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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CONTOS VAGABUNDOS / Mário de Carvalho
CONTOS VAGABUNDOS / Mário de Carvalho

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CONTOS VAGABUNDOS

 

                     Índice

         Três personagens transviadas

         Uma vida toda empatada

         Vaudeville

         O binóculo russo

         Carolina, Fernando e eu

         Famílias desavindas

         Interminável invasão

         Memórias da crise militar

         Deus

         Fenómenos de aviação

         Yasmina e os seus amores

         Andando

         Carolina

         Do conserto do mundo

         Memórias de revolucionário

         Aventuras de um ourives

         Por uma vereda na falésia

 

                   Três personagens transviadas

Escrevo num computador instalado num móvel polido que tem uma prateleira que se puxa. Muito vulgarizados, tais mó­veis podem encontrar-se em qualquer loja informática das gran­des. Menciono este dado pessoal porque ele estabelece o cenário de desconfortáveis ocorrências, há pouco mais duma hora, aqui no meu escritório. Possuir um móvel destes não é coisa de que alguém se gabe, e eu preferiria ocultar o facto, se não fosse necessário confessá-lo.

Estava a premir a tecla F 11, quando um homenzinho ma­gro, de fato escuro completo e chapéu fora de moda emergiu atrás do teclado e começou a fazer esforços para se içar para o tampo superior, onde se agigantam monitor e impressora. Levantava os braços, numa gesticulação que me pareceu de­sesperada e dava grandes saltos, em cima da consola. Calçava sapatos ferrados que tiravam do plástico x sons fortes lembrando bicadas repetidas de catatua.

Não foi esta a primeira vez que me vi assediado por per­sonagens. Acontecia-me, não raro, quando ia passear para o Jardim Constantino, depois do jantar, em certos plenilúnios. Saíam-me ao caminho por detrás das árvores e quase sempre eram mais altas e encorpadas do que eu. Algumas mostravam­-se pouco benignas e chegavam a maçar-me. Essa a razão por que evito o Jardim Constantino e, quando tenho de passar por ali, sigo numa corrida e oculto a cara como posso. Nunca es­tou bem certo do plenilúnio.

Agora, uma personagem de doze centímetros de altura, magrita, a saltar ao alcance dos meus dedos é que nunca me tinha acontecido. Alguma vez havia de ser a primeira. O que pensei logo foi «com este posso eu bem». Apesar de parecer bastante ginasticado, capaz daqueles pulos todos, não me deu para ter medo dum homenzinho que me cabia na palma da mão. E se ele estivesse armado? Pelo aspecto não parecia.

Mas havia já outra personagem. À claridade do monitor, uma jovem loura, de blusa rosa e saia preta, passeava ao com­prido pelo tampo do móvel, esfregando uma na outra as mãos ansiosas. Parecia estar muito preocupada. Usava bandós e cal­çava saltos altos. Podia estragar-me o verniz. Aproximei a cara. Tranquilizei-me. O peso dela não era bastante para que os saltos de agulha perfurassem a mobília. A mulherzinha não deu por mim. Continuava a andar, de um lado para o outro, fazendo soar, ao de leve, no móvel o tique-tique dos saltos. Ao debru­çar-me, pareceu-me ouvir, muito sumidamente, uma vozinha angustiada: «Oh, Augusto, Augusto!» Mas não garanto.

O homem, entretanto, conseguia pendurar-se no tampo, e depois de um esforço complicado de braços e cotovelo içava o corpo, com dificuldade. Demorou que tempos nisto. Sobre­veio a tentação de lhe dar uma ajuda com os dedos. Mas re­solvi não interferir. Se ele me desabasse sobre o teclado, então poria a mão debaixo, não fosse danificar-me algumas teclas ou ficar entalado entre elas. Seria um tanto ridículo, aparecer na loja de informática a explicar que tinha um fulano esprimido entre as teclas, e que fizessem o favor de mo tirar com aque­las pinças largas que os especialistas usam.

Mas, enfim, o homenzinho lá se levantou, sacudiu o pó do fato, num manifesto exagero, ou num reflexo habitual (injus­to porque eu posso comprovar que não há pó neste móvel) teve uma hesitação, e fez qualquer coisa de absolutamente inespe­rado.

Em vez de se dirigir à mulher, como eu erradamente previa, encaminhou-se para o velho do tambor.

O velho, de barba branca e barrete frígio, estava sentado na borda do cinzeiro, e tocava permanentemente tambor. Não se ouvia um som. Mas eu notava que às vezes aplicava as baquetas com grande energia. E a mulher lá continuava, dum lado para o outro, tique-tique, a arrepelar as mãos. Notei que teve um sobressalto, talvez um susto, e recuou um passo. Mas quando o homem desapareceu por trás do cinzeiro, fora do seu alcance, voltou à perturbada deambulação anterior.

A mulher estava, de certeza, à espera de alguém, provavel­mente do tal Augusto, que não era o do chapéu. Eu comecei a enternecer-me e quase a desejar que o Augusto se mostrasse. O velho do tambor suspendeu a batida e olhou para o homem de chapéu que o tirou, num repelão, e tornou a colocá-lo. Era educado. O velho do tambor rodou a cabeça, repetidamente, numa obstinação negativa e recomeçou a rufar.

Mas o receio de que pudessem surgir mais personagens in­quietou-me. Qual Augusto! Não me apetecia nada que a casa se me enchesse de cavaleiros, de ciclistas, de pugilistas e me­ninas do can-can. Ou de tropa. Não, é que podia perfeitamen­te aparecer um pelotão, a formar, em ordem unida, no braço do meu sofá orelhudo...

Em circunstâncias difíceis como esta, não há nada como recorrer a um perito. Telefonei a um amigo, que é escritor. Aten­deu mal-disposto, porque foi acordado. É um escritor dos diur­nos, nove às cinco.

«Ouve, meu caro, desculpa lá, mas estão a aparecer-me per­sonagens em volta do computador. O que é que eu faço?»

O meu amigo formulou muitas perguntas sábias. É um gran­de especialista de personagens. Se eram pesadas ou leves, gran­des ou pequenas, silenciosas ou barulhentas, sentimentais ou secas. «Têm máscara?», inquiriu. «Não? Então são de grau inferior...» Quando eu o informei de que eram pequenas e si­lenciosas, ele sugeriu-me com um tonzinho superior de quem enuncia uma evidência: «Agarra nas três e atira-as pela jane­la.»

«E se atinjo alguém? Estás a ver-me em tribunal por defenestrar personagens, com dano para os utentes da via pú­blica?» «Então, conduta do lixo com elas.» «Não posso fazer uma coisa dessas, sempre são gente.»

Do lado de lá do telefone o meu amigo fez um «ts» de rabugice. Desconfio de que trata as personagens dele com uma certa dureza. É o que dá a experiência.

«Escuta, não andas agora a escrever umas crónicas, uns comentários, ou lá o que é?» Como é que ele sabia? Isto é uma cidade muito bem informada. Admiti.

«Então, faz o seguinte: aprisiona-as no texto.»

 

                   Uma vida toda empatada...

Pelas nove e meia da manhã, a carrinha Ford Transit, de pneus sonolentos em cima do empedrado, rés ao edifício da te­levisão já estava a dar desgostos. O espelho do lado do con­dutor não queria fixar-se. Lasso, balouçava numa indecisão frouxa, e, por mais tratos que o motorista lhe aplicasse, aca­bava-se numa horizontal idade teimosa. Além disso, um polícia, de viso enjoado, viera advertir que não queria a viatura em cima do passeio. Não lhe interessava saber se os transgressores trabalhavam prà televisão, prà banco, ou prà centro comer­cial. Da próxima vez que voltasse, autuava. E virou decidida­mente as costas à arenga de Lurdes Barbosa que chefiava a equipa. Apesar do porte argumentador, ela era destituída de competência para mandar em polícias. Provavelmente o homem reconhecera-a do ecrã. Reminiscências. A circunstância de­monstrava que ser-se uma personagem pública nem sempre deixa a autoridade bem impressionada.

O que mais atenazava os ocupantes da carrinha era que pas­sava das nove e quarenta, e o operador de som e a assistente ainda não tinham dado sinal. Nem acudiam ao telemóvel. Dois recados no atendedor de chamadas, um de mitigada censura, outro de protesto gritado, serviram apenas para marcar posição­ e dar conta da impaciência de quem esperava. O motoris­ta, naquela manipulação do espelho descaído, ia rosnando que não tinha saúde para multas logo pela manhã.

Todos olhavam de rijo contra os vidros, na ânsia de que o casalinho chegasse, sabia-se lá donde, enquanto o motorista debatendo-se com o espelho estava já a levar aquilo a título muito pessoal. Praguejava que só lhe aconteciam era destas. A maquilhadora, com um risinho duvidoso, declarava-se «muito enervada». E a autora-produtora dizia que «isto estava mas era a começar mal. O Guedes que desse uma volta pelo quartei­rão, não fosse o polícia mal-encarado aparecer outra vez. E se eles, em chegando, não vissem o carro? Que fizesse mas era o que lhe diziam, e deixasse a bodega do vidro cair de vez». Res­posta: «Porcaria de material. Há equipas que andam para aí, de rabinho tremido, num monovolume novo. A mim, sempre a sucata. Para a próxima, recuso.»

A autora percebeu a alusão à insignificância do programa e, por interposta viatura, a ela própria, também. Mas conteve­-se na resposta, não fosse provocar uma nega reivindicativa do outro, capaz de alegar que o carro não se encontrava em con­dições e de invocar o contrato colectivo.

Virada a chave de ignição, a carrinha atirou um rolo de ga­ses negros e pôs-se a tremer, com umas estridências de lata, pouco subtis. Ao tremeção, o espelho lateral deu um pinote e desfeiteou o manejo paciente do motorista que alternara a ca­rícia com a palmada, numa técnica secularmente conhecida. O operador de imagem quis desanuviar o ambiente: «Vamos lá, 'tá a começar o dia. Quer-se é energias positivas!

Mas a maquilhadora que espreitava, muito ansiosa, pelo vi­dro da retaguarda, alertou: «Lá vêm eles, lá vêm eles!» Depois, com a excitação, cerrou os punhos pequenitos junto à boca. Lurdes Barbosa, num rompante, afastou a porta corrediça. Calculou mal o esforço, e a porta deslizou num estrondo, res­saltou e teve de ser novamente empurrada, com entreajudas.

Vinham os dois, muito vagarosos, muito abraçadinhos, mui­to enroscadinhos um no outro, muito vestidinhos de preto, de material a tiracolo, distraído e à desbanda. «Íamos já embora. Desta vez ficavam em terra!» «Ah, sim? E eras tu que fazias o som, não?»

Ele deixou passar primeiro a rapariga, aconchegou-a no banco do meio, com muita ternura, fez um gesto tranquiliza­dor de mão horizontal, e trancou a porta. «Isto não volta a acon­tecer. Operadores de som é o que não falta por aí!» «Andar, andar», interrompeu o da imagem, com voz de grande enfa­do. «O dia está bonito. Positividade, pá! Prego no fundo, ó Guedes! »

E todos se calaram com o solavanco que a carrinha deu ao descer do passeio.

A equipa era a que se tinha conseguido arranjar. As nego­ciações com a direcção de programas tinham dado em exces­so do que interessava menos: o jovem casal, com funções híbridas de som, assistência e anotação e a maquilhadora, de todos conhecida familiarmente por D. Matilde, francamente impingida para não a verem sentada no estúdio, com a revista Maria na mão. Naquele ano havia maquilhadoras a mais, e D. Matilde era sossegada. Mostrava-se sempre disposta a parti­cipar num trabalho de exteriores, com a sua caixita de pó-de­-arroz.

Ninguém dava nada por aquele programa, a não ser Lurdes Barbosa, a autora, que se batera por ele durante anos. Corria mesmo que, em dada altura, tinha chegado a dormir com as pessoas erradas. De cada vez que mudavam as chefias, lá es­tava ela a tentar que a recebessem, com a papelada na mão, porque sabia que outros exemplares, já entregues, haviam de andar perdidos pelos cantos da casa.

Ela, em tempos, apresentara uma programação infantil, às quatro da tarde, com concursos de desenho, actores vestidos de coelho e mágicos fraldiqueiros. Os colegas diziam que aquela voz áspera e uns modos bruscos de lidar com as crianças des­favoreciam a popularidade do programa. Os críticos alarmavam­-se, semanalmente, com os erros de gramática e as silabadas. Ninguém dava confiança aos críticos por eles serem, consabidamente­ intelectuais despeitados, fracos nas prestações televi­sivas, maníacos dos pormenores. Mas o programa acabou por ser suspenso quando o Ministério da Educação deu discreta conta ao Ministério da Tutela de um abaixo-assinado de pro­fessores sobre uma matéria algo confusa relacionada com próclises, ênclises e utilização de pronomes. A coisa soube-se. Foi uma indignação. Os colegas, na ocasião, mostraram-se solidários e houve quem sugerisse acções colectivas. A suges­tão caiu bem, tão bem que satisfez e esgotou o sentido de jus­tiça de todos, e Lurdes Barbosa foi ficando por uns tempos naquele limbo a que se chama, com subtileza metafórica, «a prateleira» .

Mas era uma lutadora. Tinha tempo para pensar e pensa­va. Congeminou um «pacote», de programas, que incluía um concurso chamado A Lata, em que se previa um arauto que fosse anunciando números, até que um dos concorrentes o in­terrompesse, levantando o dedo. O concorrente que se aproxi­masse mais do número extraído duma tômbola ganhava o que os patrocinadores fornecessem, de preferência um automóvel, mesmo dos baratos. Toda a gente, nos bares da estação, lhe deu sugestões amigáveis de artistas a convidar, e ela chegou a con­vencer-se de que era autora do melhor concurso do mundo. «Regista-o, não te esqueças de registar o projecto.» «Ela não registou, confiou, afinal toda a gente sabia que A Lata era dela. A Lata foi para o ar uns meses depois, com produção duma empresa externa e aperfeiçoamentos de luxo. Houve desaca­to. Lurdes Barbosa atirou coisas a um magnata da produção, depois duma espera à porta de certa vivenda da Quinta da Marinha, fez escândalo pelos corredores da estação e deu pon­tapés na porta sempre cerrada da direcção de programas. Ti­nham-lhe roubado a ideia. Envolvidas no assunto, a SPA e uma advogada particular nada puderam fazer. Falta de testemunhas, carência de prova. Os profissionais que tão calorosamente ha­viam contribuído para o aperfeiçoamento d'A Lata, os que ti­nham propinado bons conselhos, vinham agora dizer que não sabiam de nada, que não se lembravam de nada. Lurdes foi-se abaixo, entrou em depressão, fez compras absurdas, meteu-se em despesas de psicoterapia, recorreu à baixa médica. Quem a curou foi um feiticeiro senegalês, muito anunciado nos jor­nais, que fazia rezas com missangas e aplicações de óleo de babuíno.

Os anos passaram, Lurdes regressou, superou a mágoa d'A Lata e aperfeiçoou entretanto uma pronúncia nas alada, própria dum sociolecto de ricaços festivos, que se pratica nos arredo­res de Lisboa. Tinha-lhe sobrado tempo para treinar. Mas não deixou de batalhar pelos seus projectos mais queridos, já an­tigos. Um chamava-se O Cantinho Predilecto e pretendia des­vendar os recantos preferidos das personalidades famosas: o em que o gato pernoita, o em que o bibelô favorito está arrumado, o em que se dorme a sesta, o em que se esconde o cofre-forte. Outro, em que ela apostava menos, teve vários nomes: O Ver­so e o Reverso, O Verso e o Anverso, O Torto e o Direito, e acabou por se chamar definitivamente O Agradável e o Útil. A ideia era simples e duma originalidade flagrante, de novo muito elogiada pelos colegas, na cantina. Um profissional de­terminado tinha uma ocupação secundária: por exemplo, um pescador que também era arqueólogo, um advogado que coleccionava bichinhos-de-conta, ou um tratador de cães que desenhava vestidos. Palavras e imagens do convidado numa e noutra das actividades. Vinte e cinco minutos. Segundo canal. Tarde.

Não foi bem o condoerem-se dela nem o ficarem fascina­dos pela excelência do produto. Foi mais o procurarem preen­cher uma lacuna com um programa barato, nacional, instrutivo, a piscar o olho ao serviço público e a compatibilizar-se com a maneira de ser de Lurdes Barbosa. Chamaram-na para uma reunião. Ela caiu das nuvens e preparou-se para entrar de novo nas nuvens, suportando-se de papéis e mais papéis.

A discussão foi dura, prolongada e muito argumentiva, quer pela combatividade dos circunstantes quer pelo gosto das reu­niões que eles tinham, porque lhes davam, a par duma ilu­são de racionalidade prática, a sensação forte do exercício do poder. Ficou claro que o âmbito das entrevistas era apenas o universo das personalidades não mediáticas, já que o outro estava entregue a uma serigaita de formas agradáveis que ca­lhava ser sobrinha dum administrador.

E mais claro ainda ficou que teria de aceitar a equipa dis­ponível e não outra: quiseram lá saber dos nomes que ela le­vava em carteira. Riram-se-Ihe das ambições. Impuseram-lhe um operador com tendência para os planos esquinados, uma anotadora jovem que tinha feito duas missas, o marido dela que andava a estagiar no som e ainda a D. Matilde, maqui­lhadora, porque sempre convinha que os convidados não apa­recessem com aquele ar azulado que desfeia os ecrãs e a se­nhora já tinha choramingado que andava muito desaproveitada. Realizador? Realizasse ela, que tinha experiência. Era só zoam para diante e zoam para trás... Quanto a produção, ela própria que tratasse da logística: ao fim e ao cabo, aquilo não havia de ser tão difícil assim. Uns telefonemas, e tal...

Foi tremenda e exaustivamente casuística a discussão des­tes aspectos, para não falar dos que diziam respeito a verbas. Mas o caso encerrou-se quando um dos adjuntos da direcção lhe disse, com um olhar fixo e uma melíflua e quase desalen­tada delicadeza: «Querida, minha Lurdes qúeriducha, ou sim ou sopas!» Eram horas do jantar.

O motorista, o Guedes, soube ela depois, já tinha estoura­do dois carros na estrada, era senhor de rancoroso feitio e de­legado sindical, dos activos. E assim, lá iam, pelo Sul afora.

Iam para onde? Para uma terra perdida, no Alentejo pro­fundo, chamada Vale do Alardo, a montante de Mértola, tem­-te a roçar a raia. Não vinha no mapa, mas o Guedes garantia que com ele não havia enganos. Quem tem boca vai a Roma e quem tem motor, vai a Ulan-Bator.

E tomaram o caminho de Évora, pela Ponte Vasco da Gama. Aquela ponte, branca garça langorosa estendida de asas ao alto, ou nívea harpa repousada nas águas (a rapariga silencio­sa fazia poemas mentais), deu conversação. Mesmo Lurdes Barbosa, que entendia que nestas coisas de obras públicas ficava bem ser-se crítica, não evitou um «escapa!» que suscitou concordâncias cúmplices. Mas o Guedes deixou passar a eu­foria e replicou: «Eu é que sei!»

Esperou que alguém lhe pedisse explicações, mas como o pedido tardava, adiantou por bel-prazer: «A ponte queria-se era ao lado da outra. Metade do trânsito pra cá, metade pra lá! Assim é que era!»     

Lurdes Barbosa deu a modulação mais nasalada que podia ao desprezivo «acha?» que proferiu. Mas o motorista não era sensível às tonalidades de Cascais: «Eu é que sei! Ando nisto todos os dias...»

E a afirmação de ciência calou todas as bocas e desmo­bilizou todos os comentários. O Guedes, sempre que falava, virava a cara, deixava a estrada por conta do carro, e isso não encorajava as réplicas. Os dezassete quilómetros da ponte fo­ram percorridos em silêncio. Até que, já com o castelo de Pal­mela à vista, retiniu miudamente um sonzinho. Apalparam-se telemóveis inocentes, mas o operador de imagem exibia ao alto um objecto que parecia vagamente um relógio de colete, dos que havia antes. Era o seu tamagoshi. «Ai, que giro, um ike­bana», disse, enternecida, a D. Matilde.

Lurdes pensava que o objecto se chamava um tsunami, mas não quis contrariar ninguém. À ida, convinha ser-se sempre conciliadora. À volta, logo se veria. O operador continuava com a propaganda: «Dá sentido de responsabilidades. Olha agora está com fome. Carrega-se neste botãozinho, assim, assim, e fica alimentado.» D. Matilde: «Deviam distribuir aos drogados da Picheleira, a ver se eles se afeiçoavam a alguma coisa.» A D. Matilde morava no Alto do Pina e tinha sempre uma his­tória de drogados para contar. Achava que, com a Picheleira, o País estava a perder-se. O rapaz do som abriu-se num gran­de bocejo e a jovem apertou-se mais contra ele. «Ainda outro dia...», começou a maquilhadora...

E só acabou quando o Guedes que tinha vindo a intercalar que eles deviam ser todos lançados ao rio (quilómetro quarenta), todos degolados (quilómetro oitenta e quatro) e todos enfor­cados nos candeeiros (quilómetro cento e sessenta) proclamou a sagrada hora do almoço. Ar feroz, canto da boca esbordinado, pronto a defender as suas prerrogativas de trabalhador com horário, sentiu-se, no íntimo, desapontado por ninguém protes­tar. Parou junto de um restaurante que ele lá quis.

Ao almoço, Lurdes Barbosa tentou logo dominar a conver­sação. Falou-se de «vidas anteriores». D. Matilde também era versada. Que tinha sido sacerdotiza, na velha Jerusalém. Valia mais que a autora, que se tinha ficado por aia na corte de D. Sebastião, e escrava de Cleópatra, uma das mordidas pela áspide nos figos. O casal, muito enjoado, não participou. Vol­taram logo para a carrinha, com duas sandes de fiambre. Boa oportunidade para que a conversa sobre «vidas anteriores» acabasse e os três se dedicassem a comentar o que conheciam daquela vida. posterior.

O Guedes palitava os dentes com a unha do polegar. A ope­ração dava-lhe visível prazer. Só interrompeu, de má vontade, quando Lurdes Barbosa, paga e facturada a conta, ordenou: «Vamos embora.»

O lavrador, de camisa de nylon roxa, colarinho às três pan­cadas e boné de xadrez a deslizar-lhe para o nariz, sombra funda nos olhos, já lá estava à espera, na praça, um bom bocado antes da hora. Veio caminhando para a carrinha, meio curvado, de mãos a bandear, e assegurou-se de que era o «pessoal da televi­são». Manápulas apoiadas no tejadilho, a cara, magra e ossuda, de pele encarquilhada da calma, perscrutou, sem pressa, cada um dos recém-chegados. Lurdes Barbosa desatou a fazer per­guntas, muito profissional: «Foi o senhor quem telefonou? É o senhor que faz versos?» Mas ele limitou-se a dizer: «Ve­nham andando atrás de mim.» Desandou, lento, e foi meter-se numa camioneta empoeirada, onde estava já um fulano novo, arruivado, a assomar pela janela, muito esgrouviado, com uma maçã-de-adão bicuda, que não parava quieta... «O que é que você está aí pasmado? Arranque, vá!», ordenou Lurdes ao Guedes.

Foi um tormento de socalcos, covas, areias, águas vadeadas, vaIados subidos e descidos até chegarem ao monte, uma fieira de casas velhas, estiradas sobre um cabeço, entre brilhos de ro­mãzeiras. O homem apeou-se e o companheiro também. Era ali.

Não houve grandes conversas. A equipa, derreada, saiu do carro e começou a tirar os aparelhos da bagageira. Lurdes Barbosa quis saber onde é que estava o senhor para o progra­ma. O sol afligia. O moço que vinha com o homem da camisa roxa sorria, de boca torta, e produzia uns sons inarticulados. Era meio atrasado da cabeça. «Já que insiste, venha ver», dis­se o lavrador.

