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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CEDO DEMAIS PARA AMAR / Anne Mather
CEDO DEMAIS PARA AMAR / Anne Mather

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Sophie era apenas uma adolescente, mas já sentia todas as emoções de uma mulher adulta, pelo menos no que dizia respeito a Robert, o fascinante filho mais velho de sua madrasta. Sophie se apaixonara por Robert há vários anos e nem mesmo o tempo que passou longe dele, no colégio interno, abalou seus sentimentos. Toda a família reprovava tal afeto, fazendo o possível para afastá-la dele. Mas, quando ela descobriu que Robert também a amava, agarrou-se às suas esperanças. Ela só não imaginava que ele surgiria com uma noiva, uma mulher que parecia exercer sobre ele um domínio com o qual Sophie jamais poderia competir.

 

 

 

 

Sophie deslocou o peso do seu corpo de uma perna para a outra, consciente de que cada movimento estava sendo vigiado pelos dois soldados agachados ao lado de suas malas, a alguns metros de distância. O trem estava lotado de gente que partia para as férias e, não tendo podido reservar um lugar, Sophie viu-se na contingência de passar toda a viagem espremida entre sua bagagem, naquele território de ninguém situado entre dois vagões. Não que ela se importasse. Estava excitada demais com a perspectiva de ir para casa para se im­portar em passar algumas horas absolutamente imóvel. Apesar de dois homens terem oferecido seu lugar, ela recusava com toda polidez. Achou que o gesto deles confirmava o que ela pensava; mesmo usando a saia verde-garrafa e o paletó da mesma cor, com as insígnias da escola bordadas no bolso, ela não parecia mais uma criança, mas uma jovem mulher- Notara desde algum tempo que os homens a achavam fisicamente atraente e, apesar de sempre se sentir satisfeita com isso, somente agora começava a apreciar suas vantagens.

Uma mulher muito jovem, carregando um bebê, abriu caminho em direção ao toalete e Sophie encolheu ainda mais seu corpo esbelto, recusando-se a tomar conhecimento dos sorrisos solidários dos soldados. Um deles já lhe oferecera um cigarro, que ela re­cusara, e apesar de reconhecer que ambos eram inofensivos não queria que complicações interrompessem seus devaneios, que gi­ravam em torno de seu próximo encontro com Robert.

Tinham passado dezoito meses desde que ela estivera com Robert, dezoito meses desde que ele a tomara nos braços, a beijara e abalara todos os alicerces de seu pequeno mundo...

Ele deveria estar em casa naqueles feriados. Seu pai lhe es­crevera, comunicando o fato. Claro, Simon também estaria lá e, embora ela preferisse o filho mais velho de sua madrasta, sempre achara que era muito mais fácil conquistar Simon e aproveitara-se dele vergonhosamente,

Robert era diferente. Robert era imprevisível. Mas com Ro-bert ela compartilhava uma afinidade. Robert, que lhe ensinara a montar, nadar e jogar tênis, que lhe falara como um igual a respeito de seus planos e ambições, que fora o primeiro a interessá-la em livros, música e poesia.

Contemplou através da janela do trem a paisagem verde que se estendia interminavelmente. Lembrava-se perfeitamente da primeira vez que vira Robert. Sua mãe morreu quando ela nasceu e seu pai, um médico londrino muito ocupado, empregara uma série de governantas para tomar conta dela. Não tinha dado certo, porém. Ele tinha muito pouco tempo para passar com a filha pequena e, ao compreender que sem a presença da mãe a menina estava sendo deixada de lado, desistira de sua clientela em Londres e mudara-se para Conwynneth, uma aldeia não muito distante de Hereford, na região fronteiriça de Gales. Lá a vida transcorria num ritmo muito mais suave. O dr. Kemble relaxou, sentiu-se novamente jovem e envolveu-se na vida social da co­munidade, juntamente com sua filhinha.

Laura Ydris era viúva e tinha dois filhos. Dirigia um pequeno albergue na aldeia, inteiramente só, desde que seu marido morrera, há dois anos, em um acidente de automóvel. Seu filho mais novo, Simon, tinha doze anos e o mais velho, Robert, dezesseis. Ambos iam à escola em Hereford.

O pai de Sophie começou a passar muito tempo no albergue e não foi surpresa para ninguém quando ele e Laura decidiram se casar. Naquela época, Sophie tinha quatro anos de idade. Era rechonchuda, muito tímida em relação a estranhos e seu cabelo curto emoldurava um rostinho de boneca.

Desde o início Sophie agarrara-se à madrasta. Laura estava longe de assemelhar-se àqueles personagens perversos dos con­tos de fada. Era baixinha, morena e cheia de vida, e ganhou completa mente o coração de Sophie quando lhe confidenciou que sempre quisera ter uma menina.

Não houve problemas nem mesmo com os dois garotos. Robert e Simon haviam compreendido que sua mãe estava tendo muitas dificuldades em dar conta sozinha do albergue e ficaram contentes ao saber que ela ia parar de trabalhar e ter um lar de verdade. Além do mais, gostavam do dr. Kemble e eram suficientemente amadurecidos para reconhecer as necessidades do casal. Sophie adorou ter, subitamente, dois irmãos. Eles a mimaram muito, ela se dava conta agora, mas naquela época não vira nenhum egoísmo em solicitar sua atenção.

Sophie conheceu Simon em primeiro lugar. Robert estava na Suíça, em uma excursão da escola, quando o casamento foi anunciado e, quando ele voltou para casa, Sophie e Simon já eram muito bons amigos. Quando ela se deparou com o olhar firme de Robert, tornou-se sua admiradora. Ele era um menino muito popular, andava habitualmente com um bando de ga­rotos, mas nunca estava ocupado demais que não pudesse con­versar com ela. E as namoradinhas ficavam particularmente impacientes por ter de competir com uma criança!

Dois anos depois, Robert foi para a universidade, e o velho casarão que o dr. Kemble comprara por ocasião de seu segundo casamento ficou subitamente tranquilo. Durante quatro anos Sophie via Robert somente por ocasião dos feriados; mas, quan­do ele se formou, regressou para Conwynneth, para trabalhar numa firma de engenharia em Hereford.

Naquela época, Simon estava começando a frequentar a uni­versidade, mas Sophie não sentia tanta falta dele. Além do mais, Robert estava de volta e, aos doze anos de idade, Sophie achou aquele rapaz maduro absolutamente fascinante. Ela estava co­meçando a tomar consciência de sua feminilidade e não com­preendia por que sentia dores curiosas no estômago toda vez que Robert a encarava de um certo modo, nem por que, quando ele saía com garotas, ela se sentia perturbada e inquieta.

Sentiu-se inteiramente abalada quando seu pai comunicou-lhe subitamente que ela iria para um internato. Não queria de modo algum ir para um lugar daqueles. Isto significaria que ela voltaria a ver Robert somente nos feriados e era su­ficientemente madura para compreender que ele provavelmen­te se casaria enquanto ela estivesse na escola.

Pela primeira vez seu pai e sua madrasta mostraram-se im­perturbáveis diante de seus apelos desesperados, e até mesmo Robert parecia frio e distante, sem lhe oferecer o menor apoio. Teve de capitular e passou todo o primeiro semestre aos prantos, sem aceitar a solidariedade que algumas colegas lhe ofereciam. Com o tempo, deu-se conta de que o choro não a levaria a nada. O mais sensato era estudar muito, passar em todos os exames e regressar a Conwynneth o mais cedo possível.

Enquanto desempenhava suas tarefas na escola, chegou-lhe ao conhecimento que a carreira de Robert estava indo muito bem. Era muito inteligente e ofereceram-lhe uma situação melhor em uma firma londrina de construção, com filiais espalhadas por todo o mundo. Alugou um apartamento na capital e partiu para a África Central, em seu primeiro contrato no além-mar. Quando Sophie foi para casa durante duas férias, não o viu. Passava o tempo perambulando pela casa e até se recusou a ir com Simon e seus amigos acampar na região dos lagos. Sabia que seus pais estavam preocupados com ela, mas esperou que eles não desco­brissem o que a deixava tão deprimida.

Prestou os exames finais aos quinze anos e conseguiu nota dez em onze matérias, o que deixou seus pais e professores admirados e contentes. Nos feriados de Natal que se seguiram, Robert estava novamente de volta e foi passar as festas com a família. Seus cumprimentos para ela significavam muito e importavam mais do que tudo que pudessem ter-lhe dito até então. E foi durante aqueles feriados que Robert a beijou...

Seus dedos dobraram-se, tensos. Os Kemble tinham convi­dado para o Natal amigos de seu pai, vindos de Londres: dois casais e seus cinco filhos. Ela desconfiava de que seu pai os havia convidado de propósito, numa tentativa de tirá-la da apatia que ela demonstrara nas férias de verão. A presença de Robert na casa afugentava, entretanto, qualquer desânimo. Os outros adolescentes, uma garota de dezesseis anos e qua­tro rapazes cujas idades iam de treze a dezoito anos, eram simpáticos, mas na opinião de Sophie bastante imaturos, com­parados com seus meio-irmãos. Mesmo Simon, que tinha vinte e três anos e estava dando aulas no ginásio de Conwynneth, era mais interessante do que eles. Sophie fora criada no meio de adultos e seus gostos eram mais maduros. Gostava de música pop, naturalmente, e de conversar a respeito dos ídolos da adolescência, mas graças a Robert sentia-se igualmente à von­tade diante de compositores clássicos e eruditos.

Durante aqueles feriados, tomou parte de todas as diversões e brincadeiras propostas pelos mais jovens, mas durante o tem­po todo estava intensamente consciente da presença de Robert nas proximidades, bem como da garota que ele trouxera de Londres. Ela era secretária, dissera-lhe sua madrasta, e tra­balhava no escritório da companhia que empregara Robert. Sophie, no entanto, não gostou dela. Não era nada que ela pudesse definir claramente. Ao contrário, Em ma era bonita e simpática, não muito diferente das dezenas de garotas que Robert trouxera a Penn Warren durante a adolescência de Sophie. Havia, entretanto, algo no modo com que ela encarava Robert que deixava Sophie perturbada. Algumas vezes sur­preendeu Emma contemplando-o com um brilho estranho no olhar, e suspeitou instintivamente de que Emma dificilmente poderia ser posta de lado. E então aconteceu algo que passou a ocupar inteiramente os seus pensamentos...

Na véspera e durante todo o dia de Natal, os Kemble e seus convidados passaram o dia em família mas, à noite, sempre davam uma festa. Várias pessoas da aldeia foram convidadas, incluindo o veterinário local e sua mulher, alguns fazendeiros e suas mu­lheres. Até mesmo o vigário apareceu. Havia muito o que comer e beber e as mesas, muito compridas, vergavam sob o peso de perus e galinhas ao forno, presunto e língua, tortas e empadões de todo tipo, providenciadas por Laura e pela sra. Forrest, sua empregada diarista. Um enorme bolo de amêndoas estava colo­cado ao lado de um pudim igualmente majestoso; havia também vinho, ponche e toda espécie de bebidas.

Sophie usava o vestido que seus pais lhe deram como pre­sente de Natal. Era seu primeiro vestido longo, feito de veludo marrom e dava-lhe uma aparência extraordinária. Alguns dias passados na Espanha três meses antes tinham dourado sua pele. Como ela usava muito pouca maquilagem, com exceção de sombra nos olhos e um batom cor de abricó, o tom de sua pele combinava com o vestido. Seu cabelo estava comprido, mas felizmente aquela era a moda do momento. Quando ela se estudou ao espelho antes de descer, certificou-se de que sua aparência era adulta, e o olhar que Robert lhe lançou fez com que o sangue lhe corresse precipitadamente nas veias. Em se­guida ele assumiu sua atitude habitual de afeto e tolerância e disse-lhe que daquele jeito todos os rapazes iam persegui-la. Não era exatamente isso que ela queria ter ouvido, mas con­seguiu disfarçar com certa habilidade a inveja que sentia.

De vez em quando, no decorrer da noite, sentia os olhos de Robert postos nela, mas toda vez que se voltava para fitá-lo ele estava falando com mais alguém. Ele nem sequer a convidou para dançar, e ela disfarçou seu desapontamento, como sempre fazia, provocando Simon. Não que Simon se importasse. Ao con­trário, quando ele a apertou junto ao peito na pista de dança, Sophie sentiu que ele não estava apenas fingindo apreciar aquele contato. Seu comportamento, obviamente, incomodou as outras garotas presentes, algumas mais velhas, como Vicky Page, a filha do veterinário, que se sentia atraída pelos dois enteados do médico. Já era bem tarde quando Sophie se deu conta de que Robert havia desaparecido, e seu coração começou a bater forte, en­quanto ela procurava Emma. Mas Emma ainda estava lá, dan­çando com Harold Venables, um fazendeiro de Apsdale, e ela deu um suspiro de alívio.

Sua madrasta também percebeu que Robert não estava pre­sente. Aproximou-se de Sophie e Simon e disse:

— Simon, seja bonzinho e dance com Vicky, sim? Há mais de uma hora que ela não tira os olhos de você. E você, Sophie, vá procurar Robert! Ele provavelmente está no estúdio de seu pai. Você sabe como ele se aborrece nessas reuniões.

Sophie abandonou a festa e foi até o estúdio. Claro que Robert estava lá, sentado na cadeira do médico, com os pés apoiados displicentemente no canto da mesa, lendo um manual de engenharia estrutural. Levantou os olhos assim que ela entrou na sala, ligeiramente incomodado.

— Sua mãe pediu que viesse à sua procura — disse Sophie, sentindo-se como uma intrusa.

Robert nem se incomodou em levantar e ficou lá, fitando-a com seus olhos cinza.

— É mesmo?

— Sim. — Sophie, muito insegura, ficou parada diante da porta. — Você vem nos fazer companhia?

— Acho que não, obrigado.

Voltou sua atenção para o livro, como se o assunto termi­nasse ali, e Sophie ficou aborrecida. Ele a dispensara sem sequer apresentar uma desculpa. Seu rosto assumiu uma ex­pressão de determinação. Entrou no estúdio, fechou a porta e dirigiu-se até a mesa onde ele estava sentado. Quando Robert viu que ela estava parada diante dele, levantou novamente os olhos e disse resignadamente:

— Vá lá para dentro e divirta-se, Sophie. Estou me sentindo perfeitamente bem aqui. Não tenho a menor intenção de morrer de cansaço, quando tiver de guiar até Londres, amanhã de manhã.

Sophie olhou-o zangada e ao mesmo tempo preocupada, ao compreender que ele partiria dentro de algumas horas. Talvez se passassem alguns meses antes que ela o visse novamente.

— Não acha que está sendo um tanto desagradável? Fica aí sentado como uma prima donna temperamental!

Robert sorriu ao ouvir tais palavras; era um sorriso zom­beteiro, que só fez aumentar sua indignação. Controlando o impulso de estapeá-lo, ela disse:

— Você nem mesmo dançou comigo!

— Há vários rapazes de sua idade que podem dançar com você. — ele observou. — Além do mais, Simon ficará mais do que satisfeito em lhe dar atenção.

Ao ouvir tais palavras Sophie descontrolou-se. Tirou o livro de suas mãos e jogou-o de lado, tentando ao mesmo tempo levantá-lo da cadeira. Ele, porém, resistiu, puxando-a para si e fazendo-a sentar-se em seu colo. Nesse momento beijou-a impetuosamente, deixando-a toda perturbada. Diante daquele assalto apaixonado, ela descerrou os lábios e passou-lhe a mão no pescoço, indo até a base, onde um tufo de pêlos espessos saía para fora do colarinho. Quando ele finalmente a soltou, suas pernas tremiam como geléia. O rosto de Robert estava pálido e conturbado. Murmurou uma desculpa ininteligível e deixou-a. Naquele momento ela compreendeu que daí por dian­te as coisas entre eles nunca mais seriam as mesmas.

Não voltou a ver Robert antes de ele partir para Londres. Tinha a intenção de levantar-se cedo na manhã seguinte, mas estava exausta e, quando finalmente desceu as escadas, Robert e Emma já tinham partido.

No fim da semana ele partiu para o Oriente Médio e ela voltou para a escola, sentindo-se mais deprimida do que antes.

Mas tudo aquilo se passara há dezoito meses. Durante aquele período Sophie amadureceu consideravelmente, e apesar de suas férias terem ocorrido em períodos diferentes das de Robert, ela se consolava pensando que ele estava dando um tempo para ela crescer um pouco mais. antes de envolver-se mais profundamente. Teve o bom senso de compreender que seus pais jamais encorajariam qualquer espécie de relacionamento entre eles enquanto ela ainda estivesse na escola. Agora, porém, terminara os estudos. Tinha seis meses diante de si para decidir se entraria ou não na universidade no ano seguinte, e durante esses seis meses...

Suspirou, levantando os ombros, em um gesto descuidado. Muita coisa poderia acontecer em seis meses, e dentro de uma hora voltaria a ver Robert. Deu as costas à janela do trem e deparou-se com o olhar de um dos soldados, cheio de admiração. Não havia como se enganar em relação à mensagem que ela lia em seus olhos e sentiu-se muito bem interiormente, pois percebia que era atraente. Certamente Robert sentiria o quanto ela havia mudado. Notaria o modo como seus seios haviam-se desenvolvido, a sua cintura delgada, a curva provocante de seus quadris. Laura havia prometido que durante aquelas fé­rias ia lhe comprar roupas novas, apropriadas a uma jovem que conseguira nota dez em todas as matérias e deixava o colégio para sempre. Tinha a intenção de comprar vestidos longos, saias, calças, trajes que acentuassem sua feminilidade. Olhou novamente para fora da janela e percebeu que a estação de Hereford não estava muito distante. Graças a Deus estavam quase chegando! Olhou para seus pés. As duas malas estavam uma ao lado da outra, junto com uma pequena caixa que continha todos os seus livros. Passara um mau momento na estação de Paddington, em Londres, até que um carregador mais amável tivera pena dela. Colocou suas malas no carrinho e descarregou-as em um vagão da segunda classe, sem lhe cobrar nada. — Posso lhe dar uma mão?

Era um dos soldados. Entravam na estação de Hereford e Sophie preparava-se para desembarcar, sentindo uma ansie­dade crescente.

— O quê? Ah, pode deixar, acho que vou conseguir sozinha — respondeu, um tanto impaciente. O jovem, porém, era persistente.

— Não é incômodo algum — insistiu, sacudindo a cabeça. — Vamos todos descer agora. Vem alguém encontrá-la?

Sophie lançou um olhar apressado para a plataforma, en­quanto o trem diminuía a marcha.

— Acho que sim.

— Melhor para você!

Ela sorriu ao ouvir tais palavras. Com um solavanco o trem parou e ela abriu a porta.

Eles foram os primeiros a descer, enfrentando o ar carregado de umidade e cheirando a óleo diesel. Os dois soldados encar­regaram-se de uma mala cada um e Sophie carregou apenas o pacote de livros. A gentileza de ambos distraíra sua atenção e ela vasculhava o bolso, à procura de um bilhete, quando uma voz máscula e pausada disse:

— Alô, Sophie! Que bom tornar a vê-la...

Sophie levantou os olhos, sentindo-se corar. Suas pernas tre­miam incontrolavelmente. Ele não mudara em nada. Isto é, não mudara muito. Talvez estivesse um pouco mais magro e será que aqueles olhos cinza tinham um brilho tão frio? Sua pele queimada testemunhava os meses que ele havia passado em ter­ras mais quentes; o cabelo era mais fino e caía-lhe sobre a testa. As pestanas eram longas, os ossos do maxilar bem delineados, os lábios definidos e livres de toda tensão. E como era alto; pelo menos dez centímetros mais alto do que ela! Usava jeans bem apertados, Uma camisa aberta no peito e parecia senhor de uma força e masculinidade perturbadoras. Apesar de tudo isso, per­cebeu que ele tentava controlar um sentimento de raiva. Por quê? Será que ele imaginava que ela tinha se envolvido com os dois soldados, que naquele momento trocavam olhares, indicando claramente que se arrependiam por terem oferecido ajuda?

Sophie lamentou a situação. Não era desse modo que ela havia planejado seu encontro. Esperara durante um ano que aquilo acontecesse. Não permitiria que ninguém o estragasse. Com uma resolução nascida do desespero, colocou o pacote no chão e ignorando todos que a rodeavam, caminhou na direção de Robert e rodeou-lhe o pescoço com os braços, colando seus lábios aos dele. Diante daquela atitude inesperada, Robert le­vantou automaticamente os braços para impedi-la de perder o equilíbrio, mas depois de alguns segundos a repeliu.

— Sophie! — murmurou zangado. Os dois soldados pousa­ram as malas no chão e, com um sorriso encabulado, afasta­ram-se. — Sophie, pelo amor de Deus!

Sophie não se arrependeu. A despeito de seu aborrecimento, os lábios de Robert haviam respondido por um breve momento aos seus, o que lhe bastou para convencê-la de que ele não lhe era indiferente. Sorriu, portanto. Era um belo sorriso, pleno de confiança, que trouxe a seus olhos verdes um brilho de felicidade.

— O que você esperava? — ela indagou em tom zombeteiro. — Que eu lhe apertasse as mãos?

Robert olhou-a com impaciência.

— Essa é toda a sua bagagem?

— Sim. — Então voltou a fitá-lo. — Não está contente em me ver, Robert?

Ele esboçou um gesto de irritação.

— Claro que estou contente em vê-la, Sophie. Aliás, eu já lhe disse. — Pegou as duas malas. — Você dá conta do pacote?

Sophie suspirou e levantou-o obedientemente.

— Claro que sim, obrigada.

Robert lançou-lhe novamente um olhar severo e saiu da pla­taforma dando largas passadas. Ela teve de apertar o passo para não perdê-lo de vista. Assim que saíram da estacão, ele se en­caminhou para o estacionamento. Lá fora estava ainda mais úmi-do e as nuvens baixas ameaçavam chuva. Sophie, entretanto, achava que era uma bênção estar novamente em casa.

Admirada, concentrou a atenção no automóvel.

— É novo, não é mesmo? Qual é a marca? Rolls-Royce?

— Não. Alpha Romeo — declarou Robert, colocando sua bagagem no porta-malas. — Pode entrar. A porta está aberta.

Sophie abriu a porta e acomodou-se no banco da frente, baixo, com encosto recurvado e apoio para a cabeça. O painel deixou-a fascinada e examinava os vários controles quando Robert abriu a porta e puxou o banco para a frente. Imedia­tamente tudo o mais perdeu o interesse e ela pôs-se a imaginar qual seria sua reação se ela tentasse beijá-lo novamente. Era uma proposta tentadora e ela se voltou para encará-lo.

— E melhor você colocar o cinto de segurança — ele sugeriu brevemente, aparentando indiferença à sua inspeção. Sophie murmurou qualquer coisa, reprimindo o ímpeto de lhe dar uma resposta insolente:

— E um carro e tanto, não? Gostaria de saber guiar.

— Espero que seu pai lhe proporcione um curso, agora que você terminou a escola — ele observou calmamente, ligando o motor.

Abriu a janela e olhou para fora, manobrando com muita perícia para fora do estacionamento. — E, por falar nisso, pa­rabéns. Ouvi dizer que você foi muito bem nos exames finais.

— Obrigada!

O sarcasmo de sua voz deve tê-lo atingido, pois ele franziu o cenho e disse:

— O que há? Não estava querendo ser paternalista. Acho que você agora tem uma boa oportunidade de entrar em Oxford,

não é mesmo?

— Não quero falar a respeito da escola e dos exames! Acabo de deixar tudo isso para trás! — Movimentou-se inquieta e vol­tou-se para ele, sedutora: — Como é que você vai, Robert? Há quanto tempo está em casa? E quanto tempo vai ficar desta vez?

Robert concentrou-se no trânsito congestionado da tarde mas, quando chegaram a um lugar menos movimentado, replicou:

— Estou bem. Há mais ou menos uns dois meses que estou de volta à Inglaterra. No momento trabalho ao norte de Gales. Estamos construindo uma ferrovia na região.

— É mesmo? — Sophie arregalou os olhos, — Que maravilha! Você pode vir para casa praticamente todo fim de semana.

— Nem sempre, Sophie — ele corrigiu-a secamente. — Tenho outros compromissos a atender.

Sophie procurou uma posição mais confortável, contemplan­do-o com olhar de suspeita. Ele era tão calmo e distante... Não conseguia aproximar-se dele, pelo menos mentalmente, e sua tentativa de fazê-lo no plano físico também não tinha sido muito bem-sucedida.

— Como estão todos? — ela indagou, tentando proposita­damente ignorar seu ar distante. — Mamãe e papai vão bem? E Simon? — Forçou um sorriso. — Recebi uma carta de Simon na semana passada. — Enrugou o nariz. — Por que nunca escreveu, Robert? Achei que você o faria.

Robert ignorou sua última pergunta e disse:

— Nossos pais estão bem e Simon parece bastante con­tente em permanecer em Conwynneth, dando aulas para o

resto da vida.

— E por que não? Ele se sente feliz lá — comentou Sophie pensativa. — Ele não é uma pessoa inquieta. É bem diferente de você.

— É isso que eu sou?

— Entre outras coisas — ela respondeu com uma leve ponta de irritação. — E não é? Você não ficou contente com a pers­pectiva de permanecer em Hereford, não é mesmo?

— Ofereceram-me um emprego melhor, onde ganharia mais dinheiro e teria oportunidade de ver o mundo antes que fosse velho demais para gozá-lo. Não vejo nada de particularmente instável nisso. Não há dúvida de que você também se sentirá assim um dia.

— Não é verdade! — Como é que você sabe?

Sophie olhou através da janela do carro. Estavam deixando para trás os arredores da cidade e subiam pelas colinas. Embora o céu escurecesse, a paisagem diante deles era verdejante. Como era lindo o campo em Gales! Apesar de ter nascido em Londres, aquele era seu lar, sua herança.

— Eu não sou... muito aventureira — ela respondeu final­mente. — Sou muito agarrada ao lar. — Examinou as unhas. — Claro, se eu tivesse de me casar e... se o trabalho de meu marido o obrigasse a viajar para fora do país...

Fez-se uma pausa carregada de intenções e em seguida Ro-bert disse abruptamente:

— E por falar nisso, Sophie...

Entretanto, ele não prosseguiu. O ribombar abafado de um trovão ecoou por entre as colinas e ele imediatamente percebeu como ela ficou tensa.

— As tempestades deixam você nervosa, não é mesmo? Não fique alarmada. Aqui no carro você está protegida.

— Eu sei. — Sophie tentou agir com naturalidade, apesar de estar assustada. — O que você estava dizendo?

Robert olhou-a de relance e seus lábios assumiram uma expressão curiosa. Então sacudiu a cabeça e disse algo intei­ramente inesperado:

— Quem eram aqueles soldados na estacão?

— Não os conhecia. Viajamos juntos desde Londres. Tivemos de ficar na traseira de um vagão, por falta de acomodação. — Pôs-se a sorrir. — Insistiram em carregar minhas malas. Não consigo imaginar por quê. E você?

A expressão de Robert suavizou-se um pouco.

— Pare com isso! — ele ordenou secamente. Nesse momento uma gota pesada de chuva abateu-se sobre o pára-brisa do carro. — Quer você goste ou não, aí vem chuva!

Dentro de alguns segundos estavam no meio de uma chuva torrencial e nem mesmo os eficientes limpadores de pára-brisa puderam dar um jeito na situação. Os relâmpagos riscavam o céu com um brilho que iluminava artificialmente as colinas e o ribombar ensurdecedor de um trovão parecia estar a ponto de explodir ao lado deles. As palmas da mão de Sophie ficaram úmidas de medo. Subitamente Robert dirigiu o carro para o acostamento forrado de grama. Desafivelou o cinto de segu­rança e desligou o motor.

— É inútil prosseguir nessas condições — explicou, ao sentir a indagação muda em seus olhos. — Está uma verdadeira inundação, mas não vai durar muito. É somente uma tempes­tade de verão. A esta altura você já deveria estar acostumada.

— Eu sei. Sou uma tola. — Ela tremia, ao afrouxar o cinto, e voltou-se para ele. Ele se mostrava absolutamente distante e mesmo assim ela teve de resistir ao impulso de acariciar-lhe o rosto. — Bem, pelo menos isto nos dá tempo de conversar — disse, quase sem poder respirar. — Você agora pode dizer aquilo que tinha a intenção de contar.

— Sim. — Robert inclinou-se e tirou um cigarro do maço, colocando-o na boca com um gesto ausente. Acendeu-o e re­costou-se no assento, respirando profundamente.

Depois, voltou-se para ela e seu olhar estava carregado de intenções. O trovão ribombou mais uma vez e o sangue voltou a correr rápido nas veias de Sophie. A atitude de Robert não ajudava nada. Ela tinha plena consciência da tensão reinante entre ambos e pôs-se a imaginar se era isso que estava endu­recendo sua expressão. Olhou para os joelhos e notou que seus movimentos inquietos haviam feito afrouxar dois botões da blu­sa que, como todas as roupas que usava na escola, estava ficando apertada demais para ela. Ficou com o rosto em brasa e seus dedos apressaram-se em dar um jeito nos botões, mas tremia tanto que não conseguiu. Sentia-se cada vez mais emocionada, e as lágrimas afloraram-lhe aos olhos. O que havia com ela? O que havia com ele? O que acontecera com a afinidade que existia entre ambos?

Robert cansou-se de contemplar sua falta de jeito, pôs o cigarro entre os lábios e ele mesmo ajeitou os botões. Enquanto isso, parecia que o mundo explodia em torno deles. Um raio atingiu uma árvore a apenas alguns metros de distância, fendendo seu tronco de alto a baixo. Os trovões ribombavam com uma inten­sidade violenta e a chuva, que caia como uma grande cortina, encobria tudo que não estivesse imediatamente próximo a eles.

Sophie tremia descontroladamente e Robert, praguejando, puxou-a para junto dele, passando os braços por suas costas e pressionando-a contra seu corpo quente e rijo.

— Acalme-se — exclamou, tirando o cigarro da boca e aper­tando-o de encontro ao cinzeiro. — Vai acabar dando tudo certo. Acredite em mim!

— Desculpe, Robert — ela murmurou. — Mas é que eu odeio tempestades. Não fique zangado.

— Não estou zangado — ele replicou exaltado, afastando-se para contemplá-la. — Deixe-me dar um jeito nesses botões.

Ela o contemplou enquanto seus dedos cumpriam a tarefa a que ele se propusera. Quase contra sua vontade seus olhos cruzaram com os dele. Ele a contemplou durante um bom mo­mento e então ela pousou suas mãos sobre as dele, detendo sua atividade e segurando-as bem próximo a ela.

— Sophie! — ele protestou debilmente, tentando afastar-se, mas ela sustentou o olhar e, avançando, colou sua boca à dele. Ele resistiu durante alguns momentos carregados de tensão e então seus dedos penetraram em sua blusa, agarrando aquela carne firme, puxando-a para junto de si com uma ansiedade quase desesperada. Agora ele tremia e seus lábios procuravam os dela. Sophie se esqueceu do temporal. Seus braços cingiam o pescoço de Robert, tocando a pele macia de seus ombros, e seus dedos enredavam-se nos pêlos negros que lhe rodeavam o peito. Era exatamente com isso que ela tinha sonhado. Era naquela situação que ela desejava estar, durante todos aqueles meses em que cumpria seus deveres escolares, prestando exa­mes e fingindo que desfrutava da vida social que se desenrolava em torno dela no ginásio. Lá havia rapazes, pois a escola era mista. No entanto, o relacionamento de Sophie com os rapazes permanecera em um plano puramente platônico e nenhum de­les despertara nela o menor interesse. Agora, bastava que visse Robert e o tocasse para sentir que algo dentro dela derretia... Finalmente ele a repeliu, ofegante, procurando um cigarro e acendendo-o sem aquela precisão que exibira antes. Aspirou pro­fundamente e em seguida, apoiando a cabeça no assento, disse:

— Oh, meu Deus! — como se estivesse zombando de si mesmo.

Sophie levou a mão à garganta e retirou a gravata do uni­forme, que parecia absolutamente deslocada depois do que aca­bara de ocorrer. Dobrou-a e colocou-a no bolso do blazer. Em seguida abotoou a blusa e colocou-a para dentro da saia antes de voltar a olhá-lo.

— Robert... — falou, mas ele sacudiu a cabeça.

— Não diga nada — ele ordenou, voltando a dar uma tra­gada. — Não diga nada. Dê-me apenas um minuto para pôr os pensamentos em ordem. — Soltou a fumaça, inquieto. — Eu sabia que não devia ter deixado seu pai persuadir-me a vir a seu encontro.

— Persuadi-lo? — Sophie pôs-se a fitá-lo. — Você precisava de tanta persuasão?

Ela parecia estar magoada e ele sacudiu a cabeça impacientemente.

— Não, acho que não. Meu Deus, Sophie... você é minha irmã...

— Meia-irmã — ela o corrigiu no ato.

— Está certo, está certo, minha meia-irmã. — Robert passou a mão no cabelo, olhando a chuva, que não cessava de cair. — Mesmo assim, você sabe que isso é... é ridículo!

— Ridículo? — Sophie sentiu-se insegura. Durante um breve momento confiara que tudo daria certo, mas agora... — Por que é ridículo?

— Não seja ingênua, Sophie! — Ele continuou a fumar impe­tuosamente. — Olhe, vamos deixar este assunto perfeitamente esclarecido, viu? A última vez que... que estivemos assim foi na­quele Natal, há uns dois anos, quando eu... bebi muito e...

— Não é verdade!

— É verdade, sim, Sophie! Que outra razão deveria haver para o que aconteceu?

— E o que aconteceu agora?

— Bem... agora... — Passou o dorso da mão em sua fronte porejada de suor. — Sabia que não devia ter vindo. Sabia... ou pelo menos adivinhava a que emoções você se entregou após aquele incidente entre nós.

— Incidente?

— Sim, incidente, Sophie. Meu Deus do céu, que outro nome você espera que eu dê a isso? Você não tem a menor noção de meus sentimentos depois... depois que a toquei. Eu fiquei mal... fiquei realmente mal do estômago, sabe? Eu, um homem su-postamente maduro e sensato, de vinte e oito anos, beijando uma garota de dezesseis...

— Não foi assim que a coisa aconteceu — ela negou, um tanto desesperadamente.

