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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


COLÉGIO DE VERÃO / Odette de SaintMaurice
COLÉGIO DE VERÃO / Odette de SaintMaurice

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

COLÉGIO DE VERÃO

 

OLHARAM uns para os outros, semiatordoados, semitontos de tanto terem ainda a encher-lhes o cérebro e a retina, e, sem razões aparentes, largaram a rir, primeiro com pequenas sufocações e depois a bandeiras despregadas.

Por fim, impondo-se mutuamente silêncio, puseram-se à escuta, temendo que alguém surgisse e logo de entrada precisassem de ser repreendidos, o que por certo causaria má impressão e abalaria um prestígio que deviam impor à consideração máxima.

Ninguém apareceu e eles, trocando sinais maliciosos, recomeçaram a rir, em froixos de expressiva alegria, uma alegria que desde a hora da partida não deixava de ser nervosa. Depois, esgotada a vontade, a necessidade de rir, agiram.

Agiram... é como quem diz!

O Paulo não agiu. Estendeu-se em cima da cama - uma cama de ferro pintada de verde, estreita e com toda a roupa impecavelmente branca - colocou os pés no varão da parte inferior do leito, e desabafou, num suspiro:

- Chega a parecer inacreditável!... Estou na Alemanha!... Irra! Isto não será um sonho?...

O Pedro, diante da janela escancarada olhava para o escuro - não se via nada, pois as luzes dos lanternins que alumiavam o edifício todo à volta, reflectiam-se apenas nas ramarias tufadas das árvores do enorme parque. Coaxavam rãs, ao longe.

Ouvindo o comentário do Paulo, o Pedro redarguiu:

- Se queres ter a certeza de que não sonhas, ferro-te um beliscão!...

O outro não deu resposta. E ficou cada um deles calado, a auscultar o que pensava e o que sentia.

O Fernando Vasco, esse agia realmente. Vasculhava o pequeno aposento, investigava o minúsculo quarto de banho com chuveiro privativo, abria as gavetas, os armários (cada um deles possuía, além da cama própria, um guarda-fatos onde uma das portas de espelho, corrediça, se abria para deixar descer uma pequena escrevaninha sob a qual se encaixava um banco estofado) e inquietava-se com pormenores inerentes à sua proverbial elegância.

- É preciso pendurar os nossos fatos e arrumar as nossas roupas.

O Paulo, imóvel, volveu-lhe, quase seráfico.

- Podias tomar a teu cargo esses cuidados.

Gavetas e roupeiros ficavam-te entregues. És de nós três o que mais entende disso... Os nossos aposentos estariam sempre impecáveis!...

Sim, eles tinham sido prevenidos de que as tarefas domésticas relativas a cada quarto eram da exclusiva responsabilidade dos seus ocupantes. Fazia parte dos princípios de educação do colégio, princípios que nunca se alteravam funcionasse o Reichvater em regime de Inverno ou de Verão, portanto de trabalho escolar ou de férias -, a obrigatoriedade dos rapazes aprenderem a cuidar de si próprios, dos seus alojamentos, das suas arrumações. Assim se habituavam, não só a tratar das suas coisas quando de tal carecessem, mas também a apreciar o conforto, o arranjo do lar, e, o que era ainda mais importante, a dar o justo valor ao esforço de quem porventura lhos proporcionasse.

O director não impunha a maneira de levar a cabo as tarefas «domésticas», nem as distribuía. Competia aos rapazes reparti-las como lhes aprouvesse e realizá-las na melhor harmonia, em perfeito espírito de equipa.

Assim, o Paulo estava na razão ao indigitar o Fernando Vasco para aquela parte especializada dos trabalhos caseiros... E este aquiesceu, embora antepondo-lhe uma pergunta:

- Então e tu? Que é que fazes?

- Eu? - e o Paulo hesitou. - Posso limpar o pó...

- E eu? - inquiriu o Pedro, abandonando a janela que deixou escancarada.

O manto estrelado que servia de pano de fundo à moldura retinha o olhar de todos numa recordação saudosa a que nenhum queria dar guarida.

- Tu? - reflectiu o Paulo. - Tu podes fazer as camas!

Pedro encolheu os ombros.

- Hão-de ficar bem feitas!

- Aprendes. Ninguém nasce ensinado.

- Mas para uma pessoa aprender há-de haver quem ensine, ora esta! - e sorriu. - Vocês têm a mínima ideia de como se faz uma cama?

Não. Não tinham a mínima ideia...

E agora todos três se sentiam repesos de não haver prestado atenção quando as respectivas mães, ou as serviçais, cumpriam essa obrigação diária.

- Talvez não seja muito difícil! - sugeriu o Fernando Vasco. - É uma coisa que acontece todos os dias em todas as casas...

- Mmmmm... - concordou o Pedro.

E o Paulo:

- Bom, de qualquer maneira, amanhã se verá. Experimenta-se!...

- E como a união faz a força, talvez seja possível chegar a uma conclusão satisfatória! - opinou o Fernando Vasco, que, criteriosamente, já estava a arrumar as camisas nas respectivas gavetas.

E o Pedro, a mirá-lo:

- Vá pela união!... Vou ajudar-te a pendurar os fatos.

A princípio as calças escorregavam dos cabides, os casacos não ficavam no sítio... Mas depois lá começou a atinar com as posições ideais e despachava-se airosamente.

Enquanto ambos, o Pedro e o Fernando Vasco, assim lidavam, compenetradíssimos, o Paulo continuava estendido, quieto, absorto...

E a certa altura o Fernando Vasco, que o ia mirando de soslaio, não se conteve e perguntou:

- Tu já dormes?

Decorreram instantes sem que o Paulo respondesse. Depois, numa voz ligeiramente velada, o rapaz volveu, devagar, como se cada palavra fosse bem pensada antes de ser dita:

- Não estou a dormir. Nem sei mesmo se conseguirei dormir esta noite.

- Porquê?

- Mal fecho os olhos...

- Já sei - interrompeu o Fernando Vasco.

- Sentes o baloiçar incessante da nossa carruagem!

E o Paulo, sem ligar à intervenção:

- São tantas as imagens que passam e tornam a passar-me diante da retina, que é impossível descansar!

O Pedro, descontraído, ripostou:

- Tem piada, aqui não sinto essa impressão. Mas em Paris aconteceu-me

- Em Paris? - exclamaram os outros dois.

- Em Paris!?

E o Paulo acrescentou:

- Ó menino, que «peneiras»! Quem te ouvisse agora havia de imaginar que de facto estiveste em Paris...

- E não estive? - protestou o Pedro.

O Fernando Vasco fechou a sua mala vazia e, arrumando-a debaixo do guarda-fatos, sorriu.

- Se tu chamas estar em Paris permanecer duas horas num restaurante pardacento duma gare não menos pardacenta, onde só se vêem linhas férreas cruzadas e entrecruzadas, e guindastes, e postes, e ferros, e barracões, e mais o diabo a quatro!?...

O Pedro não abdicava:

- Ora essa?!... E de qualquer modo, não foi estar em Paris, não?

- Olha, meu filho... sinceramente não tive nem sequer a impressão da proximidade da grande capital.

- És muito exigente!

- E tu muito optimista!

- Mas olha lá... nesse caso... que impressão é que te fez o ter os pés assentes num chão que de qualquer modo pertencia à cidade-luz?...

O Paulo ouvia-os atento, enquanto o Fernando Vasco ripostava, sem uma hesitação:

- Ai, eu digo, não te aflijas!... - e sentou-se, de costas para o guarda-vestidos quase em ordem. - Lembras-te duns livros, muito giros, duma escritora portuguesa... acho que se chama... espera... Virgínia... Virgínia...

- Virgínia de Castro e Almeida, talvez... - informou o Paulo, solícito.

- É isso mesmo!

- E os livros contam a história de Dona Redonda mais a sua gente!

- Tal qual! - aceitou o outro. - Esses livros são uma coisa fantástica, no género da «Alice, no País das Maravilhas» mas superiores, cá na minha opinião! - E, de novo para o Pedro, continuou: - A certa altura, num desses livros, aparece uma cidade toda de ferro, toda mecanizada, habitada por autómatos... Chama-se a cidade dos monstros!...

O Pedro pestanejou.

- A cidade dos monstros?

- Exactamente!...

- E depois?

- E depois, na gare a que tu pomposamente chamas Paris, eu tive a impressão de que me encontrava na tal cidade. Posso até dizer-te que estive sempre à espera de que me aparecesse um autómato aos berros... - e guinchou: - Atenção, atenção... Vamos ver os monstros!...

- Schiu! - recomendou o Paulo. - Olhem que já são onze e vinte e o silêncio, aqui, principia às onze!...

Então, falando em surdina, os outros dois acabaram de pôr as coisas em ordem e por fim deitaram-se.

Estavam bem instalados. Envolvia-os uma sensação de conforto e asseio absolutos. E o ar que respiravam era bom, leve e perfumado com aromas estranhos, agradáveis.

Os rapazes queriam dormir. Mas a comoção, a novidade, não deixavam. Davam voltas e mais voltas na cama, procurando posições que chamassem o sono. Debalde. Os seus cérebros superexcitados reviviam sem cessar todas as cenas desenroladas desde o momento da partida de Lisboa, no cais de Santa Apolónia. A entrada para o comboio - um engraçado compartimento verde-claro, com sofás-beliches e todas as comodidades, miniaturais, mas tão completas que até pareciam impossíveis num espaço assim reduzido! Depois, pelas janelas, os últimos adeuses. Os pais, a rirem-se, a fazerem-se fortes... As mães a enxugarem as lágrimas, a atirarem beijos, a repetirem as últimas recomendações...

«Tem cuidado com tudo!... Com tudo! Com tudo....»

O Pedro soltou um grande suspiro.

- Que é que tu tens? - perguntou o Paulo, baixinho.

O Pedro hesitou. Mas não tardou em reconhecer que a tolice estava em sentir vergonha de confessar o que era mais do que natural - era necessário!...

- Tenho saudades... - murmurou. - Muitas saudades.

- É... - disse o Paulo.

E mais nada. Mas a pequena concordância valera tanto como um longo discurso que afinal traduzisse apenas o mesmo.

Ficaram os dois tão calados que dir-se-ia terem adormecido repentinamente.

Um pássaro qualquer - seria um rouxinol? - trinou, longe primeiro, logo a seguir mais perto.

Passou algum tempo. E depois, tal qual como se o Pedro e o Paulo tivessem acabado de falar naquele instante, o Fernando Vasco proferiu:

- Eu também tenho saudades da minha mãe e do meu pai... mas acho que para eles deve ser estupendo poderem ficar sós este tempo, para se readaptarem um ao outro e ver se arranjam um sistema de vida que lhes dê, a eles, a mim... e aos meus irmãos pequenitos, a noção de que somos realmente uma família.

- Sim... - concordaram os companheiros. E o rapaz prosseguiu:

- Tenho saudades... mas o que mais me impressionou, foi o deixar a nossa terra. Que emoção esquisita, a que senti! Quando na fronteira olhei para um lado e vi Portugal e olhei para o outro lado e vi a Espanha, até parece que o coração me bateu mais depressa! Depois, pus-me a mirar as duas terras, tão encostadinhas uma à outra, as duas terras iguais que num sítio exacto mudam de nome, e dei por mim à procura de diferenças!... Achei-as na cor da vegetação, no feitio das árvores, no tom das pedras...

O Paulo soltou um assobiozito, expressivo.

- Cá por mim, só quando nos apareceram os guardas-fiscais traduzidos em espanhol é

que percebi que já não estava na Pátria. Até senti um arrepio na espinha!

Os outros dois agora riam, fungando debaixo da roupa, para não fazerem barulho.

Aquela dos guardas-fiscais traduzidos em espanhol, era das melhores do Paulo!...

Mas já o Pedro recordava outras coisas bem divertidas. As refeições no comboio, por exemplo!... Aquilo duma pessoa levantar o copo e a água fugir para o lado oposto ao da boca e depois voltar com toda a força e entrar pelo nariz!... E a colher cheia de sopa, na mão, em desencontro total com os lábios?...

Realmente, para eles, tinham sido sempre engraçadíssimas as refeições no comboio, principalmente em Portugal. Sim, que em Espanha não haviam comido. A longa travessia de Castela-a-Velha, pálida e estranha, fora feita de noite. E em França, os comboios praticamente não davam solavancos, tornando-se, portanto, muito mais fácil comer. Muito mais fácil desde que se não olhasse à despesa, claro!...

Quando eles se recordavam do tremendo desgaste dos francos, logo à primeira!... Tinham caído na asneira de mandar vir uma garrafa de vinho - um Bordeaux de categoria! - e um doce que estavam a servir noutra mesa... Soubera-lhes tudo muito bem... Mas, com a apresentação da adition fora um destes amargos na boca...

Bom, a experiência valera, resultando na convicção de que deviam ser prudentes diante de despesas desconhecidas.

Assim, recordando pormenores, sussurrando conclusões, os três amigos foram amolecendo, distanciando réplicas, deixando observações sem resposta.

Aos poucos, dentro deles, também as imagens se espaçavam, esfumavam, perdiam...

E finalmente, tarde na noite, Pedro, Paulo e Fernando Vasco, instalados dentro duma verdade absolutamente palpável - esse colégio de Verão que os atraíra como um maravilhoso íman - deixaram de poder destrinçar onde acabava a realidade e principiava o sonho.

 

ACORDARAM cedo. Era inevitável.

A luz da manhã, entrando a jorros pela janela toda aberta, arrancou-os dum sono que fora menos repousante do que eles próprios esperariam, dado que à excitação ressentida durante a viagem se juntara a ansiedade por tudo quanto havia para conhecerem.

O primeiro a sentar-se na cama foi o Pedro, mas os outros dois imediatamente deram sinais de vida, estirando-se num resto de sono que era preciso gastar.

O Pedro, com uma alegria infantil na sua exteriorização mas adulta na profundidade da origem, logo clamou, de braços abertos para a claridade do céu:

- Estamos na Alemanha!... Estamos na Alemanha!...

O Fernando Vasco bateu palmas.

- É fantástico! Estamos realmente!... O que há uns meses parecia impossível é agora uma realidade estupenda!

- E nós - concluiu o Pedro, - os protagonistas desta realidade!... Hip, hip, hurrah!...

- Meninos - obtemperou o Paulo, saindo de dentro da roupa com um último bocejo -, são sete menos vinte da manhã...

- Seja exacto, colega! São seis e quarenta... - interrompeu o Fernando Vasco.

O outro não lhe ligou.

- A apresentação é às oito da manhã, segundo disse o prefeito.

- Temos tempo - retorquiu o Pedro.

- Não tanto como isso. Lembrem-se das recomendações,.. Antes dessa hora, ginástica, duche... e quarto arrumado!

- Tens razão - concordou o Pedro, saltando da cama. - Mãos à obra!

Puseram-se em fila, virados de frente para a janela e o Paulo tomou a direcção dos movimentos.

- Flexão do tronco... um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Flexão das pernas... Um, dois, três, quatro... Um, dois, três, quatro...

Durante dez minutos, conscienciosamente, eles exercitaram os corpos ágeis, aproveitando toda a leveza dos gestos, cuidando da elasticidade dos músculos, exercitando-se como lhes fora ensinado a praticar para desenvolvimento duma excelente forma física. Depois trataram do quarto, o que, segundo o Fernando Vasco, continuava de certo modo a ginástica. Que era o que a mãe, a D. Laura, costumava repetir: «Fazer as camas é o meu exercício diário!...»

Fazer as camas!...

Diante das roupas desalinhadas, nenhum dos três amigos sabia ao certo por que ponta começar!... O Pedro, num esforço de memória, alvitrou de súbito:

- Lá em casa... lembro-me que primeiro se tira tudo!

- Tudo? - protestaram os outros, desalentados.

- Pelo menos a minha mãe aborrecia-se imenso quando a Laura, desculpando-se com a pressa, «puxava as orelhas» às camas.

- Que é isso de «puxar as orelhas» às camas? - inquiriu o Paulo.

O Pedro explicou:

- É pôr os lençóis e os cobertores para cima sem os tirar nem sacudir, parece.

- O melhor é a gente experimentar. Talvez seja mais fácil do que parece... - alvitrou o Fernando Vasco, acrescentando: - O das camas, afinal, quem é?

E o Pedro, que era o «das camas»:

- E se cooperássemos?

- Se, quê?

- Se cooperássemos! Ou seja: se dividíssemos as tarefas irmãmente?... Todos por um e um por todos?

- Vá pela comunidade!...

E o Pedro e o Fernando Vasco desataram a tirar as roupas para cima das cadeiras, enquanto o Paulo, inspirado, se pôs a bater os colchões, que eram fofíssimos.

- Ih! Que bom, se todos os colégios tivessem colchões destes!...

Fernando Vasco discordou:

- Amoleciam as pessoazinhas.

- Amoleciam o quê!... O conforto não faz mal a ninguém.

- Talvez faça! Em camas destas, certos indivíduos teriam dificuldade em levantar-se.

- Ou levantavam-se consoladinhos por dormirem com o corpinho bem aconchegado!

- «Questães» de «opiniãos»! - gracejou o Pedro, que investigava o que na véspera lhe parecera o lençol de cima e era afinal uma espécie de saco dentro do qual se abrigava um édredon fino e leve, o que facilitava a maneira de fazer a cama a quem tão pouco - ou nada - percebia.

- Isto fica mal preso... - protestou o Paulo.

- Talvez não seja de prender...

- De qualquer maneira não nos podemos demorar, que já são sete e vinte! - lembrou o Fernando Vasco.

Uma cama estava pronta. Passaram a outra.

- Dá cá a minha roupa daí das cadeiras...

- pediu o Paulo ao Pedro.

- A tua?... - E mirava o amontoado informe. - Ó menino, eu sei lá qual é a tua! Está tudo misturado!

Riram, como tolinhos. E o Fernando Vasco:

- Deixem lá, a comunidade mantém-se, progressiva. Isto é tudo nosso!...

Estica, alisa, puxa, ata, tira e põe, as três camas ficaram por fim prontas, embora os rapazes tivessem realmente suado. E a classificação da obra no dizer do Pedro, decepcionado, não podia ir além dum «medíocre».

O Fernando Vasco fora pôr-se à janela, todo debruçado e tão atento que o Paulo lhe perguntou:

- Estás a ver alguma coisa?

- Estou a ver as árvores!

- As árvores?...

- Pois! E são magníficas, enormes!... E cheiram bem!...

E Pedro quis saber se ele não via mais nada.

- Vejo! Vejo algumas janelas abertas como a nossa... e oiço!... Oiço um rumor parecido com o duma colmeia em laboração.

- Obrigado! - comentou o Paulo. - Isso também a gente ouve aqui. Deve ser o barulho dos rapazes que andam a tratar dos seus arranjos e dos quartos.

- Achas que haverá três rapazes por quarto, em todo o colégio? - inquiriu o Fernando Vasco.

E o Pedro acrescentou:

- Seremos muitos?

- Ora aí está uma coisa que em breve saberemos, se nos despacharmos!

E despacharam. Acabaram de arrumar tudo e de se preparar num abrir e fechar de olhos.

Às oito menos dez estavam prontos, irrepreensivelmente trajados de calções e camisolas, e iniciavam o trajecto, aprendido na véspera, a caminho do refeitório onde haviam jantado sob a vigilância do prefeito, que fora buscá-los à estação dos caminhos de ferro. Certamente devido ao adiantado da hora, não tinham visto ninguém - excepto o director, aliás muito de fugida.

Agora, conforme se aproximavam, iam distinguindo o vozear que lhes anunciava a presença duma quase multidão...

- Ena! - exclamou o Paulo. - Devem ser milhares!

A porta da sala de jantar, muito larga, com dois batentes e vidros foscos, tinha molas «doidas». Abriam-se com um pequeno impulso e fechavam-se sozinhas, ficando a baloiçar-se como que divertindo-se a elas próprias.

Tudo para os rapazes, mesmo que não fosse novidade - como o haver molas nas portas -, se afigurava surpreendente, admirável.

A sala de jantar parecia a dum hotel de categoria. À primeira impressão dir-se-ia que o chão era alcatifado. Mas não. Cobria-o, por completo e prudentemente, um bonito tapete plástico, o que o tornava facílimo de limpar, sem o deixar parecer descuidado.

As mesas, pequenas - em cada uma delas cabiam apenas oito comensais -, encontravam-se suficientemente espaçadas umas das outras, de modo que permitisse a fácil circulação dos criados, os quais serviam impecavelmente fardados de castanho claro e branco - as cores do colégio, como depois o saberiam os portugueses.

Lateralmente, abriam-se amplas janelas que deviam dar todas para o frondoso parque que rodeava o edifício. Ao fundo ficavam os aparadores, baixos, ladeando uma porta giratória que, segundo parecia, comunicava com a cozinha, ou com uma copa.

Sobre os aparadores, salientavam-se enormes açafates cheiinhos de pão... Tudo isto o Pedro, o Paulo e o Fernando Vasco notaram de relance, pois, mal entraram, logo se deu perante eles um movimento colectivo que os paralisou de assombro.

Os presentes - bastantes, aliás - perfilaram-se todos, nos lugares que ocupavam e, como que obedecendo a invisível batuta, romperam num cântico alegre e, de certo modo, bélico - os três amigos aprenderiam depois que se tratava nada mais nada menos do que do hino do colégio! Com os rapazes cantavam, na mesa do fundo, alguns cavalheiros circunspectos, acerca de cuja identidade não podia haver dúvidas. Lá estavam o director e o prefeito... Os outros, portanto, deviam ser os professores - os guias, como lhes chamavam.

Estupefactos, os portugueses conservavam-se imóveis, completamente alheios à razão do inesperado cerimonial.

Terminado o hino, enquanto a rapaziada se instalava, o director, sem sair do seu lugar, dirigiu a palavra aos recém-chegados. Do breve discurso tudo soou apenas como uma pergunta:

- Können Sie Deutsch?

Era quanto eles podiam perceber... na tradução! Falam alemão?...

O Paulo, atarantado, respondeu que «muito mal, ainda...» Sim, que uma coisa é aprendê-lo... e outra o entendê-lo ao natural!...

Os colegas - não havia dúvidas de que eram todos colegas - olharam-nos e riam. Todos falavam muito mal, ainda!...

Era normal. O maior contingente dos alunos de Verão falava sempre muito mal... de entrada. E todos eles, praticamente, tinham chegado havia pouco.

Os risos, diante do embaraço do Paulo, cresciam, com franqueza e compreensão, sem ofenderem nem humilharem. Por isso os três lusitanos não hesitaram, fizeram coro com os outros.

Então o director (depois lhe saberiam o nome de cor e salteado), «Herr» Wilhelm Schmidt, falou-lhes em francês. E em francês (a língua internacional do colégio), claro, os mandou aproximar e saudou efusivamente, perguntando-lhes se tinham dormido bem e se lhes apetecia conhecer o parque... Depois, salientou que se lhes dirigia na língua gaulesa por excepção concedida nos primeiros dias aos novos alunos, dado que, depois, o alemão se tornava obrigatório no uso geral. E explicava que assim se tentava conseguir, sem desprimor para qualquer idioma, que uma unidade de linguagem evitasse barreiras doutra forma inevitáveis. Portanto, esperava que eles envidassem todos os esforços para dominar rapidamente o alemão, a língua do colégio, a língua do país em que eles se encontravam hospedados e a qual, portanto, era lógico e conveniente que estudassem. Aliás, para todos eles, para o seu futuro, quantos mais idiomas soubessem, melhor, sob todos os aspectos. As pessoas, - dizia - separadas pela barreira da expressão verbal, nunca podem verdadeiramente compreender-se. Diferenças de linguagem acentuam, agravam, se os indivíduos não sabem o que estão a dizer uns aos outros, todas as outras diferenças. A palavra é o maior veículo de aproximação... E, muito risonho, «Herr» Schmidt acrescentou:

- Gosto que os meus rapazes sejam amigos e vivam em conjunto como uma grande família! Nós, director e guias, somos apenas os amigos mais velhos, sempre prontos a dedicar-lhes apoio e compreensão. Pedimos em troca, somente, confiança! Os que já cá estão há dias, tal como os que regressam - e alguns voltam pela quarta vez; conhecem bem as normas do Reichvater.

Cabe-lhes acolher os recém-chegados com deferência, carinho e amizade, ajudando-os em quaisquer dificuldades, prestando-lhes toda a assistência, fazendo com que desde o primeiro instante se sintam felizes por estarem aqui. É possível que de entrada estranhem. Possível e natural! Assim acontece com quantos entram num ambiente desconhecido. - E circunvagou o olhar claro por toda a sala. - Cabe aos familiares desse ambiente ajudar os outros, com simpatia, com paciência, a adaptarem-se, até que eles de tal modo façam parte da vida comum que fiquem por seu turno aptos a receber os que ainda venham.

Um murmúrio de concordância elevou-se, mas logo cessou porque o director prosseguia, na sua voz forte e agradável, agora não para uns determinados, mas visivelmente em alocução dirigida a todos:

- Resta-me pedir-lhes que se lembrem de que as cinco partes do mundo podem estar aqui representadas. Há rapazes de muitas raças e, portanto, maneiras de pensar, de reagir, de ser, absolutamente diversas. Por todos e por todas é necessário ter tanto respeito como o que se deseja merecer! Postas as coisas neste pé, resta-nos esperar que todos se encontrem na melhor disposição para viverem umas deliciosas férias. Nós, pela nossa parte, faremos os possíveis para os ajudar nesse desígnio - e ergueu os braços numa saudação geral.

Os rapazes romperam em aplausos.

Logo em seguida o prefeito fez sinal de que também queria falar.

Acalmado o barulho, ele disse:

- Agora vocês, os que acabaram de entrar aqui, os portugueses, vão ser cumprimentados pelos companheiros. Não há cerimoniais com os nomes, porque era impossível ficarem a sabê-los assim de repente. Isso aprenderão com o tempo. «Herr» Schmidt, com um dedo muito espetado, acenou aos rapazes. Ainda queria dizer mais alguma coisa.

- Claro que vocês hão-de estabelecer contacto mais com uns do que com outros... Isto será inevitável! Mas lembrem-se sempre, todos, de que aos nossos olhos são «iguaizinhos». Para nós, figuram «um só!»... Não há diferenças, nem regalias especiais, nem preferências. Os meus rapazes formam uma unidade absoluta! - E com um largo sorriso no rosto de expressão franca, inteligente, concluiu: - Meine Freunde, beginnt... (meus amigos, comecem...)

Foi um tumulto! Um tumulto aliás sem atropelos.

Durante alguns minutos, os três amigos receberam apertos de mão em série (receberam e deram!), vendo desfilar sorrisos e olhares alegres que debalde mais tarde procurariam localizar numa determinada cara. Era como num desfile de tropas. Os soldados parecem todos iguais. A eles, naquela passagem rápida, também se lhes afiguravam «todos iguais», os companheiros. Mais tarde veriam que «nem parecidos»!...

Às tantas, o Pedro soprou para os outros dois:

- a modos que já sinto os dedos dormentes!...

E o Paulo, no mesmo tom:

- Aguenta com o mais lindo sorriso! Lembra-te de que a rainha de Inglaterra chega a apertar mais de mil mãos e não dá parte de fraca!...

Foi nessa altura que aquele que justamente passava diante deles lhes disse:

- Isso é verdadje!... Mas ela tem pràtchica e a gentche não!...

Os rapazes tiveram tamanha alegria que se

descontrolaram.

Um brasileiro!... Alguém que falava português como eles!... Uma possibilidade de descansar, de vez em quando...

Abriram os braços para o outro, que ria alegremente, radiante também. E prepararam-se, esquecidos de tudo o mais, para um «bate-papo» em família... Logo, porém, uma vozinha esganiçada, num falatório incompreensível, os chamou ao respeito pelas conveniências. Cumprimentaram o requerente, que lhes fez uma série de mesuras, com grande algaraviada pelo meio... Iam-se desconcertar, rir, mas já um outro, de mão estendida, os advertia a tempo:

- Ne riez pas... C’est un chinois!...

Eles não riram. Mas transbordaram de alegria!

 

COMEÇOU por fim a ser servido o pequeno almoço. Chocolate, chá, ou leite. Pãezinhos estaladiços, à vontade. Um pão negro que fazia impressão mas era saboroso, manteiga à discrição e duas qualidades de compota.

O Pedro, o Paulo e o Fernando Vasco principiaram a tomar conhecimento com os companheiros de mesa.

«Herr» Wilhelm Schmidt sabia fazer as coisas. E, apesar do discurso e das suas bem patentes intenções, cuidara de agrupar os alunos de forma a que um rápido conhecimento fosse acessível através duma comunhão de ideias mais fácil. Não se esquecera de que devia facilitar o entendimento e a simpatia, juntando, tanto quanto possível, raças com formas de ver e idiomas aproximados.

Entretanto, como elo de ligação, havia em todas as mesas, digamos, uma espécie de «dono de casa», de representante do colégio, na pessoa dum alemão. Este, embora sem quaisquer direitos de mando, tinha o encargo especial de velar pelo bem-estar dos colegas, zelando os seus interesses, procurando saber se mostravam dificuldades ou careciam de algo, para o levar ao conhecimento de um guia, que logo encontraria a solução adequada.

- A esse Kleinem leiter (pequeno chefe) competia também ir ensinando o alemão e fomentando o seu uso.

Escusado será dizer que esses rapazes eram sempre recrutados entre os mais inteligentes, os mais educados e os mais sensatos. Uma orgânica perfeita!

Na mesa dos portugueses havia pois um alemão, e os restantes quatro eram um brasileiro, um espanhol, um francês e um húngaro. O brasileiro, um latagão moreno, risonho e falador, que misturava várias línguas numa grande salada, era filho dum diplomata, chamava-se Luís Viegas Pastor e tinha dezassete anos. O espanhol, alto e magro, com um buço espalhafatoso que devia estar a candidatar-se ao lugar duma orgulhosíssima bigodeira (se o dono não mudasse de opinião até lá!) provinha duma família ilustre de ganaderos e toreros. O pai (estes pormenores iam sendo colhidos e fornecidos numa permuta amigável, ponto de partida imprescindível para conhecimento e convivência), morrera-lhe na arena. Chamava-se Pepe Montez de Castrilla. Um nome que soava bem num rapazinho com um ar de valente que dava gosto! Ia fazer dezassete anos.

O francês - Jean-Paul Mignonet - baixo, sardento, com uns incríveis cabelos avermelhados todos em pé, tinha somente quinze anos. Parecia frágil e tímido, conquanto os olhos verdes, de vez em quando, resplandecessem de malícia. A mãe era uma actriz famosa.

Do outro comensal chegaram ao fim do almoço sem nada saberem, a não ser que possuía uns olhos enormes, espantosos, tão separados como poucos se veriam, sob uma testa amplíssima. Fora o único que não falara. Parecia todo ouvidos, todo atenção ao que em seu redor se passava, como se estivesse a penetrar verdades e sentidos que a mais ninguém interessassem.

Ao Pedro, aliás, aquele seria, dos companheiros, o que, depois havia de reconhecer, mais tinha fixado - talvez porque se preocupara com as mãos dele, umas longas mãos, estreitas, de dedos nervosos que nunca estavam quietos, que se agitavam com movimentos estranhos, leves e caprichosos.

O alemão, loiro, de olhos claros, cabeça grande, riso aberto, era filho dum engenheiro, tinha dezoito anos e chamava-se Karl Erbrüngh.

Reinava já entre eles uma simpatia franca, superior a todas as dificuldades de expressão, quando um toque de sineta anunciou que o director e os guias tinham dado por finda a refeição e que os rapazes, a partir daquele momento, eram, portanto, livres de aproveitar o tempo de recreio.

O silencioso húngaro saiu do grupo sem ser notado. O espanhol e o brasileiro, numa algaraviada de meter medo, contavam um ao outro acidentes ocorridos noutras férias. Muitos rapazes abandonavam a sala alegremente, com planos antecipadamente formados para aquela meia hora. Outros, atraídos pela novidade da presença dos portugueses, aproximavam-se deles, num evidente desejo de travar relações. Alguns, mais audaciosos, apresentavam-se e ofereciam-se para os acompanhar. Mas Karl Erbrüngh não estava muito disposto a permitir que outros se ocupassem da missão que a ele, por princípio, competia: - iniciar os neófitos no aproveitamento dos seus dias.

Além de tudo o mais - e por tentadores convites que recebessem para a parte da tarde

- eles não deviam ser coagidos a seguir nenhum programa, a não ser o do próprio Reichvater, que, aliás, possuía as suas regras e as suas leis. As regras serviam para as horas de liberdade. As leis para as de trabalho.

E, no seu puro alemão dobrado para francês o Kleinem Leiter recitou, de cor, o Decálogo do colégio, esse famoso Decálogo que em Lisboa tanta sensação fizera entre os rapazes que o haviam recebido e quantos dele tinham tido conhecimento.

 

             DECÁLOGO

1.º Pensa que não gostarias de sofrer, nunca. Os outros também não gostam. Lembra-te disso antes de só fazeres o que te apetece.

2.º Os velhos já foram crianças. Tu ainda não foste velho. Eles compreendem-te melhor a ti do que tu a eles. Aceita-os e curva-te.

3.º Não tenhas pressa do dia de amanhã. Ele vai chegar. O de ontem nunca mais volta.

4.º Se tens dinheiro que te sobre, lembra-te de que amanhã gostarás de ter que te chegue.

5.º Muita comida, como todos os excessos, provoca, a indigestão. Depois da indigestão, vem o enjoo pelo que a motivou. Não estragues metade do prazer da vida.

6.º Não te envergonhes de precisar dos outros. Estarás sempre livre de dívidas se te sentires pronto a atender os que precisam de ti.

7.º Não estragues o que for perfeito com atitudes inúteis. O mais belo fato perde a graça se ficar cheio de nódoas.

8.º Quanto mais respeitares e cumprires, mais serás respeitado e mais regalias encontrarás.

9.º Os teus mestres também têm filhos. Os teus pais podiam ser professores. O rapaz tem de lembrar-se disto, sempre.

10.º O teu nome é uma herança sagrada. Respeita-o por ti, pelos que to deram e pelos que hão-de usá-lo depois de ti.

 

Nenhum dos rapazes que cercavam Karl fez qualquer comentário. Todos eles conheciam o Decálogo, mas aquela alocução, superiormente recomendada, tinha sempre sobre a juventude impulsiva e heterogénea do colégio um efeito salutar.

Integrava-os na responsabilidade que lhes assistia.

O «pequeno chefe», entretanto, continuava a cumprir as suas obrigações, e dissertava:

- Como vocês sabem, há deveres a cumprir, em horas determinadas. Depois desta meia hora de liberdade durante a qual até podemos dormir, se nos apetecer (risos gerais), há, para os estrangeiros, a lição de alemão. Isto é: das nove e meia às onze trata-se de desemburrar o mais depressa possível, empinando vocabulário e procurando desenferrujar a língua, para que a convivência entre todos seja facilitada ao máximo.

O Paulo não se conteve, interrogou:

- E vocês, os da casa, o que é que fazem durante essa hora e meia?... Continuam a dormir?...

Karl ripostou imediatamente:

- Não. Enquanto vocês aprendem alemão, nós estudamos a língua estrangeira que preferimos. Há aulas de francês, de inglês e de espanhol. - E explicou logo: - Eu aprendo francês.

Jean-Paul quis saber o que é que faziam depois da aula.

Karl mostrou-lhe o folheto com as leis.

- Vê... vejam todos... Das onze ao meio-dia e meia hora, desporto. Ténis, voleibol, pingue-pongue, futebol, bicicleta, andebol, hóquei em campo e em patins e natação obrigatória.

- Eu quero praticar hóquei! - declarou peremptoriamente o espanhol.

Karl riu.

Não vale a pena ter grandes preferências. O nosso director é que escolhe as equipas de acordo com as possibilidades físicas que demonstramos.

Isso é bem entendido! - disse a Fernando Vasco.

E há gente que chegue para formar equipas «adversárias»?

- Costuma haver.

- já cá estamos todos ou ainda faltam rapazes? - quis saber o Pedro.

Creio que nas mesas restam uns quatro lugares por preencher. - E acrescentou, explicativamente:- A lotação do colégio é concordante com a da sala de jantar. Assim que se esgota, não se admitem mais alunos. Aliás, só desta forma um colégio garante a sua absoluta eficiência... - e, com evidente acentuação de desdém: - Não é como no Grosses Modernes Kinderninstitut, onde cabe sempre mais um!... Os rapazes adivinharam, na expressão da voz de Karl e no riso entendido com que Luís Viegas Pastor sublinhara a frase, que havia uma oculta razão a determiná-la. Mas não puderam aprofundar o assunto, porque já Karl prosseguia:

- Nós, hoje, atrasámo-nos aqui e já não vale a pena fazer nada de especial. Normalmente aproveitamos esta meia hora para ler - na biblioteca há obras famosas! No entanto alguns preferem dar um passeio e outros estabelecer os planos para a tarde, comodamente instalados nas cadeiras de repouso, nas varandas.

- A aplicação das tardes obedece a alguma orientação especial? - inquiriu o Pedro.

- Não - redarguiu Karl. - Para os mais velhos, não, visto que nós temos o direito de escolher o que mais nos agrada...

- ...Desde que se não olvide o Decálogo!..

- interrompeu Pepe, sorrindo.

- Claro ! -volveu Karl, logo acrescentando - e não é fácil esquecê-lo... Há dezenas deles, encaixilhados e espalhados por toda a casa...

- E os alunos mais pequenos, que é que fazem? - indagou o Paulo.

- Os mais pequenos ou se agregam a nós ou tomam iniciativas sob a orientação dos guias.

- Felizmente que nós somos todos grandes! - esganiçou-se Jean-Paul, muito empertigado.

E porque era exactamente o mais baixo do grupo e à vista muito pouco grande - foi uma risota. Ele não se melindrou. Pelo contrário, fez coro com os outros.

Quando serenaram, o espanhol propôs:

- Sendo assim, eu sugeria que pensássemos desde já no melhor aproveitamento da tarde. E como somos inexperientes...

- Uns anjinhos! - interrompeu Luís Viegas Pastor.

Pepe fez de conta que não tinha ouvido.

- ...Acho que o Karl podia tomar o comando das operações!

Todos aprovaram.

Todos, não. O Pedro pensou qualquer coisa em contrário, mas não teve tempo de dizer nada. E os outros também não. Porque uma sineta, ou melhor, um sino - tão estridente era (e tinha de sê-lo para que o ouvissem dentro e fora do edifício) - ecoou insistentemente, com um som alegre que mais parecia anunciar uma festa do que uma aula.

Karl bateu as palmas.

- Vamos ao trabalho, rapazes! Depois se trata do resto!... Tudo é aproveitar o tempo!...

Partiram, numa corrida, atrás dele. Realmente - constatá-lo-ia depois o Pedro para os amigos - a aula de alemão era uma esplêndida forma de aproveitar o tempo.

Embora todos dominados uns sessenta rapazes! - pela ideia de que estavam ali para estudar, para aprender, a nenhum deles a aula se afigurou uma coisa grave, solene, fastidiosa, da qual pudessem guardar recordação que os levasse depois a pensar que aquela era uma maneira de principiar mal o dia. Pelo contrário. O professor - um guia formado em filosofia, com ar de inteligente - conduzia com tamanha compreensão e um tal interesse, um tão acertado espírito de sugestão que os alunos, respondendo a simpatia com simpatia, só podiam ter um pensamento - aprender de forma a estarem, a ficarem à altura de tal mestre!

 

NO final das aulas, os rapazes, conduzidos pelos pequenos chefes, reuniram-se no ginásio, um salão enorme, apetrechado como se pertencesse a algum clube importante.

Ia proceder-se sem mais demoras à escolha dos elementos para a constituição das equipas que deviam praticar, especializando-se numa, as várias modalidades desportivas em uso no colégio.

Os guias tinham de fazer a selecção segundo o aspecto físico e os conhecimentos que os alunos porventura já possuíssem.

Luís Viegas Pastor praticaria voleibol e pingue-pongue.

Jean-Paul - pingue-pongue e futebol (aliás afirmava que sabia daquilo a potes, o que levara o brasileiro a fazer-lhe uma careta de desafio).

Karl jogava futebol e hóquei em patins. O Pedro e o Paulo foram destacados, com Pepe, para o hóquei em patins, embora todos três afirmassem que nunca haviam praticado. O guia que andava pelo meio deles, a falar-lhes e a observá-los, rira-se, afirmando que isso não tinha importância nenhuma, dado que os portugueses e os espanhóis demonstravam uma habilidade nata para esse desporto e a prova via-se todos os anos. Quando os portugueses não eram campeões, passavam a taça à Espanha... e vice-versa!

O Fernando Vasco, embora sem grande entusiasmo por nenhuma das modalidades, fora apurado para o futebol e também para o hóquei.

Os alunos já afeitos à vida do Reichvater, estavam delirantes. Os outros, satisfeitos, mas não frementes de entusiasmo. Tiveram então os alemães de explicar aos estrangeiros o motivo da exultação que presidia à formação dos grupos. Assim ficaram todos a saber que, antes do fim do curso de férias, havia uma festa sempre memorável, uma festa extraordinária - a festa do torneio intercolégios!

Era um dia inteiro consagrado ao desporto. Um dia em que as diversas equipas do Reichvater defrontavam as do Grosses Modernes Kinderninstitut!... E, dada a rivalidade existente entre os dois grandes colégios, quase vizinhos, o acontecimento assumia em geral foros da maior importância.

Uma importância tamanha que os que já o tinham vivido, fremiam de ardor só ao pensarem nele... E os que deveriam vivê-lo pela primeira vez principiaram a tomar um maior interesse pela formação dos diversos «teams» que ia prosseguindo com a distribuição dos rapazes, sem grande desperdício de tempo, embora não houvesse nenhum que não compreendesse que aquela hora e meia seria inteiramente gasta, como aliás se afigurava lógico, a preparar... o futuro!...

O Pedro estava interessadíssimo a admirar a maneira simples e acertada como a escolha ia sendo realizada.

O guia - um dos vários guias -, levando na mão uma agenda e uma esferográfica, aproximava-se dum rapaz. Com um ar sorridente que não embaraçava o aluno, mirava-o de alto a baixo, perguntava-lhe o nome, a idade e a nacionalidade e qual o desporto que praticava. Assentava tudo, concordando ou discordando, e emitindo um parecer que o alvejado nem discutia, passava a outro.

Um dos últimos a ser interrogado foi Vic Nusen, o húngaro.

Este estava próximo dos companheiros de mesa e o Pedro, que não perdia nada do que se passava à sua volta, enquanto os outros conversavam acaloradamente, pôde apreender uma cena estranha. Quando o guia o interrogou, Vic Nusen disse qualquer coisa que pareceu surpreender o outro, dado que o mirou como se estivesse contemplando algo de extraordinário. Vic falava rapidamente, estendendo as mãos abertas, como se as mostrasse. E o guia não tardou que não assumisse um ar concordante, dando-lhe uma amigável palmada num ombro e afastando-se sem dizer para que desportos o escalonava.

Entretanto, Pedro não logrou aprofundar o assunto e encontrar para ele uma explicação satisfatória, dado que, já terminada a selecção, soava a ordem de partida para o banho.

Foi uma debandada, buscando primeiro nos respectivos quartos toalhas e calções, depois correndo para a piscina; à frente os que já conheciam o caminho, atrás os que ansiavam por um bom mergulho.

Quando os portugueses entraram no largo recinto, abriram a boca, pasmados. Todos três conheciam algumas boas piscinas - por exemplo, a do Luso, a da Póvoa de Varzim, as do Estoril, etc. - excelentes em qualquer parte do mundo. Pois a do Reichvater não ficava muito atrás de qualquer delas! Portanto, para piscina de colégio, podia considerar-se monumental! A sua profundidade máxima permitia mergulhar duma prancha colocada a cinco metros de altura. Rodeava-a uma óptima extensão relvada, onde os rapazes podiam à vontade tomar banhos de sol e brincar descontraidamente.

Ao fundo, num edifício baixo e comprido, ficavam balneários e vestiários, perfeitamente apetrechados. Os duches, quentes e frios, eram numerosos, permitindo que os rapazes se despachassem sem atropelos nem balbúrdias excessivas.

Enquanto se despiam, isolados uns dos outros por pequenos cortinados de plástico, os rapazes podiam trocar impressões. Ouvia-se longe o zumbir incessante das vozes juvenis, confundidas no tom e no uso dos idiomas contrastantes.

Próximos uns dos outros, eles compreendiam-se bem.

O Pedro, radiante, ia agora dizendo para o vizinho do lado direito, que era o Paulo:

- Caramba, pá!... E é que não fomos iludidos, an?

O outro concordava.

- Não há dúvida! Os prospectos que nos mandaram não estavam falsificados! Nem sequer aumentavam as proporções das coisas. Chega a parecer que entrámos para dentro daquelas fotografias que tantas vezes admirámos!...

Fernando Vasco, que estava em frente, do outro lado do corredorzinho estreito que separava os duches em duas filas, tendo percebido (mais ou menos) o que eles diziam, meteu a sua colherada.

- Eu acho que, se não fosse a aula de alemão, até parecia que estávamos num hotel!...

O Paulo saiu de «entre cortinados», como ele definia o amplo balneário, e comentou.

- Pois sim... Mas se não fosse a aula de alemão vocês nunca mais entendiam um letreirinho que aí está...

- Aí está, onde? - perguntaram os outros dois.

- Por cima da cabeça de cada um, justamente!

Um pouco abaixo do chuveiro... Já viram?...

Não. Eles não tinham visto nada e agora bisbilhotavam. Havia realmente uma inscrição, num dos azulejos que forravam a parede, e ambos tentavam decifrá-la.

- Então?... Vai ou não vai?... - inquiriu o Paulo.

- Não vai! - confessou o Fernando Vasco.

- É qualquer coisa com água... mas o quê, não percebo! - disse o Pedro.

- Querem que eu traduza? - e gentilmente, declamou: - água quente... manípulo à esquerda. Água fria... manípulo à direita.

O Pedro riu-se.

- Então vai já da fria que é para ver se me adapto à ideia física do mergulho! - e imediatamente soltou um berro.

Um jacto fumegante atingira-o com violência...

O Fernando Vasco ria à gargalhada. E o Luís Viegas Pastor que também viera para o corredor, tendo percebido o logro, ria como ele a bandeiras despregadas.

O Pedro, fechada a torneira, refilava:

- Não teve graça nenhuma!... Queimei-me!...

- Qual queimaste! - redarguiu o Paulo. Eu tinha experimentado! É quente mas não queima. E, de qualquer maneira, a experiência serve para demonstrar que numa terra estranha é de toda a conveniência perceber bem o que está escrito nas paredes!...

O Viegas Pastor entrou decididamente na conversa:

- Você sabe, Pedro?... O que está escrito na parede não é o que o Paulo traduziu, não...

Pedro, esbeltíssimo no seu pequeno calção de malha, emergiu dos cortinados.

- Então?

- «Antes do banho na piscina, é proibido o uso de água quente!...»

- Uma coisa certa! - aprovou o Fernando Vasco, aparecendo por seu turno.

Pedro fingiu-se zangado com Paulo. -• Ó pá, isso não é de amigo. Então tu obrigas-me a «prevaricar»?...

Paulo fez-lhe uma negaça.

- Tu não «prevaricaste»... Apanhaste um susto!... E aqui não há informações de que as partidas inofensivas sejam proibidas!...

Foi, de novo, uma risota.

Os rapazes, todos, apareciam prontos para entrar na piscina e uns após outros iam saindo do balneário, numa algaraviada que o esforço feito entre eles para um melhor entendimento mais agravava. Os idiomas falados em misturas incríveis resultavam num coro quase permanente de gargalhadas.

Os portugueses divertiam-se como nunca, comungando da melhor maneira do ambiente geral.

