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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CILADA / Harlan Coben
CILADA / Harlan Coben

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CILADA

 

EU SABIA QUE MINHA VIDA SERIA destruída se abrisse aquela porta vermelha.

Isso pode parecer melodramático e de mau agouro. Não sou lá muito chegado a nada disso. Além do mais, verdade seja dita: não havia nada de ameaçador naquela porta. Ela era absolutamente comum, dessas que a gente vê em quase todas as casas dos bairros de classe média, com a pintura já meio desbotada, quatro almofadas de madeira, maçaneta imitando bronze e, mais ou menos à altura do peito, uma aldrava sem qualquer utilidade.

No entanto, enquanto eu caminhava em direção a ela sob a luz débil de um poste distante, a escuridão parecia se abrir como uma boca prestes a me devorar inteiro. Era impossível afastar a sensação de perigo iminente. Cada passo me custava certo esforço, como se eu estivesse pisando não em uma calçada já um tanto gasta, mas em cimento fresco. O corpo dava todos os avisos: frio na espinha, pelos eriçados nos braços, arrepio na nuca e no couro cabeludo.

As luzes da casa estavam apagadas. Chynna havia me avisado que estariam. A casa em si era das mais comuns, talvez discreta demais, e por algum motivo isso me incomodava. Ficava isolada no fim de uma rua sem saída, misturando-se à escuridão como se quisesse manter os intrusos a distância.

Aquilo não me agradava.

Nada daquilo me agradava, mas o que eu podia fazer? Eu sou assim. Recebi a ligação de Chynna pouco depois do jogo de basquete dos Newark Biddy. Sou o técnico do time formado por alunos do quarto ano que, assim como eu, são órfãos de pai e mãe. Apesar da vantagem de seis pontos, conseguimos perder a partida a dois minutos do final. Nas quadras, como na vida, não nos saímos muito bem sob pressão.

O telefone tocou quando eu me reunia com a garotada para a preleção pós-jogo, que de modo geral consiste em mensagens profundas e inspiradoras do tipo “Belo trabalho!”, “No próximo a gente vai à forra” ou “Não esqueçam que quinta-feira tem mais” e que sempre terminam com todos os garotos formando um círculo, juntando as mãos no centro e gritando: “Defesa!”, talvez porque não tenhamos nenhuma.

– Dan?

– Quem é?

– É Chynna. Venha para cá, por favor.

Percebendo a agitação na voz dela, despachei os garotos e corri para o carro. Nem banho havia tido tempo de tomar e agora o suor do jogo se misturava ao de nervosismo.

Reduzi o ritmo das passadas e perguntei a meus botões onde é que eu estava com a cabeça. Para início de conversa, deveria ter tomado uma ducha. Não funciono direito quando me sinto sujo. Sempre fui assim. Mas Chynna havia pedido, mais do que isso, implorado que eu fosse rápido, antes que os outros chegassem. Portanto, segui caminhando rumo à porta, a camisa de malha cinza marcada pela transpiração e grudando no peito.

Como a maioria dos jovens com os quais trabalho, Chynna era uma garota problemática. Talvez por isso meu alarme interno tivesse disparado. Eu não havia gostado nem um pouco do tom de sua voz ao telefone, achara aquilo tudo muito estranho.

Respirei fundo e dei uma rápida conferida na retaguarda. Alguns sinais de vida surgiam ao longe: lâmpadas acesas nas casas, uma porta de garagem aberta, a cintilação de uma tela de TV ou de computador – mas naquela rua sem saída não havia nada, nenhum ruído ou movimento, apenas o silêncio da noite.

Meu celular vibrou e quase morri de susto. Deduzi que fosse Chynna, mas não, era Jenna, minha ex-mulher. Atendi e ela disse:

– Preciso de um favorzinho, pode ser?

– Estou meio ocupado agora – falei.

– Preciso de um baby-sitter amanhã à noite, só isso. Pode trazer a Shelly se quiser.

– Shelly e eu… bem, nós estamos com alguns problemas.

– De novo? Mas ela é perfeita para você!

– Esse é o problema. Eu sempre estrago tudo quando a mulher é perfeita.

– Disso eu já sabia.

Faz oito anos que Jenna, minha adorável ex, se casou de novo. O marido dela é um respeitado médico, Noel Wheeler, que trabalha como voluntário no meu centro de assistência a adolescentes. Gosto dele e ele gosta de mim. Ele tem uma filha de um casamento anterior, além de Kari, a menina de 6 anos que teve com Jenna e que é minha afilhada. As duas garotas me chamam de tio Dan e sou o baby-sitter oficial da família.

Sei que tudo isso pode parecer civilizado demais, Pollyanna demais, e talvez seja mesmo. De minha parte, talvez isso seja apenas uma questão de necessidade. Não tenho ninguém no mundo – nem pais, nem irmãos. Portanto, o mais próximo que tenho de uma família é minha ex-mulher. A garotada com a qual trabalho, ajudando e defendendo como posso, é o alicerce da minha vida, mas, no fim das contas, nem sei ao certo se minha ajuda faz mesmo alguma diferença.

– Terra chamando Dan – disse Jenna.

– Amanhã à noite – falei. – Pode contar comigo.

– Às seis e meia. Você é o máximo.

Jenna jogou um beijo do outro lado da linha e desligou. Encarando o celular por um instante, me lembrei do dia do nosso casamento. Casar foi um erro. É sempre um erro me aproximar demais das pessoas, mas, mesmo sabendo disso, não me contenho. Ponham um violino ao fundo, porque agora vou filosofar sobre o provérbio que diz que é melhor perder quem se ama do que nunca ter amado. Acho que isso não se aplica a mim. Repetir sempre os mesmos erros, ainda que tenhamos consciência deles, está no DNA de todos nós. Portanto aqui estou eu, o pobre órfão que conseguiu subir na vida, se formar com louvor em uma universidade de elite, mas que nem por isso conseguiu deixar de ser quem é. É uma pieguice, eu sei, mas quero ter alguém. Infelizmente esse não é meu destino. Sou um lobo solitário que não quer ficar sozinho.

“Somos o lixo da evolução, Dan…”

Aprendi isso com meu “pai” substituto favorito, um professor universitário que adorava um debate filosófico.

“Pense bem. Ao longo de toda a história da humanidade, os mais fortes e inteligentes fizeram o quê? Foram para a guerra. As coisas só mudaram no último século. Antes disso, mandávamos para as linhas de frente o que tínhamos de melhor. Quem ficava em casa fazendo filhos enquanto eles morriam nos campos de batalha? Os fracos, os doentes, os aleijados, os desonestos, os covardes… em suma, a escória. É dessa escória que nós viemos, Dan. Passamos séculos e séculos jogando fora o trigo e aproveitando o joio. Por isso eu digo: somos produto do lixo, todos nós – o excremento que restou depois de séculos de degradação genética.”

Ignorei a aldrava e bati de leve na porta, que rangeu e se abriu alguns centímetros. Não havia percebido que estava só encostada.

Também não gostei disso. Não gostei nada disso.

Quando garoto, eu via muitos filmes de terror, o que era estranho, porque os detestava. Odiava levar sustos, não suportava todo aquele sangue e, apesar disso, assistia aos filmes e adorava as protagonistas burrinhas e previsíveis. Pois agora as cenas se repetiam na minha cabeça, aquelas em que a tal mocinha burra bate à porta, a porta se abre lentamente e você grita: “Sai daí!”. Aí ela não sai e você não entende por que e, dois minutos depois, o assassino está triturando o cérebro dela.

Eu deveria cair fora imediatamente.

Era o que eu estava prestes a fazer, mas então pensei no telefonema de Chynna, nas palavras dela, na voz trêmula. Respirei fundo e enfiei a cabeça pela fresta.

Apenas escuridão.

Bem, chega de suspense barato

– Chynna? – arrisquei, minha voz ecoando pela casa.

Se eu estivesse certo, a sequência seria apenas silêncio, nenhuma resposta. Abri a porta mais um pouco, arrisquei um passo adiante e…

– Dan? Estou aqui nos fundos. Pode entrar.

A voz estava abafada, distante.

Mais uma vez, não gostei nada daquilo. Mas àquela altura não havia como voltar atrás. Recuar já havia me custado muito caro na vida. Minha hesitação sumiu de repente. Eu sabia o que precisava fazer.

Entrei no hall e fechei a porta.

Qualquer outra pessoa no meu lugar teria levado uma arma. Cheguei a pensar no assunto, mas não sou lá muito fã dessas coisas. De qualquer forma, era tarde demais para me arrepender. Não havia ninguém mais em casa, Chynna tinha dito. E caso houvesse, eu daria um jeito.

– Chynna?

– Me espere na saleta. Encontro você lá daqui a pouco.

A voz dela parecia… arredia.

Uma luz estava acesa no fim do corredor. Fui caminhando na direção dela. Agora havia ruídos. Parei para ouvir. Água. De um chuveiro, talvez.

– Chynna?

– Só mais um segundo. Estou trocando de roupa.

Fui até a saleta mal iluminada. Havia um interruptor com dimmer e pensei em aumentar a intensidade da luz, mas acabei desistindo. Logo meus olhos se adaptaram. O forro das paredes era de um material que mais parecia PVC que qualquer tipo de madeira. Havia dois quadros: imagens de palhaços tristes com flores enormes na lapela, do tipo que se encontraria em um hotel de beira de estrada. Uma enorme garrafa de vodca barata estava aberta sobre o bar.

Pensei ter ouvido um sussurro.

– Chynna? – chamei.

Nenhuma resposta. Agucei os ouvidos. Nada.

Já ia voltar ao corredor, para o ponto onde ouvira o som de água, quando a voz disse:

– Já estou indo.

Senti um frio na espinha. A voz estava mais perto agora, eu podia ouvi-la melhor. E isto era o mais estranho: não soava nem um pouco como a de Chynna.

Então três coisas me atingiram. Primeiro, o pânico. Não era Chynna quem estava ali e o mais sensato seria bater logo em retirada. Depois, a curiosidade. Se não era Chynna, quem seria, afinal? E o que, diabos, estaria acontecendo? Por fim, mais pânico. A ligação havia sido de Chynna. O que teria acontecido a ela?

Eu não podia simplesmente sair correndo.

Dei um passo em direção à porta da saleta. E foi então que tudo aconteceu. Uma luz forte me cegou. Cambaleei para trás, tapando os olhos com a mão.

– Dan Mercer?

Pisquei. Uma voz feminina. Profissional. Séria e estranhamente familiar.

– Quem é você?

Subitamente outras pessoas entraram na sala. Um homem com uma câmera sobre o ombro. Outro com uma haste que parecia ter um microfone na ponta. E a mulher de voz familiar, cabelos castanhos e terninho. Linda.

– Wendy Tynes, NTC News. O que você veio fazer aqui, Dan?

Abri a boca para falar, mas nada saiu. Reconheci a apresentadora da tal rede de TV…

– Por que você tem mantido conversas on-line de cunho sexual com uma garota de 13 anos? Temos todos os registros dessas conversas.

… aquela que atraía pedófilos para uma armadilha e os flagrava diante das câmeras para que o mundo inteiro pudesse ver.

– Veio aqui para ter relações sexuais com uma garota de 13 anos?

Quando enfim me dei conta do que realmente estava acontecendo, senti os ossos congelarem. Mais pessoas irromperam na sala. Produtores, na certa. Um segundo cameraman. Dois policiais. As lentes chegaram mais perto. As luzes se intensificaram. Gotículas de suor brotavam em minha testa. Comecei a tremer, a negar.

Tarde demais.

Dois dias depois, o programa estava no ar. O mundo inteiro viu.

E a vida de Dan Mercer, exatamente como eu havia pressentido diante daquela porta vermelha, foi destruída.

 

Marcia McWaid não entrou em pânico quando viu a cama da filha vazia. Isso aconteceria depois.

Ela havia acordado às seis da manhã, cedo para um sábado, sentindo-se ótima. O marido, Ted, com quem estava casada fazia 20 anos, dormia de bruços a seu lado, o braço enlaçando sua cintura. Ted gostava de dormir apenas de camiseta, sem a calça do pijama ou qualquer outra peça de roupa, totalmente nu da cintura para baixo. “Meu amigo aqui precisa de espaço”, ele costumava dizer com um sorriso malicioso. E Marcia, imitando as filhas adolescentes, retrucava: “Nem me faaaaale!”

Marcia se desvencilhou do marido, desceu até a cozinha e preparou uma xícara de café com a nova máquina de espresso, dessas em que o pó vem em sachês. Ted adorava novidades tecnológicas (meninos e seus brinquedos), mas essa era de fato útil. Bastava pegar o sachê, encaixar na máquina e pronto: café. Nada de wireless, telas digitais ou touch pads. Marcia a adorara.

Haviam reformado a casa fazia pouco tempo: outro quarto, mais um banheiro e uma extensão da cozinha, um cantinho extra cercado por vidraças que deixavam o sol da manhã entrar sem nenhuma cerimônia. Esse agora era o lugar preferido de Marcia na casa. Foi para lá que ela levou seu café e o jornal. Acomodou-se junto a uma das janelas e cruzou os pés à sua frente.

Um pedacinho do paraíso.

Ela se deixou levar pela leitura regada a café. Dali a pouco precisaria come-çar a cumprir a agenda do dia. Às oito teria de levar Ryan, seu caçula, para o jogo de basquete dos alunos do terceiro ano. Ted era o técnico da equipe, que não vencia um jogo havia duas temporadas.

“Por que suas equipes nunca ganham?”, Marcia havia perguntado certa vez.

“Deve ser por causa dos meus dois critérios de seleção dos garotos.”

“Que são?…

“Pai gente boa… e mãe gostosa.”

Rindo, Marcia o cobrira de tapas. Teria até ficado preocupada, se já não conhecesse as mães em questão e tivesse certeza de que o marido estava brincando.

Na verdade, Ted era um excelente técnico, não por ser um bom estrategista, mas porque sabia lidar com os garotos. Todos o adoravam e ficavam felizes por ele não cobrar loucamente que vencessem, de modo que até mesmo os jogadores menos talentosos, os que geralmente perdiam a motivação e abandonavam o time no meio da temporada, compareciam religiosamente aos treinos semanais. Ted chegara a improvisar uma musiquinha: “Vocês dão à derrota uma ótima reputação.” Os garotos riam e vibravam a cada cesta marcada e, para uma criança de terceiro ano, era assim que devia ser.

Patricia, a filha de 14 anos do casal, teria de ir para o ensaio de uma peça, uma versão do musical Os miseráveis. Embora tivesse recebido apenas alguns papéis sem muito destaque, precisava ensaiar tanto quanto os colegas. E Haley, a filha mais velha, já no último ano do colégio, havia agendado um treino livre para a equipe feminina de lacrosse. “Treino livre” era a artimanha que usavam para burlar as rígidas normas dos esportes estudantis e se divertirem em uma partida organizada pelas capitãs de cada time, sem técnicos ou juízes.

Assim como a maioria dos pais e mães que moravam nos bairros mais nobres, Marcia tinha uma relação de amor e ódio com os esportes. Sabia que eles teriam relativamente pouca relevância a longo prazo, mas nem por isso conseguia refrear seu entusiasmo.

Uma meia horinha de paz para começar o dia. Era o que bastava.

Ela preparou uma segunda xícara de café e pegou o caderno “Estilo” do jornal. Percebendo o silêncio que ainda reinava na casa, voltou ao andar de cima para dar uma conferida em sua trupe. Ryan dormia de lado, virado para a porta, e mais uma vez ela se sentiu feliz por ver os traços de Ted no rosto do filho.

Em seguida foi até o quarto de Patricia, que também dormia ainda.

– Filha!… – chamou.

Patricia resmungou e se mexeu na cama. Seu quarto, assim como o de Ryan, dava a impressão de que alguém havia colocado dinamite nas gavetas: peças de roupa jaziam mortas no chão ou feridas a meio caminho dele, penduradas na cômoda feito combatentes das barricadas revolucionárias.

– Patricia, você tem ensaio daqui a uma hora.

– Já estou acordada – ela gemeu, numa voz que indicava o contrário.

Marcia passou ao quarto de Haley e, cuidando para não fazer barulho, espiou pela porta.

A cama estava vazia.

Também estava arrumada, mas isso não chegava a ser surpresa. Ao contrário dos quartos dos irmãos, o de Haley estava sempre em ordem, limpo e meticulosamente organizado. Poderia ser confundido com a vitrine de uma loja de móveis. Nenhuma roupa no chão, todas as gavetas fechadas. Os troféus – e havia muitos – alinhados com perfeição em quatro prateleiras. Ted havia acrescentado a última delas recentemente, após a vitória do time da filha no torneio de fim de ano em Franklin Lakes. Haley havia redistribuído todos os troféus, de modo que o mais recente não ficasse sozinho na prateleira nova. Marcia não sabia por quê. Parte do motivo era que Haley não queria dar a entender que esperava ganhar mais troféus para completar o espaço, mas a verdade era que a menina tinha horror a qualquer sintoma de desorganização. Gostava de manter a mesma distância entre cada troféu. Sempre que ganhava mais um, reorganizava todos. Haley era equilíbrio. Era a filha exemplar e, ainda que isso fosse bom – a garota tinha planos, estudava por iniciativa própria, detestava que os outros pensassem mal dela, era absurdamente competitiva –, seu comportamento tinha uma rigidez que beirava o TOC e preocupava a mãe.

Marcia se perguntou a que horas Haley havia chegado em casa. Não impunha mais horários à filha, simplesmente porque não havia necessidade. Haley era responsável, muito em breve iria para a universidade e jamais se aproveitava dos privilégios que tinha. Marcia estava cansada e fora dormir às 10 da noite. Ted, em seu constante estado de “cio”, subira logo depois.

Ela estava prestes a deixar o assunto de lado, quando algo, ela não sabia exatamente o quê, fez com que decidisse pôr roupa para bater na máquina. Foi em direção ao banheiro de Haley. Ryan e Patricia, os filhos mais novos, achavam que “cesto de roupa suja” não passava de um eufemismo para “chão”, ou melhor, para “qualquer outro lugar que não seja o cesto de roupa suja”. Mas Haley, é claro, obediente e religiosamente, todas as noites jogava no cesto do banheiro as roupas que havia usado durante o dia. Foi então que Marcia sentiu uma pequena pedra se formar no peito.

O cesto de Haley estava vazio.

Sentiu a pedra crescer quando examinou a escova de dentes, depois a pia e o boxe.

Tudo absolutamente seco.

Sentiu-a crescer um pouco mais quando chamou por Ted, tentando apagar da voz qualquer sinal de pânico. Mais ainda quando eles foram até o campo de lacrosse e descobriram que Haley não havia passado por lá. Mais ainda quando ela ligou para as amigas da filha enquanto Ted mandava e-mails a todos os conhecidos. Mais ainda quando eles ligaram para a polícia e foram obrigados a ouvir do delegado que Haley decerto havia saído de casa só para extravasar suas frustrações na rua. Mais ainda quando, 48 horas depois, o FBI foi chamado. Mais ainda quando uma semana inteira se passou sem que eles tivessem qualquer notícia da filha.

Era como se Haley tivesse sido tragada pela terra.

Um mês se passou. Nada. Depois dois. Nada também.

Já haviam se passado quase três meses quando enfim eles receberam a notícia – e a pedra que havia se formado no peito de Marcia, a pedra que não a deixava respirar ou dormir durante a noite, parou de crescer.

 

                 PARTE UM

                 Três meses depois

 

– JURA DIZER A VERDADE, TODA A VERDADE, nada mais que a verdade?

Wendy Tynes respondeu que sim, subiu ao banco das testemunhas e correu os olhos pela sala. Tinha a impressão de estar em um palco, algo com que ela até certo ponto estava acostumada, já que era repórter de um programa de televisão. Dessa vez, contudo, sentia-se um tanto incomodada. Avistou os pais das vítimas de Dan Mercer, quatro casais que haviam comparecido a todas as audiências. De início eles traziam fotografias dos filhos e as erguiam num gesto de protesto, mas a certa altura foram proibidos pela juíza de fazê-lo. Agora se achavam mudos, apenas observando, e de algum modo isso era ainda mais intimidante.

O banco era desconfortável. Wendy se acomodou melhor, cruzou e descruzou as pernas e esperou.

Flair Hickory, advogado de defesa e celebridade dos tribunais, ficou de pé. Como de costume, usava um terno cinza de listras rosa, camisa rosa e gravata da mesma cor. Atravessou a sala de um jeito que poderia sutilmente ser chamado de “teatral”, mas que na verdade lembrava um showman – se o showman fosse muitíssimo exibicionista. Wendy se perguntou, não pela primeira vez, de onde Dan Mercer teria tirado o dinheiro para pagar os honorários de Hickory.

– Sra. Tynes – ele começou, com um sorriso simpático. – Meu nome é Flair Hickory. Muito bom dia.

Esse era seu estilo. Sim, Flair era gay, mas nos tribunais ele gostava de exagerar nos trejeitos, praticamente um artista extravagante usando calça de couro e dublando Liza Minelli em um musical.

– Bom dia – respondeu ela.

– A senhora trabalha em um programa de TV sensacionalista chamado Flagrante, correto?

O promotor público, Lee Portnoi, objetou:

– Protesto! Não há evidências para corroborar a alegação de que o referido programa de TV seja “sensacionalista”.

Flair sorriu e disse:

– Quer que eu apresente as evidências, Sr. Portnoi?

– Não será necessário – interveio a juíza Lori Howard, já visivelmente aborrecida. Virando-se para Wendy, disse: – Pode responder à pergunta.

– Não trabalho mais no programa – disse Wendy.

Flair se fez de surpreso.

– Não? Mas trabalhava, não trabalhava?

– Sim, trabalhava.

– E o que aconteceu?

– O programa foi cancelado pela emissora.

– A audiência estava baixa, é isso?

– Não.

– Não mesmo? Então, por quê?

– Excelência – disse Portnoi –, todos nós sabemos por quê.

Lori Howard assentiu com a cabeça.

– Pode prosseguir, Sr. Hickory – ordenou.

– A senhora conhece Dan Mercer, meu cliente?

– Conheço.

– E invadiu a casa dele, correto?

Wendy tentou sustentar o olhar do advogado e não parecer culpada, fosse lá o que isso significasse.

– Não exatamente – disse.

– Não exatamente? Bem, querida, minha intenção é apenas zelar pela exatidão dos fatos, tanto quanto humanamente possível. Portanto, que tal recuarmos um pouco no tempo?

Flair caminhou pelo tribunal como se estivesse numa passarela de Milão. Chegou a sorrir para os parentes das vítimas. A maioria deles fez questão de desviar os olhos, mas um dos pais, Ed Grayson, o fulminou com o olhar. Flair não se intimidou.

– Como foi que a senhora conheceu meu cliente?

– Ele tentou me seduzir numa sala de bate-papo na internet.

As sobrancelhas de Flair se ergueram.

– Verdade? – ele exclamou, como se aquilo fosse a coisa mais extraordinária que alguém já tivesse dito. – Que espécie de sala de bate-papo?

– Uma sala frequentada por crianças.

– E a senhora estava nessa sala?

– Estava.

– Mas não é nenhuma criança, Sra. Tynes. Quer dizer, mesmo alguém com as minhas preferências é capaz de ver que a senhora é uma mulher adulta e, mais que isso, uma mulher, digamos, voluptuosa.

– Protesto!

A juíza exalou um suspiro.

– Sr. Hickory, por favor.

Flair sorriu e se desculpou com um aceno de cabeça. Esse era o tipo de coisa que ele, e mais ninguém, podia fazer sem grandes consequências.

– Pois bem, Sra. Tynes. Quando entrava nessa sala da internet, a senhora se fazia passar por uma moça menor de idade, correto?

– Sim.

– E começava conversas com o intuito de seduzir adultos do sexo masculino, isso também é correto?

– Não.

– Como assim?

– Eu sempre deixava que eles dessem o primeiro passo.

Flair sacudiu a cabeça enquanto deixava escapar um risinho de ironia.

– Ah, se eu tivesse ganhado um dólar cada vez que disse isso…

Risadas irromperam pelo tribunal.

– Temos as transcrições, Sr. Hickory – disse a juíza. – Podemos lê-las e chegar a uma conclusão por conta própria.

– Muito bem colocado, Excelência. Obrigado.

Wendy se perguntava por que Dan Mercer não estava presente, mas talvez o motivo fosse óbvio. Aquela era uma audiência preliminar, a presença do réu não era obrigatória. Flair Hickory esperava convencer a juíza a desconsiderar todo o material horrendo e nauseante que a polícia havia encontrado no computador de Dan Mercer e em diversos pontos da casa dele. Se conseguisse (e todos concordavam que as chances eram mínimas), o caso dificilmente seria levado a juízo e um psicopata permaneceria à solta.

– Por falar nisso… – Flair se virou na direção de Wendy. – Como a senhora sabia que era meu cliente, Dan Mercer, quem estava no outro lado dessas conversas on-line?

– De início eu não sabia.

– Ah, não? E com quem a senhora pensava estar conversando?

– Com ninguém em particular. Era assim que a coisa funcionava. No come-ço eu sabia apenas que se tratava de um adulto jogando sua isca na internet em busca de sexo com menores de idade.

– E como a senhora poderia saber uma coisa dessas?

– Desculpe, saber o quê?

– Como poderia saber que seu interlocutor estava fazendo isso? – Flair abriu aspas com os dedos. – “Jogando sua isca na internet em busca de sexo”, como a senhora acabou de dizer.

– Como Sua Excelência acabou de sugerir, Sr. Hickory, leia as transcrições.

– Já li, Sra. Tynes. E sabe a que conclusão cheguei?

A pergunta levou Portnoi a se pronunciar:

– Protesto, Meritíssima. Não nos interessam as conclusões do Sr. Hickory. Não é ele quem está dando seu testemunho.

– Protesto aceito.

Flair voltou à sua mesa e começou a examinar suas anotações. Wendy mais uma vez correu os olhos pela galeria. Sentiu-se mais confiante. Sabia que aquelas pessoas haviam passado por maus bocados e era seu dever ajudá-las a encontrar justiça. Por mais indiferente que quisesse ficar ou tentasse parecer, alegando que não fazia mais que seu trabalho, o bem que tinha feito significava muito para ela. Mas quando se deparou com o olhar de Ed Grayson, viu ali algo de que não gostou. Uma expressão de raiva, talvez de desafio.

Flair pôs seus papéis sobre a mesa.

– Bem, deixe-me reformular a pergunta, Sra. Tynes. Caso uma pessoa razoável lesse aquelas transcrições, poderia ela concluir, sem nenhuma sombra de dúvida, que uma das participantes da conversa transcrita era uma bela mulher de 36 anos, repórter de um programa de TV…

– Protesto!

– … ou que se tratava de uma garota de 13 anos?

Wendy abriu a boca para dizer algo, mas desistiu e esperou.

– Pode responder – disse a juíza.

– Eu estava me fazendo passar por uma garota de 13 anos.

– Ah – disse Flair. – Quem já não fez algo semelhante um dia na vida?

– Sr. Hickory! – advertiu a juíza.

– Desculpe, Meritíssima. Não resisti. Pois bem, Sra. Tynes. Caso estivesse apenas lendo aquela troca de mensagens, eu não poderia saber que a senhora estava se fazendo passar por outra pessoa, poderia? Acreditaria piamente se tratar de uma garota de 13 anos.

Lee Portnoi ergueu os braços e exclamou:

– Será que temos alguma pergunta em vista?

– Lá vai ela, meu bem, portanto escute. Aquelas mensagens foram escritas por uma garota de 13 anos?

– Pergunta já feita e já respondida, Excelência.

– Basta dizer “sim” ou “não”. A autora das tais mensagens era ou não uma garota de 13 anos?

A juíza acenou com o queixo para que Wendy respondesse.

– Não.

– Como já foi dito, a senhora estava se fazendo passar por uma garota de 13 anos, correto?

– Correto.

– E até onde a senhora podia saber, seu interlocutor era alguém que se fazia passar por um homem adulto em busca de sexo com menores de idade. Até onde a senhora podia saber, essa pessoa poderia ser uma freira albina com herpes, correto?

– Protesto!

Fitando Flair diretamente nos olhos, Wendy disse:

– Não foi uma freira albina com herpes quem foi até a casa daquela criança atrás de sexo.

Mas Flair a ignorou.

– De que casa a senhora estaria falando? Daquela em que a senhora plantou suas câmeras? Diga, alguma garota menor de idade morava lá?

Wendy permaneceu calada.

– Responda, por favor – disse a juíza.

– Não, não morava.

– Mas a senhora estava lá, não estava? É bem possível que quem estivesse do outro lado de suas conversas on-line, e a essa altura não podemos afirmar quem seria essa pessoa, mas é bem possível que ela já tivesse visto seu programa de notícias – ele pronunciou a palavra como se ela amargasse na boca – e resolvido compactuar com a encenação de modo que pudesse conhecer uma bela mulher de 36 anos, uma estrela da TV. Isso não seria possível?

Portnoi estava de pé.

– Protesto, Meritíssima. Cabe ao júri deliberar sobre essas conjecturas.

– É verdade – disse Flair. – Poderíamos também demonstrar aqui um caso óbvio de fraude.

Ele se virou para Wendy.

– Mas voltemos à noite de 17 de janeiro. O que aconteceu depois que a senhora confrontou meu cliente em sua arapuca?

Wendy esperou, em vão, que o promotor objetasse à palavra “arapuca”. A paciência do homem já devia ter se esgotado, ela deduziu. E respondeu:

– Seu cliente fugiu.

– Depois que a senhora o emboscou com câmeras, luzes e microfones?

Novamente ela esperou por uma objeção do promotor antes de responder:

– Sim.

– Diga-me, Sra. Tynes. É assim que a maioria dos homens que caem nas suas arapucas reage?

– Não. Quase sempre eles ficam onde estão e tentam se explicar.

– E a maioria desses homens é culpada?

– Sim.

– Todavia, meu cliente agiu de outra forma. Interessante.

Portnoi se levantou de novo.

– Talvez isso possa ser interessante para o Sr. Hickory. Mas para todos nós, essas tergiversações…

– Tudo bem, tudo bem – retrucou Flair, impassível. – Relaxe, promotor, não há júri nesta audiência. Porventura o senhor não confia na capacidade de nossa ilustre juíza para decidir por conta própria se estou ou não “tergiversando”?

Ele ajeitou uma das abotoaduras.

– Então, Sra. Tynes: as câmeras e luzes foram ligadas, a senhora irrompeu na sala com seu microfone e Dan Mercer fugiu. É esse o seu testemunho?

– Sim, é.

– O que a senhora fez em seguida?

– Disse a meus produtores que fossem atrás dele.

Flair novamente fingiu surpresa.

– Seus produtores são da polícia, Sra. Tynes?

– Não.

– E a senhora acha aceitável que cidadãos civis saiam por aí perseguindo suspeitos sem a ajuda de policiais?

– Havia um policial conosco.

– Ah, tenha dó – retrucou Hickory, carregando no ceticismo. – Esse seu programa é puro sensacionalismo. É a imprensa marrom na sua pior manif…

– Eu o conheço, Sr. Hickory – interrompeu Wendy, fazendo com que Flair pisasse no freio.

– A senhora me conhece?

– Eu era produtora-assistente de A Current Affair. Convidei o senhor como especialista quando Robert Blake foi julgado por assassinato.

Virando-se para a assistência, Flair se dobrou numa mesura e disse:

– Pois bem, senhoras e senhores, está provado que tenho um fraco pelos holofotes. Touché.

Outra onda de gargalhadas.

– Isso posto, o que a senhora estava dizendo? Que a polícia aprovava seu engodo jornalístico a ponto de colaborar com ele?

– Protesto!

– Protesto indeferido. Prossiga.

– Mas, Excelência…

– Indeferido, Sr. Portnoi. Sente-se.

Wendy enfim respondeu:

– Tínhamos uma relação com a polícia e com a Promotoria. Era importante para nós que tudo fosse feito dentro da lei.

– Entendo. Quer dizer então que a senhora atuava em parceria com os órgãos oficiais do Estado?

– Não exatamente.

– Se não tinha uma parceria com a polícia, posso concluir que a senhora armou tudo isso por conta própria, sem que ninguém nos órgãos oficiais do Estado tivesse qualquer conhecimento, correto?

– Não.

– Tudo bem. Então responda: a senhora entrou em contato com a polícia e com a Promotoria para alertá-los sobre meu cliente antes daquela noite de 17 de janeiro?

– Contatamos a Promotoria, sim.

– Ótimo. Muito obrigado. Agora, a senhora disse que instruiu seus produtores a perseguir Dan Mercer, correto?

– Não foi isso o que ela disse – interveio Portnoi. – Ela disse “ir atrás”.

Flair olhou para Portnoi como se jamais tivesse visto criatura mais maçante.

– Tudo bem, tudo bem, seja lá o que for: perseguir, ir atrás… Podemos discutir as diferenças em outra ocasião. Quando meu cliente fugiu, Sra. Tynes, para onde a senhora foi?

– Para a casa dele.

– Por quê?

– Achei que, cedo ou tarde, ele apareceria por lá.

– Então a senhora ficou esperando por Dan Mercer na residência dele, é isso?

– Sim.

– Ficou esperando onde? Do lado de fora?

Wendy se remexeu na cadeira. Era agora. Virou o rosto em direção às pessoas no tribunal. Avistou Ed Grayson e fixou os olhos nele. O filho de Grayson, de 9 anos, havia sido uma das primeiras vítimas de Dan Mercer. Ela ainda sentia o peso daquele olhar quando disse:

– Vi uma luz acesa.

– Na casa de Dan Mercer?

– Sim.

– Muito estranho – disse Flair, destilando sarcasmo. – Nunca, jamais, em toda a minha vida, soube de alguém que tivesse o hábito de deixar as luzes acesas quando não estava em casa.

– Protesto!

A juíza Howard suspirou e disse:

– Sr. Hickory…

Sem tirar os olhos de Wendy, Flair prosseguiu:

– Então o que a senhora fez?

– Bati à porta.

– Meu cliente respondeu?

– Não.

– Alguém respondeu?

– Não.

– E o que a senhora fez em seguida?

Wendy aprumou o corpo para dizer:

– Pensei ter tido a impressão de que havia algum movimento do outro lado da janela.

– A senhora pensou ter tido a impressão de que havia algum movimento – repetiu Flair. – Minha nossa, a senhora não poderia ser um pouquinho menos precisa?

– Protesto!

– Protesto indeferido. Prossiga, Sra. Tynes. O que foi que a senhora fez?

– Girei a maçaneta. A porta estava destrancada, então eu a abri.

– Abriu? E por que a senhora faria isso?

– Estava preocupada.

– Com quê?

– Há muitos casos em que os pedófilos fazem alguma besteira depois de serem pegos.

– Verdade? Então era essa a sua preocupação? Que sua armadilha talvez levasse meu cliente a tentar o suicídio?

– Mais ou menos isso, sim.

Flair levou a mão ao peito e disse:

– Muito comovente.

– Excelência! – exclamou Portnoi.

Flair novamente o ignorou.

– Sua intenção era salvar a vida do meu cliente, é isso?

– Se fosse o caso, sim, eu tentaria impedi-lo.

– No ar, em seu programa, a senhora costumava usar palavras como “pervertido”, “psicopata”, “depravado”, “monstro” e “lixo” para descrever aqueles que a senhora atraía para suas armadilhas, certo?

– Certo.

– No entanto, tal como disse há pouco, a senhora tentou invadir a casa do meu cliente, infringindo a lei, com a firme intenção de salvar a vida dele.

– Pode-se dizer que sim.

– Quanta nobreza… – disse Flair. A voz não só destilava sarcasmo como dava a impressão de ter ficado dias marinando nele.

– Protesto!

– Não se trata de nobreza – rebateu Wendy. – Prefiro que esses homens sejam levados à justiça para que as famílias possam ter um mínimo de consolo. O suicídio é fácil demais.

– Entendo. Mas o que aconteceu depois que a senhora invadiu a casa do meu cliente?

– Protesto! – disse Portnoi. – A Sra. Tynes disse que a porta estava destrancada…

– Tudo bem, entrou, invadiu, seja lá o que aprouver ao nobre promotor – disse Flair, as mãos fincadas nos quadris. – Mas basta de interrupções, por favor. O que aconteceu, Sra. Tynes, depois que a senhora entrou – novamente ele abusou da ênfase – na casa do meu cliente?

– Não aconteceu nada.

– Meu cliente não estava tentando se matar?

– Não.

– O que ele estava fazendo?

– Ele não estava lá.

– Havia outra pessoa em casa?

– Não.

– E o tal “movimento” que a senhora pensou ter visto?

– Não sei.

Flair meneou a cabeça e foi se afastando lentamente de Wendy.

– Segundo o testemunho que acabou de dar, a senhora foi de carro até a casa de Dan Mercer quase imediatamente após ele fugir e ser perseguido por seus produtores. Achou mesmo que meu cliente teria tido tempo suficiente para chegar em casa e tentar o suicídio?

– Com certeza ele conhecia um caminho mais rápido e, além disso, ele saiu um pouco antes de mim. Portanto, sim, achei que havia tempo suficiente.

– Sei. Mas a senhora se enganou, não?

– Sobre o quê?

– Meu cliente não foi direto para casa, foi?

– Não, não foi.

– Mesmo assim a senhora entrou na casa dele… antes que ele ou a polícia chegassem, correto?

– Apenas por um breve instante.

– Quanto tempo dura “um breve instante”?

– Não sei ao certo.

– Bem, a senhora teve de conferir todos os cômodos, não? Para ter certeza de que Dan Mercer não havia se enforcado com um cinto numa viga qualquer, correto?

– Conferi apenas o cômodo que estava com a luz acesa. A cozinha.

– Portanto teve de atravessar, pelo menos, a sala da casa. Diga, Sra. Tynes, o que a senhora fez depois de constatar que meu cliente não estava em casa?

– Voltei para fora e fiquei esperando.

– Esperando pelo quê?

– Pela polícia.

– E a polícia apareceu?

– Sim.

– E eles tinham um mandado de busca para entrar na casa do meu cliente?

– Tinham.

– E, por mais nobres que fossem suas intenções ao invadir a casa de Dan Mercer, naturalmente a senhora também se preocupava, por pouco que fosse, com o desfecho que sua armadilha teria, estou certo?

– Não.

– Desde aquele programa do dia 17, a senhora vem fazendo uma rigorosa pesquisa sobre o passado de Dan Mercer. Além do que foi encontrado pela polícia naquela noite, porventura a senhora descobriu alguma outra evidência irrefutável de atividades ilegais por parte do meu cliente?

– Ainda não.

– Tomarei isso por um “não” – disse Flair. – Em suma, na ausência das provas encontradas pela polícia durante aquela busca, não haveria nada que ligasse meu cliente a qualquer tipo de atividade ilegal, correto?

– Ele apareceu na casa naquela noite.

– Na falsa casa onde não residia nenhuma garota menor de idade. Portanto, Sra. Tynes, este caso e também sua, humm, reputação, se sustentam fundamentalmente sobre o material recolhido na casa do meu cliente. Sem ele, a senhora não teria nada. Indo direto ao ponto: a senhora tinha não só os meios como também um bom motivo para plantar aquele material. Tinha ou não tinha?

Lee Portnoi novamente ficou de pé.

– Excelência, isto é ridículo. Somente o júri pode concluir uma coisa dessas.

– A Sra. Tynes admitiu ter entrado ilegalmente na casa de Dan Mercer, sem um mandado – argumentou Flair.

– Nesse caso – disse Portnoi –, o senhor tem todo o direito de processá-la por invasão de domicílio, se acha que tem provas para tanto. Também tem todo o direito de apresentar suas teorias absurdas sobre freiras albinas e provas plantadas, mas para a deliberação de um júri, no devido curso legal. Então eu terei prazer em demonstrar a completa insensatez dessas teorias. Para isso existem processos e tribunais legalmente constituídos. A Sra. Tynes é uma cidadã civil e, portanto, não é investida de nenhuma autoridade oficial. A Excelentíssima juíza não pode simplesmente desconsiderar o computador e as fotos encontradas na residência de Dan Mercer. Esse material foi recolhido durante uma busca policial devidamente endossada por um mandado. Algumas dessas fotos, todas elas horrendas, se encontravam escondidas na garagem e numa estante de livros. A Sra. Tynes não teria como plantá-las ali nos poucos minutos que teve para entrar e sair da casa.

Flair sacudiu a cabeça.

– Os motivos alegados por Wendy Tynes para que invadisse aquela casa foram, no máximo, plausíveis. Uma luz acesa? Um movimento que pensou ter visto? Por favor. Além disso, tinha os meios e os motivos para plantar suas provas e sabia que a casa de Dan Mercer seria revistada muito em breve. Um estratagema vil. Qualquer evidência encontrada naquela casa deve ser desconsiderada.

– Wendy Tynes é uma cidadã civil.

– Mas nem por isso tem carta branca aqui. Ela poderia muito bem ter plan-tado aquele laptop e aquelas fotos.

– Um argumento que o senhor poderá apresentar ao júri.

– Meritíssima, o material encontrado é absurdamente tendencioso. Está claro que a Sra. Tynes, pelo próprio testemunho que deu, é muito mais que uma cidadã civil neste caso. Várias vezes perguntei sobre a relação dela com o gabinete da Promotoria e ela admitiu que era uma espécie de agente deles.

Dessa vez, Lee Portnoi só faltou soltar fumaça.

– Isto é ridículo, Excelência! Será que agora todo repórter que investiga um delito deve ser considerado agente da lei?

– Foi a própria Sra. Tynes quem afirmou ter um vínculo com seu gabinete, Sr. Portnoi. Se quiser, podemos pedir ao estenógrafo que leia o testemunho dela, sobretudo os trechos em que ela confirma a presença de um policial na cena e os contatos realizados com a Promotoria.

– Isso não faz dela uma agente nossa!

– Mera questão de semântica, o Sr. Portnoi sabe muito bem disso. Sem a ajuda de Wendy Tynes, a Promotoria não teria nenhum fundamento para mover uma ação contra meu cliente. Todos os crimes dos quais Dan Mercer está sendo acusado derivam unicamente da armadilha preparada pela Sra. Tynes. Sem o envolvimento dela, nenhum mandado de busca teria sido expedido.

Portnoi atravessou a sala.

– Excelência, a Sra. Tynes de fato trouxe o caso ao conhecimento da Promotoria, mas, se dermos crédito à argumentação da defesa, todas as testemunhas e todos os querelantes seriam considerados agentes da…

– Já ouvi o bastante – interrompeu a juíza. Bateu o martelo, ficou de pé e anunciou: – Minha sentença será dada amanhã de manhã.

 

– QUE FIASCO! – WENDY DISSE a Portnoi no corredor.

– A juíza não vai desconsiderar as provas.

Wendy não se deixou convencer.

– Acho até que foi relativamente bom – insistiu Portnoi.

– Como assim?

– O interesse público é grande demais para que as provas sejam descartadas – disse o promotor, apontando para o advogado de defesa. – A única coisa que Flair fez ali foi revelar qual será a estratégia dele no julgamento.

Mais adiante, Jenna Wheeler, ex-mulher de Dan Mercer, respondia às perguntas do repórter de uma emissora concorrente. Ainda que todas as evidências apontassem para a culpa de Mercer, Jenna o defendia com firmeza, alegando que tudo não passava de uma grande armação. Essa posição, que Wendy considerava ao mesmo tempo admirável e ingênua, a havia transformado em uma espécie de pária na cidade.

Alguns metros adiante, Flair Hickory confabulava com diversos jornalistas, que o adoravam, é claro. Wendy também costumava se deleitar quando cobria as defesas do extravagante advogado – no caso de Flair, “extravagante” talvez fosse pouco. Mas agora, vendo-o do outro lado do campo de batalha, se dava conta de que a extravagância andava lado a lado com a ferocidade.

– Flair Hickory não me parece o tipo de pessoa que dê ponto sem nó – ela disse preocupada.

Depois de arrancar gargalhadas de sua plateia, Flair distribuiu tapinhas nas costas de alguns e se afastou. Quando enfim ficou sozinho, Wendy se surpreendeu ao ver Ed Grayson se aproximar para falar com ele.

– Ih…

– O que foi?

Ela apontou o queixo para a dupla e Portnoi os avistou. Grayson, um homem corpulento e grisalho, de cabelos cortados rentes, ainda avançava na direção de Flair, já invadindo o espaço dele. Flair, no entanto, o encarava impassível.

Portnoi deu alguns passos na direção de ambos.

– Sr. Grayson?

Grayson já estava a poucos centímetros de Flair quando virou a cabeça em direção à voz que o havia chamado.

– Algum problema? – perguntou o promotor.

– Nenhum – disse Grayson.

– Sr. Hickory?

– Só estamos batendo um papinho amigável – disse Flair. – Nenhum problema.

Grayson cravou os olhos em Wendy. Ela, mais uma vez, não gostou do que viu.

– Bem, Sr. Grayson, se já tivermos terminado… – disse Hickory.

Grayson não respondeu. Hickory lhe deu as costas e saiu. Grayson se aproximou de Portnoi e Wendy.

– Posso ajudar em alguma coisa? – perguntou Portnoi.

– Não.

– Posso perguntar o que o senhor estava falando com Hickory?

– Perguntar, o senhor pode. – Grayson olhou para Wendy. – Acha que a juíza acreditou na sua história?

– Não era história – ela disse.

– Mas também não era a verdade, era?

Sem dizer mais nada, ele deu as costas para ambos e se afastou.

– O que, diabos, foi isso? – comentou Wendy.

– Não faço a menor ideia – disse Portnoi. – Mas não se preocupe com ele. Nem com Flair. Ele é muito bom, mas não vai levar a melhor desta vez. Vá pra casa, tome um drinque e relaxe, vai dar tudo certo.

Wendy não foi para casa. Foi para o estúdio de TV em Secaucus, em Nova Jersey, do outro lado do complexo esportivo de Meadowlands. A paisagem não era nada agradável: uma área pantanosa que parecia gemer sob o peso das incessantes construções. Wendy abriu seus e-mails e encontrou uma mensagem do chefe, o produtor executivo Vic Garrett. O texto, talvez o mais longo que Vic já tinha escrito num e-mail, dizia: ME PROCURE JÁ.

Eram três e meia da tarde. O filho dela, Charlie, que cursava o último ano na Kasselton High, já deveria estar em casa àquela altura. Wendy ligou para o celular dele, pois o garoto nunca atendia o fixo. Na quarta chamada, Charlie atendeu de seu modo habitual:

– Fala.

– Você está em casa?

– Tô.

– Fazendo o quê?

– Nada.

– Não tem que estudar?

– Um pouco.

– Já fez os deveres de casa?

– Vou fazer.

– Por que não faz de uma vez?

– Não é muita coisa. Faço em dez minutos.

– Se é pouca coisa, por que você não se livra disso logo?

– Mais tarde eu faço.

– Mas o que você está fazendo agora?

– Nada.

– Então para que esperar? Por que não faz esses deveres de uma vez?

Os dias mudavam, a conversa, não. Charlie por fim disse que faria os tais deveres “daqui a pouco”, o que no fundo significava: “Se eu disser ‘daqui a pouco’, quem sabe você não para de encher meu saco?”

– Devo chegar lá pelas sete – disse Wendy. – Quer que eu leve uma comidinha chinesa para você?

– Da Bamboo House.

– Tudo bem. Não esqueça de dar comida ao Jersey às quatro horas.

Jersey era o cachorro.

– Tudo bem.

– Não vá esquecer, hein?

– Tá bom.

– E anda logo com esses deveres.

– Tchau.

Clic.

Wendy respirou fundo. Charlie já estava com 17 anos, logo iria para a universidade, mas ainda era muito irresponsável. Com a chegada da carta de admissão enviada pela Franklin & Marshall, de Lancaster, a caçada pela melhor faculdade (atividade empreendida com tamanha virulência pelos pais que qualquer ditador de país subdesenvolvido coraria de inveja) havia chegado ao fim. Como todos os garotos de sua idade, Charlie andava nervoso por causa da mudança radical que estava por vir. Mas nem tanto quanto a mãe. Para Wendy, aquele sujeitinho boa-pinta e temperamental era tudo na vida. Fazia 12 anos que a família se resumia apenas aos dois, mãe e filho enfrentando sozinhos a vida num bairro de classe média alta.

Os anos pareciam ter voado, como sempre acontece aos pais, e Wendy não queria se afastar do filho. Todas as noites ela passava no quarto para espiar o garoto, via nele o mais lindo problema de sua vida e, como fazia desde que ele tinha 4 anos, pensava: “Ah, se eu pudesse parar o tempo para ele não crescer nem mais um dia… Como seria bom se eu pudesse ficar com ele para sempre…”

Mas logo ela estaria sozinha.

Outro e-mail chegou em sua caixa de entrada. Mais uma mensagem do chefe, Vic Garrett: QUE PARTE DE “ME PROCURE JÁ” ESTAVA ESCRITO EM GREGO?

Ela clicou em RESPONDER e enviou: ESTOU INDO.

A sala de Vic ficava do outro lado do corredor. Toda aquela troca de mensagens era desnecessária e irritante. Mas o mundo agora era assim. Muitas vezes ela e Charlie trocavam torpedos estando os dois em casa. Quando estava cansada demais, ela só digitava: HORA DE IR PRA CAMA ou PONHA O JERSEY PRA FORA ou o popularíssimo CHEGA DE COMPUTADOR, VÁ LER UM LIVRO.

Wendy engravidara em seu segundo ano na Tufts University. Depois de uma festinha no campus em que bebera demais, ela acabara se envolvendo com John Morrow, um zagueiro de futebol americano em início de carreira – logo com quem, um atleta! No dicionário dela, John Morrow poderia ser sucintamente definido como “nem de longe o meu tipo”. Wendy via a si mesma como uma universitária liberal: jornalista do underground, se embalava a vácuo em roupas pretas, só ouvia rock alternativo, frequentava saraus de poesia e não perdia um evento cult.

Mas o coração tem lá seus motivos e ela acabou se interessando pelo bonitão do futebol. Vá entender. De início aquilo parecia algo sem grande importância. Eles haviam ficado juntos, vinham se encontrando casualmente, mas nenhum dos dois pensava ou falava em namoro. Até que, depois de mais ou menos um mês, Wendy descobriu que estava grávida.

Ela era uma mulher moderna. O rumo daquela gravidez seria decisão exclusivamente sua. Com mais dois anos de faculdade pela frente e uma carreira a construir no jornalismo, o timing, claro, não poderia ter sido pior, mas isso só tornava as coisas ainda mais claras. Ela ligou para John e disse que precisavam conversar.

Recebeu-o no quarto entulhado do dormitório, pediu que ele se sentasse e riu por dentro quando o rapaz de quase dois metros tentou se acomodar, ou melhor, se equilibrar no minúsculo pufe. Antevendo que a conversa seria importante, John procurava manter a seriedade enquanto se remexia para não cair, dando a impressão de que era um garotinho querendo se fazer passar por adulto.

Wendy foi logo disparando o discurso que vinha preparando nos últimos dois dias: “Estou grávida. O que vai acontecer agora é decisão minha, só minha. Espero que você respeite a minha vontade.”

Wendy prosseguiu, andando de um lado para o outro no quarto minúsculo, sem jamais olhar para o pufe, fazendo o possível para manter o tom casual. Chegou ao ponto de encerrar seu monólogo agradecendo a presença de John e lhe desejando boa sorte na vida. Só então arriscou uma olhadela na direção do rapaz.

E ele, chorando, ergueu os olhos mais azuis que ela já tinha visto: “Mas eu te amo, Wendy.”

Ela quis rir, mas em vez disso começou a chorar. John deslizou do maldito pufe para ficar de joelhos e ali mesmo a pediu em casamento. Rindo e chorando ao mesmo tempo, Wendy aceitou o pedido e, contra a opinião de todo mundo, eles enfim se casaram.

Ninguém levava fé naquele casamento, mas os nove anos seguintes seriam de pura felicidade. John Morrow era um homem carinhoso, lindo, engraçado, inteligente e atencioso – a cara-metade de Wendy, em tudo o que isso implicava. Charlie nasceu quando ambos estavam no terceiro ano da faculdade. Dois anos depois, eles já haviam economizado o bastante para dar entrada numa pequena casa em uma rua movimentada de Kasselton. Wendy trabalhava em uma emissora de TV local enquanto John fazia seu doutorado em psicologia. Tudo ia bem.

Até que, de uma hora para outra, John morreu. Agora a casinha em Kasselton abrigava apenas Charlie, Wendy e um buraco enorme no coração dela.

Wendy bateu à porta do chefe, abriu uma fresta e disse:

– Você chamou?

– Ouvi dizer que você foi enrabada hoje naquele tribunal – disse Vic.

– É por isso que gosto de trabalhar aqui – disse Wendy. – Por causa de todo o suporte que sempre recebo.

– Quer suporte? Compre um sutiã.

– Péssima essa! – brincou Wendy. – Mas tudo bem.

– Recebi seu memorando. Quer dizer, a saraivada de memorandos que você mandou. A ladainha de sempre, reclamando sobre suas matérias.

– Que matérias? Nas últimas duas semanas você me despachou para cobrir a inauguração de uma loja de chás e um desfile de cachecóis masculinos. Será que não dá para arrumar algo menos surreal?

– Espere.

Vic levou a mão até a orelha como se quisesse ouvir melhor. Era um homem pequeno, exceto pela barriga, que parecia uma bola. Seu rosto poderia ser descrito como “cara de fuinha”, mas só se a fuinha fosse muito feia.

– Que foi? – perguntou Wendy.

– É agora que você vai começar a desfiar aquele rosário sobre as agruras de ser uma mulher bonita em uma profissão dominada por homens e a reclamar de que trato você apenas como um corpinho bonito?

– Se eu desfiar esse rosário, você vai me dar matérias mais decentes?

– Não. Mas sabe o que você pode fazer?

– Aumentar meu decote?

– A ideia até que é boa, mas não é disso que estou falando. Estou falando de Dan Mercer. Da condenação de Dan Mercer. Você precisa sair dessa história como a heroína que mandou o pedófilo para o xadrez, não como a repórter ambiciosa que ajudou na absolvição dele.

– Na absolvição dele?

Vic deu de ombros.

– A polícia nem ficaria sabendo de Dan Mercer se não fosse por mim.

Vic ergueu um violino imaginário até o ombro, fechou os olhos e começou a tocar.