— Foi, sim, foi exatamente desse jeito. — Ele levantou os olhos para o céu. — Eu me desprezei profundamente.

— E você agora se despreza?

Ele voltou a cabeça a fim de contemplá-la.

— O que você acha?

Sophie deu de ombros, em um gesto de impotência, sentindo que as lágrimas queimavam-lhe os olhos.

— Não sei o que pensar.

— Não sabe? — Robert parecia sentir prazer em atormen­tá-la. — Meu Deus, Sophie, você sabe o que acaba de fazer? — Ele deu uma risada sombria. — Você é linda. Isto não é desculpa, bem sei, mas ajuda a explicar.

— Ajuda mesmo?

— Oh, pare com isso — ele murmurou, endireitando-se e com­primindo o cigarro no cinzeiro. — Você sabe muito bem o que fez, tão bem quanto eu. Você tem plena consciência do que levou aqueles dois soldados a oferecerem-se para carregar suas malas. Antes eu não tinha me dado conte da ameaça que você significa.

— Pare de me magoar.

— E por quê? Você não parece se importar a quem magoa, não é mesmo? Oh, Sophie, deixe de lado esse ar trágico! — Ele gradualmente recuperava o humor. — Muito bem, peço desculpas por aquilo que aconteceu. Acho que foi minha culpa.

— Não fale assim.

— Está certo, se você não quer desculpas, não as apresen­tarei. Sinto muito. Já estava esquecendo que vivemos em uma sociedade muito permissiva!

Seus dedos golpearam-lhe o rosto e ela ficou horrorizada contemplando as marcas que surgiram em sua pele queimada de sol. Prendeu a respiração.

— Oh, Robert! — exclamou, começando a chorar. — Desculpe... Robert aspirou profundamente e fez uma pausa.

— Tudo bem, Sophie — disse em tom firme. — Olhe, acho bom começarmos tudo de novo, viu? Você se livrou de todo esse emocionalismo e eu me permiti... bem, não quero mais tocar nesse assunto. Talvez seu pai tivesse razão. Talvez eu devesse mesmo vir a seu encontro. Para acabar de uma vez por todas com essa tolice...

— Meu pai? — Sophie enxugou os olhos com a manga do blazer. — O que meu pai sabe a respeito disso tudo? O que você quer dizer com isso?

Robert suspirou.

— Naturalmente eu lhe contei o que tinha acontecido.

— Você... não é possível!

— E por que não? Meu Deus, Sophie, quantas vezes mais será preciso lhe dizer? Eu estava enojado comigo mesmo. Pre­cisava fornecer uma justificativa para não voltar para Penn Warren enquanto você estivesse lá.

— Mas... mas havia aquele emprego no Oriente Médio...

— Não havia emprego algum. Ou pelo menos nada que durasse dois meses. Eu tive de contar a ele. Sentia-me envergonhado...

— Envergonhado! — Sophie balançou a cabeça de um lado para o outro. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo, sobretudo depois de ele tê-la beijado daquele jeito... — Oh, Robert, jamais o perdoarei!

— Não estou pedindo seu perdão! Estou apenas tentando mostrar-lhe como as coisas realmente são. Não quero que você continue a imaginar que o que aconteceu naquele Natal... fosse além de um impulso de momento...

— Mas não era, não! — ela disse chorando. Robert sacudiu a cabeça resigna da mente.

— Não, Sophie. Pensei que você fosse mais madura. Eu fui sua primeira experiência, mas o contrário certamente não é verdade! E foi apenas isso, Sophie.., uma experiência.

— Para mim, não — ela declarou soluçando. — Oh, não sei como você pode dizer uma coisa dessas depois do que aconteceu.

— Oh, meu Deus, Sophie! Sou apenas humano. Você pro­vocou o que aconteceu e sabe muito bem disso. Não me orgulho disso, mas como é que poderia saber que... — Ele interrom­peu-se e fez um gesto de impaciência. — Eu queria apenas tranquilizá-la, por causa da tempestade. Já a tranquilizei antes, lembra-se? Se bem me lembro, você veio uma vez a meu quarto no meio da noite, por causa de uma tempestade. Aquela época você tinha uns oito anos. Estava aterrorizada. Deixei-a ficar comigo, abracei-a, exatamente como fiz agora. O que aconteceu mais tarde não foi provocado por mim.

— Você é odioso! — ela exclamou com voz abafada. — Nunca imaginei que você pudesse ser tão... tão cruel, Robert.

Robert voltou a passar a mão no cabelo com uma veemência que denotava sua frustração. Contemplou a tempestade e soltou um murmúrio de alívio ao notar que finalmente a chuva amai­nava e que um arco-íris se formava por cima do lago, mais adiante, no vale. Ligou o motor, suspirando de satisfação, saiu do acostamento e voltou à pista inundada de chuva, controlando os pneus enlameados a fim de que não escorregassem.

— E melhor você se arrumar — comentou brevemente, en­quanto começavam a descer para o vale. Conwynneth surgiu logo depois que dobraram uma colina e já era possível distinguir os telhados cinza dos bangalôs que rodeavam a praça principal — Ou será que você quer explicar a todo mundo o que aconteceu?

Sophie vasculhou o bolso, procurando a gravata. Comprimiu os lábios fortemente, enquanto passava a gravata em torno do colarinho e a ajeitava. Sentiu-se perturbada, totalmente inca­paz de encarar o confronto com a família. Todas as esperanças e fantasias relativas a Robert tinham ficado abaladas durante aquela meia hora e a última coisa que ela desejava no mundo era ter de dar explicações desnecessárias. O que queria na verdade era refugiar-se em algum lugar e ficar escondida até que suas feridas não a magoassem tanto.

 

Penn Warren era uma velha mansão situada nos arredores da aldeia. Os Kemble a haviam

modernizado, mas muito da antiga atmosfera subsistia nas paredes cobertas por painéis de carvalho e nas enormes larei­ras. A medida que os rapazes cresciam, batiam constantemente com a cabeça nas vigas do teto, mas mesmo assim não admi­tiriam que a casa fosse reformada.

Para Sophie, a propriedade recordava os dias da infância e da adolescência. Evocava os longos dias de verão, quando na­dava ou pescava com os rapazes, ou jogava tênis no jardim; lembrava-se do outono com suas fogueiras e castanhas assadas; do inverno, quando a neve cobria inteiramente as árvores e eles se sentavam diante da lareira tomando canecas de vinho quente. Sempre fora feliz lá e era-lhe duplamente difícil aceitar que aquela felicidade dependera de seu amor por Robert.

Despertou na manha seguinte com um sentimento pouco habitual de depressão, que lhe causava uma dor incómoda por detrás dos olhos. A recordação dos acontecimentos da véspera voltou e ela se deitou de bruços, enterrando o rosto no traves­seiro. Oh, meu Deus, pensou desesperada, o que vou fazer?

Já estava quase na hora de jantar, quando chegaram, na véspera. Para seu alívio, o pai fora atender um paciente e somente Laura e Simon estavam lá para recebê-la. Pensou em Simon com afeto. Ele era tão tranquilizante, tão normal... Mos­trou-se extremamente contente por tê-la de volta; era tão bom, tão terno, tinha um gênio excelente... Tornou as coisas muito mais fáceis para ela e, apesar de ocasionalmente surpreendê-lo a olhar com uma expressão um tanto ansiosa, não achou que sua madrasta notasse algo de equívoco em seu relacionamento com Robert. Quando o pai voltou para casa, após o parto do quarto filho da sra. Jones, o jantar havia acabado e Sophie con­seguira controlar o nervosismo inicial. Robert saiu logo depois. Apresentou desculpas, pretextando ir visitar John Meredith, filho do latifundiário local, que estivera com ele na universidade, e ninguém reparou. Na realidade, se Sophie não estivesse tão en­volvida com sua própria infelicidade, teria notado que sua ma­drasta e Simon ficaram mais à vontade assim que Robert partiu.

Apoiou-se no cotovelo e ficou contemplando o despertador pousado sobre a mesa-de-cabeceira e seu tique-taque intermi­nável. Fora um presente dos rapazes quando ela fizera sete anos e ela se apegara demais àquele objeto, guardando-o como uma de suas mais caras lembranças.

Sentiu um sobressalto. Era possível que já fossem dez e meia? Tinha ficado acordada durante muito tempo, na noite anterior, ouvira o barulho do carro de Robert voltando... Mas por que ninguém a despertara? Deu de ombros. E por que haveria de querer que o fizessem? Era melhor entregar-se ao sono e esquecer o que tinha acontecido.

Mas não podia ficar na cama o dia inteiro. Devia dominar-se e agir normalmente, pelo menos em consideração a seus pais. Afinal de contas, nada mudara de verdade e era isso que mais a surpreendia. A situação não se alterara só porque suas ilusões tinham ficado abaladas. No que dizia respeito a Robert, ela ainda era a irmãzinha pela qual ele sempre tivera consideração.

Forçou-se a desviar o pensamento desse assunto. Naquele momento era quase impossível aceitar que jamais, em tempo algum, ele a encarara sob outro aspecto. Ela teria de aceitar o fato, claro, mas no momento a atitude mais sensata seria tentar comportar-se em relação a ele como sempre tinha feito. Seu relacionamento fora sempre tão profundo e satisfatório... Esperava que isso também não tivesse sido destruído. Quem sabe, no futuro, ele poderia sentir-se atraído por ela...

Com uma determinação que ignorava possuir, Sophie ba­nhou-se e vasculhava o guarda-roupa, à procura de um blue-jeans, quando bateram à porta.

— Quem é? — perguntou meio ansiosa, prendendo a respi­ração e sentindo-se aliviada ao ver que era sua madrasta.

— Ah, você já levantou! — ela exclamou, abrindo a porta e entrando com uma bandeja com suco de frutas, ovos e pre­sunto, torradas e geléia. — Eu ia lhe servir o café da manhã na cama. Você parecia um tanto cansada ontem à noite e eu disse a seu pai que com um bom descanso você se recuperaria.

Sophie forçou um sorriso.

— Estou muito bem, bem de verdade. Mas foi muita bondade

de sua parte, mamãe.

— Bem, por que não põe o roupão e volta para a cama? — sugeriu Laura, acomodando a bandeja na mesa-de-cabeceira. — Não há nada para fazer, você não tem a menor necessidade de se levantar. Seu pai foi fazer uma operação e só voltará dentro de meia hora. Então você poderá descer e tomar café com ele.

Sophie hesitou. Não tinha fome e a perspectiva de tomar todo aquele farto café da manhã a deixava enjoada. Mas talvez fosse melhor disfarçar a falta de apetite para não ser impor­tunada com perguntas.

— Está certo — concordou, pondo o roupão. — Vamos dar

uma chance à preguiça.

Laura pousou a bandeja sobre o colo de Sophie e ficou a contemplá-la pensativa, enquanto a garota engolia corajosa­mente o suco de frutas.

— Você está bem, querida? — perguntou inesperadamente. Sophie ficou ruborizada e quase engasgou com o suco.

— Claro que sim... Por que não deveria estar? Laura abanou a cabeça.

— Sim, claro. — Pez uma pausa. — Granam White esteve aqui na semana passada perguntando quando é que você ia voltar. Acho que ele está com vontade de vê-la.

Sophie pousou o copo.

— Graham White?

— Sim. Você o conhece. Seu pai e o dele de vez em quando

jogavam golfe.

— Oh, sim. — Sentindo o olhar de Laura, levantou o garfo e levou um pequeno cogumelo à boca. — Não o conheço tão bem assim. Ele está no ginásio, não é?

— Sim. — Laura mordeu o lábio. — Convidei-o para passar o fim de semana aqui. Acho que você e ele gostariam de jogar umas partidas de tênis.

— Oh, mamãe! — Sophie não conseguia disfarçar seu de­sapontamento. — Posso jogar tênis com Simon e... Robert!

— Eu sei. E tenho certeza de que Simon concordará com a maior boa vontade, mas Robert talvez esteja ocupado.

Sophie concentrou toda sua atenção no prato.

— Está certo, não me importo. Posso me divertir sozinha.

— Mas você deveria ter amigos de sua idade, Sophie! — protestou Laura. — Você passa tempo demais na companhia de Simon e Robert.

Sophie levantou os olhos.

— Sinceramente, mamãe, você não precisa fazer planos para mim. Sou perfeitamente capaz de tomar conta de mim. — Es­boçou um gesto desajeitado. — Na verdade, estou até pensando em arranjar um emprego.

A idéia acabara de lhe ocorrer, mas Laura não podia ter adivinhado, e seu rosto assumiu uma expressão ansiosa,

— Um emprego, Shophie? Acho que seu pai não ia querer que você fizesse uma coisa dessas.

— Por que não? Afinal de contas, não é má idéia.

— Bem... Você mal terminou o colégio. Acho que ele espera que você passe este ano conosco, antes de ir para a universidade.

— Ainda não resolvi se quero ir para a universidade, mamãe — disse calmamente.

— O quê? Não quer ir para a universidade? — Laura estava horrorizada. — Ora, não seja tola, Sophie, claro que você vai para a universidade. Seu pai tem grandes planos para você. Tenho certeza de que você não vai querer decepcioná-lo!

Sophie comprimiu os lábios.

— A universidade não é tudo.

— O que quer dizer com isso?

— Bem... eu... eu poderia querer fazer algo diferente. Ca­sar-me, por exemplo.

— Casar-se? — Laura sacudiu a cabeça com impaciência. — Sophie, você está dizendo uma bobagem e sabe muito bem disso. Meu Deus do céu, você só tem dezessete anos! É impos­sível que esteja pensando seriamente em abandonar seus es­tudos por algo tão remoto quanto o casamento!

Sophie respirou fundo.

— Como disse, ainda não tomei uma decisão.

— Tenho certeza de que, se você falar a respeito disso com seu pai, ele ficará muitíssimo magoado. Sei que ele gosta demais dos rapazes e sempre os tratou como se fossem seus filhos... mas na realidade eles não o são. Você é a filha dele. Certamente isto deve significar algo para você. E você há de permitir que ele faça por você o que fez pelos rapazes, não é mesmo?

Sophie ajeitou-se na cama, meio desapontada. Claro que Laura tinha razão. Se ela decidisse não prosseguir com os estudos, seu pai ficaria muito desapontado. E também muito magoado, se ela levasse a sinceridade até o fim. Suspirando, pôs a bandeja de lado.

— Sinto muito, mamãe. Não estou com muita fome. Laura, que tinha dado alguns passos em direção à porta, voltou até a cama. Parecia perturbada.

— Eu também sinto muito, Sophie. E sua primeira manhã em casa e já a estou deixando preocupada. Acho que no mo­mento é melhor deixar as coisas como estão. Não há pressa, seja qual for sua decisão.

Subitamente Sophie sentiu-se terrivelmente culpada.

— Oh, mamãe! — exclamou, pondo-se de joelhos e abraçando a madrasta. — Eu também não tinha intenção de preocupá-la. — Recuou e encarou-a. — Mas eu bem que poderia conseguir um emprego. Muita gente consegue. Mesmo... mesmo que seja... até eu entrar na. universidade,

A expressão de Laura desanuviou-se. Contemplou sua en­teada com afeto. Sempre tiveram um relacionamento excelente e ela não queria pôr tudo a perder.

— Muito bem, querida — ela concordou com um sorriso. — Falaremos a respeito disso. Mas já, já, não. Dê alguns dias a seu pai para que ele se acostume com a idéia de tê-la de volta. Você sabe como ele sente falta de você.

Sophie sentou-se nos calcanhares.

— Muito bem. — Olhou à sua volta. — Agora acho melhor me vestir. Quero sair e dar uma volta por aí.

Laura pegou a bandeja e saiu, aparentemente tranquilizada com a aquiescência de Sophie. Ela tirou o roupão e achou o blue-jeans no fundo do guarda-roupa. No verão anterior tomara um banho vestida, para que o blue-jeans ficasse bem apertado, mas agora mal conseguia entrar nele. Ganhara peso, e a roupa já não lhe servia mais. Suspirou. Era tudo o que ela tinha e teria que se arranjar assim mesmo até fazer umas compras. Com uma careta enfiou uma camisa de malha com o retrato de um ídolo de musica pop estampado na frente e passou uma escova pelo cabelo comprido e aloirado.

Encontrou-se com Simon saindo de seu quarto e, quando ele a viu, surgiu em seu rosto uma expressão de horror,

— Meu Deus! — ele exclamou bem-humorado. — Você não pretende sair à rua vestida desse jeito, não é?

Sophie não se ofendeu com a observação.

— Não gosta da minha roupa? Simon sorriu zombeteira mente.

— Oh, sim, gosto. Mas acho que quem não vai gostar é seu pai.

Sophie suspirou, puxando com impaciência a calça muito justa.

— Não posso fazer nada. Eu a encolhi no ano passado e agora está apertada demais.

— Ponha o casaco e irei com você até Hereford comprar outra — sugeriu Simon.

Sophie sentiu-se tentada a aceitar o convite, mas ainda não tinha descido a escada. Não sabia o que Robert estaria fazendo. A única coisa de que tinha certeza era que ele de modo algum a convidaria para ir em sua companhia.

— Não sei, não... — ela começou a falar muito sem jeito.

Simon assumiu uma expressão de tolerância.

— Rob não está em casa, foi velejar com John. Combinaram ontem à noite.

— Oh! Sei. — Sophie encaminhou-se para a escada. — Papai já voltou?

— Parece que é o carro dele que está chegando. — Fez uma pausa. — Então, vamos a Hereford?

— Muito bem. Se você quiser. — Ouviu os passos do pai, que galgavam os degraus da escada da frente. — Mas prometi que antes tomaria café com papai.

— Está certo. — Simon abriu a porta do quarto. — Estarei pronto dentro de meia hora.

Simon estava certo ao presumir que o dr. Kemble não apro­varia aquele blue-jeans tão indiscreto.

— Você não pode sair desse jeito. Sophie — ele exclamou, enquanto sentavam em seu estúdio, servindo-se de café. Laura, mos­trando muito teto, deixou-os a sós. e Sophie sentiu-se quase feliz, sentada na pesada poltrona de couro, naquele aposento atulhado de livros que ela tanto apreciava desde que se conhecia por gente.

— Simon disse que vai me levar a Hereford para comprar uma calça — ela replicou, tomando o café com evidente prazer.

— O único problema é...

Fez uma pausa e seu pai riu.

— Já sei. Você não tem dinheiro.

— Como foi que você adivinhou? — Sophie deu um muxoxo.

— Mamãe disse que compraria roupas para mim por esses dias. Tudo o que uso está ficando pequeno demais para mim.

— Isso não me surpreende — observou o dr. Kemble. — Você está crescendo, Sophie. Você agora é uma mulher.

— Sim. — Suas palavras tiveram o dom de evocar, com bastante clareza, o modo como Robert a tinha rejeitado.

Se o pai notou seu súbito retraimento, preferiu ignorar o fato e prosseguiu:

— Vá até a loja Levinsons. Sua mãe tem conta lá. Pode comprar o que quiser.

— Obrigada. — Sophie aparentava entusiasmo. — Mas não vou comprar muita coisa. Esperarei até que mamãe possa ir comigo.

— Está bem, como quiser. — Seu pai preenchia um cheque enquanto falava. — Tome. — Entregou-lhe o cheque e ela con­templou atônita a soma que seu pai havia escrito.

— Mas, papai...

— Leve-o até o banco e deposite-o em seu nome. Não quero que você tenha de me pedir dinheiro toda vez que desfiar a meia ou precisar de um batom novo.

— Mas, papai... — Sophie apontou para o cheque generoso.

— Com isso não vou precisar comprar meias e cosméticos du­rante anos!

O dr. Kemble guardou a caneta no bolso com um sorriso.

— Melhor para você. Mas acho que não vai durar tanto quanto você imagina. Tudo está cada vez mais caro e não quero ver minha filha forçada a fazer compras em liquidações.

— Oh, papai! — Sophie levantou-se e foi correndo abraçá-lo.

— Oh, papai, eu te amo!

— Eu também te amo — ele respondeu comovido, fazendo-a sentar-se em seu colo. No mesmo momento ela ficou tensa. A coisa durou apenas um momento. Aquela cena era por demais familiar; a mesma sala e até mesmo a mesma cadeira! Solu­çando, abraçou o pai e pôs-se a chorar.

Ele a deixou chorar por alguns minutos. Em seguida pôs o lenço em sua mão e disse:

— Já sei de tudo. Rob me contou. Ele também me disse que você... bem, que você reagiu muito mal. Meu bem, é natural. Rob é um homem muito atraente. Qualquer garota sentiria o mesmo. Mas você precisa ver as coisas como elas são. Rob é doze anos mais velho que você. Ele tem de viver a vida dele e você a sua. Agora vá lavar o rosto e apronte-se para sair com Simon. E... Sophie — acrescentou, enquanto ela parava tensa diante da porta —, não comece a pôr minhocas na cabeça também em relação a Simon, ouviu, querida?

Simon tinha uma perua, um veículo bem menos convencional que o carro elegante do irmão, e bem mais apropriado às es­tradas do interior, às vezes mal conservadas. Sophie colocara uma saia de lã creme, e uma blusa verde-oliva. Com os cabelos penteados para cima parecia muito mais velha, e Simon olhou-a duas vezes, enquanto ela caminhava em direção à perua.

— Você está bonita — ele comentou. — Podemos ir?

— Hum. — Sophie olhou para trás e acenou para o pai e a madrasta. — Estou pronta. Podemos ir, sim.

Como Laura dissera, a manhã estava feia, mas gradualmente o sol apareceu através das nuvens e, apesar de o dia não apre­sentar aquele calor úmido da véspera, continuava quente. Simon guiava calmamente e após alguns momentos Sophie sentiu que seus nervos tensos relaxavam. Será que Simon notara que ela estivera chorando? Se notou, não fez o menor comentário.

Hereford estava cheia de gente que tinha ido passar o fim de semana lá e eles tiveram dificuldade para estacionar. Con­seguiram uma vaga bem apertada entre um caminhão de en­tregas e um carro esporte. Simon trancou o carro e caminharam em direção à rua principal, onde a loja Levinsons ocupava quase um quarteirão.

— Você não precisa vir comigo à seção de adolescentes — disse-lhe Sophie, ao chegarem ao elevador,

Simon enfiou as mãos nos bolsos de seu paletó de camurça.

— Não quer que eu vá com você? Sophie suspirou.

— Achei que você não ia querer.

— Mas como? — Simon balançou a cabeça. — E arriscar ver você com um jeans semelhante àquele que você estava usando há pouco? — ele disse brincando.

Sophie sentiu uma comichão nos lábios.

— Está bem. Obrigada, Simon.

Entraram no elevador estreito e ela viu que ele a olhava com intensidade. A expressão de seu olhar mudou rapidamente e ele disse em tom ligeiro:

— Está certo. Eu me divertirei vendo as vitrinas.

Sophie comprou duas calças — uma feita de brim, seme­lhante à que ela tinha posto de lado, e outra de veludo amarelo. Escolheu também algumas blusas e uma saia comprida, de algodão. Simon aprovou sua escolha e assim que entraram na perua sugeriu que almoçassem na cidade.

— Mas mamãe não está à nossa espera? — perguntou Sop­hie, hesitante.

— Eu lhe disse que talvez nós almoçássemos fora. Hoje só vão servir pratos frios lá em casa, que não se estragarão se não estivermos lá.

— Está bem. Acho que vai ser gostoso.

— Ótimo. Onde iremos?

Comeram em um pequeno restaurante italiano que Simon des­cobrira algumas semanas antes em uma travessa do mercado. As mesas eram cobertas com toalhas vermelhas e o ar condicio­nado mantinha a temperatura do ambiente muito agradável. Co­meram ovos com anchova, costeletas de vitela cozidas na manteiga e, como sobremesa, pêssegos ao vinho. Sophie não conseguia re­sistir àqueles pratos deliciosos e almoçou muito bem. Finalmente recostou-se, incapaz de acabar o pêssego, mas sentindo-se muito bem. Simon contemplou com satisfação seu rosto corado e disse:

— E então, gostou?

Sophie tomou o último gole de vinho e assentiu:

— Sim, estava uma maravilha!

— Bem, foi a primeira refeição que você comeu desde que chegou em casa — observou Simon. — Você mal tocou em seu prato durante o jantar e eu vi a bandeja com o café da manhã quando minha mãe a trouxe para baixo hoje.

— Este restaurante funciona há muito tempo? Não me lem­bro de tê-lo visto por ocasião da Semana Santa.

— Acho que há uns três meses. — Simon apoiou os cotovelos na mesa, contemplando-a. — Sabia que nossos pais combina­ram que iremos todos à França em agosto?

— França? — Sophie contemplou-o surpreendida. — Não, não sabia. — Franziu o cenho- — Você falou no plural. A quem se refere?

— Você, eu, mamãe e papai, os Page...

— Oh, não! — gemeu Sophie. — Com Vicky Page, nunca!

— E os pais dela também. Mamãe e papai alugaram uma casa na Bretanha. — Simon fez uma careta. — É mesmo para ficar preocupado. Ela está atrás de mim e todo mundo sabe disso. Aliás, tenho certeza de que nossos pais aprovam. Afinal, ela é filha do veterinário, é um partido muito conveniente. Infelizmente, ela não me convém.

Sophie olhou-o com simpatia enquanto ele tomava o vinho.

— Acho que eles estão imaginando que já é tempo de você assumir um compromisso — opinou.

Os olhos de Simon não eram cinza como os de seu irmão, mas azuis. Tornaram-se sombrios quando pousaram sobre o rosto compreensivo de Sophie.

— Eu também acho — concordou. — Mas não há de ser com Vicky Page.

Sophie sentiu o rubor que invadia seu rosto e ficou contente que a iluminação fosse fraca, pois assim conseguiria disfarçar o constrangimento de que estava tomada. Não era possível, disse a si mesma. Não devia nunca imaginar semelhante coisa. Simon não estava, não podia estar interessado nela! Sua ex­periência com Robert a tinha ensinado sobre os perigos de interpretar mal uma situação.

— Espero que haja muitas outras garotas na aldeia a quem você possa escolher — exclamou apressadamente. — E, por outro lado, Hereford não fica tão longe...

— Sophie! — A mão de Simon deslizou pela mesa e cobriu a dela. — Pare de falar bobagens. Você sabe perfeitamente o que eu quero dizer. Não estou interessado nem nas garotas da aldeia, nem nas de Hereford, ou em qualquer outra. É você que eu quero e tenho certeza de que você sabe disso.

— Oh, Simon!

Sophie retirou a mão e colocou-a sobre o colo. Ele deu de ombros e recostou-se na cadeira.

— Está certo. Sei que você não sente a mesma coisa que eu. Mas você ainda é jovem demais para saber o que quer. — Tirou do bolso um maço de cigarros e pegou um deles. — Estou preparado para esperar. Mas veja lá se não casa com outra pessoa, enquanto isso.

Sophie sacudiu a cabeça, desarvorada.

— Oh, Simon — disse novamente. — Por que me diz uma coisa dessas?

Simon acendeu o cigarro e aspirou profundamente.

— Você parecia um bocado deprimida após... bem, após con­versar com Rob. Olhe, eu também sei da história. Rob me contou, na verdade, contou para todos nós. Fiquei muito zangado no mo­mento, mas agora superei o problema. Essas coisas acontecem. Acho que fazem parte do processo de amadurecimento. Sei que você sempre teve adoração por Rob, mas as coisas não deveriam ter passado daí, Sophie, creia-me! Rob é velho demais para você, é por demais experiente. Ele merece alguém como Emma.

— Emma? Emma Norton? — Sophie sentiu-se ligeiramente mal. Então ela ainda estava por perto... Tivera razão em supor que Emma não seria tão facilmente descartável como as suas outras namoradas.

— Bom, não vamos falar a respeito disso agora — disse Simon, chamando o garçom. — Que tal um pouco mais de café? Em seguida podemos dar um passeio pelo parque de Bre-con Beacons e chegaremos em casa a tempo de tomar chá. — Sorriu ao ver que Sophie tinha um ar de suspeita. — Não se preocupe, não vou tentar nada. A menos que você queira...

O Parque Nacional de Brecon Beacons estendia-se por uma região pontilhada de colinas e era um dos lugares mais belos do sul de Gales. Sophie costumava frequentá-lo com os pais, quando criança, e uma vez ela, Robert, Simon e alguns amigos acamparam lá durante um fim de semana. Era gostoso sair do carro e esticar as pernas. Ao longe despontavam as colinas de arenito vermelho. Numerosos regatos cortavam o parque e suas águas eram frescas e convidativas. Simon manteve a promessa de não tocá-la. Sophie relaxou e pôs-se a contemplar a paisagem, feliz.

Chegaram em Penn Warren pouco depois das cinco e viram um Jaguar creme ao lado do carro de Robert, diante da garagem.

— É o carro de John — observou Simon, em resposta ao olhar intrigado de Sophie. — Conhece John?

Sophie mordeu o lábio.

— Vagamente, acho. Ele não costumava aparecer muito por aqui, quando eu estava de férias.

Simon pós a perua na garagem e abriu a porta.

— Pois então venha ser apresentada a ele. Vai gostar dele. É noivo de Joanna White. Quando Emma está aqui, os quatro costumam sair juntos. — Ao notar que Sophie ficara tensa, ele indagou: — Você conhece Joanna, não é mesmo?

— Não é a irmã de Graham White?

— Isso mesmo.

— Ah, sim... — Nesse momento a expressão de Simon mu­dou. — Parece que você andou fazendo uma conquista, não? Graham esteve aqui na semana passada perguntando quando você estaria de volta.

— Já sei. Mamãe me contou. — Sophie sentiu-se grata por ele deixar de lado aquele assunto incômodo relativo a Emma e Robert. — Ela o convidou para vir aqui no fim de semana. Que bobagem! Nós apenas jogamos algumas partidas de ténis durante a Semana Santa.

— E o seu charme irresistível — observou Simon com uma ponta de ironia.

Robert e John Meredith estavam na sala de estar, debru­çados sobre a mesa coberta de mapas. Ambos levantaram os olhos quando Sophie e Simon surgiram na porta e imediata­mente se levantaram.

John Meredith não era tão alto quanto Robert, mas também era moreno e mais cheio de corpo. Seu sorriso era muito atraen­te e aproximou-se de Sophie sem disfarçar a admiração que sentia por ela.

— Olá, Sophie. — Cumprimentou-a com efusão. — Você é a Sophie, não é mesmo? Sei que é um clichê, mas, puxa! Como você mudou! — Pegara sua mão e continuava a segurá-la. — Da última vez que a vi você usava rabo-de-cavalo e short bem cur-tinho! — Seu sorriso tornou-se mais amplo e seus olhos percor­reram o corpo de Sophie, demorando-se em suas pernas esguias. — Acho que usar aquele short não era uma idéia tão má assim!

Sophie sentiu-se envolvida por aquela personalidade.

— É muito lisonjeiro, sr. Meredith — replicou rindo —, mas posso lhe garantir que jamais usei rabo-de-cavalo!

John sacudiu a cabeça.

— Então deve ter sido outra pessoa. Mas lembro-me de que você usava aquele short.

— Sinto muito, mas não consigo me lembrar do senhor.

— Costumo causar esse efeito sobre as pessoas... Por favor, chame-me de John. Ainda não tenho idade suficiente para ser seu pai, ouviu?

Robert interrompeu a conversa.

— Podemos terminar o que estávamos fazendo, John? — perguntou secamente. — Sabe, tenho um trabalho para fazer hoje à tarde.

John fez uma careta para Sophie e voltou-se para encarar Robert, piscando ao mesmo tempo para Simon.

— Está certo, está certo. Não seja tão impaciente. Você pode falar com esta linda criatura sempre que lhe convier...

— John, por favor! — Robert olhou para os mapas; John soltou a mão de Sophie e caminhou em direçào à mesa. Assim que Sophie e Simon deram as costas a fim de sair, Robert levantou novamente os olhos. — Onde foi que você esteve, Simon? — perguntou.

— Por aí.

— Onde?

— Almoçamos em Hereford e depois fomos até o parque nacional.

— Passaram o dia inteiro fora?

A expressão de Simon tornou-se tensa.

— Sim. Se você tivesse dito que queria um relatório, eu teria providenciado.

O semblante de Robert não era lá muito encorajador.

— Não acha que teria sido mais apropriado para Sophie passar o seu primeiro dia em casa, na companhia do pai? — insinuou, com uma ponta de agressividade.

Sophie corou e até mesmo John ficou um tanto sem jeito. Simon, porém, não perdeu a calma, apesar de um pouco tenso.

— Acho que você deveria cuidar de sua vida — respondeu sucintamente.

— É o que estou fazendo — retrucou Robert com frieza.

— Não é, não — replicou Simon, com idêntica atitude. — E se eu fosse você, ficaria quieto. Com Emma ou sem Emma, as pessoas podem achar que você está com ciúme!

Fez-se um momento de silêncio e Sophie achou que aquilo terminaria em uma cena de violência. Demonstrando grande presença de espírito, John disse: — Agora que você acabou, Robert, talvez possamos prosseguir. Eu também tenho muito trabalho para fazer hoje à tarde.

Simon deu as costas e saiu da sala, seguido por Sophie, que não olhou para trás. Nunca vira os irmãos reagirem desse modo antes e ficara perturbada. Alcançou Simon pouco antes de ele entrar na cozinha.

— Simon — disse, tocando-lhe o braço.

O rosto de Simon relaxou e ele conseguiu esboçar um ligeiro sorriso.

— Não foi nada, Sophie, não fique tão preocupada.

— Não, mesmo? — Sophie não podia acreditar.

— Não. — Simon suspirou, olhando-a com ar de resignação. — Algumas vezes penso que Robert mergulhou em uma situa­ção da qual ele gostaria de se safar.

Após essas palavras enigmáticas, abriu a porta da cozinha e entrou.

 

As duas semanas que se seguiram foram pródigas ie acontecimentos. O dr. Kemble viu-se às voltas com casos inesperados de sarampo e caxumba e Sophie ia com ele quase todas as manhãs para o consultório a fim de ajudar a sra. Lewis, sua enfermeira, a distribuir pílulas e remédios. Sen­tiu-se contente, pois aquela ocupação distraía seus pensamentos e permitia que ela passasse mais tempo na companhia do pai e menos na de seus meio-irmãos. Robert, ao que tudo indicava, tirara umas breves férias antes de voltar para seu trabalho no norte de Gales, mas raramente estava em casa e Sophie não tinha coragem de perguntar aonde ele ia ou o que estava fazendo. Simon, por outro lado, parecia satisfazer-se em não se ocupar com nada, feliz com as férias. Aparecia frequentemente no consultório, na hora do café, com desculpas um tanto esfarrapadas, dizendo que gostava demais do jeito como a sra. Lewis preparava o café.

