquilo.

E fiquei observando Simão Pedro. Ele não dormia. Continuava vigi­lante, com a vista fixa no guilgal. Não sei o que podia estar passando por sua mente naquele momento.

No círculo de pedra não se detectava atividade. Supus que estives­sem dormindo. No acampamento, no meio das tendas, distinguiam-se algumas lamparinas de azeite e um punhado de tochas que ia e vinha. Logo se apagariam.

Jesus e André não tardaram a adormecer. E Pedro, vencido pelo sono, começou a dar cabeçadas. Eram cabeçadas violentas. Temi que batesse a cabeça no chão. E começaram os roncos; roncos heroicos e insuportáveis. Sua cabeça e seu tórax afundavam lenta e inexoravelmente, e, por fim, Simão se recuperava e voltava momentaneamente a si, erguendo-se e ajei­tando a posição, encostado no tronco da árvore. Então, espiava de novo o grupo de Yehohanan. Mas o sono o vencia e se repetiam as perigosas cabeçadas. E tudo de novo.

Procurei um lugar perto da fogueira. Coloquei a "vara de Moisés" ao meu lado e tentei dormir.

Impossível.

Os roncos do discípulo tronaram no bosque. Eu não sabia o que fa­ne: nem em que posição ficar. Acho que fiquei obcecado com o assunto e continuei pensando nele, em uma mais que inútil tentativa de descansar.

Depois de um tempo, eu me rendi.

Voltei à fogueira, alimentei o fogo com outra carga de lenha e tornei a me sentar, depositando a "vara de Moisés" sobre minhas pernas.

O sono havia se afastado definitivamente. E me deixei levar pe­le s pensamentos. Eu não fazia idéia dos planos iminentes do Mestre. Voltaria à Galiléia, como dissera? Quando? E, uma vez lá, o que nos reservava o Destino?

Tornei a me censurar por aquela preocupação absurda. Estava com Ele. Isso era o que contava. A vida com Ele era uma permanente aventura. Tinha que aceitar isso e ficar feliz e satisfeito. E foi isso que me propus, uma vez mais.

Mas a noite não havia acabado, não senhor. Faltava outro capítulo, não menos eletrizante.

Calculo que estávamos na segunda vigília da noite (por volta de duas da madrugada). Não fosse pelos roncos de Pedro, eu diria que o bosque adormecera. Não se via uma só luz no acampamento. As estrelas, atarefadas, brilhavam no alto.

Alimentei o fogo e me resignei. Outra noite em claro.

O Mestre dormia profundamente, e André também.

Então, ao longe, na área da ponte de pedra, vi uma luz amarelada. E stava oscilando.

Eu fiquei em guarda.

E a luz continuou avançando rumo ao bosque dos lenços.

Prestei atenção e imaginei que se tratava de uma tocha. Aproximava-se devagar, como se o portador caminhasse com dificuldade.

E logo chegou ao guilgal. Eu estranhei. O indivíduo que segurava o archote parecia conhecer o terreno.

Mas não era um homem; eram dois.

Acordaram os "justos" e os ouvi conversar.

Pedro continuava roncando e dando perigosas cabeçadas.

Notei certa alteração no círculo de pedras. Alguns discípulos de Yehohanan reclamaram do alvoroço. Outros se levantaram e se aproxima­ram dos homens da tocha. E lá permaneceram, conversando, pelo menos durante uma hora. Em algumas oportunidades, elevaram o tom das vozes. Discutiam, mas não consegui descobrir a razão. Yehohanan não partici­pou do estranho concílio.

Fiquei tentado a me aproximar, mas decidi esperar.

De repente, a discussão parou e a tocha se agitou de novo. O porta­dor abandonou o guilgal e se dirigiu à fogueira que me iluminava.

Eram dois homens que se aproximavam. Os demais "justos" continuaram no círculo sagrado. Vi-os deitar-se novamente.

Eu não soube o que fazer, mas acariciei a "vara de Moisés", disposto a qualquer coisa.

Não foi necessário. Ao chegar perto do fogo, reconheci o homem do archote. Era João Zebedeu. Atrás apareceu seu irmão Tiago.

Confesso. Respirei aliviado.

E imaginei que acabavam de voltar das colinas de Beit Ids. Não me enganei.

João passou os olhos pela cena. Quase nem me olhou.

Tiago, chegando perto do irmão, tentou persuadi-lo de algo:

Deixa-o. É muito tarde. Amanhã.perguntaremos.

Mas João não respondeu. E fixou os negros olhos no adormecido Pedro. Percebi uma centelha de ira. Aquilo não me agradou.

Passou a tocha a Tiago e foi para Simão. Inclinou-se sobre ele e o cha­coalhou sem cuidados. Pedro acordou sobressaltado. E o Zebedeu, sem mais nem menos, soltou à queima-roupa:

Dize-me: é verdade que agora és um discípulo de Jesus?

Notei raiva no tom de João.

E insistiu, colérico:

Responde! É verdade?

Pedro, que não entendeu muito bem, respondeu balbuciante:

Não sei... Sim, sou... Mas, na realidade, foi meu irmão...

Não havia dúvida. Aquele era o estilo de Simão Pedro.

Sim ou não?

Pedro se levantou e fez um gesto com a mão, apontando para seu irmão. João, então, sem disfarçar a contrariedade, encaminhou-se para o adormeci­do André e repetiu a cena. Chacoalhou-o e o acordou sem contemplações. Tiago se aproximou e pediu a João que se comportasse. "Isso não são ma­neiras..." censurou. Mas João Zebedeu também não respondeu. E continuou.

É verdade que agora sois discípulos dele? É verdade que haveis traído o vidente?

André não precisou de muito tempo para entender a situação. E, fria­mente, confirmou a primeira pergunta.

Isso mesmo: agora somos discípulos dele.

Quanto à segunda pergunta, André não se dignou a responder. Fez bem. O soberbo e convencido João havia merecido.

João soltou um palavrão e chutou a terra. Tiago, conciliador, pôs a mão no ombro do irmão e tentou acalmá-lo. João repudiou o gesto e con­tinuou chutando o chão, várias vezes.

Traidores! - gritava. - Traidores!

Então, dominado pela ira, ajoelhou-se em frente ao Mestre.

Comecei a tremer. De que aquele energúmeno era capaz? Eu me levantei e levei os dedos à parte superior da "vara de Moisés", o cravo dos ultrassons. Se fosse necessário os utilizaria, naturalmente. Jesus estava aci­ma de tudo.

Mas, quando o Zebedeu ia chacoalhá-lo, Jesus abriu os olhos. João se conteve. E o Mestre se sentou, reclinando-se na davidia. Observou os presentes e fez silêncio. Seu olhar penetrava tudo, também o impulsivo Zebedeu. Este, suponho, percebeu o fogo daqueles olhos cor de mel, quase sempre doces e pacíficos, mas às vezes assustadores.

João, então, usando de moderação, falou assim:

Como é possível que hajas escolhido outros se nós te conhecemos desde antigamente? Como é possível que, enquanto meu irmão e eu te procurávamos nas colinas, tu selecionaste Simão e André como os primeiros associados para o novo reino?

O Mestre deixou que se acalmasse. João acabou se sentando ao lado do Galileu e o mesmo fez Tiago. Pedro, porém, continuava atento à gente do guilgal. Também não sabia que, em certa medida, havia negado sua condição de discípulo do Mestre. André continuou sério e mudo. Ele não esqueceria aquela cena jamais.

Por fim, quando o Filho do Homem julgou oportuno, dirigindo-se a João e a Tiago alternadamente, perguntou:

Dize-me: quem vos mandou procurar o Filho do Homem quando estava ocupado com os assuntos de seu Pai?

Ninguém replicou. Porém, pouco tempo depois, João voltou à carga, dando todo tipo de detalhes sobre a infrutífera busca dos irmãos na região de Pella e nas colinas próximas. Jesus ouviu com atenção. No fim, ao diri­gir-se de novo aos Zebedeu, notei certo tom de censura em suas palavras:

Deveis aprender a buscar o novo reino em vosso coração.

O Mestre me dedicou um olhar fugaz.

Mensagem recebida.

E prosseguiu:

E não nas colinas. O que buscáveis já está dentro de vós.

E esclareceu o assunto da seleção de André e Simão Pedro:

Vós, de fato, sois meus irmãos e não necessitais que eu vos escolha.

Fez uma pausa e os explorou com o olhar. Ambos compreenderam.

Já estáveis no reino. Levantai o ânimo. Preparai-vos para ir à Gali­léia. Amanhã partiremos.

Essa era uma notícia. E, quando pensávamos que as coisas haviam ficado claras e encerradas, João Zebedeu, contumaz, insistiu:

Mas dize-me: seremos meu irmão e eu iguais a Simão e a André? Ocuparemos o mesmo posto no novo reino?

João não tinha jeito e, o que era pior, não sabia de que Jesus estava falando.

O Mestre se levantou, e João e Tiago o imitaram. Então, aproxi­mando-se, colocou as mãos nos respectivos ombros de João e de Tiago, e suave e carinhosamente pronunciou as seguintes palavras (umas pala­vras misteriosas):

Vós já estáveis comigo no reino antes de eles solicitarem ser meus discípulos. Mesmo assim, eu vos digo que poderíeis ter sido os primeiros se não vos houvésseis dedicado a procurar o que nunca esteve perdido. No reino futuro devereis aprender a fazer a vontade do Pai, e não a satisfazer vossas ansiedades.

Aí terminou o incidente. O Mestre pediu que descansássemos. Par­tiríamos ao amanhecer.

Faltavam umas três horas para o orto solar. E todos se acomodaram e tentaram dormir um pouco. Simão continuou acordado. Eu tornei a me sentar em frente ao fogo e repassei o ocorrido. Havia acabado de assistir à aceitação do terceiro e do quarto apóstolo de Jesus de Nazaré: João e Tiago Zebedeu. Mas o correto seria dizer que não houve desig­nação. Jesus, em nenhum momento, os recebeu como seus discípulos. Não houve um "sim" oficial. Eles se juntaram ao grupo porque eram amigos do Galileu, e de muito tempo. Essa foi a verdade, e não a que contaria João em seu evangelho (1, 35-40). Como já expliquei em outro momento destes diários, João simplesmente não contou toda a verda­de quando escreveu o referido texto evangélico. Basta dar uma olhada para captar a manipulação do Zebedeu. "No dia seguinte - reza o citado evangelho -, estava outra vez ali, com dois dos seus discípulos (refere-se ao Batista), e, olhando para Jesus, que passava, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus!' Aqueles dois discípulos ouviram-no dizer isto, e seguiram a Jesus. Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: 'Que buscais?' Disseram-lhe eles: 'Rabi' (que, traduzido, quer dizer Mestre), ‘onde moras?' Respondeu-lhes: 'Vinde, e vereis'. Foram, pois, e viram onde morava; e passaram o dia com ele; era por volta da décima hora. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João falar, e que seguiram a Jesus."

Diferente dos outros evangelistas, João, acertadamente, não situa a passagem no yam, ou mar de Galiléia. Mas confunde as palavras de Yehohanan quando o vidente se dirige a Jesus. Isso seria o de me­nos comparado com algo... inexplicável. Por que João Zebedeu não se refere à aceitação (?) de seu irmão e a dele mesmo como discípulos do Galileu? Ele estava lá. Só me ocorre uma explicação: se contasse, João teria que contar tudo, incluindo seu desafortunado interrogatório aos irmãos pescadores, e especialmente ao Filho do Homem. Isso teria ferido sua imagem perante os seguidores do Galileu e da nascente igreja. João não foi capaz de reconhecer sua vaidade e seus maus modos e escondeu o ocorrido às margens do rio Artal. Fala de André, sim, mas silencia a reprimenda de Jesus. E também não foi verdade que André e Pedro foram atrás do Mestre e lhe perguntaram onde morava. Era absurdo. Todos estavam no mesmo lugar: o meandro Ômega. Tem-se a sensação de que João tentou sair do apuro como pôde, mas não deu muito certo.

André e Pedro lhe contaram os pormenores de suas respectivas resignações, mas João desfigurou os fatos em seu próprio benefício. Também não contou a visita do Mestre à cidade de Pella, em com­panhia de André, nem a assistência de Jesus ao rapaz que se feriu, duanto às dúvidas de Simão Pedro e seus receios em relação à possível traição ao grupo do Batista, nem uma palavra. Isso teria igualmente ofuscado a imagem do futuro líder da Igreja. Simplesmente não interessava. E a verdade, uma vez mais, foi manipulada. Os seguidores das igrejas deveriam saber disso. Nada foi como contam os assim chama­dos "escritores sagrados".

Como dizia o Mestre, "quem tiver ouvidos que ouça."

E, ao voltar ao Ravid, tracei as "fichas técnicas" de João e de Tiago Zebedeu. O primeiro morreria sem conseguir superar sua vaidade e seu convencimento.[16]

 

                   24 a 25 de fevereiro

Nesse dia, o alvorecer foi registrado às 6 horas, 11 minutos e 13 segundos.

E, de acordo com o previsto pelo Mestre, preparamo-nos para viajar. Tomamos de café da manhã os restos do jantar, e alguém arranjou leite quente. As pessoas no acampamento foram se espreguiçando pouco a pouco. Tudo voltava ao normal.

Objetivo: Galileéia.

E cada um arrumou seus pertences.

Porém, de repente, em pleno café da manhã, ouvimos vozes. Vários tapuios do Batista gritavam e gesticulavam no guilgal. Todos nós volta­mos a cabeça para o círculo de pedras. E imaginei que se tratava de outra riscussão. Abner, o imediato de Yehohanan, estava no meio da confusão.

O Mestre, sentado junto ao fogo, ergueu os olhos para o guilgal, mas continuou molhando o pão no leite. Estava sério.

E o vozerio aumentou.

Deixei as tâmaras nas mãos de André e fui até a árvore dos óstracos. A disputa continuava esquentando. Uns gritavam, e os outros gritavam com mais raiva ainda. Eu não entendia nada.

Judas e Belsa ficaram à margem, observando com curiosidade.

Abner, quando me viu, afastou-se do grupo que discutia e se apro­ximou deste explorador. Estava com os olhos vermelhos. Supus que r.ão houvesse dormido grande coisa. E explicou a razão do novo con­flito. Um tal de Esdras - um dos últimos a se juntar ao círculo dos íntimos de Yehohanan - havia acabado de insultar o vidente. Chamara-o de traidor. As palavras do gigante da colméia pronunciadas no dia anterior, quando o Mestre estava entrando no bosque dos lenços ("Vede o Filho de Deus, o Libertador do mundo"), não agradaram a Esdras nem a vários "justos".

Esdras era um judeu quase negro e coxo. Era o que mais vociferava.

Em um momento da briga, conseguiu fazer as vozes amainarem e exclamou, irado:

Diz o profeta Daniel que o Filho do Homem chegará com grande poder e glória, envolvido nas nuvens do céu. Esse carpinteiro não pode ser o Libertador de Israel.

E perguntou com ironia:

E de Natzrat (Nazaré) pode sair um dom divino desses?

Abner protestou e se juntou de novo ao grupo.

Essa frase me soou familiar. Não tardaria a ouvi-la de novo.

E Esdras concluiu com umas palavras que também não agradaram aos que se mantinham fiéis ao vidente:

Esse Jesus, pela bondade do coração de Yehohanan, enganou nosso mestre. Vamos ficar afastados desse falso Messias!

Estás mentindo! - interrompeu Abner. - Ninguém enganou ninguém.

E Esdras, furioso, empurrou o pequeno grande homem, que rolou, literalmente, pelo guilgal. Em um instante, cinco espadas de dois gumes pararam a poucos centímetros da garganta do coxo.

Olhei para Yehohanan. Continuava imperturbável, sentado embaixo da árvore, como se a disputa não fosse com ele.

Belsa e eu trocamos um olhar. O persa parecia tranquilo. A julgar pela expressão de seu rosto, pensei que se alegrava com o ocorrido. Mas foi só um pressentimento.

Abner se ergueu de imediato e ordenou a seus homens que embai­nhassem as gladius. Eles obedeceram devagar e de má vontade.

E em silêncio, após cuspir aos pés de Abner, Esdras pegou seus per­tences e saiu do círculo de pedras. Outros o seguiram. E os vi se perderem rumo à ponte de pedra.

Judas, impassível, voltou a suas coisas. E não pude evitar um pensa­mento: estando tão perto do Iscariotes, por que Jesus não se aproximou dele e o designou um de seus discípulos? E imaginei também que o Desti­no sabia o que fazia. Não me enganei.

Voltei para o lado do Mestre. Ninguém perguntou nem fez comentá­rio algum. Cada um pegou seu saco de viagem e aguardamos as instruções do Galileu. O Filho do Homem, muito sério, pôs-se à frente da pequena comitiva e rumou para a ponte. Mas, ao passar pelo guilgal, o Mestre pa­rou. Deixou a mochila no chão e entrou no círculo. Abner se levantou e me interrogou com o olhar. Dei de ombros. Não sabia.

Jesus, então, foi até Yehohanan. O vidente continuou sentado. Olha- ram-se e, por último, o Mestre exclamou:

- Meu Pai te guiará agora e no futuro, como o fez no passado.

Isso foi tudo. Yehohanan não replicou. E o Mestre, dando meia-volta, abandonou o guilgal. Pegou o saco e retomou a marcha.

Nunca mais tornariam a se ver, pelo menos na Terra.

Yehohanan e Jesus de Nazaré se falaram quatro vezes na vida.

Deviam ser sete da manhã.

Chegamos à estrada romana que ligava Pella à também cidade pagã lei Shean e mergulhamos em outro mundo. O dia, azul, prometia ca­lor. Dezenas de caminhantes aproveitavam o relativo frescor da manhã e arreavam corações e gado, com pressa. Os gritos e xingamentos dos inevitáveis arreeiros me devolveram à realidade. E começamos a desviar de ovelhas e onagros. Era o retorno à "civilização".

Supus que Jesus, se quisesse chegar à Galileéia nesse mesmo dia de domingo, escolheria o caminho mais rápido: o que corria paralelo à margem direita do rio Jordão, e que este explorador havia transitado em outras oportunidades. No total, até a margem sul do yam, pouco mais de 30 quilômetros. Isso representava um tempo aproximado de sete, oito horas, se tudo corresse bem, é claro. Eu me enganei, uma vez mais.

Jesus tomou a dianteira. A pouca distância caminhavam os irmãos André e Simão Pedro. Um pouco mais atrás, absortos em suas conversas, os Zebedeu. Por último, fechando o grupo, como era igualmente habitual, qem isto escreve. A idéia, deduzi, era percorrer os 27 estádios (pouco mais de cinco quilômetros) que separavam o meandro Ômega do Jordão, sempre pela referida e confortável estrada. Depois, pensei, ao cruzar o rio, em frente à aldeia de Ruppin, viraríamos para o norte e seguiríamos pela estrada de Hayyim, Hasida, Bet Yosef, Yardena, Gesher, Afiqim, Ma-Agan e finalmente, Degania e Senabris. Uma viagem confortável, em princípio.

Mas não...

Não havíamos percorrido nem um quilômetro quando Jesus parou. Os demais o imitaram e cercaram o Mestre. Então, eu o vi. Era Felipe, chamado de Saidan. Eu o havia conhecido no ano 30. Não havia mudado grande coisa: ventre proeminente, olhos verdes, nariz curvo, mais avançado que o do Mestre, e um único dente no maxilar inferior. A calvície o perseguia com determinação. Era um guibéah, como cha­mavam os calvos. Usava uma túnica amarela, muito chamativa. Carregava um saco de couro a tiracolo. Debaixo da faixa via-se uma bainha de madeira com a típica gladius hispanicus.

Conheciam-se do yam. Felipe vivia em Saidan e trabalhava em qual­quer tipo de trabalho, mas sua especialidade (depois eu soube) eram os óleos essenciais. Ele havia visto Jesus em muitas ocasiões, mas não se pode dizer que eram amigos. Conheciam-se de vista, só isso.

Com ele caminhava outro Galileu, Natanael, ou Bar Tolmay (em ara­maico): filho de Tolmay, a quem os crentes chamam hoje de Bartolomeu. Era o ano 26 (fevereiro), e Bartolomeu não era conhecido de Jesus nem dos demais discípulos. Era a primeira vez que se viam. Bartolomeu era amigo e sócio de Felipe nos negócios de exportação e importação. Residia habitualmen­te na aldeia de Caná, na Galileia. Segundo disseram, dirigiam-se ao mean­dro Ômega para se informar sobre o suposto Messias, um tal de Yehohanan. Queriam saber se tratava-se do Libertador de Israel, como diziam.

Bartolomeu também não me reconheceu, claro. Arrastava a perna esquerda, como no futuro. Estava igualmente enfaixada com vendas de couro que tentavam aliviar um antigo problema vascular: veias varicosas (varizes), tão frequentes naquela época quanto em nosso "agora".

Observei-o, curioso. Mostrava o mesmo hirsutismo (corpo muito peludo) e aquelas chamativas telangiectasias, ou dilatações localizadas dos vasos capilares de reduzido calibre, e que davam ao seu nariz um as­pecto muito peculiar. Seu nariz sempre me chamou a atenção: deformado, redondo como uma bola de golfe, pintado de vermelho por causa das veinhas. Os olhos, intermináveis e profundos, davam equilíbrio a seu desa­fortunado corpo. O rosto, mais largo que comprido, lembrava um escudo romano. Dele pendia uma barba longa e grisalha, aberta em leque. Os lábios, muito sensuais, estavam sempre úmidos.

Aproximamo-nos. E o grupo continuou conversando. Bartolomeu saiu da estrada e deu uns passos pelo campo. Queria urinar. Depois, visi­velmente cansado, foi se sentar ao pé de uma amoreira e esperou que seu amigo terminasse a conversa.

O Mestre chamou à parte Tiago e lhe explicou o caminho a seguir. Eu fui o primeiro surpreendido. Não seguiríamos pelo vale do Jordão, como havia calculado quem isto escreve; adentraríamos o vale de Yezrael, ao oeste, e buscaríamos a estrada de Naim.

Naim? Para quê?

Não perguntei, naturalmente. O Mestre era uma caixa de surpresas.

E Pedro e os demais aproveitaram a ocasião para notificar Felipe que acabavam de se juntar a Jesus naquilo que Pedro definiu como "a constru­ção do novo reino". Entendo que o voluntarioso Simão Pedro não sabia muito bem de que estava falando, mas seu entusiasmo deslumbrou o homem de Saidan. E, sem mais nem menos, diretamente, sugeriu que se juntasse a eles. O da túnica amarela ficou perplexo. Não era isso que pretendia. Eles estavam procurando o Messias. E Pedro assentiu com uma segurança que me deixou atônito:

Já o encontraste. Fala com Jesus. Pergunta a ele.

Não hesitou nem um segundo. Foi para o Mestre, interrompeu as explicações que estava dando a Tiago Zebedeu e soltou, sem rodeios:

Mestre, devo ir até Yehohanan ou devo me juntar a meus amigos e seguir-te?

Jesus olhou-o, satisfeito. O rosto do Galileu se iluminou, e abraçando Felipe com um sorriso, respondeu seguro e decidido:

Segue-me!

E o Mestre continuou com o assunto da viagem como se não houvesse sido interrompido.

Felipe deu meia-volta e voltou a seus amigos. Estava tão desconcertado e feliz que não conseguiu falar por um bom tempo. Todos o acolheram sorridentes e o abraçaram. Felipe estava nas nuvens.

E, pouco depois, recomposto o ânimo, afastou-se do grupo e se dirigiu apressado ao esquecido Bartolomeu. Fui atrás dele e disfarcei, urinando. Felipe disse que havia encontrado o Libertador de Israel e que Jesus acabava de admiti-lo em suas filas. O homem de Caná olhou-o com ceticismo e re­plicou à meia-voz, sem dar muita importância ao que seu sócio havia dito:

De onde vem esse Libertador?

É Jesus de Nazaré, filho de José, o carpinteiro. Agora vive em Nahum e trabalha no estaleiro dos Zebedeu.

Bartolomeu sorriu debochado e proclamou:

Pode algo tão bom vir de Natzrat?

Vem e verás.

E Felipe arrastou o amigo à presença do Mestre.

Então, deu-se uma cena um tanto quanto embaraçosa. Ninguém dis­se nada. Todos olhavam para Jesus. Pareciam abobados.

E o Galileu, lendo no coração daqueles homens, exclamou:

Eis um verdadeiro israelita. Um homem sem engano.

Voltou a sorrir, colocou as mãos nos ombros de Bartolomeu e orde­nou, categórico:

Segue-me!

O homem de Caná ficou de boca aberta, sem acreditar no que estava ouvindo. Por último, voltando à realidade, dirigiu-se a Felipe e disse:

É verdade. Tens razão. Ele é um mestre. Eu também o seguirei, se é que sou digno.

Jesus, então, assentiu com a cabeça e repetiu:

Segue-me!

Eu havia acabado de assistir à escolha do quinto e do sexto discípulos. De­viam ser oito da manhã do domingo, 24 de fevereiro do ano 26 de nossa era.

João, em seu evangelho (1, 48-51), também acertou em relação às últimas palavras de Bartolomeu e de Jesus.[17] O Mestre não falou de nenhu­ma figueira (era uma amoreira) e também não fez alusão a esses anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem. Sem comentários[18]...

Uma hora depois (à terceira hora, ou nove da manhã), contornamos Bet She’an pelo leste e prosseguimos a bom passo pela mesma estrada, ranno a noroeste; supostamente para Naim. Calculei umas quatro horas de viagem.

Adentramos o vale de Yezrael. Nada a ver com o do Jordão. Lá tudo é plano, quase sem horizontes. Tudo era verde, vermelho e mais verde. Tudo parcelado minuciosamente. Lá despontava o cereal e divisava-se por todo lado a boa mão dos felah, hábeis camponeses judeus. Pomares sem ordem nem concerto, hortaliças preparadas para exportação e para Templo da Cidade Santa, canais de irrigação rumorosos e o branco das ameias, aqui e ali, surpreendendo-nos. A temperatura foi se suavizando.

Deixamos para trás as muralhas da caótica Bet Shean e tomamos uma longa reta.

O trânsito de homens e animais caiu consideravelmente. E Jesus, feliz, diminuiu o passo, dando um respiro ao coxo Bartolomeu. O grupo, então, reuniu-se.

E nisso, nós as vimos voar.

Eram centenas.

Eram as Ciconia ciconia, as belas cegonhas brancas procedentes do norte (atual Europa), que gostavam de invernar naquela região e no Jor­dão. Alguns bandos voavam em formação, em "V", e outros disputavam os peixes e pequenos crustáceos dos riachos que desciam do Gilboá, as úni­cas elevações que nos acompanhavam à nossa esquerda, rumo ao oeste.

O Mestre contemplou as cegonhas e, de repente, começou a cantar. Todos o olhamos, surpresos.

Mas o Galileu, sem o menor pudor, exuberante inclusive, ergueu sua voz potente e prosseguiu:

"Até a cegonha no céu conhece os seus tempos determinados!"

Era um versículo do profeta Jeremias (8, 7).

"(...) Sua voz foi ouvida nas alturas!"

E, para minha surpresa e do resto do grupo, suponho, João Zebedeu se juntou ao Filho do Homem:

"(...) Porque distorceram seu caminho e de Yaveh, bendito seja seu nome, esqueceram-se!"

Jesus não olhou para ele. Seguiu adiante, com o rosto levantado para o azul do céu e para as ciconias, totalmente alheias à passagem daquele Homem-Deus.

Os outros não tardaram a vencer a timidez e se juntar aos entusias­mados Jesus e João Zebedeu:

"(...) Convertei-vos, filhos rebeldes, e sanarei vossas rebeliões. Eis que vimos a ti, porque tu és nosso Deus!"

Os cânticos se prolongaram por um bom tempo.

Depois, mais sossegados, entraram em uma infantil polêmica em relação às cegonhas. Bartolomeu, um dos mais instruídos, defendia o caráter bondo­so dessas aves. Por isso - afirmava - eram chamadas de hasidah (piedoso). Todos concordaram. A ciconia é uma ave fiel a seu parceiro e a sua família, até a morte. Os romanos a chamavam de Pia avis (ave piedosa) e a consideravam um modelo de comportamento. Bartolomeu, então, passou a narrar uma das lendas que corriam sobre Moisés, relatando que o mítico profeta adestrava as cegonhas para capturar cobras. Dessa forma, soltava-as sobre as cidades ini­migas, todas elas - disse - infectadas de serpentes, e obtinha o triunfo sobre o inimigo. André perguntou onde isso havia acontecido, e Bartolomeu, sem hesitar, afirmou que o adestramento das cegonhas jovens por parte de Moisés aconteceu na Etiópia. E aí nasceu a discussão. Vários companheiros protes­taram e afirmaram que Moisés nunca esteve nessa região. Outros ficaram do lado de Bartolomeu, e a discussão foi inevitável. E daí só piorou.

Alguns insultaram Bartolomeu, e este fez o mesmo com os primei­ros. A coisa começou a ficar feia.

No meio disso, Jesus, sem pronunciar uma só palavra, acelerou o passo, afastando-se com seus típicos passos longos.

Acho que todos, ou quase todos, compreenderam. E se fez silêncio, um eloquente silêncio.

Eu fiquei um pouco atrás, mas sem perder o Galileu de vista.

Ao chegar a uma encruzilhada, nas proximidades de uma aldeia cha­mada En Harod, divisamos, à esquerda da estrada, dois marcos de pedra, os familiares miliários, que sinalizavam a estrada e avisavam das aldeias próximas, bem como das milhas romanas em que estavam situadas. Fo­ram sempre muito úteis para quem isto escreve.

O grupo passou adiante e vários discípulos, com João Zebedeu à frente, voltaram o rosto para os cilindros de caliça, cuspindo nas pedras. Eu havia esquecido. Era outro costume daqueles que se consideravam patriotas e, portanto, inimigos do invasor, de Roma.

Um dos miliários anunciava a aldeia de Afula, a oeste, a uns 135 es­tágios (cerca de 15 quilômetros). Ao pé da informação, igualmente enta­lhada, lia-se uma legenda obrigatória: "Imperador César Divino Tibério, filho do Divino Augusto. Ano V de Tibério".

Supus que esse fosse o caminho certo: Afula, que em hebraico significa "altar de Eliseu", e de lá a Naim. Naquele momento, devia ser a quinta hora (11 da manhã). Restavam-nos mais duas horas, no mínimo.

Mas não...

Jesus parou. Estávamos muito perto de En Harod, uma aldeiazinha branca e esquecida, com meia centena de casas de um ou dois andares.

O Mestre escolheu um círculo de altas palmeiras de azeite, de cujos frutos se extraía uma essência usada na fabricação de uma espécie de sa­bão, e entendemos que lá descansaríamos. Todos nós relaxamos.

Jesus falou com Felipe e lhe entregou umas moedas. Queria que en­trasse na aldeia e comprasse alguns víveres. Não muitos, insistiu. O jantar - disse - já estava previsto. E Felipe assentiu. Decidi acompanhá-lo. Esse, ir alguma maneira, foi outro momento histórico. Depois dessa manhã, talvez pelo gesto de Jesus, Felipe de Saidan passou a ser o responsável pela intendência. Sem que ninguém o nomeasse oficialmente, o eficaz e sempre bem disposto discípulo cuidaria do abastecimento do grupo. Ele ficou com a tarefa do necessário abastecimento diário.

Perguntamos aos camponeses e logo estávamos em frente ao lugar indicado: uma casa que fazia às vezes de mercearia, oficina de carpintaria, depósito de trigo e lugar para ferrar os animais.

Felipe comprou várias tortas enormes de flor de farinha, amassadas com azeite e perfumadas com cominho, canela e hortelã. O segredo estava dentro. Acrescentou a isso queijo de ovelha, muito curado, de uma atraente cor dourada, mel e fruta.

E voltamos às palmeiras. Uma forte brisa começou a agitar as longas folhas e a curvar os altos caules. Jesus continuava de pé, com a vista per­dida no caminho pelo qual supostamente devíamos prosseguir. O vento fazia sua túnica branca oscilar. Em que estava pensando? Por que Naim? Por que escolheu essa aldeia como fim de viagem?

Eu estava enganado, uma vez mais.

Reunimo-nos e almoçamos. Quem isto escreve foi o único a se sur­preender com o conteúdo das tortas. Ao morder um pedaço, senti algo estranho. Era seco e duro. Devolvi-o à palma da mão e, disfarçadamente, examinei-o. Eram gafanhotos!

Ergui a vista e encontrei os olhos cor de mel do Mestre. Ele me con­templava, divertido. E acabou fazendo seu gesto favorito: piscou para mim. Eu também recordei o assunto dos gafanhotos, em Beit Ids.

Engoli os restos do inseto e fiz o que pude. Estava com fome.

Logo depois, no meio do almoço frugal e da animada conversa, sur­giu pela estrada, procedente de Afula, uma patrulha dos sempre temidos kittim, os romanos. Era um contubernium, grupo de oito infantes, todos eles pertencentes às chamadas tropas auxiliares; ou seja, soldados rasos, provavelmente sírios ou egípcios. Aproximavam-se devagar, em fila india­na, pelo centro da estrada.

Fiquei alerta. Peguei a vara e fiquei atento. O Mestre também os viu. O resto do grupo, avisado pelos Zebedeu, dirigiu o olhar para a estrada e fez silêncio. Aqueles encontros nunca eram agradáveis.

Os kittim usavam a típica armadura de couro que protegia o tórax. Da cintura pendiam as afiadas espadas de um metro de comprimento. Usavam capacetes também de couro.

Não tardaram a nos descobrir, e a um gesto do optio (um sub-oficial)[19] diminuíram o passo. Pareciam voltar a sua base, em Bet Shean. Notei-os cansados. Aquelas patrulhas podiam durar dois ou três dias, cobrindo mais de 50 quilômetros. Tínhamos que ter cuidado. Os mercenários pro­vavelmente não estavam para brincadeira.

O optio parou a uns 20 metros das palmeiras. A patrulha fez o mesmo e se voltou para nós. O optio conversou brevemente com seus homens e se aproximou do nosso grupo. Era acompanhado por um imediato romano.

Jesus continuou impassível, mordiscando o queijo. João Zebedeu era o mais nervoso. Agitava-se em seu assento, em cima de uma pedra. Os demais continuaram saboreando os malditos gafanhotos. Eu coloquei a "vara de Moisés" em cima das pernas.

Ao chegar a dois metros de nós, o suboficial ficou quieto. Varreu-nos com o olhar e - acho eu - não soube a quem se dirigir. E falou no plural, em um aramaico mais que deficiente. Talvez fosse sírio.

- Quem sois e de onde vindes?

Houve dois ou três segundos de embaraçoso mutismo. Os discípulos olharam uns para os outros e, finalmente, com grande prudência, André tomou a palavra, enquanto se levantava. O gesto foi do agrado do optio.

Somos galileus - replicou André - e viemos do Jordão.

E acrescentou - desnecessariamente, do meu ponto de vista:

Éramos discípulos de Yehohanan.

O sírio sorriu com malícia. Tinha uma barba de vários dias e seus olhos estavam avermelhados.

Esse iluminado... Fizestes bem.

João Zebedeu, ao captar o tom insultante, remexeu-se inquieto e ameaçou se levantar. Imaginei suas intenções. Havia fogo em seu olhar.

Mas o Mestre, atento, fez um gesto com a mão esquerda, insinuando a ele que não se mexesse. O optio captou o sinal de Jesus e compreendeu que aquele era o chefe.

O vento recrudesceu.

E tu - perguntou dirigindo-se ao Mestre -, quem és?

João Zebedeu cerrou os dentes. E o Galileu, em silêncio, levantou-se. O coração de quem isto escreve se encolheu. O que estava prestes a acon­tecer? Os discípulos, desconcertados, também não sabiam o que pensar nem como agir. Era a primeira vez, desde que haviam sido escolhidos discípulos de Jesus, que se viam em uma situação delicada, e justamente com os odiados kittim.

A considerável estatura do Galileu não impressionou o optio.

Acariciei o cravo dos ultrassons e, disfarçadamente, apontei para a cabeça do sub-oficial. Ao menor gesto de violência, eu o fulminaria.

O soldado que acompanhava o optio pôs a mão na empunhadura de sua gladius, como eu, devagar e delicadamente. Ambos esperávamos, mas não sabíamos o quê.

Jesus olhou para o sub-oficial como só Ele sabia olhar. Praticamente o inundou com aquele olhar dourado. Foram segundos. O optio pestanejou, confuso. Aquele Homem-Deus, sem falar, dizia tudo.

Mas o Mestre acabou se dirigindo ao romano e disse:

O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, pois Ele me ungiu. Enviou-me para anunciar a boa-nova aos pobres, para curar os corações partidos, para apregoar aos cativos a libertação, e aos reclusos a liberdade.

Jesus havia invocado um texto do profeta Isaías.

O optio não entendeu muito bem, mas continuava impressionado com o olhar e o semblante daquele judeu. E, voltando à realidade, inexpli­cavelmente deu meia-volta e ordenou à patrulha que se mobilizasse. Logo se afastaram para Bet Shean.

E Jesus, em voz baixa, como se falasse para si mesmo, exclamou:

- Sou o galho que te sustenta.

Galho?

Sim, Jesus utilizou a palavra aramaica sok.

Julguei entender. E recordei uma cena, no monte Hermon, em uma daquelas inesquecíveis noites junto à fogueira.[20] Jesus segurava um galho nas mãos. E, de repente, pousou nele uma magnífica mariposa. O Mestre, então, perguntou a Eliseu, meu companheiro:

"Dize-me, querido anjo, crês que essa criatura está em condições de compreender que um Deus, seu Deus, a está sustentando?"

Logo depois, tão ignorante quanto o optio, a bela Euprepia oertzeni, quadriculada de branco e preto, alçou voo e se perdeu na noite.

Todos se mobilizaram. Todos menos o Mestre e quem isto escreve. João Zebedeu correu para pisar as grandes, negras e desgastadas pedras da estrada e cuspiu com fúria, xingando os kittim. E fez isso duas vezes. Al­guns íntimos o imitaram. André e Tiago Zebedeu se abstiveram. E todos aguardaram as ordens do Mestre.

Jesus voltou à realidade, olhou para mim e sorriu com uma sombra de tristeza.

Mensagem recebida.

E retomamos a marcha. O vento do oeste continuou sibilante e de­sagradável.

Jesus tomou a iniciativa mais uma vez. Atravessamos a estrada ro­mana e o Mestre escolheu um caminho secundário, de terra batida, que partia das imediações da aldeia onde havíamos nos abastecido. Rumava para o noroeste, na direção em que ficava Naim, a misteriosa Naim.

Em nenhum momento o vi hesitar. O Galileu conhecia aquelas paragens. Tomou a dianteira e se distanciou alguns metros. Era o sinal, seu sinal: queria ficar sozinho. Mas os discípulos não sabiam, e Pedro e João Zebedeu tentaram alcançá-lo em várias oportunidades. Conseguiram, mas, um minuto depois, o Filho do Homem tornava a se afastar. Pouco a pouco foram aprendendo.

E o caminho, voluntarioso, começou a ziguezaguear por entre plantações e a desviar de trigais e cevadais. E os verdes e os vermelhos nos cobriram de novo. "

Eu conversei com uns discípulos e com outros. Falava-se de assuntos de pouca importância. Bartolomeu parou em várias oportunidades e tentou respirar e aliviar a perna cansada. Desenrolava as faixas de couro e aplicava água fria nas áreas varicosas. Tentei animá-lo. Segundo meus cálculos, faltava pouco mais de uma hora para alcançar as alturas de Moreh. Lá, na vertente ocidental dessas colinas, estava Naim. Ele agradeceu o consolo e a companhia.

E em um daqueles trechos, enquanto o terreno iniciava uma lenta, mas obstinada, ascensão, acertei meu passo com um grupo no qual con­versavam Simão Pedro, os irmãos Zebedeu e Felipe. André ficou para trás, atento a Bartolomeu. João Zebedeu, ao que tudo indica, havia dado início à conversa, fazendo alusão ao incidente com o optio. E perguntou:

Reparastes no poder do Mestre? Ele paralisou o maldito kittim com o olhar.

Não houve comentários a respeito. João estava certo, mas duvido que chegasse a compreender o alcance das palavras do Galileu. De fato, em seu evangelho não consta o referido encontro com a patrulha romana.

Simão Pedro, então, tomou a iniciativa e fez outra pergunta:

Será o Mestre o profeta Elias, que voltou?

A idéia de Simão, como já comentei nestes diários, não era uma no­vidade. Fazia séculos que flutuava na alma coletiva do povo escolhido. Era a base de Malaquias (3, 23-24) e de outros textos sagrados. Pedro e os demais sabiam dessas Escrituras. Não eram tão incultos como se fez crer.

Como também mencionei, o estudo e a leitura das Sagradas Escri­turas eram obrigatórios desde os 5 anos de idade, momento em que o menino (sempre o menino) passava da custódia da mãe à do pai.

