Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CHANGI / James Clavell
CHANGI / James Clavell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

C H A N G I 

 

A época é a Segunda Guerra Mundial e o livro focaliza a vida num campo de concentração japonês, brutal lugar onde não se ouvem os ruídos da guerra e onde se encontram mais de dez mil prisioneiros.

Dentre essa massa fervilhante de gente, um homem — um cabo americano — busca dominar tanto os seus infelizes companheiros quanto os captores. Como armas ele tem coragem física e a compreensão profunda da fraqueza e dos limites da resistência humana, além de sua disposição total para explorar cada oportunidade que se apresente de aumentar o poder de que já dispõe e de corromper ou destruir quem se interponha em seu caminho.

James Clavell, que com poucos livros conquistou extraordinária popularidade em todo o mundo, neste seu romance verdadeiramente apresenta a condição humana sem retoques, deixa a nu as paixões mais cruas e as necessidades mais elementares de sobrevivência do ser humano, mostrando que até mesmo as, diferenças de raízes entre Oriente e Ocidente podem desaparecer frente à força conquistadora de um homem que busca estabelecer seu império pessoal.

Os personagens criados genialmente pelo autor não serão esquecidos tão cedo; eles são capazes das maiores baixezas ou possuem as mais altas virtudes, alguns se sacrificando para poder manter contato pelo rádio com o exterior, enfrentando a proibição dos japoneses, enquanto outros sordidamente roubavam comida dos colegas e passavam informações às autoridades do campo.

 

Houve uma guerra. As prisões de Changi e Utram Road, em Cingapura, existem... ou existiram. Obviamente, o resto desta história é ficção, e não existe, nem se pretende que exista, qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas.

Changi ficava encravada como uma pérola na ponta oriental da Ilha de Cingapura, iridescente sob a cúpula dos céus tropicais. Ficava numa pequena elevação, cercada por um cinturão verde, e mais adiante o verde dava lugar ao mar azul-esverdeado, e o mar à infinidade do horizonte.

Vista de perto, Changi perdia sua beleza e se tornava o que realmente era... uma prisão obscena e aterradora. Blocos de celas cercados por pátios escaldantes, circundados por muros altos.

Dentro dos muros, dentro dos blocos de celas, andar sobre andar, havia celas com capacidade para 2. 000 prisioneiros. Agora, nas celas e nos corredores e em cada buraco e canto disponível, ali viviam cerca de 8. 000 homens. Na sua maioria ingleses e australianos — alguns neozelandeses e canadenses — os remanescentes das forças armadas da campanha no Extremo Oriente.

Esses homens também eram criminosos. O crime deles era imenso. Eles haviam perdido uma guerra. E haviam sobrevivido.

As portas das celas estavam abertas e as portas dos blocos de celas estavam abertas e o portão monstruoso que cortava os muros estava aberto e os homens podiam entrar e sair, quase livremente. Mas ainda assim havia uma sensação de confinamento, um cheiro de claustrofobia.

Do lado de fora do portão havia uma estrada revestida de macadame e alcatrão que margeava os muros. A cerca de 100 metros para o oeste a estrada era atravessada por um emaranhado de portões de arame farpado, e do lado de fora desses portões ficava uma casa da guarda ocupada pela escória armada das hordas conquistadoras. Passada a barreira, a estrada seguia alegremente seu caminho, até perder-se na cidade esparramada de Cingapura. Mas, para os homens, a estrada ao oeste terminava a uns 100 metros do portão principal.

Para o leste, a estrada acompanhava o muro, depois virava para o sul e voltava a acompanhar o muro. De cada lado da estrada ficavam grupos de longos godowns, como eram chamados os barracos toscos. Eram todos iguais... 20 metros de comprimento, com paredes feitas de folhas de coqueiro trançadas, presas grosseiramente aos postes, e telhados feitos também de folhas de

coqueiro, camada sobre camada mofada. Cada ano acrescentava-se, ou devia acrescentar-se, uma nova camada. Pois o Sol, a chuva e os insetos torturavam e destruíam o telhado. Havia aberturas simples para as janelas e portas. Os barracos tinham uns toldos compridos de folhas, para protegê-los do Sol e da chuva, e eram feitos sobre pilotis de concreto para escapar das inundações, das cobras, sapos, lesmas e caracóis, dos escorpiões, centopéias, besouros, percevejos... todo o tipo de coisa rastejante.

Esses barracos eram habitados por oficiais.

No sul e no leste da estrada havia quatro fileiras de bangalôs de concreto, 20 em cada fileira, fundos com fundos. Os oficiais superiores — majores, tenentes-coronéis e coronéis — moravam neles.

A estrada virava para o oeste, novamente margeando o muro, e deparava com outro grupo de barracos de folhas de palmeira. Aqui estavam alojados os homens que já não cabiam na prisão.

E num dos barracos, menor do que a maioria, vivia o contingente americano de 25 soldados.

Onde a estrada virava de novo para o norte, encostada ao muro, ficava parte da horta. O restante — que fornecia o grosso da comida do campo -ficava mais para o norte, do outro lado da estrada, em frente ao portão da prisão. A estrada prosseguia através das hortas menores por cerca de 200 metros, e terminava diante da casa da guarda.

Limitando toda a área, talvez uns 800 por 800 metros, havia uma cerca de arame farpado. Fácil de cortar. Fácil de atravessar. Mal era guardada. Não havia holofotes. Não havia postos de metralhadoras. Mas, uma vez do lado de fora, o que fazer? O lar ficava do outro lado das águas, além do horizonte, além de um mar sem limites ou uma selva hostil. Do lado de fora ficava a desgraça, para os que iam e para os que permaneciam.

A essa altura, em 1945, os japoneses haviam aprendido a deixar o controle do campo nas mãos dos prisioneiros. Os japoneses davam ordens, e os oficiais eram responsáveis por seu cumprimento. Se o campo não incomodava, não era incomodado. Pedir comida era incomodar. Pedir remédios era incomodar. Pedir qualquer coisa era incomodar. O fato de eles estarem vivos era incomodar.

Para os homens, Changi era mais do que uma prisão. Changi era o gênese, o lugar de começar de novo.

 

— Vou pegar aquele filho da mãe nojento nem que tenha de morrer tentando. O Tenente Grey ficou satisfeito por ter finalmente dito em voz alta aquilo que o corroía por dentro. O veneno na voz de Grey fez o Sargento Masters acordar dos seus devaneios. Ele estivera sonhando com uma garrafa de cerveja australiana supergelada e um bife a cavalo e a sua casa em Sydney e a mulher e os seios e o cheiro dela. Nem se deu ao trabalho de acompanhar o olhar do Tenente pela janela aberta. Sabia a quem ele se referia, entre os homens seminus que andavam pela trilha de terra batida que ladeava a cerca de arame farpado. Mas ficou surpreso com a explosão de Grey. Normalmente, o Chefe da Polícia Militar de Changi era calado e inabordável como qualquer inglês.

— Poupe suas forças, Tenente — falou Masters, com voz cansada. — Logo os japoneses darão um jeito nele.

— Fodam-se os japoneses — falou Grey. — Quero pegá-lo. Eu o quero nesta cadeia. E quando tiver terminado com ele... quero-o na Cadeia de Utram Road.

— Utram Road? — indagou Masters, erguendo os olhos, estupefato.

— Isso mesmo.

— Juro que entendo sua vontade de pegá-lo — disse Masters. — Mas, bem, não desejaria isso para pessoa alguma.

— Lá é que é o lugar dele. E é onde vou botá-lo. Porque é um ladrão, um mentiroso, um trapaceiro e um sanguessuga. Um maldito vampiro que se alimenta do resto de nós.

Grey levantou-se e chegou mais perto da janela da choça sufocante da Polícia Militar. Abanou, afastando as moscas que subiam das tábuas do chão, e apertou os olhos contra o brilho refratado do Sol do meio-dia que incidia sobre a terra batida.

— Por Deus — disse — vou vingar-me por todos nós.

Boa sorte, meu chapa, pensou Masters. Se alguém pode pegar o Re», esse alguém é você. Possui a dose certa de ódio. Masters não gostava de oficiais, e não gostava da Polícia Militar. Desprezava Grey em particular, porque Grey viera de soldado, e tentava ocultar dos outros o fato.

Mas Grey não estava só no seu ódio. Changi inteira odiava o Rei. Eles o odiavam por seu corpo musculoso, pelo brilho límpido dos seus olhos azuis. Nesse mundo crepuscular dos semivivos, não havia homens gordos ou bem feitos ou roliços ou macios ou esbeltos ou atarracados. Havia apenas rostos dominados por olhos, encimando corpos que eram só pele sobre nervos sobre ossos. Não havia diferença entre eles, salvo a idade, o rosto e a altura. E nesse mundo todo, apenas o Rei comia feito homem, fumava feito homem, dormia feito homem, sonhava feito homem e tinha cara de homem.

— Você — trovejou Grey. — Cabo! Venha aqui!

O Rei notara a presença de Grey desde que dobrara a esquina da cadeia, não porque pudesse enxergar para dentro da escuridão da choça da Polícia Militar, mas porque sabia que Grey era uma pessoa metódica, e quando se tem um inimigo, é de bom alvitre conhecer seu jeito. O Rei sabia tanto sobre Grey quanto um homem pode saber sobre outro.

Ele saiu da trilha e se dirigiu para a choça isolada, destacada como uma espinha entre as feridas das outras choças.

— Queria falar comigo, senhor? — perguntou o Rei, fazendo continência. O sorriso dele era inexpressivo. Os óculos escuros disfarçavam o desprezo do olhar.

Grey fitava o Rei, do alto de sua janela. As feições retesadas de Grey ocultavam o ódio que era parte dele.

— Aonde vai?

— Vou voltar para minha cabana. Senhor — disse o Rei, pacientemente, enquanto sua cabeça funcionava a todo vapor... houve alguma falha, alguém deu uma de delator, qual era a de Grey?

— Onde arranjou essa camisa?

O Rei comprara a camisa, na véspera, de um Major que a conservara com cuidado durante dois anos, pensando no dia em que teria que vendê-la para comprar comida. O Rei gostava de andar asseado e bem vestido, quando os demais não andavam, e estava satisfeito hoje porque sua camisa era limpa e nova, a calça comprida estava vincada, as meias limpas, os sapatos recém-engraxados e o chapéu sem manchas. Divertia-se ao ver que Grey estava praticamente nu, vestindo apenas calça curta pateticamente remendada e tamancos de madeira, e uma boina da Divisão Blindada, verde e grossa de bolor tropical.

— Eu a comprei — disse o Rei. — Faz muito tempo. Não há lei contra a gente comprar uma coisa... aqui ou em outro lugar. Senhor.

Grey sentiu a impertinência do "Senhor".

— Muito bem, Cabo. Venha até aqui dentro!

— Por quê?

— Só quero bater um papinho — disse Grey, com sarcasmo.

O Rei controlou a raiva, subiu os degraus, passou pela porta e parou perto da mesa.

— E agora? Senhor.

— Esvazie os bolsos.

— Por quê?

— Obedeça. Sabe que tenho o direito de revistá-lo a hora que quiser. — Grey deixou transparecer um pouco do seu desprezo. — Até mesmo o seu oficial em comando concordou.

— Só porque o senhor insistiu.

— E com bons motivos. Esvazie os bolsos.

Com ar cansado, o Rei obedeceu. Afinal de contas, nada tinha a esconder. Lenço, pente, carteira, um maço de cigarros comprados prontos, sua caixa de tabaco cheia de tabaco cru de Java, papéis de cigarro de arroz, fósforos. Grey certificou-se de que todos os bolsos estivessem vazios, depois abriu a carteira. Lá havia 15 dólares americanos e quase 400 dólares japoneses de Cingapura.

— Onde arranjou este dinheiro? — perguntou Grey com brusquidão, com o suor onipresente pingando do corpo.

— Jogando. Senhor.

Grey soltou uma risada sem alegria.

— Tem um bocado de sorte. E vem durando já há quase três anos, não é?

— Já terminou comigo? Senhor.

— Não. Quero ver seu relógio.

— Está na lista...

— Falei que quero ver o seu relógio!

De cara fechada, o Rei tirou do pulso a tira expansível de aço inoxidável e entregou o objeto a Grey.

A despeito do seu ódio pelo Rei, Grey sentiu uma fisgada de inveja. O relógio era automático, à prova d'água e de choque. Um Oyster Royal. O bem mais precioso de Changi... excetuando o ouro. Ele virou o relógio e olhou para os números gravados no aço, depois foi até a parede de folhas de palmeira e tirou de lá a lista de bens do Rei, limpando-a automaticamente das formigas. Em seguida, verificou meticulosamente o número do relógio para ver se coincidia com o número do relógio Oyster Royal da lista.

— Confere — falou o Rei. — Não se preocupe. Senhor.

— Não estou preocupado — retrucou Grey. — É você quem deve ficar preocupado.

Devolveu o relógio, o qual eqüivalia a quase seis meses de comida. O Rei recolocou o relógio no pulso e começou a guardar a carteira e as outras coisas.

— Ah, sim, o seu anel! — disse Grey. — Vamos conferi-lo.

Mas o anel também conferia com a lista. Constava nela como Um anel de ouro, sinete do Clã Gordon. Ao lado da descrição, havia um desenho do selo.

— Como é que um americano possui um anel Gordon? — Grey já fizera essa pergunta muitas vezes.

— Eu o ganhei no pôquer — respondeu o Rei.

— Que memória notável você tem, Cabo — disse Grey, devolvendo o anel. Ele soubera o tempo todo que o anel e o relógio iam conferir com a lista. Usara a revista apenas como pretexto. Sentia-se compelido, quase como por masoquismo, a ficar perto de sua presa, por algum tempo. Sabia, também, que o Rei não se assustava com facilidade. Muitos haviam tentado pegá-lo, e falharam, pois ele era esperto, cauteloso e muito astuto.

— Por quê? — perguntou Grey com aspereza, subitamente fervendo de inveja do relógio, anel, cigarros, fósforos e dinheiro — você tem tanto e o resto de nós nada?

— Não sei. Senhor. Acho que tenho sorte, só isso.

— Onde arranjou esse dinheiro?

— Jogando. Senhor. — O Rei era sempre educado. Sempre dizia "Senhor" para os oficiais, e fazia continência para os oficiais, oficiais ingleses e australianos. Mas sabia que eles tinham ciência da extensão do seu desprezo pelo "Senhor" e pelas continências. Não era o modo americano. Um homem é um homem, independente dos seus antecedentes, ou família, ou posto. Se você o respeita, chama-o de "Senhor". Se não o respeita, então não o chama assim, e são apenas os filhos da puta que reclamam. Para o diabo com eles.

O Rei recolocou o anel no dedo, abotoou os bolsos e tirou um pouco de pó da camisa com as pontas dos dedos.

— É só? Senhor. — Notou o lampejo de raiva nos olhos de Grey.

A seguir, Grey olhou para Masters, que assistia a tudo nervosamente.

— Sargento, quer dar-me um pouco d'água, por favor? Cansadamente, Masters foi pegar o cantil pendurado na parede.

— Pronto, senhor.

— Essa é de ontem — disse Grey, sabendo que não era. — Encha-o com água fresca.

— Eu podia jurar que já o tinha feito — falou Masters. Depois, sacudindo a cabeça, afastou-se.

Grey deixou o silêncio pesar, enquanto o Rei ficava esperando, tranqüilamente. Uma aragem sacudiu os coqueiros que subiam acima da mata do lado de fora da cerca, trazendo a promessa de chuva. Já havia nuvens negras orlando o céu oriental, e logo cobririam todo o céu. Logo elas virariam o pó em lama, e tornariam o ar úmido respirável.

— Quer um cigarro? Senhor — disse o Rei, oferecendo o maço.

A última vez que Grey fumara um cigarro comprado pronto fora há dois

anos, no dia do seu aniversário. Seu 22? aniversário. Fitou o maço e teve vontade de fumar um, de fumar todos.

— Não — falou sombriamente. — Não quero um dos seus cigarros.

— Não se importa que eu fume? Senhor.

— Importo-me, sim!

0 Rei manteve os olhos fitos nos de Grey e calmamente pegou um cigarro. Acendeu-o e deu uma boa tragada.

— Tire isso da boca! — ordenou Grey.

— Claro. Senhor. — O Rei deu uma chupada longa e lenta no cigarro, antes de obedecer. Depois, endureceu. — Não estou sob suas ordens, e não há lei que diga que não posso fumar quando tenho vontade. Sou americano e não estou sujeito a nenhum inglês metido a patriota! Já lhe explicaram isso, não foi? Largue o meu pé! Senhor.

— Agora estou atrás de você, Cabo — explodiu Grey. — Logo vai escorregar, e quando o fizer, estarei à espera e então você irá para lá. — O dedo dele tremia enquanto apontava para a jaula tosca de bambu que fazia as vezes de cela. — Lá é que é o seu lugar.

— Não estou infringindo nenhuma lei...

— Então, onde arranja o dinheiro?

— Jogando. — O Rei acercou-se de Grey. A raiva dele estava controlada, mas ele era mais perigoso do que de costume. — Ninguém me dá nada. O que tenho é meu e eu o ganhei. Como o ganhei só a mim diz respeito.

— Não enquanto eu for o Chefe da Polícia Militar. — Os punhos de Grey se cerraram. — Muitas drogas foram roubadas nesses meses. Talvez você saiba alguma coisa sobre elas.

— Ora,' seu... Ouça — disse o Rei, furioso — nunca roubei nada na minha vida. Nunca vendi drogas na vida, e não se esqueça disso! Porra, se o senhor não fosse oficial, eu...

— Mas eu sou, e gostaria de vê-lo tentar. Por Deus, como gostaria! Você pensa que é tão durão. Bem, eu sei que não é.

— Vou dizer-lhe uma coisa. Quando sairmos dessa merda de Changi, venha procurar-me para ajustarmos as contas...

— Não me esquecerei! — Grey tentou acalmar o coração que disparava. — Mas lembre-se, até lá estarei vigiando e esperando. Nunca ouvi falar de uma maré de sorte que não se acabasse. E a sua vai acabar!

— Ah, não vai, não! Senhor. — Mas o Rei sabia que havia grande dose de verdade naquilo. A sua sorte fora boa. Muito boa. Mas a sorte é dar duro, planejar e algo mais, e não jogar. Pelo menos se não for um jogo calculado. Como hoje e os diamantes. Quatro quilates inteiros. Finalmente sabia como botar as mãos neles. Quando estivesse pronto. E se ele pudesse fazer esse único negócio, seria o último, e não haveria mais necessidade de jogar... não aqui em Changi.

— Sua maré de sorte vai acabar — disse Grey, maldosamente. — Sabe por quê? Porque você é como todos os criminosos. Ambicioso...

— Não sou obrigado a engolir isso do senhor — falou o Rei, sem conseguir controlar a raiva. — Não sou mais criminoso do que...

— Ah, mas é, sim. Infringe a lei o tempo todo.

— Infrinjo uma ova. A lei japonesa pode dizer...

— Para o diabo a lei japonesa. Estou falando da lei do campo. A lei do campo diz: nada de comércio. E é isso o que você faz.

— Prove!

— Acabo provando. Você vai cometer um deslize. E então veremos como vai sobreviver junto com o resto de nós. Na minha jaula. E depois da minha jaula, providenciarei pessoalmente para que seja mandado para Utram Road!

O Rei sentiu um horror gelado no coração e nos testículos.

— Jesus — falou, tensamente. — Você é bem filho da mãe para fazer isso.

— No seu caso — disse Grey, com os lábios espumando — seria um prazer. Os japoneses são seus amigos!

— Ora, seu filho da puta! — O Rei cerrou o punho imenso e avançou para Grey.

— O que está havendo aqui? — perguntou o Coronel Brant, subindo pesadamente os degraus e entrando na choça. Era um homem pequeno, mal passava de l,52m, com a barba enrolada sob o queixo, à moda sikh. Carregava um bastão militar. O quepe de pala dele já não tinha pala, e estava todo remendado com pano de saco. No centro do quepe, o emblema de um regimento brilhava como ouro, após anos de polimento.

— Nada... nada, senhor. — Grey afastou a súbita nuvem de moscas, tentando controlar a respiração. — Estava apenas... revistando o Cabo...

— Ora, vamos, Grey — interrompeu o Coronel Brant, irritado. — Ouvi o que você disse sobre Utram Road e os japoneses. É perfeitamente legal revistá-lo e interrogá-lo, como todos sabem, mas não há motivo para ameaçá-lo ou destratá-lo. — Virou-se para o Rei, a testa perolada de suor. — Quanto a você, Cabo. Agradeça aos céus que eu não o denuncie por indisciplina ao Capitão Brough. Devia ter mais bom senso e não andar vestido desse jeito. Isso basta para deixar qualquer um maluco. Está pedindo encrenca.

— Sim, senhor — disse o Rei, externamente calmo, mas internamente se amaldiçoando por ter perdido a cabeça... exatamente o que Grey estava querendo que ele fizesse.

— Olhe para minhas roupas — dizia o Coronel Brant. — Que diabo, como acha que me sinto?

O Rei não respondeu. Pensava: Problema seu, cara... cuide de si mesmo, estou cuidando de mim. O Coronel usava apenas uma tanga, feita de metade de um sarongue, amarrada na cintura como um saiote escocês, e por baixo do

saiote não havia nada. O Rei era o único homem em Changi que usava cuecas. Tinha seis delas.

— Acha que não tenho inveja dos seus sapatos? —— perguntou o Coronel Brant, com irritação. — Quando só o que tenho para usar são essas drogas? — Estava usando os chinelos regulamentares: um pedaço de madeira e uma tira de lona no peito do pé.

— Não sei, senhor — disse o Rei, com humildade velada, tão cara aos ouvidos dos oficiais.

— Certo. Certo. — O Coronel Brant virou-se para Grey. — Acho que lhe deve uma desculpa. É muito errado ameaçá-lo. Temos que ser justos, hem, Grey? — E tirou mais um pouco de suor do rosto.

Grey fez um esforço enorme para deter o palavrão que lhe tremia na ponta dos lábios.

— Desculpe. — A palavra era baixa e tensa, e o Rei quase não conseguiu conter o sorriso.

— Muito bem. — O Coronel Brant meneou a cabeça, depois olhou para o Rei. — Está certo, pode ir. Mas, vestido desse jeito, está pedindo encrenca! A culpa é só sua!

O Rei fez uma bela continência.

— Obrigado, senhor. — E saiu da choça, e do lado de fora, ao calor do Sol, respirou com tranqüilidade e amaldiçoou-se de novo. Jesus, mas fora por pouco. Quase batera no Grey, o que teria sido o ato de um maníaco. Para acabar de se controlar, parou ao lado da trilha e acendeu outro cigarro, e os muitos homens que passaram por ele viram o cigarro e sentiram seu aroma.

— Maldito sujeito — falou, finalmente, o Coronel, ainda seguindo-o com o olhar, e enxugando a testa. Depois, voltou-se para Grey. — Francamente, Grey, você deve estar maluco, provocando-o daquele jeito.

— Sinto muito. Suponho que ele...

— Seja lá o que ele for, não fica bem a um oficial e um cavalheiro perder a calma. Ruim, muito ruim, não acha?

— Sim, senhor. — Nada mais havia que Grey pudesse dizer. O Coronel Brant resmungou, e depois franziu os lábios.

— Certo. Foi sorte eu estar passando. Não posso permitir um oficial brigando com um simples soldado. — Olhou de novo pela porta, odiando o Rei, desejando seu cigarro. — Maldito — falou, sem voltar os olhos para Grey — indisciplinado. Como o resto dos americanos. Bando de gente ruim. Imagine, chamam os oficiais pelo primeiro nome! — Suas sobrancelhas se ergueram, bem alto. — E os oficiais jogam cartas com os soldados! Que barbaridade! Piores que os australianos... e estes são uma parada. Miseráveis! Não são como o Exército Indiano, hem?

— Não. Senhor — retrucou Grey, friamente. O Coronel Brant virou-se rapidamente.

— Não quis dizer... bem, Grey, só porque... — Parou, e de repente ficou com os olhos rasos d'água. — Por que, por que fizeram aquilo? — falou, desalentado. — Por que, Grey? Eu... nós todos os amávamos.

Grey deu de ombros. Se não fosse pelo pedido de desculpas, estaria com pena.

O Coronel hesitou, depois virou-se e saiu da choça. A cabeça baixa, lágrimas silenciosas correndo por seu rosto.

Quando Cingapura caiu, em 1942, os seus soldados sikhs passaram para o lado do inimigo, os japoneses, até quase o último homem, e viraram-se contra os seus oficiais ingleses. Os sikhs estavam entre os primeiros guardas dos prisioneiros de guerra e alguns deles eram bárbaros. Os oficiais dos sikhs não tinham paz. Pois foram apenas os sikhs que mudaram de lado, quase unanimemente, e mais uns poucos de outros regimentos indianos. Os gurkhas foram leais até o último homem, sob tortura e indignidade. E assim o Coronel Brant chorava por seus homens, os homens por quem teria morrido, os homens por quem ainda morria. Grey ficou olhando-o afastar-se, depois viu o Rei fumando ao lado da trilha.

— Ainda bem que eu disse que agora é você ou eu — murmurou consigo mesmo.

Recostou-se no banco, enquanto uma fisgada de dor percorria seus intestinos, relembrando-o de que a disenteria não passara ao largo dele, naquela semana.

— Que vá tudo para o inferno — resmungou, amaldiçoando o Coronel Brant e o pedido de desculpas.

Masters voltou com o cantil cheio, e passou-o para ele. Tomou um gole, agradeceu, e depois começou a planejar como pegaria o Rei. Mas sentiu a fome da hora do almoço, e deixou o pensamento à deriva.

Um leve gemido cortou o ar. Grey olhou abruptamente para Masters, que estava sentado, inconsciente de ter emitido um som, observando o movimento constante das lagartixas nos caibros do telhado, enquanto perseguiam insetos ou fornicavam.

— Está com disenteria, Masters?

Masters afastou desanimado as moscas que faziam mosaicos no seu rosto.

— Não, senhor. Pelo menos, há umas cinco semanas que não a tenho.

— Entérica?

— Não, graças a Deus. Dou a minha palavra. Só amébica. E há quase três meses que não tenho malária. Tenho muita sorte, e estou em boa forma, levando tudo em consideração.

— É. — comentou Grey. Depois, como se tivesse refletido: — Está parecendo em forma. — Mas sabia que teria que arranjar em breve um substituto. Voltou a olhar para o Rei, vendo-o fumar, e nauseado com o desejo de fumar.

Masters gemeu de novo.

— Mas que diabo, o que há com você? — perguntou Grey, irado.

— Nada, senhor. Nada. Devo ter...

Mas o esforço de falar era demasiado, e Masters deixou as palavras irem sumindo e se misturando com o zumbido das moscas. As moscas dominavam o dia, os mosquitos a noite. Não havia silêncio. Nunca. Como seria viver sem moscas, mosquitos e gente? Masters tentou lembrar-se, mas o esforço era grande demais. E então ele ficava sentado, quieto, imóvel, mal respirando, uma casca de homem. E sua alma se retorcia inquieta.

— Muito bem, Masters, pode ir embora — falou Grey. — Vou esperar o seu substituto. Quem é ele?

Masters forçou o cérebro a trabalhar e, depois de um momento, respondeu:

— Bluey... Bluey White.

— Pelo amor de Deus, controle-se — falou Grey, bruscamente. — O Cabo White morreu faz três semanas.

— Ah, desculpe, senhor — disse Masters, debilmente. — Desculpe. Devo ter... É... hã... acho que é Peterson. O inglês. Da Infantaria, acho.

— Está certo. Agora, pode ir almoçar. Mas não remanche para voltar.

— Sim, senhor.

Masters botou o chapéu de cule de palhinha na cabeça, fez continência e se mandou pela abertura da porta, sem porta, puxando para cirna os trapos da calça. Deus, pensou Grey, dá para sentir o fedor dele a 20 metros de distância. Precisam dar-nos mais sabão.

Porém, sabia que não era só o Masters. Eram todos eles. Se você não se lavava seis vezes por dia, o suor o envolvia como uma mortalha. E pensando em mortalhas, pensou de novo em Masters... e na marca que este tinha. Quem sabe Masters também tinha ciência dela, e daí, para que se lavar?

Grey tinha visto muitos homens morrerem. Ficou cheio de amargura ao pensar no regimento e na guerra. Maldição, quase gritou, 24 anos e ainda Tenente! E a guerra continuando à sua volta... no mundo todo. Promoções em cada dia do ano. Oportunidades. E cá estou nesse campo de prisioneiros de guerra fedorento, e ainda um Tenente. Ó, Cristo! Se não tivéssemos sido desviados para Cingapura em 1942. Se tivéssemos ido para onde devíamos ir... para o Cáucaso. Se...

— Pare! — exclamou em voz alta. — Você está tão ruim quanto o Masters, seu bestalhão!

No campo, era normal conversar consigo mesmo em voz alta, às vezes. Melhor botar para fora, diziam os médicos, do que prender tudo dentro de si... isso conduzia à insanidade. A maioria dos dias não era assim tão ruim. A gente podia parar de pensar na nossa outra vida, na sua essência — comida, mulheres, lar, comida, comida, mulheres, comida. Mas as noites é que eram

perigosas. À noite, a gente sonhava. Sonhava com comida e mulheres. A mulher da gente. E logo se passava a gostar mais de sonhar do que de acordar, e se a gente não tomasse cuidado, sonharia acordado, e os dias se confundiriam com as noites, e a noite com o dia. E então haveria apenas a morte. Suave. Gentil. Era fácil morrer. E uma agonia viver. Exceto para o Rei. Ele não sentia agonia.

Grey ainda o observava, tentando ouvir o que dizia ao homem que se achava ao seu lado, mas estavam longe demais. Grey tentou identificar o outro homem, mas não conseguiu. Pela braçadeira do homem, pôde ver que era um Major. Os. japoneses haviam baixado ordem para que todos os oficiais usassem braçadeiras com as insígnias do posto no braço esquerdo. Em todas as horas. Até mesmo estando nus.

As nuvens negras da chuva aumentavam rapidamente. Raios riscavam o céu do leste, mas ainda assim o Sol brilhava. Uma brisa fétida varreu momentaneamente a poeira, depois deixou que ela se acomodasse.

Automaticamente, Grey usou o mata-moscas de bambu. Uma girada de pulso hábil e semiconsciente e mais outra mosca caiu ao chão, mutilada. Matar uma mosca era um ato de descuido. Se a mutilássemos, então a filha da mãe iria sofrer e pagar, embora apenas parcialmente, o nosso sofrimento. Se a mutilássemos, ela daria gritos mudos até que as formigas e outras moscas viessem lutar por seu corpo ainda vivo.

Mas Grey não sentiu o prazer de sempre em ver o tormento da atormentadora. Estava interessado demais no Rei.

 

— Puxa vida — dizia o Major para o Rei, com jovialidade forçada — e houve aquela vez em que estive em Nova York. Em 1933. Diverti-me à grande. País maravilhoso, os Estados Unidos. Já lhe contei sobre a viagem que fiz a Albany? Era subalterno, na época...

— Sim, senhor — disse o Rei, com enfado. — Já contou. — Achou que já tinha sido educado por tempo suficiente, e ainda podia sentir os olhos de Grey em sua pessoa. Embora estivesse seguro e não tivesse medo, ainda assim queria sair do Sol, para fora do alcance daqueles olhos. Tinha muito o que fazer. E se o Major não dissesse logo o que queria, que fosse para o diabo! -Bem, senhor, se me dá licença. Foi um prazer conversar com o senhor.

— Espere um minuto — falou, depressa, o Major Barry, olhando ao redor nervosamente, cônscio dos olhares curiosos dos homens que passavam, e ciente da pergunta mal formulada deles: "Para que ele está conversando com o Rei?" — Eu... hã... será que podia falar com você em particular?

O Rei avaliou-o, pensativo.

— Estamos em particular, aqui. Se o senhor falar baixo.

0 Major Barry estava cheio de vergonha. Mas há dias que tentava encontrar-se com o Rei. E essa oportunidade era boa demais para desperdiçar.

— Mas a choça do Chefe da Polícia Militar fica...

— E que é que os tiras têm a ver com se falar em particular? Não estou entendendo, senhor. — O Rei estava inexpressivo.

— Não há necessidade de... hã, bem, o Coronel Sellars disse que você me podia ajudar. — O Major Barry tinha apenas o coto do braço direito, e ficava coçando o coto, tocando-o, alisando-o. — Quer... cuidar de uma coisa para nós, quero dizer, para mim? — Esperou até que ninguém pudesse ouvir.

— É um isqueiro — sussurrou. — Um isqueiro Ronson. Em perfeito estado.

— Agora que fora ao âmago da questão, o Major se sentia mais tranqüilo. Mas ao mesmo tempo, sentia-se nu, dizendo tais palavras para o americano, à luz do Sol, no caminho público.

O Rei pensou por um momento.

— Quem é o dono?

— Sou eu. — O Major ergueu os olhos, espantado. — Meu Deus, não está pensando que o roubei, está? Santo Deus, jamais faria isso. Guardei-o durante todo esse tempo, mas agora, bem, agora temos que vendê-lo. Toda a unidade concordou. — Ele lambeu os lábios secos e acariciou o coto. — Por favor. Você o faria? Pode conseguir o melhor preço.

— Comerciar é contra a lei.

— Sim, mas por favor, será que... por favor? Pode confiar em mim.

O Rei virou-se de modo a ficar de costas para Grey e de cara para a cerca... para a eventualidade de Grey saber leitura labial.

— Vou mandar alguém depois do rancho — disse, em voz baixa. — A senha é: "O Tenente Albany me mandou procurá-lo." Entendeu?

— Sim. — O Major Barry hesitou, com o coração disparando. — Quando foi que disse?

— Depois do rancho. Almoço!

— Ah, certo.

— Basta dá-lo a ele. E depois de examiná-lo, entrarei em contato com o senhor. A mesma senha. — O Rei sacudiu fora a ponta ardente do cigarro, e jogou a guimba no chão. Já ia pisar nela, quando viu a cara do Major. — Ah! Quer a guimba?

O Major Barry abaixou-se, todo feliz, e apanhou-a do chão.

— Obrigado. Muito obrigado. — Abriu sua latinha de tabaco e tirou com cuidado o papel que envolvia a guimba, e colocou os dois centímetros de tabaco junto com as folhas secas de chá, e misturou tudo. — Nada como um pouco de adoçante — disse, sorrindo. — Muito obrigado. Isso dará pelo menos três bons cigarros.

— Até mais ver, senhor — disse o Rei, batendo continência.

— Oh, bem... — O Major Barry não sabia direito como se expressar. — Não acha — disse nervosamente, falando baixo — que, bem... dá-lo a um estranho, sem mais nem menos, como vou saber que... bem, que tudo vai dar certo?

— A senha, para começo de conversa — disse o Rei, friamente. — E há mais, tenho a minha reputação. Além disso, estou confiando em sua palavra de que não é roubado. Quem sabe é melhor esquecermos tudo.

— Ah, não, por favor não me entenda mal — disse, rapidamente, o Major.

— Estava só perguntando. É que, bem, é só isso que me resta. — Tentou sorrir.

— Obrigado. Depois do almoço. Ah, quanto tempo você. acha que vai levar para, hã, livrar-se dele?

— O mais depressa que puder. Os termos de costume. Eu levo dez por cento do preço de venda — disse o Rei, vivamente.

— Claro. Obrigado, e obrigado mais uma vez pelo tabaco. — Agora que tudo fora dito, o Major Barry sentiu sair um enorme peso de cima de si. Com sorte, pensou, enquanto descia rapidamente o morro, arranjaremos uns 600 ou 700 dólares. O bastante para comprar comida durante meses, com cuidado. Não pensou uma única vez no homem que fora o dono do isqueiro, e que o entregara para ele guardar quando fora para o hospital, há meses, para nunca mais voltar. Isso pertencia ao passado. Hoje, ele era o dono do isqueiro. Era dele. Para vender, se quisesse.

O Rei sabia que Grey o observara o tempo todo. A emoção de ter feito um negócio na frente da choça da PM aumentava o seu bem-estar. Satisfeito consigo mesmo, subiu a ligeira elevação, respondendo automaticamente aos cumprimentos dos homens... oficiais e soldados, ingleses e australianos... que conhecia. Os importantes recebiam tratamento especial, os outros um aceno de cabeça amistoso. O Rei tinha consciência da inveja maldosa deles, mas ela não o incomodava nem um pouquinho. Estava acostumado; aquilo o divertia e aumentava seu valor. E agradava-lhe ser chamado de o Rei pelos homens. Tinha orgulho do que havia feito como homem... como americano. Criara um mundo pela astúcia. Examinava o seu mundo, agora, e estava bem satisfeito.

Parou diante da Choça 24, uma das australianas, e enfiou a cabeça pela janela.

— Ei, Tinker — chamou. — Quero fazer a barba e as unhas.

Tinker Bell era pequeno e magro. Tinha a pele morena, os olhos pequenos e muito castanhos e o nariz descascado. Era tosquiador de ovelhas, mas em Changi era o melhor barbeiro.

— Qual é, será que é o seu aniversário? Já fiz suas unhas anteontem.

— E daí, faça hoje de novo.

Tinker deu de ombros e pulou pela janela. O Rei sentou-se na cadeira que ficava protegida pelo toldo de folhas do telhado, relaxando, satisfeito, enquanto Tinker amarrava o pano no seu pescoço e punha-o na posição certa.

— Olhe só para isso, meu chapa — falou, e segurou um pequeno sabonete sob o nariz do Rei. — Sinta o cheiro.

— Ei — disse o Rei, abrindo um sorriso. — Esse é genuíno.

— Isso eu não sei, meu chapa! Mas é sabonete de violetas da Yardley. Um cupincha meu afanou-o num grupo de trabalho. Bem debaixo do nariz de um maldito japonês. Custou-me trinta dólares — falou, piscando o olho e dobrando o preço. — Posso guardá-lo especialmente para você, se quiser.

— Escute só: pago cinco dólares por vez, ao invés de três, enquanto ele durar — disse o Rei.

Tinker fez as contas, rapidamente. O sabonete ia durar umas oito barbas, talvez dez.

— Tenha dó, meu chapa. Assim, mal recupero meu dinheiro.

— Você foi tapeado, Tink — resmungou o Rei. — Posso comprar isso, no atacado, por quinze dólares o sabonete.

— Puta que o pariu! — exclamou Tinker, fingindo raiva. — Um cupincha meu me fazendo de otário! Isso não é direito! — Furiosamente, misturou água quente e o sabonete perfumado até fazer espuma. Depois, deu uma risada. — Você é mesmo o Rei, meu chapa.

— É — retrucou o Rei, satisfeito. Ele e Tinker eram velhos amigos.

— Pronto, meu chapa? — Tinker perguntou, segurando o pincel cheio de espuma.

— Claro. — E então o Rei viu Tex descendo a trilha. — Espere um minuto. — Ei, Tex! — chamou.

Tex olhou para aquele lado e viu o Rei e veio para junto dele.

— Sim? — Tex era um jovem desajeitado, de orelhas grandes, nariz curvo e olhos satisfeitos, e era alto, muito alto.

Sem que lhe pedissem, Tinker afastou-se, enquanto o Rei dizia a Tex para que se aproximasse.

— Quer fazer uma coisa para mim? — perguntou, suavemente.

— Claro.

O Rei pegou a carteira e tirou de lá uma nota de 10 dólares.

— Vá procurar o Coronel Brant. O baixinho com a barba enrolada sob o queixo. Entregue-lhe isso.

— Sabe onde ele deve estar?

— Junto do canto da cadeia. É o dia dele ficar de olho no Grey. Tex abriu um sorriso.

— Ouvi contar que vocês se desentenderam.

— O filho da mãe me revistou de novo.

— Que saco — disse Tex secamente, coçando a cabeleira curta.

— É. — O Rei achou graça. — E diga ao Brant para não chegar tão atrasado, na próxima vez. Mas você devia ter estado lá, Tex. Cara, aquele Brant é um grande ator. Até fez o Grey pedir desculpas. — Deu um amplo sorriso, e

acrescentou mais cinco dólares. — Diga a ele que isso é pelo pedido de desculpas.

— O.K. Só isso?

— Não. — Disse-lhe a senha e onde encontrar o Major Barry, depois Tex seguiu seu caminho, e o Rei se refestelou. No todo, o dia fora muito lucrativo.

Grey atravessou rapidamente a trilha de chão batido e subiu os degraus da Choça 16. Era quase na hora do almoço, e ele estava morto de fome.

Os homens já estavam formando uma fila, impacientes para receber a comida. Rapidamente, Grey foi até sua cama, pegou as duas latas de rancho, a caneca, a colher e o garfo e entrou na fila.

— Por que ela ainda não chegou? — perguntou, cansadamente, ao homem que estava na sua frente.

— E eu lá sei? — retrucou Dave Daven, secamente. O sotaque dele era de um colégio exclusivo — Eton, Harrow ou Charterhouse — e era alto como bambu.

— Só estava perguntando — disse Grey, irritado, desprezando Daven por seu sotaque e berço.

Depois de esperarem durante uma hora, a comida chegou. Um homem levou dois recipientes até o começo da fila, e os pousou no chão. Os recipientes antigamente continham cinco galões de gasolina de alta octanagem. Agora, um deles estava cheio até a metade de arroz seco, translúcido. O outro estava cheio de sopa.

A sopa de hoje era de tubarão... pelo menos, um tubarão fora dividido, grama por grama, em sopa para 10.000 homens. Estava morna e tinha um leve gosto de peixe, e nela havia pedaços de berinjela e repolho, 45 quilos para 10.000. O grosso da sopa era feito de folhas, vermelhas e verdes, amargas mas nutritivas, plantadas com tanto carinho e cuidado nas hortas do campo. Era temperada com sal e pó de carril e pimenta-malagueta.

Em silêncio, cada homem se adiantava na sua vez, observando servirem o homem à sua frente e o homem às suas costas, comparando as porções deles com a que recebia. Mas agora, depois de três anos, as porções eram todas iguais.

Uma xícara de sopa por cabeça.

O arroz fumegava ao ser servido. Hoje serviam arroz de Java, bem solto, o melhor do mundo. Uma xícara por cabeça.

Uma caneca de chá.

Cada homem se afastava com sua ração, e comia silenciosa e rapidamente, numa agonia exótica. Os gorgulhos do arroz eram um alimento adicional, e o inseto ou o verme da sopa eram retirados sem raiva, caso fossem vistos. Mas a maioria dos homens nem prestava atenção na sopa, após o primeiro rápido olhar, para ver se havia nela um pedaço de peixe.

Naquele dia, sobrou um pouco depois de todos terem sido servidos, e verificou-se a lista, e os três homens que a encabeçavam receberam a sobra e agradeceram pelo dia. E então a comida acabou e o almoço acabou, e o jantar era ao pôr-do-sol.

Mas embora houvesse apenas sopa e arroz, aqui e ali no campo de concentração um homem podia ter um pedaço de coco, ou meia banana, ou um pedaço de sardinha, ou um filete de carne salgada ou até mesmo um ovo para misturar ao arroz. Um ovo inteiro era coisa rara. Uma vez por semana, se as galinhas do campo botassem ovo conforme o planejado, cada homem recebia um ovo. Era um grande dia. Alguns homens recebiam um ovo por dia, mas ninguém queria ser um dos poucos contemplados.

— Ei, escutem aqui, homens! — O Capitão Spence estava no centro da choça, mas sua voz podia ser ouvida do lado de fora. Ele era o oficial da semana, o ajudante da choça, um homem pequeno e moreno com feições retorcidas. Esperou até que todos tivessem vindo para dentro.

— Temos que fornecer mais dez caras para o destacamento do bosque, amanhã. — Verificou sua lista, chamou os nomes, depois ergueu os olhos.

— Marlowe? — Não houve resposta. — Alguém sabe onde anda o Marlowe?

— Acho que está com a unidade dele — respondeu Ewart.

— Diga-lhe que está destacado para o grupo de trabalho na pista de pouso, amanhã, está bem?

— Certo.

Spence começou a tossir. A asma dele estava bem ruinzinha, hoje, e depois que os espasmos passaram, continuou:

— O Comandante do Campo teve outra entrevista com o General japonês, hoje de manhã. Pediu rações maiores e suprimentos médicos. — Pigarreou um pouco, no silêncio momentâneo. Depois continuou, com voz inexpressiva. — Recebeu o fora de costume. A ração de arroz permanece cento e vinte e cinco gramas por homem, diariamente. — Spence olhou para as portas, verificando que os dois vigias estavam em posição. Depois, baixou a voz, e todos os homens escutaram com atenção. — Os Aliados estão a uns cem quilômetros de Mandalay, e ainda prosseguindo firme. Estão botando os japoneses para correr. Os Aliados ainda estão lutando na Bélgica, mas o tempo está péssimo. Tempestades de neve. No front oriental, a mesma coisa, mas os russos estão mandando brasa, e esperam tomar Krakov nos próximos dias. Os ianques estão se saindo bem em Manila. Estão perto de... — hesitou, tentando recordar o nome — acho que é do Rio Agno, em Luzon. É só. Mas é bom.

Spence estava contente por esta parte ter acabado. Decorava as notícias diariamente na reunião dos ajudantes das choças, e cada vez que se levantava para repeti-las em público, suava gelado e sentia um vazio no estômago. Um dia desses um delator poderia dedurá-lo e dizer ao inimigo que ele era um dos homens que davam as notícias, e Spence sabia que não era forte o bastante para ficar calado. Ou então, um dia desses um japonês poderia ouvi-lo contando para os outros, e então, então...

— É só isso, pessoal. — Spence foi até o seu catre, nauseado até a alma. Tirou a calça e saiu da choça com uma toalha jogada sobre o braço.

O Sol estava muito forte. Duas horas ainda, até a chegada da chuva. Spence atravessou a rua asfaltada e entrou na fila para tomar uma chuveirada. Ele sempre tinha que tomar uma chuveirada depois das notícias, para tirar o fedor acre de suor do corpo.

— Que tal, meu chapa? — perguntou Tinker.

O Rei olhou para as unhas. Estavam bem manicuradas. Sentia o rosto esticado pelas toalhas quentes e frias, e cheiroso de loção.

— Formidável — disse, enquanto pagava. — Obrigado, Tink. — Saiu da cadeira, botou o chapéu e fez um sinal de cabeça para Tinker e para o Coronel que esperava, pacientemente, sua vez de cortar o cabelo.

Os dois homens ficaram olhando para sua figura que se afastava.

O Rei percorreu a trilha de novo, andar animado, passando pelas cabanas agrupadas, indo para casa. Estava com uma sensação agradável de fome.

A choça americana ficava separada das demais, perto o bastante dos muros para partilhar da sombra da tarde, perto o bastante da trilha circundante que era o fluxo vital do campo, e perto o bastante da cerca. Era perfeito. O Capitão Brough, da Força Aérea Americana, o oficial americano mais antigo, insistira que os soldados americanos tivessem sua própria choça. A maioria dos oficiais americanos teria preferido mudar-se para lá, também — era difícil para eles viverem entre estrangeiros — mas isso não era permitido, pois os japoneses haviam ordenado que os oficiais fossem separados dos soldados. As outras nacionalidades achavam duro engolir isso, os australianos menos do que os ingleses.

O Rei pensava no diamante. Não seria fácil fazer esse negócio, mas ele tinha que fazê-lo. E então, enquanto se acercava da choça, reparou num jovem agachado ao lado da trilha, falando rapidamente em malaio com um nativo. A pele do homem estava bem queimada, e os músculos apareciam sob a pele. Ombros largos. Quadris estreitos. O homem usava apenas um sarongue, que ficava muito bem nele. Seu rosto era irregular, e embora tivesse a magreza típica de Changi, seus movimentos eram graciosos, e ele tinha vida.

O malaio — moreno-escuro, minúsculo — escutava atentamente o que o outro dizia; depois riu, deixando à mostra dentes estragados pela noz-de-areça, e respondeu, acentuando o idioma melodioso com um gesto da mão. O homem riu também, e interrompeu-o com um jorro de palavras, indiferente ao olhar fixo do Rei.

O Rei pôde apenas pegar uma palavra aqui e ali, pois seu malaio era muito ruim, e tinha que se safar com uma mistura de malaio, japonês e um jargão formado por palavras inglesas e chinesas. Escutou a risada gostosa, sabendo que era uma coisa rara. Quando esse homem ria, via-se que o riso vinha de dentro dele. Isso era uma coisa rara, sem preço.

Pensativo, o Rei entrou na cabana. Os outros homens ergueram os olhos e cumprimentaram-no amavelmente. Retribuiu os cumprimentos, sem favoritismos. Mas ele sabia, e eles sabiam.

Dino estava deitado em seu catre, semi-adormecido. Era um homenzinho bem-feito, de pele escura e cabelos escuros, prematuramente salpicados de fios grisalhos, e olhos suaves e velados. O Rei sentiu os olhos sobre si, e meneou a cabeça e viu o sorriso de Dino. Mas os olhos não estavam sorrindo.

Nos fundos da cabana, Kurt levantou os olhos da calça que tentava remendar, e cuspiu no chão. Era um homem atrofiado, com cara de mau, de dentes castanho-amarelados; parecia um rato e sempre cuspia no chão e ninguém gostava dele, pois nunca tomava banho. Perto do centro da cabana, Byron Jones III e Miller jogavam sua interminável partida de xadrez. Ambos estavam nus. Quando o navio mercante de Miller fora torpedeado, há dois anos, ele pesava 130 quilos. Media dois metros de altura. Agora, estava pesando 60 quilos, e as dobras da pele da barriga pendiam sobre seu sexo. Os olhos azuis iluminaram-se quando estendeu a mão e tomou um cavalo. Byron Jones III removeu rapidamente o' cavalo, e agora Miller viu que sua torre estava ameaçada.

— Entrou pelo cano, Miller — disse Jones, coçando as feridas das pernas.

— Vá pro diabo!

— A Marinha de Guerra sempre pôde vencer a Marinha Mercante em qualquer campo — disse Jones, rindo.

— Assim mesmo, seus filhos da mãe, vocês ainda afundaram. Num navio de guerra!

— É — retrucou Jones, pensativo, brincando com o tapa-olho recordando a morte do seu navio, o Houston, a morte dos companheiros e a perda do olho.

O Rei atravessou toda a extensão da choça. Max ainda estava sentado ao lado de sua cama e da grande caixa negra acorrentada à cama.

— O.K., Max — disse o Rei. — Obrigado. Pode largar, agora.

— Claro. — Max tinha um rosto muito gasto. Provinha do West Side de Nova York, e aprendera bem jovem as lições da vida naquelas ruas. Tinha os olhos castanhos e irrequietos.

Automaticamente, o Rei pegou a caixa de tabaco e deu a Max um pouco do seu fumo cru.

— Puxa, obrigado — falou Max. — Ah, sim, Lee mandou que eu lhe dissesse que já lavou sua roupa. Ele vai pegar a comida, hoje... estamos no segundo turno... mas mandou que lhe dissesse.

— Obrigado. — O Rei pegou seu maço de Kooas, e um silêncio momentâneo caiu sobre a choça. Antes que o Rei pudesse pegar os fósforos, Max já estava acendendo seu isqueiro nativo de pederneira. — Obrigado, Max. — O Rei deu uma tragada profunda. Depois de uma pausa, perguntou: — Quer um Kooa?

— Jesus, claro, obrigado — retrucou Max, sem ligar para a ironia na voz do Rei. — Quer mais alguma coisa?

— Chamo se precisar.

Max atravessou a choça e foi sentar-se na sua cama, ao lado da porta. Olhos viram o cigarro, mas as bocas nada disseram. Era do Max, que fizera jus a ele. Quando fosse o dia deles tomarem conta dos pertences do Rei, então quem sabe também ganhariam um.

Dino sorriu para Max, que piscou o olho. Eles rachariam o cigarro, depois do rancho. Sempre rachavam o que podiam encontrar, ou roubar, ou ganhar. Max e Dino eram uma unidade.

E era a mesma coisa em todo o mundo de Changi. Os homens comiam e confiavam em grupos de dois, três, raramente quatro. Um homem não podia cobrir terreno suficiente, ou encontrar algo de comer e acender uma fogueira e cozinhá-lo e comê-lo... não um homem sozinho. Três era a unidade perfeita. Um para pilhar, um para tomar conta do que fora pilhado, e um de reserva. Quando o reserva não estava doente, também ele pilhava ou tomava conta. Tudo era rachado em três partes: se você ganhava um ovo, ou roubava um coco, ou encontrava uma banana num grupo de trabalho, ou arranjava qualquer coisa, tudo ia para a unidade. A lei, como toda a lei natural, era simples. Só se sobrevivia graças ao esforço mútuo. Esconder algo da unidade, era faltai, pois, se você fosse expulso de uma unidade, logo todo o mundo ficava sabendo. E era impossível sobreviver sozinho.

Mas o Rei não tinha uma unidade. Ele se bastava.

A sua cama ficava no melhor canto da cabana, sob uma janela, colocada no ângulo certo para pegar a brisa mais ligeira. A cama mais próxima ficava a dois metros e meio de distância. A cama do Rei era boa. De aço. As molas eram firmes e o colchão cheio de paina. A cama tinha duas cobertas, e a pureza dos lençóis aparecia por baixo da coberta de cima, perto do travesseiro imaculado. Acima da cama, bem esticado em estacas, havia um mosquiteiro. Impecável.

O Rei também tinha uma mesa e duas poltronas, e um tapete de cada lado da cama. Numa prateleira, atrás da cama, ficava seu equipamento de barbear... navalha, pincel, sabão, lâminas — e ao lado dele, seus pratos e xícaras e fogareiro elétrico feito em casa e utensílios de cozinhar e comer. Na parede de canto estavam penduradas suas roupas, quatro camisas e quatro calças compridas e quatro calças curtas. Havia seis pares de meias e seis cuecas numa prateleira. Sob a cama ficavam dois pares de sapatos, chinelos de banho e um par de lustrosos tamancos indianos.

O Rei sentou-se numa das poltronas e certificou-se de que tudo ainda estivesse no lugar. Notou que o fio de cabelo que colocara delicadamente sobre a navalha não mais se achava lá. Filhos da mãe duma figa, pensou, por que devo arriscar-me a pegar as mazelas deles. Mas ficou calado, tomando nota mentalmente para trancá-la, no futuro.

— Oi — falou Tex. — Está ocupado?

"Ocupado" era outra senha. Queria dizer: "Está pronto para receber a encomenda?"

O Rei sorriu e fez que sim, e Tex passou-lhe com cuidado o isqueiro Ronson.

— Obrigado — disse o Rei. — Quer a minha sopa, hoje?

— Se quero — disse Tex, afastando-se.

O Rei examinou calmamente o isqueiro. Como o Major dissera, era quase novo. Não estava arranhado. Funcionava sem falhar. E estava muito limpo. Desatarrachou o parafuso da pederneira e examinou-a. Era uma pederneira nativa barata, e estava quase no fim; então ele abriu a caixa de charutos da prateleira e pegou o recipiente de pederneiras Ronson, e colocou uma pederneira nova no isqueiro. Apertou a alavanca, e ele funcionou. Um ajuste cuidadoso do pavio, e ficou satisfeito. O isqueiro não era fajuto, e renderia de 800 a 900 dólares, na certa.

De onde estava sentado, podia ver o rapaz e o malaio. Ainda estavam no maior blá-blá-blá.

— Max — chamou, suavemente.

Max atravessou rapidamente a cabana.

— Sim?

— Está vendo aquele cara? — falou o Rei, indicando os dois do lado de fora da janela.

— Qual? O nativo?

— Não, o outro. Vá buscá-lo para mim, está bem? Max saltou pela janela e cruzou a trilha.

— Ei, cara — falou abruptamente para o rapaz. — O Rei quer vê-lo. — E indicou a choça com o polegar. — E depressinha.

O homem ficou olhando abobado para Max, depois acompanhou a direção do polegar e viu a choça americana.

— Eu? — perguntou incrédulo, olhando de novo para Max.

— É, você — disse Max, impaciente.

— Para quê?

— E como vou saber, ora!

O homem olhou para Max, endurecendo a fisionomia. Pensou por um momento, depois virou-se para Suliman, o malaio.

— Nantilah — disse.

— Bik, tuan — retrucou Suliman, preparando-se para esperar. A seguir, acrescentou, em malaio: — Cuidai-vos, tuan. E ide com Deus.

— Não temais, meu amigo... mas agradeço a vossa preocupação — respondeu o homem, sorrindo. Levantou-se e acompanhou Max para dentro da choça.

— Queria ver-me? — indagou, acercando-se do Rei.

— Oi — disse o Rei, sorridente. Notou que os olhos do homem eram reservados. Aquilo o deixou satisfeito, pois era coisa rara. — Sente-se. — Fez um gesto de cabeça para Max, que foi embora. Sem que fosse preciso pedir, os outros homens que estavam por perto afastaram-se, para que o Rei pudesse falar em particular. — Vamos, sente-se — disse o Rei, cordialmente.

— Obrigado.

— Quer um cigarro?

Os olhos do homem se arregalaram ao ver o Kooa que lhe era oferecido. Hesitou, depois pegou-o. Seu espanto aumentou quando o Rei fez funcionar o Ronson, mas tentou ocultá-lo, e tragou com gosto o cigarro.

— Bom, muito bom — falou, saboreando. — Obrigado.

— Como se chama?

— Marlowe. Peter Marlowe. — Depois, acrescentou, ironicamente: — E você?

O Rei achou graça. Ótimo, pensou, o sujeito tem senso de humor, e não é nenhum puxa-saco. Arquivou a informação, depois perguntou:

— É inglês?

— Sou.

O Rei nunca notara Peter Marlowe antes, mas isso não era incomum, quando havia 10.000 rostos tão parecidos. Examinou Peter Marlowe silenciosamente, e os olhos azuis tranqüilos devolveram o exame.

— Os Kooas são os melhores cigarros por aqui — disse o Rei, finalmente. — Claro que não se comparam com os Camels. Cigarros americanos, os melhores do mundo. Já provou?

— Já — disse Peter Marlowe — mas são um pouco secos, para o meu gosto. A minha marca é Gold Flake. — A seguir, acrescentou educadamente. — Questão de gosto, suponho.

Fez-se novo silêncio, e ele aguardou que o Rei fosse direto ao assunto. Enquanto esperava, concluiu que simpatizava com o Rei, a despeito da sua reputação, e essa simpatia devia-se ao humor que rebrilhava nos seus olhos.

— Você fala malaio muito bem — disse o Rei, fazendo um sinal de cabeça para o malaio, que esperava pacientemente.

— É, acho que não falo mal.

O Rei abafou uma praga pela modéstia forçada inevitável dos ingleses.

— Aprendeu aqui? — perguntou, pacientemente.

— Não. Em Java. — Peter Marlowe hesitou e olhou ao seu redor. — Você tem uma bela moradia.

— Gosto de conforto. Que tal essa poltrona?

— Boa — replicou, demonstrando uma ponta de surpresa.

— Custou-me oitenta dólares — disse o Rei, com orgulho. — Há um ano. Peter Marlowe olhou vivamente para o Rei, para ver se aquilo era uma

brincadeira, dizer-lhe o preço sem mais nem menos, mas viu apenas felicidade e orgulho evidentes. Que extraordinário, pensou, dizer uma coisa dessas a um estranho.

— É muito confortável — replicou, disfarçando o embaraço.

— Vou preparar minha bóia. Quer fazer-me companhia?

— Acabei de... almoçar — respondeu Peter Marlowe, cautelosamente.

— Provavelmente ainda tem lugar para mais comida. Quer um ovo? Agora, Peter Marlowe não podia mais esconder seu assombro, e arregalou os olhos. O Rei sorriu e achou que valia a pena tê-lo convidado para comer, só para ter uma reação daquelas. Ajoelhou-se ao lado da sua caixa preta, e destrancou-a com cuidado.

Peter Marlowe fitou o que ela continha, aparvalhado. Meia dúzia de ovos, sacos de grão de café. Vidros de gula malacca, o delicioso açúcar puxa-puxa do Oriente. Bananas. Pelo menos meio quilo de tabaco javanês. Dez ou 11 maços de Kooas. Um vidro cheio de arroz. Outro com um tipo de feijão nativo, katchang idju. Óleo. Muitas guloseimas enroladas em folhas de bananeira. Há anos que não via tantos tesouros em tais quantidades.

O Rei apanhou o óleo e dois ovos, e trancou de novo a caixa. Quando voltou a olhar para Peter Marlowe, viu que os olhos estavam novamente reservados, a fisionomia composta.

— Como quer seu ovo? Frito?

— Bem, parece-me um tanto injusto aceitar. — Peter Marlowe tinha dificuldade em falar. — Quero dizer, não se anda por aí oferecendo ovos, sem quê nem por quê.

O Rei sorriu. Era um sorriso gostoso e fez bem a Peter Marlowe.

— Nem pense nisso. Ponha na conta "das mãos estendidas sobre o mar"... empréstimos e arrendamentos.

Uma ponta de irritação apareceu no rosto do inglês, e seu queixo endureceu.

— O que foi? — perguntou o Rei, abruptamente. Depois de uma pausa, Peter Marlowe respondeu:

— Nada. — Olhou para o ovo. A sua vez de comer ovo seria daí a seis dias. — Se tem certeza que não estou abusando, gostaria dele frito.

— Já vai sair — disse o Rei. Sabia que tinha cometido algum erro, pois a irritação era real. Os estrangeiros são esquisitos, pensou. Nunca se sabe como vão reagir. Botou o fogareiro elétrico em cima da mesa e ligou-o na tomada. — Legal, não é?

— É.

— Foi o Max quem o preparou para mim — disse, fazendo um sinal para a outra extremidade da cabana.

Peter Marlowe acompanhou seu olhar.

Max ergueu os olhos, sentindo o peso dos olhares.

— Quer alguma coisa?

— Não — disse o Rei. — Só estou contando a ele como você ajeitou a fiação da chapa quente.

— Ah! Está funcionando direitinho?

— Claro.

Peter Marlowe levantou-se e debruçou-se na janela, chamando em malaio:

— Rogo-vos que não espereis. Ver-vos-ei novamente amanhã, Suliman.

— Muito bem, tuan, a paz esteja convosco.

— E convosco também. — Peter Marlowe sorriu e sentou-se novamente, e Suliman se afastou.

O Rei quebrou os ovos com cuidado e jogou-os no óleo quente. A gema era amarelo-ouro, e a massa gelatinosa à sua volta chiou e crepitou contra o calor e começou a endurecer, e de repente o frigir encheu a choça. Encheu as mentes e os corações e fez as bocas ficarem cheias d'água. Mas ninguém disse ou fez nada. Exceto Tex. Ele se forçou a levantar e sair da choça.

Muitos homens que cruzavam a trilha sentiram a fragrância e detestaram o Rei com novo vigor. O aroma desceu a ladeira e invadiu a choça da PM. Grey e Masters souberam logo de onde vinha.

Grey levantou-se, nauseado, e foi até a porta. Ia dar uma volta pelo campo, para fugir do aroma. Depois, mudou de idéia, e voltou.

— Vamos, Sargento — chamou. — Vamos fazer uma visitinha à choça americana. É uma boa hora de verificarmos a história de Sellars!

— Está bem — disse Masters, quase derrubado pelo cheiro. — O filho da mãe nojento bem que podia cozinhar antes do almoço... não logo depois... não quando ainda faltam cinco horas para o jantar.

— Os americanos hoje estão no segundo turno. Ainda não comeram.

Dentro da choça americana, os homens iam-se recompondo. Dino tentou dormir de novo, e Kurt continuou a costurar, e o jogo de pôquer prosseguiu, e Miller e Byron Jones III recomeçaram sua interminável partida de xadrez. Mas o frigir destruiu o drama de uma seqüência, e Kurt espetou o dedo e praguejou obscenamente, Dino perdeu a vontade de dormir e Byron Jones III olhou apalermado enquanto Miller tomava sua rainha com um mísero peão.