Mais para o fim da segunda semana, Simon teve de ir a He-reford para sua mãe e no final daquela manhã Sophie deixou o consultório mais cedo, voltando a pé para casa. Ainda não tivera muito tempo de procurar suas antigas amizades na aldeia e gos­tava de perambular pela praça principal, jogando migalhas de pão para os patos no lago. Conwynneth era um lugar agradabi­líssimo, sobretudo naquelas manhãs quentes de verão. Os ban-galôs ao redor do parque competiam um com o outro para ver qual era o mais colorido. Os jardins estavam repletos de rosas, lírios, ervilhas-de-cheiro e gerânios, trepadeiras a emoldurar por­tas e janelas, e girassóis enormes dando uma nota inesperada­mente rústica àquela paisagem tão bem ordenada. Sophie não se lembrava de ter-se sentido tão bem ultimamente.

Caminhava pela estrada irregular que levava à sua casa quan­do um carro diminuiu a marcha e pôs-se a andar ao lado dela. Para sua grande surpresa reconheceu John Meredith ao volante.

— Olá, Sophie — ele disse, debruçando-se para fora da ja­nela. Seus olhos demonstravam com bastante eloquência o pra­zer que ele sentia ao contemplar seu corpo esbelto.

— Olá, sr. Meredith — ela respondeu, parando e cobrindo os olhos do sol. — Que linda manhã, não?

— Linda — ele concordou, mas não estava contemplando o dia...

Sophie sentiu-se pouco à vontade.

— Estava indo para casa. Faz calor e estou morta de vontade de tomar algo gelado.

— Até parece um convite! — ele observou, abrindo a porta. — Eu também gostaria muito de uma bebida gelada.

— Não tive a intenção de... isto é... Claro, se quiser uma cerveja, minha mãe terá o maior prazer em servi-lo.

John sacudiu a cabeça.

— Desculpe, Eu me exprimo mal. O que eu quis dizer na verdade é... Permite que eu a convide para beber algo?      

Sophie começou a sacudir a cabeça.

— Ainda não tenho dezoito anos... Ele sorriu.

— Minha casa não fica muito longe. Venha comigo, vamos tomar uma cerveja. — Fez uma pausa. — Não gostaria de nadar? Meu pai construiu uma piscina no ano passado.

Sophie não sabia o que dizer. Seu convite era tentador, mas ela mal o conhecia. O fato de Robert ser seu amigo não era suficiente recomendação.

— Terei... de consultar minha mãe — ela disse finalmente.

— Muito bem. — John não perdeu a gentileza. — Entre no carro e eu a levarei até sua casa. Chegando lá você pode pegar o maiô.

— Tem certeza de que ela me dará permissão, não é mesmo? — comentou Sophie secamente, entrando no carro.

John sorriu para ela.

— Por que não? Se meu convite fosse suspeito, eu não a levaria até em casa, não é mesmo?

Sophie teve de admitir que ele estava certo e dentro de alguns minutos saltou do Jaguar e entrou correndo em casa. A sra. Forrest, a diarista, estava arrumando o hall, e Sophie perguntou:

— Onde está mamãe, sra. Forrest?

— Foi até Hereford com o sr. Simon, senhorita. Não queria ir, mas acabou decidindo no último minuto. Por quê? É alguma coisa importante?

Sophie reprimiu um suspiro de impaciência.

— Oh, não, não é importante. — Mordeu o lábio. — E Robert? Ele está?

— Não, senhorita. Estou sozinha em casa. Já tomou café? Quer que eu lhe faça?

— Oh, não, não. Eu tomei café com meu pai, lá no consultório. Vim apenas para pegar o meu maiô.

— Seu maiô? — A sra. Forrest sacudiu a cabeça. — Vai tomar banho de sol? Tome cuidado para não se queimar demais.

Assim que tomou sua decisão, Sophie subiu para o quarto.

— Não se preocupe, sra. Forrest — gritou.

Quando entrou no carro, alguns minutos mais tarde, usava um biquini sob a blusa e o jeans e carregava uma toalha.

— Tudo bem? — perguntou John. Sophie hesitou.

— Sim, tudo bem.

Nunca estivera no castelo e a perspectiva a deixava muito excitada. Já ouvira falar a respeito, claro. Os Meredith eram vistos como os fidalgos locais e tudo o que faziam era muito comentado. Visitar o castelo sozinha era uma grande novidade e olhou à sua volta, interessada.

O castelo era uma edificação de pedras amareladas e refletia os estilos arquitetônicos de diversos períodos. A planta original datava dos fins do século XVII, mas os sucessivos proprietários haviam modificado a tal ponto sua aparência que agora ele não se encaixava em nenhum período específico. Mesmo assim, era uma construção muito atraente, com numerosas janelas e balcões dando para o bosque que o rodeava.

John parou o carro ao lado da casa e quando Sophie desceu ele já estava ao lado dela.

— Por aqui — disse, guiando-a por uma pequena alameda que corria por entre arbustos e dava para os fundos da casa. — Ao que parece, Verônica e seus amigos já estão na piscina.

Sophie sentiu-se um tanto relutante. Nunca fora apresentada a Verônica Meredith, e a perspectiva de conhecer a irmã de Johm e um grupo de pessoas que jamais vira deixava-a pouco à vontade

— Talvez seja melhor eu ir embora... — gaguejou muito sem jeito, porém John voltou-se e segurou-lhe a mão.

— Por quê? — indagou em tom de desafio. — Você não está com medo de ficar conhecendo gente, não é?

— Não, mas... — Sophie fez um gesto de impotência. Era difícil explicar; não era sua namorada e não tinha o direito de estar em sua companhia. — E Joanna? — conseguiu dizer

John deu aquele seu sorriso tão característico. — Deixe que eu me preocupe com Joanna, está bem? — ele sugeriu, levan­do-a até um pátio iluminado de sol.

A piscina era toda revestida de azulejos azuis e o sol brilhava. Alguns jovens se divertiam na piscina e em redor dela havia nu­merosas espreguiçadeiras e mesinhas laqueadas de branco, dando ao ambiente uma aparência quase tropical. Todos chamaram por John, ao mesmo tempo que percorriam Sophie com o olhar.

— Primeiro um drinque — comentou John, soltando sua mão e dirigindo-se para uma mesa no terraço, que ocupava todo o fundo da casa. — O que quer tomar? Cerveja, uísque, refrigerante?

Sophie olhou a quantidade de garrafas que se espalhavam pela mesa.

— Oh... acho que um refrigerante.

John continuou a sorrir para ela enquanto abria a garrafa e a estendia para Sophie. — Quer copo ou canudinho?

— Pode deixar que eu me ajeito — respondeu Sophie, incapaz de resistir a seu sorriso. Ele abriu uma garrafa de cerveja, levando-a aos lábios e bebendo, cheio de sede.

Sophie estava copiando seu exemplo quando notou que uma garota, alguns anos mais velha que ela, saía da piscina e apro­ximava-se deles. Olhou curiosamente para Sophie, concedeu um breve sorriso de boas-vindas e voltou-se para John.

— E então? — interpelou-o. — Por onde foi que você andou? John jogou a garrafa vazia no cesto de lixo.

— Oi, Ronnie. Permita apresentar-lhe a irmã de Rob, Sophie. Sophie, está é minha irmã, Verônica.

Verônica estendeu a mão molhada mas retirou-a imediata­mente. — Desculpe, estou encharcada. Olá, Sophie. Você acaba de sair da escola, não é mesmo?

—Terminei o colégio — declarou Sophie, sem muito entusiasmo.

—É mesmo? — Verônica não se exprimia com muito calor.

olhou à sua volta. — Você conhece toda a turma, não é mesmo, John? Apresente Sophie a todos. — Fez uma pausa. — Antes que eu me esqueça, Joanna telefonou. Acho que ela esperava que você a levasse para almoçar.

Os lábios de John se comprimiram.

— Tem certeza, Ron?

Para grande surpresa de Sophie, Verônica ficou rubra.

— Bem, ela telefonou — declarou irritada. — Espero que volte a telefonar.

— Espero que sim — concordou John em tom amistoso. Olhou para Sophie com firmeza e perguntou: — Está com von­tade de nadar ou quer mais uma bebida?

Sophie olhou muito sem jeito para Verônica e com uma ex­clamação de impaciência esta se afastou.

— Acho que sua irmã não está gostando muito — murmurou, pouco à vontade.

John estendeu a mão e ajeitou uma mecha do seu cabelo sedoso.

— Quer saber de uma coisa? — perguntou. — Estou pouco ligando.

Os demais convidados não estavam tão preocupados com o comportamento de John. Era divertido brincar na piscina e, apesar de inicialmente a água estar fria como gelo, Sophie acostumou-se rapidamente. As pessoas se chamavam pelos nomes e de vez em quando Sophie notava que os jovens faziam comentários a seu respeito. Ela estava gostando da brincadeira e não se importava. Sempre vivera entre rapazes e moças e não sentia a menor di­ficuldade em comunicar-se com o sexo oposto.

Seu cabelo gotejava e ela não tinha a menor idéia de que horas seriam quando notou aquela figura no meio do pátio, fitando-os. Era um homem alto e esguio, usava um elegante terno cinza e seus traços eram firmes. Era Robert e, no mesmo instante, a autoconfiança dela desapareceu. John também o vira, pois saía da piscina e caminhava em sua direção.

Olá, Rob!

— Entre na piscina, vamos!

todos o cumprimentaram, mas ele não respondeu. Estava falando com John, e Sophie sentiu o mesmo clima de agressi­vidade que ocorrera entre ele e Simon.

— Acho que seu irmão não aprovou o fato de John tê-la trazido aqui — comentou uma voz irônica a seu ouvido. Ao voltar-se, Sophie deu com Verônica bem atrás dela.

Ela deu de ombros, pois achava que tudo aquilo não passava de uma casualidade.

— Não posso imaginar por quê.

— Não mesmo? — Verônica lançou-lhe um olhar penetrante.

— Você sabe que John é noivo, não é mesmo? Você gostaria que seu noivo saísse com mais alguém?

Sophie respirou fundo.

— John e eu... não é nada do que você está pensando!

— Conheço meu irmão melhor do que você, Sophie. Vi o modo como ele a encarava. Acredite em mim, John está inte­ressado em você. — Sorriu. — Talvez eu não devesse ter-lhe dito, mas... bem, acho que você não é o tipo de pessoa que tiraria vantagem de um fato desses.

Sophie saiu da piscina.

— Obrigada — conseguiu dizer com voz trêmula, encami­nhando-se para o lugar onde tinha deixado a toalha, sem olhar na direção de Robert. John viu-a, porém, e chamou-a. Cobrindo os ombros com a toalha, Sophie aproximou-se dos dois. Con­centrou toda sua atenção em John e tentou não se sentir in­timidada pela expressão zangada de Robert.

— Sinto muito, mas acho que você vai ter de partir, Sophie

— disse John, pesaroso. — Seu irmão veio buscá-la. Estava tentando convencê-lo de que não pretendia raptá-la. Ele disse que você não comunicou a ninguém aonde ia.

— Oh! — Desta vez Sophie teve de olhar para Robert e estremeceu, ao notar a frieza de seu olhar. — Não havia a quem eu pudesse avisar. Mamãe tinha ido a Hereford com Simon e papai ainda estava no consultório.

— Você podia ter comunicado seu paradeiro à sra. Forrest

— retrucou Robert. — Imagine que estou à sua procura há pelo menos meia hora! Seu pai está morto de preocupação. Felizmente minha mãe e Simon ainda não voltaram, caso con­trário teriam ficado muito ansiosos. Você realmente é a pessoa menos cheia de consideração que já tive o azar de conhecer!

O rosto de Sophie ficou lívido e John contemplou a ambos com evidente constrangimento.

— Puxa, Rob — murmurou —, isto é um bocado forte, não? Se alguém merece a culpa, esse alguém sou eu. Fui eu quem convidou Sophie para vir aqui.

Robert respirou fundo, fazendo o possível para se controlar.

— Ponha sua roupa, Sophie — disse. — Vamos para casa. Sophie hesitou durante um momento e saiu correndo para

os vestiários do outro lado da piscina. Havia deixado as roupas lá e, cheia de pressa, enxugou o corpo e vestiu-se. Torceu o biquini minúsculo e encaminhou-se para Robert, que ainda falava com John.

— Estou pronta — disse, muito tensa.

— Bom. — Robert acenou para John e encaminhou-se para onde o carro estava estacionado, mas John tomou Sophie pelo braço, detendo-a por um momento.

— Sinto muito — ele disse, encarando-a.

— Não é culpa sua.

— Talvez não, mas quem haveria de pensar que Robert ficaria tão incomodado? — Deu de ombros. — Quando posso vê-la novamente?

Sophie percebeu que Robert detivera-se mais adiante e os olhava.

— Você não está falando sério! — ela murmurou.

— Por que não?

E na verdade, por que não? Sophie balançou a cabeça.

— Tenho de ir andando. — Desvencilhou-se dele. — Posso lhe telefonar? — ele insistiu.

Sophie lançou-lhe um olhar perturbado.

— Eu... bem, acho que sim — assentiu, caminhando em direçào a Robert.

O carro de Robert estava estacionado ao lado do Jaguar e ele já estava sentado quando Sophie o alcançou. Ela abriu a porta e entrou rapidamente. Ele deu a partida e saiu a toda, fazendo os pneus rangerem ao deslizar sobre a alameda coberta de cascalho. Não disse uma palavra até chegarem ao portão do parque, e então pediu:

— Quer fazer o favor de abrir o portão? — A frase foi dita com o máximo de controle.

— Abra-o você mesmo! — retrucou Sophie, olhando furio­samente para fora da janela.

Robert brecou violentamente e ela foi projetada para a fren­te, quase batendo com a cabeça. Recompôs-se e olhou-o indig­nada enquanto ele abria a porta e saía. Atravessou o portão, desceu novamente e trancou-o.

Aquela altura a agressividade de Sophie diminuíra e ela quase se arrependeu por não ter aberto o portão para ele. Afinal de contas, seu pai deveria estar muito preocupado...

— Sinto muito por estar lhe dando todo esse trabalho — ela disse, bastante tensa. — E sinto também que papai tenha ficado preocupado. Mas isto não lhe dá o direito de falar assim comigo na frente de... de um estranho!

Robert não disse nada. Encaminhou-se para a estrada estreita que atravessava os campos e acelerou em direção à aldeia. Sophie encarou-o, revoltada. Ele parecia tão calmo, tão atraente, en­quanto ela estava rubra de indignação e toda desarrumada. Sentiu quanto era jovem e imatura e admirou-se por ter ousado provocá-lo há duas semanas, quando ele a recebera na estação.

— O que você quer que eu diga? — ela explodiu finalmente, incapaz de suportar aquele silêncio tenso por mais tempo.

Robert olhou para ela. Suas pestanas eram longas e espessas e velavam o frio de seu olhar. Ele parecia desligado e distante. Seria mesmo possível que ela tivesse compartilhado sua cama, em uma noite de tempestade? Procurado refúgio em seu corpo rijo e quente, pleno de amor e afeto? Não era possível, sobretudo pelo modo como ele a encarava naquele momento.

Ele voltara sua atenção para a estrada e os arredores da aldeia surgiam diante deles.

— Eu, particularmente, não quero que você diga nada — ele falou, afinal, com severidade. — Apenas não desapareça dessa forma, sem dizer aonde é que você vai! Sophie deu de ombros.

— Que estardalhaço!

— E no seu lugar eu não me envolveria com John Meredith — prosseguiu Robert, como se ela não tivesse dite nada. — Ele tem uma noiva e é bem provável que ela crie um caso.

— Sei disso. Não sou criança! — ela declarou ressentida. Robert lançou-lhe um olhar carregado de significação e ela

sentiu vontade de chorar.

— Por que... por que é que você precisa se comportar desse jeito tão horrível comigo o tempo todo? — ela exclamou em atitude de defesa. — Nós... nós costumávamos ser amigos!

Robert entrou pelo portão e parou diante da casa. Sophie estava ofegante e forçou a porta para sair imediatamente e colocar entre ambos a maior distância possível. A porta, en­tretanto, não cedia, e ela forçou-a, estremecendo no momento em que ele disse lacônica mente:

— Está trancada.

Ela então voltou-se e o encarou.

— Quer fazer o favor de abrir?

— Só um minuto. — Robert respirou fundo e, esforçando-se visivelmente, disse: — Peço-lhe desculpas, Sophie. Não devia ter falado com você naqueles termos diante de John. Atribua isso a... uma reação exagerada, se quiser. Sinto muito.

Sophie sentiu-se tão aliviada que imediatamente a ale­gria voltou.

— Está bem, Robert — ela o desculpou, tomada de insegu­rança, desejando que ele a encarasse.

Ele voltou-se, apoiando a mão no encosto de seu banco. Não sorria, mas seu rosto já não estava mais sombrio.

— Tenho de ir a Gloucester hoje à tarde. Gostaria de ir também? A boca de Sophie secou.

— Você quer que eu vá? Seus lábios se comprimiram.

— Eu não a teria convidado se não quisesse, não é mesmo? Ela baixou a cabeça e os cabelos encharcados cobriram-lhe

o rosto.

— Devo estar com uma aparência deplorável — disse, sem saber exatamente por que falara daquele jeito.

— Você não quer ir? — ele perguntou brevemente.

Ela então o olhou e havia luminosidade em seus olhos verdes.

— Você sabe que quero.

Robert contemplou-a por um longo momento e então abriu a porta.

— Pois então sugiro que você pare de dizer tolices e vá se aprontar. Sairemos logo depois do almoço.

O pai de Sophie ficou surpreendido ao saber que ela estivera no castelo mas, para seu grande alívio, pareceu pensar que ela tinha sido suficientemente castigada. Disse simplesmente

que ela deveria sempre comunicar aonde ia e foi tomar um aperitivo antes do almoço.

Simon e a madrasta chegaram quando ela estava secando o cabelo. Ela apressou-se, vestiu uma blusa de jérsei e a saia longa de algodão que comprara em Hereford.

Robert comunicou à família durante o almoço que ele e Sop-hie iam a Glemcester naquela tarde e a notícia foi recebida com sentimentos contraditórios. Laura demonstrou um entu­siasmo moderado, seu pai exprimiu claramente suas objeções e Simon opôs-se decididamente à idéia.

— Ia sugerir a Sophie que fosse comigo à praia, pois o dia está quente demais — comentou, irritado. — O que ela vai fazer em Gloucester? As cidades não são o melhor lugar para se passar uma tarde como esta! Ela se divertiria muito mais se fosse à praia e nadasse, não é mesmo, Sophie? Antes que Sophie pudesse replicar, Robert disse:

— Já que Sophie foi nadar hoje de manhã, ela até que gostaria de mudar de cenário, não é mesmo? — Havia frieza e ironia em sua voz.

— Sophie... foi nadar...

Simon ficou nitidamente confuso e até mesmo Laura parecia surpreendida.

— Fui até o castelo — disse ela apressadamente. — Encon­trei-me com John Meredith quando voltava do consultório. Ele me convidou...

Simon estava atônito.

— Você não me disse.

— Não tive a oportunidade.

— Mas por que John haveria de convidar você para ir ao castelo? — perguntou Laura.

Robert encarou sua mãe,

— Você não precisa de uma resposta para isso, não é mesmo? Laura estremeceu e olhou para o marido.

— Mas Sophie... é tão jovem!

— Ela fará dezoito anos em novembro — comentou Simon com impaciência. — Não se pode considerar um bebê alguém que já tem idade suficiente para votar, não é mesmo?

— Mesmo assim... — Laura sacudiu a cabeça. — E de qual­quer maneira John é noivo.

— O fato de ser noivo não priva necessariamente alguém da visão, Laura — comentou o dr. Kemble, lançando um olhar pe­netrante sobre Robert. Em seguida afastou a cadeira da mesa. — Agora vocês vão me dar licença, tomarei o café no escritório. Quero tirar uma soneca antes de ir a High Apsdale. Prometi a Martin Evans que ia dar uma olhada em Doris. Ela não gosta de vir ao consultório e ele está novamente preocupado com sua pressão.

Assim que seu pai se retirou da mesa, Sophie empilhou os pratos sujos.

— Pode deixar que eu lavo — se ofereceu, mas Laura recusou.

— Não, não se incomode, a sra. Forrest pode me ajudar mais tarde. — Fitou seu filho mais velho. — Vocês já vão?

— Sim, em cinco minutos — declarou Robert, levantando-se e saindo da sala. Em seguida Simon levantou-se também e seguiu-o. Sophie olhou para a madrasta, meio desarvorada.

— O que devo fazer? Laura deu de ombros.

Ir com Robert, claro. Você disse que iria, não é mesmo?

— Sim, mas...

— Lembre-se de que Emma existe — interrompeu-a Laura, levando os pratos para a cozinha.

Assim que ela saiu, Sophie contemplou a mesa, pensativa. O que sua madrasta queria dizer? Comprimiu os lábios. Robert estaria seriamente comprometido com Emma Norton?

Ela se levantou da mesa e atravessou a sala, contemplando pensativa o gramado através da janela. Simon lhe dissera que Robert e Emma tinham saído com John Meredith e sua na­morada. Ele estaria querendo dizer que Robert também estava pensando em ficar noivo? Fora por esta razão que Robert a repelira tão cruelmente quando ela lhe revelou suas tolas fan­tasias? Sentiu um aperto na garganta. Não era possível que Robert estivesse pensando em se casar com Emma Norton! Ela absolutamente não era seu tipo! — Você está pronta?

O tom calmo de Robert colheu-a de surpresa e ela voltou-se rapidamente, tomada de um sentimento de culpa. As calças dele, apertadas, moldavam seu corpo esguio e os músculos poderosos das coxas saltavam sob o tecido fino. Ele estava bronzeado e perturbadoramente atraente. Seu rosto moreno a atraía podero­samente e ela tornou-se intensamente consciente de sua presença. Olhou muito sem jeito para a saia longa de algodão e a blusa de jérsei. Diante daquela sua elegância tão pouco estu­dada sentia-se penosamente consciente de suas limitações. Sus­pirando, disse:

— Estou bem vestida? Robert sorriu ligeiramente.

— Claro.

Sophie interrogou-o:

— Tem certeza? Aonde vamos? Será que devo pôr uma roupa mais formal?

— Deixe disso, Sophie! — Havia uma nota de impaciência em sua voz. — Não temos o dia inteiro à nossa disposição.

— Então talvez seja melhor você ir sozinho! — retrucou Sophie, molestada por sua indiferença.

Robert atravessou a sala e cingiu-lhe a cintura.

— Você está muito bem — disse com firmeza. — Gosto desta saia. Ela lhe cai bem. E agora, vamos?

Sophie sorriu para ele ao perceber que Simon estava parado diante da porta da entrada. Seu rosto estava soturno e ele, em um gesto de desagrado, enterrou as mãos nos bolsos.

— Então você vai mesmo? — ele disse. Era mais uma afir­mativa do que uma pergunta.

— Sim, nós vamos — disse Robert, segurando Sophie pelo braço. — Se você não tiver objeções, claro.

— Tenho muitas — retrucou Simon, bloqueando a porta. — Que tipo de brincadeira é essa que você está fazendo?

— Oh, Simon, por favor...

Sophie sentiu-se mal. Pela segunda vez em um único dia ela se tornava o pomo de discórdia entre Robert e outro homem. Nunca lhe passara pela cabeça que a vida pudesse ser tão complicada.

— Deixe-me passar, Simon.

— E se eu não deixar? — Simon mostrava-se agressivo.

— O que está acontecendo por aqui? — A voz suave de Laura nunca fora ouvida com tanto prazer por Sophie. Ela afastou Simon e disse: — Você já vai, Robert? Os Page virão para o jantar. Não viram Sophie desde que ela voltou.

Sophie pensou por um momento que Robert iria continuar discutindo com o irmão. Subitamente, seus dedos, que lhe com­primiam violentamente o pulso, relaxaram e ela sentiu o sangue refluir à sua mão quase adormecida.

— Não nos atrasaremos — ele prometeu. — Até mais! — Indicou a Sophie que passasse diante dele e saíram da sala.

 

As pernas de Sophie tremiam quando entrou no carro, e ela ficou contente por estar de saia com­prida. Jamais teria acreditado que Simon, tão cordato, tão amável, pudesse comportar-se daquela maneira. Robert... bem, Robert era um caso à parte. Ele sempre fora um tanto imprevisível...

Ele dirigiu depressa através da aldeia. Assim que deixaram para trás as últimas casas, pegou um maço de cigarros e acen­deu um. Somente então e!a notou que as mãos dele tremiam e isso a tranquilizou até certo ponto. Não gostava de ver os irmãos brigarem por causa dela.

As janelas do carro estavam abertas, deixando entrar uma brisa agradável. Sophie recostou-se no assento e tentou relaxar. Estava na companhia de Robert e tinham toda a tarde diante de si. Então, por que não estava contente?

Seus movimentos atraíram a atenção de Robert, ele olhou-a de relance e disse:

— O que há com você e Simon? O que ele anda lhe falando a meu respeito?

Sophie sentiu-se chocada.

— Ele não me falou absolutamente nada a seu respeito.

— Não? — Robert parecia cético. — Neste caso, o que ele lhe falou a respeito dele mesmo?

Sophie encarou-o e, ao deparar-se com seus olhos cinza, des­viou o olhar.

— O que ele poderia me dizer?

Robert sacudiu a cabeça, fumando nervosamente.

— Ele não é responsável por você, não é mesmo?

— O que você quer dizer com isso?

— Não gosto do modo como ele age em relação a você, como se fosse pessoalmente responsável por seu bem-estar.

— Pois esta manhã você se comportou exatamente assim — disse ela com calma. — Você também não é responsável por mim.

Fez-se um silêncio incômodo durante alguns minutos. Ela notou que ele estava irritado, porque jogou fora o cigarro consumido pela metade, acendeu outro, distraído, e então disse bruscamente:

— Não quero que você se envolva emocionalmente com Simon! Sophie ficou espantada com sua audácia.

— Acho que isto não lhe diz respeito! Robert olhou-a de soslaio.

— Pois farei com que diga. Sophie respirou fundo.

— E isso também se aplica a John Meredith?

— Claro.

— Claro. — Sophie imitou o seu tom. — É claro, você me comunicará quando descobrir alguém suficientemente aceitável para se envolver comigo, não é? — ela indagou com ironia.

— Eu já lhe disse: você é jovem demais para se envolver com quem quer que seja. Oh, pelo amor de Deus, Sophie, como é que pode lhe passar pela cabeça ter um relacionamento com Simon?

— E eu disse que tinha? Seu rosto ficou tenso.

— Não. Mas sei como Simon se sente em relação a você.

— Será que cabe a você me dizer isto? — ela indagou em tom de desafio.

— Por que não? Ele mesmo já lhe disse, não é?

— Como é que você sabe? Robert brecou violentamente.

— Porque ele mesmo me contou — respondeu furioso-

— Percebo. — Sophie olhou para suas mãos. — Bem, seja o que for, não lhe diz respeito. Você tem Emma, não é?

O rosto de Robert assumiu uma expressão selvagem.

— Quem lhe disse isto?

Ela notou sua fúria e voltou novamente a atenção para as mãos, que tornavam a tremer.

— Será que tem importância? É verdade, não é? Você está pensando em ficar noivo dela, não?

— Pensando... em ficar noivo... — Robert repetiu suas palavras como se não as compreendesse e logo se recompôs. — Prefiro não discutir este assunto agora, se você não se incomoda.

— Oh, não. — Sophie olhou para ele com desprezo. — Não tenho o direito de lhe fazer perguntas, não é? Você quer que as coisas aconteçam de acordo com seus desejos. — Disfarçou sua dor por ele não desmentir o noivado. — Pois bem, farei o que eu quiser, ouviu? E se... se seu amigo John Meredith con­vidar-me para sair novamente, não recusarei!

O silêncio pairou pesadamente entre eles e Sophie se sentiu preocupada. Por que viera com ele? Parecia que era impossível ficarem juntos sem passarem o tempo todo magoando-se um ao outro. Ele, pelo menos, a magoara. Já não tinha mais tanta certeza assim de seu sucesso.

Finalmente, Robert disse com dificuldade:

— Olhe, temos toda a tarde diante de nós. Vamos tentar nos comportar como gente civilizada e tratar um ao outro com delicadeza? Acho que não vou conseguir aguentar desentendi­mentos durante muito tempo!

Sophie encarou-o com indiferença estudada, mas as palavras dele atingiram-na profundamente.

— Você não prefere voltar?

Robert então olhou para ela e, retirando a mão do volante, agarrou seu joelho através do tecido fino da saia.

— Não — ele disse com firmeza. — Não quero voltar! Sophie sentiu-se a ponto de chorar e pousou a mão sobre

a dele, até que seus dedos se entrelaçaram. Ele não voltou a olhá-la, mas guiou o resto da viagem com uma mão apenas.

Gloucester, à semelhança de Hereford, atraía os turistas, ansiosos para explorar os aspectos antigos da cidade. Casas com telhados de duas-águas e vigas aparentes preservavam a atmosfera da Inglaterra elisabetana, enquanto a catedral re-fletia todos os estilos da arquitetura gótica. Sophie passara muitas horas felizes na catedral, explorando as capelas, os claustros e os túmulos de pessoas famosas.

Robert colocou o carro no estacionamento diante da catedral e, quando saíram à luz do sol, disse:

— Tenho de dar um pulo até o escritório da companhia, em Henry Street, Sophie. Para você seria um tanto aborrecido-Não quer se distrair com alguma coisa durante uma hora e em seguida iremos a um salão de chá?

Sophie mal conseguiu disfarçar seu desapontamento. Desde que tinham saído do carro Robert não fizera a menor tentativa de tocá-la e agora queria abandoná-la.

— Muito bem — concordou sem entusiasmo.

Ele estendeu a mão e tocou-lhe o rosto.

— Não fique assim — ordenou ele quase impaciente. — Há uma ótima livraria ao lado da catedral. Se você se interessar, voltarei antes que tenha tempo de sentir minha falta.

Sophie sorriu ligeiramente.

— Vamos fazer uma aposta?

Robert parecia a ponto de dizer algo mais e então deu-lhe as costas abruptamente.

— Está certo — resmungou. — Eu me encontro com você na livraria Rhymers às quatro horas. Comporte-se.

Fez um gesto breve com a cabeça e afastou-se.

Por coincidência, Sophie encontrou uma de suas antigas co­legas na livraria. Sally Vincent morava em Gloucester, mas deixara a escola no Natal anterior e elas perderam contato.

— Mas que maravilha! — exclamou Sally. — Precisamos trocar nossos endereços, Sophie. Queria lhe telefonar desde que saí da escola, mas você sabe como são essas coisas...

— Sim — sorriu Sophie. — Eu...

— Estivemos viajando pelo exterior, Mamãe tem uma prima distante que se casou com um negociante austríaco, e ficamos hospedados com ele. Foi fantástico. Já esteve na Áustria?

— Não, mas...

— As estações são tão definidas... No inverno, esqui, trenós, todos os esportes e no verão é deliciosamente quente! Você acabou a escola, já decidiu o que vai fazer?

Sophie conseguia encaixar uma palavra ou outra em meio à conversa. Sentiu-se aliviada diante da prosa interminável de Sally, após a tensão precedente e, quando Robert voltou, já tinham trocado endereços e números de telefone. Robert aproximou-se, abrindo caminho por entre os numerosos clientes da livraria, e franziu o cenho ao constatar que Sophie não estava sozinha, Sally olhou admirada para o companheiro da amiga e, cutucando Sophie, disse:

— Você não vai me apresentar?

Sophie fez as apresentações com alguma relutância. Sally era muito atraente e o ciúme apoderou-se dela ao notar que sua amiga intuíra a verdadeira natureza de seu relacionamento. Seus olhos brilharam, intrigados, e ela se pôs a conversar com Robert com a maior desenvoltura, lançando mão de seu encanto. Robert re­laxou, parecendo tranquilo e amável. Sophie, entretanto, sentiu-se completamente à parte desde o momento em que ele apareceu.

— Olhem aqui — exclamou Sally —, por que você e seu... hum... seu irmão não vêm jantar em minha casa hoje à noite, Sophie? Somente papai, mamãe e eu estaremos lá e tenho certeza de que meu pai gostará muito de recebê-los. Os rapazes que saem comigo ou são completamente servis ou têm opinião política contrária à dele. Ele costuma evitá-los, claro... Digam que virão,

— Sinto muito, mas não poderemos — desculpou-se Robert. antes que Sophie pudesse dizer alguma coisa. — Nossos pais esperam alguns convidados hoje à noite e teremos que estar lá.

— Oh, que pena! — Sally parecia ter ficado desapontada. Em seguida voltou a sorrir. — Bem, eu anotei o numero do telefone de Sophie, Quem sabe virão outro dia?

— Talvez. — Robert não queria se comprometer, o que deixou Sophie muito aliviada.

— Bem, de qualquer forma — prosseguiu Sally —, foi um prazer vê-la, Sophie. Não devemos perder contato.

— Não. — Sophie agora mostrava-se menos entusiasmada.

— Sinto muito, mas temos de ir — disse Robert, tomando Sophie pelo cotovelo, o que lhe provocou arrepios pelo corpo.

— Oh, é mesmo? — suspirou Sally. — Bem, não tem impor­tância. Eu lhe telefonarei, Sophie. Gostaria muito de conversar sobre os tempos da escola. — Seus olhos, porém, não se despre­gavam de Robert, e Sophie duvidou de que ela se comportasse com tanto entusiasmo se Robert não tivesse aparecido.

Despediram-se e Sophie e Robert saíram da livraria. Já na rua, Robert respirou fundo e disse:

— Lá dentro estava abafado demais. — Colocara o paletó a fim de visitar o escritório e tentou afrouxar o colarinho. — Como foi que você conseguiu aguentar durante quase uma hora?

— Oh, eu... bem, Sally é quem falava o tempo todo.

