Sites Grátis no Comunidades.net
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CONFESSO QUE VIVI / Pablo Neruda
CONFESSO QUE VIVI / Pablo Neruda

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CONFESSO QUE VIVI

 

Estas memórias ou lembranças são intermitentes e, por momentos, me escapam porque a vida é exatamente assim. A intermitência do sonho nos permite suportar os dias de trabalho. Muitas de minhas lembranças se toldaram ao evocá-las, viraram pó como um cristal irremediavelmente ferido.

As memórias do memorialista não são as memórias do poeta. Aquele viveu talvez menos, porém fotografou muito mais e nos diverte com a perfeição dos detalhes; este nos entrega uma galeria de fantasmas sacudidos pelo fogo e a sombra de sua época.

Talvez não vivi em mim mesmo, talvez vivi a vida dos outros.

Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre - como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado.

Minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.

 

         O JOVEM PROVINCIANO

 

                   O bosque chileno

Ao pé dos vulcões, junto aos ventisqueiros, entre os grandes lagos, o fragrante, o silencioso, o emaranhado bosque chileno... Os pés afundam na folhagem morta, um ramo quebradiço crepita, os gigantescos raulíes (1) levantam sua estatura encrespada, um pássaro da selva fria atravessa o ar, esvoaça e se detém entre as ramagens sombrias e logo, de seu esconderijo, soa como um oboé... O aroma selvagem do loureiro e o aroma obscuro do boldo me penetram pelas narinas até a alma . . O cipreste das Guaitecas intercepta meus passos... É um mundo vertical: uma nação de pássaros, uma multidão de folhas... Tropeço em uma pedra, escarvo a cavidade descoberta e uma aranha imensa de pêlo vermelho me olha fixamente, imóvel, grande como um caranguejo... Um besouro dourado me lança sua emanação mefítica enquanto desaparece como um relâmpago seu radiante arco-íris... Ao passar, atravesso um bosque de fetos muito mais alto do que eu; caem no meu rosto sessenta lágrimas de seus verdes olhos frios e atrás de mim ficam por muito tempo agitando seus leques... Um tronco podre, que tesouro!... Fungos negros e azuis deram-lhe orelhas, plantas parasitas vermelhas cobriram-no de rubis, outras plantas preguiçosas emprestaram-lhe seus filamentos e brota, veloz, uma cobra de suas entranhas podres como uma emanação, como se do tronco morto lhe escapasse a alma... Mais adiante cada árvore se separou de suas semelhantes... Erguem-se sobre a alfombra da selva secreta, e cada uma de suas folhas, linear, encrespada, ramosa, lanceolada, tem um estilo diferente, como cortada por uma tesoura de movimentos infinitos... Um barranco; a água transparente desliza sobre o granito e o jaspe... Voa uma mariposa pura como um limão, dançando entre a água e a luz... A meu lado as calceolárias infinitas me saúdam com suas cabecinhas amarelas...

Lá no alto, como gotas arteriais da selva mágica, vergam-se os copihues (2) vermelhos (Lapagéria Rósea)... O copihue vermelho é a flor do sangue, o copihue branco é a flor da neve... Num tremor de folhas, a velocidade de uma raposa atravessa o silêncio, mas o silêncio é a lei destas folhagens... Apenas o grito distante de um animal confuso... A interseção penetrante de um pássaro escondido... O universo vegetal apenas sussurra até que uma tempestade ponha em ação toda a música terrestre.

Quem não conhece o bosque chileno não conhece este planeta.

Daquelas terras, daquele barro, daquele silêncio, eu saí a andar, a cantar pelo mundo.

 

1 - Rauli (Bot., Chile): árvore da família das Fagáceas, que chega a 50 m de altura e cuja madeira é empregada em todo tipo de móveis e, em arquitetura, para portas, janelas e assoalhos. (N. da T.)

2 - Copihue: planta ornamental da família das Liliáceas, que dá uma flor vermelha e, mais raramente, branca. A flor do copihue é chamada no Chile “flor de la nacionalidad”. (N. da T.)

 

                   Infância e Poesia

Começarei por dizer, sobre os dias e anos de minha infância, que meu único personagem inesquecível foi a chuva. A grande chuva austral que cai como uma catarata do Pólo, desde o céu do Cabo de Hornos até a fronteira. Nesta fronteira, o Far West de minha pátria, nasci para a vida, para a terra, para a poesia e para a chuva.

Por muito que tenha andado, acho que se perdeu essa arte de chover que se exercia como um poder terrível e sutil em minha Araucanía natal. Chovia meses inteiros, anos inteiros. A chuva caía em fios como compridas agulhas de vidro que se partiam nos tetos, ou chegavam em ondas transparentes contra as janelas, e cada casa era uma nave que dificilmente chegava ao porto naquele oceano de inverno.

Esta chuva fria do sul da América não tem as rajadas impulsivas da chuva quente que cai como um látego e passa deixando o céu azul. Pelo contrário, a chuva austral tem paciência e continua sem fim, caindo do céu cinzento.

Em frente à minha casa a rua converteu-se num imenso mar de lodo. Através da chuva, vejo pela janela que uma carroça se atolou no meio da rua. Um camponês, com manta de lã negra, fustiga os bois que não podem mais avançar entre a chuva e o bano.

Pelas veredas, pisando em uma pedra e outra, contra o frio e a chuva, andávamos até o colégio. O vento levava os guarda-chuvas. Os impermeáveis eram caros, as luvas me incomodavam, os sapatos se encharcavam. Sempre recordarei as meias molhadas junto à lareira e muitos sapatos expelindo vapor como pequenas locomotivas. Depois vinham as inundações sobre os povoados onde vivia a gente mais pobre, junto ao rio. Também a terra se sacudia, trêmula. Outras vezes, na cordilheira assomava um penacho de luz terrível: o vulcão Llaima despertava.

Temuco é uma cidade pioneira, dessas cidades sem passado, mas com lojas de ferragem. Como os índios não sabem ler, as lojas de ferragem ostentam nas ruas seus emblemas exagerados: um imenso serrote, uma panela gigantesca, um cadeado ciclópico, uma colher antártica. Mais adiante, as sapatarias: uma bota colossal.

Se Temuco era o posto avançado da vida chilena nos territórios do sul do Chile, isto significava uma longa história de sangue.

Acossados pelos conquistadores espanhóis, depois de trezentos anos de luta, os araucanos se retiraram até àquelas regiões frias. Mas os chilenos continuaram o que se chamou “pacificação da Araucanía”, isto é, a continuação de uma guerra a sangue e fogo para desapossar nossos compatriotas de suas terras. Contra os índios todas as armas foram usadas com generosidade: disparos de carabina, incêndio de suas choças, e depois, de forma mais paternal, empregou-se a lei e o álcool. O advogado se tornou especialista também na espoliação de seus campos, o juiz os condenou quando protestaram, o sacerdote os ameaçou com o fogo eterno. E, por fim, a aguardente consumou o aniquilamento de uma raça soberba cujas proezas, valentia e beleza Alonso de Ercilla, em seu Araucana, deixou gravadas em estrofes de ferro e jaspe.

Meus pais chegaram de Parral, onde nasci. Ali, no centro do Chile, crescem as vinhas e o vinho é ábundante. Sem que me lembre, sem saber que a olhei com meus olhos, morreu minha mãe, D. Rosa Basoalto. Nasci em 12 de julho de 1904 e, um mês depois, esgotada pela tuberculose, minha mãe já não vivia.

A vida era dura para os pequenos agricultores do centro do país. Meu avô, Dom José Angel Reyes, tinha pouca terra e muitos filhos. Os nomes de meus tios me pareciam nomes de príncipes de reinos distantes. Chamavam-se Amós, Oseas, Joel, Abadias. Meu pai se chamava simplesmente José del Carmen. Saiu muito moço das terras paternas e trabalhou como operário nos diques do porto de Talcahuano, terminando como ferroviário em Temuco.

Era maquinista de um trem lastreiro. Poucos sabem o que é um trem lastreiro. Na região austral, de grandes vendavais, as águas arrastariam os trilhos se não se colocassem pedrinhas britadas entre os dormentes. É preciso tirar em cestos o lastro das pedreiras e despejar a pedra miúda nos vagões. Há quarenta anos a tripulação de um trem desses tinha que ser formidável. Vinham dos campos, dos subúrbios, das prisões. Eram peões gigantescos e musculosos. Os salários da empresa eram miseráveis e não se pediam antecedentes aos que queriam trabalhar nos trens lastreiros. Meu pai era o maquinista do trem. Estava acostumado a mandar e a obedecer. Às vezes me levava com ele. Quebrávamos pedra em Boroa, coração silvestre da fronteira, cenário de terríveis combates entre espanhóis e araucanos.

A natureza ali me dava uma espécie de embriaguez. Atraíam-me os pássaros, os escaravelhos, os ovos de perdiz. Era milagroso encontrá-los nas quebradas, brônzeos, escuros e reluzentes, com uma cor parecida com a do cano de uma espingarda. Assombrava-me a perfeição dos insetos. Recolhia as madres de la culebra. Com esse nome extravagante se designava o maior coleóptero, negro, luzidio e forte, o titã dos insetos do Chile. Dava calafrios vê-lo de repente nos troncos dos arbustos, das macieiras silvestres e das estevas, mas eu sabia que era tão forte que se podia ficar com os pés sobre ele que não se romperia. Com sua grande dureza defensiva não precisava de veneno.

Estas minhas explorações enchiam de curiosidade os trabalhadores. Logo começaram a se interessar pelas minhas descobertas. Assim que meu pai se descuidava, largavam-se pela selva virgem e com mais destreza, mais inteligência e mais força que eu, encontravam para mim tesouros incríveis. Havia um que se chamava Monge. Segundo meu pai, um perigoso cuchillero. (1) Tinha duas grandes linhas na cara morena. Uma era a cicatriz vertical de uma facada e a outra seu sorriso branco, horizontal, cheio de simpatia e picardia. Monge me trazia copihues brancos, aranhas peludas, filhotes de pombas, e uma vez descobriu para mim a coisa mais deslumbrante: o coleóptero do cohiue (2) e da luma. (3) Não sei se vocês já o viram alguma vez. Eu só o vi naquela ocasião. Era um relâmpago vestido de arco-íris. O vermelho e o violeta e o verde e o amarelo deslumbravam em sua carapaça. Como um relâmpago me fugiu das mãos e voltou à selva. Monge já não estava perto para recapturá-lo. Nunca me refiz daquela aparição deslumbrante. Tampouco esqueci aquele amigo. Meu pai contou-me sua morte: caiu do trem e rolou por um precipício. O trem parou; porém, disse meu pai, já era só um saco de ossos.

É difícil dar uma idéia de uma casa como a minha, casa típica da fronteira há sessenta anos.

Em primeiro lugar, as casas se intercomunicavam. Pelo fundo dos pátios os Reyes e os Ortegas, os Candia e os Mason trocavam entre si ferramentas e livros, tortas de aniversário, ungüentos para fricções, guarda-chuvas, mesas e cadeiras.

Estas casas pioneiras bastavam para todas as atividades de um povoado.

Dom Carlos Mason, norte-americano de melenas brancas, parecido com Emerson, era o patriarca desta família. Seus filhos eram profundamente criollos. Dom Carlos Mason tinha Código e Bíblia. Não era um imperialista mas um pioneiro nato. Desta família, sem que ninguém tivesse dinheiro, surgiam oficinas gráficas, hotéis, açougues. Alguns filhos eram diretores de jornais e outros trabalhavam nas oficinas gráficas. Tudo acabava com o tempo e todo mundo ficava tão pobre como antes. Só os alemães mantinham essa preservação irredutível de seus bens, que os caracterizava na fronteira.

Nossas casas tinham, portanto, algo de acampamento. Ou de empresas precur-soras. Ao entrar viam-se barricas, utensílios agrícolas, arreios e objetos indescritíveis.

Sempre ficavam casas por terminar, escadas inconclusas. Falava-se toda a vida de continuar a construção. Os pais começavam a pensar na universidade para seus filhos.

Na casa de Dom Carlos Mason celebravam-se as grandes festas.

Nos dias santos havia perus com aipo, carneiros assados no espeto e ovos nevados de sobremesa. Faz muitos anos que não provo ovos nevados. O patriarca, de cabelos brancos, sentava-se na cabeceira da mesa interminável com sua esposa, D. Micaela Candia. Atrás dele havia uma imensa bandeira chilena, à qual haviam prendido com um alfinete uma minúscula bandeirola americana. Essa era também a proporção do sangue: prevalecia a estrela solitária do Chile.

Na casa dos Mason havia um salão onde nós, crianças, não podíamos entrar. Nunca soube qual a verdadeira cor dos móveis porque estiveram cobertos com panos brancos até que foram devorados por um incêndio. Havia ali um álbum com fotografias da família. Estas fotos eram mais finas e delicadas que as terríveis ampliações coloridas que invadiram depois a fronteira.

Ali havia um retrato de minha mãe. Era uma senhora vestida de negro, delgada e pensativa. Disseram-me que escrevia versos, mas nunca os vi. Dela, só vi aquele belo retrato.

Meu pai havia se casado em segundas núpcias com D. Trinidad Candia Marverde, minha madrasta. Parece-me incrível ter que dar este nome ao anjo tutelar de minha infância. Era diligente e doce, tinha um senso de humor camponês, uma bondade ativa e infatigável.

Mal chegava meu pai, ela se transformava toda numa sombra suave como todas as mulheres de então e de lá.

Naquele salão vi dançar mazurcas e quadrilhas.

Havia em minha casa também um baú com objetos fascinantes. No fundo resplandecia um maravilhoso papagaio de calendário. Um dia em que minha mãe remexia aquela arca sagrada, caí de cabeça dentro ao tentar alcançar o papagaio. Mas quando fui crescendo abria-a secretamente. Havia lá uns leques preciosos e impalpáveis.

Conservo outra lembrança daquele baú. A primeira história de amor que me apaixonou. Eram centenas de cartões-postais, enviados por alguém que os assinava não sei se Henrique ou Alberto, e todos dirigidos a Maria Thielman. Estes cartões eram maravilhosos. Eram retratos das grandes atrizes da época com pedacinhos de vidro engastados e às vezes com cabeleira colada. Havia também castelos, cidades e paisagens distantes. Durante anos me contentei somente com as figuras. Mas, à medida que fui crescendo, fui lendo aquelas mensagens de amor escritas com uma caligrafia perfeita. Sempre imaginei que o galã era um homem de chapéu-coco, bengala e brilhante na gravata. Mas aquelas linhas eram de paixão arrebatadora. Foram enviadas de todos os pontos da terra pelo viajante, cheias de frases deslumbrantes, de audácia enamorada. Comecei a enamorar-me também de Maria Thielman. Imaginava-a como uma atriz desdenhosa, coroada de pérolas. Como haviam chegado ao baú de minha mãe essas cartas? Nunca pude saber.

O ano de 1910 chegou à cidade de Temuco. Neste ano memorável entrei no liceu, um vasto casarão com salas desarrumadas e subterrâneos sombrios. Do alto do liceu, na primavera, se divisava o ondulante e delicioso rio Cautín, com suas margens cheias de maçãs silvestres. Fugíamos das aulas para mergulhar os pés na água fria que corria sobre as pedras brancas.

Mas o liceu era um território de perspectivas imensas para meus seis anos de idade. Tudo tinha possibilidade de mistério: o laboratório de Física (onde não me deixavam entrar), cheio de instrumentos deslumbrantes, de retortas e pequenas cubas; a biblioteca, eternamente fechada. (Os filhos dos pioneiros não gostavam da sabedoria.) No entanto, o lugar de maior fascínio era o subterrâneo. Havia ali um silêncio e uma escuridão muito grandes. À luz das velas brincávamos de guerra. Os vencedores amarravam os prisioneiros nas velhas colunas. E conservo na memória o cheiro de umidade, de lugar escondido, de túmulo, que emanava do subterrâneo do liceu de Temuco.

Fui crescendo. Os livros começaram a me interessar. Nas façanhas de Buffalo Bill, nas viagens de Salgari, foi se estendendo meu espírito pelas regiões do sonho. Os primeiros amores, os puríssimos, se desenvolveram em cartas enviadas a Blanca Wilson. Esta menina era filha do ferreiro e um dos rapazes, perdido de amor por ela, pediu-me que escrevesse por ele suas cartas amorosas. Não me lembro como seriam estas cartas que foram talvez meus primeiros trabalhos literários, pois, certa vez, ao encontrar-me com a estudante, esta me perguntou se era eu o autor das cartas que seu namorado lhe levava. Não me atrevi a renegar minhas obras e muito perturbado respondi que sim. Então ela me deu um doce de marmelo que, é claro, não quis comer e guardei como um tesouro. Afastado assim meu companheiro do coração da menina, continuei escrevendo intermináveis cartas de amor e recebendo doces de marmelo.

Os meninos no liceu não conheciam nem respeitavam minha condição de poeta. A fronteira tinha esse caráter maravilhoso de Far West sem preconceitos. Meus companheiros se chamavam Schnakes, Schlers, Hausers, Smiths, Taitos, Seranis. Éramos iguais entre os Aracenas e os Ramirez e os Reyes. Não havia sobrenomes bascos. Havia sefarditas: Albalas, Francos. Havia irlandeses: McGyntis. Poloneses: Yanichewkys. Brilhavam com luz escura os sobrenomes araucanos, com um perfume de madeira e água: Melivilus, Catrileos.

Combatíamos, às vezes, no grande galpão fechado, com bolotas de azinheira. Só quem levou um bolotaço sabe o quanto dói. Antes de chegar ao liceu enchíamos os bolsos de munição. Eu tinha habilidade escassa, nenhuma força e pouca astúcia. Sempre levava a pior. Enquanto me entretinha observando a maravilhosa bolota, verde e perfeita com sua carapuça rugosa e cinzenta, enquanto tratava desajeitadamente de fabricar com ela um desses pitos que logo me arrebatavam, já me havia caído um dilúvio de bolotaços na cabeça. Quando estava no segundo ano me ocorreu usar um chapéu impermeável verde bem vivo. Este chapéu pertencia a meu pai, assim como sua manta de lã, suas lanternas de sinais verdes e vermelhos que estavam carregados de fascínio para mim que, sempre que podia, levava ao colégio para me pavonear... Certa vez chovia implacavelmente e nada parecia mais formidável que o chapéu de oleado verde como um papagaio. Apenas cheguei à sacada meu chapéu voou como um papagaio. Eu o perseguia e quando ia pegá-lo, voava de novo entre a gritaria mais ensurdecedora que jamais escutei. Nunca mais voltei a vê-lo.

Nestas recordações não vejo bem a precisão periódica do tempo. Confundem-me acontecimentos minúsculos que tiveram importância para mim e parece que esta foi minha primeira aventura erótica, estranhamente misturada à história natural. Talvez o amor e a natureza foram desde muito cedo as jazidas de minha poesia.

Em frente à minha casa viviam duas meninas que continuamente lançavam olhares que me ruborizavam. O que tinha eu de tímido e de silencioso, tinham elas de precoces e diabólicas. Uma vez, parado na porta de minha casa, tratava de não olhar para elas mas tinham nas mãos algo que me fascinava. Aproximei-me com cautela e me mostraram um ninho de pássaro silvestre, tecido com musgo e pluminhas, que guardava em seu interior maravilhosos ovinhos de cor turquesa. Quando fui tomá-lo, uma delas disse que primeiro deviam tirar minhas roupas. Tremi de terror e escapuli rapidamente, perseguido pelas jovens ninfas que exibiam o instigante tesouro. Na perseguição entrei por um beco até uma padaria fechada de propriedade de meu pai. As assaltantes conseguiram me alcançar e começaram a tirar minhas calças quando pelo corredor se ouviram os passos de meu pai. Era uma vez um ninho. Os maravilhosos ovinhos se quebraram na padaria abandonada enquanto, debaixo do balcão, assaltado e assaltantes contínhamos a respiração.

Lembro também que uma vez, buscando os pequenos objetos e os minúsculos seres de meu mundo no fundo da casa, achei um buraco na tábua da cerca. Olhei através do vão e vi um terreno igual ao de minha casa, baldio e silvestre. Recuei uns passos porque adivinhei que ia acontecer alguma coisa. Súbito apareceu uma mão. Era a mão pequenina de um menino da minha idade. Quando me aproximei a mão já não estava e, em seu lugar, havia uma pequena ovelha branca.

Era uma ovelha de Lã desbotada. As rodas com que deslizava haviam sumido. Nunca tinha visto uma ovelha tão linda. Fui em casa e voltei com um presente que deixei no mesmo lugar: uma pinha de pinheiro entreaberta, cheirosa e balsâmica, que eu adorava.

Nunca mais vi a mão do menino. Nunca mais voltei a ver uma ovelhinha como aquela. Perdi-a num incêndio. E ainda agora, nestes anos todos, quando passo por uma loja de brinquedos, olho furtivamente as vitrinas. Mas é inútil. Nunca mais se fez uma ovelha como aquela.

 

1 - Cuchitlero: que é hábil, em brigas, no manejo da faca (cuchillo) como arma. (N. da T.)

2 - Cohiue: (Bot.) variedade de esteva pequena, própria dos Andes Patagônicos. (N. da T.)

3 - Luma: (Bot.) árvore chilena, da família das mirtáceas, que cresce até 20 m de altura, de madeira dura, pesada, resistente; madeira desta árvore. (N. da T.)

 

                   A Arte da chuva

Assim como se desencadeiam o frio, a chuva e o barro das ruas, quer dizer, o insolente e arrasador inverno do sul da América, o verão também chegava a estas regiões, amarelo e abrasador. Estávamos rodeados de montanhas virgens, porém eu queria conhecer o mar. Por sorte meu pai, voluntarioso, conseguiu uma casa emprestada de um de seus numerosos compadres ferroviários. Meu pai, o condutor, na escuridão completa das quatro da noite (nunca soube por que se diz quatro da manhã), despertava toda a casa com seu apito. Desse minuto em diante não havia mais paz nem tampouco havia luz, e entre velas, cujas chamazinhas bruxuleavam por causa das rajadas que se filtravam por toda parte, minha mãe, meus irmãos Laura e Rodolfo e a cozinheira corriam de um lado para o outro enrolando grandes colchões que se transformavam em bolas imensas envoltas em tecido de juta que eram despachadas às pressas pelas mulheres. Era preciso embarcar as camas no trem. Os colchões estavam ainda quentes quando partiam para a estação próxima. Enfermiço e fraco por natureza, sobressaltado na metade do sonho, eu sentia náuseas e calafrios. Entretanto, na casa os carregamentos continuavam sem terminar nunca. Não havia coisa que não levassem para essas férias de pobres. Até secadores de vime, que eram colocados sobre os fogareiros acesos para secar lençóis e a roupa perpetuamente umedecida pelo clima, eram etiquetados e colocados na carroça que esperava os volumes.

O trem percorria um pedaço daquela província fria desde Temuco até Carahue. Atravessava extensões imensas e desabitadas, sem cultivo, atravessava os bosques virgens, soava como um terremoto por túneis e pontes. As estações ficavam ilhadas no meio do campo, entre acácias e macieiras floridas. Os índios araucanos, com seus trajes rituais e sua majestade ancestral, esperavam nas estações para vender aos passageiros carneiros, galinhas, ovos e tecidos. Meu pai sempre comprava algo com interminável regateio. Com sua barbicha loura, erguia uma galinha em frente a uma araucana impenetrável que não baixava nem meio centavo o preço de sua mercadoria. Cada estação tinha um nome mais bonito, quase todos herdados das antigas possessões araucanas. Essa foi a região dos combates mais encarniçados entre os invasores espanhóis e os chilenos primitivos, filhos profundos daquela terra.

Labranza era a primeira estação, Boroa e Ranquilco a seguiam. Nomes com aroma de plantas selvagens, que me cativavam com suas sílabas. Sempre estes nomes araucanos significavam algo delicioso: mel escondido, lagoas ou rio perto de um bosque, ou monte com nome de pássaro. Passávamos pela pequena aldeia de Imperial, onde o poeta Dom Alonso de Ercilla quase foi executado pelo governador espanhol. Nos séculos XV e XVI aqui foi a capital dos conquistadores. Os araucanos, na guerra pela sua pátria, inventaram a tática de terra arrasada. Não deixaram pedra sobre pedra da cidade descrita por Ercilla como bela e soberba.

E, em seguida, a chegada à cidade fluvial. O trem dava seus apitos mais alegres, escurecia o campo e a estação com imensos penachos de fumaça de carvão, tilintavam os sinos e já se percebia o curso amplo, azul e tranqüilo do rio Imperial que se acercava do oceano. Descer as bagagens inumeráveis, organizar a pequena família e dirigirnos em carro de bois até o vapor que desceria pelo rio Imperial, era um espetáculo dirigido pelos olhos azuis e pelo apito ferroviário de meu pai. Metíamo-nos com as bagagens no barquinho que nos levava ao mar. Não havia camarotes. Eu me sentava perto da proa. As rodas moviam com suas pás a corrente fluvial, as máquinas da pequena embarcação resfolegavam e rangiam, a taciturna gente sulina ficava como mobílias imóveis dispersas pelo convés.

Um acordeão lançava seu lamento romântico, uma incitação ao amor. Não há nada mais envolvente para um coração de quinze anos que navegar por um rio amplo e desconhecido, entre ribeiras montanhosas, a caminho do mar misterioso.

Bajo Imperial era só uma fileira de casas de tetos vermelhos. Estava situada sobre a frente do rio. Da casa que nos esperava e, ainda antes, dos cais desconjuntados onde atracou o vaporzinho, escutei a distância o estrondo marinho, uma comoção distante. O marulhar entrava em minha vida.

A casa pertencia a Dom Horácio Pacheco, agricultor gigantesco que, durante esse mês de nossa estada em sua casa, ia e levava pelas colinas e pelos caminhos intransitáveis seu trator e sua debulhadora. Com a máquina colhia o trigo dos índios e dos camponeses, isolados na povoação costeira. Era um homenzarrão que de repente irrompia em nossa família ferroviária falando com voz estentórea e coberto de pó e palha de cereais. Depois, com o mesmo estrondo, voltava às suas tarefas nas montanhas. Foi para mim mais um exemplo das vidas duras de minha região austral.

Tudo era misterioso para mim naquela casa, nas ruas maltratadas, nas existências desconhecidas que me rodeavam, no som profundo da distância marinha. A casa tinha o que me pareceu um imenso jardim desordenado, com um caramanchão central castigado pela chuva, caramanchão de vigas brancas cobertas pelas trepadeiras. A não ser minha insignificante pessoa, ninguém entrava nunca na solidão sombria onde cresciam as heras, as madressilvas e minha poesia. É certo que havia naquele jardim estranho outro objeto fascinante: um bote, órfão de grande naufrágio, que jazia ali no jardim sem ondas nem tormentas, encalhado entre as amapolas.

O mais estranho naquele jardim selvagem era que, intencionalmente ou por descuido, havia somente amapolas. As outras plantas tinham-se retirado do lugar sombrio. Algumas eram grandes e brancas como pombas; outras, escarlates como gotas de sangue, ou cor de amora e negras como viúvas esquecidas. Eu nunca tinha visto tanta quantidade de amapolas e nunca mais voltei a ver. Ainda que as olhasse com muito respeito, com certo supersticioso temor que só elas infundem, entre todas as flores, não deixava de cortar de vez em quando alguma, cujo talo quebrado deixava um leite áspero em minhas mãos e uma lufada de perfume inumano. Acariciava e guardava em um livro as pétalas suntuosas de seda. Para mim eram asas de grandes mariposas que não sabiam voar.

Quando estive pela primeira vez diante do oceano fiquei atônito. Ali, entre duas grandes elevações (o Huilque e o Maule) desencadeava-se a fúria do grande mar. Não eram só as imensas ondas nevadas que se erguiam a muitos metros sobre nossas cabeças, como também um estrondo de coração colossal, a palpitação do universo.

Ali a família dispunha suas toalhas de mesa e seus bules de chá. Os alimentos chegavam à boca cobertos de areia, o que não importava muito. O que me assustava era o momento apocalíptico em que meu pai nos ordenava o banho de mar de cada dia. Longe das ondas gigantescas, a água nos salpicava, a minha irmã Laura e a mim, com seus látegos de frio. E acreditávamos, trêmulos, que o dedo de uma onda nos arrastaria até as montanhas do mar. Com os dentes batendo e as costelas arroxeadas nós dispúnhamos, minha irmã e eu, de mãos dadas, a morrer, quando soava o apito ferroviário e meu pai nos ordenava sair do martírio.

Contarei outros mistérios daquele lugar. Um eram os cavalos percherões e outro a casa das três mulheres encantadas.

No extremo da aldeola erguiam-se alguns casarões, provavelmente curtumes. Pertenciam a bascos franceses. Quase sempre estes bascos controlavam as indústrias de couro no sul do Chile. O que me interessava era ver como saíam dos portões, a certa hora do entardecer, grandes cavalos que atravessavam o vilarejo.

Eram cavalos percherões, potros e éguas de estatura gigantesca. Suas grandes crinas caíam como cabeleiras sobre os altíssimos lombos. Tinham patas imensas também cobertas de tufos de pêlos que, ao galopar, ondulavam como penachos. Eram alazões, brancos, rosilhos poderosos. Assim teriam andado os vulcões se pudessem trotar e galopar como aqueles cavalos colossais. Como um abalo de terremoto, caminhavam sobre as ruas poeirentas e pedregosas. Relinchavam asperamente, fazendo um ruído subterrâneo que estremecia a atmosfera tranqüila. Arrogantes, incomensuráveis e estatuários, nunca voltei a ver cavalos como esses em minha vida, a não ser os que vi na China, talhados em pedra como monumentos tumulares da dinastia Ming. Porém a pedra mais venerável não pode dar o espetáculo daquelas tremendas vidas animais que pareciam, aos meus olhos de menino, sair da escuridão dos sonhos em direção a outro mundo de gigantes.

Em realidade, aquele mundo silvestre estava cheio de cavalos. Pelas mas, cavaleiros chilenos, alemães e mapuches, (1) todos com ponchos de lã negra, subiam ou desciam de suas montarias. Os animais, magros ou bem tratados, esquálidos ou opulentos, ficavam ali onde os cavaleiros os deixavam, ruminando o capim dos caminhos e deitando fumaça pelas ventas. Estavam acostumados a seus amos e a vida solitária do povoado. Voltavam mais tarde, carregados com bolsas de mantimentos ou de ferramentas, para as intrincadas alturas, subindo por caminhos péssimos ou galopando infinitamente pela areia junto ao mar.

De vez em quando saía de uma casa de penhores ou de uma taberna sombria algum cavaleiro araucano que, com dificuldade, montava o seu cavalo imutável e logo tomava o caminho de regresso à sua casa entre os montes, cambaleando de um lado para o outro, bêbado até à inconsciência. Ao vê-lo começar e continuar seu caminho me parecia que o centauro alcoolizado ia cair ao solo cada vez que se inclinava perigosamente, mas me enganava: sempre voltava a erguer-se para logo inclinar-se outra vez dobrando-se até o outro lado e sempre se recuperando, grudado à montaria. Continuaria assim montado sobre o cavalo por quilômetros e quilômetros, até fundir-se na natureza selvagem como um animal vacilante, obscuramente invulnerável.

Voltamos em outros verões, com as mesmas cerimônias domésticas, à região fascinante. Fui crescendo, lendo, enamorando-me e escrevendo com o passar do tempo, entre os amargos invernos de Temuco e a misteriosa estiagem do litoral.

Acostumei-me a andar a cavalo. Minha vida foi ficando mais elevada e ampla pelas rotas de barro íngreme, por caminhos de curvas imprevistas. Ao meu encontro saíam os vegetais emaranhados, o silêncio e o som dos pássaros selvagens, o estalido súbito de uma árvore florida, vestida de escarlate como um arcebispo imenso das montanhas ou nevada por uma batalha de flores desconhecidas. Ou de vez em quando também inesperada, a flor do copihue, selvagem, indomável, irredutível, pendente das matas como uma gota fresca de sangue. Fui me habituando ao cavalo, à montaria, aos duros e complicados arreios, às esporas cruéis que tilintavam em meus calcanhares. Começou por praias infinitas e montes emaranhados uma comunicação entre minha alma, quer dizer, entre minha poesia e a terra mais solitária do mundo. Isto foi há muitos anos, mas essa comunicação, essa revelação, esse pacto com o espaço, tem continuado ao longo de minha vida.

 

1 - Mapuche: natural de Arauco, pertencente a esta zona ou província do Chile; araucano. (N. da T)

 

                   Meu primeiro poema

Agora vou contar-lhes uma história de pássaros. No lago Budi, os cisnes eram perseguidos com ferocidade. Aproximavam-se deles sorrateiramente nos botes e, em seguida, rápido, rápido, remavam... Os cisnes, como o albatroz, devem correr patinando sobre a água, empreendendo dificilmente o vôo e levantando com dificuldade as grandes asas. Alcançados, eram exterminados a pauladas.

Trouxeram-me um cisne meio morto. Era uma dessas aves maravilhosas que não voltei a ver no mundo: o cisne de pescoço negro, uma nave de neve com o pescoço esbelto como que metido em uma estreita meia de seda negra, o bico alaranjado e os olhos vermelhos.

Isto foi perto do mar, em Porto Saavedra, Imperial do Sul.

Entregaram-no a mim quase morto. Lavei suas feridas e lhe empurrei pedacinhos de pão e peixe pela garganta. Devolvia tudo. No entanto, foi se refazendo de seus ferimentos, começou a perceber que eu era seu amigo. E comecei a compreender que a nostalgia o matava. Então, carregando o pesado pássaro em meus braços pelas ruas, levei-o ao rio. Ele nadava um pouco, perto de mim. Eu queria que ele pescasse e lhe indicava as pedrinhas do fundo, as areias por onde deslizavam os peixes prateados do sul. Mas ele olhava a distância com olhos tristes.

Assim diariamente, por mais de vinte dias, levei-o ao rio e o trouxe à minha casa. O cisne era quase tão grande quanto eu. Uma tarde ficou mais alheio, nadou perto de mim, mas não se distraiu com os insetinhos com que eu queria ensinar-lhe novamente a pescar. Ficou muito quieto e o tomei de novo nos braços para levá-lo à casa. Então, quando o tinha à altura do peito, senti que se desenrolava uma tira, algo como um braço negro que me roçasse o rosto. Era seu comprido e ondulante pescoço que caía. Assim aprendi que os cisnes não cantam quando morrem.

O verão é abrasador em Cautín. Queima o céu e o trigo. A terra quer recuperar-se de sua letargia. As casas não estão preparadas para o verão, como não estiveram para o inverno. Vou pelo campo e ando, ando. Perco-me no monte Nielol. Estou só, tenho o bolso cheio de escaravelhos. Numa caixa levo uma aranha peluda recém-caçada. Não se vê o céu no alto. A selva está sempre úmida. Resvalo. De repente grita um pássaro: é o grito fantasmagórico do chucao. (1) Sou trespassado por um arrepio. Apenas se distinguem os copihues como gotas de sangue. Sou somente um ser minúsculo debaixo dos fetos gigantes. Junto à minha boca voa uma torcaza (2) com um ruído seco de asas. Mais acima outros pássaros riem de mim com riso áspero. Encontro com dificuldade o caminho. Já é tarde.

Meu pai não chegou ainda. Chegará às três ou às quatro horas da manhã. Subo ao meu quarto. Leio Salgari. A chuva desaba como uma catarata. Em um minuto a noite e a chuva cobrem o mundo. Ali estou só e em meu caderno de aritmética escrevo versos. Na manhã seguinte me levanto muito cedo. As ameixas estão verdes. Subo os montes. Levo um pacotinho com sal. Subo numa árvore, me instalo comodamente, mordo com cuidado uma ameixa e tiro dela um pedacinho, empapando-a com sal. Como até cem ameixas. Já sei que é demais.

Incendiou-se nossa casa, notícia misteriosa. Subo a cerca e olho os vizinhos. Não há ninguém. Levanto alguns pedaços de pau. Nada mais que umas miseráveis aranhazinhas. No fundo do terreno está o reservado. As árvores junto dele têm lagartas. As amendoeiras mostram sua fruta forrada de felpa branca. Sei como caçar os moscardos sem fazer-lhes dano, com um lenço. Mantenho-os presos por um momento e os aproximo dos meus ouvidos. Que zumbido magnífico!

Que solidão a de um pequeno menino poeta, vestido de negro, na fronteira espaçosa e terrível. A vida e os livros pouco a pouco vão me deixando entrever mistérios esmagadores.

Não posso esquecer do que li essa noite: a fruta-pão salvou Sandokan e seus companheiros numa Malásia distante.

Não gosto de Buffalo Bill porque mata os índios. Mas que bom cavaleiro! Que lindas as pradarias e as tendas cônicas dos pelesvermelhas!

Muitas vezes me perguntaram quando escrevi meu primeiro poema, quando nasceu em mim a poesia.

Tratarei de lembrar. Muito longe na minha infância e tendo apenas aprendido a escrever, senti uma vez uma intensa emoção e tracei algumas palavras semi-rimadas mas estranhas a mim, diferentes da linguagem diária. Passei a limpo num papel, preso de uma ansiedade profunda, de um sentimento até então desconhecido, espécie de angústia e tristeza. Era um poema dedicado à minha mãe, isto é, a que conheci como tal, a madrasta angelical, cuja sombra suave protegeu toda minha infância. Completamente incapaz de julgar minha primeira produção, levei-a a meus pais. Eles estavam na sala de jantar, mergulhados em uma dessas conversas em voz baixa que dividem mais que um rio o mundo dos meninos e dos adultos. Desdobrei o papel com as linhas, trêmulo ainda com a primeira visita da inspiração. Meu pai, distraidamente, tomou-o em suas mãos, leu distraidamente e distraidamente mo devolveu, dizendo:

- De onde o copiaste?

E continuou conversando em voz baixa com minha mãe seus assuntos importantes e remotos.

Parece-me recordar que assim nasceu meu primeiro poema e que assim recebi a primeira mostra distraída da crítica literária.

Entretanto avançava no mundo do conhecimento, no desordenado rio dos livros como um navegante solitário. Minha avidez de leitura não descansava de dia nem de noite. Na costa, no pequeno Porto Saavedra, encontrei uma biblioteca municipal e um velho poeta, Dom Augusto Winter, que se admirava de minha voracidade literária.

- Já os leu?, dizia, passando-me um novo Vargas Vila, um Ibsen, um Rocambole. Como um avestruz, eu tragava sem discriminar.

Por esse tempo chegou a Temuco uma senhora alta, com vestidos muito compridos e sapatos de saltos baixos. Era a nova diretora do liceu de meninas. Vinha de nossa cidade austral, das neves de Magallanes. Chamava-se Gabriela Mistral.

Eu a olhava passar pelas ruas do povoado com seus vestidões até os tornozelos e tinha medo dela. Mas quando me levaram para visitá-la, achei-a simpática. No rosto queimado em que o sangue índio predominava como um belo cântaro araucano, seus dentes branquíssimos mostravam-se num sorriso pleno e generoso que iluminava a casa.

Eu era jovem demais para ser seu amigo - e tímido e ensimesmado demais. Poucas vezes a vi-mas o bastante para cada vez sair com alguns livros que me presenteava. Eram sempre novelas russas, que ela considerava como o máximo da literatura mundial. Posso dizer que Gabriela me iniciou nessa séria e terrível visão dos novelistas russos e que Tolstói, Dostoiévski e Tchecov entraram na minha predileção mais profunda. Continuam me acompanhando.

 

1 - Chucao: (Zool., Chile) pássaro de plumagem parda, que habita a espessura dos bosques. (N. da T.)

2 - Torcaza: espécie de pomba, chamada “paloma torcaz”, que vive no campo e se aninha nas árvores mais elevadas. (N. da T.)

 

                     A casa das três viúvas

Uma vez me convidaram para uma festa de debulha num lugar alto, nas montanhas, bastante distante da cidade. Gostei da aventura de ir só, adivinhando o caminho naquelas serranias. Pensei que, se me perdesse, alguém me ajudaria. Com meu cavalo nos distanciamos de Bajo Imperial e atravessamos com dificuldade a barra do rio, O Pacífico ali se desencadeia e investe intermitentemente contra as rochas e as matas do monte Maule, última colina, muito alta. Logo me desviei pelas margens do lago Budi. O marulhar assaltava os pedestais do outeiro. Tinha que aproveitar aqueles minutos em que uma onda se desfazia e recuava para recobrar força. Então atravessamos as pressas o trecho entre o outeiro e a água, antes que uma nova onda nos esmagasse a mim e a minha montaria contra a áspera encosta.

Passado o perigo, para o lado do poente começava a lâmina imóvel e azul do lago. O areal da costa se estendia interminavelmente até a desembocadura do lago Toltén, bem longe dali. Estas costas do Chile, muitas vezes escarpadas e rochosas, transformam-se logo em faixas intermináveis e se pode viajar por dias e noites sobre a areia, rente à espuma do mar.

São praias que parecem infinitas. Estendem-se ao longo do Chile como o anel de um planeta, como um aro envolvente acossado pelo estrondo dos mares austrais: uma pista que parece dar a volta pela costa chilena até além do Pólo Sul.

Do lado dos bosques me saudavam as aveleiras de ramagens verdeescuro e brilhantes, tacheadas às vezes por cachos de frutas, avelãs que pareciam pintadas de zarcão, tão vermelhas são nessa época do ano. Os colossais fetos do sul do Chile eram tão altos que passávamos debaixo de seus ramos sem tocá-los, eu e meu cavalo. Quando minha cabeça roçava seus verdes, caía sobre nós uma descarga de orvalho. À minha direita se estendia o lago Budi: uma lâmina constante e azul que limitava com os bosques distantes.

Somente no final vi alguns habitantes. Eram estranhos pescadores. Naquele trecho em que se unem ou se beijam ou se agridem o oceano e o lago, ficavam entre duas águas alguns peixes marinhos, expelidos pelas águas violentas. Especialmente cobiçadas eram as grandes lisas, grandes peixes prateados, que nesses baixos se deba-tiam extraviadas. Os pescadores, um, dois, quatro, cinco, verticais e ensimesmados, espreitavam o rastro dos peixes perdidos e, súbito, com um golpe formidável deixavam cair um tridente comprido sobre a água. Depois levantavam no alto as ovaladas polpas de prata que tremiam e brilhavam ao sol antes de morrer no cesto dos pescadores. Entardecia. Abandonei as margens do lago e me internei buscando o caminho nas encrespadas encostas dos montes. Escurecia palmo a palmo. O lamento de um desconhecido pássaro selvagem cruzava de repente como um sussurro áspero. Uma águia ou condor da altura crepuscular parecia imobilizar suas asas negras, assinalando minha presença, seguindo-me com pesado vôo. Uivavam, ladravam, atravessavam o caminho velozes raposas de cauda vermelha, ou animais ignorados do bosque secreto.

Compreendi que tinha me extraviado. A noite e a selva, que me fascinaram, agora me ameaçavam e me enchiam de pavor. Um único e solitário viajante cruzou de repente comigo na crepuscular solidão do caminho. Quando nos aproximamos, detendo-me, vi que era um desses camponeses desengonçados de poncho pobre e cavalo magro, que de vez em quando emergiam do silêncio.

Contei-lhe o que se passava comigo.

Respondeu que naquela noite eu não conseguiria chegar. Ele conhecia palmo a palmo toda a região e sabia o lugar exato onde se estava debulhando. Disse-lhe que não queria passar a noite ao relento, que me desse algum conselho para que eu me abrigasse até amanhecer. Laconicamente me indicou que seguisse por duas léguas um pequeno atalho transversal. “De longe vai ver as luzes de uma casa grande de madeira, de dois andares”, disse.

- É um hotel? - perguntei.

- Não, mocinho, mas o receberão muito bem. São três senhoras francesas, madeireiras, que vivem aqui há trinta anos, muito boas com todo mundo. Elas o acolherão.

Agradeci ao camponês os parcimoniosos conselhos e ele se afastou, trotando no cavalinho chucro. Continuei pela trilha estreita, como uma alma penada. Uma lua virginal, curva e branca como um fragmento de unha recém-cortada, começava a subir no céu.

Cerca das nove da noite divisei as inconfundíveis luzes de uma casa. Apressei meu cavalo antes que ferrolhos e trancas me vedassem a entrada daquele santuário milagroso. Passei as porteiras da propriedade e, evitando troncos cortados e montes de serragem, cheguei à porta ou pórtico branco daquela casa tão insolitamente perdida naquela solidão. Chamei à porta, primeiro suavemente, e depois com mais força. Quando se passaram alguns minutos e, apavorado, imaginei que não havia ninguém, apareceu uma senhora de cabelos brancos, delgada e de luto. Examinou-me com olhos severos e entreabriu a porta para interrogar o viajante intempestivo:

- Quem é você e o que deseja? - disse uma voz suave de fantasma.

- Perdi-me na selva. Sou estudante. Convidaram-me para a debulha dos Hernández. Estou muito cansado. Disseram-me que a senhora e suas irmãs são muito bondosas. Desejo somente dormir em qualquer canto e seguir ao amanhecer meu caminho.

- Entre - respondeu. - Esteja em sua casa.

Levou-me a um salão escuro e ela mesma acendeu dois ou três lampiões. Observei que eram belas luminárias art-nouveau de opalina e bronze dourado. O salão cheirava a umidade. Grandes cortinas vermelhas resguardavam as janelas altas. As poltronas estavam cobertas por um envoltório branco que as preservava. De quê?

Aquele era um salão de outro século, indefinível e inquietante como um sonho. A nostálgica dama de cabeleira branca, vestida de luto, movia-se sem que eu visse seus pés, sem que se ouvissem seus passos, tocando com as mãos uma coisa ou outra, um álbum, um leque, de cá para lá, dentro do silêncio.

Pareceu-me haver caído no fundo de um lago e em sua fundura sobreviver sonhando, muito cansado. Apressadamente entraram duas senhoras idênticas à que me recebeu. Era tarde e fazia frio. Sentaram-se ao meu redor, uma com leve sorriso de longínqua coqueteria e a outra fitando-me com os mesmos olhos melancólicos da que me abriu a porta.

A conversa se estendeu subitamente para muito longe daquele campo distante, longe também da noite aturdida por mil insetos, coaxar de rãs e cantos de pássaros noturnos. Indagavam sobre meus estudos. Falei inesperadamente de Baudelaire, dizendo-lhes que havia começado a traduzir seus versos.

Foi como uma chispa elétrica. As três damas apagadas se inflamaram. Seus olhos transidos e os rostos rígidos se transformaram, como se tivessem caído três máscaras antigas de suas antigas feições.

- Baudelaire! - exclamaram - é talvez a primeira vez, desde que o mundo existe, que se pronuncia esse nome nestes ermos. Temos aqui suas Fleurs du mal. Somente nós podemos ler suas maravilhosas páginas em 500 quilômetros ao redor. Ninguém sabe francês nestas montanhas.

Duas das irmãs tinham nascido em Avignon. A mais jovem, também francesa de sangue, era chilena de nascimento. Os avós, os pais, todos os parentes, tinham morrido há muito tempo. Elas três se acostumaram à chuva, ao vento, à serragem da serraria, ao contato de um número pequeníssimo de camponeses primitivos e criados rústicos. Decidiram ficar ali, única casa naquelas montanhas hirsutas.

Entrou uma empregada índia e sussurrou algo ao ouvido da senhora mais velha. Saímos então, através de corredores gelados, para chegar à sala de jantar. Fiquei atônito. No centro do aposento, uma mesa redonda com toalhas compridas e brancas era iluminada por dois candelabros de prata cheios de velas acesas. A prata e o cristal brilhavam juntos naquela mesa surpreendente.

Fui invadido por uma timidez extrema, como se houvesse sido convidado pela rainha Vitória para comer em seu palácio. Chegava desgrenhado, fatigado e empoeirado, e aquela mesa parecia estar esperando um príncipe - o que eu estava muito longe de ser. Melhor aspecto teria um tropeiro suado que deixasse à porta a sua boiada.

Poucas vezes comi tão bem. Minhas anfitriãs eram mestras na cozinha e haviam herdado dos avós as receitas da doce França. Cada guisado era uma surpresa no sabor e no cheiro. Da adega trouxeram vinhos velhos, conservados por elas segundo as leis do vinho da França.

Apesar do cansaço que me cerrava de repente os olhos, eu as ouvia contar coisas estranhas. O maior orgulho das irmãs era o refinamento culinário; a mesa era para elas o cultivo de uma herança sagrada, de uma cultura a que nunca mais voltariam, separadas de sua pátria pelo tempo e por mares imensos. Mostraram-me, como zombando de si mesmas, um curioso fichário.

- Somos umas velhas maníacas - disse a mais moça.

Durante trinta anos haviam sido visitadas por 27 viajantes que chegaram até esta casa distante, uns a negócios, outros por curiosidade, alguns, como eu, por acaso. O incrível era que guardavam uma ficha relativa a cada um deles com a data da visita e o menu que haviam preparado em cada ocasião.

- Conservamos o menu para não repetir um único prato caso voltassem esses amigos.

Fui dormir e caí na cama como um saco de cebolas num mercado. Ao alvorecer, ainda escuro, acendi uma vela, me lavei e me vesti. Clareava quando um dos criados me encilhou o cavalo. Não tive coragem de me despedir das três senhoras gentis e enlutadas. No fundo algo me dizia que tudo aquilo tinha sido um sonho estranho e encantador e que eu não devia despertar para não quebrar o encanto.

Faz já quarenta e cinco anos deste fato, acontecido no começo de minha adolescência. Que se passou com as três senhoras desterradas com suas Fleurs du mal no meio da mata virgem? Que fim terão levado suas velhas garrafas de vinho e suas mesas resplandecentes iluminadas por 20 castiçais? Que destino terão tido a serraria e a casa branca perdida entre as árvores?

Deve ter acontecido o mais simples de tudo: a morte e o esquecimento. Provavelmente a selva devorou aquelas vidas e aqueles salões que me acolheram numa noite inesquecível. Mas em minha lembrança continuam vívidos como no fundo transparente do lago dos sonhos. Honra seja feita a essas três mulheres melancólicas que em sua solidão selvagem lutaram sem utilidade nenhuma para manter uma antiga dignidade. Defendiam o que souberam fazer as mãos de seus antepassados, isto é, as últimas gotas de uma cultura deliciosa, lá longe, no limite máximo das montanhas mais impenetráveis e mais solitárias do mundo.

 

                     O amor junto ao trigo

Cheguei ao acampamento dos Hernández antes do meio-dia, descansado e alegre. Minha cavalgada solitária pelos caminhos desertos, o descanso do sono, tudo isso refulgia em minha juventude taciturna.

A debulha do trigo, da aveia, da cevada, se fazia ainda com éguas. Não há nada mais alegre no mundo que ver girar as éguas, trotando ao redor da mó do grão, debaixo do grito instigante dos cavaleiros. Havia um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela se acumula em montes dourados. Tudo é atividade e movimento: sacos que deslizam e são enchidos, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cachorros que ladram, crianças que a cada instante têm que escapar - como se fossem frutos da palha - das patas dos cavalos.

Os Hernández eram um clã singular. Os homens hirsutos e com barba por fazer, em mangas de camisa e revólver no cinto, estavam quase sempre sujos de azeite, de pó de cereal, de barro, ou molhados até os ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, tinham todos a mesma catadura. Permaneciam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um telhado ou sobre uma máquina de debulhar. Nunca conversavam. Falavam de tudo em tom de brincadeira, a não ser quando brigavam. Para lutar eram que nem trombas-d'água: arrasavam com tudo que tinham pela frente. Eram também os primeiros nos churrascos em pleno campo, no vinho tinto e nas guitarras chorosas. Eram homens da fronteira, a gente de que eu gostava. Eu, estudante e pálido, me sentia diminuído junto daqueles ativos, bárbaros, e eles, não sei por que, me tratavam com certa delicadeza, que em geral não tinham com ninguém.

Depois do assado, das guitarras, do cansaço cegante do sol e do trigo, a gente tinha que se preparar para passar a noite. Os casais e as mulheres sozinhas se acomodavam no andar térreo, dentro do acampamento levantado com tábuas recém-cortadas. Quanto aos rapazes, fomos destinados a dormir no celeiro. O celeiro erguia seu monte de palha e podia alojar um povoado inteiro em sua maciez amarela.

Para mim tudo aquilo era um incômodo inusitado. Não sabia como me esticar. Coloquei cuidadosamente meus sapatos debaixo de uma camada de palha de trigo, a qual deveria servir-me de travesseiro. Tirei a roupa, me cobri com o poncho e me afundei no monte de palha. Fiquei longe de todos os outros que, de imediato e de maneira unânime, trataram de roncar.

Fiquei muito tempo estendido de costas, com os olhos abertos, o rosto e os braços cobertos pela palha. A noite era clara, fria e penetrante. Não havia lua mas as estrelas pareciam recém-molhadas pela chuva e, sobre o sono cego de todos os outros, somente para mim cintilavam no regaço do céu. Em seguida dormi. Despertei bruscamente porque alguma coisa se aproximava de mim, um corpo desconhecido se movia debaixo da palha e se acercava do meu. Tive medo. Esse algo se chegava lentamente. Sentia se partirem os talos da palha, afastados pela forma desconhecida que avançava. Todo meu corpo estava alerta, esperando. Devia talvez levantar-me e gritar. Fiquei imóvel. Ouvi uma respiração muito perto de minha cabeça.

Súbito uma mão avançou sobre mim, uma mão grande, calejada, mas mão de mulher. Percorreu-me a fronte, os olhos, todo o rosto com doçura. Depois uma boca ávida se colou à minha e senti, ao longo de todo meu corpo, até os pés, um corpo de mulher que se agarrava comigo.

Pouco a pouco meu temor se mudou em prazer intenso. Minha mão percorreu sua cabeleira com tranças; uma fronte lisa, os olhos de pálpebras fechadas, suaves como amapolas. Minha mão continuou buscando e toquei dois seios grandes e firmes, nádegas amplas e redondas, pernas que me entrelaçavam, e mergulhei os dedos em um púbis como musgo das montanhas. Nem uma palavra saía nem saiu daquela boca desconhecida.

Como é difícil fazer amor sem causar ruído em um monte de palha, compartilhado por mais sete ou oito homens, homens adormecidos que por nada do mundo devem ser despertados. Mas o certo é que tudo se pode fazer, ainda que custe cuidados infinitos. Um pouco mais tarde, também a desconhecida caiu bruscamente adormecida junto de mim e eu, exaltado pela situação, comecei a ficar aterrorizado. Logo amanheceria, pensava, e os primeiros trabalhadores encontrariam a mulher nua no celeiro, estendida a meu lado. Mas também eu adormeci. Ao despertar estendi a mão sobressaltado e só encontrei um côncavo tênue, sua morna ausência. Depois um pássaro começou a cantar e logo a selva inteira se encheu de gorjeios. Soou o apito de motor e homens e mulheres começaram a transitar e a se atarefarem junto ao celeiro em suas ocupações. O novo dia de debulha se iniciava.

Ao meio-dia almoçávamos reunidos ao redor de compridas mesas. Eu olhava de soslaio enquanto comia, procurando entre as mulheres a que pudesse ter sido a visitante noturna. Mas umas eram velhas demais, outras demasiado magras, muitas eram mocinhas delgadas como sardinhas. E eu procurava uma mulher compacta, de bons seios e tranças compridas. De repente entrou uma senhora que trazia um pedaço de assado para seu marido, um dos Hernández. Esta, sim, podia ser. Ao contemplá-la do outro extremo da mesa, acho que notei naquela bela mulher de grandes tranças um olhar rápido e um sutilíssimo sorriso. E me pareceu que esse sorriso se fazia maior e mais profundo, se abria dentro de meu corpo.

 

         PERDIDO NA CIDADE

 

                   As pensões

Depois de muitos anos de liceu, em que tropecei sempre no mês de dezembro com o exame de matemática, fiquei exteriormente pronto para enfrentar a universidade, em Santiago do Chile. Digo exteriormente porque, por dentro, minha cabeça estava cheia de livros, de sonhos e de poemas que zumbiam em mim como abelhas.

Provido de um baú de folha-de-flandres, com o indispensável traje negro de poeta, delgadíssimo e afilado como uma faca, entrei na terceira classe do trem noturno que levava um dia e uma noite intermináveis para chegar a Santiago.

Este comprido trem que atravessava zonas e climas diferentes, e no qual viajei tantas vezes, guarda para mim ainda um encanto estranho. Camponeses de ponchos molhados e cestos com galinhas, taciturnos mapuches, toda uma vida se desenvolvia no vagão de terceira. Eram muitos os que viajavam sem pagar, debaixo dos bancos. Ao surgir o inspetor, produzia-se uma metamorfose. Muitos desapareciam e alguns se ocultavam debaixo de um poncho sobre o qual logo dois passageiros fingiam jogar canas, sem que esta mesa improvisada chamasse a atenção do inspetor.

Entretanto o trem passava dos campos com carvalhos e araucárias e das casas de madeira molhada aos álamos do centro do Chile, às empoeiradas construções de adobe. Muitas vezes fiz aquela viagem de ida e volta entre a capital e a província mas sempre me senti oprimido quando saía dos grandes bosques, da madeira maternal. As casas de adobe e as cidades com passado pareciam-me cheias de teias de aranha e de silêncio. Até agora continuo sendo um poeta do céu aberto e da selva fria que perdi então.

Vinha recomendado a uma pensão da rua Maruri, 513. Não esqueço este número de maneira nenhuma. Esqueço todas as datas e até os anos, mas este número 513 ficou galvanizado na minha cabeça, onde o meti há tantos anos com medo de não chegar nunca a essa pensão e me extraviar na capital grandiosa e desconhecida. Na rua mencionada me sentava na sacada para olhar a agonia de cada tarde, o céu embandeirado de verde e carmim, a desolação dos telhados suburbanos ameaçados pelo incêndio do céu.

A vida daqueles anos na pensão de estudantes era de fome completa. Escrevi muito mais do que até então mas comi muito menos. Alguns dos poetas que conheci naqueles dias sucumbiram por causa das dietas rigorosas da pobreza. Entre estes recordo um poeta da minha idade, porém muito mais alto e mais desconjuntado do que eu, cuja lírica sutil estava cheia de essência e impregnava todo lugar onde era ouvida. Chamava-se Romeo Murga.

Com Romeo Murga fomos ler nossas poesias na cidade de San Bernardo, perto da capital. Antes que aparecêssemos no cenário, tudo se havia desenvolvido num ambiente de grande festa: a rainha dos Jogos Florais com sua corte branca e loura, os discursos das autoridades da cidade e os conjuntos vagamente musicais daquele lugar. Mas quando entrei e comecei a recitar meus versos com a voz mais queixosa do mundo, tudo mudou: o povo tossia, lançava piadas e se divertia muitíssimo com minha poesia melancólica. Vendo esta reação dos bárbaros, apressei minha leitura e dei o lugar a meu companheiro Romeo Murga. Foi memorável. Ao ver entrar aquele Quixote de dois metros de altura, de roupa escura e surrada, começar sua leitura com voz ainda mais queixosa que a minha, o público em peso não pôde conter sua indignação e começou a gritar: Poetas famintos! Fora! Não estraguem a festa!

Da pensão da rua Maruri saí como um molusco que sai de sua concha. Despedi-me daquela carapaça para conhecer o mar, isto é, o mundo. O mar desconhecido eram as ruas de Santiago, apenas entrevistas enquanto caminhava entre a velha escola universitária e o quarto ermo da pensão.

Eu sabia que minhas fomes anteriores aumentariam com esta aventura. As senhoras da pensão, remotamente ligadas à minha província, me ajudaram algumas vezes com algumas batatas ou cebolas misericordiosas. Mas não havia mais remédio: a vida, o amor, a glória, a emancipação me chamavam. Pelo menos assim me parecia.

O primeiro alojamento independente que tive foi alugado na rua Argüelles, perto do Instituto de Pedagogia. Numa janela dessa rua cinzenta aparecia um letreiro: “Alugam-se quartos”. O dono da casa ocupava os quartos da frente. Era um homem de cabelos grisalhos, de aparência nobre e de olhos que me pareceram estranhos. Era loquaz e eloqüente. Ganhava a vida como cabeleireiro de senhoras, ocupação a que ele não dava importância. Suas preocupações, segundo me disse, diziam respeito mais ao mundo invisível, ao além.

Tirei meus livros e minhas poucas roupas da maleta e do baú que viajavam comigo desde Temuco e me estendi na cama para ler e dormir, orgulhoso de minha independência e de minha preguiça.

A casa não tinha pátio mas tinha um alpendre para o qual davam vários quartos fechados. Explorando os desvãos da mansão solitária, na manhã do dia seguinte, observei que em todas as paredes e ainda na privada surgiam letreiros que diziam mais ou menos a mesma coisa: “Conforma-te. Não podes te comunicar conosco. Estás morta.” Advertências inquietantes que se prodigalizavam em cada quarto, na sala de jantar, nos corredores, nas saletas.

Era um desses invernos frios de Santiago do Chile. A herança colonial da Espanha deixou a meu país o desconforto e o menosprezo até dos rigores naturais. (Cinqüenta anos depois do que estou contando, Ilia Ehrenburg me dizia que nunca sentiu tanto frio como no Chile, ele que chegava das mas nevadas de Moscou.) Aquele inverno havia recoberto os vidros. As árvores da rua tiritavam de frio. Os cavalos das velhas carruagens deitavam vapor pelos focinhos. Era o pior momento para se viver naquela casa, entre obscuras insinuações do além.

O dono da casa, coiffeur pour dames e ocultista, explicou com serenidade, enquanto me olhava profundamente com seus olhos de louco:

- Minha mulher, Charito, morreu há quatro meses. Este momento é muito difícil para os mortos, que continuam freqüentando os mesmos lugares em que viviam. Não os vemos mas eles não se dão conta de que não os vemos. É preciso fazê-los saber para que não nos creiam indiferentes e para que não sofram com isto. Por isso coloquei estes cartazes para Charito que lhe tornarão mais fácil compreender seu estado atual de defunta.

Mas o homem de cabeça grisalha me julgava talvez demasiado vivo. Começou a vigiar minhas entradas e saídas, a regulamentar minhas visitas femininas, a espionar meus livros e minha correspondência. Entrasse eu intempestivamente no quarto e deparava com o ocultista explorando meu mobiliário exíguo, fiscalizando meus pobres pertences.

Tive que procurar em pleno inverno, levando tombos pelas ruas hostis, um novo alojamento onde albergar minha independência ameaçada. Encontrei-o a poucos metros dali em uma lavanderia. Saltava aos olhos que aqui a proprietária não tinha nada a ver com o além. Através de pátios frios, com fontes de água estagnada que o musgo aquático recobria de espessas alfombras verdes, alongavam-se jardins abandonados. No fundo havia um quarto de pé-direito muito alto, com bandeiras sobre a trave das altas portas, o que aumentava a meus olhos a distância entre o chão e o teto. Nessa casa e nesse quarto fiquei.

Tínhamos, os poetas estudantis, uma vida extravagante. Defendi meus hábitos provincianos trabalhando em meu quarto, escrevendo vários poemas por dia e tomando intermináveis chávenas de chá que eu mesmo preparava. Porém, fora do quarto e de minha rua, a turbulência da vida dos escritores da época tinha um fascínio especial. Estes não freqüentavam o café mas sim as cervejarias e as tabernas. As conversas e os versos iam e vinham até de madrugada. Meus estudos se ressentiam com isso.

A empresa de estrada de ferro dava a meu pai, para suas tarefas a céu aberto, uma capa de grosso pano cinzento que ele nunca usou. Destinei esta capa à poesia. Três ou quatro poetas começaram a usar também capas semelhantes à minha que mudava de mão em mão. Esta peça provocava a fúria da boa gente e da não tão boa. Era a época do tango que chegava ao Chile não só com seus compassos e sua tijera (1) rasgada, seus acordeões e seu ritmo, mas também com um cortejo de vadios que invadiram a vida noturna e os lugares em que nos reuníamos. Esta gente da malandragem, bailarinos e valentões, criava conflitos contra nossas capas e nossas vidas. Nós, os poetas, reagíamos com firmeza.

Por aqueles dias fiz amizade inesperada com uma viúva indelével, de imensos olhos azuis que se velavam ternamente na lembrança de seu recém-falecido marido. Este havia sido um jovem novelista, célebre por seu belo porte. Juntos faziam um par memorável, ela com sua cabeleira cor de trigo, o corpo perfeito e os olhos ultramarinos, e ele muito alto e atlético. O novelista havia sido aniquilado por uma tuberculose das que chamamos galopante. Depois pensei que a loura companheira teve também sua participação de Vênus galopante e que a época pré-penicilínica, mais a loura fogosa, levaram deste mundo o marido monumental num par de meses.

A bela viúva não havia se despojado ainda para mim de seus vestidos de luto, sedas negras e violetas, que a faziam parecer uma fruta nevada envolta numa aura de dor. Essa aura deslizou uma tarde no meu quarto, ao fundo da lavanderia, e pude tocar e percorrer inteiramente a fruta de neve ardente. Ia consumar-se o arrebatamento natural quando vi que, debaixo de meus olhos, ela cerrava os seus e exclamava: “Oh, Roberto, Roberto!”, suspirando ou soluçando. (Pareceu-me um ato litúrgico. A vestal invocava o deus desaparecido antes de entregar-se a um novo rito.) No entanto, e apesar de minha juventude abandonada, esta viúva me pareceu excessiva. Suas invocações se faziam cada vez mais urgentes e seu coração fogoso me conduzia lentamente a um aniquilamento prematuro. O amor, em tais doses, está em desacordo com a desnutrição. E minha desnutrição se tornava cada dia mais dramática.

 

1 - Tijera: tesoura, passo de tango. (N. da T.)

 

                  A timidez

A verdade é que vivi muitos de meus primeiros anos, e talvez de meus segundos e de meus terceiros, como uma espécie de surdo-mudo.

Ritualmente vestido de negro desde muito jovem, como se vestiam os verdadeiros poetas do século passado, tinha uma vaga impressão de não estar tão mal de aspecto. Porém, em vez de me aproximar das moças, certo de que tartamudearia ou enrubesceria diante delas, preferia passar ao largo e distanciar-me, mostrando um desinteresse que estava muito longe de sentir. Todas eram um grande mistério para mim. Queria morrer abrasado nessa fogueira secreta, me afogar nesse poço de profundidade enigmática, mas não me atrevia a atirar-me no fogo ou na água. E como não encontrava ninguém que me desse um empurrão, passava pelas margens da fascinação sem olhar sequer e muito menos sorrir.

O mesmo acontecia com os adultos, gente humilde, empregados da estrada de ferro ê dos correios e suas “senhoras esposas”, assim chamadas porque a pequena burguesia se escandaliza, intimidada, ante a palavra mulher. Eu escutava as conversas na mesa de meu pai. Mas, no dia seguinte, se esbarrava na rua com os que haviam jantado à noite anterior em minha casa, não me atrevia a saudá-los e até mudava de calçada para evitar o mau pedaço.

A timidez é uma condição estranha da alma, uma categoria e uma dimensão que se abre para a solidão. Também é um sofrimento inseparável, como se a gente tivesse duas epidermes e a segunda pele interior se irritasse e se contraísse diante da vida. Entre as estruturações do homem, esta qualidade ou este defeito são parte do amálgama que vai fundamentando, numa longa circunstância, a perpetuidade do ser.

Meu excessivo acanhamento, meu ensimesmamento prolongado durou mais que o necessário. Quando cheguei à capital fiz aos poucos amigos e amigas. Quanto menos importância me concediam, mais facilmente lhes dava minha amizade. Não tinha nesse tempo grande curiosidade pelo gênero humano. Não posso chegar a conhecer todas as pessoas deste mundo, me dizia. Mesmo assim surgia em certos meios uma curiosidade pálida por este novo poeta de pouco mais de 16 anos, rapaz reticente e solitário, a quem viam chegar e partir sem dar bom dia nem se despedir. Além do que, eu vestia uma longa capa espanhola que me fazia parecer um espantalho. Ninguém suspeitava que minha vistosa indumentária era diretamente produzida por minha pobreza.

Entre as pessoas que me procuravam estavam dois grandes esnobes da época: Pilo Yañez e sua mulher Mina. Encarnavam o exemplo perfeito da bela ociosidade em que eu gostaria de viver, mais distante que um sonho. Pela primeira vez entrei numa casa com calefação, luzes suaves, poltronas confortáveis, paredes repletas de livros cujas lombadas multicores significavam uma primavera inacessível. Os Yañez me convidaram muitas vezes, gentis e discretos, sem fazer caso de minhas diversas camadas de mutismo e isolamento. Voltava contente de sua casa, eles o notavam e voltavam a me convidar.

Naquela casa vi pela primeira vez quadros cubistas e entre eles um Juan Gris. Disseram-me que Juan Gris havia sido amigo da família em Paris. Porém o que mais me chamou a atenção foi o pijama de meu amigo. Aproveitava toda ocasião para olhá-lo de soslaio, com admiração intensa. Estávamos no inverno e aquele era um pijama de fazenda grossa, como de tecido de bilhar, mas de um azul ultramarino. Eu não concebia então outros pijamas que não fossem os listados como os de uniforme dos presos. O de Pilo Yañez fugia de todos os padrões. Sua fazenda espessa e seu azul resplandecente excitavam a inveja de um poeta pobre que vivia nos subúrbios de Santiago. Porém, em verdade, jamais em cinqüenta anos encontrei um pijama como aquele.

Perdi de vista os Yaüez por muitos anos. Ela abandonou o marido, abandonando igualmente as luminárias suaves e as poltronas excelentes, pelo acrobata de um circo russo que passou por Santiago. Mais tarde vendeu entradas, da Austrália às Ilhas Britânicas, para colaborar com as exibições do acrobata que a deslumbrou. Por fim foi Rosacruz ou algo parecido num acampamento mistico do sul da França.

Quanto a Pilo Yañez, o marido, mudou de nome para Juan Emar e se converteu com o tempo em um escritor poderoso e secreto. Fomos amigos toda a vida. Silencioso e gentil, porém pobre, assim morreu. Seus numerosos livros ainda não foram publicados mas sua germinação é certa.

Finalizarei sobre Pilo Yañez ou Juan Emar (e voltarei à minha timidez) recordando que, durante a época estudantil, meu amigo Pilo se empenhou em apresentar-me a seu pai. “Conseguirá para ti uma viagem à Europa com toda certeza”, disse. Nessa época todos os poetas e pintores latino-americanos tinham os olhos fixos em Paris. O pai de Pilo era uma pessoa muito importante, um senador. Vivia numa dessas casas enormes e feias, numa rua perto da praça principal e do palácio da presidência, sem dúvida o lugar onde ele teria preferido viver.

Meus amigos ficaram na ante-sala, depois de despojar-me de minha capa para que eu parecesse mais normal. Abriram-me a porta da sala do senador e a fecharam às minhas costas. Era uma sala imensa, talvez em outros tempos um grande salão de recepções, mas estava vazia. Só lá no fundo, no extremo do aposento, debaixo de um abajur de pé, distingui uma poltrona com o senador em cima. As páginas do jornal que lia ocultavam-no totalmente como um biombo.

Ao dar o primeiro passo sobre o assoalho polido e criminosamente encerado, resvalei como um esquiador. Minha velocidade crescia vertiginosamente. Freava para me deter e somente lograva dar solavancos e cair várias vezes. Minha última queda foi justamente aos pés do senador que me observava agora com olhos frios, sem soltar o jornal.

Consegui sentar-me em uma cadeirinha a seu lado. O grande homem me examinou com um olhar de entomologista fatigado a quem trouxessem um exemplar que já conhece de memória, uma aranha inofensiva. Perguntou-me vagamente por meus projetos. Eu, depois da queda, era ainda mais tímido e menos eloqüente do que de costume.

Não sei o que lhe disse. Ao cabo de vinte minutos me estendeu uma mão pequenina em sinal de despedida. Pensei ouvi-lo prometer, com uma voz muito suave, que me daria notícias suas. Depois voltou a tomar seu jornal e empreendi o regresso, através do perigoso piso, exagerando nas precauções que deveria ter tido quando entrei. É claro que nunca o senador, pai de meu amigo, me procurou. Por outro lado, uma revolta militar, estúpida e reacionária por certo o fez saltar mais tarde de seu assento juntamente com seu jornal interminável. Confesso que me alegrei.

 

                   A Federação de Estudantes

Eu tinha sido em Temuco o correspondente da revista Claridad, órgão da Federação de Estudantes, que vendia 20 a 30 exemplares entre meus companheiros de liceu. No ano de 1920, as notícias que chegaram a Temuco marcaram a minha geração com cicatrizes sangrentas. A “juventude dourada”, filha da oligarquia, havia assaltado e destruído o local da Federação de Estudantes. A justiça, que desde a colônia até agora tem estado a serviço dos ricos, não prendeu os assaltantes mas sim os assaltados. Domingo Gómez Rojas, esperança jovem da poesia chilena, enlouqueceu e morreu torturado em um calabouço. A repercussão deste crime, dentro das circunstâncias nacionais de um pequeno país, foi tão profunda e vasta como haveria de ser o assassinato de Federico García Lorca em Granada.

Quando cheguei a Santiago, em março de 1921, para incorporar-me à universidade, a capital chilena não tinha mais de quinhentos mil habitantes. Cheirava a gás e a café. Milhares de casas estavam ocupadas por gente desconhecida e por percevejos. O transporte nas ruas era feito por pequenos e desconjuntados bondes, que se moviam penosamente com grande clangor de ferros e campainhas. Era interminável o trajeto entre a Avenida Independência e o outro extremo da capital, perto da Estação Central onde estava meu colégio.

No local da Federação de Estudantes entravam e saíam as mais famosas figuras da rebelião estudantil, ideologicamente vinculadas ao poderoso movimento anarquista da época. Alfredo Demaría, Daniel Schweitzer, Santiago Labarca, Juan Gandulfo eram os dirigentes de mais prestígio. Juan Gandulfo era sem dúvida o mais formidável deles, temido por sua atrevida concepção política e por sua coragem a toda prova. Tratava-me como se eu fosse um menino, que em realidade era. Uma vez cheguei tarde a seu escritório, para uma consulta médica, olhou-me com o cenho cerrado e falou: “Por que não veio na hora? Há outros pacientes esperando.” “Não sabia a hora”, respondi. “Tome para que saiba da próxima vez”, disse, e tirou seu relógio do jaleco e me deu de presente.

Juan Gandulfo era de pequena estatura, de rosto redondo e prematuramente calvo. Sem dúvida sua presença era sempre imponente. Em certa ocasião um militar golpista, com fama de valentão e de espadachim, o desafiou para um duelo. Gandulfo aceitou, aprendeu esgrima em quinze dias e deixou vexado e assustadíssimo seu contendor. Nessa época gravou em madeira o frontispício e todas as ilustrações de Crepusculario, meu primeiro livro, gravuras impressionantes feitas por um homem que ninguém relaciona nunca com a criação artística.

Na vida literária revolucionária, a figura mais importante era Roberto Mesa Fuentes, diretor da revista Juventud, que também pertencia à Federação de Estudantes, ainda que mais antológica e deliberada que Claridad. Ali se destacavam González Vera e Manuel Rojas, gente para mim de uma geração muito mais velha. Manuel Rojas chegara fazia pouco da Argentina, depois de muitos anos, e nos deixava assombrados com a imponente estatura e as palavras que deixava cair com um quê de menosprezo, orgulho ou dignidade. Era linotipista. Conheci González Vera em Temuco, foragido, após o assalto policial à Federação de Estudantes. Veio ver-me diretamente da estação de estrada de ferro, que ficava a alguns passos de minha casa. Sua aparição foi forçosamente memorável para um poeta de 16 anos. Nunca vi um homem tão pálido. Seu rosto magérrimo parecia talhado em osso e marfim. Vestia-se de negro, um negro puído nas bainhas das calças e das mangas, sem que por isso perdesse a elegância. Sua palavra me soou irônica e aguda desde o primeiro momento. Sua presença me comoveu naquela noite de chuva que o levou à minha casa, sem que eu tivesse sabido antes de sua existência, tal como a chegada do revolucionário niilista à casa de Sacha Yegulev, o personagem de Andreiev que a juventude rebelde latinoamericana via como exemplo.

 

                   Alberto Rojas Giménez

Na Revista Claridad, à qual me incorporei como militante político e literário, quase tudo era dirigido por Alberto Rojas Giménez, que iria ser um de meus mais queridos companheiros de geração. Usava chapéu cordobês e longas costeletas de líder. Elegante e aprumado, apesar da miséria em que parecia dançar como pássaro dourado, resumia todas as qualidades do novo dandismo, uma atitude desdenhosa, uma compreensão imediata dos numerosos conflitos e uma alegre sabedoria (e apetite) de todas as coisas vitais. Livros e mulheres, garrafas e barcos, itinerários e arquipé-lagos, tudo ele conhecia e utilizava até em seus mínimos gestos. Circulava no mundo literário com ar displicente de perdulário perpétuo, de esbanjador profissional de seu talento e encanto. Suas gravatas eram sempre esplêndidas mostras de opulência, dentro da pobreza geral. Mudava de casa e de cidade constantemente e desse modo sua alegria vibrante, sua boêmia perseverante e espontânea, alegravam por algumas semanas os surpresos habitantes de Rancágua, Curicó, Valdívia, Concepción, Valparaíso. Ia embora como havia chegado, deixando versos, desenhos, gravatas, amores e amizades onde esteve. Como tinha uma índole de príncipe de conto de fadas e um desprendimento inacreditável, dava tudo de presente: o chapéu, a camisa, a jaqueta e até os sapatos. Quando não sobrava nada de material, escrevia uma frase num papel, um verso ou qualquer pensamento engraçado, e com um gesto magnânimo te obsequiava ao partir, como deixando-te nas mãos uma jóia sem preço.

Escrevia seus versos na última moda, seguindo os ensinamentos de Apollinaire e do grupo ultraísta da Espanha. Havia fundado uma nova escola poética com o nome de “Agu” que, segundo ele, era o grito primário do homem, o primeiro verso do recém-nascido.

Rojas Giménez nos impôs pequenas modas no traje, na maneira de fumar, na caligrafia. Caçoando de mim, com infinita delicadeza, ajudou a me despojar do tom sombrio. Nunca me contagiou com sua aparência cética nem com seu alcoolismo torrencial mas até agora recordo com emoção intensa sua figura que iluminava tudo, que fazia aparecer a beleza de todos os lugares, como se animasse uma mariposa escondida.

Com Dom Miguel de Unamuno tinha aprendido a fazer passarinhos de papel. Construía um de longo pescoço e asas estendidas que depois soprava. A isto chamava dar-lhes o “impulso vital”. Descobria poetas da França, garrafas escuras sepultadas nas adegas, dirigia cartas de amor às heroínas de Francis Jammes.

Seus belos versos andavam amassados nos bolsos sem que jamais, até hoje, fossem publicados.