Dentro do monte, de chão de terra batida, um velho olhava para um televisor, ligado a uma bateria de automóvel por dois cabos. Deitou um olhar vago, à chegada dos estranhos, e continuou a ver o programa. Uma mocita, sentada no solo, com dois alguidares na frente, descascava ervilhas, e não quis sa­ber dos visitantes. O lavrador curvou-se para o velho: «Mê pai, estão aqui os senhores da televisão.» O velho reagiu à voz, abriu uma boca desdentada e começou a chorar, numa lamúria bai­xa, muito lamentosa. As mãos tremiam-lhe. Babava-se. Lurdes puxou o lavrador para o lado, e quis saber se era aquele o velho­te que ainda puxava o arado aos oitenta anos e fazia versos populares e barquinhos de cortiça. E o homem respondeu: «Pois isso era antigamente, mas não interessa.» «Não interessa?» «O que interessa é o que eu lhes vou mostrar.»

Lurdes Barbosa não estava acostumada àqueles tratos. Ha­bitualmente, traziam vinho do Porto, bolinhos, e eram muito efusivos e respeitadores. Quis esclarecer as coisas. Ela vinha peloooarado, pelos versos e pelos barquinhos. Mas o lavrador não se prestava a grandes conversas: «Vamos lá andando...»

De novo serpearam atrás da camioneta, por montados bra­vios. O Guedes dizia que assim não se responsabilizava pela viatura e Lurdes sentia-se, no íntimo, arrependida de não ter esmiuçado devidamente o ponto da situação. A equipa ia des­contente e moída dos rins. Outro monte. Cães a ladrar. Paragem. Imensos, quedos sobreirais retorcidos até ao infinito.

«Agora, aqui o amigo», disse o homem de roxo para o ope­rador de imagem, «põe aí a máquina a funcionar, que eu que­ro isto tudo contado a preceito.» «o quê?» Lurdes Barbosa a protestar: «Eu peço imeeeeeensa desculpa, mas...» a ruivo que vinha na camioneta chegou-se preguiçosamente. Trazia uma caçadeira apoiada no braço direito. Na mão esquerda, as cha­ves da carrinha da televisão. o lavrador: «Aqui o mê Zé tam­bém tem uma máquina.» Apontou para a caçadeira. «Esta é a que faz marchar as outras todas. Entendido? Filme aí.» o ho­mem fez um largo gesto circular, de mão em concha. «Filme lá!!!» a operador olhou para Lurdes Barbosa, mas recebeu ape­nas, num aperto de bíceps, um sinal que queria dizer «faz como ele diz». E apontou a câmara para o monte, para o galinheiro, para uma oliveira e, finalmente, fixou-se no homem de roxo, que pigarreou e proferiu, solene e magoado, para a objectiva: «Eu quero dar fé dum grande escândalo!» Repetiu «um grande es­cândalo», abanou tristemente a cabeça, suspirou, virou as cos­tas e entrou nas casas. A equipa dispunha-se a ficar ali pasmada, no terreiro. Mas o moço ruivo levantou a espingarda e todos seguiram de roldão atrás do homem. Mesmo o Guedes, que não encontrou receptividade para a alegação de que estava ali só para conduzir e não tinha nada a ver com a matéria.

«Tem som? Está a sair bem?», perguntou o homem de roxo. Estavam dispostos em círculo, numa quadra escura, ao fundo dum corredor. Uns raios de Sol refulgiam numa telha de vi­dro e vinham dar forte no tampo duma arca enfarinhada. Chei­rava a azedo. Havia potes em volta, garrafões, uma almotolia de lata e, a um canto, pendiam dos barrotes do tecto as canas duma queijeira. Em duas cadeiras de bunho sentavam-se uma moça assaz grávida e um rapaz moreno de olhos muito negros e muito assustados. Orectângulo da porta, há pouco desa­ferrolhado, era agora ocupado pelo ruivo Zé, que, meio alhea­do, balanceava lentamente a caçadeira, com os canos a bater ora num ombro ora noutro.

O operador virou-se para o homem da camisa roxa com um ar quase suplicante: «Ó senhor, veja lá em que é que nos está a meter.» «Não há azar», disse o lavrador e ordenou: «Luz!» Vinham prevenidos com um reflector e uma bateria. O clarão, forte, desfez as sombras e iluminou o aposento até aos recôn­ditos mais ocultos. Impressionava menos, agora. Mas o rapaz quase deu um salto na cadeira, do susto.

Mais uma vez, Lurdes quis arguir. Que aquilo era um pro­grama para o canal dois, que tratava só de ofícios e de hobbies, 'tá á perceber?, que aquele assunto tanto se lhes dava, que os tinham apanhado à má fila, bem vê, com um telefonema falso sobre um velhote que, enfim, se o rapaz estava numa de dis­parar a caçadeira, pronto, fazia-se o jeito, mas... E a equipa prontificou-se a fazer o jeito. Nem apreciaram muito que Lurdes se pusesse a protestar porque convinha era manter a calma, a caçadeira distraída, porque o mau momento havia de passar. O operador de imagem mostrou-se prestimoso, muito obe­diente, a maquilhadora avançou, com os seus pés, o jovem do som aprestou os aparelhos e a assistente fez estalar uma claquete junto da cara do homem de roxo, que desconfiou mas deixou andar. «Agora apanhe-me aqui a mim!»

Aquilo, prosseguiu o lavrador, era uma grande escandaleira e ele queria que todo o país (as portuguesas e os portugueses) soubesse que aquele moço que ali estava (desvio da câmara para devido enquadramento, registo da voz em off) lhe havia empre­nhado a filha (close da filha) e que quando ele, pai surpreso e desgostoso, o tinha chamado a contas para reparar o feito pelo casamento, o descarado lhe pedira uma avença de 300 contos por mês. Que tinha depois reduzido a 250 contos. Se isto era justo e decente. Se não era, que fosse ali registado para apare­cer no telejornal e o país todo ficar a saber! Até para que ou­tros pais ficassem prevenidos. «Já está?» O operador de câmara levantou o polegar esquerdo e pôs a máquina em repouso.

O homem de roxo admoestou o rapaz: «Estás a ver? A ver­gonha em que tu caíste? Toda a gente vai conhecer as tuas trom­bas e fica a saber que querias receber um ordenado para toda a vida, por uma prenhez...» A rapariga mexeu-se, reagiu, mas o pai foi imperativo, com um gesto de mão alçada muito alto, quase a rasar a telha-vã. «Tu, caluda, hem?» «Sôr Fradinho, vossemecê não tem razão, e eu vou explicar tudo. Isto é dever de todos os sogros ajudarem os genros e sempre foi assim... O senhor entendeu mal o que eu estava a dizer. Agora, fechar­-me aqui é que não está certo.»

«Ah, entendi mal? Então ligue lá essa gaita outra vez.»O lavrador sentou-se num bidão amolgado que arrastou com grande ruído para o pé da filha e do outro e ali começou uma arenga. Desta vez a rapariga interveio para dizer que era maior e vacinada e que ela é que sabia da vida dela. Pelo canto do olho, o lavrador ia confirmando se a luz vermelha da câmara estava acesa. À porta, o matulão da espingarda bocejava. Por não ter nada que fazer, o Guedes motorista, a título rigorosa­mente excepcional, deu uma ajuda, segurou no tripé do reflector. E nunca mais havia maneira de acabarem a discussão. «Que era um ordenado.» «Que não era.» Lurdes, num rompante, sentou­-se na cadeira ao lado da rapariga e resolveu pôr ordem naquilo. «Com licença! Eu modero isto.»

O lavrador e os outros deram-lhe espaço, o lavrador tirou o boné que pôs sobre os joelhos. A toda a largura da testa mostrou um vinco vermelho que se continuava pela nuca num fino rego de cabelos empastados. A maquilhadora distribuiu pinceladas por aquelas caras. «Silêncio!» «Claquete!» «Câma­ra!» «Acção!» «Estamos num monte alentejano, a poucos qui­lómetros de Vale do Alardo. Alguma coisa se passou que fez perder a cabeça ao senhor... Desculpe???» «Hilário Fradinho!» «... ao senhor Hilário Fradinho. À minha esquerda encontram­-se... Comecemos pelo senhor Hilário Fradinho. Senhor Hilário Fradinho, conte lá...»

Três horas depois, desviava a Ford Transit para a estrada de Montemor e iam todos amuados, a caminho do lanche. Ti­nham transportado o rapaz do monte até à vila, e o lavrador não se opusera. Também parecia mais conciliado com a filha. O homem ficara tão contente por desabafar em frente das câ­maras e convencido de que tinha ganho a discussão com o problemático genro, que já estava por tudo. Ofereceu vinho, ofereceu queijo e chouriços. Queria mostrar-lhes a propriedade, a adega, as vacas. Queria retê-los, num acesso possessivo de hospitalidade. Um castigo. Foi preciso que Lurdes lhe garan­tisse que tinham de partir depressa para chegarem a tempo de passar o debate no telejornal das oito.

O rapaz era pouco falador. Sentou-se ao lado do casalinho e veio durante todo o percurso a rosnar, de si para si: «Uma vida inteira empatada, ora o cabrão do velho, hã?» Pediu que o deixassem no largo da vila e ala!

Mal ele saiu desataram todos a falar ao mesmo tempo. O jovem casalinho de preto queria fazer queixa à guarda. Se­questro, e tal. D. Matilde não se fartava de dizer o medo que tinha apanhado. O Guedes entendia que o moço tinha razão. Se o queria para genro que lhe pagasse, que os tempos não estão para abébias. O operador de imagem declarou com pena que o seu tamagoshi tinha morrido. Pusera-se a vibrar durante a fil­magem, mas ele não tinha querido fazer gestos que pudessem ser mal interpretados pelo da espingarda, que parecia não ser lá muito certo... E Lurdes proclamou o seu enfado. Que não se ia fazer queixa, de forma nenhuma, porque ela não estava para passar a vida a caminho de um tribunal qualquer perdido no Alentejo. Que se estava nas tintas para o tsunami do outro. Que lamentava, sim, era o dia perdido, sem trabalho feito. Que não queria saber das opiniões do Guedes para nada. E que se calassem e a deixassem em paz, porque a responsável pelo programa que ia aparecer em Lisboa de braços a abanar era ela.

Na esplanada de Montemor, o desconforto das almas man­tinha-se. Eram seis da tarde. Lurdes perguntou ao empregado se não conhecia alguém que fosse ao mesmo tempo um pro­fissional, sei lá, e tivesse outra actividade interessante. O ho­mem ficou desconfiado. À primeira deve ter pensado que estava a lidar com os das Finanças, ou fiscais de qualquer coisa. Mas Lurdes, paciente, explicou-lhe que eram da televisão, que es­tavam a fazer um programa... «Bom, o meu tio, que é barbei­ro, ensinou um melro a falar... Um melro, assim pequenino, que canta a Aurora.»

Lurdes e o operador de imagem entreolharam-se num re­lance. Tínhamos homem. O programa estava salvo. «Achas que ainda há luz?» «Dá-se-lhe com o foco.» «Toca a ir buscar os equipamentos, depressa.» «o que é que se faz às imagens do monte?» «Rebobina-se e grava-se por cima.»

Andor! Nem deram gorjeta ao homem.

 

                   Vaudeville

Como de costume, à hora do almoço, Gilberto entrava no gabinete de Isabel, a directora de serviços, com papéis graves na mão, ávidos de boa ponderação e despacho, e logo fechava a porta à chave, atrás de si. Isabel recebia-o com um brando sorriso e indicava-lhe o grande sofá, forrado de napa castanha.

O edifício estava vazio, zumbiam as moscas, o pessoal al­moçava, e os dois amantes iniciavam o seu ritual, rápido, às vezes tumultuoso, sempre com o travo picante da transgressão e o risco de escandaloso processo disciplinar, no caso de serem reduzidos a auto os rumores que já circulavam em todo o departamento.

Gilberto tinha a suspeita insidiosa de que partilhava Isabel pelo menos com metade da população masculina ao norte do Tejo, e a consciência do carácter caprichoso e efémero daque­la relação. Mas o que havia começado de um modo um tanto indiferente, descontraído e relaxado, absorvia-o neste momento por completo, com o sabor da passagem triunfal dos limites. Durante aquela hora em que prevaricavam, Isabel queimava pauzinhos de incenso, cujos vapores tinham depois de expul­sar pela janela aberta, numa azáfama divertida e excitada. Pelo resto do dia, tratavam-se com um «senhor doutor», «senhora doutora», cerimonioso e distante, a propósito de assuntos de serviço. Ao fim da tarde, partia cada qual para seu cônjuge, na fila dos funcionários em regresso.

E, assim, imperceptivelmente, mais e mais se fora firman­do o empenho de Gilberto naquela ligação, estimulado pela sua própria escassez, celeridade e incompletude.

Mas Gilberto mostrava-se hoje tenso e enervado. Não fe­chou a porta à chave, recusou o sofá grande, atirou com os papéis para uma cadeira, aplicou ambas as mãos sobre a se­cretária e exclamou, dramaticamente:

«Estamos perdidos!»

            Isabel não se alterou. Com uma suave compostura de ges­tos, acendeu um cigarro, deu um jeito ao cabelo e perguntou, num tom levemente zombeteiro:

«Credo! Então?»

«Já sabes quem vem substituir o Emanuel?7»

«Já... É uma tal Elsa Gonçalves, das Contribuições e Im­postos. Tenho para aí o processo em qualquer lado...»

«É que, minha querida, a Elsa é a melhor amiga da minha mulher. E, sobre isso, a maior coscuvilheira e contadeira de coisas da Função Pública.»

            «Hum...», inquietou-se Isabel.

            «Se ela suspeita de alguma coisa vai logo a correr contar à minha mulher. E agora?»

«E agora é preciso sangue-frio, meu querido», sussurrou Isabel, sorrindo. E aproximou-se, depois de esmagar o cigar­ro no cinzeiro.

            No dia seguinte, Elsa já ocupava, alegremente, a sua secre­tária, frente à de Gilberto. Em sinal de posse, instalara sobre o tampo uma caixa de lápis, uma moldura com fotografias e um relógio de calendário. Por parte de Isabel a recepção foi reservada e cortesmente distante, como era de esperar do des­nível hierárquico. Já Gilberto foi expansivo e ruidoso nos cumprimentos e colaborou, zelosamente, com o meticuloso arrumar das gavetas de Elsa.

«Onde é que almoças?», perguntava Elsa às tantas.

«Ah, fico até mais tarde e depois talvez vá almoçar com uns tipos conhecidos, da Associação dos Amigos dos Castelos. Não esperes por mim. Olha, há por aqui uns restaurantes ba­ratos, do tipo come-em-pé...»

            Foi desesperado que, uma hora depois, Gilberto entrou no gabinete de Isabel com as pastas costumadas na mão:

«É o fim... Imagina que agora até quer almoçar comigo. Inventei uma desculpa, mas, bem vês, a situação é embaraço­sa...»

«De facto, preferia não me envolver em mexerufadas», res­pondeu Isabel, tranquilamente, enquanto ia sublinhando a ver­melho os períodos mais significativos de um longo documento em papel pautado. «Imagina que a tua mulher vinha aí fazer­-me uma cena... ou que o meu marido acabava por saber ê àpa­recia a pedir-te contas... Desagradável, hem? Burlesco...»

            Isabel arrumou cuidadosamente o papel azul e só então le­vantou os olhos para Gilberto:

            «Quer-me parecer, meu querido, que vais ter de usar de muita diplomacia...»

«E se nos passássemos a ver mais tarde, depois do servi­ço? À noite, sei lá... Sempre tenho a desculpa dos Amigos dos Castelos...»

            «Bem sabes que é impossível. Então, e o Raul?»

            Compenetradamente, ambos estudaram a situação. Isabel serenamente sentada à secretária, e Gilberto medindo o gabi­nete a grandes passadas e expelindo túrgidas baforadas de fumo. Dessa vez, ninguém se lembrou dos pauzinhos de incenso.

«Há só um processo», acabou por dizer Isabel com algu­ma hesitação. «Rouba-lhe a amizade da tua mulher. Trata-a bem, liga-a a ti, enfim, corteja-a...»

Gilberto irritou-se. Falou alto:

«Mas cortejar, como? Aquela voz áspera, aquele corpo desengonçado... Minha querida, é seduzir a Olívia Palito, é namorar um gafanhoto...»

«Não se pescam tmitas a bragas enxuitas», replicou Isabel secamente. «Amanhã vais almoçar com ela. Depois, veremos...»

Elsa, durante o almoço, falou, falou... Tinha um assunto pre­dilecto: a família e os filhos; e um inimigo favorito a quem chamava «as pessoas»: «as pessoas» eram tão ruins, «as pes­soas» eram tão maledicentes, «as pessoas» eram tão incom­preensivas...

Gilberto notou que ela vestia com um gosto apurado e que não era de todo deselegante aquele gesto de cigarro abando­            nado entre os dedos, com a mão descaída.

de volta, dizia-lhe Elsa:

«Ah, creio que me vou dar bem por aqui...»

E, durante a tarde, assediou a secretária de Gilberto, pedindo informações, pedindo dados, pedindo documentos... Por vá­rias vezes Gilberto teve que esconder com a mão o bilhete, des­tinado a Isabel, em que dava conta de algum desespero, muita impaciência e sofredoras saudades.

A mensagem terminava com um post-scriptum imperativo: «E vê se consegues remetê-la para uma reunião, para um encontro, para um congresso, de preferência no estrangeiro...»

            À saída, em resposta, Isabel passou por ele e segredou-lhe, com um sorriso:

            «Vamos, vamos, porta-te bem...»

            Mas no dia seguinte, a meio da manhã, Elsa perguntava­-lhe, muito jovialmente:

            «Então, almoça-se?»

            Gilberto, sem levantar os olhos dos papéis, resmoneou que não dava jeito, que tinha de ir a despacho com a chefe.

            «Não faz mal, eu espero.»

            «Olha que posso demorar e, depois, sabes, os restaurantes ficam cheios...»

            «Não tem importância, eu espero. Sempre é melhor que almoçar sozinha.»

 

Isabel estendeu-lhe a cara, quando entrou no gabinete, à hora habitual, mas Gilberto ficou-se por um beijo silencioso e fugaz:

«Ela está lá fora à minha espera...»

«Irritante, hã?»

«Ouve, temos de arranjar maneira de nos vermos noutro lado. Podíamos, talvez, uma destas tardes...»

«Impossível, com este serviço. O director-geral não me larga. Estás a ver?» E Isabel apontava as resmas de papel, em cima da secretária. «Além disso, não quero, nem de longe nem           de perto, que o Raul desconfie de nada, percebes?»

Gilberto deixou-se cair no sofá com irritação: «Bolas! »

Com alguma impaciência, Isabel arrumou os óculos-de-ver­-ao-perto, dispôs o pesa-papéis, figurando a Vitória de Samo­trácia, sobre um monte de ofícios e voltou-se, maternalmen­te, para Gilberto:

«É como te disse: só há uma solução. Tens de lhe ganhar a confiança, ou melhor, a cumplicidade, entendes? A cumpli­cidade.»

«Mas olha, Isabel, por que não ganhas tu a cumplicidade dela? És a directora, podias, enfim, convidá-la para almoçar, chamá-la mais ao teu gabinete...»

«Ingénuo, meu pobre ingénuo...», sorria-se Isabel, «mas as razões são mais que óbvias... És tu quem pode defender esta relação, não eu.»

 

Foi de sobrolho derribado que Gilberto partiu para aquele almoço. A frustração, o sentimento de injustiça por ter deixa­do Isabel mais uma vez sozinha (mas ficaria mesmo sozinha?) amarguravam-no e induziam-lhe nas réplicas um sarcasmo contumaz.

Mas Elsa era totalmente invulnerável à ironia e indiferente a semblantes sombrios. Aparentava, contra todas as evidên­cias, uma exuberante felicidade por se encontrar de novo em companhia de Gilberto:

«A tua mulher? E os miúdos?», perguntava. «Pensar que somos vizinhos, que nos conhecemos há tantos anos e que pra­ticamente não nos vemos. Não tarda, vamos fazer-vos uma visita, está bem?»

«Com todo o gosto», respondia Gilberto. «Assim eu este­ja em casa. Sabes, há aquelas reuniões dos Amigos dos Caste­los...»

Mas já Elsa, mordiscando uma azeitona, faceiramente, mu­dava de assunto e inquiria:

«Olha lá, a nossa chefe, que tal?»

«Que tal, o quê?»

«Parece-me que não gosta muito de mim. Trata-me com rispidez, com secura. E eu ainda mal cheguei...»

«É isso, tu mal chegaste. São imaginações tuas. Ela é uma excelente pessoa, trabalhadora, justa... Não ligues, vais ver que não há-de ser nada...»

            Elsa encarava-o agora, a face pousada nas palmas das mãos, o olhar penetrante:

            «Mais uma gotinha de vinho?», queria saber Gilberto.

            , «Só um tudo-nada», respondia Elsa. «É que depois posso ficar tonta...»

            Mas Gilberto já pedia para dentro mais um jarro de bran­co, bem fresco.

Estavam ambos muito animados, à sobremesa. Gilberto des­pejou um imenso repertório de histórias vagamente brejeiras. Elsa ria, ria. Em dado momento, como para pedir tréguas, pousou a mão na de Gilberto, que achou a pressão magnetica­mente vibrátil.

«Ai, as horas que são!», assustou-se Elsa.

Fingiram que se apressavam, no caminho para o serviço.

Gilberto brincava: ora estugava o passo, ora o abrandava, com uma moleza indolente, ora parava numa montra, ora dava corridinhas breves. EIsa ralhava e ria.

à porta, Elsa estacou e empurrou-o, muito faceira: «Sabes, não é por nada, mas estou convencida de que a nossa chefe gosta muito de ti...»

            Quando Gilberto reagiu, já Elsa tinha fechado a porta do elevador e subia, fora de alcance.

 

Ao outro dia, Elsa faltou.

Eram dez horas, onze, onze e meia, não tinha ainda che­gado.

Gilberto foi esperando e retardando o momento de entrar no gabinete de Isabel com um pretexto qualquer, sempre so­braçando um molho de documentos:

            «A Elsa falta! Podemos ver-nos à hora do almoço?»

            «Não és obrigado! », respondeu Isabel com rispidez, sem despegar olhos dos papéis.

            Gilberto mostrou-se estupefacto. Quis protestar. Tossiu e ia replicar quando Isabel o despediu:

            «Até mais logo, meu querido, até logo, agora tenho que trabalhar...»

Mas à hora do almoço desarmava toda a fúria acumulada por Gilberto com uma exuberante demonstração de ternura. Queimaram incenso, nessa tarde. E dispersaram os cheiros, in­fantilmente, aos gritinhos.

            Mas Isabel amuou, de repente, de braços cruzados sobre o peito, sentada no sofá. Que tinha?

            «Oh, nada», respondeu. E, depois, abraçando-se a Gil­berto: «Por favor, não estragues esta relação, toma cuidado...»

Quando Gilberto, um pouco mais tarde, de mente confu­sa, saía do gabinete de Isabel, já Elsa trabalhava à secretária, muito atenta, alinhando números com a máquina de calcular.

Durante largo espaço, Elsa foi lidando com os seus papéis. Volta e meia, atardava-se, de lápis na boca, a procurar ideias nas volutas do cigarro, e logo mergulhava na elaboração fre­nética de um relatório.

Desta vez, nada perguntava a Gilberto, contra os hábitos já instituídos. Afectando uma distracção distante, este não a perdia dos olhos, um tanto impaciente, na espera de ser, en­fim, interpelado.

Considerava uma vez mais a graciosidade daquele gesto de cigarro desamparado entre os dedos e, sobretudo, admirava a vivacidade do belo vestido cor de cereja que EIsa trazia naquela tarde.

            Superficial? Um pouco desengonçada? Talvez... mas um ga­fanhoto... era exagero. E, depois, aquele voltear da mão...

            Só muito tarde, próxima a saída, Elsa rompeu o atarefado silêncio:

«Esta manhã fui buscar o carro à garagem. O meu marido vai para a Holanda e eu quis o carro afinado antes de ele se ir embora. Dou-te boleia?»

Quando Elsa, nesse fim de tarde, o ajudou a abrir a porta do carro do seu lado, Gilberto não se distraiu do corpo dobra­do sobre o seu, nem do perfume silvestre, nem da maciez da pele. Durante o percurso, manteve-se imperturbável, conversan­do serenamente sobre banalidades. Mas, mais tarde, pela noi­te fora, aquele vestido cor de cereja veio-lhe repetidamente àideia.

«Bom, ao fim e ao cabo tenho instruções a cumprir: devo seduzi-la», ria-se de si para si. Mas não tinha muito a certeza de estar a brincar...

