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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CHAMA PROIBIDA / Anne Mather
CHAMA PROIBIDA / Anne Mather

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

De Londres, Caroline embarcou direto para o México. E, depois de passar algumas horas num hotel, foi recebida afinal por Luís Vicente de Montejo, irmão de seu futuro patrão. Caroline se apaixonou perdidamente por aquele homem alto, de olhos castanhos e cabelos negros, educado e, ao mesmo tempo, enérgico, que fazia seu coração bater feito louco. Mal sabia ela que sua paixão era proibida: Luís estava num seminário e logo se tornaria padre! É bem verdade que ele dizia não ter vocação para o sacerdócio e se confessava apaixonado por Caroline. Mas será que um homem correto como Luís teria coragem de romper seu compromisso com a Igreja, para viver um grande amor?

 

 

 

 

Olhando pela janela do hotel em Las Estadas, Caroline concluiu que devia estar louca ao concordar em vir para ali. Onde estava com a cabeça quando assumiu esse compromisso? Imaginou até que seria excitante, um desafio, algo que iria pôr fim ao vazio de sua vida na Inglaterra. Como ela, formada em inglês e história, aceitou ser pro­fessora de uma criança de apenas oito anos? E por que foi a escolhida, se devia haver outras candidatas mais capazes?

De fato, o anúncio que tinha lido interessava a qualquer pessoa com um pouco de espírito aventureiro. Afinal, não era sempre que aparecia urna oportunidade para trabalhar no México! Mas agora Caroline tinha certeza de que a maioria das candidatas ao emprego desistiram ao descobrir que seriam levadas para uma aldeia distante, ao norte de Yucatán. Tinha conversado com muitas delas em Londres e, quase todas, estavam certas de que o emprego era na Cidade do México.

Mas mesmo quando Caroline soube para onde realmente ia não se sentiu desencorajada. Tinha algum conhecimento sobre o México, pelo menos supunha, e ao ser informada de que não ia morar muito longe da cidade maia de Chichén-Itzá não hesitou em aceitar o cargo. Mas só agora percebia com clareza em que enrascada se metera. Se tivesse algum meio de voltar para Mérida sem que ninguém percebesse, teria feito isso.

A chuva forte que ainda caía sobre Las Estadas já tinha transfor­mado a rua lá embaixo num rio lamacento, dando um aspecto triste às casas já bastante sujas e praticamente em ruínas. Aquele não era o México que ela imaginava, uma mistura colorida de passado e presente. A miséria reinava naquele lugar. Las Estadas ainda não tinha se beneficiado com o progresso que o petróleo levou a outras cidades mexicanas. Ali tudo parecia estagnado e sujeito' aos caprichos do clima. Caroline ficou chocada com tanta pobreza, preferindo não ter visto o que viu.

De costas para a janela, observou o quartinho onde estava instalada. O colchão era horrível e os lençóis não pareciam muito limpos. Quan­do chegou, na noite anterior, achava-se muito cansada para dar importância a esses detalhes. Ao acordar, porém, sentiu seu estômago embrulhar quando viu umas manchas estranhas na roupa de cama. Ainda se via a bandeja com o café da manhã sobre a mesinha-de-cabe-ceira. O proprietário do hotel a tinha colocado ali.

Caroline levou um susto quando bateram à porta, interrompendo seus pensamentos.

— Quem é? — perguntou. Ficou tranquila quando viu o rosto do sr. Allende.

— A bandeja, senhorita. Estava tudo do seu agrado? O dono do hotel era muito gordo e cheirava a tequila.

— Mas você não tocou na comida! — ele exclamou, olhando a bandeja. — Não gosta de nossa comida? Quer que peça para Maria preparar outra coisa?

— Não, obrigada. Não estou com fome — ela mentiu. — Poderia me dizer novamente a que horas o sr. Montejo estará aqui?

— Don Esteban avisou que chegaria antes do meio-dia — respondeu ele, retorcendo seu bigode negro pensativamente, enquanto observava a figura magra de Caroline. — Mas o tempo, quero dizer, a chuva com certeza fez com que se atrasasse.

— Será que as estradas estão intransitáveis?

— Ê possível, mas não se preocupe, senhorita. Eu, José, tomarei conta da senhorita até don Esteban chegar.

— Sim.

Caroline sorriu sem graça. Não lhe agradava a idéia de passar outra noite naquele hotelzinho imundo, ainda mais com aquele homem querendo bancar seu protetor, e olhando para ela de um jeito estranho. Caroline mais do que nunca se arrependeu de não ter escolhido um outro hotel. Mas foi o sr. Montejo quem providenciou a reserva e, com certeza, o lugar devia ser o melhor de Las Estadas.

O sr. Allende tirou um charuto do bolso do colete, arrancou a ponta com os dentes e cuspiu-a antes de colocá-lo na boca. Em seguida, sugeriu:

— Por que não desce e espera no meu escritório? Tenho uma garrafa de bebida e podemos esvaziá-la, enquanto aguarda a chegada de don Esteban. Que tal?

Será que ele se julgava realmente uma companhia agradável? Caro­line teria caído na gargalhada se não estivesse se sentindo tão assustada. Limitou-se a agradecer o convite delicadamente, mas com firmeza.

— Prefiro ficar aqui, obrigada. Não quero incomodá-lo.

— Mas não será incômodo! — o sr. Allende protestou, abrindo os braços num gesto tipicamente latino. — Venha! — E esticou uma das mãos para Caroline. — Será mais gostoso lá embaixo.

— Não! — Caroline foi taxativa desta vez. — Por favor, prefiro ficar sozinha. Se o senhor me der licença...

— Está bem, está bem, não vamos brigar. Como queira! — E saiu batendo a porta do quarto.

Caroline colocou uma das mãos na testa e outra na nuca, deitando a cabeça para trás, numa tentativa de diminuir a tensão. A última coisa que desejava era criar um caso com o dono daquele hotelzinho sórdido! Endireitou o corpo e foi até a janela. Onde estaria esse sr. Montejo? Sem dúvida, uma noite de chuva não iria paralisar o tráfego de todas as estradas!

Cruzou os braços e ficou observando, pensativa, o terraço de uma casa que ficava do outro lado da rua. Pela primeira vez se questionou seriamente sobre seu novo emprego. Como seria a residência dos Montejo? Como seria seu patrão? E como podia ter sido tão louca a ponto de se comprometer a trabalhar um mês em experiência, não sabendo na verdade se aguentaria permanecer em seu novo emprego rnais do que um dia?

As coisas não lhe pareceram tão más em Londres. Ninguém que tivesse conhecido a sra. Garcia, encarregada das entrevistas com as candidatas, poderia negar que ela, a avó da criança, fosse uma senhora fina e bem-educada. Isso era tão evidente que Caroline deduziu que o genro e a neta fossem iguais. Mas talvez estivesse errada. Por en­quanto, tudo não passava de hipóteses.

Ao meio-dia Maria, a cozinheira, trouxe para ela um bife e umas fatias de pão. Caroline comeu apenas um pedaço de carne. Será que a estrada para Mérida já estava desimpedida?

As horas passavam devagar e ela ficava cada vez mais ansiosa. O que ia acontecer se o sr. Montejo não chegasse? Quantos dias esperaria naquele lugar horroroso?

Virou-se assustada quando ouviu alguém abrir a porta do quarto. Já era quase noite, mas pôde distinguir perfeitamente a figura do dono do hotel. Ele cambaleava com uma garrafa de tequila na mão.

— Olá, senhorita! —.saudou-a, antes de dar um grande gole na bebida. — Talvez aprecie a companhia de José, hein? Quer beber um pouquinho?

Caroline achou que não devia entrar em pânico. Não estava com muito medo, apenas um pouco alarmada. Embora soubesse que con­seguiria se defender tranquilamente caso ele a atacasse, tinha que procurar manter-se calma, pois não saberia para onde ir, se precisasse deixar aquele hotel.

— Eu   não bebo, sr.   Allende — respondeu, observando-o com atenção.

— Não bebe! — exclamou ele. — Mas com certeza vai beber um pouquinho de tequila. É bom, muito bom.

Ele caminhou pesadamente em sua direção, como se quisesse forçá-la a beber. Caroline sentiu uma contração no estômago. A simples idéia de colocar seus lábios naquela garrafa dava-lhe náuseas.

— Por favor, sr. Allende! Não quero experimentar nada! — pro­testou indo para o outro canto. Mas ele a seguiu.

— Você vai   experimentar, vai experimentar — dizia, excitado. Caroline   precisava   pôr fim   àquela situação.   Estava encurralada

num canto do quarto, com a cama de um lado e uma parede com um crucifixo do outro. Olhou para a imagem de Cristo, mas nem ele poderia ajudá-la naquele momento. Pulou, então, sobre a cama para tentar fugir. Mas o dono do hotel foi mais ágil do que ela pensava: avançou sobre ela, agarrando-a pelo quadril e derrubando-a na cama. Quando percebeu que ele ia se deitar sobre ela, Caroline ficou em pânico. Com uma força que não sabia ter até então, acertou um pontapé na barriga de Allende, que deu um grito assustador. Ela aproveitou para escapar, correndo em direção à porta. Nesse exato momento um homem entrou no quarto. Na ânsia de escapar, Caroline deu de encontro com ele, que precisou segurá-la para evitar que caísse. Ainda assustada, Caroline imaginou que talvez fosse algum amigo do sr. Allende que também linha vindo se divertir, mas quando foi lhe dar também um pontapé, ele a virou bruscamente, imobilizando seus braços ao lado do corpo.

— Chega! — exclamou o homem. Com Caroline ainda se debatendo, olhou para o dono do hotel que tentava sair da cama e perguntou: — O que está fazendo aí, Allende? Recebeu o que merecia?

Pelo seu jeito de falar, realmente não poderia ser um amigo do dono do hotel, Caroline concluiu. De qualquer modo, sabia que era uma pessoa com quem poderia contar. Parou de se debater e ele então a largou, educadamente.                                  

— Desculpe-me se o machuquei — disse Caroline, olhando com gratidão para ele, mas calou-se quando pôde vê-lo melhor.

O sr. Montejo, se é que era ele, não parecia nada com a que tinha imaginado. Mostrava ser jovem, com mais ou menos trinta anos de idade, e era bem mais alto do que a maioria dos mexicanos que tinha conhecido. Apesar de moreno, cabelos negros e lisos e a pele bastante bronzeada, podia-se notar em suas feições traços de seus antepassados espanhóis. Não era um homem propriamente bonito: tinha a testa grande, o maxilar muito saliente e os lábios talvez um tanto finos demais, mas no todo era extremamente atraente. A roupa realçava-lhe os ombros largos e os músculos fortes e rijos. Caroline nunca conheceu alguém que transpirasse tanta masculinidade como ele, e por um mo­mento hesitou, um pouco embaraçada.

— Senhor, senhor! — Aproveitando-se da confusão em que ela se encontrava, o dono do hotel tentou se defender. — O senhor não entendeu.

— Acho que não, mesmo. Encontrei você, Allende, numa posição bastante desconfortável em cima da cama da srta. Leylon e ela, eviden­temente, um tanto aflita...

— Mas sem razão alguma, eu lhe asseguro, senhor! — protestou Allende dramaticamente. — Admito que bebi um pouco demais. Foi por isso que me deitei um pouco na cama da senhorita.

— O que veio fazer aqui no quarto? Perguntar se tudo estava indo bem? — indagou Montejo com ironia.

— Talvez tudo não tenha passado de um mal-entendido — mur­murou Caroline. tentando evitar maiores problemas. — Acho que o sr. Allende não queria me fazer mal nenhum...

Montejo sorriu.

— Acha mesmo? — perguntou, com ironia. Depois, voltando-se para Allende: — Você tem sorte! A srta. Leyton não é uma pessoa vingativa. Estou certo de que meu irmão não seria tão generoso como ela.

— Mas o senhor não dirá nada a don Esteban. não é? — implorou Allende. — Esta pensão é tudo o que tenho. ..

O homem fez um gesto de indiferença e disse qualquer coisa em espanhol. Então aquele não era seu patrão! Mas a sra. Garcia não havia mencionado nenhum irmão do sr. Montejo. Disse apenas que seu genro era viúvo e vivia sozinho com a filha e uma velha tia na propriedade da família em San Luís de Merced.

Como se percebesse a confusão de Caroline, o homem voltou-se para ela e disse:

— Desculpe-me, srta. Leyton. Eu nem me apresentei. Meu nome é Luís Vicente de Montejo, irmão de don Esteban, e tio de sua aluna Emília.

— Entendo, — Aos poucos Caroline ia recuperando a calma. — Você veio me buscar?

— Sim. — Seus olhos brilhantes eram emoldurados por longos cílios negros. — Meu irmão está adoentado. Pediu que eu a levasse para San Luís.

— Vou pegar minhas malas — Caroline murmurou, suspirando aliviada.

— Deixe que eu a ajude.

Ele acompanhou-a, pegou as duas malas e fez sinal para Caroline ir à sua frente. O dono do hotel os observava com uma mistura de alívio e ressentimento no olhar, enquanto saíam do quarto.

Ainda chovia lá fora. Atravessaram a rua com pressa e ao entrarem no jipe que os levaria para San Luís, Caroline percebeu que sua blusa estava quase totalmente molhada. Luís pôs as malas na parte de trás do carro e depois veio sentar-se a seu lado.

— Bela recepção você teve, não? — observou polidamente, quando já estavam saindo da cidadezinha. Caroline olhou para fora e percebeu que só havia mato ao lado da estrada. Observando a densa vegetação e a luz do dia que, pouco a pouco, se esvaía, estremeceu. Não sabia nada a respeito daquele homem a seu lado. Apenas o que ele tinha lhe dito.

— Qual a distância até San Luís de Merced? — perguntou, sem responder à pergunta dele.

— Não é muito grande. Uns vinte e cinco quilómetros, mais ou menos. — Luís lançou um olhar levemente irónico para Caroline. — Está com medo de ficar sozinha comigo?

— Por quê? Deveria?

— Acredite-me, a senhorita não precisa ter medo de mim — disse ele, inclinando a cabeça levemente.

Logo se fez noite. A certa altura, tomaram uma auto-estrada, mas poucos minutos depois saíram dela e seguiram por um caminho estreito e esburacado. Caroline apoiava-se com firmeza no assento para não esbarrar em Luís.

— Está arrependida de ter vindo? — ele perguntou. — Não desa­nime por causa da chuva, Amanhã o sol voltará a brilhar e então você vai ver as coisas belas e as coisas feias desta terra.

— Admite que existem coisas feias aqui? — ela quis saber.

— Existem coisas feias em todos os lugares. O que eu quero dizer é que a senhorita não deve julgar meu país por elas, Se procurar vai descobrir coisas maravilhosas.

Caroline estava intrigada com aquele homem e com o que tinha acabado de dizer.

— Seu irmão tem uma fazenda, não é? — perguntou, tentando mudar de assunto.

— Esteban é fazendeiro, mas não cuida da fazenda. Um administra­dor supervisiona tudo para ele.

— E o que a fazenda produz? Milho? Trigo?

— Criamos gado. Meu irmão emprega muitos vaqueiros. É uma propriedade muito grande.

Caroline já sabia disso. A sra. Garcia tinha lhe contado.

— E sua sobrinha? É filha única, suponho.

— Sim. Emília não tem irmãos. Sua mãe morreu quando ela nasceu.

— Oh! — A sra. Garcia não tinha lhe dito aquilo. — Que horrível para seu irmão! Isso deve ter deixado don Esteban muito perturbado!

— Sim.

Que estranho o tom de voz dele! Limitava-se a concordar com ela, sem dizer mais nada, como se não quisesse continuar aquele assunto. Caroline até chegou a pensar que talvez don Esteban não tivesse ficado tão transtornado com a morte da mulher. Mas não, se isso fosse verdade, a sra. Garcia a teria prevenido.

Na verdade, não sabia nada sobre aquela gente a não ser o que eles tinham lhe dito. Seus pais não gostaram muito quando lhes contou que havia aceitado o emprego, sem saber exatamente com que tipo de pessoas iria conviver. Se eles não estivessem tão interessados em que ela rompesse seu romance com Andrew Lovell, teriam certamente se empenhado para que mudasse de idéia.

— Você me parece tão jovem para viajar sozinha! — observou Luís de repente. — Mas as garotas inglesas são mesmo muito mais eman­cipadas que as mexicanas — prosseguiu ironicamente. — As inglesas normalmente fazem coisas que nem os homens às vezes têm coragem de fazer!

— E você desaprova isso? — perguntou Caroline.

— Não aprovo nem desaprovo, pois não é da minha conta.

— Mas deve ter uma opinião sobre isso — ela insistiu com impa­ciência, curiosa para conhecer o ponto de vista dele.

— Vamos dizer que tenho uma posição machista — observou ele. — Acho que as mulheres são diferentes dos homens, e elas não devem querer se igualar a nós.

— E você acha que é o que eu estou pretendendo?

— Ninguém conseguiria confundir   seu   sexo,   senhorita!   O   que quero dizer é que a mulher basicamente não é um ser aventureiro, mas já cheguei à conclusão de que inevitavelmente ela está mudando.

Caroline olhava os faróis do jipe iluminando o caminho escuro. A resposta dele tinha sido previsível, mas pelo menos era mais convin­cente do que muitas que já tinha ouvido. Procurou uma resposta 12

inteligente para derrubar aqueles   argumentos preconceituosos, mas infelizmente não lhe ocorreu nenhuma.

— Ofendi você, eu acho — disse ele. — Desculpe-me. Não tive a intenção de fazê-3o, mas você pediu minha opinião e eu dei.

— Você não me ofendeu. Só estava pensando em algo apropriado para responder.

— Acho que estava procurando uma resposta para me arrasar — brincou ele. — Sinto muito por ter dito tudo aquilo. Você é muito feminina e eu respeito muito sua coragem por fazer aquilo que quer.

— Respeita nada! — Caroline não queria fazer o papel de boba. — Você deve ser aquele tipo de homem que acredita que as mulheres não pensam, não têm cérebro.

— Não. — Ele parecia bem-humorado e a própria Caroline estava se divertindo com aquele papo.

— Sim, você sim — insistiu ela, pondo fim à formalidade que até então existia entre eles. — Só espero que seu irmão seja mais tole­rante em relação às mulheres.

Fez-se silêncio de novo. Será que tinha falado algo que não devia, perguntou-se Caroline. Quando ele respondeu, seu bom-humor já tinha desaparecido.

— Oh, sim. Esteban é muito mais tolerante, você vai ver. Foi ele quem a empregou, senhorita. Como não iria ser?

Não era a resposta que Caroline esperava.

— Ainda falta muito para chegarmos? — ela perguntou.

— Estamos perto. Faltam apenas uns seis quilómetros. Você está cansada? Ou com fome? Estou certo que a governanta está esperando com uma ótima refeição.

— E sua tia? A sra. Garcia me disse que ela também vivia na fazenda.

— É verdade, Isabel veio para San Luís quando meu pai se casou com a irmã dela. É solteira e considera San Luís como o seu verdadeiro lar.

Caroline gostou de saber disso. Ter que conviver com uma senhora idosa a intimidava muito mais do que com don Esteban. Voltou-se para a janela e ficou olhando a escuridão lá fora. A viagem parecia não acabar nunca. Aquela estradinha, além dos buracos, era cheia de curvas.

Estava distraída, com o corpo afundado no assento, mergulhada era pensamentos desconexos. Assim, quando o jipe fez uma curva fechada e Luís foi forçado a brecar com violência para evitar um monte de entulho, no meio da estrada, foi arremessada para frente, batendo a cabeça no pára-brisa, antes de cair sobre ele. Tudo aconteceu tão rápido que Caroline não teve tempo de se segurar e agarrou-se em Luís violentamente, tentando se proteger,

— Meu Deus! — ele gritou, desligando o motor do carro e abra­çando-a automaticamente. — Você está bem? Machuquei você? Essa estrada fica intransitável depois de uma tempestade!

Caroline estava ofegante, com o rosto praticamente grudado no tecido macio da camisa dele. Podia ouvir o coração de Luís bater e sentia o cheiro deliciosamente viril da pele dele. O corpo era forte e musculoso e parecia se amoldar com perfeição ao dela. Mesmo depois que o jipe parou e um estranho silêncio os envolveu ela continuou agarrada a ele, sabendo muito bem que não era apenas o susto que a mantinha naquela posição. . .

— Srta. Leyton! — A voz dele estava rouca e parecia apreensiva. — Srta. Leyton, o que foi? Está machucada? Diga-me, qual é o problema?

Aquelas palavras forçaram Caroline a tomar uma atitude. Fazendo um gesto negativo com a cabeça, afastou-se dele. Luís então retirou o braço de seus ombros e, depois de encará-la por um instante, abriu a poria do carro e saiu,

Tirou uma pá da traseira do carro e começou a retirar o entulho da estrada, enquanto Caroline lentava se recompor. Durante algum tempo, observou-o pensativamente, lembrando-se daqueles poucos instantes em que esteve em seus braços. Admitiu, então, que teria adorado se ele a tivesse beijado.

Foi difícil aceitar esse pensamento, não só por causa do que ainda sentia por Andrew, como também pelo fato de ter acabado de conhecer Luís Montejo. Passou os dedos pelos cabelos. Sem dúvida ele percebeu que ela tinha ficado excitada ao abraçá-lo, pensou com raiva de si mesma. Ainda bem que não se aproveitou da situação.

Depois de alguns minutos, Luís guardou a pá e voltou para o carro. — Tem certeza de que está bem? — perguntou educadamente.

— Claro. Eu devia ter sido mais cuidadosa — ela respondeu. — As estradas daqui são imprevisíveis.

— E perigosas — ele completou, ligando o motor.

 

San Luís de Merced era a aldeia onde ficavam as propriedades de don Esteban Montejo. As casinhas estavam todas iluminadas c várias crianças surgiram â porta para vê-los passar. Mas logo viraram uma esquina e seguiram por uma estrada íngreme, até chegar em frente a uns altos portões de madeira, rodeados por um muro de pedras cinzas.

Meu destino está atrás daquele muro, pensou Caroline. De repente teve medo, pois aquele lugar mais parecia uma prisão.

Luís parou o carro e desceu para tocar a campainha. Imediatamente um velho surgiu para abrir os portões, Ele tirou o chapéu respeitosa­mente quando o jipe entrou e em seguida voltou a trancar a porta.

— É Gomez — Luís informou, quando viu que Caroline olhava para o velho. — Trabalhava como vaqueiro para meu irmão, mas não tem mais idade para isso. Assim, ganhou o cargo de porteiro.

— Como São Pedro — ela comentou, ansiosa para pôr fim àquela tensão que sentia dentro do peito..

— Talvez. — Luís olhou para ela, misterioso.

Dentro havia um grande pano calçado com pedras. Caroline chegou à conclusão de que o lugar mais parecia uma fortaleza, com grandes muros sustentados por contrafortes sólidos. Percorrendo a alameda que levava até a casa, podia se ver os estábulos e as dependências anexas, até chegar a uma arcada que ficava logo em frente da entrada principal da casa.

Luís Montejo atravessou-a e estacionou o jipe em frente ao lance de escadas que levava a uma porta de madeira. A chuva tinha parado e o ar fresco da noite fez com que o desânimo de Caroline desapare­cesse. Enquanto descia do carro, prometeu a si mesma que não iria permitir que tudo que tinha acontecido em Las Estadas comprome­tesse suas primeiras impressões sobre o lugar onde viveria nas próximas semanas.

A porta se abriu, assim que Montejo retirou as malas do jipe. Uma mulher gorda desceu os degraus para recebê-los.

— Consuella, leve essas malas para dentro — disse Montejo à mulher.

— Boa tarde, senhor — cumprimentou-o a empregada, embora não tirasse os olhos de Caroline. — Boa tarde, senhorita. Seja bem-vinda.

— Obrigada — ela respondeu delicadamente, enquanto subia a escada.

Ficou deslumbrada com a decoração do vestíbulo e suas luminárias de bronze. Encantou-se com as colunas que sustentavam grandes arcos, com as belíssimas pinturas das paredes e as graciosas imagens de santos. Chamou-lhe também a atenção uma elegante escada de mármore e ferro trabalhado que levava ao pavimento superior. A fachada da casa era assustadora, mas seu interior maravilhoso! Caro­line virou-se confusa para Luís Montejo, como se esperasse alguma explicação.

— Como você pode ver, meu irmão vive com muito luxo — disse ele, com um certo sarcasmo na voz.   Mas antes que ela pudesse responder qualquer coisa, ouviu alguém perguntar:

— Srta, Leyton? Bem-vinda à Fazenda Montejo. Tenho certeza que será muito feliz aqui.

Caroline voltou-se. Era Esteban Montejo, tinha certeza. Também alto, embora não tanto quanto o irmão, estava vestido formalmente, com paletó branco e calça preta. Mas o que mais chamou a atenção de Caroline foi seu jeito de andar e sua expressão altiva.

— Meu irmão — apresentou-o Luís Montejo, quando don Esteban pegou a mão de Caroline e levou-a aos lábios.

— Prazer em conhecê-la, senhorita — disse ele, com a respiração exalando álcool. Caroline tentou disfarçar a repulsa que sentiu.

— O senhor tem uma casa maravilhosa — observou, depois de algum tempo.

Don Esteban deu uma olhada a sua volta, antes de dizer:

— Gosta mesmo? É tudo muito modesto, se formos comparar com o que minha família deixou em Cádiz, senhorita. — Voltou então os olhos escuros, muito mais que os do irmão, para Caroline. — Mas esta casa dá para o gasto. Pelo menos tem espaço suficiente para os três membros da família que vivem aqui.

— Oh. mas...   — Caroline olhou espantada para Luís Montejo. Como apenas três membros da família?

Como se lesse seu pensamento, don Esteban prosseguiu:

— A senhorita está curiosa a respeito do meu irmão Luís? Ele não lhe disse que não mora aqui? Luís está no seminário de San Pedro de Alcântara, em Mariposa, e logo será ordenado padre.

 

Caroline acordou no dia seguinte com a sensação de que nem tudo corria bem. Continuou deitada por alguns minutos na imensa cama barroca, relembrando em detalhes o que tinha acontecido na noite anterior. Levantou-se em seguida, antes que essas lembranças estra­gassem seu dia.

A noite passada tinha sido horrível. O jantar com os dois irmãos foi um verdadeiro desastre. Desde o começo percebeu que don Esteban não estava muito sóbrio, e a quantidade de vinho consumida durante a refeição só piorou a situação.

O jantar foi servido em uma mesa enorme, coberta de cristais e pratarias que deviam valer uma fortuna. Caroline comeu pouco, pois eram pratos fortes demais para seu estômago delicado. Percebeu que don Esteban fez o mesmo, embora não parasse de beber.