Tanto chamava a atenção sua personalidade dissipada que um dia, num café, aproximou-se um desconhecido que lhe disse: “Senhor, tenho escutado suas conversas e acho-o muito simpático. Posso lhe pedir uma coisa?” “Que será?”, respondeu com displicência Rojas Giménez. “Que me permita saltá-lo”, disse o desconhecido. “Mas como?”, respondeu o poeta. “O senhor é tão poderoso que pode saltar por cima de mim aqui sentado nesta mesa?” “Não, senhor”, respondeu com voz humilde o desconhecido. “Quero saltar mais tarde quando o senhor estiver tranqüilo em seu caixão. É a maneira de render minha homenagem às pessoas interessantes que encontrei na vida: saltar por cima deles, se me permitem, depois de mortos. Sou um homem solitário e este é meu único hobby.” E tirando uma caderneta disse: “Aqui levo a lista das pessoas que saltei.” Rojas Giménez aceitou, louco de alegria, aquela estranha proposta. Alguns anos depois, no inverno mais chuvoso de que se teve lembrança no Chile, morria Rojas Giménez. Havia deixado sua jaqueta, como de costume, em algum bar do centro de Santiago. Em mangas de camisa, naquele inverno antártico, atravessou a cidade até chegar à Quinta Normal, à casa de sua irmã Rosita. Dois dias depois uma broncopneumonia levou deste mundo um dos seres mais fascinantes que conheci. Foi-se o poeta com seus passarinhos de papel voando pelo céu e debaixo da chuva.

Porém aquela noite os amigos que o velavam receberam uma visita insólita. A chuva torrencial caía sobre os telhados, os relâmpagos e o vento iluminavam e sacudiam os grandes plátanos da Quinta Normal, quando se abriu a porta e entrou um homem de luto rigoroso e encharcado pela chuva. Ninguém o conhecia. Diante da expectativa dos amigos que o velavam, o desconhecido tomou impulso e saltou sobre o ataúde. Em seguida, sem dizer uma palavra, se retirou, desaparecendo na chuva e na noite, tão surpreendentemente como havia chegado. E assim foi como a surpreendente vida de Alberto Rojas Giménez foi selada com um rito misterioso que ninguém pode explicar ainda.

Eu estava recém-chegado à Espanha quando recebi a notícia de sua morte. Poucas vezes senti uma dor tão intensa. Foi em Barcelona. Comecei de imediato a escrever minha elegia “Alberto Rojas Giménez vem voando” que a Revista de Ocidente publicou depois.

Mas, além disso, devia fazer algo ritual para a sua despedida. Morrera tão distante, no Chile, numa ocasião de chuva tão tremenda que inundou o cemitério. Não poder estar junto a seus restos mortais, não poder acompanhá-lo em sua última viagem, me fez pensar em uma cerimônia. Aproximei-me de um amigo, o pintor Isaías Cabezón, e fomos à maravilhosa basílica de Santa Maria del Mar. Compramos duas velas imensas, tão altas quase como um homem, e entramos com elas na penumbra daquele estranho templo. Santa Maria del Mar era a catedral dos navegantes. Pescadores e marinheiros construíram-na pedra por pedra há muitos séculos. Depois foi decorada com milhares de ex-votos: barquinhos de todos os tamanhos e formas, que navegam na eternidade, forram inteiramente os muros e os tetos da bela basílica. Ocorreu-me que aquele seria o grande cenário para o poeta desaparecido, seu lugar de predileção se o tivesse conhecido. Acendemos as velas grandes no centro da basílica, junto às nuvens do teto pintado, e sentado com meu amigo, o pintor, na igreja vazia, com uma garrafa de vinho verde junto a cada um, pensamos que aquela cerimônia silenciosa, em que pese nosso agnosticismo, aproximava-nos de alguma maneira misteriosa de nosso amigo morto. As velas, no mais alto da basílica vazia, eram algo vivo e brilhante como se nos olhassem das sombras e entre os ex-votos os dois olhos daquele poeta louco, cujo coração havia se extinguido para sempre.

 

                   Loucos de Inverno

A propósito de Rojas Giménez direi que a loucura, certa loucura, anda muitas vezes de braço dado com a poesia. É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas quanto os poetas se tornarem razoáveis. No entanto, a razão ganha a partida e é a razão, base da justiça, que deve governar o mundo. Miguel de Unamuno, que gostava muito do Chile, disse certa vez: “O que não me agrada é esse lema. Que é isso de por la razón o la fuerza? (1) Pela razão e sempre pela razão.”

Entre os poetas loucos que conheci outrora, falarei de Alberto Valdivia. O poeta Alberto Valdivia era um dos homens mais magros do mundo e era tão macilento como se tivesse sido feito só de osso, com uma rebelde mecha grisalha e um par de óculos que cobriam seus olhos míopes, de olhar distante. Nós o chamávamos “o cadáver Valdivia”.

Silenciosamente entrava e saía de bares e restaurantes, dos cafés e dos concertos, sem fazer ruído e com um misterioso pacotinho de jornais debaixo do braço. “Querido cadáver”, lhe dizíamos, abraçando seu corpo - etéreo com a sensação de abraçar uma corrente de ar.

Escreveu preciosos versos carregados de sentimento sutil, de doçura intensa, como estes: “Tudo acabará, a tarde, o sol, a vida: / será o triunfo do mal, o irreparável. / Só tu ficarás, inseparável / irmã do ocaso de minha vida.”

Um verdadeiro poeta era aquele a quem chamávamos “o cadáver Valdívia” e o chamávamos assim com carinho. Muitas vezes dissemos para ele: “Cadáver, fica para comer conosco”. Nosso apelido nunca o molestou. Às vezes havia um sorriso em seus delgadíssimos lábios. Suas frases eram escassas, porém carregadas de intensidade. Levá-lo todos os anos ao cemitério transformou-se num ritual. Na noite anterior ao 1º de novembro era oferecido a ele um jantar tão suntuoso quanto o permitiam os esquálidos bolsos da nossa juventude estudantil e literária. Nosso “cadáver” ocupava o lugar de honra. À meia-noite em ponto nos levantávamos da mesa e, em alegre procissão, íamos até o cemitério. No silêncio noturno se pronunciava algum discurso celebrando o poeta “defunto”. Depois cada um de nós se despedia dele com solenidade e partíamos deixando-o completamente só na porta do campo santo. O “cadáver Valdivia” já tinha aceito esta tradição, em que não havia nenhuma crueldade, uma vez que ele compartilhava da farsa até o último minuto. Antes de irmos, eram entregues a ele alguns pesos para que comesse um sanduíche na cova.

Dois ou três dias depois não surpreendia a ninguém que o poeta cadáver circulasse de novo, discretamente, em grupos e cafés. Sua tranqüilidade estava assegurada até o próximo 1º de novembro.

Em Buenos Aires conheci um escritor argentino, muito excêntrico, que se chamava ou se chama Omar Vignole. Não sei se vive ainda. Era um homem grandão, com uma bengala grossa na mão. Uma vez, num restaurante do centro aonde havia-me convidado para almoçar, ao chegar à mesa dirigiu-se a mim com um gesto de oferecimento e disse com voz estentórea que se escutou em toda a sala repleta de fregueses: “Senta-te, Omar Vignole!” Sentei-me com certo incômodo e perguntei logo: “Por que me chamas Omar Vignole, sabendo que tu é que és Omar Vignole e eu sou Pablo Neruda?” “Sim, respondeu, mas neste restaurante há muitos que só me conhecem de nome e, como vários deles querem me dar uma sova, prefiro que dêem em ti.”

Vignole havia sido agrônomo em uma província argentina e de lá trouxe uma vaca com a qual travou uma amizade estranha. Passeava por toda Buenos Aires com sua vaca, puxando-a por uma corda. Publicou então alguns de seus livros que sempre tinham títulos alusivos: O que pensa a vaca, Minha vaca e eu, etc., etc. Quando se reuniu pela primeira vez em Buenos Aires o congresso do Pen Clube mundial, os escritores presididos por Victória Ocampo tremiam ante a idéia de que chegasse ao congresso Vignole com sua vaca. Explicaram às autoridades o perigo que os ameaçava e a polícia colocou cordões de isolamento nas ruas ao redor do Hotel Plaza para impedir que chegasse, ao luxuoso recinto aonde se celebrava o congresso, meu amigo excêntrico com seu ruminante. Foi tudo inútil. Quando a festa estava no auge e os escritores examinavam as relações entre o mundo clássico dos gregos e o sentido moderno da história, Vignole irrompeu no salão de conferências com sua vaca inseparável, a qual como complemento começou a mugir como se quisesse tomar parte no debate. Ele a trouxe ao centro da cidade dentro de enorme furgão fechado que burlou a vigilância policial.

O mesmo Vignole desafiou um lutador de catch-as-can. Aceito o desafio pelo profissional, chegou a noite do encontro num Luna Park repleto. Meu amigo apareceu pontualmente com a vaca, amarrou-a a uma quina do ringue, despojou-se de seu roupão elegantíssimo e enfrentou “O Estrangulador de Calcutá”.

Mas aqui de nada servia a vaca nem o adorno suntuoso do poeta lutador. “O Estrangulador de Calcutá” se lançou sobre Vignole e num minuto o deixou convertido em um nó indefeso e colocou, além de tudo, em sinal de humilhação, um pé sobre a garganta do touro literário entre a vaia tremenda de um público feroz que exigia a continuação do combate. Poucos meses depois publicou um novo livro: Conversações com a vaca. Nunca esquecerei a originalíssima dedicatória impressa na primeira página da obra. Dizia assim, se não me engano: “Dedico este livro filosófico aos quarenta mil filhos da puta que me vaiavam e pediam minha morte no Luna Park na noite de 24 de fevereiro.”

Em Paris, antes da última guerra, conheci o pintor Álvaro Guevara, que na Europa sempre era chamado de Chile Guevara. Telefonou-me um dia com urgência. “É um assunto de sua importância”, disse.

Eu vinha da Espanha e nossa luta de então era contra o Nixon daquela época: Hitler. Minha casa tinha sido bombardeada em Madri e vi homens, mulheres e crianças destroçados pelos bombardeios. A guerra mundial se aproximava. Com outros escritores nos pusemos a combater o fascismo à nossa maneira: com nossos livros que exortavam com urgência a reconhecer o grave perigo.

Meu compatriota se havia mantido à margem desta luta. Era um homem taciturno e um pintor muito dedicado a seu trabalho. Porém o ambiente era explosivo Quando as grandes potências impediram a chegada de armas para os espanhóis republicanos se defenderem e depois quando em Munique abriram as portas ao exército hitlerista, a guerra chegava.

Acudi ao chamado de Chile Guevara. Era muito importante o que ele queria me comunicar.

- De que se trata?

- Não há tempo a perder - respondeu. - Não tens por que ser antifascista. Não se tem que ser anti nada. É preciso ir ao cerne da questão e, esse cerne, eu o encontrei. Quero comunicar-te isso com urgência para que deixes teus congressos antinazistas e ponhas mãos à obra. Não há tempo a perder.

- Bom, diga do que se trata. A verdade, Álvaro, é que ando com muito pouco tempo livre.

- A verdade, Pablo, é que meu pensamento está expresso numa obra de teatro, em três atos. Trouxe aqui para te ler.

E com sua cara de sobrancelhas espessas, de antigo boxeador, me olhava fixamente enquanto desembolsava um volumoso manuscrito. Presa de terror e pretextando minha falta de tempo, convenci-o a me explicar verbalmente as idéias com as quais pensava salvar a humanidade.

- É o ovo de Colombo - disse. - Vou te explicar. Quantas batatas saem de uma batata que se semeia?

- Bom, umas quatro ou cinco - disse, para dizer alguma coisa.

- Muito mais - respondeu. - Às vezes quarenta, às vezes mais de cem batatas. Imagina que cada pessoa plante uma batata no jardim, na sacada, onde quer que seja. Quantos habitantes tem o Chile? Oito milhões. Oito milhões de batatas plantadas. Multiplica, Pablo, por quatro, por cem. Acabou-se a fome, acabou-se a guerra. Quantos habitantes tem a China? Quinhentos milhões, não é? Cada chinês planta uma batata. De cada batata semeada saem quarenta batatas. Quinhentos milhões vezes quarenta batatas. A humanidade está salva.

Quando os nazistas entraram em Paris não levaram em conta essa idéia salvadora: O ovo de Colombo, ou melhor, a batata de Colombo. Detiveram Alvaro Guevara numa noite de frio e névoa em sua casa de Paris. Levaram-no a um campo de concentração e aí o mantiveram preso, com uma tatuagem no braço, até o fim da guerra. Feito um esqueleto humano saiu do inferno, mas nunca mais se recuperou. Veio pela última vez ao Chile, como para despedir-se de sua terra, dando-lhe um beijo final, um beijo de sonâmbulo, e retornou à França, onde acabou de morrer.

Grande pintor, amigo querido, Chile Guevara, quero dizer-te uma coisa: já sei que estás morto, que não te serviu de nada o apoliticismo da batata. Sei que os nazistas te mataram. No entanto, no mês de junho do ano passado, entrei na National Gallery. Ia somente para ver os Turners, porém antes de chegar à sala grande encontrei um quadro impressionante: um quadro que era para mim tão belo como os Tumers, uma pintura deslumbrante. Era o retrato de uma dama, de uma dama famosa: Edith Sitwell. E este quadro era uma obra tua, a única obra de um pintor da América Latina que conseguiu alcançar o privilégio de estar entre as obras-primas daquele grande museu de Londres.

Não importa o lugar, nem a honra, e no fundo pouco me importa também aquele belo quadro. O que me importa é que não nos tenhamos conhecido mais, entendido mais, e que tenhamos cruzado nossas vidas sem nos entendermos por culpa de uma batata.

 

Fui um homem simples demais: esta é minha honra e minha vergonha. Acompanhei a farândula de meus companheiros e invejei sua plumagem brilhante, suas atitudes satânicas, seus passarinhos de papel e até essas vacas, que talvez tenham a ver com a literatura de forma misteriosa. De qualquer maneira, acho que não nasci para condenar mas para amar. Até os divisionistas que me atacam, os que se agrupam em montes para me arrancar os olhos e que antes se nutriram de minha poesia merecem pelo menos meu silêncio. Nunca tive medo de me contagiar penetrando na mesma massa de meus inimigos porque os únicos que tenho são os inimigos do povo.

Apollinaire disse: “Piedade para nós, que exploramos as fronteiras do irreal”, cito de memória, pensando nas histórias que acabo de contar, histórias de gente que por ser extravagante não é menos querida, por ser incompreensível não é menos valorosa.

 

1 - Pela razão ou pela força. (N. da T.)

 

                   Grandes negócios

Nós os poetas sempre pensamos ter grandes idéias para ficarmos ricos, que somos gênios para projetar negócios, ainda que gênios incompreendidos. Lembro que, impelido por uma dessas combinações florescentes, vendi a meu editor no Chile, em 1924, a propriedade de meu livro Crepusculario, não para uma edição mas para a eternidade. Acreditei que ia enriquecer com essa venda e assinei o contrato no tabelião. O sujeito me pagou quinhentos pesos, que eram pouco menos que cinco dólares naquela época. Rojas Giménez, Alvaro Hinojosa, Homero Arce me esperavam à porta do cartório para dar-nos um grande banquete em honra deste êxito comercial. Com efeito comemos no melhor restaurante da época, La Bahía, com vinhos suntuosos, charutos e licores. Previamente tínhamos mandado lustrar os sapatos que luziam como espelho. Os que tiveram proveito com o negócio: o restaurante, quatro engraxates e um editor. A prosperidade não chegou até o poeta.

Quem dizia ter olho de águia para todos os negócios era Alvaro Hinojosa. Impressionava-nos com seus planos grandiosos que, ao serem postos em prática, fariam chover dinheiro sobre nossas cabeças. Para nós, boêmios desastrados, seu domínio do inglês, seu cigarro de tabaco refinado, seus anos universitários em Nova Iorque, garantiam o pragmatismo de seu grande cérebro comercial.

Certo dia me convidou para conversar muito secretamente, para me fazer partícipe e sócio de uma tentativa formidável de conquistar nosso enriquecimento imediato. Eu seria seu sócio em cinqüenta por cento, bastando trazer uns poucos pesos que recebesse de algum lugar. Ele colocaria o restante. Naquele dia nos sentimos capitalistas sem Deus nem lei, decididos a tudo.

- De que mercadoria se trata? - perguntei com timidez ao incompreendido rei das finanças.

Alvaro fechou os olhos, soltou uma baforada de fumaça que subiu em pequenos círculos e finalmente respondeu com voz sigilosa:

- Couros!

- Couros? - repeti assombrado.

- De leão - marinho. Para ser mais preciso, de leão-marinho peludo.

Não me atrevi a averiguar mais detalhes. Ignorava que as focas ou leões-marinhos pudessem ser peludos. Quando os contemplei sobre uma rocha, nas praias do sul, vi neles uma pele reluzente que brilhava ao sol, sem perceber indício algum de pêlo em suas barrigas preguiçosas.

Tratei de receber o que me deviam com a velocidade do raio, sem pagar o aluguel nem a conta do alfaiate nem o recibo do sapateiro e coloquei minha participação monetária nas mãos de meu sócio financista.

Fomos ver os couros. Alvaro os havia comprado de uma tia sua, sulista, que era dona de inúmeras ilhas improdutivas. Sobre as ilhotas de penhascos desolados os leões-marinhos costumavam praticar suas cerimônias eróticas. Agora estavam diante de meus olhos, em grandes fardos de couros amarelos, perfurados pelas carabinas dos empregados da tia maligna. Subiam até o teto os pacotes de couro no porão alugado por Alvaro para deslumbrar os presumíveis compradores.

- E que faremos com essa enormidade, com essa montanha de couros? - perguntei-lhe timidamente.

- Todo o mundo precisa de couros desse tipo. Verás.

E saímos do porão, Alvaro despedindo chispas de energia, eu cabisbaixo e calado.

Alvaro ia de um lado para o outro com uma pasta, feita de uma de nossas peles autênticas de “leão-marinho peludo”, pasta que recheou de papéis em branco para dar-lhe aparência comercial. Nossos últimos centavos foram embora em anúncios nos jornais. Bastava que um magnata interessado e compreensivo os lesse e seríamos ricos. Alvaro, muito atilado, queria mandar fazer meia dúzia de ternos de casimira inglesa. Eu, bem mais modesto, me contentaria em adquirir um bom pincel de barbear, já que o atual estava a caminho de uma calvície inaceitável.

Por fim apareceu o comprador: um seleiro de corpo robusto, de estatura baixa, com olhos impávidos, muito sóbrio de palavras e com certo alarde de franqueza que a meu ver se aproximava da grosseria. Alvaro recebeu-o com displicência protetora e lhe marcou, três dias depois, uma hora apropriada para mostrar nossa mercadoria fabulosa.

No correr desses três dias, Alvaro adquiriu esplêndidos cigarros ingleses e alguns charutos cubanos “Romeu e Julieta” que colocou de maneira ostensiva no bolso externo de sua jaqueta quando chegou a hora de esperar o interessado. No chão havíamos espalhado as peles que estavam em melhor estado.

O homem chegou pontualmente à entrevista. Não tirou o chapéu e nos saudou apenas com um grunhido. Olhou desdenhosamente e com rapidez as peles estendidas no chão. Depois passou os olhos astutos e inflexíveis pelas estantes atulhadas. Levantou uma mão gorducha e uma unha duvidosa para indicar um embrulho de peles, um daqueles que estavam mais acima e mais afastados,c justo onde eu tinha metido as peles piores.

Alvaro aproveitou o momento culminante para oferecer-lhe um de seus autênticos havanas. O comerciantezinho pegou-o rapidamente, deu uma dentada na ponta e o encaixou entre as mandíbulas. Mas continuou imperturbável, indicando o pacote que desejava inspecionar.

Não havia remédio senão mostrar-lhe. Meu sócio subiu na escada e, sorrindo como um condenado à morte, baixou o grande envoltório. O comprador, interrom-pendo-se para tirar mais e mais fumaça do havana de Alvaro, revistou uma por uma as peles do pacote.

O homem levantava uma pele, esfregava, dobrava e a rejeitava e em seguida passava a outra, que por sua vez era arranhada, raspada, cheirada e posta de lado. Quando finalmente terminou sua inspeção, passou de novo o olhar de abutre pelas estantes cheias com nossas peles de leão-marinho peludo e finalmente deteve os olhos sobre meu sócio e expert em finanças. O momento era emocionante.

Disse então com voz firme e seca uma frase imortal-pelo menos para nós:

- Meus senhores, não quero nada com esses couros - e foi-se para sempre, com o chapéu colocado como tinha entrado, fumando o soberbo charuto de Alvaro, sem despedir-se, matador implacável de todos os nossos sonhos milionários.

 

                   Meus primeiros livros

Refugiei-me na poesia com ferocidade de tímido. Adejavam sobre Santiago as novas escolas literárias. Na rua Maruri, n.º 513, terminei de escrever meu primeiro livro. Escrevia de dois a cinco poemas por dia. De tarde, ao pôr do sol, defronte à sacada, desenrolava-se um espetáculo diário que eu não perdia por nada deste mundo. Era o poente com grandiosos esbanjamentos de cores, distribuição de luz, leques imensos de alaranjado e escarlate. O capítulo central de meu livro chama-se “Os crepúsculos de Maruri”. Ninguém nunca me perguntou o que era Maruri. Talvez muito poucos saibam que se trata apenas de uma rua humilde, visitada pelos crepúsculos mais extraordinários.

Em 1923 foi publicado meu primeiro livro: Crepusculario. Para pagar a impressão tive dificuldades e vitórias a cada dia. Vendi meus poucos móveis. Na casa de penhores foi parar rapidamente o relógio que solenemente me tinha presenteado meu pai, relógio em que ele tinha mandado pintar duas bandeirinhas entrelaçadas. O relógio foi seguido pelo meu traje negro de poeta. O impressor era inexorável e, por fim, pronta totalmente a edição e coladas as capas, disse com ar sinistro: “Não. Não levará um só exemplar sem antes me pagar tudo.” O crítico Alone proporcionou generosamente os últimos pesos, que foram tragados pelas mandíbulas de meu impressor; e saí para a rua com meus livros debaixo do braço, com os sapatos rotos e louco de alegria.

Meu primeiro livro! Sempre sustentei que a tarefa do escritor não é misteriosa nem mágica, mas que, pelo menos a do poeta, é uma tarefa pessoal, de beneficio público. O que mais se parece com a poesia é um pão ou um prato de cerâmica ou uma madeira delicadamente lavrada, ainda que por mãos rudes. No entanto creio que nenhum artesão pode ter, como o poeta tem, por uma única vez durante a vida, esta sensação embriagadora do primeiro objeto criado por suas mãos. com a desorientação ainda palpitante de seus sonhos. É um momento que não voltará nunca mais. Virão muitas edições mais cuidadas e belas. Chegarão suas palavras vertidas na taça de outros idiomas como um vinho que cante e perfume em outros lugares da terra. Mas esse minuto em que o primeiro livro sai, com tinta fresca e papel novo, esse minuto de arrebatamento e embriaguez, com som de asas que revoluteiam e de primeira flor que se abre na altura conquistada, esse minuto é único na vida do poeta.

Um de meus versos pareceu desprender-se daquele livro imaturo e fazer seu próprio caminho: é o “Farewell”, que até agora muita gente sabe de memória por onde vou. Nos lugares mais inesperados recitavam-no de memória ou me pediam que eu o fizesse. Ainda que muito me aborrecesse, mal era apresentado numa reunião uma moça começava a elevar a voz com aqueles versos obsedantes, e as vezes ministros de estado me recebiam perfilando-se militarmente diante de mim e espetando-me a primeira estrofe.

Anos mais tarde Federico García Lorca, na Espanha, me contava que com ele acontecia o mesmo com seu poema “La casada infiel”. A prova máxima de amizade que Federico poderia dar era repetir sua popularíssima e bela poesia. Há uma alergia pelo êxito extático de um só de nossos trabalhos. Este é um sentimento saudável e até biológico. Tal imposição dos leitores pretende imobilizar o poeta em um minuto único quando na verdade a criação é uma constante roda que gira com maior técnica e consciência, ainda que talvez com menos frescor e espontaneidade.

 

Já deixava Crepusculario para trás. Inquietações tremendas moviam minha poesia. Em rápidas viagens ao sul renovava minhas forças. Em 1923 tive uma curiosa experiência. Havia voltado à minha casa em Temuco. Era mais de meia-noite. Antes de me deitar abri as janelas de meu quarto. O céu me deslumbrou. Todo o céu vivia povoado por uma multidão pululante de estrelas. A noite estava recém-lavada e as estrelas antárticas se desdobravam sobre minha cabeça.

Senti-me embargado por uma embriaguez de estrelas, celeste, cósmica. Corri à minha mesa e escrevi de maneira delirante, como se recebesse um ditado, o primeiro poema de um livro que teria muitos nomes e que finalmente se chamaria El hondero entusiasta. (1) Movia-me como se estivesse andando em minhas verdadeiras águas.

No dia seguinte li cheio de prazer meu poema noturno. Mais tarde, quando cheguei a Santiago, o mago Alirio Oyarzún ouviu com admiração aqueles versos. Com voz profunda me perguntou depois:

- Estás seguro de que esses versos não têm influência de Sabat Erscaty?

- Creio que estou seguro. Escrevi-os num impulso.

Então me ocorreu enviar meu poema ao próprio Sabat Erscaty, um grande poeta uruguaio, agora injustamente esquecido. Nesse poeta havia visto realizada minha ambição de uma poesia que englobasse não só o homem mas também a natureza, as forças escondidas; uma poesia épica que se confrontasse com o grande mistério do universo e também com as possibilidades do homem. Comecei a me corresponder com ele. Enquanto eu prosseguia e amadurecia minha obra, lia com muita atenção as cartas que Sabat Erscaty dedicava a um jovem poeta tão desconhecido.

Mandei o poema daquela noite a Sabat Erscaty, para Montevidéu, e perguntei se nele havia ou não influência de sua poesia. Respondeu-me logo uma carta generosa: “Poucas vezes li um poema tão bem realizado, tão magnífico, porém tenho que dizer-lhe: sim, há algo de Sabat Erscaty em seus versos.”

Foi um golpe noturno, de claridade, que até agora agradeço. Estive muitos dias com a carta nos bolsos, amarfanhando-se até que se desfez. Estavam em jogo muitas coisas. Mais que tudo me obsedava o delírio estéril daquela noite. Havia caído em vão numa submersão de estrelas, havia recebido em vão sobre meus sentidos aquela tempestade austral. Estava enganado. Devia desconfiar da inspiração. A razão devia guiar-me passo a passo pelos pequenos caminhos. Tinha que aprender a ser modesto. Rasguei muitos originais, perdi outros.

Somente dez anos depois reapareceria estes últimos, que foram publicados. Com a carta de Sabat Erscaty terminou minha ambição cíclica de uma poesia ampla, fechei a porta a uma eloqüência que para mim seria impossível de seguir, reduzi deliberada-mente meu estilo e minha expressão. Buscando meus impulsos mais simples, meu próprio mundo harmônico, comecei outro livro de amor. O resultado foram os Veinte Poemas.

Os Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada são um livro doloroso e pastoril que contém minhas mais atormentadas paixões adolescentes, misturadas com a natureza envolvente do sul de minha pátria. É um livro que amo porque, apesar de sua aguda melancolia, está presente nele o prazer de viver. Ajudaram-me a escrevê-lo um rio e sua desembocadura: o rio Imperial. Os Veinte Poemas são o romance de Santiago, com as ruas estudantis, a universidade e o cheiro de madressilva do amor compartilhado.

Os trechos de Santiago foram escritos entre a rua Echaurren e a avenida Espanha e no interior do antigo edifício do Instituto Pedagógico, mas o panorama são sempre as águas e as árvores do sul. Os cais da “Canción Desesperada” são os velhos cais de Carahue e de Bajo Imperial, os pranchões apodrecidos e os toros como cotos golpeados pelo amplo rio. O esvoaçar de gaivotas era sentido e continua sendo sentido naquela desembocadura.

Em um esbelto e comprido bote abandonado, de não sei que barco naufragado, li todo o Jean Cristophe e escrevi a “Canción Desesperada”. Acima de minha cabeça o céu tinha um azul tão violento como jamais vi outro igual. Eu escrevia no bote, escondido na terra. Acho que não voltei a ser tão elevado e tão profundo como naqueles dias. Acima o céu azul impenetrável. Em minhas mãos o Jean Cristophe ou os versos nascentes de meu poema. Perto de mim, tudo o que existiu e continuou existindo para sempre em minha poesia: o ruído distante do mar, o grito dos pássaros selvagens e o amor ardendo sem consumir-se como uma sarça imortal.

Sempre me perguntaram quem é a mulher dos Veinte Poemas, pergunta difícil de responder. As duas ou três que se entrelaçam nesta melancólica e ardente poesia correspondem, digamos, a Marisol e a Marisombra. Marisol é o idiio da província encantada com imensas estrelas noturnas e olhos escuros como o céu úmido de Temuco. Ela surge com sua alegria e sua beleza vivaz em quase todas as páginas, rodeada pelas águas do porto e pela lua nascente sobre as montanhas. Marisombra é a estudante da capital, boina cinzenta, olhos suavíssimos, o cheiro constante de madressilva do errante amor estudantil, do apaziguamento físico, dos apaixonados encontros nos esconderijos da cidade.

 

Enquanto isso mudava a vida do Chile.

Clamoroso levantava-se o movimento popular chileno buscando entre os estudantes e os escritores um apoio maior. Por um lado, o grande líder da pequena burguesia, dinâmico e demagógico, Arturo Alessandri Palma, chegava à Presidência da República, não sem antes ter sacudido o país inteiro com sua oratória chamejante e ameaçadora. Apesar de sua extraordinária personalidade, uma vez no poder, converteu-se no clássico governante de nossa América; o setor dominante da oligarquia, que ele combateu, abriu a goela e tragou seus discursos revolucionários. O país continuou debatendo-se nos conflitos mais terríveis.

Ao mesmo tempo, um líder operário, Luis Emílio Recabarrén, com uma atividade prodigiosa organizava o proletariado, formava centrais sindicais, fundava nove ou dez jornais operários em toda a extensão do país. Uma avalanche de desemprego abalou as instituições. Eu escrevia semanalmente em Claridad. Os estudantes apoiávamos as reivindicações populares e éramos espancados pela polícia nas ruas de Santiago. A capital chegavam milhares de operários despedidos das minas de salitre e de cobre. As manifestações e a repressão correspondente paralisavam tragicamente a vida nacional.

Desde aquela época e com intermitências se infiltrou a política em minha poesia e em minha vida. Não era possível fechar-me em meus poemas, assim como não era possível tampouco fechar a porta ao amor, à vida, à alegria ou à tristeza em meu coração de jovem poeta.

 

1 - El hondero entusiasta: O fundibulário entusiasta.

 

                   A palavra

... Sim senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as... Amo tanto as palavras... As inesperadas... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem... Vocábulos amados... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho... Persigo algumas palavras... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como agatas, como azeitonas... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites em meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda... Tudo está na palavra... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes... São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, (1) feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caiam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.

 

1 - Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)

 

         OS CAMINHOS DO MUNDO

 

                     O vagabundo de Valparaíso

Valparaíso está muito próximo de Santiago. São separadas somente pelas montanhas hirsutas em cujos cimos se erguem, como obeliscos, grandes cactos hostis e floridos. No entanto, algo infinitamente indefinível distancia Valparaíso de Santiago. Santiago é uma cidade prisioneira, cercada por muros de neve. Valparaíso, por sua vez, abre as portas ao mar infinito, aos gritos das ruas e aos olhos das crianças.

No momento mais desordenado de nossa juventude nos metíamos apressada-mente, sempre de madrugada, sempre sem ter dormido, sempre sem um centavo nos bolsos, em um vagão de terceira classe. Éramos poetas ou pintores de pouco mais ou pouco menos de vinte anos, providos de uma carga valiosa de loucura inconseqüente que queria transbordar, estender-se, estalar. A estrela de Valparaíso nos chamava com sua força magnética.

Somente anos depois voltei a sentir o mesmo chamado inexplicável, de outra cidade, durante meus anos em Madri. Inesperadamente, em uma cervejaria, saindo de um teatro de madrugada ou simplesmente andando pelas ruas, ouvia a voz de Toledo que me chamava, a muda voz de seus fantasmas, de seu silêncio. E a essas altas horas, junto com os amigos tão loucos quanto os de minha juventude, nos largávamos para a antiga cidadela calcinada e retorcida para dormir vestidos sobre as areias do Tajo, debaixo das pontes de pedra.

Não sei por que, entre minhas decantadas viagens a Valparaíso, uma ficou gravada, impregnada por um aroma de ervas arrancadas à intimidade dos campos. Iamos nos despedir de um poeta e de um pintor que viajariam para a França em terceira classe. Como nenhum de nós tinha com que pagar nem o mais ínfimo dos hoteis, procuramos Novoa, um de nossos loucos favoritos do grande Valparaíso. Não era tão simples chegar à sua casa. Subindo e resvalando por colinas até o infinito, víamos na escuridão a silhueta imperturbável de Novoa que nos guiava.

Era um homem imponente, de barba cerrada e grossos bigodões. As abas de sua roupa escura batiam como asas nas alturas misteriosas daquela cordilheira que subíamos cegos e trôpegos. Ele não parava de falar. Era um santo louco, canonizado exclusivamente por nós, os poetas. E era, naturalmente, um naturalista, um vegetariano vegetal. Exaltava as relações secretas que só ele conhecia entre a saúde natural e as dádivas da terra. Catequizava-nos enquanto caminhava. Dirigia para trás a voz atroadora como se fôssemos seus discípulos, com o vulto descomunal avançando como o de um São Cristóvão nascido nos subúrbios noturnos e solitários.

Finalmente chegamos à sua casa, uma cabana de duas peças. A cama do nosso São Cristóvão ocupava uma delas. A outra era tomada em grande parte por uma imensa poltrona de vime profusamente entrecruzada por supérfluos florões de palha e estantezinhas estranhas, incrustadas nos braços-uma obra-prima do estilo vitoriano. A poltrona grande me foi destinada para dormir naquela noite. Meus amigos estenderam no chão os jornais da tarde e se deitaram precariamente sobre as notícias e os editoriais.

Logo soube, por respirações e roncos, que todos já dormiam. Sentado naquele móvel monumental, era difícil conciliar o sono com meu cansaço. Ouvia-se um silêncio de altura, de cumes solitários. Só alguns latidos de cães austrais que cruzavam a noite, só um apito longíssimo de navio que chegava ou saía me davam conta da noite de Valparaíso.

De repente senti um poder estranho e arrebatador me invadindo: uma fragrância montanhosa, um cheiro de pradaria, de vegetações que tinham crescido com a infância e que eu tinha esquecido no fragor da vida da cidade. Senti-me reconciliado com o sonho, envolto pelo acalanto da terra maternal. De onde poderia vir aquela palpitação silvestre da terra, aquela pureza de aromas? Metendo os dedos por entre os vãos ásperos do vime da poltrona colossal descobri inumeráveis compartimentos e, neles, apalpei plantas secas e lisas, ramos ásperos e redondos, folhas lanceoladas, tenras ou enrijecidas. Todo o arsenal medicinal de nosso pregador vegetariano, o modelo inteiro de uma vida consagrada a recolher arbustos com as grandes mãos de São Cristóvão exuberante e andarilho. Revelado o mistério, dormi placidamente, velado pelo aroma daquelas ervas guardiãs.

 

Morei algumas semanas numa rua estreita de Valparaíso, em frente à casa de Dom Zoilo Escobar. Nossas sacadas quase se tocavam. Meu vizinho saía cedo para o balcão e praticava uma ginástica de anacoreta que revelava a harpa de suas costelas. Sempre vestido com um capote pobre ou com jaquetões surrados, meio marinho, meio arcanjo, havia se retirado faz tempo das navegações, da aduana, da marujada. Todos os dias escovava o traje de gala com perfeição meticulosa. Era uma roupa ilustre de fazenda negra que nunca, por longos anos, envergou, uma roupa que sempre guardou no armário vetusto entre seus tesouros.

Mas seu tesouro mais agudo e mais dilacerador era um violino Stradivarius, conservado zelosamente toda a vida, sem tocá-lo nem permitir que ninguém o tocasse. Dom Zoilo pensava vendê-lo em Nova Iorque, onde dariam uma fortuna pelo instrumento ilustre. Às vezes tirava-o do armário pobre e permitia que o contemplássemos com emoção religiosa. Um dia Dom Zoilo Escobar viajaria para o norte e voltaria sem violino mas carregado de anéis faustosos e com dentes de ouro que substituiriam em sua boca as falhas que o prolongado correr dos anos foi deixando.

Uma manhã não saiu à sacada para a ginástica. Nós o enterramos lá em cima, no cemitério da colina, com a roupa negra que pela primeira vez cobriu seu pequeno esqueleto de ermitão. As cordas do Stradivarius não puderam chorar-lhe a partida. Ninguém sabia tocá-lo. E, além de tudo, o violino não apareceu quando foi aberto o armário. Talvez voou até o mar ou até Nova Iorque para consumar os sonhos de Dom Zoilo.

 

Valparaíso é secreto, sinuoso, enovelado. A pobreza se derrama nos morros como uma cascata. Sabe-se quanto come e como veste (e também quanto não come e como não veste) a gente inumerável dos morros. A roupa secando embandeira cada casa e a proliferação incessante de pés descalços, que formam uma colmeia no barro, denuncia o amor inextinguível.

Mas perto do mar, na baixada, há casas com sacadas e janelas fechadas onde entra pouca gente. Entre elas a mansão do explorador. Bati muitas vezes seguidas com a aldraba de bronze até que me ouviram. Finalmente aproximaram-se passos leves e um rosto inquiridor entreabriu uma janelinha na porta com desconfiança, com intenção de me deixar de fora. Era a velha criada da casa, uma sombra com xale e avental que apenas sussurrava seus passos.

O explorador, muito velho também, vivia sozinho com a criada na casa espaçosa de janelas fechadas. Eu tinha vindo conhecer sua coleção de ídolos. Enchiam corredores e paredes as criaturas vermelhas, as máscaras estriadas de branco e cinza, as estátuas que reproduziam desaparecidas anatomias de deuses oceânicos, as ressequidas cabeleiras polinésias, os escudos hostis de madeira revestidos de pele de leopardo, colares de dentes ferozes, os remos de botes que cortaram talvez a espuma das águas tormentosas. Facas violentas estremeciam os muros com folhas prateadas que serpenteavam na sombra. Observei que os Deuses masculinos de madeira tinham sido censurados. Os falos estavam cuidadosamente cobertos com tangas de fazenda, a mesma fazenda que tinha servido de xale e avental à criada. Era fácil comprovar.

O velho explorador se movia discretamente entre os troféus. Sala após sala, deu explicações-entre peremptórias e irônicas-de quem viveu muito e continua vivendo no rescaldo de suas imagens. Sua barbicha branca parecia a de um fetiche de Samoa. Mostrou as espingardas e as pistolas com as quais perseguiu o inimigo ou com que abateu o antiope e o tigre. Contava as aventuras sem alterar o tom de seu murmúrio. Era como se o sol entrasse, apesar das janelas fechadas, e deixasse somente um pequeno raio, uma pequena mariposa viva que revoluteasse entre os ídolos.

Ao partir, participei-lhe um projeto de viagem às Ilhas, o desejo de sair breve rumo às areias douradas. Então, depois de olhar para todos os lados, aproximou seus ralos bigodes brancos do meu ouvido e me confidenciou tremulamente: “Que ela não saiba nem que venha a saber mas eu também estou preparando uma viagem.”

Ficou assim um instante, com um dedo nos lábios, escutando a provável pisada de um tigre na selva. E logo a porta foi fechada, escura e súbita, como quando cai a noite sobre a África.

Perguntei aos vizinhos:

- Há algum excêntrico novo? Valeu a pena ter regressado a Valparaíso?

Responderam-me:

- Não temos quase nada de bom. Mas seguindo por esta rua toparás com Dom Bartolomé.

- E como vou conhecê-lo?

- Não tem como errar. Viaja sempre numa carroça.

Poucas horas depois eu comprava maçãs numa quitanda quando parou à porta um carro puxado a cavalos, e uma figura alta, desmazelada e vestida de negro desceu dele.

Vinha também comprar maçãs. Levava no ombro um papagaio totalmente verde que logo voou até mim e se empoleirou em minha cabeça sem nenhum constrangimento.

- O senhor é Dom Bartolomé?

- É a pura verdade. Chamo-me Bartolomé - e tirando uma espada longa que levava debaixo da capa passou-a para mim enquanto enchia a cesta com as maçãs e as uvas que comprou. Era uma espada antiga, longa e aguda, com cabo trabalhado por ourives famosos, um cabo que parecia uma rosa aberta.

Não o conhecia e nunca mais voltei a vê-lo. Mas acompanhei-o respeitosamente até a rua, abri em silêncio a porta de sua carruagem para que passasse com sua cesta de frutas e coloquei em suas mãos, com solenidade, o pássaro e a espada.

 

Pequenos mundos de Valparaíso, abandonados, sem razão e sem tempo, como caixas que ficaram no fundo de uma adega sem nunca ninguém reclamar, sem se saber de onde vieram nem se sairiam dali. Talvez que nestes domínios secretos, nestas almas de Valparaíso, ficaram guardadas para sempre a soberania perdida de uma onda, a tormenta, o sal, o mar que zumbe e estremece. O mar de cada um, ameaçador e contido: um som incomunicável, um movimento solitário que passou a ser farinha e espuma dos sonhos.

Nas vidas excêntricas que descobri me surpreendeu a unidade suprema que mostravam com o porto dilacerador. Acima, pelos morros floresce a miséria em borbotões frenéticos de alcatrão e alegria. Os guindastes, os embarcadouros, o trabalho do homem cobrem a cintura da costa com uma máscara pintada pela felicidade fugidia. Outros porém não chegaram lá em cima, pelas colinas, e nem embaixo pela faina. Guardaram em seu caixão o próprio infinito e seu fragmento de mar.

E o protegiam com as armas próprias enquanto o esquecimento se aproximava deles como a névoa.

 

Valparaíso às vezes se agita como uma baleia ferida. Cambaleia no ar, agoniza, morre e ressuscita.

Aqui cada cidadão leva em si uma lembrança de terremoto. É uma pétala de espanto que vive aderida ao coração da cidade. Cada cidadão é um herói antes de nascer. Porque na memória do porto há esse descalabro, esse abalo da terra que treme e o ruído rouco que vem da profundeza como se uma cidade submarina e subterrânea arrojasse seus campanários enterrados a dobrarem para dizerem ao homem que tudo terminou.

Às vezes, quando já ruíram os muros e os tetos entre o pó e as chamas, entre os gritos e o silêncio, quando tudo já parecia definitivamente quieto na morte, saiu do mar como o espanto último a grande onda, a imensa mão verde que, alta e ameaçadora, sobe como uma torre de vingança varrendo a vida que ficara a seu alcance.

Tudo começa às vezes por um movimento vago e os que dormem, despertam. A alma entre sonhos se comunica com raízes entranhadas com sua profundidade terrestre. Sempre quis saber isso-e agora sei. Logo, no grande estremecimento, não há para onde apelar porque os deuses partiram, as igrejas vaidosas foram convertidas em torrões triturados.

O pavor não é o mesmo do que corre do touro iracundo, do punhal que ameaça ou da água que se engole. Este é um pavor cósmico, uma insegurança instantânea, o universo que rui e se desfaz. Enquanto isso a terra soa com um rugido surdo e com uma voz que ninguém conhecia.

O pó levantado pelas casas ao ruir pouco a pouco se aquieta. E ficamos sós com nossos mortos e com todos os mortos, sem saber por que continuamos vivos.

 

As escadas partem do alto e de baixo e se retorcem subindo. Adelgaçam-se como cabelos e, após ligeiro repouso, tornam-se verticais. Têm marés, precipitam-se, alargam-se, retrocedem. Não terminam nunca.

Quantas escadas? Quantos degraus de escadas? Quantos pés nos degraus? Quantos séculos de passos, de descer e subir com o livro, com os tomates, com o peixe, com as garrafas, com o pão? Quantos milhares de horas desgastaram os degraus até fazê-los canais por onde circula a chuva brincando e chorando? Escadas!

Nenhuma cidade se derramou, as desfolhou em sua história, em sua face, as dispersou e as reuniu como Valparaíso. Nenhuma face da cidade teve estes sulcos pelos quais vão e vêm as vidas como se estivessem sempre subindo ao céu, como se estivessem sempre baixando à criação.

Escadas que a meio caminho fizeram nascer um cacto de flores purpúreas! Escadas por onde subiu o marinheiro que voltava da Ásia e que encontrou em sua casa um sorriso novo ou uma ausência terrível! Escadas pelas quais desceu um bêbado que caía como um meteoro negro! Escadas por onde sobe o sol para amar as colinas!

Se andarmos por todas as escadas de Valparaíso teremos dado a volta ao mundo.

 

Valparaíso de minhas dores... Que terá acontecido na solidão do Pacífico Sul? Estrela errante ou batalha de vermes cuja fosforescência sobreviveu à catástrofe?

A noite de Valparaíso! Um ponto do planeta se iluminou, diminuto, no universo vazio. Os vaga-lumes palpitaram e começou a arder entre as montanhas uma ferradura de ouro.

A verdade é que logo a noite imensa e despovoada soltou figuras colossais que multiplicavam a luz. Aldebarán tremeu com sua força remota. Casiopea pendurou sua veste nas portas do céu enquanto sobre o esperma noturno da Via-Láctea rodava o carro silencioso da Cruz Austral.

Sagitário então, empinado e peludo, deixou cair algo, um diamante de suas patas perdidas, uma pulga de seu pêlo distante.

Havia nascido Valparaíso, flamejante e rumoroso, espumante e meretrício.

A noite de seus becos encheu-se de sereias negras. Na escuridão, as portas te espreitavam, as mãos te aprisionavam, os lençóis do sul extraviavam o marinheiro. Polyanta, Tritetonga, Carmela, Flor de Dios, Multicula, Berenice, “Baby Sweet” encheram as cervejarias, protegeram os náufragos do delírio, substituíram-se e se renovaram, dançaram sem freios com a melancolia de minha raça chuvosa.

Os veleiros mais rijos saíram do porto para caçar baleias. Para as Califórnias do ouro partiram outros navios. Os últimos atravessaram os sete mares para recolher mais tarde, no deserto chileno, o nitrato que jaz como pó inumerável de uma estátua demolida sob as mais secas extensões do mundo.

Foram estas as grandes aventuras.

Valparaíso cintilou através da noite universal. Do mundo e para o mundo surgiram navios engalanados como pombas inacreditáveis, barcos fragrantes, fragatas ávidas que o Cabo de Hornos havia retido além da conta... Muitas vezes os homens recém-desembarcados precipitavam-se sobre a fartura... Ferozes e fantásticos dias em que os oceanos não se comunicavam senão pelas distâncias do estreito patagônico. Tempos em que Valparaíso pagava com moeda forte as tripulações que a rejeitavam e amavam.

Num barco chegou um piano de cauda; em outro passou Flora Tristán, a avó peruana de Gauguin; em outro mais, no “Wager”, chegou Robinson Crusoe, o primeiro, em carne e osso, recém-recolhido por Juan Fernández... Outras embarcações trouxeram pinhas, café, pimenta de Sumatra, bananas de Guiaquil, chá com jasmins de Assam, anis da Espanha... A baía distante e a ferradura oxidada do Centauro encheram-se de aromas intermitentes: numa rua te assaltava a doçura da canela; noutra, como uma flecha branca, o cheiro das chirimoyas (1) te atravessava a alma; de um beco, saía a combater contigo os detritos de algas do mar, de todo o mar chileno.

Valparaíso então se iluminava e assumia um ouro sombrio que foi se transformando numa laranjeira marinha, teve folhagem, teve frescor e sombra, teve esplendor de fruta.

 

Os cumes de Valparaíso decidiram desprender seus homens, soltar as casas do alto para que estas vacilassem nos barrancos que a greda tinge de vermelho, de dourado os dedais de ouro, de verde esquivo a natureza silvestre. Mas as casas e os homens se agarraram à altura, enroscaram-se, cravaram-se, atormentaram-se, dispuseram-se verticalmente, dependuraram-se em cada abismo com unhas e dentes. O porto é um debate entre o mar e a natureza evasiva das cordilheiras. Mas na luta foi ganhando o homem. Os morros e a plenitude marinha conformaram a cidade e fizeram-na uniforme, não como um quartel, mas com a disparidade da primavera, com sua contradição de quadros, com sua energia sonora. As casas se fizeram cores: juntaram-se nelas o amaranto e o amarelo, o carmim e o cobalto, o verde e o purpúreo. Assim cumpriu Valparaíso sua missão de porto verdadeiro, de navio encalhado mas vivo, de naves com suas bandeiras ao vento. O vento do Oceano Mayor merecia uma cidade de bandeiras.

Vivi entre estes morros aromáticos e feridos, morros suculentos em que a vida golpeia com infinitos extramuros, com caracolismo insondável e convulsão de trompete. Na espiral te espera um carrossel alaranjado, um frade que desce, uma menina descalça mergulhada em sua melancia, um redemoinho de marinheiros e mulheres, uma venda da loja de ferragem mais oxidada, um circo minúsculo em cujo toldo cabem somente os bigodes do domador, uma escada que sobe até as nuvens, um elevador que sobe carregado de cebolas, sete burros que transportam água, um carro de bombeiros que volta de um incêndio, um escaparate em que se juntaram vasos de vida ou morte.

 

Estes morros têm nomes profundos. Viajar entre estes nomes é uma viagem que não acaba, porque a viagem de Valparaíso não acaba nem na terra nem na palavra. Cerro Alegre, Cerro Mariposa, Cerro Polanco, Cerro del Hospital, de la Mesilla, de la Rinconada, de la Loberia, de las Jarcias, de las Alfareras, de los Chaparro, de la Calahuala, del Litre, del Molino, del Almendral, de los Pequenes, de los Chercanes, de Acevedo, del Pajonal, del Presídio, de las Zorras, de Doña Elvira, de San Esteban, de Astorga, de la Esmeralda, del Almendro, de Rodríguez, de la Artillería, de los Lecheros, de la Concepción, del Cementerio, del Cardonal, del Árbol Copado, del Hospital Inglés, de la Palma, de la Reina Victoria, de Carvallo, de San Juan de Dios, de Pocuro, de la Caleta, de la Cabritería, de Vizcaya, de dom Elías, del Cabo, de las Cañas, del Atalaya, de la Parrasia, del Menbrillo, del Buey, de la Florida.

Não posso andar em tantos lugares. Valparaíso precisa de um novo monstro marinho, um octópode que consiga percorrê-lo. Eu aproveito sua imensidão, sua imensidão íntima, mas não consigo abarcá-lo em seu lado direito multicolorido, na germinação de sua esquerda, em sua altura ou em seu abismo.

Somente eu o sigo nos sinos, nas ondulações e nos nomes.

Sobretudo nos nomes porque eles têm raízes e radícula, têm ar e azeite, têm história e ópera, têm sangue nas silabas.

 

1 - Chirimoya: (Bot.) fruto do chirimoyo, árvore anonácea da América Central. (N. da T.)

 

                   Cônsul do Chile num buraco

Um prêmio litarário estudantil, certa popularidade de meus novos livros e minha capa famosa tinham me proporcionado uma pequena auréola de respeitabilidade fora dos círculos estéticos. Mas a vida cultural de nossos países nos anos 20 dependia exclusivamente da Europa, salvo raras e heróicas exceções. Em cada uma de nossas repúblicas atuava uma “elite” cosmopolita e, quanto aos escritores da oligarquia, viviam em Paris. Nosso grande poeta Vicente Huidobro não só escrevia em francês como também alterou seu nome: em vez de Vicente transformou-se em Vincent.

O certo é que, assim que tive um rudimento de fama juvenil, todo o mundo me perguntava na rua:

- Mas o que faz você aqui ainda? Vá para Paris.

Um amigo recomendou-me ao chefe de um departamento no Ministério de Relações Exteriores. Fui recebido logo. Já conheciam meus versos.

- Sei também de suas aspirações. Sente-se nesta poltrona confortável, pois daqui tem uma boa vista da praça, da feira da praça. Veja esses automóveis. Tudo vaidade. Feliz de você que é um jovem poeta. Está vendo esse palácio? Era de minha família. E agora você me vê aqui, nesta pocilga, às voltas com a burocracia. Quando a única coisa que conta é o espírito. Gosta de Tchaikovski?

Depois de uma hora de conversação artística, ao me dar a mão para a despedida, disse que não me preocupasse com o assunto pois ele era o diretor do serviço consular.

- Pode se considerar desde já designado para um posto no exterior.

Durante dois anos fui periodicamente ao gabinente do atencioso chefe diplomático, cada vez mais obsequioso. Apenas me via aparecer chamava com displicência um de seus secretários e, arqueando as sobrancelhas, dizia:

- Não estou para ninguém. Deixe-me esquecer o trivial cotidiano. A única coisa espiritual neste ministério é a visita do poeta. Tomara que nunca nos abandone.

Estou seguro de que falava com sinceridade. Em seguida me falava de cães de raça. “Quem não ama os cães não ama as crianças.” Continuava com a novela inglesa, passava depois à antropologia e ao espiritismo, para se deter mais adiante em questões de heráldica e genealogia. Ao me despedir repetia mais uma vez, como um segredo temível entre nós dois, que meu posto no estrangeiro estava assegurado. Ainda que eu precisasse de dinheiro para comer, saía à rua essa noite respirando como um Ministro Conselheiro. E quando meus amigos perguntavam o que andava fazendo, eu tomava ar de importância e dizia:

- Preparo minha viagem à Europa.

Isto durou até que encontrei com meu amigo Bianchi. A família Bianchi do Chile é um clã nobre. Pintores e músicos populares, juristas e escritores, exploradores e andinistas (1) dão um tom de inquietude e entendimento rápido a todos os Bianchi. Meu amigo, que havia sido embaixador e conhecia os segredos ministeriais, perguntou:

- Ainda não saiu tua nomeação?

- Vai sair de um momento para outro, segundo assegura um alto protetor das artes que trabalha no Ministério:

Ele sorriu e disse:

- Vamos ver o ministro.

Tomou-me pelo braço e subimos as escadas de mármore. À nossa passagem, afastavam-se precipitadamente ordenanças e empregados.

 

Eu estava tão surpreso que não podia falar. Pela primeira vez via um ministro de Relações Exteriores. Este era muito baixinho de estatura e, para compensar, sentou-se de um salto na mesa. Meu amigo falou de meu desejo ardente de sair do Chile. O ministro tocou uma das inúmeras campainhas e logo apareceu, para aumentar minha confusão, meu protetor espiritual.

- Que postos estão vagos no serviço? - disse o ministro.

 

O atilado funcionário, que agora não podia falar de Tchaikovski, deu os nomes de várias cidades disseminadas pelo mundo, das quais só consegui pescar um nome que nunca tinha ouvido nem lido antes: Rangoon.

- Para onde quer ir, Pablo? - disse o ministro.

- A Rangoon - respondi sem vacilar.

- Nomeiem-no - ordenou o ministro ao meu protetor que já corria e voltava com o decreto.

Havia um globo terrestre no salão ministerial. Meu amigo Bianchi e eu procuramos a cidade desconhecida de Rangoon. O velho mapa tinha uma profunda depressão numa região da Ásia e nessa concavidade a descobrimos.

- Rangoon. Aqui está Rangoon.

Mas quando encontrei meus amigos poetas, horas mais tarde, e quiseram celebrar minha nomeação, eu finha esquecido por completo o nome da cidade. Só pude explicar a eles com alegria transbordante que me haviam nomeado cônsul no Oriente fabuloso e que o lugar a que me destinava se encontrava num buraco do mapa.

 

1 - Andinista: pessoa que pratica a escalada aos Andes. (N. da T.)

 

                   Montparnasse

Num dia de Junho de 1927 partimos para regiões remotas. Em Buenos Aires trocamos minha passagem de primeira por duas de terceira classe e zarpamos no Baden, um navio alemão que se dizia de classe única, mas cuja “única” devia ser a quinta. Os turnos se dividiam em dois: um para servir rapidamente os imigrantes portugueses e galegos; e outro para os demais passageiros de várias procedências, em especial alemães que voltavam das minas ou das fábricas da América Latina. Meu companheiro Álvaro fez uma classificação imediata das passageiras. Conquistador ativo, dividiu-as em dois grupos: as que atacam o homem e as que obedecem ao chicote. Estas fórmulas nem sempre funcionavam. Tinha toda classe de truques para apoderar-se do amor das mulheres. Quando na ponte assomava um par de passageiras interessantes, tomava-me rapidamente a mão e fingia interpretar suas linhas com gestos misteriosos. Na segunda volta, as passageiras se detinham e suplicavam que lhes lesse o destino. Ao fazer isto ele lhes tomava as mãos acariciando-as excessiva-mente e sempre o futuro lido prognosticava uma visita ao nosso camarote.

De minha parte a viagem logo se transformou e deixei de ver os passageiros que protestavam ruidosamente pelo eterno prato de Kartoffel; deixei de ver o mundo e o Atlântico monótono para somente contemplar os olhos escuros e grandes de uma jovem brasileira, infinitamente brasileira, que embarcou no Rio de Janeiro com seus pais e dois irmãos.

 

A Lisboa alegre daqueles anos, com pescadores nas ruas e sem Salazar no trono, encheu-me de assombro. A comida era deliciosa no pequeno hotel. Grandes bandejas de frutas coroavam a mesa. As casas multicoloridas; os velhos palácios com portas em arco; as catedrais monstruosas como cascas vazias, das quais Deus se tinha ido há séculos para ir viver em outra parte; as casas de jogo dentro de antigos palácios; a multidão infantilmente curiosa nas avenidas; a duquesa de Bragança, com a razão perdida, andando hierátíca por uma rua de pedras, seguida por cem meninos vagabundos e atônitos - essa foi minha entrada na Europa.

E logo Madri com os cafés cheios de gente; o bonachão Primo de Rivera dando a primeira lição de tirania a um país que ia receber depois a lição completa. Meus poemas iniciais de Residencia en la Tierra, que os espanhóis tardariam a compreender; só chegariam a compreendê-los mais tarde quando surgiu a geração de Alberti, Lorca, Aleixandre, Diego. E a Espanha foi para mim também o trem interminável e o vagão de terceira mais duro do mundo, que nos deixou em Paris.

 

Desaparecíamos entre a multidão fumegante de Montparnasse, entre argentinos, brasileiros, chilenos. Ainda não sonhavam em aparecer os venezuelanos, sepultados então sob o império de Gómez. E, mais além, os primeiros hindus com seus trajes talares. E minha vizinha de mesa, com seu cachecol enrolado no pescoço, tomava com lentidão melancólica um café-creme. Nossa colônia sul-americana bebia conhaque e dançava tangos, esperando a menor oportunidade para armar alguma desordem colossal e brigar com meio mundo.

Para nós, provincianos boêmios da América do Sul, Paris, França, Europa, eram duzentos metros e duas esquinas: Montparnasse e La Rotonde. Le Dome e La Coupole e mais três ou quatro cafés. As boites com negros começavam a estar na moda. Entre os sul-americanos, os argentinos eram os mais numerosos, os mais brigões e os mais ricos. A cada instante se formava um tumulto e um argentino era suspenso por quatro garções, passava no ar sobre as mesas e era rudemente posto em plena rua. Nossos primos de Buenos Aires não gostavam dessas violências que lhes amarrotavam as calças e, mais grave ainda, que os despenteavam. A gomalina era parte essencial da cultura argentina naquela época.

A verdade é que nesses primeiros dias de Paris, cujas horas voavam, não conheci um único francês, um único europeu, um único asiático, muito menos cidadãos da África e da Oceania. Os americanos de língua espanhola, desde os mexicanos até os patagões, andavam em conciliábulos, apontando defeitos, fazendo pouco uns dos outros, sem poder viver uns sem os outros. Um guatemalteco, para perder o tempo de forma requintada, preferia a companhia de um vagabundo paraguaio à de Pasteur.

Conheci então César Vallejo, o grande cholo; (1) poeta de poesia áspera, difícil ao tato como pele selvagem, mas poesia grandiosa, de dimensões sobre-humanas.

É certo que tivemos uma pequena dificuldade assim que nos conhecemos, em La Rotonde. Fomos apresentados e, com belo acento peruano, disse ao me saudar:

- Você é o maior de todos os nossos poetas. Só Rubén Darío se lhe pode comparar.

- Vallejo - disse-lhe - se quer que sejamos amigos nunca mais volte a dizer uma coisa dessas. Não sei aonde iríamos parar se começamos a nos tratar como literatos.

Acho que minhas palavras o aborreceram. Minha educação antiliterária me impelia a ser mal-educado. Ele, em troca, pertencia a uma geração mais velha que a minha, com aristocracia e cortesia. Ao notar que ficara ressentido senti-me um rústico inadmissível.

Mas isso passou como uma nuvem ligeira. A partir deste momento ficamos amigos de verdade. Anos mais tarde, quando fiquei por mais tempo em Paris, a gente se via diariamente. Então o conheci mais intimamente.

Vallejo era mais baixo do que eu, mais magro, mais ossudo. Era também mais índio que eu, com uns olhos muito escuros e uma testa muito alta e curva. Tinha um bonito rosto incaico, entristecido por certa majestade indubitável. Vaidoso como todos os poetas, gostava que lhe falassem assim de seus traços indígenas. Levantava a cabeça para que eu o admirasse e dizia:

- Tenho algo, não é? - e logo ria sigilosamente para si mesmo.

Seu entusiasmo era o oposto do que expressava, às vezes, Vicente Huidobro, poeta antípoda de Vallejo em tantas coisas. Huidobro deixava cair uma mecha grande na testa, metia os dedos no colete, erguia o busto e perguntava:

- Acham que sou parecido com Napoleão Bonaparte?

Vallejo era sombrio apenas externamente, como um homem que tivesse estado na penumbra, recolhido durante muito tempo. Solene por natureza, seu rosto parecia uma máscara inflexível, quase hierática. Mas a verdade interior não era essa. Eu o vi muitas vezes (especialmente quando conseguíamos arrancá-lo da influência de sua mulher, uma francesa tirânica e presumida, filha de concierge), eu o vi dar pulos de alegria como um colegial. Depois voltava à sua solenidade e à sua submissão.

 

Logo surgiu das sombras de Paris o mecenas que sempre estivemos esperando e que nunca chegava. Era um chileno, escritor, amigo de Rafael Alberti, dos franceses e de meio mundo. Também, e como qualidade ainda mais importante, era o filho do dono da maior companhia de navegação do Chile. E famoso por sua prodigalidade.

Aquele messias recém-caído do céu queria me homenagear e nos levou a uma boite de russos brancos chamada “A Adega Caucasiana”. As paredes estavam decoradas com trajes e paisagens do Cáucaso. Logo nos vimos rodeados de russas, ou falsas russas, ataviadas como camponesas das montanhas.

Cóndon, que era como se chamava nosso anfitrião, parecia o último russo da decadência. Frágil e louro, pedia inesgotavelmente champanha e dava saltos enlouquecidos, imitando as danças de cossacos que nunca tinha visto.

- Champanha, mais champanha! - e inesperadamente nosso anfitrião pálido e milionário perdeu o equilíbrio. Ficou caído embaixo da mesa, profundamente adorme-cido, como o cadáver exangue de um caucasiano exterminado por um urso.

Um frêmito gelado nos percorreu. O homem não despertava nem com compressas de gelo nem com vidros de amoníaco destampados junto ao seu nariz. Diante de nosso desconcerto desamparado todas as bailarinas nos abandonaram, menos uma. Nos bolsos de nosso anfitrião não achamos senão um decorativo livro de cheques que, em suas condições cadavéricas, não podia assinar.

O cossaco-mor da boite exigia o pagamento imediato e fechava a porta da saída para que não escapássemos. Só pudemos nos salvar da prisão deixando ali empenhado meu flamante passaporte diplomático.

Saímos com nosso milionário exangue às costas. Custou-nos um esforço gigan-tesco arrastá-lo para um táxi, enfiá-lo nele e desembarcá-lo em seu luxuoso hotel. Deixamo-lo nos braços de dois imensos porteiros de libré vermelha que o levaram como se trasladassem um almirante caído na ponte de seu navio.

No táxi nos esperava a moça da boite, a única que não nos abandonou em nosso infortúnio. Alvaro e eu a convidamos para saborear a sopa de cebolas do amanhecer no Les Halles. Compramos flores no mercado para ela, beijamo-la em reconhecimento por seu comportamento de boa samaritana e nos demos conta de que tinha certo charme. Não era bonita nem feia mas o nariz arrebitado de parisiense a reabilitava. Então a convidamos para o nosso misérrimo hotel. Não se fez de rogada em ir conosco.

Foi para o quarto de Alvaro. Caí rendido na cama mas logo senti que me sacudiam. Era Alvaro. Seu rosto de louco manso pareceu-me um tanto estranho.

- Está acontecendo uma coisa - disse. - Esta mulher tem algo excepcional, insólito, que não poderia te explicar. Tens que experimentá-la já.

Poucos minutos depois a desconhecida meteu-se sonolenta e indulgentemente em minha cama. Ao fazer o amor com ela, comprovei seu dom misterioso, algo indes-critível que brotava de suas profundezas, que se remontava à origem mesma do prazer, ao nascimento de uma onda, ao segredo genesíaco de Vênus. Alvaro tinha razão.

No dia seguinte, no café da manhã, Alvaro me chamou a parte e me preveniu em espanhol:

- Se não deixamos logo esta mulher nossa viagem vai ser um fracasso. Não naufragaríamos no mar mas no sacramento insondável do sexo.

Decidimos cumulá-la de pequenos presentes: flores, chocolates e a metade dos francos que nos restavam. Confessou-nos que não trabalhava no cabaré caucasiano, que o havia visitado na noite anterior pela primeira e única vez. Logo tomamos um táxi com ela. O chofer atravessava um bairro indefinido quando mandamos que parasse. Despedimo-nos com grandes beijos e a deixamos aí, desorientada mas sorridente.

Nunca mais a vimos.

 

1 - Cholo: denominação do índio civilizado; mestiço de europeu e índio. (N. da T.).

 

                   Viagem ao Oriente

Tampouco esquecerei o trem que nos levou a Marselha, carregado como uma cesta de frutas exóticas, de gente colorida, camponesas e marinheiros, acordeões e canções que eram cantadas em coro em todo o carro. Iamos até o mar Mediterrâneo, até as portas da luz... Era em 1927. Marselha me fascinou com seu romantismo comercial e o Vieux Port alado de velames ferventes com sua turbulência própria e tenebrosa. Mas o navio das Messageries Maritimes, no qual compramos passagem até Cingapura, era um pedaço da França no mar, com sua “petite bourgeoisie” que emigrava para ocupar postos nas colônias distantes. Durante a viagem, os marinheiros, ao verem as nossas máquinas de escrever e nossa papelada de escritores, pediram que batêssemos a máquina suas cartas. A marujada nos ditava cartas de amor incríveis para suas noivas de Marselha, de Bordéus e do interior. No fundo, não lhes interessava o conteúdo mas sim que fossem batidas a máquina. Mas tudo que nelas diziam eram como poemas de Tristán Corbière, mensagens rudes e ternas. O Mediterrâneo foi se abrindo à nossa proa com seus portos, suas alfombras, seus traficantes e seus mercados. O porto de jibuti, no Mar Vermelho, me impressionou. A areia calcinada, sulcada tantas vezes pelas andanças de Arthur Rimbaud, as negras esculturais com suas cestas de frutas, as choças miseráveis da povoação primitiva e um ar de desmazelo, nos cafés iluminados por uma luz vertical e fantasmagórica... Ali se tomava chá gelado com limão.

 

O importante era ver o que acontecia em Xangai à noite. As cidades de má reputação atraem como mulheres venenosas. Xangai abria a boca noturna para nós dois, provincianos do mundo, passageiros de terceira classe com pouco dinheiro e com uma curiosidade triste.

Entramos em alguns dos grandes cabarés. Era uma noite no meio da semana e estavam vazios. Era deprimente ver aquelas imensas pistas de dança, que pareciam construídas para que dançassem centenas de elefantes e onde ninguém dançava. Nas esquinas opacas surgiam russas esqueléticas do Zar que bocejavam, pedindo para serem convidadas para tomar champanha. Assim percorríamos seis ou sete dos lugares de perdição onde a única coisa que se perdia era nosso tempo.

Era tarde para regressar ao navio que havia ficado longe, além das entrelaçadas vielas do porto. Tomamos um ricksha para cada um. Não estávamos habituados a esse transporte de cavalos humanos. Aqueles chineses de 1928 trotavam, puxando o carrinho sem descanso por longas distâncias.

Como havia começado a chover e aumentava a chuva, nossos rickshaman detiveram as carruagens com delicadeza. Com uma lona impermeável taparam cuidadosamente as dianteiras dos rickshas para que nem uma gota salpicasse nossos narizes estrangeiros.

- Que raça fina e cuidadosa! Não transcorreram em vão dois mil anos de cultura - pensávamos Alvaro e eu, cada um em seu assento rolante.

No entanto algo começou a me inquietar. Não via nada, encerrado debaixo de um cerco de corteses precauções, mas ouvia sim, apesar da lona engomada, a voz de meu condutor que emitia uma espécie de zumbido. Ao ruído de seus pés descalços se uniram logo outros ruídos rítmicos de pés descalços que trotavam pelo calçamento molhado. Finalmente amorteceram-se os ruídos, sinal de que o calçamento havia terminado e íamos agora certamente por terrenos baldios, fora da cidade.

De repente meu ricksha se deteve, desatando com destreza a lona que me protegia da chuva. Não havia nem sombra de navio naquele subúrbio despovoado. O outro ricksha estava parado a meu lado e Alvaro desceu desconcertado do assento.

- Money! Money! - repetiam com voz tranqüila os sete ou oito chineses que nos rodeavam.

Meu amigo esboçou o gesto de pegar uma arma no bolso da calça e isso bastou para que ambos recebêssemos um golpe na nuca. Caí de costas mas os chineses pegaram minha cabeça no ar para impedir o choque e com suavidade me deixaram estendido sobre a terra molhada. Remexeram com rapidez em meus bolsos, na camisa, no chapéu, nos sapatos, nas meias e na gravata, esbanjando uma destreza de malaba-ristas. Não deixaram de carregar nem um centímetro de roupa, nem um centavo do único e pouco dinheiro que tínhamos. Mas, justiça seja feita, com a gentileza tradicional dos ladrões de Xangai, respeitaram religiosamente nossos documentos e nossos passaportes.

Quando ficamos sós caminhamos em direção às luzes que eram divisadas à distância. Encontramos logo centenas de chineses noctívagos porém honrados. Nenhum sabia francês, inglês ou espanhol, mas todos quiseram ajudar-nos a sair de nosso desamparo e nos guiaram de qualquer modo até nosso desejado e paradisíaco camarote de terceira.

 

Chegamos ao Japão. O dinheiro que esperávamos, proveniente do Chile, já devia estar no consulado. Tivemos de nos alojar, entretanto, em um albergue de marinheiros em Yokohama. Dormíamos sobre enxergões sofríveis. Tinha uma vidraça quebrada, nevava, e o frio nos chegava até à alma. Ninguém se preocupava conosco. Certa madrugada, um barco petroleiro partiu-se em dois em frente à costa japonesa e o albergue encheu-se de náufragos. Entre eles havia um marinheiro basco que não sabia falar nenhum idioma, exceto o espanhol e o seu, e que nos contou sua aventura: durante quatro dias e noites manteve-se boiando em um pedaço do navio, rodeado pelas ondas de fogo do petróleo incendiado. Os náufragos foram abastecidos de cobertores e provisões, e o basco, rapaz generoso!, converteu-se em nosso protetor.

Em contraste, o cônsul-geral do Chile - acho que se chamava De la Marina ou De la Rivera - recebeu-nos do alto de sua empáfia, fazendo-nos compreender nossa insignificância de náufragos. Não dispunha de tempo. Tinha de jantar nessa noite com a condessa Yufú San. A corte imperial convidava-o para tomar o chá. Ou estava mergulhado em estudos profundos sobre a dinastia reinante.

- Que homem mais fino o Imperador, etc.

Não, não tinha telefone. Para que ter telefone em Yokohama? Só o chamariam em japonês. Quanto a notícias de nosso dinheiro, o diretor do banco, íntimo amigo seu, não lhe havia comunicado nada. Sentia muito mas tinha que se despedir. Esperavam-no numa recepção de gala. Até amanhã.

E assim todos os dias. Abandonávamos o consulado tiritando de frio porque nossa roupa havia se reduzido no assalto e só dispúnhamos de uns pobres suéteres de náufragos. No último dia ficamos sabendo que nossos fundos haviam chegado a Yokohama antes de nós. O banco havia enviado três avisos ao senhor cônsul e aquele fantoche enfatuado e altíssimo funcionário não se havia dado conta de um detalhe como esse, tão abaixo de sua dignidade. (Quando leio nos jornais que alguns cônsules são assassinados por compatriotas tresloucados, penso com nostalgia naquele condecorado ilustre.)

Naquela noite fomos ao melhor café de Tóquio, o “Kuroncko”, na Ghinza. Comia-se muito bem então em Tóquio, graças à semana de fome que dava novo sabor aos manjares. Na boa companhia de deliciosas moças japonesas, brindamos muitas vezes em honra dos viajantes desditosos e desconsiderados pelos cônsules perversos que andam espalhados pelo mundo. Cingapura. Acreditávamo-nos ao lado de Rangoon. Amarga desilusão. O que no mapa era a distância de alguns milímetros converteu-se em abismo pavoroso. Vários dias de navio nos esperavam e, para completar, o único que fazia a travessia havia partido para Rangoon no dia anterior. Não tínhamos com que pagar o hotel nem as passagens e os novos vencimentos nos esperavam em Rangoon.

Ah, mas para alguma coisa existe o cônsul do Chile em Cingapura, meu colega. O senhor Mansilla acudiu pressuroso. Pouco a pouco seu sorriso foi-se apagando até desaparecer de todo, deixando lugar a um esgar de irritação.

- Não posso ajudá-los em nada. Recorram ao Ministério!

Invoquei inutilmente a solidariedade dos cônsules. O homem tinha cara de carcereiro implacável. Pegou seu chapéu e já corria para a porta quando me ocorreu uma idéia maquiavélica:

- Senhor Mansilla, vou ser obrigado a dar algumas conferências sobre nossa pátria, com entrada paga, para juntar o dinheiro da passagem. Peço-lhe arranjar lugar, intérprete e a permissão necessária.

O homem ficou pálido:

- Conferência sobre o Chile em Cingapura? Não permito. Esta é minha jurisdição e ninguém além de mim pode falar do Chile aqui.

- Acalme-se, Senhor Mansilla - respondi. - Quanto mais pessoas falarem sobre a pátria distante, tanto melhor. Não vejo por que o senhor se irrita.

Finalmente chegamos a um acordo naquela negociação extravagante com aspecto de chantagem patriótica. Trêmulo de fúria, fez-nos assinar dez recibos e nos adiantou o dinheiro. Ao contá-lo observamos que os recibos eram por uma quantidade maior.

- São os descontos - explicou.

(Dez dias depois eu lhe enviaria o cheque de reembolso de Rangoon, mas sem incluir os descontos, naturalmente.)

Do convés do navio que chegava a Rangoon, vi assomar o gigantesco funil de ouro do grande pagode Swei Dagon. Uma multidão de trajes estranhos enchia o cais com seu colorido violento. Um rio largo e sujo desembocava ali, no golfo de Martabán. Este rio tem o nome de rio mais belo entre todos os rios do mundo: Irrawadhy.

Junto de suas águas começava minha vida nova.

 

                   Alvaro

... Diabo de homem este Alvaro... Agora se chama Alvaro de Silva... Vive em Nova Iorque. Passou quase toda a sua vida na selva nova-iorquina... Imagino-o comendo laranjas em horas insólitas, queimando com fósforo o papel dos cigarros, fazendo perguntas vexatórias a meio mundo... Sempre foi um mestre da desorganização, possuidor de uma inteligência brilhante, inteligência inquisitiva que, segundo parece, não levava a nenhuma parte, a não ser a Nova Iorque. Era 1925... Entre as violetas que lhe escapavam da mão quando corria para oferecê-las a uma desconhecida que passava e com a qual queria logo ir para a cama, sem saber como se chamava nem de onde era, e suas intermináveis leituras de Joyce, revelou-me e a muitos outros, opiniões insuspeitadas, pontos de vista de cidadão do mundo, que vive dentro da urbe como se vivesse em sua caverna, saindo a esquadrinhar a música, a pintura, os livros, a dança... Sempre comendo laranjas, descascando maçãs, dietético exaustivo, intrometendo-se assombrosamente em tudo, finalmente víamos o antiprovinciano sonhado que todos os provincianos queríamos ver, sem as etiquetas coladas às valises, mas circulando dentro de si com uma mistura de países e concertos, de cafés ao amanhecer, de universidades com neve no telhado... Chegou a me tornar a vida impossível... Aonde chego, assumo um sonho vegetal, fixo um lugar e trato de deitar alguma raiz, para pensar, para existir... Alvaro se agitava de um lado para outro, fascinado com os filmes em que poderíamos trabalhar, vestindo-nos imediatamente de muçulmanos para ir aos estúdios... Circulam retratos meus em traje bengali (como ficava mudo acreditaram na tabacaria, em Calcutá, que eu era da família de Tagore) quando procurávamos os estúdios Dundum para ver se nos contratavam... E logo tínhamos que sair correndo da ACM porque não tínhamos pago o aluguel... E as enfermeiras que nos amavam... Alvaro meteu-se em fabulosos negócios... Queria vender chá de Assam, tecidos de Caxemira, relógios, tesouros antigos... Tudo era logo dilapidado... Deixava as amostras de Caxemira, os saquinhos de chá sobre as mesas, sobre as camas... Já tinha pegado uma valise e estava em outra parte... Em Munique... Em Nova Iorque...

De todos os escritores contínuos, indefectíveis, prolíficos que vi este é o maior... Quase nunca publica... Não compreendo... Já de manhã, sem sair da cama, com os óculos encarapitados no alto do nariz, está batucando na máquina de escrever, consumindo resmas de todo tipo de papel, de todos os papéis, apesar de sua mobilidade, do criticismo, das laranjas, das transmissões cíclicas, do porão em Nova Iorque, das violetas, de sua confusão que parece tão clara, de sua clareza tão confusa... Não saiu dele a obra que sempre se esperou... Deve ser porque não teve vontade... Ou porque não pôde fazê-la... Porque está tão ocupado... Porque está tão desocupado... Mas sabe tudo, olha tudo através dos continentes com os olhos azuis e intrépidos, com o tato sutil que deixa no entanto que escorra por entre seus dedos a areia do tempo...