O povo judeu acreditava que o profeta Elias, que foi arrebatado aos céus 800 anos atrás, apareceria pouco antes da chegada do Messias. Elias poria ordem entre as nações e prepararia o caminho do Justo. Malaquias repetia isso várias vezes. E os assuntos considerados impossíveis ficavam sujeitos a um dito popular que dizia "até que venha Elias" (assim diz a Mishná). Naquele momento, como também expliquei, a esperança messiâ­nica estava muito arraigada. A conquista de Roma foi um toque de aten­ção no coração da ortodoxia. Todos clamavam pela liberação. E recorriam sem parar ao livro de Daniel para justificar esse sonho.[21] O Messias, um rei da estirpe de Davi, seria também um ser extraordinário, quebrador de dentes, que levaria Israel ao ponto mais alto e derrotaria os inimigos da Terra Santa. Esse era o conceito de Messias que prosperava na gente da­quele tempo, e no qual naturalmente Yehohanan e seus discípulos acredi­tavam. E, claro, os debutantes apóstolos de Jesus de Nazaré. Não convém esquecer esse princípio básico. Só assim é possível compreender a atitude e o pensamento do grupo que se juntou ao Mestre.

Felipe respondeu, à sua maneira, à pergunta de Simão Pedro:

Não sei se o Mestre é Elias, mas os sinais anunciados pelos profetas estão acontecendo. O Messias se aproxima - prosseguiu com segurança - porque o descontrole não cessa.

Todos assentiram.

A vinha produz fruto, mas o vinho é caro. O governo dos sacerdo­tes é heresia, mas ninguém diz não.

Novo e geral assentimento.

A casa da assembleia (referia-se à sinagoga) dedica-se à inconti­nência; a Galileia será arrasada... Gablan é um deserto, e já não há piedade entre os homens. Os sábios são ignorantes; a verdade foi embora... Os jovens humilham os idosos e a filha se rebela contra a mãe. O rosto dessa geração é como de um cão; não há vergonha.

E Felipe resumiu:

Se Elias não chegou, não deve demorar.

Os discípulos, obviamente, estavam confusos.

Outros dizem que, além de Elias, aparecerá um profeta enviado por Moisés.

Tiago Zebedeu falava de alguém prometido, de fato, no Deuteronômio (18, 15).

E Elias ungirá o Messias - ratificou Simão Pedro -, e os mortos serão ressuscitados.

Simão conhecia as Escrituras. De tudo isso falavam os livros de Baruch, de Esdras, de Enoch e, inclusive, os pouco conhecidos Oráculos Sibilinos (3, 52-56) e os Salmos de Salomão (17, 24, 26, 27, 31, 38, 39, 41).

E a conversa se desviou para um tema mais concreto: quando o Mes­sias deveria chegar?

Ninguém concordava, como era de esperar.

Tiago Zebedeu, mais bem informado, forneceu alguns dados que deixou seus companheiros pensativos: o Messias nasceria em Belém de Judá, como uma criança. Depois, ficaria oculto e surgiria de repente.

Esse é o Mestre.

A afirmação de João Zebedeu foi bem recebida. No fundo, todos o amavam. Por isso estavam ali.

E o impulsivo João prosseguiu, entusiasmado:

E o Filho do Homem expulsará os reis e poderosos de seus acam­pamentos e quebrará os dentes dos pecadores!

Assim reza o primeiro livro de Enoch (52, 4-9).

Santo Deus! Quão longe estava João do pensamento de seu Mestre! Mas assim eram as coisas, e não como foram contadas.

Nada na Terra poderá resistir ao seu poder - prosseguiu o Zebedeu, extasiado. - Não haverá ferro para a guerra - continuou citando Enoch - nem material para uma armadura. De nada servirá o bronze. Ninguém quererá o chumbo. Seu poder será tão grande que nada nem ninguém o vencerá. E as palavras de sua boca matarão os ímpios.

João Zebedeu ficou tranquilo. Havia esvaziado seu coração. Essa era sua ideia do Messias: um quebrador de dentes a serviço do povo judeu. O resto não importava.

Contemplei Jesus.

Caminhava a bom ritmo, à frente de seus amigos e sozinho. Sim, muito sozinho. Eu estava começando a entender por que ninguém o com­preenderia, muito menos seus íntimos.

Simão Pedro aliviou a tensão do momento com outra de suas loucas questões:

E seremos ricos.

Isso diziam os profetas por todo lado. A terra frutificaria como ja­mais o havia feito. Durante o reinado do Messias até as feras se tornariam cordeiros. Com uma só uva - diziam - encher-se-ia um tonel de vinho. O trigo forneceria mais de cem grãos por espiga e as verduras teriam que ser transportadas em carroças. Cada escarola precisaria de uma carroça, e cada romã, e cada alho... Cada homem viveria mil anos (das mulheres nada se dizia). Mas ninguém ficaria velho ou doente. Todos seriam como crianças. Os partos aconteceriam sem dor e os pagãos trabalhariam para os judeus. Esse seria o "reino" chegado dos céus.

João Zebedeu, então, decidiu se entusiasmar:

Meu irmão e eu seremos os generais desse Libertador.

O assunto não agradou a Simão Pedro. E tornaram a se enroscar em outra acre polêmica, disputando cargos e generalatos.

Foi o sensato Tiago Zebedeu que acabou com a discussão absurda. Ficou mais sério que o habitual e fez uma interessante pergunta (não sei a quem):

E enquanto isso não chegar, de que viverão nossas famílias?

A pergunta acabou com os sonhos de todos. Tiago falava com razão. Se não trabalhassem e seguissem Jesus de Nazaré, de que viveriam?

Ninguém tornou a falar. Todos, suponho, deixaram-se levar pela es­magadora lógica de Tiago. Esse era outro problema no qual este explora­dor havia reparado uma infinidade de vezes.

Quando o grupo apostólico decidisse pegar a estrada e pregar a boa-nova, que seria da numerosa prole daqueles homens? Que pensariam as esposas, filhos e demais familiares de uma aventura tão estranha quanto pouco ren­tável? Os evangelistas também não falam disso, mas, sem dúvida, constituía um sério problema. Em pouco tempo eu obteria uma resposta. E o que pre­senciei também não foi registrado pelos assim denominados "escritores sa­grados". Era lógico. "Aquilo" teria ferido a imagem do recém-nascido corpo apostólico. Mas não devo me antecipar aos acontecimentos.

E com o sol no alto, superada a sexta hora (meio-dia), conquistamos as colinas que chamavam de Moreh, a cerca 500 metros acima do nível do mar. O vento cedeu.

Jesus esperava no alto dos penhascos fazia tempo. Havia recuperado a boa disposição.

E cada um procurou uma sombra. Estávamos exaustos.

Logo chegaram André e Bartolomeu. O de Caná continuava arras­tando a perna esquerda.

Quis examiná-la, mas o "urso" não permitiu. E se deixou cair na pe­quena clareira onde havíamos parado.

Pensei que devíamos estar a um passo do fim da viagem.

Sim e não...

 

Desfrutei do lindo panorama.

Moreh é um "oásis" rochoso no meio das planícies de Esdrealon, ou Yezrael. Pura pedra, com pouca vegetação e um perfeito domínio, em 360 graus, de toda a região. Não alcançamos a cota máxima (515 metros), mas a paisagem, como disse, era maravilhosa. Ao norte, ao longe, distinguiam-se os azuis do mar de Tiberíades. E mais perto, o cone verde do monte Tabor. A oeste, a cerca de uma hora de estrada, erguiam-se, cinza, os montes que cercam Nazaré. Ao sul, branca e esticada, a cidade de Afula. E na distância, para onde quer que se olhasse, campos verdes, bosques densos, lotados, e aldeias tranquilas, às dezenas, deixando o tempo passar.

O Mestre, sentado em uma das rochas, bebeu a paisagem, exatamente como eu. Não disse nada. A brisa o acariciava e Ele deixava. Aquele Homem sabia aproveitar cada momento. Sabia tornar seu o que o Destino lhe trou­xesse. O "depois", o "amanhã" não pareciam contar para o Filho do Homem; não, pelo menos não com o mesmo peso que para os demais mortais.

Bartolomeu, o "urso" de Caná, acabou se recuperando e, a pedido de seu amigo Felipe, dirigiu-se ao grupo, dando algumas explicações sobre o lugar em que descansávamos e também sobre o que nos cercava. Bartolo­meu, como disse, era um dos discípulos mais instruídos.

E falou dos montes de Moreh (atualmente conhecidos como o Pequeno Hermon ou Jebel ed-Day)[22]. Lá, ao pé das colinas de pedra, batalharam os amalecitas e os madianeus contra Gedeão, como reza o livro dos Juízes (7, 1).

Os discípulos ouviam encantados.

Depois, referiu-se à célebre caverna de En-Dor. E apontou para o norte, pontuando o local a uns três quilômetros.

É uma gruta com uma fonte natural - afirmou com segurança. - Nela viveu a famosa pitonisa de En-Dor, aquela que aconselhou o rei Saul.

Sim, isso é o que conta o Velho Testamento (SI 28, 7-19).

E prosseguiu:

E nessa caverna, atenção, habita Adam-adom.

O Mestre sorriu, benévolo. Mas os demais permaneceram sérios e muito atentos. Adam-adom, segundo havia me explicado Belsa em uma das viagens pelo Jordão, era uma criatura, um diabo, que habitava os mangues. O nome ("homem vermelho") tinha origem na luz aver­melhada que emitiam os olhos do suposto diabo e que lhe permitia avançar com desenvoltura na escuridão. Como disse, era só uma len­da. Ou não?

- Como sabeis - acrescentou baixando o tom de voz -, esse diabo mata as pessoas e os animais. Deixa-os sem uma gota de sangue.

Ninguém respirou. Só se ouvia o suave assovio do vento nos montes.

Um pouco mais ao norte, a uma hora de estrada, distinguia-se a in­confundível silhueta cónica do Tabor. Bartolomeu o chamou de montanha, mas, com seus 1.483 pés (588 metros de altitude), não passava de monte.

E o discípulo, orgulhoso, relatou as batalhas protagonizadas no Ta­bor. Falou de Débora e de Barak, filho de Abinoam, e da batalha contra Sísera, capitão do exército de Jabim, o cananeu, rei de Hazor. E chamou o Tabor de "umbigo do mundo". Bartolomeu era um patriota, dava para ver.

O Tabor, à distância, era uma mancha negra azulada. Naquele tempo, estava coberto de bosques; sobretudo carvalhos anãos, terebintos, acácias e lentiscos. Lá, segundo os cristãos, deu-se a transfiguração do Mestre. Grave erro. Não foi no Tabor, e sim no Hermon, a montanha sagrada. Mas disso cuidaria Eliseu, quando fosse a hora.

O "urso" se estendeu, satisfeito, nos detalhes sobre Daberat, outra aldeia branca e notável que se distinguia a oeste do Tabor. Bartolomeu, obviamente, sentia-se orgulhoso de poder falar diante de seu Mestre. E falou sobre a tribo de Isaacar, primeira proprietária de Daberat, e das 48 cidades levíticas de Israel, dentre as quais estava a referida Daberat. E fa­lou dos egípcios, e de sua passagem pela região...

Notei que os discípulos estavam entediados. Mas não fizeram ne­nhum comentário e esperaram.

Jesus continuava atento ao improvisado "guia turístico".

E nisso, centrei minha atenção em Simão Pedro. Ele estava recostado em uma das rochas, atento ao "urso". Ou melhor, aparentemente atento.

Primeiro, observei que os joelhos do discípulo fraquejaram. E notei tam­bém uma quase imperceptível vibração dos músculos do rosto. De repente, ele caiu, mas teve tempo suficiente para se segurar na pedra e não ir ao chão.

Eu me alarmei.

Simão fez um esforço para ouvir o que seu companheiro dizia, mas não teve muito êxito. Ele cabeceava. Era uma situação parecida àquela vivida no bosque dos lenços, mas sem roncos.

A expressão de seu rosto ficou vazia. Suas pálpebras caíam várias vezes e as cabeçadas se repetiam, cada vez mais acentuadas e perigosas. Seu olhar não olhava.

Eu me aproximei devagar e me posicionei ao seu lado. Suas conjun­tivas estavam injetadas de sangue.

E as cabeçadas acabaram vencendo-o. E devagar, muito lentamente, Simão Pedro foi escorregando pela rocha até ficar sentado na terra. Ador­mecera. Adormecera profundamente.

André, seu irmão, não tardou a perceber e acudiu, solícito. Tentou acordá-lo, mas não conseguiu. Pedro abriu os olhos, olhou sem ver, e tor­nou a adormecer.

Ou muito me enganava ou ele sofria de uma patologia do sono. Era possível que o discípulo tivesse o que se denomina "latência REM".[23] Em outras palavras: passava diretamente do estado de vigília ao sono REM. Talvez eu estivesse diante de um tipo de narcolepsia, uma doença de etio­logia desconhecida e que se caracteriza por uma sonolência excessiva, quase insuportável, associada à cataplexia, ou paralisia do tônus muscular, bem como a outros fenômenos do sono.

E o bondoso André, conhecedor, sem dúvida, do problema de Simão, correu para molhar o rosto do adormecido pescador. A água fria e a brisa fizeram efeito, e Simão Pedro se recuperou. Levantou-se e olhou para o irmão, agradecido. Ninguém pareceu dar importância ao incidente. Eu, porém, dei. Se fosse o que eu suspeitava, talvez um caso de narcolepsia ou algo pior, Simão Pedro tinha um problema delicado. E me perguntei: por que no ano 30, quando o conheci, não soubera detectar essa patologia? A narcolepsia, em geral, martiriza o paciente com períodos de sono que o assaltam de improviso, onde quer que se encontre. Não importa onde nem em que circunstâncias.

Mas a resposta à minha dúvida não estava ao meu alcance; ainda não.

O sol começou a rolar para o poente e Jesus alertou seus homens. Era hora de partir.

Bartolomeu ficou satisfeito.

E às 13h, segundo meu particular cômputo do tempo, iniciamos a descida. O Mestre, à frente, pegou a trilha que serpenteava pela face oci­dental do Moreh. A aldeia de Naim - disse-me - estava a um passo, exa­tamente a 300 metros de altitude. Fim da viagem.

Mas não.

O Mestre e o grupo passaram muito perto da muralha que fecha­va a cidade, mas não pararam. Naim, pelo que pude observar, era muito mais que uma aldeia. E recordei os comentários de Guilherme de Tiro, qualificando-a de "cidade antiquíssima", mencionada nos anais vitoriosos do faraó Tutmés III, entre os anos 1483-1450 a.C.

Para onde íamos? Definitivamente, o Filho do Homem era uma cai­xinha de surpresas.

Adentramos a bela planície de Esdrealon e caminhamos com certa pressa rumo aos trigais. Ao fundo, a pouco mais de uma hora, distinguiam-se altos montes, cada vez mais cinza.

 

Eu devia ter imaginado.

Dirigíamo-nos a Nazaré, "a branca flor entre colinas".

Como não imaginei? Mas por que Nazaré? Por que Jesus escolheu esse destino após o retiro de 39 dias na aldeia beduína de Beit Ids?

Continuei caminhando, fechando o grupo.

Surpresa!

As colinas, efetivamente, protegiam a aldeia de Jesus pelo flanco oriental. E iniciamos uma nova ascensão por uma trilha tímida, desenha­da pelo contínuo ir e vir das cabras e que driblava, não sei como, as penhasqueiras de dois promontórios de 443 e 437 metros de altitude, respec­tivamente. As duas colinas se olhavam com desconfiança. Agora, estavam vestidas de laranja. O sol as iluminava em cheio.

Conforme avançávamos, fui observando o mais alto, o de 443 metros. Erguia-se à nossa esquerda. Na face leste tinha um talho de mais de 150 me­tros. Fiquei impressionado, mas naquele momento não soube por quê. Os nati­vos chamavam o lugar de Chipazon, que poderia ser traduzido como "Precipitação" ou, mais exatamente, o "monte dos precipitados ou jogados no abismo".

Estremeci.

Eu não podia saber, mas, algum tempo depois, essa região seria pro­tagonista de uma triste notícia. Ou melhor, de duas.

A outra colina, a de 437 metros, era conhecida pelo nome de Débora.

E subimos o penhasco dos "precipitados".

Lá estava a branca Nazaré, como sempre, encolhida entre 15 colinas. O Nabi Sa'in, a elevação mais garbosa, com seus 488 metros, encarregava-se de reunir em sua encosta oriental o pequeno grupo de cerca de 30 casas que formavam a silenciosa e remota aldeia.[24]

Tudo por perto era um verde quieto. Só as estradas davam movimen­to à paisagem.

O sol, fugindo, divertia-se colorindo o "passeio das palmeiras" e a inquieta e transparente cachoeira que caía do Nabi, margeando a face sul do povoado.

Nazaré, quando foi visitada por este explorador, contava com cerca de 50 famílias, num total de 300 habitantes, mais ou menos.

Imaginei que não teria mudado grande coisa.

Não pude distinguir o rosto do Mestre. Como sempre, andava à fren­te. Mas imaginei que a vista de Nazaré alegrou seu coração. Lá vivera du­rante mais de 22 anos. Aqueles becos, aquela colina do Nebil, aquela ofici­na do oleiro e aqueles bosques e hortas foram sua vida até que o Destino, no ano 20 de nossa era, decidiu tirá-lo do lugar, para sempre.

O Mestre não parou para contemplar seu povoado. E desceu rapida­mente ao encontro do caminho de cinza que vinha de Afula e se aventurava em Nazaré. Ninguém falava. Bartolomeu respirava com dificuldade. E to­dos seguimos o Mestre, intrigados. Seria uma visita de cortesia? Quais eram os planos do Galileu? Logo descobriria e ficaria surpreso, uma vez mais.

Passamos à esquerda pelo tosco e negro edifício da pousada e cruza­mos a pequena ponte que atravessava a nervosa cachoeira. Que seria de Heqet, o maldito e trapaceiro dono da pousada? E Débora, a prostituta? Estaria lá? Eu devia muito àquela gentil prostituta.

Ao entrar na aldeia propriamente dita e cruzar a fonte, algumas ma­tronas que enchiam seus cântaros voltaram a cabeça com curiosidade. Quem eram aqueles homens? E cochicharam entre si. Embora estivesse com a cabeça descoberta e o cabelo preso em seu habitual rabo de cavalo, as mulheres de Nazaré não reconheceram o Mestre. Era compreensível. Fazia seis anos que não aparecia por ali.

O Galileu se perdeu por entre as casas. Eu sabia, ou julgava saber, para onde ia. E os discípulos, meio aturdidos, correram para alcançá-lo.

De fato, Jesus continuou subindo pelo bairro baixo, o mais antigo e descuidado da aldeia. As pessoas olhavam, intrigadas, mas também não sabiam a quem se ater. Não conheciam nenhum daqueles homens.

E a cerca de 80 metros da "asa do pássaro", como chamavam a fonte pública, o Filho do Homem parou.

Senti uma emoção especial.

Lá estava a casa de Maria, "a dos pombos", como a chamavam em Nazaré.

Nada havia mudado. Os muros, caiados, estavam um pouco descas­cados. Nada sério. A escada de madeira do lado de fora continuava su­bindo para o terraço, como sempre. E no alto, a uns quatro metros, no guarda-corpo que fechava o terraço, bicavam e revoavam alguns pombos mansos e silvestres, de plumagem negra azulada e pescoço verde bronze.

Na porta, permanentemente aberta, segundo o costume da aldeia, es­tava sentado um menino de cabeça raspada e túnica cor de açafrão. Carre­gava no colo um bebê seminu. O menino não devia ter mais de 5 anos.

Eu fiquei atrás, perto do grupo. Ninguém falava. Ninguém sabia...

Jesus se aproximou da criança e lhe disse alguma coisa. Não consegui ouvir. Depois, pegou o bebê, contemplou-o e o beijou várias vezes. E o menino da túnica cor de açafrão se levantou, voltou-se para a escuridão da porta e gritou um nome. Pareceu-me entender "Taqop". Era um nome de mulher. Significava "Tesouro", ou algo parecido.

Mas o bebê começou a chorar desconsoladamente. Jesus tentou ni­ná-lo e sussurrou palavras de consolo. Foi inútil. O bebê só entendia que estava em mãos estranhas. E o pranto recrudesceu.

Os discípulos, preocupados, aproximaram-se do Mestre e tenta­ram ajudá-lo.

Foi pior a emenda que o soneto. Diante de tanto rosto desconhecido, a criatura elevou o tom dos gritos. Jesus empalideceu.

Era incrível. Um Homem-Deus segurando uma de suas criaturas e sem saber o que fazer para controlar o pranto dela.

Logo surgiram mais duas crianças na porta. Eram mais novas que a primeira. E atrás, secando as mãos em um avental, surgiu a figura de uma mulher corpulenta, altíssima, de peitos desproporcionais. Poderia tratar-se de uma elefantíase, doença crônica causada pela filária (um tipo de nemató- deo endoparasita no homem e nos animais); um verme branco que vive no sistema linfático e cujos embriões (microfilárias) se distribuem pelo sangue, provocando dilatações, em especial nas extremidades inferiores, braços, mamas e escroto. Esse tipo de filária, conhecida como Wuchereria bancrofti, é transmitida geralmente pela picada do mosquito Culex.

A mulher gritou o nome de Jesus e pulou no pescoço do Mestre. Temi que esmagasse o bebê.

Os vizinhos, nas portas das casas, comentavam. Quem eram aqueles personagens?

Logo surgiu José, irmão do Mestre, e naqueles dias proprietário da "casa dos pombos". José, nascido em 16 de março do ano 1, era o quarto filho de Maria (o terceiro homem). Eu o havia visto anteriormente, mas quase não falara com ele. Era um homem calado, menos inteligente que seus irmãos, mas tão trabalhador quanto eles. Era magro como um junco e tinha um cavanhaque quase branco, apesar de seus 25 anos. Trabalhava na oficina de carpintaria ao lado da casa.

E atrás de José, para arrematar a cena, surgiu uma cabra negra de chi­fres recortados e longa barba. Suas orelhas tinham mais de um palmo. Seu pelo brilhava, como o de seus congêneres, as de Núbia. E a cabra olhou, mas duvido que tenha entendido o que estava acontecendo.

Todos se abraçaram.

"Tesouro" era a mulher de José. Formavam um curioso casal.

Tinham quatro filhos e a cabra, naturalmente.

Foi uma surpresa. Ninguém esperava o Mestre. Na realidade, nin­guém em Nazaré sabia de suas andanças. Haviam ouvido algo sobre o ocorrido no rio Artal durante o batismo, mas as notícias eram confusas. Diziam que Jesus havia aberto os céus e que fizera o portento de chover uma chuva azul. Mais ou menos o de costume.

Concluídos os abraços, José e Tesouro insistiram para que o Galileu entrasse na casa. E assim foi. Mas os discípulos, desconcertados, não sou­beram o que fazer, e ficaram na rua, sujeitos às fofocas dos locais.

Ninguém se decidiu a entrar. Pouco depois, Jesus de Nazaré voltou e, com um gesto da mão esquerda, chamou os íntimos para que entrassem.

Eu fui o último.

O interior da casa de Maria também não havia mudado muito. Tinha os dois níveis habituais das casas judias: o da esquerda (tomando a porta de entrada como referência), um pouco mais elevado, servia de cozinha e de dormitório. Lá estavam ainda a velha arca, destinada à roupa e aos víveres, e o fogão de tijolo refratário no canto esquerdo. E nas paredes, re­bocadas com gesso, meia dúzia de nichos onde Tesouro guardava vasilhas, pratos e outros utensílios de cozinha. No nível da direita, uns 80 centíme­tros abaixo do superior, descobri a célebre mesa de pedra, de um metro de diâmetro e 20 centímetros de altura, junto à qual se deu a aparição do anjo à Senhora, em novembro (mês de marchesvan) do ano -8, nove meses depois, aproximadamente, do casamento de Maria e José.[25]

Foi emocionante.

E ao fundo, no canto direito, as ânforas de pedra, solidamente anco­radas ao piso. Naquela ocasião só havia duas. A terceira chegaria à casa algum tempo depois, quando aconteceu o que aconteceu.

E no chão, as grandes esteiras de folha de palma, tão acolhedoras.

A minha direita, muito perto da porta de entrada, abria-se a oficina de carpintaria, agora iluminada por algumas lamparinas.

Tesouro não sabia o que fazer. Corria de um lado para o outro, dava ordens, pedia que nos sentássemos, afastava a cabra, ninava o bebê e abra­çava Jesus toda hora. José continuava sério em um canto, sem saber que partido tomar. Alguma coisa estava rondando sua cabeça.

A mulher acabou mandando um dos filhos avisar alguém. No meio daquela confusão era difícil ouvir e se fazer ouvir. E o menino saiu correndo.

Jesus fez as apresentações, e José foi correspondendo com uma leve inclinação de cabeça. O bebê continuava chorando. A cabra se contagiou e começou a balir, acho que com razão. Não havia jeito de se entender. Acho que José e sua esposa não conseguiram gravar o nome dos discípulos.

Tesouro se deu conta da penumbra que dominava a casa e foi às es­cadas que permitiam o acesso ao nível superior. Uma vez lá, encheu várias lamparinas com um perfumado azeite de oliva e criou uma melhor visibi­lidade. Eu, pessoalmente, agradeci.

Os discípulos tentaram se ajeitar nas esteiras, e bem ou mal distribuíram-se perto da pedra de moinho que fazia às vezes de mesa. O Mestre fez o mesmo. O bebê não parava de chorar. Jesus pediu para segurá-lo, mas Te­souro não lhe deu ouvidos. Era uma mulher bem disposta, que podia com tudo. E continuou ninando-o em seus braços enquanto distribuía as lampa­rinas de azeite pela casa. Eu fiquei junto à porta de entrada, em pé. E de re­lance dei uma olhada na oficina de carpintaria. Parecia limpa e organizada.

E nisso, de repente, entrou ela. Foi como um turbilhão. Atrás, apaga­dos, o pedreiro e mais quatro crianças.

Estava belíssima, como sempre.

Miriam, irmã do Mestre, morava muito perto, na mesma "rua". Jacó, o pedreiro, era seu marido.

A linda mulher, de cabelos negros, traços angulosos e olhos verde-escuros, como sua mãe, procurou Jesus entre os ali reunidos e se jogou em seus braços. E durante alguns segundos não disseram nada. Os olhos de Miriam se umedeceram. Jacó aguardou, visivelmente nervoso.

Miriam, nascida na noite de 11 de julho do ano -2, era a irmã mais velha. Naquele momento ia completar 27 anos. E imaginei que fazia muito tempo que não via o Mestre.

Do silêncio e das lágrimas passaram aos risos e aos gritos, e a novos abraços.

Jacó, então, tentando cumprimentar seu cunhado, contornou a mesa de pe­dra, mas tropeçou em um dos discípulos. Pelo que recordo, foi em Tiago Zebe­deu. Eu não comentei, mas todos continuavam sentados. Quando entrava uma mulher em uma casa ou em uma sala, ninguém se erguia. Era o costume. E o pedreiro rolou pelo chão, com o azar de esmagar a cabra na queda. O animal pro­testou, e seus balidos se tornaram insuportáveis. E o bebê que Tesouro segurava, que não havia parado de chorar, contagiou-se da cabra e a apoiou, redobrando seus gritos. Jacó se levantou praguejando e, por fim, abraçou o Galileu. Aquele ruivo de olhos claros, um pouco mais velho que Jesus, havia sido amigo íntimo do Filho do Homem durante boa parte de sua infância e de sua primeira juventude. Quem isto escreve obteve muita informação daquele tímido e inteligente galileu.

Jacó ajeitou a túnica de grandes faixas verticais vermelhas e pretas, o tradicional tsitsit, e procurou um lugar onde se sentar. Impossível. Não cabíamos na modesta casa, mas isso não importava. O que importava era o retorno do Irmão.

Jesus repetiu as apresentações, mas o choro do bebê e os lamentos da cabra as fizeram naufragar, uma vez mais.

Miriam e Jacó não conseguiam captar o nome dos discípulos.

E a irmã do Galileu, em outro de seus típicos arroubos, pediu o bebê. Tesouro, que conhecia o implacável caráter de Miriam, obedeceu imedia­tamente e lhe passou a criança.

Mão santa.

O bebê, ao ver que estava nos braços da tia, parou de chorar e sorriu como um anjinho.

Eu não podia acreditar no que estava vendo.

Miriam era como a Senhora.

A seguir, dirigiu-se ao esposo e deu-lhe ordem de tirar a cabra da casa.

Jacó pegou o animal e se retirou. Não se desobedecia a Miriam. Logo retornou.

E fez-se o silêncio, por fim.

Jesus se dedicou a seus sobrinhos, então. Beijou-os um por um e foi recordando os nomes. Riram. E Tesouro ajudou o Mestre a relembrar o nome dos outros sobrinhos. Quando chegaram ao número 12, eu me ren­di. Não tinha sentido decorá-los. O último havia nascido em 14 de janeiro desse ano 26. Era filho de Tesouro e Tiago, irmão de Jesus. Eu a vira grávi­da em setembro do ano anterior, na "casa das flores", em Nahum. Curioso. O menino nasceu no dia do batismo do Mestre no Artal, afluente do rio Jordão.[26]

Miriam, então, recordou a Jesus que ele não havia apresentado as pessoas que o acompanhavam. Simplesmente não sabiam quem eram.

E o Mestre, complacente, foi apresentando-os, mas não disse que eram seus discípulos. Miriam os observou atentamente. Não perdia ne­nhum detalhe. E julguei ver em seus olhos a desconfiança. Estava intuin­do alguma coisa.

A este explorador Jesus apresentou como um amigo, simplesmente. Nem Miriam nem Jacó podiam me reconhecer. Estávamos no ano 26, e eles conversaram comigo no ano 30. Não sabiam.

E chegou o inevitável. Miriam, suponho, queria dizer tudo que pen­sava ao seu Irmão. Haviam sido anos de silêncio. Ninguém sabia d'Ele. Ninguém sabia se estava vivo ou morto. Voltou, sim, mas esses seis anos de angústia não eram fáceis de esquecer. E Miriam censurou Jesus. Foi gentil, mas firme. Ele não tinha direito de se comportar desse jeito.

Jacó assentiu em silêncio. Sabiam que havia retornado a Nahum em setembro, e estávamos em fevereiro. Por que não fora visitá-los muito antes?

O Mestre ouviu em silêncio e admitiu as críticas. Tinham e não ti­nham razão. Eu o compreendi. Era difícil explicar a eles o que ocorrera no Hermon e nas colinas de Beit Ids. Não o invejei.

E o pedreiro, inteligente, aliviou a tensão com algo prosaico, mas que estava na mente de todos: como íamos nos virar para dormir?

Miriam cedeu e deu as ordens oportunas. Os Zebedeu, Felipe e o "urso" de Caná descansariam na casa de Jacó, com todas as crianças. E erguendo a mão esquerda recomendou a seu marido que se apressasse. Não havia tempo a perder. Primeiro tinha que acomodar os convidados e depois cuidar do jantar das seis crianças.

Os discípulos rapidamente pegaram seus sacos e suas mochilas e se­guiram Jacó. As crianças, encantadas, foram atrás do pedreiro.

E lá ficamos nós. Eu, sinceramente, perplexo.

Pedro, esgotado, tornou a dar cabeçadas. Logo estava dormindo. André, ao seu lado, quis acordá-lo, mas Jesus lhe mostrou que não fazia sentido. Era melhor deixá-lo descansar. E assim foi, mas ele ficou atento aos possíveis roncos de Simão. Tivemos sorte. O pescador dormiu sem tropeços, mas seria por pouco tempo.

Não creio que ela houvesse planejado, mas a oportunidade caiu como uma luva.

Miriam aproveitou a ausência da maioria dos íntimos de seu Irmão para pedir explicações sobre os rumores que corriam pela aldeia.

Tesouro havia voltado ao nível superior e mexia com os utensílios de cozinha. Era hora de preparar o jantar. José, seu marido, continuava mudo ao lado do Mestre.

E o Galileu perguntou:

Rumores? Que rumores?

Miriam continuou embalando o bebê no colo e esclareceu:

Dizem que fizeste portentos no Jordão.

Jesus compreendeu. E prosseguiu em silêncio. Seu semblante estava sério.

E dizem também não sei que bobagens sobre os céus. Vós os abristes? Choveu água azul?

O Mestre sorriu sem vontade. José ouvia, estupefato. André não respirava.

E o Mestre evitou as perguntas. Como explicar-lhe o ocorrido?

Mas a mulher, que não desistia, voltou à carga, e dessa vez com vene­no em suas palavras:

E que me dizes destes?

Imaginei que se referia aos discípulos.

Não entendo - replicou o Galileu.

Estes que te acompanham. Quem são? Por que estão contigo?

Jesus disse a verdade.

São meus discípulos.

Teus o quê?

Miriam ouvira perfeitamente. E abriu os lindos olhos verdes, sem conseguir acreditar nas palavras de seu Irmão.

Meus discípulos - insistiu o Mestre. - Com eles iniciarei meu tra­balho, quando o Pai assim decidir.

André interveio e confundiu a cada vez mais alterada mulher:

A chegada do reino. Tu sabes...

O reino? Que reino?

E Miriam disse tudo. Estava querendo isso fazia tempo:

E o que me dizes de teus irmãos? Também serão teus discípulos?

Notei uma ponta de ironia em suas palavras. Mas Jesus não caiu na armadilha.

Meus irmãos são aqueles que fazem a vontade de Abba.

Foi o cúmulo.

Então, antepões os estranhos a teu próprio sangue!

O Galileu negou com a cabeça. Eu o compreendi. Aquele Homem estava começando a batalhar antes de batalhar. A cena foi premonitória. Foi algo assim como um ensaio do que aconteceria em breve com o resto de sua família carnal. De repente, surgiram os ciúmes. Por que Jesus havia escolhido seis estranhos? Qual era o problema com Tiago, seu irmão, e com Judas, e com José, e com Simão, seus outros irmãos? Por que eles não contavam?

Nesse momento eu soube que sua vida familiar não seria fácil. Mas nada disso foi contado pelos evangelistas.

Jacó, uma vez mais, suavizou a tensão. Desviou os dardos de sua mu­lher e perguntou ao Mestre, inocentemente, se pretendia comparecer ao casamento.

Que boda?

Do filho de Nathan, em Caná. Todos fomos convidados - esclare­ceu o pedreiro. - Esperamos tua mãe, e Tiago.

Jesus assentiu com a cabeça, como se recordasse de repente.

A boda de Caná?

Oh, Deus! Eu havia esquecido!

E Jacó acrescentou que seria na próxima quarta-feira. Estávamos no domingo. A Senhora comentara sobre isso em minha primeira viagem de Nahum a Nazaré. Ou melhor, comentaria.

E falara (ou falaria) de um grande prodígio.

Não quis me atormentar. Estava onde estava. Tudo chegaria, supus.

A atmosfera se tornou mais respirável. Miriam cedeu em seus ata­ques e se dirigiu à cozinha. Deixou o bebê em cima de um acolchoado es­tendido no chão no nível superior e foi ajudar sua cunhada na preparação do jantar. Éramos muitos.

A décima hora (quatro da tarde), faltando uma hora e meia para o ocaso, o Mestre pediu a seu irmão José que o acompanhasse ao pátio nos fundos da casa. Pensei que queria urinar. Lá estava o chamado "quar­to secreto". Ergueu-se e, ao fazê-lo, dirigiu-me um significativo olhar. Compreendi. Queria que eu fosse com Ele. E assim fiz. André e Jacó continuaram conversando. Pedro dormia profundamente.

Entramos na oficina de carpintaria. Duas lamparinas iluminavam tudo suficientemente. Parei um instante. Eram tantas recordações que aquela casa me trazia...

O Mestre empurrou a folha que nos separava do pátio a céu aberto e eu permaneci ensimesmado, observando o banco de carpinteiro. Acariciei-o. José, naquele momento, trabalhava em um jugo. Nas paredes, as ferramentas de sempre penduradas: serras, compassos de bronze e de madeira, cisalhas, cinzéis, formões e serras de arco, dentre outras. O chão, como então, estava atapetado de serrilha e de cisalhas cacheadas. Senti-as ranger sob as sandá­lias. E pelos cantos, cabos de enxadas, manguais para as cavalarias e arados de pouco peso. Nada havia mudado. Ou melhor, algo sim: ao inspecionar as paredes, notei que havia nelas uma série de tábuas de madeira de diversos tamanhos. Havia umas quadradas, outras retangulares. Não me lembrava de tê-las visto em minha visita "anterior" (ou futura, dependendo do ponto de vista), no ano 30. Poderia jurar que não estavam lá. Eu me aproximei e desco­bri, assombrado, que eram pinturas e frases em hebraico, também pintadas.

Esqueci o Mestre e me concentrei na inspeção do que estava a minha frente. Meu instinto me avisou.

Eram 16 tábuas, quase todas de carvalho, de pouco peso, e presas às paredes por simples pregos.

Admirável!

Havia paisagens. O Nabi, a colina favorita de Jesus, repetia-se em várias pinturas. Observei dois retratos. Um correspondia à Senhora. O outro, suponho, era de José, o pai terreno do Mestre.

Um tesouro! E tudo, supus, pintado pelo Galileu!

O resto das tábuas continha frases. Todas em hebraico clássico. Con­segui decorar a maioria. Diziam coisas assim:

"Deus não envelhece porque é eterno." "Deus não é o que parece, longe disso." "O Pai adora detalhes." "Deus, além de ser deslumbrante, é econômico." "Deus perde para ganhar." "O Pai não está aqui para ajudar; isso seria fácil."

Depois, em outras tábuas de madeira igualmente polidas, liam-se os dez mandamentos. Tudo, como disse, pintado pelo próprio Filho do Homem. E recordei uma das conversas com a Senhora, ali mesmo, junto à mesa de pedra. Maria pessoalmente pendurou na oficina as pinturas do Filho. Ela sabia que essas manifestações artísticas eram rigorosamente proibidas pela lei mosaica, mas não se importou. E acertou. As frases e os desenhos eram maravilhosos. Jesus era um excelente pintor.

No entanto, de repente, algo desviou minha atenção. Vinha do pátio traseiro, a céu aberto, que servia de desafogo para a casa. Lá, como já ex­pliquei em outro momento, cultivavam algumas hortaliças e amontoavam trastes mais ou menos imprestáveis.

Vi um fogo se levantar. O Mestre e José acabavam de acender uma fo­gueira. Saí da oficina de carpintaria e vi José alimentando as chamas. Jesus estava sentado em uma pequena bacia virada. A seu lado havia um cesto de vime cheio de algo que não consegui identificar. Eu me aproximei, dis­creto. O Mestre pegava o conteúdo do cesto, um a um, e o desembrulhava. Eram pequenas figuras de barro cozido protegidas com panos. Pareciam estar havia muito tempo naquele cesto.

Começava a escurecer.

E o Mestre, sem mais nem menos, começou a bater uma das estatue­tas nas lajotas do pátio. Virou pó. E lá ficou o barro vermelho espalhado pelo chão. Sem dizer uma só palavra, foi esvaziando o conteúdo do cesto e quebrando-o. Não se alterou.

Pelo que pude apreciar, tratava-se de pequenas esculturas, muito simples. Recordo a de um pastor com um cordeiro nos ombros, um lobo ou algo parecido, uma carroça, uma casa típica judaica, a cabeça de um kittim e coisas assim. Calculo que no cesto devia haver umas 20, 30 figu­ras, todas de barro vermelho cozido.

Todas foram destruídas.

E às 17 horas, faltando 27 minutos para o pôr do sol, o Mestre se levantou e, com o rosto grave, entrou de novo na oficina de carpintaria de seu irmão. Vi-o despendurar as tábuas de madeira. Pouco depois voltou com elas e se sentou de novo na bacia virada.

Eu soube o que ia fazer, e senti uma profunda tristeza. Havíamos falado sobre isso na caverna da chave. Não podia ficar nada na Terra que houvesse sido escrito por sua mão. Eu sabia, mas...

Lentamente, foi jogando cada tábua às chamas. José não disse nada. Limitou-se a observar. E as primeiras estrelas surgiram também no céu de Nazaré. Todos, creio, estávamos desolados. Disso os evangelistas também não disseram nada.

E no meio da queima vi Miriam aparecer. Olhou incrédula e, sem uma palavra, retirou-se apressadamente para dentro da casa.

Dessa vez, acertei. A intuição falou mais alto.

Deixei o Mestre em frente à fogueira e segui os passos da mulher.

Estava tramando alguma coisa.

Ela subiu ao nível superior e, decidida, abriu a velha arca. Remexeu lá dentro durante alguns segundos. Eu fiquei imóvel junto à porta principal.

Por fim, encontrou o que buscava. Tratava-se de algo embrulhado em um pano vermelho, como veludo, de uns 30 centímetros de lado. Era praticamente plano.

Pegou um xale que estava pendurado ao lado de um armário e cobriu a cabeça. Imediatamente escondeu o pacote debaixo do xale e se dirigiu aos degraus que permitiam o acesso ao nível inferior, onde estava este explorador. E passou por mim, apressada. Ia para a rua. Mas, ao me ver, esboçou um sorriso e piscou para mim.

Depois, perdeu-se na escuridão.

Ninguém na casa se deu conta da manobra de Miriam. E me pergun­tei: o que ela escondia debaixo das roupas?

Tive um pressentimento.

Jesus não havia queimado tudo.

