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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CORAÇÃO DO DRAGÃO / Gena Showalter
CORAÇÃO DO DRAGÃO / Gena Showalter

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

   — Você sente isto, garoto? Você sente a névoa se preparando?

   Darius en Kragin apertou os olhos com força, as palavras de seu tutor ecoando em sua mente. Ele sentia isso? Deuses, sim. Inclusive embora só tivesse oito estações, ele sentia isso. Sentia a picada do frio em sua pele, sentiu a enjoativa onda de ácido em sua garganta quando a névoa o envolveu. Ele até sentiu suas veias acelerando-se com uma doçura enganosa, agitando a essência que não era a sua.

   Lutando contra o impulso de fechar a caverna com chave e voltar ao palácio, enrijeceu seus músculos e fechou as mãos em punhos ao seu lado.

   Devo ficar. Devo fazê-lo.

   Lentamente Darius obrigou as suas pálpebras a abrir-se. Soltou o fôlego que havia estado retendo quando seu olhar se fechou no de Javar.

   Seu tutor permanecia de pé coberto pela espessa, fantasmagórica neblina, as tristes paredes da caverna as suas costas.

   — Isso é o que sente cada vez que a névoa te convoca, já que significa que se aproxima um viajante. — Disse Javar. — Nunca se mantenha muito longe deste lugar. Pode viver com os outros, mas deve voltar aqui quando lhe chamarem.

   — Eu não gosto de estar aqui. — sua voz tremeu. — O frio me debilita.

   — Outros dragões são debilitados pelo frio, mas não você. Já não. A névoa se converterá em uma parte de você, a frieza será sua companheira mais querido. Agora escuta. — Ordenou suavemente. — Escuta com atenção.

 

 

 

 

   Ao princípio Darius não ouviu nada. Então começou a registrar o som de um baixo assobio, um som que ecoava em seus ouvidos igual aos gemidos dos mortos. Vento, assegurou a si mesmo. Simplesmente vento. A turbulenta brisa rodeou cada esquina do enclausurado lugar, aproximando-se. Mais perto ainda. Suas fossas nasais cheias do aroma do desespero, destruição e solidão enquanto preparava a si mesmo para o impacto.

   Quando finalmente o encontrou, não foi à força demolidora que ele esperava, senão uma carícia zombadora e suave contra seu corpo. A joia do medalhão em seu pescoço cantarolou a vida, queimando a tatuagem do dragão gravado em sua carne somente essa manhã.

   Ele apertou os lábios com força para sossegar um profundo gemido de incerteza.

   Seu tutor aspirou com reverência e estendeu completamente seus braços.

   — É para isso que viverá menino. Este será seu propósito. Matará por isso.

   — Não quero que meu propósito venha da morte de outros. — disse Darius, as palavras vertendo-se de sua boca.

   Javar ficou rígido, uma cólera feroz acendendo-se nas profundidades de seus olhos azuis como o gelo, olhos muito diferentes dos do próprio Darius… diferentes dos de qualquer dragão. Todos os dragões, exceto Javar possuíam olhos dourados.

   —Será um Guardião da Névoa, um Rei para os guerreiros daqui. — Disse Javar. — Deveria estar agradecido de que escolhessem você entre todos os outros para esta tarefa.

   Darius engoliu. Agradecido? Sim, deveria haver estado agradecido. Em vez de sentir-se estranhamente… perdido. Sozinho. Tão só e inseguro. Era isto o que queria realmente? Era esta vida a que ansiava para si mesmo? Seu olhar perambulou pelos arredores. Algumas cadeiras quebradas estavam dispersas através do chão sujo e cheio de ramos.

   As paredes eram negras e nuas. Não havia calor, somente frio, cortante realidade e a sombra persistente do desespero. Converter-se em Guardião significava prometer sua existência, sua mesma alma a esta caverna.

   Entrecerrando o olhar, Javar encurtou a distância entre eles, seus passos se harmonizando com o gotejar da água. Seus lábios se franziram, e ele agarrou os ombros de Darius dolorosamente.

   — Sua mãe e pai foram assassinados. Suas irmãs violadas e degoladas. Se o último Guardião tivesse feito seu trabalho, sua família ainda estaria contigo.

   A dor cortou através de Darius tão intensamente que quase arrancou os olhos para escurecer as odiosas imagens que pairavam sobre eles. Sua graciosa mãe enroscada e dobrada, estendida em um rio carmesim de seu próprio sangue. Navalhadas profundas até os ossos nas costas de seu pai. Suas três irmãs… Seu queixo tremeu, e piscou para afastar as lágrimas que lhe ardiam os olhos. Não choraria. Nem agora. Nem nunca.

   Fazia simplesmente uns dias, ele havia retornado de caçar e encontrou a sua família morta. Não tinha chorado então. Nem tinha derramado uma lágrima quando os invasores que massacraram a sua família foram assassinados em retribuição. Chorar era mostrar debilidade. Endireitou os ombros e elevou o queixo.

   — Isso está bem. — Disse Javar, olhando-lhe com um brilho de orgulho. — Nega suas lágrimas e mantêm a ferida dentro de ti. Usa-o contra aqueles que esperam entrar em nosso país. Mata-os com isso, porque somente querem nos machucar.

   — Quero fazer como diz. O farei. — Afastou o olhar. — Mas…

   — Matar aos viajantes é sua obrigação. — Javar o interrompeu. — Matar-lhes é seu privilégio.

   — O que acontece se são mulheres e crianças inocentes quem se tropeça por engano com ele? —O pensamento de destruir tal pureza, igual à de suas irmãs, fazia que aborrecesse o monstro que Javar estava lhe pedindo em que se convertesse — embora não o suficiente para deter o curso que tinha traçado para ele. Para proteger aos seus amigos, faria o que lhe pedisse.

   — Posso liberá-los na superfície?

   — Não pode.

   — Que danos podem fazer as crianças a nossa gente?

   — Eles levarão o conhecimento da névoa com eles, inclusive serão capazes de conduzir um exército através dela. — Javar sacudiu a cabeça uma vez, duas vezes.

   — Entende agora? Entende por que deve fazê-lo?

   — Sim. — replicou suavemente. Afastou a vista baixando-a a um azulado riacho que gotejava além de suas botas, seu olhar seguiu a suavidade e serenidade da água. Oh! O que daria para possuir a mesma serenidade dentro dele. — Entendo.

   — É muito sensível, rapaz. — Com um suspiro, Javar o liberou. — Se não erigir defesas mais fortes em seu próprio interior, suas emoções serão a morte para você e para todos aqueles aos quais ainda tem amor.

   Darius engoliu o nó que tinha na garganta.

   — Então me ajude Javar. Ajude-me a me livrar de minhas emoções de modo que possa levar a cabo essas mortes.

   — Como te disse antes, você terá que ser o único que enterre sua dor tão profundamente em seu interior, em algum lugar no qual ninguém possa esperar alcançá-lo, nem sequer você mesmo.

   Isso soava tão fácil. Contudo, como enterrar uma dor tão torturante? Tais devastadoras lembranças? Como alguém fazia para lutar com a horrorosa agonia? Ele faria algo, o que fosse para encontrar a paz.

   — Como? — perguntou ao seu tutor.

   — Descobrirá essa resposta por si mesmo.

   A magia e o poder começavam a girar mais intensamente ao redor deles, ondulando, rogando por algum tipo de liberação.

   O ar se expandiu, coagulado, deixando uma embriagadora fragrância de escuridão e perigo. Uma onda de energia ricocheteou através das paredes igual a uma rajada de luz, então entrou em erupção em uma série de surpreendentes faíscas líquidas. Darius, acalmou horrorizado, assustado e sim, com a antecipação cortando caminho por ele.

   — Logo entrará um viajante. — disse Javar, já tenso e impaciente.

   Com dedos trêmulos, Darius agarrou o punho de sua espada.

   — Eles sempre experimentam desorientação na primeira aparição. Você deve usar isso como vantagem e lhes destruir no momento em que saem.

   — Não estou preparado, não posso.

   — Está e o fará. —Disse Javar, sua voz margeada por seu resistente tom. — Há dois portais, que você protegerá aqui e do que eu sou guarda no outro lado da cidade. Não vou te pedir que faça nada que eu não faria e não tenha feito eu mesmo.

   No seguinte momento, um homem alto saiu caminhando da névoa. Seus olhos estavam apertados com força, seu rosto pálido, e sua roupa destroçada. Seu cabelo era espesso e prateado, e sua pele bronzeada estava sulcada por profundas rugas. Tinha o olhar de um erudito, não de um guerreiro ou demônio.

   Ainda tremendo, Darius não embainhou sua arma. Quase se dobrou da abrupta força de suas descontroladas emoções. Uma parte dele continuava gritando que fugisse. Que se negasse a essa tarefa, mas obrigou a si mesmo a ficar. Ele o fazia por que Javar tinha razão. Os Viajantes eram o inimigo, não importava quem fosse. Não importava qual era seu propósito.

   Não importava sua aparência.

   — Faça-o, Darius. — Grunhiu Javar. — Faça-o agora.

   O olhar do viajante se abriu de repente. Seus olhos se encontraram, ouro do dragão contra o verde humano.

   Revolução contra medo. Vida contra morte.

   Darius elevou sua espada, detendo-se somente um momento, — então golpeou. O sangue golpeou seu peito nu e seus antebraços como chuva envenenada. Um grito afogado separou os lábios do homem, então lentamente, muito lentamente, seu corpo sem vida se afundou no chão.

   Durante vários agonizantes momentos, Darius se congelou pelo fruto de suas ações. O que fiz? O que fiz! Ele deixou cair à espada, distanciando-se para ouvir o som do metal ao cair na sujeira. Dobrou-se e vomitou.

   Surpreendentemente, quando esvaziou seu estômago, perdeu a agonia em seu interior. Perdeu sua pena e tristeza.

   Um gelo glacial encerrou seu peito e isso foi o que ficou de sua alma. Congratulou-se e abraçou a dormência até que sentiu sozinho um estranho vazio. Toda a dor de seu coração se foi. Todo seu sofrimento se foi.

   Cumpri com meu dever.

   — Estou orgulhoso de você, menino. — Javar bateu em seu ombro em uma rara amostra de afeto. — Está preparado para tomar seus próprios votos como Guardião.

   Quando o tremor de Darius cessou, endireitou-se e limpou a boca com o dorso da mão.

   — Sim. — Disse ele com crueldade, resolvido, ansiando mais dessa dormência. — Estou preparado.

   — Faça-o, então.

   Sem parar-se a pensar, deixou-se cair de joelhos.

   — Neste lugar morarei, destruindo aos habitantes da superfície que se atrevam a ultrapassar a névoa. Juro sobre minha vida. Juro sobre minha morte. — Quando ele pronunciou as palavras, estas apareceram misticamente sobre seu peito e costas, símbolos negros e vermelhos que se estendiam de um ombro ao outro e brilhavam com o fogo interior.

   — Existo sem nenhum propósito. Sou o Guardião da Névoa.

   Javar sustentou seu olhar durante um longo momento, então assentiu com satisfação.

   — Seus olhos mudaram a cor para refletir a névoa. Os dois são um. Isso é bom, menino. É bom.

  

   — Ele não ri.

   — Nunca grita.

   — Quando Grayley apunhalou acidentalmente a coxa de Darius com uma navalha de barbear de quinze centímetros nosso líder nem piscou.

   — Eu diria que tudo o que precisa são umas boas horas de esporte de cama, mas não estou certo de que sequer saiba para que serve seu pênis.

   Este foi acompanhado com um coro de retumbantes gargalhadas masculinas.