 

No dia seguinte, Isabel mostrava-se ocupadíssima, enerva­díssima:

«O índice de preços? Põe aí...»

Depois, suspendendo o gesto:

«A tua nova conquista, como vai?»

«Preciso urgentemente de estar contigo.»

«Bem queria eu... Mas olha», e volteava as páginas da agenda, «vê bem, às dez com o director-geral, às onze e meia com os tipos de Trás-os-Montes, às duas, outra vez com o di­rector-geral. Hoje é impossível, meu querido.»

«E depois do serviço?»

«Nada a fazer. Tenho de estar no emprego do Raul às seis. Jantamos hoje em casa dos meus sogros.»

            E ao dizer isto, já Isabel se levantava, arrepanhando papéis de cima da mesa.

 

Sentado agora sozinho em frente de ElIsa, Gilberto sabia que Elsa dava por estar a ser observada. O silêncio era apenas ro­çado pelo leve sinal da máquina de calcular dela. O cigarro sempre abandonado na mão, um ar de serena reflexão, um vestido amarelo, não tão vistoso como o de cor de cereja, mas, ainda assim...

Num sorriso intercalado entre duas baforadas de fumo: «Almoçamos?», perguntou Elsa.

«Decerto...»

E durante o resto da manhã continuaram enfronhados nas suas rotinas.

            «Vamos?», interpelou Gilberto, olhando para o relógio: «Meio-dia e meia...»

            Mas Elsa, debruçada do parapeito da janela, olhava agora o Tejo:

            «Já viste já a luminosidade deste rio? Chega a ser agressi­va...»

Gilberto aproximou-se, considerou que o Tejo corria, de fac­to, luminoso, mas, agressivo, seria exagero... E, sem perceber como, viu-se enlaçado com Elsa que exclamava, com voz al­terada:

«Não sei, não sei como isto pôde acontecer...»

 

EIsa, ao almoço:

«Temos de arranjar um tempo e um espaço só para nós. Estou farta de te ver entre papéis.»

«Mas só lá vão três dias...»

«Não importa, estou farta! Quero ter-te só para mim. Fal­tamos uma destas tardes, está bem?»

«E a chefe?»

EIsa sorriu, dobrou e alisou o guardanapo, hesitou, titu­beando um pouco, e disse:

«Não leves a mal o que vou dizer, mas... há ocasiões em que é preciso agir com tacto. Tu sempre és homem, percebes? Tens de procurar insinuar-te mais, seduzi-la um pouco. Enfim, obter­-lhe a cumplicidade. A cumplicidade, estás a compreender?»

 

                   O binóculo russo

Matilde deixou cair o dossier com estardalhaço no lajedo do patamar. Aquela porta ficara má de abrir, depois de uma reparação caríssima, que sucedera a uma tentativa de assalto. Vinha, como sempre, muito carregada. Teve que equilibrar a pasta entre os joelhos, ajeitar os sacos de plástico nos pulsos, puxar ligeiramente a chave para si, depois de a ter feito desli­zar no buraco da fechadura; e aplicar-lhe uma torção lenta, sábia, até convencer a lingueta a saltar. Não havia mãos e joe­lhos que chegassem para todos os volumes. Estrondeou o dossier no chão, estrondeou a fechadura nas ferragens, estron­dearam as latas do supermercado na madeira da porta, e a vi­zinha do lado logo a aparecer, de braços cruzados e viso furibundo. Não disse nada, porque tudo estava já ralhado, cara a cara, pelo menos de há um ano a esta parte. O homem dela fazia turnos de noite, tinha o sono leve e aqueles rumores cau­savam-lhe uns sobressaltos e um mal-estar que ela designava modernamente por stress, mas que em interpretações mais rigorosas e menos científicas poderia ser traduzido por «vonta­de de embirrar». Seguir-se-iam remoques e apartes ditos da varanda, para que Matilde os ouvisse bem e, talvez, umas vas­souradas na parede para que ela se compenetrasse de que não se incomodava impunemente um capataz a turnos, moído de chatices.

Com alívio, Matilde fechou a porta atrás de si - devaga­rinho, para não reincidir nos estrondos - e refugiou-se nas suas duas assoalhadas, impecáveis de arrumação. Saltou o gato do sofá e veio cumprimentar, roçando-se-lhe pelas pernas. Inte­resseiro, o bicho.

Queria comida, a dona era a garante das refeições. Mas Matilde tomou para si os cumprimentos como se fossem afei­ções de gato.

depois de distribuir géneros e vitualhas, pasta e dossiers, pelos sítios destinados, Matilde se aproximou, a medo, da marquise das traseiras. Não podia evitar aquele baque e a tremura nas mãos sempre que, pelo fim da tarde, espreitava pelos vidros. Ele estaria lá? Se estivesse, o baque tornar-se-ia mais forte e sentiria na face aquela tepidez da pele a rosear­-lha. Se não estivesse, sobreviria um desalento melancólico. Era, em qualquer dos casos, um padecimento.

De maneira que Matilde se foi chegando à janela devagar, retardando até ao último momento a ocasião de olhar para fora, por detrás do cortinado de cassa, porque não ousava mostrar-se.

A marquise deitava para a negrura dum saguão fundo, ainda mais ensombrado por uma velha nespereira que não parava de crescer e que ninguém se dava ao trabalho de podar. Mais para além, atrás de um muro alto, dormitava um quintalório meio abandonado, com ervas altas e anárquicas a quererem trepar por um pombal em ruínas; do outro lado duma vedação de cedros, a meia altura, resplandecia o pátio dele. Chamar-lhe quintal seria desmerecedor, porque exibia uma espécie de fonte em que um peixe beiçudo deveria verter água para uma tina, se estivesse ligada à canalização, no meio duma relva bem apa­rada, a rasar um canteiro pintado de branco com uma roseira que preponderava sobre floritas roxas, misteriosas.

Ele estaria? Não estaria? O olhar de Matilde hesitou pelos telhados de prédios altos, nas lonjuras. Depois decidiu-se, fi­tou o jardim e perscrutou entre as heras do caramanchão, correu a sebe e os muros, admirou uma vez mais a imaculada fonte do peixe, pousou na mesita de plástico branco, esquadrinhou os quatro cantos, subiu pela ferrugenta escada de salvação. Nada. Matilde suspirou e abafou um pigarro brando nas cos­tas da mão. Tomou-a a tal tristeza lassa, desanimada. Na sala, sobre a mesa, o medonho dossier amarelo com prospecções de vendas já clamava por ela.

De súbito, um alvoroço. Um vulto branco por entre as fo­lhas do caramanchão. Um homem avançou, expôs-se ao olhar, cruzou os dedos de ambas as mãos em frente do peito e esten­deu os braços. O «claque» seco dos ossos distendidos chegou aos ouvidos de Matilde. Se não chegou, foi como se chegas­se. Meu Deus, era ele. O dossier podia esperar! O homem deu uns passos pela relva, sentou-se à mesita e foi folheando um livro que - Matilde não tinha reparado - já lá estava. Ma­tilde cruzou os braços com força e fincou as mãos nos ombros. Distinguia agora nitidamente o perfil do homem, atento, con­centrado, segurando o livro aberto com uma mão, enquanto com a outra tamborilava, elegantemente, no tampo da mesa. De vez em quando, aquela mão tamborilante levantava-se, suspendia­-se um instante no ar, penetrava no livro e virava mais uma pá­gina. E Matilde a ver de longe, com enlevo...

Pelas oito horas, o trivial: uma mulher de bata florida e ar desmazelado veio ao patamar da escada de ferro e chamou, muito autoritária, de mão na anca. «Lá está a vaca da mãe», resignou-se Matilde, «vem chamá-lo para jantar...» O homem fechou o livro, decerto contrariado, porque muito melhor ficaria a ser observado secretamente por Matilde, tamborilou por um momento com os dedos de ambas as mãos na mesa, levantou­-se, subiu as escadas e entrou. «Pronto», suspirou Matilde, «agora, jantar em frente do televisor e, vista e apreciada a te­lenovela, o dossier amarelo...»

 

«É russo, minha senhora, está a ver?

O oculista, muito peremptório, apontava os caracteres cirílicos gravados a verde no binóculo.

«Pesado...»

«Sólido, minha senhora. Os russos, noutras coisas, não sei; mas, agora, na óptica... Ora experimente lá, se faz favor.»

Matilde, timidamente, focou o binóculo, apontou-o à mon­tra: uma confusão. Girou sobre si e distinguiu a cara enorme, deformada, de Maria Eduarda que a olhava com os olhos es­bugalhados:

«Não sei... Acho que serve.» «Faz-me um desconto?» «Pois sim, uma atençãozinha...»

Era a hora de almoço, Matilde e a amiga cumpriam a roti­na do percurso até à pastelaria do costume (um croissant com fiambre, um copo de leite e uma bica) quando Matilde desviou caminho para o oculista. Maria Eduarda fez perguntas, interes­sada pelos desarranjos visuais de Matilde, magnífica matéria de conversação, e ficou muito surpreendida por a colega ter pedido para apreçar binóculos.

Matilde deu uma explicação que deixou a outra intrigada: que era por causa do gato. Andava sempre a vadiar pelos quin­tais e, assim, podia saber onde é que ele parava...

«Ah...»

À mesa, Eduarda, como de costume, tinha muito que con­tar: a chefe havia-lhe deixado uma nota a vermelho (a verme­lho!) avisando-a de que deveria abrir as páginas do Diário da República, coisa que não era da sua competência: o gabinete estava irrespirável desde que o paquete resolvera fumar uma espécie de tabaco-de-onça, mata-ratos ou lá o que era aquilo; iam montar no serviço uma instalação que registava todas as comunicações telefónicas, a fim de debitarem as chamadas pessoais aos empregados; o Ricardo estava a chegar atrasa­díssimo aos encontros e deixava o atendedor de chamadas li­gado mesmo quando (era óbvio!) estava em casa, mas o que valia era haver mais Ricardos na terra; podia-se ganhar um dinheirão fazendo comida para festas, para casamentos e coi­sas assim; apesar dos horrores que se diziam, a Igreja Manánão era tão má como isso, tudo muito limpo; a última teleno­vela brasileira estava muito bem feita.

Nada de novo, naquela hora de almoço... Eduarda ainda quis saber mais sobre os binóculos, mas Matilde conseguiu ser extremamente vaga, embora não insistisse na necessidade de vigiar o gato. E deu mesmo um par de conselhos a propósito do Ricardo e as cautelas apropriadas quando se trata com ho­mens instáveis.

O binóculo era, de facto, pesado. O ruído que fez, quan­do, dentro da mala de Matilde, embateu com força na porta, despertou no interior da casa da vizinha um rancoroso «Lá che­gou a gaja...», perfeitamente audível. Mas Matilde estava tão impaciente para chegar à marquise que, contra o costume e indiferente às consequências, atirou com a porta violentamen­te. Desprezou o gato, deixou os sacos de plástico em qualquer lado, o dossier esbarrondado, a trouxe-mouxe, em cima do sofá, e ala, para o seu posto de observação, de binóculos em riste.

Ele já lá estava e lia, à mesa, com aquele desprendimento selecto que tanto a havia impressionado na véspera. Matilde tinha-o agora ao perto, muito nítido, com as cores muito vi­vas. Podia acompanhar-lhe o perfil, milímetro a milímetro, o azulado da barba na face bem escanhoada, as riscas- da cami­sa, cuidadosamente arregaçada nos punhos e o livro, manusea­do com displicência. Conseguiu ler as letras da capa: Cultive a Sua Vontade de Vencer, por J. D. Rus_ West. Céus, aquilo eram leituras de gestor. Bem se via, de resto, por aquele jar­dim tão bem cuidado, pelo fontanário, com peixe e tudo. Um gestor, votado ao sucesso, em pleno bairro de Santos, para "além das nespereiras... E captou todos os pormenores, todos os movi­mentos, até que a mãe (ou, pensando melhor, talvez a criada) veio costumeiramente, muito desmancha-prazeres, chamar o homem para jantar.

Matilde dormiu muito apressadamente nessa noite. Sonhou que circulava a grande velocidade por uma estrada bordejada de nespereiras descomunais. Um Ferrari vermelho ultrapassou­-a. Era o vizinho que o conduzia, de camisa desabotoada no pescoço, deixando entrever, por baixo do colarinho, um lenço de seda de ramagens azuis. Matilde seguia num carrinho de feira, mas, prego a fundo, esforçava-se, não deixava que a dis­tância ao Ferrari aumentasse. Eduarda surgiu de repente a seu lado, de cabelos ao vento, e advertiu: «Olha que o gajo é dos que deixam o atendedor de chamadas ligado e fingem que não estão! Além disso, tu não sabes guiar!»

Matilde fez muita bato ta no serviço, na manhã seguinte. Deu-lhe a impaciência. Pediu que a deixassem sair por uns ins­tantes para ir à Câmara tratar de uma multa e ao banco escla­recer uns problemas de saldo, já que à hora do almoço tinha que passar por casa, porque o canalizador... A chefe não este­ve para averiguar mentira a mentira e nem sequer ouviu a do canalizador. Limitou-se a rosnar, como de costume: «depois você compensa!»

Foi direitinha a uma livraria e olhou demoradamente para a montra, num pasmo que contrastava com a pressa de antes. O livro, claro, não estava em exibição. Só havia álbuns caríssi­mos, sobre cães, palácios e porcelanas da China. Ainda assim, Matilde contemplou a montra com minúcia. Era-lhe difícil en­trar numa livraria, assim sem mais nem menos. Tinha a impres­são de que aqueles empregados andavam sempre a vigiá-la, desconfiados, e de que os cidadãos sorumbáticos que cirandavam entre as bancadas eram intelectuais peneirentos que a olhavam, com desprezo, como a uma intrusa. A última vez que entrara numa livraria fora para comprar os livros de Maria Roma e, mesmo assim, acompanhada pela Eduarda e de fugida.

se resolveu, enfim. Encaminhou-se com passo firme para o empregado que lhe pareceu ter melhor cara e perguntou pela Vontade de Vencer. O homem estava entretido com um embru­lho e quase nem se dignou a olhá-la:

«Veja ali naquela estante os livros de capa verde.»

            A tal estante era um tesouro de volumes maravilhosos, de lombadas vistosas, que ensinavam tudo o que era necessá­rio para a felicidade do género humano: Como Fazer Amigos, O Sucesso sem Contrapartidas, Apodere-Se dos Segredos de Machu-Pichu... Na quarta prateleira, lá resplendiam vários exemplares do Cultive a Vontade de Vencer. Matilde ficou com alguma raiva ao livreiro que insistiu em embrulhar o livro, com um papel vulgar. Estava ansiosa por ler. Ainda mal tinha saí­do e já arrepanhava o papel.

Regressada ao emprego, ainda antes do almoço, pôde, com o volume disfarçado entre resmas de facturas e a lista dos faxes, comungar da prosa que fortalecia o espírito do seu vizinho. Logo na terceira página, leu, extasiada: «O imperador Júlio César, também conhecido por Octávio Augusto, que viveu lar­gos milhares de anos antes de Jesus Cristo, era muito persis­tente, como todos os vencedores. Ao atravessar o caudaloso rio Rubicão que separa o Egipto de Itália, ordenou aos soldados que seguissem o seu penacho branco e bradou: "Ai dos Venci­dos"! Assim conquistou Pompeia e submeteu dezenas e deze­nas de cidades gregas.»

Aquilo era o mundo da erudição. No prefácio, o autor assegurava que havia consultado milhares de volumes de vá­rias línguas, efectuado centenas de entrevistas e frequentado as mais longínquas bibliotecas, sem esquecer a do Mosteiro de Lassa, no Tibete. Matilde, ofegante, sentia-se esmagada por tanto saber. E mais se firmou nela a admiração pelo homem que lia aqueles textos, afincadamente, todas as tardes, antes do jantar.

Não almoçou com Eduarda. Refugiou-se numa pastelaria distante e aprendeu alguma coisa sobre imperadores romanos e lamas do Tibete, na versão muito peculiar do autor america­no. À tardinha, de binóculo numa mão e livro na outra, espiou o vizinho, numa ansiedade, procurando adivinhar, em vão, que passagem do livro estaria ele a folhear. O gato miava, ao de­samparo, esganiçado de fome. Mas não sobrava atenção a Matilde. Nessa noite o animal só comeu depois da telenovela.

 

No último sábado de cada mês Matilde fazia as suas com­pras num supermercado do bairro, de acordo com uma lista sempre invariável. Habitualmente trazia pouco dinheiro, por medo dos assaltos. A empregada conhecia-a, aceitava-lhe os cheques sem grandes formalidades.

Mas naquela manhã, de caneta na mão, entre sacos de plás­tico vazios e talões abandonados, Matilde mostrava-se singu­larmente perturbada. Atrás dela, na bicha, acompanhado por um sujeito risonho que trazia um capacete de motociclista no bra­ço, tomava garbosamente posição o seu vizinho, supostamen­te «gestor». Vinha vestido com um fato de treino e balanceava nas mãos, com nervosismo, uma lata de ervilhas. Matilde bem que conhecia aquelas mãos. Dobrada sobre a caixa registado­ra, a preencher o cheque, sem ousar uma olhadela para o lado, sentia a presença dele muito perto. Querendo, podia mesmo tocar-lhe. Enrubesceu. Os dedos tremiam-lhe. Enganou-se. Teve de rasgar o cheque e procurar outro, atabalhoadamente.

            «Há pessoas que não têm respeito nenhum pelos outros, palavra de honra!»

            Matilde estremeceu e atreveu-se a olhar para o homem, abismada. De cabeça à banda, ele não se calava:

            «Vêm pràqui armar ó pingarelho c'a porcaria dos cheques e só sabem é empatar ou o caraças!!»

            «Ela nem sequer sabe preencher a merda do cheque!», res­pondeu o do capacete de mota, às casquinadas.

            «É pra mostrar que tem conta no banco! É finaça, a duque­sa!»

            Matilde balbuciou qualquer coisa na direcção da empregada. Depois, aterrorizada, ousou encarar o vizinho:

            «Mas...»

            «Mas, o quê? E não esteja a olhar pra mim qu' eu não sou mostruário.»

            E o outro:

            «Despache-se lá, senhora! Não vê que nos está a fazer per­der tempo? Oh, sorte!»

Rebentou uma grande altercação em volta da caixa regis­tadora. A empregada, como lhe tivesse chegado a mostarda ao nariz, tomou o partido de Matilde, com uma gritaria colorida, adequada à situação. Outros fregueses se interpuseram. Pare­ce que a questão até meteu a segurança. Mas Matilde já não ouvia nada. Muito encolhida, de sacos na mão, olhos no soalho, foi-se encostando à parede e, muito lentamente, com pas­sinhos trôpegos, saiu do supermercado.

No percurso até casa não cumprimentou ninguém nem ou­viu ninguém. Ia uma zoada confusa, naquela cabeça. Tumul­tuosamente, misturavam-se imagens quebradas, pensamentos incompletos e sensações desordenadas. Imperativamente, de permeio, com um rebate de urgência, ocorriam-lhe pequenas tarefas que planeara há muito e que, por uma razão ou outra, nunca tinha levado a cabo: encerar o soalho, limpar os bicos do fogão, coser a bainha do cortinado, arrumar a despensa, pôr em ordem alfabética os números telefónicos do bloco-notas...

Ao chegar a casa, completamente indiferente às reacções dos vizinhos, nem reparou se a porta tinha batido ou não. O telefone tocou, não atendeu. Durante todo aquele sábado Matilde girou pelo apartamento, numa actividade frenética de limpar e arrumar objectos. Nem almoçou. Desconfiado do feitio e da movimentação, o gato escondeu-se sob uma estante e optou por passar despercebido.

Ao fim da tarde, enfim, Matilde deixou-se cair no sofá, contemplou a sua obra e suspirou, já tranquila. Não! Faltava ainda um pormenor: o livro da Vontade de Vencer, ali a rebrilhar em cima da mesa, voou descompassadamente para o caixote do lixo. Depois, Matilde tomou um banho de imersão, canta­rolou, jantou enquanto via a telenovela e arranjou demorada­mente as unhas. Dormiu até muito tarde.

Passaram-se uns dias, antes que Matilde se acercasse da marquise. Foi por tentativas, devagar, pé ante pé, forçando-se muito. Com um papel adesivo, translúcido, forrou o vidro até meio, de maneira a não ser surpreendida, sem querer, pela vista do jardim relvado e do seu possuidor.

Mas havia mais mundos, acima do papel translúcido. Numa certa varanda, lá ao longe, todos os dias, à mesma hora, um senhor calvo, de pijama, vinha tranquilamente regar as flores. De vez em quando, voltava-se para dentro e falava com alguém. Aquela distância parecia a Matilde que o homem estava triste e abatido. Não podia ser má pessoa quem gostasse tanto de flores. Falava com a mulher, uma megera tirânica, decerto, que passava a vida a atenazá-lo com recriminações e pequenas maldades, que um amante de plantas estava longe de merecer. O ar carinhoso com que o homem acariciava as flores... Fala­va-lhes?

Matilde trepou a um banco, vasculhou num armário alto e tirou de lá o binóculo.

 

                   Carolina, Fernando e eu

Juvenal

O que me encantava em Carolina era a rara capacidade de discorrer durante horas, abstractamente, sobre coisa nenhuma, vertendo toda a conversação em tropos selectos de uma outra esfera, plenos de misteriosa ressonância. Por vezes zangávamo­-nos, amuávamos e ficávamos muito sentidos, mas sempre por razões etéreas, puramente inerentes àquele discurso, inenarrável, inefável, talvez poético, seguramente absurdo aos critérios do senso comum.

Ambos fingíamos tomar esta cumplicidade muito a sério, comigo sempre fascinado pela meigura de voz e pela segura e branda teatralidade dos gestos de Carolina. Era bom estar perto dela. As razões últimas dessa bondade são, ainda hoje, um dos meus mistérios.

De mim, não sei o que lhe agradava a ela. Talvez a minha disponibilidade de alma, talvez o meu feitio imaginativo de en­tão, talvez a grande paciência que - nem sempre - eu tinha a paciência de aparentar.

Mas logo na nossa primeira noite Carolina encontrou artes de me falar de Fernando, Um tanto a despropósito. A inesperada referência soou-me como dissonância áspera, talhando o enlevo de uma melodia muito suave. Dispus-me a reagir com alguma brusquidão:

«Para lhe ser franco, interessa-me pouco ouvir contar dos seus homens. Para eles é desleal, para mim, incómodo. Se não se importa, insistiria em que a nossa relação se mantivesse dentro dos limites do bom gosto, e eu fora dos limites de uma colecção...»

«Que petulância a sua», ironizou ela, «julga-se o centro do mundo, o pobre. Viva, pois, a pequena tirania...»

Levantou-se, devagar - Carolina tinha aprendido o encanto dos gestos pausados -, e ficou-se a olhar pela janela, por lon­gos instantes. Mais tarde diria, ainda de costas para mim, em voz muito sumida:

«Pode ficar tranquilo que nunca mais falarei nos meus homens, como você diz. Nem que me pedisse, percebe? Nem que me pedisse de joelhos...»

A conversa a seguir discreteou, por campos de subenten­didos, naquela transfiguração do quotidiano que viria a tornar­-se habitual.

Mas Carolina sabia marcar, bem assinalados, os meus des­lizes, num jeito seu, bem peculiar. Tornou-se de uma cordiali­dade extrema, muito formal, deixando que uma óbvia sombra       no olhar lhe desmentisse o sorriso.

Bebíamos vinho nessa noite. Evel branco, suponho. Numa das grandes pausas em que nos deixávamos atardar, contemplativamente, preparando a réplica seguinte, Carolina indicou com o copo um quadro sobre a lareira:

«Gosta?», perguntou.

Eu dali mal distinguia o esboço de um rosto a lápis, muito sumido e obscurecido pela penumbra daquele recanto. Quem era? - quis distraidamente saber.

Carolina não respondeu logo. O olhar preso nas volutas do fu­mo indiciou, por alguns instantes bem pontuados, o seu desagrado.

«Sou eu, meu tonto distraído, sou eu...», acabou por dizer, baixo, com um tom de censura na voz arrastada. Depois sor­veu um gole lento, pensativo, profundo, e acrescentou, num fio de voz: «Foi o Fernando quem fez...»