– Pare com essa babaquice – disse Wendy.

– Prefere que eu chame o pessoal para um abraço coletivo? Ou então fazer uma roda e cantar “Kumbaya” de mãos dadas?

– Mais tarde, talvez. Depois que vocês tocarem uma punheta grupal.

– Uuuu.

– Alguém sabe onde Mercer está escondido?

– Não. Faz duas semanas que ninguém o vê.

Wendy não sabia o que pensar sobre isso. Dan havia saído da cidade por causa das ameaças de morte, mas era estranho que ele não tivesse comparecido ao tribunal naquela manhã. Ia pedir a Vic que a mantivesse informada quando o interfone tocou.

Vic pediu silêncio e apertou o botão. A voz baixa da recepcionista informou:

– Marcia McWaid está aqui e quer falar com o senhor.

A notícia os tomou de surpresa. Marcia McWaid morava a menos de dois quilômetros de Wendy. Três meses antes, Haley, a filha adolescente dela, colega de escola de Charlie, supostamente havia pulado a janela de casa para nunca mais voltar.

– Alguma novidade no caso da filha dela? – perguntou Wendy.

Vic fez que não com a cabeça.

– Pelo contrário – disse, o que era muito pior.

Por duas ou três semanas o sumiço de Haley McWaid havia causado um grande furor na mídia. Sequestro? Fuga? O circo havia sido completo: chamadas de urgência a todo instante, boletins informativos ao pé da tela, “especialistas” convocados para reconstituir o que possivelmente teria acontecido. Mas nenhuma matéria, nem mesmo a mais sensacionalista, sobrevive sem combustível extra. E as emissoras de TV realmente haviam procurado esse combustível, Deus era testemunha. Tinham levantado as hipóteses mais absurdas, que iam de escravidão branca a cultos satânicos, mas naquele ramo nada se sustentava sem novas informações. Talvez a própria mídia fosse culpada por os espectadores perderem tão rápido o interesse em um assunto, mas era assim que as coisas funcionavam: a audiência ditava o que ia ao ar. Enquanto as pessoas quisessem acompanhar uma história, ela continuaria sendo contada. Quando o interesse acabava, as emissoras corriam atrás de uma nova isca para atrair o público.

– Quer que eu fale com ela? – ofereceu Wendy.

– Não, eu falo. É por isso que meu salário é muito maior que o seu.

Vic tocou-a para fora. Wendy seguiu pelo corredor, mas antes de entrar em sua sala, pôde ver Marcia McWaid diante da porta de Vic. Não a conhecia pessoalmente, mas, como é comum acontecer, já havia esbarrado com ela algumas vezes na cidade: ora na Starbucks, ora numa videolocadora, ora na fila de carros diante da escola. Seria lugar-comum dizer que Marcia, antes tão radiante, sempre com um filho a tiracolo, agora parecia 10 anos mais velha. Não era bem assim. Ela ainda era uma mulher bonita, aparentava a idade que tinha, mas era como se os movimentos dela tivessem ficado mais lentos, como se até os músculos que controlam a expressão facial tivessem sido parcialmente paralisados. Antes de entrar na sala de Vic, Marcia virou o rosto em direção a Wendy, que acenou com a cabeça e esboçou um sorriso. A mulher não respondeu, apenas entrou na sala.

Wendy voltou para sua mesa e tirou o fone do gancho. Ainda pensava em Marcia, a mãe perfeita com um marido bacana e uma bela família, e na rapidez e na facilidade com que tudo isso havia sido roubado dela, na rapidez e na facilidade com que tudo isso pode ser roubado de qualquer pessoa. Discou o número do celular de Charlie.

– Fala.

A impaciência do garoto na verdade a reconfortou.

– Já fez os deveres de casa?

– Daqui a pouco.

– Tudo bem – disse Wendy. – Ainda quer que eu leve comida chinesa?

– A gente já não falou sobre isso?

Eles desligaram. Wendy se recostou na cadeira e pôs os pés sobre a mesa. Esticou o pescoço e correu os olhos pela paisagem horrenda do outro lado da janela. O telefone tocou.

– Alô.

– Wendy Tynes?

Seus pés voltaram imediatamente ao chão quando ela reconheceu a voz.

– Aqui é Dan Mercer. Preciso me encontrar com você.

 

POR UM MOMENTO, Wendy não disse nada.

– Preciso me encontrar com você – repetiu Mercer.

– Não acha que sou um pouco velha demais para você? Quero dizer, eu já menstruo e tenho peitos.

Ela pensou ter ouvido um suspiro do outro lado da linha.

– Você é muito cínica, Wendy.

– O que você quer?

– Você precisa saber de certas coisas.

– Tipo o quê?

– Nada é o que parece.

– Você é um doente, um tarado, um pervertido, um maníaco que tem um advogado muito bom. É isso que parece.

Apesar do sarcasmo, havia uma leve hesitação em sua voz. O bastante para dar a Mercer o benefício da dúvida? Ela acreditava que não. As provas não mentem, o trabalho e a vida haviam lhe ensinado isso. No caso dela, a tal intuição feminina quase sempre não passava de uma canoa furada.

– Wendy?

Ela permaneceu calada.

– Fui vítima de uma armação.

– Sei. Essa é nova. Espere só um pouquinho que vou anotar e pedir ao meu produtor um boletim de urgência. “Furo de reportagem: maníaco diz que foi vítima de uma armação.”

Silêncio. Wendy chegou a pensar que ele havia desligado. Que estupidez, se deixar levar daquele jeito pela emoção. Calma, Wendy. Seja gentil com o cara. Converse com ele. Fique amiga dele. Arranque dele alguma informação. Se necessário, prenda-o numa armadilha.

– Dan?

– Eu não devia ter ligado.

– Pode falar, estou ouvindo. Você disse algo sobre uma armação.

– Acho melhor desligar.

Wendy pensou em tentar fazê-lo mudar de ideia, em se desculpar pela overdose de sarcasmo, mas algo ali cheirava a manipulação. Ela não era marinheira de primeira viagem. Sabia onde estava pisando desde que tentara entrevistá-lo pela primeira vez, no ano anterior, sobre o trabalho dele com os adolescentes órfãos. Quase um ano antes de flagrá-lo com suas câmeras. Não queria ceder, mas também não queria que ele desligasse.

– Foi você quem ligou.

– Eu sei.

– Então diga o que tem a dizer. Estou disposta a ouvir.

– Preciso me encontrar com você. A sós.

– A ideia não me parece das melhores.

– Então esqueça.

– Tudo bem, Dan, como quiser. A gente se vê no tribunal.

Silêncio.

– Dan?

– Você não faz a menor ideia, faz? – ele perguntou, num sussurro que a fez gelar.

– Do que você está falando?

Do outro lado da linha, ela ouviu um ruído que poderia ser um soluço, talvez uma risada. Difícil saber pelo telefone. Apertou os dedos em torno do aparelho e esperou.

– Se quiser me encontrar – disse Dan –, vou lhe mandar um e-mail com as instruções. Amanhã, às duas da tarde. Venha sozinha. Se não aparecer… Bem, foi um prazer conhecê-la.

E então ele desligou.

 

A porta da sala de Vic estava aberta. Enfiando a cabeça pela fresta, Wendy viu que ele falava ao telefone. Vic acenou para que ela esperasse um segundo, se despediu rispidamente da pessoa do outro lado da linha e desligou.

– Acabei de receber uma ligação de Dan Mercer – ela disse.

– Ele ligou para você?

– Ligou.

– Quando?

– Agora mesmo.

Vic se recostou na cadeira e cruzou as mãos sobre a barriga.

– E o que foi que ele disse?

– Que foi vítima de uma armação e que quer se encontrar comigo – respondeu ela. Depois, estranhando a expressão no rosto do chefe, perguntou. – O que foi? Aconteceu alguma coisa?

Vic suspirou e disse:

– Sente-se um instante.

– Xiiiii… – disse Wendy.

– Xiiiii e meio.

Wendy se sentou.

– A juíza já divulgou a sentença. Descartou todas as provas encontradas na casa de Dan e, alegando a natureza tendenciosa da imprensa em geral e do nosso programa em particular, livrou o sujeito de todas as acusações.

– Está brincando… – suspirou Wendy, sentindo-se fraquejar.

Vic permaneceu mudo.

Wendy fechou os olhos e sentiu o mundo desabar sobre a própria cabeça. Por isso Dan havia demonstrado tanta certeza de que ela compareceria ao tal encontro, concluiu.

– E agora? – ela perguntou ao chefe.

Vic não fez mais que erguer os olhos.

– Estou na rua?

– Está.

– Assim, sem mais nem menos?

– Infelizmente, sim. Tempos de crise. Os cartolas lá de cima já vinham falando em apertar o cinto. – Ele sacudiu os ombros. – Já que é para cortar a cabeça de alguém, quem melhor do que você?

– Posso sugerir vários outros nomes.

– Eu também. Mas foi você quem pisou na bola. Sinto muito, coração, mas é assim que a banda toca. O pessoal do RH vai cuidar da sua indenização. Arrume suas coisas ainda hoje. Eles não querem mais ver você por aqui.

Em estado de choque, Wendy precisou reunir forças para se levantar.

– Pelo menos você brigou em minha defesa?

– Só compro uma briga quando tenho alguma chance de ganhar. De outra forma, brigar para quê?

Wendy esperou um segundo antes de sair. Vic baixou o rosto e fingiu estar ocupado.

– Está esperando o quê? – perguntou, sem erguer os olhos. – Um momento de ternura?

– Não – respondeu Wendy. E depois: – Talvez.

– Vai se encontrar com Mercer?

– Vou – respondeu ela, já a caminho da porta.

– Vai tomar cuidado, não vai?

Wendy forçou um sorriso.

– Puxa, acabei de ter um flashback: minha mãe dizendo a mesma coisa quando fui para a universidade.

– E, pelo que sei, você não seguiu o conselho dela.

– É, não segui.

– Olhe, oficialmente falando, você não trabalha mais aqui e não vai poder contar com as facilidades de ser uma repórter da TV. Então eu diria que o melhor é você ficar longe de Dan Mercer.

– E extraoficialmente?

– Se você der um jeito de fisgar o cara… Bem, é mais fácil recontratar uma heroína do que um rostinho bonito.

 

A casa estava no mais absoluto silêncio quando Wendy chegou, mas isso não significava nada. Na sua juventude, os pais sabiam que ela estava em casa por conta da música que ouvia, sempre no volume máximo, em seu quarto. Na época, os adolescentes ainda não tinham o hábito de usar fones de ouvido 24 horas por dia. Ela podia apostar que Charlie estava no computador, com os ouvidos devidamente plugados. A casa podia pegar fogo que ele nem perceberia.

Mesmo assim ela berrou a plenos pulmões:

– Charlie!

Como nos últimos três anos, nenhuma resposta.

Ela se serviu uma bebida (vodca de romã com um pouco de limão-galego) e se jogou na poltrona, agora surrada, que tinha sido a favorita de John. Talvez fosse meio sinistro mantê-la ali e se refestelar nela com um drinque ao fim de um dia difícil, mas aquilo era reconfortante para Wendy, então, paciência.

Até então ela vinha se perguntando como conseguiria pagar a faculdade do filho com o salário que ganhava. Agora não havia mais o que se perguntar: seria impossível mandá-lo para a universidade. Wendy bebeu outro gole de vodca e, olhando pela janela, começou a pensar no que deveria ou poderia fazer. Não sabia de qualquer vaga em nenhuma emissora e, como Vic observara com tanta diplomacia, ela havia pisado na bola, estava com o nome sujo na praça. Imaginou que outros empregos poderia tentar, mas a verdade era que ela não possuía nenhuma outra habilidade que o mercado valorizasse. Era desorganizada, mal-humorada e não sabia trabalhar em equipe. Se existisse um relatório de desempenho profissional, no dela viria escrito “Não sabe trabalhar com os outros”, o que não atrapalhava em nada uma repórter à procura de matérias, mas seria um problemão em quase todas as outras profissões.

Examinando a correspondência, ela se deparou com uma terceira carta de Ariana Nasbro. Sentiu o estômago embrulhar e as mãos começarem a tremer. Não seria necessário abri-la. Cerca de dois meses antes, ela havia lido a primeira delas e quase vomitara. Pegando o envelope com a ponta dos dedos como se ele cheirasse muito mal (e, pensando bem, cheirava mesmo), levou-o para a cozinha e o enfiou bem no fundo do cesto de lixo.

Por sorte, Charlie nunca olhava a correspondência. Ele sabia quem era Ariana Nasbro, claro. Doze anos antes, aquela mulher havia assassinado o pai dele.

Subiu as escadas e bateu à porta do filho. Como de hábito, não houve resposta, então ela entrou.

Charlie ergueu os olhos e tirou os fones de ouvido, irritado.

– Fala.

– Já fez seus deveres?

– Daqui a pouco.

Percebendo o estado da mãe, ele enfim abriu um sorriso, tão parecido com o de John que chegava a doer.

Wendy já ia reclamar, perguntar ao filho quantas vezes já lhe dissera que fizesse os deveres primeiro, mas depois pensou: para quê? Que sentido fazia ficar pegando no pé do garoto por causa dessas bobagens, quando o tempo que eles ainda tinham juntos parecia voar e muito em breve ele sairia de casa?

– Já deu comida ao Jersey? – ela perguntou.

– Humm…

Wendy revirou os olhos.

– Deixa para lá. Eu mesma dou.

– Mãe?

– Sim?

– Trouxe a comida chinesa?

O jantar. Ela havia esquecido.

Charlie revirou os olhos, imitando a mãe.

– Deixe de gracinha – ela disse. Já havia decidido que não daria ao filho a má notícia, que esperaria pelo momento certo, mas por algum motivo se viu dizendo: – Fui demitida.

Charlie não fez mais que olhar para ela.

– Você ouviu o que eu disse?

– Ouvi – ele respondeu. – Merda.

– É. Merda.

– Quer que eu vá buscar o jantar?

– Quero.

– Mas é você quem vai pagar, né?

– Tudo bem. Por enquanto, ainda dá.

 

MARCIA E TED MCWAID CHEGARAM ao auditório da escola às seis horas. Naquela noite, o chavão “a vida continua” não poderia ser mais apropriado, pois, embora fizesse 93 dias que Haley havia sumido, seria a estreia da produção de Os miseráveis da Kasselton High e Patricia, a segunda filha do casal, atuaria nos papéis de Observadora nº 4, Estudante nº 6 e o mais cobiçado de todos, Prostituta nº 2. Antes do sumiço de Haley, Ted volta e meia fazia piadas sobre o assunto, falando do orgulho que sentia por ter uma filha de 14 anos interpretando o papel de Prostituta nº 2. Aqueles dias já não existiam mais, eram um mundo e um tempo vividos por outras pessoas numa terra desconhecida.

Um zum-zum se espalhou pelo auditório quando eles entraram. Ninguém sabia ao certo como se comportar na presença deles. Marcia percebia o incômodo geral, mas nem sequer tinha ânimo para se importar.

– Preciso de um pouco d’água – ela disse.

– Vou guardando nossos lugares – disse Ted.

Marcia saiu pelo corredor, parou um instante no bebedouro e seguiu em frente. Mais adiante, dobrou à esquerda e se deparou com o zelador, que passava o esfregão no assoalho a alguns metros de distância. O homem usava fones de ouvido e sacudia a cabeça ao ritmo da música que só ele ouvia. Aparentemente, não havia notado a presença dela.

Marcia subiu a escada que levava ao segundo andar. A iluminação estava mais fraca ali e seus passos ecoavam no silêncio do prédio, sempre tão cheio de vida durante o dia. Nada é mais surreal, mais oco e vazio, que o corredor de uma escola à noite.

Olhando ao redor, viu que estava sozinha. Apertou o passo. Tinha um destino em mente.

A Kasselton High era uma escola grande, com cerca de 2 mil alunos. O prédio tinha quatro andares e, como tantas escolas em cidades que não param de crescer, mais parecia uma colmeia de anexos e expansões que um projeto arquitetônico coerente. Os últimos acréscimos à simpática estrutura original de tijolinhos revelavam que, para os administradores, a quantidade de salas importava mais que a estética. O resultado final era uma mistura de estilos e acabamentos, algo semelhante ao que as crianças costumam fazer com peças de Lego e blocos de madeira.

Na noite anterior, quebrando o funesto silêncio da casa dos McWaid, Ted, o extraordinário marido de Marcia, tinha dado uma gargalhada, uma gargalhada enorme, pela primeira vez em 93 dias. Uma obscenidade aos seus ouvidos. Ele se conteve quase imediatamente, sufocando a risada até transformá-la em soluços de choro. Marcia quis dizer ou fazer algo para consolar aquele homem torturado que ela tanto amava, mas simplesmente não conseguiu.

Os dois outros filhos, Patricia e Ryan, vinham lidando razoavelmente bem com o sumiço da irmã, pelo menos por fora. Mas os jovens têm mais facilidade de se adaptar que os adultos. Marcia tentava se concentrar neles, cobri-los de atenção e carinho, mas também não conseguia. Alguns supunham que ela ainda estava paralisada pela dor. E até certo ponto estava, mas não era apenas isso. Marcia vinha negligenciando os filhos mais novos porque, naquele momento, seu foco era um só: trazer Haley de volta para casa. Ela poderia recompensar o resto da família depois.

Até mesmo sua própria irmã, Merilee, a sabichona de Great Neck, tivera o desplante de dizer: “Você precisa se concentrar no seu marido e nos dois outros filhos em vez de ficar se lamentando por aí!” Marcia precisara se conter para não dar um soco na irmã e dizer a ela que calasse a boca e cuidasse da própria vida, do filho, Greg, que estava usando drogas, e do marido, Hal, que com certeza pulava a cerca.

O que Ryan e Patricia precisavam não era de uma mãe zelosa, que se desdobrava para manter o melhor trançado nas cordas da rede de lacrosse do filho mais novo ou para encontrar o tom de cinza perfeito para o figurino de uma peça da filha do meio. Eles precisavam da irmã e só ficariam realmente bem quando ela voltasse para casa.

Só então, quando Haley estivesse novamente com eles, aquela família poderia ter alguma chance de ser feliz.

Mas a triste verdade era que Marcia não passava seus dias à procura de Haley. Ela bem que tentava, mas um cansaço horrível insistia em abatê-la. Havia dias em que suas pernas pareciam feitas de chumbo e ela precisava se forçar a sair da cama de manhã. Mesmo ali, para caminhar pelos corredores da Kasselton High, era preciso um grande esforço.

Noventa e três dias.

Agora já conseguia avistar, adiante, o armário da filha. Alguns dias após o sumiço de Haley, amigos dela começaram a decorar a porta de metal do mesmo modo que as pessoas costumam fazer no local de um acidente de carro, construindo uma espécie de santuário. Fotos, flores, crucifixos e bilhetinhos: “Volte, Haley!”, “Estamos com saudades!”, “Esperamos por você”, “Nós te amamos”.

Marcia parou diante do armário, correu os dedos pelo cadeado e pensou nas tantas vezes que a filha havia passado por ali, retirando livros, deixando a mochila, pendurando o casaco, papeando com uma amiga sobre lacrosse ou talvez algum namoradinho.

Um barulho veio do fundo do corredor. Virando-se, ela viu Pete Zecher saindo de sua sala. Pete crescera em Kasselton, estudara naquela mesma escola e sempre sonhara em ser diretor. Agora que chegara ao cargo, mostrava que era realmente bom naquele trabalho, sempre muito acessível e disposto a chamar a atenção de um professor se isso fosse necessário para o bem do aluno.

Atrás de Pete vinha um casal, provavelmente pais de alunos, ambos desconhecidos. Os três estavam mudos. Zecher estendeu a mão, mas nenhum dos pais a apertou. Em vez disso, lhe deram as costas e saíram apressados rumo à escada. Zecher ficou olhando enquanto eles se afastavam, depois balançou a cabeça e se virou para os armários.

– Marcia?

– Oi, Pete.

Caminhando ao encontro dela, Pete perguntou:

– Estou interrompendo alguma coisa?

– Não, claro que não – respondeu ela, forçando um sorriso. – Eu só queria me refugiar dos olhares um pouquinho.

– Vi o ensaio geral – disse Pete. – Sua filha está ótima.

– Bom saber.

Ambos olharam para o armário de Haley. Marcia viu um adesivo com as palavras “Kasselton Lacrosse” e dois bastões cruzados, igual ao que ela tinha num dos vidros traseiros do carro.

– Então, o que foi que houve com aqueles dois? – ela perguntou.

Pete abriu um sorriso discreto.

– Assunto confidencial.

– Ah.

– Mas posso falar hipoteticamente.

Ela esperou.

– Por acaso você consumia bebidas alcoólicas na época da escola? – perguntou Pete.

– Eu era uma garota certinha – disse Marcia, quase acrescentando “como Haley”. – Mas, sim, de vez em quando a gente conseguia uma cerveja.

– E como conseguiam?

– As cervejas? O tio de uma vizinha era dono de uma loja de bebidas. E você, fazia como?

– Um amigo nosso, Michel Wind, parecia bem mais velho do que era – respondeu Pete. – Desses que começam a se barbear com 12 anos, sabe? Pois é. Era ele quem comprava as bebidas. Hoje em dia isso não funcionaria. Todo mundo tem de mostrar a identidade.

– E o que isso tem a ver com o casal de pais hipotéticos?

– As pessoas hoje tendem a achar que os garotos compram bebida usando identidades falsas. Até acontece, mas, desde que me tornei diretor devo ter confiscado no máximo umas cinco carteiras falsas. Apesar disso, os adolescentes estão bebendo mais do que nunca.

– E como conseguem a bebida?

Pete olhou na direção da escada por onde o casal havia descido.

– Os pais.

– Os garotos roubam bebida dos pais?

– Quem dera. Sabe esse casal com que eu estava conversando… quer dizer, hipoteticamente conversando? Eram os Milner. São pessoas legais. Ele é corretor de seguros. Ela é dona de uma butique em Glen Rock. Têm quatro filhos, dois estudam aqui. O mais velho é da equipe de beisebol.

– E daí?

– E daí que na noite de sexta-feira essas duas pessoas legais compraram um barril de chope e deram uma festinha para o time de beisebol no porão de casa. Dois dos garotos ficaram tão bêbados que saíram para atirar ovos na casa de um vizinho. Outro por pouco não precisou de uma lavagem estomacal.

– Foram os pais que compraram o chope?

Pete fez que sim com a cabeça.

– Era sobre isso que vocês estavam falando?

– Era.

– E o que foi que eles disseram?

– O de sempre: “Mais dia, menos dia, os garotos vão começar a beber, então é melhor que seja com a gente por perto.” Os Milner não querem que os filhos façam alguma besteira, como dirigir bêbado ou ir para Nova York e encher a cara, sei lá. Então deixaram que os garotos bebessem no porão de casa, para que não fizessem uma bobagem maior.

– Até certo ponto, faz sentido.

– Você faria uma coisa dessas?

Marcia refletiu um instante.

– Não. Mas ano passado levamos Haley e uma amiga à Toscana. Deixamos que elas tomassem vinho nas vinícolas. Acha que fizemos mal?

– Vocês não estavam quebrando nenhuma lei italiana.

– Mas uma coisa não é muito diferente da outra.

– Então você acha que aqueles pais agiram certo?

– Pelo contrário. Acho que agiram muito mal – disse Marcia. – E a desculpa deles me parece meio furada. Quer dizer, comprar chope para menores de idade? Sei lá, acho que o motivo deles era outro, não tinha nada a ver com segurança. Alguns pais gostam de dar uma de moderninhos. Preferem dar uma de amigão a assumir a responsabilidade pelos filhos.

– Concordo.

– Por outro lado – disse Marcia, novamente se virando para o armário da filha –, quem sou eu para dar conselhos sobre como criar os filhos?

Silêncio.

– Pete?

– Diga.

– Qual é o ti-ti-ti?

– Como assim? Não entendi.

– Entendeu, sim. Os professores, alunos, ou seja lá quem for, o que as pessoas têm falado? Acham que a Haley foi sequestrada ou que fugiu de casa? E você, o que acha?

Mais silêncio. Marcia percebeu que ele estava tentando formular uma resposta.

– A verdade, Pete. Não precisa dourar a pílula.

– Tudo bem.

– Então?

– O que eu vou dizer se baseia somente na minha intuição.

– Entendo.

Pôsteres se espalhavam por toda parte nos corredores da escola. Faltava pouco para a formatura e a festa dos formandos. Os olhos de Pete Zecher vagaram para o armário de Haley. O olhar de Marcia o acompanhou, parando em uma fotografia que ela própria havia tirado com o iPhone de Haley, um aparelho com capinha cor-de-rosa decorado com adesivos de flores roxas: toda a sua família – Ted, Haley, Patricia e Ryan – ao lado do Mickey na Disney.

A foto havia sido tirada por sorte. Geralmente, uma fila enorme se formava diante do Mickey, crianças e mais crianças em busca de um autógrafo, mas Haley havia notado que, para aquele Mickey em particular, no Epcot Center, não havia fila nenhuma. Rindo de orelha a orelha, ela havia puxado os irmãos, dizendo: “Andem, vamos tirar uma foto rapidinho!” Marcia se lembrava de como a filha estava feliz naquele dia, sem nenhuma cobrança, todos eles se permitindo voltar à infância. A mãe insistira em ser a fotógrafa e ainda se lembrava da emoção que sentira ao ver sua família, seu maior tesouro, reunida ali, em torno do Mickey, na mais perfeita harmonia. Agora, olhando para aquela imagem, relembrando o breve momento de perfeição, não conseguia tirar os olhos do sorriso da filha.

A viagem fora três semanas antes do sumiço de Haley. A polícia chegara a fazer perguntas a respeito, supondo que a garota pudesse ter sido seguida por alguém que conhecera por lá, mas a hipótese não levara a lugar nenhum.

– Os pais sempre acham que conhecem os filhos, mas todo mundo tem seus segredos – disse Pete.

– Até Haley?

– Dê uma olhada nestes armários. – Pete estendeu o braço para mostrá-los. – Sei que é óbvio, mas cada um deles pertence a um jovem com sonhos e expectativas, todos eles passando por uma fase muito difícil da vida. A adolescência é uma guerra, com todo tipo de pressões, reais e imaginárias. Pressões sociais, acadêmicas, esportivas… E tudo isso enquanto os hormônios ficam fora de controle e o corpo muda completamente. Cada armário é uma pessoa atormentada que fica presa aqui sete horas por dia. Sou um cientista, meu parâmetro é a ciência. Sempre que passo por aqui, fico pensando em partículas submetidas a um calor intenso em laboratório. Elas precisam escapar para algum lugar.

– Então você acha que Haley fugiu?

Pete Zecher ainda olhava para a fotografia tirada na Disney. Também parecia focar no sorriso de Haley. Quando enfim se virou, Marcia viu lágrimas nos olhos dele.

– Não, Marcia, não acho que sua filha tenha fugido. Acho que alguma coisa aconteceu a ela. Algo muito ruim.

 

A PRIMEIRA COISA QUE WENDY fez ao acordar foi ligar a grelha de panini, um nome pomposo para a boa e velha sanduicheira elétrica. Em pouco tempo aquele se tornara o eletrodoméstico mais importante da casa, com o filho e ela praticamente vivendo de sanduíches. Colocou queijo e bacon entre duas fatias de pão integral e baixou a tampa aquecida.

Como em todas as manhãs, Charlie desceu as escadas como se fosse um cavalo gordo com bigornas nas patas. Na cozinha, deixou o corpo cair sobre uma das cadeiras e devorou o sanduíche.

– Que horas você vai trabalhar? – ele perguntou à mãe.

– Fui demitida ontem.

– Ah, é. Esqueci.

Às vezes, como agora, o egoísmo dos adolescentes podia ter seu lado bom.

– Pode me dar uma carona até a escola?

– Claro.

O trânsito diante da Kasselton High estava absurdamente congestionado. Às vezes essa demora enlouquecia Wendy, mas outras vezes era a oportunidade que tinha para conversar com o filho. Ele não costumava se abrir para ela com riquezas de detalhes, claro, mas bastava ouvi-lo com atenção para saber o suficiente. Hoje, no entanto, Charlie não parava de digitar mensagens no celular, mudo e de cabeça baixa, os dedos dançando rapidamente sobre as teclas minúsculas.

Quando Wendy parou diante da escola, ele ainda digitava. Desceu do carro sem se despedir.

– Obrigado, mãe! – ela mesma berrou.

– Foi mal. Valeu.

Chegando em casa, Wendy se deparou com um carro estacionado à sua porta. Antes de descer, pegou o celular, digitou os três números da polícia e manteve o polegar sobre o botão de enviar. Não que esperasse algum problema, mas não custava nada se precaver. Só então desceu.

O homem agora se agachava junto ao carro dela, próximo a uma das rodas traseiras.

– O pneu está baixo – ele disse.

– Posso ajudá-lo em alguma coisa, Sr. Grayson?

Ed Grayson ficou de pé, limpou as mãos e franziu os olhos por causa do sol.

– Fui até o estúdio hoje. Disseram que a senhora foi demitida.

Wendy não disse nada.

– Suponho que tenha sido por causa da decisão da juíza.

– O senhor precisa de alguma coisa?

– Gostaria de me desculpar pelo que disse ontem, logo depois da audiência.

– Muita gentileza sua.

– Se a senhora tiver um minutinho – prosseguiu Grayson –, acho que precisamos conversar.

 

Ed Grayson recusou a água. Wendy se sentou à mesa da cozinha e esperou. Grayson andava de um lado para o outro até que, sem mais nem menos, puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ela, a menos de um metro de distância.

– Em primeiro lugar – disse –, eu gostaria de me desculpar novamente.

– Não precisa. Entendo como o senhor se sente.

– Entende mesmo?

Wendy permaneceu calada.

– Meu filho se chama E. J. Ed Junior. Era um garoto feliz. Adorava esportes, principalmente hóquei. Eu jogava basquete quando era jovem, não entendo nada de hóquei, mas minha mulher, Maggie, nasceu em Québec. Todo mundo na família dela joga. Está no sangue. Então aprendi a gostar também. Pelo garoto. Mas agora… Bem, agora E. J. perdeu todo o interesse pelo esporte. Quase entra em parafuso quando a gente passa perto de um rinque. Só quer saber de ficar em casa.

Ele se calou e desviou o olhar. Wendy disse:

– Sinto muito.

Silêncio.

Wendy achou por bem ir direto ao assunto:

– Sobre o que o senhor estava falando com Flair Hickory?

– Faz duas semanas que ninguém vê o cliente dele.

– E daí?

– Eu queria saber onde o sujeito estava, mas Hickory não quis dizer.

– E o senhor esperava o quê?

Mais silêncio.

– Então, Sr. Grayson, em que posso ajudá-lo?

Grayson começou a remexer no próprio relógio, um Timex simples, desses com pulseira de metal elástica. O pai de Wendy tinha um igual. Sempre ficava com uma mancha vermelha na pele quando o tirava do pulso. Engraçado, tantos anos já haviam se passado desde a morte dele e ela ainda se lembrava disso.

– Seu programa de TV – disse Grayson. – Você passou um ano caçando pedófilos. Por quê?

– Por que o quê?

– Por que pedófilos?

– Que diferença faz?

Grayson tentou sorrir, sem grande sucesso.

– Por favor, responda.

– Porque a audiência era boa, eu acho.

– Claro, mas não era só por isso, era?

– Sr. Grayson…

– Pode me chamar de Ed.

– Sr. Grayson – ela insistiu –, gostaria que o senhor fosse direto ao ponto.

– Sei o que aconteceu com seu marido – ele disse. Assim, à queima-roupa.

Wendy sentiu o estômago arder, mas não disse nada.

– Ela foi solta, sabia? Ariana Nasbro.

Só de ouvir o nome, Wendy ficou arrepiada.

– Eu sei.

– Acha que ela já está totalmente curada? – perguntou Grayson.

Wendy pensou nas cartas de Ariana, em como se sentia ao recebê-las.

– Pode ser que esteja – ele mesmo respondeu. – Sei de muita gente que ficou boa nesse estágio. Mas isso não importa para você, não é, Wendy?

– Não é da sua conta.

– Tem razão. Mas Dan Mercer é. Você tem um filho, não tem?

– Também não é da sua conta.

– Pessoas como esse Dan… – prosseguiu Grayson. – Pode ter certeza: no caso delas não existe cura. – Ele se aproximou ainda mais, inclinando a cabeça. – Mas isso faz parte, não faz, Wendy?

– Faz parte de quê?

– Do motivo de você ir atrás de pedófilos. Os alcoólatras… bem, esses podem parar de beber se quiserem. Mas os pedófilos, não. Esses não têm conserto. Nem perdão.

– Tenha dó, Sr. Grayson, não vá querer dar uma de psicanalista para cima de mim. O senhor não sabe nada a meu respeito.

– Tudo bem – ele disse, sacudindo a cabeça.

– Então desembuche.

– É muito simples. Se ninguém pegar esse Dan Mercer, ele vai acabar moles-tando outras crianças. E você sabe disso tanto quanto eu.

– O senhor está falando com a pessoa errada. Deveria ter procurado a juíza Howard.

– Ela não ia poder me ajudar.

– E eu posso?

– É uma repórter. Uma ótima repórter.

– Uma repórter desempregada.

– Mais um motivo.

– Mais um motivo para quê?

Ed Grayson se inclinou para a frente.

– Para me ajudar a encontrar Dan Mercer.

– Para o senhor matá-lo em seguida, é isso?

– Ele não vai parar.

– É o senhor que está dizendo.

– Mas?

– Acontece que não quero participar dos seus planos de vingança.

– Acha que é isso que tenho em mente?

Wendy deu de ombros.

– Não é uma questão de vingança – disse Grayson, quase sussurrando. – Na verdade, é o oposto disso.

– Não entendi.

– Só tomei essa decisão depois de pensar bastante. E a questão aqui é muito prática: não correr o risco. Preciso ter certeza de que Dan Mercer nunca mais vai machucar outra pessoa.

– Matando o cara?

– E tem outro jeito? Não é vingança, nem sede de sangue ou violência, nada disso. Somos todos seres humanos, mas se uma pessoa faz uma coisa dessas, se a sua genética ou a sua história de vida são tão ruins que ela precisa molestar uma criança, bem, nesse caso, o mais humano a fazer é… matá-la.

– E é bom ser juiz e júri ao mesmo tempo?

Ed Grayson pareceu esboçar um sorriso.

– Acha que a juíza Howard tomou a decisão certa? – perguntou ele.

– Não.

– Então, quem melhor do que nós, que estamos por dentro da verdade?

Wendy refletiu um instante.

– Ontem, depois da audiência, por que você disse que eu menti?

– Porque mentiu mesmo. Você não estava nem um pouco preocupada com Mercer, se ele ia se matar ou não. Entrou naquela casa porque temia que ele destruísse as provas.

Silêncio.

Ed Grayson ficou de pé, atravessou a cozinha e parou diante da pia.

– Posso pegar um pouco d’água?

– Fique à vontade. Os copos estão à sua esquerda.

Grayson pegou um copo e abriu a torneira.

– Tenho um amigo… – ele foi dizendo enquanto observava a água encher o copo. – Um bom sujeito, um advogado muito bem-sucedido. Anos atrás ele me disse que era totalmente a favor da guerra no Iraque. Deu um milhão de motivos, falando que o povo iraquiano merecia uma chance de liberdade, coisa e tal. Eu disse a ele: “Você tem um filho, não tem?” Ele respondeu: “Tenho, está indo para a faculdade: Wake Forest.” Então perguntei: “E você sacrificaria a vida dele em nome dessa guerra?” Pedi que ele respondesse com toda a honestidade. Peguei pesado. Falei: “Suponhamos que Deus aparecesse para você e dissesse: ‘O negócio é o seguinte: os Estados Unidos ganham a guerra, seja lá o que isso signifique, mas em troca seu filho leva uma bala na cabeça e morre. Só ele e mais ninguém. Todos os outros voltam para casa, sãos e salvos, mas seu filho morre.’ Então, você toparia a troca?”

Grayson deu um demorado gole na água.

– O que foi que seu amigo disse?

– E você, Wendy, diria o quê?

– Não sou o seu amigo advogado que apoiava a guerra.

– Que resposta mais evasiva! – disse Grayson com um sorriso. – Quer saber? No fundo, no fundo, nenhum de nós toparia uma coisa dessas. Nenhum de nós sacrificaria um filho em nome de uma guerra.

– Todo dia alguém manda um filho para a guerra.

– Para a guerra, sim, mas nenhum pai quer mandar o filho para a morte. É diferente, ainda que esses pais estejam querendo tapar o sol com a peneira. Eles aceitam correr o risco só porque acham que não será o filho deles quem vai morrer. É diferente. Não é uma escolha, como eu propus ao meu amigo.

Grayson se calou e ficou olhando para Wendy.

– Está esperando que eu aplauda? – ela perguntou.

– Não concorda comigo?

– Sua hipótese não dá o devido valor ao sacrifício. E não faz o menor sentido.

– Tudo bem, talvez eu tenha sido injusto com meu amigo advogado. Mas no nosso caso, Wendy, existe um elemento que é bastante real. Dan Mercer não vai molestar meu filho outra vez e o seu já está velho demais para ele. Você vai se omitir só porque seu filho está fora de perigo? Será que temos esse direito, será que podemos lavar as mãos só porque nossos filhos estão seguros?

Wendy não disse nada.

– Não podemos ficar só torcendo para que as coisas deem certo, Wendy – arrematou ele.

– Não tenho vocação para justiceira, Sr. Grayson.

– Não se trata disso.

– É o que parece.

– Então pense nisso. – Grayson encarou-a até que ela o encarasse de volta, dando-lhe total atenção. – Se você pudesse voltar no tempo e encontrar Ariana Nasbro…

– Pare – ela disse.

– Se pudesse voltar até a primeira vez em que ela foi pega bêbada ao volante, ou a segunda, ou a terceira…

– Cale essa boca agora!

Ed Grayson assentiu, aparentemente satisfeito por ter conseguido colocar o dedo na ferida que tinha em mente.

– Acho que já posso ir – disse, caminhando rumo à porta. – Pense no assunto, o.k.? É só o que peço. Você e eu estamos do mesmo lado, Wendy. Você sabe disso, não sabe?

 

Ariana Nasbro.

Assim que Grayson saiu, Wendy fez o que pôde para não pensar na maldita carta que havia jogado no lixo.

Ficou ouvindo música em seu iPod por um tempo, de olhos fechados, tentando deixar que isso a acalmasse. Escolhera a pasta que incluía Thriving Ivory cantando “Angels on the Moon”, William Fitzsimmons e sua “Please Forgive Me” e David Berkeley com “High Heels and All”. Mas aquilo não estava ajudando, eram todas canções que falavam de perdão. Então tentou outro caminho: vestiu roupas de ginástica e mudou o repertório, indo desde músicas de sua infância, como “Shout”, do Tears for Fears, e “First Night”, com Hold Steady, até “Lose Yourself”, do Eminem.

Também não estava funcionando. As palavras de Ed Grayson não saíam de sua cabeça: “Se você pudesse voltar no tempo e encontrar Ariana Nasbro…”

Ela voltaria, sem dúvida alguma. Voltaria no tempo, pegaria aquela filha da puta, arrancaria a cabeça dela e dançaria em volta do corpo ainda trêmulo.

Uma ótima ideia, mas só isso, uma ideia.

Wendy abriu seu e-mail. Como prometido, Dan Mercer havia enviado uma mensagem com o endereço onde encontrá-lo em um lugar em Wykertown, Nova Jersey. Ela não sabia onde ficava, então pesquisou no Google. Levaria uma hora para chegar até lá. Tudo bem. Ainda eram pouco mais de dez da manhã. Faltavam quase quatro horas para o encontro.

Tomou um banho e se vestiu. A carta. A droga da carta. Wendy correu de volta à cozinha, vasculhou o lixo e encontrou o envelope branco. Por um instante ficou examinando a caligrafia, como se pudesse tirar dela alguma pista. Em vão. Por fim pegou uma faca, abriu o envelope e puxou as duas folhas de papel pautado do mesmo tipo que ela usava na escola quando criança.

Ainda de pé diante da pia, ela leu a carta de Ariana Nasbro. Nenhuma surpresa, nada que lhe desse uma nova compreensão das coisas, apenas o egoísmo que nos alimenta desde o dia em que nascemos. Um monte de clichês, frases sentimentaloides e desculpas esfarrapadas. Cada palavra parecia abrir uma nova ferida em Wendy. Ariana Nasbro falava de coisas como “as sementes da minha própria autoimagem”, “me redimir” e “chegar ao fundo do poço”. Patético. Tivera o atrevimento de escrever “as agressões em minha vida e como aprendi a perdoar”, “as bênçãos do perdão” e sobre sua vontade de “levar essas bênçãos a outras pessoas, como você e Charlie”.

A fúria que Wendy sentiu ao ver o nome do filho escrito por aquela mulher foi maior do que a ira que qualquer outra coisa poderia despertar.

“Serei uma alcoólatra para sempre”, Ariana dizia lá pelo final de sua lenga-lenga. Mais um verbo na primeira pessoa: sou isso, quero aquilo, farei aquilo outro. Eu, eu, eu. O pronome também estava por toda parte.

“Hoje sei que sou um ser imperfeito, digno de perdão.”

Wendy estava a ponto de vomitar.

E a carta terminava assim:

“Esta é a terceira vez que escrevo. Por favor, responda, para que minha cura possa começar. Que Deus a abençoe.”

Se você faz tanta questão de uma resposta, pensou Wendy, então vai ter. E é agora.

Ela pegou as chaves e irrompeu na direção do carro. Digitou no GPS o endereço que estava no envelope e saiu para a clínica onde Ariana Nasbro estava em tratamento.

A clínica ficava em New Brunswick, a uma hora da casa de Wendy, mas ela chegou lá em menos de 45 minutos. Estacionou o carro e correu para a recepção, onde deu seu nome e pediu para falar com Ariana Nasbro. A recepcionista a convidou a se sentar, mas ela agradeceu e disse que esperaria em pé.

Ariana Nasbro chegou alguns minutos depois. Wendy não a via desde o julgamento por homicídio culposo, sete anos antes. Ainda se lembrava da imagem dela na época, uma mulher digna de pena, acuada, de ombros caídos e cabelos de um marrom acinzentado. Seus olhos piscavam incessantemente, como se ela esperasse um tapa a qualquer momento.

A mulher que ela via agora, a Ariana pós-prisão, era diferente. Os cabelos estavam curtos e brancos. Ela ergueu a cabeça e, sustentando o olhar de Wendy, disse:

– Obrigada por ter vindo.

Wendy ignorou a mão que ela lhe estendia.

– Não foi por sua causa que eu vim – disse.

Ariana forçou um sorriso.

– Quer dar uma caminhada enquanto conversamos?

– Não, Ariana, não quero dar caminhada nenhuma. Nas suas cartas… quer dizer, as duas primeiras eu simplesmente ignorei, mas parece que você não tem desconfiômetro. De qualquer forma, na terceira você pergunta o que pode fazer para se redimir.

– Sim.

– Pois vim aqui para responder: pare de ficar mandando essas porcarias de cartas com essa ladainha egocêntrica que você aprendeu no AA. Não dou a mínima para você. Não tenho a menor intenção de perdoá-la para que você possa se reerguer, se curar, ou seja lá o que for. Não tenho nenhum interesse em ajudar você. E esta não é a primeira vez que você se interna numa clínica, é?

– Não, não é – respondeu Ariana, de cabeça erguida.

– Já tinha se internado duas vezes antes de matar meu marido, não tinha?

– Sim – ela disse calmamente.

– Já chegou ao Oitavo Passo alguma vez antes?

– Já, mas desta vez é diferente, porque…

Wendy ergueu a mão para interrompê-la.

– Não interessa. Para mim não faz a menor diferença o fato de esta vez ser igual ou não às outras. Não estou nem aí para você, para a sua recuperação ou para o seu Oitavo Passo. Mas se quiser mesmo se redimir, é só ir lá fora e se jogar embaixo do primeiro ônibus que passar. Parece cruel, não é? Mas se, na última vez que você chegou ao Oitavo Passo, o pobre-coitado que recebeu essas suas cartas cheias de ladainha egocêntrica tivesse lhe dito isso em vez de perdoá-la, talvez, quem sabe, você tivesse seguido o conselho. Aí eu teria meu marido e Charlie, o pai. É isso o que me interessa. Não você. Não a sua festinha comemorando seis meses sóbria. Não a sua jornada espiritual rumo à sobriedade. Portanto, se quer mesmo se redimir, Ariana, tente, pelo menos uma vez na vida, não se colocar em primeiro lugar. Por acaso você está curada? Totalmente, 100% curada? Tem certeza absoluta de que nunca mais vai beber?

– Não há cura para o alcoolismo – disse Ariana.

– Ah, claro, mais uma pérola da cartilha do AA. Um dia de cada vez, não é isso? Pois bem, se quer se redimir, pare de mandar cartas, pare de ficar falando sobre si mesma numa rodinha de estranhos, pare de ignorar o futuro. E se não quer correr o risco de matar o pai de outra criança, se jogue na frente de um ônibus e pronto. Fora isso, a única coisa que você pode fazer é deixar a mim e ao meu filho em paz. Nunca vamos perdoar você. Nunca. Quanta pretensão da sua parte, quanto egoísmo, achar que faríamos isso só para que você, logo quem, se sentisse curada!

Então Wendy virou as costas e voltou para o carro.

Já havia acertado as contas com Ariana Nasbro. Agora era a vez de Dan Mercer.

 

MARCIA MCWAID SENTOU-SE ao lado de Ted no sofá. À sua frente, Frank Tremont, investigador da polícia do condado de Essex, estava prestes a dar seu relatório semanal sobre o caso de Haley. Marcia já sabia o que ele tinha a dizer.

Tremont usava um terno marrom-escuro e uma gravata que parecia ter passado meses embolada em uma gaveta. Tinha por volta de 60 anos, beirando a aposentaria, e trazia no rosto aquela expressão de quem já viu de tudo na vida, típica de pessoas que trabalham muitos anos na mesma coisa.

Marcia ouvira rumores de que talvez o homem já estivesse longe do seu auge, empurrando com a barriga os últimos meses de serviço. Mas não era isso o que ela via e Tremont ainda estava lá, fazendo suas visitas regulares, mantendo contato. No início aparecia acompanhado de outras pessoas (agentes federais, especialistas em desaparecimentos, colegas de diversas áreas), mas, ao longo daqueles 94 dias, o contingente fora minguando até se reduzir apenas ao velho investigador e seu terno medonho.

Antes Marcia se dava o trabalho de oferecer café e biscoitos aos visitantes. Mas já não se preocupava em manter essa aparência de normalidade. Agora, naquela bela casa de um bairro agradável, sabia que Frank Tremont estava encarando um casal de pais visivelmente dilacerados e se perguntando como dizer a eles, mais uma vez, que não havia novidade alguma no caso da menina desaparecida.

– Sinto muito – disse ele afinal, como se obedecendo à deixa de um ponto.

Ted se recostou no sofá e jogou a cabeça para trás, piscando para afugentar as lágrimas. Marcia sabia que o marido era um homem maravilhoso, ótimo pai e provedor, mas descobrira que ele não era dos mais fortes.

Sem tirar os olhos do investigador, ela perguntou:

– Então, e agora?

– Agora continuamos a busca – ele disse.

– Como? – devolveu Marcia. – Quer dizer… o que mais vocês podem fazer?

Tremont abriu a boca para dar uma resposta qualquer, mas, vendo que não a encontraria, disse apenas:

– Não sei, Marcia.

Ted enfim deixou que as lágrimas corressem.

– Eu não entendo – ele disse, como havia feito tantas vezes antes. – Como é possível que vocês não tenham novidade nenhuma?

Tremont apenas esperou.

– Com toda essa tecnologia, todos esses avanços e a internet…

Ted balançou a cabeça, sem conseguir terminar a frase. Não entendia como aquilo era possível.

Mas Marcia sabia que as coisas não eram tão simples. Antes do sumiço de Haley, eles eram uma típica família americana que só conhecia a polícia pelos programas de televisão (nos quais os casos são sempre resolvidos) e era nisso que baseavam sua fé na instituição. Os atores bonitões encontravam um fio de cabelo, uma digital ou uma casquinha de pele no chão, botavam aquilo sob as lentes de um microscópio e o mistério era solucionado em menos de uma hora.

Mas a realidade era bem diferente. A realidade estava nos jornais. A polícia do Colorado, por exemplo, ainda não havia encontrado o assassino de JonBenét Ramsey, a garotinha dos concursos de beleza. E Marcia ainda se lembrava das manchetes sobre Elizabeth Smart, uma bela moça de 14 anos levada de seu quarto durante a noite. A mídia não falara de outra coisa, o mundo inteiro ficara perplexo com esse sequestro, todos os olhos voltados para o batalhão de policiais, agentes do FBI e especialistas, enquanto eles vasculhavam Salt Lake City em busca de pistas. E no entanto, por mais de nove meses ninguém se dera o trabalho de investigar o maluco com complexo de Deus que havia trabalhado para a família, muito embora a irmã de Elizabeth o tivesse visto na noite do desaparecimento. Qualquer um que assistisse a uma história semelhante em CSI ou Law & Order com certeza atiraria longe o controle remoto. Aquilo não podia ser verdade. No entanto, por mais que as pessoas fingissem não ver, histórias assim aconteciam o tempo todo.

A realidade, Marcia agora sabia, era que mesmo os bandidos mais idiotas conseguiam escapar ilesos depois de cometerem os crimes mais hediondos.

A realidade era: ninguém estava seguro.

– Vocês não têm nenhum fato novo para relatar? – arriscou Tremont. – Nada?

– Já contamos tudo que tínhamos para contar – disse Ted.

Tremont meneou a cabeça, mais constrangido do que nunca.

– Já tivemos outros casos como este. Às vezes a pessoa desaparecida, geralmente uma adolescente, acaba dando as caras de uma hora para outra. São garotas que precisavam se isolar por algum motivo ou que tinham um namorado secreto.

Ele já havia tentado convencê-los disso antes. Frank Tremont, como todos os demais, inclusive Ted e Marcia, queria acreditar que se tratava de uma fuga.

– Uma garota de Connecticut, por exemplo – prosseguiu o investigador –, se envolveu com o cara errado e fugiu com ele. Mas voltou para casa três semanas depois.

Ted olhou para a mulher em busca de combustível para a própria esperança. Marcia, por sua vez, fez o que pôde para fabricar uma expressão mais otimista, mas não conseguiu. Ted se desculpou e virou o rosto, como se tivesse sido repreendido.

Para Marcia era estranho que fosse ela, logo ela, quem enxergava as coisas com maior clareza. É claro que nenhum pai quer admitir não ter percebido que uma adolescente estava tão infeliz ou confusa a ponto de precisar sumir por três meses. A polícia os havia inquirido sobre todos os problemas e decepções da adolescência de Haley. Sim, ela havia sido recusada pela Universidade da Virgínia. Sim, ela não havia ganhado o prêmio de melhor redação da turma e não fora selecionada para o programa de estudos avançados da Kasselton High. E sim, talvez tivesse terminado com um namoradinho recentemente. Mas e daí? Todo adolescente passa por coisas semelhantes.

Marcia sabia a verdade desde o primeiro dia. Sabia que, tal como dissera Pete Zecher, algo havia acontecido à sua filha. Algo de muito ruim.

Tremont permanecia ali, sem saber ao certo o que fazer.

– Frank – disse Marcia, fazendo com que ele erguesse os olhos –, quero lhe mostrar uma coisa.

Ela tirou da bolsa a fotografia com Mickey Mouse que havia encontrado no armário de Haley e a entregou ao inspetor. Tremont a examinou com atenção, sem nenhuma pressa. No silêncio, Marcia podia ouvir a respiração dele.

– Essa foto foi tirada três semanas antes do desaparecimento de Haley.

Tremont redobrou a atenção na esperança de encontrar ali alguma pista adicional.

– Eu me lembro – ele disse. – A viagem que vocês fizeram à Disney.

– Olhe bem para o rosto dela, Frank. Você acha que essa garota da foto, com esse sorriso, estava prestes a fugir de casa? Acha mesmo que ela seria capaz de se mandar sozinha por aí e que seria esperta o bastante para nunca usar o celular, um caixa eletrônico ou os cartões de crédito?

– Não – disse Tremont. – Não acho.

– Por favor, Frank, continue procurando.

– Vou continuar, Marcia. Prometo que vou.

 

A primeira imagem que deve surgir na cabeça das pessoas quando pensam nas autoestradas de Nova Jersey deve ser a mistura de galpões abandonados, cemitérios malcuidados e casebres apinhados da Garden State Parkway. Talvez alguém se lembre das fábricas, chaminés e gigantescos complexos industriais que fazem a New Jersey Turnpike parecer um cenário de O exterminador do futuro. Mas ninguém pensaria na Rota 15 do condado de Sussex, cercada de fazendas, lagos, celeiros antigos, feiras comunitárias e antigos campos de beisebol.

Seguindo as instruções do Google, Wendy seguiu pela Rota 15 até ela acabar na 206, virou à direita numa estradinha de cascalho, passou pelos depósitos da U-Store-It e chegou ao estacionamento de trailers de Wykertown. O lugar, pequeno e silencioso, tinha aquele aspecto fantasmagórico em que esperamos topar a qualquer instante com um balanço enferrujado rangendo ao sabor do vento. O trailer de Mercer ficava numa das extremidades, Fila D, Coluna 7, não muito longe da cerca de arame.

Wendy desceu do carro. Nenhum barulho. Aquela calmaria era estranha. Não havia montes de feno seco rolando ao vento, mas era só o que faltava. Tudo ali lembrava uma cena pós-apocalíptica, os dias que se seguem à explosão de uma bomba que fez as pessoas evaporarem. Os varais estavam lá, mas sem nenhuma roupa neles. Cadeiras dobráveis com o forro rasgado entulhavam o chão. Churrasqueiras e brinquedos de praia davam a impressão de terem sido abandonados às pressas.

Wendy conferiu o celular para ver se havia sinal. Nem um pontinho. Que ótimo! Ela subiu os dois degraus de tijolos e parou diante da porta do trailer. Uma parte dela (a parte racional, que sabia que ela era a mãe de um adolescente, não uma super-heroína de histórias em quadrinhos) lhe dizia para dar meia-volta e desistir daquela idiotice. Wendy teria ponderado melhor a ideia, mas subitamente a porta de tela se abriu e Dan Mercer apareceu.