Luís Montejo, no entanto, comeu com apetite, bebendo apenas um pouco de vinho. Manteve-se calado a maior parte do tempo e Caroline passou praticamente todo o jantar respondendo às perguntas que don Esteban lhe fazia, em meio a provocações para o irmão.

Tomando coragem, finalmente, Caroline saiu da cama e foi até a janela. Abriu as pesadas cortinas e deparou com uma paisagem encan­tadora. Na noite anterior não pôde ver nada, pois já estava bem escuro quando chegou. Mas. naquele momento, o sol brilhava com intensidade, iluminando tudo radiosamente. Até mesmo as pedras do grande muro que cercava a propriedade tinham assumido um tom cor-de-rosa.

Para além do muro é que ela olhava com maior entusiasmo: era um tapete de flores que se estendia até as margens de um rio. Mas não é um rio, pensou. Apenas o mar poderia ter aquele tom verde azulado! Sabia que Yucatán se situava numa península, mas nunca                                                                                                                             imaginou que San Luís pudesse ser perto do mar. Ficou olhando para o horizonte por algum tempo, e depois respirou profundamente.

Lembrou então que devia se apressar, pois tinha que se encontrar com Emitia e a tia, a sra. Isabel. Havia um banheiro anexo ao seu quarto e depois de se certificar de que ainda era cedo, foi tomar um banho rápido.

Voltou poucos minutos depois enrolada numa toalha e caminhou até suas malas que ainda não haviam sido desfeitas. Tinha resolvido não guardar suas coisas antes de saber quais seriam suas obrigações naquela casa.

Deixou a toalha cair a seus pés e começou a separar algumas roupas para vestir. De repente viu sua imagem refletida nos grandes espelhos de molduras douradas que decoravam o quarto. Relutante, começou a se observar. Seu busto era bem-feito e rijo; o corpo magro e as pernas longas e sensuais. Para ela essas eram as partes mais bonitas do seu corpo, embora Andrew dissesse que tudo nela era sedutor. Ficou de perfil e continuou a se admirar. Agora não pensava mais em Andrew, mas sim em Luís de Montejo. Nunca tinha encontrado antes um homem como ele.

Luís! Só de pronunciar seu nome sentiu um arrepio no corpo. De repente voltou a se lembrar do comportamento de don Esteban na noite anterior. Sua atitude com o irmão tinha sido deliberadamente agressiva. Disse certas coisas, na presença de Caroline, que ela pre­feria não ter ouvido. Quando ele começou a caçoar da tolerância de Luís com os pobres e do seu celibato, Caroline quis morrer tal o mal-estar que sentiu; mas don Esteban aparentemente apreciava mais sua reação do que a completa indiferença do irmão.

E ele parecia mesmo não se preocupar com o que don Esteban dizia, pois se recusou a responder às suas provocações grosseiras durante todo o jantar. Don Esteban continuou a falar e a beber cada vez mais até que de repente se calou, caindo num sono profundo. Alguns empregados o socorreram e o levaram para a cama imediatamente, como se fosse um hábito corriqueiro. Caroline ficou sozinha com Luís.

Teve vontade de agredi-lo, de acusá-lo por ter omitido durante todo o tempo a verdade sobre a espécie de homem que era o seu irmão. Mas não fez nada disso. Como poderia fazê-lo se, na verdade, era a única culpada? Afinal, foi ela quem escolheu aquele emprego! Aceitou o cargo e veio para aquele lugar certa de que se daria bem. Mas se tudo não estava saindo como tinha planejado, a culpa era só sua.

Começou a se vestir com tuna certa impaciência. Escolheu uma saia de corte simples e uma blusa de seda violeta que contrastava linda­mente com seus cabelos loiros.

Estava terminando de se arrumar quando alguém bateu à porta.

— Entre! — mandou, virando-se para ver quem era.

Depois de alguns segundos, a porta se abriu. Uma jovem índia apareceu na soleira, segurando uma bandeja. Em espanhol pediu licença para entrar no quarto.

— Coloque a bandeja ali — Caroline falou sorrindo, indicando uma mesa de mármore que ficava perto das janelas. Depois, tentando expressar-se em espanhol com as poucas palavras que sabia, perguntou à empregada qual era o seu nome.

— Carmencita — respondeu   a garota, colocando a bandeja no lugar que Caroline havia indicado. Logo em seguida, perguntou se podia ir embora.

Caroline suspirou. Não tinha absoluta certeza, mas imaginava que Carmencita tinha recebido ordens para não conversar demais com ela.

Aproximou-se da bandeja, aborrecida. Teria preferido tomar o café da manhã lá embaixo, para se acostumar melhor ao ambiente, antes de ser apresentada à sua aluna, mas infelizmente tinha que respeitar os hábitos da casa. Levantou uma tampa de prata que protegia alguns pedaços de bolo, e colocou um pouco de leite numa xícara de porce­lana chinesa.

Quando terminou de comer, abriu a porta e seguiu pelo corredor. Na noite anterior, Consuella a tinha acompanhado até o quarto, a pedido de Luís, pouco depois de seu irmão ter saído carregado da sala de jantar. Fosse qual fosse a posição de Luís naquela casa, parecia que suas palavras tinham tanto peso quanto as de don Esteban, e Caroline suspeitava que os empregados respeitavam mais a ele do que ao irmão.

Até chegar à escada, caminhou por um longo corredor iluminado por arandelas de bronze e decorado com retratos dos antepassados da família. Era curioso, mas na noite anterior sentiu medo ao perceber que seu quarto ficava afastado do corpo principal da casa. Mas naquela manhã não deu a menor importância a isso.

Quando chegou ao grande hall, encontrou alguns empregados lim­pando os móveis e as tapeçarias. Olharam para ela com curiosidade ao perceberem que hesitava para onde ir. Nisso, a risada de orna criança fez com que ela se decidisse. Atravessou o hall e caminhou em direção ao cômodo ao lado de onde vinham vozes que, estava certa, eram de don Esteban e sua filha.

Ao abrir a porta que dava para um grande salão ensolarado, hesitou novamente. Sem dúvida a garotinha à sua frente era a sua nova aluna, mas o homem sobre cujas costas estava sentada, como se cavalgasse um cavalo, não era seu pai.

— Ah, srta. Leyton! Bom dia! — cumprimentou-a Luís e levantou-se em seguida. Usava a mesma calça da noite anterior só que agora com uma camisa creme, de algodão. Parecia tranquilo e de sua bela figura emanava um ar de tão profunda masculinidade que impressionou vivamente Caroline.

— Tio Vicente, tio Vicente! — Emília puxava a manga da camisa de Luís. — Quem é essa moça? — perguntou, olhando com hostilidade para Caroline. — O que ela quer? Não gosto dela!

— A srta.   Leyton, querida, é sua nova professora e quero que você trate muito bem dela, está bem?

— Mas eu já sei tudo! — disse a menina com uma pronúncia perfeita, para surpresa de Caroline. — A sra. Thackeray ensinou-me a contar, a escrever, e por isso eu não preciso mais de professores.

Sra. Thackeray? Será que era a antiga professora de Emília? E se fosse verdade, por que não estava ali?

— A sra. Thackeray era minha professora particular — esclareceu Luís, ao notar uma certa dúvida no olhar de Caroline. — Veio para San Luís quando eu linha seis anos, mas infelizmente morreu o ano passado. Desde então Emília está sem professor.

— Sei. — Caroline suspirou aliviada. Por um momento pensou que era mais uma da série de professoras particulares que não aguen­taram viver naquela casa.

— Você não vai gostar daqui — começou Emília, voltando-se para Caroline com uma expressão ameaçadora no olhar. — É um lugar cheio de cobras, aranhas e morcegos que vão sugar o seu sangue! — Fez uma pausa e continuou:. — Você acredita em morcegos vampiros, srta. Leyton? Porque se não acredita, é mais burra do que parece!

—   E antes que um dos adultos pudesse lhe chamar a atenção, a garota saiu correndo do salão.

— Bem! — Caroline estava muito embaraçada, não só pelo o que a criança tinha acabado de dizer, mas também por estar mais uma vez sozinha com Luís. — O que eu falo agora?

— É a mim que você pergunta? — replicou Luís.

— E a quem mais poderia? — Caroline indicou o aposento vazio.

— Não há mais ninguém aqui. — Respirou profundamente. — Ela é sempre assim?

— Você precisa ser tolerante com Emília — disse Luís, enfiando os polegares atrás do cinto de sua calça. — Ela não foi educada como devia.

— Posso ver perfeitamente!

— Não me entenda mal. Sei que Emília não é nada gentil. O problema é que nunca teve o carinho de uma mãe.

— Mas sua tia. ..

— Tia Isabel é uma pessoa que passa a maior parte do tempo envolvida com suas fantasias; está sempre fora da realidade. — Fez uma pausa. — E sra, Thackeray era a única com quem Emília contava. Quando ela morreu.. .

— Mas e o pai dela? Certamente ele. . . — Não terminou o que estava dizendo e comentou, sem pensar: — Vocês são muito diferentes para serem irmãos.

— Desculpe-me, mas não vejo qual a importância disso — res­pondeu Luís secamente.

— E não tem nenhuma mesmo. — Caroline parecia envergonhada. — Eu só queria... — Não terminou seu pensamento de novo. Em vez disso, perguntou: — É verdade que existem morcegos vampiros aqui?

— E se eu disser que sim, você voltará correndo para Mérida? — Luís divertiu-se com aquela última pergunta de Caroline.

— Talvez,   se eu   pudesse — ela respondeu.   Logo em   seguida percebeu que o sorriso de Luís tinha desaparecido.

— Acho que tenho que ir agora — disse ele, dirigindo-se para a porta. — Prometi a Tomas que ia andar a cavalo com ele e já estou atrasado.

— Espere! — Caroline chegou mais perto dele. — Por favor, você precisa me dizer o que eu faço com Emília. Onde ela está? Quando vamos começar as lições? Será que poderemos dar um passeio pela propriedade?

Luís parou na soleira da porta, observando-a intensamente. Sua calma e seu olhar penetrante a perturbavam.

— É melhor perguntar tudo isso ao meu irmão — disse ele, depois de alguns segundos. — Seu patrão, é ele, não eu. Agora, se me der licença. ..

— Você vai... partir?

Era muito importante para Caroline saber se ele estava deixando a casa e, num gesto impensado, tocou a manga da camisa de Luís. Ao sentir os músculos de seu braço, pensou que fosse desmaiar. Olhou para seus dedos que involuntariamente começavam a acariciar o braço de Luís e enrubesceu quando ele se afastou dela.

— Só volto para Mariposa daqui a três dias — ele esclareceu, seco, e saiu sem se despedir.

Caroline permaneceu no salão. Tremia. Seu comportamento tinha sido imperdoável, sabia disso.

— Senhorita!

Ela assustou-se com aquele chamado. Pensou que estivesse sozinha no salão. Mas agora viu que a porta que dava para uma saleta estava aberta e uma figura muito pequena, vestida de preto, a observava.

— Sra. Isabel? — perguntou, ainda um pouco tensa, imaginando que aquela velha senhora só podia ser a tia de don Esteban. — Como vai? Sou Caroline Leyton, a nova professora de Emília.

—   Professora!   — A   velha senhora   deu alguns passos em   sua direção. — Sei muito bem que é a mais nova amante de Esteban! Pensa que pode me enganar?

Caroline estava desnorteada. Aquelas palavras não só a chocavam, mas como também a humilhavam profundamente.

— Eu lhe asseguro, sra. Isabel. . . — começou ela, mas a velha a interrompeu.

— Cale a boca! Não converso com mulheres da sua laia! — gritou, arrogante. — Como ousa entrar na casa de minha irmã? Como ousa mostrar as pernas desse jeito, como uma. . .

— Calma, tia Isabel. — Aquela voz educada trouxe um pouco de alívio para Caroline, que se voltou para encarar seu patrão. Don Esteban vestia um terno cinza, muito sóbrio e elegante.

— Ela é uma prostituta! — gritou a sra. Isabel, com a voz trêmula de indignação. — Como Esteban ousou permitir que ela 'pisasse na casa de minha irmã?

— Tia Isabel, meu pai já morreu — afirmou don Esteban. Depois, voltando-se para Caroline: — Senhorita, por favor desculpe minha tia. Ela de vez em quando. . . se esquece de algumas coisas.

Caroline concordou, embora estivesse completamente confusa. Por outro lado, a velha senhora tentava entender o que seu sobrinho tinha dito.

— Esteban morreu? — perguntou ela. — Então quem é essa moça aí? O que ela está fazendo aqui em San Luís de Merced?

— A srta. Leyton é a nova professora de Emília — explicou o sobrinho calmamente. — A senhora não se lembra? Eu lhe disse que ela viria da Inglaterra especialmente para ensinar Emília.

A perturbada senhora olhou para Caroline com desconfiança e depois disse:

— Mas ela estava aqui, falando com Luís. Eu vi como ela olhava para ele!

— A   senhora está imaginando   coisas, tia. — Esteban   parecia prestes a perder a paciência. — Volte para seus bordados, tia, pois quero tratar de negócios com a srta. Leyton.

A sra. Isabel ainda hesitou um pouco, mas depois de examinar a expressão carregada do sobrinho deixou o salão.

— Por favor, sente-se. — Esteban parecia muito gentil, voltando-se para Caroline. — Não sei como me desculpar. Minha tia sofre de contínuos lapsos de memória. Por favor, tente compreender. Ela é irmã de minha mãe   Uma mulher já velha, que nunca se casou, e, sinto muito dizer isso, mas há períodos em que cria fantasias sobre o comportamento de meu pai.

— O senhor quer dizer que o Esteban sobre o qual ela se referia era   seu   pai? —   perguntou   Caroline, que havia se sentado num confortável sofá.

— Correio. Temos o mesmo nome.

— Entendo.

— E, logicamente, tia Isabel sempre leve um pouco de inveja da felicidade de sua irmã, — Ele sorriu mostrando os dentes brilhantes que contrastavam com sua pele morena. — Isso quase sempre acontece com as solteironas, não é mesmo?

Caroline sorriu um pouco sem graça, não sabendo direito o que responder. Aproveitando-se de sua confusão momentânea, ele levan­tou-se e sentou-se bem perto dela.

Parecia um tanto aflito e por um momento Caroline pensou que don Esteban fosse lhe pedir desculpas por seu comportamento na noite anterior. Mas ele não fez isso.

— Senhorita, estou muito feliz por ter vindo — disse, depois de se acomodar no sofá. — Emília, minha filha, precisa de companhia. Não sei muito bem o que a sra. Garcia lhe disse, mas desde a morte de minha mulher, Emília foi criada por uma conterrânea da senhorita, a sra. Thackeray.

— Sim, eu sei — respondeu Caroline, omitindo quem lhe tinha dado aquela informação.

— Mas essa senhora não foi uma boa influência para minha filha, senhorita. Muitas vezes se opôs às minhas determinações em relação à educação de Emília, e infelizmente, meu irmão, Luís, a apoiava.

— Entendo. — Aquilo tudo parecia muito estranho para Caroline. — Sinto muito.

— Eu também. — Esteban falava com uma expressão séria. — Luís e eu somos irmãos, e é triste quando um irmão sempre se opõe ao outro.

— Oh, mas sem dúvida. . .   — começou Caroline, mas Esteban não deixou que ela continuasse.

— A senhorita não entende. Da mesma forma que tia Isabel tinha ciúme de minha mãe, Luís tem ciúme de mim.

— Não. ..

— Verdade. Eu sinto muito, mas é isso mesmo. — E de fato Esteban parecia infeliz ao dizer aquelas palavras. — Eu sou o irmão mais velho, entende? Eu herdei todas as propriedades do nosso pai. Luís não tem nada, exceto aquilo que dou a ele. A mãe dele, saiba a senhorita, era a prostituta de quem minha tia falava.

Caroline não sabia o que dizer e, ao perceber que tinha ido longe demais, Esteban procurou se explicar melhor:

— Perdoe-me — disse ele. — Não devia ter dito isso desse jeito. Não queria passar por um caluniador, mas nunca vou poder esquecer que foi a mãe de Luís quem, quase que diretamente, causou a morte de minha mãe. A pobrezinha acabou se suicidando por causa daquela mulher, Jogou-se de uma janela do segundo andar desta casa... Acredite-me, isso é uma coisa que não se esquece nunca.

— Mas seu irmão, Luís, tem o sobrenome Montejo — retrucou Caroline, pálida.

— Oh, sim, claro! — Esteban sorriu com ironia. — Meu pai se casou com a mãe dele.. . depois. Meu irmão não é filho ilegítimo, senhorita.

 

Depois de desabafar as razoes da antipatia existente entre ele e Luís, Esteban acalmou-se e revelou de imediato seu espírito prático. Com orgulho mostrou a Caroline os aposentos principais da casa, os objetos mais valiosos e contou-lhe um pouco de sua história. Conhecia bem os mitos e lendas da região e deixou Caroline assustada ao lhe falar de homens de barro criados pelos deuses, de outros com corpo de madeira que saíam matando as pessoas ou então as transformando em macacos. Mostrou-lhe, então, uma máscara funerária asteca e descreveu-lhe como a deusa do mal, Tezcatlipoca, a tinha posto no deus Quetzalcoatl antes de forçá-lo a tomar parte numa orgia. Mas o deus se jogou numa fogueira e, após vários dias de purificação, seu coração subiu aos céus, se transformando no planeta Vénus.

Enquanto examinavam os azulejos da sala de música, Caroline percebeu que alguém os observava. Virando-se rapidamente, viu Emília parada na soleira da porta. Esteban então, com um gesto convidou-a a entrar.

— Venha aqui — disse ele, gentilmente. — Quero que conheça a srta. Leyton. Ela é a sua nova professora e espero que se tornem boas amigas.

Emília não se mexeu. Claro que Esteban não tinha mentido quando disse que ela o desobedecia, mas se isto era influência de Luís ou não, ainda não dava para saber. A afeição de Luís pela menina parecia sincera e a dela por ele também, mas até que Caroline tivesse oportunidade de conversar com Emília, não poderia ter certeza de nada.

— Emília. você não me ouviu? — A voz de Esteban tinha perdido

o tom amistoso. — Olhe o que eu trouxe para você. — Ele mexeu no bolso como se estivesse procurando um presente. — Se não vier, não vai saber o. que é.

Emília suspirou e, evidentemente curiosa, aproximou-se do pai. Mal olhou Caroline, pois sua atenção estava toda voltada para Esteban.

Caroline afastou-se educadamente. Era a primeira vez que os via juntos. Embora houvesse uma leve semelhança entre eles, Emília devia se parecer muito mais com a mãe, concluiu ela.

O que aconteceu em seguida foi tão rápido que Caroline não teria podido protestar, mesmo se tivesse ousado fazê-lo. Quando Emília esticou o pescoço para olhar o que o pai trazia numa das mãos, ele segurou o braço dela com firmeza, enquanto lhe dava uma bofetada no rosto. A garota perdeu o equilíbrio e teria caído se Esteban não a tivesse segurado. Emília empalideceu e fez um esforço enorme para não chorar.

— Que isto lhe sirva de lição, menina — disse Esteban com fir­meza. — Você não vai me fazer passar por idiota na frente da srta. Leyton, como tentou fazer com a sra. Thackeray!

— Não, senhor — concordou Emília respeitosamente. Pelo seu comportamento, era óbvio que aquela não era a primeira vez que apanhava do pai.

— Agora cumprimente a srta. Leyton como uma digna representante da família Montejo, com educação, gentileza e um sorriso nesse seu rostinho mal-humorado — aconselhou ele.

Caroline sentiu-se mais uma vez constrangida.

— Seja bem-vinda a San Luís de Merced, srta. Leyton — disse Emília, com os olhos baixos. Depois, diante da insistência do pai, levantou a cabeça e com um sorriso forçado murmurou: — Espero que seja muito feliz aqui.

— Obrigada, Emília. — Caroline se recompôs com dificuldade. — Eu também espero.

— Agora vamos mostrar à srta. Leyton onde irão trabalhar — anunciou don Esteban, largando o braço da filha. — Acho que vai achar ótima a minha escolha, srta. Leyton. A biblioteca é um lugar tranquilo e está repleta de livros raros que, tenho certeza, apreciará bastante.

A biblioteca não a impressionou tanto quanto o resto da casa. As paredes eram cobertas por estantes cheias de livros com capas de couro e com os títulos gravados em letras douradas.

— Como pode ver, faço questão de que meus livros sejam conser­vados em perfeitas condições — disse Esteban, orgulhoso. — De vez em quando contrato um profissional da Cidade do México para cuidar deles.   Ele   examina   os livros   e faz os   trabalhos   de   restauração necessários.

Caroline olhou à volta, admirada. Um pequeno balcão com gradil de ferro permitia o acesso às prateleiras mais altas, e uma escada em espiral delicadamente decorada dava acesso a ele.

— Vocês vão trabalhar aqui. — Esteban apontou uma escrivaninha próxima ã janela. — Quero que a senhorita examine os livros de Emília, e se quiser indicar outros, podemos comprá-los em Mérida.

— Obrigada. — Caroline tocou a pilha de livros. Pelo menos aquilo era algo que conhecia e compreendia e olhou ansiosamente para Emília, esperando encontrar ressentimento e hostilidade em seu rostinho. Mas a garota retribuiu-lhe o olhar sem muita agressividade, e Caroline se sentiu mais animada com a perspectiva de estabelecer um bom relacionamento com ela.

— Vou deixá-las agora — disse Esteban, para alívio de Caroline. — Tenho que discutir alguns assuntos com o administrador da fazenda. Vejo-a na hora do almoço, senhorita, quando voltaremos a conversar sobre Emília. Até logo, srta. Leyton. Até logo, Emília.

Assim que ele saiu, Caroline sentou-se numa cadeira forrada de couro ao lado da escrivaninha. Fez-se um silêncio constrangedor.

Emília contornou a escrivaninha e apoiou os cotovelos no tampo. Observou com atenção o rosto preocupado de Caroline por alguns instantes e então disse:

— Eu falei que você não ia gostar daqui.

Caroline olhou firme para ela e depois, bruscamente, pegou um dos livros à sua frente.

— Sabe, você pode estar certa — concordou calmamente, abrindo o livro.

— Por que não contou a don Esteban o que eu disse?

— E o que foi? — Caroline franziu a testa como se não conseguisse lembrar direito das palavras da menina.

— Você sabe! — Emília suspirou. — O que eu disse sobre você não gostar daqui. Sobre as aranhas e os morcegos!

— Oh, entendo. — Caroline encolheu os ombros. — Eu tinha es­quecido. E além do mais, será que isso interessaria a seu pai?

— Não o chame assim! — protestou Emília. — Ele não é meu pai! Eu o odeio!

— Emília! Ele é seu pai e você não devia falar assim sobre ele. Isso não é nada bonito!

— Tio Vicente é que é meu pai — afirmou Emília. Caroline estava perplexa. Guando acabariam todas aquelas revelações? — Tio Vicente amava minha mãe. é por isso que don Esteban me odeia.

— Oh, não seja tola, Emília. — Caroline já tinha ouvido coisas demais naquele dia. — Olhe, não estou aqui para discutir quem amava sua mãe. Tenho certeza que seu pai gostava muito dela e só porque é desobediente e ele castiga você, não é motivo para espalhar mentiras por aí! Você é filha dele. É óbvio! Agora sente-se e deixe de se comportar como uma criancinha de dois anos!

— Você não sabe de nada. — Emília comprimiu os lábios.

— E nem quero saber — respondeu Caroline, embora na verdade estivesse morta de curiosidade. Lembrou-se, então, da reserva de Luís quando lhe perguntou sobre a morte da mãe de Emília e a relutância dele em falar sobre a reação do irmão. Mas como não tinha nada a ver com a vida particular tios Montejo, achou melhor se calar. Começou a fazer algumas perguntas a Emília, tentando avaliar sua capacidade.

Na verdade, a manhã passou muito depressa. Interessada em provar que era inteligente e brilhante, Emília perdeu aquele ar agressivo inicial e mostrou-si; simpática. Apesar da sra. Thackeray ter morrido há um ano a menina estava bem mais preparada do que a maioria das crianças de sua idade. Emília lia bem e seus conhecimentos de matemática eram mais do que satisfatórios. Seu único defeito era responder as perguntas apressadamente, o que a levava a cometer erros por falta de reflexão. Ficou claro a Caroline que Emília gostava das aulas com a sra. Thackeray, e fossem quais fossem os defeitos da velha senhora, ela tinha sido muito eficiente.

Emília disse a Caroline que normalmente o almoço era servido a uma hora, assim ao meio-dia e meia ela dispensou sua aluna. Tinha resolvido voltar a seu quarto e desfazer parte da bagagem. Mas ali chegando, descobriu que alguém tinha se antecipado a ela: suas roupas estavam todas penduradas e suas malas guardadas no armário.

Ao se olhar no espelho da penteadeira, notou que estava com o rosto vermelho. Pudera! Aquela manhã não fora fácil! Passou uma camada de pó e um pouco de batom para tentar melhorar seu aspecto. Sentia muita fome e queria descer logo para almoçar, mas a pers­pectiva de rever Luís, depois das revelações de seu irmão, quase lhe tirou o apetite.

Atravessou o corredor novamente e desceu a escada, quando falta­vam dez minutos para a uma hora. Logo avistou Luís, que acabava de chegar de seu passeio a cavalo.

— Espero que tenha passado uma manhã agradável — disse ele. Caroline teve vontade de rir. Uma manhã agradável! Se ele soubesse,

pensou ela, recompondo-se para responder calmamente:

— Foi muito interessante. E você?

— Eu gosto de montar. Você devia praticar um pouco de equitação enquanto estiver aqui. Esteban tem um bom estábulo. — E sem dar oportunidade para que ela fizesse algum comentário, subiu a escada quase correndo.

Caroline passou pelo hall, sem saber o que fazer ou para onde ir. Como o salão onde tinha conversado com a sra. Isabel estava vazio, entrou e foi até uma das janelas. Ficou alguns instantes admirando o pátio com seus canteiros de flores, quando de repente virou-se assus­tada, ouvindo passos atrás dela.

— Olá, srta. Leyton. — Seu patrão parou na porta, Além de ser menor e mais troncudo que o irmão,   suas feições não eram tão bem-feitas como as dele. Caroline, por outro lado, estava encantadora. Delineada pelo sol, seus cabelos pareciam uma auréola a volta de sua cabeça. Esteban lhe estendeu a mão. — Em San Luís o almoço é uma refeição informal, senhorita — informou-a gentilmente. — Vou lhe mostrar como nos servimos.

Respirando fundo, Caroline atravessou o aposento, com ele lhe segurando o braço.