E agora, na piscina, saltando uns das pranchas, outros dos lados, entrando vários cautelosamente pelos degraus, dentro de água, felizes como peixes, os rapazes distendiam-se nadando cada qual à sua maneira - alguns muitíssimo bem... alguns muitíssimo mal...

Era um bom espectáculo, aquele. Bom para os olhos e bom para a alma. Consolava ver, lado a lado, como irmãos, rapazes de origens tão diversas, de proveniências tão distantes, de formação decerto e inevitavelmente oposta, ali irmanados num ideal comum. Se fosse possível conservar aquela união, espalhá-la, fazê-la dali irradiar como um imenso núcleo de que partissem depois a uni-los na dispersão pelo mundo, fios de compreensão e amizade que não se partissem nunca! Se a vida, para eles, pudesse conservar-se tempo fora como a maravilhosa manhã de sol que ali os abrigava!...

O Pedro disse isto tudo, mais ou menos, aos seus dois amigos, agora sentados junto dele na relva, enquanto admiravam o conjunto e as evoluções dos outros.

Muitos já tinham saído da água e corriam dum lado para o outro, como atletas treinando-se; outros faziam ginástica, livremente. Outros ainda estendiam-se, gozando o sol. Bastantes continuavam na água, regalados. E foi quando os portugueses repararam que, a esses, um homem de meia-idade, trajando calções azuis e camisola de algodão, dava lições de natação - pelo menos explicava natação, esboçando com os braços no ar o largo bater do crawl. Era um tipo alto, forte, de rosto franco, que parecia divertir-se tanto como a rapaziada que o cercava, prazenteira, dentro de água e fora de água, a praticar os movimentos essenciais para uma segura técnica de natação.

O Fernando Vasco, com ar apreciador, não tardou em emitir o seu parecer:

- Na minha opinião, assim é que deve ensinar-se seja o que for. As coisas mais sérias podem aprender-se com boa disposição! Acho horrível os professores darem quaisquer explicações com o aspecto de quem quer bater... Olha aquele! Com que jovialidade ele ali está! Até dá gosto.

- Ensinar natação é um jogo.., - obtemperou o Pedro.

- Mas a técnica dos jogos podia muito bem ser adaptada a todas as coisas! E quanto mais pesado fosse o assunto, de modo mais agradável devia ser proposto!

- Pois sim... - acedeu o Paulo. - Isso não estava mal, mas requeria que os professores fossem, não homens, mas santos.

- Como?

- É isto mesmo! Exigimos o que não damos’.... Nós não vamos para todas as aulas com a melhor das disposições... Variamos!...

- E depois?

- E depois como é que havemos de querer que os professores deixem à porta das classes os seus problemas, as suas preocupações... os seus desgostos!?... An?...

De súbito, a voz inconfundível de Luís Viegas Pastor pronunciou, mesmo atrás deles:

- O padre Júlio, quando chega ao pé dos alunos, só vive para eles... E faz tudo por eles. Chega a utilizar a própria vida como exemplo, como um dos melhores ensinamentos que pode dar. Ele é extraordinário!

Os três rapazes voltaram-se.

Estendido na relva, por certo há muito mais tempo do que eles podiam supor, de tão distraídos que haviam estado, o brasileiro perdia-se na contemplação do mesmo grupo que eles haviam discutido.

O Fernando Vasco não se deu ao cuidado de se preocupar com a possível indiscrição da inesperada presença, nem tão-pouco com a interferência. Apenas indagou, surpreendido:

- Mas quem é o padre Júlio?

- O professor de natação! O confessor, o conselheiro dos católicos, aqui.

O Pedro duvidou.

- O professor de natação é padre?

- Se é padre? - e os seus grandes olhos tornaram-se graves, cheios de impressionante expressão de respeito. - Um padre absoluto, integral, extraordinário! Todos os rapazes o adoram. Coube ao Paulo intervir:

- Tu disseste que era o confessor dos católicos?

- Disse.

- Isso pressupõe que no Reichvater há rapazes que não são católicos?

Viegas Pastor riu:

- Lógico! O Reichvater é um colégio internacional e não uma escola de formação religiosa. Os rapazes têm as crenças que lhes foram incutidas nas suas casas e praticam-nas livremente, claro.

- Nem podia deixar de ser - concordou o Pedro -, desde que estão cá tanto ocidentais como orientais.

O brasileiro mostrava, continuando a rir, a fileira dos dentes muito brancos e muito certos.

- Ora aí está uma constatação irrefutável!... Fernando Vasco aprofundou o assunto:

- Mas então, não há quaisquer diferenças de tratamento para as diferentes religiões?

- Não. Aqui, perante as leis do colégio, muçulmanos, maometanos, protestantes ou católicos, somos apenas rapazes vistos sob o ângulo humano, e nada mais. Vivemos apenas abrangidos por leis morais que todos cumprem... - passe a palavra! - religiosamente!

- Para isso - disse o Pedro -, para que dessa forma o ambiente seja agradável e não surjam atritos, é necessário que o colégio, com a sua direcção, goze do maior prestígio!

Luís sentou-se, acenando com a cabeça, num gesto afirmativo.

- Sem dúvida! Todos os homens deste colégio são prestigiosos, pelo que valem. Impõem-se naturalmente, sem esforço. Que é aliás o que importa, creio eu! As pessoas, para serem respeitadas, não podem impor-se, exigindo. Têm de merecer, sugerindo. Vocês hão-de ter ocasião de ver. Por exemplo, no que diz respeito ao padre Júlio! Quantas vezes, no ano passado, havia rapazes que preferiam a um baile, a uma sessão de cinema, um serão passado a ouvi-lo falar! O Fernando Vasco tinha, como se diz em calão juvenil, «arrebitado a orelha», para determinada frase do brasileiro.

- Tu disseste baile?... Então também há bailes, no colégio?

- No colégio propriamente dito, só há um grande baile, no fim do Verão. Faz parte, com o torneio, das festas de despedida dos alunos que partem. - E como reparasse no ar desiludido do interlocutor, acrescentou, com certa vivacidade: - Anima-te, homem!... Todas as semanas as melhores famílias de Liebrügen, que fica a oito quilómetros daqui, oferecem recepções, à vez, para as quais são convidados rapazes do Reichvater e do Grande Colégio Moderno.

- Todos? - perguntaram os três portugueses, espantadíssimos.

- Não, todos não. Por turnos. Mas como há sempre pelo menos duas recepções em cada semana, a gente nova não está de muito mau partido.

- São turnos grandes ou pequenos? - quis saber o Pedro.

- Quinze rapazes de cada vez.

- E como é feita a selecção?

- Distinguindo os alunos por duas formas: melhor aproveitamento das aulas de alemão e distinção no convívio, por carácter, por espírito de camaradagem notórios.

Pedro e Paulo trocaram um olhar de contentamento. Não havia que temer, pela parte deles, muitas exclusões...

O Fernando Vasco, interessadíssimo na orgânica dum sistema de educação, de preparação social, absolutamente novo para ele, continuava a fazer perguntas:

- Quer isso dizer que cada convite é como que um prémio, uma compensação de carácter intelectual e moral?

- Absolutamente.

- E como é feita a escolha?

- Por uma deliberação conjunta da direcção, na antevéspera de cada festa. Na véspera, os convidados recebem lições de etiqueta, aprendem normas essenciais de conduta e escutam ensinamentos que devem orientá-los segundo hábitos pré-estabelecidos e ajudá-los a representar dignamente o colégio.

Paulo até suspirou, de enlevado.

- Acho tudo isso formidável!...

Luís Viegas Pastor continuou a explicar:

- E é, realmente. Os pedagogos modernos consideram estas reuniões, assim preparadas e orientadas, como fazendo parte integrante da educação da juventude para enfrentar o mundo em que tem de viver.

O Pedro, um tanto perplexo, inquiriu:

- Tu dizes que os pedagogos alemães acham que os bailes fazem parte da educação dum rapaz?

- Dum rapaz e duma rapariga. Segundo o critério deles, que o Reichvater adoptou, é importantíssimo saber conviver, saber estar em sociedade. Nós, os rapazes, aprendemos assim a lidar com as raparigas como seres verdadeiramente civilizados, e vice-versa.

Os portugueses, um poucochinho desnorteados, entreolharam-se. Saber lidar com as raparigas?...

Recearam falar, dizer o que quer que fosse a esse respeito. De súbito, conscientes como eles eram, temeram, todos três, passar por selvagens.

Saber lidar com as raparigas?!... Uma coisa em que nenhum deles pensara, nunca!

Decorreram alguns instantes de silêncio. A piscina continuava a ser um estojo de vida, esplêndido.

Os nadadores, sob a direcção do padre Júlio, aprendiam agora a mergulhar de cabeça...

E o espectáculo forneceu matéria a Pedro para mudar de assunto, para fugir àquele problema que de súbito o intimidara, pela sua novidade, pela sua estranheza.

Saber lidar com as raparigas?!...

E, limpando a garganta duma impressão que o incomodava, inquiriu:

-.Você, Pastor, disse que havia rapazes que preferiam ouvir o padre Júlio a ir aos tais... bailes?...

- Disse e disse a verdade. Quando ele começa a falar de religião ou a contar coisas da sua vida, a gente fica sem poder arredar pé. E acrescentou: - Talvez vocês tenham ocasião de verificá-lo. Vão tê-la, pela certa!

Fernando Vasco comentou:

- Tu conheces imenso da vida do Reichvater!

O outro riu, numa demonstração clara do

seu feitio alegre, comunicativo.

- E não admira nada!

- Porquê?

- Porque há três anos que estou cá.

- Há três anos?... Como é que arranjas isso?

- Muito simplesmente. Sou aluno de Verão e de Inverno.

- Aluno de?... - e, muito admirado, o Pedro insistiu: - E quando é que vais a casa?

- Não vou a casa.

- Não vais?...

- Não. Como é que hei-de ir?

Os portugueses ficaram calados. Temiam adiantar-se e fazer qualquer pergunta que se tornasse indiscreta. Mas já o outro, naturalmente, prosseguia, como se adivinhasse o desejo que eles tinham de saber:

- Não é fácil ir a minha casa... Os meus pais estão longe de mais!... - E enquanto os outros principiavam a sentir-se aliviados, explicou: - Há três anos que vivem no Japão.

- No Japão?...

O espanto deles era tamanho, que o riso alegre de Luís explodiu em gargalhadas.

- Eu não disse na Lua... - e depois elucidou-os: - O meu pai é diplomata e está na Embaixada brasileira em Tóquio. E como não lhe agradava educar-me lá, resolveu mandar-me para este colégio, onde ele tinha estado em pequeno, quando, aliás, o Reichvater não funcionava ainda como colégio de Verão.

- Então, durante estes três anos, nunca mais viste os teus pais? - perguntou o Pedro.

- Não.

O interlocutor engoliu em seco, como sempre que havia qualquer dificuldade a encarar, a aceitar. Três anos sem abraçar os pais!... Três anos... mas era uma absurdo!...

E tão grande impressão isto lhe fez, que o Pedro viu nitidamente recortarem-se diante dos seus olhos as figuras amadas de Rosa Maria e do Dr. Macedo...

Três anos sem os pais!

Da alma do Pedro os rostos queridos iam surgindo, iam-se definindo, a olhá-lo de frente com ternura infinita...

E o Pedro, como português autêntico, genuíno, expressão exacta dos mais profundos sentimentos da terra lusa, experimentou uma saudade impossível de suportar - uma saudade tão grande que não pôde refrear um soluço de angústia.

Os outros olharam-no, surpreendidos.

E o Pedro, um poucochinho embaraçado, mas sincero como sempre, justificou-se:

- É que... é que eu não podia estar três anos sem ver os meus pais. Ainda não há oito dias que estamos separados... e o coração parece que já me dói!...

Paulo e Fernando Vasco ficaram cabisbaixos. E o Luís Pastor, fleumático, numa demonstração filosófica das possibilidades dum rapazinho evoluído em boas condições morais, retorquiu:

- Qual não podias!... Quando a vida manda, a gente pode tudo! O que é preciso é aprender a suportar! - e como se necessitasse de reagir a uma ameaça de sentimentalismo, estirou os braços e exclamou, pondo-se de pé: - Venham comigo. Vou apresentá-los ao padre Júlio.

 

O almoço, à parte um determinado prato regional que não fora muito do agrado dos portugueses, estava bem feito e fora servido com fartura.

A tarde prometia ser deliciosamente ocupada num passeio que o director, «Herr» Schmidt, organizara.

Reinava, entre planos, a animação. Mas o Pedro não comungava; o Pedro sentia-se melancólico.

Desde que as saudades o haviam tocado pela primeira vez, profunda, impressionantemente, o rapaz ficara taciturno. Sem experiência bastante para reagir, deixava-se esmagar pela ideia de ter tudo estragado. E esse tudo incluía o dia em que estava e todo o tempo dessas férias que tanto ambicionara.

De repente, o Pedro julgou que lhe seria impossível viver sem as diabruras do Salta-Pocinhas, sem as conversas com a Ana - agora que ele e a irmã haviam alcançado, após uma curta época de desacerto durante a qual entre eles as coisas não carrilavam porque um se julgava crescido de mais para os problemas da outra (1), - uma compreensão absoluta.

 

Nota 1: Ver, da autora, o romance juvenil Amigos.

 

Os carinhos da mãe e o seu pulso firme de educadora; os grandes olhos cor de azeitona de Elvas do Dr. Macedo, onde o filho via resplandecer a luz da mais absoluta confiança na vida - confiança que inspirava, que ensinava, que exigia confiança! - tudo faltava por de mais ao rapaz. E quando compreendeu que não valia de nada estender os braços, porque os seus queridos estavam a centenas de quilómetros distantes dele..., não pôde mais.

Deixou todos os que se encontravam perto, incluindo os amigos que podiam talvez ajudá-lo a vencer a crise e isolou-se no parque que rodeava o edifício do colégio. Fugiu, praticamente.

Buscou as sombras, internou-se pelo meio das grandes árvores e, sem vergonha da sua fraqueza, chorou longamente, encostado a um tronco, força viva que lhe oferecia apoio na solidão que assim se lhe revelava. A pouco e pouco, enquanto descarregava os nervos, ia sentindo chegar o alívio. Com o alívio, principiou a ter a percepção do mundo exterior. E com a percepção do mundo exterior, a noção de que algo de maravilhoso estava a acontecer.

Envolvia-o uma revoada de sons, sons de cristal, límpidos, luminosos, que vinham pelo meio do arvoredo, em harpejos, em harmonias, em catadupas gloriosas de música.

Pedro limpou os olhos, assoou-se, apurou o ouvido.

A música não vinha muito de alto. Emanava dum recanto do colégio, duma parte baixa.

De súbito, o piano calou-se.

Pedro ficou indeciso. Quem tocaria?

Logo irrompeu no ar uma escala, triunfal, num exercício apurado de técnica. Logo a seguir uma série de oitavas, seguras, nítidas. Depois, um estudo que lhe pareceu reconhecer sem hesitar. Tinha-o em casa, num disco. Chopin.

Não havia que duvidar! Estava a ouvir estudar um verdadeiro, um genuíno pianista!

E o Pedro, arrastado por um interesse novo, uma curiosidade justificadíssima, abandonou o refúgio momentâneo e pôs-se a buscar a fonte do que assim o consolara, do que assim o distraíra. E deslumbrara. E deslumbrava.

Porque a música, a grande, a verdadeira, estava nessa presença invisível que o dominava. Um outro trecho, seu desconhecido, e magnífico, enchia agora o parque de beleza. E o Pedro encontrou o que buscava: a origem.

Uma janela do rés-do-chão, diante dele, a poucos passos, estava aberta de par em par. Adiantou-se para ela, espreitou.

Lá dentro, um salão amplo, com numerosas filas de cadeiras, alinhadas, num jeito de espera, de expectativa. Ao fundo, um palco, aberto. A meio do palco, um majestoso piano de cauda. E sentado ao piano, a tocar, um adolescente.

Pedro perdeu a noção do tempo. Não deu pelos minutos que se iam dobrando e desdobrando. Ficou imóvel, suspenso, encostado ao parapeito, a escutar.

Encontrava-se diante duma espantosa revelação. Para o nosso rapaz, a música fora apenas e até então uma agradável companhia recebida graças à cooperação da telefonia e do gira-discos. Ouvia-a com agrado que não aprofundava; aceitava-a na alma apenas por instinto.

O Pedro, como a maioria dos rapazes, tinha de facto essa lacuna na sua educação. Não por mal, sem dúvida. Mas nem Rosa Maria nem o Dr. Rui Manuel de Macedo, embora fossem pessoas dotadas por um conjunto de qualidades muito acima da craveira normal, se haviam lembrado de desenvolver quaisquer inclinações artísticas nos filhos. Porque eles próprios viviam um pouco à margem dessas manifestações ou porque não tinham descortinado nos pequenos quaisquer tendências especiais que os forçassem a um cuidado de desenvolvimento?...

Fosse como fosse, sob aquele aspecto, o Pedro estava muito cru.

Não era só o Pedro, aliás. Os amigos, os colegas, pouco ou nada entendiam de quanto dissesse respeito à vida artística.

O que mesmo assim, dentre eles, mostrara, mais interesse por um dos seus aspectos, fora o Fernando Vasco. Mas, encantando-se com o Teatro, nunca mostrara pensar na Música.

O Pedro, claro, esperto como era e excepcionalmente culto para a idade, rapaz de méritos indiscutíveis e olhos postos na vida com a esperança e o desejo de vivê-la com devoção, dignidade e proficiência, sabia que tinham existido génios criadores de música - um Beethoven, um Liszt, um Chopin, um Schumann, um Wagner, um Ravel... Mas não sabia distinguir nem obras, nem épocas, nem estilos; nada.

Chegara aos quinze anos sem nunca ter ido a um recital, a um concerto. E agora, diante do que estava a passar-se, Pedro sentia qualquer coisa de novo dentro dele. Era uma emoção profunda e desconhecida, onde havia doçura e angústia e ao mesmo tempo lhe fazia palpitar o coração e dava vontade de chorar...

De súbito, o jovem pianista parou. E quando os seus olhos enormes, que pareciam ver mundos que mais ninguém divisava, desceram à realidade que o cercava, encontraram, pasmado e comovido, a mirá-lo, um dos mais sinceros admiradores que por certo conheceria. Um admirador tão entusiasta que, levado pelo arrebatamento, arrastado pela força impulsiva da sua maneira de ser, saltava pela janela e caminhava para ele com ambas as mãos estendidas.

- Parabéns! Parabéns!...

Agora, diante um do outro, os dois rapazes riam francamente.

E enquanto um perguntava: - Você? - o outro respondia: - Eu!...

Na verdade, o Pedro mal se recompunha da surpresa crescente.

O pianista assombroso era um dos comensais da sua mesa - e precisamente aquele que, por mais calado e de menor compleição física, menos atenção lhe merecera: o rapazito de quem depois ele se recordaria ter fixado exactamente as mãos: as mãos longas, estreitas, de dedos nervosos que nunca estavam quietos... As mãos que dominavam o piano e pareciam não poder existir sem ele!...

Foi, aliás, o «silencioso» o primeiro a falar:

- Sprecht sie Deutche?...

Pedro abanou a cabeça.

- Não.

- Français?...

- Sim.

- Eh, bien! Nous parlerons f rançais...

Pedro respirou fundo, aliviado. Se o outro só falasse alemão, tinham de entender-se por mímica.

Felizmente que havia um idioma comum a uni-los: o francês! Do contrário como poderiam comunicar, eles, que se conservavam ali, risonhos e agradados, um diante do outro, desejosos de conviverem?...

Sim, realmente, era bom poder falar línguas! Só entendendo-se, comunicando entre si, homens de origens diferentes conseguem tentar diminuir as distâncias que os separam e compreenderem-se enfim.

Se eles não utilizassem uma forma de expressão comum, de que lhes serviria encontrarem-se ali, olhando-se, atraídos por uma real simpatia?

Não teriam quaisquer possibilidades de conversar...

Assim, a coisa iria.

Sentaram-se ambos na beira do estrado e principiaram naturalmente a falar, procurando contactar através de coisas essenciais para duas pessoas começarem a conhecer-se.

O pianista, simples, mas demonstrando ele que se afigurara tão calado! - uma facilidade de falar notável, não tardou em perguntar, tendo nos olhos enormes uma expressão extraordinária de inteligência e de bondade:

- M’avez-vous écouté pendant longtemps?

Pedro acenou que sim. E o outro, no mesmo tom cheio de naturalidade, quis saber se ele gostara.

O Pedro sentiu que, para não parecer demasiadamente ignorante na matéria em que o companheiro devia ser versadíssimo, precisava de pronunciar, de formular qualquer comentário. Bastar-lhe-ia, naturalmente, explicar a emoção verdadeira que o assaltara. Mas ele preferiu mostrar alguma erudição... E, forçando a memória, aventou dois nomes daqueles que praticamente ninguém que, pelo menos, oiça telefonia, desconhece.

- Vous avez joué des morceaux choisis.

C’était du Mozart?... Du Beethoven?...

Os luminosos olhos do interlocutor resplandeceram. E com estranha inflexão, muito sério, respondeu.

- Merci.

O Pedro não entendeu o agradecimento.

- Comment?...

- Je vous ai dit: merci!... Vous m’honorez tellement en supposant que vous aviez écouté le merveilleux Mozart, l’incomparable Beethoven!...

Mau grado seu, tanto o companheiro se afigurava simples e sincero, Pedro pensou que ele troçava elegantemente da sua ignorância... E, na busca da reabilitação, admitiu que um outro nome se lhe impusesse: Stravinsky... Sim, claro! O rapaz tocara, em vez dos grandes clássicos, o moderno Stravinsky...

Mas não teve tempo - felizmente para ele!

- de emitir novo parecer, porque já o pianista acrescentara no tom de quem dizia a coisa mais natural do mundo:

- Tout ce que vous avez écouté, est à moi.

Pedro pestanejou, sem perceber.

- Comment?

E o outro, a sorrir.

- Oui, je fais de la musique depuis longtemps.

Pedro balbuciou, atónito.

- Vous... vous êtes compositeur?

- Oui.

- Et que faites vous ici?

- Mes parents sont partis, tous les deux, en tournée. Ils jouent, mon père du violom, ma mère de l’harpe, dans une grande orchestre. Je n’ai pas pu les accompagner, car je me prépare pour mon entrée dans une très grand école.

- Vous êtes... de quel nationalité?

- Hongroise. Je m’appelle Vic Nusen.

Pareceu a Pedro que acabava de ouvir o nome de alguém que um dia, muito mais tarde, por toda a gente seria repetido com admiração e respeito.

E ele, ele estava em vida com Vic Nusen, de quem podia vir talvez a ser amigo!...

Sentiu-se de súbito invadido por uma onda simultânea de orgulho e de humildade. Orgulho, porque Vic honraria quem dele se aproximasse por bem; humildade, porque aquele rapaz que estava ali não era como os outros, era um desses eleitos que, de vez em quando, surgem a afirmar a espantosa vitalidade da raça humana, oferecendo de brinde ao mundo inteiro o dom do génio. Apeteceu-lhe inclinar-se diante de Vic

Nusen...

Mas já este inquiria, como se de facto nada de extraordinário se passasse com a sua presença e portanto o pasmo do outro não tivesse razão de ser:

- Comment vous apelez-vous?

- Pedro.

- Votre pays?

- Le Portugal.

Vic sorriu abertamente.

- Oh! Vous savez que j’aimerais beaucoup y aller?... Mon père a déjà joué à Lisbonne. Il m’a souvent parlé de ce magnifique pays du soleil.

E depois, como se para ele o caminho, a estrada da vida, estivesse já completamente

definido, acrescentou:

- Um dia, hei-de ir tocar para os portugueses!

Depois, vagarosamente, levantou-se, voltou para junto do piano, poisou as mãos sobre ele, instalou-se no banco... e recomeçou a tocar.

Nessa noite, tarde, depois da sessão de cinema, por mais que o Paulo e o Fernando Vasco (a quem o Pedro já tinha apresentado o moço compositor mas que por o não terem escutado, quase, logicamente, duvidavam dos elogios que ouviam) protestassem e reclamassem a luz apagada, o Pedro escreveu longamente, escreveu aos pais. E depois de três linhas dedicadas às saudades, toda a carta era a contar a descoberta de Vic Nusen.

Pedro, felizmente, era daqueles que também honram a espécie humana - que a espécie humana é sempre honrada pelos que sabem, agradecidamente, respeitar e admirar o seu semelhante.”

 

ESTAVAM sentados na varanda diante da qual, para além do parque, se alongavam quilómetros e quilómetros de floresta, de árvores majestosas, cujas imensas copas dum verde-escuro se deixavam rasgar, a espaços, pelos telhados pontiagudos de casas dispersas, ou agrupadas em pequenos povoados.

A noroeste, adivinhava-se a localização da pequena cidade de Kinaren onde os rapazes tinham licença de ir de quando em vez. Abarcando todo o horizonte, a continuação do mundo, os caminhos que talvez seguissem um dia ou não calcorreassem nunca. Em torno, fechavam-nos em círculo os cumes das altas montanhas.

Entretanto, pelo menos algumas excursões desvendariam um pouco do mistério oculto pela velha floresta...

Projectos não faltavam. Tantos projectos, que os rapazes não duvidavam de que para os realizar o tempo de que dispunham não chegaria. Dois meses!...

Dois meses!...

E o Paulo, de súbito, soltou uma exclamação, fruto dum íntimo reflectir que afinal condensava as ideias de todos.

- Temos de aproveitar bem o tempo!...

E foi como se o pensamento assim definido possuísse estranha força a atirá-los, sem qualquer hesitação, dali para fora.

Sem se consultarem, levantaram-se os três ao mesmo tempo, riram ao notarem o movimento espontâneo e conjunto, abandonaram a varanda e foram à procura dos companheiros.

O colégio por certo fervilhava de actividade, mas não se via nem ouvia ninguém. Os rapazes encontravam-se dispersos, em grupos, pelas várias salas do grande edifício.

De súbito, quando os portugueses se decidiam a entrar, ao acaso, para uma das salas, ecoou pela casa uma sineta, enchendo-a de sons alegres. E, logo a seguir, os altifalantes montados em todo o colégio principiaram a comunicar instruções.

O Paulo, um dos que mais sabia de alemão, entre os estrangeiros, e agora a familiarizar-se mais e mais com a prática do idioma, foi traduzindo para os companheiros o que ouvia. Sim, que o Pedro aprendia imensas coisas, mas o Fernando Vasco ainda bastante pouco...

- Hoje, às quatro da tarde, damos um passeio até à clareira grande de Neckaren. Levamos merenda. Os que quiserem ir devem passar de seguida pelo gabinete do prefeito e inscrever-se na lista que está em cima da secretária. Os que não desejarem tomar parte no passeio de barco podem assistir a uma sessão de cinema no colégio, ou acompanhar o guia Freüch na organização de quaisquer jogos... Para amanhã temos o prazer de anunciar que os trinta alunos mais velhos do Reichvater estão convidados para um almoço na quinta do Dr. Karl Wurt.

A voz calou-se. E enquanto o Paulo, impante com os seus conhecimentos, olhava os amigos com ar de mestre, a sineta voltou a repicar, espalhando por todo o colégio os seus sons de cristal, numa toada festiva que se identificava com a esfuziante alegria dos rapazes que imediatamente tumultuou.

Lembravam abelhas tontas saindo da colmeia e precipitando-se em todas as direcções. As interpelações e as respostas cruzavam-se, nos mais diversos idiomas.

E a alegria era igual para todos, compreensivelmente, pois se para o almoço do dia seguinte havia limitações, não as havia para aquele dia em que cada um podia escolher segundo as preferências pessoais.

O maior número, claro, optou pelo passeio de barco.

E era uma fila tão grande à porta do gabinete do prefeito que o Pedro, o Paulo e o Fernando Vasco quando lá chegaram tiveram medo, apesar de tudo, de ser excluídos...

Depois deles ainda apareceram mais uns tantos. E ninguém seria de mais. «Herr» Schmidt alugara tantos barcos quantos os precisos para levar os que desejavam ir.

E o Pedro não percebia como havia quem preferisse ficar no colégio... Mas o mundo não se tomba, exactamente porque há gente diversa com gostos diversos...

Assim, uns poucos, que não apreciavam andar de barco, e outros que realmente preferiam o cinema, e mais alguns a quem o bridge e o xadrez entusiasmavam, preferiam não sair.

De facto, aquela liberdade que eles tinham de resolver, uma liberdade condicionada - como o referia o Decálogo do colégio - por uma máxima responsabilidade (e uma sábia e cuidada orientação...) era um dos maiores encantos do Reichvater.

Os rapazes, ali, aprendiam acima de tudo a ser homens verdadeiros, a ter a noção dos deveres, a depender de si, a tomar iniciativas e isso era da maior importância na idade em que todos estavam. A juventude carece de assimilar princípios de educação como assimila conhecimentos de Matemática ou de Filosofia...

Colocando-se diante da necessidade de escolher entre várias diversões, cada um dos alunos, auscultando o gosto próprio, começava a saber conhecer-se e a decidir, portanto, sem depender nem de conselhos nem de opiniões. E, resolvido, a alegria sentida era sem limites.

O pedaço da tarde que mediou entre a notícia e a hora da partida decorreu, para os que se tinham decidido pelo passeio, em preparativos.

O Pedro, o Paulo e o Fernando Vasco, como bons portugueses, cuidados e esmerados no vestir, trataram de arranjar-se convenientemente.

Pedro e Paulo preferiram calções curtos e camisolas de algodão. Mas o Fernando Vasco, mais janota, optou pelas calças brancas de tecido de lã, com camisa aberta, uma bonita camisa aos quadrados azuis e amarelos (e a verdade é que, no rancho juvenil, ele havia de chamar as atenções gerais, fazendo um figurão...).

Os rapazes tinham-se concentrado, segundo as instruções recebidas, no pátio fronteiro à principal entrada do colégio. Às quatro horas, o padre Júlio - o guia Júlio, como lhe chamavam -, que era o condutor do grupo, apareceu. Com o seu ar afável e despachado, deu as últimas ordens, primeiro em alemão, depois em francês - por causa das dúvidas...

- Para ser mais fácil a comunicação entre todos, formem-se em grupos de dez, capitaneados, cada um, por um Kleinem leiter e por um aluno que fale igualmente bem a língua alemã e a francesa. O segundo pequeno chefe tem a missão de servir de intérprete para que todos possam conviver o melhor possível!

Foi uma algazarra.

Os rapazes, excitadíssimos, procuravam reunir-se, mas a confusão estabelecia-se. Era mais que certo que a continuarem assim, a noite cairia sem os ver com o problema resolvido.

E de súbito, o guia Júlio, que os observava com um sorriso divertido, aproximou-se duns e doutros, discretamente.

Coisa curiosa!... Todos sabiam que ele estava a ajudá-los, a comandá-los realmente. Mas ninguém o ouviu dar ordens, nem dizer «fulano faz isto, beltrano faz aquilo...» Ia-se chegando, proferia um nome, sugeria outro... e, num abrir e fechar de olhos, os grupos definiam-se.

A Pedro, a Paulo e a Fernando Vasco tinham-se reunido, um pouco por inspiração do padre Júlio, um pouco por iniciativa própria, o Karl Erbrüngh, o Luís Viegas Pastor, o Jean-Paul Mignonet, o chinês Lin-Fu, e mais dois alemães gémeos, bastante simpáticos à primeira vista - Frederic e Wolfgang.

Arrumados os grupos, o padre Júlio pediu-lhes que formassem a dois e dois e deu a palavra de marcha.

Joviais, descontraídos, os rapazes atravessaram a mata, fresca e agradável deveras.

De súbito, alguns dos alemães começaram a cantar uma velha canção popular, cheia de ritmo e de melodia, ingénua como as canções dos meninos em todos os países.

Os estrangeiros, que a não sabiam, ouviam-na calados, dando à cabeça. Mas a pouco e pouco, uns trauteando, outros assobiando, foram todos formando coro. E era bom, era reconfortante ouvi-los assim, juntos pela mesma música singela, a rapazes de tantas pátrias, pátrias por vezes desentendidas entre si e agora, através deles, juntas numa afirmação, numa imensa possibilidade de harmonia.

Levaram talvez uns vinte minutos até chegarem ao pequeno embarcadouro, uma praiazinha minúscula, de areia muito branca. No rio, o belo Neckaren, afluente do Neckar, que nasce na Floresta Negra, presos a estacas, balouçavam docemente uma meia dúzia de barcos.

Perto da margem, junto às árvores, erguia-se uma casa de madeira pintada, uma casinha airosa, que fez lembrar ao Pedro e ao Paulo a famosa casinha de chocolate duma velha história sua conhecida.

Mas na «casa de chocolate» não vivia nenhuma bruxa...

Do seu interior, ao ouvir o alarido, veio recebê-los um casal ainda novo, que se desfazia em cumprimentos para os rapazes, muitos dos quais os retribuíam, familiarmente.

Eram os guardas daquela parte da floresta. Ele, nado e criado na região. Ela, antiga cozinheira do Reichvater. Tinham casado e ficado por ali a tratar da vida.

Após uma breve conversa com o guia Júlio, o homem - Ludwig - tratou de preparar-se para ajudar à acomodação da rapaziada.

Cada barco levava justamente dez pessoas. Entre os barcos não havia que escolher. Eram todos, embora perfeitamente conservados, bastante feiotes... Ou melhor, todos não - quase todos! - porque havia um que se distinguia, pintado de verde, pimpão e atraente.

O padre Júlio, conforme Ludwig ia puxando os barcos, começou a chamar os grupos, pelo nome do seu Kleinem leiter, dando a ordem de embarque.

Entretanto, Fernando Vasco, com certa precipitação, aproximou-se mais dos compatriotas:

- Vamos, nós apanhar o verde, que é o mais bonito...

O Pedro discordou:

- Não acho bem. O guia Júlio está a distribuí-los, o melhor é esperar e aceitar o que nos cair em sorte.

Mas o Fernando Vasco, já se sabia, quando tinha qualquer coisa na ideia não desistia facilmente.

- Em todo o caso, vamo-nos dirigindo para ele... assim como quem não quer a coisa...

Quando o padre Júlio os viu próximos do barquito verde, franziu ao de leve os sobrolhos... Mas tal como se, adivinhando o intento dos rapazes, concordasse com ele, ordenou para Erbrüngh:

- Karl... vocês podem embarcar nesse aí...

Fernando Vasco, que não vira a expressão fisionómica do padre, piscou um olho para os companheiros, ufano da iniciativa. E instalaram-se.

Três criados, que os tinham seguido, arrumaram no barco do padre Júlio dois enormes cestos, que, pelo aspecto, deviam estar recheados de coisas boas.

Os rapazes que sabiam remar ofereciam-se para conduzir. Os que não sabiam ofereciam-se também, porque tudo seria difícil menos aprender a manejar os remos num rio sereno por uma tarde linda de passeio... Embarcaram todos.

O guarda foi soltando as amarras e os barquitos, com suas cargas preciosas, principiaram vagarosamente a distanciar-se das margens.

Quando já estavam soltos e o guia Júlio tomava a dianteira, ouviu-se um restolho na mata com grandes gritos à mistura:

- Esperem! Esperem!... Esperem!... E logo surgiu, desgrenhado e esfalfado, Vic Nusen.

O padre Júlio, a dois metros da margem, perguntava rindo:

- Que é isso, Nusen?... Mudaste de preferências à última hora?...

Vic abanou a cabeça, vivamente.

- Não, senhor. Eu inscrevi-me para o passeio... mas fui estudar piano e não dei por mais nada!

- É o costume! - exclamou um inglês, na sua língua natal, do barco que estava mesmo ao lado do dos portugueses. - Os tipos desta laia são sempre amalucados. Admira que haja quem os tome a sério!

O Pedro voltou-se com tamanha vivacidade, que o barco verde oscilou perigosamente. E depois de fulminar o vizinho com um olhar de desprezo, perguntou ao padre Júlio, numa voz de estentor:

- O Vic pode vir connosco?...

O sacerdote disse que sim. O barquito aguentava com mais um.

O Paulo e o Karl, que estavam aos remos, acostaram, e Vic, dando a mão ao Pedro, saltou para o interior da embarcação.

Principiou enfim o «cortejo fluvial», como lhe chamou o Luís Pastor, tão feliz que dava gosto vê-lo. Os rapazes seguiam à vontade, na esteira do barco chefe.

Os do leme iam procurando, cuidadosamente, nos sítios onde o rio estreitava, desviar-se das raízes e dos ramos que ou emergiam ou mergulhavam na água.

No barco dos nossos rapazes, quem ia ao leme era Fernando Vasco. E este, de súbito, sem saber porquê, sem ter pensado sequer no que ia fazer, pôs-se a assobiar. E o que lhe saiu dos lábios, bem modulada, foi a toada dum fado. Aos poucos, o mesmo fado principiou a ser cantado, com palavras, por uma bonita voz - a do Pedro. Logo a seguir, o Paulo começou a trautear também. E não tardou que todos os outros, em coro de boca fechada, cantassem o que estavam a ouvir.

Era agradável e emocionante escutar-se assim o fado, tão longe da sua terra natal, entoado por rapazes de tão diversas nacionalidades, embalando o deslizar manso dos barcos por sobre a água dum rio estranho...

Só Vic Nusen não cantara. E quando as vozes por fim se extinguiram, voltou-se para o Pedro e disse a sorrir, com uma expressão sonhadora no olhar:

- Muito bonito. Faz-nos pensar em coisas tão doces que chegam a ser tristes, embora para essa tristeza não haja explicação nem até justificação.

Jean-Paul mostrou-se conhecedor:

- J’aime bien le «fado»... Ma mère, quand elle est allée à Lisbonne jouer, m’a apporté des disques... Il y a aussi des «fados» seulement joués à la guitare. C’est très joli! Ça!

E foi então que Karl formulou uma pergunta inesperada.

- A propósito. Em Portugal, todos os rapazes aprendem a tocar guitarra, não é verdade?

Os portugueses, surpreendidos, riram. E Paulo respondeu:

- Não, que ideia! Aprendem os que querem,

os que gostam!

Karl insistiu. Ele lá tinha as suas razões...

- Mas eu ouvi dizer que o ensino da guitarra, em Portugal, era obrigatório!

Pedro, Paulo e Fernando Vasco, primeiro, sentiram que os seus sorrisos iam abrir-se em gargalhadas divertidas, perante a facécia... Mas logo se entreolharam e, compreendendo o mútuo pensamento de estranheza e desagrado que os assaltava, perderam a vontade de rir.

E foi o Pedro quem falou, traduzindo espontaneamente as ideias dos três.

- Que disparate!... Quem foi que te ensinou uma dessas?

Karl não gostou de tão franca réplica, destruidora de conhecimentos sólidos...

- Quem mo disse sabia, porque esteve em Portugal. Contou-me até coisas bem engraçadas!

- Se forem como essa... - resmoneou o Pedro.

Mas o Fernando Vasco, decidido a esclarecer o assunto, inquiriu:

- Que coisas? - e em português (visto que o diálogo ia decorrendo numa mistura incrível de alemão e francês) comentou para os compatriotas, com grande gáudio do brasileiro, que aproveitava o conjunto, claro... - Se forem todas do calibre do fado, hão-de demonstrar uma rica erudição...

Já Karl respondia ao Fernando Vasco, com o aspecto compenetrado de quem não põe em dúvida as suas afirmações.

- Sei, por exemplo, que as pessoas só se vestem de preto. E sei que de manhã, ao domingo, antes da missa, vão ouvir cantar o fado, nas praças públicas. E que os homens podem matar as mulheres quando estão aborrecidos delas...

O Paulo cerrou os punhos, furioso.

- Não haverá mais imbecilidades para dizer acerca da nossa terra?... Até dá vontade de esmurrar quem inventa e quem acredita em tais atoardas!...

O Pedro conseguiu não perder a calma. E enquanto Karl abria uns grandes olhos absolutamente ingénuos, atalhou:

- O Karl não tem culpa, Paulo. Alguém se divertiu a maquinar estas calúnias sobre a nossa querida Pátria. Sabes perfeitamente, sabemos todos, que não falta quem tenha prazer em diminuir aquilo que não entende, exactamente por lhe faltarem qualidades. - E noutro tom, para o atónito alemão: - Pode-se saber onde é que tu aprendeste todas essas maravilhas?...

- Li-as num artigo publicado numa revista francesa.

Nessa altura, Jean-Paul, muito corado, interveio:

- Ele está a dizer a verdade.

- Como? - perguntaram os três portugueses ao mesmo tempo, prontos a investir.

E o outro, fleumático, explicou: - Lembro-me muito bem de a minha mãe estar a ler e a comentar esse tal artigo.

- A concordar, aqui com o Karl?

O pequeno francês abanou a cabeça, risonho.

- Pelo contrário. A protestar contra uma tal infâmia.

A ira dos portugueses caiu como que por encanto. E o Paulo, atarantado com o inesperado apoio, lançou uma frase à toa.

- Como é que a tua mãe sabe que é uma infâmia?

- A minha mãe esteve em Portugal, já disse há bocadinho, e gostou muito.

- Esteve em Portugal? - exclamou Pedro. E logo a seguir, sem lógica nenhuma, indagou:

- A fazer o quê?

- A representar, num teatro...

- A representar?... - E num imenso interesse, atenção já desviada por outro assunto bem diferente, o Fernando Vasco indagou: Como é que se chama a tua mãe?

O rapazinho, com uma entonação de orgulho, volveu:

- Simone Mignonet.

O barco fez um desvio tão brusco, mal orientado pelo estremeção do condutor, que, decerto, se não fora a súbita advertência de Vic Nusen, embateria numa enorme ramada que tocava a água.

Fernando Vasco, atrapalhado, corrigiu a posição do barco e depois, olhos a brilharem, voltou a concentrar toda a sua atenção em Jean-Paul.

- Tu... tu és filho da famosa actriz?...

- Oui!

O entusiasmo do rapaz foi tão grande que transbordou, na língua natal, para os amigos:

- Ah, a Simone Mignonet!... Quem me dera ser-lhe apresentado!...

Então, muito calmo, num tom neutro que por si não deixava adivinhar a intenção, Viegas Pastor disse:

- Sim, ela é muito bonita, mas olhe que já tem idade para ser sua mãe... - segundo o uso da sua terra natal, o rapaz não se habituava a tratar ninguém sem ser por você.

Fernando Vasco abriu e fechou a boca duas vezes sem emitir o mínimo som... O reparo tinha-o, pelo absurdo, deixado sem voz...

Mas ao Paulo não faltara o poder de expressão. E respondeu ao brasileiro, muito sério:

- Tu interpretaste mal o entusiasmo do Fernando Vasco.

- Ah, sim?

- É natural que ele goste de conhecer uma artista famosa. Ele tem uma grande inclinação para o teatro...

Luís Pastor parecia apostado em irritar Fernando Vasco.

- Na nossa idade, não faltam os aspirantes a actores. Mas pessoas como a Mignonet não se interessam por crianças...

Desta feita, quem ia ripostar, com a voz de novo no seu lugar, era o Fernando Vasco... Mas, por sorte, Vic Nusen - que, pelos vistos, podia dar atenção a muitas coisas ao mesmo tempo... - soltou uma observação que interrompeu a conversa, em perigo de azedar...

- Vasco... vamos acostar!... O guia Júlio já está a prender o barquinho dele!...

Era verdade.

Atando a corda a um arbusto, o professor indicava aos rapazes a melhor maneira de entrar na pequenina enseada onde se encontrava.

Uns após outros, os seis barquitos foram-se alinhando, com escassa altura de água por baixo deles - a bastante, porém, para flutuarem.

No fundo, de seixos lisos e redondos, nadavam cardumes de peixes miniaturais.

Alguns dos rapazes, tirados os sapatos, saltaram para o rio, esfuziantes, salpicando-se uns aos outros, numa brincadeira pegada. Outros descarregaram cautelosamente os preciosos cestos, que iam acomodando num recanto próximo, onde um prado verdejante oferecia agradabilíssimo ponto de paragem.

Distraído pela força das circunstâncias, Fernando Vasco não tivera outro remédio senão guardar para nova oportunidade o esclarecimento do assunto que tanto o acalorara. Luís Pastor não perderia pela demora...

Bastante mal disposto, foi o último a «atracar» - como eles pomposamente diziam. Mas, por fim, lá se levantou também, para prender o barco num ramo a jeito.

Nesse mesmo instante, a distraí-lo das suas preocupações, soaram nas costas dele vários ohs! - seguidos por um coro de gargalhadas.

De início, Fernando Vasco não percebeu que era ele o alvo daquela explosão de alegria e, muito consciente no seu papel de timoneiro, continuou a acabar de atar a corda. Mas, depois, o riso, propagando-se aos outros barcos, tornou-se de tal modo estrepitoso, que ele procurou descobrir no areal ou na clareira próximos, razões que justificassem tamanha hilaridade. Nada encontrou. Antes pelo contrário, os que já estavam em terra começavam também a rir ao atenderem a repetidos sinais dos que ainda se conservavam embarcados. E os sinais, se não havia engano na interpretação, visavam-no justamente a ele, Fernando Vasco.

Então, com um arzinho superior de pessoa disposta a confundir os outros demonstrando-Lhes a inconveniência das atitudes assumidas, o rapaz, voltando-se a três quartos, inquiriu, na língua internacional:

- A que é que vocês acham tanta graça?... Digam, que é para eu rir também!...

Alguns deles até choravam, de tanto que riam!...

Por fim, entre froixos de riso, o Pedro respondeu:

- És tu que... és tu que...

- Eu?... Eu o quê?

- Que... que...

E nada de explicar realmente, porque as risadas dobravam!

Fernando Vasco, de testa franzida, passou do sentimento espanto para o sentimento desagrado.

- Mas onde é que está o meu lado cómico?... E o Pedro, num desabafo.

- No teu rabo!

- No meu r...?... - e, atordoado, o pobre moço levou a mão atrás. - Cos diachos, não creio que me tenha crescido cauda!...

Era um verdadeiro alarido!... E, do meio dele, a voz clara do Pedro explicou enfim. - Tens o traseiro verde. Todo verde!

- Verde? - e fez-se amarelo...

Era verdade. As suas lindas, impecáveis, maravilhosas calças brancas estavam impiedosamente manchadas. Uma impossível e enormíssima mancha, compacta, alastrara por toda a parte de trás, tornando-lha realmente... verde. Explicação? Bem simples. A tinta do barco, ainda fresca, com o calor do corpo dele e a fricção, derretera-se e passara-se para a fazenda...

O Fernando Vasco ficou positivamente desolado. Nem se lembrava de mais nada. Tudo se extinguira ante o prejuízo... e o vexame!

Agora, vendo-o amachucado, os companheiros, para o consolarem, mostravam-se também, de costas, espichando os rabetes... Todos eles estavam mais ou menos pintalgados. No entanto, o estrago dos calções era menos grave do que o das calças, pela qualidade... e quantidade de tecido, e dava menos nas vistas. Mas os fundilhos verdes nas belas calças brancas, irrepreensíveis, elegantíssimas, do Fernando Vasco...

Este tentava responder à gentileza dos outros, procurando, com um sorriso corajoso, afirmar que o facto não tinha importância nenhuma... Mas percebia-se que pensava o contrário ...

Já o padre Júlio, que, enfim, dera conta do incidente e com ele se divertia também, piedosamente acorria a consolá-lo.

- Não te apoquentes... Isso talvez saia com aguarrás.

- Com aguarrás, com aguarrás! - apoiaram várias vozes. - Com aguarrás a tinta sai.

- E onde é que há aguarrás, aqui? - perguntaram alguns.