Ao ver o rosto à sua frente, ela recuou assustada.

– O que foi que aconteceu?

– Entre – Mercer conseguiu dizer, movimentando os maxilares inchados.

O nariz estava afundado e havia hematomas por toda parte, mas isso não era o pior. O pior eram as marcas de queimadura que se espalhavam pelo rosto e pelos braços dele.

Apontando para uma delas, Wendy perguntou:

– Foi com cigarro que fizeram isso?

À custa de certo esforço, Dan sacudiu os ombros e disse:

– Eu disse que era proibido fumar no meu trailer. Parece que eles não gostaram.

– Eles quem?

– Só estava brincando.

– Eu sei, eu sei. Mas quem foi que atacou você?

Dan Mercer não respondeu. Apenas disse:

– Vamos, entre.

– Acho melhor conversarmos aqui.

– Puxa, Wendy, não confia em mim? Como você mesma disse, aliás, de forma tão direta, você não faz o meu tipo.

– Mesmo assim – ela disse.

– Não estou muito a fim de ficar aqui fora.

– Eu insisto.

– Então, tchau. Sinto muito ter feito você vir de tão longe para nada.

Dan deixou a porta se fechar e sumiu no interior do trailer. Wendy esperou um segundo, pensando ser um blefe. Não era. Então, contrariando seus alarmes internos (de qualquer maneira, Dan não chegava a oferecer grande risco na condição em que estava), ela abriu a porta e entrou. Ele se encontrava nos fundos do trailer.

– Seu cabelo – ela disse.

– O que é que tem?

Os cabelos de Dan, antes castanhos, agora apresentavam um tom horrível de amarelo que alguns poderiam chamar de louro.

– Foi você mesmo que o tingiu?

– Não. Foi a Dionne, minha hair stylist.

Wendy quase sorriu.

– É, assim fica mais fácil passar despercebido – ela disse.

– Eu sei. Parece que saí de um vídeo de glam rock dos anos 1980.

Dan se afastou ainda mais rumo à traseira do trailer, como se não quisesse ser visto com tantos ferimentos. Wendy deixou a porta bater atrás de si e correu os olhos pelo ambiente. Raios de sol rasgavam a penumbra através das janelas. O chão à sua frente era de linóleo gasto. Um tapete laranja de franjas compridas, tão berrante quanto vagabundo, cobria o espaço nos fundos.

Encurvado e ferido, Dan parecia um homem pequeno no canto onde estava. O que mais irritava Wendy era que, um ano antes de preparar sua armadilha e descobrir as verdadeiras predileções desse mesmo homem, ela havia tentado fazer uma matéria sobre o trabalho dele. Na época, Dan parecia ser a mais rara das criaturas: uma pessoa realmente altruísta, alguém que de fato queria fazer a diferença no mundo e que, para surpresa geral, não usava esse desejo para se promover.

Wendy dificilmente admitiria isso, mas a verdade era que havia ficado encantada. Dan era um homem bonito de cabelos castanhos desalinhados e olhos azul-escuros. Tinha o dom de olhar para uma pessoa como se não houvesse mais ninguém no mundo. Era simpático, charmoso e gostava de fazer piada de si mesmo. Wendy agora via por que aquelas pobres crianças haviam caído na conversa dele.

Mas como era possível que ela própria, uma repórter cética até os ossos, não tivesse enxergado a verdade?

Wendy havia chegado ao ponto (mas, de novo, jamais o admitiria) de esperar que ele a convidasse para sair. Sentira uma espécie de corrente elétrica quando ele a encarara e tinha certeza de que mandara alguns íons na direção dele também.

Era mais do que assustador pensar numa coisa dessas agora.

No fundo do trailer, Dan tentou encará-la com a mesma intensidade de antes, mas a corrente elétrica não estava mais lá. Nenhum resquício daquela limpidez que tanto a havia seduzido. No lugar dela, o que se via naquele olhar era algo que inspirava pena. Mesmo agora, mesmo sabendo de tudo, os instintos de Wendy diziam que aquele homem simplesmente não podia ser o monstro que de fato era.

Bobagem. Ela havia sido enganada por um vigarista. Simples assim. A modéstia dele não passava de fachada. Instintos, faro, intuição feminina, seja lá o que for: Wendy metia os pés pelas mãos sempre que se deixava levar por algo semelhante.

– Eu não fiz aquilo, Wendy.

Mais um “eu”. Que dia.

– Isso você já disse pelo telefone – ela rebateu. – Dá para elaborar um pouquinho?

Dan parecia perdido, sem saber como prosseguir.

– Desde que fui preso, você tem investigado minha vida, não tem?

– Tenho, e daí?

– Conversou com os garotos do meu centro comunitário, não conversou? Com quantos você falou?

– Que diferença faz?

– Com quantos, Wendy?

Ela sabia muito bem aonde ele queria chegar.

– Quarenta e sete – respondeu.

– E quantos disseram que foram molestados por mim?

– Nenhum. Pelo menos publicamente. Mas tive acesso a certas pistas anônimas.

– Pistas anônimas – ele repetiu. – Você está falando desses blogs anônimos que qualquer um pode ter escrito, inclusive você.

– Ou uma criança assustada.

– Mas você não acreditou muito no que leu, não é? Caso contrário teria mostrado esses blogs no seu programa.

– Isso não prova sua inocência, Dan.

– Engraçado.

– O quê?

– Achei que fosse o inverso, que uma pessoa fosse inocente até que se provasse o contrário.

Wendy tentou não revirar os olhos. Não estava com a menor disposição para aquele tipo de jogo. Achava que já era hora de virar a mesa.

– Sabe o que mais encontrei na minha investigação? – perguntou.

Dan Mercer pareceu recuar ainda mais, quase chegando ao fim do trailer.

– O quê?

– Nada. Nenhum amigo, nenhum parente, nenhum vínculo real. Não fosse por sua ex-mulher e pelo centro comunitário, você bem que poderia ser um fantasma.

– Meus pais morreram quando eu era pequeno.

– Eu sei. Você cresceu num orfanato no Oregon.

– E daí?

– E daí que há muitas lacunas no seu histórico.

– Armaram para cima de mim, Wendy.

– Certo. Mesmo assim, foi você quem apareceu naquela casa na hora marcada.

– Achei que estava indo ajudar uma menina em apuros.

– Meu herói. E foi entrando na casa. Assim, sem mais nem menos.

– Chynna chamou meu nome.

– A menina se chamava Deborah, não Chynna. É estagiária lá na emissora. Quanta coincidência, a voz dela parecer com a dessa misteriosa Chynna.

– Ela estava longe – ele argumentou. – Foi você que armou isso, não foi? Fazendo parecer que ela estava saindo do banho.

– Então você achou que era uma moça chamada Chynna, uma moça do centro comunitário, é isso?

– É.

– Claro que investiguei sobre essa tal de Chynna, Dan. Só para colocar os devidos pingos nos is. Pedi que fizessem um retrato falado dela.

– Eu sei.

– Mostrei esse retrato a todo mundo naquela área. Inclusive, claro, a todos os funcionários e residentes do seu centro comunitário. Ninguém conhece a garota. Ninguém nunca a viu. Ninguém.

– Já disse. Ela me procurou em segredo.

– Muito conveniente. E alguém usou seu laptop, na sua casa, para mandar aquelas mensagens nojentas, certo?

Dan não disse nada, então Wendy prosseguiu:

– E alguém baixou aquelas fotos também, certo? Ah, e alguém, talvez eu, segundo seu advogado, escondeu aquelas fotos revoltantes na sua garagem.

Dan Mercer baixou os olhos, vencido.

– Sabe o que você devia fazer, Dan? Agora que está livre e a salvo dos braços da lei, você devia se tratar. Buscar uma terapia.

Ele balançou a cabeça e abriu um sorriso.

– O que foi? – ela perguntou.

– Você caça pedófilos há dois anos, Wendy. Ainda não aprendeu?

– Aprendi o quê?

Do fundo do trailer veio quase um sussurro:

– Não existe cura para a pedofilia.

Wendy sentiu um frio na espinha.

E por pouco não foi atropelada quando a porta atrás dela se abriu com um estrondo e um homem irrompeu no trailer. Um homem armado e com o rosto coberto por um gorro de esqui.

Nenhuma advertência, nenhuma ordem para que Dan ficasse onde estava ou levantasse os braços. Nada. Apenas o estalido seco da arma.

Dan girou e caiu, batendo o rosto no chão.

Wendy gritou e se jogou atrás do sofá, como se ele pudesse protegê-la. Dali pôde ver o corpo inerte de Dan: uma poça de sangue se formava ao redor da cabeça, manchando o tapete. O mascarado se adiantou na direção dele. Sem nenhuma pressa. Displicente. Um passeio no parque. Parou diante do corpo e apontou a arma para baixo, em direção à cabeça de Dan.

Foi então que Wendy notou o relógio.

Um Timex, desses com pulseira de metal elástica. Igual ao que seu pai usava. Tudo foi se encaixando aos poucos. A altura era a mesma. O porte também. Somando-se o relógio…

O homem com a máscara era Ed Grayson.

Ele disparou mais duas vezes contra a cabeça de Dan, dois baques curtos. O impacto fez o corpo tremer. O pânico tomou conta de Wendy, mas ela lutou para controlá-lo. Precisava pensar objetivamente.

Havia duas opções.

A primeira seria conversar com Grayson e convencê-lo de que estava do lado dele.

A segunda, fugir. Correr para o carro e desaparecer dali.

No entanto, as duas opções tinham lá seus problemas. Na primeira, por exemplo, será que Ed Grayson acreditaria nela? Horas antes ela o havia enxotado de casa, mais que isso, havia mentido para ele. E agora ali estava ela, encontrando-se secretamente com Dan Mercer e sendo testemunha de seu assassinato.

A primeira opção não parecia muito animadora, portanto…

Wendy saiu correndo em direção à porta.

– Pare!

Curvando o tronco, ela atravessou a porta mais tropeçando que correndo.

– Espere!

De jeito nenhum. Ela já estava rolando do lado de fora. Levantou-se depressa e seguiu correndo. Sabia que não podia parar.

– Socorro! – berrou.

Nenhuma resposta. O lugar ainda estava abandonado.

Ed Grayson surgiu à porta, arma em punho. Wendy acelerou a corrida. Ainda estava longe dos outros trailers.

– Socorro! Alguém me ajude!

Disparos.

O carro estacionado era a única barricada possível. Wendy correu na direção dele. Mais tiros. Ela se jogou atrás da lataria.

Valeria a pena arriscar? O que mais ela poderia fazer? Ficar ali até que Grayson a alcançasse e lhe metesse uma bala na testa?

Wendy pescou do bolso o controle e destrancou a porta. Charlie havia insistido, logo depois de tirar a carteira de motorista, que eles instalassem um sistema de ignição remota de modo que, nas manhãs de inverno, eles pudessem ligar o motor pela janela da cozinha e esperar que ele esquentasse. À época, claro, Wendy acusara o filho de ser mimado demais. Afinal, que mal havia em esperar alguns segundos no frio? Mas agora sua vontade era beijar seus pés.

O carro ligou.

Wendy abriu a porta do motorista e, baixando a cabeça, entrou. Vendo que Grayson apontava sua arma diretamente contra o carro, se jogou no banco para se proteger.

Mais disparos.

Esperou pelos estilhaços do vidro, mas eles não vieram. Não tinha tempo para pensar nisso. Ainda deitada no banco, engatou o DRIVE no câmbio automático e, com a mão esquerda, apertou o pedal, dirigindo às cegas e rezando para não bater.

Dez segundos se passaram. Já teria se distanciado o bastante?

Wendy endireitou o tronco e tentou sentar no banco. Pelo retrovisor, viu que Grayson ainda a perseguia, a arma apontada para ela. Então pisou fundo, fazendo a cabeça ser jogada para trás, e continuou acelerando até perdê-lo de vista. Só então conferiu o celular. Ainda nenhum sinal. Mesmo assim, digitou o número da polícia e apertou o “enviar”, apenas para ouvir dali a pouco o bipe da chamada malsucedida. Dois quilômetros à frente, tentou de novo. Nada de sinal. Entrou na Rota 206 e tentou novamente. Em vão.

Cinco quilômetros depois, conseguiu enfim completar a chamada.

– Emergência – atendeu uma voz.

– Preciso denunciar um assassinato.

 

QUANDO WENDY VOLTOU PARA O estacionamento de trailers, três carros da polícia do condado de Sussex já estavam no local. Um policial vigiava o perímetro.

– Foi a senhora quem nos chamou? – ele perguntou.

– Foi.

– A senhora está bem?

– Estou.

– Precisa de atendimento médico?

– Não, não, estou bem.

– Ao telefone a senhora disse que o agressor estava armado.

– Disse.

– Havia mais alguém com ele?

– Não.

– Por favor, venha comigo.

Ele a conduziu para um dos carros da polícia e abriu a porta de trás. Wendy hesitou.

– É para a sua própria segurança – disse o policial. – A senhora não está sendo detida.

Por fim ela entrou. O policial fechou a porta e se acomodou no banco do motorista. Sem dar partida no carro, prosseguiu com o interrogatório, erguendo a mão de vez em quando para silenciá-la e transmitir pelo rádio o que ouvira, provavelmente para outro policial. Wendy contou tudo o que sabia, inclusive que suspeitava que Ed Grayson fosse o agressor.

Mais de meia hora já havia se passado quando outro policial, um negro alto de uns 150 quilos, veio até o carro. Usava uma camisa havaiana para fora da calça, praticamente um vestido para uma pessoa de tamanho normal. Ele abriu a porta de trás.

– Sra. Tynes, sou o delegado Mickey Walker, do Departamento de Polícia do condado de Sussex. A senhora poderia sair do carro, por favor?

– Vocês o pegaram?

Walker não respondeu, apenas saiu marchando rumo ao trailer de Mercer. Wendy se apressou no encalço dele. Viu que outro policial interrogava um sujeito de camiseta regata e cueca boxer.

– Delegado?

Walker não diminuiu o passo.

– A senhora disse que o homem mascarado talvez seja Ed Grayson.

– Sim, disse.

– E que ele chegou depois, correto?

– Sim.

– Sabe dizer qual era o carro dele?

Wendy pensou um instante.

– Não. Não cheguei a vê-lo.

Walker meneou a cabeça como se já esperasse aquela resposta. Eles chegaram ao trailer. Walker empurrou a porta de tela e se encolheu para entrar. Wendy o seguiu. Dois outros policiais uniformizados já se encontravam lá. Wendy olhou para o local onde Dan havia caído.

Nada.

– Vocês já removeram o corpo? – ela perguntou ao delegado, mesmo já sabendo a resposta. Não vira nenhuma ambulância, nenhuma van da polícia, nenhum rabecão no caminho de volta para o estacionamento.

– Não havia corpo nenhum – ele respondeu.

– Como?

– Também não havia nenhum Ed Grayson ou qualquer outra pessoa. O trailer está exatamente como o encontramos.

– Dan Mercer estava caído ali. – Ela apontou. – Não estou inventando.

Wendy encarava o espaço onde estivera o corpo, pensando: “Não, não pode ser…” De repente lhe veio à cabeça aquela cena que se repete com tanta frequência nos filmes: o cadáver desaparecido, a mulher suplicando “Vocês têm de acreditar em mim” e ninguém acreditando nela. Wendy olhou para o delegado para ver sua reação. Esperava uma expressão de ceticismo, mas ficou surpresa quando ele disse:

– Sei que não está inventando.

Ela havia se preparado para uma longa argumentação, mas não seria preciso.

– Respire fundo – disse o delegado. – Sente o cheiro de alguma coisa?

– Pólvora?

– Sim. Disparo recente, ao que parece. Além disso, há um buraco de bala naquela parede ali. Passou direto. Encontramos a cápsula num tijolo lá fora. Calibre 38, eu acho, mas podemos confirmar depois. Agora eu gostaria que a senhora desse uma olhada por aqui e dissesse se há alguma coisa diferente desde que saiu – pediu e, com um gesto que denotava certo constrangimento, emendou: – A não ser, claro, pelo corpo que não está mais aí.

Wendy logo notou:

– O tapete sumiu.

Novamente Walker meneou a cabeça, como se já soubesse o que ela diria.

– Como era esse tapete?

– Um tapete laranja, desses de lã áspera. Foi nele que Mercer caiu depois de ser baleado.

– E o tapete estava ali? – Ele apontou na mesma direção que Wendy havia indicado antes.

– Estava.

– Quero lhe mostrar uma coisa.

Eles foram até os fundos do trailer. Ocupando boa parte do pouco espaço a seu redor, Walker apontou um dedo carnudo para o buraco perfeitamente circular por onde a bala havia passado. Em seguida, resfolegando, se ajoelhou no local onde Mercer havia caído.

– Está vendo isto aqui?

Fiapos alaranjados se espalhavam pelo chão, o que, para Wendy, era ótimo, porque provava que ela estava dizendo a verdade. Mas não era isso o que o delegado estava mostrando. Wendy olhou para onde ele apontava.

Sangue.

Não muito. Com certeza, bem menos do que a quantidade que havia vertido da cabeça de Mercer após os tiros. Mas o bastante. Fiapos alaranjados também se misturavam às manchas grudentas.

– O sangue deve ter vazado através do tapete – deduziu Wendy.

Walker concordou.

– Uma testemunha afirmou ter visto um homem colocar um tapete enrolado no porta-malas do carro, um Acura MDX preto com placa de Nova Jersey. Já ligamos para o Departamento de Trânsito para obter informações sobre Edward Grayson. Ele mora em Fair Lawn, Nova Jersey, e tem um Acura MDX preto.

 

Primeiro entrou o tema musical. Um dramático e percussivo Tá-tá-tuu-um…

Hester Crimstein abriu a porta e, de beca preta, marchou como uma leoa até sua cadeira. O volume da música aumentava à medida que ela se aproximava. Em off, a voz de um famoso locutor, desses que sempre ouvimos nos trailers de cinema, anunciou: “Senhoras e senhores, todos de pé. Presidindo a sessão, a juíza Hester Crimstein.”

Corte para o título: Tribunal de Crimstein.

Hester tomou seu lugar.

– Já cheguei a um veredicto.

O coro de vozes femininas, algo parecido com o que se ouve em vinhetas de rádio, cantarolou: “Hora do verediiiicto!”

Hester precisou se conter para não soltar um suspiro. Já fazia três meses que vinha gravando seu novo show, depois de deixar o programa na TV a cabo em que apresentava “casos reais” (na verdade, deslizes de celebridades, sumiços de garotas brancas e adultérios de políticos).

Seu “meirinho” era Waco, um comediante aposentado. Isso mesmo, um comediante. Apesar de toda a semelhança, aquilo não era um tribunal, só um cenário. Não havia processos sendo julgados ali, mas, sob a arbitragem de Hester Crimstein, as partes antagonistas podiam assinar acordos com valor legal e os valores propostos, bem como o cachê de 100 dólares diários para os envolvidos, ficavam a cargo da produção. Era um arranjo em que todos saíam ganhando.

Os reality shows costumam ter, merecidamente, uma péssima reputação, mas o que a maioria deles demonstra, principalmente os que envolvem algum tipo de intermediação judicial, é que o mundo ainda é dos homens. O caso em questão, envolvendo Reginald Pepe, ou Big Reg, como gostava de ser chamado, é um bom exemplo disso. Big Reg havia pegado dois mil dólares emprestados de Miley Badonis, sua namorada na época. Ele alegava que ela havia lhe dado o dinheiro: “A mulherada gosta de me dar presentes, o que é que eu vou fazer?” Tinha 50 anos, pesava bem mais de 100 quilos e usava uma camiseta de telinha através da qual escapuliam os pelos do peito. Não estava usando um sutiã, mas deveria. Os cabelos espetados com gel lhe davam o aspecto de um vilão de história em quadrinhos, sem falar nos vários cordões de ouro que ele carregava no pescoço. O rosto enorme, acentuado pelo fato de que agora o programa era transmitido em alta definição, tinha tantas crateras que alguém poderia ficar tentado a procurar nele um módulo lunar.

Miley Badonis, a ex-namorada, era pelo menos duas décadas mais jovem e, ainda que não fosse o tipo que se encontraria em uma agência de modelos, era, digamos, uma pessoa normal. No entanto, estava tão desesperada para fisgar um homem, qualquer homem, que nem sequer pensara duas vezes antes de entregar suas economias a Big Reg.

Big Reg já havia passado por dois divórcios, estava separado da terceira mulher e, naquele dia, aparecera acompanhado de outras duas, ambas usando tops que deixavam o umbigo de fora e nenhuma com o tipo físico adequado para isso. Os tops comprimiam seus corpos de tal maneira que formavam um balão onde deveria haver uma cintura.

– Você. – Hester apontou para a mulher da direita.

– Eu? – retrucou a mulher e, de algum modo, apesar do monossílabo, ela conseguiu estourar uma bola de chiclete no meio da palavra.

– Sim. Aproxime-se. O que está fazendo aqui?

– Hein?

– O que está fazendo aqui com o Sr. Pepe?

– Hã?

Waco, o meirinho comediante, começou a cantar: “Se pelo menos eu tivesse um cérebro…”, de O mágico de Oz. Hester lançou um olhar na direção dele e disse:

– Muito oportuno, Waco.

O meirinho se calou e a mulher da esquerda deu um passo adiante.

– Se eu puder responder… – disse. – Somos amigas do Big Reg, Meritíssima.

Hester olhou de relance para o homem.

– Amigas?

Big Reg arqueou uma das sobrancelhas como se dissesse: “Claro, claro, amigas.”

Inclinando-se para a frente, a juíza disse:

– Vou dar um conselho a vocês duas. Se esse homem se dedicar aos estudos e ao trabalho, se evoluir muito, é possível que um dia consiga ser um zero à esquerda.

– Espere aí, juíza! – protestou Big Reg.

– Silêncio, Sr. Pepe – devolveu Hester, mantendo o olhar nas “amigas”. – Vocês são duas biscas.

Miley Badonis adorou:

– É isso aí, juíza!

Hester arrastou os olhos para o lado dela.

– Sra. Badonis, por acaso já ouviu a história sobre jogar pedras e ter telhado de vidro?

– Humm, não.

– Então, cale a boca e escute. – Hester se voltou para as mulheres de top. – Vocês sabem o que quer dizer “bisca”?

– É tipo assim… uma prostituta, não é? – respondeu a da esquerda.

– Sim. E não. Uma prostituta é uma mulher promíscua. Bisca, que na minha opinião é infinitamente pior, é qualquer mulher que permite que uma criatura como Reginald Pepe toque nela. Em suma, a Sra. Badonis está a um passo de deixar de ser uma bisca. Quanto a vocês duas… Bem, vocês têm a mesma oportunidade. Sugiro que façam uso dela.

Não fariam. Hester já tinha visto aquele filme muitas vezes. Ela se virou para Reginald.

– Sr. Pepe?

– Pois não.

– Eu diria ao senhor o que minha avó costumava me dizer: “Não se pode montar dois cavalos com um só traseiro”, mas…

– Pode, sim, juíza – interrompeu Big Reg, rindo. – É só a gente fazer direitinho.

Senhor, dai-me paciência.

– Eu diria isso ao senhor – prosseguiu a juíza –, mas no seu caso não há remédio. Eu poderia qualificá-lo, Sr. Pepe, como a escória do mundo, mas isso seria uma injustiça. Afinal, o que é a escória perto de alguém tão desprezível quanto o senhor, que ao fim da vida não terá deixado nenhum legado além de um longo rastro de lixo, devastação e… biscas.

– Pô, juíza – disse Big Reg, espalmando as mãos e sorrindo –, agora a senhora me magoou.

Sim, pensou Hester, este mundo é mesmo dos homens. Ela se virou para Miley Badonis.

– Infelizmente, Sra. Badonis, não é contra a lei ser a escória do mundo. A senhora deu o dinheiro a ele e não há provas de que tenha sido um empréstimo. Se os papéis se invertessem e a senhora fosse um ogro que tivesse dado dinheiro a uma mulher mais jovem, relativamente bem-apessoada porém ingênua, nem teríamos um caso para julgar. Portanto, sentencio a favor do Sr. Pepe. Sentencio também que ele é um cafajeste. Sessão encerrada.

Big Reg explodiu de felicidade, depois disse:

– Ei, juíza, se a senhora não tiver nada para fazer mais tarde…

O tema musical entrou novamente, mas Hester já não prestava atenção ao set. Seu celular tocou. Vendo o número na tela, ela correu para os bastidores e atendeu.

– Onde você está? – perguntou.

– No carro, perto de casa – disse Ed Grayson. – E pelo visto, prestes a ser preso.

– Você foi aonde eu mandei?

– Fui.

– Ótimo. Então invoque seu direito a um advogado e mantenha o bico fechado. Chego daqui a pouco.

 

WENDY FICOU SURPRESA AO SE DEPARAR com a Harley-Davidson de Pops diante de sua casa. Exaurida pelo extenso interrogatório, sem falar no encontro com a assassina de seu marido pela manhã e de ter testemunhado uma execução, ela se arrastou ao largo da motocicleta coberta de adesivos desbotados: bandeira americana, membro da Associação Nacional do Rifle, logotipo dos Veteranos de Guerras Estrangeiras. Um pequeno sorriso brotou em seus lábios.

– Pops? – ela chamou assim que entrou em casa.

Ele emergiu da cozinha.

– Não tem cerveja na geladeira – disse.

– Ninguém bebe cerveja por aqui.

– É, mas nunca se sabe quem vai aparecer.

– É verdade – concordou Wendy, sorrindo para seu… como chamar o pai de seu falecido marido? Ex-sogro? Pensando bem, às favas com o “ex”. Sogro.

Pops se adiantou na direção dela e a enlaçou num abraço forte e demorado com um leve cheiro de couro, poeira, cigarros e… claro, cerveja. Era grande como um urso, devia pesar uns 120 quilos e chiava ao respirar. Os bigodes eram dois guidões amarelados pelo tabaco e o aspecto geral era o de um desses veteranos corpulentos e cabeludos da Guerra do Vietnã.

– Fiquei sabendo que você perdeu o emprego – ele disse.

– Ficou sabendo como?

Pops deu de ombros. Wendy deduziu que só poderia ter sido Charlie.

– Foi por isso que você veio?

– Estava aqui por perto e precisava de um lugar para passar a noite. Onde está meu neto?

– Na casa de um amigo. Deve chegar daqui a pouco.

Pops a avaliou por um instante.

– Você parece que acabou de chegar de uma guerra.

– Aposto que você diz isso para todas.

– Quer conversar?

Ela queria. Pops preparou dois drinks e eles se acomodaram no sofá. Enquanto fazia seu relato, Wendy se deu conta, por mais que lhe custasse admitir, de quanto sentia a falta de ter um homem por perto.

– Um estuprador de criancinhas foi morto – disse Pops. – Puxa, vou chorar por semanas.

– Pouco cavalheiresco da sua parte, não acha?

Pops deu de ombros.

– Depois que a pessoa ultrapassa certos limites, não tem como voltar. Por falar nisso, você está saindo com alguém?

– O que uma coisa tem a ver com a outra?

– Não enrole, responda.

– Não, não estou saindo com ninguém.

Pops balançou a cabeça.

– O que foi? – perguntou Wendy.

– Todo mundo precisa de sexo.

– Vou anotar para não esquecer.

– Estou falando sério. Você ainda é bonitona. Vá à luta e se divirta um pouco.

– Achei que as pessoas conservadoras, tipo as que fazem parte da Associação Nacional do Rifle, não aprovassem o sexo antes do casamento.

– Achou errado. A gente prega isso, mas é só para deixar o terreno livre.

– Muito esperto – Wendy disse sorrindo.

Pops a encarou.

– O que mais está acontecendo?

Wendy não queria contar, mas as palavras lhe escaparam da boca:

– Recebi umas cartas de Ariana Nasbro.

Silêncio.

John era o único filho de Pops. Por mais difícil que fosse para Wendy perder o marido, nenhum ser humano consegue imaginar a dor de se perder um filho. Ela era nítida no rosto de Pops. Nunca saía de lá.

– Então, o que ela queria, a nossa amada Ariana? – ele enfim perguntou.

– Ela está seguindo os Doze Passos do AA.

– Ah, e você é um desses passos.

– Sou – disse Wendy. – O oitavo.

Nesse instante, a porta da frente se abriu e eles interromperam a conversa. Ouviram Charlie entrar apressadamente no hall, certamente porque tinha visto a Harley do avô.

– Pops está aqui? – ele berrou.

– Estou na sala, garoto!

Sorrindo de orelha a orelha, Charlie correu ao encontro do avô. Pops era o único avô ainda vivo de Charlie. Os pais de Wendy haviam falecido bem antes de ele nascer e Rose, a mãe de John, morrera de câncer fazia dois anos.

– Pops!

Os dois homens (Charlie ainda era um adolescente, mas já ultrapassava o avô em altura) se atracaram num abraço apertado, ambos de olhos bem fechados. Era assim que Pops abraçava: sem nenhum pudor. Wendy esperou o abraço se desfazer e, represando a emoção, disse:

– Então, como foi na escola?

– Mal.

Pops prendeu o neto numa gravata e, virando-se para Wendy, perguntou:

– Posso levar este rapaz para dar uma volta?

Ela já ia dizendo que não quando viu a expressão de súplica nos olhos do filho. O adolescente rabugento já não estava mais lá. No lugar dele, havia um menino.

– Você tem um capacete extra?

– Claro – Pops piscou para o neto. – Nunca se sabe quando vai aparecer uma gata pelo caminho.

– Não demorem – disse Wendy. – Ah, antes de vocês saírem, talvez eu devesse emitir um alerta geral.

– Alerta geral?

– Para a mulherada – disse Wendy. – Sei lá, vocês dois à solta por aí…

Pops e Charlie se cumprimentaram com um soquinho.

– U-hu!

Homens.

Wendy os acompanhou até a porta, se despediu deles com abraços e de repente percebeu que, em parte, o que realmente fazia falta naquela casa era a presença física de um homem, o conforto e o aconchego daquele contato. Ela os viu desaparecer na Harley do sogro e já ia entrando novamente quando um carro que ela não conhecia se aproximou e estacionou diante da casa.

A porta do motorista se abriu e uma mulher desceu às pressas, os olhos vermelhos e o rosto marcado por lágrimas. Wendy a reconheceu imediatamente: Jenna Wheeler, a ex-mulher de Dan Mercer.

Elas haviam se conhecido na manhã seguinte à transmissão do programa de Dan. Wendy fora à casa dos Wheeler e, no sofá amarelo de flores azuis do casal, ouvira Jenna defender veementemente o ex-marido. Jenna morava a menos de quatro quilômetros de Wendy, sua filha estudava na mesma escola de Charlie e as pessoas, naturalmente, ficaram escandalizadas. Dan Mercer frequentava a casa dos Wheeler, muitas vezes servia de baby-sitter para as filhas do casal. Os vizinhos agora se perguntavam como era possível que uma mãe tão responsável tivesse levado um monstro daqueles para sua comunidade. Mais ainda, como podia defendê-lo depois de provas tão cabais?

– Você já sabe – disse Wendy.

Jenna fez que sim com a cabeça.

– Oficialmente, ainda sou o parente mais próximo.

– Não sei o que dizer, Jenna.

– Você estava lá?

– Estava.

– Você armou uma cilada para ele, não armou?

– O quê?

– Isso mesmo que você ouviu.

– Não, Jenna. Não armei cilada nenhuma.

– Então por que estava lá?

– Foi ele quem ligou para mim. Queria me encontrar.

– Encontrar você? – perguntou Jenna, cética.

– Disse que tinha novas provas de sua inocência.

– Mas a juíza já tinha encerrado o caso.

– Eu sei.

– Então por que…? – Jenna se calou de repente. – Essas novas provas, o que eram?

Wendy sacudiu os ombros como se isso dissesse tudo, e talvez dissesse. O sol tinha se posto. A noite estava quente, mas uma brisa soprava.

– Gostaria de fazer mais algumas perguntas – disse Jenna.

– Então venha, entre.

Os motivos para o convite de Wendy não eram exatamente altruístas. Uma vez passado o choque por ter presenciado todo aquele horror, a repórter que havia dentro dela novamente tomava as rédeas.

– Aceita um café, um chá? – ela ofereceu.

Jenna fez que não com a cabeça.

– Ainda não entendi direito o que aconteceu – disse.

Então Wendy explicou, começando pela ligação de Dan e terminando com a volta ao trailer na companhia do delegado Walker. Não mencionou a visita de Ed Grayson na véspera, que já havia contado a Walker.

Jenna ouviu tudo com olhos marejados, depois disse:

– Grayson atirou assim, à queima-roupa?

– Sim.

– Não falou nada antes?

– Não, nada.

– Ele simplesmente… – Jenna olhou ao redor como se procurasse por alguma ajuda. – Como uma pessoa pode fazer algo assim?

Wendy tinha uma resposta, mas guardou-a para si.

– Você viu Grayson, não viu? Pode testemunhar isso para a polícia, não pode?

– Ele estava de máscara. Mas acho que era Grayson, sim.

– Acha?

– Ele estava de máscara, Jenna.

– Em nenhum momento você viu o rosto dele?

– Não.

– Então como sabe que era ele?

– Pelo relógio. A altura, o porte. O jeito de andar.

Jenna franziu o cenho, preocupada.

– Acha que isso vai ser suficiente num julgamento?

– Não sei.

– Grayson está sob custódia da polícia, você sabia?

Wendy não sabia, mas novamente preferiu se calar. Ficou sem reação quando Jenna voltou a chorar. Tentar consolá-la seria no mínimo inútil. Então decidiu esperar.

– E Dan? – perguntou Jenna. – Você viu o rosto dele?

– Como?

– Quando chegou lá, você viu o que fizeram com o rosto dele?

– Você está falando dos hematomas? Sim, vi.

– Cobriram ele de chutes.

– Quem?

– Dan fez o que pôde para se esconder. Aonde quer que fosse, acabava sendo reconhecido pelos vizinhos. As pessoas ligavam para dizer coisas, para ameaçar… Pichavam os muros… E o encurralavam para bater nele, claro. Era horrível. Ele se mudava, mas alguém sempre o encontrava.

– Quem foi que bateu nele dessa vez? – perguntou Wendy.

Jenna ergueu os olhos para ela.

– A vida dele se tornou um inferno – disse.

– E você acha que a culpa é minha?

– Você acha que não tem culpa nenhuma? – ela devolveu.

– Nunca quis que ele fosse espancado daquela forma.

– Não, só queria que ele fosse para a cadeia.

– E você espera o quê? Que eu me desculpe por isso?

– Você é repórter, Wendy. Não é juíza, nem jurada. Mas depois que botou aquele programa no ar, acha que faz alguma diferença que Dan tenha sido inocentado? Que ele poderia simplesmente retomar a vida que tinha… ou outra qualquer vida que fosse?

– Eu só divulguei os fatos.

– Mentira. Você sabe disso. Você inventou essa história toda. Armou uma cilada.

– Dan Mercer estava flertando com uma menor de idade…

Wendy interrompeu a frase no meio. Não via sentido em voltar àquele assunto. Ela e Jenna já o haviam discutido o suficiente. Aquela mulher, por mais ingênua que fosse, acabara de perder uma pessoa querida. Que a pranteasse em paz.

– Acho que não temos mais nada a dizer.

– Dan era inocente – afirmou Jenna.

Wendy não se deu o trabalho de contestar.

– Vivemos juntos por quatro anos. Fui casada com ele.

– E se separou.

– E daí?

Wendy deu de ombros.

– Por que vocês se separaram? – perguntou.

– Metade dos casamentos neste país termina em divórcio.

– E o seu, terminou por quê?

Jenna balançou a cabeça.

– Você está sugerindo o quê? Que me separei porque descobri que Dan era pedófilo?

– Não foi?

– Dan era padrinho da minha filha. Tomava conta das crianças para mim. Elas o chamavam de tio.

– Certo. Tudo muito bonito. Mas por que vocês se separaram?

– Foi uma decisão dos dois.

– Sei. O amor acabou, foi isso?

Jenna não respondeu de imediato. Refletiu um pouco antes de dizer:

– Não exatamente.

– Então? Olhe, sei que é difícil admitir, mas talvez você tenha intuído que havia alguma coisa errada nele.

– Não foi isso.

– O que foi então?

– Havia uma parte de Dan… uma parte à qual eu não tinha acesso. E antes que você diga o óbvio, não, não tinha nada a ver com as preferências sexuais dele. Dan teve uma infância difícil. Perdeu os pais muito cedo, ficou pulando de casa em casa, sob a guarda provisória de diferentes famílias…

Jenna se engasgou com as próprias palavras. Wendy mais uma vez ignorara o óbvio. Órfão. Famílias provisórias. Abuso sexual, talvez. No passado de um pedófilo há sempre algo assim, basta procurar. Ela esperou que Jenna se recompusesse.

– Sei o que você está pensando. Está enganada.

– Por quê? Porque você o conhecia por dentro e por fora?

– Sim, mas não é só isso.

– O que é então?

– Era como se… Não sei como dizer. Alguma coisa aconteceu com ele na faculdade. Você sabe que ele estudou em Princeton, não sabe?

– Sei.

– Órfão e pobre, mas se esforçou e conseguiu entrar numa das melhores universidades do país.

– Sim, e daí?

Jenna não disse nada, apenas a encarou.

– O que foi?

– Você deve isso a ele.

Agora foi Wendy quem se calou.

– Seja lá o que você estiver pensando – prosseguiu Jenna –, seja lá qual for a verdade para você, uma coisa é certa.

– O quê?

– Você causou a morte dele.

Silêncio.

– Talvez mais que isso. O advogado de defesa colocou você numa saia justa naquela audiência. Fez picadinho das suas provas. Isso deve ter deixado você bastante aborrecida.

– Não diga isso, Jenna.

– Por que não? Você estava furiosa, achava que a Justiça tinha cometido um erro. Depois foi se encontrar com Dan e, de repente, por uma incrível coincidência, Ed Grayson aparece por lá. Com certeza você tem algum envolvimento nessa história. No mínimo, é cúmplice. Ou, então, está sendo vítima de uma armação.

– Você não vai dizer “assim como Dan”? – ironizou Wendy.

– Seria muita coincidência – devolveu Jenna.

– Acho que já é hora de você ir embora, Jenna.

– É, acho que sim.

As duas mulheres se dirigiram para a porta. Antes de sair, Jenna disse:

– Só mais uma pergunta.

– Pode falar.

– Dan lhe disse onde ele estava, não disse? Quer dizer, foi assim que você foi parar naquele trailer, certo?

– Foi.

– Você comentou alguma coisa com Ed Grayson?

– Não.

– Então, como foi que ele apareceu lá exatamente na mesma hora que você?

Wendy hesitou antes de responder.

– Não sei. Talvez tenha me seguido.

– Mas que motivos ele teria para seguir você?

Wendy não soube o que dizer. Lembrava-se de ter olhado pelo retrovisor e visto que a estrada estava praticamente vazia. Como Ed Grayson poderia ter chegado até Mercer?

– Está vendo? – arrematou Jenna. – O mais lógico é que você tenha sido cúmplice.

– Mas não fui.

– E seria realmente desagradável se ninguém acreditasse em você.

Ela deu as costas e saiu, deixando a frase no ar. Wendy esperou que ela partisse. Já ia entrando em casa quando algo lhe ocorreu.

O pneu. O pneu traseiro de seu carro estava baixo. Não era isso o que Ed Grayson tinha dito?

Ela correu até o carro. O pneu estava cheio. Ela se inclinou e correu a mão pelo para-choque traseiro, então se deu conta de que talvez houvesse impressões digitais. Na confusão, não havia pensado nessa possibilidade. Afastou a mão rapidamente e se agachou para procurar melhor.

Nada.

Só lhe restava uma coisa a fazer. As luzes externas da casa seriam fortes o bastante. Deitou-se no chão e se arrastou sob o chassi como um mecânico. Não precisou entrar muito. Logo ela viu: uma caixinha, pouco maior que uma caixa de fósforos, fixada com um ímã. Agora tudo fazia sentido.

Ed Grayson não havia se abaixado para examinar o pneu, mas para instalar um aparelho de GPS sob o para-choque.

 

– SEU CLIENTE GOSTARIA DE prestar depoimento?

Sentada numa sala de interrogatório da delegacia de Sussex com Ed Grayson, o gigantesco delegado Mickey Walker e um jovem policial chamado Tom Stanton, a advogada Hester Crimstein retrucou:

– Não me leve a mal, mas… puxa, isso tudo é muito engraçado.

– Que bom que você esteja se divertindo.

– Estou. Muito. Esta prisão é absolutamente risível.

– Seu cliente não está preso – disse Walker. – Só queremos bater um papinho.

– Um papinho entre amigos? Muito simpático da sua parte. Ainda assim, vocês emitiram mandados de busca para a casa e o carro dele, certo?

– Emitimos.

– Ótimo. Perfeito. Antes de começarmos, no entanto, tenha a bondade.

Hester passou papel e caneta ao delegado.

– O que é isto? – perguntou Walker.

– Gostaria que vocês escrevessem aqui os dados de cada um: nome, cargo, endereço comercial, endereço residencial, telefone, preferências sexuais… enfim, tudo o que puder ajudar o oficial de justiça a encontrá-los quando processarmos os dois por esta prisão indevida.

– Já disse. Ninguém está sendo preso aqui.

– E eu também já disse, bonitão: mesmo assim vocês emitiram mandados de busca.

– Suponho que seu cliente queira prestar depoimento.

– O senhor supõe.

– Uma testemunha viu seu cliente executar um homem – disse Walker.

Ed Grayson abriu a boca para dizer algo, mas Hester Crimstein o segurou pelo antebraço, silenciando-o.

– Não diga nada.

– Uma testemunha confiável.

– E sua testemunha confiável viu meu cliente executar um homem? Não “matar”, “assassinar” ou “atirar em”, mas “executar”?

– Exato.

Hester abriu um sorriso de falsa doçura.

– O senhor se importaria, delegado, se fôssemos mais devagar, um passo de cada vez?

– Pois não.

– Em primeiro lugar, quem é esse homem? A vítima da tal… execução.

– Dan Mercer.

– O pedófilo?

– Não importa quem ele era. Além disso, essa acusação foi retirada.

– Bem, isso é verdade. Os seus colegas da Promotoria fizeram uma bela cagada. Mas deixe para lá. Um passo de cada vez. Primeiro passo: o senhor afirma que Dan Mercer foi executado.

– Correto.

– Então, onde está o corpo?

Silêncio.

– Ficou surdo, rapaz? O corpo. Quero que meu perito o examine.

– Deixe de gracinhas, Hester. Você sabe muito bem que o corpo ainda não foi localizado.

– Não foi localizado? – disse Hester, agora com uma expressão de falso espanto. – Então me diga: que prova você pode me dar de que Dan Mercer está morto? Bem, deixe para lá. Estou com um pouquinho de pressa. Nenhum corpo até agora, certo?

– Até agora, não.

– Tudo bem. Próximo passo. Embora não tenhamos um corpo, vocês afirmam que Dan Mercer foi executado.

– Certo.

– Suponho, portanto, que uma arma tenha sido usada. Uma arma qualquer. Posso dar uma olhada nela?

Mais silêncio.

Hester levou uma das mãos à orelha:

– Alôô?

– Ainda não localizamos a arma – disse Walker.

– Nenhuma arma?

– Nenhuma arma – ele confirmou.

– Nenhum corpo, nenhuma arma.

Hester espalmou as mãos e, rindo, completou:

– Agora você vê por que acho tudo isso muito engraçado?

– Esperávamos que seu cliente quisesse depor.

– Sobre o quê? A energia solar e seu papel no século XXI? Devagar aí, delegado, ainda não terminei. Já falamos sobre o corpo e a arma… Será que estou esquecendo alguma coisa? Ah, sim, a testemunha.

Silêncio.

– Sua testemunha viu meu cliente executar Dan Mercer, certo?

– Certo.

– Viu o rosto dele?

Outra pausa.

Hester novamente levou a mão à orelha.

– Ande, rapaz. Responda.

– Ele estava usando uma máscara.

– Como?

– Ele estava usando uma máscara – repetiu Walker.

– Uma máscara… dessas que cobrem o rosto da pessoa?

– Foi o que a testemunha disse.

– E mesmo assim ela identificou meu cliente. Posso saber como?

– Pelo relógio.

– O relógio?

Walker pigarreou antes de dizer:

– Pela altura e o porte também.

– Ah, claro: um metro e oitenta, 90 quilos e um raríssimo Timex. Sabe por que não estou mais me divertindo, delegado Walker?

– Tenho certeza de que você vai me contar.

– Não estou me divertindo porque agora ficou fácil demais. Pela grana que me pagam por hora, acho que mereço no mínimo um desafio. Isto aqui chega a ser um insulto. Este caso, se é que é um caso, é mais fácil que pescar num barril. Não quero mais ouvir o que vocês não têm. Só o que vocês têm.

Hester esperou. Até então, Walker só havia revelado o que ela já sabia. Por isso ela ainda estava lá: queria saber que provas a polícia tinha.

– Gostaríamos que seu cliente prestasse depoimento – insistiu Walker.

– Não se isso for tudo o que vocês têm.

– Não é.

Pausa.

– Está esperando o quê? – disse Hester. – O rufar dos tambores?

– Temos provas materiais que ligam seu cliente tanto a Dan Mercer quanto à cena do crime.

– Ah, agora sim. Vamos lá.

– Os resultados dos testes ainda são preliminares. Nas próximas semanas vamos receber mais detalhes. Mas já temos uma boa ideia do que eles mostrarão. Por isso trouxemos seu cliente até aqui. Para que ele explique qual é sua participação nisso tudo. Para agilizar as coisas.

– Certo.

– Encontramos sangue no trailer. Também encontramos alguns respingos no Acura MDX do Sr. Grayson. Os testes de DNA demoram um pouco, mas os resultados preliminares mostram que o sangue é o mesmo. Isto é, o sangue encontrado no local onde nossa testemunha afirma que o Sr. Mercer foi morto é o mesmo que encontramos no carro do seu cliente. Sangue O negativo. O mesmo tipo de Dan Mercer. Além disso, encontramos fibras de um tapete. Deixando de lado os detalhes, as mesmas fibras foram encontradas no trailer alugado pelo Sr. Mercer e no Acura MDX do seu cliente. No Acura e nos tênis. Por fim, havia resíduos de pólvora nas mãos do seu cliente. Ele disparou uma arma.

Hester ficou ali, encarando o delegado, que a encarava de volta.

– Sra. Crimstein? – chamou ele depois de um tempo.

– Estou esperando que termine. Não é possível que vocês só tenham isso.

Walker não disse nada.

Hester se virou para Grayson e disse:

– Venha. Vamos embora.

– Assim? – perguntou Walker. – Sem nenhuma explicação?

– Explicação para quê? Meu cliente é um agente federal aposentado que obteve inúmeras condecorações. Chefe de família, respeitado em sua comunidade, nenhum antecedente criminal. Mesmo assim vocês perdem tempo com uma insensatez dessas. Na melhor das hipóteses, se todos os testes confirmarem suas suspeitas, se meus especialistas, interrogatórios e acusações de corrupção e incompetência não destruírem uma a uma todas as suas “provas materiais”, se tudo correr perfeitamente como vocês pretendem, o que acho difícil, talvez, talvez, vocês possam demonstrar um vínculo distante, quando muito, entre meu cliente e Dan Mercer. E fim de papo. Tudo isso é risível. Nenhum corpo, nenhuma arma, nenhuma testemunha capaz de identificar meu cliente. Vocês nem sequer têm provas de que houve um crime, muito menos de que meu cliente está envolvido nele.

Walker se recostou na cadeira, fazendo-a ranger.

– Quer dizer então que você pode explicar o sangue e as fibras de tapete.

– Não preciso explicar nada, preciso?

– Achei apenas que pudesse nos ajudar. Inocentar seu cliente logo de uma vez.

– Vou dizer o que posso fazer.

Hester anotou um número de telefone e passou ao delegado.

– O que é isto?

– Um número de telefone.

– Estou vendo. De onde?

– Um clube de tiro. Gun-O-Rama.

Walker simplesmente olhou para ela, agora um tanto pálido.

– Pode ligar – disse Hester. – Meu cliente esteve lá esta tarde. Uma hora antes de vocês o deterem. Praticando um pouquinho – continuou. Então, acenando para o delegado, zombou: – Bye-bye, teste de resíduo de pólvora.

Walker ficou de queixo caído. Olhou para Stanton e tentou se recompor.

– Muito conveniente.

– Nem tanto. Meu cliente é um agente federal aposentado que obteve inúmeras condecorações, lembra? Ele usa armas com frequência. Então acabamos, não?

– Ele não vai mesmo prestar depoimento?

– “Não compre gato por lebre”, este é o nosso depoimento. Vamos, Ed.

Hester e Ed Grayson ficaram de pé.

– Vamos continuar investigando, Sra. Crimstein. Pode ter certeza. Temos uma linha do tempo. Vamos reconstituir cada passo do Sr. Grayson. Vamos encontrar o corpo e a arma. Posso entender os motivos do seu cliente, mas não nos cabe julgar. Portanto, o caso será levado a juízo. Quanto a isso, a senhora pode ficar tranquila.

– Posso falar com franqueza, delegado?

– Claro.

Hester olhou para a câmera acima da cabeça dele.

– Desligue aquilo ali.

Walker olhou para trás e assentiu com a cabeça. A luzinha da câmera se apagou.

Hester plantou os punhos na mesa e se debruçou sobre ela. Não precisou ir longe. Mesmo sentado, Walker era quase da sua altura.

– Tanto faz se vocês encontrarem o corpo, a arma, até mesmo um vídeo do meu cliente passando fogo nesse estuprador de criancinhas diante de 80 mil pessoas num estádio de futebol. Ainda assim posso livrar a cara dele em 10 minutos.

Ela deu as costas para Walker. Grayson já havia aberto a porta da sala.

– Tenha um bom dia, delegado.

 

Às 10 da noite, Charlie mandou uma mensagem para o celular da mãe:

POPS QUER SAER ONDE FICA O INFERNINHO MAIS PRÓXIMO.

Wendy sorriu. Sabia que aquilo era o filho dizendo que estava bem. Charlie era bastante disciplinado quanto a isso, sempre dava sinal de vida. Ela respondeu:

NÃO SEI. E NINGUÉM DIZ INFERNINHO MAIS. AGORA É CLUBE PRIVÉ.

Charlie: POPS DIZ QUE ESTÁ CAG… PRA ESSE NEGÓCIO DE SER POLITICAMENTE CORRETO.

Wendy ainda sorria quando o telefone fixo tocou. Era o delegado Walker, retornando sua ligação.

– Encontrei uma coisa no meu carro – ela disse.

– O quê?

– Um GPS. Acho que foi Grayson quem colocou.

– Estou na esquina da sua casa – disse Walker. – Sei que é tarde, mas você se importa se eu der uma olhada?

– Não, pode vir.

– Chego em cinco minutos.

Wendy encontrou o delegado do lado de fora, junto do carro. Walker se abaixou para examiná-lo assim que Wendy o lembrou da visita de Grayson, agora acrescentando o detalhe aparentemente desimportante do pneu. Walker localizou o GPS e, à custa de certo esforço, se reergueu.

– Vou chamar uma equipe para fotografar e retirar o aparelho.

– Fiquei sabendo que vocês prenderam Grayson.

– Ficou sabendo por meio de quem?

– Jenna Wheeler, a ex-mulher de Dan Mercer.

– Ela se enganou. Não prendemos ninguém. Foi apenas um interrogatório.

– Ele ainda está detido?

– Não, tinha toda liberdade para ir embora.

– E agora?

Walker limpou a garganta.

– Agora continuamos a investigar.

– Uau. Não precisava de tantos detalhes.

– A senhora é repórter.

– Não sou mais, fui demitida. Pode falar. Extraoficialmente.

– Extraoficialmente, não há provas para instaurar um processo. Não temos um corpo. Não temos uma arma. Apenas uma testemunha, você, que não viu o rosto do agressor e, portanto, não pode identificá-lo.

– Bobagem.

– Bobagem por quê?

– Se Dan Mercer fosse um cidadão respeitável em vez de um suspeito de pedofilia…

– E se eu perdesse 50 quilos, ficasse branco e bonito, alguém poderia me confundir com Hugh Jackman. Mas a verdade é que, enquanto não encontrarmos o corpo e a arma, não poderemos fazer nada.

– Parece que você está jogando a toalha.

– Não estou. Mas o alto escalão não tem nenhum interesse em levar esse caso adiante. Duas pessoas, meu chefe e a advogada de Grayson, me lembraram disso hoje: na melhor das hipóteses, registramos uma queixa contra um ex-agente federal cujo filho foi molestado pela vítima.

– E isso seria péssimo para qualquer um com pretensões políticas.

– Esse é o ponto de vista cético – disse Walker.

– E o outro, qual é?

– O do mundo real. Nossos recursos são bastante limitados. Um colega meu, um veterano chamado Frank Tremont, ainda está procurando aquela garota que sumiu, Haley McWaid, mas depois de tanto tempo… Bem, tudo se resume aos recursos que temos, certo? Quem concordaria em tirar recursos de Tremont, por exemplo, para fazer justiça pelo assassinato de um pedófilo num processo em que júri nenhum estaria disposto a condenar o réu?

– Repito: você está jogando a toalha.

– Ainda não. Vou reconstituir os passos de Grayson, tentar descobrir onde Mercer estava morando.

– Não era no trailer?

– Não. Falei com o advogado dele e com a ex-mulher. Mercer vivia mudando de endereço. Acho que era difícil para ele se estabelecer em algum lugar. De qualquer modo, tinha acabado de alugar aquele trailer. Não havia nada dele por lá, nem sequer uma muda de roupa.

Wendy contorceu o rosto numa careta.

– E o que você espera descobrir depois que souber onde ele vivia?

– Não faço a menor ideia.

– O que mais você pretende fazer?

– Posso tentar rastrear esse GPS no seu carro, mas não sei aonde isso pode levar. Mesmo que a sorte esteja do nosso lado e consigamos provar que ele pertencia a Grayson, bem, isso prova que ele a seguia, mas e daí? Ainda teríamos um longo caminho a percorrer.

– Vocês precisam encontrar o corpo – disse Wendy.