   Darius en Kragin entrou no espaçoso refeitório, seu olhar fixo catalogando metodicamente seus arredores. O chão de ébano brilhava em branco e negro, em perfeito contraste para o dragão gravado na parede de marfim.

   Ao longo das janelas, diáfanas cortinas sussurravam com delicadeza. Tetos de cristal côncavos, refletindo a tranquilidade da água do mar que rodeava sua grande cidade. Moveu-se para a longa mesa do refeitório. O sedutor aroma de doces e frutas deveria ter flutuado até seu nariz, mas durante os passados anos seu sentido de olfato, gosto e a percepção da cor se deterioraram. Ele só cheirava cinzas, não saboreava nada mais que ar, e via só em preto e branco.

   Um guerreiro o viu e rapidamente e alertou aos outros. O silêncio se estendeu ao redor da câmara. Cada homem presente voltou a concentrar-se na comida, como se a ave assada houvesse se tornado de repente a coisa mais fascinante que tinha criado os deuses.

   O ar visivelmente jovial se obscureceu.

   Fiel às palavras de seus homens, Darius reclamou seu assento à cabeceira da mesa sem um sorriso ou um cenho. Só depois de ter consumido sua terceira taça de vinho seus homens retornaram a conversação, embora eles sabiamente escolhessem um tema diferente. Desta vez falavam das mulheres que tinham dado prazer e as guerras que haviam ganhado.

   Todos os contos exagerados. Um guerreiro inclusive foi mais longe quando clamou que ele tinha satisfeito quatro mulheres ao mesmo tempo enquanto irrompia pela porta de seu inimigo.

   Darius tinha ouvido as mesmas histórias centenas de vezes antes. Engoliu um bocado da insípida carne e perguntou ao guerreiro que estava ao seu lado.

   — Alguma notícia?

   Brand, o primeiro no comando, nivelou um forçado sorriso e encolheu os ombros.

   — Possivelmente sim. Possivelmente não. — Seus cabelos claros caídos pelo seu rosto em grossas tranças de guerra ele afastou várias, as prendendo detrás das orelhas. — Os vampiros estão atuando de maneira estranha. Estão deixando a Cidade Externa e estão se reunindo aqui na Cidade Central.

   — Eles raramente vêm aqui. Não deram nenhuma indicação do por quê?

   — Isto não pode ser bom para nós, qualquer que seja a razão — disse Madox, interrompendo a conversação. — Digo que matemos aqueles que se aproximem muito do nosso lar. Ele era o dragão mais alto na residência e sempre estava preparado para o combate. Ele se sentava ao final da mesa, seus cotovelos ancorados na superfície, suas mãos cheias de carnes. — Somos dez vezes mais fortes e peritos do que eles.

   — Temos que extinguir toda a raça. — Acrescentou o guerreiro a sua esquerda.

   Renard era a classe de homem que outros queriam que lhe guardasse as costas na batalha. Lutava com uma determinação que poucos igualavam, era ferozmente leal e tinha estudado a anatomia de cada espécie em Atlantis de modo que sabia onde golpear a cada um para lhes fazer um ferimento maior. E maior dor.

   Anos atrás, Renard e sua esposa tinham sido capturados por um grupo de vampiros. Ele tinha sido acorrentado a uma parede, obrigado a observar como violentaram e drenaram sua esposa. Quando escapou, destruiu brutalmente a cada criatura responsável. Mas isso não tinha diminuído sua angústia. Era um homem diferente do que tinha sido já não mais cheio de risos e perdão.

   — Possivelmente possamos rogar a Zeus por sua extinção. — Replicou Brand.

   — Os deuses há tempo que nos esqueceram. — disse Renard encolhendo os ombros. — Além disso, Zeus é igual à Cronos em muitas maneiras. Ele possivelmente responda, mas realmente o queremos? Todos nós somos criações dos Titãs, inclusive aqueles que aborrecemos. Se Zeus aniquilar uma raça, o que o deterá de aniquilar às demais?

   Brand engoliu o resto de seu vinho, seus olhos ferozes.

   — Então não lhe perguntaremos. Simplesmente atacaremos.

   — O tempo de que declaremos a guerra chegou. —Grunhiu Madox em acordo.

   A palavra ‘guerra’ arrancou sorrisos através da extensa sala.

   — Estou de acordo em que os vampiros devem ser eliminados. Eles criam o caos e só por isso merecem morrer. — Darius encontrou o olhar de cada um dos guerreiros, um de cada vez, mantendo-o até que o outro homem o afastasse. — Mas há um tempo para a guerra e um tempo para a estratégia. Agora é tempo de estratégia. Enviarei uma patrulha ao interior da Cidade Central e descobriremos o propósito dos vampiros. Logo conheceremos o melhor curso de ação.

   —Mas… — Começou um guerreiro.

   Ele o cortou com uma ondulação da mão.

   — Nossos antepassados empreenderam a última guerra contra os vampiros, e embora pudessem ter ganhado, nossas perdas foram muito grandes. Famílias inteiras foram massacradas e o sangue banhou a terra. Nós seremos pacientes nesta situação. Meus homens não saltarão apressadamente a nenhuma batalha.

   Um silêncio decepcionado escorregou de cada homem presente, estendendo-se ao redor da mesa e ascendendo logo às paredes. Não estava certo de, se consideravam suas palavras ou se revoltariam.

   — O que te importa Darius, se as famílias são destruídas? Eu acreditava que um bastardo desumano como você daria as boas-vindas à violência. — A seca declaração chegou da parte mais afastada da mesa, onde Tagart se reclinava em seu assento. — Não está impaciente por derramar mais sangue? Não importa que o sangue seja de vampiro em vez de humano?

   Muitos grunhidos zangados cresceram em volume, e vários guerreiros se voltaram para encarar a Darius, olhando fixamente para ele em expectativa, como se esperassem que ele matasse com frieza ao guerreiro que tinha expressado quais eram os pensamentos de todos. Tagart simplesmente riu, ninguém se atreveu a agir contra ele.

       Eles o consideravam realmente tão desumano? Perguntou-se Darius. O bastante desumano para executar a um dos seus por algo tão corriqueiro como um insulto verbal? Ele era um assassino, sim, mas não desumano.

   Um homem desumano não sentia nada, e ele sentia algumas emoções. Suaves, mas eram. Simplesmente sabia como controlar o que sentia, sabia como as enterrar profundamente em seu interior. Ele preferia sua vida dessa maneira. Da intensidade das emoções nascia à confusão, e a confusão dava passo à dor que rasgava a alma. E a dor dilaceradora da alma dava passo às lembranças… Seus dedos se apertaram ao redor de seu garfo e obrigou-se a relaxar.

   Ele não queria nada que aliviasse a agonia de seu passado. A mesma agonia que podia muito bem converter-se em seu presente, se permitisse que uma simples lembrança lançasse raízes e estendesse seus venenosos ramos.

   — Minha família é Atlantis — ele disse finalmente, sua voz inquietantemente calma. — Farei o que for preciso para protegê-la. Se isso significa esperar antes de declarar a guerra e aborrecer a cada um de meus homens, então que assim seja.

   Dando-se conta que Darius não podia ser provocado, Tagart encolheu os ombros e devolveu sua atenção à comida.

   —Tem razão, meu amigo. — Sorrindo amplamente, Brand bateu-lhe no ombro. — A guerra só é divertida se sairmos vitoriosos. Prestaremos atenção a sua advertência para fazer a espera mais fácil.

   — Beije seu traseiro um pouco mais. — resmungou Tagart — e seus lábios acabarão na merda.

   Brand perdeu rapidamente o seu sorriso, e o medalhão que pendurava em seu corpo começou a brilhar.

   — O que disse? — Exigiu silenciosamente.

   — Seus ouvidos são tão fracos como todo o resto que há em você? — Tagart ficou em pé, plantando as mãos com firmeza na brilhante tábua da mesa. Os dois homens se fulminaram com o olhar a distância, uma carregada calma chispando entre eles. — Disse que se beijasse mais o traseiro dele seus lábios acabariam na merda.

   Com um grunhido, Brand se lançou sobre a mesa, lançando os pratos e a comida ao chão em sua pressa por atacar a Tagart. Na metade da corrida, umas escamas de réptil cresceram sobre sua pele e quadris, umas incandescentes asas brotaram de suas costas, rasgando sua camiseta e calças, transformando-se de homem à besta que cuspia fogo pela boca, carbonizando toda a superfície em seu caminho.

   A mesma transformação alcançou a Tagart e as duas bestas se lançaram ao chão de ébano em um perigoso enrolar de garras, dentes e fúria.

   Os guerreiros Dragão eram capazes de mudar em verdadeiros dragões sempre que o desejassem, embora a transformação ocorresse sempre que suas inflamáveis e furiosas emoções emergiam. E mesmo Darius não tinha experimentado uma mudança, de improviso ou outra coisa, desde que ele tinha descoberto que sua família tinha sido assassinada fazia mais de trezentos anos. Para ser sincero, Darius suspeitava que de algum jeito tivesse perdido sua forma de dragão.

   Tagart grunhiu quando Brand o lançou à parede mais próxima, rachando o instável marfim. Rapidamente se recuperou açoitando o rosto de Brand com sua cauda serrilhada, deixando uma ferida irregular sangrando.

   Seus furiosos grunhidos faziam um eco tão fundo e afiados como qualquer espada. Uma corrente de chamas estourou, seguido rapidamente por um enfurecido assobio. Morderam-se e lançaram um ao outro, repetidas vezes, separando-se, dando voltas para voltar a juntar-se de novo.

   Cada guerreiro passou a Darius ficando em pé em um frenesi de entusiasmo, apressando-se a fazer apostas sobre quem ganharia.

   — Oito dracmas de ouro pelo Brand. — proclamou Grayley.

   — Dez pelo Tagart. — gritou Brittan.

   — Vinte se matam um ao outro. — disse Zaeven com excitação.

   — Suficiente. — disse Darius, seu tom controlado.

   Os dois combatentes saltaram separando-se como se ele tivesse gritado a ordem, ambos ofegando e enfrentando-se igual a animais raivosos, preparados para atacar outra vez a qualquer momento.

   — Sentem-se. — disse Darius no mesmo tom baixo.

   Eles estavam muito ocupados grunhindo um ao outro para lhe ouvir, mas somente passou um segundo antes que os outros obedecessem. Enquanto eles possivelmente quisessem continuar animando e fazendo apostas, Darius era seu líder, seu rei e sabiam que era melhor não lhe desafiar.

   — Não lhes excluí da ordem. — disse a Tagart e a Brand, acrescentando ligeiramente um pouco de volume. — Acalmem-se e sentem-se.

   Ambos os homens nivelaram o olhar para fulminá-lo com o olhar. Ele arqueou uma sobrancelha e lhes fez sinais com seus dedos em um gesto que dizia claramente. —Vem e tenta. Somente não espere viver depois.

   Passaram-se os minutos em um silêncio suspenso até que finalmente, os ofegantes guerreiros assumiram forma humana. Suas asas retrocederam, fechando-se as suas costas, suas escamas se desvaneceram, deixando pele nua. Como Darius guardava roupa de reposição em cada cômodo do palácio, eles foram capazes de alcançar um par de calças dos ganchos da parede. Parcialmente vestidos agora, dirigiram-se aos seus assentos e se deixaram cair neles.

   — Não terei brigas em meu palácio. — disse-lhes Darius.

   Brand limpou o sangue da bochecha e dedicou a Tagart um olhar fulminante. Em retribuição, Tagart lhe mostrou os dentes nus e soltou um cortante grunhido.

   Eles estavam à beira de metamorfosear-se outra vez, deu-se conta Darius.  