— Ela fala um bocado, não é mesmo? — ele comentou se­camente, começando a andar em direção à rua principal.

Sophie olhou-o.

— Você acha?

— E você não? Ou será que você nem notou isso? Sophie deu de ombros.

— Notei, sim. Ela é uma pessoa muito cheia de vida.

— Você acha, é?

— Claro.

Robert levantou os olhos para o céu.

— Está certo, se é você quem diz.

— Achei que você devia ter gostado.

— Por quê? Só porque ela se insinuou? — Sacudiu a cabeça. — Pare de ser tão implicante! Se você gosta dela, muito bem. Mas não espere que eu goste de todo mundo.

Os lábios de Sophie tremeram.

— Pois achei que você gostou.

— O quê? Gostei dela?

— Sim... dela.

Nesse momento ele tomou-lhe a mão, entrelaçando seus de­dos aos dela, exatamente como Simon havia feito, mas com uma pressão infinitamente maior.

— Oh, Sophie — e!e disse resignadamente. — Conheço de­zenas de garotas exatamente como ela. Nosso escritório em Londres está cheio delas.

Sophie olhou-o com adoração e ele, resmungando, disse:

— Vamos tomar chá, está bem? — e apertou o passo. Aquela hora, todos os restaurantes e lanchonetes estavam

repletos e, após vinte minutos, Robert consultou o relógio: — Que tal comprarmos algumas latas de cerveja ou refrigerante, uns sanduíches e irmos comê-los nos arredores da cidade?

— Hum, ótimo! — exclamou Sophie mais do que depressa. Robert entrou na primeira lanchonete que encontrou.

Saiu carregando dois sacos e quatro latas e Sophie ajudou-o a levá-los enquanto se dirigiam para o estacionamento.

Era bom sair da cidade e Robert não parecia ter a menor pressa em voltar. Encontraram um lugar ao lado da estrada, à margem de um regato muito pitoresco. Robert tirara nova­mente o paletó e a gravata e, colocando os pacotes no chão, estendeu-se preguiçosamente sobre o gramado muito verde.

— Aqui é muito melhor que naqueles cafés superlotados — murmurou, contente. — Há tempos não faço um piquenique...

Sophie abria os dois pacotes. Em um deles havia doze pã­ezinhos recheados com peito de galinha, presunto, ovo, queijo e tomates, enquanto o outro continha dois sorvetes que já es­tavam começando a derreter. Ela sorriu, reconhecendo seu sor­vete favorito. Não esperava que ele fosse se lembrar.

Robert apoiou-se em um cotovelo:

— Sirva-se — disse preguiçosamente. — Dê-me um sanduí­che. O que você escolher.

Sophie, cujo apetite diminuíra ao ter de enfrentar o contra­tempo de achar um restaurante, apreciou aquele piquenique improvisado. O único som que se ouvia era o trinado dos pás­saros e o zumbido de alguns insetos à sua volta, além do barulho ocasional de um carro na estrada. Eles não tinham por que falar. Estar na companhia de Robert era mais do que suficiente.

Robert pegou uma lata de cerveja e bebeu com sofreguidão. Em seguida jogou-a fora e esticou-se novamente.

Sophie bebeu o refrigerante e juntou os sacos vazios. Pôs de lado as duas latas que não haviam usado e estendeu-se a seu lado. Não importava que o capim lhe manchasse a saia. Robert parecia estar muito à vontade e ela também. O sol estava forte e a comida a deixara sonolenta. Não queria dormir, perder um momento daquela tarde maravilhosa, mas não con­seguiu se controlar...

Quando voltou a abrir os olhos, Robert passava de leve um talo de grama em seu nariz.

— Você sabe que horas são? Quase seis e meia — ele disse bem-humorado.

Sophie prendeu a respiração.

— Seis e meia? — Afastou a mão de Robert. — Mas os Page vão chegar às sete horas e sua mãe gosta de servir o jantar às quinze para as oito!

Robert assentiu.

— Eu sei. — Ele, entretanto, não parecia estar perturbado.

— Nós vamos chegar atrasados!

— Demais — ele concordou. Ela o encarou.

— Você não se importa?

— Não muito. — Ele deslizou os dedos por seu queixo, sua garganta, a curva dos seios e o ventre. Seus olhos ficaram sombrios e havia um toque de desespero em sua voz:

— Você não gostaria de jantar só comigo? Por aqui existe um velho restaurante que serve o melhor pato do mundo...

— Mas, Robert, você disse a Sally que...

— Que não poderíamos jantar com ela? Sei. E você queria? — O tom com que ele se exprimia mudou ligeiramente.

— Você sabe muito bem que não! — ela exclamou, sentindo os dedos dele na pele de seu ventre. — E sua mãe?

Robert abaixou a cabeça e beijou-lhe o rosto.

— Não quero passar a noite com minha mãe, mas sim com você.

— Mas, Robert... — Sophie tinha dificuldade em encontrar alguma coerência em tudo aquilo. — Quando viemos para cá...

— Quando viemos para cá eu já estava com vontade de me comportar como estou me comportando agora — ele declarou, mordendo-lhe a orelha. — Mas talvez esta seja a última... — Interrompeu-se abruptamente. — Sophie, pare de tentar en­contrar razões para tudo. Beije, apenas... não, não, assim não. Assim... — Seus lábios obrigaram os dela a se abrirem, e seu corpo rijo pressionou o de Sophie de encontro ao gramado macio.

Robert beijou-a muitas vezes — beijos longos e embriaga­dores que a faziam tremer, cheia de uma emoção que ela não compreendia. Tinha a sensação de que estava sonhando com tudo aquilo e que no final ia despertar bruscamente. Ele jamais a beijara daquele jeito antes e, apesar de ela sentir que o que estavam fazendo era errado, não entendia as razões disso. Ele a beijava, disposto a excitá-la, e ela colava seu corpo ao dele, com um desejo que jamais sentira por ninguém. E então, quan­do ela tinha perdido toda inibição e estava quase a ponto de se entregar, ele desprendeu-se dela, e se sentou na grama.

Sophie demorou a compreender que, se ele não tivesse se afastado naquele momento, o que ela mais desejava teria acon­tecido. Teria sido incapaz de lhe recusar o que quer que fosse, e o fato de ele não lhe ter tirado a inocência era para ela demonstração do respeito que Robert sentia por ela.

Ela se sentou, finalmente, e foi engatinhando até ele, ro­deando-lhe os ombros com os braços. Ele resistiu durante al­guns segundos e finalmente deixou que suas mãos percorressem seu peito coberto de pêlos abundantes, apertando-se de encontro a ela. Ela pousou o queixo em seu ombro e disse suavemente:

— Eu o amo, Robert. Sinto muito, mas não posso evitá-lo. Robert inclinou a cabeça e pousou os lábios em seu braço.

— Eu também sinto muito, Sophie — ele murmurou. — Eu também sinto muito, mas a amo!

Sophie contemplou seu rosto cheio de paixão.

— Oh, Robert — disse, ofegante —, não sinta, não! Robert afastou-a gentilmente, mas com firmeza, e ficou de

pé, limpando a calça.

— Vamos indo. Precisamos de luzes, música e gente, não é mesmo? Este lugar é muito isolado, principalmente diante do modo como eu me sinto no momento.

Jantaram no pequeno restaurante indicado por Robert. As me­sas já estavam todas reservadas, mas ele devia ser muito conhe­cido lá, pois providenciaram uma mesa para os dois. A comida era deliciosa. Tomaram um vinho branco e seco, delicioso, e Sophie nunca fora tão feliz. O fato de que sua saia comprida de algodão e a blusa simples de jérsei contrastassem com a roupa da maioria das mulheres que lá estavam, elegantemente trajadas, não lhe fazia a menor diferença, pois Robert a devorava com os olhos.

Lavara o rosto e as mãos e penteara os cabelos antes do jantar. Sua pele dourada como mel e seus cabelos sedosos não exigiam outros enfeites. Atraíra os olhares de numerosos ho­mens e Robert não pôde deixar de ignorar o fato.

Não tiveram a menor pressa em tomar o café, depois saíram para a noite perfumada e caminharam sem pressa até o carro. Sophie sentia-se ridiculamente feliz e triste ao mesmo tempo. Durante o jantar conversaram sobre vários assuntos, todos eles muito impessoais, sem mencionar aquilo que estava por trás de todos os seus pensamentos. Ela esperava que ele desse maiores indicações sobre a natureza de seus sentimentos em relação a ela; nunca tivera a menor dúvida no que dizia respeito a seus próprios sentimentos, e sua primitiva relutância em admitir seu amor por ela fora o único senão daquele dia perfeito.

Já no carro ele se concentrou em dar a partida e Sophie prendeu o cinto de segurança com dedos nervosos. Certamente ele diria algo, agora que estavam a sós.

Mas ele não o fez. O trajeto para casa foi quase silencioso e, apesar de ela achar que era um silêncio carregado de sig­nificações, pairava um certo constrangimento no ar.

O carro dos Page ainda estava lá e Robert pareceu irritado. — Só faltava essa! — disse bruscamente.

Sophie desapertou o cinto.

— Obrigada por esta noite incrível — ela começou a dizer, mas nesse momento os dedos de Robert acariciaram-lhe o pes­coço, puxando-a para junto dele.

— Não me agradeça, Sophie — ele murmurou apaixonada­mente, enterrando o rosto em seus cabelos. — Meu Deus, quan­ta vontade de fazer amor com você. Eu jamais devia ter co­meçado com isso. Sabia que não haveria de querer parar...

Seus lábios eram famintos e possessivos, seu hálito carre­gava o perfume do vinho. Sophie se sentia tonta, seu corpo doía, tão grande era o desejo de colar-se a ele. Cobria seu rosto de beijos quando a porta do carro se abriu e uma corrente de ar frio interrompeu aquele idílio.

— Robert, seu porco! — disse Simon indignado, iluminan­do-os com a lanterna. — Você não conseguiu mesmo deixá-la em paz, não é?

Robert afastou Sophie e desceu lentamente do carro. Sophie fez o mesmo, certa de que desta vez haveria uma briga, e ficou aterrorizada por ambos.

— Simon, por favor... — ela suplicou, agarrando-o pelo braço, mas ele a repeliu.

— Vá para dentro, Sophie. Isto é assunto para Rob e eu resolvermos.

— Não! Não é. — Sophie dirigiu-se a Robert, ao ver que eíe se encaminhava para Simon, — Robert! Robert, não faça nada de que você venha a se arrepender mais tarde.

Robert encarou o irmão.

— Foi você quem quis que as coisas terminassem assim, Simon.

— É mesmo? — Simon parecia disposto a desafiá-lo. — Uma só mulher não lhe basta, não é mesmo? Você também precisa conquistar a minha.

Sophie o interrompeu.

— Não sou sua mulher, Simon!

— De qualquer modo, agora você não vai ter oportunidade de ajustar contas com quem quer que seja — ele prosseguiu com amargura. — Você tem companhia. Oh, não se trata dos Page, não, apesar de eles estarem aí, loucos para saber onde você e Sophie estiveram durante toda a noite. Não, sua noiva é quem está aqui, Robert: Emma! Não acha que deve entrar e dar-lhe um alô antes que ela, exatamente como eu, comece a imaginar o que faz você ficar tanto tempo aqui no jardim?

 

Sophie sentiu-se terrivelmente mal do estômago e sua indisposição serviu como desculpa mais do que plausível para não se juntar a seus pais e aos convidados.

Depois do anúncio surpreendente de Simon, Robert levou quase um minuto para entender o que ele estava dizendo. Em seguida, deu-lhe as costas, contrariado, e afastou-se em direção a casa, deixando Sophie trêmula ao lado do carro. Ela ficara muito chocada, não conseguia mais se controlar, e Simon, pe­nalizado, passou-lhe um braço sobre o ombro e quase a carregou para o quarto. Sophie ficou no banheiro, vomitando durante quase cinco minutos, e quando voltou, Simon estava apoiado contra a parede, com uma toalha nas mãos para ela limpar o rosto coberto de suor.

Sentia-se fraca e trêmula, mas livre daquela apreensão doen­tia que se apoderara dela. Caminhou vacilante, e Simon, que a olhava ansiosamente, disse:

— Você agora está bem? Sophie assentiu:

— Claro. Deve... deve ter sido alguma coisa que eu comi.

— Pare de mentir, Sophie. Só faltava isso! — ele exclamou, revoltado. — Sei muito bem o que se passa com você! Você não sabia que Robert é noivo, não é? Ele não lhe contou. Foi exatamente por esta razão que seu pai enviou-o ao seu encontro na estação, quando você voltou para casa, para que ele contasse. Mas ele, muito convenientemente, esqueceu!

Os lábios de Sophie ressecaram.

— Simon, por favor...

Simon, muito tenso, cerrava e descerrava os punhos.

— Eu seria capaz de matá-lo. Realmente seria!

— Estou cansada, Simon...

— Meu irmão! Eu sempre o admirei, sempre o tomei como exemplo! Mas ele não passa de um animal, um garanhão...

— Simon!

A voz de sua mãe o fez voltar à realidade, e ele corou no momento em que Laura entrou no quarto. Ela notou rapida­mente a aparência desolada de Sophie.

— Vá lá para baixo, Simon — ordenou friamente. — Vicky está à sua espera para despedir-se de você.

Simon parecia disposto a replicar, mas mudou de idéia. Sem dizer uma palavra, deixou-as, batendo a porta com força. Em seguida Laura aproximou-se de sua enteada, ajudando-a a tirar as roupas. Assim que enfiou a camisola de algodão, Sophie puxou as cobertas da cama e aninhou-se entre os lençóis. Então pôs-se a fitar sua madrasta com ar profundamente infeliz, à espera de palavras de condenação.

Laura, porém, limitou-se a sacudir a cabeça com ar de re­signação e disse:

— E agora, como se sente, Sophie?

— Estou bem. — A voz de Sophie soava abafada.

— Está mesmo? — Laura não tirava os olhos dela. — Meu bem, não queríamos que você ficasse magoada.

Sophie fechou os olhos. Abertos, eles poderiam revelar mui­tas coisas.

— Magoada? Não sei a que se refere.

— Sabe sim, Sophie. Ouvi o que Simon disse. Robert não lhe contou nada, não é? Eu devia ter percebido. Você estava por demais feliz na companhia dele para saber de alguma coisa. — Balançou a cabeça. — Eu devia ter dado ouvidos a seu pai. Devia tê-la detido. Mas acreditávamos que você soubesse... — Ela interrompeu-se, — Bem, é melhor que você saiba tudo de uma vez. Emma vai passar alguns dias conosco. Robert voltará para seu emprego na próxima semana, mas ela ficará. Estão planejando se casar no fim do ano.

Sophie achou que não ia resistir a tanta dor. O sentimento era tão intenso que deixou escapar um soluço. Sem se importar com Laura, deitou-se de bruços e enterrou ó rosto no traves­seiro, soluçando descontrolada mente.

— Oh, Sophie! — Laura sentou-se a seu lado na cama, abraçando-a. — Não leve a coisa por esse lado. Isso tinha de acontecer um dia. Você devia saber! Um dia ele acabaria en­contrando a mulher certa, aquela a quem ele poderia amar...

— Ele não a ama — disse Sophie, em meio aos soluços. — É a mim que ele ama...

— Eu sei que ele a ama, querida. Você é a irmãzinha dele. Meus dois filhos a amam...

— Não... não! — Sophie sacudia a cabeça. — Não desse jeito! Ele me ama... ele me ama de verdade!

— Pare com isso, Sophie! — Laura estava ficando impaciente.

— Você não deve se descontrolar tanto. Não é bom para você, e imagine como Emma se sentiria se pudesse ouvi-la...

— Não me importo com Emma!

— Isso não é lá muito gentil, não é mesmo? Sophie, Sophie... Emma vai ser sua cunhada. Você devia ficar feliz por ela, por eles dois. Acho que serão muito felizes na companhia um do outro. E pense como será bom ter uma irmã...

A resposta de Sophie foi cobrir a cabeça com um travesseiro. Laura levantou-se, contrariada.

— Acho que você está se comportando muito mal, Sophie

— disse em tom de reprovação. — Tentei ser paciente, tentei compreendê-la, mas não posso aceitar um comportamento tão egoísta. Vou deixá-la para que você se controle. Falaremos mais tarde a respeito. — Fez uma pausa. — Não diga nada a Emma sobre isto, ela não deve ficar preocupada. Ficarei muito zangada se você causar problemas entre ela e Robert.

Sophie não respondeu, e sua madrasta caminhou para a porta do quarto. Abriu-a e então murmurou: — Robert! O que você está fazendo aqui?

Sophie parou de soluçar e prestou atenção.

— Vim chamá-la, mamãe. Os Page já estão indo. — Olhou para dentro do quarto. — Onde está Sophie?

Laura tentou interpor-se, mas Sophie ergueu a cabeça e fitou-o com o rosto banhado de lágrimas.

— Meu Deus! Sophie! — ele murmurou. Teria empurrado sua mãe e entrado no quarto se ela não tivesse levantado a mão, dando-lhe um tapa no rosto. Era a primeira vez que ela punha a mão nele desde os seus tempos de escola.

— Não ouse aproximar-se dela! — ordenou Laura, irada. — Não acha suficiente o que já fez?

Robert olhou sua mãe sem poder acreditar no que via, to­cando as marcas deixadas pelos dedos. Em seguida sua ex­pressão endureceu.

— O que há com Sophie? — ele perguntou.

Laura estava fazendo o possível para se controlar e Sophie sentia o esforço que isso lhe custava.

— Está com dor de cabeça — replicou sem se alterar.

— Quero falar com ela — disse Robert, também tentando se dominar.

— Você não pode... — Laura cerrou os punhos. — Robert... por favor...

Sophie não suportou o apelo angustiado de sua mãe. Cobriu o rosto com o lençol, pondo o travesseiro sobre a cabeça.

— Sophie! — Ouviu a voz de Robert, mas não saiu de onde estava. — Sophie, fale comigo!

— Vá embora! — ela murmurou. — Vá embora. Não quero falar com ninguém!

Em seguida ouviu a porta fechando e levantou a cabeça, temendo que sua madrasta ainda estivesse no quarto. Mas estava sozinha.

Exausta, Sophie só acordou de manhãzinha, quando os pri­meiros raios do sol penetravam pela cortina do quarto. Tinha uma dor de cabeça insuportável e um gosto horrível na boca. Foi cambaleando até o banheiro, tomou duas aspirinas e, durante alguns minutos, conseguiu controlar seus pensamentos. Mas os acontecimentos da noite anterior voltaram e, desconsolada, sen­tou-se na beirada da cama, enterrando o rosto nas mãos.

Não era de admirar que Robert mostrasse tamanha relu­tância em dizer que a amava. Agora ela duvidava de que ele a amasse mesmo. Talvez tivesse dito aquilo em resposta à declaração dela, talvez estivesse se sentindo culpado...

Ergueu a cabeça e olhou seu reflexo no espelho da pentea­deira. Estava com um aspecto horrível. Tinha olheiras e estava muito pálida. "Meu Deus", pensou consternada; o que Robert pensaria quando a visse naquele estado?

Temia o dia que teria pela frente. Temia a idéia de encontrar Emma. Imaginá-la ao lado de Robert deixava seu coração dila­cerado. Será que ele amaria Emma, ou teria alguma outra razão para casar com ela? Ela não era rica, nem tinha um pai influente, a exemplo de algumas outras garotas com quem ele saíra. Era atraente, mas Robert conhecia dezenas de garotas como ela. Sop­hie sacudiu a cabeça. O que Robert esperava que ela fizesse? Que razões o teriam trazido ao seu quarto na noite anterior? Será que ele estava pensando em desmanchar o noivado?

Tantos pensamentos, tantas perguntas sem resposta... Ela acabaria por ficar doente se continuasse a atormentar-se da­quele jeito. Sua dor de cabeça aumentara e as aspirinas pa­reciam fazer muito pouco efeito.

Levantou-se, foi novamente para o banheiro e tomou um banho de chuveiro frio. O jato de água doía em sua pele quente e todo o seu corpo formigava. Quando terminou, sentiu-se um pouco melhor. Vestiu rapidamente a blusa e o blue-jeans, to­mada de uma súbita energia. Escovou os cabelos e beliscou as bochechas, para dar um pouco de colorido e ficou quase satis­feita com o resultado. Já não parecia mais meio morta.

Passava das sete horas quando desceu. Ninguém se levan­tara e ela pôs a chaleira no fogo, recolheu os jornais na porta da entrada e levou-os para a sala de estar. O aposento rescendia a bebida e fumaça de cigarro e ela abriu as janelas de par em par. O ar estava muito fresco e ela o aspirou repetidas vezes. Sentou-se no sofá, folheando os jornais, à espera de que a água da chaleira fervesse, e forçou-se a se concentrar nas notícias.

As manchetes falavam de uma revolução em uma remota república sul-americana; havia também ameaça de greve na indústria automobilística e um político muito conhecido res­pondia a processo por reconhecimento de paternidade. Interes­sou-se por um artigo sobre ura historiador local, empenhado em escrever sobre mitologia grega. Sophie sempre gostava de ler lendas gregas na escola, chegando mesmo a inscrever-se nas aulas de grego e a passar nos exames sem a menor difi­culdade. Tinha muita facilidade para línguas e alguns anos atrás acariciara a idéia de tornar-se intérprete.

A água começou a ferver; pôs os jornais de lado e saiu cor­rendo para a cozinha. Preparou chá e colocou-o em uma bandeja para seus pais, com um prato de biscoitos. Pensou em levar

chá para Robert e Simon, mas pôs a idéia de lado. Se fizesse isso, teria de servir Emma também, e não tinha vontade de encontrá-la, a menos que fosse absolutamente necessário.

Laura estava acordada quando ela entrou no quarto dos pais. Estava deitada de costas, fitando o teto, mas, ao ver Sophie, uma expressão de alívio relaxou seu rosto.

— Bom dia — sussurrou Sophie, vendo que seu pai parecia profundamente adormecido. — Onde posso colocar isto aqui?

— Ali. — Laura sentou-se e apontou para a mesinha-de-ca-beceira. No mesmo momento em que Sophie pousava a bandeja, perguntou: — Como é que você está, Sophie?

Sophie endireitou-se.

— Oh, estou bem. —Comprimiu os lábios. — Vai precisar de mais alguma coisa?

— Não, não, obrigada — Laura mal olhou para a bandeja. — Sophie, sinto muito o que aconteceu...

— Está tudo bem. Mesmo! — Sophie deu-lhe as costas. Não tinha vontade de conversar a respeito daquele assunto. — Mais tarde nos vemos. — Saiu rapidamente e fechou a porta.

Ao chegar ao corredor, hesitou. A porta de Robert ficava a alguns passos de distância. Deveria ir até lá e conversar com ele, para saber de suas intenções? O desejo de deixar a situação perfeitamente esclarecida era irresistível.

Andou pé ante pé e girou a maçaneta de sua porta. Entrou no quarto escuro, mas a cama de Robert estava vazia. Ele nem sequer havia dormido lá. Saiu, fechando a porta sem o menor ruído. Olhou para a porta do quarto de hóspedes, onde Emma estava dormindo, e a sensação de enjôo da noite anterior apos­sou-se novamente dela. Meu Deus, pensou, cambaleando em di-recão à escada. Ele deveria ter passado a noite na cama de Emma.

Na cozinha o chá esfriava. Levantou a xícara e levou-a aos lábios, que tremiam. Como era possível que ele fizesse uma coisa dessas, pensou desesperada, como era possível?

Estava tão entregue à infelicidade que nem notou o ruído de passos, até que a porta dos fundos se abriu. Voltou-se brusca­mente, quase derrubando o chá, e prendeu a respiração ao ver que Robert entrava na cozinha. Ele disse, taciturno: — Desculpe se a assustei. Não esperava encontrar ninguém acordado.

A xícara de Sophie chacoalhava no pires.

— Onde... onde é que você esteve? — Ainda usava o terno cinza da noite anterior e a barba azulava-lhe o rosto.

Robert não respondeu imediatamente. Dirigiu-se até o fogão e serviu-se de um pouco de chá.

— Estive andando por aí. — Bebeu todo o conteúdo e ser­viu-se de mais chã. — E você?

Sophie esboçou um gesto de impotência. — Eu... eu acabei de levantar.

— Dormiu bem?

— E você?

Robert balançou a cabeça, contemplando a xícara.

— Não fui para a cama. Seu pai e eu conversamos até as quatro da madrugada e então não consegui mais suportar a at­mosfera desta casa. Tinha de sair e fui andando até High Apsdale.

Sophie ficou espantada.

— Mas fica a cinco quilómetros de distância!

— Sei disso muito bem. — Robert passou a mão pelo rosto áspero. — Como estou barbudo! Preciso me arrumar.

— Você deve estar exausto — ela exclamou. Sentiu o quanto seus pensamentos haviam sido injustos e isto deixou-a intei­ramente ruborizada. — Sobre o que você e papai conversaram?

Robert tirou a gravata.

— Vários assuntos — ele respondeu vagamente. Sophie cerrou os punhos, nervosa.

— A meu respeito?

Ele engoliu o que restava da segunda xícara de chá.

— Entre outras coisas. — Espreguíçou-se. — Agora, você vai me dar licença, pois não tenho muito tempo. Preciso de um chuveiro e tenho de trocar de roupa antes de partir.

— Partir? — Sophie olhou para ele, atónita. — Mas... mas você não pode partir!

— Não posso? — Robert encarou-a com firmeza. Sophie respirou fundo e deu-lhe as costas.

— Você... não precisa partir — falou precipitadamente. — Sei que me comportei como uma tola a noite passada, mas não voltará a acontecer, garanto. — Fez uma pausa. — Não vá, se for por minha causa. Não lhe causarei mais dificuldade.

Fez-se um momento de silêncio, interrompido unicamente pelo som de sua respiração ofegante, e em seguida Robert pas­sou diante dela, indo para a porta do hall.

— Não seja tola, Sophie! — ele murmurou bruscamente, saindo da cozinha.

Sophie ficou por vários minutos imóvel. O que ele queria dizer com aquilo? Por que ia embora? E sua noiva?

Sentiu-se confusa e desorientada. Teria havido alguma dis­cussão violenta na noite anterior, depois que ela dormira? Não era possível que seu pai tivesse pedido a ele para ir embora. Seria por isso que Laura estava acordada? Coro toda certeza não dormira. Se o pai e Robert tivessem ficado acordados até as quatro horas da manhã, Laura fizera o mesmo.

Começou a andar de um lado para o outro, inquieta. O que deveria fazer? Será que Laura sabia que seu filho iria partir? Para onde iria? Quando? Queria tanto que alguém pudesse lhe responder!

Aqueles acontecimentos tinham dissipado sua depressão. No momento as intenções de Robert a deixavam mais perturbada do que o resto. Não queria ser responsável por destruir o sólido relacionamento que ele sempre tivera com seu pai, não queria que por causa dela Laura se afastasse de seu filho.

O que poderia fazer? Tentara desculpar-se perante Robert e isso de nada adiantara, tornando-o talvez até mais impaciente com ela. E se lhe pedisse para ficar em consideração à sua mãe, ele lhe daria ouvidos? Duvidava. Seu rosto era duro e decidido e, no estado de confusão mental em que se encontrava, não podia confiar em suas próprias habilidades.

Estava de pé no meio da cozinha, tomada da maior indecisão, quando sua madrasta entrou. Ainda não se vestira, mas car­regava a bandeja que Sophie levara para cima.

— Seu pai ainda está dormindo — explicou com voz cansada. — Prefiro não acordá-lo ainda. — Sophie assentiu e ela pros­seguiu: — Acabo de falar com Robert. Disse-me que vai embora.

— Sim. — Sophie voltou a concordar. — Ele... ele acaba de chegar. Esteve andando por aí.

— Sim, eu sei. — Laura pousou a bandeja. — Ainda tem chá? Gostaria de tomar mais uma xícara.

— Claro. — Laura pegou a xícara e sentou-se pesadamente em um banquinho. — Assim que acabar, vou preparar o café da manhã. Você está com fome?

— Eu? — Sophie sacudiu a cabeça. — Não.

Laura concentrou-se em sua xícara.

— Eu também não. — Levantou a cabeça. — Robert quer o café da manhã?

Sophie deu de ombros, num gesto de impotência.

— Não perguntei. — Mordeu o lábio. — Para onde é que ele vai?

Laura suspirou profundamente.

— Vai passar o fim de semana em seu apartamento em Londres e na segunda-feira viaja para Cymtraeth.

— Mas por quê? — Sophie explodiu. — Eu pensei que... isto é... — As palavras lhe faltavam. — Emma está aqui!

— Ele tem plena consciência disso. — Laura falava em tom seco. Em seguida sacudiu a cabeça, evidenciando sua confusão. — Quem sabe o que Robert está pensando? Nunca imaginei que as coisas chegassem a este ponto!

— O quê? Do que é que você está falando? — Sophie enca­rou-a, desesperada. — Mamãe, o que aconteceu ontem à noite?

Laura pôs a xícara de lado.

— Nada com que você precise se preocupar. Tudo vai ter­minar do melhor modo possível. No que diz respeito a Emma, Robert teve de voltar para o emprego dois dias antes do que tinha planejado, compreende?

O rosto de Sophie endureceu. Ela compreendia. Compreendia também que com relação a Emma, as aparências tinham de ser mantidas a qualquer preço.

Mas o que Robert pensava a respeito? O que haveria por trás daquela sua súbita partida para Londres? Nesse momento o desânimo se apoderou dela. Será que tudo aquilo importava de verdade? Se Robert quisesse dizer-lhe algo, a oportunidade tinha acontecido momentos atrás, e o fato de ele não ter dito indicava falta de interesse. Parecia mais do que evidente que houvera discussão na noite anterior e Robert partia a fim de evitar as consequências. Dentro de umas duas semanas tudo se acalmaria e as coisas prosseguiriam como antes, com a pers­pectiva do casamento tornando-se cada vez mais real.

Laura tirava presunto e ovos da geladeira e ligava a grelha. O cheiro da comida crua deixava Sophie enjoada e, com uma breve explicação, ela saiu da cozinha. Sentia-se perdida e de­sesperada, um sentimento que não se alterou quando Robert desceu correndo as escadas, usando um jeans cor de terra e um pulôver creme. Gotas de água ainda brilhavam em seu cabelo escuro e, apesar de algumas rugas se delinearem em torno dos olhos e da boca, ele irradiava uma aura de força e superioridade. Vendo Sophie, disse asperamente: — Onde está minha mãe?

— Na cozinha. — Sophie limpou as mãos úmidas na calça. — Robert... Robert, por que está indo embora? — Respirou fundo. — Eu... por favor... não se vá por minha causa.

Robert parou diante dela, olhando-a sombriamente.

— Pare de sentir tanta pena de si mesma! — ele disse bruscamente. — Tenho muito o que fazer em Londres, eis tudo.

— E... e ontem? — ela conseguiu dizer. Robert suspirou.

— Acho melhor você tentar esquecer o que aconteceu ontem. Sophie sentiu-se gelada interiormente. Até então alimentara

a esperança tola de que Robert partia porque não conseguiria mais encarar sua noiva, sabendo que estava apaixonado por uma outra mulher. Agora, ao ouvi-lo dizer que procurasse esquecer aqueles momentos passados à beira do regato, o jantar tão íntimo e as cenas de paixão que aconteceram no carro, sentiu como se estivessem enfiando uma faca entre suas costelas.

O horror que sentia devia aparecer em seu rosto, pois ele falou:

— Não me olhe assim, Sophie, pelo amor de Deus! E para seu próprio bem! Você está perdendo tempo comigo!

Murmurou um palavrão, afastou-a do caminho e entrou na cozinha.

 

A única pessoa que parecia ter dormido era Emma. Ela desceu quase duas horas depois que o carro de Robert partiu para Londres, sem se dar conta de tudo o que tinha acontecido.

Sophie e a madrasta estavam na cozinha, tomando café e evitando qualquer discussão quando Emma entrou com muita timidez, desculpando-se por interrompê-las.

— Sinto muito, sra. Kemble. Acho que dormi demais. A cama aqui é tão confortável!

— Não tem importância, Emma. Entre.

Laura olhou muito sem jeito para Sophie e ela prestou atenção em Emma. Ela não tinha se alterado. Seus modos ainda ener­vavam Sophie. Achava aquela timidez uma afetação e o sorriso nervoso parecia falso. Emma usava um vestido simples de algodão, seu cabelo preto caía em pequenos cachos e Sophie pensou pouco caridosamente que ela era exatamente o tipo de garota que uma mãe dificilmente vetaria como nora. Somente Sophie conseguia notar o cálculo que se escondia por detrás de toda aquela pose. Mas será que aquilo era verdade? Sentiu-se muito infeliz. Como poderia encarar Emma, a não ser com ciúme e desconfiança?

— Alô, Sophie — disse Emma, enquanto Laura se dispunha a fazer café fresco. — Sinto muito que você não tenha passado bem ontem à noite. Está melhor agora?

Sophie levantou os olhos, estudando seus traços.

— Alô, Emma — respondeu tensa. — Sim, estou melhor, obrigada.

Emma sentou-se a seu lado.

— Deve ter sido alguma coisa que você comeu — comentou, admirando a cozinha. — Hum, mas que cozinha linda, não? Tão jeitosa! Amo as casas antigas. Têm muito mais caráter que as modernas.

Sophie fez um vago comentário e Emma prosseguiu:

— Estava dizendo a Robbie — e nesse momento Sophie tremeu interiormente, pois somente Emma chamava Robert por aquele apelido —, na última vez em que ele esteve na cidade, que quando nos casarmos precisamos comprar um chalé no campo, para irmos passar lá os nossos fins de semana, sra. Kemble. Talvez possamos encontrar algo aqui em Conwynneth. Eu não tenho mais meus pais e aprecio muito voltar a me sentir parte de uma família.

Laura lançou um segundo olhar a sua enteada. Em seguida voltou sua atenção para Emma:

— Bem... nós... hum... estamos muito contentes em tê-la em nossa companhia, Emma...

Emma pousou os cotovelos sobre a mesa.

— Mas, afinal de contas, onde está Robbie? Será que ele também perdeu a hora? Não olhei em seu quarto. Achei que estava dor­mindo e não quis incomodá-lo... parece que ouvi alguém roncando.