– Essa é a prioridade. Preciso reconstituir o caminho percorrido por Grayson. Acho que não vai ser muito difícil. Sabemos que ele esteve num clube de tiro depois que saiu do trailer.

– Está brincando.

– Também tive a mesma reação. Na verdade, foi bem esperto da parte dele. Testemunhas o viram atirando em alvos, o que invalida o teste de resíduos de pólvora que fizemos. Examinamos a arma que ele levou para o campo, mas, como era de esperar, as cápsulas não batiam com as que encontramos perto do trailer.

– Uau. Grayson fez tudo isso só para invalidar um teste?

– Ele é ex-agente federal. Sabe o que faz. Pense bem: ele usou uma máscara, se livrou do corpo e da arma, anulou o teste de resíduos… e contratou Hester Crimstein. Entende o que eu estou dizendo?

– Entendo.

– Sabemos que ele desovou o cadáver em algum ponto de seu caminho, mas parte desse caminho, uma parte grande, ainda não sabemos qual é. Além disso, há muitas áreas abandonadas por aquelas bandas.

– E vocês não têm pessoal suficiente para procurar?

– Como eu disse, não é uma adolescente que estamos procurando, mas o corpo de um pedófilo. E se Grayson planejou bem o que fez, o que parece ser o caso, é possível que tenha aberto uma cova muito antes de matar Mercer. Dificilmente encontraremos o corpo.

Wendy desviou o olhar e balançou a cabeça.

– O que foi?

– Ele me usou. Tentou me convencer a cooperar, viu que não conseguiria, então me seguiu. Fui eu quem o levou até Mercer.

– Você não teve culpa nenhuma.

– Não importa se tive ou não. Não gosto de ser manipulada assim.

Walker não disse nada.

– Um desfecho desses… Merda.

– Um desfecho ideal para muita gente.

– Como assim?

– O pedófilo escapa da lei, mas alguém faz justiça. Pensando bem, é quase bíblico.

– Não parece certo – disse Wendy.

– Que parte?

Ela guardou sua resposta para si. Na verdade, nada parecia estar certo. Talvez a ex-mulher de Mercer tivesse razão. Talvez houvesse algo de errado naquilo tudo desde o início. Talvez ela devesse ter confiado nos próprios instintos.

De repente, Wendy teve a impressão de que ajudara a matar um inocente.

– Encontre Mercer – ela disse ao delegado. – Não importa o que ele era ou deixava de ser. Você deve isso a ele.

– Vou tentar. Mas entenda: este caso não é prioridade.

 

O DELEGADO WALKER ESTAVA PRESTES a descobrir que havia se enganado.

Ele tinha trabalhado com afinco para reconstituir as duas últimas semanas da vida de Dan Mercer. As pistas eram poucas. Dan Mercer havia ligado do celular para apenas três pessoas: Flair Hickory, seu advogado; Jenna Wheeler, sua ex-mulher; e, na véspera, Wendy Tynes. Flair em nenhum momento perguntara onde seu cliente estava: quanto menos soubesse, melhor. Jenna também não sabia. Wendy, bem, ela só havia falado com Mercer no dia anterior.

Ainda assim, não fora difícil seguir seus rastros. Dan Mercer vinha se escondendo, tudo bem, mas segundo o advogado e a ex-mulher, não era da polícia, e sim daqueles cidadãos mais zelosos da “ordem pública”, os justiceiros de plantão. Ninguém queria um predador sexual na vizinhança. Por causa do processo em andamento, Mercer não podia deixar o estado, então ele se mudava de motel para motel, geralmente pagando em dinheiro, que costumava sacar do caixa eletrônico mais próximo.

Dezesseis dias antes, ele havia se hospedado no Motel 6, em Wildwood. Depois passara três dias no Court Manor Inn, em Fort Lee. De lá fora para o Fair Motel, em Ramsey, e, desde a véspera, vinha se hospedando no quarto 204 do Freddy’s Deluxe Luxury Suites, no centro de Newark.

Agora, no exato momento em que Wendy entrava numa Starbucks em Englewood, o delegado Walker e seu jovem assistente, Tom Stanton, se encontravam a 40 quilômetros de lá, examinando o quarto 204 do Freddy’s Deluxe Luxury Suites. O tal Freddy decerto tinha senso de humor, ria-se Walker, porque o lugar não era Deluxe, passava longe de qualquer Luxury e não tinha nada que lembrasse, ainda que vagamente, uma suíte.

A janela do quarto dava para um abrigo apelidado de Resort, onde Mercer havia trabalhado. Interessante ele ter passado seus últimos dias ali. O gerente não o via há dois dias, mas, como ele mesmo observara, as pessoas não se hospedavam ali para serem vistas.

– Vamos ver o que conseguimos descobrir aqui – disse Walker.

Stanton só concordou, balançando a cabeça.

– Stanton, posso perguntar uma coisa?

– O quê?

– Ninguém quis trabalhar comigo neste caso. Devem ter pensado que não valia a pena.

– Mas eu me ofereci.

– Pois é.

– E você quer saber por quê.

– Quero.

Stanton fechou a gaveta de cima da cômoda e abriu a de baixo.

– Talvez porque eu ainda esteja começando, minha casca ainda não engrossou. Mas a lei inocentou o cara. Fim de papo. Quem não está satisfeito que mude a lei. A polícia tem de ser imparcial. Se o limite de velocidade é 80 km/h, então a polícia multa quem está a 81. Se você acha “pô, sacanagem, esperem o cara chegar a 90, daí a gente multa”, então vá lá e mude o limite para 90. E o raciocínio é o mesmo no sentido inverso. A justiça inocentou Dan Mercer. Se você não concorda com isso, mude as leis, não adianta burlar o sistema.

Walker sorriu:

– É, sua casca ainda não engrossou.

Stanton deu de ombros, ainda vasculhando as roupas.

– Mas não é só isso – disse.

– Eu já imaginava que não. Diga, sou todo ouvidos.

– Tenho um irmão mais velho. Pete. Um cara bacana, um tremendo atleta. Foi reserva no Buffalo Bills durante dois anos depois que terminou a faculdade. Jogava no ataque.

– Sei.

– Ele já estava no começo da terceira temporada, pensando “agora é tudo ou nada”. Vinha malhando e treinando feito um doido, acreditava que podia entrar para o time principal. Vinte e seis anos, morando em Buffalo, aí uma noite ele sai e conhece uma garota no Bennigan’s. Sabe o Bennigan’s? Um desses restaurantes de franquia?

– Sei.

– Pois bem. Meu irmão está lá no Bennigan’s e pede uma porção de asinhas de frango. De repente a tal garota se aproxima da mesa dele, uma gata, e pergunta se pode sentar. Claro que pode, né? Ela pega uma asinha e começa a comer. Mas dando o maior mole, sabe como? Lambendo os dedos, fazendo caras e bocas. E usando um top bastante convidativo. Então, conversa vai, con-versa vem… Você sabe. Dali a pouco meu irmão leva a garota para o apartamento dele e dá o que ela estava pedindo.

Stanton fechou a mão e ergueu o antebraço para ilustrar “o que ela estava pedindo”. Como se isso fosse necessário.

– Acontece que a garota era menor de idade. Quinze anos. Nem tinha terminado o colégio ainda, mas, caramba… parecia muito mais velha. Você sabe como essas meninas de hoje se vestem, né? Sabe essas garçonetes que trabalham no Hooters? Pois é. Era assim que ela estava vestida. Só não estava servindo cerveja. Estava servindo outra coisa, se é que você me entende.

Ele olhou para Walker, à espera de um comentário qualquer. Para não cortar o assunto, Walker disse:

– Entendo.

– Pois então. Mas aí o pai da garota fica sabendo da história toda. Entra em parafuso, diz que Pete seduziu a filhinha dele. Mesmo que o mais provável seja que ela tenha seduzido meu irmão só para atormentar o velho. No fim das contas, Pete é indiciado. Cai nas mãos do sistema. Esse sistema que eu tanto venero. Tudo bem. É a lei. Mas agora ele está carimbado como sedutor de menores, pedófilo, o diabo a quatro, o que é um absurdo. Meu irmão é um cara bacana, correto, só que nenhum time quer mais saber dele. Talvez esse sujeito, Dan Mercer… bem, de certa forma ele foi vítima de uma armação, não foi? Talvez ele mereça o benefício da dúvida. Talvez seja inocente até que se prove o contrário.

Walker virou as costas para o parceiro porque não queria admitir que talvez ele tivesse razão. Muitas vezes na vida somos obrigados a fazer julgamentos que não gostaríamos de fazer. E queremos que eles sejam fáceis. Queremos confinar as pessoas em categorias bem definidas, anjos ou monstros, mas quase sempre o buraco é mais embaixo: a verdade está em algum lugar entre os dois extremos. E esse é o problema. Os extremos são bem mais fáceis.

Tom Stanton agora olhava debaixo da cama e Walker aproveitou a oportuni-dade para organizar os pensamentos. Por ora o mais aconselhável talvez fosse deixar de lado o julgamento moral e ficar apenas com os extremos. Um homem estava desaparecido, provavelmente morto. Não importava quem ele era, nem o que havia feito. O importante era encontrá-lo. E pronto.

Ele foi até o banheiro e abriu o armário. Pasta de dente, escova, aparelho de barbear, creme, desodorante. Nada que ajudasse. De repente ele ouviu Stanton berrar do quarto:

– Bingo!

– O que foi?

– Debaixo da cama! O celular dele!

Walker estava prestes a berrar “Ótimo!”, mas se conteve.

Eles já haviam rastreado o sinal do celular de Mercer. A última ligação havia sido feita pouco antes do assassinato, em algum lugar da Rota 15, a uns cinco quilômetros do estacionamento de trailers e pelo menos a uma hora de distância daquele quarto de motel. Como o aparelho poderia estar ali? Não teve tempo de concluir o pensamento porque, quase num sussurro, Stanton o interrompeu:

– Essa não…

Walker sentiu um frio na espinha.

– O que foi? – perguntou.

– Ah, meu Deus…

Ele correu de volta ao quarto.

– O que foi? Qual o problema?

Pálido, Stanton examinava a tela do telefone. Walker viu que o aparelho tinha uma capinha rosa. Um iPhone. O modelo era igual ao dele.

– O que foi? – perguntou mais uma vez.

A tela escureceu. Stanton não disse nada. Ergueu o telefone e apertou o botão para trazer de volta a imagem. Walker se aproximou.

Seu coração parou.

O papel de parede do aparelho era uma fotografia de família, dessas que as pessoas tiram nas viagens de férias. Um adulto, três crianças… todos sorrindo. Ao centro estava Mickey Mouse. E à direta dele, estampando no rosto talvez o mais largo de todos os sorrisos, Haley McWaid, a adolescente desaparecida.

 

WENDY SÓ VIRIA A SABER DA TERRÍVEL descoberta na manhã seguinte, quando seria alardeada por todos os meios de comunicação. Agora, com Pops e Charlie ainda dormindo e o comentário de Jenna sobre Princeton ecoando em sua cabeça, ela decidiu que era hora de investigar por conta própria. Primeira parada: Phil Turnball, colega de quarto de Mercer na universidade. Precisava ir fundo no passado de Dan. Não haveria começo melhor.

Depois de se formar, Turnball havia tomado um trem expresso para Wall Street, indo direto para a estratosfera das finanças. Agora morava na área mais nobre de Englewood, em Nova Jersey.

Wendy havia tentado falar com ele na época em que apresentara o caso de Dan em seu programa, mas Turnball se recusara a fazer qualquer comentário e ela dera o assunto por encerrado. Mas agora que Mercer estava morto, talvez Phil fosse mais receptivo.

Wendy telefonou para a casa de Phil e a Sra. Turnball (Wendy não havia entendido direito o primeiro nome dela) atendeu. Wendy se apresentou e disse:

– Sei que seu marido tem evitado falar comigo, mas pode acreditar, é importante que ele me atenda agora.

– Ele não está em casa.

– Haveria algum outro modo de falar com ele?

A mulher hesitou.

– Isso é realmente importante, Sra. Turnball – insistiu Wendy.

– Phil está numa reunião.

– No escritório de Manhattan? Acho que ainda tenho o endereço nas minhas anotações…

– Na Starbucks.

– Como?

– A reunião. Não é bem o que você está pensando. É na Starbucks.

 

Wendy encontrou uma vaga em frente ao Baumgart’s, um restaurante a que costumava ir sempre que possível, e andou quatro quarteirões até a Starbucks. Segundo a Sra. Turnball, Phil havia sido demitido por causa da crise econômica. A tal reunião, no fim das contas, era apenas um cafezinho entre ex-todo-poderosos do mundo corporativo, um grupo de amigos que Phil havia batizado de Clube dos Pais. Ainda segundo ela, o clube funcionava como uma espécie de válvula de escape para aqueles homens subitamente desempregados, uma maneira de “trocar ideias e se apoiarem mutuamente nesses tempos de tanta adversidade”.

O tom de voz da mulher parecera meio sarcástico, mas talvez Wendy estivesse apenas projetando seu próprio sarcasmo. Um bando de yuppies sanguessugas metidos a besta e com salários estratosféricos tomando cafezinhos de cinco dólares enquanto choramingavam por sua desgraça em uma crise que eles próprios haviam gerado.

Coitadinhos.

Assim que entrou na Starbucks, ela avistou Phil Turnball numa mesa dos fundos, à direita. Ele estava de terno, impecavelmente vestido, acompanhado de mais três homens. Um deles usava um uniforme de tênis e empunhava uma raquete como se esperasse pelo saque de Federer. Outro sacudia delicadamente um bebê num canguru pendurado ao tronco. O terceiro, ao qual todos ouviam com absoluta atenção, usava um boné de beisebol grande demais, com a aba meio de lado e puxada para cima.

– Então, não gostou? – perguntava o Boné Torto.

Agora que estava mais perto, Wendy pôde ver que ele lembrava Jay-Z – um Jay-Z branquelo, 10 anos mais velho e que nunca tinha puxado ferro em uma academia (mas que ainda assim queria dar uma de Jay-Z).

– Não, não, Fly, não me entenda mal – disse o Tenista. – Achei maneiro. Supermaneiro.

Wendy franziu o cenho. Maneiro?

– Mas… é só uma sugestão – prosseguiu o Tenista. – Esse colar, sei lá, não está funcionando. Com esses cachorrinhos balançando…

– Humm. Exagerado demais, né?

– Um pouco.

– Mas eu tenho que ser autêntico, cara. Hoje é noite de microfone aberto no Blend, tá ligado? Não posso chegar lá todo meia-boca.

– Tô ligado, Fly. E você vai arrasar, fique tranquilo. Mas… de colarzinho? – O tenista espalmou as mãos. – Não combina com seu tema. Você precisa de outra referência para “cachorrinhos”. Um cachorrão feito você não usa colar de cachorrinhos, usa?

Aprovação unânime em torno da mesa.

Foi então que o aspirante a Jay-Z notou que Wendy se aproximava. Baixou a cabeça e sussurrou:

– Filé na área. Saca só à minha direita.

Todos se viraram na direção dela. Com exceção de Phil, o grupo era bem diferente do que Wendy imaginara. Estranho que a Sra. Turnball não a tivesse alertado sobre a singularidade daquele clube.

– Espere aí – disse o Tenista. – Eu conheço você. NTC News. Wendy Alguma Coisa, certo?

– Isso mesmo – ela disse. – Wendy Tynes.

Todos sorriram, menos Phil.

– Veio fazer uma matéria sobre a apresentação do Fly hoje à noite?

Uma matéria sobre aquela fauna exótica até que não seria má ideia, pensou Wendy.

– Numa outra oportunidade, quem sabe? – respondeu ela. – Mas hoje vim só para falar com Phil.

– Não tenho nada para falar com você.

– Não precisa falar nada. Venha. Precisamos conversar a sós.

 

Assim que eles saíram da Starbucks, Wendy perguntou:

– Então aquilo é o tal Clube dos Pais?

– Quem foi que contou?

– Sua mulher.

Phil não disse nada, então Wendy prosseguiu:

– E o Vanilla Ice de boné, o que é aquilo?

– O Norm. Bem, na verdade ele prefere ser chamado de Fly.

– Fly?

– Uma abreviação de Ten-A-Fly. É o nome artístico dele.

Wendy tentou não suspirar. Tenafly era uma cidadezinha de Nova Jersey, não muito longe dali.

– Norm, quer dizer, Fly era um executivo de marketing brilhante da Benevisti Vance. Está desempregado faz… sei lá, dois anos, mas acha que encontrou uma nova vocação.

– Qual?

– O rap.

– Você só pode estar brincando.

– É uma espécie de luto – disse Phil. – Cada um se consola de um jeito. Fly acha que tem um novo mercado nas mãos.

Chegaram ao carro de Wendy e ela destrancou as portas.

– Rap?

Phil fez que sim com a cabeça e explicou:

– Ele é o único rapper branco quarentão no circuito de Nova Jersey. Pelo menos é o que diz. – Eles entraram no carro. – Então, o que você quer de mim?

Não havia como dourar a pílula, então Wendy foi direto ao ponto.

– Dan Mercer foi assassinado ontem.

Phil emudeceu. Pálido, ficou olhando pelo para-brisa com os olhos marejados. Wendy notou que ele estava perfeitamente barbeado. Os cabelos, meticulosamente partidos e com uma mecha ondulada sobre a testa, a fizeram imaginar como ele teria sido quando criança. Esperou um tempo para que ele digerisse a notícia.

– Quer que eu vá buscar um copo d’água? – ofereceu.

Phil fez que não com a cabeça, depois disse:

– Conheci Dan logo nos primeiros dias em Princeton. Na reunião de orientação dos calouros. Era um sujeito engraçado. Todo mundo era muito sério, ficava querendo impressionar os outros. Ele não. Parecia completamente à vontade, tinha até uma atitude meio estranha.

– Estranha como?

– Como se já tivesse visto tudo na vida, como se não valesse a pena ficar nervoso à toa. Além disso, ele queria fazer a diferença no mundo. Sei que pode parecer um clichê, mas no caso dele era verdade. Dan adorava uma farra, como todos nós, mas também sempre falava em fazer o bem. Tinha planos, eu acho. Todos nós tínhamos. E agora…

– Sinto muito – disse Wendy.

– Mas você não veio atrás de mim só para dar essa má notícia.

– Não.

– Então?

– Estou investigando a vida d…

– Pelo que sei, você já fez isso. Agora só falta examinar o corpo.

– Não é essa a minha intenção.

– E qual é a sua intenção?

– Tentei falar com você antes. Quando fizemos o programa sobre Dan.

Phil não disse nada.

– Por que você não retornou minhas ligações?

– Para dizer o quê?

– Sei lá.

– Tenho mulher e dois filhos. Tinha que pensar neles. Eu não podia defender um pedófilo, mesmo sabendo que ele estava sendo acusado injustamente.

– Você acha que Dan era inocente?

Phil apertou os olhos, comovido. Wendy pensou em fazer alguma coisa para consolá-lo, mas então considerou que isso não seria adequado.

– Por que você põe terno para tomar um cafezinho na Starbucks? – perguntou.

Phil quase sorriu.

– Nunca apoiei essa história de usar roupa informal no trabalho.

Wendy ficou observando aquele homem bonito e visivelmente derrotado. Phil Turnball parecia exausto, sem nenhum sangue nas veias. Era como se os sapatos lustrosos e o terno impecável o sustentassem de pé. A imagem a fez se lembrar do pai. Aos 56 anos e depois de 28 de trabalho na mesma gráfica, fora demitido e nunca mais conseguira emprego.

– Você não vai me ajudar? – Wendy perguntou a Phil.

– Ajudar como? Dan está morto.

Phil já ia abrindo a porta do carro, mas Wendy o deteve:

– Só mais uma pergunta. Por que você tem tanta certeza de que Dan foi acusado injustamente?

Ele refletiu um pouco antes de responder:

– Sei lá. Acho que… quando já aconteceu com você, você simplesmente sabe.

– Não entendi.

– Não importa.

– Aconteceu com você também, é isso?

Phil esboçou um sorriso desanimado.

– Sem comentários, Wendy – disse, abrindo a porta do carro.

– Mas…

– Depois. Agora preciso andar um pouco e pensar no meu velho amigo Dan. Ele merece isso. Pelo menos isso.

Phil desceu do carro, ajeitou o paletó e seguiu caminhando para o norte, na direção contrária à dos amigos que o esperavam na Starbucks.

 

MAIS UMA PROSTITUTA MORTA.

O investigador Frank Tremont ajeitou a calça puxando-a pelo cinto, olhou para o corpo da moça e soltou um suspiro. A velha história de sempre. Área industrial no sul de Newark, não muito longe de um grande hospital, o Beth Israel, mas a quase uma galáxia de distância do restante do mundo. O cheiro ali era horrível, não apenas por causa do corpo estirado à sua frente. Ninguém se dava o trabalho de recolher seu lixo naquelas bandas. As pessoas, por mera preguiça, simplesmente afundavam em sujeira.

Pois bem. Mais uma prostituta morta.

O cafetão já estava sob custódia da polícia. A moça o havia “desrespeitado” de alguma forma e ele, para mostrar como era macho, achara por bem cortar a garganta dela. Ainda estava com a faca quando foi detido. Um poço de inteligência. Frank não precisou de mais que cinco segundos para arrancar uma confissão dele. Foi só provocar – “Ouvi dizer que você não tem colhões para bater numa mulher” – e o gênio entregou o ouro.

Frank olhava para o corpo da moça. Ela podia ter 15 ou 30 anos. Era difícil dizer naquelas condições, esparramada no chão entre latas de refrigerante amassadas, garrafas de cerveja vazias e embalagens do McDonald’s. Frank se lembrou da última vez em que trabalhara em um caso desses. Tudo dera errado. E a culpa tinha sido dele. Interpretara mal os fatos, se atrapalhara todo. Talvez seu erro pudesse ter custado mais vidas, mas agora não fazia sentido ficar remoendo aquilo. Ele havia metido os pés pelas mãos e posto o emprego a perder. Tanto a Promotoria do condado como a chefia do Departamento de Investigações o queriam fora da polícia.

Estava prestes a se aposentar quando o sumiço de Haley McWaid veio à tona.

Na época, ele procurara os chefes e pedira para ficar na corporação pelo menos até que solucionassem o caso. Eles concordaram. Mas já haviam se passado três meses desde então. Frank tinha se desdobrado atrás de pistas e arregimentado todo tipo de ajuda: agentes federais, policiais especializados em internet, em reconstituição de passos e em elaboração de perfis, qualquer pessoa que pudesse contribuir. Não queria reconhecimento, queria apenas encontrar a garota.

Mas não havia descoberto nada.

Baixou novamente os olhos para o corpo no chão. Aquela não era uma cena incomum em seu trabalho: mulheres se drogando e se prostituindo, jogando a vida pelo ralo, enchendo a cara, picando a veia e lambendo pó. Depois sendo espancadas e se enchendo de filhos de não sei quantos pais diferentes. Tudo era uma grande tristeza. Mas, de alguma forma, a maioria acabava se virando, se arrastando por vidas sem sentido. Elas eram praticamente invisíveis ao mundo e, quando notadas, só pelos motivos errados. Mas sobreviviam. Algumas, por obra de Deus, até a velhice. E aí esse mesmo Deus, com seus desígnios insondáveis, tira a vida da filha de Frank.

Um grupo de curiosos havia se formado atrás das fitas amarelas que isolavam a área. Não eram muitos. Uma rápida olhada de Frank foi bastante para dispersá-los.

– Já terminou? – perguntou o médico-legista.

Frank fez que sim com a cabeça:

– É todo seu.

Kasey. A filha de Frank. Dezessete anos. Uma garota linda, adorável, inteligente. Dizem que há sorrisos que iluminam uma casa inteira. O de Kasey era assim. Um feixe de luz que atravessava qualquer escuridão. A menina jamais magoara alguém ou causara o menor problema. Nem uma única vez. Nada de bebidas, drogas ou vadiagem. O oposto daquelas moças que vagavam pelas ruas feito animais. No entanto, ela havia morrido.

Dizer que era injustiça seria pouco.

Kasey tinha 16 anos quando um exame diagnosticou que sofria de sarcoma de Ewing. Câncer nos ossos. Os tumores começaram na pelve e se espalharam. Frank viu sua menina morrer em agonia. Ele continha as lágrimas e sentava-se ao lado da cama dela, agarrando-se tanto à mão frágil da filha quanto à tênue linha da própria sanidade. Via as cicatrizes das cirurgias e os olhos fundos da morte que se aproximava lentamente. Sentia o corpo da filha arder em febre. Lembrava que Kasey costumava ter pesadelos quando criança: ela corria para a cama dos pais e se enfiava entre ele e Maria. Sempre tivera um sono difícil, falava e se remexia o tempo todo. Mas, depois do diagnóstico, tudo isso parou. Talvez os temores noturnos não fossem nada quando comparados ao que ela enfrentava o dia todo. De qualquer modo, Kasey passara a ter um sono tranquilo, noites de total calmaria, quase como num ensaio para a morte.

Frank havia orado, mas suas preces tinham sido inúteis. E era exatamente assim que ele se sentia. Deus sabe o que faz, certo? Tem um plano. Ora, se é assim, o que uma mera súplica poderia fazer para mudar o que Ele decidiu? No hospital, Frank conhecera outra família que orava pelo filho, que tinha a mesma doença de Kasey. O garoto morrera ainda assim. Mais tarde, o irmão desse mesmo garoto foi mandado para o Iraque e morreu por lá. Era inacreditável que, diante de histórias como essas, as pessoas ainda tivessem fé na oração.

E as ruas continuavam lá, infestadas de pessoas vivas e inúteis, enquanto Kasey estava morta. Pois a verdade que ninguém tinha coragem de dizer era a seguinte: moças como Haley McWaid e a própria Kasey, moças que tinham uma família que as amava e uma vida inteira pela frente, uma vida real, com planos, importavam mais que as outras. Sempre haveria um hipócrita para dizer que aquela prostituta que agora era posta num saco preto merecia tanta consideração quanto Haley e Kasey. Mas todos sabem que isso é só conversa. É o tipo de coisa que se fala da boca para fora. Uma mentira que todo mundo sabe que é mentira, porque conhecemos a verdade.

Chega de fingimento. A prostituta morta iria ganhar, quando muito, dois parágrafos no pé da página de um jornal local, enquanto emissoras de TV do país inteiro haviam anunciado o desaparecimento de Haley. Então? Era óbvio, não era? Por que ninguém dizia?

As Haley McWaids do mundo importavam mais.

Provavelmente, ninguém sentiria falta daquela mulher que estava prestes a ser levada para o rabecão. Os pais, se é que ela os conhecia, já deviam ter desistido dela havia muito tempo. Marcia e Ted McWaid, no entanto, ainda sofriam com o sumiço da filha, ainda tinham esperança de que ela aparecesse. Talvez fosse essa a diferença entre as prostitutas mortas e as Haley McWaids. Não tinha nada a ver com a cor da pele ou o saldo bancário, mas com as pessoas que se importavam com elas: amigos e parentes que se sentiam devastados por seu destino trágico, pais e mães que jamais voltariam a ser os mesmos.

Frank não ia desistir até que descobrisse o que havia acontecido a Haley McWaid.

Novamente ele pensou em Kasey, tentando ressuscitar a menininha feliz que gostava mais de aquários que de zoológicos e de azul mais que de rosa. Mas essas imagens haviam desbotado, agora eram mais difíceis de trazer à mente, por mais absurdo que isso fosse. No lugar delas, havia a filha definhando no hospital, passando a mão pelos cabelos e trazendo tufos inteiros entre os dedos, chorando copiosamente enquanto ele olhava, impotente, sentado ao lado dela.

Os legistas terminaram seu trabalho. Dois homens ergueram o cadáver e o jogaram numa maca, como se aquilo fosse um saco de batatas.

– Cuidado – disse Frank.

– Ela não vai se machucar – retrucou um dos homens.

– Mas tome cuidado, mesmo assim.

O corpo já ia em direção ao rabecão quando Frank sentiu o celular vibrar no bolso. Piscando para afastar as lágrimas que ameaçavam surgir, ele atendeu:

– Tremont.

– Frank?

Era Mickey Walker, delegado no condado de Sussex. Já havia trabalhado com Frank em Newark. Era um homem correto e excelente investigador, um dos melhores. O departamento dele havia sido encarregado de investigar o assassi-nato do estuprador de criancinhas. Ao que tudo indicava, o pai de uma das vítimas havia feito justiça com as próprias mãos, e, para Frank, o defunto já ia tarde. Mas ele sabia que Walker faria seu trabalho com total imparcialidade.

– Sim, pode falar, Mickey.

– Conhece um motel chamado Freddy’s Deluxe Luxury Suites?

– O pulgueiro da Williams Street?

– Esse mesmo. Preciso que você venha para cá imediatamente.

Tremont sentiu um frio na espinha. Trocou o telefone de mão.

– Por quê? O que foi que houve?

– Encontrei algo no quarto de Mercer – disse Walker, a voz triste como uma lápide. – Acho que pertence a Haley McWaid.

 

POPS FAZIA OVOS MEXIDOS na cozinha quando Wendy chegou.

– Cadê o Charlie?

– Dormindo.

– Mas já é uma da tarde!

Pops olhou para o relógio.

– É mesmo. Está com fome?

– Não. Aonde foi que vocês foram ontem, afinal?

Pops apenas arqueou as sobrancelhas, continuando a manejar a frigideira com a destreza de quem vivia à base de comidas rápidas.

– Segredo, é?

– Mais ou menos – disse Pops. – E você, por onde andou?

– Dei uma passadinha no Clube dos Pais.

– Clube do quê?

Wendy explicou o que era o tal clube.

– Bem triste isso – disse Pops.

– Meio autocondescendente também.

Pops deu de ombros e disse:

– Para os homens, não conseguir sustentar a família é o mesmo que não ter as bolas. O cara fica se sentindo menos homem, sabe? Isso é muito triste. Perder o emprego devasta a vida de qualquer um, do assalariado pobre ao filho da puta de Wall Street. Os homens se definem pelo emprego que têm. É isso o que a sociedade ensina a eles.

– E quando eles ficam desempregados…

– Pois é.

– Talvez a saída não seja arrumar outro emprego – disse Wendy –, mas um jeito novo de definir a masculinidade.

– Uau. Muito profundo.

– Hipócrita também?

– Pode crer – disse Pops, ralando queijo sobre a frigideira. – Mas se você não puder ser hipócrita conversando comigo, vai poder com quem?

– Com ninguém, Pops – disse Wendy, sorrindo.

Ele desligou o fogo.

– Tem certeza de que não quer um pouquinho dos huevos de Pops? É minha especialidade. E fiz o bastante para dois.

– Hum, então eu quero.

Eles se sentaram à mesa e comeram. Wendy falou um pouco mais sobre o Clube dos Pais e Phil Turnball, sobre a impressão que tivera de que ele escondia algo. Dali a pouco um Charlie sonolento emergiu na cozinha usando uma cueca boxer e uma camisa de malha branca enorme, os cabelos totalmente desgrenhados. Wendy estava pensando em como o filho já parecia um homem feito quando ele começou a futucar os olhos.

– Cisco? – perguntou ela.

– Remela.

Wendy revirou os olhos e subiu para usar o computador. Havia muito pouco a respeito de Phil Turnball no Google. Algo sobre uma doação de campanha, uma foto em que ele aparecia ao lado da esposa, uma loura bonita e mignon, num evento filantrópico dois anos antes. Ele era citado como executivo de uma corretora de valores chamada Barry Brothers Trust. Rezando para que ainda não tivessem trocado a senha, ela acessou o banco de dados que sua emissora de TV costumava usar. Sabia que, embora quase tudo pudesse ser encontrado nos sites de busca gratuitos da internet, muitas vezes era preciso pagar para encontrar algo de real valor.

No entanto, mesmo ali não havia nada importante sobre Turnball. Mas “Barry Brothers” resultou em um bom número de artigos, nem todos muito lisonjeiros. A empresa estava deixando seu endereço de longa data na Park Avenue com a Rua 46. Wendy sabia que o Edifício Lock-Horne ficava ali. Sorrindo, sacou o celular. Sim, depois de dois anos, ainda tinha o número. Certificou-se de que a porta estava fechada e apertou o “enviar”.

A ligação foi atendida logo na primeira chamada.

– Articule.

O tom era arrogante, presunçoso e, por que não dizer, pedante.

– Oi, Win. Aqui é Wendy Tynes.

– É o que estava escrito no identificador de chamadas.

Silêncio.

Wendy quase podia vê-lo à sua frente, aquele rosto ridiculamente belo, os cabelos dourados, as mãos unidas apenas pelas pontas dos dedos em frente ao corpo, olhos azuis penetrantes, aparentemente sem nenhuma alma do outro lado deles.

– Preciso de um favor – ela disse. – Uma informação.

Silêncio. Win, ou Windsor Horne Lockwood III, não facilitaria as coisas.

– Você sabe alguma coisa sobre a Barry Brothers Trust? – ela perguntou.

– Sei. E você precisa de uma informação sobre eles.

– Direto como sempre.

– Tem gente que gosta.

– Eu sei. Já fiz parte desse grupo.

– Hum, eu me lembro.

Silêncio.

– A Barry Brothers demitiu um executivo chamado Phil Turnball. Preciso saber por quê. Acha que pode descobrir?

– Ligo de volta.

Clic.

Win. As colunas sociais o descreviam como playboy, uma palavra que certamente lhe cabia. Ele pertencia a uma família de ascendência nobre muito tradicional e riquíssima desde sempre. Eles haviam se conhecido num evento dois anos antes. Win havia sido direto. Queria fazer sexo com ela. Uma noite apenas. Sem compromissos ou cobranças.

De início Wendy ficara assustada, mas depois pensou: por que não? Nunca havia feito aquilo e lá estava um homem lindo e sedutor oferecendo a oportunidade perfeita. Ela era uma mulher moderna e desimpedida e, como Pops tinha dito, todo mundo precisa de sexo. Então, foram para o apartamento dele no edifício Dakota, a oeste do Central Park, em Manhattan. Win se revelara um homem gentil, atencioso e engraçado e, na manhã seguinte, já em casa, ela se debulhara em lágrimas por duas horas.

O telefone tocou. Conferindo o relógio, Wendy ficou pasma. Win havia retornado a ligação em menos de um minuto.

– Oi.

– Phil Turnball foi demitido por desviar dois milhões de dólares. Tenha um bom dia.

Clic.

Win.

Wendy se lembrou de algo. Blend… Era esse o nome da casa noturna, não era? Tinha assistido a um show lá uma vez. Entrando no site da casa, ela conferiu o calendário de eventos. Exatamente como pensara: microfone aberto naquela noite. E com “participação especial de Ten-A-Fly, a nova sensação do rap”.

Alguém bateu à porta.

– Pode entrar – ela berrou.

– Tudo bem aí? – disse Pops, enfiando a cabeça por uma fresta.

– Claro. Você gosta de rap, Pops?

– Prefiro ouvir um gato sendo estrangulado.

– Então vai sair comigo hoje à noite. Você precisa ampliar seus horizontes.

 

Ted McWaid estava assistindo a seu filho de 9 anos, Ryan, jogar no campo de lacrosse da Kasselton High. O sol já começava a baixar, mas o campo de grama sintética de última geração tinha luzes tão fortes quanto as de um estádio oficial. Ele estava ali porque… o que mais poderia fazer? Ficar em casa chorando o dia todo? Os ex-amigos (“ex” talvez fosse pouco gentil, mas Ted não andava lá muito propenso a gentilezas) acenavam educadamente sem fazer nenhum contato visual. Pareciam evitá-lo, como se ter uma filha desaparecida fosse contagioso.

Ryan integrava a equipe do terceiro ano. As habilidades dos garotos ainda oscilavam entre “em desenvolvimento” e “inexistentes”. Ninguém conseguia manter a bola na rede do bastão por muito tempo e os jogadores se amontoavam como se estivessem em uma luta livre. Os garotos usavam capacetes grandes demais, que pareciam melancias em suas cabeças, e era quase impossível diferenciá-los uns dos outros. Em certa partida, Ted havia torcido animadamente por Ryan, admirado com o progresso dele, até que o garoto retirou o capacete e ele viu que vibrara pela criança errada.

Sentado a certa distância dos outros pais, Ted quase sorriu ao se lembrar daquele dia. Mas a realidade se impôs de súbito e lhe roubou o ânimo. Era sempre assim. Por vezes ele até resvalava em uma espécie de normalidade, mas quando o fazia, pagava um preço alto por isso.

E o preço agora foi pensar em Haley. Ela frequentara aquele mesmo campo desde o dia da inauguração. Passava horas ali treinando as jogadas de esquerda. Ia para uma das extremidades do campo e ficava treinando, porque precisava melhorar a esquerda, porque seu ponto fraco era a maldita esquerda, porque os olheiros reparariam na esquerda dela, porque a Universidade da Virgínia jamais a aceitaria caso não conseguisse cair para a esquerda. Portanto ela trabalhava incessantemente a esquerda, não só ali, mas em casa também. Começara a tentar não usar a mão direita em tarefas como escovar os dentes, escrever, o que desse.

Todos os pais da cidade pegavam pesado com os filhos, cobrando deles notas mais altas e um desempenho melhor nos esportes, na esperança de vê-los admitidos por uma boa universidade. Com Haley, no entanto, nada disso era preciso. Porque ela mesma se cobrava. Talvez um tanto além do limite. No fim das contas ela não havia sido admitida pela Universidade da Virgínia. Ela era rápida para uma equipe colegial, talvez até para uma equipe de Primeira Divisão, suas jogadas com a mão esquerda ficaram ótimas, mas não conseguira entrar para a Universidade da Virgínia. Haley ficara arrasada, inconsolável. Mas que importância isso poderia ter? Que diferença isso faria?

Ted morria de saudades da filha.

Nem tanto dos jogos de lacrosse, mas sobretudo daquelas noites em que eles viam TV juntos, da insistência dela em que ele tentasse “sacar” de música moderna, de quando ela encontrava um vídeo engraçado no YouTube e o chamava para assistir. Ted sentia falta das coisas mais bobas, como das vezes em que caprichava no moonwalk na cozinha e Haley revirava os olhos ou de quando ele, só para implicar, cobria a mulher de beijos até que a filha berrasse: “Ei, tem criança no recinto!”

Fazia três meses que ele e Marcia não se tocavam. Não haviam decidido isso, nem sequer conversado a respeito. Simplesmente não havia clima para sexo ou qualquer tipo de carícia mais íntima. Esse distanciamento não vinha causando tensão, mas começava a formar um abismo entre eles e Ted já havia percebido. Apesar disso, não achava que seria importante tocar no assunto, pelo menos por ora.

A ausência total de informações. O não saber o que aconteceu. Tudo isso pesava demais sobre ele. Ted queria uma resposta, qualquer que fosse, o que o fazia se sentir ainda mais culpado. E essa culpa o consumia, roubava-lhe o sono todas as noites. Ted não era exatamente talhado para confrontos. Eles o deixavam nervoso. No ano anterior, tivera de medir forças com um vizinho por conta de uma demarcação de terreno. Passara semanas sem dormir, remoendo a questão.

A culpa era toda sua.

Regra número um para chefes de família: sua casa é o lugar mais seguro do mundo para sua filha. Cabe ao homem cuidar da segurança da família. Por mais que se quisesse tapar o sol com a peneira, a verdade era uma só: Ted não havia cumprido seu papel. Se alguém havia entrado em sua casa e sequestrado Haley, de quem era a culpa? Dele e de mais ninguém. Um pai deve proteger seus filhos, é sua maior missão. E se Haley tinha fugido, de quem seria a culpa? Dele também, porque não havia sido um pai presente ou acessível o bastante para que a filha o procurasse para dividir seus problemas.

Não conseguia parar de se martirizar. Queria voltar atrás, mudar alguma coisa, curvar o espaço-tempo ou fosse lá o que fosse. Haley não se cansava de surpreendê-lo com suas habilidades, que seguramente havia herdado da mãe. Sempre fora a filha mais forte, a mais independente, a mais desenvolta. Talvez esse tivesse sido o problema. Talvez ele houvesse pensado: “Bem, Haley não precisa de tantos cuidados ou tanta supervisão quanto Patricia e Ryan.”

Um martírio sem descanso, inútil.

Ted não fazia o tipo depressivo, longe disso, mas havia dias, dias sombrios e tristes, em que ele pensava na arma que o pai guardava em casa. E imaginava a cena toda: ele entrando na casa onde passara a infância, certificando-se de que ninguém estava lá, retirando o revólver da caixa de sapatos na prateleira superior do armário. Depois, descendo ao mesmo porão em que havia beijado Amy Stein quando garoto, indo para a área onde ficavam as máquinas de lavar e de secar roupa – porque ali o chão não era acarpetado e seria mais fácil de limpar –, sentando no piso frio, recostando-se numa das máquinas e colocando a arma na boca. Pronto, fim do sofrimento.

Ele jamais faria algo semelhante. Jamais sobrecarregaria a família com mais uma tragédia. Um pai não faz isso. Mas nos momentos de maior vulnerabilidade, ou de maior franqueza consigo mesmo, ele imaginava por que pensar naquela libertação, naquele fim, lhe dava tanto alívio.

Ryan agora estava jogando. Ted tentou se concentrar no que se passava do outro lado da cerca de arame, no rostinho do filho, distorcido pelo protetor bucal. Procurou encontrar alguma alegria naquele momento de pureza infantil. Ainda não entendia muito bem as regras do lacrosse masculino, muito diferentes das do feminino, mas sabia que Ryan estava no ataque, com chances de marcar.

Afunilando as mãos em torno da boca, berrou:

– Vai, Ryan!

Sua voz ecoou um som que ele não reconheceu. Ao longo da última hora outros pais vinham berrando sem parar, claro, mas Ted estranhou o próprio grito, que por algum motivo lhe pareceu deslocado. Decidiu aplaudir em vez de berrar, mas também estranhou os movimentos das mãos, como se elas fossem do tamanho errado. Virou o rosto por menos de um segundo e foi então que o viu.

Frank Tremont caminhava na direção dele como se pisasse em neve espessa. Estava acompanhado de um homem negro enorme, na certa outro policial. Por um instante a esperança abriu suas asas e alçou voo. Mas só por um instante.

Os sinais da linguagem corporal de Frank eram razoavelmente claros: sua cabeça estava baixa, a notícia não seria boa. Ted sentiu as pernas tremerem. Um joelho falhou, mas ele conseguiu se manter de pé e foi andando pela lateral do campo ao encontro do investigador.

Quando já estavam suficientemente próximos, foi Frank quem falou primeiro:

– Onde está Marcia?

– Na casa da mãe.

– Precisamos encontrá-la. Agora.

 

UM GIGANTESCO SORRISO SE ABRIU no rosto de Pops assim que eles entraram no Blend Bar.

– Que foi? – perguntou Wendy, curiosa.

– Tem mais lobas naquele balcão do que no Discovery Channel.

O bar era escuro e esfumaçado e todos os clientes usavam roupas pretas. De certo modo, Pops tinha razão quanto aos frequentadores.

– Mas, quando uma loba vem a uma casa noturna dessas, é para caçar homens mais jovens.

Pops arqueou as sobrancelhas e disse:

– Ah, com certeza algumas delas ainda têm problemas a resolver com o papai.

– Na sua idade, Pops, é melhor que elas tenham muitos problemas a resolver com o papai. Ou, quem sabe, com o vovô!

Pops olhou decepcionado para ela. O comentário havia sido mais que inoportuno. Ela acenou com a cabeça, num gesto de mea-culpa.

– Vou circular sozinho por aí, você se importa? – ele disse.

– Por quê? Minha companhia está atrapalhando?

– Você é a loba mais gostosa deste lugar. Portanto, sim. Apesar de muitas gatas curtirem isso. É como se roubassem o namorado de outra.

– Só não leve nenhuma delas lá para casa, hein? Tenho um filhinho inocente.

– Sempre sou eu quem vai para a casa delas – disse Pops. – Não gosto que elas saibam onde moro. Além disso, poupo as coitadinhas do mico de se esgueirar porta afora na manhã seguinte.

– Muito gentil da sua parte.

O lugar tinha um bar logo na entrada, um restaurante ao centro e um clube nos fundos. Naquela noite o microfone estaria aberto para quem quisesse se apresentar. Wendy pagou o couvert (cinco dólares para homens e um dólar para mulheres, com um drinque incluído) e entrou. Deparou-se com Norm, também conhecido como Ten-A-Fly, rapeando:

E aí, mina, saca só,

Você pode não estar em Tenafly

Mas Ten-A-Fly está dentro de você…

Ui, pensou ela. Umas 50 pessoas acompanhavam o show em frente ao palco. Ten-A-Fly usava um boné de aba reta inclinado a um ângulo de 45 graus e uma quantidade de correntes de ouro que mataria qualquer bicheiro de inveja. Segurava o microfone com uma das mãos e, com a outra, firmava a calça que insistia em cair (talvez porque fosse grande demais, talvez porque o sujeito não tivesse bunda).

Assim que ele terminou sua pérola romântica fazendo um trocadilho com o nome de outra cidade, a plateia, cuja faixa etária girava em torno dos 40 anos, explodiu num estrondoso aplauso. Uma mulher de cabelos vermelhos – uma possível fã – arremessou algo no palco e Wendy, com espanto, viu que se tratava de uma calcinha.

Ten-A-Fly a pegou do chão, cheirou-a com uma longa fungada e disse:

– Beijo pra todas as minas, pra todas as gostosas que vieram aqui hoje. Ten-A-Fly e o CP estão na área!

A possível fã jogou os braços para o alto diante do palco. Usava – Deus do Céu! – uma camiseta com os dizeres MINA OFICIAL DO TEN-A-FLY.

Pops se aproximou dela por trás. Parecia atordoado.

– Pelo amor de tudo o que é sagrado…

Wendy correu os olhos pelo salão e localizou os outros membros do Clube dos Pais (seria este o CP?) nas imediações do palco. Phil estava entre eles. Todos assobiavam freneticamente para o amigo. Virando o rosto, Wendy avistou uma mulher sozinha nos fundos do salão. Era loura e miúda e tinha os olhos volta-dos para o próprio drinque. Sherry Turnball, a esposa de Phil.

Abrindo caminho através da multidão, Wendy foi ao encontro dela.

– Sra. Turnball?

Sherry lentamente ergueu os olhos.

– Sou Wendy Tynes. Nós nos falamos pelo telefone.

– A repórter.

– Sim.

– Eu não sabia que foi você quem fez aquela matéria sobre Dan Mercer.

– Vocês se conheciam?

– Só nos vimos uma vez.

– Quando?

– Ele e Phil dividiram o quarto em Princeton. Mas só conheci Dan no ano passado, em um evento que organizamos para levantar fundos para a campanha do Farley.

– Farley?

– Outro colega de faculdade deles.

Ela tomou um gole do drinque. No palco, Ten-A-Fly pediu silêncio e foi prontamente atendido.

– Quero contar uma coisa sobre meu próximo número – disse, tirando os óculos com raiva, como se eles o incomodassem. Tentou pôr no rosto uma expressão intimidadora, mas ela mais pareceu uma careta causada por prisão de ventre. – Um dia lá estou eu na Starbucks, tomando um latte, um café, um sei-lá-o-quê, com meus irmãos do CP. – Os irmãos uivaram com a menção. – De repente vejo uma mina na pista, não uma gata qualquer, mas dessas de parar o trânsito. Com tudo em cima e uma comissão de frente de responsa, se é que vocês me entendem.

Os assobios diziam: “Sim, nós entendemos.”

– Eu lá, precisando de inspiração pra uma música nova, coisa e tal, e aparece uma princesa sacudindo os melões na minha frente… Aí vem um verso na minha cabeça: “Vai, gata, pega no bico.” Assim, do nada. Ela vai passando, toda empinadinha, exibindo o que tem de melhor, e eu lá, pensando: “Vai, gata, pega no bico.”

Ten-A-Fly fez uma pausa de efeito. Silêncio. E de repente alguém gritou:

– Genial!

– Valeu, brother, de coração. – Ele apontou para o “fã” de um jeito complicado, como se os dedos fossem o cano empenado de um revólver. – Então… Meus irmãos do CP chegaram junto e me deram a maior moral pra compor este rap. É isso aí, irmãos, valeu a força. A próxima música é pra vocês. E claro, pra todas as princesas de peitão que vieram me ver hoje. Vocês são a minha inspiração.

Aplausos.

Sherry Turnball disse:

– Aposto que você acha tudo isso uma palhaçada, não acha?

– Não estou aqui para julgar ninguém.

Ten-A-Fly começou a executar uma espécie de coreografia que qualquer médico poderia diagnosticar como ataque epiléptico.

Vai, gata, pega no bico

Vai e vem

E pega no bico

Rebola e balança

Mama, mama

Vai e vem

E pega no bico

Mia aqui, na minha cama …

Wendy mal conseguia acreditar no que estava ouvindo.

A essa altura os demais membros do Clube dos Pais berravam o refrão em coro, “Vai e vem e pega no bico”, deixando que Ten-A-Fly solasse os versos intermediários.

Dou seu leitinho

E você me ama

Vai e vem

E pega no bico

Wendy fez uma careta. Os homens subiram no palco. O tenista da Starbucks agora reluzia numa camisa polo verde-limão. Phil estava de calça cáqui e camisa social azul e batia palmas totalmente fora do ritmo.

Sherry Turnball desviou o olhar.

– Tudo bem com você? – perguntou Wendy.

– É bom ver Phil sorrindo.

Enquanto o rap continuava por mais alguns versos, Wendy avistou Pops conversando com duas mulheres num canto afastado. Tipos como seu sogro não eram muito comuns por aquela vizinhança e sempre havia alguma madame disposta a levar um bad boy para casa.

– Está vendo aquela mulher ali na frente? – perguntou Sherry.

– A que jogou a calcinha no palco?

– Ela mesma. É a esposa do Norm, quer dizer, do Ten-A-Fly. Eles têm três filhos, vão ter de vender a casa e ir morar com os pais dela. Mas ela dá todo apoio ao marido.

– Que bom – disse Wendy. No entanto, olhando melhor, achou que a empolgação da mulher de Norm parecia um tanto forçada, menos um entusiasmo real que uma compensação psicológica inconsciente.

– Por que você está aqui? – perguntou Sherry.

– Estou tentando descobrir a verdade sobre Dan Mercer.

– Tarde demais, não acha?

– Talvez. Phil me disse uma coisa estranha hoje. Falou que sabia o que era ser acusado injustamente.

Sherry não disse nada, apenas continuou brincando com o copo.

– Sherry?

Os olhos dela se ergueram para encontrar os de Wendy.

– Não quero que ele sofra mais do que já está sofrendo.

– Essa não é minha intenção.

– Phil levanta todos os dias às seis e veste terno e gravata, como se fosse trabalhar. Depois compra os jornais e vai para o Suburban Diner da Rota 17. Fica lá, tomando seu café e vasculhando os classificados. Sozinho, de terno e gravata. Todas as manhãs, sozinho. A mesma coisa dia após dia.

Wendy novamente pensou no pai. Entendia o que a mulher estava dizendo.

– Eu digo a ele que vai ficar tudo bem – prosseguiu Sherry –, mas se eu falo alguma coisa sobre a gente se mudar para uma casa menor, por exemplo, ele toma isso como um fracasso pessoal. Coisa de homem, sabe?

– O que aconteceu com ele, Sherry?

– Phil adorava o que fazia. Ele costumava dizer: “As pessoas confiam em mim, colocam as economias de uma vida inteira nas minhas mãos.” Ele se importa de verdade com os outros. Tem consciência do que está em jogo: a universidade dos filhos, a aposentadoria… Ele dizia que era uma grande responsabilidade, mas também uma grande honra. Era assim que ele era no trabalho. Honesto. Confiável.

Ela se deteve e Wendy esperou. Vendo que ela não ia continuar, disse:

– Andei fazendo uma pesquisa…

– Vou voltar a trabalhar. Phil é contra, mas eu vou.

– Sherry, escute. Sei da acusação de desvio.

– Sabe? – ela perguntou assustada, como se tivesse levado um tapa. – Como?

– Não importa. Era disso que Phil estava falando quando disse que sabia o que era ser acusado injustamente?

– Tudo não passou de uma grande armação, um pretexto para mandarem embora os funcionários mais caros. Se Phil fosse mesmo culpado, por que eles não teriam entrado na Justiça?

– Gostaria de conversar com ele sobre o assunto.

– Por quê?

Wendy abriu a boca para dizer algo, mas desistiu.

– Isso não tem nada a ver com Dan – disse Sherry.

– Talvez tenha.

– De que maneira?

Boa pergunta.

– Você conversaria com o Phil por mim? – perguntou Wendy.

– Mas vou dizer o quê?

– Diga que quero ajudá-lo.

Então uma ideia ocorreu a Wendy. Algo que Jenna tinha dito, que Phil e Sherry também tinham, coisas sobre o passado, sobre Princeton, sobre o tal Farley. Ela precisava voltar para casa e pesquisar na internet.

– Por favor, fale com ele.

Ten-A-Fly começou outra canção, um tributo a uma quarentona chamada Charisma. Plagiando a si mesmo, a letra dizia que ele não tinha carisma, mas que ia estar dentro de Charisma.

Wendy foi até onde Pops estava.

– Vamos?

Pops apontou para a mulher com sorriso convidativo e decote profundo a seu lado.

– Estou ocupado.

– Anote o telefone dela e marque um dia para pegar no bico. Precisamos ir.

 

PARA FRANK TREMONT E O DELEGADO MICKEY WALKER, a prioridade agora era encontrar um vínculo entre Dan Mercer e Haley McWaid.

Até então o telefone de Haley havia contribuído com poucas pistas (nenhum torpedo, e-mail ou telefonema novos), embora ainda estivesse sendo examinado por Tom Stanton, que tinha certo conhecimento técnico. Apesar disso, com a ajuda do dilacerado Ted e da obstinada Marcia, não demorou muito para que se encontrasse um vínculo entre Haley e Dan Mercer. Haley estava cursando o último ano do ensino médio na Kasselton High. Uma de suas colegas era uma garota chamada Amanda Wheeler, enteada de Jenna Wheeler, a ex de Dan. Mercer tinha uma relação amigável com a ex-mulher e, como já era sabido, costumava frequentar a casa dela.