— Espero que não tenha tido problemas com Emília depois que eu saí — ele continuou.

Caroline dominou a vontade de se soltar e assegurou-lhe que a filha tinha sido exemplar.

— Isto é bom — observou ele. — Ela não sabe o que é disciplina há muito tempo. Espero contar com seu apoio em tudo o que eu decidir em relação a Emília e também que não se esqueça de que sou eu, e mais ninguém, que lhe dá instruções sobre a educação dela.

Don Esteban estava sendo claro demais! Caroline comprimiu os lábios.

— Lógico, senhor — concordou, automaticamente.

Esteban conduziu-a para a sala de almoço. Não era a mesma em que tinham comido na noite anterior e sim muito menos ornamentada do que a maioria dos cômodos da casa. Suas portas davam para um terraço e dali se podia ver a piscina e, num canto, uma linda fonte jorrando água cristalina sem parar. Caroline dirigiu-se até ela.

Até então não tinha se dado conta de como estava quente. Olhou para o sol, pressionando a nuca com as mãos. Foi um gesto sensua­líssimo, mas ela não percebeu isto até que um movimento numa janela do andar superior 1he despertou a atenção. Involuntariamente seus olhos cruzaram com os de Luís por um breve momento; depois ele se afastou e desapareceu atrás das cortinas. Logo em seguida, Caroline voltou para o terraço.

— Gosta do sol, srta. Leyton? — perguntou Esteban.

— Eu não tinha percebido o quanto está quente — confessou ela, forçando um sorriso. — Ê uma pena não se poder nadar na piscina.

— Mas podemos dar um jeito nisso — disse Esteban com os olhos fixos no seu decote. Caroline preferia ignorar aquele olhar. Virou-se e caminhou em direção à mesa, preparada para o almoço.

Havia saladas e molhos variados, ovos cozidos, abacates recheados, mariscos, carnes frias, enchiladas, tacos, tortillas, travessas de frango frito, além de várias espécies de doces e frutas frescas.

Esteban encorajava Caroline a experimentar as tortillas, mas ela preferiu uma salada de frango. Estavam sentados no terraço, comendo e bebendo vinho gelado, quando Luís e Emília chegaram.

— Venha cá, Emília— chamou Esteban.

Com medo do temperamento explosivo do pai, a garota aproxi­mou-se.

Tinha lavado o rosto e penteado os longos cabelos pretos; o vestido branco de babados fora trocado por outro cor-de-rosa com mangas compridas, que Caroline suspeitava ser muito desconfortável no calor. Uma leve mancha na sua face direita lembrava o tapa que o pai tinha dado horas atrás. Caroline se encolheu quando Esteban acariciou o

rosto dela, aconselhando-a:

— Que isto lhe sirva como lição, Emília. Deve fazer exatamente o que a srta. Leyton lhe disser, e espero que ela não tenha mais proble­mas com você.

— Sim, senhor — respondeu a menina, olhando furtivamente para

Caroline.

Apesar de tudo, foi agradável almoçar no terraço. Esteban estava disposto a ser gentil e, em nenhum momento, agrediu o irmão como na noite anterior. Ao contrário, os dois discuti­ram calmamente os problemas da fazenda e, se alguma vez Esteban deixou de concordar com os métodos mais democráticos de seu irmão lidar com os empregados, sempre o fez com cortesia. Talvez quisesse mostrar que também podia ser tolerante, deduziu Caroline, tensa cada vez que Luís resolvia argumentar com o irmão.

Emília não tomou parte na conversa, passando o tempo jogando pedacinhos de pão para os pombos. Evidentemente, estava acostumada aos humores variáveis do pai. Caroline sentiu uma súbita simpatia por ela. Não devia ser fácil morar ali sem amigos ou companheiros da idade dela.

Quando a refeição terminou, uma criada levou Emília para fazer a sesta e, aproveitando a oportunidade, Caroline também saiu. Preci­sava de tempo,, concluiu ela, tempo para assimilar suas experiências ali. Com uma sensação de fraqueza, subiu para os seus aposentos.

Com as venezianas fechadas, o quarto estava fresco e agradável. Ao se deitar, relaxou quase imediatamente. Quem sabe não seria tão ruim como tinha pensado no começo? Adormeceu logo em seguida, pensando nisso.

Acordou duas horas depois, bem mais descansada. Quando abriu as persianas, viu ao longe o mar. Sentiu vontade de dar um mergulho para pôr fim ã sua sonolência, mas como não era possível, conten-tou-se com uma ducha.

Depois do banco, Caroline desceu para tornar uma bebida gelada.

Reinava o mais absoluto silêncio na casa. Não havia ninguém nos dois salões por onde passou; a biblioteca também estava deserta, as portas francesas da saía de almoço agora estavam fechadas e as mesas onde tinham almoçado foram removidas. Ela não sabia se chamava ou não algum empregado, quando a porta que dava para uma pequena ante-sala se abriu e Luís Montejo apareceu. Ele parecia perdido em seus pensamentos, com a cabeça baixa e as sobrancelhas arqueadas, e quando a viu ficou surpreso.

— Está procurando meu irmão ou Emília? — perguntou educada­mente, inclinando a cabeça. — Devo lhe dizer que Esteban está descansando e não gostaria de ser perturbado e Emília não tem aula à tarde.

— Na verdade...   — Caroline comprimiu os lábios — eu   só queria um copo de água gelada. Consuella me aconselhou a não beber a água das talhas lá de cima.

— Ela tem razão, pois o sol aquece as caixas durante o dia e a água fica quente. Entretanto, você pode beber alguma coisa mais gostosa se preferir. Há uma geladeira no estúdio de Esteban, com sucos de frutas os mais variados. Talvez prefira um deles em vez de água gelada.

— Mas seu irmão não vai. . . — Caroline hesitou.

— Esteban nunca vai perceber — garantiu Luís, conduzindo-a por um corredor semelhante ao que havia no andar superior. Só que neste os retratos eram intercalados por janelas estreitas e o carpete tinha tons de vermelho e preto.

Esteban tinha lhe mostrado o estúdio durante a visita pela casa, naquela manhã. Como na biblioteca, havia prateleiras cheias de livros, a maioria sobre agricultura, ela notou, e uma imponente escrivaninha quadrada   com   dois   telefones.   Estava   tudo em   ordem   e Caroline deduziu que, ou Esteban era extremamente eficiente e organizado, ou não fazia nada o tempo todo, pois na verdade, a escrivaninha parecia nunca ter sido usada.

Escolheu um suco de laranja e estranhou que Luís não tivesse se servido.

— Não vai me acompanhar? — perguntou, lamentando ter que ficar sozinha novamente.

— Sinto não ter tempo — respondeu ele, seguindo-a para fora do aposento e fechando a porta. — Mas tenho certeza que Esteban não se importaria se você resolvesse passear pelos jardins ou fosse pegar algum, livro na biblioteca.

— Estou certo de que meu irmão ficaria feliz em responder às suas perguntas. Sei que Esteban a aprovou sem restrições e tenho certeza que Emília só poderá se beneficiar com seu exemplo.

— Mas eu não quero falar com don Esteban — afirmou Caroline. — Quero falar com você. Queria pedir desculpas pelo que aconte­ceu ...

— Não é preciso. E agora, com licença, tenho muita coisa para fazer — disse ele e se afastou.

Caroline suspirou e correu atrás dele.

— Você disse que eu podia andar a cavalo enquanto estivesse aqui. Será que poderia ir agora? Emília não precisa de mim, e não estou com disposição para Ser.

— Sozinha não. Uma mulher não deve sair desacompanhada. É melhor você falar com meu irmão para saber o que ele pensa disso.

Caroline fitou-o, perturbada e impaciente.

— Isso quer dizer que sou uma prisioneira aqui, não é? Não posso sair de casa sem um guarda-costas?

— Você está sendo dramática — disse Luís, olhando em volta, como se procurasse algo. — Tenho certeza de que Esteban encontrará uma solução. Quem sabe, ele mesmo a acompanhe. — Seu tom de voz era irônico. — Mesmo que seja numa carruagem. . .

— Carruagem?

— Meu irmão não monta, mas talvez você consiga convencê-lo.

— Eu não quero que seu irmão me acompanhe — disse Caroline impetuosamente. — E se você não me levar, vou descobrir algum meio de ir sozinha. . .

— Não vai! — ele interrompeu-a. — Se sair sozinha vou contar a Esteban e você pode perder o emprego.

— Seria capaz disso? Você me trouxe até aqui! Será que não se sente nem um pouco responsável?

— Não! Eu a trouxe de Las Estadas até aqui, só isso. Você se candidatou a este emprego e aceitou-o depois de conversar com a sra. Garcia. Como pode me culpar agora?

Caroline estava surpresa com suas próprias palavras. Mas era tarde demais: não podia voltar atrás. Assim, se manteve firme, encarando-o e reunindo coragem para continuar.

— Mas você não me avisou sobre o que me esperava, não é? — Caroline acusou. — Não me disse que. seu irmão gostava de beber ou que era provável que sua tia me insultasse. . .

— Tia Isabel insultou-a? Como?

— Ela me acusou de. . . de ser uma das amantes de seu pai. . .

— Entendo. — Luís fez um gesto para que ela não continuasse. Parecendo subitamente preocupado,   perguntou: — Você contou   a Esteban?

— Ele estava lá. Mas e daí? Você realmente não se importa comigo! Caroline afastou-se de cabeça baixa. Depois de dizer uma palavra

tão grosseira quanto as que seu irmão tinha usado na noite anterior. Luís foi atrás dela.

— Amanhã de manhã — disse ele asperamente, ao passar por ela. — Às seis horas espero você no hall.

 

Talvez porque tivesse dormido durante o dia, Caroline achou difícil pegar no sono naquela noite. Apesar de seu quarto ser fresco, seus pensamentos a inquietavam; virava-se na cama, de um lado para o outro, sem encontrar posição para ficar. Mesmo descoberta, transpi­rava e seu coração batia descompassadamente.

Lembrou-se então de sua casa e se deu conta de que, além de um cartão-postal que enviara de Mérida, ainda não tinha escrito para os pais. Decidiu que no dia seguinte o faria, mas com o cuidado de não deixar transparecer seus temores e incertezas. Queria poupar seus pais, pois sem dúvida ficariam preocupados.

Em seguida pensou em Andrew e, com surpresa e uma pontada no coração, percebeu que mal se lembrou do namorado durante todo o dia. Esqueceu-se da imagem dele, que foi substituída pela de Luís Montejo! Um homem diferente dos outros e que a perturbava de tal maneira que só de pensar nele ficava sem ação!

Deixando a imagem de Luís de lado, Caroline se lembrou da conversa de don Esteban naquela noite. Luís não jantou com eles, mas a sra. Isabel, sim. Caroline sentiu-se apreensiva até que se deu conta de que a velha senhora estava completamente lúcida. Vestida de preto, mas com uma bonita mantilha de renda sobre os ombros, presa no pescoço por um enorme broche de diamante, d. Isabel sentou-se na cabeceira da mesa ao lado do sobrinho, observando ocasionalmente Caroline sem nenhum sinal de hostilidade.

— Esteban me disse que a senhorita é de Londres — comentou ela. — Estive em sua cidade uma vez. Em 1946. Achei um lugar horroroso e, além do mais, chovia o tempo todo.

— Tia Isabel, Londres sofreu muitos bombardeios durante a guerra

— observou Esteban pacientemente. — O que a senhora viu foi o resultado disso. Eu estive lá depois e posso lhe garantir que a cidade não é nada horrorosa. Muito pelo contrário.

— A senhorita nasceu em Londres? — perguntou a sra. Isabel, não se sentindo intimidada com as palavras do sobrinho.

— Minha família mora nos arredores de Londres, senhora. Em Buckinghamshire, mas eu frequentei a Universidade em Londres e conheço muito bem a cidade.

— Ah! — A velha senhora meneou a cabeça. — E seus pais aprovaram isso?

— Aprovaram o quê, senhora? — Caroline ergueu as sobrancelhas.

— A sua ida para a Universidade, é lógico! — exclamou a sra. Isabel. — E viajar, sem uma dama de companhia! No meu tempo isso não era permitido!

— A srta. Leyton é um produto do século vinte, tia — interferiu Esteban, — E devemos estar gratos por ela ter resolvido vir para San Luís como professora de Emília.

— Emília precisa de carinho, de mãe e de irmãos que lhe façam companhia. Mas com você insistindo em permanecer viúvo e seu irmão no seminário, só mesmo um milagre!

— Acho que a srta. Leyton não concorda com a senhora — retrucou Esleban. — Emília não é a única criança do mundo que vive nessas condições.

Caroline serviu-se de arroz e frango, embaraçada com as palavras de don Esteban.

— Talvez — murmurou ela sem convicção. O assunto foi posto de lado para alívio de Caroline.

Ninguém questionou onde Luis estava, mas enquanto tomavam café no salão, mais tarde, seu nome foi mencionado pela sra. Isabel e Caroline sentiu o rosto queimar durante a perturbadora conversa da velha com o sobrinho.

— Hoje à tarde vi aquela mulher saindo daqui outra vez — disse ela, irritada. — Eu a vi saindo pela porta lateral. Não quero aquela mulher nesta casa! Você tem que falar novamente com Luís!

Esteban pareceu levemente desconcertado com aquela explosão da tia, mas mesmo assim tentou tranquilizá-la.

— Tia Isabel, acho que não precisamos discutir este assunto na frente da srta. Leyton. Vou conversar com Luís. como a senhora quer, e o assunto será resolvido.

— Você já disse isso antes, Esteban — afirmou a sra. Isabel. disposta a não se render tão facilmente. — Se Luís precisa de uma mulher desse tipo. por que não se encontra com ela na aldeia?

— Tia Isabel, já lhe disse que vou resolver isso. — Os olhos de don Esteban brilhavam. — O que Luís faz não é da conta da srta. Leyton e sugiro que a senhora restrinja seus comentários a assuntos menos pessoais.

Carolíne, na realidade, não sabia o que pensar. Quem era aquela mulher de quem a sra. Isabel falou? Seria amante de Luís? Esta idéia fez com que Caroline sentisse uma pontada no estômago.

Pensando nisso, no seu quarto, ela adormeceu. Mais tarde acordou com uma batida impaciente na porta e. logo em seguida, procurou por seu relógio.

Eram seis e quinze e ainda estava escuro. Foi então que se lembrou: era Luís! Tinha que ser! Levantou-se e atravessou o quarto apressada em direção à porta.

— Quem é? — perguntou Caroline com a garganta seca.

— Montejo. Você mudou de idéia?

— Não, não! — disse Caroline sem hesitar, olhando para a cama desarrumada. — Pode me dar dez minutos? Perdi a hora! Prometo que não vou demorar.

— Cinco minutos — declarou ele e Caroline ouviu-o se afastar pelo corredor.

Lavou o rosto e escovou os dentes rapidamente e vestiu um jeans e uma camisa de algodão. Calçou um par de botas, colocando as pernas da calça dentro delas, e pegou um suéter antes de sair. Nem se preocupou com a maquilagem. Sua pele estava naturalmente rosada com a pressa de se arrumar.

Luís estava esperando no hall. Ela o viu logo que chegou no topo da escada, passeando inquieto pelos ladrilhos pretos e dourados, batendo de leve nas botas pretas de cano até o joelho com a boca de um rifle. A arma a fez parar. Por que ele estava com aquele rifle? Seu magnetismo, porém, era tão grande que agora percebia como seus sentimentos para com Andrew eram simples se fossem compará-los com as sensações que Luís de Montejo lhe despertava.

Quando Caroline começou a descer a escada; os olhos brilhantes dele se estreitaram, e ele disse:

— Temos que   nos   apressar se   você   quer ver um   pouco   da propriedade.

Não deu tempo para que ela respondesse, pois abriu a porta e fez um gesto para que ela passasse.

Caroline se viu numa saleta com duas portas. A primeira era pesada e enfeitada com tachas, mas a outra que Luís abriu, dando acesso ao jardim, fez Caroline umedecer os lábios. Aquela certamente era a poria que a sra, Isabel tinha mencionado na noite anterior! Engoliu em seco ao ver se confirmar a história e as conclusões inevitáveis a que tinha chegado.

O ar estava fresco e, por um momento, Caroline esqueceu suas apreensões. Luís fechou a porta e acenou para que ela o seguisse.

Ele já tinha providenciado tudo, pois seu cavalo e uma égua casta- nha já estavam selados esperando por eles. O velho mexicano sorria com benevolência, enquanto Luís estendia as mãos para ajudar Caroline a montar.

Fazia cerca de quatro anos que ela montara o pónei de uma amiga numa   fazenda perto   de   sua casa   em   Buckinghamshire,   mas não esquecera as lições que leve naquela ocasião. A égua era muito maior do que o pônei, claro, mas era dócil e calma. Depois de se certificar de que Caroline podia controlá-la, Luís montou seu cavalo alazão. Ele enfiou a coronha do rifle num bolso de couro na frente de sua sela e disse algo em espanhol para o velho cocheiro..

O homem respondeu ansiosamente e entrou apressado no estábulo, reaparecendo momentos depois com um chapéu de abas largas que entregou a Caroline.

— Nunca saia para cavalgar sem chapéu — aconselhou ele, en­quanto Caroline colocava o sombreiro na cabeça.

O homem desejou-lhes sorte em espanhol. Luís levantou a mão num gesto de despedida e instigou os cavalos para frente.

Gomez foi abrir os portões, e Luís sorriu dizendo depois uma palavra amiga para o veiho porteiro. Como o homem do estábulo, evidentemente Gomez gostava do jovem Montejo e Caroline se per­guntou se Esteban inspirava a mesma afeição em seus empregados.

Além dos portões, o terreno era profundamente irregular, cheio de arbustos e trepadeiras. A vegetação possuía uma beleza primitiva, mas Caroline lembrou logo o que Emília tinha dito sobre cobras e aranhas. Aquele era exatamente o tipo de habitat ideal para elas. Ficou aliviada quando Luís não pegou o atalho em direção à aldeia mas contornou os muros que cercavam a parte principal da proprie­dade, antes de ir naturalmente em direção ao norte.

A égua trotava obedientemente atrás do cavalo de Luís, até chegarem num campo gramado. Aí, ela apertou o passo e logo estava galopando, passando o cavalo de Luís. Caroline teve que se concentrar para se manter sobre a sela, mas aquilo estava sendo muito estimulante depois de todas as tensões dos últimos dois dias.

Ela estava ofegante quando finalmente Luís a alcançou e a fez diminuir o passo. Chegou muito perto para fazer isso e o joelho de Caroline foi pressionado por um momento contra o cano da bota dele.

— Você cavalga muito mal — ele comentou, seco, exatamente quando ela estava esperando sua aprovação. — Sempre deixa seu cavalo   assim tão à vontade?   Ou simplesmente não foi   capaz de dominá-lo?

— Eu não perdi o controle — ela respondeu ofendida, dando tapinhas no pescoço da égua. — Desculpe se a nossa colisão lhe causou algum desconforto, mas eu não sabia que suas botas eram tão frágeis!

— Nesta região deve-se sempre manter o controle — ele continuou asperamente, olhando para um ponto a uns quatrocentos metros de distância. — Você tem idéia de quanto tempo uma boiada leva para chegar perto de você, ou de como pode ser grave muitas patadas de animais passarem sobre você?

Caroline olhou para a mancha escura em movimento no horizonte pálido. Ela não tinha percebido a boiada, mas agora estremeceu. Tinha idéia, sim, do que fosse um estouro de boiada e ficou aterrorizada.

— Eu não sabia, não tinha visto — ela confessou. — O que vamos fazer agora? Vamos voltar? Nunca estive assim tão perto de uma boiada antes.

— Eu duvidava que você já tivesse estado — retrucou ele, contro-lando o cavalo. — Não vamos voltar. Vamos passar no meio da boiada. Desde que não os assustemos, não há perigo.

Caroline não estava totalmente convencida. Seus olhos mostravam a Luís que estava indecisa e com medo. Ele ficou mais calmo e tentou tranquilizá-la.

— Vamos — disse, instigando o cavalo para ir ao lado do dela. — Vamos cavalgar lentamente por algum tempo. Desse jeito pode ter cerfeza de que não perturbaremos ninguém.

O sol que estava escondido atrás de algumas nuvens apareceu e os pássaros cantavam. Enquanto tocava a égua lentamente ao fado do cavalo, Caroline, que tinha amarrado as mangas do suéter em volta do pescoço, tirou-o e amarrou-o na parte da frente da sela, depois enrolou as mangas da camisa até os cotovelos, expondo os braços magros para o sol.

— A que distância fica o mar? — perguntou, fingindo ignorar que estavam se aproximando da boiada.

— Em linha reta, mais ou menos treze quilómetros.

— Tão longe assim? Mas eu pensei. . .   Quer dizer, da janela do meu quarto parece tão perto!

— As distâncias podem enganar — comentou Luís, apertando os olhos por causa do brilho do sol. — Por quê? Você estava planejando molhar os pés no golfo do México? Acho que teria que se privar desse privilégio até Esteban resolver levá-la de carro.

— Só pensei que poderia ser bom levar Emília à praia — respondeu Caroline, depois de suspirar. — Mas se temos que ir pela estrada, acho que eu mesma posso levá-la. Eu sei dirigir.

— Você acha mesmo que Esteban deixaria você levar Emília sem companhia? — Luís encolheu os ombros. — Eu acho que não.

— Por que sou mulher? — Caroline fez um gesto impaciente. — Oh, isso é ridículo!

Luís não respondeu e ela suspirou, frustrada.

— Você está querendo me dizer que mesmo num carro nós temos que ter um guarda-costas?

— Se você prefere chamar assim, sim. — Luís inclinou a cabeça. — De qualquer modo, com relação a Emília sempre há o risco de um sequestro, coisa comum nos dias de hoje. Você não gostaria de colocar a vida dela em perigo, não é?

— Não. Claro que não.

— Ótimo. Então vai fazer o que Esteban disser, não é verdade?

Caroline ficou ressentida, mas não tentou qualquer protesto quando Luís pegou as rédeas da égua para passarem por entre o gado que pastava.

Alguns dos animais levantaram as cabeças para vê-los passar mas, como Luís tinha dito, não reagiram já que não se sentiam ameaçados. Depois de alguns minutos, quando estavam bem longe da boiada, Luís sugeriu que voltassem.

— Voltarmos? — Caroline parecia consternada.

— Já passa das sete horas — comentou ele pacientemente, mostran­do-lhe o seu relógio de pulso. — Você não gostaria de chegar atrasada para sua aula com Emília, não é mesmo?

Caroline concordou, mas ficou desapontada em ter que voltar. O tempo passou tão depressa que ela nem percebeu. Queria conversar com Luís, para conhecê-lo melhor, talvez descobrir a verdade que havia por trás do que Esteban tinha contado. Mas agora não fazia idéia de quando ia ter outra chance de estar sozinha com ele nova­mente.

Cavalgaram a meio galope através de um terreno pantanoso, onde corria um rio.

— Meu pai drenou esta terra — comentou Luís, empurrando a cabeça do cavala para a frente e forçando o animal a caminhar ao longo da margem. — Ele afundou o canal do rio e usou a areia trazida pela correnteza para aumentar o nível do solo. Isso valorizou muito sua propriedade.

— Posso imaginar. Você passou a vida inteira aqui, Luís? Ou, como seu irmão, frequentou escolas na Inglaterra?

— Tenho certeza que os detalhes da minha educação não vão inte­ressar a você — respondeu ele secamente.

— Seu irmão me falou um pouco sobre o seu pai quando me mostrou a casa — insistiu Caroline, se mexendo na sela. — Nós conversamos sobre a sua família. Foi muito interessante. Ele explicou que vocês são na realidade meio-irmãos, só são filhos do mesmo pai.. .

— Chega! — O rosto de Luís se fechou de raiva. — Por que está me contando isso? As confidências de Esteban não me interessara.

— Eu estava.. . — Caroline gaguejou, intimidada. — Eu só queria puxar assunto, só isso. Você falou no seu pai e me lembrei da con­versa com seu irmão. Sinto muito, não sabia que o assunto era tabu para você!

Luís massageou os músculos da nuca com impaciência.

—   Não é tabu coisa nenhuma! É que eu posso imaginar o monte de mentira que Esteban deve ter dito!

— Ele simplesmente rne contou a história da casa e algumas lendas da região. Sobre sua família, apenas falou o que acabei de lhe dizer.

— Você espera que eu acredite nisso? Tenho certeza de que está querendo me provocar para que eu desminta tudo o que Esteban lhe disse!

— Desmentir? — Caroline ficou vermelha contra a sua vontade, — Não, eu...

— Oh, vamos acabar com isso — interrompeu Luís. — Conheço meu irmão, sei do que ele é capaz, imagino perfeitamente o que ele deve ter lhe contado, mas não tenho intenção de satisfazer a sua curiosidade, desmentindo tudo o que ele disse. Fui bem claro? Se você quis passear a cavalo comigo apenas para se meter em assuntos que não são da sua conta, perdeu seu tempo!

— Você é muito atrevido! — Caroline prendeu a respiração. — Eu estava ansiosa para fazer esse passeio. Estava ansiosa para sair um pouco de casa. Acredite ou não, já cavalguei antes e adoro. Aceitei sua companhia porque, de outro jeito, não conseguiria sair. Parece que aqui não me permitem ter a liberdade a que estou acostumada. Eu não pedi que seu irmão me fizesse confidências e não esperaria que você fizesse. — Ela suspirou fundo e arrumou o cordão do . sombreiro, antes de acrescentar: — Mas num aspecto, eu concordaria com don Esteban. Você tem ciúme dele. Muito ciúme!

Foi uma acusação terrível e embora Caroline estivesse com raiva de Luís, se sentiu muito culpada.

Luís não disse nada. Afundou os joelhos nos lados do cavalo, que começou a galopar. Em poucos segundos ele estava bem na frente dela e com uma desagradável sensação de submissão, Caroline foi obrigada a segui-lo.

Luís levou seu cavalo até a beira de um penhasco, onde o rio caía formando uma cachoeira. Caroline foi atrás dele, guardando um pouco de distância. Pensou que, pelo menos no que dizia respeito a Luís, não havia mais qualquer esperança de um relacionamento amigável entre e!es. Mas quando ele virou o rosto para ela, Caroline viu que sorria. Estava parado, com um braço pousado preguiçosamente sobre a parte mais alta da sela, com uma expressão bem-humorada e leve­mente irônica. Caroline compreendeu que, apesar de tudo o que Esteban tinha dito, era óbvio que Luís de Montejo não sentia ciúme do irmão.

— Está melhor? — perguntou ele, enquanto Caroline instigava a égua a se aproximar.