— Devia ser meu marido — disse Laura calmamente, pas­sando-lhe o café. — Sirva-se. Robert não está mais aqui.

Emma, que estava pondo café na xícara, interrompeu-se.

— Não está aqui? — repetiu, como se não quisesse acreditar.

— Não. — Laura forçou-se a sorrir. — Ele foi chamado para atender a uma emergência, no emprego. Teve de voltar dois dias antes do que esperava e como você estava dormindo...

— Entendo. — Emma acabou de servir-se de café, com mão firme. Era o tipo de reação que ninguém esperaria de uma pessoa tímida. — Ele disse se voltaria?

Laura sacudiu a cabeça e concentrou-se em retirar as xícaras usadas da mesa.

— Acho que ele não voltará enquanto você estiver aqui, meu bem. Mas isso não faz a menor diferença. Faremos o possível para que você se divirta durante esses dias.

Emma sorriu.

— Tenho certeza que sim, sra. Kemble. Sempre acabo dando um jeito de me divertir, a senhora sabe. Claro, fiquei muito desapontada por Robbie ter de partir... — lançou rapidamente

um olhar para Sophie e voltou a encarar Laura. — Ainda bem que nós nos temos visto com frequência. Desde que ele voltou para casa nós estamos sempre juntos.

Sophie cerrou os punhos. Tudo estava explicado: fora em Londres que ele passara todos aqueles dias. Uma sensação de enorme desolação apoderou-se dela.

— Claro. — Agora era Laura quem falava. — Sabia que você compreenderia, Emma. Você é uma pessoa tão... desprendida...

Sophie não conseguia mais suportar tudo aquilo.

— Acho que vou dar um passeio — disse com fingida na­turalidade. — Está uma manhã tão linda...

— Se esperar alguns minutos irei com você —- exclamou Emma, engolindo o café. — Gostaria muito de andar um pouco.

Sophie e Laura trocaram um olhar. O de Sophie era agres­sivo, o de Laura, suplicante. Sophie concordou.

— Estarei no jardim.

O ar lá fora estava infinitamente refrescante, após a tensão reinante na cozinha. Sophie começou a andar lentamente no gramado, tentando se compor.

— Sophie! Alô, Sophie!

Voltou-se, ao ouvir uma voz masculina. O rapaz que vinha em sua direção era alto e louro, usava short e uma camisa creme. Carregava uma raquete de tênis e Sophie reconheceu o rapaz que sua madrasta dissera estar a sua procura.

Ele chegou até onde ela estava e olhou-a com ar de admiração.

— Olá, Sophie. Você se lembra de mim? Sophie forçou um sorriso.

— Sim, claro. Olá, Graham.

Graham fez um gesto com a cabeça, obviamente aliviado.

— Vim ver se você tinha tempo para uma partida de tênis. Deveria ter vindo no último fim de semana, mas fiquei muito resfriado. Só agora estou começando a me sentir melhor.

Sophie esboçou um gesto de solidariedade.

— Ainda bem!

— E mesmo! Os resfriados no verão são os piores de se curar. Bem, cá estou. Que tal um jogo?

— Não posso. — Sophie hesitou. — Prometi dar um passeio com... com Emma. Você conhece Emma?

— Não. É a noiva de Robert, não? Já ouvi falar dela, claro. Minha irmã é noiva de John Meredith e...

— Eu sei. — Sophie não queria ouvir novamente toda aquela história. — Os quatro saem juntos. — Interrompeu-se e olhou em direção a casa. — Aí vem ela. Vou lhe apresentar.

— Já que Graham está aqui — sugeriu —, por que não jogamos tênis? — Isto evitaria aquele indesejado encontro a sós com Emma. — Você e eu poderíamos jogar uma partida, Emma, e em seguida Graham jogaria com quem vencesse.

Emma parecia hesitante.

— Não jogo tênis tão bem assim — ela disse hesitante, com seu sorriso tímido.

— Nem eu — mentiu Sophie, decidida a deixar que Emma a derrotasse com toda facilidade.

A quadra de tênis atrás da casa já presenciara dezenas de jogos entre Sophie e seus meio-irmãos. Sophie sempre se de­sempenhara brilhantemente, batalhando por cada ponto. Ja­mais jogara tão mal como naquela manhã. Se Graham notou seu subterfúgio, nada pôde fazer quando ela desapareceu du­rante a partida dele com Emma.

Sophie retirou-se para seu quarto. Não estava disposta a mostrar-se sociável e a perspectiva das semanas que se esten­diam a sua frente era desanimadora.

Durante os dias que se seguiram Sophie conseguiu evitar qual­quer tipo de confidência com Emma. Não era tão difícil assim. Ainda auxiliava o pai no período da manhã, e Laura prendia Simon o mais possível, para ajudá-la a fazer sala para sua con­vidada. E Sophie tinha muito tempo para pensar no futuro.

No meio da semana Simon surpreendeu-a na sala de jantar, enquanto punha a mesa:

— Você está me evitando, Sophie?

— Evitando-o, Simon? Não seja tolo!

Ele deu a volta à mesa, bloqueando sua saída.

— Nunca a vejo sozinha, nestes últimos dias.

— É que você... está ocupado com Emma.

— Tirando-a do seu caminho, você quer dizer... — Simon enfiou as mãos agressivamente nos bolsos da calça. — Oh, Sophie! Você está zangada comigo?

Sophie concentrou-se em dispor os talheres sobre a mesa.

— Você está dizendo bobagem e sabe disso, — Endireitou-se. — Saia do caminho, preciso terminar.

Simon permaneceu onde estava.

— Você está zangada comigo, não? Por quê? Porque eu lhe disse a verdade a respeito de Rob? Você não queria saber, foi isso?

— Prefiro não falar sobre esse assunto.

— Mais cedo ou mais tarde você vai ter de falar.

— É mesmo? — Sophie controlou um suspiro. — Simon, por favor! Sua mãe está esperando para servir o almoço.

— O almoço que vá para o inferno! — O rosto de Simon estava sombrio. — Sophie — ele tornou a solicitar. — Sophie, diga-me o que você quer que eu diga...

Sophie encarou-o desarvorada. Em seguida pôs a mão em seu braço. — Simon, eu...

— Ah, Simon, você esta aí! — A voz estridente de Emma interrompeu-os e Simon praguejou baixinho. — Procurei você por toda parte, Simon. Olhe, aqui estão as fotos de que lhe falei.

Sophie voltou a pôr a mesa enquanto Simon se afastava para examinar as fotos que Emma lhe estendia. Acabou sua tarefa e estava para deixar a sala quando Emma a chamou:

— Venha ver, Sophie. São as fotografias que Robbie e eu tiramos em Portugal, em abril. Não estão ótimas?

Os nervos de Sophie ficaram abalados. Robert trabalhara em Portugal de fevereiro a maio. Nunca soubera que suas namoradas o tivessem visitado em seu emprego.

Sophie sentiu-se emocionada ao ver fotos de Robert dançando com Emma em uma boate, relaxando na praia, no Estoril, muito esguio e queimado, usando um calção de banho mínimo,

— Bonitas fotos — disse ela tensa e, ignorando a solidarie­dade muda de Simon, deixou-os.

No final da tarde estava em seu quarto, tentando se inte­ressar por um romance histórico. A porta se abriu e Simon entrou, encostando-se na porta.

— O que você está fazendo trancada aqui no quarto? A tarde está linda.

— Então por que você não vai aproveitar? Simon suspirou.

— Vim a sua procura. Sabia que haverá uma festa nos salões da Prefeitura esta noite? Parece que vai ser animada. Trouxeram um conjunto de Liverpool. Vamos?

— Não, obrigada.

— Sophie!

— Não quero ir.

— Por que não?

— Não sinto vontade de dançar. — Fez uma pausa. — você. Leve Emma. Acho que ela vai ficar encantada...

— Pare de ser agressiva! É claro que Emma vai. John Me-redith e sua noiva também vão e a convidaram.

— Que sorte! — falou com ironia, querendo exprimir exa-tamente o contrário.

Simon afastou-se da porta.

— Sophie, pare de ser tão sarcástica! Você sabe perfeita­mente bem que não tenho o menor interesse em Emma. Essa é uma prerrogativa de Rob.

Sophie franziu o cenho àquela alusão maliciosa e Simon, no mesmo instante, arrependeu-se.

— E você quem me faz dizer essas coisas, Sophie. Por favor, venha dançar comigo.

— Convide Vicky — replicou levemente irritada.

— Não quero convidar Vicky — Simon levantou os olhos para o céu. — O que quer de mim, Sophie? Que eu me declare a você? Que eu demonstre que também tenho sentimentos?

Sophie, relutante, levantou a cabeça. Não era justo que Si­mon fosse o alvo de todas as suas frustrações.

— Não, claro que não — disse com um fio de voz. — Sinto muito: Se você quer mesmo que eu vá à festa, então... está certo, eu vou.

Os olhos de Simon ficaram sombrios.

— Oh, Sophie — ele murmurou com a voz embargada de emoção. Aproximou-se dela, inclinou-se e colou seus lábios aos de Sophie.

Era a primeira vez que ele a beijava, desde a infância, e apesar de Sophie não achar seu toque repulsivo, não conseguia sentir nada além de uma enorme compaixão por ele.

— Acho melhor você ir andando, Simon. Nem quero imaginar o que sua mãe diria se o encontrasse aqui, nesta situação.

— Não me importo com isso — replicou em tom de desafio e a teria beijado novamente, se Sophie não recuasse.

— Pois eu me importo — insistiu ela com muito jeito. — A que horas iremos para a festa?

Simon deteve-se diante da porta.

— John e Joanna virão buscar Emma por volta das oito. Está bem nessa hora?

— Muito bem.

Sophie sorriu e Simon, mais tranquilo, saiu do quarto. Ela ficou a imaginar se, naquelas circunstâncias, não deveria ter recusado. Não era justo deixar Simon pensar que ela de uma certa forma o estaria encorajando,

Sophie evitou sair do quarto até ter certeza de que Emma partira. Fora com sua madrasta e Emma até Hereford durante a semana e ganhara de presente dois vestidos longos, apro­priados para o dia ou para a noite e, apesar de seu impulso inicial ter sido recusar a oferta generosa de Laura, ficara con­tente por ter aceito. Escolhera um vestido estampado em to­nalidades de verde e cinza e sabia que ele lhe caía muito bem. Sua boa aparência até certo ponto daria a seus pais a certeza de que ela se recuperara de seu mal-estar.

A reação de Simon a sua aparência foi muito lisonjeira e ela gostou de ser admirada, após as experiências terríveis da última semana.

Quando chegaram à Prefeitura e encontraram uma vaga onde estacionar a perua de Simon, a festa já estava bem adian­tada. A vida da aldeia era severamente controlada pelo clero e meia-noite era a hora certa para encerrar-se um baile.

O salão era grande e espaçoso, enfeitado com balões e flâmulas. Sophie e Simon viram-se inevitavelmente cercados por um grupo ruidoso, que incluía John Meredith, sua noiva e Emma. Procu­raram dançar a maior parte do tempo e no meio de todos aqueles jovens era possível guardar um certo anonimato. Emma parecia estar-se divertindo muito. Muitos rapazes haviam-na convidado para dançar, com exceção de Simon, que monopolizara Sophie.

De repente John Meredith insinuou-se entre eles e convidou Sophie para dançar. Simon voltou-se para fazer o mesmo em relação a Joanna, mas ela já estava dançando com outra pessoa e somente Emma estava a sua disposição. Sophie encontrou seu olhar frustrado enquanto ia com John para a pista de dança. Sentiu-se culpada, pois poderia ter recusado e perma­necido em sua companhia. Entretanto, passados alguns minu­tos, esqueceu os problemas de Simon, pois teve de enfrentar seus próprios problemas.

O conjunto fizera uma pausa e a música agora era a de discos. Em lugar da música pop agitada, o vigário aproveitara a oportunidade para mandar tocar música bem suave, própria para dançar a dois. O clima criado pela valsa levou John a apertá-la com muita força e encostar o rosto no dela.

— Assim é melhor, não acha? — murmurou em seu ouvido e ela sentiu seus lábios revolvendo-lhe os cabelos.

— Acho melhor comportar-se, sr. Meredith. Detestaria se sua noiva pensasse que o estou encorajando.

John riu.

— Ah, mas como é romântica, srta. Kemble — caçoou, e ela sentiu o cheiro de uísque em seu hálito.

— E você bebeu demais — retrucou ela, encarando-o.

— Não bebi, não. — Seu olhar zombava dela. — Palavra de honra, não bebi mais que dois drinques esta noite.

— Dois drinques? Mas de que tamanho eram? John sorriu.

— Ah, não conto, isto me comprometeria!

Consciente de que naquele momento ele a admirava inten­samente, Sophie olhou nervosamente a sua volta.

— Como isso aqui está cheio, não? Estas festas são muito prestigiadas.

— É sim. — John olhou seu vestido. — Aquele seu meio-irmão tão possessivo não lhe disse o quanto você está deliciosa?

Sophie não conseguiu deixar de sorrir.

— Não com essas palavras.

— Imagino que não. Pois então deixe que lhe diga: você está linda. Não quer jantar comigo amanhã?

Sophie arfou.

— Claro que não!

— Por que não?

Sophie teve certeza de que qualquer pessoa conseguiria ouvir o que ele estava dizendo.

— Porque não posso.

— É por causa de Joanna?

Sophie olhou os botões de seu paletó. Se John voltasse a lhe fazer o convite, ela iria ou não? Nesse caso, de que serviria toda sua bravata em relação a Robert? Mas isso acontecera antes de ela descobrir que... antes que Robert zombasse dela, como tinha feito!

— Bem? — John apertou-lhe os dedos. — É por causa de Joanna?

— Talvez seja.

— Então não é só isso?

— Oh, John! — Sophie olhou para ele impacientemente. — Por que está me convidando para jantar com você? Você sabe muito bem que... que você deve uma certa lealdade a sua noiva.

— Mas que forma tão antiquada de se exprimir!

— No entanto é verdade.

— Está bem, então é verdade. Isto é problema meu. Mas mesmo assim ainda gostaria de levá-la para jantar amanhã.

Sophie sacudiu a cabeça.

— Sinto muito.

— Você tem medo do que seus pais poderiam dizer? — Fez uma pausa. — Ou tem medo do que... Robert dirá?

— O que quer dizer com isso?

— Ah, não me venha com essa, Sophie. Todo mundo sabe como você se sente em relação a Robert, ou melhor, como você acha que se sente.

Sophie engoliu em seco e fitou-o.

— Não sei a que você se refere. John suspirou.

— Não me faça dizer, Sophie.

— Dizer o quê?

— Sophie, todo mundo está cansado de saber que durante anos você teve uma queda por Robert. Meu Deus, seus pais estavam a par de tudo, não? Assim que a coisa se tornou apa­rente, você foi mandada para o colégio interno.

O rosto de Sophie queimava.

— Percebo — conseguiu dizer, muito tensa, enquanto por dentro fervia, tomada de emoções e pensamentos caóticos. — Obrigada por ter-me contado.

— Ah, deixe disso, Sophie — exclamou John, meio envergo­nhado de sua explosão. — Não é que a coisa fosse evidente para todo mundo. Acontece que Rob e eu somos da mesma idade.

— E você discutiu o assunto com ele? — perguntou, ressen­tida por Robert não lhe ter dito nada.

John então corou.

— Claro que não! Você devia conhecer Robert melhor. — Olhou a sua volta. — Bem, vamos tomar um drinque. — Cor­rigiu-se a tempo, zombeteiro. — Aliás, um refrigerante.

Sophie concordou e foram para o outro lado do salão. John encomendou dois e estendeu um deles a Sophie. — Vamos beber lá no corredor. Aqui dentro está muito quente.

Estava mais fresco no corredor, mas Sophie sentiu certa hesitação. Em seguida relaxou, pois a indignação em relação ao que ele acabara de lhe contar atenuou seus escrúpulos. Pelo menos ninguém a acusaria de ter uma queda por John. As iniciativas partiam todas dele; e se Joanna não gostasse, que encontrasse maneiras mais eficientes de controlar seu noivo.

— Em que é que você está pensando agora? — John estendeu a mão e tocou-lhe a fronte. — Você ainda está zangada?

Sophie tomou um gole antes de responder.

— Não. Para falar a verdade, estava pensando em Joanna. John se encostou na parede.

— O que tem Joanna?

— Você a ama?

— E o que tem isso a ver com o resto?

— Ama ou não? John deu de ombros.

— Acho que sim.

— Então por que quer sair comigo? John esboçou um gesto indiferente.

— O fato de amar Joanna não me torna cego para os encantos de outras mulheres.

Sophie comprimiu os lábios.

— Obrigada!

— Por quê?

— Por me chamar de mulher. É a primeira vez que alguém o diz,

John sorriu.

— Mas não é a última. Oh, Sophie, você jantará comigo, não é mesmo? — suplicou.

Sophie hesitou.

— Pensarei no assunto.

— Irei buscá-la amanha às sete e meia — disse John com firmeza.

— Meus pais ficarão sabendo — preveniu. John pareceu contrariado.

— Não diga!

Sophie lançou-lhe um olhar irritado.

— Você deve se sentir muito seguro em relação a Joanna.

— Sinto-me, sim. Mas não me sinto tão seguro em relação a você, Sophie. Você não vai me dar o fora, não é mesmo?

— Você vai ter de esperar para saber.

O som de vozes próximas às portas que davam para o salão atraiu sua atenção e, ao voltar-se, Sophie viu Simon, Joanna e várias outras pessoas se aproximando, procurando por eles.

— John! — Assim que o viu Joanna veio em direção ao noivo. — O que você está fazendo aqui? — Lançou um olhar impaciente sobre Sophie. — Pensei que vocês dois estivessem dançando.

— Estávamos, sim — John desencostou-se da parede, en­quanto Sophie percebia o olhar pouco amistoso de Simon. — Mas estávamos com calor e cheios de sede. Não há nenhuma lei que proíba beber mais de um refrigerante, não é?

Joanna esforçou-se por disfarçar sua contrariedade.

— Não, não, claro que não. — Forçou-se a encarar novamente Sophie. — Você está bem? Espero que este meu noivo exaltado não tenha passado uma cantada em você.

Sophie mordeu a língua. Foi sua vez de exibir um sorriso sardónico.

— Oh, não. Para falar a verdade estávamos conversando a seu respeito, Joanna. — Olhando todos de alto a baixo, ela caminhou cheia de confiança para o salão.

Simon alcançou-a e agarrou seu pulso, com expressão tensa e contrariada.

— Afinal, o que você está fazendo?

Sophie recusou-se a encará-lo, concentrando-se nas pessoas a sua volta.

— Não sei do que você está falando.

— Que história é essa de sair com John? Como acha que Joanna se sentiu quando vocês desapareceram?

Sophie encarou-o:

— Não me importo nem um pouco. Simon ficou tenso.

— Mas o que há com você?

— Talvez eu esteja tentando pensar um pouco em mim. Simon levantou os olhos para o céu.

— O que você está dizendo não faz o menor sentido.

— Não faz mesmo? — Sophie levantou a cabeça. — Acho que você sabia de toda aquela história de me mandarem para o internato, não é? E as razões que motivaram aquela atitude.

Simon fitou-a, sem poder acreditar no que ouvia.

— O que você está querendo dizer com isso?

— O que você ouviu. Você sabia por que eles agiram daquela forma, não é? Você gozava da confiança deles.

— Da confiança de quem?

— Da confiança de nossos pais, evidentemente.

Simon lançou um olhar impaciente a sua volta, a fim de assegurar-se de que sua conversa não estava sendo ouvida.

— Quem foi que lhe contou tudo isso?

— John.

— John? E o que é que ele sabe? — Aparentemente, tudo.

— Pois então ele devia calar a boca!

— Pelo que vejo, agora você sabe a que me refiro.

— Tudo isso pertence ao passado.

— É mesmo? Não concordo.

— Não é importante,

— Mas então por que me mandaram embora?

— Você teria ido para o colégio interno de qualquer maneira.

— De qualquer maneira — repetiu ela amargamente. — Não sei por que você está tão exaltada.

— Não me agrada a idéia de saber que meus assuntos pes­soais são objeto de discussões...

— Pois não foram, não. E se foi isso que John Meredith lhe disse, então ele é um mentiroso!

Sophie suspirou.

— Não... Ele não disse exatamente isso. Ah, está bem, vamos esquecer o assunto. Dance comigo. O pessoal está voltando e sinto vontade de fazer algo chocante!

Simon puxou-a para junto de si.

— Pois então beije-me. Isso dissiparia qualquer boato sobre você e Rob.

Sophie sentiu-se tentada mas, com a palma da mão, impediu sua aproximação.

— Não, Simon — disse calmamente, sacudindo a cabeça. — Você é bom demais para ser usado.

Quase no fim da festa o reverendo Evans veio até eles. Sorriu para Sophie e voltando-se para Simon disse:

— Simon, você não gostaria de mostrar os slides que tirou de Devon e Cornualha para o Clube de Mães da paróquia? O diretor de sua escola contou-me que você fez uma palestra para os alunos das classes mais adiantadas e ele ficou muito bem impressionado. É exatamente este tipo de coisa de que

precisamos e é tão difícil conseguir conferencistas interessan­tes... A sra. Tarrant colaborou antes de viajar para a Grécia, mas o outono vai chegar e não temos nada a oferecer. Simon olhou bem-humorado para Sophie.

— Bem... — hesitou. — Acho que... sim. Mas não sou um conferencista profissional.

— Sra. Tarrant? — Era Sophie quem falava. — Está falando de Harriet Tarrant, a historiadora?

O vigário assentiu.

— Sim. Você a conhece, Sophie? Sophie sacudiu a cabeça.

— Oh, não. É que li um artigo a seu respeito no jornal e fiquei muito interessada. Estudei grego no segundo ciclo e acho seus livros fascinantes.

— Gostaria de conhecê-la? — O vigário estava nitidamente desarmado diante de seu entusiasmo.

— Gostaria demais.

— Pois então venha comigo, Sophie. Ela está por aí. Sempre que se encontra na região ela participa de minhas reuniões.

Sophie lançou um olhar significativo para Simon e ele se­guiu-a e ao vigário através do salão em direção a um grupo de pessoas mais velhas. Sophie conhecia a maior parte delas de vista, devido à profissão de seu pai, mas aquela figura re­chonchuda, de cabelos grisalhos, não lhe era familiar.

— Harriet — disse o vigário —, trago alguém que gostaria de conhecê-la, Sophie Kemble. É a filha do dr. Kemble.

A senhora levantou-se e, pedindo licença a seus companhei­ros, aproximou-se do pequeno grupo.

— Mas que bom — exclamou, depois das apresentações — encontrar alguém jovem, que compreende grego. Hoje a moci­dade parece sentir-se atraída por línguas mais simples, francês, alemão e não se importa com o latim e o grego.

— Confesso que não sou muito boa em latim — disse Sophie, rindo.

— Mas você gosta de grego. E está interessada em mitologia, não é? — Harriet olhou o vigário e voltou a encarar Sophie. — Você por acaso estaria procurando um emprego?

Sophie ficou muito surpreendida e Simon respondeu por ela.

— Sophie vai para a universidade no próximo ano.

— É mesmo? De verdade? — Harriet fitou-a com seus olhos azuis e penetrantes. — E o que planeja fazer até lá?

Sophie deu de ombros, sem saber muito o que dizer.

— Eu... para dizer a verdade, não pensei muito no assunto.

— Pois deveria pensar. Posso lhe oferecer um emprego. Pre­ciso de uma tradutora, alguém que saiba um pouco mais do que palavras tais como kalimera e parakalo.

Sophie olhou para Simon com ar de interrogação e ele disse: — Não sei se meu... quero dizer, se o pai de Sophie concordará com que ela aceite um emprego, sra. Tarrant.

— Por que não? Ela precisa do dinheiro, não? Sophie interferiu:

— É muita gentileza de sua parte...

— Que bobagem, não se trata de gentileza. — Harriet Tar­rant endireitou-se. — Preciso de alguém que me faça traduções.

Sophie umedeceu os lábios.

— E... que tipo de compromisso seria, sra. Tarrant? Harriet enfiou as mãos no bolso do casaco, inflamando-se com o assunto.

— Bem, para início de conversa, teríamos de passar meio ano na Grécia. Prefiro trabalhar lá. Deixo-me envolver pela atmosfera. Tenho dois pesquisadores trabalhando comigo, am­bos gregos, e eles ficam coletando material enquanto estou aqui fazendo conferências ou ensinando. Quando voltar para lá terei uma pilha de material a minha espera para ler e avaliar, além de artigos para traduzir, correspondência, etc.

— Não sei escrever à máquina, sra. Tarrant.

— Que bobagem, qualquer pessoa sabe. — Harriet deu de ombros, não fazendo caso de seu protesto. — Não quero uma secretária, Sophie. O que eu preciso é de alguém que saiba as lendas, que possa apreciar o equilíbrio precário entre o fato e a fantasia e, acima de tudo, alguém que saiba ler e falar a língua.

Sophie sentia uma grande tentação, mesmo sabendo que se aceitasse colocaria milhares de quilómetros entre ela e Robert. Mas mais cedo ou mais tarde, ele aceitaria um contrato no estrangeiro e até lá ele e Emma estariam casados... Aquela perspectiva deixou-a toda arrepiada. Como poderia aceitar o fato de que eles iam viver juntos, dormir juntos...?

Notando quanto Sophie empalidecera, Simon disse:

— Acho que está na hora de ir embora, Sophie.

A preocupação que ele demonstrava era inequívoca e Harriet Tarrant comprimiu os lábios.

— E então, Sophie? — indagou, em tom de desafio. — Você pensará na oferta? Esperarei alguns dias, se você quiser dis­cutir o assunto com seus pais. Sophie hesitou.

— Eu... gostaria de pensar nisso tudo. Posso lhe telefonar, assim que tomar uma decisão?

— Claro.

Enquanto Harriet anotava seu endereço e número de tele­fone, o vigário distraía Simon, dizendo o quanto o Clube de Mães ficaria contente com a notícia de que o primeiro confe­rencista já fora contatado. No entanto, assim que se afastaram, Simon voltou-se para Sophie, indignado.

—O que você quis dizer, ao falar para aquela mulher que pensaria em sua proposta? Você não pode aceitar e sabe muito bem disso!

Sophie encarou-o de frente.

— Por que não?

— Porque não quero. Já bastou saber que Rob tinha... Não quero que nenhum grego seboso ponha as mãos em você!

— Oh, Simon!

— É isso mesmo! Além disso, seu pai jamais concordará.

— Em seu lugar eu não teria tanta certeza assim. Não é este exatamente o tipo de oportunidade que ele espera? Algo que afaste Robert de minha influência nefasta?

— Robert!

Simon pronunciou o nome do irmão com desprezo e Sophie tornou-se tensa demais. O barulho das guitarras elétricas pe­netrou estridentemente em seus ouvidos e uma dor de cabeça insuportável tomou conta dela aos poucos.

— Gostaria de ir para casa, Simon!

Simon tinha a aparência de quem ia protestar, mas acabou assentindo. Começou a abrir caminho entre as pessoas, até a porta. O grupo de John Meredith estava lá, mas Sophie evitou olhá-los. Emma, entretanto, os viu e veio até eles.

— Já estão indo?

Simon disse que sim e Emma deu um sorriso de alívio.

— Que bom. Vou com vocês. Já não aguento mais o barulho... — Sacudiu a cabeça, num gesto expressivo. — Além do mais, isto aqui sem Robbie não é o mesmo.

Sophie deu uma resposta neutra e foi buscar seu xale. Apesar de tudo que Simon pudesse dizer, ir embora de Conwynneth não era tão má idéia.

 

A decisão de aceitar ou não a oferta de Harriet Tarrant teve de ser adiada. No dia seguinte ao do baile na Prefeitura, Sophie acordou com um resfriado terrível e pela hora do almoço a febre era tanta que teve de ir para a cama. Seu pai ordenou que ela se deitasse e no final da tarde a temperatura subira a quase trinta e nove graus. Ela passou toda a semana de cama, totalmente incapaz de formular planos para o futuro imediato.

Apesar de consternado com a saúde dela, Simon no fundo estava bem feliz. Sem se preocupar em pegar o resfriado de Sophie, passava horas em seu quarto, lendo e conversando com ela. O único arranhão em seu relacionamento era John Meredith que, não sabendo da indisposição de Sophie, telefonou para convidá-la para jantar. Descobrindo que ela estava doente, começou a perguntar por ela todos os dias e a mandar maços e maços de flores que inundavam o quarto com seu odor ine­briante. Os Kemble desaprovavam tamanha atenção mas, a menos que se mostrassem rudes, não podiam fazer nada.

Emma partiria no fim da semana, e foi despedir-se de Sophie no domingo pela manhã. Simon ia acompanhá-la até Londres e ela já estava de casaco quando entrou no quarto de Sophie. Era a primeira vez que elas se encontravam a sós e Sophie, debilitada, não se sentia em condições de manter um diálogo. Emma não conseguia disfarçar o medo de contrair uma gripe e, postada diante da porta, disse:

— Espero que você se levante logo, Sophie. E uma pena ficar de cama quando lá fora o tempo está tão lindo. Ainda bem que você está rodeada por lindas flores, não é?

— Tenho certeza de que papai me deixará levantar na pró­xima semana — comentou Sophie.

— Com toda certeza. E você tem a perspectiva de uma bela viagem, não é mesmo? Ah, a Bretanha... Seria tão bom se Robbie e eu pudéssemos passar alguns dias lá com vocês...

Ela sorriu. Era um sorriso forçado, mas talvez Sophie fosse a única a atribuir-lhe essa intenção. Sophie sentiu-se enver­gonhada. Emma era uma boa moça e era ela quem exagerava.

Forçando-se a encará-la, indagou:

— Aproveitou bem os dias que passou aqui?

— Acho que sim. Se bem que não há muito o que fazer por aqui, não acha?

Sophie desviou o olhar.

— Acho que depende do que cada pessoa gosta de fazer. O sorriso de Emma tornou-se um tanto frio.

— Será que há nisso uma nota de censura?

— Não, claro que não. Só quis dizer que... há muito o que fazer, se você gosta de andar a pé, jogar golfe, tênis...

— Sim. — Emma parecia um tanto enfastiada. — E, acho que não sou do tipo que aprecia a vida ao ar livre.

Sophie sentiu-se tentada a perguntar que espécie de tipo ela era, mas se calou. Pareceria sarcástica e a última coisa que ela desejaria no mundo era um duelo verbal com Emma. Limitou-se a dizer:

— Imagino que uma pessoa que viva em Londres acabe recorrendo a divertimentos artificiais.

O comentário era bem inocente, mas Emma não o encarou assim. — O que você quer dizer? — indagou secamente.

— Acho que, quando uma pessoa vive sozinha, aprecia a com­panhia que pode ser encontrada em teatros, restaurantes, etc.

— Mas eu não vivo sozinha — replicou Emma com frieza. — Quando Robbie está em Londres não precisamos de mais ninguém. Nossa própria companhia nos basta.

Sophie engoliu em seco, sentindo-se tensa e suando frio. O que Emma estava dizendo? Afinal, que importância tinha tudo aquilo? Ela não devia se deixar envolver...

— Quis dizer que... isto é... — começou, mas Emma a in­terrompeu, com expressão séria.

— Sei muito bem o que você quis dizer. Você acha que sou cega, Sophie? Pensa que sou estúpida? Imagina que ignoro como se sente em relação a Robbie? Notei o modo como você o encara, o jeito como fala com ele...

— Emma! Emma! Você já está pronta?

A voz de Simon deixou Sophie aliviada. Emma foi até o corredor.

— Sim, estou pronta, Simon — respondeu. — Só mais um minuto. — Voltou para o quarto. — Trate de sarar logo, ouviu, Sophie? Quero que você seja minha dama de honra! — E com o sorriso pretensamente tímido de sempre ela se foi.

Simon não conseguiu entender por que a partida de Emma exerceu um efeito tão deprimente em Sophie. Esperava que ela melhorasse rapidamente assim que a outra se afastasse, mas isto não aconteceu. Sophie estava mais desanimada do que nunca.

Durante a semana que se seguiu seu organismo saudável rea­giu e no fim de semana ela se sentia suficientemente bem para se levantar. O tempo agradável tornava o jardim um lugar ideal para a convalescença e Sophie passava horas estirada em uma espreguiçadeira, ouvindo rádio. Simon troçava com ela devido a sua falta de energia, mas o dr. Kemble insistira em que o repouso havia de lhe fazer bem. Na quinta-feira de manhã John Meredith apareceu. Laura hesitou em recebê-lo até ele explicar que tinha um recado para Sophie da parte de Harriet Tarrant.

Como Laura só sabia do convite de Harriet Tarrant através de Simon, achava que qualquer decisão deveria ser tomada só depois de consultar seu marido. A própria Sophie não dissera nada, mas é verdade que ela não estivera em condições de fazê-lo. A reação inicial de Laura tinha sido de aprovação, mas ela se conteve, imaginando que o dr. Kemble poderia ter uma opinião diferente. Assim, o caso teria de ser abordado com muita cautela. Laura quase o fez, durante várias noites, mas o momento apropriado não ocorrera. E agora lá estava John Meredith com um recado misterioso.

Com um ligeiro sorriso convidou-o para entrar na sala de estar e foi ã procura de sua enteada. Sophie ainda não estava vestida quando ela entrou em seu quarto. Estava escovando o cabelo e surpreendeu-se diante da aparição inesperada da madrasta.

— John está aqui — explicou. — Tem um recado para você da parte de Harriet Tarrant.

Sophie evitara pensar na oferta de Harriet durante os últimos dias. A coisa era tentadora demais, mas ela não tinha o menor desejo de tomar uma decisão precipitada, da qual viesse a se arrepender. Sabia também que Laura esperava alguma explicação.

— Você deve estar imaginando por que a sra. Tarrant me mandou um recado.

Laura sacudiu a cabeça.

— Não exatamente. Simon me contou que você a conheceu durante a festa, na semana passada.

— E ele contou que ela me ofereceu um emprego?

— Contou, sim, mas não parecia entusiasmado. E você?

— Não sei. E tentador trabalhar na Grécia. Mas não sei se quero tornar a ir embora. Acabo de voltar para casa.

Laura comprimiu os lábios.

— E uma oportunidade maravilhosa.

Para quê?