Eu senti-me na obrigação de me aproximar, de farejar, de apreciar... Não estava parecido, nem de longe nem de perto, considerei para mIm. Os traços eram grosseiros, excessivos, hesitantes, quase infantis, todo o sombreado se mostrava posi­tivamente errado. Não era Carolina a retratada, nem era nin­guém, a bem dizer. Aquele tentame mereceria mais o abandono discreto entre as páginas de uma pasta, ou no fundo de uma gaveta, que a exibição em lugar privilegiado, sobre a lareira, com caixilho de dourados barrocos.

            Fosse como fosse, eu teria sempre de dizer o que a seguir disse:

            «Bem, o que conta é a intenção, não é verdade?»

            Carolina deixou passar alguns segundos antes de respon­der com veemência sarcástica:

            «Hoje deu-lhe para a agressividade! Mal de amores, meu querido?»

            «Bem vê, meu amor, nos tempos que correm a agressividade compensa...»

            «Por que veio então? Para me ferir, para me fazer mal?»

Logo abandonei o terreno e procurei tranquilizá-la com qualquer frase de circunstância. Eu não me sentia empenhado naquela refrega e queria passar adiante, mas Carolina houvera por bem levantar uma espessa barreira de enfado. A sensação de que ela olhava através de mim, embebida nos seus pensa­mentos, sem me ligar qualquer importância, levou-me a pas­sear pela sala e a examinar com atenção as porcelanas do nicho.         Após um longo silêncio, ouvi-a dizer, do fundo do maple em que se enroscava:

            «Ah, se soubesse que esse quadro é tão importante para mim... Como se contivesse um pedaço da minha vida...»

            Era o retomar da trégua. Mas dentro do campo escolhido por Carolina. E com um lamentável lugar-comum...

            «Desculpe», cortei eu-._«Talvez me tivesse precipitado. Não queria ferir-lhe os sentimentos. Mudemos então de assunto...»

Mas não era assim, tão levemente, que se desfaziam os cer­cos de Carolina. Ela sabia ser contumaz, determinada, e tinha­-me agora sitiado, à sua mercê.

Durante algum tempo, condescendeu numa conversação frouxa, deslassada, tratada com uma frieza distraída e urbana, muito distante, que me não foi fácil suportar. Não tardou que eu me rendesse, com um suspiro:

«Pronto, fale-me então naquele quadro!»

«Não estou às suas ordens», riu-se Carolina, «não reajo a estímulos! »

Tirou um cigarro da cigarreira e caminhou até à grande mesa Luís XIII, a um canto da sala. Apoiou-se, fumando, de costas para mim, e assim se deixou ficar, enquanto eu me ia sentindo cada vez mais vago e desconfortável. Mas ela volta­va-se agora, num movimento súbito, felino, fitava os olhos em    mim com algum dramatismo e repetia, num desafio:

«Foi o Fernando que fez o quadro!»

Aproximou-se da lareira, passou a mão ao de leve pelo vi­dro do quadro, numa carícia repousada, parou, um pouco do­brada, como quem reflecte, e desfez depois a postura com um ligeiro meneio de cabeça, de sacudir recordações velhas. De novo me olhou, provocadora. Eu, desta vez, estava disposto a nada dizer.

Em pouco, tinha eu Carolina de novo sentada em minha frente, que me falava de Fernando, seu assunto predilecto. Era­-lhe completamente indiferente que o tema me magoasse ou não. Fingia confiar em absoluto no meu fair-play, capaz de ar­rostar com duras provações.

Na verdade, apenas o bom senso me impedia de lhe reve­lar que, desde há momentos, eu já odiava sombriamente esse tal Fernando.

Contava-me Carolina que Fernnando lhe tinha enviado aque­le retrato de Angola e que o havia esboçado à pressa, num abri­go, debaixo de um bombardeamento de morteiros. Por isso, tão precioso:

, «Tínhamo-nos separado um mês antes, na própria véspera da partida dele para a guerra, como capitão miliciano. Foi uma noite tempestuosa, um combate olímpico. Nunca houvera en­tre nós uma briga assim. Às tantas, o Fernando pegou num dos ferros da lareira e malhou a torto e a direito. Nada ficou intei­ro nesta sala. Vê aquela estatueta? Está colada. Na ocasião, ficou descabeçada, os maples esventrados, os móveis partidos... Eu gritava, gritava o mais que podia. Também parti coisas. Che­guei a pensar que dessa feita ele me matava. Vi o ferro, por várias vezes, a zunir muito perto. Provavelmente dava cabo de mim, se os vizinhos não tivessem acorrido...»

E Carolina riu, numa grande gargalhada, soerguendo nos braços o pequinês rabugento que lhe ocupava permanentemente o colo e que rosnava, desconfiado, estranhando aquela exube­rância. Depois continuou, divertida:

«Fernando fez as malas, com raiva, e desapareceu-me pela porta fora. Ainda deu um encontrão no vizinho de cima que fazia apelos à calma e ao civismo, o coitado. Recordo-me de que corri para a janela e lhe atirei com não sei o quê...»

            «Francamente», interrompi eu, «não estou a vê-la aos ui­vos, a regateirar, a atirar projécteis...»

«Sabe, as relações, quando são muito intensas, afeiçoam as pessoas, os feitios... E aquela era uma relação especial, vio­lenta...»

            Bem escusava Carolina de me ter dito isto. Apesar dos meus esforços em contrário, devo ter deixado transparecer o ciúme es­pesso, viscoso, que me pesava. Insensível, Carolina respondeu à pergunta que me obcecava, mas que eu não ousava formular:

«Sabe, de vez em quando ele escreve, fala... aparece. Não conseguimos estar juntos e não podemos separar-nos definiti­vamente. Da última vez que ele veio, fez uma cena... Nem lhe conto, nem lhe conto...»

            Evocando a cena, Carolina ria de novo, atirando a cabeça para trás. Depois, fez-se, subitamente, muito séria:

«Mas não falemos nisso, está bem? Basta de Fernando por hoje!» E, expulsando o cão do regaço, puxou-me ternamente para junto de si.

Muito mais tarde, alta madrugada, Carolina acordava-me de supetão e expulsava-me da sua cama, numa grande ansie­dade:

«Vá-se, são horas! Ele pode chegar e encontrá-lo aqui!» E estendia-me precipitadamente a roupa, arquejando, indi­ferente aos meus protestos.

À saída, ainda comigo mal acordado, estendeu-me um pre­sente, ofertado às mãos ambas, como dádiva litúrgica. Trata­va-me, inesperadamente, por tu:

            «Toma, é a coisa mais preciosa que tenho!»

            Não era a coisa mais preciosa que tinha. Antes queria, em boa verdade, que ela se tivesse lembrado do ícone russo ou do ídolo tolteca de obsidiana. Mas não: ofertava-me, solenemente, uma contrafacção em bronze de uma adaga de Cellini cujo original de prata está exposto no Prado. Essa adaga jazeu du­rante meses no porta-luvas do meu carro até que me lembrei de a dar a não sei quem, por uma ocasião azada."

Mas daí por diante, nos longos meses que durou esta liga­ção, Carolina tinha garantido o direito de me enredar na histó­ria do Fernando, que eu sofria enfadadamente, incomodamente, sem reagir, como um tributo penoso, mas necessário e inevitá­vel. Era uma contrapartida, o preço da paz, tal como o pequinês hediondo que se tinha tomado de ódio por mim e me defen­dia, com furor canino, certo canto da casa, ou como o hábito de Carolina de entoar ao piano Una voce poco Ia, sem me prestar qualquer atenção e, sobre isso, com um esforço exces­sivo e laborioso dos sustenidos.

Fiquei sabendo que o tal Fernando desertara em tempos para a Tanzânia, andara depois envolvido em peripécias no período que se seguiu ao 25 de Abril, e era agora irrequietamente instru­tor de contraguerrilha ora em Angola ora em Moçambique. In­cumbiam-no, não raro, de missões misteriosas que tinham a haver com aquisições de armamento ou aliciamentos secretos. Em constante viagem à volta do mundo, passava de quando em quando por Lisboa, onde aproveitava para avivar as saudades que Carolina dele tinha.       

Carolina dava-me sempre a entender que o Fernando po­dia chegar de um momento para o outro e que, nessa altura, suspenderia, impreterivelmente, os meus direitos. E quando o ascoroso cão, eriçado, me levantava o focinho de través, em rosnadelas babadas e homicidas, ela comentava em voz baixa, afagando-o:

«Está a ver? Coitadinho, tem saudades do Fernando...» Com estas e com outras, garantia Carolina a esse Fernan­do uma estável e definitiva presença entremeio da nossa vida.

Pelo que ela me contava do Fernando eu imaginava-o como um imenso troglodita, um gorila peludo, que tinha feito a tro­pa nos rangers, nos da primeira instrução, preparados para tudo, capazes de conduzir camiões, tanques, barcos vários, torpedos, helicópteros, e de confraternizar com todos os motores. Dis­parava de rajada, certeiramente, a saltar dos unimogs. Era ho­mem para sobreviver na selva ou no deserto mais canhestro e mais absurdo. Tinha sido moldado para a guerra, condicionado à violência. Depois, não podia querer outra vida, era impossível a adaptação à paz.

«Ao mais pequeno ruído, ao mais leve sobressalto», dizia Carolina, «o Fernando voltava-se, rangendo os dentes, pronto à acção, os olhos a chispar.»

A veemência que Carolina punha nestas descrições fazia com que eu receasse sempre por mim, na expectativa de que o Fernando aparecesse de repente e me encontrasse naquela sala. Aquela sala era um barco, teria dito um dia o Fernando, o barco de Carolina e dele.

Para ser franco, não creio que no mundo houvesse alguma coisa que menos se assemelhasse a um barco que aquela sala, mesmo descontando um grande mundo de subentendidos poé­ticos. Em todo o caso, à cautela, eu preferia que o capitão não viesse encarar com este passageiro clandestino, arrumado no fundo do porão, que seria provavelmente aquele sofá castanho...

Um desses dias, fui encontrar Carolina muito faceira, dada a pequenas traquinices e brincadeiras, a rompantes e entusias­mos bruscos, sem nexo, a longos silêncios distraídos, sobre um sorriso distante de mim. Demorou séculos, milénios, a pen­tear o alarve do cão. Bom, que tinha Carolina?

«Oh, nada», respondeu, «deixe lá: coisas minhas...»

Mas não tardava que me dissesse: «Quer mesmo saber?»

Deixei que se arrastasse o dramatismo do momento com um minucioso preparar e acender de cigarro, numa das velas que Carolina tinha sempre acesa, à meia luz daquela sala (sou fotofóbica, dizia ela): «lá vinha o Fernando», pensava eu. Lá vinha o Fernando:

«o Paris-Match trazia hoje uma fotografia dele. Era uma reportagem sobre aquelas trapalhadas da África Austral. Ocu­pava uma das páginas centrais, sentado no meio de um grupo de pretos, sorrindo. Tinha a barba crescida, os ombros cober­tos de fitas de metralhadora. Em baixo, um monte de armas,         capturadas ao inimigo...»

«Mostre! »

«Para quê?», volveu-me ela, com um trejeito desprezivo. Sofri as horas que se seguiram com incomodidade e amar­gura. Carolina fazia sala, cortesmente. A bem dizer, não esta­va comigo, estava noutro lado do mundo, e eu para ali...

            Noite velha, de novo me acordava, bruscamente, e me ex­pulsava da sua cama:

«Tenho um pressentimento», sussurrava-me, afogueada. «Ele está cá. Vá, vá...» E quase me empurrava, ansiosa, pela porta da rua.

Uma vez mais, retomando uma resolução cíclica mas nunca executada, eu decidi não voltar a ver Carolina. Estava cansado da sala penumbrosa, do cão quezilento, do Una voce paGo Ia in­terminável, do ar vago, superior, com que Carolina me dizia: «Bem vê! », da afectação com que pronunciava «piqueno». E, sobretudo, humilhava-me, fazia-me doer, a omnipresença tutelar de Fernando.

Assim decidia eu. Assim queira eu decidir... Mas logo nessa mesma noite descia as escadas correndo, depois de Carolina ter telefonado a dizer:

«Oh, por favor, venha! Venha já!»

O tom trémulo, o desfasamento entre as palavras, o silên­cio perante as minhas perguntas, inquietavam-me. Voei por Lisboa, rápido como o pensamento, indiferente aos semáforos, cruzado de cuidados contraditórios: uma desconfortável ante­visão de muita maçada, alguma genuína inquietação, a diligên­cia do actor que vai entrar em cena, a apreensão por me poder vir a confrontar, nessa noite, com sarilhos e violências. Com Fernando. E lá corria eu, célere e prestável, compondo-me para o drama.

A porta de Carolina estava entreaberta, o tinhoso do cão cirandava para cá e para lá, de rabo entre as pernas, emitindo uma lamúria baixa, arrastada, que logo mudou em rosnadela enviesada quando eu irrompi, com grandes gestos decididos de escancarar portas.

Carolina sentava-se, hirta, à mesa de camilha, olhos fitos em frente. Com os dedos esticados, alisava insistentemente o tecido, em silêncio. Não voltou sequer a cabeça quando eu entrei e fechei a porta atrás de mim. Um tocheiro de madeira lavrada jazia, quebrado, a meio da sala. Restos de talha dou­rada reluziam pela alcatifa.

Não ousei perturbar aquele silêncio, compenetrado e pro­fundo. Fiz antes o que Carolina esperava de mim. Sentei-me perto e comunguei do abatimento, com o ar compungido de um frequentador de velórios.

Tardou muito, antes que Carolina pousasse a sua mão na minha. Depois levantou-se, a contemplar soturnamente os des­troços do tocheiro, abanando repetidamente a cabeça.

«O Fernando...?», ousei inquirir.

Não me respondeu. Acendeu um cigarro, aproximou-se de mim, e perguntou:

«Toma alguma coisa, meu querido?»

            Pouco depois contava-me tranquilamente, objectivamente, como se tudo tivesse ocorrido entre terceiros, as peripécias da última passagem de Fernando por aquela sala, nessa mesma tarde.

Ele chegara de África, em trânsito para Londres, numa daquelas deslocações misteriosas que sempre implicavam pro­pósitos ocultos de feição mais ou menos bélica. Quando apa­receu à porta, foi uma festa. Riram, riram... dizia Carolina, como duas crianças pequenas. Fernando dispunha apenas de uma hora, e o que eles tinham para contar um ao outro...

«Falou-lhe de mim?», perguntei.

            «Que disparate!», atalhou Carolina com um gesto quase in­dignado. E continuou a história: de súbito, o ambiente toldara­-se. Fernando entrara a dar grandes passadas, cabisbaixo e som­brio, deixara de acompanhar a conversação de Carolina. Em pouco, mostrava-se irascível, violento. Desatara às imprecações, aos gritos, partira objectos, ameaçara Carolina de morte, atirara, num rompante, o to cheiro ao chão e calcara-o aos pés, com ira.

Respirei fundo e tive-me largo tempo a contemplar o cavo do copo. Era mesmo a altura, ainda que me custasse, de resol­ver de vez a minha ligação com Carolina. Sentia-me a esbracejar num mar espesso, pastoso, rodeado de sinais de ameaça, como nos sonhos. O meu receio era não ser capaz de tomar uma decisão definitiva, e ver-me a voltar sobre os meus próprios passos, para beijar caninamente a mão de Carolina, revogan­do servilmente todas as declarações de dignidade antes profe­ridas. Afinal, as nossas separações definitivas e dramáticas - incluindo a dessa madrugada - tinham sido já tantas, que se transformavam em mais um passe do permanente ritual que era a nossa vida a dois.

«Meu amor», acabei por dizer numa voz que queria firme e segura, «estou positivamente cansado deste papel de passa­-culpas. Essa sua relação com o Fernando representa para mim um desgaste bem maior que o seu. Um desgaste e um vexa­me. Esperava, sinceramente, que você já tivesse compreendido isso há muito tempo e encontrasse, por si, os meios de resol­ver a questão. Nunca lhe pus o caso com tanta frontalidade porque há situações tão óbvias que é de mau gosto explicá-las. De maneira que venho, de uma vez para sempre, convidá-la a optar. E asseguro-lhe que me seria extremamente grato nunca mais ouvir falar desse tal Fernando.»

Enquanto eu discorria, Carolina fixava-me duramente do fundo do sofá.

«Acabou?», perguntou, enfim. «Você continua a não que­rer perceber nada, pobre de si. Era bom que tivesse evitado colocar o caso nesses termos...» E após uma breve hesitação: «Aquela porta atrás de si, meu querido, estará sempre aberta quando quiser sair. Ninguém lhe trava o caminho...»

Levantei-me, virei as costas a Carolina e corri pelas esca­das abaixo, disposto a nunca mais voltar àquela casa, nem às proximidades. Já dentro do carro, ainda ouvi o marulhar do piano e a voz de Carolina que cantava Una voce poco ia.

 

Como os tempos que se seguiram me foram duros... Toda a vida em volta me cercava, me pesava, todos os ambientes me pareciam cinzentos, lodosos, todas as criaturas banais e desin­teressantes.

No fundo de mim, reconhecia a esperança, inconfessável, humilhante, de que Carolina me solicitasse de novo. E queria a todo o custo fugir, escapar àquele apelo doloroso e absurdo que me vinha do imo das entranhas.

Passei a desligar sistematicamente o telefone e a permanecer em casa o menos possível. Aturdi-me com companhias de oca­sião, fáceis e sensabores, na convicção de que era preciso in­tercalar muito tempo entre mim e Carolina. Em boa verdade, ocultamente, desejava com veemência que ela aparecesse de novo, e a intuição deste desejo malquistava-me comigo próprio. Queria odiar Carolina e odiava-me por querer Carolina.

Por essa altura, às noites, comecei a frequentar um bar pernóstico, às Janelas Verdes, chamado A Oficina. Não raro, deixava-me por lá ficar até tarde, bebendo moderadamen­te, enleado com os meus pensamentos, que na ocasião tinham que ver com uma vaga partida para Macau: intercalar também muito espaço entre mim e Carolina era o meu inconfessado propósito.

Numa dessas noites, entrou de roldão uma turba barulhenta que ocupou duas mesas, a um canto. Deviam ter vindo da Li­nha para acabarem ali a noite. As gargalhadas, a vozearia, o ruído, incomodaram-me e preparei-me para sair.

Mas Nelson estava entre a súcia e logo me descobriu, com acenos arrebatados, vindo abancar à minha mesa sem ter sido convidado. Mostrava-se visivelmente toldado e desfazia-se em manifestações de ternura por mim, numa grande satisfação pegajosa de me ver ali.

Este Nelson, vasto e prolixo, com um olhar azul parado e pantanoso, era um dos grandes amigos de Carolina, razão bas­tante para que eu o detestasse, se mais não houvera. Sabia imenso de ópera, de móveis antigos e tocava sofrivelmente flauta, coisas que muito divertiam Carolina. Bastas noites pe­nei eu, ouvindo-os em arrastadas perlengas sobre matérias que me eram alheias ou em prolongados concertos de piano e flau­ta, compenetradamente. Funestos serões, desesperantes, esses. E arrepiava-me sempre a dúvida de que Carolina, algum dia, tivesse podido deitar-se com aquele monstro.

Mas o meu desprazer da companhia de Nelson não era re­tribuído por ele. Tinha uma admiração rasteira, sabuja, por Carolina, e o facto de ela me ter escolhido abrira-me às escânca­ras o seu coração.

Com uma sequência emaranhada de subterfúgios procurei evitar que a conversa recaísse sobre Carolina e me magoasse ainda mais que a simples presença de Nelson. Sem êxito. Tive de ouvir, lacerado por dentro, o rol dos elogios que Nelson entendeu propinar-lhe naquela noite, bem carregados de ternu­ra alcoólica.

Eu tentava, desesperadamente, mudar o rumo do discurso: «Sabe, para lhe ser franco, preferia que falássemos noutro assunto.»

«Ah, sim, compreendo», volveu o Nelson, solícito, muito sério. Mas logo, jovialmente, dando um murro na mesa: «Seu exclusivista! »

Daí a nada, esquecia-se da minha prevenção. Afinal, o que ambos tínhamos em comum era o conhecimento de Carolina. Nelson, em dado momento, baixou um pouco a cabeça sobre a mesa, cravejou-me com os olhos azuis e ciciou, gravemen­te:

«O que nunca consegui perceber nela, sabe, foi aquela mania do Fernando, uma relação que a traumatizou a um ponto quase... digamos... demêncial.»

«Ah, o Fernando... », disse eu, como se distraído enquanto chamava, precipitadamente, o empregado, pronto para pagar e abalar o mais depressa possível. «Você conhece esse Fer­nando?»

            «Mas quem é que não conhece o Fernando, meu caro?», arrepiou-se Nelson. «Toda a gente, toda, conhece o Fernando!»

            «Ao que parece passa a vida em África, na pancadaria...»

            O Nelson ria, abanando a cabeça, contente de poder pro­fanar a minha ingenuidade:

«Ah, meu velho, não devemos estar a falar do mesmo. O Fernando Furtado de Castro a que eu me refiro é o sujeito mais pacato do mundo: nunca esteve em África, que o dispensa­ram da tropa por «incompatibilidade mental»; provavelmente nunca viajou além de Badajoz; a maior aventura da vida dele foi ter-se juntado a Carolina, aqui há uns anos atrás. Ela nun­ca se curou dessa paixão. É uma obsessão, uma tineta assanha­da.»

«É que fazia dele a ideia de um tipo violento, aventurei­ro», arrisquei, incomodado, enquanto tentava que o empregado desse por mim, com gestos vivos.

            «Qual quê? O Fernando, violento?», e Nelson, debruçando sobre mim o corpanzil imenso, fazia questão de me esclarecer à saciedade. Parvoíce ou perfídia? Nem uma coisa nem outra.    Antes o jeito explicativo, pormenorizado, impertinente, que     certos homens têm, nos momentos de intimidade.

Violento, o Fernando? Coitado, era o tipo mais sossegado e timorato à face da terra. Quando vivia com Carolina passa­va o tempo em casa, de robe de chambre e chinelos a desenhar coisinhas, e a construir modelozinhos de aviões e de barcos, daqueles de plástico. Chegara mesmo a fazer um retrato de Carolina.

«A propósito», e o Nelson arreganhou a face, num ar in­dignado, «você chegou a ver aquele boneco, aquela coisa hedionda que a Carolina tem sobre a lareira?» E sacudiu a cabe­ça, piscando os olhos, como se quisesse afastar uma visão do Maligno. «Mas ouça, de onde lhe vem essa ideia abstrusa de um Fernando zaragateiro?»

«Oh, de lado nenhum, imaginei-o assim, pareceu-me mais conforme ao feitio de Carolina.»

«Ai as aparências, as aparências...», sorriu-se o Nelson. «O Fernando está anafado, bem-vestido, creio que é director­-geral em qualquer desses ministérios. Desde que deixou Ca­rolina, vai para quatro anos, dedicou-se à carreira política e com algum sucesso. É um fulano encantador, de resto...»

Nelson, batendo um cigarro no tampo da mesa, assistia im­passível ao meu pagamento da sua despesa. Aguardava eu o troco, ele continuava:

«Acho que em dado momento se aborreceu dos caprichos de Carolina. Não tinha estômago para aquilo, não tinha esta­leca. Era isso, não tinha estaleca. Um belo dia, fez as malas e frrum-fum-fum, pôs-se na alheta. Carolina ficou desesperada, perseguiu-o por todo o lado. Eram telefonemas que ele não aten­dia, cartas que ele devolvia fechadas... chegou a passar noites à espera, à porta de casa dele. Mas sem qualquer resultado. O Fernando nunca mais a quis ver. Alguma que ela lhe fez...»

E Nelson remexeu, meditativamente, o gelo no fundo do copo:

«Sabe que mais?», disse. «Ele está-lhe aqui atravessado!» E fez o gesto adequado, levantando muito a cabeça. «Ainda hoje vive obcecada por aquele tipo. Quem diria, um meia-leca da­queles...»

E sucumbiu sobre o copo, pensativo, acabrunhado pelos desconcertos do mundo.