   Passou um dedo por seu queixo. Nunca tinha estado mais agradecido de ser um homem de enorme paciência, embora nunca tivesse estado mais aborrecido com o sistema que eles tinham formado. Seus dragões estavam divididos em quatro unidades. Uma unidade patrulhava a Cidade Externa, enquanto que outra patrulhava a Central. A terceira tinha se permitido vagar livremente, dando prazer às mulheres, perdendo-se no vinho ou independentemente do vício no que desejassem perder-se.

   O último tinha que ficar aqui, para treinar. A cada quatro semanas, as unidades se revezavam.

   Estes homens tinham estado aqui só dois dias e já estavam revoltados. Se não pensasse em algo para distraí-los, poderiam muito bem matar uns aos outros antes que passasse o tempo requerido para eles.

   — O que pensam de um torneio de habilidades com a espada? — perguntou ele resolvido.

   Com indiferença, alguns homens encolheram os ombros. Outros quantos gemeram.

   — Outra vez não.

   — Não. — Disse Renard com uma sacudida de sua cabeça escura. — Você sempre ganha. E, além disso, não há nenhum prêmio.

   — O que querem fazer então?

   — Mulheres — gritou um dos homens. — Traga-nos algumas mulheres.

   Darius franziu o cenho.

   — Sabe que não permito mulheres dentro do palácio. Elas causam muita distração, causando muitas hostilidades entre vocês. E não as hostilidades fáceis de momentos atrás.

   Gemidos de arrependimento fizeram coro as suas palavras.

   —Tenho uma ideia. — Brand o olhou, um lento sorriso curvando-lhe os lábios, eclipsando todas as outras emoções. — Permita-me que proponha um novo concurso. Não de força física, senão de astúcia e engenho.

   Imediatamente se elevou cada cabeça. Inclusive Tagart perdeu sua fulminante cólera quando o interesse iluminou seus olhos.

   Uma competição de engenhos parecia bastante inocente. Darius assentiu com a cabeça e agitou a mão para que Brand prosseguisse.

   O sorriso de Brand se ampliou ainda mais.

   — A competição é simples. O primeiro homem em fazer que Darius perca a paciência, ganha.

   — Eu não… — começou Darius, mas Madox falou por cima dele, sua áspera voz carregada de entusiasmo.

   — A satisfação de ser o melhor de todos nós. — Replicou Brand. — E um golpe de Darius com certeza. — Ele ofereceu a todos um lânguido encolhimento de ombros e se reclinou apoiando-se nas aveludadas almofadas de sua cadeira. Apoiou os tornozelos sobre a mesa. — Mas juro pelos deuses que cada contusão valerá a pena.

   Oito pares de olhos se voltaram em direção a Darius e se centraram nele com nervoso interesse. Avaliando as opções. Especulando.

   — Eu não farei… — começou outra vez, mas como antes o fizeram calar.

   — Eu gosto de como isso soa. —interpôs-se Tagart. — Conta comigo.

   — Comigo também.

   — E comigo também.

   Antes que outro homem pudesse ignorá-lo assim facilmente, Darius pronunciou uma palavra. Simples, mas eficaz.

   — Não. — Engoliu um bocado insípido de ave, logo seguiu com o resto da comida. — Agora, me falem mais do que estão fazendo os vampiros.

   — E o que há de fazê-lo sorrir? — Olhando a Brand, Madox ficou impacientemente em pé e se inclinou sobre a mesa. — Isso conta?

   — Absolutamente. — Assentiu Brand com um movimento de cabeça. — Mas deve haver alguma testemunha, ou não se declarará nenhum ganhador.

   Um após o outro, cada homem se pronunciou.

   — De acordo.

   — Não ouvirei mais desta conversa. —Quando havia perdido o controle desta conversa? — Eu… — Darius fechou a boca de repente. Seu sangue estava acelerado com a escuridão e o perigo, e o cabelo da base do pescoço havia se arrepiado.

   A névoa está se preparando para um viajante.

   A resignação se precipitou através dele e se assentou em fria determinação. Ele se levantou, sua cadeira deslizando-se ligeiramente detrás dele.

   Cada voz se silenciou. Cada expressão voltando-se de curiosidade.

   — Devo ir. — Disse ele, as palavras ditas baixo, vazias. — Falaremos de um torneio de habilidade com a espada assim que volte.

   Ele tentou atravessar o cômodo a passos largos, mas Tagart se levantou de um salto sobre a mesa e se girou diante dele.

   — A névoa te chama? — Perguntou o guerreiro, apoiando de maneira casual um braço contra a porta e lhe bloqueando a única saída.

   Darius não mostrou nenhuma reação externa. Mas, quando o tinha feito alguma vez?

   — Saia do meu caminho.

   Tagart arqueou uma sobrancelha insolente.

   — Afaste-me.

   Alguém riu dissimuladamente atrás dele.

   Com ou sem sua aprovação, parecia que o jogo tinha começado já.

   Darius levantou facilmente a Tagart pelos ombros e lançou ao atônito homem a um lado, esmagando-o contra a parede mais afastada. Ele caiu com um ruído surdo ao chão em um monte ofegante. Sem voltar-se para os outros, Darius perguntou.

   — Alguém mais?

   — Eu. — Veio uma vacilante e duvidosa resposta. Um borrão de couro negro e facas de prata, Madox se precipitou para parar-se ao seu lado, o olhando atentamente, calibrando sua reação. — Quero te deter, isso faz com que se zangue? Faz com que queira gritar e clamar contra mim?

   Uma luz profana entrou nos olhos de Tagart quando ficou em pé. Ele curvou os dedos ao redor do punho de sua espada e espreitou a Darius, movendo-se lenta e deliberadamente. Sem parar-se nenhuma só vez a considerar a estupidez de suas ações, apertou, apontou a afiada ponta da folha no pescoço de Darius.

   — Mostraria medo se eu jurasse te matar? — cuspiu o homem enfurecido.

   — Isso é levar as coisas muito longe. —grunhiu Brand, unindo-se ao crescente grupo ao redor dele.

   Uma gota de sangue deslizou pela garganta de Darius. A ferida deveria haver doído, mas ele não sentiu nada, nenhuma sensação. Somente essa insensibilidade sempre presente.

   Ninguém se deu conta de suas intenções. Em um momento Darius estava quieto, aparentemente aceitando o assalto de Tagart, ao seguinte tinha sua própria espada desembainhada e dirigida ao pescoço de Tagart. Os olhos do homem se arregalaram.

   — Guarda a arma em seu lugar. — Disse Darius. — Ou te matarei justo onde está. Para mim é igual se vivo ou morto, mas você, acredito, aprecia bastante sua própria vida.

   Passou um segundo entre os dois antes que um Tagart com os olhos semicerrados baixasse sua espada.

   Darius baixou sua própria arma, suas feições permaneciam como pedra.

   — Terminem de comer, a seguir se retirem à área de treinamento. Os treinarei até que não tenham forças para manter-se de pé. É uma ordem.

   Ele atravessou a passos largos a sala completamente consciente de que não havia dado aos seus homens a reação que eles ansiavam.

   Darius baixou os quatro degraus da caverna de uma vez. Preparando-se para terminar o assunto e comer sua comida, sozinho, retirou a camisa e lançou o tecido negro a um canto longínquo. O medalhão que levava, igual às tatuagens em seu corpo brilhava semelhante a pequenos chicotes de fogo, esperando que cumprisse seu juramento.

   Com a expressão em branco, a mente clara, apertou o punho da espada, colocou-se à esquerda da névoa… e esperou.

  

   Grace Carlyle sempre esperava que ela fosse morrer de intenso prazer ao fazer sexo com seu marido. Bem, ela não era casada, e ela nunca teve relações sexuais, mas contudo ia morrer.

   E não de intenso prazer.

   De esgotamento por calor? Possivelmente.

   De fome? Possivelmente.

   De sua própria estupidez? Absolutamente.

   Ela estava perdida e só na aterradora selva Amazônica.

   Quando cruzou uma rede de videiras verdes que se enredavam subindo pelas árvores muito altas, gotas de suor caíam por seu peito e costas. Os pequenos raios de luz se filtravam através do frondoso dossel acima, proporcionando uma nebulosa visibilidade. Apenas adequada, mas apreciada. O cheiro da decomposição da vegetação, a água da chuva velha e flores mesclando-se, formando uma fragrância agridoce. Ela enrugou o nariz.

   — Tudo o que eu queria era um pouco de emoção. — Murmurou ela. — Em vez disso acabei esfarrapada e perdida, presa nesta sauna infestada de insetos.

   Para completar sua descida ao inferno, ela esperava que o céu se abrisse e derramasse um dilúvio a qualquer momento.

   A única coisa boa em sua situação atual era que toda essa caminhada e suor poderiam realmente lhe ajudar a perder uns quilos de sua figura muito curvilínea. Não que perder peso lhe servisse de nada aqui.

   Exceto, talvez, em seu obituário.

   Nova-iorquina encontrada morta no Amazonas.

   Ao menos apareceria bem.

   Franzindo o cenho, esmagou um mosquito que tratava de beber de seu seco braço, embora tenha aplicado várias camadas de óleo de urucum para evitar tais mordidas. Onde diabo estava Alex? Ela deveria já ter alcançado seu irmão. Ou pelo menos, tropeçado com algum grupo de excursionistas. Ou até entrar por engano em alguma tribo indígena.

   Se ela não tivesse tirado uma permissão para ausentar-se da AirTravel, estaria subindo através do ar, relaxada e escutando o zumbido hipnótico de um motor a jato.

   — Eu estaria em um ar condicionado G-IV. — Disse ela, cortando com sua mão, como se fosse um facão, pela verde folhagem. — Deveria estar bebendo uma Coca Cola de baunilha. — Outra cortada. — Escutaria as minhas colegas de trabalho falando dos saltos Stiletto, de datas caras e orgasmos demolidores para a mente.

   E eu ainda estaria infeliz, pensou ela, desejando estar em outro lugar.

   Ela parou bruscamente e fechou os olhos. Eu só quero ser feliz. Isso é pedir muito?

   Obviamente.

   Ultimamente ela tinha lutado contra um sentimento de insatisfação, um desejo de experimentar muito mais. Sua mãe tinha tentado avisá-la aonde lhe conduziria tal insatisfação.

   — Você está indo para arrumar problemas. — Tinha lhe avisado. Mas Grace a tinha escutado? Não! Em vez disso, ela tinha seguido o rastro de sabedoria de sua encantadora tia Sophie. Por Deus! A mulher usava roupa com estampa de leopardo e se relacionava com carteiros e strippers.

   — Sei que tem feito algumas coisas emocionantes, Gracie, querida. — Havia lhe dito Sophie. —Mas isso não é viver realmente. Algo falta em sua vida e se não o encontrar, terminará envelhecendo e se enrugando como sua mamãe.

   Algo faltava na vida de Grace. Ela sabia, e em um esforço por encontrar esse misterioso ‘algo’, tinha tentado marcar rapidamente encontros pela internet e bares de solteiros. Quando esses falharam, decidiu-se pela escola noturna. Não para conhecer homens, para aprender. Não é que as classes de cosmética lhe tivessem feito bem algum. Os melhores estilistas do mundo não podiam domar seus selvagens cachos vermelhos. Depois disto, tinha tentado conduzir carros de corridas e aulas de step. Inclusive tinha colocado piercing no umbigo. Nada ajudou.

   O que tomaria fazer-se sentir inteira e completa?

   — Não essa selva, com certeza. — queixou-se ela, retrocedendo em um movimento. — Alguém me diga, por favor. — Gritou aos céus. — Por que a satisfação dança sempre tão rapidamente fora de meu alcance. Estou morrendo de vontade de saber.