Frank Tremont se sentou no sofá em frente a Jenna e Noel Wheeler em sua típica casa de classe média. Os olhos de Jenna estavam inchados por causa das lágrimas recentes. Era uma mulher pequena, o corpo rígido de quem malhava, provavelmente linda em circunstâncias normais. O marido, Noel, era chefe do setor de cardiologia do Valley Medical Center. Seus cabelos eram escuros e desalinhados, talvez compridos demais.

Mais um sofá macio, pensou Frank, em mais uma adorável casa de subúrbio. Igual ao dos McWaid. Ambos muito confortáveis, provavelmente muito caros. Este era de um amarelo vivo com flores azuis. Primaveril. Frank os imaginou, Noel e Jenna Wheeler, ou Ted e Marcia McWaid, indo até uma loja, testando diferentes sofás, procurando o mais adequado para suas belas casas, aquele que, combinando conforto e durabilidade, mais se adequaria ao estilo de vida da família e ao resto da decoração: o papel de parede, os tapetes orientais, os objetos comprados nesta ou naquela viagem à Europa. Uma vez entregue o sofá, eles o haveriam arrastado de lá para cá até encontrar o local perfeito, desabado em cima dele, chamado os filhos para testá-lo e, quem sabe, numa madrugada qualquer, namorado ali para estreá-lo.

Mickey Walker, o delegado de Sussex, estava de pé atrás dele, como num eclipse solar. Agora que os dois casos se entrelaçavam, eles trabalhariam em conjunto e já haviam decidido que caberia a Frank comandar aquele interrogatório.

– Obrigado por concordarem em nos receber – Tremont começou.

– Alguma novidade sobre o assassinato de Dan? – perguntou Jenna.

– Eu gostaria de fazer algumas perguntas a vocês dois sobre o relacionamento de ambos com Dan Mercer.

Jenna ficou confusa. Noel Wheeler não disse nada, apenas se inclinou para a frente, apoiou os antebraços nas coxas e cruzou as mãos entre os joelhos.

– O que o senhor quer saber? – perguntou Jenna.

– Vocês eram próximos?

– Sim.

Frank olhou para Noel.

– Vocês dois também? Quer dizer… ele era o ex-marido da sua mulher.

Novamente foi Jenna quem respondeu:

– Sim, também. Dan é… era… padrinho da nossa filha, Kari.

– Que idade ela tem?

– Que importância isso pode ter?

Frank engrossou um pouco a voz.

– Por favor, responda, Sra. Wheeler.

– Kari está com 6 anos.

– Ela costumava ficar sozinha com Dan Mercer?

– Se o senhor está insinuando que…

– Estou fazendo uma pergunta – interrompeu Frank. – Sua filha de 6 anos ficava sozinha com Dan Mercer?

– Sim, ficava – disse Jenna, a cabeça erguida. – E era louca por ele. Ela o chamava de tio Dan.

– Vocês têm outra filha, não têm?

– Tenho uma filha do meu primeiro casamento. – Agora foi Noel quem respondeu. – O nome dela é Amanda.

– Ela está em casa? – perguntou Frank, embora já soubesse a resposta.

– Está lá em cima.

Jenna olhou para o silencioso Walker, depois disse:

– Não vejo que relação isso possa ter com o fato de Ed Grayson ter assassinado Dan.

Walker simplesmente a fitou de volta, os braços cruzados em frente ao corpo.

– Com que frequência Dan vinha aqui? – perguntou Frank.

– Que diferença faz?

– Sra. Wheeler, por acaso tem algo a esconder?

Boquiaberta, Jenna disse:

– Como é que é?

– Por que a senhora insiste tanto em dificultar nosso trabalho?

– Não estou dificultando nada. Só quero saber…

– Por quê? Que diferença a motivação das minhas perguntas pode fazer para a senhora?

Noel Wheeler pousou a mão sobre o joelho da mulher e tomou a palavra:

– Dan nos visitava com bastante frequência. Mais ou menos uma vez por semana até que… – Ele se deteve um instante. – Até que aquela história sobre ele foi ao ar.

– E depois disso?

– Raramente. Talvez tenha aparecido uma ou duas vezes.

Frank olhou fundo nos olhos de Noel.

– Por quê? O senhor acreditou naquelas acusações?

Noel Wheeler não respondeu de imediato. Jenna o encarava, o corpo subitamente tenso. Por fim ele disse:

– Não, não acreditei.

– Mas?

Noel não disse nada. Tampouco olhou para a mulher.

– Melhor prevenir do que remediar, não é? – aventou Frank.

– Foi o próprio Dan que preferiu se afastar – disse Jenna. – Para evitar o falatório dos vizinhos.

Os olhos de Noel encaravam firmes o tapete.

– Mas ainda quero saber o que tudo isso tem a ver com a morte dele – insistiu Jenna.

– Gostaríamos de conversar com sua filha Amanda – disse Frank.

O pedido pegou os dois de surpresa. Jenna já ia dizer algo, mas se conteve e olhou para o marido. Tremont ficou se perguntando por quê. Síndrome da madrasta, ele supôs. Afinal, o responsável pela garota era Noel Wheeler.

– Detetive… Tremont, não é? – ele perguntou.

Frank fez que sim com a cabeça, não se dando o trabalho de corrigir o cargo. Ele era investigador, não detetive. Bobagem, às vezes até ele trocava as palavras.

– Estamos dispostos a colaborar – prosseguiu Noel. – Pode perguntar o que quiser, eu respondo. Mas agora o senhor quer envolver minha filha. O senhor tem filhos, detetive?

Frank Tremont pôde ver pelo canto do olho o desconforto de Mickey Walker. O delegado sabia sobre Kasey, embora Tremont nunca tivesse comentado nada a respeito. Ele jamais falava na filha.

– Não, não tenho.

– Se o senhor quer falar com Amanda, eu realmente preciso saber o que está acontecendo.

– Tudo bem. – Tremont não se apressou. Deixou que o silêncio os torturasse um pouco. Quando achou oportuno, disse: – Vocês sabem quem é Haley McWaid?

– Claro que sim – disse Jenna.

– Achamos que seu ex-marido fez algo com ela.

Silêncio.

– Quando o senhor diz “fez algo”…

– Raptou, molestou, assassinou, Sra. Wheeler – cuspiu Frank.– Fui claro o suficiente agora?

– Só quero saber o que…

– Não me interessa o que a senhora quer saber. Também estou pouco me lixando para Dan Mercer ou a reputação dele, ou até mesmo para quem matou o infeliz. Se tenho algum interesse nele, é exclusivamente por conta de Haley McWaid.

– Dan jamais faria uma coisa dessas com quem quer que fosse.

Frank sentiu a veia da testa latejar.

– Ah, é? Por que a senhora não disse antes? Aí eu já poderia ter encerrado este caso. Era só dizer ao Sr. e à Sra. McWaid: “Esqueçam a montanha de provas de que Mercer raptou sua filha. Jenna Wheeler disse que o ex-marido jamais faria uma coisa dessas com quem quer que fosse.”

– Não há motivo para ninguém se exaltar – interveio Noel, na voz de médico que decerto usava com os pacientes.

– Na verdade, Dr. Wheeler, motivo para qualquer um se exaltar é o que não falta. Como o senhor mesmo me perguntou há pouco, o senhor é pai, não é?

– Sim, claro.

– Então imagine que sua Amanda estivesse desaparecida há três meses e que os McWaid estivessem atrapalhando meu trabalho dessa maneira. Como o senhor reagiria?

– Só estamos tentando entender… – Jenna começou.

Noel balançou a cabeça e novamente a silenciou pondo a mão sobre o joelho da mulher. Depois chamou a filha:

– Amanda!

Jenna se recostou no sofá e a voz aborrecida de uma adolescente respondeu do andar de cima:

– Já vou!

Eles esperaram. Jenna olhava para Noel, que olhava para o tapete.

– Tenho mais uma pergunta para vocês dois – disse Tremont. – Até onde sabem, Dan Mercer conhecia Haley McWaid ou em algum momento esteve com ela?

– Não – respondeu Jenna.

– E o senhor, Dr. Wheeler?

Ele fazia que não com a cabeça, balançando os cabelos desalinhados, quando Amanda surgiu na sala. Era uma garota alta e muito magra. O corpo e a cabeça pareciam ter sido moldados em argila, alongados por mãos gigantes. “Desengonçada” não era a palavra mais simpática para descrevê-la, mas era a única que ocorria a Tremont. A menina parou diante do sofá e cruzou as mãos grandes sobre a virilha, como se estivesse nua e precisasse se cobrir. Olhava para qualquer outra coisa que não fossem os olhos de outra pessoa.

Noel se levantou e, pondo o braço sobre os ombros da filha, fez com que ela se sentasse ao lado de Jenna, que também a abraçou. Frank esperou um pouco até que a garota parecesse mais calma.

– Amanda, sou o investigador Tremont. Este é o delegado Walker. Precisamos lhe fazer algumas perguntas. Você não está em apuros, não precisa se preocupar. Queremos apenas que nos responda da maneira mais franca possível, está bem?

Amanda fez um movimento rápido com a cabeça indicando que concordava. Seus olhos dardejavam como dois pássaros assustados à procura de um poleiro. Os pais apertaram o abraço e se inclinaram um pouco para a frente, como se quisessem formar uma barreira protetora.

– Você conhece Haley McWaid? – perguntou Frank.

– Sim, conheço.

Amanda murchou ao responder.

– De onde?

– Do colégio.

– Vocês eram amigas?

Amanda sacudiu os ombros e se explicou:

– Eu fazia dupla com ela nas aulas de química no laboratório.

– Este ano?

– É.

– E como foi que isso aconteceu?

Amanda não entendeu a pergunta.

– Vocês escolheram uma à outra? – explicou Frank.

– Não. É a professora que escolhe as duplas.

– Entendo. Vocês duas se davam bem?

– Claro. A Haley é muito legal.

– Ela já esteve aqui, na sua casa?

Amanda hesitou um pouco, depois disse:

– Já.

– Muitas vezes?

– Não. Só uma.

Frank se recostou no sofá e esperou um instante.

– Pode me dizer quando foi?

Amanda olhou para o pai, que assentiu com a cabeça.

– Tudo bem – ele disse.

– No dia de Ação de Graças – ela enfim respondeu.

Frank olhou para Jenna Wheeler. Ela não dava nenhuma pista do que estava pensando, mas o esforço que ela fazia para isso era visível.

– Por que Haley veio aqui?

Mais um sacudir de ombros.

– Nenhum motivo especial – disse Amanda. – Veio dar um alô, só isso.

– Mas no dia de Ação de Graças? Ela não tinha que estar com a família?

Foi Jenna quem explicou, agora em um tom distante e monocórdio:

– As meninas jantaram cada uma com sua família, depois se encontraram aqui. Já era tarde. No dia seguinte não teriam aula.

Sem tirar os olhos de Amanda, Frank perguntou:

– A que horas foi isso?

Amanda pensou um instante.

– Sei lá. Umas 10 horas.

– Quantas garotas vieram para cá?

– Além da Haley, mais duas. Bree e Jody. A gente foi para o porão e ficou lá, de bobeira.

– Depois do jantar?

– É.

Frank esperou. Vendo que ninguém diria nada, fez a pergunta mais óbvia:

– Seu tio Dan também estava aqui?

Amanda não respondeu. Jenna nem sequer piscava.

– Estava? – repetiu Tremont.

Noel Wheeler se inclinou para a frente e cobriu o rosto com as mãos.

– Sim – ele disse. – Dan veio aqui no dia de Ação de Graças.

 

POPS RESMUNGOU DURANTE TODO o caminho de volta para casa.

– Aquela mina estava no papo.

– Desculpe – disse. E depois: – Mina?

– Gosto de me atualizar no vocabulário da pegação.

– Muito saudável da sua parte.

– Você deveria fazer a mesma coisa.

– Por favor, não comece.

– Tudo bem – disse Pops. – Então, era tão urgente assim?

– Era. Desculpe ter feito você perder sua mina.

– Ah, mina vai, mina vem… Você sabe como é.

– Sei.

Wendy entrou apressadamente em casa. Charlie zapeava diante da televisão com dois amigos, Clark e James. Estavam esparramados pela sala daquele modo que só os adolescentes sabem fazer, como se houvessem se desvencilhado dos próprios esqueletos e desabado na superfície macia mais próxima.

– E aí? – disse Charlie, sem mexer outra coisa que não fossem os lábios. – Chegaram cedo.

– Chegamos. Não precisa se levantar.

Charlie entendeu a ironia e sorriu.

– E aí, Sra. Tynes – resmungaram Clark e James, que também não se levantaram, mas pelo menos viraram o rosto na direção dela.

Charlie parou de zapear quando se deparou com o noticiário da NTC, a emissora da qual a mãe fora despedida de uma hora para outra. Michele Feisler, a nova âncora irritante e muito jovem que eles deveriam ter despachado no lugar de Wendy, dava sequência a uma matéria noticiada dias antes sobre Arthur Lemaine, um homem que havia levado um tiro em cada joelho ao sair da South Mountain Arena, em West Orange.

– Caraca – disse Charlie.

– Como se atirar num só não fosse suficiente.

Arthur Lemaine, recapitulava Michele naquela pretensa seriedade que tanto irritava Wendy, havia sido agredido depois de um treino no estádio. A câmera agora focalizava a South Mountain Arena, mostrando a placa que dizia que os New Jersey Devils treinavam ali. Como se isso acrescentasse algo de grande importância à matéria.

A imagem voltou para Michele Feisler, pomposa e séria na bancada.

– Não suporto essa mulher – disse James.

– A cabeça dela… – disse Clark. – Sei lá, é grande demais para o corpo.

Com sua voz melosa, Feisler prosseguiu:

– Arthur Lemaine ainda se recusa a falar sobre o incidente com as autoridades.

Claro, pensou Wendy. Uma pessoa que leva dois tiros nos joelhos sabe com quem está lidando, não vai dar com a língua nos dentes. Até mesmo James torceu o nariz numa careta. Charlie voltou a zapear.

– Essa mulher não chega nem aos seus pés, Sra. T – declarou James.

– É isso aí – disse Clark. – A senhora manda muito melhor.

Wendy logo viu que Charlie havia colocado os amigos a par de tudo.

– Obrigada, rapazes – disse.

– Sério – prosseguiu Clark. – A cabeça dela parece uma bola de basquete.

Charlie não se deu o trabalho de participar da conversa. Já tinha dito à mãe que os amigos a consideravam uma “coroa” que eles “pegariam fácil”. Dissera-o sem nenhum pudor ou constrangimento. Wendy não sabia se isso era bom ou ruim.

Ela subiu para usar o computador. Farley era um nome bastante incomum. Sherry Turnball tinha dito algo sobre uma festa para arrecadar fundos para a campanha dele. Wendy se lembrava do nome, bem como de ter ouvido algo sobre um escândalo sexual.

A essa altura ela já deveria estar acostumada, mas às vezes a rapidez e o alcance da internet ainda a assustavam. Bastaram dois cliques para que ela encontrasse o que estava buscando.

Seis meses antes, Farley Parks havia se candidatado ao Congresso pelo estado da Pensilvânia, mas fora afastado em razão de um escândalo envolvendo pros-tituição. O caso não havia recebido grande atenção da mídia (escândalos sexuais já não eram novidade), mas tirara Farley do páreo.

Wendy abriu as primeiras páginas listadas pelo site de busca. Ao que parecia, uma “dançarina erótica” chamada Desire (isto é, uma stripper que provavelmente usava um nome falso) havia contado toda a história a um jornal local e a notícia se espalhara.

Desire havia criado um blog no qual descrevia com espantosa riqueza de detalhes os encontros com Farley. Embora se considerasse uma pessoa de mente bastante aberta, Wendy corou com o que leu. Um horror. Também havia um vídeo. A contragosto, ela clicou nele. Por sorte, nenhuma nudez. Mostrando apenas sua silhueta, Desire dava mais detalhes explícitos numa voz ofegante, alterada eletronicamente. Wendy não conseguiu ouvir mais que 30 segundos.

No entanto, ainda que não houvesse nenhuma sutileza naquele material, Wendy sabia que sua obrigação como repórter era tentar identificar algum padrão. As entradas da primeira página para a pesquisa por “Farley Parks” tratavam exclusivamente do escândalo. As da segunda, no entanto, incluíam uma biografia pura e simples. Lá estava: Farley Parks havia se formado em Princeton 20 anos antes. No mesmo ano em que Phil Turnball e Dan Mercer se formaram.

Coincidência?

Três homens da mesma turma de formandos, da mesma universidade de elite, arruinados por escândalos no ano anterior. Os ricos e poderosos de algum modo atraíam esse tipo de problema. Só podia ser isso, coincidência.

A não ser que os três fossem mais do que apenas colegas.

Dan Mercer havia dividido o quarto com Phil Turnball em Princeton. Mas eles não eram necessariamente as únicas pessoas a morar ali. Podia haver outros alunos. Como saber se Farley Parks fazia parte do grupo?

Wendy tinha apenas o número do telefone residencial de Phil. Ele e a mulher provavelmente ainda estavam no Blend. Quem mais poderia ter essa informação?

Talvez Jenna Wheeler, a ex-mulher de Dan.

Já era tarde, mas, dadas as circunstâncias, não fazia sentido pensar em boas maneiras. Wendy ligou para a casa dos Wheeler. Um homem, provavelmente Noel, atendeu no terceiro toque.

– Alô.

– Aqui é Wendy Tynes. Posso falar com Jenna, por favor?

– Ela não está.

Clic.

Wendy ficou olhando para o telefone, pasma. Por fim deu de ombros e voltou ao computador. Então teve uma ideia: no ano anterior, ela havia cedido à pressão social e criado um perfil no Facebook. Localizara e adicionara alguns amigos e depois simplesmente deixara aquilo de lado.

Pessoas inteligentes, que ela respeitava, volta e meia usavam o site de relacionamentos para deixar recados desnecessários em seu mural, lhe enviar testes bobos, fazer brincadeiras idiotas e convidá-la para jogos on-line inúteis. Além disso (embora muita gente bem mais velha do que ela adorasse as tais redes sociais), na sua juventude – não que ela quisesse dar uma de saudosista –, quando um homem cutucava uma mulher, o sentido era bem diferente.

Mas sua turma de formandos em Tufts tinha um grupo no Facebook, com fotografias antigas e novas, além de informações sobre cada um. Talvez a turma que se formara em Princeton 20 anos atrás tivesse algo semelhante.

Ela entrou no Facebook e fez uma pesquisa.

Bingo.

Havia um grupo com 98 integrantes da tal turma de Princeton. A página inicial exibia pequenas fotos de oito deles, além de links e fóruns de discussão. Wendy imaginava uma maneira de ser adicionada ao grupo para ter acesso a todo o conteúdo quando seu celular começou a vibrar. Um ícone na tela indicava que ela havia recebido uma mensagem de voz. Provavelmente tinham tentado falar com ela quando ainda estava no Blend.

Examinando a lista de chamadas não atendidas, viu que a última era da emissora de TV. Decerto alguém ligando para falar de sua irrisória rescisão contratual. Mas a chamada tinha sido feita havia menos de uma hora. Ninguém do RH ligaria tão tarde.

Wendy discou o número da caixa de mensagens e ficou surpresa ao ouvir a voz de Vic Garrett, o homem que a demitira… o quê, dois dias antes? “Olá, minha flor, aqui é o Vic. Me ligue assim que puder. É urgente. Urgentíssimo.”

Wendy sentiu um frio na espinha. Sabia que Vic não era dado a exageros. Ela discou o número privativo da sala do ex-chefe. Caso ele já tivesse saído, a ligação seria encaminhada para o celular. Ele atendeu ao primeiro toque.

– Já ficou sabendo? – perguntou Vic.

– Do quê?

– É bem possível que você seja readmitida. Pelo menos como freelancer. De qualquer modo, quero você nessa história.

– Que história?

– A polícia encontrou o celular de Haley McWaid.

– E o que isso tem a ver comigo?

– Estava no quarto de hotel de Dan Mercer. Tudo indica que seu amigo é responsável pelo que aconteceu à garota, seja lá o que for.

 

Ed Grayson estava sozinho em sua cama.

Maggie, com quem estava casado havia 16 anos, fizera as malas e partira enquanto ele era interrogado pelo assassinato de Dan Mercer. Paciência. Na verdade, o casamento deles já havia acabado fazia um bom tempo. Ambos vinham empurrando a vida com a barriga, talvez na esperança de que as coisas fossem mudar, mas agora a esperança havia morrido também. Maggie não contaria nada. Disso ele tinha certeza. Era do tipo que preferia enterrar a cabeça na areia e pregar um sorriso na cara. Uma de suas frases prediletas, algo que aprendera com a mãe em Québec, era: “Somos nós que trazemos o sol para o piquenique.” Assim sendo, tanto uma quanto outra sorriam muito. Ambas tinham um sorriso tão bonito que por vezes Grayson até se esquecia de que não eram verdadeiros.

O sorriso de Maggie havia funcionado por muitos anos. Arrebatara o jovem Grayson. Ed via ali certa paz e queria ficar perto dela. Mas aquilo não era paz. Era apenas uma fachada, uma máscara para espantar o mal.

Quando as fotos do filho deles, E. J., nu, vieram à tona, Ed ficara chocado com a reação da mulher: Maggie queria ignorá-las. Ninguém precisava saber de nada, ela dizia. E. J. parecia bem. Tinha apenas 8 anos e ninguém havia tocado nele de verdade. Caso contrário haveria algum indício. O pediatra não encontrara nada. O garoto parecia normal, tranquilo. Nada de pesadelos ou xixi na cama, nenhuma agitação fora do comum.

Maggie chegara a suplicar. “Esqueça isso! Ele está bem!”

E Grayson respondera, furioso: “Você não quer botar aquele filho da puta atrás das grades? Vai deixar que ele continue solto por aí, fazendo a mesma coisa com outras crianças?”

“Não me interessam as outras crianças. Só o nosso filho.”

“E é isso o que você pretende ensinar a ele? Esquecer o que aconteceu?”

“É melhor assim. Não há motivo para que o mundo inteiro fique sabendo o que aconteceu.”

“E. J. não fez nada de errado, Maggie.”

“Claro que não! Mas as pessoas vão ficar olhando para ele de um jeito diferente. Nosso filho vai ser rotulado. Mas se a gente não disser nada, se ninguém ficar sabendo…”

Maggie sacara de seu sorriso. E pela primeira vez ele deixara Ed enojado.

Agora, sozinho em sua cama, não conseguia dormir. Serviu mais uma dose de uísque com soda e ligou a televisão na ESPN. Fechando os olhos, ficou pensando no sangue, em todo o horror que ele havia impingido em nome da justiça. Acreditava em cada palavra que dissera a Wendy Tynes. Aqueles crimes não podiam ficar impunes. E quando a Justiça não cumpria seu papel, bem, cabia a homens como ele tomar alguma providência. Mas não sem um ônus.

Dizem que a liberdade tem seu preço. A justiça também.

Ed ainda podia ouvir o sussurro perplexo de Maggie ao vê-lo chegar em casa: “O que foi que você fez?”

Em vez de tentar se explicar, ele foi curto e grosso: “Acabou.”

O mesmo poderia ser dito a respeito do casamento deles, mas, olhando para trás, talvez nem sequer tivesse existido amor. Era fácil colocar a culpa de tudo no que havia acontecido a E. J. No entanto, quais eram os fatos? A tragédia havia causado as fissuras ou apenas feito com que enxergassem as que estavam ali desde o início? Talvez até então eles tivessem vivido numa cegueira de sorrisos falsos e fachadas de calmaria. Talvez a tragédia tivesse apenas retirado as vendas de seus olhos.

A campainha tocou. Em seguida Ed ouviu a porta ser esmurrada com impaciência. Já era tarde. Reagindo mais do que pensando, ele saltou da cama e retirou a arma da gaveta da mesinha de cabeceira. De novo a campainha, de novo os murros.

– Sr. Grayson? É a polícia!

Ed espiou através da janela. Mais surpreso do que assustado, constatou como a polícia havia sido rápida. Dois policiais em uniformes pardos esperavam junto à porta. Walker, o delegado grandalhão, não estava entre eles. Por fim guardou a arma, desceu e abriu a porta.

Os dois policiais aparentavam mais ou menos 12 anos de idade.

– Sr. Grayson?

– Agente federal Grayson, filho.

– O senhor está preso pelo assassinato de Daniel J. Mercer. Mãos na cabeça enquanto leio os seus direitos.

 

TERMINADA A CONVERSA COM VIC GARRETT, Wendy desligou o telefone ainda atordoada com o desenrolar dos fatos, sem saber ao certo se havia falado com o ex ou o novo chefe.

O iPhone de Haley McWaid havia sido encontrado sob a cama de Dan Mercer.

Ela tentou digerir a notícia, organizar as emoções. A primeira delas era a mais óbvia de todas: o sofrimento da família McWaid lhe doía profundamente. De algum modo tinha esperanças de que as coisas terminassem bem para eles. Num segundo momento, entretanto, Wendy constatou que estava chocada. Sim, essa era a palavra. Talvez chocada demais. O mais natural seria que sentisse alguma espécie de alívio. Afinal, desde o início estivera certa sobre Dan Mercer, não estivera? A justiça fora feita, ainda que por caminhos tortos, e agora ela sabia que não havia sido instrumento de um complô maior para arruinar um homem inocente, um homem que só queria fazer o bem.

Na tela de computador bem à sua frente, estava a página do Facebook da turma de formandos de Princeton. Ela se recostou na cadeira e fechou os olhos. Lembrou do rosto de Dan quando eles se conheceram, naquela primeira entrevista no abrigo, do entusiasmo que ele havia demonstrado pelas crianças que saíam das ruas, do respeito que elas tinham por ele, da atração que ela própria havia sentido. Pensou no trailer, nos horríveis hematomas naquele mesmo rosto, no olhar sem brilho e na vontade que ela tivera, apesar de tudo, de consolá-lo.

Ela poderia simplesmente ignorar sua intuição?

Por outro lado, é claro que o diabo possui várias faces. Tantas vezes ouvira o exemplo de Ted Bundy, o famoso assassino serial. Mas a verdade era que ela jamais havia achado Bundy atraente. Talvez porque já soubesse o que ele era, mas o vazio daquele olhar era inconfundível. Wendy tinha certeza de que, mesmo se o tivesse conhecido antes de saber que se tratava de um assassino, teria visto nele um homem asqueroso tentando a todo custo usar o charme para esconder sua verdadeira personalidade. O mal podia ser pressentido. Essa era a verdade. Ou pelo menos era isso o que ela achava.

Fosse como fosse, ela não havia visto ou pressentido nada com Dan. Mesmo no dia em que ele morrera, ela sentira apenas compaixão, bondade. E agora havia mais do que só intuição. Agora havia Phil Turnball. Havia Farley Parks. Algo mais estava acontecendo ali, algo sombrio e traiçoeiro.

Wendy abriu os olhos e encarou a tela. Vamos lá: Facebook. Ela havia feito o login e encontrado a página dos formandos de Princeton, mas como fazer para ser adicionada? Tinha que haver uma maneira.

Consultar o especialista de plantão, ela concluiu.

– Charlie!

Do andar de baixo chegou a voz do filho:

– O que foi?

– Pode vir até aqui?

– Não ouvi direito!

– Venha aqui!

– Aí em cima? Para quê?

– Venha que eu explico.

– Não dá para explicar daí?

Wendy pegou o celular e digitou uma mensagem de texto para o filho, explicando que precisava com urgência de uma ajuda no computador e que, caso ele não se apressasse, ela cancelaria todas as contas que ele tinha on-line, mesmo sem saber ao certo como fazê-lo. Segundos depois, ouviu um longo suspiro no andar de baixo, seguido de passos arrastados subindo as escadas. Charlie entreabriu a porta e disse:

– O que foi?

– Preciso ser adicionada neste grupo – disse Wendy, apontando para a tela.

Charlie se aproximou para ver o que era.

– Mas você não estudou em Princeton.

– Ah, muito obrigada pela informação. Eu não sabia disso.

– Me amarro quando você usa esse sarcasmo comigo – ele retrucou.

– Mãe de peixinho peixe é.

De repente Wendy se viu tomada por aquela vontade quase irrefreável e comum a todos os pais de tomar o filho nos braços e nunca mais soltá-lo. Como amava aquele garoto!

– O que foi? – perguntou ele, percebendo o jeito estranho da mãe.

– Nada – ela respondeu. – Então, como é que eu faço para entrar nisso aqui, mesmo sem ter estudado em Princeton?

Charlie fez uma careta.

– Está me zoando, não está?

– Estou com cara de quem está “zoando” alguém?

– Sei lá. Com o sarcasmo fica difícil saber.

– Não estou zoando nem sendo sarcástica. Como eu faço para entrar?

Charlie suspirou novamente, se debruçou sobre a mesa e apontou para o canto direito da página.

– Está vendo este link aqui? Onde está escrito “Join Group”? É só clicar.

– E depois?

– Depois, nada. Você já faz parte do grupo.

Agora foi a vez de Wendy fazer uma careta.

– Mas, como você mesmo disse, eu não estudei em Princeton.

– Não interessa. Esse grupo é aberto. Nos grupos fechados você precisa pedir para entrar. Esse aí é aberto. Clicou, está dentro.

Wendy ainda parecia em dúvida.

Charlie suspirou uma terceira vez.

– Anda, clica aí – disse.

– Tudo bem, vamos lá.

Wendy clicou no botão e, voilà, ela agora fazia parte de uma turma de formandos de Princeton, ainda que na versão Facebook.

Charlie olhou para a mãe como se dissesse “Não falei?”, depois balançou a cabeça e chispou de volta para o andar de baixo. Novamente ela pensou em quanto amava o filho. Pensou também em Marcia e Ted McWaid recebendo a notícia sobre o iPhone que decerto Haley havia exultado ao ganhar, agora encontrado sob a cama de um desconhecido.

Pensar naquelas coisas não estava ajudando em nada.

A página já estava aberta. Antes de qualquer outra coisa, Wendy correu os olhos sobre os nomes dos 98 membros. Ninguém lhe era familiar e não havia nenhum Dan, nenhum Phil, nenhum Farley. Fazia sentido. Os três tinham bons motivos para manter certa discrição. Se um dia tivessem possuído uma conta no Facebook, provavelmente já a haveriam encerrado.

Pois bem, e agora?

Wendy examinou os fóruns de discussão. Um deles falava da doença de um dos colegas e os membros ofereciam apoio. Outro tratava de um encontro regional de ex-alunos. Nada ali. Um terceiro agendava a próxima reunião deles. Mudando de página, ela se deparou com um link que parecia promissor.

– Fotos de dormitório… do primeiro ano!

Wendy encontrou os três na quinta fotografia do álbum. Umas 100 pessoas posavam diante do prédio de tijolinhos e a legenda dizia STEARNS HOUSE. Logo reconheceu Dan. O tempo havia sido generoso com ele: os cabelos estavam mais curtos, mas, fora isso, ele pouco havia mudado. Sem dúvida tinha sido um belo rapaz.

Os nomes se encontravam listados logo abaixo. Farley Parks, já prenunciando o político que viria a ser, figurava bem no centro da primeira fila. Phil Turnball estava mais para a direita. Enquanto Dan vestia jeans e camiseta, tanto Farley quanto Phil se revelavam mauricinhos: calça cáqui, camisa social e mocassins sem meias. Só faltava o suéter sobre os ombros.

Muito bem, ela já sabia o nome do dormitório. E agora?

Ela poderia pesquisar no Google cada um dos nomes masculinos listados na foto, mas isso demoraria muito e talvez não resultasse em nada de muito proveito. Afinal, que motivos alguém teria para postar na web uma lista de seus colegas de quarto no primeiro ano de faculdade?

Portanto, ela continuou vasculhando as páginas. Dez minutos depois, tropeçou numa mina de ouro: “Nosso álbum do primeiro ano”.

Clicou no link, baixou o PDF e o abriu com o Acrobat. Wendy sorriu ao lembrar que também tivera um “álbum” de seu primeiro ano em Tufts. Tratavam-se de um livro em que cada aluno era listado com sua foto de formatura do ensino médio, o nome da escola, a cidade de origem, e – o melhor de tudo para o que ela agora tinha em mente – o número do quarto no dormitório. Wendy clicou na lista da letra M, saltou duas páginas e por fim encontrou Dan Mercer. Lá estava a foto dele com todas as informações:

Daniel J. Mercer

Riddle, Oregon

Riddle High School

Stearns House, quarto 109

Na foto, um Dan de uns 18 anos sorria como alguém que tem uma vida inteira de alegrias pela frente. Mas como ele estava errado! O sorriso dizia que ele estava pronto para ganhar o mundo, se formar em Princeton, casar… Mas se divorciar e… o que mais?

Tornar-se um pedófilo e ser assassinado?

Aquilo fazia sentido? Seria possível que ele já fosse pedófilo aos 18 anos? Que já tivesse molestado alguém? Que essas tendências tivessem se manifestado na época da faculdade? Ele teria realmente raptado uma adolescente?

Por que, diabos, ela ainda não conseguia acreditar nisso?

Não importava. Foco. Ela agora sabia o número do quarto de Mercer em Princeton: 109. Clicou nas listas do P e do T apenas para se certificar. Bingo: Farley Parks, natural de Bryn Mawr, Pensilvânia, formado pela Lawrenceville School, quarto 109 da Stearns House. E Philip Turnball (muito parecido com o que era hoje), natural de Boston, Massachusetts, formado pela Phillips Academy Andover, quarto 109 da Stearns House.

Em seguida ela digitou “Stearns House quarto 109” no campo de busca.

Cinco entradas.

Philip Turnball, Daniel Mercer, Farley Parks… e agora dois nomes que ela ainda não conhecia: Kelvin Tilfer, um negro de sorriso cauteloso, e Steven Miciano, que usava um daqueles colares de couro com uma conta grande no centro.

Os dois nomes novos não lhe diziam nada. Portanto, Wendy entrou em um site de buscas e digitou “Kelvin Tilfer”.

Nada. Quase literalmente. Apenas uma entrada: a lista de formandos de Princeton. Nada de LinkedIn, Facebook, Twitter ou MySpace.

Em geral, é possível encontrar alguma informação on-line mesmo sobre as pessoas menos “conectadas”. Kelvin Tilfer, sobretudo levando-se em conta os colegas de quarto que ele tivera, era um fantasma. O que aquilo poderia significar?

Talvez nada. Era cedo demais para levantar hipóteses. Primeiro ela precisava colher mais informações.

Wendy digitou “Steven Miciano” no campo de busca. E diante dos resultados, mesmo antes de clicar em qualquer um deles, ela soube.

– Caramba! – disse em voz alta.

E alguém atrás dela:

– O que foi?

Era Charlie, que havia voltado.

– Nada. Está tudo bem?

– Tudo. A gente está a fim de ir para a casa do Clark, pode ser?

– Claro.

– Valeu.

Charlie saiu e Wendy voltou a atenção para o computador. Clicou sobre a primeira entrada, um artigo publicado quatro meses antes num jornal chamado West Essex Tribune:

Steven Miciano, ortopedista do St. Barnabus Medical Center de Livingston, em Nova Jersey, foi preso ontem à noite, acusado de porte de entorpecentes. Ao investigar uma denúncia anônima, a polícia encontrou no carro do médico o que foi descrito como “uma grande quantidade de medicamentos controlados obtidos ilegalmente”. Miciano foi libertado sob fiança e aguarda julgamento. Segundo o porta-voz do hospital, o médico ficará afastado do cargo até que o assunto seja devidamente investigado e esclarecido.

Exatamente o que ela havia suspeitado. Wendy pesquisou o site do jornal para ver se havia algum outro artigo a respeito, mas não encontrou nada. Então voltou para o site de busca, onde encontrou páginas de blogs e até do Twitter. Na primeira delas, um ex-paciente explicava como Miciano lhe passava as drogas. Outra era de um “fornecedor” que havia contribuído com a polícia no caso de Miciano. Numa terceira, de um blog, uma paciente afirmava que o comportamento de Miciano era “estranho” e que ele “definitivamente parecia alterado”.

Wendy começou a fazer anotações, examinando tudo: blogs, tweets, posts, links do MySpace e do Facebook.

Aquilo era absurdo demais.

Cinco colegas de quarto no primeiro ano de Princeton. Nada sobre um deles. Tudo bem, deixemos Kelvin Tilfer de lado por um instante. Os outros quatro: um consultor financeiro, um político, um assistente social… e agora um médico. Todos envolvidos em algum escândalo no ano anterior.

Coincidência demais.

 

USANDO O TELEFONEMA A QUE TINHA DIREITO, Ed Grayson acordou sua advogada, Hester Crimstein, e informou que havia sido preso.

– Isso tudo é uma palhaçada tão grande que, em outras circunstâncias, eu mandaria um estagiário.

– Mas nessas circunstâncias… – disse Ed.

– Nessas circunstâncias não estou gostando nada do timing.

– Nem eu.

– Quer dizer, faz poucas horas que desbanquei aquele delegado. De onde foi que ele tirou coragem para prender você? – Hester fez uma pausa. – A não ser que eu tenha errado a mão.

– Acho que não foi isso.

– É, também acho. Então só pode ser algum fato novo.

– O exame de DNA?

– Não seria o bastante – Hester hesitou. – Ed, tem certeza de que eles não encontraram, digamos, algo mais comprometedor?

– Absoluta.

– Pense bem.

– Ninguém encontrou nada.

– Pois bem. Você já sabe o que fazer. Bico calado. Meu motorista vai me levar aí. Deve levar mais ou menos uma hora.

– Só mais uma coisa – disse Ed.

– O que foi?

– Não me levaram para a delegacia de Sussex. Estou em Newark. No condado de Essex, outra jurisdição.

– Por quê? Faz alguma ideia?

– Nenhuma.

– Tudo bem. Aguente firme aí. Vou me vestir. Dessa vez vou mandar chumbo grosso. Não vou dar mole para esses bundões.

Quarenta e cinco minutos depois, Hester já estava ao lado de Ed Grayson numa pequena sala de interrogatórios com piso laminado e uma mesa aparafusada ao chão. Eles esperaram. Esperaram muito. Hester estava ficando cada vez mais furiosa.

Por fim a porta se abriu e o delegado Walker, uniformizado, entrou acompanhado de um homem barrigudo e sessentão metido num terno cinza que parecia ter sido amarrotado de propósito.

– Desculpem a demora – disse Walker, se recostando numa das paredes. O outro homem se acomodou na cadeira à frente de Grayson. Hester andava de um lado para o outro.

– Estamos indo embora – disse Hester.

– Vá com Deus – disse Walker, acenando. – Vamos sentir saudades. Ah, só uma coisa: seu cliente não vai a lugar nenhum. Está detido. E dessa vez não vai sair pela tangente. Vai ser devidamente processado. Já é tarde, Hester. Provavelmente a audiência de fiança será amanhã bem cedo. Mas não se preocupe. Seu cliente vai ficar muito bem acomodado aqui.

– Perdão, delegado, mas, se não me engano, o seu cargo é eletivo, não?

– Sim, senhora.

– Então imagine o que vai acontecer quando eu empregar todos os meus esforços para colocar esse seu rabo descomunal atrás das grades. Prender um homem cujo filho foi vítima de um crime hediondo como…

O outro homem por fim tomou a palavra:

– Será que podemos deixar as ameaças de lado por enquanto?

Hester se virou para fitá-lo e ele prosseguiu:

– Faça o que bem entender, Sra. Crimstein. Estou pouco me lixando. Temos algumas perguntas a fazer. Ou a senhora responde ou seu cliente vai cair, e vai cair feio, nas garras do sistema. Fui claro?

As sobrancelhas de Hester ficaram mais unidas enquanto ela disse:

– E o senhor é…

– Frank Tremont. Investigador do condado de Essex. E por favor, se a senhora deixar essa pose de lado por um minuto que seja, vai entender por que está aqui.

Embora estivesse pronta para soltar os cachorros, Hester se conteve.

– Vamos lá, então. O que vocês têm para mostrar?

Foi Walker quem respondeu, atirando uma pasta de arquivo sobre a mesa:

– Um exame de sangue.

– Que diz o quê?

– Como a senhora sabe, encontramos sangue no carro do seu cliente.

– Foi o que o senhor disse.

– O sangue no carro é perfeitamente compatível com o sangue da vítima, Dan Mercer.

Hester fabricou um demorado bocejo.

– Talvez a senhora possa nos dar alguma explicação – continuou Walker.

– Sei lá. Talvez eles tenham feito um passeio juntos. Talvez Mercer estivesse com o nariz machucado.

Walker cruzou os braços.

– A senhora não tem nada melhor a oferecer? – perguntou.

– Ora, delegado, se o senhor insiste… Tenho coisa muito melhor a oferecer. – Hester piscou suavemente e, com uma voz forçadamente doce, disse: – Que tal algumas hipóteses?

– Que tal alguns fatos?

– Sinto muito, querido, mas fatos eu não tenho. Então vamos lá. O senhor tem uma testemunha para o suposto assassinato de Dan Mercer, correto?

– Correto.

– Então, hipoteticamente, digamos que eu tenha lido o depoimento de sua testemunha, Wendy Tynes, a repórter de TV.

– Impossível – disse Walker. – Tanto o depoimento quanto a identidade da testemunha são confidenciais.

– Oh, me desculpe, delegado. O depoimento hipoteticamente dado por sua hipotética repórter de TV. Está bem assim? Posso continuar?

– Continue – respondeu Frank Tremont.

– Ótimo. Pois bem, segundo o depoimento hipotético, quando a testemunha encontrou Dan Mercer no trailer dele, antes que qualquer arma fosse disparada, havia claros sinais de que ele, Mercer, havia sofrido uma série de ferimentos graves.

Silêncio.

– Gosto de feedback – disse Hester. – Um de vocês, balance a cabeça.

– Faça de conta que nós dois balançamos – disse Frank.

– Tudo bem. Então digamos, ainda hipoteticamente, que, alguns dias antes de morrer, Dan Mercer tenha encontrado o pai de uma de suas vítimas. Digamos que tenha havido uma briga entre eles. Digamos que alguém tenha sangrado por causa disso. Digamos ainda que algumas gotas desse sangue tenham acabado dentro de um carro.

Hester se calou, espalmou as mãos e arqueou uma das sobrancelhas. Walker olhou para Tremont, que disse:

– Ora, vejam só.

– Ora, vejam só o quê?

Apesar da tensão, Tremont sorriu:

– Se houve mesmo uma briga, ela não seria um motivo para que seu cliente cometesse o crime em questão?

– Desculpe, qual é mesmo o seu nome?

– Frank Tremont, investigador do condado de Essex.

– Você é novo nisso, Frank?

Agora foi Tremont quem espalmou as mãos.

– Por acaso tenho cara de novo em alguma coisa?

– Não, Frank, você tem cara de um acúmulo centenário de equívocos, mas isso que você acabou de dizer, sobre existir um motivo para o crime, é algo que apenas um novato de cérebro mal oxigenado tentaria usar para convencer um advogado ralé dos mais idiotas. Em primeiro lugar… preste bem atenção: geralmente, quem tenta se vingar é o cara que apanhou, é ou não é?

– Geralmente.

– Bem – Hester apontou para Grayson como se fosse apresentadora de um programa de auditório –, dê uma boa olhada neste armário que é o meu cliente. Por acaso vê algum hematoma ou algum arranhão nele? Não, não vê. Portanto tudo indica que, caso tenha havido algum embate físico, foi meu camarada aqui quem levou a melhor, você não acha?

– Isso não prova nada.

– Vá por mim, Frank. Você não ia querer discutir comigo o que prova o quê. De qualquer modo, não interessa quem levou a melhor ou a pior. Isso é irrelevante. Você levantou a questão do motivo como se fosse algo muito útil ou inovador. Você acabou de entrar neste caso, Frank, então vou lhe dar uma mãozinha. Dan Mercer tirou fotos do filho do meu cliente, um garoto de 8 anos, nu. Isso, sim, seria um bom motivo. Entendeu? Se um homem molesta sexualmente seu filho, isso já é motivo para que você queira fazer justiça. Anote para não esquecer. Investigadores experientes precisam saber de coisas assim.

– Uma coisa não tem nada a ver com a outra – respondeu Frank.

– Infelizmente, meu amigo, uma coisa tem tudo a ver com a outra. Vocês tiraram esse exame de sangue da cartola como se ele fosse a prova cabal de alguma coisa. Arrastaram a mim e a meu cliente para esta espelunca no meio da noite, alegando que tinham um grande trunfo nas mãos. Vou pular a parte sobre como posso fazer picadinho de tudo o que os peritos encontraram, porque você pode ouvir depois as gravações que Walker fez desde nosso primeiro tête-à-tête. Mas uma coisa eu vou lhe dizer: essa sua suposta prova não significa nada, lhufas, e pode ser facilmente descartada. – Ela se virou para Walker: – Não estou ameaçando ninguém aqui, mas você pretende mesmo usar essa porcaria de exame para abusar do seu poder e deter meu cliente injustamente por assassinato?

– Por assassinato, não – interveio Tremont.

Isso fez com que Hester reduzisse a marcha.

– Não?

– Por assassinato, não. Mas por cumplicidade post factum.

Hester se virou para Grayson, que apenas sacudiu os ombros. Novamente se dirigindo a Tremont, ela disse:

– Faça de conta que fiquei muito impressionada e vá direto ao ponto: que história é essa de cumplicidade post factum?

– Vasculhamos o quarto do motel em que Mercer estava hospedado – disse o investigador. – E encontramos isto.

Ele entregou a Hester uma fotografia 20x25 de um iPhone cor-de-rosa.

Hester a examinou e, tocando no braço de Grayson como se para orientá-lo a não demonstrar qualquer reação, virou a foto para ele. Permaneceram mudos. Hester sabia que havia um momento certo para falar e outro para calar. Geralmente pendia para o ataque, para falar mais do que devia, mas estava claro que era exatamente isso o que a polícia queria provocar. Que esperassem sentados.

Alguns minutos se passaram até que Tremont dissesse:

– Esse telefone foi encontrado sob a cama de Mercer num quarto de motel em Newark, não muito longe daqui.

Hester e Grayson continuaram calados.

– Pertence a Haley McWaid, uma garota desaparecida.

Ed Grayson, agente federal aposentado, deveria ser calejado o bastante para não fazer o que fez: exalar um suspiro. Virando-se, Hester viu que ele estava completamente lívido, como se alguém tivesse aberto um talho em seu rosto e deixado vazar todo o sangue. Novamente ela o tocou no braço, tentando fazê-lo se recompor. Para ganhar tempo, disse:

– Você não pode estar achando que meu cliente…

– Quer saber o que estou achando, Hester? – interrompeu Tremont, agora bem mais seguro, a voz ameaçadora. – Acho que seu cliente matou Dan Mercer porque viu que ele seria inocentado depois de ter feito o que fez. É isto o que acho: seu cliente resolveu fazer justiça com as próprias mãos. E, até certo ponto, não o culpo por isso. Se alguém fizesse a mesma coisa com um filho meu, eu não deixaria barato, pode ter certeza. Não deixaria mesmo. Depois bastaria contratar um bom advogado, porque a verdade é a seguinte: a vítima neste caso é uma criatura tão desprezível que ninguém seria condenado pela morte dela.

Ele encarou Hester de um modo feroz. Ela apenas cruzou os braços e esperou.

– Mas este é o problema quando alguém resolve fazer justiça com as próprias mãos: nunca se sabe o que vai acontecer depois. Ocorre que seu cliente matou a única pessoa que poderia contar à polícia o que aconteceu a uma garota de 17 anos desaparecida. Ah, que fique bem claro: tudo isso não passa de uma hipótese.

– Meu Deus… – exclamou Grayson, deixando o rosto cair entre as mãos.

– Posso ficar a sós com meu cliente um instante? – perguntou Hester.

– Para quê?

– Caia fora e não encha o saco! – rugiu Hester. Depois, pensando melhor, baixou o rosto até o ouvido de Grayson e sussurrou: – Você sabe alguma coisa sobre isso?

Grayson recuou e olhou para ela com uma expressão de horror.

– Claro que não!

– Tudo bem – disse Hester.

– Não achamos que seu cliente tenha alguma coisa a ver com o desaparecimento de Haley McWaid – prosseguiu Frank. – Mas temos bons motivos para acreditar que Mercer, sim. Portanto, agora precisamos fazer tudo o que estiver a nosso alcance para encontrar Haley. Tudo. Inclusive descobrir onde está o corpo de Mercer. E estamos correndo contra o tempo. Achamos que Mercer estava escondendo a garota em algum lugar. É possível que Haley esteja amarrada, ferida ou sei lá o quê. Mandamos escavar o quintal da casa dele, estamos interrogando vizinhos, colegas de trabalho, amigos, até mesmo a ex-mulher sobre os lugares aonde ele costumava ir. Mas o tempo está passando… e a garota está lá, sozinha, morrendo aos poucos de fome ou coisa pior.

– E o senhor acha que um cadáver poderá dizer onde ela está? – ironizou Hester.

– Acho. Talvez haja alguma pista no corpo dele, nos bolsos das roupas, sei lá. Seu cliente precisa nos dizer onde está o corpo de Dan Mercer.

Hester balançou a cabeça.

– O senhor acha que vou deixar meu cliente se enforcar dessa maneira?

– Espero apenas que ele faça a coisa certa.

– Para mim, tudo isso não passa de uma grande armadilha.

– Armadilha? – disse Tremont, levantando-se.

– Conheço muito bem a polícia e seus truques baratos. “Confesse e a gente salva a garota.”

Tremont se inclinou na direção dela.

– Olhe bem para a minha cara – disse. – Acha mesmo que isto é uma armadilha?

– Pode ser.

– Não é – interveio Walker.

– E devo acreditar apenas na palavra de vocês?

Walker e Tremont apenas olharam para ela. A história era verdadeira, qualquer um perceberia. Nem Robert de Niro conseguiria fingir tão bem.

– Seja como for – prosseguiu Hester –, não vou deixar meu cliente se incriminar.

Ainda de pé e já vermelho de raiva, Tremont disse:

– E você, Ed, o que pensa disso tudo?

– Fale comigo, não com meu cliente.

Frank a ignorou.

– Você é um agente da lei – começou Tremont, curvando o tronco até a cabeça arriada de Grayson. – Ao matar Dan Mercer, você pode ter sido responsável pela morte de Haley McWaid.

– Afaste-se – disse Hester.

– Acha que vai poder dormir com isso na consciência, Ed? Se está achando que vou perder meu tempo com formalidades jurídicas…

– Espere aí – disse Hester, subitamente calma. – Você deduziu tudo isso só por conta desse telefone?

– Como?

– Isso é tudo o que vocês têm? Um telefone encontrado num quarto de motel?

– O que, você acha que não basta?

– Não foi isso o que perguntei, Frank. Além desse telefone, o que mais vocês têm?

– Que diferença isso faz para você?

– Diga logo.

Frank Tremont olhou para Walker, que assentiu com a cabeça.

– A ex-mulher de Mercer – revelou Frank. – Dan frequentava a casa dela. E ao que tudo indica, Haley também.

– Vocês acham que eles se conheceram lá?

– Achamos.

Hester foi categórica:

– Soltem meu cliente.

– Está brincando, não está?

– Soltem meu cliente agora mesmo.

– Seu cliente matou nossa única pista!

– Errado! – cuspiu Hester, a palavra ecoando nas paredes da sala. – Se o que vocês estão dizendo é verdade, Ed Grayson forneceu a vocês sua única pista!

– De que, diabos, você está falando?

– Como foi que vocês, dois panacas, finalmente encontraram o tal telefone?

Nenhuma resposta.

– Vocês vasculharam o quarto de Dan Mercer. Por quê? Porque achavam que ele havia sido assassinado por meu cliente. Sem isso, vocês não teriam nada. Três meses de investigação e nada. Até o dia de hoje. Até meu cliente dar a vocês a única pista concreta que têm.

Silêncio. Mas Hester ainda não havia terminado.

– Por falar nisso, Frank, sei quem você é. Frank Tremont, investigador do condado de Essex, o palerma que meteu os pés pelas mãos naquele caso de homicídio alguns anos atrás. O bunda-mole, o zero à esquerda, o moleirão que levou um passa-fora da chefe, Loren Muse, por causa de sua comprovada incompetência, certo? Pois aqui está você agora, em seu último caso, e o que acontece? Em vez de se redimir, de dar um fim minimamente honrado à sua lamentável carreira, você nem sequer cogita investigar um pedófilo manjado que cruzou o caminho da garota desaparecida de um modo razoavelmente óbvio. Como foi que conseguiu essa façanha, Frank?

Dessa vez foi Frank Tremont quem ficou lívido.

– E agora esse policial preguiçoso tem a cara de pau de acusar meu cliente de ser cúmplice de um pedófilo. Você devia era agradecer a ele. Todo esse tempo no caso da menina desaparecida e não descobriu nada. Mas agora está mais perto do que nunca de encontrar a coitada por causa daquilo que meu cliente supostamente fez.

Frank Tremont murchou.

Hester acenou para Grayson. Ambos já se preparavam para sair quando Walker reagiu:

– Aonde pensam que vão?

– Embora.

Walker olhou para Tremont esperando que ele dissesse algo, mas o investigador ainda estava sem ar. Portanto coube a ele, Walker, tomar as rédeas da situação.

– Embora coisa nenhuma. Seu cliente está detido.

– Ouça, delegado – respondeu Hester, agora num tom bem mais suave –, está perdendo seu tempo.

– Posso saber por quê?

Hester o encarou com firmeza.

– Se soubéssemos alguma coisa que pudesse ajudar essa garota, teríamos o maior prazer em contar.

Silêncio.

Walker buscou uma resposta mais agressiva, mas não a encontrou.

– Que tal você deixar que nós decidamos o que pode ou não ajudar?

– Claro – disse Hester, já se dirigindo à porta, olhando de relance para Tremont e depois para Walker. – Vocês já deram inúmeras provas de competência. O que precisam fazer agora é encontrar logo essa garota e deixar em paz o homem que talvez seja o único herói nessa história.

Alguém bateu à porta e abriu uma fresta. Um jovem policial. Todos se viraram para ele.

– O que foi, Stanton? – perguntou Walker.

– Encontrei algo no telefone. Acho que vocês vão querer ver.

 

FRANK TREMONT E MICKEY WALKER seguiram Stanton pelo corredor.

– Essa Hester é uma raposa, mais indecente que uma puta de rua – Walker disse ao investigador. – Todo aquele papo de incompetência era só um truque para nos deixar desnorteados. Você sabe disso, não sabe?