Voltei ao pátio e me sentei junto ao fogo. As chamas haviam crescido. O Mestre continuava jogando as pinturas e as frases à fogueira voraz. José acabou voltando para dentro. Não houve palavras entre nós. Para quê? Ambos sabíamos.

Foi quando percebi aquele intenso cheiro. De início, atribuí-o à desinte­gração das pinturas que estavam sendo consumindas pelo fogo. Não sabia o que pensar, mas o caso é que senti uma fragrância especial. Era um cheiro de canela. Observei o rosto do Galileu. Pareceu-me triste. E associei a essência de canela à tristeza. Não seria a última vez que eu captaria uma coisa assim.

Quando a última tábua foi jogada às chamas, o Mestre, em silêncio, levantou-se. E, ao passar junto a este explorador, colocou sua mão esquer­da em meu ombro direito. E pressionou por alguns segundos.

Mensagem recebida.

Senti um nó na garganta.

Jesus se perdeu na oficina de carpintaria, e quem isto escreve ficou um longo tempo com a vista fixa no fogo. Eu não tinha muita consciência do que estava acontecendo ali, mas com aquela fogueira desaparecia parte da história do Filho do Homem. Ninguém jamais soube que foi um bom pintor e que sacrificou sua obra. Então, recordei as madeiras de tola bran­ca onde escrevia e com que jogávamos Shelem na caverna de Beit Ids. E soube por que as queimava.

Eu me refugiei no firmamento. Estaya negro e brilhante. As estrelas quase caíam. E uma delas, Capela, fez-me um sinal.

Minha querida Ma’ch...

Mas tenho que ser sincero. Nem tudo foi limpo naquele momento. Ao ver sobre as lajotas do pátio os restos das estatuetas de barro, uma tentação me assaltou. Ele não teria percebido. Ou teria? Era muito fácil. Bastava revirar os pedaços e tentar recompor uma das figuras de argila. Depois, eu a esconderia na mochila e, uma vez no Ravid, tentaria colar as partes. Seria uma boa recordação.

Acariciei o barro com a ponta dos dedos, mas, no fim, desisti. A re­cordação do ocorrido em nossa segunda semana no monte Hermon bateu à porta da memória.[27] Naquela oportunidade, como se pode recordar, Eli­seu escondera uma cuia de madeira na qual o Galileu havia escrito "Estou com o 'Barbas'. Voltarei ao entardecer". E Jesus descobriu.

Não, eu não passaria por tamanha vergonha. Ele confiava em mim. Não o decepcionaria.

Quando voltei para dentro da casa, no pátio só restavam umas brasas vermelhas e agonizantes, o intenso perfume de canela e as estrelas, tão as­sombradas quanto este explorador. Deviam ser umas sete da noite daquele não menos histórico domingo, 24 de fevereiro do ano 26 de nossa era. A noite em que Jesus de Nazaré queimou parte de sua vida.

Fazia tempo que estavam jantando. Salvo as mulheres, que iam e vi­nham com as coisas, todos os discípulos estavam reunidos em volta da mesa de pedra da "anunciação". Não faltava ninguém. Pedro havia se juntado à refeição. Jacó e José fizeram um espaço para mim e me sentei em frente ao Mestre.

O jantar parecia apetitoso: lentilha e ensopado de cervo.

Só comi lentilha. Deliciosa, com um toque picante.

João Zebedeu, uma vez mais, dirigia a conversa. O Filho do Homem comia em silêncio. Mantinha aquela sombra de leve melancolia no rosto. Eu julgava saber por quê. E, em uma das ocasiões, trocamos olhares. Ele disse tudo em três segundos: sim, a queima de suas queridas pinturas o havia afetado. E sei que não prestou muita atenção aos comentários de João e do resto. O Zebedeu se esforçava para fazer José compreender que o Messias já estava na Terra.

E João Zebedeu fazia sinais com a cabeça, indicando a posição de Jesus na mesa. Mas José não respondeu. Não sei se chegou a entender o que o loquaz discípulo estava insinuando.

Era triste, realmente. Nenhum daqueles homens, salvo José, tinha idéia do que acabara de acontecer no pátio da casa dos pombos. Mas as­sim foi a história do Filho do Homem.

Miriam não parava. Subia e descia sem descanso, atendendo, compla­cente, aos dez homens. Também trocamos alguns olhares, e eu soube que ela confiava em quem isto escreve. Sabia muito bem que não a delataria.

Mas estávamos cansados, e o grupo começou a cochilar.

E, de comum acordo, deu-se por terminada a confraternização. José se levantou e entoou as Shmoneh esreh, as 19 preces, a oração por exce­lência do povo judeu. Todos eram obrigados a recitá-las três vezes ao dia. Somavam 19 berakhot, ou bênçãos. Nas primeiras, como acho que disse em outra ocasião, louvavam a onipotência de Yaveh. Nas centrais, apare­ciam as súplicas e os pedidos de conhecimento, arrependimento, perdão, libertação do mal, saúde e boas colheitas. Por último, pedia-se a restaura­ção da soberania nacional judaica, a reunião dos dispersos, a destruição de Roma, o prêmio aos justos e o envio do Messias libertador.

Os discípulos se juntaram à recitação de José. João Zebedeu foi o que mais entusiasmo mostrou. O Mestre se levantou, como todos, mas não abriu a boca. E ficou com o rosto abaixado. O Mestre, eu sabia, nunca utilizava essas fórmulas para se dirigir a Abba. Eu não o podia imaginar recitando ou cantando a "reza" (a htplh), como chamavam as Shmoneh, muito menos rogando a Deus pela destruição de ninguém. Compreendi, portanto, seu silêncio. Os discípulos, porém, olhavam uns para os outros sem entender.

Jesus desejou boa-noite a todos e comunicou a André que partiríamos no dia seguinte, "o mais cedo possível". Isso foi tudo. André interessou-se pelo destino e por outros detalhes da viagem, mas o Galileu fez silêncio. Uma vez mais estávamos no escuro. Iríamos para oyam7. Pararíamos em Caná?

Após a partida da maioria dos discípulos, de Jacó e de sua mulher, José fechou a porta de entrada. E cada um procurou um lugar para se dei­tar. Simão Pedro voltou ao canto das ânforas. André se deitou ao seu lado, e o Galileu, ao pé da mesa da "anunciação". Usou o saco de dormir como travesseiro, de acordo com o costume. Eu me sentei em uma das esteiras e me encostei na parede, muito perto da referida porta principal. Esse tam­bém era meu costume. De lá, dominava toda a cena. Tesouro, cuidadosa e solícita, colocou uma lamparina acesa em cima da mesa de pedra e outra no nível superior. Lá, na plataforma elevada, dormiriam o casal e o bebê. E sobre a citada mesa, caso alguém sentisse fome ou sede durante a noite, a mulher colocou uma jarra de barro com água e uma cuia de madeira com nozes peladas e passas de Corinto sem sementes, outra fraqueza do Mestre.

O dia chegava ao fim. Havia sido um dia intenso.

Pouco depois, Jesus entrou em um sono profundo. E o mesmo ocorreu com os irmãos pescadores. O casal conversou em voz baixa durante alguns minutos, mas também acabou rendido. E fez-se o silêncio. Um silêncio gra­tificante, quebrado às vezes pelos distantes uivos dos gatos no cio.

E fechei os olhos, satisfeito. Eu estava em paz e Ele estava lá, a um passo.

Eu estava enganado, naturalmente. O dia não havia terminado.

Lembro que pensei: como serão os sonhos do Mestre?

E nisso estava pensando quando aconteceu o inevitável. Não sei por que não imaginei.

Não estávamos havia nem dez minutos naquele denso e promissor silêncio quando Simão Pedro deu início a uma rodada de roncos, cada um mais heroico que o outro.

Oh, Deus!

André, atento, tentou conter o irmão. Chacoalhou-o, mas foi inútil. Os roncos eram demolidores. Mudei de posição várias vezes. Impossível. Mais que roncos, eram tiros de canhão. Em minha imaginação, parecia que a casa tremia. Tesouro se levantou, incomodada, mas acabou se deitando.

Jesus dormia profundamente. Que bênção!

E foi em uma daquelas rodadas de roncos que notei algo que me alertou. Simão Pedro parou de roncar e, durante uns 30 a 50 segundos, ficou no mais absoluto silêncio. Pouco depois, quando eu acreditava estar salvo, voltaram os roncos, e com mais força.

Eu me levantei.

Passados alguns minutos, repetiu-se o incidente. Pedro parou de roncar, e notei como fazia esforço para voltar a respirar. Tentou se levan­tar, sem conseguir. Passados mais 30 ou 40 segundos, conseguiu recuperar o fôlego e deixou-se cair sobre a esteira. E voltaram os roncos. E assim várias vezes.

Eu tinha quase certeza.

Simão Pedro sofria do que se denomina "apneia obstrutiva do sono"; ou seja, uma suspensão transitória do ato de respirar. Algo pa­recia estar entalado em sua garganta bloqueando a passagem do ar. O problema era grave. Cada vez que se dava um período de apneia, o dis­cípulo lutava, uma luta de vida ou morte, para recuperar o ar. O colapso inspiratório da faringe podia ser provocado pela perda do tônus dos músculos faríngeos, pelo tamanho inadequado das tonsilas, pelo véu do paladar, pela má posição da mandíbula ou por estreitamentos constitu­cionais da garganta, dentre outros defeitos.

E pude verificar que os bloqueios respiratórios aconteciam sem pa­rar. Ao longo da noite, contei mais de 300. Isso explicava, em parte, a sonolência de Simão Pedro durante o dia. Seu sono era fragmentado. Ele não descansava. Ao contrário, cada interrupção respiratória era um es­forço para sobreviver. E o homem acabava rendido. Aquela presumível obstrução ou colapso das vias aéreas superiores (nariz e garganta) pro­vocava o ronco também. Que estranho! No ano 30, quando o conheci, o apóstolo não padecia desse mal, pelo que eu e lembrava.

Voltei preocupado ao meu lugar. Algo não se encaixava no que eu conhecia.

Mas o cansaço venceu os roncos, e o sono acabou me invadindo. Foi um sono curto, mas reparador. E tive um sonho que nunca esquecerei.

Hesitei de colocá-lo nestes diários, mas, à vista do que me coube vi­ver algum tempo depois, decidi registrá-lo. O hipotético leitor destas me­mórias saberá tirar suas próprias conclusões.

De repente, no sonho, eu me vi na insula, em Nahum; o edifício onde havíamos alugado três quartos.

Era noite.

Eliseu e Kesil me acordaram.

"Fogo!", gritavam.

Fomos para o corredor. Havia fumaça. Vinha da porta "44", o quarto onde moravam os trigêmeos, os meninos "lua"[28].

Ouviam-se gritos. Eram gritos de terror.

Corremos para o "44".

Efetivamente, a fumaça saía por baixo da porta e pelas fendas.

Era estranho. Não havia um único vizinho no corredor. O edifício parecia vazio.

E os gritos continuaram; mais que gritos, berros.

Eliseu derrubou a porta com um pontapé. Foi impressionante. Tive­mos que retroceder. Chamas ferozes quiseram nos engolir. O quarto ardia pelos quatro lados. Era impossível entrar no aposento. Eram chamas tão altas quanto este explorador. Retorciam-se e crepitavam.

O que podíamos fazer?

A fumaça, negra, densa, aliada às chamas, obrigou-nos a cobrir o rosto.

Eliseu gritava: "As crianças! As crianças estão ali!"

E, de repente, os gritos pararam.

Então, eu disse algo absurdo: "É proibido. Não podemos intervir."

E o engenheiro, compreendendo, caiu de joelhos no chão. Chorava e gemia, e de vez em quando se lamentava: "Estão mortos! Estão mortos!"

Kesil, o criado, também chorava.

No sonho, aconteceu algo impossível...

De repente, no meio das chamas, vi um dos trigêmeos. Estava nu. Sorria.

Sim, era um deles. Tinha o cabelo longo, até os ombros. Aquele cabe­lo branco... Os olhos, rasgados, tinham a íris amarela. Não havia dúvida. Era um dos "lua", os meninos que só eram vistos durante a noite. A mãe, chamada "Gozo", era uma prostituta. A noite, os trigêmeos ficavam sozi­nhos no "44". Às vezes, Eliseu lhes fazia companhia.

Mas o mais incrível é que o menino caminhava por entre as chamas como se nada fosse, de mão dada com outro personagem não menos fa­miliar: o sujeito do sorriso encantador!

O homem, quando me viu, sorriu abertamente. E o vi abaixar a cabeça para não bater na moldura da porta. As chamas também não o afetavam.

Saíram do quarto e desapareceram. Não sei para onde foram.

Eliseu gemia e pedia clemência ao bondoso Deus.

Então, no meio do fogo, repetiu-se a cena: apareceu um segundo me­nino, idêntico, também nu, de mão dada com o mesmo homem do sorriso encantador. Sorriam. Depois, não os vi mais.

Voltei-me e tentei avisar o engenheiro. Ele não me ouviu. Continuava chorando e, de vez em quando, gritava: "Estão mortos!"

E a cena se repetiu pela terceira vez.

Um terceiro trigêmeo surgiu no meio das chamas. Também sorria. Também andava nu de mão dada com aquele desconcertante personagem.

Pouco depois, não sei como, não os vi mais.

E o fogo foi se extinguindo.

Então, eu me aventurei dentro do "44". Tudo estava destruído. Em um dos cantos, encontrei os restos calcinados das três crianças. Haviam morrido abraçadas.

"Mas - pensei no sonho isso não é possível. Eu os vi sair do quarto..."

Não consegui derramar uma lágrima.

Eliseu, no corredor, continuava chorando.

E no sonho eu vi. Estavam pelo chão do quarto. Eram restos de pa­piros. Todos queimados. Eu me agachei e peguei um dos pedacinhos, que milagrosamente se salvou do incêndio.

Havia algo escrito. Era aramaico. E li:

"Viverás o não vivido."

Era minha letra!

Eu estava tão surpreso que não vi a pessoa que se aproximava. Tocou em meu ombro e disse: "Vamos!".

Imaginei que fosse Kesil, mas não era a voz do fiel serviçal e amigo.

Nesse instante, acordei.

Precisei de alguns segundos para reagir e compreender que tudo ha­via sido um pesadelo.

O Mestre, inclinado diante de quem isto escreve, estava com a mão esquerda em meu ombro. Sorriu quando me viu acordar e sussurrou com doçura:

- Vamos!

Atônito, quase como um autômato, segui-o. O pesadelo me perse­guiu durante um bom tempo. A cena, terrível, repetia-se sem parar. Até que um dia desapareceu e parou de me atormentar. Nesse dia, coube-me viver... Mas é melhor não me antecipar aos acontecimentos. Tudo passo a passo.

Nessa segunda-feira, 25 de fevereiro, amanheceu às 6 horas e 10 minutos.

O céu de tempestade me pareceu tão atormentado quanto este explorador.

Simão Pedro tinha notáveis olheiras, mas não reclamou.

Despedimo-nos dos dois casais e pegamos a estrada para não sabía­mos onde. Para ser exato: fomos nós quem nos despedimos dos generosos José e Tesouro e Miriam e Jacó. O Mestre não gostava muito de despedidas. Limitou-se a beijar seus irmãos, pegou a mochila e seguiu caminho. A faixa branca na cabeça anunciava outra longa caminhada. Mas, como ia dizendo, o Galileu tinha costumes muito especiais. Pouco a pouco fui conhecendo-os e respeitando-os. Como dizia, se pudesse, ele evitava se despedir. Usava expressões como "boa sorte!" ou também "até logo!" ou "que Abba te proteja!", ou coisas do estilo. Mas sua palavra favorita para essas ocasiões era shalom, mas não no sentido de "adeus", e sim de "paz". Também não o vi com pressa. Nunca. Andava rápido, mas nunca com pressa. Não gostava de se desculpar. Nunca o vi pedir perdão ou se desculpar por alguma coisa. Também não lembro que desse motivos para isso. E, da mesma maneira, jamais o vi pedir um conselho; nunca, a ninguém.

Deixamos Nazaré para trás e seguimos rumo ao norte, por entre as colinas. Pensei que se estivéssemos indo ao yam teríamos que cruzar des­filadeiro de Ein Mahil, onde habitavam os leprosos e onde este explorador tivera um encontro com um velho doente de lepra tipo "mosaica", ou "bran­ca", hoje conhecida como "anestésica". Eu fiquei inquieto. O que aconteceria se o Galileu ou seus discípulos tropeçassem naqueles infelizes?

Mas não.

Logo o Mestre, sempre à frente, pegou um caminho mais estreito e descuidado e viramos para a esquerda, também em meio a bosques e ma­drugadores silêncios. O "urso" e Felipe acompanhavam Jesus. Conversa­vam animadamente. André andava ao meu lado. Os outros caminhavam à vontade, entre o grupo da frente e nós.

Foi uma oportunidade perfeita, e perguntei a André sobre os roncos de seu irmão. O gentil e paciente pescador desabafou. Estavam havia anos naquele sofrimento. A família de Simão Pedro estava desesperada. Havia sido assim desde sua juventude. Formulei algumas perguntas, sempre de forma discreta, e confirmei o que suspeitava. Simão Pedro, de fato, ador­mecia em qualquer lugar e o tempo todo. "E o pior", comentou André, "é que depois ele nega." No yam, em plena pesca, havia acontecido mais de uma vez. Era perigoso, insinuou, e eu lhe dei razão. Sentia uma cons­tante secura na boca, e as mudanças de humor eram constantes. Simão Pedro, naqueles momentos, segundo seu irmão, era insuportável. André não sabia, mas os sintomas eram absolutamente normais na apneia de que padecia o irmão.[29] O pescador me falou, inclusive, de uma espécie de focinheira de couro fabricada em Nahum que Pedro colocava na boca a fim de combater os roncos. "Aquilo durou pouco. Meu irmão se sentia como um onagro." E a focinheira, pelo visto, foi posta de lado. Agora, ao ser escolhido discípulo do Mestre, Simão Pedro, ciente dos roncos, propôs a André a possibilidade de tornar a usar a tal peça. E imaginei o apóstolo com o arreio.

Pensei em inocular-lhe os "nemos". Isso podia equivaler a uma poligrafia cardiorrespiratória, e descobriria, assim, os parâmetros necessários para conhecer a dimensão do problema: frequência cardíaca, esforço de ventilação, fluxo aéreo, níveis de C02 e de oxigenação no sangue, e até a arquitetura do sonho. O assunto me pareceu atraente. A questão era quando e onde.

Deixei nas mãos do Destino. Não era o momento de me preocupar com esse assunto.

Em pouco tempo, como era previsível, o "urso" foi ficando para trás. Arrastava a perna esquerda.

Ele nos alcançou e conversamos. Foi assim que eu soube dos planos imediatos do Mestre. Os discípulos - essa foi a ordem do Galileu - perma­neceriam em Caná. Todos. Ele seguiria para o mar de Tiberíades. Queria visitar seu irmão Judas, o rebelde. Ou melhor, aquele que havia sido a ove­lha negra da família. Agora morava em Migdal, na margem ocidental do yam, e trabalhava com pesca. Depois, segundo o "urso", Jesus seguiria até Nahum. Como eu já sabia, lá estava a Senhora, sua mãe, e vários irmãos: Tiago, sua esposa Esta, e Ruth.

Ruth...

Perguntei por que os discípulos teriam que ficar em Caná, e Bartolo­meu esclareceu que era a vontade do Mestre. Tinham que conversar com Nathan e preparar o necessário para o casamento de quarta-feira, dia 27. Todos se alojariam na casa do "urso". E o bondoso Bartolomeu me ofere­ceu a hospitalidade de seu lar. Eu agradeci, mas meus planos eram outros.

E às oito da manhã, após quatro quilômetros de marcha, o grupo parou nas cercanias de Caná. Nessa ocasião também não tive oportuni­dade de entrar. O Mestre se despediu com um doce shalom e disse que o seguisse. Contornamos a aldeia pela face oriental e descemos até encon­trar a estrada principal, que ligava o mar de Tiberíades a Cesareia, e que eu havia transitado em várias ocasiões. De início não conversamos. Jesus parecia alegre e bem disposto. E eu passei a organizar meus pensamentos.

Eu acabava de saber que Ele pretendia chegar ao yam e, ao que tudo indicava, voltar imediatamente a Caná para o casamento do filho de Na­than. Isso não me dava muita margem. Tinha que escolher: ou segui-lo ou subir ao Ravid e preparar os "nemos", absolutamente necessários para tentar verificar o que foi que aconteceu no mencionado casamento. Deu-se o célebre milagre? Os "nemos", como disse, eram vitais.

E tomei a decisão enquanto andávamos. Nós nos separaríamos. Eu entraria no "berço", prepararia o,necessário e voltaria a Caná sozinho.

Tínhamos pela frente cerca de 24 quilômetros. Jesus caminhava a um bom passo, como sempre. Em questão de cinco horas estaríamos nas proximidades do yam. E ao pensar na "cidade dos mamzerim", a poucos quilômetros de Tiberíades, tornei a me inquietar. O lugar, como já comen­tei em outro momento, era um inferno. Tratava-se de uma grande concen­tração de bastardos, ou mamzerim, a escória da nação judaica: ladrões, assassinos e gente marginalizada. Não me agradou a idéia de que o Mestre tivesse que atravessar aquele antro. Mas não fiz nenhum comentário.

Deixamos para trás o povoado de Tiran, a pousada do "caolho" e a encruzilhada de Lavi. E, ao chegar ao desvio para Arbel, a pouca distância da "cidade dos bastardos", o Galileu abandonou a trilha principal e virou à esquerda, pegando uma estrada vicinal. Respirei aliviado.

Paramos para comer em Arbel e lá tivemos uma importante con­versa, mas Ele me fez prometer que não falaria disso com ninguém. E eu cumpri, por enquanto.

No wadi Hamam, junto aos miliários que anunciavam as cidades de Tiberíades e de Migdal, a pouco mais de um quilômetro e meio do lago, Jesus seguiu seu caminho, e quem isto escreve, impressionado com a recente conversa, ficou um tempo ao pé da estrada, meditando. Depois, fui para o Ravid. Era a décima hora (quatro da tarde).

Na nave, tudo estava sob controle (sob controle do não menos fiel "Pa­pai Noel", o computador central). Estava claro que Eliseu, apesar dos pesares, era um bom militar. Continuava cuidando da vigilância e da manutenção do "berço" e, pelo que pude ver, regularmente. Isso me tranquilizou um pouco.

O ocaso solar se daria às 17 horas, 28 minutos e 17 segundos nesse dia. Eu havia chegado ao alto do Ravid com luz e com tempo de sobra. E decidi aproveitar. Pus a mão na massa. Havia muita coisa a coordenar.

E o instinto me levou diretamente à farmácia da nave. Eu precisava dos antioxidantes. O engenheiro havia se apoderado das ampolas de barro onde eu guardava os últimos comprimidos de dimetilglicina. O mal que nos afligia, como expliquei, tornava necessária a ingestão diária desses fármacos a fim de deter o excesso de NO (óxido nitroso) que canibalizava alguns setores dos grandes neurônios.[30] O mal decorria do processo de inversão de massa (inversão axial dos eixos dos swivels).[31]Não era possível...

Olhei e remexi. Fiz uma limpeza. Reordenei os medicamentos, mas não encontrei o que procurava. Não encontrei nem um único frasco de dimetilglicina nem dos outros antioxidantes: o glutamato e o N-tert-butil- -a-fenilnitrona.[32]

Maldito bastardo!

Eliseu sumira com eles.

Se bem me lembrava, ao abandonar a nave, tínhamos uma reserva mais que generosa. Mais de 900 comprimidos de dimetilglicina, de 125 miligramas cada um. Ou seja: suficiente para os dois pilotos durante 450 dias. Do resto, sinceramente não tenho idéia da quantidade armazenada.

Bastardo, sim!

Ele sabia da importância dessa medicação.

E recordei suas palavras no bosque dos lenços, quando vasculhava em meu saco de viagem:

"... você vai me suplicar..."

A falta de antioxidantes era um assunto delicado. A missão podia falhar.

Mas o que estava pensando?

Ri com meus botões.

Falhar? A missão estava ameaçada pelo maldito óxido nitroso? E o que devia pensar dos 19 tumores localizados ao pé do hipocampo, nas profun­dezas do cérebro deste explorador? O "achado" do "Papai Noel" em dezem­bro do ano passado (25 de nossa era) é que me deixou fora de combate. Aquilo sim era um problema: a amiloidose de que padecia, provocada pela proteína fibrilar amilóide que se acumula perto e dentro dos nervos, era suficientemente grave para acabar com minha vida em seis meses.

Estávamos em final de fevereiro. Isso significava que me restavam três ou quatro meses.

Senti um suor gelado.

Três ou quatro meses de vida!

Por que não havia comentado isso com o Mestre? Ele, se quisesse, poderia me curar. O negócio do menino mestiço - Ajashdarpan - foi mais espetacular...

Mas não. Eu me neguei a continuar alimentando uma ideia assim. Não faria isso. Deixaria que o Destino fizesse seu trabalho.

E, como um autômato, vasculhei novamente. Talvez os antioxidantes estivessem em outro lugar da nave.

Negativo.

Estava claro. Eliseu os havia levado. Tinha que me contentar com a ingestão da vitamina E, muito apropriada também para a batalha contra o NO, justamente graças aos tocoferóis que contém (em especial ao alfa-tocoferol). A provisão da vitamina E estava garantida com o consumo de ovos, óleos vegetais, leite, manteiga, legumes verdes, nozes, amêndoas, trigo e alguns peixes muito específicos (sardinha e enguia). O extrato de Eliseu sumira com eles.

Se bem me lembrava, ao abandonar a nave, tínhamos uma reserva mais que generosa. Mais de 900 comprimidos de dimetilglicina, de 125 miligramas cada um. Ou seja: suficiente para os dois pilotos durante 450 dias. Do resto, sinceramente não tenho ideia da quantidade armazenada.

Bastardo, sim!

Ele sabia da importância dessa medicação.

E recordei suas palavras no bosque dos lenços, quando vasculhava em meu saco de viagem:

"... você vai me suplicar..."

A falta de antioxidantes era um assunto delicado. A missão podia falhar.

Mas o que estava pensando?

Ri com meus botões.

Falhar? A missão estava ameaçada pelo maldito óxido nitroso? E o que devia pensar dos 19 tumores localizados ao pé do hipocampo, nas profun­dezas do cérebro deste explorador? O "achado" do "Papai Noel" em dezem­bro do ano passado (25 de nossa era) é que me deixou fora de combate. Aquilo sim era um problema: a amiloidose de que padecia, provocada pela proteína fibrilar amilóide que se acumula perto e dentro dos nervos, era suficientemente grave para acabar com minha vida em seis meses.

Estávamos em final de fevereiro. Isso significava que me restavam três ou quatro meses.

Senti um suor gelado.

Três ou quatro meses de vida!

Por que não havia comentado isso com o Mestre? Ele, se quisesse, poderia me curar. O negócio do menino mestiço - Ajashdarpan - foi mais espetacular...

Mas não. Eu me neguei a continuar alimentando uma idéia assim. Não faria isso. Deixaria que o Destino fizesse seu trabalho.

E, como um autômato, vasculhei novamente. Talvez os antioxidantes estivessem em outro lugar da nave.

Negativo.

Estava claro. Eliseu os havia levado. Tinha que me contentar com a ingestão da vitamina E, muito apropriada também para a batalha contra o NO, justamente graças aos tocoferóis que contém (em especial ao alfa-tocoferol). A provisão da vitamina E estava garantida com o consumo de ovos, óleos vegetais, leite, manteiga, legumes verdes, nozes, amêndoas, trigo e alguns peixes muito específicos (sardinha e enguia). O extrato de bacalhau, obviamente, não era viável naquele "agora". Também contava com o auxílio da vitamina C e do betacaroteno como "caçadores" dos radicais livres.[33]

E recordei outra possibilidade, apontada pelo eficaz computador central: a injeção dos "nemos" nos tecidos neuronais e a posterior desin­tegração dos tumores. Os "nemos" haviam sido capacitados para um tra­balho assim, mas senti medo. "Papai Noel" estabeleceu a margem de erro em 20 por cento. Os "nemos" podiam errar o alvo e danificar os tecidos saudáveis. E, pela segunda vez, recuei.

Pensei, inclusive, em decolar e voltar ao meu tempo. Que absurdo! Não devia, nem podia, nem queria. Desde dezembro, a SNAP 27, a pilha atômica, estava inutilizada; ou melhor, Eliseu havia mudado a senha que a ativava. Eu desconhecia essa senha e, em consequência, não estava em condições de mover o "berço". Além de tudo, pensei, para quê? Morrer aqui ou lá, que importava? Lá eu não tinha ninguém; ninguém me espera­va. Aqui tinha o Mestre... e ela.

Tinha que pensar positivo. E viver o momento, como recomendava o Filho do Homem. Só o "agora". O futuro nunca chega. Não existe. E me propus a ser coerente com essas ideias. Trabalharia no imediato. Sobre o amanhã, depois veríamos.

Caná. Esse era o objetivo.

Eu tinha tempo e me esmerei na seleção dos "nemos"[34] que deveria levar para a aldeia onde supostamente se daria o milagre. Na realidade, foi "Papai Noel" quem fez o trabalho. Eu me limitei a supervisionar e a colocar em três ampolas de barro os correspondentes "batalhões" dos "mini-submarinos" ou microssensores biológicos. Achei que aquela carga era suficiente. Só teria que vertê-los na água, ativar a "vara de Moisés" e colher a informação que os referidos "nemos" pudessem captar. Depois, o computador central cuidaria da avaliação correspondente e saberíamos o que teria ocorrido na célebre boda de Caná. A água foi transformada em vinho, como afirma João, o evangelista? Algo não me cheirava bem nesse assunto. Não soube dizer naquele momento, mas "alguma coisa" me pareceu turva. Não parecia razoável que o bom Deus, se é que houve o milagre, houvesse se dedicado a alterar as leis da natureza. A água não dispõe de carbono; o vinho sim. Como podia ser, então, que a água utili­zada na boda houvesse se transformado em vinho (álcool)? Fazia tempo que a palavra "milagre" não me agradava. Segundo a Igreja Católica, por exemplo, milagre é um acontecimento extraordinário que contraria as leis da natureza e que supostamente foi realizado por intervenção divina. Eu não sabia muito sobre o Pai, mas, pelo que havia aprendido com o Mestre, achei que o bom Deus não andava por aí se enredando em suas próprias leis físicas. E menos ainda para agradar a alguém.

Como havia dito: nesse negócio de Caná havia gato na tuba. Poderia confiar em João Zebedeu, o único que menciona o suposto prodígio? (A palavra "prodígio" - acontecimento que excede os limites regulares da na­tureza - me parece menos ruim que "milagre".)

E durante um tempo estudei e dissequei o citado texto evangélico de João (2, 1-11). Diz assim:

"Três dias depois, houve uma boda em Caná da Galileia, e estava ali a mãe de Jesus; e foi também convidado Jesus com seus discípulos para a boda. E, tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: 'Eles não têm vinho'. Respondeu-lhes Jesus: 'Mulher, que queres de mim? Ainda não é chegada a minha hora'. Disse então sua mãe aos serventes: 'Fazei tudo quanto ele vos disser'.

Ora, estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam duas ou três metretas. Ordenou-lhe Jesus: 'Enchei de água essas talhas'. E encheram-nas até em cima. Então lhes dis­se: 'Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E eles o fizeram. Quando o mestre-sala provou a água tornada em vinho, não sabendo de onde era, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água, chamou o mestre-sala ao noivo e lhe disse: 'Todo homem serve primeiro o vinho bom e, quando os convidados já estão embriagados, então serve o inferior; mas tu guardaste o vinho bom até agora!'. Assim deu Jesus início aos seus si­nais em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele."

Em vista do que eu sabia, dos erros e da manipulação do apóstolo em outros assuntos (o mais recente era a escolha dos primeiros discípulos de Jesus), aquilo sinceramente não me agradou. Eu conheci, em primeira mão, uma das decisões tomadas pelo Mestre em seu retiro de 39 dias nas colinas de Beit Ids: não faria prodígios, fugiria do caminho fácil (?) das manifesta­ções extraordinárias. Frisou isso várias vezes na caverna da chave. Então, assim sendo, como entender que, de repente, poucos dias depois, em plena boda em Caná, decidisse transformar a água em vinho? Por que aceitar a palavra do Zebedeu?

Jesus não era um Homem contraditório. Era um Homem (sempre foi) de grande coerência. Aquele texto era estranho. Furado. João, além de tudo, não sabia nada acerca das grandes decisões.

Mas eu tinha que ser objetivo.

Primeiro, era conveniente assistir ao acontecimento e descobrir o ocorrido. Depois viriam as conclusões.

Não me enganei.

O acontecimento não foi como narra João Zebedeu, longe disso.

Por que não imaginei?

E devo fazer um esforço para não antecipar o que tive oportunidade de presenciar. Não foi como afirma João. Foi mais... como diria? Talvez a palavra exata seja notável. Foi mais notável do que pretende o evangelista.

Por fim, antes de descansar, cuidei de um último assunto, talvez me­nos relevante, mas, para mim, de um considerável interesse "científico", embora - também antecipo - não tenha conseguido explicá-lo satisfato­riamente. Talvez alguém um dia saiba fazê-lo ou intuí-lo.

Peguei as amostras das plantas que havia colhido no alto da colina dos znun e as submeti a uma análise exaustiva.

Dias atrás, como se pode recordar, uma incrível "luz" precipitou-se (?) no cume da citada colina, também conhecida por este explorador como a "778" ou da "escuridão". Não houve impacto, pelo menos eu não ouvi barulho. Como já disse, ao chegar ao cume, a "luz", ou o que quer que fosse, provocou uma gigantesca labareda e tudo perto de mim (eu estava do lado de fora da caverna da chave) se iluminou de violeta: montes, oli­veiras, roupas, fogueira, firmamento... Tudo ficou violeta!

O que havia acontecido? Eu nunca soube. E poucas horas antes de abandonar Beit Ids, como já relatei, fui ao alto da "778" e peguei um pu­nhado de funchos. As plantas, normalmente cheirosas, estavam amarelas e mortas. Alguma coisa as secara até a raiz.

Usei as técnicas ao meu alcance: espectrofotometria, emissão (Na e K: AAS), sistema "Kjeldhal" (N) e absorção (Ca, Mg, Fe, Mn, Cu, Zn e Mo: AAS). E repeti a análise.

Os resultados foram idênticos: desidratação intensa (quase cem por cento) em níveis celulares (incluindo as raízes). Nenhum rastro radioativo.

O ferro, o alumínio e o manganês, porém, estavam muito acima do habitual nesse tipo de herbáceas. Os índices de alumínio eram espetacula­res, com uma média superior a 1.502 ppm (partes por milhão) (mg/kg).[35] O ferro apresentava níveis superiores a 916 ppm e o manganês beirava as 50 ppm. Não era lógico que a colina dos znun pudesse conter semelhantes proporções de alumínio. Esse tipo de planta não tolera esse tipo de solo. Se fosse um componente natural, as raízes não o teriam admitido. Em consequência, a "contaminação" (?) devia ter ocorrido pelo ar. E fiquei pasmo. A que "contaminação atmosférica" me levavam a análise? Estáva­mos no ano 26 de nossa era.

E "Papai Noel" ofereceu algo que eu havia esquecido. Os anor­mais índices de manganês dos funchos coincidiam, de certo modo, com outra análise feita tempos atrás (ou melhor, no futuro: ano 30). Naquela oportunidade, a análise foi feita nas bagas, nas folhas e nos galhos do sicômoro existente em frente à cripta onde foi sepultado o cadáver de Jesus de Nazaré. No momento da "ressurreição" do Ga­lileu (domingo, 9 de abril do ano 30), uma singular "labareda" azul surgiu da caverna e afetou a referida árvore. A misteriosa radiação (?) dessecou parte da ramagem do corpulento sicômoro e danificou também outras árvores frutíferas próximas. Pois bem, naquele caso, surgiu outra súbita desidratação (cem por cento), com alteração de alguns elementos-chave: potássio, cobre, cálcio e sódio, entre outros. O manganês foi um dos mais alterados, com índices que superaram 2.800 ppm (em um sicômoro saudável, a quantidade de manganês oscila cerca de 300 ppm).[36]

Em outra incursão à Cidade Santa, tive a oportunidade de pegar amostras do terreno, e verificamos o que já suspeitávamos: o solo, basicamente composto de cal, tinha proporções razoáveis de manganês (20 mg/ kg, para um pH de 6). Coincidência?

Como dizia o Mestre, quem tiver ouvidos que ouça. Assim terminou aquela segunda-feira, 25 de fevereiro do ano 26 de nossa era.

 

                   De 26 a 28 de fevereiro

Descansei profundamente.

Nessa terça-feira, 26 de fevereiro, o dia amanheceu às 6 horas, 8 mi­nutos e 59 segundos. O barómetro do "berço" baixou sensivelmente. Na­quele momento marcava 995 milibares, e caía. Isso representava instabi­lidade. Os radares da nave me alertaram. Aproximava-se pelo oeste uma frente fria muito ativa procedente do Mediterrâneo. Em questão de horas, a região podia ser afetada pela chuva.

Eu me preparei. Não havia tempo a perder. Meu objetivo, como já disse, era Caná. Queria chegar antes do Mestre. Precisava reconhecer o lugar, pegar referências e, sobretudo, explorar a região onde ia ser celebrado o casamento. Era vital que eu localizasse os cântaros e que preparasse tudo para o suposto - insisto, suposto - prodígio da trans­formação da água das purificações em vinho.

Eram pouco mais de 22 quilômetros de estrada. Com sorte, e sem parar, chegaria a Caná em quatro ou cinco horas.

E os céus me protegeram.

A quinta hora (11 da manhã) divisei a aldeia (talvez a designação apropriada fosse "povoado de menor categoria": naquele tempo, Caná contava com cerca de 1.800 habitantes). Tratava-se, como acredito ter mencionado, de uma localidade branca e esticada sobre o cume de uma colina suave, de 400 metros. Tudo ao seu redor, como no caso de Nazaré, era verdor e novas colinas, praticamente gêmeas. A nenhuma havia ocor­rido a temeridade de ultrapassar os 400 metros de altitude. Os bosques de algarobeiras, carvalhos, terebintos e oliveiras fugiam verde-escuros em todas as direções, subindo e descendo os montes sem descanso.

E o céu, como eu havia suposto, cobriu-se de nuvens negras. Pare­ciam ter pressa de chegar a algum lugar. Talvez ao yam...

Eu adentrei o caminho que já conhecia, o do norte, e fui usufruin­do as frondosas romãzeiras. A direita e à esquerda estendiam-se várias hortas, protegidas por um labirinto de muros de pedra de um metro de altura. Era o orgulho de Caná. Centenas de Punicum granatum (mencio­nados em Números 13,23), de troncos densamente ramificados e folhas oblongas, contemplaram-me curiosos, enquanto eu caminhava decidido. No meio dos galhos distingui alguns abibes atrasados.

Ao contrário do que supõem os crentes hoje, Caná nunca foi um lugar onde a uva prosperava. Jamais houve vinho nessa região. Não sei por que, mas isso podia se dever à má qualidade do terreno ou à umidade. Eram as romãzeiras e o azeite que davam prosperidade a Caná, que seus habitantes chamavam pomposamente de "cidade notável". O lugar era habitado desde a Era do Bronze, mas o atual assentamento, hoje chamado Kafr Kanna, não tem a ver com a Caná que eu conheci. A Kafr Kanna atual fica a cerca de um quilômetro para o leste. Se eu tivesse que escavar o local exato onde se erguia a Caná dos tempos do Mestre, seria em Karm er Ras.

Mas estou desviando do assunto principal.

Caná, como dizia, era uma aldeia orgulhosa e próspera. Admitia muitos trabalhadores das aldeias próximas, inclusive de Nazaré. E entre as duas localidades, como pude ir observando, existia uma mais que velha e acirrada rivalidade.

Passei em frente aos grossos e negros muros do casarão de Meir, o rofé, ou médico das rosas, e recordei a bondade daquele sábio.

Devia entrar e cumprimentá-lo? Arriscava-me a perguntar pelo casamento do filho de Nathan?

Optei por procurar a casa de Bartolomeu, o "urso" de Caná. Era mais prático e seguro. Conheci Meir no ano 30. Eu não podia saber quem era aquele grego idoso e compridão.[37]

Deixei os roseirais de Meir para trás. Assim que pisei na cidade, ao perguntar, um dos moradores me levou pela mão até a casa dos pais de Bartolomeu. Tanta gentileza me surpreendeu.

E nisso começou a chover.

Observei o céu. Aquilo não parecia ser breve. A tempestade estava estacionada, negra e robusta, sobre a região.

Azar, pensei, e entrei na penumbra da casa.

O "urso" veio ao meu encontro e me recebeu com todas as honras. Apresentou-me a seus pais, velhos e doentes, e desculpou-se pela bagunça, que se devia, disse, à súbita chegada dos discípulos. Aliás, ao me acostumar à pouca claridade' do aposento, pude ver os Zebedeu, Simão e seu irmão

André; mas não Felipe. Bartolomeu desculpou-se por ele. O homem de Saidan, apaixonado por óleos essenciais, não queria perder a oportunidade e estava visitando o casarão de Meir, o especialista em essências de rosas.