 

         A SOLIDÃO LUMINOSA

 

                   Imagens da selva

Mergulhado nessas lembranças, desperto subitamente com o ruído do mar. Escrevo na Isla Negra, na costa, perto de Valparaíso. Acalmaram-se há pouco os grandes vendavais que açoitavam o litoral. O oceano - que, mais do que eu o olho de minha janela, me olha a mim com seus mil olhos de espuma - conserva ainda no marulhar a persistência terrível da tempestade.

Anos distantes! Reconstituí-los é como se o som das ondas que agora escuto entrasse intermitentemente dentro de mim, às vezes embalando-me para dormir, outras vezes com a brusca cintilação de uma espada. Recolherei essas imagens sem cronologia, tal como estas ondas que vão e vêm.

1929, de noite. Vejo a multidão agrupada na rua. É uma festa muçulmana. Prepararam uma vala comprida no meio da rua e rechearam-na de brasas. Aproximo-me. O vigor das brasas que foram se acumulando sob uma camada levíssima de cinza, sobre a faixa escarlate do fogo vivo, escalda meu rosto. Logo aparece um personagem estranho. Com o rosto tisnado de branco e vermelho vem sobre os ombros de quatro homens vestidos também de vermelho. Quando o descem, começa a andar cambaleante sobre as brasas, gritando enquanto caminha:

- Má! Má!

A multidão imensa devora atônita a cena. O mago já percorreu incólume a comprida faixa de brasas. Um homem então se separa da multidão, tira as sandálias e faz com os pés descalços o mesmo percurso. Interminavelmente vão se apresentando voluntários. Alguns se detêm na metade da trincheira para afundar os calcanhares no fogo ao grito de Má! Má!, uivando com gestos horríveis, desviando o olhar para o céu. Outros passam com crianças nos braços. Ninguém se queima ou talvez se queimem e ninguém sabe.

Junto ao rio sagrado eleva-se o templo de Khali, a deusa da morte. Entramos misturados a centenas de peregrinos que chegaram dos confins da província hindu para pedir sua bênção. Atemorizados, maltrapilhos, são empurrados pelos brâmanes que a cada passo cobram tributos por alguma coisa. Os brâmanes levantam um dos sete véus da deusa execrável e, quando o levantam, soa um golpe de gongo que parece desabar o mundo. Os peregrinos caem de joelhos, saúdam de mãos postas, tocam o chão com a testa e continuam andando até o próximo véu. Os sacerdotes fazem-nos convergir para um pátio onde decapitam bodes com uma única machadada e cobram novos tributos. Os balidos dos animais feridos são afogados pelos golpes do gongo. As paredes de cal suja são salpicadas de sangue até o teto. A deusa é uma imagem de face escura e olhos brancos. Uma língua escarlate de dois metros desce de sua boca até o chão. De suas orelhas e de seu pescoço pendem colares de crânios e emblemas da morte. Os peregrinos dão suas últimas moedas antes de serem empurrados para a rua.

Os poetas que me rodeavam para dizer suas canções e seus versos eram muito diferentes daqueles peregrinos submissos. Acompanhando-se com seus tamborins, vestidos com suas talares roupas brancas, sentados de cócoras sobre a relva, cada um deles lançava um grito rouco e entrecortado, e de seus lábios saía uma canção que tinham composto com a mesma forma e métrica das canções antigas e milenares. Mas o sentido das canções tinha mudado. Não eram canções de sensualidade, de gozo, mas canções de protesto, canções contra a fome, canções escritas nas prisões. Muitos destes jovens poetas que encontrei ao longo da India e cujos olhares sombrios não poderei esquecer, acabavam de sair da prisão e iam voltar para dentro de seus muros talvez amanhã. Porque eles pretendiam sublevar-se contra a miséria e contra os deuses. Esta é a época que nos foi reservada para viver. E este é o século de ouro da poesia universal. Enquanto os novos cânticos são perseguidos, um milhão de homens dormem noite após noite nas estradas, nos arredores de Bombaim. Dormem, nascem e morrem. Não há casas nem pão, nem medicamentos. Foi assim que a Inglaterra, civilizada e orgulhosa, deixou o seu império colonial. Despediu-se de seus antigos súditos sem deixar-lhes escolas nem indústrias, nem habitações, nem hospitais, mas somente prisões e montes de garrafas de uísque vazias.

 

A lembrança do orangotango Rango é outra imagem tema, que vem das ondas. Em Medán, Sumatra, bati algumas vezes na porta do arruinado jardim botânico. Para meu assombro, era ele quem vinha sempre abrir. De mãos dadas, percorríamos um caminho até sentar-nos numa mesa que ele golpeava com as mãos e os pés. Aparecia então um criado que servia uma jarra de cerveja, nem pequena nem grande, boa para o orangotango e para o poeta.

No zoológico de Cingapura víamos o pássaro-lira dentro de uma jaula, fosforescente e colérico, esplêndido em sua beleza de ave recém-saída do éden. E mais além passeava em sua jaula uma pantera negra ainda cheirando à selva de onde veio. Era um fragmento curioso da noite estrelada, uma faixa magnética que se agitava sem cessar, um vulcão negro e elástico que queria arrasar o mundo, um dínamo de força pura que ondulava; e dois olhos amarelos, certeiros como punhais, que interrogavam com seu fogo, que não compreendiam nem a prisão nem o gênero humano.

 

Chegamos ao estranho templo da Serpente, nos subúrbios da cidade de Penang, no que antes se chamava Indochina. Este templo foi muito descrito por viajantes e jornalistas. Com tantas guerras, tantas destruições e tanto tempo e chuva que caíram sobre as ruas de Penang, não sei se ainda existirá. Sob o teto de telhas, um edifício baixo e encardido, carcomido pelas chuvas tropicais, entre a espessura das grandes folhas dos plátanos. Cheiro de umidade. Aroma de frangipana. Quando entramos no templo não vemos nada na penumbra. Um cheiro forte de incenso e ali adiante algo se move. É uma serpente que se espreguiça. Pouco a pouco notamos que há algumas outras. Logo observamos que talvez são dezenas. Mais tarde compreendemos que são centenas ou milhares de serpentes. Há pequenas enroscadas nos candelabros, há escuras, metálicas e delgadas, todas parecem adormecidas e saciadas. De fato, por toda parte se vêem finas travessas de porcelana, algumas transbordantes de leite e outras cheias de ovos. As serpentes não olham para nós. Passamos roçando-as pelos estreitos labirintos do templo, estão sobre nossas cabeças, suspensas da arquitetura dourada, dormem sobre os muros, enroscam-se sobre os altares. Eis aí a temível víbora de Russell, engolindo um ovo junto de uma dezena de mortíferas cobras-corais, cujos anéis de cor escarlate denunciam seu veneno instantâneo. Vi a ”fer de lance”, vários e grandes pitons, a “coluber de rusi” e a “coluber noya”. Serpentes verdes, cinzentas, azuis e negras enchiam a sala. Tudo em silêncio. De vez em quando um bonzo vestido de açafrão atravessa a sombra. A cor brilhante de sua túnica faz com que ele pareça mais uma serpente, movediça e preguiçosa, em busca de um ovo ou de um bebedouro de leite.

Estas cobras foram trazidas até aqui? Como se acostumaram? Nossas perguntas são respondidas com um sorriso; dizem-nos que vieram sozinhas e que irão sozinhas quando tiverem vontade. O certo é que as portas estão abertas e não há grades ou vidros nem nada que as obrigue a ficar no templo.

O ônibus saía de Penang e devia atravessar a selva e as aldeias da Indochina para chegar a Saigon. Ninguém entendia meu idioma nem eu entendia o de ninguém. Parávamos nas curvas da mata virgem, ao longo do caminho interminável, e desciam os viajantes, camponeses de vestimentas estranhas, taciturna dignidade e olhos oblíquos. Já restavam só uns três ou quatro no interior do imperturbável calhambeque que rangia e ameaçava se desintegrar na noite quente.

De repente me senti em pânico. Onde estava? Aonde ia? Por que passava essa noite longuíssima entre desconhecidos? Atravessávamos o Laos e o Camboja. Observei os rostos impenetráveis de meus últimos companheiros de viagem. Iam com os olhos abertos. Suas feições me pareciam patibulares. Eu estava sem dúvida entre típicos bandidos de um conto oriental.

Trocavam olhares de compreensão e me olhavam de soslaio. Nesse momento exato o ônibus se deteve silenciosamente em plena selva. Escolhi meu lugar para morrer. Não permitiria que me levassem para ser sacrificado debaixo daquelas árvores ignotas cuja sombra escura ocultava o céu. Morreria ali, num banco do ônibus desconjuntado, entre cestas de vegetais e gaiolas de galinhas, única coisa familiar naquele minuto terrível. Olhei ao redor, decidido a enfrentar a sanha de meus verdugos, e percebi que também eles tinham desaparecido.

Esperei longo tempo sozinho, com o coração oprimido pela escuridão intensa da noite estrangeira. Ia morrer sem ninguém saber, tão distante de meu pequeno país amado, tão separado de todos meus amores e de meus livros!

 

Logo apareceu uma luz e depois outra. O caminho encheu-se de luzes. Soou um tambor; irromperam as notas estridentes da música cambojana. Flautas, tamborins e archotes encheram de claridade e sons o caminho. Subiu um homem que me disse em inglês:

- O ônibus sofreu uma avaria. Como a espera será longa, talvez até o amanhecer, e não tem aqui onde dormir, os passageiros foram buscar uma troupe de músicos e dançarmos para que o senhor se entretenha.

Durante horas, sob aquelas árvores que já não me ameaçavam, presenciei as maravilhosas danças rituais de uma nobre e antiga cultura e escutei, até o sol raiar, a música deliciosa que invadia o caminho.

O poeta não pode temer o povo. Pareceu-me que a vida fazia uma advertência e me ensinava para sempre uma lição: a lição da honra oculta, da fraternidade que não conhecemos e da beleza que floresce na escuridão.

 

                     Congresso na Índia

Hoje é um dia de esplendor. Estamos no Congresso da Índia, uma nação em plena luta por sua libertação. Milhares de delegados enchem as galerias. Conheço pessoalmente Gandhi, Pandit Motilal Nehru, também patriarca do movimento, e seu filho, o elegante jovem Jawahrlal, recém-chegado da Inglaterra. Nehru é partidário da independência enquanto Gandhi sustenta a autonomia simples como passo necessário. Gandhi: um rosto fino de raposa sagacíssima, um homem prático, um político parecido com nossos velhos dirigentes criollos, mestre em comitês, sábio em táticas, infatigável. Enquanto a multidão é uma corrente interminável que toca com veneração a fímbria de sua túnica branca e grita “Ghandiji! Ghandiji!”, ele saúda distraidamente e sorri sem tirar os óculos. Recebe e lê mensagens, responde telegramas, tudo sem esforço. É um santo que não se cansa. Nehru: um inteligente acadêmico de sua revolução.

Grande figura daquele congresso foi Subhas Chandra Bose, demagogo impe-tuoso, antiimperialista violento, fascinante figura política de sua pátria. Na Guerra de 14, durante a invasão japonesa, uniu-se a estes, contra o império inglês. Muitos anos depois, aqui na Índia, um de seus companheiros me conta como caiu o forte de Cingapura:

- Tínhamos nossas armas apontadas para os japoneses que nos sitiavam. Logo nos perguntamos: e por quê? Fizemos os soldados darem meia volta e as apontamos contra as tropas inglesas. Foi muito simples. Os japoneses eram invasores transitórios; os ingleses pareciam eternos.

Subhas Chandra Bose foi detido, julgado e condenado à morte pelos tribunais britânicos da Índia como culpado de alta traição. Multiplicaram-se os protestos, impulsionados pela onda libertária. Por fim, depois de muitas batalhas legais, seu advogado – precisamente Nehru - obteve a anistia. A partir desse instante converteu-se em herói popular.

 

                    Os deuses reclinados

Por toda a parte as estátuas de Buda, de Lorde Buda... As estátuas severas, verticais, carcomidas, com um dourado de resplendor animal, desfeitas como se o ar as desgastasse... Brotam-lhes das faces, das dobras da túnica, dos cotovelos, umbigos, boca e sorriso, pequenas manchas: fungos, porosidades, vestígios de excrementos da selva... Ou então as que jazem, as imensas que jazem, as estátuas de quarenta metros de pedra, de granito arenoso, pálidas, estendidas entre as frondes sussurrantes, inesperadas, surgindo de algum recanto da selva, de alguma circundante plataforma... Adormecidas ou não ficam ali cem anos, mil anos, mil vezes mil anos... Mas são suaves, com uma conhecida ambigüidade extraterrena, querendo ficar e partir... E esse sorriso de pedra suavíssima, essa majestade imponderável feita no entanto de pedra dura, perpétua, para quem sorriem, para mais quem, sobre a terra sangrenta?... Passaram as camponesas que fugiam, os homens do incêndio, os guerreiros masca-rados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores... E a estátua manteve-se em seu lugar, a pedra imensa com joelhos, com dobras na túnica de pedra, com o olhar perdido e não obstante vivo, inteiramente inumana e de certa forma também humana, de certa forma ou em alguma contradição estatuária, sendo e não sendo deus, sendo e não sendo pedra, sob o grasnido das aves negras, entre o esvoaçar das aves vermelhas, das aves da selva... De certo modo pensamos nos terríveis Cristos espanhóis que herdamos com chagas e tudo, com pústulas e tudo, com cicatrizes e tudo, com esse cheiro de vela, de umidade, de ambiente fechado que têm as igrejas... Esses Cristos também vacilaram entre serem homens ou deuses... Para fazê-los homens, para aproximá-los mais dos que sofrem, das parturientes e dos decapitados, dos paralíticos e dos avarentos, da gente de igreja e da que rodeia as igrejas, para fazê-los humanos, os escultores dotaram-nos de chagas horripilantes até que tudo aquilo se converteu na religião do suplício, no peca e sofre, no não peca e sofre, no vive e sofre, sem que nenhuma escapatória te livrasse... Aqui não, aqui a paz chegou até à pedra... Os escultores se rebelaram contra os cânones da dor e estes Budas colossais, com pés de deuses gigantes, têm no rosto um sorriso de pedra que é sossegadamente humano, sem tanto sofrimento... E deles emana um cheiro, não de casa morta, não de sacristia e teias de aranha, mas de espaço vegetal, de lufadas que logo caem tempestuosas com penas, folhas, pólen da selva infinita.

 

                  Desventurada Família Humana

Li em alguns ensaios sobre minha poesia que a permanência no Extremo Oriente influiu em determinados aspectos de minha obra, especialmente em Residencia en la Tierra. Na verdade, meus únicos versos daquele tempo foram os de Residencia en la Tierra, mas, sem me atrever a sustentá-lo de forma peremptória, digo que isso da influência me parece um equívoco.

Todo o esoterismo filosófico dos países orientais, confrontado com a vida real, se revelava como um subproduto da inquietude, da neurose, da desorientação e do oportunismo ocidentais; quer dizer, da crise de princípios do capitalismo. Na India não havia, naquela época, muitos lugares para contemplações do umbigo profundo. Uma vida de brutais exigências materiais, uma condição colonial sedimentada na mais intensa abjeção, milhões de mortos cada dia, de cólera, de varíola, de febres e de fome, organizações feudais desequilibradas por sua imensa população e sua pobreza industrial, imprimiam à vida uma grande ferocidade na qual os reflexos místicos desapareciam.

Quase sempre os núcleos teosóficos eram dirigidos por aventureiros ocidentais, sem faltar amêricanos do Norte e do Sul. Não resta dúvida que entre eles havia gente de boa-fé, mas a maioria explorava um mercado barato onde se vendiam, a preços altos, amuletos e fetiches exóticos, envoltos em embalagem metafísica. Essa gente enchia a boca com o Dharma e a Poga. Encantava-os a ginástica religiosa, impregnada de vazio e palavrório.

Por tais razões, o Oriente me impressionou como uma grande e desventurada família humana, sem destinar lugar em minha consciência para seus ritos nem para seus deuses. Não creio pois que minha poesia de então tenha refletido outra coisa que a solidão de um forasteiro transplantado para um mundo violento e estranho.

Lembro de um daqueles turistas do ocultismo, vegetariano e conferencista. Era um sujeito pequenino, de estatura média, calva reluzente e total, claríssimos olhos azuis, olhar penetrante e cínico, de sobrenome Powers. Vinha da América do Norte, da Califórnia, professava a religião budista e suas conferências finalizavam sempre com a seguinte prescrição dietética: “Como dizia Rockefeller, alimente-se com uma laranja por dia.”

Powers me pareceu simpático pelo seu jeito alegre. Falava espanhol. Depois de suas conferências, íamos devorar juntos grandes buchadas de carneiro assado (khebab) com cebola. Era um budista teológico, não sei se legítimo ou ilegítimo, com uma voracidade mais autêntica que o conteúdo de suas conferências.

Logo se ligou, em primeiro lugar, a uma jovem mestiça, enamorada por seu smoking e por suas teorias, uma senhorita anêmica, de olhar dolente, que o julgava um deus, um Buda vivo. Assim começam as religiões.

Ao cabo de alguns meses desse amor, veio me buscar certo dia para que presen-ciasse um novo casamento seu. Na motocicleta, cedida pela firma comercial em que trabalhava como vendedor de refrigeradores, deixamos velozmente para trás bosques, mosteiros e arrozais. Chegamos finalmente a uma pequena aldeia de construção chinesa e habitantes chineses. Powers foi recebido com foguetes e música, enquanto a noiva adolescente permanecia sentada, maquilada de branco como um ídolo em uma cadeira mais alta que as outras. Ao compasso da música tomamos limonadas de todas as cores. Em momento nenhum Powers e sua nova esposa se dirigiram a palavra.

Regressamos à cidade. Powers explicou que nesse ritual somente a noiva se casava. As cerimônias continuariam sem necessidade de sua presença. Mais tarde voltaria para viver com ela.

- Você se dá conta que está praticando poligamia? - perguntei.

- Minha outra esposa sabe de tudo e ficará muito contente - respondeu.

Nesta afirmação havia tanta verdade como em sua história da laranja cada dia. Uma vez chegados à sua casa, à casa de sua primeira mulher, a mestiça dolente, encontramo-la agonizando com o copo de veneno na mesinha de cabeceira e uma carta de despedida. Seu corpo moreno, totalmente nu, estava imóvel sob o mosquiteiro. Durou várias horas sua agonia.

Acompanhei Powers porque ele sofria evidentemente, apesar de começar a achá-lo repulsivo. O cínico que carregava no íntimo tinha desmoronado. Fui com ele à cerimônia funerária. Na margem de um rio colocamos o ataúde barato sobre um monte de lenha. Powers ateou fogo nos gravetos com um fósforo, murmurando frases rituais em sânscrito.

Uns poucos músicos vestidos com túnicas alaranjadas salmodiavam ou sopravam tristíssimos instrumentos. A lenha se apagava e era preciso reavivar o fogo com os fósforos. O rio corria indiferente dentro de suas margens. O eterno céu azul do Oriente demonstrava também uma impassibilidade absoluta e um desamor infinito para com aquele triste funeral solitário de uma pobre abandonada.

 

Minha vida oficial funcionava uma só vez cada três meses quando arribava um barco de Calcutá que transportava parafina sólida e grandes caixas de chá para o Chile. Febrilmente eu devia timbrar e assinar documentos. Logo viriam outros três meses de inação e de contemplação ermitã de mercados e templos. Esta é a época mais dolorosa de minha poesia.

A rua era minha religião. A rua birmanesa, a cidade chinesa com seus teatros ao ar livre e seus dragões de papel e suas esplêndidas lanternas; a rua hindu, a mais humilde, com seus templos que eram comércio de uma casta e a gente pobre prosternada do lado de fora, no barro; os mercados onde as folhas de bétel levantavam-se em pirâmides verdes como montanhas de malaquita; as casas de pássaros, os lugares de venda de feras e pássaros selvagens; as ruas retorcidas pelas quais transitavam as birmanesas flexíveis com um comprido charuto na boca, tudo isso me absorvia e ia me submergindo pouco a pouco no sortilégio da vida real.

As castas tinham classificado a população nativa como num coliseu de galerias superpostas, em cujo topo sentavam-se os deuses. Os ingleses mantinham por sua vez sua escala de castas que ia desde o pequeno balconista, passava pelos profissionais e intelectuais, continuava com os exportadores e culminava com o cume da magnificência, no qual sentavam-se comodamente os aristocratas do Civil Service e os banqueiros do empire.

Estes dois mundos não se tocavam. A gente do país não podia entrar nos lugares destinados aos ingleses e os ingleses viviam alheios à palpitação do país. Tal situação me trouxe dificuldades. Meus amigos britânicos me viram no veículo denominado gharry, carrinho especializado em rolantes e efêmeros encontros galantes, e me advertiram amavelmente que um cônsul como eu não devia usar esses veículos por motivo algum. Também me intimaram a não sentar num restaurante persa, lugar cheio de vida onde eu tomava o melhor chá do mundo em pequenas taças transparentes. Foram as últimas admoestações. Depois deixaram de me cumprimentar.

Senti-me feliz com o boicote. Aqueles europeus preconceituosos não eram muito interessantes e convenhamos que, afinal de contas, eu não tinha vindo ao Oriente para conviver com colonizadores em trânsito mas sim com o espírito antigo daquele mundo, com aquela grande e desventurada família humana. Adentrei-me tanto na alma e na vida dessa gente que me enamorei de uma nativa. Vestia-se como uma inglesa e seu nome de guerra era Josie Bliss. Mas na intimidade de sua casa, que logo compartilhei, despojava-se dos vestidos e do nome para usar seu deslumbrante sarong e seu recôndito nome birmanês.

 

                    Tango do viúvo

Comecei a ter dificuldades em minha vida particular. A doce Josie Bliss foi-se obcecando e se apaixonando até adoecer de ciúme. A não ser por isso talvez eu tivesse ficado indefinidamente junto dela. Sentia ternura por seus pés nus, pelas flores brancas que brilhavam na sua cabeleira escura. Mas seu temperamento a levava a um paroxismo selvagem. Tinha ciúme e aversão às cartas que me chegavam de longe, escondia meus telegramas sem abri-los, olhava com rancor o ar que eu respirava.

Às vezes era despertado por uma luz, um fantasma se movia atrás do mosquiteiro: era ela, vestida de branco, brandindo o longo e afiado punhal indígena, era ela, rondando horas inteiras em redor da cama sem se decidir a me matar. “Quando morreres, meus temores se acabarão”, dizia. No dia seguinte celebrava misteriosos ritos para resguardar minha fidelidade.

Acabaria me matando. Por sorte recebi uma mensagem oficial que participava minha transferência para o Ceilão. Preparei minha viagem em segredo e um dia, abandonando minha roupa e meus livros, saí da casa como de costume e embarquei no navio que me levaria para longe.

Deixava Josie Bliss, espécie de pantera birmanesa, com a maior dor. Apenas o barco começou a jogar nas ondas do golfo de Bengala, pus-me a escrever o poema “Tango do Viúvo”, trágica peça de minha poesia destinada à mulher que perdi e que me perdeu porque em seu sangue crepitava sem descanso o vulcão da cólera. Que noite tão grande, que terra tão solitária!

 

                   O ópio

Tinha ruas inteiras dedicadas ao ópio... Sobre estrados baixos estendiam-se os fumadores... Eram os verdadeiros lugares religiosos da India... Não tinham nenhum luxo, nem tapetes, nem coxins de seda... Tudo eram madeiras sem pintar, cachimbos de bambu e almofadas de louça chinesa... Emanava um ar de decoro e austeridade que não existia nos templos... Os homens adormecidos não faziam movimento nem ruído... Fumei um cachimbo... Não era nada demais... Era só um fumo caliginoso, fraco e leitoso... Fumei quatro cachimbos e fiquei cinco dias doente, com náuseas que me vinham da espinha dorsal e que me desciam do cérebro... E um ódio ao sol e à existência... O castigo do ópio... Mas aquilo não podia ser tudo... Tanto se tinha dito, tanto se tinha escrito, tanto se tinha metido nas maletinhas e nas maletas, tratando de esconder das aduanas o veneno, o famoso veneno sagrado. Tinha que vencer o asco... Devia conhecer o ópio, saber do ópio, para dar meu testemunho... Fumei muitos cachimbos até que conheci... Não há sonhos, não há imagens, não há paroxismo... Há um enfraquecimento melódico, como se uma nota infinitamente suave se prolongasse na atmosfera... Um desvanecimento, um vazio dentro da gente... Qualquer movimento do cotovelo, da nuca, qualquer som distante de carro, uma buzina ou um grito na rua se integram num todo, de uma delícia recusante... Compreendi por que os peões de plantação, os jornaleiros, os rickshamen que puxam o ricksha o dia inteiro, logo se deixavam ficar ali, na penumbra, imóveis... O ópio não era o paraíso dos exóticos que me haviam pintado, mas a fuga dos explorados... Todos aqueles do salão de fumar eram pobres-diabos... Não tinha nenhum coxim bordado, nenhum indício da menor riqueza... Nada brilhava no recinto, nem sequer os olhos semicerrados dos fumadores... Descansavam, dormiam?... Nunca soube... Ninguém falava... Ninguém falava nunca... Não havia móveis, tapetes, nada... Sobre os estrados gastos, polidos de tanto contato humano, viam-se pequenas almofadas de madeira... Nada mais a não ser o silêncio e o aroma do ópio, estranhamente repulsivo e poderoso... Sem dúvida existia ali um caminho para o aniquilamento... O ópio dos magnatas, dos colonizadores, destinava-se aos colonizados... Os salões de fumar tinham à porta sua licença autorizada, seu número e sua patente... No interior reinava um grande silêncio opaco, uma inação que amortecia a desdita e tornava doce o cansaço... Um silêncio caliginoso, sedimento de muitos sonhos truncados que achavam seu remanso... Aqueles que sonhavam com os olhos entrecerrados estavam vivendo uma hora submersos sob o mar, uma noite inteira em uma colina, gozando de um repouso sutil e deleitoso... Desde então não voltei mais aos salões de fumar... Já sabia... Já conhecia... Já tinha apalpado algo inatingível... remotamente oculto atrás do fumo...

 

                   Ceilão

Ceilão, a mais bela ilha grande do mundo, tinha até 1929 a mesma estrutura colonial que a Birmânia e a India. Os ingleses encastelavam-se em seus bairros e seus clubes, rodeados por uma multidão imensa de músicos, oleiros, tecelões, escravos de plantações, monges vestidos de amarelo e imensos deuses talhados nas montanhas de pedra.

Entre os ingleses vestidos de smoking todas as noites e os hindus inatingíveis em sua imensidade fabulosa, eu não podia deixar de escolher senão a solidão, e assim aquela época foi a mais solitária de minha vida. Mas lembro dela igualmente como a mais luminosa, como se um relâmpago de fulgor extraordinário se detivesse em minha janela para iluminar meu destino por dentro e por fora.

Fui viver num pequeno bangalô, recém-construído, no subúrbio de Wellawatha, junto do mar. Era uma zona despovoada e as ondas arremetiam contra os arrecifes. De noite a música marinha aumentava.

Pela manhã o milagre daquela natureza recém-lavada surpreendia. Desde cedo eu estava com os pescadores. As embarcações providas de longuíssimos flutuadores pareciam aranhas do mar. Os homens pescavam peixes de cores violentas, peixes como pássaros da selva infinita, uns de escuro azul fosforescente como intenso veludo vivo, outros em forma de globo pungente que se desinflava até converter-se num pobre saquinho de espinhas.

Contemplava com horror o massacre das jóias do mar. O pescado era vendido em pedaços à pobre população. O facão dos carrascos cortava em pedaços aquela matéria divina das profundezas para transformá-la em mercadoria sangrenta.

Andando pela costa chegava ao banho dos elefantes. Acompanhado de meu cachorro, não podia me enganar. Da água tranqüila surgia um imóvel fungo cinzento que logo se convertia em serpente, depois em cabeça imensa e por último em montanha com presas. Nenhum país do mundo tinha nem tem tantos elefantes trabalhando nos caminhos. Era assombroso vê-los agora-longe do circo ou das grades do jardim zoológico-, atravessando com sua carga de madeira de um lado para outro, como laboriosos e grandes operários.

Minhas únicas companhias eram meu cachorro e minha mangusta. Esta, recém-saída da selva, cresceu a meu lado, dormia em minha cama e comia em minha mesa. Ninguém pode imaginar a ternura de uma mangusta. O animalzinho conhecia cada minuto de minha vida, passeava por entre meus papéis e corria atrás de mim o dia todo. Enrodilhava-se entre meu ombro e minha cabeça na hora da sesta e dormia ali com o sono sobressaltado e elétrico dos animais selvagens.

Minha mangusta domesticada ficou famosa no subúrbio. Os mangustos conser-vam um prestígio algo mitológico das contínuas batalhas que travam valentemente com as tremendas cobras. É o que eu acho depois de tê-los visto lutar muitas vezes contra as serpentes, às quais vencem somente por sua agilidade e por sua grossa camada de pêlo cor de sal e pimenta que engana e desconcerta o réptil. Por lá se acredita que o mangusto, depois dos combates contra seus venenosos inimigos, sai em busca das ervas do antídoto.

O certo é que o prestígio da mangusta - que me acompanhava todos os dias nas longas caminhadas pelas praias - fez com que uma tarde todos os meninos do bairro se dirigissem à minha casa em imponente procissão. Havia aparecido na rua uma serpente terrível e eles vinham à procura de Kiria, minha famosa mangusta, cujo triunfo indubitável apressavam-se a celebrar. Seguido por meus admiradores, um bando de garotos tamiles e cingaleses, sem outra roupa além de suas tangas, encabecei o desfile guerreiro com a mangusta nos braços.

O ofídio era uma espécie negra da temível pollongha ou víbora de Russell, de veneno mortífero. Tomava sol no gramado, sobre um encanamento branco do qual se destacava como um látego na neve.

Meus seguidores ficaram para trás, silenciosos. Avancei pelo encanamento. A uns dois metros de distância, defronte da víbora, larguei minha mangusta. Kiria farejou o perigo no ar e se dirigiu com passos lentos até à serpente. Eu e meus pequenos acompanhantes prendemos a respiração. A grande batalha ia começar. A serpente se enroscou, levantou a cabeça, abriu as mandíbulas e dirigiu o olhar hipnótico para o animalzinho. A mangusta continuou avançando. Mas a poucos centímetros da boca do monstro deu-se conta exata do que ia acontecer. Deu então um grande salto, empreendeu vertiginosa carreira em sentido contrário e deixou para trás serpente e espectadores. Não parou de correr até chegar ao meu quarto.

Assim perdi meu prestígio no subúrbio de Wellawatha há mais de trinta anos.

 

Nessa época minha irmã me trouxe um caderno contendo minhas poesias mais antigas, escritas em 1918 e 1919. Lendo-as, sorri da dor infantil e adolescente, diante do sentimento literário de solidão que se desprende de toda minha obra de juventude. O escritor jovem não pode escrever sem esse estremecimento de solidão, ainda que seja fictício, assim como o escritor maduro não fará nada sem o sabor de convívio humano, de sociedade.

Conheci a verdadeira solidão naqueles dias e anos de Wellawatha. Dormi todo aquele tempo num catre de campanha como um soldado, como um explorador. Não tive outra companhia além de uma mesa e duas cadeiras, meu trabalho, meu cachorro, minha mangusta e o boy que me servia e voltava para sua aldeia à noite. Este homem não era propriamente companhia; sua condição de servidor oriental obrigava-o a ser mais silencioso que uma sombra. Chamava-se ou se chama Bhrampy. Não era preciso ordenar-lhe nada pois tinha tudo pronto: a comida na mesa, a roupa acabada de passar, a garrafa de uísque na varanda. Parecia que tinha esquecido a linguagem. Só sabia sorrir com grandes dentes de cavalo.

A solidão neste caso não era tema de invocação literária mas era uma coisa dura como o muro de um prisioneiro, contra o qual a gente pode quebrar a cabeça sem que ninguém acuda, mesmo que a gente grite ou chore.

Eu compreendia que através do ar azul, da areia dourada, para lá da selva primordial, para lá das víboras e dos elefantes, tinha centenas, milhares de seres humanos que cantavam e trabalhavam junto d'água, que acendiam fogueiras e modelavam cântaros; e também mulheres ardentes que dormiam nuas sobre as esteiras delgadas, à luz das estrelas imensas. Mas como aproximar-me desse mundo palpitante sem ser considerado um inimigo?

Pouco a pouco fui conhecendo a ilha. Uma noite atravessei todos os subúrbios sombrios de Colombo para participar de um banquete. De uma casa sombria saía a voz de uma criança ou de uma mulher que cantava. Fiz com que o ricksha se detivesse. Junto à porta humilde me surpreendeu uma emanação que é o aroma inconfundível do Ceilão: uma mistura de jasmins, suor, azeite de coco, frangipana e magnólia. Os rostos sombrios, confundidos com a cor e o cheiro da noite, convidaram-me a entrar. Sentei-me silencioso nas esteiras enquanto continuava na obscuridade a misteriosa voz humana que tinha feito com que eu me detivesse, voz de criança ou de mulher, trêmula e soluçante que subia até o indizível, se interrompia de súbito, baixava até se tornar sombria como as trevas, aderindo ao aroma das frangipanas, enroscava-se em arabes-cos e caía logo-com todo seu peso cristalino-como se o mais alto dos repuxos houvesse tocado o céu para se desfazer em seguida entre os jasmins.

Continuei ali por muito tempo, extático sob o sortilégio dos tambores e a fascinação daquela voz. Logo continuei meu caminho, embriagado pelo enigma de um sentimento indecifrável, de um ritmo cujo mistério saía de toda a terra, uma terra sonora, envolta em sombra e aroma.

Os ingleses já estavam sentados à mesa, vestidos de preto e branco.

- Perdoem-me. Parei no caminho para ouvir música - disse.

Eles, que viviam no Ceilão há vinte e cinco anos, surpreenderam-se elegante-mente. Música? Os nativos tinham música? Eles não sabiam. Era a primeira vez que ouviam dizer.

Este terrível distanciamento dos colonizadores ingleses do vasto mundo asiático nunca teve fim. E sempre significou um alheamento anti-humano, um desconhe-cimento total dos valores e da vida daquela gente.

Havia exceções no colonialismo, segundo me informei mais tarde. De repente algum inglês do Club Service se enamorava perdidamente de uma beldade nativa. Era imediatamente expulso de seu posto e isolado dos compatriotas como um leproso. Naquela época aconteceu também que os colonizadores mandaram queimar a cabana de um camponês cingalês com a intenção de desalojá-lo e desapropriar suas terras. O inglês que devia executar as ordens de arrasar a choça era um funcionário modesto. Chamava-se Leonardo Woolf. Mas se negou a fazê-lo e foi destituído de seu cargo. Devolvido à Inglaterra, escreveu ali um dos melhores livros que jamais foram escritos sobre o Oriente: A village in the jungle, obra-prima da vida verdadeira e da literatura real, um pouco ou muito prejudicado pela fama da mulher de Woolf, nada menos que Virginia Woolf, grande escritora subjetiva de renome universal.

Pouco a pouco começou a romper-se a crosta impenetrável e tive alguns poucos e bons amigos. Descobri ao mesmo tempo a juventude impregnada de colonialismo cultural que não falava senão dos últimos livros aparecidos na Inglaterra. Descobri que Lionel Wendt, pianista, fotógrafo, crítico, cinematografista, era o centro da vida cultural que se debatia entre os estertores do império e uma reflexão sobre os valores puros do Ceilão.

Lionel Wendt, que possuía uma grande biblioteca e recebia os últimos livros da Inglaterra, adquiriu o extravagante e bom costume de mandar à minha casa, situada longe da cidade, um ciclista carregado com um saco de livros cada semana. Assim, durante aquele tempo, li quilômetros de novelas inglesas, entre elas Lady Chatterley em sua primeira edição privada e publicada em Florença. As obras de Lawrence me impressionaram por sua aproximação poética e certo magnetismo vital dirigido às relações secretas entre os seres. Mas logo me dei conta de que, apesar de seu gênio, estava frustrado como tantos grandes escritores ingleses, por seus pruridos pedagógicos. D. H. Lawrence quer ditar regras de educação sexual, o que tem pouco a ver com nossa aprendizagem espontânea da vida e do amor. Terminou decididamente por me aborrecer, sem que tenha diminuído minha admiração por sua torturada busca místico-sexual, mais dolorosa porque inútil.

 

Entre as coisas do Ceilão que relembro inclui-se uma grande caçada de elefantes.

Os elefantes tinham-se propagado em excesso em um determinado distrito e incursionavam danificando casas e plantações. Por mais de um mês ao longo de um grande rio os camponeses-com fogo, com fogueiras e tantãs-foram agrupando os rebanhos selvagens e impelindo-os até um recanto da selva. De noite e de dia as fogueiras e o som inquietavam as grandes bestas que se moviam como um rio lento até o noroeste da ilha.

O kraal estava preparado para aquele dia. As paliçadas obstruíam uma parte do bosque. Por um corredor estreito vi o primeiro elefante que entrou e se sentiu cercado. Já era tarde. Avançavam centenas mais pelo estreito corredor sem saída. O imenso rebanho de cerca de quinhentos elefantes não pôde avançar nem retroceder. Os machos mais poderosos dirigiram-se para as paliçadas tentando derrubá-las, mas atrás delas surgiram lanças inumeráveis que os detiveram. Recuaram então para o centro do recinto, decididos a proteger as fêmeas e os filhotes. Era comovedora sua defesa e sua organização. Lançavam um chamado angustioso, espécie de relincho ou trombetada, e em seu desespero arrancavam pela raiz as árvores mais fracas. Súbito, cavalgando dois grandes elefantes domesticados, entraram os domadores. A parelha domesticada atuava como policiais vulgares. Colocavam-se às costas do animal prisioneiro, golpeavam-no com as trombas e ajudavam a reduzi-lo à imobilidade. Os caçadores então amarravam-lhe uma pata traseira com cordas grossas a uma árvore vigorosa. Um por um foram submetidos dessa maneira.

O elefante prisioneiro recusa o alimento por muitos dias. Mas os caçadores conhecem suas fraquezas. Deixam-no jejuar algum tempo e logo lhes trazem brotos e grelos de seus arbustos favoritos, desses que, quando estavam em liberdade, procuravam através de longas viagens pela selva. Finalmente o elefante se decide a comer. Já está domesticado. Já começa a aprender seus trabalhos pesados.

 

                   A vida em Colombo

Em Colombo não se notava aparentemente nenhum sintoma revolucionário. O clima político diferia do da India. Tudo estava oculto numa tranqüilidade opressiva. O país dava para os ingleses o chá mais fino do mundo.

O país estava dividido em setores ou compartimentos. Depois dos ingleses, que ocupavam o alto da pirâmide e viviam em grandes residências com jardins, vinha uma classe média semelhante à dos países da América do Sul. Chamavam-se ou chamam-se burghers e descendiam dos antigos bôeres, colonos holandeses da África do Sul que foram confinados no Ceilão durante a guerra colonial do século passado.

Mais abaixo estava a população budista e maometana dos cingaleses, composta de muitos milhões. E ainda mais abaixo, na categoria de trabalho pior remunerado, contavam-se também aos milhões os imigrantes nativos, todos eles do sul do país, de idioma tamil e religião hindu.

No chamado “mundo social” que desdobrava suas pompas nos belos clubes de Colombo, dois esnobes notáveis disputavam a primazia. Um era um falso nobre francês, o conde de Mauny, que tinha seus adeptos; o outro era um polaco elegante e displicente, meu amigo Winzer, que pontificava nos poucos salões. O homem era notavelmente engenhoso, bastante cínico e inteirado de tudo quanto existe no universo. Sua profissão era curiosa - “conservador do tesouro cultural e arqueológico” - e foi para mim uma revelação quando uma vez o acompanhei em uma de suas inspeções oficiais.

As escavações tinham revelado duas antigas cidades magníficas que a selva havia tragado: Anuradapura e Polonaruwa. Colunas e corredores brilharam de novo sob o esplendor do sol singalês. Naturalmente tudo aquilo que era transportável partia bem embalado para o British Museum de Londres.

Meu amigo Winzer era competente. Chegava aos mosteiros distantes e, com grande complacência dos monges budistas, transladava para a camioneta oficial as portentosas esculturas de pedra milenar que terminarianl nos museus da Inglaterra. Valia a pena ver a cara de satisfação dos monges vestidos de cor de açafrão quando Winzer deixava com eles, em substituição de suas antiguidades, imagens budistas de celulóide japonês, grosseiramente pintadas. Olhavam-nas com reverência e deposi-tavam-nas nos mesmos altares de onde tinham sorrido por vários séculos as estátuas de jaspe e granito.

Meu amigo Winzer era um excelente produto do império, isto é, um sem-vergonha elegante.

Algo veio perturbar aqueles dias consumidos pelo sol. Inesperadamente, a torrencial Josie Bliss, meu amor birmanês, instalou-se defronte de minha casa. De seu país distante, tinha viajado até ali. Como pensava que não existia arroz senão em Rangoon, chegou com um saco às costas, com nossos discos favoritos de Paul Robeson e com um comprido tapete enrolado. Da porta da frente postou-se a observar e em seguida a insultar e a agredir quantos me visitavam. Josie Bliss, consumida por ciúmes devoradores, ameaçava ao mesmo tempo incendiar minha casa. Lembro que atacou, com seu comprido punhal, uma doce moça eurasiana que veio me visitar.

A polícia colonial considerou que sua presença incontrolada era um foco de desordem na rua tranqüila. Disseram-me que a expulsariam do país se eu não a acolhesse. Sofri vários dias, oscilando entre a ternura que me inspirava seu desventurado amor e o terror que tinha dela. Não podia deixá-la pôr o pé em minha casa. Era uma terrorista amorosa, capaz de tudo.

Finalmente um dia decidiu partir. Rogou que a acompanhasse até o navio. Quando este estava para sair e eu devia abandoná-la, desprendeu-se de seus acompanhantes e, beijando-me num arroubo de dor e amor, encheu-me o rosto de lágrimas. Como num ritual me beijava os braços, a roupa e, súbito, abaixou-se até meus sapatos sem que eu pudesse evitá-lo. Quando se levantou de novo seu rosto estava enfarinhado com o alvaiade de meus sapatos brancos. Não podia pedir que desistisse da viagem, que abandonasse comigo o barco que a levava para sempre. A razão me impedia mas meu coração ganhou ali uma cicatriz que não desapareceu. Aquela dor turbulenta, aquelas lágrimas terríveis rolando sobre o rosto enfarinhado continuam em minha memória.

 

Tinha quase terminado de escrever o primeiro volume de Residencia en la Tierra. No entanto, meu trabalho tinha progredido com lentidão. Estava separado do meu mundo pela distância e pelo silêncio, e era incapaz de entrar de verdade no mundo estranho que me rodeava.

 

Meu livro recolhia como episódios naturais os resultados de minha vida suspensa no vazio: “Mais perto do sangue que da tinta”. Porém meu estilo tornou-se mais apurado e dei asas à repetição de uma melancolia frenética. Insisti pela verdade e pela retórica (porque essas farinhas fazem o pão da poesia) num estilo amargo que porfiou sistematicamente na minha própria destruição. O homem não é só o estilo. É também o que o rodeia e, se a atmosfera não entra dentro do poema, o poema está morto - morto porque não pôde respirar.

Nunca li tanto e com tanto prazer como naquele subúrbio de Colombo em que vivi solitário por muito tempo. De vez em quando voltava a Rimbaud, a Quevedo ou a Proust. Du côté de chez Swam fez-me reviver os tormentos, os amores e os ciúmes da adolescência. Compreendi que naquela frase da sonata de Vinteuil, frase musical que Proust chamou “aérea e olorosa”, não só se saboreia a descrição mais excepcional do som apaixonante mas também uma medida desesperada da paixão.

Meu problema naqueles confins foi encontrar essa música e ouvila. Com a ajuda de meu amigo músico e musicólogo, investigamosaté saber que o Vinteuil de Proust foi formado talvez por Schubert e Wagner e Saint-Saëns e Fauré e D' Indy e César Franck. Minha indigna má educação musical manteve-se ignorante de quase todos esses músicos. Suas obras eram caixas ausentes e fechadas. Meu ouvido nunca reconheceu senão as melodias mais evidentes e isso com dificuldade.

Por fim, avançando na pesquisa, mais literária que sonora, consegui um álbum com os três discos da sonata para piano e violino de César Franck. Não tinha dúvida: ali estava a frase de Vinteuil. Não havia margem de dúvida.

Minha atração tinha sido somente literária. Proust, o maior realista poético, na crônica crítica de uma sociedade agonizante que amou e odiou, deteve-se com apaixonada complacência em muitas obras de arte, quadros e catedrais, atrizes e livros. Mas ainda que sua clarividência iluminasse tudo que tocava, reiterou o encanto desta sonata e sua frase renascente com uma intensidade que talvez não deu a outras descrições. Suas palavras levaram-me a reviver minha própria vida, meus distantes sentimentos perdidos em mim mesmo, em minha própria ausência. Quis ver na frase musical o relato mágico-literário de Proust e adotei ou fui adotado pelas asas da música.

A frase envolve-se na gravidade da sombra, enrouquecendo-se, agravando e dilatando sua agonia. Parece edificar sua angústia como uma estrutura gótica, que as volutas repetem levadas pelo ritmo que eleva sem cessar a mesma flecha.

O elemento nascido da dor busca uma saída triunfante que não renega no vértice sua origem transtornada pela tristeza. Parece enroscar-se numa espiral patética enquanto o piano soturno acompanha repetidas vezes a morte e a ressurreição do som. A intimidade sombria do piano dá à luz mais de uma vez o semeante nascimento até que amor e dor se enlaçam na vitória agonizante.

Para mim não havia mais dúvida de que estas eram a frase e a sonata.

A sombra brusca caía como um punho sobre minha casa perdida entre os coqueiros de Wellawatha mas cada noite a sonata vivia comigo, conduzindo e me envolvendo, dando-me sua tristeza perpétua, sua melancolia vitoriosa.

Os críticos que tanto dissecaram meus trabalhos não viram até agora esta influência secreta que aqui vai confessada. Porque em Wellawatha escrevi grande parte de Residencia en Ia Tierra. Ainda que minha poesia não seja “olorosa nem aérea” mas sim tristemente telúrica, parece-me que esses temas, tão repetidamente melancólicos, integram-se na intimidade retórica daquela música que conviveu comigo.

Anos depois, já de regresso ao Chile, estava numa reunião de jovens com os três grandes da música chilena, acho que em 1932, na casa de Marta Brunet.

Claudio Arrau conversava num canto com Domingo Santa Cruz e Armando Carvajal. Aproximei-me deles mas me olharam apenas, continuando a falar imperturbavelmente de música e de músicos. Procurei chamar a atenção falando daquela sonata, a única que eu conhecia.

Olharam-me distraidamente e com superioridade disseram:

- César Franck? Por que César Franck? Deves conhecer é Verdi.

E continuaram sua conversa, sepultando-me numa ignorância da qual ainda não saí.

 

                   Cingapura

A verdade é que a solidão de Colombo não só era pesada mas também letárgica. Tinha poucos amigos na ruazinha em que vivia. E amigas de várias cores passavam por minha cama de campanha sem deixar nada além do relâmpago físico. Meu corpo era uma fogueira solitária acesa noite e dia naquela costa tropical. Minha amiga Patsy chegava freqüentemente com algumas de suas companheiras, moças morenas e douradas, com sangue de bôeres, de ingleses e de dravidianos. Deitavam comigo esportiva e desinteressadamente.

Uma delas me explicou suas visitas às chummeries. Assim eram chamados os bangalôs em que grupos de jovens ingleses, pequenos comerciários e industriários, viviam em comum para economizar casa e comida. Sem nenhum cinismo, como uma coisa natural, contou-me a moça que numa ocasião tinha ido para a cama com quatorze deles.

- E como fizeste? - perguntei.

- Estava sozinha com eles naquela noite em que davam uma festa.

Puseram um gramofone e eu dançava um pouco com cada um. Durante a dança, desaparecíamos para dentro de algum dos quartos. Assim todos ficaram contentes.

Não era uma prostituta. Era mais um produto colonial, um fruto cândido e generoso. Sua história me impressionou e nunca tive por ela senão simpatia.

Meu solitário e isolado bangalô era distante de toda urbanização. Quando o aluguei, tratei de saber onde era a privada, que não se via em parte alguma. Na verdade ficava muito distante do chuveiro, lá no fundo da Casa.

Examinei-a com curiosidade. Era uma caixa de madeira com um buraco no centro, muito semelhante ao que conheci na minha infância no campo, em meu país. Só que os nossos estavam situados sobre um poço fundo ou sobre um córrego. Aqui o depósito era um simples vaso de metal sob o buraco redondo.

O vaso amanhecia limpo todos os dias sem que eu me desse conta de como desaparecia seu conteúdo. Certa manhã me levantei mais cedo que de costume e fiquei perplexo vendo o que acontecia.

Entrou pelo fundo da casa, como uma estátua escura que caminhasse, a mulher mais bela que eu tinha visto até então no Ceilão, de raça tâmil, da casta dos párias. Estava vestida com um sari vermelho e dourado da fazenda mais ordinária. Nos pés descalços trazia pesadas pulseiras. De cada lado do nariz brilhavam dois pequenos pontos vermelhos. Poderiam ser vidros ordinários mas nela pareciam rubis.

Dirigiu-se com passo solene até a privada, sem sequer me olhar, sem tomar conhecimento de minha existência, e desapareceu com a vasilha sórdida sobre a cabeça, afastando-se e caminhando como uma deusa.

Era tão bela que apesar de seu ofício humilde me deixou preocupado. Como se se tratasse de um animal arisco, vindo da selva, pertencia a outro tipo de vida, a um mundo separado. Chamei-a sem resultado. Depois, vez que outra, deixei presentes em seu caminho, sedas ou frutas. Ela passava sem ouvir nem olhar. Aquele trajeto miserável tinha se convertido por causa de sua beleza escura na cerimônia obrigatória de uma rainha indiferente.

Certa manhã, decidido a tudo, segurei-a fortemente pelo pulso e a encarei. Não havia idioma algum em que pudesse falar com ela. Deixou-se conduzir por mim sem um sorriso e logo estava nua em minha cama. Sua cintura delgadíssima, seus quadris cheios, as transbordantes taças dos seios, faziam-na igual às esculturas milenares do sul da India. A união foi a de um homem com uma estátua. Permaneceu o tempo todo com os olhos abertos, impassível. Fazia bem em me desprezar. A experiência não se repetiu mais.

 

Li com dificuldade o cabograma. O Ministério das Relações Exteriores me comu-nicava uma nova nomeação. Deixava de ser cônsul em Colombo para desempenhar funções idênticas em Cingapura e Batávia. Isto me fazia subir do primeiro círculo da pobreza para o segundo. Em Colombo tinha direito de receber (se creditassem) a importância de cento e sessenta e seis dólares e sessenta e seis centavos. Agora, sendo cônsul ao mesmo tempo em duas colônias, podia receber (se creditassem) duas vezes cento e sessenta e seis dólares e sessenta e seis centavos, quer dizer, a importância de trezentos e trinta e três dólares e trinta e dois centavos (se creditassem). O que queria dizer, para começar, que deixaria de dormir numa cama de campanha. Minhas aspirações materiais não eram excessivas.

Mas o que faria com Kiria, minha mangusta? Daria de presente para aqueles garotos desrespeitosos do bairro que já não acreditavam em seu poder contra as serpentes? Não podia nem pensar nisso. Não cuidariam dela nem a deixariam comer na mesa como era seu costume comigo. Devia soltá-la na selva para que voltasse a seu estado primitivo? Jamais. Sem dúvida tinha perdido seus instintos de defesa e as aves de rapina a devorariam sem aviso prévio. Por outro lado, como levá-la comigo? No navio não aceitariam passageiro tão singular.

Decidi então levar na viagem Brampy, meu “boy” cingalês. Seria um luxo de milionário e era também uma loucura porque iríamos para países-Malásia, Indonésia-cujos idiomas Bnampy desconhecia totalmente. Mas a mangusta poderia viajar incógnita na confusão da coberta do navio, despercebida dentro de uma cesta. Brampy a conhecia tão bem quanto eu. O problema era a alfândega mas o astuto Brampy se encarregaria de burlá-la.

E assim, com tristeza, alegria e mangusta, deixamos a ilha de Ceilão rumo a outro mundo desconhecido.

 

É difícil entender por que o Chile tinha tantos consulados espalhados por toda parte. Não deixa de ser estranho que uma república tão pequena, escondida perto do Pólo Sul, envie e mantenha representantes oficiais em arquipélagos, costas e arrecifes do outro lado do globo.

No fundo, explico, estes consulados eram produto da fantasia e da “self-importance” que nós, os americanos do sul, nos damos. Por outro lado, já disse que nesses lugares longínquos embarcavam para o Chile juta, parafina sólida para fabricar velas e, sobretudo, chá, muito chá. Os chilenos tomamos chá quatro vezes ao dia. E não podemos cultivá-lo. Certa vez desencadeou-se uma grande greve dos trabalhadores de salitre por falta deste produto tão exótico. Lembro que alguns exportadores ingleses me perguntaram certa vez, depois de alguns uísques, que fazíamos os chilenos com tais quantidades exorbitantes de chá.

- Tomamos - disse.

(Se pensavam saber de mim o segredo de algum aproveitamento industrial, senti decepcioná-los.)

 

O consulado em Cingapura tinha já dez anos de existência. Desci pois com a confiança que me davam meus vinte e três anos de idade, sempre acompanhado por Brampy e de minha mangusta. Fomos diretamente ao Hotel Raffles. Ali mandei lavar minha roupa, que não era pouca, e logo me sentei na varanda. Estendi-me preguiçosamente em uma easychair e pedi um, dois e até três ginphait.

Tudo era muito Somerset Maugham até que me ocorreu procurar no catálogo de telefones a sede de meu consulado. Não estava registrado, com todos os diabos! Fiz na hora um chamado de urgência aos estabelecimentos do governo inglês. Responderam-me, depois de uma consulta, que ali não havia consulado do Chile. Perguntei então pelo cônsul, senhor Mansilla. Não o conheciam.

Senti-me acabrunhado. Tinha recursos apenas para pagar um dia de hotel e a lavagem de minha roupa. Pensei que o consulado fantasma teria sua sede em Batávia e decidi continuar viagem no mesmo navio que me trouxe, o qual ia precisamente até Batávia e ainda estava no porto. Mandei tirar minha roupa da tina onde estava de molho, Brampy fez com ela uma trouxa úmida, e corremos até o cais.

Já içavam o portaló. Subi os degraus ofegante. Meus ex-companheiros de viagem e os oficiais do navio me olharam surpreendidos. Fiquei na mesma cabina que tinha deixado pela manhã e, estendido de costas no beliche, fechei os olhos enquanto o navio se afastava do porto fatídico.

Tinha conhecido uma moça judia no navio. Chamava-se Kruzi, era loura, gordinha, de olhos color naranja (1) e alegria transbordante. Disse-me que tinha um bom emprego em Batávia. Aproximei-me dela na festa final da travessia. Entre um brinde e outro me arrastava para dançar. Eu a seguia desajeitadamente nas lentas contorções usadas na época. Naquela última noite fizemos amor em minha cabina, amistosamente, conscientes de que nossos destinos se uniam por acaso e por uma só vez. Contei-lhe minhas desventuras. Ela se compadeceu suavemente e esta ternura passageira me penetrou até à alma.

Kruzi, por sua vez, confessou-me a verdadeira ocupação que a esperava em Batávia. Havia certa organização mais ou menos internacional que colocava moças européias nas camas de asiáticos respeitáveis. Tinham dado a ela opção entre um marajá, um príncipe do Sião e um rico comerciante chinês. Decidiu-se por este último, um homem jovem mas tranqüilo.

Quando descemos à terra, no dia seguinte, vi o Rolls Royce do magnata chinês e também o perfil do dono através das floridas cortininhas do automóvel. Kruzi desapareceu entre a multidão e as bagagens.

Instalei-me no hotel Der Nederlanden. Preparava-me para o almoço quando vi Kruzi entrar. Jogou-se em meus braços, sufocada pelo pranto.

- Expulsaram-me daqui. Devo partir amanhã.

- Mas quem te expulsa e por quê?

Contou-me entrecortadamente sua desgraça. Estava quase entrando no Rolls Royce quando os agentes da imigração a detiveram para submetê-la a um interro-gatório brutal. Teve que confessar tudo. As autoridades holandesas consideraram um grave delito que ela pudesse viver em concubinato com um chinês. Puseram-na finalmente em liberdade com a promessa de não visitar seu galã e com outra promessa de embarcar no dia seguinte no mesmo navio em que tinha chegado e que voltava ao Ocidente.

O que mais a feria era ter decepcionado aquele homem que a esperava, sentimento a que seguramente não era alheio o imponente Rolls Royce. No entanto, Kruzi no fundo era uma sentimental. Em suas lágrimas havia muito mais que interesse frustrado: sentia-se humilhada e ofendida.

- Sabes seu endereço? Tens o telefone dele? - perguntei.

- Sim - respondeu. - Mas tenho medo que me prendam. Ameaçaram-me trancafiar num calabouço.

- Não tens nada a perder. Vai ver esse homem que pensou em ti sem te conhecer. Deves a ele pelo menos algumas palavras. Agora que te importam os policiais holan-deses? Vinga-te deles. Vai ver teu chinês. Toma precauções, engana teus humilhadores e te sentirás melhor. Acho que assim partirás mais contente deste país.

Naquela noite, bem tarde, voltou minha amiga. Tinha ido ver seu admirador por correspondência. Contou-me o encontro. O homem era um oriental afrancesado e instruído. Falava francês com naturalidade. Era casado segundo os padrões da honorável instituição do casamento chinês e se aborrecia muitíssimo.

O pretendente amarelo tinha preparado, para a noiva branca que lhe chegava do Ocidente, um bangalô com jardim, telas contra mosquitos, móveis Luís XIV e uma grande cama que foi posta à prova naquela noite. O dono da casa foi mostrando melancolicamente os pequenos refinamentos que guardava para ela, os garfos e facas de prata (ele só comia com pauzinhos), o bar com bebidas européias e a geladeira cheia de frutas.

Logo se deteve diante de um grande baú hermeticamente fechado. Tirou uma pequena chave da calça, abriu o cofre e mostrou aos olhos de Kruzi o mais estranho dos tesouros: centenas de calças femininas, sutis calçolas, calcinhas mínimas. Peças íntimas de mulher, às centenas ou milhares, enchiam o móvel santificado pelo ácido aroma do sândalo. Ali estavam reunidas todas as sedas, todas as cores. A escala de cores se desdobrava do violeta ao amarelo, de todas as gamas do rosa aos verdes secretos, dos vermelhos violentos aos negros refulgentes, dos elétricos azuis celestes aos brancos nupciais. Todo o arco-íris da concupiscência masculina de um fetichista que, sem dúvida, colecionou aquele florilégio para deleite de sua própria voluptuosidade.

- Fiquei deslumbrada - disse Kruzi, voltando a soluçar. – Tomei ao acaso um punhado dessas peças e aqui as tenho.

Senti-me comovido, eu também, pelo mistério humano. Nosso chinês, um comerciante sério, importador e exportador, colecionava calcinhas femininas como se fosse um caçador de borboletas. Quem diria?

- Deixe uma para mim - disse à minha amiga.

Ela escolheu uma branca e verde, acariciando-a suavemente antes de me entregar.

- Com dedicatória, Kruzi. por favor.

Então ela a esticou cuidadosamente e escreveu meu nome e o seu sobre a seda, molhando-a também com algumas lágrimas.

No dia seguinte partiu sem que eu visse, como não voltei a vê-la nunca mais. A vaporosa calcinha, com sua dedicatória e suas lágrimas, andou em minhas valises misturada com minhas roupas e meus livros por muitos e muitos anos. Não soube nem quando nem como alguma visitante abusada saiu de minha casa vestida com ela.

 

1 - Color naranja: dourados, áureos. (N. da T.)

 

                   Batávia

Naquela época, quando ainda não existiam os “motéis” no mundo, o hotel Nederlanden era insólito. Tinha um grande corpo central, destinado à sala de refeições e aos escritórios, e bangalôs individuais, separados entre si por pequenos jardins e árvores poderosas. Em suas altas copas vivia uma infinidade de pássaros, esquilos membranosos que voavam de um galho para outro e insetos que zumbiam como na selva. Brampy esmerou-se na tarefa de cuidar da mangusta, cada vez mais inquieta em sua nova casa.

Aqui sim tinha consulado do Chile. Pelo menos figurava no catálogo de telefones. No dia seguinte, descansado e mais bem vestido, dirigi-me a seus escritórios. O escudo consular do Chile estava pendurado na fachada de um grande edifício. Era uma companhia de navegação. Um dos muitos funcionários me conduziu ao escritório do diretor, um holandês corado e volumoso. Não tinha aparência de gerente de empresa naval mas sim de estivador.

- Sou o novo cônsul do Chile - apresentei-me. - Antes de mais nada agradeço seus préstimos e peço-lhe me colocar a par dos principais assuntos do consulado. Quero tomar posse de meu posto imediatamente.

- Aqui o único cônsul sou eu! - respondeu furibundo.

- Como assim?

- Comecem por pagar o que me devem - gritou.

Pode ser que aquele homem conhecesse navegação mas ignorava a cortesia em qualquer idioma. Atropelava as frases enquanto mordiscava raivosamente um péssimo charuto que empestava o ar.

O energúmeno não me dava quase nenhuma oportunidade de interrompê-lo. Sua indignação e o charuto provocavam-lhe estrondosos ataques de tosse, quando não engasgos que terminavam em cusparadas. Finalmente pude encaixar uma frase em defesa própria:

- Senhor, não lhe devo nada e nada tenho que lhe pagar. Compreendo que o senhor seja cônsul ad honorem, isto é, honorário. E se isto lhe parece discutível, não vejo o que tem a ver com vociferações que não estou disposto a ouvir.

Mais tarde comprovei que não faltava uma parcela de razão ao grosseiro holandês. O sujeito tinha sido vítima de uma verdadeira fraude da qual naturalmente não éramos culpados nem eu nem o governo do Chile. Era Mansilla o tortuoso personagem que provocava a ira do holandês. Fúi comprovando que o tal Mansilla nunca desempenhou seu posto de cônsul em Batávia e que vivia em Paris há muito tempo. Tinha feito um trato com o holandês para que este exercesse suas funções consulares e lhe enviasse mensalmente os papéis e o dinheiro das arrecadações. Ele se comprometia a pagarlhe pelo trabalho uma importância mensal que nunca pagou. Daí a indignação deste holandês telúrico que despencou sobre mim como o desabamento de uma cornija.

 

No dia seguinte senti-me infinitamente enfermo: febre maligna, gripe, solidão e hemorragia. Fazia calor e eu suava, O nariz sangrava como na infância, em Temuco, sob o frio de Temuco.

Fazendo um esforço para sobreviver, dirigi-me ao palácio do governo, que estava situado em Buitenzor, em pleno e esplêndido Jardim Botânico. Os burocratas desviaram com dificuldade os olhos azuis de seus papéis brancos. Tiraram lápis que também transpiravam e escreveram meu nome com algumas gotas de suor.

Saí mais doente do que quando entrei. Andei pelas avenidas até sentar-me sob uma árvore imensa. Aqui tudo era saudável e fresco, a vida respirava tranqüila e poderosa. As árvores gigantescas erguiam diante de mim seus troncos retos, lisos e prateados, até cem metros de altura. Li a placa esmaltada que as classificava. Eram variedades de eucaliptos desconhecidos para mim. Da altura imensa desceu até minhas narinas uma onda fria de perfume. Aquele imperador entre as árvores tinha se apiedado de mim e uma lufada de seu aroma me devolveu a saúde.

Ou talvez seria a solenidade verde do Jardim Botânico, a infinita variedade das folhas, o entrelaçamento das lianas, as orquídeas que explodiam como estrelas-do-mar entre a folhagem, a profundidade submarina daquele recinto florestal, o grito dos guacamaios, o guincho dos macacos, tudo isto me devolveu a confiança em meu destino e em minha alegria de viver, que iam se apagando como uma vela consumida.

Voltei reconfortado ao hotel, sentei-me na varanda de meu bangalô com papel de escrever e minha mangusta sobre a mesa, e decidi enviar um telegrama ao governo do Chile. Faltava a tinta. Foi então quando chamei o boy do hotel e lhe pedi em inglês ink para que me trouxesse um tinteiro. Não deu o menor sinal de que tivesse entendido. Limitou-se a chamar outro boy tão vestido de branco e tão descalço quanto ele, para que o ajudasse a intemretar meus enigmáticos desejos. Não havia nada a fazer. Quando eu dizia ink e movia meu lápis molhando-o num tinteiro imaginário, os sete ou oito boys que tinham se reunido para assessorar o primeiro repetiam em uníssono minha manobra com um lápis que tiravam de suas algibeiras e exclamavam com ímpeto: ink, ink, morrendo de rir. Parecia-lhes um novo rito que estavam aprendendo. Desesperado, corri ao bangalô fronteiriço, seguido pela fila de criados vestidos de branco. De uma mesa solitária peguei um tinteiro que ali estava por milagre e, brandindo-o diante de seus olhos assombrados, gritei:

- This! This!

Então todos sorriram e disseram em coro:

- Tinta! Tinta!

Soube assim que tinta se chama “tinta” em malaio.

 

Chegou o momento em que me restituiram o direito de instalar-me consularmente. Meu disputado patrimônio era: um carimbo de borracha carcomido, uma almofadinha de finta e algumas pastas de documentos que continham somas e subtrações. As subtrações tinham ido parar nos bolsos do ardiloso cônsul que operava de Paris. O holandês burlado entregou-me o embulho insignificante sem deixar de mastigar seu charuto e com um sorriso frio de mastodonte decepcionado.

De vez em quando assinava faturas consulares, aplicando-lhes o desconjuntado carimbo oficial. Assim me chegavam os dólares que, transformados em guilders, mal davam para o meu sustento: alojamento e alimentação para mim, salário de Brampy e os cuidados com minha mangusta Kiria que crescia ostensivamente e comia três ou quatro ovos por dia. Além disso tive que comprar um smoking branco e um fraque que me comprometi a pagar a prestação. Sentava-me às vezes, quase sempre só, nos repletos cafés ao ar livre, junto aos amplos canais, para tomar cerveja ou ginphait; quer dizer, prossegui minha vida de tranqüilidade desesperada.

A rice-table do restaurante do hotel era majestosa. Entrava na sala de refeições uma procissão de dez a quinze criados desfilando na nossa frente com suas respectivas travessas no alto. Cada uma dessas travessas estava dividida em compartimentos e em cada um desses compartimentos brilhava um manjar misterioso. Aquela infinidade comestível erigia sua substância sobre uma base de arroz. Eu, que sempre fui glutão e por muito tempo desnutrido, escolhia um pouco de cada uma das travessas de cada um dos quinze ou dezoito criados até meu prato virar uma pequena montanha onde os peixes exóticos, os ovos indecifráveis, os vegetais inesperados, os frangos inexplicáveis e as carnes insólitas cobriam como uma bandeira o cume de meu almoço. Os chineses dizem que a comida deve ter três excelências: sabor, cheiro e cor. A rice-table de meu hotel unia essas três virtudes com mais uma de quebra: abundância.

 

Por aqueles dias perdi Kiria, minha mangusta. Tinha o perigoso costume de seguir-me aonde eu fosse com passinhos muito rápidos e imperceptíveis. Ir atrás de mim significava expor-se às ruas onde cruzavam automóveis, caminhões, ritsas, pedestres holandeses, chineses, malaios, um mundo turbulento para uma mangusta cândida que não conhecia senão duas pessoas no mundo.

Aconteceu o inevitável. Ao voltar para o hotel e ao olhar Brampy me dei conta da tragédia. Não perguntei nada. Mas quando me sentei na varanda ela não saltou sobre meus joelhos nem passou sua peludíssima cauda em minha cabeça.

Pus um anúncio nos jornais: “Mangusta perdida. Atende pelo nome de Kiria.” Ninguém respondeu. Nenhum vizinho a viu. Talvez estivesse morta. Desapareceu para sempre.

Brampy, seu guardião, sentiu-se tão desonrado que por muito tempo não se apresentou diante de mim. Minha roupa, meus sapatos, eram cuidados por um fantasma. Às vezes pensava escutar o guincho de Kiria que me chamava de alguma árvore noturna. Acendia a luz, abria as janelas e as portas, perscrutava os coqueiros-mas não era ela. O mundo que Kiria conhecia tinha se transformado numa grande fraude, sua confiança tinha se desmoronado na selva ameaçadora da cidade. Senti-me por muito tempo varado pela melancolia.

Brampy, envergonhado, decidiu voltar a seu país. Senti muito mas na realidade aquela mangusta era a única coisa que nos unia. Chegou uma tarde para me mostrar a roupa nova que tinha comprado para chegar bem vestido à sua cidade no Ceilão. Apareceu logo vestido de branco e abotoado até o pescoço. O mais surpreendente era um gorro imenso de chef que tinha encasquetado sobre sua cabeça escuríssima. Estourei numa gargalhada incontida. Brampy não se ofendeu. Pelo contrário, sorriu-me com grande doçura, com um sorriso compreensivo pela minha ignorância.

 

Chamava-se Probolingo a rua de minha nova casa em Batávia. Tinha uma sala, um quarto de dormir, uma cozinha e um banheiro. Nunca tive automóvel mas uma garagem que se manteve sempre vazia. Eu tinha espaço de sobra naquela casa minúscula. Contratei uma cozinheira javanesa, uma velha camponesa, encantadora e que tratava todo mundo igual. Um boy, também javanês, servia a mesa e limpava minha roupa. Ali terminei Residencia en la Tierra.

Minha solidão redobrou. Pensei em me casar. Tinha conhecido uma criolla, ou seja, uma holandesa com algumas gotas de sangue malaio, que gostava muito de mim. Era uma mulher alta e suave, alheia totalmente ao mundo das artes e das letras. (Vários anos mais tarde, minha biógrafa e amiga Margarita Aguirre escreveria acerca daquele meu casamento o seguinte: “Neruda regressou ao Chile em 1932. Dois anos antes tinha se casado na Batávia com Maria Antonieta Agenaar, jovem holandesa estabelecida em Java. Ela está muito orgulhosa de ser a esposa de um cônsul e tem da América uma idéia bastante exótica. Não sabe espanhol mas começa a aprender. Mas não há dúvida de que não é só o idioma o que não aprende. Apesar de tudo, sua união sentimental com Neruda é muito forte, sendo vistos sempre juntos. Maruca, como a chama Pablo, é altíssima, lenta, hierática.”)

Minha vida era bastante simples. Logo conheci outras pessoas amáveis. O cônsul cubano e sua mulher ficaram forçosamente meus amigos, unidos a mim pelo idioma. O compatriota de Capablanca falava sem parar, que nem uma vitrola. Era oficialmente o representante de Machado, o tirano de Cuba. No entanto me contava que os pertences dos presos políticos - relógios, anéis e às vezes dentes de ouro - apareciam na barriga dos tubarões pescados na baía de La Habana.

 

O cônsul alemão Hertz adorava as artes plásticas modernas, os cavalos azuis de Franz Marc, as figuras alongadas de Wilhelm Lehmbruck. Era uma pessoa sensível e romântica, um judeu com séculos de herança cultural. Perguntei-lhe uma vez:

- E esse Hitler, cujo nome aparece de vez em quando nos jornais, esse chefete anti-semita e anticomunista, não acha que ele possa chegar ao poder?

- Impossível - disse.

- Como impossível se o absurdo é o que mais se vê na História?

- É que você não conhece a Alemanha - sentenciou. - Ali é totalmente impossível um agitador louco como esse poder governar sequer uma aldeia.

Pobre amigo, pobre cônsul Hertz! Aquele agitador louco por pouco não governou o mundo. E o ingênuo Hertz deve ter terminado numa anônima e monstruosa câmara de gás com toda sua cultura e seu nobre romantismo.

 

         ESPANHA NO CORAÇÃO

 

                   Como era Federico

Uma longa viagem de dois meses por mar me trouxe de volta ao Chile - em 1932. Publiquei então El hondero entusiasta, que andava extraviado entre meus papéis, e Residencia em la Tierra, que tinha escrito no Oriente. Em 1933 me designaram cônsul do Chile em Buenos Aires, onde cheguei no mês de agosto.

Quase ao mesmo tempo chegou a essa cidade Federico García Lorca para dirigir e estrear sua tragédia teatral Bodas de Sangre na Companhia de Lola Membrives. Ainda não nos conhecíamos mas ficamos nos conhecendo em Buenos Aires e muitas vezes fomos homenageados juntos por escritores e amigos. É certo que não faltaram incidentes. Federico tinha contestadores; a mim também acontecia e continua acontecendo o mesmo. Estes contraditores sentem-se espicaçados e querem apagar a luz para que a gente não os veja. Assim aconteceu daquela vez. Como tinha interesse em ajudar no banquete que o Pen Clube oferecia no Hotel Plaza a Federico e a mim, alguém fez funcionar os telefones o dia inteiro para avisar que a homenagem tinha sido suspensa. E foram tão previdentes que avisaram inclusive o diretor do hotel, a telefonista e o cozinheirochefe para que não recebessem adesões nem preparassem o jantar. Mas a manobra se frustrou e no final nos reunimos, Federico García Lorca e eu com cem escritores argentinos.

Proporcionamos uma grande surpresa. Tínhamos preparado um discurso al alimón. Vocês provavelmente não sabem o que significa essa palavra e eu tampouco sabia. Federico, que estava sempre gracejando e inventando casos, explicou:

- Dois toureiros podem tourear ao mesmo tempo o mesmo touro e com uma única capa. Esta é uma das provas mais perigosas da tauromaquia. Por isso se vê muito poucas vezes. Não mais de duas ou três vezes num século e só podem fazê-lo dois toureiros que sejam irmãos ou que, pelo menos, tenham sangue comum. Isto é o que se chama tourear al alimón. E isto é o que faremos num discurso.

Foi o que fizemos sem ninguém saber. Quando nos levantamos para agradecer ao presidente do Pen Club o banquete oferecido, nos levantamos ao mesmo tempo, qual dois toureiros, para um só discurso. Como ojantar era servido em mesinhas separadas, Federico estava numa ponta e eu na outra, de modo que as pessoas, por um lado, me puxavam pela jaqueta para que eu me sentasse acreditando num equívoco e, pelo outro, faziam o mesmo com Federico. Começamos pois a falar ao mesmo tempo, dizendo ele “Senhoras” e continuando eu com “Senhores”, entrelaçando até o fim nossas frases de maneira que pareceu uma só unidade até que paramos de falar. O discurso foi dedicado a Rubén Darío porque, tanto García Lorca como eu, sem que desconfiassem que éramos modernistas, celebrávamos Rubén Darío como um dos grandes criadores da linguagem poética em idioma espanhol.

Eis aqui o texto do discurso:

Neruda: Senhoras...

Lorca: ... e senhores. Existe na tourada uma sorte chamada “toreo al alimón” em que dois toureiros se esquivam do touro agarrados na mesma capa.

Neruda: Federico e eu, unidos por um fio elétrico, vamos fazer um par e responder a esta recepção decisiva.

Lorca: É costume nestas reuniões que os poetas mostrem sua palavra viva, de prata ou madeira, e saúdem com sua voz própria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas nós vamos estabelecer entre vocês um morto, um comensal viúvo, oculto nas trevas de uma morte maior que outras mortes, viúvo da vida, de quem fora, em seu tempo, marido deslumbrante; vamos nos esconder debaixo de sua sombra ardente, vamos repetir seu nome até que sua força salte do esquecimento.

Lorca: Vamos, depois de mandar nosso abraço com ternura de pingüim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lançar um grande nome sobre a toalha da mesa, na certeza de que os copos se partirão, hão de saltar os garfos, buscando o olho ansiado por eles, e uma vaga há de manchar as toalhas de mesa. Vamos dizer o nome do poeta da América e da Espanha: Rubén...

Neruda: Darío. Porque, senhoras...

Lorca: e senhores...

Neruda: onde está, em Buenos Aires, a praça Rubén Darío?

Lorca: Onde está a estátua de Rubén Darío?

Neruda Ele amava os parques. Onde está o parque Rubén Darío?

Lorca: Onde está a loja de rosas de Rubén Darío?

Neruda: Onde está a macieira e as maçãs de Rubén Darío?

Lorca: Onde está a mão cortada de Rubén Darío?

Neruda: Onde?

Lorca: Rubén Darío dorme - em sua “Nicarágua natal”, sob seu espantoso leão de gesso como esses leões que os ricos põem nos portais de suas casas.

Neruda: Um leão de farmácia ao fundador de leões, um leão sem estrelas a quem dava estrelas.

Lorca: Insuflou o rumor da selva com um adjetivo e, como Frei Luís de Granada, mestre de idiomas, evocou signos estelares com o limão, e a pata do cervo, e os moluscos cheios de terror e infinito; lançou-nos ao mar com fragatas e sombras nas nossas meninas-dos-olhos e construiu um enorme caminho de gim sobre a tarde mais cinzenta que o céu já teve e saudou de igual para igual o sombrio vento do Sudoeste, todo sentimento, como um poeta romântico, e apoiou a mão sobre o capitel coríntio com uma dúvida irônica e triste de todas as épocas.

Neruda: Seu nome rubro merece ser recordado em seus caminhos essenciais com suas terríveis dores do coração, sua incerteza incandescente, sua descida aos espirais do inferno, sua subida aos castelos da fama, seus atributos de poeta maior desde então e para sempre e imprescindível.

Lorca: Como poeta espanhol ensinou na Espanha aos velhos mestres e às crianças como um sentido de universalidade e de generosidade que faz falta nos poetas atuais. Ensinou a Valle Inclán, a Juan Ramón Jiménez e aos irmãos Machado, e sua voz foi água e salitre no sulco do idioma venerável. Desde Rodrigo Caro aos Argensolas ou D. Juan Arguijo não havia tido o espanhol festas de palavras, choques de consoantes, luzes e forma como em Rubén Darío. Desde a paisagem de Velásquez e a fogueira de Goya e desde a melancolia de Quevedo ao culto cor de maçã das camponesas maiorquinas, Darío percorreu a terra espanhola como sua própria terra.

Neruda: Foi trazido ao Chile por uma maré, o mar quente do Norte, e ali o mar o deixou, abandonado na costa dura e recortada, e o oceano o golpeava com espumas e sinos e o vento negro de Valparaíso o enchia de sal sonoro. Façamos esta noite sua estátua com o ar, atravessada pelo fumo, pela voz, pelas circunstâncias e pela vida, como esta sua poética magnífica atravessada por sonhos e sons.