Um dos alemães, que trazia uma mochila às costas e era muito dado às coisas de campismo, declarou que aguarrás não tinha, mas talvez um produto similar, pois costumava andar provido com drogas para todas as emergências previsíveis. E, no meio do espanto dos circunstantes, apeou a mochila, abriu-a e principiou a tirar de dentro dela frascos e frasquinhos de diversos tamanhos, todos rotulados. Havia álcool, amoníaco, água-de-colónia, mercúrio-cromo, gasolina e muitas coisas mais... E, numa garrafita de quarto de litro... um produto que ele declarou absolutamente próprio para o efeito desejado.

Os rapazes até batiam palmas. A tinta ia sair!

O gauleiter Júlio, mais descansado em relação à sorte das calças do Fernando Vasco, deixou-o entregue aos cuidados dos solícitos companheiros, e tratou, com outro numeroso grupo, de proceder às instalações que deviam conduzir ao serviço... da merenda.

Fernando Vasco, já em terra, estendeu-se no chão, de barriga para baixo, passivamente, disposto a deixar-se livrar da mancha ridícula.

Foi o Karl o encarregado da limpeza. E era vê-lo, de joelhos, um lenço embebido constantemente no líquido, entregue à tarefa com toda a consciência, que o mesmo é dizer: esfregando a fazenda com quantas forças tinha...

E ia afirmando, constantemente, que saía...

Mas, de súbito, o Fernando Vasco soltou um berro, esbracejou, ferrou um empurrão em Karl e, livrando-se dos que acudiam, pulava dum lado para o outro...

- Arde! Arde!...

Fora-se a compostura. Fora-se a elegância. Fora-se a esperança de salvar as lindas calças brancas!

O produto, sem dúvida nada indicado para uso do corpo humano, penetrara na pele do rapaz... e o caso estava sério!

Alarmados uns, perplexos outros, todos o rodeavam, sem que nenhum, de entrada, compreendesse o que sucedia...

Só o entenderam quando o pobre Fernando Vasco, com o «sim senhor» em brasa, absolutamente desnorteado, se atirou para a água, no impulso de achar alívio...

E foi embrulhado em toalhas - as toalhas que haviam levado para a hipótese dum banho no rio -, que o Fernando Vasco, um tanto amarelo, por fim, se aquietou para merendar.

 

OS rapazes estavam contentes.

Sentados, estiraçados, por aqui e por além, numa descontracção absoluta, entregavam-se a um repouso que lhes fazia bem ao corpo e ao espírito.

No céu, muito azul, corriam ligeiras pequenas nuvens que eram um enfeite para a tarde luminosa.

As árvores de porte senhoril e os arbustos delicados ondulavam docemente, como se se divertissem uns com os outros.

Ao longe, no horizonte, as massas dos picos agudos das altas montanhas, escuras e maciças, eram como sentinelas vigiando pela segurança do momento.

A gente moça apenas ambicionava o que tinha. Sentia-se completa. Era um daqueles raros instantes de bem-estar em que a pessoa não precisa senão do que possui e pode apertar ao peito, naturalmente, pelo simples cruzar dos braços, a felicidade. Porque felicidade é, sem dúvida, o sentimento de ter tudo o que a alma deseja.

Alguns dos rapazes, num murmúrio, unicamente para si próprios, entoavam vagas melodias. Talvez recordações, ou músicas favoritas, com que se embalavam agradavelmente. Do todo saía uma toada dissonante que não sabia mal a ninguém, antes pelo contrário.

O Pedro e o Paulo, encostados ao grosso e enegrecido tronco dum abeto, cabeceavam. Ambos, sem dizerem nada um ao outro, viam, como num écran dentro deles próprios, os rostos amados dos que estavam longe. Mas não com saudade, naquele instante. Era antes como se se houvesse estabelecido através do espaço uma comunhão estreita num diálogo em que todas as palavras se tornavam desnecessárias.

O Pedro, tão perto de si que tinha a impressão de lhes poder tocar quando quisesse, sentia os pais, a irmã, o Rumané... tão nítidos, que, sem dar por isso, lhes sorria...

Era bom viver uma coisa assim! De súbito, uma voz soou. E soou, sem destoar no conjunto, límpida, clara, boa... E a voz principiou por traduzir o comum sentimento que os enchia.

- Meus filhos, nós estamos bem... todos!

- Houve uma pequenina pausa, e, depois, a voz prosseguiu, conduzida por um firme propósito:

- E porque estamos bem, lembremo-nos dos que porventura neste momento o não estão. Levantemos em nossas almas uma prece pelos que se encontrem a sofrer...

Aqueles rapazes, que se tinham ali reunido, não professavam a mesma religião, não liam pela mesma cartilha. E no entanto nenhum deles deixou de entender e de corresponder com a maior sinceridade ao sacerdote católico.

Todos, na intimidade do seu coração, obedeceram à chamada e elevaram o espírito ao seu Deus, ao Deus Todo Poderoso e Único, que não recusa provas de amor, cheguem-lhe essas mesmas provas através de que idiomas ou expressões for.

Decorridos minutos, o guia Júlio recomeçou a falar (era, aliás, o costume, conquanto fosse uma novidade para os que se achavam ali pela primeira vez). O padre, grande amigo e companheiro dos seus rapazes, tinha por hábito e hábito grato a todos -, contar uma história, quando assim se reuniam. E o mais extraordinário de tudo é que era sempre uma história verídica - fosse ele ou outrem a personagem capital.

Naquele dia, a personagem seria ele. E no meio da quietude, o sacerdote principiou:

- Quando uns estão calmos, felizes e serenos, outros sofrem as angústias imensas a que afinal qualquer ser humano pode estar sujeito. «Assim aconteceu há muitos anos, em plena guerra!

«Numa tarde, bonita e boa como esta, um homem esteve enterrado vivo. Esse homem fui eu!

Os rapazes não buliam, concentrados, suspensos e cheios de interesse pela narração, que tinha tanto de simples como de empolgante.

- Fizera há pouco os 24 anos e estava ordenado apenas há meses. Servia como prior numa pequena aldeia fronteiriça, uma pequena aldeia de opereeta, bonita e graciosa, onde, antes da tormenta, a vida corria simples e agradável, sem riquezas ofensivas nem pobrezas esmagadoras. Depois, a pobre gente, privada de braços, privada de meios de subsistência, começou a padecer.

«Enquanto noutras terras, longe dali, havia povos felizes e despreocupados, aquele punhado de criaturas movia-se sob os cuidados de cada hora e as tristezas de cada dia.

«Eu, quando acabava as minhas tarefas do culto, ia até ao centro da aldeia, reunia em volta de mim as crianças, a quem ensinara a ler, e entretinha-as, contando-lhes velhas histórias. Havia então, na minha alma, a ilusão de que tudo estava certo... bem!...

«Mas, quando uma nação se encontra em guerra, e se vive como se por cima das nossas cabeças balançasse suspensa a espada de Dâmocles, a espada terrível da lenda que ensinou a um ingénuo admirador da grandeza e da força o que é afinal a vida dum tirano..., a ameaça do pior dos fins ronda permanentemente...

«E assim foi que, naquela tarde serena e calma, ouvimos de súbito o roncar atroador de aviões que se aproximavam, e aproximavam descendo, voando baixo. Eram cinco aviões inimigos.

«De princípio não me assustei e observava curiosamente a esquadrilha. E não me assustei porque não podia crer que um ataque fosse perpetrado contra um núcleo inofensivo onde praticamente só havia mulheres, crianças e velhos. Mas, de chofre, o terror invadiu-me. Foi quando percebi que na guerra nem as aldeias de opereta tinham o direito de escapar à destruição!

«Uma primeira bomba, largada de baixa altura, explodiu algures na aldeia. E segunda, e terceira...

«Aquela pequenina terra onde ainda havia um resto de flores era uma antecâmara do Inferno! Os gritos de horror e de sofrimento cruzavam-se em todas as direcções, os estilhaços voavam, as chamas rebentavam por toda a parte.

«Era tremendo e era abominável!

«Eu quereria fazer qualquer coisa, com as minhas mãos parar a morte... Mas eu era ali como todos os outros: uma criatura inútil à força de indefesa...

Calou-se por instantes o sacerdote, de olhar perdido no vago. Os rapazes não quebraram o silêncio em que se encontravam imersos. Apenas, alguns, mudaram de posição.

O padre Júlio recomeçou a falar:

- Mas, como qualquer homem numa emergência daquelas, descontrolado, esquecido de que mais valia prostrar-me em oração... corri, corri como um louco! Tropeçando, gritando, fui à toa, numa direcção sem rumo, sem saber nem que fazer nem a quem ajudar. Sofria por toda a gente e creio que também sofria por mim. E, no entanto, foi como se nesse dia eu esgotasse a minha capacidade de ter medo fosse do que fosse! - E, poisando as pupilas afectuosas nos rostos mais próximos, acrescentou sorrindo: - É verdade, sim, meus filhos. O medo que todas as pessoas normais podem sentir com maior ou menor intensidade, a partir dum determinado ponto, deixa de exercer influência. Fica-se como que vacinado. Eu, nesse dia tremendo, atingido o extremo limite do pânico, deixei de poder sofrer de medos, tenham as origens que tiverem, sejam fundados ou absurdos. Creio que nada voltará a assustar-me. Todas as coisas susceptíveis de dar cabo da serenidade, do sangue-frio, da expectativa do pior, me surgiram na frente durante vinte minutos... e nem eu quero, meus filhos, explicar-lhes tudo em pormenor, porque não é minha finalidade deixá-los sob uma impressão penosa. O meu intento é outro... e explicá-lo-ei quando estiver a acabar de contar-lhes a minha história, esta história que afinal reafirma uma verdade indiscutível - Deus pode salvar-nos sempre... e a sua misericórdia manifesta-se sob as mais inesperadas e extraordinárias formas. Assim, continuando a minha narração, direi: na carreira desordenada em que eu ia, sem direcção, sem qualquer ideia a pôr em prática, ficara em mim, quando muito, o apelo dum instinto conservador que me gritava:

- foge! foge!... - Para onde? As bombas continuavam a explodir...

«De súbito, sem o pensar, certamente obedecendo ao mesmo impulso que me arrastava, atirei-me ao chão. A cinco metros de mim, no mesmo instante quase, uma bomba deflagrava. E foi quando eu soube, em vida, o que era estar enterrado!

- Como enterrado? - perguntaram de chofre várias vozes.

- Eu lhes digo. A bomba, caindo, abriu uma larga cratera. Pelo ar, com os estilhaços, voaram pedras... e voou a terra. A terra que, projectada violentamente e em grande quantidade, desabou sobre mim, soterrando-me.

Os rapazes tinham compreendido, e abriam uns grandes olhos pasmados para o padre Júlio. Dois ou três, inquiriram, suspensos:

- E depois?...

- Depois fiquei debaixo dum monte de terra e de pedras não sei quanto tempo! Vivo, lúcido - tanto quanto podia sentir-me lúcido e vivo naquelas circunstâncias -, estava praticamente morto e enterrado numa aldeia de mortos e feridos. Os meus olhos sentiam a terra, a minha boca e o meu nariz sorviam terra. Tive em mim o gosto da terra, enquanto não perdi a consciência...

De súbito, uma voz juvenil, num tom indescritível de pasmo, indagou:

- E não morreu?...

Irresistivelmente, uma gargalhada geral desanuviou o ambiente. O próprio padre Júlio ria com gosto.

- Não... parece que não, visto que estou aqui...

- Mas como é que se salvou? - perguntou outro, mais coerentemente, traduzindo a ânsia que todos sentiam de compreender.

- Já lhes disse que a misericórdia divina se manifesta das formas mais extraordinárias e inesperadas... Assim foi comigo nessa hora. Imaginem que eu ficara todo sepultado... menos os pés... os meus pés calçados com umas grossas botas!

Um oh imenso, de alívio, em coro, soltou-se do peito de todos os rapazes, tão grande como se não tivessem o padre Júlio diante deles e só por aquela revelação soubessem que escapara. Sorrindo, o sacerdote prosseguiu:

- Afinal, na aldeiazinha rasgada, partida, nem toda a gente morrera. Houvera muitas vítimas, mas a maior parte da população, graças a Deus, escapara ilesa e acudia agora aos feridos, aos que se encontravam sob os escombros, pedindo socorro. Ora aconteceu que alguém, ao passar próximo da minha improvisada sepultura, viu as minhas botas... Parece que ainda hesitou, crente de que o dono das botas já não precisava de mais nada. Mas depois, mudou de ideias... e, pedindo ajuda, com pás e picaretas... descobriu o meu corpo! Evidentemente, um corpo onde havia pouco de vida. A bastante, porém, para que eu viesse a recobrar os sentidos, alguns dias mais tarde, no hospital da vila próxima para onde aquela boa gente me fez transportar junto com outros em tanto perigo como eu... Mas enfim, tudo passou e aqui me têm, meus rapazes... - e ficou por momentos a passar a vista por todos eles, como a querer adivinhar o que pensavam, e, depois, com um sorriso comovido, acrescentou: - E agora vou dizer-lhes porque lhes contei tudo isto, nesta tarde linda como o era essa outra. Somos todos felizes hoje. E é preciso ser-se feliz conscientemente. Ser feliz como ser humano, com o corpo e com a alma e não como os irracionais, só com o corpo. Quando nos sentimos felizes, sempre que nos sentimos felizes, pensemos nos que ao mesmo tempo estão a ser desgraçados, nos que estão a sofrer todas as dores da vida... E então, ainda antes de vivermos a nossa felicidade, ergamos a Deus uma prece dupla - peçamos-lhe pelos que choram e agradeçamos-lhe a graça de podermos rir! E assim ganharemos o direito de não pensarmos em mais nada!

Houve um minuto de recolhido silêncio. Os rapazes, ensimesmados, meditavam.

E então, de súbito, o guia Júlio pôs-se de pé, num grande gesto de braços, como se quisesse afastar para bem longe cuidados e sombras.

- Rapazes, que dizem vocês a um desafio de bola?...

Ninguém disse coisa nenhuma. Levantaram-se todos e, pouco depois, era tamanha a animação e a consequente algazarra que ninguém diria haver no meio daquela juventude um homem de idade madura que sabia o que era estar enterrado vivo.

NOS cacifos, ao lado da porta do gabinete da direcção, era deposta diariamente a correspondência que chegava para os rapazes.

Os três portugueses, corações a palpitar e embora sem grande esperança de terem já carta -, seguiram as pisadas de todos os outros que sempre, antes do jantar, ali iam em bicha buscar notícias dos entes queridos.

No pequeno rectângulo de madeira marcado com o nº 43 - o número do Pedro - havia, porém, um sobrescrito oblongo, com as margens verdes e vermelhas, cores que só de vê-las fazia pulsar mais forte o coração.

A letra que nele - nele envelope... - traçara o nome dele - dele Pedro... - era bem sua conhecida: a letra irregular e arredondada da Rosinha-Mãe.

Por instantes, alheado dos companheiros, imóvel, o Pedro, irresistivelmente, apertou a carta nos dedos... Depois estreitou-a, com a mão espalmada sobre ela, de encontro ao peito, longa, longamente...

Era na verdade como se o rapazinho estivesse a abraçar toda a sua família distante e visse, luminosos, risonhos, a contemplarem-no, os olhos da Ana e do Rumané.

Os dois amigos, Paulo e Fernando Vasco, discretamente, afastaram-se, julgando que ele queria ler a carta ali mesmo. Mas enganavam-se.

O Pedro não tinha pressa de entrar em contacto com os seus. Esperava, prolongando o prazer que lhe dava a certeza de boas novas, o momento de estar completamente só com esses de quem tinha reais saudades.

Lado a lado, foram andando, os três, pelo corredor fora.

Estranhando a atitude do companheiro, o Fernando Vasco perguntou, de súbito:

- Tu não lês a tua carta?

Pedro sorriu.

- Logo, no meu quarto.

O outro insistiu, sem perceber:

- Mas vai, vai, não faças cerimónia!

Então o rapaz aquiesceu.

- Se vocês não se importam...

Claro que eles não se importavam, antes pelo contrário, compreendiam perfeitamente...

Viram-no desaparecer para além da porta do quarto, como um sonhador que pode entre as mãos agarrar os próprios sonhos. E voltaram para trás, contentes de o saberem contente.

Não ficaram desamparados. Karl e Luís Pastor apareciam providencialmente a convidá-los para uma partida de pingue-pongue até o jantar. E enquanto eles mediam forças num jogo de importância internacional - no dizer de Paulo - Pedro, estendido em cima da cama, como que ouvia, através das palavras escritas, a doce voz da mãe a falar-lhe...

«Meu querido

A viagem está a decorrer o melhor possível.

O teu pai, a meu pedido, abdicou de estultos e preocupações durante estes dias e, pela, primeira vez desde há longos anos, vejo-o realmente e completamente em férias. Parece-me tu em ponto maior, de calças brancas e camisola de algodão amarelinho-canário (vê que fantasia!), toda a santa manhã vagueando pelo convés ou lendo um policial (de categoria duvidosa...), estirado numa grande cadeira muito bem forrada com almofadas. De tarde, dorme a sesta e volta ao remanso da perna estendida. À noite, impecável, de «smoking» (azul-escuro, à moda), depois da Ana se deitar, faz-me uma tal corte que já lhe disse que me queixo ao filho (o que estou a fazer)...Ah, meu Pedrinho adorado, como Deus quis que eu fosse feliz! E como eu gostava de fechar esta minha felicidade, intacta, dentro de três caixinhas e entregar depois uma caixinha a cada um dos meus filhos, com esta recomendação expressa: - aproveitem-na o melhor possível!

A Ana anda bem disposta e atrevo-me, sem acreditar na cegueira da vaidade maternal, a afirmar que a tornar-se cada vez mais bonita. Os 13 anos vão ficar-lhe lindamente! Teve a sorte de encontrar a bordo gente da idade dela, o que lhe proporciona na piscina uns banhos divertidos e umas tardes, com jogos vários, muito engraçadas. No entanto, às vezes suspira, de olhos perdidos no horizonte todo azul. E eu julgo adivinhar que ela pensa (e pensa mesmo!) que tudo seria ainda muito melhor se tivesse aqui os irmãos...

Aliás, comungo inteiramente da opinião dela. Mas não me atrevo a dar forma concreta a este pesar secreto, porque julgo o nosso Rumané encantado da vida em São Boaventura, com os avós, os tios e o Arturito, e a ti, meu amor, bem satisfeito no colégio com que tanto sonhaste, num mundo novo com amigos velhos.

Escreve-nos sempre que tenhas um bocadinho livre. Lembra-te, meu filho, que as tuas notícias são para nós como... olha, como um perfume delicioso a culminar uma formosura absoluta. Entendes, não é verdade?

Tocamos logo em Cabo Verde, onde deitarei ao correio esta carta, esta carta em que, acima de tudo, te digo: sê feliz, meu pequenino, e aproveita a alegria completa dos teus ainda recentes dezasseis anos.

Diz ao Paulo e ao Fernando Vasco que contamos com a equipa portuguesa a honrar, no Reichvater, o nome da Pátria,!

A Ana acaba de vir aqui à sala onde estou - e que linda sala! - espreitar por cima do meu ombro. E quando percebeu que a carta era para ti, dobrou-se e beijou o papel. Agradece como puderes.

Da tua, mãe, que pede a Deus por ti

Rosa Maria

 

O Pedro poisou a carta ao lado dele e ficou quieto. Os seus olhos, rasos de lágrimas - mas lágrimas onde não havia a mínima amargura viam correr no tecto, como se este fora um écran onde passasse um filme maravilhoso, todos aqueles que amava, desempenhando belas cenas em que os protagonistas se encontravam ligados por uma comunhão perfeita que era a verdadeira ventura.

Assim enfronhado todo inteiro, alma, nervos e sensibilidade, na visão dulcíssima, as pálpebras foram-se-lhe cerrando e o Pedro, sem dar pela transição, entrou no mundo dos sonhos...

Enquanto ele dormia - um sono que aliás não seria muito longo - o Fernando Vasco e o Paulo, tendo acabado, empatados com o alemão e o brasileiro, duas partidas de pingue-pongue, haviam ingressado num grupo maior que, sentado na enorme varanda à qual davam acesso numerosas portas (entre as quais as da sala de jantar) conversava. Conversava, não. Um falava e os outros ouviam. Quem falava era o Jean-Paul.

Criado, desde pequenino, longe da mãe, longe do pai (divorciados e solicitados ambos pelos seus afazeres e interesses diversos) o francesito passara de colégio para colégio, numa fiada ininterrupta. Nalguns estivera bem. Noutros, evidentemente, muito mal. Tinha assim, para um garoto de catorze anos, um número invulgar de recordações. E era justamente uma dessas recordações que ele agora contava aos companheiros, atentos.

Estivera internado durante dois anos num colégio duma cidade do sul da França - um bom colégio que acabara por lhe haver morrido o proprietário e a casa, em obediência ao valor do terreno, ter sido vendida para partillhas. Quando chegavam as férias grandes, os alunos que possuíam famílias normais sob todos os pontos de vista, partiam para junto delas. Os outros, os pequenos deserdados, não do dinheiro, mas do amor, ficavam no colégio. Ele, Jean-Paul, era um desses.

Mas o director e dono do Collège du Midi, o dr. Lebrun, debruçando-se caridosa e atentamente para os rapazes que lhe ficavam entregues, com muito menos preocupações e, portanto, mais tempo livre para lhes prestar a assistência necessária, arranjava uma casa na praia ou no campo, para onde partia com o seu grupinho. Naquele ano, tinham ido para o campo, justamente. Alugara o rés-do-chão duma casita rodeada por uma quintarola onde havia uma pequena piscina que fazia as delícias da pequenada e uns pessegueiros maravilhosos - carregadinhos! - que não constituíam atracção de menosprezar. O pior fora que o Dr. Lebrun, por imposição do dono da quinta, que habitava no primeiro andar, se comprometera a não tocar nos produtos da terra. Assim, os apetitosos frutos eram proibidos e, logicamente, por serem proibidos, ainda mais tentadores...

Por melhor fruta que aparecesse na mesa, os rapazes andavam aguados, suspirosos dos pêssegos interditos... E tanto suspiraram, que o desejo venceu o bom-senso e o ardil apareceu... Um belo dia os mais velhos do rancho fizeram uma combinação. Escolheram uma das árvores mais distantes da casa e decidiram sacrificá-la à sua gula... Que diacho, o senhorio que não fosse forreta!... Que prejuízo teria em dar um pesseguito a cada um deles?

Para não despertarem as suspeitas do homem - um velhote mal-humorado - que todos os dias, da janela, sofregamente inspeccionava os pessegueiros, tiveram uma ideia luminosa... Cada um deles comprou, numa lojeca próxima, dois pucaritos de barro vermelho - por acaso os pucaritos eram uns amores!

Possuidores dos pucaritos, trataram de pensar na melhor forma de realizar a operação premeditada. Havia que permanecer por algum tempo debaixo duma das árvores...

Como lhes permitiam brincar à vontade, decidiram fazer campismo durante uma tarde e trataram de armar uma das pequenas barracas que possuíam mesmo por baixo do pessegueiro que tinham escolhido entre os mais distantes. O senhorio, evidentemente, não podia impedi-los de se divertirem como lhes aprouvesse. Não fazia parte do contrato... No entanto, desconfiado sem saber porquê nem de quê, o velho somítico, nas primeiras horas do cometimento, praticamente não abandonou o seu posto de observação... E nessas primeiras horas, claro está, nada aconteceu de extraordinário...

Então, sem dúvida tranquilizado quanto às intenções dos rapazes, ele lá acabou com a vigilância...

E na realidade, quando reapareceu à janela, os seus ricos pessegueiros - incluindo aquele sob o qual fora armada a tenda - continuavam exactamente como antes: impantes da sua carga deliciosa.

Dois dias passados... fora um escândalo!

O velhote aparecera aos gritos diante do senhor Lebrun, a apresentar queixa formal.

Acontecera que, ao apanhar da fruta que ele fornecia para um hotel próximo, um dos pessegueiros apresentara, em vez de pêssegos, um produto de nova e nunca vista qualidade - pucarinhos de barro!...

O senhor Lebrun, contendo o riso, esforÇou-se por convencer o indignado proprietário de que não ficara lesado, pois os pucarinhos serviam maravilhosamente de cálices de licor... rústicos, claro está! E para lho provar, ofereceu-lhe uma garrafa intacta dum excelente vinho: o Muscadet. Os rapazes divertiram-se imenso e ainda mais quando verificaram que não eram repreendidos. No entanto, nesse dia e no dia seguinte, não tiveram sobremesa a nenhuma das refeições. O senhor Lebrun não deu qualquer explicação do facto. Os rapazes também não fizeram o mais pequeno comentário. Talvez, no fundo, consciências pesadas, achassem o castigo leve...

 

VINHA de longe, numa revoada de sons cristalinos, uma música maravilhosa, executada ao piano. Era Vic que tocava. Embalados pelas harmonias que vinham em ondas, os rapazes, dispersos, tagarelavam.

O assunto que os ocupava era mais ou menos comum: visava a reunião que ia haver nessa noite, embora nem todos para ela estivessem convidados. Os que iam, divagavam sonhadoramente acerca de quanto esperavam encontrar. Os que não iam, consolavam-se com a ideia de que por certo também eles deparariam com a sua oportunidade.

E entretanto rogavam aos primeiros escolhidos que tomassem bem conta de tudo o que se passasse para depois lhes contarem.

A certa altura, esbaforido, apareceu Jean-Paul Mignonet, percorrendo os grupos e dando uma notícia com ar de quem estava a desempenhar-se duma incumbência sensacional.

- Eia, meninos! - ia clamando. - Chegou Sua Majestade! Chegou Sua Majestade!...

Alguns não lhe prestaram a mínima atenção. Mas outros interessaram-se. Entre estes, Luís Viegas Pastor.

- Eh!... Qual Majestade?

E Jean-Paul, tão orgulhoso como se uma coroa lhe assentasse na cabeça, tomou atitudes, proclamou:

- Ora essa! O futuro rei de Ichanapan!...

- Que é isso de Ichanapan? - indagaram várias vozes.

E o francês, com o mesmo ar:

- Vocês são uns ignorantes! Ichanapan é um pequeno reino cravejado de oiro, pérolas e esmeraldas, que fica algures na Índia... um daqueles reinos das mil e uma noites, que a gente não sabe situar no mapa mas que nem por isso deixa de existir e de passar perfeitamente sem o nosso conhecimento...

O Fernando Vasco observou:

- Então trata-se dum autêntico marajá?!...

- Dum marajazinho... - retorquiu Jean-Paul. E no meio de risos gerais, explicou: - É mais baixinho do que eu...

Os rapazes mais próximos principiaram a dar atenção à novidade. A presença, no colégio, de um rei oriental, mesmo em ponto pequeno, causava-lhes uma certa impressão... E não tardou que na conversa deles surgissem as mais extraordinárias evocações e os mais portentosos projectos.

Alguns, muito imaginativos, viam-se já amigos íntimos do marajá, convidados para a sua corte, montando um elefante recamado de pedrarias e tomando parte numa emocionante caçada ao tigre.

Mais ou menos, não havia ali nenhum que não tivesse lido arrebatadoras descrições de aventuras desse género. Contavam-se, entre eles, fervorosos admiradores de Salgari. E os nossos portugueses eram precisamente dos que, na época própria, se haviam sonhado Sandokans e Gastões... Assim, os três amigos não ficavam para trás nas conjecturas, antes pelo contrário. Um após outro, iam desfiando um rosário de quimeras que aos ouvidos dos circunstantes soavam como um novo romance empolgante...

Estavam eles muito entretidos quando, de súbito, Jean-Paul chamou a atenção dos companheiros para um grupo que se aproximava, constituído pelo director, «Herr» Schmidt, e três rapazinhos, baixos e delgados, de pele cor de azeitona e traços finos. À primeira vista, pessoas vulgares, sem nada - mas absolutamente nada! - de extraordinário.

A presença do director determinou que os alunos, claro, se pusessem de pé, respeitosamente. «Herr» Schmidt sorriu-lhes amigavelmente e pediu-lhes que o cercassem. Depois, envolvido, centrado, com os três recém-chegados na frente dele, apresentou-os aos outros. E fê-lo num tom claro, sem sombra de lisonja - embora talvez nas suas entoações palpitasse uma pequenina vibração de orgulho - essa mesma que timbra a voz dum pai quando aos amigos fala das qualidades e dos êxitos dum filho. De certo modo, o Reichvater era filho do prof. Schmidt a quem devia, pelos seus esforços, pela sua visão esclarecida, pela sua competência, pela sua inteligente direcção, a sua consagração como escola. Na realidade, ver o Reichvater escolhido para abrigar o jovem príncipe satisfazia-o, não propriamente pela hierarquia deste - aos olhos de «Herr» Schmidt os rapazes eram todos irmãos!

- mas porque se tratava dum futuro condutor de homens, um chefe de cujo saber, espírito de justiça e humanidade viriam a depender só Deus sabia quantos destinos! E por esse futuro chefe, por esse futuro grande guia, ele podia interessar-se, procurando pelo menos ajudá-lo a assimilar as suas ideias de amor por todos os homens em geral.

Foi isto, mais ou menos, o que o prof. Schmidt disse aos rapazes, apresentando-lhes o que um dia viria a ser o marajá de Ichanapan. E mais pediu: que todos colaborassem na recepção aos recém-vindos (atrasados na sua viagem por uma panne do avião que os trouxera da sua pátria longínqua).

Todos os que estavam juntos tinham podido estabelecer já uma frutuosa convivência. Tratava-se agora de ajudar o príncipe e os seus companheiros a adaptarem-se - o que porventura não seria muito fácil.

Era a primeira vez que Ma-hur e os companheiros - Bindar e Sudra, filhos dos primeiros ministros do marajá Ahum-Kem - saíam da corte de Ichanapan. E o único ponto a favor de uma aproximação residia no facto de os três orientais falarem quase correctamente o inglês, o francês e o alemão.

Aliás - fazia-o notar o prof. Schmidt com insistência - desejava que todos soubessem, tanto os que estavam como os que chegavam, que o príncipe e os aios eram no Reichvater alunos como outros quaisquer, sujeitos às mesmas leis e às mesmas regras. Cabia aos rapazes, sem excepções, cooperar, agir com simpatia e cordialidade, de modo a que uma verdadeira camaradagem se estabelecesse sem olhar a fronteiras. Que eles fizessem quanto estivesse ao seu alcance, e dessem um exemplo, mostrando que a diversidade das raças não impede a compreensão e a amizade entre os homens.

Quando, por fim, o prof. Schmidt se retirou, os rapazes sentiam-se animados do melhor espírito de solidariedade. Parecia-lhes facílimo tornar desejos em realidades e acreditar que nada impediria a aproximação antevista e apetecida.

Espontaneamente, de vários lados, alguns rapazes acenaram ao príncipe e seus companheiros, convidando-os a instalar-se entre eles, à vontade. Outros ergueram-se e foram estender-lhes a mão. Os portugueses, simpáticos como sempre, entre estes.

De longe, continuavam a chegar, em catadupas, os sons maravilhosos da inspirada música de Vic.

Agora, no meio dum círculo, Ma-hur, Bindar e Sudra, esfíngicos, pareciam ignorar as mãos que se lhes ofereciam. Era como se não vissem nem ouvissem, ou não entendessem o que viam e ouviam.

Dir-se-ia, se não fora trocarem a meia voz entre si frases rápidas, absolutamente incompreensíveis, que tinham sido transformados em estátuas de pedra. Nos seus rostos crispados, havia uma expressão dura... ou talvez desdenhosa.

Pedro, Paulo e Fernando Vasco, que eram precisamente os que estavam mais próximos deles, miraram-nos com espanto primeiro, depois com desagrado. E em português, tão ininteligível para os orientais como a língua deles para os lusitanos, o Paulo exclamou, alto e bom som:

- Cooperação!... Puf!... Quem é que pode cooperar com uns tipos assim?... Parecem ostras cheias de pérolas... mas fechadíssimas!... O Pedro, que olhava para os outros a direito, observou:

- Realmente, isto é muito desagradável e, para eles, muito mais do que para nós! Com este ar de sultões, na terra deles talvez nos amachucassem. Mas aqui não lhes adianta. Acabam por sentir-se infelizes.

Fernando Vasco também deu a sua opinião, desfavorável como a dos outros.

- Se o principezinho não viesse escoltado, era melhor para ele... Acabava por se entregar ao nosso convívio. Assim, não vejo maneira!

Já atrás deles soava a voz de Luís Viegas Pastor que, sempre comunicativo, se aproximava também.

- Na verdade, vai ser custoso estabelecer contacto! Vocês vão ver que ele há-de andar sempre no meio dos outros dois, passando por nós como se não nos visse!

- Mas, sendo assim, para que havia de vir para o Reichvater?

Viegas Pastor continuou a falar - e não se podia dizer que não fosse curiosa a forma como os dois pequenos grupos, no meio da expectativa geral, frente a frente, trocavam impressões em idiomas para os outros todos completamente estranhos:

- É vulgar, os que mandam lá nessas terras, os que sentem pesar-lhes nos ombros encargos e responsabilidades, quererem que os filhos se aproximem duma civilização mais humana. Mas os novos, os que principiam, ignorantes das realidades, sem suspeitarem dos dramas, recomeçam a pisar o caminho errado dos convencimentos inúteis, até um dia caírem definitivamente no mal antigo... Depois, querem remediá-lo, debatem-se com problemas sem solução, e decidem que os novos, os que lhes vão suceder, mudem de rumo... E os novos repetem os passos perdidos dos seus maiores... - e, sorrindo, concluiu: - Isto é o que o meu pai costuma explicar-me.

Os portugueses, olhando o pequeno príncipe isolado no meio dos aios, almas aparentemente duras como diamantes, reconheciam que o pai de Luís devia ter toda a razão!

Que pena não ser possível orientar as pessoas no momento em que elas estão diante de esperanças, e não de arrependimentos!

As harmonias de Vic continuavam a chegar e os rapazes, embora sem disso terem plena consciência, iam-nas recebendo nos corações como uma dádiva que era de todos, sem horizontes nem limites.

De repente, o Pedro, para o Paulo, o Fernando Vasco e o Luís, disse com um ar inspirado de cujo alcance profundíssimo ele talvez nem tivesse a exacta percepção:

- Vic há-de ser muito mais rei do que este indiano. O génio dele há-de triunfar do tempo e das fronteiras. E nisto é que está a verdadeira grandeza!

 

OS portugueses procuravam dominar a situação... e a emoção.

Nenhum deles era o que podia chamar-se tímido - nem a timidez pode considerar-se traço forte do carácter lusitano. No entanto talvez a própria ânsia de fazer figura os tolhesse um tanto e inibisse de tomar lugar de relevo durante a primeira hora.

Aliás, a festazinha tinha um carácter muito mais lato do que eles imaginavam. Se do Reichvater estavam apenas doze representantes, somados com outros tantos do Grande Moderno Colégio e uma boa porção de rapazes que não tinham qualquer ligação com nenhum dos internatos, perfaziam uma boa conta.

O burgomestre, em casa de quem sempre se iniciavam as reuniões, tinha ideias absolutamente assentes acerca da educação moderna e dava-lhes forma, concretizando-as através duma acção inteligente e profícua para a qual havia conseguido numerosos e valiosos adeptos.

Homem de certa idade, ainda vigoroso de aspecto e infinitamente agradável no trato, «Herr» Robert Sttan exemplificava as suas teorias.

Quanto a ele, não era afastando raparigas e rapazes duma convivência devidamente preparada e orientada que se pode melhorar o futuro da sociedade, fomentar o espírito da camaradagem ou estimular o respeito mútuo.

Dos princípios de Robert Sttan faziam parte uma bem cuidada orientação e uma discreta vigilância. Ele não abandonava a juventude. Circulava pelo meio dela. Não, porém, com o ar investigador, severo, do homem sempre pronto a repreender, a castigar, mas sim com o aspecto dum rapaz irmão dos mais, disposto a comparticipar das suas alegrias e das suas preocupações.

A presença dele era como o fiel duma balança, como a base dum equilíbrio do qual dependia a satisfação e a segurança de todos.

Os chefes das principais famílias da região, comungando nas admiráveis ideias do presidente do seu município, com ele se solidarizavam para que a gente nova usufruísse em felicidade as suas festas.

E todos cuidavam de velar com tanta categoria que as suas presenças se tornavam como que necessárias à alegria e à boa disposição reinantes. Raparigas e rapazes sentiam-se amparados, compreendidos. Percebiam que os mais velhos não desconfiavam deles; queriam apenas ajudá-los a adquirir uma preparação cuidada e preciosa. Assim, tornados confiantes, não procuravam isolar-se com o ar cúmplice de quem tem algo para esconder. Não havia segredos entre eles. Nem conversas ocultas. Nem risinhos intencionais pelos cantos.

Todos ali tinham um fito único - fazer compreender a ambos os sexos que Deus os pusera no mundo para serem amigos como irmãos. Preparavam-se as raparigas para achar natural a existência dos rapazes. Preparavam-se os rapazes para achar natural a existência das raparigas. Uns e outros aprendiam a conhecer-se, conversando sem ideias reservadas, nem avançadas... nem retrógradas.

Havia que obstar a namoricos precoces e inúteis, que destruir aspirações romanescas e tendências excessivamente realistas, que impedir inclinações mórbidas e prejudiciais. Procurava-se, com lucidez e dignidade, obter uma mocidade consciente, capaz de viver os seus mais legítimos direitos sem criar problemas nem para si nem para os outros. Ali, entre toda aquela gente devotada a uma causa magnífica, pretendia-se que a palavra amor fosse revestida de pureza, de solenidade, da verdade que deve defini-la para a impor com o valor imenso que realmente possui.

A campanha estava entregue a pais e a professores. Todos cooperavam para conseguir que os novos, conhecendo-se, estimando-se, achassem natural a aproximação lógica que lhes era facultada. Tão lógica e natural que a conversa entre um rapaz e uma rapariga pudesse afigurar-se-lhes normal como se fora travada entre rapaz e rapaz ou rapariga e rapariga.

Estava ainda presente - sempre presente! na memória de todos, a sensacional conferência que o burgomestre fizera, ao iniciar o seu movimento a favor duma juventude mais vítima do que culpada, uma juventude sem preparação que se vira, num mundo perturbado e em ruínas, entregue a instintos e erros por alheamento e egoísmo dos responsáveis.

Dessa conferência, muitas passagens se tinham tornado célebres e eram evocadas frequentemente.

Robert Sttan dissera:

«Compreendendo-se, trocando impressões, sabendo-se possuidores da legítima fé dos seus maiores, raparigas e rapazes podem vir a conhecer o valor precioso da verdadeira amizade.

«Esclarecidos sadiamente quanto à forma de ser moral das raparigas, o rapaz aprenderá a seleccioná-las e a eleger por fim em seu coração, sem temor de logros, a companheira fiel

que há-de adorar, venerar, respeitar - guia do lar, fiel depositária das virtudes da raça e da ventura da família. Da mesma forma as raparigas aprenderão a atribuir ao elemento masculino o seu justo e real valor, sem ideias preconcebidas e falsas que nos espíritos ingénuos mais não fazem que despertar suspeitas infundadas, ideias ambíguas e impossibilidade de adaptação futura.»

Dissera ainda mais coisas que não podiam nem deviam ser menosprezadas, aquele homem esclarecido e bem - intencionado. Dissera-as e dizia-as muito amiúde, buscando adeptos, procurando espalhar, alargar o raio de acção dos seus ideais.

E eram sempre palavras sábias as que da sua boca saíam:

«Há que recriar a juventude, ou antes, voltar a criá-la, sinceramente, afectuosamente, preparando-a para uma vida que tanto quanto se modificou, evoluiu e transtornou, assim exige mais compreensão humana, mais dignidade e maior respeito pelos outros e por si próprio.

«Há que ensinar à mocidade que os caminhos da vida, os que lhe dão sentido, verdade e justificação, são espirituais e não físicos.

«Há que dizer principalmente às raparigas que elas não valem pelos seus lindos olhos mas pelas suas belas almas. E que ensinar-lhes o preço da honorabilidade.

«Há que mostrar-lhes o sol da existência, sem o qual essa mesma existência não se erguerá do chão, não vicejará, não frutificará.

«Há que dizer às raparigas que elas não ficam para sempre raparigas. Passam a mulheres, atingem a maturidade, perdem a frescura e chegam a velhas. De si mesmas, do que tiverem sido, dos seus traços de meninas, conservarão apenas, para sempre, imutável, a realidade espiritual. Ficam o carácter e a alma, que atravessam o tempo incólumes. Por tudo isto, as rapariguinhas, ao entrarem na idade das ilusões, devem ser cuidadosamente guiadas e preparadas. E para as guiar e preparar não há que esconder-lhes mundos, que proibir-lhes a claridade, que levantar diante delas barreiras de ignorâncias e desconhecimentos capazes de impedirem a vista dos barrancos e de as deixar, se algum precipício lhes surgir diante, completamente à mercê do perigo.

«É preciso conversar com as raparigas. É necessário que elas tenham por si mesmas o maior respeito e que, mercê desse mesmo respeito, saibam impô-lo aos outros.

«Evitar que as raparigas e os rapazes destinados por Deus que os criou a acompanharem-se - convivam e se aceitem com naturalidade, com a naturalidade da própria inocência, é empurrá-los para as piores consequências da ignorância, é levantar diante dos olhos puríssimos uma nova árvore do mal e espicaçar em cada um deles o desejo de saber porque são proibidos os frutos ao seu alcance, A pergunta vem dos princípios da vida; a interrogação erguida na frente de tudo o que há, começa a martelar na inteligência dos homens quando são ainda crianças. Os meninos de três anos indagam sem cessar: Porquê? Porquê? Porquê? E é preciso responder honestamente a estes porquês.

«Entregar a juventude a si própria, sem a ajudar, sem a amparar, sem a esclarecer, é um erro da maior gravidade. A juventude requer, exige, uma preparação cuidadosa. Se nos liceus e nas faculdades busca a instrução, no amor e na experiência da vida dos mais velhos tem de vir colher toda a ciência, toda a cultura que são essenciais para a sobrevivência no mundo em que tudo falhará se não houver mais que um diploma de estudos superiores.

«Toda a gente tem obrigação de pensar nisto e de estender a mão aos novos, auxiliando-os sem pensamentos reservados. Tão-pouco, ao ajudá-los, os deve apertar ou forçar de modo a que os magoe...

«Há que dar aos rapazes de hoje, homens de amanhã, a exacta noção da honra, dos seus direitos e dos seus deveres. Sim... o homem não tem apenas direitos! Tão importantes como estes, existem os deveres!

«Há que obrigar os rapazes a considerar que as raparigas não têm valor apenas porque são agradáveis à vista. Há que exigir que os rapazes respeitem qualquer rapariga como um dia quererão - quando Deus lhes confiar a missão de por sua vez serem chefes de família - que respeitadas sejam as suas filhas.

«Raparigas e rapazes não são mitos. São criaturas de Deus postas na terra para acima de tudo honrarem a sua Humanidade - suprema obra da criação!»

Era esta a tarefa a que Robert Sttan e os que nele confiavam se haviam dedicado, procurando exaltá-la, naquela noite como em todas as circunstâncias, desde há bastante tempo, desde que homens conscientes se tinham assustado com a baixa do nível moral de gerações moças e abandonadas.

O burgomestre e os seus amigos, com dedos hábeis de escultores geniais, moldavam a massa doce e agradável da juventude em flor que os rodeava!

E era vê-los, raparigas e rapazes, de mãos dadas, dançando ou aprendendo a dançar, danças de roda, bailes regionais à mistura com danças internacionais, uns cantados a plenos pulmões, outros atirados ao ar por um gira-discos tão incansável como a gente nova!... E tudo isto conduzido por Robert Sttan e pelos seus correligionários... entre os quais o prof. Schmidt, o padre Júlio, mais dois senhores gordos, um senhor calvo, três senhores magros, um outro muito alto, e as esposas de alguns dos cavalheiros... E todos comungando da mesma extraordinária e excelente disposição, comunicativos, felicíssimos!

Sentia-se que naquela casa a alegria de viver não tinha só um dono. Era uma dádiva do Céu e pertencia a todos igualmente. E todos a aceitavam e faziam os possíveis por merecê-la! Para Pedro, Paulo e Fernando Vasco o ambiente, novo, diferente, singular, era, até certo ponto, impressionante.

Rapazes perfeitamente educados, bem dotados, inteligentes, cultos para a idade, belos e desembaraçados, podendo evidenciar - se entre quaisquer uns, estavam diminuídos pelo espanto. A sua nenhuma preparação deixava-os, em relação aos demais, como provincianos numa grande cidade à hora do maior movimento.

Que sabiam eles, de facto, de camaradagem, de convivência, de fraternidade entre raparigas e rapazes?

Alunos de colégios exclusivamente masculinos, colégios onde a presença feminina estava interdita às próprias professoras; onde a disciplina rígida defendia quaisquer sugestões de festas, como aquela a que estavam assistindo, tal qual se fazem cruzes ao demo; onde nas récitas os rapazes vestiam travesti para os papéis de meninas - e nada disto diminuía a excelência dos moldes de ensino propriamente ditos que haviam presidido à formação desses mesmos colégios - sentiam-se como peixes fora de água.

Nada sabiam, realmente, acerca do mito rapariga. Ou antes - tinham acerca do mito rapariga ideias que chegavam a tocar o absurdo. Para eles, com esses seres bonitos, caprichosos, perigosos e até ridículos, só se podia conviver chegando à fala através duma declaração de amor...

Para os três portugueses, a palavra rapariga era sinónimo invariável da palavra namoro...

O Fernando Vasco, um pouco mais velho do que os outros, educado em maior liberdade - basta que até muito tarde não tivera a dirigi-lo a mão experiente dum pai - gabava-se de contar pelos dedos das duas mãos os seus namoros... E descrevia frequentemente as esperas, à saída dos liceus femininos, de rapariguinhas mal-educadas; uma ou outra ida fraudulenta ao cinema com meninas sem preparação moral nem equivalência espiritual; os bilhetinhos trocados com algumas cachopitas que não sabem o mal que estão a fazer a si próprias e às outras - criando os falsos conceitos masculinos de que mais tarde todas sofrerão as consequências! - E estas descrições, espicaçando a curiosidade dos outros, mais lhes radicavam nos espíritos as erradas convicções.

Assim, tanto o Pedro como o Paulo achavam que seria para eles extremamente vexatório sair dum baile sem namorada...

E, absolutamente errados, dentro do meio em que se achavam, os três rapazes, encostados a uma parede em atitude contemplativa, muito vulgar entre os portugueses, cochichavam, tinham risinhos estúpidos, trocavam sinais e apreciavam as mocinhas que folgavam despreocupadamente.

Nenhum deles suspeitava de que, por sua vez, estavam sendo alvos duma cuidada observação...

Tão entretidos se encontravam que se sobressaltaram quando uma voz repentinamente soou a dois passos, inquirindo:

- Que fazem vocês aqui pasmados?

Todos gaguejaram; nenhum respondeu. Então o padre Júlio - pois era mesmo ele - deslocando-se, colocou-se-lhes na frente e olhou-os a direito, um por um, como se estivesse a querer ler-lhes os pensamentos, a perceber o que havia dentro das almas puras que naquele instante algo manchava. E, como se de facto possuísse o condão de adivinhar, não tardou em dizer, com a expressão clara e exacta da verdade:

- Escutem, meus filhos. Aqui, raparigas e rapazes são todos irmãos! Irmãos verdadeiros!

Os portugueses, corados, baixaram as cabeças.

Mas ainda tinham muito que aprender...

 

ANY - tranças loiras e fartas, olhos azuis e alegres, riso jovial e franco, roliça e airosa, sobressaía entre todas as outras.

Não havia na rapariguinha nada de artificial, nada que não fosse espontâneo e irradiante e, por isso mesmo, era incontestavelmente a mais bonita, das moças presentes.