Sophie, embaraçada, teve a impressão de que dissera aque­las palavras em voz alta. Olhou porém para o rosto de sua madrasta e certificou-se de que não o havia feito.

— Sim — Sophie murmurou, voltando-se e escovando o ca­belo mais uma vez. — Estou bem?

Laura disfarçou sua impaciência.

— Está um tanto pálida, mas lhe vai bem. Além do mais, você não está interessada em impressionar John Meredith, não é?

— Onde é que ele está?

— Na sala de estar. Vou pedir à sra. Forrest que lhes sirva um cafezinho. Você está em jejum.

— Não sinto fome, mas um café cairia muito bem. Sophie forçou um sorriso e desceu a escada.

John levantou-se assim que ela entrou e seus olhos a per­correram dos pés à cabeça,

— Pálida, porém interessante. Diga-me, você precisava mes­mo ficar de cama para evitar encontrar comigo?

Sophie relaxou. Esquecera de que com John era possível conversar à vontade.

— Pois saiba que fiquei bastante doente — replicou. — Sinto muito se não pude comparecer a nosso encontro.

— Sente mesmo? Então marcaremos outro.

— Você trouxe um recado para mim se não me engano.

— Sim. Da parte de nossa historiadora local, a sra. Tarrant. Ela jantou lá em casa ontem à noite.

— Ela lhe contou que me ofereceu um emprego?

— Sim... sim. Ela parecia bastante interessada. Seu conhe­cimento de grego, ao que parece, lhe deu muito cartaz perante ela. Você vai aceitar o emprego?

Sophie baixou os olhos.

— Ainda não decidi. Foi para isso que ela pediu que você viesse me ver?

— Não. Esta pergunta fui eu que fiz. É que Corfu fica tão longe daqui...

— Corfu?

— Exatamente. Você sabia que a sra. Tarrant trabalha em Corfu, não é mesmo?

— Não. Ela não mencionou o local. Mas então qual é o recado?

— Nada de dramático. Ela me pediu para avisar que viaja para Londres hoje e só volta no meio da próxima semana.

— Ah, percebo. — Sophie sentiu-se aliviada. Sua decisão poderia esperar por mais alguns dias.

A sra. Forrest surgiu com a bandeja de café e, enquanto a colocava sobre uma mesinha ao lado de Sophie, John pediu notícias dela e de seu marido. Sophie achou que naquele mo­mento ele estava se comportando com a deferência de um filho do fidalgo local. Mesmo assim sua atitude era simpática.

— Bem... agora vamos abordar assuntos mais interessantes — disse, assim que a criada se afastou. — Jante comigo amanhã.

Sophie arfou.

— Você não perde muito tempo, hein?

— Tempo é dinheiro, como diria meu querido pai.

— Mesmo assim... Ah, não lhe agradeci todas as flores que você me mandou. Eram lindas.

— Que bom que você gostou. Mas nenhuma delas era tão linda quanto você.

Sophie sacudiu a cabeça, rindo. Naquele momento, sentia-se melhor do que nunca. Então a porta se abriu e ela viu diante de si o rosto frio e irado de Robert.

John, muito sem jeito, pôs-se de pé, percebendo que era o responsável pelo ar contrariado de Robert.

— Olá, Rob — cumprimentou calorosamente. — O que está fazendo por aqui?

Robert entrou na sala, os movimentos controlados como os de uma pantera.

— Esta é a minha casa, John — informou friamente. —-Por que não deveria estar nela?

John esboçou um gesto de quem pede desculpas e Sophie sentiu a tensão que invadia o ambiente.

— Não estava questionando seu direito de estar aqui, só fiquei surpreso em vê-lo.

Robert inspirou profundamente, olhando a bandeja de café, e Sophie encarou-o. Estava perturbadoramente atraente. Seus olhares se cruzaram e ela não conseguiu enfrentar a expressão de fúria dele.

— Como vai, Sophie? — perguntou polidamente, deixando-a surpresa com a calma que aparentava.

— Eu... hum... estou... muito melhor, obrigada,

Robert concentrou sua atenção em John, o que deixou Sophie muito aliviada.

— Corro o risco de repetir suas palavras. E você, o que está fazendo aqui?

— Vim ver Sophie. Saber se ela tinha melhorado e trazer-lhe um recado.

— Um recado? — Robert olhou-o com ironia. — Jamais o teria imaginado no papel de um moleque de recados, John.

O tom com que se exprimia, mais do que a voz, é que era ofensivo e a expressão de John endureceu.

— Talvez não. Mas eu também jamais supus que você as­sumisse o papel do pai ciumento.

Sophie levantou-se bruscamente. Estava farta das atitudes agressivas de Robert, sempre entrando em conflito com as pes­soas que se aproximavam dela.

— John não tem a menor necessidade de dar conta de seu comportamento, Robert — disse, cerrando os punhos. — Você não tem o direito de se comportar como se estivéssemos co­metendo algum crime! Fiquei doente e ele veio me visitar! E o que você está fazendo aqui? Achei que estava em Londres, passando férias ao lado de sua... noiva!

Custou-lhe muito dizer aquelas palavras, mas elas surtiram o efeito desejado. Robert olhou-os com desprezo e saiu do quarto, batendo a porta.

— Puxa! Escapei por pouco! Sophie tentou sorrir.

— Não seja tolo. John sacudiu a cabeça.

— Não sou, não. Robert teria sido capaz de me reduzir a picadinhos. Sei do que falo; já o vi brigar quando cursávamos a universidade.

Sophie caminhou inquieta em direção à janela, contemplan­do o gramado.

— Sinto muito. Não sei o que há com ele. — Eu sei. Ele está com ciúme!

— Ciúme? Você não está falando sério!

— Estou, sim. — John caminhou para onde ela estava. — Não é de se estranhar, Sophie. Durante anos você foi a escrava dedicada dele, sua admiradora fervorosa, dependente de tudo o que ele dizia. Era fatal que, mais cedo ou mais tarde, você crescesse e fizesse amigos do sexo oposto. E Rob não gosta disso. Você está usurpando sua autoridade. Como todo mundo, ele é egoísta em relação às coisas de que gosta.

— Mas eu não sou uma coisa! Sou uma pessoa.

— Exatamente. E Rob está começando a se dar conta disso. O fato de ele ser noivo o deixa de mãos atadas.

Sophie ficou em silêncio. Era possível que houvesse alguma verdade no que John dizia, mas isso não a aliviava em nada. Quando John disse que Robert sentia ciúme, ela imaginou que ele estava se referindo a algo inteiramente diferente, bem mais pessoal. Mas claro que John tinha razão. Se Robert se sentia enciumado por sua amizade com John e Simon, sua atitude era de puro egoísmo. Ele não a queria, mas não admitia que ninguém mais a quisesse.

— Acho melhor eu ir embora — disse John finalmente. — Não quero encontrar com Simon, quando sair daqui.

— Pare de me amolar — disse Sophie.

— Está bem. Mas e amanhã à noite?

— Você ainda quer sair comigo? John sorriu.

— Um homem prevenido vale por dois, segundo dizem. Virei armado com pistola e granadas de mão.

Sophie riu.

— Oh, John, você me faz bem, sabia? John pegou em seu queixo, carinhosamente.

— Você também poderia me fazer bem, Sophie — murmurou com a voz rouca. Retirou a mão e afastou-se. — Amanhã à noite, às sete e meia.

— Está bem — concordou Sophie.

Depois que ele se foi, Sophie pôs as xícaras na bandeja e levou-a para a cozinha. Laura estava lá, com a sra. Forrest. Sua madrasta acompanhou-a de volta à sala de estar.

— E então? — indagou. — Qual foi o recado? Sophie esboçou um gesto vago.

— Nada de importante. A sra. Tarrant viajou por alguns dias. — Foi só isso? — Laura ficara desapontada. — Ela não poderia ter telefonado?

— Acho que sim. Mas, como ela jantou na casa dos Meredith ontem à noite, John se ofereceu para transmitir o recado pes­soalmente. — Fez uma pausa. — E por falar nisto, vou jantar com ele amanhã è noite.

Laura ficou surpreendida.

— Sei. Achava que seu pai e eu tínhamos esclarecido sufi­cientemente o que pensamos de seu relacionamento com John Meredith, enquanto você estava doente,

— Eu gosto dele — disse Sophie com firmeza.

— Ele é velho demais para você. Além disso, está noivo.

— Isto com toda certeza é problema dele.

— Sophie! O que há com você? Desde que voltou para casa parece ter prazer em perturbar a harmonia deste lar!

— Sinto muito.

Laura suspirou impacientemente.

— Oh, meu bem, não quero brigar com você, mas... Você sabe que Robert chegou?

Sophie ficou tensa.

— Sim.

— Acho que ele trocou algumas palavras com John.

— Pode-se dizer que sim. Laura franziu o cenho.

— Por que está tão irônica?

— Nenhuma razão em especial. Estou cansada, mamãe. Não se importa se eu for me sentar um pouco no jardim?

— Claro que não. — Sacudiu a cabeça, tomada de aparente confusão. — Não compreendo o que está acontecendo.

A sra. Forrest já colocara a espreguiçadeira sob os ramos de um carvalho e Sophie esticou as pernas, impaciente com sua própria fraqueza. Ficar tantos dias de cama a debilitou mas a energia mental consumida em enfrentar Robert tinha sido o pior.

Ficou a imaginar quanto tempo levaria para se recuperar completam ente. Talvez quando a sra. Tarrant voltasse de Lon­dres ela se sentiria forte para tomar decisões quanto ao futuro. Naquele momento, ele lhe parecia mais do que nunca nebuloso.

O sol filtrava-se através dos galhos da árvore e ela cerrou os olhos. Ouvia o zumbido das abelhas nas flores e o trinar dos pássaros. Da casa chegava o ruído do aspirador, usado pela sra. Forrest. As janelas estavam abertas e ela ouvia va­gamente o som de vozes no estúdio.

Estava lá há mais ou menos meia hora quando se deu conta de que as vozes se tornavam mais fortes. Não conseguia dis­tinguir o que diziam, mas reconhecia um diálogo entre sua madrasta e Robert. Ficou tensa e uma onda de apreensão apo­derou-se de seu corpo. Acalme-se, disse a si mesma. O que está sendo dito provavelmente nada tem a ver com você.

Mas por que estariam discutindo? O tom das vozes indicava que estava para explodir um conflito. Seguiu-se um silêncio súbito, em seguida as vozes se altearam, com mais vigor, mas ela ainda não conseguia entender o que estava sendo dito.

Compreendeu, ao ouvir o barulho de passos na alameda de pedregulhos, que eles estavam em frente a casa. Ouviu-se urna altercação e o barulho da porta de um carro que fechava com violência. Sophie endireitou-se e sua boca tornou-se subita­mente ressequida, enquanto o automóvel se afastava. As. últi­mas palavras se perderam cobertas pelo barulho dos pneus que rangiam. Sophie tremia e tentou se controlar. E daí? Robert se fora novamente. Mas para onde? E por quanto tempo?

 

Apesar de sua madrasta parecer um tanto contrariada à hora do almoço, não fez a menor referência à discussão que tivera com Robert, o que deixou Sophie muito surpreendida. Laura tratou a visita dele como algo casual, dizendo a seu marido e a Simon que ele simples­mente dera uma parada, pois seguia para Londres. Simon pas­sara a manhã em Hereford e Sophie sentiu-se aliviada por ele não ter sido envolvido na discussão.

Laura mostrou-se muito mais coerente no que dizia respeito à intenção de Sophie de sair com John Meredith, e o dr. Kemble acrescentou sua desaprovação à da esposa e do enteado.

— Você não é totalmente culpada, Sophie — disse ele gra­vemente. — Meredith devia ter mais juízo e não sair por aí marcando encontros com moças de boa família.

Sophie pôs o prato de lado.

— Isto quer dizer que se eu não fosse de boa família não teria importância?

— Não fale com seu pai nesse tom! — Laura disse, abor­recida. Sophie ruborizou-se e seu pai suspirou.

— Pode deixar que eu me encarrego disto, Laura, obrigado — disse, olhando o vinho no copo. — Sophie, por que você quer sair com este homem? Meu Deus, não há por aqui rapazes de sua idade?

— Os rapazes de minha idade me aborrecem! — replicou Sophie revoltada.

O dr. Kemble sacudiu a cabeça.

— Não é de se estranhar. Você passou tempo demais na companhia de Robert e Simon.

— Não é verdade! — exclamou Sophie, indignada. — Estive no colégio interno durante cinco anos e lá conheci muitos ra­pazes. E, de qualquer maneira, gosto de John. Ele é... — olhou muito sem jeito para Simon — ele é muito boa companhia.

A sra. Forrest trouxe a sobremesa, distraindo a atenção geral e Simon retomou o assunto quando estavam no jardim.

— Você sabe de uma coisa? — disse ele em tom confidencial. — Rob não gostaria que você se envolvesse com John Meredith, e o mesmo acontece com todos nós.

— Você acha que eu me importo com o que Robert gosta?

— Acho que se importa, sim!

Sophie deu-lhe as costas e contemplou o jardim, pensativa.

— Acho que vou aceitar a oferta da sra. Tarrant — disse com amargura, — Pelo menos ficarei longe de todos.

— Pare de dizer bobagem! Você sabe muito bem que na raiz de tudo está Rob. Você acha que escapar vai resolver o que quer que seja?

Os lábios de Sophie tremeram. — Então o que é que você sugere? Que eu viva aqui como uma reclusa?

— Claro que não. Você deve pensar em seu futuro, o futuro de verdade, não esses meses que estão para vir.

— Um emprego com a sra. Tarrant poderia durar mais do que alguns meses.

— O que você quer dizer com isso? Que você deixaria seus estudos para tornar-se uma tradutora? A assistente de alguém, quando você tem a capacidade de conseguir um diploma?

— Seria um trabalho muito interessante, Simon, e eu gos­taria bastante.

— Gostaria bastante! Mas que desperdício!

— E você? — replicou ela. — Você não é ambicioso e se contenta em lecionar em Conwynneth.

— Não tem nada a ver.

— Como, não tem nada a ver?

— Não sou como você e Rob. Não tenho nenhuma inteligência brilhante e conheço minhas limitações.

— Talvez eu conheça as minhas.

— Eu sei que você pode entrar na universidade.

— Em termos práticos, sim. Mas e se eu não quiser?

— Você sabe o que quer?

— Sabia... — Sophie baixou a voz. Simon olhou-a fixamente.

— Rob, imagino. Bem, Rob vai se casar com Emma e quanto mais cedo você aceitar o fato, melhor.

Sophie deu de ombros.

— Você acha que esqueci?

— Você devia saber que isto não lhe servia. Nossos pais foram contra, desde o princípio.

— Lembre-se de que eu não sabia disto até recentemente. — De repente, teve vontade de magoá-lo como ele a havia magoado. — Se é assim, por que me diz que me quer? O mesmo critério deverá ser aplicado.

— Não tenho pressa e posso esperar. Esperarei até que você se forme e dê um rumo a sua vida. Muita coisa pode acontecer em cinco ou seis anos, e uma mulher com vinte e poucos anos é muito diferente de uma adolescente.

Sophie deu-lhe as costas. Seus planos calculistas não lhe agradavam. Será que sua mãe sabia como ele se sentia? Con­cordaria com o fato, quando a ocasião se apresentasse?

— Eu poderia conhecer alguém na universidade — disse sem encará-lo. — Universidade ou Grécia, não vejo diferença.

— Cursando a universidade você estaria na Inglaterra, em outras palavras, seria acessível. E se encontrasse outra pes­soa... eu encararia a situação quando ela se apresentasse.

— Oh, Simon, não fale assim. — Tapou os ouvidos. — Você não pode decidir a vida das pessoas por elas.

Simon levantou-se.

— Prometi ao vigário que levaria os slides para mostrá-los esta tarde. Quer ir?

Sophie sacudiu a cabeça e Simon, contrariado, saiu. Será que nunca deixaria de se sentir chocada com a duplicidade de sua família? Robert, Laura, Simon — todos eles tentavam ma­nipular as pessoas para alcançar seus próprios fins.

Na noite seguinte John levou Sophie para jantar num hotel nos arredores de Hereford. Era um lugar novo e popular, e várias pessoas os reconheceram e falaram com eles, enquanto se acomodavam. Sabendo que era alvo de olhares, Sophie sen­tiu-se nervosa, mas John logo a pôs à vontade, fazendo piadas. Seus olhos diziam que ela era atraente e seu bom humor mos­trava que ele estava se divertindo muito.

465 Cedo Demais Para amar

Sophie tomara o maior cuidado com a aparência, em claro desafio à desaprovação da família. Seu vestido era simples, de jérsei branco, mas moldava as curvas de seu corpo esbelto e valorizava o dourado de sua pele queimada de sol. Isso lhe dava a segurança de que agora ela era uma mulher e não mais uma garota, como algumas vezes a tratavam.

Após o jantar sentaram-se no bar, e falaram principalmente a respeito de coisas inconsequentes: filmes, televisão, livros que tinham lido, lugares conhecidos. Era tudo muito fácil e relaxante e Sophie divertia-se de verdade.

Voltaram para Conwynneth logo depois das dez e, por con­sentimento mútuo, estacionaram o carro no fim da alameda para que John a acompanhasse alguns metros a pé. A casa estava escura e deserta e ela lembrou-se de que seus pais e Simon tinham planejado ir à casa dos Page naquele noite. Era ainda bastante cedo e obviamente ainda não haviam chegado.

Ao chegarem à entrada da casa, Sophie voltou-se para John, cheia de gratidão.

— Foi uma noite ótima — disse calorosamente, tocando em seu braço. — Obrigada por tanta gentileza.

Mesmo na escuridão Sophie notou a expressão de ironia estampada em seu rosto.

— Este é um substantivo que espanta o mais ardente dos pretendentes! — caçoou. — Gentileza! Não posso me esquecer desta palavra.

Sophie riu.

— Você sabe o que estou querendo dizer. Você é gentil. Apenas quero... — interrompeu-se, abriu a bolsa à procura da chave. Tirou-a com ar de triunfo e voltou a encará-lo. — Bem, boa noite, John.

John franziu o cenho.

— Não há ninguém em casa?

— Acho que não. Meus pais foram passar a noite com os Page. Voltarão logo.

— Quer que eu entre com você? Sophie hesitou.

— Eu... Não, acho que não, obrigada. Eles não haveriam de... gostar.

John concordou.

Cedo Demais Para Amar

— Está bem, então vamos nos dizer boa-noite. Até logo. Sophie. — Antes que ela pudesse detê-lo, ele inclinou a cabeça e deu-lhe um beijo na boca.

Ela arfou assim que ele a soltou pois, quase no mesmo mo­mento, uma luz se acendeu no hall da casa, iluminando a varanda. Ela esboçou um gesto de impotência.

— Pelo visto eu me enganei. Eles estão em casa. John parecia não estar convencido.

— Tem certeza? Não quer que eu vã verificar?

— Por quê? Você não está pensando que... oh, não! — O rosto de Sophie revelava espanto. — Nenhum ladrão acende as luzes. — Em seguida dominou-se. — Bem, só há um modo de descobrir. — Girou a maçaneta e abriu a porta. — Veja só, não está fechada. — Entrou no hall. — Papai, mamãe! Cheguei!

A porta do estúdio de seu pai estava aberta e ela caminhou hesitante até lá, ridicularizando-se pela apreensão que estava sentindo.

— Papai... Você está aí?

Deu ura passo atrás quando Robert saiu do estúdio.

— Alô, Sophie — disse secamente. Seu olhar pousou em John, que ainda estava na entrada da casa, disposto a vir em auxílio de Sophie, caso fosse necessário. — Alô, John. Achei que deveria mesmo ser você.

John parecia muito surpreso.

— Pelo que o vigário me disse você partiu ontem pela manhã, Rob. O que é isso? Uma série de visitas relâmpago, ou Emma está com você?

A menção ao nome de Emma foi proposital e Sophie ficou tensa. Robert, no entanto, limitou-se a sacudir a cabeça.

— Estou só, John. — Seus olhos detiveram-se em Sophie, apa­rentemente sem a menor satisfação. — Onde estão nossos pais?

— Foram à casa dos Page. Simon também, acho.

— Entendo. — Robert voltou a olhar para John. — Você vai entrar ou já está de saída?

John franziu o cenho.

— Tenho escolha?

Robert fez um gesto negativo.

— Isto é com Sophie — e entrou no estúdio, fechando a porta com decisão.

John sacudiu a cabeça, incapaz de compreender o compor­tamento intempestivo de seu amigo.

— E então, Sophie?

— Acho melhor você ir embora — disse Sophie com firmeza.

— Obrigada mais uma vez pelo jantar. Gostei muito.

— Eu também gostei. — Hesitou, dando a impressão de que queria dizer mais uma coisa, mas logo em seguida deu as costas. — Certo, Sophie. A gente se vê.

Sophie fechou a porta, sentindo um certo alívio. Tinha o pres­sentimento de que se tivesse convidado John para ficar, Robert voltaria a aparecer e a partir daí não sabia o que poderia acontecer.

Suspirando, colocou a bolsa sobre uma mesinha do hall, tirou os sapatos e foi para a cozinha, apanhar um refrigerante na ge­ladeira. Estava se servindo quando sentiu que alguém a observava.

Robert estava parado na porta, também estava descalço, o que demonstrava que já estava em casa havia algum tempo.

— Ele foi embora — afirmou.

— Sim. — Sophie acabou de se servir e mostrou o copo. — Quer um pouco?

Robert sacudiu a cabeça.

— Onde é que você foi?

Sophie forçou-se a tomar um gole antes de responder. Não se deixaria intimidar por ele.

— Jantamos em um hotel nos arredores de Hereford. O Cisne. Você nunca esteve lá?

— Imagino que ele a convidou, enquanto estava aqui ontem.

— Robert falava com calma, mas por trás de suas palavras havia um tom de ameaça que não passou despercebido a Sophie.

— Eu... sim, para falar a verdade foi ontem, sim. — Fez uma pausa. — Na realidade, ele me convidou há algumas se­manas, mas fiquei doente e... não pude aceitar.

— É? E quando é que foi? Sophie tomou mais um gole.

— Nós... isto é, Simon e eu fomos a uma festa na Prefeitura. John e... sua noiva estavam lá. Aconteceu... quando Emma estava aqui. Convidaram-na para ir com eles. Ela... ela não lhe contou?

Robert parecia pouco inclinado a responder à pergunta.

— E você gosta dele? Sophie sentiu que corava.

— Mas que pergunta! — respondeu ela com desenvoltura.

— Claro que gosto dele.

Sem que ela pudesse prever, Robert cobriu o espaço que os separava com passadas rápidas e fez com que ela o encarasse, segurando-a com toda força.

— Até que ponto você gosta dele? — perguntou brutalmente.

— Diga-me! Quero saber!

Sophie prendeu a respiração, segurando o copo com as duas mãos.

— Eu... apenas... gosto dele — respondeu, insegura.

— Do jeito como gosta de Simon? — Ele fez uma pausa. — Ou de min?

Sophie lutou para desvencilhar-se.

— Acho que isso não lhe diz respeito.

— É mesmo? — Ele tirou o copo de suas mãos e colocou-o de lado com impaciência. Então puxou-a para perto dele, tão perto que ela conseguiu sentir a rigidez e o calor de sua masculinidade.

— Sophie, não estou perguntando por mera curiosidade — disse ele com voz rouca. — Mas... — Ele hesitou, contemplando seu decote e a linha de seus seios. — Tenho de saber, Sophie. Tenho de saber se na companhia de John... ou de Simon, você esquece tudo o que dissemos às margens daquele regato, há duas semanas!

Sophie encarou-o e seus olhares se cruzaram. Ela tentou em vão subtrair-se a seus braços.

— Mas... como é que você pode me perguntar uma coisa dessa? Como é possível isso?

Robert a olhou, como se quisesse penetrar em seus segredos mais íntimos e disse:

— Isso é tudo o que eu queria saber.

Ele afrouxou os braços e ela aproveitou para desvencilhar-se dele, encostando-se na parede.

— Por favor — suplicou. — Vá-se embora e deixe-me só. Não sei o que você deseja de mim, mas não posso dá-lo.

Robert caminhou em direção a ela, ignorando seu apelo e o tremor que traía suas emoções. Colocou-a de encontro à parede, bloqueando qualquer tentativa de fuga. Seu rosto moreno estava sombrio e ela percebia sua sensualidade, mas os pensamentos dele se ocultavam por detrás da espessura de suas pestanas.

Tendo-a encurralada, Robert parecia não ter a menor pressa em ir mais adiante. Ao contrário, parecia sentir uma certa satisfação só de olhar o jogo de emoções no rosto expressivo de Sophie, bem como seus seios, que arfavam. Sophie apoiava as mãos na parede e a tensão aumentava, dando-lhe a sensação de que havia um nó em seu estômago.

— Oh, por favor, Robert, deixe-me!

Em resposta, ele encostou o corpo ao dela e suas coxas procu­raram uma intimidade que ela não tinha força — ou vontade — de lhe negar. Robert inclinou a cabeça, à procura de sua boca. Seus lábios apertaram os de Sophie, amoldaram-se a seu rosto, percorreram a curva de seu nariz e as concavidades escondidas de suas orelhas. Tomou suas mãos, levando-as a seu corpo, indi­cando que ela deveria fazer com ele o que bem entendesse. Com um pequeno soluço ela correspondeu, reagindo com um abandono que a deixaria chocada ao pensar em tudo aquilo mais tarde, e não mais se importando com o fato de que seus pais poderiam chegar a qualquer momento e encontrá-los naquela situação.

Com efeito, foi o barulho do carro do pai de Sophie chegando que a trouxe de volta à realidade. Enfraquecido pelas solicitações de seu próprio corpo, Robert não tinha condições de detê-la quando ela se desprendeu dele e saiu correndo para a sala de estar antes que a porta da entrada se abrisse. Teve o bom senso de fechar a porta da cozinha assim que saiu, dando a Robert um pouco de tempo para se recompor. Quando sua madrasta entrou na sala de estar, encontrou Sophie sentada em uma poltrona, aparente­mente absorta na leitura de uma revista.

— Vimos as luzes acesas — observou Laura, entrando e tirando o xale. — Imaginamos que você já devia estar em casa.

Sophie limpou a garganta.

— Bem... para falar a verdade, Robert estava em casa... antes de mim.

Laura franziu o cenho.

— Robert? Está aqui? — E diante do aceno de cabeça de Sophie, indagou: — Mas onde?

O dr. Kemble e Simon entraram na sala, naquele momento, e Sophie fez uma pequena pausa e lhes falou em um tom que esperava ser bastante casual:

— Eu... acho que está na cozinha. Não tenho certeza. Laura olhou para seu marido.

— Robert chegou — disse, indo ao encontro de seu fiiho mais velho.

— Robert? — o dr. Kemble voltou-se para Sophie. — Robert está aqui?

— Sim!

Sophie parecia irritada, mas não conseguiu evitá-lo. Emoções descontroladas ameaçavam apoderar-se dela e ela procurou re­fúgio no mau humor. Agora que estava se recuperando daquele encontro excitante na cozinha, um sentimento de vergonha e autodesprezo a invadia. Como era possível ter-se comportado lubricamente?, perguntou a si mesma com amargura. Como podia ter permitido que ele a tocasse de modo tão íntimo? Simon é quem tinha razão. Robert era um porco, fazendo-lhe a corte enquanto sua noiva estava sozinha em Londres. Seria ele naturalmente promíscuo? Ou o que acontecera entre eles era forte demais para que ele pudesse resistir? Aquele laço nunca tinha deixado de estar lá e isso ela tinha de reconhecer. Ela, porém, era uma tola em lhe conceder privilégios que ele, obviamente, não encarava de maneira séria. Caso seus pais não tivessem chegado, ela teria experimentado a tentação de ser possuída por ele? Então, o que teria acontecido...?

— Há quanto tempo você chegou, Sophie? — perguntou Si­mon, e ela percebeu que ele estava imaginando quanto tempo ela e Robert tinham ficado a sós.

Ela deu de ombros.

— Não sei exatamente. Vinte minutos, meia hora, talvez. Por quê?

— Só por perguntar. — Simon deu as costas, enfiando as mãos nos bolsos do paletó. — Alguém quer café?

O dr. Kemble, confortavelmente instalado, pegou o cachimbo e levantou os olhos.

— Café? Aceito. E você, Sophie?

— Para mim não, obrigada. — Levantou-se. — Não se im­porta que eu vá me deitar, papai? Estou um pouco cansada.

— Absolutamente, meu bem. — O riso do dr. Kemble con­tinha uma certa ansiedade.

Sophie debruçou-se e beijou-lhe o rosto.

— Então, até amanhã. Boa noite, Simon.

Ouviu o som da voz de Robert e de sua madrasta ao se aproximar da cozinha, mas tinha de lhes desejar boa-noite como se nada de anormal houvesse ocorrido. Abrindo a porta, disse:

— Já estou indo deitar, mamãe. Boa noite.

Robert estava ao lado da geladeira bebendo cerveja, mas interrompeu-se e limpou a boca no momento em que viu Sophie. Percebeu um certo langor em seus olhos e uma expressão de sensualidade em sua boca. Só de olhá-lo sentia ondas de emoção correndo por suas veias, umedecendo a palma das mãos e en­fraquecendo-lhe os joelhos. Queria voltar para seus braços, ficar neles e, ao pensar nisso, um rubor intenso subiu-lhe ao rosto.

Felizmente Laura estava enchendo a chaleira de água, preo­cupada com o que estivera dizendo a Robert para prestar aten­ção em Sophie. Mal olhou para ela, dizendo brevemente:

— Está certo, Sophie. Boa noite! — Nem mesmo lhe estendeu o rosto para ser beijado, como fazia habitualmente. Sophie cami­nhou para seu quarto, sentindo-se mal diante da reação de Laura.

Enquanto se despia, pensava no que tinha sucedido. Na escola, na reclusão do dormitório, tinha-se abandonado a fan­tasias com Robert, mas nunca em sua imaginação tinha expe­rimentado aquelas sensações incríveis que ele despertara aque­la noite. Não era justo que ele a excitasse tanto e depois es­perasse que ela agisse como se nada tivesse acontecido. Nem a vergonha, nem a auto-recriminação poderia livrá-la da lem­brança de seus lábios ardentes e ousados, do êxtase total que uma entrega completa lhe proporcionaria.

Uma coisa se tornava cada vez mais aparente: teria de ir embora de casa, afastar-se da presença de Robert, eliminar a possibilidade de que um dia cedesse a ele, perdendo o auto-respeito e as oportunidades de ser feliz com outra pessoa.

Fechou os olhos com força, sentindo as lágrimas quentes que lhe desciam pelo rosto. Devia fazer o possível para controlar-se, pensou com altivez. Chorar não resolveria nada. Deveria ter sem­pre em mente que tipo de homem Robert era na verdade.

Saiu do banheiro com a cabeça baixa, envolta nas dobras do roupão. O instinto, porém, a fez levantar a cabeça e ela surpreendeu-se ao ver Robert indolentemente apoiado no ba­tente da porta.

— Quero conversar com você. Sophie. Sophie olhou automaticamente o corredor.

— Sua mãe sabe que você está aqui?

Robert comprimiu os lábios.

— Entre aqui no quarto. Não pretendo iniciar uma discussão no corredor.

— Acho que você não devia estar aqui. É tarde e estou cansada...

— Maldição, venha cá! — disse, perdendo a paciência. Agar­rou-lhe o braço e arrastou-a para o quarto.

— O que você quer? Robert ofegava.

— Isso depende de você.

— O que você quer dizer?

— Rompi meu noivado com Emma ontem à noite.

— O quê? — Sophie não podia acreditar no que estava ou­vindo. — Você me ouviu — suspirou. — E você sabe por quê. Os dedos de Sophie tremiam, agarrando as dobras do roupão.

— Não tenho tanta certeza assim.

Robert a olhava, fixamente. A respiração de Sophie alterou-se ao notar a paixão contida em seu olhar.

— Eu a amo, Sophie. Sempre a amei, e acho que sempre a amarei.

Sophie pegou o cinto do roupão e amarrou-o em volta da cintura.

— Tudo isto... é um tanto... súbito, não é mesmo? — per­guntou, tentando inutilmente assumir um tom ligeiro.

— Oh, pare com isso, Sophie! — Os nervos de Robert estavam tão tensos quanto os dela. Cerrara os punhos e sob a tez queimada de sol notava-se a palidez que se apoderara dele. — Muito bem. Você merece uma explicação e é o que vou fazer. — Fez uma pausa significativa. — Seu pai e minha mãe são contra nosso relacionamento. Aliás, sempre foram. Acham que sou velho de­mais para você e é verdade. Não — disse ao notar que ela ia protestar —, deixe-me terminar. Eu também pensei assim.

— Robert...

— Por favor, Sophie, tenho de continuar. Havia outros fa-tores, da maior relevância, e que não podiam ser ignorados. Conhecíamos um ao outro bem demais, tínhamos estado muito próximos um do outro e você não tivera a oportunidade de conhecer outros rapazes, manter outros relacionamentos. Eles, nossos pais, insistiram em que eu não deveria envolver-me com você. E eu aceitei. Dois anos atrás, como lhe disse no dia em que você chegou da escola, eu me desprezei por tê-la tocado. Você era tão jovem e tinha toda uma vida a sua frente. Ainda tem... — Comprimiu os lábios. — Bem, contei para eles o que tinha acontecido. Precisava tranquilizar minha consciência e em parte consegui. Enquanto você estava longe daqui, pude convencer a mim mesmo que eles estavam certos. Disse a mim mesmo que com o tempo acabaria superando o que sentia por você. Eu tinha de me convencer disso ou então enlouqueceria!

— Oh, Robert! — Fez menção de ir até ele mas, com um gesto, ele indicou que ela ficasse onde estava.

— Meu trabalho era, aliás, é interessante. Você estava na escola. Durante suas férias eu estava sempre fora, trabalhando, e Emma estava a minha disposição. Reconheço que usei Emma, mas só porque ela queria ser usada-

Sophie umedeceu os lábios.

— Você... alguma vez conversou com Emma a meu respeito?

— Algumas vezes. Certa ocasião, em um momento de sen­timentalismo, confessei-lhe que a tinha beijado. Depois levei a coisa na brincadeira, mas acho que ela adivinhou o resto.