— Puta merda! — exclamou Byron Jones III, engasgado, para ninguém em especial. — Queria que chovesse.

Ninguém respondeu. Pois ninguém ouvia outra coisa senão o crepitar e o chiar.

O Rei também estava concentrado na frigideira. Orgulhava-se de que ninguém sabia preparar um ovo melhor do que ele. Para ele, um ovo frito tinha que ser preparado com olho de artista, e rapidamente... embora não depressa demais.

O Rei levantou os olhos e sorriu para Peter Marlowe, mas os olhos deste encontravam-se grudados nos ovos.

— Cristo — disse baixinho, mas era uma bênção, não um desrespeito. — Que cheiro bom.

O Rei ficou satisfeito.

— Espere até eu terminar. Vai ver o ovo mais fabuloso que jamais viu. — Polvilhou os ovos delicadamente com pimenta, depois acrescentou sal. — Gosta de cozinhar?

— Gosto — respondeu Peter Marlowe. A voz dele não se parecia com a sua voz verdadeira, aos próprios ouvidos. — Sou eu que preparo a maior parte da comida para minha unidade.

— Como gosta que o chamem? Pete? Peter?

Peter Marlowe disfarçou a surpresa. Apenas amigos antigos e de confiança chamavam a gente pelo primeiro nome... que outro modo de diferençar os amigos dos conhecidos? Olhou para o Rei e viu apenas afabilidade, e então, sem pensar, respondeu:

— Peter.

— De onde vem? Onde fica sua casa?

Perguntas e mais perguntas, pensou Peter Marlowe. Agora, vai querer saber se sou casado, ou quanto tenho no banco. A curiosidade levara-o a atender o chamado do Rei, e quase se amaldiçoou por ter sido tão curioso. Mas a glória dos ovos frigindo apazigüou-o.

— Portchester — respondeu. — Uma aldeiazinha na costa sul. Em Hampshire.

— É casado, Peter?

— Você é?

— Não. — O Rei teria continuado, se os ovos não tivessem ficado prontos. Tirou a frigideira do fogareiro e fez um sinal para Peter Marlowe. — Os pratos ficam atrás de você — falou. Depois, acrescentou, bem orgulhoso: -Olhe só!

Eram os melhores ovos fritos que Peter Marlowe já vira, e assim ele fez ao Rei o maior elogio no mundo inglês:

— Nada mau — disse, inexpressivamente. — Nada mau mesmo, acho. — levantou os olhos para o Rei e manteve a fisionomia tão impassível quanto a voz. deste modo aumentando o elogio.

— Mas de que diabo está falando, seu filho da puta? — explodiu o Rei, furioso. — São os ovos mais fabulosos que já viu na vida!

Peter Marlowe ficou chocado, e fez-se um silêncio mortal na choça. Um assobio repentino quebrou o encanto. Instantaneamente, Dino e Miller se puseram de pé e correram para junto do Rei, e Max ficou vigiando a porta. Miller e Dino empurraram a cama do Rei para o canto e pegaram os tapetes e enfiaram-nos sob o colchão. Depois, empurraram as outras camas para junto da do Rei, e então, como todo o mundo em Changi, o Rei ficou com um espaço de apenas l,20m por l,80m. O Tenente Grey estava parado na porta. Às suas costas, a um nervoso passo de distância, o Sargento Masters.

Os americanos fitaram Grey, e depois de uma pausa, de tamanho suficiente para ser insultante, todos se levantaram. Depois de uma pausa igualmente insultante, Grey fez uma breve continência e disse:

— À vontade.

Só Peter Marlowe não se mexera, continuava sentado na cadeira.

— Levante-se — sibilou o Rei. — Ele vai tirar seu couro. Levante-se! — Sabia por longa experiência que Grey agora estava indócil. Desta feita, os olhos de Grey não o estavam perscrutando, achavam-se apenas fitos em Peter Marlowe, e até mesmo o Rei se crispou.

Grey cruzou toda a cabana sem pressa, até ficar parado diante de Peter Marlowe. Desviou os olhos de Marlowe e fitou os ovos, por um longo momento. Depois, olhou para o Rei, e novamente para Peter Marlowe.

— Está bem longe de casa, não é, Marlowe? .

Os dedos de Peter Marlowe pegaram sua caixa de tabaco e botaram um pouco do fumo num pedaço de rota. Fez um cigarro afunilado e levou-o aos lábios. A extensão de sua pausa era uma bofetada em Grey.

— Ah, não sei, meu velho — disse, suavemente. — Um inglês está em casa onde quer que esteja, não acha?

— Onde está sua braçadeira?

— No cinto.

— Devia estar no seu braço. São as ordens.

— São ordens japonesas. Não gosto de ordens japonesas — disse Peter Marlowe.

— São também as ordens do campo — retrucou Grey.

Suas vozes eram bem calmas, apenas levemente irritadas aos ouvidos americanos, mas Grey sabia e Peter Marlowe sabia. E houve uma súbita declaração de guerra entre ambos. Peter Marlowe odiava os japoneses e Grey representava para ele os japoneses, pois Grey fazia cumprir as ordens do campo que também eram ordens japonesas. Implacavelmente. Entre eles havia um ódio mais profundo, o congênito ódio de classes. Peter Marlowe sabia que Grey o desprezava por seu berço e sotaque, que era o-que Grey desejava ter, acima de tudo, e jamais teria.

— Coloque-a! — Grey estava no seu direito, ao dar a ordem.

Peter Marlowe deu de ombros, pegou a braçadeira e enfiou-a no cotovelo esquerdo. Na braçadeira, havia seu posto: Capitão-aviador, Real Força Aérea. Os olhos do Rei se arregalaram. Jesus, um oficial, e eu ia pedir-lhe que...

— Desculpe interromper seu almoço — dizia Grey — mas parece que alguém perdeu alguma coisa.

— Perdeu alguma coisa? — Santo Cristo, o Rei quase berrou. O Ronson! Ó meu Deus, gritava o seu medo. livre-se do maldito isqueiro!

— O que foi, Cabo? — indagou Grey astutamente, notando o suor que porejava o rosto do Rei.

— Está quente, não é? — disse o Rei, bobamente. Podia sentir a camisa engomada se desfazendo com o suor. Sabia que fora incriminado, que lhe tinham dado um golpe. E sabia que Grey estava brincando com ele. Chegou a pensar por um instante em fugir, mas Peter Marlowe estava entre a sua pessoa e a janela, e Grey poderia pegá-lo facilmente. E se corresse, estaria admitindo sua culpa.

Viu Grey dizer alguma coisa, e ficou imóvel entre a vida e a morte.

— Como disse, senhor? — e o "senhor" não era um insulto, pois o Rei fitava Grey, com incredulidade.

— Disse que o Coronel Sellars registrou queixa do desaparecimento de um anel de ouro! — repetiu Grey, malevolamente.

Por um momento, o Rei sentiu a cabeça leve. Não era o Ronson! Entrara em pânico à toa! Era só o maldito anel do Sellars. Ele o vendera a pedido do Sellars há três semanas... com um belo lucro. Com que então o Sellars dera queixa de roubo, hem? Filho da puta mentiroso.

— Puxa — falou, um fio de riso na voz — puxa, que abacaxi. Roubado. Imagine só!

— Eu posso imaginar — disse Grey, com aspereza. — E você?

O Rei não respondeu. Mas teve vontade de sorrir. Não era o isqueiro. Estava salvo!

— Conhece o Coronel Sellars? — perguntou Grey.

— Ligeiramente, senhor. Já joguei bridge com ele, uma ou duas vezes — replicou o Rei, agora bem calmo.

— Ele lhe mostrou o anel, alguma vez? — continuou Grey, implacável.

O Rei vasculhou a memória. O Coronel Sellars lhe mostrara o anel duas vezes. À primeira, quando pedira ao Rei que o vendesse para ele, a segunda quando fora pesar o anel.

— Ah, não, senhor — falou, inocentemente. O Rei sabia que estava seguro. Não havia testemunhas.

— Tem certeza de que nunca o viu?

— Ah, não, senhor.

Grey ficou de repente cheio do jogo de gato-e-rato, e estava nauseado de vontade de comer aqueles ovos. Teria feito qualquer coisa, qualquer coisa por um deles.

— Tem fogo, Grey, meu velho? — pediu Peter Marlowe. Não trouxera consigo o seu isqueiro nativo. E precisava fumar. Desesperadamente. Sua antipatia por Grey lhe ressecara os lábios.

— Não. — Arranje o fogo você mesmo, pensou Grey, com raiva, virando-se para ir embora. E foi então que ouviu Peter Marlowe pedir ao Rei:

— Quer emprestar-me seu Ronson, por favor?

Grey voltou-se, devagarinho. Viu que Peter Marlowe sorria para o Rei. As palavras pareciam gravadas no ar. Depois, espalharam-se para todos os cantos da choça.

Aterrorizado, tentando ganhar tempo, o Rei começou a pegar uns fósforos.

— Está no seu bolso esquerdo — esclareceu Marlowe.

E nesse momento o Rei viveu e morreu e nasceu de novo. Os homens na choça não respiravam. Pois iam ver o Rei feito em pedaços. Iam ver o Rei ser pegado com a boca na botija e levado preso e trancafiado, uma coisa que era a maior das impossibilidades. E no entanto aqui estava Grey e aqui estava o Rei e aqui estava o homem que dedurara o Rei... e o colocara como o cordeiro do sacrifício no altar de Grey. Alguns dos homens estavam horrorizados, outros se rejubilavam, ainda outros sentiam pena, e Dino pensou com raiva: Pombas, era o meu dia de tomar conta da caixa, amanhã!

— Por que não acende o cigarro dele? — perguntou Grey. A fome o abandonara, sentia apenas calor, em seu lugar. Grey sabia que não havia nenhum isqueiro Ronson na lista.

O Rei pegou o isqueiro e acendeu o cigarro de Peter Marlowe. A chama que o queimaria era reta e pura.

— Obrigado. — Peter Marlowe sorriu, e só então deu-se conta da enormidade do seu gesto.

— Com que então... — falou Grey, pegando o isqueiro. Suas palavras soaram majestosas, definitivas e violentas.

O Rei não respondeu, pois não havia resposta. Simplesmente esperou, e agora que estava enrascado, não sentia medo, amaldiçoava apenas sua estupidez. Um homem que falha por sua própria estupidez não tem direito de ser chamado de homem. E não tem direito de ser o Rei, pois o mais forte é sempre o Rei, não apenas pela força, mas Rei pela astúcia, força e sorte juntas.

— De onde veio isto, Cabo? — A pergunta de Grey era uma carícia.

O estômago de Peter Marlowe ficou revirado, e sua cabeça funcionou desesperadamente, e então ele disse:

— É meu. — Sabia que aquilo soava como a mentira que era, por isso acrescentou depressa: — Estávamos jogando pôquer. Eu o perdi. Pouco antes do almoço.

Grey, o Rei e todos os homens olharam para ele, apalermados.

— Você o quê? — indagou Grey.

— Perdi-o — repetiu Peter Marlowe. — Estávamos jogando pôquer. Eu tinha uma seqüência. Conte para ele — acrescentou abruptamente para o Rei, jogando-lhe a bola para testá-lo.

A mente do Rei ainda estava em estado de choque, mas seus reflexos eram bons. Abriu a boca e disse:

— Estávamos jogando stud pôquer. Eu tinha um full hand, e...

— Quais eram as cartas?

— Azes e dois — interrompeu Peter Marlowe, sem hesitar. — Que diabo é esse stud, perguntava a si mesmo.

O Rei se crispou, a despeito do seu controle magnífico. Estivera prestes a dizer reis e damas, e sabia que Grey percebera o seu estremecimento.

— Está mentindo, Marlowe!

— Ora, Grey, meu velho, mas isso é coisa que se diga! — Peter Marlowe estava tentando ganhar tempo. Mas que porra é esse studl — Foi patético — continuou, sentindo o horror-prazer do grande perigo. — Pensei que o havia derrotado. Eu tinha uma seqüência. Foi por isso que apostei o isqueiro. -Conte para ele — falou abruptamente para o Rei.

— Como se joga stud pôquer, Marlowe?

Um trovão rompeu o silêncio, ribombando no horizonte, e o Rei abriu a boca, mas Grey o deteve.

— Perguntei ao Marlowe — falou, ameaçadoramente.

Peter Marlowe sentiu-se impotente. Olhou para o Rei, e embora seus olhos nada revelassem, o Rei entendeu.

— Vamos — falou Peter Marlowe rapidamente — vamos mostrar-lhe.

O Rei imediatamente se virou para pegar as cartas, dizendo sem hesitação:

— Foi a minha carta do buraco... Grey virou-se furioso para ele.

— Falei que queria que o Marlowe me dissesse. Mais uma palavra sua e mando prendê-lo por interferir com a justiça.

O Rei ficou calado. Rezava para que a pista tivesse sido suficiente.

"Carta do buraco", a expressão foi registrada na memória distante de Peter Marlowe. E recordou-se. E agora que sabia como era o jogo, começou a brincar com Grey.

— Bem — falou com ar preocupado — é como qualquer outro jogo de Pôquer, Grey.

Explique como ele é jogado! — Grey achava que pegara os dois na mentira.

Peter Marlowe olhou para ele, olhar gelado. Os ovos estavam esfriando.

— O que está tentando provar, Grey? Qualquer idiota sabe que são quatro cartas viradas para cima e uma para baixo... uma no buraco.

Um suspiro percorreu o aposento. Grey sabia que agora não havia mais nada que pudesse fazer. Seria sua palavra contra a de Marlowe, e ele sabia, mesmo aqui em Changi, qual prevaleceria.

— Isso mesmo — falou sombriamente, olhando do Rei para Peter Marlowe. — Qualquer idiota sabe. — Devolveu o isqueiro para o Rei. — Não se esqueça de botar na lista.

— Sim, senhor. — Agora que tudo acabara, o Rei deixou transparecer um pouco do alívio que sentia.

Grey olhou para Peter Marlowe uma última vez, e o olhar era a um só tempo promessa e ameaça.

— As tradições de sua escola se orgulhariam muito de você, hoje — disse, com desprezo, e foi saindo da choça, com Masters seguindo-o.

Peter Marlowe ficou vendo Grey se afastar, e quando este chegava à porta, falou um pouco mais alto do que era necessário para o Rei, ainda de olho em Grey:

— Quer emprestar-me seu isqueiro... meu cigarro apagou.

Mas Grey não alterou o passo, nem olhou para trás. Um bom homem, pensou Peter Marlowe sombriamente, bons nervos... um bom homem para ter do nosso lado, numa batalha mortal. E um inimigo para se levar em conta.

O Rei ficou sentado debilmente, no elétrico silêncio, e Peter Marlowe tirou o isqueiro de sua mão flácida e acendeu o cigarro. O Rei buscou automaticamente seu maço de Kooas, enfiou um deles na boca e deixou-o pender, sem senti-lo. Peter Marlowe inclinou-se e acendeu o isqueiro para o Rei. O Rei levou longo tempo para focalizar os olhos na chama, e então viu que a mão de Peter Marlowe estava tão trêmula quanto a sua. Correu os olhos por toda a cabana, onde os homens estavam parados feito estátuas, fitando-o. Podia sentir o suor gelado nos ombros, a camisa grudenta.

Houve um barulho de latas do lado de fora. Dino levantou-se e foi verificar, ansioso.

— Hora do rancho — gritou, todo feliz. O encanto foi quebrado, e os homens deixaram a cabana com os utensílios de comer. E Peter Marlowe e o Rei ficaram completamente sós.

 

Os dois homens ficaram sentados por um momento, terminando de se controlar. Depois, Peter Marlowe falou, com voz trêmula:

— Puxa, mas essa tirou um fino!

— Foi — falou o Rei, após uma pausa sem pressa. Involuntariamente, estremeceu de novo, em seguida pegou a carteira, tirou de lá duas notas de 10 dólares e botou-as em cima da mesa. — Tome — falou — pelo que houve. Mas de agora em diante você está na folha de pagamento. Vinte por semana.

— Como?

— Vou dar-lhe vinte por semana. — O Rei pensou por um momento. — Acho que tem razão — falou, amavelmente, e sorriu. — Vale mais. Digamos trinta. — A seguir, notou a braçadeira e acrescentou: — Senhor.

— Ainda pode chamar-me de Peter — disse Peter Marlowe, com a voz irritada. — E vamos deixar claro... não quero seu dinheiro. — Levantou-se e começou a ir embora. — Obrigado pelo cigarro.

— Ei, espere aí — falou o Rei, atônito. — Mas que diabo deu em você? Peter Marlowe fitou o Rei, com a raiva brilhando nos olhos.

— Que diabo pensa que sou? Enfie seu dinheiro sabe bem onde!

— Alguma coisa errada com o meu dinheiro?

— Não. Só com os seus modos!

— E desde quando os modos têm algo a ver com dinheiro?

Peter Marlowe virou-se abruptamente para partir. O Rei se pôs de pé e ficou entre Peter Marlowe e a porta.

— Espere aí — falou, com voz .tensa. — Quero saber uma coisa. Por que livrou minha cara?

— É óbvio, não acha? Fui eu quem deu a mancada, não podia deixar você com a bomba na mão. O que pensa que sou?

— Não sei. Estou tentando descobrir.

— O erro foi meu, desculpe.

— Não tem do que se desculpar — disse o Rei, vivamente. — O erro foi meu. Banquei o burro. Não teve nada a ver com você. . .

— Não faz diferença. — O rosto de Peter Marlowe era de granito, como seus olhos. — Mas deve pensar que sou um merda completo, se espera que deixe que o crucifiquem. E um merda ainda maior se pensa que quero dinheiro de você... quando fui descuidado. Isso não agüento de pessoa alguma!

— Sente-se um minutinho. Por favor.

— Porquê?

— Porra, porque quero falar com você.

Max hesitou à porta, com as latas de comida do Rei.

— Com licença — disse, cauteloso — aqui está sua bóia. Quer um pouco de chá?

— Não. E Tex fica com a minha sopa, hoje. Pegou a lata de arroz e colocou-a sobre a mesa.

— Está legal — disse Max, ainda hesitante, imaginando se o Rei queria ajuda para tirar o couro do filho da puta.

— Dê o fora, Max. E diga aos outros para nos deixar a sós, por um minuto.

— Claro. — Max saiu, afavelmente. Achava que o Rei agia muito sensatamente, não querendo testemunhas quando pretendia baixar o sarrafo num oficial. O Rei voltou a olhar para Peter Marlowe.

— Estou-lhe pedindo. Quer sentar-se um minuto? Por favor.

— Está bem — falou Peter Marlowe, rigidamente.

— Olhe — disse o Rei, pacientemente. — Você tirou meu pescoço da corda. Ajudou-me... e cabe a mim ajudá-lo. Ofereci-lhe a grana porque queria agradecer. Se não a quer, tudo bem... mas não quis insultá-lo. Se insultei, peço desculpas.

— Desculpe — falou Peter Marlowe, amolecendo. Tenho mau gênio. Não compreendi.

O Rei estendeu a mão.

— Aperte os ossos.

Peter Marlowe apertou a mão do outro.

— NIo gosta do Grey, não é mesmo? — falou o Rei, cautelosamente.

— Não.

— Porquê?

Peter Marlowe deu de ombros. O Rei dividiu o arroz descuidadamente, e entregou-lhe a porção maior.

— Vamos comer.

— Mas, e você? — perguntou Peter Marlowe, olhando assombrado para a quantidade maior.

— Não estou com fome. Perdi o apetite. Jesus, mas tiramos um fino. Pensei que os dois tínhamos entrado bem.

— É — concordou Peter Marlowe, com um esboço de sorriso. — Foi muito divertido, não foi?

— Hem?

— Ora, a emoção. Acho que há anos não curto tanto uma coisa: o perigo-excitação.

— Há muitas coisas que não entendo em você — disse o Rei, debilmente. — Quer dizer que se divertiu?

— Claro... você não? Achei quase tão bom quanto voar um Spitfire. Sabe, na hora você fica com medo, mas ao mesmo tempo não fica... e durante e depois você fica meio atordoado.

— Acho que você é biruta.

— Se não se estava divertindo, por que tentou derrubar-me com aquela de studl Quase morri.

— Não tentei derrubá-lo. Por que, diabo, ia querer derrubá-lo?

— Para tornar a coisa mais emocionante, e para me testar. O Rei enxugou os olhos e o rosto, cansadamente.

— Quer dizer que acha que agi deliberadamente?

— Claro. Fiz o mesmo quando passei as perguntas para você.

— Espere aí, vamos deixar as coisas bem claras: fez aquilo apenas para testar meus nervos? — falou o Rei, com voz ofegante.

— Mas, naturalmente, meu velho — retrucou Peter Marlowe. — Não entendo qual o problema.

— Jesus! — exclamou o Rei, começando a suar de novo, nervoso. — Estávamos quase no xilindró e você fica de brincadeirinhas! — O Rei fez uma pausa para respirar. — Mas que loucura, que loucura total, e quando você hesitou depois de eu ter-lhe dado a pista do "buraco", pensei que estávamos mortos.

— Grey também pensou assim. Eu estava só brincando com ele. Acabei a brincadeira logo porque os ovos estavam esfriando. E não se vê um ovo frito desses a torto e a direito. Juro que não.

— Pensei que tinha dito que ele não prestava.

— Disse que "não era mau". — Peter Marlowe hesitou. — Olhe, dizer "nada mau" significa que é excepcional. Essa é uma maneira de elogiar um sujeito sem o deixar embaraçado.

— Você está louco varrido! Arrisca o pescoço... e o meu também... para aumentar o perigo, fica fulo de raiva quando lhe ofereço dinheiro, sem compromisso, e diz que uma coisa é "nada má" quando quer dizer que é ótima. Puxa — acrescentou, estupefato — acho que sou imbecil, ou coisa parecida. — Ergueu os olhos e viu o ar perplexo na cara de Peter Marlowe, e teve que rir. Peter Marlowe também começou a rir, e logo ambos estavam histéricos.

Max enfiou a cabeça pela porta da choça, com os outros americanos logo atrás.

— Mas que diabo deu nele! — exclamou Max, boquiaberto. — Pensei que a esta altura já estaria enchendo o outro de porrada.

— Madonna! — exclamou Dino. — Primeiro, quase fazem picadinho do Rei, e agora está às gargalhadas com o cara que o dedurou.

— Não faz sentido. — 0 estômago de Max estava dando voltas desde o assobio de advertência.

O Rei ergueu os olhos e viu os homens fitando-o. Pegou o que restava do maço de cigarros.

— Tome, Max. Distribua isso. Comemoração!

— Puxa, obrigado. — Max pegou o maço. — Cara! Mas essa foi por pouco. Estamos muito contentes.

O Rei leu os sorrisos. Alguns eram reais, e ele os marcou. Outros eram falsos, e ele os conhecia, de todo jeito. Os homens fizeram eco aos agradecimentos de Max.

Este levou os homens para fora de novo, e começaram a dividir o tesouro. E o choque — disse, baixinho. — Tem que ser. Como uma neurose de guerra. Daqui a pouquinho estará arrancando fora a cabeça do inglês. — Max desviou o olhar ao escutar novas risadas vindas da choça, e deu de ombros. — Está biruta...

— Pelo amor de Deus — dizia Peter Marlowe, segurando a barriga. — Vamos comer. Se não comer logo, depois não vou conseguir.

E assim começaram a comer. Entre espasmos de riso. Peter Marlowe lamentava que os ovos estivessem frios, mas os risos aqueceram os ovos, deixando-os soberbos.

— Precisam de um pouco de sal, não acha? — perguntou, tentando manter a voz inexpressiva.

— Puxa, acho que sim. Pensei que tinha posto bastante. — O Rei franziu a testa e virou-se para pegar o sal, e então viu os olhos risonhos. — Mas que diabo é agora? — indagou, começando a rir, a contragosto.

— Foi uma brincadeira, pelo amor de Deus. Vocês americanos não têm muito senso de humor, não é?

— Vá à merda! E porra, pare de rir!

Quando terminaram os ovos, o Rei começou a fazer café na chapa quente, e procurou por seus cigarros. Aí lembrou-se de que os dera, e abaixou-se para destrancar a caixa preta.

— Tome, prove um pouco desse — falou Peter Marlowe, oferecendo sua caixa de tabaco.

— Obrigado, mas não suporto esse troço. Deixa minha garganta em pandarecos.

— Experimente. Foi tratado. Aprendi com os javaneses.

Indecisamente, o Rei pegou a caixa de cigarros. O tabaco era a mesma erva barata, mas, ao invés de ser amarelo-palha, era dourado-escuro; ao invés de ser seco, era úmido e tinha textura; ao invés de ser inodoro, tinha cheiro de tabaco, doce e forte. Pegou o pacote de papel de arroz e tirou uma quantidade exagerada do fumo tratado. Enrolou um tubo desleixadamente e cortou fora as pontas salientes, deixando cair no chão, descuidadamente, o tabaco excedente.

Puta merda, pensou Peter Marlowe, eu disse para experimentar, não para tomar conta de tudo. Sabia que devia ter apanhado do chão as sobras do tabaco para recolocá-las na caixa, mas não o fez. Há certas coisas que não dão para um cara fazer, pensou novamente.

O Rei acendeu o isqueiro e eles riram juntos ao vê-lo. O Rei deu uma baforada cautelosa, depois mais outra. A seguir, uma boa tragada.

— Mas é ótimo — falou, atônito. — Não tão bom quanto um Kooa... mas é... — Parou e corrigiu-se. — Não é nada mau.

— Nada mau mesmo — disse Peter Marlowe, rindo.

— Mas que diabo, o que você faz?

— Segredos do ofício.

O Rei sabia que tinha uma mina de ouro nas mãos.

— Suponho que seja um processo longo e complicado — falou, com delicadeza.

— Não, até que é fácil. Basta deixar a erva crua de molho no chá, depois espremê-la. A seguir, joga-se por cima um pouco de açúcar refinado, e amassa-se bem. Quando ele estiver bem absorvido, cozinha-se o fumo em fogo baixo, numa frigideira, sempre mexendo, senão estraga. Tem que ficar no ponto certo: nem seco demais, nem úmido demais.

O Rei ficou surpreso que Peter Marlowe lhe houvesse contado o processo com tanta facilidade... sem tentar negociar, primeiro. Claro, pensou, ele está apenas aguçando meu apetite. Não pode ser assim tão fácil, senão todo o mundo estaria fazendo. E ele provavelmente sabe que sou o único com quem pode fazer negócio.

— Só isso? — comentou o Rei, sorridente.

— Só. Não tem grandes segredos.

O Rei já antevia um próspero negócio. E, além de tudo, legal.

— Imagino que todo o mundo em sua choça trate o fumo dessa maneira. Peter Marlowe sacudiu a cabeça.

— Só o faço para a minha unidade. Há meses que implico com eles, contando-lhes todo o tipo de histórias, mas nunca adivinharam o modo exato.

O sorriso do Rei era amplo.

— Então você é o único que sabe como fazê-lo.

— Ah, não! — exclamou Peter Marlowe, e o coração do Rei pareceu afundar. — É um costume nativo, espalhado por Java inteira.

— Mas aqui ninguém o conhece, certo? — indagou o Rei, animando-se.

— Não sei, nunca me preocupei com isso.

O Rei soltou a fumaça pelas narinas e sua cabeça funcionava a 1.000 por hora. Ora, disse consigo mesmo, este é meu dia de sorte.

— Escute aqui, Peter. Tenho uma proposta comercial para lhe fazer. Mostre-me exatamente como se faz, e eu lhe darei... — hesitou. — Dez por cento.

— Como?

— Está certo. Vinte e cinco.

— Vinte e cinco?

— Está bem — disse o Rei, olhando para Peter Marlowe com novo respeito. — Você se vende caro, e isso é bom. Organizo a transa toda. Compraremos grandes quantidades. Teremos que montar uma fábrica. Você supervisiona a produção e eu cuido das vendas. — Estendeu a mão. — Seremos sócios... rachando meio a meio. Negócio fechado.

Peter Marlowe olhou para a mão estendida do Rei. Depois, para seu rosto. Falou, decisivamente:

— Fechado coisa nenhuma!

— Porra — explodiu o Rei — essa é a melhor oferta que vai receber. O que podia ser mais justo? Vou levantar a grana; terei que... — Deteve-se, tomado por um pensamento repentino. — Peter — disse, após um momento, magoado, mas sem deixar transparecer — ninguém tem que saber que somos sócios. Basta mostrar-me como preparar o fumo, e terá sua parte. Pode confiar em mim.

— Sei disso — replicou Peter Marlowe.

— Então, rachamos meio a meio — repetiu o Rei, sorriso de orelha a orelha.

— Não rachamos, não.

— Santo Deus! — exclamou o Rei, sentindo-se pressionado. Mas controlou-se e pensou no negócio. E quanto mais pensava... Olhou à sua volta para se certificar de que não havia ninguém escutando. Depois baixou a voz e disse, roucamente: — Sessenta-quarenta, e jamais ofereci isso a ninguém, na vida: sessenta-quarenta.

— Nada feito.

— Como? — explodiu o Rei, chocado. — Também tenho que tirar algum lucro no negócio. Que diabo está querendo pelo processo? Dinheiro à vista?

— Não estou querendo nada — falou Peter Marlowe.

— Nada? — 0 Rei sentou-se debilmente, destroçado. Peter Marlowe estava confuso.

— Sabe — falou, hesitante — não entendo por que você fica tão entusiasmado com certas coisas. Não posso vender o processo, não me pertence. É um simples costume nativo. Por isso, não poderia aceitar nada de você. Não seria correto. De modo algum. E além disso, eu... — Peter Marlowe se deteve e perguntou, rapidamente. — Quer que lhe ensine, agora?

— Espere aí. Está querendo dizer que não quer nada por me mostrar o processo? Quando ofereci para racharmos sessenta-quarenta? Quando lhe estou dizendo que posso ganhar dinheiro com o negócio? — Peter Marlowe fez que sim com a cabeça. — Mas é uma loucura — falou o Rei, abobado. — Está errado, não entendo.

— Não há o que entender — retrucou Peter Marlowe, com um débil sorriso. — Faça de conta que estou com insolação.

O Rei o examinou por um longo momento:

— Quer dar-me uma resposta franca a uma pergunta franca?

— Claro que sim.

— É por minha causa, não é?

As palavras pesaram no calor, entre os dois.

— Não — respondeu Peter Marlowe, quebrando o silêncio. E havia verdade entre eles.

Uma hora mais tarde, Peter Marlowe estava vendo Tex cozinhar a segunda leva de tabaco. Desta feita, Tex o fazia sem ajuda, e o Rei cacarejava por perto, como uma galinha velha.

— Tem certeza de que ele botou a quantidade certa de açúcar? — perguntou o Rei a Peter Marlowe, ansioso.

— Certíssima.

— Quanto tempo ainda demora?

— Quanto tempo você acha, Tex?

Este devolveu o sorriso de Peter Marlowe e esticou o corpo desengonçado de mais de 1,90m.

— Mais ou menos uns cinco, seis minutos.

— Onde fica a casinha? — perguntou Peter Marlowe, levantando-se.

— A privada? Nos fundos, pelo lado de fora. — O Rei apontou. — Mas não dá para esperar até o Tex terminar? Quero ter certeza de que fez tudo direito.

— O Tex está indo muito bem — disse Peter Marlowe, afastando-se. Quando voltou, Tex tirou a frigideira do fogo.

— Pronto — falou, nervoso, e olhou para Peter Marlowe, para ver se agira na hora certa.

— No ponto — disse Peter Marlowe, examinando o tabaco preparado. Todo excitado, o Rei enrolou um cigarro com papel de arroz. Tex e Peter Marlowe fizeram o mesmo. Acenderam os cigarros. Com o Ronson. Mais uma risada gostosa. E então, silêncio, enquanto cada homem se tornava um con-noisseur.

— Muito bom — declarou Peter Marlowe. — Disse-lhe que era bem simples, Tex.

Tex soltou um suspiro de alívio.

— Nada mau — falou o Rei, pensativo.

— Mas de que diabo está falando — explodiu Tex. — Está danado de bom!

Peter Marlowe e o Rei dobravam-se de rir. Explicaram por que, e Tex também começou a rir.

— Temos que dar um nome ao produto. — O Rei pensou por um momento. — Já sei. Que tal Três Reis? Um pela Real Força Aérea, um pelo Rei Texas, e um por por mim.

— Nada mau — disse Tex.

— Vamos começar a fabricação amanhã. Tex sacudiu a cabeça.

— Fui destacado para um grupo de trabalho.

— Ele que vá para o diabo! Vou mandar o Dino substituí-lo.

— Não, deixe que peço a ele. — Tex levantou-se e sorriu para Peter Marlowe. — Prazer em conhecê-lo, senhor.

— Vamos esquecer o senhor, está bem? — falou Peter Marlowe.

— Claro. Obrigado.

Peter Marlowe ficou olhando Tex afastar-se.

— Gozado — comentou, suavemente, com o Rei. — Nunca vi tantos sorrisos numa só cabana, antes.

— Não há por que não sorrir, não é mesmo? As coisas podiam ser bem piores. Você foi abatido voando sobre a corcova?

— Refere-se à rota Calcutá-Chungking? Sobre o Himalaia?

— É. — O Rei fez sinal para o tabaco. — Encha sua caixa.

— Obrigado. Se não se importa...

— Sempre que estiver com pouco fumo, venha servir-se.

— Obrigado, aceito. É muito gentil. — Peter Marlowe queria mais um cigarro, mas sabia que estava fumando demais. Se fumasse outro agora, a fome ainda seria maior. Melhor ir com calma. Olhou para a sombra do Sol e prometeu-se que não fumaria de novo até que a sombra se mexesse cinco centímetros. — Não fui abatido. A minha pandorga... o meu avião foi atingido num ataque aéreo a Java. Não consegui levantá-lo. Um saco — acrescentou, tentando disfarçar o amargor.

— Não foi tão ruim assim — disse o Rei. — Você podia ter estado dentro dele. Está vivo, e é isso que conta. Que tipo de avião pilotava?

— Um Hurricane. Avião de combate de um só lugar. Mas o meu avião regular é um Spit... Spitfire.

— Já ouvi falar deles... mas nunca vi nenhum. Vocês deixaram os alemães com cara de besta, hem?

— Foi — disse Peter Marlowe, baixinho. — Deixamos mesmo. O Rei ficou surpreso.

— Você não esteve na Batalha da Inglaterra, esteve?

— Estive. Recebi as minhas asas em 1940... bem na horinha.

— Quantos anos tinha?

— Dezenove.

— Puxa, olhando para sua cara, diria que você tinha pelo menos trinta e oito anos, e não vinte e quatro!

— Ora, vá tomar no...! — Peter Marlowe riu. — Quantos anos você têm?

— Vinte e cinco. Que merda! — exclamou o Rei. — Os melhores anos da minha vida, e cá estou eu trancafiado numa cadeia fedorenta!

— Você não está trancafiado. E me parece estar-se saindo muito bem.

— Ainda estamos trancafiados, de um jeito ou de outro. Quanto tempo acha que isso ainda vai durar?

— Botamos os alemães para correr. Não vai demorar muito.

— Acredita nisso?

Peter Marlowe deu de ombros. Cuidado, disse para si mesmo, nunca se pode esquecer o cuidado.

— Acredito, sim. Nunca se sabe ao certo o que é boato ou não.

— E a nossa guerra? E quanto a ela?

Como a pergunta fora feita por um amigo, Peter Marlowe falou livremente:

— Acho que a nossa vai durar para sempre. Ah, vamos derrotar os japoneses. Estou certo disso. Mas quanto a nós, não creio que saiamos daqui.

— Por quê?

— Bem, não creio que os japoneses jamais cedam. O que significa que teremos que desembarcar no país deles. E quando isso acontecer, acho que nos eliminarão, a todos nós aqui. Se as doenças e moléstias já não houverem acabado com a gente.

— Mas por que fariam isso?

— Ora, para poupar tempo, imagino. Acho que quando a rede começar a apertar o Japão, eles começarão a içar seus tentáculos. Por que perder tempo com alguns milhares de prisioneiros? Os japoneses encaram a vida de modo bem diferente do nosso. E a idéia de tropas nossas no solo deles vai levá-los à loucura. — A voz dele era bem calma e inexpressiva. — Acho que estamos ferrados. Claro que espero estar errado. Mas acho que não estou.

— Mas que filho da puta esperançoso você é — disse o Rei, com azedume, e quando Peter Marlowe riu, ele continuou: — Que diabo, do que está rindo? Parece que está sempre rindo nas horas erradas.

— Desculpe, é um mau hábito.

— Vamos sentar lá fora. As moscas estão ficando impossíveis. Ei, Max — chamou o Rei — quer limpar aqui?

Max chegou e começou a limpeza, e o Rei e Peter Marlowe pularam agilmente a janela. Do lado de fora da janela do Rei, havia outra mesinha e um banco sob um toldo de lona, O Rei sentou-se no banco. Peter Marlowe acocorou-se, à moda nativa.

— Nunca pude fazer isso — comentou o Rei.

— É muito confortável. Aprendi em Java.

— Como é que você fala o malaio tão bem?

— Morei algum tempo numa aldeia.

— Quando?

— Em 1942. Após o cessar-fogo.

O-Rei esperou pacientemente que ele continuasse, mas Peter ficou calado. Após esperar mais algum tempo, perguntou:

— Como foi que você morou numa aldeia javanesa após o cessar-fogo em 1942, quando todo o mundo estava em campos de prisioneiros de guerra, a essa altura?

Peter Marlowe deu uma risada gostosa.

— Desculpe. Não há muito para contar. Não me agradava a idéia de ficar num campo. Na verdade, quando a guerra acabou, perdi-me nas selvas e acabei por achar a tal aldeia. Eles tiveram pena de mim. Fiquei lá uns seis meses.

— E que tal era?

— Uma maravilha. Eram todos muito bondosos, eu era como um deles. Vestido de javanês, a pele tingida de escuro... bobagem, afinal a minha altura e olhos me traíam... trabalhava nos arrozais.

— Sozinho?

Depois de uma pausa, Peter Marlowe disse :

— Eu era o único europeu ali, se é o que quer saber. — Fixou o olhar no campo, vendo o Sol bater na poeira e o vento levantar a poeira e fazé-la remoinhar. Ó remoinho fazia com que se lembrasse dela. Desviou os olhos para o leste, para um céu nervoso. Mas ela era parte do céu. O vento ficou um pouco mais forte e dobrou os topos dos coqueiros. Mas ela era parte do vento, das folhas e das nuvens mais além.

Peter Marlowe forçou o pensamento para longe dela e ficou vendo o guarda coreano caminhar pesadamente ao longo da cerca, suando com o calor. O uniforme do guarda era cocado e mal-ajambrado, e o quepe tão amassado quanto seu rosto, e o fuzil pousava torto sobre os ombros. Era tão desgracioso quanto ela era graciosa.

Mais uma vez, Peter Marlowe levantou os olhos para o céu, buscando a distância. Somente então podia sentir que não estava dentro de uma caixa... uma caixa cheia de homens, e cheiros de homens, e sujeira de homens, e ruídos de homens. Sem mulheres, pensou Peter Marlowe, desalentado, os homens não passam de uma piada cruel. E sangrou sob o vigor do Sol.

— Ei, Peter! — O Rei olhava para o alto da ladeira, de boca aberta. Peter Marlowe acompanhou o olhar do Rei, e seu estômago deu voltas ao ver que Sean se aproximava. Santo Deus, que vontade de entrar pela janela e sumir, mas sabia que aquilo ainda chamaria mais atenção para si. E então esperou sombriamente, quase sem respirar. Pensou que havia uma boa chance de não ser visto, pois Sean estava muito entretido conversando com o Líder de Esquadrilha Rodrick e com o Tenente Frank Parrish. As três cabeças estavam bem juntas, o papo animado.

E então, Sean olhou para além de Frank Parrish e viu Peter Marlowe, e parou.

Rodrick e Frank também pararam, surpresos. Quando viram Peter Marlowe, pensaram: "Ó, meu Deus." Mas disfarçaram a ansiedade.

— Alô, Peter — falou Rodrick. Era um homem alto e aprumado, com um rosto bem delineado, tão alto e aprumado quanto Frank Parrish era alto e desleixado.

— Alô, Rod! — respondeu Peter Marlowe.

— Não demoro — disse Sean suavemente para Rodrick, e dirigiu-se para Peter Marlowe e o Rei. Agora que o choque inicial se dissipara, Sean exibia um sorriso amistoso.

Peter Marlowe sentiu a nuca ficar toda arrepiada, levantou-se e esperou. Podia sentir os olhos do Rei cravados nele.

— Alô, Peter — cumprimentou Sean.

— Alô, Sean.

— Está muito magro, Peter.

— Não creio que esteja mais magro do que os outros. Estou bem disposto, felizmente.

— Há tanto tempo não o vejo... por que não dá um pulinho no teatro, de vez em quando? Tem sempre um pouquinho de comida extra por lá... e você sabe como sou, nunca fui de comer muito. — Sean deu um sorriso esperançoso.

— Obrigado — retrucou Peter Marlowe, morto de vergonha.

— Bem, sei que não irá — disse Sean, tristemente — mas será sempre bem-vindo. — Fez uma pausa. — Nunca mais o vejo.

— Bem, sabe como é, Sean. Você em todos os shows e eu, bem, sou destacado para os grupos de trabalho, e outras coisas.

Como Peter Marlowe, Sean estava de sarongue, mas, ao contrário do sarongue de Peter, que era puído e desbotado, o de Sean era novo, branco, e debruado de azul e prateado. E Sean usava um bolero nativo de mangas curtas, acabando logo acima da cintura, cortado justo e enfatizando o busto. O Rei olhava fascinado para o decote entreaberto do bolero.

Sean notou o Rei e sorriu de leve e afastou do rosto os cabelos que o vento havia desmanchado, e brincou com eles até o Rei levantar os olhos. Sean sorriu intimamente, sentindo-se aquecer por dentro, ao ver o Rei enrubescer.

— Está ficando quente, não é? — comentou o Rei, constrangido.

— Suponho que sim — replicou Sean, amavelmente, sem suar ou parecer sentir calor, como sempre... não importa quão alta a temperatura.

Fez-se silêncio.

— Ah, desculpe — disse Peter Marlowe, ao ver Sean olhando para o Rei e esperando pacientemente. — Conhece...

Sean achou graça.

— Meu Deus, Peter. Como está nervoso. Claro que sei quem é o seu amigo, embora nunca tenhamos sido apresentados. — Sean estendeu a mão. — Como vai? É uma grande honra conhecer um Rei!

— Hã... obrigado — disse o Rei, mal tocando a mão, tão pequenina junto a sua. — Hã... quer um cigarro?

— Não, obrigado. Mas se não se importa, vou levar um comigo. Ou melhor, dois, posso? — Sean fez um sinal de cabeça para a trilha. — Rod e Frank fumam, e sei que adorariam.

— Claro — disse o Rei. — Claro.

— Obrigado. É muito gentil.

Mesmo a contragosto, o Rei sentiu o calor do sorriso de Sean. E sem querer, falou, com toda a sinceridade:

— Esteve ótimo em Otelo.

— Obrigado — disse Sean, radiante. — Gostou do Hamletl

— Gostei. E nunca fui muito ligado em Shakespeare. Sean achou graça.

— Isso é que é elogio. Vamos fazer uma nova peça, agora. Frank a escreveu especialmente e deve ser muito divertida.

— Basta ser comum, já será formidável — disse o Rei, mais à vontade — e você será formidável.

— Mas que gentileza. Obrigado. — Sean olhou para Peter Marlowe e seus olhos apresentaram um brilho adicional. — Temo que Peter não concorde com você.

— Pare com isso, Sean — disse Peter Marlowe.

Sean não olhou para Peter Marlowe, somente para o Rei, e sorriu, mas havia fúria por trás do sorriso.

— Peter não me aprova.

— Pare com isso, Sean — repetiu Peter Marlowe, asperamente.

— Por que devo parar? — explodiu Sean. — Você despreza os pervertidos... não é assim que você chama os bichas? Deixou isso bem claro. Não me esqueci!

— Nem eu!

— Não diga! Não gosto de ser desprezado... muito menos por você!

— Já disse para você parar! Não é a hora ou o lugar para isso. E já discutimos isso antes, e você já falou tudo isso antes. Pedi desculpas. Não falei por mal!

— Não. Mas ainda me odeia... por quê? Por quê?

— Não o odeio.

— Então por que sempre me evita?

— É melhor. Pelo amor de Deus, Sean, deixe-me em paz.

Sean fitou Peter Marlowe, e com a mesma rapidez que eclodira, sua raiva desapareceu.

— Desculpe, Peter, provavelmente você tem toda a razão. Sou um idiota. É que às vezes sinto-me só, com vontade de conversar. — Sean estendeu a mão e tocou o braço de Peter Marlowe. — Desculpe. Só queria que fôssemos amigos de novo.

Peter Marlowe não conseguiu dizer nada. Sean hesitou.

— Bem, acho que está na hora de ir andando.

— Sean — chamou Rodrick, lá da trilha — já estamos atrasados.

— Não demoro. — Sean ainda olhava para Peter Marlowe, depois deu um suspiro e estendeu a mão para o Rei. — Prazer em conhecê-lo. Desculpe os maus modos.

O Rei não pôde deixar de tocar a mão dele, outra vez.

— Prazer em conhecê-lo.

Sean hesitou, os olhos sérios e indagadores.

— É amigo do Peter?

Parecia ao Rei que o mundo inteiro ouviu sua resposta, gaguejante:

— Hã, claro, é, acho que sou.

— Estranho, não é mesmo, como uma mesma palavra pode ter tantos significados diferentes. Mas se é amigo dele, não o leve para o mau caminho, por favor. Você tem reputação de ser perigoso, e eu não gostaria de ver o Peter magoado. Gosto muito dele.

— Hã, sim, claro. — Os joelhos do Rei ficaram moles, e sua espinha pareceu derreter-se. Mas o magnetismo do sorriso de Sean invadiu-o. Nunca sentira coisa igual. — Os shows são a melhor coisa aqui do campo — falou. — Fazem a vida valer a pena. E você é a melhor coisa que existe neles.

— Obrigado. — E dirigindo-se a Peter Marlowe: — Faz a vida valer a pena. Sou muito feliz. Gosto do que faço. Faz as coisas valerem a pena, Peter.

— Sim — replicou Peter, atormentado. — Que bom que tudo está bem.

Sean sorriu hesitante pela última vez, depois virou-se depressa e sumiu.

— Puta merda! — disse o Rei, sentando-se. Peter Marlowe também se sentou. Abriu a caixa de tabaco e preparou um cigarro.

— Se a gente não soubesse que ele é homem, juraria por Deus que era mulher — disse o Rei. — Uma bela mulher.

Peter Marlowe balançou a cabeça, desanimado.

— Ele não é como os outros veados — falou o Rei — de jeito nenhum. Não, senhor, não é mesmo. Puxa, tem alguma coisa nele que não é... — O Rei parou, buscou a palavra certa, continuou, desalentado: — Não sei como me expressar. Ele... ele é uma mulher, porra! Lembra quando fez o papel de Desdêmona? Meu Deus, quando, apareceu naquele negligée, aposto que não havia um só homem em Changi que não estivesse de pau duro. Não se pode culpar um homem por se sentir tentado. Eu me sinto tentado, todo o mundo se sente. Quem disser que não, está mentindo. — Depois, olhou para Peter Marlowe, examinando-o com cuidado.

— Ora, pelo amor de Deus! — exclamou Peter Marlowe, irritado. — Está pensando que eu também sou bicha?

— Não — respondeu o Rei, calmamente. — E nem me importo que seja. Contanto que eu saiba.

— Pois é, mas não sou.

— Pois bem que parecia — disse o Rei, abrindo um sorriso. — Briguinha de namorados?

— Vá à merda!

Um minuto mais tarde, o Rei perguntou, cuidadosamente.

— Há muito tempo que conhece o Sean?

— Ele era da minha esquadrilha — finalmente falou Peter Marlowe. — Sean era o caçula, e fui encarregado de tomar conta dele. Fiquei conhecendo-o muito bem. — Jogou fora a ponta ardente do seu cigarro e botou o resto do fumo de volta na caixa. — Na verdade, era o meu melhor amigo. Era um ótimo piloto... derrubou três Zeros sobre Java. — Olhou para o Rei. — Eu gostava muito dele.

— Ele... era assim antes?

— Não.

— Ah, sei que não se vestia como mulher o tempo todo, mas, que diabo, tinha que ser óbvio que era desse jeito.

— Sean nunca foi desse jeito. Era apenas um rapaz muito bonito e meigo. Não tinha nada de efeminado, apenas de... compassivo.

— Já o viu sem roupas, alguma vez?

— Não.

— É, imagino. Ninguém mais viu, também. Nem semidespido.

Deram a Sean um quartinho minúsculo lá no teatro, um quarto particular, coisa a que mais ninguém tinha direito em Changi, nem mesmo o Rei. Mas Sean nunca dormia no quarto. A idéia de Sean sozinho num quarto trancado era perigosa demais, porque havia muitos no campo cuja luxúria vinha à tona, e o resto abafava a luxúria dentro de si. Assim, Sean sempre dormia numa das choças, mas tomava banho e mudava de roupa no quarto particular.

— O que houve entre vocês dois? — indagou o Rei.

— Uma vez, quase cheguei a matá-lo.

Subitamente, a conversa cessou, e ambos ficaram de ouvido atento. Só o que podiam ouvir era um suspiro, algo no ar. O Rei olhou rapidamente ao redor. Sem ver nada de extraordinário, levantou-se e pulou pela janela, Peter Marlowe na sua cola. Os homens na choça também estavam de ouvido atento.

O Rei olhou para os lados da cadeia. Não parecia haver nada errado. Os homens ainda andavam para cima e para baixo.

— O que acha? — indagou o Rei, baixinho.

— Não sei — retrucou Peter Marlowe, concentrando-se. Os homens ainda andavam diante da cadeia, mas agora pareciam andar quase imperceptivelmente mais depressa.

— Ei, olhe — murmurou Tex.

Dobrando a esquina da cadeia, e subindo a ladeira na direção deles, vinha o Capitão Brough. A seguir, outros oficiais começaram a aparecer atrás dele, todos dirigindo-se para as diversas choças dos soldados.

— Encrenca na certa — disse Tex, com azedume.

— Quem sabe é uma revista — falou Max.

O Rei se pôs de joelhos instantaneamente, destrancando a caixa preta. Peter Marlowe disse, rapidamente:

— Até qualquer hora.

— Tome — disse o Rei, jogando-lhe um maço de Kooas — apareça hoje à noite, se quiser.

Peter Marlowe saiu correndo da choça, seguindo ladeira abaixo. O Rei arrancou os três relógios de pulso que estavam enterrados no meio dos grãos de café e levantou-se. Pensou por um momento, depois subiu na cadeira e enfiou os três relógios no meio das folhas de palmeira que formavam o telhado. Sabia que todos os homens haviam visto o novo esconderijo, mas não se importava, pois agora não havia outra coisa a fazer. Depois, trancou a caixa preta, e Brough chegou à porta.

— Muito bem, homens. Para fora.

 

Peter Marlowe não pensava noutra coisa senão no seu cantil, enquanto abria caminho aos empurrões pela multidão de homens suados que se formava na estrada asfaltada. Tentou desesperadamente lembrar-se se havia enchido o cantil, mas não conseguia ter certeza.

Subiu correndo as escadas que levavam à sua choça. Mas esta já estava vazia, e um guarda coreano desmazelado já estava de pé diante da porta. Peter Marlowe sabia que não lhe permitiriam passar, portanto deu meia-volta, esgueirou-se sob o toldo da choça e foi para o outro lado. Correu para a outra porta e já estava ao lado do seu catre, com o cantil na mão, quando o guarda o viu.

O coreano praguejou mal-humorado, veio até onde ele estava e fez sinal para que pusesse o cantil de volta. Mas Peter Marlowe bateu uma continência floreada e disse em malaio, língua que a maioria dos guardas compreendia:

— Saudações, senhor. Talvez tenhamos uma longa espera, e eu vos suplico que me deixeis levar comigo o meu cantil, pois estou com disenteria. — Enquanto falava, sacudia o cantil. Estava cheio.

O guarda arrancou-lhe o cantil das mãos e farejou-o, desconfiado. A seguir, despejou um pouco de água no chão e devolveu com brutalidade o cantil para Peter Marlowe, xingou-o de novo e fez sinal para os homens formados lá embaixo.

Peter Marlowe fez uma reverência, tonto de alívio, e correu para juntar-se a seu grupo.

— Mas que diabo, onde estava, Peter? — indagou Spence, com a dor da disenteria aumentando sua ansiedade.

— Não importa, estou aqui. — Agora que Peter Marlowe estava de posse do seu cantil, ficou até brincalhão. — Como é, Spence, mande os caras entrarem em forma — falou, implicante.

— Vá à merda. Vamos, rapazes, em forma. — Spence contou os homens e perguntou: — Cadê o Bonés?

— No hospital — respondeu Ewart. — Foi para lá logo depois do café. Eu mesmo o levei.

— Mas que diabo, por que não me contou antes?

— Trabalhei o dia inteiro na horta, droga! Vá encher outro!

— Vá com calma, ouviu?

Mas Peter Marlowe não estava prestando atenção às pragas, bate-bocas e boatos. Só esperava que o Coronel e o Mac também estivessem com seus cantis.

Quando havia contado todo o seu grupo, o Capitão Spence foi até onde estava o Tenente-Coronel Sellars, encarregado nominal de quatro choças, e bateu continência:

— Sessenta e quatro, tudo correto, senhor. Dezenove aqui, vinte e três no hospital, vinte e dois nos destacamentos de trabalho.

— Está certo, Spence.

Logo que Sellars teve os números das suas quatro choças, somou-os e levou-os até o Coronel Smedly-Taylor, que era o responsável por 10 choças. A seguir, Smedly-Taylor levou esse número adiante, e assim sucessivamente, dentro e fora da cadeia, até que os totais foram levados ao Comandante do Campo. Este somou o número de homens dentro do campo ao número de homens no hospital e ao número de homens em destacamentos de trabalho, e depois passou o total ao Capitão Yoshima, o intérprete japonês. Yoshima xingou o Comandante do Campo porque o total não conferia: faltava um homem.

Houve uma hora dolorosa de pânico até que o homem que faltava foi encontrado, enterrado no cemitério. O Coronel Dr. Rofer, do Corpo Médico britânico, xingou seu assistente, Coronel Dr. Kennedy, que tentou explicar que era difícil saber a contagem certa, de um instante para o outro, mas o Coronel Rofer xingou-o assim mesmo e disse que aquilo era responsabilidade dele. A seguir, Rofer foi cabisbaixo prestar contas ao Comandante do Campo, que o acusou de ineficiência, e então o Comandante do Campo dirigiu-se a Yoshima e tentou explicar polidamente que o corpo fora encontrado, mas que era difícil manter os números precisos até o último segundo. E Yoshima acusou o Comandante do Campo de ineficiência e disse-lhe que era o responsável... se não conseguia saber um simples número, talvez fosse hora de outro oficial assumir o comando do campo.

Enquanto a raiva percorria os homens formados, os. guardas coreanos revistavam as cabanas, especialmente as dos oficiais. Ali estaria o rádio que buscavam. 0 elo, a esperança dos homens. Queriam encontrar o rádio, como haviam encontrado o outro há cinco meses. Mas os guardas suavam em bicas, como os homens formados suavam em bicas, e a revista deles foi superficial.

Os homens suavam e praguejavam. Alguns desmaiavam. Os que sofriam de disenteria corriam para as latrinas. Os que estavam muito mal agachavam-se ou deitavam-se onde estavam e deixavam a dor rodopiar e consumar-se. Os que estavam sadios não sentiam o fedor. O fedor era normal, a correria para as latrinas era normal, e a espera era normal.

Após três horas, a revista terminou. Os homens foram dispensados. Correram para as choças e a sombra, ou jogaram-se na cama, onde ficaram ofegando, ou foram para os chuveiros e esperaram e reclamaram até que a água lhes aliviou a dor de cabeça.

Peter Marlowe saiu do chuveiro. Enrolou o sarongue na cintura, e foi para o bangalô de concreto dos seus amigos, sua unidade.

— Puki 'mahlu! — disse Mac, abrindo um sorriso. O Major McCoy era um escocês pequeno, durão e de postura bem ereta. Vinte e cinco anos nas selvas da Malásia haviam feito marcas profundas no seu rosto... isso, e mais bebida e dissipação e ataques de febre.

— 'Mahlu senderis — replicou Peter Marlowe, agachando-se feliz. A obscenidade malaia sempre o encantava. Não tinha uma tradução literal em inglês, mas "puki" referia-se grosseiramente a uma parte íntima da mulher, e " 'mahlu" significava "envergonhado".

— Seus filhos da mãe, não dá para falarem inglês uma vez na vida? — disse o Coronel Larkin. Achava-se deitado no colchão, que estava jogado no piso. Larkin sofria de falta de ar por causa do calor, e tinha dor de cabeça, restos da malária. Mac piscou para Peter Marlowe.

— A gente fica explicando, mas nada penetra nessa cabeça dura! Não há esperança para o Coronel!

— É isso aí, camarada! — exclamou Peter Marlowe, imitando o sotaque australiano de Larkin.

— Por que cargas-d'água fui meter-me com vocês dois — gemeu Larkin, cansadamente — é que nunca vou saber.

— Porque ele é preguiçoso, hem, Peter? — disse Mac, com um sorriso. — Você e eu fazemos todo o serviço, não é? E ele fica sentado e finge que está inválido... só porque está com uma pontinha de malária.

— Puki 'mahlu. E me arrume um pouco d'água, Marlowe!

— Pronto, Coronel, senhor! — Entregou a Larkin seu cantil. Quando o viu, o Coronel sorriu, em meio à sua dor.

— Tudo bem, Peter, meu rapaz? — perguntou, suavemente.

— Tudo. Meu Deus, entrei em pânico durante algum tempo.

— Mac e eu também. — Larkin bebeu um gole e devolveu com cuidado o cantil.

— Tudo bem, Coronel? — perguntou Peter Marlowe, assustado com a cor de Larkin.

— Puta merda! — exclamou Larkin. — Nada que uma garrafa de cerveja não pudesse curar. Mas estarei bem amanhã.

Peter Marlowe acenou com a cabeça, concordando.

— Pelo menos, a febre passou — disse. A seguir, apanhou o maço de Kooas, com negligência estudada.

— Meu Deus! — exclamaram Mac e Larkin, a uma só voz. Peter Marlowe abriu o maço e deu um cigarro a cada um.

— Presente de Papai Noel!

— Porra, onde arranjou isso, Peter?

— Espere até termos fumado um pouquinho — disse Mac, com azedume — antes de ouvirmos as más notícias. Ele provavelmente vendeu nossas camas, ou coisa parecida.

Peter Marlowe contou-lhes sobre o Rei e sobre Grey. Escutaram com espanto crescente. Contou-lhes sobre o processo de tratamento do fumo, e escutaram em silêncio até que ele mencionou as porcentagens.

— Sessenta-quarenta! — explodiu Mac, radiante. — Ó, meu Deus, sessenta-quarenta!

— É — disse Peter Marlowe, entendendo Mac erradamente. — Imagine só! Bem, então mostrei-lhe como se fazia. Ficou surpreso quando eu não quis nada em troca.

— Você ensinou o processo de graça? — Mac estava embasbacado.

— Claro. Alguma coisa errada, Mac?

— Por quê?

— Bem, não podia fazer negócio com ele. Os Marlowes não são comerciantes — explicou Peter Marlowe, como se estivesse falando com uma criança. — Simplesmente não agem assim, meu velho.

— Meu Deus, você tem uma oportunidade maravilhosa de ganhar dinheiro e a esnoba desdenhosamente. Suponho que saiba que com o Rei como sócio você poderia ganhar dinheiro bastante para comprar rações em dobro até o dia do Juízo Final. Que diabo, por que não ficou de boca calada e me ensinou e deixou que eu...

— Mas que conversa é essa, Mac? — Larkin interrompeu bruscamente. — O rapaz agiu direito, não teria sido bom para ele ter negócios com o Rei.

— Mas...

— Mas, nada — disse Larkin.

Mac acalmou-se imediatamente, odiando-se por ter explodido. Forçou uma risada nervosa.

— Só estava brincando, Peter.

— Tem certeza, Mac? Meu Deus — falou Peter Marlowe, tristemente. -Será que banquei o idiota? Não queria desapontá-los.

— Não, rapaz, é só o meu jeito de brincar. Vamos, conte-nos o que mais aconteceu.

Peter Marlowe contou-lhes o que acontecera e o tempo todo se perguntava se fizera algo errado. Mac era seu melhor amigo, e era astuto e nunca perdia a paciência. Contou-lhes sobre Sean e, quando acabou, sentiu-se melhor. Depois, foi embora. Era a sua vez de dar comida às galinhas.

Quando ele se foi, Mac disse para Larkin:

— Porra... desculpe. Não tinha motivo para estourar daquele jeito.

— Não o culpo, camarada. O rapaz vive com a cabeça nas nuvens. Tem umas idéias esquisitas. Mas nunca se sabe. Talvez o Rei ainda nos possa ser útil.

— É — disse Mac, pensativo.

Peter Marlowe carregava uma caneca cheia de restos de folhas catados. Passou pela área das privadas até chegar aos galinheiros onde ficavam as galinhas do campo.

Havia galinheiros grandes e pequenos, galinheiros para uma única ave magricela, e um imenso galinheiro para 130 galinhas — aquelas que pertenciam ao campo inteiro, cujos ovos eram para dividir por todos. Os outros galinheiros pertenciam a unidades, ou a um conjunto de unidades que haviam grupado seus recursos. Somente o Rei era proprietário sem sócios.

Mac construíra o galinheiro para a unidade de Peter Marlowe. Nele ficavam três galinhas, a fortuna da unidade. Larkin comprara as aves há sete meses, quando a unidade vendera a última coisa que possuía, a aliança de ouro de Larkin. Este não queria vendê-la, mas Mac estava doente, na época, e Peter Marlowe sofria de disenteria, e duas semanas antes as rações do campo haviam sido novamente diminuídas, portanto Larkin a vendera. Mas não através do Rei, e sim através de um dos seus próprios homens, Tiny Timsen, o comerciante australiano. Com o dinheiro, comprara quatro galinhas do comerciante chinês a quem os japoneses deram a concessão do campo, e junto com as galinhas adquirira também duas latas de sardinha, duas latas de leite condensado e meio litro de óleo de palmeira, cor-de-laranja.

As galinhas eram boas, e punham seus ovos direitinho. Mas uma delas morreu, e os homens a comeram. Guardaram os ossos e os puseram numa panela junto com os miúdos, os pés, a cabeça e o mamão verde que Mac roubara num destacamento de trabalho, e fizeram um ensopado. Durante uma semana inteira seus corpos sentiram-se imensos e limpos.

Larkin abrira uma das latas de leite condensado no dia em que a compraram. Os três tomaram uma colher de sopa por dia cada um, até a lata acabar.

O leite condensado não estragou com o calor. No dia em que não havia mais como raspar a lata, eles a ferveram e beberam o líquido. Estava muito bom.

As duas latas de sardinha e a última lata de leite condensado eram a reserva da unidade. Para o caso de alguma grande maré de azar. As latas eram guardadas num esconderijo, vigiado constantemente por um membro do grupo.

Peter Marlowe olhou à sua volta antes de destrancar a porta do galinheiro, certificando-se de que não havia ninguém por perto para ver como a fechadura funcionava. Abriu a porta e viu dois ovos.

— Tudo bem, Nonya — disse suavemente para a galinha de estimação deles — não vou tocar em você.