O Pedro, passado o primeiro instante de embaraço, de confusão, ante a advertência do padre Júlio, foi pela visão de Iiany que principiou a retomar consciência de si próprio, descendo do mundo imaginário para o real - bem mais agradável do que tudo.

Agora estava só. Os dois amigos tinham reagido também, cada qual à sua maneira. O Fernando Vasco saíra da sala e, de óculos escuros subitamente colocados, passeava, vagueava no terraço que se abria diante do chalé, pela certa perdido em cogitações, infinitamente desdenhoso do meio que o cercava, sentindo-se distante, incompreendido, a recalcar um imenso desejo de esmagar os «bárbaros» com a sua futura superioridade.

Paulo, defendendo-se melhor contra a morbidez das obsessões, ingressara no meio. Talvez por ser o mais simples dos três. Fora ter com Karl, que o acolhera tal e qual como se se tivessem separado apenas há cinco minutos - natural, franco e sem expansões.

Agora, numa roda enorme, rapazes e raparigas - e Paulo com todos eles - passavam de mão em mão, pulando, cantando a plenos pulmões.

As tranças de Iiany, saltando com ela, presas da mesma alegria, mudavam-se das costas para o peito e do peito para as costas, numa exuberância frenética... E o Pedro, imóvel, como que fascinado, não tirava os olhos das tranças, que nunca paravam quietas... A roda acabou finalmente. As pessoas grandes serviram copos de refrescos que todos queriam e bebiam com prazer.

E agora, no gira-discos, nova música principiava - um blue -, no intuito evidente de dar um descanso - relativo! - aos bailarinos. Pedro moveu-se enfim.

Apertando o casaco, com o seu arzinho distinto, foi direito a Iiany, que ria num grupo, e inclinou-se diante dela, a convidá-la para dançar. A garota não pareceu nem surpreendida nem interessada. Aceitou, pura e simplesmente. Pedro enlaçou-a e ela, com o ar mais natural deste mundo, ao pôr-lhe a mão no ombro, perguntou-lhe se era espanhol. Ele não sorriu. Estava muito sério, talvez um tudo nada perturbado - com sinceridade.

Excepção aberta, claro está, para a Ana, o Pedro nunca conversara a sério com nenhuma rapariga. E a Ana, evidentemente, como irmã que era, não servia nem de índice nem de revelação. A Ana, já se vê, era para ele como o Salta-Pocinhas. Fazia parte de si mesmo, do lar, das coisas boas, simples e essenciais da vida - portanto sem problemas... e vá, sem

interesse.

A Ana não tinha amigas. No colégio deles, não havia raparigas. Assim, ficava-lhe, como tipo feminino demonstrativo, a Lili do 3º andar, a filha do sr. dr. Juiz. E que tipo!... - Presunçosa, sempre a atirar para trás as repas dos cabelos desgrenhados, a bater com os saltos no chão, escada acima, escada abaixo, para mostrar que já os usava... A Lili servia tão pouco de exemplo como a embirrenta menina da Quinta-Maior, lá em Penarim. Nenhuma delas inspirava nem simpatia nem respeito, logo... que maus indicativos dum género!

O Pedro, quando aprendesse que a jovem alemã, como tantas e tantas outras raparigas, fossem elas de que nacionalidade fossem, nada tinha de comum com as suas conhecidas - mal conhecidas! - Lili e Luisinha, havia de ficar seriamente espantado!

Como não respondera ao quesito formulado, Iiany, pensando que ele por certo não entendia alemão, repetiu-o, desta vez em francês - um francês hesitante, carregado nos sons, mas perfeitamente compreensível:

- Êtes-vous espagnol?

A língua do Pedro desatou-se, libertando-o do nó na garganta que tanto o incomodava.

- Non. Je suis portugais.

Ela abriu mais os olhos, com uma tal expressão de estranheza que dir-se-ia Portugal ficar situado, não rentinho à Espanha, mas noutro planeta...

O rapaz imaginou que ela nunca teria ouvido falar de Portugal.

- Connaissez pas?...

Mas o lindo rosto de Iiany passara já a expressar, substituindo o espanto, uma emoção que ela não tardaria a explicar.

- Conheço, sim...

E então, numa mistura de alemão e francês, contou que sempre ouvira falar muito desse joli pays.

O disco terminara.

Ia começar uma dança regional, comandada pelo próprio director do Reichvater. Um dos rapazes tocava harmónio e os pares, em fila indiana, batiam palmas a marcar o compasso.

Iiany e Pedro afastaram-se, foram sentar-se no peitoril duma das janelas, abertas de par em par.

E a conversa, que se afigurava difícil, foientabulada.

Aquela palavra mágica - Portugal! - com todo o sol esplendoroso da pátria distante, fundira o gelo da timidez desconhecida e derramava-se por sobre a alma de Pedro, que se pôs também a tagarelar num dialecto franco-alemão.

- Então ouviu falar muito da minha terra?

- Muito!

- Bem ou mal?

Os olhos de Iiany brilharam ainda mais.

- Bem! - E explicou: - Tenho uma prima que viveu em Portugal durante bastantes anos.

- E que é que lá esteve a fazer?

A pergunta tinha seu quê de indiscreta. Mas Pedro, no seu desejo de saber, não o notou e Iiany pareceu também não se aperceber - ou não se importar com o facto.

- A Marlène era uma refugiada. Foi para lá por causa da guerra.

De súbito, o Pedro lembrou-se de histórias antigas, nem sempre ouvidas com atenção, mas, de quando em quando, presentes em livros e filmes bem-intencionados.

Os horrores da guerra! Guerra, a suprema calamidade!... Crianças sem pais, sem lares, sem agasalhos, sem comida, sem futuro... e o bom velho Portugal abrindo os seus braços de avô cheio de ternura e de compaixão, arranjando lugar para todos na sua modesta casa franca, acomodando os filhos a fim de arranjar espaço para os «sem-nada»...

Crianças e crianças que chegavam aos milhares, de comboio e de barco, confiadas à guarda de almas caridosas, entregues à boa gente que as acolhia como se fossem da própria família, mas cujo olhar turvo dificilmente reflectia a luz que as rodeava. Crianças marcadas na alma a ferro e a fogo...

Cheio dum interesse verdadeiro, Pedro rogou:

- Conte!...

A pequena, numa voz pausada, procurando explicar-se o melhor possível, começou a narrativa.

- A minha prima tinha ficado órfã de pai e mãe durante um ataque aéreo. O meu tio, o pai dela, era médico e o mais velho da família. Os outros dois tios combatiam nas várias frentes. A minha mãe, ainda muito nova e solteira, era enfermeira e estava num hospital de sangue. O meu avô, muito velhote, viu-se perdido, com a Marlène nos braços, sem saber como ganhar dinheiro para a sustentar nem como defendê-la do perigo constante. Os ataques continuavam. A morte rondava. Foi então que ele soube que a Cruz Vermelha estava a evacuar as crianças, tanto as que se encontravam completamente ao desamparo como aquelas cujas famílias procuravam pôr a salvo. Essas crianças dirigir-se-iam para um país que se mantinha cheio de calma e de bem-estar num mundo que não conheci mas, pelo que tenho ouvido contar, sei que se assemelhava a um inferno. O meu avô entregou a Marlène... e ela partiu para Portugal. Em Portugal, foi para casa duma família que vivia fora da cidade - mas não muito longe! - num palacete que ficava dentro duma grande quinta. Era a família dum advogado que tinha sete filhos. A Marlène ainda hoje conta que durante todo o tempo em que esteve com eles, naquela casa não havia sete filhos - mas oito!

E dentre os oito, se algum se via tratado como preferido... esse algum era ela mesma! A Marlène chora sempre que fala neles - e fala bastantes vezes! -, evocando a ternura dos irmãos adoptivos, a simpatia de toda a gente que a rodeava. Parece que a maior preocupação de todos residia em arranjar forma de fazê-la sorrir... - e calou-se, pensativa, rolando entre os dedos o pequeno anel que usava na mão direita. Decorridos instantes, Pedro indagou:

- A sua prima esteve lá muitos anos?

- Oito. Quando voltou, era maior do que eu agora. Já tinha os dezasseis anos feitos.

- E nunca mais lá tornou? - quis saber o rapazinho, a quem parecia estar assistindo ao desenrolar dum dos tais filmes... com bases históricas.

- Tornou, no ano passado, com o marido.

- E gostou?

- Se gostou?! Adorou rever Portugal, os seus amigos, tudo! No entanto está sempre a dizer que as boas lembranças de agora não a fazem esquecer, de modo nenhum, as maravilhosas recordações da sua infância.

O Pedro pensou que de facto há imagens que nada consegue substituir... Por exemplo, por muito bem que se sentisse ali - e sentia! nada havia que se sobrepusesse à evocação de certos dias e certas aventuras vividas nas primeiras férias em São Boaventura!... (1)

 

Nota 1: ver, da autora, o segundo volume desta série Férias Grandes.

 

Cheio de compreensão, sorriu-se para Iiany, e replicou:

- É natural!...

Logo a rapariguinha continuou, com entono vibrante:

- É por tudo o que sei, dito pela Marlène, que eu gosto de Portugal!

- E dos portugueses?

- Claro!

E o Pedro, irreprimivelmente:

- Então também vai gostar de mim? - e mal acabara de pronunciar o quesito, já se arrependia de o ter formulado, percebendo que se excedera, não nas palavras, mas no sentido oculto que lhes dera.

Iiany, porém, não vislumbrou qualquer inconveniência na pergunta e, com a mais absoluta naturalidade, respondeu apenas:

- É muito possível!

Pedro, lançado no caminho do erro, sem se deter ao rebate da consciência que o avisara muito a tempo, deixou-se embalar pela fantasia e permitiu-se supor que Iiany estava a responder de facto ao «sentido oculto» do que ele dissera... Então, deu-se mentalmente instantâneas graças pela coragem da frase pronunciada e, contente que nem ratinho diante de queijo, pôs na alemãzita uns olhos langorosos que não o favoreciam nada... Pelo contrário, o bonito rapaz de expressão inteligente, que tanto honrava a espécie humana, ficara de súbito com um ar perfeitamente imbecil...

Nesse instante, um braço enérgico, interpondo-se entre Iiany e Pedro, empurrou a pequena para a frente enquanto uma voz dizia:

- Vamos dançar!...

O dono do braço era um latagão sardento, um pouco mais velho do que o Pedro, cujas pupilas fitavam o português com um ar imensamente irritado. Iiany, ao obedecer-lhe imediatamente, pronta para o acompanhar, explicou, como se adivinhasse os sentimentos do Pedro, absolutamente desconcertado com a intervenção:

É o meu irmão mais velho, o Frank...

Pedro viu-a afastar-se, sem dizer nada. Nada tinha a dizer, aliás.

Estava longe de compreender o que o rodeava, de comungar com o meio e, para ele, tudo o que doravante pudesse acontecer iria encontrar uma explicação à sua maneira, conforme os seus ideais e os seus desejos.

Deixou-se ficar imóvel, romanticamente, a divagar...

Iiany continuava a bailar, radiante como até aí. De quando em quando, se no vaivém do baile passava pela frente do Pedro, ria-se para ele com simpatia, mostrando a fieira dos dentitos muito certos.

E o Pedro, sempre imóvel, a divagar cada vez mais romanticamente...

Decorreu largo tempo. E ele estava tão fora do mundo, tão etéreo, que não se apercebia de quanto a sua atitude se tornava reparada.

Os vigilantes não estavam ali para outra coisa senão para dar fé de todos os pormenores da situação e da conduta geral...

Mas nem só os vigilantes começavam a sentir-se preocupados com a conduta do português. Alguém mais o observava com reserva crescente, uma reserva que ia degenerando em hostilidade. Esse alguém era o irmão de Iiany...

Felizmente, o Fernando Vasco decidira voltar para a sala. E, acercando-se do amigo, arrancava-o do estado de abstracção em que ele se achava, inquirindo bruscamente.

- Éh, Pedro... que tens tu?...

O Pedro pestanejou e humedeceu os lábios antes de poder falar.

- Eu?... Nada!... Não tenho nada!

Fernando Vasco encolheu os ombros e instalou-se ao lado dele, no lugar onde antes estivera Iiany.

Logo o Pedro, impetuosamente, exclamou:

- Não te sentes aí!...

Mas foi tal o espanto expresso no olhar do amigo, que o Pedro sentiu acto contínuo o quanto estava a tornar-se ridículo... Então, forçando a naturalidade, acrescentou:

- Não faças caso... Deixa-te estar - e ficou calado outra vez.

Fernando Vasco principiou a sentir-se inquieto.

- Pedro... - disse pouco depois. - Não te sentes bem? Estás doente?

Pedro limitou-se a menear a cabeça, negativamente.

E o Fernando Vasco, ainda mais preocupado, buscando forma de olhá-lo a direito, para ter a certeza:

- Tens... tens bebido muita cerveja?

- Não.

Decididamente, aquilo era um enigma! Que sucedera para que o Pedro, o claro Pedro de alma pura, estivesse a assumir um tal ar de idiota?

- Pedro... alguma coisa aconteceu! - insistiu o outro. - Por favor, diz-me o que foi!

E o Pedro, numa voz cava, desabafou:

- Sabes... estou apaixonado!

O Fernando Vasco primeiro arregalou os olhos, num pasmo desmedido... Depois soltou a mais estrepitosa das gargalhadas que o Pedro até aí ouvira em toda a sua vida. E a gargalhada prolongava-se num riso inextinguível, enquanto o Pedro se ia tornando mais sombrio, mais grave... e ao mesmo tempo imensamente indignado.

- Não acabarás de rir?...

O amigo conseguiu dominar-se, embora com evidente custo.

- Não percebo a graça que tive... ao confessar-te uma coisa tão séria!

Fernando Vasco, por fim, pôde falar.

Então... é o amor que te põe tão lúgubre?

E vendo que o Pedro acenava um sim dramático, acrescentou: - Sempre imaginei que o amor determinasse um estado de alma feliz, e envolvesse a criatura em nuvens cor-de-rosa... Vamos lá a saber quem é a tua deusa? Alguma alma penada, para assim te ensombrar?

Não brinques! - gemeu o Pedro. - Isto é muito sério!

Mas o Fernando Vasco tinha de zombar, por força:

- Ó filho, se é a sério, não te ponhas tão sério... quando não eu não te levo a sério...

E o Pedro:

- Estou debaixo da acção dum coup de foudre...

- Tu estás mas é debaixo da acção dum ataque de estupidez aguda!... Olha, vem dar uma volta lá por fora, a ver se o ar te alivia...

- Não posso!...

- Não podes porquê?

- Se afastar dela os olhos, tenho a impressão de que morro...

O Fernando Vasco esfregou serenamente a boca nas costas da mão direita e respirou fundo umas poucas de vezes... Raciocinava.

Pensou em chamar o Paulo, que continuava a dançar divertidíssimo. Reflectindo, achou melhor tentar resolver sozinho a situação.

Para começar, quis saber:

- Podes mostrar-me quem ela é? E o Pedro, de olhos em alvo:

- Aquela loirinha de tranças...

- Há várias loirinhas de tranças... - ripostou o Fernando Vasco, fleumático.

- A do vestido azul...

- Ah... - e apreciador: - Não está mal. A pequena é gira, vá lá.

- Gira? - protestou. - Não, gira não. Divina!

Entretanto, o Fernando Vasco notara que a pouca distância um rapagão sardento não desfitava o Pedro, com expressão de poucos amigos... Pôs-se a contemplá-lo também, fixamente, ostensivamente, de modo a que o outro percebesse queele o notara.

E, de facto, o rapagão sardento, pouco depois, embora com um gesto de cabeça que era de deixar apreensiva qualquer pessoa, afastou-se...

 

O Pedro suou as estopinhas para escrever, em cinco linhas de alemão, um bilhete que o não ridicularizasse.

Estivera com dobrada atenção na aula e feito altas diligências para tornar correcta a sua «declaração de amor».

Traduzido, o bilhetinho rezava assim:

«Maravilhosa Iiany.

Só agora sei que tenho coração. Um coração cheio da sua imagem.

Posso pedir-lhe que me aceite namoro? Seu, respeitosamente Pedro de Macedo».

O Fernando Vasco - única pessoa com quem ousara abrir-se - torceu o nariz ao ler o cartãozinho.

- Acho que vais depressa de mais. Não seria melhor esperares um tempo, tornares a vê-la, conversares com ela?

O Pedro não quis dar-lhe ouvidos. E, muito exagerado, declarou:

- Impossível! Não como, não durmo, não sou gente, enquanto ela não me responder!...

E, realmente, o nosso rapaz passou um dia muito estúpido.

Recusou-se a nadar, recusou-se a almoçar, recusou-se a jogar...

Depois da refeição, foi sentar-se no parque, defronte das janelas do salão onde Vic, como sempre, deixava a sua alma transformar-se em música...

O bilhete seguira pelo correio. E o Pedro, na ânsia do que lhe seria dito pelo loiro alvo dos seus sonhos, sofria...

O Fernando Vasco, contrariado, via-o suspirar sem saber como agir para o arrancar daquele estado que se chama «de idioteira».

O Paulo, alheio aos problemas do amigo, integrado no espírito da boa camaradagem reinante, acompanhava com todos os rapazes, sem preferências, e vivia alegremente, divertindo-se, uma tarde deliciosa.

Em dada altura, apareceu ao pé dos compatriotas, convidando-os para um passeio que estava em organização. O Pedro, de olhos em alvo, escusou-se. Mas o Fernando Vasco, com um expressivo encolher de ombros na direcção do amigo - na sua opinião tão digno de lástima!

- decidiu hastear a flâmula da independência e aproveitar, da melhor maneira, a tarde magnífica. E partiu atrás do Paulo, deixando o Pedro sozinho, isolado, tornado inútil para os outros e para si próprio...

Um grupo de rapazes combinara uma excursão de bicicleta. Deviam ser uns vinte, incluindo os dois portugueses, o brasileiro, o francês, e alguns alemães - entre os quais Karl Erbrüngh - e os três indianos. O príncipe, claro, não estava entre os mais por vontade própria, mas cumprindo ordens de «Herr» Schmidt, que por sua vez recebera instruções rigorosas do marajá de Ichanapan. O jovem Ma-hur e os seus companheiros Bindar e Sudra deviam em tudo comparticipar da vida dos seus colegas - era uma ordem.

O colégio dispunha dum stock de bicicletas que os alunos requisitavam mediante uma senha na qual inscreviam o seu número e que assinavam - tornando-se assim responsáveis por quaisquer danos sofridos pela máquina. Evidentemente que, em geral, não havia danos, nem desastres.

Naquela tarde, o alvo do passeio era um velho castelo arruinado que havia numa ilhota, a meio do rio. A ilhota tinha acesso por uma velha ponte de pedra, muito antiga.

Alguns dos rapazes, ao saberem da distância a que ficava o castelo - cerca de vinte quilómetros - ainda com pouca prática de pedalar e portanto nenhuma resistência, torceram-se um pouco. Mas os valentes entusiasmaram-se com a perspectiva e acabaram por convencer os hesitantes...

O príncipe andava muito mal, todos o perceberam quando o viram montar. Karl, receoso do que para ele pudesse representar a estirada em perspectiva, acercou-se e, amavelmente, disse-lhe que temia fosse longo de mais para a sua inexperiência o percurso a fazer. Ma-hur, porém, com o seu arzinho espantosamente arrogante, fulminou o alemão com um olhar de desdém e replicou:

- Eu sou sempre mais capaz de tudo do que ninguém!

Em derredor, entre os que ouviram aquela extraordinária afirmação, houve um movimento de espanto com vários sorrisos e piscadelas de olhos muito matreiros à mistura...

O Karl não parecia satisfeito - ou antes, estava com uma cara que não pressagiava nada de bom...

Enquanto os rapazes prendiam nos selins das respectivas bicicletas os pacotes com a merenda que o director mandara fornecer individualmente, para mais fácil transporte, Karl foi andando de um para outro, falando baixo e lestamente com cada um deles.

O assunto era igual para todos e começava por uma pergunta:

- Aguentas-te bem na máquina?

Se a resposta era: - Aguento! - ele comentava apenas: - Fixe. Se havia hesitação ou temor na sinceridade dum «assim-assim», ele baixava mais a voz e explicava: - Talvez seja melhor desistires do passeio. Vou dar uma lição ao Ma-hur e demonstrar-lhe que não é mais capaz do que os outros de coisa nenhuma!... Seguiremos por um atalho péssimo. Para os que sabem andar de bicicleta, a coisa vai. Mas para os outros é difícil!

Só três rapazes, cônscios das suas fracas possibilidades, desistiram. Os outros, mesmo com seu quê de possível sacrifício, aceitaram a ideia com ambas as mãos e um certo regozijo interior. A sobranceria do indianozito irritara-os a todos e o ensinamento a administrar encantava-os...

O Paulo, como os outros - mais ainda do que os outros, talvez -, achou o projecto estupendo. No entanto, ao olhar para o céu carregado de nuvens, que ainda pareciam mais negras no confronto com os pedaços do céu azul que havia à mostra, objectou:

- Não irá dar borrasca?

Karl respondeu com uma esperança.

- Talvez não.

Partiram por fim.

Ma-hur, entre os aios e por especial deferência de Karl, tomou a dianteira. Não sabia, o arrogante principezinho, que a deferência nascera do desejo colectivo de o desfrutarem na ocasião própria.

Sempre a mesma coisa. Incompreensão e antipatia geram antipatia e incompreensão...

O atalho era de facto muito mau, cheio de covas e todo às curvas e contracurvas pelo meio das árvores imensas, majestosas, impressionantemente escuras, e, para cúmulo, sempre a subir.

Paulo e Fernando Vasco, na cauda da fila, trocavam impressões.

-. Livra! Não era eu que me aventurava, sozinho, pelo meio desta floresta! Tem seu quê de fantasmagórico!... - afirmava o Paulo.

E o Fernando Vasco:

- Se queres que te diga, mesmo conduzido pelo Karl, não estou seguro. Oxalá que ele não se perca...

- Se nos perdermos, vamos ter a qualquer sítio, descansa. A região é bastante povoada.

A região seria bastante povoada. Mas nem por isso deixava de tornar-se intimidante, no silêncio profundo e na escuridão que se adensava.

Realmente, as nuvens, no céu, baixas e espessas, tinham-se cerrado por completo e mais depressa do que poderia ser previsto, e o azul deixara de resplandecer.

Os troncos, as altas franças estáticas, pareciam indecisos, perplexos, como que intimidados, ou na expectativa de algo que estava para acontecer.

Karl, lá da frente, percebendo que os companheiros não se sentiam à vontade, comentou:

- Encontramo-nos em pleno ambiente wagneriano! Dir-se-ia que se vai ouvir um acorde triunfal!

Palavras mal acabadas de dizer e - coisa espantosa! - um ribombo formidável estrepitou, longe ainda, mas tão sonoro que a floresta soou toda, tal como se os seus ramos fossem dedilhados, em jeito de corda de harpa, pela mão dum gigante.

Os rapazes, à uma, estremeceram. Alguns desequilibraram-se e desmontaram por instantes.

Agora pedalavam todos em silêncio. O próprio Karl perdera a vontade de falar.

Pingos grossos começaram a cair, espaçadamente.

Uma voz lastimosa ergueu-se por fim, indagando:

- Karl... ainda falta muito?

E Karl:

- Bastante.

Algum tempo depois, nova pergunta, de outro:

- Karl, dentro do castelo estaremos em segurança?

- Pelo menos não nos encharcaremos.

- Karl... - gemeu mais um, daí a nada - doem-me as pernas...

- Já não estamos longe. Depois, lá, descansas - mas percebia-se que Karl não se sentia firme do que assegurava.

A certa altura, pararam todos. O atalho bifurcava-se, partia-se, dividia-se noutros que nem se sabia ao certo se seriam ou não caminhos...

Enfiaram por um.

Fernando Vasco disse para o Paulo:

- Tenho a impressão de que o Karl está desorientado.

- Também eu... - sussurrou o Paulo, sem disfarçar a inquietação.

Entretanto Ma-hur, com ar fatigado, embora sem um queixume, ia perdendo a dianteira, ia-se deixando ficar para trás...

Os rapazes, que para além do cuidado pela situação em que se achavam se interessavam enormemente em observar o companheiro, repararam em dado momento que os dois aios do pequeno príncipe lhe ofereciam as mãos, para apoio ou reboque. Mas o rapazinho - e nisso conquistou de certo modo a consideração dos outros - orgulhosamente, não aceitou qualquer auxílio e, de lábios contraídos, tenso, num esforço sem dúvida doloroso, continuava a pedalar...

Os trovões ouviam-se agora cada vez mais próximos, precedidos de clarões assustadores.

Havia mais de duas horas que os rapazes tinham partido.

De súbito, Karl parou e, aceitando as responsabilidades, fez sinal aos outros para que o escutassem.

- Rapazes, creio que nos perdemos!

Nenhum disse nada. Mas alguns desmontaram definitivamente. Entre esses Ma-hur, Sudra e Bindar.

E Karl prosseguiu:

- Acho melhor pormos completamente de parte a ideia do passeio e procurarmos apenas alcançar um abrigo.

Perdida a esperança das agradáveis explorações previstas, crescia dentro deles a perplexidade. Nos mais conscientes, a apreensão. Onde se recolheriam?...

Uns a pé, outros ainda nas bicicletas, iam avançando pela floresta, cada vez mais cerradae mais densa, pelo caminho tortuoso e sombrio onde não havia a mínima sugestão dum rumo.

À alegria esfuziante do começo sucedera-se a angústia dum silêncio absoluto.

Os trovões ligavam-se uns aos outros, quase sem interrupção. E os pingos sempre grossos, lentos, eram enervantes, exactamente porque constituíam uma ameaça que se deleitava em fazê-los recear o pior. Mais tempo correu.

Desembocaram numa pequena clareira donde partiam dois caminhos: um para a direita, outro para a esquerda.

Karl não armou em fanfarrão. Voltou-se para os companheiros e declarou, lealmente:

- Não faço a menor ideia da direcção que mais nos convém seguir. E das duas uma - ou vocês escolhem aquela que mais os sugestionar... ou confiam no meu palpite. Todos podemos enganar-nos como eu já me enganei. Resolvam portanto como entenderem.

Por instantes, os rapazes ficaram perplexos. Mas, na verdade, nenhum deles sentia afoiteza para decidir nem tinha razões especiais para acreditar nas próprias possibilidades.

De súbito, porém, todos viram com espanto Ma-hur adiantar-se. E, com ainda maior espanto, ouviram-no falar.

- Eu não posso andar aqui perdido. Se isto fosse na minha terra, vocês ficavam todos sem cabeça...

Houve um sussurro geral, de indignação. Mas antes que outro qualquer respondesse à inesperada insolência, o Paulo, a quem subira a mostarda ao nariz, adiantou-se, fuzilando o indiano com um olhar colérico:

- Olha, meu menino. Ameaças tolas não servem aqui de nada. E, como ninguém está arriscado a ficar sem cabeça, aconselho-te a que não te julgues mais do que nós!

O príncipe, diante da figura sólida que o defrontava, não ousou dar um passo em frente nem redarguir o que quer que fosse. As suas pupilas, porém, expressaram um desprezo sem limites, que fazia ferver o sangue...

Paulo cerrou os punhos, mas já o Karl se adiantava, obrigando-o a desviar a atenção para um assunto bem mais premente.

- Então, que decidem? Que caminho vamos seguir?

Foi Luís Viegas Pastor quem lhe respondeu, com a aprovação tácita de todos:

- Olha, decide tu. O que resolveres, está bem resolvido. Nenhum de nós sabe mais do que tu próprio.

- Seja! - E depois dum momento de reflexão, apontou para o da direita. - Por aquele!

Recomeçaram a marcha, penosamente. Agora, aos grossos pingos sucedera-se a chuva, copiosa. Encharcados, pesados de água, pés enterrando-se na lama, bicicletas dificultando o avanço, eles seguiam uns atrás dos outros. Na sua frente, árvores, árvores, árvores...

Para além do cansaço principiava a fome a atormentá-los, mais e mais.

E Karl, sentindo-a como os outros, pensou neles.

- Querem parar um pouco para comer? Precisamos de forças!

Comer?!...

A ideia, aceite, transformou-se num desgosto. A chuva empapara as merendas, tornando-as incomestíveis...

A situação afigurava-se - e era - desastrosa! Sem rumo, sem nenhuma indicação salvadora, correndo inclusivamente o risco de andar às voltas sobre os seus próprios passos, sem alimento, debaixo do temporal, que seria deles na noite que se avizinhava?

A trovoada afastara-se, mas a chuva redobrara de violência.

Era natural que no colégio, perante o estado do tempo e uma demora por demais insólita, cuidassem de procurá-los. Mas quem atinaria com o ponto em que se achavam?

Aquele era realmente um muito mau bocado!...

E, no entanto, não podiam fraquejar! Entregarem-se ao desalento não solucionava nada. Para a frente, para os lados, ao acaso, sem direcção, havia que caminhar, que caminhar, que caminhar!...

O Fernando Vasco e o Paulo, transidos, seguiam atrás dos outros e ambos sentiam, vagamente, uma secreta inveja do Pedro que ficara no colégio defendido de todos os males...

De súbito, no meio do silêncio penoso, elevou-se uma voz... uma voz que cantava; trémula, frágil, indecisa... mas cantava! E cantava um hino, um hino que os estrangeiros não conheciam mas que, em breve, com o que já percebiam de alemão, principiaram a entender.

Karl Erbrüngh, perdido na floresta, chefe dum bando de rapazes famintos e exaustos, cantava. E a sua voz, aos poucos, tornava-se clara, firme, cheia, e levava todas as almas dos companheiros, atrás de si, a confiarem-se nas mãos de Deus!

 

ERA noite cerrada - uma noite estranhamente clara, serena, com um céu liberto de nuvens e repleto de estrelas - quando os rapazes acreditaram divisar, entre as árvores, algumas luzes.

De começo, de tão desanimados, julgaram-se vítimas duma miragem. Seriam as estrelas a reflectirem-se na terra ou?...

Era o ou. A hipótese em que já mal se atreviam a crer, confirmava-se! Estavam salvos!

E, pela certa, não era menor o alívio, a alegria que sentiram os rapazes perdidos na civilização, do que a de outros quaisquer perdidos numa floresta selvagem...

Ali estava enfim, perto deles, ao alcance de mais algumas passadas, a povoação!

A povoação com as suas casas baixas, as suas lojas bem iluminadas, a hora calma do serão familiar!

Quando se viram no meio de habitações humanas, os pequenos riram, abraçaram-se... e não pularam porque os pés lhes doíam de mais e as bicicletas os estorvavam.

- A primeira coisa a fazer - decretou o Karl - é retemperar forças!... Temos de comer alguma coisa!

Descobriram, sem custo, um restaurantezito, com um ar mais do que modesto, que lhes pareceu sumptuoso. Chamava-se Der Schäfer. (1)

 

Nota 1: o Pastor.

 

À porta, antes de se atreverem a avançar e conquanto o conselho do estômago fosse um estridente é entrar, camaradas! -, deitaram contas à vida. Juntaram todos os cobres e níqueis de que estavam possuidores... mas a verdade é que, feitas as contas, o tesouro comum dava uma quantia irrisória. Realmente o destino com que haviam saído do colégio não lhes impunha preocupações financeiras. Pelo contrário, todos achavam conveniente partir para uma excursão daquelas sem dinheiro, não fossem perdê-lo! Mas o homem põe e Deus dispõe... E ei-los ali, bem longe do rumo previsto, numa situação incrível e desesperante!

- Pode ser que o dono do restaurante, quando souber que somos do Reichvater, nos fie o jantar... - alvitrou Jean-Paul.

Era uma esperança!

Aliás, fosse como fosse, com esperança ou sem ela, tinham de tentar! A situação em que se achavam tornava-se insustentável.

Deixaram as bicicletas à porta, empilhadas, e, precedidos por Karl, entraram.

O dono do restaurante, ao aperceber-se da intrusão, acorreu solícito, investigando. Topou com cerca de dúzia e meia de rapazes esgrouviados, ensopados, sujos, com um ar que só podia inspirar compaixão ou temor - dependia da sensibilidade de quem os visse!...

Ante a freguesia, o homem ficou perplexo, indeciso. Era um indivíduo ainda moço, bem parecido, com uma cabeleira negra, basta e emaranhada. Robusto, de ombros largos, parecia, de relance, um belo tipo de homem.

Os rapazes não tardaram em notar, porém, que algo o inferiorizava, algo que os deixaria, a eles, verdadeiramente confrangidos. Andava de muletas! Sim, as pernas, decerto por qualquer doença, não aguentavam com ele. Mas tinha um ar bom, bom, bom!...

- Que querem daqui? - perguntou o hospedeiro, com uma voz cheia, bem timbrada, que apenas denotava surpresa.

Os rapazes encolheram-se uns junto dos outros, como uns pintos necessitados de calor e de protecção.

Karl engoliu a saliva duas vezes, antes de se atrever a falar. Por fim lá conseguiu articular algumas palavras:

- Desculpe, senhor... Somos alunos do Reichvater. .. - o dono do restaurante abriu uns olhos enormes que significavam dúvida mais do que justificada (estavam a trinta e quatro quilómetros do colégio). - Saímos depois do almoço para dar um passeio até ao castelo do Neckar - os olhos que duvidavam principiaram a compreender, a humanizar-se -, mas julgando encurtar caminho, levei os meus companheiros por atalhos... e perdemo-nos!

Em quanto dissera, a única falsidade residira na explicação de que tudo fora por «querer encurtar caminho...» Talvez naquele instante todos os rapazes pensassem o mesmo: «não faças mal à conta de te vir bem...»

Entretanto, o homem principiara a sorrir.

- Quer dizer com isso que foram apanhados em plena floresta pelo temporal?

Como se tivessem sido ensaiados, os pequenos volveram, em coro: - Fomos!

- E agora... o que é que querem? - e sentia-se que perguntara só para ouvir, certíssimo de tudo o que sucedera e estava para suceder...

Karl respondeu:

- Em primeiro lugar, que nos desse de comer. Estamos cheios de fome.

- Mas temos pouco dinheiro, não chega para grande coisa... - acrescentou um outro alemão, o Wolfgang, um tipo magro, esgrouviado, com dentes de coelho.

Karl estendeu a mão e mostrou ao dono do estabelecimento a soma de que dispunham. Alguns marcos, apenas! O homem riu, abertamente. E o Paulo, ansioso, indagou:

- Chegará ao menos para um prato de sopa?...

- Talvez...

E de novo, como se tivessem sido ensaiadas, as vozes cansadas disseram:

- Oh, senhor!...

- Bom, vai-se arranjar a sopa. E agora, vamos à segunda necessidade: que é?

- Precisamos de falar para o colégio, a explicar o que nos aconteceu. O nosso director deve estar aflitíssimo.

- Falem.

Enquanto Karl, no meio dos outros, ligava para o Reichvater, Ernest, auxiliado por duas criadas vestidas à moda da região - saias rodadas de cor garrida, blusas e aventais prodigamente bordados - arranjava as mesas.

Na cozinha, cumprindo instruções, a cozinheira afadigava-se.

Os rapazes, apesar do tempo quente, tiritavam e Ernest tratou de atiçar um bom lume de lenha, na vasta lareira, à roda da qual, agradecidos e confortados, eles se sentaram, secando as roupas coladas aos corpos.

No colégio, o prefeito recebera a comunicação com infinito alívio. Como não podia deixar de ser, estavam todos em enorme cuidado.

E, por ordem do director, transmitiu-lhes a indicação de que deviam apanhar um comboio que partia dali, da localidade em que se achavam - Kinaren -, cerca de duas horas mais tarde.

Quando se sentaram para comer, um soberbo caldo, fumegante e odoroso, enchia umas grandes tijelas, vertido das terrinas que as criadas passavam de mesa em mesa.

Durante minutos apenas se ouviu o ruído das colheres a baterem na loiça...

Praticamente, acabaram todos a sopa ao mesmo tempo. E, se bem que ainda longe de se sentirem cheios, os pequenos estavam incomparavelmente melhor do que à chegada e, claro, conformados com a situação.

Mas, quando se dispunham a dar por finda a parca refeição, tiveram uma surpresa. As criadas reapareciam transportando duas travessas cheias de qualquer coisa que cheirava deliciosamente bem...

Bifes! Eram bifes!...

Karl olhou para Ernest com expressão atarantada.

- Ó senhor... mas olhe que o nosso dinheiro não chega!... Só se lho mandarmos depois...

- Não mandam nada. Isto sou eu que lhes ofereço.

Os rapazes mal podiam acreditar em tanta ventura!

Os bifes, suculentos, altíssimos, com muitas batatas, enchiam os pratos...

E de novo se estabeleceu o silêncio, um silêncio satisfeito, bom...

Então Ernest foi sentar-se ao fundo da sala, pegou no acordeão e, tal como se ali estivesse, em vez dos rapazes a quem era oferecida uma refeição, uma dúzia de clientes a darem bom lucro, pôs-se a tocar uma velha balada, cantando com uma voz agradável que sabia bem ouvir.

E depois da balada entoou outras melodias, todas antigas, com a expressão e o enlevo de quem realmente canta por prazer.

Alguns dos alemães, a certa altura, fizeram coro com ele. E o restaurante tinha agora um ar de festa!

Quando os rapazes, satisfeitos, quentes, cansados sem dúvida, mas felizes, se levantaram para se despedirem, a tempo de apanharem o comboio, Ernest apertou as mãos de todos eles.

- Ficamos amigos?

- Ficamos amigos!

- Voltarão a visitar-me?

- Voltamos. E o senhor também tem de ir ao colégio, ver-nos! Vai?

- Vou. Gosto muito de gente nova! - explicou o simpático hospedeiro. - Os novos são bons, sempre. Se os novos pudessem ser maus, a vida não passava duma coisa muito feia!

Os mais velhos dos rapazes, por seu lado, ouvindo-o, tinham pensado que se as pessoas fossem todas como Ernest, a vida seria sempre muito bonita!...

Despediram-se afectuosamente.

Ernest ensinara-lhes o caminho para a estação, e o grupo seguiu outra vez em fila, bicicletas à mão.

Quando porém entraram no edifício, sobressaltaram-se, entreolhando-se pàvidamente. Nenhum deles se lembrara dum pormenor importantíssimo, irremediável nas suas consequências. O dinheiro para as passagens! Não tinham dinheiro para as passagens!...

- Talvez o funcionário nos fie!... E amanhã manda-se alguém do colégio vir pagar... - alvitrou Luís Viegas Pastor.

Era uma ideia razoável - pelo menos parecia. Mas quando a propuseram ao circunspecto empregado de boné que os mirava transbordante de reservas, ele abanou a cabeça numa negativa formal: - Nein.

Como resolver o novo problema?

Voltar atrás e pedir dinheiro emprestado a Ernest? Não. Ernest já fizera tanto por eles que se tornaria abuso requerer mais.

Haviam de desembaraçar-se da meada de qualquer maneira. Talvez conseguissem modificar a decisão do homenzinho...

E Karl decidiu tentar catequizá-lo... Explicou o que lhes acontecera, com todos os pormenores, contou o acolhimento que lhes fora dispensado no restaurante Der Schäfer... Mas o circunspecto e rígido servidor da companhia dos caminhos de ferro limitou-se a repetir o seu categórico não com tão má cara como se estivesse diante dum bando de suspeitos...

- É inútil insistir - comentou, suspirando, o Fernando Vasco para o Paulo. - Este tipo é da categoria das pessoas que não querem entender.

E o Paulo, no mesmo tom:

- Se todos os homens fossem como este, acontecia exactamente o contrário do que se todos se parecessem com Ernest! A vida era mesmo uma «chatice»!

Embora bem verdadeira, a constatação não resolvia o caso.

Faltavam dez minutos para a hora do comboio e os rapazes não viam modo de sair daquela atrapalhação.

Jean-Paul, de súbito, alvitrou para o Karl:

- Propõe-lhe deixarmos cá as bicicletas como garantia!

A lembrança parecia salvadora. Karl transmitiu-a imediatamente.

Mas o indivíduo agaloado, depois dum olhar perquiridor para as máquinas, repetiu, quase ferozmente:

- Nein.

A situação tornava-se verdadeiramente alarmante. E os rapazes olhavam-se desesperados.

Wolfgang ainda sugeriu que tentassem falar com o chefe da estação. Não havia nada a fazer. O chefe, àquela hora, não estava.

Como sair dum tamanho embaraço? Acaso teriam de regressar ao colégio a pé? A pé?!...

Oh, a pé! Tinham a impressão de que não chegariam nunca, de tão cansados, de tão doridos... Ficariam pelo caminho, à mercê de tudo, fosse o que fosse. Mas a pé... Não. A pé, não!

De súbito, algo de extraordinário aconteceu.

Enquanto Jean-Paul, num desabafo, clamava que aquele monstro tinha mentalidade de carrasco,. Ma-hur, até aí muito fechado numa indiferença absoluta e superior, adiantou-se para o empregado, cujo rosto não revelava a mínima alteração. Dir-se-ia feito de pedra, tal a sua insensibilidade.

Karl não podia sequer imaginar o que iria passar-se. E ao ver o príncipe adiantar-se, temeu que ele apenas fosse insultar o bilheteiro. Ainda estendeu o braço para lhe embargar o avanço. Que adiantava arranjar um conflito? Mas logo se deteve, esbogalhado.

Ma-hur enfiara a mão esquerda numa das algibeiras das calças e dela tirara meia dúzia de pedrinhas coloridas que, à primeira vista, pelo som, faziam pensar em berlindes.

Mas não se tratava de berlindes. Os berlindes são redondos e as pedrinhas que Ma-hur agitava na palma da mão - azuis, vermelhas, amarelas - eram irregulares na forma e no tamanho...

Entre as pedras de cor havia uma toda branca... E essa faiscava de tal modo que não só atraiu a atenção dos rapazes, pasmados e incrédulos ainda, como provocou no rosto do façanhudo empregado uma inesperada mudança de expressão. E enquanto ele se debruçava para o espantoso conteúdo daquela pequena mão estendida, Karl, completamente transtornado, exclamou:

- Pedras preciosas!...

Já Ma-hur, seguro de si, fitando o homem com um ar de supremo desdém, dizia:

- Uma pedra destas chega para pagar os nossos bilhetes. Pode guardá-las todas. Nós queremos seguir neste comboio!

Longe, um apito soando nítido na noite, fez estremecer os rapazes.

Estava jogada a última cartada! O comboio aproximava-se. Faltavam escassos segundos para o momento em que pararia, resfolegando, diante da plataforma da estação, para os levar... ou para os deixar.

O funcionário cumpridor parecia perplexo, indeciso, mas menos distante deles... Com um dedo, tocou nas pedras.

As de cor pareciam não ter bastante poder convincente. Podiam ser pedaços de vidro, imitações... Mas a branca, fosforescendo a cada pequena oscilação da mão que a segurava, não permitia dúvidas.

Contudo - e agora com o brilhante entre os dedos -, ele ainda rouquejou:

- Isto não presta.

- Isso - articulou Karl, opresso -, vale uma ortuna. Compra um comboio inteiro!

O «fulano» - como lhe chamava o Fernando Vasco - custava a persuadir. E, numa suprema desconfiança, mirando o rapazinho que estava ali diante dele sem nada de especial a recomendá-lo, indagou:

- Como é que ele tem disto?

- Apre! - e agora era o Wolfgang que saltava, possesso. - Ele tem disto porque é príncipe e indiano, percebeu? seu...

Não concluiu o insulto. Ouvia-se já o rodar do comboio, forte e poderoso, aproximando-se, aproximando-se...

Os corações dos rapazes palpitavam descompassadamente.

- Então? - trovejaram uns poucos.

E o homem, em resposta, num gesto indescritível, verdadeiro símbolo da rapina, arrebanhou da mão de Ma-hur aquela fortuna inesperada.

Enquanto nos lábios do indiano se desenhava um sorriso enigmático, um monte de bilhetes, como que por encanto, apareceu em cima do balcão. Mas, antes que Karl pudesse recolhê-los, o escrupuloso funcionário advertiu: - À cautela... as bicicletas ficam! Alguns iam protestar... Mas Karl deteve o bem justificado ímpeto de fúria dos companheiros.

- Deixem lá!... As bicicletas ficam. Amanhã de manhã «Herr» Schmidt tomará as providências necessárias. E ou me engano muito, ou este homem ainda amarga o mau bocado que nos fez passar.

E correram todos para o comboio que acabava de parar.

 

DURANTE o dia, o assunto inesgotável, variado, fornecendo pano para «larguíssimas mangas» - como dizia o Paulo - encheu o colégio. Tinha tantos aspectos, tantas variantes, tantas facetas, que os rapazes encontravam sempre nele um novo interesse, uma nova directriz, uma nova forma de recomeçar, para seguir noutro sentido.

Era a aventura em si. Eram os gestos contraditórios de Ma-hur. Era a simpatia do Ernest - mais o telefonema dos rapazes e do director a agradecer-lhe e a convidá-lo para um almoço no Reichvater. Era a acção odiosa do homem da estação e as consequências - justo castigo! do seu acto desonesto, pior que desonesto desumano.

O dr. Schmidt metera-se no automóvel logo pela manhãzinha cedo, fora à estação reclamar as bicicletas - prontamente restituídas - e exigir que lhe fossem mostradas as pedras preciosas do seu aluno - prontamente negadas com evasivas e desculpas que de momento a momento complicavam mais e mais a posição do homem.

Bem dizia o Pedro, em todos os tons, que as pessoas, quanto mais estúpidas, mais destituídas de bom-senso e de equilíbrio, menos bondosas e mais difíceis de aturar... Sim, que se o homem não fosse um bruto não se teria na véspera conduzido da forma condenável que já estava agora a expiar, continuando, porém, a proceder sem o mínimo vislumbre de clarividência.

Tanto recusou confessar-se possuidor das pedras de Ma-hur, que «Herr» Schmidt, exasperado, acabou por ir buscar um polícia... E só então o circunspecto funcionário se resolveu a dizer que de facto recebera uns vidritos a que não ligara importância nenhuma... As bicicletas sim, é que lhe haviam garantido as passagens!... Agora aquilo!!?...

O director do Reichvater, claro, não era perito em avaliar pedras preciosas. No entanto, à primeira vista, colheu a certeza de que aquela meia dúzia de pedrinhas valia uma fortuna! Deduzido no todo o custo dos bilhetes... o homem ficaria abastado para a vida inteira! E, ganha honradamente a independência, nada se lhe poderia dizer, claro! Mas, adquirida sob a forma usada, com a plena consciência de estar a ludibriar alguém, o homem não passava dum ladrãozito sem categoria.

O dr. Schmidt exigiu a restituição das jóias, em troca do dinheiro integral do custo das passagens dos rapazes. O indivíduo, escabujando e vociferando, não queria aceder, não queria largar os vidrinhos, que eram lindos!!!...

A ameaça de prisão fê-lo dobrar a cerviz.

De posse das pedras preciosas, o professor preocupara-se imediatamente com outra coisa. Como se podia admitir que um garoto - mesmo de sangue real - andasse desportivamente passeando, brincando, divertindo-se, com tais valores nas algibeiras?

E se ele os perdesse?

E foi esta a pergunta formal que o director dirigiu a Ma-hur, mostrando-lhe as pedras preciosas na palma da mão.

O príncipe, com os profundos olhos castanhos bem fixos nos do dr. Schmidt, respondeu apenas:

- Se perdesse, perdia o que é meu.

«Herr» Schmidt pestanejou. Aquelas pedras, o dinheiro que valiam! - até a ele, homem culto e educado, com um nome ilustre, fariam jeito!...

- Eu sei que se perderes, perdes o que é teu. Mas apercebes-te, Ma-hur, de quanto valem realmente?

O indiano sorriu.

- Ao certo, não. Sei que valem alguma coisa... mas também isso me não interessa.

- Não te interessa?