Lorca: Mas sobre esta estátua de ar, quero pôr seu sangue como um ramo de coral agitado pela maré, seus nervos idênticos à fotografia de um grupo de raios, sua cabeça de minotauro onde a neve gongorina é pintada por um vôo de colibris, seus olhos vagos e ausentes de milionário de lágrimas e também seus defeitos. As estantes comidas já pelos saramagos, onde soa um vazio de flauta, as garrafas de conhaque de sua dramática embriaguez, seu mau gosto encantador e seu palavreado descarado que enchem de humanidade a multidão de seus versos. Fora de normas, formas e escolas permanece de pé a substância fecunda de sua grande poesia.

Neruda: Federico García Lorca, espanhol, e eu, chileno, declinamos a responsabilidade desta noite de camaradas para essa grande sombra que cantou mais alto que nós e saudou com voz inusitada a terra argentina em que estamos.

Lorca: Pablo Neruda, chileno, e eu, espanhol, coincidimos no idioma e no grande poeta nicaragüense, argentino, chileno e espanhol, Rubén Darío.

Neruda e Lorca: Por cuja homenagem e glória levantamos nosso copo.

 

Uma vez recebi de Federico um apoio inesperado numa aventura erótica cósmica. Tínhamos sido convidados uma noite por um desses milionários que só a Argentina ou os Estados Unidos podiam produzir: um homem rebelde e autodidata que tinha feito uma fortuna fabulosa com um jornal sensacionalista. Sua casa, rodeada por um imenso parque, era a encarnação dos sonhos de um vibrante novo-rico. Centenas de gaiolas de faisões de todas as cores e de todos os países ladeavam o caminho. A biblioteca estava coberta somente de livros antiquíssimos que comprava por telegrama nos leilões de bibliófilos europeus; além disso era extensa e estava repleta. Porém o mais espetacular era que o assoalho desta enorme sala de leitura era revestido totalmente com peles de pantera costuradas umas às outras até formar um só e gigantesco tapete. Soube que o homem tinha agentes na África, na Ásia e no Amazonas destinados exclusivamente a recolher peles de leopardos, ocelotes, gatos fenomenais, cujas manchas estavam agora brilhando sob meus pés na faustosa biblioteca.

Assim eram as coisas na casa do famoso Natálio Botana, capitalista poderoso, senhor da opinião pública em Buenos Aires. Federico e eu nos sentamos à mesa perto do dono da casa e em frente a uma poetisa alta, loura e diáfana, cujos olhos verdes eram dirigidos mais a mim que a Federico durante o jantar. Este consistia num boi inteiro assado nas brasas e nas cinzas numa liteira colossal levada sobre os ombros por oito a dez gaúchos. A noite era furiosamente azul e estrelada. O cheiro do assado com couro, invenção sublime dos argentinos, misturava-se ao ar do pampa, às fragrâncias do trevo e da ortelã, ao murmúrio de mil grilos e rãs.

Levantamo-nos depois de comer junto com a poetisa e com Federico, a quem todos festejavam e que divertia a todos. Afastamo-nos até a piscina iluminada. García Lorca ia na frente sem deixar de rir e de falar. Estava feliz como de costume. A felicidade era sua pele.

Dominando a piscina luminosa levantava-se uma torre alta. Sua brancura de cal fosforescia sob as luzes noturnas.

Subimos lentamente até o mirante mais alto da torre. No alto os três, poetas de diferentes estilos, permanecemos separados do mundo. O olho azul da piscina brilhava lá embaixo. Mais além ouviam-se as guitarras e as canções da festa. A noite, acima de nós, estava tão próxima e estrelada que parecia atrair nossas cabeças e submergi-las em sua profundidade.

Tomei a moça alta e dourada nos braços e ao beijá-la me dei conta de que era uma mulher carnuda e compacta, desempenada e rija. Diante da surpresa de Federico nos estendemos no chao do mirante, e já começava a despi-la, quando percebi sobre e junto de nós os olhos arregalados de Federico, que nos olhava sem atrever-se a acreditar no que estava acontecendo.

- Fora daqui! Andi e cuida que não suba ninguém pela escada!gritei.

Enquanto isso o sacrifício ao céu estrelado e à Afrodite noturna se consumava no alto da torre. Federico correu alegremente a cumprir sua missão celestial e de sentinela mas com tal açodamento e tanto azar que rolou pelas escadas escuras da torre. Tivemos que ajudá-lo, minha amiga e eu, com muita dificuldade. Ficou capengando durante quinze dias.

 

                   Miguel Hernández

Não permaneci muito tempo no consulado de Buenos Aires. No começo de 1934 fui transferido com o mesmo cargo para Barcelona. D. Tulio Maqueira era meu chefe e cônsul-geral do Chile na Espanha. Foi certamente o mais zeloso funcionário do serviço consular chileno que conheci, um homem muito severo, com fama de esquivo mas que comigo foi extraordinariamente bondoso, compreensivo e cordial.

Descobriu rapidamente D. Tulio Maqueira que eu subtraia e multiplicava com grandes tropeços, e que não sabia dividir (nunca aprendi). Disse-me então:

- Pablo, você deve viver em Madri. A poesia está lá. Aqui em Barcelona estão essas multiplicações e divisões terríveis que não querem saber de você. Para isso eu sou suficiente.

Ao chegar a Madri, convertido da noite para o dia e por um passe de mágica em cônsul chileno na capital da Espanha, conheci todos os amigos de García Lorca e de Alberti. Eram muitos. Em poucos dias eu fazia parte do grupo dos poetas espanhóis. Naturalmente espanhóis e americanos somos diferentes, diferença essa que mantemos sempre com recíproco orgulho e desacerto.

 

Os espanhóis de minha geração eram mais fraternais, mais solidários e mais alegres que meus companheiros da América Latina. Comprovei ao mesmo tempo que nós éramos mais universais, mais familiarizados com outras línguas e outras culturas. Eram muito poucos entre eles os que falavam outro idioma além do castelhano. Quando Desnos e Crevel vieram a Madri, eu tive que servir-lhes de intérprete para que se comunicassem com os escritores espanhóis.

Um dos amigos de Federico e de Rafael era o jovem poeta Miguel Hernández. Eu o conheci quando chegava de alpercatas e calças de camponês, de bombazina, vindo de suas terras de Orihuela, onde tinha sido pastor de cabras. Publiquei seus versos em minha revista Caballo Verde e me entusiasmava o fulgor e o valor de sua abundante poesia.

Miguel era tão camponês que trazia uma aura de terra em torno de si. Tinha uma cara de torrão de terra ou de batata que se arranca das raízes e que conserva frescor subterrâneo. Vivia e escrevia em minha casa. Minha poesia americana, com seus horizontes e planuras, impressionou-o e o foi modificando.

Contava-me histórias telúricas de animais e pássaros. Era um escritor saído da natureza como uma pedra intacta, com virgindade seIvática e incontrolável força vital. Contava o quanto era impressionante encostar o ouvido no ventre das cabras adormecidas. Assim se escutava o ruído do leite chegando ao ubre, o rumor secreto que ninguém pode escutar a não ser aquele poeta de cabras.

De outras vezes falava do canto dos rouxinóis. O Levante espanhol onde nasceu estava carregado de laranjeiras em flor e rouxinóis. Como em meu país não existe esse pássaro, esse cantor sublime, o louco do Miguel queria dar-me a mais viva expressão plástica de seu poderio. Encarapitava-se numa árvore da rua e, dos ramos mais altos, silvava ou trinava como seus amados pássaros natais.

Como não tinha do que viver, procurei um trabalho para ele. Era duro encontrar trabalho para um poeta na Espanha. Finalmente um visconde, alto funcionário do Ministério de Relações Exteriores, se interessou pelo caso e me respondeu que sim, que estava de acordo, que tinha lido os versos de Miguel, que o admirava e que este indicasse que posto desejava para dar-lhe a nomeação. Alvoroçado, disse ao poeta:

- Miguel Hernández, por fim tens um destino. O visconde te emprega. Serás um alto funcionário. É só dizer que trabalho queres executar para que assinem tua nomeação.

Miguel ficou pensativo. Sua cara de grandes rugas prematuras cobriu-se com um véu de meditação. Passaram-se horas e só à tarde respondeu. Com olhos brilhantes de quem encontrou a solução da sua vida, disse:

- Não podia o visconde me mandar tomar conta de um rebanho de cabras por aqui perto de Madri?

A lembrança de Miguel Hernández não pode fugir das raízes do meu coração. O canto dos rouxinóis levantinos, suas torres de som erguidas entre a escuridão e as flores brancas de laranjeira, eram para ele presença obsessiva e eram parte da massa de seu sangue, de sua poesia telúrica e silvestre na qual se juntavam todos os excessos da cor, do perfume e da voz do Levante espanhol, com a abundância e a fragrância de uma poderosa e masculina juventude.

Seu rosto era o rosto da Espanha, cortado pela luz, enrugado como uma sementeira, com algo rotundo de pão e de terra. Seus olhos febris, ardendo dentro dessa superfície queimada e endurecida ao vento, eram dois raios de força e de ternura.

Os próprios elementos da poesia eu os vi sair de suas palavras, porém alterados agora por uma nova magnitude, por um resplendor selvagem, pelo milagre do sangue velho transformado num filho. Em meus anos de poeta, e de poeta errante, posso afirmar que a vida não me permitiu contemplar um fenômeno igual de vocação e de elétrica sabedoria verbal.

 

                   Caballo verde

Com Federico e Alberti, que vivia perto de minha casa numa águafurtada sobre um arvoredo, o arvoredo perdido, com o escultor Alberto, padeiro de Toledo que já era então mestre da escultura abstrata, com Altolaguirre e Bergamín, com o grande poeta Luís Cernuda, com Vicente Aleixandre, poeta de dimensão ilimitada, com o arquiteto Luís Lacasa, com todos eles formando um só grupo, ou em varios, nos víamos diariamente em casas e cafés.

Da Castellana ou da cervejaria de Correos íamos até minha casa, a casa das flores, no bairro de Argüelles. Do segundo andar de um dos grandes ônibus que meu compatriota, o grande Cotapos, chamava “bombardones”, descíamos em grupos barulhentos para comer, beber e cantar. Lembro entre os jovens companheiros de poesia e alegria de Arturo Serrano Plaja, poeta; de José Caballero, pintor de deslumbrante talento e graça; de Antonio Aparício, que chegou da Andaluzia diretamente para minha casa; e de tantos outros que já não estão ou que já se foram, mas cuja fraternidade me faz falta como parte de meu corpo ou substância de minha alma.

Madri! íamos com Maruja Maio, a pintora galega, pelos barrios bajos buscando as casas onde se vendem cestas e esteiras, buscando as ruas dos tanoeiros, dos cordoeiros, de todas as matérias secas da Espanha, matérias que envolvem e tomam conta de seu coração. A Espanha é seca e pedregosa, castigada pelo sol vertical que arranca chispas da planura, construindo castelos de luz com a poeirada. Os únicos verdadeiros rios da Espanha são seus poetas: Quevedo com suas águas verdes e profundas, de espuma negra; Calderón com suas silabas que cantam; os cristalinos Argensolas; Góngora, rio de rubis.

 

Vi Valle Inclán uma só vez. Muito magro, com sua interminável barba branca, pareceu-me que saía dentre as folhas de seus próprios livros, prensado por elas, com uma cor de página amarelada.

Conheci Ramón Gómez de la Serna em sua cripta de Pombo e depois fui vê-lo em sua casa. Não posso esquecer a voz estentórea de Ramón dirigindo, de seu lugar no café, as conversas e as risadas, os pensamentos e o fumo. Ramón Gómez de la Serna é para mim um dos maiores escritores de nossa língua, tendo seu gênio a heterogênea grandeza de Quevedo e Picasso. Qualquer página de Ramón Gómez de la Serna esquadrinha como um furão no físico e no metafisico, a verdade e a sombra e o que sabe e escreveu sobre a Espanha ninguém disse melhor que ele. Foi o acumulador de um universo secreto. Mudou a sintaxe do idioma com suas próprias mãos, deixando-o impregnado com suas impressões digitais que ninguém pode apagar.

Vi Dom Antonio Machado várias vezes sentado em seu café com o traje negro de tabelião, muito calado e discreto, doce e severo como uma árvore velha da Espanha. E certo que o maledicente Juan Ramón Jiménez, velho enfant terrible da poesia, dizia dele, de Dom Antonio, que este andava sempre cheio de cinzas e nos bolsos só guardava guimbas de cigarros.

Juan Ramón Jiménez, poeta de grande esplendor, foi encarregado de fazer conhecer a legendária inveja espanhola. Este poeta, que não tinha necessidade de invejar ninguém, posto que sua obra é um grande resplendor que começa com a escuridão do século, vivia como um falso ermitão, reprovando de seu esconderijo a quantos acreditava que lhe fizessem sombra.

Os jovens - García Lorca, Alberti, assim como Jorge Guillén e Pedro Salinas - eram perseguidos tenazmente por Juan Ramón, um demônio barbudo que cada dia lançava sua seta contra este ou aquele. Contra mim escrevia todas as semanas uns enrolados comentários que publicava todos os domingos no diário El Sol. Mas optei por viver e deixá-lo viver. Nunca respondi nada. Nunca respondi - nem respondo - a agressões literárias.

O poeta Manuel Altolaguirre, que tinha uma gráfica e vocação de impressor, chegou um dia em minha casa e me contou que ia publicar uma bela revista de poesia com o que de mais alto e melhor havia de representativo na Espanha.

- Só há uma pessoa que pode dirigi-la - disse. - E esta pessoa és tu.

Eu tinha sido um épico inventor de revistas que logo deixava ou era deixado por elas. Em 1925 fundei uma tal Caballo de Bastos. Era quando escrevíamos sem pontuação e descobríamos Dublin através das ruas de Joyce. Humberto Díaz Casanueva usava então um suéter com gola roulé, grande audácia para um poeta da época. Sua poesia era bela e imaculada como continuou sendo per secula. Rosamel del Valle vestia-se inteiramente de negro, do chapéu aos sapatos, como deviam vestir-se os poetas. Nestes dois companheiros eminentes recordo como colaboradores ativos. Esqueço de outros. Mas o galope de nosso cavalo sacudiu a época.

- Sim, Manolito, aceito a direção da revista.

Manuel Altolaguirre era um impressor glorioso cujas próprias mãos enriqueciam as caixas com estupendos tipos bodônis. Manolito honrava a poesia com a sua e com suas mãos de arcanjo trabalhador. Traduziu e imprimiu com beleza singular o Adonais de Shelley, elegia à morte de John Keats. Imprimiu também a Fábula del Genil, de Pedro Espinosa. Quanto fulgor despediam as estrofes áureas e esmaltadas do poema naquela majestosa tipografia que destacava as palavras como se estivessem fundindo-se de novo no cadinho.

De meu “Caballo Verde” saíram cinco números primorosos, de indubitável beleza. Gostava de ver Manolito, sempre rindo e cheio de sorrisos, levantar os tipos, colocá-los nas caixas e depois acionar com o pé a pequena prensa de fazer cartões. Às vezes levava consigo os exemplares da edição no carrinho de sua filha Paloma. Os transeuntes o elogiavam:

- Que pai admirável! Atravessar o trânsito infernal com essa criatura!

A criatura era a Poesia que viajava em seu Caballo Verde. A revista publicou o primeiro novo poema de Miguel Hernández e, naturalmente, os de Federico, Cernuda, Aleixandre, Guillén (o bom, o espanhol). Juan Ramón Jiménez, neurótico, do século passado, continuava lançando-me dardos dominicais. Rafael Alberti não gostou do título:

- Por que o cavalo vai ser verde? Deveria chamar-se Caballo Rojo.

Não mudei a cor. Mas Rafael e eu não brigamos por isso. Nunca brigamos por nada. Há bastante lugar no mundo para cavalos e poetas de todas as cores do arco-íris.

O sexto número de Caballo Verde ficou na rua Viriato sem paginar nem costurar. Estava dedicado a Julio Herrera e Reissig – segundo Leautreamont de Montevidéu - e os textos que em sua homenagem os poetas espanhóis escreveram, ficaram aí retidos com sua beleza, sem gestação nem destino. A revista devia aparecer em 19 de julho de 1936 mas naquele dia a rua se encheu de pólvora. Um general desconhecido chamado Francisco Franco tinha se rebelado contra a República em sua guarnição da África.

 

                   O crime foi em Granada

Justamente quando escrevo estas linhas, a Espanha oficial celebra muitos - tantos! - anos desde a insurreição. Neste momento, em Madri, o Caudilho vestido de ouro e azul, rodeado pela guarda moura, junto ao embaixador norte-americano, ao da Inglaterra e a vários outros, passa as tropas em revista. Tropas compostas, em sua maioria, de rapazes que não conheceram aquela guerra.

Eu é que a conheci. Um milhão de espanhóis mortos! Um milhão de exilados! Parecia que jamais se apagaria da consciência humana esse espinho sangrento. No entanto, os rapazes que agora desfilam diante da guarda moura provavelmente ignoram a verdade dessa história tremenda.

Tudo começou para mim na noite de 19 de julho de 1936. Um chileno simpático e aventureiro, chamado Bobby Deglané, era empresário de catch-as-catch-can no grande circo Price de Madri. Manifestei-lhe minhas reservas sobre a seriedade desse esporte e ele me convenceu de que eu fosse ao circo, junto com García Lorca, para verificar a autenticidade do espetáculo. Convenci Federico e ficamos de nos encontrar ali numa hora combinada. Passaríamos o tempo vendo as truculências do Troglodita Mascando, do Estrangulador Abissínio e do Orangotango Sinistro.

Federico faltou ao encontro marcado. Já estava a caminho da morte. Nunca mais nos vimos. Seu encontro era com outros estranguladores. E desse modo a guerra da Espanha, que mudou minha poesia, começou para mim com o desaparecimento de um poeta.

Que poeta! Nunca vi reunidos como nele a graça e o gênio, o coração alado e a cascata cristalina. Federico García Lorca era o duende dissipador, a alegria centrífuga que recolhia no seio e irradiava como um planeta a felicidade de viver. Ingênuo e brincalhão, cômico e provinciano, músico singular, mímico esplêndido, impressionável e supersticioso, radiante e gentil, era uma espécie de resumo das idades da Espanha, do florescimento popular, um produto árabeandaluz que iluminava e perfumava como um jasmineiro todo o cenário daquela Espanha, ai de mim!, desaparecida.

Seduzia-me o grande poder metafórico de García Lorca e me interessava tudo o que escrevia. Por sua vez ele me pedia às vezes que eu lesse para ele meus últimos poemas e, no meio da leitura, me interrompia aos gritos: “Não continua, não continua, que me influencias!”

No palco e no silêncio, na multidão e na intimidade, era um multiplicador da beleza. Nunca vi ninguém com tanta magia nas mãos, nunca tive um irmão mais alegre. Ria, cantava, fazia música, saltava, inventava, era uma chispa constante. Pobrezinho! Tinha todos os dons do mundo e, assim como foi um trabalhador de ouro, uma abelha-mestra da poesia maior, era um perdulário de seu talento.

- Escuta - dizia, tomando-me pelo braço -, estás vendo essa janela? Não achas que é chorpatélica?

- E que significa chorpatélica?

- Também não sei mas temos que saber o que é ou não chorpatélico. Senão estamos perdidos. Olha esse cachorro como é chorpatélico!

Ou me contava que num colégio de meninos de tenra idade, em Granada, convidaram-no para uma comemoração do Quixote e que, quando chegou na sala de aula, todos os meninos cantaram sob a direção da diretora:

 

         Sempre sempre será celebrado

         de um a outro confim

         este livro que foi comentado

         por Dom F. Rodriguez Marín.

 

Certa vez dei uma conferência sobre García Lorca, anos depois de sua morte, e um dos espectadores me perguntou:

- Porque o senhor disse na Ode a Federico que por ele “pintam de azul os hospitais”?

- Olhe, companheiro - respondi -, fazer perguntas desse tipo a um poeta é como perguntar a idade das mulheres. A poesia não é uma matéria estática mas uma corrente fluida que muitas vezes escapa das mãos do próprio criador. Sua matéria-prima está composta de elementos que são e ao mesmo tempo não são, de coisas existentes e inexistentes. De qualquer modo tratarei de responder-lhe com sinceridade. Para mim a cor azul é a mais bela das cores. Tem a implicação do espaço humano, como a abóbada celeste, em direção à liberdade e à alegria. A presença de Federico, sua magia pessoal, impunham uma atmosfera de júbilo ao seu redor. Meu verso provavelmente quer dizer que inclusive os hospitais, inclusive a tristeza dos hospitais, podiam se transformar sob o sortilégio de sua influência e se verem convertidos subitamente em belos edifícios azuis.

Federico teve uma antevisão de sua morte. Certa vez que voltava de uma tournée teatral me chamou para contar um fato muito estranho. Com os artistas de “La Barraca” tinha chegado a um povoado longínquo de Castilla, acampando nas redondezas. Fatigado pelas preocupações da viagem, Federico não conseguia dormir. Ao amanhecer levantou-se e saiu a vagar sozinho pelos arredores. Fazia frio, esse frio de punhal que Castilla reserva para o viajante, para o forasteiro. A névoa se desprendia em massas brancas e convertia tudo em sua dimensão fantasmagórica.

Um grande gradil de ferro oxidado, estátuas e colunas em ruínas, caídas entre as folhas secas. Deteve-se na porta de uma antiga propriedade. Era a entrada para o extenso parque de uma quinta feudal. O abandono, a hora e o frio tornavam a solidão mais penetrante. Federico sentiu-se subitamente oprimido pelo que viria daquele amanhecer, por algo confuso que ali tinha que acontecer. Sentou-se num capitel tombado.

Um carneiro pequenino começou a pastar entre as ruínas e sua aparição era como um pequeno anjo de névoa que humanizava subitamente a solidão, caindo como uma pétala de ternura sobre a solidão do lugar. O poeta sentiu-se acompanhado.

De súbito um bando de porcos entrou também no recinto. Eram quatro ou cinco animais escuros, porcos negros semi-selvagens com fome feroz e patas de pedra.

Federico presenciou então uma cena espantosa. Os porcos lançaram-se sobre o cordeiro e, ante o horror do poeta, despedaçaram-no e o devoraram.

Esta cena de sangue e solidão fez com que Federico ordenasse a seu teatro ambulante continuar imediatamente o caminho.

Ainda transido de horror, três meses antes da guerra civil, Federico me contava esta história terrível.

Vi depois, cada vez com maior clareza, que aquele acontecimento foi a representação antecipada de sua morte, a premonição de sua incrível tragédia.

 

Federico García Lorca não foi fuzilado; foi assassinado. Naturalmente ninguém podia pensar que o matariam algum dia. De todos os poetas da Espanha era o mais amado, o mais querido e o mais semelhante a um menino pela sua alegria maravilhosa. Quem poderia crer que tivesse sobre a terra, e sobre sua terra, monstros capazes de um crime tão inexplicável?

Aquele crime foi para mim o acontecimento mais doloroso de uma longa luta. A Espanha sempre foi um campo de gladiadores, uma terra com muito sangue. A praça de touros, com seu sacrifício e sua elegância cruel, repete - ornamentado festivamente - o antigo combate mortal entre a sombra e a luz.

A Inquisição encarcera Frei Luís de León, Quevedo padece em seu calabouço, Colón caminha com grilhões nos pés. E o espetáculo máximo foi o ossário no Escorial, como agora é o Monumento a los Caídos com uma cruz sobre um milhão de mortos e sobre prisões escuras e incontáveis.

 

                   Meu livro sobre a Espanha

Passou-se o tempo. A guerra começava a ser perdida. Os poetas acompanharam o povo espanhol em sua luta. Federico já tinha sido assassinado em Granada. Miguel Hernández de pastor de cabras tinha se transformado em verbo militante. Em uniforme de soldado dizia seus versos na primeira linha de fogo. Manuel Altolaguirre continuava com suas gráficas. Instalou uma em plena frente do Este, perto de Gerona, num velho mosteiro. Ali foi impresso de maneira singular meu livro España en el corazón. Acho que poucos livros, na história estranha de tantos livros, tiveram gestação e destino tão curiosos.

Os soldados do front aprenderam a manejar os tipos da gráfica. Mas aí faltou o papel. Encontraram um velho moinho e ali decidiram fabricá-lo. Estranha mistura a que foi elaborada entre as bombas que caíam no meio da batalha. Tudo era aproveitado no moinho, desde uma bandeira do inimigo à túnica ensangüentada de um soldado mouro. Apesar dos materiais insólitos e da inexperiência total dos fabricantes, o papel ficou muito bonito. Os poucos exemplares que restaram desse livro assombram pela tipografia e pelas páginas impressas em misteriosa manufatura. Anos depois vi um exemplar desta edição em Washington, na Biblioteca do Congresso, colocado em uma vitrina como um dos livros mais raros do nosso tempo.

Mal meu livro ficou impresso e encadernado, precipitou-se a derrota da República. Milhares de homens fugitivos se derramaram pelas estradas que saíam da Espanha. Era o êxodo dos espanhóis, o acontecimento mais doloroso na história da Espanha.

Com essas filas que marchavam para o desterro iam os sobreviventes do exército do Este, entre eles Manuel Altolaguirre e os soldados que fizeram o papel e imprimiram España en el corazón.

Meu livro era o orgulho desses homens que tinham trabalhado minha poesia num desafio à morte. Soube que muitos tinham preferido carregar sacos com os exemplares impressos aos seus próprios alimentos e roupas. Com os sacos ao ombro empreenderam a longa marcha até a França.

A coluna imensa que caminhava rumo ao desterro foi bombardeada centenas de vezes. Caíram muitos soldados, espalhando-se os livros na estrada. Outros conti-nuaram a fuga infindável. Além da fronteira trataram brutalmente os espanhóis que chegavam ao exílio. Numa fogueira foram imolados os últimos exemplares daquele livro ardente que nasceu e morreu em plena batalha.

Miguel Hernández buscou refúgio na embaixada do Chile, que durante a guerra tinha dado asilo à enorme quantidade de quatro mil franquistas. O embaixador nesse ínterim, Carlos Morla Lynch, negou asilo ao grande poeta mesmo se dizendo seu amigo. Poucos dias depois detiveram-no e o encarceraram. Morreu de tuberculose no calabouço três anos mais tarde. O rouxinol não suportou o cativeiro.

Minha função consular tinha terminado. Por minha participação na defesa da República Espanhola o governo do Chile decidiu afastar-me do cargo.

 

                   A Guerra e Paris

Chegámos a Paris. Alugamos um apartamento com Rafael Alberti e Maria Teresa León, sua mulher, no Quai de L'Horloge, um bairro quieto e maravilhoso. Diante de nós via-se a Pont Neuf, a estátua de Henrique IV e os pescadores ao longo das margens do Sena. Atrás de nós ficava a praça Dauphine, nervaliana, com cheiro de folhagem e restaurante. Ali vivia o escritor francês Alejo Carpentier, um dos homens mais neutros que conheci. Não se atrevia a opinar sobre nada nem sequer sobre os nazistas que já se lançavam sobre Paris como lobos famintos.

De minha sacada, à direita, se a gente se inclinava para fora, divisavam-se os negros torreões da Conciergerie. Seu grande relógio dourado era para mim o último limite do bairro.

Tive por sorte na França - e por muitos anos - contar como melhores amigos os dois melhores homens de sua literatura: Paul Éluard e Aragon. Eram e são curiosos clássicos do entretenimento, de uma autenticidade vital que os situa no ponto mais sonoro do bosque da França. São a um tempo irredutíveis e naturais participantes da moral histórica. Poucos seres são tão diferentes entre si como estes dois. Desfrutei do prazer poético de perder muitas vezes tempo com Paul Éluard. Se os poetas respondessem de verdade às indagações, revelariam o segredo: não há nada tão belo quanto perder tempo. Cada um tem seu estilo para essa antiga atividade. Com Paul não me dava conta do dia nem da noite que passava e nunca soube se tinha importância ou não o que conversávamos. Aragon é uma máquina eletrônica da inteligência, do conhecimento, da virulência, da velocidade eloqüente. Da casa de Sluard saí sempre sorrindo sem saber de quê. De algumas horas com Aragon saio esgotado porque o diabo do homem me obrigou a pensar. Os dois foram irresistíveis e leais amigos e talvez o que mais gosto neles é de sua grandeza antagônica.

 

                   Nancy Cunard

Decidimos com Nancy Cunard fazer uma publicação de poesia que intitulei Los poetas del mundo defiendem al pueblo español.

Nancy tinha uma pequena gráfica em sua casa de campo, na província francesa. Não me lembro do nome da localidade mas era longe de Paris. Quando chegamos à sua casa já era noite. Havia lua. A neve e a lua estremeciam como uma cortina ao redor da propriedade. Eu, entusiasmado, saí para passear. Na volta os flocos de neve amontoaram-se sobre minha cabeça com gelada obstinação. Perdi completamente o rumo e andei meia hora às tontas na brancura da noite.

Nancy tinha experiência de gráfica. Quando tinha sido companheira de Aragon, publicou a tradução do “Huting of the Snark”, feita por Aragon e por ela. Na verdade este poema de Lewis Carroll é intraduzível e creio que só em Góngora acharíamos um trabalho semelhante de mosaico louco.

Pus-me pela primeira vez a lidar com os tipos e acho que nunca houve um tipógrafo pior. Como eu imprimia as letras p ao contrário, ficavam convertidas em d por minha incompetência tipográfica. Um verso em que aparecia duas vezes a palavra párpados acabou convertido em duas vezes dardapos. Por vários anos Nancy me castigou chamando-me dessa maneira. “My dear Dardapo...”, assim começavam suas cartas vindas de Londres. Mas a publicação saiu muito correta e conseguimos imprimir seis ou sete números. Além de poetas militantes, como González Tuñón ou Alberti, ou alguns franceses, publicamos apaixonados poemas de W. H. Auden, Spender, etc. Estes cavalheiros ingleses não saberão nunca o que sofreram meus dedos preguiçosos compondo seus versos.

De quando em vez chegavam da Inglaterra poetas dandys, amigos de Nancy, com flor branca na lapela, que também escreviam poemas antifranquistas. Não houve na história intelectual uma essência tão fértil para os poetas como a guerra espanhola. O sangue espanhol exerceu um magnetismo que fez tremer a poesia de uma grande época.

Não sei se a publicação teve êxito ou não porque por esse tempo terminou mal a guerra da Espanha e começou mal outra nova guerra mundial. Esta última, apesar de sua magnitude, apesar de sua crueldade incomensurável, apesar de seu heroísmo derramado, não conseguiu nunca envolver como a espanhola o coração coletivo da poesia.

Pouco depois teria que regressar da Europa para meu país. Nancy também viajaria logo para o Chile, acompanhada por um toureiro que em Santiago deixou os touros e Nancy Cunard para instalar uma venda de salsichas e outros chouriços. Mas minha queridíssima amiga, esnobe da mais alta qualidade, era invencível. No Chile tomou como amante um poeta vagabundo e desalinhado, chileno de origem basca, não desprovido de talento mas sim de dentes. Além disso, o novo favorito de Nancy era um beberrão e dava na aristocrática inglesa freqüentes surras noturnas que a obrigavam a aparecer em público com grandes óculos escuros.

Na verdade ela foi um dos personagens quixotescos, crônicos, valentes e patéticos mais curiosos que eu já conheci. Herdeira única da “Cunard Line”, filha de Lady Cunard, Nancy escandalizou Londres lá pelo ano de 1930, fugindo com um negro, músico de um dos primeiros jazz bands importados pelo Hotel Savoy.

Quando Lady Cunard encontrou a cama vazia de sua filha e uma carta dela em que comunicava orgulhosamente seu negro destino, a nobre senhora dirigiu-se ao advogado e iniciou o processo para deserdá-la. Assim, pois, o que conheci, errante pelo mundo, foi uma preterida da grandeza britânica. O salão da mãe era freqüentado por Georges Moore (de quem se sussurrava que era o verdadeiro pai de Nancy), Sir Thomas Beecham, o jovem Aldous Huxley e o que depois foi o Duque de Windsor, então Príncipe de Gales.

Nancy Cunard revidou o golpe. Em dezembro do ano em que foi excomungada por sua mãe, toda a aristocracia inglesa recebeu como presente de Natal um folheto de capa vermelha intitulado Negro man and white Ladyship. Não vi nada mais corrosivo, atingindo às vezes a malignidade de Swift.

Seus argumentos em defesa dos negros foram como uma paulada na cabeça de Lady Cunard e da sociedade inglesa. Lembro o que lhes dizia e cito de memória porque suas palavras eram mais eloqüentes:

“Se você, branca Senhora, ou melhor, os seus tivessem sido seqüestrados, golpeados e acorrentados por uma tribo mais poderosa e depois transportados para longe da Inglaterra para serem vendidos como escravos, mostrados como exemplos irrisórios da fealdade humana, obrigados a trabalhar debaixo de chicotadas e mal alimentados, que teria subsistido de sua raça? Os negros sofreram estas violências e crueldades e muitas mais. Depois de séculos de sofrimento, eles no entanto são os melhores e mais elegantes atletas e criaram uma nova música mais universal que nenhuma outra. Poderiam vocês, brancos como você é, ter saído vitoriosos de tanta iniqüidade? Então: quem vale mais?”

E assim por trinta páginas.

Nancy não pôde voltar a morar na Inglaterra e desde esse momento abraçou a causa da raça negra perseguida. Durante a invasão da Etiópia foi a Adis Abeba. Depois chegou aos Estados Unidos para solidarizar-se com os rapazes negros de Scottsboro acusados de infâmias que não cometeram. Os jovens negros foram condenados pela justiça racista norte-americana e Nancy foi expulsa pela polícia democrática norte-americana.

Em 1969 minha amiga Nancy Cunard morreria em Paris. Numa crise de sua agonia desceu quase nua pelo elevador do hotel. Ali desfaleceu e fecharam-se para sempre seus belos olhos azuis.

Pesava trinta e cinco quilos quando morreu. Era só um esqueleto. Seu corpo tinha se consumido numa longa batalha contra a injustiça no mundo. Não recebeu outra recompensa além de uma vida cada vez mais solitária e uma morte desamparada.

 

                   Um Congresso em Madri

A Guerra da Espanha ia de mal a pior mas o espírito de resistência do povo espanhol havia contagiado o mundo inteiro. Já combatiam na Espanha as brigadas de voluntários internacionais. Eu os vi chegar a Madri, em 1936, já uniformizados. Era um grande grupo de gente de diferentes idades, cabelos e cores. Agora estávamos em Paris, em 1937, e o mais importante era preparar um congresso de escritores antifascistas de todas as partes do mundo. Um congresso que seria celebrado em Madri. Foi então que comecei a conhecer Aragon. O que me surpreendeu inicialmente nele foi sua inacreditável capacidade de trabalho e organização. Ditava todas as cartas, corrigia-as, recordava-se delas. Não lhe escapava o mínimo detalhe. Trabalhava horas seguidas no nosso pequeno escritório. E logo, como se sabe, escreve extensos livros em prosa e sua poesia é a mais bela da língua francesa. Eu o vi corrigir provas de traduções que havia feito do russo e do inglês e o vi refazê-las no mesmo papel da gráfica. Trata-se, na verdade, de um homem portentoso e desde aquela época comecei a me dar conta disso.

 

Tinha perdido o consulado e, portanto, tinha ficado sem um tostão. Comecei a trabalhar, por quatrocentos francos antigos por mês, em uma associação de defesa da cultura dirigida por Aragon. Delia del Carril, minha mulher de então e de tantos anos, sempre teve fama de estancieira rica, mas a verdade é que era mais pobre do que eu. Vivíamos num hotelzinho suspeito, no qual todo o primeiro andar era reservado para casais ocasionais que entravam e saíam. Comemos pouco e mal durante alguns meses. Mas o congresso de escritores antifascistas era uma realidade. De toda parte chegavam valiosas adesões. Uma de Yeats, poeta nacional da Irlanda. Outra de Selma Lagerlof, a grande escritora sueca. Os dois eram idosos demais para viajar para uma cidade assediada e bombardeada como Madri, mas ambos aderiam à defesa da República Espanhola.

 

Sempre me considerei uma pessoa de pouca importância sobretudo para os assuntos práticos e para as altas missões. Por isso fiquei de boca aberta quando me chegou uma ordem de pagamento da parte do governo espanhol. Era uma grande soma em dinheiro que cobria os gastos gerais do congresso, incluindo as viagens de delegados vindos de outros continentes. Dezenas de escritores começavam a chegar a Paris.

Fiquei desconcertado. Que podia eu fazer com o dinheiro? Optei passar os fundos para a organização que preparava o congresso.

- Eu nem sequer vi o dinheiro que, além disso, seria incapaz de manejá-lo - disse a Rafael Alberti que nesse momento passava por Paris.

- És um grande tolo - respondeu Rafael. - Perdes teu posto de cônsul na Espanha e andas com os sapatos rotos. E não és capaz de destinar a ti mesmo alguns mil francos por teu trabalho e para tuas despesas essenciais!

Olhei para meus sapatos e comprovei que efetivamente estavam rotos. Alberti me deu de presente um par de sapatos novos.

Dentro de algumas horas partiríamos para Madri com todos os delegados. Tanto Délia como Amparo González Tuñón, e mesmo eu, nos encontrávamos angustiados por causa da papelada dos escritores que chegavam de toda parte. O visto francês de saída nos enchia de problemas. Praticamente nos apoderamos do escritório policial de Paris onde se estendiam esses requisitos que eram chamados comicamente “recipisson”. Às vezes nós mesmos aplicávamos nos passaportes esse supremo instrumento francês denominado “tampon”.

Entre noruegueses, italianos, argentinos, chegou do México o poeta Octavio Paz, depois de mil aventuras na viagem. De certo modo me sentia orgulhoso de tê-lo trazido. Tinha publicado um único livro que eu havia recebido fazia dois meses e que me pareceu conter um germe verdadeiro. Ninguém o conhecia então.

Com cara sombria meu velho amigo César Vallejo veio me ver. Estava zangado porque não tinham dado passagem para sua mulher, insuportável para todos os demais. Consegui para ela passagem rapidamente, entregando-a a Vallejo que se foi tão sombrio como tinha chegado. Algo estava acontecendo com ele e esse algo levei alguns meses para descobrir.

O problema era o seguinte: meu compatriota Vicente Huidobro tinha chegado a Paris para assistir ao congresso. Huidobro e eu estávamos estremecidos, não nos falávamos. Em troca ele era muito amigo de Vallejo e aproveitou esses dias em Paris para encher a cabeça de meu ingênuo companheiro de invenções contra mim. Tudo se esclareceu depois numa conversação dramática que tive com Vallejo.

 

Nunca saiu de Paris um trem tão cheio de escritores como aquele. Pelos corre-dores nos reconhecíamos ou nos desconhecíamos. Alguns foram dormir; outros fumavam interminavelmente. Para muitos a Espanha era o enigma e a revelação daquela época da História.

Vallejo e Huidobro estavam em alguma parte do trem. André Malraux parou um momento para conversar comigo, com seus tiques faciais e capa nos ombros. Desta vez viajava sozinho. Antes sempre o vi com o aviador Corton-Mogliniere, que foi o executivo central de suas aventuras pelos céus da Espanha: cidades perdidas e descobertas ou na missão vital de trazer aviões para a República.

Recordo que o trem se deteve por longo tempo na fronteira. Parece que Huidobro tinha perdido uma maleta. Como todo mundo estava ocupado ou preocupado pelo atraso, ninguém se achava em condições de dar-lhe atenção. Em má hora chegou o poeta chileno, na procura de sua valise, à gare onde estava Malraux, chefe da expedição. Este, nervoso por natureza e com aquele acúmulo de problemas às costas, tinha chegado ao limite. Talvez não conhecesse Huidobro nem de nome nem de vista. Quando se acercou para reclamar-lhe o desaparecimento de sua maleta, Malraux perdeu o pouco de paciência que lhe restava. Ouvi que lhe gritava: “Até quando você vai incomodar todo mundo? Vá embora! Je vous emerde!”

Presenciei por acaso este incidente que humilhava a vaidade do poeta chileno. Quisera estar a mil quilômetros dali naquele instante. Mas a vida é caprichosa. Eu era a única pessoa a quem Huidobro detestava naquele trem. E me tocava a mim, chileno como ele ainda por cima e não a qualquer outro dos cem escritores que viajavam, ser a testemunha exclusiva daquele acontecimento.

Quando a viagem prosseguiu, já de noite e rodando por terras espanholas, pensei em Huidobro, em sua maleta e no mau pedaço que tinha passado. Disse então a uns jovens escritores de uma república centro-americana que se aproximaram de minha cabina:

- Vão ver também Huidobro, que deve estar só e deprimido.

Voltaram vinte minutos depois com cara alegre. Huidobro lhes tinha dito: “Não me falem da maleta perdida, isso não tem importância. O grave é que enquanto as universidades de Chicago, de Berlim, de Copenhague, de Praga, me outorgaram títulos honoríficos, a pequena universidade do pequeno país de vocês é a única que persiste em me ignorar. Nem sequer me convidaram para pronunciar uma conferência sobre o creacionismo.”

Decididamente meu compatriota e grande poeta não tinha jeito.

 

Finalmente chegamos a Madri. Enquanto os visitantes recebiam as boas-vindas e alojamiento, eu quis ver de novo minha casa que tinha deixado intacta há cerca de um ano. Meus livros e minhas coisas, tudo tinha ficado nela. Era um apartamento no edifício chamado “Casa de las Flores” na entrada da cidade universitária. Até seus limites chegavam as forças avançadas de Franco. Tanto que o bloco de apartamentos tinha mudado várias vezes de mão.

Miguel Hernández, vestido de miliciano e com seu fuzil, conseguiu uma camioneta para transportar meus livros e os utensílios de minha casa que mais me interessavam.

Subimos ao quinto andar e abrimos com certa emoção a porta do apartamento. A metralha tinha derrubado janelas e pedaços de parede. Os livros haviam despencado das estantes. Era impossível orientar-se entre os escombros. De qualquer maneira procurei algumas coisas atropeladamente. O curioso era que os objetos mais supérfluos e inaproveitáveis tinham desaparecido, levados pelos soldados invasores ou defen-sores. Enquanto as panelas, a máquina de costura e os pratos se mostravam esparramados em desordem porém sobreviventes, de meu fraque consular, de minhas máscaras da Polinésia e de meus punhais do Oriente não ficou nem o rastro.

- A guerra é tão caprichosa como os sonhos, Miguel.

Miguel encontrou por aí, entre os papéis caídos, alguns originais de meus trabalhos. Aquela desordem era uma porta final que se fechava em minha vida. Disse a Miguel:

- Não quero levar nada.

- Nada? Nem sequer um livro?

- Nem sequer um livro - respondi.

E regressamos com a camioneta vazia.

 

                   As máscaras e a Guerra

Minha casa ficou entre os dois setores... De um lado avançavam mouros e italianos... De cá avançavam, retrocediam ou estacavam os defensores de Madri... Pelas paredes tinha entrado a artilharia... As janelas partiram-se em pedacínhos... Encontrei no solo restos de chumbo entre meus livros... Mas minhas máscaras tinham ido embora... Minhas máscaras recolhidas no Sião, em Bali, em Sumatra, no arquipélago Malaio, em Bandoeng... Douradas, cinzentas, cor de tomate, com sobrancelhas prateadas, azuis, diabólicas, ensimesmadas, minhas máscaras eram a única recordação daquele primeiro Oriente a que cheguei solitário e que me recebeu com seu cheiro de chá, de estrume, de ódio, de suor, de jasmins intensos, de frangipán, de fruta podre nas ruas... Aquelas máscaras, recordação das puríssimas danças, dos bailes defronte do templo... Gotas de madeira coloridas pelos mitos, restos daquela mitologia floral que no ar desenhava sonhos, costumes, demônios, mistérios irreconciliáveis com minha natureza americana... E então... Talvez os milicianos tinham assomado às janelas de minha casa com as máscaras postas, assustando assim os mouros, entre um disparo e outro... Muitas delas ficaram estilhaçadas e sangrentas ali mesmo... Outras rolaram do meu sétimo andar, arrancadas por um disparo... Na frente delas tinham se estabelecido as tropas avançadas de Franco... De minha casa, trinta máscaras de deuses da Ásia se elevavam no último bàile, o baile da... Era um momento de trégua... As posições tinham mudado... Sentei-me olhando os despojos, as manchas de sangue na esteira... E através das novas janelas, através dos furos da metralha... Olhei para longe, para além da cidade universitária até as planícies e os castelos antigos... A Espanha me pareceu vazia... Pareceu-me que meus últimos convidados já tinham ido embora para sempre... Com máscaras ou sem máscaras, entre os disparos e as canções de guerra, a louca alegria, a incrível defesa, a morte ou a vida, aquilo tinha terminado para mim... Era o último silêncio depois da festa... Depois da última festa... De certa maneira, com as máscaras que se foram, com as máscaras que caíram, com aqueles soldados que eu nunca havia convidado, a Espanha tinha ido embora para mim...

 

         EM BUSCA DOS VENCIDOS

 

                   Escolhi um caminho

Embora eu tenha me tornado militante muito mais tarde no Chile, quando ingressei oficialmente no partido, creio ter-me definido como um comunista diante de mim mesmo durante a guerra da Espanha. Muitas coisas contribuíram para a minha profunda convicção.

Meu contraditório companheiro, o poeta nietzschiano León Felipe, era um homem encantador. O melhor entre seus atrativos era um anárquico senso de indisciplina e de rebeldia zombeteira. Em plena guerra civil adaptou-se facilmente à chamativa propaganda da FAI (Federación Anarquista Ibérica). Percorria freqüente-mente as frentes anarquistas onde expunha seus pensamentos e lia seus poemas icono-clastas. Estes refletiam uma ideologia vagamente acrata, anticlerical, com invocações e blasfêmias. Suas palavras cativavam os grupos que se multiplicavam pitorescamente em Madri enquanto a população ia para a frente de batalha cada vez mais próxima. Os anarquistas pintavam bondes e ônibus, metade vermelha e outra amarela. Com seus cabelos compridos e barbas, colares e pulseiras de balas, protagonizavam o carnaval agônico da Espanha. Vi vários deles calçando sapatos emblemáticos, a metade de couro vermelho e a outra de couro negro, cuja confecção devia ter custado muitíssimo trabalho aos sapateiros. E não pensem que era uma festa inofensiva. Cada um levava punhais, pistolas descomunais, rifles e carabinas. Em geral ficavam nas portas principais dos edifícios em grupos que fumavam e cuspiam, fazendo ostentação de seu armamento. Sua principal preocupação era cobrar os rendimentos aos aterrorizados inquilinos, assim como fazer-lhes renunciar voluntariamente a seus adornos de valor, anéis e relógios.

Voltava León Felipe de uma de suas conferências anarquistas, já de noite, quando nos encontramos no café da esquina de minha casa. O poeta levava uma capa espanhola que ia muito bem com sua barba nazarena. Ao sair, roçou com as elegantes pregas de sua ostentação romântica em um de seus melindrosos correligionários. Não sei se o aspecto de antigo fidalgo de León Felipe aborreceu aquele “herói” da reta-guarda mas o certo é que fomos detidos a poucos passos por um grupo de anarquistas, encabeçados pelo ofendido do café. Queriam examinar nossos papéis e, depois de dar-lhes uma vistoria, levaram o poeta lionês entre dois homens armados.

Enquanto o conduziam para o fuzilamento próximo à minha casa, cujos tiros noturnos muitas vezes não me deixavam dormir, vi passar dois milicianos armados que voltavam do front. Expliquei-lhes quem era León Felipe, qual era a falta em que havia incorrido e graças a eles pude obter a liberação de meu amigo.

Esta atmosfera de perturbação ideológica e de destruição gratuita me deu muito que pensar. Soube das façanhas de um anarquista austríaco, velho e míope, de longas melenas louras, que tinha se especializado em dar “passeios”. Tinha formado uma brigada que batizou “Amanecer” porque atuava à saída do sol.

- Você não sentiu uma dor de cabeça? - perguntava à vítima.

- Sim, claro, uma ou outra vez.

- Pois vou dar-lhe um bom analgésico - dizia o anarquista austríaco, encostando-lhe na fronte o revólver e disparando uma bala.

Enquanto esses bandos pululavam pela noite cega de Madri, os comunistas eram a única força organizada que criava um exército para enfrentar os italianos, os alemães, os mouros e os falangistas. E eram, ao mesmo tempo, a força moral que mantinha a resistência e a luta antifascista.

Simplesmente tinha que escolher um caminho. Foi o que fiz naqueles dias e nunca me arrependi da decisão tomada entre as trevas e a esperança daquela época trágica.

 

                   Rafael Alberti

A poesia é sempre um ato de paz. O poeta nasce da paz como o pão nasce da farinha.

Os incendiários, os guerreiros, os lobos buscam o poeta para queimá-lo, para matá-lo, para mordê-lo. Um espadachim deixou Pushkin ferido de morte entre as árvores de um parque sombrio. Os cavalos de pólvora galoparam enlouquecidos sobre o corpo sem vida de Petöfi. Lutando contra a guerra morreu Byron na Grécia. Os fascistas espanhóis iniciaram a guerra na Espanha assassinando seu melhor poeta.

Rafael Alberti é algo assim como um sobrevivente. Havia mil mortes dispostas para ele. Uma também em Granada. Outra morte o esperava em Badajoz; em Sevilha, cheia de sol; ou em sua pequena pátria, Cádiz; e Puerto Santa Maria, ali o buscavam para apunhalá-lo, para enforcá-lo, para matar nele uma vez mais a poesia.

Mas a poesia não foi morta, tem as sete vidas do gato. É molestada, é arrastada pela rua, cuspida e escarnecida, confinada para que se afogue, é desterrada, encarcerada, dão-lhe quatro tiros e sai de todos estes episódios com a cara lavada e um sorriso puro.

Conheci Rafael Alberti nas ruas de Madri com camisa azul e gravata vermelha. Conheci-o militante do povo quando não tinha muitos poetas que exercessem esse destino difícil. Ainda não tinham dobrado os sinos pela Espanha mas ele já sabia o que podia vir. Ele é um homem do sul, nasceu junto ao mar sonoro e às adegas de vinho amarelo como topázio. Assim foi feito seu coração: com o fogo das uvas e o rumor da onda. Sempre foi um poeta ainda que no início não o soubesse. Depois todos os espanhóis o souberam e, mais tarde, todo o mundo.

Para nós que temos a sorte de falar e conhecer a língua de Castilla, Rafael Alberti significa o esplendor da poesia na língua espanhola. Não só é um poeta inato mas um mestre da forma. Sim poesia tem, como uma rosa vermelha milagrosamente desabrochada no inverno, um copo de neve de Góngora, uma raiz de Jorge Manrique, uma pétala de Garcilaso, um aroma enlutado de Gustavo Adolfo Becquer. O que quer dizer que em sua taça cristalina confundem-se os cantos essenciais da Espanha.

Esta rosa vermelha iluminou o caminho dos que na Espanha pretenderam deter o fascismo. O mundo conhece esta heróica e trágica história. Alberti não só escreveu sonetos épicos, não só os leu nos quartéis e no front como foi quem inventou a guerrilha poética, a guerra poética contra a guerra. Inventou as canções que criaram asas sob o estampido da artilharia, canções que depois vão voando sobre toda a terra.

Este poeta de puríssima estirpe ensinou a utilidade pública da poesia num momento crítico do mundo. Nisso se assemelha a Maiakovski. Esta utilidade pública da poesia se baseia na força, na ternura, na alegria e na essência verdadeira. Sem esta qualidade a poesia soa mas não canta. Alberti canta sempre.

 

                   Nazistas no Chile

Regressei outra vez em terceira classe ao meu país. Ainda que na América Latina não tivéssemos lido o caso de que eminentes escritores como Céline, Drieu La Rochelle ou Ezra Pound se convertessem em traidores a serviço do fascismo, nem por isso deixou de existir uma forte corrente impregnada, natural ou financeiramente, pela corrente hitleriana. Em toda parte formavam-se pequenos grupos que levantavam o braço fazendo a saudação fascista, disfarçados de guardas de assalto. Mas não se tratava somente de pequenos grupos. As velhas oligarquias feudais do continente simpatizavam (e simpatizam) com qualquer tipo de anticomunismo, venha este da Alemanha ou da ultra-esquerda criolla. Além disso não esqueçamos que grandes grupos de descendentes de alemães povoam a maioria de determinadas regiões do Chile, Brasil e México. Esses setores foram facilmente seduzidos pela meteórica ascensão de Hitler e pela fábula de um milênio de grandeza germânica.

Por aqueles dias de vitórias estrondosas de Hitler, tive que cruzar mais de uma vez alguma rua de um vilarejo ou de uma cidade do Sul do Chile sob verdadeiros bosques de bandeiras com a cruz gamada. Numa ocasião, em um pequeno povoado sulista, vi-me forçado a usar o único telefone da localidade e a fazer uma involuntária reverência ao Führer. O proprietário alemão do estabelecimento tinha maquinado colocar o aparelho de tal forma que a gente ficava obrigado a ficar com o braço no alto diante de um retrato de Hitler com o braço levantado.

Fui diretor da revista Aurora de Chile. Toda a artilharia literária (não tínhamos outra) era disparada contra os nazistas que iam engolindo um país atrás do outro. O embaixador hitleriano no Chile presenteou livros da chamada cultura neogermânica à Biblioteca Nacional. Respondemos pedindo a todos os nossos leitores que nos mandassem os verdadeiros livros alemães da verdadeira Alemanha proibidos por Hitler. Foi uma grande experiência. Recebi ameaças de morte. E chegaram muitos embrulhos corretamente empacotados com livros que continham imundícies. Recebemos também coleções inteiras do Stürner, jornal pornográfico, sadista e anti-semita, dirigido por Julius Streicher, justamente enforcado anos depois em Nuremberg. Mas pouco a pouco, com timidez, começaram a chegar as edições em idioma alemão de Henri Heine, de Thomas Mann, de Ana Seghers, de Einstein, de Arnold Zweig. Quando tivemos cerca de quinhentos volumes fomos deixá-los na Biblioteca Nacional.

Que surpresa! A Biblioteca Nacional nos tinha fechado as portas com cadeado.

Organizamos então uma passeata e penetramos no salão de honra da univer-sidade com os retratos do Pastor Niemoller e de Karl von Ossietvsky. Não sei por que razão celebrava-se ali nesse instante um ato presidido por Dom Miguel Cruchaga Tocornal, ministro das Relações Exteriores. Colocamos com cuidado os livros e os retratos no estrado da presidência. Ganhou-se a batalha: os livros foram aceitos.

 

                   Isla Negra

Pensei entregar-me a meu trabalho literário com mais dedicação e mais força. O contato com a Espanha tinha me fortificado e amadurecido. As horas amargas de minha poesia deviam terminar. O subjetivismo melancólico de meus 20 Poemas de Amor ou a comoção dolorosa de Residencia en la Tierra chegavam ao fim. Pareceume encontrar um veio enterrado, não sob as rochas subterrâneas mas sob as folhas dos livros. Pode a poesia servir aos nossos semelhantes? Pode acompanhar as lutas dos homens? Já tinha caminhado bastante pelo terreno do irracional e do negativo. Devia deter-me e buscar o caminho do humanismo, banido da literatura contemporânea mas enraizado profundamente nas aspirações do ser humano.

Comecei a trabalhar em meu Canto general.

Para isto precisava de um lugar de trabalho. Encontrei uma casa de pedra defronte do mar num lugar desconhecido para todo o mundo, chamado Isla Negra. Dom Eladio Sobrino, o proprietário, um velho socialista espanhol, capitão de navio, estava construindo-a para sua família mas quis vender. Como compraria? Ofereci o projeto de meu livro Canto general mas fui rechaçado pela Editora Ercilla, que então publicava minhas obras. Com ajuda de outros editores, que pagaram diretamente ao proprietário, pude finalmente comprar, no ano de 1939, minha casa de trabalho em Isla Negra.

A idéia de um poema central que agrupasse as incidências históricas, as condições geográficas, a vida e as lutas de nossos povos, apresentava-se a mim como uma tarefa urgente. A costa selvagem da Isla Negra, com o tumultuoso movimento oceânico, permitia que eu me entregasse com paixão à empresa de meu novo canto.

 

                   “Traga-me espanhóis”

Mas a vida me tirou logo dali.

As notícias aterradoras da emigração espanhola chegavam ao Chile. Mais de quinhentos mil homens e mulheres, combatentes e civis, tinham cruzado a fronteira francesa. Na França o governo de León Blum, pressionado pelas forças reacionárias, acumulou-os em campos de concentração, espalhou-os em fortalezas e prisões, manteve-os amontoados nas regiões africanas junto ao Saara.

O governo do Chile tinha mudado. Os mesmos avatares do povo espanhol tinham fortalecido as forças populares chilenas e agora tínhamos um governo progressista.

Esse governo da frente popular do Chile decidiu me enviar à França para cumprir a mais nobre missão que exerci em minha vida: a de tirar espanhóis de suas prisões e enviá-los à minha pátria. Assim podia minha poesia espalhar-se como uma luz radiante, vinda da América, entre esses montões de homens carregados como ninguém de sofrimento e heroísmo. Assim minha poesia chegaria a se confundir com a ajuda material da América que, ao receber os espanhóis, pagava uma dívida imemorial.

Quase inválido, recém-operado, com uma perna engessada – tais eram minhas condições físicas naquele momento -, saí de meu retiro e me apresentei ao presidente da república. Dom Pédro Aguirre Cerda recebeu-me com afeto.

- Sim, traga-me milhares de espanhóis. Temos trabalho para todos. Traga-me pescadores. Traga-me bascos, castelhanos, estremenhos.

E poucos dias depois, ainda engessado, fui à França para buscar espanhóis para o Chile.

Tinha um cargo concreto. Era cônsul encarregado da emigração espanhola - assim dizia a nomeação. Apresentei exultante minhas credenciais à embaixada do Chile em Paris.

Governo e situação política não eram os mesmos em minha pátria mas a embaixada em Paris não tinha mudado. A possibilidade de enviar espanhóis ao Chile enfurecia os empertigados diplomatas. Instalaram-me numa sala perto da cozinha, hostilizaram-me de todas as maneiras até negar-me papel de escrever. Já começava a chegar às portas do edifício da embaixada a onda dos indesejáveis: combatentes feridos, juristas e escritores, profissionais que tinham perdido suas clínicas, operários de todas as especialidades.

Como conseguiam chegar apesar dos pesares até minha sala e como meu escritório era no quarto andar, inventaram algo diabólico: suspenderam o funciona-mento do elevador. Muitos dos espanhóis eram feridos de guerra e sobreviventes do campo africano de concentração e cortava o coração vê-los subir penosamente ao quarto andar, enquanto os ferozes funcionários se compraziam com minhas dificuldades.

 

                   Um personagem diabólico

Para complicar minha vida o governo da Frente Popular do Chile anunciou a chegada de um encarregado de negócios. Alegrei-me muitíssimo, uma vez que um novo chefe na embaixada poderia eliminar os entraves que o antigo pessoal diplomá-tico tinha me prodigalizado em relação à emigração espanhola. Da Gare Saint Lazare desceu um rapazola magro, de óculos sem aro (pince-nez), que lhe dava um ar de velho ratinho de biblioteca. Teria uns vinte e quatro ou vinte e cinco anos. Com voz afeminada e aguda, entrecortada pela emoção, disse me reconhecer como chefe e que sua viagem visava somente colaborar como meu ajudante na grande tarefa de mandar para o Chile os “gloriosos derrotados da guerra”. Ainda que a satisfação de adquirir um novo colaborador se mantivesse, o personagem me inquietava. Apesar da adulação e dos exageros que me prodigalizava pareceu-me adivinhar alguma coisa falsa em sua pessoa. Soube depois que, com o triunfo da Frente Popular no Chile, tinha mudado violentamente de Caballero de Colón, organização jesuítica, para membro da juven-tude comunista. Esta, em pleno período de recrutamento, ficou encantada com seus méritos intelectuais. Arellano Marín escrevia comédias e artigos, era um conferencista erudito e parecia saber de tudo.

A Guerra Mundial se aproximava. A cada noite Paris esperava os bombardeios alemães e havia instruções em cada casa para refugiarse dos ataques aéreos. Eu ia cada noite a Villiers sur Seine, a uma casinha em frente ao rio, que deixava cada manhã para retornar com pesar à embaixada.

O recém-chegado Arellano Marín tinha adquirido, em poucos dias, a importância que eu nunca consegui. Tinha-o apresentado a Negrín, a Álvarez del Vayo e a alguns dirigentes dos partidos espanhóis. Uma semana depois o novo funcionário era íntimo de todos eles. Entravam e saíam de seu escritório dirigentes espanhóis que eu não conhecia. Suas longas conversações eram um mistério para mim. De quando em quando me chamava para me mostrar um brilhante ou uma esmeralda que tinha comprado para sua mãe ou para me fazer confidências sobre uma loura coquetíssima que o fazia gastar mais que o devido nos cabarés parisienses. De Aragon e especial-mente de Elsa, a quem tínhamos refugiado no local da embaixada para protegê-los da repressão anticomunista, Arellano Marín fez-se amigo imediato, cumulando-os de atenções e pequenos presentes. A psicologia do personagem deve ter interessado Elsa Triolet uma vez que fala dele em uma ou duas de suas novelas.

Por tudo isto fui descobrindo que sua voracidade pelo luxo e pelo dinheiro ia crescendo diante de mim, ainda que eu nunca tenha sido muito astuto. Mudava de marcas de automóveis com facilidade, alugava casas suntuosas e aquela loura coquete parecia atormentá-lo cada dia mais com suas exigências.

Tive que transferir-me para Bruxelas para solucionar um problema dramático dos emigrados. Ao sair do modestíssimo hotel em que me alojei, encontrei-me boquiaberto com meu flamante colaborador, o elegante Arellano Marín. Acolheu-me com grandes protestos de amizade e me convidou a jantar naquele mesmo dia.

Fomos nos encontrar em seu hotel, o mais caro de Bruxelas. Tinha mandado colocar orquídeas em nossa mesa. Pediu naturalmente caviar e champanha. Durante o jantar, guardei um silêncio preocupado enquanto ouvia os mirabolantes planos de meu anfitrião, suas próximas viagens de recreio, suas aquisições de jóias. Parecia-me ouvir um novo-rico com certos sintomas de demência mas a agudeza de seu olhar, a segurança de suas afirmações, tudo isso produzia em mim uma espécie de enjôo. Decidi pôr tudo em pratos limpos e lhe falar francamente de minhas preocupações. Pedi que tomássemos o café em seu quarto porque tinha algo a lhe dizer.

Ao pé da escadaria, quando subíamos para conversar, aproximaram-se dois homens que eu não conhecia. Ele lhes disse em espanhol que o esperassem, que desceria dentro de poucos minutos.

Apenas chegado ao seu quarto, deixei de lado o café. O diálogo foi tenso:

- Parece-me que vais por mau caminho. Estás te convertendo num frenético esbanjador. Pode ser que sejas demasiado jovem para entender isso. Mas nossas obrigações políticas são muito sérias. A sorte de mil emigrados está em nossas mãos e com isto não se brinca. Não me interessa teus assuntos mas quero te fazer uma advertência. Há muita gente que depois de uma vida desgraçada diz: “Ninguém me deu um conselho, ninguém me advertiu.” Contigo é diferente. Esta foi minha advertência. E agora vou embora.

Olhei-o ao despedir-me. As lágrimas corriam-lhe dos olhos até à boca. Tive um impulso de arrependimento. Teria ido longe demais? Aproximei-me e toquei no seu ombro:

- Não chores!

- Choro de raiva - respondeu.

Afastei-me sem uma palavra mais. Regressei a Paris e nunca mais o voltei a ver. Ao ver-me descer a escadaria, os dois desconhecidos que esperavam subiram rapidamente ao seu quarto.

O desenlace desta história teve lugar bastante tempo depois, no México, onde então eu era cônsul do Chile. Um dia fui convidado para almoçar com um grupo de refugiados espanhóis e dois deles me reconheceram.

- De onde me conhecem? - perguntei.

- Somos aqueles dois de Bruxelas que subiram para falar com seu compatriota Arellano Marín quando você desceu do quarto.

- E que aconteceu então? Sempre tive curiosidade de saber - disse.

Contaram-me um episódio extraordinário. Tinham-no encontrado banhado em lágrimas, preso de uma crise nervosa. E disse-lhes entre soluços: “Acabo de sofrer o maior choque da minha vida. Neruda saiu daqui para denunciá-los à Gestapo como perigosos comunistas espanhóis. Não pude convencê-lo de esperar algumas horas. Tem os minutos contados para escapar. Deixem-me suas valises que eu as guardarei e as farei chegar mais tarde a vocês.

- Que cretino! - disse-lhes. - Menos mal que de qualquer maneira conseguiram escapar dos alemães.

- Mas as valises continham noventa mil dólares dos sindicatos operários espanhóis e não voltamos nem voltaremos a vê-las.

No entanto mais tarde soube que o diabólico personagem tinha feito uma longa e agradável tournée pelo Oriente Próximo, desfrutando seus amores parisienses. Claro que a loura coquete, tão exigente, era um louro estudante da Sorbonne.

Tempos depois publicava-se no Chile sua renúncia do partido comunista. “Profundas divergências ideológicas obrigaram-me a tomar esta decisão”, assim dizia em sua carta aos jornais.

 

                     Um general e um poeta

Cada homem que chegava da derrota e do cativeiro era uma novela com capí-tulos, prantos, risos, solidão, amores. Algumas destas histórias eram surpreendentes.

Conheci um general de aviação, alto e ascético, homem de academia militar e com toda classe de credenciais. Andava ali pelas ruas de Paris, sombra quixotesca da terra espanhola, idoso e vertical como um choupo de Castilla.

Quando o exército franquista dividiu em duas a zona republicana, esse general Herrera devia patrulhar na escuridão absoluta, inspecionar as defesas, dar ordens para um lado e outro. Com seu avião inteiramente às escuras, nas noites mais tenebrosas, sobrevoava o campo inimigo. De vez em quando um disparo franquista passava roçando o seu aparelho. Aprendeu então o método Braille. Quando dominou a escrita dos cegos viajava em suas perigosas missões, lendo com os dedos, enquanto lá embaixo ardiam o fogo e a dor da guerra civil. Contou-me o general que tinha conse-guido ler O Conde de Montecristo e que ao iniciar Os Três Mosqueteiros foi interrompida sua leitura noturna de cego pela derrota e em seguida o exílio.

Outra história que recordo com grande emoção é a do poeta andaluz Pedro Garfias, que foi parar no desterro no castelo de um lorde, na Escócia. No castelo estava sempre só e Garfías, andaluz inquieto, ia todo dia à taberna do condado e silenciosa-mente, pois não falava inglês mas apenas um espanhol gitano que eu mesmo não entendia, bebia melancolicamente sua solitária cerveja. O mudo freguês chamou a atenção do taberneiro. Certa noite, quando já todos os freqüentadores tinham ido embora, o taberneiro rogou que ele ficasse e continuaram bebendo em silêncio junto ao fogo da lareira, que crepitava e falava pelos dois.

Tornou-se um rito este convite. Cada noite Garfias era acolhido pelo taberneiro, solitário como ele, sem mulher e sem família. Pouco a pouco suas línguas se soltaram. Garfias contava-lhe toda a guerra da Espanha com interjeições, com juramentos, com imprecações muito andaluzas. O taberneiro escutava-o em silêncio religioso sem entender naturalmente uma só palavra.

Por sua vez o escocês começou a contar suas desventuras, provavelmente a história de sua mulher que o abandonou, provavelmente as proezas dos filhos cujos retratos de uniforme militar adornavam a chaminé. Digo provavelmente porque, durante os longos meses que duraram estas estranhas conversas, Garfias tampouco entendeu uma palavra.

No entanto a amizade dos dois homens solitários que falavam apaixonadamente cada um de seus assuntos e em seu idioma, inacessível para o outro, foi se acrescentando. E os encontros a cada noite e a conversa até o amanhecer converteram-se numa necessidade para ambos.

Quando Garfias teve que partir para o México despediram-se bebendo e falando, abraçando-se e chorando. A emoção que os unia tão profundamente era a separação de suas solidões.

- Pedro - disse muitas vezes ao poeta - que achas que te contava?

- Nunca entendi uma só palavra, Pablo, mas quando eu o escutava tive sempre a sensação, a certeza de compreendê-lo. E quando eu falava estava certo de que ele também me compreendia.

 

                     O Winnipeg

Os funcionários da embaixada me entregaram certa manhã, ao chegar, um longo telegrama. Sorriam. Era estranho que me sorrissem uma vez que nem sequer me cumprimentavam. Devia conter essa mensagem algo que os regozijava.

Era um telegrama do Chile, assinado nada menos que pelo presidente Dom Pedro Aguirre Cerda, o mesmo de quem recebi as instruções contundentes para o embarque dos espanhóis desterrados.

Li com estupor que Dom Pedro, nosso bom presidente, tinha sabido esta manhã com surpresa que eu preparava a entrada dos emigrantes espanhóis ao Chile. Pedia que eu desmentisse imediatamente tão insólita notícia.

Para mim o insólito era o telegrama do presidente. O trabalho de organizar, examinar, selecionar a emigração, tinha sido uma tarefa dura e solitária. Por sorte o governo da Espanha no exiio tinha compreendido a importância de minha missão. Mas todo dia surgiam novos e inesperados obstáculos. Entretanto, dos campos de concentração onde se amontoavam na França e na África milhares de refugiados, saíam ou preparavam-se para sair até o Chile centenas deles.

O governo republicano no exílio tinha conseguido adquirir um barco, o Winnipeg. Este tinha sido transformado para aumentar sua capacidade de passageiros e esperava atracado no cais de Trompeloup, pequeno porto vizinho a Bordéus.

Que fazer? Aquele trabalho intenso e dramático, à beira mesmo da Segunda Guerra Mundial, era para mim como o auge de minha existência. Minha mão estendida para os combatentes perseguidos significava para eles a salvação e mostrava-lhes a essência de minha pátria acolhedora e lutadora. Todos esses sonhos vinham abaixo com o telegrama do presidente.

Decidi consultar Negrín sobre o caso. Tinha tido a sorte de fazer amizade com o presidente Juan Negrín, com o ministro Álvarez del Vayo e com alguns outros dos últimos governantes republicanos. Negrín era o mais interessante. A alta política espanhola sempre me pareceu um tanto paroquial e provinciana, desprovida de horizontes. Negrín era universal ou pelo menos europeu, tinha feito os estudos em Leipzig, tinha estatura universitária. Mantinha em Paris, com toda dignidade, essa sombra imaterial que são os governos no exílio.

Conversamos, relatei-lhe a situação, o estranho telegrama presidencial efetiva-mente me deixava como um impostor, como um charlatão que oferecia a uma multidão de desterrados um asilo inexistente. As soluções possíveis eram três. A primeira, abominável, era simplesmente anunciar que tinha sido cancelada a emigração da Espanha para o Chile. A segunda, dramática, era denunciar publicamente meu inconformismo, dar por terminada minha missão e disparar um tiro na cabeça. A terceira, desafiante, era encher o navio de emigrados, embarcar com eles e me lançar sem autorização para Valparaíso para ver o que aconteceria.

Negrin se jogou para trás na poltrona, fumando seu grande havana. Depois sorriu melancolicamente e me respondeu:

- Você não podia usar o telefone?

Naqueles dias as comunicações telefônicas entre Europa e América eram insuportavelmente difíceis, com horas de espera. Entre ruídos ensurdecedores e bruscas interrupções, consegui ouvir a voz remota do ministro das Relações Exteriores. Através de uma conversação entrecortada, com frases que deviam repetir-se vinte vezes, sem saber se nos entendíamos ou não, dando gritos fenomenais ou escutando como resposta trombetadas oceânicas do telefone, pensei ter feito o ministro Ortega compreender que eu não acatava a contraordem do presidente. Pensei também ter entendido que ele pedia que eu esperasse até o dia seguinte.

Passei, como era lógico, uma noite intranqüila em meu pequeno hotel de Paris. Na tarde seguinte soube que o ministro tinha apresentado sua renúncia aquela manhã. Não aceitava ele tampouco minha desautorização. O gabinete tremeu e nosso bom presidente, passageiramente confundido pelas pressões, tinha recobrado sua autori-dade. Recebi então um novo telegrama, dizendo-me que prosseguisse a emigração.

Embarcamo-os finalmente no Winnipeg. No mesmo lugar de embarque juntaram-se maridos e mulheres, pais e filhos, que tinham sido separados por longo tempo e que vinham dos confins da Europa e da África. A cada trem que chegava precipitava-se a multidão dos que esperavam. Entre carreiras, lágrimas e gritos, reconheciam os seres amados que colocavam a cabeça para fora pelas janelinhas como cachos humanos. Foram todos entrando no navio. Eram pescadores, camponeses, operários, intelectuais, uma demonstração de força, de heroísmo e de trabalho. Minha poesia, em sua luta, tinha conseguido encontrar pátria para eles. E me senti orgulhoso.

Comprei um jornal. Ia eu andando por uma rua de Varenne-sur-Seine. Passava junto do castelo velho cujas ruínas avermelhadas pelas trepadeiras deixavam subir até o alto pequenas torres de ardósia. Aquele velho castelo em que Ronsard e os poetas da Plêiade se reuniram tinha então para mim um prestígio de pedra e mármore, de verso hendecassílabo escrito em velhas letras de ouro. Abri o jornal. Naquele dia estalava a Segunda Guerra Mundial. Assim dizia, em grandes caracteres de suja tinta negra, o diário que me caiu nas mãos naquela velha aldeia perdida.

Todo o mundo a esperava. Hitler avançava engolindo territórios e os estadistas ingleses e franceses corriam com seus guarda-chuvas a oferecer-lhe mais cidades, reinos e seres.

Uma terrível névoa de confusão enchia as consciências. Da minha janela, em Paris, olhava diretamente até os Inválidos e via sair os primeiros contingentes, os rapazinhos que nunca souberam se vestir de soldados e que partiam para entrar na grande goela da morte.

Era triste sua partida e nada o dissimulava. Era como uma guerra perdida de antemão, algo indefinível. As forças chauvinistas percorriam as ruas em perseguição de intelectuais progressistas. O inimigo não estava para eles nos discípulos de Hitler, nos Laval, mas sim na fina flor do pensamento francês. Abrigamos na embaixada, que tinha mudado muito, o grande poeta Louis Aragon. Passou quatro dias escrevendo de dia e de noite enquanto as hordas o procuravam para o aniquilar. Ali, na embaixada do Chile, terminou sua novela Les Voyageurs de L'Impériale. No quinto dia, vestido de uniforme, dirigiu-se ao Jront. Era sua segunda guerra contra os alemães.

Acostumei-me, naqueles dias crepusculares, a essa incerteza européia que não sofre revoluções contínuas nem terremotos mas mantém o veneno mortal da guerra saturando o ar e o pão. Por temor aos bombardeios, a grande metrópole se apagava de noite e essa escuridão de sete milhões de seres juntos, essas trevas espessas em que se tinha de andar em plena cidade-luz, ficaram gravadas em minha memória.

 

No final desta época, como se toda esta longa viagem tivesse sido inútil, volto a ficar só nos territórios recém-descobertos. Como na crise de nascimento, como no começo alarmante e alarmado do terror metafísico de onde brota o manancial de meus primeiros versos, como em um novo crepúsculo que minha própria criação provocou, entro em uma agonia e na segunda solidão. Para onde ir? Para onde regressar, conduzir, calar ou palpitar? Olho para todos os pontos da claridade e dá escuridão e não encontro senão o próprio vazio que minhas mãos elaboraram com cuidado fatal.

Porém o mais próximo, o mais fundamental, o mais extenso, o mais incalculável não aparecia senão neste momento em meu caminho. Tinha pensado em todos os mundos mas não no homem. Tinha explorado com crueldade e agonia o coração do homem. Sem pensar nos homens tinha visto cidades mas cidades vazias, tinha visto fábricas de trágica presença mas não tinha visto o sofrimento debaixo dos tetos, sobre as ruas, em todas as estações, nas cidades e no campo.

Diante das primeiras balas que atravessaram as guitarras da Espanha, quando em vez de sons saíram delas borbotões de sangue, minha poesia deteve-se como um fantasma no meio das ruas da angústia humana e começou a subir por ela uma corrente de raízes e de sangue. Desde então meu caminho junta-se com o caminho de todos. E em seguida vejo que desde o sul da solidão fui para o norte que é o povo, o povo ao qual minha humilde poesia quisera servir de espada e de lenço para secar o suor de suas grandes dores e para dar-lhe uma arma na luta pelo pão.

O espaço então se faz grande, profundo e permanente. Estamos lá de pé sobre a terra. Queremos entrar na possessão infinita de tudo que existe. Não buscamos o mistério; somos o mistério. Minha poesia começa a ser parte material de um cenário infinitamente espacial, de um cenário ao mesmo tempo submarino e subterrâneo, a entrar por galerias de vegetação extraordinária, a conversar em pleno dia com fantasmas solares, a explorar a cavidade do mineral escondido no segredo da terra, a determinar as relações esquecidas do outono e do homem. A atmosfera se obscurece e é iluminada às vezes por relâmpagos recarregados de fosforescência e de terror. Uma nova construção longe das palavras mais evidentes, mais gastas, aparece na superfície do ar. Um novo continente levanta-se da mais secreta matéria de minha poesia. Em povoar estas terras, em classificar este reino, em tocar todas suas margens misteriosas, em apaziguar sua espuma, em percorrer sua zoologia e sua geográfica longitude, passei anos obscuros, solitários e remotos.

 

         MÉXICO FLORIDO E ESPINHOSO

 

Meu governo me mandava ao México. Cheio dessa opressão mortal produzida por tanto sofrimento e desordem, cheguei no ano de 1940 ao pequeno planalto de Anahuac respirando o que Alfonso Reyes dizia ser a região mais transparente de ar.

México, com seu nopal e sua serpente, México florido e espinhoso, seco e tempestuoso, violento de desenho e de cor, violento de erupção e criação, cobriu-me com seu sortilégio e sua luz espantosa.

Percorri-o por anos inteiros de mercado a mercado. Porque o México está nos mercados, não está nas guturais canções dos filmes nem na falsa vulgaridade de bigode e pistola, O México é uma terra de grandes mantas cor de carmim e turquesa fosforescente. O México é uma terra de vasilhas e cântaros e de frutas cortadas debaixo de um enxame de insetos. O México é um campo infinito de magueis de tintura azul-cobalto e coroa de espinhos amarelos.

Tudo isto os mercados mais belos do mundo dão a ele. A fruta e a lã, o barro e os teares, mostram o poderio assombroso dos dedos mexicanos, fecundos e eternos.