Nonya estava chocando sete ovos. Custara muita força de vontade à unidade deixar os ovos debaixo dela, mas se tivessem sorte e saíssem sete pintinhos, e se os sete pintinhos vivessem para se transformar em galos ou galinhas, então o bando deles seria grande, eles poderiam deixar uma galinha permanentemente no choco. E jamais teriam que temer a Enfermaria Seis.

A Enfermaria Seis abrigava os cegos, aqueles que perderam a visão graças ao beribéri.

Qualquer vitamina era mágica contra esta ameaça constante, e os ovos eram uma vasta fonte de força e vitamina, geralmente a única disponível. Era por isso que o Comandante do Campo suplicava e exigia mais ovos do Chefe Supremo. Mas, geralmente, só havia um ovo por semana, para cada homem. Alguns homens recebiam um ovo extra por dia, mas a esta altura geralmente era tarde demais.

Deste modo, as galinhas eram vigiadas noite e dia por um oficial de guarda. Mexer numa galinha pertencente ao campo, ou a outra pessoa, era um crime enorme. Certa vez, pegou-se um homem com uma galinha estrangulada nas mãos, e ele foi espancado até a morte por seus captores. As autoridades consideraram o homicídio justificado.

Peter Marlowe ficou no extremo do seu galinheiro, admirando as galinhas do Rei. Eram sete, gordas e gigantescas, em comparação com as demais. Havia um galo no galinheiro, o orgulho do campo. O nome dele era Sunset. Seu esperma gerava belos filhos e filhas, e podia ser contratado como reprodutor por qualquer um que pagasse o preço: o melhor da ninhada.

Até mesmo as galinhas do Rei eram intocáveis e guardadas como as outras.

Peter Marlowe ficou vendo Sunset pegar uma galinha e cruzar com ela, em meio à poeira. A galinha levantou-se do chão e saiu cacarejando e ainda deu uma bicada numa outra galinha. Peter Marlowe desprezou-se por ficar olhando. Sabia que aquilo era uma fraqueza. Só o faria pensar em N'ai, e seu sexo doeria.

Voltou para o galinheiro, verificou se a porta estava bem trancada e foi embora, segurando os dois ovos com todo o cuidado até chegar ao bangalô.

— Peter, amigo — disse Mac, abrindo um sorriso — este é o nosso dia de sorte!

Peter Marlowe pegou o maço de Kooas e dividiu-o em três montinhos.

— Vamos tirar a sorte para ver quem fica com os dois que sobraram.

— Você fica com eles, Peter — disse Larkin.

— Não, vamos tirar a sorte. A carta mais baixa perde. Mac perdeu e fingiu estar aborrecido.

— Que o diabo o leve! — praguejou.

Abriram os cigarros com cuidado e colocaram o tabaco nas suas caixas, misturando-o com quanto fumo tratado de Java possuíam. Depois, dividiram as suas porções em quatro, e guardaram as três outras porções numa outra caixa; Larkin ficou tomando conta dessas outras caixas. Ter tanto fumo junto era muita tentação.

Abruptamente, os céus se abriram e o dilúvio começou.

Peter Marlowe tirou o sarongue, dobrou-o com cuidado e botou-o na cama do Mac. Larkin comentou, pensativo:

— Peter. Veja onde pisa com o Rei. Ele pode ser perigoso.

— Claro. Não se preocupe.

Peter saiu para o temporal. Daí a um momento, Mac e Larkin se despiram e saíram também, reunindo-se aos outros homens nus que curtiam a chuvarada.

Seus corpos recebiam com prazer as vergastadas, os pulmões enchiam-se do ar* fresco, as cabeças se desanuviavam.

E as águas lavavam o fedor de Changi.

 

Depois da chuva, os homens ficaram sentados, saboreando o frescor fugaz, esperando a hora de jantar. A água escorria do telhado e rodopiava nas valas, e o chão era só lama. Mas o Sol brilhava orgulhoso no céu branco e azul.

— Ó, Deus! — exclamou Larkin, agradecido. — Assim está melhor.

— É — concordou Mac, os dois sentados na varanda. Mas o pensamento de Mac estava no seu seringal em Kedah, bem mais para o norte. — O calor tem o seu valor... faz a gente apreciar mais o tempo fresco — disse, suavemente. — É como a febre.

— A Malásia é uma bosta, a chuva é uma bosta, o calor é uma bosta, a malária é unia bosta, os percevejos são uma bosta e as moscas são uma bosta — disse Larkin.

— Não em tempos de paz, homem. — Mac piscou o olho para Peter Marlowe. — Não numa aldeia, hem, Peter, meu rapaz?

Peter Marlowe abriu um sorriso. Contara a eles a maior parte das coisas sobre sua aldeia. Sabia que Mac adivinharia o que ele não havia contado, pois Mac vivera sua vida adulta no Oriente, e amava-o tanto quanto Larkin o odiava.

— É o que dizem — falou, serenamente, e todos sorriram.

Não falavam muito. Todas as histórias já haviam sido contadas e recontadas, todas as histórias que queriam contar.

E então, esperaram pacientemente. Quando chegou a hora, cada um foi para sua fila, depois voltou ao bangalô. Tomaram rapidamente a sopa. Peter Marlowe ligou a chapa quente elétrica feita por eles, e fritou um ovo. Puseram as suas porções de arroz na vasilha e ele pôs o ovo sobre o arroz, com um pouco de sal e pimenta. Bateu tudo junto, para que a clara e a gema e o arroz ficassem bem misturados, depois dividiu a mistura e todos a comeram com satisfação.

Quando acabaram, Larkin foi lavar os pratos, pois era sua vez, depois voltaram a sentar-se na varanda para esperar a chamada da hora do crepúsculo.

Peter Marlowe estava olhando preguiçosamente para os homens que andavam pela rua, saboreando sua barriga cheia, quando viu Grey se aproximar.

— Boa-noite, Coronel — cumprimentou Grey a Larkin, batendo continência corretamente.

— Boa-noite, Grey — suspirou Larkin. — O que é, agora? — Quando Grey vinha procurá-lo, era sempre sinal de encrenca.

Grey olhou para Peter Marlowe. Larkin e Mac sentiram a hostilidade entre ambos.

— O Coronel Smedly-Taylor pediu-me que lhe avisasse, senhor — disse Grey. — Dois dos seus homens estavam brigando. O Cabo Townsend e o Soldado Gurble. Estão agora na cadeia.

— Muito bem, Tenente — disse Larkin, sombriamente. — Pode soltá-los. Mande que se apresentem a mim, depois da chamada. Vou mostrar-lhes o que e' bom! — Fez uma pausa. — Sabe por que brigavam?

— Não, senhor. Mas creio que era por causa do duas-para-o-alto. — Joguinho ridículo, pensou Grey. Coloca-se duas moedinhas num pedaço de pau e depois joga-se as duas para o alto e aposta-se como vão cair: duas caras, duas coroas, uma cara e uma coroa.

— É provável que sim — resmungou Larkin.

— Quem sabe o senhor podia proibir o jogo. Sempre há encrenca quando...

— Proibir o duas-para-o-alto — interrompeu Larkin, abruptamente. — Se fizesse isso, diriam que estou maluco. Não iriam respeitar uma ordem ridícula dessas, e com toda a razão. O jogo faz parte da natureza australiana, já devia saber disso. O duas-para-o-alto é um motivo de diversão para os soldados, e brigar de vez em quando também não é mau. — Levantou-se e esticou os ombros, para afastar a malária. — Jogar é como respirar para um australiano. Ora, lá na Austrália todo o mundo faz suas apostazinhas. — A voz dele tinha uma ponta de irritação. — Eu mesmo gosto de um joguinho de duas-para-o-alto, de quando em vez.

— Sim, senhor — disse Grey. Já vira Larkin e outros oficiais australianos com os seus comandados, rolando no pó, tão excitados e soltando tantos palavrões quanto qualquer soldado. Não admira que a disciplina fosse ruim.

— Diga ao Coronel Smedly-Taylor que cuidarei deles. Puta merda!

— Foi uma pena a história do isqueiro de Marlowe, não foi, senhor? — comentou Grey, olhando atentamente para Larkin.

Os olhos de Larkin ficaram firmes, e repentinamente duros.

— Ele devia ter sido mais cuidadoso. Não acha?

— Sim, senhor — respondeu Grey, após uma pausa longa o suficiente para dar seu recado. Bem, pensou, valeu a pena tentar. Pro diabo com Larkin e pro diabo com Marlowe. Há tempo de sobra. Já ia bater continência e sair, quando uma idéia fantástica o sacudiu. Controlou seu entusiasmo e disse, casualmente: — Ah, a propósito, senhor. Está correndo um boato de que um dos australianos tem um anel de diamantes. — Deu um tempo antes de perguntar: — Sabe de alguma coisa?

Os olhos de Larkin fitavam sob sobrancelhas espessas. Lançou um olhar pensativo a Mac antes de responder:

— Também já ouvi os boatos. Ao que me consta, não é um dos meus homens. Por quê?

— Só estou verificando, senhor — disse Grey, com um sorriso duro. — Naturalmente, o senhor sabe que um anel desses pode ser dinamite. Para o seu dono e mais um bocado de gente. — Acrescentou: — Deveria estar bem trancado.

— Não acho, meu velho — disse Peter Marlowe, e o "meu velho" era discretamente maldoso. — Seria a pior coisa a se fazer... se é que o diamante existe. O que eu duvido. Se estiver num lugar conhecido, um monte de rapazes vai querer vê-lo. E os japoneses o afanariam, logo que soubessem de sua existência.

— Concordo — falou Mac, pensativo.

— Está melhor onde está. No limbo. Provavelmente não passa de mais um boato — disse Larkin.

— Espero que sim — disse Grey, agora convencido de que seu palpite estava certo. — Mas o boato parece bem forte.

— Não é um dos meus homens. — A cabeça de Larkin fervia. Grey parecia saber algo... quem seria? Quem?

— Bem, senhor, se souber de alguma coisa, avise-me. — Os olhos de Grey correram Peter Marlowe de alto a baixo, desdenhosamente. — Gosto de impedir as encrencas antes que comecem. — Em seguida, bateu uma continência caprichada para Larkin, fez um sinal de cabeça para Mac, e se afastou.

Houve um silêncio longo e pensativo no bangalô. Depois, Larkin olhou para o Mac.

— Por que será que ele perguntou aquilo?

— É — falou Mac. — Por quê? Viu como a cara dele ficou toda acesa, como um farol?

— Foi mesmo! — confirmou Larkin, os vincos do rosto mais fundos do que de costume. — Grey tem razão quanto a uma coisa. Um diamante pode custar muito sangue a muitos homens.

— É só um boato, Coronel — falou Peter Marlowe. — Ninguém poderia guardar uma coisa dessas, por tanto tempo. Impossível.

— Espero que .tenha razão. — Larkin franziu a testa. — Deus me ajude, que não esteja com nenhum dos meus rapazes.

Mac se espreguiçou. Sua cabeça doía, e podia sentir um acesso de febre a caminho. Bem, ainda ia demorar uns três dias, pensou calmamente. Já tivera tanta febre que ela fazia parte de sua vida, como respirar. Agora, era uma vez a cada dois meses. Lembrava-se que estivera na bica para se reformar em 1942, por ordem médica. Quando a malária chega ao seu baço... bem, então é hora de ir para casa, meu velho, para a velha Escócia, para o clima frio, hora de comprar aquela fazendola perto de Killin, de onde se vê a glória do Lago Tay. E então você pode viver.

— É — comentou Mac, cansado, sentindo o peso dos seus 50 anos. A seguir, falou em voz alta o que todos estavam pensando. — Mas se tivéssemos a danada da pedrinha, poderíamos agüentar o repuxo sem medo do futuro. Sem medo nenhum.

Larkin preparou um cigano e acendeu-o, dando uma boa baforada. Passou-o para Mac, que fumou e passou-o para Peter Marlowe. Quando estavam quase no fim do cigarro, Larkin jogou fora a ponta ardente e colocou os restos do tabaco na sua caixa. Depois, quebrou o silêncio.

— Acho que vou dar uma volta. Peter Marlowe sorriu.

— Salamat — disse, o que significa: "A paz esteja convosco."

— Salamat — respondeu Larkin, e saiu para o Sol.

Enquanto Grey subia a ladeira que levava à choça da PM, seu cérebro fervia de entusiasmo. Prometeu a si mesmo que logo que chegasse à choça e soltasse os australianos, prepararia um cigarro para comemorar. Era o seu segundo do dia, embora só tivesse fumo javanês bastante para mais três cigarros, até o dia do pagamento, na semana entrante.

Subiu célere os degraus e fez sinal para o Sargento Masters.

— Pode soltá-los!

Masters retirou a pesada trave da porta da jaula de bambu e os dois cabeçudos ficaram em posição de sentido diante de Grey.

— Os dois devem apresentar-se ao Coronel Larkin, depois da chamada. Os homens bateram continência e saíram.

— Malditos arruaceiros — disse Grey, secamente. Sentou-se, pegou sua caixa e os papéis. Fora extravagante, este mês. Comprara uma página inteira da Bíblia, que dava os melhores cigarros. Embora não fosse um homem religioso, ainda assim parecia meio sacrílego fumar a Bíblia. Grey leu as escrituras do fragmento que se preparava para enrolar: "E então Satã" saiu da presença do Senhor e encheu Jó de furúnculos da sola dos pés até o alto da cabeça. E levou-lhe um caco de louça para que os raspasse com ele; e ele se sentou em meio às cinzas. E então sua esposa disse..."

Esposa! Mas que diabo, por que tive que deparar com essa palavra? Grey praguejou e virou o papel.

A primeira frase do outro lado era: "Por que não morri ao deixar o ventre? Por que não expirei quando saía de dentro da barriga?"

Grey ergueu o corpo abruptamente, quando uma pedra veio voando pela janela, bateu contra uma parede e caiu com barulho no chão.

A pedra estava enrolada num pedaço de jornal. Grey apanhou-a e correu para a janela. Mas não havia ninguém à vista. Grey sentou-se e alisou o jornal, que tinha escrito nas bordas: Faço um trato com você. Entrego-lhe o Rei numa bandeja... se fechar os olhos quando eu comerciar um pouquinho no lugar dele, depois que o pegar. Se concordar com o trato, fique de pé diante da choça por um minuto com esta pedra na mão esquerda. A seguir, livre-se do outro tira. Os caras dizem que é um tira honesto, portanto vou confiar em você. .

— O que diz aí, senhor? — perguntou Masters, fitando com olhos turvos o jornal.

Grey amassou o papel, formando uma bola.

— Alguém acha que trabalhamos bem demais para os japoneses — falou, asperamente.

— Mas que filho da mãe! — exclamou Masters, indo até a janela. — O que eles acham que aconteceria se a gente não cuidasse da disciplina? Os sacanas passariam o dia todo se engalfinhando.

— É isso mesmo — concordou Grey. A bola de papel parecia ter vida na sua mão. Se esta oferta for para valer, pensou, o Rei pode sei derrubado.

Não era uma decisão fácil de tomar. Teria que cumprir sua parte no acordo. Sua palavra empenhada não voltava atrás; era um "tira" honesto, e tinha muito orgulho de sua reputação. Grey sabia que faria qualquer coisa para ver

o Rei dentro da jaula de bambu, despido dos seus enfeites... chegaria até a fechar um pouco os olhos à transgressão das regras. Ficou imaginando qual dos americanos podia ser o delator. Todos odiavam o Rei, tinham inveja dele... mas quem bancaria o Judas, quem arriscaria as conseqüências, caso fosse descoberto? Fosse quem fosse o homem, jamais poderia ser uma ameaça tão grande quanto o Rei.

E assim, foi lá para fora com a pedra na mão esquerda e examinou atentamente os homens que passavam. Mas nenhum deles deu-lhe qualquer sinal.

Jogou fora a pedra e dispensou Masters. A seguir, ficou sentado na choça, esperando. Já perdera a esperança, quando outra pedra voou pela janela, enrolada no segundo recado: Examine uma lata que está na vala ao lado da Choça 16. Duas vezes ao dia, de manhã e depois da chamada. Ela será a nossa intermediária. Ele está negociando com Turasan, esta noite.

 

Naquela noite, Larkin ficou deitado no seu colchão, sob o mosquiteiro, seriamente preocupado com o Cabo Townsend e o Soldado Gurble. Eles se haviam apresentado a Larkin, após a chamada.

— Mas por que cargas-d'água vocês estavam brigando? — perguntara repetidamente, e a resposta taciturna era sempre a mesma:

— Duas-para-o-alto.

Mas Larkin soubera instintivamente que estavam mentindo.

— Quero a verdade — dissera, com raiva. — Qual é, vocês dois são amigos. Vamos, por que estavam brigando?

Mas os dois homens haviam mantido o olhar no chão, obstinadamente. Larkin os interrogara individualmente, mas cada um, por sua vez, dera a mesma resposta carrancuda:

— Duas-para-o-alto.

— Muito bem, seus filhos da mãe — dissera Larkin finalmente, com voz áspera. — Vou dar-lhes uma última chance. Se não me contarem a verdade, vou transferir os dois do meu regimento. E no que me diz respeito, vocês deixarão de existir!

— Mas Coronel — exclamara Gurble, ofegante — o senhor não faria isso!

— Dou-lhes trinta segundos — dissera Larkin, maldosamente, falando sério. E os homens sabiam que falava sério. E sabiam que a palavra de Larkin era a lei no regimento, pois Larkin era como o pai deles. Ser expulso significaria que não mais existiriam para seus camaradas, e sem estes, eles morreriam. Larkin esperara um minuto. Depois, falara: — Muito bem. Amanhã...

— Eu conto, Coronel — interrompera Gurble. — Esse cretino me acusou de roubar a comida dos meus camaradas. Esse cretino disse que eu estava roubando...

— E estava mesmo, seu filho da mãe nojento!

— Sentido! — trovejara Larkin, impedindo que se atracassem. O Cabo Townsend havia contado primeiro o seu lado da história.

— Este é o meu mês de trabalhar na cozinha. Hoje tivemos que cozinhar para cento e oitenta e oito...

— Quem está faltando? — indagara Larkin.

— Billy Donahy, senhor. Baixou hospital hoje à tarde.

— Continue.

— Bem, senhor. Cento e oitenta e oito homens, com direito a cento e vinte e cinco gramas de arroz por dia, dá um total de vinte e três quilos e meio. Sempre vou pessoalmente ao depósito com um colega para ver o arroz ser pesado e depois o transporto, para me certificar que recebemos toda nossa porção. Bem, hoje estava vigiando a pesagem quando tive uma eólica daquelas. Assim, pedi ao Gurble que carregasse o arroz para a cozinha. Ele é o meu melhor colega, por isso achei que podia confiar nele...

— Não toquei num só grão, seu filho da mãe. Juro por Deus...

— Faltava arroz quando eu voltei! — berrara Townsend. — Quase duzentos e cinqüenta gramas, ou seja, a ração de dois homens!

— Eu sei, mas não...

— Os pesos não estavam errados! Verifiquei-os debaixo do seu nariz, cretino!

Larkin fora com os homens verificar os pesos, e viu que estavam corretos. Não havia dúvida de que a quantidade certa de arroz saíra do depósito, pois as rações eram pesadas publicamente todas as manhãs pelo Tenente-Coronel Jones. Só havia uma resposta.

— No que me diz respeito, Gurble — falara Larkin — você está fora do meu regimento. Está morto.

Gurble saíra para a escuridão, tropegamente, choramingando, e Larkin dissera a Townsend.

— Fique de boca calada sobre esse assunto.

— Puxa vida, Coronel — retrucara Townsend. — Os soldados o fariam em pedaços, se soubessem. E com razão! O único motivo pelo qual não contei a eles é porque ele era meu melhor colega. — De repente seus olhos encheram-se de lágrimas. — Puxa vida, Coronel, nós nos alistamos juntos. Acompanhamos o senhor por Dunquerque e aquela droga de Oriente Médio e toda a Malásia. Eu o conheci quase que a minha vida toda, e teria apostado a minha vida...

Agora, recordando tudo, pouco antes de dormir, Larkin estremeceu. Como é que um homem pode fazer uma coisa dessas, perguntou-se, desanimado. Como? Logo o Gurble, a quem conhecia há tantos anos, que até mesmo trabalhara no seu gabinete, em Sydney!

Fechou os olhos e tirou Gurble da cabeça. Cumprira seu dever, e era seu dever proteger a maioria. Deixou o pensamento vagar, até a mulher Betty, preparando um bife a cavalo, a sua casa com vista para a baía, a sua filhinha, a vida que ia viver depois. Mas quando? Quando?

Grey subiu suavemente os degraus da Choça 16, como um ladrão dentro da noite, dirigindo-se para sua cama. Tirou a calça e se enfiou sob o mosquiteiro, deitando-se nu sobre o colchão, muito satisfeito consigo mesmo. Acabara de ver Turasan, o guarda coreano, esgueirar-se pelo canto da choça americana e sob o toldo de lona; vira o Rei pular cautelosamente a janela para encontrar-se com Turasan. Grey ficara apenas mais um momento nas sombras. Estava apenas verificando a informação do espião, e ainda não havia necessidade de saltar sobre o Rei. Não. Ainda não, agora que o delator provara ser de confiança.

Grey mudou de posição na cama, coçando a perna. Os dedos experientes agarraram o percevejo e o esmagaram. Ouviu o estalido que o inseto fez ao estourar e sentiu o fedor adocicado do sangue que continha... seu próprio sangue.

Em volta do seu mosquiteiro, nuvens de mosquitos zumbiam, buscando o furinho inevitável. Ao contrário da maioria dos oficiais, Grey recusara-se a converter sua cama em beliche, pois detestava ter que dormir acima ou abaixo de outra pessoa. Apesar dos beliches significarem mais espaço.

Os mosquiteiros ficavam presos num arame que dividia ao meio o comprimento da choça. Até mesmo durante o sono os homens estavam presos um ao outro. Quando um homem se virava, ou puxava o mosquiteiro para prendê-lo melhor sob o colchão ensopado, todos os mosquiteiros se sacudiam um pouco, e todos os homens se sentiam cercados.

Grey esmagou outro percevejo, mas não estava concentrado nos insetos. Hoje estava muito feliz... com o dedo-duro, com o seu compromisso de pegar o Rei, com o anel de diamantes, com Marlowe. Estava muito satisfeito, pois solucionara o enigma.

É simples, repetiu de novo consigo mesmo. Larkin sabe quem tem o diamante. O Rei é o único no campo que pode providenciar a venda. Somente os contatos do Rei são bons o bastante para tal. Larkin não iria procurar o Rei diretamente, então mandou Marlowe. Este é o intermediário.

A cama de Grey balançou quando Johnny Hawkins, muito doente, tropeçou nela, semidesperto, dirigindo-se para a privada.

— Cuidado, pelo amor de Deus! — exclamou Grey, irritado.

— Desculpe — disse Johnny, tateando em busca da porta.

Dentro de alguns minutos, Johnny estava de volta, aos tropeções. Algumas pragas sonolentas acompanharam sua trajetória. Mal Johnny chegou a seu beliche, já estava na hora de voltar à privada. Desta vez, Grey não notou a cama balançar, pois estava trancado dentro de si mesmo, prevendo as jogadas prováveis do inimigo.

Peter Marlowe achava-se totalmente desperto, sentado nos degraus duros da Choça 16, sob o céu sem Lua, os olhos, ouvidos e mente perscrutando a escuridão. De onde estava podia ver as duas estradas — a que dividia o campo em dois e a que margeava os muros da cadeia. Tanto os guardas japoneses e os coreanos quanto os prisioneiros se utilizavam dos dois caminhos. Peter Marlowe era a sentinela norte.

Atrás dele, nos outros degraus, sabia que o Capitão-Aviador Cox concentrava-se como ele, perscrutando a escuridão, para ver se havia perigo. Cox vigiava o sul.

O leste e o oeste não eram guardados porque a Choça 16 tinha entradas apenas pelo norte ou sul.

De dentro da choça, e por toda a parte, ouviam-se os ruídos dos adormecidos... gemidos, risadas estranhas, roncos, choramingos, gritos semi-abafa-dos... misturados à suavidade dos murmúrios dos insones. Era uma noite fresca e boa aqui, acima da estrada. Tudo estava normal.

Peter Marlowe teve um sobressalto, como um cão que avista a presa. Pressentira o guarda coreano antes mesmo de tê-lo divisado na escuridão, e quando chegou a ver realmente o guarda, já dera o sinal de advertência.

Nos fundos da choça, Dave Daven não escutou o primeiro assobio, de tão absorto no seu trabalho. Quando escutou o segundo, mais urgente, respondeu-o, arrancou as agulhas, largou-se no catre e prendeu a respiração.

O guarda se arrastava pelo campo, fuzil no ombro, e não viu Peter Marlowe, ou os outros. Mas sentiu seus olhos. Apressou o passo e saiu da esfera do ódio.

Depois de uma eternidade, Peter Marlowe ouviu Cox dar o sinal de tudo-bem, e descontraiu-se novamente. Mas seus sentidos permaneceram alerta.

Nos fundos da choça, Daven recomeçou a respirar. Levantou-se com cuidado sob o grosso mosquiteiro no beliche de cima. Com infinita paciência religou as duas agulhas às extremidades do fio isolante por onde passava a corrente. Depois de uma busca desgastante, sentiu as agulhas entrarem nos buraquinhos da trave de 20-por-20 que servia de cabeceira do beliche. Uma gota de suor formou-se no seu queixo e caiu na trave, quando ele encontrou as duas outras agulhas que estavam ligadas ao fone de ouvido e novamente, após uma busca cega e torturante, sentiu com as pontas dos dedos os buracos que lhes correspondiam, e enfiou as agulhas direitinho na trave. O fone de ouvido começou a funcionar, em meio à estática:

"... e as nossas forças estão-se movendo rapidamente pelas selvas para Mandalay. E aqui terminam as notícias. Aqui fala Calcutá. Vamos resumir as notícias: forças americanas e britânicas estão fazendo o inimigo recuar na Bélgica, e no setor central, na direção de Saint-Hubert, em meio a fortes tempestades de neve. Na Polônia, os exércitos russos estão a 32 quilômetros de Krakow, também sob fortes nevascas. Nas Filipinas, as forças americanas lançaram uma cabeça-de-ponte sobre o Rio Agno, dirigindo-se para Manila. Formosa foi bombardeada à luz do dia por B-29 americanos, sem perdas. Na Birmânia, exércitos britânicos e indianos vitoriosos estão a uns 50 quilômetros de Mandalay. O próximo noticiário será às seis horas, hora de Calcutá."

Daven pigarreou de leve e sentiu o fio isolante vivo dar um leve repuxão e se soltar, quando Spence, no beliche ao lado, tirou o seu grupo de agulhas da fonte. Rapidamente, Daven soltou as suas quatro agulhas, recolocando-as no seu estojo de costura. Enxugou o suor do rosto, e cocou o lugar onde os percevejos o mordiam. A seguir, soltou os fios do fone de ouvido, apertou com cuidado os terminais, e colocou-o numa bolsa especial na sua sunga, por trás dos testículos. Abotoou a calça e dobrou o fio, enfiando-o pelas presilhas do cinto e dando um nó com ele. Pegou um trapo e enxugou as mãos, depois tapou com cuidado os buraquinhos na trave, enchendo-os de poeira, disfarçando-os perfeitamente.

Ficou deitado na cama por mais um momento para recobrar as forças e se coçando. Quando já estava mais sereno, saiu de sob o mosquiteiro e pulou para o chão. A essa hora da noite nunca se dava ao trabalho de colocar a perna postiça, por isso passou a mão nas muletas e foi-se balançando suavemente em direção à porta. Não fez nenhum sinal ao passar pelo beliche de Spence. A regra era essa. Todo cuidado é pouco.

As muletas rangeram, madeira contra madeira, e pela décima milionésima vez Daven pensou na sua perna. Aquilo já não o incomodava muito, atualmente, embora o coto doesse pra cachorro. Os médicos lhe disseram que logo teria que cortar mais um pedaço dele. Isso já fora feito duas vezes, uma vez uma operação verdadeira abaixo do joelho, em 1942, quando pisara num terreno minado. Outra vez acima do joelho, sem anestesia. Só de pensar nisso, sentiu rangerem os dentes e jurou que jamais passaria por aquilo de novo. Mas dessa próxima vez, a última vez, não seria assim tão ruim. Eles tinham anestesia, aqui em Changi. Seria a última vez, porque não havia mais muita coisa para amputar.

— Oh, alô, Peter — disse, quase tropeçando no colega. — Não o vi.

— Alô, Dave.

— Bela noite, não é? — Dave jogou o corpo com cuidado degraus abaixo. — Minha bexiga está-se engraçando de novo.

Peter Marlowe sorriu. Se Daven dissera isso, significava que as notícias eram boas. Se ele dissesse: "Vou dar uma mijada", significava que nada estava acontecendo no mundo. Se dissesse: "Meus intestinos estão me matando", significava uma grande derrota em algum lugar do mundo. Se dissesse: "Segure minha muleta um instante", significava uma grande vitória.

Embora Peter Marlowe fosse ouvir as notícias detalhadamente no dia seguinte, decorá-las com Spence e contar para as outras choças, gostava de saber de imediato como estavam as coisas. E então ficou sentado, olhando Daven que se arrastava de muletas para o mictório, gostando dele, respeitando-o.

Daven parou, com a muleta rangendo. O mictório era feito de um pedaço dobrado de ferro corrugado. Daven ficou olhando sua urina correr para a extremidade baixa, depois cascatear, espumante, da calha enferrujada para o grande tambor, aumentando a escuma que se formava na superfície do líquido. Lembrou-se de que o dia seguinte era dia de coleta. O tambor seria levado embora, juntado a outros, e levado para as hortas. O líquido seria misturado à água, depois essa mistura seria colocada cuidadosamente, xícara por xícara, sobre as raízes das plantas tratadas e vigiadas pelos homens que plantavam a comida do campo. Esse fertilizante tornaria mais verde as verduras que comiam.

Daven detestava verduras. Mas eram comida, e a gente tinha que comer.

Uma brisa deixou gelado o suor das suas costas, e trouxe consigo o travo do mar, a cinco quilômetros de distância, cinco anos-luz de distância.

Daven ficou pensando em como o rádio estava funcionando perfeitamente. Sentiu-se muito satisfeito consigo mesmo ao lembrar-se como erguera delicadamente uma lasca fina do alto da trave, e como fizera ali embaixo um buraco de 15 centímetros de profundidade. Como tudo isso fora feito em segredo. Como ele levara cinco meses embutindo o rádio, trabalhando à noite e de madrugada e dormindo de dia. Como a tampa se encaixava com tanta perfeição que, quando se cobria com poeira as beiradas, seu contorno não podia ser visto, nem mesmo de muito perto. E como os buracos das agulhas também eram invisíveis quando cobertos de pó.

A idéia de que ele, Dave Daven, era o primeiro no campo a ouvir as notícias enchia-o de orgulho. E tornava-o único. A despeito da perna. Um dia ele ouviria a notícia do término da guerra. Não apenas a guerra européia. A guerra deles. A guerra do Pacífico. Graças a ele, o campo estava ligado ao exterior, e sabia que o terror, o suor e a angústia valiam a pena. Somente ele, Spence, Cox, Peter Marlowe e os dois coronéis ingleses sabiam onde o rádio ficava. Era sensato agir assim, pois quanto menos gente soubesse, menor o perigo.

Claro que havia perigo. Sempre havia olhos indiscretos, olhos em que não se podia necessariamente confiar. Sempre havia a possibilidade de alcagüetes. Ou de se deixar escapar alguma coisa, involuntariamente.

Quando Daven voltou para a porta da choça, Peter Marlowe já se retirara para seu beliche. Daven viu que Cox ainda estava sentado nos degraus opostos, mas isso era de se esperar, pois as regras ditavam que as duas sentinelas não se retiravam ao mesmo tempo. O coto de Daven começou a cocar loucamente, mas não exatamente o coto, e sim o pé que não mais estava lá. Subiu para seu beliche, fechou os olhos e rezou. Sempre rezava antes de dormir, para o sonho não vir, a imagem nítida do querido Tom Cotton, o australiano, que fora pegado com o outro rádio e fora levado sob escolta para a Cadeia de Utram Road, com o chapéu de cule derrubado atrevidamente sobre um dos olhos, cantando debochadamente Waltzing Matilda, e o refrão era "Fodam-se os Japoneses". Mas no sonho de Daven era ele, não Tommy Cotton. quem ia com os guardas. Ele ia com eles, e ele ia tomado de um terror abjeto.

— Ó, Deus — rezou Daven, lá no íntimo — dai-me a paz da Vossa coragem. Tenho tanto medo e sou tão covarde.

O Rei estava fazendo a coisa de que mais gostava na vida. Contava uma pilha de notas novinhas. Lucro de uma venda.

Turasan segurava educadamente sua lanterna elétrica, com o facho cuidadosamente abafado e focalizado na mesa. Estavam na "loja" como a chamava o Rei, juntinho à choça americana. Agora, do toldo de lona caía outro pedaço de lona, até o chão, ocultando a mesa e os bancos dos olhos onipresentes. Era proibido aos guardas e prisioneiros comerciarem, por ordem dos japoneses, passando a ser, desse modo, uma ordem também do Comandante do Campo.

O Rei tinha armado sua expressão de "tapeado-num-negócio" e contava de cara fechada.

— O.K. — suspirou o Rei finalmente, quando as notas chegaram a 500. — Ichi-bon!

Turasan acenou com a cabeça, assentindo. Era um homem baixo e atarracado, com cara de lua cheia e a boca coalhada de dentes de ouro. Deixara o fuzil descuidadamente encostado à parede da choça, às suas costas. Apanhou a caneta Parker e a reexaminou atentamente. O ponto branco estava lá. A pena era de ouro. Levantou a caneta mais para perto da luz encoberta e apertou os olhos para se certificar, mais uma vez, de que as palavras 14 quilates estavam gravadas na pena.

— Ichi-bon — resmungou, finalmente, e chupou o ar entre os dentes. Também ele afivelara sua expressão de "tapeado-num-negócio", e ocultava sua satisfação. Por 500 dólares japoneses, a caneta era uma excelente aquisição, e sabia que conseguiria facilmente o dobro por ela, dos chineses de Cingapura.

— Seu maldito negociante ichi-bon — disse o Rei, carrancudo. — Semana que vem, talvez um relógio de puIso ichi-bon. Mas sem grana, não negocio. Tenho que ganhar uma grana.

— Grana demais — falou Turasan, indicando a pilha de notas com a cabeça. — Relógio logo, talvez?

— Talvez.

Turasan ofereceu seus cigarros. O Rei aceitou um, deixando que Turasan o acendesse. A seguir, Turasan chupou o ar entre os dentes pela última vez, e abriu seu sorriso dourado. Botou o fuzil no ombro, curvou-se educadamente e sumiu dentro da noite.

O Rei abriu um largo sorriso enquanto terminava o cigarro. Uma bela noite de trabalho, pensou: 50 dólares pela caneta, 150 para o homem que falsificou o ponto branco e gravou a pena... 300 dólares de lucro. O fato de que a cor sumiria da pena em uma semana não incomodava o Rei nem um pouquinho. Sabia que a esta altura, Turasan já a teria vendido a um chinês. O Rei entrou pela janela da sua choça.

— Obrigado, Max — falou, baixinho, pois a maioria dos americanos na choça já dormia. — Pode descansar, agora. — Separou duas notas de 10 dólares. — Dê a outra ao Dino. — Geralmente não pagava tanto a seus homens por um período tão curto de trabalho. Mas essa noite estava muito generoso.

— Puxa, obrigado.

Max saiu às pressas, e foi dizer ao Dino para relaxar, entregando-lhe uma nota de 10 dólares.

O Rei botou o bule de café na chapa quente. Tirou as roupas, pendurou a calça, e botou a camisa, cueca e meias na cesta de roupa suja. Vestiu uma sunga limpa, quarada ao Sol, e enfiou-se sob o mosquiteiro.

Enquanto esperava que a água fervesse, foi recordando o dia de trabalho. Primeiro, o Ronson. Conseguira que o Major Barry aceitasse 550, menos 55 dólares, que era sua comissão de 10%, e registrara o isqueiro com o Capitão Brough como "ganho no pôquer". Ele valia pelo menos 900 dólares, fácil; portanto, fora um bom negócio. Do jeito que a inflação está crescendo, pensou, é importante ter o máximo possível da grana em mercadoria.

O Rei lançara o empreendimento do fumo tratado com uma reunião de vendas. Tudo acontecera conforme o planejado. Todos os americanos se haviam oferecido como vendedores, e os contatos ingleses e australianos do Rei acharam ruim. O que era normal. Já combinara comprar 10 quilos de fumo javanês de Ah Lee, o chinês que tinha a concessão da loja do campo, e ele o arranjaria com bom desconto. Uma das cozinhas australianas já concordara em ceder um dos seus fornos diariamente por uma hora, para que toda a leva de tabaco pudesse ser cozida de uma só vez, sob a supervisão de Tex. Como todos os homens trabalhavam na base de comissão, a única despesa do Rei era com o tabaco. Amanhã, o tabaco preparado estaria à venda. Do jeito que ele arrumara tudo, teria um lucro de 100%. O que não era mais do que justo.

Agora que o projeto do tabaco estava em andamento, o Rei estava pronto para atacar o do diamante...

O sibilar da cafeteira fervente interrompeu sua meditação. Saiu de sob o mosquiteiro e destrancou a caixa preta. Botou três colheres cheias de pó de café na água e acrescentou uma pitada de sal. Quando a água levantou fervu-ra, ele a tirou do fogo e esperou até que baixasse.

O aroma do café espalhou-se pela choça, atormentando os homens que ainda estavam acordados.

— Jesus! — exclamou Max, involuntariamente.

— O que foi, Max? — perguntou o Rei. — Não consegue dormir?

— Não. Estou /com a cabeça cheia demais. Estive pensando. Podemos faturar adoidado com aquele tabaco,

Tex mexeu-se, inquieto, sentindo o aroma.

— Esse cheiro me faz lembrar de quando eu procurava petróleo.

— Como? — O Rei derramou água fria para a borra ir para o fundo, depois botou uma colher de sopa cheia de açúcar na sua caneca, e encheu-a.

— A melhor parte da perfuração é de manhã. Depois de um turno da noite suarento e longo nas máquinas. Quando a gente senta com os colegas e toma o primeiro bule escaldante de café, ao alvorecer. E o café é fumegante e doce, e ao mesmo tempo um pouco amargo. E talvez você olhe por entre o emaranhado de torres e vê o Sol nascendo no Texas. — Deu um longo suspiro. — Puxa, isso é que é vida.

— Nunca estive no Texas — disse o Rei. — Já viajei muito, mas não no Texas.

— É a terra de Deus.

— Quer uma xícara?

— Se quero. — Tex se aproximou, com sua caneca. O Rei se serviu de uma segunda xícara. A seguir, deu meia xícara para Tex.

— Max?

Este também ganhou meia xícara. Bebeu depressa o café.

— Ajeito isso para você de manhã — falou, levando o bule cheio de borra.

— Certo. Boa-noite, rapazes.

O Rei enfiou-se de novo sob o mosquiteiro e certificou-se de que estivesse bem esticado sob o colchão. A seguir, deitou-se gostosamente entre os lençóis. Viu Max, do outro lado da cabana, juntar um pouco d'água à borra do café, para deixar marinar, ao lado do seu catre. O Rei sabia que Max aproveitaria a borra para o seu desjejum. Pessoalmente, o Rei não gostava de usar o pó duas vezes. O café ficava amargo demais. Mas os rapazes achavam ótimo. Se Max queria reaproveitar o pó, tudo bem, pensou, de bom humor. O Rei não aprovava o desperdício.

Fechou os olhos e passou a pensar no diamante. Finalmente sabia quem o possuía, como obtê-lo, e agora que a sorte lhe trouxera Peter Marlowe, sabia como podia ser feita a complicadíssima transação.

Uma vez que se fica conhecendo um homem, disse o Rei para si mesmo, satisfeito, que se conhece o seu calcanhar-de-aquiles, sabe-se como lidar com ele, como fazer com que se encaixe nos seus planos. É, o seu palpite dera certo, quando deparara com Peter Marlowe pela primeira vez, acocorado como um nativo no pó, tagarelando em malaio. A gente tem que arriscar seus palpites, neste mundo.

Agora, pensando na conversa que tivera com Peter Marlowe depois da chamada da hora do crepúsculo, o Rei sentiu o calor da expectativa espalhar-se no corpo.

— Nada acontece nesse buraco do inferno — dissera o Rei, inocentemente, enquanto se sentavam ao abrigo da choça, sob o céu sem Lua.

— Isso mesmo — concordara Peter Marlowe. — É repugnante. Um dia é igual a todos os outros, dá para deixar um cara maluco.

O Rei fizera que sim com a cabeça, esmagando um mosquito.

— Conheço um sujeito que tem toda a emoção que quer, e ainda sobra.

— É? O que ele faz?

— Cruza a cerca de arame. À noite.

— Meu Deus. Mas isso é comprar barulho. Ele deve ser pirado!

Mas o Rei notara o lampejo de excitação nos olhos de Peter Marlowe. Esperou em silêncio, sem nada dizer.

— Por que ele age assim?

— Na maioria das vezes, de curtição.

— Quer dizer, emoção?

O Rei tornara a acenar com a cabeça. E Peter Marlowe assobiara baixinho.

— Não creio que eu tivesse tanta coragem.

— Às vezes, o sujeito vai à aldeia malaia.

Peter Marlowe olhara pela cerca de arame, imaginando a aldeia que todos sabiam existir no litoral, a cinco quilômetros de distância. Certa vez, tinha subido à cela mais alta da cadeia, e escalara a parede até a minúscula janela de grades. Tinha olhado por ela e vira o panorama da selva e da aldeia, juntinho ao litoral. Naquele dia, havia navios no mar. Navios pesqueiros e navios de guerra inimigos... grandes e pequenos... como se fossem ilhas no espelho do mar. Continuara olhando, fascinado com a proximidade do mar, pendurado às grades, até que as mãos e os braços ficaram cansados. Depois de descansar um pouco, iria subir e olhar de novo. Mas não o fez. Nunca mais. Doía demais. Sempre vivera perto do mar. Longe dele, sentia-se perdido. Agora, estava perto dele outra vez. Mas estava fora do seu alcance.

— É muito perigoso confiar numa aldeia inteira — dissera Peter Marlowe.

— Não, se você os conhece.

— Isso é verdade. Esse homem vai mesmo à aldeia?

— Foi o que me disse.

— Acho que nem o Suliman se arriscaria a tanto.

— Quem?

— Suliman. O malaio com quem eu estava conversando, hoje à tarde.

— Parece que já faz um mês — dissera o Rei.

— É mesmo, parece.

— Que diabo um sujeito como o Suliman está fazendo nesse buraco? Por que simplesmente não se mandou, quando a guerra acabou?

— Ele ficou preso em Java. Suliman era seringueiro na plantação de Mac. Mac é um dos caras da minha unidade. Bem, o batalhão de Mac, o Regimento Malaio, saiu de Cingapura e foi mandado para Java. Quando a guerra acabou, Suliman teve que ficar junto com o batalhão.

— Que diabo, ele podia ter-se desgarrado. Há milhões deles em Java...

— Os javaneses o teriam reconhecido imediatamente, e é provável que o denunciassem.

— Mas e quanto ao papo da co-prosperidade, sabe como é, a Ásia para os asiáticos?

— Infelizmente, não vale grande coisa. Não adiantou também para os javaneses. Não, se não obedecessem.

— O que quer dizer?

— Em 1942, no outono de quarenta e dois, eu estava num campo nos limites de Bandung — explicara Peter Marlowe. — Fica nas colinas de Java, no centro da ilha. Nessa época havia muitos amboneses, menadoneses e diversos javaneses conosco... homens que estiveram no Exército holandês. Bem, o campo era dureza para os javaneses, pois muitos eram de Bandung e suas mulheres e filhos moravam do lado de fora da cerca. Durante muito tempo, eles costumavam escapulir e passar a noite fora, depois voltar para o campo antes do alvorecer. O campo não era muito vigiado, portanto era fácil. Mas muito perigoso para os europeus, porque os javaneses os denunciavam aos japoneses, e eles estavam fritos. Certo dia, os japoneses proclamaram que quem quer que fosse descoberto do lado de fora seria fuzilado. Naturalmente, os javaneses pensaram que aquilo se referia a todos, menos a eles... já lhes fora dito que daí a duas semanas todos seriam livres para partir, em todo o caso. Certa manhã, sete deles foram presos. Puseram-nos em forma, no dia seguinte. O campo inteiro. Os javaneses foram encostados num muro e fuzilados. Sem mais nem menos, diante de todos nós. Os sete corpos foram enterrados... com honras militares... onde caíram. A seguir, os japoneses fizeram um jardinzinho em volta das tumbas. Plantaram flores e isolaram toda a área com uma cerca de cordas brancas, e colocaram um cartaz em malaio, japonês e inglês: Estes homens morreram por seu país.

— Está-me gozando!

— Não estou, não. Mas o engraçado é que os japoneses puseram uma guarda de honra nas tumbas. Depois, cada guarda japonês, cada oficial japonês que passava pelo "santuário" tinha que bater continência. Sem exceção. E nessa época, os prisioneiros tinham que se levantar e fazer reverência sempre que avistavam um soldado japonês, caso contrário, levavam uma coronhada de fuzil na cabeça.

— Não faz sentido. O jardim e as continências.

— Faz para eles. É a mente oriental. Para eles, faz perfeito sentido.

— Mas não faz mesmo. De jeito nenhum!

— É por isso que não gosto deles — dissera Peter Marlowe, pensativo. — Tenho medo deles, porque não tenho parâmetro para julgá-los. Não reagem como deveriam. Nunca.

— Ah, não sei. Conhecem o valor do dinheiro, e pode-se confiar neles, na maioria das vezes.

— Está falando comercialmente? — Peter Marlowe dera uma risada. — Bem, quanto a isso, não sei. Mas quanto às pessoas em si... Houve outro fato que presenciei. Num outro campo em Java... lá estavam sempre mudando a gente de lugar, não é como em Cingapura... também em Bandung. Havia um guarda japonês, um dos melhores. Não implicava com a gente, como a maioria. Bem, este homem, a quem chamávamos de Sunny, pois vivia sempre sorrindo, adorava cachorros. E Sunny sempre tinha uma meia dúzia deles a seu lado, quando percorria o campo. O seu favorito era um cão-pastor... uma cadela. Um dia, a cadela teve uma ninhada dos cachorrinhos mais engraçadinhos do mundo, e Sunny parecia o japonês mais feliz do mundo, treinando os cachorrinhos, rindo e brincando com eles. Quando começaram a andar, fez tre-las de barbante para eles, e andava por todo o campo puxando os bichinhos. Certo dia, estava puxando os filhotes, quando um deles resolveu sentar-se. Sabe como são os cachorrinhos, ficam cansados e se sentam. Sunny arrastou-o um pouquinho, depois deu um repelão. O bichinho ganiu, mas empacou.

Pelei Marlowe fizera uma pausa, preparando um cigarro. A seguir, continuara:

— Sunny agarrou firme o barbante e começou a girar o cãozinho acima da cabeça, na ponta da corda. Girou-o cerca de doze vezes, dando risadas, como se aquilo fosse a maior piada do mundo. Então, quando o cãozinho desesperado ganhou impulso, ele deu uma rodada final e largou o barbante. O bichinho deve ter voado uns quinze metros. E quando caiu no chão duro, arrebentou-se como um tomate maduro.

— Mas que filho da mãe!

Depois de um momento, Peter Marlowe dissera:

— Sunny foi até onde estava o cãozinho. Olhou para ele, depois desatou a chorar. Um dos nossos pegou uma pá e enterrou os restos, e o tempo todo Sunny se rasgava de dor. Quando a sepultura estava lisa, ele enxugou as lágrimas, deu ao homem um maço de cigarros, xingou-o durante cinco minutos, deu-lhe uma coronhada na virilha, depois fez uma reverência para a sepultura, outra para o homem ferido, e se afastou, todo sorridente, com os outros cães e filhotes.

O Rei sacudira a cabeça, devagar.

— Quem sabe ele era só louco. Sifilítico.

— Não, Sunny não era. Os japoneses parecem agir como crianças, mas têm corpos de homens, e força de homens. Apenas encaram as coisas como as crianças. A perspectiva deles é oblíqua... para nós... e distorcida.

— Ouvi contar que as coisas foram brabas em Java, depois da rendição — dissera o lei, para que o outro continuasse falando. Levara quase uma hora para fazer com que Peter Marlowe começasse a falar, e queria que este se sentisse à vontade.

— De certo modo. Claro que em Cingapura havia mais de cem mil homens, portanto os japoneses tinham que ser cautelosos. A cadeia de comando ainda existia, e muitas unidades achavam-se intactas. Os japoneses estavam pressionando muito para tomar a Austrália, e não ligavam muito, contanto que os prisioneiros de guerra se comportassem e se organizassem em campos. Foi a mesma coisa em Sumatra e Java, durante algum tempo. A idéia deles era seguir em frente e tomar a Austrália, depois todos seríamos mandados para lá como escravos.

— Está maluco — dissera o Rei.

— Não estou, não. Foi um oficial japonês que me contou, depois que fui capturado. Mas quando a marcha deles foi detida na Nova Guiné, começaram a limpar suas linhas. Em Java não havia muitos de nós, portanto podiam dar-se ao luxo de ser brutos. Disseram que não tínhamos honra... os oficiais... porque nos deixáramos ser capturados. Assim, não nos consideravam prisioneiros de guerra. Cortaram nosso cabelo e nos proibiram de usar as insígnias de oficial. Acabaram por deixar que "voltássemos a ser" oficiais outra vez, embora não nos permitissem deixar crescer o cabelo de novo. — Peter Marlowe sorrira. — Como foi que chegou aqui?

— A mancada de costume. Eu fazia parte de uma equipe de construção de uma pista de pouso. Nas Filipinas. Tínhamos que sair de lá a toque de caixa. O primeiro navio que pudemos pegar dirigia-se para cá, e embarcamos nele. Imaginávamos que Cingapura seria tão segura quanto o Forte Knox. Quando chegamos aqui, os nipônicos já estavam quase passando por Johore. Houve um pânico de última hora, e todos os rapazes tomaram o último comboio a sair daqui. Menos eu, achei arriscado, e fiquei. O comboio foi torpedeado no mar. Usei a cabeça... e estou vivo. Na maioria das vezes, só os otários são mortos.

— Não creio que eu tivesse tido a sabedoria de ficar... se tivesse a oportunidade — comentara Peter Marlowe.

— A gente tem é que cuidar do número um, Peter. Mais ninguém cuida. Peter Marlowe pensara muito nessa frase — cuidar primeiro de si. Pedaços de conversa varavam a noite. Ocasionalmente, uma explosão de raiva. Sussurros. As nuvens constantes de mosquitos. De longe vinha o som lamentoso de um apito de navio, seguido de outro em resposta. As palmeiras farfalhavam, delineadas contra o céu escuro. Uma folha seca caíra do alto de uma palmeira e desabara no chão da selva.

Peter Marlowe quebrara o silêncio.

— Esse amigo seu. Vai mesmo à aldeia?

O Rei olhara dentro dos olhos de Peter Marlowe.

— Quer ir? — perguntara, baixinho. — Da próxima vez que eu for? Um leve sorriso retorcera os lábios de Peter Marlowe.

— Quero...

Um mosquito zumbiu no ouvido do Rei num crescendo irritante. Ele se levantou bruscamente, pegou a lanterna elétrica e vasculhou o interior do mosquiteiro. Finalmente, o inseto pousou na cortina, e o Rei esmagou-o habilmente. A seguir, verificou cuidadosamente que não houvesse furos na tela, e deitou-se outra vez.

Dentro de um momento, apagou. O sono vinha rápida e tranqüilamente para o Rei.

Peter Marlowe ainda estava acordado, no seu beliche, coçando as mordidas dos percevejos. O que o Rei lhe dissera havia despertado muitas lembranças...

Lembrou-se do navio que o trouxera, e a Mac e Larkin, de Java, um ano antes.

Os japoneses haviam ordenado ao Comandante de Bandung, um dos campos em Java, que arranjasse 1.000 homens para um destacamento de trabalho. Os homens seriam enviados para outro campo próximo durante duas semanas, com boa comida (rações duplas) e cigarros. A seguir, seriam transferidos para outro local. Boas condições de trabalho.

Muitos homens se haviam oferecido para ir, por causa das duas semanas. Alguns foram obrigados. Mac se oferecera como voluntário, e indicara Larkin e Peter Marlowe também.

— Nunca se sabe, rapazes — explicara, quando eles o xingaram. — Se pudermos ir para uma ilhazinha, bem, Peter e eu conhecemos o idioma. E afinal, o lugar não pode ser pior do que este.

E assim, decidiram trocar o mal que conheciam pelo mal que estava por vir.

O navio era um minúsculo vapor de carga. No começo da prancha de embarque havia muitos guardas e dois japoneses de branco, com máscaras brancas. Às costas traziam grandes recipientes, e nas mãos borrifadores ligados aos recipientes. Todos os prisioneiros e seus pertences foram esterilizados com os borrifadores, para que não levassem micróbios javaneses para o navio limpo.

No pequeno porão de carga da popa havia ratos, piolhos e fezes, e havia um espaço de seis metros por seis metros no centro do porão. Em toda a volta do porão, presas ao casco, do convés ao teto, havia cinco camadas de prateleiras fundas. A altura entre as prateleiras era de cerca de 90 centímetros, e sua profundidade era de três metros.

Um Sargento japonês mostrou aos homens como sentar nas prateleiras,

de pernas cruzadas. Cinco homens em fileira, depois cinco homens em fileira ao lado destes, depois cinco homens em fileira ao lado destes. Até que todas as prateleiras estivessem lotadas.

Quando os protestos de pânico tiveram início, o Sargento disse que os soldados japoneses eram transportados dessa maneira, e o que servia para o glorioso Exército japonês servia também para a escória branca. Um revólver forçou os cinco primeiros homens, ofegantes, para dentro da escuridão claustrofóbica, e a pressão dos homens que desciam para o porão forçou os outros a fugirem da massa que empurrava, para dentro das prateleiras. Estes, por sua vez, foram forçados por outros. Joelho com joelho, costas com costas, lado a lado. Os homens que sobraram — quase 100 — ficaram aparvalhados na pequena área de seis por seis, agradecendo aos céus não estarem metidos nas prateleiras. As escotilhas ainda estavam abertas, e o Sol castigava o porão.

O Sargento levou uma segunda fileira, que incluía Mac, Larkin e Peter Marlowe, para o porão da proa, e também este começou a ser lotado.

Quando Mac chegou ao porão abafado, deu um gemido e desmaiou. Peter Marlowe e Larkin o seguraram, e em meio à balbúrdia abriram caminho à força, voltando pela prancha até o convés. Um guarda tentou empurrá-los de volta. Peter Marlowe gritou, suplicou e mostrou o rosto trêmulo de Mac. O guarda deu de ombros e deixou-os passar, fazendo sinal na direção da proa.

Larkin e Peter Marlowe empurraram, xingaram e abriram um espaço para deitar Mac.

— O que vamos fazer? — perguntou Peter Marlowe a Larkin.

— Vou tentar arranjar um médico. A mão de Mac agarrou Larkin.

— Coronel. — Abriu imperceptivelmente os olhos e sussurrou bem rápido. — Estou bem. Tive de dar um jeito de tirar a gente de lá. Pelo amor de Deus, finjam que estão cuidando de mim e não se preocupem se me virem "ter" um ataque.

E assim, eles seguraram Mac enquanto ele choramingava, em delírio, e se debatia e vomitava a água que o forçavam a beber. Ele continuou assim até o navio zarpar. Agora, até mesmo o convés estava coalhado de homens.

Não havia espaço suficiente para todos os homens a bordo se sentarem ao mesmo tempo. Mas como havia filas para tudo — filas para água, para o arroz, para as privadas — cada homem podia sentar-se durante algum tempo.

Naquela noite, uma tormenta fustigou o navio durante seis horas. Os que estavam nos porões tentavam fugir do vômito, e os que estavam no convés tentavam fugir do temporal.

O dia seguinte foi calmo, sob um céu azul. Um homem caiu ao mar. Os que estavam no convés — homens e guardas — ficaram olhando durante muito tempo, enquanto ele se afogava na esteira do navio. Depois disso, ninguém mais caiu no mar.

No segundo dia, os cadáveres de três homens foram lançados ao mar. Alguns guardas japoneses dispararam seus fuzis para tornar a cerimônia mais militar. O serviço foi breve... era preciso entrar nas filas.

A viagem durou quatro dias e cinco noites. Para Mac, Larkin e Peter Marlowe, transcorreu sem novidades...

Peter Marlowe ficou deitado no colchão ensopado, ansiando pelo sono. Mas seu pensamento corria incontrolável, repisando terrores do passado e temores do futuro. E lembranças que seria melhor esquecer. Pelo menos agora, que estava só. Lembranças dela.

A alvorada já despontava quando finalmente adormeceu. Mas até mesmo então, seu sono foi cruel.

 

Os dias se sucediam, numa monotonia de dias.

E então, certa noite, o Rei foi ao hospital do campo procurar Masters. Encontrou-o na varanda de uma das choças, deitado numa cama fedorenta, semiconsciente, olhos fitos na parede de folhas.

— Alô, Masters — disse o Rei, depois de certificar-se de que ninguém estava ouvindo. — Como se sente?

Masters levantou os olhos, sem o reconhecer.

— Sente?

— Claro.

Passou-se um minuto, depois Masters resmungou:

— Não sei. — Um fio de saliva escorria do seu queixo.

O Rei apanhou sua caixa de fumo e encheu a caixa vazia pousada sobre a mesa, ao lado da cama.

— Masters — disse o Rei. — Obrigado por ter-me avisado.

— Avisado?

— Do que você leu no pedaço de jornal. Só queria agradecer, e dar-lhe um pouco de fumo.

Masters esforçou-se por recordar.

— Ah! Não é direito um colega espionar um colega. É sujeira, sacanagem! — E depois morreu.

O Dr. Kennedy se aproximou e puxou a coberta grosseira cuidadosamente sobre o rosto de Masters.

— Amigo seu? — perguntou ao Rei, com os olhos cansados e gélidos, sob um colchão de espessas sobrancelhas.

— De certo modo, Coronel.

— Ele tem sorte — disse o médico. — Acabaram-se as dores.

— É uma maneira de encarar a coisa, senhor — disse o Rei, polidamente. Pegou o fumo e devolveu-o à própria caixa. Masters não precisaria dele, agora.

— Do que ele morreu?

— De falta de ânimo. — O médico abafou um bocejo. Tinha os dentes manchados e sujos, os cabelos escorridos e sujos, as mãos rosadas e imaculadas.

— Quer dizer vontade de viver?

— É uma maneira de encarar a coisa. — O médico olhou de cara feia para o Rei. — Não há perigo de você morrer disso, não é?

— Que diabo, não. Senhor.

— O que o torna tão invencível? — perguntou o Dr. Kennedy, odiando aquele corpanzil que vendia saúde e força.

— Não estou entendendo. Senhor.

— Por que você está numa boa, e todo o resto não?

— Tenho sorte, só isso — disse o Rei, começando a se retirar. Mas o médico agarrou-lhe a camisa.

— Não pode ser só sorte. Não pode. Quem sabe você é o demônio, enviado para nos atormentar ainda mais! Você é um vampiro e um trapaceiro e um ladrão...

— Escute aqui. Jamais roubei ou trapaceei na vida, e não vou agüentar isso de ninguém.

— Então, quer-me contar como consegue? Como? É só o que quero saber. Não entende? Você é a resposta para todos nós. Você é bom ou é mau, e quero saber o que é.

— Está maluco — disse o Rei, afastando o braço bruscamente.

— Pode ajudar-nos...

— Ajude a si mesmo. Preocupo-me comigo mesmo. Preocupe-se consigo.

— O Rei notou como o jaleco branco do Dr. Kennedy pendia do seu peito emagrecido. — Tome — falou, dando-lhe o resto de um maço de Kooas. — Tome um cigarro. É bom para os nervos. Senhor. — Girou nos calcanhares e saiu apressado, estremecendo. Detestava hospitais. Detestava o fedor e a doença e a impotência dos médicos.

O Rei desprezava a fraqueza. Esse médico, pensou, está pronto para abotoar o paletó, o filho da puta. Um cara maluco desses não vai durar muito. Como o coitado do Masters. Mas quem sabe o Masters não era coitado... era Masters e era fraco e portanto não prestava. O mundo era uma selva, e os fortes sobreviviam e os fracos tinham que morrer. Era você ou o seu vizinho. É isso aí. Não há outro jeito.

O Dr. Kennedy fitou os cigarros, abençoando sua boa sorte. Acendeu um. Todo seu corpo saboreou a nicotina. A seguir, entrou na enfermaria, foi até onde estava Johnny Carstairs, detentor da DSO (Ordem do Mérito Militar), Capitão do 1? Regimento Blindado, que já era quase cadáver.

— Tome — disse, passando-lhe o cigarro.

— E o senhor, Dr. Kennedy?

— Não fumo, nunca fumei.

— Que sorte. — Johnny tossiu ao dar uma baforada, e um pouco de sangue veio junto com o escarro. O esforço da tosse contraiu seus intestinos, e um líquido sanguinolento saiu de dentro dele, pois os músculos do seu ânus há muito haviam perdido o controle. — Doutor — disse Johnny. — Quer calçar as minhas botas, por favor? Tenho que me levantar.

O velho olhou ao seu redor. Era difícil enxergar, pois a luz noturna da enfermaria era baixa e cuidadosamente velada.

— Não estou vendo nenhuma por aqui — replicou, olhando com olhos míopes para Johnny, que se sentara na beira da cama.

— Ah. Bem, o que se vai fazer.

— Que tipo de botas eram?

Um fio fino de lágrimas escorreu dos olhos de Johnny.

— Eu cuidava muito bem daquelas botas. Marchei uma vida inteira com elas. Eram a única coisa que me restava.

— Quer outro cigarro?

— Ainda estou terminando, obrigado.

Johnny voltou a deitar-se, no seu próprio excremento.

— Que pena, as minhas botas — disse.

O Dr. Kennedy suspirou e tirou as próprias botas sem cadarços e botou-as nos pés de Johnny.

— Tenho outro par — mentiu, depois ficou de pé, descalço, com dor nas costas.

Johnny remexeu os dedos dos pés, sentindo o toque do couro áspero. Tentou olhar para as botas, mas o esforço era demasiado.

— Estou morrendo — disse.

— Sim — falou o médico. Houve uma época... será que houve mesmo?... em que teria forçado uma mentirinha piedosa. Mas agora não havia por quê.

— Que coisa sem sentido, não é, Doutor? Vinte e dois anos e nada. Do nada para o nada.

Uma corrente de ar trouxe a promessa do alvorecer para a enfermaria.

— Obrigado por ter emprestado suas botas — falou Johnny. — Foi uma coisa que sempre prometi a mim mesmo... um homem tem que estar de botas.

Morreu.

O Dr. Kennedy tirou as botas dos pés de Johnny e voltou a calçá-las.

— Enfermeiro! — chamou, vendo um enfermeiro na varanda.

— Sim, senhor? — respondeu Steven, vivamente, vindo em sua direção, um balde de diarréia na mão esquerda.

— Chame r> destacamento dos enterros para vir pegar este aqui. Ah, e pode dispor da cama do Sargento Masters, também.

— Simplesmente não dá para eu fazer tudo, Coronel — disse Steven, largando o balde no chão. — Tenho que levar três comadres para as Camas Dez, Vinte e Três e Quarenta e Sete. E o pobre Coronel Hutton está muito desconfortável. Tenho que mudar o curativo dele. — Steven olhou para a cama e balançou a cabeça. — Nada senão mortos...

— É esse o serviço, Steven. 0 mínimo que podemos fazer é enterrá-los. E quanto mais depressa, melhor.