— E... agora?

Robert sacudiu a cabeça.

— Não posso mais levar este meu noivado adiante. Não sinto o menor orgulho de meu procedimento. Quando consegui trabalho em Gales entrei em pânico. Um pânico real, sabia disto? Sabia que você deveria vir de férias, que você ficaria aqui por um tempo considerável e eu não confiava em mim! — Sua expressão espelhava o desprezo que ele sentia por si mesmo. — Tomei uma bebedeira, uma bebedeira daquelas, e acabei pedindo Emma em casamento. Não me lembro muito das circunstâncias, mas acho que eu estava desesperado demais para fazer o que quer que fosse. Isso é tudo, exceto que eu estava decidido a falar sobre meu noivado quando vim a seu encontro. E o teria feito se não fosse aquela tempestade.

Sophie já não podia mais conter suas emoções.

— E como foi que você se sentiu depois?

— Como é que você acha que me senti? Tentei me afastar de você.

— Você foi para Londres e esteve com Emma.

— Sim, fiz isso algumas vezes. Ela, é claro, estava traba­lhando. Também saí para velejar com John. Fiz um trabalho extra para a companhia, pratiquei um pouco de alpinismo. Tentei me cansar o mais que podia, de tal forma que quando fosse para a cama dormia um sono só. Mas nada disso adiantou.

E daí?

— Você estava sempre com Simon e eu fiquei morto de ciúme. Então você foi nadar na casa dos Meredith... Meu Deus, naquele dia eu teria sido capaz de matar John! Daí fui de encontro à vontade de nossos pais e levei-a a dar um passeio. Naquele dia em Gloucester eu sabia que não tinha condições de prosseguir, fingindo que não me importava com o que estava acontecendo. E então quando voltamos para casa... — Ele es­tremeceu. — Não sabia que Emma tinha chegado, juro que não. Minha mãe a convidou sem que eu soubesse. — Inclinou a cabeça. — Quando eu fui até seu quarto... Não sei se você sabe, mas houve uma discussão tremenda naquela noite.

— Não sabia.

— Não. Você deve ter ouvido apenas algumas palavras.

— Você partiu na manhã seguinte.

— É isso mesmo. Sophie estava inquieta.

— Sua mãe disse que você tinha ido para Londres, mas que Emma ficaria conosco.

— Sim... Passei o fim de semana em meu apartamento, refle-tindo. Os mesmos argumentos, aceitos antes, não me pareciam mais importantes. Só que seu pai possui uma habilidade inata em fazer com que o absurdo pareça razoável. Eu estava preparado para me esforçar e enxergar as coisas à maneira dele. Então você ficou doente e ninguém me informou. Telefonei para minha mãe, a sra. Forrest atendeu e me contou, pois gosta de uma boa novidade. Consegui extrair a verdade de minha mãe e tivemos uma discussão sobre o assunto. Ainda assim eu me mantive afastado. Mas quando vim até aqui para visitá-la, o que vi? Você, tomando café com John, divertindo-se em sua companhia, em vez de estar comigo!

— Ele disse que você sentiu ciúme.

— E era verdade. Fiquei furioso. — Sacudiu a cabeça, ao lem­brar de tudo. — Então tive certeza de que essa farsa não poderia prosseguir e disse a minha mãe que ia romper com Emma.

— Acho que ouvi vocês dois discutindo.

— Para ela foi um golpe compreender que eu já não estava mais disposto a colocar os seus desejos acima dos meus. Parti para Londres e falei com Emma ontem à noite.

Sophie tentou absorver o que ele estava lhe dizendo. Seria possível que depois do sofrimento das últimas semanas tudo ia acontecer como ela tinha sonhado? Parecia que sim, mas ela não

esperava que Emma desistisse facilmente. Gostaria de ter per­guntado o que Ernma tinha dito, mas não teve coragem. Aquele assunto dizia respeito a Robert e à ex-noiva, a mais ninguém. Agora ele a encarava fixamente, esperando alguma reação. Sophie ergueu as mãos, pressionando uma contra a outra, num gesto de súplica.

— E agora? — disse ela, trêmula.

— Agora...Como já disse, cabe a você decidir. Neste momento minha mãe deve estar dando a notícia a seu pai. O que acon­tecerá em seguida depende unicamente de você.

Sophie, hesitando, deu um passo em direção a ele.

— Sua mãe lhe contou que me ofereceram um emprego? Robert deu um suspiro, resignado.

— Sim, ela me disse. Deu a entender que, assim que você melhorasse, aceitaria.

— É mesmo? — Sophie sentiu um nó na boca do estômago. Claro que já tinha lhe passado pela cabeça que Laura aprovaria sua decisão. Isto certamente resolveria todos os problemas.

— E você? — A voz de Robert agora estava mais calma. — A perspectiva de trabalhar na Grécia lhe agrada?

Os lábios de Sophie tremeram. Teria rido, se o assunto não fosse tão sério. Será que trabalhar na Grécia lhe agradaria? Mas em comparação a què? Em comparação ao fato de ficar lá e ver Robert casar-se com Emma, sim. Em comparação ao fato de ela mesma casar com Robert, claro que não! Mas ele ainda não a pedira em casamento, não é mesmo?

Em tom ligeiro, de maneira que ele não suspeitasse de seu extremo nervosismo, ela disse:

— Você tem algo a oferecer? Robert tornou-se imediatamente tenso.

— Não brinque comigo, Sophie! Ela arregalou os olhos.

— Não estou brincando com você. Eu... apenas não sei o que você deseja de mim.

— Não sabe? — Robert a fez sentar-se na cama e acomodou-se a seu lado. — O que você acha que estou lhe dizendo desde que entrei aqui? — perguntou brutalmente, tomando-a pelas cabelos e sacudindo-lhe a cabeça com crueldade. Seus lábios pousaram-se sobre a curva suave de seu pescoço, seus dentes mordiscaram o lóbulo da orelha e uma de suas pernas aprisionou as pernas de Sophie. — Você sabe muito bem o que eu quero, Sophie — murmurou ele a seus ouvidos. — Quero você! — Seus lábios es­magaram os dela, que se abriram como uma flor.

Sua febre passou para ela, de tal forma que Sophie não fez o menor gesto para detê-lo quando ele enfiou a mão por dentro do roupão, à procura de sua carne tão desejada. Mas, consciente de suas responsabilidades, ele protestou subitamente, desven­cilhando-se dos braços de Sophie e afastando-se dela.

— Não, Sophie! — murmurou ele. — Aqui não. Desse jeito não. Primeiro temos de conversar.

Suas palavras a acalmaram e ela estava se recompondo quando bateram à porta. Sem esperar resposta, seu pai e sua madrasta entraram no quarto, surpreendendo Sophie ainda deitada na cama e Robert ao lado da janela, com a camisa desabotoada. Com um movimento ágil saltou da cama, dizendo:

— Tranquilizem-se. Robert não me seduziu, O dr. Kemble foi o primeiro a falar.

— Robert! Sua mãe me contou que você terminou seu noivado com Emma. Só quero saber de uma coisa: o que é que você pretende fazer?

Robert deu de ombros.

— Minha mãe não lhe contou?

O dr. Kemble suspirou impacientemente.

— Ela disse que você vai pedir a Sophie que o despose, É verdade?

Sophie juntou as mãos e seus olhos pousaram sobre Robert, repletos de alegria. Ele deu um leve sorriso que os envolvia em uma relação íntima, da qual mais ninguém podia compar-tilhar. Em seguida voltou-se para o pai de Sophie.

— É verdade — concordou.

— E você já o fez?

— Ainda não...

— Então prefiro que não o faça.

— Papai!

O dr. Kemble ignorou o protesto de Sophie, continuando a olhar para seu enteado.

— Você não pode pedir a Sophie que o despose, Robert. Todos os seus deveres são para com Emma, neste momento. Não disse nada antes porque ela me pediu que não o fizesse, mas Emma me contou, enquanto estava aqui, que tinha gran­des suspeitas de que estava grávida!

 

O aeroporto de Corfu era pequeno, mas eficien- te. A estrada que levava à casa de Harriet Tarrant era estreita e cercada por jardins murados e plantações de limão. A residência ficava nas colinas e suas paredes eram muito brancas, com portas em arco, varandas com grades de ferro e venezianas vermelhas. Os jardins eram uma orgia de cores. Em redor da casa havia um caramanchão enroscado numa vinha, da qual pendiam cachos de uva, e um pátio forrado com lajotas rodeava uma piscina, extremamente tentadora. Abaixo da casa, a encosta terminava em rochedos abruptos que mergulhavam nas águas verde-azuladas do mar Jônio.

Sophie gastou os primeiros dias na villa ocupada em se acostumar ao novo ambiente. Conheceu Nana e Spiro, os dois auxiliares de pesquisa de Harriet, e soube o que se esperava dela. Levantava-se cedo e ia dormir cedo, e as pílulas que seu pai lhe fornecera asseguravam-lhe um bom repouso noturno.

Imaginava que, àquela altura dos acontecimentos, seus pais e Simon estivessem na Bretanha. Eram as primeiras férias que eles passavam sem ela... Tentava não pensar em Robert e Emma, o que lhe era praticamente impossível...

Não conseguia imaginar o que acontecera, desde que deixara a Inglaterra, há duas semanas. Depois que seu pai fez o dramático comunicado sobre o estado de Emma, Robert mostrou-se taciturno e inabordável, negando-se a discutir sua provável paternidade.

Sophie ainda se sentia mal recordando o horror daquela noite terrível, quando seu pai destruíra de um só golpe tudo que ela sonhara e desejara. Não era de admirar que Emma se satisfizesse em conceder a Robert um momento de liberdade. Sabia que mais cedo ou mais tarde ele estaria ligado a ela por laços mais fortes do que os representados por um mero anel de noivado.

O pior momento fora quando Robert revoltou-se diante da revelação do dr. Kemble. Sophie pensou que ele agrediria seu pai, a tal ponto ficou enfurecido. Em seguida ele se voltou para ela, perguntando se acreditava no que o pai tinha dito.

Sophie tinha de acreditar. Sabia que seu pai não mentiria para separá-los. Quando, no entanto, ela disse isso a Robert, ele respondeu com uma série de ataques que a deixaram fraca e trêmula. Então, sem esperar mais nada, ele saíra intempes­tivamente de casa: indo só Deus sabe para onde.

Quando regressou na manhã seguinte, estava pálido, mas con­trolado. Fez as malas e disse a sua mãe que partiria para o canteiro de obras, em Cymtraeth. Quando veio, no fim de semana seguinte, Sophie estava pronta para partir com Harriet Tarrant.

O trabalho desempenhado por Sophie não era árduo. Ao contrário, sobrava-lhe bastante tempo para gozar da piscina e das belezas naturais da região. A noite muitas vezes sentia-se deprimida, mas conseguia preencher os dias.

Harriet Tarrant parecia apreciar bastante a companhia de sua jovem secretária. Quando não estava trabalhando na pilha de informações e correspondência que se acumulara durante sua ausência vinha sempre ao encontro de Sophie e conversava com ela, narrando trechos de sua vida com seu falecido esposo, que fora engenheiro de minas, e como lhe viera a idéia de escrever sobre mitologia grega. Sophie não falava muito sobre si mesma, limitando-se a conversar a respeito de seus pais e meio-irmãos, mas sua voz expressiva revelava muito mais do que ela supunha.

No final de sua segunda semana na villa recebeu uma carta de sua madrasta. Ao chegar, escrevera uma carta curta e formal, dando a seus pais notícias da viagem e contando-lhes que estava muito bem. Desde então não tivera o menor contato com eles e em consequência não se sentiu nem um pouco apreensiva ao abrir o envelope. No entanto seu conteúdo a abalou e Harriet Tarrant, sentada à sua escrivaninha a alguns metros de distância, observou sua expressão com preocupação. Sophie soltou um pe­queno grito de protesto e a mão que segurava a carta tombou inerte. Harriet caminhou em direção a ela, passando o braço em redor de seus ombros, que tremiam, e indagando:

— O que foi, Sophie? Você está branca como papel! Venha, sente-se aqui.

Sophie sacudiu a cabeça com vigor.

— Eu... eu estou bem, sra. Tarrant. É Robert... Ele... está no hospital!

— Posso ler? — Harriet perguntou calmamente, e Sophie pôs a carta em sua mão, indo até a porta que se abria para o pátio apoiando as mãos no rosto, num gesto de desespero.

Harriet leu a carta rapidamente. Laura Kemble não poupara nenhum detalhe: Robert tivera um acidente no canteiro de obras, em Cymtraeth. Estava hospitalizado, gravemente ferido no rosto e na cabeça, com costelas fraturadas e contusões generalizadas.

Harriet voltou-se para a garota, tomada de pena.

— Oh, Sophie! Que coisa terrível! Acho que você há de querer que eu a dispense para ir para casa a fim de vê-lo, não?

Sophie voltou a sacudir a cabeça.

— Não.

— Não? — Harriet olhou novamente a carta, esboçando um gesto de surpresa. — Mas... eu pensei que...

— Robert não precisa de mim. Se prosseguir, verá que... Emma, sua noiva, está fazendo companhia a ele.

Harriet leu as últunas linhas da carta.

— E dai? Você é irmã dele e tem todo o direito de estar lá.

— Não — exclamou Sophie. — Não quero ir. Harriet lançou-lhe um olhar penetrante.

— Olhe, Sophie, não acredito em você. Sei muito bem que ainda não a conheço direito, mas você parece ser do tipo que se importa com a família.

Sophie tentou se dominar.

— Claro que me preocupo com eles, Eu... estou muito aflita com o que aconteceu com Robert, naturalmente. É que... não vejo o que posso fazer.

~ E você não acha que seus pais, particularmente sua ma­drasta, gostariam de sua presença neste momento? Meu Deus. Sophie, há tanta coisa que você pode fazer... Além do mais, tenho certeza de que sua madrasta gostaria de ver a sua volta mais um rosto familiar...

— Não! — Sophie tapou os ouvidos, — Não, não, não! Não me peça uma coisa desta! Por favor, não me peça!

Harriet deixou-a chorar um pouco e então fez Sophie tirar as mãos do rosto e enxugou-lhe as lágrimas.

— Muito bem — disse. — Que tal se você me disser há quanto tempo está apaixonada por esse seu meio-irmão, hein?

Foi para ela um alívio enorme confiar-se a Harriet, narrar toda a vergonha e humilhação por que tinha passado e que não pudera compartilhar com mais ninguém. Todos tinham-se deixado envolver — sua madrasta, Simon, seu pai, e até mesmo John Meredith não fora objetivo. Harriet Tarrant, entretanto, era muito direta, e seu veredito foi surpreendentemente reconfortante.

— Com que então esta tal de... Emma voltou para sua casa, não? — ela observou pensativa. — E naturalmente você pensa que reataram o noivado.

— Tem que ser assim!

— Mas por quê?

Sophie olhou-a surpreendida.

— Como pode me perguntar isso?

— Mas é natural... Mesmo supondo que Emma está grávida e que se trata de um filho de Robert não há nenhuma lei que o obrigue a desposá-la!

— Mas... mas ele tem de fazê-lo!

— Por quê? Muitos homens na posição dele não o fizeram.

— Mas... — Sophie hesitou. — Robert não é assim.

— E como ele é? Sophie respirou fundo.

— Ele é um homem honrado.

— Você acha?

— Claro.

— Então você acha que esse homem honrado se descartaria de suas responsabílidades?

— Não compreendo.

— Sophie, você me contou que Robert disse que a criança não podia ser dele.

— Sim.

— Você acha que um homem honrado faria isso? Quero dizer, se a criança fosse dele?

Sophie sentiu-se confusa. Levantou-se da cadeira e andou inquieta pela sala.

— Não sei.

— Precisamente. Existe portanto a possibilidade de que a criança não seja dele.

— E de quem mais seria?

— Talvez não exista nenhuma criança — observou Harriet

calmamente.

Sophie engoliu em seco.

— Nenhuma criança? Mas meu pai é médico. Ele... ele saberia.

— Ele a examinou?

— Não sei. Acho... acho que não.

— Sei. Portanto só temos a palavra de Emma.

— Mas... ela não ousaria...

— Talvez ela tenha resolvido correr o risco. Os homens são notoriamente ciosos de sua masculinidade. Questionar uma eventualidade desta é como questionar sua impotência. E você me contou que Emma era amante de Robert, não? Foi ela quem lhe contou?

— Que importância tem isto?

— Quem sabe? Sophie suspirou.

— Sim, acho que contou. De qualquer maneira as pessoas têm relações, não é mesmo? E... Robert disse que... ele a havia usado.

Harriet ficou pensativa.

— Mesmo assim, tudo isso não passa de suposição, não está vendo? Se não está grávida, Emma foi muito esperta, não é? Ela deve ter adivinhado que Robert estava se retraindo. Con­fiar-se a seu pai foi um golpe de mestre. Ela sabia que ele jamais permitiria que você se envolvesse com Robert, se ela por acaso estivesse grávida.

Sophie torceu as mãos.

— Oh, sra. Tarrant, e se a senhora tiver razão?

— Se eu tiver razão, você cometeu uma tremenda injustiça com seu meio-irmão.

— E agora... ele teve um... acidente. — Sim, um acidente. Você irá vê-lo?

— Acha... que eu deveria?

— Oh, não, Sophie. — Harriet aspirou profundamente o cigarro. — É você quem tem de tomar suas decisões.

— Mas é claro que quero vê-lo! Oh, meu Deus, se seus ferimentos forem fatais!

— Acho que se fossem, sua madrasta teria usado de uma franqueza menos rude na carta.

— Sim, talvez tenha razão:

— Pois então vá. Converse com a tal de Emma, decida por si mesma se você acha que ela está grávida...

— Ela tentaria me enganar.

— Então você precisará tentar ser objetiva, ouviu? Vá ver Robert, fale com ele. Contanto, evidentemente, que ele esteja em condições de conversar com você. — Suspirou ao ver que Sophie franzia o cenho. — Sophie, talvez você tenha chegado a falsas conclusões e é preciso aceitar esse fato. Mas se a garota está grávida... Se a garota está grávida, você precisa pensar cuidado­samente antes de fazer qualquer julgamento. Se realmente ama Robert, talvez descubra que está preparada para perdoá-lo.

Sophie sentiu-se chocada.

— Quer dizer... que devo deixá-lo decidir o que ele quer fazer?

— O sexo é uma coisa curiosa, Sophie. Pode ser o coroamento final do amor entre um homem e uma mulher ou simplesmente a satisfação de uma necessidade humana desesperada. Se ocorre esta última circunstância, cabe a ambos garantir que nenhuma vida nasça de tal união. Mas se por um golpe do destino isto acontece, acha que o fato é suficiente para um homem desposar uma mulher a quem ele não ama? Quem se beneficiaria de tal ligação? Nem o homem nem a mulher, e muito menos a criança!

Sophie fez um gesto de espanto.

— Se meu pai pudesse ouvir o que a senhora está dizendo!

— Ele não aprovaria? — Sophie sacudiu a cabeça e ela acrescentou: — Então, ele está vivendo no passado. Felizmente as pessoas estão se tornando menos rígidas em suas atitudes ultimamente. Os casamentos não são traçados no céu; uma grande porcentagem é decidida no inferno, e ninguém deveria ser forçado a sacrificar sua vida por causa de um erro.

Sophie digeriu tais palavras lentamente.

— Mas eles eram noivos — comentou ela com honestidade.

— Concordo, é difícil. Mas imagino que Emma partiu para esse relacionamento com os olhos abertos. Não tenho a menor dúvida de que ela superará tudo isso. Tenho a impressão de que ela é uma jovem bastante auto-suficiente. Você acha que Robert correria o risco de permitir que uma coisa assim acon­tecesse se ele não tivesse certeza de que queria desposá-la?

— Eu... eu não sei o que pensar.

— Então comece a pensar em Robert. Seus ferimentos pa­recem bastante sérios. Já pensou como se sentiria se ele ficasse permanentemente inválido ou cego?

— Oh! Não diga isso, por favor!

— Isto a assusta?

— Sim. Sim!

— Então talvez seja melhor você ficar de fora.

— Não! Não é em mim que estou pensando, é nele! Aconteça o que acontecer, jamais mudarei em relação a ele.

Harriet sorriu.

— Fiquei tola, agora que estou envelhecendo. Acabo de per­der a melhor assistente que tive até hoje.

Sophie encarou-a com firmeza.

— Se... as coisas não derem certo... posso voltar? Harriet jogou fora o cigarro.

— Acho que você nem precisa fazer esta pergunta, Sophie.

Sophie chegou a Penn Warren três dias mais tarde.

Apesar de ter comunicado por telegrama a data e a hora aproximada de sua chegada, não ficou surpresa ao ver que ninguém estava a sua espera no aeroporto de Londres. Mas, quando desceu em Hereford e constatou que lá também nin­guém a esperava, sentiu que a tensão se apoderava dela. Saiu rapidamente da estação e quase deu de encontro com Simon. Contemplou-o silenciosamente, com os olhos molhados de lá­grimas e ele tomou-a nos braços.

— Tudo bem, Sophie — disse calmamente. — Estou aqui.

A perua estava no estacionamento e Simon, muito gentil, con­duziu-a até lá, acomodando-a no banco da frente e guardando suas malas no banco de trás. Então acomodou-se a seu lado e deu partida no motor, sem perguntar detalhes desnecessários. Sop­hie contemplou aquele perfil tão familiar com um olhar de gratidão. Era bom saber que, apesar de tudo, Simon não a abandonara.

Engolindo o orgulho, perguntou:

— Como... como é que ele está, Simon? Ficou muito ferido? Como foi que aconteceu?

— O que foi que minha mãe contou?

— Oh, disse que ele foi ferido na cabeça e no rosto, quebrou algumas costelas... Aconteceu no canteiro de obras?

— Sim — respondeu Simon.

— Mas como foi? Eles não costumam usar capacetes?

— Sim. Habitualmente usam.

— E então?

As mãos de Simon agarraram-se à direcão.

— Por algum motivo desconhecido Robert não estava usando o dele. Foi atingido por uma viga mestra. Por sorte não morreu.

— Oh, não! — A voz de Sophie tremeu.

— É verdade. Foi uma imprudência da parte dele.

— Mas por quê? Por que ele fez isso?

— Está insinuando que ele agiu de propósito? Sophie sacudiu a cabeça.

— Não sei o que pensar.

— Bem, a mim também ocorreu. Sobretudo... sobretudo de­vido às circunstâncias.

— Oh, Simon! E seus ferimentos? São muito graves?

— Bastante. Inicialmente pensaram que tivesse fraturado o crânio, mas parece que se trata apenas de uma contusão grave. Seu rosto está muito machucado, vou lhe avisando. O aço da viga levou uma parte da bochecha. — Sophie fechou os olhos, horrorizada, e ele prosseguiu, esvaziando proposita­damente sua voz de qualquer emoção. — Ele caiu de uma altura de uns cinco metros. Quebrou duas costelas e fraturou as pernas. Está cheio de contusões por todo o corpo.

— Oh, meu Deus! — fíophíe voltou a abrir os olhos. — E quando foi que tudo isto aconteceu?

— Há dez dias.

— Dez dias! — Sophie arfou. — Mas eu recebi a carta de sua mãe há três dias. Será que ninguém podia ter telegrafado?

Simon concentrou-se na estrada.

— Mamãe ficou muito afetada por tudo isto — replicou. — Acho que até certo ponto ela põe a culpa em você.

— Em mim? Entendo. Ela tem todo o direito.

— Emma está lá em casa. Ficou lá em Caernarvon com minha mãe, mas Robert recusou-se a vê-la e seu pai sugeriu que ela viesse ficar conosco.

Sophie ficou surpreendida.

— Caernarvon? Está querendo dizer que Robert está no hospital em Caernarvon?

— Claro. Não sabia?

— Não. — Sophie engoliu em seco. — Achei que ele estaria aqui em Hereford. Que tolice de minha parte! — Olhou cega­mente para fora da janela. Robert, Robert, murmurou interior­mente. Estava a quilómetros de distância, em Caernarvon. Quando é que poderia vê-lo? Quando lhe permitiriam vê-lo?

Voltou-se ansiosa para Simon.

— Você me levará até Caernarvon?

Simon olhou-a de relance. — Quando? Hoje à noite é impossível.

— Então quando? Amanhã de manhã? Simon sacudiu a cabeça.  

— Isso depende de seu pai, viu? Ele queria que eu telegrafasse para Corfu, pedindo que você ficasse lá. Consegui convencê-lo de que você naturalmente haveria de querer vir para cá.

— Obrigada, Simon.

— Mas quanto a ir a Caernarvon... não sei, não.

— Mas eu tenho de ir, você não percebe? Preciso... preciso ver Robert.

— Por quê? Nada mudou.

— O que quer dizer com isso?

— Emma está mesmo grávida. Ela teve confirmação do fato

há duas semanas.

Sophie levou a mão ao estômago, pois uma forte dor parecia

dilacerá-la.

— Quem confirmou? Papai examinou-a?

— Claro que não. Sophie, tudo deu para trás nestas duas últimas semanas. Lembra-se de que devíamos partir de férias para a Bretanha?

— Lembro-me, sim.

— Pois saiba que todos os nossos compromissos tiveram de ser cancelados. Não há tempo de questionar algo que já é um

fato consumado.

Sophie respirou fundo.

— E Robert ainda nega que a criança é dele?

— Sophie, Robert não está em estado de admitir ou negar

o que quer que seja.

— Mas você disse que ele recusou-se a vê-la.

— Ele recusa-se a ver quem quer que seja. Até mesmo nossa mãe.

— O quê?

— É verdade. Ela permaneceu em Caernarvon para ficar próxima ao hospital, mas desde que ele recobrou a consciência ela não o viu mais.

Sophie estava atônita.

— Mas por quê? Simon deu de ombros.

— Estou tão perplexo quanto você.

— Mas você não tem a menor idéia? O rosto de Simon tornou-se tenso.

— Oh, sim, idéias eu até que tenho. Mas talvez você não gostasse de ouvir. .

— Por favor, diga.

— Está certo. Acho que a culpa é sua. Penso que Robert não se importava mais com o que pudesse acontecer com ele depois que você viajou. Acho que ele queria... se matar.

— Simon!

— Você pediu que eu dissesse. Agora ele descobriu que não deu certo e vai ficar marcado para toda a vida.

— Mas, Simon, o que eu podia fazer? Você mesmo disse que Robert e eu... bem, que nossos pais jamais concordariam.

Simon suspirou fundo.

— Eu sei. Mas você devia saber que eu tinha razões egoístas para querer que você me acreditasse. Acha que não tenho cons­ciência de minha culpabilidade?

— Mas então você não vê que eu preciso ver Robert?

— Ele pode recusar-se a vê-la também.

— Mesmo assim tenho de tentar. Simon fez um gesto vago com os ombros.

— Discuta o assunto com seu pai hoje à noite. Você ainda não é maior de idade.

A noite caía quando eles entraram na propriedade de Penn Warren e o pai de Sophie veio a seu encontro. Parecia um pouco mais tenso, mas sua acolhida foi calorosa.

— Então você veio, Sophie — murmurou, após beijá-la. — Não vou dizer que estou arrependido. Simon sem dúvida disse-lhe que eu queria impedi-la de vir, mas agora você chegou... — Sorriu. — Senti muita falta de você — concluiu com simplicidade.

O pior momento ainda estava para vir. Foi quando Sophie entrou na sala de estar e viu Emma sentada com ar enfadado em uma cadeira próxima à janela, tricotando. Deu aquele seu sorriso de sempre, desprovido de sinceridade e, ao levantar-se, fez questão de demonstrar que suas mãos tremiam.

— Que bom vê-la novamente, Sophie — disse. Então retirou o lenço do bolso e assoou o nariz. — Mas se tivéssemos opor­tunidade de escolher, não haveríamos de querer nos encontrar nestas circunstâncias, não é mesmo?

Sophie olhou para seu pai, sem acreditar no que estava ouvindo, mas ele parecia não notar quanto o comportamento de Emma era afetado. Ao contrário, sorria para ela com muita simpatia, concordando com a verdade contida em suas palavras.

Sophie estremeceu ligeiramente e disse:

— De fato. É uma situação terrível.

Emma voltou a sentar-se, aparentemente entregue à dor, e o dr. Kemble caminhou em direção à porta.

— Você deve estar com fome, Sophie. O que gostaria de comer?

— Oh, nada, obrigada. Comi no trem — mentiu Sophie, sabendo que seria incapaz de engolir o que quer que fosse.

— Que tal um pouco de café?

— Pode deixar que eu faço. Sente-se, papai.

Foi um alívio refugiar-se na cozinha e dedicar-se à ocupação corriqueira de fazer café. Mas pouco durou pois, passados al­guns minutos, a porta abriu e Emma entrou.

— Posso lhe dar uma mão? — ela perguntou, em voz sufi­cientemente alta para ser ouvida na sala de visitas.

— Pode deixar que me ajeito, obrigada. — Sophie colocou o café no coador.

— Vou pegar as xícaras — Emma insistiu.

Enquanto dispunha as xícaras e os pires na bandeja, Emma olhou Sophie com ar interrogativo.

— Simon lhe contou?

Sophie sabia que aquilo acabaria por acontecer mais cedo ou mais tarde, mas ainda não estava preparada para o choque que aquilo lhe causou.

— Contou o quê? — perguntou.

— O nenê, é claro. — Emma comprimiu ligeiramente os lábios. — O casamento vai ter de ser antecipado. Aliás, foi sugestão de sua madrasta.

Sophie endireitou-se e voltou-se, tensa, a fim de enfrentar

a outra.

— Sim, eu já sabia a respeito do nenê. Emma sorriu com complacência:

— Você será tia.

— Não acha que deveríamos esperar até que Robert fique bom? Para que antecipar a cerimônia?

Emma tocou em seu ventre com um gesto bastante eloquente.

— Não posso esperar tanto tempo.

— Disseram-me que Robert recusou-se a vê-la.

— Ele recusou-se a ver quem quer que seja — replicou Emma com frieza.

Sophie cerrou os punhos.

— Quero vê-lo.

— Robert recusará! Ele a culpa por tudo. Sophie enterrou as unhas na palma da mão.

— Mesmo assim quero vê-lo.

— Você está perdendo tempo.

— Espere e verá.

— Você acha que seu pai e principalmente sua madrasta permitirão que você lhe cause mais problemas?

— Não lhe causei problema algum...

— Causou, sim. Antes de você voltar para casa, não tínhamos dificuldades de nenhum tipo. Estávamos noivos, o casamento se aproximava e éramos felizes. Você chegou e arruinou tudo!

— Não acredito... no que você está dizendo — disse Sophie a muito custo.

— Nem quer acreditar. Você fica arrasada imaginando que outra mulher tem a atenção de Robert, não é mesmo? Você sente ciúme. Ciúme daquilo que somos um para o outro!

Sophie teve de reprimir o impulso de gritar para Emma, dizer-lhe que ela tinha razão, que sentia ciúme, sim, mas que não era verdade que eles seriam felizes juntos. Ou era? Afinal de contas, ela conhecia apenas parte da história: Mas não era possível que Robert tivesse mentido, não era possível!

Para seu alívio, o café acabou de coar e ela pediu a Emma que abrisse a porta, para levar a bandeja para a sala.

Apesar de se sentir ansiosa por conversar com seu pai a respeito de Robert, decidiu que seria mais fácil fazê-lo a sós. Teve de ouvir comentários a respeito do estado de Robert, do­minando-se para não revelar seu desespero.

Mais tarde Emma foi lavar a louça. Compreendendo que Sophie desejava falar com seu pai, Simon deixou-os a sós. Ime­diatamente Sophie se sentou no braço da poltrona dele.

— Papai — murmurou —, quero visitar Robert amanhã. O dr. Kemble encarou-a ansiosamente.

— Não acho que seja uma boa idéia, Sophie. Robert não quer ver ninguém.

— Eu sei, mas quero tentar.

— Por quê?

— Por quê!? E você quem me faz esta pergunta? Seu pai inclinou a cabeça e encheu o cachimbo.

— O que você espera alcançar?

— Eu amo Robert, papai, e ele me ama.

Fez-se silêncio durante alguns momentos e em seguida o dr. Kemble disse calmamente:

— Sophie, seja sensata! Mesmo que ele goste de você, está tão comprometido com Emma como se já tivesse enfiado uma aliança no dedo dela.

— Temos apenas a palavra de Emma de que ela está grávida! — declarou Sophie com amargura.

— Sophie! O que é que você está sugerindo? Que razões teria Emma para me fazer confidências se ela não estivesse esperando uma criança? Naquele momento não estava em co­gitação uma separação entre ela e Robert!

— Não mesmo?

— O que você quer dizer com isto?

— Oh, papai, uma mulher sabe quando um homem... Oh, Emma deve ter adivinhado!

— Não quero ouvir mais nada! — O dr. Kemble olhou con­trariado para sua filha. — Esta história tomou rumos incon­cebíveis. E favor nunca mais me tocar no assunto.

— Quer dizer que estou proibida de ver Robert?

Fez-se outra pausa significativa e então o dr. Kemble sus­pirou fundo.

— Acho que não posso proibi-la de ir. Tenha em mente, porém, que ele provavelmente se recusará a recebê-la.

— Isto quer dizer que posso ir?

— Ir? Ir onde? — A voz de Emma interrompeu a conversa e Sophie ficou tensa, imaginando há quanto tempo ela estivera ouvindo.

— Hum... Sophie vai visitar Robert — disse o dr. Kemble rapidamente.

— É? — Emma disfarçou sua irritação. — Quando? O dr. Kemble olhou novamente para sua filha.

— Não sei. Quando, Sophie? Sophie levantou-se.

— Amanhã. Simon me levará até lá.

— Pois também irei, se for possível. — Emma mostrava-se muito confiante.

O pai de Sophie hesitou, olhando-as alternadamente.

— Eu... Sim. Por que não?

Sophie ficou atônita, mas conseguiu fazer um ligeiro comen­tário e pediu licença para desfazer as malas. Então Emma ia para Caernarvon com eles. E daí? Isso não mudava as coisas.

 

O Hospital Santa Teresa ficava próximo ao centro da cidade. Chegaram no começo da tarde. Simon insistiu em que parassem para o almoço, apesar de nenhum deles sentir fome. Sophie estava pálida e abatida.