E me acomodei nas esteiras, prestando atenção à conversa deles.

Nada novo, salvo um detalhe. João Zebedeu, como sempre, de­fendia que Jesus era o Messias prometido. O resto, especialmente seu irmão Tiago, duvidava. E João forneceu um detalhe que eu ignorava. Segundo ele, Caná foi escolhida pelo Mestre como a aldeia onde fa­ria seu primeiro prodígio, o primeiro grande sinal que estremeceria o mundo e, acima de tudo, Roma. Não sei de onde ele tirou a ideia, mas, em parte, acertou. A coisa não ficou aí. Assim que entraram na cidade, no dia anterior, os discípulos se encarregaram de espalhar a notícia: o Messias chegaria em breve a Caná e faria tremer os alicerces do mundo conhecido. Caná era a aldeia escolhida.

Eu continuava espantado.

E o pai de Bartolomeu, conhecedor da rivalidade entre seu povo e a vizinha aldeia de Nazaré, perguntou em várias oportunidades o que seu filho já havia comentado antes de ser selecionado como apóstolo do Filho do Homem: "E de Natzrat (Nazaré) pode sair algo bom?".

As pessoas da cidade obviamente duvidaram das afirmações da­quele grupo. E, por respeito ao "urso", ouviram as "absurdas palavras" de João Zebedeu. E as críticas, mordazes, começaram a circular pela aldeia. "Se Jesus era de Nazaré - aludiam com razão -, por que escolheu outra cidade para a revelação de um destino tão glorioso?" E debochavam do Zebedeu. Mas a semente da dúvida estava plantada. A festa de casamen­to do filho de Nathan, de fato, era algo conhecido, que aconteceria em breve. E a inquietude rondava muitos daqueles corações simples. Mais ainda, e isto foi de especial importância para o que aconteceria na citada quarta-feira, dia 27: a notícia da chegada do suposto Messias, e dessa pretensa obra extraordinária que realizaria em Caná, acabou correndo pela região. E em questão de dois dias chegou ao yam. Não havia muitos fatos concretos sobre o ansiado Libertador de Israel. Era compreensível, portanto, que o rumor se espalhasse como uma mancha de óleo.

O Messias estava chegando a Caná, e seus discípulos afirmavam que fa­ria um grande milagre. Seria o início do fim de Roma. Era natural que nin­guém quisesse perder o evento. A considerável aglomeração de gente na festa de casamento, e não outra coisa, foi o que acabou provocando a falta de vinho. Mas vamos por partes.

João e os íntimos continuaram polemizando sobre o Messias e o "rei­no de Deus" que estava para ser inaugurado -"malkuta di elaha", repetiam -, e eu, meio entediado, pedi ao "urso" que me explicasse como chegar à casa de Nathan.

O bondoso galileu fez melhor. Ofereceu-se para me acompanhar e insinuou algo em que este explorador não havia reparado, e que também tinha certa importância. Ele me apresentaria ao dono da casa e o conven­ceria a me aceitar como um convidado. De certa forma - foi o que disse Bartolomeu eu podia ser considerado um discípulo de Jesus de Nazaré, "mesmo que fosse de origem pagã" - soltou com ironia. O negócio do convite para a festa de casamento me deixou preocupado. O "urso" tinha razão. O que seria deste inepto explorador se não tivesse acesso ao recinto da festa? Nada do que havia planejado seria factível.

E agradeci o conselho e a boa vontade. Parece que os convites haviam sido distribuídos fazia um mês. No total, segundo o "urso", o número de convidados chegava perto dos 300.

O que argumentaria para que Nathan me aceitasse?

Aquela aparente simplicidade me deixou seriamente preocupado. Tudo poderia vir abaixo por conta de um descuido.

Parou de chover, e Bartolomeu sugeriu que saíssemos.

E atravessamos a cidade de leste a oeste.

As ruas, enlameadas, fizeram-me recordar o desastre de Saidan, o bairro pesqueiro de Nahum.

Os moradores aproveitaram a trégua dos céus e foram cuidar de suas obrigações. As matronas tiraram os tapetes e os acolchoados pelas estrei­tas janelas, e a criançada foi cuidar das galinhas que ciscavam no barro. Alguns artesãos olhavam para o céu e hesitavam, sem saber se colocavam as mercadorias na "rua". Reuniam-se aqui e ali e acabavam falando sobre o assunto do momento: a chegada do Messias para a festa de casamento do filho de Nathan. Todos queriam estar presentes, por via das dúvidas.

E à sexta hora (meio-dia), Bartolomeu me mostrou a casa que eu estava procurando.

A casa de Nathan era fácil de reconhecer. Ficava no lado oeste da ci­dade, na periferia, camuflada nos negros e verdes bosques de carvalhos e algarobeiras. Era um casarão enorme, quadrado, de mais de cem metros de lado. Uma trilha confortável, feita sob medida, passava pelos pés de romã que cercavam Caná e nos deixava na porta da fazenda. Porque era exata­mente isso: uma chácara de dimensões consideráveis, com o grande casa­rão de um lado, a pouco mais de 500 metros da aldeia. Uma colina de 412 metros velava o lado oeste da casa para que os ventos do Mediterrâneo não a perturbassem. Nathan era um homem rico. Era dono de metade das romãzeiras da região, bem como de olivais cujos horizontes não eram visíveis. Na fazenda reunia gado graúdo e miúdo.

Quando nos aproximamos, descobri outro detalhe de especial re­levância, que tornava fácil a localização da Sapiah - esse era o nome da fazenda e do casarão. Significava "trigo que nasce espontaneamente", mas tinha uma segunda acepção: "chuva forte". Em vista do que acon­teceu pouco depois, quem isto escreve ficou com a segunda tradução. Eu estava dizendo que havia algo que distinguia o lugar, e de longe. O "urso" esclareceu minhas dúvidas. Aquelas árvores de um vermelho encarnado que cercavam toda a casa eram conhecidas como "árvores de ferro", pela dureza da madeira. As flores tinham uns cálices enor­mes, em forma de taça, com os estames sobressalentes e pendentes, de um vermelho vivíssimo. Quando voltei à nave, soube que se tratava da Metrosideros robusta. Os gregos a chamavam de "metra". Eram árvo­res de cerca de 30 metros, de uma espécie "estranguladora", porque as raízes cercavam a árvore hospedeira e acabavam destruindo-a. Cha­mou minha atenção o fato de que estivessem em flor. Estávamos em fevereiro, e a climatologia não era adequada para isso. Considerei isso uma referência excelente. Em Caná só existiam aqueles exemplares da árvore de ferro.

Mas, de repente, o céu se abriu e foi um dilúvio.

Corremos e nos refugiamos no túnel de acesso à Sapiah, a porta principal. O casarão não era mais que uma antiga pousada reformada. Conservava a estrutura inicial, com o típico túnel de entrada e um gran­de pátio central, a céu aberto. Em cada lado do pátio havia um magnífico pórtico, com um total de 20 colunas de quase quatro metros de altura. Nessas galerias abriam-se várias portas. Quatro estreitas escadas, uma de cada lado do pátio, levavam para o alto. Imaginei que conduzissem aos quartos do andar superior e ao terraço. Alguém havia pintado as colunas de amarelo. Devia se tratar de outra moda grega.

Bartolomeu procurou com o olhar. Nisso, parou de chover.

Uma dúzia de serviçais apareceu por entre as colunas e começou a limpar, a lavar e a tentar fechar com madeiras uma piscina central, de uns cinco metros de extensão. Todos, homens e mulheres, usavam túnicas verdes que iam até abaixo dos joelhos. Ninguém prestou atenção em nós.

Fiquei assombrado. Os serviçais eram negros.

E tanto os homens quanto as mulheres esfregavam com frenesi as lajo­tas do pátio e dos pórticos, bem como as paredes caiadas. Corria água por todos os lados, e também a vassoura e os panos, e as esponjas, e os baldes.

Deduzi que aquele era o lugar da festa. Aquela limpeza, ao meio-dia do dia anterior à festa de casamento, só podia se justificar por uma celebração importante.

O "urso" foi até um dos serviçais e perguntou alguma coisa. Eu me aproximei com prudência e observei os' que tentavam fechar a mikveh, a piscina central. Imaginei que fosse isto: uma piscina para recolher a água da chuva e fazer a purificação da pessoa contaminada pelo contato com mortos, ou para as mulheres em estado de niddah, ou impureza por parto ou menstruação.[38]

O fosso estava vazio, e os serviçais se esforçavam para cobri-lo com longas tábuas. Aquele trabalho me levou a uma conclusão interessante: a família de Nathan não era muito religiosa. Se fosse, dado que a mikveh devia ser usada pela noiva em uma cerimônia de purificação muito parti­cular, não a teriam coberto.

Não me enganei.

Logo ouvimos alguns palavrões. Vinham do andar de cima. Era Na­than, o dono da casa e pai do noivo. Desceu até a mikveh e ameaçou com todo tipo de raios e desgraças os serviçais que a cobriam se não acabassem o serviço de uma vez por todas.

Nathan notou a presença de Bartolomeu e se aproximou. Continuava xingando a torto e a direito. Não importava por quê. A questão era xingar. Estava claro: Nathan era tudo, menos religioso.

Conheciam-se, naturalmente. O "urso" lhe falou de quem isto escreve.

Nathan me olhou de cima a baixo e deu de ombros. Nada lhe importa­va. Os preparativos da festa de casamento eram um desastre. Tudo estava uma confusão. Ninguém sabia o que tinha que fazer. Ele tinha até que espantar as moscas. Foi o que disse entre um palavrão e outro.

"E o vinho nem chegou!"

Fiquei alerta e me atrevi a perguntar.

O vinho não chegou?

A culpa é desse maldito Azzam, ou como quer que se chame.

Azzam?

Julguei me lembrar desse nome. Eu conhecia um tal de Azzam, co­merciante do deserto do Neguev. Vendia zimbro, um vinho vagabundo, relativamente parecido com nosso gim. Tive a oportunidade de conversar com ele por conta de um incidente no caminho do yam à montanha sa­grada do Hermon, quando, em agosto do ano passado (25), procurávamos o Mestre. Azzam era o chefe de uma parelha de burros estranhos, de pelagem rosada, com uma cruz de Santo André nas costas e crinas cinza avermelhadas arrematando a cauda. Um dos animais atropelou Denario, o menino surdo-mudo que vivia no kan de Assis, o essênio. Foi assim que fizemos amizade.

Tu o conheces? - perguntou o proprietário da casa sem disfarçar seu desprezo pelo comerciante de zimbro.

Pedi alguns detalhes e confirmei o que suspeitava. Tratava-se do mesmo comerciante de vinhos.

Eu não soube o que fazer nem o que dizer. O tal de Azzam havia pro­metido uma entrega de vinho de Aphek (atuais altos do Golan), mas não chegava, e estávamos a um dia da festa de casamento.

Praguejou contra Azzam e contra os céus.

Preferi me calar.

E Nathan se afastou, clamando contra os negros que esfregavam as lajotas dos pórticos.

Eu havia descoberto algumas coisas: o vinho era doce e ainda não havia chegado. Belo panorama, pensei.

E fui além, inclusive, em meus tortuosos pensamentos: "João, o evan­gelista, havia inventado a passagem do vinho?" Estavam a 24 horas da festa e não tinham vinho.

Perguntei a Bartolomeu pelo convite para a festa de casamento, mas ele não soube responder. Nathan não havia dito nem sim nem não. E me pediu paciência. Insistiria.

Eu me dediquei, então, a uma inspeção mais cuidadosa de tudo que me cercava. Precisava saber onde estava cada coisa. Só assim poderia me mover com eficácia.

Após a limpeza do chão, os serviçais cobriram-no com serragem. Mas era uma serragem muito peculiar. Examinei-a com atenção e ve­rifiquei que havia sido tingida com açafrão e cinábrio. E o cúmulo do requinte: acrescentaram pó de especularita à serragem para dar-lhe mais brilho e suavidade. Eu havia lido alguma coisa a respeito disso no Satiricon, de Petrônio.

Percorri os pórticos. Ninguém perguntou o que eu estava fazendo lá. Ninguém me abordou. Cada um cuidava de suas coisas, e com evidente pressa. Bartolomeu se perdeu por uma das escadas laterais, imaginei que em busca do possesso Nathan.

A família colocou quatro grandes candelabros, ou menoroth de sete braços, de quase dois metros de altura cada, estrategicamente no centro de cada uma das quatro galerias. Eram de ferro lavrado, com as respec­tivas taças, maçãs e flores, como mandava o Êxodo (25, 31-37). A ilumi­nação, graças às 28 taças em forma de flor de amendoeira, era mais que suficiente. A família realmente desfrutava de um notável poder aquisitivo.

Quanto às paredes dos pórticos, os serviçais davam os últimos to­ques nos enfeites florais. Toda a superfície das paredes foi coberta com lí­rios amarelos, que, segundo os judeus, simbolizavam a paz e a ternura. No amor - diziam representam a felicidade total e a sabedoria. As colunas também foram enfeitadas, mas com um tipo de lírio azul, recém-chegado do vale do Jordão. Era o íris humilis, delicadíssimo, que só durava um ou dois dias. Sua beleza, à luz das lamparinas, deixou-me deslumbrado.

Nathan voltou ao pátio acompanhado por uma mulher e o "urso". Também não fui apresentado dessa vez, mas soube por Bartolomeu que a galileia era esposa do velho resmungão. A mulher quase não falou. Devia beirar os 50 anos, como Nathan. Já eram idosos, levando em conta que a expectativa de vida naquela época não passava dos 40, 45 anos para os homens. Não sei se já mencionei, mas essa realidade afetava também o Filho do Homem. Jesus, em seus 31 anos, já não era um rapazinho.

A mulher se chamava Ticra, que podia ser traduzido por "céu aber­to". Devia ter sido linda. Tinha um nevo azul (uma pinta) no queixo. Era um nevo com uma forma curiosa: lembrava um coração. E, verdade seja dita, era só coração. Não tinha nada a ver com o marido.

- Diz o grego - gritou Nathan - que esse pilantra chegará a tempo.

Deduzi que o grego fosse eu e o pilantra, o responsável pelo vinho: Azzam.

Ticra olhou para mim, ansiosa, e perguntou:

Tens certeza? Tu o conheces, diz meu marido. Ele chegará a tempo com o vinho?

Não sei o que aconteceu, mas respondi com uma segurança que ainda me assombra:

Não te alarmes. Terás o melhor vinho.

Agora sei. Não fui eu quem falou.

A senhora sorriu agradecida mostrando uma fileira de dentes total­mente coberta de ouro na mandíbula. Seus olhos brilharam fortemente. A partir desse momento, soube que havia gostado de mim. E fiquei tentado a tocar no assunto do convite para o casamento. Não houve oportunidade. Naquele momento, voltou a chover com força, e todo mundo se refugiou, nos pórticos. Nathan levantou os braços e clamou furioso contra os céus. A mulher tentou acalmá-lo. Impossível. E ambos desapareceram por uma daquelas várias e cada vez mais misteriosas portas.

Foi quando as vi.

Meu coração me avisou.

Eu me aproximei, inquieto, afastando-me dos serviçais e de Bartolomeu.

Não havia dúvida. Eram elas... E eram seis!

Ninguém as vigiava. Estavam alinhadas perto do túnel, à direita de quem entrava no pátio (tomarei sempre como referência esse túnel de acesso).

Eu as acariciei.

Sim, tinha certeza... Eram as cad, ou talhas que andava procurando!

Eram seis, feitas de pedra (provavelmente de pedra caliça), feitas a torno e rebocadas com uma grossa camada de gesso. Foram encostadas nas paredes, ocupando praticamente toda a esquina.

Foi um encontro emocionante. Elas, à sua maneira, estavam me esperando.

Eram talhas decapitadas, de bocas largas (40 centímetros), que os romanos e os pagãos em geral chamavam de dolium. Não eram fáceis de transportar. Um robusto pé, também de pedra, ancorava-as às lajotas do pórtico. Eram gêmeas. Atingiam uma altura de 70 centímetros. Pelo que pude descobrir dias depois, de volta ao Ravid, sua capacidade era de 120 litros por talha. Isso representava um total de 720 litros.[39] João, o evange­lista, estava certo, pelo menos no que se refere à capacidade das cad. Mas eu não podia confiar.

Estavam cheias de água, quase até a boca. No total, cerca de três metretas por talha. Imaginei que a água estivesse destinada às obrigatórias purificações dos judeus, tanto ao entrar no banquete quanto após a de­gustação dos diversos pratos. Às vezes, nem sempre, a água era usada para misturar com o vinho e enfraquecê-lo.

A lei mosaica era muito rígida no que se refere à purificação. Bas­tava que a vasilha ou a água entrasse em contato com algo impuro (um rato ou uma lagartixa, por exemplo, como aponta o Levítico [11,33]) para que o recipiente e o conteúdo se tornassem impuros. Isso signifi­cava um gasto extra. Havia que esvaziar a água e, inclusive, segundo as normas, descartar a talha. Mas os judeus tinham soluções para tudo. E a Mishná (naquele tempo, a tradição oral) estabelecia que a impureza não se estabelecia se o cântaro fosse de pedra ou de madeira. Em resumo: isto barateava o negócio em médio e longo prazo. Por isso a maioria das cad era de pedra, não "para" as abluções, e sim "pelas" purificações dos judeus. Assim reza o texto, em grego, do evangelho de João Zebedeu: "Havia lá seis talhas (que eram) de pedra, conforme (kata) os ritos ju­deus da purificação".

Examinei-as minuciosamente. Tinha que saber como derramar os "nemos" e em qual delas. Ou devia fazer isso nas seis? Não quis me preocupar com esses problemas, digamos, "técnicos", naquele momento. Tudo a seu tempo.

O engobo e o lustro também eram cuidadosos e permitiam que a porosidade fosse quase nula.[40]

Nas asas, gravada na pedra, lia-se a palavra Imlk ou lam-melech, que quer dizer "pertencente ao rei". Isso significava que Nathan, em outro mo­mento, as havia adquirido de algum "antiquário". As talhas em questão eram realmente valiosas. Ignoro o preço, mas devia estar acima dos 300 denários de prata cada uma. Debaixo de Imlk lia-se Hebron. Isso fazia supor que as talhas procediam dessa região ao sul de Jerusalém. Talvez houvessem per­tencido a um rei.

Ao lado, diretamente no chão ou sobre esteiras de folha de palma, alinhava-se uma tropa de jarras, vasilhas, conchas e potes de barro, metal e madeira com os quais se deveria extrair a água.

Essa era a paisagem, mais ou menos, por onde devia me mover. Lá, em algum momento do dia seguinte, ocorreria o prodígio. Ou não? Contemplei o grande pátio e as galerias e não soube o que pensar. Onde me situaria? O lógico é que ficasse o mais perto possível das talhas. Além de esvaziar as ampolas com os "nemos", tinha que ativar a "vara de Moisés". O problema era saber quan­do. Como saberia que havia chegado o momento oportuno? De que dependia? Precisaria me concentrar na figura do Mestre? Tinha que seguir seus passos?

Sinceramente, aquilo era um labirinto. Eu não sabia por onde começar.

E uma série de gritos me tirou desses pensamentos.

Depois, chegaram os palavrões. E adivinhei que era Nathan.

Que nova desgraça o acossava?

Apareceu na galeria onde eu estava. Surgiu por uma daquelas 40 portas...

Levantava os braços e cuspia palavrões. Andava rápido, mas sem sa­ber para onde. Os servos se afastavam, temerosos.

Atrás, também com precipitação, surgiu um indivíduo macérrimo, usando uma calça parecida às que usavam os persas, presas nos tornoze­los. Era vermelha (um vermelho que machucava os olhos). Vestia um coletinho da mesma cor. O peito estava descoberto, perfeitamente depilado. Ao notar o movimento dos quadris e os gestos, exageradíssimos, calculei que estava diante de um efeminado. Não me enganei.

O "homem" andava a pouca distância de Nathan, e a cada palavrão do proprietário da casa puxava os cabelos; ou melhor, a trança loura na qual prendia o cabelo. E, a cada puxão, soltava um lamento e murmurava umas palavras que não consegui entender. Era outro idioma.

Mas a coisa não acabou aí.

Atrás do efeminado, pela mesma porta, surgiu uma terceira pessoa. Era mais jovem, quase uma criança, muito pálido, com uma longa túnica branca. No colo e nas mangas, uns lindos bordados feitos de ouro.

Parecia assustado.

O "urso" me procurou e foi esclarecendo a situação. O sujeito da cal­ça vermelha berrante era quem garantiria que a festa, incluindo o banque­te nupcial, corresse em ordem e sem tropeços. Era uma espécie de maitre contratado para organizar tudo. Os romanos o chamavam de tricliniarcha. Quem isto escreve tivera a oportunidade de conhecer um desses profissio­nais na visita a Cesareia, de triste lembrança.

O outro, o mais novo, era filho de Nathan; o noivo.

E o efeminado, de repente, parou no meio do pórtico e ameaçou abandonar a casa.

E acrescentou, também em aramaico:

Diz teu filho que o magarefe se nega a matar mais cordeiros.

Nathan girou sobre os calcanhares e voou para cima do maître com os olhos brilhantes de cólera.

Por quê?

O efeminado deu um passo para trás, assustado com aquela onda que ameaçava quebrar em cima dele. E não disse nada. Nathan, então, jurou, entre palavrões, que o mandaria de novo para Susa. Compreendi. O maître era persa. Susa era uma importante cidade do leste da Babilônia.

Por fim, com um fio de voz, o persa esclareceu que o magarefe queria saber o número exato de convidados. Não podia ficar sacrifi­cando cordeiros o dia todo.

Nathan reconheceu que a pergunta do magarefe era lógica e, bufan­do, voltou-se para o filho e lhe falou por meio de sinais.

Olhei para Bartolomeu e ele confirmou minhas suspeitas.

O rapaz era mudo. Provavelmente surdo.

Suponho que Nathan tenha lhe comunicado o problema, e o noivo, atento aos lábios do pai, foi assentindo com a cabeça. O rapaz dominava a leitura de lábios perfeitamente. E observei outro detalhe que me pare­ceu curioso. Nathan, ao dirigir-se ao filho, não ficou em cima dele, como havia feito com o persa. Manteve-se a uns três metros de distância, e isso, segundo meu pouco entendimento, favoreceu a compreensão do que estava transmitindo.

Aquele mundo da linguagem de sinais era desconhecido para quem isto escreve. De modo que não pude saber de que estavam "falando" com exatidão. Foi tudo pura dedução. Como sabem os especialistas, não existe uma linguagem única e universal de sinais. Cada idioma dispõe do seu próprio. Neste caso, Nathan e Johab (esse era o nome do noivo) trocaram sinais em uma linguagem equivalente ao aramaico.

Ao que tudo indicava, o número de convidados para a festa de ca­samento crescia constantemente, e o responsável pela matança dos cor­deiros exigia uma explicação. A chegada do suposto Messias à casa de Nathan nessa quarta-feira, 27 de fevereiro, estava fazendo as coisas saírem do controle. Ninguém estava no comando. O número inicial de convidados (entre 200 e 300) foi superado em muito. Chegavam pedidos de todos os lados e a toda hora. A família de Nathan não sabia como reagir. Eram só problemas. Uma confusão só. Tudo idas e vindas. O vinho não chegava, ninguém sabia se era preciso matar mais cordeiros, chovia a cântaros...

E Nathan, desesperado, resmungou outro palavrão - irreproduzível -, deu meia-volta e deixou o filho e o persa ali plantados.

Quem isto escreve não se conformava. Nada disso foi contado pelo evangelista, e tudo - creio eu - teve sua importância.

E continuei atento. Não havia jeito de me convidarem para a festa de casamento.

O "urso" pediu calma mais uma vez. Pensaria em alguma coisa. Eu confiava naquele homem.

Por fim, a chuva parou. Devia ser a nona hora (três da tarde).

E voltamos a Caná, à casa dos pais de Bartolomeu.

Lá ficou Nathan e o resto da família, aturdidos, brigando com os problemas. A iminente visita do suposto Messias os pegou de surpresa e os obrigou a mudar alguns planos previstos para a festa de casamen­to. Nathan era cético no que se refere ao Libertador de Israel, e mui­to mais em relação ao fato de que o tal Messias pudesse estar presente em Caná. Conhecia Jesus desde que este era uma criança. Suas famílias eram amigas. Ele o vira crescer. Sabia quem era sua mãe e seus irmãos. Para Nathan, portanto, a notícia de que o Galileu era o Messias há tanto tempo esperado simplesmente não teve importância. Não deu crédito às falações. Porém, ao ver que os pedidos para comparecer à festa se mul­tiplicavam, o chefe da Sapiah ficou desconcertado. Ticra, porém, estava adorando. Não era todo dia que o Messias ia à festa de casamento de um filho. A mulher estava esperançosa e preocupada ao mesmo tempo. Tudo tinha que estar perfeito.

Eu me consolei. Não consegui que me convidassem para o festejo, mas pelo menos tive a oportunidade de passear pelo suposto cenário dos fatos e pegar referências. O "urso" de Caná tinha razão. Tinha que confiar. Alguma coisa aconteceria, e quem isto escreve teria acesso à casa.

E assim foi, mas rião como eu imaginava.

- A propósito - comentou Bartolomeu, enquanto atravessávamos as ruas encharcadas -, que roupa preparaste para amanhã?

Roupa? Eu só tinha a roupa do corpo e a capa, que havia ficado na casa do discípulo.

O silêncio foi tão eloquente que o "urso" compreendeu e tentou me acalmar. Ele tinha roupa. O problema era o tamanho. Bartolomeu era o mais baixo do grupo. Não chegava a 1,60 metro. Quanto a mim, com um 1,80 metro...

Oh, Deus! Outro problema.

Mas as surpresas não haviam terminado.

Ao entrar na casa, vi junto ao fogo dois novos inquilinos. Eram Tia­go e Judas, os irmãos carnais do Mestre. Não entendi a presença deles na casa. Eles não conheciam Bartolomeu ainda.

Alegraram-se em me ver. Fazia um mês e meio que os havia perdi­do de vista. A última vez que nos encontramos havia sido no batismo de Jesus, no rio Artal (14 de janeiro). Ambos sabiam alguma coisa sobre minhas andanças em Beit Ids. Os discípulos lhes contaram. E elogiaram minha fidelidade a Jesus.

Tiago e Judas haviam acabado de chegar. Vinham de Nahum e de Migdal, respectivamente. Entraram em Caná na mesma hora em que o "urso" e eu abandonávamos a fazenda de Nathan. Perguntei pelo Mestre e soube que Ele e o resto da família estavam no casarão de Meir, o rofé das rosas. Era compreensível. Jesus, a Senhora e os filhos eram velhos amigos de rofé, ou curador. Foi Meir, como se pode recordar, quem tratou de Amós, filho de José e de Maria, falecido na noite de domingo, 9 de janeiro do ano 7 de nossa era. Meir não pôde fazer nada para salvar a vida do irmão de Jesus. Mesmo assim, todos eram gratos a ele.

Jesus, a Senhora e Tiago haviam feito a viagem juntos, procedentes de Nahum. Judas se juntara a eles em Migdal. Pelo que me contaram, Ruth decidiu ficar na "casa das flores" cuidando de Esta, esposa de Tiago - a qual, como já foi dito, havia dado à luz recentemente. E na casa de Meir, em Caná, encontraram Miriam e seu esposo, Jacó, o pedreiro, procedentes de Nazaré. De comum acordo, o Galileu, a Senhora, Miriam e seu marido pernoitariam na casa do "auxiliador". Tiago e Judas optaram por se juntar aos discípulos na casa de Bartolomeu, onde estávamos. Mas a decisão não foi casual. Tiago e Judas tinham um propósito secreto. Miriam, ao que parecia, havia informado a eles sobre a recente escolha dos seis discípulos. Meir os levou até a casa do "urso".

Pensei em ir até a casa de Meir e cumprimentá-los, mas me con­tive. E acho que fiz bem. A conversa com os irmãos do Mestre seria ilustrativa e me daria uma visão panorâmica do que estava acontecen­do naquele momento na família do Filho do Homem. Nada do que eu ouviria foi relatado pelos evangelistas.

Comecei perguntando pelo ocorrido naqueles dois últimos dias. Pa­rece que não aconteceu nada de especial importância, segundo eles. Jesus chegou ao lago no entardecer da segunda-feira, 25, e foi diretamente ao casarão dos Zebedeu, na margem oriental do yam, em Saidan.

Estranhei. Por que Jesus não visitou primeiro a "casa das flores", em Nahum? Lá estavam sua mãe e seus irmãos.

Os demais discípulos, aos quais Felipe havia se juntado novamente, ouviam com atenção. O "urso", ajudado por André, preparava o jantar.

Meu Irmão - prosseguiu Tiago - estava feliz. Fazia tempo que não o víamos tão alegre e tão comunicativo.

Judas assentiu em silêncio.

Devo dizer-te que tanto Judas quanto eu nos convencemos...

Tiago hesitou. Olhou para os discípulos com desconfiança, mas con­cluiu o que pretendia dizer:

Judas e eu sabemos agora que nosso Irmão é o Messias prometido.

O silêncio ficou denso. João Zebedeu enfatizou as palavras de Tiago com vários movimentos afirmativos de cabeça. No rosto de seu irmão, Tiago Ze­bedeu, esboçou-se a dúvida. Simão Pedro estava cabeceando, dominado de novo pelo sono. André e Felipe, atarefados com a carne seca e uma fumegante sopa, ouviam e não ouviam. Quanto ao "urso", eu o perdia de vista toda hora. Entrava e saía, mas eu não saberia dizer o que estava fazendo.

O que aconteceu em Ômega - concluiu Tiago - acabou nos con­vencendo.

Referia-se, concluí, aos acontecimentos extraordinários que havía­mos vivido no rio Artal durante o batismo do Filho do Homem.

Nossa mãe tem razão. Ele é o Libertador de Israel, conforme pro­meteu o anjo.

Não era verdade. Em sua mensagem a Maria, o anjo jamais falara desse assunto. Mas eu não quis interromper.[41]

Nossa família - prosseguiu com entusiasmo - está destinada ao mais santo e ao maior. Ele, nosso Irmão, liderará os exércitos que libertarão nosso povo.

João Zebedeu não pôde se conter e abraçou Tiago. O abraço, porém, não foi do agrado do irmão de Jesus. Suponho que o Zebedeu o percebeu. Voltou ao seu lugar e ficou mudo.

Já é hora de partir. Ele está esperando.

Olhou para nós, um por um. Deixou correr uma pausa e acrescentou:

Amanhã será o grande dia. Amanhã, meu Irmão convencerá os descrentes.

Eu me atrevi a perguntar o que já sabia:

E como será isso? O que acontecerá?

Ele fará um prodígio. Todos sabemos. É a forma de dizer ao mundo quem é e por que está aqui.

Um prodígio? - insisti. - Que tipo de prodígio?

Tiago deu de ombros. Obviamente não sabia. Em parte, havia falado com razão quando dissera que "sua família estava destinada ao mais santo e ao maior". Só errou o endereço.

No fundo, não importava que tipo de prodígio. A família - era claro - ha­via se rendido, por fim, diante da velha esperança da Senhora: Jesus era o Liber­tador político, social e religioso do povo judeu. E Caná era o cenário escolhido para essa inauguração. Até certo ponto, para a família era lógico: tratava-se de uma festa de casamento, uma reunião importante e quase multitudinária; os fatos sobrenaturais do vale do Jordão estavam muito recentes, e Maria, ao que tudo indica, encarregou-se de avivar aquele sentimento de triunfo. Uma série de circunstâncias, enfim, havia confluído naquele lugar e naquele momento.

E Maria e seus filhos, felizes e expectantes, apostaram no grande dia: quarta-feira, 27 de fevereiro do ano 26.

Tiago esclareceu que assim que soubera da chegada de seu Irmão a Saidan, pegara sua mãe e se dirigira ao casarão dos Zebedeu. Lá ficaram com Jesus e lhe fizeram muitas perguntas.

Que perguntas?

Minha mãe queria que Jesus ratificasse o que havia sido dito pelo anjo. Era ele o Messias prometido? Que planos tinha? Que lugar ocuparía­mos no Estado-maior do Libertador?

E Tiago, sem querer, fez uma pausa e contemplou os discípulos. Jul­guei adivinhar seus sentimentos, e os de Judas. Aquilo não me agradou.

O que aconteceria com Yehohanan? Por onde começaria a subleva­ção? Quem custearia os gastos dos exércitos? Deveríamos segui-lo fisica­mente? O que aconteceria com a família do Messias? Jesus iria à festa de casamento de Nathan? Em que prodígio havia pensado para inaugurar o novo reino? E coisas assim...

Apesar de saber o que sabia, fiquei impressionado. A família não ha­via entendido absolutamente nada.

E o que disse Jesus?

Tiago deu de ombros. E replicou com amargura:

O de sempre...

O de sempre?

Sim.

Dessa vez foi João Zebedeu quem perguntou, impaciente:

Mas, o quê?

Isso, o de sempre: que não havia chegado sua hora, que era melhor esperar, que tinha que fazer a vontade do Pai, ou algo parecido.

Imaginei a expressão do Mestre, entre surpreso e resignado. Nada havia mudado no coração de sua mãe.

Nessa manhã de terça-feira, 26, foram para Caná. Todos estavam fe­lizes. Uns por um motivo e outros por outro. A Senhora, acima de tudo, segundo Tiago, flutuava de felicidade. Cantava. Sorria sem parar. Estimu­lava-os. Estava chegando o grande dia. Seu sonho estava prestes a se tor­nar realidade. Ela era a mãe do Messias. Como disse, estava flutuando.

Abaixo Roma! - gritou Judas.

Abaixo! - respondeu João Zebedeu.

Os demais presentes fizeram silêncio. Aquela atitude, eles bem sa­biam, era extremamente perigosa. Tinham que andar pisando em ovos. Havia espiões por todo lado.

As recomendações do Mestre para que não falassem "enquanto não chegasse sua hora" caíram em ouvidos moucos. A mãe e também os irmãos se encarregaram de espalhar a boa-nova para todos aqueles que cruzaram seu caminho. "O Messias havia chegado, finalmente, e dirigia-se a Caná. Lá demonstraria seu poder." As pessoas, imaginei, deviam olhá-los com perplexidade. De que aqueles loucos estavam falando? Mas outros, que já conheciam as notícias, alegraram-se e espalharam, por sua vez, o que Maria e seus filhos haviam apregoado.

Impressionante. Nenhum evangelho jamais contou isso. Foi a Senho­ra, Tiago e Judas que participaram ativamente da preparação do ambiente para esse iminente prodígio. De certo modo, Maria foi um dos artífices da tumultuada reunião na aldeia de Caná.

Jesus, segundo os irmãos, fez o caminho tranquilamente, sem prestar atenção aos comentários da mãe. E insistiram: o Mestre estava descontraído e alheio às inquietudes dos seus. Era como se esse negócio do Messias não fosse com Ele. E a mãe se perguntava: "E depois? Qual seria o prodígio seguinte?".

A ceia pôs um ponto final às explicações de Tiago.

Foi um respiro. Mas só isso, um respiro.

Começou a chover de novo, e com força.

E o "urso" e seus pais se esforçaram para resolver o problema das incontáveis goteiras. Distribuíram vasilhas pela casa em uma tentativa de controlá-las. Conseguiram mais ou menos.

E durante o jantar percebi outra vez o sentimento que se aninhava no co­ração dos irmãos do Mestre. Tiago perguntou sem rodeios, a seu estilo: "Aque­les homens eram os discípulos de Jesus?" Todos responderam afirmativamente. E notei certo mal-estar e uma especial tristeza no rosto de Tiago e de Judas.

De novo o ciúme.

Não perguntei. Era evidente. Os irmãos de Jesus não viam graça no fato de uns "estranhos" (embora conhecessem de sobra todos, menos Bartolo­meu) ocuparem os postos que, por lógica (a lógica do sangue), lhes perten­ciam. Esse era o pensamento da família de Jesus na véspera do grande dia.

E todos nos acomodamos na sala à espera do sono necessário. Está­vamos cansados.

Apesar dos roncos de Simão, das goteiras e da preocupação com a roupa, quem isto escreve também caiu em um profundo e benéfico sono.

Nessa histórica quarta-feira, 27 de fevereiro, os relógios da nave ad­vertiram acerca do orto solar às 6 horas, 8 minutos e 59 segundos.

Não tenho a menor dúvida. Esse dia foi especialmente intenso e be­néfico para quem isto escreve. Meu ceticismo em relação aos prodígios simplesmente naufragou.

Mas tenho que ir passo a passo.

Surpresa.

Havia parado de chover, mas nevava de leve. A neve sempre me agradou.

Caná amanheceu branca e silenciosa. As portas e janelas foram aber­tas e, intrigadas, olhavam os flocos de neve. Viam-nos cair, mas imagino que não sabiam o que pensar. Depois chegou o habitual ruído da moenda.

E com a neve, como acontece em quase todo o mundo, a casa de Bar­tolomeu se encheu de alegria. Era a primeira vez que eu via os discípulos brincando com neve.

Enquanto tomávamos o café da manhã, o "urso" cumpriu o prometi­do. E me mostrou diversas túnicas. Eu não sabia o que fazer. Todas batiam em meus joelhos. E me sentei, preocupado, para pensar. O que faria? A festa de casamento era um ato solene. Todos usavam suas melhores roupas.

Então, a velha mãe de Bartolomeu encontrou uma solução, digamos, razoavelmente boa.

E sugeriu que eu colocasse qualquer túnica de seu filho sobre a mi­nha própria.

Foi o que fiz. Peguei uma das chaluk do "urso", preta, e a vesti, seguin­do o conselho da mulher.

Bartolomeu riu a valer. A combinação do preto com o branco osso de minha túnica habitual era interessante. E me chamou de tarelah. A expressão aramaica significa "que faz perder o sentido". Mas não me dei conta. E o "urso", convencido, afirmou que "daria o golpe".

O golpe? Para isso, em primeiro lugar, era preciso que me aceitassem na festa de casamento.

Eu não disse nada.

Dirigi-me à mãe do "urso" e pedi um novo favor: uma pequena caba­ça, vazia, dessas que usavam como cantil. A mulher não perguntou e me deu o que eu precisava. Escondi nela as três pequenas ampolas de barro com os "nemos", amarrei-a na cintura, peguei a "vara de Moisés" e me despedi do grupo. Ninguém perguntou nada. Imaginei que deviam saber que estava indo à casa de Meir para encontrar o Mestre. Não havia pressa. Os discípulos chegaram algum tempo depois. O início da cerimônia foi marcado para "quando o sol estiver no alto" (meio-dia).

E às oito fui para a Sapiah, a fazenda de Nathan.

Apesar de ainda estar com a "pele de serpente", senti a queda da tem­peratura. E senti falta do manto. Eu o deixara na casa de Bartolomeu, com o saco de viagem. Lá não havia problema.

Logo me consolei. O talith só teria sido um estorvo.

Deixei-me acariciar pela neve.

Que nova aventura me esperava naquela casa?

Observei o céu e notei, preocupado, que as nuvens haviam material­mente caído sobre a aldeia.

Aquilo não estava com uma boa cara. Era provável que continuasse ne­vando ou chovendo. E pensei nos noivos, e no inquieto Nathan. Uma pena...

Ao chegar à casa, em meio ao vermelho das árvores de ferro, vi muita atividade. A grande porta de entrada estava fechada. E no meio das árvores vi homens e uma parelha de asnos. Contei mais de uma centena de pessoas. Não vi crianças. Quase todos eram homens. Pa­reciam esperar que as portas se abrissem. Caminhei por entre eles, curioso, e me surpreendeu ver que a maior parte eram mendigos, pi­lantras, aleijados e outra gente com aparência não muito boa.

Pensei que poderiam ser aproveitadores que tentavam tirar parti­do da iminente festa de casamento. Era o comum em festividades desse tipo. Em algumas casas, geralmente nas de fariseus muito ortodoxos, chegava-se ao extremo de permitir a entrada de todo tipo de infeliz e mendigo, que ficavam em pé nas proximidades do salão. De lá, como de­monstração de caridade e de religiosidade, os fariseus jogavam comida para esses desafortunados.

Talvez eu estivesse em uma situação parecida.

E nisso, ao lado dos burros, vi um grupo de negros com longas túni­cas vermelhas. Eu já havia visto aqueles homens.

De fato. Eram os arreeiros de Azzam, o beduíno nascido no deserto do Neguev, com quem encontrei a caminho do Hermon.[42]

Sim, eram os insólitos jumentos núbios, de pelagem rosada. Carrega­vam odres de pele de cabra.

Imaginei que fosse o vinho prometido a Nathan. E respirei aliviado. Azzam havia cumprido sua promessa.

Não tardei a encontrá-lo. Seus dois metros o tornavam visível a distância.

Ele me abraçou, feliz. E deu graças aos deuses por aquele novo en­contro. Então, passou a me explicar, com toda riqueza de detalhes, como é habitual em um badawi, de onde vinha, o que transportava e para onde ia.