— É, acho que sim. Pobres rapazes. — Steven suspirou e enxugou delicadamente o suor da testa com um lenço limpo. A seguir, recolocou o lenço no bolso do macacão branco de enfermeiro, apanhou o balde do chão, cambaleou um pouco sob seu peso, e saiu porta afora.

O Dr. Kennedy tinha nojo dele, do seu cabelo preto untuoso, suas axilas e pernas raspadas. Ao mesmo tempo, não podia culpá-lo. O homossexualismo era uma maneira de sobreviver. Os homens brigavam pelo Steven, partilhavam com ele suas rações, davam-lhes cigarros... tudo isso em troca do uso temporário do seu corpo. E afinal de contas, perguntou-se o médico, o que há de tão repugnante nisso? Quando se pensa no "sexo normal", bem, clinicamente é tão repugnante quanto o homossexualismo.

Com a mão áspera cocou o saco distraidamente, pois hoje a coceira estava forte. Involuntariamente, tocou o membro. Estava insensível, frouxo.

Lembrou-se que há meses não tinha uma ereção. Bem, pensou, é por causa da dieta alimentar pobre. Não havia por que se preocupar. Logo que sair daqui e me alimentar direito, tudo ficará bem. Um homem de 43 anos ainda é um homem.

Steven voltou com o destacamento mortuário. O corpo foi posto numa maça e levado embora. Steven trocou a única coberta. Daí a um momento, entrou outra maça, e o novo paciente ocupou a cama.

Automaticamente, o Dr. Kennedy tomou o pulso do homem.

— A febre vai ceder amanhã — falou. — É só malária.

— Sim, Doutor. — Steven ergueu os olhos, afetadamente. — Devo dar-lhe um pouco de quinino?

— Claro que tem que lhe dar quinino!

— Desculpe, Coronel — disse Steven mordazmente, jogando a cabeça para trás. — Só estava perguntando. Somente os médicos podem autorizar o uso de drogas.

— Pois bem, dê-lhe o quinino, e pelo amor de Deus, Steven, pare de fingir que é um raio de uma mulher.

— Ora! — As pulseiras de argola de Steven chacoalharam quando ele, todo

ofendido, voltou-se para cuidar do paciente. — É muito injusto implicar com uma pessoa que só está tentando fazer o melhor, Dr. Kennedy.

O médico estava para estourar com Steven quando, neste momento, o Dr. Prudhomme entrou na enfermaria.

— Boa-noite, Coronel.

— Oh, alô. — O Dr. Kennedy virou-se para ele, agradecido, dando-se conta de que teria sido uma cretinice estourar com Steven. — Tudo bem?

— Tudo. Posso falar-lhe um momento?

— Claro.

Prudhomme era um homem pequeno e sereno — de peito de pombo — com as mãos manchadas pelos anos lidando com substâncias químicas. Tinha uma voz profunda e gentil.

— Temos dois apêndices para amanhã. Um deles acaba de chegar na Emergência.

— Está bem. Vou dar uma olhada neles antes de sair.

— Quer operar? — Prudhomme lançou um olhar para o fundo da enfermaria, onde Steven segurava um vaso para um homem vomitar.

— Quero. Assim fico ocupado — replicou Kennedy. Espiou para o canto escuro. À meia-luz da lâmpada elétrica velada, as pernas longas e esguias de Steven se destacavam. Igualmente sobressaía a curva das suas nádegas na calça apertada e curta.

Sentido o olhar dos homens, Steven ergueu os olhos. Sorriu.

— Boa-noite, Dr. Prudhomme.

— Alô, Steven — respondeu Prudhomme, suavemente.

O Dr. Kennedy percebeu, entristecido, que Prudhomme ainda olhava para Steven. Prudhomme virou-se para Kennedy, notando seu choque e mal-estar.

— Ah, a propósito, terminei a autópsia daquele homem que foi achado na fossa. Morte por sufocação — disse, baixinho.

— Se um homem é achado de ponta cabeça, enfiado numa fossa, é mais do que provável que a morte se deva à sufocação.

— É verdade, Doutor — disse Prudhomme, sem se abalar. — Escrevi no atestado de óbito: "Suicídio enquanto estava com a mente perturbada."

— Já identificaram o corpo?

— Já. Hoje à tarde. Era um australiano, chamado Gurble. O Dr. Kennedy esfregou o rosto.

— Não é a maneira que eu escolheria para cometer suicídio. Pavorosa. Prudhomme concordou com a cabeça, e seus olhos voltaram a fitar Steven.

— Sem dúvida. É claro, ele pode ter sido colocado lá.

— Havia marcas no corpo?

— Nenhuma.

O Dr. Kennedy tentou parar de notar o modo como Prudhomme olhava para Steven.

— Bem, seja assassinato ou suicídio, é uma maneira horrível. Horrível! Imagino que nunca vamos saber o que foi ao certo.

— Houve um rápido inquérito, hoje à tarde, logo que se soube quem era. Aparentemente, faz alguns dias, o tal homem foi pegado roubando rações de uma choça.

— Oh, sei.

— Bem, seja lá o que tenha sido, ele mereceu, não acha?

— Imagino que sim. — O Dr. Kennedy estava com vontade de continuar a conversa, pois se sentia solitário, mas percebeu que Prudhomme se achava interessado somente no Steven. — Bem — falou — acho melhor ir ver os doentes. Quer vir junto?

— Não, obrigado, tenho que preparar os pacientes para a operação. Enquanto o Dr Kennedy saía da enfermaria, viu, com o canto do olho,

Steven passar perto de Prudhomme, e este fazer-lhe uma carícia furtiva. Ouviu a risada de Steven, e viu que ele retribuía a carícia, aberta e intimamente.

A obscenidade deles deixou-o pasmo, e sabia que deveria voltar para a enfermaria, mandar que se separassem e levá-los à corte marcial. Mas estava cansado demais, portanto foi andando para o outro extremo da varanda.

O ar estava parado, a noite escura e desfolhada, a Lua, como um arco gigante, pendurada nas vigas do céu. Os homens ainda cruzavam a trilha, mas todos calados. Tudo esperava pelo alvorecer.

Kennedy olhou para as estrelas, tentando ler nelas uma resposta à sua pergunta constante. Quando, ó, Deus, este pesadelo terá fim?

Mas não havia resposta.

Peter Marlowe estava na latrina dos oficiais, apreciando a beleza do alvorecer e a beleza de uma evacuação agradável. A primeira era freqüente, a segunda rara.

Ele sempre escolhia a última fila, quando vinha às latrinas, em parte porque ainda detestava evacuar em público, em parte porque lhe desagradava ter alguém às suas costas, e em parte porque era divertido ver os outros.

As fossas tinham sete metros e meio de profundidade, 60 centímetros de diâmetro, e ficavam a l,80m de distância uma das outras. Vinte fileiras descendo a inclinação, 30 privadas por fileira. Cada uma delas era coberta com madeira, com uma tampa solta.

No centro da área ficava um único trono feito de madeira. Uma privada convencional. Era prerrogativa dos coronéis. Todos os demais tinham que se agachar, à moda nativa, com os pés de cada lado do buraco. Não havia telas de espécie alguma, toda a área ficava às vistas do céu e do campo.

Sentado em esplendor solitário no trono estava o Coronel Samson. Exceto pelo sovado chapéu de cule, estava nu. Sempre usava o chapéu, era mania dele. A não ser quando estava raspando a cabeça, ou massageando-a ou esfregando óleo de coco e outras esquisitices nela, para ver se recobrava o cabelo. Tivera uma moléstia desconhecida, e certo dia perdera todos os pêlos da cabeça, inclusive cílios e sobrancelhas. 0 resto dele era peludo como um macaco.

Outros homens estavam espalhados pela área, cada um o mais longe possível do vizinho. Cada um com um cantil. Cada um abanando para afastar as nuvens de moscas.

Peter Marlowe disse a si mesmo que um homem nu agachado evacuando é a criatura mais feia do mundo... talvez a mais patética.

Por enquanto, havia apenas a promessa de um novo dia, uma névoa mais clara, dedos de ouro espalhando-se pelo céu de veludo. A terra estava fresca, pois chovera durante a noite, e a brisa era fresca e delicada, cheirando a maresia e a jasmim.

É, pensou Peter Marlowe satisfeito, vai ser um bom dia.

Quando acabou, inclinou o cantil, ainda agachado, e lavou os vestígios das fezes, usando com habilidade os dedos da mão esquerda. Sempre a esquerda. A mão direita é para comer. Os nativos não têm palavras para mão esquerda ou mão direita, é somente mão de cocô e mão de comer. E todos os homens usavam água, pois o papel, qualquer papel, era valioso demais. Exceto o Rei. Ele tinha papel higiênico de verdade. Dera um pedaço para Peter Marlowe e este o partilhara com sua unidade, pois era um excelente papel para cigarro.

Peter Marlowe levantou-se, amarrou de novo o sarongue, e voltou para sua choça, na expectativa do desjejum. Seria mingau de arroz e chá fraco, como sempre, mas hoje a unidade tinha também um coco... outro presente do Rei.

Nos poucos dias em que conhecia o Rei, haviam travado uma amizade rara. Os laços eram parte comida, parte fumo e parte ajuda... o Rei curara as úlceras tropicais dos tornozelos de Mac com Salvarsan — curou-as em dois dias, depois de terem supurado durante dois anos. Peter Marlowe sabia também que, embora os três recebessem de braços abertos a fortuna e o auxílio do Rei, gostavam dele especialmente por ele mesmo. Quando se estava com ele, emanava força e confiança. A gente se sentia melhor e mais forte também... era como se fosse possível alimentar-se da magia que o cercava.

— Ele é um feiticeiro! — falou, involuntariamente, Peter Marlowe, em voz alta.

A maioria dos oficiais da Choça 16 ainda dormia, ou estava deitada esperando a hora do café, quando ele entrou. Tirou o coco de sob o travesseiro e pegou o raspador e o facão. A seguir, foi lá para fora e sentou-se num banco. Uma pancada hábil com o facão abriu o coco em duas metades perfeitas, derrubando a água numa vasilha. A seguir, começou a raspar com cuidado metade do coco. Raspas da polpa caíram dentro da água.

A outra metade do coco ele raspou e colocou num recipiente diferente. Botou esta polpa num pedaço de mosquiteiro e espremeu com cuidado, deixando o caldo cair numa xícara. Hoje, era a vez de Mac adicionar o caldo adocicado ao seu mingau de arroz matinal.

Peter Marlowe pensou mais uma vez que alimento maravilhoso era o resíduo do coco. Rico em proteína e completamente sem sabor. No entanto, era só botar uma lasquinha de alho nele, e ficava alho puro. Um quarto de sardinha, e o todo adquiria gosto de sardinha, que daria sabor a muitos pratos de arroz.

De repente, ficou louco de vontade de comer o coco. Estava com tanta fome que nem ouviu os guardas se aproximando. Nem sentiu sua presença, até que já estavam bloqueando agourentamente a porta da choça, e todos os homens estavam de pé.

Yoshima, o oficial japonês, quebrou o silêncio.

— Há um rádio nesta choça.

 

Yoshima esperou cinco minutos para que alguém falasse. Acendeu um cigarro, e o som do fósforo foi como um trovão.

A primeira reação de Dave Daven foi, ó, meu Deus, quem foi o sacana que nos denunciou, ou bobeou? Peter Marlowe? Cox? Spence? Os coronéis? Sua segunda reação foi de terror — um terror absurdamente misturado com alívio — de que o dia tinha chegado.

O medo de Peter Marlowe era igualmente sufocante. Quem deixara escapar o segredo? Cox? Os coronéis? Ora, até mesmo Mac e Larkin não sabem que eu sei! Santo Cristo! Utram Road!

Cox estava petrificado. Encostou-se no beliche, olhando de um par de olhos puxados para o outro, e somente o fato de estar apoiado o impedia de cair.

O Tenente-Coronel Sellars era o encarregado nominal da choça, e sua calça estava pegajosa de medo, quando entrou no recinto com seu assistente, Capitão Forrest.

Bateu continência, o rosto e a papada vermelhos e molhados de suor.

— Bom-dia, Capitão Yoshima...

— Não é um bom dia. Há um rádio aqui. Um rádio contraria as ordens do Imperial Exército japonês. — Yoshima era pequeno, miúdo e impecável. Uma espada samurai pendia do seu cinto grosso. As botas até os joelhos brilhavam como espelhos.

— Não estou sabendo de nada disso. Não. De nada — vociferou Sellars. — Você! — Um dedo trêmulo apontou para Daven. — Sabe de alguma coisa?

— Não, senhor.

Sellars virou-se e olhou para os ocupantes da choça.

— Onde está o rádio? Silêncio.

— Onde está o rádio? — Achava-se quase histérico. — Onde está o rádio? Ordeno que seja entregue imediatamente. Sabe que somos todos responsáveis pelas ordens do Imperial Exército.

Silêncio.

— Levo vocês todos à corte marcial — berrou, sacudindo as bochechas flácidas. — Vão todos ter o que merecem. Você! Como se chama?

— Capitão-Aviador Marlowe, senhor.

— Onde está o rádio?

— Não sei, senhor.

Foi então que Sellars viu Grey.

— Grey! Você não é o Chefe da Polícia Militar? Se existe um rádio aqui, é sua responsabilidade, sua e de mais ninguém. Devia ter comunicado o fato às autoridades. Levá-lo-ei à corte marcial, e vai constar de sua folha...

— Não sei de nenhum rádio, senhor.

— Mas, por Deus, devia saber — berrou Sellars, o rosto contorcido e roxo. Cruzou furioso a choça, até onde ficavam os cinco oficiais americanos. — Brough! O que sabe dessa história?

— Nada. E é Capitão Brough, Coronel.

— Não acredito em você. É bem o tipo de encrenca que vocês causariam, seus malditos americanos. Não passam de uma ralé indisciplinada...

— Não sou obrigado a ouvir essa merda de você!

— Não fale comigo desse jeito. Diga "Senhor" e fique em posição de sentido.

— Sou o oficial americano mais antigo aqui, e não vou tolerar insultos seus, ou de quem quer que seja. Desconheço a existência de um rádio no contingente americano. Desconheço a existência de um rádio nesta choça. E se existisse, pode apostar que não lhe diria. Coronel!

Sellars virou-se e caminhou ofegante até o centro da choça.

— Então, vamos revistar a choça. Todos de pé ao lado das camas! Sentido! Deus tenha piedade do homem que o tiver. Eu, pessoalmente, cuidarei para que seja punido com todo o rigor da lei, seus porcos amotinados...

— Cale-se, Sellars.

Todos enrijeceram o corpo quando o Coronel Smedly —Taylor entrou na cabana.

— Há um rádio aqui e eu estava tentando...

— Cale-se.

O rosto gasto de Smedly-Taylor estava tenso ao caminhar até Yoshima, que observava Sellars com espanto e desprezo.

— Qual o problema, Capitão? — perguntou, sabendo qual era.

— Há um rádio na choça. — A seguir, Yoshima acrescentou, com ar de escárnio: — Segundo a Convenção de Genebra que governa os prisioneiros de guerra...

— Conheço muito bem o código de ética — disse Smedly-Taylor, forçando-se a não olhar para a trave de 20-por-20. — Se acredita que aqui há um rádio, por favor, faça uma revista. Ou se sabe onde está, queira pegá-lo e encerrar o assunto. Tenho muito o que fazer, hoje.

— Sua obrigação é fazer cumprir a lei...

— Minha obrigação é fazer cumprir a lei civilizada. Se querem citar as leis, obedeçam-nas em primeiro lugar. Dêem-nos os alimentos e remédios a que temos direito.

— Um dia o senhor irá longe demais, Coronel.

— Um dia estarei morto. Talvez morra de apoplexia, tentando fazer cumprir as regras ridículas impostas por administradores incompetentes.

— Darei parte de sua impertinência ao General Shima.

— Faça-o, por favor. E aproveite para perguntar-lhe quem deu ordem para que cada homem no campo tenha que pegar vinte moscas por dia, para que sejam reunidas e contadas e entregues diariamente no seu gabinete por mim, pessoalmente.

— Vocês, oficiais superiores, estão sempre reclamando do índice de mortalidade causado pela disenteria. As moscas espalham a disenteria...

— Não é necessário lembrar-me das moscas ou do índice de mortalidade — disse Smedly-Taylor, asperamente. — Dêem-nos as substâncias químicas e a permissão para exigir a higiene nas áreas vizinhas, e teremos toda a Ilha de Cingapura sob controle.

— Os prisioneiros não têm o direito...

— O seu índice de disenteria é exagerado. O seu índice de malária é alto. Antes de virem para cá, não havia malária em Cingapura.

— Pode ser. Mas nós conquistamos vocês aos milhares e capturamos vocês aos milhares. Nenhum homem de honra se permitiria ser capturado. Vocês são todos animais, e como tal têm que ser tratados.

— Ao que me consta, muitos japoneses estão sendo feitos prisioneiros no Pacífico.

— Onde ouviu essa informação?

— Boatos, Capitão Yoshima. Sabe como é. Obviamente incorretos. Como incorreto é dizer que a esquadra japonesa não está mais nos mares, ou que o Japão está sendo bombardeado, ou que os americanos capturaram Guadalcanal, Guam, Rabaul e Okinawa, e que no momento estão prestes a atacar o próprio Japão...

— Mentiras! — A mão de Yoshima estava na espada samurai de sua cinta, e ele a tirou três centímetros da bainha. — Mentiras! O Imperial Exército japonês está ganhando a guerra, e logo terá dominado a Austrália e a América. A Nova Guiné está em nossas mãos, e uma esquadra japonesa, neste exato momento, está diante de Sydney.

— Claro. — Smedly-Taylor deu as costas a Yoshima e correu os olhos pela choça. Rostos sem cor o fitavam. — Todos lá para fora, por favor — disse, suavemente.

Sua ordem foi obedecida em silêncio. Quando a cabana ficou vazia, voltou-se para Yoshima.

— Queira fazer a revista.

— E se eu descobrir o rádio?

— Está nas mãos de Deus.

Subitamente, Smedly-Taylor sentiu o peso dos seus 54 anos. Estremeceu sob a responsabilidade do seu fardo, pois, embora estivesse satisfeito em servir, satisfeito por estar aqui na hora da necessidade e satisfeito por cumprir seu dever, agora tinha que descobrir o traidor. Quando achasse o traidor, teria que puni-lo. Um homem desses tinha que morrer, como Daven morreria, se o rádio fosse descoberto. Deus nos ajude que não seja descoberto, pensou desesperado, é o nosso único elo com a sanidade. Se existe um Deus no céu, que o rádio não seja descoberto! Por favor.

Mas Smedly-Taylor sabia que Yoshima tinha razão numa coisa. Ele deveria ter tido a coragem de morrer como um soldado — no campo de batalha, ou tentando fugir. Vivo, o câncer da lembrança o corroía — a lembrança de que a ambição, a sede de poder e os erros tinham causado o estupro do Oriente, e inúmeras centenas de milhares de mortes inúteis.

Mas, pensou, se eu tivesse morrido, e quanto à minha querida Maisie, e ao John — meu filho lanceiro — e ao Percy — meu filho aviador — e à Trudy, casada tão jovem, grávida tão jovem e viúva tão jovem, e quanto a eles? Nunca mais vê-los ou tocá-los ou sentir de novo o calor do lar.

— Está nas mãos de Deus — repetiu, mas como ele, as palavras eram velhas e muito tristes.

Yoshima deu ordens enérgicas aos quatro guardas, que arrancaram os beliches dos cantos da choça e fizeram uma clareira. A seguir, puxaram o beliche de Daven para a clareira. Yoshima foi para o canto e começou a olhar para as vigas, para o telhado de folhas de palmeira e para as tábuas grosseiras logo abaixo. Sua revista era cuidadosa, mas Smedly-Taylor percebeu subitamente que era apenas para impressioná-lo... o esconderijo já era conhecido.

Lembrou-se daquela noite, há muitos e muitos meses, em que eles o procuraram.

— A decisão é de vocês — dissera. — Se forem apanhados, foram apanhados e fim da história. Não posso fazer nada para ajudá-los... nada. — Escolhera Daven e Cox, e dissera, em voz baixa: — Se o rádio for encontrado... tentem não implicar os outros. Precisam tentar, durante algum tempo. Depois, devem dizer que eu autorizei o rádio. Que eu ordenei que o fizessem.

A seguir, dispensara-os, abençoara-os à sua moda e lhes desejara sorte.

Agora, estavam todos atolados no azar.

Esperou impaciente que Yoshima pusesse mãos à obra na trave, odiando aquela agonia de gato-e-rato. Podia sentir o desespero dos homens lá fora. Mas nada podia fazer, a não ser esperar.

Finalmente, Yoshima também se cansou do jogo. O fedor da choça o incomodava. Foi até o beliche e fez uma revista superficial. A seguir, examinou a trave. Mas seus olhos não conseguiam descobrir as aberturas. De cara fechada, examinou mais de perto, com os dedos longos e sensíveis alisando a madeira. Ainda assim, não as descobria.

Sua primeira reação foi de que fora mal informado. Mas não podia acreditar nisso, pois o informante ainda não fora pago.

Resmungou uma ordem, e um guarda coreano entregou-lhe sua baioneta, com o cabo para a frente.

Yoshima bateu com ele na trave, buscando um som oco. Ah, pronto, achara-o! Bateu de novo. O som oco, outra vez. Mas não conseguia encontrar as fendas. Raivosamente, enfiou a baioneta na madeira.

A tampa se soltou.

— Ora, ora.

Yoshima sentiu orgulho de ter encontrado o rádio. O General ficaria satisfeito. Satisfeito o bastante, quem sabe, para entregar-lhe uma unidade de combate, pois o seu Bushido se revoltava de pagar delatores e lidar com esses animais.

— A quem pertence este beliche? — perguntou Yoshima.

Smedly-Taylor deu de ombros, também ele fingindo que precisava descobrir.

Yoshima lamentava, lamentava sinceramente que Daven só tivesse uma perna.

— Quer um cigarro? — perguntou, oferecendo o maço de Kooas.

— Obrigado. — Daven pegou o cigarro e aceitou o fogo, mas não sentiu o gosto do fumo.

— Como se chama? — perguntou Yoshima, cortesmente.

— Capitão Daven, Infantaria.

— Como perdeu a perna, Capitão Daven?

— Eu... fui atingido por uma mina. Em Johore... ao norte do elevado.

— Foi o senhor quem fez o rádio?

— Fui.

Smedly-Taylor empurrou para longe seu próprio pavor.

— Ordenei ao Capitão Daven que o fizesse. É minha responsabilidade. Ele cumpria ordens minhas.

— É verdade? — perguntou Yoshima, voltando-se para Daven.

— Não.

— Quem mais sabe do rádio?

— Mais ninguém. A idéia foi minha e eu o fiz. Sozinho.

— Por favor, sente-se, Capitão Daven. — A seguir, Yoshima fez um sinal de desprezo na direção de Cox, que estava sentado, soluçando de terror. — Qual é o nome dele?

— Capitão Cox — disse Daven.

— Olhe para ele. Repugnante. Daven deu uma tragada no cigarro.

— Estou com tanto medo quanto ele.

— Mas está controlado. Tem coragem.

— Estou com mais medo do que ele. — Daven manquejou, desajeitadamente, até Cox, sentou-se com dificuldade a seu lado. — Tudo bem, Cox, meu velho — disse, compassivamente, pondo a mão no ombro de Cox. — Está tudo bem. — A seguir, ergueu os olhos para Yoshima. — Cox ganhou a Cruz Militar em Dunquerque antes de completar vinte anos. É outro homem, agora. Construído por vocês, seus filhos da mãe, num período de três anos.

Yoshima controlou o impulso de .bater em Daven. Diante de um homem, mesmo um inimigo, havia um código. Virou-se para Smedly-Taylor e ordenou-lhe que trouxesse os seis homens dos beliches mais próximos do de Daven, e mandou o resto continuar em forma, sob guarda, até novas ordens.

Os seis homens ficaram diante de Yoshima. Somente Spence sabia da existência do rádio, mas, como os demais, negou conhecimento do fato.

— Peguem o beliche e sigam-me — ordenou Yoshima.

Quando Daven tateou em busca da muleta, Yoshima ajudou-o a levantar-se.

— Obrigado — disse Daven.

— Quer mais um cigarro?

— Não, obrigado. Yoshima hesitou.

— Sentir-me-ia honrado se aceitasse o maço.

Daven deu de ombros, aceitou-o, depois foi manquejando até o canto onde estava sua perna de ferro.

Yoshima bradou uma ordem, e um dos guardas coreanos pegou a perna e ajudou Daven a sentar-se.

Os dedos de Daven estavam firmes enquanto prendia a perna, depois levantou-se, pegou as muletas e fitou-as por um momento. A seguir, lançou-as no canto da choça. Depois, foi andando pesadamente até o beliche e olhou para o rádio.

— Tenlr muito orgulho disso — falou. Bateu continência para Smedly-Taylor e saiu da choça.

O pequeno cortejo cruzou o silêncio de Changi. Yoshima ia na frente e marcava o passo segundo a velocidade de Daven. A seu lado ia Smedly-Taylor. Logo depois, vinha Cox, com as lágrimas escorrendo, e indiferente a elas. Os outros dois guardas esperaram com os homens da Choça 16.

Esperaram 11 horas.

Smedly-Taylor voltou, e os seis homens voltaram. Daven e Cox não voltaram. Permaneceriam na casa da guarda, e no outro dia iriam para a Cadeia de Utram Road.

Os homens foram dispensados.

Peter Marlowe tinha uma dor de cabeça alucinante, devido ao Sol. Voltou aos tropeções para o bangalô e, depois de uma chuveirada, Larkin e Mac massagearam-lhe a cabeça e o alimentaram. Quando terminou, Larkin saiu e sentou-se ao lado da estrada de asfalto. Peter Marlowe ficou acocorado no vão da porta, de costas para o aposento.

A noite vinha chegando por trás do horizonte. Havia uma imensa solidão em Changi, e os homens que andavam para cima e para baixo pareciam mais perdidos do que nunca.

— Acho que vou recolher-me agora, meu rapaz — disse Mac, bocejando. — Durma cedo.

— Está bem, Mac.

Mac ajeitou o mosquiteiro sobre a cama e enfiou-o sob o colchão. Enrolou um trapo para absorver o suor da testa, depois tirou o cantil de Peter Marlowe do seu envoltório de feltro e soltou o fundo falso. Tirou os envoltórios e as bases dos cantis de Larkin e dele próprio, depois cuidadosamente empilhou-os uns sobre os outros. Dentro de cada cantil havia um emaranhado de fios, condensador e tubo.

Do cantil superior tirou cuidadosamente uma junta-macho de seis pinos com o seu complexo de fios, e encaixou-a habilmente na junta-fêmea do cantil do meio. A seguir, tirou uma junta-macho de quatro pinos e encaixou-a na tomada apropriada, no último cantil.

As mãos e os joelhos lhe tremiam, pois fazer aquilo à meia-luz, apoiado num dos cotovelos, ocultando os cantis com o corpo, era extremamente incômodo.

A noite cobriu o céu, aumentando a opressão. Os mosquitos começaram a atacar.

Quando todos os cantis estavam unidos, Mac esticou as costas para aliviar a dor e secou as mãos escorregadias. Depois, tirou o fone de ouvido do seu esconderijo no cantil superior e verificou as ligações, para se certificar de que estavam ajustadas. O fio isolado da fonte também estava no cantil superior. Desenrolou-o e verificou se as agulhas ainda estavam bem soldadas às extremidades do fio. Mais uma vez secou o suor e rapidamente reexaminou todas as conexões, achando, enquanto o fazia, que o rádio ainda parecia tão puro e limpo como quando ele o terminara secretamente em Java — enquanto Larkin e Peter Marlowe montavam guarda — há dois anos.

Levara seis meses para ser projetado e construído.

Apenas a metade inferior do cantil poderia ser usada — a parte de cima teria que conter água — portanto, não apenas ele teria que comprimir o rádio em três minúsculas unidades rígidas, como teria que botar as unidades em recipientes impermeáveis, depois soldar os recipientes dentro dos cantis.

Eles três haviam carregado os cantis durante 18 meses. Para o caso de haver um dia como este.

Mac se ajoelhou e enfiou duas agulhas no âmago dos fios que uniam a luz do teto à sua fonte. A seguir, pigarreou.

Peter Marlowe se levantou e verificou que não havia ninguém por perto. Desatarrachou rapidamente a lâmpada e ligou o interruptor. Depois, voltou para o vão da porta e ficou de guarda. Viu que Larkin ainda estava em posição, vigiando o outro lado e deu o sinal de tudo-em-paz.

Quando Mac o ouviu, aumentou o volume, pegou o fone de ouvido e prestou atenção.

Os segundos se transformaram em minutos. Peter Marlowe virou-se bruscamente, assustado ao ouvir Mac gemer.

— O que foi, Mac? — indagou.

Mac enfiou a cabeça pelo mosquiteiro, o rosto sem cor.

— Não funciona, cara — disse. — Esta bosta não funciona.

 

Seis dias mais tarde, Max encurralou um rato. Na choça americana.

— Olhe só para este filho da puta! — exclamou o Rei. — É o maior rato que já vi!

— Meu Deus — disse Peter Marlowe. — Cuidado para que não morda fora o seu braço!

Estavam todos cercando o rato. Max com uma vassoura de bambu nas mãos, Tex com um bastão de beisebol, Peter Marlowe com outra vassoura. O resto brandia pedaços de pau e facas.

Somente o Rei estava desarmado, mas tinha os olhos no rato e estava pronto para sair do seu caminho. Estava no canto dele, batendo papo com

Peter Marlowe, quando Max dera o primeiro grito, e saltara juntamente com os outros. Tinham acabado de tomar café.

— Cuidado! — gritou, prevendo a súbita corrida do rato para a liberdade. Max atacou-o, selvagemente, e errou. Outra vassoura acertou-o de raspão, derrubando-o por um instante. Mas o rato se pôs de pé de novo, e correu de volta para o canto, e se virou, sibilando, cuspindo e deixando à mostra os dentes pontiagudos.

— Jesus! — exclamou o Rei. — Pensei que o sacana tinha escapado, desta vez.

O rato peludo tinha quase 30 centímetros de comprimento. O rabo media outros 30 centímetros, tendo a espessura do polegar de um homem, na base, e não tinha pêlos. Olhinhos redondos corriam de um lado para o outro, buscando o caminho da fuga. Castanhos e obscenos. A cabeça se afinava para um focinho pontudo, boca estreita, dentes incisivos grandes, muito grandes. Pesaria quase um quilo. Malévolo e muito perigoso.

Max estava respirando com dificuldade pelo esforço, e tinha os olhos fitos no rato.

— Porra, mas eu detesto ratos. Detesto até olhar para eles. Vamos matá-lo. Prontos?

— Espere aí, Max — falou o Rei. — Nâ"o há pressa. Ele não pode fugir, agora. Quero ver o que vai fazer.

— Vai tentar fugir de novo, é o que vai fazer — disse Max.

— E nós o deteremos. Qual é a pressa? — O Rei olhou de novo para o rato e abriu um sorriso. — Você está ferrado, seu filho da puta. Morto.

Quase como se tivesse entendido, o rato avançou para o Rei, de dentes à mostra. Somente os muitos golpes e gritos o fizeram recuar.

— O sacana faria a gente em pedaços, se pudesse meter os dentes na gente — disse o Rei. — Não sabia que podiam ser tão rápidos.

— Ei — intrometeu-se Tex. — Quem sabe deveríamos ficar com ele.

— Mas que conversa é essa?

— Poderíamos ficar com ele. Como mascote. Ou quando a gente não tivesse nada para fazer, soltava-o e corria atrás.

— Ei, Tex — falou Dino. — Podia ser uma boa. Quer dizer, como se fazia antigamente, com as raposas?

— É uma idéia horrorosa — disse o Rei. — Está certo matar o sacana. Mas não há necessidade de torturá-lo, mesmo sendo um rato. Nunca lhe fez mal.

— Pode ser. Mas os ratos são animais nocivos. Não têm o direito de viver.

— Claro que têm — disse o Rei. — Se não fosse por eles, bem, eles comem carniça, como os micróbios. Ora, se não fosse pelos ratos, o mundo todo seria um monte de lixo.

— Porra — interpôs Tex. — Os ratos arruinam as colheitas. Vai ver que foi este filho da mãe que roeu os fundos do saco de arroz, pelo tamanho da barriga dele.

— É — acrescentou Max, malevolamente. — Eles comeram quase quinze quilos, numa noite.

Mais uma vez, o rato avançou para a liberdade. Rompeu o círculo e correu cabana abaixo. Somente por sorte os homens puderam encurralá-lo de novo. Voltou a ficar cercado.

— Melhor acabarmos logo com ele. Da próxima vez, podemos não ter tanta sorte — disse o Rei, ofegante. Subitamente, teve uma inspiração. — Espere aí! — exclamou, quando todos começaram a fechar o cerco.

— O que foi?

— Tive uma idéia. — Voltou-se rapidamente para Tex. — Pegue uma coberta, depressa.

Tex arrancou a coberta da própria cama.

— Agora — disse o Rei. — Você e Max segurem a coberta e peguem o rato.

— Como?

— Quero o bicho vivo. Como é, vamos lá — ordenou o Rei.

— Com a minha coberta? Está maluco? É a única que tenho!

— Arranjo-lhe outra. Mas trate de pegar o filho da mãe.

Todos ficaram olhando boquiabertos para o Rei. Então, Tex deu de ombros. Ele e Max seguraram a coberta, como se fosse um biombo, e começaram a convergir sobre o canto. Os outros, de vassoura em punho, estavam de prontidão para que o rato não escapasse pelas beiradas. E então, Tex e Max deram um mergulho súbito para frente, e o animal ficou preso nas dobras da fazenda. Seus dentes e garras tentaram abrir caminho para a fuga, mas na confusão Max enrolou a coberta, que se tornou uma bola que se contorcia.-Os homens estavam excitados, e gritavam com a captura.

— Mantenham-no quieto — ordenou o Rei. — Max, segure-o. E cuidado para que não fuja. Tex, prepare o café, vamos todos tomar um pouco.

— Que idéia é essa? — quis saber Peter Marlowe.

— É boa demais para contar, sem mais nem menos. Vamos tomar café, primeiro.

Enquanto tomavam café, o Rei se pôs de pé.

— Muito bem, rapazes. Escutem. Temos um rato, certo?

— E daí? — Miller estava tão perplexo quanto os demais.

— Mas não temos comida, certo?

— Certo, mas...

— Ó, meu Deus! — exclamou Peter Marlowe, apalermado. — Não está sugerindo que a gente o coma, está?

— Claro que não — disse o Rei. — A seguir, deu um sorriso angelical. —

Nós não vamos comer. Mas tem muita gente que gostaria de comprar um bocado de carne...

— Carne de rato? — Os olhos de Byron Jones III arregalaram-se, escandalosamente.

— Você está maluco, cara. Acha que alguém iria comprar carne de rato? Claro que não — disse Miller, impaciente.

— Claro que ninguém iria comprar a carne, se soubesse que era de rato. Mas digamos que não saibam, hem? — O Rei deixou as palavras fazerem efeito, depois continuou, afavelmente. — Digamos que a gente não conte para ninguém. A carne vai ter cara de outra carne qualquer. Diremos que é coelho...

— Não existem coelhos na Malásia, meu velho — disse Peter Marlowe.

— Bem, pensem num animal que exista, do mesmo tamanho.

— Creio — disse Peter Marlowe, depois de refletir por um momento -que poderíamos dizer que é esquilo... ou, já sei — falou, todo animado. -Veado. Diremos que é veado...

— Ora, qual é, um veado é muito maior — contestou Max, ainda segurando a coberta que se contorcia. — Atirei num deles uma vez nas Montanhas Alleghenys...

— Não me estou referindo a este tipo de veado. Falo no Rusa tikus. São minúsculos, têm uns vinte centímetros de altura e pesam cerca de um quilo. Mais ou menos do tamanho de um rato. Os nativos o consideram uma fina iguaria. — Ele riu. — A tradução de Rusa tikus é "veado-camundongo".

O Rei esfregou as mãos, radiante.

— Ótimo, amigão! — Correu os olhos pelo aposento. — Vamos vender coxas de Rusa tikus. E não estaremos mentindo!

Todos acharam graça.

— Agora que já achamos graça, vamos matar logo o maldito rato e vender as malditas pernas — falou Max. — O sacana vai escapulir a qualquer minuto. E pois sim que vou-me deixar morder!

— Temos um rato — disse o Rei, sem ligar para ele. — Agora, só o que temos que fazer é descobrir se é macho ou fêmea. Depois, temos que arrumar outro do sexo oposto. Juntamos os dois. E pronto, estamos no ramo.

— No ramo? — indagou Tex.

— Claro. — O Rei olhou ao seu redor, todo feliz. — Homens, estamos no ramo da reprodução. Vamos ter uma criação de ratos. Com a grana que ganharmos, compraremos galinhas... e a plebe pode comer o tikus. Contanto que ninguém abra o bico, é uma sopa.

Houve um silêncio atônito. A seguir, Tex perguntou, debilmente:

— Mas onde vamos guardar os ratos, enquanto se estiverem reproduzindo?

— Na trincheira. Aonde mais?

— Mas, e se houver um ataque aéreo? Vamos precisar usar a trincheira.

— Vamos isolar uma extremidade. Só o bastante para guardar os ratos. — Os olhos do Rei brilhavam. — Pensem só nisso: 50 desses filhos da mãe grandões por semana para vender. Ora, temos uma mina de ouro. Conhece aquele velho ditado, reproduzem-se como ratos...

— Com que freqüência se reproduzem? — indagou Miller, coçando o rosto, distraidamente.

— Não sei. Alguém sabe? — O Rei esperou, mas todos sacudiram a cabeça. — Porra, onde vamos descobrir os hábitos deles?

— Eu sei — manifestou-se Peter Marlowe. — Na aula do Vexley.

— Hã?

— Na aula do Vexley. Ele ensina Botânica, Zoologia, esse tipo de coisa. Poderíamos perguntar-lhe.

Entreolharam-se, pensativos. De repente, começaram a dar vivas. Max quase derrubou a coberta que se debatia, em meio aos gritos de "Cuidado com o ouro, seu filho da mãe desajeitado"; "Não deixe cair, pelo amor de Deus"; "Cuidado, Max!".

— Tudo bem, o sacana está firme aqui. — Max abafou as vaias, e depois dirigiu-se a Peter Marlowe. — Para um oficial, você é gente fina. Então, vamos à escola.

— Vocês, não — disse o Rei, vivamente. — Têm serviço a fazer.

— Qual?

— Arranjar outro rato. De sexo diferente deste aqui, seja lá qual for. Peter e eu vamos buscar a informação. Como é, mandem brasa!

Tex e Byron Jones III prepararam a trincheira. Era uma vala de l,80m de profundidade, l,20m de largura e nove metros de comprimento, que ficava exatamente sob a choça.

— Legal! — exclamou Tex, todo excitado. — Tem lugar para mil daqueles sacanas!

Levaram alguns minutos para bolar um portão eficaz. Tex foi roubar tela de galinheiro, enquanto Byron Jones III foi roubar madeira. Jones abriu um sorriso ao se lembrar de uns bons pedaços de madeira pertencentes a um bando de ingleses meio descuidados para vigiá-los. Quando Tex voltou, eleja estava com a armação pronta. Os pregos saíram do telhado da choça, o martelo também fora "tomado emprestado" de um mecânico descuidado na oficina, há meses, juntamente com chaves de parafusos, chaves inglesas, e outras coisas úteis.

Quando o portão estava ajeitadinho, em posição, Tex foi buscar o Rei.

— Bom — disse o Rei, inspecionando-o. — Muito bom.

— Macacos me mordam se sei como vocês conseguem! — exclamou Peter Marlowe. — Fazem tudo muito rápido.

— Se você tem que fazer uma coisa, faz logo. É o estilo americano. — O Rei mandou Tex ir buscar Max.

Max rastejou para debaixo da choça, para juntar-se a eles. Largou o rato com cuidado no seu setor. O rato girou feito louco, buscando desesperada-mente fugir. Quando viu que não conseguia, enfiou-se num canto, de onde ficou silvando para eles, violentamente.

— Parece bem saudável — disse o Rei, sorrindo.

— Ei, temos que dar-lhe um nome — falou Tex.

— É fácil. Adão.

— É, mas se for menina?

— Então é Eva. — O Rei saiu de sob a choça. — Vamos indo, Peter, acabar logo com isso.

A aula do Líder de Esquadrilha Vexley já começara, quando finalmente o encontraram.

— Sim? — perguntou Vexley, espantado ao ver o Rei e um jovem oficial de pé ao lado da choça, ao Sol, olhando para ele.

— Estávamos pensando — começou Peter Marlowe, constrangido — estávamos pensando se podíamos, bem, assistir à aula. Naturalmente, se não estivermos interrompendo — acrescentou, rapidamente.

— Assistir à aula? — Vexley estava confuso. Era um homem triste, com um olho só, um rosto de pergaminho marcado e deformado pelas chamas do seu bombardeiro final. Sua turma tinha apenas quatro alunos, e eram todos idiotas que não tinham interesse na matéria. Sabia que continuava com as aulas apenas para se iludir: era mais fácil fingir que eram um sucesso do que parar. No começo, estivera muito entusiasmado, mas agora, sabia que era puro fingimento. E se parasse com as aulas, não teria objetivo na vida.

Fazia muito tempo, o campo começara uma universidade. A Universidade de Changi. Turmas foram formadas. As Altas Patentes tinham dado ordem para tal.

— É bom para as tropas — disseram. — Vai dar-lhes alguma coisa para fazer. Fará com que se aperfeiçoem. Vai forçá-las a se ocuparem, e assim não se meterão em encrencas.

Havia cursos de idiomas, arte e engenharia... pois entre os 100.000 homens originais havia pelo menos um homem que conhecia qualquer matéria.

O conhecimento do mundo. Uma grande oportunidade. Ampliar os horizontes. Aprender uma profissão. Preparar-se para a utopia que iria existir logo que esta bosta de guerra acabasse e as coisas voltassem ao normal. E a universidade era ateniense. Não havia salas de aula. Apenas um professor que achava uma sombrinha e agrupava os alunos ao seu redor.

Mas os prisioneiros de Changi eram apenas homens comuns, então ficavam plantados em cima dos traseiros, e diziam: "Amanhã vou assistir a uma aula." Ou então entravam para uma turma, e quando descobriam que o saber exige esforço, faltavam a uma aula, depois a outra, e então diziam: "Amanhã eu volto. Amanhã vou começar a me tornar o que quero ser no futuro. Não posso perder tempo. Amanha", começo pra valer."

Mas em Changi, como em qualquer outro lugar, havia somente o hoje.

— Quer mesmo assistir à minha aula? — repetiu Vexley, incrédulo.

— Tem certeza de que não vamos incomodar, senhor? — perguntou o Rei, cordialmente.

Vexley levantou-se com vivo interesse e abriu um espaço para eles, na sombra.

Estava radiante por ver sangue novo. E o Rei! Meu Deus, mas que barato! 0 Rei na aula dele! Quem sabe teria alguns cigarros...

— Encantado, meu rapaz, encantado. — Apertou calorosamente a mão estendida do Rei. — Líder de Esquadrilha Vexley.

— Prazer em conhecê-lo, senhor.

— Capitão-Aviador Marlowe — apresentou-se Peter Marlowe, também apertando a mão de Vexley, e sentando-se na sombra.

Vexley esperou nervosamente até que estivessem sentados e distraidamente apertou o polegar nas costas da mão, contando os segundos até que a depressão na pele se enchesse devagarinho. A pelagra tinha suas compensações, pensou. E ao pensar em pele e osso recordou-se das baleias, e seu único olho se iluminou.

— Bem, hoje eu ia falar sobre as baleias. Entendem de baleias? Ah! — exclamou, extaticamente, quando o Rei tirou do bolso um maço de Kooas, oferecendo-lhe um. O Rei ofereceu cigarros à classe toda.

Os quatro estudantes aceitaram os cigarros e mudaram de lugar para dar mais espaço ao Rei e a Peter Marlowe. Perguntavam-se o que o Rei estaria fazendo ali, mas não queriam realmente saber... ele lhes dera um cigarro de verdade, comprado pronto.

Vexley retomou sua conferência sobre as baleias. Adorava baleias. Era louco por elas.

— As baleias são, sem dúvida, a forma mais elevada a que a natureza aspirou — disse, muito satisfeito com a ressonância de sua voz. Notou a testa franzida do Rei. — Quer fazer alguma pergunta? — indagou, ansioso.

— Quero, sim. As baleias são muito interessantes, mas e quanto aos ratos?

— Como disse? — falou Vexley, polidamente.

— É muito interessante o que dizia sobre as baleias, senhor — continuou o Rei. — Mas eu queria saber é dos ratos.

— O que têm os ratos?

— Só queria saber se o senhor conhece alguma coisa a respeito dos ratos — falou o Rei. Tinha muito o que fazer, e não queria ficar perdendo tempo.

— O que ele quer dizer — falou Peter Marlowe, rapidamente — é que, se as baleias são quase humanas nos seus reflexos, o mesmo também não se aplica aos ratos?

Vexley sacudiu a cabeça e disse, com desgosto:

— Os roedores são totalmente diferentes. Agora, as baleias...

— Diferentes, como? — insistiu o Rei.

— Trato dos roedores no seminário da primavera — disse Vexley, com irritação. — Criaturas nojentas. Não há o que se apreciar nelas. Nada mesmo. Agora, quanto à baleia-azul — voltou Vexley apressadamente ao assunto. — Ah, é a rainha de todas as baleias. Mede mais de trinta metros e pode pesar até cento e cinqüenta toneladas. A maior criatura viva... que já viveu... na Terra. O animal mais poderoso que existe. E seus hábitos de acasalamento — acrescentou Vexley rapidamente, pois sabia que uma discussão da vida sexual sempre mantinha alerta a turma. — O seu acasalamento é maravilhoso. O macho começa a corte soprando nuvens gloriosas de borrifos. Atinge a água com a cauda, perto da fêmea, que espera com luxúria paciente na superfície do oceano. A seguir ele mergulha e emerge bem alto, acima da água, imenso, enorme, vasto, e depois desaba com barulho estrondoso da cauda, fazendo espuma no mar, golpeando a superfície da água. — Então, baixou a voz, sensualmente. — Depois, vem para junto da fêmea e começa a fazer-lhe cócegas com as nadadeiras...

A despeito de sua ansiedade sobre os ratos, até mesmo o Rei começou a prestar atenção.

— E então, ele interrompe a sedução e mergulha de novo, deixando a fêmea ansiosa na superfície, deixando-a quem sabe para sempre. — Vexley fez uma pausa dramática. — Mas, não. Ele não a deixa. Desaparece por cerca de uma hora, nas profundezas do oceano, reunindo as forças, e depois emerge mais uma vez, bem acima da água, e desaba como um trovão numa monstruosa nuvem de borrifos d'água. Vai girando até chegar junto da companheira, agarrando-a com ambas as nadadeiras, e a possui até a exaustão.

Vexley também estava exausto, com a magnificência do espetáculo dos gigantes se acasalando. Ah, poder ter a sorte de testemunhá-lo, de estar presente, um ser humano insignificante...

— O acasalamento acontece mais ou menos em julho, em águas cálidas. O bebê pesa cinco toneladas ao nascer, e mede uns nove metros de comprimento. — Sua risada era treinada. — Imaginem só. — Houve uns sorrisos polidos, e depois Vexley soltou a bomba final, que costumava arrancar uma risada gostosa: — E se imaginarem o tamanho do bebê, já pensaram no tamanho dos "documentos" da baleia-macho?

Novamente, viram-se sorrisos corteses... os alunos regulares já tinham ouvido a piada muitas vezes.

Vexley continuou, descrevendo como o bebê é amamentado durante sete meses pela mãe, que fornece o leite ao filhote através de duas tetas monstruosas que ficam na parte inferior da barriga.

— Como podem imaginar, indubitavelmente — disse, extaticamente — uma amamentação submarina prolongada tem os seus problemas.

— Os ratos amamentam os filhotes? — aproveitou o Rei para perguntar.

— Sim — respondeu o líder de esquadrilha, desalentadamente. — Bem, e quanto à baleia parda...

O Rei deu um suspiro e pôs-se a ouvir Vexley dissertar sobre todas as espécies de baleias imagináveis, das pardas às cinzas, passando pelas assassinas, pigméias e outras. A esta altura, toda a turma já tinha ido embora, exceto Peter Marlowe e o Rei. Quando Vexley acabou, o Rei disse, simplesmente:

— Quero saber tudo sobre ratos.

— Ratos? — gemeu Vexley.

— Tome um cigarro — disse o Rei, gentilmente.

 

— Muito bem, caras, ajeitem-se — mandou o Rei. Esperou até haver silêncio na choça, e o vigia da porta estar em posição. — Temos problemas.

— Grey? — perguntou Max.

— Não. É sobre nossa criação. — O Rei virou-se para Peter Marlowe, que estava sentado na beira de uma cama. — Conte para eles, Peter.

— Bem — começou Peter Marlowe — parece que os ratos...

— Conte desde o começo.

— Tudo?

— Claro. Espalhe o saber, depois poderemos todos dar palpites.

— Muito bem. Encontramos o Vexley. Ele nos disse, textualmente: "O Rattus norvegicus, ou rato norueguês... às vezes chamado Mus decumanus..."

— Mas que papo-furado é esse? — indagou Max.

— Latim, ora essa. Qualquer idiota sabe disso — falou Tex.

— Você sabe latim, Tex? — perguntou Max, boquiaberto.

— Porra, não, mas esses nomes malucos são sempre latim...

— Pela madrugada, gente — falou o Rei. — Querem saber, ou não? — Fez sinal para que Peter Marlowe continuasse.

— Bem, o caso é que Vexley descreveu-os detalhadamente, peludos, sem pêlos na cauda, pesam até um quilo e oitocentos, mas o comum é cerca de novecentos gramas, nesta parte do mundo. Os ratos se acasalam promiscuamente em qualquer época...

— Que diabo quer dizer isso?

— O macho trepa com qualquer fêmea, indiscriminadamente — disse o Rei, impaciente — sem ter época certa.

— Igual a nós, não é isso? — interpôs Jones, afavelmente.

— É, acho que sim — disse Peter Marlowe. — Bem, o rato macho cruza em qualquer época, e a fêmea pode ter até doze ninhadas por ano, cerca de doze por ninhada, mas podendo chegar a quatorze. Os filhotes nascem cegos e indefesos vinte e dois dias após o... contato. — Escolheu a palavra com delicadeza. — Os filhotes abrem os olhos após um período de quatorze a dezessete dias e tornam-se sexualmente maduros em dois meses. Param de se reproduzir mais ou menos aos dois anos, e já são velhos aos três.

— Puxa vida! — exclamou Max, radiante, em meio ao silêncio espantado. — Sem dúvida que temos problemas. Ora, se os filhotes já se reproduzem aos dois meses, e tivermos doze... digamos dez por ninhada, para arredondar... façam as contas. Digamos que nasçam dez filhotes no Dia Um. Outros dez no Dia Trinta. No Dia Sessenta, os primeiros cinco pares já deram cria, e temos cinqüenta. No Dia Noventa, mais cinco pares deram cria, e são outros cinqüenta. No Dia Cento e Vinte, temos duzentos e cinqüenta, mais outros cinqüenta e mais cinqüenta, e nova ninhada de duzentos e cinqüenta. Pela madrugada, dá seiscentos e cinqüenta em cinco meses! No mês seguinte, temos quase seis mil e quinhentos...

— Jesus, mas temos uma mina de ouro! — exclamou Miller, coçando-se furiosamente.

— Temos uma ova — disse o Rei. — Não se não dermos tratos à bola. Primeiro, não podemos botar todos juntos. São canibais. Isso significa que vamos ter que separar os machos e as fêmeas, exceto quando estão cruzando. Outra coisa, eles vão brigar entre si, o tempo todo. O que significa ter que separar os machos dos machos e as fêmeas das fêmeas.

— Então separamos. Qual é o grilo?

— Nenhum, Max — disse o Rei, pacientemente. — Mas temos que ter gaiolas e organizar as coisas. Não vai ser fácil.

— Ora! — exclamou Tex — podemos fazer um monte de gaiolas, sem problemas.

— E você acha, Tex, que podemos fazer com que os ratos fiquem quietos? Enquanto fazemos as gaiolas?

— Não vejo por que não!

— Mais uma coisa — disse o Rei. Estava satisfeito com os homens e mais do que satisfeito com o plano. Era o tipo de negócio que curtia... nada a fazer, exceto esperar. — Eles comem qualquer coisa, viva ou morta. Qualquer coisa. Portanto, não teremos problemas de logística.

— Mas são umas criaturas nojentas e fedem como o diabo — disse Byron Jones III. — Já temos fedor que chegue por aqui, sem ter que botar mais sob nossa própria cabana. E além disso, os ratos são transmissores da peste.

— Quem sabe este é um tipo especial de rato, como o mosquito especial que transmite a malária — disse Dino, esperançoso, com os olhos escuros correndo os homens.

— Claro que os ratos transmitem a peste — disse o Rei, dando de ombros. — E também um monte de moléstias humanas. Mas isso não quer dizer nada. Temos uma fortuna nas mãos e vocês só conseguem ver o lado negativo, seus filhos da mãe. Isso é antiamericano!

— Bem, cara, mas essa história da peste. Como vamos saber se são limpos ou não? — perguntou Miller, enojado.

O Rei achou graça.

— Perguntamos isso ao Vexley e ele disse, abrir aspas: "Vocês logo saberiam. Estariam mortos." Fechar aspas. Porra, é igual às galinhas. Mantenha-as limpas e bem alimentadas, e correrá tudo bem! Não há com que se preocupar.

E então começaram a discutir a criação, seus perigos e potenciais (e todos se davam conta dos potenciais), contanto que eles não tivessem que comer os frutos; e debateram os problemas ligados a uma operação em tão larga escala. Foi então que Kurt entrou na choça, tendo nas mãos uma coberta que se retorcia.

— Arranjei outro — falou, com azedume.

— Arranjou?

— Claro. Enquanto vocês ficam aí papeando, seus sacanas, eu estou agindo. É uma fêmea. — Kurt cuspiu no chão.

— Como sabe?

— Espiei. Vi bastante ratos na Marinha Mercante para ter certeza. E o outro é macho. Também espiei.

Todos se enfiaram debaixo da choça e viram Kurt botar Eva na trincheira. Imediatamente os dois ratos se grudaram ferozmente, e os homens tiveram que se controlar para não dar vivas. A primeira ninhada estava a caminho. Os homens votaram no Kurt para tomar conta dos ratos, e Kurt ficou feliz.

Assim, tinha certeza de que ganharia sua parte. Claro que cuidaria dos ratos. Comida era comida. Kurt sabia que ia sobreviver, mesmo que nenhum outro filho da mãe sobrevivesse.

 

Vinte e dois dias mais tarde, Eva teve cria. Na gaiola ao lado, Adão tentava rasgar a tela de arame para chegar aos alimentos vivos, e quase o conseguiu, mas Tex percebeu o rasgão bem na horinha. Eva dava de mamar aos filhotes. Eram Caim, Abel, Grey e Alliluha; Beulah, Mabel, Junt, Princesa e Princesinha; e Mabel Grande, Junt Grande e Beulah Grande. Dar nome aos machos foi fácil. Mas nenhum dos homens queria dar às fêmeas os nomes das namoradas, irmãs ou mães. Até mesmo os nomes das sogras lembravam a algum outro homem uma paixão ou relacionamento do passado. Levaram três dias para concordar com Beulah e Mabel.

Quando os filhotes estavam com 15 dias, foram postos em gaiolas separadas. O Rei, Peter Marlowe, Tex e Max deram à Eva até o meio-dia para se recuperar; depois, colocaram-na junto com Adão. Foi o início da segunda ninhada.

— Peter — disse o Rei suavemente, enquanto subiam pelo alçapão e voltavam à choça — a nossa fortuna está feita.

O Rei resolvera abrir o alçapão porque sabia que tantas idas à vala sob a choça despertariam curiosidade. Era vital para o sucesso da criação que permanecesse em segredo. Até mesmo Mac e Larkin desconheciam sua existência.

— Onde está o pessoal, hoje? — perguntou Peter Marlowe, fechando o alçapão. Somente Max estava na choça, deitado em seu catre.

— Os infelizes pegaram um destacamento de trabalho. Tex está no hospital. O resto está pilhando por aí.

— Acho que também vou fazer o mesmo. Pelo menos me ocupo. O Rei baixou a voz.

— Tenho uma coisa para ocupá-lo. Amanhã à noite vamos à aldeia. — A seguir, berrou para Max. — Ei, Max, conhece o Prouty? O Major australiano? Da Choça Onze?

— O velhote? Claro.

— Ele não é velho. Não pode ter mais de quarenta anos.

— Por mim, quarenta anos é velho como Deus. Vou levar dezoito anos para chegar lá.

— Se tiver sorte — falou o Rei. — Vá procurar o Prouty. Diga que o mandei.

— E daí?

— Nada. Vá procurá-lo, só isso. E certifique-se de que Grey não está por perto... ou algum dos olheiros dele.

— Já estou indo — disse Max, relutante, deixando-os a sós.

Peter Marlowe estava olhando para os lados da cerca, de onde se partia para o litoral.

— Estava começando a me perguntar se você tinha mudado de idéia.

— Sobre levá-lo comigo?

— É.

— Não precisa preocupar-se, Peter. — O Rei apanhou o café e passou uma caneca para Peter Marlowe. — Quer almoçar comigo?

— Porra, não sei como você consegue — resmungou Peter Marlowe. — Todo o mundo morrendo de fome e você me convida para almoçar.

— Vou comer um pouco de katchang idju.

O Rei destrancou sua caixinha preta e tirou o saco de feijõezinhos verdes, entregando-o a Peter.

— Quer prepará-los?

Enquanto Peter Marlowe os levava até a bica para começar a lavá-los, o Rei abriu uma lata de carne salgada e despejou o conteúdo com cuidado num prato.

Peter Marlowe voltou com os feijões. Estavam bem lavados e não havia nenhuma casca na água limpa. Ótimo, pensou o Rei. Não se precisa dizer ao Peter duas vezes a mesma coisa. E o recipiente de alumínio continha exatamente a quantidade certa de água: seis vezes a altura dos feijões.

Botou-o na chapa quente, acrescentou uma colher de sopa cheia de açúcar e duas pitadas de sal, depois meia lata da carne.

— É o seu aniversário? — indagou Peter Marlowe.

— Hã?

— Katchang idju e carne, numa refeição?

— Você é que não sabe viver.

Peter Marlowe ficou alucinado com o aroma e o barulho do ensopado a ferver. As últimas semanas tinham sido duras. A descoberta do rádio prejudicara o campo. O Comandante japonês "lamentava" ter que diminuir as rações, devido a "colheitas fracas", e assim até os pequenos estoques reservas das unidades tinham-se acabado. Milagrosamente, não houvera outras repercussões, além da redução da comida.

Na unidade de Peter Marlowe, a redução das rações afetara principalmente a Max. A redução e a inutilidade do seu rádio de cantil.

— Merda — praguejara Mac, depois de semanas tentando localizar o problema. — Não tem jeito, rapazes. Não posso fazer nada, sem desmontar a joça inteira. Tudo parece correto. Sem ferramentas e um tipo de pilha, não consigo achar o defeito.

E então Larkin dera um jeito de arranjar uma pilha minúscula, e Mac reunira suas débeis forças e voltara a testar o rádio, verificando e reverificando. No dia anterior, enquanto testava, dera um suspiro e desmaiara, num profundo coma de malária. Peter Marlowe e Larkin carregaram-no até o hospital, e deitaram-no numa cama. O médico dissera que era apenas malária, mas que com o baço daquele jeito, podia tornar-se muito perigosa.

— O que há, Peter? — perguntou o Rei, notando a súbita seriedade de Marlowe.

— Estava só pensando no Mac.

— O que ele tem?

— Tivemos que levá-lo para o hospital, ontem. Nâ"o está nada legal.

— Malária?

— Tem mais.

— Hã?

— Bem, ele está com a febre. Mas o problema maior não é esse. Ele tem períodos de depressão terrível. Preocupação... com a mulher e o filho.

— Todos os caras casados sofrem assim.

— Não como Mac — explicou Peter Marlowe, tristemente. — Sabe, é que pouco antes de os japoneses desembarcarem em Cingapura, Mac botou a mulher e o filho no último comboio que deixava a ilha. A seguir, ele e sua unidade partiram para Java num junco litorâneo. Quando chegou em Java, soube que todo o comboio fora destruído ou capturado. Não havia prova de nada, somente boatos. E assim, ele não sabe se eles conseguiram passar. Ou se estão mortos. Ou se estão vivos. E se estão... onde estão. O filhinho dele tinha apenas quatro meses de idade.

— Bem, agora o guri está com três anos e quatro meses — falou o Rei, confiantemente. — Regra Número Dois: Não se preocupe com coisa alguma que não possa resolver. — Tirou um vidro de quinino da caixa preta, contou 20 comprimidos e entregou-os a Peter Marlowe. — Tome. Isso dará um jeito na malária dele.

— E quanto a você?

— Tenho de sobra. Não esquente a cabeça.

— Não entendo por que é tão generoso. Dá comida e remédios para nós. E o que lhe damos em troca? Nada. Não entendo.

— Você é um amigo.

— Puxa, fico encabulado de aceitar tanta coisa.

— Deixe pra lá. Tome.

O Rei começou a servir o ensopado. Sete colheradas para ele, e sete para Peter Marlowe. Sobrou cerca de um quarto de ensopado na panela.

Comeram as três primeiras colheradas rapidamente para aliviar a fome, depois terminaram o resto devagar, saboreando.

— Quer mais? — O Rei esperou. Será que o conheço bem, Peter? Sei que podia comer mais uma tonelada. Mas não vai comer, nem que sua vida dependesse disso.

— Não, obrigado. Estou cheio até as tripas.

É bom conhecer o amigo, pensou consigo mesmo o Rei. É preciso ter cuidado. Serviu-se de mais uma colherada. Não porque tivesse vontade. Achou que precisava fazê-lo para não embaraçar Peter Marlowe. Comeu, e guardou o resto.

— Quer preparar-me um cigarro?

Jogou o material para Peter e se afastou. Colocou o resto da carne no resto do ensopado e misturou tudo. Dividiu a mistura em duas partes, que botou em duas latas de comida que tampou e reservou.

Peter Marlowe passou-lhe o cigarro enrolado.

— Prepare um para você — disse o Rei.

— Obrigado.

— Ora, Peter, não espere que eu ofereça. Tome, encha sua caixa.

Tirou a caixa das mãos de Peter Marlowe e lotou-a com o fumo Três Reis.

— O que vai fazer com os Três Reis? Agora que o Tex está no hospital? — indagou Peter Marlowe.

— Nada. — O Rei soltou a fumaça. — A idéia já está esgotada. Os australianos descobriram o processo e estão cobrando menos do que a gente.

— Ah, mas que pena. Como será que descobriram?

— Era um entra e sai, de qualquer modo — disse o Rei, sorrindo.

— Não entendi.

— Entra e sai? A gente entra e sai depressa. Um pequeno investimento para um lucro rápido. Nas duas primeiras semanas, eu já estava coberto.

— Mas você falou que levaria meses para recuperar o dinheiro que investiu.

— Isso era papo de vendedor. Para consumo externo. Um papo de vendedor é um macete para fazer as pessoas acreditarem numa coisa. Todo mundo sempre quer ganhar alguma coisa em troca de nada. E então, você tem que fazer com que acreditem que o estão roubando, que você é o otário, que eles, os compradores, são um bocado mais espertos. Por exemplo. Os Três Reis. A equipe de vendedores, os primeiros compradores, acreditavam que tinham um compromisso comigo, acreditavam que, se trabalhassem duro no primeiro mês, poderiam ser meus sócios e ficarem numa boa, depois, para sempre... com o meu dinheiro. Achavam que eu era um idiota de dar-lhes uma tal oportunidade, depois do primeiro mês. Mas eu sabia que o processo não seria segredo por muito tempo e que o negócio não duraria.