Levantei-me, azamboado, e despedi-me frouxamente do Nelson, que já voltava para junto dos seus amigos. Deambulei pela cidade até altas horas, conduzindo maquinalmente. Sen­tia-me profundamente revoltado, vítima do maior embuste de todos os tempos. Desejaria nunca ter encontrado o Nelson, e maldisse a minha escolha daquele bar para passar o tempo.

perto de casa, num rompante, mudei de rumo e dispus­-me a uma grande vileza. Ia recuando a noite, a madrugada es­clarecia, e eu endireitei para casa de Carolina.

Ela veio receber-me, estremunhada. Apesar da surpresa e das altas horas, parecia visivelmente contente por me ver. O meu aparecimento súbito, a horas mortas, lisonjeava-a e sa­tisfazia-lhe o gosto de drama que punha em todos os seus ac­tos.

            Friamente, maldosamente, quase sem transição, contei-lhe tudo o que agora sabia sobre o Fernando.

Ela escutava-me, muito rígida, com as mãos na face. Uma lágrima silenciosa escorreu-lhe entre os dedos e tombou no en­costo do sofá. E não disse nada.

            Nem eu esperei. Saí, sem mais uma palavra, tão repenti­namente como havia entrado. E, depois, dormi tranquilo.

            Pobre Carolina... Bem podia eu ter-lhe poupado este ve­xame. Pobre de mim também, que passei por isto tudo...

Nunca mais vi Carolina nem soube dela. Com o correr do tempo, estes acontecimentos vão ficando mais e mais longe, lá para trás, cada vez mais esbatidos, como a sépia dos velhos daguerreótipos.

Hoje, pensando bem, convenço-me de que nada disto, afi­nal, teve grande importância.

 

                   Famílias desavindas

Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há-de encontrar-se um cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina, telhados de ardósia em escama. Faltam razões para flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os únicos semáforos do mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no início dos anos setenta.

No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem enge­nheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de con­vencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia eléctrica, capaz de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e landós da so­ciedade. A autoridade gostou do projecto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos esti­veram ensejados para a Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acaba­ram na infrequentada Rua Fernão Penteado, na intersecção com a travessa de João Roiz Castelo Branco.

O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, lu­minoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida a dez centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia gerada vai acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida uma melhoria. Uma inspecção da Câ­mara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada.

Houve muitos candidatos ao cargo de samaforeiro, embo­ra um equívoco tivesse levado à exigência de que os concor­rentes soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.

Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e comutou. Por alturas da segunda Grande Guerra foi substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. A administra­ção continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é pelo ordenado que aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e bisneto foram vistos de ferramenta em riste a afei­çoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o carreto bastasse.

Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semá­foros manuais, porque é sempre possível personalizar a re­lação com o sinal. Diz-se, por exemplo, «Ó Paco, dá lá um jei­tinho!» e o Paco, se estiver bem-disposto, comuta, facilita.

Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz con­sultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o Doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e médico sin­gular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a interpelar os transeun­tes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou­-se do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quan­do devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e desimpedi­do.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desa­vindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.

Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modes­to. Informava sempre que o seu diagnóstico era provavelmen­te errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a encandear Ximenez com um espelho colo­rido.

entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se che­gou a vias de facto. O médico passava e rosnava «Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: «Xó, magarefe!» Uma tarde, Asdrúballevantou mesmo a mão e o doutor encurvou­-se e enrijou o passo.

Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e come­çava: «As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no segundo, bacte­rianas.» E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a consulta, muito à puridade, o Dr. Pau­lo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.

Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de­-ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!» com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao pro­ceder a um roubo por esticão um jovem que vinha de mata teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o ­ estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo largou ódios ve­lhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistra­do: «Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes.»

Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de sangue».

Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou aban­donado. Uma figura de bata branca está todos os dias naquela rua, do nascer ao pôr do Sol, a accionar o dispositivo, peda­lando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de re­morsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa.


                   Interminável invasão

Zac! Que era aquilo?

Confiante, Óscar estorcera a mão autoritária para a trivolta da fechadura de marca, algo sofisticada, saciada de óleos, afeita a um triplo estalo, triunfal, dominador do patamar - e hoje era um pífio zac? O súbito bloqueio até lhe fez doer os dedos, acostumados ao balanço rodado! Zac? Só zac?

No instante tomou-o a desconfiança contra o material, pró­pria dos cidadãos quando o material se põe a desobedecer. Só depois raciocinou que as ferragens podiam não ter culpa, mas na altura já estava dentro de casa, a suspender o raciocínio, porque ouvia o timbre de um conhecido locutor de televisão e outros vozeirões e rumores na sala, de luzes abusivamente acesas.

Alto! Havia desconcerto no mundo. A prudência impunha que se voltasse para trás e se reflectisse. Tenteasse-se o pé ante pé. Tenteou-se. Ensaiasse-se um recuo silencioso. Ensaiou-se. Tarde de mais: um latagão de bigode avançava para ele, rápi­do de fazer vento, de braços e risos abertos. Ia ser abafado por aquela camisa às riscas verticais, rosa e branco, entortadas das enxúndias subjacentes. Foi.

«Estou perdido!», considerou, baixinho, choramingante, mas com dramatismo, Óscar Martins, desprevenido contabilis­ta, proprietário do apartamento e além disso viúvo.

«Primo! Tá bom?», trovejou a figura que lhe interceptava o passo e o agarrava quase pelas costas, como num passe de luta livre, ou determinação firme de lhe impedir o acesso à porta. «Eia, meu querido primo!»

Rapto? Sequestro? Desfalecia-se Óscar. Injustiça! «O telemóvel, onde é que eu tenho o telemóvel?» E antes de su­plicar «não me matem, não me matem...» várias figuras exu­berantes preencheram, ruidosamente, o corredor.

«O primo!»

«Tá magrito!»

«Ai, é da comoção, ai que ele se vai abaixo!»

«Água, água! Que o primo está sensível, caraças.»

            Acordou no sofá da sala. A televisão dava um concurso duma estação comercial. Uma fulana gorda aparecia em plano geral, coberta com uma toalha turca e o locutor anunciava: «E agora, por cem contos, com a ajuda duma espátula gineco­lógica a nossa concorrente vai mostrar o seu colo do útero.»Rompeu uma música de tambores em expectativa e a concor­rente deitou-se numa espécie de marquesa: «Ai, senhor, tenho vergonha.» «Vá lá! Cento e vinte contos...»

Óscar nunca tinha visto aquele programa. Ficou ali com os olhos presos. Preferia o colo do útero à realidade um tanto confusa que lhe circulava em volta. Mas sentiu uma pressão forte nos ombros e teve que enfrentar a materialidade do ajun­tamento que se debruçava sobre ele e o fazia emborcar um copo de água. Olhos no líquido, olhos nos circunstantes, acabou por perder o colo do útero da outra. Queria levantar-se, debateu­-se. Uma voz:

«Fecha aí o aparelho que o programa está a fazer confu­são ao primo!»

Zás, a imagem desapareceu quando a mulher ia afastar a toalha. Colo do útero frustrado, Óscar teve de se resignar a quatro rostos a fitá-lo nos olhos, dois com bigode e dois com rouge.

«Eu não tenho nada», gaguejou sumidamente. «A minha conta no banco está em débito... Mas podem levar o que qui­       serem... O televisor... O frigorífico... O faqueiro chinês...»

«Acordou! Já fala.» Era uma voz de mulher.

«A isto é que eu chamo sentido de família! Um homem que mal vê os parentes e se vai logo abaixo. Sim senhor!»

E uma das mulheres, muito anafada, de faces coradas e lu­zidias estendeu os dedos curtos e passou-lhe pela cara uma festa, que lhe soube a roçagar de morcego gordo.

«Tá tão enfezadito, coitado...»

«Não estrafeguem o primo, saiam de cima dele, caraças...» E afastaram-se, e deram campo, e deixaram-no sentar no canapé. Ele circunvagou os olhos por aquelas faces sorriden­tes e foi obrigado a reconhecer, no íntimo, que, para já, os gestos eram amigáveis. Mesmo carinhosos, embora pesadotes. Talvez não tencionassem torturá-lo. A gorda das carícias tinha agora as mãos postas, junto ao peito, esmagando um fio de ouro em cuja ponta tremelicava, à desbanda, uma fotografiazinha encastoada. E o grandalhão do bigode, num rápido toque de mão ao ombro, muito encorajador:

«Então, primo! Alma até Almeida, pá!»

O magricelas lá de trás, entalado entre as mulheres fazia uma cara de tal enlevo que parecia que estava na bola. Óscar bebeu um golo de água «isso, beba-lhe, beba água...», encheu o peito de ar e procurou no espírito, muito toldado também pela expectativa falhada do útero televisivo, uma frase. Saiu assim, briosa, complicativa e intelectualóide:

            «Era bom que alguém me explicasse o que se está a pas­sar...»

            Os circunstantes entreolharam-se. Óscar suspeitou de uma certa comiseração naqueles trejeitos:

«Amanhã é o desafio, vimos para o desafio, primo.» «O Sporting - Benfica!»

«O derby, caraças!»

Óscar teve um rompante infeliz: «Mas quem são os senho­res?, eu não os conheço!» Foi como se um véu de tristeza, lenta, escura, mole, soturna, tombasse sobre os presentes. Uma lagriminha brilhou no olho esquerdo da prima mais pequena.

«A nossa aldeia, primo, as vezes que íamos aos pássaros, as ave-marias na torre do sino, o jogo da malha com o senhor prior, o namorico do primo com a Amélia Ramelosa, as uvas roubadas ao Chico do Moinho, a cabra do pastor que comia latas de massa consistente, o Mané do Bibe, tão crescidinho e tão babadinho mental, a dizer "ugh, ugh"...»

E, cobardemente, antes que a cena bucólica se ampliasse, Óscar proferiu um pífio «sim, bem me lembro» que teve o efeito de desassombrar todos aqueles semblantes. Logo, o bigodaças:

«O primo não se importa que a gente fique, pois não?»

            A pergunta foi formulada de mãos espalmadas estendidas à ilharga, com ar de quem não admite negas, sob pena de for­tes acessos emotivos.

«Pois... é evidente... ou seja... claro que não.»

As faces regozijaram-se e a mão da gorda deu-lhe para mais uma festinha.

«Prontos! Tá esclarecido. Então abre aí o televisor. O pri­mo faz a sua vida normal. Não se incomoda por nossa causa, hã? A gente acomoda-se aí em qualquer lado...»

E os primos instalaram-se, deleitados com o concurso, sem lhe prestarem mais atenção. No ecrã, um chinês prontificava­-se a engolir um ninho de andorinhas com pássaros e tudo. Tam­bor...

Estejam à vontade. Há chá frio no frigorífico... Eu venho já.»

Ninguém lhe prestou atenção. Estavam absortos no chinês. À medida que ele ia trincando as crias de andorinha que guin­chavam, aflitas, o público do estúdio ria, e os primos também. Óscar saiu, de mansinho, da sala, abriu a porta da rua e fechou­-a sem ruído. No patamar, sacou do telemóvel e ligou para a polícia. Casa invadida? «Intrusão em casa alheia?» Onde? Nome, estado, profissão e morada? Já vinha a patrulha a ca­minho.

Abriu-se a porta do vizinho, rangente da falta de óleo, e Óscar teve um sobressalto. Nunca se dera bem com o desem­bargador. Casos de televisores demasiado altos, berbequins a bramir às sete da manhã, inundações na casa de um provoca­das pelos canos do outro, um gato enigmaticamente desaparecido... Em tempos houvera discussões acesas, queixas à administração do condomínio, palavras excessivas. Deixaram de se falar. Ignoravam-se, mesmo encontrando-se no elevador. Era uma inércia. As razões de queixa tinham sido escassas nos últimos anos. E a lembrança de grandes zaragatas verbais já não atinava nem com os motivos nem com as circunstâncias.

O vizinho não disse uma palavra. Encostou-se à porta, so­rumbático, e pôs-se a fumar. Óscar contemplou demoradamente os próprios sapatos e depois começou a esgaravatar o evinel do revestimento, na dúvida sobre se deveria levantar a voz e acusar «certa gente» de fumar em recinto fechado, sem nenhu­ma consideração pelos outros. Dentro de casa, estrondeavam as gargalhadas dos primos que deviam estar a apreciar o pro­grama de televisão. E o vizinho tomou a palavra, dirigindo-a a um ponto indeterminado que não ficava longe do aplique da luz:

«Imagine-se. Chegaram e instalaram-se! Olhe para isto, hã?»

Óscar não estava muito certo de o outro estar a falar com ele ou com o equipamento. Mas não teve muito tempo de re­flectir no assunto. De novo a porta do vizinho se abriu, dese­quilibrando-o, e a mulher assomou:

            «Mas que é que estás a fazer? Vens fumar cá para fora e deixas-me sozinha com eles?»

            «Mas se eu nem os conheço...»

            «Nem eu. Não está certo, pores-te na alheta e eu a aturar os teus primos. Com licença.»

E a mulher tomou o marido pelo braço, puxou-o para den­tro, fez a Óscar um trejeito de levantar de queixo e fechou a porta. O cigarro ficou no chão a arder. O braço levantado de Oscar, que ia fazer uma interrogação tímida, descaiu. Pisou o cigarro do outro com raiva. Mas as ferragens do elevador cho­calhavam. Vinha lá alguém.

            Era um agente muito jovem, destes eficientes, com casaco de couro, algemas no cinto e uma prancheta na mão.

            «Foi daqui que houve uma participação telefónica de intrusão em casa alheia?»

Óscar fez uns gestos afirmativos, muito descoordenados, que faziam lembrar a múmia de certo filme célebre. Não que­ria que os outros ouvissem. Conseguiu, por fim, esticar um dedo na ponta do nariz, significando silêncio. O guarda, intrigado, levou a mão ao coldre da pistola. «Não, não, não vale a pena», sussurrou Óscar que detestava violências. «Veja!» Abriu a porta com cautelas de relojoeiro e introduziu a autoridade. Os pri­mos riam, riam, porque o programa de televisão estava muito divertido:

«Ei-los!», exclamou dramaticamente, ao ouvido do guarda. O agente fez um olhar de águia, franziu os lábios e inter­rogou os ocupantes da sala:

«Alguém aqui está a introduzir-se em casa alheia?»

            Oito olhos, arregalados de espanto e de indignação, fixa­ram-se no agente e em Óscar. O bigodaças veio ao encontro deles, cambaleante, com uma mão no coração, como se tives­se levado um tiro lá perto:

«Mas nós somos primos!»

E os outros, em coro chorincas: «Primos!»

            De novo, naquela sala, se evocaram as reminiscências de aldeia, o cheiro dos fenos, o pôr do Sol sobre os montes, o perdigueiro que grunhia como um porco, o grande lagar de azeite, etc. O polícia ouviu, ouviu, e tomou uma decisão.

            «Então, sendo assim, é assunto de família. A autoridade não se intromete nos assuntos de família.»

            E abalou. Óscar foi atrás dele, protestando, com gestos miudinhos. Mas, já no patamar da escada o agente elucidava:

            «Coisas de família só no tribunal. O amigo se faz favor recorre ao magistrado», e depois, menos formal: «Veja lá que hoje me apareceram vários primos em casa, logo de manhã. Isto ele há coincidências... Mas, claro, eu não ia incomodar os cole­gas por causa dos meus familiares. São duas assoalhadas, mas, enfim, lá os acomodei...Vieram por causa dum leilão...»

Rematou com uma palmadinha amigável nas costas de Óscar: «Isto é preciso é paciência...»

Escreveu «Problema familiar» na prancheta, meteu-se no elevador e desapareceu. Ia ele a descer num elevador, já Óscar subia no outro para casa do porteiro. Os lisboetas têm este há­bito de apelar para os porteiros, em última instância, às vezes em primeira. Mesmo que os porteiros não possam resolver nada, ao menos têm obrigação de ouvir os desabafos, sendo subalternos na hierarquia, embora dotados de mágicos poderes de conhecimento, porque parece que ouvem e vêem através das paredes.

O porteiro demorou a aparecer à porta. Quando veio, apre­sentou-se tristonho e lacrimoso. E penitenciou-se:

«O Sr. Óscar desculpe a demora. Mas tive que dar atenção aos meus primos. Chegaram para o funeral, coitados, têm que passar cá a noite... Seis primos, seis, mas, enfim, temos que ser uns para os outros...»

E, por detrás da pequena figura do porteiro, Óscar distin­guiu uns vultos, vestidos de preto, que se aglomeravam no pe­queno vestíbulo do apartamento e o olhavam com estranheza. Inventou uma pergunta qualquer sobre se o correio não teria trazido um embrulho, voltou as costas ao homem, e dispôs-se a sair do prédio. Ar livre, tinha que pensar.

Mal ia a sair da porta, enrodilhou-se na trela do cão da vizi­nha da frente. O animal rosnou, ameaçador. A vizinha ajudou­-o a libertar-se, aos gritinhos, e livrou-o do terrier que se mos­trava muito ofendido e pronto a retaliações.

Óscar era capaz de jurar que quando tinha entrado no pré­dio vira a vizinha a passear o cão. Outra vez? O animal estava com problemas de incontinência?

A vizinha encolheu os ombros, deu um puxão na trela, he­sitou, passando a mão pelo rosto e confessou, num rompante:

            - Tive de me vir embora! O cão foi um pretexto. Tenho a casa cheia de gente. Primos!

Havia um movimento desusado na rua. Autocarros esta­cionavam em dupla fila. Gente saía dos prédios. Mais gente en­trava. Um corrupio. E a vizinha:

«Oh, ajude-me, por favor, ajude-me...»

«Conhecem algum hotel barato?»

O vizinho desembargador pousava no chão a mala, cober­ta de etiquetas de viagem e atirava a pergunta para o ar, como se eles não estivessem ali.

Um autocarro, pejado de gente jovial, cantando, dobrou a esquIna.

 

                   Memórias da crise militar

A nossa rainha, a nossa pobre rainha, sofria de catalepsias prolongadas, embora não muito frequentes. Ficava prostrada durante semanas inteiras. Nessas ocasiões havia sempre crise internacional. O governo considerava que era boa altura para sermos invadidos. Os confinantes viam-se prestes a ser ataca­dos. Era uma estranha lógica. Se a nossa rainha está incapaz, temos de defender-nos. Se a rainha deles não se mexe, é por­que nos vão hostilizar.

Assim aconteceu naquele Verão. Com o estandarte real foi içado o pendão púrpura que indicava a doença da rainha. De­cretou-se o alerta, as fronteiras encerraram, e eu fui parar com mais dois homens, fortemente armados, a um desfiladeiro nas montanhas. A ordem era «vigiar e sustentar».

Apesar do frio, não passámos mal os primeiros tempos. Es­távamos em cima de rochas agudas, cortadas por um talhe fundíssimo que marcava os limites do país e para onde nos entretínhamos a atirar pedras, até que nos cansámos de as ou­vir embater contra as escarpas e tombar lá no fundo, com um ecozinho distante.

Éramos muito fatalistas. Não fazíamos guardas. Se o ini­migo invadisse, logo se veria. Foi por isso que não demos por nada. Ao quarto dia, quando fazia a barba, vi emergir, dos ro­chedos em frente, a cabeça dum soldado estrangeiro que me olhou, muito estranho. Tinham chegado de noite. «Deixe-se ficar onde está, não tente nada!», disse-me ele e sumiu-se atrás das pedras. Recomendação ociosa, porque eu não tinha von­tade de invadir países e ainda menos de saltar por cima daquelas funduras. Acordei os meus companheiros e ficámos em posi­ção de fogo durante um bom pedaço, até que nos enfadámos.

Eles estavam a dispor a sua tenda e o seu material e de­moraram nisto uma parte da manhã. Não eram soldados mui­to expeditos. De vez em quando distinguíamos um relance de cabeça ou de ombros ou a mancha rápida duma daquelas far­das amarelas que eram muito piores que as nossas.

«Têm lume?» Devia ser o graduado do lado de lá. Deixa­ram molhar as caixas de fósforos. Cedemos-lhes uma das nos­sas. «Isto sem compromisso, hã?», rosnou ele e desapareceu. Não eram maus rapazes. À noite, cantavam canções semelhantes às que nós sabemos, mas com versões diferentes e fonética mui­to arrevesada. Sempre eram estrangeiros.

Um belo dia, um dos nossos apontou a arma para um cam­ponês que seguia lá ao longe, por um trilho, num terreno liso, entre as montanhas. Todos os dias, à mesma hora, aquele cam­ponês passava, no mesmo percurso, mas foi esta a primeira vez que nos chamou a atenção. O meu companheiro ia-lhe seguindo os movimentos com a alça telescópica e mostrava-se muito sorridente: «Aquele, se eu quisesse já lá estava!»      

Os nossos adversários também se interessaram pelo homem. Eles tinham um binóculo que compartilharam connosco. Tam­bém lhes emprestámos, por dez minutos, a espingarda com alça telescópica, para eles poderem apreciar o efeito dum pontinho vermelho marcado a laser saltitando sobre o corpo do campo­nês. Decidimos em conjunto e depois de largas discussões atri­buir-lhe o nome de Luelmo. E Luelmo passou a ser a nossa grande entretenga.

Todas as manhãs, muito cedo, aparecia por um carreiro de montanha, atravessava o terreiro, sempre no mesmo passo e ia tratar duma horta, junto ao rio, que já ficava fora do nosso campo de visão. Passava a ser visto apenas pelos nossos vizi­nhos. Eles de vez em quando convidavam-nos. «Venham cá ver o Luelmo a segar o feno, olha o Luelmo a plantar batatas. Ih, que grande meloal tem o Luelmo.» Mas nós, apesar da tenta­ção, nunca abandonámos o nosso território.

Um dia os nossos vizinhos ficaram muito agitados. Luelmo, ao que diziam, estava a ser atacado por um bando de javalis selvagens e defendia-se com a roçadoura, em grande dificul­dade. Faltavam-lhes armas de precisão e tinham medo de atingir Luelmo com a metralhadora pesada. Emprestámos-lhes a es­pingarda de alça telescópica e ouvimos os tiros com que os ja­valis iam sendo abatidos, um a um.

Nessa tarde, ao regressar, carregado com um javali e um molho de feno, Luelmo fez-nos de longe um longo aceno de reconhecimento.

No dia seguinte, Luelmo trouxe a mulher, os filhos, num carro de bois, com um enorme toldo. Aquela matança de javalis deu-lhe muito jeito. Todos quisemos ver, pelo óculo, as feições dos familiares de Luelmo. Não tinham mau aspecto. Os nos­sos vizinhos mostravam-se orgulhosos. Sempre estava do lado deles.

Uma madrugada, mal tinha rompido o Sol, o graduado do exército estrangeiro acordou-nos, com grande alegria. «Vejam, vejam quem está aqui.» O barrete castanho de Luelmo, depois a sua cara redonda e sorridente, surgiram atrás das fragas. Ti­nha vindo fazer-nos uma visita. Trouxera pão com erva-doce que, rapidamente, circulou.

«A vossa rainha está melhor», disse-nos. «Já se levanta.» «Então podemos ir-nos embora», respondi, aliviado. «Não acho», respondeu Luelmo, «o nosso presidente acaba de par­tir uma perna. Houve mobilização geral. Por isso é que eu vim para as montanhas. Suspeito que do vosso lado também estão em alerta.»

Acabámos por ficar ali vários anos porque o general Rostoff caiu do cavalo, o príncipe de Zaguim se engasgou com um to­mate e o parlamentar Oxídon foi emparedado pela mulher. Tudo crises. Com Luelmo vieram outros camponeses, mulheres, crianças, um padre, um notário, e criou-se ali uma comunida­de. Era altura de começarmos a conquistar território.

Quando a Luelmo nasceu o quarto filho, decretámo-nos em estado de alerta.

 

                   Deus

Eu vejo raramente um amigo que é dado à quietação e so­frido de enfados. Trabalha nunca percebi em quê, dizem que negócios sedentários e rendíveis. Ele uma vez tentou explicar­-me, mas aborreceu-se a meio, e eu também. Deixámos o bo­cejo para as calendas. O que nele me é mais irritante é aquilo que a ciência popular designa por «saúde mental», défice de atribulações de alma. Volta e meia está casado, ou amigado, vol­ta e meia, não. Tenho de usar de cautela para lhe não trocar o nome das companheiras, mais por elas que por ele. Tem filhos dispersos por idades, em lugares distantes, vai pagando pensões e almoços confirmativos de paternidade, pelas festas apropriadas. Não é feliz, nem infeliz, antes pelo contrário. Conhecemo­-nos em miúdos no liceu e encontramo-nos quando calha. Sabe responder a um silêncio com outro silêncio, qualidade sem pre­ço. É possível ler tranquilamente os semanários a seu lado.