Azzam, que em árabe significa "bom homem", havia sido um gazou (guerreiro) na juventude, e participara de todo tipo de razzias, ou lutas com outras tribos, também baáu ou beduínas. Viveu no Egito e na Núbia, onde era conhecido pelo tráfico de escravos. Em uma palavra: apesar do apelido e de suas boas maneiras, não era de confiança.

Foi assim que eu soube que transportava uma carga de vinho envelhe­cido (chamou-o de iain yashan), da safra do ano anterior, e misturado - foi o que disse - com mel e pimenta. Chamavam-no de inomilin. O vinho, arma­zenado nos odres, procedia da região de Sydoon Gezer, perto da costa. Era um vinho negro, "que se deixava acariciar como uma mulher". Foi o que disse Azzam, mas não sei... A Nathan, ele afirmara que o vinho era de Aphek.

No total, cerca de 600 litros de vinho tinto e outra carga de shekhar, uma cerveja leve elaborada com milho e cevada. O melhor do melhor, afirmou pela enésima vez.

Fiz as contas. Se Azzam estivesse dizendo a verdade, aqueles 800 litros seriam mais que suficiente para uma festa de casamento de 300 convidados. E tornei a duvidar do prodígio. Por que Nathan ia ficar sem vinho no meio da festa?

Nesse momento, abriram-se as grandes portas de madeira da casa e surgiu Nathan com os escravos. Atrás vinha o maître. Assim que saiu, os serviçais fecharam o portal. E os mendigos e todos que esperavam do lado de fora se precipitaram para a mencionada porta e bateram com os punhos. Foi um aviso.

Nathan se apressou. E ordenou ao beduíno que abrisse um dos odres. O persa pegou o vinho e o provou. Fechou os olhos. Fez a bebida dançar na boca e, finalmente, com uma expressão de desagrado, acabou engolindo-o.

Olhou para seu patrão com uma expressão de dúvida. O vinho não era bom, mas também não afirmou que fosse ruim.

Nathan amaldiçoou sua falta de sorte. Teria despachado Azzam a pontapés, mas a festa de casamento aconteceria em questão de quatro ou cinco horas. Não estava em condições de repudiar a carga daquele vigarista. E se resignou.

Continuava nevando docemente.

Foi naquele momento que tive a idéia.

E o persa, contrariado, fez um comentário:

- Pelo menos deve ser um vinho kosher.[43]

Azzam nem olhou para ele. E ordenou que descarregassem os odres. Então, sem pensar duas vezes, eu me misturei com os servos que acompa­nhavam Nathan e com o pessoal de túnicas vermelhas. Peguei um dos sacos de pele de cabra e o carreguei no ombro esquerdo. E sem me encomendar nem a Deus nem ao diabo, segui para o portal da Sapiah. Outros criados me precediam, também com odres nos ombros. Ninguém fez comentário algum. Ninguém me deteve. Ninguém me chamou a atenção. Nem voltei a cabeça. Meu único interesse era entrar na casa e, naturalmente, ficar nela. E os céus foram benevolentes com este explorador... até certo ponto.

Uma das folhas do portal foi entreaberta. Lá estava postado outro grupo de negros, também servos de Nathan, perfeitamente diferenciados pelas túnicas verdes.

E ao passar pelos mendigos e aleijados, senti olhares de ódio e tam­bém de inveja. Nós estávamos entrando na casa; eles não.

Vociferaram e exigiram que Nathan lhes franqueasse a passagem e lhes permitisse participar do evento. O dono não se voltou nem respon­deu aos comentários, alguns enfáticos e insultantes.

Desfilei por entre os indivíduos com o coração apertado. Qualquer ener­gúmeno daqueles podia me delatar. Eu não me vestia como um serviçal.

O persa, na porta, me viu passar. Na realidade, estava contando os odres. Não sei se naquele momento notou aquele "serviçal" anormal, mais alto que o habitual e vestido não se sabe como.

E, ao entrar no túnel de acesso, de soslaio observei algo no qual não havia reparado antes: na madeira do portal havia meia dúzia de orelhas humanas pregadas. Estavam secas. Estavam ali fazia um tempo. E pensei: a que se deve um horror desses? Recordava bem o que diz o Deuteronômio (15, 16-18) sobre a libertação dos escravos.[44] Alguns judeus interpre­tavam mal o texto supostamente sagrado e, de fato, como sinal de liber­tação, cortavam as orelhas e as pregavam nas portas. Eu reparei melhor nos serviçais e notei que alguns homens e mulheres não tinham orelhas. Tinha que haver algum engano. A lei, além de tudo, proibia essa prática.[45]

O importante é que consegui.

Estava dentro.

E agora?

Tinha que dar um jeito de continuar dentro e de estar presente na festa de casamento. Não podia perder nem um detalhe. Aquele era um momento histórico. Eu intuía isso.

Pensei em me esconder. Depois, encontraria o lugar e o jeito.

Inicialmente, limitei-me a seguir os passos dos serviçais.

No grande pátio a céu aberto, outros servos se aplicavam a uma tarefa que achei absurda, dado o estado do tempo. Brigavam com um enorme lenço violeta, muito leve, parecido com o tule. Tentavam cobrir o pátio amarrando o pano nas colunas que se erguiam nos pórticos. E digo que me pareceu um esforço ilógico porque a neve e a possível chuva iriam arruinar tudo aquilo.

Carregamos os odres entrando por uma das misteriosas portas. Aquela grande sala era uma adega. Lá se alinhavam vários, enormes cân­taros. Uma escada preta e encardida levava a um possível porão. Aquilo podia ser um bom esconderijo.

Um escravo de cabelo branco vigiava a colocação do vinho nas ta­lhas. Observou-me com curiosidade, mas não abriu a boca.

E ao esvaziar meu odre compreendi que aquele vinho também deve­ria ser analisado. Eu não havia pensado nisso. Precisava de uma amostra que servisse de testemunha. Tinha que arranjar outro cantil, ou um reci­piente similar, e enchê-lo com o vinho. Mas cuidaria disso - pensei - em outro momento. Agora, o vital era me manter dentro da Sapiah.

E os céus, à sua maneira, me protegeram. Sim, à sua maneira...

Fiz mais duas viagens, e todas, naturalmente, angustiado. Temia que a qualquer momento alguém me detivesse e me pusesse na rua. Nathan me espiava com curiosidade, mas também não disse nada. Depois eu soube por quê.

A neve caía a um ritmo doce e agradável.

Vi mais gente às portas da casa. Já deviam passar dos 200. Muitos es­tavam mais bem-vestidos. A maioria se cobria com roupões. Descobri que levavam rolos nas mãos. Podiam ser pergaminhos ou papiros. Eram os ver­dadeiros convidados da celebração. Faziam fila ordenadamente.

Os aventureiros, curiosos, mendigos e demais oportunistas iam e vinham por entre as árvores vermelhas, inquietos e, suponho, tentan­do descobrir como entrar na fazenda. Mas Nathan, mais precavido que eles, montara um esquema de segurança perto da casa. Vários escravos, armados com maças e enormes machados, passeavam de cima a baixo, sempre atentos.

Não vi o Mestre na fila dos que esperavam. Nem os discípulos ou a Senhora.

Devia ser a terceira hora (nove da manhã). Talvez fosse cedo.

E, ao terminar a terceira viagem à adega, enquanto esperava minha vez de esvaziar o odre e pensava em meu grande problema (como perma­necer na casa), os céus vieram em meu auxílio.

A solução foi o persa.

Ele entrou no aposento, observou-me dos pés à cabeça e, rebolando, foi se aproximando. Fiquei perdido. Com certeza havia me descoberto.

Mas não.

Ao chegar a mim, sorriu, malicioso. E perguntou:

Qual é teu nome? Que fazes aqui? Trabalhas para Nathan? Para quem trabalhas?

Não me permitiu responder. As perguntas, encadeadas, pareciam es­conder uma dupla intenção. Será que suspeitava que eu era um espião? Tive que fazer um esforço para conter o riso.

Esvaziei o vinho, e, sem rodeios, ele ordenou:

Vem comigo.

Comecei a tremer. Era o fim.

Sempre rebolando, saiu da adega, dirigindo-se ao túnel de acesso.

Tudo indicava que ia me pôr para fora. Estávamos indo direta­mente para a porta.

Tentando ganhar tempo e, evidentemente, a confiança do maître, pa­rei no meio da galeria. Apontando para os que amarravam o lenço violeta nas colunas, sugeri que a manobra era pouco afortunada.

O persa parou. Dedicou um olhar de desprezo aos serviçais das túni­cas verdes e comentou:

Eu disse isso a esse bruto umas cem vezes.

Deu de ombros e suspirou. Depois, olhando-me nos olhos, comentou:

Quer dizer que também entendes dessas coisas?

Assenti.

Eu disse a Nathan: não vai resistir.

O persa esqueceu o lenço violeta e me lançou outro olhar intenso, lascivo. Não sei se corei de vergonha.

Tornou a me percorrer de cima a baixo, sem o menor pudor, e aca­bou acariciando meu braço direito. Segurei com força a "vara". Se aquele sujeito passasse dos limites, eu o fulminaria ali mesmo.

Não foi necessário. O persa era esperto.

Está bem - anunciou, adoçando as palavras. - Se te portares bem...

E repetiu com ênfase:

Se te portares bem, eu te nomearei meu ajudante. Podemos viajar juntos. Tenho dinheiro e prestígio. Sou o melhor em meu trabalho. Que me dizes?

Era uma oportunidade. Era a melhor maneira de continuar na casa e de ficar a par de tudo que acontecesse. Fui rápido. Disse que sim.

Ele sorriu, encantado, dando por certa minha cumplicidade.

Tu és um homem de sorte. Esta mesma noite, quando tudo acabar, eu te darei tua recompensa.

E mostrou-me a ponta da língua, agitando-a de um jeito sensual.

Tive que fazer um esforço para não arrebentar sua cabeça ali mesmo.

E em questão de minutos me pôs a par de tudo sobre sua pessoa. Disse chamar-se Atar. Em parsna (persa) significava "fogo". Sua mãe era amadai (de ascendência meda). Fora criado nas montanhas (atual Curdistão) até que um fratakara, uma espécie de mago, comprara-o como escravo e o transformara em um refinado tricliniarcha. Havia percorrido meio mundo e servido aos grandes senhores da Terra. Foi o que disse. Não acreditei em uma só palavra. Aquele indivíduo, porém, teria um papel de destaque em outra aventura minha. Mas isso, logicamente, eu não sabia naquele crítico momento.

Sabes ler?

Eu disse que sim, sem compreender suas intenções.

Pois bem, acompanha-me.

Ele me pegou pelo braço eme conduziu para o portal de entrada.

Eu estava confuso. O que pretendia?

Notei certa atividade no túnel de acesso à casa. As portas continua­vam fechadas. Alguém colocara tochas acesas nos muros.

Ele me disse o que eu devia fazer. Era simples: ajudar os serviçais no controle dos convites para a festa de casamento. Tudo estava previsto. Três escravos se colocaram em frente às folhas de madeira. Atrás colocou-se este perplexo explorador. Ao meu lado, outro servo, que seria ajudante de quem isto escreve. E ao lado do ajudante, um enorme cesto de vime no chão. Os três primeiros negros seriam responsáveis pela leitura dos convites. Depois, cada rolo passaria a minhas mãos, e eu faria uma última revisão. Os pergaminhos ou papiros deveriam ser colocados no cesto. Só assim se permitiria o acesso à casa.

Fiquei novamente maravilhado. Não era frequente que os escravos soubessem ler. Mas aquela não era uma casa comum. Isso estava claro.

Alguém bateu à porta. As pessoas começavam a se impacientar. Fazia frio, e a neve continuava caindo sobre Caná.

E às dez da manhã, mais ou menos, o persa deu a ordem. Abriu-se uma das folhas do portal (a das orelhas) e senti uma leve brisa. A climato­logia estava começando a se enrolar.

Os ali reunidos formavam uma longa fila. Não se via o fim. Mais dois serviçais, armados com machados, colocaram-se a cada lado da entrada, vigilantes. E o persa gritou aos escravos que estavam do lado de fora para que ficassem atentos. Vi três ou quatro escravos que andavam sem parar junto à longa fileira de gente, atentos aos convites e a qualquer contratempo. Também estavam armados.

Os mendigos e demais pilantras, ao vê-los, afastavam-se e se escon­diam entre as árvores de ferro.

A primeira vista, tudo parecia sob controle.

E, sem perda de tempo, os convidados foram entregando os perga­minhos enrolados. Era uma manobra mais lenta do que eu havia imagi­nado. As pessoas avançavam e entregavam o convite a qualquer um dos três escravos que impediam a passagem. Eles o liam, de início com mais atenção, deixavam passar os convidados, e os rolos chegavam ao meu po­der. Eu tornava a lê-los e depois os colocava no cesto.

Os convites, na maioria, eram pergaminhos pequenos, em geral confeccionados com pele de cordeiro e escritos no sistema que chama­vam de gewil[46], o mais caro. Também nisso se notava a mão do persa e, naturalmente, os recursos de Nathan. Estavam escritos em aramaico, com algumas palavras e expressões em hebraico religioso, tudo isso em tinta vermelha, ou sikra, um pó extraído da cochonilha que servia tam­bém para maquiar homens e mulheres.

Era uma maravilha. Haviam sido redigidos com grande delicadeza. Pude ler a maioria. Em outros, como faziam os servos que estavam à mi­nha frente, apenas passei os olhos. Não precisava ser muito esperto para saber que estava diante de um convite verdadeiro. Ninguém teria se dado ao trabalho - e tido o gasto - de falsificar algo tão caro e sensível.

Recordo alguns textos, inspirados principalmente no Cantar dos Can­tares e nos Salmos. Também havia provérbios populares sobre o casamento:

"Oh, vem, amado meu, vamos ao campo! Passaremos a noite nas aldeias. De manhã, iremos às vinhas; veremos se a videira está em flor, se os brotos se abrem, e se florescem as romãzeiras. Lá te entregarei o dom de meus amores."

Outros diziam:

"Levanta-te, amada minha, linda minha, e vem!"

"Sempre te amei, desde o primeiro dia em que encontrei teu olhar."

"Vede já que se detém atrás de nossa cerca, olha pelas janelas e me vê."

"Meu amado. Eis que já vem."

"Eu me uno a ela porque foi escrito nas estrelas."

"Casar-se com uma estranha é beber de um cântaro. Casar-se com Noemi é beber da fonte."

Esse era o nome da noiva. O do noivo, como disse, era Johab.

Por último, no rodapé do pergaminho, apareciam os detalhes neces­sários: lugar, data da cerimônia e nome do convidado. Todos os convites foram remetidos a seus destinos por meio de mensageiros especialmente contratados com cerca de dois meses de antecedência.

Nathan apareceu na porta em várias ocasiões. Chamou minha aten­ção o fato de que não cumprimentasse seus convidados. Isso seria feito um tempo depois, no pátio central, na companhia do resto da família. Nessas inspeções, o dono da fazenda se limitou a vigiar seus homens. De vez em quando gritava e xingava, recordando aos serviçais que ficassem atentos.

De início não compreendi. Tudo estava indo perfeitamente. Depois, percebi.

De repente, no meio dos convidados aparecia alguém sem convite, com uma pesada pedra na cabeça. Dizia algo sobre não sei que conserto na parte de trás da casa e tentava entrar. O pessoal dos machados agia sem contemplações. Arrancavam-no da fila e o chutavam.

Mas aqueles que pretendiam entrar não se rendiam facilmente.

Logo chegavam outros "espertinhos". Alguns com mais imaginação. Um deles, vestido de mulher, carregava um cântaro com mel. O pessoal das túnicas verdes o despiu ali mesmo, e ele teve a mesma sorte que os outros. O pilantra desapareceu correndo no meio das árvores. Outros ten­taram com madeiras no ombro, cestos vazios, cordeiros (provavelmente roubados do próprio Nathan), e houve até os que se fizeram passar por estrangeiros. Falavam em línguas estranhas (metade árabe, metade koiné) e tentavam convencer os negros de que haviam perdido o convite. O resultado era o mesmo: pontapés e rua.

Eu me senti reconfortado. Tive sorte. Se houvesse feito a fila, prova­velmente teria fracassado. Ou não?

O persa também voltou ao túnel e me observou com interesse. Estava claramente satisfeito. Eu soube cumprir minha tarefa. Isso me beneficiava, sem dúvida. Naquele momento, eu não sabia até que ponto.

Na quinta hora (11 da manhã) acabou o controle.

Contei 192 pergaminhos.

Creio que não me enganei.

Eram mais convidados do que haviam me comunicado. Talvez eu tivesse entendido mal. Os convites tinham um caráter coletivo. Embora constasse o nome de uma só pessoa - geralmente o chefe da família -, eram extensivos a toda a casa. Observei isso em várias oportunidades. Com o portador do pergaminho chegaram também outras pessoas, todos membros da mesma família. Fiz algumas contas simples e deduzi que ha­viam atravessado o portal entre 500 e 600 convidados. Não me enganei. Pouco depois, no pátio, eu confirmaria isso.

Não comentei, mas por lá passaram também alguns velhos conheci­dos de quem isto escreve. Eles, logicamente, não me reconheceram. Mas falarei disso mais adiante.

Entre os últimos convidados estavam Jesus de Nazaré e os seus. Os pergaminhos estavam com Maria, a mãe do Mestre (a Senhora), o "urso", e Miriam, respectivamente.

Fui um perfeito idiota.

Se houvesse usado a cabeça, poderia ter me unido a qualquer um dos grupos e teria passado como mais um membro da família.

Mas estava onde estava. Não tinha sentido me lamentar.

E olhei o lado bom: eu havia feito "amizade" com o responsável pela intendência e organização da festa de casamento. Isso não podia me pre­judicar, ao contrário.

Jesus estava maravilhoso, como poucas vezes o havia visto. Sincera­mente, fiquei de boca aberta.

Usava uma túnica, um chaluk, azul claro, até os tornozelos. O bar­rado era adornado com bolotas confeccionadas também com lã, de uma atraente púrpura. Os sapatos, fechados, possivelmente trabalhados em couro, me fizeram recordar as tradicionais sapatilhas orientais. Eram de um bordô fino, com as pontas reforçadas. O cinto era formado por duas cordas douradas. O manto, ou talith, era-me familiar. Era o que eu havia visto em tantas ocasiões. Agora combinava com o bordô dos sapatos. Os cabelos estavam escondidos em um branco e imaculado cufieh, um tur­bante de linho, minuciosamente enrolado. O bronzeado do rosto o deixa­va especialmente atraente. Havia aparado a barba.

Ao passar, sorriu para mim.

Alguns flocos de neve permaneciam intencionalmente presos no manto. Era como se soubessem.

Senti aquele perfume tão especial... o kimah, que poderia ser traduzi­do como "plêiades". Dessa vez, era uma essência parecida com tintai (terra molhada). Associei-o ao sentimento de amizade.

Maria, a Senhora, estava linda também, com o cabelo preto preso na nuca. Usava uma túnica verde, combinando com seus amendoados olhos verde mato. O manto, cor de canela, a favorecia.

Ao me ver, aproximou-se e, sorridente, proclamou em voz alta:

- Chegou a hora dele!

Deu-me dois beijos, primeiro na face direita e depois na esquerda, como ditava a tradição, e afastou-se feliz. Feliz? Os filhos tinham razão: aquela mulher estava flutuando.

Com a Senhora passaram Tiago, Judas e o Mestre.

Depois chegaram Miriam, belíssima, Jacó (o pedreiro), e o "urso" de Caná, com o resto do grupo. Todos impecáveis.

Miriam também me beijou. Suas sobrancelhas e seus cílios estavam pintados com puch, uma maquiagem muito popular entre as hebreias, que as badu chamavam de kohl. Suas unhas e as palmas das mãos estavam pintadas com hena.

Os discípulos sorriam para mim ou faziam um sinal com a cabeça.

Alguns pareciam surpresos ao me ver naquele trabalho, com aquela indumentária. Pedro estava com umas olheiras enormes, consequência de seu problema de sono.

Por fim, Atar, o persa, deu as ordens oportunas e o portal foi fechado.

Não tardaram a se ouvir reclamações e pancadas na madeira. Nin­guém prestou atenção.

Nathan, com a família, aguardava os convidados no fim do túnel. Lá os ia recebendo e beijando. E as pessoas, pouco a pouco, foram tomando posições no pátio central e nos pórticos.

A neve cedeu momentaneamente, e a gaze violeta, como uma tenda improvisada, foi a admiração de todos.

As mulheres, segundo o costume, isolaram-se em uma das galerias; especificamente naquela situada em frente ao túnel de acesso (ao sul).

Não tive tempo de mais observações. O persa me puxou e me con­duziu a outra porta. Aquilo era um manicômio. Eu estava nas cozinhas. Escravos e não escravos iam e vinham, defumados por conta dos guisados e suando sem parar. Gritavam uns com os outros e, curiosamente, enten­diam-se. Havia dois ou três chefes. Eram os que mais gritavam.

E, de repente, voltando-se para quem isto escreve, o maitre fez uma pergunta que eu já esperava fazia tempo:

Não podes largar essa bendita vara? Estás me deixando nervoso!

Ele tinha razão, em parte. A "vara de Moisés" era só um estorvo, mas eu não podia explicar. E disse a primeira coisa que me ocorreu:

É um talismã. Sem ele, estou perdido.

Olhou para mim, espantado. Deu de ombros, e acho que se resignou.

Então, deu-me as ordens. Eram simples também: tinha que vigiar os serviçais enquanto distribuíam o vinho e os aperitivos. Tinha que me mover por entre os convidados e ficar atento às bandejas ou a qualquer contratempo. Ele, o persa, ficaria por perto e atento. Não titubeei.

E, a um sinal do tricliniarcha, os aperitivos surgiram no grande pá­tio. E as bandejas começaram a circular entre os convidados. Havia de tudo. Lembro-me de uma espécie de panqueca (parecida com o blini russo), feita com farinha de trigo sarraceno, fermento, leite, claras bati­das e manteiga. Haviam sido mergulhadas em um creme grosso, pareci­do com a smetana. Também vi canelones de cogumelo polvilhados com queijo ralado; fígado de frango assado com muita cebola e pimenta; pés de vaca triturados, chamados de holodetz, e pedaços de carpa tempera­dos com suco de limão (as cabeças eram disputadas).

Acho que não me engano quando afirmo que naquele momento, no pátio a céu aberto, deviam estar reunidas mais de trezentas pessoas. E fui caminhando por entre os convidados, aparentemente absorto em meu novo trabalho.

Prosseguiam as pancadas na porta de entrada. Alguns escravos ar­mados montavam guarda no túnel.

Mas meu verdadeiro propósito era outro. E fui me aproximando do grupo em que o Mestre estava.

Dei uma olhada nas mulheres. Chamou-me a atenção um pequeno, mas importante detalhe: a Senhora era o centro das atenções da maioria das hebreias. Falava e gesticulava, entusiasmada. E todas em volta dela pareciam perplexas. Discutiam entre si. Julguei saber do que estavam fa­lando. Maria havia demorado pouco para tocar no assunto capital, o que realmente interessava à maior parte dos ali reunidos: Jesus de Nazaré, o Messias prometido em mais de 500 textos sagrados. Seu Filho.

Eu peguei uma das bandejas e, com dificuldade, fui abrindo cami­nho até chegar ao centro, perto do Galileu. Não fosse pelos aperitivos, não teria chegado a Ele.

Era incrível!

Todos falavam ao mesmo tempo. Todos perguntavam a mesma coisa, ou parecida. Todos queriam saber se aquele Homem era o anunciado pelos profetas. Todos o devoravam com o olhar. Percorriam-no de cima a baixo. Discutiam entre si. Alguns tentavam até tocar Suas vestes. Era uma loucura.

E Jesus, sem perder a alegria, cordial com todos, não sabia para onde dirigir o olhar. Eu notei que Ele havia compreendido a situação. Mas sim­plesmente estava preso. Não podia dar um passo.

Eu reparei nas tábuas do chão. Estávamos em cima da mikveh, a pis­cina central. E temi que afundasse. Havia muita gente; talvez cem pessoas.

Procurei os discípulos com o olhar, mas não os consegui encontrar.

E os convidados, jovens, velhos, ricos ou menos ricos, continuaram assediando o Mestre, sempre com a mesma pergunta:

"Tu és ou não és o Messias anunciado?"

Jesus, com uma paciência infinita, não parava de sorrir e de receber as mãos daqueles que o pretendiam tocar. Suas respostas, porém, foram esqui­vas. Em nenhum momento fez alusão a sua condição de Libertador ou de Homem-Deus. Teria chegado sua hora, como proclamava a Senhora?

Só pude admirar, mais uma vez, aquele espírito calmo, gentil e gene­roso. O Mestre deixou acontecer. Não podia evitar. Estava no furacão. Ele sabia. Aceitava isso.

A expectiva era total. Para ser sincero, naquele momento ninguém pensava na festa de casamento do filho de Nathan. E uns diziam aos ou­tros: "Quando fará o prodígio que a mãe e os irmãos anunciam?".

Obviamente, ninguém entrava em acordo. Uns afirmavam - de boa fonte - que ele o faria antes da cerimônia. Outros se inclinavam pelo cair da tarde, depois de concluído o ritual, "e como lógico presente de casamento".

Ouvi de tudo naquele tumulto.

Nathan, que tentava se aproximar do convidado de honra (porque era nisso que Jesus de Nazaré havia se transformado), empurrava e xinga­va, mas não conseguia dar um passo. Não lhe permitiam.

Por fim, vi vários discípulos. João Zebedeu dava pulinhos nas pro­ximidades, tentando descobrir se o Mestre estava naquele grupo e o porquê de tanto distúrbio. Quando o Zebedeu e o resto se certificaram de que, de fato, o Filho do Homem era o centro das atenções, suas ex­pressões foram impagáveis. Não acreditavam no que viam. As pessoas se amontoavam perto do Galileu como se Ele fosse um herói, um líder ou um profeta.

Era a primeira vez que participavam de um ato público na companhia do Mestre. Estavam assombrados. Foram passando pelos também lógicos senti­mentos de satisfação e de orgulho. Ele os havia admitido como discípulos!

Foi mais que um sonho para todos eles.

Fazia apenas três dias que o conheciam ou que haviam se juntado a Ele.

Atar, o persa, também brincava pelos arredores, em uma vã ten­tativa de esclarecer o que estava acontecendo. Fazia sinais para mim a fim de que eu voltasse até ele.

Impossível. Eu não queria nem podia.

Deixei-me levar pelo momento, conforme Ele me ensinou, e aproveitei.

As pessoas, gratamente surpresas com a cordialidade e distinção da­quele Homem, baixaram o tom das perguntas e dedicaram mais atenção ao pretenso Messias.

Jesus percebeu e, um tanto angustiado, procurou uma saída. Não era fácil.

Então, voltando-se para quem isto escreve, apontou para a bandeja com os aperitivos e, esperto, perguntou:

Tu ma emprestas?

Eu lhe entreguei o que restava do fígado de frango, e Ele, sorridente, pegou a bandeja de cobre, abrindo caminho por entre os ali reunidos.

Eu fiquei de boca aberta.

E, quando se distanciava, voltou-se para este explorador e, piscando, perguntou de novo:

É pato queimado?

Observei os fígados assados que haviam sobrevivido (não muitos) e compreendi.

Durante a estadia no monte Hermon, como se recordará, Eliseu e eu acabamos queimando um dos patos com que pretendíamos comemorar o 31o aniversário de Jesus de Nazaré.

Assim era o Filho do Homem.

Não sei como fez, mas conseguiu. Logo estava livre do aperto. Tam­bém não durou muito. Outros convidados o acabaram cercando, e come­çou tudo de novo.

Jesus não fez uma careta, ao contrário. Deixou que perguntassem. Deixou que polemizassem entre si. Deixou que o tocassem e que o bei­jassem.

João Zebedeu se aproximou e me perguntou se tudo aquilo era real.

Sorri, satisfeito. E assenti. Era real, absolutamente real. E pensei: "mas tu não saberás ou não quererás contá-lo do jeito que está acontecendo".

O novo grupo de convidados, como da primeira vez, entusiasmou- -se. Jesus era, de fato, a estrela da festa. Eu diria que muito mais que isso.

E se repetiram as perguntas e as exigências e as esquivas respostas do Filho do Homem.

Minutos depois, dava um jeito de novo de abandonar os que o fusti­gavam. E naquele momento tive a oportunidade de ver algo que começou a dissipar uma das minhas dúvidas a respeito do comportamento do Ga­lileu na vida de pregação. Por que Jesus se cercava sempre, nos momentos críticos, de Pedro, João e Tiago Zebedeu? Foi algo que sempre me pergun­tei. Era uma questão de preferência? Essa idéia nunca me agradou. Jesus não mostrava predileção por ninguém. Todos os homens eram iguais para Ele. Então, o que aconteceu? Por que aqueles três discípulos estavam perto do Mestre nos momentos mais complicados? Eu recordava, por exemplo, o ocorrido no jardim do Getsêmani, pouco antes da prisão.

A resposta estava lá.

Quando Jesus conseguiu se desembaraçar do segundo grupo, três discípulos espontaneamente o cercaram e protegeram, tentando evitar que as pessoas caíssem em cima d'Ele.

Esses homens foram os irmãos Zebedeu e Simão Pedro.

E agiram muito bem, levantando um muro de ferro em volta de Jesus de Nazaré.

Os demais discípulos aplaudiram a medida, e, a partir desse dia, esses três galileus permaneceram junto ao Filho do Homem, mais perto que os outros. Não houve, portanto, nenhuma predileção do Mestre por esses três discípulos. Jesus não disse nada. Limitou-se a aceitar o que parecia uma medida prudente e de boa-fé. Foi assim que nasceu o que hoje po­deríamos chamar de "cordão de segurança" em volta de Jesus de Nazaré. Sem intenção, Simão Pedro, João e Tiago Zebedeu se transformaram, nes­sa quarta-feira, 27 de fevereiro, em "guarda-costas" do Filho do Homem. Séculos depois, essa proximidade seria pessimamente interpretada pelos exegetas.

Estávamos chegando perto do meio-dia.

E fui invadido pela confusão. Jesus continuava acossado por outras pessoas e pelos mesmos motivos. O trio de galileus fazia tudo que podia para isolar o Mestre. O que eu devia fazer? Ir já até os cântaros e derramar os "nemos" na água? Esperar?

O vinho tinto e a cerveja haviam começado a ser consumidos pouco antes. Era prematuro. Tinha que me acalmar e ficar atento. Essa era a chave: ficar atento.

Não precisei de muito tempo para ratificar o que acabava de pensar. A água das seis talhas havia começado a ser usada nas abluções e na lavagem das mãos e dos pés dos convidados. Foi usada várias vezes e reposta pelos serviçais. Se eu houvesse vertido os "nemos", teriam sido desperdiçados.

Foi quando prestei mais atenção naqueles indivíduos. Eu os conhecia de longa data. Foram parte importante na decisão de matar o Mestre. Não ia com a cara deles, para que negar?

Iam e vinham do pátio central e das galerias até o local dos cântaros. Eram inconfundíveis.

Não permitiam que os escravos lavassem suas mãos ou seus pés. Mais ainda: tentavam, por todos os meios, impedir os negros de os tocar. Porta­vam suas próprias vasilhas, envolvidas em pano, e com elas extraíam a água, evitando o contato com a pedra das talhas. O ir e vir desses indivíduos era constante. Cada vez que tocavam um manjar ou uma taça de vinho, voltavam ao canto em questão e lavavam as mãos novamente. Era obsessivo. Eram os fariseus, também chamados "santos" ou "separados" ("fariseu" derivava do substantivo aramaico perishayya, e este, por sua vez, do verbo parash: "sepa­rar". Outros afirmam que o termo é persa [perushi], devido à similaridade da religião persa com algumas das crenças dos "santos e separados").

Quase sempre se vestiam de preto, com longas túnicas ou com uma espécie de levita justa até a cintura e saiote até os tornozelos, com a borda da frente reta até os joelhos. Tinham o costume de usar o cabelo compri­do, com cachinhos nas têmporas, um de cada lado. Usavam luvas pretas e meias, pretas ou brancas, dependendo do grau[47] em que estavam. Um chapéu em bico, também preto, de veludo, arrematava o conjunto. A bar­ba era considerada consubstancial ao caráter do fariseu. Muitos dos ali reunidos tinham o rosto branqueado com farinha. Era um sinal de dedi­cação ao estudo da Lei de Moisés. Com isso, pretendiam mostrar que seu tempo estava consagrado a Yaveh. Nem sequer viam o sol.

Vangloriavam-se de ser os mais piedosos, os mais estritos no cum­primento da Lei. Orgulhavam-se de ser os depositários da tradição oral, entregue - segundo eles - a Moisés no monte Sinai pelo próprio Yaveh. Deles nasceu também, em boa medida, outro grupo que acabou se dis­tanciando dos "santos e separados": os chamados zelotes, aos que me re­feri em outras oportunidades. Os fariseus consideravam os zelotes a "ala caminhante do farisaísmo", mas, verdade seja dita, a expressão correta seria "braço armado" do farisaísmo. Os zelotes, como disse, eram terro­ristas, assassinos e ladrões que pretendiam a independência de Israel. "Deus - diziam - é o único Senhor. Não Roma."

Enfim, os fariseus acabaram constituindo o que hoje, no século XX, chamaríamos de seita, mas alguns exegetas não concordam com essa qualificação.[48] Não eram sacerdotes, embora muitos sacerdotes se sentissem felizes de pertencer às fraternidades dos "santos e separados". Diziam defender o povo, mas não era verdade. Desprezavam-no e pro­curavam se manter afastados dos am, como já mencionei. E citavam a tradição oral (Dem 2,3) para defender esse distanciamento do povo: "Todo aquele que aspira a ser hbr (fariseu) não vende a um am-ha-arez frutos secos ou frescos, não lhe compra frutos frescos, não entra em sua casa como hóspede nem o aceita como hóspede se levar suas pró­prias roupas". As roupas de um am, enfim, eram impuras para os hbr, ou haber, também chamados chaber (fariseus de primeiro grau). O povo simples (os am) era impuro por natureza, segundo a casta dos "santos e separados". Tratar com eles significava ir contra Yaveh. Foi motivo de es­cândalo para os fariseus o Mestre conviver com os "pecadores" (os am). As disposições contra os am-ha-arez contavam-se às centenas. Vejamos um exemplo, transmitido por Deus a Moisés, segundo a filosofia dos "ss" (santos e separados): "Quando a esposa de um haber deixa que a esposa de um am moa no moinho de sua casa, se o moinho parar, a casa ficará impura; se ela continuar moendo, só ficará impuro aquilo que ela puder tocar estendendo a mão" (Toh 7,4). Como já expliquei, quando alguém se contaminava por impureza (ou julgava se contaminar), sua obrigação era fazer uma oferenda, obtendo, assim, o perdão de Deus pela culpa ou a suposta culpa. Isso, claro, significava dinheiro. Um dinheiro para o Templo (na realidade, para os sacerdotes).

E com os fariseus chegou também a adoração à Torá oral. Até o aparecimento dos "santos e separados", o povo judeu se guiava pela Torá escrita; ou seja, o manifestado por Deus a Moisés. Essas manifestações integram o Pentateuco (os cinco livros sagrados: Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Tudo foi registrado por escrito. Eram as Escrituras Sagradas, a Lei. Mas os fariseus foram além e estimaram que o dito por Yaveh a Moisés havia sido muito mais e muito mais comple­xo e importante que o registrado na Torá escrita. Foi assim que nasceu a Torá oral: milhares de normas que, segundo os fariseus, constituíam a correta interpretação e o desenvolvimento último da Torá escrita. O Pen­tateuco, enfim, segundo a filosofia farisaica, não era suficiente para servir a Yaveh. Essas normas complementares procediam dos tempos do exílio na Babilônia (586 a.C.) e foram "atualizadas" pelas gerações seguintes.[49] Nos tempos do Mestre contavam-se 613 preceitos (365 proibições e 248 mandamentos positivos), com uma constelação de subpreceitos; um mo­numento jurídico que, segundo os "ss", procedia diretamente de Deus. As ramificações da chamada Torá oral eram tantas que o povo se sentia in­capacitado para cumpri-las. Nem mesmo os especialistas - os escribas - estavam em condições de reter na memória tamanha teia jurídica. Era o "pesado jugo" a que o Filho do Homem faria alusão em várias ocasiões.

A obsessão dos "santos e separados" com a Torá (a deles, a oral) era tanta que defendiam que o mundo havia sido criado com o instrumento dessa Torá oral. Pois bem, esse era o grande tesouro de Israel: a Lei. Deus os fizera depositários da "grande jóia". Por isso se consideravam superiores às demais nações. A Lei, diziam, era a clara manifestação da vontade divi­na. Eles, os judeus, eram os escolhidos. Só o cumprimento estrito da Lei levava à salvação. Tanto individual quanto coletivamente. E proclamavam que as guerras se deviam "à exposição da Torá por caminhos não corres­pondentes à halakah". E acrescentavam: "Tudo aquilo que expõe a Escritura de maneira não conforme à halakah não tem lugar no mundo futuro". Foi assim que nasceram os especialistas nessas milhares de disposições: os escribas, ou doutores da Lei, a quem espero me referir mais adiante.

E junto à devoção à Lei, ou como consequência dela, os fariseus tam­bém eram obcecados pelo pagamento do dízimo e pela manutenção da pu­reza ritual, ao preço que fosse. Deviam pagar dez por cento de qualquer coisa que possuíssem. Não importava quão insignificante fosse. A situação, como se pode compreender, levava a extremos ridículos. Se compravam, por exemplo, alguns gramas de cominho, a obrigação era separar o dízimo desses gramas e reservá-lo para o Templo. Houve "santos e separados" que chegaram a separar o dízimo do ar que respiravam. Mas como faziam isso?

O absurdo chegava a proporções de pesadelo no que se refere à pureza ritual. Foi a parte que me desconcertou por completo. Os fariseus não po­diam tocar os am, como já expliquei, nem cadáveres, nem os animais mor­tos, e muito menos as mulheres menstruadas, ou que tenham acabado de dar à luz, ou os homens suspeitos de ter fluxo seminal. A relação de objetos impuros era interminável. Havia profissões contaminantes, como no caso dos curtidores ou dos coletores de excrementos de cão. As doenças também contaminavam; em especial os diversos tipos de lepra. A saliva era pura ou impura, dependendo do dono. E o que dizer dos alimentos? Os fariseus, por precaução, nunca compravam de quem não fosse "santo e separado". A obsessão pela pureza os levou a situações estranhas, muito perto do dese­quilíbrio mental. Recordo que me contaram o caso de um fariseu cuja mão fora amputada. Pois bem, ele não permitiu que sua família assistisse ã am­putação com medo de que a mão "morta" os pudesse contaminar. Outros chegavam ao extremo de não construir uma casa porque haviam sonhado com ela durante o sagrado período do shabbat. Alguns não confiavam as cartas aos mensageiros pagãos para evitar que fossem entregues no sábado. E os am falavam dos chamados fariseus shoted, que se negavam a prestar auxílio a uma pessoa que estivesse se afogando em um dia santo como o sábado. Entre esses shoted havia também os que se negavam a olhar para as mulheres, porque isso podia contaminá-los.

Eram, enfim, homens arrogantes e vaidosos, orgulhosos de si mes­mos, que olhavam por cima do ombro àqueles que não eram da fraterni­dade. Sua religiosidade ficou reduzida a um pacto comercial com Yaveh. Deus lhes dava e eles devolviam. Nada era gratuito. Jamais faziam nada por altruísmo. Quando chegar o momento, espero dedicar umas linhas às célebres "obras de caridade" dos "ss". Era um espetáculo. Na hora de en­tregar as esmolas, faziam-se acompanhar por outros fariseus que tocavam o sino ou a trombeta, chamando a atenção da vizinhança. Como dizia o Mestre, "esses já tiveram sua recompensa". Para os "santos e separados", a caridade fazia parte de sua filosofia e era feita não por piedade ou generosidade, mas porque acreditavam que essas obras eram retribuídas em curto, médio ou longo prazo por Yaveh. Sabiam da misericórdia de Deus, mas esse perdão divino - diziam - era só para os justos. Os pecadores não mereciam essa misericórdia. Tudo isso, como disse, transformara-os em seres vaidosos, que se consideravam acima do resto dos mortais. Eram máquinas cumpridoras de uma lei sufocante. E comecei a compreender o porquê do ódio pelo Filho do Homem.

Em geral, acreditavam na imortalidade da alma, mas só a do justo passava para outro corpo. A dos am e pagãos em geral ia parar no centro da Terra. Lá se consumiam no fogo eterno. Os cristãos, com o passar dos séculos, copiaram essa tradição fariseia. Acreditavam, evidentemente, na reencarnação, mesmo que só para contrariar seus eternos inimigos, os saduceus, a casta dos latifundiários e da aristocracia.

E defendiam também a existência de anjos e espíritos malignos. Trata­va-se de uma clara influência do mundo persa, onde seus antepassados vi­veram durante o exílio na Babilônia. Eram partidários (quase fanáticos) do Destino. Achavam que o homem estava acorrentado a ele. "O homem deve fazer o bem - sentenciavam -, mas o Destino é quem controla as rédeas."