   Viajar pelo mundo sempre foi o seu sonho, e se tornar comissária de bordo para um voo particular parecia o trabalho perfeito para ela. Ela não tinha percebido que se tornaria uma garçonete aérea, indo de hotel para hotel, nunca realmente apreciando o estado, país, o buraco no qual se encontrava.

   Claro, ela tinha escalado montanhas, fez surfe nas ondas do oceano e saltou de um avião, mas nunca a alegria daquelas aventuras permanecia e como tudo o que ela tentou, sempre a deixavam mais insatisfeita do que antes.

   É por isso que ela tinha vindo aqui, para tentar algo novo. Algo com um pouco mais de perigo. Seu irmão era um empregado da Argonautas, uma companhia mito-arqueológica que recentemente descobriu o planador a combustível construído por Daedalus[1] de Atenas — um descobrimento que abalou as comunidades científicas e mitológicas. Alex passou seus dias e noites investigando profundamente os mitos do mundo, confirmando-os ou os contestando.

   Com um trabalho tão gratificante, ele não precisa se preocupar sobre como se tornar um velho enrugado. Não gosta de mim, ela lamentou.

   Limpando o suor de sua testa, Grace aumentou seu ritmo. Cerca de uma semana atrás, Alex havia enviado a ela um pacote contendo seu diário e um lindo colar com dois pingentes, cabeças de dragões entrelaçadas. Nenhuma nota de explicação acompanhou os presentes. Sabendo que ele estava no Brasil e estava procurando por um portal que dava para a cidade perdida de Atlantis ela decidiu se juntar a ele, deixando uma mensagem em seu telefone celular com detalhes do seu voo. Com um suspiro, ela tocou a corrente de dragão pendurada em seu pescoço. Quando Alex não conseguiu pegá-la no aeroporto, ela deveria ter voltado para casa.

   —Mas nãaoo. — disse ela com profunda aversão, de repente mais consciente de sua boca seca, como algodão. — Eu contratei um guia local e tentei encontrá-lo.

   —“Sim, senhorita”— Imitou o guia. —“É claro senhorita”. “Qualquer coisa, senhorita”. —

   —Bastardo. — Murmurou ela.

   Hoje, depois de dois dias miseráveis de caminhada, seu amável, atencioso, ‘eu só – quero - ajudá-la’. Seu guia tinha roubado sua mochila e a abandonou aqui. Agora não tinha comida, nem água, nem uma barraca. Ela, no entanto, tinha uma arma. A arma que ela tinha usado para atirar na bunda daquele bastardo quando ele fugiu. A lembrança fez com que seus lábios se curvassem em um lento sorriso e ela carinhosamente acariciou o revólver que descansava na cintura de suas calças de lona suja.

   Seu sorriso não durou muito tempo, no entanto, quando o calor do meio-dia continuou a bater contra ela. Em todos os seus sonhos, sua necessidade de realização nunca terminou assim. Ela imaginou riso e algo duro bateu em sua cabeça e a empurrou para frente. Ela gritava, seu coração martelando em seu peito enquanto esfregava agora a sua palpitante têmpora e deslizou seu olhar sobre a terra, procurando pela fonte de sua dor.

   Oh, obrigado, obrigado, mentalmente, ela chorou quando viu a fruta de cor rosada. Com água na boca, estudou atentamente o delicioso suco que escapava dos restos da fruta. Era venenoso? E o que importava se fosse? Ela lambeu os lábios. Não, não lhe importava. A morte por envenenamento era preferível a afastar-se desse inesperado tesouro.

   Quando se agachou para recolher o que pudesse, outro míssil se chocou contra suas costas.

   Ela gemeu e ficou em pé.

   Girando, ela estreitou o olhar por entre as árvores. Cerca de dez metros de distância e quatro metros para cima, ela descobriu um pequeno, peludo macaco segurando um pedaço de fruta em cada mão. Seu queixo caiu pela incredulidade. Ele estava sorrindo...?

   Ele balançou para trás os dois braços e lançou cada pedaço nela. Ela estava muito chocada para se mover e simplesmente assistiu como salpicava contra suas calças, suas coxas ardendo com seu impacto. Rindo, orgulhoso de si mesmo, o macaco saltou para cima e para baixo e acenou freneticamente seus membros através do ar.

Ela sabia o que ele estava pensando: Ha, ha, não existe nada que você possa fazer sobre isto. Isto era demais.

   Roubada, abandonada, em seguida, agredida por um primata que devia arremessar para os Yankees. Carrancuda, em seu juízo final, ela pegou a fruta, deu duas mordidas de dar água na boca, fez uma pausa, deu mais duas mordidas, em seguida, lançou o que foi deixado. Ela acertou seu alvo na orelha. Ele perdeu seu sorriso.  

     — Nada que possa fazer sobre isto, huh? Bem, tome isto, bola de pelúcia podre.

   Sua vitória foi de curta duração. No próximo instante, frutas voavam nela de todas as direções. Os macacos encheram as árvores! Ao se dar conta de que era superada em número e armas, Grace agarrou o que pode de frutas, se escondeu atrás de uma árvore, saltou por cima de um formigueiro de formigas de fogo e saiu correndo. Correu até que ela estivesse certa que seus pulmões explodiriam pelo esforço.

   Quando finalmente reduziu a velocidade, ela tomou ar, então mordeu com generosidade. Tomou outra baforada de ar e voltou a morder de novo a fruta, alternando continuamente entre os dois. Quando os doces sucos gotejaram por sua garganta, gemeu em rendição.

   A vida é boa, ela pensou.

   Até que uma hora se passou. Até então seu corpo se esqueceu de que tinha tido qualquer alimento, e a letargia começou a lhe golpear interiormente, fazendo-lhe arrastar os pés. Seus ossos se amoleceram, e sua boca estava mais seca que areia. Mas ela seguia andando, cada passo criando um mantra em seu cérebro. Encontrar Alex. Encontrar Alex. Encontrar Alex.

   Ele estava aqui em algum lugar, procurando esse estúpido portal, talvez alegremente inconsciente de sua presença. Infelizmente, quanto mais entrava na selva mais só e perdida se sentia. As árvores e os cipós se espessavam, assim como a escuridão. Ao menos o aroma de podre se evaporou, deixando sozinho um delicioso rastro de helicônias selvagens e orquídeas cobertas de orvalho. Se não encontrasse logo refúgio, sofreria um colapso onde quer que se encontre, indefesa contra a natureza. Embora suas vacinas estivessem em dia, odiava às serpentes e insetos mais do que a fome e a fadiga.

   Vários metros, uma anta e duas capivaras mais tarde, não tinha feito nenhum progresso que pudesse ver. Seus braços e pernas estavam tão pesados, que eles se sentiam como âncoras de aço. Sem saber o que fazer, afundou-se na terra. Enquanto estava ali, ouviu a gentil canção dos insetos e seus tímpanos se animaram. O pacífico correr da água? Ela piscou, escutando mais intensamente. Sim, deu-se conta com excitação. Realmente estava ouvindo o glorioso gotejar da água.

   Levante, ela se comandou. Levante, levante, levante!

   Utilizando cada pingo de força que possuía, empurrou-se sobre suas mãos e joelhos e rastejou lentamente em um emaranhado de vegetação espessa. A vida na floresta pulsava vibrantemente ao seu redor, zombando de sua fraqueza. Brilhantes e suaves folhas verdes se separavam e o chão começava a ficar mais úmido e molhado até estar completamente submerso por uma nascente subterrânea. A clara água turquesa cheirava a limpeza e frescor.

   Tremendo com a força da necessidade, cavou suas mãos, recolheu o precioso e divino líquido e bebeu com ganância. Seus secos lábios deram a bem-vinda a cada úmida e deliciosa gota… até que seu peito começou a queimar-se, esquentando-se mais e mais, como se tragasse lava fundida. Exceto a sensação vinha do exterior de seu corpo, não do interior.

   O calor se tornou insuportável, e ela gritou. Sacudiu-se, seu olhar caiu sobre as cabeças de dragões entrelaçadas penduradas na corrente de prata no pescoço. Ambos os conjuntos de olhos de rubi brilhavam de um vermelho brilhante, assustador. Ela tratou de tirar a coisa pela cabeça, mas foi subitamente impulsionada por uma força invisível. Agitando os braços, caiu passando uma incrivelmente espessa parede de vegetação. Ela se deteve abruptamente enquanto o medalhão se resfriava contra seu peito.

   Seus olhos se arregalaram enquanto estudava seu novo ambiente. Ela havia entrado em alguma espécie de caverna. Gota. Gota. Gotas de água golpeavam contra o chão rochoso. Uma agradável, bem-vinda brisa beijou seu rosto quando o alívio quase a põe de joelhos. O tranquilo ambiente fluía nela, ajudando-a a acalmar seu acelerado coração e a respiração difícil.

   — Tudo que eu preciso agora é o ovo em pó, feijão enlatado e café que estavam em minha mochila e vou morrer feliz.

   Muito esgotada para preocupar-se do que poderia haver dentro, esperando que aparecesse um homem gostoso, ela se mexeu mais profundamente na passagem e desceu por uma ladeira íngreme. O limite máximo restrito e reduzido, até que ela teve de agachar-se e se ajoelhar. Quanto tempo ela se arrastou, ela não sabia. Minutos? Horas? Ela só sabia que precisava encontrar uma superfície lisa, seca para que ela pudesse dormir. Gradualmente, um feixe de luz apareceu. O feixe dissimulado serpenteava rodeando o canto, como um dedo convocando-a. Ela o seguiu.

   E encontrou o paraíso.

   A luz coroando uma pequena, brilhante piscina de… Água? O manchado líquido azul-gelo parecia mais denso que a água, quase como um gel claro e transparente. Em vez de estar no chão, no entanto, o lago estava pendurado em um leve ângulo vertical, como um quadro na parede. Embora não houvesse nenhuma parede na qual apoiá-lo.

   Por que não transbordava? Perguntou-se confusa. Seu perplexo cérebro não conseguia classificar através das informações bizarras. Perfumados fios de névoa envolviam todo o refúgio. Uns poucos fios etéreos atingiram o topo da caverna, girando, circulando, e em seguida, mergulhando suavemente para baixo.

   Ela soltou um riso nervoso, e o som ecoou ao seu redor.

   Grace estendeu a mão com cuidado, ou seja, apenas para tocar e analisar a substância estranha. No momento do contato, um violento choque explodiu dentro dela, e ela sentiu como se todo o seu ser fosse sugado por um vácuo, puxando-a, puxando-a em todas as direções.

   O mundo explodiu, rompendo-se ao seu redor em frágeis partes, partes essenciais, até que finalmente deixou de existir. O terror a encheu e a consumiu. Ela foi caindo, caindo. Seus braços se estenderam desesperados por uma sólida âncora, ainda assim nenhum objeto tangível acariciou sua palma.

   Foi então quando começaram os gritos. Agudos, distorcidos, como milhares de crianças correndo gritando ao seu redor. Ela tapou os ouvidos para bloquear o som. Ela precisava que o ruído parasse, tinha que fazê-lo parar. Mas os gritos só ficaram mais altos. Mais intensos.

   — Socorro! — ela gritou. Estrelas como fogos de artifício, estouraram ao seu lado, em volta dela, girando, girando. Ao seu redor para cima e para baixo. Ondas de náusea agitaram o interior de seu estômago, e ela tentou bravamente recuperar a noção do tempo ou lugar em que estava.

   De repente, tudo se acalmou.

   Os pés dela tocaram uma superfície dura, ela balançou, mas não caiu. A náusea diminuiu lentamente. Cautelosamente ela moveu os pés, comprovando realmente se estava sobre uma base estável.