Numa destas Primaveras chamou-me da sua casa de praia, arribada nuns penhascos oceânicos, ao norte de Santa Rita. Detesto meter-me à estrada, mas ele insistiu: tinha uma coisa para me mostrar. Valia a pena? Sim.

Cheguei numa manhã de espumas, gaivotas e neblinas so­noras. «Entra», disse-me ele. «A porta está aberta.» Sentado

num velho divã, olhava-me, cabeça meio à desbanda, braços soltos. «Vê!» Desdobrou um gesto longo e mostrou-me uma pilha descompassada de livros, num nicho de parede. «Trouxe todo o Tchekov e todo o Maupassant.» Ia lendo, por sistema, maneira sua de prestar homenagem aos escritores. Anos antes devorara todo o Balzac e resmungara contra a qualidade das traduções. «Muito bem, fizeste-me andar cem quilómetros, de nuvens rasantes e caminhos de cabras para me mostrar autores. Salve Anton, Salve, Guy! Posso ir-me embora?» «Senta-te e não te agites. Vou mostrar-te uma coisa importante.» «Mais importante que Maupassant e Tchekov?» «Não diria tanto», res­pondeu-me, enquanto, pela janela sem cortina, olhava, descon­fiado, o rebuliço do mar. «Mas é qualquer coisa que seria capaz de mudar a tua vida, se tu fosses susceptível de mudar.» Chalaceei: «Uma mulher?!» «Não sejas parvo, já tens uma. Além disso uma mulher não é uma coisa. Tens o jornal? Vê aí quando é a preia-mar. No cantinho, em baixo, depois das far­mácias de serviço, burro!» Era às seis e meia. «Muito bem», suspirou, «entretanto podemos ir conversando.» E apoderou­-se-me do jornal. Daí a instantes, sem despegar olhos das no­tícias, resmoneou: «Olha lá, quando eu te disse que a porta es­tava aberta, não te apercebeste das implicações simbólicas da informação?» «Como?», respondi. E ele, nada, fechado no jor­nal. Eu fui folheando Tchekov.

Tocou um retinir fininho e gelado e o meu companheiro de leituras desligou o despertador de pulso. «São horas, anda daí!» Protestei: ia no início dum conto, o juiz de instrução pre­parava-se para falar, era injusto interrompê-lo. «Andamos a desconversar? Veste aí uma dessas camisolas, que está frio, e ala.»

marchei obediente e desconfortável, com o livro de con­tos no bolso para o caso de o meu amigo sugerir mais uns momentos de instrutiva conversação. Aquilo eram rochas e rochas que dobravam os sapatos, raspavam os artelhos e amea­çavam entorses. «É longe?», perguntei. «Para o ano trago o Raul Brandão todo. Todo!», respondeu.

Houve que molhar os pés e escorregar em limos. Ele esta­va à procura dum lugar qualquer entre as rochas, cobertas de algas e pesponteadas de mexilhões. Descobri uns ovos de ave marinha num desvão de areia. «Não, não é aí, olha! Olha, não! Contempla!» E, isto dizendo, por pouco não levantava a voz.

Era uma fenda larga na rocha de cavo forrado por limos molhados. No interior, uma amêijoa branca sobressaía, com umrna leve babugem na intersecção cerrada das valvas. Do lado esquerdo da reentrância pousavam sobre algas, em fileira já de­sordenada pelas águas da maré, umas pedritas claras, irregu­lares, brita dos caminhos, que não era dali. O meu amigo tirou uma mancheia de pedrinhas iguais do bolso, separou uma de­las e colocou-a ao lado das outras. «!!! », espantei-me eu. Ele estava um tanto embaraçado, talvez já arrependido de me ter levado. Disfarçou com um acesso de carrancudice. Cruzou os braços e enfrentou-me: «O que estás a ver é Deus, o Deus verdadeiro.» «Aquilo?», «Sim, "aquilo", como tu levianamente dizes», e a um gesto meu de mão estendida interpôs, lépido, o corpo. «Não toques!»

Ficámos a olhar-nos um ao outro e depois disfarçámos, com uns gestos ao acaso, umas palavras sobre o frio. Mas isto não podia ficar assim. «Como é que sabes que aquela amêijoa é Deus?» «Revelação», explicou. Vinha a passear na praia e uma força irresistível encaminhou-lhe os passos. «Mal a vi, fiquei com a certeza. Deus, afinal, é isto!» Ficou ressentido com a minha desconfiança. Eu queria saber se ele tinha ouvido vo­zes. «Pensas que eu sou quem? A Joana d' Arc, a Santinha da Ladeira?»

«Achas que foi isto que criou o universo, o mundo?» «Não acho», respondeu ele, tranquilamente, «tenho a certeza. Um certo dia (digo "dia" por comodidade de expressão) aquela con­cha abriu-se e deu-se o big-bang...» «Queres então dizer que se eu agarrar na concha e a esmagar debaixo do tacão...» «Isso mesmo, kaputt, desaparece tudo.» «Deixas-me experimentar?» «Se quiseres, força! Estou-me nas tintas!» Franqueou-me o caminho e ficou à espera. Tinha mesmo mau feitio, tanto se lhe dava que o mundo estourasse ou não, desde que provasse o seu ponto. E eu ali fiquei, a olhar para o bivalve, que até nem ti­nha nada de especial. Ainda estendi o dedo, mas logo recolhi o gesto. «Detesto maltratar animais», disse. «Então está bem, pronto», respondeu-me ele e veio andando. Sem mais conver­sas, separámo-nos.

Tenho de lá voltar. Acho que do outro lado da fenda fa­ziam falta mais umas pedrinhas de brita branca. Por uma ques­tão de equilíbrio, de simetria, claro.

 

                   Fenómenos de aviação

Os profetas mais competentes são os pósteros. Só falham em pormenores e em sinceridade. De resto, a previsão ajeita­-se aos factos. Eu, se não fora a educação que me deram, tam­bém dava um bom profeta, destes que vislumbraram antes o acontecimento que já ocorreu.

Foi o caso da D. Maria de Lurdes, açoriana e asmática, que veio declarar a quem a quis ouvir (toda a comunicação social, e por intermediação, o país inteiro, com o mundo atentíssimo) que mal entrara no avião logo tinha adivinhado que aquilo ia ser viagem de transtornos. E Marias de Lurdes não faltaram ao depois, cada qual mais tagarela. Firmou-se mesmo a opinião de que o ar a bordo estava muito compacto e que um dos reactores bramiu que parecia um relincho. Falso. Mas interes­sante.

O voo 747 da TAP com destino a Francoforte descolou naquela incómoda revoada de ares de todos os dias. O trem de aterragem fez plac e assustou, como de costume, alguns pas­sageiros mais sagazes. Um dong de aviso para hospedeira soou, pressão de dedo a querer laranjada prematura. De resto, sem novidades, até ao sexto minuto. Foi por essa altura que o comandante Durval e o co-piloto Solano foram surpreendidos pela paragem dos motores e pela morte de todos os sistemas de navegação. Aos gestos sábios o material disse nada, mes­mo depois de compulsado o manual das emergências. «Vamos marrar», observou tranquilamente o co-piloto. Estava engana­do.

Também se equivocam, enredados nas asas da fantasia, os que asseguram que o avião estacou bruscamente e que houve soluços e cabeçadas. É o gosto dramático de quem acrescenta pontos aos contos. Faz parte da natureza humana. Mas a natu­reza das coisas quis antes que, de motores parados, o movimen­to do avião fosse morrendo, suave e silencioso, até parar como uma bola de bilhar rolada numa alcatifa. Afadigavam-se pilo­tos e engenheiros com os instrumentos. A cabeça da hospedeira Leonilde de Matos e Sousa apareceu no cockpit, vermelha de afogueamento, o que lhe dava sensual beleza, e protestou: «Digam alguma coisa que eles estão agitados!» Mas os instru­mentos não funcionavam. Altifalantes, que é deles?

Antes de retomar as suas tarefas competentes e tranqui­lizadoras, a hospedeira ainda notou um passar de nuvens da direita para a esquerda, que lhe pareceu estranho. Mas o de­ver obriga. E regressou numa corridinha à carlinga, sorrindo para todas aquelas cabeças confusas, muito desconfiadas.

A bem dizer, o que deslizava não eram as nuvens, era o avião. Desviava-se de lado, em silêncio, ligeiramente inclina­do como se fluísse sobre um plano liso, levemente oblíquo e inconvulso. «Vai de lado?», perguntou-se o co-piloto, que nas ocasiões de perigo fazia sempre a pose de adolescente con­fiante. «Não largue esse pinchavelho», respondeu o piloto. «Es­quisito», comentou o engenheiro, pensativo.

Havia alvoroço na torre de controlo e os carros de incên­dio, na pista, desarvoravam como formigas em crise, das ver­melhas. Mas o avião não queria regressar. Queria era con­tinuar fluindo, devagarinho, à vista de todos, como se fosse um papagaio de papel tirado por uma corda invisível.

A bordo romperam gemidos, rezas, alaridos e soou também algum ranger de dentes. Os passageiros não se conformavam

com aquele avião a desviar-se dos preceitos. Mas também, no Terreiro do Paço houve quem tivesse ficado num pasmo bo­quiaberto quando o aparelho, muito silencioso, veio deslizan­do lá do alto, um pouco de través, e se plantou, irredutivelmente imóvel, a uma altura de duzentos metros do solo. Duzentos e catorze metros e vinte e oito centímetros, apurar-se-ia mais tarde, com rigor de ciência.

Um ministro telefonou para o aeroporto e quis saber o que é que fazia ali um avião mesmo na oblíqua do seu gabinete. Ninguém lhe soube dar resposta. Avião quieto, parado, fixo, indiferente a brisas e correntes de ares, ao alcance das gaivo­tas e mesmo de pombos mais atrevidos.

Seguiram-se os procedimentos que têm obrigatoriamente lugar quando uma situação destas ocorre. Reuniões, correria e trapalhadas. Os pilotos, cansados de tanta desobediência do material, abriram as portas e aguardaram. Nunca tinham visto o Terreiro do Paço tão em pormenor e ficaram a observar. Os passageiros também sossegaram, fartos de gestos desabri­dos e de perguntas sem resposta.

Pelo meio do dia, após frenéticas reuniões de alto nível um corrupio de helicópteros evacuou os passageiros. Entraram a bordo peritos qualificados. Ninguém conseguiu mover o apa­relho. E Lisboa adormeceu, inquieta, com um avião de longo curso estacionado por sobre o Terreiro do Paço.

Ninguém sabia quando o engenho se havia de reconciliar com a gravitação universal. A hipótese de tombar, inopinado, sobre a Praça dos Ministérios obrigou a medidas rápidas. Pela manhã, depois de uma gigantesca e algo caótica evacuação da Baixa de Lisboa, grandes helicópteros de várias forças aéreas meteram-se a tentar rebocar o avião. Partiram vários cabos. Falta de prática. Mas a aeronave lá condescendeu em deslizar, lenta e majestosa, e foi arrastada para longe da costa. No percurso manteve-se sempre, sem um desvio, à altitude de duzentos e catorze metros e a essa altitude foi abandonada por sobre os mares dos Açores. Foram inúteis as tentativas de a desman­telar com cargas explosivas. As químicas não funcionaram.

As antiaéreas das marinhas internacionais, após grande dispên­dio de tiros e mísseis desistiram. Muita despesa. O avião era invulnerável.

Ao sabor de ventos e tempestades tem dado a volta ao mundo, sempre planando à mesma altitude. A última vez que foi visto, há dias, foi ao largo do arquipélago de Salomão. Equi­pas científicas pluridisciplinares tentam compreender o fenó­meno e gastam muito dinheiro nisso. Eu próprio dedico várias horas por dia ao estudo do assunto e ainda não encontrei ex­plicação.

 

                   Yasmina e os seus amores

Se as tropas do brigadeiro Abek, do marechal Bibock e do coronel Cromiss tivessem ido combater para junto das levia­nas que os expeliram, podia ser que o Museu de Shandenoor se mantivesse ainda intacto ou, ao menos, apresentável. Mas, por quaisquer razões estratégicas, dificilmente alcançáveis por argúcias medianas, as vanguardas dos três exércitos, muito ir­requietas, gritadoras e dadas aos tiros, confluíam com a fachada do Museu. E era ora um, ora outros, e o Museu com os vidros partidos, dois tremendos buracos calcinados no segundo piso, expositores retorcidos e uma múmia feita em estilhas tão miúdas que não valia a pena recolhê-las. «Tinham logo vindo marrar ali», resumira o professor Dautzig, director do museu, num raríssimo momento de desabafo com os seus colaboradores.

O professor Dautzig era um erudito idoso, enorme, com uma bela cabeça barbada de branco e um péssimo feitio. De­testava os militares, porque não identificavam um canope egíp­cio, faziam estardalhaço com as armas e lhe davam cabo do material. Por isso, quando saía da cave, onde passava dias e noites a inventariar uma preciosa colecção de escaravelhos de louça, e encontrava no átrio um soldado de qualquer das fac­ções, enfurecia-se. «Olha lá, tu, põe-te na alheta imediatamen­te.

Vais por ti, ou queres que te leve por uma orelha?» Trata­va-os a todos por tu, fosse qual fosse a patente. E eles saíam, tinham-lhe respeito. Mas à noite, em retaliação, iam atirando umas bazucadas para as proximidades. O director estava sempre ocupado, lá para as profundas do armazém, onde vivia. A verdadeira alma do museu, quem abria a porta todas as manhãs, às nove horas, era Yasmina. Chegava pontualmente, pela rua larga, e percorria-a, em sobressalto, por entre o zunir das balas, ocultando-se atrás das carcaças de carros calcinados, mergulhando nas crateras, e praticando passadi­nhas muito rápidas nas zonas a descoberto. Yasmina usava cur­to o cabelo negro e trazia sempre saias travadas e salto alto. Os beligerantes achavam-lhe graça. Umas vezes, suspendiam o fogo e riam; outras, atiravam-lhe desvairadamente à figura. Mas ela ia tendo sorte.

Yussuf, o guarda, já lá estava à espera, com a sua vassou­ra. Embora a porta apenas conservasse os encaixes de bronze, porque o vidro há muito tinha sido pulverizado pelas primei­ras explosões, Yussuf não ousava entrar sem que Yasmina cum­prisse o ritual de inserir a grossa chave na fechadura, forçar duas ruidosas voltas e afastar os caixilhos. «Bom dia, doutora Yasmina», «Bom dia, Yussuf».

Yasmina era muito trabalhadora, seriíssima e bem-compor­tada. Apaixonava-se era muito. E agora amava quatro homens. Três eram militares, um de cada exército. O que desfechou as paixões foram pequenos gestos. O sorriso de um, quando com­punha a boina, o jeito compenetrado de outro a preencher um carregador, e a elegância com que um terceiro apontava um binóculo para diversos montículos de terra. Enquanto varria, às vezes, Yussuf ouvia Yasmina dizer de si para si: «Ele acon­tece-me cada uma...» Mas como era discreto e subalterno, nada comentava. O quarto homem por quem Yasmina estava apai­xonada era o professor Dautzig. Como os outros, o professor ignorava os sentimentos de Yasmina.

Num dos dias de tiroteio mais acentuado, calhou que os três apaixonados de Yasmina estivessem mesmo ali em frente, ao alcance uns dos outros e da vista de Yasmina. E que também o professor Dautzig aparecesse no átrio, muito rabugento, por não encontrar o duplicado duma velha factura. Yasmina excla­mou, impensadamente: «Não os deixe, professor, é preciso fazer qualquer coisa.» «É evidente», respondeu o professor. Arran­cou a vassoura das mãos de Yussuf, veio à porta e fez um estar­dalhaço homérico. Que varria aquela canalha toda se não se pusessem imediatamente dali para fora. E brandia e enristava e agitava a vassoura. Relutantes, eles obedeceram ao professor. Mas Yasmina apanhou um quádruplo susto. Desfaleceu. «Não estou nada bem.» E decidiu-se a consultar o psiquiatra do museu.

O psiquiatra chegava habitualmente mais tarde, às dez, e sen­tava-se na sua secretária, num gabinete do fundo. Por falta de clientela dedicava-se a resolver raÍzes quadradas. Ficou muito satisfeito quando Yasmina apareceu e relatou o seu quadrilema. «Foi violada pelo seu pai em pequena?», perguntou o psiquiatra, sisudo, desenhando ziguezagues no papel. «Credo, que dispa­rate!», respondeu Yasmina. O psiquiatra empalideceu. «Então, tenho muita pena, não estou preparado para isto», confessou. E, cabisbaixo, acompanhou Yasmina à porta.

Do lado de lá da porta atarefava-se Yussuf, de ar compro­metido, a varrer. «Doutora, ouvi tudo», disse Yussuf, «não se aflija, eu amo-a, amo-a com forte intensidade». Yasmina sen­tiu-se lisonjeada, mas não deixou de olhar Yussuf severamen­te, de cima para baixo, embora só lhe desse pelo ombro. Era a hierarquia.

O professor Dautzig deu-lhe para morrer e Yasmina, depois de instalar o féretro na cripta do museu, chorou abundantemen­te. Ao funeral compareceram os três amados de Yasmina, muito bem ataviados, porque foi decretada uma trégua de luto, algo hipócrita. Mas Yasmina olhou-os fria, hirta e indiferente. Tinha acabado de perceber que o amor por aqueles três só se justifi­cava com o amor pelo professor. Aquilo era um sistema. E sen­tiu-se muito aliviada, por estar, enfim, desmunida de paixão.

Desde esse dia, Yasmina desceu à cave e passou a viver lá, onde foi envelhecendo. Completou o inventário do seu ante­cessor e dedicou-se a determinar qual a percentagem de Cretenses e Filisteus que se apuravam entre os «Povos do Mar», derrotados pelo faraó Ramsés III Os ex-apaixonados de Yas­mina foram promovidos a coronel. E Yussuf, com o desgosto, teve a consabida reacção masculina de deixar crescer a barba. A tal ponto que se confunde com a vassoura e nunca se sabe se é com a vassoura que varre, ou com a barba. Tem dias em que não se distingue qual o Yussuf e qual a vassoura. E a guerra prossegue.

 

                   Andando

Um lerdo turvar de memória não me deixa rever o instan­te da minha saída da casa e a razão dela. E bem que tentando eu. Feia névoa de alma. Dura, algodão de arame, e que magoa.

Recordo o que acontecia antes e era bom e aprazível. Na tépida sala cinzenta uma velha sentada penteava uma boneca de louça, sem brusquidões de pulso e murmurava ritmos lon­gos aconchegados. Voltado para uma das paredes forrada de lisa alcatifa um rapaz de pulôver lançava pequenos aviões de papel, fabricados de um bloco a que ia arrancando folhas. Os aviões, um após outro, desciam em espirais, suave tédio, até que, tom­bados no chão, se desfaziam em finíssima poeira. O papel nunca mais acabava. Folhas e folhas. Aviões. Brinquedo. Bem que se estava. Não me ocorre haver portas. A um canto alguém aguar­dava, na penumbra, mas não sei.

Sei-me é ao depois no desconforto cá de fora e neste ter de ir andando. Frio não sinto, mas não é a mesma quietação morna lá de dentro e o pacato repetir de mansa mesmidão. Agora, uma delgada passagem alonga-se, como se um corre­dor. Ao meu lado esquerdo o muro de tijolos vermelhos, em correntezas ora vivas e polidas ora roídas e erodidas. Nem pensar em acometê-lo ou ver ao de lá, de alto, sólido e escorregadio que é. Ao meu lado direito, o que me tapa a vista é isto: o dorso, chamo-lhe eu assim, dum estendido animal que pul­sa, de que não vejo o fim, nem me lembro do princípio. Já desisti de apressar o passo, no cimento liso. Ainda não olho ostensivamente para o verme escuro. Soslaios. Arreceio-me.

Às vezes parece-me ouvir uns sons de arquejo e aquela epiderme húmida, sem pêlos, como que se contrai levemente e o coração desaconcerta-se-me em rebate. Outras vezes figu­ra aquilo uma imensidão de único verme adormecido. Houve uma ocasião em que a comprideza se estirava tão perto do muro, que tive de medir o passo, pé ante pé, não lhe fosse tocar na superfície viscosa. Mas, em quase todo o percurso tem-se man­tido a uma distância do muro bastante para eu caminhar sem incidentes.

Apenas o susto permanece. Preferia que o animal fosse uni­forme e liso. Que desse uma acostumação, à medida que vou passando, para me esquecer dele. Mas a pele muda de cor, e de forma e de padrão. De muito ao longe pude distinguir-lhe dois rodízios amarelentos que se puseram a girar quando eu passei ao rés, seguindo. Ainda há pouco, despontavam-lhe an­tenas brancas em toda a altura e agitavam-se como se ao vento. Mas aqui não há vento. O único ruído, quando aquele baixo arfar não se anuncia, é o dos meus passos após passos no cimento.

Adivinho que algures, a muita distância, um homem cami­nha na neve, ao correr de um renque de arbustos, pingentes de gelos. Não lhe vejo a cara. Só as costas largas dobradas, a cabeça rapada curvada para diante, e marcha, rangente a neve, alvéolos fundos das pegadas assinalando cada passo. Enrola­-se-lhe o laço duma corda, nó corredio, em roda do ombro es­querdo e sobe até às alturas fundindo-se na neblina. O homem avança, braços em bamboleio, e a corda firme e esticada nem cede nem trava. Isso é lá longe.

Voltar para trás, eu? Sei que não devo. Sei? Tenho medo. Pode ser que o animal vá rolando para junto do muro, atrás de mim, cortando-me a passagem. Pode. Mas também pode acon­tecer que o animal reaja, pressentindo-me o regresso. Se retomar sobre os passos não me for interdito por qualquer lei que eu não saiba formular, há a repugnância do contacto físico com o verme. Eu nem faço gestos avulsos, não canto, nem assobio, vou andando, não vá ele responder-me, nem sei como, a qual­quer decompasso de atitude ou comportamento impróprio. Deixo-me ir e espero que o animal não atente em mim. Nem fito olhos nele, antes este rápido, regular e descomprometido esgueirar.

Aquela espécie de gelatinas, escorrendo-lhe sobre o dor­so, seriam olhos? Aquelas estrias paralelas durante dez ou doze passos, seriam guelras ou sensores? Talvez o corpo do animal acabe, num desenho de qualquer órgão reconhecível, ou mem­bro, quando o muro tiver fim. Já há tanto e tanto tempo que ando e ando. Não hei-de cansar-me. A fadiga nota-se. Talvez tenha cheiro. O animal pode ficar alertado. Ofendido? E de­pois?

À medida que vou andando vou-me esquecendo do que se passava naquele remoto quarto, em que a mulher penteava a boneca. Havia qualquer outra figura, que fazia o que quer que fosse, a partir de um bloco de papel, mas só consigo lembrar­-me de um braço a revolutear, uma vez e outra, mas para quê? Suspeito de que no quarto além da mulher estava mais alguém, mas quanto mais avanço, menos consigo recordar. E torna-se­-me cada vez mais nítida esta pele gorda, constelada de poros, do animal que me está próximo. No quarto, era uma mulher, sentada, mais ninguém. Que idade tinha a mulher, que fazia ela?

Olha que a pele se arrepia, correm-na estrias alongadas que se vão dissolvendo umas nas outras como ondículas num lago. E o dorso, neste transe, enforma uma corcova duas vezes mais alta que a minha altura. Adiante se distenderá. Não faz sombra. O homem que marcha na neve vai indo? Sim. Era um quarto deserto, cinzento, agradável e morno, há tanto tempo...

            O muro lá ao fundo interrompe-se. Vejo já a esquina. O corpo do animal não termina ali. Distingo que se dobra, quase em ângulo, refegos na pele e rodeia a aresta do muro. Não posso parar. Não me lembro de nada, não sei nada. Aproximo-me, os meus passos me trazem.

            Um homem marcha algures na neve e leva uma corda pen­dente do alto ou a corda o leva. A esquina.

            Então?