— Desculpe — disse ela, empurrando o chapéu para trás e sacudin­do os cabelos. — Fui muito agressiva. Você me perdoa?

— Não há nada para ser perdoado. É que eu não estou acostumado a tanta franqueza.

— Eu não devia ter dito aquilo — declarou Caroline, desmontando da égua e caminhando para perto da ribanceira. — Você acreditaria se eu dissesse que não tive intenção de ofender você?

— Não deve chegar tão perto do penhasco — avisou Luís. Como Caroline não lhe desse ouvidos, ele também desmontou e foi para o lado dela.

Caroline estava intensamente consciente da presença dele, de que só tinha que esticar os dedos para tocar em Luís, mas também estava consciente de que o relacionamento entre eles era muito complicado,

— Acredita em mim? — insistiu ela, sentindo uma emoção forte ao olhar dentro dos olhos de Luís.

— Que diferença faz? — perguntou ele, com a voz também tensa de emoção. — Eu vou embora daqui depois de amanhã. É com meu irmão que você terá que se entender. — Fez uma pausa e desviou o olhar. — Mas pode ser que você esteja certa: Talvez eu tenha ciúme de Esteban. Oh, sim, talvez eu tenha sim — repetiu ele, quando

Caroline começou a protestar.— Mas acho que não pelas razões que você imagina.

— O que está querendo dizer?

— Não consegue imaginar? Nunca imagina que um padre não é um homem, principalmente se ele ainda não foi ordenado? — Luís fez uma careta. — Apesar de tentar seguir o exemplo de minha mãe, não posso esquecer que em certas coisas sou muito parecido com meu pai.

— Exemplo de sua mãe? — Caroline estava perplexa. — Não estou entendendo.. .

— Minha mãe vivia no Convento das Irmãs de Anunciação. Quando meu pai morreu, ela se refugiou lá e meu irmão deseja que eu siga o exemplo dela.

 

Caroline entrou em casa sem ser vista, tomou banho, trocou de roupa e tomou o café que a empregada tinha trazido. Depois desceu para encontrar Emília na biblioteca, mas antes deu com don Esteban no hall.

— Bom dia, srta. Leyton. Eu a estava esperando para convidá-la a participar de um jantar com amigos meus, hoje. São o sr. e sra. Calveiro, nossos vizinhos da Fazenda de Los Calvados, e sua filha Josetta.

— Muito obrigada, don Esteban, mas talvez eu seja demais num jantar entre amigos. Se não se incomoda, janto em meu quarto mesmo.

— De jeito nenhum. Faço questão absoluta que jante conosco. Luís também vai jantar aqui, e com a senhorita o grupo estará com­pleto. Além disso, tenho certeza de que os Calveiro vão gostar muito de conhecê-la.

— Obrigada, don   Esteban, é   muita gentileza sua. — Caroline agradeceu educadamente, mas no fundo achou uma péssima idéia ser parceira de Luís no jantar. Não que a companhia dele a desagradasse, muito pelo contrário, mas sabia que ele ia ficar muito constrangido de sentar a seu lado, depois da conversa que tiveram perto da cachoei­ra. Logo depois de ter feito aquelas revelações sobre a mãe e ele próprio, Luís pareceu se arrepender de ter sido tão franco. Ficou em silêncio total e se afastou de Caroline sem falar nada quando chegaram de volta do passeio.

Quando Caroline entrou na biblioteca, Emília já estava lá.

Evidentemente a menina tinha resolvido obedecer ao pai, e Caroline ficou feliz com aquilo. Pretendia aos poucos ir estabelecendo uma certa rotina naquelas horas de estudo, reservando cada dia da semana para uma determinada matéria. Mas, por enquanto, estava apenas   tentando fazer com que Emília se interessasse por alguma coisa.

Aproveitando seu próprio interesse pela história mexicana, propôs a Emília que começassem por aí.

Desde que chegou, Caroline estava lendo tudo o que havia na biblioteca sobre a história mexicana: a invasão espanhola, a mestiçagem entre índios e espanhóis, as campanhas de Benito Juarez e Porfírio Diaz. Quanto mais lia sobre o México, mais ficava fascinada, e se recusava a admitir que todo aquele interesse pelo país onde estava era devido ao seu envolvimento com Luís.

Caroline gostou de ver que a sra. Isabel os acompanharia no almoço daquele dia. Sua presença, faria don Esteban deixar de se preocupar apenas com ela. Mas mesmo conversando com a tia. Esteban não deixou de trazer Caroline para a conversa.

Como na tarde anterior, depois do almoço ela foi para o quarto e deitou. Pretendia preparar a aula que daria no dia seguinte para Emília e depois escrever para sua mãe, mas estava tão exausta que acabou dormindo até o fim da tarde.

Saiu da cama com relutância, um pouco tensa com o jantar. Ficou alguns minutos se olhando criticamente no espelho. Estava com cara de sono e sentia ainda as pálpebras um tanto pesadas. De repente, Caroline lembrou que a última imagem que passou por sua cabeça, antes de adormecer completamente, foi a de Luís lhe dizendo que era muito parecido com o pai, em certas coisas. Lembrou também do que a sra. Isabel disse sobre a mulher que viu sair da casa às escondidas. Mas Caroline não acreditava que houvesse uma mulher na vida de Luís.

Um pouco inquieta, resolveu tomar uma ducha fria para espantar os últimos vestígios de sono. De volta ao quarto, tirou seu único vestido de noite do armário e o colocou sobre a cama.

Era um vestido preto bem simples, que tinha comprado para ir a uma festa com Andrew, e as lembranças que ele trazia não eram as mais agradáveis. . . Vestiu-se e penteou os cabelos para cima. de um jeito displicente e sensual, deixando os ombros à mostra.

O jantar seria servido às oito. mas don Esteban tinha pedido que

descesse meia hora antes para um drinque. Já passava das sete e meia, porém, quando Caroline saiu do quarto. Caminhava apressada peio longo corredor quando, de repente, uma porta se abriu. Levou um susto, porque pensava que fosse a única pessoa a ocupar um quarto naquele lado da casa. Mas logo ficou mais aliviada: era Luís.

— Desculpe. Assustei você? — ele perguntou.

— Eu não sabia que seu quarto ficava aqui — comentou Caroline, andando ao lado dele. — Para mim, todos esses quartos estavam vazios, menos o meu.

— Eu não estava no meu quarto. Vim visitar tia Isabel. É ela, e não eu, que divide essa ala da casa com você.

— Oh! — Caroline não pôde deixar de se sentir um tanto desa­pontada. De todos os habitantes da casa, a sra. Isabel era a última pessoa com quem gostaria de dividir algo. Sentia medo daquela mulher.

— Não se preocupe, ela é inofensiva — Luís tranquilizou-a, como se tivesse lido seus pensamentos.

— Quando está lúcida — respondeu Caroline, começando a descer a escada. Pararam de conversar quando ouviram vozes lá embaixo.

Os convidados de Esteban já tinham chegado e estavam conversando com ele no salão principal. Caroline ficou intimidada, porque todos ficaram em silêncio para observá-la, quando ela entrou.

As duas mulheres ao lado de Esteban olharam para ela com indis-farçável hostilidade. Caroline percebeu imediatamente que aquele jantar ia ser pior do que tinha imaginado.

— A senhorita está magnífica! — disse Esteban sorrindo, enquanto caminhava em sua direção. Cumprimentou-a educadamente e depois, virando-se para os Calveiro, exclamou: — Que homem de sorte eu sou por ter mulheres tão lindas à minha mesa!

As apresentações foram rápidas, para alívio de Caroline. Logo em seguida, Josetta Caíveiro se aproximou de Luís e começou a conversar com ele em espanhol. Caroline teve que admitir: estava um pouco ressentida. Seria ciúme?

— A senhorita nunca esteve antes no México, suponho — disse a sra. Calveiro.

— Não, nunca estive — ela forçou um sorriso. — Nunca tinha cruzado o Atlântico antes.   Está sendo uma experiência completa mente nova para mim.

— E para Emília também, estou certa — completou a sra. Calveiro.

— Acho que será muito interessante para a garota ter uma professora assim tão. . . independente, Esteban. Só tome cuidado para que ela não ensine coisas erradas para Emília.

Esteban sorriu, enquanto se servia de uma taça de bebida.

— A srta. Leyton conhece o nosso tipo de vida e nossos valores, sra. Júlia. E além disso, acredito que será ótimo para Emília se ela aprender algumas coisas que existem fora desse seu mundinho em San Luís.

Nesse momento, o sr. Calveiro interrompeu a conversa, perguntando a Esteban alguma coisa sobre a venda dos gados, levando-o para um canto do salão, obrigando Caroline a enfrentar sozinha a animosidade evidente da sra. Calveiro.

—   Percebo que a senhorita tem em seu patrão um grande aliado — ela atacou de novo, friamente. — Tome cuidado, Muitas mulheres têm tentado agarrar Esteban, mas duvido que ele pretenda repetir os erros do passado.

Caroline quase quebrou a taça que segurava entre os dedos. Aquela mulher estava passando dos limites.

— Posso garantir à senhora que eu não tenho a menor intenção de tentar agarrar ninguém — respondeu com educação. — Acho que todos estão cansados de saber as razões pelas quais estou aqui. Seguindo ordens de don Esteban, de encontrar uma professora para a filha, a sra. Garcia me contratou. Portanto, a única coisa que desejo é realizar o meu trabalho da melhor maneira possível.

— Não sabia que a mãe de Joana tinha alguma coisa a ver com isso. Não sei como Esteban permitiu que se intrometesse.

— Como avó de Emília. certamente a sra. Garcia tem o direito de se ocupar com a educação da neta.

— Talvez, mas depois da maneira como Joana tratou Esteban, acho que ele é muito tolerante por ainda manter contato com a família dela. Depois, encolhendo os ombros ela disse: — Bem, mas se é pela felicidade da garotinha, acho que todos temos que fazer concessões.

Caroline concordou, desejando ardentemente que alguém viesse em seu socorro. Com Esteban conversando no outro lado do salão e Josetta monopolizando a atenção de Luís, tinha que ficar sozinha com aquela mulher, e já estava completamente nervosa.

Foi então que percebeu Luís olhando para ela.

Até aquele momento, não tinha percebido nenhum sinal de que ele tivesse prestado atenção na sua presença. Mas naquele instante, quando sentiu o seu olhar, notou que o interesse de Luís pela conversa de Josetta era tão grande quanto o seu pela da sra. Calveiro.

Respondendo ao apelo silencioso dos olhos de Caroline, Luís pediu licença a Josetta e caminhou na direção dela. Seu modo vagaroso e sensual de andar lembra o de um felino, pensou Caroline, sentindo arrepios.

Quando chegou perto das duas mulheres, ele colocou sua taça sobre uma bandeja e virando para a sra. Calveiro, comentou:

— A presença da srta.   Leyton aqui nesta casa sem dúvida vai ajudar muito a nossa Emília, não é mesmo?

— A srta. Leyton estava me dizendo que foi a sra. Garcia quem acertou sua contratação — disse a sra. Calveiro, sem se dignar a responder a pergunta de Luís. — Se não existissem pessoas tão boas quanto Esteban, onde é que estaríamos?

— E mesmo — murmurou Luís. — Esteban devia ser um exemplo para todos nós.

Caroline olhou rapidamente para o rosto de Luís, esperando encon­trar pelo menos uma leve ironia em seus olhos, mas ele estava sério.

— Fico muito contente em ouvir você dizer isso, Luís — falou a sra. Calveiro. E depois, com menos hostilidade, completou: — Sei que sua mãe concordaria comigo, quando digo que você deve muito a Esteban, e que nem todo irmão costuma esquecer e perdoar tudo. assim tão facilmente.

— A senhora falou pouco mas falou bem — comentou Luís com um sorriso, desta vez sutilmente irônico. — Vou contar isso a minha mãe da próxima vez que a encontrar.

Caroline sentiu que o ambiente estava muito tenso, e ficou aliviada quando uma criada entrou no salão anunciando que o jantar estava servido, imediatamente a sra. Calveiro dirigiu-se até seu marido, ao mesmo tempo em que Esteban dava o braço a Josetta para acom­panhá-la até a sala de jantar. Caroline e Luís ficaram a sós por alguns segundos.

— Quero que você me desculpe, pois não sabia que gostava tanto de seu irmão — disse Caroline, pondo sua taça numa bandeja. — Se disse ou fiz algo que o tenha ofendido, por favor, me desculpe. — Não seja boba — disse ele, agarrando seu pulso com firmeza. — Você acha que eu iria discordar da sra. Calveiro, para alimentar nela todas as suspeitas que tem sobre mim? Para a sra. Júlia eu sou a ovelha negra da família, e nada que eu faça ou fale irá fazer com que ela mude de opinião.

— Mas por quê?

— Esteban por acaso nunca lhe disse como ele acha que Emília foi concebida? Ele nunca falou sobre suas mágoas em relação às atitudes da mulher dele?

— Não!

— Mas ele ainda vai lhe contar — disse Luís, agora sem nenhuma emoção na voz.

— Você quer dizer. . .   que Emília é sua filha? — perguntou Caroline, sentindo-se um pouco tonta com aquela conversa.

— Não! — ele negou com firmeza, forçando-a a encará-lo, — Joana e eu nunca fomos amantes e Emília não é minha filha, embora eu não saiba por que estou tentando fazer com que você acredite nisso.

— Não? — murmurou Caroline, soltando-se.

— Oh, sim! — disse ele depois de uma pausa. — Sim, eu sei, mas não há nada que eu possa fazer. . .

— Você não pode fazer nada em relação a que, meu irmão? — perguntou Esteban atrás deles.

Caroline começou a tremer, pois não sabia o quanto ele tinha ouvido da conversa.

— Eu simplesmente estava confirmando a opinião da sra. Júlia sobre você Esteban — respondeu Luís com firmeza na voz. — Ela o admira muitíssimo e eu estava contando para a srta. Leyton como você é uma ótima pessoa.

— Você não é nada engraçado, Luís — retrucou Esteban, sério. — E a srta. Leyton ganharia muito mais se não lhe desse atenção. — Ele pegou Caroline pelo cotovelo. — A senhorita vai sentar-se perto de mim durante o jantar, para que a sra. Calveiro não pense que está tentando conquistar meu irmão.

 

Não foi um jantar agradável. Embora tivesse tentado se concentrar na comida, Caroline sempre acabava dirigindo seu olhar para Luís, que não parava de conversar com Josetta. O que ele quis dizer com aquelas palavras, antes que Esteban aparecesse? Como deveria encarar as atitudes dele? E por que se preocupava com tudo isso, se estava cansada de saber que ele era um seminarista?

— Você gosta da companhia do meu irmão? — perguntou Esteban enquanto um criado retirava o prato de sopa que Caroline mal tocara.

— Não entendi. O que perguntou? — mentiu ela, completamente chocada e desejando ganhar tempo para pensar, pois não sabia direito o que responder.                                                                      

— Estou falando de meu irmão — repetiu ele com voz baixa, servindo Caroline de frango assado e arroz com pimentão. Caroline sentiu o estômago embrulhado. — A senhorita gosta da companhia dele?

— Gosto da companhia de Luís, por quê? — Caroline engoliu em seco. Depois, olhando a quantidade de comida que seu anfitrião colocava em seu prato, pediu: — Por favor, não coloque mais nada. Não estou com muita fome.

— Não? — Esteban a encarou, preocupado. — E por que, senho­rita? Não gostou do cardápio? Ou meu irmão conseguiu lhe tirar o apetite?

— Don Esteban, seu irmão não me disse nada que pudesse me tirar o apetite. — Caroline suspirou. — Simplesmente não como muito, isso é tudo. — Com determinação pegou seu garfo e comeu um pouco de arroz. — A comida está ótima, deliciosa — disse depois de alguns momentos.

Esteban encolheu os ombros e concentrou-se em sua comida, mas quando Caroline já começava a respirar um pouco mais aliviada, ele voltou ao assunto.

— A senhorita pode achar que eu estou me intrometendo, mas é que conheço muito bem meu irmão e não gostaria que tirasse conclusões falsas a respeito dele.

— Sinceramente, senhor — Caroline protestou, tensa.

—   Insisto em que a senhorita me. ouça. — Ele franziu as sobran­celhas e depois continuou: — Eu já lhe falei sobre minhas relações com ele, não? — Como Caroline concordasse com a cabeça, acrescen­tou: — Pois é. mas o que eu não lhe disse ainda é que existe uma razão muita séria que impede que meu irmão e eu sejamos amigos.

— Senhor...

— Ele destruiu meu casamento.  

Caroline pôs o garfo sobre o prato e cruzou as mãos. Ela devia estar esperando por aquela declaração, mas mesmo assim, sentia-se chocada.

— Eu a deixei embaraçada — continuou ele. — Desculpe. Mas a senhorita ainda é jovem, vulnerável, e eu não gostaria que nada a fizesse sofrer.

— Por que está me contando isso? — Caroline suspirou profunda­mente. — Luís e eu mal nos conhecemos, e como o senhor mesmo disse, ele vai voltar logo para o seminário.

— Mas fiquei sabendo que a senhorita passou bastante tempo com ele esses dias. Vocês não foram andar a cavalo hoje de manhã? Ou quem estava com ele era a mulher que ele tem na aldeia?

— O senhor sabe que era eu. — O rosto de Caroline estava em chamas, — E tem mais: fui eu quem sugeriu o passeio. Queria conhe­cer os arredores e Luís me acompanhou.

— Entendo. — Esteban observou a taça de vinho à sua frente. — A senhorita não pensou em me perguntar se poderia cavalgar fora dos limites da propriedade?

— Sim, eu pensei.

— Mas Luís estava por perto, não é?

— O senhor estava ocupado. E além disso, Luís me disse que o senhor não sabe cavalgar.

— Ah! Luís disse isso, é?

— E não é verdade?

Pela apreensão na voz de Caroline, ficou óbvio que ela estava mais preocupada em saber se Luís tinha mentido do que com as habilidades de don Esteban.

— Vamos dizer que existe um pouco de verdade nisso. Mas acho que já falamos muito sobre Luís. Conte-me agora sobre Emitia. A senhorita acredita que pode reparar as falhas que está encontrando na formação da menina?

Foi fácil falar sobre Emília. Caroline contou como estava preten­dendo organizar um programa de ensino, disse que Emília era muito inteligente e previu sinceramente que fariam progressos, juntas.

O jantar terminou, e ela respirou aliviada, quando ouviu don Esteban dizer ao criado que o café deveria ser servido no salão.

— Deixe-me ajudá-la — disse ele, levantando para puxar a cadeira de Caroline. Ela percebeu que apesar da grande quantidade de vinho que ele tinha tomado, ainda era capaz de ficar de pé, sem cambalear. Foi ela quem cambaleou em sua pressa de se afastar da mesa, e só não caiu porque don Esteban a segurou com firmeza-

— Calma, senhorita — disse ele, exalando um cheiro forte de vinho. — Obrigada, já estou bem — respondeu ela. Antes de se livrar

dos braços de Esteban, ainda percebeu o olhar acusador dos Calveiro. O que estariam pensando a seu respeito? Será que eles acreditavam mesmo que seu único interesse era conquistar um fazendeiro rico como don Esteban? Será que para os Calveiro uma mulher não poderia querer outra coisa, além da segurança de um marido?

No salão, Caroline se afastou do grupo. Tinha necessidade de um pouco de isolamento. Parecia óbvio que havia cometido um erro ao vir para aquele lugar. Além de se sentir completamente isolada do mundo, involuntariamente estava se envolvendo na vida particular de seus patrões. Era inútil dizer a si mesma que isso não importava, que tinha um trabalho a fazer e faria. Ela eslava envolvida, querendo ou não. E mais, seus motivos para se encontrar ali estavam sendo julgados por pessoas que nada sabiam dela, que viviam numa sociedade fechada em suas próprias tradições.

— Você parece preocupada — disse alguém a seu lado,

—   E estou. — Caroline voltou-se para encarar o rosto moreno de Luís Montejo. — Estava pensando que não devia ter vindo para cá.

— E por que chegou a essa conclusão? Não se aflija por minha causa. Estou indo embora.

— Mas não é por sua causa!

— O que Esteban lhe disse?

— Don Esteban? — Caroline engoliu em seco, — Nada.

— Então você chegou a essa conclusão antes do jantar? — Luís ergueu as sobrancelhas.

— Não exatamente...

— Então...

— Por exemplo, eu acho que a sra. Calveiro pensa que quero dar o golpe do baú em seu irmão. E o pior é que não estou bem certa se ele também não pensa a mesma coisa.

— E por que você veio para cá? — perguntou Luís.

— Você sabe por quê! — Caroline quase gritou. — Porque eu precisava de um trabalho. Porque a proposta parecia...

— Excitante?   .                            

— Não. Interessante! — Caroline percebeu que a sra. Calveiro a estava observando. — Acredite ou não, não estou procurando um marido!

— Você deixou alguém na Inglaterra? — Luís perguntou em voz baixa.

Ele não tinha o direito de lhe fazer aquela pergunta, e Caroline sentiu vontade de lhe dizer isso. Mas, pensando melhor, resolveu responder. Endireitando o corpo, disse: — Sim, existe alguém.

Diante da sua resposta, teve a grande satisfação de vê-lo totalmente embaraçado.

— Só posso dizer que esse homem deve ser louco — Luís comentou, antes de se afastar com as mãos nos bolsos.

Para alívio de Caroline, a reunião acabou cedo, e ela então pôde ir para o sossego de seu quarto.

Sentia-se completamente envolvida numa trama confusa. Se a mulher de Esteban ainda estivesse viva ou se pelo menos fosse Luís o seu patrão, não ia querer que ele tivesse uma esposa.

Caroline não conseguia raciocinar claramente, só sabia que estava muito cansada. Aquele havia sido um dia repleto de emoções. Mesmo que fosse embora assim que terminasse o período de experiência, ainda teria que aguentar mais três semanas. . .

 

Na manhã seguinte, as coisas pareciam diferentes. Caroline levantou cedo e passou um bom tempo no terraço de seu quarto, admirando a paisagem.

Já faz quatro dias que estou aqui na fazenda, pensou. Será que ia admitir que tinha falhado, e voltar derrotada para a Inglaterra?

Suspirou, sem saber ao certo que atitude tomar. Não estaria se preocupando demais com a opinião dos outros? Afina! de contas, não era como eles, e suas críticas não deviam interferir em sua vida. Estava deixando que a opinião daquelas pessoas pesassem nas suas decisões, e isso era besteira.

A culpada de toda aquela confusão na sua cabeça era a sra. Calveiro. Foi ela quem insinuou que Caroline estava interessada em Esteban, e que talvez até já fosse bastante   íntima dele.   Era óbvio que a sra. Calveiro queria ver a filha casada com don Esteban. Afinal, um jovem viúvo, milionário, com apenas uma filha, seria um ótimo partido para Josetta. O fato de Josetta evidentemente preferir o irmão de Esteban não tinha a mínima importância, pois Luís não ia seguir o exemplo da mãe, entrando para o sacerdócio?

Caroline cruzou os braços, nervosa, Não podia negar a si mesma que ficava completamente transtornada quando se lembrava que Luís estava para ir embora. Era ridículo, ela sabia, mas sentia-se segura ao lado dele. Era loucura pensar que corria perigo naquele lugar. Por que deveria sentir medo? Don Esteban, apesar de beber um pouco demais, era um cavalheiro. Emília, apenas uma criança, e a sra. Isabel, mesmo com todas as suas excentricidades, era frágil e muito idosa, Tentando afastar aqueles pensamentos, entrou e foi tomar uma ducha. Meia hora depois, vestindo uma saía jeans e uma blusa branca, de algodão, saiu do quarto, caminhando apressadamente pelo corredor, e desceu a escada. Ainda era muito cedo para a empregada ter prepa­rado seu café da manhã, e ela decidiu dar uma caminhada.

Foi até a saleta e tentou abrir a porta lateral, mas estava trancada. Não havia chave nenhuma por perto, e por mais que tentasse forçar a tranca, a pesada porta não se mexia.

Caroline ficou quase louca de raiva. Sentia-se como uma verdadeira prisioneira dentro de uma cela.

Virando-se, ela mexeu na maçaneta de outra porta, que cedeu com facilidade. Estranhamente, a porta dava para uma espécie de túnel.

Caroline não resistiu: queria saber onde aquele túnel a levaria. Fazia frio naquele lugar escuro. Será que ia encontrar alguma mas­morra sob a casa? Será que os espanhóis costumavam construir prisões nos subterrâneos?

A luz aumentou um pouco quando ela chegou ao pé da escada e Caroline viu então um vão fechado por uma pesada cortina de veludo, que abriu cuidadosamente. Lá dentro havia uma capela pequena porém ricamente decorada, iluminada por candelabros, cheia de mis­tério. Caroline prendeu a respiração quando percebeu o homem ajoelhado atrás de uma coluna.

Era Luís, irreconhecível dentro daquela batina negra. Ele virou e olhou para ela. Parecia nervoso por ter sido interrompido nas suas orações. Caroline deu um passo para trás, desejando sumir.

— Espere!

Ela parou, insegura. Era esquisito e frustrante vê-lo daquele jeito, pois confirmava que o futuro de Luís nunca estaria ligado ao de, uma mulher.

— Desculpe — disse, quando Luís chegou mais perto. — Eu não sabia. A porta lateral estava trancada. Eu não achei a chave.

— Não é segredo para ninguém que eu venho sempre aqui — disse Luís depois de observá-la atentamente. — Este é o único lugar da casa de meu pai em que me sinto realmente em paz. Mas se você quiser sair, posso lhe mostrar o caminho.

— Oh, por favor, não interrompa suas orações. Não queria ter perturbado você...

Luís olhou para ela mais uma vez, intensamente, e depois tirou a batina. Por baixo usava calça e camisa pretas. — Venha — disse ele, e Caroline o seguiu até a saleta. A porta lateral continuava trancada. Luís pediu que Caroline o esperasse, e voltou pouco depois trazendo um grande molho de chaves. Após testar algumas, encontrou a que abria a porta.

— A cada ano que passa meu irmão fica mais preocupado com a segurança da casa — observou ele, virando a chave. — Nunca vi esta porta trancada, antes.

Caroline lembrou que a sra. Isabel tinha se referido à porta lateral. Don Esteban devia ler trancado aquela poria para impedir que a mulher que sua tia tinha visto sair correndo da casa entrasse nova­mente. A mulher que eles acreditavam ser a amante de Luís!

— Alguma coisa errada? — perguntou ele, percebendo que Caroline parecia tensa.

— Não. O que poderia estar errado? — ela mentiu, tentando esconder sua ansiedade, enquanto saía da casa. Ele a seguiu.