– Ahã.

– Frank, você suou a camisa neste caso. Fez mais do que qualquer outro teria feito.

– Certo.

– Sua equipe inteira, o FBI, os especialistas mais feras, todo mundo fez o que pôde, mas ninguém poderia ter cantado essa bola.

– Mickey?

– Diga.

– Se eu quisesse alguém para lamber o meu saco, ia procurar uma boca bem mais feminina que a sua, entendeu?

– Tudo bem.

Stanton os conduziu até uma sala no subsolo da delegacia onde ficavam os peritos. O iPhone de Haley McWaid estava conectado a um computador. Apontando para a tela, Stanton disse:

– Basicamente isto aqui é a tela do telefone ampliada no monitor para que vocês possam ver melhor.

– Ótimo – disse Frank. – Mas e aí, o que foi que vocês encontraram?

– Encontramos algo num aplicativo.

– Aplicativo?

– Um programinha instalado no telefone.

Tremont puxou a calça pelo cinto para ajeitá-la:

– Faça de conta que sou um dinossauro que ainda não sabe programar um videocassete.

Stanton apertou uma tecla e três colunas de ícones surgiram no fundo preto do monitor.

– Estes são os aplicativos instalados no iPhone de Haley. O iCal, por exemplo, é a agenda onde ela anotava seus compromissos: jogos de lacrosse, trabalhos de escola, coisas assim. Isto aqui é um joguinho, Tetris. Isto aqui também, Moto Chaser. Safari é um navegador de internet; iTunes, um programa para baixar músicas. Parece que ela adora música, porque também instalou o Shazam, um aplicativo que…

– Acho que já deu para entender o espírito da coisa – interrompeu Walker.

– Claro. Foi mal.

Olhando para o computador, Frank ficou se perguntando que música ela teria ouvido pela última vez, se gostava de rock mais pesado ou de baladas românticas. Ele não se interessava por aparelhos modernos e fazia pouco caso da garotada que andava por toda parte com fones de ouvido, mandando torpedos e e-mails o dia inteiro, mas, em certo sentido, um iPhone era uma vida. Aqueles aplicativos mostrariam os amigos de Haley, as matérias que cursava na escola, suas músicas favoritas e as fotos que traziam boas lembranças, como aquela tirada ao lado do Mickey Mouse.

As acusações de Hester Crimstein não saíam de sua cabeça. Era bem verdade que Dan Mercer não tinha nenhum histórico de violência ou estupro, parecia gostar de garotas mais novas do que Haley e, francamente, o fato de sua ex-mulher morar na mesma cidade que a moça, uma cidade razoavelmente grande, não seria motivo para suspeitar dele. Ainda assim as palavras de Crimstein sobre sua incompetência pairavam no ar e Frank temia que elas fossem verdadeiras.

Ele deveria ter percebido.

– Não vou entrar em detalhes – prosseguiu Stanton –, mas estranhei uma coisa. Haley baixou um monte de músicas, como qualquer adolescente, mas nenhuma depois que sumiu. Também não usou a internet. Dá para saber tudo o que ela fez na internet pelo histórico do navegador. Fez algumas pesquisas sobre a Universidade da Virgínia… Ela deve ter ficado triste quando não conseguiu entrar…

– Ficou.

– Ela também pesquisou uma garota chamada Lynn Jalowski, que jogava lacrosse em West Orange e foi aceita pela Universidade da Virgínia. Imagino que as duas estivessem concorrendo à mesma vaga.

– Nada disso é novidade – disse Frank.

– Então, vamos lá. Com certeza vocês também já sabem dos torpedos, das conversas pelo MSN e tudo isso, mas uma coisa me chamou a atenção: Haley era muito menos assídua nessas coisas do que as garotas da idade dela. No entanto… Encontrei outro aplicativo no iPhone dela: o Google Earth. Você provavelmente já ouviu falar.

– Refresque a minha memória – disse Frank.

– Veja isso. É basicamente um GPS.

Stanton pegou o iPhone de Haley e bateu o dedo sobre uma foto da Terra. A imagem rodopiou e a câmera do satélite foi fechando o zoom, ampliando o planeta (Estados Unidos, Costa Leste, Nova Jersey…) até parar cerca de cem metros acima do prédio onde eles se encontravam. Um campo informava MARKET STREET, 50, NEWARK, NJ.

Boquiaberto, Frank disse:

– Com este aplicativo podemos saber todos os lugares por onde este telefone andou?

– Quem dera – disse Stanton. – É preciso acionar essa função. Haley não acionou. Mas você pode digitar qualquer endereço ou lugar e ver uma foto de satélite. De qualquer modo, os técnicos ainda estão tentando ver o que é possível fazer, mas parece que o Google Earth é um aplicativo independente, por isso o servidor não mostra as consultas feitas. O histórico também não diz quando uma consulta foi feita, apenas aponta que ela foi feita e onde.

– E Haley fez alguma consulta?

– Apenas duas desde que baixou o aplicativo.

– E então?

– Uma foi da própria casa. Imagino que, quando ela baixou o Google Earth e o acionou pela primeira vez, o aplicativo tenha mostrado onde ela estava.

– E a outra?

Stanton clicou sobre o ícone ampliado no computador. Novamente o globo girou e fechou o zoom sobre Nova Jersey, parando sobre uma área arborizada com um prédio no centro.

– Parque estadual de Ringwood – informou Stanton. – Fica a mais ou menos 65 quilômetros daqui. O coração das montanhas Ramapo. Esse prédio no centro é o Skylands Manor. São pelo menos 5 mil acres de mata ao redor.

Houve um segundo de silêncio, talvez dois. Frank sentia o coração pular no peito. Ele olhou para Walker. Nenhuma palavra foi trocada entre eles, mas ambos sabiam. Quando algo assim cai do céu, as pessoas sabem. O parque era bem grande. Frank lembrava-se de um homem que havia se escondido naquela mata por mais de um mês. Sabia que era possível ocultar um pequeno abrigo entre as árvores e trancafiar alguém dentro dele.

Ou, claro, enterrar um corpo numa cova que ninguém jamais encontraria.

Tremont foi o primeiro a conferir as horas. Meia-noite. Uma eternidade até o amanhecer. O pânico se instalou. Sem pensar duas vezes, ele ligou para Jenna Wheeler. Receou que ela não fosse atender, mas, se necessário, arrombaria a porta da casa dela com o próprio carro para obter uma resposta.

– Alô?

– Dan tinha o hábito de fazer trekking, não tinha?

– Tinha.

– Algum lugar preferido?

– Sei que ele gostava de uma trilha em Watchung.

– E o parque estadual de Ringwood?

Silêncio.

– Jenna?

– Sim – ela respondeu, a voz um tanto distante. – Quer dizer, costumávamos fazer trilha lá quando ainda éramos casados.

– Por favor, vista-se. Um carro irá buscá-la.

Frank Tremont desligou. Então virou-se para Walker e Stanton e disse:

– Quero helicópteros, cachorros, tratores, holofotes, pás, equipes de resgate, guardas florestais, voluntários, tudo o que estiver disponível. Mãos à obra.

Walker e Stanton assentiram.

Tremont respirou fundo e, ainda assombrado pelas palavras de Hester Crimstein, ligou para Ted e Marcia McWaid.

 

Às cinco da manhã, Wendy acordou assustada com o celular tocando. Não havia dormido mais que duas horas. Passara a madrugada inteira na internet, tentando juntar os fatos. Nada sobre Kelvin Tilfer. Seria ele a exceção que confirmava a regra? Ainda era cedo para dizer. No entanto, quanto mais ela se aprofundava no histórico dos outros quatro, mais estranha ficava a série de escândalos envolvendo os colegas de quarto de Princeton.

Bêbada de sono, ela alcançou o telefone e grunhiu um alô.

Vic dispensou as amenidades.

– Já ouviu falar no parque estadual de Ringwood? – disparou.

– Não.

– Fica em Ringwood.

– Uau. Você deve ter sido um repórter e tanto.

– Corra para lá agora.

– Para quê?

– É lá que a polícia está procurando pelo corpo da garota.

Wendy se sentou na cama.

– O corpo de Haley McWaid?

– Sim. Estão achando que Mercer desovou o presunto na mata.

– Baseados em quê?

– Segundo minha fonte, no Google Earth do iPhone dela. Vou mandar uma equipe de vídeo encontrar você lá.

– Vic?

– Fale.

Wendy correu os dedos pelos cabelos, tentou aquietar os pensamentos.

– Não sei se tenho estômago para encarar essa.

– Se vire – ele cuspiu, batendo o telefone.

Wendy se levantou da cama, tomou um banho e trocou de roupa. Tinha um estojo de maquiagem sempre a postos para reportagens urgentes, o que era bastante estranho considerando a urgência em questão. Paciência. O mundo do telejornalismo era assim. Como Vic acabara de sugerir, bem a seu modo, não era hora para emotividades.

Ela passou pelo quarto de Charlie: um pandemônio de roupas esparramadas pelo chão. Quando uma mulher perde o marido, aprende a não desperdiçar tempo e energia com bobagens. Correndo os olhos pela bagunça e vendo o filho que ainda dormia, Wendy pensou em Marcia McWaid, que um belo dia havia acordado e passado pelo quarto da filha, mas se deparado apenas com uma cama vazia. Agora, três meses depois, ela ainda esperava por alguma notícia enquanto a polícia esquadrinhava a mata de um parque.

Era isso o que pessoas como Ariana Nasbro não conseguiam entender, a fragilidade do mundo. As feridas que uma guinada do destino é capaz de abrir. O poço de desespero em que somos jogados por conta de um descuido qualquer. A irreparabilidade das coisas.

Mais uma vez Wendy fez silenciosamente a oração de todos os pais: “Que nada aconteça a meu filho, que Deus o proteja de todos os males.”

Então desceu as escadas, entrou no carro e foi para o parque estadual onde a polícia procurava pela garota que, um belo e fatídico dia, não amanhecera em sua cama.

 

O SOL NASCEU ÀS CINCO E QUARENTA E CINCO.

Patricia McWaid, a irmã mais nova de Haley, observava imóvel a correria ao redor. Tinha a impressão de que, desde a descoberta do iPhone, o tempo havia voltado para aqueles primeiros dias de atordoamento em que a família inteira colava pôsteres cidade afora, ligava para os amigos de Haley, atualizava o site construído para divulgar o acontecido e distribuía fotos pelos shoppings locais.

O investigador Tremont, sempre tão gentil e prestativo com os pais dela, parecia ter envelhecido 10 anos nos últimos dias. Ele se aproximou e, forçando um sorriso, perguntou:

– Oi, Patricia, como está?

– Bem, obrigada.

Ele deu uns tapinhas no ombro da menina e se afastou. As pessoas sempre faziam isso. Patricia não se destacava em nada, não tinha nenhuma qualidade que chamasse a atenção, mas não se incomodava com isso. Estava satisfeita com a própria situação, pelo menos até o sumiço da irmã. Sabia que a maioria das pessoas não era especial, ainda que pensassem o contrário.

Ela morria de saudades de Haley. Não gostava de ser o centro das atenções e, ao contrário da irmã, detestava competir e evitava os holofotes. Agora, no entanto, tornara-se uma espécie de celebridade na escola, era bajulada pelas meninas mais populares, que se aproximavam dela só para depois, nas festinhas, poderem dizer: “Sabe aquela garota que sumiu? Pois é, sou muito amiga da irmã dela.”

Sua mãe vinha organizando as diversas frentes de busca. A mulher era uma fortaleza, assim como Haley. Ambas tinham as passadas firmes de uma pantera e, mesmo num passeio à toa, pareciam estar desafiando alguém. Haley ia à frente. Sempre. E ela, Patricia, atrás. Alguns achavam que isso a incomodava. Que nada. A mãe por vezes pegava em seu pé: “Você precisa aprender a se impor.” Mas Patricia não via nenhuma necessidade disso. Não gostava de tomar decisões. Ficava feliz em ver os filmes que Haley escolhia. Pouco ligava se a comida era chinesa ou italiana. Que importância isso poderia ter? Pensando bem, qual era a grande vantagem de tomar decisões?

As vans com os jornalistas se apinhavam atrás do cordão de isolamento colocado pela polícia. Patricia avistou a repórter de voz esganiçada e cabelo duro de laquê que trabalhava na emissora de TV a cabo. Um homem escapou discretamente do cerco e, abrindo um sorriso cheio de dentes, chamou por ela e acenou com o microfone como se a estivesse seduzindo com uma barra de chocolate. Tremont foi imediatamente até o sujeito e, caprichando nos palavrões, o expulsou dali.

Outra equipe começou a armar suas câmeras e Patricia reconheceu a bela repórter que estava com eles. Sabia que o filho dela, Charlie Tynes, frequentava sua escola e sabia também, porque a mãe havia contado, que o pai do garoto morrera quando ele ainda era criança, atropelado por uma motorista embriagada. Sempre que viam a Sra. Tynes, ela, Haley e a mãe ficavam meio silenciosas, por respeito ou talvez por medo, se perguntando, Patricia imaginava, como seria a vida delas caso algo parecido lhes acontecesse.

Mais policiais chegaram. Forçando um sorriso, o pai de Patricia apertou a mão de todos com o vigor de um político em campanha. O pai, assim como Patricia, costumava ser do tipo que prefere se deixar levar. Mas ele havia mudado. Todos haviam mudado, ela percebia, mas algo na alma dele parecia ter se partido. Patricia temia que, mesmo se Haley voltasse para casa, o pai jamais conseguisse colar seus cacos. Ele ainda tinha a mesma aparência, o mesmo sorriso, ainda tentava rir e fazer palhaçadas, ainda fazia todas aquelas pequenas coisas que lhe eram peculiares, mas era como se ele estivesse vazio, como se tudo dentro dele tivesse sido retirado ou algum alienígena o tivesse transformado num clone sem alma.

Um dos policiais segurava cães dinamarqueses treinados. Patricia se aproximou deles:

– Posso passar a mão?

– Claro – disse o policial, depois de alguma hesitação.

Patricia coçou as orelhas de um deles, que botou a língua para fora, agradecido.

É comum as pessoas pensarem que os pais são os modelos para os filhos, mas, no caso de Patricia, a irmã mais velha havia sido a pessoa mais marcante. Quando criança, umas meninas na escola começaram a implicar com ela e Haley saiu no tapa com uma delas. Ninguém mais a incomodou. Da mesma forma, Haley botara para correr uns garotos que tentaram mexer com Patricia no Madison Square Garden, no show de Taylor Swift ao qual ela havia levado a irmã caçula. Noutra ocasião, na Disney, ambas haviam saído sozinhas à noite com permissão dos pais. Conheceram alguns garotos mais velhos e acabaram ficando bêbadas. Mesmo uma filha exemplar às vezes conseguia escapar da supervisão dos pais. Não que Haley não fosse uma filha exemplar, claro que era, mas também era uma adolescente. Naquela noite, depois de tomar a primeira cerveja de sua vida, Patricia havia ficado com um cara chamado Parker, mas Haley estava lá para não deixar que o dom-juan avançasse o sinal.

– Vamos começar pelo fundo da mata – disse o investigador Tremont, orientando o policial que trouxera os cachorros.

– Por quê?

– Se ela estiver viva, se o canalha construiu algum tipo de abrigo para escondê-la, com certeza foi em algum lugar bem longe da trilha. Caso contrário, alguém já o teria visto. Mas se ela estiver perto da trilha…

Patricia percebeu que Tremont se calou ao notar que podia ser ouvido. Ela desviou o olhar na direção da mata e continuou alisando o cachorro à sua frente, fingindo não ter ouvido nada. Ao longo dos últimos três meses, vinha lutando para afastar os pensamentos negativos. Pensava na irmã como se ela estivesse fora em alguma aventura misteriosa e logo fosse voltar. Haley era forte, ia sobreviver.

Mas agora, olhando para aquela mata, uma imagem indesejada surgia em sua mente: Haley perdida em algum canto, sozinha, assustada, ferida, chorando. Ela apertou os olhos tentando afastar aquele pensamento. Tremont se aproximou, pigarreou e esperou. Alguns segundos depois, Patricia abriu os olhos. Encarou o investigador, esperando alguma palavra de consolo, mas Tremont permaneceu mudo: ficou ali, irrequieto, sem saber ao certo o que fazer ou dizer.

Então Patricia fechou os olhos novamente e continuou alisando o cachorro.

 

ATRÁS DO CORDÃO DE ISOLAMENTO, Wendy empunhava um microfone com o logotipo da NTC e tentava dar à voz a medida certa de seriedade, evitando o tom melodramático dos telejornais:

– Portanto, ainda estamos à espera de algum pronunciamento da polícia. Do parque estadual de Ringwood, em Nova Jersey, Wendy Tynes para a NTC News.

Ela baixou o microfone e Sam, o câmera, disse:

– Vamos ter que gravar de novo.

– Por quê?

– Seu rabo de cavalo está muito solto.

– Bobagem.

– Puxa, Wendy, arrume isso aí. Dois minutinhos, vai. O Vic vai ficar danado.

– Que se dane o Vic.

Sam revirou os olhos e disse:

– Você está brincando, não está?

Wendy não disse nada.

– Ué, não é você mesma que fica furiosa quando vai ao ar com a maquiagem borrada? – ele insistiu. – O que foi que deu em você? Ande, vamos fazer mais uma tomada.

Wendy lhe entregou o microfone e se afastou. Sam estava certo, claro. Ela iria aparecer num noticiário de TV. Qualquer um sabia que a aparência importava – e muito – naquele ramo. E diversas vezes, em situações igualmente funestas, Wendy havia se arrumado e repetido as tomadas sem reclamar.

Enfim, que acrescentassem “hipócrita” à sua lista de defeitos.

– Ei, aonde você vai?

– Estou com o celular. Me ligue se alguma coisa acontecer.

Ela foi para o carro. Estava planejando ligar para Phil Turnball, mas então se lembrou do que a mulher dele tinha dito: Phil costumava passar as manhãs lendo os classificados no Suburban Diner, na Rota 17. A lanchonete ficava a uns 20 minutos dali.

 

O jukebox do Suburban Diner tocava “True”, um grande sucesso da banda Spandau Ballet nos anos 1980, mas uma estranha escolha para as seis da manhã. Phil Turnball ocupava uma das mesas do canto. Usava um terno risca-de-giz cinza e uma gravata amarela. Não estava lendo o jornal. Encarava a xícara de café como se ela pudesse lhe dar alguma resposta.

Wendy se aproximou e esperou que ele erguesse os olhos. Não ergueu. Ainda encarando a xícara, Phil disse:

– Como soube onde eu estava?

– Sua mulher comentou que você costumava vir aqui.

Ele sorriu, mas sem nenhuma alegria.

– Comentou, é?

Wendy não disse nada.

– O que foi exatamente que ela disse, posso saber? Já sei: “Ah, coitadinho do Phil, todo dia ele vai para aquela lanchonete e fica lá chorando as mágoas.”

– Não foi nada disso.

– Sei.

Não era a melhor hora para conversa fiada, então ela encurtou o assunto:

– Posso me sentar?

– Não tenho nada a lhe dizer.

O jornal sobre a mesa exibia a matéria sobre o iPhone de Haley encontrado no quarto de Dan Mercer.

– Você leu? – perguntou Wendy.

– Li. Você ainda está tentando defendê-lo? Ou tudo não passou de conversa fiada desde o início?

– Não estou entendendo.

– Ontem você já sabia que Dan tinha sequestrado essa menina? Achou que eu não ia aceitar falar com você, então inventou aquela história sobre querer limpar a ficha dele, não foi?

Wendy se acomodou do outro lado da mesa.

– Nunca disse que queria limpar a ficha de ninguém. Disse que queria descobrir a verdade.

– Muito nobre da sua parte.

– Por que essa hostilidade toda?

– Vi você conversando com minha mulher ontem à noite.

– Sim, e daí?

Phil Turnball ergueu a xícara com ambas as mãos.

– Você queria que ela me convencesse a colaborar.

– Mais uma vez: e daí?

Ele bebeu um gole e apoiou a xícara no pires devagar.

– Eu não sabia o que pensar. Quer dizer, até certo ponto aquilo que você disse sobre terem armado para cima do Dan fazia sentido. Mas agora…

Ele apontou o queixo na direção do jornal.

– Talvez você possa ajudar a encontrar a garota desaparecida.

Ele balançou a cabeça e fechou os olhos.

– O que foi?

A garçonete, uma moça alta com cabelo mal tingido muito louro e um lápis atrás da orelha, se aproximou da mesa:

– Vai querer alguma coisa?

– Não, obrigada.

A garçonete se afastou. Phil ainda estava de olhos fechados.

– Phil?

– Que fique entre nós.

– Pode falar.

– Não sei como dizer isso sem dar a impressão errada.

Wendy esperou que ele organizasse as ideias.

– Olhe, o Dan e essas coisas de sexo…

Mais uma pausa. Wendy precisou se conter para não pular no pescoço dele. “Essas coisas de sexo?” Ir ao encontro de uma garota menor de idade, possivelmente sequestrar outra… não dava para reduzir tudo isso a “essas coisas de sexo”. Mas aquele não era o momento para discursos moralizantes.

– Não me leve a mal. Não estou dizendo que Dan era pedófilo. Não era bem assim.

Ele se calou novamente, mas dessa vez Wendy achou que ele não prosseguiria sem um pequeno empurrão.

– Então era como? – ela perguntou.

Phil gaguejou alguma coisa, parou e balançou a cabeça. Por fim disse:

– Digamos que Dan não se incomodava quando elas eram mais jovens, se é que você me entende.

O coração de Wendy pareceu falhar.

– Quando você diz “mais jovens”…

– Às vezes… não esqueça que isso aconteceu há mais de 20 anos… mas às vezes Dan preferia a companhia de garotas mais novas. Não que ele fosse pedófilo, nada disso. Nada doentio assim. Mas ele gostava de frequentar as festinhas dos colégios de ensino médio. Convidava as garotas para participar de eventos no campus, esse tipo de coisa.

Wendy sentiu a boca secar.

– Mais novas quanto?

– Sei lá. Eu não pedia para ver os documentos delas.

– Mais novas quanto, Phil?

– Já disse, não sei – disparou ele. – Mas nós estávamos no primeiro ano da faculdade, não se esqueça disso. Também éramos muito jovens. Portanto, que mal havia? Dan devia ter um 18 anos, eu acho. E aquelas meninas eram, sei lá, dois ou três anos mais novas que ele. No máximo quatro.

– Quatro? Uma menina quatro anos mais nova teria 14.

– Eu não sei quantos anos elas tinham. Falei por falar. E você sabe como é, algumas meninas de 14 anos parecem bem mais velhas. O jeito como se vestem… Elas gostam de atrair os caras mais velhos.

– Phil, por favor.

– Tem razão. – Ele esfregou o rosto com ambas as mãos. – Meu Deus, tenho filhas dessa idade. Não estou defendendo Dan. Só estou tentando explicar. Ele não era um tarado, um estuprador, mas… Tudo bem que ele gostasse de paquerar meninas mais novas, até entendo. Mas daí a raptar uma garota? Machucar alguém? Não. Disso ele não seria capaz.

Ele se deteve e se recostou no assento. Wendy nem sequer piscava, repassando mentalmente o que sabia sobre o desaparecimento de Haley McWaid: nenhuma troca de torpedos ou e-mails, nenhuma porta arrombada, nenhum sinal de violência, nada que levasse a entender que ela teria sido levada à força, nem mesmo uma cama desfeita. Talvez tivessem cometido um grande engano.

Então uma teoria começou a se formar em sua cabeça. Uma teoria incompleta, baseada sobretudo em insinuações e suposições, mas que precisava ser investigada. Passo seguinte: voltar ao parque e encontrar o delegado Walker.

– Preciso ir.

Phil ergueu os olhos para ela.

– Acha que Dan molestou aquela garota?

– Já não sei de mais nada. Nada mesmo.

 

WENDY LIGOU PARA WALKER AINDA NO CARRO. Falou com três pessoas diferentes antes de ser atendida por ele.

– Onde você está? – perguntou.

– No bosque do parque.

Silêncio.

– Alguma novidade?

– Não.

– Tem um minutinho para falar comigo?

– Estou voltando para o acampamento. Mas quem está no comando do caso é Frank Tremont.

– Conheço Tremont.

Ela já havia coberto alguns dos casos dele. Lembrava que ele era um policial experiente, inteligente e, por vezes, cético demais.

– Ótimo. A gente se encontra no acampamento.

Wendy voltou para Ringwood, estacionou o carro junto aos dos outros repórteres e foi falar com o policial postado à entrada do cerco. Sam pegou sua câmera e foi atrás dela, mas Wendy o despachou com um balançar da cabeça. Ele parou onde estava, confuso. Os outros repórteres se revoltaram ao vê-la ultrapassar o cordão de isolamento e se amontoaram em torno do policial, exigindo o mesmo privilégio. Wendy nem sequer olhou para trás.

Chegando à tenda da polícia, foi informada:

– O delegado e o investigador Tremont pediram que a senhora espere aqui.

Ela se acomodou numa cadeira dobrável de lona. Dali podia ver dezenas de viaturas estacionadas. Via também policiais uniformizados e à paisana, assim como agentes do FBI. Muitos se debruçavam sobre laptops. Ao longe se ouvia o barulho inconfundível de um helicóptero.

Wendy logo reconheceu a garota que estava nos limites da mata, sozinha: Patricia McWaid, irmã caçula de Haley. Imaginou se aquele seria o momento propício para o que tinha em mente, mas não demorou a se decidir. A oportunidade estava batendo à sua porta. Então saiu ao encontro dela, dizendo a si mesma que não estava à procura de um furo de reportagem, mas da verdade sobre o que havia acontecido a Haley e Dan.

Ela havia formado uma nova teoria. Talvez Patricia McWaid tivesse informações que pudessem confirmá-la ou jogá-la por terra.

– Oi – ela disse à menina.

Com um susto, Patricia virou o corpo em direção à voz.

– Oi.

– Sou Wendy Tynes.

– Eu sei – disse Patricia. – Você mora na nossa cidade. Trabalha na TV.

– Isso mesmo.

– Fez um programa sobre o homem que estava com o telefone de Haley.

– Fiz, sim.

– Acha que ele fez alguma coisa com a minha irmã?

Wendy ficou surpresa com a objetividade da garota.

– Não sei.

– Mas se tivesse que adivinhar, você diria o quê? Fez ou não fez?

Wendy refletiu antes de responder:

– Não. Não acho que ele tenha feito nada.

– Por que não?

– Sei lá. Não tenho um motivo exatamente. Ainda não sei o que aconteceu.

Patricia meneou a cabeça.

– Entendo.

Wendy cogitou uma maneira de tocar no assunto. Talvez pudesse dizer algo trivial como: “Você e sua irmã eram muito próximas?” Começar com perguntas leves geralmente era a melhor abordagem para uma entrevista. Era uma maneira de deixar o entrevistado à vontade, ganhar a confiança dele, fazer com que ficasse mais propenso a responder. No entanto, mesmo que não houvesse o fator tempo (Tremont e Walker poderiam aparecer a qualquer instante), esse não lhe parecia o melhor caminho a seguir. A menina havia sido direta com ela. Talvez fosse melhor agir do mesmo modo.

– Sua irmã já havia mencionado o nome de Dan Mercer?

– A polícia me fez a mesma pergunta.

– E o que você respondeu?

– Não, Haley nunca mencionou o nome dele.

– Sua irmã tinha namorado?

– O investigador Tremont também me perguntou isso – disse Patricia. – No dia em que ela sumiu. E mais um milhão de vezes depois disso, como se eu estivesse escondendo alguma coisa.

– E está?

– Não.

– Então, Haley tinha ou não namorado?

– Acho que tinha, sim. Mas não sei direito. Haley era bem discreta com essas coisas.

Wendy sentiu o coração bater mais forte.

– Discreta como?

– Às vezes ela saía escondida para se encontrar com ele.

– Como você sabe disso?

– Ela me contava. Para dar uma desculpa qualquer se nossos pais perguntassem por ela.

– Quantas vezes ela fez isso?

– Duas ou três vezes.

– E a noite em que ela sumiu foi uma delas?

– Não. A última vez foi uma semana antes de ela sumir.

Wendy digeriu a informação.

– Você contou isso à polícia?

– Claro. No primeiro dia.

– E eles conseguiram descobrir quem era esse namorado?

– Acho que sim. Quer dizer, disseram que sim.

– Você pode me contar quem é?

– Kirby Sennett. Um cara da escola.

– Você acha que era mesmo o Kirby?

– O namorado dela?

– É.

– Não sei. Acho que sim.

– Mas você não tem certeza?

– Haley não me contou quem era. Ela pedia a minha ajuda para sair, só isso.

O helicóptero sobrevoou a área. Patricia o acompanhou, protegendo os olhos com a mão. Depois, visivelmente emocionada, disse:

– Até hoje a ficha não caiu direito, sabe? Parece que ela foi fazer uma viagem e qualquer dia desses vai voltar.

– Patricia?

Ela voltou os olhos para Wendy.

– Você acha que sua irmã fugiu?

– Não – ela respondeu sem hesitar.

– Você parece bastante segura disso.

– Que motivos ela teria para fugir? Tudo bem, de vez em quando ela dava uma fugidinha para beber, coisas assim. Mas Haley era feliz. Gostava da escola. Gostava do lacrosse. Gostava das amigas. E gostava da gente também. Por que ela fugiria?

Wendy parou para pensar em tudo aquilo.

– Sra. Tynes? – disse Patricia.

– Sim?

– No que você está pensando?

Ela não queria mentir para a garota. Também não queria dizer a verdade. Desviou o olhar, ainda imaginando o que responder, quando alguém se aproximou e disse:

– O que, diabos, está acontecendo aqui?

Ambas se viraram para ver quem era: Tremont, acompanhado do delegado Walker. O investigador não parecia nem um pouco satisfeito. Olhou de relance para Walker, que assentiu e disse:

– Patricia, venha comigo, por favor.

Walker saiu com a menina rumo à tenda da polícia, deixando Tremont sozinho com Wendy. Irritado, ele disse:

– Espero que isso não tenha sido um truque para falar com a família.

– Não foi.

– O que você descobriu?

– Dan Mercer gostava de garotas mais novas.

– Puxa, isso foi de grande ajuda.

– Alguma coisa não bate neste caso de Dan Mercer – ela prosseguiu. – Desde o primeiro dia. Não vou entrar em detalhes, mas nunca consegui vê-lo como um predador de crianças. Acabei de falar com um ex-colega dele, de Princeton. Ele é capaz de jurar que Dan jamais faria mal a alguém.

– Isso também ajudou muito.

– Mas confirmou que Dan gostava de garotas mais novas. Não estou dizendo que o cara não era um canalha. Tudo indica que era. Mas ele agia de um modo, digamos, mais consensual. Menos… sei lá, violento.

Tremont não parecia impressionado.

– E daí?

– Patricia me disse que Haley tinha um namorado secreto.

– Nem tão secreto assim. Um garoto chamado Kirby Sennett.

– Tem certeza?

– Sobre o quê? – Tremont refletiu um instante. – Espere aí, o que você está querendo dizer?

– Patricia falou que Haley pedia a ajuda dela para dar umas escapulidas de vez em quando. A última vez foi uma semana antes de sumir.

– Eu sei.

– Vocês deduziram que ela ia se encontrar com esse tal de Kirby?

– Sim.

– E ele confirmou a história?

– Toda, não. Mas há provas de que eles tinham algum tipo de relacionamento. Torpedos, mensagens de e-mail, coisas assim. Parece que Haley queria manter tudo em segredo, talvez porque o garoto fosse meio rebeldezinho. Nada de mais. Kirby apareceu na delegacia com o advogado, o que não é incomum, mesmo quando a pessoa é inocente. Sabe como é: pais ricos, filhos mimados.

– Então era ele mesmo o namorado de Haley?

– Tudo indica que sim. Mas Kirby disse que ele e Haley tinham terminado uma semana antes do desaparecimento dela. Isso bate com o que Patricia disse.

– E vocês o investigaram, claro.

– Claro que investigamos. Tudo bem, o garoto era um encrenqueiro, volta e meia se metia em confusão. Nada muito sério. Mas estava em Kentucky quando Haley desapareceu. Os álibis são absolutamente sólidos. Reviramos a vida do pirralho pelo avesso. É impossível que ele tenha alguma coisa a ver com essa história, se é isso o que você está pensando.

– Não é bem isso o que eu estou pensando – devolveu Wendy.

Tremont ajeitou a calça, puxando-a pelo cinto.

– Então que tal dizer o que é?

– Dan Mercer gosta de garotas mais novas. Haley McWaid some de casa: nenhum sinal de violência ou arrombamento, nada. O que estou dizendo é que talvez o misterioso namorado de Haley não fosse Kirby Sennett. Talvez fosse Dan Mercer.

Tremont não se apressou em responder. Mastigava algo aparentemente amargo.

– Então você acha o quê? Que Haley fugiu com o filho da mãe por vontade própria?

– Eu não diria tanto.

– Ótimo – disse Tremont, mais incisivo do que se poderia esperar. – Porque Haley é uma boa moça. Muito boa. Não quero que os pais dela ouçam uma merda dessas. Eles não merecem.

– Não é essa a minha intenção.

– Então estamos entendidos.

– Mas, só a título de especulação, digamos que Haley realmente tenha fugido com Mercer. Isso explicaria o fato de não haver sinais de violência. Também explicaria o iPhone naquele quarto de motel.

– Como?

– Haley foge com Mercer. Dias depois ele é assassinado. Então ela fica apavorada e… foge do motel. Nunca mais volta lá. Pense bem. Se Mercer tivesse sequestrado a garota e a matado em seguida, por que ficaria com o iPhone dela?

– Como uma espécie de troféu, talvez?

Wendy franziu o cenho.

– Você realmente acredita nisso?

Tremont não disse nada.

– Vocês ficaram sabendo deste parque por causa do Google Earth instalado no telefone dela, não foi?

– Foi.

– Coloque-se no lugar de Haley. Que motivos você teria para consultar no Google Earth o local onde seu sequestrador esconderia, enterraria você ou sei lá o quê? Nenhum. A única hipótese plausível seria…

Tremont concluiu o raciocínio:

– Que ela tivesse consultado o lugar onde iria se encontrar com o namorado para fugirem.

Wendy fez que sim com a cabeça. Tremont soltou um suspiro profundo.

– Haley é uma boa moça – insistiu.

– Não estamos fazendo nenhum juízo moral aqui.

– Não estamos?

Wendy não respondeu.

– Então digamos que você esteja certa – disse Tremont. – Onde Haley estaria agora?

– Não faço a menor ideia.

– E por que ela deixaria o iPhone no motel?

– Talvez tenha saído às pressas. Talvez não pudesse voltar ao quarto por um motivo qualquer. Talvez estivesse com medo porque Dan havia sido assassinado e ela estava escondida ali.

– Mas se ela saiu às pressas – repetiu Tremont, inclinando a cabeça –, por que teria colocado o telefone debaixo da cama?

Wendy procurou por uma resposta, mas nada lhe ocorreu.

– Vamos devagar – disse Tremont. – Antes de qualquer coisa, vou mandar meu pessoal de volta àquele motel e a todos os buracos em que Mercer se escondeu, para ver se alguém se lembra de ter visto o pilantra com uma adolescente.

– Mais uma coisa.

– O quê?

– Antes de morrer, Mercer levou uma bela surra. Eu estava naquele trailer. Vi os hematomas.

Tremont logo percebeu aonde ela queria chegar.

– Você acha que Haley McWaid pode ter visto essa surra, é isso? Pode ser. Talvez por isso ela tenha fugido.

Mas ao ouvir isso da boca do investigador, Wendy achou que alguma coisa não se encaixava ali. Algo soava falso. Ela tentou identificar o quê. Ainda havia muitas questões sem respostas. De que maneira os escândalos dos colegas de quarto de Princeton se encaixavam naquela história toda? Wendy pensou em comentar aquilo com o investigador, mas achou que ainda era prematuro. Precisava de mais informações. O que significava voltar a Phil e Sherry Turnball, talvez ligar para Farley Parks e Steven Miciano e tentar localizar Kelvin Tilfer.

– Nesse caso, talvez o mais sensato fosse tentar descobrir quem espancou Mercer – ela disse.

Um meio sorriso atravessou o rosto de Tremont.

– Hester Crimstein tem uma teoria interessante a esse respeito.

– Hester Crimstein? A juíza da TV?

– Ela mesma. Hester também é advogada de Ed Grayson. Na teoria dela, foi Grayson quem agrediu Mercer.

– Como foi que ela chegou a essa conclusão?

– Bem… encontramos amostras do sangue de Mercer no carro de Grayson. Dissemos a ela que isso, junto com o seu testemunho, era prova bastante conclusiva de que Grayson havia matado Mercer.

– Claro.

– Mas aí ela disse… caramba, essa Hester é muito boa! Ela disse: bem, sua testemunha (você) falou que Mercer levou uma surra. Talvez Grayson e Mercer tenham se atracado um ou dois dias antes, o que explicaria o sangue no carro.

– E você acreditou?

Tremont deu de ombros.

– Não muito. De qualquer modo, pouco importa.

– Muito esperto da parte dela.

– É verdade. Crimstein e Grayson deram um jeito de invalidar todas as evidências. Temos o DNA do sangue… mas a briga seria uma explicação plausível. Grayson tinha resíduo de pólvora na mão, mas o proprietário de um clube de tiro confirmou que ele esteve lá depois que você o viu atirar em Mercer. Falou que Grayson é um dos melhores atiradores que ele já viu na vida, por isso se lembrava bem dele. Você viu Grayson atirando em Mercer… Mas não temos corpo nem arma e, além disso, ele estava de máscara.

Uma ideia se insinuava na mente de Wendy, mas ela ainda não conseguia identificar o que era. Tremont disse:

– Você já sabe o que vou lhe pedir agora, não sabe?

– Acho que sim.

– Os McWaid já passaram por maus bocados. Não quero jogar mais esse peso sobre o ombro deles. Você ainda não pode divulgar nada disso.

Wendy permaneceu calada.

– De qualquer modo, não temos nada de concreto ainda – prosseguiu Tremont. – Apenas algumas teorias sem pé nem cabeça. Assim que descobrirmos alguma coisa, prometo lhe dar a notícia em primeira mão. Mas por enquanto, pelo bem da investigação e, principalmente, pelo bem dos pais de Haley, você não pode dizer nada. Combinado?

A ideia não identificada ainda se insinuava na mente de Wendy. Tremont esperava por uma resposta.

– Combinado.

 

Do outro lado do cordão de isolamento, Wendy ficou apenas moderadamente surpresa ao ver Ed Grayson recostado em seu carro. Ele tentava aparentar certa displicência, sem grande sucesso. Brincava com um cigarro entre os dedos. A certa altura, tragou-o com a avidez de um mergulhador que puxa o ar de um tanque de oxigênio.

– Colocando mais um GPS no meu para-choque? – ela perguntou.

– Não sei do que você está falando.

– Claro. Estava só conferindo o pneu, certo?

Grayson deu mais uma longa tragada no cigarro. Estava com a barba por fazer, mas o mesmo podia ser dito de boa parte dos homens que haviam chegado ali àquela hora da manhã. Os olhos estavam injetados e o aspecto geral era bem pior que o do homem que ainda na véspera compartilhara com ela suas teorias sobre fazer justiça com as próprias mãos.

– Você não achou que eu ia ajudá-lo a matar Mercer, achou?

– Quer saber a verdade?

– Por favor.

– Talvez você tenha concordado, pelo menos em tese, com o que eu disse. Acho até que fraquejou um pouco quando mencionei Ariana Nasbro. Mas não, em nenhum momento achei que você fosse me ajudar.

– Então estava apenas dando um tiro no escuro, é isso?

Grayson não respondeu.

– Ou aquela visita foi apenas um pretexto para colocar um GPS no meu carro?

Ele balançou a cabeça lentamente.

– O que foi? – perguntou Wendy.

– Você não faz a menor ideia, faz?

Wendy se aproximou da porta dianteira do carro.

– O que você veio fazer aqui, Ed?

Ele desviou o olhar para a mata.

– Queria ajudar na busca.

– Mas não deixaram.

– O que você acha?

– Acho que você se sente culpado.

Ele deu mais uma tragada, depois disse:

– Tenha dó, Wendy. Me poupe da análise.

– O que você quer de mim, afinal?

– Sua opinião.

– Sobre?

Grayson segurou o cigarro com a ponta dos dedos e ficou olhando fixamente para ele como se fosse encontrar ali alguma resposta.

– Acha que Dan matou a garota?

Wendy não sabia como responder, então devolveu:

– O que você fez com o corpo dele?

– Você primeiro. Acha que Dan matou Haley McWaid?

– Não sei. Talvez a tenha trancado em algum lugar e, neste exato momento, por causa do que você fez, é bem possível que ela esteja morrendo de inanição.

– Economize saliva, Wendy – ele disse, coçando o rosto. – A polícia já tentou botar essa culpa na minha cabeça.

– E não conseguiu?

– Não.

– Vai ou não vai me dizer o que fez com o corpo de Mercer?

– Caramba – ele disse e monocordiamente acrescentou: – Não. Sei. Do. Que. Você. Está. Falando.

A conversa não estava levando a nada e Wendy tinha muita coisa a fazer. A ideia que vinha se insinuando em sua cabeça tinha a ver com o grupo de Princeton. Dan e Haley fugindo juntos… tudo bem, talvez. Mas e os tais escândalos envolvendo os ex-colegas de quarto? Podia não ser nada. Provavelmente não era. Mas algo não batia naquela história.

– Então, o que você quer de mim? – perguntou ela.

– Estou tentando descobrir se Dan realmente raptou a garota.

– Por quê?

– Para ajudar na investigação, eu acho.

– E para dormir em paz à noite, certo?

– Talvez.

– Então, que resposta vai lhe devolver o sono à noite?

– Não entendi.

– Bem, se Dan matou Haley, você se sentiria melhor com o que fez? Como você mesmo disse, era bem provável que ele continuasse molestando outras crianças. Mas você o deteve… ainda que tarde demais. E se Dan não matou ninguém… bem, você ainda está convencido de que ele continuaria molestando outras crianças, não está? Portanto, de um jeito ou de outro, a única saída era matá-lo. Então, a única coisa que faria você perder o sono é saber que Haley está viva em algum lugar e que você piorou a situação dela.

Ed Grayson balançou a cabeça.

– Deixe pra lá – resmungou. Já ia se afastando quando Wendy perguntou:

– Esqueci de mencionar alguma coisa?

– Repito – disse Grayson, arremessando o cigarro e começando a se afastar. – Você não faz a menor ideia.

 

E AGORA?

Wendy poderia continuar procurando indícios de que Dan e Haley mantinham algum tipo de relação consensual, mas para quê? Ela já havia contado sua teoria à polícia. Cabia a eles levá-la adiante. Melhor seria atacar por outra frente.

Os cinco colegas de Princeton.

Quatro deles haviam se envolvido em algum escândalo no ano anterior. O quinto… Bem, o quinto talvez tivesse feito o mesmo sem que a notícia fosse parar na internet. Portanto, Wendy voltou à Starbucks de Englewood para continuar sua investigação. Ao entrar, mesmo antes de localizar o quarteto do Clube dos Pais, percebeu o rap de Ten-A-Fly tocando nas caixas de som:

Charisma Carpenter

Melhor não há

Não é reta feito tábua

Nem fácil de marretar…

– E aí?

Era Ten-A-Fly. Ela parou.

– Oi.

O rapper usava um casaco de moletom azul com o capuz sobre um boné vermelho de aba enorme. Atrás dele se encontravam o tenista, que digitava freneticamente em um laptop, e o jovem pai, que caminhava de um lado para o outro com o bebê no canguru, sussurrando algo para acalmá-lo.

Fly balançou as correntes do pulso, um misto de joia e fantasia de Halloween, depois disse:

– Vi você no meu show ontem à noite.

– Sim.

– E aí, curtiu?

Wendy fez que sim com a cabeça.

– Foi… sinistro… mano.

Ele se animou e fechou o punho para receber um soquinho. Wendy entendeu e o cumprimentou assim.

– Você é da TV, não é?

– Sou.

– Veio me entrevistar?

O tenista entrou na conversa:

– Se não veio, devia – disse. Depois apontou para a tela do laptop. – Isto aqui está bombando.

Wendy se aproximou para ver do que se tratava.

– Você está no eBay?

– É assim que ganho a vida agora – disse o tenista. – Desde que fui demit…

– Meu amigo aqui, o Doug, era da Lehman Brothers – interrompeu Fly. – Viu que a coisa ia explodir, mas ninguém deu ouvidos a ele.

– Que nada – disse Doug, balançando a mão num gesto de modéstia. – Mas é assim que pago as contas hoje em dia. Com o eBay. Primeiro, vendi quase tudo que tinha. Depois comecei a frequentar brechós, comprar coisas, consertar e revender.

– E dá para viver disso?

Ele deu de ombros.

– Na verdade, não. Mas é um bom passatempo.

– Como o tênis?

– Ah, eu não jogo.

Wendy apenas olhou para as roupas que ele estava usando.

– Minha mulher é quem joga. Minha segunda mulher. Como dizem, minha “esposa troféu”. Ela ficava buzinando no meu ouvido, dizendo que tinha abandonado uma carreira brilhante para se casar e cuidar dos filhos, mas na verdade jogava tênis o dia inteiro. Quando perdi o emprego, sugeri que ela voltasse a trabalhar, mas ela disse que era tarde demais. Ainda joga todo dia. E me odeia. Mal consegue olhar para mim. Então eu visto esta roupa de tenista também.

– Mas por quê?

– Sei lá. Uma forma de protesto, eu acho. Minha primeira mulher era maravilhosa, mas eu pisei na bola e a troquei por uma mais nova. Agora a minha ex está tão bem que nem se dá mais o trabalho de ter raiva de mim. E eu estou nessa. Acho que colhi o que plantei.

Wendy não tinha o menor interesse em levar o assunto adiante. Olhando para a tela, perguntou:

– O que você está vendendo agora?

– Coisas do Ten-A-Fly. O CD também, claro.

Algumas cópias do CD estavam empilhadas sobre a mesa. Na capa, Ten-A-Fly aparecia fantasiado de Snoop Dogg fazendo cara de mau e uma pose meio curvada em direção à câmera. A mão formava um sinal que, em vez de parecer intimidador, dava a impressão de seus nervos estarem retorcidos. O CD se chamava Afu no subúrbio.

– Afu? – perguntou Wendy.

– Gíria das ruas – explicou Doug, o tenista.

– E significa…

– Ah, deixe pra lá. De qualquer modo, a gente também vende camisetas, bonés, chaveiros e pôsteres. Mas agora estou colocando itens de colecionador, tipo isto aqui, olha só. A bandana que Ten-A-Fly usou ontem à noite.

Wendy mal acreditou no que viu.

– E tem gente oferecendo 600 dólares?

– Não, agora são 620. Como eu disse, estamos bombando. A calcinha que uma fã jogou no palco também está disputada à beça.

Wendy olhou de volta para Ten-A-Fly.

– Não foi a sua mulher quem jogou a calcinha?

– Foi, e daí?

Boa pergunta.

– Nada. Por acaso Phil está aqui?

Enquanto fazia a pergunta, Wendy avistou Phil conversando com o atendente no balcão. Ele estava sorrindo quando se virou e a viu. O sorriso se desmanchou imediatamente e Phil foi andando em direção a ela. Wendy o encontrou no meio do caminho.

– O que você está fazendo aqui?

– Precisamos conversar.

– Já conversamos.

– Precisamos conversar mais.

– Não sei de nada.

Wendy deu mais um passo na direção dele.

– Você ainda não se deu conta de que uma adolescente está desaparecida?

Phil fechou os olhos.

– Claro que sim, mas… É só que… Eu não sei de nada.

– Cinco minutos. Pela Haley.

Por fim Phil concordou. Eles se dirigiram até uma mesa retangular destinada a pessoas com dificuldades de locomoção e se sentaram frente a frente.

– No seu primeiro ano em Princeton, com quem mais você dividiu o quarto do dormitório? – perguntou Wendy.

Phil franziu as sobrancelhas.

– Que importância isso pode ter?

– Por favor, responda.

– Éramos cinco. Além de Dan e eu, também havia Farley Parks, Kelvin Tilfer e Steve Miciano.

– Vocês ficaram juntos nesse quarto nos outros anos também?

– Está falando sério?

– Por favor.

– Sim. Bem, no segundo ou no terceiro ano, Steve passou um semestre na Espanha, não sei se em Barcelona ou Madri. E no terceiro ano, eu acho, Farley se mudou para uma fraternidade.

– Você não entrou para nenhuma fraternidade?

– Não. Ah, também fiquei fora no primeiro semestre do último ano, em um projeto em Londres. Satisfeita?

– Vocês ainda mantêm contato?

– Na verdade, não.

– E Kelvin Tilfer?

– Não tenho notícias dele desde a formatura.

– Sabe onde ele mora?

Phil fez que não com a cabeça. O atendente se aproximou e lhe serviu uma xícara de café. Phil fez um gesto oferecendo o café a Wendy, mas ela agradeceu e fez que não com a cabeça.

– Kelvin era do Bronx. Talvez ainda more lá, não sei.

– E os outros? Você fala com eles de vez em quando?

– Já faz algum tempo desde que falei com Farley pela última vez. Sherry e eu fizemos uma festa para ele no ano passado, para arrecadar fundos para a campanha. Farley tinha se candidatado ao Congresso, mas as coisas não deram certo.

– Bem, Phil… Esse é o problema.

– Qual?

– As coisas não deram certo para nenhum de vocês.

– Não entendi – disse ele, colocando as mãos em volta da xícara.

Wendy puxou de um envelope pardo as páginas que havia imprimido e as colocou sobre a mesa.

– O que é isso? – perguntou Phil.

– Vamos começar por você.

– O que tem?

– Um ano atrás você foi acusado de um desfalque de dois milhões de dólares.

Phil arregalou os olhos.

– Como você sabe o valor?

– Tenho minhas fontes.

– Essas acusações não têm nenhum fundamento. Não fiz desfalque nenhum.

– Não estou dizendo que você fez. Tenha um pouquinho de paciência e logo vai entender aonde quero chegar, o.k.? Bem, primeiro você perde o emprego por conta dessa acusação – ela continuou explicando, enquanto pegava outro envelope. – Dois meses depois, Farley é afastado da campanha por causa de um escândalo envolvendo uma prostituta.

Ela abriu um terceiro envelope.

– Mais ou menos um mês depois disso, Dan Mercer é pego em flagrante no meu programa de TV. E mais tarde, dali a uns dois meses, o Dr. Steve Miciano é preso por porte de entorpecentes.

A papelada se esparramava sobre a mesa. Phil olhava para ela, as mãos imóveis como se temessem tocar em algo.

– Não acha que é coincidência demais? – perguntou Wendy.

– E Kelvin?

– Ainda não descobri nada sobre ele.

– Você levantou isso tudo em um dia?

– Não foi difícil. Só precisei fazer algumas buscas na internet.

Atrás dela, Ten-A-Fly disse:

– Posso dar uma olhada nisso aí?

Wendy se virou. Os demais membros do Clube dos Pais estavam todos ali.

– Vocês estavam escutando?

– Não leve a mal – disse Doug. – As pessoas vêm aqui e falam coisas íntimas quase aos berros. A gente acaba adquirindo o hábito de ouvir o que não deve. Phil, essa acusação de desfalque… Foi por isso que mandaram você embora?

– Não. Esse foi o pretexto. Fui mandado embora pelo mesmo motivo que vocês. Corte de pessoal.

Ten-A-Fly pegou as folhas, colocou os óculos e começou a examiná-las.

– Mas ainda não entendi o que tudo isso tem a ver com a garota desaparecida – disse Phil.

– Talvez nada – disse Wendy. – Mas vamos devagar. Você foi envolvido num escândalo e alega ser inocente.

– Sou inocente. Por que acha que estou em liberdade? Se a empresa tivesse alguma prova contra mim, eu estaria na cadeia. Eles sabem que foi tudo uma grande armação.

– Percebeu como tudo se encaixa? Veja o caso de Dan. Ele acabou sendo inocentado. E até onde eu sei, nem Steve Miciano nem Farley Parks estão na cadeia. Nenhuma das acusações feitas contra vocês foi comprovada. Mas as acusações em si foram desastrosas.

– E daí?

– Como assim “e daí”, Phil? – interrompeu Doug.

– Quatro colegas de quarto que se formaram em Princeton no mesmo ano estiveram envolvidos em escândalos nos últimos 12 meses – anunciou Wendy.

Phil pensou no assunto.

– Exceto Kelvin – disse.

– Disso nós não sabemos ainda – disse Wendy. – Precisamos encontrá-lo para ter certeza.

Owen, ainda com o bebê a tiracolo, entrou na discussão.

– Talvez esse Kelvin tenha armado para cima de todos vocês.

– Armado o quê? – disse Phil. E virando-se para Wendy: – Você está brincando, não está? Que motivos Kelvin teria para prejudicar a gente?

– Nossa! – disse Doug. – Vi um filme assim uma vez. Phil, vocês não faziam parte de nenhuma sociedade secreta, faziam?

– Claro que não.

– Talvez vocês tenham matado uma garota e enterrado o corpo e agora ela esteja se vingando. Acho que foi isso o que aconteceu no filme.

– Dá um tempo, Doug.

– Mas ele não está de todo errado – disse Wendy. – Quer dizer, deixando de lado a parte cinematográfica, será que não aconteceu alguma coisa parecida em Princeton?

– Como o quê?

– Algo que pudesse fazer uma pessoa querer se vingar anos depois.

– Não.

A resposta foi rápida demais. Ten-A-Fly olhava por sobre os óculos meia-lua (bizarros sobre o nariz de um rapper), ainda examinando as páginas impressas.

– Owen – ele chamou, rasgando a parte inferior de um dos papéis e entregando-a ao pai do bebê. – Isto aqui é um videoblog. Abra lá no laptop para ver o que aparece.

– Tudo bem – disse Owen.

– O que você está pensando? – perguntou Wendy.

Mas Ten-A-Fly ainda estudava a papelada. Ela olhou de volta para Phil, que encarava o chão.

– Tente se lembrar, Phil.

– Não aconteceu nada.

– Vocês tinham algum inimigo?

– Éramos apenas um bando de estudantes! – ele disparou.