   Dentro. Fora. Aliviada, ela respirou lentamente e soltou. Dentro. Fora. Quando sua cabeça clareou abriu as pálpebras. Uma neblina de orvalho ainda se elevava do pequeno lago igual a pálidos fios de hera reluzente composta por pó de fadas. A formosa visão só não era perfeita pelos duros e sombrios contornos da caverna, que era diferente da que ela entrou pela primeira vez.

   Ela franziu o cenho. Aqui, as paredes de rocha estavam cobertas com estranhas e coloridas marcas, igual a ouro líquido sobre cinzas esquecidas. E… isso que as salpicava era sangue? Estremecendo-se, afastou o olhar. O chão estava úmido, carregado com ramos de forma estranha, pedras e palha. Várias cadeiras grosseiramente esculpidas se empilhavam contra a parede no canto mais afastado.

   Em vez da miserável umidade, ela inalou ar tão frio como o gelo do inverno. O ar possuía uma doentia mordida metálica. As paredes eram mais altas, mais amplas. E na primeira em que tinha entrado, o espesso lago tinha estado à direita, não à esquerda.

   Como tinham mudado seus arredores tão drástica e rapidamente sem que ela desse um passo? Ela estremeceu. O que estava acontecendo? Isto não podia ser um sonho ou uma alucinação. O que via e cheirava era muito real, muito assustador. Tinha morrido? Não, não. Isto certamente não podia ser o céu, e estava muito frio para ser o inferno.

   O que havia ocorrido?

   Antes que sua mente pudesse formar uma resposta, um galho quebrou.

   O queixo de Grace voou para o lado e se encontrou elevando o olhar para uns frios olhos azul gelo que formavam redemoinhos em assustadora precisão com a névoa. Ela ofegou com surpresa. O proprietário daqueles extraordinários olhos era o homem mais ferozmente masculino que tinha visto alguma vez. Uma cicatriz recortava sua sobrancelha esquerda todo o caminho até o queixo. Suas maçãs do rosto eram agudas, sua mandíbula quadrada. A única suavidade em seu rosto era a sua boca gloriosamente luxuriante que de alguma forma deu-lhe a beleza hipnótica de um anjo caído.

   Ele ficou na frente dela, ao menos 1,96cm de músculo cru e puro. Estava sem camisa, seu estômago talhado em várias fileiras de perfeita força. Um pacote de seis, ela pensou, o primeiro que já tinha visto na vida real. Fragmentos de neblina caíram em torno dele como gotas brilhantes de chuva, deixando os grânulos brilhantes de umidade em seu peito bronzeado e tatuado.

   As tatuagens eram brilhantes, porém mais que isso, elas pareciam estar vivas. Um feroz dragão vermelho e as asas estendidas pareciam voar em linha reta fora de sua pele, como imagem em 3-D vindo à vida. A cauda do dragão submergia, além da cintura de suas calças negras de couro. Em torno de seu corpo eram símbolos negros que se vangloriavam ondulando barras e pontos irregulares. Estes se estendiam ao longo de sua clavícula e rodeando seus bíceps.

   O homem se mostrou mais bárbaro do que suas tatuagens. Ele segurava uma longa e ameaçadora espada.

   Uma onda de temor passou através dela, mas isso não fez que evitasse olhá-lo fixamente. Ele era totalmente selvagem.

   Fascinantemente sensual. Ele lembrava a um animal selvagem enjaulado. Pronto para atacar. Pronto para consumir. O perigo irradiava de cada poro do seu corpo, da borda escura de seus cristalinos olhos de predador, às lâminas amarradas as suas botas.

   Com um movimento de seu pulso, ele girou a espada ao redor de sua cabeça. Ela retrocedeu pouco a pouco. Certamente ele não pensaria utilizar aquela coisa. Meu Deus, ele foi levantando-o mais como se ele realmente quisesse...

   — Whoa, não. — Ela deu uma risada trêmula. — Guarda isso antes de machucar alguém. Isso é... a mim.

   Deu-lhe outro giro letal na arma, brandindo a afiada prata com mãos fortes e seguras. Seus abdominais de tanquinho se ondulavam quando se aproximou dela. Nem rastro de emoção tocava sua expressão. Nem raiva, medo ou malícia, não lhe oferecia nenhuma pista do por que sentia a necessidade de praticar técnicas de corte com a espada diante dela.

   Ele olhou para ela. Ela olhou para trás, e disse a si mesma que era porque ela estava com muito medo de olhar.

   — Não quero lhe causar nenhum dano. — ela conseguiu grunhir. O tempo passou sem que ele respondesse.

   Ante seus olhos cheios de horror, a espada começou a cortar para baixo, visando direto para a sua garganta. Ele ia matá-la! Por instinto, ela pegou a arma da cintura de suas calças. Sua respiração presa na garganta, queimando como o ácido quando ela apertou o gatilho. Clique, clique, clique.

   Nada aconteceu.

   Merda. Merda! O tambor estava vazio. Ela deve ter usado todas as suas balas sobre o guia idiota. A arma tremia em sua mão, e o terror se envolveu ao seu redor como o frio de uma tempestade de inverno. Seu olhar explorou a caverna, em busca de uma saída. A névoa era a única saída, mas o enorme e forte corpo do guerreiro a bloqueava agora.

   — Por favor. — ela murmurou, sem saber o que fazer ou dizer.

   Ou o homem não a ouviu, ou ele não se importava com o que ela disse. Sua espada afiada, mortal, continuou a centímetros mais perto de seu pescoço.

   Ela fechou os olhos com força.

   Darius soltou uma maldição violenta e permitiu que sua espada passasse em frente da mulher, sem realmente chegar a tocá-la. A ação levantou uma delicada brisa através dos avermelhados fios de seu cabelo. O fato de que ele pudesse ver a cor natural, uma tempestade de carmim que caía ao redor de seus ombros, o assustou o suficiente para que ele hesitasse em destruir ao possuidor de tal brilhantismo.

   Lutou para sair de seu choque e agarrou sua arma ao seu lado, tentando preparar os membros para que causassem a destruição. Tentando forçar a gelada determinação através de suas veias e afastar a um lado os pensamentos de piedade ou pena. Ele sabia o que tinha que fazer. Golpear. Destruir.

   Esse era seu juramento.

   Mas os cabelos… Seus olhos se regalavam com a sua primeira entrada de cor em mais de trezentos anos. Seus dedos se coçando para tocar. Seus sentidos desejavam explorar.

   Mata, sua mente exigia. Atue!

   Chiaram-lhe os dentes e seus ombros ficaram rígidos. A voz de seu tutor ecoou através dele.

   — Matar aos Viajantes é sua obrigação. Matar-lhes é seu privilégio.

   Houve momentos, como agora, que ele detestava as tarefas que desempenhava, mas nunca teve uma vez que ele hesitou em fazer o que era necessário. Ele simplesmente continuou, assassinato após assassinato, sabendo que não havia alternativa para ele. Sua força vital de dragão há muito havia dominado seu lado mortal. Havia uma consciência viva dentro dele, sim, mas foi murchando e se deteriorando pela falta de uso.

   Então, por que vacilava agora, com esta viajante?

   Estudou-a. As sardas pontilhavam cada centímetro de sua pele, e as manchas de sujeira marcavam sua mandíbula. Seu nariz era pequeno e mágico, seu cílios espessos, cobertos de fuligem, e tão longos que faziam sombra em suas bochechas. Lentamente, ela abriu os olhos, e ele prendeu o hálito quente. Seus olhos eram verdes e circulados de azul, cada cor nublada com determinação e medo. Estas novas cores o hipnotizaram, enfeitiçaram-no.

   Faziam com que todos os seus instintos protetores saíssem à superfície. Pior...

   Ele não deveria ter — deuses, não deveria haver — mas o desejo se enroscava em seu interior, um aperto poderoso que se recusava a soltar suas garras.

   Quando a mulher percebeu que a ponta de sua espada apontava para o chão, ela se agachou muito suavemente, agarrando um objeto metálico de forma estranha. Só podia supor que estava em posição de ataque. Ela se assustou certo, mas para sobreviver ela tinha que lutar com todas as suas forças.

   Poderia realmente destruir tal bravura?

   Sim, devia fazê-lo.

   Ele faria.

   Talvez ele realmente fosse a cruel besta que Tagart o havia chamado. Não, certamente não, pensou no instante seguinte. As ações que o fizeram muito mal o converteram em um guardião da paz e proporcionaram segurança para todos os que residem em Atlantis.  

   Não poderia ser de outra forma.

   No entanto, olhando para esta nova intrusa, realmente olhando para ela, sentia-se como uma besta. Suas feições eram tão inocentes, tão angelicais, faíscas de uma emoção estranha crepitava em seu interior. Preocupação? Arrependimento? Vergonha?  

   Uma combinação das três?

   A sensação era tão nova, que tinha problemas para identificar exatamente o que se tratava. O que fazia desta viajante tão diferente das outras para que visse as cores? Os deuses não o permitissem, mas ele sentiu ‘desejo’? Talvez o fato de que se parecia com uma delicada rainha das fadas? Ou o fato de que ela era tudo o que sempre tinha querido em segredo; a beleza, a doçura e a alegria, mas sabia que nunca poderia ter?

   Espontaneamente, com o olhar bebeu o resto dela. Não era alta, mas havia um porte real que lhe dava um ar de altura. Tinha a pele manchada de sujeira e o suor que não fez nada para diminuir. Sua roupa se moldava as suas curvas arredondadas à perfeição e sua beleza rendeu-se em sua própria homenagem.

   Mais sensações desagradáveis pulsavam através dele, sensações inumeráveis. Odiadas sensações. Ele não devia sentir nada, ele deveria permanecer alheio. Mas ele sentia, e não parecia ser ele. Sentia o desejo intenso de passar sua mão sobre ela, para mergulhar em sua suavidade, para desfrutar de seu colorido brilhante. Sentia necessidade do gosto, sim, saborear seu corpo inteiro e afastar o sabor do nada.

   — Não. — disse ele, mais para o seu benefício próprio. —Não.

   Ele devia destruí-la.  

   Ela tinha quebrado a lei da névoa.

   Em todos aqueles anos um Guardião tinha deixado de levar a cabo seu dever, tinha deixado de proteger Atlantis e em retribuição causou a morte de muitas pessoas, pessoas a que Darius tinha amado. Não podia permitir que essa rainha das fadas sobrevivesse.

   Sabendo disso, Darius ainda permanecia no lugar, imóvel. Sua lógica fria e dura guerreou contra o seu apetite primitivo do sexo masculino. Se somente a mulher afastasse o olhar... Mas segundos tornaram-se minutos, e manteve seu olhar fixo sobre ele, estudando. Talvez até mesmo apreciando.

   Desesperado por escapar da influência mental que ela tinha sobre ele, ele exigiu.

   — Afaste o seu olhar, mulher.

   Lentamente, muito lentamente, ela balançou a cabeça, espalhando mechas avermelhadas por suas têmporas.

   — Sinto muito. Eu não entendo o que você está dizendo.

   Até a voz dela era inocente, suave e lírica, uma carícia em seus sentidos. No entanto, ele não tinha ideia do que ela havia dito.

   — Maldita. — ele murmurou. — Maldito seja eu.

   Os cantos de sua boca se contorceram em uma careta. Ele ordenou-se a ficar indiferente a ela, enquanto embainhava sua espada e encurtava a distância entre eles. Não havia nenhuma razão para fazer o que ele estava prestes a fazer, mas ele não podia parar. Suas ações já não eram controladas por sua mente, mas por alguma força que ele não entendia ou queria reconhecer.