— Diga, você acha que a porta estava trancada por quê? Para rnantê-la presa? — Ele fez uma pausa. — Ou para manter alguém aqui fora?

— Como você mesmo disse, seu irmão deve estar preocupado com a segurança da casa.

— Você não acreditou nisso, não é?

Caroline curvou-se para tocar as pétalas de um hibisco que crescia num canteiro do pátio. Resolveu não responder e cheirou a flor.

— Você sabe que na Inglaterra existem pessoas capazes de pagar uma fortuna por essa flor? Lá nós as mantemos em estufas e as culti­vamos com o maior cuidado possível, enquanto que aqui elas crescem cm qualquer canto.

Caroline ouviu Luís suspirar impacientemente atrás dela, mas não se virou. Ele caminhou em direção a um canteiro de rosas, Caroline hesitou por um momento, mas logo depois o seguiu.

As roseiras circundavam um minúsculo lago artificial, cheio de peixes exóticos. Caroline ficou olhando eles nadarem, até lembrar que já estava quase na hora do café da manhã ser servido. Mas quando virou-se para voltar. Luís estava logo atrás dela.

— Parto amanhã de manhã — ele anunciou finalmente. — Talvez esta seja a última vez que nos encontramos. Hoje à noite vou a um casamento na aldeia, e amanhã quando você acordar já estarei longe.

— Sei. — Caroline estava completamente transtornada. — Nós vamos sentir falta de você,

— Nós?

— Emília e eu. Você vai ficar fora muito tempo?

—   Você quer saber se eu volto logo? Não, acho que vou demorar para voltar.

— É?

Caroline estava chocada com suas emoções. Mesmo depois de tê-lo visto com aquela roupa de padre, não conseguia deixar de se sentir completamente fascinada por Luís. Nenhum homem a tinha perturbado tanto como ele, nem mesmo Andrew. Mal conseguia se controlar, especialmente sentindo-o assim tão próximo dela, com o corpo quase tocando o seu.

— Você vai ficar? — perguntou ele.

— Ficar? — Caroline fazia o possível para aparentar uma tran­quilidade que não sentia. — Oh, sim, você quer dizer aqui, em San Luís? Sinceramente não sei. Depende. . .

— De quê?

— Do rendimento do meu trabalho; de seu irmão continuar con­tente com os progressos de Emília, da compensação financeira...

— E isso é tudo?

Ela abaixou os olhos e disse:

— Acho que você está se referindo ao que eu disse ontem sobre a sra. Calveiro.

— Acho que ela deixou você desnorteada. Ou então Esteban.

— Eu estava cansada ontem à noite.   Acho que fui um   tanto precipitada.

— Vai ficar, então?

— Ainda não sei. Por que, eu deveria? — Ela levantou a cabeça, e seus olhos encontraram os dele, cheios de paixão e calor.

— Você tem que ir embora — disse ele com violência. — Não quero você aqui. Volte. Volte para a Inglaterra! Volte para aquele homem que se importa com você de uma maneira que eu não consigo entender!

— O que você está dizendo? — perguntou Caroline, respirando com dificuldade. — O que tem a ver com a minha vida?

— Não tenho nada a ver com sua vida, não é? Você está aqui porque meu irmão quer. É empregada dele. E se foi louca o suficiente para aceitar deixar o seu país e seus parentes, eu não devia me meter! Mas na verdade, tenho muito a ver com tudo isso, pois desde que a encontrei em Las Estadas não paro de me preocupar com você, embora saiba que já é bem grandinha para se cuidar.

— Exatamente, Luís. Posso lhe garantir que sei cuidar muito bem de mim.

— Sabe? Sabe mesmo?

Sem mais palavras, ele puxou Caroline pelos cabelos e a beijou com paixão.

— Veja! — disse, depois de alguns   instantes. — Você é tão indefesa quanto um bebê nas mãos de um homem forte, e não pode se esquecer que meu irmão não fez nenhum voto de castidade!

— Mas você fez! — gritou ela.

— Fiz mesmo.

— Isso sem contar a mulher da aldeia que sempre vem para cá! — ela quase gritou impulsivamente.

— Muito bem! Você aprendeu bastante em pouco tempo. Já sabe, por exemplo, pensar sempre o pior das pessoas!

homem que se importa com você de uma maneira que eu não consigo entender!

— O que você está dizendo? — perguntou Caroline, respirando com dificuldade. — O que tem a ver com a minha vida?

— Não tenho nada a ver com sua vida, não é? Você está aqui porque meu irmão quer. É empregada dele. E se foi louca o suficiente para aceitar deixar o seu país e seus parentes, eu não devia me meter! Mas na verdade, tenho muito a ver com tudo isso, pois desde que a encontrei em Las Estadas não paro de me preocupar com você, embora saiba que já é bem grandinha para se cuidar.

— Exatamente, Luís. Posso lhe garantir que sei cuidar muito bem de mim.

— Sabe? Sabe mesmo?

Sem mais palavras, ele puxou Caroline pelos cabelos e a beijou com paixão.

— Veja! — disse, depois de alguns   instantes. — Você é tão indefesa quanto um bebê nas mãos de um homem forte, e não pode se esquecer que meu irmão não fez nenhum voto de castidade!

— Mas você fez! — gritou ela.

— Fiz mesmo.

— Isso sem contar a mulher da aldeia que sempre vem para cá! — ela quase gritou impulsivamente.

— Muito bem! Você aprendeu bastante em pouco tempo. Já sabe, por exemplo, pensar sempre o pior das pessoas!

— Eu não disse nada sobre ninguém! — Caroline sentia suas pernas                      

tremerem mas continuou: — Mas não é verdade? Essa mulher não existe mesmo?

— Existe, sim. O nome dela é Maria Pascale. E o que você acha que nós dois fazemos, quando ela vem aqui?

— Isso não é da minha conta! — Caroline desejava acabar logo com aquela conversa.

— Mas quer saber, pois foi você quem começou tudo isso.

— É melhor voltarmos. Adeus, espero que faça uma ótima viagem — Caroline desconversou, afastando-se dele.

— Você acredita mesmo que eu tenho uma amante, não é? — ele perguntou, começando a andar ao lado dela.

— Eu disse apenas, . .

— Que você não tem nada com isso, eu sei. Mas não é o suficiente. Quero que não fuja do assunto, quero que vá até o fim.

— Mas...  

— Não, você não sabe o que está falando. Eu sou um homem, Caroline!   Não sabe o quanto é difícil para mim bloquear meus desejos o tempo todo. Por que fica me acusando de coisas que eu não fiz? Ela não é minha amante!

— Sinto muito. — Caroline queria acalmá-lo, mas parecia impos­sível.

— Sente mesmo? Você sempre sente muito, não é? Só que isso não resolve o problema.

— Oh, Luís...   — ela murmurou com tamanho sentimento e emoção, que Luís percebeu imediatamente.

— Não devia ter pronunciado meu nome desse jeito. Não devia — disse baixinho, se aproximando.

— Eu sei, eu sei! — Caroline estava completamente atordoada agora. — Oh! Por que você não vai embora de uma vez e me deixa em paz? Fico confusa a seu lado, e acabo dizendo coisas que não devia. Esqueça isso. Você está indo embora.

Ao invés de retrucar, Luís a agarrou pela cintura e a puxou.

— O que você está fazendo? — ela protestou, tentando se libertar.

— Caroline — murmurou Luís em seu ouvido. E ela foi incapaz de continuar resistindo.

— Você não devia fazer isso — apenas sussurrou.

— Eu sei o que devo ou não fazer. E não acredito que minha alma vá penar eternamente só porque tive você em meus braços por alguns momentos. — Dizendo isso, beijou Caroline novamente.

Ela se deixou levar pelo desejo que se apoderou dela. Envolveu-o com os braços e colou seu corpo ao dele. Sentia-se tremer de desejo e tudo à sua volta parecia girar, como se de repente estivesse mergulhando num redemoinho de paixões.

De repente, Luís parou de beijá-la e se afastou, deixando Caroline com uma estranha sensação de vazio dentro do peito.

— O que eu faço agora? — começou ele, com ironia. — Peço desculpas? Imploro seu perdão? Ou é tarde demais para fingir que eu não quero fazer amor com você?                

— Não diga nada — ela pediu, não sabendo ao certo onde ele queria chegar cora aquelas perguntas.

—   Não? — perguntou ele com violência, e então ela percebeu o quanto   Luís devia estar angustiado por ler deixado que as coisas chegassem até aquele ponto. —- Devemos esquecer tudo então, não é? Lógico, vou esquecer! — Luís continuava com o mesmo tom irônico. — Afinal, você é uma garota independente, acostumada a fazer amor com todos os homens que aparecem na sua frente. Isso que aconteceu entre nós não significa nada para você!

— Não é verdade! — Caroline estava quase chorando. — Não estou acostumada a fazer amor com todos os homens que aparecem na minha frente!

— Então, pelo menos com o seu namorado. Aquele que a ama tanto que deixou você atravessar metade do planeta sozinha.

— Andrew é casado! — declarou Caroline, desejando feri-lo da mesma forma que ele a estava ferindo. — É por isso que estou aqui. E foi por isso que ele não tentou me impedir de vir para cá!

— Você está apaixonada por um homem casado? — A voz de Luís tremia.

Caroline já não sabia ao certo se ainda sentia alguma coisa por Andrew, mas não poderia dizer aquilo para Luís naquele momento.

—   E daí, é da sua conta? — ela disse com arrogância, mas percebeu nos olhos de Luís o quanto ele estava atormentado.

Virou-se de costas e logo em seguida ouviu os passos dele se afas­tando. Imaginou que suas últimas palavras tinham destruído qualquer sentimento que Luís pudesse ter em relação a ela. Então pensou que, por mais que isso fosse triste, era o melhor para ele.

 

Um dia depois que Luís foi embora, amanheceu chovendo muito. Uma chuva forte e contínua, diferente da que Caroline estava acostu­mada em seu país: era triste e pesada como seu estado de espírito. A partida de Luís havia sido uma perda. Saber que nunca mais ia vê-lo era horrível. Apesar de tudo, a vida tinha que continuar, e Caroline tentava se comportar como se nada tivesse acontecido. Tomou o café e desceu para a biblioteca.

Tinha mais algum tempo para decidir se ficaria ou não em San Luís, depois daquele mês de experiência. Às vezes, queria desesperadamente voltar para a Inglaterra o mais rápido possível, mas quando pensava em deixar o México, e colocar quilómetros e quilómetros de distância entre ela e Luís, sentia-se morrer.

— Tio Vicente foi embora. — Emília entrou na biblioteca chorando.

— Por que você o chama de tio Vicente? — perguntou Caroline, acariciando Emília e enxugando suas lágrimas.

— Minha mãe o chamava de Vicente. — Emília encostou a cabeça no ombro de Caroline. Ficou assim algum tempo e depois pegou o lápis. Caroline deu início à aula.

Neste momento, don Esteban entrou na biblioteca.

— Bom dia, srta. Leyton. Bom dia, Emília — cumprimentou ele fechando a porta. — O tempo está horrível hoje, não?

— Em que posso ajudá-lo, senhor? — perguntou Caroline educada­mente. — Gostaria de ver como Emília está se desenvolvendo? Sua redação em inglês está cada vez melhor.

— Estou certo que não tenho nada a criticar sobre seu trabalho com Emília, senhorita — observou ele com calma. — E honestamente, livros e estudos sempre me aborrecem muito. Acredito que a experiência com a vida ensina muito mais do que os livros, embora eu faça questão que minha filha estude. Não concorda comigo?

— Se ê o senhor quem está dizendo. . .

— Deve pensar como eu, estou certo! Se não fosse assim, não teria deixado a Inglaterra, a segurança do seu lar, para vir ao México! A senhorita também acredita que as experiências são mais importantes.

Carolíne cruzou os braços. Percebia, preocupada, que Em/lia ouvia aquela conversa muito atenta. Embora as palavras de don Esteban parecessem inocentes, tinha certeza que ele estava querendo insinuar alguma coisa.

— Então, senhor, em que posso ajudá-lo? — repetiu, tentando parecer fria e calma. — Se quiser conversar com Emília, posso sair.

— E com a senhorita que desejo falar — disse ele, colocando as mãos sobre a escrivaninha. — Infelizmente não tenho tido esse privi­légio, no contrário de outros. . .

— Como meu patrão, o senhor pode conversar comigo a hora que quiser.

—   Não seja   tão sensível, senhorita.   Percebi que enquanto Luís estava aqui, vocês trocaram confidências.

— Não sei o que o senhor está querendo dizer.

—   Lógico que sabe. Foi realmente uma pena eu estar... adoentado no dia de sua chegada. O fato de Luís ter ido buscá-la em Las Estadas fez com que ele passasse a ter muita influência sobre a senhorita, Ele se tornou uma espécie de seu protetor, não é?

— Don Esteban...

— Senhorita, eu entendo. Meu irmão exerce um grande fascínio sobre as mulheres. Elas gostam dele, confiam nele, e ele sempre as decepciona.

Caroline suspirou profundamente. Emília estava com os olhos arregalados, prestando a maior atenção em tudo. Talvez não entendesse exatamente o que estavam dizendo, mas certamente podia perceber que era uma crítica a Luís.

— Acho que poderíamos ter essa conversa outra hora, senhor — observou Caroline, olhando significativamente em direção a Emília. — Talvez depois do jantar. Mas agora, se o senhor me permite, precisamos continuar a lição.

— Ê lógico — concordou ele rapidamente. — Mas acho que me interpretou mal. Não vim até aqui para falar de meu irmão. Pelo contrário. Acontece que estou indo para Las Estadas agora, e vim perguntar se a senhorita e Emília gostariam de me acompanhar. Como o dia está horrível, pensei que um passeio poderia diverti-las um pouco.                                          

Caroline engoliu em seco. Não esperava aquele convite, e notou que Emília estava tão surpresa quanto ela,

— Já faz quase uma semana que chegou e pensei que talvez tenha vontade de fazer compras, ou colocar cartas no correio. — Don Esteban parecia tranquilo. — Estamos muito longe de tudo aqui. Além disso, combinamos que a senhorita teria um certo tempo livre.

— Já tenho muito tempo livre — respondeu Caroline, ansiosa. — Emília e eu só trabalhamos na parte da manhã e eu passo o resto do dia sem fazer nada.

— Mesmo assim, acho que os professores têm o direito de se distrair um pouco — ele insistiu. — E então? A senhorita vai?

Caroline olhou para Emília. Era óbvio que a menina tinha adorado a idéia de sair um pouco, e ela realmente podia aproveitar para ir ao correio, remeter a carta que tinha escrito para os pais na noite anterior, Mas não lhe agradava muito passar todo aquele tempo na companhia tio patrão.

— Talvez Emília queira ir — gaguejou Caroline. — Eu ainda tenho que preparar umas lições. ..

— A senhorita não aprecia minha companhia?

— Lógico que não! Quero dizer, claro que sim! — Caroline estava completamente embaraçada! — Só pensei...

— Saio daqui a quinze minutos. Não esqueça de levar uma capa de chuva. — Sem esperar que Caroline respondesse, Esteban saiu da biblioteca.

— Acho melhor a senhorita se apressar — disse Emília. — Don Esteban não gosta de esperar ninguém.

— Você precisa chamá-lo desse jeito, Emília? — Caroline estava com os nervos à flor da pele. — Afina! ele é seu pai, quer você queira ou não! — Começou a juntar os livros e cadernos.

— Ele não é meu pai. E não quero que grite comigo! Sei que está nervosa porque tio Vicente foi embora, mas como o próprio don Esteban diz, tio Vicente nunca mais se interessou por mulher alguma, depois que minha mãe morreu.

— Você tem muita imaginação, Emília! — Caroline disse em tom mais brando. Não podia jogar seu nervosismo em cima de uma criança, que já tinha problemas demais. — Talvez seja melhor você ir trocar de roupa, querida.

— Não preciso trocar de roupa.

— Você não quer ir?

— Com don Esteban? Não.

—   Não temos escolha, Emília. Você ouviu o que seu pai disse. Emília olhou com raiva para Caroline e saiu da biblioteca. Caroline ia apressada pelo corredor em direção a seu quarto, quando

a sra. Isabel surgiu à sua frente.

— Vai sair, senhorita? — perguntou. — Não é loucura sair com esse tempo?

— Emília e eu vamos para   Las Estadas com don Esteban — respondeu, percebendo que a velha senhora estava lúcida.

—   Vai com Esteban? — Sim.

— Gosta dele? Pensei que Luís tivesse dito...   não importa, A senhorita deve saber se cuidar.

— O que disse Luís? — perguntou Caroline, mas a velha senhora não lhe respondeu.

— Tome cuidado, senhorita. Não se pode confiar nos Montejo como a pobre Vitória confiou.

— Sra. Isabel, a mãe de don Esteban morreu!

— E você acha que eu não sei disso? Minha cabeça falha de vez em quando, mas se eu confundo Esteban com o pai dele é porque são muito parecidos.

— Preciso ir — disse Caroline, mas a velha a segurou pelo pulso.

— Esteban a deseja. Não me pergunte como eu descobri isso, pois não saberia lhe responder. Mas acredite em mim! E se acha que vai poder escapar quando chegar o momento, então você é louca!

— A senhora está imaginando coisas! Sou a professora de Emília, e só isso.

Caroline já estava cansada dos ataques daquela mulher! Ficou ainda mais transtornada.

Quando desceu, don Esteban já estava esperando. Ele observou, com aprovação no olhar, suas botas e sua capa de chuva azul-escura.

— Emília... — Caroline disse olhando para os lados, procurando a menina.

— Emília não vai. — E sem dar chance para ela argumentar, começou a descer os degraus.

— Mas... por que Emília não vai conosco? Se ela ainda não está pronta, podemos esperá-la mais um pouco!

O jipe estava estacionado em frente a casa, e don Esteban olhou para ela com impaciência.

— Venha, senhorita.

—   Emília — ela repetiu entrando na carro, e percebeu que don Esteban estava começando a ficar irritado.

— Emília é muito delicada — disse ele, entrando também. — Ela se resfria com a maior facilidade. E melhor que fique em casa.

— Então seria bom eu também ficar, não é?

— A senhorita é quem sabe, mas não vejo razão para não ir. — E sem dar tempo para Caroline decidir ele deu partida no jipe.

O tempo todo da viagem. Caroline não conseguia deixar de pensar no que a velha senhora tinha dito.

— A senhorita parece preocupada — ele observou, quando pegaram a pequena estrada que ia até a aldeia. — Pensei que fosse gostar da oportunidade de ver outros lugares além da minha fazenda, mesmo que com essa chuva seja difícil apreciar a paisagem.

— Não vim para cá por isso, senhor. Fui contratada para ensinar Emília. não para fazer viagens a Las Estadas. Se soubesse que Emília não viria, teria recusado seu convite.

— Sei. Quer voltar, então? — Quero.

— Muito bem. Quando chegarmos à aldeia eu faço a manobra e vamos buscar Emília. E se ela por acaso ficar com febre por ter saído num dia chuvoso como este, então teremos que rezar para que ela consiga se recuperar totalmente.

— Se Emília é assim tão delicada, acho que é loucura levá-la até Las Estadas num dia como este!

— A decisão é sua, senhorita.

— O senhor faria isto? Levaria sua filha conosco? Arriscaria a saúde dela?

— Senhorita, minha mulher era como Emília. — Ele torceu leve­mente a direção para a esquerda, evitando um buraco na estrada.

— Joana era sensível a qualquer espécie de vírus. E eu culpo seus pais por isso. Eles a tratavam como se fosse feita de cristal. — Ele sorriu com ironia. — Foi por isso que ela morreu sem me dar o filho que eu queria. E eu me casei com ela para ter um fílho. Só por isso! San Luís precisava de ura herdeiro e meu pai arrumou esse casamento para mim. Infelizmente ele não tinha idéia que era Luís quem Joana realmente queria.

— O senhor fala sobre isso com tanta calma!

— E por que não? Joana nunca gostou de mim e Emília é como a mãe. — Ele hesitou. — Mas talvez se eu a tivesse tratado com menos cuidado, quem sabe ela teria sobrevivido à primeira gravidez.

— Senhor, não posso deixar que leve Emília para Las Estadas com um tempo desses.

— E o que pretende fazer para me impedir? — perguntou Esteban.

— Não vamos voltar, vamos direto para lá.

Viajaram em silêncio, sob uma chuva infensa, até Las Estadas.

— Vou lhe mostrar onde fica o correio — disse Esteban saltando do carro e abrindo a porta para ela. — Venha, vou ajudá-la a descer, senão poderá cair. As ruas aqui não têm calçamento,

Caroline podia descer sem a ajuda dele. mas não queria criar, proble­mas. Ficou tão perto de don Esteban, que sentiu a forte musculatura de seu peito e o cheiro de sua loção após barba. Instintivamente, recuou e escorregou na lama. Se Esteban não a segurasse, e!a cairia.

— Acho bom a senhorita e eu entrarmos num acordo. — A expres­são dele era enigmática. — Mas, por enquanto, vamos até o correio.

Caroline suportou o braço dele em volta de sua cintura, enquanto atravessavam a rua, mas quando chegaram ao outro lado, libertou-se decididamente. Preferia cair na lama do que ter aquelas mãos em

seu corpo. Ela estava revoltada com Esteban, e ficou aliviada quando chegaram ao correio.

— Tenho que ir ao banco. Resolva suas coisas e me encontre daqui a meia hora no hotel.

— Hotel? — ela repetiu engolindo em seco. — O hotel onde fiquei?

— É, na pensão de Allende. Almoçaremos lá, antes de voltarmos para San Luís. Sei que não é nenhuma maravilha, mas é o melhor hotel da cidade. — Percebendo que ela não parecia muito satisfeita, disse: — Não gostou de minha sugestão? Ou é da minha companhia que não gosta? Talvez preferisse que meu irmão estivesse em meu lugar, não é?

— Sinto muito se lhe dei essa impressão.

— Sente mesmo? A senhorita me acha muito antipático?

— Não! Estou me molhando muito, e vou entrar.

— Está bem mas me encontre daqui a vinte minutos no hotel.

— Vinte minutos?

— Quanto tempo a senhorita demora para selar uma carta? — perguntou ele com ironia, já atravessando a rua.

Depois de enviar sua carta, Caroline foi para o hotel. Aquele lugar era nojento, tão nojento quanto seu proprietário gordo e bêbado que se aproximava para cumprimentá-la.

— Ora, ora! É a srta. Leyton, não é? O que deseja? Um quarto? — Ele a olhava com ironia. — Não sei se posso conseguir. . .

Antes de Caroline responder, don Esteban falou:

— A srta. Leyton não quer um quarto, Allende. — Caroline sentiu o sangue gelar em suas veias quando Esteban colocou o braço em torno de seu ombro. — Mas se ela estivesse interessada, você teria que arrumar um, meu caro, a menos que quisesse que eu mandasse fechar seu hotel.

— Senhor, como pode pensar uma coisa dessa? — Allende quase se ajoelhou aos. pés de Esteban. — Eu estava só brincando com a srta. Leyton. Ela sabe que eu gosto de brincar com as pessoas, não é?

— Claro — disse Caroline, com toda calma, evitando criar caso. Esteban olhou significativamente para Allende e depois voltou-se para Caroline.

— Sabe, senhorita? Acho melhor Allende não esquecer que deve tudo isso aqui a mim, e que eu posso fechar essa espelunca a hora que quiser.

Caroline ficou com pena de Allende. Com certeza, Esteban mandava em toda aquela região, e coitado de quem caísse em seu desagrado. Estava perdido para sempre, ela pensou engolindo em seco.

 

Esteban bebeu demais aquela noite. De volta à casa da fazenda, vendo-o encher várias, vezes seu copo durante o jantar, pedindo mais vinho e terminando a refeição com conhaque, Caroline sentiu o mesmo desconforto de sua primeira noite naquela casa. Só que agora Luís não estava ali para deixá-la ura pouco mais segura.

Sem o irmão para humilhar, Esteban voltou a atenção para a sra. Isabel, se divertindo às custas dela impiedosamente, zombando de seu modo de vestir e caçoando de sua condição de solteirona.

— Minha tia sem dúvida ainda é virgem, senhorita — disse ele, levantando o copo na direção da velha senhora. — Ainda é, não, tia Isabel? Apesar de meu pai ser meio tarado, ele nunca olhou para ela, não é mesmo, tia? E olha que a senhora devia ser caidinha por ele, não é?

Caroline encolheu-se, mas a sra. Isabel reagiu muito bem.

— Como seu pai, você não consegue ver além das ancas de uma mulher, Esteban — ela disse calmamente, se servindo de mais queijo. — Acha que para uma mulher a única coisa importante é encontrar um marido. Ainda bem que a srta. Leyton está aqui para provar que uma mulher pode ter outra carreira que não seja o casamento

e a maternidade.

— A srta. Leyton não está em questão aqui. E por acaso a senhora acha que ela ainda é intacta? Ora, tia Isabel, está muito mal informada sobre o modo de vida dos jovens de hoje!

Caroline ficou completamente vermelha, mas a sra. Isabel continuou imperturbável.

— Você que considera a virilidade tão importante, Esteban, devia olhar para sua própria história— comentou a velha, mordendo um biscoito. — Para um homem que se considera tão macho, tem sido particularmente azarado com suas companheiras. Sua primeira mulher morreu sem lhe dar um filho e a pobre Joana só conseguiu uma garotinha fraca. . .

— Chega! Cale a boca! — O rosto de Esteban se contraiu de raiva.

— O que a senhora sabe das coisas, bruxa velha? Meu casamento com Margarita não foi casamento e Joana sempre foi uma hipocondríaca imbecil! Como uma delas poderia ter me dado filhos quando não conseguiam nem despertar a paixão de um homem?

A sra. Isabel encolheu os ombros, insensível aos insultos do sobrinho, mas Caroline se afundou na cadeira. Não sabia nem mesmo que tinha existido outra mulher antes da infeliz Joana.

— Você, e não Luís, devia ser padre — sugeriu a tia, deixando Caroline perplexa com sua audácia. — Sem dúvida a srta. Leyton já ouviu boatos de que Emília pode não ser sua filha, e isso seria praticamente uma prova de que você não é capaz de providenciar um herdeiro para a fazenda.

Caroline pensou que Esteban fosse bater na tia, mas ele se limitou a mandá-la embora, com a voz rouca de raiva e o rosto vermelho.

— Vã dormir, velha! — ele gritou, recostando-se na cadeira e pegando a garrafa mais uma vez. — Eu vou providenciar um herdeiro para San Luís Jogo, logo. — Fitou Caroline rapidamente. — E não vou precisar da assistência de Luís quando chegar a hora!