— E como sabia disso?

— Era óbvio. Planejei assim. Eu mesmo revelei o segredo do processo.

— Você o quê?

— É isso aí. Troquei o processo por algumas informações.

— Bem, isso eu entendo. O processo era seu, para fazer dele o que quisesse. Mas, e quanto a todas as pessoas que estavam trabalhando, vendendo o fumo?

— O que é que tem?

— Está me parecendo que você se aproveitou delas. Fez com que trabalhassem durante um mês, quase de graça, e depois puxou o tapete de sob seus pés.

— Puxei, uma ova. Eles também ganharam seus trocados. Estavam achando-me um otário, e fui mais esperto do que eles, só isso. Negócio é isso. — Recostou-se na cama, divertindo-se com a ingenuidade de Peter Marlowe. Este franziu o cenho, tentando compreender.

— Quando alguém começa a falar de negócios, fico totalmente por fora — disse. — Sinto-me um idiota.

— Escute, Não vai demorar muito, e vai estar barganhando com os melhores do ramo — disse o Rei, rindo.

— Duvido.

— Vai fazer alguma coisa hoje à noite? Mais ou menos uma hora depois de escurecer?

— Não, por quê?

— Quer servir de intérprete para mim?

— Com prazer. Quem é, um malaio?

— Um coreano.

— Ah! — A seguir, Peter Marlowe acrescentou, disfarçando depressa: — Claro.

O Rei sabia da aversão de Peter Marlowe, mas não se importava. Um homem tem direito às suas opiniões, é o que sempre dizia. E contanto que essas opiniões não conflitassem com seus propósitos, então, tudo bem.

Max entrou na choça e desabou no beliche.

— Passei uma hora procurando o filho da puta. Depois, fui encontrá-lo na horta. Jesus, com todo aquele mijo que usam como fertilizante, aquele lugar filho da puta fede como um bordel do Harlem num dia de verão.

— Você é bem o tipo de filho da mãe que usaria um bordel do Harlem. A irritação e a aspereza da voz do Rei espantaram Peter Marlowe.

O sorriso e a fadiga de Max desapareceram com igual rapidez.

— Puxa vida, não falei por mal. É só um ditado.

— Então, por que escolher o Harlem? Quer dizer que fede feito um bordel, tudo bem. Todos eles fedem do mesmo jeito. Não há diferença porque um é preto e o outro é branco.

O Rei estava uma fera, a pele do seu rosto estava esticada como uma máscara.

— Calma. Desculpe. Não falei por mal.

Max tinha-se esquecido de que o Rei não gostava que se pixassem os negros. Jesus, quando se mora em Nova York, o Harlem está com você, queira ou não. E lá há bordéis, e comer uma negrinha é danado de bom, para variar. Mesmo assim, pensou com amargura, eu lá vou saber por que ele é todo cheio de dedos quando se trata de crioulos!

— Não falei por mal — repetiu Max, esforçando-se para não olhar para a comida. Sentira o cheiro dela de longe. — Encontrei-o e disse o que você mandou.

— E daí?

— Bem, hã, ele me deu uma coisa para você — falou Max, olhando para Peter Marlowe.

— Porra, entregue-me logo!

Max esperou pacientemente enquanto o Rei examinava de perto o relógio, dava-lhe corda e encostava-o ao ouvido.

— O que você quer, Max?

— Nada. Hã... quer que lave a louça para você?

— Quero. Lave, e depois trate de se mandar daqui.

— Claro.

Max pegou os pratos sujos e levou-os para fora, humildemente, jurando para si mesmo que algum dia ia pegar o Rei. Peter Marlowe ficou calado. Estranho, pensou. Estranho e selvagem. O Rei tem gênio. Isto pode ser valioso, mas na maior parte das vezes é perigoso. Se você parte numa missão, é importante saber o valor do seu companheiro. Numa missão perigosa, como a ida à aldeia, talvez, é de bom alvitre saber ao certo quem está guardando suas costas.

O Rei desatarrachou com cuidado o fundo do relógio. Era de aço inoxidável, e à prova d'água.

— Hum — resmungou o Rei. — Logo vi.

— O quê?

— É fajuto. Olhe só.

Peter Marlowe examinou atentamente o relógio.

— Para mim parece legal.

— Claro. Mas não é o que devia ser. Um Omega. A parte externa é boa, mas a interna é velha. Algum cretino trocou o mecanismo.

O Rei atarrachou de novo o relógio, depois ficou pensativo.

— Está vendo, Peter. É o que eu lhe dizia. A gente tem que ser cuidadoso. Digamos que eu venda esse relógio como sendo um Omega, mas sem saber que é fajuto, posso meter-me numa bela encrenca. Mas contanto que eu saiba a verdade, antecipadamente, posso proteger-me. Todo cuidado é pouco. — Abriu um sorriso. — Vamos tomar mais uma xícara de café, os negócios estão prosperando.

O sorriso se desvaneceu, quando Max voltou com os pratos limpos e guardou-os. Max não disse nada, fez um sinal de cabeça servil e saiu de novo.

— Filho da puta — falou o Rei.

Grey ainda não se havia recuperado do dia em que Yoshima encontrara o rádio. Enquanto subia a trilha na direção da choça de suprimentos, ia remoendo os novos deveres que lhe haviam sido impostos pelo Comandante do Campo na frente de Yoshima, e mais tarde comentados pelo Coronel Smedly-Taylor. Grey sabia que, embora oficialmente tivesse que cumprir as novas ordens, na verdade tinha mais é que ficar de olhos fechados e não fazer nada. Santa Mãe de Deus, pensou, não importa o que eu faça, estarei errado.

Grey sentiu um espasmo crescer no estômago. Parou, enquanto ele ia e vinha. Não era disenteria, apenas diarréia; e a febre ligeira que sentia não era malária, apenas um toque de dengue, uma febre mais fraca, porém mais traiçoeira e caprichosa. Estava com muita fome. Não tinha estoques de comida, nenhuma lata de reserva e nenhum dinheiro para comprar uma. Tinha que sobreviver das rações, sem nenhum extra, e as rações não eram o suficiente, não eram o suficiente.

Quando sair daqui, pensou, juro por Deus que nunca mais vou sentir fome. Terei 1.000 ovos e uma tonelada de carne e açúcar, café, chá e peixe. Vamos cozinhar o dia todo, Trina e eu, e quando não estivermos cozinhando ou comendo, estaremos fazendo amor. Amor? Não, fazendo apenas dor. Trina, aquela vaca, sempre dizendo "Estou muito cansada", ou "Estou com dor de cabeça", ou "Pelo amor de Deus, de novo?", ou "Está bem, acho que vou ter que fazer", ou "Podemos fazer amor agora, se você quiser" ou "Será que não me pode deixar em paz dessa vez?", quando ele não pedia com tanta freqüência, e na maioria das vezes se controlava e sofria, ou então o irado "Ah, está bem", e então ela acendia a luz e ia para o banheiro "se aprontar", e ele enxergava apenas a glória do seu corpo através da fazenda transparente, até que a porta se fechava, e ele ficava esperando, esperando e esperando até que a luz do banheiro fosse desligada e ela voltasse ao quarto deles. Sempre levava uma eternidade para vir da porta até a cama, e ele via apenas a beleza pura da mulher sob a seda, e sentia a frieza dos seus olhos enquanto o observava, e não tinha coragem de olhar nos olhos dela, e se detestava. E então ela se deitava ao seu lado, e tudo logo acabava silenciosamente e ela se levantava para ir ao banheiro e se lavar, como se o amor dele fosse sujeira, e a água corria, e quando voltava estava toda perfumada, e ele se detestava de novo, insatisfeito, por tê-la possuído quando não queria ser possuída. Fora sempre assim. Nos seus seis meses de casado — 21 dias de licença, foi o que tiveram juntos — haviam feito dor nove vezes. E ele não conseguira tocá-la nem uma vez.

Pedira-a em casamento uma semana depois de tê-la conhecido. Houvera dificuldades e recriminações. A mãe dela o detestava por querer sua única filha logo agora que estava começando a carreira, e era tão moça, só 18 anos. Os pais dele disseram espere, a guerra pode acabar logo e você não tem dinheiro, e bem, ela não é exatamente de boa família, e ele correra os olhos pela casa deles, um prédio velho ligado a 1.000 outros prédios velhos em meio às linhas de bonde retorcidas de Streatham, e viu que os quartos eram estreitos e a mente dos pais era estreita e classe baixa, e que o amor deles era retorcido como as linhas de bonde.

Casaram-se um mês depois. Grey estava muito elegante de farda e espada (alugada por hora). A mãe de Trina não compareceu à cerimônia desenxabida, realizada às pressas entre os alertas dos ataques aéreos. Os pais dele usavam máscaras de desaprovação, seus beijos foram mecânicos e Trina se desmanchou em lágrimas e a certidão de casamento ficou molhada de lágrimas.

Naquela noite, Grey descobriu que Trina não era virgem. Claro que ela agiu como se fosse, e queixou-se durante vários dias, por favor querido, estou toda doída, tenha paciência. Mas não era virgem, e aquilo magoou Grey, pois insinuara muitas vezes que era. Mas fingiu não saber que ela o havia enganado.

A última vez em que vira Trina fora seis dias antes de embarcarem para além-mar. Achavam-se no apartamento deles, e Grey estava deitado na cama, vendo-a vestir-se.

— Sabe para onde vai? — perguntara a moça.

— Não.

O dia fora ruim, a briga da véspera fora ruim, e a falta dela e o fato de que a sua licença terminava naquele dia o oprimiam.

Levantara-se e ficara por trás dela, enfiando as mãos pelo vestido, segurando-lhe os seios firmes, adorando-a.

— Pare!

— Trina, será que podíamos...

— Não seja bobo. Sabe que o espetáculo começa às oito e meia.

— Tem tempo de sobra...

— Pelo amor de Deus, Robin, pare! Vai estragar minha maquiagem!

— Pro diabo sua maquiagem. Não estarei aqui amanhã.

— Talvez seja melhor. Não o acho muito gentil ou bondoso.

— E como espera que eu seja? É errado um marido desejar a mulher?

— Pare de gritar. Meu Deus, os vizinhos vão ouvir.

— Eles que ouçam, porra!

Dirigira-se para ela, mas Trina batera a porta do banheiro na cara dele.

Ao retornar ao quarto, estava fresca e cheirosa. Usava sutiã, combinação curta, calcinhas sob a combinação e meias presas por um minúsculo prende-dor. Pegou o traje de coquetel e começou a vesti-lo.

— Trina... — dissera ele.

— Não.

Ficara de pé diante dela, e os joelhos não o sustentavam.

— Desculpe eu ter gritado.

— Não faz mal.

Inclinara-se para beijar-lhe os ombros, mas ela se afastara.

— Andou bebendo de novo, não é? — falara ela, franzindo o nariz. E então, a raiva dele explodira:

— Vá à merda, só tomei um drinque — berrara, fazendo-a girar, rasgando-lhe o vestido e o sutiã, e jogando-a na cama. Arrancara-lhe todas as roupas, deixando-a nua, exceto pelas meias em tiras. E o tempo todo ela ficara imóvel, fitando-o.

— Ah, Deus, Trina, eu a amo — gemera, desalentado; depois, foi-se afastando, odiando-se pelo que fizera, e pelo que quase fizera.

Trina apanhara as roupas em farrapos. Como que num sonho, ele ficara vendo a moça voltar para junto do espelho, sentar-se diante dele, começar a retocar a maquiagem, cantarolando uma melodia, sem parar.

E então, Grey batera a porta com força e voltara para sua unidade, e no dia seguinte tentara ligar para ela. Não houve resposta. Era tarde demais para voltar para Londres, apesar de suas súplicas desesperadas. A unidade mudou-se para Greenock, para o embarque, e todos os dias, todos os minutos de todos os dias, ele lhe telefonava, mas ela não atendia, nem respondia a seus telegramas alucinados, e então a costa da Escócia foi engolida pela noite, e a noite era apenas navio e mar, e ele era apenas lágrimas.

Grey estremeceu, ao Sol da Malásia. A 16.000 quilômetros de distância. Não foi culpa de Trina, pensou, tonto de nojo de si mesmo. Não foi ela, fui eu. Era ansioso demais. Quem sabe sou maluco. Quem sabe deveria ir ao médico. Quem sabe penso demais em sexo. Tem que ser eu, não ela. Ah, Trina, meu amor.

— Está-se sentido bem, Grey? — perguntou o Coronel Jones.

— Ah, sim, senhor, obrigado. — Grey voltou ao presente e notou que se apoiava debilmente contra a choça de suprimentos. — Foi apenas... um pouquinho de febre.

— Não está com boa cara. — Sente-se um minutinho.

— Está tudo bem, obrigado. Vou... vou buscar um pouco d'água.

Grey foi até a bica, tirou a camisa e enfiou a cabeça debaixo do jato de água. Seu cretino, descontrolar-se desse jeito, pensou. Mas, a despeito de sua determinação, o pensamento voltava inexoravelmente para Trina. Hoje à noite, hoje à noite vou permitir-me pensar nela, prometeu. Hoje à noite, e todas as outras noites. Para o inferno tentar viver sem comida. Sem esperança. Quero morrer. Ah, como eu quero morrer.

E foi então que viu Peter Marlowe subindo o morro. Nas mãos, trazia uma vasilha de rancho americana, segurando-a com cuidado. Por quê?

— Marlowe! — Grey bloqueou-lhe a passagem.

— Que diabo está querendo?

— O que leva aí?

— Comida.

— Não é contrabando?

— Pare de me encher, Grey.

— Não o estou enchendo. "Diga-me com quem andas e te direi quem és."

— Fique bem longe de mim.

— Infelizmente, não posso, meu velho. É o meu serviço. Quero ver o que leva. Por favor.

Peter Marlowe hesitou. Grey estava no seu direito de ver, e no seu direito de levá-lo ao Coronel Smedly-Taylor, se saísse da linha. E no seu bolso estavam os 20 tabletes de quinino. Ninguém podia ter reservas particulares de remédios. Se fossem descobertos, teria que contar onde os arranjara, e o Rei teria que contar onde os arranjara, e de qualquer modo, Mac precisava deles agora. Assim, destampou a vasilha.

A mistura de carne com katchang idju cheirou divinamente a Grey. Seu estômago deu voltas, e tentou não deixar transparecer a fome que sentia. Inclinou a vasilha com cuidado para enxergar o fundo. Não havia nada ali além da deliciosa comida.

— Onde arranjou isso?

— Ganhei.

— Foi ele quem deu?

— Foi.

— Para onde o está levando?

— Para o hospital.

— Para quem?

— Para um dos americanos.

— E desde quando um Capitão-Aviador, detentor da Cruz do Mérito Aeronáutico, virou menino de recados para um Cabo?

— Vá pro diabo!

— Pode ser que vá. Mas antes de ir, vou ver vocês dois receberem o que merecem.

Calma, Peter Marlowe disse para si mesmo, vá com calma. Se agredir Grey, vai ferrar-se de verdade.

— Acabou de fazer as perguntas, Grey?

— Por enquanto. Mas lembre-se... — Grey deu um passo à frente e o cheiro da comida era uma tortura. — Você e seu maldito amigo vigarista estão na minha lista. Ainda não esqueci do isqueiro.

— Não sei do que está falando. Não desobedeci qualquer ordem.

— Mas vai desobedecer, Marlowe. Se você vende sua alma, chega o dia em que tem que pagar.

— Você está maluco!

— Ele é um vigarista, um mentiroso e um ladrão...

— É meu amigo, Grey. Não é vigarista ou ladrão...

— Mas é mentiroso.

— Todo o mundo é mentiroso. Até você. Negou conhecimento do rádio. E preciso ser mentiroso para ficar vivo. É preciso fazer um bocado de coisas...

— Como puxar o saco de um Cabo para conseguir comida?

A veia da testa de Peter Marlowe inchou, como uma pequena cobra escura. Mas sua voz era macia, e o veneno coberto de mel.

— Devia dar-lhe uma surra, Grey. Mas é falta de educação brigar com as classes inferiores. É injusto, sabe.

— Por Deus, Marlowe... — começou Grey, mas as palavras lhe faltaram, a raiva dentro dele subiu-lhe à garganta, sufocando-o.

Peter Marlowe olhou fundo nos olhos de Grey, e viu que vencera. Por um momento, saboreou a destruição do homem, e depois sua fúria se evaporou, ultrapassou Grey e subiu a colina. Não há necessidade de prolongar uma batalha vencida. Isso também é falta de educação.

Juro pelo Senhor Deus, pensou Grey. Vou fazê-lo pagar por isso. Você vai ficar de joelhos, implorando o meu perdão. Mas não o perdoarei. Nunca!

Mac pegou seis dos tabletes e fez uma careta quando Peter Marlowe ajudou-o a levantar-se um pouco para tomar a água que lhe oferecia. Engoliu e largou-se de novo.

— Deus o abençoe, Peter — sussurrou. — Isso vai dar um jeito em mim. Deus o abençoe, meu rapaz. — Caiu no sono, o rosto queimando e o baço quase estourando, e o cérebro fabricou pesadelos. Viu a mulher e o filho boiando nas profundezas do oceano, comidos pelos peixes, e gritando lá debaixo. E viu a si mesmo, lá no fundo, atacando os tubarões, mas suas mãos não tinham força o bastante, nem sua voz era alta o bastante, e os tubarões arrancavam pedaços enormes da carne de sua carne, e sempre havia mais pedaços para arrancar. E os tubarões tinham vozes, e a risada deles era demoníaca, mas os anjos estavam a seu lado e lhe diziam, rápido, rápido, Mac, rápido ou chegará tarde demais. E a seguir não havia mais tubarões, somente homens amarelos com baionetas e dentes de ouros, pontiagudos como agulhas, cercando-o, e a sua família, no fundo do mar. As suas baionetas eram imensas, afiadas. Eles não, eu!, gritava Mac. Matem a mim! E ficava assistindo, impotente, enquanto matavam sua mulher e matavam seu filho, e depois viravam-se para ele, e os anjos olhavam e sussurravam em coro, Rápido, Mac, rápido. Corra. Corra. Fuja e estará a salvo. E corria, sem querer correr, fugia do filho e da mulher e do mar cheio de sangue, e fugia no meio do sangue e sufocava. Mas ainda assim corria, e eles o perseguiam, os tubarões de olhos rasgados e dentes de agulha dourados, com seus fuzis e baionetas, rasgando sua carne até que ficou acuado. Lutou e suplicou,' mas não paravam, e agora estava cercado. E Yoshima enfiou a baioneta com toda a força nas suas entranhas. E a dor foi imensa. Além da agonia. Yoshima puxou fora a baioneta e ele sentiu o sangue jorrar de dentro de si, pelo buraco irregular, por todas as aberturas do corpo, pelos próprios poros, até que só sobrou sua alma na casca. Finalmente, a alma lhe fugiu e misturou-se ao sangue do mar. Um alívio imenso e delicioso invadiu-o, infinito, e ficou feliz por estar morto.

Mac abriu os olhos. As cobertas estavam encharcadas. A febre passara. E sabia que estava vivo de novo.

Peter Marlowe ainda estava sentado ao lado da cama, com a noite às suas costas.

— Alô, meu rapaz. — As palavras eram tão fracas que Peter Marlowe teve que se inclinar para percebê-las.

— Está bem, Mac?

— Tudo bem, meu rapaz. Quase que vale a pena ter a febre, para me sentir tão bem depois. Agora, vou dormir. Traga-me um pouco de comida, amanhã. — Mac fechou os olhos e adormeceu. Peter Marlowe descobriu-o e secou aquela casca de homem.

— Onde posso arranjar umas cobertas secas, Steven? — perguntou, ao ver o enfermeiro cruzando depressa a enfermaria.

— Não sei, senhor — disse Steven. Vira esse rapaz muitas vezes. E simpatizava com ele. Quem sabe... mas, não, Lloyd ficaria louco de ciúmes. Uma outra vez. Tem tempo de sobra. — Quem sabe posso ajudá-lo, senhor.

Steven foi até o quarto leito e tirou a coberta de cima do homem deitado, depois tirou habilmente a coberta debaixo, e voltou.

— Tome. Use estas.

— E quanto a ele?

— Oh! — exclamou Steven, com um sorriso meigo. — Não precisa mais delas. Já vêm buscá-lo para o enterro. Pobrezinho.

— Oh! — Peter Marlowe esticou a cabeça para ver quem era, mas era um rosto que não conhecia. — Obrigado — disse, e começou a arrumar a cama.

— Espere — falou Steven. — Deixe que eu faço. Posso fazê-lo muito melhor do que o senhor. — Orgulhava-se de como sabia arrumar uma cama sem magoar o doente. — E não se preocupe com seu amigo — continuou. — Pode deixar que cuido dele. — Cobriu Mac como se fosse uma criança. — Pronto. — Acariciou a cabeça de Mac por um momento, depois pegou um lenço e enxugou os restos de suor da testa do enfermo. — Estará bem dentro de dois dias. Se tiver alguma comida sobrando... — mas deteve-se e olhou para Peter Marlowe com olhos rasos d'água. — Mas que tolice a minha. Não se preocupe, Steven vai achar alguma coisa para ele. Não se preocupe mesmo. Não há nada mais que possa fazer essa noite, portanto vá andando e tenha uma boa noite de sono. Vamos, seja um bom menino.

Sem achar palavras, Peter Marlowe deixou-se levar para fora. Steven deu um sorriso de boa-noite e voltou lá para dentro.

Em meio à escuridão, Peter Marlowe ficou vendo Steven alisar uma testa febril e segurar uma mão trêmula, afastar com carinho os demônios da noite, acalmar os gritos noturnos, ajeitar as cobertas, ajudar um homem a beber e ajudar um homem a vomitar, e o tempo todo um acalanto, delicado e doce. Quando Steven chegou ao Leito Quatro, parou e olhou para o cadáver. Endireitou-lhe os membros e cruzou-lhe as mãos, depois tirou o avental e cobriu o corpo, o toque como uma bênção. O tórax esbelto e liso e as pernas esbeltas e lisas de Steven brilhavam à meia-luz.

— Pobrezinho — sussurrou, correndo os olhos pelo cadáver. — Pobrezinhos. Ah, meus pobrezinhos — falou, chorando por todos eles.

Peter Marlowe afastou-se dentro da noite, cheio de pena, envergonhado de ter sentido nojo de Steven no passado.

 

Enquanto Peter Marlowe se acercava da choça americana, sentia-se cheio de dúvidas. Lamentava ter concordado tão prontamente em servir de intérprete para o Rei, e ao mesmo tempo estava chateado por não querer fazê-lo. Que grande amigo você é, disse para si mesmo, depois de tudo que ele fez por você.

A sensação esquisita no estômago aumentava. Igualzinho a quando se vai voar numa missão, pensou. Não, não era bem assim. A sensação era igual a que se tem quando o diretor da escola nos manda chamar. A outra é igualmente dolorosa, mas ao mesmo tempo é misturada com prazer. Como a aldeia. Essa faz o coração alçar vôo. Arriscar-se assim, só pela curtição... ou, na verdade, pela comida ou pela garota que pode existir lá.

Ficou-se perguntando pela milésima vez por que o Rei ia até a aldeia, e o que fazia lá. Mas perguntar não seria educado, e sabia que precisava apenas de um pouco de paciência para descobrir. Esse era outro dos motivos por que gostava do Rei. Não oferecia informação alguma, guardava para si a maior parte dos seus pensamentos. É o jeito inglês, disse Peter Marlowe consigo mesmo, satisfeito. Solte um pouquinho de cada vez, quando estiver disposto. O que você é ou quem é interessa só a si mesmo... até que sinta vontade de partilhá-lo com um amigo. E um amigo nunca pergunta. Você tem que se abrir espontaneamente, ou então não se abrir.

Como a aldeia. Meus Deus, pensou. Isso mostra o quanto ele o considera, abrir-se desse jeito. Simplesmente perguntar: Você quer vir junto, da próxima vez em que eu for.

Peter Marlowe sabia que era uma loucura ir à aldeia. Mas talvez agora não fosse assim tanta loucura. Agora havia um motivo de verdade. Um motivo importante. Tentar arranjar uma peça para consertar o rádio — ou arranjar um rádio, completo. Por esse motivo valia a pena correr o risco.

Mas, ao mesmo tempo, sabia que teria ido apenas porque fora convidado, e por causa da provável-comida e provável-garota.

Viu o Rei dentro de uma sombra, conversando com outra sombra, ao lado de uma choça. As cabeças estavam bem juntas, as vozes inaudíveis. Estavam tão entretidos que Peter Marlowe decidiu ignorar o Rei, e começou a subir as escadas para entrar na choça americana, cruzando o facho de luz.

— Ei, Peter — chamou o Rei. Peter Marlowe se deteve.

— Já vou falar com você, Peter. — O Rei voltou-se para a outra figura. -É melhor esperar aqui, Major. Logo que ele chegar, eu o aviso.

— Obrigado — disse o homenzinho, a voz úmida de embaraço.

— Quer um pouco de fumo — ofereceu o Rei, e ele foi aceito com avidez. 0 Major Prouty aprofundou-se nas sombras, mas manteve os olhos fitos no Rei, enquanto este voltava para a própria cabana.

— Senti sua falta, meu chapa — disse o Rei para Peter Marlowe, dando-lhe um soquinho de brincadeira. — Como vai o Mac?

— Vai bem, obrigado. — Peter Marlowe queria sair do facho de luz. Que merda, pensou. Tenho vergonha de ser visto com meu amigo. E isso é uma nojeira. Uma bela nojeira.

Mas não pôde deixar de sentir os olhos do Major observando-o, ou evitar a careta quando o Rei disse:

— Vamos, não vai demorar, depois podemos ir trabalhar.

Grey foi até o esconderijo, para o caso de haver um recado para ele na lata. E havia. O relógio do Major Prouty. Hoje à noite. Marlowe e ele.

Grey jogou a lata de volta à vala com a mesma naturalidade com que a apanhara. Depois, espreguiçando-se, levantou-se e voltou para a Choça 16. Mas o tempo todo sua cabeça trabalhava feito um computador.

Marlowe e o Rei. Estarão na "loja" atrás da choça americana. Prouty. Qual deles? Major! Será o da Artilharia? Ou o australiano? Vamos, Grey, perguntou-se com irritação, onde está o arquivo mental de que tem tanto orgulho? Pronto! Choça 11! Um homenzinho! Dos Pioneiros! Australiano!

Terá alguma ligação com Larkin? Não que eu saiba. Um australiano. Então, por que não lidar com Tiny Timsen, o australiano do câmbio negro? Por que o Rei? Quem sabe a coisa é grande demais para o bico do Timsen. Ou quem sabe é mercadoria roubada... é o mais provável, e por esse motivo o Prouty não vai usar os canais australianos de costume. Deve ser por isso.

Grey deu uma olhada para o relógio de pulso. Foi uma coisa instintiva, pois há três anos não possuía relógio, e nem precisava de um para saber as horas da noite ou do dia. Como todos os demais, sabia a hora, pelo menos a hora que era necessário saber.

Ainda é muito cedo, pensou. A troca dos guardas ainda ia demorar um pouco. E quando fosse feita, de sua choça poderia ver o guarda substituído arrastar-se campo afora, subindo a estrada na direção da casa da guarda, passando por sua choça. O homem em questão é o novo guarda. Quem será? Que diferença faz? Logo vou saber. É mais seguro esperar e observar até a hora certa, depois dar o bote. Cuidadosamente. Apenas interrompê-los educadamente. Ver o guarda com o Rei e Marlowe. Melhor vê-los quando o dinheiro trocar de mãos ou quando o Rei entregar o dinheiro ao Prouty. E então, um relatório para o Coronel Smedly-Taylor: "Ontem à noite testemunhei um intercâmbio de dinheiro", ou quem sabe: "Vi o Cabo americano e o Capitão-Aviador Marlowe, Choça 16, com um guarda coreano. Tenho motivos para crer que o Major Prouty, dos Pioneiros, estava envolvido, e colocou o relógio à venda."

Isso resolveria o problema. Os regulamentos, pensou satisfeito, eram claros e definidos: "Nada de vendas aos guardas!" Pegos com a boca na botija. E então haveria uma corte marcial.

Uma corte marcial para começo de conversa. Depois a minha cadeia, minha cadeiazinha. Sem extras e ensopados de carne. Sem nada. Apenas engaiolados, engaiolados como os ratos que são. A seguir, serão soltos, cheios de raiva e ódio. E os homens raivosos cometem erros. E da próxima vez, quem sabe Yoshima estaria esperando. Melhor deixar que os japoneses façam seu próprio serviço... não é direito ajudá-los. Talvez nesse caso seja direito. Mas, não. Talvez só uma cutucadinha?

Vou vingar-me de você, maldito Peter Marlowe. Quem sabe mais cedo do que eu esperava. E a minha vingança, de você e daquele vigarista, será um êxtase.

O Rei deu uma olhada no seu relógio de pulso. 21:04. A qualquer segundo, agora. Uma coisa era certa com os japoneses, sempre se sabia o que iriam fazer, cronometrado em segundos, pois uma vez que um esquema fosse traçado, era cumprido.

E então, ouviu os passos. Torusumi dobrou a esquina da choça e veio depressa para o abrigo do toldo de lona. O Rei levantou-se para recebê-lo. Peter Marlowe também se levantou, relutante, detestando-se por isso.

Torusumi era uma figurinha difícil entre os guardas. Muito conhecido. Perigoso e imprevisível. Tinha um rosto, quando a maioria era sem rosto. Estava no campo há cerca de um ano. Gostava de dar duro nos prisioneiros, deixá-los no Sol, gritar com eles, e chutá-los quando tinha vontade.

— Tabe — cumprimentou o Rei, sorrindo. — Quer fumar? — Ofereceu um pouco de fumo cru de Java.

Torusumi deixou à mostra os dentes de ouro, entregou o fuzil a Peter Marlowe e sentou-se. Tirou do bolso um maço de Kooas e ofereceu-os ao Rei, que aceitou um. A seguir, o coreano olhou para Peter Marlowe.

— Amigo ichi-bon — explicou o Rei.

Torusumi resmungou, mostrou os dentes, aspirou o ar por entre os dentes e ofereceu um cigarro. Peter Marlowe hesitou.

— Aceite, Peter — disse o Rei.

Peter Marlowe obedeceu, e o guarda sentou-se à mesinha.

— Diga-lhe — falou o Rei para Peter Marlowe — que ele é bem-vindo.

— Meu amigo diz que sois bem-vindo e que está feliz por ver-vos aqui.

— Ah, agradeço-vos. O meu digno amigo tem alguma coisa para mim?

— Ele quer saber se tem alguma coisa para ele.

— Diga-lhe exatamente o que eu disser, Peter. Seja preciso.

— Terei que passá-lo para o vernáculo. Não dá para traduzir exatamente.

— Tudo bem... mas certifique-se de que está certo... não tenha pressa.

O Rei entregou o relógio. Peter Marlowe notou, surpreso, que estava como novo, todo polido, e com um novo mostrador de plástico, num estojo de couro acamurçado.

— Diga-lhe o seguinte: um sujeito que conheço quer vendê-lo. Mas é caro, e talvez não seja o que ele quer.

Até mesmo Peter Marlowe notou o brilho de avareza nos olhos do coreano quando tirou o relógio do estojo e levou-o ao ouvido, resmungou casualmente e colocou-o sobre a mesa.

Peter Marlowe traduziu a resposta do coreano.

— Tendes alguma outra coisa? Lamento dizer que os Omegas não estão valendo muito em Cingapura, atualmente.

— O vosso malaio é excepcionalmente bom, senhor — Torusumi acrescentou para Peter Marlowe, aspirando o ar por entre os dentes, polidamente.

— Agradeço-vos — disse Peter Marlowe, contrafeito.

— O que foi que ele disse, Peter?

— Só que falo malaio muito bem.

— Ah! Bem, diga-lhe que lamento, mas que é só o que tenho.

O Rei esperou até que isso fosse traduzido, depois sorriu e deu de ombros, pegou o relógio, botou-o no estojo, enfiou-o no bolso e se levantem.

— Salamat! — disse.

Torusumi deixou os dentes à mostra de novo, depois fez sinal para o Rei sentar-se.

— Não é que eu queira o relógio — falou para o Rei. — Mas porque sois meu amigo e tivestes tanto trabalho, devo indagar quanto o homem que possui este relógio insignificante quer por ele?

— Três mil dólares — replicou o Rei. — Sinto que esteja pedindo tão caro.

— Claro que está pedindo caro. O dono tem doença na cabeça. Sou um homem pobre, apenas um guarda, mas como já negociamos no passado e para fazer-vos um favor, ofereço 300 dólares.

— Lamento. Não ouso. Ouvi dizer que há outros compradores que dariam um preço mais razoável através de outros intermediários. Concordo que sois um homem pobre e não deveríeis oferecer dinheiro por um relógio tão insignificante. Claro, os Omegas não valem muito, mas em deferência ao dono, compreendeis que seria um insulto oferecer-lhe menos do que vale um relógio de segunda classe.

— É verdade. Talvez eu deva aumentar o preço, pois mesmo um homem pobre tem honra, e seria honroso tentar diminuir o sofrimento de qualquer homem nesses tempos difíceis. Quatrocentos.

— Agradeço seu interesse pelo meu conhecido. Mas este relógio... sendo um Omega... e sendo que o preço dos Omegas caiu do seu alto nível aceito anteriormente, obviamente há um motivo mais definido para não quererdes negociar comigo. Um homem de honra é sempre honrado...

— Também sou um homem de honra. Não desejo impugnar vossa reputação ou a reputação do vosso conhecido que é dono do relógio. Talvez eu deva arriscar minha reputação e tentar ver se consigo persuadir aqueles miseráveis comerciantes chineses com quem tenho que tratar a dar um preço justo, pelo menos uma vez nas suas miseráveis existências. Estou certo de que concordareis que quinhentos seria o máximo que um homem justo e honrado pagaria por um Omega, mesmo antes de o preço deles baixar.

— Verdade, meu amigo. Mas tenho um pensamento para vós. Talvez os preços dos Omegas não tenham baixado de sua posição ichi-bon. Talvez os miseráveis chineses se estejam aproveitando de um homem honrado. Ora, semana passada mesmo outro de vossos amigos coreanos veio procurar-me e comprou um relógio desses e pagou três mil dólares por ele. Somente ofereci-o a vós por causa da minha longa amizade e da confiança que deve existir entre sócios de tanto tempo.

— Falais a verdade? — Torusumi cuspiu com veemência no chão, e Peter Marlowe preparou-se para o golpe que acompanhara anteriormente tais explosões.

O Rei continuou sentado, imperturbável. Deus, pensou Peter Marlowe, mas ele tem nervos de aço. O Rei pegou um pouco de fumo e começou a preparar um cigarro. Quando Torusumi percebeu, parou de esbravejar e ofereceu o maço de Kooas e se acalmou.

— Estou abismado que os miseráveis comerciantes chineses por quem arrisco a vida sejam tão corruptos. Estou horrorizado ao ouvir o que vós, meu amigo, me dissestes. Pior, estou estarrecido. Pensar que abusaram da minha confiança. Há um ano que venho lidando com o mesmo homem. E pensar que me enganou durante tanto tempo. Acho que vou matá-lo.

— É melhor — falou o Rei — lográ-lo.

— Como? Gostaria muito que meu amigo me dissesse.

— Amaldiçoai-o. Dizei-lhe que vos deram informações que provam que é um trapaceiro. Dizei-lhe que, se não vos der um preço justo no futuro... um preço justo e mais vinte por cento para compensar-vos pelos erros anteriores... então podereis sussurrar nos ouvidos das autoridades. E então elas o pegarão, e pegarão suas mulheres e pegarão seus filhos, e os castigarão até estardes satisfeito.

— Que conselho soberbo. Estou feliz com a idéia do meu amigo. Por causa de sua idéia e da amizade que lhe dedico, ofereço mil e quinhentos dólares. É todo o dinheiro que tenho no mundo, e mais algum dinheiro que me foi confiado por um amigo que está com a doença das mulheres naquele pardieiro chamado hospital, e que não pode trabalhar por si mesmo.

O Rei abaixou-se e bateu nas nuvens de mosquitos que lhe atacavam os tornozelos. Agora está melhorando, rapaz, pensou. Vejamos. Dois mil seria alto. Mil e oitocentos O.K. Mil e quinhentos não é mau.

— O Rei pede-vos que espereis — traduziu Peter Marlowe. — Precisa consultar o miserável que deseja vender-vos mercadoria por preço tão exagerado.

O Rei entrou pela janela e cruzou toda a cabana, verificando. Max estava no seu lugar. Dino num dos lados da trilha, Byron Jones III no outro.

Foi encontrar o Major Prouty, suando de ansiedade, na sombra da choça vizinha à americana.

— Puxa, senhor, lamento — sussurrou o Rei, desanimado. — O cara não está muito interessado.

A ansiedade de Prouty aumentou. Tinha que vender. Ó, meu Deus, pensou, mas que azar. Preciso arranjar o dinheiro, de qualquer jeito.

— Não ofereceu nada?

— O máximo que consegui foi 400.

— Quatrocentos! Ora, todo mundo sabe que um Omega vale pelo menos dois mil dólares.

— Parece que isso é balela, senhor. Ele, bem, ficou desconfiado. De que não Seja um Omega.

— Ele está maluco. Claro que é um Omega.

— Desculpe, senhor — disse o Rei, enrijecendo o corpo de leve. — Só estou relatando...

— Culpa minha, Cabo. Não quis descontar em você. Esses sacanas amarelos são todos iguais. — O que faço agora, Prouty se perguntou. Se não o vender através do Rei, não vou vendê-lo, e a nossa unidade precisa de dinheiro e todo nosso esforço terá sido em vão. O que vou fazer?

Prouty pensou por um minuto, depois falou:

— Veja o que pode fazer, Cabo. Não posso aceitar menos de mil e duzentos. Não posso, mesmo.

— Bem, senhor, não creio que possa fazer muita coisa, mas vou tentar.

— Isso, meu rapaz. Estou contando com você. Não o venderia por tão pouco, mas, bem, a comida está escassa. Sabe como é.

— Sim, senhor — disse o Rei, educadamente. — Vou tentar, mas temo não conseguir que suba muito o preço. Disse que os chineses não estão comprando como antes. Mas farei o possível.

Grey notara Torusumi patrulhando o campo, e sabia que logo chegaria a hora. Esperara muito, e agora estava na hora. Levantou-se e saiu da choça, ajeitando a braçadeira, endireitando o chapéu. Não havia necessidade de testemunhas, a palavra dele bastava. Portanto, foi sozinho.

Seu coração batia agradavelmente. Sempre batia assim, quando ia fazer uma prisão. Atravessou a fila de choças, desceu os degraus e entrou na rua principal. Este era o caminho mais longo. Escolheu-o deliberadamente, pois sabia que o Rei postava vigias quando estava negociando. Mas conhecia as posições deles. E sabia que havia um caminho, através do campo de minas humano.

— Grey!

Olhou na direção do chamado. O Coronel Samson vinha-se aproximando.

— Sim, senhor.

— Ah, Grey, prazer em vê-lo. Como vão indo as coisas?

— Bem, obrigado, senhor — replicou, surpreso por ser cumprimentado de modo tão amistoso. A despeito da pressa em se afastar, não deixou de se sentir muito satisfeito.

O Coronel Samson tinha um lugar especial no futuro de Grey. Samson era Autoridade, mas Autoridade com A maiúsculo. Ministério da Guerra. E com excelentes ligações. Um homem assim seria muitíssimo útil... mais tarde. Samson pertencia ao Estado-Maior do Extremo Oriente e tinha uma função vaga mas importante dentro do Gabinete. Conhecia todos os generais e contava como os recebia socialmente, na sua casa de campo, em Dorset, e como a pequena nobreza comparecia, e as festas ao ar livre e os bailes e caçadas que organizava. Um homem como Samson podia muito bem equilibrar a balança contra a folha de serviços falha de Grey. E a sua classe.

— Queria falar com você, Grey — dizia Samson. — Tenho uma idéia que você talvez ache que valha a pena desenvolver. Sabe que estou compilando a história oficial da campanha. Claro — acrescentou com bom humor — ainda não é a oficial, mas quem sabe será. O General Sonny Wilkinson é o historiador do Ministério da Guerra, como sabe, e estou certo que Sonny se interessará por uma versão in loco. Será que você estaria interessado em verificar alguns dados para mim? Sobre o seu regimento?

Será que estaria, pensou Grey. Ora! Daria qualquer coisa para fazê-lo! Mas não agora.

— Adoraria fazê-lo, senhor. Sinto-me lisonjeado que queira considerar minhas opiniões. Será que amanhã está bem? Depois do café.

— Oh! — exclamou Samson. — Pensei que poderíamos conversar um pouquinho agora. Bem, quem sabe outro dia. Eu o avisarei...

E Grey compreendeu instintivamente que era agora ou nunca. Samson nunca falara muito com ele antes. Quem sabe, pensou desesperadamente, quem sabe posso dar-lhe o bastante para um começo, e ainda assim pegar aqueles dois. Às vezes, as negociações levavam horas. Vale a pena arriscar!

— Pode ser agora, se quiser, senhor. Mas só um pouquinho, se não se importa. Estou com uma ponta de dor de cabeça. Alguns minutos, se não se importa.

— Ótimo. — O Coronel Samson estava muito contente. Tomou o braço de Grey e levou-o de volta para a choça. — Sabe, Grey, seu regimento era um dos meus favoritos. Fez um belo trabalho. Você foi mencionado nos despachos, não foi? Em Kota Bharu?

— Não, senhor. — Por Deus, devia ter imaginado. — Não houve tempo de requisitar condecorações. Não que eu as merecesse mais do que qualquer outro.

Falava a sério. Muitos dos homens mereciam a Cruz da Vitória, e no entanto não receberiam nem uma menção. Não agora.

— Nunca se sabe, Grey — falou Samson. — Talvez, depois da guerra, possamos rever muitas coisas. — Fez Grey sentar-se. — Diga-me, qual era o estado das linhas de batalha, quando você chegou a Cingapura?

— Lamento dizer ao meu amigo — falou Peter Marlowe, em nome do Rei — que o miserável dono deste relógio riu de mim. Disse que o mínimo que aceitaria seriam dois mil e seiscentos dólares. Sinto-me envergonhado de dizer-vos, mas como sois meu amigo, faz-se necessário que o diga.

Torusumi ficou obviamente vexado. Por intermédio de Peter Marlowe, falaram do clima e da falta de comida, e Torusumi lhes mostrou uma foto gasta e vincada da mulher e dos três filhos, e contou-lhes um pouco de sua vida na aldeia dos arredores de Seul, como ganhava a vida como fazendeiro, embora tivesse um diploma universitário, e como odiava a guerra. Contou-lhes como odiava os japoneses, como todos os coreanos odiavam os seus senhores japoneses. Os coreanos nem podem entrar no Exército japonês, falou. São cidadãos de segunda classe e não têm voz ativa em nada, e podem ser chutados daqui para lá, segundo os caprichos do mais inferior dos japoneses.

E assim, ficaram conversando até que, finalmente, Torusumi se levantou. Pegou o fuzil com Peter Marlowe, que o segurara o tempo todo, obcecado pela idéia de que estava carregado e de como seria fácil matar. Mas. por que motivo? E o que aconteceria depois?

— Direi ao meu amigo uma última coisa, por que não gosto de ver-vos de mãos vazias, sem lucro, nesta noite fedorenta, e gostaria que consultásseis o dono ganancioso deste relógio miserável. Dois mil e cem dólares!

— Mas, com todo o respeito, devo lembrar ao meu amigo que o miserável dono, que é Coronel, e como tal, um homem sem humor, falou que só aceitaria dois mil e seiscentos. Sei que não gostaríeis que ele cuspisse em mim.

— É verdade. Mas, deferentemente, sugiro que pelo menos lhe deis a oportunidade de recusar uma última oferta, dada por amizade verdadeira, e na qual eu próprio não terei lucro. E talvez lhe deis uma oportunidade de se retratar por sua grosseria.

— Tentarei, porque sois meu amigo.

O Rei deixou Peter Marlowe e o coreano. O tempo foi passando, e eles esperando. Peter Marlowe escutou a história de como Torusumi foi forçado a se alistar, e de como não tinha estômago para a guerra.

E então o Rei saltou pela janela.

— O homem é um porco, um sacana sem honra. Cuspiu em mim e disse que contaria a todos que sou mau negociante, que me poria na cadeia antes de aceitar menos de dois mil e quatrocentos...

Torusumi esbravejou e ameaçou. O Rei ficou sentado, quietinho, pensando, Jesus, perdi a minha bossa, fui longe demais desta vez, e Peter Marlowe pensou, Santo Cristo, por que, diabo, fui meter-me nisso?

— Dois mil e duzentos — cuspiu Torusumi.

O Rei deu de ombros, desanimado, derrotado.

— Diga-lhe que está bem — resmungou para Peter Marlowe. — Ele é durão demais para mim. Diga-lhe que terei que desistir do raio da minha comissão para compensar a diferença. O filho da puta não vai aceitar nem um centavo a menos. Mas que diabo, onde fica o meu lucro nisso tudo?

— Sois um homem de ferro — disse Peter Marlowe, em nome do Rei. — Direi ao miserável dono Coronel que vai ter o seu preço, mas para isso terei que desistir da minha comissão para compensar a diferença entre o preço que ofereceis e o preço que ele, homem miserável, aceitará. Mas onde fica o meu lucro, nisso tudo? Negociar é uma coisa honrosa, mas mesmo entre amigos deve haver lucro de ambos os lados.

— Porque sois meu amigo, acrescentarei cem dólares. Assim, não ficareis desmoralizado, e da próxima vez não precisareis aceitar a mercadoria de um freguês tão avarento e miserável.

— Agradeço-vos. Sois mais esperto do que eu.

O Rei entregou o relógio no seu estojinho acamurçado e contou o dinheiro do bolo enorme de notas novinhas. Dois mil e duzenros dólares formavam uma bela pilha. A seguir, Torusumi entregou os outros 100. Sorrindo. Passara a perna no Rei, cuja reputação como astuto comerciante era conhecida de todos os guardas. Podia vender o Omega facilmente por 5.000 dólares. Bem, pelo menos por 3.500. Não era um lucro ruim, por uma noite de guarda.

Torusumi deixou o maço aberto de Kooas e um outro maço cheio como compensação pelo mau negócio que o Rei fechara. Afinal, pensou, temos uma longa guerra pela frente, e os negócios vão bem. E se a guerra for curta... bem. seja como for, o Rei seria um aliado útil.

— Saiu-se muito bem, Peter.

— Pensei que ele ia explodir.

— Eu também. Fique à vontade, já volto.

O Rei encontrou Prouty ainda nas sombras. Deu-lhe 900 dólares, quantia que o infeliz Coronel tivera que aceitar, relutantemente, e pegou sua comissão de 90 dólares.

— As coisas estão ficando mais difíceis a cada dia que passa — comentou o Rei.

Estão mesmo, seu filho da mãe, pensou Prouty consigo mesmo. Contudo, 810 não era tão pouco assim, por um Omega fajuto. Riu consigo mesmo: passara a perna no Rei.

— Estou terrivelmente desapontado, Cabo. Era a última coisa que possuía. — Vejamos, pensou, satisfeito, levaremos duas semanas para aprontar um outro. Timsen, o australiano, pode cuidar da venda seguinte.

De repente, Prouty viu Grey que se aproximava. Meteu-se no labirinto das choças, confundindo-se com as sombras, em segurança. O Rei pulou uma janela, para dentro da choça americana, e entrou no jogo de pôquer, sibilando para Peter Marlowe:

— Pegue as cartas, pelo amor de Deus.

Os dois homens cujos lugares ocuparam ficaram calmamente peruando o jogo, e viram o Rei distribuir o monte de notas, até que houvesse uma pilha pequena diante de cada homem, e então Grey chegou à porta.

Ninguém prestou atenção nele até o Rei erguer os olhos, amavelmente.

— Boa-noite. Senhor.

— Boa-noite. — O suor escorria pelo rosto de Grey. — Quanto dinheiro! — Mãe de Deus, nunca vi tanto dinheiro na vida. Não num só lugar. E o que não faria com só um pouquinho dele.

— Gostamos de jogar, senhor.

Grey virou-se e sumiu na noite. Maldito Samson, que fosse para o inferno!

Os homens jogaram algumas rodadas até que foi dado o sinal de "tudo-em-paz". Então o Rei pegou o dinheiro, não sem dar uma nota de 10 a cada homem, e eles agradeceram em coro. Deu a Dino 10 dólares para cada vigia lá fora, fez um sinal de cabeça para Peter Marlowe, e os dois juntos foram para o seu canto da cabana.

— Merecemos uma xícara de café. — O Rei estava um pouco cansado. O esforço de se manter no topo era desgastante. Esticou-se na cama, e Peter Marlowe fez o café.

— Acho que não lhe trouxe muita sorte — falou Peter Marlowe, suavemente.

— Como?

— A venda. Não foi muito boa, não é? O Rei deu uma gargalhada.

— Tudo de acordo com o planejado. Tome — disse, destacando 110 dólares do bolo e dando-os a Peter Marlowe. — Está-me devendo dois mangos.

— Dois mangos? — Olhou para o dinheiro. — Para que é isso?

— É a sua comissão.

— Porquê?

— Ora essa, não acha que ia botá-lo para trabalhar de graça, acha? O que pensa que sou?

— Falei que teria prazer em fazê-lo. Não mereço nada somente por servir de intérprete.

— Está maluco. Cento e oito mangos — dez por cento. Não é esmola. É seu. Fez jus a ele.

— É você que está maluco. Como é que posso ganhar cento e oito dólares de uma venda de dois mil e duzentos, quando esse foi o preço total e não houve lucro? Não vou ficar com o dinheiro que ele lhe deu.

— Não tem bom uso para ele? Você, Mac ou Larkin?

— Claro que sim. Mas isso não é justo. E não entendo por que cento e oito dólares.

— Peter, não sei como sobreviveu nesse mundo, até agora. Olhe, vou explicar-lhe direitinho: ganhei mil e oitenta dólares nesse negócio; dez por cento são cento e oito; cento e dez menos dois são cento e oito; dei-lhe cento e dez dólares. Você agora me deve dois dólares.

— Mas que diabo, como ganhou tudo isso se...

— Vou contar-lhe. Lição número um no comércio: compra-se barato e vende-se caro, se for possível. Veja essa noite, por exemplo.

O Rei explicou todo contente como passara a perna em Prouty. Quando acabou, Peter Marlowe ficou calado por muito tempo. Depois, disse:

— Parece... bem, parece desonesto.

— Não há nada de desonesto nisso, Peter. Todos os negócios baseiam-se na teoria de que você tem que vender mais caro do que comprou... ou entra pelo cano.

— Sei. Mas sua margem de lucro não está... um pouco alta?

— Porra, não. Todos sabíamos que o relógio era fajuto. Exceto Torusumi. Não se importa de sacaneá-lo, não é? Embora ele possa passá-lo adiante com facilidade para um chinês, e com lucro.

— Acho que não.

— Certo. Veja o Prouty. Estava vendendo mercadoria falsa. Talvez a tenha roubado, raios, não sei. Mas obteve um mau preço porque foi um mau comerciante. Se tivesse tido o peito de pegar o relógio de volta e descer a rua, eu teria ido atrás dele e aumentado o preço. Podia ter barganhado comigo. Está pouco se lixando se der galho com o relógio. Parte do negócio é que sempre protejo meus fregueses... portanto, Prouty está seguro, e sabe disso... enquanto eu posso estar-me metendo numa fria.

— O que vai fazer quando Torusumi descobrir e voltar?

— Ele voltará — sorriu o Rei, de repente, e o calor do seu sorriso era uma alegria de se ver — mas não para dar berros. Que diabo, se fizesse isso, estaria desmoralizado. Jamais admitiria que eu lhe houvesse passado a perna numa transação. Ora, os colegas gozariam loucamente com a cara dele, se eu espalhasse a história. Vai voltar, sem dúvida, mas para tentar lograr-me da próxima vez.

Acendeu um cigarro e passou um para Peter Marlowe.

— E assim — continuou, jovialmente — Prouty recebeu novecentos, menos a minha comissão de dez por cento. Pouco, mas não injusto, e não se esqueça, você e eu estávamos correndo todos os riscos. Agora, quanto às despesas. Tive que pagar cem pratas para mandar limpar e polir o relógio e comprar um vidro novo. Vinte para o Max, que farejou a possível venda, dez por cabeça para cada um dos vigias, e mais sessenta para os rapazes que davam cobertura com o jogo. A soma é mil, cento e vinte. Tirando-se mil, cento e vinte de dois mil e duzentos ficam exatamente mil e oitenta pratas. Dez por cento dessa quantia é cento e oito. Simples.

Peter Marlowe sacudiu a cabeça. Tantos números, tanto dinheiro e tanta emoção. Num momento estavam só conversando com um coreano, no momento seguinte ele tinha 110... 108... dólares nas mãos, sem mais aquela. Puxa vida, pensou, exultante. Isso eqüivale a vinte e tantos cocos ou muitos ovos. Mac! Agora vamos poder dar-lhe comida. Ovos, ovos são do que precisa!

Subitamente, escutou o pai falando, ouviu-o com tanta clareza como se estivesse a seu lado. E podia vê-lo, ereto e corpulento na sua farda da Marinha Real.

"Escute, filho. Existe uma coisa chamada honra. Se vai tratar com um homem, diga-lhe a verdade, e ele terá necessariamente que dizer-lhe a verdade, também, caso contrário não terá honra. Proteja o outro homem como espera que ele o proteja. E se um homem não tem honra, não se associe a ele, pois irá maculá-lo. Lembre-se, há pessoas honradas e pessoas sujas. Há dinheiro honrado e dinheiro sujo."

"Mas este não é dinheiro sujo", ouviu-se responder ao pai; "não do jeito que o Rei explicou. Estavam-no fazendo de otário. Foi mais esperto do que eles".

"E verdade. Mas é desonesto vender a propriedade de um homem e dizer-lhe que o preço foi bem menor do que o preço realmente obtido." "É, mas..."

"Não há mas nem meio mas, meu filho. É verdade que há níveis de honra... mas cada homem tem que ter um único código. Faça o que quiser. A escolha é sua. Há coisas que um homem tem que decidir por si mesmo. Às vezes, é preciso adaptar-se âs circunstâncias. Mas, pelo amor de Deus, guarde-se, e à sua consciência... ninguém mais o fará... e saiba que uma decisão errada na hora certa poderá destruí-lo mais seguramente do que qualquer bala."

Peter Marlowe sopesou o dinheiro e pensou no que podiam fazer com aquela bolada, Mac, Larkin e ele próprio. Imaginou uma balança, e os pratos estavam pesados de um dos lados. De direito, o dinheiro pertencia ao Prouty e à sua unidade. Talvez fosse a última coisa que possuíssem no mundo. Talvez, por causa do dinheiro roubado, Prouty e sua unidade, nenhum dos quais conhecia, talvez fossem morrer. Tudo por causa da sua cobiça. Contra tudo isso pesava o Mac. A necessidade dele era premente. E a do Larkin. E a minha. A minha também, não posso esquecer de mim. Lembrava-se do Rei dizendo: "Não é preciso aceitar esmola", e ele vinha aceitando esmolas. Muitas.

O que devo fazer, meu Deus, o que devo fazer? Mas Deus não respondeu.

— Obrigado. Obrigado pelo dinheiro — falou Peter Marlowe. Guardou-o. E todo seu corpo estava consciente de como queimava.

— Obrigado, coisa nenhuma. Você o ganhou. É seu. Trabalhou por ele. Não lhe dei coisa alguma.

O Rei estava radiante, e sua alegria sufocava o auto desprezo de Peter Marlowe.

— Vamos — disse. — Temos que comemorar nosso primeiro negócio juntos. Com o meu cérebro e o seu malaio, ora, ainda vamos ter um vidão! — E o Rei fritou alguns ovos.

Enquanto comiam, o Rei contou a Peter Marlowe que mandara os rapazes comprarem estoques de comida suplementares, quando soube que Yoshima havia encontrado o rádio.

— A gente tem que arriscar nesta vida, Peter, meu chapa. Claro. Logo imaginei que os japoneses iriam tornar a vida bem dura por algum tempo. Mas só para aqueles que não estavam preparados para descobrir uma saída. Olhe para o Tex. O coitado do filho da puta não teve grana nem para comprar um único ovo. Olhe para você e Larkin. Se não fosse por mim, o Mac ainda estaria sofrendo, o pobre filho da mãe. Claro que tenho prazer em ajudar. Gosto de ajudar os meus amigos. Um homem tem que ajudar os amigos, caso contrário nada vale a pena.

— Suponho que sim — replicou Peter Marlowe. Que coisa terrível de se dizer. Estava magoado com o Rei, e não entendia que a mente americana é simples em algumas coisas, tão simples quanto a inglesa. Um americano tem orgulho da sua capacidade de ganhar dinheiro, e está certo. Um inglês, como Peter Marlowe, tem orgulho de morrer por sua Bandeira. E está certo.

Viu o Rei olhar pela janela e notou o brilho repentino dos seus olhos. Acompanhou a direção do olhar do Rei, e viu um homem subindo a trilha. Quando o homem atravessou o facho de luz, Peter Marlowe o reconheceu. O Coronel Samson.

Quando Samson viu o Rei, acenou amistosamente.

— Boa-noite, Cabo — falou, e continuou o seu caminho. O Rei pegou 90 dólares e entregou-os a Peter Marlowe.

— Faça-me um favor, Peter. Junte uma nota de dez a este bolo e dê tudo àquele sujeito.

— Samson? O Coronel Samson?

— Claro. Irá encontrá-lo perto do canto da cadeia.

— Dar-lhe o dinheiro? Sem mais aquela? Mas o que tenho que dizer?

— Diga-lhe que é da minha parte.

Meu Deus, pensou Peter Marlowe, estarrecido, será que o Samson está na folha de pagamento? Não pode ser! Não posso fazer isso. Você é meu amigo, mas não posso chegar para um Coronel e dizer, tome aqui cem pratas da parte do Rei. Não posso!

O Rei percebeu o que estava havendo com o amigo. Oh, Peter, pensou, você não passa de uma criança. A seguir, acrescentou, ora vá para o diabo! Mas jogou fora o último pensamento e se xingou. Peter era o único sujeito no acampamento que jamais quisera ter como amigo, o único sujeito de que precisava. E assim decidiu ensinar-lhe os fatos da vida. Vai ser dureza, Peter, meu chapa, e pode doer um bocado, mas vou ensinar-lhe nem que tenha que quebrá-lo. Você vai sobreviver e vai ser meu sócio.

— Peter — falou — há vezes em que precisa confiar em mim. Jamais o deixaria entrar numa fria. Enquanto você for meu amigo, confie em mim. Se não quiser ser meu amigo, tudo bem. Mas gostaria que fosse meu amigo.

Peter Marlowe percebeu que esta era outra hora da verdade. Pegue o dinheiro em confiança... ou deixe-o e suma.

A vida de um homem está sempre numa encruzilhada. E não somente a sua vida, não se for um homem. Há sempre outras em jogo.

Sabia que um dos caminhos arriscava a vida de Mac e a de Larkin, juntamente com a sua, pois sem o Rei eram tão indefesos quanto qualquer outro homem no campo; sem o Rei não haveria aldeia, pois sabia que não correria o risco sozinho... nem mesmo pelo rádio. O outro caminho poria em risco uma tradição ou destruiria um passado. Samson era uma força no Exército Regular, um homem de casta, posição e fortuna, e Peter Marlowe nascera para ser oficial — como seu pai antes dele, e seu filho depois dele — e uma tal acusação jamais poderia ser esquecida. E se Samson era um assalariado, então tudo aquilo em que lhe ensinaram a acreditar, não teria valor.

Peter Marlowe ficou vendo a si mesmo pegar o dinheiro, sumir na noite, subir a trilha e encontrar o Coronel Samson, e ouvir o homem murmurar:

— Oh, alô, é Marlowe, não é?

Viu a si mesmo passar o dinheiro para o outro.

— O Rei me pediu que lhe desse isto.

Viu os olhos mucosos se iluminarem, quando Samson contou avidamente o dinheiro, enfiando-o na calça puída.

— Agradeça-lhe — ouviu Samson sussurrar — e diga-lhe que detive o Grey durante uma hora. Foi o máximo que pude detê-lo. Foi o bastante, não foi?

— Foi o bastante. Apenas o bastante. — A seguir, ouviu-se dizendo: — Da próxima vez detenha-o por mais tempo, ou mande avisar, seu sacana cretino!

— Diga-lhe que o detive o quanto pude. Diga ao Rei que lamento muito. Diga-lhe que lamento de verdade, e que não vai acontecer de novo. Prometo. Escute, Marlowe. Sabe como são as coisas. Às vezes, fica um pouco difícil.

— Direi a ele que lamenta muito.

— Sim, sim, obrigado, obrigado, Marlowe. Invejo-o, Marlowe, ser tão íntimo do Rei. Tem sorte.

Peter Marlowe retornou à choça americana. O Rei lhe agradeceu e ele agradeceu o Rei de novo, e saiu para dentro da noite.

Encontrou um pequeno promontório com vista para a cerca de arame e imaginou-se no seu Spitfire, rasgando os céus sozinho, alto, alto, bem alto no céu, onde tudo é puro e limpo, onde não há gente nojenta... como eu... onde a vida é simples e pode-se falar com Deus, e ser de Deus, sem vergonha.

 

Peter Marlowe estava deitado no seu beliche, num estado de semi-adormeci-mento. À sua volta, os homens acordavam, levantavam-se, iam "descarregar", preparando-se para os destacamentos de trabalho, indo e vindo da choça. Mike já estava ajeitando o bigode, que media 38 centímetros de ponta a ponta; jurara não cortá-lo até que fosse solto. Barstairs já estava de ponta cabeça, fazendo sua ioga, Phil Mint já estava limpando o nariz, com o jogo de bridge já iniciado. Raylins já treinava seus exercícios de canto, Myner já tocava escalas no seu teclado de madeira, o Capelão Grover já tentava animar o pessoal, e Thomas já xingava o atraso do café.

Acima de Peter Marlowe, Ewart, que dormia no beliche superior, acordou gemendo e pendurou as pernas para o lado de fora do beliche.

— 'Mahlu para a noite!

— Estava-se debatendo pra cachorro. — Peter Marlowe já fizera esse comentário muitas vezes, pois Ewart sempre tinha o sono inquieto.

— Desculpe.

Ewart sempre dizia "Desculpe". Saltou da cama, pesadamente. O lugar dele não era em Changi. Era a oito quilômetros de distância, no acampamento civil, onde estavam a mulher e a família dele... onde talvez estivessem. Nunca se permitira nenhum contato entre os campos.

— Vamos queimar a cama depois do banho de chuveiro — disse, bocejando. Era baixo, moreno e exigente.

— Boa idéia.

— Ninguém diria que já o fizemos há três dias. Como dormiu?

— Como sempre. — Mas Peter Marlowe sabia que nada mais era como antes, não depois de ter aceito o dinheiro, não depois do Samson.

A fila impaciente para o café já se estava formando, quando levaram o beliche de ferro para fora da choça. Tiraram a cama de cima, e depois arrancaram os postes de ferro que se encaixavam em fendas da cama de baixo. A seguir, tiraram gravetos e cascas de coco do seu setor debaixo da choça e atearam fogo sob as quatro pernas.

Enquanto as pernas aqueciam, pegaram folhas ardentes e mantiveram-nas sob as barras longitudinais e sob as molas. Não demorou e a terra debaixo da cama estava negra de percevejos.