- Não. - E dignou-se explicar: - Trouxe comigo uma caixa cheia de pedras dessas. Meia dúzia a mais ou a menos não me faz diferença.

«Herr» Schmidt respirou fundo.

Sim, era verdade. Aquele rapaz fabulosamente rico, herdeiro dum trono das mil e uma noites, habituado a ver em cima das mesas, por toda a parte, taças repletas de pedras preciosas, não podia atribuir às coisas o valor que elas adquiriam para os outros.

Então estendeu-lhe a mão, onde as pedras fulguravam...

- Tens razão! Guarda-as.

Ma-hur não fez um gesto para lhes pegar. E, com a maior simplicidade, declarou:

- Guarde-as o senhor. Eu ofereço-lhas.

O director não pôde reprimir o espanto e ao mesmo tempo o desagrado, ante uma situação inteiramente original.

- Não, Ma-hur. Não posso aceitar.

- Porquê? Não gosta delas?... Se quer outras, eu deixo-o escolher.

Se ali, diante dele, estivesse um homem feito, o dr. Schmidt partir-lhe-ia a cara, atribuindo à oferta o valor dum insulto, tal a expressão irónica com que fora feita. Mas quem o dissera era um rapazinho de 14 anos, no fundo tão inocente como outro qualquer da sua idade. Um rapazinho de 14 anos que, embora príncipe, embora eivado de princípios errados, não podia premeditar ofensas - pelo menos «Herr» Schmidt não acreditava em semelhante hipótese.

Então, dominando a repentina cólera sentida, o director respondeu-lhe:

- Não sabes o que estás a querer dar-me, Ma-hur. Isto que tens aqui... vale um quinto desta propriedade, talvez.

O rapaz pareceu admirado. Os olhos velaram-se-lhe duma sombra que era pela certa o reflexo da indecisão.

Depois proferiu, muito simples:

- Faz favor de guardar tudo.

- Tudo?

- Daqui a bocado dou-lhe a caixa para «Herr» Schmidt arrecadar.

- Queres que eu tome conta do teu tesouro?

- Quero, sim - e mostrou o primeiro sorriso franco que lhe aflorava ao rosto desde que entrara no colégio. Apontando as pedras, acrescentou:- Eu não sabia como era. Agora percebi. Um quinto desta propriedade... Não, eu não estou comprador!

A frase, a acção, tudo junto, mereciam a divulgação obtida no colégio e justificariam que por muito tempo o caso se discutisse com todos os seus pormenores, se na manhã seguinte não surgisse um outro incidente, também inesperado e empolgante, cuja repercussão em muito excederia a do anterior...

Começou quando, no cacifo da correspondência, o Pedro encontrou um envelopezinho esguio onde o seu nome fora traçado por uma letra desconhecida.

O Fernando Vasco, que estava perto dele, inteirou-se do conteúdo imediatamente.

Dizia assim:

«A pessoa que sabe espera-o logo, às 9 h da noite, na esquina do muro do colégio que dá para a estrada...»

O Pedro, sem estranhar fosse o que fosse, nem o anonimato, nem o sítio, nem a hora, deixou transbordar o entusiasmo:

- Fernando... É ela!... É ela! O outro, a quem nenhuma espécie de perturbação diminuía as faculdades de raciocinar, franziu o nariz:

- Não me cheira.

- Não te cheira a quê?... - e, porque sentia no reparo uma contrariedade para ele inaceitável, argumentou: - Ora vejamos... conheces mais alguém que pudesse marcar-me uma entrevista?... Não percebes que isto é a resposta à minha carta?

- Meu caro Pedro, - retrucou o amigo - tenho muita pena se te desiludo, ou se não te ajudo a confiar cegamente... mas a verdade é que não acredito que seja ela. E digo-te mais. Se esse bilhete fosse dela ficaria a lastimar duplamente a tua inclinação, considerando-a muito

mal empregada.

- Essa agora? Que queres tu dizer com isso?

- Olha, menino, uma rapariga de juízo não vem falar com um rapaz que mal conhece às nove da noite e ainda por cima longe que se farta da casa dela!

O Pedro não se convencia. E tomou aquele arzinho de suficiência que nele era raro mas que quando aparecia, aparecia mesmo e irritava enormemente quem tinha de suportá-lo.

- É natural que ela não queira ser vista, que não queira dar a sua vida a saber! Diz em casa que vai visitar uma amiga... e vem aqui encontrar-se comigo.

O Fernando Vasco até soprou!...

- E achas isso muito recomendável?

- Olha, menino, as raparigas estrangeiras não são educadas como as nossas, à base de preconceitos atrasados.

- Serão atrasados... - replicou o amigo. - Mas garanto-te que os prefiro, a esses preconceitos e às raparigas que os respeitam, à liberdade excessiva... - Depois, mudando de tom, acrescentou: - E continuo na minha, Pedro. Por mais moderna que seja a pequena (e com a minha dúvida só lhe presto homenagem!), não tem cara de quem se mete em aventuras. Em toda a parte há gente para o bem e para o mal...

- Confundes tudo - replicou o Pedro, agastado. - Baralhas amor com aventuras!

Fernando Vasco riu-se.

- Olha, pá... eu não sei, mas algumas opiniões abalizadas garantem que o amor é uma grande aventura...

Pedro estava furioso.

- Pronto, seja como for, acabou-se! Aliás tu não tens nada com as minhas entrevistas.

- Ah, pois claro! Segue a tua vida. Boa sorte! - e, voltando-lhe as costas, deixou-o só.

Foi para o parque e, durante largo tempo, andou errante, perdido em indecisões. Atraído pelos sons do piano, foi encostar-se a uma árvore, diante do salão. Se a música lhe inspirasse uma solução para o caso que tanto o preocupava... Mas o que Vic Nusen naquele momento tocava, como que lhe magoava a alma, provocando nela um crescendo de inquietação e mais nada. Qualquer coisa estava de facto a correr mal! E acabou por não se dominar, ou melhor, por dominar-se mesmo e tomar uma decisão. Tinha de ir procurar o Paulo e contar-lhe o que se passava... o que talvez estivesse para passar-se!...

Durante bastante tempo os dois rapazes estiveram em conciliábulo.

Ouvindo-o e compreendendo-o, Paulo não tardou em comungar das apreensões do amigo, as quais, embora ainda vagas, eram prementes e enervantes.

Chegaram ambos à mesma conclusão: não seria Iany quem viria à entrevista, e eles deviam estar presentes e preparados para qualquer surpresa. E acordaram ainda num outro ponto: se verificassem que se tinham enganado e que de facto uma conversa plácida e amena se desenrolava entre Pedro e a alemãzita, escapar-se-iam sem que o amigo desse pela sua aliás bem-intencionada indiscrição.

Quantas vezes os portugueses bendiriam aquela espécie de sexto sentido que os advertia de que a sua vigilância ia ser mais do que necessária!

 

PEDRO avançava cautelosamente.

Ia muito emocionado. Primeiro porque caminhava para a sua primeira entrevista amorosa, o que, mal comparado, lhe causava uma impressão muito semelhante à que experimentara um dia, alguns anos atrás, quando quisera vestir calças compridas... (J) Segundo, porque saíra do colégio clandestinamente. Ã noite, os rapazes não podiam abandonar o Reichvater sem autorização. Ele, sabendo-o, requerera-a, mas o prefeito negara-lha - não pelo prazer de negar, que esse gosto não cabia nos estatutos do colégio, mas porque havia uma conferência sobre arqueologia, proferida por um dos alunos mais velhos, e os rapazes estavam todos convidados a assistir, sem excepção. Havia que despertar neles o gosto, a admiração e o respeito pelos valores artísticos sob todas as suas expressões.

 

Nota 1: Ver, da autora, o primeiro livro desta série «Um rapaz às direitas».

 

Pedro, embora fosse, sem dúvida alguma, um dos mais fervorosos adeptos dos princípios da educação do Reichvater e gostasse de ouvir falar o colega, não admitia a ideia de faltar ao encontro com Iany. E, mal acabara de jantar, enquanto os rapazes se entretinham conversando até à hora da conferência, escapulira-se. A noção do dever transgredido, porém, pesava na consciência de Pedro e de certo modo negativava o prazer sonhado.

Às escuras, ia atravessando o parque na direcção do local onde se abria a última porta de saída do reduto murado. Essa porta, como todas as outras, aliás, não estava nem guardada nem trancada. Ninguém, no Reichvater, onde existia a tal liberdade condicionada pela máxima responsabilidade, precisava de sair às escondidas nem de ser, portanto, retido pela força.

As transgressões - claro que as havia, de quando em quando! - não ofereciam um aspecto correntio que requeresse a imposição de vigilância rigorosa.

Uma Lua pálida num céu limpo era a única claridade que ajudava o Pedro a orientar-se. Os seus passos cautelosos, quebrando ramitos secos e fazendo rolar o cascalho, troavam no silêncio. E o rapaz tentava desesperadamente dominar as palpitações do coração cujo ritmo se acelerara.

Saiu da cerca, por fim. Na estrada, escutou. Nada, nenhum rumor, a não ser, de súbito, o canto eufórico dum rouxinol.

Pedro parou. A esquina da cerca, a pouca distância, fazia-o suster a respiração, anelante. Era dali que Iany devia surgir...

Ah, ele quereria adiantar-se, seguir além, olhar o caminho, vê-la aproximar-se sob o luar... Mas os passos não o levavam.

Sentou-se num dos pilares que ladeavam o portão, de súbito descontente consigo próprio. Era a segunda vez na vida que ele, Pedro, tinha a honestidade de achar que estava cheio de medo. Medo absoluto, dominante, integral. Medo sem raciocínio, medo simples, medo-medo, apenas!

Fora quando da tal história das primeiras calças compridas, esperando os ladrões e agora... esperando a bem-amada!

Se se encontrasse em situação de poder reflectir, o Pedro compreenderia que esse medo desassisado, quiçá vergonhoso, só aparecia se ele praticava algum excesso, se ele se ultrapassava... no mau sentido, claro! Sim, o medo vinha-lhe quando ele, temporariamente, pretendia realizar algo que ainda lhe não ficava adequado, que ainda lhe não assentava, que não possuía - ou nunca possuiria! - a medida da sua alma.

Só mais tarde, porém, o rapaz começaria a perceber isto mesmo. Naquele momento, reconhecendo-se inferiorizado, tremia e começava a perguntar a si próprio, horrorizado, se seria cobarde...

A resposta não tardaria.

De súbito, pareceu-lhe ouvir um restolho de passos e um sussuro de vozes masculinas. Na quietude, na paz do momento, aquele rumor, apenas perceptível, assumia o seu quê de lúgubre ameaça.

Pedro franziu a testa, mas não se moveu. O coração bateu-lhe ainda mais forte. Uma perplexidade, luminosa, atravessou-lhe a mente, numa suspeita reveladora.

- E se?...

Não pôde raciocinar. Não teve tempo.

Da esquina vinha avançando para ele, de mãos nos bolsos, tamanho que parecia um gigante, um vulto de rapaz que só pelos contornos o Pedro imediatamente reconheceu. Era o irmão de Iany! Era Frank!

Pedro levantou-se e deu um passo para o lado, a tomar a posição de defesa que o instinto lhe aconselhava.

Já perto dele, agora parado, o outro bamboleava-se um pouco, como se não tivesse nenhuma pressa ou quisesse gozar o prazer da surpresa mie motivara.

Depois, com voz rude, Frank indagou, agitando um papel diante do Pedro:

Estas baboseiras são escritas por ti?

O Pedro não perdeu a cabeça.

- Não sei ler às escuras.

O outro perdera um ponto... Mas havia muitos lances a fazer.

- Bem... eu digo-te o que aqui está. Isto é uma espécie de declaração de amor enviada a minha irmã Iany e assinada por um nome que julgo ser o teu... Pedro de Macedo...

- Pedro de Macedo é o meu nome de facto e portanto esse bilhete é escrito por mim. - E logo em seguida, imperturbável: - Já agora posso perguntar se o bilhete que recebi a responder-me, era dela?

O outro perdera novo ponto e desta feita ficou fulo.

- Não. Fui eu que o escrevi.

- E desde quando é que o senhor começou a mandar cartas anónimas?

- Desde que se tornou preciso ensinar um palerma como tu a respeitar uma rapariga.

O Pedro empertigou-se, sem papas na língua.

- Palerma és tu, pensando assim! Eu não faltei ao respeito a ninguém. Creio que não é nenhum mal pretender namorar a rapariga de quem se gosta!

O outro, porém, viera decidido a ser intratável.

Para nós, é. Ninguém te conhece aqui,

ninguém sabe donde vieste. Não nos mereces a mínima consideração.

Só mais tarde o Pedro alcançaria a verdadeira determinante de tudo aquilo. Por agora, a sua boa fé via apenas o que se lhe apresentava como assunto concreto.

- Ora essa! - refilou. - Se o problema é esse, vai perguntar ao Reichvater, vai tirar informações minhas e...

O outro riu, sarcástico.

- Eh, eh!... Como se o Reichvater e os seus alunos nos inspirassem qualquer espécie de confiança!

Naquele instante, fez-se luz completa no espírito do Pedro!...

Os alunos do Grossess Modernes Kinderninstitut! Eram eles, sempre prontos a buscar querela aos do Reichvater, que vinham em demanda de novos motivos de luta!... E ele, estúpido, fornecera-lhes o pretexto!...

Então percebeu imediatamente o que se tramava; compreendeu que o irmão de Iany não estava só e que ele, Pedro, ia ser sovado e bem sovado...

Ora a verdade é que o nosso rapaz, acima de tudo, era português... e os portugueses não são bons de assoar...

Naquele instante decisivo, o Pedro ganharia o direito de reconhecer que não era, nunca fora nem nunca seria, um cobarde!

Seguro de si, enraivecido com a traição, vociferou:

- Já percebi tudo e não adianta inventar razões idiotas. Diz a verdade, ao menos. Vieste aqui para bater. Pois bate. Mas olha que eu também sei dar. Vamos, não percamos tempo! - e, levantando o braço direito, desfechou no outro um murro com toda a força.

Falara de mais, contudo. Frank, preparado pelo aviso, tivera tempo de se esquivar ao ataque, enquanto gritava:

- A mim, rapazes!...

O Pedro, que com o impulso frustrado se desequilibrara, foi esbarrar de encontro a um magote deles que acorriam em tumulto, de punhos erguidos.

Num clarão, Pedro viu a armadilha e sentiu-se perdido. Lutar, naquelas circunstâncias, era quase inútil... senão inútil de todo. Tudo se resumia em apanhar uma sova mestra!

E daí... talvez não!...

Porque, no momento capital, em turbilhão, a par duma força titânica, que lhe vinha nunca saberia donde - talvez fosse a força atávica de toda uma raça! -, acudiam-lhe à mente, como lâmpadas incandescentes que se acendessem e apagassem, palavras que um dia lera e nem sabia que fixara. Eram pequenas ligações de frases de textos históricos, de epopeias, que se abriam luminosamente dentro dele: «Quando tudo parecia perdido...» «Numa arrancada decisiva...» «Como por milagre...» «A força indómita levava-o...» «Um contra mil, senhor!...» «No último instante...»

«Era a vitória pasmosa, mas certa...» «O auxílio de Deus...»

E tudo isto era fulminante e sucedia enquanto sobre ele choviam os murros e os pontapés dessa dezena de rapazes que não se envergonhavam de tão vilmente atacarem um só, só e sem defesa. Sem defesa?

Poderia considerar-se sem defesa um tipo que dir-se-ia ter a força e a coragem dum leão e que, se apanhava, também dava a valer?...

A luta, porém, desigual, acabaria fatalmente pela queda do português.

Mas foi então que, «quando tudo parecia perdido», «como por milagre», o «auxílio de Deus» chegou!

Ouviu-se uma barulheira, vinda da cerca, e a voz clara do Paulo, numa ordem rápida e vibrante:

- É dar-lhes a valer!...

E seis ou sete rapagões, com o Paulo à frente, desabaram em cima dos outros...

O Pedro, ao aperceber-se do socorro, sentiu as forças duplicarem... e agora era vê-los, todos engalfinhados, qual de baixo qual de cima, a dar e a levar...

Não faziam grande alarido, os moços. Ofegavam, socando-se valentemente, mas sem gritaria. E, na sua inutilidade, a luta possuía seu quê de notável. Ninguém afrouxava, ninguém dava indícios de medo... Eram todos valentes!

O Pedro, batendo e apanhando, tinha no subconsciente uma imagem que, na escuridão que o circundava, fulgia como um raio de sol magnífico, luminoso e quente, a envolvê-lo e a acalentá-lo sem que ele pudesse explicar a razão. Essa imagem vinha à superfície, subindo do mais profundo do seu ser, com um perfume intenso de calor e de pureza... Certa tarde, numa estrada cheia de sol, um pequeno grupo, no qual se destacavam uma menina e um petiz de sete anos, aguentavam a pé firme o ataque cerrado duns matulões... E o pequeno grupo saíra glorioso da cena, escusada e talvez condenável, mas absolutamente necessária naquele momento.

Na alma do Pedro, perdida no mundo estranho em que rapazes quase crianças procediam como homens feitos, tudo era essa imagem... e dessa imagem vinha-lhe uma saudade imensa, angustiosa, que se transmudava em ira, uma ira que o obrigava a bater-se com violência crescente.

Coisas singulares e verídicas, tão simples na essência como difíceis de explicar nas suas justificações!...

O grupo do Reichvater, embora cheio de genica, não conseguia levar a melhor. Unido, organizado, o outro opunha uma resistência que não tardaria em volver-se em ataque cerrado.

De súbito, porém, algo aconteceu com inacreditáveis consequências.

Quase desde o princípio da luta que um vulto pulava a distância da esquerda para a direita e da direita para esquerda, próximo do grande portão, sem se resolver nem a avançar, nem a intervir, nem a retroceder...

E, repentinamente, no silêncio assombrosamente cheio de pancadaria, uma voz esganiçada ecoou como se fora um trovão (trovão com raio, a deduzir pelas consequências...). Essa voz gritava, cheia de aflição:

- Pedro... Karl... Jean-Paul... Querem que os ajude?...

Só mais tarde saberiam que o quesito fora formulado por um pequeno inglês, cujos pais estavam colocados numa empresa qualquer na cidade de Hamburgo.

Naquele instante ninguém percebeu senão que a pergunta, ridiculamente extraordinária, caíra como uma chicotada sobre os rapazes do Moderno Colégio.

Como adivinhar o que teriam eles pensado?

Voz do outro mundo? Presença de mestres? Socorro numeroso?

Fosse o que fosse... O certo é que um dos assaltantes regougou qualquer coisa e, em menos tempo do que leva a contar, em massa, deram todos um salto à retaguarda e desapareceram nas sombras da noite...

Agora, se algo doía aos do Reichvater, esse algo era sem dúvida o não terem obtido uma vitória diferente. A fuga dos contendores, a sua deserção, não os consolava!

Os trastes que haviam pretendido dar cabo dum rapaz sozinho, crédulo e indefeso, mereciam uma ensinadela!

Mas... e não seria uma ensinadela - talvez a melhor de todas! - a súbita explosão de gargalhadas que inesperadamente seguiu os outros na carreira desordenada em que se tinham lançado?

Foi o caso que os rapazes do Reichvater, arranhados, rasgados, magoados, ao compreenderem que fora uma simples expressão de falta de coragem o que pusera os outros em debandada, largaram a rir, a rir de tal forma que dir-se-ia haverem estado, não à beirinha duma tragédia, mas sim a assistir ao desenrolar duma farsa desopilante... E que farsa!...

John Pitter, constatando a hilaridade, estupefacto com tudo quanto sucedera, não entendia coisa alguma. Mas havia quem ainda entendesse menos... Os do Moderno Colégio que, supondo-se causadores de tanta risota incompreensível, a sofriam, lá longe, cada vez mais longe, remoendo a afronta com um furor impotente.

 

NEM todos os rapazes, porém, tinham rido. O Pedro não rira. O Pedro não ria.

E agora mesmo, sentado na cama, olhando pela janela o dia nascente, vigiado discretamente dos outros dois leitos pelos olhos preocupados do Paulo e do Fernando Vasco, meditava e meditava com sofrimento.

Duas coisas o atormentavam. Primeiro, a ideia enervante, confrangedora, de que não podia deixar de tirar desforço do irmão de Iany, de o castigar de forma a que lhe não ficasse vontade de cometer proeza idêntica àquela em que se rebaixara, utilizando como arma a mais odiosa traição. Segundo, o arrependimento inútil, mas sincero, de a haver provocado com a sua acção cheia de inconsequência. Sim, ele reconhecia que fora idiota em tudo quanto ocorrera, desde o embeiçamento por Iany até o desprezo manifestado pelos conselhos de Fernando Vasco. Os factos desenrolados revelavam-se-lhe, em toda a sua crueza, tais quais eram - absurdos e impróprios dum rapaz como ele!

Assim, dominado pelas recordações, desconsolado consigo próprio, infeliz portanto, o Pedro, numa inconsciente mas forte ânsia de refúgio, entregava-se por completo às saudades loucas, quase incomportáveis, da única pessoa que podia ajudá-lo a vencer a provação, que podia dar-lhe forças, consolá-lo e fazê-lo de novo acreditar em si - a mãe.

Inquieto, dorido, debatia-se nessa angústia que o dominava.

Sozinho com a sua consciência, estava precisamente na situação que um dia a Rosinha-Mãe lhe fizera antever. Era chegado o tempo de principiar a aguentar sozinho os problemas, de encontrar a forma de os resolver, aprendendo simultaneamente, na noção de deveres e obrigações, a tomar sobre os ombros os resultados das atitudes alheias.

Mais difícil do que todas as matemáticas do mundo!

Sempre quietos, sempre imóveis, observando-o por entre as pálpebras semicerradas, Paulo e Fernando Vasco perceberam, de súbito, que o Pedro chorava. E eles, que até aí haviam, sem qualquer prévia combinação, agido como se tivessem decidido juntos a melhor forma de se conduzirem frente ao assunto, reagiram de maneiras completamente diversas.

O Fernando Vasco, embaraçadíssimo, voltou-se na cama e enterrou o rosto na almofada, fingindo-se profundamente adormecido. O Paulo, ao contrário, recostou-se no leito e ficou a contemplar o amigo com uma placidez imensa, tal qual como se esperasse que acontecesse qualquer outra coisa...

As lágrimas do Pedro, porém, não se extinguiam. E então o Paulo não pôde mais conter-se.

Desceu da cama e abeirou-se do amigo.

- Eh!... Que vem a ser isso, agora?

O Pedro disfarçou, não teve ’um gesto, por mínimo que fosse, para ocultar o desespero. E, sem se mexer, balbuciou apenas: . -Tenho saudades.

O outro embatucou.

Por momentos, levado na onda romanesca que a acção do companheiro provocara, ele visionara o Pedro entregue unicamente ao seu desgosto de amor, ao seu sonho destruído pelo incidente realista da véspera... E daí, talvez que sim, talvez que fossem saudades da loira alemãzinha... E, embora indeciso, aventurou-se a indagar:

- Saudades... de quem?...

- De quem?... Mas da minha casa! E desabafou: - Dos meus pais, dos meus irmãos, da minha terra!...

Os pais... a terra... a casa...

O Paulo compreendeu. E agora tudo vinha ter com ele, tudo o alagava numa sensação de falta, de coisa que se apetece e não tem.

A casa... os pais... os irmãos...

Ele, a menos que o Pedro, só podia deixar de evocar irmãos - que os não possuía. Mas era como se os tivesse, dado que a todas as imagens que o assaltavam se juntava a de Anita, com o seu lindo sorriso confiante, a claridade da sua expressão meiga, e a do Rumané, tão traquinas e tão bom companheiro.

Ah, sim, havia tanto que lembrar, evocar, lastimar!...

O Pedro continuava a falar:

- Isto é realmente tudo muito bom, muito agradável... mas, cá para o meu gosto, mais para ver do que para viver! Não sei se teria sido melhor para a gente ter ficado na quinta...

O Paulo encolheu os ombros.

- Tu sabes, nós hoje estamos a ver tudo pelo lado negro... Sim, que até agora a única coisa desagradável que sucedeu foi aquilo de ontem...

- E fui eu o culpado!

- Isso também não...

- Achas? - e no seu olhar brilhava o desejo de saber que a sua ânsia de desforço estava bem fundamentada. - Eu não fiz grande mal, pois não?

Paulo não respondeu logo. Parecia hesitar numa pergunta a proferir... Por fim, resolveu-se.

- Olha lá, tu afinal pedias ou não pedias uma entrevista à pequena?

- Não.

- Então?

- Eu só lhe pedia... namoro!

- Assim... sem mais nada?

- Bom... dizia-lhe que tinha o coração cheio da imagem dela.

- Hum... E eras sincero?

- Era.

- E... ainda gostas dela?

- Ao certo... não sei!... - E como notasse da parte do amigo uma reacção de desagrado, acrescentou: - Mas de qualquer maneira há uma coisa agora diferente. Goste ou não goste, não faço mais nada para me aproximar...

Paulo respirou fundo, aliviado, e o amigo continuou:

- Nem dela nem de nenhuma outra rapariga... enquanto o calendário não me disser que tenho realmente idade para pensar a sério nas coisas que são sérias.

- Bravo! Ora aí está uma resolução muito sensata!...

O Pedro encarou-o, gravemente. E depois dirigiu-lhe um quesito tão inesperado como desconcertante:

- Paulo... nunca gostaste de nenhuma rapariga?...

Paulo empalideceu.

Entre ele e o Pedro havia sempre tantas coisas interessantes para discutir, para conversar, que nenhum deles, até então, cuidara de ocupar-se com problemas naturais, por certo, mas destinados a uma outra idade.

Tão bem situado como o amigo dentro da adolescência, Paulo não se precipitara, não precisara de entretenimentos inúteis. Ele bem sabia que era preocupação dominante entre muitos dos seus camaradas, a ideia fixa de namorar, de andar atrás das meninas. Mas ele achava que o tempo assim perdido se tornava imensamente mais bem aplicado em estudos ou distracções vantajosas. Cada idade tem as suas ocupações... E para ele, Paulo, namorar não seria nunca nem uma ocupação nem uma distracção... Atribuía à palavra um sentido de qualquer coisa imensamente séria, imensamente importante, à qual se ligava pelos laços mais estreitos a palavra felicidade.

Como ele não respondesse, o Pedro insistiu:

- Então, Paulo?

Paulo quereria explicar-se, mas algo o detinha. Um mundo de reflexões enchia-lhe a alma mas não lhe subia à boca...

E agora, para cúmulo, a envolver, a dominar, a sobrepor-se às imagens que a pergunta fizera nascer, impunha-se-lhe uma que a pouco e pouco se definia e eliminava todas as outras. E essa era uma imagem familiar, muito evocada, muito recordada... embora sem nenhum sentido especial... - ou sem que ele lho encontrasse.

E tudo nele se tornava espanto, angústia, misturado com uma alegria estranha, profunda. O coração batia-lhe mais forte no peito. As mãos arrefeciam-lhe, enquanto a visão dulcíssima crescia, crescia, crescia...

E vinha de longe, do fundo das suas recordações, em fases diversas e sucessivas - verdadeiras metamorfoses ligadas entre si. E ele via... ele via...

Uma menina de tranças e saia curta rodada...

Uma menina de tranças sem tranças... e sempre de saias curtas rodadas e alegre sorriso num rosto de anjo.

Uma menina sem tranças, de grandes olhos leais, às voltas com os primeiros problemas do liceu...

Uma menina do liceu com cabelos encaracolados que era bem uma menina, simpática, alegre, desempoeirada, inteligente, aplicada e que pensava... que pensava sem deixar de ser simples e boa como um botão de rosa!

Ana-Maria!...

Anita!...

Paulo... nunca gostaste de nenhuma rapariga?...

E o Paulo, de chofre, compreendeu o que podia tornar-se mais tarde na vida dele aquela amizade profunda que o ligava à irmã de Pedro... E descobriu porque fora que tanto e tão instintivamente antipatizara com Fernando Vasco... E também porque não conseguia livrar-se duma dorzinha aguda a meio do peito quando reconhecia que o outro hoje estava tão dentro da família Macedo como ele próprio - ele, que nunca pensara em namoricos, ele que nunca ligara importância a derretimentos considerados imbecis...

Paulo... nunca gostaste de nenhuma rapariga?...

Nunca gostara?!...

Mas o que era senão gostar a estima enraizada que jamais o transtornara e agora se agitava perturbando-lhe todas as fibras do coração?

Sentindo que o Pedro o fitava com agudeza, por certo espantado com o mutismo em que ele mergulhara, tentou reagir, disfarçar a emoção intensa que o avassalava. Mas não pôde nem sequer sorrir... E, de extremamente pálido, passou a corado... Corou tanto, de tal modo, faces, testa, orelhas, que o Pedro, com leve ironia (ou ele não conhecesse o amigo como se conhecia a si mesmo) comentou:

-Bonita resposta!... Eloquente!... Serás por acaso um futuro conquistador?

O Paulo não lhe achou ponta de graça. E pôs-se a olhá-lo de frente, com toda a lealBdade. Não lhe parecia que fosse, de modo algum, a hora de falar. Mas, dando satisfação aos sentimentos que o dominavam, respondeu, um imenso pensamento a luzir-lhe nas pupilas: - Não, Pedro. Eu creio, pelo contrário, que sou daqueles que, no dia em que gostar duma rapariga, é a sério e para toda a vida.

O Pedro, sem poder adivinhar o que uma tal frase significava, ficou um tanto ou quanto desconcertado.

- Olha lá... isso é piada?

- Não.

Já outra ideia, fixa, desviava o rumo das considerações do Pedro.

-Eu não perdoo ao tipo a espera, a traição... Porque, quero confessar-te sinceramente, se ele tivesse vindo ter comigo cara a cara para me bater... eu até o compreendia. Cos diachos, ele de facto não me conhece, não sabe até que ponto sou digno de confiança, e tratava de defender a irmã... Eu, se visse alguém a desinquietar-me a Ana... chegava-lhe a sério! O Paulo sentiu-se sufocar, de tal modo o coração lhe pulsava. Não conseguiu pronunciar uma única palavra.

Felizmente, naquele mesmo instante, o Fernando Vasco, com uma reviravolta, estirou-se e proferiu, muito calmo:

- E se vocês, por agora, acabassem com uma conversa que não leva a nada?

- Acho bem - concordou o Pedro. - Para mais são horas de nos levantarmos. O guia Júlio prometeu-nos para hoje uma lição de saltos!... Vai ser estupendo!

Paulo logrou enfim dizer qualquer coisa.

- Não deve tardar em tocar para o primeiro almoço!...

E tanto não devia tardar que, poucos instantes decorridos, ouviu-se repicar por todo o colégio o som fresco e harmonioso da sineta que anunciava o começo dum novo dia.

 

OS três portugueses foram os últimos a entrar na sala.

Saudaram e receberam saudações e foram instalar-se nos lugares que havia vagos.

Se para o almoço e para o jantar as mesas tinham uma constituição certa, de manhã os rapazes instalavam-se onde lhes indicava a fantasia.

Pedro dirigiu-se para a mesa onde estavam Vic e Jean-Paul.

Ambos lhe sorriram com intenção e um arzinho cúmplice que não deixava dúvidas - transparecia nele um interesse mesclado de admiração e curiosidade.

Mal se sentaram, Jean-Paul, com os olhos a brilharem, inclinou-se para o alvo das atenções gerais.

- Então... que tal o rescaldo dessa coisa de ontem?

Pedro encolheu os ombros, modestamente, e não respondeu.

Vic, sorrindo, perguntou:

- Saíste magoado?

- Não.

- Ainda bem.

Jean-Paul queria explicações que só o próprio Pedro lhe poderia fornecer.

- Afinal, ao certo certo, como é que as coisas começaram?

Mas o Pedro limitou-se a responder ao quesito com outro.

- Afinal... como é que toda a gente soube?

O francês riu-se.

- Passou-se palavra... e não se fala noutra coisa!

- Não perderam tempo, apre! A cena praticamente ocorreu há um bocado... e vocês todos olham-me como se eu fosse um animalejo raro!...

Vic pronunciou-se:

- A notícia correu célere. De vizinho para vizinho, de janela para janela, de porta para porta...

Jean-Paul encadeou, rindo com gosto.

- E digo-te que aquilo de que mais se fala não é da tua valentia... mas da preciosa ajuda que o Pitter te deu a ti e aos outros quando perguntou de longe se precisavam de ajuda...

Os três portugueses entreolharam-se, de súbito presos da mesma inquietação.

Sentiam que se não cortassem de qualquer forma o incidente, se não desviassem dele as atenções dos colegas, John Pitter ficava a ser o alvo permanente da zombaria de toda a escola. É certo que o inglês fora ridículo e se prestara ao desfrute. Mas daí a merecer um lugar onde por força se havia de sentir tremendamente inferiorizado...

Há coisas que têm de ser esquecidas - ou perdoadas - para que numa comunidade, a vida possa continuar.

Tanto o Pedro, como o Paulo e o Fernando Vasco desejavam proceder de modo a que o assunto encontrasse uma razão e uma desculpa.. Mas antes que algum deles topasse com uma forma de o resolver, soou a voz clara e harmoniosa de Vic:

Por muito estranho que pareça, o Pitter fez o mesmo que eu, no lugar dele, teria feito.

Os outros miraram-no lisonjeiramente incrédulos. E o Pedro proferiu, abanando a cabeça:

- Tu?...

- Sim, eu! - E logo explicou: - Se a presença de mais um fosse indispensável, claro que nenhum de nós hesitaria... - e sem que os rapazes que o ouviam atentamente se apercebessem da mistificação, passou do plural ao singular.

- Bem vêem, se se tornasse necessário, imprescindível, defender um amigo, um companheiro, eu nem sequer pensaria nas minhas mãos... Mas arriscá-las numa luta praticamente já resolvida, só para fazer figura... isso não entraria!

- Não gostas de pregar uma boa surra? - perguntou um dos alemães presentes.

- Não, não aprecio o género. Detesto pancadaria. Além disso, há as minhas mãos. Preciso de ter o maior cuidado com elas... - e o seu olhar luminoso desceu aos dedos longos e nervosos. - É tudo quanto possuo...

Jean-Paul, enredado na teia das explicações, não apreendeu o verdadeiro sentido das palavras de Vic e, pensando no gesto do inglês, retorquiu, com ligeiro azedume:

- Eu aprecio os homens que sabem bater-se.

Bondosamente, Vic Nusen sorriu.

- Eu também.

O outro ia dizer qualquer coisa que porventura não seria muito agradável. Mas um novo acontecimento o distraiu e não só a ele como à sala em peso. Algo de insólito se passava na mesa mais próxima da do director - a mesa onde estava Ma-hur.

Na realidade, um dos aios do príncipe falava alto, gesticulando. E se o que dizia era incompreensível, dado que utilizava uma língua desconhecida, o seu sentido tornava-se claro, tamanho poder expressivo adquiriam a vivacidade dos olhares e das atitudes. Bindar estava visivelmente enfurecido...

Ma-hur, diante dele, fazia pequenos sinais com as mãos, como se lhe aconselhasse moderação. Mas o outro, perdido por certo todo o bom-senso, passou das palavras à acção. Num repelão, empurrou da frente dele o prato cheio de flocos de aveia. O prato foi embater na caneca do leite que se entornou pela mesa fora.

Agora, na sala, podia ouvir-se o voar das moscas... enquanto «Herr» Schmidt se punha de pé, com um olhar carregado de severidade que nenhum dos rapazes lhe conhecia, ordenando:

- Bindar... levante-se!

Bindar obedeceu. Ergueu-se e ficou imóvel, de olhos fixos na mesa.

- Bindar... - tornou o director - quer explicar-me a sua conduta?

Foi Ma-hur quem, espontaneamente, respondeu.

- Ele não quer comer esta coisa. Diz que não presta.

Era normal, no colégio, ao pequeno almoço variarem as ementas. De quando em quando, em lugar do chocolate ou do café com leite, aparecia uma suculenta papa. Era porém aquela a primeira vez que surgiam os flocos de aveia tão do agrado de muitos...

«Herr» Schmidt correu o olhar por toda a sala. A maioria dos rapazes acabara a refeição. Outros tinham a colher no prato, evidentemente surpreendidos pela cena a meio do repasto. Não havia qualquer expressão de desagrado ou repulsa em nenhum...

Então o dr. Schmidt voltou a fixar Bindar e proferiu apenas, com voz calma:

- Bindar, o que lhe foi servido, como a todos os seus colegas, é um alimento muito agradável. Faça favor de comer.

- Não como! - retorquiu vibrantemente o rapazito. - Nunca comi. Não gosto.

- Nunca comeu? - inquiriu o director, pegando-lhe numa das afirmações, incerto sobre se aquela seria de facto a expressão da verdade.

- Não!

Na sala correu um murmúrio de surpresa, concordante com a que «Herr» Schmidt logo traduziu:

- Essa agora?!... Então, se nunca comeu, como é que sabe que não gosta?

E ele, obstinado, feroz:

- Não quero gostar.

Os rapazes entreolharam-se, numa expectativa. Sentiam que o director, tão amigo dos seus alunos, mas inflexível exactamente porque o seu maior cuidado consistia em ajudar a prepará-los para a vida (e segundo ele a melhor preparação consistia na educação geral), ia tomar uma atitude, atitude que se radicaria firme no espírito do jovem rebelde e perduraria como exemplo entre todos.

- Bindar, - argumentava já o professor - nunca uma pessoa tem o direito de não querer gostar seja do que for. Quando se trata dum alimento, antes de formar uma opinião, é necessário conhecer-lhe o gosto. Tenha a bondade de provar, portanto, e depois, se de facto o sabor lhe for intolerável, não insistirei em que o coma, embora eu entenda que é preciso estar-se preparado para aceitar o que há para que o nosso sustento seja sempre, em todas as situações, uma possibilidade.

Ma-hur fitava o amigo com os olhos muito abertos, mas calado. Via-se que o príncipe esperava uma reacção, embora sem querer interferir.

Essa reacção foi a duma vontade inquebrantável.

- Não provo!

- Bindar - insistiu o director, sem erguer o tom da voz -, é uma ordem. Encha uma colher e meta-a na boca.

- Não.

- Bindar, não tolero nem absurdas teimosias nem birras. Cumpra a minha ordem.

E o rapazito, quase a chorar, mas formal

- Não!

De novo na sala houve um sussurro... Uns aos outros, baixinho, os alunos perguntavam o que iria suceder.

A resposta não tardou.

Fleumático, o director dizia:

- Admito perfeitamente que o aluno Bindar se não encontre bem-disposto e por essa razão lhe não apeteça - e frisou bem o apeteça - o pequeno almoço. Assim autorizo-o a recolher-se ao seu quarto. Espero que à hora do almoço esteja completamente refeito. Caso contrário será visto pelo nosso médico. - E para o criado que perto assistia, especado: - Klaus, ao almoço levará ao aluno Bindar um prato bem cheio de deliciosos flocos de aveia... - e para o rapazito:

- Pode retirar-se, Bindar.

Muito pálido, mordendo nervosamente o lábio inferior, o indiano saiu da sala sem qualquer protesto. O director acompanhou-o com o olhar até vê-lo desaparecer.

Mal que ele transpôs a porta «Herr» Schmidt comentou, para todos os rapazes:

- Meus senhores... espero que nenhum queira repetir, nem hoje nem nunca, a manifestação de mau gosto do aluno que acaba de sair. Entretanto quero adverti-los de que o casti gopara outra possível atitude idêntica à que presenciaram será diferente daquele que foi agora dado. Não aceito esquisitices inconcebíveis na alimentação, dado que o exemplo parte de mim: na minha mesa come-se exactamente o mesmo que nas mesas dos alunos. Assim, se algum aluno se sentir descontente com o que lhe for servido, passará, por um período correspondente à gravidade da conduta assumida, a comer na cozinha. Se não comer e preferir passar fome... poupar-me-á, pelo menos, à inquietação que fatalmente sinto perante a ideia de que alguém aqui adoeça por não se alimentar.

E sentou-se, recomeçando tranquilamente a saborear as suas papas.

Era a primeira vez que a grande maioria dos rapazes ouvia o director do Reichvater fazer uma repreensão... e o que era mais uma repreensão seguida de ameaça... Talvez as duas coisas unidas merecessem antes o nome de prevenção...

De qualquer forma, depois do incidente, todos se sentiram impressionados, mal-dispostos... um pouco como se fossem culpados. Porque a verdade é que sempre havia quem torcesse o nariz a isto ou àquilo...

Então, no silêncio que persistia, houve uma frase que, embora ciciada, foi tão audível que todos estremeceram, percebendo-a. E se o silêncio em que estavam pudesse tornar-se maior... maior seria com certeza.

Que iria acontecer mais se o dr. Schmidt também a houvesse escutado?...

O dr. Schmidt escutara-a. E o seu olhar, que de bondoso e compreensivo passara a duro e inflexível, poisou-se em Ma-hur.

- Aproxime-se, aluno nº 98.

Quando um rapaz, ali no colégio, passava a ser designado não pelo seu nome mas pelo número sob que fora inscrito - é porque se tornara réu de grave culpa.

Ma-hur não o sabia, mas talvez que inconscientemente o coração se lhe apertasse como na corte do marajá seu pai se sentia oprimido o de qualquer individualidade ao pressentir-se caída em desgraça.

Contudo, sem perder a sua altivez natural obedeceu à intimação.

- Noventa e oito - repetiu o director -, peço-lhe a fineza de repetir e agora em voz alta o que acabou de dizer em voz baixa.

Ma-hur, hirto, de rosto carregado, impenetrável na sua expressão, volveu:

- Não me lembro de nada.

- Faça um esforço de memória.

- Não me lembro, senhor.

- Tem cinco minutos para tentar recordar-se. Sente-se e espere que volte a chamá-lo.

Ma-hur cumpriu a nova ordem sem qualquer hesitação. Na sala, o silêncio foi quebrado por um fervilhar surdo de comentários.

- Meu Deus! - suspirou Luís Pastor para o Paulo. - Desde ontem que não param os incidentes!... Que superabundância de coisas extraordinárias!

E o Paulo, da mesa dele.

- O tipo é duro... mas tem classe, apre! Já o director ordenava a todos que se calassem:

- Não façam barulho, meus senhores! Perturbam a concentração do aluno n.° 98!

O aluno nº 98, no mesmo instante, pôs-se de pé.

- O senhor director dá licença que eu lhe faça uma pergunta?

- Diga!

- Se a minha memória não funcionar, manda chicotear-me?...

Aquilo era mesmo uma orientalidade, como depois diria o Pedro... Uma saída que o director não esperava pela certa e que, durante breves momentos, lhe toldou o raciocínio... Logo, porém, dominando a situação, pôde responder, sem perder a serenidade:

- Aluno nº 98, o senhor encontra-se em terra de gente civilizada. Aqui não se chicoteiam crianças...

Paulo ciciou para o Fernando Vasco:

Taco a taco... O nosso director também tem muita categoria...

«Herr» Schmidt recomeçara a comer.

Enquanto os minutos decorriam, os rapazes, que se sentiam todos enervados, principiavam a acalentar a esperança de que o assunto esquecesse e ficasse dessa forma naturalmente resolvido...

Já quase todos tinham acabado a refeição e ansiavam por sair da sala, por mudar de ambiente. Alguns, que haviam marcado a hora da ocorrência, verificavam que em vez de cinco minutos iam decorridos dez.

«Herr» Schmidt desculpara o príncipe?

- Aluno nº 98...

Só o alvejado não estremeceu. Os outros sobressaltaram-se todos.

Não... «Herr» Schmidt não perdoara!...

- Aluno nº 98... levante-se!

Ma-hur aprumou-se. Continuava reservado e sombrio.

- Aluno nº 98... conseguiu recordar-se da frase que disse? Olhe que teve dez minutos em vez de cinco para pensar... Foi uma concessão...

- Inútil. Não me lembro.

- Ah, não?... Muito bem. Passará a manhã na prisão do colégio, completamente só. Talvez a sua memória se resolva a funcionar. Sabe, é que eu tenho o maior interesse em verificar se ainda oiço bem... - E para os alunos em geral: - Meus senhores, podem retirar-se. O dia começou mal... mas espero que a partir deste momento corra melhor e todos saibam aproveitá-lo...

Depois de os colegas dispersarem, Ma-hur foi acompanhado pelo prefeito até o aposento onde ficou com a porta fechada à chave pela parte de fora.

 

NENHUM dos rapazes engraçava com Ma-hur. Desde o princípio que tinham embirrado com o príncipe, com os seus modos arrogantes, com a sua grandeza, não a que possuía de facto e todos estavam prontos a reconhecer, (nada lhes custava aceitar a superioridade alheia) mas a que atirava por ostentação à cara dos outros. No entanto, desde o incidente dos caminhos de ferro, diminuíra a sua prevenção contra ele e estavam prontos a aceitá-lo, a abrir fileiras para ele entrar.

Agora, de novo Ma-hur tomara uma posição desagradável mas, apesar de tudo, os colegas não podiam sentir por ele a mesma animosidade de antes.

Todos haviam escutado a frase rebelde e sabiam que o director a ouvira como qualquer deles. Porque não quisera então aplicar-lhe imediatamente o castigo merecido? Talvez porque preferia obrigá-lo a humilhar-se... e a humilhação continha o próprio castigo em si. Mas, mesmo assim, os rapazes preferiam, que o companheiro não estivesse sujeito ao regime de clausura.

Durante a aula de alemão e a sessão de ginástica nenhum deles conseguiu eximir-se a pensar constantemente no pequeno príncipe isolado.

A prisão do colégio ficava no último andar, nas águas-furtadas do edifício. Era um quarto amplo, confortável, embora um pouco esconso, com uma vista soberba sobre o parque, o campo de jogos e a piscina.

Ao aluno detido - e eram raras as detenções no Reichvater - não se impunham privações directas. Tinha uma esplêndida cama, uma telefonia, alguns bons livros em três ou quatro línguas e um telefone ligado directamente ao gabinete do director.

Poder-se-ia perguntar que espécie de punição sofreria, com todas estas regalias, o indivíduo ali retido... Pois padecia-a, e bem grande!

Tudo fora preparado com perfeitos conhecimentos de psicologia. Tudo estudado sob formas pedagogicamente desenvolvidas até o máximo poder de efeito.

Aquele quarto grande, bem arranjado, com um panorama admirável, dispunha de possibilidades extraordinárias para dar ao prisioneiro a noção mais completa, mais ampla, mais total, do valor, do sentido, do gosto da liberdade perdida.

Por aquela janela aberta no espaço entravam a jorros o sol do dia, o perfume das flores e das árvores, o riso dos rapazes, a vista da sua alegria, dos seus jogos, dos seus divertimentos, dos seus saltos...

Dos seus saltos!...

Era vê-los, lá em baixo, na piscina, depois da ginástica, sob a direcção do padre Júlio... numa competição magnífica!...

Todos queriam mergulhar melhor do que os companheiros, de mais alto, com mais garbo, soltando ora gritos de triunfo ora de desalento...

Ma-hur, a princípio indiferente, recostado na cama a ouvir telefonia - talvez divertido com o castigo que o não incomodava nada! - não podia furtar-se aos sons exuberantes e significativos que ali vinham ter com ele.

E esses sons tinham um poder invulgar, bem calculado, bem previsto...

Aos poucos, o prisioneiro começou a sentir-se invadido por uma estranha perturbação. A gritaria feliz que lhe enchia o quarto incomodava-o. Pensou em fechar a janela e decidiu-se a fazê-lo. Mas... - caso único! - essa janela vasta não tinha nem portadas nem vidraças! Havia em cima duma cadeira agasalhos em profusão arredando qualquer hipótese de frio. Mas nada que impedisse a entrada vigorosa da Vida, da Liberdade!