Participavam da política conforme a conveniência. Não se opunham abertamente ao invasor, como acontecia com os zelotes, mas o faziam quando os governantes não lhes permitiam praticar o que eles consideravam sua reli­gião. E não hesitavam em se comportar como um partido político se a lei oral fosse ameaçada. Não sendo assim, os "santos e separados" faziam vista grossa ou olhavam para o outro lado. Proclamavam-se uma irmandade a serviço da Torá. O resto pouco importava. Havia, evidentemente, outras correntes no seio da grande comunidade farisaica. Alguns achavam que tudo devia ser filtrado pela religiosidade. E lutavam para chegar ao poder. Só assim o "reino" se estabeleceria definitivamente. Outros, porém, resignavam-se. Acreditavam que Israel estava submetida a Roma por culpa dos muitos pecados do povo judeu. Yaveh os estava castigando e era preciso ter paciência e saber esperar. O domínio do invasor duraria o que Deus quisesse. Essa foi uma das razões que incitaram alguns fariseus a acatar o reinado de Herodes, o Grande, o "odiado edomita".

E havia quem se sublevasse contra tudo isso e concordasse com os escribas: o Messias libertador estava para chegar. O sinal dos tempos dizia isso. Israel não podia suportar um rei estranho. Deus havia entregado a ele a grande joia, a Lei, e isso era incompatível com o domínio estrangeiro. Roma simplesmente era contrária à Torá.

Outros repudiavam o Messias. "A Lei já foi entregue, e tudo está na Lei" di­ziam. Não tinham que esperar salvadores, nem Messias, nem novos profetas.[50] E invocavam o Deuteronômio (30,12): "Não está no céu [o mandamento] para dizeres..." A frase, supostamente pronunciada por Moisés, queria dizer que tudo fora entregue aos homens. Nada restava a revelar. Tudo, insistiam, estava na Lei oral e escrita. A história do Messias era um conto da carochinha.

Os escribas protestavam, e também um amplo setor dos "ss". O Mes­sias prometido estava na Lei. E apontavam mais de 500 citações sobre esse detalhe; algumas meio forçadas, isso sim.

Por isso, ao ouvir sobre um suposto novo profeta no vale do Jordão (Yehohanan) e sobre o aparecimento do desejado Messias (Jesus de Na­zaré), sentiram especial pressa em ir vê-los e estudá-los. Não tardariam a descartar o Batista, achando que não estava em seu juízo perfeito. Em relação ao Galileu, era cedo para julgar. Tinham acabado de conhecê-lo. Não sabiam qual era sua mensagem, nem o que pretendia. Eu, porém, ao saber deles e de sua forma de pensar e agir, e ao conhecer a filosofia do Mestre, comecei a perceber muitas coisas. Lá, nos fariseus, estava a chave daquilo que, em questão de quatro anos (abril do ano 30), seria o fim da vida terrena do Filho do Homem. O hipotético leitor destas memórias já deve ter adivinhado meus pensamentos.

Não podemos nos enganar. A presença dos fariseus na festa de casa­mento de Caná não foi casual. Estavam lá, assim como outros convidados, por amizade à família dos noivos, por curiosidade e para "informar". Al­guns daqueles sujeitos (pouco a pouco eu ia confirmando isso) trabalha­vam como confidentes, primeiro da irmandade fariseia, e depois, ou ao mesmo tempo, do Grande Sinédrio de Jerusalém. O povo os chamava de tor ("bois"), por sua periculosidade. E não estavam exagerando, conforme eu teria oportunidade de verificar. Muitos eram informantes também do tetrarca Antipas, um dos filhos de Herodes, o Grande, que governava as regiões da Galileia e da Pereia. Não tenho certeza, mas pode ser que tra­balhassem inclusive para Roma. Os "santos e separados" eram fascinados por dinheiro.

Caná, em suma, marcou o início de uma longa cadeia de ódios e in­compreensões por parte dos fariseus, e de outros, em relação aquele doce e especialíssimo Homem.

Mas receio que não estou sendo justo. Naturalmente, também havia "santos e separados" honrados, nobres e dispostos a praticar o espírito da Lei: "Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam" (Hillel). O povo simples sabia quem eram. Trabalhavam sem roubar. Eram boas pes­soas. Buscavam a verdade, "supondo-se que exista", e não desprezavam ninguém.[51] Alguns desses fariseus, como se verá mais adiante, chegaram a ser amigos do Mestre e até o ajudaram em momentos críticos. Mas não vamos antecipar os acontecimentos.

Havia fariseus bons, no sentido literal da palavra, mas eram poucos. A maioria se comportava como um rebanho. Eram gregários para o bem e para o mal. Eram hipócritas, adoradores da letra miúda da Lei (quanto menor, mais fanáticos), vaidosos até tocar o céu com a ponta dos dedos, racistas inveterados e desconfiados, inclusive com Deus. Pouco importava para eles a suposta vida futura ou a imortalidade da alma. O importante era o dinheiro, os lugares principais nas festas e celebrações e as reverên­cias dos am quando passavam por eles. Consideravam-se santos (ou seja, perfeitos) e, em consequência, superiores. Além de tudo eram judeus, o povo escolhido. Em outras palavras: insuportáveis.

Dentre os convidados, reconheci também os saduceus, a classe aris­tocrática (inimigos naturais dos fariseus); os escribas (aliados dos "santos e separados"); os sacerdotes (um mais corrupto que o outro); e outros "velhos conhecidos". Mas destes falarei - espero - em outro momento.

E à sexta hora (meio-dia), Nathan encontrou o persa perto do túnel de acesso ao grande pátio central do casarão.

Fiquei por perto.

As batidas na porta de entrada continuavam. Imaginei que se tratava dos mendigos. Nathan e "Fogo", o persa, dirigiam olhares para o portal e discutiam. O maître resumiu a situação: era absurdo continuar mantendo a casa fechada. Cedo ou tarde entrariam. Nathan xingava e jurava por seus mortos que isso não aconteceria. O efeminado se aborreceu e exigiu que o dono tomasse uma decisão. Havia parado de nevar fazia tempo e era conveniente aproveitar a bonança. Era hora de dar início à cerimônia de casamento. Nathan consultou o estado do céu através do "tule" violeta e viu que as nuvens continuavam lá, gordas, ameaçadoras.

O Mestre e os convidados continuavam conversando animadamente nas galerias, ou andavam pelo pátio.

Os serviçais, sob minha suposta vigilância, não haviam parado de servir aperitivos, vinho e cerveja.

Já os fariseus, conforme consumiam os manjares, ou o vinho, cor­riam apressados para o canto das talhas e faziam as abluções obrigatórias, várias vezes, várias vezes. E a água era reposta, até a boca.

Tudo parecia correr com certa normalidade. Mas não. Uma vez mais eu estava enganado.

O persa teve que se submeter à decisão do dono. Fez-me um sinal para que o seguisse e nos perdemos por uma das 40 portas que olhavam para as galerias. Explicou-me no caminho: o teimoso Nathan não dava o braço a torcer. As carruagens sairiam da Sapiah pelo lado oeste da casa. Absurdo, disse. E tinha razão. As pessoas que aguardavam do lado de fora, que batiam na porta de entrada, juntar-se-iam à comitiva assim que vissem as carruagens. E deu de ombros. "Aquilo seria catastrófico - disse. - Por que não sair pela porta principal, como manda a tradição?"

Os serviçais trabalharam com eficiência. E logo, em frente ao muro oeste da casa, foi se alinhando o sistema de transporte escolhido para a primeira parte do ritual: contei 12 carruagens, do tipo reda, de quatro rodas, com uma capacidade notável. O ruim é que eram desco­bertas. Juntaram-se às redas outras carruagens menores, parecidas aos plaustrum romanos, providas de bancos e de um guarda-corpo prote­tor. Eram puxados por mulas. Tratava-se de animais altos, poderosos, de grande cabeça e orelhas longas e pontudas. Tinham os olhos sempre assustados. A maioria era preta. Três, dentre os seis que puxavam a primeira carruagem, eram baios, com o branco um pouco desbotado. Todos ganharam sininhos.

Os escravos checaram as carruagens e os animais e substituíram as flores caídas. As redas e os plaustrum haviam sido enfeitados com lírios azuis, como os que havia nas paredes do pátio. Tudo trazido também do vale do Jordão.

O persa fez uma nova e criteriosa checagem dos veículos e, uma vez satisfeito, deu as ordens oportunas. Minutos depois, por um dos portais laterais, vimos surgirem os convidados. Alguns caminhavam com difi­culdade, devido à "alegria" proporcionada pelo vinho. E os servos, bem treinados, foram distribuindo o pessoal nas carruagens. Os fariseus não aceitaram dividir assento. A Lei oral proibia.[52] E esperaram pacientemen­te, em pé, apinhados junto à comitiva.

Atar agiu com decisão. Não havia dúvida de que conhecia o ofício de tricliniarcha. Colocou a família do noivo na primeira reda, a carrua­gem mais importante. Faltava o noivo. E Nathan, praguejando, mandou que os escravos fossem buscá-lo. Ticra, a esposa, pediu mesura. Era a festa de casamento de seu filho. Mas Nathan continuou praguejando e ajeitando a quipá, ou solidéu. Era uma quipá especial, das grandes celebrações, branca, feita de croché por "Céu aberto" quando era noiva do dono da casa. Era o costume. A noiva a dava de presente ao noivo durante a cerimônia. Quanto mais preta fosse a quipá, mais religioso era o judeu que a recebia. No caso de Nathan estava claro. Ticra era muito mais inteligente que o marido.[53]

Por fim, apareceu Johab, o noivo. Estava pálido e nervoso. Desculpou-se e pulou na carruagem. Usava uma longa túnica de seda de um azul pro­fundo e cobria-se com uma capa, ou aba, grená, combinando com as botas (presente do persa). Na fronte, um diadema de ouro em que se lia, em he­braico: "Sou dela". Seus olhos e suas pálpebras estavam maquiados de azul.

O Mestre, livre do acosso dos convidados, inspirou profundamente. Notei que observava o céu. Fazia frio. Era possível que voltasse a nevar. Alguns homens aproveitaram para urinar. Os discípulos, silenciosos, fica­ram perto do Galileu. Ninguém sabia onde se acomodar.

E o persa se dirigiu a Jesus. Era a primeira vez que fazia isso. Nathan o estava chamando.

Jesus foi convidado a entrar na carruagem de honra e a presidir a cerimônia da "busca da noiva". Era uma deferência. E o Filho do Ho­mem aceitou, agradecendo à família. Ocupou seu lugar entre Nathan e o noivo. Os discípulos, desconcertados, seguiram perto da reda. O per­sa tentou fazê-los procurar lugar em outras carruagens, mas foi inútil. Ninguém se mexeu. Seguiriam a pé. O mestre de cerimônias esqueceu o assunto, consultou de novo Nathan e, depois de receber a devida autori­zação, dirigiu-se aos músicos situados à frente da carruagem de honra. E os incitou a começar seu trabalho. Foi assim, ao som das flautas, dos tamborins, das harpas e dos pandeiros, que começou, oficialmente, a festa de casamento de Johab e de Noemi, a célebre boda de Caná.

Os serviçais que seguiam ao lado das carruagens acenderam mais de uma centena de tochas - conforme estabelecia a tradição - e foram distribuindo-as pelos convidados. Alguns, embriagados, tentaram pegá-las, mas os demais os impediram, muito sensatamente.

E a comitiva seguiu caminho.

Quem isto escreve colocou-se bem perto da reda do noivo, no meio dos discípulos, sempre atento ao Filho do Homem. O persa, nessa opor­tunidade, não me deu nenhuma ordem. "Fique à vista." Isso foi tudo. E eu obedeci, evidentemente.

Os discípulos, mais animados, começaram a conversar entre si. E surgiu o tema principal: o prodígio, ou suposto prodígio, que o Galileu devia fazer. Também não entravam em um acordo. Não havia acontecido nada de particular até esse momento. E alguns diziam: "Vai fazê-lo agora, antes de chegar à casa da noiva".

E afirmavam, convictos: "Talvez abra os céus e faça cair maná, ou sangue".

João Zebedeu, que estava se entusiasmando, foi além e advertiu seus companheiros: "Fará cair ouro!"

Seu irmão Tiago debochou dele. E o "urso" também. Essa era a men­talidade daqueles homens.

Imaginei que teríamos um longo trecho pela frente. Não sabia onde a noiva morava.

Essa parte da cerimônia consistia em acompanhar o noivo até o lugar onde estava Noemi. O noivo a tomava e voltavam juntos para casa; ou seja, a Sapiah. Meses atrás (o costume era um ano antes), as famílias haviam feito o acordo e assinado um documento com as condições do casamento. Era o kiddushim. Assim se inaugurava o período de esponsais, anterior ao casamen­to. Durante esse ano, a noiva era a "prometida". As relações sexuais, nesse tempo de esponsais, não eram bem-vistas, mas consentidas. Se nascesse um filho durante esse período, era considerado legítimo.[54] Em geral, os noivos não apitavam nada na ketubbah, o contrato matrimonial propriamente dito. O "negócio" era arranjado pelos pais ou pelos representantes dos noivos. E havia casos em que mulheres e homens viam seu parceiro pela primeira vez no momento do casamento. O mohar (o dote) era um dos capítulos mais delicados. Devia ser oferecido pelo noivo, ou pela família do noivo, ao pai da noiva. O fato de a noiva se casar representava uma perda financeira para a família, dado que, em tese, a noiva deixava de levar dinheiro para casa. Em geral, se fosse virgem, o mohar se estabelecia em um mínimo de 200 denários de prata. A virgindade nunca contava no caso do homem. Assim diz o Gênesis (34, 12), em I Sam. (18, 25) e em Êxodo (22, 16). Além do dote, o noivo arcava com outro gasto: o matan, uma espécie de bens de viuvez, que deviam ser conservados para tal ocasião, que geralmente eram investidos e negociados pelo marido.

O costume ditava que o casamento se celebrasse em uma quarta-feira no caso de uma donzela. Se o marido descobrisse que a mulher não era virgem, tinha um dia para reclamar perante o tribunal (geralmente, reuniam-se às segundas e quintas-feiras). Se o casamento fosse com uma viúva, seria celebrado em uma quinta-feira. Desta forma - rezava a Lei -, em caso de desacordo, o marido teria três dias "para usufruir dela".

Era uma sociedade certamente machista.[55]

Estávamos, portanto, no final do período chamado kiddushim (es­ponsais) e prestes a entrar no que denominavam nissuim (transferência da mulher para a casa do noivo).

Mas, antes, aconteceriam outras coisas.

Dobramos a esquina oeste da casa e os vimos. Lá estavam, conforme anunciara o persa. Assim que viram as carruagens, pilantras, mendigos, curiosos e talvez os convidados que haviam chegado atrasados à fazenda agitaram-se, nervosos. E correram para a comitiva nupcial. Nathan não sabia o que fazer. O persa pediu calma, e parte dos servos cercou a primeira reda. Os machados foram um aviso. E tudo prosseguiu em paz.

Os que esperavam em frente à porta principal eram mais de 300. Souberam se comportar. Juntaram-se à caravana com aplausos, vivas e todo tipo de exclamações em favor do noivo. E, pouco a pouco, foram ficando para trás, misturando-se com os convidados que seguiam o cor­tejo a pé. Eu não sabia o que pensar. Naquele momento, éramos mais de 800. Os convites haviam sido retirados pela gente de Nathan. Como pretendiam controlar os que acabavam de se juntar à comitiva? E comecei a intuir por que o vinho da festa acabaria se esgotando.

E finalmente entramos na cidade.

Atar correu para a dianteira. Incitou os músicos e acabou se juntando a quem isto escreve.

As ruas (?) estavam tão enlameadas - ou mais - quanto nas primei­ras horas do dia, quando eu as atravessara em direção à fazenda. E as car­ruagens começaram a entortar e a atolar no lodo. Os escravos batiam nas mulas e gritavam ou as puxavam. O persa tentava estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Nathan praguejava a cada tranco da reda. Jesus estava tranquilo, segurando-se como podia no encosto do banco. Os discípulos pararam várias vezes, para evitar as poças ou ajudar o pessoal das túnicas verdes no arreio das cavalarias.

Olhei para o céu. As nuvens, densas e próximas, estavam querendo dizer alguma coisa, mas eu não soube compreender o quê.

E, de repente, pela porta e pelas janelas das casas, começou a surgir gente. Davam vivas ao noivo. Alguns, nos terraços, jogavam pétalas de rosas de diversas cores.

O noivo se levantava, segurava o diadema com dificuldade e saudava, correspondendo às atenções da vizinhança.

Nathan não sorria. Limitava-se a espiar as pessoas dos terraços e, de vez em quando, trocava um olhar de cumplicidade com o maitre. Havia algo estranho ali...

Logo depois, quando encontrei o persa, ele não pôde se conter e expli­cou que tudo estava combinado. Ele mesmo distribuíra as moedas para os moradores e saldara algumas dívidas. As pessoas tinham que sair às janelas e aos terraços e colaborar. E acho que cumpriram. Até que se deu o incidente.

Não posso ter certeza, mas, uma hora depois da saída da Sapiah (uma da tarde), os músicos pararam. Mas continuaram tocando, com mais entusiasmo ainda. Estávamos do outro lado da aldeia, perto do casarão de Meir, o rofé.

Estávamos em frente à casa de Noemi.

O persa, por meio de sinais, pediu ao noivo que esperasse. E todos permaneceram nas carruagens, à expectativa.

Em frente à casa em questão, estavam vários vizinhos e amigas da noiva. Todos se vestiam de branco e portavam lamparinas acesas. Alguns homens seguravam tochas, também acesas. E os convidados, lentamente, foram descendo das redas e se posicionando na rua. Logo ficou lotada.

E, no meio da alegria das flautas e dos suaves lamentos das harpas, julguei ouvir um choro.

Era o sinal esperado por todos.

Efetivamente, de dentro da casa, procediam lamentos e gemidos. Prestei atenção e deduzi que se tratava de choro e de gritos femininos.

Era o costume.

A filha estava abandonando a casa paterna, e isso significava des­consolo. Tinham que chorar, e quanto mais alto e de forma mais escan­dalosa, melhor. Em muitas ocasiões, dependendo do poder aquisitivo da família, contratavam-se carpideiras, ou "choronas profissionais", que davam mais seriedade à cerimônia.

O persa deixou que o pranto se prolongasse por cerca de dez minutos.

Era o ideal.

Então, postando-se à porta da casa, de costas para as carruagens, ergueu os braços e imediatamente tornou a baixá-los. Os músicos emu­deceram. E também o pranto e os gritos de desespero. Nathan, o noivo, a família do noivo e o Mestre haviam se levantado. Tudo estava pronto para receber Noemi, a noiva.

O tricliniarcha dirigiu-se à reda e ajudou o noivo a descer. Ao descer, o bendito diadema caiu e foi parar no barro. Um murmúrio de desaprova­ção correu entre os presentes. Aquele sinal era um mau augúrio.

E acredito que foi mesmo.

O persa rapidamente resgatou e limpou o diadema e o devolveu ao rapaz, dizendo-lhe por meio de sinais que não se preocupasse. Atar co­nhecia a linguagem dos sinais que o surdo-mudo utilizava. Ele realmente era um homem vivido.

E todos começaram a descer da reda de honra, cercando o noivo.

O Mestre parecia encantado. Estava aproveitando aquilo tudo.

E nisso, registrou-se o primeiro "relâmpago". Não sei como defini-lo, mas vou usar essa palavra, mais próxima da realidade. A "descarga", ou o que quer que fosse, propagou-se por entre as nuvens, mas não ouvimos o trovão correspondente. As mulas ficaram inquietas. Os servos tiveram que segurá-las e acalmá-las.

Olhamos para céu, mas não entendemos nada. As nuvens, como dis­se, flutuavam próximas ao chão e tinham um aspecto pouco conciliador. Eram negras e cinza. Ninguém as havia convidado, mas lá estavam.

Era estranho. Um relâmpago sem trovão...

E fez-se um silêncio tão eloquente e ameaçador quanto a tempestade que supostamente ia cair.

Mas o mestre de cerimônias não estava disposto a permitir que os céus arruinassem sua festa. Fez um gesto e os músicos acabaram com o silêncio pesado. As pessoas respiraram aliviadas.

Não houve tempo para pensar em mais nada. Lá estava Noemi, resplandecente.

Apareceu no meio dos convidados, e os murmúrios de admiração se propagaram como uma onda.

Era muito bonita.

Usava uma túnica longa, cor de marfim, com bordados de ouro nas mangas. Entre os fios de ouro aninhavam-se cachos de pérolas negras. O persa, na volta para casa, me forneceria interessantes detalhes. Por exem­plo: as pérolas haviam sido importadas diretamente do que hoje conhece­mos como mar Amarelo, na costa da China. A roupa íntima era de seda. Ela usava duas pulseiras de prata em cada braço, de acordo com a tradi­ção. Cada pulseira representava um filho. Noemi, segundo Atar, queria ter no máximo quatro. Seus dedos estavam cheios de anéis. Não soube dizer quantos. A cada movimento brilhavam e nos cegavam.

A noiva usava também um longo véu vermelho, de gaza, que caía nos ombros, escondendo seu rosto.

As amigas, em número de dez, cercaram-na imediatamente. E vigia­ram suas respectivas lamparinas. Dava azar que se apagassem.

E o tricliniarcha, atento, ordenou silêncio de novo. Os músicos obe­deceram.

O noivo, então, seguindo o costume, foi até Noemi e retirou o véu.

As pessoas voltaram a cochichar, gratamente surpresas. A noiva, de fato, era e estava belíssima. Tinha cabelos pretos, longos, e estavam soltos, como cabia a uma virgem, com as pontas cacheadas. Seus olhos eram inten­samente azuis. Em sua fronte, duas fileiras de moedas (denários de prata), resplandecentes, presente do noivo. Era o wazary e fazia parte do matan, de exclusiva responsabilidade do futuro marido. Usá-lo na festa de casamento dava prestígio e boa sorte.

Seu rosto, quase de uma menina (Noemi não devia ter mais de 14 anos), havia sido maquiado pelas amigas que a acompanhavam com as lamparinas de óleo. Esse era o costume. Cada uma cuidava de uma parte do rosto. As pálpebras se destacavam com um leve turquesa insinuado. Os olhos foram contornados com puk, e a face, como os lábios, suave­mente reforçados com ocre vermelho. Um grande colar com contas de al-anbar completava os adornos. Dentro de cada peça de resina havia um inseto. Era a moda que fazia furor naquele tempo. A túnica fora ajustada com o obrigatório cinto de lã de ovelha de duas cores, também prescritos pela tradição: vermelho e preto. Tratava-se de um costume procedente de Roma. O cinto era preso por um duplo nó (os romanos o chamavam de nodus herculeus), que o marido só podia desfazer na noite de núpcias.[56]

Foi um momento emocionante e decisivo. A cerimônia estava chegando ao fim.

Noemi sorriu, e o noivo também.

E os convidados explodiram em uma salva de palmas, dando viva aos noivos.

A garota baixou a cabeça, envergonhada e feliz.

Apesar dos esforços para se conter, os olhos de Nathan se umedece- ram. Ticra, a mãe do noivo, caiu no choro. O persa também se acabou em um mar de lágrimas.

Os músicos atacaram de novo e a alegria foi geral.

Alguém começou a jogar grãos de trigo torrados no casal.

E os vivas, as felicitações e os aplausos foram gerais, enchendo toda a rua. Mas, de repente, as nuvens tornaram a se iluminar. Foi uma "descar­ga" (?) que se prolongou por cinco segundos e que tingiu as nuvens de um azul intenso. Também não se ouviu detonação.

As pessoas, assustadas, emudeceram.

Eu não entendia. Relâmpagos azuis sem trovões?

A música decaiu, mas continuaram os tímidos golpes de tímpa­nos. Os tambores tornaram o momento ainda mais lúgubre. As pessoas não sabiam o que fazer. Alguns, no tumulto, gritaram que era melhor se apressarem. Não lhes faltava razão.

Mas o persa se impôs e pediu silêncio aos tímpanos. A cerimônia não havia terminado.

O noivo, então, dirigiu-se a Noemi, e com sinais disse-lhe o seguinte:

Vós sois, hoje, testemunhas - Atar foi "traduzindo" - de que tomo esta mulher como esposa.

Johab invocava o texto do livro de Ruth, obrigatório nas cerimônias judaicas de esponsais.

E os convidados replicaram com vigor:

Somos testemunhas! Faça Yaveh que a mulher que entra em tua casa seja como Raquel e como Lia, as duas que edificaram a casa de Israel.

E voltaram os vivas.

O Mestre, na primeira fila, aplaudiu com entusiasmo. Como disse, estava feliz e despreocupado. O importante naquele momento era o casal.

E de acordo com a tradição, o sogro do noivo se adiantou e pronun­ciou a frase que todo mundo esperava:

Hoje és meu genro.

A alegria transbordou. As mulheres gritavam e davam palmadas na garganta com as mãos. Continuava caindo o grão torrado, como pedia a "tradição dos pais", e a música corria solta. Os vizinhos dos terraços jogaram novas pétalas e deram vivas aos noivos. Nathan não se conteve e chorou abertamente. O persa o consolou como pôde. A família estava simplesmente feliz. Tentei localizar a Senhora e os seus. O tumulto torna­va a tarefa praticamente impossível. Também não vi os discípulos.

O noivo, então, como conclusão do ritual, pegou a mão direita de Noemi com sua mão direita e a convidou a entrar na reda presidencial. Aquele era outro costume copiado das bodas romanas (que chamavam de dextrarum iunctio). E a mocinha, feliz, seguiu o noivo.

O mestre de cerimônias correu para abrir caminho aos noivos, e ambos se acomodaram na carruagem. O Galileu e o resto da família os imitaram. E as pessoas, entusiasmadas, continuaram aplaudindo e desejando felicidades. O previsto era que os noivos voltassem para a Sapiah, a casa paterna, pelo caminho usado por Johab. Estava difícil. A rua estava lotada de gente. As redas seguintes estavam a certa distância e também atoladas no meio do povo.

Não houve tempo para discutir o que fazer.

As nuvens pareciam esperar aquele momento, e desceram um pouco mais sobre a aldeia. O negro se tornou ameaçador e, de repente, voltaram os "relâmpagos". Também azuis e também sem descargas.

E a neve começou a cair fortemente. Fortemente? Aquilo foi um dilú­vio branco e denso. Em questão de uns dois minutos perdi a visibilidade. Era uma cortina que dava para cortar com a "vara".

Devia ser umas duas da tarde, não tenho certeza.

As mulas, novamente inquietas, agitaram-se e empinaram. Os cria­dos tentaram acalmá-los. O persa, atônito, precisou de alguns segundos para reagir. E atuou corretamente. Ordenou aos servos que puxassem os animais e seguissem em frente. Não havia alternativa.

Os servos obedeceram, mas os animais, assustados, resistiram.

As tochas foram se apagando, e os convidados correram em todas as direções, atropelando-se. Foi o caos. Gritos, lamentos, confusão, xingamentos e mais neve; toda a neve do mundo.

No meio do desastre, outro "relâmpago" sem trovão, e outro, e mais outro...

Eu não conseguia entender. Aquela não era uma tempestade normal.

Ninguém sabia para onde tinha que ir. Os músicos foram engolidos pelo tropel e, suponho, pela neve..

Nathan, em pé na carruagem, gritava, procurando pelo persa, e pra­guejava contra os céus, com certa razão. Mas o efeminado estava ocupado. Puxava as malditas mulas com todas as suas forças, colaborando com o pessoal das túnicas verdes. Era preciso salvar os noivos daquela catástrofe.

Noemi começou a chorar, e imaginei que as lágrimas não se deviam somente à confusão e à inoportuna nevasca, mas também ao que estava provocando em sua maquiagem. Os azuis e os vermelhos escorriam por seu rosto e pela túnica.

O Galileu, então, tirou o manto e procurou cobrir a jovem. O noivo também tirou sua capa e cobriu com ela a noiva desconsolada.

As mulas finalmente obedeceram e saíram a trote.

E vi a reda se afastar.

Não pensei duas vezes e corri atrás da carruagem, tropeçando aqui e ali com uns e com outros. Quase perdi a vara. A nevasca era tal que eu precisava parar a cada tanto para tentar distinguir não mais a estrada, mas o que havia a dois ou três metros à minha frente.

E o mesmo acabou acontecendo com o criado que conduzia a reda em que viajavam a família e o Galileu. Desconcertado, sem saber para onde puxar, o negro conseguiu parar as mulas. Foi minha oportunidade. Consegui chegar até a carruagem e segurar em um dos estribos. A noiva continuava chorando, e Ticra, a mãe do noivo, também.

Estávamos fora da aldeia, no meio do campo, mas não se via trilha alguma. Tudo à nossa volta era branco.

Foi Nathan quem desceu da reda e se postou à frente dos animais, conduzindo-nos para a fazenda. Praguejava sem parar. O persa chorava como a noiva, ou mais.

Jesus, em silêncio, cuidava da capa com que tentava proteger a entris­tecida Noemi. Foi uma cena difícil de esquecer. Nenhum evangelista faz menção ao desastre.

E, pouco a pouco, contornando Caná pelo lado leste, fomos cha­gando à Sapiah.

A borrasca de neve não cedeu um instante, e os misteriosos "relâm­pagos", sem trovões, surgiam sem parar.

Naquele penoso caminhar rumo à fazenda, observei os flocos que me cobriam e pareceu-me distinguir algo que não era habitual: os flo­cos não tinham a tradicional forma de estrela, ou cristais hexagonais. Eram octogonais! Quando voltei ao Ravid e consultei o computador central, não obtive nenhuma informação a respeito. Simplesmente não existem flocos de neve octogonais.

Então...

Eu me neguei a pensar no assunto, bem como nos não menos enig­máticos relâmpagos silenciosos e azuis. A cor era possível. A falta de estrondo não se encaixava em absoluto. Um raio normal sempre vem seguido de um trovão. E um efeito natural. Em um milésimo de segundo, ou menos, o "canal" pelo qual a faísca desce pode se aquecer a mais de 30.000°C, fazendo com que o ar quente do milimétrico "túnel" pelo qual viaja o raio se expanda e provoque a detonação. Não duvido que dentro dos cúmulos-nimbos ocorressem as habituais diferenças de po­tenciais elétricos (ou entre a nuvem e a Terra), que é o que dá lugar aos relâmpagos; mas, por que em nenhum momento, que eu recorde, ouvi­mos um trovão? O brilho, além de tudo, durava mais que o habitual. Se um relâmpago tem uma duração média de 0,2 segundos, aqueles - os azuis - se prolongavam entre três e cinco segundos, que é demais.

Mas não quero me desviar do tema central. As surpresas não haviam terminado naquele incrível dia.

Fomos uns dos primeiros a chegar à fazenda. Outros convidados es­peravam às portas, tiritando.

Nathan ordenou a abertura do grande portal, e as pessoas se precipi­taram para dentro feito loucas.

A neve nos ensopara.

Atar ajudou os noivos a descer da carruagem. Primeiro Noemi. Conti­nuava chorosa e desmantelada. E o azar quis que, ao descer, o noivo pisasse na barra da túnica da garota, rasgando-a. E a noiva ficou com as pernas de fora.

Oh, Deus!

Foi a gota d’água.

Suas pernas eram lindas, mas isso não contava naquele momento crítico. Noemi, ao ver o vestido rasgado, deu um grito e caiu desmaiada. O persa, atento, pegou-a no ar e levou-a correndo para dentro.

O noivo ficou parado no estribo da reda, mais pálido e mais mudo do que era.

A família, consternada, correu para a porta, perdendo-se também no túnel de acesso.

Nathan estava tão furioso que não conseguiu xingar. E lá ficou alguns segundos, coberto de neve, balbuciando.

A carruagem, então, dirigiu-se ao lado oeste do casarão, de onde ha­víamos partido.

Eu fiquei com o Mestre, também perplexo. O casamento, até o mo­mento, fora um perfeito desastre.

A neve, inclemente, cobria o turbante, a barba, os ombros e o resto da túnica do Galileu. Eu devia estar com o mesmo aspecto lamentável.

E o Mestre, com a capa nas mãos, voltou-se para quem isto escreve e comentou, sorridente:

- Como nos velhos tempos, malak...

Referia-se, sem dúvida, à nossa aventura nos montes do Attiq, na alta Galileia, quando trabalhava como lenhador.[57]

Assim era o Filho do Homem...

E Jesus entrou na Sapiah.

O instinto me avisou.

O grande momento, supondo que fosse verdade, estava perto. Tinha que me preparar.

E nisso vi outras redas e outros convidados chegarem. Pulavam das carruagens e corriam desesperados para o casarão. Decidi aguardar. Tal­vez, naquela onda, estivesse a Senhora ou os discípulos.

Os convidados falavam entre si e, mordazes, referiam-se ao "pro­dígio" realizado pelo carpinteiro de Nazaré: "Conseguiu uma nevasca sobre Caná como jamais foi vista!" E riam, debochando abertamente do Galileu.

Foi naquele momento que o vi.

Não podia acreditar.

Corri para a carruagem, mas a reda, vazia, dobrou a esquina com rapidez e a perdi de vista.

Estava delirando?

Primeiro os relâmpagos azuis e sem trovões. Agora isso...

Quando virei pelo lado oeste da Sapiah, ao fundo, junto ao portal lateral pelo qual haviam saído os convidados, vi a carruagem. Permanecia imóvel. Alguns servos cuidavam das mulas.

E prossegui devagar e perplexo. Não via o condutor.

Mas tinha certeza de tê-lo visto. Ele passara pela frente deste explo­rador, a pouco mais de dez metros. Controlava os animais com destreza. E acho que olhou para mim.

Ao chegar à altura da reda vi que, de fato, o sujeito do sorriso encan­tador, o condutor das mulas, não estava em nenhum lugar. Mas eu o havia visto no assento, sentado, e com as rédeas nas mãos.

Andei ao redor da carruagem, examinei-a de cima a baixo diante do atônito olhar dos negros, e chequei até debaixo dela. Nada em absoluto. Nem rastro do enigmático personagem.

Perguntei, mas ninguém soube me informar. Ninguém parecia ter visto o homem de dois metros e túnica brilhante.

Entrei no pátio lateral e em outras dependências próximas e chequei até o último canto.

Negativo.

Saí novamente, caminhei em volta da casa e perguntei para as pessoas que voltavam.

Negativo.

E pensei: talvez tenha sido minha imaginação.

No pátio central a céu aberto e nos pórticos, tudo estava uma con­fusão. O caos desatado pela nevasca havia se transferido para a residên­cia familiar. As pessoas se espremiam nas galerias. Continuava nevando e fazia frio. O "tule" violeta, como suspeitávamos, acabou se rasgando com o peso da neve. Os servos brigavam agora para desamarrar as cordas e retirá-lo. A noiva e a família haviam desaparecido. Supus que estivessem em seus aposentos trocando de roupa. Nathan praguejava em uma das portas e tentava abrir caminho por entre os convidados. Estava procuran­do o persa. Queria matá-lo com suas próprias mãos.

Então, enquanto contemplava o desastre, reparei n'Ele. Estava à es­querda do túnel de acesso, junto a um dos candelabros, a uns dez passos de onde eu estava. Dessa vez também fiquei petrificado.

O Mestre estava em pé, com a cabeça levemente inclinada para fren­te. Uma mulher secava vigorosamente os cabelos do Galileu com um len­ço branco. O Homem a deixava agir.

E, curioso, fui abrindo caminho por entre os convidados. Nenhum discípulo estava com Ele.

A mulher, quase tão alta quanto o Galileu, sorria feliz.

Era Rebeca!

Eu diria que estava mais atraente que no ano 30, quando a conheci em Nazaré. Aquela mulher, como se recordará, era apaixonada por Jesus desde a adolescência. Sua família tentou chegar a um acordo com a do Galileu, mas o Filho do Homem rejeitou gentilmente a proposta de casa­mento. Rebeca, porém, a julgar pelas informações que me deram Miriam e seus irmãos, continuou perdidamente apaixonada por Jesus. De fato, seguiu-o até a cruz.

E lá estava, como convidada de Nathan. Ezra, seu velho pai, a acompanhava.

Rebeca era dois anos mais nova que o Mestre. Desde a negativa de Jesus, havia se mudado para a cidade de Séforis, capital da baixa Galileia, não muito longe de Nazaré.

Eu a observei atentamente. Seus olhos rasgados, belíssimos, azul-claros, nos quais quem chegava a cair não conseguia mais sair, contemplavam o Galileu com infinito amor. Não ouvi uma só palavra. Não sei como se en­contraram. Supus que por pura coincidência. Havia muita gente ali naquele momento. Calculei mais de 800 pessoas, e continuavam entrando.

Mas, subitamente, no meio dos convidados apareceu a mãe do Filho do Homem. Contemplou a cena e, sem hesitar, foi em direção a Rebeca. Afastou-a doce, mas firmemente, e cuidou da secagem dos cabelos de seu primogênito. Jesus percebeu, mas não disse nada. Rebeca baixou os olhos e desapareceu no meio das pessoas.

Parou de nevar.

E pelo portal continuava entrando gente: convidados e não convida­dos, suponho.

Nathan finalmente se rendeu. Não era viável começar a perguntar quem era e quem não era convidado. Dava no mesmo. Autorizou que as portas per­manecessem abertas, mas pediu a atenção dos servos que seguravam os ma­chados. Não consentiria um único abuso. "Ali - disse - há muito vagabundo."

O persa, mais sereno, assumiu o controle da celebração e me mandou vigiar de novo os serviçais. A melhoria do tempo permitiu limpar a neve do pátio central, e os convidados foram se espalhando pelo lugar. Tudo ficou mais confortável.

E, como compensação pelos maus momentos sofridos na aldeia, Atar fez circular vinho quente; uma espécie de mulsum elaborado com tinto, mel e ovos batidos. Foi um reconstituinte eficaz. As pessoas se animaram e se aqueceram. Os servos carregavam pequenas talhas com mulsum e caminhavam por entre os convidados. Antes, foram distribuídas taças de barro e de madeira. Um dos negros introduzia uma concha com um longo cabo dentro da talha (uma espécie de kyathos) e distribuía o líquido. As pessoas repetiam várias vezes. Só os fariseus se mantiveram afastados.

Calculo que deviam ser três da tarde (nona hora).

Tudo corria com aparente calma. E senti a imperiosa necessidade de ir até o canto dos cântaros. Não sei o que aconteceu comigo.

A questão é que inspecionei as seis talhas. Fazia tempo que os ser­viçais não repunham água para as abluções. Imaginei que, uma vez lava­das as mãos, os convidados não repetiriam a operação, exceção feita dos "ss" O canto, de fato, estava solitário. E cometi um grave erro. Insisto: não sei o que me levou àquilo. A questão é que abri a cabaça que carre­gava no cinto e tirei duas das três ampolas de barro que continham os "nemos". E, disfarçadamente, verti-os na água dos cântaros. Exatamente em quatro dos seis recipientes.

Logo, porém, dei-me conta do erro. Alguns "santos e separados" se aproximaram e passaram a realizar suas habituais e complexas lavagens de mãos, tirando água várias vezes. Dessa vez fui eu quem praguejou. Ha­via cometido um erro grave. Simplesmente me precipitara. Tinha que ter esperado. Os "nemos" se desperdiçaram com as abluções dos fariseus. E, mal-humorado, eu me perdi entre as pessoas.

Não conseguia entender. Como fui tão inepto? Aquilo punha em risco toda a operação. Só restava uma ampola com vários batalhões de "nemos".

Tinha que ser mais prudente. Tinha que esperar o momento opor­tuno. Mas qual era esse momento? E, irritado comigo mesmo, sem saber muito bem por que, acabei na adega, ao lado do negro de cabelo branco. Ele estava preocupado. Perguntei por que, e ele apontou para as grandes talhas onde armazenavam o vinho tinto e a cerveja. Dei uma olhada. O responsável pela adega tinha razão. As reservas haviam baixado consi­deravelmente. Calculei que deviam restar cerca de 400 litros de vinho tinto e de cerveja. Talvez menos.

Não disse nada. O homem dos cabelos prateados não havia avisado o persa nem Nathan. Talvez pudessem aguentar. Só faltava o banquete...

E pensei: quanta gente se reunia naquele momento no pátio central e nas galerias? Não soube calcular com exatidão, mas o número chegava perto de mil pessoas, ou mais.

Mas eu soube reagir. Com a desculpa de experimentar o vinho, sem que nenhum serviçal percebesse a manobra consegui encher de vinho uma das ampolas de barro. E abandonei o lugar. De repente, a ideia de dispor de amostras do vinho e da água dos cântaros voltou a quem isto es­creve. Eu abri caminho por entre os convidados e voltei ao canto das ablu­ções. Repeti a operação, enchendo a segunda ampola vazia com a água das talhas. E as duas ampolas foram guardadas de novo na cabaça vazia que supostamente devia armazenar uma amostra do vinho "milagroso".

De fato, continuava chegando gente. E Nathan, a conselho dos servi­çais e do tricliniarcha, mudou de ideia e fechou as portas novamente. Mes­mo assim, era difícil dar um passo. E me movi como pude por entre os con­vidados. As pessoas bebiam sem moderação. A esse ritmo, o vinho ia faltar.