— Pelo amor de Deus, vocês dois — berrou Phil. — Será que têm que fazer isso antes do café? — Era um homem azedo, de peito-de-pombo, com vivos cabelos vermelhos.

Não deram bola. Phil sempre gritava com eles, e sempre queimavam seus beliches antes do café.

— Deus, Ewart — comentou Peter Marlowe. — Dá para pensar que os sacanas podiam pegar o beliche e sair andando com ele.

— Quase que me jogaram para fora da cama, ontem à noite. Bichos nojentos. — Numa súbita onda de raiva, Ewart começou a bater na infinidade de percevejos.

— Calma, Ewart.

— Não posso controlar-me. Eles me deixam todo arrepiado.

Quando haviam completado a cama, deixaram-na esfriando e foram limpar os colchões. Isso levou meia hora. A seguir, os mosquiteiros. Outra meia hora.

A esta altura, as camas já tinham esfriado o bastante para serem tocadas. Remontaram o beliche e levaram-no de volta, e colocaram-no nas quatro latas (cuidadosamente limpas e cheias de água), certificando-se de que as beiradas das latas não tocassem as pernas de ferro.

— Que dia é hoje, Ewart? — perguntou Peter Marlowe distraidamente, enquanto esperavam pelo café.

— Domingo.

Peter Marlowe estremeceu, recordando aquele outro domingo.

Foi depois que a patrulha japonesa o apanhou. Estava num hospital em Bandung, naquele domingo. Naquele domingo, os japoneses disseram a todos os pacientes prisioneiros de guerra que apanhassem seus pertences e começassem a marchar, porque iriam para um outro hospital. Haviam formado filas, às centenas, no pátio. Somente os oficiais superiores não iriam. Diziam os boatos que estavam sendo enviados para Formosa. 0 General também ficou, ele que era o oficial mais antigo, que abertamente andava pelo campo em comunhão com o Espírito Santo. 0 General era um homem aprumado, de ombros retos, e sua farda estava molhada do cuspe dos conquistadores.

Peter Marlowe lembrava-se de ter carregado seu colchão pelas ruas de Bandung, debaixo de um céu quente, com gente silenciosa que gritava enfileirando-se ao longo das ruas, com vestes multicoloridas. A seguir, jogara fora o colchão. Pesado demais. Depois, caíra ao chão, mas logo se levantara. A seguir, os portões da prisão se abriram e os portões da prisão se fecharam. Havia espaço suficiente para se deitar no pátio. Mas ele, e alguns outros, foram trancados sozinhos em celas minúsculas. Havia correntes na parede e um buraquinho no chão que fazia as vezes de latrina, e em volta da latrina havia fezes acumuladas há anos. A terra era coberta de palha fedida.

Na cela ao lado estava um maníaco, um javanês que enlouquecera e matara três mulheres e duas crianças antes que os holandeses o dominassem. Agora, não eram os holandeses os seus carcereiros. Também eles estavam encarcerados. Durante os dias e as noites inteiras, o maníaco sacudia as correntes e berrava.

Havia um buraquinho na porta de Peter Marlowe. Ele ficava deitado na palha, olhando para os pés lá fora, esperando pela comida, e ouvindo os prisioneiros praguejando e morrendo, pois havia peste.

Esperou para sempre.

E então chegou a paz e a água limpa e não havia mais somente um buraquinho no mundo, mas o céu estava lá em cima, e havia água fresca no seu corpo, lavando a sujeira. Abriu os olhos e viu um rosto gentil, que estava de cabeça para baixo, e havia outro rosto, e ambos estavam cheios de paz, e ele pensou que estava realmente morto.

Mas eram Mac e Larkin. Haviam-no encontrado pouco antes de saírem da prisão para um outro campo. Pensaram que era javanês, como o maníaco da cela ao lado, que ainda uivava e sacudia as correntes, pois também ele gritava em malaio e se parecia com os javaneses...

— Vamos, Peter — disse Ewart de novo. — Está na hora do rancho.

— Ah, obrigado.

Peter Marlowe pegou suas vasilhas de comida.

— Está-se sentindo bem?

— Estou. — Depois de um momento, falou: — É bom estar vivo, não é?

No meio da manhã, as notícias correram Changi inteira. O Comandante japonês ia devolver ao campo a ração padrão de arroz, para comemorar uma grande vitória japonesa no mar. O Comandante dissera que uma força-tarefa americana fora totalmente destruída, que deste modo o avanço nas Filipinas fora detido, que naquele mesmo momento as forças japonesas estavam-se reagrupando para a invasão do Havaí.

Boatos e contraboatos. Opiniões e contra-opiniões.

— Uma besteirada! Inventaram isso para cobrir uma derrota!

— Acho que não. Nunca aumentaram a comida para comemorar uma derrota.

— Escute só o paspalho! Aumento! Estão apenas nos devolvendo algo que nos haviam tirado. Não, meu velho... acredite no que digo. Os malditos japoneses estão recebendo o troco merecido. Pode acreditar em mim!

— Porra, mas o que você sabe que nós não sabemos? Tem um rádio, por acaso?

— Se tivesse, pode apostar a calça que não lhe contaria.

— Por falar nisso, e quanto a Daven?

— Quem?

— O tal que tinha o rádio.

— Ah, sim, lembro-me. Mas não o conhecia. Como é que ele era?

— Um cara legal, é o que dizem. Pena que tenha sido preso.

— Gostaria de descobrir o filho da mãe que dedurou ele. Aposto que era da Força Aérea. Ou um australiano. Aqueles filhos da mãe venderiam as almas por meio vintém!

— Sou australiano, seu inglês filho da mãe.

— Ah, calminha, estava só brincando.

— Tem um senso de humor gozado, seu sacana.

— Como é, vamos com calma, vocês dois. Está quente demais. Quem me empresta um cigarro?

— Tome um baforada.

— Puxa, mas que gosto forte!

— Folhas de mamoeiro. Eu mesmo as curei. Não é ruim, depois que a gente se acostuma.

— Olhe lá!

— Onde?

— Subindo a estrada. Marlowe!

— É aquele? Puta merda! Ouvi dizer que se ligou ao Rei.

— Foi por isso que o mostrei a você, seu idiota! 0 campo inteiro está sabendo. Tem andado dormindo, ou o quê?

— Não o culpo. Faria o mesmo, se tivesse meia chance. Dizem que o Rei tem dinheiro, anéis de ouro e comida para alimentar um batalhão.

— Ouvi dizer que é homossexual. E que Marlowe é sua nova namorada.

— Isso mesmo.

— É, uma ova. 0 Rei não é homossexual, é só um grande vigarista.

— Também acho que não é homossexual. Mas que é vivo, isso é. Filho da mãe miserável.

— Homossexual ou não, queria estar na pele do Marlowe. Ouviu contar que tem uma pilha enorme de dólares? Eu soube que ele e Larkin estavam comprando uns ovos e uma galinha inteira.

— Está maluco. Ninguém tem tanto dinheiro... exceto o Rei. Eles têm as próprias galinhas. Vai ver que uma delas morreu, só isso! Mais uma das suas lorotas!

— O que acha que Marlowe está levando naquela vasilha?

— Comida. O que mais? Não é preciso saber grande coisa para saber que é comida.

Peter Marlowe dirigia-se para o hospital.

Na tigela de comida, levava um peito de galinha, a perna e a coxa. Peter Marlowe e Larkin haviam-na comprado do Coronel Foster por 60 dólares e um pouco de tabaco e a promessa de um ovo fértil da ninhada que Rajah, filho de Sunset, breve fertilizaria através de Nonya. Haviam decidido, com a aprovação de Mac, dar uma outra chance a Nonya, não matá-la como merecia, pois nenhum dos ovos dera pintinho. Quem sabe não era Nonya, dissera Mac, quem sabe o galo, de propriedade do Coronel Foster, não prestava... e todo aquele bater de asas e bicar e montar as galinhas era só pra inglês ver.

Peter Marlowe ficou sentado com Mac, enquanto este comia a galinha.

— Meu Deus, rapaz, já nem me lembro mais quando me senti tão bem ou tão cheio.

— Que bom. Está com ótima aparência, Mac.

Peter Marlowe contou a Mac de onde viera o dinheiro das galinhas, e Mac falou:

— Fez bem em aceitar o dinheiro. Provavelmente o tal Prouty roubou ou fabricou a coisa. Estava errado ao tentar vender uma mercadoria fajuta. Lembre-se, rapaz, Caveat emptor.

— Então, por que será que me sinto tão culpado? Você e Larkin dizem que agi bem. Embora eu ache que Larkin não esteja tão certo quanto você...

— É o comércio, meu rapaz. Larkin é contador, não é um comerciante de verdade. Quanto a mim, conheço as manhas do mundo.

— Você não passa de um pobre plantador de borracha. Que diabo entende de negócios? Passou anos enfiado num seringal!

— É bom que lhe diga — falou Mac, abespinhado — que grande parte do trabalho de um seringueiro se resume em tratar de negócios. Ora, todos os dias é preciso lidar com os hindus ou os chineses... e esta é uma raça de comerciantes. Ora, meu rapaz, inventaram todos os truques que existem.

E assim continuaram a conversa, e Peter Marlowe ficou feliz ao ver Mac reagir de novo a suas gozações. Quase sem notar, passaram a falar em malaio. E então, Peter Marlowe disse, casualmente:

— Conheceis a coisa que é feita de três coisas? — Por medida de segurança, falava do rádio em parábola. Mac olhou ao redor para se certificar de que não estavam sendo ouvidos.

— Em verdade conheço. O que há com ela?

— Tendes certeza agora da natureza da sua doença?

— Não estou certo... mas quase certo. Por que perguntais?

— Porque o vento trouxe um murmúrio que falava de remédios para curar os vários tipos de doença.

O rosto de Mac se iluminou.

— Wah-lah! — exclamou. — Fizestes um velho muito feliz. Dentro de dois dias sairei daqui. E então, levar-me-eis ao murmurador.

— Não, não é possível. Preciso fazê-lo eu mesmo. E depressa.

— Não vos quero exposto ao perigo — disse Mac, pensativo.

— O vento trouxe esperança. Como está escrito no Alcorão, sem esperança o homem não passa de um animal.

— Talvez fosse melhor esperar do que procurar a vossa morte.

— Eu esperaria, mas o conhecimento que busco tenho que saber hoje.

— Por quê? — perguntou Mac, abruptamente, em inglês. — Por que hoje, Peter?

Peter se amaldiçoou por ter caído na armadilha que planejara tão cuidadosamente evitar. Sabia que, se falasse da aldeia a Mac, este ficaria louco de preocupação. Não que Mac pudesse detê-lo, mas sabia que não iria, se Mac e Larkin lhe pedissem para não ir. Que diabo vou fazer agora, pensou? E, então, lembrou-se do conselho do Rei.

— Hoje, amanhã, não importa. Só estava interessado — falou, e jogou seu trunfo. Levantou-se. O truque mais velho do mundo. — Bem, até amanhã, Mac. Quem sabe Larkin e eu apareçamos aqui logo mais à noite.

— Sente-se, meu rapaz. A não ser que tenha o que fazer.

— Não tenho nada que fazer.

Mac passou nervosamente para o malaio.

— Falais a verdade? Aquele "hoje" nada significava? O espírito do meu pai sussurrava que os moços correm riscos que até o demônio evitaria.

— Está escrito, a escassez de anos não implica falta de sabedoria.

Mac examinava Peter Marlowe, com ar indagador. Ele estará aprontando alguma? Junto com o Rei? Bem, pensou, cansado, Peter já está atolado até a tampa no perigo do rádio, e, afinal, trouxe consigo um terço dele, desde Java.

— Pressinto perigo para vós — falou, finalmente.

— Um urso pode tirar o mel do vespão sem perigo. Uma aranha pode procurar em segurança sob as pedras, pois sabe onde e como procurar. — O rosto de Peter Marlowe manteve-se inexpressivo. — Não temais por mim, ó Velho. Procuro apenas sob as pedras. Mac balançou a cabeça, satisfeito.

— Conheceis o meu recipiente?

— Por certo.

— Creio que adoeceu quando uma gota de chuva entrou por um buraco no seu céu, e tocou uma coisa e apodreceu-a como uma árvore caída na selva. A coisa é pequena, como uma cobrinha, fina como uma minhoca, baixa como uma barata. — Gemeu e se esticou. — Minhas costas estão-me matando — falou, em inglês. — Quer ajeitar o travesseiro para mim, meu rapaz? — Quando Peter Marlowe se debruçou, Mac se ergueu e murmurou no seu ouvido. — Um condensador de acoplamento, trezentos microfarádios.

— Está melhor? — perguntou Peter, quando Mac se recostou.

— Muito melhor, meu rapaz. Agora, vá dando o pira. Toda essa conversa fiada me cansou.

— Sabe que se diverte com ela, seu velho sacana.

— Corte o velho, puki 'mahlu!

— Senderis! — retrucou Peter Marlowe, e saiu para o Sol. Um condensador de acoplamento, 300 microfarádios. Que diabo é um microfarádio?

O vento que vinha da direção da garagem trazia-lhe o cheiro doce do ar carregado de gasolina, óleo e graxa. Acocorou-se ao lado da trilha, sobre a grama, para saborear o aroma. Meu Deus, pensou, como o cheiro da gasolina me traz lembranças. Aviões e Gosport, Farnborough e oito outras pistas de pouso, e Spitfires e Hurricanes.

Mas não vou pensar neles agora, vou pensar no rádio.

Mudou de posição, sentou-se na posição de lótus, pé direito sobre a coxa esquerda, pé esquerdo sobre a coxa direita, mãos no colo, os nós dos dedos se tocando e os polegares se tocando e os dedos apontando para o umbigo. Muitas vezes já se sentara daquele modo. Ajudava-o a pensar, já que, depois que passava a dor inicial, uma quietude invadia o corpo, e a mente voava livre.

Ficou ali sentado, muito quieto, e os homens passavam por ele, quase sem o notar. Não havia nada de estranho em ver-se um homem sentado naquela posição, ao calor do meio-dia, superbronzeado, e de sarongue. Nada de estranho, mesmo.

Agora, sei o que tem que ser obtido. De algum modo. Tem que haver um rádio na aldeia. As aldeias são como as pegas — juntam todo o tipo de coisas; e riu, recordando sua aldeia em Java.

Descobrira-a, andando aos tropeções pela selva, exausto e perdido, mais morto do que vivo, longe dos muitos caminhos que entrecruzavam Java. Correra por muitos quilômetros e a data era 11 de março. As forças da ilha haviam capitulado no dia 8 de março, e o ano era 1942. Durante três dias vagara a esmo pela floresta, comido pelos insetos e rasgado pelos espinhos e chupado pelas sanguessugas e ensopado pelas chuvas. Não vira ninguém, não ouvira ninguém desde que saíra do campo de pouso norte, o aeródromo de caças em Bandung. Abandonara sua esquadrilha, o que restava dela, e abandonara o seu Hurricane. Mas antes de fugir, fizera do seu avião morto — retorcido, destruído por bombas e balas traçantes — uma pira funerária. Um homem não podia deixar de, pelo menos, cremar o amigo.

Quando descobriu a aldeia, era a hora do pôr-do-sol. Os javaneses que o cercavam eram hostis. Não tocaram nele, mas a raiva nos seus rostos era visível. Fitaram-no em silêncio, e ninguém fez um movimento para socorrê-lo.

— Podem dar-me um pouco de comida e água? — pedira. Não houve resposta.

A seguir, vira o poço, fora até ele, acompanhado pelos olhos irados, e saciara a sede. A seguir, sentara-se e pusera-se a esperar.

A aldeia era pequena, bem escondida. Parecia rica. As casas, construídas em volta de uma praça, eram sobre estacas e feitas de bambu e folhas de palmeira. E sob as casas via muitos porcos e galinhas. Próximo de uma casa maior havia um curral, com cinco búfalos-da-India dentro. Aquilo queria dizer que a aldeia era rica.

Finalmente, foi levado à casa do chefe da aldeia. Os calados nativos subiram a escada, mas não entraram na casa. Ficaram sentados na varanda, escutando e esperando.

O chefe era velho, moreno-escuro e mirrado. E hostil. A casa, como todas as outras, constava de um grande aposento dividido em pequenas partes por biombos de folhas de palmeira.

No centro da parte destinada a comer, conversar e pensar, via-se uma privada de porcelana, completa com assento e tampa. Não havia canos ligados ao vaso, que ficava no lugar de honra, sobre um tapete trançado. Diante do vaso, sobre outro tapete, acocorava-se o chefe. Seus olhos eram penetrantes.

— O que quer? Tuan! — E o "Tuan" era uma acusação.

— Só queria um pouco de comida e água, senhor... e quem sabe poder ficar aqui durante algum tempo, até me recuperar um pouco.

— Chama-me de senhor, quando há três dias você e o resto dos brancos nos xingavam e cuspiam em nós?

— Nunca os xinguei. Fui mandado para cá para tentar proteger seu país dos japoneses.

— Eles nos libertaram dos holandeses nojentos! Como libertarão todo o Extremo Oriente dos imperialistas brancos!

— Talvez. Mas acho que lamentarão o dia em que eles chegaram!

— Saia da minha aldeia. Vá com o resto dos imperialistas. Vá antes que eu chame os japoneses em pessoa.

— Está escrito: "Se um estranho vier até vós e pedir-vos hospitalidade, recebei-o para serdes bem-visto aos olhos de Alá."

O chefe da aldeia olhara para ele, apalermado. Pele moreno-escura, bolero curto, sarongue multicolorido e o pano de cabeça enfeitado na escuridão que aumentava.

— O que sabe do Alcorão e das palavras do Profeta?

— Louvado seja o seu nome — respondera Peter Marlowe. — O Alcorão foi traduzido em inglês há muitos anos por muitos homens. — Estava lutando pela vida. Sabia que, se pudesse ficar na aldeia, poderia conseguir um barco para chegar até a Austrália. Não que soubesse manobrar um barco, mas valia a pena correr o risco. O cativeiro seria a morte.

— Você é um dos Fiéis? — perguntara o chefe, atônito.

Peter Marlowe hesitara. Podia facilmente fingir que era muçulmano. Parte do seu treinamento constara do estudo do Livro do Islã. Os oficiais das forças de Sua Majestade tinham que servir em muitas terras. Oficiais hereditários são treinados em muitas coisas acima e além da educação formal.

Se dissesse que sim, estaria a salvo, pois a maioria dos javaneses era muçulmana.

— Não, não sou um dos Fiéis. — Estava cansado, no fim das suas forças. — Pelo menos, não sei se sou. Ensinaram-me a crer em Deus. Meu pai nos costumava dizer, a mim e a minhas irmãs, que Deus tem muitos nomes. Até mesmo os cristãos dizem que existe uma Santíssima Trindade... que existem partes de Deus.

"Não acho que importe que nome se dê a Deus. Deus não vai incomodar-se de ser chamado de Jesus, ou Alá, ou Buda ou Jeová, ou até mesmo Você!... porque, se é Deus, sabe que somos meros mortais e que não sabemos muito de coisa alguma.

"Acredito que Maomé foi um homem de Deus, um profeta de Deus. Acho que Jesus também foi um homem de Deus, como Maomé se refere a ele no Alcorão, o 'mais imaculado dos Profetas'. Que Maomé tenha sido o último dos Profetas, como alegava, isso eu não sei. Acho que nós, humanos, não podemos ter certeza de nada que se relacione com Deus.

"Mas não creio que Deus seja um velho com longas barbas brancas que fica sentado num trono dourado lá no alto do céu. Não creio, como Maomé prometeu, que os Fiéis irão para um paraíso onde se deitarão em divas de seda e beberão vinho e terão muitas donzelas ao seu dispor, ou que o Paraíso será um jardim cheio de folhagens verdes, riachos puros e árvores frutíferas. Não creio que os anjos tenham asas nas costas."

A noite cobriu a aldeia. Um bebê chorou e foi ninado até dormir de novo.

— Um dia, saberei ao certo por que nome devo chamar Deus. O dia em que morrer. — O silêncio pesou. — Acho que seria muito deprimente descobrir que não existe Deus.

O chefe da aldeia fizera sinal a Peter Marlowe para sentar-se.

— Pode ficar. Mas sob condições. Jurará obedecer às nossas leis e ser um de nós. Trabalhará nos arrozais e na aldeia, trabalho de homem. Nem mais nem menos do que qualquer outro homem. Aprenderá a nossa língua e falará somente a nossa língua e usará nossas vestes e tingirá a pele. Sua altura e cor dos olhos gritarão bem alto que é um homem branco, mas quem sabe a tintura, as vestimentas e o idioma possam protegê-lo por algum tempo. Talvez possamos dizer que é meio javanês, meio branco. Não tocará em nenhuma mulher daqui sem permissão. E me obedecerá sem discutir.

— De acordo.

— Mais uma coisa. É perigoso ocultar um inimigo dos japoneses. Precisa saber que, quando chegar a hora de escolher entre você e meu povo, para proteger minha aldeia, escolherei a aldeia.

— Compreendo. Obrigado, senhor.

— Jure pelo seu Deus — uma sombra de sorriso perpassara pelo rosto do velho — jure por Deus que concorda com essas condições, e que as obedecerá.

— Juro por Deus que concordo e que obedecerei. E nada farei para prejudicá-los enquanto aqui estiver.

— Já nos prejudica com sua simples presença, meu filho — replicara o velho.

Depois que Peter Marlowe comera e bebera, o chefe disse:

— Agora, não falará mais inglês. Apenas malaio. Deste minuto em diante. É a única maneira de aprender depressa.

— Está bem. Mas, primeiro, posso perguntar-lhe uma coisa?

— Pode.

— O que significa o vaso? Quero dizer, nato há canos ligados a ele.

— Não significa nada, salvo que me dá prazer ver as caras das minhas visitas e ouvi-las pensar "Que coisa ridícula para se ter como enfeite numa casa."

E o velho dera imensas gargalhadas e as lágrimas correram-lhe pelas faces, e toda a casa ficara alvoroçada, e as suas mulheres vieram acudi-lo e esfregar-lhe as costas e a barriga, e depois todo o mundo ria também, inclusive Peter Marlowe.

Peter Marlowe sorriu de novo, recordando. Aquele sim era um homem! Tuam Abu. Mas hoje não vou pensar mais na minha aldeia, ou meus amigos na aldeia, ou em N'ai, a filha da aldeia que me deram para tocar. Hoje vou pensar no rádio, e em como vou conseguir o rádio, e aguçar minhas faculdades mentais para a aldeia, logo mais.

Soltou-se da posição de lótus, depois esperou pacientemente até que o sangue voltasse a correr novamente em suas veias. Ao derredor, sentia o doce cheiro da gasolina, trazido pela brisa, que também trazia o som de vozes cantando um hino religioso. Vinham do teatro ao ar livre, que hoje era a Igreja Anglicana. Na semana anterior fora uma Igreja Católica, na anterior a Igreja Adventista do Sétimo Dia, e ainda na anterior uma outra igreja qualquer. Eram tolerantes, em Changi.

Havia muitos paroquianos lotando as cadeiras toscas. Alguns estavam lá por fé, outros por falta de fé. Alguns estavam lá para ter alguma coisa para fazer, outros porque não havia mais nada para fazer. Hoje, o serviço religioso estava sendo conduzido pelo Capelão Drinkwater.

A voz do Capelão Drinkwater era melodiosa e sonora. A sinceridade jorrava dele e as palavras da Bíblia ganhavam vida, e davam esperança, e faziam a gente esquecer que Changi era a realidade, e que a barriga da gente estava vazia.

Hipócrita nojento, pensou Peter Marlowe, desprezando Drinkwater, recordando de novo...

— Ei, Peter — Dave Daven murmurara, naquele dia — olhe lá.

Peter Marlowe vira Drinkwater conversando com um cabo mirrado da RAF chamado Blodger. O beliche de Drinkwater ficava num lugar privilegiado perto da porta da Choça 16.

— Aquele deve ser o novo ordenança dele — dissera Daven. Até mesmo no campo a tradição secular era mantida.

— O que aconteceu ao outro?

— Lyles? Disseram-me que estava no hospital. Enfermaria Seis. Peter Marlowe se pusera de pé.

— Drinkwater pode fazer o que quiser com o pessoal do Exército, mas não vai pegar um dos meus.

Caminhara os quatro beliches que os separavam.

— Blodger!

— O que quer, Marlowe? — indagara Drinkwater. Peter Marlowe o ignorara.

— O que está fazendo aqui, Blodger?

— Vim só ver o capelão, senhor. Desculpe, senhor — falara, adiantando-se. — Não consigo vê-lo muito bem.

— Capitão-Aviador Marlowe.

— Ah. Como está, senhor? Sou o novo ordenança do capelão, senhor.

— Suma-se daqui, e antes de pegar um emprego de ordenança, venha primeiro falar comigo!

— Mas, senhor...

— Quem pensa que é, Marlowe? — falara Drinkwater, bruscamente. — Não tem autoridade sobre ele.

— Ele não vai ser seu ordenança.

— Por quê?

— Porque eu disse que não. Pode retirar-se, Blodger.

— Mas, senhor, eu vou cuidar do capelão direitinho, vou mesmo. Trabalharei muito...

— Onde arranjou este cigarro?

— Ora, escute aqui, Marlowe... — começara Drinkwater. Peter Marlowe virara-se violentamente para ele.

— Cale a boca! — Os outros homens da choça pararam o que estavam fazendo e começaram a se aproximar. — Onde arranjou este cigarro, Blodger?

— Foi o capelão que me deu — choramingara Blodger, recuando, assustado com o tom de voz de Marlowe. — Dei a ele o meu ovo. Ele me prometeu fumo em troca do meu ovo diário. Eu quero o fumo, ele pode ficar com o ovo.

— Não há mal nisso — vociferara Drinkwater. — Não há mal em dar um pouco de tabaco para o rapaz. Foi ele que me pediu, em troca de um ovo.

— Já visitou recentemente a Enfermaria Seis? — perguntara Peter Marlowe. — Ajudou-os a admitirem o Lyles? O seu último ordenança? Não tem mais visão, agora.

— Não é culpa minha. Não fiz nada com ele.

— Quantos dos ovos dele você comeu?

— Nenhum. Não comi nenhum.

Peter Marlowe agarrara uma Bíblia e a enfiara nas mãos de Drinkwater.

— Jure sobre a Bíblia, então acreditarei em você. Jure, ou por Deus que acabo com você!

— Juro! — gemera Drinkwater.

— Seu sacana mentiroso — gritara Daven. — Vi você tirar os ovos de Lyles. Todos nós vimos.

Peter Marlowe agarrara a vasilha de comida de Drinkwater, achando o ovo. A seguir o quebrou de encontro ao rosto de Drinkwater, enfiando-lhe a casca boca adentro. Drinkwater desmaiou.

Peter Marlowe jogara-lhe uma tigela de água no rosto, e ele voltara a si.

— Deus o abençoe, Marlowe — murmurara. — Deus o abençoe por ter-me mostrado como estava errado. — Ajoelhara-se ao lado do beliche. — Ó, Deus, perdoe este miserável pecador. Perdoe os meus pecados...

Agora, neste domingo ensolarado, Peter Marlowe escutava Drinkwater terminar o seu sermão. Há muito que Blodger já fora para a Enfermaria Seis, mas Peter Marlowe jamais poderia provar se fora para lá com a ajuda de Drinkwater. Este ainda conseguia muitos ovos, de alguma fonte.

O estômago de Peter Marlowe avisou-lhe de que era hora do almoço.

Quando voltou para sua choça, os homens já estavam esperando, impacientes, vasilha na mão. O extra não ia sair hoje. Ou amanhã, segundo os boatos. Ewart já fora verificar na cozinha. O de sempre. Isso já servia, mas por que cargas-d'água não se apressavam?

Grey estava sentado na beirada de sua cama.

— Ora, Marlowe! — exclamou — está comendo conosco, atualmente? Mas que surpresa agradável.

— É, Grey, ainda estou comendo aqui. Por que não vai brincar de bandido e ladrão? Sabe, provocar alguém que não se possa defender!

— Nem pensar, meu velho. Estou de olho em caça grande.

— Muito boa sorte. — Peter Marlowe pegou suas vasilhas. Do lado oposto, Brough, peruando um jogo de bridge, piscou o olho.

— Tiras! — sussurrou. — São todos iguais.

— É isso aí.

Veio para junto de Peter Marlowe.

— Ouvi dizer que arranjou um novo amigão.

— É verdade. — Peter Marlowe fechou a guarda.

— Ê um país livre. Mas, às vezes, um cara tem que se arriscar e dizer umas verdades.

— É?

— Sim. Companhias perigosas às vezes podem causar problemas.

— Isso e' verdade em qualquer país.

— Quem sabe — falou Brough, abrindo um sorriso — quem sabe gostaria de tomar uma xícara de café comigo e bater um papo.

— Gostaria, sim. Que tal amanhã? Depois do rancho... — Involuntariamente, usou a palavra do Rei. Mas não se corrigiu. Sorriu, e Brough devolveu o sorriso.

— A bóia chegou! — gritou Ewart.

— Graças a Deus — gemeu Phil. — Quer fazer uma troca, Peter? 0 seu arroz pelo meu ensopado?

— Pode esperar sentado!

— Não custa nada tentar!

Peter Marlowe saiu da choça e entrou na fila da comida. Raylins estava distribuindo o arroz. Ótimo, pensou, não há com que se preocupar hoje.

Raylins era de meia-idade, e calvo. Fora gerente-assistente do Banco de Cingapura e, como Ewart, pertencia ao Regimento Malaio. Em tempos de paz, era formidável pertencer a essa organização. Muitas festas, críquete, pólo. Era preciso pertencer ao Regimento para ser alguém. Raylins também era encarregado, do fundo de refeições, e os banquetes eram a sua especialidade. Quando puseram uma arma em suas mãos, disseram-lhe que estava em guerra, ordenaram-lhe que levasse o seu pelotão para o outro lado do elevado e lutasse contra os japoneses, ele olhara para o Coronel e começara a rir. O serviço dele era contas bancárias. Mas aquilo em nada o ajudara, e tivera que pegar 20 homens, tão destreinados quanto ele próprio, e marchar estrada acima. Marchara, e de repente os seus 20 homens eram três. Treze haviam sido mortos instantaneamente na emboscada. Quatro estavam apenas feridos, deitados no meio da estrada, aos berros. A mão de um deles fora arrancada, e ele fitava o coto com ar apalermado, segurando o sangue na mão que sobrara, tentando derramá-lo de volta no braço. Outro ria, ria, enquanto tentava enfiar as entranhas de volta no buraco aberto.

Raylins ficara olhando idiotamente para o tanque japonês que descia a estrada, com os canhões disparando. Depois, o tanque já tinha passado, e os quatro eram apenas manchas no asfalto. Olhara para os três homens que sobraram — Ewart era um deles. Devolveram-lhe o olhar. E então estavam todos correndo, correndo apavorados para dentro da selva. E depois se perderam. E depois ele ficara sozinho, sozinho numa noite de horror, cheia de sanguessugas e ruídos, e a única coisa que o salvou da insanidade foi uma criança malaia, que o encontrou falando palavras sem nexo, e o levara até uma aldeia. Ele se esgueirara para dentro de um prédio onde estavam os restos de um exército. No dia seguinte, os japoneses fuzilaram dois em cada 10. Ele e mais alguns outros continuaram no prédio. Mais tarde, foram postos num caminhão e mandados para um campo, e ele se achara entre sua gente. Mas jamais pôde esquecer seu amigo Charles, aquele com os intestinos à mostra.

Raylins passava a maior parte do tempo numa névoa. Não conseguia entender por que não estava no seu banco, mexendo com seus números, mímeros limpos e precisos, e por que estava num campo, em que se destacava numa coisa. Podia dividir uma quantidade ignorada de arroz em tantas partes exatamente iguais. Quase até o último grão.

— Oh, Peter — falou Raylins, dando-lhe sua porção — conhecia Charles, não conhecia?

— Conhecia, sim, um bom sujeito.

Peter Marlowe não o conhecia. Nenhum deles o conhecia.

— Acha que ele conseguiu enfiar tudo de volta? — perguntou Raylins.

— Claro que sim.

Peter Marlowe afastou-se com sua comida, enquanto Raylins se virava para o próximo da fila.

— Ah, Capelão Grover, que dia quente, não? Conhecia Charles, não é?

— Sim — respondeu o capelão, olhos fitos na medida do arroz. — Estou certo de que conseguiu, Raylins.

— Que bom, que bom ouvir isso. Que lugar estranho para achar as suas entranhas, do lado de fora, sem mais nem menos.

A mente de Raylins vagueou até o seu banco fresquinho e até a mulher, que veria logo mais à noite, quando saísse do banco, no seu bangalozinho jeitoso, perto do hipódromo. Deixe ver, pensou, hoje à noite teremos cordeiro para o jantar. Cordeiro! E uma cerveja fresca e gostosa. Depois, vou brincar com a Penelope, enquanto a patroa fica na varanda, costurando.

— Ah — falou, feliz, reconhecendo Ewart. — Quer jantar com a gente hoje à noite, Ewart, meu velho? Não quer trazer a patroa?

Ewart resmungou entredentes. Pegou o arroz, o ensopac1 :> e foi-se afastando.

— Calma, Ewart — aconselhou Peter Marlowe.

— Calma, uma ova! Como pode saber o que sinto? Juro por Deus que ainda vou matá-lo.

— Não se preocupe...

— Preocupar! Estão mortas. A mulher e a filha dele estão mortas. Eu as vi mortas. Mas minha mulher e meus dois filhos? Onde estão, hem? Onde? Mortos em algum lugar, também. Têm que estar, depois de todo esse tempo. Mortos!

— Estão no acampamento civil...

— E como você pode saber, meu Deus? Você não sabe, eu não sei, e ele fica só a oito quilômetros daqui. Estão mortos! Ó, meu Deus! — E Ewart sentou-se e começou a chorar, derrubando o arroz e o ensopado no chão. Peter Marlowe apanhou do chão o arroz e as folhas que boiavam no ensopado, e devolveu-os ao prato de Ewart.

— Na semana que vem vão deixá-lo escrever uma carta. Ou quem sabe, deixarão você ir visitá-los. O Comandante do Campo está sempre pedindo uma lista das mulheres e crianças. Não se preocupe, estão bem. — Peter Marlowe deixou-o chorando com a cara enfiada no arroz, pegou sua própria tigela e foi para a choça.

— Alô, camarada — disse Larkin. — Foi ver o Mac?

— Fui. Está muito bem. Já começou a se irritar, quando se fala na idade dele.

— Vai ser bom ter o velho Mac de volta. — Larkin enfiou a mão sob o colchão e tirou de lá uma vasilha de comida sobressalente. — Tenho uma surpresa! — Destampou a vasilha e revelou um quadrado de cinco centímetros de uma substância castanha, semelhante a uma massa.

— Por tudo que há de mais sagrado! Blachang! Onde foi que arranjou?

— Surripiei-o, é claro.

— O senhor é um gênio, Coronel. Gozado que não senti o cheiro. — Peter Marlowe se inclinou e tirou um pedacinho do blachang. — Isto vai-nos durar umas duas semanas.

Blachang era uma iguaria nativa, fácil de fazer. Na época apropriada, ia-se para a praia e pegava-se com rede as inúmeras criaturinhas do mar que pairavam nas ondas. Depois, era só enterrá-las numa cova forrada de algas marinhas, cobri-las com mais algas marinhas e esquecê-las por dois meses.

Quando se abria a cova, os peixes tinham-se decomposto e formado uma pasta fedorenta. Só o fedor dela quase lhe arrancava fora a cabeça, e destruía o seu olfato por uma semana. Prendendo a respiração, você tirava a pasta da cova e fritava-a. Mas tinha que ficar contra o vento, senão sufocava. Quando esfriava, era só dar-lhe a forma de blocos, e vendê-la por uma fortuna. Antes da guerra, 10 centavos por um cubo. Agora, talvez 10 dólares por uma lasca. Por que uma iguaria? Era proteína pura. E uma fraçãozinha dela dava gosto a uma tigela inteira de arroz. Claro que era fácil pegar desinteria com ela. Mas se tivesse sido envelhecida da maneira correta, e cozida da maneira certa, e não tivesse sido tocada pelas moscas, não tinha perigo.

Mas a gente nunca perguntava. Simplesmente dizia: "O senhor é um gênio, Coronel", punha um pouco no prato de arroz e saboreava.

— Vamos levar um pouco para o Mac, hem?

— Boa idéia. Mas ele na certa vai reclamar de que não está bem cozido.

— O velho Mac se queixaria se estivesse perfeitamente cozido... — Larkin se interrompeu. — Ei, Johnny — chamou um homem alto que ia passando, puxando pela trela um vira-lata esquelético. — Quer um pouco de blachang, meu camarada?

— Se quero?

Deram-lhe uma porção numa folha de bananeira, falaram do tempo e perguntaram como ia o cachorro. John Hawkins amava seu cão acima de todas as coisas. Dividia com ele sua comida — é espantoso ver as coisas que um cachorro consegue comer — e o animal dormia no seu beliche. Rover era um bom amigo. Fazia um homem sentir-se civilizado.

— Querem jogar um pouco de bridge, logo mais? Trarei um quarto parceiro — disse Hawkins.

— Hoje à noite não posso — falou Peter Marlowe, aleijando moscas.

— Posso convidar o Gordon, da choça vizinha — sugeriu Larkin.

— Ótimo. Depois do jantar?

— Certo, até lá.

— Obrigado pelo blachang — disse Hawkins, enquanto ia embora, com Rover latindo contente a seu lado.

— Porra, como ele consegue o bastante para se alimentar e àquele vira-lata, é uma coisa que não entendo — falou Larkin. — Ou como consegue evitar que o cão avance na comida de outro cara qualquer!

Peter Marlowe mexeu o arroz, misturando cuidadosamente o blachang. Tinha muita vontade de partilhar com Larkin o segredo da viagem de hoje à noite. Mas sabia que era perigoso demais.

 

Sair do campo era bastante simples. Só uma corrida curta até uma parte ensombreada da cerca de seis voltas de arame; em seguida, atravessá-la com facilidade, e depois uma corrida rápida para a selva. Quando pararam para tomar fôlego, Peter Marlowe desejou estar de volta em segurança, conversando com Mac, Larkin, ou até mesmo Grey.

Todo esse tempo, disse para si mesmo, estive querendo estar aqui fora, e agora que estou, morro de medo.

Era uma coisa estranha... achar-se do lado de fora, olhando para o lado de dentro. De onde estavam, podiam ver o campo. A choça americana ficava a uns 100 metros de distância. Havia homens andando para cima e para baixo. Hawkins levava o cachorro para passear. Um guarda coreano patrulhava o campo. As luzes estavam desligadas nas diversas choças, e a verificação noturna já fora feita há muito tempo. E, no entanto, o campo estava aceso, com os insones. Era sempre assim.

— Vamos indo, Peter — sussurrou o Rei, e eles se aprofundaram ainda mais na vegetação.

O planejamento fora bom. Até agora. Quando ele chegara na choça, o Rei já estava preparado.

— É preciso ter ferramentas para fazer um serviço direito — dissera, mostrando-lhe um par de botas japonesas, com solas de crepe e couro macio e silencioso, bem engraxadas, e o "traje": uma calça chinesa preta e uma blusa curta.

Somente Dino estava por dentro da viagem. Fizera os dois embrulhos e largara-os, secretamente, no ponto onde cruzariam a cerca. Depois voltara, e só então Peter Marlowe e o Rei saíram andando, despreocupadamente, dizendo que iam jogar bridge com Larkin e outro australiano. Tiveram que esperar mais meia hora angustiante antes de o caminho estar livre para correrem para o fosso ao lado da cerca, mudarem de roupa e cobrirem de lama o rosto e as mãos. Mais um quarto de hora antes de poderem correr para a cerca, sem serem observados. Depois que haviam passado, e estavam em posição, Dino viera buscar as roupas que deixaram para trás.

A selva à noite. Sinistra. Mas Peter Marlowe sentia-se em casa. Era igualzinho a Java, aos arredores de sua aldeia, portanto seu nervosismo diminuiu um pouco.

O Rei mostrava o caminho, sem hesitar. Já fizera a viagem cinco vezes, anteriormente. Caminhava com todos os sentidos alertas. Tinha-se que passar por um guarda. Ele não tinha uma trajetória definida, apenas patrulhava ao acaso. Mas o Rei sabia que, na maioria das vezes, o guarda encontrava uma clareira qualquer e dormia.

Depois de um período de ansiedade, no qual cada folha ou graveto podre parecia anunciar aos gritos sua passagem, e cada galho vivo parecia querer detê-los, chegaram à trilha. Haviam passado pelo guarda. A trilha levava ao mar. E depois, à aldeia.

Cruzaram a trilha e começaram a circular. Acima do pesado teto de folhagens, uma meia-lua estava espetada no céu sem nuvens. A quantidade certa de luz para dar-lhes segurança.

Liberdade. Nada de cercas de arame e nada de gente. Privacidade, finalmente. E aquilo tornou-se um repentino pesadelo para Peter Marlowe.

— O que houve, Peter? — sussurrou o Rei, sentindo que havia algo errado.

— Nada... é só que... bem, é um choque estar do lado de fora.

— Logo se acostuma. — O Rei olhou para o relógio. — Temos cerca de um quilômetro e meio à nossa frente. Estamos adiantados, portanto é melhor esperarmos.

Descobriu um local com muitas trepadeiras retorcidas e árvores caídas, e encostou-se a elas.

— Podemos ficar esperando aqui.

Esperaram e escutaram a floresta. Grilos, sapos, chilreios repentinos. Silêncios repentinos. O rugido de alguma fera desconhecida.

— Um cigarro viria a calhar.

— Para mim, também.

— Mas não aqui. — A mente do Rei estava funcionando. Metade dela estava atenta aos ruídos da selva. A outra metade, a todo o vapor, repassava a estratégia do futuro negócio. É, falou consigo mesmo, é um bom plano.

Verificou a hora. O ponteiro dos minutos andava devagar. Mas dava-lhe mais tempo para planejar. Quanto mais se planeja antes de uma transação, melhor. Nenhum deslize, e um lucro maior. Graças a Deus pelos lucros! O cara que inventou os negócios é que foi um verdadeiro gênio. Compre por pouco e venda por muito. Use a cabeça. Arrisque-se, e o dinheiro vai entrar aos borbotões. E com dinheiro, tudo é possível. Principalmente, o poder.

Quando sair daqui, pensou o Rei, vou ser milionário. Vou ganhar tanto dinheiro que vai fazer o Forte Knox parecer um cofrinho de criança. Vou criar uma organização, cheia de tipos leais, mas carneiros. Os "crânios", sempre se pode comprar. E uma vez que se saiba o preço de um homem, pode-se usá-lo ou abusá-lo, à vontade. É isso que faz o mundo girar. Existe a elite, e o resto. Eu sou a elite. E vou continuar sendo.

Nada mais de ser abusado, ou empurrado de cidade em cidade. Isso já passou. Eu era apenas um garoto. Amarrado ao Pai — amarrado a um homem que servia mesas, ou enchia o tanque dos carros de gasolina, ou fazia entrega de catálogos telefônicos, ou transportava lixo, ou choramingava uma esmola para comprar uma garrafa. E depois, limpar a sujeira. Nunca mais. Agora, os outros vão limpar a minha sujeira.

Só o que preciso é de grana.

"Todos os homens sã"o criados iguais... certos direitos inalienáveis."

Graças a Deus pelos Estados Unidos, o Rei disse para si mesmo, pela bilionésima vez. Graças a Deus nasci americano.

— É a terra de Deus — falou, quase que consigo mesmo.

— Como?

— Os Estados Unidos.

— Por que?

— É o único lugar no mundo onde se pode comprar qualquer coisa, onde se tem uma chance de vencer. Isso é importante, se você não nasceu em berço de ouro, Peter, e muito poucos nasceram. Mas se não nasceu, e quer trabalhar, ora, há tantas, mas tantas oportunidades, que é de deixar um cara tonto. E se um cara não trabalha e não se ajuda, porra, então não presta, e não é americano, e...

— Escute! — avisou Peter Marlowe, subitamente alerta. De longe vinha o leve som de passos que se aproximavam.

— É um homem — sussurrou Peter Marlowe, enfiando-se cada vez mais para dentro da proteção das folhagens. — Um nativo.

— Porra, como é que sabe?

— Está usando tamancos nativos. Diria que é velho. Arrasta os pés. Escute, dá para ouvir agora sua respiração.

Momentos mais tarde o nativo apareceu em meio ao crepúsculo, e caminhou pela trilha, despreocupado. Era um velho, e trazia aos ombros um porco selvagem morto. Observaram-no passar e sumir.

— Ele nos notou — disse Peter Marlowe, preocupado.

— Notou, uma ova.

— Não, estou certo que notou. Talvez pensasse que era um guarda japonês, mas eu estava de olho nos pés dele. Sempre se pode dizer pelos pés, se você foi notado: ele deu uma paradinha no ritmo de suas passadas.

— Quem sabe era uma fenda no caminho, ou um graveto. Peter Marlowe sacudiu a cabeça.

Amigo ou inimigo?, pensou o Rei, febrilmente. Se for da aldeia, então tudo bem. A aldeia inteira sabia quando o Rei vinha, pois recebiam sua parte de Cheng San, o seu contato. Não o reconheci, o que não é de surpreender, pois muitos dos nativos estavam na pescaria noturna, das outras vezes em que fui à aldeia. O que fazer?

— Vamos esperar, depois fazer um rápido reconhecimento. Se ele for hostil, irá para a aldeia, e se apresentará ao chefe. O chefe fará um sinal para nos arrancarmos.

— Acha que pode confiar neles?

— Eu posso, Peter. — Recomeçou a andar. — Fique uns vinte metros atrás de mim.

Encontraram a aldeia facilmente. Quase facilmente demais, pensou Peter Marlowe, desconfiado. Do seu posto na elevação, examinaram-na. Alguns ma-laios acocorados fumavam numa varanda. Um porco grunhia aqui e ali. Em volta da aldeia havia coqueiros, para além deles, o mar fosforescente. Alguns barcos, velas arriadas, redes imóveis. Nenhuma sensação de perigo.

— Para mim está parecendo O.K. — murmurou Peter Marlowe.

O Rei cutucou-o, abruptamente. Na varanda da cabana do chefe, estavam o chefe e o homem que haviam visto. Os dois malaios estavam num papo animado, depois uma risada distante quebrou o silêncio, e o homem desceu a escada.

Ouviram-no gritar. Dentro de um momento, apareceu uma mulher correndo. Ela tirou o porco dos ombros dele, levou-o até o braseiro e colocou-o no espeto. Logo apareceram outros malaios, brincando, rindo, reunindo-se.

— Lá está ele! — exclamou o Rei.

Vindo da direção da praia, via-se um chinês alto. Atrás dele, um nativo amava as velas do pequeno barco pesqueiro. Reuniu-se ao chefe, trocaram breves cumprimentos, e acocoraram-se para esperar.

— Tudo bem — disse o Rei, rindo. — Lá vamos nós.

Levantou-se e, mantendo-se nas sombras, deu a volta cautelosamente. Nos fundos da choça do chefe, uma escada de mão levava à varanda, bem acima do solo. O Rei subiu por ela, Peter Marlowe logo atrás. Quase que imediatamente, ouviram o barulho da escada sendo retirada.

— Tabe — disse o Rei, sorrindo, quando Cheng San e Sutra, o chefe, entraram.

— Que bom vê-lo, tuan — disse o chefe, procurando palavras inglesas. -Quer makan... comer, sim? — O sorriso dele deixava à mostra dentes manchados de noz-de-areca.

— Trinta Kassih... obrigado. — O Rei estendeu a mão para Cheng San. — Como tem passado, Cheng San?

— Eu bom tempo todo. Sabe, eu... — Cheng San buscou a palavra, e então ela apareceu. — Aqui, quem sabe tempo bom também.

O Rei indicou Peter Marlowe.

— Ichi-bon amigo. Peter, diga-lhes alguma coisa, sabe como é, saudações e essa coisa toda. Ao trabalho, rapaz. — Sorriu, puxou um maço de Kooas e ofereceu ciganos a todos.

— Meu amigo e eu vos agradecemos a acolhida — começou Peter Marlowe. — Apreciamos a gentileza do vosso convite para comermos convosco, sabendo da escassez que há atualmente. Certamente apenas uma cobra da selva recusar-se-ia a aceitar a generosidade de vossa oferta.

Tanto Cheng San quanto o chefe abriram enormes sorrisos.

— Wah-lah — disse Cheng San. — Vai ser bom poder dizer através de vós ao meu amigo Rajá todas as palavras que estão na minha boca miserável. Muitas vezes tive vontade de dizer coisas, mas nem eu nem meu bom amigo Sutra conseguíamos achar as palavras para dizê-las. Diga ao Rajá que é um homem sábio e astuto de encontrar um intérprete tão fluente.

— Ele disse que sou um bom porta-voz — falou Peter Marlowe satisfeito, agora sentindo-se calmo e seguro. — E está contente que agora pode mandar brasa direto.

— Pelo amor de Deus, continue falando o seu inglês bem-educado. Esse papo de porta-voz está fazendo você parecer um vagabundo.

— Oh, e tenho estudado Marx com muita assiduidade — disse Peter Marlowe, vexado.

— Pois então pare.

— Ele também o chamou de Rajá. Vai ser o seu apelido daqui pra frente. Quero dizer, "de agora em diante".

— Vá à merda, Peter!

— Vá tomar no..., irmão!

— Vamos, Peter, não temos muito tempo. Diga isso ao Cheng San. Quanto à nossa transação. Vou...

— Ainda não pode falar de negócios, meu velho — disse Peter Marlowe, chocado. — Vai estragar tudo. Primeiro, teremos que tomar café, depois comer alguma coisa, e só então começar.

— Diga-lhes agora.

— Se o fizer, ficarão muito ofendidos. Ofendidíssimos. Escute o que lhe digo.

O Rei pensou por um momento. Bem, disse consigo mesmo, se você compra um "crânio", não é bom negócio não usá-lo... salvo se você tiver um palpite. É aí que o negociante esperto se faz ou se destrói... quando vai pelo seu palpite, e não pelo "crânio". Mas, no presente caso, não tinha nenhum palpite, portanto concordou.

— Tudo bem. Faça como quiser.

Ficou fumando seu cigarro, escutando Peter Marlowe falar com eles. Examinava Cheng San de banda. Suas roupas eram melhores do que da última vez. Usava um anel novo que parecia uma safira, talvez cinco quilates. Seu rosto limpo, imberbe, era da cor do mel, e seu cabelo, bem cuidado. É, o Cheng San estava-se virando, numa boa. Quanto ao velho Sutra, não se está saindo tão bem. O sarongue dele está velho, desfiado na bainha. Nenhuma jóia. Da vez passada, tinha um anel de ouro. Agora, não tem mais, e a marca deixada pelo anel era quase imperceptível, o que significava que não o havia tirado só para a transação desta noite.

Ouviu as mulheres no outro canto da choça tagarelando baixinho, e do lado de fora, a quietude da aldeia à noite. Pela janela sem vidros chegava o cheiro do porco assado. Isso significava que a aldeia estava realmente necessitada de Cheng San — o seu atravessador no mercado negro para o peixe que a aldeia devia vender diretamente para os japoneses — e presenteava-o com o porco. Ou quem sabe o velho que pegara o porco selvagem estava dando uma festa para os amigos. Mas o pessoal em volta do fogo estava esperando ansiosamente, tão ansiosamente quanto nós. Claro que estão com fome. 0 que quer dizer que as coisas andam brabas em Cingapura. A aldeia devia ter um bom estoque de comida, bebida e tudo o mais. Cheng San não devia estar fazendo um bom trabalho em contrabandear o peixe deles para os mercados. Quem sabe os nipônicos já estavam de olho nele. Quem sabe não vai durar muito neste mundo!

Então, quem sabe precisa da aldeia mais do que a aldeia precisa dele. E se está ostentando para eles: roupas novas e jóias. Quem sabe Sutra já está de saco cheio com os negócios ruins e está pronto para trocá-lo por outro sujeito que lide com o mercado negro.

— Ei, Peter — falou. — Pergunte a Cheng San como vai o comércio de peixes em Cingapura.

Peter Marlowe traduziu a pergunta.

— Disse que o comércio vai bem. A escassez de alimentos é de tal ordem que ele consegue obter os melhores preços da ilha. Mas disse que os japoneses estão severíssimos. Está ficando mais difícil a cada dia comerciar. E infringir as leis do mercado está-se tomando cada vez mais caro.

A-rá! Peguei-o. O Rei ficou exultante. Então Cheng não viera apenas por causa do meu negócio! É o peixe e a aldeia. Como posso tirar vantagem disso? Aposto que Cheng San está tendo dificuldades em entregar a mercadoria. Quem sabe os japoneses interceptaram alguns barcos, e engrossaram. O velho Sutra não é nenhum tolo. Sem dinheiro não há negócio, e Cheng San sabe disso. Não faz transação, não faz mais negócio, e o velho Sutra vai vender para outro. Sim, senhor. Portanto, o Rei sabia que podia explorar, e mentalmente subiu seu preço inicial.

E então a comida chegou. Batata-doce assada, berinjela frita, água de coco, fatias grossas de porco assado, cheias de óleo. Bananas. Mamões. O Rei notou que não havia o "repolho do milionário" ou o cordeiro ou a carne de boi ou os doces que os malaios tanto apreciavam. É, as coisas estavam mesmo difíceis.

A comida estava sendo servida pela primeira mulher do chefe, uma velha enrugada. Era ajudada por uma das filhas dele, Sulina. Bonita, macia, curvilínea, pele cor de mel. Cheirosa. Usando um sarongue novo, em homenagem aos visitantes.

— Tabe, Sam — disse o Rei para Sulina, piscando o olho.

A garota estourou na risada, e tentou disfarçar timidamente seu embaraço.

— Sam? — disse Peter Marlowe, fazendo careta.

— Claro — respondeu o Rei, secamente. — Ela me lembra o meu irmão.

— Irmão?

— Gozação. Não tenho irmão nenhum.

— Ah! — Peter Marlowe pensou por um momento, depois perguntou: — Por que Sam?

— O velhote não me quis apresentar — disse o Rei, sem olhar para a garota — então eu lhe dei um nome. Acho que combina com ela.

Sutra sabia que o que eles estavam dizendo tinha algo a ver com a filha. Sabia que errara deixando-a entrar ali. Talvez, em outra época, ele tivesse gostado que um dos tuan-tuan a notasse, e a levasse para o seu bangalô, para ser sua amante por um ou dois anos. Então, ela voltaria para a aldeia conhecendo bem os homens, com um belo dote, e seria fácil para ele achar um bom marido para a filha. Assim é que teria sido, no passado. Mas agora, o romance significava apenas encontros casuais no meio do mato, e Sutra não queria isso para a filha, embora estivesse na hora dela tornar-se mulher.

Inclinou-se para a frente e ofereceu a Peter Marlowe um pedaço especial de porco.

— Quem sabe isto aguçaria o vosso apetite?

— Agradeço-vos.

— Pode ir, Sulina.

Peter Marlowe percebeu o tom de decisão na voz do velho, e notou a sombra de tristeza que toldou o rosto da garota. Esta inclinou-se, porém, e saiu. A velha mulher continuou lá para servir os homens.

Sulina, pensou Peter Marlowe, sentindo uma ânsia há muito esquecida. Não é tão bonita quanto N'ai, que era a perfeição, mas é da mesma idade, e bonita. Uns 14 anos, e no ponto. Meu Deus, bem no ponto.

— A comida não vos agrada? — perguntou Cheng San, divertindo-se com a atração óbvia de Peter Marlowe pela jovem. Talvez pudesse tirar proveito disso.

— Pelo contrário. Talvez seja boa demais, pois meu paladar já se desacostumou à boa comida, comendo como comemos. — Peter Marlowe lembrou-se que, para salvaguardar o bom gosto, os javaneses só falavam em parábolas sobre as mulheres. Virou-se para Sutra. — Há muito tempo, um sábio guru disse que há muitas espécies de alimento. — Alguns para o estômago, outros para os olhos, outros para o espírito. Hoje, tive alimentos para o estômago. E as vossas palavras, e as do Tuan Cheng San foram alimentos para o espirito. Estou repleto. Mesmo assim, ofereceram-me... ofereceram-nos... alimentos para os olhos. Como agradecer-vos por vossa hospitalidade?

O rosto de Sutra se enrugou. Muito bem dito. Assim, aceitou o elogio e disse, simplesmente:

— Um ditado sábio. Talvez, futuramente, os olhos possam ter fome de novo. Precisamos discutir a sabedoria dos antigos numa outra oportunidade.

— Que cara de convencido é essa, Peter?

— Não estou com cara de convencido, apenas satisfeito comigo mesmo. Estava dizendo a ele que achávamos a sua garota bonita.

— E é! Uma uva! Que tal convidá-la para tomar café conosco?

— Pelo amor de Deus. — Peter tentou manter a voz calma. — Você não pode simplesmente marcar um programa, desse jeito. É preciso levar tempo, ir aos poucos.

— Porra, este não é o jeito americano. Você conhece uma dona, gosta dela e ela de você, e vão para a cama.

— Você não tem finura.

— Pode ser. Mas tenho mulher às pampas.

Eles riram, e Cheng San perguntou qual fora a piada, e Peter Marlowe lhes contou que o Rei dissera: "Deveríamos abrir uma loja na aldeia e nem pensar em voltar para o campo."

Depois de terem tomado o café, Cheng San deu o primeiro passo.

— Imagino que é arriscado vir do campo, à noite. Mais arriscado do que a minha vinda aqui para a aldeia.

O primeiro roundé nosso, pensou Peter Marlowe. Segundo o estilo oriental, Cheng San estava em desvantagem, pois se desmoralizara ao dar o primeiro passo. Virou-se para o Rei.

— Muito bem, Rajá. Pode começar. Já ganhamos um ponto.

— Foi?

— Foi. O que quer que eu lhe diga?

— Diga-lhe que tenho um grande negócio. Um diamante. Quatro quilates. Engastado em platina. Perfeito, branco-azulado. Quero trinta e cinco mil dólares por ele. Cinco mil dólares malaios britânicos, o resto em dinheiro japonês falsificado.

Os olhos de Peter Marlowe se arregalaram. Estava de frente para o Rei, portanto sua surpresa não foi aparente para o chinês. Mas Sutra a notou. Como não era parte do negócio, simplesmente ganhava uma porcentagem como intermediário, recostou-se para assistir aos golpes e contragolpes. Não havia necessidade de se preocupar com Cheng San — Sutra sabia, à própria custa, que o chinês podia cuidar-se muito bem.

Peter Marlowe traduziu. A enormidade da transação cobriria qualquer lapso de boas maneiras. E ele queria dar uma sacudidela no chinês.

Cheng San, pegado de surpresa, ficou palpavelmente interessado. Pediu para ver o diamante.

— Diga-lhe que não está comigo. Diga-lhe que farei a entrega em dez dias. Diga-lhe que preciso ter o dinheiro comigo três dias antes da entrega, porque o dono só o soltará depois que tiver o dinheiro.

Cheng San sabia que o Rei era um negociante honesto. Se dizia que tinha o anel e o entregaria, então o faria. Sempre fizera. Mas arranjar uma tal quantia e deixá-la entrar no campo, onde nunca podia saber onde o Rei se encontrava... bem, era um risco enorme.

— Quando poderei ver o anel? — perguntou.

— Diga-lhe, que, se quiser, pode vir ao campo, em sete dias.

Quer dizer que devo entregar o dinheiro sem sequer ter visto o diamante!, pensou Cheng San. Impossível, e o Tuan Rajá sabe disso. Negócio muito ruim. Se realmente for de quatro quilates, posso obter 50... 100.000 dólares por ele. Afinal de contas, conheço o chinês dono da máquina que imprime o dinheiro. Mas os 5.000 em dólares malaios britânicos... isso já é outra história. Teria que comprá-los no mercado negro. E a que taxa? Seis para um seria caro, 20 para um, barato.

— Diga ao meu amigo o Rajá — falou — que este é um estranho acordo comercial. Sendo assim, preciso pensar, por mais tempo do que é costume um homem de negócios pensar.

Foi até a janela e ficou olhando para fora.

Cheng San estava cansado da guerra e das maquinações escusas que um comerciante tinha que suportar para ter lucro. Pensou na noite e nas estrelas e na estupidez do homem, lutando e morrendo por coisas que não teriam valor permanente. Ao mesmo tempo, sabia que os fortes sobrevivem e os fracos perecem. Pensou na mulher e nos filhos, três homens e uma mulher, e nas coisas que gostaria de comprar para dar-lhes conforto. Pensou também na segunda mulher que gostaria de comprar. De um jeito ou de outro, tinha que fechar este negócio. E valia o risco de ter que confiar no Rei.

O preço é justo, raciocinou. Mas como salvaguadar o dinheiro? Achar um intermediário em quem pudesse confiar. Teria que ser um dos guardas. O guarda poderia ver o anel. Poderia entregar o dinheiro se o anel fosse de verdade e o peso correto. E depois o Tuan Rajá poderia fazer a entrega, aqui na aldeia. Não havia necessidade de confiar no guarda para pegar o anel e passá-lo às suas mãos. Como confiar num guarda?

Quem sabe poderíamos inventar uma história... que o dinheiro era um empréstimo ao campo dado pelos chineses de Cingapura... não, não servia, pois o guarda teria que ver o anel. Assim, o guarda teria que estar completamente "por dentro". E esperaria uma gratificação substancial.

Cheng San voltou-se para o Rei. Notou que o Rei suava muito. Ah, pensou, quer desesperadamente vender! Mas talvez saiba que quero desesperada-mente comprar. Você e eu somos os únicos em condições de fechar um tal negócio. Ninguém tem fama de comerciante honesto como você... e ninguém salvo eu, entre todos os chineses que negociam com o campo, é capaz de entregar uma quantia tão grande.

— Bem, Tuan Marlowe. Tenho um plano que talvez proteja tanto ao meu amigo o Rajá quanto a mim mesmo. Primeiro, concordamos com um preço. O preço mencionado é alto demais, mas isso não interessa, no momento. Segundo, concordamos com um intermediário, um guarda em quem ambos possamos confiar. Dentro de dez dias, darei a metade do dinheiro ao guarda, que examinará o anel. Se for mesmo o que o dono diz que é, ele passará o dinheiro às mãos do meu amigo o Rajá. Este fará a entrega aqui, a mim. Trarei um perito para pesar a pedra. A seguir, pagarei a outra metade do dinheiro, e levarei a pedra.

O Rei prestou muita atenção enquanto Peter Marlowe traduzia.

— Diga-lhe que está bem. Mas tenho que ter o preço integral. O sujeito não entregará o anel sem a grana nas mãos.

— Então, diga ao meu amigo o Rajá que darei ao guarda três quartos do preço combinado para ajudá-lo a negociar com o dono.

Cheng San achava que 75% certamente cobririam a quantia paga ao dono. O Rei estaria meramente jogando com seu lucro, pois sem dúvida era um negociante suficientemente bom para obter uma comissão de 25%.

O Rei já contava com os três quartos; aquilo lhe daria dinheiro de sobra para manobrar. Quem sabe poderia abater alguns dólares do preço inicial pedido pelo dono, 19.500. É, até o momento, ia tudo bem. Agora, vamos ao principal.

— Diga-lhe que está bem. Quem ele sugere que seja o intermediário?

— Torusumi.

O Rei sacudiu a cabeça. Pensou por um momento, depois disse, diretamente para Cheng San:

— Que tal Immuri?

— Diga ao meu amigo que prefiro outro. Quem sabe Kimina?

O Rei soltou um assobio. Um Cabo! Nunca negociara com ele. Perigoso demais. Tem que ser alguém que eu conheça.

— Shagata-san?