   Ela prendeu sua respiração ante sua aproximação.

   — O que você está fazendo?

   Ele pressionou suas costas, conduzindo-a até que ela encostou-se na parede de pedras; ela manteve o objeto metálico dirigido a ele, a estúpida coisa voltou a fazer clique várias vezes. Será que ela realmente esperava se proteger de um guerreiro dragão com um objeto tão inútil? Ele facilmente forçou os dedos dela para tomar-lhe o objeto e jogou-o atrás de seu ombro.

   Sem se deixar vencer, distribuiu golpes, chutando e golpeando e arranhando como um demônio selvagem.

   Ele a segurou pelos pulsos, prendendo-os acima da cabeça.

   —Pare. — disse ele. Quando ela continuou a se contorcer, ele suspirou e esperou que ela se cansasse. Apenas alguns minutos se passaram antes que seus movimentos diminuíssem, em seguida, parou completamente.

   — Você vai para a prisão por isto. — ela disse, ofegando uma e outra vez em busca de ar.

   Sua respiração morna acariciava seu peito, sua doçura embriagadora, uma entidade tangível que estimulou a sua memória, como uma suave recordação da família, que ele não conseguia apagar da sua mente. Ele quase se afastou dela, porém o cheiro de medo e de mulher o envolveu de uma declaração sensual de sua atração. Havia cheirado nada mais que cinzas durante tanto tempo, não podia deixar de desfrutar do luxo desta nova fragrância. Inalou profundamente, ele se apertou contra ela, roçando seu corpo com o seu, fechando todas as sugestões de separação. A necessidade de tocá-la, qualquer parte dela, se recusava a deixá-lo.

   Ela se estremeceu. De frio? Ele se perguntou. Ou de um desejo turbulento semelhante ao seu? Seus mamilos estavam perfurando suas costelas, eroticamente abrasivo, e quando ele a viu mordiscar o macio lábio inferior, a excitação que sentia por ela se converteu em uma tormenta. Uma tormenta desesperada e selvagem. Uma tormenta tão intensa que era como uma entidade sobrenatural. Seu sangue de dragão fluía ao seu pênis como um rio recém-nascido, quente e consumidor.

   Seus lábios se curvaram em um sorriso de desprezo. No momento em que se deu conta de que era ele que estava realmente sorrindo, ele franziu a testa. Como seus homens teriam rido para coroar essa criatura doce a vencedora de sua aposta. No entanto, ele não conseguia sua atenção. Pelos deuses, que nunca havia sentido algo tão perfeito, tão certo. Ele bufou.

   Eles ficariam surpresos.

   Sua cativa piscou, e seus olhares colidiram. Se as faísca de consciência visivelmente os envolvia naquele momento, ele não teria se surpreendido.

   Essa mulher é sua inimiga, ele se lembrou, apertando os dentes e deslocando os quadris para que sua ereção permanecesse a uma distância segura.

   —A mente está aberta, os ouvidos escutarão, — ele murmurou. — Entenda o que fazemos distante ou próximo. Minhas palavras são suas, suas palavras são minhas. Assim o pronuncio. Assim o vinculo. A partir deste momento, através de todos os tempos.

   Ainda olhando para ela, ele disse:

   — Você entende as minhas palavras agora?

   — Sim. Eu... eu entendo. — Seus olhos se arregalaram, escurecendo com manchas renovadas de alarme. Sua boca se abriu e fechou várias vezes enquanto ela se esforçava por formar uma réplica coerente. — Como? — Foi tudo que conseguiu dizer. Sua voz estava tensa, em seguida, acrescentou mais forte. — Como?

   — Eu lancei um feitiço de compreensão sobre sua mente.

   — Feitiço? Não, não. Isso não é possível. — Ela negou com a cabeça. — Eu falo três idiomas, e tive que trabalhar duro para aprender cada um deles. O que você fez para mim? O que você fez para o meu cérebro?

   — Eu já expliquei isso para você.

   — Não diga... Diga-me a verdade, então. — Ela riu, onde surgiu o som desesperado, em vez de bem humorado. — Nada disto importa, de qualquer maneira. Amanhã de manhã vou acordar e descobrir que tudo isso foi um pesadelo horrível.

   Não, ela não, ele pensou, odiando-se mais do que nunca nesse momento. Amanhã de amanhã ela não despertaria.

   — Você não devia ter vindo aqui, mulher. —ele disse. — Você não se importa com sua vida?

   — É uma ameaça? —Ela lutou contra seu aperto. — Deixe-me ir.

   — Deixe de lutar. Suas ações só pressionam o seu corpo mais no meu.

   Ela imediatamente parou.

   — Quem é você? — ele exigiu.

   — Sou uma cidadã americana e conheço meus direitos. Você não pode me manter aqui contra minha vontade.

   — Posso fazer o que eu quiser.

   Toda cor desapareceu de seu rosto, porque não havia como negar a verdade de suas palavras.

   Prolongar sua morte assim é cruel, sua mente gritou. Fecha os olhos e golpeia.

   Mais uma vez, sua mente e seu corpo eram como entidades separadas. Ele se encontrou liberando-a e se afastando para trás. Ela saltou para longe dele como se ele fosse um vampiro sedento de sangue ou um horrivelmente disforme Formariam.

   Ele concentrou todas as suas forças em sua destruição, procurando em qualquer lugar, exceto seu enigmático, olhos cor do mar, pensando em nada além do seu espírito, feroz e admirável. Sua blusa estava rasgada e se abria pela metade, insinuando seus seios perfeitos revestidos de renda rosa pálida. Outra faísca de desejo se acendeu em seu interior. Até que seu olhar se fixou nos dois pares de olhos de rubi que se pendurava no vale de seus seios. Sua respiração ficou presa enquanto ele estudava o ornamento mais atentamente. Certo que não… não podia ser…

   Mas era.

   Um cenho franzido endureceu suas feições e seus dedos se fecharam com tanta força que seus ossos quase se romperam. Como havia chegado esta mulher a possuir um talismã sagrado? Os deuses concedem a cada guerreiro um dragão Ra-Dracus, um ‘Dragão de Fogo’ ao tornar-se adulto, e um guerreiro nunca removia seu presente, por nenhum motivo salvo a morte. As marcas gravadas na base deste lhe eram familiares, mas não podia lembrar exatamente a quem pertencia.

   Não a esta mulher, pelo que sabia. Ela não era um dragão, nem foi uma criança de Atlantis.

   Seu cenho se franziu em profundidade. Ironicamente, o próprio juramento que lhe obrigava a matá-la também obrigava a mantê-la viva até que ela explicasse como e por que ela tinha o medalhão. Estendeu a mão, tentou retirá-lo de seu pescoço. Ela deu uma palmada na mão dele e se afastou para trás.

   — Que… o que está fazendo? — ela exigiu.

   — Dê-me o medalhão.

   Ela não se acovardou diante do seu tom duro mais duro como a maioria teria feito. Nem sequer saltou para lhe obedecer. Não, ela devolveu o olhar com coragem inabalável. Ou estupidez. Ela permaneceu firme no lugar, as mãos ao seu lado.  

   — Não se aproxime mais. — ela disse.

   — Você usa a marca de um dragão — continuou ele. — E você, mulher, não é um dragão. Dê-me o medalhão.

   —A única coisa que vou te dar é um pontapé na bunda, você, seu ladrão podre. Afaste-se.

   Ele nivelou seu olhar com determinação. Ela estava na defensiva e temerosa. Não é uma boa combinação quando se tenta obter respostas. Ele quase suspirou.

   — Eu me chamo Darius — ele disse. — Isso alivia seus temores?

   — Não, não, não. – Ao contrário de suas palavras, seus músculos relaxaram um pouco. — Meu irmão me deu esse colar. É a minha única ligação com ele agora, e eu não vou desistir.

   Darius preocupado passou uma mão pelo rosto.

   — Qual é o seu nome?

   — Por que quer sabê-lo?

   — Qual é o seu nome? — ele repetiu. — Não se esqueça de quem tem a espada.

   — Grace Carlyle. — ela forneceu relutante.

   — Onde está seu irmão agora, Grace Carlyle? — O nome dela flutuou facilmente em sua língua. Com muita facilidade. — Quero falar com ele.

   — Eu não sei onde ele está.

   E ela não gostava de não sabê-lo, ele percebeu, estudando a preocupação em seus olhos.

   — Não importa. — ele disse. — O medalhão não pertence a ele, tampouco. Pertence a um dragão, e eu o recuperarei.

   Ela o estudou durante um longo e silencioso momento, então lhe ofereceu um brilhante e frágil sorriso.

   — Você está certo. Você pode tê-lo. Eu só preciso de um momento para tirá-lo. Ela levantou os braços como se ela pretendesse fazer o que havia dito. Retirá-lo. Mas no instante seguinte, se lançou para frente até ficar no ponto na entrada da névoa. Seu braço serpenteou fora e a puxou de volta para o círculo rígido de seu corpo. Ela engasgou com o impacto.

   Se seus reflexos não tivessem sido tão rápidos, ele a teria perdido.

   — Atreve-se a me desafiar? — ele disse perplexo. Como líder deste palácio, ele estava acostumado a que cada uma de suas ordens fora obedecida. Que esta mulher se opusesse a ele o desestruturava, ao mesmo tempo em que a fazia mais atrativa.

   — Deixe-me ir!

   Ele manteve-se estável.

   — Lutar é inútil e simplesmente atrasa o que deve ser feito.

   — O que deve ser feito? — Em vez de se acalmar, ela batia os cotovelos pontudos em seu estômago. — Que inferno deve ser feito?

   Ele girou em torno dela e usou uma das mãos como um grilhão, apertando-a contra ele, peito com peito, dureza contra suavidade.

   — Fique quieta! — ele gritou. Então piscou. Gritou? Sim, ele realmente levantou a sua voz.

   Incrivelmente, ela se acalmou. Sua respiração superficial e rápida. Entre o silêncio cada vez maior, ele começou a ouvir as batidas do seu coração, um ritmo intermitente que reverberou em seus ouvidos. Seus olhares se estreitaram um no outro e olhar para outro lugar resultou impossível. Minutos se passaram despercebidos.

   — Por favor. — ela sussurrou por fim, e ele não tinha certeza se ela estava pedindo a ele para libertá-la ou abraçá-la mais firmemente.

   Ele usou a mão livre para alisar a extensão aveludada de seu pescoço, e suavemente afastou seu cabelo para um lado. O seu calor o chamava para continuar e ele conteve o impulso de deslizar as mãos por cada um de seus cumes e cavidades femininas, da plenitude de seus seios, ao ligeiro arredondado de seu estômago. Do encontro exótico de suas pernas, a quente umidade de seu centro.

   Ela era o tipo de mulher capaz de aceitar e responder à barbárie da sua paixão? Ou ia achá-lo mais do que ela poderia manejar?

   Esta ideia o estremeceu, e ele sacudiu brutalmente a cabeça para desalojá-la. Se ela podia lidar ou não, não importa. Ele não ia para a cama com essa mulher.  

   E ainda…

   Ele podia facilmente imaginar Grace nua e em sua cama, seu corpo estendido para sua visão. Seus braços abertos e esperando por ele. Ela sorria lentamente, sedutora, e ele iria subir tão lentamente sobre ela, a dança de sua língua por cada centímetro delicioso dela, desfrutar dela languidamente, — ou deixá-la gozar, — até que ambos entrassem em colapso.

   A fantasia causou que seu desejo se misturasse com a ternura, cada sensação provocando à outra enquanto se arrastavam através dele.

   O desejo podia suportar. A ternura não.