Muitos presentes continuavam embarcados no já familiar assunto do prodígio. Não entravam em acordo, uma vez mais. O convidado de hon­ra - Jesus de Nazaré - estava lá, junto à menorah, acompanhado de seus discípulos. Todos o viam. E diziam uns aos outros: "Por que não age? Não é este o Messias que prometem as Escrituras? Dizem que abriu os céus no vale do Jordão e fez chover azul...".

O que pretendia fazer?

A mãe do construtor de barcos de Nahum também achava que havia chegado a hora de demonstrar seu poder. A Senhora falava disso cada vez que alguém perguntava. E deixava as pessoas fascinadas.

A maioria pensou que o prodígio aconteceria assim que os noivos vol­tassem à festa. Era o sensato - tentavam se convencer. Outros adiavam o "milagre" até a entrega dos presentes ao casal. Parecia o adequado.

Em resumo, não entravam em um acordo. Discutiam sem parar, sem­pre com uma taça de vinho quente nas mãos. As pessoas, tontas, buscavam apoio nas paredes e nas colunas. E discorriam sobre a natureza do prodígio. Ouvi as versões mais absurdas: "Pararia o curso do sol e da lua, como fez Josué?[58] Transformaria a noite em dia? Tingiria a lua de sangue, como sinal de fim dos tempos? Transformaria os milhares de pés de romã que cerca­vam Caná no novo exército libertador de Israel?"

E, pouco a pouco, fui chegando perto do candelabro junto ao qual estavam o Galileu e seus homens. Tiago e Judas, os irmãos de Jesus, acabavam de se jun­tar ao grupo dos sete. A Senhora foi para a galeria sul, juntando-se às mulheres.

O Mestre estava descontraído e falante. Bem sabia o que se dizia d'Ele, mas em nenhum momento pôs lenha na fogueira ou se deixou levar pelo comentário geral. Falava sobre a recente nevasca, e ria, divertido, do estre­pitoso fracasso de seu turbante. A neve o arruinara. Os discípulos, contagia­dos pelo bom humor do Filho do Homem, foram contando também suas peripécias durante a nevada e como conseguiram escapar do atoladeiro.

Jesus ria a valer. Parecia alheio ao que estava prestes a acontecer. Já me fiz esta pergunta: estava realmente alheio? Com a mesma since­ridade: duvido.

Havia se livrado do referido turbante e permitia que seus cabelos cor de caramelo descansassem sobre seus poderosos ombros.

Olhamo-nos em algumas ocasiões. Ele sabia que eu sabia.

E o vinho continuou correndo.

De repente, a noiva apareceu. E atrás, Johab, o noivo.

Noemi havia trocado de roupa. Agora usava uma túnica reta, lisa até os tornozelos, de um branco prata, amarrada com o cinto de duplo nó. Seus cabelos continuavam soltos e despreocupados. A maquiagem era a mesma. Não usava véu. Havia recuperado o ânimo e sorria para todo mundo.

O noivo também estava mais descontraído. Usava uma túnica amarela até os pés, com o emblema da família no peito: um leb, um coração bordado de vermelho. Cobria-se com o talit, um manto usado geralmente na oração ou na cerimônia de casamento.[59] Era branco, com tzitzit (franjas) azul-claro; um azul especial chamado tchelet, extraído de um molusco difícil de en­contrar (geralmente na costa de Ascalon e Azoto, perto do que hoje é Tel Aviv).[60] Na parte superior do manto, bordada com ouro, lia-se o seguinte: "Baruch atá adonai eloheinu melech haolam asher kidesahnu bemitzvotav vetzivanu letatef betzitzit" ("Bendito sejas, oh, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que nos santificaste com teus preceitos, ordenando-nos envolver-nos no tzitzit") Para os judeus, fossem ou não religiosos, o talit tinha, além de tudo, uma simbologia especial: envolver-se nele era como envolver-se em Deus. Dava sorte, muita sorte.

E, junto aos noivos, Nathan, sua esposa Ticra e o resto da família. To­dos irradiavam felicidade. Todos menos o pai, como já era habitual.

Colocaram-se no centro do pátio, sobre o tablado que cobria a mikveh, a piscina, e o persa, tocando uma sineta de bronze, pediu atenção geral. Fez- -se silêncio, e todos ficaram atentos ao ritual. A cerimônia prosseguia.

E, com voz grave, Nathan recitou as obrigatórias "bênçãos". Tratava-se de um dos poucos momentos no casamento que poderíamos considerar "religioso". Naturalmente, as "bênçãos" em questão não respeitaram a ortodoxia.[61] Nathan as derramou do seu jeito.

Bendito seja o Senhor, nosso Deus, rei do universo, que criou o fruto da videira e, acima de tudo, a romãzeira!

Ouviram-se risos. As "bênçãos" habituais não falam de pés de romã. Compreendi. Nathan devia boa parte de sua riqueza aos pomares de romãzeiras de Caná.

Bendito seja o Senhor, nosso Deus, rei do universo, que criou a neve!

O riso foi geral.

Bendito seja o Senhor, nosso Deus, rei do universo, que alegra os recém-casados e seus pais, porque, finalmente, os filhos vão embora de casa!

Os convidados assentiram com regozijo. O persa estava pálido. Não entendia o mordaz humor do dono da fazenda.

Bendito seja o Senhor, nosso Deus, rei do universo, que criou o gozo e a alegria do recém-casado!

Voltaram as risadinhas maliciosas. Nathan, machista como quase to­dos os judeus daquele tempo, não fez menção à felicidade da esposa.

E assim foi destrinchando "bênçãos", todas encharcadas de sua ironia peculiar. As pessoas aplaudiram e riram das tiradas do patrão.

Concluídas as "bênçãos", Atar entregou à noiva uma romã cortada ao meio. E Noemi a jogou nas lajotas do pátio. Depois pisou os restos, espalhando os grãos. Os serviçais se agacharam, recolheram os grãos con­tando um a um. Um dos negros informou o número ao persa: 346 grãos. Atar fez cálculos e reduziu os três dígitos a um só: "4" (soma de 3 + 4 + 6 = 13 = 1 + 3 = "4"). E, surpreso, comunicou à noiva o número final obtido. O "4", segundo a tradição, significava o número de filhos que o casal teria.

Noemi sorriu, feliz. Era o que queria. E apontou para as quatro pul­seiras nos braços. Yaveh estava com ela.

O persa comunicou o resultado do rito da romã a Johab, o noivo, e ele respondeu com sua linguagem, mostrando que estava satisfeito.

Os convidados respaldaram o ritual com novos vivas. Os olhos de Ticra se umedeceram.

A seguir, dois servos abriram caminho por entre a multidão. Porta­vam bandejas com um total de 20 taças de metal, reluzentes. De início, achei que fosse de prata; não eram. Tratava-se de uma liga, mas eu não soube de que tipo.

As taças foram distribuídas aos membros da família. Mas sobrava uma. E Nathan procurou na multidão. Cochichou algo no ouvido do persa e este se dirigiu ao candelabro junto ao qual estava o Mestre. Tomou-o pela mão esquerda e praticamente o obrigou a se juntar à família no meio do pátio. Imediatamente se elevou um burburinho entre os que contemplavam a cena. Jesus continuava sendo o convidado de honra. Aquele gesto ratificava isso.

Os noivos não receberam as correspondentes taças de metal. O persa ofereceu a Johab uma simples xícara de barro vermelho. E o jo­vem segurou-a nas mãos.

O Mestre postou-se em frente aos noivos. E os servos encheram os cálices com o vinho quente. Os servos de túnicas verdes encheram de novo a taça dos convidados. Maria, a Senhora, sorria. Seu rosto estava iluminado. E preparou sua taça, pronta para brindar aos noivos.

Lehaim!

O brinde de Nathan (A vida!) foi acolhido com entusiasmo. E todos ergueram as taças, proclamando:

Lehaim!

O Mestre também levantou a brilhante taça de metal que segurava e gritou, radiante:

Lehaim! À vida!

Aquele brinde, eu sabia, era um de seus favoritos.

E beberam.

Naquele momento, notei um pequeno detalhe: o Galileu, após beber, ficou contemplando o cálice. Girou-o, observando-o também por cima e por baixo. Não havia dúvida de que a atraente peça chamara sua atenção desde o primeiro momento.

Atar deu a ordem e um dos servos verteu vinho na xícara de barro que o noivo segurava. Johab dirigiu um olhar ao pai e este assentiu com a cabeça.

Então, o jovem bebeu da taça. E a seguir passou-a à noiva. Noemi também bebeu. Johab, então, pegou com sua mão direita a mão direita da garota, e ela, decidida, jogou a xícara no chão. A peça se estilhaçou, e os convidados grita­ram o nome dos noivos; ou melhor, dos esposos. A festa de casamento estava praticamente concluída. Concluía-se a "tomada de posse da esposa na casa do noivo". Assim estava prescrito no Deuteronômio (20, 7).

E durante alguns minutos muitos dos presentes cercaram a família e foram cumprimentando os jovens esposos, Nathan e os demais membros da casa do "coração no peito", satisfeitos.

Eu fiquei perto do candelabro, atento ao Galileu. Ainda não sabia quando ocorreria o prodígio, supondo, insisto, que o que foi relatado no evangelho de João fosse verdade.

Os serviçais continuaram oferecendo vinho quente e cerveja e espe­raram o sinal do tricliniarcha. Quando o persa achou que havia chegado a hora, tocou de novo a sineta pedindo a atenção de todos. Todo mundo obedeceu. Era a vez de entregar os presentes ao casal recém-casado.

A família e os noivos permaneceram sobre as tábuas que cobriam a piscina central, e as pessoas, ordenadamente, foram formando uma fila em frente à mikveh. Os músicos se colocaram bem perto da família e se prepararam. Só esperavam o sinal do incansável Atar. A banda de música era inconfundível. Vestiam-se de preto rigoroso, com o cabelo tingido de amarelo. Eram egípcios, especialmente contratados para o evento.

O persa inspecionou a fila dos convidados que pretendiam presentear os recém-casados e, satisfeito, ordenou aos músicos que atacassem. Só os flautistas entraram. O resto acompanhava quando era a hora.

Foi delicioso, e ajudou à relaxar a tensão.

Contei três flautas de Pã, cinco doces e oito parecidas com as que hoje conhecemos como transversais. Todas eram de marfim. As trans­versais eram especialmente harmoniosas. Tinham corpos cilíndricos, in­teiriços, divididos em três partes cónicas e com um total de sete orifícios. Chamaram minha atenção porque, segundo minhas informações, esse tipo de instrumento musical só foi aperfeiçoado com o sétimo orifício e a correspondente chave no século XVIII, graças aos Hotteterre, artesãos franceses. Em 1800, a flauta em questão foi dotada de oito chaves. Eviden­temente, não sabemos tudo sobre a antiguidade.

A tessitura, lindíssima, alcançava três oitavas. As flautas doces, com seis orifícios, levavam as outras pela mão.

O Mestre desfrutou intensamente. Fechou os olhos e se deixou levar pela virtuosidade de um dos solistas. Ele nos arrebatou e nos levou para muito longe dali. E eu a vi, em Nahum...

O capítulo dos presentes aos noivos também foi surpreendente. Os primeiros na fila foram os fariseus. Carregavam saquinhos de couro com moedas. Ao chegar diante do casal, erguiam-nos e os chacoalhavam, de forma que os demais soubessem de sua generosidade. Os "santos e separados" não tinham jeito.

De repente, surgiu alguém carregando um grande berço de ma­deira na cabeça.

Depois foi a vez das panelas. Os noivos receberam todo tipo de uten­sílios de cozinha: caccabus, tão na moda, e gaulus (panelas em forma de barca). O noivo ficou especialmente contente com um recipiente de metal chamado aulula, que, segundo a tradição, servia também para esconder tesouros. Ao entregar o presente, o convidado pronunciou a frase de pra­xe: "Onde ferve a panela vive a amizade".

O casal recebia os obséquios com alegria. E comentavam entre si, na linguagem de sinais. Noemi agradecia aos convidados. Ela não era surda-muda.

Nathan, mais interessado nos presentes até que seus filhos, analisava-os minuciosamente e contava o dinheiro. Era o costume. Ninguém se sentiu incomodado com isso. Depois, os servos levaram os obséquios para dentro da casa.

Objetos de asseio, um açor adestrado para a caça, mantos escarlate, copos de cristal e de murra, ferraduras de cortiça para as cavalarias, uri­nóis de prata, essências valiosíssimas da Nabateia, garum em pequenas talhas (um molho de peixe feito com vísceras de cavala [scomber] cujo preço estava nas alturas), ovos coloridos de avestruz, xícaras de medida, um exemplar das Sagradas Escrituras (em grego), botas até o tornozelo (de cara pele de hiena), piercings de nariz e brincos de ouro (desenter­rados, diziam, do deserto de Judá), vasilhas de diversos tipos (todas de cerâmica e destinadas à mistura do vinho com a água) e, que me recorde, dentre muitas outras coisas, algo que me chamou muito a atenção: uma espécie de "esfregão" (última moda em Roma) provido de um longo pau e tiras de um material absorvente (linho) para limpar o chão sem precisar se agachar. E digo que me chamou a atenção porque a invenção do esfre­gão, como hoje o conhecemos, deveu-se, basicamente, ao gênio Leonardo da Vinci (século XV).

Não há nada novo sob o sol, de fato...

O persa desapareceu, mas logo voltou ao pátio com a tropa de servos ne­gros. Carregavam pesados tabuleiros de quatro metros de extensão. Abriram caminho por entre os convidados e foram montando as mesas do banquete. Os pés, dobráveis, também eram de madeira, em forma de tesoura. Trabalha­vam com uma segurança invejável. E em questão de minutos instalaram qua­tro longas mesas nas respectivas galerias, no coberto. No total, cem metros de tablados, todos com suas respectivas toalhas brancas de mesa, devidamente bordadas com o leb, o coração dourado ou também vermelho.

Os comensais se agitaram, inquietos. Estavam todos famintos. Havia chegado o grande momento: o banquete de casamento propriamente dito. Eu também fiquei nervoso. E durante um tempo não soube onde me situar.

As pessoas estavam terminando de entregar seus presentes.

As flautas continuavam nos acariciando, mas em segundo plano, como se não estivessem ali.

Então, vi a Senhora. Estava na fila e esperava sua vez. Estava com Miriam e Judas.

Jesus também os observava.

Ao chegar em frente aos noivos, Maria entregou a Noemi duas túnicas de lã, tecidas por ela mesma, sem costuras, parecidas com a túnica branca que o Filho do Homem usava habitualmente e que foi presente de sua mãe. Aliás, como já mencionei, uma túnica que foi estragada no incidente do olival de Beit Ids. Eu tinha que dar um jeito naquilo. E fui amadurecendo uma idéia.

Noemi agradeceu e os noivos beijaram a face da Senhora e de seus filhos.

Eram 15h30, aproximadamente.

A entrega de presentes acabou, e, após consultar Nathan, o maître deu sinal verde ao banquete. E pelas portas das galerias começaram a surgir ban­dejas e mais bandejas com um menu tão requintado quanto interminável.

E os pratos, de terra sigillata, uma finíssima cerâmica vermelha im­portada de Arezzo, na Toscana, foram passando de mão em mão, até que todo mundo recebeu o seu. A ceia era um bufê, também ao estilo dos helenos e romanos. E assim que aterrissaram sobre a mesa, os convidados caíram em cima das bandejas. Foi outro caos.

Todo mundo queria ser o primeiro a chegar à comida. E começaram as brigas e discussões.

O Mestre pediu aos discípulos que aguardassem. Não havia pressa.

E quem isto escreve, embora estivesse morrendo de fome, esperou. E fiquei observando.

Em uma das pontas da mesa foram depositadas as caçarolas com as apetitosas sopas fumegantes. O persa, que não parava um instante, foi me informando dos detalhes. Chamou uma de qaddis ("santa"). Era servida em uma tigela contendo pão de centeio torrado crocante. O segredo estava no suco de limão. Outra sopa consistia em um caldo fervente de legumes ao qual se acrescentava pão preto e manteiga. Depois, como prato principal, o cordeiro. A maior parte da carne havia passado por um processo de mace­ração que levava de dois a três dias. Encontrei cordeiro "de panela", cortado em pedaços, combinado com pimenta-do-reino; costelas assadas na lenha; cabeça de cordeiro assada recheada de cogumelos, carne de vaca e nozes moídas e pé de cordeiro feito com uma massa da qual Atar não quis falar. Era segredo. E, além disso, pombo assado, crocante, deliciosamente sucu­lento por dentro. Também foram servidas bandejas com língua de terneiro minuciosamente cortada em rodelas diagonais ao molho de laranja. E re­cheios de castanhas com uma base de ganso; e carne de boi, à moda "Judas Macabeu", com amêndoas; outro prato fortíssimo, segundo os romanos. E vi também um bom número de saladas (de abobrinha e azeitona preta; de "cachinhos", com macarrão e cenoura; aquela chamada "salada dos pobres", com berinjela crua, marinada em azeite, limão, alho e mel; a "esmeralda", à base de verduras frescas do Jordão; a de arroz, com aipo, uva-passa e cebola doce, conhecida pelo nome de "tesouro", com ovo cozido, peixe seco, nozes e ervilha). Sei que serviram outras, mas não prestei mais atenção.

Por último, as sobremesas, deliciosas. Quase todas eram especialida­de do maître: a torta "pirâmide", com pão de ló e "chocolate" de Kazrin, extraído de algarobeiras; merengue com nozes; creme de leite com cas­tanhas de caju torradas; uma torta que me fez lembrar o strudel de maçã vienense, que praticamente derretia na boca; peras com menta e salada de frutas frescas, dentre outras. E, naturalmente, uma das sobremesas favo­ritas do Mestre: o lukum, um bombom feito com mel e perfumado com jasmim e pétala de rosas. Enfim, uma comida kosher (limpa).

Os convidados, como dizia, ao ver os manjares, disputaram tudo. E os pilantras, vagabundos e demais aproveitadores, como dizia Nathan, entraram em ação. Por isso estavam às portas da Sapiah. E, diante de meu assombro, tiraram sacos de baixo das túnicas e passaram a fazer uma cuidadosa "limpeza" nas bandejas. Mas o tricliniarcha e os homens das túnicas verdes estavam alertas e pareciam esperar por aquele momento. Não hesitaram. A uma ordem do persa, mais de 50 mendigos foram tirados à força do tumulto e jogados para fora. Os servos dos machados, como bem sabiam, não faziam cerimónia.

Nos primeiros minutos, o alvoroço e a confusão em volta das mesas foram tais que vi a estabilidade das mesas correr risco. Mas os servos, bem treinados, acabaram impondo ordem, e a situação foi se acalmando. A maior parte dos comensais não requereu os serviços dos negros que esperavam perto com os jarros e os lenços para lavar e secar as mãos de quem necessitasse. Só os "santos e separados" iam correndo ao canto dos cântaros. Isso cada vez que terminavam um prato. Aquilo me inquietou novamente. A presença dos "santos e separados" perto das seis talhas era um problema para este explorador. Como e quando poderia verter os "nemos", absolutamente necessários para descobrir o ocorrido com a água?

Quando os comensais se acalmaram e tudo começou a transcorrer com mais serenidade, Jesus sugeriu aos discípulos que fossem até as mesas e se servissem. Ele fez o mesmo, e o vi inclinar-se pela sopa e pelo cordei­ro. O Mestre, pelo que pude ver durante o tempo que fiquei ao seu lado, só evitava cordeiro durante a celebração da Páscoa judaica. Era uma forma de repúdio e protesto pela crueldade dos sacrifícios rituais. E isso lhe ocasionaria mais de um desgosto. Mas falarei disso em seu devido tempo.

Jesus voltou para junto da menorah e se sentou com os discípulos. Con­servava o cálice de metal com o qual havia brindado. Os serviçais tornaram a enchê-lo com aquele vinho tinto, seco e pouco adequado para uma festa de ca­bimento. Eu peguei um prato, enchi-o de cordeiro e fui me sentar com o grupo. O persa viu, mas me deixou descansar. Os homens das túnicas verdes moviam-se com diligência. O vinho continuava correndo, e as mesas estavam perfeita­mente abastecidas. Não faltava nada. E aproveitei aquele respiro para organizar os pensamentos e repassar a estratégia a seguir, caso acontecesse algo anormal. Mas o que devia acontecer? Como saber que estava diante do suposto prodígio?

A taça de metal me intrigava. Parecia uma liga, como disse, mas não tinha certeza. Era maravilhosa, com um acabamento perfeito. Devia ter uns 13 centímetros de altura, com um diâmetro na boca de uns seis centíme­tros. O pé era largo e confortável. Não cheguei a tocá-la, e não foi por falta de vontade. Tive a sensação de que havia sido fabricada sem emendas. Mas acabei esquecendo-a.

Comentavam sobre os presentes recebidos pelos noivos quando, de repente, a Senhora e seu filho Tiago chegaram ao candelabro. Todos os receberam com satisfação e os convidaram a se sentar nas esteiras de folha de palma. Mas a Senhora tinha outras intenções e pediu a seu Filho que se afastasse um instante. O Mestre se levantou e ouviu os seus. Eu estava ao lado deles. Ouvi-os e os vi perfeitamente.

Deviam ser 15h45, aproximadamente.

Maria, conforme seu jeito de ser, foi diretamente ao que a preocupava:

Gostaríamos de conhecer teu segredo.

O Galileu a olhou com incredulidade.

Que segredo?

A Senhora acrescentou:

Teu irmão e eu queremos saber em que momento farás o prodígio.

Maria hesitou, mas prosseguiu:

Temos o direito de saber e de estar preparados. Como o farás?

Os discípulos, prudentemente, ficaram onde estavam. Acho que ne­nhum deles chegou a ouvir a conversa. Nem João Zebedeu.

E o Mestre, compreendendo, ficou sério. Não posso dizer que Jesus de Nazaré chegara a se aborrecer, mas quase.

Por fim, respondeu:

Se de verdade me amais, estai dispostos a esperar. Devo aguardar que se cumpra a vontade de meu Pai, e não outra coisa.

Dando meia-volta, juntou-se aos discípulos, pegou a taça de metal e seu prato e continuou comendo. Todos o observaram, preocupados, mas ninguém quis interferir no que - pensaram - se tratava de um assunto de família.

Maria se voltou para Tiago e exclamou, confusa:

Não posso entender. Que quis dizer? Não pretende acabar com essa estranha conduta? Sou sua mãe!

Tiago me olhou e fez cara de paisagem. Ele também sabia que eu sabia.

E ambos se retiraram.

Nenhum dos dois estava a par, que eu soubesse, da recente decisão do Filho do Homem de não fazer prodígios. E, mesmo que soubessem, teriam compreendido?

Uma vez mais julguei entender o desassossego do Mestre. E a aven­tura de sua vida pública estava apenas começando.

Mas Jesus sabia se recuperar com presteza. Logo reagiu e acabou com o mutismo de seus íntimos com as seguintes palavras:

Não penseis que estou aqui para fazer milagres.

João Zebedeu olhou para Ele de boca aberta.

Não estou neste lugar - prosseguiu - para convencer os incrédulos ou para dar satisfação aos curiosos.

Os discípulos sentiram a indireta. Alguns baixaram a cabeça, enver­gonhados. Para dizer a verdade, o Mestre havia falado pouco sobre suas intenções. Eles estavam confusos. Todo mundo afirmava que era o Libertador de Israel. Sua mãe apregoava isso aos quatro ventos. Por que dizia agora que não faria nenhum prodígio?

- Estamos aqui, queridos amigos, para esperar que se manifeste a vontade de nosso Pai que habita nos céus e em cada um de nós.

Também não entenderam muita coisa.

Como é que Yaveh, o sanguinário, o justo, o vingativo, habitava den­tro do homem?

Mas os comentários dos discípulos não foram além, e Jesus também não falou da "centelha". Isso aconteceria depois, no yam.

O persa acabou me chamando. E eu lhe dei trela. Era o combinado.

E embora tudo parecesse em ordem, vi que estava absorto e preocupado.

Fiz umas rodadas de inspeção pelo pátio central e pelas galerias e me certi­fiquei de que, de fato, tudo corria com normalidade (com a normalidade que se pode esperar em uma festa de casamento que reuniu mil pessoas e em que todo mundo esperava a atração final: um prodígio por parte do Enviado de Deus).

A fome foi satisfeita, e nas rodinhas, com os ânimos adormecidos pelo vinho abundante, falou-se de novo do assunto que os interessava: Jesus de Nazaré. E continuavam se perguntando: "Por que não agiu ain­da? O que espera?" A noite não tardaria a chegar. Nessa quarta-feira, 27 de fevereiro do ano 26 de nossa era, segundo os relógios da nave, o sol se esconderia às 17 horas, 29 minutos e 42 segundos. Faltava uma hora e meia, mais ou menos. "E por que Ele não havia se dignado a lhes dirigir a palavra durante a cerimônia?" Uns o atacavam e o chamavam de arro­gante. Outros pediam paciência e prediziam que o portento aconteceria no final do banquete nupcial. "Que tipo de Messias é este - murmuravam os fariseus - que não se lava cada vez que come e que toca os escravos? Por que bebe em taça de metal[62] e por que permite que uma mulher seque seus cabelos? Quem sabe se está menstruada..."

Alguns culpavam Nathan. Chamaram-no de louco, capaz de qual­quer coisa para chamar a atenção, e muito mais na festa de casamento de seu filho.

A Senhora estava triste e silenciosa, sentada em um canto da galeria sul com as mulheres. Quase não comeu. Miriam e Rebeca faziam de tudo por ela, mas Maria parecia ausente. Não compreendia o comportamento de seu Filho. Aquela era uma oportunidade excepcional para deixar claro quem era e, acima de tudo, deixar claro a Roma e aos inimigos de Israel. Que diferente era essa Maria da imagem que a tradição propagou ao longo dos séculos!

E nessas estava eu, ouvindo os vários comentários sobre o suposto Messias, quando notei certa agitação às portas da adega.

O tricliniarcha veio ao meu encontro.

O que aconteceu? - perguntei, intuindo que chegava o grande momento.

Entramos na adega e Atar me convidou a examinar as talhas que continham vinho e cerveja. Estavam vazias. Fiz uns cálculos. Deviam res­tar quatro metretas de vinho, no máximo (cerca de 160 litros), e duas de cerveja (quase 80 litros). O que era isso para mil convidados que pratica­mente estavam começando a jantar?

Senti um calafrio.

O que estava escrito no evangelho de João começava a ser intuído...

O prodígio aconteceria?

Sim, tornar-se-ia realidade, mas não pelos caminhos traçados pelo evangelista. As surpresas estavam ainda por chegar.

Os serviçais que cuidavam da adega estavam silenciosos. Sabiam do problema. O negro de cabelo prateado, responsável por aquele departa­mento, esperava uma solução. Mas o persa, pegando-me pelo braço, afastou-me dos servos. E me perguntou:

Venho te observando... Tu és um homem de recursos. Tens alguma idéia? Estamos sem vinho...

E respondi algo que não foi compreendido, logicamente. Que mais podia dizer?

Confia.

Confiar? - gritou o maitre. - Em quê? Temos vinho até o ocaso, com sorte.

E o persa se esqueceu de quem isto escreve. A solução que eu lhe dera não se encaixava em seus esquemas mentais.

Voltou com o homem dos cabelos nevados, e teve início uma caloro­sa discussão. Se faltasse vinho, a festa seria um fracasso. Se a festa de Caná fosse um fracasso, ele perderia seu prestígio e seria o palhaço da profissão dos tricliniarcha. Seria sua ruína.

Soluções?

O chefe da adega falou com bom-senso. Não importava de quem fosse a culpa. Estávamos onde estávamos. Precisavam de vinho com urgência. Pelo menos umas 20 metretas. Como obtê-lo? A única saída aceitável era Séforis. Precisavam comprar vinho, e o lugar ideal, a pouco mais de uma hora, era a capital da baixa Galileia, a referida cidade de Séforis. Nazaré ficava mais perto, mas representava um duplo problema: talvez a aldeia não tiyesse tamanha quantidade de vinho e o caminho não era bom para uma reda, a carruagem que deveria transportar a bebida. O yam (mar de Tiberíades), outra opção, ficava a quatro horas, mais quatro ou cinco para carregar e voltar a Caná. Inviável.

O persa concordou, mas contrariado. Agora, faltava o pior: informar a Nathan.

Atar mandou buscá-lo e continuou andando, nervoso, por entre as grandes talhas. E repetia para si mesmo:

Arruinado por causa de uma aldeia nojenta e perdida... Arruina­do... Quem mandou eu me meter neste manicômio?

Nathan irrompeu na sala como um tornado. Empurrou os serviçais que encontrou no caminho e, vermelho de raiva, pediu explicações ao mestre de cerimônias. O persa pediu que fosse ver as talhas e não houve mais comentários.

E a adega se encheu de palavrões. Nenhuma novidade.

Nathan exigiu soluções. O escravo dos cabelos brancos propôs de novo a possível saída: comprar vinho em Séforis. E o senhor, com bom-senso, perguntou:

E enquanto o vinho não chega?

Ninguém replicou.

Nathan tornou a praguejar contra seus antepassados e mandou chamar cyathus (assim se chamava o escravo que "suavizava" o vinho com água). O rapazinho calculou o vinho existente, e também a cerveja, e estimou que, no máximo, poderia "esticá-los" por umas duas ho­ras. "Os convidados vão notar a mudança e vão amaldiçoar Nathan e o mestre-sala", acrescentou.

O persa, impotente, começou a chorar.

Não havia alternativa. E Nathan mandou que preparassem uma car­ruagem imediatamente e que o cyathus fizesse o que tinha que fazer. "Mas com água morna - acrescentou o patrão -, para que esses bêbados não percebam." A cena me recordou o O gorgulho, a comédia de Plauto.

A operação estava em andamento. Cinco negros armados iriam na reda de quatro rodas. Os serviçais se puseram à disposição do "mistura­dor", e o persa cuidou pessoalmente do fornecimento das bebidas aos con­vidados. O engodo poderia se prolongar no máximo até o cair da tarde. "Depois - segundo Atar chegaria a ruína e a desonra."

E estávamos nessa quando irrompeu na adega a dona e senhora da casa, Ticra, a gentil e bondosa "Céu aberto". Não precisou de muito tempo para perceber que alguma coisa estranha estava sendo tramada por seu ma­rido, o persa e os serviçais. Interrogou Nathan, e ele, cabisbaixo, não teve remédio senão lhe contar tudo. A mulher empalideceu. Ela sabia o que sig­nificava faltar vinho no meio do banquete. O excesso de convidados não era desculpa para muitos daqueles oportunistas e fofoqueiros. Ririam deles e, o que era mais doloroso, ririam de seus filhos, os recém-casados. As pessoas são cruéis. Ela sabia. E perguntou a uns e outros: "Que podemos fazer?" Informaram-na dos detalhes da compra de vinho e aí acabou a conversa. Ticra, então, reparou em quem isto escreve. Caminhou para mim e me in­terrogou com o olhar. Percebi uma muda censura. Talvez tivesse razão: eu havia prometido algo que não estava se cumprindo. Quando o vinho de Azzam estava atrasado, ela perguntou e eu respondi: "Não te alarmes, terás o melhor vinho".

Eu não soube o que dizer. Nem eu mesmo tinha certeza do que nos reservava o futuro imediato. E fiz a única coisa prudente: silêncio. Ela também não disse nada, mas vi duas lágrimas inundarem seus olhos. Foi um momento de especial crueldade para quem isto escreve. Supon­do que o prodígio estivesse prestes a acontecer, este explorador tinha a obrigação de calar.

E Ticra, mordendo os lábios, girou sobre seus calcanhares e dirigiu-se à porta. Não sei o que aconteceu. Foi como se alguém me puxasse. E fui atrás dela.

Faltava pouco para a décima hora (quatro da tarde).

Uma vez no pátio, Ticra hesitou. Não sabia aonde ir. Jesus continuava ao lado da menorah com seus homens. O Mestre não sabia que estava faltando vinho, nem os outros convidados. Os noivos continuavam perto dos flautistas, conversando com os amigos. Noemi e Johab também não sabiam do problema. Naquele momento, para ser exato, só o persa, Na­than, sua esposa e parte dos escravos sabiam da ameaça que pairava sobre a festa. Eu, oficialmente, não existia.

Supus que a intenção de Ticra fosse recorrer ao Mestre e pedir ajuda. A mulher sabia dos rumores que falavam de sua possível divindade e que afirmavam que a festa de casamento havia sido o acontecimento escolhido para demonstrar seu poder sobrenatural. Fazia tempo que ouvia que Jesus era o Messias prometido. De fato, seu marido o aceitara como "convidado de honra". E percebi que ela queria lhe pedir um enorme favor. Ticra, ao sair da adega, tinha uma intenção clara: solicitar ao Galileu que resolvesse o problema do vinho. Ela não sabia como, mas que resolvesse.

No último instante, porém, mudou de idéia. Pude conversar com ela em abril e confirmei todos esses pontos.

Não se atreveu e optou por recorrer à Senhora.

Não hesitei. Fui atrás dela.

Ticra falou com Maria, mas, no meio da conversa, caiu no choro. E a Senhora, compadecida, abraçou-a. Naquele momento, não pude saber do que falavam. A mãe do noivo esclareceria isso em minha visita seguinte a Caná, no início do mês de nisan (março-abril) (Uma visita que se deveu a outros motivos.) Ticra falou à Senhora da falta de vinho e, suave e docemente, perguntou se Jesus "poderia fazer algo a respeito".

Maria renasceu das cinzas. Assim era aquela mulher maravilhosa e iludida.

Pensou por dois segundos e, decidida, respondeu à desolada Ticra:

- Não te preocupes, falarei com Ele. Meu filho nos ajudará.

Outras mulheres, ao ver a mãe do noivo chorando, aproximaram-se, curiosas. Mas a Senhora e Ticra, abraçadas, ficaram em silêncio. Ninguém soube.

A partir daí, tudo aconteceu muito rapidamente. Não sei se conse­guirei ordenar os fatos conforme aconteceram. Tentarei.

A questão é que Maria recuperou o otimismo. Já não recordava as palavras do Filho censurando seu interesse pelo quando e o como do prodígio. Era, de novo, a Maria impulsiva e eletrizante que eu conhecera em outras oportunidades.

E, animada, puxando Ticra, passou por entre os convidados e parou novamente em frente ao grupo do Mestre. Chamou Jesus, e Ele, cordial, ergueu-se e foi até as mulheres com a taça de metal na mão esquerda. Sor­riu. Nenhum discípulo se mexeu, e continuaram comendo. João Zebedeu discutia com o "urso" e com Felipe sobre o momento do prodígio. "Já não deve demorar", defendia João. Os outros duvidavam.

João Zebedeu, portanto, não esteve presente no que estava prestes a acontecer. Acertou, em parte, sem saber.

E essa "força" que me puxava me obrigou a ficar perto do Galileu e das hebréias. Acho que não perdi uma só palavra nem gesto.

E os três caminharam devagar pela galeria em direção às seis talhas que continham a água para a lavagem e as abluções rituais.

Senti outro calafrio. Alguma coisa podia ser sentida no ambiente.

Ao chegar às cad de pedra, a Senhora parou. Um dos serviçais, res­ponsável pelo abastecimento de água, perguntou a Jesus se queria lavar as mãos. O Mestre, cortês, negou com a cabeça e continuou atento à mãe. Os escravos que cuidavam das talhas eram três. Um deles tinha a orelha direi­ta cortada. E continuaram em pé junto aos cântaros. Ninguém se aproximou ou pediu água nesses críticos instantes. Nem os "santos e separados" foram ao canto das cad. Estávamos sozinhos.

E Maria, esboçando seu melhor sorriso, disse ao Filho:

- Não há vinho.

Ticra, a um passo, balançou a cabeça afirmativamente. Seus olhos suplicavam.

A afirmação da Senhora não foi correta. Havia vinho, ainda. Os cálcu­los estimavam que a bebida acabaria em questão de duas horas, no máximo.

Jesus olhou para ela, atônito.

E Maria insistiu, injetando na voz todo seu poder de convicção:

Filho... não há vinho.

O Mestre ficou sério e replicou com firmeza:

Minha boa mulher, que tenho eu a ver com isso?

Maria não era de desistir facilmente e, defendendo-se atrás de outro sorriso, comentou e perguntou:

Tua hora chegou. Não podes nos ajudar?

Ticra tremia como uma folha levada pelo vento. Jesus estava grave. Parecia que não ia ceder. E a minha mente voltou ao retiro em Beit Ids e a sua firme decisão de não revelar o Pai mediante prodígios ou maravilhas sobrenaturais, coisas de que seus conterrâneos, os judeus, tanto gostavam.

A Senhora olhou para Ele, ansiosa. E sorriu. Porém, a dureza no ros­to do Filho fez com que seu sorriso se desmanchasse lentamente.

Maria, Ticra e quem isto escreve soubemos naquele momento que não havia nada a fazer. Jesus não aceitaria. Não estava em seus planos. Não haveria prodígio.

O Mestre, após aqueles segundos de silêncio angustiante, procla­mou por fim:

Novamente declaro que não vim para fazer as coisas dessa maneira.

Olhou para a mãe e depois para Ticra. Acho que não compreende­ram. Estavam desoladas.

E prosseguiu:

Por que me atormentas de novo com esse assunto?

Acho que não me equivoco. Nas palavras do Filho do Homem per­cebia-se certa recriminação. Em parte, com razão. Era a segunda vez que a Senhora se dirigia a Ele para falar do suposto prodígio. E duvido que Maria agisse naquele momento com o único fim de ajudar e agradar a mãe do noivo. No fundo de seu coração havia mais. Ela queria, mais que ninguém, que se desse o milagre. Isso a situaria no alto, e todos teriam que reconhecer que ela era a "rainha mãe". Houve piedade no pedido da Senhora, sim, mas também uma oculta e desmedida ambição.

Maria começou a intuir. Jesus não daria o braço a torcer. E surgiram as lágrimas. A Senhora se encolheu, abalada de dor. E Ticra, contagiada, começou a chorar.

O Mestre hesitou. Aquela situação, creio, estava começando a sair de seu controle.

Mas Maria, ressurgindo, tentou de novo:

Eu lhes prometi...

As lágrimas a interromperam. Por fim se compôs e prosseguiu:

Prometi tua ajuda... Por favor, não farias isso por mim?

Ticra, arrasada pelo pranto, refugiou-se no braço direito da Senhora. Senti um nó na garganta.

O Mestre não afrouxou nem um milímetro. E respondeu com dureza:

Mulher, que tens tu a ver com essas promessas? Não as torne a fa­zer. Temos que esperar, em tudo, que se faça a vontade de Abba.

A resposta provocou algo previsível. A Senhora, definitivamente derrotada, desabou, e seu pranto fez minha alma se apertar. Maria chorava sem consolo. E Ticra, surpresa, tentou confortá-la. Os servos que velavam junto às talhas aproximaram-se e tentaram descobrir o que estava acontecendo com a mulher. Um deles até lhe ofereceu um pouco de água. Maria recusou. Seus belos olhos verdes estavam inundados de lágrimas e triste­za. Senti vontade de ir até ela e abraçá-la, mas me contive. Eu era apenas um observador.

E aconteceu.

O Filho do Homem, comovido, aproximou-se das mulheres. Deixou o cálice de metal em poder de Ticra e colocou a mão esquerda na cabeça da Senhora. E o Mestre falou, dessa vez em um tom doce e encorajador:

Já chega, mãe Maria. Não chores por minhas palavras aparente­mente duras. Não te disse muitas vezes que vim só fazer a vontade de meu Pai dos céus?

Maria continuava gemendo.

- Com quanta alegria faria o que me pedes se essa fosse a vontade de Abba...

Jesus hesitou. Foi só um instante, mas hesitou.

E o céu se iluminou com um súbito relâmpago azul, sem trovão. Foi um brilho interminável, de uns dez segundos.

Os convidados, perplexos, levantaram a vista para as nuvens e deram gritos de surpresa. Todos pensaram em outra nevada e rapidamente se retiraram do pátio. Os músicos hesitaram.

Não sei como aconteceu, mas me senti arrastado por essa enigmática "força". E em décimos de segundo, com uma clareza de idéias que ainda me assusta, coloquei-me ao lado dos cântaros. Os servos das talhas, atôni­tos como os demais, foram até o fim da galeria e contemplavam a incrível iluminação azul existente dentro das nuvens. Foi um momento decisivo. Peguei a ampola de barro e esvaziei os "nemos" em três dos seis recipien­tes. A seguir, ativei a "vara de Moisés". E voltei rapidamente para junto do Mestre e das mulheres. Logo os três negros de túnicas verdes retomaram suas posições perto dos cântaros de água. Mas ninguém solicitou seus ser­viços. As pessoas estavam atentas à camada de nuvens que cobria Caná.

Nunca pude explicar aquilo satisfatoriamente. Como foi que eu sou­be que aquele era o momento em que devia esvaziar os "nemos"? Alguém me "empurrou", tenho certeza.

E houve uma segunda "iluminação" azul (não me atrevo a chamá-la de relâmpago). Foi mais breve. Talvez cinco segundos. E os convidados gritaram de novo, um grito de surpresa e medo.