– Mesmo assim. Talvez vocês tenham brigado por algum motivo. Talvez um de vocês tenha roubado a namorada do outro.

– Não.

– Tem certeza de que não houve nada?

– Já disse. Não aconteceu nada.

– E esse Kelvin Tilfer?

– O que tem ele?

– Nunca se sentiu diminuído por um de vocês?

– Não.

– Era o único negro do grupo.

– E daí?

– Só estou levantando hipóteses – disse Wendy. – Será que alguma coisa não aconteceu a ele?

– Na faculdade? Não. Kelvin era meio esquisitão, um gênio da matemática, mas todos nós gostávamos dele.

– Como assim, “esquisitão”?

– Esquisito, diferente, meio desregrado. Não tinha muito horário para fazer as coisas. Às vezes saía de madrugada para caminhar. Ficava falando alto quando trabalhava nos seus problemas de matemática. Essas esquisitices de gênio. Em Princeton, isso pega bem.

– Então você não se lembra de nenhum incidente?

– Que pudesse fazer o cara cometer um absurdo desses? Não, nada.

– E algo mais recente?

– Desde a formatura que não falo com ele. Já disse.

– Por que não?

Phil respondeu com outra pergunta:

– Onde foi que você estudou, Wendy?

– Tufts.

– Você ainda fala com todo mundo que se formou com você?

– Não.

– Nem eu. Éramos amigos. Perdemos contato. Como 99% dos ex-colegas de faculdade.

– Ele nunca compareceu a nenhum evento ou reunião de ex-alunos?

– Nunca.

Wendy pensou naquela informação por um instante. Talvez fosse uma boa ideia entrar em contato com o setor de ex-alunos.

– Encontrei uma coisa – disse Ten-A-Fly.

Wendy se virou para ele. Mais uma vez se espantou com o ridículo das roupas (a calça larga, o boné de aba descomunal, a camisa de malha com estampa enorme), mas também constatou uma verdade secular: as pessoas se definem muito mais pela atitude do que pelas roupas. Ten-A-Fly não estava mais ali. Norm estava de volta.

– Encontrou o quê?

– Antes de ficar desempregado, trabalhei no marketing de diversas empresas novas. Nosso principal objetivo era fazer com que essas empresas fossem notadas de uma maneira positiva. Criar um burburinho, sobretudo na internet. Investíamos pesado em marketing viral. Já ouviu falar?

– Não – respondeu Wendy.

– Tanta gente faz isso hoje em dia que a coisa nem funciona mais como anti-gamente. Ninguém consegue se fazer ouvir no meio de tanto barulho. Mas ainda dá algum resultado. Digamos que um filme é lançado. No mesmo dia você começa a ver críticas excelentes e comentários positivos no YouTube, nos murais de mensagens, nos blogs, etc. A maioria desses comentários não é real. Eles são fabricados por uma empresa de marketing contratada pelo estúdio de cinema. Eu mesmo faço esse tipo de marketing como rapper.

– Sim, mas o que isso tem a ver?

– Em poucas palavras, alguém fez isso ao contrário. Com esse tal de Miciano e seguramente com Farley Parks. Criaram blogs e tweets. Pagaram aos sites com ferramentas de busca. Agora, quando alguém faz uma pesquisa sobre esses caras, as entradas virais são as primeiras a aparecer. É a mesma lógica do marketing viral, mas com o intuito de destruir, em vez de construir.

– Então… – disse Wendy. – Se eu quisesse, por exemplo, saber alguma coisa sobre Steve Miciano e fosse pesquisar o nome dele na internet…

– Você levaria uma ducha de negatividade – Ten-A-Fly terminou a frase para ela. – Páginas e mais páginas. Sem falar nos posts de redes sociais, nos e-mails anônimos…

– Havia uma coisa parecida quando eu estava na Lehman – disse Doug, entrando na conversa. – Uns caras entravam nos murais e faziam comentários positivos sobre uma oferta de ações. Era tudo anônimo ou sob nome falso, mas sempre com um interesse direto na valorização dessas ações. Às vezes, claro, também acontecia o inverso. Alguém postava boatos sobre a falência de um concorrente forte da Lehman. Ah, também houve uma vez em que o analista financeiro de um blog postou que a Lehman estava mal das pernas. E o que foi que aconteceu? De uma hora para a outra a internet ficou inundada de acusações falsas.

– Então tudo isso é invenção? – perguntou Wendy. – Miciano não foi preso?

– Não é bem assim – disse Fly. – Essa parte é verdade. A notícia saiu no site de um jornal. Mas o resto… Olha só este blog do traficante. Agora olha este aqui, da prostituta que se envolveu com Farley Parks. Ambos usam a página-padrão do site hospedeiro. E não têm nenhum post adicional. Só os que acusam os caras.

– Campanhas de difamação… – disse Wendy.

– Não estou dizendo que eles não fizeram nada – ressalvou Fly. – Pode ser que eles sejam realmente culpados. Menos você, Phil, disso a gente sabe. Só estou dizendo que alguém queria que o mundo inteiro ficasse sabendo desses escândalos.

O que, Wendy agora via, se encaixava perfeitamente em sua teoria da conspiração: alguém estava criando escândalos para arruinar aqueles caras.

Ten-A-Fly virou-se para trás.

– Ei, Owen, encontrou alguma coisa aí?

Sem tirar os olhos da tela, Owen disse:

– Daqui a pouco, talvez.

Ten-A-Fly continuou examinando os papéis. Um atendente berrou uma lista complexa de opções de tamanhos de copo, teores de cafeína e quantidade de leite. Outro fez anotações em um copo de papel. A máquina de espresso chiou como o apito de um trem, encobrindo a trilha do Afu no subúrbio.

– E o tal pedófilo que você flagrou? – perguntou Fly.

– O que tem ele?

– Sofreu algum tipo de marketing viral também?

– Não sei. Não me ocorreu verificar.

– Owen? – disse Fly.

– Já estou checando. Dan Mercer, certo?

Wendy fez que sim com a cabeça. Owen teclou algo, depois disse:

– Só alguns posts sobre o cara, mas nem precisava. A imprensa toda ficou em cima dele.

– Tem razão – disse Fly. – Wendy, como foi que você ficou sabendo sobre esse Mercer?

Era exatamente nisso que Wendy estava pensando. Não ficou nada à vontade com aquelas recordações.

– Recebi um e-mail anônimo.

Phil balançou a cabeça lentamente. Os amigos apenas ficaram olhando.

– O que dizia esse e-mail? – perguntou Fly.

Ela tirou seu BlackBerry da bolsa. O e-mail ainda estava arquivado ali. Wendy o reabriu e mostrou a Ten-A-Fly.

Oi. Já vi o seu programa. Acho que você devia saber sobre um cara nojento que conheci on-line. Tenho 13 anos e estava na sala de bate-papo da SocialTeen. Ele disse que tinha a minha idade, mas acabei descobrindo que era muito mais velho. Acho que tem uns 40. Tem a mesma altura do meu pai (um metro e oitenta), olhos verdes e cabelos anelados. Parecia tão legal que acabei encontrando com ele num cinema, depois ele me obrigou a ir pra casa dele. Foi horrível. Meu medo é que ele tenha feito a mesma coisa com outras meninas, porque ele trabalha com adolescentes. Por favor, faça alguma coisa para que ele não machuque mais ninguém.

Ashlee (não é meu nome real, desculpe)

PS: Aqui está o link do SocialTeen. O nick dele é DrumLover17.

Todos leram o e-mail em silêncio, um de cada vez. Wendy ficou ali, estupefata. Ten-A-Fly devolveu o telefone, depois disse:

– Suponho que você tenha tentado entrar em contato com a garota.

– Ela nunca respondeu. Tentamos descobrir o IP dela, mas não conseguimos. Mas não me baseei apenas neste e-mail – ela emendou, procurando não deixar transparecer que estava na defensiva. – Quer dizer, isto foi apenas o início. Depois seguimos os passos de sempre. De modo geral, entramos nas salas de bate-papo como se fôssemos meninas e esperamos para ver se os pervertidos saem da toca. Foi assim que entramos nesse site, o SocialTeen. E o tal DrumLover17 estava lá. Fingia ser um baterista de 17 anos. Forjamos um encontro e Dan Mercer apareceu.

– Eu me lembro de ter lido sobre o caso – disse Fly. – Mercer pensava estar indo se encontrar com outra garota, certo? Pelo menos foi o que ele disse.

– Isso mesmo. Ele trabalhava como assistente social num abrigo para menores moradores de rua. Alegou que tinha recebido um telefonema de uma das garotas de lá, pedindo que ele fosse ao encontro dela no endereço da nossa armadilha. Mas não se esqueçam de que tínhamos provas bastante sólidas: os bate-papos com o tal DrumLover17 e os e-mails de conteúdo claramente sexual que ele mandou para a nossa falsa menina de 13 anos, tudo isso veio de um laptop encontrado na casa de Dan Mercer.

Ninguém fez qualquer comentário. Doug golpeou o ar com uma raquete imaginária. Phil permaneceu atônito como se tivesse levado uma paulada na cabeça.

Ten-A-Fly ainda maquinava alguma coisa. Virando-se para Owen, disse:

– E aí, terminou?

– Preciso do meu desktop para fazer uma análise mais completa destes videos – respondeu Owen.

Feliz com a oportunidade de sair da berlinda, Wendy disse:

– E o que, exatamente, você está procurando?

O bebê dormia no canguru de Owen, a cabecinha inclinada de um modo que preocupava Wendy. Vendo aquilo, ela teve um lampejo de memória: John carregando Charlie num sling. Mais uma vez se perguntou o que ele pensaria vendo Charlie agora, quase um homem, e se emocionou ao pensar em tudo o que ele havia perdido. Era isso o que mais a perturbava: não apenas o que Ariana Nasbro tirara dela e do filho, mas sobretudo o que roubara de John, as coisas que ele nunca tivera a chance de viver.

– Owen trabalhava como especialista em tecnologia para um programa diurno de TV – explicou Phil.

– Vou tentar simplificar o máximo possível – disse Owen. – Sabe essa regulagem de resolução em megapixels que as câmeras digitais têm?

– A-hã.

– Pois bem, digamos que você tire uma foto em uma câmera digital. Quanto mais megapixels ela tiver, maior será o arquivo. Mas de modo geral, duas fotos com dimensões iguais e a mesma resolução terão arquivos mais ou menos do mesmo tamanho. Principalmente se foram tiradas com a mesma câmera.

– Entendi.

– O mesmo vale para vídeos digitais como estes aqui. No computador de casa, posso procurar por efeitos especiais e outras pistas reveladoras. Aqui, o que eu posso fazer é ver o tamanho de cada arquivo e dividir pelos tempos deles. Dá para dizer que usaram o mesmo tipo de câmera para filmar estes dois vídeos. Isso em si não significa muito. Há centenas de câmeras no mercado que se encaixariam nas mesmas especificações. Mas acho que vale a pena dar uma olhada.

Lá estavam eles agora, todos os membros do Clube dos Pais: Norm, também conhecido como o rapper Ten-A-Fly, Doug, o pseudotenista, Owen, o papai com seu bebê no canguru, e Phil, o eterno executivo de terno e gravata.

– Queremos ajudar – disse Ten-A-Fly. – Queremos provar que Phil é inocente.

– Norm… – disse Phil.

– Você é nosso amigo, cara.

Os outros imediatamente o apoiaram.

– Deixe a gente ajudar, Phil – ele prosseguiu. – Não temos nada para fazer além de vir aqui e ficar reclamando da vida, do nosso fracasso. Já estou cheio dessa choradeira. Precisamos fazer alguma coisa de útil, colocar nossos conhecimentos em prática.

– Não posso pedir uma coisa dessa a vocês.

– Nem precisa – disse Norm. – Você sabe que queremos ajudar. Talvez a gente precise disso até mais do que você.

Phil não disse nada.

– Podemos começar dando uma olhada nessa história de marketing viral. Sei lá, de repente descobrimos qual é a fonte. Também podemos tentar encontrar esse tal de Kelvin, seu ex-colega. Todos nós temos filhos, Phil. Se minha filha estivesse por aí, desaparecida, qualquer ajuda seria mais que bem-vinda.

– Tudo bem – concordou Phil afinal. – Obrigado.

Algo nas palavras de Ten-A-Fly chamou a atenção de Wendy. Ele tinha dito que todos nós temos algum talento e que precisamos colocar nossos conhecimentos em prática. Nossa tendência é gravitar na direção daquilo em que somos bons, certo? Wendy via os tais escândalos com os olhos de jornalista. Ten-A-Fly entendia tudo sob o ponto de vista de um guru de marketing. Owen tinha a visão de um especialista em tecnologia…

Minutos depois, Ten-A-Fly acompanhou Wendy até a porta.

– Vamos nos falando – disse.

– Não precisa ser tão duro com você mesmo – disse Wendy.

– Como assim?

– Aquela história de fracasso. – Ela apontou o queixo na direção do laptop sobre a mesa. – Um fracassado não consegue fazer alguém dar um lance de 600 dólares por uma bandana usada.

Ten-A-Fly sorriu:

– Ficou impressionada, não ficou?

– Fiquei.

Ele se aproximou e, sussurrando, perguntou:

– Quer saber de um segredinho?

– Claro.

– Foi minha mulher quem deu o lance. Ela tem dois perfis no site e fica competindo consigo mesma. Pensa que eu não sei.

– O que só prova minha tese.

– Não entendi.

– Um homem cuja mulher gosta dele tanto assim não pode ser um fracassado, pode?

 

AS NUVENS HAVIAM ESCURECIDO sobre o parque estadual de Ringwood. Marcia McWaid se embrenhava na mata densa com Ted alguns passos à sua frente. Esperava que não fosse chover, embora preferisse um céu coberto de nuvens ao forte sol da manhã.

Nem ela nem Ted eram lá muito afeitos a caminhadas, acampamentos ou qualquer outra atividade ao ar livre. Antes (agora havia sempre um “antes”, um maravilhoso e longínquo passado de ingenuidade) os McWaid se divertiam em museus, livrarias e jantares em restaurantes da moda.

A certa altura Ted olhou para a direita e Marcia se surpreendeu com o que viu: um discreto sorriso, apesar do horror das circunstâncias.

– No que você está pensando? – ela perguntou.

Ted continuou andando, o sorriso ainda no rosto, mas os olhos agora marejados. Esse era o estado normal deles nos últimos três meses.

– Você se lembra da apresentação de dança da Haley?

A única que ela havia feito. Aos 6 anos.

– Acho que foi a última vez que a vi de rosa – disse Marcia.

– Lembra daquela fantasia?

– Claro que sim – disse Marcia. – As meninas estavam vestidas de algodão doce. Que lembrança estranha. Haley era um peixe fora d’água naquele palco.

– É verdade.

– Então?

Ted parou diante de um barranco.

– Mas você se lembra da apresentação em si?

– Lembro. No auditório da escola.

– Isso. Os pais sentados lá por três horas só para verem os dois minutos da apresentação dos filhos. Lembro que a dança da Haley era a oitava ou a nona das vinte e tantas da programação. A gente começou a puxar a camisa um ao outro quando ela apareceu, lembra? Até hoje me lembro da alegria que senti naquela hora. Foi como se ela irradiasse do meu peito. Nós dois lá, vendo nossa filha no palco, a carinha dela toda séria… Porque Haley já era Haley quando tinha 6 anos. Não admitia errar, fazia tudo certinho, seguia toda a coreografia. Mas era toda dura, totalmente sem ritmo ou expressão. E eu só faltava explodir de tão emocionado…

Ted se virou para a mulher como se buscasse uma confirmação de que ela também se lembrava. Marcia fez que sim com a cabeça, e talvez naquele momento, apesar do horror das circunstâncias, ela também tivesse aberto um discreto sorriso.

– A gente estava lá, chorando de emoção, e de repente, eu olhei para o lado e me dei conta de que todos os outros pais naquele auditório também estavam emocionados, sentindo exatamente o mesmo que nós em relação aos filhos. E isso é o mais espantoso de tudo. Uma coisa boba, óbvia, mas que até hoje me espanta. Difícil acreditar que aquela emoção toda, aquele amor inesgotável, não fosse algo que pertencesse só a nós dois, que aquele sentimento tão forte não fosse algo exclusivo. Ainda me lembro daqueles pais, dos olhos molhados, dos sorrisos, das mulheres buscando a mão do marido sem precisar dizer nada… E lembro o assombro que me tomou. Quer dizer, como era possível que houvesse tanto amor ali, o amor no seu estado mais puro, e o auditório não levantasse voo como um balão?

Marcia quis dizer algo, mas não encontrou as palavras. Ted sacudiu os ombros, virou de novo para frente e se preparou para escalar o barranco. Cravando um dos pés no chão, agarrou uma árvore fina e tomou impulso para subir. Por fim Marcia disse:

– Ted, estou apavorada…

– Coragem, meu amor.

Os sorrisos não estavam mais ali. As nuvens continuavam a escurecer, cortadas pelo helicóptero. Ted ofereceu a mão à mulher, Marcia se apoiou nela e os dois retomaram a busca pela filha.

 

Dois dias depois, numa cova rasa no parque estadual de Ringwood, a unidade canina da polícia encontrou o corpo de Haley McWaid.

 

               PARTE DOIS

 

VELÓRIOS, MISSAS E ENTERROS nunca mudam. As mesmas orações, as leituras bíblicas costumeiras, as palavras de consolo que sempre soam como justificativas ridículas ou racionalizações impróprias. O que se fala nas capelas e igrejas é basicamente a mesma coisa. O que muda é a reação dos familiares.

A morte de Haley McWaid havia lançado um manto sombrio sobre toda a cidade. As pessoas sentiam seu peso, carregavam-no nas costas. Ele estava em volta de pernas e braços, dificultando o movimento, atrapalhando a respiração. Todos sofriam junto com a família agora, mas Wendy sabia que aquilo iria passar. Vira o mesmo filme na morte prematura de John. O luto visita colegas e amigos, mas se aloja na vida dos familiares, às vezes, para sempre. É devastador, implacável. Talvez seja essa a ordem natural das coisas.

Wendy assistira dos fundos da capela à cerimônia fúnebre. Chegara tarde e saíra cedo, sem jamais olhar para Marcia ou Ted. Não conseguiria fazer isso e se pôr no lugar deles. Era um mecanismo de defesa. Natural também.

O sol brilhava forte, como sempre parecia acontecer em enterros. Wendy seguiu caminhando e tentando não pensar em John. Parou na esquina, fechou os olhos e ergueu o rosto para o céu. Conferiu o relógio: 11 horas. Dali a pouco teria de se encontrar com o delegado Walker no instituto médico-legal.

 

Situado num trecho deprimente da Norfolk Street, em Newark, o instituto atendia os condados de Essex, Hudson, Passaic e Somerset. Newark havia passado por certa revitalização nos últimos tempos, mas não ali. Pensando bem, que sentido faria colocar uma instituição daquela natureza numa parte mais valorizada da cidade?

Walker já esperava por Wendy na rua. Sempre parecia encurvado, desajeitado por causa do próprio tamanho. Wendy às vezes tinha a impressão de que ele iria se agachar para conversar com ela, assim como os pais costumam se abaixar para falar com os filhos. Por algum motivo, isso o tornava ainda mais cativante.

– Estes últimos dias não têm sido fáceis para nós dois, não é? – ele disse.

A morte de Haley McWaid havia devolvido a Wendy o emprego na emissora. Ela fora recontratada por Vic e promovida a âncora dos noticiários de fim desemana. Como se isso não bastasse, as agências de notícias vinham querendo entrevistá-la sobre o caso de Dan Mercer, saber como ela, a heroína do jornalismo, havia conseguido desmascarar não só um pedófilo mas também um assassino.

– Por onde anda Tremont? – ela perguntou.

– Se aposentou.

– Não vai concluir o caso?

– O que há para ser concluído? Haley McWaid foi assassinada por Dan Mercer. Mercer está morto. É conclusão suficiente, não acha? Vamos continuar procurando pelo corpo de Mercer, mas tenho outros casos para cuidar também. E quem vai querer condenar Ed Grayson por ter passado fogo naquele canalha?

– Tem certeza de que Mercer é culpado?

Walker franziu o cenho.

– Você não?

– Foi só uma pergunta.

– Em primeiro lugar, o caso não é meu. É de Frank Tremont. E ele está totalmente convencido. Mas o caso ainda não está de todo encerrado. Estamos investigando o passado de Dan Mercer, reexaminando diversos outros desaparecimentos de adolescentes. Quer dizer, não fosse por aquele telefone encontrado no quarto de Mercer, jamais teríamos estabelecido uma relação entre os casos. É possível que ele viesse fazendo isso há anos. Talvez outras garotas que estão desaparecidas tenham cruzado o caminho dele, a gente não sabe ainda. De qualquer modo, os crimes nem foram cometidos dentro da minha jurisdição. Agora estamos por conta dos federais.

Eles entraram na sala de Tara O’Neill, a médica-legista. Para alívio de Wendy, nada ali lembrava cadáveres. O ambiente parecia a sala de um diretor de escola. As duas mulheres já se conheciam da época em que Wendy cobria assassinatos locais. Tara O’Neill trajava um elegante vestidinho preto, muito melhor que o costumeiro jaleco, mas o que realmente costumava surpreender Wendy era a beleza singular da médica, apesar de certa semelhança com Morticia Addams. Muito alta, tinha cabelos compridos e lisos, talvez pretos demais, além de um rosto luminoso que poderia ser descrito como um amálgama de gótico e etéreo.

– Olá, Wendy.

Do outro lado de sua mesa, Tara se levantou para apertar com firmeza e formalidade a mão dos recém-chegados.

– Como vai, Tara?

– Ainda não entendi direito por que precisamos conversar a sós sobre esse assunto – ela disse.

– Entenda isso como um pequeno favor – disse Walker.

– Mas, delegado, esta nem é sua jurisdição.

Walker espalmou as mãos.

– Será que precisamos mesmo obedecer à cartilha?

– Acho que não. – Tara sentou-se novamente e indicou que eles fizessem o mesmo. – Em que posso ajudar?

A cadeira era de madeira, desenhada para qualquer outro fim que não fosse o conforto. Tara sentava-se com o tronco ereto, a profissional exemplar de sempre, com aquele ar paternalista típico dos médicos que claramente funcionava melhor com os mortos. As paredes careciam de uma boa demão de tinta, mas, como dizia a velha piada, os pacientes nunca reclamavam.

– Como disse ao telefone – respondeu Wendy –, gostaríamos de saber tudo sobre Haley McWaid.

– Claro. – Tara olhou para Wendy. – Que tal começarmos pelo processo de identificação?

– Por favor.

– Em primeiro lugar, não há dúvida de que o corpo encontrado em Ringwood seja mesmo o dela. Já se achava num estado adiantado de decomposição, mas o esqueleto estava intacto, assim como os cabelos. Em suma, lembrava muito a garota viva, só que sem a pele. Querem ver uma fotografia?

Olhando de relance para o delegado, Wendy viu que a ideia não o agradava. Mesmo assim, disse:

– Sim, queremos.

Tara passou algumas fotos sobre a mesa como se elas fossem cardápios de um restaurante. Wendy respirou fundo. Não tinha um estômago forte para coisas desse tipo. Até os filmes mais bobos a deixavam aflita. Ela arriscou uma rápida espiada, uma fração de segundo, mas ainda assim pôde ver as feições de Haley McWaid deformadas pelo horror da putrefação.

– Ted e Marcia McWaid insistiram em ver o corpo da filha – prosseguiu a monocórdia Tara O’Neill. – Embora ambos tenham confirmado a identificação, seguimos todo o procedimento de praxe. A altura e a osteometria eram compatíveis. Haley havia quebrado a mão aos 12 anos, no metacarpo, logo abaixo do anular. A fratura já estava curada, mas ainda encontramos vestígios dela na radiografia. E, claro, fizemos um teste de DNA a partir de uma amostra oferecida pela irmã caçula, Patricia. Compatibilidade total. Portanto, não há dúvidas.

– E quanto à causa da morte?

Tara cruzou os dedos sobre o tampo da mesa.

– Até o momento, indeterminada.

– Quando vocês poderão dizer?

Ela recolheu as fotografias, devolvendo-as meticulosamente para a pasta de arquivo de onde as havia retirado.

– Para falar a verdade, talvez nunca.

– Está dizendo que talvez a causa da morte jamais seja descoberta?

– Exatamente.

– Isso não é incomum?

Tara finalmente sorriu. Um sorriso ao mesmo tempo radiante e sóbrio.

– Na verdade, não. As pessoas esperam que nosso trabalho seja igual ao que os seriados de TV mostram. Acham que basta olhar num microscópio para encontrar todas as respostas. Pena que a realidade não seja assim. Por exemplo: queríamos saber se Haley levou um tiro. Em primeiro lugar, nenhuma bala foi encontrada no corpo ou no local do crime. Apesar disso, fizemos radiografias para ver se encontrávamos alguma marca incomum nos ossos que pudesse sugerir um ferimento à bala. Não encontramos nada. Mesmo assim, não podemos descartar a hipótese de um tiro. É possível que a bala não tenha atingido os ossos. Levando-se em conta que boa parte do corpo já estava decomposta, não encontraríamos nenhum sinal de ferimento à bala caso ela tivesse passado apenas pelos tecidos. Então, o máximo que podemos afirmar é que não há evidências de que Haley tenha levado um tiro e que, portanto, é pouco provável que isso tenha acontecido. Entendeu?

– Entendi.

– Ótimo. O mesmo poderia ser dito sobre a hipótese de esfaqueamento. Se, por exemplo, o agressor tivesse perfurado uma artéria…

– Eu sei, eu sei, já deu para ter uma ideia.

– Além disso, claro, as possibilidades são inúmeras. A vítima pode ter sido sufocada, o caso clássico do travesseiro sobre o rosto. Mesmo quando o corpo é encontrado após alguns dias, em vez de meses, pode ser difícil provar um sufocamento. No caso específico de Haley McWaid, em que o corpo provavelmente ficou enterrado durante três meses, é praticamente impossível. Mandei fazer exames para ver se havia algum tipo de droga no organismo dela, mas, quando o corpo se decompõe dessa maneira, libera enzimas que podem alterar os resultados. Portanto, mesmo os testes realizados com amostras do tecido remanescente muitas vezes são pouco confiáveis. O corpo vítreo dos olhos de Haley, isto é, a parte gelatinosa entre o cristalino e a retina, já havia se desintegrado, portanto não podia mais ser usado para detectar a presença de drogas.

– Então você não pode sequer afirmar que ela foi assassinada?

– Não, não posso. Pelo menos como legista.

Wendy olhou para Walker, que disse:

– Nós podemos. Quer dizer, pense bem, como Tara disse, não é tão raro assim que um processo vá adiante mesmo quando o corpo foi encontrado depois de tanto tempo. Já vi casos serem levados a juízo sem que o corpo sequer tivesse sido encontrado.

Tara O’Neill ficou de pé, claramente indicando que a conversa estava encerrada.

– Mais alguma coisa? – perguntou.

– Houve algum tipo de abuso sexual?

– De novo: não podemos afirmar.

Wendy também se levantou.

– Obrigada por nos receber, Tara.

Depois de mais um aperto de mãos duro e formal, Wendy se viu de volta à rua com o delegado Walker.

– Isso ajudou em alguma coisa? – ele perguntou.

– Não.

– Falei que essa conversa não ia dar em nada.

– Então é isso? Caso encerrado?

– Para mim, sim.

Wendy olhou mais adiante na rua.

– Dizem que Newark está renascendo.

– Não nestas bandas aqui – disse Walker.

– É verdade.

– E para você, Wendy?

– Para mim, o quê?

– O caso está encerrado?

Ela balançou a cabeça.

– Ainda não.

– Quer me contar mais detalhes?

Novamente ela balançou a cabeça.

– Ainda não.

– Tudo bem – respondeu o delegado, encarando o chão e arrastando o pé na calçada. – Posso fazer mais uma pergunta?

– Claro.

– Estou me sentindo meio idiota. Acho que não é o momento mais oportuno, mas…

Wendy esperou que ele se explicasse.

– Quando essa história chegar ao fim, daqui a algumas semanas… – ele começou. Então ergueu o rosto para fitá-la. – Será que eu poderia… ligar para você?

A rua de repente pareceu ainda mais deserta para Wendy.

– Você estava certo sobre o momento não ser o mais oportuno…

Walker enterrou as mãos nos bolsos e sacudiu os ombros.

– Nunca fui muito bom nessas coisas.

– Mas foi bom o bastante – disse Wendy, tentando conter o riso. Ele queria sair com ela. A vida é assim: quando a gente sente que pode perdê-la, tem vontade de aproveitá-la ao máximo. – Claro que pode ligar.

 

O escritório Burton & Crimstein ficava num prédio na parte central de Manhattan, com uma vista fantástica para o rio Hudson e o sul da ilha. De lá se via o Intrepid, o cargueiro militar transformado em museu, bem como os enormes navios de cruzeiro. Hester Crimstein preferiria mil vezes parir um filho a embarcar numa coisa daquelas. A verdade era que aquela vista já havia se transformado em algo banal para ela. Os visitantes ficavam boquiabertos, claro, mas para quem frequentava o lugar diariamente, por mais difícil que fosse admitir, o extraordinário perdia seu brilho.

Ed Grayson se encontrava junto a uma das janelas. Olhava para fora, mas, se estava admirando a paisagem, disfarçava muito bem.

– Não sei o que fazer, Hester.

– Eu sei – disse ela.

– Sou todo ouvidos.

– Ouça meu conselho como sua advogada: não faça nada.

– Não é à toa que você está montada na grana – disse Grayson sorrindo, sem tirar os olhos da janela.

Hester simplesmente espalmou as mãos.

– Não fazer nada. Simples assim? – ele perguntou.

– Neste caso, sim.

– Você sabe que minha mulher me deixou, não sabe? Quer voltar para Québec com o nosso filho.

– Sinto muito.

– Isso é tudo culpa minha.

– Ed, não me leve a mal, mas você sabe que não sou de oferecer colinho nem palavras de consolo.

– É, eu sei.

– Então vou direto ao ponto: o que você fez foi uma grande burrada.

– Nunca tinha espancado alguém antes.

– Agora espancou.

– Muito menos atirado em alguém.

– Agora atirou. Aonde você quer chegar com essa lenga-lenga?

Ambos se calaram. Ed Grayson não se incomodava com o silêncio. Hester, sim. Do outro lado de sua mesa, ela balançava a cadeira, brincava com a caneta, suspirava dramaticamente. A certa altura, se levantou e atravessou a sala.

– Está vendo isto aqui?

Ed se virou. Hester apontava para a estátua que representa a Justiça.

– Estou.

– Sabe o que é?

– Claro que sim.

– É o quê, então?

– Está brincando.

– O que é?

– O símbolo da Justiça.

– Isso mesmo, a deusa Têmis. Já deu uma boa olhada nesta estátua? A maioria das pessoas nota apenas que ela usa uma venda, que é uma referência óbvia à imparcialidade. E também uma grande balela, porque todo mundo é parcial. É inevitável. Mas veja o que ela segura na mão direita. Uma espada. Das boas. Essa espada representa a punição rápida e brutal, por vezes até com a morte. Mas veja bem: apenas ela, a Justiça, pode usar essa espada. Por mais desastrosa que seja. Você, meu amigo, não pode.

– Está querendo dizer que eu não deveria ter feito justiça com as próprias mãos? – Grayson zombou, arqueando as sobrancelhas. – Nossa, isso foi muito profundo.

– Olhe para a balança, seu mané. Na mão esquerda. Tem gente que acha que essa balança representa a acusação e a defesa. Outros dizem que é uma referência à imparcialidade. Mas pense bem: balanças têm a ver com equilíbrio, certo? Olhe, sou advogada e sei o que dizem a meu respeito por aí. As pessoas acham que eu subverto a lei, que recorro a brechas e intimidação para conseguir o que quero. Tudo isso é verdade. Mas nunca opero fora do sistema.

– E isso justifica tudo?

– Sim, porque eu respeito o equilíbrio.

– E eu desrespeitei o equilíbrio.

– Exatamente. Essa é a beleza do sistema. Podemos vergá-lo, torcê-lo, esticá-lo, e Deus sabe que já fiz tudo isso, mas, se ficarmos dentro dos limites dele, pelo bem ou pelo mal, tudo funciona direitinho. Se você pisa fora e rompe o equilíbrio, mesmo com a melhor das intenções, o resultado é o caos, a catástrofe. Você tentou corrigir um erro e acabou rompendo o equilíbrio.

– Então devo fazer alguma coisa para restaurá-lo, é isso?

– Não é assim que as coisas funcionam, Ed. E você sabe disso. Não faça nada. Quem sabe o equilíbrio não acaba se restaurando sozinho?

– Mesmo que um canalha fique em liberdade?

Hester sorriu novamente e disse:

– De que canalha você está falando agora, Ed?

Silêncio.

– A polícia não faz a menor ideia do que aconteceu a Haley McWaid – disse ele por fim.

Hester refletiu um instante.

– Disso não dá para ter certeza. Talvez a gente é que não saiba de nada.

 

O AGORA APOSENTADO FRANK TREMONT morava numa casinha colonial de dois quartos com fachada de réguas de alumínio e uma bandeira do New York Giants à porta. O gramado em frente à casa era mantido com visível esmero e as peônias tinham cores tão vívidas que Wendy chegou a duvidar que fossem reais.

Ela percorreu os 10 passos que separavam a calçada da porta e bateu. A cortina foi afastada do outro lado de uma bay window e, segundos depois, a porta se abriu. Embora o enterro tivesse sido horas antes, Tremont ainda vestia seu terno preto. Afrouxara a gravata e desabotoara a parte superior da camisa. A barba parecia ter sido feita às pressas, os olhos estavam vermelhos e o hálito cheirava a álcool.

Ele deu um passo para o lado, exalou um longo suspiro e moveu a cabeça, convidando-a a entrar. Apenas um abajur iluminava a sala escura. Sobre a surrada mesinha de centro via-se uma garrafa de rum já pela metade. Diversos jornais se espalhavam em total desordem sobre o sofá. No chão, uma caixa de papelão abrigava objetos e papéis que ela deduziu terem sido trazidos do trabalho. A televisão exibia um comercial de aparelhos de ginástica com um treinador hiperativo e meia dúzia de rapagões depilados e de barriga tanquinho. Wendy olhou de volta para Tremont, que, dando de ombros, disse:

– Agora que estou aposentado, quem sabe não consigo um abdômen desses?

Ela tentou sorrir. Sobre a mesa de canto, viu porta-retratos com fotografias de uma adolescente. O corte de cabelo estivera na moda uns 15, talvez 20 anos antes, mas o que mais chamava a atenção era o sorriso: largo, radiante, do tipo que derrete o coração de qualquer pai. Wendy já sabia da história. Certamente aquela era a filha de Tremont que morrera de câncer. Mais uma vez olhando para a garrafa de rum, Wendy tentou imaginar como seria difícil sobreviver a algo assim.

– Então, o que traz você aqui? – perguntou Tremont.

– Você está oficialmente aposentado? – ela contemporizou.

– Sim. Mas acho que saí pela porta dos fundos.

– Sinto muito.

– Guarde suas condolências para a família da vítima.

Wendy não disse nada, apenas balançou a cabeça.

– Você tem saído bastante nos jornais – prosseguiu Tremont. – Este caso a transformou em uma celebridade e tanto. Parabéns.

Ele brindou ao êxito dela com um copo imaginário.

– Frank?

– Sim.

– Não diga nenhuma besteira da qual possa se arrepender.

– Bem pensado – disse Tremont, assentindo.

– O caso de Haley está oficialmente encerrado? – ela perguntou.

– Do nosso ponto de vista, basicamente sim. O desgraçado está morto, provavelmente enterrado num mato qualquer, o que seria até irônico.

– Vocês voltaram a pressionar Ed Grayson para saber onde ele escondeu o corpo?

– Tanto quanto possível.

– E?

– Não adiantou nada. Minha ideia era oferecer a retirada de todas as queixas se ele dissesse onde estava Mercer, mas Paul Copeland, meu chefe todo-poderoso, não topou.

Wendy pensou em Ed Grayson, na possibilidade de procurá-lo. Talvez ele se abrisse com ela. Tremont jogou no chão os jornais que estavam sobre o sofá e convidou Wendy a sentar. Depois desabou em uma poltrona reclinável e pegou o controle remoto da TV.

– Sabe qual programa vai começar daqui a pouco? – indagou Wendy.

– Tribunal de Crimstein. Ela é advogada de Grayson.

– Você me contou.

– É mesmo. Tinha esquecido. Ela levantou algumas questões interessantes quando o interrogamos.

Tremont se serviu de uma dose de rum e ofereceu outra a Wendy, mas ela fez que não com a cabeça.

– O quê, por exemplo? – perguntou Wendy.

– Disse que devíamos condecorar Grayson por ter matado Dan Mercer.

– Porque foi uma morte justa?

– Não só por isso. O argumento foi bem mais complexo.

– Como assim?

– Segundo ela, se Grayson não tivesse matado Mercer, nós jamais teríamos encontrado o iPhone de Haley.

Ele apontou o controle remoto para a TV e a desligou.

– Hester fez questão de observar que, em três meses de investigação, não tínhamos feito nenhum progresso e que foi Grayson quem nos deu a única pista sobre o paradeiro de Haley. Disse ainda que um bom investigador teria suspeitado do pedófilo que frequentava a vizinhança da vítima. Quer saber de uma coisa? Ela estava certa. Como é que eu fui dar uma mancada dessas? Um cara indiciado por pedofilia tinha parentes que mantinham contato com Haley! Talvez ele a tenha deixado viva por alguns dias. Talvez eu pudesse ter feito alguma coisa para salvá-la.

Wendy já ia dizendo algo para contestar Tremont, mas foi logo interrompida:

– Por favor, não diga nada. Qualquer condescendência seria um insulto.

Ele tinha razão.

– Suponho que você não tenha vindo aqui para me ver neste estado lamentável de autopiedade.

– Sei não, Frank. Até que é divertido.

Tremont quase sorriu.

– O que você quer, Wendy?

– Por que você acha que Mercer matou a garota?

– Um motivo do ponto de vista jurídico? É disso que você está falando?

– Exatamente.

– Quer que eu liste em ordem alfabética? Como você mesma provou, o homem era um predador sexual.

– Eu sei, eu sei. Mas isso não vinha ao caso. Haley McWaid tinha 17 anos. Em Nova Jersey, não seria crime ter relações consensuais com uma garota maior de 16.

– Talvez ele tivesse medo que ela abrisse o bico.

– Sobre o quê? Ele não estaria fazendo nada ilegal.

– Mesmo assim. O estrago seria grande.

– Acha então que ele a matou para silenciá-la? – perguntou Wendy, balançando a cabeça. – Vocês encontraram algum indício de que Mercer e Haley tinham mesmo um relacionamento?

– Não. Você levantou essa hipótese lá no parque, de que talvez eles tivessem se conhecido na casa da ex-mulher de Mercer e começado alguma coisa. Pode ser, mas não temos nenhuma prova disso e, pelo bem dos pais, não sei se quero procurá-las. O mais provável é o seguinte: ele viu a garota na casa de Jenna Wheeler, ficou obcecado, a raptou, fez sei lá o quê, depois a matou.

– Não consigo acreditar nisso.

– Por que não? Você se lembra de Kirby Sennett? O suposto namoradinho?

– Sim, lembro.

– Depois que encontramos o corpo, o advogado do garoto permitiu que ele, digamos, cooperasse mais. Sim, eles namoravam escondidos, mas a coisa ia de mal a pior. Kirby disse que Haley andava muito tensa, principalmente depois de não ter sido aceita pela Universidade da Virgínia. Achava que talvez ela estivesse tomando alguma coisa.

– Drogas?

Tremont deu de ombros.

– Os pais também não precisam saber disso.

– Mas não entendi: por que ele não abriu o verbo desde o início?

– Porque o advogado tinha medo de que, se descobríssemos mais sobre o relacionamento do garoto com Haley, fôssemos mais fundo na investigação sobre ele. E teríamos ido.

– Mas se ele não tinha nada a esconder…

– Quem disse que não? Acontece que o pivete era um traficantezinho. Nada muito sério. Mas se Haley estava usando alguma coisa, era ele quem fornecia. Além disso, ser inocente às vezes não ajuda em nada. Qualquer advogado vai lhe dizer isso. Se Kirby tivesse contado sobre o namoro secreto com Haley e que ela vinha tomando ou fumando alguma coisa que ele dava para ela, nós teríamos armado um acampamento na casa dele. E quando o corpo foi encontrado… aí o pau teria comido pra valer. Agora que sabemos que ele não tem culpa no cartório, faz sentido que tenha aberto o jogo.

– Belo sistema – disse Wendy.

Mais uma vez ele deu de ombros.

– Tem certeza que esse Kirby não teve nada mesmo a ver com a história?

– E fez o quê? Plantou o iPhone de Haley no quarto de Mercer?

Wendy refletiu um instante.

– É. Tem razão.

– Além do mais, o álibi dele é absolutamente sólido. Vá por mim: esse tal de Kirby não passa de um filhinho de papai, um delinquentezinho cheio da grana. Desses que a gente está cansado de ver por aí. Acha que é transgressor só porque um dia jogou papel higiênico na casa dos vizinhos. Não fez nada com Haley.

Wendy se recostou no sofá. Deixou que os olhos vagassem para as fotos da filha morta de Tremont, mas logo os desviou. Talvez depressa demais. Frank percebeu.

– Minha filha.

– Eu sei.

– Não vamos falar dela, está bem?

– Tudo bem.

– Então, Wendy, qual é o seu problema com este caso?

– Sei lá. Acho que preciso saber de todos os porquês.

– Então olhe mais um pouco para aquelas fotos – Frank sugeriu, erguendo-se da poltrona com os olhos marejados. – Não é assim que as coisas funcionam. Às vezes… ou quase sempre… não existe um porquê.

 

Chegando ao carro, Wendy viu que havia uma mensagem de Ten-A-Fly e retornou a ligação.

– Acho que encontramos alguma coisa sobre Kelvin Tilfer.

Os quatro membros do Clube dos Pais haviam passado os últimos dias tentando localizar os colegas de Princeton. O mais fácil de encontrar, claro, tinha sido Farley Parks. Wendy já havia telefonado seis vezes para o ex-político, mas ele não havia retornado suas ligações. Lógico. Farley morava em Pittsburgh, o que dificultava que ela lhe fizesse uma visitinha surpresa. Portanto, pelo menos por ora, ele era carta fora do baralho.

Wendy também já havia ligado para Steve Miciano. Não quisera dizer por telefone o motivo de precisar encontrá-lo, mas Miciano nem ao menos perguntara. Disse apenas que estava ocupado, mas que poderia recebê-la no dia seguinte, à tarde. Wendy achou que podia esperar.

Por ultimo – e aos olhos de Wendy essa era a grande prioridade – vinha o misterioso Kelvin Tilfer. Até então ela não havia descoberto nada sobre ele. A julgar pela internet, o homem simplesmente havia sumido do planeta.

– O que conseguiram? – ela perguntou.

– Ele tem um irmão, Ronald Tilfer. É entregador da UPS em Manhattan. O único parente que conseguimos localizar. Os pais já morreram.

– E onde ele mora?

– No Queens, mas acho que podemos facilitar sua vida. Quando Doug trabalhava na Lehman, usava os serviços da UPS. Ele ligou pro cara com quem costumava falar no departamento de vendas e conseguiu o itinerário de entregas do tal Ronald. Hoje em dia é tudo computadorizado, então podemos acompanhar os passos dele on-line, caso você queira ir atrás dele logo.

– Quero, sim.

– Tudo bem. Então vá para Manhattan, ali pelos lados do Upper West Side. Vou mandando pro seu e-mail as atualizações de onde ele está.

Quarenta e cinco minutos depois, Wendy encontrou a van marrom da UPS parada em fila dupla na Rua 69, em frente a um restaurante. Ela estacionou numa vaga mais adiante, colocou as moedas no parquímetro e se recostou no carro. Olhando para a van, lembrou-se do comercial do serviço de entregas. Charlie sempre reclamava quando ele ia ao ar, geralmente durante um momento crucial dos jogos de futebol.

Engraçado o que vem à nossa mente de vez em quando.

Ronald Tilfer sorriu e acenou para alguém ao sair do restaurante. Era baixo, de cabelos grisalhos cortados rentes à cabeça e, como a bermuda do uniforme permitia notar, tinha pernas musculosas. Wendy se afastou do carro e se interpôs no caminho antes que ele alcançasse a van.

– Ronald Tilfer?

– Sim.

– Meu nome é Wendy Tynes. Sou repórter da NTC News. Estou tentando localizar seu irmão, Kelvin.

Ele apertou as pálpebras e disse:

– Para quê?

– Estou fazendo uma matéria sobre uma turma de formandos de Princeton.

– Desculpe, não posso ajudar.

– Só preciso que ele fale comigo por alguns minutos.

– Não vai dar.

– Por quê?

Ronald tentou contorná-la, mas Wendy deu um passo para impedi-lo.

– Digamos que meu irmão está… indisponível – ele disse.

– Como assim, indisponível?

– Não pode falar com você.

– Sr. Tilfer?

– Preciso voltar ao meu trabalho.

– Não, não precisa.

– Como é que é?

– Esta é a sua última entrega de hoje.

– E como você sabe?

Wendy achou melhor não dizer.

– Vamos pular essa parte de “indisponível” ou “ele não pode falar com você”. Por favor, é muito importante que eu converse com seu irmão.

– Sobre a turma de formandos de Princeton?

– Não é só isso. Alguém vem tentando prejudicar alguns ex-colegas dele.

– E você acha que é o Kelvin?

– Não foi isso o que eu disse.

– Não pode ser ele.

– Você pode me ajudar a provar isso. De qualquer modo, vidas têm sido arruinadas. É possível que seu irmão esteja correndo o mesmo risco.

– Não está.

– Então talvez ele possa ajudar os velhos amigos.

– Kelvin? Ele não está em condições de ajudar ninguém.

Novamente os enigmas. Wendy começava a se irritar.

– Você fala como se ele estivesse morto.

– É possível que esteja.

– Não quero fazer drama, Sr. Tilfer, mas é realmente questão de vida ou morte. Se o senhor não quiser falar comigo, posso recorrer à polícia. Vim aqui sozinha, mas posso voltar com minha equipe completa: câmeras, microfones, o escambau.

Ronald Tilfer exalou um longo suspiro. A ameaça não passava de um blefe, mas ele não tinha como saber disso. Mordendo o lábio inferior, disse:

– Não vai acreditar se eu disser que meu irmão não pode ajudá-la?

– Não.

– Tudo bem, então – disse Ronald, sacudindo os ombros.

– Tudo bem o quê?

– Vou levá-la para ver Kelvin.

 

Wendy olhava para Kelvin Tilfer através do espesso vidro de proteção.

– Há quanto tempo ele está aqui?

– Dessa vez? – disse Ronald. – Sei lá, uns 20 dias. Provavelmente vão liberá-lo daqui a uma semana.

– E para onde ele vai?

– Vai ficar pelas ruas até fazer alguma besteira de novo. Aí vão trazê-lo de volta. O governo não investe mais em tratamentos psiquiátricos de longo prazo. Por isso sempre o liberam.

Kelvin Tilfer escrevia furiosamente num caderno, o nariz a poucos centímetros do papel. Wendy podia ouvir os berros que ele dava do outro lado do vidro. Kelvin parecia muito mais velho que os ex-colegas. Os cabelos e a barba já estavam grisalhos e faltavam alguns dentes na boca.

– Ele era o “irmão inteligente” – disse Ronald. – Um gênio da matemática. É isso o que ele fica escrevendo. Problemas de matemática. Escreve o dia todo. Não consegue desligar a cabeça. Nunca conseguiu. Nossa mãe fazia o possível para que ele fosse um cara normal, sabe? Os professores queriam que ele pulasse de ano na escola, mas ela não deixava. Obrigava o Kelvin a fazer esportes, tudo para que ele levasse uma vida normal. No fundo, no fundo, a gente sabia que ele ia acabar assim. Mamãe tentava protegê-lo da loucura, mas era o mesmo que tentar barrar um oceano inteiro só com as mãos.

– Qual é o problema dele exatamente?

– Kelvin é esquizofrênico. Volta e meia tem acessos horríveis de fúria.

– Mas o que aconteceu com ele?

– Como assim, o que aconteceu com ele? Kelvin é doente. Só isso. Não tem um porquê.

Era a segunda vez que ela ouvia aquilo no mesmo dia.

– Como alguém fica com câncer? – prosseguiu Ronald. – Ninguém causou isso, ele não ficou maluco porque apanhou da mãe. É um distúrbio químico, ele nasceu assim. Mesmo quando criança, ele nunca dormia. Não conseguia desligar o cérebro.

Wendy se lembrou do que Phil tinha dito, “esquisitices de gênio”.

– Os remédios ajudam?

– Deixam o Kelvin mais calmo, claro. Do mesmo modo que um sedativo tranquiliza um elefante. Ele ainda não sabe quem é nem onde está. Depois que se formou em Princeton, arrumou emprego num laboratório farmacêutico, mas volta e meia sumia do trabalho. Acabou sendo demitido e começou a vagar pelas ruas. Ficamos oito anos sem notícias dele. Quando finalmente o encontramos, estava dormindo numa caixa de papelão no meio das próprias fezes. Tinha ossos fraturados que não haviam se calcificado direito e faltavam alguns dentes na boca. Nem sei como conseguiu sobreviver esse tempo todo. Deve ter passado por maus bocados.

Kelvin começou a gritar novamente:

– Himmler! Himmler gosta de postas de atum!

Wendy se virou para Ronald.

– Himmler? O nazista?

– Sei lá. Ele nunca diz coisa com coisa.

Kelvin voltou a escrever no caderno, agora mais rápido do que antes.

– Posso falar com ele? – perguntou Wendy.

– Está brincando.

– Não, não estou.

– Não vai conseguir nada.

– Não custa tentar.

Ronald Tilfer olhou através do vidro.

– Tem vezes que ele nem me reconhece. Olha para mim como se eu nem estivesse ali. Minha vontade é levá-lo para casa comigo, mas sou casado, tenho mulher e filho…

Wendy não disse nada.

– Eu devia fazer alguma coisa para ajudar meu irmão, você não acha? Ele fica furioso quando tento interná-lo em algum lugar, então deixo que ele vá para onde quiser e depois fico morrendo de preocupação. Quando a gente era criança, ia ver os jogos dos Yankees e Kelvin me dizia as estatísticas de cada jogador. Ele atualizava os dados depois de cada jogada, de cabeça. Mas a minha teoria é a seguinte: ser gênio é uma maldição. É assim que vejo as coisas. Tem gente que acha que os gênios compreendem o mundo de um jeito que nós não somos capazes, que eles veem as coisas exatamente como são… e que a realidade é tão horrível que eles acabam perdendo o juízo. É saber a verdade que os enlouquece.

Sem tirar os olhos de Kelvin, Wendy indagou:

– Ele costuma falar sobre Princeton?

– Mamãe tinha tanto orgulho dele. Quer dizer, todos nós tínhamos. Ninguém lá do bairro conseguia entrar numa universidade como Princeton. Nossa preocupação era que ele não se adaptasse, mas Kelvin logo fez amigos.

– Que agora estão em apuros.

– Olhe para o meu irmão, Sra. Tynes. Acha mesmo que ele pode ajudar em alguma coisa?

– Eu gostaria de fazer pelo menos uma tentativa.

Ronald deu de ombros. O administrador do hospital pediu que Wendy assinasse alguns papéis e sugeriu que eles não se aproximassem muito de Kelvin. Em seguida, levou-os para outra sala com portas de vidro, vigiadas por um enfermeiro. Kelvin estava sentado diante da mesa, ainda rabiscando em seu caderno. A mesa era ampla o bastante para manter Wendy e Ronald a uma distância razoável.

– Oi, Kelvin… Sou eu – disse Ronald.

– Os indolentes não entendem a essência.

Ronald olhou para Wendy e gesticulou para que ela tentasse.

– Você estudou em Princeton, não estudou, Kelvin?

– Já disse. Himmler gosta de postas de atum.

Ele encarava o caderno, escrevendo sem parar.

– Kelvin, você se lembra de Dan Mercer?

– Moço branco.

– Isso. E de Phil Turnball?

– Gasolina sem chumbo provoca dores de cabeça no usuário.

– Seus amigos de Princeton.

– Escola de elite, cara. Tinha um que usava sapato verde. Detesto sapato verde.

– Eu também.

– Os caras de elite.

– Isso. Seus amigos de Princeton. Dan, Phil, Steve e Farley. Você se lembra deles?

Kelvin finalmente parou de escrever. Ergueu o rosto, os olhos como duas páginas em branco. Olhava para Wendy, mas claramente não a via.

– Kelvin?

– Himmler gosta de atum – ele disse, sussurrando com certa aflição na voz. – E o prefeito? O prefeito não está nem aí.

Ronald murchou na cadeira. Wendy tentou fazer com que Kelvin a fitasse nos olhos.

– Eu queria conversar com você sobre os seus companheiros de quarto – disse.

Kelvin riu.

– Companheiros de quarto?

– Isso.

– É muito engraçado! – Kelvin começou a gargalhar loucamente. – Como se alguém pudesse ser companheiro de um quarto. Amigo dele. Namorado dele. Muito engraçado…

Bem, aquilo era melhor do que as preferências alimentares de Himmler, pensou Wendy.

– Você se lembra dos seus ex-companheiros de quarto em Princeton?

Kelvin subitamente parou de rir, como se alguém tivesse desligado um botão.

– Eles estão em apuros, Kelvin – disse Wendy. – Dan Mercer, Phil Turnball, Steve Miciano, Farley Parks. Todos estão com problemas muito sérios.

– Problemas?

– Sim. – Wendy repetiu os quatro nomes. Uma, duas vezes. Algo começou a acontecer no rosto de Kelvin, sua expressão se fechando aos poucos.

– Meu Deus, essa não…

Ele começou a chorar e Ronald se levantou.

– Kelvin? – disse, esticando os braços na direção do irmão.

Mas recuou com o grito dele. Um grito súbito, estridente. Wendy pulou de susto.

– Cara cortada! – berrou Kelvin, os olhos arregalados.

– Kelvin?

Ele se levantou de repente, derrubando a cadeira. O enfermeiro se aproximou. Kelvin gritou outra vez e se refugiou num canto da sala. O enfermeiro pediu ajuda.