Ma-hur não era estúpido, bem pelo contrário. E percebendo de súbito o requinte da punição inteiramente moral, procurou defender-se. Abriu a telefonia... O som tremendo dum jazz que foi a coisa mais barulhenta que nela encontrou alargando-se, espraiando-se, não conseguia dominar a algazarra que vinha lá de baixo...

Estendido na cama, debaixo do edredon de penas tapou os ouvidos com as mãos, fechou os olhos, tentando por todos os meios fugir ao sortilégio da chamada...

Todo ele foi revolta, fúria, desejos de vingança. E depois principiou a acalmar.

Então levantou-se, fechou a telefonia, foi pôr-se à janela.

Não, não quebrava no seu orgulho, bem pelo contrário. Estòicamente, aceitava a provação! Lá em baixo, os rapazes, que entre si se ocupavam com Ma-hur, preocupados, levantavam frequentemente as cabeças para a janela do quarto onde o sabiam retido. E quando o viram assomar, fizeram-lhe sinais, disseram-lhe muitos adeuses.

Encostado ao parapeito, o principezito tentava raciocinar e compreender a atitude dos colegas.

Porque pareciam interessar-se pela sua sorte, se ele, bem ao contrário, não queria saber de nenhum deles?

Hierático, gelado, não respondeu a um único aceno... mas de súbito deixara de os ver como se entre ele, herdeiro dum trono, e os outros, houvesse mundos diversos no mesmo espaço... Mundos distantes que iam afinal e apenas dentre um terreiro aberto e a janela sem vidraças nem portadas dum terceiro andar...

Tão pouco... e tanto!...

Sempre imóvel, sempre alheio a quaisquer marcas de simpatia, viu mergulhar o brasileiro, o francesito, um dos portugueses, dois alemães... Nomes? Não os conhecia. Não se preocupara até aí, sequer, em diferençá-los.

Agora, porém, sabia que tinham nacionalidades diferentes... Era como se estivesse dentro de água também, a aperceber-se de coisas imensamente novas...

O tempo decorreu.

Na piscina, tudo começou a serenar. Os rapazes, finda a lição de saltos, terminado o banho, recolhiam-se para se arranjarem e virem almoçar. Principiou o silêncio. Um grande silêncio povoado pelo cantar das cigarras primeiro e depois pela música de Vic... E os sons do piano, em ondas dulcíssimas, iam direitos ao coração de Ma-hur... E o coração de Ma-hur amolecia, embora ele o não soubesse reconhecer ainda.

Finalmente, a porta abriu-se e o prefeito surgiu, convidando o príncipe a segui-lo. Este acompanhou-o, com certa perplexidade.

Como iriam agora as coisas passar-se?

Tinha a impressão de que não suportaria os olhares dos colegas se neles vislumbrasse o mínimo ar de troça ou de censura...

Tudo lhe doía, dentro da alma...

Os rapazes, porém, conversavam uns com os outros, naturalmente. E a entrada de Ma-hur ocorreu como se nada de extraordinário se tivesse passado.

Sentado no seu lugar, o príncipe comia com imenso custo. O almoço era bom, mas passava-lhe dificilmente na garganta.

Só quando a refeição terminou, o director se fez ouvir. A sua voz soava clara e vibrante como uma campainha de alarme:

- Aluno nº 98!...

Os que falavam, calaram-se. Ma-hur perfilou-se.

- Aproxime-se! - E depois de o ver diante de si: - Quer dizer-me se já se recorda da frase que hoje de manhã aqui proferiu?... Ou necessita da ajuda de algum dos seus companheiros?

Ma-hur deixou passar instantes durante os quais se viu que engolia repetidas vezes a saliva. Sentia-se que o rapaz se preparava... Tomava balanço para um cometimento, fosse ele qual fosse!...

Na grande sala havia ansiedade. Que iria suceder?

Já o dr. Schmidt principiara a enrugar os sobrolhos quando Ma-hur, muito calmo - aparentemente muito calmo! - articulou, de cabeça bem levantada:

- Não preciso que ninguém me ajude, «Herr» Schmidt. Eu recordo-me perfeitamente do que disse e vou repetir-lho: «O meu pai pode pagar o suficiente para que eu coma na sala de jantar e só o que gosto. Espero que ninguém se atreva a mandar-me para a cozinha!»

As palavras de Ma-hur foram sublinhadas por um longo murmúrio que era um aplauso, um cumprimento. Repetindo textualmente o que de facto dissera nessa manhã, o rapaz acabava de subir mais um ponto na consideração geral.

Quanto ao director - rugas da testa imediatamente desfeitas - sorriu, francamente, complacentemente.

- Bem, Ma-hur... - (já não lhe chamou «aluno nº 98») - não posso dizer que acho essa frase de muito bom gosto. Gramaticalmente falando, porém, está certa. Pode retirar-se. A tarde é sua.

O assunto ficava assim arrumado.

Ma-hur baixou a cabeça, num aceno, e abandonou a sala. Satisfeito consigo próprio? Descontente por haver quebrado? Ou redimido de todas as faltas pela coragem da atitude finalmente assumida?

Durante muito tempo, os rapazes procurariam entender a verdade de Ma-hur. Mas, fosse ela qual fosse, sentiam-se todos dispostos a achar admirável a forma como o príncipe acabara por se comportar. Humilhando-se, impusera-se pela força convincente da própria dignidade.

No grupo dos portugueses, que decidira fazer uma sesta no parque, a conversa inicialmente girara em torno da conduta de Ma-hur, derivando a seguir para comidas boas e más, fartas e escassas...

Estendidos na relva da clareira estupenda, bem almoçados - que do Reichvater não havia senão bem a dizer! - iam contando vários caso seus conhecidos. E foi o brasileiro, o Luís Viegas Pastor, quem narrou um que em breve foi reconhecido como sendo o de maior interesse.

Estivera internado havia três anos num colégio, em Inglaterra, onde a alimentação não podia ser pior. E explicava, no meio da atenção geral:

- Nós tínhamos fome, mas fome da autêntica. Como, porém, quase todos recebíamos uns dinheiritos particulares da família, (cada carta lá trazia dentro uma notita) íamos arranjando maneira de resolver o problema. Mesmo em frente do nosso dormitório ficava uma leitaria. E a gente tinha feito uma combinação com o dono. Havia maneira de arranjar abastecimento. Tínhamos uma corda com um cesto. Quando anoitecia, descíamos o cesto, pelo meio das grades, com um papel onde escrevíamos as nossas encomendas e o dinheiro para as pagar.

- E que é que vocês compravam? - perguntaram várias vozes.

- Em geral bolachas, latas de conservas, carnes frias, leite condensado, chocolates... E antes de dormir fazíamos uma refeição que nos confortava alguma coisinha. Desta maneira conseguíamos aguentar o regime do colégio. Mas, certo dia, um de nós teve uma ideia fatídica... pelas consequências, claro.

- Que foi?... Que foi?... - perguntaram uns poucos.

- Pedimos seis garrafas de cerveja!

- Embebedaram-se todos? - indagou um dos mais novos.

- Vinte rapazes com seis garrafas? - riu Viegas Pastor. - Nada disso... embora para nós a maior das bebedeiras tivesse talvez resultados menos funestos.

- Então?

- O que nos aconteceu foi muito pior! Imaginem que o cesto, naquele dia, talvez porque o peso estivesse mal distribuído, oscilou mais do que habitualmente e foi bater na vidraça duma das janelas do rés-do-chão. Vidro contra vidro... imaginem o estrondo! Partiu-se uma garrafa... e a vidraça! Mas isto ainda podia ser de pouca importância!...

Os rapazes tinham-se aproximado mais do narrador.

Paulo comentou:

- Não me digas que nasceu daí alguma complicação!

- E que complicação!

- Conta! Conta! - pediram uns poucos.

- Imaginem só que a janela era a do quarto de dormir dum professor façanhudo que não perdoava aos seus alunos a mais pequena falta... E que naquela noite, para cúmulo do azar, se deitara muito cedo porque se sentia engripado!...

- Oh!... - fizeram todos, vislumbrando a cena.

- Calculem agora o que aconteceu quando ele saltou da cama, alarmado e, abrindo a janela e espirrando em vários tons, topou com o cesto que nós, no cúmulo da atrapalhação, nem tínhamos puxado rapidamente para cima nem deixado cair à rua!...

- É claro que mesmo que vocês tivessem agido de qualquer dessas formas, eram descobertos! - comentou o Fernando Vasco.

- Sem dúvida, mas talvez com mais esforço e menos barulho... Porque naquelas circunstâncias... o escândalo foi imediato! Com o cesto na mão, a praguejar contra os «malditos rapazes por culpa dos quais ainda apanhava uma pneumonia» veio o professor, veio o director, vieram os contínuos... Nem vocês podem supor o que aquilo foi! Revistaram-nos as camas, os armários, os pijamas, as malas... nem que fôssemos criminosos! Coitados de nós! A nossa culpa era... ter fome!

- E vocês não explicaram isso mesmo ao director? - perguntou o Pedro.

- Explicar?!... Que ilusões!... Mas ele sabia muitíssimo bem que nós não andávamos suficientemente alimentados!

- Então como é que a coisa acabou nessa noite? - inquiriu Jean-Paul.

- Não acabou nessa noite! Porque não contentes em nos terem apreendido a nossa ceiazinha, ainda nos pregaram no dormitório com dois vigilantes... Na manhã seguinte, fomos a conselho.

- A conselho? - exclamaram todos.

- A conselho! E como deliberadamente contássemos que todas as noites comíamos... nem supõem a bernarda! É claro que o que mais agravava a nossa posição - ou pelo menos servia para a complicar - eram as garrafas de cerveja. Chamaram-nos uma data de nomes feios, acusaram-nos de delinquentes, castigaram-nos... e sei lá mais o quê!

- E vocês não explicaram aos vossos pais o que se passava? - perguntou Vic.

- Tentámos. Mas ai de nós! A nossa correspondência foi...

- Apreendida?

- Não, apreendida, não. Simplesmente o director manobrou de modo a destruir todo o efeito das nossas lamentações.

- Como? - perguntaram alguns rapazes, indignados.

- Oh, muito inteligentemente! Escrevendo antes aos nossos pais ou encarregados de educação a lastimar-se da nossa conduta, a contar os desgostos que lhe dávamos, os actos de rebeldia que praticávamos, o mau aproveitamento escolar que tínhamos, etc.

- Mas que prenda, não haja dúvida! - vociferou Jean-Paul.

E Luís Pastor continuou:

- Só lhes digo que de tal maneira nos «enterrou», a todos, que as nossas míseras cartas, ao chegarem ao seu destino, mais não fizeram do que indispor os nossos pais, que julgavam ver nas nossas queixas um rebuscado motivo para sair do colégio...

Vic esticou-se todo para a frente, tenso numa pergunta cheia de interesse:

- Então como é que foi daí em diante? O director passou a alimentá-los conveniente mente ou vocês morreram de fome?

Houve uma explosão de gargalhadas. O Pedro, entre froixos de riso, ripostou:

- Morrer... pelo menos não morreram todos porque o Luís está aqui!

E o Luís:

- Não, o director não alterou em nada a sua conduta e nós continuámos a passar o pior possível até às férias. Nós, não. Para mim o martírio acabou mais cedo e creio que a tempo, quando não saía de lá tuberculoso… . Porque a minha mãe, apesar da relutância do meu pai em me acreditar, não ficara inteiramente descansada. E tanto insistiu com o meu pai, que ele tirou dois dias às suas ocupações, meteu-se num avião e apareceu no colégio quando menos era esperado. É claro que ao ver-me, tão magro que parecia uma aranha, até tremeu... - e riu, mostrando os belos dentes muito brancos. - Mas olhem que o director também tremeu!... Quando o meu pai se compenetrou de que a fome no colégio era um facto terrível e reparou nos meus desgraçados colegas, tão enfiados como eu, houve um sarilho que nem podem imaginar!

- O teu pai não meteu na cadeia esse traste? - indagou o Fernando Vasco.

Luís Pastor encolheu os ombros.

- Os directores dos colégios internos são como os dos hotéis e das pensões mal orientadas, mal dirigidas. Não há leis que os proíbam de fazer passar fome aos desventurados que lhes caem nas unhas.

- Ora essa! Há leis morais!

- Pois sim, mas essas não levam à prisão, em lado nenhum.

- Então o maroto do homem ficou sem castigo?

- Não, não ficou. Todas as coisas voluntariamente mal feitas, embora na ocasião possa parecer que vão ficar impunes, acabam por ter o seu castigo.

- Então qual foi a punição dessa horrorosa pessoa? - inquiriu Pedro.

- Eu lhes conto. Eu saí imediatamente, claro. Certo que um aluno a mais ou a menos não afecta em nada um colégio... embora o pai desse aluno faça contra ele a maior das propagandas. Simplesmente, o que sucedeu comigo acabou por suceder com todos os outros. E, um hoje, outro amanhã, todos foram provocando o espanto, o terror e a indignação das suas famílias... Estas não pouparam nem censuras nem queixas ao director, em torno do qual principiou a fechar-se um tremendo círculo. É claro que ele podia, se quisesse, entravar o andamento que as coisas estavam a levar. Bastava-lhe modificar imediatamente a alimentação e torná-la abundante e sadia. Mas estava tão convencido de que podia fazer quantas tropelias quisesse sem que lhe fossem à mão, que não aumentou nem sequer... um pãozinho nas ementas!... Resultado: o colégio ganhou uma tal fama que fechou. Olhem, acabou no ano passado!

- Lógico! - sentenciou o Paulo. - É sempre assim! Ninguém faça mal à conta de lhe vir bem...

Nesse mesmo instante, a interromper a efervescência dos comentários, surgiu o Karl à frente dum bando. Trazia um recado do director: estavam todos convidados para no dia seguinte irem assistir a um dos espectáculos do grande festival de música que, como nos demais anos, se realizava na vizinha cidade de Friburgo. A partida estava marcada para as 7 da manhã, em autocarros. Almoçariam na cidade, convidados pelo colégio.

Os rapazes ficaram contentíssimos e proclamaram a sua alegria, ruidosamente.

Só Vic não exteriorizara qualquer alegria. Pelo contrário. Com as mãos apertadas uma na outra e os lábios trémulos, fizera-se tão pálido que, se os restantes não estivessem distraídos, por certo se inquietariam e lhe perguntariam se não se sentia bem...

 

QUANDO Karl e o seu grupo dispersaram, a levar o convite aos demais rapazes, Pedro reparou em Vic. Reparou em Vic e fez sinal ao Paulo e ao Fernando Vasco para que o observassem também.

O compositor ainda não mudara de posição nem desviara o olhar dum ponto indefinido onde só ele, para além de tudo e de todos, via qualquer coisa por certo ou muito importante ou muito bela.

Estranhando a atitude, Pedro não se conteve e chamou por ele, baixinho.

- Vic... que é que tens?...

Ele sorriu.

- Nada… - E pouco depois: - Ou antes...

estou muito contente.

- Contente?

- Sim.

Pedro tomava contacto pela primeira vez com a imensa força da alegria silenciosa.

Compreendendo que devia explicar-se a quem por ele se interessava com sinceridade, Vic Nusen acrescentou, sem que o português carecesse de insistir por um mais amplo esclarecimento:

- Estou muito contente por ter chegado a hora de ir ao festival. Finalmente vou conhecer Fedor Plawinsky.

- Quem é Fedor Plawinsky? - inquiriu o Paulo.

- Um dos professores do Conservatório de Viena. Um dos maiores compositores actuais e chefe de orquestra famoso.

Os nossos rapazes nunca tinham ouvido aquele nome. Aceitaram o esclarecimento com a maior naturalidade.

Logo a seguir, porém, o Fernando Vaso inquiriu, sem esconder a sua admiração:

- Mas como é que tu sabes que esse Plawinsky está em Friburgo?

Como única resposta, Vic tirou da algibeira do casaco um folheto amarrotado - viu-se depois que se tratava dum programa de óptimo aspecto, amachucado pelo uso - e estendeu-o a Fernando Vasco, que, por sua vez, depois de o consultar, o passou aos amigos e aos colegas presentes, agora todos atentos. Enquanto eles o liam, Vic dizia, de cor, com os olhos semicerrados, embalando-se nas próprias palavras:

- Sequência do XIII Festival de Friburgo... Seis concertos sinfónicos, três óperas, quatro recitais... um espectáculo de ballet... e três concertos de câmara. Amanhã, antes do almoço, o recital de Serge Solmer, um pianista francês que há-de dar que falar. Às quatro da tarde, o primeiro concerto com as obras de Sigfried Liebesman... um jovem compositor alemão que em breve se consagrará no mundo inteiro... Vamos ouvi-los... Vai ser maravilhoso!

Jean-Paul, francamente, não tinha entendido a relação do entusiasmo pelo programa com o nome de Plawinsky.

- Então... e o tal de quem falaste?

- Fedor desta vez não toca. É membro do júri do concurso.

- Qual concurso? - indagaram várias vozes ao mesmo tempo.

- Vem aí... no fim!

Vinha. Era um grande concurso de piano para jovens dos 16 aos 22 anos.

É só para alemães? - perguntou o Pedro, enquanto os outros acabavam de ler.

- Não. As nacionalidades não interessam.

- Sendo assim... porque é que tu não concorres?

- Histórias...

Os rapazes estavam todos interessadíssimos. Percebiam, na expressão dolorosa de Vic, um problema que por certo o magoava e cuja solução buscava esforçadamente, ansiosamente.

- Queres contar-nos o que te aconteceu? - propôs o Paulo.

- Como sabem que me aconteceu? - perguntou Vic, com certa estranheza.

- Vê-se a sombra disso nos teus olhos! - confessou Jean-Paul, com um entusiasmo franco.

- Seja... - e Vic anuía. - Eu conto, embora se trate duma coisa aborrecida... No fundo, faz-me bem desabafar junto de quem possa ajudar-me com a sua compreensão. Vocês sabem que eu não toco mal... e que componho umas coisas.

- És um pianista feito e um compositor excepcional! - garantiu o Pedro, com fervor.

Vic sorriu-lhe agradecido e continuou:

- Quando fiz os doze anos... o professor que então me ensinava era de opinião que eu devia apresentar-me imediatamente em público... talvez para seguir na esteira dos grandes pianistas que principiaram as suas carreiras em meninos. O meu pai, porém, não concordou. Temia ver-me falhar depois de homem e preferiu conservar-me oculto de todas as exibições. Entretanto, o meu professor insistia, sempre... e acabei por, há três anos, dar a minha primeira audição. Tinha feito há dias os 16 anos. Posso dizer que satisfiz o público e que me satisfiz a mim próprio. No entanto, na minha forma de ver, não são estes triunfos passageiros que contam. A música, para mim, não é um capricho, nem um querer determinado… mas sim qualquer coisa que está comigo e me é tão natural e tão preciso como respirar...

Os rapazes que o escutavam, nem buliam, de concentrados.

E Vic prosseguiu:

- Acontece que eu tinha um colega, mais novo do que eu dois anos, e que tocava - e toca - excepcionalmente bem.

- Melhor do que tu? - interrompeu o Paulo, com ar de quem achava a suposição inaceitável.

Vic olhou para ele com reconhecimento e depois prosseguiu:

- Não há melhor nem pior! Fazemos ambos o que podemos de acordo com o que sabemos e sentimos. Aliás, entre nós dois nunca houve rivalidade. Simplesmente, as pessoas que nos rodeavam não foram capazes de nos entender, de se conservarem isentas, estimando ambos da mesma forma e incitando-nos para que no meio em que nos achávamos pudessem crescer dois valores em vez dum só. E assim, principiaram a dividir-se em partidos...

Agora, os rapazes principiavam a vislumbrar a realidade amarga de Vic Nusen.

- Daí o resultado. Quando se pensou em mandar um concorrente ao concurso do festival de Friburgo, não se admitiu que viéssemos dois! A pequenez de certas criaturas contenta-se com o mínimo... Os dois partidos, sem que eu e Lil Belm agíssemos - eu não fiz nada por mim e acredito que ele fosse tão isento como eu! -, rivalizaram. Superiormente, e inexplicavelmente, determinou-se que fosse só um o concorrente. O partido de Lil cresceu, exerceu influências. Tinha um argumento supremo:

dizia que, por mais novo, devia ser ele o escolhido. A sua idade influiria no júri. - Fez uma breve pausa, e depois acrescentou: - Foi ele o escolhido portanto. Está em Friburgo para tocar no fim da semana.

I tu?

- Eu... estou aqui.

Paulo explodiu:

- Não tiveram então escrúpulos de te prejudicar?

Vic sorriu docemente, abanando a cabeça.

- Não me prejudicaram. Cada qual tem o seu valor. Aliás, a mim, o que verdadeiramente me fez sofrer foi julgar perdida a oportunidade de mostrar as minhas composições a Fedor Plawinsky.

O Fernando Vasco vociferou:

- Em toda a parte se fazem patifarias!

- Em toda a parte, não! - discordou o Pedro. - Tu sabes perfeitamente como as coisas se passaram no nosso colégio, entre mim e o Paulo. Graças à acção inteligente dos professores e do director, não ficámos inimigos irreconciliáveis...

Os outros, interessadíssimos, quiseram saber o que tinha havido. E o Pedro contou como em vez dum prémio de excelência, dado no fim do ano ao melhor aluno, passara a haver dois, para que não ficassem em inferioridade, um perante o outro, os dois rapazes que, afinal, o mereciam tanto um como o outro e a quem essa mesma rivalidade, a todos os títulos notável, por pouco, na infância, não estragara a vida. A atitude dos educadores fora notável e, colaborando no desenvolvimento das boas qualidades essenciais dos seus discípulos, contribuíra de forma digna de todo o louvor para a formação daquela imbatível equipa de alunos excepcionais.

O Fernando Vasco, enquanto os outros satisfeitos, aplaudiam, ainda cheio de reservas insistia:

- Pois sim... mas casos desses, são raros!... Já o assunto da conversa, porém, voltava a derivar para o problema de Vic.

- E agora - perguntou Luís Viegas Pastor -, como é que pensas remediar o sucedido?

- Aproveitando o dia de amanhã!

O Paulo, de súbito, teve a percepção de que entendera tudo e, com o entusiasmo, até se pôs de pé.

- Espera! - clamou triunfante. - Parece-me que estou a compreender!

Vic sorriu para ele. E no seu sorriso claro havia um ar de confiança - mais ainda que de esperança -, que podia sem dúvida ser tomado como a medida certa duma predestinação.

- Sim, é natural que tenhas percebido. É isso mesmo. O meu pai soube da existência deste colégio... em condições que nos eram favoráveis. E desde que partiu do princípio que eu me encontrava posto no único caminho pelo qual posso seguir... e que cortar-me a carreira era o mesmo que liquidar-me... mandou-me para aqui. Entretanto, logo de princípio escreveu ao dr. Schmidt a explicar-lhe o me: caso... e o nosso director, como vêem, está a fazer tudo para que eu fale com Fedor Plawinsky.

- Claro! É essa uma das razões por que vamos ao festival! - deduziu Jean-Paul.

- Vocês iriam de qualquer forma. Todo os anos os rapazes deste e de quantos colégios têm a possibilidade de os levar lá assistem a espectáculos que nunca mais esquecem.

Eu é que vou por um motivo especial. Falar

com o mestre.

- Queres ir acabar os teus estudos com ele? - perguntou o Pedro.

- Quero. Quero acabar de preparar-me, não só para continuar a escrever toda a minha obra com o máximo desenvolvimento possível, mas também para me sentir apto a iniciar a minha vida de concertista. Se me fora dado ser o escolhido para o concurso, aqui, a coisa teria sido mais fácil... Mesmo assim. - e os seus olhos enormes sorriam, cheios duma luz estranha - tenho fé em que Plawinsky me vai ajudar.

- Vic - pediu o Paulo -, queres vir tocar para nós, um pedaço?

- Quero, sim.

Acompanharam-no todos ao salão. Vic Nusen sentou-se ao piano e as suas mãos percorreram o teclado, ao de leve.

Os rapazes, sentados no anfiteatro, pequenos pontos de emoção espalhados ao acaso, entraram em comunicação directa com a arte que chegava e se impunha.

Vic tocava. E havia na música dele qualquer coisa para além do natural que aquela juventude em flor, sem nenhuma espécie de preparação, não saberia definir, mas sentia. E sentindo, admirava. E admirando, respeitava a Deus que a um rapaz como eles concedera um dom que ainda nenhum vira de perto.

Os verdadeiros artistas são eleitos de vontade divina. Não se fabricam. Nascem. E depois procuram definir-se pelo trabalho mais árduo, Pelo estudo mais profundo, como Vic...

Tudo isto, escutando-o, aquele punhado de rapazes apreendia, fascinado.

De súbito, porém, houve uma invasão na grande sala. Eram cinco, capitaneados por um alemão com quem os latinos privavam pouco. Sabiam apenas que se chamava Klaus e que era bastante abrutalhado durante os treinos dos jogos em que participava.

E este, sem ligar qualquer importância ao momento de paz e de beleza que ali ocorria, bradava para Vic, imperiosamente:

- Eh... cala-te com isso! Acaba com esse chinfrim!

E como Vic estacasse imediatamente, olhando-o tão pasmado como os companheiros, bradou, com o arzinho selvagem que o caracterizava:

- Eh, rapazes, a gente vem cá saber se vocês querem entrar na nossa combinação!

Aborrecido, como todos os outros, o Pedro cujo alemão melhorava de forma - como aliás o de todos eles - com incrível rapidez, perguntou:

- Qual é a combinação, tão important que não pudeste esperar que o Vic acabasse o que estava a tocar?

Klaus ria, com um riso nitidamente alvar.

- É uma ideia bestial, pá! Há aqui perto um acampamento onde amanhã vão realizar-se exercícios de fogos reais.

- E que é que nós temos com isso? - indagou o Fernando Vasco, de testa franzida.

- Viemos perguntar se vocês querem lá ir com a gente! Tem muito mais piada do que assistir a esse tal festival só para ouvir música e mais música! Nós, por nós, não vamos. É uma chumbada!...

O grupo que o seguia aprovava, ruidosamente. Os outros entreolharam-se, com expressões que não deixavam dúvidas acerca do que pensavam.

Disse o Fernando Vasco, com um sorriso desdenhoso, para os amigos:

- É por isto que o mundo se não tomba. Se fôssemos sempre todos da mesma opinião, apinhávamo-nos duma só banda e esta coisa virava-se!

Vic pusera de novo as mãos sobre o teclado e, devagarinho, tocava acordes soltos, desarmónicos, agudos... Escutá-los fazia impressão.

Tanta impressão como ouvir uma pessoa a gemer...

Indiferente a tudo, como se não percebesse que vinha espalhar a semente em mau terreno, Klaus prosseguia:

Aquilo, pás, há-de ser uma coisa falada!

Tiros a sério, como nos combates! É dum tipo dar urros!

Pedro pensou - mas não disse! - que urros, pelos vistos, dava ele sempre que falava, ao mostrar a sua inteligência brilhante...

Já o Luís Viegas Pastor, que se levantara e se aproximara do bando, inquiria, com aspecto carrancudo:

- Mas olha lá, a excursão, amanhã, não é para todos?

- É! - ripostou o outro. - Mas há um grupo que vai desertar...

- Um grupo?

- Sim... por agora... somos cinco, mas andamos a ver se há mais quem se nos queira juntar.

Paulo colocara-se ao lado do brasileiro. E enquanto os acordes de Vic principiavam, em lenta progressão, a tornar-se mais harmónicos e mais agudos, indagou:

- Achas muito útil querer levar para essas tais manobras os que estão dispostos a ir ao festival?

Klaus tornou a rir, como se tivesse ouvido uma piada com muita graça.

- Eu cá não sei se é útil, mas é maif divertido com certeza. Adoro os soldados!

Junto de Luís Viegas Pastor e de Paulo Ataíde de Lemos, aprumava-se já outro rapaz; Pedro Ferreira de Macedo, falando:

- Também nós. Por isso mesmo, vê-los nos seus exercícios ou nos seus postos de honra, não se nos afigura uma distracção, mas sim um motivo de respeito! Podes ir-te daqui. Nenhum de nós te acompanha!

E enquanto o bando, tal como entrara, saiu, decerto sem ter compreendido até que ponto se tornara merecedor do desagrado dos outros, os acordes de Vic tornaram-se triunfais!

 

DE manhã muito cedo - quase madrugada ainda - os rapazes foram despertados por dois prefeitos que iam batendo às portas dos quartos e clamando numa voz jovial um alerta magnífico...

Uma única palavra bastava para os pôr imediatamente a pé e bem dispostos:

- Festival! Festival!... Festival!!!...

Foi, durante cerca de uma hora, um tumulto incessante no grande edifício.

Às sete em ponto estavam todos juntos, rindo e tagarelando, de volta de dois enormes autocarros.

Vic, perto de Pedro e de Paulo, denotava o seu nervosismo, mordendo os lábios incessantemente. «Herr» Schmidt, ao passar por ele, deu-lhe uma afectuosa palmada nas costas. Há expressões e gestos mais significativos do que discursos...

A uma ordem do director, os rapazes trataram de acomodar-se. Os guias dividiam-se também pelos dois carrões.

Tudo se fazia com alegria e com ordem, natural. Não havia atropelos nem confusões.

Ninguém - nem mesmo o dr. Schmidt se lembrou de contar os alunos. Como imaginar sequer que houvesse quem não desejasse participar dum tal passeio?...

E se alguém deu fé da falta duma cara mais conhecida no seu autocarro, depois de todos arrumados, logicamente imaginou que estaria entre os do outro...

Assim, na manhã claríssima e amena, os enormes autocarros arrancaram com o seu carregamento precioso de almas felizes.

Felizes ficavam também - ou julgavam sentir-se - os seis desertores. Ao pequeno grupo da véspera reunira-se apenas mais um. Esfregavam as mãos e davam-se os parabéns por tão facilmente haverem escapado à vigilância superior.

O ardil, bem estudado por Klaus, dera resultado.

Tinham comparecido ao pequeno almoço, como os companheiros. E descido para o terreiro. E entrado para os autocarros por uma porta, saindo por outra, com a maior calma, um a um... E um a um, pelo meio dos colegas e dos próprios mestres - todos tão longe de poderem suspeitar da manobra! -, escapulido para o grande parque, inocentemente cúmplice da aventura... A aventura que ia principiar para seis adolescentes em culpa!

Depois de todas as diligências efectuadas - e verdadeiramente notável se podia considerar o facto de não ter havido qualquer denúncia (talvez os rapazes não tivessem acreditado na verdade da intenção, na coragem de a levar a efeito, ou na sua própria importância). Klaus Limler apenas conseguira mais um adepto: Pepe Ruiz de Castrilla. Os outros quatro eram um - americano - Fred Leish, um mexicano Gerôncio Lopez, e mais dois alemães: Herbert e Frederic.

O heterogéneo grupo orçava entre os treze e os dezasseis anos. E todos se sentiam muito orgulhosos com a façanha que julgavam formidável.

Klaus estudara os meios de acesso ao campo de manobras, distante do colégio talvez uns quarenta quilómetros. Havia um comboio que os poderia deixar num apeadeiro relativamente próximo do quartel-general, onde era preciso chegar a tempo de falar com um oficial conhecido (e ele tinha lá o pai dum amigo) a fim de obter autorização para assistir aos exercícios.

Simplesmente, entre a partida dos autocarros e a hora do comboio mediava um escassíssimo lapso de tempo. Tão escasso que os seis rapazes, apesar do passo acelerado em que abalaram para a estação, já nem a cauda lhe viram... Combinações feitas no ar por cabeças inconsequentes são sempre muito susceptíveis de falhar.

Entretanto e passado o primeiro instante de perplexidade, não desanimaram. Aliás, Klaus Limler era aquilo a que pode chamar-se um «rapaz cheio de iniciativas».

- Eh, pás! - clamou, a tratar de lhes levantar o moral. - Não há impedimento nenhum! A gente vai de táxi!...

- De táxi!... De táxi!...

Pois claro, de táxi! Era uma nova ideia, e excelente, que tudo resolvia. Foram à procura dum carro.

Encontraram-no, evidentemente, com toda a facilidade.

Apresentaram a proposta ao motorista, quiseram saber o preço. O homem não se fez rogado. Aliás, situava-se o tratado dentro do exercício normal da sua profissão - levar as pessoas onde elas queriam ir.

Quarenta quilómetros... custavam exactamente tanto... - mas, à cautela, foi-lhes perguntando se eles tinham dinheiro para pagar. Mostraram-lhe os seus marcos. Chegavam e sobravam!...

No entanto, as dificuldades não estavam terminadas.

Resolvida a questão da massa, o motorista contou-os. «Um, dois, três, quatro, cinco, seis...» e declarou que só podia levar cinco - e já por favor.

Era uma complicação taluda! Como resolver o caso? Ficar um de fora? Mas, mesmo que tirassem à sorte, que havia de fazer o infeliz assim irradiado?

Expuseram o problema ao motorista. Manteve-se obstinado. Era impossível levá-los a todos. Falaram-lhe ao coração, recusou-se a ouvi-los. Falaram-lhe à algibeira...

- Damos-lhe uma boa gorjeta!...

Ele entendeu-os, entrou num acordo.

Levaria, por grande obséquio, todos seis, desde que um deles fosse sentado no chão do carro de modo a que a cabeça nem sequer se visse pelos vidros. Não estava disposto a pagar nenhuma multa, e a vigilância nas estradas era apertada!...

Coube a sorte de ir escondido - os rapazes tinham sido leais e confiado o assunto a uma moeda... - ao mais alto de todos, ao Pepe!

E Pepe lá se encaixou aos pés dos companheiros conforme pôde - e pôde muito mal! - entre os joelhos de todos e o banco da frente. O espaço era mais que pouco. Pepe ia todo encolhido. Os quatro rapazes, muito apertados, não tinham onde colocar pernas e pés. Volta meia volta, Pepe gemia sob uma inconsciente pisadela... E depois não lhe era dado levantar a cabeça para nada. Se procurava esticar um pouco o pescoço e aliviar a pressão das costas dobradas, levava um carolo imediatamente.

- Ih... quieto!...

O único bem instalado era Lopez, que seguia ao lado do motorista... e esse usufruía completamente o prazer da escapada...

Contudo, o caminho não podia dizer-se que fosse muito longo, o carro seguia em bom andamento, e o tempo passava...

A uma indicação de Klaus, que levava nos joelhos um pequeno mapa que ia estudando cuidadosamente, o automóvel abandonou a estrada principal e, subindo, internou-se por um atalho.

Mais alguns minutos decorreram.

- Já não estamos muito longe! - gritou o «chefe» do grupo, para animar os companheiros.

No mesmo instante, qualquer coisa passou zunindo por cima do automóvel e, escassos segundos decorridos, foi tudo abalado por um estrondo enorme. E, de chofre, vindos de toda a parte, - felizmente! - desabaram por cima do carro, que estacara, acto contínuo, terra, pedras e pedaços duma árvore...

O motorista, que no susto deixara o motor ir abaixo, agora invectivava os rapazes, gaguejando:

- Podiam... podiam ter avisado que já estávamos no... no... no campo de manobras!

Boa censura!... Como se eles soubessem!... No entanto não discutiram. Intimidados, cheios de nervos, ouviram o homem garantir que não avançava nem mais um metro... ansioso de recuar!

Pagaram-lhe generosamente e viram-no abalar em marcha atrás com uma velocidade incrível... Assim se acharam os seis aventureiros num campo de manobras militares em pleno período de exercícios de fogos reais...

Ainda mal tinham tido tempo de principiar a raciocinar sobre a melhor forma de se aproximarem dum local livre de perigo - e onde, esse local, numa zona especialmente demarcada para as operações? - quando de novo algo de grande passou assobiando por cima dele.

Instintivamente, atiraram-se todos para o chão.

A granada rebentou longe. Pelo menos suficientemente longe... Nada os atingiu além do susto... susto enorme e crescente com a medida da noção exacta do perigo.

E contudo, essa noção ia levá-los, numa espécie de delírio, a agir inversamente ao que naquela ocasião seria aconselhável.

Pepe de Castrilla gritara para os outros:

- Depressa!... Depressa para o aquartelamento!

E os rapazes, que deviam recuar - como o motorista! - atiraram-se para a frente e para cima numa carreira desordenada!

Era como se caminhassem para o Inferno!...

Num ritmo acelerado, tal qual como se em vez de seis rapazes indefesos avançassem contra eles perigosos inimigos, os canhões haviam começado a disparar uns após outros, incessantemente.

As granadas choviam e explodiam por aqui e por além e os rapazes, completamente desnorteados, corriam, pulavam, gesticulavam como fantoches, berrando e chorando.

Uma delas rebentou tão perto de Pepe e de Klaus que ambos foram projectados pelos ares e caíram em cima duma árvore, a qual, embora lhes amortecesse a queda, não pôde evitar que, ao rebolarem para o chão, aí ficassem estendidos bastante contusos.

Frederic e Herbert esconderam-se atrás dum penhasco, gemendo, de olhos tapados.

Foi um tempo indescritível de horror total! Um tempo cheio de agonia...

Com efeito, mais tarde, eles Contariam que tinham estado sempre à espera da morte.

No entanto, a divina Providência queria poupá-los.

Quando os exercícios daquela manhã tremenda cessaram, enfim - os seis rapazes viviam!

Rotos, sujos, desfigurados, magoados, pareciam soldados depois dum combate impiedoso...

Simplesmente o seu moral era bem diverso do dos combatentes, que ao cabo da luta sentem em si a imensa alegria de existir depois do dever cumprido com todos os riscos. Eles apenas experimentavam o amargo travo dum fracasso imenso e dum perigo inútil!

Olhavam-se, aparvalhados, compreendendo que o êxito de um dia, antevisto formidável, redundara no mais absoluto malogro...

E à hora em que algumas centenas de rapazes, idos de toda a parte, reunidos em Friburgo, deleitados, viviam uma felicidade espiritual inesquecível, envolvidos por expressões maravilhosas da Arte, aqueles seis iam-se arrastando, penosamente, pelo caminho do regresso ao Reichvater.

 

O ambiente no colégio era lúgubre pela primeira vez - decorridas mais de quatn semanas maravilhosas. Finalmente - e por acaso! - depois dum almoço estupendo, depois dum concerto extraordinário, depois da grande emoção (por todos vivida com igual ansiedade) do encontro entre Vic Nusen e Fedor Plawinsky, do qual, após o rapaz ter tocado para o mestre algumas das suas composições, resultara a promessa formal de ser por ele aceite como aluno mal chegasse a Viena, e justamente quando os rapazes, eufóricos por si próprios, pelo dia magnífico, pelo triunfo do camarada, saboreavam o gosto raro duma felicidade absoluta, o dr. Schmidt, ao fazer qualquer comentário, enrugou a testa num súbito reparo. Acabava de notar a falta duma cara familiar.

- Onde está o Pepe?...

Pepe?... Pepe de Castrilla?

Ninguém sabia, não.

E, interrogando-se uns aos outros, todos acordavam agora em reconhecer que não se lembravam de o ver em parte nenhuma...

Na busca de Pepe, não tardou que alguém notasse que também faltava, entre eles, o Klaus... E assim, de observação em observação, de procura em procura, se chegou à conclusão alarmante, de que haviam desaparecido nada menos do que seis alunos!

 

Uma vez convencido do facto incontestável - todos, interrogados um por um, estavam certos de que não haviam visto, em nenhum dos autocarros, além de Pepe e de Klaus, Herbert, Gerôncio, Frederico e Fred -, o director e os prefeitos renderam-se à evidência. Os rapazes não tinham vindo na excursão!

Procurando motivos que pudessem desviar esse pequeno grupo do passeio que a todos tanto interessara, «Herr» Schmidt, na sua experiência de homem bem adestrado no conhecimento dos desvios a que a adolescência se sujeita, não tardou em lembrar-se dos anunciados exercícios de fogos reais a 40 quilómetros do colégio.

Então, do próprio local onde se encontravam, o director obteve uma imediata ligação telefónica com o aquartelamento instalado na zona.

De lá, porém, foi-lhe comunicado que nenhum rapaz fora avistado no campo das manobras ou se apresentara a solicitar qualquer autorização especial para a elas assistir.

Nova comunicação se estabeleceu, no meio da inquietação geral, para o Reichvater.

Não. Ninguém sabia do grupo desertor! O regresso ao colégio efectuou-se num ambiente de tragédia. Tragédia que se adensava sobre todas as almas, enquanto se ia espalhando a notícia do ocorrido.

O motorista de Lieblingen que levara os rapazes contara como tudo sucedera, até o momento em que os deixara, a pessoas suas conhecidas. O caso passava de boca em boca e o alarme tornava-se geral na região.

Também dentro do campo militar o receio de um horrível acidente crescia de momento a momento.

 

O tempo decorria e a inquietação entre todos tornava-se desvairante.

Pela primeira vez nos anais da história do Reichvater, a hora do recolher cantou em vários relógios sem que a alegre sineta ordenasse o descanso.

O director e os guias compreendiam o estado de alarme dos alunos e não tinham a coragem de impôr-lhes o regime habitual, dado que todo o repouso se justificava impossível.

A angústia e o medo, aumentando de momento a momento, tornavam-se intoleráveis.

A polícia das redondezas e os bombeiros, alertados pelo dr. Schmidt, tal como numerosos soldados, batiam já a zona perigosa, em busca das presumíveis vítimas.

Nenhumas notícias chegavam! Impossível adivinhar, na multiplicação dos metros quadrados em quilómetros e dos quilómetros em léguas, o paradeiro dos seis transviados!

À meia-noite, pelas pequenas salas e pelos corredores, os rapazes do Reichvater vagueavam, entreolhando-se, suspirando, roendo as unhas, espreitando às janelas. Os professores imitavam-nos. Simplesmente, em vez de roer as unhas, fumavam…

Todos pressentiam, confusamente, que tinha por força de haver mais qualquer coisa a fazer. Mas o quê? O quê?...

O tempo de espera, cheio dum horroroso vazio, afigurava-se tremendamente superior às forças da resistência, da confiança, da fé.

Mas, de súbito, naturalmente sentindo o que todos sentiam, o padre Júlio tomou uma iniciativa. Chamou quantos andavam dispersos, pedindo-lhes que se reunissem para rezarem um Pai-Nosso pelos desaparecidos.

E os que oraram, ganharam novas forças.

Mas o silêncio voltou depois a tornar-se geral e insustentável.

Dir-se-ia uma noite de vela - uma dessas noites em que muita gente se reúne para pela última vez fazer companhia a um amigo que deixara a vida.

Cada qual, cheio de cuidado, e agora também de sono, se dobrava sobre si mesmo, num afluir de pensamentos cada vez mais tristes. Percebendo que alguns, principalmente os mais novos, cabeceavam, o director ordenou que os rapazes fossem deitar-se. O que se tornava sacrifício de tantos não adiantava para a salvação de alguns.

Contudo, os crescidos pediram - e obtiveram - licença para continuar à espera durante mais algum tempo.

Para esses, entre os quais ficaram os portugueses, o padre Júlio, que não cessava de andar para trás e para diante, começou de súbito a falar...

- Meus filhos, espero que tirem do que está hoje a passar-se aqui ao menos o proveito duma lição para toda a vida!

«É que a guerra, seja sob que aspecto for, é sempre uma tragédia que de qualquer forma marca o homem. Quando não lhe deixa a carne morta, deixa-lhe o coração a sangrar.

«Reparem... A quarenta quilómetros deste colégio que é todo ele paz e alegria de viver houve um exercício, um simulacro de guerra... Pois esse, afinal bem simples, acontecimento, que não devia revestir-se de nenhum significado capaz de perturbar-nos, tem-nos aqui nesta angustiosa vigília, sem nada sabermos do paradeiro de seis vidas em flor, seis vidas que foram tentadas pelo maldito espectro da guerra, como as de tantos homens feitos, homens talvez bons... mas que sempre se recusaram a ver nas obras de paz a única redenção do ser humano, a única possibilidade de encontrar na Terra uma felicidade que seja a promessa de eterna ventura junto de Deus.

«Esta noite que ora estamos a passar acaba de evocar em mim a lembrança da mais pungente noite da minha vida... uma noite de guerra autêntica durante a qual eu e os meus camaradas esperámos o fim...»

Os rapazes, suspensos, aguardavam.

E o sacerdote, parando diante do grupo que o olhava com sincera vontade de o ouvir, principiou a contar:

- Foi durante a segunda grande guerra mundial. Eu era ao tempo o capelão do meu regimento. Tínhamos sido vencidos em batalha e feitos prisioneiros. Encontrávamo-nos à mercê dos inimigos, que se achavam por seu turno em má situação... E contudo, essa má situação em nada nos fazia esperar e acreditar na melhoria do nosso destino. Pelo contrário! Desesperados, os inimigos - fora da guerra homens como nós a quem afligiam problemas em tudo irmãos dos nossos! - seriam capazes de todos os extremos. Se se sentissem perdidos, na fúria da própria angústia, vingar-se-iam, liquidando-nos.

«Ao longe troava o canhão. E nós esperávamos, fechados num barracão onde fôramos metidos há mais de trinta e seis horas.

«O canhão principiou a ouvir-se mais perto, Os aviões começaram a silvar por cima de nós. As bombas rebentavam com fragor e os incêndios alastravam, lançando os seus clarões pelas frestas através das quais recebíamos um pouco de luz, um pouco de ar... E nós, sempre à espera! De quê?... Sabíamo-lo, acaso?... Talvez do pior de tudo. Talvez de nada! Esperávamos. E entre nós, homens feitos, homens conscientes, homens responsáveis, havia lágrimas e soluços...

«O tempo continuava a passar. E nós à espera. À espera... À espera!...

«Acabaram os ataques, os aviões, o fragor, os gritos...

«Extinguiram-se os incêndios.

«E nós... à espera!

«Não percebíamos coisa alguma. Nem podíamos perceber. O sofrimento como que nos embrutecera.

«Só muito mais tarde compreendemos que tudo aquilo nos tirara, a partir duma certa altura, o raciocínio!

«Quando nos abriram a porta, a porta da salvação, a porta da vida, nem sequer nos movemos!»

Houve uma pausa. Depois, baixinho, como se lhe fizesse impressão cortar o silêncio cheio de estranhas imagens, Fernando Vasco perguntou:

- E... como foi que os descobriram?...

- Os nossos deram busca a toda a localidade.

- Como se explica que os inimigos os poupassem? - inquiriu, mais afoito, o Vic.

- No último extremo do pânico, perdidos, preferiram fugir a perder tempo connosco, talvez. É uma suposição, porque não soubemos nada.

- A vida continuou... - disse «Herr» Schmidt, de chofre mas com simplicidade.

- Sim, continuou... - assentiu o padre Júlio. - E cada um aquela que lhe cumpria. Mas nunca nenhum dos que a viveram esquecerá essa noite de espera...

O director levantou-se, contemplou os rapazes durante alguns instantes. Depois, lentamente, proferiu:

- Meus filhos, fixem a história que ouviram

Ao vosso guia Júlio. Retenham-na para o vosso tempo de homens. E façam os possíveis por evitar noites como essa que ele descreveu..., como esta nossa de hoje.

Pelas três da manhã, a ordem de recolher foi formal. Era preciso que os alunos descansassem. Já eles haviam perdido as forças de resistir, de querer ficar. Cada qual, que nem uma pedra, mergulharia num sono misericordiosamente reparador.

Só os professores e o director continuam a vigília de pesadelo!

Clareava a madrugada...

E de súbito, postado à janela, por detrás das vidraças, o padre Júlio avistou, na penumbra da hora, alguns vultos cambaleantes que avançavam para o edifício!

Eram eles!

Ninguém reagiu. Sentiam-se todos aqueles adultos como que emparvecidos pela crise atravessada... Tal como os prisioneiros da história do padre Júlio!

Quando os seis desertores finalmente entraram no colégio, o director não admoestou, não ralhou, não ameaçou. Nem se regozijou. Nem fez perguntas. Mandou-os a todos seis tomar banho, beber leite quente e recolher aos respectivos quartos.