Vaguei pelo México, percorri a sua costa toda, sua alta costa alcantilada, incendiada por um perpétuo relâmpago fosfórico. Desde Topolobambo em Sinaloa, desci por esses nomes hemisféricos, ásperos nomes que os deuses deixaram de herança ao México quando em seu território os homens, menos cruéis que os deuses, começaram a mandar. Andei por todas essas sílabas de mistério e esplendor e por esses sons primordiais. Sonora e Yucatán, Anahuac que se ergue como um braseiro frio de onde chegam todos os confusos aromas desde Nayarit até Minhoacan, desde onde se percebe a fumaça da pequena ilha de Janitzio e o olor de maís maguei que sobe por Jalisco e o enxofre do novo vulcão de Paricutín juntando-se à umidade fragrante dos peixes do lago de Pátzcuaro. México, o último dos países mágicos, mágico de antigui-dade e de história, mágico de música e de geografia. Fazendo meu caminho de vagabundo por essas pedras açoitadas pelo sangue perene, entrecruzadas por um largo fio de sangue e de musgo, senti-me imenso e antigo, digno de andar entre tantas criações imemoriais. Vales abruptos interrompidos por paredes de rocha; colinas elevadas se alternam, recortadas rente como por uma faca; Imensas selvas tropicais, ferventes de madeira e de serpentes, de pássaros e de lendas. Naquele vasto território habitado até seus últimos confins pela luta do homem no tempo, em seus grandes espaços descobri que éramos, Chile e México, os países antípodas da América. Nunca me comoveu a convencional frase diplomática que faz com que o embaixador do Japão ache nas cerejeiras do Chile, como o inglês em nosso nevoeiro da costa, como o argentino ou o alemão em nossa neve circundante, ache que somos parecidos, muito parecidos com todos os países. Alegra-me a diversidade da terra, a fruta terrestre diferenciada em todas as latitudes. Não estou depreciando o México, o país amado, considerando-o o mais distante de nosso país oceânico e cereal, mas destaco suas diferenças para que nossa América ostente todos os seus aspectos, suas alturas e suas profundIdades. E não há na América nem talvez no planeta, país de maior profundi-dade humana que o México e seus homens. Através de seus acertos luminosos como através de seus erros gigantescos vê-se a mesma cadeia de generosidade grandiosa, de vitalidade profunda, de inesgotável história, de germinação interminável.

Pelas aldeias de pescadores, onde a rede se faz tão diáfana que parece uma grande mariposa que retorna às águas para adquirir as escamas de prata que lhe faltam, por seus centros mineiros em que o metal, logo depois de extraído, converte-se de duro lingote em geometria esplendorosa, pelas rotas de onde surgem os conventos católicos espessos e espinhosos como cactos colossais, pelos mercados onde a hortaliça é apresentada como uma flor e onde a riqueza de cores e sabores chega ao paroxismo, desviamo-nos um dia até que, atravessando o México, chegamos a Yucatán, berço submerso da mais antiga fenda do mundo, do idolátrico Mayab. Ali a terra está sacudida pela história e pelo sêmen. Junto à fibra do henequém crescem ainda as ruínas cheias de inteligência e de sacrifícios.

Quando se cruzam os últimos caminhos, chegamos ao imenso território onde os antigos mexicanos deixaram sua ornamentada história escondida entre a selva. Ali encontramos uma nova espécie de água, a mais misteriosa das águas terrestres. Não é o mar nem é o arroio, nem o rio nem nada das águas conhecidas. Em Yucatán não há água senão debaixo da terra e esta se racha subitamente, produzindo poços enormes e selvagens cujas encostas cheias de vegetação tropical deixam ver no fundo uma água profundíssima verde e zenital. Os maias encontraram estas aberturas terrestres chamadas cenotes (1) e as divinizaram com seus estranhos ritos. Como em todas as religiões, no princípio consagraram à necessidade e à fecundidade, e naquela terra a aridez foi vencida por essas águas escondidas para as quais a terra se abria.

Então sobre os cenotes sagrados, por milhares de anos, as religiões primitivas e invasoras aumentaram o mistério da água misteriosa. Nas margens do cenote centenas de virgens condecoradas pela flora e pelo ouro, depois de cerimônias nupciais, foram cobertas de jóias e precipitadas do alto para as águas correntes e insondáveis. Das profundezas subiam até à superfície as flores e as coroas das virgens mas elas permaneciam no lodo do solo remoto, presas por suas cadeias de ouro.

As jóias, uma ínfima parte delas, foram resgatadas depois de mmlhares de anos e estão atrás das vitrinas dos museus do México e da América do Norte. Mas eu, ao entrar nessa solidão, não busquei o ouro mas sim o grito das donzelas afogadas. Parecia-me ouvir nos estranhos grasnidos dos pássaros a rouca agonia das virgens; e, no vôo veloz com que cruzavam a majestade tenebrosa da água imemorial, adivinhava as mãos exangues das jovens mortas.

Sobre a estátua que alongava a mão de pedra clara sobre a água e o ar eternos, vi uma vez pousar uma pomba. Não sei que águia a perseguiria. Destoava naquele recinto em que as únicas aves, o atajacaminos (2) de voz trêmula, o quetzal de plumagem fabulosa, o colibri de turquesa e as aves de rapina, conquistavam a selva para sua carnificina e seu esplendor. A pomba pousou na mão da estátua, branca como uma gota de neve sobre as pedras tropicais. Olhei-a porque vinha de outro mundo, de um mundo medido e harmônico, de uma coluna pitagórica ou de um número mediterrâneo. Deteve-se na margem das trevas, aceitou meu silêncio quando eu mesmo já pertencia a esse mundo original, americano, sangrento e antigo, e voou diante de meus olhos até perder-se no céu.

 

1 - Cenote: espécie de poço ou depósito de água que se encontra em algumas cavernas do México e de outras partes da América, geralmente a grande profundidade. (N. da T.)

2 - Atajacaminos: ave originária da América tropical. (N. da T.)

 

                   Os pintores mexicanos

A vida intelectual do México estava dominada pela pintura.

Estes pintores do México cobriam a cidade com História e Geografia, com incursões civis, com polêmicas ferruginosas. Num cume excelso estava situado José Clemente Orozco, titã manco e mirrado, espécie de Goya de sua pátria fantasmagórica. Muitas vezes conversei com ele. Sua pessoa parecia carecer da violência que teve sua obra. Tinha uma suavidade de oleiro que perdeu a mão no torno e que com a mão que restou sente-se obrigado a continuar criando universos. Seus soldados e vivandeiras, seus camponeses fuzilados pelas autoridades, seus sarcófagos com terríveis crucifi-cados são o que há de mais imortal em nossa pintura americana e permanecerão como a revelação de nossa crueldade.

Diego Rivera tinha já trabalhado tanto por esses anos e tinha se batido tanto com todos que já o pintor colossal pertencia à lenda. Ao vê-lo me parecia estranho não descobrir nele caudas com escamas ou patas com garras.

Diego Rivera sempre foi dado a invencionices. Antes da Primeira Guerra Mundial, Ilya Ehrenburg tinha publicado, em Paris, um livro sobre suas façanhas e mistificações: Vida e andanças de Julio Jurenito.

Trinta anos depois Diego Rivera continuava sendo grande mestre da pintura e da fabulação. Aconselhava comer carne humana como dieta higiênica e de grandes gourmets. Dava receitas para cozinhar gente de todas as idades. Outras vezes empenhava-se em teorizar sobre o amor lésbico, sustentando que essa relação era a única normal, segundo provavam os vestígios históricos mais remotos encontrados em escavações que ele mesmo tinha dirigido.

Às vezes conversava horas comigo, movendo seus empapuçados olhos de índio, e me revelava sua origem judia. Outras vezes, esquecendo a conversa anterior, jurava que ele era o pai do General Rommel, mas essa confidência devia ficar absolutamente secreta porque sua revelação podia ter sérias conseqüências internacionais.

Seu tom de persuasão extraordinário e sua maneira pachorrenta de fornecer os detalhes mais íntimos e inesperados de suas mentiras faziam dele um charlatão maravilhoso, cujo encanto ninguém que o conheceu jamais pode esquecer.

David Alfaro Siqueiros estava então no cárcere. Alguém o tinha metido numa incursão armada à casa de Trotsky. Conheci-o na prisão mas em verdade também fora dela porque saíamos com Pérez Rulfo, comandante da prisão, e íamos beber juntos onde não déssemos muito na vista. Voltávamos altas horas da noite e eu dava um abraço de despedida em David, que ficava atrás de suas grades.

Numa dessas voltas de Siqueiros da rua à prisão, conheci seu irmão, uma pessoa estranhíssima chamada Jesús Siqueiros. A palavra dissimulado, mas no bom sentido, é a que mais se aproxima para descrevê-lo. Deslizava junto às paredes sem fazer ruído nem movimento algum. De repente surgia atrás de ti ou a teu lado. Falava pouco e, quando o fazia, era apenas um murmúrio. O que não era obstáculo para que numa maleta pequena que levava consigo, também silenciosamente, transportasse quarenta ou cinqüenta pistolas. Certa vez aconteceu-me abrir, distraidamente, a maleta e descobri com estupor aquele arsenal de cabos negros, nacarados e prateados.

Tudo para nada porque Jesús Siqueiros era tão pacifico quanto era turbulento seu irmão David. Jesús tinha também dotes de grande artista ou ator, uma espécie de mimo. Sem mover o corpo nem as mãos, sem emitir um único som, deixando atuar somente o rosto que mudava de expressão à vontade, expressava ao vivo, como máscaras sucessivas, o terror, a angústia, a alegria e a ternura. Aquele pálido rosto de fantasma acompanhava-o por entre seu labirinto vital, de onde emergia de vez em quando carregado de pistolas que nunca usou.

Estes vulcânicos pintores mantinham concentrada neles a atenção pública. Às vezes sustentavam polêmicas tremendas. Numa delas, esgotados os argumentos, Diego Rivera e Siqueiros sacaram grandes pistolas e dispararam quase ao mesmo tempo mas contra as asas dos anjos de gesso do teto do teatro. Quando as pesadas plumas de gesso começaram a cair sobre as cabeças dos espectadores, estes foram abandonando o teatro e aquela discussão terminou com um forte cheiro de pólvora e uma sala vazia.

Rufino Tamayo não vivia então no México. De Nova Iorque suas pinturas se difundiram, complexas e ardentes, tão representativas do México como as frutas ou os tecidos dos mercados.

Não há paralelo entre a pintura de Diego Rivera e a de David Alfaro Siqueiros. Diego é um clássico linear; com essa linha infinitamente ondulante, espécie de caligra-fia histórica, foi tecendo a história do México e dando-lhe relevo a feitos, costumes e tragédias. Siqueiros é a explosão de um temperamento vulcânico que combina técnica assombrosa e longas investigações.

Entre saídas clandestinas da prisão e conversas sobre tudo quanto existe tramamos, Siqueiros e eu, sua liberação definitiva. Provido de um visto que eu mesmo estampei em seu passaporte, dirigiu-se ao Chile com sua mulher, Angélica Arenales.

O México havia construído uma escola na cidade de Chillán, que tinha sido destruída pelos terremotos, e nessa “Escola México” Siqueiros pintou um de seus murais extraordinários. O governo do Chile me pagou este serviço à cultura nacional suspendendo-me de minhas funções de cônsul por dois meses.

 

                   Napoleón Ubico

Decidi visitar a Guatemala e fui para lá de automóvel. Passamos pelo istmo de Tehuantepec, região dourada do México, com mulheres vestidas como pássaros e um cheiro de mel e açúcar no ar. Em seguida entramos na grande selva de Chiapas. De noite detínhamos o veículo, assustados pelos ruídos, pela telegrafia da selva. Milhares de cigarras emitiam um ruído violento, planetário, som inacreditável. O misterioso México estendia sua sombra verde sobre antigas construções, sobre pinturas remotas, jóias e monumentos, cabeças colossais, animais de pedra. Tudo isto jazia na selva, na milionária existência do inaudito mexicano. Passada a fronteira, no alto da América Central, o estreito caminho da Guatemala vislumbrou-me com suas lianas e folhagens gigantescas; e em seguida com seus lagos plácidos no alto como olhos esquecidos por deuses extravagantes e por último com pinheirais e amplos rios primordiais em que assomavam como seres humanos, fora d'água, rebanhos de sirênios e manatis.

Passei uma semana convivendo com Miguel Ángel Asturias, que ainda não havia se revelado com suas novelas de sucesso. Compreendemos que tínhamos nascido irmãos e raro era o dia em que não nos víamos. De noite planejávamos visitas inespe-radas a paragens distantes de serras envoltas pela névoa ou a portos tropicais da United Fruit.

Os guatemaltecos não tinham direito a falar e nenhum deles falava de política diante do outro. As paredes tinham ouvidos e delatavam. Em certas ocasiões detínhamos o carro no alto de uma meseta e ali, bem seguros de que não tinha ninguém atrás de uma árvore, tratávamos avidamente da situação.

O caudilho chamava-se Ubico e governava há muitíssimos anos. Era um homem corpulento, de olhar frio, conseqüentemente cruel. Ele ditava a lei e nada se fazia na Guatemala sem ordem sua. Conheci um de seus secretários, agora amigo meu, revolucionário. Por ter discutido algo com ele, um pequeno detalhe, fez com que o amarrassem ali mesmo a uma coluna da sala de despacho presidencial e o açoitou sem piedade.

Os poetas jovens pediram um recital de minha poesia. Enviaram um telegrama a Ubico solicitando a autorização. Todos os meus amigos e os jovens estudantes enchiam o local. Li com gosto meus poemas porque parecia-me que entreabriam a janela daquela prisão tão vasta. O chefe de polícia sentou-se conspicuamente na primeira fila. Logo soube que quatro metralhadoras estavam apontadas para mim e para o público e que funcionariam caso o chefe de polícia abandonasse ostensivamente sua poltrona e interrompesse o recital.

Mas nada aconteceu pois o sujeito ficou até o fim ouvindo meus versos.

Depois quiseram apresentar-me ao ditador, homem inflamado por loucura napoleônica. Deixava uma mecha sobre a fronte, retratando-se com freqüência na pose de Bonaparte. Disseram-me que era perigoso recusar tal sugestão mas eu preferi não lhe dar a mão e regressei rapidamente ao México.

 

                 Antologia de pistolas

O México daquele tempo era mais pistolista do que pistoleiro. Havia um culto ao revólver, um fetichismo da “quarenta e cinco As grandes pistolas reluziam constan-temente. Os candidatos a parlamentares e os jornais iniciavam campanhas de “despistolização” mas logo compreendiam que era mais fácil extrair um dente de um mexicano do que sua queridíssima arma de fogo.

Certa vez os poetas me homenagearam com um passeio numa barca florida. No lago de Xochimilco juntaram-se quinze ou vinte bardos que me fizeram navegar entre as águas e as flores pelos canais e anfractuosidades daquele estuário destinado a passeios florais desde o tempo dos astecas. A embarcação vai decorada com flores por todos os lados, transbordante de pessoas e cores esplêndidas. As mãos dos mexicanos, como as dos chineses, são incapazes de criar algo feio, seja em pedra, em prata, em barro ou em cravos.

O certo é que um daqueles poetas empenhou-se durante a travessia, depois de numerosas tequilas (1) e para me render uma deferente homenagem, em que eu disparasse para o céu com sua bela pistola, que no cabo ostentava incrustações de prata e ouro. Em seguida o colega mais próximo tirou rapidamente a sua de uma cartucheira e, levado pelo entusiasmo, empurrou para o lado a do primeiro ofertante, convidando-me a fazer os disparos com a arma de sua propriedade. Ao alvoroço acudiram os demais rapsodos, cada um sacou com decisão sua pistola, e todos levantaram-nas ao redor de minha cabeça para que eu elegesse a sua e não a dos outros. Aquele pálio inseguro de pistolas, que se cruzavam diante do meu nariz ou me passavam debaixo dos sovacos, tornava-se cada vez mais ameaçador até que me ocorreu tomar de um grande sombrero típico e recolhê-las todas em seu bojo depois de pedi-las ao batalhão de poetas em nome da poesia e da paz. Todos obedeceram e desse modo consegui confiscar-lhes as armas por vários dias, guardando-as em minha casa. Acho que fui o único poeta em cuja honra se compôs uma antologia de pistolas.

 

1 - Tequila: espécie de aguardente mexicana. (N. da T.)

 

                   Por que Neruda

O sal do mundo tinha se reunido no México. Escritores exilados de todos os países tinham acampado sob a liberdade mexicana enquanto a guerra se prolongava na Europa com vitória após vitória das forças de Hitler que já tinham ocupado a França e a Itália. Ali estava Ana Seghers e o hoje desaparecido humorista tcheco Egon Erwin Kish, entre outros. Kish deixou alguns livros fascinantes e eu admirava muito sua grande inventiva, a curiosidade infantil e os conhecimentos de prestidigitação. Mal entrava em minha casa tirava um ovo de uma orelha ou ia engolindo, uma por uma, até sete moedas que bastante falta faziam ao pobre e grande escritor desterrado. Já nos conhecíamos da Espanha e, como ele manifestava a insistente curiosidade de saber por que motivo me chamava Neruda sem ter nascido com esse sobrenome, eu lhe dizia de brincadeira:

- Grande Kish, foste tu o descobridor do mistério do Coronel Redl (famoso caso de espionagem acontecido na Áustria, em 1914) mas nunca esclarecerás o mistério de meu nome Neruda.

E assim foi. Morreria em Praga, em meio a todas as homenagens que sua pátria libertada lhe deu, mas nunca o intrometido profissional conseguiria saber por que Neruda se chamava Neruda.

A resposta era demasiado simples e tão sem nada de extraordinário que eu guardava o mais cuidadoso segredo. Quando eu tinha quatorze anos de idade, meu pai perseguia denodadamente minha atividade literária. Não concordava em ter um filho poeta. Para encobrir a publicação de meus primeiros versos busquei um sobrenome que o despistasse totalmente. Encontrei numa revista esse nome tcheco, sem saber sequer que se tratava de um grande escritor, venerado por todo um povo, autor de belíssimas baladas e romances e com monumento erigido no bairro Mala Strana de Praga. Mal cheguei à Tchecoslováquia, muitos anos depois, coloquei uma flor aos pés de sua estátua barbuda.

 

                   A véspera de Pearl Harbor

À minha casa chegavam os espanhóis Wenceslao Roces, de Salamanca, e Constancia de la Mora, republicana, parente do Duque de Maura, cujo livro In Place of Splendor foi um best seller na América do Norte; León Felipe, Juan Rejano, Moreno Villa, Herrera Petere, poetas; Miguel Prieto, Rodríguez Luna, pintores; - todos espanhóis. Os italianos Vittorio Vidale, famoso por ter sido o Comandante Carlos do 5º Regimento, e Mario Montagnana, italianos desterrados, cheios de lembranças, de histórias assombrosas e de cultura sempre em movimento. Por aí andavam também Jacques Soustelle e Gilbert Medioni, que eram os chefes gaullistas, representantes da França livre. Além desses, pululavam os exilados voluntários ou forçados da América Central; guatemaltecos, salvadorenhos, hondurenhos. Tudo isto enchia o México de um interesse multinacional e às vezes minha casa, velha quinta do bairro de San Angel, palpitava como se ali estivesse o coração do mundo.

Com Soustelle, que era então socialista de esquerda e que anos mais tarde daria tanto o que fazer ao presidente De Gaulle como chefe político dos golpistas da Argélia, sucedeu-me algo que devo relatar:

Chegara o ano de 1941. Os nazistas sitiavam Leningrado e adentravam-se no território soviético. As raposas militaristas japonesas, comprometidas no eixo Berlim-Roma-Tóquio, corriam o perigo de que a Alemanha ganhasse a guerra e ficassem elas sem sua parte nos despojos de guerra. Diversos rumores circulavam pelo mundo. Assinalava-se a hora zero em que o imenso poderio japonês se desencadearia no Extremo Oriente. Enquanto isso, uma missão de paz japonesa fazia reverências em Washington ao governo norte-americano. Não havia dúvida que os japoneses atacariam logo e de surpresa já que a “guerra-relâmpago” era a moda sangrenta da época.

Devo contar, para que minha história seja compreendida, que uma velha linha nipônica de vapores unia o Japão ao Chile. Viajei mais de uma vez nesses navios e conhecia-os muito bem. Detinham-se em nossos portos e seus capitães dedicavam-se a comprar ferro velho e a tirar fotografias. Aportavam em todo o litoral chileno, peruano e equatoriano e seguiam até o porto mexicano de Manzanillo, de onde enfiavam a proa até Yokohama, atravessando o Pacifico.

Pois bem, um dia, sendo eu ainda cônsul-geral do Chile no México, recebi a visita de sete japoneses que pediam às pressas um visto para o Chile. Vinham do litoral norte-americano, de São Francisco, de Los Angeles e de outros portos. Seus rostos denotavam certa inquietude. Estavam bem vestidos e com os documentos em ordem. Tinham aparência de engenheiros ou industriais executivos.

Perguntei-lhes, naturalmente, por que queriam partir para o Chile no primeiro avião já que eram recém-chegados. Responderam que queriam tomar um barco japonês no porto chileno de Tocopilla, porto salitreiro do Norte do Chile. Respondi-lhes que para tal não necessitavam viajar para o Chile, no outro extremo do continente, posto que esses mesmos navios japoneses encostavam no porto mexicano de Manzanillo. aonde podiam ir a pé se quisessem e chegariam a tempo.

Entreolharam-se e sorriram confusos. Falaram entre si em seu idioma. Consultaram o secretário da embaixada japonesa que os acompanhava.

Este resolveu ser franco comigo, dizendo:

- Olhe, colega, acontece que este navio mudou seu itinerário e não encostará mais em Manzanillo. É, pois, no porto chileno onde devem tomá-lo estes especialistas ilustres.

Rapidamente passou por minha cabeça a visão confusa de acharme diante de algo muito importante. Pedi-lhes seus passaportes, suas fotografias, seus documentos de trabalho nos Estados Unidos, etc. e em seguida disse-lhes que voltassem no dia seguinte.

Não estavam de acordo. Necessitavam do visto imediatamente e pagariam qualquer preço por ele.

Como o que eu procurava era ganhar tempo, mostrei a eles que não estava em minhas atribuições dar vistos de maneira instantânea e que falaríamos no dia seguinte.

Fiquei sozinho.

Pouco a pouco foi se definindo o enigma em minha cabeça. Por que a fuga precipitada da América do Norte e a extrema urgência do visto? E o barco japonês, pela primeira vez em trinta anos, desviava sua rota? O que queria isto dizer?

Em minha cabeça fez-se a luz. Tratava-se de um grupo importante e bem informado, com toda certeza da espionagem japonesa, que escapava dos Estados Unidos ante a iminência de algo grave por acontecer. E isto não podia ser outra coisa senão a participação do Japão na guerra. Os japoneses de minha história estavam a par do segredo.

A conclusão a que cheguei produziu em mim um nervosismo extremo. Que podia fazer?

Dos representantes das nações aliadas no México não conhecia nem ingleses nem norte-americanos. Só estava em relação direta com aqueles que tinham sido creden-ciados oficialmente como delegados do General De Gaulle e com acesso ao governo mexicano.

Comuniquei-me com eles imediatamente. Expliquei-lhes a situação. Tínhamos na mão os nomes e os dados desses japoneses. Se os franceses se decidissem a intervir eles seriam apanhados. Argumentei entusiasmado e depois impaciente ante a impassibili-dade dos representantes gaullistas.

- Jovens diplomatas - disse. - Encham-se de glória e descubram o segredo destes agentes nipônicos. De minha parte não lhes darei o visto. Mas os senhores devem tomar uma resolução imediata.

Este chove-não-molha durou dois dias mais. Soustelle não se interessou pelo assunto. Não quiseram fazer nada. E eu, simples cônsul chileno, não podia ir mais além. Diante da minha negativa em conceder-lhes visto, os japoneses proveram-se rapidamente de passaportes diplomáticos, recorreram à embaixada do Chile, e chegaram a tempo para embarcar em Tocopilla.

Uma semana depois o mundo despertava com o anúncio do bombardeio de Pearl Harbor.

 

                   Eu, o malacólogo

Foi publicado num jornal do Chile há anos que quando meu bom amigo, o célebre professor Julian Huxley, chegou a Santiago, no aeroporto perguntou por mim.

- O poeta Neruda? - responderam os jornalistas.

- Não, não conheço nenhum poeta Neruda. Quero falar com o malacólogo Neruda.

Esta palavra grega, malacólogo, significa especialista em moluscos.

Deu-me grande prazer esta historinha feita para me aborrecer e que não podia ser verdadeira porque conhecia Huxley fazia anos e ele era certamente um sujeito brilhante e muito mais vivo e autêntico do que seu famoso irmão Aldous.

No México andei pelas praias, mergulhei nas águas transparentes e cálidas e recolhi maravilhosas conchas marinhas. Depois, em Cuba e em outros lugares, assim como por intercâmbio e compra, presente e roubo (não há colecionador honrado), meu tesouro marinho foi-se acrescentando até encher quartos e quartos da minha casa.

Tive as espécies mais raras dos mares da China e Filipinas, do Japão e do Báltico; caracóis antárticos e polymitas cubanas; ou caracóis pintores vestidos de vermelho e açafrão, azul e cor de amora, como bailarinas do Caribe. Para dizer a verdade, as poucas espécies que me faltaram foram as de um caracol de terra do Mato Grosso brasileiro, que vi certa vez e não pude comprar nem viajar para a selva para apanhá-lo. Era totalmente verde, com uma beleza de esmeralda jovem.

Exagerei esse caracolismo até visitar mares remotos. Meus amigos também começaram a buscar conchas marinhas, a se encaracolar.

Quanto aos que me pertenciam, quando já passavam de quinze mil, começaram a ocupar todas as estantes e a cair das mesas e das cadeiras. Os livros de caracologia ou malacologia, como são chamados, encheram minha biblioteca. Um dia agarrei tudo e, em caixotes imensos, levei-os à universidade do Chile, fazendo assim minha primeira doação à Alma Mater. Era já uma coleção famosa. Como boa instituição sul-americana, minha universidade recebeu-os com louvores e discursos e sepultou-os no sótão. Nunca mais foram vistos.

 

                   “Araucania”

Enquanto estive longe, destacado nas ilhas do arquipélago distante, o mar sussurrava e o mundo silencioso estava cheio de coisas que falavam à minha solidão. Mas as guerras frias e quentes mancharam o serviço consular e foram fazendo de cada cônsul um autômato sem personalidade, que nada pode decidir e cujo trabalho aproxima-se suspeitosamente ao da polícia.

O Ministério impunha que se averiguasse as origens raciais das pessoas: africa-nos, asiáticos ou israelitas. Nenhum destes grupos humanos podia entrar em minha pátria.

A idiotice alcançava graus tão extremos que eu mesmo fui vítima dela quando fundei, sem nenhum dinheiro do fisco chileno, uma revista primorosa. Dei-lhe o título de Araucania e coloquei na capa o retrato de uma bela araucana, rindo com todos os dentes. Foi o quanto bastou para que o Ministério das Relações Exteriores de então me chamasse severamente a atenção pelo que considerava um desacato. Tudo isso porque o presidente da república era Dom Pedro Aguirre Cerda, em cujo rosto simpático e nobre viam-se todos os elementos de nossa mestiçagem.

Já se sabe que os araucanos foram aniquilados e por fim esquecidos ou vencidos e a história é escrita ou pelos vencedores ou pelos que desfrutaram da vitória. Porém poucas raças há sobre a terra mais dignas que a raça araucana. Algum dia haveremos de ver universidades araucanas, livros impressos em araucano, e nos daremos conta de tudo o que perdemos em diafaneidade, em pureza e em energia vulcânica.

As absurdas pretensões “racistas” de algumas nações sul-americanas, produtos elas mesmas de múltiplos cruzamentos e mestiçagens, é uma tara de tipo colonial. Querem montar um tablado onde uns quantos esnobes, escrupulosamente brancos ou esbranquiçados, apresentem-se em sociedade, gesticulando diante dos arianos puros ou dos turistas sofisticados. Por sorte tudo isso vai ficando para trás e a ONU está se enchendo de representantes negros e mongólicos, isto é, a folhagem das raças humanas está mostrando, com a seiva da inteligência que ascende, todas as cores de suas folhas.

Acabei por cansar-me e um dia renunciei para sempre ao meu posto de cônsul-geral.

 

                  Magia e mistério

Além disso me dei conta de que o mundo mexicano, reprimido, violento enacio-nalista, envolto por sua cortesia pré-colombiana, continuaria tal como era sem minha presença nem meu testemunho.

Quando decidi regressar a meu país, compreendia menos a vida mexicana do que quando cheguei ao México.

As artes e as letras eram produzidas em círculos rivais mas ai daquele que, de fora, tomasse partido pró ou contra alguém ou algum grupo: uns e outros caíam-lhe em cima.

Quando já tinha me preparado para partir, fizeram-me alvo de uma manifestação gigantesca: um jantar de cerca de três mil pessoas, sem contar centenas que não encontraram lugar. Vários presidentes da república enviaram sua adesão. Não obstante, o México é a pedra de toque das Américas e não foi por acaso que se entalhou ali o calendário solar da América antiga, o círculo central da irradiação, da sabedoria e do mistério.

Tudo podia acontecer, tudo aconteceu. O único jornal da oposição era subvencio-nado pelo governo. Era a democracia mais ditatorial que se possa conceber.

Recordo de um acontecimento trágico que me comoveu terrivelmente. Uma greve se prolongava em uma fábrica sem que se vislumbrasse solução. As mulheres dos grevistas reuniram-se e decidiram ir ao presidente da república para contar-lhe talvez suas privações e suas angústias. É evidente que não levavam armas. Pelo caminho compraram algumas flores para oferecê-las ao mandatário ou à sua senhora. As mulheres iam entrando no palácio quando um guarda as deteve. Não podiam continuar. O senhor presidente não as receberia. Deviam dirigir-se ao ministério correspondente. Além disso era preciso que desocupassem o lugar. Era uma ordem terminante.

As mulheres alegaram sua causa. Não ocasionariam o menor aborrecimento. Queriam somente entregar essas flores ao presidente e pedir-lhe que solucionasse a greve logo. Faltava comida para seus filhos, não podiam continuar assim. O oficial da guarda se negou a levar qualquer recado. As mulheres, por sua vez, não se retiraram.

Ouviu-se então uma descarga cerrada de várias armas que provinha da guarda do palácio. Seis ou sete mulheres caíram mortas no local, ficando muitas outras feridas.

 

No dia seguinte efetuaram-se funerais às pressas. Pensava eu que um imenso cortejo acompanharia os caixões das mulheres assassinadas. No entanto poucas pessoas compareceram. Falou, isso sim, o grande líder sindical, que era conhecido como um eminente revolucionário. Seu discurso no cemitério foi estilisticamente irreprochável. Li-o por completo no dia seguinte nos jornais. Não continha uma só linha de protesto, não havia uma palavra de ira nem nenhum pedido para que os responsáveis de um ato tão atroz fossem julgados. Duas semanas mais tarde ninguém mais falava do massacre. E nunca vi escrito que alguém lembrasse disso depois.

O presidente era asteca, mil vezes mais intocável do que a família real da Inglaterra. Nenhum jornal, nem de brincadeira nem a sério, podia criticar o excelso funcionário sem receber imediatamente um golpe mortífero.

O pitoresco envolve de tal maneira os dramas mexicanos que a gente vive pasmada diante da alegoria, uma alegoria que se distancia mais e mais da palpitação intrínseca, do esqueleto sangrento. Os filósofos tornaram-se preciosistas, lançados em investigações existenciais que, junto do vulcão, parecem ridículas. A ação civil é entrecortada e difícil. A sujeição adota diversas correntes que se estratificam ao redor do trono.

Mas tudo de mágico surge e ressurge sempre no México. Desde um vulcão que começou a nascer na horta humilde em que um camponês semeava feijões até a desenfreada busca do esqueleto de Cortez que, segundo se diz, descansa no México com seu elmo de ouro cobrindo secularmente o crânio de conquistador, e a não menos intensa perseguição dos restos do imperador asteca Cuauthémoc, perdidos há quatro séculos e que inesperadamente aparecem aqui e ali, custodiados por índios secretos para voltar a submergir sem trégua na noite inexplicável.

O México vive em minha vida como uma pequena águia equivocada que circula em minhas veias. Só a morte lhe dobrará as asas sobre meu coração de soldado adormecido.

 

         A PÁTRIA EM TREVAS

 

                   Machu Picchu

O ministério não vacilou em aceitar o fim voluntário de minha carreira.

Meu suicídio diplomático proporcionou-me a maior alegria: a de poder regressar ao Chile. Acho que o homem deve viver em sua pátria e creio que o desarraigamento dos seres humanos é uma frustração que de uma maneira ou de outra entorpece a claridade da alma. Eu não posso viver senão em minha própria terra. Não posso viver sem pôr os pés, as mãos e o ouvido nela, sem sentir a circulação de suas águas e de suas sombras, sem sentir como minhas raízes buscam em seu barro pegajoso as substâncias maternas.

Mas antes de chegar ao Chile fiz outro descobrimento que agregaria uma nova camada ao desenvolvimento de minha poesia.

Detive-me no Peru e subi até as ruínas de Machu Picchu. Subimos a cavalo. Na época não havia estrada. Do alto vi as antigas construções de pedra rodeadas pelos altíssimos cumes dos Andes verdes. Da cidadela carcomida e roída pelo passar dos séculos despenhavamse torrentes. Massas de neblina branca levantavam-se do rio Wilcamayo. Senti-me infinitamente pequeno no centro daquele umbigo de pedra, umbigo de um mundo desabitado, orgulhoso e eminente, ao qual de algum modo eu pertencia. Senti que minhas próprias mãos tinham trabalhado ali em alguma etapa distante, cavando sulcos, alisando penhascos.

Senti-me chileno, peruano, americano. Tinha encontrado naquelas alturas difíceis, entre aquelas ruínas gloriosas e dispersas, uma profissão de fé para a continuação de meu canto.

Ali nasceu meu poema “Alturas de Machu Picchu”.

 

                     O pampa salitreiro

Em fins de 1943 chegava de novo a Santiago. Instalei-me em minha própria casa, adquirida a longo prazo pelo sistema de financiamento. Neste lar de grandes árvores juntei meus livros e comecei outra vez a difícil vida.

Procurei de novo a formosura de minha pátria, a forte beleza da natureza, o encanto das mulheres, o trabalho de meus companheiros e a inteligência de meus compatriotas.

O país não tinha mudado. Campos, aldeias adormecidas, pobreza terrível das regiões mineiras e a gente elegante ocupando seu Country Club. O jeito era escolher.

Minha decisão causou-me perseguições e minutos estelares. Que poeta podia arrepender-se?

Curzio Malaparte, que me entrevistou anos depois do que vou relatar, disse-o bem em seu artigo: “Não sou comunista, mas se fosse poeta chileno, o seria, como Pablo Neruda é. Há que tomar partido aqui, por causa dos Cadillacs ou por causa da gente sem escola e sem sapatos.”

Esta gente sem escola e sem sapatos elegeu-me senador da república a 4 de março de 1945. Ficarei sempre orgulhoso por terem votado em mim milhares de chilenos da região mais dura do Chile, região da grande mineração, de cobre e salitre.

Era difícil e áspero caminhar pelo pampa. Há meio século não chove nessas regiões e o deserto marcou a fisionomia dos mineiros. São homens de rostos queimados; toda sua expressão de solidão e de abandono concentra-se nos olhos de escura intensidade. Subir do deserto até a cordilheira, entrar em cada casa pobre, conhecer as tarefas desumanas, e sentir-se depositário das esperanças do homem ilhado e submergido não é uma responsabilidade qualquer. No entanto minha poesia abriu o caminho de comunicação e pude andar e circular e ser recebido como um irmão imorredouro por meus compatriotas de vida dura.

 

Não me lembro se foi em Paris ou em Praga que me sobreveio uma pequena dúvida sobre o enciclopedismo de meus amigos aí presentes. Quase todos eles eram escritores ou, no mínimo, estudantes.

- Estamos falando muito no Chile - disse-lhes - seguramente porque eu sou chileno. Mas vocês sabem alguma coisa de meu longínquo país? Por exemplo: em que veículos nos transportamos? De elefante, de automóvel, de trem, de avião, de bicicleta, de camelo, de trenó?

A resposta muito a sério da maioria foi: de elefante.

No Chile não há elefantes nem camelos. Mas compreendo que pareça enigmático um país que nasce no gelado Pólo Sul e que chega até as depressões salgadas e desertas onde não chove há um século. Tive que percorrer esses desertos durante anos como senador eleito pelos habitantes daqueles ermos, como representante de inumeráveis trabalhadores do salitre e do cobre que nunca usaram colarinho nem gravata.

Entrar naquelas planícies, enfrentar aqueles areais, é entrar na Lua. Essa espécie de planeta vazio guarda a grande riqueza de meu país, mas é preciso tirar da terra seca e dos montes de pedra o adubo branco e o mineral vermelho. Em poucos lugares do mundo a vida é tão dura e ao mesmo tempo tão desprovida de qualquer indulgência para vivê-la. Custa sacrifícios indizíveis transportar a água, conservar uma planta que dê a flor mais humilde, criar um cachorro, um coelho, um porco.

Venho do outro extremo da república. Nasci em terras verdes, de grandes arvoredos selváticos. Tive uma infância de chuva e neve. Só o fato de enfrentar aquele deserto lunar significava um sobressalto em minha existência. Representar no parlamento aqueles homens, o seu isolamento, suas terras titânicas, era também uma empresa difícil. A terra nua, sem uma só erva, sem uma gota de água, é um segredo imenso e esquivo. Sob os bosques, junto aos rios, tudo fala ao ser humano. O deserto, ao contrário, é incomunicativo. Eu não entendia seu idioma, quer dizer, seu silêncio.

 

Durante muitos anos as empresas salitreiras implantaram verdadeiros domínios, possessões ou reinos no pampa. Os ingleses, os alemães, toda sorte de invasores fecharam as áreas de produção e lhes deram o nome de escritórios. Ali impuseram uma moeda própria, impediram qualquer reunião, proscreveram os partidos e a imprensa popular. Não se podia entrar nos recintos sem autorização especial, coisa que muito poucos conseguiam.

Estive uma tarde conversando com os operários de um depósito nos escritórios salitreiros de Maria Elena. O chão da enorme oficina de trabalhos manuais está sempre enlameado pela água, azeite e ácidos. Os dirigentes sindicais que me acompanhavam e eu pisávamos sobre um estrado que nos ilhava do lamaçal.

- Estes estrados - disseram - custaram-nos 15 greves sucessivas, 8 anos de petições e 7 mortos.

Estes últimos deveram-se ao seguinte: numa dessas greves, a polícia da compa-nhia levou sete dirigentes. Os guardas iam a cavalo enquanto os operários, amarrados a uma corda, seguiam-nos a pé pelos areais solitários. Com algumas descargas foram assassinados. Seus corpos ficaram estendidos sob o sol e o frio do deserto até que foram encontrados e enterrados por seus companheiros.

Antes as coisas foram muito piores. Por exemplo, no ano de 1906, em Iquique, os grevistas desceram à cidade dos escritórios salitreiros para pleitear suas reivindicações diretamente ao governo. Milhares de homens extenuados pela travessia juntaram-se para descansar numa praça defronte a uma escola. Pela manhã iriam ver o governador para expor-lhe suas pretensões. Mas nunca puderam fazer isso. Ao amanhecer, as tropas comandadas por um coronel rodearam a praça. Sem uma palavra começaram a disparar, a matar. Mais de seis mil homens morreram naquele massacre.

Em 1945 as coisas andavam melhor mas às vezes parecia-me que retornava o tempo do extermínio. Certa vez me proibiram de falar aos operários na sede do sindicato. Chamei-os para fora do recinto e, em pleno deserto, comecei a explicar-lhes a situação, as possíveis saídas do conflito. Éramos uns duzentos. Subitamente escutei um ruído de motores e observei que se aproximava, até a quatro ou cinco metros de minhas palavras, um tanque do exército. Abriu-se a tampa e surgiu da abertura uma metralhadora que apontava para minha cabeça. Junto à arma ergueu-se um oficial, muito afetado e muito sério, que se pôs a me olhar enquanto eu continuava meu discurso. Isso foi tudo.

 

A confiança posta nos comunistas por aquela multidão de operários, muitos deles analfabetos, tinha nascido com Luís Emilio Recabarren, que foi quem iniciou suas lutas nessa zona desértica. De simples agitador operário, antigo anarquista, Recabarren converteu-se numa presença fantasmagórica e colossal. Encheu o país de sindicatos e federações. Chegou a publicar mais de 15 jornais destinados exclusivamente à defesa das novas organizações que tinha criado. Tudo sem um centavo, O dinheiro saía da nova consciência que assumiam os trabalhadores.

Coube a mim ver ém certos lugares as prensas de Recabarren, que tinham servido de forma tão heróica e continuavam trabalhando 40 anos depois. Algumas dessas máquinas foram golpeadas pela polícia até a destruição, e depois tinham sido cuidadosamente reparadas. Notavam-se nelas as enormes cicatrizes sob as soldas feitas com carinho que as fizeram funcionar de novo.

Acostumei-me naqueles longos passeios a alojar-me nas paupérrimas casas, casinholas ou cabanas dos homens do deserto. Quase sempre era recebido por um grupo de pequenas bandeiras à entrada das empresas. Depois me mostraram o lugar em que ficaria. Por meu aposento desfilavam, durante todo o dia, mulheres e homens com suas queixas de trabalho, com seus conflitos mais ou menos íntimos. Às vezes as queixas assumiam um caráter que talvez um estranho julgaria engraçado, caprichoso, inclusive grotesco. Por exemplo, a falta de chá podia ser para eles motivo de uma greve de grandes conseqüências. São concebíveis urgências tão londrinas numa região tão desolada? Mas o certo é que o povo chileno não pode viver sem tomar chá várias vezes ao dia. Alguns dos operários descalços, que me perguntavam angustiados a razão da escassez da exótica mas imprescindível beberagem, argumentavam à guisa de desculpa:

- É que, se não o tomamos, nos dá uma terrível dor de cabeça.

 

Aqueles homens encerrados em muros de silêncio, sobre a terra solitária e sob o solitário céu, tiveram sempre uma curiosidade política vital. Queriam saber o que se passava, tanto na Iugoslávia como na China. Preocupavam-lhes as dificuldades e as mudanças nos países socialistas, o resultado das grandes greves italianas, os rumores de guerras e o despontar de revoluções nos lugares mais distantes.

Em centenas de reuniões, muito longe uma da outra, escutava um pedido constante: que lesse meus poemas. Muitas vezes pediam pelos títulos. Naturalmente nunca soube se todos entendiam ou não entendiam alguns ou muitos dos meus versos. Era difícil determiná-lo naquela atmosfera de mutismo absoluto, de sagrado respeito com que me escutavam. Mas que importância tem isso? Eu, que sou um dos tolos mais instruídos, jamais pude entender vários versos de Hölderlin e de Mallarmé. E diga-se de passagem que os li com o mesmo sagrado respeito.

A comida, quando queria ter ares de festa, era guisado de galinha, ave rara no pampa. A carne que mais comparecia nos pratos era algo para mim difícil de levá-lo à boca: o guisado de cobaias ou porquinhos-da-índia. As circunstâncias faziam um prato favorito deste animalzinho, nascido para morrer nos laboratórios.

As camas que me eram destinadas invariavelmente, nas inumeráveis casas onde dormia, tinham duas características conventuais: lençóis brancos como a neve e duros à custa de goma, capazes de ficar em pé sozinhos, e uma dureza de cama equiparável à da terra do deserto, sem colchão mas apenas com umas tábuas tão lisas quanto implacáveis.

Assim dormia como um bem-aventurado. Sem nenhum esforço compartilhava o sono com a inumerável legião de meus companheiros. O dia era sempre seco e incandescente como uma brasa mas a noite do deserto estendia seu frescor sob uma taça primorosamente estrelada.

 

Minha poesia e minha vida têm transcorrido como um rio americano, como uma torrente de águas do Chile, nascidas na profundidade secreta das montanhas austrais, dirigindo sem cessar até uma saída marinha o movimento de suas correntes. Minha poesia não rejeitou nada do que pôde trazer em seu caudal; aceitou a paixão, desenvolveu o mistério e abriu caminho entre os corações do povo.

Coube a mim sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e o do sangue. Que mais quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até os beijos, desde a solidão até o povo, perduram em minha poesia, atuam nela porque vivi para minha poesia e minha poesia sustentou minhas lutas. E se muitos prêmios alcancei, prêmios fugazes como mari-posas de pólen fugitivo, alcancei um prêmio maior, um prêmio que muitos desdenham mas que é na realidade inatingível para muitos. Cheguei através de uma dura lição de estética e de busca, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta de meu povo. Meu prêmio é esse, não os livros e os poemas traduzidos ou os livros escritos para descrever ou dissecar minhas palavras. Meu prêmio é esse momento grave de minha vida quando no fundo da mina de carvão de Lota, sob o sol a pino da salitreira abrasada, do socavão a pique subiu um homem como se ascendesse do inferno, com a cara transformada pelo trabalho terrível, com os olhos avermelhados pelo pó e, estendendo-me a mão calejada, essa mão que leva o mapa do pampa em suas calosidades e em suas rugas, disse-me com olhos brilhantes: “Conhecia-te há muito tempo, irmão.” Esse é o laurel de minha poesia, o agulheiro no pampa terrível, de onde sai um trabalhador a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile têm dito muitas vezes: “Não estás só; há um poeta que pensa em teu sofrimento.”

Ingressei no Partido Comunista do Chile no dia 15 de julho de 1945.

 

                   González Videla

As amarguras que eu e meus companheiros representávamos dificilmente chegavam ao senado. A confortável sala parlamentar estava como que acolchoada para que não repercutisse nela o vozerio das multidões descontentes. Meus colegas do grupo contrário eram acadêmicos especializados na arte das grandes alocuções patrióticas e sob todo esse tapete de seda falsa que desdobravam sentia-me afogado.

Logo renovou-se a esperança porque um dos candidatos à presidência, González Videla, jurou fazer justiça, e sua eloqüência ativa lhe atraiu grande simpatia. Fui nomeado chefe de propaganda de sua campanha e levei a todas as partes do território a boa-nova.

Por esmagadora maioria de votos o povo elegeu-o presidente.

Mas os presidentes em nossa América criolla sofrem muitas vezes uma metamorfose extraordinária. No caso que relato, rapidamente mudou de amigos o novo mandatário, ligou sua família com a “aristocracia” e pouco a pouco converteu-se de demagogo em magnata.

A verdade é que González Videla não entra no rol dos ditadores sul-americanos típicos. Há em Melgarejo, da Bolívia, ou no General Gómez, da Venezuela, jazidas telúricas reconhecíveis. Têm o signo de certa grandeza e parecem movidos por uma força desolada, nem por isso menos implacável. Desde o começo foram eles caudilhos que enfrentaram as batalhas e as balas.

González Videla foi, pelo contrário, um produto da cozinha política, um impenitente frívolo, um fraco que aparentava fortaleza.

Na fauna de nossa América, os grandes ditadores têm sido sáurios gigantescos, sobreviventes de um feudalismo colossal em terras préhistóricas. O judas chileno foi só um aprendiz de tirano e na escala dos sáurios não passaria de um lagarto venenoso. No entanto fez o suficiente para arruinar o Chile. Pelo menos o país retrocedeu em sua história. Os chilenos olhavam-se com vergonha sem entender exatamente como tinha sucedido tudo aquilo.

O homem foi um equilibrista, um acrobata de assembléia. Conseguiu situar-se em um espetacular esquerdismo. Nesta “comédia de mentiras” foi um cauteloso campeão. Isto ninguém discute. Num país em que, em geral, os políticos são ou pare-cem ser demasiado sérios, a gente agradeceu a chegada da frivolidade mas, quando este dançarino de conga exorbitou, já era demasiado tarde: os presídios estavam cheios de perseguidos políticos e até abriram-se campos de concentração como o de Pisagua. O estado policial instalou-se então como uma novidade nacional. Não havia outro caminho senão agüentar e lutar clandestinamente pelo retorno à decência.

Muitos dos amigos de González Videla, gente que o acompanhou até o fim em suas andanças eleitorais, foram levados a prisões na alta cordilheira ou no deserto por divergirem de sua metamorfose.

A verdade é que a envolvente classe alta, com seu poderio econômico, tinha engolido uma vez mais o governo de nossa nação, como tantas vezes tinha ocorrido. Mas nesta ocasião a digestão foi incômoda e o Chile passou por uma enfermidade que oscilava entre a estupefação e a agonia.

O presidente da república, eleito por nossos votos, converteu-se, sob a proteção norte-americana, num pequeno vampiro vil e encarniçado. Certamente seus remorsos não o deixavam dormir apesar de ter instalado, vizinhas ao palácio do governo, garçonniêres e prostíbulos particulares com tapetes e espelhos para seu deleite. O miserável tinha uma mentalidade insignificante mas retorcida. Na mesma noite que começou sua grande repressão anticomunista convidou dois ou três dirigentes operários para cear. Ao terminar a refeição desceu com eles as escadas do palácio e, enxugando algumas lágrimas, abraçou-os dizendo: “Choro porque ordenei que os prendessem. À saída vocês serão detidos. Não sei se nos tornaremos a ver.”

 

                   O corpo repartido

Meus discursos tornaram-se violentos e a sala do senado estava sempre cheia para me escutar. Depois foi pedida e obtida a minha cassação e ordenou-se à polícia minha detenção.

Mas nós, os poetas, temos, entre nossas substâncias originais, a de sermos feitos em grande parte de fogo e fumaça.

A fumaça era para escrever. A relação histórica do que estava acontecendo comigo estava dramaticamente próxima dos antigos temas americanos. Naquele ano de perigo e de clandestinidade terminei meu livro mais importante, o Canto General.

Mudava de casa quase diariamente. Em todas as partes abria-se uma porta para me abrigar. Era sempre- gente desconhecida que de alguma maneira tinha expressado seu desejo de me acolher por vários dias. Queriam-me como asilado ainda que fosse por algumas horas ou algumas semanas. Passei por campos, portos, cidades, acampa-mentos, como também por casas de camponeses, de engenheiros, de advogados, de marinheiros, de médicos, de mineiros.

Há um velho tema na poesia folclórica que se repete em todos os nossos países. Trata-se de “o corpo repartido”. O cantor popular supõe que tem seus pés numa parte, seu coração em outra e descreve todo o seu organismo que deixou espalhado por campos e cidades. Assim eu me senti naqueles dias.

Entre os lugares comovedores que me albergaram lembro de uma casa de duas peças, perdida entre os morros pobres de Valparaíso.

Eu estava circunscrito a uma parte da habitação e a um cantinho de janela de onde observava a vida do porto. Daquela ínfima atalaia, meu olhar abarcava um fragmento da rua. À noite via circular gente apressada. Era um arrabalde pobre e aquela pequena rua, a cem metros debaixo da minha janela, açambarcava toda a iluminação do bairro. Estava cheia de lojinhas e boliches.

Preso em meu canto, minha curiosidade era infinita. Minhas cismas e deduções, solitárias. Às vezes não conseguia resolver os problemas. Por exemplo: por que a gente que passava, tanto os indiferentes como os apressados, detinham-se sempre num mesmo lugar? Que mercadorias mágicas exibiam nessa vitrina? Famílias inteiras paravam ali longamente com os filhos nos ombros. Eu não conseguia ver as caras de arrebatamento que sem dúvida tinham ao olhar a vitrina mágica, mas fazia idéia.

Seis meses depois soube que aquela era a vitrina de uma simples loja de calçados. O sapato é o que mais interessa ao homem, deduzi. Jurei a mim mesmo estudar esse assunto, investigá-lo e expressá-lo. Nunca tive tempo para cumprir esse propósito ou promessa formulada em tão estranhas circunstâncias. No entanto, há não poucos sapatos em minha poesia. Eles circulam batendo com os saltos em muitas de minhas estrofes, sem que eu me tenha proposto a ser um poeta sapatoril.

Subitamente chegaram à casa visitas que prolongavam suas conversas sem se dar conta que a curta distância, separado por um tabique feito com papelões e jornais velhos, estava um poeta perseguido por não sei quantos profissionais da caçada humana.

No sábado à tarde e também no domingo pela manhã chegava o noivo de uma das moças da casa que não devia saber que eu estava ali. Era um jovem trabalhador, dono do coração da garota mas, ai!, ainda não confiavam nele. Da clarabóia de minha janela eu o via descer da bicicleta, na qual entregava ovos por todo o extenso bairro popular. Pouco depois ouvia-o entrar cantarolando na casa. Era um inimigo de minha tranqüilidade. Digo inimigo porque empenhava-se em ficar namorando a moça a poucos centímetros de minha cabeça. Ela o convidava a praticar o amor platônico em algum parque ou no cinema mas ele resistia heroicamente. E eu maldizia entre dentes a obstinação caseira daquele inocente distribuidor de ovos.

O resto das pessoas da casa estava a par do segredo: a mãe viúva, as duas moças encantadoras e os dois filhos marinheiros. Estes descarregavam bananas na baía e às vezes ficavam furiosos porque não arranjavam contrato em nenhum barco. Por eles soube que uma velha embarcação estava sendo desmontada. Do meu canto dirigi as operações: desprenderam a bela estátua de proa do navio e deixaram-na escondida numa adega do porto. Só vim conhecê-la vários anos depois da minha fuga e do meu desterro. A formosa mulher de madeira, com rosto grego como todas as carrancas dos veleiros antigos, olha-me agora com sua beleza melancólica enquanto escrevo estas memórias junto ao mar.

O plano era que eu embarcasse clandestinamente na cabina de um dos rapazes e desembarcasse ao chegar a Guaiaquil, surgindo do meio das bananas. O marinheiro explicava-me que eu deveria aparecer inesperadamente na coberta, ao ancorar o barco no porto equatoriano, vestido de passageiro elegante, fumando um charuto que nunca pude fumar. Foi decidido na família, já que era iminente a partida, que me confeccio-nassem o traje apropriado-elegante e tropical-para o qual trataram de me tomar as medidas.

Em dois tempos ficou pronto meu traje. Nunca me diverti tanto como ao recebê-lo. A idéia que as mulheres da casa tinham da moda estava influenciada por um filme famoso daquele tempo: E o vento levou... Os rapazes, por seu lado, consideravam como arquétipo da elegância o que tinham recolhido nos dancings do Harlem e nos bares e cabarés do Caribe. O jaquetão, cruzado e cintado, chegava-me aos joelhos. As calças me apertavam os tornozelos.

Guardei a pitoresca vestimenta, elaborada por pessoas tão bondosas, e nunca tive oportunidade de usá-la. Nunca saí de meu esconderijo em um barco nem desem-barquei jamais entre as bananas em Guaiaquil vestido como um falso Clark Gable. Escolhi, pelo contrário, o caminho do frio. Parti para o extremo sul do Chile, que é o extremo sul da América, e me dispus a atravessar a cordilheira.

 

                   Um caminho na selva

O Secretário-Geral de meu partido tinha sido até então Ricardo Fonseca. Era um homem muito firme e sorridente, sulista como eu, do clima frio de Carahue. Fonseca organizou minha vida ilegal, meus esconderijos, minhas incursões clandestinas, a edição de meus panfletos, mas sobretudo tinha cuidado zelosamente do segredo de meus domicílios. O único que verdadeiramente sabia, durante um ano e meio, de meus esconderijos, onde eu comeria ou dormiria cada noite, era meu jovem e resplandecente chefe e secretário-geral, Ricardo Fonseca. Mas sua saúde foi-se minando naquela chama verde que assomava a seus olhos, seu sorriso foi se extinguindo e um dia foi para sempre o bom camarada.

Em plena ilegalidade foi eleito novo dirigente máximo um homem rijo, carre-gador de sacos em Valparaíso, chamado Galo González. Era um homem complexo, com uma aparência enganadora e uma firmeza mortal. Devo dizer que em nosso partido jamais houve culto da personalidade, não obstante ter sido uma velha organização que passou por todas as fraquezas ideológicas. Mas sempre sobrepôs-se essa consciência chilena de povo que fez tudo com suas próprias mãos. Tivemos muito poucos caudilhos na vida do Chile e isto refletiu-se também em nosso partido.

No entanto essa política piramidal da época stalinista produziu também no Chile, amparada pela ilegalidade, uma atmosfera algo rarefeita.

Galo González não podia comunicar-se com a multidão do partido. A perse-guição aumentava. Tínhamos milhares de presos e um campo de concentração especial funcionava na costa desértica de Pisagua.

Galo González mantinha uma vida ilegal cheia de atividade revolucionária mas a incomunicabilidade da direção com o corpo geral do partido foi se acentuando. Foi um grande homem, uma espécie de sábio popular e um lutador valente.

A ele chegaram os planos de minha nova fuga e desta vez tudo foi feito com exatidão. Tratava-se de transladar-me para mil quilômetros de distância da capital e cruzar a cordilheira a cavalo. Os camaradas argentinos me esperariam num certo lugar.

Saímos quando caía a tarde, protegidos por um automóvel providencial. Meu amigo, o Dr. Raúl Bulnes, era então médico da Polícia Montada. Ele me conduziu em seu automóvel invulnerável até os arredores de Santiago, onde a organização do partido me tomou a seu cargo. Em outro automóvel, equipado especialmente para a longa viagem, esperava-me um velho companheiro do partido, o chofer Escobar.

Seguimos dia e noite pelos caminhos. Durante o dia, para reforçar as barbas e os óculos que me disfarçavam, eu me enrolava em mantas que me ocultavam, especial-mente ao atravessar povoados e cidades ou ao pararmos nos postos de gasolina.

Passei por Temuco ao meio-dia. Não fui a nenhum lugar, ninguém me reconhe-ceu: Por simples acaso meu velho Temuco era minha rota de saída. Atravessamos a ponte e o vilarejo Padre Las Casas. Paramos já longe da cidade para comer alguma coisa sentados numa pedra. Pelo declive corria um riacho e lá embaixo suas águas soavam. Era minha infância que se despedia de mim. Cresci nesta cidade, minha poesia nasceu entre o morro e o rio, tomou a voz da chuva, impregnou-se dos bosques tal como a madeira. E agora, no caminho para a liberdade, acampava um instante ao lado de Temuco e ouvia a voz da água que me ensinou a cantar.

Seguimos viagem. Só uma vez tivemos um minuto de perigo. De pé no meio da estrada, um decidido oficial de carabineiros mandou parar nosso carro. Fiquei mudo mas foi infundado o sobressalto. O oficial pedia que o levássemos a cem quilômetros adiante. Sentou-se junto ao chofer, meu camarada Escobar, e conversou amavelmente com ele. Fingi dormir para não ter de falar. Minha voz de poeta era conhecida até das pedras do Chile.

 

Sem maiores peripécias chegamos ao lugar de destino, uma fazenda madeireira, aparentemente despovoada. A água tocava-a por todas as partes. Primeiro atravessava-se o vasto lago Ranco e desembarcava-se entre matagais e árvores gigantescas. Dali seguia-se um trecho a cavalo até tomar o barco, desta vez nas águas do lago Maihue. A casa-grande apenas se divisava, dissimulada sob os montes inumeráveis, as folhagens imensas, o zumbido profundo da natureza. Diz-se que o Chile é o fim do mundo. Aquele lugar, forrado pela selva virgem, cercado pela neve e pelas águas lacustres, era na verdade um dos últimos lugares habitáveis do planeta.

A casa onde me destinaram um quarto de dormir era provisória, como tudo na região. Uma estufa de latão e ferro, carregada de lenha selvagem recém-cortada, ardia noite e dia. A tremenda chuva do sul golpeava sem trégua as janelas, como se lutasse para entrar na casa. A chuva dominava a selva sombria, os lagos, os vulcões, a noite e rebelava-se furiosa porque aquele abrigo de seres humanos tinha outro estatuto e não aceitava sua vitória.

Eu conhecia muito pouco o amigo que me esperava, Jorge Betlet. Antigo piloto de aviação, mistura de homem prático e explorador, com botas e metido em grossas jaquetas, tinha um ar de mando inato, um desplante militar que de certo modo se enquadrava bem com o ambiente, ainda que ali os regimentos perfilados fossem somente de árvores colossais do bosque natural.

A dona da casa era uma mulher frágil e chorosa, atacada pela neurose. Consi-derava como um insulto pessoal a pesada solidão do lugar, a chuva eterna e o frio. Choramingava grande parte do dia mas tudo andava pontualmente e se comiam alimentos definitivos, vindos da selva e da água.

Bellet dirigia a empresa madeireira, a qual se limitava a produzir dormentes de estrada de ferro, destinados a serem usados na Suécia e na Dinamarca. Todo o dia chiavam com um lamento agudo as serras que cortavam os grandes troncos. Primeiro ouvia-se o golpe profundo, subterrâneo, da árvore que caía. Cada cinco ou dez minutos a terra estremecia como um tambor escuro quando era golpeada pela queda dos raulíes, dos lariços, dos mañíos, (1) obras colossais da natureza, árvores plantadas ali pelo vento há mil anos. Depois elevava-se a queixa da serra que cortava em pedaços o corpo dos gigantes. O som da serra, metálico, estridente e elevado como um violino selvagem, depois do tambor escuro da terra que recebia seus deuses, tudo isto formava uma atmosfera de intensidade mitológica, um círculo de mistério e de terror cósmico. A selva morria. Eu ouvia perplexo suas lamentações como se eu tivesse chegado para escutar as antigas vozes que nunca mais ressoariam.

O grande patrão, o dono da selva, era natural de Santiago, e eu não o conhecia. Era anunciada e temida sua visita para depois que começasse o verão. Chamava-se Pepe Rodríguez. Tive informação de que era um capitalista moderno, dono de teares e de outras fábricas, homem industrioso, ágil e eletrizante. Além disso era um reacionário convicto, membro proeminente do partido mais direitísta do Chile. Como eu estava em trânsito por seus domínios sem que ele o soubesse, esses seus aspectos resultavam positivos para meu episódio. Ninguém iria me procurar ali. As autoridades civis e policiais atuavam sempre como vassalos do grande homem de cuja hospitalidade eu estava gozando. Parecia impossível que eu topasse com ele alguma vez.

Era iminente a partida. Estavam por começar as nevadas na cordilheira e não se brinca com os Andes. O caminho era estudado diariamente por meus amigos. Caminhos era uma maneira de dizer. Na realidade era uma exploração através de pegadas que o húmus e a neve tinham desmanchado faz tempo. A espera fazia-se angustiosa para mim. Ademais, meus companheiros do lado argentino já estariam à minha procura.

Quando tudo parecia pronto, Jorge Bellet, capitão-geral das madeiras, me disse que havia uma novidade. O grande patrão anunciava sua visita, comunicou-me contrafeito. Chegaria dentro de dois dias.

Fiquei desconcertado. Os preparativos não estavam prontos ainda. O mais perigoso para minha situação, depois de longo trabalho, era que o proprietário soubesse que eu me refugiara em suas próprias terras. Sabia-se que era amigo íntimo de meu perseguidor González Videla. E sabia-se que González Videla tinha posto minha cabeça a prêmio. Que fazer?

Bellet foi, desde o primeiro momento, partidário de falar cara a cara com Rodríguez, o proprietário.

- Conheço-o muito bem - disse. - É muito homem e jamais te delatará.

Eu discordava. As instruções do partido eram de segredo absoluto e Bellet pretendia violar essas instruções. Foi o que lhe disse. Discutimos acaloradamente. E no transcurso da discussão política decidimos que eu fosse viver na casa de um cacique mapuche, uma cabana encravada ao pé mesmo da selva.

Mudei-me para a cabana e ali minha situação tornou-se muito precária. Tanto que finalmente, depois de muitas objeções, aceitei encontrar-me com Pepe Rodríguez, o proprietário da empresa, das serras e dos bosques. Fixamos um ponto neutro que não fosse sua casa nem a cabana do cacique. Ao cair da tarde vi avançar um jipe. Dele desceu, junto a meu amigo Bellet, um homem maduro mas ainda moço, de cabelo grisalho e rosto enérgico. Suas primeiras palavras foram para dizer-me que desde esse instante ele assumia a responsabilidade de me custodiar. Em tais condições ninguém se atreveria a atentar contra a minha segurança.

Falamos sem grande cordialidade mas o homem foi me conquistando. Convidei-o, porque fazia muito frio, para a casa do cacique. Ali continuou nossa conversa. Por ordem sua apareceram uma garrafa de champanha, outra de uísque e gelo.

No quarto copo de uísque discutíamos em altas vozes. O homem era absolutista de convicções. Dizia coisas interessantes e estava inteirado de tudo, mas seus apartes insolentes deixavam-me furioso. Ambos dávamos grandes socos sobre a mesa do cacique até concluir em santa paz aquela garrafa.

Nossa amizade continuou por muito tempo. Uma de suas qualidades era a franqueza irredutível de homem acostumado a ter a faca e o queijo na mão. Mas também sabia ler minha poesia de forma extraordinária, com uma entonação tão inteligente e varonil que meus próprios versos pareciam-me nascer de novo.

Rodríguez voltou à capital, às suas empresas. Teve um último gesto. Chamou seus subordinados junto de mim e com característica voz de comando disse-lhes:

- Se o senhor Legarreta, de hoje a uma semana, tiver dificuldade para seguir para a Argentina pelo caminho dos contrabandistas, vocês abrirão outro caminho que chegue até a fronteira. Parem todos os trabalhos da madeira e ponham-se todos a abrir esse caminho. Estas são minhas ordens.

Legarreta era meu nome nesse momento.

Pepe Rodríguez, aquele homem autoritário e feudal, morreu dois anos depois, empobrecido e perseguido. Culparam-no de um vultoso contrabando. Passou muitos meses na prisão. Deve ter sido um sofrimento indizível para um temperamento tão arrogante.

Nunca soube com certeza se era culpado ou inocente do delito de que era acusado. Soube é que nossa oligarquia, que antes se desmanchava por um convite do esplêndido Rodríguez, abandonou-o logo que o viu processado e arrasado.

No que me diz respeito, continuo a seu lado sem que se possa apagar de minha memória. Pepe Rodríguez foi para mim um pequeno imperador que ordenou abrir sessenta quilômetros de caminho na selva virgem para que um poeta alcançasse a liberdade.

 

1 - Mañío; árvore do Chile semelhante ao lanço,, cuja madeira é muito apreciada. (N. da T.)

 

                   A montanha Andina

A montanha andina tem passagens desconhecidas, utilizadas antigamente por contrabandistas, tão hostis e difíceis que os guardas rurais já não se preocupam em vigiá-las. Rios e precipícios encarregam-se de interceptar o caminhante.

Meu companheiro Jorge Bellet era o chefe da expedição. À nossa escolta de cinco homens, bons ginetes e guias, juntou-se meu velho amigo Víctor Bianchi, que tinha chegado a essas paragens como agrimensor numas questões de terra. Não me reconheceu. Eu estava de barba crescida após ano e meio de vida escondida. Apenas soube do meu projeto de atravessar a selva, ofereceu-nos seus inestimáveis serviços de explorador experiente. Já tinha subido antes ao Aconcágua numa expedição trágica, da qual foi quase que o único sobrevivente.

Caminhávamos em fila, amparados pela solenidade do alvorecer. Fazia muitos anos, desde minha infância, que não montava a cavalo, mas aqui íamos a passo. A selva andina austral está povoada de grandes árvores apartadas uma da outra. São gigantescos lariços e maitenos, depois tepas e coníferas. Os muNes assombram por sua espessura. Parei para medir um. Era do diâmetro de um cavalo. No alto não se vê o céu. No chão as folhas têm caído durante séculos, formando uma camada de húmus onde se afundam os cascos dos animais. Numa marcha silenciosa atravessávamos aquela grande catedral da natureza selvagem.

Como nosso caminho era oculto e vedado, aceitávamos os indícios mais fracos de orientação. Não havia pegadas, não existiam picadas e com meus quatro companheiros a cavalo buscávamos em ondulante cavalgada, eliminando os obstáculos de poderosas árvores, impossíveis rios, penhascos imensos, neves desoladas, adivinhando o rumo de minha própria liberdade. Os que me acompanhavam conheciam o roteiro, a possibili-dade entre as grandes folhagens mas, para se sentirem mais seguros, marcavam com um golpe de facão aqui e acolá os troncos das grandes árvores, deixando sinais que os guiariam no regresso, quando me deixassem só com meu destino.

Cada um avançava com dificuldade naquela solidão sem margens, naquele silêncio verde e branco: as árvores, as grandes trepadeiras, o húmus depositado por centenas de anos, os troncos semiderrubados que subitamente eram uma barreira a mais em nossa marcha. Tudo era a um tempo uma natureza deslumbrante e secreta e simultaneamente uma crescente ameaça de frio, neve e perseguição. Tudo se mistu-rava: a solidão, o perigo, o silêncio e a urgência de minha missao.

Às vezes seguíamos uma pegada muito tênue, deixada talvez por contraban-distas ou delinqüentes comuns fugitivos, e ignorávamos se muitos deles tinham perecido, surpreendidos de repente pelas mãos glaciais do inverno, pelas tormentas tremendas de neve que quando se desencadeiam nos Andes envolvem o viajante, afundando-o sob sete palmos de brancura.

De cada lado da pegada vi, naquela desolação selvagem, algo como uma cons-trução feita pela mão do homem: pedaços de ramos empilhados que haviam suportado muitos invernos, oferenda vegetal de centenas de viajantes, altos túmulos de madeira em memória aos mortos, para lembrar os que não puderam continuar e ficaram ali para sempre debaixo da neve. Também meus companheiros cortaram com seus facões as ramas que nos roçavam as cabeças e que desciam sobre nós do alto das coníferas imensas, dos carvalhos cuja última folhagem palpitava antes das tempestades do inverno. E também fui deixando em cada túmulo uma lembrança, uma casca de madeira, um ramo cortado do bosque para enfeitar as tumbas de um ou outro dos viajantes desconhecidos.

Tínhamos de atravessar um rio. Essas pequenas vertentes nascidas nos cumes dos Andes precipitam-se, descarregam sua força vertiginosa e irresistível, transfor-mam-se em cascatas, rompem terras e rochas com a energia e o ímpeto que trouxeram das alturas espantosas. Mas esta vez encontramos um remanso, um grande espelho de água, um vau. Os cavalos entraram, perderam o pé e nadaram até a outra margem. De repente meu cavalo foi ultrapassado quase totalmente pelas águas, comecei a agitar-me sem apoio, meus pés se agitavam à deriva enquanto o animal lutava por manter a cabeça fora d'água. Assim atravessamos. Quando chegamos à outra margem, os guias, os camponeses que me acompanhavam, perguntaram com um certo sorriso:

- Teve muito medo?

- Muito. Pensei que tinha chegado minha última hora - disse.

- Íamos atrás do senhor com o laço na mão - responderam.

- Aí mesmo - acrescentou um deles - meu pai caiu e a correnteza o arrastou. Não ia acontecer o mesmo com o senhor.

Prosseguimos até entrar em um túnel natural que talvez foi aberto nas rochas imponentes por um caudaloso rio perdido ou por um abalo do planeta que dispôs nas alturas aquela obra, aquele canal rupestre de pedra escavada, de granito, no qual penetramos. Com poucos passos os cavalos resvalavam, tratavam de firmar-se nos desníveis da pedra, suas patas se dobravam, estalavam chispas nas ferraduras. Mais de uma vez vi-me arrojado do cavalo e estendido sobre as rochas. Minha montaria sangrava nas narinas e patas, porém prosseguimos obstinados o vasto, o esplêndido, o difícil caminho.

Algo nos esperava no meio daquela selva inóspita. Subitamente, como uma visão singular, chegamos a uma pequena e aprazível pradaria encolhida no regaço das montanhas: água clara, prado verde, flores silvestres, rumor de rios e o céu azul no alto, luz generosa liberta de qualquer folhagem.

Ali nos detivemos como dentro de um círculo mágico, como hóspedes de um recinto sagrado - e maior condição de sagrada teve ainda a cerimônia da qual participei. Os vaqueiros desceram de suas montarias. No centro do lugar estava colocada, como num rito, uma caveira de boi. Meus companheiros aproximaram-se silenciosamente, um por um, para deixar umas moedas e alguns alimentos nos buracos do osso. Uni-me a eles na oferenda destinada a toscos Ulisses extraviados, a fugitivos de todas as espécies que encontrariam pão e auxílio nas órbitas do touro morto.

Mas não parou aí a cerimônia inesquecível. Meus rústicos amigos despojaram-se de seus chapéus e iniciaram uma estranha dança, saltando num pé só ao redor da caveira abandonada, repassando a marca circular deixada por tantas danças de outros que por ali cruzaram antes. Compreendi então de uma maneira imprecisa, ao lado de meus companheiros impenetráveis, que existia uma comunicação de um desconhecido a outro, que havia uma solidariedade, um apelo e uma resposta mesmo nos mais longínquos e afastados ermos deste mundo.

Mais adiante, já a ponto de atravessar as fronteiras que me afastariam por muitos anos de minha pátria, chegamos de noite às últimas gargantas das montanhas. Vimos subitamente uma luz acesa que era indício certo de habitação humana e, ao nos aproximar, encontramos algumas construções desconjuntadas, galpões desmantelados parecendo vazios. Entramos num deles e vimos, à luz de um fogo, grandes troncos acesos no centro da habitação, corpos de árvores gigantescas que ali ardiam de dia e de noite e que deixavam escapar pelas frestas do teto uma fumaça que vagava no meio das trevas como um profundo véu azul. Vimos montões de queijos acumulados por quem os coalhou naquelas alturas. Perto do fogo, agrupados como sacos, jaziam alguns homens. Distinguimos no silêncio as cordas de uma guitarra e as palavras de uma canção que, nascendo das brasas e da escuridão, trazia-nos a primeira voz humana com que havíamos topado no caminho. Era uma canção de amor e de saudade, um lamento de amor e de nostalgia dirigido à primavera distante, às cidades de onde vínhamos, à infinita extensão da vida. Eles ignoravam quem éramos, eles nada sabiam do fugitivo, eles não conheciam minha poesia nem meu nome. Ou conheciam e nos conheciam? O fato é que junto daquele fogo cantamos e comemos e depois caminhamos dentro da escuridão até alguns aposentos primordiais. Através deles passava uma corrente termal, água vulcânica onde submergimos, calor que se desprendia das cordilheiras e que nos acolheu em seu meio.

Chapinhamos alegres, lavando-nos, limpando-nos do peso da longa cavalgada. Sentimo-nos refrescados, renascidos, batizados quando ao amanhecer empreendemos os últimos quilômetros de jornada que me separariam daquele eclipse de minha pátria. Afastamo-nos cantando sobre nossas montarias, cheios de um ar novo, de um alento que nos impelia para o grande caminho do mundo que estava me esperando. Quando quisemos dar (recordo-o vivamente) aos montanheses algumas moedas de recompensa pelas canções, pelos alimentos, pelas águas termais, pelo teto e pelos leitos, quer dizer, pelo inesperado amparo que nos saiu ao encontro, eles rechaçaram nosso oferecimento sem um gesto. Tinham nos servido e nada mais. E nesse “nada mais”, nesse silencioso “nada mais” havia muitas coisas subentendidas: talvez o reconhecimento, talvez os mesmos sonhos.

                   San Martín de los Andes

Uma choça abandonada nos indicou a fronteira. Eu já estava livre. Escrevi na parede da cabana: “Até breve, minha pátria. Vou-me embora mas levo-te comigo.”

Em San Martín de los Andes devia nos aguardar um amigo chileno. Essa cidadezinha da cordilheira argentina é tão pequena que me tinham dito como indicação única:

- Vai para o melhor hotel que ali Pedrito Ramírez irá te buscar.

Mas assim são as coisas. Em San Martín de los Andes não havia um melhor hotel: havia dois. Qual deles escolher? Decidimo-nos pelo mais caro, situado num bairro mais afastado, preterindo o primeiro que tínhamos visto defronte da bela praça da cidade.

Aconteceu que o hotel que escolhemos era tão de primeira classe que não quiseram nos aceitar. Observaram com hostilidade os efeitos de vários dias de viagem a cavalo, nossos casacos ao ombro, nossas caras com barba por fazer e poeirentas. A qualquer um dava medo de nos receber.

Ainda mais o gerente de um hotel que hospedava nobres ingleses procedentes da Escócia e que tinham vindo para pescar salmão na Argentina. Nós não tínhamos nada de lords. O gerente deu-nos o vade retro, alegando com ademanes e gestos teatrais que o último quarto disponível tinha sido reservado há dez minutos. Nisso assomou à porta um elegante cavalheiro de inconfundível tipo militar, acompanhado por uma loura cinematográfica, que gritou com voz trovejante:

- Alto! Não se manda os chilenos embora de nenhuma parte. Eles ficam aqui!

E ficamos. Nosso protetor parecia-se tanto com Perón e sua dama com Evita que pensamos todos: São eles! Mas depois, já de banho tomado e vestidos com roupa limpa, sentados à mesa e degustando uma garrafa de champanha duvidosa, soubemos que o homem era comandante da guarnição local e ela uma atriz de Buenos Aires que vinha visitá-lo.

Passamos por madeireiros chilenos dispostos a fazer bons negócios. O comandante me chamava “o Homem Montanha”. Víctor Bianchi, que até ali me acompanhava por amizade e por amor à aventura, descobriu uma guitarra e com suas pícaras canções chilenas encantava a argentinos e argentinas. Porém passaram-se três dias com suas noites e Pedrito Ramírez não chegava para -me buscar. Fiquei apreensivo. Já não nos restava camisa limpa nem dinheiro para comprar novas. Um bom negociante de madeira, dizia Víctor Bianchi, pelo menos deve ter camisas.

Enquanto isso, o comandante nos ofereceu um almoço em seu regimento. Sua amizade conosco fez-se mais estreita e confessou-nos que, apesar de sua semelhança física com Perón, era antiperonista. Passávamos longas horas discutindo quem teria pior presIdente, se o Chile ou a Argentina.

Certa manhã Pedrito Ramírez entrou de improviso em meu quarto.

- Desgraçado! - gritei. -Por que demoraste tanto?

Tinha sucedido o inevitável. Ele esperava tranqüilamente minha chegada no outro hotel, no da praça.

Dez minutos depois estávamos rodando pelo pampa infinito. E continuamos rodando dia e noite. De vez em quando os argentinos detinham o automóvel para pre-parar um mate e depois continuávamos atravessando aquela monotonia interminável.

 

                   Em Apris e com passaporte

Naturalmente minha maior preocupação em Buenos Aires foi providenciar uma nova identidade. Os papéis falsos que me serviram para atravessar a fronteira argentina não seriam igualmente utilizáveis se eu pretendia fazer uma viagem transatlântica e deslocar-me para a Europa. Como obter outros? Enquanto isso a polícia argentina, alertada pelo governo do Chile, me procurava febrilmente.

Em tais apuros lembrei-me de algo que dormia em minha memória. O novelista Miguel Ángel Asturias, meu velho amigo centroamericano, achava-se provavelmente em Buenos Aires, desempenhando um cargo diplomático de seu país, a Guatemala. Tínhamos uma vaga semelhança fisionômica. De mútuo acordo tínhamo-nos classifi-cado como chompipes, palavra indígena com que se designa os perus na Guatemala e parte do México. De nariz comprido, opulentos de cara e de corpo, unia-nos uma aparência comum com o suculento galináceo.