Cheng San concordou. Este era o homem que queria, mas não queria sugerir seu nome. Queria ver quem o Rei queria... Uma verificação final da honestidade do Rei.

É, o Shagata era uma boa escolha. Não inteligente demais, mas inteligente o bastante. Já lidara com ele anteriormente. Ótimo.

— Agora, quanto ao preço — disse Cheng San. — Sugiro que o discutamos. Quatro mil dólares falsificados por quilate. Total: dezesseis mil. Quatro mil em dólares malaios à taxa de quinze por um.

O Rei sacudiu a cabeça suavemente, depois disse para Peter Marlowe:

— Diga-lhe que não vou ficar barganhando merda nenhuma. O preço é trinta mil, cinco mil em dólares malaios a oito por um, em notas pequenas. Meu preço final.

— Precisa pechinchar um pouco mais — falou Peter Marlowe. — Que tal dizer trinta e três mil, depois...

— Não. — O Rei balançou a cabeça. — E quando traduzir, use uma palavra como "merda".

Relutantemente, Peter Marlowe voltou-se para Cheng San.

— Meu amigo diz o seguinte: Não vai perder tempo pechinchando. Seu

preço final é trinta mil, cinco mil em dólares malaios à taxa de oito por um. Tudo em notas de pouco valor.

Para sua surpresa, Cheng San disse imediatamente:

— Concordo. — Também ele não queria perder tempo pechinchando. O preço era justo e sentira que o Rei estava inabalável. Chega uma hora em todos os negócios em que um homem tem que decidir, sim ou não. O Rajá era um bom comerciante.

Apertaram-se as mãos. Sutra sorriu e trouxe uma garrafa de saque. Bebe-ram à saúde dos presentes até a garrafa ficar vazia. Depois, acertaram os detalhes.

Dali a 10 dias, Shagata viria à choça americana na hora da troca da guarda da noite. Traria o dinheiro, e veria o anel antes de entregá-lo. Três dias mais tarde, o Rei e Peter Marlowe se encontrariam com Cheng San na aldeia. Se, por algum motivo, Shagata não pudesse ir no dia marcado, iria no dia seguinte, ou no seguinte. Do mesmo modo, se o Rei não pudesse comparecer ao encontro marcado na aldeia, viriam no dia seguinte.

Depois de trocarem os cumprimentos de praxe, Cheng San disse que precisava aproveitar a maré. Inclinou-se cortesmente, e Sutra foi com ele, acom-panhando-o até a praia. Ao lado do barco, começaram uma discussão educada sobre o negócio dos peixes.

O Rei estava eufórico.

— Que maravilha, Peter! Estamos na jogada!

— Você é fantástico! Quando disse para dar o preço final para ele, sem mais conversa fiada, bem, meu velho, pensei que o tinha perdido. Não agem desse jeito.

— Tive um palpite — foi só o que o Rei disse. A seguir acrescentou, mordendo um pedaço de carne. — Você vai ganhar dez por cento... do lucro, é claro. Mas vai ter que suar por ele, seu filho da puta!

— Como um cavalo! Deus! Pense só em todo esse dinheiro. Trinta mil dólares fariam uma pilha de notas de uns trinta centímetros.

— Mais — disse o Rei, contagiado pelo entusiasmo.

— Meu Deus, mas você tem peito! Como foi que bolou esse preço? Ele concordou, bumba, sem mais aquela! Um papo de um momento, e bumba, você fica rico!

— Ainda tenho muito com que me preocupar até que o negócio esteja fechado. Muita coisa pode dar errado. Não é negócio fechado até o dinheiro ser entregue e estar no banco.

— Ah, nem pensei nisso.

— Um axioma comercial. Não se pode pôr conversa no banco. Só as notinhas.

— Ainda nem posso acreditar. Estamos fora do campo, com a barriga cheia como há semanas não estava. E as perspectivas são ótimas. Cara, você é um gênio.

— Vamos esperar para ver, Peter. — O Rei se levantou. — Espere aqui. Volto dentro de uma hora, mais ou menos. Tenho um outro negocinho a resolver. Contanto que a gente saia daqui dentro de umas duas horas, tudo bem. Aí chegaremos no campo pouco antes do amanhecer. É a melhor hora. É quando os guardas estão mais relaxados. Até já — falou, desaparecendo degraus abaixo.

Mesmo a contragosto, Peter Marlowe sentiu-se sozinho, e com bastante medo.

Santo Deus, o que ele está aprontando? Aonde vai? E se chegar atrasado? E se não voltar? E se um japonês chegar à aldeia? E se eu tiver que ficar por minha conta? Devo ir à procura dele? Se não voltarmos até o alvorecer, Jesus Cristo, vão dar por nossa falta, e teremos que fugir. Para onde? Será que Cheng San ajudará? Perigoso demais! Onde será que ele mora? Será que conseguiremos chegar às docas e arrumar um barco? Quem sabe entrar em contato com os guerrilheiros que dizem estar operando?

Controle-se, Marlowe, seu covarde de uma figa! Está parecendo uma criança de três anos. Dominando sua ansiedade, preparou-se para esperar. E foi então que se lembrou do condensador de acoplamento — 300 microfarádios.

— Tabe, Tuan — sorriu Kasseh, quando o Rei entrou em sua choça.

— Tabe. Kasseh.

— Quer comida?

Fez que não com a cabeça, e abraçou-a com força, as mãos percorrendo o corpo dela, que ficou na ponta dos pés para abraçar-lhe o pescoço, com os cabelos como plumas de ouro negro que caíam até a cintura.

— Muito tempo — disse ela, excitada pelo toque dele.

— Muito tempo — replicou. — Sentiu saudade?

— Hã-hã — fez ela, rindo, e imitando o sotaque dele.

— Ele já chegou?

A moça fez que não com a cabeça.

— Não gostar dessa coisa, tuan. Tem perigo.

— Tudo tem perigo.

Ouviram passos, e logo uma sombra manchou a porta. Ela se abriu, e entrou um chinês pequeno e escuro. Usava sarongue e tamancos indianos. Sorriu, mostrando dentes quebrados e manchados. Às costas, trazia um facão de guerra embainhado. O Rei notou que a bainha estava bem lubrificada. Muito fácil arrancar o facão da bainha e cortar fora a cabeça de um homem, sem mais aquela. E havia um revólver enfiado no cinto do homem.

O Rei pedira a Kasseh que entrasse em contato com os guerrilheiros que operavam em Johore, e este homem era o resultado. Como a maioria, eram bandidos convertidos lutando agora contra os japoneses sob a bandeira dos comunistas, que lhes forneciam armas.

— Tabe. Fala inglês? — perguntou o Rei, forçando um sorriso. Não estava gostando da cara do chinês.

— Por que quer falar conosco?

— Pensei que pudéssemos fazer um negócio.

O chinês lançou um olhar lascivo a Kasseh, que se encolheu, assustada.

— Dê o fora, Kasseh — mandou o Rei.

Ela se foi silenciosamente, atravessando a cortina de contas que dava para os fundos da casa.

O chinês ficou vendo a moça afastar-se.

— Tem sorte — disse para o Rei. — Muita sorte. Aposto que a mulher diverte dois, três homens numa noite. Não?

— Quer conversar sobre o negócio? Sim ou não?

— Cuidado, homem branco. Quem sabe conto japoneses você está aqui. Quem sabe conto aldeia segura para prisioneiros brancos. Então eles matam aldeia.

— Você vai acabar morto rapidamente, desse jeito.

O chinês resmungou, depois se acocorou. Mudou o facão de posição, leve e ameaçadoramente.

— Quem sabe fico com mulher, agora.

Jesus, pensou o Rei, será que cometi um engano.

— Tenho uma proposta para vocês. Se a guerra acabar de repente, ou os japoneses resolverem começar a cortar os prisioneiros de guerra em pedaços, quero vocês por perto para me proteger. Pagarei dois mil dólares americanos quando estiver a salvo.

— Como vamos saber se japoneses matam prisioneiros?

— Saberão. Sabem a maioria das coisas que acontecem.

— Como vamos saber você paga?

— O governo americano pagará. Todo mundo sabe que há uma recompensa.

— Dois mil! 'Mahlu! Pegamos dois mil qualquer hora. Só assaltar banco. Fácil.

O Rei fez seu gambito.

— Tenho ordens do nosso oficial comandante para lhes garantir dois mil por cabeça para cada americano que for salvo. Se começar a carnificina.

— Não entendo.

— Se os japoneses começarem a acabar com nossa raça... a nos matar. Se os Aliados desembarcarem aqui, os japoneses vão ficar muito maus. Ou se os Aliados desembarcarem no Japão, a turma aqui vai vingar-se. Se o fizerem, vocês saberão, e quero que nos ajudem a escapar.

— Quantos homens?

— Trinta.

— Demais.

— Quantos pode garantir?

— Dez. Mas o preço vai ser cinco mil por homem.

— É demais.

O chinês deu de ombros.

— Está bem. Negócio fechado. Conhecem o campo. O chinês mostrou os dentes num sorriso retorcido.

— Conhecemos.

— Nossa choça fica na parte leste. É uma pequenina. Se tivermos que fugir, fugiremos pela cerca de arame logo ali. Se estiverem na selva, poderão dar-nos cobertura. Como vamos saber se estão em posição?

O chinês deu de ombros novamente.

— Se não estivermos, vocês morrem, de qualquer jeito.

— Poderia dar-nos um sinal?

— Nada de sinal.

Isso é uma loucura, disse o Rei para si mesmo. Não sabemos quando teremos que tentar fugir, e se for uma coisa repentina, não haverá meios de mandar uma mensagem aos guerrilheiros em tempo. Talvez apareceçam, talvez não. Mas se acharem que vão ganhar 5.000 por cabeça para cada um de nós que ajudarem a fugir, pode ser que fiquem de vigia de agora em diante.

— Ficarão de olho no campo?

— Talvez líder dizer sim, talvez não.

— Quem é seu líder?

O chinês deu de ombros e palitou os dentes.

— Negócio fechado, então?

— Pode ser. — Os olhos dele eram hostis. — Acabou?

— Acabei. — O Rei estendeu a mão. — Obrigado.

O chinês olhou para a mão estendida, deu um riso de deboche, e caminhou para a porta.

— Lembre. Apenas dez. Resto matar! — E foi embora.

Bem, vale a pena tentar, tranqüilizou-se o Rei. Esses sacanas estão precisando do dinheiro. E o Tio Sam pagaria. Porra, por que não? Afinal, para que pagamos impostos?

— Tuan — disse Kasseh com ar sério, de pé, à porta. — Não gostar dessa coisa.

— É preciso arriscar. Se houver uma matança repentina, talvez a gente possa escapar. — Piscou para ela. — Vale a tentativa. Estaríamos mortos, de qualquer jeito. Então, tanto faz. Talvez tenhamos uma linha de retirada.

— Por que não fazer trato só para você? Por que não ir com ele agora e fugir do campo?

— Primeiro, é mais seguro no campo do que com os guerrilheiros. Não há por que confiar neles, salvo numa emergência. Segundo, um único homem não vale o trabalho que teriam. Foi por isso que lhe pedi para salvarem trinta. Mas ele disse que só podiam cuidar de dez.

— Como vai escolher dez?

— Contanto que eu esteja no bolo, é cada um por si.

— Talvez seu oficial comandante não goste de só dez.

— Vai gostar, se for um dos que escapar.

— Acha japoneses matar prisioneiros?

— Pode ser. Mas vamos esquecer isso, está bem?

— Esquecer. — Ela sorriu. — Você com calor. Toma chuveiro, sim?

— Sim.

Na parte da choça em que se tomava banho, o Rei jogou baldes d'água sobre o corpo, tirada do poço de concreto. A água estava fria, fazendo-o soltar uma exclamação abafada, e sua pele arder.

— Kasseh!

Ela cruzou as cortinas, trazendo uma toalha. Ficou parada, olhando para ele. É, o seu tuan era um belo homem. Forte e belo e a cor da sua pele era agradável. Wah-lah, pensou, que sorte tenho de ter um homem assim. Mas é tão grande, e eu tão pequenina. É duas cabeças mais alto do que eu.

Apesar disso, sabia que o agradava. É fácil agradar um homem. Quando se é mulher. E não se tem vergonha de ser mulher.

— Do que está sorrindo? — perguntou o Rei, ao ver o sorriso dela.

— Ah, tuan, só pensava, você tão grande e eu tão pequenina. Mas, quando deitamos juntos, não tem muita diferença, não é?

Ele soltou uma risadinha abafada, deu-lhe uma palmada carinhosa na bunda e pegou a toalha.

— Que tal uma bebida?

— Está pronta, tuan.

— O que mais está pronto?

Ela riu com a boca e os olhos. Os dentes eram branquíssimos, os olhos castanho-escuros, a pele macia e cheirosa.

— Quem sabe, tuan? — A seguir, saiu do quarto.

Mas que mulheraço, pensou o Rei, vendo-a afastar-se, enxugando-se vigorosamente. Sou um cara de sorte.

Kasseh fora arranjada por Sutra quando o Rei viera pela primeira vez à aldeia. Os detalhes foram acertados com cuidado. Quando a guerra acabasse, ele teria que pagar a Kasseh 20 dólares americanos por cada vez que ficara com ela. Ele conseguira abater alguns dólares do preço inicialmente pedido — negócio era negócio — mas, a 20 dólares, ela era uma pechincha.

— Como sabe que vou pagar? — perguntara à moça.

— Não sei. Mas se não pagar, não pagou, e tive apenas prazer. Se pagar, então tenho dinheiro e prazer, também. — E sorrira.

Calçou os chinelos nativos que ela deixara para ele, depois atravessou a cortina de contas. Ela estava à sua espera.

Peter Marlowe ainda observava Sutra e Cheng San lá na praia. Cheng San se inclinou e entrou no barco, e Sutra ajudou a empurrar o barco para dentro do mar fosforescente. Depois, Sutra voltou para a choça.

— Tabe-lah! — exclamou Peter Marlowe.

— Quereis comer mais?

— Não, obrigado, Tuan Sutra.

Puxa vida, pensou Peter Marlowe, mas que diferença poder recusar comida. Mas comera o bastante, e comer mais seria indelicado. Era óbvio que a aldeia era pobre, e que a comida não seria desperdiçada.

— Ouvi contar — falou, especulativamente — que as notícias, as notícias da guerra, são boas.

— Foi o que também ouvi, mas nada que um homem possa repetir. Apenas boatos.

— É uma pena que hoje não seja como antigamente, quando um homem podia ter um rádio e ouvir as notícias, ou ler um jornal.

— Verdade. É uma pena.

Sutra não demonstrou ter entendido. Acocorou-se no seu tapete, preparou um cigarro, em forma de funil, e começou a fumar, sugando com força a fumaça.

— Ouvimos contar coisas ruins do campo — disse o velho, finalmente.

— Não é tão ruim, Tuan Sutra. Conseguimos dar um jeito. Mas não saber como anda o mundo, isso sim é ruim.

— Ouvi contar que havia um rádio no campo, e que os donos do rádio foram presos. E que agora estão na cadeia de Utram Road.

— Tendes notícias deles? Um era meu amigo.

— Não. Apenas soubemos que foram levados para lá.

— Gostaria muitíssimo de saber corno estão.

— Conheceis o lugar, e como ficam os homens levados para lá, portanto já sabeis o que é feito.

— Verdade. Mas sempre se espera que alguns tenham sorte.

— Estamos nas mãos de Alá, disse o Profeta.

— Cujo nome seja louvado.

Sutra lançou-lhe outro olhar; depois, tirando baforadas do cigarro, calmamente, perguntou:

— Onde aprendestes o malaio?

Peter Marlowe contou-lhe de sua vida na aldeia. Como trabalhara nos arrozais e vivera como javanês, que e quase a mesma coisa que viver como malaio. Os costumes são os mesmos, a língua a mesma, exceto pelas palavras ocidentais comuns — sem fio, na Malásia, rádio em Java, carro a motor na Malásia, automóvel em Java. Mas o resto era igual. Amor, ódio, doença, e as palavras que um homem diz a um homem, ou um homem a uma mulher, são as mesmas. As coisas importantes são sempre as mesmas.

— Como se chamava a vossa mulher na aldeia, meu filho? — perguntou Sutra. Teria sido indelicado perguntar antes, mas agora que tinham falado das coisas do espírito e do mundo, e de filosofia e de Alá, e tinham citado o Profeta, louvado seja o seu nome, agora não era grosseria perguntar.

— Chamava-se N'ai Jahan.

O velho deu um suspiro satisfeito, recordando sua juventude.

— E ela o amava muito e profundamente.

— Sim. — Peter Marlowe podia vê-la nitidamente.

Viera à sua choça, certa noite, quando ele se preparava para dormir. Usava um sarongue vermelho e dourado, e minúsculas sandálias apareciam sob a bainha. Trazia um colar fino de flores no pescoço, e a fragrância das flores encheu a choça e todo o universo dele.

Colocara sua esteira no chão, e se inclinara profundamente diante dele.

— Meu nome é N'ai Jahan — dissera. — Tuan Abu, meu pai, escolheu-me para partilhar a vossa vida, pois não é bom um homem ficar sozinho. E estais sozinho já faz três meses.

N'ai devia ter uns 14 anos, mas nas terras de sol-e-chuva, uma garota de 14 anos já éuma mulher, com os desejos de uma mulher, e deveria estar casada, ou pelo menos vivendo com o homem escolhido pelo pai.

Sua pele morena tinha um brilho leitoso e os olhos eram dois topázios, e as mãos eram pétalas de orquídea, e os pés miúdos, e seu corpo de menina-mulher era acetinado e guardava dentro de si a felicidade de um colibri. Era filha do Sol e filha da chuva. O nariz era esguio e bem-feito, as narinas delicadas.

N'ai era toda cetim, cetim líquido. Firme onde devia ser firme. Macia onde devia ser macia. Forte onde devia ser forte. E fraca onde devia ser fraca.

O cabelo era negro, longo, uma rede delicada para cobri-la.

Peter Marlowe sorrira para ela. Tentara ocultar seu embaraço, e ser como ela, livre e feliz, e não ter vergonha. Ela despira o sarongue e ficara orgulhosamente diante dele, e dissera:

— Rezo para que seja digna de fazer-vos feliz e fazer-vos dormir-macio. E suplico-vos que me ensineis todas as coisas que vossa mulher precisa saber para vos fazer "próximo a Deus".

Próximo a Deus, que maravilha, pensou Peter Marlowe; que maravilha descrever o amor como sendo próximo a Deus. Ergueu os olhos para Sutra.

— Sim. Amamo-nos muito e longamente. Agradeço a Alá ter vivido e amado até a eternidade. Como são gloriosos os caminhos de Alá. Uma nuvem se estendeu e lutou com a Lua pela posse da noite.

— É bom ser homem — disse Peter Marlowe.

— A vossa falta vos incomoda esta noite?

— Não. Verdade. Não esta noite. — Peter Marlowe examinou o velho malaio, gostando dele pela oferta, feita com tanta gentileza. — Ouça, Tuan Sutra. Vou abrir minha mente para vós, pois acredito, que com o tempo, poderíamos ser amigos. Com o tempo, poderíeis avaliar a minha amizade e o meu "eu". Mas a guerra é uma assassina do tempo. Portanto, vou falar-vos como a um amigo, o que ainda não sou.

O velho não deu resposta. Continuou fumando e esperando que o outro prosseguisse.

— Preciso de uma pequena parte de um rádio. Existe algum rádio na aldeia, mesmo velho? Quem sabe, se estiver quebrado, eu poderia tirar uma pecinha dele.

— Sabeis que os rádios são proibidos pelos japoneses.

— Verdade, mas, às vezes, existem lugares secretos para esconder aquilo que é proibido.

Sutra refletiu. Havia um rádio na sua choça. Quem sabe Alá havia enviado Tuan Marlowe para tirá-lo de lá. Achava que podia confiar nele, porque Tuan Abu já o havia feito, antes dele. Mas se Tuan Marlowe fosse pegado do lado de fora do campo com o rádio, inevitavelmente a aldeia seria envolvida.

Deixar o rádio na aldeia também era perigoso. Claro que um homem poderia enterrá-lo bem fundo, na selva, mas isso não fora feito. Devia ter sido feito, mas não fora feito, pois a tentação de escutar era sempre grande demais. A tentação das mulheres de escutar música era grande demais. A tentação de saber quando os outros não sabiam, era grande. Em verdade, está escrito: Vaidade, tudo é vaidade.

Melhor, decidiu ele, deixar as coisas que são do homem rosado permanecerem com o homem rosado.

Levantou-se e fez sinal para Peter Marlowe e foi mostrando o caminho, atravessando a cortina de contas até os lugares mais escuros da choça. Parou diante da porta do quarto de Sulina. Estava deitada na cama, com o sarongue desamarrado e amplo à volta do corpo, os olhos cristalinos.

— Sulina — falou Sutra — vá para a varanda vigiar.

— Sim, Pai. — Sulina saltou da cama e amarrou o sarongue e ajustou o bolero. Ajustou-o, na opinião de Sutra, um pouquinho demais, deixando bem nítida a promessa dos seios. É, está mesmo na hora de a garota se casar. Mas com quem? Não há homens casadouros.

Afastou-se para deixar a garota passar, de olhos baixos e recatados. Mas nada havia de recatado no requebro dos quadris, e Peter Marlowe também o notou. Devia dar-lhe uma surra, pensou Sutra, mas sabia que não devia ficar zangado com ela. Não passava de uma mocinha no limiar da vida adulta. Ser tentadora faz parte do jeito da mulher... ser desejada faz parte da necessidade da mulher.

Talvez devesse dar-vos ao inglês. Quem sabe isso diminuiria o vosso apetite. Ele parece homem bastante para tanto! Sutra soltou um suspiro. Ah, se pudesse ser jovem de novo!

Tirou o pequeno rádio de sob a cama.

— Vou confiar em vós. Este rádio é bom. Funciona bem. Podeis levá-lo. Peter Marlowe quase o deixou cair, de tão excitado.

— Mas, e quanto a vós? Certamente, este rádio não tem preço.

— Não tem preço. Levai-o convosco.

Peter Marlowe virou o rádio. Era um receptor principal, em boas condições. O fundo foi removido e os tubos rebrilhavam à luz do lampião. Havia muitos condensadores. Muitos. Trouxe o aparelho mais para perto da luz e examinou com cuidado as suas entranhas, centímetro por centímetro.

O suor começou a escorrer do seu rosto. E então descobriu o que queria, 300 microfarádios.

Agora, o que vou fazer?, perguntou-se. Será que levo só o condensador? Mac falou que estava quase certo. Melhor levar o aparelho inteiro, e se o condensador não se adaptar ao nosso, teremos outro. Daremos um jeito de escondê-lo num canto qualquer. Vai ser bom ter um sobressalente.

— Agradeço-vos, Tuan Sutra. Não dá para eu vos agradecer o bastante por este presente. Eu sou os milhares de Changi.

— Suplico-vos que nos protejais. Se um guarda vos vir, enterrai-o na selva. Minha aldeia está nas vossas mãos.

— Nada temais. Eu a protegerei com a minha vida.

— Acredito em vós. Mas talvez seja uma tolice fazer isso.

— Há vezes, Tuan Sutra, em que creio verdadeiramente que os homens não passam de tolos.

— Tendes uma sabedoria que ultrapassa a vossa idade.

Sutra deu-lhe um pedaço de pano para envolver o rádio, depois voltaram para a sala principal. Sulina estava nas sombras da varanda. Quando entraram, ela se levantou.

— Quereis um pouco de comida ou bebida, Pai?

Wah-lah, pensou Sutra rabugentamente, pergunta a mim, mas refere-se a ele.

— Não. Ide para a cama.

Sulina fez um meneio atrevido de cabeça, mas obedeceu.

— Acho que minha filha merece uma surra.

— Seria uma pena marcar uma coisinha tão delicada — falou Peter Marlowe. — Tuan Abu costumava dizer: "Batei na mulher pelo menos uma vez por semana, e tereis paz na vossa casa. Mas nato batais com muita força, para não deixá-la com raiva, pois então ela na certa vos baterá também, e muito vos magoará!"

— Conheço o ditado. É bem verdadeiro. As mulheres são incompreensíveis.

Falaram de muitas coisas, acocorados na varanda, fitando as águas. O mar estava manso, e Peter Marlowe pediu permissão para ir nadar.

— Não há correnteza — disse o velho malaio — mas, às vezes, há tubarões.

— Tomarei cuidado.

— Nadai apenas nas sombras, junto aos barcos. Às vezes os japoneses caminham pela praia. Há um embasamento de canhão a uns cinco quilômetros daqui. Mantende os olhos abertos.

— Tomarei cuidado.

Peter Marlowe ateve-se às sombras enquanto corria para os barcos. A Lua baixava no céu. Não há muito tempo, pensou.

Junto aos barcos alguns homens e mulheres preparavam e consertavam redes, conversando e rindo entre si. Não prestaram atenção a Peter Marlowe, quando este se despiu e entrou no mar.

A água estava quente, mas com bolsões frios, como em todos os mares orientais, e achou um e tentou ficar nele. A sensação de liberdade era gloriosa, e era quase como se fosse de novo um garotinho tomando um banho de mar noturno no Atlântico com o pai por perto, gritando: "Não vá muito longe, Peter! Olhe a correnteza!"

Nadou por baixo d'água e sua pele bebeu o sal do mar. Quando veio à tona, cuspiu água como uma baleia, e nadou preguiçosamente para a parte rasa, onde ficou deitado de costas, lavado pelas ondas, gozando sua liberdade.

Enquanto sacudia as pernas nas ondas que rodopiavam na sua virilha, deu-se conta, de repente, que estava completamente nu, e que havia homens e mulheres a 20 metros de distância dali. Mas não se sentiu constrangido.

A nudez se tornara um modo de vida no campo. E os meses passados na aldeia javanesa lhe haviam ensinado que não havia vergonha nenhuma em ser um ente humano, com desejos e necessidades.

O calor sensual do mar brincando com ele, e o calor pesado da comida dentro do seu corpo, despertaram um fogo súbito no seu sexo. Virou-se abruptamente de barriga para baixo e voltou para dentro do mar, escondendo-se.

Ficou de pé no fundo do mar, com água até o pescoço, e olhou para a praia e para a aldeia. Os homens e mulheres ainda estavam consertando as redes. Podia ver Sutra na varanda da choça, fumando na sombra. Mais para o lado, viu Sulina, iluminada pela luz do lampião, encostada na moldura da janela. Segurava o sarongue frouxamente contra o corpo e olhava para o mar.

Sabia que estava olhando para ele, e imaginou, envergonhado, se tinha visto. Observava-a, e ela o observava. Então, viu quando ela tirou o sarongue e pegou uma toalha limpa e branca para secar o suor que cintilava no seu corpo.

Era filha do Sol e filha da chuva. 0 cabelo longo e escuro escondia a maior parte do seu corpo, mas ela o moveu até que lhe acariciasse as costas, e começou a trançá-lo. E o tempo todo o fitava, sorrindo.

E então, subitamente, cada vibração da correnteza era uma carícia, cada toque da brisa uma carícia, cada fio de alga uma carícia... dedos de cortesãs, matreiros, com séculos de experiência.

Vou possuí-la, Sulina.

Vou possuí-la, custe o que custar.

Tentou fazer com que Sutra saísse da varanda, com a força do seu pensamento. Sulina observava. E esperava. Tão impaciente quanto ele.

Vou possuí-la, Sutra. Não me impeça! Não o faça. Ou juro por Deus...

Não viu o Rei se acercando das sombras, nem o notou deter-se, surpreso ao vê-lo deitado de barriga para baixo, na parte rasa da praia.

— Ei, Peter. Peter!

Ouvindo a voz em meio à névoa, Peter Marlowe virou a cabeça devagar e viu o Rei chamando-o.

— Vamos indo, Peter. Está na hora de a gente se mandar.

Ao ver o Rei, lembrou-se do campo, da cerca, do rádio, do diamante, do campo, da guerra, do campo, do rádio e do guarda por quem tinham que passar, e será que voltariam a tempo e quais seriam as novidades e como Mac ficaria feliz com os 300 microfarádios e o rádio sobressalente que funcionava. A ereção desapareceu. Mas a dor continuou.

Levantou-se e foi-se vestir.

— Mas você é cara de pau — falou o Rei.

— Porquê?

— Andar por aí deste jeito. Não está vendo a filha do Sutra espiando você?

— Já viu muitos homens sem roupa, e não há nada de mau nisso. — Sem ereção, não havia nudez.

— Às vezes, não o entendo. Cadê o seu recato?

— Perdeu-se há muito tempo. — Vestiu-se depressa e reuniu-se ao Rei nas sombras. Seu sexo doía violentamente. — Ainda bem que chegou na hora em que chegou. Obrigado.

— Porquê?

— Por nada.

— Estava com medo que o tivesse esquecido?

— Não. — Peter Marlowe sacudiu a cabeça. — Deixe pra lá. Mas obrigado. O Rei o fitou, depois deu de ombros.

— Vamos. Dá para a gente ir fácil, agora. — Seguiu na frente, passando pela choça de Sutra, e acenou. — Salamat.

— Espere, Rajá. Não demoro nada!

Peter Marlowe subiu correndo a escada e entrou na choça. O rádio ainda estava lá. Com ele debaixo do braço, embrulhado no pedaço de pano, inclinou-se diante de Sutra.

— Agradeço-vos. Está em boas mãos.

— Ide com Deus. — Sutra hesitou, depois sorriu. — Protegei vossos olhos, meu filho. Senão, quando houver alimento para eles, não podereis comer.

— Lembrar-me-ei. — Peter Marlowe sentiu o rosto quente. Será que as histórias são verdadeiras, que os idosos podem ler os pensamentos, de tempos em tempos. — Agradeço-vos. A paz esteja convosco.

— A paz esteja convosco até nosso próximo encontro.

Peter Marlowe virou-se e saiu. Sulina estava à janela, quando passaram por seu quarto. Estava coberta pelo sarongue, agora. Seus olhos se encontraram e um acordo foi feito e selado. Ficou olhando enquanto os dois homens subiam a inclinação, disfarçadamente, na direção da selva, e enviou-lhes mentalmente votos de uma viagem segura até que desapareceram.

Sutra suspirou, depois entrou silenciosamente no quarto de Sulina, que estava à janela sonhadoramente, com o sarongue enrolado nos ombros. Sutra trazia um bambu fino nas mãos e deu-lhe uma vergastada seca e forte, mas não forte demais, nas nádegas nuas.

— Isso é por terdes tentado o inglês quando não mandei que o tentásseis — falou, esperando parecer muito zangado.

— Sim, Pai — choramingou ela, e cada soluço seu era uma facada no coração dele. Mas, quando ficou sozinha, enroscou-se gostosamente no colchão e deixou as lágrimas correrem um pouco, curtindo-as. E o calor se espalhou por seu corpo, ajudado pela ardência da vergastada.

Quando estavam a cerca de quilômetro e meio do campo, o Rei e Peter Marlowe derarn uma paradinha para respirar. Foi então que o Rei notou, pela primeira vez, o pequeno volume enrolado no pano.

Estivera andando na frente, e tão concentrado no sucesso da noite de trabalho, e tão alerta a qualquer possível perigo na escuridão, que ainda não o tinha notado.

— O que tem aí? Uma comidinha extra?

Ficou vendo Peter Marlowe abrir um sorriso e orgulhosamente desembrulhar o volume.

— Surpresa!

O coração do Rei falhou seis batidas.

— Ora, seu maldito filho da puta! Está louco varrido?

— O que há? — indagou Peter Marlowe, estupefato.

— Está maluco? Isso vai-nos causar mais problemas do que dá para imaginar. Não tem o direito de arriscar nossos pescoços por causa de uma bosta de um rádio. Não tem o direito de usar os meus contatos para fazer os seus malditos negócios.

Peter Marlowe sentiu-se oprimido pela escuridão, enquanto fitava o Rei, incrédulo. Depois, falou:

— Não fiz por mal...

— Ora, seu maldito filho da puta! — vociferou o Rei. — Os rádios são veneno.

— Mas não há nenhum no campo...

— Não diga. Trate de livrar-se desta porra neste instante. E tem mais. Estamos acabados. Você e eu. Não tem o direito de me envolver num troço sem o meu conhecimento. Deveria enchê-lo de porrada!

— Experimente. — Agora Peter Marlowe estava raivoso e belicoso, tão belicoso quanto o Rei. — Parece esquecer que estamos em guerra, e que não há rádio no campo. Um dos motivos por que vim, foi que tinha esperanças de poder obter Um condensador. Mas agora tenho um rádio inteiro... que funciona.

— Livre-se dele!

— Não.

Os dois homens se defrontaram, tensos e inflexíveis. Por uma fração de segundo, o Rei esteve pronto para cortar Peter Marlowe em pedaços.

Mas o Rei sabia que a raiva não ajudava, quando se tinha que tomar uma decisão importante, e agora que tinha superado o nauseante choque inicial, podia ser crítico e analisar a situação.

Primeiro, tinha que admitir que, embora fosse um mau negócio arriscar tanto, o risco fora bem-sucedido. Se Sutra não estivesse disposto a dar o rádio a Peter Marlowe, teria dito: "Qual, não há nenhum rádio por aqui", e mudado de assunto. Portanto, nenhum mal fora feito. E fora um negócio particular entre Pete e Sutra, porque Cheng San já tinha ido embora.

Segundo, um rádio cuja existência conhecia, e que não estava na sua choça, seria utilíssimo. Poderia estar sempre por dentro da situação, e saberia a hora exata de tentar sua fuga. Portanto, afinal de contas, nenhum mal fora feito... exceto que Peter passara dos limites de sua autoridade. Bem, vejamos: se você confia num sujeito, e o contrata, está contratando sua inteligência. Não há vantagem em se ter ao lado um cara que só obedece ordens e fica para-dão. E Peter fora espetacular durante as negociações. Se e quando houvesse a fuga, bem, Peter estaria na equipe. Seria preciso um cara que falasse a língua local. É, e Peter não tinha medo. Portanto, o Rei já sabia que seria uma loucura atacá-lo mesmo antes que sua mente lhe disesse para aproveitar comercialmente a nova situação. De fato, tinha dado um chilique, como um garotinho de dois anos.

— Pete. — Notou o queixo retesado de Peter Marlowe, como num desafio. Será que eu agüento com o filho da puta. Claro. Sou mais pesado do que ele uns 20... talvez 35 quilos.

— O que é?

— Desculpe ter estourado com você. O rádio é uma boa idéia.

— Como?

— Acabei de pedir desculpas. É uma ótima idéia.

— Não o entendo — disse Peter Marlowe, desanimado. — Num minuto parece um maluco, no seguinte está dizendo que é uma boa idéia.

O Rei gostava desse filho da puta. Tinha garra.

— É que, os rádios me dão nos nervos, não há futuro neles. — Deu uma risadinha suave. — Não têm valor de revenda.

— Não está mais cheio de mim?

— Porra, claro que não. Somos amigos do peito. — Deu-lhe um soquinho de brincadeira. — Só fiquei chateado porque você não me contou. Isso não foi legal.

— Sinto muito. Tem razão. Peço desculpas. Foi uma coisa ridícula e injusta. Puxa, não quero colocá-lo em situação difícil, de jeito algum. Sinto muito, de verdade.

— Aperte os ossos. Desculpe o estouro. Mas, da próxima vez, avise-me antes de fazer qualquer coisa.

Peter Marlowe apertou a mão do Rei.

— Palavra de honra.

— Para mim, chega. — Graças a Deus, tudo estava em paz agora. — Então, que diabo quer dizer com condensador?

Peter Marlowe contou-lhe sobre os três cantis.

— Portanto, só o que Mac precisa é de um condensador, certo?

— Disse que acha que sim.

— Sabe o que acho? Acho que seria melhor só tirar o condensador e largar o rádio. Enterrá-lo aqui. Estaria seguro. Então, se o seu não funcionar, a gente pode voltar e buscá-lo. Mac poderia pôr o condensador de volta com toda a facilidade. Esconder este rádio no campo ia ser uma dureza, e ia ser uma tentação dos diabos tê-lo à mão para ligar, não é?

— É. — Peter Marlowe olhou de modo penetrante para o Rei. — Voltará comigo para pegá-lo?

— Claro.

— Se... por qualquer motivo... eu não puder voltar, você voltaria para pegá-lo? Se Mac ou Larkin lhe pedissem?

O Rei pensou por um momento.

— Claro.

— Dá sua palavra?

— Sim. — O Rei sorriu. — Dá um bocado de importância a essa história de "palavra", não é, Peter?

— De que outro modo se pode julgar um homem!

Peter Marlowe levou apenas um momento, para arrebentar os dois fios que ligavam o condensador às entranhas do rádio. Mais um minuto, e o rádio estava envolto no pano protetor, e um buraco pequeno fora aberto no chão da selva. Puseram uma pedra chata no fundo do buraco, depois cobriram o rádio com uma boa quantidade de folhas, puseram a terra de volta, alisando-a bem, depois puxaram um tronco de árvore para marcar o local. Duas semanas na umidade da tumba acabariam com a utilidade do rádio, mas duas semanas era tempo de sobra para vir buscá-lo, caso os cantis ainda não funcionassem.

Peter Marlowe enxugou o suor do corpo, pois uma súbita camada de calor pousara sobre eles, e o cheiro de suor deixara alucinadas as nuvens crescentes de insetos à sua volta.

— Malditos insetos! — Levantou os olhos para o céu, calculando a hora, um tanto nervosamente. — Não acha que está na hora de irmos andando?

— Ainda não. São só 4:15. A melhor hora para nós é logo antes do alvorecer. Se esperarmos mais uns dez minutos, estaremos em posição com tempo de sobra. — Abriu um sorriso. — Da primeira vez que atravessei a cerca também fiquei ansioso e com medo. Quando voltei, tive que ficar esperando junto da cerca. Tive que esperar meia hora, ou mais, até o caminho ficar desimpedido. Jesus! Suei frio! — Abanou as mãos, afastando os insetos. — Malditos insetos.

Ficaram sentados durante algum tempo, escutando õ movimento constante da floresta. Fileiras de vaga-lumes formavam retalhos brilhantes nas pequenas poças de chuva ao lado do caminho.

— Igualzinho à Broadway à noite — falou o Rei.

— Vi um filme chamado Times Square. História sobre jornais. Deixe ver. Acho que era com o Cagney.

— Não me lembro desse. Mas a Broadway tem que ser vista pessoalmente. É como se fosse de dia, no meio da noite. Cartazes imensos a gás neon e luzes por todo o canto.

— É lá que você mora? Em Nova York?

— Não. Estive lá umas duas vezes. Já estive em toda a parte.

— Onde mora?

— Meu pai não tem pouso certo — respondeu o Rei, dando de ombros.

— No que ele trabalha?

— Boa pergunta. Um pouco nisso, um pouco naquilo. Vive bêbado, a maior parte do tempo.

— Ah! Deve ser uma dureza.

— É duro para um garoto.

— Tem mais família?

— Minha mãe morreu, quando eu tinha três anos. Não tenho irmãs nem irmãos. Meu pai me criou. É um vagabundo, mas me ensinou muitas coisas sobre a vida. Número um, a pobreza é uma doença. Número dois, o dinheiro é tudo. Número três, não importa como você o obtenha, contanto que o obtenha.

— Sabe, nunca pensei muito em dinheiro. Suponho que, nas Forças Armadas... bem, sempre há um cheque mensal de pagamento, sempre há um certo padrão de vida, portanto o dinheiro não conta muito.

— Quanto seu pai ganha?

— Não sei ao certo. Suponho que umas seiscentas libras por ano.

— Jesus. É só dois mil e quatrocentos dólares. Ora, eu ganho mil e trezentos como Cabo. Pois sim, quem iria trabalhar por esse salário de nada!

— Talvez seja diferente nos Estados Unidos. Mas na Inglaterra, dá para se viver direitinho. Claro que nosso carro é bem antigo, mas isso não tem importância, e quando você se reforma, recebe uma aposentadoria.

— De quanto?

— Cerca de metade do soldo.

— Para mim, isso não é nada. Não entendo por que as pessoas entram para as Forças Armadas. Talvez porque sejam um fracasso como gente.

O Rei viu o corpo de Peter Marlowe enrijecer ligeiramente.

— Claro — acrescentou, rapidamente — não me estou referindo à Inglaterra. Falava dos Estados Unidos.

— A vida militar é boa... para um homem. Dinheiro suficiente... uma vida emocionante em todas as partes do mundo. A vida social é boa. Além disso, bem, um oficial sempre tem muito prestígio. — Peter Marlowe acrescentou, quase como se pedisse desculpas. — Sabe, a tradição, e tudo o mais.

— Vai continuar a ser militar depois da guerra?

— Claro.

— Na minha opinião — falou o Rei, pautando os dentes com uma lasquinha de casca de árvore — é fácil demais. Não vejo emoção nem futuro em receber ordens de uns tipos que são, na maioria, uns vagabundos. Pelo menos, é o que me parece. E que diabo, não lhe pagam nada. Ora, Pete, você deveria dar uma olhada nos Estados Unidos. Não há nada igual no mundo. Lugar nenhum. Cada um por si, e cada um é tão bom quanto o vizinho. E só o que você tem que fazer é descobrir um macete e se tornar melhor do que o vizinho. Isso é que é emocionante.

— Não acho que me adaptaria. Sei que não sou um cara talhado para ganhar dinheiro. Estarei melhor fazendo o que nasci para fazer.

— Bobagem. Só porque o seu velho é militar...

— Isso vem desde 1720. De pai para filho. É um bocado de tradição para tentar combater.

O Rei resmungou.

— É tempo pra burro! — Depois, acrescentou: — Só sei do meu pai e do pai dele. Antes disso... nada. Pelo menos, parece que meu pessoal veio do velho mundo lá por volta de 1880.

— Da Inglaterra?

— Porra, não. Acho que da Alemanha. Ou quem sabe da Europa Central. Quem está ligando? Sou americano, e é só isso que conta.

— Os Marlowes são militares, e fim de papo.

— Porra, não é não. A escolha é sua. Olhe só para você, agora. Está numa boa porque usa a cuca. Seria um grande negociante, se quisesse. Sabe falar como um nativo, certo? Preciso de sua cuca. Estou pagando por ela... e deixe de bancar o ofendido. É o estilo americano. A gente paga por aquilo que usa. Não tem nada a ver com nossa amizade. Nada. Se não lhe pagasse, eu seria um safado.

— Está errado. A gente não precisa ser pago para ajudar um pouco.

— Porra, mas como está precisando aprender as coisas! Gostaria de levá-lo para os Estados Unidos, para ser caixeiro viajante. Com este sotaque inglês fajuto iria deixar as mulheres malucas. Faturaria adoidado. Daríamos roupas íntimas femininas para você vender.

— Santo Deus. — Peter sorriu com ele, mas havia um toque de horror no sorriso. — Mais fácil eu voar do que tentar vender alguma coisa.

— Mas você voa.

— Quero dizer, sem avião.

— Claro, estava brincando. O Rei olhou para o relógio.

— O tempo passa devagar, quando a gente está esperando.

— Há horas que acho que nunca vamos sair desse buraco fedorento.

— Qual é, o Tio Sam está botando os amarelos para correr. Não vai demorar muito. E se demorar, qual é o galho? Estamos numa boa, meu chapa. É só o que importa. — O Rei olhou para o relógio. — Melhor a gente dar no pé.

— Como?

— Ir andando.

— Oh! — Peter Marlowe se levantou. — Vá em frente, Macduff! — exclamou, feliz.

— Hem?

— Só um ditado. Quer dizer "Vamos dar no pé".

Felizes porque eram amigos de novo, entraram selva adentro. Cruzar a estrada foi fácil. Agora que haviam passado a área patrulhada pelo guarda errante, seguiram uma trilha curta e logo estavam a uns 400 metros da cerca. O Rei ia na frente, calmo e confiante. Somente as nuvens de vaga-lumes e mosquitos tornavam desagradável a caminhada.

— Jesus. Mas os insetos estão uma coisa!

— É. Por minha vontade, fritava-os todos — sussurrou Peter Marlowe.

Foi então que viram a baioneta apontando para eles, e pararam de chofre.

O japonês estava sentado, encostado a uma árvore, de olhos fixos neles, um sorriso assustador distendendo as suas feições, e com o fuzil apoiado nos joelhos.

Os pensamentos deles foram idênticos: Santo Cristo! Utram Road! Estou morto. Matar!

O Rei foi o primeiro a reagir. Saltou sobre o guarda e arrancou-lhe o fuzil com baioneta, rolando para longe dele, depois pôs-se de pé, erguendo alto o cano do fuzil para enfiá-lo na cara do homem. Peter Marlowe já mergulhava para agarrar o guarda pela garganta. Um sexto sentido alertou-o, e suas mãos em forma de garra desviaram-se da garganta, e ele foi de encontro à árvore.

— Afaste-se dele! — Peter Marlowe se pôs de pé, agarrou o Rei e arrastou-o de lá.

O guarda não se mexera. Exibia no rosto o mesmo sorriso malévolo, de olhos arregalados.

— Mas que diabo! — exclamou o Rei, ofegante, em pânico, com o fuzil ainda erguido sobre a cabeça.

— Saia daí! Depressa, pelo amor de Deus! — Peter Marlowe arrancou o fuzil das mãos do Rei, e jogou-o ao lado do japonês morto. Foi então que o Rei viu a cobra no colo do homem.

— Meu Deus — falou o americano com voz rouca, acercando-se para olhar mais de perto. Peter Marlowe agarrou-o, desesperadamente.

— Saia daí! Fuja, pelo amor de Deus!

Desatou a correr, para longe das árvores, metendo-se pela vegetação rasteira, atabalhoadamente. O Rei corria atrás dele, e só pararam quando chegaram à clareira.

— Ficou maluco? — O Rei fez uma careta, com o peito doendo. — Era só uma bosta de uma cobra!

— Era uma cobra-voadora — explicou Peter Marlowe, com a respiração dificultosa. — Vivem nas árvores. Morte instantânea, meu velho. Elas sobem nas árvores, depois achatam os corpos e descem em espiral para o chão, caindo sobre as vítimas. Havia uma no colo e outra debaixo dele. Era certo haver mais delas, porque estão sempre em ninhadas.

— Santo Deus!

— Na verdade, meu velho, devemos estar agradecidos àquelas nojentas — falou Peter Marlowe, tentando acalmar a respiração. — Aquele amarelo ainda estava quente. Não estava morto há mais de dois minutos. Ele nos teria pegado, se não fosse pelas cobras. E devemos agradecer a Deus por nossa discussão. Foi ela que deu tempo para as cobras agirem. Jamais estaremos tão perto do desastre! Da morte! Jamais!

— Nunca mais quero ver um japonês dos infernos com uma baioneta dos infernos apontando para mim no meio da noite outra vez. Vamos. É melhor sairmos daqui.

Quando chegaram perto da cerca, acomodaram-se para esperar. Ainda não podiam dar sua corrida para a cerca. Gente demais por lá. Sempre havia gente andando a esmo, zumbis andando pelo campo, os insones e os quase adormecidos.

Era bom descansar, e ambos sentiam os joelhos trêmulos e estavam gratos por se acharem novamente vivos.

Puxa, mas que noite, pensou o Rei. Se não fosse pelo Pete, eu tinha ido para o beleléu. Ia botar o pé no colo do japonês enquanto arriava o fuzil na cara dele. Meu pé estava a 15 centímetros do colo. Cobras! Odeio cobras! Filhas da puta! E enquanto o Rei se acalmava, o apreço que sentia por Peter Marlowe aumentava.

— Essa foi a segunda vez que salvou meu pescoço — murmurou.

— Foi você que chegou no fuzil primeiro. Se o japonês não estivesse morto, você o teria matado. Eu fui lento.

— Ei, mas eu estava na frente. — O Rei se deteve, depois sorriu. — Ei, Peter, fazemos uma bela dupla. Com a sua pinta e a minha inteligência, até que nos saímos bem.

Peter Marlowe começou a rir. Tentou parar, e rolou pelo chão. O riso abafado e as lágrimas que escorriam por seu rosto contagiaram o Rei, que também se contorceu de rir. Finalmente, Peter Marlowe falou, com voz entre-cortada:

— Pelo amor de Deus, cale a boca.

— Foi você quem começou.

— Eu, não.

— Claro que foi, você disse, disse... — Mas o Rei não conseguia continuar. Enxugou as lágrimas. — Viu aquele japonês? O filho da puta estava sentado feito uma besta...

— Olhe!

O riso deles sumiu.

Do outro lado da cerca, Grey passeava pelo campo. Viram quando parou diante da choça americana. Viram-no esperar nas sombras, depois olhar para o outro lado da cerca, quase que diretamente para eles.

— Acha que ele sabe? — sussurrou Peter Marlowe.

— Não sei. Mas a gente não pode arriscar-se a entrar durante algum tempo, de jeito nenhum. Vamos esperar.

Esperaram. O céu começou a clarear. Grey permaneceu nas sombras, olhando para a choça americana, depois correndo os olhos pelo campo. O Rei sabia que, de onde se encontrava, Grey podia ver sua cama. Sabia que Grey podia ver que não se encontrava nela. Mas as cobertas estavam dobradas, e ele podia estar andando pelo campo, juntamente com os outros insones. Não havia lei que proibisse a gente de não ficar na cama. Mas ande logo, se mande daí, Grey, porra.

— Teremos que sair logo daqui — disse o Rei. — A luz está contra nós.

— Que tal em algum outro lugar?

— Ele consegue enxergar toda a cerca, até lá o canto.

— Acha que alguém abriu o bico?

— Pode ser. Quem sabe seria só uma coincidência. — O Rei mordeu o lábio, com raiva.

— Que tal a área das latrinas?

— Arriscado demais.

Esperaram. Depois, viram Grey olhar mais uma vez sobre a cerca, na direção deles, e em seguida se afastar. Ficaram olhando para ele até que dobrou o muro da cadeia.

— Pode ser golpe — disse o Rei. — Espere mais uns dois minutos.

Os segundos eram como horas, enquanto o céu clareava e as sombras começavam a se dissolver. Agora não havia ninguém perto da cerca, ninguém à vista.

— É agora ou nunca, vamos.

Correram para a cerca; em questão de segundos passavam por baixo dela e caiam na vala.

— Vá para a choça, Rajá. Eu espero.

— Certo.

Apesar do seu tamanho, o Rei se movia com leveza, e percorreu rapidamente a distância que o separava de sua choça. Peter Marlowe saiu da vala. Algo lhe disse para sentar na beirada, olhando sobre a cerca para fora do campo. E então, com o canto dos olhos, viu Grey dobrar a esquina e parar. Soube imediatamente que fora visto.

— Marlowe.

— Oh, alô, Grey. Também não está conseguindo dormir? — perguntou, espreguiçando-se.

— Há quanto tempo está aqui?

— Alguns minutos. Cansei de andar, então me sentei.

— Onde está o seu amigo?

— Quem?

— O americano — falou Grey, com escárnio.

— Não sei. Imagino que dormindo.

Grey olhou para o seu traje à moda chinesa. A túnica estava rasgada nos ombros, e molhada de suor. Havia lama e pedaços de folhas em sua barriga e joelhos. Uma risca de lama no rosto.

— Como ficou tão sujo? E por que está suando tanto? O que andou aprontando?

— Estou sujo porque... não há nenhum mal num pouco de sujeira honesta. Na verdade — disse Peter Marlowe, enquanto se levantava e passava a mão nos joelhos e nos fundilhos — não há nada como um pouco de sujeira para fazer um homem se sentir limpo quando toma banho. E estou suando porque você está suando. Sabe, os trópicos... o calor, e tudo o mais!

— O que tem no bolso?

— Só porque você é um boboca desconfiado isso não quer dizer que todo o mundo esteja carregando contrabando. Não há lei que proíba uma pessoa de andar pelo campo, se não puder dormir.

— É verdade — replicou Grey — mas há uma lei que proíbe andar do lado de fora do campo.

Peter Marlowe olhou para ele com ar de indiferença, sem se sentir nem um pouco indiferente, tentando perceber que diabo Grey queria dizer com aquilo. Será que sabia?

— Só mesmo um idiota tentaria uma coisa dessas.

— É verdade. — Grey olhou para ele longa e duramente. Depois, girou nos calcanhares e se afastou.

Peter Marlowe ficou olhando enquanto ele se afastava. A seguir, virou-se e caminhou na direção oposta, sem olhar para a choça americana. Naquele dia, Mac deveria sair do hospital. Peter Marlowe sorriu, pensando no presente de boas-vindas que esperava Mac.

Da segurança de sua cama, o Rei viu Peter Marlowe se afastar. A seguir, fitou Grey, o inimigo, ereto e malévolo à luz crescente do dia.

Magro feito um esqueleto, calça esfarrapada, toscos tamancos nativos, sem camisa, braçadeira, boina puída. Um raio de Sol brilhou sobre o emblema da Divisão Blindada na boina, transformando-o de nada em ouro derretido.

O quanto você sabe, Grey, seu filho da puta?, perguntou-se o Rei.

 

Passava um pouquinho do alvorecer.

Peter Marlowe estava no seu beliche, semi-adormecido.

Será que foi um sonho?, perguntou-se, subitamente desperto. A seguir, seus dedos cautelosos tocaram o pedacinho de trapo que escondia o condensador, e soube que não era sonho.

Ewart retorceu-se no beliche superior, e acordou gemendo.

— 'Mahlu para a noite — falou, jogando as pernas para fora do leito. Peter Marlowe lembrou-se de que era a vez de sua unidade trabalhar nas fossas. Saiu da choça e foi cutucar Larkin para acordá-lo.

— Hem? Oh, Peter — disse Larkin, largando o sono com esforço. — O que há?

Era difícil para Peter não soltar logo a novidade do condensador, mas queria esperar até Mac também estar presente, portanto falou apenas:

— Trabalho nas fossas, meu velho.

— Puta merda! Outra vez? — Larkin esticou as costas doloridas, amarrou o sarongue e calçou os tamancos.

Foram pegar a rede e a lata de 20 litros 6 caminharam pelo campo, que começava a acordar. Quando chegaram à área das latrinas, não prestaram atenção nos ocupantes, nem estes lhes prestaram atenção.

Larkin levantou a tampa de uma das fossas, Peter Marlowe rapidamente raspou os lados com a rede. Quando tirou a rede do buraco, veio cheia de baratas. Sacudiu a rede dentro da lata, e raspou de novo. Outra bela redada.

Larkin recolocou a tampa, e passaram para o buraco seguinte.

— Segure direito isso aí — falou Peter Marlowe. — Olhe só o que fez! Perdi pelo menos umas 100.

— Há muitas mais — comentou Larkin, enojado, segurando com mais firmeza a lata.

O cheiro era muito ruim, mas a colheita era rica. Logo a lata ficou abarrotada. A menor das baratas media quase quatro centímetros. Larkin tampou bem a lata, e se dirigiram para o hospital.

— Não é a minha idéia de uma dieta regular — comentou Peter Marlowe.

— Você as comeu mesmo em Java, Peter?

— Claro. E você também as comeu, aqui em Changi. Larkin quase deixou cair a lata.

— O quê?

— Não acha que eu iria dar aos médicos a dica de uma iguaria nativa e fonte de proteínas e não me aproveitar dela para nós, ach??

— Mas tínhamos um pacto! — berrou Larkin. — Concordamos, nós três, que não cozinharíamos nada exótico sem primeiro contar ao outro.

— Contei ao Mac, e ele concordou.

— Mas eu não, porra!

— Ora, qual é, Coronel! Tivemos que pegá-las e cozinhá-las em segredo, e escutar você dizer como o preparado estava gostoso. Sentimos tanto nojo quanto você.

— Bem, da próxima vez quero saber. É uma ordem, porra!

— Sim, senhor! — Peter Marlowe deu uma risada abafada. Entregaram a lata na cozinha do hospital. A minúscula cozinha especial que fazia a comida para os que estavam desesperadamente doentes.

Quando voltaram ao bangalô, Mac estava á espera deles. A sua pele estava cinza-amarelada, os olhos injetados e as mãos trêmulas, mas a febre já passara. Podia sorrir de novo.

— Que bom tê-lo de volta, meu cupincha — disse Larkin, sentando-se.

— É.

Peter Marlowe apanhou, displicentemente, a tirinha de pano.

— Ah, a propósito — falou, com indiferença estudada — isso pode ser útil, qualquer hora dessas.

Mac desembrulhou o pano, sem interesse.

— Puta merda! — exclamou Larkin.

— Porra, Peter — falou Mac, com os dedos trêmulos — está querendo que eu tenha um ataque do coração?

Peter Marlowe manteve a voz tão inexpressiva quanto a fisionomia, saboreando imensamente o entusiasmo dele.

— Não há por que ficar tão perturbado por uma bobagem. — E depois não conseguiu mais conter o sorriso. Riu de orelha a orelha.

— Você e a sua maldita sobriedade britânica. — Larkin tentava bancar o azedo, mas também sorria abertamente. — Onde arranjou isso, camarada?

Peter Marlowe deu de ombros.

— Pergunta cretina. Desculpe, Peter — falou Larkin.

Peter Marlowe sabia que jamais lhe perguntariam aquilo de novo. Era muito melhor que não soubessem da aldeia.

Já escurecia.

Larkin estava de vigia. Peter Marlowe estava de vigia. Oculto sob o mos-quiteiro, Mac juntou 6 condensador. Depois, sem conseguir esperar mais, fazendo uma prece, meteu o fio de conexão na fonte de eletricidade. Suando, escutou no único fone de ouvido.

Uma espera agonizante. Estava quente, sob o mosquiteiro, e as paredes e o chão de concreto armazenavam o calor do Sol que desaparecia. Um mosquito zunia raivosamente. Mac praguejou mas não tentou achá-lo ou matá-lo, pois de repente escutou a estática no fone.

Seus dedos tensos, molhados do suor que escorria braços abaixo, escorregaram na chave de parafusos. Enxugou-os. Delicadamente, encontrou o parafuso que girava o sintonizador e começou a torcer suave, muito suavemente. Estática. Só estática. E então, de repente, ouviu a música. Era um disco de Glenn Miller.

A música cessou, e um locutor disse:

— Aqui fala Calcutá. Continuamos o recital de Glenn Miller com o seu disco Moonlight Serenade.

Pelo vão da porta, Mac podia ver Larkin agachado nas sombras, e para além deles homens que cruzavam o corredor entre as filas de bangalôs de cimento. Teve vontade de sair gritando "Ei, rapazes, querem ouvir as notícias daqui a pouco? Estou sintonizado com Calcutá!"

Mac escutou por mais um minuto, depois desligou o rádio e botou com cuidado os cantis nos seus envoltórios de feltro verde-acinzentado e deixou-os descuidadamente sobre as camas. Haveria um noticiário de Calcutá às dez horas, e assim, para poupar tempo, Mac escondeu o fio e o fone de ouvido sob o colchão, ao invés de escondê-los no terceiro cantil.

Estivera curvado sob o mosquiteiro por tanto tempo que deu um jeito nas costas, e gemeu quando ficou de pé.

Larkin volveu o olhar para ele, de sua posição lá fora.

— O que há, meu camarada? Não consegue dormir?

— Não, meu rapaz — disse Mac, vindo agachar-se ao lado dele.

— Devia ir com calma, é o primeiro dia depois que saiu do hospital. — Larkin não precisou que lhe dissessem que o rádio funcionara. Os olhos de Mac brilhavam de entusiasmo. Larkin deu-lhe um soco de mentirinha. — Você é um cara legal, seu velho sacana.

— Onde está o Peter? — perguntou Mac, sabendo que estava de vigia junto aos chuveiros.

— Está ali. O cretinão está só sentado. Olhe para ele.

— Ei, 'mahlu sanai — chamou Mac.

Peter Marlowe já sabia que Mac tinha acabado, mas se levantou e veio para junto deles e disse:

— 'Mahlu sendris. — Isso queria dizer '''mahlu você mesmo". Também ele não precisou que lhe contassem.

— Que tal um joguinho de bridge? — perguntou Mac.

— Quem é o quarto?

— Ei, Gavin — chamou Larkin. — Quer ser o quarto?

O Major Gavin Ross levantou-se da cadeira, arrastando as pernas. Apoian-do-se numa muleta, veio vindo bem devagar do bangalô vizinho. Ficou grato pelo convite para o jogo. As noites eram sempre ruins. Tão desnecessária, a paralisia. No passado um homem, agora um nada. Pernas inúteis. Cadeira de rodas para o resto da vida.

Fora atingido na cabeça por uma lasquinha de granada, pouco antes da rendição de Cingapura.

— Não há com que se preocupar — disseram os médicos. — Podemos retirá-la tão logo você possa ir para um hospital adequado, com o equipamento adequado. Temos tempo de sobra.

Mas nunca houve um hospital adequado, com o equipamento adequado, e o tempo se esgotou.

— Deus — disse, dolorosamente, ajeitando-se no chão de cimento. Mac jogou-lhe uma almofada.

— Tome, meu velho!

Levou um momento para Gavin se acomodar, enquanto Peter Marlowe pegava as cartas e Larkin ajeitava o espaço entre eles. Gavin levantou a perna esquerda e tirou-a do caminho, dobrando-a, depois de soltar o fio de arame que prendia a ponta do seu sapato à tira que envolvia a perna, bem sob o joelho. A seguir, tirou a outra perna, igualmente paralisada, do caminho, e recostou-se na almofada apoiada à parede.

— Agora está melhor — falou, alisando o bigode à Kaiser Wilhelm com um movimento rápido e nervoso.

— Como vão as dores de cabeça? — perguntou Larkin, automaticamente.

— Não muito ruins, meu velho — Gavin replicou, do mesmo modo automático. — Você é o meu parceiro?

— Não. Pode jogar com o Peter.

— Essa não, o cara sempre trunfa o meu ás.

— Foi só uma vez — disse Peter Marlowe.

— Uma vez por noite — disse Mac, rindo e começando a dar as cartas.

— 'Mahlu.

— Duas espadas — abriu Larkin, com um floreio. Continuaram a apostar, furiosa e veementemente.

Mais para o fim da noite, Larkin bateu à porta de um dos bangalôs.

— Sim? — perguntou Smedly-Taylor, espiando para dentro da noite.

— Desculpe incomodá-lo, senhor.

— Oh, alô, Larkin. Encrenca? — Era sempre encrenca. Ficou imaginando o que os australianos andaram aprontando, dessa vez, enquanto se levantava da cama, todo dolorido.

— Não, senhor. — Larkin certificou-se de que ninguém podia ouvi-lo. Suas palavras eram calmas e deliberadas. — Os russos estão a sessenta quilômetros de Berlim. Manila foi libertada. Os ianques desembarcaram em Corregidor e Iwo Jima.

— Tem certeza, homem?

— Sim, senhor.

— Quem... — Smedly-Taylor se interrompeu. — Não. Não quero saber de nada. Sente-se, Coronel — falou suavemente. — Está absolutamente certo?

— Sim, senhor.

— Posso apenas lhe dizer, Coronel — falou o homem mais velho, com voz monótona e solene — que nada posso fazer para ajudar quem quer que seja pegado com... que seja pegado. — Não queria nem pronunciar a palavra rádio. — Não quero saber nada sobre isso. — A sombra de um sorriso perpassou pelo rosto de granito, suavizando-o. — Peço apenas que o protejam com a própria vida, e me contem imediatamente ao ouvirem qualquer coisa.

— Sim, senhor. Pretendemos...

— Não quero saber de nada. Apenas das notícias. — Com ar triste, Smedly-Taylor tocou o ombro dele. — Lamento.

— É mais seguro, senhor. — Larkin ficou contente porque o Coronel não quis saber do plano deles. Haviam decidido que cada um só contaria a duas pessoas. Larkin contaria a Smedly-Taylor e a Gavin Ross; Mac contaria ao Major Tooley e ao Tenente Bosley, amigos pessoais seus; e Peter contaria ao Rei e ao Padre Donovan, o capelão católico. Cada um deles deveria passar a notícia adiante a duas pessoas de sua confiança, e assim por diante. Era um bom plano, pensou Larkin. Corretamente, Peter não quisera contar de onde viera o condensador. Um bom rapaz, aquele Peter.