   Durante anos ele tentou suprimir suas necessidades físicas, mas ele tinha aprendido que era impossível. Então ele tinha começado a se permitir a algumas mulheres ocasionais, dando prazer forte e rápido, em seguida, deixando-as rapidamente mais tarde. Ele não as beijava, não saboreava. Apenas as tomava com uma absorção total que frequentemente deixava a sua companheira de cama escolhida esgotada e cambaleante.

   Ele necessitava dessa mesma absorção agora, apenas canalizada de forma diferente. Ele precisava distanciar-se do encanto de Grace. Com isso profundamente enraizado em sua mente, ele apressadamente abriu o fecho da corrente em torno do pescoço, embora tivesse o cuidado de não machucá-la.

   — Devolva-me, ela exigiu. — Se lançando contra sua presa. — É meu.

   — Não. É meu.

   Sua expressão se tornou venenosa.

   Sem retirar o olhar dela, Darius colocou o medalhão em torno de seu próprio pescoço, fazendo com que se chocasse contra o outro Ra-Dracus.

   — Eu tenho muitas perguntas para você, e eu espero que você responda a cada uma delas. —Ele disse. — Se você pronunciar uma só mentira, você vai se arrepender. Está claro?

   Uma respiração estrangulada escapou de entre seus lábios.

   — Você entendeu? — Ele repetiu.

   De olhos arregalados, ela balançou a cabeça lentamente.

   — Então vamos começar. Você me disse que quer dar o medalhão de volta para o seu irmão. Por quê? O que ele pretende fazer com ele?

   —Eu… eu não sei.

   Será que ela mentiu? O aspecto de suas feições angelicais sugeria que nunca havia passado uma mentira pelos seus lábios. Pensar em seus lábios trouxe seu olhar para eles. Eram lábios grossos. Lábios feitos para o prazer de um homem. Ele passou a mão pelo rosto, sem saber no que acreditar, mas sabendo que não devia imaginar esses lábios deslizando-se acima e abaixo de seu eixo, com seu cabelo vermelho se estendendo sobre suas coxas.

   — Onde o adquiriu? — Insistiu Darius.

   — Não sei. — Disse ela fria.

   — De quem o adquiriu?

   — De seu chefe.

   Seu chefe… Darius ficou com a boca aberta. Isso queria dizer que havia mais moradores da superfície implicados.

   — Quanto tempo a corrente esteve em sua posse?

   Ela fechou os olhos por um momento, contando silenciosamente os dias.

   — Um pouco mais de uma semana.

   — Sabe o que é? Ou o que faz?

   — Não faz nada, — disse ela, com a testa franzida. — Só é um colar. Uma peça de joalheria.

   Ele a considerou intensamente, estudando-a, avaliando-a.

   — Como, então, encontrou a névoa?

   Ela deixou escapar um suspiro.

   — Eu não sei... ok. Eu estava andando em torno dessa maldita selva. Tinha calor e estava cansada e faminta. Descobri um riacho subterrâneo, tropecei com a caverna e caí ao interior.

   — Alguém entrou na caverna com você?

   — Não.

   — Tem certeza?

   Ela o fulminou com o olhar, lhe desafiando a fazer o que devia fazer.

   —Sim, maldição. Tenho certeza. Estava sozinha ali fora.

   — Se mentiu para mim… — ele permitiu que sua ameaça ficasse no ar.

   — Eu disse a verdade, — ela retrucou.

   Havia feito? Ele sinceramente não sabia. Ele só sabia que queria acreditar em cada palavra que dizia. Ele estava muito atraído por sua beleza. Muito encantado com seu perfume. Ele deveria matá-la aqui e agora, mas não podia magoá-la. Ainda não. Não até que ele tivesse tempo e distância para colocá-la em boa perspectiva.

   Eu sou um tolo, ele pensou. Darius agarrou-a pela cintura e ergueu-a sobre seu ombro. Ela começou a espernear imediatamente, as unhas arranhando as suas costas.

   — Ponha-me no chão seu idiota Neanderthal! — Seus gritos ecoaram em seus ouvidos. — Eu respondi a suas perguntas. Você tem que me deixar ir.

   — Talvez um pouco de tempo no meu quarto vai fazer essas respostas melhorarem. Certamente você pode fazer melhor que 'não sei'.

   — Melhorar? Melhorar! Se eu tivesse dado respostas diferentes, eu teria mentido.

   — Veremos.

   Ele caminhou até a escada da caverna e entrou no palácio. Ela continuou a se contorcer e dar pontapés... e ele continuou a segurá-la firmemente com os braços. Ele teve o cuidado de evitar os seus homens quando a levou aos seus aposentos. Uma vez ali, jogo-a sobre a colcha de veludo e amarrou seus braços e pernas aos postes. A visão dela estendida em sua cama lhe fez suar e desejá-la ansiosamente. O pôs duro como uma rocha. Deuses, ele não podia lutar com ela agora, não quando parecia tão… comestível. Sem outra olhada em sua direção, deu a volta e se dirigiu ao corredor. A porta se fechou detrás dele por sua própria iniciativa.

   Antes ou depois, a mulher teria que morrer… por suas próprias mãos.

   Sozinha no quarto, Grace esperneou e se retorceu até liberar seus pulsos. Desatou os nós em seus tornozelos e ficou de pé. Alex a tinha amarrado muitas vezes quando eram meninos, assim escapar era como uma brincadeira de criança. Além disso, seu sequestrador não tinha apertado os nós. Ela deixou escapar um estremecido suspiro enquanto seu olhar ia à deriva pelo espaçoso interior, tomando nota de cada detalhe. Além da gloriosa cama macia em que tinha estado deitada, uma fina escrivaninha de marfim era o único mobiliário. Cores… muitas cores reluziam das paredes, iguais a fragmentos de arco-íris presos no ônix. Havia uma lareira de mármore em tom creme, sem acender e antiga. A única saída era uma porta sem maçaneta.

   Onde infernos eu estou? Perguntou-se, seu pânico aumentou.

   O temor e a adrenalina pulsaram com fúria através de seu sangue. Um homem que podia dispor desse tipo de luxo poderia ter um impressionante sistema de segurança. Ela apertou a colcha de veludo safira em suas mãos quando outro pensamento invadiu sua mente. Um homem podia dispor desse tipo de luxo podia ter condições de sequestrar e torturar a uma mulher inocente sem consequência alguma.

   Ficando em pé, tentou lutar além de seu medo. Estarei bem. Só precisava encontrar uma maneira de sair daqui. Antes que ele voltasse. Ela correu para a porta, agarrando a diminuta emenda entre as portas, tentando obrigá-las a dividir-se pelo meio. O grosso marfim permaneceu firmemente no lugar, negando-se a deslocar-se nem um pouco. Ela soltou um chiado de frustração. Não deveria ter esperado nada diferente. Como se fosse fácil escapar.

   O que ia fazer?

   Não havia janelas pelas quais pudesse passar. E o teto… ela deu uma olhada para cima e ofegou. O teto consistia em prismas de cores angulares, a fonte de luz do quarto. Uma pequena brecha se estirava pelo meio de um extremo a outro, lhe dando uma espetacular vista de um vibrante líquido turquesa. Contudo, o líquido não gotejava através disso. Peixes e outras criaturas — aquelas não eram sereias, assegurou-se a si mesmo — nadavam despreocupadamente pela água.

   Estou sob a água. Sob a água! Ela lançou seus punhos contra a porta.

   — Deixe-me sair daqui, maldito!

   Não houve resposta.

   — Isto é ilegal. Se não me deixar sair, será detido. Eu juro. Será preso e será obrigado a ter relações íntimas com um homem chamado Butch. Deixe-me. Sair.

   De novo, não houve resposta.

   Seu esmurrar se fez mais lento, então se deteve totalmente. Ela descansou a bochecha contra o frescor da porta. Onde infernos eu estou? Perguntou-se uma vez mais.

   Algo puxou de sua memória… algo que tinha lido. Um livro ou uma revista, ou… O diário de Alex! Ela deu-se conta. Então seu estômago deu um baque, e ela apertou os olhos quando todas as implicações a golpearam. Seu irmão tinha escrito sobre uma entrada para a terra de Atlantis, uma porta rodeada por névoa. Sua boca formou um ‘oh’ quando uma seção de seu texto invadiu sua mente, encaixando no lugar como a peça de um quebra-cabeça. Atlantis não era o lar de uma extraordinária raça de pessoas, se não de horríveis criaturas que só se encontravam em pesadelos, um lugar onde os deuses tinham oculto seus maiores enganos.

   Afrouxaram-lhe os joelhos e lhe encolheu o estômago. Voltando-se, colocou-se de costas à porta, afundando-se no frio e duro chão. Era verdade. Ela tinha viajado através da névoa. Estava em Atlantis. Com horríveis criaturas que inclusive os deuses temiam.

   Deixemos que seja um sonho, um sonho de que despertarei em qualquer momento. Prometo não me queixar outra vez de nada. Estarei contente.

   Se os deuses a ouviram, ignoravam-na.

   Espera, pensou ela, sacudindo a cabeça. Ela não acreditava nos antigos deuses gregos.

   Tenho que sair daqui. Tinha buscado perigo e realização, sim, mas não isto. Nunca isto. No caminho para o Brasil imaginou quão intrépido seria para ela ajudar a Alex, como realizador seria provar ou refutar tais mitos tão conhecidos.

   Bom, ela acabava de prová-lo — e não se sentia nada realizada.

   — Atlantis. — sussurrou ela assombrada, olhando para a cama. O consolo parecia irradiar do cristal, contudo, ela sabia exatamente quão suave era. Estavam em Atlantis, o lar dos minotauros, Formorians, licantropos e vampiros. E tantas mais criaturas que seu irmão não tinha sido capaz de nomear todas. Seu estômago lhe deu outra dolorosa cãibra.

   Qual tipo de criatura era seu sequestrador?

   Ela puxou pela memória. Os minotauros eram metade touro e metade humana. Enquanto que atuava igual a um touro, não possuía as características físicas deste. Os Formorians eram criaturas de um só braço e uma só perna. Outra vez, não encaixava. Podia ser um licantropo ou um vampiro? Qualquer deles parecia uma possibilidade.

   Com suas tatuagens de dragão, ele se parecia mais a, bom, um dragão. Poderia ser verdade? Os dragões não tinham escamas, uma cauda e asas? Possivelmente ele era humano somente aqui. Ou possivelmente era uma fada macho, uma criatura tão sexual, tão potente e viril, que não podia ser liberado na sociedade humana. Isso certamente explicava sua inexplicável poderosa atração por ele.

   — Darius, — disse ela, fazendo rodar o nome em sua língua.

   Ela tremeu duplamente, uma vez por medo e outra vez por algo que não queria nomear, quando sua imagem lhe encheu a mente. Ele era um homem de contradições. Com seus vibrantes olhos azul gelo, áspero e tom exigente e músculos sólidos como a rocha, personificava todo o frio e insensível, todo incapaz de oferecer calor. E ainda, quando a tocou, sentiu que lava fundida corria através de suas veias.

   O homem cheirava a perigo, parecendo-se com um guerreiro que vivia sem leis que não fossem as próprias. Igual aos sedutores guerreiros que lia nos romances. Entretanto, isto não era nenhum romance. Este homem era real. Cru e primitivo. Puramente masculino. Quando falou, sua voz ressoou sombria, poder liberado que recordava a tormentas no meio da noite e lugares exóticos e estranhos. Apesar de tudo, sentiu-se atraída por ele na caverna.

   Apesar de tudo, ainda se sentia atraída para ele.