Veio ver-me em meu esconderijo.

- Companheiro chompipe - disse. - Empresta-me teu passaporte. Concede-me o prazer de chegar à Europa transformado em Miguel Ángel Asturias.

Tenho que dizer que Asturias foi sempre um liberal, bastante afastado da política militante. No entanto, não titubeou um instante. Poucos dias depois, entre “senhor Asturias para cá” e “senhor Asturias para lá”, atravessei o amplo rio que separa a Argentina do Uruguai, entrei em Montevidéu, atravessei aeroportos e vigilâncias policiais, chegando finalmente em Paris disfarçado de grande novelista guatemalteco.

Mas na França minha identidade voltava a ser um problema. Meu flamante passaporte não resistiria ao implacável exame crítico da Sûreté. Forçosamente teria que deixar de ser Miguel Ángel Asturias e reconverter-me em Pablo Neruda. Mas como fazê-lo se não tinha sido Pablo Neruda quem tinha chegado à França? Quem tinha chegado era Miguel Ángel Asturias.

Meus conselheiros me obrigaram a me refugiar no Hotel George V.

- Ali, entre os poderosos do mundo, ninguém irá te pedir os papéis - disseram.

Alojei-me ali por alguns dias, sem me preocupar muito com as roupas usadas na cordilheira e que destoavam naquele mundo rico e elegante. Então surgiu Picasso, tão grande de gênio quanto de bondade. Estava feliz como um menino porque recente-mente tinha pronunciado o primeiro discurso de sua vida. O discurso tinha versado sobre minha poesia, sobre minha perseguição, sobre minha ausência. Agora, com ternura fraternal, o genial minotauro da pintura moderna se preocupava pela minha situação em seus detalhes mais ínfimos. Falava com as autoridades, telefonava a meio mundo. Não sei quantos quadros portentosos deixou de pintar por culpa minha. Eu sentia na alma fazê-lo perder seu tempo sagrado.

 

Na ocasião celebrava-se em Paris um congresso da paz. Apareci em seus salões no último momento, só para ler um de meus poemas. Todos os delegados me aplaudiam e me abraçavam. Muitos me supunham morto. Duvidavam que eu pudesse ter burlado a perseguição furiosa da polícia chilena.

No dia seguinte chegou ao meu hotel o senhor Alderete, veterano jornalista da France Press, que me disse:

- Ao ser noticiado pela imprensa que o senhor se encontra em Paris, o governo do Chile declarou que a notícia é falsa, que é um sósia seu que aqui se apresenta, que Pablo Neruda se acha no Chile e que continua sendo seguido de perto, que sua detenção é somente questão de horas. Que podemos responder?

Lembrei que numa discussão sobre se Shakespeare tinha escrito ou não as suas obras, discussão pedante e absurda, Mark Twain interveio para dar sua opinião: “Em verdade não foi William Shakespeare quem escreveu essas obras mas sim outro inglês que nasceu no mesmo dia e na mesma hora que ele, morreu na mesma data, e que para cúmulo da coincidência chamava-se também William Shakespeare.”

- Responda - disse ao jornalista - que eu não sou Pablo Neruda mas sim outro chileno que escreve poesia, luta pela liberdade e se chama também Pablo Neruda.

Não foi tão simples arranjar meus papéis. Aragon e Paul Éluard me ajudavam. Enquanto isso, tinha que viver numa situação semiclandestina.

Entre as casas que me acolheram, estava a de Mme. Françoise Giroux. Nunca esquecerei esta dama tão original e inteligente. Seu apartamento ficava no Palais Royal, vizinho ao de Colette. Tinha adotado um menino vietnamita. O exército francês se encarregou, numa certa época, da tarefa que depois assumiriam os norte-americanos: a de matar gente inocente nas distantes terras do Vietnam. Então ela adotou o menino.

Recordo que nessa casa havia um Picasso dos mais belos que eu tinha visto. Era um quadro de grandes dimensões, anterior à fase cubista. Representava dois cortinados de felpa vermelha que caíam, entrecerrando-se como uma janela, sobre uma mesa. A mesa aparecia atravessada de lado a lado por um comprido pão francês. O quadro pareceu-me reverencial. O pão enorme sobre a mesa era como a imagem central dos ícones antigos ou como o São Maurício de El Greco que está no Escorial. Pus-lhe um título pessoal no quadro: A Ascensão do Santo Pão.

Um dia desses veio o próprio Picasso para me visitar em meu esconderijo. Levei-o para junto de seu quadro, pintado há tantos anos. Ele o havia esquecido por completo. Pôs-se a examiná-lo com muita seriedade, submerso nessa atenção extraordinária e algo melancólica que poucas vezes se notava nele. Esteve mais de dez minutos em silêncio, aproximando-se e afastando-se de sua obra esquecida.

- Cada vez gosto mais dela - disse-lhe quando concluiu sua meditação. –Vou propor que seja comprado para o museu de meu país. A senhora Giroux está disposta a nos vender.

Picasso voltou de novo a cabeça para o quadro, cravou o olhar no pão magnífico e respondeu como único comentário:

- Não está mal.

Encontrei para alugar uma casa que me pareceu extravagante, na rua Pierre Mill, no segundo arrondissement, quer dizer, onde o diabo perdeu as botas. Era um bairro operário e de baixa classe média. Era preciso viajar horas no metrô para chegar até lá. O que me agradou nessa casa foi que parecia uma jaula. Tinha três andares, corredores e peças pequenas - uma indescritível gaiola.

O andar de baixo, que era o mais amplo e tinha uma estufa de serragem, reservei para biblioteca e para salão de festas eventuais. Nos andares de cima ficaram instalados amigos meus, quase todos vindos do Chile. Ali se alojaram os pintores Jesé Venturelli, Nemesio Antúnez e outro que não me lembro.

Recebi então a visita de três grandes da literatura soviética: o poeta Nikolai Tijonov, o dramaturgo Alexandre Korneichuk (que era ao mesmo tempo governador da Ucrânia) e o novelista Constantin Simonov. Nunca os tinha visto antes. Abraçaram-me como se fôssemos irmãos que se encontrassem depois de uma longa ausência. E me deram, além do abraço, um sonoro beijo, desses beijos eslavos entre homens que signi-ficam grande amizade e respeito, e aos quais custei a me acostumar. Anos mais tarde, quando compreendi o caráter desses fraternais beijos masculinos, tive ocasião de começar uma de minhas histórias com essas palavras:

- O primeiro homem que me beijou foi um cônsul tchecoslovaco...

 

O governo do Chile não me queria. Não me queria no Chile nem fora tampouco. Por todas as partes onde eu passava era precedido de comunicações diplomáticas e de telefonemas que convidavam outros governos a me hostilizar.

Soube que no Quai d'Orsay existia um informe sobre a minha pessoa, que dizia mais ou menos o seguinte: “Neruda e sua mulher, Delia del Carril, fazem freqüentes viagens à Espanha, levando e trazendo instruções soviéticas. As instruções são recebidas do escritor russo Ilya Ehrenburg, com quem também Neruda faz viagens clandestinas à Espanha. Neruda, para estabelecer um contato mais privado com Ehrenberg, alugou e foi viver num apartamento situado no mesmo edifício onde mora o escritor soviético.”

Era uma fieira de disparates. Jean Richard Bloch me deu uma carta para um amigo seu que ocupava um cargo importante no Ministério das Relações Exteriores. Expliquei ao funcionário como pretendiam me expulsar da França pretextando absurdas suposições. Disse-lhe que desejava ardentemente conhecer Ehrenburg mas que, por desgraça, até esse dia não tinha tido tal honra. O alto funcionário olhou-me penalizado e prometeu que fariam uma investigação verdadeira. Mas nunca fizeram e as absurdas acusações ficaram de pé.

Decidi então apresentar-me a Ehrenburg. Sabia que ele ia diariamente ao La Coupole, onde almoçava à maneira russa, isto é, ao entardecer.

- Sou o poeta Pablo Neruda, do Chile - disse. - Segundo a polícia somos íntimos amigos. Afirmam que eu vivo no mesmo edifício que você. Como vão me expulsar da França por culpa sua, desejo pelo menos conhecê-lo de perto e apertar sua mão.

Não creio que Ehrenburg manifestasse sinais de surpresa diante de nenhum fenômeno que ocorresse no mundo. No entanto, vi sair de suas sobrancelhas hirsutas, por baixo de seus grandes tufos coléricos e grisalhos, um olhar bastante parecido com a estupefação.

- Eu também desejava conhecê-lo, Neruda - disse. - Gosto de sua poesia. Enquanto isso, prove este chucrute à alsaciana.

Desde esse instante nos tornamos grandes amigos. Acho que naquele mesmo dia começou a traduzir meu livro España en el corazón. Devo reconhecer que, sem se propor a isso, a polícia francesa concorreu para uma das mais gratas amizades de minha vida e me proporcionou também o mais eminente de meus tradutores para a língua russa.

 

Certo dia Jules Supervielle veio me ver. Já por essa data eu tinha passaporte chileno em meu nome e em dia. O velho e nobre poeta uruguaio saía então muito pouco à rua. Sua visita me emocionou e me surpreendeu.

- Trago-te um recado importante. Meu genro Bertaux quer te ver. Não sei de que se trata.

Bertaux era o chefe da polícia. Chegamos a seu gabinete. O velho poeta e eu nos sentamos junto do funcionário, em frente à sua mesa. Nunca vi uma mesa com mais telefones. Quantos seriam? Acho que não menos de vinte. Seu rosto inteligente e astuto me olhava daquele bosque telefônico. Eu pensava que naquele recinto tão elevado estavam todos os fios da vida subterrânea parisiense. Lembrei-me de Fantomas e do comissário Maigret.

O chefe de polícia havia lido meus livros e tinha um conhecimento inesperado de minha poesia.

- Recebi uma petição do embaixador do Chile para confiscar seu passaporte. O embaixador alega que você usa passaporte diplomático, o que seria ilegal. É verdadeira essa informação?

- Meu passaporte não é diplomático - respondi. - É um simples passaporte oficial. Sou senador em meu país e, como tal, tenho direito à posse deste documento. Além disso, aqui o tem e pode examiná-lo, mas não o retenha porque é de minha propriedade particular.

- Está em dia? Quem o prorrogou? - perguntou o senhor Bertaux pegando meu passaporte.

- Está em dia, é claro - disse. - Quanto a quem prorrogou, não lhe posso dizer, senão o governo do Chile destituiria esse funcionario.

O chefe de polícia examinou minuciosamente meus papéis. Depois utilizou um dos inumeráveis telefones e ordenou que o pusessem em contato com o embaixador do Chile.

A conversa telefônica entabulou-se em minha presença.

- Não, senhor embaixador, não posso fazê-lo. Seu passaporte é legal. Ignoro quem o prorrogou. Repito que seria incorreto tirar-lhe os papéis. Não posso, senhor embaixador. Sinto muito.

Transparecia a insistência do embaixador e também era evidente uma ligeira irritação por parte de Bertaux. Finalmente este deixou o telefone e me disse:

- Parece ser um grande inimigo seu. Mas pode permanecer na França quanto tempo desejar.

Saí com Supervielle. O velho poeta não explicava o que acontecia. De minha parte, sentia uma sensação de triunfo mesclada com outra de repulsa. O embaixador que me fustigava, cúmplice de meu perseguidor no Chile, era o mesmo Joaquín Fernández que se fazia de meu amigo, que não perdia ocasião de me adular e que nessa mesma manhã tinha me enviado um recadinho afetuoso pelo embaixador da Guatemala.

 

                   Raízes

Ehrenburg, que lia e traduzia meus versos, implicava:

- Raiz demais, demasiadas raízes em teus versos. Por que tantas?

É verdade. As terras da fronteira meteram suas raízes em minha poesia e nunca puderam sair dela. Minha vida é uma longa peregrinação que sempre dá voltas, que sempre retorna ao bosque austral, à selva perdida.

Ali as grandes árvores foram tombadas às vezes por setecentos anos de vida poderosa ou desenraizadas pela turbulência ou queimadas pela neve ou destruídas pelo incêndio. Senti cair na profundidade do bosque as árvores titânicas: o carvalho que cai com um som de catástrofe surda, como se golpeasse com uma mão colossal as portas da terra pedindo sepultura.

Mas as raízes ficam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à umidade, aos liquens, à aniquilação sucessiva.

Nada mais belo que essas grandes mãos abertas, feridas e queimadas, que atravessando-se em uma senda do bosque nos dizem o segredo da árvore enterrada, o enigma que sustentava a folhagem, os músculos profundos da dominação vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza. São esculturas da profundidade, obras-primas e secretas da natureza.

Certa vez, andando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques, cerca de Osorno, ele me fazia observar que cada ramagem se diferenciava da outra, que as folhas pareciam competir na infinita variedade do estilo.

- Parecem escolhidas por um paisagista botânico para um parque estupendo - dizia.

Anos depois, em Roma, Rafael recordava aquele passeio e a opulência natural de nossos bosques.

Assim era - e não é assim. Penso com melancolia em minhas andanças de menino e de adolescente entre Boroa e Carahue ou até Toltén nas elevações da costa. Quantos descobrimentos! O garbo da caneleira e sua fragrância depois da chuva, os liquens cuja barba de inverno fica suspensa dos rostos inumeráveis do bosque!

Eu empurrava as folhas mortas, tratando de encontrar o relâmpago de alguns coleópteros: os cárabos dourados vestidos de furta-cor para dançar um minúsculo balé sob as raízes.

Ou mais tarde, quando atravessei a cavalo a cordilheira até o lado argentino, sob a abóbada verde das árvores gigantescas, surgiu um obstáculo: a raiz de uma delas, mais alta do que nossas montarias, cortando-nos o passo. Trabalho de força e de facas do mato tornaram possível a travessia. Aquelas eram como catedrais tombadas: a magnitude descoberta que nos impunha sua grandeza.

 

         PRINCIPIO E FIM DE UM DESTERRO

 

                   Na União Soviética

Em 1949, recém-saído do exílio, fui convidado pela primeira vez à União Soviética, por motivo das comemorações do centenário de Pushkin. Cheguei junto com o entardecer ao meu encontro com a pérola fria do Báltico, a antiga, nova, nobre e heróica Leningrado. A cidade de Pedro, o Grande, e de Lênin, o Grande, tem “graça” como Paris. Uma graça cinzenta: avenidas cor de aço, palácios de pedra cor de chumbo e mar verde plúmbeo. Tudo estava diante de mim: os museus mais maravilhosos do mundo, os tesouros dos czares, seus quadros, seus uniformes, suas jóias deslumbran-tes, seus trajes de cerimônia, suas armas, suas baixelas. E os novos recuerdos imortais: o cruzador Aurora cujos canhões, unidos ao pensamento de Lênin, derrubaram os muros do passado e abriram as portas da História.

Acorri para um encontro com um poeta morto há 100 anos, Alexandre Pushkin, autor de tantos contos e novelas imortais. O príncipe dos poetas populares ocupa o coração da grande União Soviética. Em comemoração de seu centenário, os russos tinham reconstruído peça por peça o palácio dos czares. Cada muro tinha sido levan-tado tal como era antes, ressurgindo dos escombros pulverizados a que a artilharia nazista os havia reduzido. Foram utilizados os velhos planos do palácio, os docu-mentos da época, para construir de novo os luminosos vitrais, as bordadas cornijas, os capitéis floridos - tudo para edificar um museu em homenagem a um maravilhoso poeta de outrora.

 

A primeira coisa que me impressionou na URSS foi um sentimento de extensão, seu recolhimento espacial, o movimento das bétulas nas pradarias, os imensos bosques milagrosamente puros, os grandes rios, os cavalos ondulando sobre os trigais.

Amei a terra soviética à primeira vista e compreendi que dela saía não só uma lição moral para todos os ângulos da existência humana, uma equiparação das possibilidades e um avanço crescente no fazer e no repartir, mas também interpretei que daquele continente das estepes, com tanta pureza natural, ia acontecer um grande vôo. A humanidade inteira sabe que ali está sendo elaborada a gigantesca verdade e há no mundo uma intensidade atônita esperando o que vai acontecer. Alguns esperam com terror, outros simplesmente esperam, outros ainda acreditam pressentir o que virá.

Encontrava-me no meio de um bosque em que milhares de camponeses, com trajes antigos de festa, escutavam os poemas de Pushkin. Tudo aquilo palpitava: homens, folhas, extensões em que o trigo novo começava a viver. A natureza parecia formar uma unidade vitoriosa com o homem. Dos poemas de Pushkin no bosque de Michailovski tinha que surgir um dia o homem que voaria em direção a outros planetas.

Enquanto os camponeses presenciavam a homenagem, desabou uma chuva intensa. Um raio caiu muito próximo de nós, carbonizando um homem e a árvore que o abrigava. Tudo me pareceu inscrito no quadro torrencial da natureza. Além disso, aquela poesia acompanhada da chuva estava já em meus livros, tinha a ver comigo.

 

O país soviético muda constantemente. Constroem-se imensas cidades e canais. Até a geografia vai mudando. Mas em minha primeira visita as afinidades que nos ligavam se fixaram em mim - e também o que havia neles de intransponível e distante do meu espírito.

Em Moscou os escritores vivem sempre em ebulição, em contínua discussão. Tomei conhecimento ali, muito antes de que o descobrissem os escandalizantes ociden-tais, de que Pasternak era o primeiro poeta soviético, junto com Maiakovski. Maiakovski foi o poeta público, com voz de trovão e catadura de bronze, coração magnânimo que transtornou a linguagem e enfrentou os mais difíceis problemas da poesia política. Pasternak foi um grande poeta crepuscular da intimidade metafísica e politicamente um honesto reacionário que na transformação de sua pátria não viu mais longe do que um sacristão luminoso. De qualquer maneira, os mais severos críticos de seu estatismo político muitas vezes me recitaram de memória os poemas de Pasternak.

A existência de um dogmatismo soviético nas artes durante longos períodos não pode ser negada mas também deve ser dito que este dogmatismo foi sempre tomado como um defeito e combatido frontalmente. O culto da personalidade produziu, com os ensaios críticos de Zdhanov, brilhante dogmatista, um enrijecimento grave no desenvolvimento da cultura soviética. Mas havia muita resposta em toda parte e já se sabe que a vida é mais forte e mais pertinaz que os preceitos. A revolução é a vida e os preceitos buscam seu próprio túmulo.

 

Ehrenburg já é um homem maduro, mas continua sendo um grande agitador do que há de mais verdadeiro e vivo da cultura soviética. Muitas vezes visitei meu já bom amigo em seu apartamento da rua Gorki, constelado de quadros e litografias de Picasso ou em sua dacha (1) perto de Moscou. Ehrenburg tem paixão pelas plantas e está quase sempre em seu jardim, arrancando ervas daninhas e conclusões de tudo quanto cresce ao seu redor.

Mais tarde fiz grande amizade com o poeta Kirsanov, que traduziu admiravel-mente para o russo a minha poesia. Kirsanov é, como todos os soviéticos, um patriota ardente. Sua poesia tem lampejos fulminantes e uma sonoridade que lhe dá a bela língua russa lançada ao ar por sua pena em explosões e torrentes.

Continuamente eu visitava, em Moscou ou no campo, outro grande poeta, o turco Nazim Híkmet, legendário escritor preso durante 18 anos pelos estranhos governos de seu país.

Nazim, acusado de querer sublevar a marinha turca, foi condenado a todas as penas do inferno. O julgamento teve lugar num navio de guerra. Contaram-me como o fizeram andar até à exaustão pela ponte do navio, metendo-o depois no lugar das latrinas, onde os excrementos se acumulavam até meio metro acima do chão. Este meu irmão poeta sentiu-se desfalecer. A pestilência o fazia cambalear. Pensou então: os verdugos estão me observando de algum ponto, querem me ver cair, querem ver a minha desgraça. Com altivez suas forças ressurgiram. Começou a cantar, primeiro em voz baixa, depois em voz mais alta, com toda sua força no final. Cantou todas as canções, todos os versos de amor de que se lembrava, seus próprios poemas, as romanças dos camponeses, os hinos de luta de seu povo. Cantou tudo o que sabia. Assim triunfou sobre a imundície e sobre o martírio. Quando me contava estas coisas, eu lhe disse:

- Meu irmão, cantaste por todos nós. Já não precisamos ter dúvida nem pensar no que faremos. Já sabemos todos quando devemos começar a cantar.

Contava-me também os sofrimentos de seu povo. Os camponeses são brutal-mente perseguidos pelos senhores feudais da Turquia. Nazim via-os chegar à prisão, via-os trocar por tabaco o pedaço de pão que lhes davam como ração única. Começavam a olhar o pasto do pátio distraidamente. Depois com atenção, quase com gula. Um belo dia levavam uns tufos de relva à boca. Mais tarde arrancavam-na em feixes que devoravam precipitadamente. Por fim comiam o pasto de quatro, como os cavalos.

Antidogmático fervoroso, Nazim viveu longos anos exilado na URSS. Seu amor por essa terra que o acolheu encontra-se nessa frase sua: “Creio no futuro da poesia. Creio porque vivo no país onde a poesia constitui a exigência mais indispensável da alma”. Nessas palavras vibram muitos segredos que de longe não se consegue ver. O homem soviético, com as portas abertas a todas as libliotecas, a todas as aulas, a todos os teatros, está no centro da preocupação dos escritores. Não se pode ignorar isso ao discutir sobre o destino da ação literária. Por um lado, as novas formas, a renovação necessária de tudo quanto existe, deve transpor e romper os moldes literários. Por outro lado, como não acompanhar os passos de uma profunda e ampla revolução? Como afastar dos temas centrais as vitórias, conflitos, problemas humanos, fecundi-dade, movimento, germinação de um imenso povo que se confronta com uma mudança total de regime político, econômico e social? Como não solidarizar-se com esse povo atacado por ferozes invasores, cercado por implacáveis colonialistas, obscurantistas de todos os climas e aspectos? Poderiam a literatura e as artes tomar uma atitude de aérea independência junto de acontecimentos tão essenciais?

 

O céu é branco. Às quatro da tarde já está escuro. Desde essa hora a noite encerra a cidade.

Moscou é uma cidade de inverno, uma bela cidade de inverno. Sobre os tetos infinitamente iguais instala-se a neve. Brilham os pavimentos invariavelmente limpos. O ar é um cristal puro e transparente. Uma cor suave de aço, os flocos de neve que se amontoam, o ir e vir de milhares de transeuntes como se não sentissem o frio, tudo nos leva a sonhar que Moscou é um grande palácio de inverno com extraordinárias decorações fantasmagóricas e vivas.

Faz trinta graus abaixo de zero nesta Moscou que, como estrela de fogo e neve, como coração incendiado, está situada na metade do peito da terra.

Olho pela janela. Há soldados de guarda nas ruas. Que será? Até a neve parou de cair. Fazem o enterro do grande Vishinski. As ruas abrem-se solenemente para que passe o cortejo. Faz-se um silêncio fundo, um repouso no coração do inverno, para o grande combatente. O fogo de Vishinski reintegra-se aos alicerces da pátria soviética.

Os soldados que apresentaram armas ao passar o cortejo permanecem ainda em formação. De vez em quando algum deles faz um pequeno balé, levantando as mãos enluvadas e sapateando um instante com as altas botas. Fora disso parecem imutáveis.

Contava-me um amigo espanhol que, durante a grande guerra, nos dias de mais intenso frio e logo depois de um bombardeio, podia ver-se os moscovitas tomando sorvetes na rua. “Soube então que ganhariam a guerra - dizia meu amigo - quando os vi tomar sorvetes com tanta tranqüilidade no meio de uma guerra espantosa e um frio abaixo de zero.”

As árvores dos parques, brancos de neve, se congelaram. Nada se pode comparar a estas pétalas cristalizadas dos parques no inverno de Moscou. O sol deixa-as translúcidas, arranca-lhes chamas brancas sem que se derreta uma gota de sua estrutura floral. É um universo arborescente que deixa entrever, através de sua primavera de neve, as antigas torres do Kremlin, as esbeltas flechas milenárias, as cúpulas douradas de São Basilio.

 

Passados os subúrbios de Moscou, rumo a outra cidade, vejo amplos caminhos brancos. São os rios gelados. No leito desses rios imóveis surge de vez em quando, como uma mosca em uma toalha de mesa ofuscante, a silhueta de um pescador absorto. O pescador se detém no vasto lençol gelado, escolhe um ponto e perfura o gelo até deixar visível a corrente sepultada. Nesse momento preciso não pode pescar porque os peixes fugiram assustados pelo ruído dos ferros que abriam o buraco. O pescador então espalha alguns alimentos como isca para atrair os fugitivos. Lança um anzol e espera. Espera por horas e horas naquele frio dos diabos.

O trabalho dos escritores, digo eu, tem muito em comum com o daqueles pesca-dores árticos. O escritor tem que buscar o rio e, se o encontra gelado, precisa perfurar o gelo. Deve esbanjar paciência, suportar a temperatura e crítica adversa, desafiar o ridículo, buscar a corrente profunda, lançar o anzol justo, e depois de tanto trabalho tirar um peixinho mínimo. Porém deve voltar a pescar, contra o frio, contra o gelo, contra a água, contra o crítico, até recolher cada vez uma pescaria maior.

Fui convidado para um congresso de escritores. Ali estavam sentados na presidência os grandes pescadores, os grandes escritores da União Soviética. Fadeiev com seu sorriso branco e seu cabelo prateado; Fedin com sua cara de pescador inglês, magro e agudo; Ehrenburg com suas mechas revoltas e seu traje que, ainda que o estivesse estreando, dá a impressão de que dormiu vestido; e Thikonov.

Estavam também representados na presidência, com os rostos mongólicos e os livros recém-impressos, os porta-vozes das literaturas das mais longínquas repúblicas soviéticas, cidades que antes não se conheciam nem de nome, países nômades que não tinham alfabeto.

 

1 - Dacha: casa de campo, em russo. (N. da T.)

 

                   A Índia revisitada

No ano de 1950 tive de viajar para a Índia de forma inesperada. Em Paris, Joliot Curie mandou me chamar para me encarregar de uma missão: viajar para Nova Délhi para me pôr em contato com gente de diversas opiniões políticas, avaliar no próprio lugar as possibilidades de fortificar o movimento indiano pela paz.

Joliot Curie era o presidente mundial dos Partidários da Paz. Falamos longa-mente. Inquietava-o que a opinião pacifista não pesasse devidamente na India, apesar de ter tido sempre a reputação de país pacífico por excelência. O próprio Primeiro-Ministro, Pandit Nehru, tinha fama de ser um líder da paz, uma causa tão antiga e profunda para aquela nação.

Joliot Curie me deu duas cartas: uma para um investigador científico de Bombaim e outra para ser entregue nas próprias mãos do primeiro-ministro. Pareceu-me curioso que se tivesse designado precisamente a mim para uma viagem tão longa e uma tarefa aparentemente tão fácil. Talvez meu amor nunca extinto por aquele país onde passei alguns anos de minha juventude fosse levado em conta assim como o fato de que eu tinha recebido, nesse mesmo ano, o Prêmio da Paz por meu poema “Que desperte o lenhador”, distinção também entregue a Pablo Picasso e a Nazim Hikmet.

Tomei o avião para Bombaim. Trinta anos depois voltava à India. Agora não era uma colônia que lutava por sua emancipação mas uma república soberana: o sonho de Gandhi, a cujos congressos iniciais assisti no ano de 1928. Já não estaria vivo nenhum dos meus amigos de então, revolucionários estudantis que me confiaram fraternal-mente suas histórias de luta.

Apenas desci do avião dirigi-me à alfândega. Daí iria para um hotel qualquer, entregaria a carta ao físico Rama e continuaria a viagem até Nova Délhi. Não contava com a recepção. Não havia jeito das minhas malas serem liberadas. Um bando dos que eu julgava fiscais aduaneiros examinavam com lupa minha bagagem. Tinha visto muitas inspeções mas nenhuma como esta. Não era grande minha bagagem: apenas uma valise média com minha roupa e uma pequena bolsa de couro com meus utensílios de toalete. Minhas calças, minhas cuecas, meus sapatos, eram levantados no ar e fiscalizados por cinco pares de olhos. Os bolsos e as costuras eram explorados meticulosamente. Para não sujar minha roupa, tinha em Roma envolvido meus sapatos numa folha de jornal amarfanhada que encontrei no quarto do meu hotel, acho que do Osservatori Romano. Estenderam essa folha sobre uma mesa, olharam-na contra a luz, dobraram-na cuidadosamente como se fosse um documento secreto e finalmente deixaram-na de lado, junto com meus papéis. Também meus sapatos foram estudados por dentro e por fora como exemplares únicos de fósseis fabulosos.

Duas horas durou este esquadrinhamento incrível. De meus papéis (passaporte, caderneta de endereços, a carta que devia entregar ao chefe do governo e a folha do Osservatore Romano) fizeram um embrulho confuso que cerimoniosamente selaram com lacre diante de mim. Só então disseram que eu podia seguir para o hotel.

Fazendo um esforço chileno para não perder a paciência, chamei a atenção para o fato de que nenhum hotel me receberia desprovido de documentos de identidade e que o objetivo de minha viagem à India era entregar ao primeiro-ministro a carta que não podia entregar porque eles tinham-na seqüestrado.

- Falaremos ao hotel para que o recebam. Quanto aos papéis, devolveremos oportunamente.

Este era o país cuja luta pela independência fez parte de meu destino juvenil, pensei. Fechei minha valise e ao mesmo tempo fechei a boca. Por dentro, meu pensamento formulava uma só palavra: Merda!

 

No hotel me encontrei com o professor Baera, a quem contei meus contratempos. Era um hindu bem-humorado. Não deu importância demasiada ao acontecido. Era tolerante com seu país, que considerava todavia em formação. Em troca eu percebia algo malévolo naquela desordem, algo que não esperava como acolhida de uma nova nação independente.

O amigo de Joliot Curie, para quem trazia a carta de apresentação, era o diretor dos estudos físico-nucleares da India. Convidou-me a visitar suas instalações. E acrescentou que estávamos convidados para almoçar nesse mesmo dia com a irmã do primeiro-ministro. Assim era minha sorte e assim continuou sendo toda a vida: com uma mão me dão uma paulada nas costelas e com a outra me oferecem um ramo de flores para me desagravar.

O Instituto de Investigações Nucleares era um desses recintos limpos, claros, radiantes, nos quais homens e mulheres vestidos de branco, transparentes, circulam como a água que corre, atravessando corredores, lidando com instrumentos, giz e cubetas. Ainda que tenha entendido muito pouco das explicações científicas, aquela visita me serviu como um banho purificador que me lavava das manchas ocasionadas pelos vexames que a polícia me fez passar. Recordo vagamente que vi, entre outras coisas, uma espécie de fonte de mercúrio. Nada mais surpreendente que este metal que mostra sua energia como uma vida animal. Sempre me cativou sua mobilidade e sua capacidade de transformação líquida, esférica, mágica.

Esqueci o nome da irmã de Nehru com a qual almoçamos naquele dia. Diante dela acabou meu mau humor. Era uma mulher de grande beleza, maquilada e adornada como uma atriz exótica. Seu sari relampejava de cores. O ouro e as pérolas realçavam sua opulência. Agradou-me muitíssimo. Era um contraste ver aquela mulher finíssima comer com a mão, meter os dedos cheios de jóias no arroz e no molho de curry. Disse-lhe que iria a Nova Délhi para ver seu irmão e os amigos da paz mundial. Respondeu que, em sua opinião, toda a população da índia deveria tomar parte nesse movimento.

Pela tarde me entregaram no hotel o pacote com meus papéis. Aqueles farsantes da polícia tinham rompido os selos lacrados que eles mesmos tinham posto ao empa-cotar os documentos em minha presença. Com certeza tinham fotografado até minhas contas de lavanderia. Mais tarde fiquei sabendo que foram visitadas e interrogadas pela polícia todas as pessoas cujos endereços figuravam em minha caderneta. Entre elas a viúva de Ricardo Guiraldes, naquela época minha cunhada. Esta senhora era uma mulher teosófica e superficial, sem outra paixão além das filosofias asiáticas, e que vivia numa remota aldeia da índia. Incomodaram-na bastante pelo fato de aparecer seu nome em minha caderneta de endereços.

Em Nova Délhi vi seis ou sete personalidades da capital indiana no mesmo dia de minha chegada, sentadas em um jardim, debaixo de uma sombrinha que me protegia do fogo celeste. Eram escritores, filósofos, sacerdotes hindus e budistas, dessa gente da índia tão adoravelmente simples, tão desprovida de qualquer arrogância. Eram de opinião unânime que os partidários da paz formavam um movimento identificado com o espírito de seu velho país, com sua imutável tradição de bondade e entendimento. Acrescentaram sabiamente que julgavam necessário que se corrigissem os defeitos sectários ou de hegemonia: nem os comunistas, nem os budistas, nem os burgueses, ninguém devia apropriar-se do movimento. A contribuição de todas as tendências era o aspecto principal, o nó da questão. Concordei com eles.

O embaixador do Chile, um velho amigo meu, escritor e médico, o Dr. Juan Marín, veio me ver durante o almoço. Depois de muitos circunlóquios me disse que tinha tido uma entrevista com o chefe de polícia. Com a característica serenidade que as autoridades adotam para se dirigir aos diplomatas, o chefe dos esbirros hindus comunicou-lhe que minhas atividades inquietavam o governo da índia e que tomara que eu abandonasse rapidamente o país. Respondi ao embaixador que minhas atividades não tinham sido outras senão entrevistar-me, no jardim do hotel, com seis ou sete pessoas eminentes cujo pensamento supunha eu já ser do conhecimento de todos. Quanto a mim, disse, logo que entregasse a mensagem de Joliot Curie para o primeiro-ministro, não me interessaria continuar num país que, apesar de meu comprovado sentimento de adesão à sua causa, me tratava tão descortesmente, sem nenhuma justificativa.

Meu embaixador, ainda que tivesse sido um dos fundadores do Partido Socialista no Chile, era um acomodado, possivelmente por causa dos anos e dos privilégios diplomáticos. Não manifestou nenhuma indignação diante da estúpida atitude do governo hindu. Não lhe pedi nenhuma solidariedade e nos despedimos amavelmente, ele seguramente aliviado da pesada carga que lhe significava minha visita e eu desiludido para sempre de sua sensibilidade e de sua amizade.

 

Nehru tinha marcado uma entrevista comigo para a manhã seguinte em seu gabinete. Levantou-se e me estendeu a mão sem um sorriso de boas-vindas. Sua casa tem sido tão fotografada que não vale a pena descrevê-la. Olhos escuros e frios me olharam sem nenhuma emoção. Trinta anos antes me haviam apresentado a ele e a seu pai em uma caudalosa reunião independentista. Recordei-lhe isto sem que suas feições se alterassem. A tudo que eu lhe dizia respondia com monossílabos, observando-me com o invafiável olhar frio.

Estendi-lhe a carta de meu amigo Joliot Curie. Disse-me sentir pelo sábio francês um grande respeito e leu-a tranqüilamente. Na carta falava de mim e pedia-lhe ajuda para minha missão. Terminou de lê-la, colocou-a de novo no envelope e me olhou sem dizer nada. Pensei repentinamente que minha presença lhe causava alguma irresistível aversão. Também me passou pela cabeça que aquele homem de cor biliosa devia estar passando por um mau momento físico, político ou sentimental. Havia certa altivez em sua conduta, algo tenso, como de pessoa acostumada a mandar mas sem a força do caudilho. Lembrei-me que seu pai, Pandit Motilal Zemindar, herdeiro de antiga casa de senhores, foi o grande tesoureiro de Gandhi e contribuiu, não só com sua sabedoria política mas também com sua grande fortuna com o partido congressista. Pensei que talvez o homem silencioso à minha frente tinha voltado sutilmente a ser um zemindar e me contemplava com a mesma indiferença e menosprezo que sentia por qualquer um de seus camponeses descalços.

- Que devo dizer ao professor Joliot Curie quando regressar a Paris?

- Responderei sua carta - disse secamente.

Guardei silêncio alguns minutos que me pareceram longuíssimos. Parecia que Nehru não tinha vontade de me dizer nada, mas não demonstrava tampouco a menor impaciência, como se eu pudesse ficar ali sentado sem nenhum objetivo, constrangido pela sensação de fazer perder tempo a um homem tão importante.

Considerei imprescindível dizer-lhe algumas palavras sobre minha missão. A guerra fria ameaçava incendiar-se de um momento para outro. Um novo abismo podia tragar a humanidade. Falei do perigo terrível das armas nucleares e da importância de agrupar a maioria dos que querem evitar a guerra.

Como se não tivesse me escutado, continuou em seu ensimesmamento. Ao cabo de alguns minutos disse:

- Acontece que os de um e outro lado se golpeiam mutuamente com os argumentos da paz.

- Para mim - respondi - todos os que falam de paz ou querem contribuir para ela podem pertencer ao mesmo lado, ao mesmo movimento. Não queremos excluir ninguém senão os partidários da desforra e da guerra.

O silêncio continuou. Compreendi que a conversação tinha terminado. Levantei-me e estendi a mão para me despedir. Estreitou-a em silêncio e, quando já me dirigia para a porta, me perguntou com certa amabilidade:

- Que posso fazer pelo senhor? Posso lhe oferecer alguma coisa? Minhas reações são lentas e sou infelizmente desprovido de malícia. No entanto, por uma vez na vida, aproveitei a deixa:

- Ah, claro! Tinha esquecido. Apesar de ter vivido anteriormente na India, nunca tive oportunidade de visitar o Taj Mahal, tão próximo de Nova Délhi. Esta seria a ocasião de conhecer o admirável monumento se a polícia não me tivesse notificado de que não posso sair da cidade e que devo regressar à Europa o quanto antes. Regresso amanhã.

Contente de lhe ter assestado o dardo, cumprimentei-o ligeiramente e abandonei seu gabinete.

Na recepção do hotel o gerente me esperava.

- Tenho uma mensagem para o senhor. Acabam de me telefonar do Governo para informar que o senhor pode visitar quando quiser o Taj Mahal.

- Prepare minha conta - respondi. - Sinto não fazer essa visita. Vou agora mesmo para o aeroporto para tomar o primeiro avião que me leve a Paris.

Cinco anos depois me caberia participar em Moscou do comitê de prêmios que a cada ano outorga o Prêmio Lênin da Paz, como jurado internacional, do qual faço parte. Quando chegou o momento de apresentar e votar as candidaturas correspondentes a esse ano. O delegado representante da India lançou o nome do primeiro-ministro Nehru.

Insinuei um sorriso que nenhum dos outros jurados entendeu e votei afirmativamente. Com aquele prêmio internacional Nehru ficou consagrado como um dos campeões da paz do mundo.

 

                   Minha primeira visita à China

Duas vezes visitei a China depois da revolução. A primeira foi em 1951, ano em que me coube participar da missão de levar o Prêmio Lênin da Paz à _Srª Sung Sin Ling, viúva de Sun Yat Sen.

Recebia ela essa medalha de ouro por indicação de Kuo Mo Jo, vice-presidente da China e escritor. Kuo Mo Jo era além disso vice-presidente do comitê de prêmios junto com Aragon. A esse mesmo júri pertencíamos Ana Seghers, o cineasta Alexandrov, alguns outros que não recordo, Ehrenburg e eu. Existia uma aliança secreta entre Aragon, Ehrenburg e eu, por meio da qual conseguimos que se desse o prêmio em outros anos a Picasso, a Bertolt Brecht e a Rafael Alberti. Não tinha sido fácil, é claro.

Saímos para a China pelo trem transiberiano. Meter-me dentro desse trem legendário era como entrar num barco que navegasse por terra no espaço infinito e misterioso. Tudo era amarelo ao meu redor, por léguas e léguas, de cada lado das janelas. Estava no meio do outono siberiano e não se viam senão bétulas prateadas de pétalas amarelas. Em seguida a pradaria sem limites, a tunga e a taiga. De vez em quando estações que correspondiam a novas cidades. Descíamos com Ehrenburg para nos desentorpecer. Nas estaçoes os camponeses esperavam o trem com embrulhos e maletas, amontoados nas salas de espera.

O tempo dava só para dar alguns passos por esses povoados. Todos eram iguais e todos tinham uma estátua de cimento de Stalin, às vezes pintadas de prateado, outras de dourado. Das dezenas que vimos, matematicamente iguais, não sei quais eram as mais feias, se as prateadas ou as áureas. De volta ao trem, e por uma semana, Ehrenburg me entretinha com sua conversação cética e brilhante. Ainda que profunda-mente patriótico e soviético, Ehrenburg comentava comigo de forma sorridente e desdenhosa muitos dos aspectos da vida daquela época.

Ehrenburg tinha chegado até Berlim com o Exército Vermelho. Foi, sem dúvida, o mais brilhante dos correspondentes de guerra de quantos existiram. Os soldados vermelhos gostavam muito desse homem excêntrico e arredio. Pouco antes, em Moscou, tinha me mostrado dois presentes que esses soldados lhe fizeram, depois de desencavá-los das ruínas alemãs: um rifle construído por armeiros belgas para Napoleão Bonaparte e dois tomos minúsculos das obras de Ronsard, impressos na França em 1650. Os pequenos volumes estavam chamuscados e manchados de chuva ou sangue.

Ehrenburg cedeu aos museus franceses o belo rifle de Napoleão. “Para que o quero?”, dizia, acariciando o cano lavrado e a culatra brunida. Quanto aos livrínhos de Ronsard, guardou-os zelosamente para si.

Ehrenburg era um francófilo apaixonado. No trem me recitou um de seus poemas clandestinos, uma poesia curta em que cantava a França como se falasse à mulher amada.

Digo que o poema era clandestino porque era a época na Rússia das acusações de cosmopolitismo. Os jornais traziam com freqüência denúncias obscurantistas. Toda a arte moderna lhes parecia cosmopolita. Tal ou qual escritor ou pintor caía em desgraça e seu nome entrava no ostracismo rapidamente sob essa acusação. Assim é que o poema francófilo de Ehrenburg teve de guardar sua ternura como uma flor secreta.

Muitas das coisas que Ehrenburg me dava a conhecer desapareciam depois irreparavelmente na sombria noite de Stalin, desaparições que eu atribuía mais a seu caráter reivindicador e contestador.

Com suas grandes mechas desordenadas, suas rugas profundas, seus dentes manchados pela nicotina, seus frios olhos cinzentos e seu sorriso triste, Ehrenburg era para mim o antigo cético, o grande desenganado. Eu recém-abria os olhos para a grande revolução e não havia lugar em mim para detalhes sinistros. Apenas discor-dava do mau gosto geral da época, daquelas estátuas lambuzadas de ouro e prata. O tempo ia provar que não era eu quem tinha razão mas creio que nem sequer Ehrenburg conseguiu compreender em sua extensao a imensidade da tragédia. A magnitude dela nos seria revelada a todos pelo XX Congresso.

 

Parecia que o trem avançava muito lentamente pela imensidão amarela, dia após dia, bétula após bétula. Assim íamos nos aproximando, através da Sibéria, dos montes Urais.

Almoçávamos um dia no carro-restaurante quando me chamou a atenção uma mesa ocupada por um soldado, um jovem rubicundo e sorridente, que estava embriagadíssimo. Toda hora pedia ovos crus ao camareiro, quebrava-os e com grande alvoroço os deixava cair no prato. Em seguida pedia outro par de ovos. Sentia-se cada vez mais feliz, a julgar por seu sorriso extasiado e seus olhos azuis de menino. Devia estar nisso há muito tempo porque as gemas e as claras começavam perigosamente a resvalar do prato e a cair no chão do trem.

- Tovaritch! (1) - o soldado chamava o camareiro com entusiasmo, pedindo-lhe novos ovos para aumentar seu tesouro.

Eu observava entusiasmado esta cena de um surrealismo tão inocente e tão inesperado naquele marco de oceânica solidão siberiana.

Isso até que o camareiro, alarmado, chamou um guarda. O polícia, fortemente armado, olhou o soldado do alto da sua estatura, com severidade. Este não lhe deu a mínima importância e continuou na tarefa de quebrar ovos e mais ovos.

Supus que a autoridade fosse tirar o esbanjador de sua fantasia. Mas fiquei perplexo: o hercúleo polícia sentou-se junto dele, passou-lhe com ternura a mão pela cabeça loura e começou a falar em voz baixa, sorrindo e tentando convencê-lo. Até que rapidamente o levantou com suavidade de seu assento e o conduziu apoiado pelo braço, como um irmão maior, até a saída do vagão para a estação e para as ruas da cidade.

Pensei com amargura no que iria acontecer a um pobre indiozinho bêbado que se pusesse a quebrar ovos em um trem equatoriano.

 

Durante aqueles dias transiberianos ouvia-se pela manhã e pela tarde como Ehrenburg golpeava com energia as teclas de sua máquina de escrever. Ali terminou A nova onda, sua última novela antes de O degelo. Quanto a mim, escrevia só aos poucos alguns dos Los versos del capitán, poemas de amor para Matilde, que publicaria mais tarde em Nápoles anonimamente.

Deixamos o trem em Irkutz. Antes de tomar o avião até a Mongólia, fomos passear pelo lago, o famoso lago Baikal, nos confins da Sibéria, que significou durante o czarismo a porta da liberdade. Para esse lago iam os pensamentos e os sonhos dos exilados e dos prisioneiros. Era o único caminho possível para a evasão. Baikal! Baikal! repetem ainda agora as roucas vozes russas, cantando as antigas baladas.

O Instituto de Investigação Lacustre nos convidou para almoçar. Os sábios nos revelaram seus segredos científicos. Nunca se pôde precisar a profundidade daquele lago, filho e olho dos montes Urais. A dois mil metros de profundidade se recolhem peixes estranhos, peixes cegos tirados de seu abismo noturno. Logo meu apetite ficou despertado e consegui que os investigadores me trouxessem à mesa um par daqueles estranhos peixes. Sou uma das poucas pessoas do mundo que comeram peixes abissais, regados com boa vodca siberiana.

Dali voamos para a Mongólia. Guardo uma lembrança nebulosa daquela terra lunar, onde os habitantes vivem ainda em tendas nômades enquanto criam suas primeiras gráficas e suas primeiras universidades. Ao redor de Ulan Bator abre-se uma aridez redonda, infinita, parecida com o deserto de Atacama em minha pátria, interrompida somente por grupos de camelos que fazem mais arcaica a solidão. É certo que provei em taças de prata, incrivelmente lavradas, o uísque dos mongóis. Cada povo faz seu álcool do que pode. Este era de leite fermentado de camelo. No entanto sinto calafrios quando recordo seu sabor. Mas que maravilha é ter estado em Ulan Bator! Ainda mais para mim que me prendo aos belos nomes. Vivo neles como em mansões de sonho que me estavam destinadas. Assim tenho vivido, gozando cada sílaba do nome de Cingapura, do de Samarcanda. Quando morrer, quero que me enterrem em um nome, em um nome sonoro bem escolhido, para que suas sílabas cantem sobre meus ossos, perto do mar.

O povo chinês é um dos mais sorridentes do mundo. Através do implacável colonialismo, de revoluções, de grandes fomes, de massacres, sorri como nenhum outro povo sabe sorrir. O sorriso das crianças chinesas é a mais bela colheita de arroz que espalha a grande multidão.

Mas há dois tipos de sorriso chinês. Há um natural que ilumina os rostos cor de trigo - é o dos camponeses e do povo em geral. O outro é um sorriso da boca para fora, postiço, que se atarraxa e desatarraxa sob o nariz - é o sorriso dos funcionários.

Custou-nos distinguir entre ambos os sorrisos quando, com Ehrenburg, chegamos pela primeira vez ao aeroporto de Pequim. Os verdadeiros e melhores nos acompanharam por muitos dias. Eram os de nossos companheiros, escritores chineses, novelistas e poetas que nos acolheram com nobre hospitalidade. Conhecemos assim Tieng Ling, novelista, Prêmio Stalin e presidente da União de Escritores, Mao Dung, Emi Siao e o encantador Ai Ching, velho comunista e príncipe dos poetas chineses. Todos eles falavam francês ou inglês; e a Revolução Cultural os sepultou a todos, anos depois. Mas na época de nossa chegada eram as personalidades essenciais da literatura.

No dia seguinte, depois da cerimônia de entrega do Prêmio Lênin, chamado então Prêmio Stalin, almoçamos na embaixada soviética. Estava ali, além da laureada Chou En Lai, o velho marechal Chu Teh e alguns outros. O embaixador era um herói de Stalingrado, típico militar soviético, que cantava e brindava repetidamente. Tocoume sentar ao lado de Sung Sin Ling, muito digna e ainda bela, a figura feminina mais respeitada da época.

Cada um de nós tinha à sua disposição uma pequena garrafa de cristal cheia de vodca. Os “gambé” estouravam com profusão. Este brinde chinês obriga a emborcar a taça de um golpe, sem deixar uma gota. O velho marechal Chu Teh, defronte a mim, enchia seu copinho com freqüência e com seu grande sorriso camponês me incitava a cada momento a um novo brinde. No final do almoço aproveitei um momento de distração do antigo estrategista para provar um trago de sua garrafa de vodca. Minhas suspeitas se confirmaram ao comprovar que o marechal tinha tomado água pura durante o almoço enquanto eu lançava às entranhas grandes quantidades de fogo líquido.

Na hora do café, minha vizinha de mesa Sung Sin Ling, viúva de Sun Yat Sen, a portentosa mulher que viemos condecorar, tirou um cigarro de sua cigarreira. Depois, com um sorriso delicado, ofereceu outro a mim. “Não, não fumo, muito obrigado”, disse. E ao elogiar-lhe o estojo de cigarros, respondeu: “Conservo-o porque é uma recordação muito importante em minha vida.” Era um objeto deslumbrante, de ouro maciço, incrustado de brilhantes e rubis. Depois de olhá-lo minuciosamente e acrescentar novos elogios, devolvi-o à sua proprietária.

Esqueceu muito rapidamente a restituição, pois, ao levantar-nos da mesa, dirigiu-se a mim com certa veemência, dizendo:

- Minha cigarreira, please?

Eu não tinha dúvida de tê-la devolvido, mas de qualquer maneira procurei-a sobre e depois embaixo da mesa sem encontrá-la. O sorriso da viúva de Sun Yat Sen tinha se desvanecido e somente dois olhos negros me perfuravam como dois raios implacáveis. O objeto sagrado não se encontrava em parte alguma e eu começava a sentir-me absurdamente responsável pela perda. Os raios negros estavam me convencendo de que eu era um ladrão de jóias cinzeladas.

Por sorte, no último minuto de agonia, divisei a cigarreira que reaparecia em suas mãos. Tinha-a encontrado em sua bolsa simplesmente, naturalmente. Ela recobrou seu sorriso mas eu não voltei a sorrir durante vários anos. Penso agora que talvez a Revolução Cultural a deixou definitivamente sem sua cigarreira de ouro.

 

Naquela estação do ano os chineses se vestiam de azul, uma roupa de mecânico que vestia igualmente homens e mulheres, dando-lhes um aspecto unânime e celeste. Nada de andrajos, nem tampouco automóveis. Uma multidão densa enchia tudo, fluindo de toda parte.

Era o segundo ano da revolução. Certamente havia escassez e dificuldades em diversos lugares mas não se viam ao percorrer a cidade de Pequim. O que nos preocupava especialmente, a Ehrenburg e a mim, eram pequenos detalhes, pequenos vícios do sistema. Quando quisemos comprar um par de meias, um lenço, aquilo se converteu em um problema de estado. Os companheiros chineses discutiram entre si. Depois de nervosas deliberações, partimos do hotel em caravana. Nosso carro ia na frente, seguido do carro da guarda de vigilância, do dos policiais, do dos intérpretes. O cortejo de carros arrancou velozmente, abrindo caminho por entre a sempre apinhada multidão. Passávamos como uma avalancha pelo estreito canal, livre pelo afastamento das pessoas. Chegados ao armazém, os amigos chineses desceram depressa, expul-saram com rapidez toda a clientela da loja, fizeram parar o tráfego, formaram uma barreira com seus corpos, um corredor humano que atravessamos cabisbaixos, Ehrenburg e eu, para sair igualmente cabisbaixos quinze minutos depois com um pacotinho na mão e a resolução mais fervorosa de não comprar nunca mais um par de meias.

Essas coisas punham Ehrenburg furioso, como no caso do restaurante que vou contar. No hotel serviam-nos a péssima comida inglesa que na China foi deixada como herança pelos sistemas coloniais. Eu, que sou grande admirador da cozinha chinesa, disse a meu jovem intérprete que ardia de desejo de apreciar a afamada arte culinária pequinesa. Respondeu-me que ia ver.

Ignoro se realmente foi consultar se era possível porque o certo foi que continuamos mascando o insípido rosbife do hotel. Então voltei a falar com ele sobre o assunto. Ficou pensativo e disse:

- Os companheiros se reuniram várias vezes para examinar a situação e o problema está quase sendo resolvido.

No dia seguinte aproximou-se de nós um membro importante do comitê de recepção. Depois de atarraxar corretamente no rosto o sorriso, perguntou-nos se efetivamente queríamos comer comida chinesa. Ehrenburg disse-lhe categoricamente que sim. Acrescentei que conhecia desde meus anos de juventude a comida cantonesa e que ansiava saborear o celebérrimo tempero de Pequim.

- O assunto é difícil - disse o companheiro chinês, preocupado.

Silêncio, sacudir de cabeça e depois resumiu:

- Quase impossível.

Ehrenburg sorriu com o sorriso amargo de cético contumaz. Eu, ao contrário, me enfureci:

- Companheiro - disse. - Faça o favor de arranjar meus papéis de regresso a Paris. Se não posso comer comida chinesa na China, eu a comerei no Quartier Latin, onde não é nenhum problema.

Minha violenta argumentação teve êxito. Quatro horas mais tarde, precedidos de nossa profusa comitiva, chegamos a um famoso restaurante onde há quinhentos anos se prepara o pato laqueado, um prato requintado, memorável.

O restaurante, aberto dia e noite, distava apenas trezentos metros de nosso hotel.

 

1 - Tovaritch: expressão russa que quer dizer camarada. (N. da T.)

 

                   Os versos do Capitão

De viagem em viagem, nestas andanças de desterrado, cheguei a um país que ainda não conhecia e que aprendi a amar intensamente: a Itália. Nesse país tudo me pareceu fabuloso. Especialmente a simplicidade italiana: o azeite, o pão e o vinho da naturalidade. Até a polícia... A polícia que nunca me maltratou mas que me perseguiu incansavelmente, a polícia que encontrei em todas as partes, até no sonho e na sopa.

Fui convidado pelos escritores para ler meus versos. Li-os de boa-fé por toda parte: em universidades, em anfiteatros, para os portuários de Gênova, em Florença, no Palácio da Lã, em Turim, em Veneza.

Lia com infinito prazer diante de salas repletas. Depois alguém junto de mim repetia a estrofe em magnífico italiano e eu gostava de ouvir meus versos com o resplendor acrescentado pela língua soberba. Mas já à polícia não agradava tanto. Em castelhano passava mas, na versão italiana, a coisa era diferente. A apologia à paz, palavra que já estava proscrita pelos “ocidentais” e mais ainda a direção de minha poesia voltada para as lutas populares tornavam-se perigosas.

Os partidos populares tinham ganho as eleições nos municípios e desse modo fui recebido pelas câmaras municipais como visitante de honra. Fui muitas vezes nomeado cidadão honorário da cidade. Sou cidadão honorário de Milão, Florença e Gênova. Antes ou depois de meu recital, os representantes da Câmara me conferiam o título honorífico. No salão estavam reunidos autoridades, aristocratas e bispos. Tomava-se uma pequena taça de champanha, que eu agradecia em nome de minha pátria distante. Entre abraços e beija-mãos descia finalmente as escadas dos palácios municipais. Na rua me esperava a polícia, que não me deixava em paz.

O de Veneza foi cinematográfico. Dei meu costumeiro recital no palácio. Fui outra vez nomeado cidadão honorário mas a polícia queria que eu fosse embora da cidade onde nasceu e sofreu Desdêmona. Os agentes se postaram noite e dia às portas do hotel.

Meu velho amigo Vittorio Vidale, “o comandante Carlos”, veio de Trieste para ouvir meus versos, acompanhando-me também no prazer infinito de percorrer os canais e ver passar, da gôndola, os palácios cinzentos. Quanto à polícia assediou-me muito mais, vindo diretamente atrás de nós, a dois metros de distância. Então decidi fugir, tal como Casanova, de uma Veneza que queria me pôr entre quatro paredes. Saímos disparados na carreira, junto com Vittorio Vidale e o escritor costarriquenho Joaquín Gutiérrez que se encontrava ali por acaso. Em nosso encalço se lançaram os dois policiais venezianos. Rapidamente conseguimos embarcar na única gôndola motorizada de Veneza, a do prefeito comunista. A gôndola do poder municipal sulcou velozmente as águas do canal enquanto o outro poder corria como um gamo em busca de outra barca. A que tomaram era uma das muitas românticas embarcações a remo, pintada de negro e com adornos de ouro, das usadas pelos namorados em Veneza. Seguiram-nos a distância e sem esperança, como um pato pode perseguir um golfinho.

Toda aquela perseguição chegou ao auge uma manhã em Nápoles. A polícia chegou ao hotel, não muito cedo já que em Nápoles ninguém trabalha cedo-nem a polícia. Pretextaram um engano de passaporte e me pediram que os acompanhasse à Prefeitura. Ali me ofereceram café expresso e me notificaram que devia abandonar o território italiano nesse mesmo dia.

Meu amor pela Itália não contava nada.

- Trata-se sem dúvida de um equívoco - disse-lhes.

- Nada disso. Nós o estimamos muito mas o senhor tem que se retirar do país.

E depois, de uma maneira indireta, de forma oblíqua, informaram-me que era a Embaixada do Chile que solicitava minha expulsão.

O trem saía de tarde. Na estação já se encontravam meus amigos para se despedirem. Beijos, flores, gritos. Paolo Ricci, os Alicatta, tantos outros. A rivederci. Adiós. Adiós.

Durante minha viagem de trem, que era em direção a Roma, os policiais que me acompanhavam se desmanchavam em gentilezas. Subiam e acomodavam minhas valizes, compravam-me L'Unità e o Paese Sera (mas de jeito algum a imprensa de direita), pediam-me autógrafos, alguns para eles mesmos e outros para seus familiares. Nunca vi uma polícia mais fina:

- Sentimos muito, Eccellenza. Somos pobres pais de família e temos que cumprir ordens. É odioso...

Já na estação de Roma, onde tinha que descer e mudar de trem para continuar viagem até a fronteira, vi de minha janela uma grande multidão. Ouvi gritos e observei movimentos confusos e violentos. Grandes braçadas de flores caminhavam até o trem levantadas sobre um rio de cabeças.

- Pablo! Pablo!

Quando baixaram os estribos do vagão, elegantemente vigiado, tornei-me logo o centro de uma batalha prodigiosa. Escritores e escritoras, jornalistas, deputados, cerca talvez de mil pessoas, arrebataram-me em poucos segundos das mãos dos policiais. A polícia avançou, por sua vez, e me resgatou dos braços de meus amigos. Distingui naqueles momentos dramáticos alguns rostos famosos: Alberto Moravia e sua mulher Elsa Morante, novelista como ele, o famoso pintor Renato Guttuso, outros poetas e outros pintores, Carlo Levi, o célebre autor de Cristo si è Fermato a Eboli, estendia-me um ramo de rosas. Com tudo isto as flores caíam no chão, voavam chapéus e guarda-chuvas, socos soavam como explosões. A polícia levava a pior e fui recuperado outra vez pelos amigos. Na refrega pude ver a muito doce Elsa Morante golpeando com sua sombrinha de seda a cabeça de um policial. Apressadamente passavam os carrinhos de frete que levavam e traziam bagagens. Vi um dos carregadores, um facchino corpulento, descarregar uma bordoada nas costas da força pública. Eram adesões do povo romano. Tao intrincada se tornou a contenda que os policiais me disseram, num aparte:

- Fale a seus amigos, diga-lhes que se acalmem.

A multidão gritava:

- Neruda fica em Roma! Neruda não vai embora da Itália! Que fique o poeta! Que fique o chileno! Que vá embora o austríaco!

(O “austríaco” era De Gasperi, primeiro-ministro da Itália.)

Ao cabo de meia hora de pugilato chegou uma ordem superior por meio da qual me era concedida a permissão de ficar na Itália. Meus amigos me abraçaram e me beijaram e eu me afastei da estação pisando com pena as flores destroçadas pela batalha.

 

Amanheci no dia seguinte na casa de um senador, com imunidade parlamentar, onde me tinha levado o pintor Renato Guttuso que, no entanto, não se fiava na palavra governamental. Foi quando me chegou um telegrama da ilha de Capri, mandado pelo ilustre historiador Erwin Cerio, a quem não conhecia pessoalmente. Manifestava-se indignado diante do que ele considerava um ultraje, um desacato à tradição e à cultura italianas. Terminava me oferecendo uma vila na própria Capri.

Tudo parecia um sonho. E quando cheguei a Capri, em companhia de Matilde Urrutia, de Matilde, a sensação irreal de sonho cresceu mais ainda.

Chegamos de noite e no inverno à ilha maravilhosa. A costa se alteava na sombra, esbranquiçada e altíssima, desconhecida e calada. Que aconteceria? Que nos aconteceria? Uma charrete nos esperava. A charrete subiu até não acabar mais pelas desertas ruas noturnas. Casas brancas e mudas, ruelas estreitas e verticais. Por fim se deteve. O cocheiro depositou nossas valises naquela casa, também branca e parecendo vazia.

Ao entrar vimos arder o fogo da grande lareira. À luz dos candelabros acesos havia um homem alto, de cabelo, barba e roupa brancos. Era D. Erwin Cerio, proprietário de meia Capri, historiador e naturalista. Na penumbra se erguia como a imagem do Papai do Céu dos contos infantis.

Tinha quase noventa anos e era o homem mais ilustre da ilha.

- Disponha desta casa. Aqui estará tranqüilo.

E se foi por muitos dias durante os quais, por delicadeza, não nos visitava, apenas mandando pequenos bilhetes com notícias ou conselhos delicadamente escritos à mão e com alguma folha ou flor de seu jardim. Erwin Cerio representou para nós o amplo, generoso e perfumado coração da Itália.

Depois conheci seus trabalhos, seus livros, mais verdadeiros que os de Axel Munthe, ainda que não tão famosos. O nobre e velho Cerio repetia com humor picaresco:

- A obra-prima de Deus é a praça de Capri.

Matilde e eu nos recolhíamos em nosso amor. Fazíamos longas caminhadas por Anacapri. A pequena ilha, dividida em mil jardins pequenos, tem um esplendor natural por demais conhecido mas tiranicamente verídico. Entre as rochas, onde o sol e o vento mais açoitam, pela terra seca, estalam plantas e flores diminutas, crescidas com exatidão numa grande composição de jardinagem. Esta Capri recôndita, em que a gente só entra depois de longa peregrinação e quando a etiqueta de turista já caiu de nossa roupa, esta Capri popular de rochas e minúsculas vinhas, de gente modesta, trabalhadora, essencial, tem um encanto absorvente. É só estar entrouxado com as coisas e com a gente e já os cocheiros e os pescadores nos conhecem, já formamos parte da Capri oculta e pobre, sabendo onde está o bom vinho barato e onde comprar as azeitonas comidas pelos de Capri.

Provavelmente detrás das grandes muralhas palacianas ocorram todas as nove-lescas perversidades que se lêem nos livros. Mas eu participei de uma vida feliz em plena solidão ou entre a gente mais simples do mundo. Tempo inesquecível! Trabalhava toda a manhã e pela tarde Matilde datilografava meus poemas. Pela primeira vez vivíamos juntos na mesma casa. Naquele lugar de beleza embriagadora nosso amor se enriqueceu. Já não podíamos mais nos separar.

Terminei de escrever ali um livro de amor, apaixonado e doloroso, que logo foi publicado em Nápoles anonimamente: Los versos del Capitán.

 

Vou contar-lhes agora a história desse livro, entre os meus um dos mais controvertidos. Foi por muito tempo um segredo, por muito tempo não levou meu nome na capa, como se eu o renegasse ou o próprio livro não soubesse quem era seu pai. Tal como há filhos naturais, filhos do amor natural, Los versos del Capitán era assim, um livro natural.

Os poemas foram escritos aqui e acolá, ao longo de meu desterro na Europa. Foi publicado anonimamente em Nápoles, em 1952. O amor a Matilde, a saudade do Chile, as paixões políticas enchem as páginas deste livro que se manteve sem o nome de seu autor durante muitas edições.

Para sua primeira edição, o pintor Paolo Ricci conseguiu um papel admirável, antigos tipos bodônis e gravuras tiradas dos vasos de Pompéia. Com dedicação fraternal Paolo organizou também a lista dos subscritores. Logo apareceu o belo volume numa tiragem de somente cinqüenta exemplares. Celebramos longamente o acontecimento com mesa florida, frutti di mare, vinho transparente como a água, filho único das vinhas de Capri. E com a alegria dos amigos que amaram o nosso amor.

Alguns críticos desconfiados atribuíram motivos políticos à aparição deste livro sem assinatura. “O partido se opôs, o partido não o aprova”, disseram. Mas não era verdade. Por sorte meu partido não se opõe a nenhuma expressão da beleza.

A verdade é que eu não quis, durante muito tempo, que esses poemas ferissem Delia, de quem me separava. Delia del Carril, passageira suavíssima, cordão de aço e de mel que atou minhas mãos nos anos sonoros, foi para mim durante dezoito anos uma companheira exemplar. Este livro, de paixão brusca e ardente, ia chegar como uma pedra lançada sobre sua delicada estrutura. Foram essas e não outras as razões profundas, pessoais, respeitáveis, de meu anonimato.

Depois o livro, mesmo sem nome e sobrenome, fez-se homem, homem natural e valoroso. Abriu caminho na vida e eu tive, por fim, de reconhecê-lo. Agora andam pelos caminhos, isto é, pelas livrarias e bibliotecas, os “versos del capitán”, assinados pelo genuíno capitão.

 

                    Fim do desterro

Meu desterro chegava ao fim. Estávamos no ano de 1952. Através da Suíça chegamos a Cannes para tomar um navio italiano que nos levaria a Montevidéu. Desta vez não queríamos ver ninguém na França. Somente à Alice Gascar, minha fidelíssima tradutora e amiga de muito tempo, avisei de nossa passagem. Em Cannes, no entanto, nos esperavam acontecimentos imprevistos.

Encontrei na rua, perto da companhia de navegação, Paul Éluard e Dominique, sua mulher. Tinham sabido de minha chegada e me esperavam para me convidar para almoçar, onde estaria também Picasso. Em seguida topamos com o pintor Nemesio Antúnez e Inés Figueroa, sua mulher, que estariam também no almoço.

Aquela seria a última vez que eu veria Paul Éluard. Recordo-o sob o sol de Cannes com a roupa azul que parecia um pijama. Não esquecerei nunca de seu rosto tostado e corado, seus olhos azulíssimos, seu sorriso infinitamente juvenil sob a luz africana das ruas cintilantes de Cannes. Éluard tinha vindo de Saint-Tropez para se despedir de mim, trouxe Picasso e acertou o almoço. A festa estava armada.

Um estúpido incidente imprevisto me estragou o dia. Matilde não tinha visto uruguaio, tendo que ir sem demora ao consulado desse país. Acompanhei-a num táxi e esperei na porta. Matilde sorriu otimista quando o cônsul veio recebê-la. Parecia um bom rapaz. Trauteava árias de Madame Butterfly. Vestia-se de maneira muito pouco consular: uma camiseta e um short. Ela nunca pôde imaginar que, ao longo da conversa, o sujeito se converteria em um vulgar chantagista. Com seu aspecto de Pinkerton quis cobrar horas extraordinárias e opôs toda sorte de obstáculos. Manteve-nos às carreiras toda a manhã. A bouillabaise do almoço me soube a fel. Várias horas custou à Matilde para conseguir seu visto. Pinkerton lhe impunha mais trâmites a cada instante: que tirasse fotografia, que trocasse os dólares em francos, que pagasse uma comunicação telefônica com Bordéus. A tarifa aumentou até mais de cento e vinte dólares por um visto de trânsito que deveria ser gratuito. Cheguei a pensar que Matilde perderia o navio e que eu tampouco embarcaria. Por muito tempo considerei aquele dia como o mais amargo de minha vida.

 

                   Oceanografia dispersa

Sou um apaixonado do mar. Há anos coleciono conhecimentos que não me servem de muito porque navego sobre a terra.

Agora regresso ao Chile, ao meu país oceânico, e meu navio se aproxima das costas da Àfrica. Já passou as antigas Colunas de Hércules hoje encouraçadas, a serviço do penúltimo imperialismo.

Olho o mar com o maior desinteresse, o do oceanógrafo puro que conhece a superfície e a profundidade, sem prazer literário, mas sim com um sabor de conhecedor, de paladar cetáceo.

Sempre gostei das histórias marinhas e tenho uma rede em minha biblioteca. O livro que mais consulto é um de William Beebe ou uma boa monografia descritiva das volutas marinhas do mar antártico.

É o plâncton o que me interessa, essa água nutritiva, molecular e eletrizada que tinge os mares de uma cor de relâmpago violeta. Assim cheguei a saber que as baleias se nutrem quase que exclusivamente deste inumerável crescimento marinho. Pequeníssimas plantas e infusórios irreais povoam nosso continente trêmulo. As baleias abrem as imensas bocas enquanto se deslocam, levantando a língua até o céu da boca, de modo que estas águas vivas e viscerais as vão enchendo e nutrindo. Assim se alimenta a baleia glauca (Bachianetas glaucas) que passa, rumo ao sul do Pacifico e às ilhas quentes, diante das janelas de minha Isla Negra.

Por ali também passa a rota migratória do cachalote ou baleia dentada, a mais chilena dos perseguidos. Os marinheiros chilenos ilustram com eles o mundo folclórico do mar. Em seus dentes gravaram a faca corações e flechas, pequenos monumentos de amor, retratos ingênuos de seus veleiros e de suas noivas. Mas nossos baleeiros, os mais audazes do hemisfério marinho, não atravessaram o estreito e o Cabo de Hornos, o Antártico e suas cóleras, simplesmente para tirar os dentes do ameaçador cachalote mas sim para arrebatar-lhe seu tesouro de gordura e, mais ainda, a bolsa de âmbar cinzento que somente este monstro esconde em sua montanha abdominal.

 

Agora venho de outra parte. Deixei para trás o último santuário azul do Mediterrâneo, as grutas e os contornos mannhos e submarinos da ilha de Capri, onde as sereias saíam para pentear os cabelos azuis sobre os penhascos porque o movimento do mar havia tingido e encharcado as suas loucas cabeleiras.

No aquário de Nápoles vi as moléculas elétricas dos organismos primaveris e vi subir e descer a medusa, feita de vapor e prata, agitando-se em sua dança doce e solene, circundada por dentro pelo único cinturão elétrico nunca ostentado até agora por nenhuma outra dama das profundidades submarinas.

Há muitos anos em Madras, na sombria índia de minha juventude, visitei um aquário maravilhoso. Até hoje recordo os peixes luzidios, as moréias venenosas, os cardumes vestidos de incêndio e arco-íris e, mais ainda, os polvos extraordinariamente sérios e medidos, metálicos como máquinas registradoras, com inumeráveis olhos, pernas, ventosas e conhecimentos.

Do grande polvo que nós todos conhecemos pela primeira vez em Os trabalha-dores do mar, de Victor Hugo (também Victor Hugo é um polvo tentacular e polimorfo da poesia), dessa espécie só cheguei a ver um fragmento de tentáculo no Museu de História Natural de Copenhague. Esse sim era o antigo Kraken, terror dos mares antigos, que agarrava um veleiro e o envolvia, cobrindo-o e o enredando. O fragmento que eu vi conservado em álcool sugeria que seu comprimento passava dos trinta metros.

Mas o que eu persegui com maior constância foi o vestígio, ou melhor, o próprio narval. Por ser tão desconhecido para meus amigos o gigantesco unicórnio marinho dos mares do Norte, cheguei a me sentir o responsável exclusivo dos narvais e a me acreditar narval eu mesmo.

Existirá o narval?

É possível que um animal do mar extraordinariamente pacifico, que tem na testa uma lança de marfim de quatro a cinco metros, estriada em todo o seu comprimento no estilo salomônico, terminada em agulha, possa passar despercebido por milhões de seres, inclusive em sua lenda e em seu maravilhoso nome?

De seu nome posso dizer - narwhal ou narval - que é o mais belo dos nomes submarinos, nome de taça marinha que canta, nome de esporão de cristal.

E por que então ninguém sabe seu nome?

Por que não existe os Narval, a bela casa dos Narval, e ainda Narval Ramírez ou Narvala Carvajal?

Não existem. O unicórnio marinho continua em seu mistério, em suas correntes de sombra transoceânica, com sua longa espada de marfim submersa no oceano ignoto.

Na Idade Média a caça a todos os unicórnios foi um esporte místico e estético. O unicórnio terrestre ficou para sempre, deslumbrante, nas tapeçarias, rodeado de damas alabastrinas e de alta linhagem, aureolado em sua majestade por todas as aves que trinam ou fulguram.

Quanto ao narval, os monarcas medievais enviavam uns aos outros, como presente magnífico, algum fragmento de seu corpo fabuloso e deste raspavam pó que, diluído em licores, dava - oh eterno sonho do homem! - saúde, juventude e potência.

Vagando certa vez pela Dinamarca, entrei numa antiga loja de história natural, esses negócios desconhecidos em nossa América que para mim têm toda a fascinação da terra. Ali, num canto, descobri três ou quatro cornos de narval. Os maiores mediam quase cinco metros. Por longo tempo os brandi e acariciei.

O velho proprietário da loja me via fazer lances ilusórios com a lança de marfim em minhas mãos contra os invisíveis moinhos do mar. Depois os deixei cada um em seu canto. Só pude comprar um pequeno, de narval recém-nascido, dos que saem explorando com seu esporao inocente as frias águas árticas.

Guardei-o em minha maleta. Mas em minha pequena pensão da Suíça, defronte ao lago Leman, precisei ver e tocar o mágico tesouro de unicórnio marinho que me pertencia e o tirei de minha maleta.

Agora não o encontro.

Terei esquecido na pensão de Vésenaz ou terá rolado à última hora para baixo da cama? Ou na verdade terá regressado de forma misteriosa e noturna ao círculo polar?

 

Olho as pequenas ondas de um novo dia no Atlântico.

O navio deixa de cada lado da proa um risco branco, azul e enraivecido de águas, espumas e abismos agitados.

São as portas do oceano que tremem.

Sobre elas voam os diminutos peixes voadores de prata e transparência.

Volto do exílio.

Olho longamente as águas. Sobre elas navego até outras águas: as ondas atormentadas de minha pátria.

O céu de um longo dia cobre todo o oceano.

A noite chegará e com sua sombra esconderá uma vez mais o grande palácio verde do mistério.

 

         NAVEGAÇÃO COM REGRESSO

 

                     Um carneiro em minha casa

Eu tinha um parente senador que, depois de ter vencido novas eleições, veio passar uns dias em minha casa de Isla Negra. Assim começa a história do cordeiro.

Acontece que seus eleitores mais entusiastas vieram para festejar o senador. Na primeira tarde da festa assaram um carneiro à moda do campo do Chile, com uma grande fogueira ao ar livre e o corpo do animal enfiado num assador de madeira. A isto chamam asado al palo, que é celebrado com muito vinho e queixosas guitarras criollas.

Outro carneiro ficou para a cerimônia do dia seguinte. Enquanto não chegava a sua hora, amarraram-no junto de minha janela. A noite toda gemeu e chorou, baliu e se queixou de sua solidão. Partia a alma escutar as modulações daquele carneiro, ao ponto que decidi me levantar de madrugada e raptá-lo.

Metido num automóvel levei-o a cento e cinqüenta quilômetros dali, à minha casa de Santiago, onde não o alcançassem as facas. Mal entrou, pôs-se a pastar vorazmente no melhor lugar de meu jardim. As tulipas o entusiasmaram e ele não respeitou nenhuma delas. Ainda que por razões espinhosas, não se atreveu com as roseiras. Mas devorou em troca os goiveiros e os lírios com estranho prazer. Não tive remédio senão amarrá-lo outra vez. E de imediato se pôs a balir, tratando visivelmente de me comover como antes. Senti-me desesperado.

Nesse ponto se entrecruza a história de Juanito com a história do cordeiro. Acontece que por aquele tempo havia começado uma greve de camponeses no sul. Os latifundiários da região, que pagavam a seus rendeiros não mais de apenas vinte centavos de dólar por dia, terminaram a pauladas e prisões com aquela greve.

Um jovem camponês teve tanto medo que subiu num trem em movimento. O rapaz se chamava Juanito, era muito católico e não sabia nada das coisas deste mundo. Quando passou o cobrador do trem examinando as passagens, ele respondeu que não tinha, que se dirigia a Santiago e que pensava que os trens eram para que a gente subisse neles e viajasse quando precisasse. Trataram de desembarcá-lo, naturalmente. Mas os passageiros de terceira classe - gente do povo, sempre generosa - fizeram uma coleta e pagaram a passagem.

Por ruas e praças da capital andou Juanito com um embrulho de roupa debaixo do braço. Como não conhecia ninguém, não queria falar com ninguém. No campo dizia-se que em Santiago tinha mais ladrões do que habitantes e ele tinha medo que lhe roubassem a camisa e as alpercatas que levava debaixo do braço, embrulhadas num jornal. Durante o dia perambulava pelas ruas mais freqüentadas, onde as pessoas sempre tinham pressa e afastavam com um empurrão este Gaspar Hauser (1) vindo de outro planeta. De noite buscava também os bairros mais concorridos mas estes eram as avenidas de cabarés e de vida noturna e ali sua presença era mais estranha ainda, pálido pastor perdido entre os pecadores. Como não tinha um só centavo, não podia comer, tanto assim que um dia caiu ao solo sem sentidos.

Uma multidão de curiosos rodeou o homem estendido na rua. A porta defronte da qual caiu correspondia a um pequeno restaurante. Levaram-no para dentro e o deixaram no chão. É o coração, disseram uns. É uma crise hepática, disseram outros. O dono do restaurante se aproximou, olhou-o e disse: “É fome.” Mal comeu algumas garfadas aquele cadáver reviveu. O dono o pôs para lavar pratos e se tomou de amores por ele. Tinha razões para isso. Sempre sorridente, o jovem camponês lavava montanhas de pratos. Tudo ia bem. Comia muito mais do que na sua terra.

O sortilégio da cidade se teceu de maneira estranha para que se juntassem certa vez, em minha casa, o pastor e o carneiro.