 

                     Carolina

Pareceu-me um fulano complicado, miudinho de carácter, basto obsessivo, explorador de pequenas vantagens até à náu­sea. No caso, ele era senhor duma embarcação e eu não con­seguia transporte para a Ilha de Grimush. Não o larguei toda a manhã. Desconversava, dava evasivas, trejeitos, silêncios, voltava-me as costas para se ocupar em tarefas pífias, de linha e rede. Fazia-se caro e importantíssimo. Apetecia-me bater-lhe. Ser ele proprietário duma draga disforme, ferrugenta, empastada de limos e sujidade não lhe dava o direito de me tratar de alto. Se eu o esmurrasse talvez ele descesse a ser mais equitativo no trato, mas isso não me garantia o transporte.

Na véspera eu desesperava, desenganado de arranjar barco que me levasse. O velho ferry boat estava encostado há que me­ses, os pescadores que procurei, no cais, nas tabernas, riam-se de mim. «Para Grimush? Ora bem...!» Tinham medo de se fazer ao mar. Finalmente, um veio atrás de mim, não sei se condoí­do do meu desalento se disposto a desfrutá-lo melhor. Ao dobrar duma esquina que fedia a molusco apodrecido, segredou-me: «Procure o Guedes, o patrão da draga! A draga passa...»

Nunca na vida tinha eu posto os pés numa draga. Vistas de longe pareciam-me sempre um amontoado de sucata, ineptas para o movimento, aparentadas aos velhos guindastes aban­donados nos molhes, que apodrecem sobre calhas oxidadas. Mas parecia não ter alternativa. As esfinges revoltaram-se no Museu de Grimush, competia-me apaziguá-las e não era coisa que se resolvesse pelo telefone. Aí estava eu, humilhado, a suplicar ao da draga e ele a trocar-me as voltas. «Ná, não me calha! »

Foi já muito pela noite, ao balcão dum bar equívoco, en­feitado com redes de linho, teias de aranha e bolas de vidro coloridas, que o tal Guedes, exploradas todas as possibilida­des de me enfadar e desiludir, concedeu:

«Acha que aguenta a viagem?»

«Mestre, estou por tudo, desde que me leve a Grimush.»

            Madrugada, antes do sol, lá estava eu, na gordurosa plata­forma, guardada por um tipo esquivo de brinco de latão em for­ma de oito numa orelha. Da cabina, o patrão não se dignou cumprimentar-me. Retirada a prancha, a draga foi deslizando, vagarosa, com um ruído atroador. Acomodei-me num recosto de chapas menos encardidas e adormeci, indiferente aos sal­picos de mar.

O mestre acordou-me, já longe de terra:

«Não convém dormir agora. Olhe!»

            Apontava-me uma direcção. O tisnado tripulante tropeçou entre nós, a soluçar, num lanço desandado, e escondeu-se sob um cabrestante. O Guedes sorriu e encolheu os ombros. Lá longe, um rochedo escuro, tortuoso e esguio, lançava-se do mar, até grande altura. Gaivotas planavam em círculo branco, cir­cunscrevendo o afiado píncaro.

Perto, quase à altura do rochedo, emergia das águas o cor­po de uma mulher gorda, que segurava uma canastra à cabeça com ambas as grossas mãos, cada qual capaz de envolver a draga em que viajávamos. Tinha feições ao mesmo tempo se­renas e grosseiras e o cabelo negro apanhado atrás, num rolo. Rumávamos a cerca de três milhas de distância. Ainda assim, notávamos o arfar lento, da respiração tranquila, logo acima do ponto em que o mar em flor rebentava, ao rés da cintura dela.

«É a Carolina! », disse o mestre.

A draga ia palmilhando, lenta, num penoso entrechocalho de ferros e rodopio de espumas. A mulher, lá ao longe, respi­rava, suave, mas não se movia do mesmo lugar, nem parecia prestar-nos qualquer atenção. O patrão Guedes dava-lhe ago­ra para conversar. Falava baixinho e não desfitava o enorme busto que assombrava as ondas.

Tinha acontecido meses atrás, talvez por Janeiro, ou Feve­reiro, não se lembrava bem. Um pescador dera a notícia, à noite. Arribara com o motor avariado, vinha de olhos arremelgados e só à custa de muita aguardente pelas goelas abaixo conse­guira falar. Ainda assim, ficou-lhe a voz para sempre entara­melada. Quase abalroara a mulher que lhe surgira pela vante, dominando as alturas da noite, olhando-o muito séria e fixa, lá de cima. Ninguém acreditou até ao dia seguinte, quando todos puderam distinguir aquela figura imóvel, mas viva, a respira­ção a condensar-se, em nuvens espairadas, no frio da manhã. Não houve quem ousasse aproximar-se. Mas todos os motores avariaram e aos barcos sem motor apodreceram-lhes as tábuas. Os homens ficaram transidos de medo. E todos os dias pergun­tavam ao mestre Guedes se a mulher ainda lá estava. O motor da draga, teco-teco, sempre na mesma, rabugento, desafinado, mas sem novidade. No porto, tinham chamado à aparição Ca­rolina, em lembrança duma embarcação com o mesmo nome que naufragara num baixio e ficara anos a sobressair do mar, de proa a pique.

Carolina tinha poupado o patrão Guedes, mestre da draga. Volta e meia, ele fazia aquele percurso só para a ver. Certas vezes, em torno dela, ao arrepio das ondas, firmava-se, fluida, uma tonalidade rubra ao rés do mar, como se vogassem à tona colónias e colónias de algas vermelhas. Nessas alturas, o gras­nido das aves era mais baixo e lamentoso. Depois, passava. E ao dizer-me isto, enrolava um cigarro, compenetrado.

   «Estará ela apaixonada por si?», sugeri, meio a brincar. «Acho que é mais estima», respondeu-me muito a sério. «Mas, repare...»

Daí a poucas braças teríamos passado o rochedo e perdi­do de vista a mulher. Foi então que ela pestanejou longamen­te e os lábios polpudos se franziram num sorriso fugaz. «Viu? Viu?» O mestre agitava-se de contente. O ajudante esgueirou­-se do esconderijo e daí a poucas horas aportávamos a Grimush.

Através do diálogo, convenci rapidamente as esfinges do museu ao acatamento da lei. Regressei satisfeito à draga que me esperava no cais deserto e logo abalámos. Mas quando tomámos vista do rochedo, Carolina já lá não estava. E não foram as circum-navegações ansiosas da draga em volta do ro­chedo que a fizeram reaparecer. Triste, triste, vi eu o mestre. Afundou a cabeça nos braços e assim ficou. Não mais me di­rigiu palavra. Senti-me culpado, sem ter porquê.

Quando acostámos, o cais estava coberto de gente que se apinhava pelo molhe e pelos contentores e se pendurava das gruas. Silêncio total da multidão imóvel. Fizeram alas para que eu passasse. De costas voltadas para mim.

Não regressarei a Grimush.

 

                     Do conserto do mundo (*)

(*) Homenagem a Eça de Queiroz por ocasião das comemorações do Centenário.

 

Calharam-me adversidades que costumam ocorrer às per­sonagens desafortunadas no primeiro terço de alguns roman­ces e na segunda bobina de certos filmes. Perdi o emprego e a minha mulher perdeu-me a mim. Eis-me sem sustento, sem reconforto e sem pouso.

Um amigo indicou-me uma dama que alugava quartos à Pedro Álvares Cabral. Era de poucas letras, viúva dum major, exprimia-se com a pronúncia da linha, e proliferava em teorias sobre a vida (esta e as anteriores), sobre a humanidade e sobre os símbolos do zodíaco. Urdiu-me um interrogatório caviloso, autopromoveu-se com descaro e deixou-me ficar. Impressio­nou-a talvez o meu computador portátil, sinal de recato sedentá­rio e bom penhor de calotes. Mas cobrou-me um extra pela ligação à internet. Chamava-se Augusta Marques e regia um casarão enorme, feia obra dos anos quarenta, paredes acinzen­tadas, forro de corticite enegrecida e aquecimento de caldeira, jamais activado. Ela acolhia mais dois hóspedes, um sujeito chamado Cabrita, escriturário na freguesia da Lapa, e um tenente Couceiro, da GNR, que tocava estremecida guitarra coimbrã.

Penei para me registar como contabilista e pedinchei para conseguir a escrita de uma firma de pneus. Espaçadamente, como pingos gordos desprendendo-se duma goteira, sucederam­-se uma clínica, uma leitaria e um ginásio. Outros clientes ar­ribaram, todos de pequeno calado. A maior parte remunerou e a minha vida regenerou-se. Admiti arrendar um apartamento. Tive preguiça. Comprei antes um automóvel. A minha ex­-mulher, poço de todas as más vontades, conseguira arrepanhar o carro do casal na partilha.

Dispunha-me eu, certo serão, para lançar no computador as deduções da firma SOPNEUS com facturas e recibos empi­lhados na mesa coxa que a D. Augusta me cedera não sem regateio, quando senti o toque dum fiozinho breve e agudo de frialdade dos ombros para baixo. Seguiu-se o aparecimento na tela duma inopinada mensagem que, desdobrada como um rolo solto de pergaminho, ocultava as minhas ponderosas tabelas de números. Eu estava sem ligação à rede, via abandonada, rojada no tapete, a extensão do telefone não podia receber correio electrónico. Logo considerei, com aquele desgosto que se manifesta pela pressão insistente da tecla «Esc», que tínhamos caturrice da máquina. Em escura letra gótica, de cortante re­bordo, alguém anunciava, sobre fundo vermelho: «Amanhã, tantos do tal, às dez, no sítio que sabe. Aquele a quem muito deve.» E, a seguir, «666.»

o meu dedo justiceiro se preparava para reiniciar o com­putador quando as contas da firma, «jantar, cem contos e se­tecentos, factura n.o noventa e oito», retomaram o seu espaço, burguês e respeitável, e consumiram os caracteres intrusos. Tra­balhei até tarde, à claridade do quebra-luz verde e, ao adorme­cer, já esquecera a avaria do computador. Mas no serão seguinte, quando D. Augusta e os hóspedes viam na sala um concurso de televisão, e eu, mais para os evitar que por urgência, me enfronhava nos documentos, soou um «pst» «pst» faceiro atrás de mim. Um desconhecido reclinava-se no sofá florido com que a senhoria preenchera um dos cantos do quarto. Compete a um homem assustar-se com surpresas destas e foi o que sucedeu. As aparições, prevendo o pavor próprio da natureza humana, costumam declarar: «Nada temas!» Assim a criatura estendeu os braços tranquilizadores, de mão espalmada, e sorriu, ami­gável, um pouco de esguelha. Depois, aplicou o indicador so­bre o nariz, pedindo silêncio e teve um ademane que se queria gracioso, de cara um tanto à desbanda. Lá fora, na sala, eu ouvia os guinchos do televisor e os comentários de D. Augusta, o que me sossegava um tanto. Mas, à cautela, depois de avaliar com insucesso todos os objectos que pudessem servir-me de arma, levantei-me e fui recuando, lentamente, para a saída. Sem eu saber como, o homem encontrava-se agora de pé, entre mim e a porta: «Vamos, vamos, Teodoro, estamos entre cavalheiros. Nada de sustos nem de gestos bruscos. Sente-se e conversemos um pouco. Quer água? Aqui tem.» De facto, eu sentia a gar­ganta seca. Mas não toquei no copo de cristal cinzelado, em forma de garra, que a figura me estendia. «Conhaque, marras­quino, genebra?», insistia ele, e o líquido, às suas palavras, ia mudando de coloração, do incolor ao dourado e ao prateado. Recusei com uma desculpa engrolada. Encolhendo jovialmente os ombros, a criatura sentou-se a meu lado, na cama. Reparei que a colcha de seda se manteve lisa e desenrugada, como se ele não tivesse peso. «Tenho pensado muito no meu amigo, sabe?» Num tumultuoso desconcerto, acudia-me ao espírito e quase me saltava para fora uma frase de rebeldia: «Eu não assino nada, juro!»

Era um tipo de estatura meã, vestido com um casacão ne­gro e umas calças escuras, muito justas. Usava um colete aper­tado até ao último botão e segurava agora entre mãos um chapéu alto. Faria lembrar um mágico de circo, um Mandrake pobre, como se, a todo o momento, daquela cartola pudessem sair um coelho ou uma revoada de pombas. Mas não. Espreitei. Lá den­tro branquejavam, pacatas, duas luvas brancas, arrumadas com esmero. Usava o cabelo muito curto, negro e espesso, repuxa­do para a testa alta. Na cara avermelhada, o sorriso de lábios finos, algo oblíquo, não lhe ficava bem. O brilho do olhar era movediço, ora penetrante ora tristonho e baço. Trazia as unhas bem tratadas e aparadas, mas os dedos terminavam num afilamento que parecia simultaneamente leve e predador.

Senti uma frialdade quase dolorosa quando uma das mãos dele me tocou o joelho, numa demonstração camarada: «Então o Teodoro cortou o bigode? Deu em toureiro ou em padre?» Não se apercebeu da minha estupefacção de homem militantemente glabro e transferiu a mão para os interiores do casaco:

«Deixe-me ver os meus apontamentos», disse-me ele, pen­sativo, sacando de uma carteira de pele curtida, esbranquiça­da, de textura repugnante: «O senhor chama-se Teodoro, vive em Lisboa, na casa da senhora D. Augusta, juntamente com um tenente Couceiro e um tal Cabrita.» Estava certo? Irrefutável. «Celebrámos em tempos um negócio, mas parece que não soube aproveitar bem...» E olhou desconsolado para o meu quarto pindérico e para o quadro que, por cima da cabeceira, repre­sentava um menino triste, de lagriminha no olho.

Ele estava equivocado. É verdade que me chamo Teodoro, verdade é que beneficiava da dispendiosa hospitalidade de D. Augusta Marques, mas não conhecia a criatura de parte ne­nhuma e estava sem vontade de conhecer. A maneira de ves­tir, o perfil, o gesto, aquele aparecimento inusitado no canto do quarto...

«Ah, não ligue», suspirou a personagem. «Foi por timidez! Assim como lhe enviei uma mensagem electrónica, a anunciar­-me, fiz questão de não incomodar os circunstantes, tocando à campainha, apresentando-me, perguntando, criando confusões e mal-entendidos.» Não havia dúvida, era ele! A cara contraiu­-se-me num trejeito e, na ponta dos dedos, esbocei, disfarça­damente, um esconjuro de comprovada eficácia, mas ele con­tinuou, alheado da minha perturbação:

«Meu prezado Teodoro, traz-me aqui um motivo solene e histórico...»

Interrompi-o com uma pergunta ansiosa. Aquele número que rematava a mensagem era...? «666, ou 999, como prefe­rir. Desconhece o Tio João Evangelista?» E naquele olhar, agora fixo e esverdeado, notou-se por instantes alguma desilusão.

«Não havia aqui uma campainha?», perguntou, apontando desconfiado para um molho de facturas coloridas, espalhadas sobre a mesa. Não alcancei aonde ele queria chegar. Percebi é que me encontrava num passo difícil da minha vida, confron­tado com alguém que nem ouso nomear. Reagi.

«Não assino nada! Ouviu? Eu não assino nada! Aliás, eu não sou esse Teodoro, trate-se de quem se tratar.»

Ele olhava pela janela e quedava-se calado, reflexivo. Logo depois, com um gesto elegante e o sorriso fugaz de quem re­solveu congeminações íntimas: «Na verdade, vejo automóveis e isto não se assemelha à Travessa da Conceição. Bom, talvez fosse mesmo outro. Tenho grande propensão para misturar os Teodoros. Já uma vez confundi o Teodoro Hoffmann com não sei quem. Sabe, a eternidade, a que eu tenciono, aliás, pôr cobro, amalgama tudo. Nos intervalos de ocupações supostamente dolorosas, tenho visto D. Lucrécia Borgia e o senhor Hitler a conversar amigavelmente. Herodes, Calígula e Landru têm oportunidade de trocar opiniões, confrontar experiências, o que não aconteceria se estivessem contidos pelas malhas do tem­po. Tenho posto em contacto gente muito interessante e ima­ginativa. O tempo, de resto, nem é uma invenção minha. É uma invenção dele. Sabe a quem eu me refiro, não é verdade?»

            Eu só consegui repetir, recorrendo a todas as minhas reser­vas de determinação e firmeza: «Não assino nada!»

            Desta vez, a criatura atentou na minha repugnância pelos contratos e resolveu contrabater, sereno e didáctico.

«E você a dar-lhe com a fobia das assinaturas. Que mal faz? É um acto claro, límpido, de boa-fé. Aliás, nos meus negócios eu admito até o consentimento tácito. Um gesto serve-me. Sacudir uma campainha, por exemplo. Veja o meu amigo se isto não é mais higiénico e cavalheiresco do que exigir prepúcios cortados e ressequidos, ou atormentar recém-nascidos com águas gordurosas...»

Eu ia acenando que não com a cabeça. Não me apetecia argumentar. Da sala chegavam, longínquos, os sons do televi­sor e a voz de D. Augusta, com os seus comentários. E se eu gritasse? Os outros acudiam e eu dizia que era um sonho mau, um pesadelo. A figura, com certeza, não estaria disposta a confrontar a dona da casa e o tenente Couceiro. Das minhas reminiscências não constava que o tentador se manifestasse colectivamente. Provavelmente, ele fora sincero. Era tímido. Sumir-se-ia através da parede.

Mas o grito que já me estalava no peito desfez-se numa tossezinha insignificante, embaraçada, quando o ouvi dizer, num sussurro: «Acabou-se. Venho render-me! Desisto! Entrego-me.»

Os braços cruzaram-se-lhe sobre o peito, as feições perde­ram o sorriso inclinado que as caracterizava, os olhos emba­ciaram-se-lhe e curvou-se um pouco, num abatimento cansado.

Eu ainda protestei: «Mas eu não sou o seu Teodoro...» Ele soltou as mãos e sacudiu-as no ar, com impaciência. «Quero lá saber! Qualquer Teodoro me serve.» A sua envergadura, de repente, pareceu aumentar, as faces crisparam-se-lhe e os olhos relampejaram, ameaçadores. Achei que não devia contrariá-lo. Mas impunha-se uma pergunta que formulei timidamente, de­pois de ter levantado um dedo, em aviso trémulo: «Por que é que desabou aqui no meu quarto e não se vai render directa­mente ao interessado?» Ele rugiu e fez vibrar as paredes. «Por­que ele, a sós, tratava-me mal! Desconsiderava-me! Eu tenho o meu orgulho!»

E aí o via eu, agora sentado no leito pelintra, o perfil carrancudo escondido entre os punhos, numa pose de pensa­dor atormentado. Mas logo virou para a mim a cara ameaça­dora: «Ó Teodoro, francamente, mas está à espera de quê, pá?»

Seguiu-se uma discussão teológica. Eu tinha as minhas dú­vidas. Ele foi paciente e douto. Mas, inquiria eu, se ele se aprestava a render-se a um ser omnisciente, era manifesto que esse ser já sabia das suas intenções, o que tomava inútil aque­la presença no meu humilde quarto e aquela pressão sobre mim. «Lérias! Pode ser que ele saiba tudo, mas não liga, está-se nas tintas! O amigo nunca reparou que ele anda sempre distraído e desinteressado? Eu, quando me chamam, acorro logo. E ele? Nas nuvens...» Mas por que é que o meu visitante que, conve­nhamos, também tinha fama de poderoso, não lhe enviava uma mensagem directa? Não digo num painel público, humilhan­te, afixado na Praça de Espanha, mas, enfim, uma carta, ou mesmo um e-mail? Ele falava-me com sílabas espaçadas, re­pisando as frases, como se faz com uma criança. «Então o meu amigo não sabe que ele está muito apegado à intermediação, à empenhoca, à intercessão? A Idade Média, com as suas cadeias de submissão, agrada-lhe imenso. Se eu não tiver um intercessor não me safo. É assim que as coisas funcionam naquela corte.» Mas eu - aqui quase gritei de protesto -, eu era um insignificante contabilista, por de mais agnóstico. Se quisesse meter cunhas falasse antes com gente bem colocada, com o Papa, com a cúria romana, ao menos com um cardeal. O olhar de profundo desprezo que ele me deitou... Cerrou os punhos de fúria, mas conteve-se e sem olhar para mim, fitan­do intensamente a parede em frente, explicou: «Ele está farto dessa gente. Há dois mil anos que os conhece. Já não pode aturá-los. Vá, Teodoro, tenha coragem, ajude um pobre venci­do e suplicante.» Mas que é que eu podia fazer? «Dirija-se-lhe! Reze uma oração, caramba!»

Ia eu começar a evocar palavras antigas, sacadas com es­forço dum poço menineiro de memórias, quando uma luz es­tranha penetrou todo o meu quarto e clareou o fato negro do meu interlocutor. Ouviu-se um bater penugento de asas. Ele não pareceu surpreendido, antes murmurou um tanto enfada­do: «Lá vem a pomba! Ele começa sempre por mandar a pom­ba! Eu com a pomba não falo!»

De facto, uma pomba branca debatia-se no tecto, contra o ângulo coberto de humidade, e parecia obstinar-se em sair por ali, contra a evidência de que a janela se encontrava do lado oposto e, ainda por cima, fechada. Eu estava impressionado, mas o meu companheiro de circunstância, não. De mãos espalmadas, por cima da cama, arremeteu contra o animal: «Xó!Xó!»

Então, ainda com ele de mãos frenéticas no ar, a sala en­cheu-se de subtis vibrações, suaves ressonâncias. Parecia-me que às notas graves e profundas de um órgão se sobrepunham os acordes graciosos de um cravo. O meu companheiro sus­pendeu o gesto de enxotar e sentou-se, atento, aos pés da cama. Do tecto, começaram a tombar, amenas e serenas, pétalas de rosa que se desfaziam em brilhos crepitantes, mal tocavam o chão. Um odor intenso a água de rosas impregnava todo o ambiente.

«Não ligue», advertiu, «é para impressionar. Mantenha-se firme.»

Mas eu sentia-me bem, bem. Apetecia-me vogar pelo quar­to, liberto de peso, transportado por aquela música, desfazen­do entre as mãos as pétalas coloridas que enchiam o ar. E ele a rosnar: «O amigo tenha calma, não se deixe levar.»

Não sei como, vi-me sentado à mesa com o homem de preto a meu lado. As notas musicais tinham cessado, numa ondula­ção longa, cada vez mais sumida e eu tornava a ouvir as risa­das de D. Augusta Marques e seus hóspedes lá longe, frente ao televisor. Do outro lado da mesa, uma luzinha piscava em intermitências prateadas. O homem de preto dobrou-se para mim: «Ainda bem que, desta vez, ele não escolheu a rábula da sarça ardente. Esturricava-lhe isto tudo! Agora espero de si que seja um árbitro isento.» Eu sentia-me bem-disposto, disponí­vel para mediar, para dar conselhos. Mas uma voz doce e musical parecia sair de todos os recantos e perguntava: «Que me quereis?» Eu ia a responder «é este aqui...» quando, brus­co, o homem de negro se abespinhou contra a luzinha, numa áspera indignação. «Estou de peito feito, ao manifesto, a ex­por-me perante o amigo Teodoro, muito material e corpóreo, e tu a esconderes-te com os teus truques. Isto é uma conversa definitiva de entidade para entidade. Sejamos leais, caramba!»

A voz, em tom magoado e paciente, inquiriu então: «Como me queres?». Seco e brusco, o meu visitante respondeu: «An­cião de barba branca!» E aí o tinha eu, um velho majestoso, de alvas cãs, túnica azulada, que ocupava, reflexivo, o lado oposto da mesa.

De braços ferozmente cruzados, o homem de negro deitou­-me de viés um olhar triunfal. O ancião sorriu-me com bondade. E dirigindo-se ao homem de negro: «Vens render-te? Ou­tra vez? Mas se eu já te disse: não pode ser nada, não pode ser nada...»

O outro já sacava da sebenta carteira branca. Tinha muito que argumentar. Recriminações não lhe faltavam. Começou a ler factos, alguns desconhecidos da História dos homens e que pareciam comezinhos e insignificantes. Pequenas birras do paleolítico, desavenças sumérias, coisas de Jacó e Isac. O an­cião venerando retemperava com um aceno grave de cabeça, mas o declarante tinha tomado a palavra e não se calava. Eram acusações acumuladas durante muitos séculos e com o pobre de mim, que nem sequer conseguia localizar os eventos, a servir de testemunha. Acho que o ponto eram as desconsiderações, a intromissão do respeitável velho na esfera da maldade, com reiterada violação de competências. «Eu sei tudo isso, Pero Botelho. Eu sei tudo!»