Na manhã seguinte, no silêncio do grande parque, o Reichvater dir-se-ia o castelo da Bela Adormecida...

 

A vida decorria na normalidade. O programa elaborado pelo Reichvater cumpria-se regularmente e os rapazes, duma maneira geral, andavam encantados. Falavam alemão cada vez com mais facilidade. Chegava a parecer pasmoso o desenvolvimento que adquiriam e o efeito que uma hora diária, aplicada depois na prática, causava!

Os treinos para os famosos desafios intercolégios estavam numa fase de excelente adiantamento.

As equipas, familiarizados os seus elementos de origens tão diversas, começavam a apresentar uma certa consistência. E o entusiasmo, o ardor da competição, corria em todos os sangues...

Entretanto, pelo meio das horas felizes dos dias bem preenchidos, havia uma que continuava a ser a hora mais bonita, a hora doce por excelência...

A hora do correio...

Sentados por aqui e por além, os rapazes deixavam o Reichvater e iam espiritualmente encontrar os seus ambientes, as suas famílias, os amigos distantes.

Por momentos, a alegria era substituída pela melancolia... mas essa melancolia não pesava, não magoava, antes pelo contrário; suavizava e sabia bem, como uma sombra acolhedora numa grandeza de Sol.

Todos liam avidamente as suas cartas umas vezes com sorrisos nos lábios, outras com uma làgrimazita aos cantos dos olhos...

Depois, os que se haviam tornado mais íntimos entre si, reuniam-se e falavam dos entes queridos, recordando, recordando...

Nesse caso, naquela manhã, se achavam o Pedro, o Paulo, o Luís Viegas Pastor, o Karl - e dois noruegueses muito espertos que ultimamente se haviam aproximado dos nossos amigos, usando uma expressão que se estava a popularizar em todo o colégio: «Conviver com os portugueses é cheirar um pedaço do sol à terra deles...»

Os noruegueses eram uns obcecados pela ideia, pela ambição do sol. Adivinhava-se que sonhavam com ele, que lhe sentiam a falta, que o apeteciam como quem, sustentado a sopa. anseia por um doce ou por uma fruta...

Reunidos, perto da piscina, os seis rapazes, finda a leitura, entreolhavam-se e sorriam, deleitados. E, ao dobrar das cartas, correspondiam alguns suspiros consolados.

- Então? - perguntou o Paulo ao Pedro. - A tua gente?

- Lá pela quinta está tudo a correr muito bem. O Artur e o Domingos entendem-se às mil maravilhas. E o Rumané faz-lhes boa companhia. Olha o retrato que me mandaram.. Que giros!..,

O Paulo admirou o pequeno grupo, aguerridamente apetrechado de varapaus...

Depois os outros quiseram ver também.

Luís Viegas Pastor, como os noruegueses, tinha primos, amigos, irmãos mais novos. E, abrindo as carteiras, principiaram a mostrar uns aos outros os retratos queridos. E, mostrando os retratos, trocavam impressões, lembravam coisas engraçadas e enternecedoras.

O Pedro, falando do Salta-Pocinhas, foi o primeiro a contar uma recordação: a história da caneta perdida... e o irmãozito a escrever o ditado com o dedo molhado na tinta...

Os outros, ouvindo-o, riam a bandeiras despregadas!

E não tardou que o Knut, um dos noruegueses, contasse por sua vez uma história que não ficava a dever nada à do Rumané... Ocorrera com um irmãozito dele, que tinha agora nove anos.

- Desde muito pequenos - explicava - que temos mademoiselle. Às vezes uma mademoiselle bastante já idosa... mas enfim! Nessa altura - e isto foi há uns três anos! - estava lá em casa uma senhora de certa idade, muito asmática, muito teimosa e um pedaço absurda na maneira de ensinar. Tinha várias manias. E entre elas a de escolher determinados verbos para dar em cada lição. Depois mandava conjugá-los em todos os tempos, ligando-os com um ou mais substantivos. Naquele dia a escolha recaíra nos verbos «abrir» e «fechar». E mandara ligar o «abrir» e o «fechar» com «porta». Imaginem agora a lengalenga... numa exigência permanente. «Mr. Knut... diga: Abra a porta!» - E o pobre do vosso amigo: Ouvrez la porte... - «Mr. Hamsen diga: Feche a porta!» - E o meu irmão mais velho: Fermez la porte... - Abra a porta, feche a porta, deixe a porta aberta, abrirá a porta, não fechará a porta... torne a abrir a porta... E não saía disto! Ouvrez la porte... Fermez la porte... laissez la porte ouverte... vous ouvrirez la porte... vous ne fermerez pas la porte... Non, ce n’est pás ça...

- e outra vez do princípio! Não adiantávamos mais!... A certa altura, o miúdo, que tinha então seis anos, empertigou-se e disse com ar severo para nós: «Ó meninos, como a mademoiselle tem sempre falta de ar... o melhor é deixar agora a porta aberta até o fim da lição...

Reboou uma gargalhada, com muitos aplausos para Knut.

E todos, à uma, inspirados, queriam contar qualquer coisa.

Falou o brasileiro, narrando um facto ocorrido com ele próprio.

- Tinha eu onze anos e andava num colégio no Rio. O professor mandou a gente fazer uma redacção sobre um acontecimento histórico: um fulano qualquer muito importante, de quem já não me lembro o nome, fora assassinado à traição por dois antigos correligionários... Eu entusiasmei-me com o assunto, fui por ali fora, a escrever o melhor que podia... e arranjei duas folhas cheiinhas de prosa.., No dia seguinte, o professor entregou os exercícios, com as suas classificações. Quando chegou a minha vez, pôs-se a olhar-me muito sério, com os óculos encavalitados na ponta do nariz e disse-me: «Sim senhor, o Luisinho tem uma redacção muito bem escrita, muito bem ordenada, muito certa... Simplesmente emprega aqui umas certas palavras, uns certos termos que eu considero impróprios... Há expressões que não devem ser usadas, pois chocam...» - Eu, francamente, não tinha ideia de haver escrito qualquer palavrão e sentia-me atarantado... Aflito, perguntei: «O que foi que eu lá pus, senhor doutor?...» - E ele: «Enfim, Luisinho, não achei bonito que aplicasse a palavra tipos, principalmente num assunto como o que se tratou...»- Recordei-me imediatamente da palavra e do a-propósito do seu emprego. Então reagi - e sabem vocês qual foi a resposta que lhe dei?...

Os outros, interessadíssimos, abanaram as cabeças, em negativa, e Luís Viegas Pastor concluiu:

- Isto assim, sem tirar nem pôr: «Então o senhor doutor acha que umas pessoas que matam outra, e ainda por cima à traição, merecem que se lhes chame mais do que tipos?...

Uma gargalhada geral acolheu a saída, festejando-a. O rapaz agradara em cheio e todos estavam de acordo com o raciocínio da criança de onze anos assim evocada...

- Realmente! - disse o Paulo. - Cá na minha, tipos ainda era bom de mais...

Começava agora o Karl a falar, quando, aos pinotes, apareceu Jean-Paul, delirante, anunciando que a mãe lhe mandava dizer que em breve viria ao colégio visitá-lo!

A alegria transbordava! Eufóricos, todos comentavam a boa notícia que fazia brilhar de felicidade os olhos do francês. E nisto, no meio de tanta alegria, aproximou-se Fernando Vasco. E vinha com um tal ar, uma tal expressão, que, ao notarem com a maior naturalidade a sua chegada, prontos para o acolherem no seu júbilo, todos os rapazes sentiram instantaneamente desfazer-se a ventura de que estavam possuídos.

Calados de chofre, estupefactos, sem perceberem porquê, olhavam o que, por seu turno, os encarava como se trouxesse qualquer coisa de tremendamente importante para comunicar e lhe faltasse a coragem.

- Que se passa? - balbuciou o Pedro, atarantado.

- Nada que nos diga directamente respeito, graças a Deus! - pôde enfim responder o Fernando Vasco.

- Então? - indagaram Pastor e Karl.

- Peço muita desculpa de vir interromper o vosso contentamento...

- Fala! - exigiu o Paulo.

- Um nosso companheiro está neste momento debaixo do maior desgosto... um desgosto tão grande que nenhum de nós ainda o pode avaliar em toda a sua enormidade!

- Fala! - quase gritaram os outros num impulso.

E o Fernando Vasco, tão baixo que mal se ouviu, disse as palavras que pulverizaram a harmoniosa paz daquela manhã:

- Acaba de chegar um telegrama para o Vic. Morreram-lhe os pais num desastre de avião, quando, com outros elementos da sua orquestra, seguiam de Paris para Londres...

 

AS grandes alegrias impressionam menos do que as grandes tristezas, conquanto todos os sentimentos extremos, levados à sua máxima radiação, possam influenciar até na história do Mundo.

Nas grandes alegrias, os que passam ao lado delas ou com elas contactam, manifestam-se, aplaudem, riem e depois seguem o seu caminho, tão satisfeitos e bem dispostos que a vida parece fácil e qualquer trabalho um derivativo agradável.

Nas grandes tristezas, sucede o inverso. Os que tomam delas a exacta noção, como que ficam inibidos, sucumbidos, perante a própria natureza, pesados, endurecidos. Chegam a sentir-se impossibilitados de continuar o ritmo normal da existência. As pessoas olham-se num desalento. Têm a sensação de que tudo se frustrou, tudo acabou.

Podem, é certo, os que recebem notícia duma desgraça alheia limitar-se a lastimá-la e depois seguir avante, sem mais se lembrarem dela ou lembrando-a apenas para dizer: - que pena! - Mas os que com ela privam, a menos que sejam de pedra, sofrem realmente e comparticipam das suas repercussões.

Os rapazes do Reichvater não eram de pedra. E a catástrofe que desabara sobre Vic tivera o condão de interromper no colégio o curso dos acontecimentos.

Passados os primeiros instantes de estupefacção, de atordoamento, os guias, energicamente, procuraram um derivativo, a fim de poderem aliviar a tensão nervosa que entre todos se estabelecera. Mas nada lograva distrair os rapazes, cujos olhos, pasmados ou preocupados, olhavam um ponto indefinido na sua frente como se, pela primeira vez, muitos deles descobrissem os imponderáveis, as dores, os desgostos, as fatalidades e a própria morte.

Esmagados pelo infortúnio dum camarada, temiam inconscientemente, e cada qual à sua maneira, cada qual segundo as suas possibilidades, por si próprios. E ainda eles não avaliavam o que semelhante desgraça representava numa vida, como na vida de Vic...

«Herr» Schmidt, de começo, ficara um tanto desnorteado. Depois, procurara uma forma de agir para socorrer, não com areia, mas com pedra e cal, o infeliz rapaz que dir-se-ia paralizado pela enormidade do sofrimento que o esgotara.

Os olhos enormes desmesuradamente abertos, numa expressão de angústia que transcendia os limites humanos, Vic Nusen não chorava, não tremia, não tinha qualquer reacção visível, a não ser uma crispação permanente dos dedos que formavam garras, abandonadas as mãos uma de cada lado da cadeira em que permanecia sentado no gabinete do director.

Quiseram dar-lhe água, obrigá-lo a ingerir um cordial, obter uma reacção que de qualquer forma aliviasse a pressão tremenda que lhe pesava na alma. Não obtinham dele coisa alguma. Pelos dentes cerrados - aparentemente sem esforço -, não passava uma colher.

Os rapazes, que iam desfilando um a um pelo gabinete, no intuito espontâneo de lhe oferecerem o seu apoio, o seu auxílio espiritual, não tinham coragem nem sequer de lhe estenderem a mão amiga. Saíam esmagados e eram eles, ao transpor a porta, que rebentavam em soluços.

Vic parecia nem vê-los, nem ouvi-los. Não via nem ouvia, realmente. Qualquer coisa deixara, aparentemente, de funcionar no seu corpo prostrado.

«Herr» Schmidt, depois dum alarmado conciliábulo com os demais professores, tomou uma decisão - a mais acertada naquele momento, talvez a única possível. Chamou o médico do colégio.

Posto ao corrente do sucedido, o dr. Fritz Shombert não hesitou: Declarou-o em estado de choque e aplicou-lhe imediatamente duas injecções - uma para o coração, que batia num ritmo assustadoramente lento e fraco (dir-se-ia o dum passarinho prestes a acabar), e, depois, outra para pô-lo a dormir. As pessoas que o rodeavam não o viram nem sequer estremecer com as picadas. E só perceberam que os remédios estavam a actuar porque o médico, que não lhe largava o pulso, disse, algum tempo decorrido:

- Vamos deitá-lo.

Numa padiola improvisada, levaram-no para a pequena mas confortável enfermaria do colégio - uma enfermaria felizmente quase sempre vazia mas apetrechada para todas as emergências. Com rigorosas prescrições clínicas, o enfermeiro ficou ao lado dele, a vigiá-lo.

Havia que estar atento ao seu sono provocado, e alimentá-lo artificialmente, cuidando de lhe aguentar o estado geral para a explosão nervosa que, por fim, havia de dar-se.

Entretanto, o dr. Schmidt entrava em comunicação telefónica com a família de Vic, procurando quaisquer notícias, quaisquer informações, quaisquer possíveis formas de atenuar as consequências do drama na vida futura do jovem artista.

Conseguira, depois de efectuadas muitas diligências, falar com o avô materno de Vic, um homem que devia ser uma força moral bastante grande. Porque, no meio duma angústia que lhe fremia na voz, explicara ao director do Reichvater que, para o neto, nada havia a fazer senão regressar à terra natal assim que se encontrasse em estado de aguentar a viagem. Como «Herr» Schmidt propusesse conservar junto de si o rapaz, pelo menos até o final da época, dado que infelizmente a ida dele não podia, em nada, modificar a acção dos acontecimentos e que entre ele e os pais doravante e para a eternidade só haveria lajes de pedra, a situação apareceu em toda a sua crueldade. Os pais de Vic, sem fortuna pessoal, consumidos eventuais proventos nas diligências para ajudar o filho a realizar-se dentro da sua vocação, não deixavam bens. Nem sequer um prudente seguro de vida que ora proporcionasse a Vic a continuação de estudos dispendiosos. Não haveria portanto nem Viena, nem lições com Plawinsky... mas apenas a mediania duma carreira falhada!

Por falta de dinheiro, Vic Nusen estava condenado a viver dentro duma gaiola de rede onde de nada lhe adiantava ter asas para voar junto ao céu...

Pobre, pobre, pobre Vic!... De que lhe serviria debater-se de encontro às grades? Para quê continuar a ser ele, ele mesmo, se os meios de seguir para onde a sua alma o impulsionava lhe falhavam e nada o deixaria transpor as barreiras?

Era a fatalidade a cercear a vocação, a perdê-la, a aniquilá-la!

Todos, sem excepção, no Reichvater, se sentiam esmagados. À hora da merenda, ninguém merendou. À hora do jantar, ninguém jantou. Os que tinham razões pessoais para estarem contentes, como Jean-Paul, dir-se-ia que se envergonhavam da própria alegria.

O director não deu as boas-noites em comum, como era costume. Apertou as mãos aos alunos, um por um, como se quisesse animá-los, ajudá-los a aliviar o coração.

Os rapazes recolheram-se, mas nenhum podia dormir. Pedro, Paulo e Fernando Vasco viravam-se e tornavam-se a virar nas camas, sem repouso nem sono.

O Pedro era o mais inquieto, o mais desassossegado dos três. De vez em quando, sem. querer, nem de tal se aperceber, gemia surdamente. Os outros perguntavam-lhe o que tinha, insistiam.

- Nada, não tenho nada! - era a resposta invariável.

Mas havia algo a atormentá-lo, algo que ele não podia explicar, mesmo que o desejasse... Sim, uma ideia atroz metida dentro da cabeça, ou da alma - sabia lá ele onde! - Uma coisa que o pungia, que o afligia, que o desorientava! De facto, o Pedro achara-se diante duma verdade terrível - um dia, os filhos separam-se dos pais e não sabem, sequer, se tornam a vê-los! Vic Nusen viera para o Reichvater contente, cheio de ilusões e de projectos aos quais os pais pertenciam por inteiro. E o laço desfizera-se e ele nunca mais os veria, nem nada teria nem a dar-lhes nem a receber deles...

E ele, Pedro, viera passar as férias, sem grandes projectos nem grandes ilusões... – só para passar as férias! - separando-se dos pais aceitando viver longe deles sem preocupações nem interrogações...

E os pais estavam horrivelmente longe, andavam de avião e de barco...

Se lhes acontecesse algum mal? Se ele não tornasse a vê-los?

O dr. Macedo... Rosa-Maria... a sua Rosinha-Mãe!...

- Mãe! Pai!... Irreprimivelmente, gritara.

O Paulo, alarmado, acendeu a luz, sentou-se na cama.

- Pedro!... Que é isso? Que foi?... Também o Fernando Vasco, debruçado para ele, queria saber.

- Que se passa, Pedro?

O Pedro estava com uma expressão alucinada, as lágrimas a correr pela cara abaixo. Soluçava, sem responder. Ele não sabia explicar, não podia dizer se o que visionara fora um pesadelo ou uma miragem do espírito perturbado!

Por fim, numa agonia, conseguiu balbuciar, infantilmente:

- Quero ir-me embora! Quero ir-me embora! Quero ir para casa!...

Paulo estendeu o braço, ofereceu-lhe a mão amiga.

- Está bem, Pedro, eu percebo. Podemos ir, se queres. Mas não adianta nada. Os teus pais só chegam a Lisboa no fim de Setembro!...

- Sossega, Pedro... Vê se consegues adormecer... - pediu o Fernando Vasco.

A luz, no quarto deles, extinguiu-se de novo. Pedro, no silêncio da noite, continuava a chorar.

Foi aquela a primeira vez em que o Pedro teve a noção completa do que significava a palavra distância...

 

NA manhã seguinte ainda tudo e todos estavam como no dia anterior. Os rapazes iam pé ante pé informar-se do estado de Vic. Não havia qualquer modificação. Sob a influência do calmante e a vigilância do enfermeiro, o rapaz dormia.

O director esperava e desejava que ele pudesse ter forças para reagir à enorme desgraça. Procurava, com os professores, quaisquer possibilidades de o ajudar a resolver a angustiosa situação em que ia ficar. A solução, porém, não aparecia, embora todos desejassem cooperar na salvação daquele futuro em perigo.

Entretanto, no colégio não conseguia estabilizar-se o ritmo da vida normal, por mais diligências que fossem feitas - e eram feitas!

Os professores tentavam prender a atenção dos rapazes, recomeçar os trabalhos, os passatempos, os projectos em curso. Mas a perturbação duns e doutros não facilitava o êxito do empreendimento.

Quando, às onze horas e meia da manhã, como de costume, receberam ordens formais para irem para a piscina, todos os alunos obedeceram. E, nessa obediência, deu-se uma cena curiosa!... Nenhum dos rapazes do Reichvater se apresentou sem calção de banho... mas nenhum também entrou na água!

Ficaram-se sentados, por aqui e por além, imóveis, contemplativos, perdidos em cogitações.

O padre Júlio, que de longe os observava inquieto, tomou de súbito uma decisão. Havia que fazer algo para arrancar aquela pequenada ao universo inútil do desalento! E então abeirou-se deles, foi passando de grupo em grupo, dizendo a todos com o seu ar simples e bondoso:

- Venham para o pé de mim. Vou contar-lhes uma história.

Alguns minutos depois, num dos topos da piscina, podiam ver-se, juntos, rebrilhando ao sol, dezenas de torsos juvenis, formando um bloco atento em derredor do homem vestido de preto que falava.

- Vocês estão desencorajados... e para este momento em que olham um caminho cheio de sombras e quase julgam que a luz se extinguiu para sempre... lembrei-me duma velha narrativa que vale a pena recordar... É a narrativa dum milagre que principiou dentro duma verdade histórica. Os milagres são também verdades; verdades de Deus, todas possíveis, mesmo quando os homens as transformam e as modificam querendo torná-las inacreditáveis. Acontece, porém, que o inacreditável pela medida humana nada tem que ver com a omnipotência divina. - E depois duma breve pausa, recomeçou:- O milagre que vou contar-lhes chegou ao meu conhecimento numa das minhas numerosas peregrinações e ocorreu justamente com portugueses, no seu grande e belo mundo... - e os olhos do padre Júlio, carinhosamente, poisaram-se nos três lusitanos, que, por sua vez, lhe sorriram com afecto e redobrado interesse.

Os outros não buliam.

- No coração da Índia existe um santuário chamado de Nossa Senhora de Bandel. Nesse santuário, onde se venera o poder da Mãe de Jesus, está a imagem taumaturga de que se conta uma ocorrência verdadeiramente assombrosa, acontecida em pleno século XVII, cerca de cem anos volvidos sobre a estabilização dos portugueses. Eu vou principiar esta evocação no ponto onde se situa o fundamento das palavras que direi:

«Tinha morrido o imperador Jehangir, graças à benevolência do qual os cristãos de Bengala haviam podido usufruir de plena liberdade, construindo igrejas e conventos, casando religiosamente, baptizando os filhos, numa florescente promessa de amor e de paz. O centro religioso da comunidade era o santuário de Nossa Senhora da Boa Viagem de Bandel, onde se venerava a imagem santa e milagrosa de Nossa Senhora com o Menino Jesus, que para aí fora levado de Goa.»

Todos os rapazes escutavam atentamente. Os portugueses... esses com lágrimas nos olhos! Cada palavra do padre Júlio, cada nome querido aos seus corações, tinha para eles um sentido imenso e profundo, que tanto os alegrava como comovia.

E o sacerdote continuava:

- Ora, com a morte de Jehangir, os cristãos corriam sério perigo. O herdeiro do trono, Shah Jahan, não perfilhava as ideias tolerantes do pai, antes pelo contrário. Dedicava-lhes um ódio desassisado. A agravar este ódio natural havia ainda uma raiva imensa contra os portugueses.

O Pedro não se conteve que não perguntasse:

- Porquê, padre Júlio?

- Porquê?... Por uma coisa em que Shah Jahan mostrara uma vez mais os seus maus sentimentos. Eu lhes digo: anos antes, na ânsia indigna de usurpar o trono do pai, ele pedira o auxílio do governador português do forte de Bandel...

- ... Que lho recusara, está mesmo a ver-se! - deduziu o Paulo.

- Exactamente, meu filho.

- E por isso... o tal Shah Jahan ficou a detestar-nos, é lógico!

- Tal qual! - concordou o padre Júlio, sorrindo ao perceber o ar aliviado dos três lusitanos. - E assim, com um duplo desejo de desforço o novo imperador começou terríveis perseguições. De um momento para o outro, sem quaisquer razões que o justificassem, o forte português onde não havia mais do que um punhado de defensores - uns duzentos, se tanto! - viu-se cercado por um exército de quinze mil homens...

Todos os rapazes se agitaram, em comentários entusiasmados. A narrativa começava a empolgá-los. E, notando-o, o olhar do sacerdote brilhava com mais intensidade, enquanto se dispunha a prosseguir:

- Os sitiados resistiram heroicamente e foram vencidos pela traição.

- Pela traição?... - perguntaram alguns.

- Sim, pela traição e decorrido mais de um mês. Certa manhã, enquanto assistiam à missa, uma das sentinelas abriu as portas da fortaleza. O que se seguiu foi, claro está, um massacre total.

- Um horror! - comentaram vários, enquanto outros os mandavam calar.

- Mortos os defensores - recomeçou o guia Júlio -, a comunidade de Bengala caiu toda nas mãos do cruel Shah Jahan, sofrendo perseguições inenarráveis. As capelas, as igrejas, os conventos, tudo foi arrasado, salvando-se apenas da profanação a imagem da Virgem com o Menino que, durante o assalto do santuário, um homem lançara ao rio Hooghly. Os monges e os missionários foram presos como todos os outros e sujeitos a terríveis torturas. Entre eles estava um santo padre chamado João da Cruz, amado e respeitado porque era, em verdade, um homem de coração e sentimentos extraordinários. O padre João da Cruz tornara-se no único conforto dos seus companheiros de sofrimento e, por isso mesmo, a vítima mais alvejada pelos inimigos. Deus, porém incutira-lhe uma resistência indomável, uma coragem excepcional e uma força sobre-humana. Exasperado, vendo que a nada o fazia submeter-se, Shah Jahan acabou por ordenar que o missionário e todos os seus companheiros fossem, como na antiga Roma pagã, lançados às feras. E uma multidão feroz preparou-se para assistir ao espectáculo!

Foi Jean-Paul quem comentou:

- É espantoso! Eu não sabia que se tinham cometido atrocidades dessas em pleno século XVII!...

- Em todas as épocas sucedem coisas horríveis! - ripostou Karl.

Já várias vozes o mandavam calar, suspensos do que ouviam.

- Com a presença do imperador, os cristãos foram introduzidos na arena, onde depois soltaram um elefante que propositadamente fora deixado sem comer durante uns poucos de dias! Livre e esfaimada, a besta lançou-se contra os desgraçados, entre os quais se contava... o padre João da Cruz! E foi então que o assombroso começou a suceder... - Fez uma breve pausa, passeando os olhos pelos seus rapazes, todos interessadíssimos (o próprio Ma-hur o escutava sem pestanejar), e depois prosseguiu:

- A fera embravecida deteve-se de repente... e, como que obrigada por uma força misteriosa, abeirou-se do padre João da Cruz, inclinou-se diante dele, e em seguida, ante o olhar estupefacto da multidão, agarrou-o com a poderosa tromba, ergueu-o cautelosamente no ar até o depor sobre o próprio dorso e em seguida foi prostrar-se diante do trono do imperador. Passados os primeiros instantes de silenciosa estupefacção, houve um clamor geral a pedir clemência para os condenados. Shah Jahan, cheio de supersticioso terror, nem hesitou e logo deu ordem para que os cristãos fossem soltos. E não se limitou a este gesto, na alteração dos seus sentimentos. Vencido, confuso, o imperador pôs-se de joelhos diante do padre João da Cruz, oferecendo-lhe tudo o que ele quisesse. Uma só coisa pediu o missionário.

- O que foi? O que foi? - impacientaram-se imensos.

E o padre Júlio, sem perder a paciência com tantas interrupções:

- Que lhe fosse permitido reconstruir o templo consagrado à Mãe de Deus.

- E o imperador disse que sim? - indagou o Paulo, ansioso.

- Disse. E não só lhe deu a autorização necessária, como o terreno, o material e a mão-

-de-obra...

E o Pedro, pela primeira vez feliz desde a véspera:

- Nesse caso, esse Shah Jahan converteu-se?

- Converteu!

- É realmente um grande milagre! - declarou, convicto, Luís Viegas Pastor.

- Mas eu ainda não acabei! - disse então o sacerdote.

- Ainda há mais? - extasiaram-se alguns.

- Há! Eu lhes digo... - e recomeçou a contar: - Quando, junto às margens do rio Hooghly, surgiu, mais belo e mais imponente que o anterior, o novo santuário, o padre João da Cruz conservava, apenas, um pesar. Não poder colocar no novo altar a imagem desaparecida de Nossa Senhora. Ora certa noite, enquanto dormia, teve a sensação nítida de ouvir uma voz dizer-lhe: «Levanta-te, João... e vai buscar Aquela que vos salvou, a todos... Não está longe de ti, João... e amanhã a encontrarás...» Por mais extraordinário que fosse, de manhãzinha cedo, o santo missionário acordou chamado por vozes, entre alegres e sobressaltadas, que lhe gritavam que Nossa Senhora tinha voltado.

- E tinha voltado, realmente? - perguntaram muitos dentre os ouvintes.

O padre Júlio passeou o olhar tranquilo pelos seus rapazes, observando as suas expressões distendidas, e depois respondeu:

- Tinha voltado, sim. Na margem oposta do rio, como que suspensa por asas de anjos, lá estava a imagem de Maria com o Menino... O padre João da Cruz atravessou o rio... e mal que se aproximou, a imagem desceu do alto de modo a que ele pudesse tomá-la entre os braços... E assim, Nossa Senhora de Bandel voltou ao seu templo, voltou... e lá ficou para sempre! E julgo que lá está ainda... - Depois, com um sorriso de iluminado, acrescentou:

- Creio que vocês, meus filhos, compreendem o sentido de tudo o que ouviram. A Deus nada, mas absolutamente nada, é impossível... Tal como faz com que sejam reconstruídos pelos homens os templos destroçados, assim nos salva quando tudo parece perdido... Por isso mesmo, é preciso acreditar e confiar, sempre, sempre, sempre! Na hora do máximo perigo, a criatura pode encontrar todo o seu esplendor, toda a sua verdade... Há sempre viabilidades de um milagre!

Quando o padre Júlio acabou e se calou a mirá-los, estava ainda bem longe de pensar que também ali, à beira dele, se tinha dado um milagre...

Sem qualquer menosprezo pelo camarada atingido pela adversidade, sem qualquer esquecimento da tragédia que enlutara o colégio, os rapazes tinham-se libertado da angústia, do pesadelo. Sem palavras, sem combinação, aprendiam a aceitar as coisas da vida com a exacta simplicidade que elas requerem, para serem entendidas, justificadas e perdoadas. Não pode, diante seja de que mal for, quebrar-se a força, o desejo, o direito, a obrigação de continuar. Depois das horas más, Deus manda o resgate, a salvação, a recompensa. Há que saber confiar, sim! Ninguém deve desmoralizar-se. Antes, a todos cumpre, com o próprio exemplo, ajudar o seu semelhante a abrir a alma à coragem. E agora, um por um, olhos iluminados por um fulgor que era a verdadeira imagem da própria esperança, os rapazes começavam a saltar para a piscina... Todos mergulharam, excepto Ma-hur. O príncipe indiano, isolado no seu ar impenetrável, afastara-se na direcção do edifício do colégio.

Do facto, porém, e com um fundo suspiro, só o guia Júlio se apercebera.

Naquele dia, quando a sineta tocou para o almoço, ainda os rapazes cabriolavam na água. Houve tolerância para a falta e para o tumulto em que, por fim, irromperam, efervescentes, pelo refeitório. Tão efervescentes que, de princípio, ninguém se apercebeu de que havia qualquer coisa de excepcional, ou, pelo menos, fora do comum, no ar...

Só quando já estavam sentados e os criados se preparavam, terrinas na mão, para dar a volta pelas mesas, um dentre eles reparou na novidade. Esse um passou palavra ao vizinho mais próximo... O que a recebeu observou e fez observar o parceiro do lado. E assim, quando ainda mal começava a apetitosa sopa a ser comida, os alunos todos admiravam e pasmavam.

Ma-hur estava sentado na mesa dos professores, à direita precisamente do director... E por mais que a rapaziada aventasse hipóteses, buscasse, explicação para o enigma, não encontrava nenhum esclarecimento!...

Durante toda a refeição eles se inquietaram, e interrogaram. Quando chegaram à sobremesa, estavam mais ou menos conformados com a evidência do mistério.

Foi nessa altura que «Herr» Schmidt, com o seu ar tão bondoso quão solene, se pôs de pé, tossicando para aclarar a voz e agitando o sininho de prata a pedir silêncio.

Os rapazes, correctamente, calaram-se e pararam de comer. Esperavam, certos de que algo de importante iam saber.

Ma-hur, alvo de muitos olhares, estava1 de rosto baixo e conservava o aspecto calmo e distante. Ninguém, na sua atitude, podia decifrar o que quer que fosse. E contudo...

O director principiara a falar e parecia bastante comovido:

- Meus filhos, tenho uma notícia boa, esplêndida, para dar-lhes. Uma notícia que vai ajudá-los a livrarem-se do pesar que sempre, acredito-o, pela vida fora os assaltaria quando se lembrassem dum companheiro a quem o destino, depois de tudo prometer, tudo negara... - E, poisando a mão num dos ombros do príncipe, continuou: - Esse companheiro é, como já compreenderam, Vic Nusen!

Os rapazes, decididamente, cada vez entendiam menos!... Então o dr. Schmidt referia-se a Vic e distinguia com um gesto de evidente apreço a Ma-hur?

Houve sussurros. Mas já o director, com um sorriso que flutuava entre a emoção e a alegria, continuava:

- Vic Nusen, como vocês sabem, para além ainda da irreparável perda dos pais, sofria a quase inevitável perda dum futuro excepcional. Pois bem, Ma-hur acaba de salvá-lo!

Os rapazes entreolharam-se. Uma ideia, uma suspeita, começava a nascer dentro dos espíritos juvenis... Uma suspeita que, pela ansiedade, lhes acelerava o bater dos corações...

- Creio que vocês se recordam - prosseguia «Herr» Schmidt - das pedras preciosas com que o nosso príncipe trazia as algibeiras cheias, como se fossem berlindes... Pedras que valiam, e valem, uma fortuna, e estão numa caixa que me deu a guardar. Pois bem, essa fortuna, integralmente, Ma-hur acaba de a oferecer a Vic Nusen!

Durante momentos, na grande sala, estrondeou uma salva de palmas, tamanha como só as merecem as verdadeiras manifestações de qualquer grandeza!

Ma-hur, extremamente pálido, sem nenhum aprumo - antes com um ar desamparado, como se em vez de amor tivesse merecido repulsa -, achegara-se para o peito largo e acolhedor do dr. Schmidt. Bindar e Sudra contavam-se entre os que aplaudiam com mais força...

Depois, após uma série de bravos em várias línguas, os rapazes abandonaram os seus lugares e precipitaram-se para Ma-hur. Todos queriam apertar-lhe as mãos, abraçá-lo, dizer-lhe as palavras que ele merecia ouvir.

No meio do alarido, nunca antes ali autorizado, quem fez soar a campainha de prata não foi o director, mas sim o padre Júlio, a impor silêncio... Sim, o padre Júlio que, rosto iluminado por uma expressão de infinita alegria, os braços abertos num gesto largo de aceitação, ou de protecção, clamava agora, com uma voz cujo tom nenhum dos rapazes presentes esqueceria, nunca:

- Meus filhos... meus queridos filhos... louvemos a Deus! Acabamos de assistir, nós todos, a um milagre!

 

SÓ depois de serenados os ânimos, todos tranquilos acerca do futuro de Vic Nusen, que, por diligências do director junto da família do jovem compositor, devia seguir directamente do Reichvater para a grande escola onde acabaria a sua formação musical, os rapazes se deram livremente aos preparativos de todos os cometimentos que os esperavam... ou eles esperavam!...

O grande dia dos desafios anunciava-se para uma data próxima e os treinos intensificavam-se.

Entretanto, outro grande acontecimento estava em vias de realização - e esse não era de forma alguma um dos menos importantes da temporada, antes pelo contrário.

Todos os anos, com efeito, o dr. Schmidt, associado ao burgomestre de Zieblingen, a quem quaisquer empreendimentos tendentes a provocar o melhor nível de formação da juventude apaixonavam, realizava um filme em que os rapazes, como intérpretes ou figurantes, surgiam, contracenando com elementos femininos escolhidos, na concretização da melhor das recordações.

Já dias antes, os alunos do Reichvater se haviam recreado com uma estupenda colecção de engraçados filmes, guardados dos anos anteriores. Agora cabia-lhes a eles realizar obra que ficasse... E estavam absolutamente entusiasmados!

Houve a primeira reunião, para leitura do argumento (da autoria do dr. Karl Wust). Só depois se procederia à escolha conveniente dos actores e, indigitadas pelo burgomestre, apareceriam as actrizes - meninas das melhores famílias das cercanias.

No grande anfiteatro - onde o piano emudecera -, perante o auditório profundamente atento e... divertido (alunos e corpo docente) «Herr» Schmidt leu o entrecho da história a que iriam dar vida no celulóide. Era, aliás, um enredo tão simples como apropriado às idades a que se destinava.

Tudo começava quando um grupo de raparigas e rapazes, devidamente acompanhados por um chefe maior se reuniam para um passeio de barco, até um determinado local muito aprazível onde depois efectuavam um piquenique... musical. Musical porque dançariam ao som do transistor de um, musical porque os que sabiam tocar, tocariam, os que sabiam cantar, cantariam, etc., etc... Enfim, tratava-se de aproveitar as qualidades de todos! Entretanto, dada a pouca profundidade do rio, naquela altura do ano, os barcos seriam conduzidos, não a remos, mas à vara.

Havia rapazes que não sabiam o que era «andar à vara»... E então o dr. Schmidt explicou:

- Vai um indivíduo em pé, na popa da embarcação, impelindo, com o apoio da vara no fundo, o movimento daquele. A vara, para se não gastar nem partir facilmente ao bater nas pedras, tem na extremidade uma ponta de ferro... - e dado este esclarecimento, continuou a apresentar o argumento: «Os barcos, - têm de ser uns poucos, claro está! - com os seus grupos muito janotas e os varejadores aperaltados, principiam o passeio. Os rapazes rivalizam entre si, a ver quem consegue imprimir aos barcos maior velocidade... Um deles, porém, e justamente o que vai a fazer melhor figura, começa em dado momento a distrair-se na contemplação de uma das meninas que segue no seu barco... Principia a pretender salientar-se e, ao mesmo tempo, num desejo de se fazer notar, a não ter os cuidados requeridos pela navegação à vara. Assim, a certa altura, ao imprimir um mais forte impulso ao barco, nem se apercebe de que a ponta da vara lhe fica presa no fundo, certamente entre duas pedras... E, enquanto o barco desliza elegante, graças ao enérgico impulso recebido, o barqueiro vai pelo ar e mergulha nas águas do rio...»

Aqui, os rapazes todos, só de imaginarem a cena, riram... óptimo sinal de que a situação, no seu efeito cómico, fora bem prevista!

O director, satisfeito, continuava a contar:

- É claro que sai ileso da aventura... embora assaz vexado. O passeio continua. O remador, entre a hilaridade geral, parece um pinto ao sair da casca... Mas, inteligentemente, acaba por tomar o partido melhor - divertir-se também! E assim, na maior harmonia, chegam todos ao sítio aprazado para o piquenique. Descem dos barcos com os mantimentos, que dispõem alegremente. Comem. Depois dançam, cantam... são felizes!

«Todos felizes... não... É que o herói do banho, agora, tirita de frio num recanto... Então, a inocente responsável pelo acidente, ao aperceber-se do que ocorre, dirige-se-lhe e oferece-lhe o próprio casaco de malha... Ele aceita... e, assim trajado, junta-se aos outros, dançando com o gentil alvo dos seus olhares...»

O enredo foi muito aplaudido.

Simplesmente, enquanto argumentista, realizador, operador e fotógrafo discutiam questões técnicas, um dos rapazes - justamente Pepe de Castrilla -, depois de muitos esgares e risinhos abafados, pôs-se aos cochichos com uns e com outros.

E a certa altura, cheios de ideias preconcebidas - os rapazes às vezes são o diabo! -, havia já um grande número que parecia olhar duma maneira especialíssima e bastante intencional... para o Pedro, que descuidadamente tagarelava com os mais íntimos.

A coisa foi alargando, tomando proporções.

Já, com efeito, muitos se permitiam afirmar que o tema escolhido tivera por inspiradora a inclinação do Pedro por Iany. E não tardou que a suposição, levada pelo próprio Pepe, chegasse aos ouvidos do Paulo... Este, ao escutá-la, insidiosa, maliciosa, pela primeira vez no colégio - e até desde há muito tempo! - mostrou que o seu feitio não era feito de manteiga. Zangado, olhos a brilharem de indignação, alteando a voz de modo a ser ouvido pelos que estavam mais próximos, logo ripostou que a hipótese era absurda e absurda por duas razões igualmente fortes. Nem o dr. Schmidt era pessoa para se servir dum incidente fortuito desde que pudesse através dele humilhar um dos seus rapazes, nem o Pedro justificava suspeitas, dado que estava absolutamente curado da momentânea fantasia.

O assunto, felizmente - reduzido Pepe de Castrilla ao silêncio vexatório, enquanto os que o haviam aplaudido agora se desviavam desinteressados -, perdeu-se sem chegar sequer ao conhecimento do Pedro que, distante, se entretinha num animado diálogo com Fernando Vasco.

O director, acertadas ideias com os seus associados - produtores associados! - avisava os rapazes de que nessa tarde prestariam provas os que à primeira vista evidenciassem mais qualidades para o papel principal.

Assim foram seleccionados, no meio da animação geral, Luís Viegas Pastor, Karl Erbrüngh, um sueco de cabelos quase brancos de tão loiros, Yanu Lin, um suísso excepcionalmente esbelto e bem-parecido, Franz Shöber, Frank Swerda, um polaco muito simpático, e... o português Fernando Vasco.

Como teste máximo a cena que, pelas suas características, exigia a imposição dum talento capaz de ultrapassar o próprio ridículo - aquela em que o herói todo se derretia em olhares embevecidos para a menina...

Entre si, entusiasmada, a rapaziada dividia-se, elegia um. favorito, pronta a apostar no que lhe parecia com mais probabilidades de se evidenciar... Os mais votados eram Karl e Yanu Lin.

Contudo, no momento capital, ambos se mostraram acanhados, tímidos, sem presença, sem intuição. Tão-pouco Luís Viegas Pastor conservou, diante da objectiva, o à-vontade que o definia e impunha, quase sem excepções, à simpatia de quantos o conheciam.

Também Franz Schöber e Frank Swerda se recomendaram apenas pelo aspecto físico. Bom... não vale a pena fazer comentários acerca da forma como Fernando Vasco se houve! Não podiam restar dúvidas, fosse a quem fosse, de que estava ali um actor.

Era belo, sem ser perfeito como Adónis. Era elegante, sem nada ter de peralvilho. Era natural, sem ser insosso. Era espontâneo como se antes não tivesse pensado maduramente no que ia fazer...

Onde os outros ficavam ratões, absurdos, o português, com o seu olhar profundo e o cabelo loiro desgrenhado a cair-lhe para a testa, adquiria um ar de adolescente sincero e enternecedor que apetecia ajudar e proteger.

No meio, pois, de gerais felicitações, Fernando Vasco foi declarado protagonista de «Um dia todo azul...» - assim iria chamar-se a nova película do colégio. Mal sabia ele, no fim dessa tarde esplêndida e apesar de tudo, ali calmamente sentado entre Pedro e Paulo, radiantes com o êxito do amigo - porque era amigo e porque era compatriota (e viva Portugal na terra própria e em toda a parte do mundo!) mal sabia ele, repetimo-lo, que naquela brincadeira de gente moça, naquele divertimento inteligente e proveitoso, o seu futuro acabava de ser traçado...

 

ERA grande o entusiasmo. Todos viviam intensamente a alegria comum - os alunos, os dirigentes e as meninas que comparticipavam do trabalho geral, todos sob a égide do bom do burgomestre que, ao contacto da juventude, remoçava e, porque remoçava, mais a compreendia e amava.

Naquela tarde, ao cabo duma semana de filmagens, havia numerosa assistência constituída, na sua maior parte, pelas famílias das raparigas, as quais, narrando em suas casas os acontecimentos, o ambiente, haviam contribuído para generalizar um interesse magnífico.

Ia ser filmada, justamente, a cena capital: a do banho forçado...

Já o Fernando Vasco, muito airoso, muito elegante, de calças azuis e camisola cinzenta de gola alta, se achava à ré da embarcação que lhe cumpria conduzir. E, perante o gáudio e a admiração de quantos assistiam, fora e dentro do barco, principiara a exercitar-se nos trejeitos e nas miradas com que devia derreter-se para a sua partenaire, a qual desprendida e alheia aos seus encantos - era da rubrica! - se entretinha, mãozita fora de borda, a brincar com a água...

Ambos representavam de facto. Ambos davam mostras de possuir o estofo de verdadeiros artistas. Cada um é para o que nasce e não há dúvida que se torna necessário o mais cuidadoso estudo das vocações pessoais, para que rapazes e raparigas, ao chegarem à vida, se auscultem, sintam e entendam, de modo a cumprirem o seu destino sem receios nem dispersões.

A realização estava a cargo dum dos mais jovens guias do Reichvater, verdadeiramente apaixonado pela chamada sétima arte: Ernest Floss, formado em filosofia.

A uma ordem sua, tudo se movimentou. Os barcos distanciaram-se com a carga preciosa que transportavam.

Os holofotes poderosos, antecipadamente montados, acenderam-se.

As máquinas, obedientes, aprestavam-se a funcionar.

Os ajudantes cumpriam instruções.

E, no encalço do barco de Fernando Vasco, seguia o que levava o realizador, máquina de filmar assestada, dando ordens numa voz clara que soava agradavelmente na tarde.

- Plano A... Acção! Fernando Vasco, impulso!... Atenção... Silêncio aos outros!... Acção!... Muito bem... Corte! Plano B... Segue!...

Da margem, a assistência, encantada, seguia a evolução, a sequência do trabalho. Pais, mães, irmãos, amigos e algum pessoal do colégio. Entre todos, salientavam-se duas figuras, uma pelo que tinha de impressionante, a outra pelo que tinha de bela.

A primeira era Vic Nusen. Vic Nusen que «Herr» Schmidt conseguira arrancar ao trágico isolamento dos últimos dias durante os quais, por fim acordado do sono em que os médicos o haviam mergulhado para tentarem, adaptá-lo à dor terrível, o rapaz não saíra de junto do piano, que chorava e gemia sem cessar, em breve frases melódicas, sempre tocadas soturnamente nas teclas baixas, de tal forma pungentes que faziam doer os ouvidos e as almas dos que o escutavam. Ninguém, aliás, se atreveria a ir pedir a Vic que parasse. Todos sabiam que ele estava a desabafar assim a mágoa que o enchia. E desabafar, para quem sofre, é o primeiro passo no caminho da salvação.

A ajudar todos os outros a suportar o ambiente dramático, estavam as longas horas passadas fora do colégio!

Mas naquela tarde, finalmente, o director, forçando um pouco o exercício da sua autoridade, conseguira arrancar Vic de junto do piano e trazê-lo para o ar livre.

Mais magro que nunca, os olhos dum tamanho tal que chocavam, trajado de negro, o rapaz dir-se-ia, no prazer geral, como um aviso tremendo... Era como se a presença dele ali, quieto e calado, simbolizasse a maior das advertências: - Vivam e sejam felizes! As horas boas não duram sempre...

- Mas também, meu Deus, as más acabam! - pareciam em contrapartida afirmar os olhos risonhos e felizes da outra figura que se salientava, a que era toda beleza...

Talvez um bocadinho artificial - mas realmente linda! - estava presente Simone Mignonet, a famosa actriz francesa mãe do sardento Jean-Paul.

Chegara nessa manhã, antes do almoço, à hora do correio.

Quando Jean-Paul, segundo o rito habitual, ia em busca da sempre desejada carta da mãe - e da confirmação da prometida visita! encontrara-se de súbito diante dos braços abertos da própria...

Uma cena deliciosa, que a todos deixara bem dispostos!

Com permissão de «Herr» Schmidt, encantado com a distinção da visitante, Simone levara o filho a almoçar fora mas, avisada dos compromissos da tarde, viera trazê-lo a horas decidida a assistir às filmagens a que Jean-Paul, embora delas não comparticipasse senão como figurante, não cessava de referir-se com a maior exuberância.

E agora, integrada no conjunto, Simone aplaudia, ria e divertia-se como todos os outros.

Qualquer coisa, porém, e para lá do movimento, do colorido, da graciosidade daquele conjunto animado e animoso, principiara a atrair-lhe as atenções de forma especial. Qualquer coisa que no fim do trabalho dessa tarde, culminado com o trambolhão de Fernando Vasco, a levou a dirigir ao filho uma recomendação insistente.

- Quero que me apresentes o galã.

E enquanto todos os rapazes se dispersavam, cuidando de se arranjarem para o jantar - um jantar de confraternização entre visitantes e visitados, servido no anfiteatro um jantar que seria mais uma preciosa e festiva recordação a juntar a tantas outras que nenhum dos que dali as levavam as esqueceria nunca -, Simone Mignonet, instalada na grande varanda, um pouco distante dos grupos familiares constituídos, aguardava que Jean-Paul lhe trouxesse o companheiro.