Deu vontade no pastor de conhecer a cidade, encaminhando então seus passos um pouco além das montanhas de louça. Tomou com entusiasmo uma rua, atravessou uma praça, e tudo o deslumbrava. Mas, quando quis voltar, já não o podia fazer. Não tinha anotado o endereço porque não sabia escrever, buscando assim em vão a porta hospitaleira que o tinha recebido. Nunca mais a encontrou.

Um transeunte, com pena de sua confusão, disse-lhe que devia se dirigir a mim, ao poeta Pablo Neruda. Não sei por que lhe sugeriram esta idéia. Provavelmente porque no Chile se tem por mania me encarregar de quanta coisa estranha passe pela cabeça das pessoas e ao mesmo tempo de me jogar a culpa de tudo o que acontece. São estranhos costumes nacionais.

O certo é que o rapaz chegou um dia à minha casa e se encontrou com o bicho preso. Já que eu estava tomando conta daquele carneiro inútil, não me custava também tomar conta deste pastor. Deixei a seu cargo a tarefa de impedir que o carneiro gourmet devorasse exclusivamente minhas flores mas sim que também, de vez em quando, saciasse o apetite com a grama de meu jardim.

Compreenderam-se na hora. Nos primeiros dias ele lhe pôs, só para constar, uma cordinha no pescoço com uma fita e com ela o conduzia de um lugar para outro. O carneiro comia incessantemente e o pastor individualista também, transitando ambos por toda a casa, inclusive por dentro de meus aposentos. Era uma união perfeita, conseguida pelo cordão umbilical da mãe terra, pelo autêntico mandato do homem. Assim se passaram muitos meses. Tanto o pastor como o carneiro arredondaram suas formas carnais, especialmente o ruminante que apenas podia seguir seu pastor de tão gordo que ficou. Às vezes entrava parcimoniosamente em meu quarto, olhava-me com indiferença e saía deixando um pequeno rosário de contas escuras no chão.

Tudo acabou quando o camponês sentiu a nostalgia do campo e me disse que voltava para sua terra distante. Era uma resolução de última hora. Tinha que pagar uma promessa à Virgem de seu povoado. Não podia levar o carneiro. Despediram-se com ternura. O pastor tomou o trem, desta vez com sua passagem na mão. Foi patética aquela despedida.

Em meu jardim não deixou um carneiro mas sim um problema grave, ou melhor, gordo. O que fazer com o ruminante? Quem cuidaria dele agora? Eu tinha preocu-pações políticas demais. Minha casa andava desordenada depois das perseguições que a minha poesia combativa me trouxe. O carneiro começou de novo a balir suas partituras queixosas.

Fechei os olhos e disse à minha irmã que o levasse. Ai, desta vez eu tinha certeza de que não se livraria do forno!

 

1 - Gaspar Hauser: personagem do romance homônimo de Jakob Wassermann. (N. da T.)

 

                   De Agosto de 1952 a Abril de 1957

Os anos transcorridos entre agosto de 1952 e abril de 1957 não figurarão detalhadamente em minhas memórias porque quase todo esse tempo eu o passei no Chile e não me aconteceram coisas curiosas capazes de divertir meus leitores. No entanto é preciso enumerar alguns fatos importantes desse espaço de tempo. Publiquei o livro Las uvas y el viento, que estava pronto. Trabalhei intensamente nas Odas elementales, nas Nuevas odas elementales e no Tercer libro de las odas. Organizei um congresso continental da cultura, que se realizou em Santiago e para o qual vieram relevantes personalidades de toda a América. Também celebrei em Santiago o cumprimento de meus cinqüenta anos, com a presença de escritores importantes de todo o mundo. Da China vieram Ai Ching e Emi Siao; Ilya Ehrenburg voou desde a União Soviética; Dreda e Kutvalek, da Tchecoslováquia; e, entre os latino-americanos, estiveram Miguel Ángel Asturias, Oliverio Girondo, Norah Lange, Elvio Romero, Maria Rosa Oliver, Raúl Larra e muitos outros. Doei à Universidade do Chile a minha biblioteca e outros bens. Fiz uma viagem à União Soviética como jurado do Prêmio Lênin da Paz, que eu mesmo tinha obtido quando ainda se chamava Prêmio Stalin. Separei-me definitivamente de Delia del Carril. Construí minha casa “La Chascona” e me mudei para viver nela com Matilde Urrutia. Fundei a revista Gaceta de Chile, dirigindo-a durante alguns números. Tomei parte nas campanhas eleitorais e em outras atividades do Partido Comunista do Chile. A editora Losada de Buenos Aires publicou minhas obras completas em papel-bíblia.

 

                   Preso em Buenos Aires

Ao cabo desse tempo fui convidado para um congresso da paz que se reunia em Colombo, na ilha do Ceilão, onde vivi há tantos anos. Estávamos em abril de 1957.

Encontrar-se com a poesia secreta não parece perigoso mas, se se trata da polícia secreta argentina, o encontro toma outro caráter não desprovido de humor, ainda que imprevisível em suas conseqüências. Naquela noite, recém-chegado do Chile, disposto a prosseguir minha viagem até os países mais distantes, deitei-me fatigado. Apenas começava a cochilar quando irromperam na casa vários policiais. Registraram tudo com lentidão, recolhiam livros e revistas, remexiam os guarda-roupas, vasculhavam as roupas íntimas. Já tinham levado meu amigo argentino que me hospedava quando me descobriram no fundo da casa, que é onde ficava meu quarto.

- Quem é este senhor? - perguntaram.

- Chamo-me Pablo Neruda - respondi.

- Está doente? - perguntaram à minha mulher.

- Sim, está doente e muito cansado da viagem. Chegamos hoje e tomaremos amanhã um avião para a Europa.

- Muito bem, muito bem - disseram e saíram da peça.

Voltaram uma hora depois munidos de uma ambulância. Matilde protestava mas isto não alterou as coisas. Eles tinham instruções: deviam levar-me cansado ou descansado, são ou enfermo, vivo ou morto.

Chovia naquela noite. Grossas gotas caíam do céu denso de Buenos Aires. Sentia-me abatido. Perón já tinha caído. O General Aramburu, em nome da democracia, tinha jogado abaixo a tirania. No entanto, sem saber como nem quando, por que nem onde, se por isto ou por aquilo, se por nada ou se por tudo, esgotado ou enfermo, eu ia preso. Minha maca, levada por quatro policiais, se convertia num problema sério ao descer as escadas, entrar em elevadores, atravessar corredores. Os quatro padioleiros sofriam e resfolegavam. Matilde, para lhes acentuar o sofrimento, tinha dito com voz melíflua que eu pesava 110 quilos. E eu os tinha na verdade, com suéter e agasalho, coberto com cobertores até a cabeça. Resplandecia como uma massa informe, como o vulcão Osorno, sobre aquela maca com que a democracia argentina me brindava. Eu pensava, e isto me fazia sentir melhor de meus sintomas de flebite, que não eram aqueles pobres-diabos que me conduziam os que suavam e cambaleavam sob o meu peso mas sim que era o próprio General Aramburu quem carregava a minha padiola.

Fui recebido na prisão como de rotina: a catalogação do prisioneiro e o confisco de seus objetos pessoais. Não me deixaram conservar a gostosa novela policial que eu levava para não me aborrecer. A verdade é que não tive tempo de me aborrecer. Abriam-se e se cerravam grades. A maca atravessava pátios e portas de ferro, internando-se cada vez mais profundamente entre ruídos e ferrolhos. Subitamente me encontrei no meio de uma multidão: os outros presos da noite, mais de dois mil. Eu estava incomunicável, ninguém podia se aproximar de mim. No entanto não faltaram mãos que estreitassem a minha debaixo das cobertas nem o soldado que deixou o fuzil de lado e me estendeu um papel para que eu lhe assinasse um autógrafo.

Finalmente me colocaram em cima, na cela mais distante com uma janelinha muito alta. Eu queria descansar, dormir, dormir, dormir. Não consegui porque já tinha amanhecido e os presos argentinos faziam um barulho ensurdecedor, um vozerio estrondoso, como se estivessem assistindo a uma partida entre o River e o Boca.

Algumas horas depois já tinha funcionado a solidariedade de escritores amigos na Argentina, no Chile e em vários outros países. Tiraram-me da cela, levaram-me à enfermaria, devolveram meus pertences e me puseram em liberdade. Já estava para abandonar a penitenciária quando se aproximou de mim um dos guardas uniformizados e me pôs na mão uma folha de papel. Era um poema que dedicava a mim, escrito em versos toscos, cheios de simplicidade e inocência como um objeto popular. Creio que poucos poetas conseguiram receber uma homenagem poética da pessoa colocada para o vigiar.

 

                   Poesia e Polícia

Certa vez na Isla Negra a empregada nos disse: “Senhora, D. Pablo, estou prenha.” Depois teve um menino. Nunca soubemos quem era o pai. A ela não importava. O que lhe importava, isto sim, é que Matilde e eu fôssemos padrinhos da criança. Mas não foi possível, não pudemos. A igreja mais próxima está em El Tabo, uma aldeola sorridente onde pusemos gasolina na camioneta. O padre se eriçou como um porco-espinho. Um padrinho comunista? Jamais! Neruda não entrará por esta porta ainda que leve teu filho nos braços. A empregada voltou para suas vassouras na casa, cabisbaixa. Não compreendia.

Em outra ocasião vi D. Asterio sofrer. É um velho relojoeiro, já bastante idoso e o melhor cronometrista de Valparaíso. Repara todos os cronômetros da Armada. Sua mulher, sua velha companheira de cinqüenta anos de casamento, estava morrendo. Achei que devia escrever alguma coisa sobre ele, algo que o consolasse um pouco em tão grande aflição, que ele pudesse ler para sua esposa agonizante. Assim pensei, não sei se tinha razão mas escrevi o poema, pondo nele minha admiração e minha emoção pelo artesão e seu artesanato, por aquela vida tão pura entre todos os tique-taques dos velhos relógios. Sarita Vial o levou ao jornal La Unión, dirigido por um senhor Pascal. O senhor Pascal é sacerdote, não quis publicá-lo; o poema não seria publicado. Neruda, seu autor, é um comunista excomungado. Não quis. Morreu a senhora, a velha companheira de D. Asterio. E o sacerdote não publicou o poema.

Quero viver num mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria amanhã a esse sacerdote: “O senhor não pode batizar ninguém porque é anticomunista.” Não diria a outro: “Não publicarei seu poema, sua criação, porque o senhor é anticomunista.” Quero viver num mundo em que os seres sejam somente humanos, sem outros títulos a não ser estes, sem serem golpeados na cabeça com uma régua, com uma palavra, com um rótulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas e em todas as gráficas. Quero que não haja mais ninguém para esperar as pessoas na porta da prefeitura para detê-las e expulsá-las. Quero que todos entrem e saiam do Palácio Municipal sorridentes. Não quero que ninguém fuja de gôndola, que ninguém seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, escutar, florescer. Nunca entendi a luta senão para que esta termine. Nunca entendi o rigor senão para que o rigor não exista. Tomei um caminho porque acredito que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto por essa bondade ubíqua, extensa, inesgotável. De tantos encontros entre minha poesia e a polícia, de todos estes episódios e de outros que não contarei porque me repetiria, e de outros que não me aconteceram mas a muitos que já não poderão contá-los, fica-me no entanto uma fé absoluta no destino humano, uma convicção cada vez mais consciente de que nos aproximamos de uma grande ternura. Escrevo sabendo que sobre nossas cabeças, sobre todas as cabeças, existe o perigo da bomba, da catástrofe nuclear que não deixaria ninguém nem nada sobre a terra. Pois bem, isto não altera minha esperança. Neste minuto crítico, neste pestanejar de agonia, sabemos que entrará a luz definitiva pelos olhos entreabertos. Todos nos entenderemos, progrediremos juntos e esta esperança é irrevogável.

 

                   O Ceilão reencontrado

Uma causa universal, a luta contra a morte atômica, fazia com que eu voltasse de novo a Colombo: Atravessamos a União Soviética, rumo à India, no TU-104, o maravilhoso avião a jato posto especialmente à disposição para transportar nossa vasta delegação. Paramos somente em Tashkent, perto de Samarcanda. Em duas viagens o avião nos deixaria no coração da India.

Voávamos a 10.000 metros de altura. Para atravessar o Himalaia, o gigantesco pássaro se elevou ainda mais alto, cerca de 15.000 metros. De tão alto se divisa uma paisagem quase imóvel. Aparecem as primeiras barreiras, contrafortes azuis e brancos da cordilheira do Himalaia. Por aí deve andar o imponente homem das neves em sua solidão espantosa. Depois, à esquerda, destaca-se a massa do monte Everest como um pequeno acidente a mais entre os diademas de neve. O sol cai plenamente sobre a paisagem estranha; sua luz recorta os perfis, as rochas dentadas e o império dominante do silêncio nevado.

Evoco os Andes americanos que atravessei tantas vezes. Aqui não predomina aquela desordem, aquela fúria ciclópica, aquele deserto enfurecido de nossas cordilheiras. Estas montanhas asiáticas refulgem mais clássicas, mais ordenadas. Suas cúpulas de neve esculpem mosteiros ou pagodes no vasto infinito. A solidão é mais ampla. As sombras não se alteiam como muros de pedra terrível mas se estendem como misteriosos parques azuis de um mosteiro colossal.

Digo a mim mesmo que vou respirando o ar mais alto do mundo e contemplando de cima as maiores alturas da terra. É uma sensação única, na qual se mesclam a claridade e o orgulho, a velocidade e a neve.

Voamos até o Ceilão. Agora descemos a pouca altura, sobre as terras quentes da India. Deixamos a nave soviética em Nova Délhi para tomar este avião hindu. Suas asas rangem e sacodem entre massas de nuvens violentas. No meio do vai-vém, meus pensamentos estão na ilha florida. Aos 22 anos de idade vivi no Ceilão uma vida solitária e escrevi ali minha poesia mais amarga, rodeado pela natureza do paraíso.

Volto muito tempo depois para esta impressionante reunião de paz, para a qual o governo do país aderiu. Constato a presença de numerosos e às vezes centenas de monges budistas, agrupados, vestidos com suas túnicas cor de açafrão, mergulhados na seriedade e na meditação que caracterizam os discípulos de Buda. Ao lutar contra a guerra, a destruição e a morte, estes sacerdotes afirmam os antigos sentimentos de paz e harmonia pregados pelo príncipe Sidartha Gautama, também chamado Buda. Que distante - penso - de assumir esta conduta está a igreja de nossos países americanos, igreja do tipo espanhol, oficial e beligerante. Que reconfortante seria para os verdadeiros cristãos ver que os sacerdotes católicos, de seus púlpitos, combatessem o crime mais grave e mais terrorífico: o da morte atômica, que assassina milhões de inocentes e deixa para sempre sua mácula biológica na estirpe do homem. Fui tenteando pelas ruelas em busca da casa em que vivi no subúrbio de Wellawatha. Foi difícil encontrá-la. As árvores tinham crescido e a aparência da rua tinha mudado.

A velha casa onde escrevi versos dolorosos ia ser brevemente demolida. As portas estavam carcomidas, a umidade do trópico tinha arruinado seus muros, mas havia me esperado de pé para este último minuto de despedida.

Não encontrei ninguém de meus velhos amigos. No entanto a ilha voltou a ecoar em meu coração com seu som cortante, com seu fulgor imenso. O mar continuava cantando o mesmo canto antigo sob as palmeiras, contra os recifes. Voltei a percorrer as rotas da selva, voltei a ver os elefantes de passo majestoso cobrindo os caminhos, voltei a sentir a embriaguez dos perfumes exasperantes, o rumor do crescimento e a vida da selva. Cheguei até a rocha Sigiriya, onde um rei louco construiu uma fortaleza para si. Reverenciei como antigamente as imensas estátuas de Buda, a cuja sombra caminham os homens como pequenos insetos.

E me afastei de novo, seguro agora de que desta vez seria para nunca mais voltar.

 

                   Segunda visita à China

Desse congresso da paz em Colombo voamos, através da Índia, com Jorge Amado e Zélia, sua mulher. Os aviões hindus viajavam sempre repletos de passageiros cheios de turbantes, de cores e de cestos. Parecia impossível meter tanta gente num avião. Uma multidão descia no primeiro aeroporto e outra multidão entrava em seu lugar. Nós devíamos continuar além de Madras, até Calcutá. O avião estremecia sob as tempestades tropicais. Uma noite diurna, mais escura que a noturna, envolvia-nos de repente e nos abandonava para dar lugar a um céu deslumbrante. De novo o avião oscilava e raios e centelhas aclaravam a escuridão instantânea. Eu olhava como a cara de Jorge Amado passava do branco ao amarelo e do amarelo ao verde. Enquanto isso ele via em minha cara a mesma mutação de cores produzida pelo medo que nos agoniava. Começou a chover dentro do avião. A água se infiltrava por grandes goteiras que me recordavam minha casa de Temuco, no inverno. Mas eu não achava a menor graça nestas goteiras a 10.000 metros de altura. O engraçado, isto sim, foi um monge que vinha atrás de nós. Abriu um guarda-chuva e continuou lendo, com serenidade oriental, seus textos de antiga sabedoria.

Chegamos sem acidentes a Rangoon, na Birmânia. Fazia nesses dias trinta anos de minha residência na terra, de minha residência na Birmânia, durante a qual, estritamente desconhecido, escrevi meus versos. Justamente em 1927, tendo eu 23 anos, desembarquei neste mesmo Rangoon, que era um lugar de cores delirantes, de idiomas impenetráveis, tórrido e fascinante. A colônia era explorada e oprimida por seus governantes ingleses. Mas a cidade era limpa e luminosa, as ruas resplandeciam de vida, as vitrinas ostentavam suas tentações coloniais.

A de agora era uma cidade semivazia, com vitrinas desprovidas de tudo e com a imundície acumulada nas ruas. É que a luta dos povos pela sua independência não é um caminho fácil. Depois da explosão das almas, das bandeiras da liberação, tem de se abrir caminho por entre dificuldades e tormentas. Até agora não conheço a história da Birmânia independente, tão enclausurada como está junto ao poderoso rio Irrawadhy e ao pé de seus pagodes de ouro, mas pude adivinhar - além do lixo das ruas e da tristeza ondulante - todos esses dramas que sacodem as novas repúblicas. É como se o passado as continuasse oprimindo.

Nem sombra de Josie Bliss, minha perseguidora, inspiradora do “Tango do viúvo”. Ninguém me soube dar notícia de sua vida ou de sua morte. Já nem sequer existia o bairro onde vivemos juntos.

 

Voamos agora da Birmânia, atravessando os limites montanhosos que a separam da China. É uma paisagem austera, de idílica serenidade. De Mandalay o avião levantou vôo sobre os arrozais, sobre os pagodes barrocos, sobre milhões de palmeiras, sobre a guerra fratricida dos birmaneses, e entrou na calma severa, linear da paisagem chinesa.

Em Kumming, a primeira cidade chinesa depois da fronteira, esperava-nos meu velho amigo, o poeta Ai Ching. Seu largo rosto moreno, seus grandes olhos cheios de picardia e bondade, sua inteligência alerta eram outra vez uma antecipação de alegria para tão longa viagem.

Ai Ching e Ho Chi Minh eram poetas da velha cepa oriental, formados entre a dureza colonial do Oriente e uma vida difícil em Paris. Saindo das prisões, estes poetas de voz doce e natural se converteram fora de seu país em estudantes pobres ou garçons de restaurante. Mantiveram sua confiança na revolução. Suavíssimos em poesia e férreos em política, retornaram a tempo de cumprir seus destinos.

Em Kumming as árvores dos parques tinham sido tratadas com cirurgia estética. Todas tomavam formas antinaturais e às vezes se percebia uma amputação coberta com barro ou um ramo retorcido mas enfaixado como um braço ferido. Levaram-nos para ver o jardineiro, o gênio maligno que reinava sobre um jardim tão estranho. Grossos e velhos abetos não tinham crescido além de trinta centímetros, e vimos inclusive laranjeiras anãs Cobertas de laranjas mínimas como dourados grãos de arroz.

Fomos também visitar um bosque de pedras bizarras. Cada rocha se alongava como uma agulha monolítica ou se encrespava como onda de um mar imóvel. Soubemos que este gosto por pedras de forma estranha vinha de séculos. Muitas rochas grandes de aspecto enigmático decoram as praças das velhas cidades. Os governadores de outrora, quando queriam oferecer o melhor presente ao imperador, enviavam algumas destas pedras colossais. Os presentes demoravam anos para chegar a Pequim, seus volumes empurrados durante milhares de quilômetros por dezenas de escravos.

A China para mim não parece enigmática. Pelo contrário, ainda que dentro do formidável ímpeto revolucionário, vejo-a como um país já construído milenarmente e sempre se estabelecendo e se estratificando. Imenso pagode, entram e saem de sua antiga estrutura os homens e os mitos, os guerreiros, os camponeses e os deuses. Não existe nada espontâneo - nem o sorriso. Em vão a gente busca por toda parte os pequenos objetos de arte popular, essa arte feita de erros de perspectiva que tantas vezes toca os limites do prodígio. As bonecas chinesas, as cerâmicas, as pedras e as madeiras lavradas reproduzem modelos milenares. Tudo tem a marca de uma perfeição repetida.

Tive minha maior surpresa quando encontrei no mercado de uma aldeia umas pequenas jaulas para cigarras feitas de delgado bambu. Eram, maravilhosas porque em sua precisão arquitetônica superpunham uma habitação à outra, cada uma com sua cigarra presa, até formar castelos de quase um metro de altura. Pareceu-me, olhando os nós que atavam os bambus e a cor verde tenra dos talos, que surgia ressuscitada a mão popular, a inocência que pode fazer milagres. Ao perceber minha admiração, os camponeses não quiseram me vender aquele castelo sonoro. Deram-me de presente. Desse modo o canto ritual das cigarras me acompanhou por semanas, bem no íntimo, pelas terras chinesas. Somente em minha infância me lembro de ter recebido presentes tão memoráveis e silvestres.

Iniciamos a viagem num navio que leva mil passageiros, ao longo do rio Yang-tsé. São camponeses, operários, pescadores, uma multidão vital. Por vários dias, em direção a Nanquim, percorremos o rio muito amplo, cheio de embarcações e trabalhos, atravessado e sulcado por milhares de vidas, de preocupações e de sonhos. Este rio é a rua central da China. Larguíssimo e tranqüilo, o Yang-tsé se adelgaça às vezes e a duras penas o navio consegue passar entre suas gargantas tjtânicas. De cada lado as altíssimas paredes de pedra parecem tocar as alturas, onde se divisa de vez em quando uma nuvenzinha no céu, desenhada com a mestria de um pincel oriental, ou surge uma pequena habitação humana entre as cicatrizes da pedra.

Poucas paisagens existem na terra de beleza tão esmagadora. Talvez somente os violentos desfiladeiros do Cáucaso ou nossos solitários e solenes canais do Estreito de Magalhães possam lhe ser comparados.

Nos cinco anos que estive longe da China observo uma transformação visível que vai se confirmando à medida que me interno de novo no país. No princípio me dou conta de uma maneira confusa. O que noto, o que mudou nas ruas e nas pessoas? Ah, se vê menos a cor azul. Faz cinco anos visitei nesta mesma estação do ano as ruas da China, sempre repletas, sempre palpitantes - de vidas humanas. Mas então todos estavam vestidos de azul proletário, uma espécie de roupa de sarja ou de mescla para trabalho. Era o que usavam homens, mulheres e crianças. Agradava-me esta simplifi-cação da roupa, com suas gradações de azul. Era bonito ver as inumeráveis manchas de azul cruzando ruas e caminhos.

Agora isto mudou. Que terá acontecido?

Simplesmente a indústria têxtil destes cinco anos terá crescido a ponto de poder vestir com todas as cores, com todos os floreados, com todas as listas e bolinhas, com todas as variações da seda milhões de chinesas, e até permitir também a milhões de chineses o uso de outras cores e de tecidos melhores.

Agora as ruas são o arco-íris delicado do refinado gosto da China, raça que não sabe fazer nada feio, país onde a sandália mais primitiva parece uma flor de palha.

Navegando pelo rio Yang-tsé pude ver a fidelidade das antigas pinturas chinesas. Ali, no alto dos desfiladeiros, um pinheiro retorcido como um pagode minúsculo me evocou de imediato as velhas estampas imaginárias. Poucos lugares mais irreais, mais fantásticos e surpreendentes existem como estes desfiladeiros do grande rio que se erguem a alturas incríveis e que em qualquer fissura da rocha mostram a antiga marca humana do povo prodigioso: cinco ou seis metros de verdura recém-plantada ou um oratório de cinco tetos para contemplar e meditar. Mais além parecem se desenhar, na altura dos penhascos escalvados, as túnicas ou a névoa dos antigos mitos. Mas são apenas as nuvens e algum vôo de pássaros que já foi muitas vezes pintado pelos mais antigos e sábios miniaturistas da terra. Uma poesia profunda se desprende desta natureza grandiosa, uma poesia breve e nua como o vôo de uma ave ou como a cintilação prateada da água que flui quase imóvel entre os muros de pedra.

Mas o que há de definitivamente extraordinário nesta paisagem, é ver o homem trabalhando em pequenos retângulos, em alguma mancha verde entre as rochas. À grande altura, no topo dos muros verticais, onde quer que haja uma dobra que guarde um pouco de terra vegetal, há um chinês cultivando-a. A mãe-terra chinesa é ampla e dura. Ela disciplinou e deu forma ao homem, transformando-o em um instrumento de trabalho, incansável, sutil e tenaz. Essa combinação de terra vasta, extraordinário trabalho humano e eliminação gradativa de todas as injustiças, fará florescer a bela, extensa e profunda humanidade chinesa.

 

Durante toda a travessia do Yang-tsé, Jorge Amado me pareceu nervoso e melancólico. Inumeráveis aspectos da vida no navio o molestavam, a ele e à Zélia, sua companheira. Mas Zélia tem um humor sereno que lhe permite passar pelo fogo sem se queimar.

Uma das causas era que nós estávamos recebendo, involuntariamente, um tratamento privilegiado no navio. Com nossos camarotes especiais e nossa sala de jantar exclusiva nos sentíamos mal no meio de centenas de chineses que se amontoavam por toda parte da embarcação. O novelista brasileiro me olhava com olhos sarcásticos, fazendo comentários engraçados e cruéis.

A verdade é que as revelações sobre a época stalinista haviam quebrantado o ânimo de Jorge Amado. Somos velhos amigos, compartilhamos anos de desterro, sempre nos tínhamos identificado numa convicção e esperança comuns. Mas creio que eu era menos sectário. Minha natureza e o temperamento de meu próprio país me inclinavam a um entendimento com os outros. Jorge, pelo contrário, tinha sido sempre rígido. Seu mestre, Luís Carlos Prestes, passou cerca de quinze anos de vida preso. São coisas de que não se pode esquecer e que endurecem a alma. Eu justificava ante mim mesmo, sem compartilhálo, o sectarismo de Jorge.

O informe do XX Congresso foi uma onda que nos empurrou, a todos os revolucionários, para situações e conclusões novas. Alguns de nós sentimos brotar da angústia engendrada por aquelas duras revelações o sentimento de que nascíamos de novo. Renascíamos purificados das trevas e do terror, dispostos a continuar o caminho com a verdade na mão.

Jorge, ao contrário, parece ter começado ali, a bordo daquele barco, entre os desfiladeiros fabulosos do rio Yang-tsé, uma etapa diferente de sua vida. Desde então ficou mais tranqüilo, foi muito mais sóbrio em suas atitudes e em suas declarações. Não creio que perdesse sua fé revolucionária mas se reconcentrou mais em sua obra e tirou dela o caráter político direto que penultimamente a caracterizou. Como se revelasse o epicurista que existe nele, pôs-se a escrever seus melhores livros, a começar por Gabriela, cravo e canela, obra-prima transbordante de sensualidade e alegria.

O poeta Ai Ching era o chefe da delegação que nos guiava. Cada noite comíamos, Jorge Amado, Zélia, Matilde, Ai Ching e eu, numa saleta separada. A mesa se cobria de legumes dourados e verdes, peixes agridoces, patos e frangos guisados de maneira rara e sempre deliciosa. Depois de vários dias, por mais que nos agradasse, não agüen-távamos mais aquela comida exótica. Imaginamos um dia um modo de nos livrarmos de manjares tão saborosos - mas nossa empresa não foi fácil e foi se enrolando cada vez mais como um ramo daquelas árvores tortuosas.

Acontece que eu ia fazer aniversário por aqueles dias. Matilde e Zélia programaram me homenagear com uma comida ocidental que variasse nosso regime. Tratava-se de um humilíssimo agrado: preparar um frango assado à nossa moda e acompanhado por uma salada de tomate e cebola à chilena. As mulheres fizeram grande mistério desta surpresa. Dirigiram-se confidencialmente ao nosso bom irmão Ai Ching. O poeta lhes respondeu, um pouco inquieto, que devia consultar os outros da comitiva para responder.

A resolução foi surpreendente. Todo o país passava por uma onda de austeridade. Mao Tsé-tung tinha renunciado a comemorar o seu aniversário. Como se podia comemorar o meu diante de precedentes tão severos? Zélia e Matilde responderam que se tratava exatamente do contrário: queríamos substituir a mesa coberta de manjares (na qual havia frangos, patos, peixes que ficavam intactos) por um único frango, um modestíssimo frango, porém assado ao forno de acordo com nosso estilo. Uma nova reunião de Ai Ching com o invisível comitê que ditava a austeridade respondeu no dia seguinte que não existia forno no navio em que viajávamos. Zélia e Matilde, que já tinham falado com o cozinheiro, disseram a Ai Ching que estavam enganados, que um magnífico forno esquentava, à espera de nosso possível frango. Ai Ching semicerrou os olhos e ficou com o olhar perdido na corrente do Yang-tsé.

Naquele 12 de julho, data de meu aniversário, tivemos na mesa nosso frango assado, prêmio dourado daquele debate. Um par de tomates com cebola picada refulgiam numa pequena salva. Mais além se estendia a grande mesa, engalanada como todos os dias com fontes fulgurantes de rica comida chinesa.

 

Eu tinha passado em 1928 por Hong-Kong e Xangai. Aquela era uma China ferreamente colonizada: um paraíso de antros de jogatina, de fumadores de ópio, de prostíbulos, de assaltantes noturnos, de falsas duquesas russas, de piratas do mar e da terra. Defronte aos grandes conjuntos bancários daquelas grandes cidades, a presença de oito ou nove encouraçados cinzentos revelava a insegurança e o medo, a extorsão colonial, a agonia de um mundo que começava a cheirar a coisa morta. As bandeiras de muitos países, autorizadas por cônsules indignos, ondeavam sobre navios corsários de malfeitores chineses e malaios. Os bordéis dependiam de companhias internacionais. Contei em outro trecho destas memórias como me assaltaram uma vez e me deixaram sem roupa, sem dinheiro e sem papéis, abandonado numa rua chinesa.

Todas essas lembranças voltam à minha cabeça quando cheguei à China da revolução. Este era um novo país, assombroso por sua limpeza ética. Os defeitos, os pequenos conflitos e as incompreensões, muito do que conto, são circunstâncias minúsculas. O que mais me impressionou foi ver uma mudança vitoriosa na terra extensa da mais antiga cultura do mundo. Por toda parte se iniciavam experiências incontáveis. A agricultura feudal ia mudando. A atmosfera moral era transparente como depois da passagem de um ciclone.

O que me distanciou do processo chinês não foi Mao Tsé-tung mas o mao-tsé-tungismo, quer dizer, o mao-stalinismo, a repetição do culto a uma deidade socialista. Quem pode negar a Mao a personalidade política de grande organizador, de grande libertador de um povo? Como poderia eu escapar da influência de sua auréola épica, de sua simplicidade tão poética, tão melancólica e tão antiga?

Mas, durante minha viagem, vi como centenas de pobres camponeses que voltavam de seu trabalho se prosternavam, antes de deixar suas ferramentas, para saudar o retrato do modesto guerrilheiro de Yunan agora transformado em deus. Vi como centenas de pessoas agitavam em suas mãos um livrinho vermelho, panacéia universal para vencer no pingue-pongue, curar apendicite e resolver os problemas políticos. A adulação flui de cada boca e de cada dia, de cada jornal e de cada revista, de cada caderno e de cada livro, de cada almanaque e de cada teatro, de cada escultura e de cada pintura.

Eu já tinha tido a minha dose de culto à personalidade no caso de Stalín. Mas naquele tempo Stalin nos aparecia como o vencedor avassalador dos exércitos de Hitler, como o salvador do humanismo mundial. A degeneração de sua personalidade foi um processo misterioso, até agora enigmático para muitos de nós.

E agora aqui, em plena luz, no imenso espaço terrestre e celeste da nova China, implantava-se de novo diante de meus olhos a substituição de um homem por um mito. Um mito destinado a monopolizar a consciência revolucionária, a concentrar em uma só mão a criação de um mundo que será de todos. Não pude engolir, pela segunda vez, essa pílula amarga.

 

Em Chungking meus amigos chineses me levaram para ver a ponte da cidade. Sempre amei as pontes. Meu pai, ferroviário, inspirou-me grande respeito por elas. Nunca as chamava de pontes; teria sido uma profanação. Chamava-as de obras de arte, qualificativo que não concedia às pinturas, às esculturas e nem, é claro, a meus poemas; somente às pontes. Meu pai me levou muitas vezes para contemplar o maravilhoso viaduto do Malleco, no Sul do Chile. Até agora eu tinha pensado que a ponte mais bela do mundo era aquela, suspensa entre o verde austral das montanhas, alta e delgada e pura, como um violino de aço com suas cordas tensas, prontas para serem tecadas pelo vento de Collipulli. A imensa ponte que cruza o rio Yang-tsé é outra coisa. É a obra mais grandiosa da engenharia chinesa, realizada com a partici-pação dos engenheiros soviéticos. E é, além disso, o final de uma luta secular. A cidade de Chungking estava dividida durante séculos pelo rio, uma incomunicabilidade que trazia atraso, lentidão e isolamento.

O entusiasmo dos amigos chineses que me mostram a ponte é excessivo para a capacidade de minhas pernas. Fazem-me subir torres e descer abismos para olhar a água que corre há milhares de anos, atravessada hoje por quilômetros de ferro. Por estes trilhos passaram os trens. Estas calçadas serão para os ciclistas. Esta enorme avenida será destinada aos pedestres. Sinto-me oprimido por tanta grandeza.

Ai Ching nos leva pela noite a comer num antigo restaurante, albergue da cozinha mais tradicional: chuva de flores de cerejeira, arco-íris com salada de bambu, ovos de cem anos, beiços de filhote de tubarão. E impossível descrever esta cozinha chinesa em sua complexidade, na fabulosa variedade, na inventiva extravagante, em seu apuro inacreditável. Ai Ching nos dá algumas noções. As três regras supremas que devem reger uma boa comida são: primeiro o sabor, segundo o cheiro, terceiro a cor. Estes três aspectos devem ser rigorosamente respeitados. O sabor deve ser delicado. O cheiro deve ser delicioso. E a cor deve ser estimulante e harmoniosa. Neste restaurante onde vamos comer, disse Ai Ching, terá um requinte extra: o som. À grande fonte de porcelana rodeada de manjares é acrescentada, no último momento, uma pequena cascata de caudas de camarões que caem na chapa de metal aquecida, candente, para produzir uma melodia de flauta, uma frase musical que sempre e igualmente se repete.

 

Em Pequim fomos recebidos por Tien Ling, que era quem presidia o comitê de escritores e designado para acolher a Jorge Amado e a mim. Estava também nosso velho amigo, Emi Siao, com sua mulher alemã e fotógrafa. Tudo era agradável e sorridente. Passeamos numa embarcação entre os lótus do imenso lago artificial que foi construído para entretenimento da última imperatriz. Visitamos fábricas, editoras, museus e pagodes. Comemos no mais exclusivo dos restaurantes do mundo (tão exclusivo que tem uma única mesa), administrado pelos descendentes da casa imperial. Nós, os dois casais de sul-americanos, nos reunimos na casa dos escritores chineses para beber, fumar e rir, como fazíamos em qualquer parte de nosso continente.

Eu passava o jornal diário para o meu jovem intérprete Li, mostrava-lhe com o dedo as impenetráveis colunas de caracteres chineses e dizia:

- Traduz para mim!

Ele começava a fazê-lo em seu espanhol recém-aprendido. Lia editoriais agrícolas, proezas natatórias de Mao Tsé-tung, indagações mao-marxistas, notícias militares que me aborreciam, apenas começavam.

- Stop! - dizia-lhe. - É melhor que você me leia esta outra coluna.

Assim foi que um dia, para minha surpresa, pus o dedo na ferida. Falava-se ali de um processo político no qual figuravam como acusados os amigos que eu via todo dia. Estes continuavam fazendo parte de nosso “comitê de recepção”. Ainda que o processo já estivesse em andamento, eles jamais nos tinham dito uma palavra de que estavam sendo investigados nem tinham mencionado nunca que uma ameaça pairava sobre suas cabeças.

A época havia mudado. Todas as flores se fechavam. Quando estas flores se abriram por ordem de Mao Tsé-tung, apareceram inumeráveis panfletos - nas fábricas e nas oficinas, nas universidades e escritórios, nas granjas e nas habitações coletivas - que denunciavam injustiças, extorsões, ações desonestas de chefes e de burocratas.

Assim como anteriormente havia cessado por ordem suprema a guerra às moscas e aos pardais, quando se revelou que seu aniquilamento traria conseqüências inespe-radas, assim também terminou drasticamente o período em que se abriram as corolas. Uma nova ordem chegou de cima: descobrir os direitistas. E em seguida, em cada organização, em cada lugar de trabalho e em cada casa, os chineses começaram a delatar seu próximo ou a se autoconfessar de direitismo.

Minha amiga, a novelista Tieng Ling, foi acusada de ter tido relações amorosas com um soldado de Chiang Kai-shek. Era verdade que isso tinha acontecido mas antes do grande movimento revolucionário. Pela revolução ela rechaçou o amante e, de Yenam com um filho recém-nascido nos braços, fez toda a grande caminhada dos anos heróicos. Mas isto não lhe valeu de nada. Foi destituída de seu cargo de presidente da União de Escritores e condenada a servir a mesa como servente do restaurante da mesma União de Escritores que tinha presidido tantos anos. Mas fazia seu trabalho com tanta altivez ou dignidade que foi enviada logo para trabalhar na cozinha de uma remota comuna camponesa. Esta é a última notícia que tive da grande escritora comunista, primeira figura da literatura chinesa.

Não sei o que aconteceu com Emi Siao. Quanto a Ai Ching, o poeta que nos acompanhava a toda parte. seu destino foi muito triste. Primeiro mandaram-no ao deserto de Gobi. Depois autorizaram-no a escrever contanto que nunca mais assinasse seus trabalhos com seu verdadeiro nome, um nome já famoso dentro e fora da China. Assim o condenaram ao suicídio literário.

Jorge Amado já tinha partido para o Brasil. Eu me despediria um pouco mais tarde com um gosto amargo na boca. Que ainda sinto até hoje.

 

                   Os macacos de Sujumi

Regressei à União Soviética e me convidaram então para uma viagem até o sul. Quando desço do avião, depois de ter atravessado o imenso território, deixei para trás as grandes estepes, as usinas e as estradas, as grandes cidades e os povoados soviéticos. Cheguei às imponentes montanhas caucasianas povoadas de abetos e de animais selváticos. A meus pés o Mar Negro colocou um traje azul para receber-nos. Um perfume violento de laranjeiras em flor chega de toda parte.

Estamos em Sujumi, capital de Afgasia, pequena república soviética. Esta é a Cólchida lendária, a região do velocino de ouro que Jasão veio roubar seis séculos antes de Cristo, a pátria grega dos Dióscuros. Mais tarde eu veria no museu um enorme baixo-relevo de mármore helênico recém-tirado das águas do Mar Negro. Às margens desse mar, os deuses helênicos celebraram seus mistérios. Hoje trocou-se o mistério pela vida simples e laboriosa do povo soviético. Não é a mesma gente de Leningrado. Esta terra de sol, de trigo e de grandes vinhas, tem outro tom, um acento mediterrâneo. Estes homens andam de outra maneira e estas mulheres têm olhos e mãos da Itália ou da Grécia.

Vivo uns dias em casa do novelista Simonov e nos banhamos nas águas tépidas do Mar Negro. Simonov me mostra no quintal suas belas árvores. Reconheço-as e a cada nome que me diz respondo como um camponês patriótico:

- Esta tem no Chile. Esta outra também tem no Chile. E também aquela outra.

Simonov me olha com um certo sorriso brincalhão. Eu digo a ele:

- Que triste que é para mim que tu talvez nunca vejas a parreira de minha casa em Santiago nem os álamos dourados pelo outono chileno. Não há ouro como esse. Se visses as cerejeiras em flor na primavera e conhecesses o aroma do boldo do Chile! Se visses no caminho de Melipilla como os camponeses põem as douradas palhas de milho sobre os tetos! Se metesses os pés nas águas puras e frias de Isla Negra! Mas, meu querido Simonov, os países levantam barreiras, brincam de inimigo, lançam-se em guerras frias e nós, os homens, ficamos ilhados. Aproximamo-nos do céu em velozes foguetes e não aproximamos nossas mãos na fraternidade humana.

- Talvez as coisas mudaram - diz Simonov sorrindo e lançando uma pedra branca aos deuses submersos do Mar Negro.

 

O orgulho de Sujumi é a sua grande coleção de macacos. Aproveitando o clima subtropical, um Instituto de Medicina Experimental criou ali todas as espécies de macacos do mundo. Entremos. Em jaulas grandes veremos macacos elétricos e macacos estáticos, imensos e minúsculos, pelados e peludos, de caras reflexivas ou de olhos chamejantes, e também os taciturnos ou despóticos.

Existem macacos cinzentos, existem macacos brancos, existem micos de traseiro tricolor. Há grandes monos austeros e outros polígamos que não permitem que nenhuma de suas fêmeas se alimente sem seu consentimento, permissão dada somente depois que eles devoraram com solenidade sua própria comida.

Os estudos mais avançados de biologia se realizam neste instituto. No organismo dos macacos se estuda o sistema nervoso, a hereditariedade, as delicadas investigações sobre o mistério e o prolongamento da vida.

Uma pequena macaca com duas crias nos chama a atenção. Um dos filhotes a segue constantemente enquanto leva o outro nos braços com ternura humana. O diretor nos conta que o macaquinho que tanto mima não é seu filho mas sim um macaquinho adotivo. Ela acabava de dar à luz quando morreu outra macaca recém-parida. Imediatamente esta mãe macaca adotou o orfãozinho. Desde então sua paixão maternal e sua doçura vigilante se projetam sobre o filho adotivo, mais ainda que sobre o filho verdadeiro. Os cientistas pensaram que tão intensa vocação maternal a levaria a adotar outros filhos alheios mas ela os rechaçou um atrás do outro. Porque sua atitude não obedecia simplesmente a uma força vital mas sim a uma consciência de solidariedade maternal.

 

                   Armênia

Agora voamos até uma terra laboriosa e legendária. Estamos na Armênia. Ao longe, até o sul, o cume nevado do monte Ararat preside a história da Armênia. Foi aqui onde a arca de Noé se deteve, segundo a Bíblia, para repovoar a terra. Tarefa difícil porque a Armênia é pedregosa e vulcânica. Os armênios cultivaram esta terra com sacrifício indizível e elevaram a cultura nacional ao ponto mais alto do mundo antigo. A sociedade socialista deu um desenvolvimento e um florescimento extraordinário a esta nobre nação martirizada. Durante séculos os invasores turcos massacraram e escravizaram os armênios. Cada pedra dos páramos e cada lousa dos mosteiros tem uma gota de sangue armênio. A ressurreição socialista deste país tem sido um milagre e o maior desmentido aos que, de má-fé, falam de imperialismo soviético. Visitei na Armênia fábricas de fiação que empregam 5.000 operários, imensas obras de irrigação e de energia, e outras indústrias poderosas. Percorri de uma ponta a outra as cidades e as campinas pastorais e não vi senão armênios, homens e mulheres armênios. Encontrei um único russo, um solitário engenheiro de olhos azuis entre os milhares de olhos negros daquela população morena. Aquele russo estava dirigindo uma central hidrelétrica no lago Sevan. A superfície do lago, cujas águas se deslocam por um só leito do rio, é demasiado grande. A água preciosa se evapora sem que a Armênia sedenta consiga recolher e utilizar seus dons. Para ganhar tempo sobre a evaporação alargaram o rio. Assim se reduzirá o nível do lago e, ao mesmo tempo, serão criadas com as novas águas do rio oito centrais hidrelétricas, novas indústrias, poderosas usinas de alumínio, luz elétrica e irrigação para todo o país. Nunca esquecerei minha visita àquela cidade hidrelétrica elevando-se sobre o lago que em suas águas puríssimas reflete o azul inolvidável do céu da Armênia. Quando os jornalistas me perguntaram sobre minhas impressões das antigas igrejas e mosteiros da Armênia respondi exagerando:

- A igreja de que mais gosto é a catedral hidrelétrica, o templo junto ao lago.

Vi muitas coisas na Armênia. Acho que Erevan é uma das mais belas cidades, construídas de crosta vulcânica, harmoniosa como uma rosa rosada. Foi inesquecível a visita ao centro astronômico de Binakan, onde vi pela primeira vez o registro das estrelas. Captava-se a luz trêmula dos astros e delicadíssimos mecanismos iam registrando a palpitação da estrela do espaço como uma espécie de eletrocardiograma do céu. Naqueles gráficos observei que cada estrela tem um tipo de registro diferente, fascinante e trêmula, ainda que incompreensível para meus olhos de poeta terrestre.

No jardim biológico de Erevan fui direto à jaula do condor, mas meu compatriota não me reconheceu. Estava ali num canto da jaula, calvo e com esses olhos céticos de condor sem ilusões, de grande pássaro saudoso de nossas cordilheiras. Olhei-o com tristeza porque eu voltaria à minha pátria e ele permaneceria infindavelmente prisioneiro.

Minha aventura com o tapir foi diferente. O zoológico de Erevan é um dos poucos que possui uma anta do Amazonas, esse animal extraordinário com corpo de boi, cara nariguda e olhos mínimos. Devo confessar que as antas se parecem comigo - isto não é um segredo.

A anta de Erevan dormitava em seu cercado, junto ao pequeno lago. Ao ver-me dirigiu-me um olhar de inteligência; quem sabe alguma vez nos tínhamos encontrado no Brasil. O diretor perguntou se eu queria vê-la nadar, ao que respondi que só pelo prazer de ver uma anta nadar viajava pelo mundo. Abriram-lhe uma portinhola. Deu-me uma olhada de felicidade e se lançou na água, resfolegando como um cavalo-marinho, como um tritão peludo. Alçava-se tirando todo o corpo fora d'água; mergulhava, fazendo ondas tempestuosas; levantava-se, ébria de alegria, bufava e assoprava, e logo prosseguia com grande velocidade em suas acrobacias incríveis.

- Nunca a vimos tão contente - disse o diretor do zoológico.

Ao meio-dia, no almoço que a Sociedade de Escritores me oferecia, contei-lhes em meu discurso de agradecimento as proezas da anta amazônica e lhes falei de minha paixão pelos animais. Nunca deixo de visitar um jardim zoológico.

No discurso de resposta o presidente dos escritores armênios disse:

- Que necessidade tinha Neruda de ir visitar nosso jardim zoológico? Vindo à Sociedade de Escritores lhe bastava para encontrar todas as espécies. Aqui temos leões e tigres, raposas e focas, águias e serpentes, camelos e papagaios.

 

                   O vinho e a Guerra

Parei em Moscou na volta. Esta cidade é para mim não só a magnífica capital do socialismo, a sede de tantos sonhos realizados, mas também a morada de alguns de meus amigos mais queridos. Moscou para mim é uma festa. Mal chego saio sozinho pelas ruas, contente de respirar, assobiando cuecas. (1) Olho as caras dos russos, os olhos e as tranças das russas, os sorvetes que se vendem nas esquinas, as flores populares de papel, as vitrinas, em busca de coisas novas, das pequenas coisas que fazem grande a vida.

Fui visitar Ehrenburg mais uma vez. O bom amigo me mostrou primeiro uma garrafa de aguardente norueguesa, aquavite. Na etiqueta tinha um grande veleiro pintado. Em outro lugar estava a data de partida e a de regresso do barco que levou até a Austrália esta garrafa e a devolveu a sua Escandinávia de origem.

Pusemo-nos a falar de vinhos. Lembrei aquela época de minha juventude em que nossos vinhos patrimoniais iam para o estrangeiro por exigência e excelência. Foram sempre demasiado caros para nós que usávamos roupas de ferroviários e vivíamos em boêmia tormentosa.

Em todos os países me preocuparam os caminhos do vinho desde que nascia de “los pies del pueblo” (2) até que se engarrafava em vidro verde ou cristal facetado. Gostei de tomar na Galícia o vinho de Ribeiro que se bebe em caneca e que deixa na louça uma espessa marca de sangue. Lembro na Hungria de um vinho espesso, chamado “sangue de boi” e cujas investidas fazem trepidar os violinos dos ciganos.

Meus tataravós tiveram vinhas. Parral, onde nasci, é berço de ásperos mostos. De meu pai e de meus tios, Dom José Angel, Dom Joel, Dom Oseas e Dom Amós, aprendi a diferençar o vinho pipeño do filtrado. Custei a aceitar suas preferências pelo vinho não refinado que cai do tonel, do coração original e irredutível. Como em todas as coisas, custou-me voltar ao primitivo, ao vigor, depois de ter feito a superação do gosto, saboreado o bouquet formalista. Acontece o mesmo com a arte se a gente amanhece com a Afrodite de Praxiteles e se fica a viver com as estátuas selvagens da Oceânia.

Foi em Paris que provei um vinho excelso numa casa excelsa. O vinho era um Mouton-Rothschild de corpo impecável, de aroma indizível, de paladar perfeito. A casa era de Aragon e Elsa Triolet.

- Acabo de receber estas garrafas e vou abri-las para ti – disse Aragon.

E me contou a história.

Avançavam os exércitos alemães dentro da terra francesa. O soldado mais inteligente da França, poeta e oficial Louis Aragon, chegou até um posto avançado. Comandava um destacamento de enfermeiros. Sua ordem era seguir mais além desse posto até um edifício situado trezentos metros mais adiante. O capitão da posição francesa o deteve. Era o conde Alfonso de Rothschild, mais jovem que Aragon e de sangue tão esquentado quanto o seu.

- Não pode passar daqui - disse-lhe - É iminente o fogo alemão.

- Minhas instruções são de chegar a esse edifício - respondeu vivamente Aragon.

- Minhas ordens são de que não continue e que permaneça aqui - repôs o capitão.

Conhecendo Aragon como eu o conheço, estou certo de que na discussão saíram chispas como granadas, contestações como pontas de faca. Mas ela não durou mais de dez minutos. Subitamente, diante dos olhos pasmos de Rothschild e Aragon, uma granada de um morteiro alemão caiu sobre aquele edifício próximo, convertendo-o instantaneamente em fumaça, escombros e fagulhas.

Assim salvou-se o primeiro poeta da França graças à obstinação de um Rothschild.

Desde então, na mesma data natalícia do acontecimento, Aragon recebe umas quantas bonnes bouteilles de Mouton-Rothschild, das vinhas do conde que foi seu capitão na última guerra.

 

Agora estou em Moscou na casa de Ilya Ehrenburg. Este grande guerrilheiro da literatura, tão perigoso inimigo para o nazismo como uma divisão de quarenta mil homens, era também um epicurista refinado. Nunca soube se sabia mais de Stendhal ou de foie gras. Saboreava os versos de Jorge Manrique com tanto deleite como degustava um Pommery Greno. Seu amor mais vívido era a França inteira, a alma e o corpo da França saborosa e perfumada. O caso é que, depois da guerra, correu o rumor em Moscou que seriam postas à venda certas misteriosas garrafas de vinho francês. O Exército Vermelho tinha conquistado, em seu avanço até Beriim, uma fortaleza - adega repleta da insana propaganda de Goebbels e dos vinhos que este tinha saqueado nas adegas da doce França. Papéis e garrafas foram enviados aos quartéis-generais do exército vencedor, o Exército Vermelho, que investigou os documentos e não soube o que fazer com as garrafas.

As garrafas eram gloriosos recipientes que ostentavam em etiquetas especiais suas datas de nascimento. Todos tinham procedência ilustre e celebérrima vindima. Os Romané, os Beaume, os Chateauxneuf du Pape, se equiparavam com os brancos Pouilly, os ambarinos Vouvray, os aveludados Chambertin. A coleção inteira garantida por cifras cronológicas das mais supremas safras.

A mentalidade igualitária do socialismo distribuiu nos bares estes troféus sublimes dos lagares franceses ao mesmo preço dos vinhos russos. Como medida limitativa dispôs que cada comprador só podia adquirir um reduzido e determinado número de garrafas. Grandes são os desígnios do socialismo mas nós, os poetas, somos iguais em toda parte. Cada um de meus companheiros de letras mandou que cada parente, vizinho, conhecido comprasse, a tão baixo preço, garrafas de tão alta linhagem. Esgotaram-se em um dia.

Uma quantidade que não direi chegou à casa de Ehrenburg, o irredutível inimigo do nazismo. E por esse motivo me encontro em sua companhia, falando de vinhos e bebendo juntos parte da adega de Goebbels em homenagem à poesia e à vitória.

 

1 - Cuecas ou zamacueca: dança popular chilena, originária do Peru, também dançada em outros países da América Meridional. Música e canto dessa dança. (N. da T.)

2 - “Os pés do povo”. (N. da T.)

 

                   Os Palácios reconquitados

Os magnatas nunca me convidaram para as grandes mansões, e a verdade é que tive sempre pouca curiosidade. No Chile o esporte nacional é o arremate. Vê-se muita gente correr atropeladamente aos leilões semanais que caracterizam meu país. Cada casarão destes tem um sino. Chegado o momento, o que dá o melhor lance arremata os gradis que não me deixaram passar nem o povo de que faço parte. E com as grades, mudam de dono as poltronas, os cristos sanguinolentos, os retratos de época, os pratos, as colheres e os lençóis entre os quais foram procriadas tantas vidas ociosas. O chileno gosta de entrar, tocar e ver. Poucos são os que finalmente compram. Sem tardar o edifício é demolido e sao rematados pedaços da casa. Os compradores levam os olhos, isto é, as janelas; os intestinos, isto é, as escadas; os assoalhos são os pés; e finalmente repartem até as palmeiras.

Na Europa, ao contrário, as casas imensas são conservadas. Podemos ver às vezes os retratos de seus duques e de suas duquesas que só algum pintor afortunado viu como Deus os fez para felicidade dos que agora desfrutamos dessa pintura e dessas curvas. Podemos espreitar também os segredos, os crimes investigados, as repreensões ásperas, e os arquivos desconcertantes que são as paredes atapetadas, que absorveram tantas conversações destinadas ao palco eletrônico do futuro.

Fui convidado para ir à Romênia e aceitei o convite. Os escritores me levaram para descansar em sua casa de campo coletiva, no meio dos belos bosques transilvanos. A casa dos escritores romenos tinha sido antes o palácio de Carol, o estouvado cujos amores plebeus chegaram a ser assunto de murmúrio mundial. O palácio, com seus móveis modernos e seus banheiros de mármore, estava agora a serviço do pensamento e da poesia da Romênia. Dormi muito bem na cama de sua majestade a rainha e, no dia seguinte, fomos visitar outros castelos convertidos em museus e casas de repouso ou de férias. Acompanhavam-me os poetas Jebeleanu, Beniuc e Radu Bourreanu. Na manhã verde, sob a profundidade dos abetos dos antigos parques reais, cantávamos desbragadamente, ríamos com estardalhaço, gritávamos versos em todos os idiomas. Os poetas romenos, com sua longa história de padecimentos durante os regimes monarco-fascistas, são os mais valorosos e ao mesmo tempo os mais alegres do mundo. Aquele grupo de jograis, tão romenos como os pássaros de suas terras florestais, tão decididos em seu patriotismo, tão firmes em sua revolução e tão embriagadoramente apaixonados pela vida, foram uma revelação para mim. Em poucos lugares adquiri com tanta rapidez tantos irmãos.

Contei aos poetas romenos, para grande regozijo deles, minha visita anterior a outro palácio nobre, o palácio da Liria, em Madri, em plena guerra. Enquanto Franco marchava com seus italianos, mouros e cruzes gamadas, dedicado à santa tarefa de matar espanhóis, os milicianos ocuparam aquele palácio que eu tinha visto tantas vezes ao passar pela rua Argüelles, nos anos de 1934 e 1935. Do ônibus dirigia um olhar respeitoso, não por vassalagem aos novos duques de Alba que já não podiam submeter-me a mim, irredimível americano e poeta semibárbaro, fascinado somente pela majestade que têm os calados e brancos sarcófagos.

Quando veio a guerra, o duque se deixou ficar na Inglaterra porque seu sobrenome é em realidade Berwick. Ficou ali com seus melhores quadros e com seus tesouros mais valiosos. Recordando essa fuga ducal disse aos romenos que, na China, depois da liberação, o último descendente de Confúcio, que ficou rico com um templo e com os ossos do filósofo morto, foi para Formosa também provido de quadros, jogos de toalhas e baixelas, além dos ossos. Ali deve estar bem instalado, cobrando entrada para mostrar as relíquias.

Da Espanha, naquela época, saíam para o resto do mundo notícias tremendas:

 

“HISTÓRICO PALÁCIO DO DUQUE DE ALBA

SAQUEADO PELOS VERMELHOS”,

“LÚBRICAS CENAS DE DESTRUIÇÃO”,

“SALVEMOS ESTA JÓIA HISTÓRICA”.

 

Fui ver o palácio já que agora me deixavam entrar. Os supostos saqueadores estavam à porta de macacão e fuzil na mão. Dos aviões alemães caíam as primeiras bombas sobre Madri. Pedi aos milicianos que me deixassem passar. Examinaram minuciosamente meus documentos. Já me acreditava pronto para dar os primeiros passos nos opulentos salões quando me detiveram com horror: não tinha limpado os sapatos no grande capacho da entrada. Na realidade os assoalhos reluziam como espelhos. Limpei os sapatos e entrei. Os retângulos vazios das paredes significavam quadros ausentes. Os milicianos sabiam tudo. Contaram-me como o duque tinha esses quadros há anos em seu banco de Londres, depositados num cofre. No grande hall, a única coisa importante eram os troféus de caça, inumeráveis cabeças com chifres e trompas de diferentes pequenos animais. O mais notável era um imenso urso branco em pé sobre duas patas no meio da sala com os dois braços polares abertos e uma cara dissecada que ria com todos os dentes. Era o favorito dos milicianos, que o poliam cada manhã.

Naturalmente me interessaram os quartos de dormir em que tantos Alba dormi-ram com pesadelos, originados pelos espectros flamengos que de noite chegavam a fazer-lhes cócegas nos pés. Os pés já não estavam ali mas sim a maior coleção de sapatos que já vi na vida. O último duque nunca aumentou sua pinacoteca mas sua sapataria era surpreendente e incalculável. Compridas estantes de cristal que chega-vam ao teto guardavam milhares de sapatos. Como nas bibliotecas, havia escadinhas especiais, talvez para colhê-los delicadamente pelos saltos. Olhei com cuidado. Havia centenas de pares de finíssimas botas de montaria, amarelas e negras. Também havia dessas botinhas de camurça com botões de madrepérola. E quantidades de sapatões, sapatilhas e polainas, todos eles com suas formas dentro, o que lhes dava aparência de que tinham pernas e pés sólidos à sua disposição. Se a gente lhes abrisse a vitrina, correriam todos para Londres atrás do Duque! A gente podia dar uma festa de botinhas, alinhadas ao longo de três ou quatro salas, um festim com os olhos e só com os olhos porque os milicianos, fuzil ao braço, não permitiam sequer a uma mosca tocar naqueles sapatos. “A cultura”, diziam. “A História”, diziam. Eu pensava nos pobres rapazes de alpercatas detendo o fascismo nos cumes terríveis de Somosierra, enterrados na neve e no barro.

Junto à cama do duque tinha um quadrinho com moldura dourada cujas maiúsculas góticas me atraíram. Caramba!, pensei, aqui deve estar impressa a árvore genealógica dos Alba. Engano: era o “If” de Rudyard Kipling, essa poesia vulgar e hipócrita, precursora do Reader's Digest, cuja altura intelectual não ia além, no meu entender, da dos sapatos do duque de Alba - com perdão do império britânico!

O banheiro da duquesa deve ser incitante, pensava eu. Evocava tantas coisas, sobretudo aquela madona recostada do Museu do Prado, a quem Goya colocou os mamilos tão distantes um do outro que a gente pensa como o pintor revolucionário mediu a distância, acrescentando um beijo e mais outro, até deixar-lhe um colar invisível de um seio a outro. Mas o equívoco continuava. O urso, a sapataria de opereta, o “If” e, por último, em vez de um banheiro de deusa encontrei um recinto redondo, falsamente pompeiano, com uma tina abaixo do nível do chão, pretensa-mente finos cisnezinhos de alabastro, afetados e cômicos lampadários - um banheiro enfim para odalisca de filme norte-americano.

 

Já me retirava com desencanto sombrio quando tive minha recompensa. Os milicianos me convidaram para almoçar. Desci com eles até a cozinha. Quarenta ou cinqüenta serventes e criados, cozinheiros e jardineiros do duque, continuavam cozinhando para si mesmos e para os milicianos que montavam guarda à mansão. Consideravam-me visita honrosa.

Depois de alguns cochichos, voltas e mais voltas, recibos que eram assinados, tiraram uma garrafa empoeirada. Era um Lacrima Christi de cem anos, do qual apenas me deixaram beber alguns sorvos. Era um vinho ardente, com uma contextura de mel e fogo, ao mesmo tempo severo e impalpável. Não esquecerei tão facilmente aquelas lágrimas do duque de Alba.

Uma semana depois os bombardeiros alemães deixaram cair quatro bombas incendiárias sobre o palácio de Liria. Do terraço da minha casa vi voarem dois pássaros agoureiros. Um clarão vermelho me fez compreender em seguida que estava presenciando os últimos minutos do palácio.

- Naquela mesma tarde passei pelas ruínas fumegantes - disse aos escritores romenos para concluir minha história. - Ali tomei conhecimento de um detalhe comovedor. Os nobres milicianos, debaixo do fogo que caía do céu, das explosões que sacudiam a terra e da fogueira que crescia, só pensaram em salvar o urso branco. Quase morreram na tentativa. As vigas despencavam, tudo ardia e o imenso animal embalsamado se obstinava em não passar pelas janelas e pelas portas. Vi-o de novo e pela última vez, com os braços brancos abertos, morrendo de rir, sobre o gramado do jardim do palácio.

 

                   Tempo de cosmonautas

Moscou de novo. Na manhã do dia 7 de novembro presenciei o desfile do povo, de seus esportistas, da luminosa juventude soviética. Marchavam firmes e seguros sobre a Praça Vermelha. Eram contemplados pelos olhos agudos de um homem morto há muitos anos, fundador desta segurança, desta alegria e desta força: Vladimir Ilich Ulianov, imortalmente conhecido como Lênin.

Desta vez desfilaram poucas armas. Mas, pela primeira vez, foram vistos os enormes projéteis intercontinentais. Quase pude tocar com a mão aqueles imensos charutos de aparência bonachona, capazes de levar a destruição atômica a qualquer ponto do planeta.

Naquele dia eram condecorados os dois russos que voltavam do céu. Eu me sentia muito próximo de suas asas. O ofício de poeta é, em grande parte, vaguear como os pássaros. Justamente pelas ruas de Moscou, nas costas do Mar Negro, entre os montanhosos desfiladeiros do Cáucaso soviético, me veio a tentação de escrever um livro sobre os pássaros do Chile. O poeta de Temuco estava conscientemente empenhado em passarinhar, a escrever sobre os pássaros de sua terra tão longínqua, sobre chincoles (1) e chercanas, (2) tencas (3) e diucas, (4) condores e queltehues, (5) enquanto dois pássaros humanos, dois cosmonautas soviéticos subiam ao espaço e deixavam o mundo inteiro pasmo de admiração. Contivemos todos a respiração, sentindo sobre nossas cabeças, vendo com nossos olhos o duplo vôo cósmico.

Naquele dia eram condecorados. Junto deles, absolutamente terrestres, estavam seus familiares, sua origem e sua raiz de povo. Os velhos exibiam imensos bigodes camponeses, as velhas cobriam a cabeça com o lenço típico das aldeias e dos campos. Os cosmonautas eram como nós, almas do campo, da aldeia, da fábrica, do escritório. Na Praça Vermelha foram recebidos por Nikita Krutchev em nome da nação soviética. Depois os vimos na sala São Jorge. Apresentaram-me a German Titov, o astronauta número dois, um rapaz simpático, de grandes olhos luminosos. Perguntei-lhe de supetão:

- Diga- me, comandante, quando navegava pelo cosmos e olhava em direção a nosso planeta se divísava claramente o Chile?

Era como dizer-lhe: “Você compreende que o importante de sua viagem era ver o Chilezinho do alto?”

Não sorriu como eu esperava mas refletiu alguns minutos e depois me disse:

- Recordo umas cordilheiras amarelas pela América do Sul. Dava para se notar que eram muito altas. Talvez fossem o Chile.

Claro que era o Chile, camarada!

 

Justo quando a revolução socialista fazia 40 anos deixei Moscou no trem até a Finlândia. Enquanto atravessava a cidade, em direção à estação, grande queima de fogos de artifício, fosfóricos, azuis, vermelhos, roxos, verdes, amarelos, alaranjados, subiam muito alto como descargas de alegria, como sinais de comunicação e amizade que partiam da noite vitoriosa para todos os povos.

Na Finlândia comprei um dente de nerval e continuamos viagem. Em Gotemburgo tomamos o navio que nos devolveria à América. Também a América e a minha pátria caminham com a vida e com o tempo. Acontece que quando passamos pela Venezuela, em direção a Valparaíso, o tirano Pérez Jiménez, bebê favorito do Departamento de Estado, bastardo de Trujillo e de Somoza, mandou tantos soldados como para uma guerra com a missão de nos impedir de descer do navio, a mim e à minha companheira. Mas quando cheguei a Valparaíso, a liberdade já tinha expulsado o déspota venezuelano e já o majestoso sátrapa tinha corrido para Miami como coelho sonâmbulo.

Rápido anda o mundo desde o vôo do sputinik. Quem diria que a primeira pessoa que bateu à porta de meu camarote em Valparaiso para nos dar as boas-vindas seria o novelista Simonov, a quem deixei banhando-se no Mar Negro?

 

1 - Chincol ou chingolo: pássaro conirrostro da América Meridional, da família dos fringilídeos, de canto muito melodioso, cor pardo-avermelhada, com topete.

2 - Chercán: pássaro do Chile semelhante ao rouxinol na aparência e na cor mas de canto muito menos doce, É insetívoro e domesticável.

3 - Tenca: na Argentina e no Chile, ave da ordem dos pássaros, espécie de calhandra.

4 - Diuca (palavra araucana): pássaro conirrostro do Chile e da Argentina, de cor cinza-escuro com uma lista branca no ventre; pouco maior que um pintassilgo, canta ao amanhecer.

5 - Queltehwe (palavra araucana): ave pernalta do Chile, que habita os campos úmidos e que, domesticada, se tem nos jardins para que destrua os insetos nocivos.

 

         A POESIA É UM OFÍCIO

 

                   O Poder da Poesia

Tem sido privilégio de nossa época - entre guerras, revoluções e grandes movimentos sociais - desenvolver a fecundidade da poesia até limites insuspeitados. O homem comum tem podido confrontá-la de maneira que fere ou é ferida, seguramente na solidão, seguramente na massa montanhosa das reuniões públicas.

Nunca pensei, quando escrevi meus primeiros livros solitários, que com o passar dos anos me encontraria em praças, ruas, fábricas, salas de aula, teatros e jardins, dizendo meus versos. Percorri praticamente todos os rincões do Chile, derramando minha poesia entre a gente de meu povo.

Contarei o que me aconteceu na Vega Central, o mercado maior e mais popular de Santiago do Chile. Chegam ali ao amanhecer os infinitos carros, carretas, carroças e caminhões que trazem os legumes, as frutas, os comestíveis, de todas as chácaras que rodeiam a capital devoradora. Os carregadores - uma comunidade numerosa, mal paga e em geral descalça - pululam pelos cafés, albergues noturnos e tascas dos bairros próximos à Vega.

Alguém veio me buscar um dia em um automóvel e entrei nele sem saber exatamente aonde nem para o que ia. Levava no bolso um exemplar de meu livro España en el corazón. Dentro do carro me explicaram que estava convidado para dar uma conferência no sindicato de carregadores da Vega.

Quando entrei na sala desarrumada senti o frio do Nocturno de José Asunción Silva, não só pelo avançado do inverno como também pelo ambiente que me deixava atônito. Sentados em caixotes ou em improvisados bancos de madeira, uns cinqüenta homens me esperavam. Alguns levavam à cintura um saco amarrado à maneira de avental, outros se cobriam com velhas camisetas remendadas e outros desafiavam o frio mês de julho chileno com o torso nu. Sentei-me detrás de uma mesinha que me separava daquele estranho público. Todos me olhavam com os olhos negros e estáticos do povo de meu país.

Lembrei-me do velho Lafferte. A esses espectadores imperturbáveis que não movem um músculo da cara e olham de forma constante, Lafferte designava com um nome que me fazia rir. Certa vez no pampa salitreiro me disse:

- Olha lá no fundo da sala, apoiados na coluna, os muçulmanos estão nos olhando. Só lhes falta o albornoz para serem iguais aos impávidos crentes do deserto.

Que fazer com este público? De que podia lhes falar? Que coisa de minha vida poderiam lhes interessar? Sem conseguir decidir nada e escondendo a vontade de sair correndo, tomei o livro que levava comigo e disse:

- Há pouco tempo estive na Espanha. Havia ali muita luta e muitos tiros. Ouçam o que escrevi sobre aquilo.

Devo explicar que meu livro España en el corazón nunca me pareceu um livro de compreensão fácil. Tem uma aspiração à claridade mas está empapado pelo torvelinho daquele grande e múltiplo sofrimento.

O certo é que pensei ler umas poucas estrofes, acrescentar umas poucas palavras e me despedir. Mas as coisas não aconteceram assim. Ao ler um poema atrás do outro, ao sentir o silêncio como de água profunda em que caíam minhas palavras, ao ver como aqueles olhos e sobrancelhas escuras seguiam intensamente minha poesia, compreendi que meu livro estava chegando a seu destino. Continuei lendo mais e mais, comovido eu mesmo pelo som de minha poesia, sacudido pela magnética relação entre meus versos e aquelas almas abandonadas.

A leitura durou mais de uma hora. Quando estava para me retirar, um dos homens se levantou. Era dos que levavam o saco amarrado ao redor da cintura.

- Quero lhe agradecer em nome de todos - disse em voz alta. - Quero lhe dizer, além disso, que nunca nada nos impressionou tanto.

Ao terminar estas palavras explodiu num soluço. Outros vários também choravam. Saí à rua entre olhares úmidos e apertos de mãos rudes.

Pode um poeta ser o mesmo depois de ter passado por estas provas de frio e fogo?

 

Quando quero me lembrar de Tina Modotti tenho que fazer um esforço como se tratasse de recolher um punhado de névoa. Frágil, quase invisível, conheci-a ou não?

Era muito bonita ainda: um pálido rosto oval emoldurado por duas abas negras de cabelos presos, uns grandes olhos de veludo que continuam olhando através dos anos. Diego Rivera deixou sua figura num de seus murais, aureolada por coroamentos vegetais e espigas de milho.

Esta revolucionária italiana, grande artista da fotografia, chegou à União Soviética há tempo com o propósito de retratar multidões e monumentos. Mas ali, envolta pelo transbordante ritmo da criação socialista, atirou sua câmara ao rio Moscova e jurou a si mesma dedicar sua vida às mais humildes tarefas do partido comunista. Cumprindo este juramento, conheci-a no México e a senti morrer naquela noite.

Foi em 1941. Seu marido era Vittorio Vidale, o célebre Comandante Carlos do 52 Regimento. Tina Modotti morreu de um ataque do coração no táxi que a conduzia para casa. Ela sabia que seu coração andava mal mas não contava a ninguém para que não lhe limitassem o trabalho revolucionário. Estava sempre disposta para o que ninguém queria fazer: varrer os escritórios, ir a pé aos lugares mais afastados, passar as noites em claro escrevendo cartas ou traduzindo artigos. Na guerra espanhola foi enfermeira para os feridos da República.

Tinha tido um episódio trágico em sua vida quando era companheira do grande dirigente juvenil cubano, Julio Antonio Mella, exilado então no México. O tirano Gerardo Machado deu ordem de Havana para que uns pistoleiros matassem o líder revolucionário. Iam saindo do cinema certa tarde. Tina de braço dado com Mella, quando este caiu sob uma rajad de metralhadora. Rolaram juntos pelo chão, ela salpicada pelo sangue de seu companheiro morto enquanto os assassinos fugiam altamente protegidos. E para cúmulo os mesmos funcionários policiais que protegeram os criminosos pretenderam culpar Tina Modotti pelo assassinato.

Doze anos mais tarde se esgotaram silenciosamente as forças de Tina Modotti. A reação mexicana intentou reviver a infâmia cobrindo de escândalo sua própria morte como antes a tinham querido envolver na morte de Mella. Enquanto isso, Carlos e eu velávamos o pequeno cadáver. Ver sofrer um homem tão forte e tão valente não é um espetáculo agradável. Aquele leão sangrava ao receber na ferida o veneno corrosivo da infâmia que queria manchar Tina Modotti uma vez mais, já morta. O Comandante Carlos rugia com os olhos avermelhados, Tina estava como que de cera em seu pequeno ataúde de exilada e eu calava, impotente diante de toda a angústia humana reunida naquela sala.

Os jornais enchiam páginas inteiras de imundícies folhetinescas. Chamavam-na “a mulher misteriosa de Moscou”, acrescentando alguns: “Morreu porque sabia demais.” Impressionado pela furiosa dor de Carlos tomei uma decisão. Escrevi um poema desafiante contra os que ofendiam nossa morta, mandando-o a todos os jornais, sem esperança alguma de que o publicassem. Oh milagre! No dia seguinte, em vez das novas e fabulosas revelações prometidas na véspera, apareceu em todas as primeiras páginas meu indignado e desabrido poema.

O poema se intitulava “Tina Modotti matou”. Li-o naquela manhã no cemitério do México, onde deixamos seu corpo, que jaz para sempre sob uma pedra de granito mexicano. Sobre essa pedra estão gravadas minhas estrofes.

Nunca mais a imprensa voltou a escrever uma linha contra ela.

 

Foi em Lota, há muitos anos. Dez mil mineiros tinham acorrido ao comício. A zona do carvão, sempre agitada em sua secular pobreza, tinha enchido de mineiros a praça de Lota. Os oradores políticos falaram longamente. Pairava no ar quente do meio-dia um cheiro de carvão e de sal marinho. Muito próximo estava o oceano, sob cujas águas se estendem por mais de dez quilômetros os túneis sombrios em que aqueles homens cavavam o carvão.

Agora escutavam em pleno sol. A tribuna era muito alta e dela eu divisava um mar de chapéus e capacetes de mineiros. Coube a mim falar por último. Quando foi anunciado meu nome e meu poema “Novo canto de amor a Stalingrado” aconteceu algo insólito, uma cerimônia que nunca vou esquecer.

A imensa multidão, assim que escutou meu nome e o título dopoema, se descobriu silenciosamente. Descobriu-se porque, depois daquela linguagem categórica e política, ia falar minha poesia, a poesia. Vi, da elevada tribuna, o movimento imenso de chapéus: dez mil mãos que baixavam em uníssono, num marulho indescritível, num golpe de mar silencioso, numa espuma negra de reverência silenciosa.

Meu poema cresceu então e readquiriu como nunca seu tom de luta e de líberação.

 

Outro fato se passou em minha juventude. Era eu aquele poeta estudantil de capa escura, magro e desnutrido como os poetas desse tempo. Acabava de publicar Crepusculario e pesava menos do que uma pluma negra.

Entrei com meus amigos num cabaré ordinário. Era a época dos tangos e da valentia rufianesca. De repente o baile parou e o tango se quebrou como uma taça estilhaçada contra a parede. No centro da pista gesticulavam e se insultavam mutuamente dois famosos valentões. Quando um avançava para agredir o outro, este retrocedia e com ele recuava a multidão no mesmo compasso, entrincheirando-se atrás das mesas. Aquilo parecia uma dança de duas bestas primitivas em uma clareira da selva primordial.

Sem pensar muito me adiantei e os repreendi apesar de minha fraqueza magricela.

- Miseráveis valentões, sujeitos torvos, insetos desprezíveis, deixem em paz as pessoas que vieram aqui para dançar e não para presenciar esta comédia!

Olharam-se surpreendidos como se não acreditassem no que escutavam. O mais baixo, que tinha sido pugilista antes de ser valentão, dirigiu-se para mim a fim de me assassinar. E o teria conseguido se não fosse a aparição repentina de um punho certeiro que deitou por terra o gorila. Era seu contendor que finalmente se decidiu a acabar com ele.

Quanto ao campeão derrotado, arrastavam-no como a um saco. Das mesas nos estendiam garrafas e as bailarinas nos sorriam entusiasmadas. O grandalhão que tinha dado o golpe de misericórdia quis compartilhar justificadamente com o regozijo da vitória mas eu o apostrofei, catoniano:

- Retira-te daqui! Tu és da mesma laia!

Meus minutos de glória terminaram pouco depois. Após atravessar um estreito corredor, divisamos uma espécie de montanha com cintura de pantera que obstruía a saída. Era o outro pugilista da malandragem, o vencedor golpeado por minhas palavras, que nos interceptava o caminho em busca de vingança.

- Estava te esperando - disse.

Com um leve empurrão me fez desviar até uma porta enquanto meus amigos corriam desconcertados. Fiquei desamparado diante de meu verdugo. Olhei rapidamente o que poderia agarrar para me defender. Nada. Não havia nada. Os pesados tampos de mármore e as cadeiras de ferro eram impossíveis de levantar. Nem uma jarra de flores, nem uma garrafa ou uma mísera bengala esquecida.

- Vamos conversar - disse o homem.

Compreendi a inutilidade de qualquer esforço e pensei que queria me examinar antes de me devorar como o tigre diante de um almiscareiro. Percebi que toda a minha defesa estava em não demonstrar o medo que sentia. Devolvi-lhe o empurrão que me dera mas não consegui tirá-lo um milímetro do lugar. Era um muro de pedra.

Subitamente lançou a cabeça para trás e seus olhos de fera mudaram de expressão.

- É você o poeta Pablo Neruda? - disse.

- Sou sim.