 

Para alívio de Caroline, o dia seguinte amanheceu sem nuvens. Estava quente e muito úmido, mas qualquer coisa era melhor do que ficar confinada entre as paredes da casa da fazenda, e ela e Emília passaram a primeira metade da manhã identificando as plantas e as flores do jardim. Era a própria Emília quem dava a maior parte das instruções, ensinando a Caroline os nomes das plantas e explicando o seu cultivo.

— Você gostou de sua visita a Las Estadas? — a garota perguntou, quando se abaixaram ao lado de um cacto.      

— Se soubesse que você não ia conosco, eu também não teria ido — disse Caroline.

— Mas você queria ir, não? Podia ter se recusado, se quisesse,

— Acho que sim. Bem, desculpe por tê-la deixado sozinha,

— Oh, eu não fiquei sozinha. Fui até o estábulo conversar com Benito. Ele me deixa brincar com Cabrilla, filha da égua de tio Vicente, Afrodite, aquela que ele deixou você usar no dia em que a levou para cavalgar.

— Você sabia disso? — Caroline olhou para ela, espantada. As duas tinham levantado e estavam voltando para casa.

— Lógico — Emília disse, orgulhosa. — Ele mesmo me contou. Mas eu ia descobrir de qualquer maneira. Benito me conta tudo.

— Não estou bem certa se seu pai ia gostar de saber que você passa muito tempo no estábulo. Ainda mais que você pega gripes e resfriados com tanta facilidade.

— Você talvez pegue gripes e resfriados, mas eu não. E meu pai não se importa que eu vá ao estábulo. Ele também gostava de ir lá quando era garoto e também era lá que ele e minha mãe costumavam se encontrar.

— Você está falando de don Luís, não? — Caroline suspirou.

— Sim, de tio Vicente. Eu já lhe disse, don Luís é o meu pai. Por que você acha que ele vai ser padre? Porque a única mulher que ele amou morreu!

Caroline percebeu que, com sua idade, Emília só podia estar fanta­siando o que tinha ouvido os adultos contarem.

— De onde você tirou essas idéias absurdas, Emília? A mãe de don Luís, a madrasta de seu pai, entrou para a igreja, é ela, e não a sua mãe, que tem grande influência sobre o seu tio.

—   Isso não é verdade! — afirmou Emília com rebeldia.

— É sim — Caroline retrucou, irritada ao perceber que estava tremendo. — Você deve parar de imaginar coisas, Emília. A única pessoa que acredita nisso é você mesma!

Para o espanto de Caroline, o jantar daquela noite não teve inci­dentes. As bolsas sob os olhos de Esteban pareciam mais pesadas do que o normal, mas ele estava paciente com a tia, completamente diferente da noite anterior. Don Esteban parecia um daqueles casos de dupla personalidade. Caroline tinha ouvido falar que o álcool podia mudar o caráter de uma pessoa, mas nunca havia presenciado um fenómeno como aquele.

Isso a deixava muito confusa. Enquanto no noite anterior estava convencida de que devia partir logo que seu período de experiência terminasse, naquela noite seus temores davam a impressão de serem infundados. Sua simpatia por Emília parecia muito mais importante do que se afastar dos avanços de Esteban. Ela suspeitava que o inte­resse dele por ela não passava de inveja de Luís. Agora que Luís tinha ido embora, esperava que esse interesse diminuísse.

Nos dias seguintes, a vida na fazenda entrou na rotina, e Caroline começou a se sentir mais calma. Passava as manhãs trabalhando com Emília na biblioteca ou no jardim, dependendo do clima. Descansava durante as longas tardes quentes, relendo com interesse as obras de Pope e Steinbeck que encontrou na biblioteca. Jantava com Esteban e a tia, falando sobre a comida, o clima e os progressos que Emília vinha fazendo.

Um dia, porém, a rotina foi novamente perturbada por Esteban.

Como da outra vez, ele entrou na biblioteca de surpresa. Interrompeu uma aula de biologia que Caroline estava dando com a ajuda de uma borboleta que pegou no jardim e botou dentro de um saco plástico cheio de ar. Caroline tinha a intenção de soltá-la logo que Emília terminasse de examinar sua estrutura complexa.

— A srta. Leyton capturou uma borboleta — Emília disse a don Esleban, quando ele entrou. — Venha ver como ela é linda. Não acha as cores dela muito bonitas?

Esteban pegou o saco plástico.

— É. Mas esses insetos são umas pestes — Seus dedos grossos curvaram-se sobre o saco plástico e a borboleta começou a bater as asas em pânico.

— O senhor está amedrontando a borboleta! — gritou Emília, levantando da cadeira e tentando pegar o saco. Mas seu pai segurou-o longe do seu alcance.

— Eu acho que a srta. Leyton poderia estar ensinando você sobre a vida dos pássaros e das abelhas. Seria muito mais proveitoso — comentou ele.

A garotinha fitou-o, sem compreender.

— Os pássaros e as abelhas? — repetiu ela.

— O senhor quer participar de nossas aulas? — perguntou Caro­line, tomando firmemente a borboleta aprisionada das mãos dele e entregando novamente a Emitia.

— Gostaria muito — concordou Esteban, demorando os olhos no começo da curva dos seios de Caroline. — Mas não é por isso que vim até aqui, senhorita. Está um dia ótimo, e pensei que vocês duas gostariam de fazer uma visita à costa.

— À costa, senhor? — repetiu Caroline, inexpressivamente. Emília porém, largou o saco plástico e voltou-se para o pai, ansiosa.

— É verdade? O senhor vai deixar mesmo a gente ir para Mari­posa? O senhor vai também?

— Ah, não. A srta. Leyton gostaria de ver o mar, não? — perguntou ele. — Não é longe, apenas vinte e cinco quilómetros, pela estrada. Tomas vai acompanhá-las. Quer dizer, se a senhorita aceitar o convite.

— Se Emília quiser ir, então aceito. Foi muita gentileza sua pensar nisso, senhor — disse Caroline, perturbada por descobrir que Luís estava tão próximo dela.

— A senhorita não sabia que Mariposa era tão perto? — perguntou Esteban,   irônico.

— Eu sabia que o mar não ficava muito longe, porque o vejo da janela do meu quarto. Lembro-me de ter comentado isso com seu irmão.

— E ele lhe contou a que distância ficava?

— Oh, sim, contou — respondeu e não estava faltando com a verdade.

— Mas não contou que o seminário fica lá — insistiu Esteban. Caroline negou com a cabeça.

— Tenho certeza que se a senhorita observar direito, poderá ver da sua janela a torre do. sino. É uma visão tranquilizadora. — Ele suspirou antes de continuar:   — Estejam prontas daqui a alguns minutos. Vou pedir que Tomas as espere com o carro na porta.

— Obrigada.

Caroline olhou o rosto cheio de expectativa de Emília e percebeu que não podia desapontar a menina, mas queria entender melhor as intenções de seu patrão.

Subiu até seu quarto, foi até a janela, olhou o mar brilhando convidativamente no horizonte, e o contorno escuro da torre do sino, que até aquele momento não tinha percebido.

Mariposa era completamente diferente de Las Estadas. Chegava-se à cidade por uma auto-estrada de três pistas e a rua principal ficava em frente ao mar. Um passeio estreito circundava o pequeno porto onde vários barcos pesqueiros estavam ancorados. As casas tinham telhados avermelhados e flores nas janelas. Um mercadinho perto do porto oferecia peixes e todos os tipos de frutas e vegetais.

Tinham ido para Mariposa num Bugatti antigo que Tomas tratava com muito carinho. Ele estacionou o automóvel em frente ao porto, depois virou-se para as duas passageiras. Falou em espanhol e Emília traduziu:

— Ele disse que tem que fazer algumas compras para Consuella e que nós podíamos dar um passeio a, pé enquanto isso. — Dar um passeio? Onde? — perguntou Caroline.

Tomas estava ficando ansioso. Ele começou a falar novamente, mais depressa agora, gesticulando e estendendo as mãos. Caroline queria entender pelo menos metade do que ele estava dizendo, e esperou impacientemente pela tradução de Emília:

— Está tudo bem — disse Emília com indiferença, recostando-se no banco. — Ele só está preocupado com que a gente não se perca, mas eu lhe disse que conheço Mariposa. Eu não vou me perder.

— Tem certeza de que ele disse para a gente dar um passeio, Emília? — perguntou Caroline.

— Eu não falo mentiras, senhorita — disse a menina, fazendo um beicinho. Caroline sorriu conciliadora, enquanto Tomas descia do carro.

Emília esperou até Tomas desaparecer no meio da multidão aglo­merada na pequena praça no mercado, antes de empurrar o banco para a frente, abrir a porta e descer do carro. Caroline desceu atrás.

Elas atraíam alguns olhares curiosos, mas não foram abordadas por estranhos. Caroline tentava imaginar onde ficava o seminário. Devia ser no alto de uma ladeira, pois do contrário não veria a torre do sino da janela do seu quarto. Levantou os olhos e viu imediatamente as paredes de pedras cinzas de um edifício antigo que ficava no alto da cidadezinha. Emília acompanhou seu olhar.

— Não é aqui que tio Vicente mora — a menina disse. — Aqui é o Convento das Irmãs da Anunciação, onde vive a mãe de tio Vicente.

— Então onde. ..

— É mais longe, atravessando o rio. Se quiser, vou lhe mostrar onde é.

— Oh, eu... Não acho uma boa idéia, Emília,

— Por que não? Quer ver onde ele mora, não quer? Don Esteban acha que sim.

— Que interesse alguém poderia ter em ver os muros cinzentos de um seminário?

— Não sei. — Emília encolheu os ombros. — Mas você perguntou.

— Eu estava curiosa, só isso.

— Não sabia mesmo onde ficava Mariposa? — insistiu Emília. — Por que será que tio Vicente não lhe contou?

— Certamente porque ele não achou importante me contar — respondeu Caroline, tentando mostrar indiferença. Ela parou e se debruçou sobre o muro do cais, olhando as águas que batiam nas rochas. — Devíamos ter trazido uma rede, Emília. Tem muitos peixinhos aqui, nadando em cardumes.

Emília se debruçou sobre o muro a seu lado, mas seu interesse eslava em outro lugar.

— Talvez ele não queira vê-la, senhorita.

— Como ele poderia me ver? — Caroline olhou-a, desejando que Emília esquecesse o assunto.

— Ele não é um prisioneiro, sabia? Às vezes vem à cidade. Don Esteban sabia disso quando nos mandou para cá. Foi por isso que ele quis que viéssemos.

— Acho que você está imaginando coisas outra vez, Emília. E sabe por quê? Porque não tem amiguinhos de sua idade com quem brincar. Você não precisa de uma professora, Emília. Precisa é de gente de sua idade a seu lado, para que não tenha mais tempo de pensar sobre sua mãe. sobre seu pai, e seu tio Luís.

Caroline falou irritada e se arrependeu imediatamente. Logo que terminou, ela quis se desculpar, mas Emilia não lhe deu oportunidade.

Corri os olhos arregalados e o rosto pálido, virou de repente, atravessou a rua e desapareceu rapidamente ao virar uma esquina.

Aconteceu tudo tão depressa que Caroline ficou confusa. Quando se recuperou, atravessou a rua atrás dela. Mas Emitia não estava mais à vista. Se ao menos soubesse falar espanhol, pensou ela, subindo a rua apressada, esperando que Emilia mudasse de idéia e voltasse.

O sol estava quentíssimo, A camisa de algodão que Caroline estava usando começou a grudar, delineando as curvas do seu corpo. — Senorita?

Ela ouviu aquela voz como se viesse de muito longe. Piscou, mas tudo o que conseguiu ver foi o sol batendo nas paredes pintadas de branco. Estava em outra das mas estreitas que se abriam uma depois das outras, como túneis numa toca de coelhos, e sentiu o coração bater acelerado ao perceber como tinha se distanciado do porto. — Senorita! — alguém disse de novo.

Protegendo os olhos contra o sol, ela virou, e suas pernas não a obedeceram quando se preparou para fugir. Duvidava que conseguisse correr de alguém em seu estado de fraqueza, mas tentaria, mesmo se desmaiasse.

Mas para seu espanto, ela só encontrou um senhor atrás dela, todo vestido de preto. Ele usava um curioso chapéu de abas redondas,   que mal escondia as mechas brancas de seus cabelos.

— Puedo ayudar usted, senorita? Se ha perdido?

Caroline não sabia o que ele tinha dito, mas o velho parecia gentil e ela então suspirou, mais aliviada.

— Não sei falar espanhol — explicou, sem muitas esperanças, mas o senhor assentiu como se tivesse compreendido.

— Inglesa — disse ele e Caroline entendeu, — Se ha perdido!

— Estou procurando uma menininha — disse Caroline. — Una nina, senor. — Ela fez um gesto para indicar o tamanho de Emilia. — Ela fugiu.

— Una nina, senora! Su hija?

Caroline piscou. Hija? Significava filha, não? O homem estava perguntando se a menina era sua filha. Para não confundir ainda mais as coisas, ela concordou.

— Uma menininha — ela tornou a falar. Emilia. Emilia de Montejo!

— Ah, Montejo? — repetiu ele, demonstrando reconhecer aquele nome. — Emilia de Montejo? Venga!

Ele segurou o braço de Caroline, pedindo que o acompanhasse. Ela olhou em volta, impotente. Estava perdida, precisava de ajuda, mas o velho podia estar tentando enganá-la, levando-a para algum antro de bandidos. Não podia esquecer o que Luís tinha dito sobre a ameaça sempre presente de um sequestro. A idéia de que naquele momento Emilia pudesse estar nas mãos de sequestradores era aterrorizante.

Caroline tentou manter a calma. O velho não tinha aparência ameaçadora. Que mais ela poderia fazer, afinal de contas? Voltar para o porto sem sua. aluna?

Ela deixou o velho conduzi-la ainda mais para dentro da confusão de ruas, até saírem' na estrada da costa, diante de uma ponte estreita sobre o rio.

Caroline abriu os lábios para fazer um protesto, para explicar que teria que voltar para tentar encontrar Emília, quando viu duas figuras atravessando a ponte. Uma era pequena e morena, vestida de branco, com o que parecia um chapéu de palha na cabeça, enquanto a outra era alta e morena, vestida em trajes semelhantes aos do velho companheiro de Caroline.

De repente, ela entendeu, O homem que a ajudava não era nenhum bandido, mas um padre do seminário do outro lado do rio. Ele tinha reconhecido o sobrenome porque conhecia Luís.

Voltou os olhos para as figuras sobre a ponte e seu coração deu um salto. Era Luís que segurava a mão de Emília. O velho padre esfregou as mãos, satisfeito.

— AIIí está su hija, señora!

Caroline ainda pensou em explicar que não era mãe de Emília, mas estava perturbada demais para se preocupar com explicações.

O velho cumprimentou Luís calorosamente, e contou em espanhol o que havia acontecido. Usou muito as mãos durante a conversa, apontando para as ruas de onde tinham vindo, apontando para Emília e balançando expressivamente a cabeça de um lado para o outro.

A resposta de Luís foi breve e concisa. Olhou para Caroline com: desaprovação. Sem dúvida culpando-a pelo incidente, pensou Caroline, passando as mãos trêmulas nos cabelos úmidos de suor.

Emília se pendurou na mão de Luís, evitando olhar para Caroline. Ela tentou imaginar o que Luís tinha pensado quando a menina apareceu no seminário. Compreendeu que se estivesse no lugar dele, provavelmente também ficaria com raiva. Afinal de contas, a menininha devia ter corrido uma grande distância. Olhando através do estuário, Caroline viu os muros de um edifício quadrado e imaginou que fosse o seminário.

O velho padre terminou de contar o que tinha acontecido e coro um sinal de bênção se despediu deles, caminhando pela rua novamente, na direção da ponte.

Sozinha com Luís e sua sobrinha, Caroline sentiu-se completamente incapaz de encarar a inevitável discussão que viria.

— Padre Entiques me disse que você estava perdida quando ele a viu — comentou Luís, olhando dentro do olhar dela. — Graças a Deus ele a encontrou! Você parece â beira de um colapso! Como aconteceu isso? Como você e Emília se separaram?

Caroline abriu a boca para protestar, mas viu a expressão ansiosa de Emília. Estava claro que a menina não tinha contado toda a verdade ao tio e esperava com hostilidade que Caroline explicasse o que tinha acontecido.

Mas Caroline estava cansada demais para falar. E, além do mais, que importância tinha tudo aquilo? O que realmente interessava é que havia encontrado Emília sã e salva!

— Emília e eu estávamos andando juntas — disse ela, lentamente. — Havia muita gente em volta. Nós nos perdemos uma da outra. Tive dificuldade de encontrá-la porque não conheço o lugar.

Luís apertou os olhos. Era evidente que não acreditava nela, mas Caroline não se importava. Ele estava tão frio, tão distante, tão fora do mundo dela vestido com aquela batina preta amarrada com uma corda trançada! A cruz de ouro pendurada na corda mostrava a Caroline, dolorosamente, que fosse o que fosse que tivesse existido entre eles, tudo estava acabado! Ela disse a si mesma que não se importava com o que ele pensava dela, mas no fundo, queria o perdão dele e até um impossível contato maior.

— Onde está Tomas? — perguntou ele.

Emília, aliviada porque Caroline não contou a verdade, jogou a cabeça para trás.

— Tomas parou o carro perto do mercado — disse ela, sorrindo para Caroline. — A srta. Leyton e eu não queríamos ficar no carro e saímos para dar uma volta.

— Então vamos voltar para o porto por aqui e dizer a ele que vocês duas não desapareceram da face da terra — Luís resolveu.

Emília concordou.

Relutante, Caroline começou a andar. Não sabia honestamente se teria forças para voltar ao porto, mas tinha que tentar.

Luís largou a mão de Emília e a menina correu um pouco na frente deles, parando de vez em quando para que chegassem perto. Luís caminhava ao lado de Caroline. Ele parecia mais alto, mais estranho.

— Sabe que não acredito em você — comentou ele, em voz baixa. — Você e Emília não se perderam uma da outra simplesmente. E mais, Tomas tinha instruções para não deixá-las sair do carro.

— Come você sabe?

— É sempre assim, quando Emília sai da fazenda. A não ser que Tomas ou um de nós estivesse com ela.

— Eu estava com ela! — protestou Caroline.

— Você não é um bom guarda-costas. Não sabe tomar conta nem de si mesma.

— Qualquer um pode se perder.

— Principalmente numa cidade estranha, em que não se entende a língua. Sabe o que teria   lhe acontecido, se Enriques não tivesse aparecido?

Caroline sabia, mas não queria admitir.

— Sei cuidar de mim! — declarou, com firmeza. — Só porque. . .

— Só porque coisa nenhuma! Você está exausta. Não teria nenhuma chance se algum homem tivesse resolvido atacá-la. Pelo menos admita a verdade. Meu Deus, eu passei por maus pedaços quando Emília chegou no seminário e me disse que tinha se perdido de você!

— Emitia não se perdeu de mim! — retrucou Caroline irritada desviando os olhos do olhar acusador dele. — De qualquer modo, não posso acreditar que você tenha ficado tão preocupado comigo!

— Não? Nem se eu lhe contar que saí do seminário sem permissão?

— Oh, Luís! — Caroline entreabriu os lábios. — Luís, desculpe. Não fique com raiva de mim, por favor! Acho que não poderia suportar isso!

Ele falou com voz baixa e atormentada.

— Por que veio a Mariposa? Por que me tortura assim? Você faz idéia de como é difícil para mim morar aqui, sabendo que está na casa de Esteban?

Caroline virou a cabeça e fítou-o, perplexa.

— Mas a sua fé...

— Oh, sim, a minha fé! — repetiu ele. — É só isso o que importa, não é? Infelizmente não tenho tanta fé em meu irmão!

— Esteban me contou onde você estava. — Caroline suspirou. — Foi ele quem sugeriu esse passeio.

— Ele gosta de manipular as pessoas. Eu   só queria que você estivesse em outro lugar que não fosse a fazenda. Não confio nele.

Caroline ergueu as sobrancelhas. Depois, certificando-se de que Emília não poderia ouvir, perguntou:

— O que você está querendo dizer? Por que não confia nele?

— Não confio nas razões dele para trazê-la à fazenda.

— Mas foi a sra. Garcia quem me escolheu.

— Foi? — Luís não parecia convencido. — Duvido.  

— O que você está querendo dizer?

— Caroline, Esteban está   procurando uma professora particular para Emília há quase um ano. Várias candidatas foram entrevistadas, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos.

— Mas. . . — Caroline estava confusa. — Eu pensei. . .

— A sra. Garcia entrevistou você, mas foi Esteban quem decidiu. — Luís fez uma pausa. — Diga-me, você deixou fotografias suas com a sra. Garcia?

— A sra. Garcia disse que eu devia tirar algumas fotografias para o visto, mas depois. . .

— Você precisou delas?

— Não.

— E o que aconteceu com elas?

— Não sei. Acho que ficaram com a sra. Garcia.

— Foram mandadas para Esteban, Caroline.

— Como você sabe?

— Tem que ser isso. — Luís respirou fundo. — Não é por acaso que você é tão atraente.

— Mas, por que ele se importaria com a minha aparência?

— Acho que você sabe o por quê.

— Mas isso é ridículo! — Caroline estremeceu.

— É mesmo? —   Luís olhou   para o mar — Gostaria de ter tanta certeza.

Caroline tocou na manga da roupa dele e retirou a mão como se tivesse queimado.

—   Luís, por que não volta para San Luís? Por que não pode encontrar outra vocação?   Esteban   poderia empregá-lo na fazenda, sei que ele faria isso. Luís, por favor. ..

— Não posso — respondeu ele, tenso. — Você não compreenderia e não tenho tempo para lhe explicar.

— Arranje tempo — ela implorou, enquanto se aproximava do quarteirão movimentado do mercado. Tomas estava parado ao lado do carro. — Luís, fale comigo. Por favor, fale comigo. Você tem que falar!

— Não posso — repetiu ele, enquanto Emília se aproximava e pegava em sua mão novamente.

— Você não vai deixar Tomas ficar bravo conosco, não é? — pediu ela, e Luís a olhou com resignação.

—   Por que Tomas ficaria bravo com vocês? A não ser que você tenha desobedecido suas ordens. Você fez isso, Emília? — perguntou Luís.

— A srta. Leyton ouviu o que Tomas disse — Emília falou, virando o rosto, para não encarar Luís.

— A srta. Leyton não compreende a nossa língua, Emília. Tomas estava tão aliviado em vê-los que falava sem parar sacudindo

a mão de Luís.

— Tudo bem — tranquilizou-o Luís. — Se cuide, Caroline. E você também, Emília. Espero que tome conta da srta. Leyton nessas ocasiões. Se me prometer fazer isso, eu vou perdoá-la.

Emília abraçou o pescoço de Luís.

— Te amo — murmurou ela.

— Tomas concordou em não contar a don Esteban o que aconteceu — acrescentou Luís, enquanto fazia Emília sentar-se. — Não ia adian-tar muita coisa ele ficar sabendo, e acho que Emília já teve muita emoção por hoje.

Caroline abaixou a cabeça, enquanto o carro se afastava, mas Emília se virou c acenou até seu tio desaparecer de vista. Depois ela sen-tou-se novamente no banco e olhou com curiosidade para Caroline.

— Não gostou de ver tio Vicente outra vez? — indagou ela.

Eu lhe disse que sabia onde ele estava.

— Sim. — Caroline estava achando difícil falar qualquer coisa.

— Mas você não devia ter fugido.

— Bem. . . — Emília encolheu os ombros. — Você foi tão ruim comigo! Eu quis lhe dar um susto.                                                      

— E deu. Bem, acho que devemos esquecer tudo isso. Para seu pai, vamos dizer que fizemos um passeio agradável e não encontramos ninguém.

— Tio Vicente gosta mesmo de você, não gosta? — insistiu a menina, fazendo Caroline afundar as unhas nas palmas das mãos. — Ele ficou muito irritado quando eu disse que não sabia onde você estava,

— Emília, pare com isso! — Os nervos de Caroline estavam a ponto de estourar. — Não vamos mais falar nisso! Nunca mais quero ver seu tio de novo!

O olhar curioso de Emília revelou que ela não acreditava e Caroline não podia culpá-la completamente. Seria mais fácil se voltasse para a sua casa, pensou ela. Continuar tendo esperanças era um capricho tolo. Melhor ir embora quando o mês de experiência termi­nasse e evitar de uma vez por todas qualquer chance de encontrar Luís novamente!

Caroline se recusava a pensar na possibilidade de   Esteban   não deixá-la partir. Ela era uma mulher livre, uma cidadã inglesa! Qualquer coerção da parte dele teria graves consequências.

Quando chegaram na casa da fazenda, foi primeiro para a biblioteca, procurar a borboleta que deixou aprisionada.

Mas não leve que procurar muito. Alguém tinha tirado o ar do saco plástico. A borboleta estava morta!

 

Só podia ter sido Esteban o responsável pela morte da borboleta Mas como nunca teria meios de provar suas suspeitas, Caroline resol­veu esquecer mais aquela violência.

Quando o encontrou na hora do almoço, Esteban a tratou como se nada   tivesse acontecido.   Eles iam almoçar no terraço à beira da. piscina. Esteban puxou a cadeira para Caroline, lhe servia um copo de suco gelado e começou a conversar sobre o passeio delas com uma gentileza que a deixou desarmada.

— Emília me disse que não tiveram tempo de ir à praia, senhorita — comentou ele. pegando um canapé. — Mas com certeza conheceu o mercado e o porto. Talvez possa ir à praia num outro dia.

— Talvez. Mas na verdade eu acho que Emília aprende mais com as aulas do que com passeios.

— Tenho certeza que todos nós estamos satisfeitos com os seus progressos, senhorita. Nunca vi minha filha gostar tanto de estudar,

— O senhor é muito gentil. — Caroline forçou um leve sorriso.

— Mas talvez fosse melhor Emília receber uma educação mais formal,   numa escola.

Felizmente Emília tinha ido alimentar os peixinhos do tanque e   não estava ouvindo a conversa, mas a sra. Isabel ouviu suas palavras e disse:

— Está vendo, Esteban? Eu já disse a mesma coisa, lembra-se? Esteban ignorou a velha.

Emília não vai mesmo à Universidade, como a senhorita. Por isso não tem necessidade de uma educação formal.

— Acho que o senhor não percebe, don Esteban, o quanto sua filha é sozinha — disse Caroline, depois de respirar fundo. — Ela não tem amiguinhos da idade dela e isso faz muita falta.

Esteban levou o copo de vinho aos lábios, observou-a por um momento, depois colocou-o novamente sobre a mesa.