Bem mais tarde, quando Peter Marlowe voltou à sua choça, depois de ter ido ver o Rei, Ewart estava totalmente desperto. Enfiou a cabeça para fora do mosquiteiro e sussurrou, todo excitado:

— Peter. Já soube da novidade?

— Que novidade?

— Os russos estão a sessenta quilômetros de Berlim. Os ianques desembarcaram em Iwo Jima e Corregidor.

Peter Marlowe sentiu o terror íntimo. Ó, meu Deus, já?

— Boatos, Ewart. Uma besteirada.

— Não é, não. Peter. Há um rádio novo no campo. É pra valer, não é boato. Não é formidável? Santo Deus, esqueci do melhor. Os ianques libertaram Manila. Agora não demora muito, não é?

— Só acredito vendo. — Talvez devêssemos ter dito apenas a Smedly-Taylor, e a mais ninguém, pensou Peter Marlowe, enquanto se deitava. Se Ewart tem conhecimento, não se sabe o que esperar.

Nervosamente, prestou atenção aos ruídos do campo. Quase se podia sentir a excitação crescente de Changi. O campo sabia que estava mantendo contato de novo.

Yoshima suava de medo, em posição de sentido diante do General enfurecido.

— Seu idiota estúpido e incompetente — dizia o General.

Yoshima se preparou para o golpe que vinha, e veio, uma bofetada na cara.

— Ache aquele rádio ou será rebaixado a soldado. Sua transferência está cancelada. Está dispensado.

Yoshima bateu continência, corretamente, e sua reverência foi um modelo de humildade. Deixou os aposentos do General, grato por não lhe ter acontecido mais nada. Amaldiçoados sejam aqueles prisioneiros peçonhentos.

No quartel, enfileirou seu pessoal e esbravejou com eles, e esbofetou-os até a mão lhe doer. Por sua vez, os sargentos esbofetearam os cabos e estes os soldados e os soldados os coreanos. As ordens eram bem claras: "Descubram esse rádio, caso contrário..."

Durante cinco dias nada aconteceu. A seguir, os carcereiros caíram em cima do campo e quase o destroçaram. Mas nada descobriram. O traidor que havia no campo não sabia ainda onde se encontrava o rádio. Nada aconteceu, exceto que o prometido retorno às rações normais foi cancelado. O campo se acomodou para esperar a passagem dos dias compridos, que ainda ficavam mais compridos pela falta de comida. Mas sabiam que, pelo menos, teriam notícias. Não boatos, mas notícias. E estas eram muito boas. A guerra na Europa estava quase acabada.

Mesmo assim, os homens andavam abatidos. Poucos tinham estoques re-serva de alimentos. E as boas notícias tinham seu lado ruim. Se a guerra acabasse na Europa, mais tropas seriam enviadas para o Pacífico. Eventualmente, o próprio Japão seria atacado. E tal ataque endoideceria seus carcereiros. Represálias! Todos sabiam que só havia um fim para Changi.

Peter Marlowe dirigia-se para a área dos galinheiros, com o cantil pendurado no quadril. Mac, Larkin e ele tinham concordado que talvez fosse mais seguro carregar os cantis o máximo que fosse possível. Para o caso de haver uma revista repentina.

Estava de bom humor. Embora o dinheiro que ganhara já tivesse sido gasto há muito tempo, o Rei adiantara comida e fumo por conta dos ganhos futuros. Deus, mas que homem, pensou. Se não fosse por ele, Mac, Larkin e eu estaríamos tão esfomeados quanto o resto de Changi.

O dia estava mais fresco. A chuva da véspera não deixara a poeira levantar. Estava quase na hora do almoço. Ao se acercar dos galinheiros, estugou o passo. Quem sabe vou encontrar alguns ovos, hoje. E então parou, perplexo.

Perto do cerrado que pertencia à unidade de Peter Marlowe, havia uma pequena multidão, uma multidão irada e violenta. Viu, com surpresa, que Grey estava lá. Diante de Grey achava-se o Coronel Foster, vestindo apenas uma tanga imunda, dando pulos para cima e para baixo, feito um maníaco, xingando incoerentemente Johnny Hawkins, que agarrava ao peito, protetoramente, seu cão.

— Oi, Max — falou Peter Marlowe, ao se acercar do galinheiro do Rei. — O que houve?

— Oi, Pete — respondeu Max naturalmente, mudando de posição o ancinho que tinha nas mãos. Notou a reação instintiva de Peter Marlowe ao "Pete". Oficiais! A gente tenta tratar um oficial como um cara legal, chamando-o pelo nome, e ele fica danado. Eles que vão para o diabo. — É, Pete. — Repetiu de novo, só para sentir o gostinho. — Deu o maior rolo, uma hora atrás. Parece que o cachorro do Hawkins entrou no galinheiro do Tarado e matou uma das galinhas dele.

— Oh, não!

— Vão dar-lhe a cabeça do bicho, pode ter certeza. Foster berrava:

— Quero outra galinha, e quero cobrar os danos. O monstro matou uma das minhas filhas. Quero que seja acusado de assassinato.

— Mas, Coronel — dizia Grey, já no limite de sua paciência — foi uma galinha, não uma criança. Não se pode acusar de...

— Minhas galinhas são minhas filhas, idiota! Galinha, criança, que diferença faz? Hawkins é um assassino sujo. Um assassino, está me ouvindo"!

— Olhe, Coronel — disse Grey, iradamente. — Hawkins não lhe pode dar outra galinha. Já disse que sente muito. O cão se soltou da correia e...

— Quero uma corte marcial. Hawkins, o assassino, e sua fera, uma assassina. — A boca do Coronel Foster espumava. — Aquela maldita fera matou e comeu minha galinha. Comeu-a, e agora só restam penas de uma das minhas filhas.

Rosnando, lançou-se subitalmente sobre Hawkins, mãos estendidas, dedos como garras, arranhando o cão nos braços de Hawkins, e berrando:

— Mato você e sua fera maldita!

Hawkins desviou-se de Foster e empurrou-o. O Coronel caiu ao chio, e Rover ganiu de medo.

— Já pedi desculpas — falou Hawkins, corri voz abafada. — Se tivesse dinheiro, daria com prazer duas, dez galinhas para você, mas não posso! Grey — Hawkins virou-se desesperadamente para ele — pelo amor de Deus, faça alguma coisa!

— Mas que diabo posso fazer? — Grey estava cansado, com raiva e com disenteria. — Sabe que não posso fazer nada. Terei que relatar o que houve. Mas é melhor livrar-se desse cachorro.

— O que quer dizer?

— Santo Deus — falou Grey, furioso — quero dizer livre-se dele. Mate-o. Se não puder, arranje alguém para fazê-lo. Mas, por Deus, não quero esse cão aqui no campo quando escurecer.

— É o meu cão. Não pode mandar que...

— Não posso, porra nenhuma! — Grey tentou controlar os músculos do estômago. Gostava de Hawkins, sempre gostara, mas isso agora nada significava. — Conhece as regras. Foi avisado de que deveria mantê-lo na correia, e longe desta zona. Rover matou e comeu a galinha. Há testemunhas do fato.

O Coronel Foster levantou-se do chão, os olhos sinistros e vidrados.

— Vou matá-lo — sibilava. — Tenho o direito de matá-lo. Olho por olho. Grey postou-se diante de Foster, que se preparava para novo ataque.

— Coronel Foster. Esse assunto será devidamente relatado. O Capitão Hawkins já recebeu ordens para destruir o cão...

Foster não parecia escutar o que Grey dizia.

— Quero aquela fera. Vou matá-la. Como matou minha galinha. É minha. Vou matá-la. — Começou a se arrastar para diante, salivando. — Como ela matou minha filha.

Grey estendeu a mão espalmada.

— Não! Hawkins vai destruir o animal.

— Coronel Foster — dizia Hawkins, abjetamente. — Suplico-lhe, por favor, por favor, aceite minhas desculpas. Deixe-me ficar com o cachorro, isso nunca mais vai acontecer.

— Não vai mesmo. — O Coronel Foster ria feito louco. — Está morto, e é meu. — Arremessou-se para frente, mas Hawkins se afastou, e Grey agarrou o braço do Coronel.

— Pare com isso — berrou Grey — ou mando prendê-lo! Isso não é maneira de um oficial superior se portar. Afaste-se de Hawkins. Afaste-se.

Foster soltou-se de Grey. A voz dele mal passava de um murmúrio, enquanto falava diretamente para riawkins.

— Vou ajustar contas com você, assassino. Vou ajustar contas com você. — Voltou para seu galinheiro, para seu lar, o lugar onde morava e dormia e comia com as filhas, as galinhas. Grey virou-se para Hawkins.

— Lamento, Hawkins, mas tem que se livrar dele.

— Grey — implorava Hawkins — por favor, revogue a ordem. Por favor, eu lhe suplico. Farei qualquer coisa, qualquer coisa.

— Não posso. — Grey não tinha alternativa. — Sabe que não posso, Hawkins, meu velho. Não posso. Livre-se dele. E depressa.

Girou nos calcanhares e afastou-se.

O rosto de Hawkins estava molhado de lágrimas, com o cão aninhado nos braços. Foi então que viu Peter Marlowe.

— Peter, ajude-me, pelo amor de Deus.

— Não posso. Lamento, mas não há nada que eu, ou qualquer um possa fazer.

Desolado, Hawkins olhou à sua volta, para os homens silenciosos. Chorava abertamente, agora. Os homens se afastaram, pois nada havia que pudesse ser feito. Se um homem tivesse morto uma galinha, bem, seria quase a mesma coisa, talvez a mesma coisa. Um momento doloroso, depois Hawkins fugiu soluçando, com Rover ainda nos braços.

— Pobre coitado — comentou Peter Marlowe com Max.

— É, mas graças a Deus não foi uma das galinhas do Rei. Puxa, eu estaria frito. — Max trancou o galinheiro e fez um aceno de cabeça para Peter Marlowe, ao partir.

Max gostava de cuidar das galinhas. Nada como um ovinho extra, de quando em vez. E não há risco quando a gente suga o ovo rapidamente e esmigalha a casca e a coloca junto com a comida das galinhas. Não há pistas, desse modo. E as cascas fazem bem às galinhas. E que diabo, o que é um ovo uma vez ou outra, surripiado do Rei? Contanto que haja ao menos um por dia para o Rei, não dá galho. Porra, não dá! Max estava realmente feliz. Durante uma semana inteirinha ia cuidar das galinhas.

Mais tarde, depois do almoço, Peter Marlowe estava descansando no seu beliche.

— Com licença, senhor.

Peter Marlowe ergueu os olhos e deparou com Dino, de pé ao lado do beliche.

— Sim? — Correu os olhos pela choça e sentiu uma pontada de embaraço.

— Hã, posso falar-lhe, senhor? — O "senhor" soava impertinente, como de costume. Por que será que os americanos não podem dizer "senhor" para que soe normal? — pensou Peter Marlowe. Levantou-se e saiu com Dino. Acompanhou-o até o centro da pequena clareira entre as choças.

— Ouça, Pete — falou Dino, com urgência. — O Rei quer vê-lo. E disse que trouxesse Mac e Larkin.

— O que aconteceu?

— Apenas falou que os trouxesse. Devem encontrar-se com ele dentro da cadeia, na Cela Cinqüenta e Quatro, no quarto andar, dentro de meia hora.

Não era permitida a entrada de oficiais na cadeia. Ordens japonesas, que a polícia do campo fazia cumprir. Deus. Que coisa arriscada.

— Foi só isso que disse?

— É, foi só. Cela Cinqüenta e Quatro, quarto andar, em meia hora. Até logo. Pete.

Mas o que estará acontecendo, perguntava-se Peter Marlowe. Apressou-se a ir contar a Larkin e Mac.

— O que acha, Mac?

— Bem, meu rapaz — disse Mac, cautelosamente — não creio que o Rei nos mandasse chamar, aos três, sem uma explicação, a não ser que fosse importante.

— E essa história de entrar na cadeia?

— Se formos apanhados — disse Larkin — é melhor termos uma desculpa preparada. Grey com certeza vai saber e desconfiar que tem coisa fedendo. O melhor a fazer é irmos em separado. Posso dizer que vou visitar alguns australianos aquartelados na cadeia. E quanto a você, Mac?

— Tem gente do Regimento Malaio ali. Podia estar visitando um deles. E você, Peter?

— Há uns rapazes da RAF que eu poderia ir visitar. — Peter Marlowe hesitou. — Talvez eu devesse ir na frente, para ver o que é, e depois voltar para lhes contar.

— Não. Mesmo que não o vejam entrando, poderão apanhá-lo e detê-lo na saída. Jamais o deixariam entrar de novo. Você não poderia desobedecer uma ordem direta e entrar pela segunda vez. Não, acho melhor irmos todos. Mas independentemente. — Larkin sorriu. — Um mistério, hem? O que será?

— Torço para que não seja encrenca.

— Ah, meu rapaz — falou Mac. — Viver atualmente já é encrenca. Não me sentiria seguro se não fosse... o Rei tem amigos nas altas esferas. Talvez saiba de alguma coisa.

— E quanto aos cantis?

Pensaram por um momento, depois Larkin rompeu o silêncio.

— Nós os levaremos conosco.

— Não e' perigoso? Quero dizer, se estivermos dentro da cadeia, se houver uma revista de surpresa, jamais conseguiremos escondê-los.

— Se tivermos que ser apanhados, seremos apanhados. — Larkin ficou sério, cara fechada. — Ou está nas cartas, ou não está.

— Ei, Peter — chamou Ewart, ao ver Peter Marlowe sair da choça. — Esqueceu a braçadeira.

— Ah, obrigado. — Peter Marlowe praguejou baixinho, enquanto voltava para o beliche. — Esqueci dessa droga.

— Sempre me esqueço, também. Mas é preciso ter cuidado.

— Isso mesmo. Obrigado, mais uma vez.

Peter Marlowe reuniu-se aos homens que caminhavam pela trilha ao lado do muro. Andou para o norte, e virou a esquina e deparou com o portão, à sua frente. Tirou a braçadeira e sentiu-se subitamente nu, e sentiu que os homens que passavam ou se aproximavam estavam olhando para ele e se perguntando por que esse oficial não estava de braçadeira. Uns 200 metros à frente a estrada oeste terminava. A barricada agora achava-se aberta, para alguns destacamentos de trabalho que voltavam do seu labor diário. A maioria dos trabalhadores estava exausta, puxando as imensas carretas cheias dos troncos de árvores que eram arrancados com tanto esforço dos pantanais, destinados às cozinhas do campo. Peter Marlowe lembrou-se de que, daí a dois dias, faria parte de um daqueles destacamentos. Não se incomodava com os destacamentos de trabalho quase diários no campo de pouso. Aquilo era fácil. Já o trabalho com madeira era outra história. Arrancar as toras era serviço perigoso. Muitos se rompiam internamente pela falta do equipamento que facilitaria a tarefa. Muitos quebravam membros, ou torciam tornozelos. Todos tinham que ir — os que estavam sadios, uma ou duas vezes por semana, tanto os oficiais quanto os soldados, pois as cozinhas consumiam muita lenha — e era justo que aqueles que estavam sadios apanhassem a lenha para os que não estavam.

Ao lado do portão encontrava-se o PM, e do lado oposto do portão, o guarda coreano apoiava-se no muro, fumando e observando com letargia os homens que passavam. O PM olhava para o pessoal que se vinha arrastando, de volta do trabalho. Havia um homem deitado na carreta. Um ou dois geralmente acabavam desse jeito, mas tinham que estar muito cansados, ou muito doentes, para serem rebocados de volta a Changi.

Peter Marlowe passou pelos guardas distraídos e se misturou aos homens que circulavam pela imensa praça de concreto.

Conseguiu entrar num dos blocos de celas, e começou a abrir caminho pelas escadarias de metal, passando por cima de camas e esteiras. Havia homens por toda a parte. Nas escadas, nos corredores e nas celas abertas... quatro ou cinco numa cela projetada para um homem. Sentiu o horror crescente da pressão vinda de cima, debaixo, de todos os lados. O fedor era nauseante. Fedor de corpos apodrecidos. Fedor de corpos humanos sem banho. Fedor de uma geração de corpos humanos confinados. Fedor de muros, muros de prisão.

Peter Marlowe achou a Cela Cinqüenta e Quatro. A porta estava fechada, mas ele a abriu e entrou. Mac e Larkin já se achavam lá.

— Porra, mas o cheiro deste lugar está-me matando.

— A mim, também, meu camarada — disse Larkin. Estava suando. Mac também suava. O ar mostrava-se pesado, e as paredes de concreto encontravam-se úmidas daquele suor e manchadas de mofo.

A cela media uns dois metros de largura por dois e meio de comprimento e três de altura. No centro da cela, cimentada a uma das paredes, ficava uma cama — um bloco sólido de concreto de 90 centímetros de altura e 90 centímetros de largura e um metro e oitenta de comprimento. Um travesseiro de concreto se sobressaía da cama. Num dos cantos da cela ficava o banheiro... um buraco no chão que se ligava aos esgotos. Estes já não mais funcionavam. Havia uma minúscula janela com grades a 2,70m do chão, numa das paredes, mas não dava para se ver o céu, porque a parede tinha 60 centímetros de espessura.

— Mac. Vamos dar-lhes alguns minutos, depois vamo-nos mandar desse lugar dos infernos.

— É, sim, meu rapaz.

— Pelo menos vamos abrir a porta — falou Peter Marlowe, com o suor escorrendo pelo corpo.

— É melhor deixá-la fechada, Peter. É mais seguro — retrucou Larkin, inquieto.

— Preferia estar morto do que viver aqui.

— É. Graças a Deus estamos do lado de fora.

— Ei, Larkin. — Mac mostrou as cobertas largadas sobre a cama de concreto. — Não sei onde estão os homens que vivem nesta cela. Não podem estar todos num destacamento de trabalho.

— Também não sei. — Larkin estava ficando nervoso. — Vamos sair daqui...

A porta se abriu e o Rei entrou, com um largo sorriso de prazer.

— Oi, caras! — Trazia alguns embrulhos nos braços, e afastou-se para o lado para Tex poder entrar, também carregado. — Ponha tudo na cama, Tex.

O rapaz botou a chapa quente elétrica e a panela grande sobre a cama, fechando a porta com um chute, enquanto os outros olhavam, atônitos.

— Vá buscar um pouco de água — disse o Rei para Tex.

— Certo.

— O que esta acontecendo? Por que nos queria ver? — indagou Larkin.

— Vamos fazer uma comidinha — disse o Rei, dando uma risada.

— Mas pelo amor de Deus! Quer dizer que nos trouxe para cá só para isso? Que diabo, por que não podíamos cozinhar no nosso alojamento? — Larkin estava furioso. O Rei simplesmente olhou para ele e abriu um sorriso. Virou-se de costas e desfez um embrulho. Tex voltou com a água e botou a panela no fogareiro elétrico.

— Rajá, olhe, o que... — Peter Marlowe se interrompeu.

O Rei estava colocando quase um quilo de feijões de katchang idju na água. A seguir, acrescentou sal e duas colheres cheias de açúcar. Depois, virou-se e abriu outro pacote envolto em folhas de bananeira e levantou-o.

— Santa Mie de Deus!

Fez-se um silêncio aparvalhado na cela.

O Rei ficou radiante com o efeito de sua surpresa.

— Não lhe disse, Tex — falou, sorridente. — Você me deve um dólar. Mac estendeu a mão e tocou na carne.

— 'Mahlu. É de verdade. Larkin tocou na carne.

— Já tinha esquecido como era a carne — falou, numa voz cheia de assombro. — Puta merda, mas você é um gênio. Gênio.

— É o meu aniversário. Portanto, achei que deveríamos comemorar. E tenho isto aqui — falou o Rei, levantando alto uma garrafa.

— O que é?

— Saque.

— Não acredito — dizia Mac. — Ora, tem um traseiro inteiro de porco aí. — Inclinou-se para frente e farejou-o. — Meu Deus, é de verdade, de verdade, e fresco como um dia de maio, hurra!

Todos acharam graça.

— É melhor trancar a porta, Tex. — O Rei virou-se para Peter Marlowe. — Tudo bem, sócio?

Peter Marlowe ainda fitava a carne.

— Que diabo, onde a arranjou?

— Uma longa história! — O Rei pegou uma faca e cortou a carne, depois partiu habilmente o traseiro em duas partes, e colocou-as na panela. Todos olhavam fascinados, enquanto ele acrescentava sal, em seguida colocava a panela no centro exato do fogareiro, e depois sentava-se na cama de concreto e cruzava as pernas. — Nada mau, hem?

Durante longo tempo, ninguém falou.

Uma mexida súbita no trinco da porta quebrou o encanto. O Rei fez sinal para Tex, que destrancou a porta, abriu-a um pouco, depois escancarou-a. Brough entrou.

Olhou à sua volta, espantado. Então, notou o fogareiro. Foi até lá e espiou para dentro da panela.

— Puta merda!

— É meu aniversário. — O Rei abriu um sorriso. — Pensei em convidá-lo para jantar.

— Já tem o seu convidado. — Brough estendeu a mão para Larkin. — Don Brough, Coronel.

— Grant é meu nome de batismo! Conhece Mac e Peter?

— Claro. — Brough sorriu para eles, e virou-se para Tex. — Oi, Tex!

— Prazer em vê-lo, Don. O Rei indicou a cama.

— Sente-se, Don. Depois, temos que trabalhar!

Peter Marlowe se perguntou por que seria que os soldados e oficiais americanos se chamavam pelos nomes de batismo com tanta naturalidade. Não soava vulgar ou pedante (parecia quase correto) e já notara que Brough era sempre obedecido como seu líder, embora todos o chamassem de Don... abertamente. Notável.

— Que história é essa de trabalhar? — indagou Brough. O Rei pegou algumas tiras de cobertas.

— Vamos ter que vedar a porta.

— Como! — exclamou Larkin, incrédulo.

— Claro — explicou o Rei. — Quando isso aí começar a cozinhar, somos capazes de ter que enfrentar um motim. Se os caras começarem a sentir esse cheiro, pela madrugada, dá para imaginar o que poderá acontecer. Poderão fazer-nos em pedaços. Este foi o único lugar que achei para cozinharmos em particular. O cheiro vai sair quase todo pela janela. Isto é, se vedarmos a porta. Não poderíamos cozinhar lá fora, de jeito nenhum.

— Larkin estava certo — disse Mac, solenemente. — Você é um gênio, eu nunca teria pensado nisso. Creia-me — acrescentou, rindo — de agora em diante, os americanos incluem-se entre os meus amigos.

— Obrigado, Mac. Agora, é melhor metermos mão à obra.

Os convidados do Rei pegaram as tiras das cobertas e as enfiaram nas fendas à volta da porta, e cobriram a vigia gradeada na porta. Quando terminaram, o Rei inspecionou seu trabalho.

— Bom — falou. — Agora, e quanto à janela?

Ergueram os olhos para o pedacinho gradeado de céu, e Brough sugeriu:

— Vamos deixá-la aberta até o ensopado começar a ferver de verdade. Depois, vamos cobri-la e agüentar o quanto pudermos. Depois, podemos abri-Ia por algum tempo. — Olhou ao seu redor. — Imagino que não faça mal deixar o perfume sair esporadicamente. Como um sinal de fumaça dos índios.

— Está ventando?

— Macacos me mordam se percebi. Alguém percebeu?

— Ei, Peter, ajude-me a subir, rapaz — pediu Mac.

Mac era o menor dos homens, portanto Peter Marlowe deixou que ficasse de pé nos seus ombros. Mac espiou por entre as grades, depois lambeu o dedo e esticou-o para fora.

— Ande logo, Mac, pelo amor de Deus... você não é nenhum franguinho, sabe! — exclamou Peter Marlowe.

— Tenho que testar se tem vento, seu filhote da mãe! — Mais uma vez lambeu o dedo e estendeu-o para fora, e parecia tão concentrado e ridículo que Peter Marlowe começou a rir, e Larkin juntou-se a ele, ambos dobrando-se de rir, e Mac desabou de 1,80m de altura, raspando a perna na cama de concreto, e começou a xingar.

— Olhem só para minha perna, seus amaldiçoados! — exclamou Mac, sufocando. Era só um arranhãozinho, mas havia um filete de sangue. — Porra, quase arranquei fora a pele toda.

— Olhe, Peter — gemeu Larkin, segurando a barriga. — Mac tem sangue. Sempre pensei que só tivesse látex nas veias!

— Vão à merda, seus filhos da mie, 'mahlu! — falou Mac, irascível, e então foi tomado por um acesso de riso, levantou-se, agarrou Peter Marlowe e Larkin, e começou a cantar uma cantiga de roda.

E Peter Marlowe pegou Brough pelo braço, e Brough pegou Tex, e a cadeia de homens, cantando histericamente, fazia roda em volta do panelão, e do Rei, sentado atrás dele, de pernas cruzadas.

Mac abriu a roda.

— Ave, César. Nós que vamos comer vos saudámos.

Todos juntos, eles o saudaram, depois desabaram no chão, uns por cima dos outros.

— Saia de cima do meu braço, Peter, porra!

— Está com o pé nos meus colhões, seu sacana — disse Larkin para Brough.

— Desculpe, Grant. Ó, meu Deus! Há anos que não rio tanto.

— Ei, Rajá — falou Peter Marlowe — acho que todos deveríamos dar uma mexidinha, pra dar sorte.

— À vontade — falou o Rei. Fazia bem ao seu coração ver aqueles sujeitos tão felizes.

Solenemente, fizeram fila, e Peter Marlowe mexeu a mistura, que agora estava ficando quente. Mac pegou a colher e deu uma mexida, ao mesmo tempo que mimoseava a comida com uma bênção obscena. Larkin, não querendo ficar para trás, começou a mexer, dizendo:

— Ferve, ferve, ferve e borbulha...

— Está maluco? — falou Brough. — Pela madrugada, citando Macbethl

— O que é que tem?

— Dá azar. Citar Macbeth. É como assobiar num vestiário de teatro

— É?

— Qualquer idiota sabe disso!

— Ora vejam! Nunca soube disso antes. — Larkin franziu o cenho.

— De qualquer modo, citou-o erradamente — continuou Brough. — É "Dupla, dupla labuta e bulha; Fogo arde e caldeirão borbulha!"

— Ah, não é mesmo, ianque. Conheço o meu Shakespeare!

— Aposto com você o meu arroz de amanhã.

— Cuidado, Coronel — disse Mac, desconfiado, conhecendo a tendência de Larkin para jogar. — Homem algum apostaria isso assim tão fácil.

— Tudo bem, Mac — disse Larkin, mas não gostou do ar de satisfação na cara do americano. — O que o faz ter tanta certeza de que tem razão?

— Está valendo a aposta? — perguntou Brough.

Larkin pensou um momento. Gostava de um aposta... mas o arroz do dia seguinte era uma parada alta demais.

— Não. Aposto a minha ração de arroz numa mesa de jogo, mas de jeito nenhum vou arriscá-la com Shakespeare.

— Que pena — disse Brough. — Ia ser uma boa a ração extra. É do Quarto Ato, Cena Um, linha dez.

— Porra, como pode ser tão preciso?

— Não é vantagem — falou Brough. — Estava-me formando em letras na USC, com destaque para o jornalismo e a dramaturgia. Vou ser escritor quando sair daqui.

Mac debruçou-se para a frente e olhou para dentro da panela.

— Eu o invejo, meu rapaz. Escrever pode ser a tarefa mais importante do mundo. Se for feita direito.

— Quanta besteira, Mac — disse Peter Marlowe. — Há um milhão de coisas mais importantes.

— Isso só prova que você não está sabendo de nada.

— Os negócios são muito mais importantes — interrompeu o Rei. — Sem os negócios, o mundo pararia... e sem dinheiro e uma economia estável não haveria ninguém para comprar livros.

— Para o diabo os negócios e a economia — disse Brough. — São apenas coisas materiais. É como o Mac diz.

— Mac — falou Peter Marlowe. — O que torna o escrever tão importante?

— Bem, meu rapaz, primeiro é uma coisa que sempre quis fazer e não consigo. Tentei muitas vezes, mas nunca consegui terminar nada. Esta é a parte mais importante... terminar. Mas o mais importante de tudo é que os escritores são as únicas pessoas que podem fazer algo por este Planeta. Um homem de negócios não pode fazer nada...

— Não pode, uma merda — disse o Rei. — E quanto ao Rockefeller? E Morgan, Ford e du Pont? E todos os outros? É a filantropia deles que financia um bocado de pesquisas, bibliotecas, hospitais e arte. Ora, sem a grana deles...

— Mas ganharam o dinheiro deles à custa de alguém retrucou Brough, vivamente. — Bem que podiam devolver um bocado dos seus milhões aos homens que o ganharam para eles. Esses sanguessugas...

— Suponho que você é um democrata, não é? — perguntou o Rei, acaloradamente.

— Pode apostar que sou, meu chapa. Olhe só para o Roosevelt. Veja o que está fazendo pelo país. Levantou-o do chão, quando os malditos republicanos...

— Isso é papo furado, e você sabe. Não teve nada a ver com os republicanos. Foi um ciclo econômico...

— Os ciclos econômicos que vão à merda. Os republicanos...

— Ei, caras — disse Larkin, suavemente. — Nada de política antes da refeição, está bem?

— Bem, vá lá — disse Brough, de cara fechada — mas esse cara é maluco.

— Mac, por que é tão importante? Ainda não entendi.

— Bem. Um escritor pode botar no papel uma idéia... ou um ponto de vista. Se ele for bom, pode balançar as pessoas, mesmo que tenha escrito num pedaço de papel higiênico. E ele é o único na nossa economia moderna que pode fazê-lo... que pode modificar o mundo. Um homem de negócios não pode... sem uma quantia substancial. Um político não pode... sem posição ou poder substanciais. Um agricultor não pode, é claro. Um contador não pode, certo, Larkin?

— Certo.

— Mas você está falando de propaganda — disse Brough. — Não quero escrever propaganda.

— Já escreveu para o cinema, Don? — perguntou o Rei.

— Nunca vendi nada para ninguém. Um cara só é escritor depois de vender alguma coisa. Mas os filmes são importantes pra burro. Sabe que Lenine disse que os filmes eram o mais importante meio de propaganda já inventado? — Viu o Rei preparando o ataque. — E não sou comuna, seu filho da puta, só porque sou democrata. — Virou-se para Mac. — Porra, se você lê Lenine, Stalin ou Trotsky é logo chamado de comunista.

— Bem, Don, tem que admitir que muitos democratas são cor-de-rosa — disse o Rei.

— E desde quando ser pró-russos significa que um cara é comunista? São nossos aliados, sabia?

— Lamento isso... de uma forma histórica — comentou Mac.

— Porquê?

— Vamos ter muitos problemas, mais tarde. Especialmente no Oriente. Essa turma já estava criando muita encrenca, mesmo antes da guerra.

— A televisão é que vai ser a atração do futuro — falou Peter Marlowe, espiando um fio de vapor dançar na superfície do ensopado. — Sabe, vi uma demonstração do Palácio Alexandra, em Londres. Baird está transmitindo um programa, uma vez por semana.

— Ouvi falar da televisão — disse Brough. — Mas nunca vi nenhuma.

— Nem eu, mas podia dar um negócio e tanto — concordou o Rei.

— Não nos Estados Unidos, pode apostar — resmungou Brough. — Pense nas distâncias! Ora, pode servir para um desses paisezinhos, como a Inglaterra, mas não para um país de verdade, como os Estados Unidos.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Peter Marlowe, enrijecendo o corpo.

— Quero dizer que, se não fosse pela gente, essa guerra ia continuar indefinidamente. Ora, é o nosso dinheiro, as nossas armas, o nosso poderio...

— Escute aqui, meu velho, saimo-nos muito bem sozinhos... dando aos sacanas como vocês tempo para levantarem a bunda da cadeira. A guerra é sua tanto quanto nossa. — Peter Marlowe olhou com cara feia para Brough, que devolveu o olhar, do mesmo modo.

— É, porra nenhuma! Que merda, por que vocês europeus não podem matar-se uns aos outros como vêm fazendo há séculos, sem nos envolver? Já tivemos que salvar sua pele antes...

E não demorou muito para que todos estivessem discutindo e se xingando, e nenhum escutava o outro, cada um tendo sua própria opinião e só ela estando certa.

O Rei sacudia o punho furiosamente para Brough, que fazia o mesmo, e Peter Marlowe gritava com Mac, quando de repente bateram violentamente à porta.

Silêncio imediato.

— Mas que merda de barulheira é essa? — perguntou uma voz.

— É você, Griffiths?

— Quem estava pensando que fosse, o safado do Adolf Hitler? Quer botar a gente em cana, ou coisa parecida?

— Não. Desculpe.

— Parem com essa merda de barulho!

— Quem é esse cara? — indagou Mac.

— Griffiths. É o dono da cela.

— O quê?

— Claro. Aluguei-a por cinco horas. Três pratas por hora. Não se arranja nada de graça.

— Alugou a cela? — repetiu Larkin, incrédulo.

— Isso mesmo. Este Griffiths é um negociante esperto — explicou o Rei. — Há milhares de homens por aí, certo? Não há paz e quietude, certo? Bem, esse inglês aluga a cela para qualquer um que deseje ficar sozinho. Não é bem a minha idéia de um santuário, mas Griffiths tem um negócio rendoso.

— Aposto que a idéia não foi dele — comentou Brough.

— Capitão, não sei contar mentira. — O Rei sorriu. — Devo confessar que a idéia foi minha. Mas Griffiths ganha o bastante para manter-se, e à sua unidade, muito direitinho.

— Qual é a sua comissão?

— Só dez por cento.

— Se é só dez por cento, é justo — admitiu Brough.

— É — disse o Rei. Jamais mentiria para Brough, não que fosse da conta dele o que quer que fizesse. Brough inclinou-se e mexeu o ensopado.

— Ei, pessoal, está fervendo.

Todos se acercaram da panela. Estava mesmo fervendo.

— É melhor darmos um jeito na janela. Esse troço vai começar a cheirar num minutinho.

Colocaram uma coberta sobre a janela gradeada, e logo a cela estava que era só perfume.

Mac, Larkin e Tex agacharam-se junto à parede, olhos fitos na panela. Peter Marlowe sentou-se no outro lado da cama, e como era o que estava mais perto, de vez em quando mexia a comida.

A água fervia brandamente, fazendo com que os feijõezinhos delicados subissem à superfície, depois cascateassem de volta às profundezas do líquido. Um jato de vapor veio à tona, trazendo consigo o odor substancioso da carne. O Rei inclinou-se e lançou dentro da panela um punhado de ervas nativas, entre elas o açafrão, e cravo-da-índia e alho, e isso aumentou o perfume.

Quando o ensopado já fervia há 10 minutos, o Rei botou o mamão verde na panela.

— É uma loucura — falou. — Um sujeito podia fazer fortuna depois da guerra, se pudesse descobrir um jeito de desidratar o mamão. Esse troço amoleceria carne de búfalo!

— Os malaios sempre o usaram — respondeu Mac, mas ninguém prestava atenção nele, nem ele mesmo, pois estavam todos envoltos no vapor-cheiroso-doce.

O suor escorria pelo peito, queixo, pernas e braços de todos. Porém, mal notavam o suor ou o abafamento. Sabiam apenas que aquilo não era um sonho, que a carne estava cozinhando... ali, diante de seus olhos, e que muito em breve iriam comê-la.

— Onde a conseguiu? — perguntou Peter Marlowe, sem realmente se importar. Precisava dizer alguma coisa para quebrar aquele encanto sufocante.

— É o cachorro do Hawkins — respondeu o Rei, sem pensar em nada, exceto meu Deus como cheira bem, oh como cheira bem!

— O cachorro do Hawkins?

— Está falando do Rover?

— O cachorro dele?

— Pensei que era um porquinho!

— O cachorro do Hawkins?

— Puta que o pariu!

— Quer dizer que este é o traseiro do Rover? — perguntou Peter Marlowe, estupefato.

— Claro — disse o Rei. Agora que o segredo escapara, não se incomodava mais. — Ia contar-lhes depois, mas que diabo! Agora já sabem.

Entreolharam-se todos, apalermados. E então, Peter Marlowe exclamou:

— Mãe de Deus! O cachorro do Hawkins!

— Escutem — disse o Rei, razoavelmente. — Que diferença faz? Ele era o cachorro mais limpinho e comível que já conheci. Muito mais limpo do que qualquer porco. Ou galinha, também. Carne é carne. É muito simples.

Mac disse petulantemente:

— Isso mesmo. Não há nada de mal em comer carne de cachorro. Os chineses vivem comendo. Uma iguaria. Sem dúvida.

— É — disse Brough, seminauseado. — Mas não somos chineses e este é o cachorro do Hawkins!

— Sinto-me como um canibal — disse Peter Marlowe.

— Olhe — disse o Rei. — É como o Mac falou. Não há nada errado com o cachorro. Sintam só o cheiro, pela madrugada!

— Sintam o cheiro! — disse Larkin, pelos demais. Era difícil falar, a saliva quase o sufocava. — Não sinto o cheiro de mais nada, a não ser daquele ensopado, e é o melhor cheiro que já senti, e estou-me lixando se é o Rover ou não, quero comer. — Esfregou a barriga, quase dolorosamente. — Não sei de vocês, seus filhos da mãe, mas estou com tanta fome que sinto cãibra. O que este cheiro está fazendo ao meu metabolismo não é comum.

— Também estou passando mal. E não tem nada a ver com o fato de a carne ser de cachorro — disse Peter Marlowe. A seguir acrescentou, quase num queixume: — Só que não quero comer o Rover. — Fitou Mac. — Como vamos olhar na cara do Hawkins, depois?

— Não sei, meu rapaz. Viro a cara para o outro lado. É, acho que não ia poder olhar na cara dele. — As narinas de Mac tremeram, e ele olhou para o ensopado. — Como isso está cheirando bem!

— Claro — disse o Rei, serenamente — quem não quiser comer, pode ir embora.

Ninguém se mexeu. A seguir, todos se recostaram, imersos nos seus pensamentos. Escutando o borbulhar. Aspirando a fragrância. Que coisa magnífica.

— Não é chocante, quando se pára para pensar — falou Larkin, mais para persuadir-se do que aos outros. — Vejam como nos afeiçoamos às nossas galinhas. Não nos importamos de comê-las... ou aos seus ovos.

— É verdade, meu rapaz — disse Mac. — E lembra-se daquele gato que pegamos e comemos. Não nos importamos, não foi, Peter?

— Não, mas aquele era um gato vadio. Este é o Rover!

— Era! Agora é só carne.

— Foram vocês que pegaram o gato? — perguntou Brough, sem conseguir controlar a raiva. — Aquele de seis meses atrás?

— N5o. Esse foi em Java.

— Ah — disse Brough. Nesse momento, aconteceu de ele olhar para o Rei. — Devia ter adivinhado! — explodiu. — Seu filho da mãe. E nós o procuramos adoidado por quatro horas.

— Não fique chateado, Don. Nós o pegamos. Não deixou de ser uma vitória americana.

— Os meus australianos estão perdendo a bossa — comentou Larkin. O Rei levantou a colher, e a mão tremia ao provar a comida.

— O gosto está bom. — Cutucou a carne. Ainda estava grudada aos ossos. — Vai demorar mais uma hora.

Mais dez minutos, e deu nova provada.

— Quem sabe um pouquinho mais de sal. O que acha, Peter? Peter Marlowe provou. Estava bom, ah, muito bom.

— Uma pitada, só uma pitada!

Todos provaram, um por um. Mais uma pitada de sal, um tiquinho de açúcar, um nadinha de açafrão. E acomodaram-se para esperar na estranha cela de tortura, quase asfixiados.

De tempos em tempos, tiravam a coberta da janela para deixar sair um pouco do perfume e entrar um arzinho fresco.

E do lado de fora de Changi, o perfume nadava na brisa. E dentro da cadeia, ao longo do corredor, fragmentos do perfume varavam a vedação da porta e impregnavam a atmosfera.

— Santo Deus, Smithy, está sentindo o cheiro?

— Claro que estou. Acha que não tenho nariz? De onde está vindo?

— Espere aí! Lá dos lados da cadeia, mais ou menos de lá!

— Aposto que aqueles amarelos sacanas estão cozinhando bem em frente da maldita cerca.

. — Isso mesmo. Sacanas.

— Não acho que sejam eles. Acho que o cheiro vem da cadeia.

— Ora essa, escutem só o Smithy. Olhem para ele, farejando que nem um diabo de um cachorro.

— Estou-lhe dizendo que o cheiro vem da cadeia.

— É só o vento, que está vindo daquela direção.

— Vento nunca cheirou assim antes. É carne cozinhando, estou-lhe dizendo. É carne de vaca. Aposto a minha vida. É ensopado de carne.

— Uma nova tortura japonesa. Filhos da mãe! Mas que sujeira!

— Quem sabe a gente está só imaginando. Dizem que se pode imaginar um cheiro.

— Mas que diabo, como podemos todos estar imaginando? Olhe para os homens, todos eles pararam.

— Quem disse?

— O quê?

— Você falou: "Dizem que se pode imaginar um cheiro." Quem disse?

— Ó, meu Deus, Smithy, é só um ditado.

— Mas quem foi que disse?

— Porra, como vou saber?

— Então pare de falar "dizem isso" ou "dizem aquilo". Dá para deixar um cara doido.

Os homens na cela, os escolhidos do Rei, ficaram olhando enquanto ele servia uma porção numa vasilha e a passava a Larkin. Seus olhos deixaram o prato e voltaram para a concha e depois foram para Mac e voltaram para a concha e depois para Brough e para a concha e depois para Tex e para a concha e depois para Peter Marlowe e para a concha e depois para a porção do Rei. E quando todos estavam servidos, atacaram a comida, e sobrara o bastante para pelo menos mais duas porções para cada homem.

Era uma agonia comer tão bem.

Os feijões tinham-se desfeito e agora quase se tornavam parte da espessa sopa. O mamão tinha amolecido a carne e feito com que se soltasse dos ossos, e a carne se desfazia em grandes pedaços, de cor castanho-escuro, devido às ervas, ao mamão e aos feijões. O ensopado tinha a consistência de um verdadeiro ensopado, um ensopado irlandês, com pontinhos de óleo cor de mel salpicando a superfície das suas vasilhas.

O Rei ergueu os olhos do prato, seco e limpo. Fez sinal para Larkin. Este passou sua vasilha, e em silêncio cada um deles aceitou um repeteco, que logo desapareceu. E depois a última porção.

Finalmente, o Rei largou o prato de lado.

— Puta que o pariu.

— Uma perfeição! — exclamou Larkin.

— Soberbo — disse Peter Marlowe. — Já não sabia mais mastigar. Estou com dor nos maxilares.

Mac raspou com cuidado o último feijão e arrotou. Foi um arroto fantástico.

— Nem lhes conto, rapazes, já comi umas lautas refeições na vida, desde carne assada no Simpson's de Piccadilly até rijsttafel no Hotel des Indes, em Java, e nada, nem uma só refeição, já se comparou a esta. Nunca.

— Concordo — disse Larkin, ajeitando-se mais confortavelmente. — Até no melhor restaurante de Sydney, onde os bifes são maravilhosos... não, nunca saboreei nada assim.

O Rei arrotou e distribuiu pelos presentes um maço de Kooas. A seguir, abriu a garrafa de saque e tomou um longo gole. A bebida era grosseira e forte, mas tirou o gosto de tempero de sua boca.

— Tome — falou, passando-a a Peter Marlowe. Todos beberam e todos fumaram.

— Ei, Tex, que tal um pouco de café? — bocejou o Rei.

— É melhor a gente esperar alguns minutos antes de abrir a porta — disse Brough, pouco se importando que a porta fosse aberta ou não, querendo apenas descansar em paz. — Ó, Deus, sinto-me tão bem!

— Estou tão cheio que acho que vou estourar — falou Peter Marlowe. — Sem dúvida alguma esta foi a melhor...

— Pelo amor de Deus, Peter. Todos já dissemos isso. Já sabemos.

— Bem, mas eu precisava dizer.

— Como foi que conseguiu isso? — perguntou Brough ao Rei, abafando um bocejo.

— Max me contou que o cão matara a galinha. Mandei o Dino ir procurar o Hawkins, que deu o cachorro para ele. Conseguimos que Kurt o abatesse. A minha parte foi o traseiro.

— Por que Hawkins daria o animal para o Dino? — perguntou Peter Marlowe.

— Ele é veterinário.

— Ah, sei.

— É, uma ova — falou Brough. — É da Marinha Mercante. O Rei deu de ombros.

— Então, hoje era veterinário. Não crie caso!

— Tenho que lhe dar crédito. Puta que o pariu, tenho que lhe dar crédito.

— Obrigado, Don.

— Como... como foi que Kurt o matou? — perguntou Brough.

— Não perguntei.

— Fez muito bem, meu rapaz — disse Mac. — Que tal deixarmos o assunto de lado, hem?

— Boa idéia.

Peter Marlowe levantou-se e espreguiçou-se.

— E quanto aos ossos?

— A gente os leva disfarçadamente, quando sair.

— Que tal um joguinho de pôquer? — disse Larkin.

— Boa idéia — disse o Rei, animado. — Tex, prepare o café. Peter, faça uma arrumaçãozinha. Grant, cuide da porta. Don, que tal empilhar os pratos.

— Porra, e o que você vai fazer? — perguntou Brough, levantando-se pesadamente.

— Eu? — O Rei alçou as sobrancelhas. — Vou ficar sentado.

Brough olhou para ele. Todos olharam para ele. E então, Brough disse:

— Estou pensando em fazê-lo oficial... só para ter o prazer de lhe meter a mão.

— Aposto dois contra cinco — disse o Rei — que isso de nada lhe adiantaria.

Brough olhou para os outros, depois voltou a olhar para o Rei.

— Provavelmente está certo. Eu acabaria numa corte marcial. — Deu uma risada. — Mas não há regra que diga que não posso tomar sua grana.

Puxou uma nota de cinco dólares e fez sinal para o baralho nas mãos do Rei.

— A carta mais alta ganha!

O Rei abriu as cartas em leque.

— Escolha uma.

Brough mostrou uma dama, exultante. O Rei olhou para o baralho e tirou uma carta... um valete. Brough abriu um sorriso.

— O dobro ou nada.

— Don — disse o Rei, brandamente — desista enquanto está vencendo. — Escolheu outra carta e virou-a para cima. Um ás. — Podia tirar outro ás com a maior facilidade... é o meu baralho!

— Que diabo, então por que não me venceu de início? — perguntou Brough.

— O que é isso, Capitão, senhor. — O Rei se divertia à grande. — Seria indelicado tirar sua grana. Afinal, o senhor é o nosso intrépido líder.

— Vá à merda! — Brough começou a empilhar pratos e vasilhas. — Se não pode vencê-los, una-se a eles.

Naquela noite, enquanto a maior parte do campo dormia, Peter Marlowe jazia desperto sob seu mosquiteiro, sem querer dormir. Saiu do beliche e abriu caminho por entre o labirinto de mosquiteiros e foi lá para fora. Brough também estava acordado.

— Oi, Peter — chamou Brough, suavemente. — Venha sentar-se aqui. Também não está conseguindo dormir?

— Não estava querendo ainda, sinto-me muito bem. Acima deles, a noite era de veludo.

— Que noite maravilhosa.

— É.

— Você é casado?

— Não — retrucou Peter Marlowe.

— Tem sorte. Acho que não é tão ruim quando não se é casado. — Brough ficou calado por um minuto. — Fico maluco imaginando se ela ainda estará lá. Ou se estiver, o que estará fazendo agora?

— Nada. — Peter Marlowe deu a resposta automática, com N'ai nítida em seus pensamentos. — Não se preocupe. — Era como dizer "Pare de respirar."

— Não que eu a culpe, ou a qualquer outra mulher. Há tanto tempo que estamos longe, tanto tempo. Não é culpa dela.

Brough preparou um cigarro com mãos trêmulas, usando um pouco de chá seco e a guimba de um dos Kooas. Quando estava aceso, deu uma tragada profunda, depois passou-o a Peter Marlowe.

— Obrigado, Don. — Tirou uma baforada, depois devolveu o cigarro. Terminaram o cigarro em silêncio, atormentados pela saudade. Depois, Brough se levantou.

— Acho que agora vou-me deitar. Até qualquer hora, Peter.

— Boa-noite, Don.

Peter Marlowe voltou a olhar para o céu e deixou seus pensamentos ansiosos voarem para N'ai. E sabia que esta noite, como Brough, só havia uma coisa para ele fazer, caso contrário não dormiria nunca.

 

O Dia da Vitória na Europa chegou, e os homens de Changi ficaram eufóricos. Mas era apenas mais um dia, e não os tocou, de verdade. A comida era a mesma, o céu o mesmo, o calor o mesmo, a doença a mesma, as moscas as mesmas, o desgaste o mesmo. Grey ainda vigiava e esperava. O seu espião lhe avisara que em breve o diamante trocaria de mãos. Muito em breve. Peter Marlowe e o Rei esperavam esse dia com a mesma ansiedade. Só faltavam quatro dias.

O Dia do Nascimento chegou e Eva teve mais 12 filhotes. O código para Dia do Nascimento divertira à grande o Rei e seus associados. Grey ouvira falar no Dia N por intermédio do seu espião, e naquele dia cercara a choça deles e revistara todos os homens, à procura de relógios ou o que mais seria vendido no "Dia dos Negócios". Tira estúpido! O Rei não ficou perturbado pela constatação de que havia um espião na choça. A terceira ninhada já fora concebida.

Agora, havia 70 gaiolas sob a choça. Quatorze já estavam ocupadas. Breve, mais 12 estariam cheias.

Os homens solucionaram o problema dos nomes da maneira mais simples. Os machos receberam números pares, e as fêmeas números ímpares.

— Ouçam — falou o Rei — precisamos preparar mais gaiolas.

Estavam na choça, tendo uma reunião de diretoria. A noite estava fresca e agradável. Uma Lua pálida era tocada pelas nuvens.

— Estamos estourados — falou Tex. — Não há mais tela sobrando em canto algum. A única coisa que podemos fazer é pedir ajuda aos australianos.

— Se fizermos isso — falou Max, devagar — podemos logo entregar todo o negócio nas mãos daqueles filhos da mãe.

Todo o esforço de guerra da choça americana estava concentrado no ouro vivo que rapidamente explodia sob seus pés. Uma equipe de quatro homens já transformara as valas numa rede de passagens. Agora, tinham espaço de sobra para as gaiolas, mas não tinham tela para construí-las. Estavam desesperada-mente necessitados de telas; mais outro Dia N se aproximava, e logo depois dele mais outro Dia N, e depois mais outro.

— Se você conseguisse arranjar cerca de uma dúzia de caras em quem pudesse confiar, podia dar-lhes um casal de ratos e deixar que tivessem suas próprias criações — disse Peter Marlowe, pensativo. — Nós seríamos apenas os criadores do gado.

— Não adianta, Peter, jamais conseguiríamos manter o negócio em sigilo. O Rei preparou um cigarro e lembrou-se de que os negócios não estavam andando bem, recentemente, e que há uma semana inteira não fumava um cigarro comprado pronto.

— A única coisa a fazer — falou, depois de refletir por um momento — é botar o Timsen na sociedade.

— Aquele australiano nojento já não compete o bastante com á gente? — reclamou Max.

— Não temos alternativa — disse o Rei, encerrando o assunto. — Temos que ter as gaiolas... e ele é o único que teria o know-how... e o único em quem confio para ficar de boca fechada. Se a criação seguir de acordo com o plano, haverá grana bastante para todo o mundo. — Ergueu os olhos para Tex. — Vá buscar o Timsen.

Tex deu de ombros e saiu.

— Vamos lá, Peter — disse o Rei. — Vamos dar uma olhada lá embaixo. Seguiu na frente, e abriu o alçapão.

— Puta que o pariu! — exclamou, ao ver a extensão das escavações. — Se cavarmos mais, o raio da choça vai desabar, e então o que será de nós!

— Não se preocupe, chefe — disse Miller, com orgulho. Era o encarregado do destacamento de escavações. — Fiz um esquema que nos permite escavar só em volta das estacas de concreto. Já temos espaço para mil e quinhentas gaiolas, se pudermos arranjar a tela. Ah, e poderíamos duplicar o espaço, se tivéssemos madeira para escorar uns túneis. Fácil, fácil.

O Rei percorreu a trincheira principal, para inspecionar os animais. Adão percebeu sua chegada e arremessou-se ferozmente contra a tela, como se quisesse fazer o Rei em pedaços.

— Amistoso, não é? Miller abriu um sorriso.

— O filho da mãe o conhece de algum lugar.

— Talvez devêssemos dar uma paradinha na reprodução — sugeriu Peter Marlowe. — Até as gaiolas ficarem prontas.

— Timsen é a solução — disse o Rei. — Se alguém nos puder arranjar o material de que precisamos, será ele com seu bando de ladrões.

Voltaram para a choça e limparam a poeira do corpo. Depois de uma chuveirada, sentiram-se melhor.

— Oi, meu cupincha. — Timsen atravessou toda a extensão da choça e veio sentar-se. — Vocês ianques estão com medo de que lhes estourem os colhões, ou o quê? — Era alto e durão, e com olhos fundos.

— Do que está falando?

— Do jeito que vocês estão cavando trincheiras, dá para se imaginar que a merda da Força Aérea inteira está para cair em cima de Changi.

— Não faz mal ser cuidadoso. — O Rei se perguntou mais uma vez se deviam arriscar-se a incluir Timsen no negócio. — Não vai demorar muito para que ataquem Cingapura. E quando o fizerem, nós vamos estar nos subterrâneos.

— Jamais vão atacar Changi. Sabem que estamos aqui. Pelo menos os ingleses sabem. Claro que quando vocês ianques estão nos céus, nunca se pode saber onde, diabo, as bombas vão cair.

Levaram-no numa viagem de inspeção. E ele viu imediatamente a enormidade da organização e do plano.

— Meu Deus, camarada — disse Timsen, sem fôlego, quando estavam de volta à choça. — Tenho que cumprimentá-lo. Meu Deus. E a gente pensando que vocês só estavam com medo. Meu Deus, devem ter lugar para quinhentos ou seiscentos.

— Mil e quinhentos — interrompeu o Rei, displicentemente. — E no próximo Dia N vai ter...

— Dia N?

— Dia do Nascimento.

— Então isso é o que significa Dia N. — Timsen achou graça. — Passamos semanas tentando adivinhar essa. Puta que o pariu. — Riu com gosto. — Vocês são mesmo uns gênios.

— Tenho que admitir que a idéia foi minha. — O Rei tentou não deixar o orgulho transparecer, mas não conseguiu. Afinal de contas, a idéia fora mesmo dele. — No próximo Dia N estamos esperando pelo menos noventa filhotes. No seguinte, cerca de uns trezentos.

As sobrancelhas de Timsen quase encostaram no começo dos cabelos.

— Vou dizer-lhe o que estamos pensando em fazer. — O Rei fez uma pausa, repassando a oferta. — Você nos arranja o material para fazermos mais mil gaiolas. Limitaremos nosso estoque completo em mil... só o melhor. Você bota o produto no mercado e rachamos meio a meio. Num negócio dessa envergadura, vai haver o bastante para todos.

— Quando começamos a vender? — perguntou Timsen, imediatamente. Mesmo assim, a despeito das enormes possibilidades, sentia-se deprimido.

— Vamos dar-lhes dez patas traseiras dentro de uma semana. Usaremos os machos primeiro, e reservaremos as fêmeas. Achamos que só devemos aproveitar as patas traseiras. Aumentaremos o número gradativamente.

— Por que só dez para começar?

— Se entramos logo no mercado com mais, a turma vai desconfiar. Temos que ir com calma.

Timsen pensou durante um momento.

— Tem certeza de que... hã... a carne vai ser... legal?

Agora que havia assumido o compromisso do fornecimento, o próprio Rei estava com nojo. Mas, que diabo, carne é carne, e negócio é negócio.

— Estamos apenas oferecendo carne. Rusa tikus. Timsen meneou a cabeça, lábios comprimidos.

— Não me agrada a idéia de vendê-las aos meus australianos — falou, enjoado. — Puta que o pariu. Não me parece direito. Puta que o pariu, não. Não que eu... bem... não me parece nada direito. Não para o meu pessoal.

Peter Marlowe concordou, sentindo-se igualmente nauseado.

— Nem para os nossos rapazes.

Os três se entreolharam. É, disse o Rei consigo mesmo, não parece nada direito. Mas nós temos que sobreviver. E... de repente, fez-se ã luz em sua cabeça. Empalideceu, e disse tensamente:

— Vá... chamar... os... outros. Tive uma idéia genial.

Os americanos foram rapidamente reunidos. Tensos, observavam o Rei. Este achava-se mais calmo, porém ainda não abrira a boca. Apenas fumava, parecendo ignorar a presença deles. Peter Marlowe e Timsen se entreolharam, perturbados. O Rei se pôs de pé, e a eletricidade aumentou. Apagou o cigarro.

— Homens — começou, e sua voz estava débil, estranhamente exausta. — Faltam quatro dias para o Dia N. Esperamos — consultou o gráfico escrito na parede de folhas — aumentar nossa criação para um pouco acima de cem. Fiz um trato com nosso amigo e associado, Timsen. Ele vai fornecer o material para mil gaiolas; portanto, quando chegar a hora de desmamar as ninhadas, o problema de alojamento já estará resolvido. Ele e seu grupo vão botar a produção no mercado. Nós vamos apenas nos concentrar em reproduzir os melhores espécimes. — Parou, e olhou com firmeza para cada homem. — Homens. De hoje a uma semana começam as vendas.

Agora que a data aterradora estava marcada, todos ficaram assustados.

— Acha mesmo que devemos? — perguntou Max, apreensivo.

— Espere um minuto, sim, Max?

— Essa história de vendas — disse Byron Jones III, mexendo no seu tapa-olho. — A idéia me dá...

— Puta que o pariu, querem esperar um pouco! — exclamou o Rei, impaciente. — Homens. — Todos se inclinaram para frente enquanto o Rei, quase extenuado, falou no mais baixo dos sussurros: — Vamos apenas vender para os oficiais! Para as Autoridades! De Major para cima!

— Ó, meu Deus! — murmurou Timsen.

— Meu Jesus Santíssimo! — disse Max.

— O quê! — exclamou Peter Marlowe, apalermado. O Rei se sentia como um deus.

— É, oficiais. São os únicos filhos da mãe que têm o dinheiro para comprar. Ao invés de comerciamos em massa, vamos transformá-los em artigos de luxo.

— E os sacanas que têm o dinheiro para comprar são aqueles que a gente gostaria de ver comendo a carne! — disse Peter Marlowe.

— Mas que grã-fino safado você é! — exclamou Timsen, embasbacado. — Genial. Ora, eu daria o meu braço direito para ver três filhos da mãe comendo carne de rato, e depois poder contar-lhes...

— Conheço dois — disse Peter Marlowe — a quem de bom grado daria a carne ao invés de vendê-la. Mas se a gente der para os sacanas... ora, são tão unhas-de-fome que vão desconfiar de algo podre!

Max levantou-se e gritou, abafando as risadas.

— Escutem, caras. Escutem. Só um minuto. — Virou-se para o Rei. — Sabe, nem sempre, bem... — Estava tão emocionado que tinha dificuldade em falar. — Nem sempre estive do seu lado. Não há mal nisso. O país é livre. Mas esta... esta é uma idéia tão... tão... que, bem... — Estirou a mão, solenemente.

— Gostaria de apertar a mão do homem que bolou esta idéia! Acho que todos deveríamos apertar a mão de um verdadeiro gênio. Falando por todos os soldados do mundo... estou orgulhoso de você. O Rei!

Max e o Rei trocaram um aperto de mão.

Tex oscilava exuberantemente de um lado para o outro.

— Sellars, Prouty e Grey... ele está na lista...

— Este não tem dinheiro — disse o Rei.

— Que diabo, a gente dá um pouco para ele — falou Max.

— Não podemos fazer isso. Grey não é nenhum idiota. Iria desconfiar -disse Peter Marlowe.

— E quanto ao Thorsen... aquele filho da mãe...

— Nenhum oficial ianque. Bem — falou o Rei, delicadamente — quem sabe um ou dois.

Os vivas foram logo abafados.

— E quanto aos australianos?

— Deixe comigo, camarada — falou Timsen. — Já pensei em três dúzias de fregueses.

— E quanto aos ingleses? — perguntou Max.

— Todos podemos escolher alguns. — O Rei sentiu-se imenso, poderoso e eufórico. — Que sorte que os sacanas que têm a grana, ou os meios de conseguir a grana, sejam aqueles que a gente quer que comam e depois saibam o que comeram — falou.

Pouco antes do toque de apagar as luzes, Max entrou depressa pelo vão da porta sem porta, e murmurou para o Rei:

— Há um guarda vindo para cá.

— Quem é?

— Shagata.

— Está bem — disse o Rei, tentando manter a voz inalterada. — Verifique se todos os vigias estão em posição.

— Certo. — Max afastou-se rapidamente. O Rei falou bem junto de Peter Marlowe.

— Quem sabe houve algum furo — disse, nervoso. — Vamos, é melhor nos prepararmos.

Saiu pela janela, certificando-se de que o toldo de lona estava em posição. E então, ele e Peter Marlowe sentaram-se sob o toldo para esperar.

Shagata enfiou a cabeça sob o toldo, e quando reconheceu o Rei, veio juntar-se a eles. Apoiou o fuzil contra a parede e ofereceu um pacote de Kooas.

— Tabe — cumprimentou.

— Tabe — replicou Peter Marlowe.

— Oi — falou o Rei. A mão dele tremia, ao pegar o cigarro.

— Tendes algo para me vender, esta noite? — perguntou Shagata, com voz sibilante.

— Está perguntado se tem alguma coisa para lhe vender, hoje.

— Diga que não!

— Meu amigo está aborrecido por não ter nada para tentar um homem de bom gosto, esta noite.

— Será que seu amigo teria um tal artigo, digamos em três dias?

O Rei deu um suspiro de alívio, quando Peter Marlowe fez a tradução.

— Diga que sim. E que ele fez bem em verificar.

— Meu amigo diz que é provável que nesse dia tenha algo para tentar um homem de bom gosto. E meu amigo acrescenta que acha que negociar com um homem tão cauteloso é um bom presságio para a conclusão satisfatória da referida transação.

— Sempre é aconselhável, quando os assuntos precisam ser tratados na desolação da noite. — Shagata-san inspirou fundo. — Se eu não chegar dentro de três noites, espere cada noite por mim. Um amigo mútuo insinuou que talvez não consiga cumprir sua parte com absoluta precisão. Mas estou certo de que será de hoje a três noites.

Shagata levantou-se e deu um maço de cigarros para o Rei. Uma ligeira reverência, e a escuridão voltou a envolvê-lo.

Peter Marlowe contou ao Rei o que Shagata acabara de dizer, e o Rei abriu um sorriso.

— Ótimo. Ótimo mesmo. Quer dar uma passadinha aqui amanhã cedo? Podemos discutir os planos.

— Tenho que trabalhar no campo de pouso, amanhã.

— Quer que arranje alguém para ir no seu lugar? Peter Marlowe riu e fez que não com a cabeça.

— É melhor mesmo você ir — falou o Rei. — Para o caso do Cheng San querer fazer contato.

— Acha que tem alguma coisa errada?

— Não. Shagata fez bem em verificar. Eu teria feito o mesmo. Tudo está seguindo de acordo com o planejado. Mais uma semana e o negócio estará fechado.

— Espero que sim. — Peter Marlowe pensou na aldeia, e rezou para que o negócio desse certo. Queria desesperadamente voltar lá de novo, e se voltasse, sabia que teria que possuir Sulina