Baixou a cabeça e continuou:

- Que desgraçado que eu sou! Estou diante do poeta que tanto admiro e é ele quem me lança na cara o miserável que eu sou!

E continuou lamentando-se com a cabeça entre as mãos:

- Sou um rufião e o outro que lutou comigo é um traficante de cocaína. Somos o que há de mais baixo. Mas em minha vida há uma coisa limpa. É minha noiva, o amor de minha noiva. Veja-a, D. Pablito. Olhe seu retrato. Algum dia lhe direi que você o teve entre as mãos. Isso a fará feliz.

Estendeu-me a fotografia de uma moça sorridente.

- Ela gosta de mim pelo senhor, D. Pablito, por seus versos que aprendemos de memória.

E sem mais aquela começou a recitar:

- “Do fundo de ti e ajoelhado, um menino triste como eu nos olha...”

Nesse momento a porta se abriu de supetão. Eram meus amigos que voltavam com reforços armados. Vi as cabeças que se ajuntavam atônitas à porta.

Saí lentamente. O homem ficou só sem mudar de atitude, dizendo “por essa vida que arderá em suas veias teriam que matar as minhas mãos”, derrotado pela poesia.

 

O avião do piloto Powers, enviado em missão de espionagem sobre o território soviético caiu de uma altura inacreditável. Dois fantásticos projéteis o tinham atingido e o tinham derrubado das nuvens. Os jornalistas acorreram ao perdido lugar montanhoso de onde partiram os disparos.

Os artilheiros eram dois rapazes solitários. Naquele mundo imenso de abetos, neves e rios, comiam maçãs, jogavam xadrez, tocavam acordeão, liam livros e vigiavam. Tinham apontado para cima em defesa do amplo céu da pátria russa.

Perseguiram os dois com perguntas:

- O que comem? Quem são seus pais? Gostam de dançar? Que livros lêem?

Respondendo esta última pergunta, um dos jovens artilheiros respondeu que liam versos e que entre seus poetas favoritos estavam o clássico russo Pushkin e o chileno Neruda. Senti-me infinitamente contente quando soube. O projétil que subiu tão alto e fez cair o orgulho tão baixo levava de alguma forma um átomo de minha ardente poesia.

 

                    A Poesia

Quanta obra de arte... Já não cabem no mundo... É preciso pendurá-las fora das casas... Quanto livro... Quanto livrinho... Quem é capaz de os ler?... Quem é capaz de os ler?... Se fossem comestíveis... E se numa onda de grande apetite fizéssemos deles salada, se os picássemos e os enfileirássemos... Mas já não se pode mais... Já nos têm pelo cabresto... O mundo se afoga nessa maré... Reverdy me dizia: “Avisei o correio para que não mandasse mais livros. Não podia abri-los. Não tinha lugar. Trepavam pelos muros, temi uma catástrofe, despencariam sobre minha cabeça...” Todos conhecem Eliot. Antes de ser pintor, de dirigir teatro, de escrever luminosas críticas, lia meus versos... Eu me sentia lisonjeado... Ninguém os com preendia melhor... Até que um dia começou a me ler os seus e eu, egoisticamente, corri protestando: “Não os leia, não os leia”... Me tranquei no banheiro mas Eliot, através da porta, continuava lendo. Senti-me muito triste... O poeta Frazer, da Escócia, estava presente e me repreendeu: “Por que tratas Eliot assim?”... Respondi: “Não quero perder meu leitor. Eu o cultivei. Ele conhece até as rugas de minha poesia... Tem tanto talento... Pode fazer quadros... Pode escrever ensaios... Mas quero guardar este leitor, conservá-lo, regá-lo como planta exótica... Tu me compreendes, Frazer”... Porque a verdade, se isto continua, os poetas publicarão somente para outros poetas... Cada um tirará seu livrinho e o meterá no bolso do outro... seu poema... e o deixará no prato do outro... Quevedo o deixou um dia sob o guardanapo de um rei... Isso sim valia a pena... Ou, em pleno sol, a poesia numa praça... Ou que os livros se desgastem, se despedacem nos dedos da multidão humana... Mas a publicação de poeta para poeta não me tenta, não me provoca, não me incita senão a me emboscar na natureza diante de um rochedo ou de uma onda, longe dos editoriais, do papel impresso... A poesia perdeu seu vínculo com o distante leitor... É preciso recobrá-lo. É preciso caminhar na escuridão e se encontrar com o coração do homem, com os olhos da mulher, com os desconhecidos das ruas, dos que a certa hora crepuscular ou em plena noite estrelada precisam nem que seja de um único verso... Esse encontro com o imprevisto vale pelo tanto que a gente andou, por tudo o que a gente leu e aprendeu... É preciso perder-se entre os que não conhecemos para que subitamente recolham o que é nosso da rua, da areia, das folhas caídas mil anos no mesmo bosque.., e tomem ternamente esse objeto que nós fizemos... Somente então seremos verdadeiramente poetas... Nesse objeto viverá a poesia.

 

                   Vivendo com o idioma

Nasci em 1904. Em 1921 foi publicado um folheto com um de meus poemas. No ano de 1923 foi editado meu primeiro livro, Crepusculario. Estou escrevendo estas rememorações em 1973. Passaram-se já 50 anos desde o momento emocionante em que um poeta sente os primeiros vagidos da criatura impressa, viva, agitada e desejosa de chamar a atenção como qualquer outro recém-nascido.

Não se pode viver toda uma vida com um idioma, vendo-o em sua maior dimensão, explorando-o, alisando-lhe o pêlo e a barriga sem que esta intimidade faça parte do organismo. Assim aconteceu comigo em relação à língua espanhola. A língua falada tem outras dimensões; a língua escrita adquire uma dimensão imprevista. O uso do idioma como veste ou como a pele no corpo, com suas mangas, suas emendas, suas transpirações e suas manchas de sangue e suor, revelam o escritor. Isto é o estilo. Encontrei minha época transtornada pelas revoluções da cultura francesa. Sempre me atraíram mas de certa maneira não me assentavam como traje. Huidobro, poeta chileno, tomou a seu cargo as modas francesas que ele adaptou à sua maneira de existir e de se expressar de forma admirável. Às vezes me pareceu que superava seus modelos. Alguma coisa assim aconteceu, em escala maior, com a irrupção de Rubén Darío na poesia hispânica. Mas Rubén Darío foi um grande elefante sonoro que rompeu todos os cristais de uma época do idioma espanhol para que entrasse em seu circuito o ar do mundo. E entrou.

Entre americanos e espanhóis, o idioma nos separa algumas vezes. Mas sobretudo é a ideologia do idioma a que se parte em dois. A beleza congelada de Góngora não convém a nossas dimensões e não há poesia espanhola, nem a mais recente, sem o travo, sem a opulência gongórica. As camadas estratificadas da América são de pedra poeirenta, de lava triturada, de argila com sangue. Não sabemos lapidar o cristal. Nossos preciosistas soam vazios. Uma só gota de vinho de Martín Fierro ou do mel turvo de Gabriela Mistral os põe em seu devido lugar: bem arrumadinhos no salão como jarrões de flores de outra parte.

O idioma espanhol tornou-se de ouro depois de Cervantes, adquiriu uma elegância cortesã, perdeu a força selvagem que trazia de Gonzalo de Berceo, do Arcipreste, perdeu a paixão genital que ardia em Quevedo. O mesmo aconteceu na Inglaterra, na França, na Itália. O desregramento de Chaucer e de Rabelais foi castrado. A petrarquização preciosista fez brilhar as esmeraldas e os diamantes mas a fonte da grandeza começou a se extinguir.

Este manancial anterior tinha que ver com o homem inteiro, com sua grandeza, sua riqueza e seu transbordamento.

Pelo menos esse foi meu problema ainda que eu não colocasse nesses termos. Se minha poesia tem algum significado, é essa tendência espacial, ilimitada, que não se satisfaz em um lugar só. Minha fronteira tinha que ultrapassar a mim mesmo, não me tinha confinado no enquadramento de uma cultura distante. Eu tinha que ser eu mesmo, esforçando-me por me estender como as próprias terras, onde me tocou nascer. Outro poeta deste mesmo continente me ajudou neste caminho. Refiro-me a Walt Whitman, meu companheiro de Manhattan.

 

                   Os críticos devem sofrer

Os contos de Maldoror são no fundo um grande folhetim. Não nos esqueçamos que Isidor Ducasse tomou seu pseudônimo de uma novela do folhetinísta Eugene Sue, Lautréamont, escrita em Chatenay em 1837. Mas Lautréamont, segundo se sabe, foi muito mais longe que Lautréamont. Desceu muito mais, quis ser infernal. E muito mais alto, um arcanjo maldito. Maldoror, na grandeza da desgraça, celebra o “Matrimônio do Céu e do Inferno”. A fúria, os ditirambos e a agonia formam as ondas envolventes da retórica ducassiana. Maldoror: Maldolor. (1)

 

Lautréamont projetou uma nova etapa, renegou seu rosto sombrio e escreveu o prólogo de uma nova poesia otimista que não conseguiu criar. A morte em Paris levou o jovem uruguaio. Mas essa prometida mudança de sua poesia, este movimento em direção à bondade e ao que é saudável, que não conseguiu cumprir, suscitou muitas críticas. Celebram-no em seu sofrimento e condenam sua transição para a alegria. O poeta deve se torturar e sofrer, deve viver desesperado, deve continuar escrevendo a canção desesperada. Esta tem sido a opinião de uma camada social, de uma classe. Esta fórmula lapidar foi obedecida por muitos que se dobraram ao sofrimento imposto por leis não escritas, porém não menos lapidares. Estes decretos invisíveis condenavam o poeta ao tugúrio, aos sapatos rotos, ao hospital e à morgue. Todo o mundo ficava assim contente: a festa continuava com muito poucas lágrimas.

As coisas mudaram porque o mundo mudou. E nós os poetas, inopinadamente, encabeçamos a rebelião da alegria. O escritor desventurado, o escritor crucificado, faz parte do ritual da felicidade no crepúsculo do capitalismo. A tendência do gosto foi habilmente canalizada para exaltar a desgraça como fermento da grande criação. A má conduta e o padecimento foram considerados fórmulas na elaboração poética. Hölderlin, lunático e desgraçado, Rimbaud, errante e amargo, Gérard de Nerval, enforcando-se num poste de um beco miserável, deram ao fim do século não só o paroxismo da beleza mas também o caminho dos tormentos. O dogma era que este caminho de espinhos devia ser a condição inerente da produção espiritual.

Dylan Thomas foi o último do martirológio dirigido.

O estranho é que estas idéias da antiga e severa burguesia continuam vigentes em alguns espíritos, espíritos que não captam a pulsação do mundo no nariz, que é onde se deve captá-lo, porque o nariz do mundo fareja o futuro.

Existem críticos cucurbitáceos, cujos guias e marcas buscam o último grito da moda com terror de perdê-lo. Mas suas raízes continuam mergulhadas no passado.

 

Nós, os poetas, temos o direito de ser felizes, uma vez que estamos ferreamente unidos a nossos povos e à luta pela felicidade.

“Pablo é um dos poucos homens felizes que conheci”, disse Ilya Ehrenburg em um de seus trabalhos. Esse Pablo sou eu e Ehrenburg não se engana.

Por isso não estranho que esclarecidos ensaístas semanais se preocupem com meu bem-estar material, ainda que a vida particular não devesse ser objeto da crítica. Compreendo que a provável felicidade ofende a muitos. Mas o caso é que não sou feliz por dentro. Tenho uma consciência tranqüila e uma inteligência intranqüila.

Aos críticos que parecem reprovar nos poetas um nível melhor de vida, eu os convidaria a se mostrarem orgulhosos de que os livros de poesia são impressos, são vendidos e cumprem sua missão de preocupar a crítica, a celebrarem que os direitos autorais sejam pagos e que alguns autores pelo menos possam viver de seu santo trabalho. Este orgulho o crítico deve proclamar e não cuspir no prato em que come.

Por isso quando li há pouco os parágrafos dedicados a mim por um crítico jovem, brilhante e eclesiástico, não por ser brilhante me pareceu menos equivocado.

Segundo ele, minha poesia se ressentia de ser feliz. Receitava-me a dor. De acordo com esta teoria, uma apendicite produziria excelente prosa e uma peritonite, possivelmente cantos sublimes.

Continuo trabalhando com os materiais que tenho e com o que sou. Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar.

 

1 - Jogo de palavras com mal e dor. (N. da T.)

 

                   Versos curtos e longos

Como poeta ativo combati meu próprio ensimesmamento. Por isso o debate entre o real e o subjetivo foi determinado dentro do meu próprio ser. Minhas experiências podem ajudar, sem pretensões de aconselhar ninguém. Vejamos à primeira vista os resultados.

É natural que minha poesia esteja submetida ao juízo, tanto da crítica elevada como exposta à paixão do libelo. Isto faz parte das regras do jogo. Sobre este ponto da discussão não tenho o que dizer mas tenho argumento. Para a crítica especializada, meu argumento são meus livros, minha poesia inteira. Para o libelo incompatível tenho também o direito de argumentar com a minha própria e constante criação.

Se o que digo parece vaidoso vocês teriam razão. Em meu caso, trata-se da vaidade do artesão que exercitou um ofício por longos anos com amor indelével.

Mas de uma coisa estou satisfeito: de uma forma ou de outra fiz respeitar, pelo menos em minha pátria, o ofício do poeta, a profissão da poesia.

No tempo em que comecei a escrever, o poeta tinha duas características. Uns eram poetas-grandes-senhores, que se faziam respeitar por seu dinheiro que os ajudava em sua legítima ou ilegítima importância; a outra família de poetas era a dos militantes errantes da poesia, gigantes de bar, loucos fascinantes, sonâmbulos atormentados. Fica também, antes que eu me esqueça, a situação dos escritores acorrentados - como os galés aos seus grilhões - ao banco dos réus da administração pública. Seus sonhos foram quase sempre afogados por montanhas de papel timbrado e terríveis temores à autoridade e ao ridículo.

Lancei-me à vida mais nu do que Adão, mas disposto a manter a integridade de minha poesia. Esta atitude irredutível não valeu somente para mim, mas também para que os bobalhões deixassem de rir. Mas depois os ditos bobalhões, se tiveram coração e consciência, renderam-se como bons seres humanos diante do essencial que meus versos despertavam. E, se eram malignos, foram ficando com medo.

E assim a Poesia, com maiúscula, foi respeitada. Não só a poesia como também os poetas foram respeitados. Toda a poesia e todos os poetas.

Deste serviço à cidadania estou consciente e este galardão não deixo que me seja arrebatado por ninguém porque gosto de carregá-lo como uma condecoração. Tudo o mais pode ser discutido mas isto que estou dizendo é a verdade nua e crua.

Os inimigos obstinados do poeta esgrimirão com muitas argumentações que já não contam. A mim me chamaram de morto de fome na minha juventude. Agora me hostilizam, fazendo crer às pessoas que sou um potentado, dono de uma fabulosa fortuna que, embora não tenha, gostaria de ter, entre outras coisas, para aborrecê-los mais.

Outros medem as linhas de meus versos provando que os divido em pequenos fragmentos ou os alongo demais. Não tem importância alguma. Quem institui os versos mais curtos ou mais longos, mais delicados ou mais largos, mais amarelos ou mais vermelhos? O poeta que os escreve é quem o determina. Determina-o com a respiração e com o sangue, com sua sabedoria e com sua ignorância porque tudo isto entra no pão da poesia.

O poeta que não seja realista está morto. Mas o poeta que seja somente realista está morto também. O poeta que seja somente irracional será entendido só por si mesmo e por sua amada - e isto é bastante triste. O poeta que seja só um racionalista será entendido até pelos asnos - e isto é também sumamente triste. Para tais equações não existem cifras no quadro-negro, não há ingredientes decretados por Deus nem pelo Diabo, mas sim que estes dois personagens importantíssimos mantêm uma luta dentro da poesia e nesta batalha vence ora um e ora outro, mas a poesia não pode ficar derrotada.

É claro que está havendo um certo abuso no ofício de poeta. Aparecem tantos poetas novos e incipientes poetisas que logo parecemos todos poetas, desaparecendo os leitores. Teremos que ir buscar os leitores em expedições que atravessarão os areais em camelos ou circulando pelo céu em astronaves.

A inclinação profunda do homem é a poesia e dela saiu a liturgia, os salmos e também o conteúdo das religiões. O poeta ousou contra os fenômenos da natureza e nas primeiras eras se intitulou sacerdote para preservar sua vocação. Daí que na época moderna o poeta, para defender sua poesia, tome a investidura que as ruas e as massas lhe conferem. O poeta civil de hoje continua sendo o poeta do mais antigo sacerdócio. Antes compactuou com as trevas e agora deve interpretar a luz.

 

                   A originalidade

Não creio na originalidade, que é mais um fetiche criado em nossa época de demolição vertiginosa. Acredito na personalidade através de qualquer linguagem, de qualquer forma, de qualquer sentido da criação artística. Mas a originalidade delirante é uma invenção moderna e uma fraude eleitoral. Existem os que querem ser eleitos Primeiro Poeta de seu país, de sua língua ou do mundo. Correm então em busca de eleitores, insultam os que acreditam com possibIlidades de lhes disputar o cetro, e desse modo a poesia se transforma em uma mascarada.

No entanto é essencial conservar a diretriz interior, manter o controle do cresci-mento que a natureza, a cultura e a vida social ocasionam para desenvolver as excelências do poeta.

Antigamente os mais nobres e rigorosos poetas, como Quevedo por exemplo, escreveram poemas com esta advertência: “Imitação de Horácio”, “Imitação de Ovídio”, “Imitação de Lucrécio”.

De minha parte conservo meu tom próprio, que foi se fortalecendo por sua própria natureza, como crescem todas as coisas vivas. É indubitável que as emoções fazem parte principal de meus primeiros livros - e ai do poeta que não responde com seu canto aos ternos ou impetuosos chamados do coração. No entanto, depois de quarenta anos de experiência, creio que a obra poética pode chegar a um domínio mais substancial das emoções. Creio na espontaneidade dirigida. Para isto são necessárias reservas que devem estar sempre à disposição do poeta, digamos em seu bolso, para qualquer emergência. Em primeiro lugar, a reserva de observações formais, virtuais de palavras, sons e figuras, dessas que passam perto da gente como abelhas. É preciso caçá-las de imediato e guardá-las no bolso interno. Sou muito preguiçoso neste sentido mas sei que estou dando um bom conselho. Maiakovski tinha um caderninho e corria incessantemente para ele. Existe também a reserva de emoções. Como são guardadas? Tendo consciência delas quando surgem. Logo, diante do papel, recordaremos essa nossa consciência mais vivamente do que a emoção em si.

Em boa parte de minha obra quis provar que o poeta pode escrever sobre tudo o que lhe for indicado, sobre aquilo que seja necessário para uma coletividade humana. Quase todas as grandes obras da antiguidade foram feitas sobre a base de estritas reivindicações. As Geórgicas são a propaganda dos cultivos no campo romano. Um poeta pode escrever para uma universidade ou para um sindicato, para as associações e para os ministérios. Nunca se perdeu a liberdade com isso. A inspiração mágica e a comunicação do poeta com Deus são invencionices interesseiras. Nos momentos de maior transe criador, o produto pode ser parcialmente alheio, influído por leituras e pressões exteriores.

Inopinadamente interrompo estas considerações um tanto teóricas e me ponho a rememorar a vida literária de minha mocidade. Pintores e escritores se agitavam surdamente. Havia um lirismo outonal na pintura e na poesia. Cada um tratava de ser mais anárquico, mais desagregante, mais desordenado. A vida social chilena se alterava profundamente. Alessandri pronunciava discursos subversivos. Nos pampas salitreiros se organizavam os operários que criariam o movimento popular mais importante do continente. Eram os sacrossantos dias de luta. Carlos Vicuna, Juan Gandulfo. Aderi logo à ideologia anarco-síndicalista estudantil. Meu livro favorito era o Sacha Yegulev, de Andreiev. Outros liam as novelas pornográficas de Arzivachev e lhe atribuíam conseqüências ideológicas, exatamente como acontece hoje com a pornografia existencialista. Os intelectuais se refugiavam nos bares. O velho vinho fazia brilhar a miséria que reluzia como ouro até a manhã seguinte. Juan Egaña, poeta extraordinariamente dotado, debilitava-se até morrer. Contava-se que ao herdar uma fortuna, deixou todo o dinheiro sobre uma mesa, numa casa abandonada. Os companheiros de boêmia, que dormiam de dia, saíam de noite para buscar vinho em barris. No entanto, o raio lunar da poesia de Juan Egaña é um estremecimento desconhecido de nossa “selva lírica”. Este era o título romântico da grande antologia modernista de Molina Núñes e O. Segura Castro. É um livro completo, cheio de grandeza e de generosidade. É a Suma Poética de uma época confusa, assinalada por imensos vazios e por um esplendor puríssimo. A personalidade que mais me impressionou foi a do ditador da jovem literatura. Ninguém lembra mais dele. Chamava-se Alirio Oyarzún, um desnutrido baudelairiano, um decadente cheio de qualidades, um Barba-Jacob do Chile, atormentado, cadavérico, bonito e lunático. Falava com voz cavernosa do alto da sua alta estatura. E inventou essa maneira hieroglífica de propor os problemas estéticos, tão peculiar em certa parte de nosso mundo literário. Elevava a voz e sua fronte parecia uma cúpula amarela do templo da inteligência. Dizia por exemplo: “o circular do círculo”, “o dionisíaco de Dionísios”, “o obscuro dos obscuros”. Mas Alirio Oyarzún não era nenhum tolo. Resumia em si o paradisíaco e o infernal de uma cultura. Era um cosmopolita que por teorizar foi matando sua essência. Dizem que para ganhar uma aposta escreveu seu único poema, e não compreendo por que esse poema não figura em todas as antologias da poesia chilena.

 

                   Garrafas e carrancas

Aproxima-se o Natal. Cada Natal que passa nos aproxima do ano 2000. Para essa alegria futura, para essa paz de amanhã, para essa justiça universal, para esses sinos do ano 2000, nós os poetas desse tempo de agora temos lutado e cantado.

Lá pelos anos 30, Sócrates Aguirre, aquele homem sutil e excelente que foi meu chefe no consulado de Buenos Aires, pediu-me num 24 de dezembro que eu me fantasiasse de São Nicolau ou Papai Noel, em sua casa. Fiz muitas coisas mal em minha vida mas nada ficou tão mal quanto esse Papai Noel. Caíam os algodões do bigode e me enganei demais na distribuição dos brinquedos. E como disfarçar minha voz que a natureza do Sul do Chile tornou fanhosa, nasalada e inconfundível, desde a minha mais tenra idade? Recorri a um truque: me dirigi às crianças em inglês mas as crianças cravaram em mim vários pares de olhos negros e azuis e mostravam mais desconfiança da que convém a uma infância bem educada.

Quem diria que entre aquelas crianças estava a que seria uma de minhas amigas prediletas, escritora notável e autora de uma de minhas melhores biografias? Estou falando de Margarida Aguirre.

 

Em minha casa fui reunindo brinquedos pequenos e grandes, sem os quais não podia viver. A criança que não brinca não é criança. Mas o homem que não brinca perdeu para sempre a criança que vivia nele e que lhe fará muita falta. Edifiquei minha casa também como um brinquedo e brinco nela da manhã à noite.

São meus próprios brinquedos. Juntei-os através de toda a minha vida com o propósito de me entreter sozinho. Vou descrevê-los para as crianças pequenas e para as de todas as idades.

Tenho um barco veleiro dentro de uma garrafa. Para dizer a verdade, tenho mais de um. É uma verdadeira frota, com seus nomes escritos, seus mastros, suas velas, suas proas e suas âncoras. Alguns vêm de longe, de outros mares minúsculos. Um dos mais belos me foi mandado da Espanha em pagamento de direitos autorais de um livro de minhas Odes. No alto, no mastro maior, está nossa bandeira com sua solitária e pequena estrela. Mas quase todos os outros são feitos pelo senhor Carlos Hollander. O senhor Hollander é um velho marinheiro que reproduziu para mim muitos daqueles barcos famosos e majestosos que vinham de Hamburgo, de Salem ou da costa bretã para carregar salitre ou para caçar baleias pelos mares do sul.

Ao descer o longo caminho do Chile para encontrar, em Coronel, o velho mari-nheiro, entre o cheiro de carvão e chuva da cidade sulista, entro na verdade no menor estaleiro do mundo. Na salinha, na sala de jantar, na cozinha, no jardim, acumulavam-se e se alinhavam os elementos que serão colocados nas claras garrafas, das quais o pisco (1) se foi. Dom Carlos toca com seu sopro mágico proas e velas, traquetes e gáveas. Até a menor fumaça do porto passa por suas mãos e se converte numa criação, em um novo barco engarrafado, completo e radiante, pronto para o mar quimérico.

 

Em minha coleção sobressaem, entre os outros barcos comprados em Amberes ou Marselha, os que saíram das modestas mãos do navegante de Coronel. Porque não só ele lhes deu vida como também os ilustrou com a sua sabedoria, colando-lhes uma etiqueta que conta o nome e o número das proezas do modelo, as viagens que manteve contra vento e maré, as mercadorias que distribuiu pelo Pacífico com seus velames que já não veremos mais.

Tenho barcos engarrafados tão famosos como a poderosa Potosí e a magna Prússia, de Hamburgo, que naufragou no Canal da Mancha em 1910. Mestre Hollander me deleitou também fazendo para mim duas versões da Maria Celeste que, desde 1882, se converteu em estrela, em mistério dos mistérios.

Não estou disposto a revelar o segredo navegatório que vive em sua própria transparência. Trata-se de como entraram os minúsculos barcos em suas garrafas ternas. Eu, enganador profissional, com o objetivo de mistificar, descrevi minuciosa-mente em uma ode o enorme e mínimo trabalho dos misteriosos construtores e contei como entravam e saíam das garrafas marinheiras. Mas o segredo continua.

Meus brinquedos maiores são as carrancas de proa. Como muitas coisas minhas, estas carrancas saíram retratadas nos jornais, nas revistas, e têm sido discutidas com benevolência ou com rancor. Os que as julgam com benevolência riem compreensiva-mente e dizem:

- Que sujeito mais louco! O que lhe deu para colecionar!

 

Os malignos vêem as coisas de outro modo. Um deles, amargado pelas minhas coleções e pela bandeira azul com um peixe branco que eu icei em minha casa de Isla Negra, disse:

- Eu não ponho bandeira própria nem tenho carrancas.

O coitado chorava como um garoto que inveja o pião dos outros garotos. Enquanto isso, minhas carrancas marinhas sorriam, lisonjeadas pela inveja que despertavam.

Na verdade deveria se dizer carrancas de proa. São figuras com busto, estátuas marinhas, efígies do oceano perdido. O homem, ao construir suas naves, quis elevar suas proas com um sentido superior. Colocou antigamente nos navios figuras de aves, pássaros totémicos, animais míticos talhados em madeira. Depois, no século XIX, os barcos baleeiros esculpiram figuras de caráter simbólico: deusas seminuas ou matronas republicanas de gorro frígio.

Tenho carrancas e mais carrancas. A menor e mais deliciosa, que muitas vezes Salvador Allende tentou me arrebatar, chama-se Maria Celeste. Pertenceu a um navio francês, de tamanho menor, e provavelmente não navegou senão nas águas do Sena. De cor escura, esculpida em madeira de azinheira, com tantos anos e viagens virou morena para sempre. É uma mulher pequena que parece voar com os sinais do vento talhando suas belas vestes do Segundo Império. Acima das covinhas das faces, os olhos de louça olham o horizonte. E, ainda que pareça estranho, estes olhos choram durante o inverno, todos os anos. Não há explicação para isso. A madeira tostada terá talvez alguma impregnação que recolhe a umidade. Mas o certo é que esses olhos franceses choram no inverno e que eu vejo todos os anos as preciosas lágrimas descerem pelo pequeno rosto de Maria Celeste.

Talvez seja religioso o sentimento despertado no ser humano diante das imagens, sejam cristãs ou pagãs. Outra de minhas carrancas de proa esteve alguns anos onde lhe convinha: diante do mar, em sua posição oblíqua, tal como navegava no navio. Mas Matilde e eu descobrimos certa tarde que, saltando a cerca como costumam fazer os jornalistas que querem me entrevistar, algumas senhoras beatas de Isla Negra tinham se ajoelhado no jardim diante da carranca de proa iluminada por não poucas velas que tinham acendido para ela. Possivelmente havia nascido uma nova religião. Mas ainda que a carranca alta e solene parecesse muito com Gabriela Mistral, tivemos que desiludir as crentes para que não continuassem adorando com tanta inocência uma imagem de mulher marinha que tinha viajado pelos mares mais pecaminosos de nosso pecaminoso planeta.

Desde então a tirei do jardim, estando agora mais perto de mim, junto da lareira.

 

1 - Pisco: (Chile e Peru) aguardente fabricada em Pisco, localidade do Peru. (N. da T.)

 

                   Livros e caracóis

Um bibliófilo pobre tem infinitas ocasiões de sofrer. Os livros não lhe fogem das mãos mas, em compensação, passam pelo ar, a vôo de pássaro, a vôo de preços.

No entanto, entre muitas explorações, surge a pérola.

Lembro-me da surpresa do livreiro Garcia Rico, em Madri, em 1934, quando propus comprar dele uma antiga edição de Góngora que custava apenas 100 pesetas, em mensalidades de 20. Era bem pouco dinheiro mas eu não o tinha. Paguei pontualmente ao longo daquele semestre. Era a edição de Foppens, editor flamengo do século XVII que imprimiu em incomparáveis e magníficos caracteres as obras dos mestres espanhóis do Século de Ouro.

Não gosto de ler Quevedo senão naquelas edições onde os sonetos se desdobram em linha de combate com férreos navios. Depois me internei na selva das livrarias, pelos desvãos suburbanos das de segunda mão ou pelas naves catedralícias das grandiosas livrarias da França e da Inglaterra. Saía com as mãos empoeiradas mas de vez em quando obtive algum tesouro - ou pelo menos a alegria de pensar que assim fora.

Prêmios literários marcantes e sonantes me ajudaram a adquirir certos exemplares de preços extravagantes. Minha biblioteca passou a ser considerável. Os antigos livros de poesia relampejavam nela e minha inclinação para a história natural encheu-a de grandiosos livros de botânica com iluminuras coloridas; e livros de pássaros, de insetos ou de peixes. Encontrei pelo mundo milagroso livros de viagens, Quixotes incríveis, impressos por Ibarra, infólios de Dante com os maravilhosos tipos bodôni. Até alguns Molières em edições limitadas, “Ad usum delphini”, para o filho do rei da França.

Mas em realidade o melhor que colecionei em minha vida foram meus caracóis. Deram-me o prazer de sua prodigiosa estrutura: a pureza lunar de uma porcelana misteriosa agregada à multiplicidade das formas, táteis, góticas, funcionais.

Milhares de pequenas portas submarinas se abriram para meu conhecimento desde aquele dia em que D. Carlos de la Torre, ilustre malacólogo de Cuba, me presenteou com os melhores exemplares de sua coleção. Desde então e ao acaso de minhas viagens, percorri os sete mares espreitando-os e buscando-os. Mas devo reconhecer que foi o mar de Paris que, entre uma onda e outra, descobriu para mim mais caracóis. Paris havia transmigrado todo o nácar dos oceanos para suas lojas naturalistas, para seus “mercados de pulgas”. Mais fácil que meter as mãos nas rochas de Veracruz ou Baja California foi encontrar sob o sargaço urbano, entre lâmpadas rotas e sapatos velhos, a delicada silhueta da Oliva Textil. Ou surpreender a lança de quartzo que se alonga, como um verso de água, na Rosellaria Fusus. Ninguém me tirará o deslumbramento de ter tirado do mar o Espondylus Roseo, grande ostra tacheada de espinhos de coral. E mais adiante entreabrir o Espondylus Blanco, de espinhos nevados como estalagmites de uma gruta gongórica.

Alguns destes troféus poderiam ser históricos. Lembro que no Museu de Pequim abriram a caixa mais sagrada dos moluscos do mar da China para me fazer presente do segundo dos dois únicos exemplares da Thatcheria Mirabilis. E assim pude arrebanhar o tesouro dessa inacreditável obra com que o oceano presenteou a China no estilo de templos e pagodes que perduram naquelas latitudes.

 

Demorei trinta anos para juntar tantos livros. Minhas prateleiras guardavam incunábulos e outros volumes que me comoviam; Quevedo, Cervantes e Góngora, em edições originais, assim como Laforgue, Rimbaud e Lautréamont. Estas páginas me pareciam conservar o tato dos poetas amados. Tinha manuscritos de Rimbaud. Paul Éluard me deu de presente em Paris, por meu aniversário, as duas cartas de Isabelle Rimbaud para sua mãe, escritas no hospital de Marselha onde o nômade teve uma perna amputada. Eram tesouros ambicionados pela Biblioteca Nacional de Paris e pelos vorazes bibliófilos de Chicago.

Tanto corria eu pelo mundo que minha biblioteca cresceu desmedidamente, ultrapassando as condições de uma biblioteca particular. Certo dia presenteei a grande coleção de caracóis que levei vinte anos para juntar e aqueles cinco mil volumes escolhidos por mim com o maior amor em todos os países. Presenteei-os à universidade de minha pátria. Foram recebidos como dádiva cintilante pelas bonitas palavras de um reitor.

Qualquer homem esclarecido pensará no regozijo com que receberiam no Chile essa doação minha. Mas existem também homens não esclarecidos. Um crítico oficial escreveu artigos furiosos. Protestava com veemência contra meu gesto. Quando se poderá interceptar o comunismo internacional?, proclamava. Outro senhor fez no parlamento um discurso inflamado contra a universidade por ter aceito meus maravilhosos cunábulos e incunábulos, ameaçando cortar os subsídios que ela recebia do Instituto Nacional. O articulista e o parlamentar lançaram uma onda de gelo sobre o pequeno mundo chileno. O reitor da universidade ia e vinha pelos corredores do congresso. desarvorado.

O certo é que se passaram vinte anos do fato e ninguém tornou a ver nem meus livros nem meus caracóis. É como se houvessem retornado às livrarias e ao oceano.

 

                     Cristais partidos

Faz três dias que voltei a entrar, depois de uma longa ausência, em minha casa de Valparaíso. Grandes gretas feriam as paredes. Os cristais estilhaçados formavam um doloroso tapete sobre o chão dos aposentos. Os relógios, também no solo, marcavam teimosamente a hora do terremoto. Quantas coisas belas Matilde varria agora com uma vassoura. Quantos objetos raros que o abalo da terra transformou em lixo.

Temos que limpar, pôr em ordem e começar tudo de novo. Custa encontrar o papel em meio à desordem e depois é difícil ordenar os pensamentos.

Meus últimos trabalhos foram uma tradução de Romeu e Julieta e um longo poema de amor em ritmo antiquado, poema que ficou inconcluso.

Vamos, poema de amor, levanta-te dentre os vidros partidos que chegou a hora de cantar.

Ajuda-me, poema de amor, a restabelecer a integridade, a cantar sobre a dor.

É verdade que o mundo não se limpa de guerras, não se lava de sangue, não se corrige do ódio. É verdade.

Mas é igualmente verdade que nos aproximamos de uma evidência: os violentos se refletem no espelho do mundo e seu rosto não é bonito nem para eles mesmos.

E continuo acreditando na possibilidade do amor. Tenho a certeza do entendimento entre os seres humanos, logrado sobre o sofrimento, sobre o sangue e sobre os cristais quebrados.

 

                   Matilde Urrutia, minha mulher

Minha mulher é da província como eu. Nasceu numa cidade do Sul, Chillán, famosa de maneira feliz por sua cerâmica camponesa e de maneira desgraçada pelos seus terríveis terremotos. Ao falar-lhe, disse tudo em meus Cem Sonetos de Amor.

Talvez estes versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos reuniu.

Ainda que isto não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos nosso tempo comum em longas temporadas na solitária costa do Chile. Não no verão porque o litoral, ressequido pelo sol, mostra-se então amarelo e desértico; mas no inverno sim, quando uma estranha floração se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo: de azul e purpúreo. Algumas vezes subimos do selvagem e solitário oceano para a trepidante cidade de Santiago, na qual juntos padecemos com a complicada existência dos demais.

Matilde canta com voz poderosa as minhas canções.

Dedico-lhe tudo que escrevo e tudo que tenho. Não é muito mas ela está contente.

Diviso-a agora como afunda os sapatos minúsculos no barro do jardim e depois também afunda suas mãos minúsculas na profundidade da planta.         Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores, todos os frutos fragrantes da felicidade.

 

                   Um inventor de estrelas

Um homem dormia em seu quarto num hotel de Paris. Como era um noctívago convicto, não se surpreendam se era já meio-dia e o homem continuava dormindo.

Teve que despertar. A parede da esquerda caiu subitamente demolida. Depois foi derrubada a da frente. Não se tratava de um bombardeio. Pelas brechas recém-abertas entravam operários bigodudos, de picareta na mão, que repreendiam o dorminhoco:

- Eh, lève-toi, bourgeois! Bebe conosco!

Abriu-se o champanha. Entrou o prefeito, com faixa tricolor ao peito. Soou uma fanfarra com os acordes da Marselhesa. Que motivo originava fatos tão estranhos? Acontecia que justamente no subsolo do quarto de dormir daquele sonhador tinha se produzido o encontro dos dois trechos do metrô de Paris, em construção nessa época.

Desde o momento em que aquele homem me contou esta história, decidi ser seu amigo, ou melhor, seu adepto ou seu discípulo. Como lhe aconteciam coisas tão estranhas, e eu não queria perder nenhuma delas, segui-o através de vários países. Federico García Lorca adotou uma posição semelhante à minha, seduzido pela fantasia daquele fenômeno.

Federico e eu estávamos sentados na cervejaria de Correos, junto à Cibeles madrilena, quando o dorminhoco de Paris irrompeu na reunião. Ainda que vistoso e mapa-múndico de aparência, chegou desarvorado. Tinha lhe sucedido mais uma vez o inenarrável. Estava em seu modestíssimo esconderijo de Madri e quis pôr em ordem suas anotações musicais (porque esqueci de dizer que nosso protagonista era um compositor mágico). E o que aconteceu?

- Um carro parou à porta de meu hotel. Ouvi como subiam as escadas, como entravam os passos no quarto vizinho ao meu. Depois o novo inquilino começou a roncar. A princípio era um sussurro. Depois estremeceu todo o ambiente. Os armários e as paredes se moviam sob o impulso rítmico do grande roncador.

Tratava-se sem dúvida de um animal selvagem. Quando os roncos se desataram em uma imensa catarata, nosso amigo não teve mais nenhuma dúvida: era o Javali Cornúpeto. Em outros países seu estrondo tinha estremecido basílicas, obstruído estradas, enfurecido o mar. Que aconteceria com este perigo planetário, com este monstro abominável que ameaçava a paz da Europa?

Cada dia contava novas peripécias espantosas do Javali Cornúpeto a Federico, a mim, a Rafael Alberti, ao escultor Alberto, a Fulgencio Díaz Pastor e a Miguel Hernández. Todos nós o recebíamos sôfregos e o despedíamos com ansiedade.

Até que um dia chegou com seu antigo riso global e nos disse:

- O pavoroso problema foi resolvido. O Graaf Zeppelin alemão aceitou transportar o Javali Cornúpeto, deixando-o cair na selva brasileira. As grandes árvores o nutrirão. Não há perigo de que beba o Amazonas de um só gole. Dali continuará atordoando a terra com seus terríveis roncos.

Federico o ouvia estourando de rir, com os olhos fechados pela emoção. Então nosso amigo contava da vez em que foi colocar um telegrama e o telegrafista o convenceu de que não enviasse nunca telegramas mas sim cartas, porque as pessoas se assustavam muito quando recebiam estas mensagens aladas e até havia quem morresse de enfarte antes de as abrir. Aludia a vez em que assistiu por curiosidade a um leilão de cavalos “puro-sangue” em Londres e levantou a mão para saudar um amigo. Com isto o leiloeiro lhe adjudicou em dez mil libras uma égua em que o Aga Khan tinha dado um lance até nove mil e quinhentas.

- Tive que levar a égua para meu hotel e devolvê-la no dia seguinte - concluía.

Agora o fabulista não pode contar a história do Javali Cornúpeto nem nenhuma outra. Morreu aqui, no Chile. Este chileno orbital, músico transbordante, esbanjador de histórias inigualáveis, chamou-se em vida Acario Cotapos. Coube a mim falar no enterro deste homem ínsepultável. Disse somente: “Hoje entregamos às sombras um ser resplandecente que nos dava uma estrela todo dia.”

 

                   Éluard, O Magnífico

Meu camarada Paul Éluard morreu faz pouco tempo. Era tão íntegro, tão denso, que me custou dor e trabalho acostumar com seu desaparecimento. Era um normando azul e rosa, de aspecto grave e delicado. A guerra de 14, na qual foi vítima de gases duas vezes, deixou-o para sempre de mãos trêmulas. Mas Éluard me deu em todos os momentos a idéia da cor celeste, de uma água profunda, de uma doçura que conhecia a força. Sua poesia tão pura, transparente como as gotas de uma chuva de primavera contra os cristais, fazia com que Paul Éluard parecesse um homem apolítico, um poeta contra a política. Não era assim. Sentia-se fortemente ligado ao povo da França, à sua causa e à sua luta.

Paul Éluard era firme, uma espécie de torre francesa, com essa lucidez apaixo-nada que não é o mesmo que a estupidez apaixonada tao comum.

Pela primeira vez, no México, para onde viajamos juntos, vi-o à beira de um abismo escuro, ele que sempre - com uma sábia perseverança - rejeitou a tristeza.

Estava abatido. Eu tinha convencido e arrastado este francês central para essas terras distantes e ali, no mesmo dia em que enterramos José Clemente Orozco, caí doente com uma perigosa tromboflebite que me manteve quatro meses preso à cama. Paul Éluard sentiu-se solitário, sombriamente solitário, com o desamparo do explorador cego. Não conhecia ninguém, as portas não se abriam para ele. A viuvez o acometeu e se sentia ali sozinho e sem amor. Dizia-me: “Precisamos ver a vida com companhia, participar em todos os fragmentos da vida. É irreal e criminosa a minha solidão.”

Chamei meus amigos e o obrigamos a sair. De má vontade o levaram a percorrer os caminhos do México e em um desses recantos se encontrou com o amor, com seu último amor: Dominique.

 

É muito difícil para mim escrever sobre Paul Éluard. Continuarei vendo-o vivo junto de mim, acesa em seus olhos a elétrica profundidade azul que olhava tão amplamente e de tão longe.

Saía do solo francês em que lauréis e raízes entretecem suas flagrantes heranças. Sua grandeza era feita de água e pedra e para ela subiam antigas trepadeiras, portadoras de flor e fulgor, de ninhos e cantos transparentes.

Transparência - é esta a palavra. Sua poesia era cristal de pedra, agua imobilizada em sua corrente cantante.

Poeta do amor mais alto, fogueira pura do meio-dia, nos dias desastrosos da França deu o coração para sua pátria - e dele saiu o fogo decisivo para as batalhas.

Assim chegou às fileiras do partido comunista. Para Éluard, ser um comunista era confirmar com sua poesia e sua vida os valores da humanidade e do humanismo.

Não se pense que Éluard foi menos político que poeta. Muitas vezes me assom-brava sua clara visão e sua formidável razão dialética. Juntos examinamos muitas coisas, homens e problemas de nosso tempo, e sua lucidez me foi útil para sempre.

Não se perdeu no irracionalismo surrealista porque não foi um imitador mas sim um criador e, como tal, descarregou sobre o cadáver do surrealismo disparos de claridade e inteligência.

Foi meu amigo de todo dia e perco sua ternura que era parte de meu pão. Ninguém me poderá dar agora o que ele levou consigo porque sua fraternidade ativa era um dos mais preciosos luxos de minha vida.

Torre da França, irmão! Inclino-me sobre teus olhos cerrados que continuarão me dando a luz e a grandeza, a simplicidade e a retidão, a bondade e a simplicidade que implantaste sobre a terra.

 

                   Pierre Reverdy

Nunca chamarei de mágica a poesia de Pierre Reverdy. Esta palavra, lugar-comum de uma época, é como um chapéu de farsante de feira: nenhuma pomba selvagem sairá de seu bojo para levantar voo. Reverdy foi um poeta material que designava e tocava inumeráveis coisas da terra e do céu. Designava a evidência e o esplendor do mundo.

Sua poesia em si era como um filão de quartzo, subterrâneo e esplêndido, inesgotável. Às vezes reluzia duramente, com fulgor de mineral negro, arrancado arduamente da terra espessa. Inesperadamente voava numa chispa fosfórica ou se ocultava em seu corredor de mina, longe da claridade mas preso à sua própria verdade. Talvez essa verdade, essa identidade do corpo de sua poesia com a natureza, esta tranqüilidade reverdyana, esta autenticidade inalterável foi-lhe antecipando o esquecimento. Pouco a pouco foi considerado pelos outros como uma evidência, fenômeno natural, casa, rio ou rua conhecida, que não mudaria jamais de aspecto nem de lugar.

Agora que mudou de lugar, agora que um grande silêncio, maior que seu honorável e orgulhoso silêncio, o levou, vemos que já não está aqui, que este fulgor insubstituível se foi, sendo enterrado na terra e no céu.

Digo que seu nome, como anjo ressuscitado, fará cair algum dia as injustas portas do esquecimento.

Sem trombetas, aureolado pelo silêncio sonoro de sua grande e contínua poesia, o veremos no juízo final, no Juízo Essencial, deslumbrando-nos com a simples eternidade de sua obra.

 

                   Jerzy Borezjha

Já não me espera na Polônia Jerzy Borezjha. O destino reservou a este velho emigrado a restituição de sua pátria. Quando entrou como soldado, depois de muitos anos de ausência, Varsóvia era somente um montão de ruínas trituradas. Não havia ruas nem árvores. Ninguém o esperava. Borezjha, fenômeno dinâmico, trabalhou com seu povo. De sua cabeça saíram planos colossais e depois uma imensa iniciativa: a Casa da Palavra Impressa. Construíram os andares um a um, chegaram as rotativas maiores do mundo e ali são impressos agora milhares e milhares de livros e revistas. Borezjha era um infatigável transmutador telúrico dos ideais para os fatos. Na vitalidade da nova Polônia, suas proposições audazes se cumpriram como os castelos nos sonhos.

Eu não o conhecia. Fui conhecê-lo no campo de férias onde me esperava, ao norte da Polônia, na região dos lagos Masurianos.

Quando desci do carro, vi um homem desarrumado e com a barba por fazer, vestido apenas com um short de cor indefinível. Imediatamente gritou para mim, com energia frenética, num espanhol aprendido nos livros: “Pablo, non habrás fatiga. Debes tomar reposo.”

De fato não me deixou tomar reposo nenhum. Sua conversa era vasta, multiforme, inesperada e interjetiva. Contava-me ao mesmo tempo sete planos diferentes de edificações, misturados com a análise de livros que traziam novas interpretações sobre os feitos históricos ou da vida. “O verdadeiro herói era Sancho Pança e não Dom Quixote, Pablo.” Para ele Sancho era a voz do realismo popular, o centro verdadeiro de seu mundo e de seu tempo. “Quando Sancho governa, ele o faz bem porque governa o povo.”

Tirava-me cedo da cama, sempre bradando debes tomar reposo e me levava pelas florestas de abetos e pinheiros para me mostrar um convento de uma seita religiosa que emigrou há um século da Rússia e que conservava todos os seus ritos. As monjas o recebiam como uma bênção. Borezjha era todo tato e respeito para com aquelas religiosas.

Era terno e ativo. Aqueles anos tinham sido terríveis. Certa vez me mostrou o revólver com que tinha sido executado um criminoso de guerra, depois de um julgamento sumário.

Haviam encontrado a caderneta onde o nazista tinha cuidadosamente anotado seus crimes: velhos e crianças enforcados por suas mãos, violações de mocinhas. Surpreenderam-no na mesma aldeia de suas devastações. Desfilaram as testemunhas. Leram para ele a caderneta acusadora. O insolente assassino respondeu somente com uma frase: “Voltaria a fazê-lo se pudesse começar de novo.” Tive aquela caderneta em minhas mãos e aquele revólver que suprimiu a vida de um cruel foragido.

Nos lagos Masurianos, multiplicados até o infinito, pescam-se enguias. De manhã cedinho partíamos para a pesca e depois as víamos, palpitantes e molhadas, como cinturões negros.

Familiarizei-me com aquelas águas, com seus pescadores e com sua paisagem. Da manhã à noite meu amigo me fazia subir e descer, correr e remar, conhecer pessoas e árvores. Tudo ao brado de: “Aqui deves repousar. Não há lugar como este para repousar.”

Quando deixei os lagos Masurianos, deu-me de presente uma enguia defumada, a mais comprida que eu tinha visto.

Este estranho bastão me complicou a vida. Eu queria comê-la porque sou grande apreciador das enguias defumadas e esta vinha diretamente de seu lago natal, sem armazéns nem intermediários, de toda confiança. Mas por esses dias não faltava em meu hotel enguia em todos os cardápios. E eu não tinha ocasião de me servir de minha enguia particular nem de dia nem de noite. Começou a ser uma obsessão para mim.

De noite tirava-a para a sacada para que tomasse a fresca. Às vezes, no meio de conversas interessantes, lembrava que já era meiodia e que minha enguia continuava às intempéries, em pleno sol. Perdia então todo o interesse pelo assunto e corria para deixá-la em um lugar fresco de meu quarto, dentro de um armário por exemplo.

Por fim encontrei um aficcionado a quem a presenteei, não sem remorsos, a mais comprida, a mais tenra e a melhor defumada das enguias que já existiram.

Agora o grande Borezjha, quixote magro e dinâmico, admirador de Sancho como o outro quixote, sensível e sábio, construtor e sonhador, repousa pela primeira vez. Repousa nas trevas que tanto amou. Junto ao seu túmulo continuamos acreditando num mundo ao qual ele deu sua explosão vital, sua energia infatigável.

 

                   Somlyo Georgy

Amo na Hungria o entrelaçamento da vida e da poesia, da história e da poesia, do tempo e do poeta. Em outros lugares se discute este assunto com mais ou menos inocência, com mais ou menos injustiça. Na Hungria todo poeta está comprometido antes de nascer. Attila Joseph, Ady Endre, Gyula Illés são produtos naturais de um grande vaivém entre o dever e a música, entre a pátria e a sombra, entre o amor e a dor.

Somlyo Georgy é um poeta a quem vi crescer com segurança e poder há vinte anos. Poeta de tom apurado e ascendente como um violino, poeta preocupado com sua vida e com as outras vidas, poeta húngaro até à medula, húngaro em sua generosa disposição de compartilhar a realidade e os sonhos de um povo. Poeta do amor mais decidido e da ação mais ardente, guarda em sua universalidade a marca singular da grande poesia de sua pátria.

Um jovem poeta maduro, digno da atenção de nossa época. Uma poesia quieta, transparente e embriagadora como o vinho das areias de ouro.

 

                     Quasimodo

A terra da Itália guarda as vozes de seus antigos poetas em suas puríssimas entranhas. Ao pisar o solo das campinas, ao cruzar os parques onde a água cintila, ao atravessar as areias de seu pequeno oceano azul, pareceu-me ir pisando substâncias diamantinas, cristais secretos, todo o fulgor guardado pelos séculos. A Itália deu forma, som, graça e arrebatamento à poesia da Europa; tirou-a de sua primeira forma informe, de sua rusticidade vestida de sotaina e armadura. A luz da Itália transformou as vestimentas esfarrapadas dos jograis e a ferragem das Canções de Gesta em um rio caudaloso de diamantes cinzelados.

Para nossos olhos de poetas recém-chegados à cultura, vindos de países onde as antologias começam com os poetas do ano 1880, era um assombro ver nas antologias italianas a data de 1230 e tantos, 1310 ou 1450 e - entre estas datas - os tercetos deslumbrantes, o apaixonado atavio, a profundidade e a pedraria dos Alighieri, Cavalcanti, Petrarca, Poliziano.

Estes nomes e estes homens emprestaram luz florentina ao nosso doce e poderoso Garcilaso de la Vega, ao suave Boscán, iluminaram Góngora e tingiram com seu dardo de sombra a melancolia de Quevedo, moldaram os sonetos de William Shakespeare da Inglaterra e inflamaram as essências da França, fazendo florescer as rosas de Ronsard e du Bellay.

Assim pois, nascer em terras de Itália é empresa difícil para um poeta, empresa estrelada que implica assumir um firmamento de heranças resplandecentes.

Conheço há anos Salvatore Quasimodo e posso dizer que sua poesia representa essa consciência que para nós pareceria fantasmagórica por sua carga pesada e ardente. Quasimodo é um europeu que dispõe para a ciência certa do conhecimento e do equilíbrio de todas as armas da inteligência. No entanto, sua posição de italiano central, de protagonista atual de um intermitente mas inesgotável classicismo, não o converteram em um guerreiro preso dentro de sua fortaleza. Quasimodo é um homem universal por excelência, que não divide o mundo belicosamente em Ocidente e Oriente mas sim que considera, como absoluto dever contemporâneo, apagar as fronteiras da cultura e estabelecer como dons indivisiveis a poesia, a verdade, a liberdade, a paz e a alegria.

Em Quasimodo unem-se as cores e os sons de um mundo melancolicamente sereno. Sua tristeza não significa a derrotada insegurança de Leopardi mas sim o recolhimento germinal da terra na tarde, essa unção que adquire a tarde quando os perfumes, as vozes, as cores e os sinos protegem o trabalho das sementes mais profundas. Amo a linguagem recolhida deste grande poeta, seu classicismo e seu romantismo e sobretudo admiro nele sua própria impregnação na continuidade da beleza, assim como o poder de transformar tudo em uma linguagem de verdadeira e comovedora poesia.

Por cima do mar e da distância levanto uma fragrante coroa feita com folhas de Araucanía e a deixo voando no ar para que a levem o vento e a vida, deixando-a sobre a fronte de Salvatore Quasimodo. Não é a apolínea coroa de louros que tantas vezes vimos nos retratos de Francesco Petrarca. É uma coroa de nossos bosques inexplo-rados, de folhas que no entanto não têm nome, encharcadas pelo orvalho de auroras austrais.

 

                   Vallejo sobrevive

Outro homem foi Vallejo. Nunca esquecerei sua grande cabeça amarela, parecida com as que se vêem nas antigas janelas do Peru. Vallejo era sério e puro. Morreu em Paris. Morreu do ar sujo de Paris, do rio sujo de onde tiraram tantos mortos. Vallejo morreu de fome e de asfixia. Se o tivéssemos trazido para o Peru, se o tivéssemos feito respirar ar e terra peruana, talvez estivesse vivo e cantando. Escrevi em épocas diferentes dois poemas sobre meu amigo íntimo, sobre meu bom camarada. Neles creio estar descrita a biografia de nossa amizade diversificada. O primeiro, “Ode a César Vallejo”, aparece no primeiro volume de Odas Elementales.

Nos últimos tempos, nesta pequena guerra da literatura, a guerra mantida por pequenos soldados de dentes ferozes, têm estado lançando Vallejo, a sombra de Çésar Vallejo, a ausência de César Vallejo, a poesia de César Vallejo contra mim e minha poesia. Isto pode acontecer em toda parte. Trata-se de ferir os que trabalharam muito. Dizer: “este não é bom; Vallejo sim é que era bom.” Se Neruda estivesse morto, o lançariam contra Vallejo vivo.

O segundo poema, cujo título é uma letra só (a letra V), aparece em Estravagario.

Para buscar o indefinível, o mapa ou o fio que une o homem à obra, falo daqueles que tiveram algo ou muito que ver comigo. Vivemos em parte a vida juntos e agora eu sobrevivo a eles. Não tenho outro meio de indagar o que chamam de mistério poético e que eu chamaria de claridade poética. Tem que haver alguma relação entre as mãos e a obra, entre os olhos, as vísceras, o sangue do homem e seu trabalho. Mas eu não tenho teoria a respeito. Não ando com um dogma debaixo do braço para deixá-lo cair na cabeça de ninguém. Como quase todas as pessoas, vejo tudo claro na segunda-feira, vejo tudo escuro na terça e acho que este ano é claro-escuro. Os próximos anos serão azuis.

 

                   Gabriela Mistral

Tinha dito anteriormente que conheci Gabriela Mistral em minha cidade, Temuco, de onde depois ela foi embora para sempre. Gabriela estava na metade de sua difícil e trabalhosa vida e era exteriormente monástica, algo assim como uma madre superiora de uma ordem retilínea.

Naquela época escreveu os “Poemas del hijo”, feitos em prosa escorreita, lavrada e constelada, porque sua prosa foi muitas vezes sua poesia mais penetrante. Como nestes “Poemas del hijo” descreve a gravidez, o parto e o crescimento, algo confuso se sussur-rou em Temuco, algo impreciso, algo inocentemente torpe, talvez um comentário grosseiro que feria sua condição de solteira, feito por essa gente ferroviária e madeireira que eu conheço tanto, gente bravia e tempestuosa que chamam pão ao pão e vinho ao vinho. Gabriela se sentiu ofendida e morreu ofendida.

Anos depois, na primeira edição de seu grande livro, pôs uma longa nota inútil contra o que se tinha dito e sussurrado sobre sua pessoa naquelas montanhas do fim do mundo.

Na ocasião de sua vitória memorável, com o Prêmio Nobel consagrando sua cabeça, devia passar na viagem pela estação de Temuco. Os colégios a aguardavam todos os dias. As jovens estudantes chegavam salpicadas pela chuva e palpitantes de copihues. O copihue é a flor austral, a corola bela e selvagem da Araucanía. Inútil espera. Gabriela Mistral arranjou para passar por ali de noite, procurou um complicado trem noturno para não receber os copihues de Temuco.

Bem, e isto depõe contra Gabriela? Isto quer dizer simplesmente que a ferida permanecia no íntimo de sua alma e não se fecharia facilmente. Isto revela na autora de tanta grandiosa poesia que em sua alma lutaram, como em qualquer alma de homem, o amor e o rancor.

Para mim teve sempre um sorriso aberto de boa camaradagem, um sorriso de farinha em sua cara de pão moreno.

Mas quais foram as melhores substâncias no forno de seus trabalhos? Qual foi o ingrediente secreto de sua sempre dolorosa poesia?

Não vou averiguar isso e com certeza não conseguiria sabê-lo e, mesmo que soubesse, não iria dizer.

 

Neste mês de setembro florescem os joios; e o campo é uma alfombra tremulante e amarela. Já faz quatro dias, aqui na costa, que o vento sul golpeia com magnífica fúria. A noite está cheia de seu movimento sonoro. O oceano é a um tempo aberto cristal verde e titânica brancura.

Chegas, Gabriela, amada filha destes joios, destas pedras, deste vento gigantesco. Todos te recebemos com alegria. Ninguém esquecerá teus cantos aos espinheiros, às neves do Chile. És chilena. Pertences ao povo. Ninguém esquecerá tuas estrofes aos pés descalços de nossos meninos. Ninguém esqueceu tua “palavra maldita”. És uma comovedora partidária da paz. Por essas e por outras razões te amamos.

Chegas, Gabriela, aos joios e aos espinheiros do Chile. Vale bem a pena que te dê as boas-vindas verdadeiras, florida e áspera, em conformidade com tua grandeza e com nossa amizade inquebrantável. As portas de pedra e a primavera de setembro se abrem para ti. Nada mais grato a meu coração do que ver teu largo sorriso entrar na sagrada terra que o povo do Chile faz florescer e cantar.

Cabe a mim compartilhar contigo a essência e a verdade que, graças à nossa voz e nossos atos, será respeitada. Que teu coração maravilhoso descanse, viva, lute, cante e creia na oceânica e andina solidão da pátria. Beijo tua nobre fronte e reverencio tua extensa poesia.

 

                  Vicente Huidobro

O garnde poeta Vicente Huidobro, que sempre adotou um ar travesso em relação a todas as coisas, me perseguiu com suas múltiplas brincadeiras de mau gosto, enviando infantis cartas anônimas contra mim e acusando-me continuamente de plágio. Huidobro é o representante de uma longa linha de egocêntricos impenitentes. Esta forma de se defender na contradítória vida da época. que não concedia nenhum papel ao escritor, foi uma característica dos anos imediatamente anteriores à Primeira Guerra Mundial. A posição egodesafiante repercutiu na América como eco dos desplantes de D'Annunzio na Europa. Este escritor italiano, grande esbanjador e violador dos cânones pequeno-burgueses, deixou na América um marco vulcânico de messianismo. O mais magnificente e revolucionário de seus seguidores foi Vargas Vila.

É difícil para mim falar mal de Huidobro, que me honrou durante toda sua vida com uma espetacular guerra de tinta. Ele conferiu a si mesmo o título de “Deus da Poesia” e não achava justo que eu, muito mais jovem que ele, fizesse parte de seu Olimpo. Nunca soube bem de que se tratava nesse Olimpo. A gente de Huidobro criacionava, surrealizava, devorava a última moda de Paris. Eu era infinitamente inferior, irredutivelmente provinciano, regional, semi-selvagem.

Huidobro não se conformava em ser um poeta extraordinariamente dotado, como era com efeito. Queria também ser superman. Tinha algo de infantilmente belo em suas travessuras. Se tivesse vivido até hoje já teria se oferecido como voluntário insubstituível para a primeira viagem à Lua. Imagino-o provando aos sábios que seu crânio era o único sobre a terra genuinamente dotado, por sua forma e flexibilidade, para se adaptar aos foguetes cósmicos.

Algumas anedotas o definem. Por exemplo: quando voltou para o Chile, depois da última guerra, já velho e próximo do fim, mostrava a todo o mundo um telefone oxidado, dizendo:

- Arrebatei-o pessoalmente de Hitler. Era o telefone favorito do Führer.

Certa vez lhe mostraram uma má escultura acadêmica e ele disse:

- Que horror! É ainda pior que as de Michelangelo.

Vale a pena contar também uma aventura estupenda, protagonizada por ele em Paris, em 1919. Huidobro publicou um livrinho intitulado Finis Britannia, no qual prognosticava a queda imediata do império britânico. Como ninguém tomou conhecimento de sua profecia, o poeta resolveu desaparecer. A imprensa se ocupou do caso: “Diplomata chileno misteriosamente seqüestrado.” Alguns dias depois apareceu estendido à porta de sua casa.

- Boy scouts ingleses tinham me seqüestrado - declarou à polícia. - Mantiveram-me amarrado a uma coluna, num subterrâneo, e me obrigaram a gritar um milhão de vezes: “Viva o Império Britânico!”

Depois voltou a desmaiar. Mas a polícia examinou um pacotinho que levava debaixo do braço. Era um pijama novo, comprado três dias antes em uma boa loja de Paris pelo próprio Huidobro. Foi descoberto tudo. Mas Huidobro perdeu um amigo. O pintor Juan Gris, que tinha acreditado de pés juntos no seqüestro e sofrido horrores pela violência imperialista ao poeta chileno, não lhe perdoou jamais aquela mentira.

 

Huidobro é um poeta como o cristal. Sua obra brilha por toda parte e tem uma alegria fascinante. Em toda sua poesia há um resplendor europeu que ele cristaliza e burila com um jogo cheio de graça e inteligência.

O que mais me surpreende em sua obra relida é sua diafaneidade. Este poeta literário, que seguiu todas as modas de uma época emaranhada e que se propôs ignorar a solenidade da natureza, deixa fluir através de sua poesia um constante canto de água, um rumor de ar e de folhas e uma grave humanidade que se apodera por completo de seus penúltimos e últimos poemas.

Dos encantadores artifícios de sua poesia afrancesada às poderosas forças de seus versos fundamentais, há em Huidobro uma luta entre o jogo e o ardor, entre a evasão e a imolação. Esta constitui um espetáculo, realiza-se a plena luz e quase a plena consciência, com uma claridade deslumbrante.

Não há dúvida que temos vivido afastados de sua obra por um antecipado preconceito de sobriedade. Estamos de acordo que o pior inimigo de Vicente Huidobro foi Vicente Huidobro. A morte apagou sua existência contraditória e irredutivelmente brincalhona. A morte correu um véu sobre sua vida mortal mas levantou outro véu que deixou para sempre a descoberto sua deslumbrante qualidade. Propus um monumento para ele, junto a Rubén Darío. Mas nossos governos são parcos em erigir estátuas aos criadores, assim como são pródigos em monumentos sem sentido.

Não podíamos pensar em Huidobro como um protagonista político apesar de suas velozes incursões no edifício revolucionário. Teve para com as idéias inconse-qüência de menino mimado. Mas tudo isso ficou para trás, na poeira, e seríamos nós mesmos inconseqüentes se nos puséssemos a lhe cravar agulhas com o risco de despregar suas asas. Diremos melhor ainda que seus poemas à Revolução de Outubro e à morte de Lênin são contribuição fundamental de Huidobro ao despertar humano.

Huidobro morreu no ano de 1948, em Cartagena, perto de Isla Negra, não sem antes ter escrito alguns dos mais arrojados e sérios poemas que li na minha vida. Pouco antes de morrer, visitou minha casa de Isla Negra, acompanhando Gonzalo Losada, meu bom amigo e editor. Huidobro e eu falamos como poetas, como chilenos e como amigos.

 

                    Inimigos literários

Suponho que os conflitos de maior ou menor importância entre os escritores existiram e continuarão existindo em todas as regiões do mundo.

Na literatura do continente americano proliferam os grandes suicidas. Na Rússia revolucionária, Maiakovski foi encurralado até o disparo pelos invejosos.

Os pequenos rancores se exacerbam na América Latina. A inveja chega às vezes a ser uma profissão. Diz-se que esse sentimento nós o herdamos da gasta Espanha colonial. A verdade é que em Quevedo, em Lope e em Góngora encontramos com freqüência as feridas que mutuamente se causaram. No que pese seu fabuloso esplendor intelectual, o Século de Ouro foi uma época infeliz, com a fome rondando em torno dos palácios.

Nos últimos anos, a novela tomou uma nova dimensão em nossos países. Os nomes de García Márquez, Juan Rulfo, Vargas Llosa, Sábato, Cortázar, Carlos Fuentes, o chileno Donoso, são ouvidos e lidos em toda parte. A alguns deles batizaram com o nome de boom. É corrente também ouvir dizer que eles formam um grupo de autopromoção.

Conheci-os quase todos e acho-os notavelmente saudáveis e generosos. Compre-endo - cada dia com maior clareza - que alguns tenham tido que emigrar de seus países em busca de uma maior tranqüilidade para o trabalho, longe da má vontade política e da inveja pululante. As razões de seus exílios são irrefutáveis: seus livros têm sido cada vez mais essenciais na verdade e no sonho de nossas Américas.

Não queria falar de minhas experiências pessoais nesse extremo da inveja. Não desejava aparecer como egocêntrico, como excessivamente preocupado comigo mesmo. Mas cruzaram meu caminho invejosos tão persistentes e pitorescos que vale a pena contar.

É possível que em certas ocasiões essas sombras persecutorias me irritassem. No entanto, a verdade é que cumpriam involuntariamente um estranho dever propagan-dístico, tal como se fizessem parte de uma empresa especializada em fazer divulgar meu nome.

 

A morte trágica de um desses sombrios opositores deixou uma espécie de vazio em minha vida. Tantos anos manteve sua beligerância contra tudo que eu fazia que, ao perdê-la, estranho sua falta.

Quarenta anos de perseguição literária é algo fenomênal. Com certo gozo me ponho a ressuscitar esta solitária batalha que foi a de um homem contra sua própria sombra, já que nunca tomei parte nela.

Vinte e cinco revistas foram publicadas por um diretor invariável (que sempre era ele), destinadas a destruir-me literariamente, a me atribuir toda sorte de crimes, traições, esgotamento poético, vícios públicos e secretos, plágio, sensacionais aberra-ções do sexo. Apareceram também panfletos que eram distribuídos com assiduidade, e reportagens não desprovidas de humor, e finalmente um volume inteiro intitulado Neruda e eu, livro abundante, recheado de insultos e imprecações.

Meu opositor era um poeta chileno mais velho que eu, acérrimo e absolutista, mais gesticulador que intrínseco. Esta classe de escritores, dotados de ferocidade egocêntrica, prolifera nas Américas; adotam diversas formas de aspereza e de auto-suficiência, mas sua ascendência d'annunziana é tragicamente verdadeira.

Em nossas pobres latitudes, nós - poetas quase esfarrapados e famintos – vagá-vamos nas madrugadas impiedosas, entre o vômito dos bêbados. Nesses ambientes miseráveis, a literatura produzia insolitamente tipos fanfarrões, espectros da sobrevi-vência picaresca. Um grande niilismo, um falso cinismo nietzchiano levava muitos dos nossos a se ocultarem com máscaras de delinquentes. Não poucos desviaram sua vida por esse atalho até o delito ou até a própria destruição.

Meu legendário antagonista surgiu desse cenário. Primeiro tratou de me seduzir, de me fazer entrar nas regras de seu jogo. Tal coisa era inadmissível para meu provin-cianismo pequeno-burguês. Não me atrevia e não me agradava viver de expediente. Nosso protagonista, em troca, era um expert em aproveitar ao máximo as circunstân-cias. Vivia num mundo de farsa contínua, dentro do qual enganava a si mesmo inventando para uso próprio uma personalidade ameaçadora que lhe servia de profissão de fé e de proteção.

Já é hora de dar o nome ao personagem. Chamava-se Perico de Palothes. Era um homem forte e peludo que tratava de impressionar tanto com sua retórica como com sua catadura. Em certa ocasião, quando eu tinha só dezoito ou dezenove anos, propôs-me que publicássemos uma revista literária. A revista constaria somente de duas seções: uma na qual ele, em diversos tons, prosas e metros, afirmaria que eu era um poeta poderoso e genial; e outra na qual eu sustentaria aos quatro ventos que ele era o possuidor da inteligência absoluta, do talento sem limites. Assim tudo ficava arranjado.

Ainda que eu fosse jovem demais, aquele projeto me parecia exagerado. Não obstante, custou-me dissuadi-lo. Ele era um portentoso editor de revistas. Era assom-broso observar como arrebanhava fundos para manter sua perpetuidade panfletária.

Nas isoladas províncias invernais traçava um plano preciso de ação. Tinha fabricado para si uma longa lista de médicos, advogados, dentistas, agrônomos, profes-sores, engenheiros, chefes de serviços públicos, etc. Aureolado pelo halo de suas volumosas publicações, revistas, obras completas, panfletos épicos e líricos, nosso personagem chegava como mensageiro da cultura universal. Tudo aquilo era oferecido pontualmente aos confusos homens a quem visitava, para depois se dignar a lhes cobrar alguns miseráveis escudos. Diante de sua palavra grandiloqüente, a vítima ia diminuindo até ficar do tamanho de uma mosca. Em geral de Palothes saía com os escudos no bolso e deixava a mosca entregue à grandeza da Cultura Universal.

Outras vezes Perico de Palothes se apresentava como expert de publicidade agrícola e propunha aos rústicos agricultores sulistas realizar luxuosas monografias de suas fazendas, com fotografias dos proprietários e de suas vacas. Era um espetáculo vê-lo chegar com calças de montaria e botas de explorador, envolto em uma magnífica túnica de procedência exótica. Entre adulações e oblíquas ameaças de publicações contrárias, nosso homem saía dos fundos com alguns cheques. Os proprietários, tacanhos porém realistas, estendiam-lhe algumas notas para se livrarem dele.

A característica suprema de Perico de Palothes, filósofo nietzchiano e grafômano irredimível, era sua blasonaria intelectual e física. Fez-se de fanfarrão na vida literária do Chile, tendo por muitos anos uma pequena corte de pobres-diabos que o incensavam. Mas a vida costuma desinflar de maneira implacável estas pessoas circunstanciais.

O trágico final de meu iracundo antagonista - suicidouse já velho - fez-me vacilar antes de escrever estas lembranças. Faço-o finalmente, obedecendo a um imperativo de época e de localidade. Uma grande cordilheira de ódio atravessa os países de língua espanhola, corrói o trabalho do escritor com laboriosa inveja. A única maneira de terminar com tão destrutiva ferocidade é exibir publicamente suas ocorrências.

Tão insana e igualmente persistente tem sido a folhetinesca perseguição lítero-política desatada contra minha pessoa e minha obra por certo uruguaio ambíguo de sobrenome galego, algo assim como Ribeyro. O sujeito publica há vários anos, em espanhol e em francês, panfletos em que me retalha. O sensacional é que suas proezas antinerudianas não só transbordam do papel de imprensa que ele mesmo custeia, como também financiou para si mesmo custosas viagens com o propósito implacável de me destruir.

Este curioso personagem empreendeu uma ida à sede universitária de Oxford quando se anunciou que ali me seria ôutorgado o título de Doutor Honoris Causa. Até lá chegou o poetinha uruguaio com suas fantásticas incriminações, disposto ao meu esquartejamento literário. Os Dones comentaram comigo, divertidos, as acusações feitas contra mim quando eu ainda estava vestido com a toga escarlate, depois de ter recebido a honorifica distinção, enquanto bebíamos o vinho do Porto ritual.

Mais inconcebível e mais imprevista ainda foi a viagem a Estocolmo deste mesmo uruguaio, no ano de 1963. Murmurava-se que eu obteria o Prêmio Nobel naquela ocasião. Pois bem, o sujeito visitou os acadêmicos, deu entrevistas para a imprensa, falou pelo rádio para assegurar que eu era um dos assassinos de Trotsky. Com essa manobra pretendia me impossibilitar de receber o prêmio.

Com o correr do tempo foi comprovado que o homem andou sempre com má sorte e que, tanto em Oxford como em Estocolmo, perdeu tristemente seu dinheiro e sua oposição.

 

                   Crítica e autocrítica

Não se pode negar que tive alguns críticos bons. Não me refiro às adesões de banquetes literários nem falo tampouco das injúrias que involuntariamente provoquei.

Refiro-me a outras pessoas. Entre os livros sobre minha poesia, além dos escritos por jovens fervorosos, devo declinar o nome em lugar destacado do soviético León Ospovat. Este jovem chegou a dominar a língua espanhola e viu minha poesia com algo mais que a simples análise de sentido e som: deu a ela uma perspectiva vindoura, atribuindo-lhe a luz boreal de seu mundo.

Emir Rodríguez Monegal, crítico de primeira ordem, publicou um livro sobre minha obra poética, intitulando-o El viajero inmóvil. Observa-se, de relance, que não é tolo este estudioso. Viu logo que gosto de viajar sem me mover de casa, sem sair de meu país, sem me apartar de mim mesmo. (Em um exemplar que tenho desse maravi-lhoso livro de literatura policial intitulado A pedra lunar, há uma gravura de que gosto muito. Representa um velho cavaleiro inglês, envolto em sua túnica ou gibão ou sobre-casaca ou lá o que seja, sentado diante da lareira com um livro na mão, o cachimbo na outra e dois cães sonolentos a seus pés. Assim gostaria de ficar sempre, diante do fogo, junto ao mar, entre dois cães, lendo os livros que bastante trabalho me custou para reunir, fumando meus cachimbos.)

O livro de Amado Alonso, Poesia y estilo de Pablo Neruda, é válido para muitos. É interessante sua apaixonada análise na sombra, buscando os níveis entre as palavras e a escorregadia realidade. Além disso, o estudo de Alonso revela a primeira preocupação séria em nosso idioma pela obra de um poeta contemporâneo. E isso me honra além da conta.

 

Para estudar e expressar uma análise de minha poesia, muitos críticos recorreram a mim, entre eles o mesmo Amado Alonso, que me encurralava com perguntas e me encostava contra a parede da claridade, onde muitas vezes não podia segui-lo então.

Alguns me crêem um poeta surrealista, outros um realista e outros ainda não me crêem poeta. Todos eles têm um pouco de razão e um pouco de falta de razão.

Residencia en la tierra está escrita, ou pelo menos começada, antes do apogeu surrealista, como também Tentativa del hombre infinito, mas nisso de datas não se deve confiar. O ar do mundo transporta as moléculas da poesia, leve como o pólen ou duro como o chumbo e essas semeites caem nos sulcos ou sobre as cabeças, dão às coisas ar de primavera ou de batalha, produzem igualmente flores e projéteis.

Quanto ao realismo devo dizer, por que não me convém fazê-lo, que detesto o realismo quando se trata da poesia. E mais, a poesia não precisa ser super-realista ou surrealista, mas pode ser anti-realista, com toda a razão, com toda a falta de razão, isto é, com toda a poesia.

Gosto do livro, da densa matéria do trabalho poético, do bosque da literatura, gosto de tudo, até das lombadas dos livros, mas não dos rótulos das escolas. Quero livros sem escolas e sem classificação, como a vida.

Gosto do “herói positivo” em Walt Whitman e em Maiakovski, quer dizer, naqueles que o encontraram sem fórmula e o incorporaram, não sem sofrimento, à intimidade de nossa vida corporal, fazendo-o compartilhar conosco o pão e o sonho.

A sociedade socialista tem que terminar com a mitologia de uma época apressada, na qual valiam mais os rótulos do que as mercadorias e na qual as essências foram deixadas de lado. Mas a necessidade mais imperiosa para os escritores é escrever bons livros. Do mesmo modo que gosto do “herói positivo” encontrado nas turbu-lentas trincheiras das guerras civis pelo norte-americano Whitman ou pelo soviético Maiakovski, cabe também em meu coração o herói enlutado de Lautréamont, o cavaleiro suspirante de Laforgue e o soldado negativo de Charles Baudelaire. Cuidado ao separar estas metades da maçã da criação porque talvez cortássemos nosso coração e deixássemos de ser. Cuidado! Devemos exigir ao poeta lugar na rua e no combate, assim como na luz e na sombra. Talvez os deveres do poeta fossem sempre os mesmos na história. O valor da poesia foi sair à rua, foi tomar parte num e noutro combate. Não se assustou o poeta quando o chamaram de rebelde. A poesia é uma insurreição. Não se ofendeu o poeta porque o chamaram de subversivo. A vida ultrapassa as estruturas e há novos códigos para a alma. De todas as partes salta a semente, todas as idéias são exóticas, esperamos cada dia mudanças imensas, vivemos com entusiasmo a mutação da ordem humana: a primavera é insurrecional. Dei tudo que tinha. Lancei minha poesia na arena e muitas vezes sangrei com ela, sofrendo as agonias e exaltando as glórias que me coube presenciar e viver. Algumas vezes fui incompreendido, e isto não é de todo mau.

Um crítico equatoriano disse que em meu livro Las uvas y el viento não tem mais de seis páginas de verdadeira poesia. Acontece que o equatoriano leu sem amor meu livro por ser este um livro político, assim como outros críticos superpolíticos detestaram Residencia en la tierra por considerá-la subjetiva e sombria. O próprio Juan Marinello, tão eminente, condenou-a em outra época em nome dos princípios. Acho que ambos cometeram um erro, oriundo das mesmas fontes.