— Engraçado, senhorita. Qualquer um pensaria que quer ser despe­dida. — Ele encolheu os ombros expressivamente. — Estou com-pletamente satisfeito com a educação de Emília,   mas se fica tão preocupada com ela, por viver isolada de crianças de sua ídade, estou preparado para outra concessão.

— Está?

— Mas é claro. — Esteban enrugou a testa. — Lembra-se dos Calveiro? A filha mais velha deles é casada e mora perto de Las Estadas. Ela tem dois filhos quase com a mesma idade de Emília. Eu poderia convidá-los a ter aulas com Emília, se a senhorita não fizer objeções, e depois das aulas eles brincariam, antes de voltarem para casa.

— Eu não faço objeções. Se é isso o que o senhor deseja. . .

— É o que eu desejo — afirmou Esteban, com firmeza.

Ele cumpriu a palavra. Na semana seguinte, Vítor e Juanita Alvarez passaram a tomar parte nas aulas de Caroline. Vítor era mais velho que Emília, mas aos dez anos não conhecia o inglês como ela. Juanita era da mesma idade, mas bastante atrasada e Caroline passava horas ensinando-a a fazer as contas mais simples de aritmética.

Mesmo assim era bom para Emília. Por estar mais adiantada, ela gostava de ajudar Juanita e, aos poucos, as três crianças foram ficando amigas.

Até aquele ano, eles tinham estudado com a mãe, mas dali a seis meses Vítor ia para uma escola em Mérida. Juanita só iria quando ficasse mais velha. Caroline desejava que Esteban deixasse Emília ir também, mas ele parecia decidido a manter a filha em casa.

Não foram mais para Mariposa, porém uma noite Esteban sugeriu que talvez Caroline gostasse de acompanhá-lo num passeio na manhã seguinte.

— Não a cavalo — disse ele, enquanto Caroline se esforçava para encontrar algum motivo para recusar. — Não gosto de cavalos, mas numa carruagem aberta que uso para percorrer a fazenda.

— Mas as crianças. ..

— Estaremos de volta antes da hora da aula — retrucou Esteban e ela achou que seria mais fácil aceitar.

Entretanto, na manhã seguinte, Caroline se arrependeu. Não sentia a mínima vontade cie passear com Esteban pelos mesmos lugares que linha visitado com Luís.

A carroça, pois a carruagem não passava disso, os esperava na frente do estábulo. O velho Benito olhou de modo estranho para Caroline, quando ela subiu ao lado do patrão.

Era bom sair novamente, apesar de ainda ter um pouco de medo de gado. Esteban, no entanto, parecia não recear nada. Ao contrário, ele conduziu a carroça através da boiada sem hesitar e parou para con- versar com os vaqueiros, antes de prosseguir.

Chegaram a uma planície que acabava nas águas revoltas do rio. Esteban amarrou as rédeas em um galho de árvore e sugeriu que descessem e andassem um pouco.                                                          

— O chão está um pouco escorregadio, e você pode cair, apesar de estar de botas — comentou Esteban, segurando sua mão quando ela desceu. Ele não a largou mesmo depois de Caroline já estar em segurança a seu lado,

— Por favor, me largue.

— E que eu não quero que fuja de mim.

— Como poderia fugir aqui? Quer fazer o favor de largar minha mão?

— Está bem, — Esteban largou-a e ela colocou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro.

Caminharam um pouco. De repente, Esteban disse:

— Daqui a alguns dias, seu mês de experiência termina, não é?

— Sei disso — ela murmurou, surpresa. — Na verdade, ainda não me decidi.

— Mas que decisão a senhorita tem que tomar? A decisão é minha, não sua.

— A experiência vale para os dois lados.

— A senhorita não está falando sério.

— Oh, estou sim. Foi uma decisão difícil para mim vir para cá, deixando minha família. Tive que experimentar, ver se eu seria feliz aqui. Não havia outro jeito.

— Bem. . . — Caroline estava achando cada vez mais difícil con­tinuar. A imagem do rostinho de Emília lhe pedia que ficasse, mas...

— E se eu não aceitar sua decisão? — perguntou Esteban subita­mente, interrompendo os seus pensamentos.

— O senhor quer que eu vá embora?                      

— Não, não quero que vá embora...   Caroline. — O fato de Esteban chamá-la pelo nome lhe provocou um arrepio de medo. — Quero que você fique. Para sempre.

Caroline sentiu um baque no coração, mas olhou firme, para ele.

— Como? Desculpe, não entendi.

— Você ouviu o que eu disse, querida. — Esteban deu um passo na direção dela e Caroline recuou. — Quero que fique em San Luís. Não só como professora de Emitia, mas como minha mulher!

— Não é possível!

— É sim. Estou falando sério. — Ele passou a mão no rosto dela. — Não fique tão alarmada.

Caroline recuou como se o toque dele a enojasse.

— Qual é o problema, querida? — Esteban não era ingênuo e entendeu bem a reação dela ao seu pedido. — Luís deve ter conversado com você sobre a minha vontade de ter um filho. Também deve ter lhe contado que ainda tem esperança de que um dia San Luís de Merced possa ser dele!

— Não! — Caroline ficou horrorizada. — Não, ele nunca. . .

— Mas você sabe que se eu não tiver um herdeiro, a fazenda passará para Luís?

— Eu nunca tinha pensado nisso. — Caroline fez um gesto de impotência. — Não tenho nada a ver com isso.

— Oh, tem sim. — Esteban se aproximou novamente e desta vez segurou-a pelos ombros para impedi-la de recuar. — Caroline, não fique amedrontada. Não estou ameaçando você. E naturalmente sei que precisa de tempo para pensar. Mas não demore muito, pois não sou um homem paciente.

Aquelas palavras a fizeram voltar a si. Com um puxão decidido, se livrou das mãos de Esteban.

— Não posso me casar com o senhor? Eu não o amo e apesar de saber que aqui no México isto não é muito necessário para um casamento, no meu país é. Agradeço muito, mas lenho que recusar

Esteban não respondeu imediatamente e, enquanto estavam parados olhando um para o outro, começou a chover forte. Os cabelos pretos dele logo ficaram ensopados, escorrendo pela testa. Ele praguejou irritado, puxou os cabelos para trás e olhou furioso para a carroça.

— É melhor a gente voltar — murmurou Caroline. Começou a caminhar na direção da carroça, pisando com cuidado na gruma encharcada.

Esteban alcançou-a antes que ela tivesse dado meia dúzia de passos, passando por ela agressivamente, subindo no veículo e soltando as rédeas da égua. A pequena carroça deu uma guinada para a frente quando o primeiro ribombo de trovão ressoou na planície.

Caroline correu quando percebeu o que Esteban estava fazendo.

— Espere! — exclamou ela.

Mas era tarde. Com desembaraço, Esteban tocava a égua, fazendo-a galopar, e abandonando Caroline.

A carroça desapareceu na névoa que envolvia a planície. Era im­possível enxergar qualquer coisa à distância. Caroline estava a muitos quilómetros de casa, completamente ensopada, e certa de que Esteban não mandaria ninguém para procurá-la.

O pânico ameaçou dominá-la. Mas ela sabia que se cedesse, se ficasse onde estava, esperando que alguém viesse à sua procura, poderia morrer de frio ou pneumonia.

Morta de raiva, começou a andar em direção à casa. O chão, que já estava escorregadio antes da tempestade, agora parecia um pântano, tnas mesmo assim ela continuou sua caminhada.

Foi o cheiro que a alertou para a proximidade da boiada. Caroline percebeu como estava indefesa, sem nem um cavalo para montar. Será que conseguiria passar por eles sem que nada lhe acontecesse? E se ficasse andando em círculos, incapaz de encontrar o caminho de volta até que a chuva parasse?

Trovejou novamente e o gado se agitou. Caroline estava apavorada

Sabia que tempestades podiam provocar estouros de boiadas. Mas ela não conhecia outro caminho!

Continuou a andar, rezando para que os bois não lhe dessem atenção.

Outro trovão ainda mais forte a fez gritar de susto. Colocando a mão na boca, ela continuou a andar.

De repente, ouviu vozes. Parou com medo de estar tendo alucina­ções. Mas logo. teve certeza de que havia gente a uma distância não muito grande. O problema era que estava com medo de gritar pedindo ajuda e assustar o gado. Devagar, tentou caminhar na direção de onde vinha o som, mas as vozes pararam e ela ficou desesperada. Estava indo na direção errada? Tinha se perdido? Será que as vozes eram apenas o som da chuva?

Percebeu que estava caminhando com mais confiança no meio do gado, esquecendo o medo que sentia. Não se assustava mais cada vez que um animal virava a cabeça na sua direção e disse a si mesma com determinação que conseguiria chegar,

Quando o clarão de um relâmpago iluminou uma tenda debaixo das árvores, Caroline quase não acreditou. Correu para baixo da tenda, e não viu ninguém, mas era evidente que havia gente por perto. Sobre as cinzas de uma fogueira havia um bule de café e pão fresco. Com certeza eram boiadeiros que tinham tomado o café da manhã. Ela se abaixou, pegou uma caneca de metal e se serviu de café.

— Hola! Qué quiere usted?

A voz do homem que a cumprimentou fez com que ela se levantasse assustada. A chuva tinha molhado os seus cabelos deixando-os escuros, mas quando o vaqueiro finalmente a reconheceu, abriu a boca, surpreso.

— Señorita! — exclamou ele e depois, quando outro homem entrou na tenda, ele se virou para conversar com o outro.

Caroline não entendia o que falavam, mas sentia-se tão aliviada por ter encontrado abrigo que nem se importava. Ela estava encharcada até os ossos. Mais cedo ou mais tarde teria que resolver o que faria a respeito de Esteban, mas naquele momento só conseguia agradecer a Deus por ter encontrado aqueles vaqueiros no meio da tempestade.

Os homens voltaram-se para ela e falaram num espanhol lento:

— Donde está don Esteban?

Caroline encarou-os. Talvez eles pensassem que ela o tivesse aban­donado. Falou devagar, tentando fazê-los entender: — Don Esteban, na casa da fazenda. Vocês me levam para lá? Caroline fazia gestos enquanto falava, apontando para si mesma, depois para a chuva, e em direção à casa.

Os vaqueiros falaram novamente, entre si, e depois um deles disse, tocando-lhe o braço:

— Venga, señorita — E apontou em direção aonde os cavalos estavam amarrados.

A chuva tinha diminuído, embora ainda   ressoassem   trovões a. distância.

O homem lhe deu um cavalo mais acostumado a reunir a boiada do que a ser montado... Caroline segurou as rédeas com força. Quando os cavalos começaram a subir a ladeira para os portões da casa da fazenda, ela quase nem pôde acreditar.

Estou a salvo. Estou de volta à casa da fazenda, pensou alegremente. Mas ainda teria que enfrentar a raiva de Esteban. Gomez abriu os portões e fitou-a, perplexo. Caroline não entendeu   o diálogo que o velho teve com o homem que a acompanhava. Só percebeu que falavam de Esteban, mas estava tão cansada que nem quis prestar atenção à conversa.

Quando descia do cavalo, Consuella apareceu na porta principal, tomo no dia em que chegou, e fez uma exclamação de surpresa inteligível em qualquer língua. Consuella desceu os degraus depressa, sem se importar com a garoa persistente, segurou Caroline pela cintura, e quase a carregou para dentro de casa.

Caroline estava se sentindo tão fraca que se abandonou aos cuidados de Consuella, que a levou para o quarto, tirou sua roupa molhada e a colocou dentro de uma banheira de água quente.

Só quando já eslava envolta em toalhas mornas, a sra. Isabel apareceu para fazer perguntas. Ninguém tinha mencionado Esteban, — Está se sentindo melhor? — indagou a senhora, dispensando a garota que Consuella tinha chamado para enxugar os cabelos de Caroline. — Os criados me disseram que você veio sozinha, que Esteban não voltou. Quer me dizer onde ele está?

— Ele ainda não chegou?

— Foi o que eu disse. O que aconteceu? Houve algum acidente? Esteban está ferido?

— Não sei onde ele está. Nós nos separamos um do outro. Eu pensei que ele tivesse vindo para cá.

— Mas agora você sabe que ele não veio — retrucou a velha senhora. — O que aconteceu entre vocês? Imagino que houve algum

problema,

— Sem dúvida — admitiu Caroline. — Ele me pediu em casamento. A sra. Isabel não se mostrou surpresa. E por que deveria ficar?,

pensou Caroline. Ela tinha desconfiado disto o tempo todo.

— Você não aceitou. — Caroline assentiu. — Ele ficou com raiva.

— E foi embora me largando sozinha.

— Idiota! Você poderia ter morrido!

— A senhora acha que era isso o que ele queria?

— Não. — A sra. Isabel voltou-se para ela. — Esteban não faria isso. Só não entendo por que ainda não voltou. — Depois de uma pausa perguntou: — E então, senhorita? Vai embora de San Luís?

Caroline disse que sim, com a cabeça.

— É melhor mesmo. Esteban devia se casar com Josetta. Esteban só foi encontrado e trazido de volta para casa na hora do

almoço. A carroça tinha virado no barro e, como Caroline, ele tinha tentado voltar a pé. Infelizmente tomou a direção errada. Consuella chamou imediatamente um médico para ele.

Caroline ficou aliviada por Esteban não poder descer para o almoço nem para o jantar. Ela ainda estava muito abalada com o que acon­tecera.

Não tinha coragem de contar a Emitia que ia partir, Embora ainda não fossem muito íntimas, uma certa camaradagem havia se criado entre elas. Se tivesse tempo, com certeza se tornariam grandes amigas. Mas agora isso era totalmente impossível. Aguardava com temor o momento de comunicar sua decisão a Esteban.

 

Ela acordou com dor de garganta e com o nariz entupido. Ficou aliviada ao saber que Vitor e Juanita não viriam à aula, por causa do mau tempo, que continuava. Emília sentiu a falta dos amiguinhos, mas a manhã passou com tranquilidade.

Esteban ainda estava indisposto e não apareceu para o almoço. A sra. Isabel não parecia com muita vontade de falar sobre o estado de saúde do sobrinho.

— Ele mandará chamá-la quando quiser vê-la — disse apenas, para Caroline.

— Por que você não voltou com ele? — perguntou Emília, depois do almoço. — Pensei que tivesse saído sozinha, mas Consuella me disse que vocês dois saíram juntos.

— Tivemos uma discussão e eu resolvi voltar sozinha. Aí começou a chover.

Emília aceitou a resposta sem comentário, mas Caroline percebeu que ela não estava satisfeita.

Esteban também não apareceu para o jantar e Caroline sentiu um clima de expectativa na casa. Todos estavam tensos.

Foi para a cama cedo, com dor de cabeça, e adormeceu imediata­mente. Mas acordou no meio da noite, sem saber por que tinha acordado, mas pressentindo algo. Passava um pouco de uma hora. Saindo da cama, resolveu procurar um livro para ler.

Abriu a porta do quarto e ficou parada, esperando ouvir algum som. As luzes do corredor estavam acesas, o que era muito estranho. Saindo do seu quarto, caminhou em direção à porta da sra. Isabel. Talvez a velha senhora estivesse doente.

Colou o ouvido à porta, tentando ouvir se a respiração da sra. Isabel era regular, mas nesse exato momento a porta foi aberta e Caroline precipitou-se para dentro do quarto.

Tentando se recuperar do susto, e procurando manter sua compos­tura, ela abriu a boca para pedir desculpas à sra. Isabel, e só então viu a figura alta de um homem vestido com uma batina negra.

— Luís! — exclamou Caroline. O rosto dele estava emocionado. Mas antes que ele dissesse qualquer coisa, a velha senhora falou:

— O que a senhorita está fazendo aqui? Como se atreve a ficar ouvindo atrás da porta? Há quanto tempo está escutando nossa conversa?

— Não. Quero dizer, eu não fiquei. — Caroline estava confusa. — Sra. Isabel, alguém ou alguma coisa me acordou. Pensei que a senhora estivesse doente.. .

— Então veio verificar? — sugeriu a velha, com ironia.

— Sim. Por favor, me desculpe. — Caroline virou e correu para o corredor,   envergonhada.   Como   se   tivesse   sido   repentinamente

acordado, Luís saiu atrás dela. fechando a porta do quarto.

— Espere, Caroline! Quero falar com você.

— Não precisa ficar nervoso, Luís, eu não ouvi a conversa de vocês. Só pensei que sua tia estivesse doente e precisasse de ajuda — disse ela, já na porta de seu quarto.

— Acredito em você. A porta do quarto bateu. Deve ter sido este o barulho que a acordou.

— Muito bem, você resolveu o mistério. Agora pode voltar e continuar a conversa secreta com sua tia.

— Não era uma conversa secreta,

— Então como a classifica? Você vem aqui altas horas da noite, sem ninguém saber. .

— Você não entendeu, Caroline.

— Não, não entendi mesmo. E nem quero. Se você deixar que eu feche a porta...

— Caroline, espere! Você não tem o direito de me tratar desse jeito, como se eu tivesse cometido um crime! Vim aqui porque minha tia me chamou.

— Não me interessa por que você está aqui. Volte para o seu seminário. Eu já estou praticamente indo embora. Em poucos dias estarei na Inglaterra...

— Para encontrar aquele homem casado, não é? — Rapidamente, Luís entrou no quarto e fechou a porta.

— O que você pensa que está fazendo? — perguntou ela, surpresa.

— Precisamos conversar, Caroline. Você precisa saber de algumas coisas e parar de me julgar tão injustamente.

— Não estou julgando ninguém! Só não quero é me envolver nessa história toda.

— Verdade? — Luís a encarou.

— Você sabe, eu não tenho nada a ver com tudo isso. Os problemas dessa família não me dizem respeito.. .

— E os de meu irmão, não? Não é verdade que Esteban pediu sua

mão em casamento?

— Sim, mas eu recusei.

— E você acha que recusando colocou um fim no problema? Às vezes é muito ingênua, Caroline!

— Não sei o que você está querendo dizer!

— Acho que sabe, sim. Caroline, conheço meu irmão. Ele está doente agora, mas quando ficar melhor. ..

— Eu já terei ido embora. Você está querendo me assustar? É bom que saiba que eu não tenho medo de nada.

— Só de boiadas, não é? Mas às vezes os animais são mais inofen­sivos que os seres humanos.

— O que você está tentando me dizer, afinal? É tarde e eu estou cansada. E tenho certeza que não veio até aqui por minha causa!

— Aí é que você se engana. A conversa que eu estava tendo com minha tia tem muito a ver com você.

— Por quê?

— Tia Isabel me chamou porque meu irmão está mal...

— Você quer dizer que ele vai morrer?

— Não — respondeu ele, mexendo no crucifixo preso ao seu cinto. — Eu não fui chamado para lhe administrar a última confissão, nem pense nisso. Ele só está com um pouco de febre. Com mais uns dias de repouso, logo estará bom.

— Então o quê......

— É seu estado mental que preocupa tia Isabel. Ele tem feito certas declarações um tanto estranhas a respeito do relacionamento existente entre vocês dois.

— Nós dois? Eu não. entendo!

— Ele acha que você vai acabar mudando de idéia.

— Não!

— Sim. E tia Isabel achou que eu devia ser informado. Não porque ela tenha um carinho especial por você, mas porque não quer que o nome Montejo seja envolvido em outro escândalo.

— Outro escândalo?

— Você me disse que Esteban lhe contou sobre o nosso tipo de parentesco — disse Luís, curvando a cabeça.

— Bem, sim. — Caroline suspirou. — Você quer dizer. ..

— A mãe de Esteban se matou, vítima da indiferença de meu pai, um homem que só amava ele mesmo. Tentaram culpar minha mãe pela morte de Vitória, mas na verdade ela simplesmente não conseguiu resistir ao fascínio que meu pai exercia sobre todos. Tia Isabel está preocupada cora o que Esteban é capaz de fazer quando se recuperar. Ela acha que você deve partir o mais rápido possível e eu concordo com isso.

Caroline entendeu tudo. Lógico! Quanto mais longe estivesse de San Luís, menos perigo representaria para o futuro padre! — Sei. E o que vocês decidiram? — ela perguntou, seca.

— Você parte amanhã. Tomas a levará até Las Estadas e de lá tomará um ônibus para Mérida.

— Obrigada.

— Você vai ser mais feliz na Inglaterra. Vai poder estar com seus pais. . . e seus amigos. — Luís parou de falar por um instante, — Diga-me, vai se encontrar de novo com aquele homem?

— Não sei! Mas, por que me faz uma pergunta dessa, Luís? O que lhe importa o que vai ser da minha vida? Você não me quis. ..

— Não seja boba! — Possuído de uma estranha fúria, ele a abra­çou. Caroline pôde sentir os músculos fortes do corpo dele contra o seu, o cheiro viril da pele de Luís invadindo sensualmente suas narinas. — Quero você, Caroline — ele disse, com voz rouca.

O murmúrio de protesto de Caroline morreu em seus lábios, quando ele a beijou, louco de desejo. A mão esquerda de Luís segurava a nuca de Caroline com força, enquanto a outra desamarrava o cordão que prendia a camisola dela. A camisola tinha um grande decote na parte de trás, e os dedos de Luís começaram a explorar suas costas com paixão. Uma incrível sensação de prazer começou a envolver todo o corpo de Caroline e ela desejou que estivessem nus, para que pudesse sentir Luís totalmente. Estava pronta para fazer tudo o que ele lhe pedisse.

— Por Deus, Luís! — Aquela exclamação horrorizada veio da sra. Isabel, que tinha aberto a porta e os observava, incrédula.

— Está tudo bem, tia — disse Luís, se afastando de Caroline. — Perdi a cabeça, só isso.

— A garota vai embora?

— Amanhã. A senhora vai convencer Tomas a levá-la?

— Vou ver se consigo — disse a velha senhora, olhando para Caroline com maldade, e saindo do quarto.

Caroline se aproximou de Luís novamente, mas o rosto dele estava duro e frio.

— Adeus — ele disse.

— Luís!

Mas ele já tinha ido embora. Para sempre.

Caroline arrumou as malas antes do café da manhã. Quando Carmencita apareceu com a bandeja, estava trancada no banheiro, tomando uma ducha.

Não dormiu depois que Luís saiu do quarto. Apesar do banho, seus olhos ardiam, e a cabeça latejava. Tomou duas xícaras de café, forte, para se reanimar. Estava tensa e ansiosa quando bateram à porta.

Era a sra. Isabel. Mas ao contrário do que Caroline imaginava, não vinha lhe dizer que Tomas a esperava para levá-la embora.

— A senhorita vai dar sua aula para Emília agora, como se nada tivesse acontecido — ela anunciou. Ao perceber que Caroline estava perplexa, explicou: — Bem, não quer que sua partida se transforme num escândalo, não é? Será mais tranquilo sair quando todos estiverem descansando, depois do almoço.

— A senhora dirá adeus a Emília por mim? Acho que ela vai ficar triste com a minha partida,

— Emília logo esquecerá, senhorita. Mais cedo ou mais tarde, meu sobrinho acaba casando, e aí Emília aprenderá a amar sua madrasta.

— Sim, senhora,

Caroline respondeu com educação, desejando que a sra. Isabel fosse embora do seu quarto. Mas ela ficou mais um pouco.

— Por que a senhorita quis destruir Luís? — perguntou, de repente. — Por que tentou seduzi-lo?

— Não é verdade! Aquilo que aconteceu era inevitável, não fui eu quem o provocou. Aconteceu!

— E acha que eu vou acreditar nisso?

— Sim! — Caroline encontrou as palavras para se defender: — A senhora mesma o acusou de ter uma amante na aldeia!

— Mas que absurdo é esse?

— Acusou, sim! — Caroline estava nervosa. — A senhora contou a don Esteban que viu uma mulher saindo da porta lateral!

— Você é mesmo muito estúpida! Acreditou que eu estava acusando Luís? Não, eu vou lhe explicar. Fingi que o acusava porque era nisso que Esteban queria que eu acreditasse. Mas eu sei que a mulher não veio até aqui para ver Luís, e sim Esteban.

— Maria Pascale? — murmurou Caroline.

— É esse mesmo o nome dela! Como a senhorita sabe? Quem lhe contou? Não foi Esteban, foi?

— Não. Foi Luís. E quem é ela?

— Você não sabe? Luís não lhe contou?

— Luís? Não. Por favor...

— Maria Pascale é filha da irmã da mãe dele!

— Então ela é prima de Luís!

— E amante de Esteban! Ela se tornou amante dele para que sua família não fosse expulsa do pequeno pedaço de terra que arrendaram. Esteban queria expulsá-los.

— Não posso acreditar. . .

— E por que não? Luís não lhe explicou por que ele é obrigado a permanecer no seminário? Não lhe contou que Esteban chegou a ameaçar a mãe de Luís e toda sua família?

 

— O que está fazendo aqui? — Caroline conseguiu perguntar. — Pensei que Tomas fosse me levar para Las Estadas e que o senhor estivesse doente.

— Apenas um resfriado. — Esteban tentava aparentar que já estava muito bem, mas Caroline notou as olheiras profundas. — Vamos embora, senão você vai perder o ônibus.

Caroline daria tudo para saber quem tinha avisado seu patrão que estava de saída.

Esteban fez a manobra e colocou o jipe novamente na estrada. Para surpresa de Caroline, ele não tomou o caminho da fazenda, e sim o de Las Estadas. Ela não podia acreditar que Esteban a levaria para a cidadezinha. Talvez estivesse planejando fazer alguma coisa com ela! Aquela estrada era deserta e ficava no meio da mata. Qualquer pessoa poderia desaparecer naquele lugar e nunca mais ser encontrada!

— A senhorita parece assustada — disse Esteban, de repente. — Por que ficou tão nervosa quando disse que ia levá-la para tomar o ônibus?

— Por que não disse à sua tia que me levaria para Las Estadas?

— Mas eu disse. — Esteban parecia sincero. — É verdade. Fui eu quem sugeriu que a senhorita só fosse embora depois do almoço. Eu ia receber a visite do médico esta manhã e não podia sair.

— A sra. Isabel sabia? — perguntou Caroline, sem entender nada.

— Mas é lógico! Tia Isabel me conta tudo. Você não sabia?

— Não. — Quase não se ouviu a resposta de Caroline. Será que ele também sabia da visita de Luís ao quarto dela, na noite anterior?

— Eu insisti em levá-la para Las Estadas pessoalmente — explicou Esteban. — Era a única coisa que podia fazer depois do que conversamos. Só que eu tinha negócios a tratar na aldeia e mandei que Tomas a levasse até aquele ponto, perto de onde estava esperando. — Ele fez uma pequena pausa, e depois continuou: — Queria me des­culpar. Queria que perdoasse meu temperamento egoísta.

Caroline aceitou o pedido de desculpas de Esteban com um sorriso forçado e apertou os dedos quando o jipe fez uma curva muito fechada.