Fernando Vasco, que fora mudar de roupa, estava emocionadíssimo! A ideia de que ia conhecer pessoalmente uma das mais célebres vedetas do cinema mundial, perturbava-o um tanto...

E contudo, nem baixou os olhos nem perdeu o aprumo quando se viu diante da linda mulher. Pelo contrário. Embora o coração lhe batesse em ritmo forte e mais rápido, adiantou-se para a cumprimentar com tanta naturalidade como se a conhecesse desde há muito...

Simone      apertou longamente a mão delgada que se lhe estendia e os seus olhos claros, maravilhosamente pintados - tão bem pintados que à primeira vista o artifício nem se percebia! -, observavam longamente o português.

E de súbito, sem qualquer introdução, sem se preocupar sequer com a reacção que as suas palavras pudessem provocar, indagou:

- Você gostava de fazer cinema?

Fernando Vasco pestanejou. Depois, como se por demais a tivesse entendido e quisesse, num esforço de vontade, obrigar-se a dar outra interpretação ao que ouvira, respondeu:

- Gosto. Acho muito interessante.

Simone fitou-o bem de frente.

- Eu não lhe perguntei se gosta... mas se gostava... - e bateu as sílabas intencionalmente, para sublinhar a necessária diferença entre as duas expressões. E logo a seguir, incisiva, disse: - Para o filme que vou rodar em Paris, no próximo Inverno, o realizador procura um adolescente com o seu físico e o seu ar. Se quer tentar a sorte, consigo-lhe o papel.

Jean-Paul pôs-se aos pulos de roda da mãe e do amigo, a bater palmas e aos bravos, infantilmente. Fernando Vasco não exteriorizou a alegria sentida. Pôde dominar-se, embora o coração acusasse o afluxo duma onda de sangue carregada da intensa felicidade de todo um dia memorável...

Unhas cravadas nas palmas das mãos, que no mesmo instante tinham ficado húmidas e frias, a controlar-se melhor do que muitos homens feitos, ripostou, devagar:

- Minha senhora, está a oferecer-me uma oportunidade extraordinária... e que vem justamente ao encontro dos meus sonhos.

Simone sorriu-lhe, como costumava sorrir no écran.

- Vocação?

Ele, num gesto brusco, mas que lhe era FAMILIAR, tirou da algibeira os óculos escuros e, colocando-os, respondeu:

- Talvez...

- Já trabalhou nalgum teatro?

- Não. Apenas na televisão da minha pátria.

- E agrada-lhe vir a ser um actor de fama mundial?

- Sem dúvida. Mas - acrescentou, a deter um gesto de resolução da actriz -, não posso dar-lhe uma resposta definitiva sem consultar os meus pais.

Era absolutamente razoável a objecção e Simone Mignonet assim o entendeu. Contudo, dentro dela, crescia a impaciência. A «sua descoberta» - como passaria a dizer daí em diante - entusiasmava-a.

- Quanto tempo lhe é necessário, para receber a autorização?

- Tem pressa?

- E você, não a tem?

Agora, descontraindo-se enfim, o rapaz riu abertamente.

- Tenho! - confessou. E logo sugeriu: Acho que, para demorar menos, devo telegrafar...

- Isso, isso! Boa ideia! Telegrafe ainda hoje! - E abraçando o filho: - Esperarei aqui a resposta... Demais a mais disponho duns dias para consagrar ao meu filho... Talvez assim, ao partir, já possa levá-lo comigo para Paris.

Tudo o que estava a passar-se tinha um ar formidável de prodígio, acontecendo para além de todos os limites entrevistos.

Dali para Paris!... Do Reichvater, que já fora a concretização dum sonho, para os estúdios franceses, para o mundo...

Ele, Fernando Vasco, talvez um novo astro! Ele, candidato a tornar-se famoso, admirado, rico... E tudo porque um dia alguém amigo lhe oferecera uma pequeníssima oportunidade...

Agora, sozinho no quarto, enviado o telegrama, ele tremia. Que diriam os pais?

Da reacção do pai, não podia fazer uma ideia. Conhecia-o insuficientemente, não previa a forma por que ele fosse encarar o assunto... E daí?... Sim, de tempos muito remotos e nada agradáveis de lembrar, vinha-lhe uma noção de que o pai entrara justamente em discordância com a mãe por dar largas à fantasia, a um espírito irrequieto, aventureiro... Ah! Sim, a mãe!... Essa não aceitaria facilmente uma tal probabilidade na vida do filho, prevista e desejada tão diferente.

Ele sabia-o. Dona Laura, embora sem ser por mal, ergueria um muro de entraves acumulados, de medos, de vaticínios assustadores, prevendo terríveis consequências na linha da vereda estreita por que sempre levara os próprios passos... Não porque lhe quisesse menos bem, claro! A mãe desejava-lhe o melhor na vida. Mas, exactamente por causa desse melhor que ela ambicionava, temer-se-ia da novidade, da distância, do mundo, de tudo!

Conseguiria o pai convencê-la? Teria o pai interesse em convencê-la? Ou convencer-se-ia a mãe a si própria, sugestionada por novas razões que lhe abrissem o espírito? A mãe evoluíra nos últimos tempos, adaptara-se de certo modo a novas concepções... Mas bastaria?

E se não bastasse... e se por resposta lhe chegasse um não categórico?

De longe, vinha-lhe o rumor dos risos. A festa, no anfiteatro, prolongava-se.

E ele, ali, com o seu problema apaixonante, tentando raciocinar com lógica...

A negativa podia vir com uma base irrefutável: a de ele nem sequer ter acabado ainda o curso dos liceus. Mas - cos diachos! nem só os doutores são felizes! E a sorte, a fortuna, a ventura, sabe-se lá bem onde esperam cada qual! Os rumos não são iguais para todos e muitas vezes não convém a este o que convém à maioria nem àquele o que de facto parece melhor para este...

A provar que ninguém sabe onde o espera a felicidade, as lotarias, por exemplo! Entre milhares de números, o prémio grande sai a um...

Na roda dos caminhos da vida, oferecia-se-lhe o ensejo raro. O melhor?... Como sabê-lo?... Tentando, tentando, tentando!...

Mas... e se tentasse, venceria?

Havia tantos instrumentos a tocar, tão capazes de belos sons como de sons terrificantes...

Podia vencer, é certo. Talvez, porém, falhasse! E se falhasse?... Deus, lá estava ele como a mãe, herdeiro dos seus receios, dos seus desânimos, desse pessimismo contra o qual tanto lutara a fim de se não deixar submergir!

Sim, havia muitos, muitíssimos, que fracassavam, é certo. Mas também havia sempre, em tudo, um que triunfava!

E, então - bendito Deus! -, porque não havia ele, Fernando Vasco, de ser esse um?...

 

… E sem tempo quase que para mais nada, ne

m sequer para deixar crescer impaciências, nem para muito pensar que o tempo passava cada vez mais depressa, chegou o dia famoso dos almejados desafios no torneio intercolégios.

Os treinos, terminadas as filmagens, tinham sido intensificados e os teams estavam dados «em forma».

Toda a gente comungava do entusiasmo que envolvia a realização do grande acontecimento. Toda a gente andava efervescente.

Amanheceu aquele terceiro domingo de Setembro, cheio duma luz que um Outono recém-chegado e suave prometia delicioso.

A sineta do despertar não soara, no Reichvater. Muito antes da hora normal do levantar já os rapazes andavam pelos corredores, animadíssimos, trocando impressões e discutindo probabilidades.

Também os guias e o director se aprestavam a viver intensamente esse dia durante o qual - sem se atreverem muito embora a confessá-lo!... - se haviam de sentir tão jovens de corpo e alma como os seus alunos. Porque o corpo lhes pedia agitação e a alma o triunfo absoluto sobre os antagonistas, sem qualquer limitação...

E quem pudera, invisível, transportar-se pelo ar e entrar no edifício do Moderno Grande Colégio encontraria precisamente o mesmo ambiente, desde a cozinha ao gabinete do director...

E também em toda a região circunvizinha a animação crescia com o passar das horas.

O programa, elaborado cuidadosamente estava feito de molde a permitir que assistentes e comparticipantes não perdessem um único pormenor do torneio.

Assim, às dez horas em ponto, no campo do Reichvater, realizava-se o desafio de futebol. Ao meio-dia e meia hora, na grande piscina do mesmo, eram as provas de natação.

Depois do almoço e de um merecido descanso... para os nervos, e até ao fim da tarde, ainda no Reichvater (aliás as posições todos os anos se invertiam), seguiam-se os desafios de voleibol, pingue-pongue e andebol de sete.

Depois do jantar, às 9 e 30 da noite, no Moderno Grande Colégio (que dispunha, aliás, dum esplêndido rinque de patinagem, que só encontrava réplica na excelência da piscina do Reichvater) o torneio intercolégios culminava com o desafio naquele ano considerado o mais emocionante de todos, dada a presença dos representantes dos multicampeões do mundo na modalidade (os portugueses!) - o de hóquei em patins.

Assim preenchido, a abarrotar, dando plena satisfação a todos os rapazes que praticavam qualquer desporto, o dia constituía sempre uma atracção que até de longe trazia gente.

E por toda a parte os adolescentes, que envergavam calções e camisolas coloridas eram apoteòticamente aplaudidos - quer vestidos de castanho-claro e branco (os do Reichvater) quer de verde e castanho (os do Moderno Grande Colégio).

O desafio de futebol, perante um público interessadíssimo, onde predominava a gente de meia-idade e o elemento feminino, decorreu com grande elevação. Os dois onzes cumprimentaram-se galhardamente e a partida foi muito amistosa.

Pedro, Paulo e Fernando Vasco aplaudiam entusiasmadíssimos e no final, com um empate a três bolas, declararam-se plenamente satisfeitos.

Estavam eles encantados da vida, numa animada conversa com Simone Mignonet e o padre Júlio, prontos para assistir à primeira corrida de cinquenta metros livres, na piscina, -Jean-Paul figurava entre os nadadores, quando um pequeno grupo, barulhento e incómodo, veio postar-se justamente diante deles, tapando-lhes quase por completo a vista.

Nenhum dos rapazes se apercebeu, no começo, da identidade dos componentes do grupinho. Só quando o Paulo, muito delicadamente, aliás, lhes pediu que se desviassem, o Pedro reconheceu, entre eles, o Frank, o irmão de Iany. A princípio, no entanto, nem sequer ligou ao caso. Nada mais natural do que o outro estar ali. Era aluno do Kinderninstitut, ocupava portanto a posição que lhe cumpria.

Simplesmente, depois do pedido de Paulo, o grupo não só tomou mais amplas liberdades como se instalou ainda melhor! E de tal forma se tornou indesejável que o próprio Pedro decidiu, cheio de paciência, chamar-lhes a atenção para a falta de cortesia de que estavam dando provas.

Logo Frank ripostou, voltando-se para ele com ar provocador e simultaneamente escarninho:

- Ah, sim? Estamos a incomodá-los?... Pois logo havemos de os afligir muito mais!...

Ficaram todos a olhá-los, ao mesmo tempo admirados e chocados com o despropósito.

E os outros, rindo desagradàvelmente, tiveram o mesmo trejeito de cabeça, um trejeito que parecia dizer: «ajuste de contas.» - e afastaram-se.

Não havia que duvidar. Tratava-se de uma verdadeira provocação! Entenderam-no os rapazes e entendeu-o também o padre Júlio, cuja testa se enrugara significativamente...

Já a pistola de alarme dera o seu alegre tirinho e os nadadores fendiam a água vertiginosamente.

A piscina, o ar, enchiam-se de aclamações, de gritos de incitamento, de aplausos. Simone, em pé, ao lado dos portugueses, gritava o nome do filho, entusiasmadíssima.

Os nossos rapazes estavam calados e dividiam a sua atenção entre o que se passava diante dos seus olhos e o que os preocupava e muito era. Seria possível que aqueles principiantes de marotões - marotões impróprios para consumo existem em toda a parte! - quisessem provocar novo conflito? Mas a que propósito? Por terem sido batidos da primeira vez? No entanto ninguém os desafiara. Toda a iniciativa partira deles - e que iniciativa!... Um ataque em forma duns poucos contra um único, indefeso e crédulo!

Já o vencedor dos cinquenta metros livres, radiante, recebia as aclamações da assistência. Simone ria, mas desapontada. Não era Jean-Paul que recebia as medalhas... mas um jovem chinês do Reichvater que pela primeira vez se evidenciava em algo!...

Entretanto a competição prosseguia, agora com um admirável crawl... Entre os que nadavam, Yanu Lin e Pepe de Castrilla à frente...

E os portugueses, baixinho, falavam uns com os outros. Tinham chegado à conclusão de que precisavam de saber com que deviam contar. Aqueles tipos não eram de fiar e eles bem o sabiam. Do que eles podiam ser capazes, haviam-no mostrado da primeira vez e estavam a mostrá-lo agora. Que mau gosto pretenderem servir-se duma festa para incomodar quem quer que fosse e talvez perturbar a alegria de toda a gente!

O padre Júlio, que os via a trocar impressões, quis saber o que tinham, porque pareciam inquietos. Os três amigos não se fizeram rogados. Aliás, antes que eles falassem já o sacerdote adivinhara as razões que os afligiam... Decidido a acalmá-los e compreensivo como sempre, prometeu-lhes estar atento aos movimentos do grupo ameaçador e pediu-lhes que se descontraíssem, tentando não pensar mais no assunto. Nada de desagradável ocorreria, assim o esperava. De qualquer forma, porém, ele estaria de prevenção.

Os rapazes, mais tranquilos (não lhes agradava nem por sombras passar por cobardes ou por desordeiros) conseguiram, num louvável esforço da vontade, alhear-se do problema e voltar a comunicar apenas com o ambiente.

Assim, vitoriaram como todos os outros o final das provas de natação.

Do crawl saíra vencedor o Yanu Lin. Nos saltos, o primeiro classificado fora um rapaz do Grande Moderno Colégio.

As forças continuavam equilibradas, o que era sem dúvida muito agradável e contribuía para pôr toda a gente bem disposta.

Simplesmente, no fim do almoço, o guia Júlio, ao aproximar-se dum círculo onde se encontravam Pedro, Paulo e Fernando Vasco, chamou estes de parte para lhes falar com um ar preocupado que nem sequer diligenciava ocultar.

- Rapazes - disse, num tom claro e firme - quero avisá-los do que acabo de saber. Logo, no desafio de hóquei, três dos principais jogadores do Kinderninstitut, pertencem justamente ao grupo que hoje os ameaçou. Um deles é o Frank, capitão da equipa.

Os portugueses, como se automaticamente se pusessem em guarda, cerraram os punhos e, notando-o, com crescente apreensão, o sacerdote prosseguiu:

- Meus filhos, devo lembrar-lhes que um campo de jogos é, em pontos de honra, neutral. Desejo vê-los e sabê-los libertos de ressentimentos e de intuitos reservados. Por isso estou a avisá-los. Prevenidos... mas puros! É preciso que pela vossa parte o jogo continue a ser apenas e sempre... um jogo! Prometido?

Eles sentiram, todos três, que era tão terrivelmente difícil cumprir como não cumprir. Mas, colocados diante duma petição justíssima, ripostaram sem hesitar:

- Prometemos!

Contudo, as suas almas estavam perfeitamente conscientes de que iam correr um grande perigo.

 

O rinque, coberto, ladeado de bancadas sumptuosas - tomara muito bom clube umas tais instalações! - era realmente magnífico.

Os rapazes do Reichvater, agrupados num dos sectores, apreciavam-no sem reservas e cheios de curiosidade. A velha rivalidade escolar, que passava de alma para alma, de ano para ano, de época para época, fazia com que todos, aliás de parte a parte, achassem delicioso e emocionante penetrar no campo adverso e tentar decifrar os seus mistérios... Mistérios que não havia, claro, mas que os espíritos juvenis idealizavam na excitação natural que o meio lhes provocava.

A pouco e pouco o público ia enchendo todos os lugares e o vasto recinto adquiria o ar festivo peculiar das grandes competições desportivas. Os trajos garridos das raparigas e o tom predominantemente loiro das cabeças davam um colorido magnífico ao conjunto, realçando ainda mais graças à profusa iluminação.

Os altifalantes transmitiam, o que sucessivamente emocionava ora uns, ora outros, hinos de diferentes países.

O penúltimo a ser tocado foi o de Portugal, quando a equipa do Reichvater entrou no terreno, com os três portugueses à frente (o Pedro era o capitão da equipa e jogava a avançado-centro) - seguidos por Pepe e Karl.

Depois dos acordes triunfais da «Portuguesa», soou o hino alemão. Nas bancadas, toda a gente estava perfilada, em sentido.

O Pedro queria sentir-se feliz, tranquilo, senhor de si, descontraído, para viver completamente aquela noite estupenda. Mas, de cada vez que olhava para Frank, perdia toda a segurança, tanto interior como exterior. O aléu tremia-lhe nas mãos...

O outro, a fazer jogadas imaginárias, mirava-o de esguelha e soltava risadinhas que tanto podiam ser de mofa como de provocação. E os companheiros dele correspondiam-lhe, trocavam entre si sinais e pequenas frases ininteligíveis, o que contribuía para que o grupo dos portugueses se sentisse como que em cima de brasas. Sim, que não era só o Pedro que estava mal disposto. O Paulo e o Fernando Vasco também se mostravam desagradados e inquietos. O Pedro, no entanto, sofria mais do que eles. No fundo tinha a noção de que a coisa, era apenas entre ele e Frank. Porque fora ele que levianamente e embora sem ser com má intenção, originara o conflito. Porque fora contra ele que o irmão de Iany praticara uma acção muito feia. Porque fora por ele que os rapazes do Reichvater haviam entrado na luta. Fora ainda por ele que os atacantes tinham sido derrotados e corridos...

Era contra ele, portanto, que Frank comandava a nova ameaça.

Agora mesmo, passando por detrás dele, o capitão da equipa adversária resmoneara audivelmente:

- Hás-de pagá-las todas!...

E o sangue do Pedro fervia...

Quando a partida começou, estava em ebulição…

Ele tinha a impressão nítida de que via tudo vermelho!...

Fazia um esforço imenso para fixar - para fixar de modo a lembrá-lo em cada instante! - os últimos conselhos do padre Júlio:

«- Rapazes... não respondam a qualquer espécie de provocação! Pelo amor de Deus, entrem no rinque sem ideias reservadas!... Sejam leais e honestos! Sejam fortes e corajosos. Sejam resignados!»

Ele queria. Deus sabia que ele queria! Todos eles queriam, aliás.

O jogo dos outros, viu-se logo de início, era desonesto. Os aléus no ar nem sempre visavam a bola. Os pés estendidos nem sempre buscavam o equilíbrio...

Os portugueses, quando se cruzavam, velozmente - e que excelentes jogadores os rapazes estavam a revelar-se! -, gritavam uns aos outros, na língua natal - Calma, calma!...

CALMA!...

E o jogo entusiasmava a assistência. A calma imposta e aceite evidenciava-se em respostas admiráveis, em lances que iam perturbar os adversários, dir-se-ia, exactamente porque eram correctos e eficientes.

Ao fim do primeiro tempo, o marcador acusava 7-4, a favor da equipa do Reichvater.

Os do Kinderninstitut até bufavam, ao saírem do rinque para o intervalo! E o olhar torvo de Frank apanhou em cheio o olhar franco do Pedro, num desafio directo.

Pedro não quis alertar os companheiros. Aceitava o repto sem temor, com a noção integral de que ia haver sarilho...

E o sarilho definiu-se quando voltaram ao campo.

Agora, não havia possibilidade alguma de evitar cargas duríssimas e tão evidentes que não tardou em surgir a primeira falta grave, punida com penalty contra o Moderno Grande Colégio.

O público, enervado e descontente, assobiava aos infractores. E Frank, ao 8-4 do marcador, teve um ataque de fúria. Pedro viu-o crescer para ele e, logo em seguida, porque se esquivara a tempo, acertar em cheio com o aléu numa perna do Paulo, que ficou estendido no chão.

Durante momentos, confusão, alarme... Mas o Paulo, estóico, levantou-se, recomeçou a jogar, conquanto pela palidez que lhe cobria o rosto se visse que o rapaz sofria deveras.

Já Frank, passando rente ao Pedro, lhe dizia, furioso:

- Contigo vai ser pior...

Não havia que duvidar. A má fé era confessa...

E, realmente, não tardou em vê-lo de novo avançar para ele, gigantesco e terrível... No mesmo instante, porém, houve um acidente. O outro, sem dúvida cego pela ira, teve um movimento em falso, fintou-se a si próprio, tropeçou nas pernas e estatelou-se aos pés de Pedro, que sem tempo de prever a queda e pronto para acertar na bola que vinha ao seu encontro, chegava correndo também e descia o aléu do ar...

Tudo ocorreu em segundos mais rápidos do que a possibilidade de dar por eles. E era natural que o aléu acabasse o seu movimento... e Frank apanhasse uma vergastada monumental onde caberiam desabafo, castigo, vingança, tudo!...

Ninguém se apercebeu do que realmente acontecera. Mas o evidente bastaria para muitos.

O Pedro, esse, confusamente, sentiu quanto estava a suceder e, num reflexo de todo o seu corpo tenso, realizou um movimento extraordinário, quase incrível! Conseguiu suster o impulso da mão e, sem se despenhar por cima do outro, como seria lógico na velocidade que levava, formou um salto, passou por cima dele e foi parar, desequilibrado, aos tropeções, junto da vedação do rinque, no meio duma trovoada de aplausos.

O coração batia-lhe como nunca o sentira e tinha, ao mesmo tempo, uma desesperante vontade de rir e de chorar.

Frank abandonara o campo, magoado sim, mas não por ele, Pedro!

E o desafio acabou dando o triunfo, justíssimo, ao Reichvater, que saíra vencedor, por maioria de modalidades, no torneio intercolégios.

Era grande, enorme, o entusiasmo. O Reichvater em peso vinha abraçar a equipa de hóquei, felicitá-la, agradecer-lhe a exibição brilhante. Vieram os chefes e os pequenos chefes. Vieram amigos e conhecidos. Vieram numerosas raparigas. Entre elas, o Pedro reconheceu de súbito, diante dele, a loirinha de tranças e olhos verdes que, um pouco timidamente, lhe estendia a mão: Iany! Sim, Iany! E ele curioso! - não sentia a mínima perturbação! Cumprimentava-a indiferente, agradecendo a visita sem se importar nem sequer com o que porventura significasse inconsciente ou espontâneo desejo de obter desculpa para o procedimento do irmão... Não havia dúvida de que ficara definitivamente curado da passageira inclinação!...

Emoção, grande, profunda, imensa, teve-a, sim, mas quando se viu apertado de encontro ao peito do guia Júlio e lhe ouviu uma pequena frase extraordinária - frase dum homem presciente, dum homem que notara o que aos outros passara despercebido, como se através dele estivessem a ver os olhos de Deus, que não precisam nem de tempo nem exteriorização para saber o que um simples gesto pode traduzir.

A pequena frase, foi:

- Pedro... os homens de bem procedem sempre como tu, hoje. Nunca se toca num inimigo caído!

 

A resposta de Lisboa demorava ainda mais do que Fernando Vasco previra e temera.

Agora, passada a efervescência e a excepcional animação do torneio intercolégios, Simone Mignonet, chamada pelos seus afazeres, impacientava-se e anunciava a sua partida.

O rapaz abria o coração aos amigos, discutindo a certeza da luta que devia estar a travar-se longe dele, no lar. E tremia duplamente, pela sua própria sorte e pela sorte dos pais. Porque se na verdade o seu pedido pudesse acarretar novos desentendimentos entre os que tão tarde se tinham voltado a reunir em busca da felicidade, ele preferia renunciar. Sim, renunciar! Pedro e Paulo animavam-no, procuravam apoiá-lo contra esse temor, bem fundado, aliás. No fundo não chegavam a tornar-se convincentes, porque não se sentiam seguros das suas palavras.

Entretanto todos continuavam a interessar-se pelo tom geral do ambiente, calmo e rítmico.

Não cessava de ser objecto de conversas o assunto do filme, que estava a ser montado, trabalho moroso que não devia aprontar-se a tempo de ser apreciado por muitos rapazes, entre os quais os portugueses. Estes encaravam a possibilidade de o fazer «importar» através dum cine-clube. A seu tempo tratariam do caso em Lisboa, com um colega, o Januário, que fazia parte da direcção dum qualquer. Por agora, havia que arrumar a ideia na gaveta dos projectos.

Curioso! Todos eles percebiam que uma das melhores coisas da vida era justamente ter projectos... Talvez a única apropriada para eficazmente combater os desgostos e vencer as dores! Vic Nusen provava-o em absoluto! Embora o seu olhar luminoso conservasse uma expressão terrivelmente triste e o sorriso nunca mais lhe reaparecesse nos lábios, começara de novo a tocar sem ser nessas notas graves e pesadas cujos sons traduziam angústia sem mais nada. E fizera-o porque Karl Erbrüngh, à frente duma comissão (e aliás por iniciativa de «Herr» Schmidt) lhe fora pedir o fundo musical para o filme. Vic achara graça a essa primeira encomenda... E principiara imediatamente a compô-la, disposto a deixá-la gravada antes da sua muito próxima partida para Viena, onde tudo estava já tratado em condições pelo director do Reichvater. Vic devia ingressar na Academia.

Simone Mignonet, pretextando a necessidade de ir-se embora, mas no fundo encantada com esse mundo novo, sincero, leal, ainda puro, onde os pequenos defeitos dum ou doutro não afectavam o conjunto nem estragavam a convivência entre aqueles adolescentes para quem a esperança era a suprema verdade - ouvira o compositor e, fascinada, afirmara-lhe que Paris havia de consagrá-lo, ajoelhando-se-lhe aos pés. E ao dr. Schmídt, num exagero admirável de crença, confidenciava: - Nem Beethoven, aos dezoito anos, prometia tanto!...

Ma-hur, obreiro do Destino no caso de Vic, via-se agora cercado pela estima, pela admiração de todos os companheiros e vivia horas felicíssimas. Conquistara-as por si próprio. Devia-as a si e não ao seu título. Merecera-as!

Duma maneira geral, os últimos dias no colégio eram ditosos e cheios como lhes cumpria. Havia compreensão entre os rapazes. E estima. Mas começava também a haver aquele peso íntimo que já pressagia a saudade.

«Herr» Schmidt, o padre Júlio, todos os professores, habituados, pela repetição, às sombras da melancolia que chegava, multiplicavam-se para não deixar os seus alunos entristecer.

A hora da debandada aproximava-se a passos largos.

Simone Mignonet ia partir e agora olhava para Fernando Vasco com um ar perplexo que obrigava o rapaz a roer as unhas pela primeira vez na vida.

De Lisboa, nada!... E ele não sabia nem que fazer nem que pensar.

Mil tentações o assaltavam. Quisera ser maior para ter o direito de resolver sozinho a sua vida, numa súbita rebeldia crescente e avassaladora. E de tal modo se sentiu confuso, que, a poucas horas da abalada de Simone, procurou o Pedro...

E de chofre disse-lhe que estava disposto a correr todos os riscos, a cometer todas as infracções, que ia acompanhar a actriz mesmo sem ordem, mesmo sem licença, afirmando que não estava disposto a perder a própria vida, o próprio destino.

O Pedro, muito calmo, ouviu-o sem mostrar qualquer impressão íntima. Nem concordou, nem discordou.

Enquanto Fernando Vasco passeava diante dele dum lado para o outro, muito pálido, um tanto esgazeado, tirou da algibeira uma carta que desdobrou e disse:

- Estive a reler a carta que recebi hoje de manhã. É maravilhosa! Tão maravilhosa que eu, apesar de me ter sentido bem feliz aqui, desejo ardentemente que estes últimos dias passem depressa, depressa... Estou ansioso pelo meu lar, pelos braços da minha mãe, pelo olhar do meu pai, pelas tropelias do Rumané, pela companhia da Ana... - E num suspiro, concluiu: - Tudo pode ser excelente... mas sem a família, tudo acaba por ser pouco!

Fernando Vasco, que ficara como que sufocado, lembrava, pela expressão, uma pessoa perdida numa encruzilhada... O seu olhar claro era todo ele um pasmo, uma interrogação.

No momento exacto em que ele encarava a hipótese de abandonar o que tinha pelo que poderia ou não vir a ter, o Pedro, com uma oportunidade esclarecida, erguia diante dele um padrão firme e dominador da ventura insubstituível.

Talvez para o Fernando Vasco o prejuízo do que tinha a deixar não pudesse comparar-se com o caso do Pedro. Mas, de qualquer forma, exigia uma ponderação e um equilíbrio totais na busca do rumo certo.

O Pedro, como se não notasse a fisionomia transtornada do amigo, continuava a falar, naturalmente, perguntando:

- Queres ler a carta da minha mãe? E sem esperar resposta: - Vem de Luanda e marca a última etapa da viagem deles. Agora torna a escrever-me... Devem estar quase a tomar o avião de regresso... Toma, lê... - e entregou-lhe a carta.

A letra de Rosa-Maria era redonda e clara, criando sobre o papel uma sóbria mancha que lembrava a dona, boa e confortável à vista e à sensibilidade.

Fernando Vasco, a começo sem grande interesse, até mesmo um pouco contrafeito - tanto estava entregue às suas inquietações! -, depois absorvido e empolgado, leu:

«Meu querido filho

Estou a escrever-te a última carta desta viagem - antes de partir - partir contente de ter vindo, partir contente de ter conhecido Portugal nesta terra grande, cheia de beleza, de sentido e de verdade. Quero que um dia venhas cá também. Todos os portugueses aqui deviam vir. Todos deviam ter, nesta terra sagrada, alguém de família, alguém que lhe pertença, para que a ligação exista de facto, permanente e indestrutível, e todos saibam compreender que, aqui, estamos realmente na Pátria. Uma coisa é amar sem conhecer, outra conhecer e ficar a amar.

Terras de Moçambique, terras de Angola, oh, meu filho - como me deslumbraram e cativaram!

Tu sabes que nunca mostrei um grande interesse em visitar a África e que - mea culpa! sempre, ao pensar numa viagem, toda me alvoroçava, idealizando Paris, Londres, Roma... Oh, sem dúvida, Paris, Londres, Roma, são cidades esplendorosas, capitais de honra e fama tão justas como imorredoiras - como toda a França, como toda a Inglaterra, como toda a Itália. Terras de sedução, filhas duma Europa que nunca se cansa de tentar a gente... Acontece, porém, que nós não devíamos viajar pelo estrangeiro sem antes conhecer a terra que temos. E sabes o que te digo, Pedro? Se viessem ver isto, muita gente aqui ficava!

Que grande, que espantoso mundo para desenvolver nesta terra forte, generosa e bela!

Olha, queres saber? O meu terror pelas serpentes, pelos insectos, pelas feras, passou por completo. É certo que existe tudo isto - tal como na nossa quinta, lagartas e mosquitos... Mas tudo se pode combater, reduzir ao estado inofensivo.

Luanda, é uma bela cidade, moderna, limpa, bem arrumada. Não me agrada menos que Lourenço Marques.

Agora uma novidade com muito interesse: ofereceram ao pai o lugar de director num novo hospital, que vai ser aqui edificado em breve. Se a projectada universidade de Luanda vier a ser um facto a tempo de te servir, ou mais tarde à Ana, talvez que sim, talvez que venhamos. É preciso que os portugueses de boa vontade, de grande vontade, cimentem a construção antiga dos nossos avós.

Tudo o que um dia foi erigido, criado, como os velhos monumentos, em certa altura carece de restauração... Todos nós devemos ser obreiros, contribuindo com o melhor do nosso esforço e a maior dedicação para a glória e para a segurança do que nos pertence.

A Ana também gosta de tudo isto. Ontem tomou parte numa caçada que nos ofereceram. Deram-lhe uma espingarda, imagina!... A tua irmã convenceu-se de que era uma moderna Diana e jurava que havia de matar, pelo menos... um leão!...»

A partir daqui, a carta tomava uma feição mais particular, mais íntima, e o Fernando Vasco parou na leitura, para fixar os olhos no amigo, perfeitamente atónito.

- Vocês... irem viver para Angola?... Será possível?

- Tão possível como tu estares vai não vai instalado em Paris...

- Isso quer dizer... que tu gostavas?

Pedro deixou perder o olhar na visão dum sonho distante.

- Sempre houve grandes homens a servir a nossa terra longe do berço natal... Porque não há-de continuar-se a tradição? É preciso que a grandeza de Portugal jamais seja diminuída!...

Fernando Vasco sorriu-lhe - um bom sorriso sem troça.

- Não me digas que pretendes ser herói...

- Pretendo ser útil... - respondeu apenas o Pedro, muito simples. Depois, encolheu os ombros e riu também. - Enfim... sonhar não é proibido a ninguém... E eu, como em geral não sonho a dormir, trato de sonhar acordado...

Passos apressados soaram no corredor e quase no mesmo instante os rapazes foram sobressaltados por rápidas pancadas na porta do quarto, enquanto uma voz rude clamava por Fernando Vasco.

Era um criado, ofegante e quase zangado, a dizer que o chamavam ao telefone, de Portugal.

E pelo caminho fora, atrás dos dois rapazes esbaforidos, ia resmungando contra o facto de alguém se lembrar de falar lá de tão longe à procura de quem àquela hora devia estar em toda a parte menos fechado no quarto...

Fernando Vasco nem o ouvia!

Agarrara-se ao telefone, branco de emoção, a escutar, a escutar... E só dizia, entrecortadamente.

- Sim... sim... sim... Obrigado! Obrigado... Obrigado!...

Quando desligou, o Pedro julgou que ele ia desmaiar.

- Deixam! - tartamudeou, com os lábios secos, a voz froixa. - Deixam... Não me responderam logo... porque não estavam!... Tinham ido dar um passeio com os miúdos... uma volta pelo país... - e de repente, lançou-se ao pescoço do Pedro e abraçou-o... como se abraçasse o próprio êxito!

Foi uma alegria, no colégio.

Jean-Paul pulava, como era seu costume sempre que se tratava de dar livre expansão a um grande júbilo.

Simone Mignonet deu todas as instruções necessárias para que a partida fosse marcada para a tarde seguinte.

O alvoroço era grande. Todos os rapazes andavam satisfeitos. Daquele período em que tinham estado tão estreitamente ligados, em que os problemas dum passavam a ser os problemas de todos, nascera uma amizade que os levava a sentir contentamento (ou desgosto) de cada vez que a algum dentre eles sucedia qualquer coisa de extraordinário.

O director ordenara que o jantar fosse de festa, com Simone Mignonet e Fernando Vasco em lugares de honra. Houve flores para a artista e champagne (genuíno, claro) por esta oferecido com largueza.

No fim do quase banquete, aos brindes, Ma-hur, de pé, com a taça nas mãos e o olhar brilhante de lágrimas, botou discurso - o seu primeiro discurso, como ele depois confessou.

E o que disse, perfeito na sinceridade e excepcional em relação à idade dele, emocionou toda a gente.

- Quando aqui cheguei - principiou o príncipe -, vinha convencido de que, só pela minha origem, pelo meu nascimento, era mais que todos e ninguém valia como eu. Na minha terra, no meu palácio, com os meus preceptores e quantos me rodeavam, habituei-me a considerar-me único e incomparável. Vim para este colégio contrariado e disposto a julgar toda a gente insignificante. Quando principiei a compreender que ninguém era insignificante, fiquei despeitado. Depois comecei a perceber, a reconhecer que todos prestam. E acabei por descobrir que as pessoas são realmente o que são por si próprias e não pelos berços em que dormem. Hoje admiro toda a gente que conheci e de quem levo muitas saudades. O meu pai fez muito bem em ter-me proporcionado estas férias. Hão-de ajudar-me a preparar melhor para a vida que me espera. E prometo que, daqui em diante, sempre hei-de procurar descobrir o que valem as pessoas, não através das suas posições mas dos seus actos. Talvez assim possa um dia vir a ser um bom governante! Resta-me dizer a todos, professores e companheiros, que na minha terra terão sempre um grande amigo para os receber. O nosso director já me prometeu que a sua próxima viagem será a Ichanagan. Espero que seja possível a vocês, meus amigos, aparecerem-me lá um dia! Enquanto isso não for realizável, peço-lhes que não se esqueçam de mim!...

Houve muitas palmas, muitos agradecimentos, muitos abraços. E em cada abraço era como um anel que se estivesse formando para, através do mundo inteiro, em cadeia de afectos, ir ligando aqueles rapazes para sempre.

Ah, se os homens se entendessem e estimassem, guardando da juventude o entusiasmo, a fé e a esperança; que mundo maravilhoso de paz e digno de Deus que o criou tudo isto seria! Se todos os rapazes o desejassem, como aqueles o desejavam de facto!...

Sim, no desatar daquelas mãos frescas, leais, que se apertavam fervorosamente, havia uma promessa: eles, por eles, fariam alguma coisa! E essa alguma coisa seria, pela certa, como uma grande luz a conduzir ideais, a conduzir vocações, a conduzir certezas.

Benditos sejam todos os homens de boa vontade!

 

E aqui vai acabar a narrativa que juntou leitores com personagens, ligando vidas, suas dores, suas alegrias, seus interesses, durante as 274 páginas deste livro.

Podia dar-se por findo, à moderna, tal qual ficou no capítulo anterior. Mas a autora, à antiga (ou talvez saudosa destes heróis que com ela convivem há tanto tempo e ora vai deixar sabe Deus até quando... ou talvez ainda por admitir que os que estiveram tão próximos durante todo esse tempo de Pedro, Paulo, Fernando Vasco... e companhia, também não queiram deixá-los assim abruptamente) resolveu terminar o volume com o epílogo que ora aqui está.

Epílogo é fim. Neste caso, o fim da história destes adolescentes que estão prestes a ser gente crescida. Um fim que não passa, portanto, duma transição...

O Colégio de Verão fechou as suas portas para reabrir como colégio de Inverno, mais ou menos semelhante a todos os colégios seus irmãos, onde quer que se ergam.

Alguns dos rapazes, alunos permanentes de Verão e de Inverno, demasiadamente longe das famílias para se lhes reunirem em qualquer época ou delas separados por motivos de força maior, ditos os mais comovidos adeuses aos que partiam, preparavam-se para recomeçar os estudos normais e reatar amizades com os colegas que voltavam. Os que vinham traziam muito que contar e os que estavam tinham imenso que dizer.

Os que partiam, uns aos outros prometiam uma assídua correspondência.

Entre eles, cada qual diante dum caminho que por completo se afastava do caminho do companheiro mais próximo, Pepe de Castrilla, Jean-Paul Mignonet, Ma-hur, Vic Nusen, Yanu Lin...

Uma alegre combinação geral, entretanto, estabelecera-se, de acordo com o dr. Schmidt. Karl Erbrüngh ficara encarregado, logo que o filme tivesse cópias, de o expedir para um determinado correspondente o qual, por sua vez, depois de o ver, o faria seguir para outro. Desta maneira, de país em país, os alegres dias de férias do Reichvater estariam ainda um pouco com todos, dando-lhes a possibilidade de apresentar às famílias os amigos distantes e aos amigos presentes o ambiente inesquecível.

Fernando Vasco, de Paris, mandara as primeiras notícias. Fora aceite a sua candidatura ao papel no filme de Simone Mignonet e todos afirmavam que, se ele trabalhasse e se aplicasse para desenvolver qualidades, poderia vir realmente a ser um grande actor.

Quanto a Pedro e Paulo, esses...

É verdade, Pedro e Paulo?!...

E se, com a devida vénia, e terminado o epílogo... eu acrescentasse um definitivamente último capítulo só para falar de Pedro e Paulo?...

Pode ser?...

Então virem a página, por favor...

 

«ADEUS, Alemanha!

«Adeus, comboio que deixaste para trás centenas de terras, centenas de vidas! Adeus, horas de expectativa, de ansiedade, de pressa!

«Chegámos! Chegámos!...

«Esta é a ditosa Pátria nossa amada, porque se tu a amaste, Camões, nós a amamos como tu!

«Eis-nos de volta. Eis-nos chegados!

«Tudo é bom, lá fora; tudo é bonito, agradável, novo, encantador...

«Mas tu, Portugal, és tu... melhor do que tudo, mais belo do que tudo, com o sabor do presente, o respeito do passado, a esperança do futuro, e a nossa carne e a nossa alma presas a ti!...

«É magnífico partir, mas é ainda melhor voltar!...

«Aqui estão o lar, os amigos, os companheiros, os hábitos, as casas, o sol!...

«Tu és nosso como nós somos teus...

«E, por isso, estamos contentes, contentes! Estamos juntos outra vez!»

Este era o poema sem palavras e todo amor, sem música e todo harmonia, que os olhos dos dois rapazes cantavam agora, ao entrarem na estação, ao avistarem juntas, de braços estendidos em em acenos festivos, ambas as famílias. Por um pouco não saltavam pela janela, na ânsia de se lançarem de encontro aos que estavam tão comovidos como eles próprios.

- Mãe! Pai!

- Filho! Filho! Filho!...

Abraçavam-se. Tornavam a abraçar-se.

Riam. E tornavam a rir e a beijar-se.

As duas mães, quase a chorar, apertavam ao peito os dois gramdalhões a quem elas chamavam docemente «meu pequenino... meu pequenino...»

Os pais, a fingirem de impenetráveis à emoção, batiam pancadinhas nos ombros dos rapazes:

- Então, como vai isso?

Perguntas, perguntas, perguntas...

- A Ana?... Que é da Ana?...

Tantas perguntas! Perguntas sem resposta...

O Rumané, aos pulos, torrado e corado, e enorme, dava gritinhos, puxava pelo casaco do irmão e queria saber, num grande frenesim, se ele lhe trazia muitos presentes.

Saíram da estação ligados numa alegria extrema que iria continuar. Jantavam todos em casa dos Macedos, com a presença dos avós e do Domingos. Podiam assim dar largas à ânsia que todos sentiam de dizer, de contar, de saber...

- A Ana? - insistiu o Pedro.

- A Ana chegou doente - esclareceu enfim a mãe.

- Doente?... Com quê?

- Com uma intoxicação alimentar. Qualquer coisa que comeu...

Um terror. Um desgosto, logo atenuado pelo dr. Rui Manuel de Macedo.

- Não se assustem. Já está boa! Não a deixei vir por uma medida de prudência. O liceu abre daqui a dois dias e ela precisa de estar apta para o trabalho.

Pois claro! O liceu, o estudo, o fim dum curso, o princípio de novos cursos, a vida, a vida, a Vida!...

Vida!...

Como eles graças a Deus a possuíam, magnífica, boa e bela, ali todos juntos na aconchegada e agradável sala de estar dos Macedos!...

Rosa-Maria servia aperitivos.

- Madeira?... Porto?...

Todos riam, todos falavam.

Todos, não. O Paulo emudecera.

A Ana tinha finalmente aparecido e estava abraçada ao irmão. Era um abraço sem fim...

E ainda bem!... Que ele, Paulo, necessitava de respirar fundo, para recobrar a presença de espírito.

A Ana?!...

- Ana, como tu estás crescida e linda!... - dizia o Pedro, extasiado.

E era verdade. A garota travessa, redondinha, de cabelos desgrenhados e aspecto neutro, crescera imenso, tornara-se numa encantadora rapariga grande, elegantíssima, que o olhava, a ele, Paulo, com os seus lindos olhos afectuosos e lhe estendia as finas mãozinhas de unhas cuidadas.

- Bem-vindo, Paulo!... Também tinha muitas saudades tuas!...

Paulo não pôde articular palavra. Sorriu, apenas. Mas que sorriso eloquente, meu Deus... e como Ana-Maria, ao corresponder-lhe, ficou corada!...

Ah, sim, com certeza, era muito natural... Se Deus quisesse, um dia, quando ambos acabassem de crescer, as duas famílias haviam de unir-se numa só!

A Ana!... O Paulo estava convencido de que era ela o seu destino, o destino para que havia de encaminhar-se forte e seguro como com tudo quanto realizava. E sem pressas. Calmamente.

Quereria a Ana?... Era cedo de mais para obter uma resposta. Mas isso não importava. Ele acreditava e, sereno, saberia aguardar a hora de estender ambas as mãos para uma felicidade autêntica.

Ali, naquele canto onde se achava, muito alto, muito magro ainda mas já largo de ombros, de grandes olhos escuros perdidos num sonho, numa comoção imensa, o adolescente estava a dar o maior passo, certo e sério, a caminho do homem que viria a ser num futuro que se aproximava rapidamente.

De súbito, o Paulo estremeceu, ruborizou-se. A Ana estava diante dele, a oferecer-lhe amêndoas torradas.

- Queres?...

E ele, desajeitado pela primeira vez:

- Então?... Gostaste muito da tua viagem?

- Gostei imenso.

- O pior foi chegares doente.

- O pai curou-me num instante!

O Pedro aproximou-se deles:

- Ó Paulo, sabes o que a mãe acaba de revelar-me?

O Paulo não sabia, claro, e o Pedro elucidou-o:

- Imagina tu que a Ana tem continuado a trabalhar no livro dela... e tem-no quase pronto!

- Que disparate!... - rectificou a pequena, rindo. - Nem meio vai...

O Paulo começava enfim a sentir-se mais à vontade, a readaptar-se.

- É o teu famoso «Sou uma rapariga do liceu», aquele em que escreves sobre assuntos que te dizem respeito?...

- Tal qual!... Como vês, a notícia tem pouco de sensacional! Adiantei-o realmente um bocado, com impressões, coisas que ia pensando, e vendo... Mas ainda falta imenso! Imenso... para não dizer tudo!...

Já o Pedro rogava:

- Ó Ana, lês-me o que tens feito, sim?

Ela abanou a cabeça.

- Não...

- Não? Não, porquê?

- Não acho a propósito ler-se uma coisa que ainda nem se tem a certeza de acabar.

- Acabas, é garantido!

- Também o espero. E quando acabar, prometo que to dou imediatamente a ler!

- Tens de te despachar!

- Oh, não há pressa... Pelo contrário! Vou escrevendo, sem pensar no fim, percebes? Aliás, creio que para explicar suficientemente o que quero e como o quero, ou seja, o que é a vida duma rapariga do liceu, tenho de conhecer melhor e mais completamente a vida que lá se vive... - E a sorrir: - Sou capaz de só acabar o meu livro no sétimo ano...

O Paulo não se conteve e inquiriu:

- Ó Ana, isso não será tempo de mais?

Ana olhou-o, agora muito séria, e depois

volveu-lhe, gravemente:

- Não, Paulo. Acho que tudo precisa de encontrar a hora apropriada para ser realizado. Não dá resultado nenhum querer apanhar em Fevereiro a fruta que só deve amadurecer em Maio. Tudo tem a sua época, não é verdade?... É necessário saber esperar pelas coisas.

O Pedro deu-lhe um abraço.

- Bem respondido, Ana!... Palavra que contra uma dessas não tenho nada a argumentar... A tua mania das sentenças está a evoluir no bom caminho!

Paulo, devagar, acabou de beber o seu vinho da Madeira. E enquanto toda a gente - pais, avós, filhos, o Domingos e até a Arminda e a Laura que vinham matar saudades do seu menino! - conversava, ele meditava no que ouvira...

Tudo tem a sua época...

Sim, o futuro chegaria! E até lá - Deus do Céu! - que bom tempo para viver, que bom tempo para preparar o dia de amanhã, que bom tempo para esperar...

O livro da Ana!... Ah, quando o livro da Ana estivesse pronto!...

Ninguém percebeu porque é que o Paulo dera uma tão sonora risada! Também ninguém se preocupou em investigar.

Sentiam-se todos tão deslumbrantemente felizes, que tudo o que se passava estava certo.

 

                                                                                Odette de Saint Maurice  

 

                      

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