Laura Kemble veio ao encontro deles na recepção. Os olhares que ela lançava sobre sua enteada revelavam claramente o quanto ela desaprovava sua presença. Saudou Emma efusiva­mente, indagando a respeito de sua saúde.

— Como é que ele está? — indagou Sophie, mas Laura, ao responder, olhou para Simon.

— Está mais forte. Para falar a verdade, consegui falar com ele ontem, no final da tarde, mas ele ainda está tão trauma­tizado com sua aparência que foi muito difícil dialogar.

— Tem certeza de que é só isso? — perguntou Simon cal­mamente e sua mãe soltou uma exclamação de impaciência.

— Não comece, Simon! — declarou ela nervosa. — Você pensa que já não tenho suficientes preocupações?

— Sophie quer vê-lo — replicou Simon. — A quem ela deve se dirigir para conseguir permissão?

— Duvido muito de que os médicos concordem — replicou Laura. — Ela não é parente de sangue, não é mesmo?

Sophie arfou e Simon passou um braço em seu ombro, le­vando-a em direção ao elevador.

— Eu sei o caminho, Sophie. Acho que a enfermeira de plantão poderá nos ajudar.

— Esperem! — Emma, que pouco dissera até então, se apro­ximou. — Irei com vocês. Robert decidirá a quem quer ver.

O quarto de Robert era no quarto andar. Inicialmente estivera na unidade intensiva, explicou Simon, mas agora tinha um quarto só dele. Pairava no ar um odor de anti-séptico que deixou Sophie ligeiramente enjoada. Até aquele momento o estado de Robert fora algo distante mas ali, rodeada pelas luzes e ruídos de um hospital, teve plena consciência da seriedade da situação. A enfermeira Mallory saudou Laura com polidez, disse alô para Emma e Simon e olhou interrogativamente para Sophie.

— Esta é a minha... enteada — disse Laura com relutância.

— Estava trabalhando na Grécia, mas veio para ver Robert.

— Eu... eu também gostaria de ver meu noivo! — insinuou Emma, conseguindo transmitir a impressão de que tinha certos privilégios em relação a Sophie.

Todos se reuniram no pequeno escritório da enfermeira-chefe e com um gesto ela indicou que deveriam sentar-se. Entgo, com um ligeiro sorriso, encarou-os.

— A sra. Kemble sabe que o sr. Ydris recusou-se a ver quem quer que seja de sua família. Até mesmo a senhora.

— Falei com ele ontem à tarde — disse Laura.

— Sei disso — disse a enfermeira. — Mas a senhora insistiu. O sr. Ydris pediu para não mais deixá-la entrar.

Laura ficou muda de surpresa e Sophie sentiu uma enorme pena dela. Até mesmo Simon inclinou-se e apertou a mão de sua mãe, que se aferrou a ele como a um salva-vidas.

— Sinto muito. — A enfermeira sentia-se mal por ter de transmitir tal informação. — Mas posso lhe dizer que seu filho está melhorando, sra. Kemble. Acho que poderemos remover o gesso das costelas em uma semana, e os cortes e contusões estão melhorando sensivelmente. Quanto à bochecha, os pontos ainda devem ficar por algum tempo e quando ele se recuperar completamente, poderemos fazer alguns enxertos de pele.

— Enxertos de pele! — Laura levou o lenço aos lábios. — E isto é muito sério?

— A senhora sabe quanto, sra. Kemble — replicou a enfer­meira com toda calma. — Mas lembre-se de que poderia ter sido muito pior. O cérebro poderia ter sido atingido...

— Eu sei, eu sei. — Laura sacudiu a cabeça, tomada de amargura e Sophie aproximou-se dela.

— Por favor — disse, atraindo subitamente todos os olhares

— não poderia perguntar a Robert se me receberia?

A enfermeira franziu o cenho, mas Laura voltou-se brusca­mente para sua enteada.

— Como é que você pode sugerir semelhante coisa, Sophie? Você não tem vergonha nem pena? Se não fosse por você, nada disso teria acontecido.

Sophie estremeceu ao sentir o desprezo no olhar de Laura e a enfermeira, diante da briga de família, sacudiu a cabeça.

— No momento ele dorme, srta. Kemble, não posso incomo­dá-lo. Mas se quiser, mencionarei seu nome quando ele acordar.

— Oh... sim... não... isto é, não tem importância. — Sophie encolheu-se toda, deprimida. — Esqueça o assunto.

Ao saírem, o ar estava agradavelmente fresco. Laura parecia mais tensa do que nunca, mas Sophie constatou que Emma mal podia disfarçar sua alegria diante da frustração que a atingia. Ela, entretanto, soube disfarçar o fato muito bem no momento em que Laura voltou-se para ela e disse:

— Você vai voltar ainda hoje, Emma?

— O que mais me resta fazer? Laura hesitou.

— Achei que talvez você gostasse de ficar no meu hotel, a fim de passar a noite. No estado em que você se encontra, viajar tanto não pode lhe fazer bem.

— Oh, sim, claro. — Emma olhou para os demais com ar de triunfo. — Mas como é que eu voltaria amanhã?

— Simon, com toda certeza, voltaria para buscá-la, não è mesmo, Simon? — Laura voltou-se para seu filho e ao notar o seu aceno de cabeça cheio de indiferença, inclinou-se. — Está tudo combinado. Ficarei contente com sua companhia.

Emma mostrava-se ansiosa para agarrar-se a qualquer laço, por mais tênue que fosse, que a ligasse a Robert, e Sophie e Simon despediram-se delas. Entretanto, assim que entrou no carro, Sophie impediu-o de ligar o motor.

— Eu vou voltar. Não agora, depois do chá. Simon respirou fundo.

— Sei.

— Você esperará por mim?

— Será que tenho alguma outra escolha?

— Claro. Posso tomar o trem... não sou paralítica.

— Após o chá? Acho que não dá para esperar.

— Então dormirei aqui. Tenho um pouco de dinheiro...

— Esqueça o que eu disse. Esperarei. Sophie olhou-o com gratidão.

— Você mudou muito, Simon, sabia?

— Sei quando tenho de reconhecer que perdi.

A enferme ira-chefe já não estava mais de plantão quando Sophie voltou. Em seu lugar estava uma mulher mais jovem, a enfermeira Evans. Quando Sophie explicou quem era, a en­fermeira Evans sacudiu a cabeça, penalizada.

— Sinto muito, mas acho que o sr. Ydris não recebe visitas

— disse.

Sophie disfarçou sua frustração.

— Não poderia lhe perguntar e dizer quem eu sou? A enfermeira Evans sacudiu a cabeça.

— Isso não compete a mim, sra. Kemble. Procure o dr. Francis.

— Mas onde está o dr. Francis?

— Sinto muito, mas ele não está de plantão.

Sophie sentiu que as lágrimas afloravam-lhe aos olhos.

— Mas pelo menos não poderia vê-lo? Não há nenhum lugar onde eu possa ficar e simplesmente olhá-lo?

A enfermeira hesitou.

— A senhorita poderia... olhar através do retângulo de vidro da porta, eu acho — murmurou, tomada de dúvidas. — Mas teria de permanecer em silencio.

— Não se preocupe!

— Muito bem, srta. Kemble. Venha comigo. Percorreram o corredor assepticamente branco e pararam diante de uma porta creme,

— Este é o quarto do sr. Ydris, srta. Kemble — murmurou.

— Se quiser olhar através do painel...

Sophie ficou na ponta dos pés e espiou através do vidro. Do outro lado via-se um quarto semelhante a uma cela, severo e impessoal com uma cama estreita de ferro ocupando o centro. Na cama encontrava-se um homem apoiado sobre uma pilha de travesseiros, voltando com dificuldade as páginas de uma revista. Sob o paletó aberto do pijama ela podia ver a couraça de gesso. Suas mãos também estavam cobertas de gesso e So­phie olhou seu rosto. O lado esquerdo estava pálido e mostrava marcas de ferimentos que facilmente desapareceriam, mas o lado direito fora parcialmente arrancado e numerosos pontos davam-lhe uma aparência constrangedora.

— Oh, meu Deus! Robert! — Seu coração começou a palpitar, invadido por uma onda de amor. Deu involuntariamente um passo adiante e seu pé bateu na porta, fazendo barulho.

Imediatamente Robert levantou os olhos.

— Quem é? Quem está aí? — perguntou e a enfermeira entrou no quarto.

— Sou eu, sr. Ydris — disse ela, com seu melhor sorriso profissional. — Como está se sentindo esta noite?

Robert fitou-a com olhar penetrante.

— Pensei ter ouvido vozes. Quem está lá fora?

— Ninguém, sr. Ydris...

— Sou eu, Robert! — Sophie não podia mais suportar aquela situação e, ignorando a censura da enfermeira, avançou em direção à cama. — Alô, Robert. Como é que você está?

Em silêncio, Robert a olhava com ar carrancudo. Em seguida a enfermeira fez um gesto de desalento. — Sinto muito, sr. Ydris. A sra. Kemble persuadiu-me a mostrar-lhe seu quarto. Prometeu-me que não tentaria falar com o senhor.

Robert voltou a concentrar-se na revista.

— Está certo, enfermeira. Pode ir. Eu falarei com... a srta. Kemble.

— Falará? — A enfermeira não sabia se sentia alegria ou arrependimento. — Muito bem, eu lhes darei dez minutos.

Assim que a enfermeira fechou a porta Sophie fez um gesto que revelava toda sua consternação.

— Oh, Robert, Robert! O que foi que aconteceu? Ajoelhou-se ao lado da cama e procurou tocar-lhe os dedos, mas ele se concentrou na revista.

— Não sei por que você veio aqui, Sophie, não pedi para vê-la.

— Mas eu queria vê-lo! Eu tinha de vê-lo!

— Por quê? Estou vivo. Não me encontro às portas da morte. Você não precisava vir de tão longe para verificar isto.

— Eu não vim só para verificar — protestou. — Você não sabe como me senti quando recebi a carta de sua mãe.

— Horrorizada, imagino.

— O que quer dizer com isso?

Robert então levantou a cabeça, mostrando seu rosto coberto de cicatrizes.

— Bem, eu não sou lá muito agradável de se olhar, não é mesmo?

Sophie sacudiu a cabeça com impaciência.

— Sua aparência pouco me importa!

— Não? — Robert voltou a mergulhar na revista— Não, acho que não. Qualquer que seja minha aparência, você não vai me ver por muito tempo.

— Robert, pare com isso!

Ele ergueu novamente os olhos.

— Parar com quê?

— Pare de dizer estas coisas horríveis.

— Não são coisas horríveis. Para que fingir? Você está tra­balhando em Corfu e sem dúvida acabará entrando na uni­versidade. Contando que a companhia não rescinda meu con­trato por negligência, meu próximo posto é no Canadá.

— Canadá! E... Emma irá com você?

— Emma? — Robert comprimiu os lábios.

— Não.

— Mas... até lá vocês estarão casados.

— Não vou me casar com Emma — declarou Robert abrup­tamente. — E agora, se você não tem mais nada a dizer...

— Tenho, sim! — Sophie pòs-se de pé, olhando-o desespe­rada. — Mas... ela está grávida...

— Vá-se embora, Sophie. Não temos mais nada a nos dizer.

— Temos sim! — Sophie respirou fundo. — Robert, aquela noite em Penn Warren, você ia me pedir em casamento, não é?

— Não quero falar a respeito deste assunto.

— Robert, por favor! — Havia aflição em sua voz e Robert abrandou.

— Bem, e daí?  

— Daí... eu aceito, se você ainda me quiser.

— Você está louca? Meus Deus, mas o que é isto? Está dizendo que casará comigo, mesmo acreditando que Emma está esperando um filho meu?

— Não sei em que acreditar. Temos unicamente a palavra de Emma...

— Antes a palavra dela era suficiente para você...

— Não era exatamente assim. Robert, meu pai...

— Seu pai não governa seus pensamentos. Você acreditou nele. Imagino só o que ele diria se pudesse ouvi-la agora...

— Não me importo com o que ele diria...

— Eu também não. Nem me importo com o que você diga. Vá embora. Dispenso a presença de vocês todos.

Sophie nunca soube exatamente como conseguiu chegar até o carro. Tremia tanto que seus dentes chocavam-se uns contra os outros. Simon deixou-a e foi até uma mercearia comprar uma garrafa pequena de conhaque, cujo conteúdo insistiu em que ela tomasse. A bebida provocou efeitos imediatos; ela engasgou, mas pelo menos passou aquele frio mortal de suas veias.

Compreendendo que não poderiam permanecer indefinidamen­te no estacionamento do hospital, Simon deu partida na perua e encaminhou-se para a saída. No momento em que partiam, duas mulheres entravam e uma delas, afobada em evitar o carro, escorregou e caiu, batendo com a cabeça na parede.

— Meu Deus, é Emma — exclamou Simon. — Será que a matei?

O choque provocado pelo acidente trouxe Sophie de volta à realidade. Ela também saltou do carro e correu em direção ao lugar onde Simon e sua mãe estavam ajoelhados, ao lado do corpo inerte de Emma.

— Ela está bem?

Laura olhou com raiva para sua enteada.

— Se está, não será graças a você! — retrucou. — Pelo amor de Deus, Simon, você não está vendo que ela perdeu os sentidos? Vá chamar alguém, uma enfermeira, um médico.

Simon esboçou um gesto vago e saiu correndo, enquanto Sophie umedecia o lenço e o aplicava sobre a testa machucada de Emma.

— Mas o que aconteceu? — perguntou à madrasta. — Ela agiu como se Simon estivesse a ponto de atropelá-la.

Laura reagiu inicialmente como se se recusasse a falar com a enteada, mas em seguida murmurou: — Acho que ela reco­nheceu-a — replicou secamente. — Deve ter ficado intrigada com sua presença aqui, como eu, aliás, também fiquei.

— É que... eu tinha de ver Robert. E vi.

— O que foi que ele disse? — Laura não conseguia disfarçar seu interesse, mas Emma voltava a si e a resposta de Sophie teve de ser adiada.

— Oh, o que aconteceu? — Emma tentou apoiar-se nos cotovelos. Laura consolou-a com muito afeto.

— Você escorregou, meu bem, e bateu com a cabeça. Como está se sentindo?

— Eu... estou com um pouco de dor de cabeça.

Laura olhou em direção à entrada iluminada do hospital.

— Não se preocupe. Mandei Simon buscar ajuda. Agora Emma parecia agitada.

— Eu estou bem, realmente estou — murmurou, tentando levantar-se, a despeito das mãos que a retinham. — Não preciso de ajuda. Tudo passou!

— Absolutamente. — Laura estava irredutível. — Não se deve de forma alguma correr riscos, não há a menor necessidade. Não sossegarei enquanto você não for examinada. — Não...

Simon estava de volta. Vinha na companhia de dois homens, um com uniforme de porteiro e um enfermeiro. Ela olhou para Emma.

— Agora é tarde — disse. — Olhe aí o Simon.

Emma foi carregada em uma padiola para a enfermaria e Sophie, Simon e Laura esperaram na recepção, Sophie estava intrigada diante da agitação de Emma e das possíveis razões para o fato. E se ela não estivesse grávida? Será que alguém descobriria? Certamente não teria de se preocupar com isso. Naquele estágio inicial, seria difícil negar sem um exame mais aprofundado. E mesmo assim...

Voltando-se para Simon, indagou:

— Notou como Emma parecia preocupada? Simon fez que sim.

— Gostaria de saber por quê.

— Talvez estivesse nervosa com a possibilidade de perder o bebê.

— Se é que há um bebê...

— Oh, o que é que vocês estão dizendo? — Laura ouvira as últimas palavras do diálogo. — Claro que Emma está es­perando uma criança. Eu tive duas e conheço os sintomas.

Laura mostrou-se tão categórica que a ponta de dúvida que nascera em Sophie foi imediatamente posta de lado. Ficou sen­tada, muito tensa, esperando impacientemente que dessem boas notícias de Emma, para que ela e Simon pudessem partir.

Emma, porém, não voltou. Em vez disso, o médico que estava de plantão aproximou-se delas.

— São parentes da srta. Norton? — perguntou.

— Não exatamente — declarou Laura. — Ela... vai casar com meu filho.

— Vai mesmo? Bem, devemos informá-la de que ela terá de passar a noite aqui.

— É mesmo? — Laura ficou ansiosa. — É algo grave? Não se trata da criança, não é mesmo?

— A criança, sra. Kemble? — Sophie jamais se esqueceria do espanto que surgiu no rosto do médico. — Que criança?

Laura corou.

— Meu filho... isto é... Emma está... grávida.

O médico ficou por um momento de olhos baixos. Em seguida fitou Simon. — É o noivo da srta. Norton, sr. Kemble? Simon sacudiu a cabeça.

— Não. Meu irmão.

— Percebo. — O médico estava perturbado. — Bem, não sei exatamente como dizê-lo, mas a srta. Norton não está grávida.

Laura sentou-se em uma cadeira.

— Não está grávida?

— Não está grávida — reafirmou o médico com firmeza. Olhou de relance para Sophie e Simon, e voltou a fitar Laura. — A senhora evidentemente... hum... compreendeu mal as ra­zões que levariam seu filho e a srta. Norton a casar-se.

Sophie também teve de sentar-se. Suas pernas tremiam como geléia e a notícia, em vez de tranquilizá-la, deixou-a es­tatelada. Deus! Que tola fora, que tolos todos eles tinham sido! Mas não tinham a menor desculpa. Acreditaram em Emma antes de consultar Robert e isso era imperdoável.

Laura deu as costas, cobrindo a boca com o dorso da mão. Simon prosseguiu o diálogo.

— O senhor estava dizendo que... a srta. Norton terá de passar a noite no hospital...

— Oh! Oh, sim. — O médico consultou sua papelada. — Ela vai ficar bem. A cabeça não foi seriamente atingida. Mas a srta. Norton parece-me nervosa... agitada. Isto é o suficiente para que eu recomende que ela fique sob observação por uma noite.

— Sei. — Simon inclinou-se e ajudou sua mãe e Sophie a levantar-se. — Acho que agora compreendemos. Obrigado.

— A srta. Norton poderá sair a partir das dez horas de amanhã, sr. Kemble.

— Sugiro que o senhor lhe dê a notícia — replicou Simon com um breve sorriso, acompanhando as duas mulheres para fora do hospital e sem permitir que elas olhassem para trás.

— Acho que todos nós estamos precisando de um bom sono, não é mesmo, mamãe? — comentou ele, encaminhando-se para a perua. — Em nossa própria cama. Em Penn Warren.

 

Sophie sentou-se à beira da piscina, pondo os pés na água. Olhou suas pernas esguias e ar­rependeu-se de ter se pesado na balança de Harriet Tarrant naquela manhã. Até então conseguira se convencer de que sua perda de peso era insignificante, mas agora sabia que as coisas não eram exatamente assim. Suas roupas balançavam em seu corpo, porque ela havia emagrecido peio menos cinco quilos desde que regressara a Corfu, há menos de um mês.

Passou impacientemente as mãos nos cabelos. Aqueles úl­timos dias, desde que Harriet tinha viajado, se arrastavam. Não tinha com o que ocupar seu tempo. Acabara o trabalho que Harriet tinha deixado em dois dias, mesmo ao custo de trabalhar várias horas suplementares. Desde então, perambu­lava inquieta pela villa, incapaz de livrar-se dos pensamentos que a atormentavam.

Quando regressara a Corfu, após a atormentada entrevista com Robert e a descoberta da mentira de Emma, sentira-se entorpecida, mentalmente paralisada. Disse a Harriet que Ro­bert iria sarar e entregou-se automaticamente a seu trabalho.

Harriet fora maravilhosa. Comportara-se como se nada hou­vesse acontecido, não fizera perguntas. Rodeada por uma at­mosfera cálida e simpática, Sophie não conseguiu fugir muito mais tempo à realidade. A medida que os dias prosseguiam e que o gelo do seu coração derretia, novas reações desabrocha­vam. Tivera de confessar a Harriet a verdade do que realmente acontecera durante a sua visita a Conwynneth, e esta, pela primeira vez, não dissera nada de construtivo.

E assim aquela semana terrível transformara-se em duas, em seguida em três... Sophie percebia frequentemente que Harriet a observava, mas sua compreensão da situação era tamanha que Sophie não sentia necessidade de ocultar seus sentimentos.

No entanto, apesar de a mente ser capaz de absorver a dor que ela sentia, o corpo era menos resistente. Sophie tentava comer, mas seu apetite era praticamente inexistente. Mas viver era uma coisa e permanecer com saúde outra, completam ente diferente. As tensões a estavam privando de todo o vigor.

Com uma exclamação que beirava o autodesprezo, Sophie mergulhou na água morna da piscina. Se tivesse vivido um século antes, pensou com impaciência, diriam que ela estava definhando a olhos vistos. Será que ela, uma mulher emanci­pada do século vinte, deixaria semelhante coisa acontecer? O tempo curaria tudo. Já conseguia recapitular sem muita an­gústia as palavras que Robert lhe dissera. Se o espírito podia absorvê-las, por que deveria a carne ser tão fraca? Lembrava-se de um antigo provérbio espanhol: "Leva tudo o que quiseres, disse Deus. Leva, mas paga". Bem, era a sua vez de pagar.

Almoçou a sós no pátio e refugiou-se no frescor de seu quarto, para se abrigar do calor opressivo. Apesar de não ter o hábito de dormir àquela hora, era impossível suportar a temperatura elevada. Tinha frequentes dores de cabeça e compreendeu que eram resultado da alimentação precária.

Estava deitada quando ouviu o barulho de um carro que se aproximava. Harriet estava de volta! Graças a Deus!

Levantou-se da cama e vestiu-se rapidamente. Escovou os cabelos às pressas e saiu correndo em direção à frente da casa, onde o carro de Harriet estacionava.

— Oh, que bom que a senhora voltou... — começou a dizer no momento em que Harriet saltava do carro, mas interrom­peu-se ao ver que seu pai a acompanhava. — Papai! — Atônita, olhou para ambos. — Papai, aconteceu alguma coisa?

— Não, não, Sophie! — O dr. Kemble a abraçou. — Não aconteceu nada de grave, trate de se acalmar, — Beijou-a ra­pidamente e contemplou a villa com admiração. — Mas que lugar maravilhoso, não? A sra. Tarrant não exagerou.

— Vamos entrar? — Harriet sorriu para Sophie, ignorando a interrogação muda de seus olhos. — Lá dentro está mais fresco; vou pedir a Nana para nos preparar chá.

Sophie entrou na sala ladrilhada de mármore. Cerrou os punhos e indagou:

— Mamãe... veio com você?

— Não, Sophie, ela ficou em Penn Warren. Simon voltou para a escola e alguém tinha de ficar tomando conta de Robert.

— Não entendo, papai...

— Você não está com boa aparência, Sophie — comentou.

— A sra. Tarrant me disse que você não está comendo.

— Por que foi que você veio, papai?

— Fui eu quem o convidou. — Harriet voltara da cozinha.

— Não quer sentar-se, Sophie?

Sophie acomodou-se, olhando-os com expectativa.

— Por favor, fale — suplicou. — Não havia razão para você vir.

Harriet fez um gesto com a cabeça.

— Havia, sim. Seu pai tem algo a lhe comunicar.

— Mas de que se trata, afinal?

O dr. Kemble inclinou-se para ela.

— Vim... vim lhe dizer que acho que sua madrasta e eu nos enganamos. Talvez não deveríamos ter proibido... Robert de ligar-se a você.

Sophie ficou atônita.

— O quê?

Seu pai suspirou.

— Sophie, não torne as coisas mais difíceis. Eu... acabo de reconhecer que talvez nos tenhamos enganado. É difícil saber o que mais posso dizer.

Sophie levantou-se.

— Agora é tarde demais para dizer o que quer que seja, não? O dr. Kemble olhou para Harriet e esta sacudiu a cabeça.

— Nunca é tarde, Sophie.

— É tarde, sim! Você... sabe como Robert se sente.

— Sei, sim. E você? Sophie prendeu a respiração.

— Que quer dizer?

— Sophie... — Seu pai voltou a falar. — Sophie, depois que você deixou a Inglaterra, Robert pediu para vê-la.

— O quê? — Sophie encarou-o.

— É verdade.

Sophie tentava compreender.

— Mas... por quê?

O dr. Kemble mudou de posição.

— Sua madrasta lhe contou que você havia voltado para a Grécia.

— Mas por que ele haveria de querer me ver? Seu pai voltou a suspirar.

— Não me compete dizer.

— E quando... quando ela disse que eu tinha partido? Qual foi a reação?

— Ele imaginou... ele imaginou...

— Ele imaginou que você não queria mais vê-lo — informou Harriet.

Sophie arfou, olhando seu pai sem poder acreditar no que estava ouvindo.

— E você deixou que ele pensasse isso?

— Foi a solução mais fácil. — Seu pai enxugou a fronte com o lenço. — Sophie, você bem sabe como eu e sua madrasta sempre nos sentimos em relação a você e a Robert...

— Oh, papai! — Sophie sentia-se fisicamente mal. Enchia-a de horror imaginar as reações de Robert no momento em que descobriu que ela regressara a Corfu sem fazer qualquer outra tentativa de ir vê-lo. O que mais agravava o fato era que nin­guém tomara a iniciativa de explicar-lhe as razões de seu com­portamento. Teria pensado que ela ficara horrorizada com sua aparência? — Oh, papai, como foi fazer uma coisa dessa?

— Sophie, Robert estava no hospital, enfraquecido e apático. Laura achava que quando ele levantasse e pudesse reavaliar...

Sophie levantou-se de repente e afastou-se de seu pai.

— E então por que você veio até aqui? — perguntou inquieta. — Para eximir-se de qualquer culpa, caso tudo isto venha a ser esclarecido mais tarde?

O dr. Kemble parecia derrotado.

— Não, Sophie, não foram estas as razões. Vim porque a sra. Tarrant esteve em Penn Warren e contou a verdade a Robert. Ele não tinha a menor condição de fazer esta viagem sozinho.

— O quê? — Sophie mal conseguia respirar. Sentiu um aperto na garganta. Olhou incrédulamente para seu pai e em seguida voltou-se para Harriet. — Quer... quer dizer... que Robert está aqui? Em Corfu? Na villa?

— Não, Sophie — disse Harriet. — Ele está na cidade, em um hotel. Se quiser vê-lo, terá de ir até lá.

— Se... eu quiser... vê-lo! — As lágrimas afloraram aos olhos de Sophie. — Meu Deus, é claro que quero vê-lo!

— Foi o que eu lhe disse — observou Harriet com toda calma— mas receio que ele ainda esteja um tanto suscetível em relação à sua aparência...

— Levem-me até ele! — Sophie não fez o menor esforço por disfarçar a violência de seus sentimentos. — Oh, por favor, levem-me agora!

O dr. Kemble estava a ponto de levantar-se, mas Harriet impediu-o.

— Eu a levarei — declarou com firmeza. — Voltarei em seguida e tomaremos chá.

O percurso da villa até a cidade jamais parecera tão inter­minável para Sophie. Sentia-se tensa diante das emoções há tempo reprimidas e Harriet foi suficientemente sensata para não obrigá-la a falar. Entretanto, assim que pararam diante do hotel, Sophie voltou-se para ela e agarrou-Lhe a mão.

— Obrigada — disse, em meio às lágrimas. — Não sei como, mas algum dia haverei de retribuir tudo isto.

— Limite-se a ser feliz, minha querida — disse Harriet com ternura, um tanto emocionada. — E lembre-se, seus pais a amam de verdade, por mais que lhe custe acreditar.

Sophie assentiu, beijou-lhe impulsivamente o rosto e saiu do carro. Indagou na recepção onde era o quarto de Robert e subiu apressadamente as escadas até o segundo andar. Bateu à porta. Não tinha coragem de girar a maçaneta e entrar. Finalmente a porta se abriu. Bastou olhar para o rosto cansado de Robert para entender o porquê da demora. Ele obviamente estivera repousando e tirara a roupa, para refrescar-se no chu­veiro. Seu cabelo ainda estava molhado e amarrara uma toalha em volta da cintura. Os pontos haviam sido removidos do rosto e apenas as cicatrizes permaneciam.

— Alô, Robert — cumprimentou, muito sem jeito. — Será... será que o incomodei?

Robert a olhava, como se não pudesse despregar os olhos dela. Fez um gesto, indicando que ela entrasse. Não havia tapetes no assoalho coberto de lajotas e o quarto era mobiliado apenas com uma cama antiga e um guarda-roupa. As roupas de Robert estavam espalhadas pela cama e no chão estava a mala meio aberta. Sophie percebeu tudo isto ao mesmo tempo que sentia intensamente a presença de Robert atrás dela.

Voltou-se. Ele estava diante da porta, que fechara, e ela sentiu que ele estava igualmente tenso.

— Como é que você vai, Robert? — indagou com voz trémula.

— Muito melhor, obrigado — disse ele tocando as cicatrizes. — Como vê, isto ainda está uma lástima.

— Não é importante, contanto que você esteja bem.

— E você? Parece pálida. Esperava encontrá-la bem-dispos-ta, cheia de saúde.

— Oh, estou bem. Eu... estive trabalhando...

— É mesmo? — Amarrou a toalha com mais firmeza em volta da cintura. — Devo ir para o Canadá em seis semanas.

— Então não rescindiram seu contrato?

— Não.

Pareciam dois estranhos trocando notícias. Sophie cerrou os punhos.

— Meu... pai disse... que você queria me ver.

— Sim. — Robert passou a mão pelo cabelo. Sophie demonstrava inquietação.

— Bem... cá estou.

— Eu sei. — Mesmo assim Robert não fez o menor gesto de aproximação. — Queria conversar com você sobre Emma.

— Não é preciso.

— É preciso, sim. — A voz de Robert ficou tensa. — Ela lhe disse que nós dois vivíamos juntos em Londres? — Sophie fez que sim e ele sacudiu a cabeça. — Não é verdade. Ela dividia um apartamento com mais duas amigas.

— Não tem importância.

— Claro que tem. — Robert cerrou os punhos. — Também devo lhe dizer que jamais fomos para a cama. — Sophie prendeu a respiração e virou o rosto. — Oh... ela bem que queria. Mas eu sabia que não seria o primeiro e certamente não seria o último. Não a amava; só conseguia pensar em você. Sabia que ela não podia estar grávida de mim, mas você acreditou nela. Foi isso que me magoou e me deixou desiludido.

— Mas ela disse que...

— Posso imaginar. Ela achava que se conseguisse provocar um conflito entre nós, eu voltaria para ela.

— Entre... nós?

— Oh, meu Deus! Claro, entre nós — murmurou, tomando-a no braços. — Não sei se é por isto que você está aqui! — prosseguiu, enterrando o rosto na curva suave de seu pescoço.

— Meu Deus, não consigo suportar mais, Sophie...

Sophie estremeceu no momento em que seus braços rodea­ram-lhe a cintura. Seu corpo era rijo e estava ligeiramente úmido e ela abandonou-se a ele completamente.

— Pensei que nunca chegaríamos a isto — ela cochichou provocativamente.

Ele a conduziu para a cama. A toalha deslizou e não havia mais nada entre ela e aquela carne que a solicitava. Era ma­ravilhoso, depois de toda a dor e humilhação, sentir aquele peso sobre seu corpo, aquela boca que lhe explorava o rosto, lhe percorria os seios, acariciando-a com sensualidade.

Em determinado momento ele a afastou e ficou deitado de costas, apoiado no cotovelo, olhando-a com malícia.

— Oh, Sophie — murmurou —, veja só o que você está fazendo comigo!

Sophie deitou-se a seu lado, pressionando a musculatura de seu estômago.

— E que atitude você pretende tomar?

— Que atitude você quer que eu tome? — Voltou-se para ela.

— Você suportará ver meu rosto neste estado a cada manhã, quando acordar? Ou devo deixá-la cursar a universidade, como seu pai esperava, e fazer uma cirurgia plástica em sua ausência?

Sophie abraçou-o.

—Você... não está querendo forçar uma situação, não é mesmo?

— Sophie, tudo o que quero é você. Eu a amo.

— Mas você me mandou embora quando fui vê-lo no hospital

— relembrou ela, acariciando suas cicatrizes com os lábios.

— Não me faça lembrar disso! — Ele suspirou. — Sophie, aquela noite em seu quarto, quando seu pai contou aquela história absurda e você acreditou, eu... eu quase perdi a cabeça. Então... quando voltei no outro fim de semana e vi que você ia viajar para Corfu, eu só queria era fugir.

— Fugir da vida? — perguntou ela.

— Sim. — Sacudiu a cabeça, — Reconheço que o acidente aconteceu por culpa minha. Só mais tarde compreendi que tolice teria sido eu me suicidar. Então, quando você foi me ver e disse que casaria comigo qualquer que fosse o estado de Emma, fiquei zangado, furioso. Queria perguntar por que você não tinha dito isto antes, por que não me deu a oportunidade de explicar... Mas depois que você partiu, comecei a me lembrar de como nossos pais podiam ser convincentes. Recordei-me de como tinha me comportado quando você voltou do internato. Foi por isso que pedi para vê-la novamente. Quando me disseram que você tinha voltado para cá, perdi todas as esperanças.

— Oh, Robert! — Enterrou o rosto em seu pescoço. — E agora?

— Agora? Agora estou aqui...

— Graças à sra. Tarrant.

— Sim, graças à sra. Tarrant. Sophie franziu o cenho.

— O que foi que ela disse a meu respeito? Robert sorriu.

— Você bem que gostaria de saber, não é?

— Diga-me!

Ele olhou-a nos olhos.

— Ela disse que você estava se consumindo de amor por mim! — Ele falava em tom de brincadeira, mas havia seriedade em seus olhos. — Era verdade?

— E você não sabe?

Ele deu um amplo sorriso.

— Sim, agora acho que sei.

— Posso ir para o Canadá com você?

— Primeiro casará comigo.

Sophie, entusiasmada, fez que sim e suspirou.

— Sua mãe... é capaz que ela ainda não concorde. Queria que você casasse com Emma.

— Emma perdeu todo cartaz há algumas semanas, como você, aliás, deve saber. — Robert tomou-a novamente nos braços. — Ela acabará se acostumando. Os meses que passaremos no Ca­nadá darão a ela tempo de adaptar-se. E sempre há o recurso de darmos a ela um neto, o que a manterá bastante ocupada...

 

 

                                                                  Anne Mather

 

 

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