— Está se sentindo melhor agora? — perguntou Esteban. — Você não acha que eu sou um mau-caráter, não é?

— Nunca pensei isso a seu respeito.

— Não? Mas você sempre acreditou mais em meu irmão do que em mim, não é?

— Como? Não entendi.

— Luís. Você acredita em tudo o que ele diz.

— Ele não me disse nada, senhor.

— Não? Ele não lhe contou que minha mãe era um pouco estranha, como tia Isabel?

— Não. E por que ele diria isso? Sua tia é tão sã quanto eu ou o senhor.

— Mas minha mãe não era muito certa da cabeça. É lógico que tia Isabel acredita que meu pai foi o responsável pelo estado em que ela ficou. Ele era louco por mulheres. Tinha muitas amantes.

Caroline não disse nada, na esperança de que ele se cansasse de falar sozinho, mas Esteban continuou:

— Depois que se casou com a mãe de Luís, meu pai se tornou um marido exemplar. Não sei o que Irena fazia, mas conseguia mantê-lo em casa à noite, e eu a admirava por isso. Luís era tudo para ela, roas não para meu pai, claro. Mesmo porque ele acabou deixando a fazenda só para mim e não para o filho bastardo de sua esposa!

— Luís não é um bastardo! — Caroline não conseguiu mais ficar calada. — Ele é filho do seu pai da mesma forma que o senhor. E foi uma injustiça a fazenda não ter sido dividida.

— Oh, sim. — Esteban fitou-a intensamente e Caroline desejou que ele prestasse mais atenção na estrada. — Luís lhe contou o que aconteceu com a mãe dele depois da morte de meu pai?

— Luís me disse que ela entrou para um convento.

— Sim, um convento. Irena sabia que eu não ia permitir que ela ficasse na fazenda, e resolveu tomar o caminho mais fácil, não acha?

— Isso não é da minha conta, senhor,

— Ela achou que fosse muito esperta.

— Esperta? — Caroline eslava confusa.

— Sim, esperta — repetiu Esteban. — Ela sabia que eu a odiava. E a Luís. Sabia que quando meu pai morresse eu faria tudo para me livrar deles. Irena pensou que entrando para o convento estaria a salvo.   Pensou também que Luís lutaria comigo para conseguir a fazenda. Só que ela esqueceu que ainda existia o resto de sua família.

— O resto da família?

— Os Pascale. Eles morara na fazenda. Arrendaram um pedaço de terra de meu pai. Onde você pensa que ele encontrou a mãe de Luís? — Esteban estava cada vez mais irónico. — Uma cambada de caipiras! Indignos de misturar seu sangue com o de nossa família!

Caroline estava começando a entender. A sra. Isabel tinha falado dos Pascale. Da prima de Luís que se chamava Maria Pascale. Mas onde entrava Luís nessa história toda?

— Meu pai educou Luís, é claro — continuou Esteban. — Para um caipira, até que ele é muito inteligente. Meu pai o mandou para a Universidade na Califórnia e ele se formou em agronomia, para ajudar a tocar a fazenda.

Caroline concordou e Esteban continuou:

— Ele voltou com muitas idéias radicais. Idéias sobre as condições de vida no campo e os direitos dos trabalhadores. Meu pai quis dar atenção a ele. Chegaram mesmo a tentar alguns dos novos métodos de Luís, mas felizmente um derrame cerebral o deixou paralítico e mudo e ele levou uma vida vegetativa até morrer.

— Não fale assim! Ele era seu pai.

— No fim da vida ele se tornou indigno de ser meu pai. Destruiu tudo o que minha família prezava. Misturou o sangue dos conquista­dores com o sangue dos escravos e mereceu morrer daquele jeito!

— E depois?

— Como eu disse, depois a mãe de Luís entrou para o convento. Ela pensou que tivesse vencido, que Luís ficaria tomando conta de toda a propriedade. Sabia que ele era mais forte do que eu, que não tinha medo de cavalos, como eu tenho, e que os empregados gostavam dele. — Esteban sorriu. — Mas infelizmente ela se esqueceu de que além de tudo isso, Luís também é um homem honrado. Quando eu disse a ele que a família de sua mãe iria se dar mal se eu lhes tirasse as terras, Luís logo entendeu.

— Por que o senhor está me contando tudo isso? — Achei que gostaria de saber. Para que perca a esperança de que Luís a procure. Ele nunca trairia a família dele, e afinal de contas, por que faria isso por uma prostituta como você?

Foi como se ele tivesse batido nela. Além de destruir toda a espe­rança de que Luís um dia voltasse para ela, ainda a chamava de prostituta.

— A senhorita não diz nada? — perguntou ele, com sarcasmo. Felizmente Caroline viu que estavam chegando aos arredores de Las Estadas. — Não é verdade que tem um amante na Inglaterra? Um amante que ainda por cima é casado?

Caroline estava muito nervosa, mas conseguiu falar friamente:

— Não tenho amantes, señor. Ao contrário de sua pobre tia e da irmã dela, e da srta. Calveiro também, eu encontro satisfação em outras coisas na vida além de me ajoelhar na frente de um machão ignorante como os que conheci aqui no México!

— Tome cuidado com o que fala. A senhorita ainda não está na Inglaterra e pode acabar se dando mal.

Caroline não falou mais. Entravam em Las Estadas. Ela sabia que a estação rodoviária ficava no outro lado da cidade, mas ele não seguiu pela rua principal. Virou à esquerda, numa rua mais estreita. Caroline não ficou preocupada. Pensou que estava fazendo um caminho mais curto para a rodoviária. Ainda tinha que verificar se havia ônibus para algum lugar aquela noite, mas a sra. Isabel não a teria deixado vir se não tivesse certeza. De repente, lembrou que não podia confiar

naquela velha senhora!

Quando Esteban parou o jipe na frente de dois portões de madeira, o coração de Caroline quase parou. Aquela não era a estação rodo­viária. Ela tentou esconder o medo que sentia.

— Onde estamos? Que lugar é esse? Por que paramos aqui?

— Um momento, senhorita. — Esteban sorriu, abrindo a porta e descendo do jipe. — Tenho que resolver alguns negócios. Volto logo. — Depois de bater a porta, ele se afastou e atravessou os portões.

Caroline não conseguia parar de tremer. Se pelo menos falasse espanhol!

Um outro carro estacionou atrás do jipe e, olhando pelo retrovisor, Caroline viu dois homens descarregando alguns engradados. Só quando eles abriram os portões de madeira, deixando à mostra os fundos do edifício, é que Caroline compreendeu. Era o hotel. Os homens estavam entregando engradados de cerveja e tequila. Para confirmar sua descoberta, Esteban apareceu acompanhado pelo sr. Allende. Enquanto conversava, ele fazia gestos na direção do jipe, evidentemente falando dela.

Caroline ficou em pânico. Não precisava de uma bola de cristal para saber o que Esteban queria naquele hotel.

Dominando o nervosismo, Caroline agiu. Esteban tinha deixado as chaves no contato, ela foi para o banco do motorista e deu a partida.

Esteban ouviu quando ela ligou o motor, mas não conseguiu impe­di-la de fugir.

Caroline chegou á rua principal e logo viu o teto da estação rodoviária a poucos metros de distância.

Ela imaginava que Esteban ia segui-la, mas tinha que arriscar. De alguma maneira, não importava como, tomaria um ônibus para sair de Las Estadas naquela noite e não estava muito preocupada com o seu destino.

 

Uma hora depois, sentada num ônibus para Mérida, Caroline relembrava os acontecimentos que envolveram sua partida. Como tinha previsto, Esleban foi atrás dela, mas pela primeira vez sua naciona­lidade a ajudou. Um grupo de turistas ingleses que havia passado três dias visitando um sítio arqueológico da região, esperava o mesmo ônibus que ela. Ao ouvir sua língua natal, Caroline se apresentou imediatamente. Seu sorriso simpático logo conquistou todos os mem­bros do grupo, mesmo depois de ter contado que estava deixando um emprego de professora particular numa das fazendas da região, por causa de atritos com seu patrão.

Esteban chegou, furioso, quando estavam embarcando no ônibus para Mérida. O grupo de ingleses não deu muita importância quando Esteban acusou Caroline de ter abandonado o emprego sem cumprir aviso prévio. Ele não impressionou a ninguém e todos ficaram indignados quando ameaçou de processá-la:

— Por que o senhor não vai até o consulado? — sugeriu uma das mulheres mais velhas do grupo. — Tenho certeza que lá eles vão ajudá-lo caso queira receber algum tipo de indenização.

— Oh, não se preocupe, vou tratar da minha indenização! — Esteban sorriu cinicamente, enquanto observava Caroline subindo no ônibus. — Pode estar certa disso.

 

Caroline arranjou emprego numa agência de viagens. Não era exatamente o tipo de ocupação que queria, mas todas as vagas nos colégios já tinham sido preenchidas. Além disso, não sabia ainda se queria mesmo ensinar.

Não conseguia se concentrar em nada, desde que voltou do México, já fazia quatro semanas. Mesmo as coisas de que gostava antes de viajar, agora pareciam só levemente interessantes. Como Esteban se divertiria se soubesse, pensou ela amargurada, incapaz de se livrar das imagens que a atormentavam com insistência. Ela, a garota indepen­dente e preocupada com a sua carreira, daria tudo o que tinha para se tornar a esposa de um homem...

Luís! Caroline enfiou as mãos nos bolsos na jaqueta de couro, sentindo a fraqueza que a lembrança dele sempre provocava. Será que ele pensava nela ou já tinha esquecido de tudo?

Ver Andrew novamente não adiantou nada. Imaginou que quando o encontrasse sentiria a mesma emoção de antes, mas nada aconteceu. Andrew era um velho e bom amigo, nada mais. Pelo menos, Caroline ficou contente por nunca ter permitido que o relacionamento deles ultrapassasse os limites de um namorico. Gostava de Andrew, sempre ia gostar. E se preocupava por ele não se dar bem com a mulher. Mas os seus próprios sentimentos tinham mudado. O que tinha imagi­nado ser amor não passava de uma grande admiração.

Caminhando apressada, ela atravessou a rua e chegou à casa de seus pais. Já havia luzes acesas. O velho carro do pai, que ele se recusava a vender apesar dos pedidos da mãe, estava no quintal e não na garagem, o que era estranho. Devia ter acontecido alguma coisa diferente naquele dia.

Caroline enfiou a chave na fechadura, gritou, cumprimentando sua mãe, enquanto pendurava o casaco no cabide do hall. Estava feliz por estar de volta. Seus pais nunca interferiram em sua vida e não tinham feito muitas perguntas, aceitando sua explicação de que o emprego no México não deu certo.

Elizabeth Leyton apareceu no hall com uma expressão apreensiva. Caroline fícou pálida ao vê-la fechar apressadamente a porta para a sala de estar.

— Você tem visitas — disse ela, em voz baixa. — O sr. Montejo e Emília!

— Você disse sr. Montejo?

— Isso mesmo. É melhor você entrar. Seu pai acabou de lhe oferecer um drinque. — Elizabeth fez uma pausa. — Ele, bem, ele quer que você assuma novamente seu emprego como professora particular. Quando eu disse que não aceitaria, ele respondeu que espera conseguir fazê-la mudar de idéia.

Caroline tremia. Não esperava por isso. Sabia que Esteban tinha ficado furioso, mas nem lhe passou pela cabeça que ele viesse pro­curá-la em Londres.

— Não quero vê-lo — disse, desesperada. — Oh, mamãe, não quero vê-lo.   .

— Por que não? Caroline, acho que você devia recebê-lo. Ele veio de tão longe! Não acha que é o mínimo que pode fazer?

— Não.

— Caroline não seja mal-educada!

— Não estou sendo. Já faz quatro semanas que sai do México. Se ele fazia tanta questão dos meus serviços, devia ter entrado em contato comigo antes que eu arrumasse outro emprego.

— Bem, parece que o irmão dele morreu — começou Elizabeth. — Caroline! Oh, meu Deus! — exclamou quando a filha desmaiou ao pé da escadaria.

— Vocês acham que eu devia chamar o médico? Caroline voltou a si ouvindo a voz da mãe, mas quando abriu os olhos viu que não eram seus pais que estavam a seu lado.

— Luís! — exclamou, certa de que devia estar sonhando. Quando ele sentou no divã em que estava deitada, perguntou com mais firmeza: — Luís, o que você está fazendo aqui?

— Olá, pequena — ele a cumprimentou, colocando a mão sobre as dela. — Não sabia que minha chegada seria tão traumatizante para você. Quer que eu vá embora e volte mais tarde?

— Não.

— Senhorita, senhorita! — chamou Emília subitamente, saindo da cadeira em que estava sentada logo que viu Caro!ine consciente. — Nós viemos buscá-la. Diga que vai voltar para San Luís conosco, por favor, diga. Tio Vicente quer tanto que vá morar conosco.

Caroline olhou para Emília como se não acreditasse nos seus olhos. Luís puxou a garota para o seu lado.

— Ainda é muito cedo, querida. A srta. Leyton sofreu um choque por nos encontrar aqui. Acho que devemos ir embora agora e lhe dar tempo para se recuperar.

— Não!   Não, por favor. Já estou bem. — Caroline sentou. — Luís. por favor, me diga o que veio fazer aqui.

— Você sabe — interrompeu Elizabeth Leyton, se aproximando e olhando a filha com impaciência. — Caroline, eu lhe contei o que o sr. Montejo disse, mas você não queria recebê-lo. Mudou de idéia agora?

— Ela ficou em estado de choque, EHzabeth. — Charles Leyton também se aproximou do divã. — Como está se sentindo, querida? Nunca a vi desmaiar antes.

— Estou bem, papai. Eu não sabia que você estava se referindo a Luís, mamãe.

— Acho que entendemos,   Caroline —   respondeu   sua mãe. — A culpa foi minha   Eu devia ter explicado melhor, mas como ia saber que você teria uma reação dessas?

Caroline meneou a cabeça e olhou para Luís.

— Ela disse que o seu irmão morreu, é verdade? Nem posso acreditar.

— Ele sofreu um acidente de carro. — Foi Emília quem respondeu. — No caminho de volta de Las Estadas. O sr. Allende dirigia, mas as estradas estavam escorregadias, ..

— O quê? — perguntou Caroline, empalidecendo novamente. — Luís, quer dizer que...

— Acho que devemos deixá-los a sós, Elizabeth — Charles Leyton disse, sentindo a tensão do ambiente. Sua mulher concordou.

— Vou preparar um chá — Elizabeth sugeriu, depois olhou para Emília e acrescentou: — Quer vir me ajudar? Acho que o seu tio prefere conversar com Caroline a sós.

— Acho uma boa idéia, Emília. Vá ajudar a sra. Leyton, enquanto eu e Caroline discutimos a possibilidade de ela voltar para o México conosco, está bem?

— Você não vai embora?

— Claro que não, meu bem — disse Luís, sorrindo e virando-se para a mãe de Caroline: — Muito obrigado.

O silêncio que se seguiu ã saída deles só foi interrompido pela

respiração instável de Caroline.

— Esteban morreu — murmurou ela, ainda sem conseguir acreditar

nisso. — Por minha causa. . .

— Claro que não. Tomas é que ia levá-la para Las Estadas. Se ele estivesse dirigindo, o acidente não teria acontecido. Esteban e Allende

estavam bêbados.

— Como sabe disso? — Caroline colocou os pés no chão e afastou os cabelos da testa com a mão trémula.

— Cheiravam a bebida. Além disso, várias testemunhas disseram que ele ameaçou bater em você, raptá-la e coisas piores! Só Deus sabe o que teria feito se chegasse vivo em San Luís. Uma coisa é certa: Emília e tia Isabel é que pagariam.

— Como você ficou sabendo, Luís? . -

— Eu cheguei poucos minutos depois que o acidente aconteceu

— retrucou Luís e quando ela fitou-o surpresa, ele continuou: — Foi Emília quem me contou.

— Emília?

— Sim. Sabe, você não tinha lhe dito que ia embora, mas Benito

lhe contou tudo.

— Sobre Esteban também?

— Claro. Naquela altura, Tomas já tinha voltado e contado que o patrão se levantou da cama para ir atrás da jovem inglesa em Las Estadas.

— Mas Emília...

— Ela pensou que ele tinha demitido você. — Luís suspirou. — Você sabe como ela imagina coisas. Ela estava com medo, mas por diferentes razões.

— E ela mandou avisá-lo?

— Depois de muita insistência, Tomas concordou em ir me pro­curar no seminário.

—   E...

—   Meu Deus, Caroline, você não faz idéia de como me senti quando fiquei sabendo o que tinha acontecido.

— Ele podia ter tido a melhor das intenções. — Caroline levan­tou-se.

— Podia, mas eu precisava ter certeza, Caroline. Eu estava com medo que ele... que ele...

— Pudesse tocar em mim? — arriscou ela e Luís concordou.

— Ele tocou?

— Não. — Caroline explicou rapidamente o que tinha acontecido. — Não sei o que eu teria feito sem o grupo de turistas. Eles foram muito bons comigo e acabamos tomando o mesmo avião para Londres.

— Graças a Deus.

— Quando minha mãe disse que ele linha morrido, eu pensei.. . pensei que. ..

— Que ela tivesse se referido a mim?

— Sim, acho que foi por isso que desmaiei. Senti todo o sangue abandonar meu corpo.

— Oh, Caroline!

Dando um gemido de impaciência, Luís se aproximou de Caroline, chegando tão perto que ela quase perdeu o equilíbrio e caiu no divã novamente.

— Ainda é muito cedo, não? Eu não devia ter vindo. Devia ter escrito uma carta, contado o que aconteceu e pedido a você que reconsiderasse sua decisão.

— Minha decisão? — A voz de Caroline estava trémula. — Que decisão?

— Queremos que volte para o México. Nós precisamos de você, Carotine, Emília precisa de você.

— E você precisa de mim, Luís? Porque eu preciso de você... Luís a interrompeu com um beijo apaixonado.

— Também preciso de você, Caroline. E Deus sabe que nunca disse isso para mulher alguma.

— Mas e o seminário?

— Acho que você sabe por que entrei para o seminário. — Luís sentou-se numa poltrona com ela no colo. — Tia Isabel lhe contou, não?

— E Esteban também — Caroline afundou o rosto no pescoço dele. — Para destruir minhas esperanças de que você pudesse vir atrás de mim.

— Oh, querida, essa possibilidade sempre existiu. Cada vez que eu a via, era mais difícil voltar, continuar com a vida que estava levando. E quando Tomas me avisou que Esteban a tinha levado para Las Estadas... — Luís deu um gemido angustiado. — Compreendi que. o sacrifício que eu estava fazendo não valia a pena.

— Luís! Quer dizer que não vai voltar mais? Nunca mais?

— Você tinha alguma dúvida?

— Não sei. Estava com. medo de acreditar nisso. — Caroline estava tão emocionada que mal conseguia falar. — Oh, Luís, eu o amo tanto!

— Oh, meu bem, acredite, eu não vim para cá seguro de seu amor. Estava com tanto medo que aquele homem, seu namorado, pudesse ter tomado meu lugar em seu coração.

— Andrew? Oh, Luís, eu nunca amei Andrew. Percebi logo que conheci você. Acho que gostei dele, mas não como gosto de você.

— Graças a Deus — Luís murmurou, antes de beijá-la novamente. Seus beijos estavam se tornando cada vez mais apaixonados, mais

ardentes. Com medo de que os pais de Caroline entrassem na sala a qualquer momento,   Luís afastou-se dela e encostou   a cabeça no estofado.

— Então, vai voltar para o México comigo, Caroline?

— Se você quiser. — Ela soltou a gravata de Luís, abriu os dois primeiros botões da camisa e lhe deu um beijo no peito. — Hum, sua pele está um pouco salgada. . .

— É muito sensível, Caroline, não me provoque, por favor, não quero deixar seus pais sem graça.

— E como você faria isso? — insistiu ela, passeando a língua na palma da mão de Luís até deixá-lo quase louco.

Caroline abraçou-o, acariciando-lhe os cabelos, e gemeu submissa quando ele escorregou a mão possessivamente sobre a sua coxa.

—   Eu quero você, querida, mas não aqui, não assim. Mesmo que você me leve à beira da loucura!

— Você me ama?

— Se eu a amo? Oh, Caroline, amor é uma palavra muito simples para descrever o que sinto por você. Eu a adoro, a venero!   E a amo sim, muito mais do que pode imaginar.

— E quanto à sua tia Isabel? — perguntou Caroline, depois de uma pausa.

— Ela sabe dos meus sentimentos por você. Foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que a fez ficar contra você.

— Mas por quê?

— Aquela noite ela mandou me chamar porque estava preocupada com você, como o que Esteban poderia lhe fazer. Mas depois, quando nos viu juntos, ficou confusa e as lembranças da irmã dela, mãe de Esteban, se misturaram com o que tinha visto.

— Ela me assustou.

—   Ela não está mais em San Luís. Foi embora alguns dias depois do enterro de Esteban. Foi visitar uma amiga da sra. Calveiro e depois pretende voltar para a Espanha.

—   Para a Espanha?

— Eu também fiquei surpreso — admitiu Luís. — Mas Isabel não é minha parente. Ela era tia de Esteban. Eu a chamava de tia por costume. Agora que Esteban morreu, ela não tem mais laço nenhum com a fazenda.

— Então só ficaremos nós três na fazenda, Luís?

— Só para começar. E contanto que você não seja contra a presença de Emília.

— Contra? Como eu poderia ser contra? A coitadinha tem passado por tantas situações difíceis!

— Você está se referindo à morte de Esteban?

— Sim, à morte do pai dela.

— Esteban não era pai dela — disse Luís e Caroline estremeceu.

— Mas você disse...

— Disse que eu não era o pai dela, mas não que Esteban era.

— Então quem...

— Era um amigo meu — admitiu Luís. — Ele se hospedou na fazenda na época em que Joana estava mais infeliz.

— E Esteban sabia?

— Não. Acho que no fundo ele acreditava que Emília fosse filha dele, embora deixasse correr o boato de que ela era minha.

— Mas Emília. . .

— Sabe a verdade. Ou melhor, sabe até o ponto em que é necessário saber na idade dela.

— Ela queria tanto ser sua filha, Luís.

— E será, se morar conosco. E quando vierem as outras crianças, ela será a irmã mais velha, que acha?

— Vai ser ótimo — murmurou Caroline. E estava se preparando para beijá-lo novamente quando Emília entrou na sala.

— Tio Vicente! Srta. Leyton. . . oh! — exclamou ao ver Caroline levantar do colo de Luís. Depois acrescentou, com um sorriso maroto: — Você vai casar com tio Vicente!

— Se ele quiser — concordou Caroline, abaixando-se para abraçar a menina.

Certa manhã, três meses depois, Caroline voltou de Mariposa e encontrou seu marido trabalhando como sempre no escritório.

— E então? — perguntou Luís, levantando-se e pondo as mãos nos ombros dela. — O que disse o velho Rivera? Diga logo. É o que você desconfiava? Pelo amor de Deus, não faça suspense! Eu nem consegui trabalhar. Devia ter me deixado ir junto.

— Para ouvir que vai ser pai num futuro próximo?

—   Então é verdade?

— Parece que sim.

— Meu Deus! Eu sabia que devia ter tomado mais cuidado.

—   Por quê? Eu não queria que você tomasse cuidado. — Caroline tocou no cinto dele, sugestivamente. — Eu quero um filho seu, Luís. Quero um monte de filhos seus.

— Caroline. estou falando sério! Nós ainda nem tivemos nossa lua-de-mel!

— Podemos ter depois. Você sabe que mamãe e papai disseram que gostariam de nos visitar. Eles podem vir depois que o bebê nascer e nós sairemos para viajar. Só nós dois. — Caroline suspirou de feli­cidade. — Oh, Emília vai ficar tão contente!

— Caroline, você tem certeza de que quer este bebê?

— Lógico que tenho certeza. — Caroline colou seu corpo ao dele. — Hum, querido, você parece cansado. Tem trabalhado muito.

— E dormido pouco — Luís disse, malicioso.

— Você se importa?

— Caroline. ..

— Quero fazer amor com você — ela pediu e Luís logo atendeu

ao convite dos seus lábios entreabertos.

Algum tempo depois, na intimidade do quarto, Luís se apoiou num cotovelo para apreciar a beleza de sua mulher. Sabendo que estava sendo admirada, Caroline se espreguiçou com sensualidade. Sentia-se completamente à vontade na presença dele e adorava aqueles mo­mentos depois do amor, quando ele era completamente seu.

— Eu também tenho algumas novidades — Luís revelou, quando ela começou a lhe acariciar o peito. — Aquele velhaco do Vaquera rne telefonou.

— Vaquera? Não é o seu procurador ou algo parecido?

— Ele foi advogado de meu pai e depois de Esteban — concordou Luís, abaixando a cabeça e passando os lábios no ombro dela.

— O que foi que ele lhe disse?

— Apertas que encontrou o testamento de meu pai — informou Luís, sorrindo ao ver a surpresa dela.

— O testamento de seu pai! E existe alguma cláusula que envolve você?

— Parece que sim. — Luís deitou-se novamente e passou o braço sobre o estômago de Caroline. — Ele disse que os documentos devem ter sido guardados por algum estagiário que já saiu do escritório, mas sou de opinião que Esteban o pagava para que não dissesse nada.

— Quer dizer que Esteban o subornava para parecer o dono de tudo? — Caroline sentou-se, apoiando o queixo sobre o joelho.

— Deve ter sido isso — concordou Luís, encolhendo os ombros. — Ei, mas não precisa ficar tão agitada!

— Não? — Caroline estava indignada. — Você sabe o que significa isso?

— Significa que agora possuo legalmente, através de testamento, o que antes só possuía por causa da morte de meu irmão — comentou Luís calmamente. — Agora quer vir aqui? Ou terei que ir pegá-la?

— Luís, isso significa que Esteban o privou de algo a que você tinha plenos direitos!

— Mas Esteban está morto — lembrou Luís. — E eu estou vivo e feliz. Como posso culpá-lo agora?

Caroline suspirou, mas quando ele deslizou as mãos pelo seu corpo, seus protestos foram sufocados por uma onda de desejo forte demais para ela resistir.

— E você vai contar para sua mãe? — conseguiu, afinal, perguntar.

— Sim, vou contar. Mas não fará diferença para ela. Minha mãe é feliz onde está, você sabe disso. Bem, como em todas as outras coisas, Esteban saiu perdendo, mais uma vez.

— Você é muito generoso — Caroline disse com voz rouca.

— Eu posso me dar a esse luxo — Luís declarou, tomando posse do que inegavelmente era seu.

 

 

                                                                  Anne Mather

 

 

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