O outro, de um salto, bradou que não admitia que o tratasse por Pero Botelho, que já estava farto até aqui (e segurava na maçã-de-adão, saliente e bicuda) de insultos e menosprezo. Eu, aí, achei melhor intervir. Não me ficava bem, se aquele vozear fosse ouvido lá dentro e D. Augusta me aparecesse no quarto, a tomar satisfações. Pedi calma e ponderei o seguinte: «O que lá vai lá vai. Isto é preciso é que todos estejam bem. O amigo exprime-se nervosamente (e designei a figura de preto) e o meu caro senhor (designei o velho das barbas) creio que labora num equívoco, ao pretender saber tudo.» O de preto acalmou-se e o velho olhou-me de semblante derribado, que seria terrível, se eu não estivesse tão bem-disposto. «Como não sei tudo?»

«O romancista Camilo Castelo Branco afirma em determi­nada novela: "decorreram oito meses sem eventos dignos de registo"». «Que eventos foram esses?» «É fácil, chamava o Camilo e perguntava-lhe!» «Ah, perguntava?..» E estendi um dedo triunfante. O homem de negro ficou satisfeito. Tinha ganhado vários pontos à minha custa e de Camilo. O velho dei­tou-me um relance desconfiado, como quem diz: «tenho-te debaixo de olho, a ti».

Mas já a conversa prosseguia. Um que se queria demitir. a outro que não, que não havia ninguém que o substituísse. Um que queria alforria e integração das suas seiscentas e tal legiões. a outro que não havia espaço. Que se convertessem então as regiões de baixo. Que os custos eram incomportáveis, sem contar com o descrédito. Que sendo assim, cruzava os braços e nunca mais promovia o mal. Que ele era substituível, até o amigo Teodoro, querendo, podia fazer aquele papel. Vade retro, bradei eu. Que me deixasse de parvoíces, disse o de preto.

Mas já o velho me pegava na mão e eu sentia um calor té­pido a inundar-me de uma alegria de hinos. «Ele está a pro­por o fim da História. a amigo Teodoro concorda com o fim da História?»

Eu concordava, no contexto, com o fim da História. Des­de que não fosse para explorar nem para fazer mal a ninguém... «Pois bem... ah!, que santa simplicidade...» O velho suspirou, encolheu os ombros e estendeu ao outro uma fina folha de pergaminho dourado: «Vá lá, assina aqui.» a homem de pre­to desenhou com a ponta do dedo um sinal que começou por ser de uma incandescência vermelha, passou a azul, depois a branco e, finalmente, se dissolveu numa poeirada de pontos brilhantes. Logo desatou aos gritos. «Ganhei, ganhei. Vou dedicar-me ao xadrez. Não quero saber de mais nada. Só xa­drez.»

O amigo Teodoro deseja assinar, como testemunha? «Eu não assino nada, tenha paciência, não assino nada!» O ancião encarou com ironia a cara esfuziante do outro, fez desapare­cer o documento na sua alva túnica, saudou-me, com um sor­riso delicado, quase mundano, e deliu-se no ar. o homem de preto saiu-me pela porta, aos saltos eufóricos, muito cavalões. Ainda ouvi a D. Augusta gritar «credo, que é isto!?», e depois a porta da rua a fechar-se com estrondo. Fiquei só e tão só me senti que, daí a nada, estava a ver televisão com os outros.

«Quem era aquele?», perguntou a senhoria, na altura dos anúncios. «ah, ninguém, um cliente meu», respondi. «Exce­lente para o lumbago, este Indemoll.»

Isto passou-se em Março de 1998. Reproduzi a pura ver­dade dos factos, tal como os presenciei. Não houve cá sonhos, nem onirismos. Já repararam, com certeza, que o mundo e os homens mudaram radicalmente desde essa data. Até dá gosto.

 

                   Memórias de revolucionário

Alistei-me por causa da farda pérola dos lanceiros da im­peratriz que, infelizmente, duraram pouco. A soberana achou que «Lanceiros da Imperatriz» podia prestar-se a más interpre­tações. Não escondia as centenas de amantes que tinha. Mas confidenciou ao duque de Estoque que «preferia não ser tão específica» .

A verdade é que os lanceiros ficaram todos vesgos. Cabia­-lhes a guarda aos aposentos imperiais de cotovelo alçado e sabre rés ao nariz. Para o cansaço, enfiava-se uma armação de ferro subtil mas resistente, por dentro da manga. Mas negligen­ciaram-se as sequelas dos olhos angulados numa lâmina por oito horas.

Os lanceiros, com aquele mau aspecto de vesgo-para-den­tro, foram transferidos para o bairro de lata de Shontong, onde o defeito não destoava.

Mas quando os substituíram por hussardos, ninguém repa­rou na perversão daqueles dois berloques que desciam da barretina e pendiam dependurados ao nível dos olhos. Por cada guarda que se fazia, de espada na bainha e punho no copo, era mais um hussardo que envesgava por não conseguir evitar a fixação nas borlas franjadas. Os hussardos ficaram todos vesgos­-para-fora e transferiram-nos para a marinha, onde faziam jei­to as vistas largas.

Eu ainda tive farda de lanceiro, depois de hussardo, mas logo me deram uma terceira farda e uma terceira ocupação: te­nente de caçadores. Apenas me calhou um turno de lanceiros, uma noite, e logo a seguir outro de hussardos, de modo que o efeito de vesguez-para-dentro do sabre compensou o de vesguez-para-fora das borlas, e fiquei quase na mesma.

Tinha agora um vistoso dólman vermelho, mas acabaram­-se as guardas que vieram a ser confiadas ao glorioso esqua­drão de cegos do marquês de Silampãã. Logo no meu primei­ro dia de tenente encarregaram a nossa companhia duma missão de responsabilidade. Vigiar o terreiro do cão amarelo, no bairro dos artistas.

Junto a um prédio, cuja construção havia sido embargada, arredondava-se, ao nível da cave, um areão enorme, cercado por negro tapume já apodrecido. Havia raros tufos de erva e uma grua gigante, abandonada, que acenava, sombria, com o vento. Todas as noites, às dez, um cão amarelo surdia dum buraco no tapume, do lado esquerdo, obliquava, a trote de cão, e desaparecia algures por detrás da grua. Nada que desse cui­dados. A movimentação era conhecida, fazia parte das regula­ridades que tranquilizam a tropa. Assim o pianista que às três da tarde se sentava de costas para uma janela lá longe e toca­va Saint-Saens, seguindo-se um rodopiar de leves pétalas azuladas em torno da grua. O motivo do nosso bivaque ali, na placa do primeiro piso, eram as «presenças», explicou o coro­nel. E mais não disse.

O capitão era um tipo alto, jovial, que usava dois monóculos, um em cada olho, de maneira que andava sempre de sobro­lho franzido. Não se compaginava o aspecto feroz com as ale­gres gargalhadas que o homem soltava adrede. Foi esse capitão que o coronel quis executar, certo dia, e a culpa foi, de certo modo, minha.

Adensava-se uma noite razoável, tudo repousava, o cão amarelo já passara, e reparo que as três sentinelas dormiam profundamente. Ia participar o caso ao coronel, quando o capitão apareceu e perguntou: «Onde é que o nosso tenente vai?» «Par­ticipar. Estão todos ferrados no galho, meu capitão.» Mas o capitão contou-me que tinha misturado ópio no café dos ho­mens, por isso não admirava que eles dormissem. «Não estou nada de acordo com isto das sentinelas,» precisou. «É uma deslealdade para com o inimigo.»

O coronel, que estava acordado e tinha bom ouvido, saiu da sua tenda e pôs-se a olhar o capitão de uma forma um tan­to esquisita. Depois, ordenou, sibilinamente: «Amanhã, às três, junto à grua.» Quando o capitão desapareceu na noite, o coronel avisou-me em surdina: «Reúna um grupo para a execução, à hora marcada!»

O capitão foi muito digno. Quando o coronel lhe comuni­cou a iminência da morte desabotoou logo o colarinho e de­clarou: «Saberei perecer pelos meus princípios.» A frase soou melhor, pontuada pelos acordes que o longínquo pianista tira­va do teclado. O coronel esfregava as mãos de contente por­que tudo parecia estar a correr bem, até que o capitão bradou: «Quero ser enforcado!» A um morto nada se recusa, de ma­neira que logo ali o coronel decidiu pendurar o capitão na grua, com os respectivos cabos.

Não deu resultado. Os cabos eram tão grossos que forma­vam um ridículo laçarote em volta do pescoço do capitão, com uma ponta revirada para o lado. Quando tentaram içá-lo, a corda subiu-lhe acima da cabeça e espalhou os monóculos que de­ram depois um trabalhão a encontrar, porque se confundiam na macieza das pétalas tombadas. «Não somos marinheiros», jus­tificaram-se os soldados. «Temos boa vontade, mas os mari­nheiros é que sabem fazer nós.»

O coronel sentiu-se muito contrariado. Estava já disposto a fuzilar, mas não sabia a que distância se havia de formar o pelotão de fuzilamento. Um sargento sugeriu que fosse a um metro ou dois de distância, como no quadro de Goya, mas o coronel retorquiu «que isso era hediondamente sanguinário». Por outro lado, colocar o pelotão mais longe iria dar balas perdidas, o tapume furado, trapalhadas. Fui eu quem salvou a situação. Bradei: «Atirem sobre o pianista!» E assim fizeram.

Nesse mesmo dia, a imperatriz mandou-me chamar e dis­se-me: «Sei tudo. Foste um valente. Amo-te e declaro-te meu favorito.» Durante quatro dias, andei no landau da imperatriz, comi lagosta e bicos de rouxinol. Ao quinto dia, a imperatriz disse-me: «Basta!» e encarcerou-me numa masmorra. A comida não era má, e vinha todos os dias num cestinho de piquenique, trazido por uma criadita maliciosa.

Amestrei uma família de ratos que organizavam uma es­pécie de concerto de berimbau na tarimba, com palitos. Podia ter mostrado o festival dos ratinhos à imperatriz e ela agracia­va-me de certeza. Mas também tinha o meu orgulho. Tornara­-me revolucionário.

 

                   Aventuras de um ourives

Ourives sou e de ponderada honestidade. A minha loja na Baixa, Rua do Ouro, remonta a 1772, mas certos documentos da família mencionam uma outra, aproximadamente no mes­mo local, antes dos terramotos, nos tempos do Interregno. É referida na crónica do Condestável, num fragmento desaparecido, naquela parte em que um clérigo arregaça as mangas e brada «eixo-lo Condestabre que vãas aleyvoziias britará». Não possuo os papéis porque os vendi, a peso de ouro ao leiloeiro­-moro Se ele os perdeu em qualquer noitada de bar, não é comi­go. Isto para vos contar daquela mulher que me apareceu, um tanto assustada, numa tarde de Outono, quando a luz de Lis­boa já ia sendo contaminada pela pátina dos velhos prédios.

Não tenho empregados porque não gosto de conversas nem da responsabilidade de pagar ordenados e preencher papéis esdrúxulos. Ultimamente a casa tem-me sido muito assaltada. Antes, eram os buracos na parede. Chegavam uns vultos, meio disfarçados de idosos e arrendavam os andares vizinhos para penetrar, pela calada da noite, na minha ourivesaria. Mas eu desconfiava logo de que aquelas bengalas não eram autênticas. E comecei a fotografar todos os vizinhos próximos, mesmo quando traziam meninos. Ainda assim, esburacaram-me, por várias vezes, o tecto e as paredes. Uma mãozita de criança dava muito jeito, quando os assaltantes eram pobres e os meios téc­nicos utilizados não permitiam buracos muito largos. Os polí­cias não ligavam aos alarmes porque os consideravam sempre falsos. E, às vezes, accionavam-nos de propósito, só para dar animação.

Agora os dois compartimentos da loja estão forrados de ma­lha de aço e de sólido betão. Ainda que houvesse outro terra­moto, a minha loja manter-se-ia, firme, como um cofre de prata no meio duma derrocada de grãos de trigo.

Os assaltantes passaram a ser mais comunicativos, a usar pistolas e armas brancas. Rara era a semana em que não me apareciam a bradar «isto é um assalto» e a recolher uns objectos das vitrinas. A polícia capturava-os todos ao fundo da rua, porque estavam invariavelmente vestidos de preto e de meia de nylon na cabeça. Lucrei muito com esses assaltos porque a autoridade me devolvia sempre uns cordões de ouro e uns re­lógios a mais.

Pois ela, Matilde, lânguida e apagada, entrou e contemplou distraidamente as vitrinas, enquanto ia deixando correr um dedo abandonado pelo tampo do balcão. Tinha o ar tão desampara­do de nenhures que nem me ocorreu perguntar-lhe «faz obsé­quio, minha senhora?», como era meu hábito. Mas, de súbito, num sobressalto, levou a mão à boca e voltou-se para mim, numa abismação. «Oh», exclamou, queixume abafado, «esta jóia! Tem que me dar esta jóia!»

Foi já com Matilde sentada, copo de água com açúcar em frente, que lhe expliquei, com paciência, que sendo comerciante preferia categoricamente vender as coisas a dá-las. Então ela contou-me a triste história do seu marido, Inácio, o vedor de água.

Inácio havia sido contratado para detectar lençóis de água em terras remotas e desoladas do Paquistão. A sua varinha de freixo estava a fazer maravilhas e Inácio, cada vez mais entu­siasmado, assinalava, estaca após estaca, as águas subterrâneas que ia descobrindo. Um belo dia, viu-se rodeado por um ban­do armado, cujo chefe, um homem de turbante vermelho com longas barbas encaracoladas, lhe disse: «O meu amigo está re­fém.» Que não podia ser, que ele tinha um ajuste com o governo do Paquistão. Pois era, mas havia imprudentemente passado a fronteira e encontrava-se agora no Chunguistão.

Pela única carta que Inácio lhe fez chegar, ficou Matilde sabendo que o marido seria devolvido em troca de certa jóia que existia em Lisboa, numa ourivesaria da Baixa. Era aquela, rosa de rubis com um caule de prata, não muito cara e o seu tanto pindérica, que se exibia na minha vitrina.

«Por uma questão de princípio», disse eu, «não lhe ofereço a jóia, minha senhora. Mas se me tomar conta da loja, partirei para o Chunguistão e resolverei o assunto.» Ficámos apalavra­dos e, dias depois, fumava eu no Chunguistão, a passo de dromedário, sob um sol frio.

Não me foi difícil dar com o bando porque era o único do país. Receberam-me bem, ofereceram-me chá e apresentaram­-me Inácio que, perguntado sobre como estava, respondeu, con­formado: «Como o outro.»

Com os guerrilheiros todos reunidos, tomei a palavra e expli­quei-lhes que de uma forma geral não se devia raptar pessoas por ser de mau-tom e causar prejuízos. O chefe dos guerrilheiros ia cofiando a barba e ficando preocupado. Quando acabei, disse: «Mas acha, realmente? Nunca tínhamos encarado o assunto por esse ângulo. Sinceramente convenceu-nos. Inácio é livre de partir. Quanto à jóia, comprá-la-ei honradamente depois de áspero trabalho com o suor do meu rosto.» E regressei, na companhia de Inácio, depois de uma grande festa com tambores.

O vedor vinha um tanto contrariado. «Eles deixavam-me dormir o tempo que quisesse», explicou. Duas semanas mais tarde entrávamos ambos na minha ourivesaria. Matilde rece­beu-nos friamente. Estava a facturar, mal levantou olhos das facturas. «Esse homem não é o meu marido.» «Como é que não sou o teu marido se tu és a minha mulher?» «Ah, isso é uma longa história», respondeu ela. «Tudo começou há dez anos, no Alentejo...»

Tenho um coração de ouro e facilmente atinjo a compun­ção. Mas não estava disposto a deixar que as coisas se compli­cassem após uma tão longa viagem e tão elaborados discursos. «Tenham paciência, por enquanto fica assim. Depois logo re­solvem. Se houve troca, logo destrocam...»

«Eu fiquei a gostar do Chunguistão e dos Chunguistões», confessou Inácio. «Então volta para lá, que eu regresso para o Alentejo», suspirou a mulher.

Ambos partiram, e eu senti-me muito só.

 

                   Por uma vereda na falésia

Pequenino, curvado, bigode grisalho, de pelame confuso, o homem estendia os braços levantados, como se estivesse a oferecer o magro peito que ninguém lhe pedia: «á doutor, isto que eu faço é por si, pá, e por mais ninguém, ouviu?» Diri­gia-se a um médico do nosso grupo que se chamava Raul, e o tinha tratado dum enfisema. O homem agora não fumava e, por isso, estava quase sempre de mau humor. Isso não lhe afecta­va o sentido da gratidão. «Vamos?»

Era numa daquelas escarpas' algarvias, muito estaladas, não longe da praia da Rocha. Tínhamos ido parar ali, não sei por­quê. Apanhar vento, depois do almoço, acho eu. A Primavera estava fria, o passeio fez-se por se fazer. Mal tínhamos saído do jipe, o homem aparece, de entre as ervas, mãos nos bolsos, com uma grande conversa a louvaminhar o médico salvador. Antes nem era capaz de subir para aquela pedra, e apontava para um calhau do tamanho dum punho, agora cabia-lhe todo o ar nos pulmões. E inspirava e tomava convexo o peito côn­cavo. Um exagerado, aquele algarvio. E palrador.

Apertou a mão a todos, que sendo amigos do doutor seus amigos eram, fez considerações sobre o tempo e o mar, os tem­pos e os modos, contou uma anedota e, de repente, atirou a proposta: que fôssemos com ele pela falésia que havia de mostrar ao doutor, e por extensão aos circunstantes, «uma coisa como a gente nunca tinha visto na vida, tã linda, tã linda».

Ninguém estava muito disposto a ver coisas, com aquele frio e aquele vento. Os do grupo entreolharam-se e rosnaram entre si umas sugestões de desculpa. A professora, Marília, ti­nha medo da água, o advogado, Gil, queria voltar para o ho­tel, eu estava por tudo, desde que não me metessem em chatices, e o médico com um sorriso forçado ia fazendo gestos apaziguadores que foram substituídos por um olhar gelado quando o advogado sugeriu: «Dá-se-lhe duzentos paus e ele põe-se na alheta.» Sempre era um dos seus doentes, prova viva da eficá­cia da Medicina. «Vamos com ele, não é, Rui?» Encolhi os ombros e lá marchei. Os outros, resmungando, seguiram-nos.

O carreiro, fino e torcido, ricava a falésia por socalcos, às vezes desmoronados, numa extensão que me pareceu maior que a desejável. Debaixo dos nossos pés, a areia seca esfarelava­-se e ia juntar-se lá em baixo, à da praia, formando um ponti­lhado de flocos escurecidos. «Falta muito?», perguntou o médico. «Não, é já além», respondeu o homem.

A experiência da vida ensinara-nos que este « á além», dito pelos homens do Sul, é adequado a qualquer distância astro­nómica, mesmo das mais curtas. No entender de um algarvio, a lua «é já além» e a América «é só um saltinho». Mas lá se­guíamos resignados. Hesitações houve quando a falésia, de súbito, recurvou para terra, e a praia, lá em baixo, deu lugar a uma maré grossa, belicosa e bulhenta. «Não me quero molhar», disse Marília, «não me quero molhar» e agarrou-se a um tufo de ervas que nasciam das ribas. «Olhe que a erva não tem se­gurança», avisou o homem, voltando-se para trás. «Mas se a senhora quiser voltar, faz favor.»

Nem Marília nem o advogado estavam dispostos a regres­so sem guia. Ela deu um ostensivo suspiro, agarrou-me pelo cinto e lá veio aos saltinhos, a fazer-me peso. Atrás, o advo­gado, com um braço estendido para o infinito, parecia prote­ger-nos dos pássaros.

Mas o carreiro entrava em declive, cada vez mais estreito e solto, com o mar mais perto. As ondas esgadanhavam o fun­do da falésia e expeliam uma poeirada de gotículas frias que nos faziam mal aos humores. Toda a gente praguejava. A mão de Marília que me puxava o cinto fez-se mais enclavinhada, e eu mais estreitado, e a outra mão filou-me o blusão, por altu­ras do pescoço.

O homem ia prosseguindo, a passo seguro, bom conhece­dor do atalho. Pressentindo as hesitações e as indignações, vol­tou-se para trás, enconchou as mãos em volta da boca e avisou: «Vão contando as ondas. A sétima é sempre a mais rija.» Mes­mo o doutor, nesta altura, já estava quase a mandá-lo para o diabo.

Enfim, chegámos quase de gatas e muito tremidos de ven­tos e salpicos de mar a um ponto em que o homem parou e apontou. Belo momento aquele, de pose rígida, solene dedo es­tendido ao alto. Lá em cima havia uma abertura, um rasgão na areia, de fundo negro e convulso. «É além», disse o homem. «Ai ali eu não entro, não entro não senhora.» Era Marília. «Não há azar, trouxe a pilha», informou o homem. E daí a instan­tes, depois de uma escalada confusa por areias movediças e impacientes, lá estávamos todos dentro da gruta, com os olhos a habituarem-se ao focozinho da lanterna de bolso, tremeluzin­do, incerto.

O espaço era grande, tortuoso, metia muito para dentro. Tro­pecei no que me pareceu ser um amontoado de tijolo burro, muito esfarelado. Marília perguntava se havia morcegos. «Só se foram morcegos com penas», disse o algarvio. Por uma abertura, passámos a uma sala ampla, com ecos a rebentar por todos os lados. Era frio e húmido. A luz pôs-se a saltitar so­bre o que parecia ser uma baú de pedra que nunca mais termi­nava, ao correr da parede rochosa. «Vejam-lhe o boneco», ordenou o homem e apontou a luz para uma das extremidades. Debruçámo-nos. Em baixo-relevo, muito nítido, ainda com restos de cores fortes, uma carantonha emplumada, de aspec­to pouco recomendável, olhava para o tecto de onde pendiam estalactites. «É um índio», precipitou-se Raul. O foco foi des­lizando, metro a metro, dois, três, quatro, e mostrou uma ar­madura, um escudo, uma maça de armas, uns joelhos cobertos pelo rebordo superior dumas grevas. «Um índio, uma ova, não havia índios de armadura.» As minhas mãos foram tacteando o rebordo abaulado. Sentiram uma fissura. Havia uma tam­pa. Um sarcófago. Mas Raul dava agora um grito: «Eh, pá, caraças.» Aproximei-me do foco de luz, que, por uma aber­tura, provocada pela deslocação da tampa de pedra, mostra­va ossadas, ainda branquejando no escuro. Tarso, metatarso e falanges, quase intactos, e do tamanho do meu braço e ante­braço estendidos. Todos recuámos. Com o encontrão, a luz dispersou-se e errou pelo recinto, revelando montes de lixos antigos, uma estela, uma rodela decorada de incisões que fa­zia lembrar uma mó de pedra. Era o túmulo dum gigante. Mas Marília advertia: «Isto não é possível, pura e simplesmente, não é possível.» No entanto, foi ela quem, com dedo trémulo, de­cifrou os primeiros caracteres da estela, espiralados em linear B: «Goliath»! E, mais à frente, «Phylistin». Estávamos no tú­mulo do gigante Golias, morto à pedrada por David. Os filisteus tinham-no sepultado aqui. É sempre a Portugal que tudo vem dar. E eu, recolhido, pedi: «Haja respeito.»

se passou algum tempo, todos nós voltámos aos nossos afazeres, como cumpria. É de norma, depois destas extraordi­nárias descobertas, haver desaparecimentos. As ilhas misteriosas explodem, os continentes perdem-se, os terramotos apagam os vestígios, a normalidade é reposta. Neste caso, não.

O túmulo de Golias ainda lá está, para quem quiser averi­guar. E o guia, que voltou a fumar, tosse muito, mas ainda évivo. Chama-se Adriano Carrapacheiro e vive em Loulé, per­to das casas da tia Anica. Basta perguntar nas Finanças, ali mesmo ao lado.

 

                                                                                Mário de Carvalho  

 

                      

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