– Cara cortada! – berrou Kelvin novamente. – Agora fodeu! Agora fodeu! Cara cortada!

– Cara cortada? – Wendy berrou de volta. – Quem foi que cortou a cara?

– Deixe ele em paz! – interveio Ronald.

– Cara cortada!

Kelvin fechou os olhos com força e levou as mãos à cabeça como se quisesse evitar que o crânio se partisse em dois.

– Eu falei pra eles! Eu avisei!

– Avisou o quê, Kelvin?

– Pare! – disse Ronald.

Então Kelvin se perdeu em sua confusão mental, balançando a cabeça para frente e para trás. Outros dois enfermeiros chegaram à sala. Ao vê-los, Kelvin berrou:

– Parem a caçada! Parem a caçada!

Kelvin se jogou no chão e começou a se arrastar de quatro pelo assoalho.

Com o rosto estriado de lágrimas, Ronald tentava acalmar o irmão. Kelvin já ia se levantando de novo quando os dois enfermeiros se lançaram na direção dele, agarrando-o pelos braços e as pernas.

– Por favor, não o machuquem! – suplicou Ronald. – Por favor!

Os enfermeiros vestiam em Kelvin algo parecido com uma camisa de força. Mais uma vez Ronald pediu que não o machucassem. Wendy tentou se aproximar, fazer algum tipo de contato.

Deitado no chão, Kelvin finalmente sustentou o olhar dela. Wendy se aproximou um pouco mais.

– Afaste-se! – berrou um dos enfermeiros, mas ela o ignorou.

– O que houve, Kelvin? Pode falar.

– Eu disse pra eles… – ele sussurrou. – Eu avisei.

– Avisou o quê, Kelvin?

Ele começou a chorar. Ronald plantou as mãos sobre os ombros de Wendy, tentou puxá-la para trás, mas ela se desvencilhou.

– Sobre o que você os avisou, Kelvin?

A essa altura um terceiro enfermeiro já havia chegado com uma seringa nas mãos. Ele injetou o conteúdo no braço de Kelvin, que ainda encarava Wendy.

– Falei que era para parar a caçada – ele disse, subitamente calmo.– A gente não devia continuar caçando.

– Caçando o quê?

Mas a droga já começava a fazer efeito.

– A gente nunca devia ter ido caçar – ele disse ainda, baixinho. – Pergunte a cara cortada. A gente nunca devia ter ido caçar.

 

RONALD TILFER NÃO FAZIA a menor ideia sobre a tal “cara cortada”, tampouco a que caçada o irmão se referia.

– Ele já falou dessas coisas antes… caçada, cara cortada. E de Himmler também. Não creio que signifiquem nada.

Wendy voltou para casa mais perdida do que nunca, imaginando o que fazer com aquelas semi-informações. Charlie assistia à TV esparramado no sofá.

– Oi – ela disse.

– O que tem pra jantar?

– Vou bem, obrigada. E você?

Charlie suspirou e disse:

– A gente precisa mesmo dessas formalidades?

– Não, nem da cortesia de um modo geral, pelo que parece.

Charlie não se mexeu.

– Tudo bem com você? – perguntou Wendy, traindo na voz sua preocupação.

– Comigo? Tudo bem, por quê?

– Haley McWaid era sua colega de escola.

– Era, mas a gente nem se conhecia direito.

– Muitos colegas e amigos estavam no enterro.

– Eu sei.

– Vi Clark e James por lá.

– Eu sei.

– Por que você não quis ir também?

– Porque eu não conhecia ela.

– Clark e James conheciam?

– Não – disse Charlie, sentando-se no sofá. – Olhe, eu fiquei bolado com essa história toda. Foi uma tragédia. Mas as pessoas gostam de se envolver. Os meus amigos também. Eles não foram lá porque gostavam da Haley, foi porque acharam que ia ser legal. Queriam fazer parte da coisa, entendeu? Estavam pensando neles mesmos, não nela, sacou?

Wendy fez que sim com a cabeça.

– Saquei – disse.

– Em outras situações, tudo bem, não vejo problema nenhum – continuou Charlie. – Mas quando tem uma garota morta na parada, sinto muito, tô fora – ele concluiu, novamente esparramando-se no sofá para assistir à TV.

Wendy ficou admirando o filho por um momento. Charlie relanceou os olhos na direção dela e, com um suspiro, perguntou:

– O que foi?

– Você falou igualzinho ao seu pai.

Ele não disse nada.

– Eu te amo muito, sabia? – disse Wendy.

– Será que vou falar igualzinho ao papai também se perguntar de novo o que é que tem pra jantar?

Wendy riu.

– Vou dar uma olhada na geladeira – disse, mesmo sabendo que não encontraria nada por lá e que teria de pedir algo por telefone. Sushi, mas com arroz integral para ficar mais saudável. – Ah, só mais uma coisa. Você conhece Kirby Sennett?

– Só de vista.

– Ele é legal?

– Não, é um prego.

Wendy sorriu, depois disse:

– Ouvi dizer que ele é um traficantezinho.

– É um mala sem alça – ele resumiu, sentando-se outra vez. – Por que esse interrogatório agora?

– É que estou analisando o caso de Haley por um outro ângulo, só isso. Parece que havia alguma coisa entre ela e Kirby.

– E daí?

– Você poderia confirmar isso pra mim?

Ele olhou para a mãe, horrorizado.

– Como se eu fosse um informante da NTC?

– É… Mandei mal, não mandei?

Charlie não se deu o trabalho de responder.

Nesse mesmo instante Wendy teve outra ideia que lhe pareceu razoavelmente boa. Subiu, foi ao computador, fez uma rápida pesquisa de imagens e logo encontrou a foto perfeita: uma garota de traços asiáticos, de mais ou menos 18 anos, óculos de bibliotecária, blusa decotada, corpo escultural.

– Sim, essa serve.

Então criou um perfil no Facebook usando a foto da tal garota e juntando os nomes de duas de suas melhores amigas dos tempos de faculdade. Ali estava Sharon Hait. Ótimo. Agora precisava virar amiga de Kirby.

– O que você está fazendo?

Era Charlie.

– Um perfil falso no Facebook.

– Pra quê?

– Vou tentar fazer Kirby me adicionar. Talvez eu consiga descobrir alguma coisa sobre ele.

– Fala sério.

– Por quê? Acha que não vai funcionar?

– Não com essa foto.

– Por que não?

– Gostosa demais. Parece um bot de spam.

– Um o quê?

– Bot de spam – Charlie suspirou. – As empresas usam fotos assim para colocar nas mensagens de spam. Melhor você escolher outra. Uma que seja gata mas pareça real, sacou?

– Acho que sim.

– E diga que ela mora, sei lá… em Glen Rock. Se fosse de Kasselton, Kirby ia conhecer.

– Por quê? Você conhece todas as meninas da cidade?

– As bonitas? Praticamente todas. Se não conheço, pelo menos ouvi falar. Então escolha uma cidade que seja perto, mas não perto demais. Diga que uma amiga falou dele, ou que você o viu no shopping, qualquer coisa assim. Ou então dê o nome real de alguma menina da cidade que você escolher, caso ele pergunte a alguém ou pesquise na internet. Mas não pode ter nenhuma outra foto dela no Google. Diga que você acabou de colocar seu perfil no Facebook e que está começando a convidar amigos, senão ele vai ficar se perguntando por que você ainda não tem amigo nenhum. Coloque alguma coisa sobre ela, tipo os filmes que curte, as bandas, etc.

– Tipo o quê? U2?

– Alguma coisa com menos de 100 anos.

Charlie listou algumas bandas das quais Wendy jamais ouvira falar. Ela anotou e disse:

– Acha que vai dar certo?

– Difícil, mas nunca se sabe. Pelo menos ele vai aceitar você como amiga.

– E depois eu vou poder ver a página dele inteira, certo?

– Isso. As fotos, os posts no mural, os amigos, os posts dele, os games que ele joga, tudo. A mesma coisa que você fez naquela página de Princeton.

A menção a Princeton fez com que Wendy se lembrasse de outra cosia. Ela abriu a página dos formandos, localizou o link do administrador e clicou o botão para mandar um e-mail. O administrador era Lawrence Cherston, “nosso ex-orador”, segundo informava o pequeno currículo. Na foto de seu perfil, ele usava a gravata laranja e preta da universidade. Um horror. Wendy digitou uma mensagem curta e direta:

Oi. Sou repórter de TV e estou fazendo uma matéria sobre sua turma de formandos em Princeton. Gostaria muito de marcar uma reunião. Por gentileza, use qualquer um dos meios abaixo para entrar em contato assim que julgar oportuno.

Tão logo enviou a mensagem, ouviu o celular apitar. Uma mensagem de texto enviada por Phil Turnball:

PRECISAMOS CONVERSAR.

Ela digitou de volta:

CLARO, PODE LIGAR.

Depois de alguma demora, a resposta:

NÃO POR TELEFONE.

Wendy ficou sem saber o que fazer, então digitou:

POR QUE NÃO?

E ele:

DAQUI A MEIA HORA NO BAR LOVE THE ZEBRA?

Estranhando que Phil tivesse evitado a pergunta, ela insistiu:

POR QUE NÃO POR TELEFONE?

Uma demora ainda maior.

ANDO DESCONFIADO DOS TELEFONES.

Wendy novamente estranhou a resposta, mas, pensando melhor, Phil não parecia ser dado a exageros. Dali a pouco ela poderia fazer suas perguntas pessoalmente, não fazia sentido ficar levantando conjeturas. Digitou o.k. e olhou de volta para Charlie.

– O que foi? – perguntou ele.

– Preciso sair para encontrar uma pessoa. Você se vira sozinho com o jantar?

– Mãe, você esqueceu?

– O quê?

– A reunião do Projeto Formatura é hoje.

– Droga! Esqueci completamente – disse.

– Lá na escola, daqui a… – Charlie olhou para o pulso, embora não usasse relógio – menos de meia hora. E você está no comitê de aperitivos, ou alguma coisa assim.

Na verdade ela só havia sido encarregada de levar açúcar, adoçante, leite comum e de soja para acompanhar o café. Ela poderia faltar à reunião, mas a escola levava o tal Projeto Formatura a sério e nos últimos tempos ela vinha sendo, quando muito, uma mãe ausente. Então pegou o celular e digitou para Phil:

PODE SER ÀS 10?

Nenhuma resposta imediata.

Wendy foi para o quarto e trocou de roupa, optando por uma calça jeans e uma blusa verde. Tirou as lentes de contato, pegou os óculos e prendeu os cabelos num rabo de cavalo. Um look informal.

O telefone zumbiu com a resposta de Phil:

O.k.

Por fim ela desceu. Pops estava no escritório, uma bandana vermelha amarrada à cabeça. Homens dificilmente ficam bem de bandana. Pops até que se safava, mas por pouco, muito pouco. Ele balançou a cabeça ao vê-la se aproximar.

– Por que está usando esses óculos de velha?

Wendy apenas deu de ombros.

– Nunca vai arrumar um homem desse jeito.

Como se essa fosse a intenção dela ao ir à tal reunião.

– Não que seja da sua conta, mas fui convidada para sair ainda há pouco.

– O convite foi depois do enterro?

– Foi.

– Não me surpreende – disse Pops, sacudindo a cabeça.

– Por quê?

– A melhor transa da minha vida foi depois de um enterro, no banco de trás de uma limusine. Uma loucura!

– Uau. Não se esqueça de me contar os detalhes depois.

– Está sendo irônica?

– E muito.

Wendy se despediu do sogro com um beijo no rosto, pediu que ele supervisionasse o jantar de Charlie e foi para o carro. A caminho da escola, parou no supermercado para comprar os ingredientes do café. Quando enfim chegou, o estacionamento estava lotado e ela precisou deixar o carro longe. Calculou que a vaga ficava a uma distância razoável da placa de sinalização, mas não estava disposta a sacar uma fita métrica. Naquela noite, Wendy Tynes viveria perigosamente.

Os pais já orbitavam a cafeteira quando Wendy entrou. Ela se apressou na direção deles, pedindo desculpas e colocando as compras sobre a mesa. Millie Hanover, que presidia a associação de pais e alunos e comandava exemplarmente as oficinas de artes e artesanato, crispou o rosto numa careta de censura. Ao contrário dela, os pais (entenda-se: os pais do sexo masculino) se revelaram perfeitamente compreensivos com o atraso. Talvez compreensivos demais.

Em parte era esse o motivo pelo qual Wendy prendera os cabelos e vestira sua blusa abotoada até em cima, com uma calça jeans relativamente larga e os óculos “de velha”. Com os casados ela nunca estendia a conversa. Nunca, jamais. Tudo bem se as pessoas a chamassem de metida ou arrogante. Melhor do que “oferecida”, “assanhada” ou coisa pior. Já bastava a desconfiança das mulheres da cidade. Em encontros como aquele, sua vontade era aparecer vestindo uma camiseta com uma frase do tipo JURO QUE NÃO QUERO ROUBAR O MARIDO DE NINGUÉM.

O assunto que os pais mais discutiam era universidade. Mais especificamente, qual filho havia conseguido entrar para qual curso em qual lugar. Alguns contavam vantagem, outros faziam piada e outros tantos, os preferidos de Wendy, elogiavam a obscura faculdade para a qual o filho entrara, como se ela fosse bem melhor que a outra, a que não havia aceitado seus respectivos rebentos. Talvez fosse crueldade dela se divertir com isso. Eles estavam apenas fazendo uma limonada com o limão que tinham.

Finalmente o sinal tocou e todos se dirigiram para o ginásio da escola. Havia estandes distribuindo adesivos: DIRIJA COM CUIDADO, NÓS NOSSOS FILHOS, SEJA FELIZ SEM DROGAS. Uma barraquinha divulgava a campanha Na Nossa Casa, Não, aconselhando os pais a não permitirem bebidas alcoólicas nas festinhas dos filhos. A poucos metros de distância, alguém distribuía contratos simbólicos em que os adolescentes se comprometiam a não dirigir depois de beber e os pais, a buscá-los em qualquer lugar e a qualquer hora.

Wendy se acomodou numa cadeira nos fundos da quadra. Um dos pais encolheu a barriga, forçou um sorriso de galã e sentou ao lado dela. Apontando para os estandes, disse:

– Uma overdose de segurança, não acha? Somos protetores demais.

Wendy não deu papo. A mulher do sujeito, com cara de poucos amigos, sentou ao lado dele. Mais que depressa, Wendy a cumprimentou e se apresentou, dizendo que era mãe de Charlie e cuidando para não cruzar o olhar do galã sorridente.

Pete Zecher, o diretor da escola, subiu ao tablado e agradeceu a todos por terem comparecido naquela “semana tão difícil”. Seguiu-se um minuto de silêncio em homenagem a Haley. Alguns se perguntavam por que o encontro não havia sido adiado, mas o calendário da escola era tão cheio de atividades que simplesmente não havia outra data disponível. Além disso, quanto tempo esperar? Um dia? Uma semana?

Depois de alguns instantes de constrangimento geral, Pete passou a palavra a Millie Hanover, que, empolgada, anunciou que o tema do Projeto Formatura daquele ano seria o universo dos super-heróis. O ginásio seria decorado de modo a lembrar diferentes cenários de histórias em quadrinhos: a Batcaverna, a Fortaleza da Solidão do Super-homem, a mansão dos X-Men, o prédio da Liga da Justiça.

A ideia por trás do Projeto Formatura era propiciar aos formandos um lugar seguro para festejar depois das cerimônias oficiais. Os alunos seriam trazidos de ônibus e os pais ficariam do lado de fora. Nada de bebidas alcoólicas ou drogas, claro, embora nos últimos anos alguns garotos tivessem conseguido furar esse bloqueio. Mesmo assim, com os pais por perto e ônibus na porta, o Projeto Formatura parecia uma boa alternativa para as farras tradicionais.

– Eu gostaria de agradecer o esforço e a dedicação de todos os chefes de comitê – disse Millie. – Por favor, fiquem de pé. – Ela apresentou os chefes de cada comitê (decoração, bebida, comida, transporte, divulgação), todos recebidos com ruidosos aplausos. – Quanto aos demais aqui presentes, ainda contamos com sua participação. O sucesso do nosso projeto depende de vocês. Esta é uma ótima maneira de fazer com que nossos filhos tenham uma experiência positiva neste momento tão importante de suas vidas. Lembrem-se: tudo isto é para eles, os nossos filhos, então não devemos deixar a responsabilidade nos ombros dos outros.

Wendy dificilmente imaginaria uma forma mais condescendente para alguém fazer aquele convite.

– Estamos passando as listas de adesão de novos voluntários. Muito obrigada a todos pela atenção.

Em seguida Peter Zecher apresentou Dave Pecora, um oficial da polícia de Kasselton, que discursou longamente sobre os perigos associados às festas de formatura. Falou sobre heroína, cujo consumo vinha aumentando, e sobre os adolescentes estarem roubando remédios controlados dos pais para depois dividi-los com os amigos nas festas. No ano anterior, Wendy pensara em fazer uma matéria sobre o assunto, mas não havia encontrado nenhum caso real para usar como exemplo. Segundo alguns órgãos públicos, essas festas não passavam de lenda urbana.

– Quatro mil jovens morrem todos os anos devido à ingestão excessiva de álcool – Pecora agora falava dos perigos da bebida, deixando de informar se aqueles dados se referiam ao país ou ao mundo inteiro e em que faixa etária se enquadravam os “jovens” de suas estatísticas. – Os pais prestam um desserviço aos filhos quando permitem o consumo de álcool em suas festas particulares.

Com um tom bastante sério, o policial então narrou casos em que pais foram condenados e presos por homicídio culposo em situações semelhantes. Foi além: deu detalhes sobre o cotidiano de alguns deles na prisão.

Wendy conferiu discretamente as horas no relógio: nove e meia.

Três pensamentos não saíam de sua cabeça. O primeiro: ela queria sair logo dali e descobrir por que Phil Turnball havia ficado tão enigmático de uma hora para outra. O segundo: ela deveria se voluntariar para um dos tais comitês. Embora não fosse a mais empolgada com o Projeto Formatura (por um lado, aquilo lhe parecia mais uma forma de ceder aos caprichos dos filhos e, por outro, talvez os caprichos em questão fossem sobretudo os dos pais), seria mesmo injusto deixar que outros pais se incumbissem sozinhos de uma festa que também era para Charlie. E o terceiro, talvez o mais insistente de todos: ela não conseguia deixar de pensar em Ariana Nasbro, a motorista alcoolizada que matara John. Se os pais de Ariana tivessem comparecido a uma daquelas orientações tão exageradas, talvez nada daquilo tivesse acontecido. Esperava que aquela overdose de noções de segurança pudesse realmente salvar vidas, para que outras famílias não tivessem de passar por tudo o que ela e Charlie haviam passado.

Zecher estava de volta ao tablado, agradecendo a presença de todos antes de dar por encerrada a reunião. Wendy olhava ao redor à procura de algum rosto familiar, censurando-se por conhecer tão poucos pais dos colegas de Charlie. Como era de esperar, os McWaid não estavam lá. Tampouco os Wheeler. A defesa que Jenna fizera do ex-marido havia lhe custado preciosos pontos no ranking social e a morte de Haley só piorara as coisas, tornando sua vida em Kasselton praticamente insustentável.

Alguns pais se dirigiram aos lugares designados para adesão aos diversos comitês. Wendy lembrou que Brenda Traynor, chefe do comitê de divulgação, era não só amiga de Jenna Wheeler, como também uma grande fofoqueira: uma combinação explosiva diante das circunstâncias. Wendy foi ao encontro dela.

– Oi, Brenda.

– Que bom vê-la aqui, Wendy. Veio se inscrever em algum comitê?

– Humm, claro. Pensei que talvez eu pudesse ajudar na divulgação.

– Mas isso seria ótimo! Afinal, quem melhor para divulgar uma festa que uma renomada repórter de TV?

– Eu não diria “renomada”.

– Pois eu digo.

Wendy forçou um sorriso.

– Onde é que eu assino?

Brenda lhe passou a lista, depois disse:

– Nosso comitê se reúne às terças e quintas. Será que podemos marcar um dos nossos encontros na sua casa?

– Claro – disse Wendy, curvando-se para assinar a lista. – Então – ela emendou, querendo ser sutil, mas nem sequer chegando perto. – Acha que Jenna Wheeler pode dar alguma contribuição ao nosso comitê?

– Você só pode estar brincando.

– Acho que ela já trabalhou na área de jornalismo – devolveu Wendy, tirando aquilo do nada.

– E daí? Depois do que ela fez… Trazer aquele monstro para a nossa vizinhança… De qualquer modo, daqui a pouco os Wheeler já estarão longe.

– Longe? Como assim?

Brenda se inclinou na direção de Wendy.

– Colocaram uma placa de VENDE-SE na casa – confidenciou.

– Eu não sabia.

– Amanda nem vai participar da formatura. Uma pena, porque ela não tem culpa de nada. Mas acho que foi a decisão certa. Seria constrangedor para todo mundo.

– E para onde eles vão?

– Ouvi dizer que Noel conseguiu emprego num hospital em Ohio. Não sei se em Columbus ou Canton. Talvez Cleveland. Tem tanta cidade com C em Ohio que acabo me atrapalhando. Pensando bem, acho que é Cincinnati. Como eu disse, mais um C.

– É mesmo. Mas eles já se mudaram?

– Não, acho que não. Sabe a Talia? Talia Norwich, mãe da Allie? Uma mulher simpática, meio gordinha… Pois bem. Talia me contou que ouviu dizer que eles estão hospedados em um Marriott até poderem se mudar.

Bingo.

Wendy se lembrou do que Jenna tinha dito sobre Dan e o lado inacessível de sua personalidade. Sobretudo, pensou no que poderia ter acontecido a ele na faculdade. Talvez fosse o caso de procurá-la para mais um papinho.

Então ela se despediu e foi ao encontro de Phil Turnball.

 

PHIL A ESPERAVA EM UMA PARTE relativamente tranquila nos fundos do bar. Relativamente porque aquele era um bar temático e o tema eram os esportes: nem de longe o lugar ideal para introspecções ou conversas íntimas. Ali não se viam marmanjos de nariz vermelho e ombros murchos junto ao balcão, porque o sem-número de TVs transmitindo um sem-número de jogos e programas esportivos não permitia que os clientes ficassem afogando as mágoas nos copos.

O lugar cheirava mais a asinhas de frango e molho do que a cerveja. Duas equipes de softball de empresas confraternizavam ali depois de uma partida e, como era dia de jogo dos Yankees, dezenas de garotas circulavam com a camisa do time, volta e meia se deixando levar pelo entusiasmo e levantando a roupa, para infelicidade de seus acompanhantes. O barulho era enorme.

Wendy foi ao encontro de Phil. Ele usava uma camisa polo verde-limão desabotoada, deixando à mostra tufos de pelos grisalhos. Tinha o olhar distante e um meio sorriso no rosto.

– Também tivemos uma equipe de softball na empresa – disse. – Anos atrás. Logo quando entrei. Íamos para lugares como este depois dos jogos. Sherry sempre ia junto. Ela colocava aquelas camisas bem sexy de softball. Sabe quais? Umas brancas, bem justas e com mangas escuras que vão até o cotovelo.

Wendy fez que sim com a cabeça. Notou que Phil enrolava um pouco a língua.

– Meu Deus, como ela era linda…

Ela esperou que ele continuasse falando. Quase sempre o truque funcionava. O segredo de qualquer entrevista era resistir à tentação de quebrar o silêncio. O tempo foi passando. Bem, às vezes era preciso estimular o entrevistado.

– Sherry ainda é muito bonita – disse Wendy.

– É, sim.

O meio sorriso permanecia congelado no rosto de Phil. Os olhos estavam vidrados e o rosto, enrubescido pelo álcool da garrafa de cerveja já vazia.

– Mas ela já não olha para mim do jeito que olhava antes. Não entenda mal. Sherry me dá todo o apoio, ainda me ama. Sempre diz e faz a coisa certa. Mas dá para ver que não sou mais o mesmo homem para ela.

“Tenho certeza de que isso não é verdade” ou “Sinto muito” simplesmente não caberiam ali. Portanto, mais uma vez Wendy optou pelo silêncio.

– Quer beber alguma coisa? – ofereceu Phil.

– Claro.

– Já tomei algumas cervejas.

– Então acho que vou acompanhar você.

– Quer uma porção de nachos?

– Você já comeu?

– Não.

– Tudo bem, então – disse. – Uma porção de nachos.

Phil acenou para a garçonete: Ariel, segundo informava o crachá. Ela vestia uma camisa de árbitro listrada e com um decote bastante revelador (o nome do bar era uma referência aos juízes do futebol americano, também conhecidos como “zebras”). Para completar o look, a moça trazia um apito pendurado ao pescoço e usava tinta preta sob os olhos. Wendy, claro, jamais tinha visto um juiz com o rosto pintado, mas e daí?

Eles fizeram seus pedidos.

– Quer saber de uma coisa? – disse Phil, observando a garçonete se afastar. – Já trabalhei em um lugar como este. Não exatamente igual, mas em um dessas redes de restaurantes que têm paredes decoradas, um bar no meio e estofados verdes, acho que para refletir uma época de maior pureza… Sabe quais?

Wendy meneou a cabeça. Ela sabia.

– Foi lá que conheci Sherry. Eu trabalhava como barman e ela era garçonete, dessas sempre alegres que chegam à mesa imediatamente e oferecem o tira-gosto que a empresa está tentando empurrar na clientela.

– Achei que você fosse um filhinho de papai.

Phil deu um risinho curto e levou a garrafa de cerveja à boca para extrair dela uma última gota. Só faltou dar um tapinha no fundo do vidro.

– Meus pais achavam que eu devia trabalhar. Onde você estava antes de vir para cá?

– Na escola do meu filho.

– Fazendo o quê?

– Reunião de formatura.

– Seu filho já foi aceito por alguma universidade?

– Já.

– Qual?

– Por que você me chamou aqui, Phil? – disse ela, ajeitando-se na cadeira.

– A pergunta foi pessoal demais? Desculpe.

– Só queria ir direto ao assunto. Já está tarde.

– Fico olhando para esses garotos de hoje e vejo que ainda tentam vender a eles o mesmo sonho estúpido que tentavam vender para nós: estude direitinho, tire boas notas, se prepare bem para as provas de admissão e, se possível, pratique algum esporte, porque as universidades adoram isso. E não se esqueça das atividades extracurriculares. Muitas. Quanto mais, melhor. Faça tudo isso e com certeza vai conseguir entrar para uma boa faculdade. É como se os primeiros 17 anos das nossas vidas não passassem de uma longa preparação para as universidades de elite.

O que era verdade, Wendy sabia. Bastava morar num bairro de classe média para que os anos de colégio se transformassem numa linha de montagem de universitários, às vezes bem-sucedida, outras vezes não.

– Pois veja só o que aconteceu a meus colegas – continuou Phil, engrolando as palavras bem mais do que antes. – Princeton. O crème de la crème. Kelvin era negro. Dan, órfão. Steve não tinha um tostão no bolso. Farley tinha mais sete irmãos e era filho de operários católicos. Todos nós chegamos lá, mas todos fomos infelizes. O garoto mais sorridente que conheci no colégio só conseguiu entrar para a Montclair State. Abandonou o curso no segundo ano e até hoje trabalha como barman. Ainda é o cara mais feliz que eu conheço.

– Os nachos vão demorar um pouquinho – anunciou a garçonete curvilínea.

– Tudo bem, meu anjo – disse Phil com um sorriso. Um sorriso simpático que, alguns anos antes, certamente teria sido retribuído. Phil demorou os olhos na garota, que pareceu não notar.

Tão logo a garçonete se afastou, ele ergueu sua garrafa para um brinde. Wendy ergueu a sua, fez o brinde e decidiu dar um basta à lenga-lenga.

– Phil, o que as palavras “cara cortada” significam para você?

Ele fez o que pôde para não se trair. Franziu a testa e, para ganhar tempo, chegou ao ponto de perguntar:

– Hein?

– Cara cortada.

– O que é que tem?

– O que isso significa para você?

– Nada.

– Está mentindo.

– Cara cortada? A única coisa que me vem à cabeça é Al Pacino naquele filme, Scarface – ele respondeu. Depois tentou imitar o sotaque do personagem de Al Pacino e começou a rir, na esperança de encerrar o assunto.

– E “caçada”, o que pode significar?

– De onde você tirou essas coisas, Wendy?

– De Kelvin.

Silêncio.

– Estive com ele hoje – completou Wendy.

O que Phil disse a seguir tomou-a de surpresa.

– É, eu sei.

– Sabe como?

Atrás deles, torcedores vibravam com um home run dos Yankees. Phil se inclinou para a frente e disse:

– Ainda não entendi direito qual é a sua.

– Como assim?

– A pobre daquela garota está morta. Dan também.

– E daí?

– E daí que acabou.

Wendy não falou nada.

– O que você ainda está procurando?

– Phil, você desviou aquele dinheiro?

– Que diferença isso faz?

– Sim ou não?

– É isso o que você está tentando fazer? Provar que sou inocente?

– Em parte.

– Não tente me ajudar, Wendy. Pelo meu bem. Pelo seu bem. Pelo bem de todo mundo. Por favor, deixe essa história de lado.

Phil desviou o olhar. Suas mãos encontraram a garrafa e rapidamente a levaram aos lábios. Ele tomou um gole demorado.

Wendy o encarava. Por um instante viu o que talvez Sherry visse também. Algo dentro dele (uma luz, uma chama, fosse lá o que fosse) havia se apagado. Pensou no que Pops dissera sobre como perder o emprego afetava os homens.

– Por favor – insistiu Phil, quase sussurrando. – Preciso que você deixe essa história de lado.

– Não quer descobrir a verdade?

Ele começou a descascar o rótulo da garrafa, os olhos atentos à tarefa como se ele fosse um artista trabalhando o mármore.

– Você acha que estão nos prejudicando – disse, ainda num sussurro. – Que nada. Tudo isso que aconteceu foi só um corretivo. Se a gente ficar na nossa, vão parar. Mas se continuarmos cutucando a onça… Se você continuar cutucando a onça, aí, sim, o caldo vai engrossar.

Phil observou o rótulo se soltar, escorregar pela mesa e cair no chão.

– Phil?

Ele ergueu os olhos para Wendy.

– Não entendi nada do que você falou – disse ela.

– Por favor, me escute. Preste bem atenção. As coisas vão piorar.

– Quem vai fazer as coisas piorarem?

– Não importa.

– Claro que importa.

A garçonete voltou trazendo uma pilha de nachos tão grande que parecia uma criança em seus braços. Largou-a sobre a mesa e disse:

– Mais alguma coisa?

Ambos disseram que não. A garçonete deu meia-volta e se afastou

– Quem está por trás disso, Phil? – ela perguntou, inclinando-se sobre a mesa.

– Não é bem assim.

– Assim como? É possível que eles tenham matado uma garota.

Phil balançou a cabeça.

– Foi o Dan quem a matou.

– Tem certeza?

– Tenho – ele disse apenas. Depois voltou a erguer os olhos para Wendy. – Você tem de acreditar em mim. Esse pesadelo vai acabar se você ficar na sua.

Ela não disse nada.

– Wendy?

– Me diga o que está acontecendo – implorou ela. – Não vou contar para ninguém. Prometo. Fica só entre nós.

– Deixe isso para lá.

– Pelo menos me diga quem está por trás disso tudo.

– Eu não sei.

– Como não? – rebateu Wendy, empertigada na cadeira.

Phil jogou duas notas de 20 dólares sobre a mesa e fez menção de se levantar.

– Aonde você vai?

– Para casa.

– Não está em condições de dirigir.

– Estou bem.

– Não, Phil, você não está nada bem.

– Só me faltava essa! – ele berrou, assustando-a. – Não vá dizer que agora você também está interessada na minha integridade física.

Phil irrompeu numa crise de choro. Em outro bar qualquer talvez isso tivesse atraído o olhar dos curiosos, mas com o barulho das televisões e a atenção geral voltada para os jogos, ninguém sequer virou o rosto.

– O que, diabos, está acontecendo? – perguntou Wendy.

– Fique na sua, está me ouvindo? Não estou falando isso só pelo nosso bem. Mas pelo seu também.

– O meu?

– Você está se colocando em perigo, Wendy. Seu filho também.

Ela o agarrou pelo braço.

– Phil!

Ele tentou ficar de pé, mas as pernas fraquejaram por causa do álcool.

– Você está ameaçando meu filho, é isso?

– Não, Wendy, você entendeu errado. É você quem está colocando os meus em perigo.

Wendy enfim o soltou.

– Mas como?

– Você precisa esquecer isso tudo – ele insistiu. – Todos nós precisamos. Desista de tentar localizar Farley e Steve, porque eles não vão falar com você. E deixe Kelvin em paz. Esse assunto já deu o que tinha de dar. Dan está morto. Acabou. Mas se você continuar pressionando, outras pessoas vão morrer.

 

WENDY AINDA TENTOU ARRANCAR mais informações de Phil, mas a certa altura ele simplesmente apagou e ela acabou tendo de levá-lo para casa. De volta a sua própria casa, encontrou Pops e Charlie diante da TV.

– Hora de dormir – disse.

– Ahhh… – resmungou Pops. – Deixa eu ver só mais um pouquinho, deixa?

– Muito engraçado.

– Já fiz melhor. Mas tem razão, é tarde.

– Charlie?

– Também achei muito engraçado – ele disse, sem tirar os olhos da TV.

Ótimo, ela pensou. Uma dupla de comediantes.

– Cama.

– Sabe que filme é esse?

Wendy olhou.

– Parece Madrugada muito louca, aquele filminho nada educativo.

– Exatamente – disse Pops. – E, na nossa família, ninguém para no meio de Madrugada muito louca. É falta de respeito.

Também gostava do filme, então se juntou a eles e, entre uma risada e outra, tentou não pensar em adolescentes mortas, pedófilos, ex-colegas de Princeton e ameaças a seu filho. Mas essa última parte ela não conseguia ignorar.

Talvez Phil estivesse certo. Sua história tinha a ver com Dan Mercer e, possivelmente, Haley McWaid. Essa questão estava encerrada. Além disso, ela havia conseguido o emprego de volta. No final, acabara se saindo muito bem daquilo tudo: a repórter que havia denunciado não só o pedófilo mas o assassino. Talvez o melhor fosse continuar daquele ponto, trabalhar com a polícia para ver se havia outras vítimas.

Ela olhou para Charlie: esparramado no sofá, ele ria de algo que Neil Patrick Harris no papel de Neil Patrick Harris tinha dito. Wendy adorava as risadas do filho. Que pai não adora? Ainda admirando sua cria, ela pensou em Ted e Marcia McWaid, que jamais voltariam a ouvir as risadas de Haley.

 

Quando o despertador tocou na manhã seguinte, aparentemente depois de apenas alguns minutos de sono, ela se arrastou da cama e chamou por Charlie. Nenhuma resposta. Chamou de novo. Nada. Ela correu até a porta.

– Charlie!

De novo, silêncio.

Wendy mal conseguia respirar. Ela disparou corredor afora sentindo o coração martelar a caixa torácica e, sem bater, abriu a porta do quarto do filho.

Lá estava ele, claro, ainda na cama, as cobertas puxadas sobre a cabeça.

– Charlie!

– Vá embora! – ele rosnou.

– Levante, ande.

– Me deixe dormir…

– Eu avisei ontem. Agora levante.

– A primeira aula é de educação sexual. Não quero ir.

– Le-van-te.

– Educação sexual… – ele repetiu. – Eles ficam ensinando um monte de indecências e eu sou muito impressionável. Vou acabar virando um cara promíscuo. Olhe, pela integridade moral do seu filho, você deveria me deixar dormir mais um pouquinho.

Wendy tentou não sorrir.

– Não enrole, garoto. De pé, ande.

– Só mais cinco minutos, por favor…

– Tudo bem. Cinco minutos. E só.

Uma hora e meia depois, a aula de educação sexual já terminada, Wendy o levou para a escola. Que problema haveria nisso, afinal? Ele estava no último ano, já havia sido aceito por uma universidade. Tudo bem.

Chegando em casa, ela conferiu os e-mails. Havia uma mensagem de Lawrence Cherston, o administrador da página dos ex-alunos de Princeton. Ele ficaria “encantado” em recebê-la “o mais cedo que lhe aprouvesse”. O endereço: Princeton, Nova Jersey. Wendy ligou e perguntou se eles poderiam se encontrar ainda naquela tarde, às três. Lawrence Cherston novamente disse que ficaria “encantado”.

Em seguida, Wendy achou que não faria mal dar uma olhada no falso perfil que ela havia criado no Facebook. Kirby Sennett com certeza não tinha nada a ver com o que quer que estivesse assustando Phil Turnball.

Abrindo a página, ficou satisfeita ao ver que o garoto a tinha adicionado como amiga. Kirby também havia mandado um convite para uma festa Red Bull. Ela clicou no link e se deparou com uma foto do próprio Kirby, que sorria com uma latinha de Red Bull na mão. Um texto informava o local e o horário da festa e terminava com uma frase curta: “Oi, Sharon, espero você lá!” Aparen temente, ele já havia saído do luto pela morte de Haley.

Wendy ficou se perguntando o que seria uma festa Red Bull. Provavelmente apenas isso, uma festa em que seria servido o tal energético, talvez calibrado com algo mais forte. De qualquer modo, ela perguntaria a Charlie.

Pois bem, agora o quê? Desenvolver uma relação qualquer com o garoto para tentar fazê-lo abrir o bico? Não. Bizarro demais. Uma coisa era se fazer passar por jovem para pegar um depravado numa cilada. Outra era se fazer passar por jovem para fazer com que um colega de escola do filho desse com a língua nos dentes.

Então, qual era o objetivo daquilo?

Ela não fazia a menor ideia.

O celular tocou. O identificador de chamadas mostrava o número da NTC.

– Alô.

– Wendy Tynes? – Uma voz feminina, um tanto impertinente.

– Ela mesma.

– Sou do departamento jurídico e de recursos humanos da emissora. Gostaríamos que a senhora nos procurasse hoje, ao meio-dia em ponto.

– Sobre?

– Sexto andar, sala do Sr. Frederick Montague. Meio-dia em ponto. Por obséquio, não se atrase.

Wendy ergueu as sobrancelhas.

– Você disse “obséquio”?

Clic.

Para que aquilo? E quem ainda usava “obséquio”? Ela se recostou na cadeira. Provavelmente era uma bobagem qualquer, como assinar algum papel de sua recontratação. Por que esse pessoal do RH tinha de ser tão formal?

Wendy cogitou o que fazer em seguida. Sabia que Jenna Wheeler se mudara para um hotel da rede Marriott. Hora de vestir a capa de repórter e tentar descobrir qual. No site deles, descobriu que os hotéis mais próximos ficavam em Secaucus, Paramus e Mahwah. Ela ligou para o de Secaucus primeiro.

– Poderia me transferir para o quarto de Jenna Wheeler? – pediu, supondo que o casal não pensaria em se registrar com nomes falsos.

A atendente pediu que ela soletrasse Wheeler, depois disse:

– Não temos nenhum hóspede com esse nome.

Wendy desligou e tentou o de Paramus. Novamente pediu para ser transferida. Três segundos depois, a atendente disse:

– Só um instante que vou passar a ligação.

Bingo.

Jenna atendeu na terceira chamada.

– Alô.

Wendy desligou e foi para o carro. O hotel ficava apenas a uns 10 minutos de distância. Seria melhor se conversassem pessoalmente. A poucas quadras do hotel, ela ligou de novo.

– Alô – respondeu Jenna, com uma voz que pareceu mais hesitante.

– Aqui é Wendy Tynes.

– O que você quer?

– Falar com você pessoalmente.

– Não quero falar com você.

– Jenna, não quero atacar ninguém, muito menos sua família.

– Então nos deixe em paz.

Wendy entrou no estacionamento do hotel.

– Sinto muito, mas não vai dar – disse.

– Não tenho nada a lhe dizer.

Ela encontrou uma vaga, estacionou e desligou o motor.

– Uma pena. Por favor, desça. Estou no lobby. Não vou embora enquanto não falar com você – concluiu, desligando.

O Marriott de Paramus se espremia entre a Rota 17 e a Garden State Parkway. Os quartos tinham duas vistas possíveis: uma loja de eletrônicos ou o galpão de uma casa de materiais de construção. Nem de longe aquela seria a melhor opção para uma semaninha de férias.

Wendy entrou no hotel e ficou esperando no lobby bege. Na verdade, um mar de paredes bege contrapostas a um monótono carpete verde-musgo e estofados de cores tão insípidas que pareciam berrar: “Nosso hotel é bom, mas não espere dele uma única gota de charme.” Wendy pegou um exemplar antigo da revista USA Today na mesa de centro e começou a ler uma enquete com leitores.

Jenna surgiu cinco minutos depois, vestindo um casaco de moletom alguns números maior que o seu. Os cabelos estavam presos num rabo de cavalo tão puxado que as maçãs do rosto, já salientes, pareciam saltar.

– O que você veio fazer aqui? – perguntou ela. – Tripudiar sobre nós?

– Sim, Jenna, é exatamente o que vim fazer. Estava em casa hoje de manhã, pensando numa garota encontrada morta no meio da mata, aí falei para mim mesma: “Sabe o que seria ótimo agora, a cereja do bolo? Tripudiar sobre alguém.” E aqui estou. Ah, saindo daqui, vou dar uma passada num asilo qualquer e derrubar uns velhinhos da cadeira de rodas.

Jenna sentou-se ao lado dela.

– Desculpe. Falei bobagem.

Wendy se lembrou da noite anterior, daquela estúpida reunião de pais na escola, e pensou em quanto Jenna e Noel teriam gostado de comparecer.

– Tudo bem. Sei que as coisas não andam fáceis para o seu lado.

Jenna deu de ombros e disse:

– Toda vez que fico tentada a sentir pena de mim mesma, penso em Ted e Marcia.

– É, eu entendo.

Silêncio.

– Soube que vocês vão se mudar – disse Wendy.

– Quem contou?

– Esta é uma cidade pequena.

Jenna sorriu, mas sem nenhum traço de alegria.

– Todas são, não é? Sim, vamos nos mudar. Noel vai assumir a chefia da cardiologia cirúrgica no Cincinnati Memorial Hospital.

– Puxa, foi rápido.

– Noel é muito requisitado. Mas, para falar a verdade, já vínhamos planejando essa mudança havia algum tempo.

– Desde que você começou a defender o Dan?

Jenna novamente tentou sorrir.

– Digamos que isso não aumentou em nada o nosso prestígio na comunidade – ela disse. – Queríamos ficar até o fim do ano letivo, para que Amanda pudesse se formar com os colegas. Mas talvez seja melhor assim.

– Sinto muito.

– De novo, Ted e Marcia. Não chega a ser um problema de verdade.

Wendy concordava.

– Então, Wendy, o que você quer de mim?

– Você defendeu o Dan.

– Sim.

– Desde o início. Desde que meu programa foi ao ar. Você parecia ter certeza da inocência dele. E, na última vez que nos falamos, você disse que destruí a vida de um homem inocente.

– O que você espera que eu diga? Que estava errada, e você, certa?

– E você estava?

– Estava o quê?

– Errada?

Jenna ficou confusa.

– Do que você está falando, afinal?

– Acha que Dan realmente matou Haley?

Seguiu-se um silêncio no lobby. Jenna deu a impressão de que iria oferecer alguma resposta, mas em vez disso, balançou a cabeça:

– Não estou entendendo. Você acha que ele é inocente?

– Acho que ainda faltam algumas peças neste quebra-cabeça. – Foi só o que Wendy conseguiu responder.

– Como o quê?

– É por isso que vim aqui. Para tentar descobrir.

Jenna olhou para ela como se esperasse algo mais, e agora foi Wendy quem desviou o olhar. Jenna merecia uma resposta mais clara. Até então, Wendy vinha lidando com tudo aquilo como repórter. Mas talvez ela fosse mais que uma simples repórter ali. Talvez tivesse chegado a hora de colocar tudo em pratos limpos, admitir a verdade, dizê-la em voz alta.

– Vou lhe confessar uma coisa, posso?

Jenna assentiu e esperou.

– No meu trabalho, eu sigo os fatos, não os meus instintos. Quase sempre os instintos só me trazem problemas. Entende o que estou dizendo?

– Mais do que você imagina.

Os olhos de Jenna estavam marejados. Wendy supôs que os seus também.

– E os fatos estavam contra Dan. Ele tentou seduzir a garota de 13 anos que inventei na internet. Apareceu lá naquela casa. Achamos todas aquelas coisas no computador e na casa dele. Mesmo o emprego dele… Você nem imagina quantos pervertidos trabalham com adolescentes fingindo ajudá-los. Tudo se encaixava. E mesmo assim, minha intuição ficou gritando que algo estava errado.

– Você me pareceu bastante segura quando nos falamos.

– Quase segura demais, não acha?

Jenna refletiu um instante e abriu um pequeno sorriso.

– Assim como eu, pensando bem. Nós duas, seguras demais. Claro, uma tinha de estar enganada. Mas hoje penso o seguinte: nunca se pode ter certeza absoluta a respeito de outra pessoa. Parece óbvio, mas talvez eu precisasse de um lembrete. Você lembra quando eu disse que Dan era meio reservado?

– Lembro.

– Talvez você estivesse certa quanto ao motivo. Ele escondia alguma coisa de mim. Eu sabia. Todos nós escondemos, não é? Ninguém conhece tudo sobre outra pessoa. Sei que é um grande clichê, mas a verdade é que nunca conhecemos o outro de verdade.

– Então você estava enganada esse tempo todo?

Jenna não fez mais que morder o lábio alguns instantes. Em seguida disse:

– Pensando agora nesse lado reservado de Dan… Eu achava que isso tinha algo a ver com o fato de ele ter perdido os pais, sabe? O caso clássico do órfão que não consegue confiar nas pessoas. Achava que tinha sido isso o que destruiu nosso casamento. Mas hoje fico me perguntando…

– O quê?

Uma lágrima rolou pelo rosto dela.

– Fico me perguntando se não havia algo mais. Algo de ruim que talvez tivesse acontecido a ele. Uma nuvem negra na alma dele.

Jenna se levantou, foi até uma cafeteira próxima e encheu um copinho. Wendy foi atrás dela e se serviu também. Quando ambas voltaram ao sofá, foi como se a emoção não estivesse mais lá. Wendy não se importou. Já havia falado da intuição. Era hora de voltar aos fatos.

– Quando nos vimos da última vez, você disse algo sobre Princeton. Falou que alguma coisa havia acontecido com Dan naquela época.

– Sim, falei, e daí?

– Gostaria de saber mais sobre isso.

Jenna mais uma vez pareceu confusa.

– Você acha que Princeton tem alguma coisa a ver com tudo isso?

Na verdade, Wendy não queria falar do assunto.

– Só estou fazendo meu follow-up.

– Não entendo. O que os anos de faculdade de Dan podem ter a ver com o que quer que seja?

– É só mais um dado que preciso conhecer sobre o caso.

– Por quê?

– Confie em mim, Jenna. Afinal, foi você mesma quem levantou esse assunto. Você disse que alguma coisa tinha acontecido a ele na faculdade. O quê?

Jenna permaneceu calada por um momento. Depois disse:

– Não sei. Essa era uma das coisas sobre as quais ele não falava. Talvez a mais importante de todas, pensando bem. Por isso falei dela com você.

– Você não faz a menor ideia do que seja?

– Acho que não. Quer dizer, acabei descobrindo que não fazia muito sentido.

– Mas você não pode pelo menos me contar o que é?

– Não vejo motivo para isso.

– Me dê uma chance, Jenna.

Jenna levou o café à boca, soprou-o, deu um pequeno gole.

– Tudo bem. Quando começamos a namorar, ele sumia de 15 em 15 dias, aos sábados. Não quero fazer disso um grande enigma, mas de uma hora para outra ele saía sem dizer para onde.

– Mas você perguntava, eu suponho.

– Claro. Desde o início do namoro, ele deixou claro que aquilo era uma coisa dele, um tempo de que ele precisava. Falava que eu não devia me preocupar, mas que era importante que eu entendesse. Ele precisava fazer aquilo.

– E você? O que achou na época?

– Eu estava apaixonada – disse Jenna, sem hesitar. – De início tentei ser racional. Dizia para mim mesma: alguns caras jogam golfe ou boliche, outros gostam de encontrar os amigos no bar… Dan tinha direito a esse tempo sozinho. Ele era atencioso de tantas outras maneiras… Então deixei para lá.

A porta do lobby se abriu. Cinco pessoas de uma mesma família entraram e se arrastaram até a recepção. O pai deu o nome de todos e entregou o cartão de crédito à recepcionista.

– Você disse “de início” – observou Wendy.

– Sim. Mas, para dizer a verdade, acho que já estávamos casados havia um ano quando voltei a tocar no assunto. De novo ele disse que eu não precisava me preocupar, que não era nada importante. Mas àquela altura eu já estava me roendo de curiosidade. Então, num sábado, fui atrás dele.

As palavras deram lugar a um pequeno sorriso.

– O que foi?

– Nunca contei isso a ninguém. Nem mesmo ao Dan.

Wendy se recostou no sofá e bebeu um pouco do café. Queria deixar Jenna à vontade, dar o tempo de que ela precisava para organizar os pensamentos.

– De qualquer modo, a história não vai muito longe. Segui o Dan pela estrada por mais ou menos uma hora, uma hora em meia. Ele pegou a saída para Princeton e estacionou na cidade. Depois entrou num café. Eu me sentia uma idiota fazendo aquilo. Ele se sentou sozinho e ficou lá talvez uns 10 minutos. Fiquei esperando que a “outra” chegasse a qualquer instante, imaginando que fosse uma professora bem sexy, dessas de cabelo castanho e óculos, sabe? Mas ninguém apareceu. Ele terminou seu café e saiu andando pelo quarteirão. Era estranho ficar seguindo Dan daquela maneira. Quer dizer, eu amava aquele homem. Você nem imagina quanto. Mesmo assim, como eu disse, havia um lado dele ao qual eu não tinha acesso, portanto lá fui eu, me esgueirando pela rua, fazendo de tudo para não ser vista. Eu estava pensando “finalmente vou descobrir toda a verdade”, mas estava apavorada por isso.

Jenna deu mais um gole em seu café.

– Então, para onde ele foi?

– Duas quadras adiante, ele entrou num sobrado vitoriano, uma casa linda, bem no centro do bairro onde moram os professores de Princeton. Bateu à porta e entrou. Ficou lá uma hora. Depois saiu, voltou para o carro e foi embora.

A recepcionista informou aos recém-chegados que o horário de check-in era às quatro. O pai suplicou por uma antecipação, mas ela não abriu mão.

– Você sabe quem morava na tal casa? – perguntou Wendy.

– Isso é que é engraçado. A casa era do reitor de graduação, um sujeito chamado Stephen Slotnick. Ele era divorciado e morava lá com os dois filhos.

– E por que você acha que Dan foi visitá-lo?

– Não tenho a menor ideia. Nunca perguntei. Nunca toquei no assunto com ele. Dan não estava tendo um caso, só tinha um segredo. Se quisesse contar, um dia acabaria contando.

– E não contou?

– Nunca.

Ambas beberam o café, perdidas nos próprios pensamentos.

– Você não precisa ter remorso de nada – disse Jenna.

– Não tenho.

– Dan está morto. E se há uma coisa que tínhamos em comum, é que nenhum de nós dois acreditava nessa história de vida após a morte. Morreu, está morto. Dan não ia fazer questão de que limpassem a ficha dele agora.

– Também não é essa a minha intenção.

– Qual é sua intenção afinal?

– Sei lá. Acho que preciso de respostas.

– Às vezes a resposta mais óbvia é a resposta certa. Talvez Dan realmente seja o que todo mundo pensa que ele é.

– Talvez. Mas isso não responde a uma pergunta fundamental.

– Qual?

– O que ele ia fazer na casa do reitor de graduação de Princeton?

– Não faço a menor ideia.

– E não tem curiosidade de saber?

Jenna pensou no assunto, depois disse:

– Você pretende descobrir?

– Sim.

– Talvez tenha sido isso o que destruiu nosso casamento.

– Pode ser.

– Ou talvez uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

– O que é mais provável – concedeu Wendy.

– Acho que Dan matou aquela garota.

Wendy não reagiu de imediato. Achou que Jenna diria mais alguma coisa, mas ela ficou muda. Admitir aquilo havia consumido todas as suas forças. Jenna se recostou no sofá, aparentemente incapaz de se mover.

Passado algum tempo, Wendy disse:

– Você provavelmente está certa.

– Mas você ainda quer descobrir sobre o reitor, não quer?

– Quero.

– Se conseguir, você me conta?

– Claro.

 

WENDY SAIU DO ELEVADOR E SEGUIU para a sala de Vic. No caminho, passou pela baia de Michele Feisler, a jovem âncora da emissora, e revirou os olhos ao ver que ela decorava seu espaço de trabalho com fotos de jornalistas famosos: Walter Cronkite, Edward R. Murrow e Peter Jennings.

– Bom dia, Michele.

Michele estava digitando e não lhe deu mais que um rápido aceno. Espiando por trás, Wendy viu que ela estava no Twitter. Alguém havia comentado: “Seu cabelo estava ótimo no jornal de ontem!” e ela estava dando um retweet e acrescentando: “Condicionador novo. Detalhes logo mais. Fiquem ligados!” Edward R. Murrow morreria de orgulho.

– Como está o cara que foi baleado nos dois joelhos? – perguntou Wendy.

– É bem o seu tipo de história – devolveu Michele.

– Como assim?

– Parece que ele é um depravado. – Ela se virou do computador, mas só por um breve instante. – Não é essa a sua especialidade, os depravados?

Bom saber que tenho uma especialidade, pensou Wendy.

– Mas… o que você quer dizer com “depravado”?

– Bem, você é a especialista da casa, não é?

– Repito: como assim?

– Opa, não posso falar agora – disse Michele, voltando ao teclado.

Parada ali, Wendy não pôde deixar de notar que Clark tinha razão: Michele realmente tinha uma cabeça grande demais, sobretudo em contraste com o corpo. Parecia um balão de gás amarrado a um barbante. Dava a impressão de que o pescoço poderia desabar por causa da sobrecarga.

Wendy conferiu as horas. Faltavam três minutos para meio-dia. Ela se apressou