Eu, então, comecei a sentir um estranho formigamento nas mãos e nos pés.

A Senhora também percebeu algo singular. Alguma coisa estava acontecendo.

E, de repente, cessaram as lágrimas.

Maria recuperou o sorriso e, diante do olhar atônito da mãe do noivo, pulou no pescoço do Filho e o abraçou e o beijou várias ve­zes. Foram beijos sonoros, sem palavras, sem descanso. Maria, não sei como, soube que Jesus a havia atendido. Havia feito o prodígio! Insis­to: não sei como pôde saber, mas soube.

Quem isto escreve só se deu conta do ocorrido algum tempo depois. Mas vou tentar ordenar os fatos, conforme os recordo (não sei se aconte­ceram exatamente nessa ordem).

Ticra estava desconcertada. Não sabia o que estava acontecendo. Por que Maria passava das lágrimas aos beijos? Por que abraçava Jesus com tanto entusiasmo?

O Mestre, a julgar por seu semblante, estava tão perplexo quanto Ticra. Eu diria que muito mais.

Segundos depois, a Senhora se afastou do Filho e, dirigindo-se aos servos que cuidavam dos cântaros, gritou:

- O que meu Filho vos disser, fareis!

Pegou Ticra pela mão e, sem palavra alguma, foi apressadamente à área das mulheres.

O Mestre, pálido, não pronunciou uma só palavra. E os servos se olharam, sem entender. O que estava acontecendo com aquela hebreia? A que se referia? Acho que ninguém jamais lhes explicou o que aconteceu e por que a galileia em questão havia pedido a ajuda deles. Porém, foram testemunhas.

Senti tontura; curta, mas intensa. E fiquei preocupado.

Pouco depois deu-se uma terceira iluminação azul, mais breve que as interiores; talvez de dois ou três segundos.

O formigamento nas mãos e nos pés prosseguiu durante um tempo. Olhei minhas mãos, mas também não entendi.

E naquele momento comecei a sentir um cheiro de queimado. Era um cheiro que eu conhecia bem: o que se percebia habitualmente quando fazíamos a inversão de massa no "berço". Era típico, parecido com o que ocorre quando se queima um cabo elétrico.

Olhei à minha volta como um perfeito tolo. Nada estava queimando ali.

Sim, como um idiota.

Precisei de tempo para perceber o que aconteceu nesses exatos instantes. Foi no Ravid...

E com o cheiro de "cabos queimados" senti uma leve dor de cabeça. Também não soube explicar aquilo. Talvez se devesse à tensão do dia. Naquele momento eu não sabia...

Dias depois, ao entrar na nave e consultar a informação coletada pelos "nemos", soube que o prodígio foi registrado às 16 horas, 6 minutos e 1 segundo daquele 27 de fevereiro do ano 26 de nossa era.

Como dizia, esses acontecimentos ocorreram a grande velocidade e, insisto, não sei se na ordem estabelecida por quem isto escreve.

E o Mestre, finalmente, reagiu. Olhou para mim intensamente, deu neia-volta e se afastou com seus típicos passos largos. Vi-o desaparecer por uma das escadas que desembocavam no terraço. Os discípulos continuavam perto do candelabro, comendo e bebendo, alheios ao que esta­va acontecendo. Nem os convidados sabiam. Observei a água das talhas. Tudo continuava igual, aparentemente.

E voltou o formigamento nas mãos e nos pés.

Eu não conseguia entender.

Então, ele apareceu.

Caminhava aos trancos. Estava bêbado.

Usava as roupas sacerdotais: túnica branca, ajustada à cintura por três voltas de faixa, também branca como a neve.

Julguei reconhecê-lo.

Em um dos tropeços perdeu o gorro cônico, que rolou pelo chão. Tentaram ajudá-lo, mas o sacerdote os rejeitou com maus modos. Dirigia-se ao canto das cad (cântaros).

E quando se aproximou não tive dúvidas. Era ele.

Tinha os mesmos sinais de cirrose que eu havia visto em Nazaré: ginecomastia (anormal volume das mamas, que balançavam debaixo da túnica a cada movimento ou respiração agitada), consumição mus­cular (forte emagrecimento), vermelhidão ou eritema palmar, ascite (acúmulo de líquido na cavidade abdominal) e os "nevos em aranha" em mãos e faces (vasos dilatados dispostos de forma radial, como pa­tas de aracnídeos).

Era Ismael, o saduceu, responsável pela sinagoga de Nazaré, um su­jeito repugnante a quem tive que enfrentar em minha primeira visita à aldeia do Filho do Homem.[63]

Quando estava a dois passos das talhas, caiu novamente.

Um dos escravos, o da orelha cortada, correu para ajudá-lo. Ajoe­lhou-se ao seu lado e tentou levantá-lo.

Ismael era outro convidado. Não o havia visto até esse momento. Supus que fosse amigo da família. Além de tudo, como velho profes­sor do Galileu, deve ter sentido curiosidade. Seu aluno era o Messias prometido?

O servo se dirigiu a outro colega e pediu um pouco de água. Um se­gundo serviçal pegou uma vasilha, introduziu-a em uma das cad e levou-a àquele que continuava de joelhos. O "sem orelha" molhou um lenço com a água e o colocou na fronte do aturdido Ismael. Obviamente tentava re­frescá-lo e lhe devolver um pouco de compostura. Mas o sacerdote reagiu de forma estranha. Ou talvez não tão estranha...

Xingou o escravo e retirou o pano da fronte. A seguir, cheirou-o. Murmurou algo irreproduzível e arrancou a vasilha do serviçal, bebendo o que restava. Estendeu a vasilha ao "sem orelha" e pediu mais. Os servos se olharam, mas não disseram nada. Estava ébrio "até além dos pensamentos", como diziam os judeus.

O segundo negro repetiu a operação, mas, quando ia entregar a água a seu colega, ainda de joelhos, Ismael desabou e desmaiou.

O "sem orelha" não sabia o que fazer. E instintivamente levou o lenço ao nariz. Por que Ismael o havia cheirado?

Fui burro, muito burro.

O escravo se levantou e foi até as talhas. Observou o líquido, aproxi­mou o nariz da superfície da água e cheirou. Os outros servos olhavam com curiosidade. O que estava acontecendo? E, sem pronunciar uma palavra, pegou outra vasilha e a mergulhou no líquido. Levou-a aos lábios e provou.

Pressenti algo e corri para os recipientes.

A conselho daquele que acabava de beber, um segundo negro pegou a mesma vasilha e a levou à boca.

Em um primeiro momento não percebi nada estranho. Os cântaros estavam cheios de água, até a boca.

E os servos se enroscaram em uma furiosa discussão, em uma língua que eu não entendia. Possivelmente em um dialeto africano.

O terceiro escravo se juntou aos seus colegas. Provou o líquido e fez uma careta de surpresa. A seguir, entrou na discussão, gritando tanto ou mais que seus colegas.

Eu continuava sem entender nada.

Os convidados, diante da ausência dos brilhos azuis, foram recupe­rando a calma. E voltaram ao pátio central. Os músicos, esgotados, iam se apagando pouco a pouco.

Os três negros foram de novo até as cad e tiraram água de cada uma das seis talhas. E tornaram a degustar o conteúdo. E voltou a polêmica. Pareciam culpar uns aos outros. Que diabos estava acontecendo?

De repente, pararam de gritar e correram para a porta da adega.

Ismael, o saduceu, continuava desmaiado.

Outros flautistas assumiram a execução musical. E elevou-se no ar uma música que jamais esquecerei. Foi um "sinal" da Providência, ou de quem quer que fosse. A melodia entoada pelas flautas doces se chamava Chemer (vinho) e se enroscou, deliciosa, nas colunas e nos corações. As pessoas fizeram silêncio e a desfrutaram.

Burro, sim... Fui burro.

Finalmente fiz o que devia ter feito muito antes.

Fui até um dos cântaros e bebi.

Aquilo não era água!

Era quase transparente, com um levíssimo toque ambarino. Por isso não havia sabido distinguir!

Era vinho doce!

Eu não entendia muito de vinho, mas era. Foi isso que alarmou os escravos.

Vinho? Mas de onde havia saído? Eu estive perto das cad o tempo todo e não vi nada estranho.

E tive outra reação afortunada: peguei a cabaça que levava no cinto, tirei uma ampola de barro e a enchi até a boca com o conteúdo das talhas. Fui tomando vinho de todas as cad; um pouco de cada uma. E experimen­tei pela segunda vez. E gostei. Era intenso, bem estruturado, com aroma de amêndoas, levemente frutado. Ideal para sobremesas.

As ampolas de barro? O que faria com elas? Duas continham as res­pectivas amostras do vinho tinto usado no banquete e da água armaze­nada nas talhas antes do prodígio. A terceira estava vazia. E enfrentei um problema, aparentemente menor.

Não podia perder as amostras, eram valiosíssimas. Serviriam para comparar com o "vinho" que havia acabado de aparecer nas talhas.

Porém, o que faria com elas? Onde as guardaria? Não podia ir até a casa de Bartolomeu e escondê-las em meu saco de viagem. Naquele momento, não.

Também não tinha faixa para escondê-las.

O que fazer?

Só me ocorreu o saq, ou cueca. Não tive opção.

E lá foram parar as duas ampolas. O que não previ foi o resultado: os "genitais" aumentaram, e de que forma! O pacote se destacava, não importava o que eu fizesse nem como me colocasse. A dupla túnica não ajudou muito.

Pensei em retirar as ampolas, mas me neguei. Preferia passar vergo­nha a prescindir da informação.

Escondi a terceira pequena ampola de barro entre os pés das cad e ten­tei organizar os pensamentos. A dor de cabeça continuava me martelando.

Era impressionante. Salvo os três escravos e quem isto escreve, nin­guém na Sapiah havia notado o prodígio... ainda. Maria intuíra alguma coisa, mas não chegara a verificar. Quanto a Ismael...

Fui até o saduceu. Dormia calmamente. Ele também não soube. E recordei suas palavras, em sua casa de Nazaré, quando perguntei sobre o prodígio de Caná. O maldito sacerdote começou a rir e afirmou que só Maria foi testemunha do suposto milagre. "Jesus só fazia maravilhas diante dos seus", afirmou. Pobre imbecil! Além de mentiroso e corrupto, foi desafortunado. Estava lá, mas não percebeu o ocorrido.

E tentei racionalizar o ocorrido. Impossível. Meus pensamentos se agita­vam, embaralhados. Tropeçavam uns com os outros. Eu não sabia por onde começar. Não entendia... E nesses difíceis momentos recebi uma luz: aquele prodígio tinha a mesma causa da portentosa cura do menino mestiço de Beit Ms, Ajashdarpan. A piedade e a misericórdia do Homem-Deus deram lugar ao prodígio. Eu não sabia como, mas sabia que essa era a explicação. E não me enganei. Um tempo depois, o Mestre confirmaria, à sua maneira.

Não houve margem para mais discussões.

Nisso, apareceu a tropa: Nathan, o tricliniarcha, o servo dos cabelos nevados, os três escravos que cuidavam das cad, e não sei quanta gente mais.

O primeiro a provar o vinho foi o dono da casa.

Ficou mudo. Não houve comentários no momento.

Os convidados, insisto, continuavam alheios ao ocorrido e ao que acontecia naquele canto da casa.

O persa perguntou, mas, como disse, não obteve resposta.

O segundo a beber foi Atar. Seu pulso tremia. Provou o líquido e, voltando-se para Nathan, sentenciou:

- É um vinho melhor que o daquele maldito Azzam... Teria sido bom tirá-lo primeiro. Não sei por que fizeste assim, mas tudo bem: problema resolvido.

Ouvi-o, atônito. Precisei de uns segundos para entender. O persa não falou de prodígio em nenhum momento. Seu pensamento estava longe dessa idéia. O maître pensou que a presença daquele vinho nas seis cad era consequência de um erro.

O servo dos cabelos prateados foi o seguinte a provar o líquido. Ra­tificou a impressão do tricliniarcha (era um bom vinho), mas hesitou a respeito do hipotético erro. Ele, como responsável pela adega, sabia o que entrava e saía. Era muito difícil que uma remessa tão grande (calculei mais de 700 litros) fosse parar no lugar indevido. As seis talhas não eram o lugar adequado. Concordei com ele, mas fiquei em silêncio em um dis­creto segundo plano, como era minha obrigação.

Nathan explodiu e, entre palavrões, jurou que acabaria com a vida do escravo de cabelo branco. Fizera-o sofrer desnecessariamente. Gritou: "Por que escondeste esse vinho?" O dono da fazenda se inclinou para a versão do persa: tudo se devia a um erro. Ninguém pronunciou a palavra "prodígio". Ninguém se referiu ao Messias, nem ao que diziam os rumores. O do cabelo nevado protestou. Tentou fazer valer sua versão. Esse suposto erro na hora de guardar o vinho que Azzam havia fornecido não fazia sentido. Esse tipo de vinho doce, além de tudo, não era transportado em odres de pele de cabra. Ele teria percebido. Os argumentos do respon­sável pela adega não adiantaram muito. Nathan o mandou passear, e o negro se retirou, mal-humorado. Os três escravos que vigiavam as talhas não se atreveram a abrir a boca. Eles sabiam que o chefe da adega tinha ra­zão. Não haviam saído daquele canto o dia todo. Era água, e só água, o que havia dentro dos cântaros. Eles os encheram várias vezes e manipularam a água cada vez que alguém solicitava seus serviços. Os "santos e separados" não teriam consentido em se lavar com vinho. É certeza que, se houvesse acontecido algo assim, teriam feito um escândalo. A Lei oral proibia. O vinho, logicamente, não servia para isso.

E aí acabou o assunto. Ou melhor, não totalmente.

Nathan se retirou, e o persa, de repente, reparou em quem isto es­creve. E seu olhar foi diretamente aos meus volumosos genitais. Achei que morreria.

Caminhou devagar, rebolando, para este desolado explorador, sem tirar os olhos de meu baixo ventre. E ao chegar a meio metro clamou, entusiasmado:

- Eu suspeitava que tinhas poderes, mas nem tantos.

Como disse, achei que morreria.

Ele tentou me abraçar, mas escapei. E o maitre se afastou, atrás dos passos do dono da casa.

Os discípulos continuavam comendo. Até o momento, ninguém ha­via se dado conta do que estava acontecendo.

Talvez fossem 16 horas e 30 minutos.

A tensa calma se prolongou um pouco mais. Não muito. E aconteceu o que tinha que acontecer...

Os serviçais acabaram dando com a língua nos dentes e a notícia da conversão da água em vinho se espalhou entre os convidados. Era lógico. Tinha que acontecer, cedo ou tarde.

Este explorador ficou perto das talhas. E comecei a ouvir uma onda de cochichos. Os olhares, inquietos, dirigiam-se para o canto das cad. Es­tava claro: o rumor corria solto.

Pouco depois, alguns comensais foram chegando ao lugar em que estávamos. Primeiro, timidamente. Perguntavam aos escravos, mas eles davam de ombros. Não falaram uma só palavra. Não queriam se comprometer.

Outros pediram para provar o líquido. Os negros negaram. E exi­biram autorização prévia do dono ou do maître. Vários convidados, com o ânimo alterado por conta do vinho tinto quente que haviam ingerido em abundância, tentaram chegar às talhas e beber por sua conta. Os homens das túnicas verdes os impediram, e deu-se uma pri­meira briga. O atrito acabou com a chegada dos que portavam os as­sustadores machados de dois gumes. Os convidados se retiraram, de maus modos e praguejando, e o "sem orelha" correu de novo para uma das portas em busca de ajuda e conselho.

Não imaginava como aquele assunto ia terminar.

Logo descobriria.

Como não imaginei?

Os murmúrios cresceram e começaram a se ouvir vozes. O clamor foi dissolvendo a música.

E nisso, deu-se o "terremoto".

A Senhora, seguida de perto pela dona da casa, apareceu no canto das talhas. Eu havia me esquecido dela.

Estava transtornada. Seus olhos brilhavam. Não estava radiante. Era mais que isso. Imaginei que havia acabado de saber. E assim foi. Maria per­guntou aos servos, e Ticra também. Estavam prestes a responder quando a Senhora, sem esperar resposta, pegou uma vasilha, introduziu-a em um dos recipientes e o levou aos lábios. Sua companheira fez o mesmo e be­beu com a mesma ansiedade. A partir daí, como disse, foi um "terremoto".

A Senhora jogou a vasilha para o ar e gritou entusiasmada:

Inon! Inon! Inon!

Inon era outro nome simbólico do Messias, mas o significado literal é "emanar". A tradição oral, conhecida como "tradição dos pais", fala disso no tratado "Sinédrio 98b". Era uma palavra com uma simbologia especial para os iniciados judeus (os escribas). De Inon - diziam - derivam iain vinho) e nin (descendente). Quando analisei o assunto com mais calma, fiquei gratamente surpreso. Mistérios da Cabala... A letra nun, além de tudo, tem relação com a palavra "filho".

Como dizia o Mestre, quem tiver ouvidos que ouça.

E Ticra reforçou as exclamações de Maria.

Inon!

Todo mundo se voltou, surpreso. Os serviçais não sabiam o que fazer. Lá estava a dona da casa...

E Maria, mais que feliz, pulava e gritava o nome de seu Filho.

A profecia se cumpriu! Inon! Inon! Inon!

Os convidados acabaram se aproximando e tentaram perguntar o que estava acontecendo e acalmar as mulheres. Impossível. A felicidade as dominava da cabeça aos pés. Pareciam em transe.

E, em um daqueles pulos, Maria me viu. Correu para este explorador e me abraçou. Quase me derrubou.

Eu te disse, Jasão! A hora d'Ele chegou!

As lágrimas correram por sua face. Era um pranto diferente daquele que eu havia visto pouco antes do prodígio. Maria, em questão de minu­tos, passou da tristeza e desesperança ao otimismo e entusiasmo.

Ticra também me abraçou, exultante. E sussurrou em meu ouvido:

Como soubeste? Tinhas razão: o melhor vinho!

Não repliquei. O que podia dizer?

E me perguntei: por que todo mundo se abraçava?

E a Senhora, sem parar de chorar, de rir, de gritar, de pular e de can­tar o nome de Jesus, foi até os serviçais e preparou tudo para que o "vinho milagroso", segundo suas próprias palavras, fosse distribuído ali mesmo, imediatamente. Ticra colaborou na tarefa. E o vinho, de fato, passou a ser servido em todo tipo de vasilhas, jarras e recipientes menores. E todo mundo experimentou uma dose do saboroso líquido. Quando Nathan e o maître chegaram era tarde demais. O vinho já corria pelo pátio e pelas galerias. Nathan amaldiçoou sua estrela, mas aos poucos começou a se mover por entre as rodinhas de convidados explicando que tudo se devia a uma lamentável confusão. Aqueles que ainda estavam serenos aceitaram as explicações do chefe da Sapiah. "Isso sim faz sentido", diziam.

Porém, a essa altura da festa, os que conservavam a clareza men­tal não eram muitos. A maioria, alertada pelo burburinho e pelos gritos procedentes do canto das talhas, abriu caminho como pôde até as cad e tentou arranjar um cálice do "vinho prodigioso".

Foi o caos.

As pessoas se espremiam, reclamavam, perguntavam, gritavam mais que o vizinho, derramavam o vinho, praguejavam, choravam sem saber por que ou riam por puro contágio. E, de vez em quando, animadas pela Senhora e por Ticra, repetiam o nome de Jesus ou de Inon.

Inon! Inon! Inon!

Foi uma loucura.

A uma ordem do persa, os escravos dos machados deram um jeito de resgatar as mulheres eufóricas para deixar que os das túnicas verdes continuassem servindo o "vinho milagroso".

Mas a Senhora não estava disposta a deixar passar aquela incrível oportunidade e se livrou dos serviçais. Ticra, porém, foi praticamente ar­rastada até a galeria das mulheres.

E Maria, a mãe do Mestre, foi imediatamente absorvida por outras rodinhas de comensais, desejosos de confirmar os rumores. E viu-se novamente no centro das atenções, alvo de todo tipo de perguntas. A Senhora, desejosa de dividir sua alegria, respondia a todos e a tudo. Não notava a desordem, não importava que uns atropelassem as perguntas aos outros, não importava a incredulidade ou o sarcasmo. Maria, como disse, respondia a tudo. Falava de seu Filho, dos planos para a sublevação, dos exércitos que tinham de preparar, da mensagem do anjo em Naza­ré de Yehohanan, lugar-tenente do Libertador, de seus outros filhos, que ocupariam postos relevantes, da glória de Israel, já próxima...

Não consigo me lembrar de tudo que falou.

E como havia acontecido com o Filho do Homem durante a manhã, a Senhora escapava de um grupo e caía nas garras de outro. E tudo recomeçava.

Maria não se queixou. Estava encantada. Era o que havia desejado duran­te mos. Sinceramente, não a reconheci. Não era aquilo que seu Filho pretendia.

E, por fim, eu os vi.

Os discípulos do Mestre, com o "vinho milagroso" nas mãos, ten­tavam se aproximar de uma dessas rodinhas. Estavam alterados. Não sabiam se riam ou choravam. Não conseguiam entender. O Mestre não estava em lugar nenhum, mas todo mundo falava d'Ele. Pedro bebia sem parar, impressionado com a situação. De vez em quando gritava: "Inon!" E João Zebedeu, tão bêbado quanto Simão Pedro, respondia, feliz, com o mesmo e eufórico "Inon!" Foi quando assisti a uma cena que também não seria contada por João, o evangelista. Era compreensível...

Tiago Zebedeu, mais sereno, quis equilibrar os ânimos de seus compa­nheiros e pediu mesura. A versão de Nathan, que continuava se espalhando relos comensais, também havia chegado aos íntimos do Galileu. E Tiago recordou a Pedro e a seu irmão "que talvez tudo não passasse de uma confusão".

Ouvidos moucos. João Zebedeu pulou em Tiago e o derrubou. Chamou-o de tudo, socou-o... Foi preciso que André e o "urso" os separassem. Pedro só cambaleava.

João Zebedeu, o futuro evangelista, gaguejava de tanto vinho e raiva.

Tornou a beber e a gritar, mais eufórico ainda:

- I-non! I-no-no-on!

Tiago lhe deu as costas e voltou ao candelabro. Lá, Felipe esperava.

Nesses momentos de tensão, também consegui ver Meir, o rofé ou auxiliador das rosas de Caná, o bondoso sábio de cabelos e barba quase albinos. Ouvia a Senhora com atenção e de vez em quando balançava a cabeça negativamente. Compreendi.

E em outra rodinha, também silenciosa, vi os irmãos Joli (Yehudá e Nitai), presidente e esmoleiro da sinagoga de Nahum, respectivamente. Fiquei surpreso de vê-los na festa de Noemi e Johab. Talvez fossem ami­gos; nunca soube. O primeiro, com seus mais de cem quilos, esforçava-se para ficar em pé, ajudado pelo dócil e macérrimo Nitai. Também não diziam nada. Limitavam-se a ouvir a Senhora.

E, de repente, no meio de tamanho alvoroço, intuí uma coisa: aque­la situação era perigosíssima para o Mestre. Entre as centenas de convi­dados, com toda certeza, devia haver vários espiões e confidentes do Si­nédrio, do tetrarca Antipas e, evidentemente, de Roma. A Senhora, sem querer, estava fornecendo dados para os futuros inimigos de seu Filho. Mas, infelizmente, eu era só um observador. E limitei-me a cumprir meu trabalho: observar.

Foi necessário um bom tempo para acalmar os comensais. Maria continuava de um lado para o outro, no meio do furacão da curiosidade e da maledicência. Independentemente do que possa ter dito, tivesse ou não tivesse razão, reconheci que foi o dia mais espetacular e feliz da vida dela. A Senhora viveu em uma nuvem na qual nunca mais tornaria a subir. Foi a rainha-mãe, pelo menos durante algumas horas. Muitos prestaram aten­ção nela e, o que era mais importante, acabaram acreditando na história do ser luminoso que apareceu para ela em Nazaré anunciando a "glória de Israel". Essas palavras - "a glória de Israel"- também foram inventadas pela bem-intencionada mulher. Foi seu grande dia. Ela estava orgulhosa, exultante e capaz de engolir o mundo.

Mas, como também era previsível, a versão de Nathan e do tricliniarcha foi ganhando terreno e se instalou na mente da maioria. "Foi tudo um engano", explicavam sempre que podiam. "O culpado (o negro dos cabe­los prateados) já foi castigado." E as pessoas, por trás da Senhora, riam e debochavam do "vinho prodigioso" e, naturalmente, do suposto Messias. Os saduceus eram os mais corrosivos. Essa seita, como já expliquei em outro momento, reunia a classe aristocrática de Israel. Eram ricos por herança e pretendiam manter seu status de qualquer maneira, contra quem quer que fosse. Contemporizavam com o poder, com Roma, a fim de não perder seus privilégios e prebendas. O Messias e seu revolucionário plano não eram de seu agrado. Os "santos e separados" estavam consternados. Eram testemunhas do prodígio, mas não sabiam o que fazer nem o que dizer. E fiéis a sua atitude ladina escolheram o silêncio. Perguntaram à Senhora, sim, mas tomaram muito, muito cuidado para se pronunciar sobre o Messias ou sobre o Mestre. Primeiro, tinham que consultar a frater­na nade. Foi aqui, em Caná, que nasceram os problemas de Jesus com os fariseus, com os sacerdotes e com os saduceus. Por uma razão ou outra, todos acabariam repudiando o prodígio e o Filho do Homem.

Mas também houve "convertidos", gente que ficou fascinada com as palavras da Senhora e que, a partir desse dia, defendia o Mestre onde quer que estivesse. Cheguei a ouvir versões que me deixaram perplexo. Alguns roçaram o poder de Belzebu, o príncipe dos diabos, para justificar o prodígio. E afirmavam que o Galileu não era nada além de um tzadikim, uma espécie de sábio ou iniciado[64], capaz de andar pelo mundo com a precisão e o ritmo da Divindade. Podia fazer aquilo (transformar a água em vinho). Não se enganaram, embora não fosse um tzadikim, exatamen­te. Era muito mais.

E no meio do entusiasmo chegou o pôr do sol (17 horas e 29 minutos).

Os servos acenderam as tochas e as taças dos candelabros, e Maria continuou feliz, respondendo a todos que perguntavam. E em um deter­minado momento, no meio de uma discussão, a Senhora interrompeu as explicações e ergueu a voz, dando início a uma canção de boas-vindas ao Messias. Chamavam-na de Illi, que poderia ser traduzido como "de cima" ou "do alto" (referente ao céu). Seguidores e não seguidores, contagiados pelo fervor da mulher, juntaram-se à Senhora, e o pátio tremeu com o clamor daquelas centenas de judeus. Não vi os discípulos, mas imaginei que estivessem cantando, tão fora de si quanto a Senhora. A mãe do Filho do Homem erguia o punho esquerdo e repetia com toda a força de que era capaz: "Inon! Inon! Inon! Abaixo o ímpio!"

Eu não podia acreditar.

A Senhora, de fato, não havia entendido o pensamento do Mestre. Nunca esqueci aquela cena. Representava muito mais do que eu teria ima­ginado. A postura de Maria, sem demora, acabaria acarretando outra gra­ve crise familiar. Mas vamos passo a passo.

Subitamente, a canção amainou. As pessoas emudeceram pouco a pouco. Primeiro os que estavam perto do pórtico oeste. Depois o resto. O silêncio foi descendo por setores.

Em um primeiro momento, não entendi. Depois, ao ver Jesus no fi­nal da escada pela qual o vira desaparecer, compreendi.

Maria foi a última a vê-lo. Estava cercada de convidados e não tinha visibilidade do local.

E continuou cantando, até que notou o estranho silêncio.

Tenho certeza de que o Galileu a ouviu perfeitamente.

E a Senhora, ao ver seu Filho, emudeceu.

Jesus de Nazaré estava voltando de retiro no terraço para o pátio central.

Seu semblante era sério. Sereno e descontraído de novo, mas sério.

Desceu os degraus lentamente. Os comensais se afastaram de ime­diato, abrindo caminho para Ele. Percebi medo. Era um medo reverencial. Não importava se acreditavam ou não no Messias. Não importava se ha­viam negado o prodígio ou se o defendiam. Todos, inclusive os saduceus, deram um passo atrás. Estavam lívidos. Aquele Homem, com seu porte majestoso e o olhar limpo e penetrante, era algo fora do comum. Atraía e provocava respeito em partes iguais. Ninguém se atreveu a interrogá-lo. Não se ouviu o menor murmúrio. Foi um silêncio absoluto, incomodado apenas pelo atrito dos sapatos do Mestre com a serragem ou as esteiras de palma.

Percorreu, decidido, aquele trecho de galeria, passou em frente às seis talhas sem olhar para elas e parou em frente ao grande candelabro situado no pórtico norte. Não hesitei. Fui até o túnel de acesso e lá parei, atento.

Jesus se inclinou para André e sussurrou algo em seu ouvido. Depois, dando meia-volta, encaminhou-se para o portal de entrada da casa.

Os convidados permaneciam imóveis, em silêncio, contemplando-o.

O que pretendia fazer?

Muito simples. Sem dizer uma palavra, sem um só gesto, o Filho do Homem abandonou a Sapiah. A festa, para Ele, havia terminado.

Eu o vi desaparecer na escuridão da noite.

André trocou algumas palavras com seus companheiros e afastou-se da menorah, indo em direção ao túnel de acesso. Tiago Zebedeu, Bartolomeu e Felipe foram atrás dele. Pedro e João Zebedeu ficaram sentados, cada um com sua taça do "vinho milagroso" na mão. Cambaleavam mesmo sentados.

Quando André passou diante de quem isto escreve, aproveitei para interrogá-lo.

O que aconteceu?

Vamos partir ao amanhecer.

Isso foi tudo. O Mestre pretendia abandonar Caná com as primeiras luzes do dia seguinte. Para onde? Quais eram seus planos? O prodígio que eu acabara de contemplar havia modificado seu projeto? Que pensava sobre os planos de sua mãe? Faltava selecionar mais seis discípulos. Como e quando faria essa escolha?

Eram perguntas demais. E decidi viver o momento. Tudo se resolve­ria, imaginei. E acredito que se resolveu.

Não pensei duas vezes. Fui atrás deles. Já havia visto o bastante.

E quando pus os pés nas escuras lajotas do túnel, os murmúrios se evantaram novamente. Ao caminhar por entre as árvores de ferro, rumo à aldeia, tornei a ouvir os flautistas. A festa continuava.

Lamentei pelo persa e por Ticra. Apesar de tudo, gostava deles, e haviam me ajudado. Tornaria a ver o primeiro em circunstâncias "espe­cialíssimas". Também veria a senhora da Sapiah, mas em questão de horas.

A casa do "urso" estava vazia. Toda a parentela estava na festa de casamento.

O Mestre, previdente (?), ao ir à Sapiah pela manhã, deixara o saco de viagem na casa de Bartolomeu. Eu o vi trocar de roupa. Pegou a túnica vermelha, guardou seus pertences e ajudou o "urso" a preparar um bom fogo. Eu cuidei das minhas coisas: retirei as desconfortáveis ampolas de barro, guardei-as na mochila e fiz o mesmo com a valiosa cabaça que continha o "vinho prodigioso" (não sei por que o chamo assim).

E, mais tranquilo, fui me sentar perto do fogo, ao lado do Mestre e dos galileus.

Deviam ser seis da tarde.

O céu continuava fechado, mas fazia tempo que não nevava. Estava frio, mas também não importava. Muita coisa se agitava dentro de mim. Tinha que dar um jeito de pôr ordem nas coisas e apaziguar minha alma. Tinha muitas coisas para perguntar ao Filho do Homem, mas fui cauteloso e prudente. Deixei que o Destino me levasse.

Durante um tempo, ninguém falou. Contemplávamos as chamas e seus amarelos tremores. Os discípulos trocavam olhares, mas ninguém se decidia a dar o primeiro passo. Queriam perguntar, como eu, mas tinham medo. Acho que essa seria a palavra exata. Havia medo em seus olhos. Era a primeira vez que assistiam a algo sobrenatural. E eles eram os discípulos do autor do pro­dígio! Estavam nas nuvens também. O medo os mantinha mudos, mas, ao mesmo tempo, sentiam uma grata mistura de orgulho e de vaidade. É que simplesmente a confusão dominava. Exatamente como a este explorador.

Por último, alguém quebrou o silêncio constrangedor. Foi Tiago, o mais cético:

O que aconteceu, Mestre?

Jesus sorriu com certa amargura. Não era fácil esclarecer a dúvida do Zebedeu.

Vós vistes - declarou. - Fez-se a vontade de Abba.

Sim, mas o que aconteceu? Todos provamos aquele vinho. De onde saiu?

O Mestre soube interpretar os receios de Tiago. E replicou com segurança:

Foi a vontade do Pai.

Então, é verdade que houve um prodígio. Nathan e outros afirmam que foi tudo uma confusão.

Jesus olhou fixamente para Tiago, atravessando-o com o olhar. O Ze­bedeu não precisou de nenhum outro esclarecimento. O olhar do Filho do Homem encerrava a resposta.

E o "urso" interveio. A curiosidade o estava matando.

Sim, rabi (Mestre), mas não respondeste à pergunta de Tiago: de onde saiu?

O Galileu olhou para Bartolomeu e tornou a sorrir, apontando para o teto com o indicador da mão esquerda. E todos, feito idiotas, olhamos para o alto. Só havia goteiras lá.

O Mestre notou nossa inocência e esclareceu:

Mais acima.

Mais acima?

O "urso" acabou respondendo, e eu também.

Tu te referes a Yaveh? Então o prodígio foi feito por Deus, bendito seja seu nome?

Sim e não.

A resposta de Jesus deixou os discípulos novamente confusos. Ele tinha vindo para mudar o rosto desse Deus bíblico, colérico e justiceiro, mas não era tão simples. Aqueles homens cresceram com a idéia de um Yaveh vingativo, e não entrava na cabeça deles que esse novo Deus fizesse favores a alguém, menos ainda em uma festa de casamento. O conceito de Pai estava muito longe, ainda, de sua mente. Isso chegaria depois, graças aos ensinamentos do Galileu.

O Mestre, inteligente, deixou o assunto para lá. Esse "sim e não" era mais que suficiente, por ora. Não era o momento de explicar quem eram aqueles que o acompanhavam permanentemente (sua "gente", como eu os havia definido), nem por que ocorreu o prodígio. Haveria tempo, supus.

O realmente importante era que Jesus de Nazaré estava ratificando a autenticidade do "milagre" (eu já disse: a palavra "milagre" não me agra­da tentarei não a repetir).

E Felipe interveio:

Não te parece um tanto desproporcional? Por que desperdiçar o poder de Deus, bendito seja, em algo tão prosaico como encher talhas de vinho?

O bondoso Felipe já despontava como responsável pela intendência do grupo.

Jesus parecia preparado, perfeitamente preparado, para as tolas - não tão tolas - perguntas de seus íntimos. E liquidou a questão:

Pensas que tirar vinho do nada é um trabalho sem graça e sem imaginação?

Bem, não sei...

Felipe sabia que Jesus tinha razão. E quem isto escreve não reparou, naquele momento, em um detalhe de especial importância, revelado na reposta do Mestre: "tirar vinho do nada".

Insisto: não reparei. Só depois, já no Ravid, recordei aquele instante; aquele importante momento em que o Galileu "esclareceu" parte do enigma.

Para que tanto esforço? - insistiu André, apoiando as dúvidas de Felipe.

Para maior glória do Pai.

Mensagem recebida.

Os discípulos, porém, não captaram a intenção de Jesus.

E o "urso" resumiu seu pensamento:

Tu és um "mar", como abba Hilkiah.

Não entendi a que se referia quando mencionou o abba, ou rabi, Hilkiah. Ao voltar à nave e consultar os arquivos no "Papai Noel", julguei compre­ender.[65] O tal de Hilkiah, segundo a tradição judaica, era um fazedor de milagres, capaz de fazer chover, de ressuscitar os mortos e de obter colhei­tas abundantes em menos de um dia. Basicamente, tudo inventado.

Jesus agradeceu a deferência, mas negou com a cabeça. Tinha razão. O Mestre era muito mais, muitíssimo mais, que abba Hilkiah. O tempo lhe daria razão.

E o "urso", feliz com a possibilidade de mostrar seus conhecimentos diante de seus amigos e, acima de tudo, de seu Mestre, começou a falar das antigas tradições egípcias, que já mencionavam a conversão de água em vi­nho. Fiquei gratamente impressionado com a cultura de Bartolomeu. E todos ouvimos com atenção. O "urso" disse que, desde tempos remotos, as pessoas que viviam no Nilo iam, em um dia determinado no mês de shvat (janeiro), às margens do rio para pegar água. E entendi que no dia 6 desse mês de janeiro registrava-se o habitual milagre do Deus Dusares: a água se transformava em vinho. Era uma água milagrosa, capaz de grandes prodígios.

Todos o ouvíamos boquiabertos. Eu, sobretudo. O Mestre gostava de ouvir as histórias do "urso". Algumas, suponho, exageradas ou detur­padas. Isso não importava... O interessante era vê-lo e ouvi-lo. Ele drama­tizava, gesticulava. Elevava ou baixava o tom, segundo as circunstâncias. Mantinha a todos hipnotizados.[66]

Mas o cansaço dominou a todos. Havia sido um dia extenuante e inesquecível.

E, lentamente, conforme as chamas foram enfraquecendo, os discípu­los foram se retirando. Cada um arranjou um lugar no grande cômodo que servia de sala de jantar, de estar e dormitório, e se preparou para descansar.

Pouco depois, todos estavam dormindo. Senti falta dos roncos de Simão Pedro.

O Galileu ficou um pouco mais em frente ao fogo. Imaginei que tam­bém devia ter muitas coisas na cabeça.

E quem isto escreve ficou ao seu lado, em silêncio.

Foi quando percebi o aroma de malva. Não era da lenha que se consumia na lareira. Só restavam brasas. Eu sabia: era um perfume emanado do Filho do Homem. Naquele momento, o aroma da amiza­de. Assim interpretei.

E, antes de se retirar, o Galileu se voltou para quem isto escreve e, misterioso, dedicou-me umas palavras:

- Busca a pérola em teus sonhos.

O que Ele quis dizer?

Pegou seu saco de viagem, usou-o como travesseiro e se preparou para dormir.

A que pérola se referia? Que eu recordasse, nunca havia sonhado com uma pérola. Ele usou a palavra margalit (pérola). Foi Eliseu, muito depois, que apontou uma possível explicação. Ou melhor, duas.

O Mestre pode ter querido dizer que eu ficasse atento aos sonhos. Nos sonhos - afirmou o engenheiro -, esconde-se uma "pérola", oculta no meio de outras imagens kleenex, absurdas, descartáveis. É preciso saber "ver" enquanto se sonha. Sonhar é um presente dos céus. Geral­mente, essa "pérola" é uma advertência. Alguém avisa: alguma coisa vai acontecer.

A segunda explicação possível também me inquietou. "Buscar a pé­rola nos sonhos" significava também "ser inocente ao interpretar uma mensagem".[67]

O que o Filho do Homem insinuara?

Não tardaria a descobrir a secreta intenção do Galileu. Mas isso aconteceria em Nahum.

E caí, rendido. Estava esgotado.

Mas a felicidade só durou duas horas.

Já avançada a segunda vigília da noite, fomos acordados bruscamente.

Eram Simão Pedro e João Zebedeu. Voltavam da festa de casamento, e não exatamente sóbrios. Eu diria que muito alegres. Apoiavam-se um no outro. Entraram cantando a canção do Messias e não tardaram a tropeçar e rolar pelo chão. André, solícito, correu a cuidar de seu irmão. Censurou -o pelo estado lamentável e o ajudou a se deitar ao seu lado. Simão Pedro não o ouvia. De vez em quando, dava vivas a Jesus de Nazaré. O Mestre se levantou, compreendeu e voltou a dormir.

João Zebedeu imitou Simão, mas foi se deitar longe de onde seu ir­mão Tiago descansava.

E fez-se a paz novamente. Paz? Eu havia esquecido os roncos e o su­plício da apneia de Pedro.

E a casa se encheu de roncos e de silêncios heróicos.

Mas eu também acabaria me acostumando.

E voltei a dormir.

Mas, faltando uma hora para o alvorecer, alguma coisa me acordou. Ouvi ruídos. Endireitei o corpo e, à luz das lamparinas penduradas nas paredes, notei uma silhueta hesitante. Movia-se com dificuldades. Trope­çava. Dirigia-se para quem isto escreve.

Eu me assustei. Quem era? O que estava acontecendo?

E a figura continuou se aproximando.

Desviava dos corpos adormecidos dos discípulos. De repente, parava e olhava para a direita e para a esquerda.

Eu o conhecia.

Ao chegar ao meio da sala, uma das lamparinas de óleo o iluminou lateralmente.

Era Pedro!

Estava de olhos abertos, mas não olhava para lugar nenhum. Em dé­cimos de segundo, julguei entender.

Começou a andar de novo, mas logo parou. Esfregou as mãos, como se as estivesse lavando em uma fonte imaginária.