   Nunca, em todos seus vinte e quatro anos, havia um homem despertado tal consciência sensual em seu interior. Isso era o que fazia este homem, um homem que a tinha ameaçado ‘várias vezes’ fazendo voar sua mente. Ele tinha tentado cortá-la na metade com aquela monstruosa espada dele. Mas não tinha te feito mal, sussurrou sua mente. Nenhuma só vez. Seu toque tinha sido tão gentil… quase reverente. Às vezes, tinha pensado que seu olhar fixo suplicava-lhe que lhe tocasse na mesma hora.

   —Está precisando que lhe examinem a cabeça, senhorita, se realmente acha a aquele homem atraente. — a voz de sua mãe ecoou em sua mente. —Tatuagens, espadas. —Para não mencionar a maneira bestial em que te carregou sobre seu ombro — Porque, horrorizou-me.

   Então sua tia Sophie diria, — Agora, Grace, neném, não escute a sua mãe. Ela não teve um homem durante anos. Tem Darius um irmão mais velho, solteiro?

   — Realmente preciso que examinem a minha cabeça. — Resmungou ela. Seus parentes se instalavam em sua mente, dispensando partes de advertências onde queriam.

   Uma onda de nostalgia a golpeou de um modo que não tinha experimentado desde há primeira semana no acampamento de verão há vários anos atrás. Sua mãe poderia ser reservada e exigente dedicando anos de carinho doentio pelo pai de Grace, mas ela a amava e sentia sua falta.

   Abraçou-se, rodeando o próprio corpo com seus braços, tentando mascarar o vazio. Onde tinha ido Darius? Quanto demoraria a voltar?

   O que planejava fazer com ela?

   Nada bom suspeitava.

   O ar aqui era mais quente que na caverna, mas o frio se negava a abandoná-la, e tremeu. Seu olhar fixo examinando as paredes entalhadas que subiam até o teto. A subida poderia deixar as palmas das suas mãos com arranhões e ensanguentadas, feridas que suportaria com muito gosto se o teto de cristal se abrisse com espaço suficiente para deslizar-se através dele e nadar à segurança.

   Ficou de pé, suas pernas tremendo. Primeiro precisava alimentar-se ou sofreria um desmaio e então nunca escaparia.

   Em cima da cômoda estava o que parecia ser uma cesta de frutas e uma jarra de vinho. Respirando profundamente o ar beijado pelo mar, aproximou-se. A boca se encheu d’água enquanto estendia a mão e apalpava uma maçã. Sem dar-se tempo para considerar a possibilidade de que estivesse envenenado, comeu rapidamente — desfrutando-a, pensou ela — a deliciosa fruta. Então outra. E outra. Entre dentadas, bebendo a sorvos o doce vinho tinto diretamente da jarra.

   Quando se aproximou da borda da parede, sentia-se mais forte, com mais controle. Agarrou dois pequenos suportes e se elevou, equilibrando os pés nas saliências de ébano. Subindo, começou a escalar. Uma vez tinha escalado o Polegar do Diabo no Alaska — não era sua lembrança favorita já que congelou o traseiro, mas ao menos sabia como escalar corretamente. Aventurou-se a dar uma olhada para baixo, suspirou e pensou carinhosamente no arnês que teria usado no Polegar do Diabo.

   Ela alcançou o topo, e suas palmas estavam cheias de feridas e arranhões. Empregando toda sua força, empurrou e agarrou o cristal.

   —Venha — disse ela. — Abra-se para mim. Por favor, se abra para mim.

   A esperança coalhou em seu estômago quando a maldita coisa permaneceu firmemente fechada. A ponto de chorar, voltou o caminho lentamente e saltou ao chão.

   Afastou o cabelo do rosto e pensou em suas opções. Não havia muitas já que estava trancada nesse quarto. Podia aceitar passivamente o que Darius tinha planejado para ela, ou podia lutar com ele.

   A situação exigia determinação.

   — Lutarei. — Disse com resolução.

   Da maneira em que fosse, tinha que voltar para casa, tinha que encontrar e advertir ao seu irmão sobre os perigos da névoa — se já não era muito tarde. Uma imagem de Alex apareceu em sua mente. Seu cabelo vermelho escuro muito emaranhado arrumado ao redor de seu rosto pálido; seu corpo imóvel em um ataúde. Ela apertou os lábios, negando-se a considerar essa possibilidade por mais tempo. Alex estava vivo e bem. Estava vivo. Como lhe teria enviado o diário e seu medalhão? Os selos não se vendiam no além.

   Seu olhar esquadrinhou o quarto outra vez, desta vez procurando uma arma.

   Não havia enfeites. Nem dutos de ar. O único objeto que possivelmente funcionasse era a cesta que continha às frutas, mas Grace não estava segura de que machucasse a estúpida (está bem, sexy) cabeça de Darius com uma cesta surpreendentemente flexível.

   A desilusão a inundou. Que demônio podia fazer para fugir? Fazer uma corda com os lençóis? Ela piscou. Olha essa não era uma má idéia. Correu para a cama. Quando levantou o sedoso linho, suas palmas lhe doeram até formar lágrimas. Apesar da dor, atou cada extremo do final a ambos os lados das portas deslizantes. Darius poderia parecer indomável, mas ela era tão vulnerável às desgraças como todos os outros. Inclusive os antigos mitos falavam que cada criatura, fosse humana ou deuses, seres perecíveis. Ou em seu caso, falíveis.

   Embora vivesse em Nova Iorque agora, Grace tinha crescido em uma pequena cidade na Carolina do Sul, um lugar conhecido por sua amizade e cortesia com os forasteiros. Nunca lhe tinham ensinado a fazer mal deliberadamente a outro ser humano. Contudo não podia evitar um lento sorriso de antecipação quando estudou o lençol.

   Darius estava a ponto de cair.

   Literalmente.

   Darius irrompeu no hall do salão. Deteve-se um momento quando se deu conta que já não via cores, senão que outra vez via simplesmente em branco e preto. Aspirou com desgosto. Quando se deu conta que não cheirava nada, deteve-se. Inclusive seu novamente desenvolvido sentido do olfato o tinha abandonado. Até agora, nunca se tinha dado conta do muito que tinha sentido saudades dessas coisas.

   Isto era coisa de Grace, é obvio. Em sua presença, seus sentidos cobravam vida. Agora que tinha posto distância entre eles, parecia voltar para seu antigo estado. Que tipo de poder ela controlava que podia comandar assim suas percepções? Um dos músculos da mandíbula se retesou.

   Felizmente seus homens não esperavam que voltasse. Eles já se reuniram na área de treinamento como lhes tinha pedido. Embora estivessem a vários cômodos de distância os sons de grunhidos e gemidos enchiam o ar.

   Apertando os lábios, Darius se moveu junto à imensa parede de janelas na parte de trás da sala. Agarrou-se ao suporte por cima de sua cabeça e se inclinou para frente. Tão alto como estava este palácio sobre os escarpados concedia-lhe uma vista espetacular da cidade abaixo. A Cidade Central. Onde as criaturas eram capazes de relaxar-se e misturar-se. Inclusive os vampiros, embora ele não visse as massas que seus homens tinham encontrado.

   Grupos de Amazonas, Centauros, ciclopes, grifos e dragões fêmeas se arriscavam a ir as lojas e passeavam pelas ruas enquanto os comerciantes vendiam de porta em porta seus artigos. Várias ninfas jogavam em uma cascata próxima.

   Quão felizes pareciam, quão despreocupados.

   Ele ansiava aquela mesma liberdade para si mesmo.

   Com um grunhido, separou-se da beirada e caminhou para a borda da mesa, onde a agarrou com tanta força que a madeira dura resistente ao fogo se quebrou. Tinha que recuperar o controle antes de aproximar-se da mulher ‘Grace’ outra vez. Havia muitas emoções formando redemoinhos em seu interior: Desejo, ternura, fúria. Ele apunhalou e golpeou a ternura; chutou e fez a um lado o desejo. Eles provavam ser mais resistentes, pendendo sobre ele como um duro aperto. A exuberância de sua beleza podia afastar ao mais forte dos guerreiros de seus votos.

   Pelos Deuses, se experimentava essas sensações simplesmente por segurar seus pulsos, por olhar em seus vibrantes olhos, o que sentiria se realmente apalpava seus cheios e luxuriosos seios? O que sentiria se realmente separava suas exuberantes coxas e afundava a grossura de sua ereção dentro dela? Seu atormentado gemido se converteu em um grunhido e ecoou no alinhado cristal. Se não chegava a ter alguma vez a aquela mulher nua e embaixo dele — poderia morrer de uma sobrecarga de sensações.

   Quase riu. Ele, um sanguinário guerreiro que pensava que não tinha coração e não havia sentido nada mais que a aceitação durante trezentos anos, estava angustiado ante uma pequena mulher. Se tão só não tivesse cheirado sua doçura, uma sutil fragrância de mulher e luz do sol. Se não tivesse acariciado a seda de sua pele.

   Se só não quisesse mais.

   O que havia nela para que seus sentidos cobrassem vida? Perguntou-se outra vez. Se soubesse a resposta a isso, poderia resistir facilmente a ela.

   Luta homem. Luta contra seu encantamento. Onde está sua legendária disciplina?

   Com arrancada quase brutal, tirou uma camiseta de um dos ganchos da parede. Penetrou o negro material pela cabeça, cobrindo os dois medalhões que levava. Os ecos dos desenhos do fundo que Grace tinha mencionado antes se abriram passo através de sua mente e em um estalo repentino de claridade situou o medalhão roubado com seu dono. Javar, seu antigo tutor.

   Darius franziu o cenho. Como tinha Javar perdido um tesouro tão precioso? Tinha o irmão de Grace algum estranho poder que lhe permitia deslizar-se através da névoa, lutar com Javar e obter a sagrada corrente? Certamente não, Javar teria vindo a ele em busca de ajuda se ainda estivesse com vida, acrescentou em sua mente.

   Darius tinha falado com seu antigo tutor por mensagens fazia só um mês. Tudo parecia estar bem. Mas ele sabia melhor que ninguém que uma vida podia mudar no espaço de um só pulsar do coração.

   — Tem que fazer algo, Darius. — Grunhiu Brand, voando no salão. A longitude de suas largas asas opalescentes estiradas enchendo a entrada. Sem se deter em seu deslizamento, seus pés se pousaram suavemente em terra. Ele começou a caminhar a passos largos para ele. Suas presas agudas, letais estavam expostas em um sinistro cenho, um sinal de branco contra suas escamas.

   Darius dedicou ao seu amigo um duro olhar, eliminando cuidadosamente toda expressão de suas feições.

   Por palavra ou feito, negou-se a que qualquer de seus homens notasse quão precário era sua sujeição sobre seu controle. Fariam perguntas, perguntas que não queria responder. Perguntas para as quais sinceramente não tinha respostas.

   —Não falarei contigo até que se acalme. —Disse-lhe. Cruzou os braços à altura do peito e esperou.

   Brand respirou profundamente uma vez, então outra, e muito lentamente sua forma de dragão retrocedeu, revelando um tórax de bronze e características humanas. Suas presas se retraíram. A laceração em sua bochecha se curou, cortesia de seu sangue regenerador. Darius tocou a cicatriz de sua própria bochecha. Tinha adquirido a ferida do Rei Ninfa fazia uns anos durante a guerra e nunca tinha entendido por que o tinha abandonado com tal sinal.

   —Tem que fazer algo, — repetiu Brand mais tranquilo. Ele agarrou as únicas roupas que ficavam nos ganchos e as pôs. — Estamos preparados para nos matar uns aos outros.

   Darius tinha conhecido a Brand não muito depois de que ele se mudou para o palácio. Ambos tinham sido jovens, pouco mais que moços, e suas famílias tinham sido ambas massacradas durante a incursão humana. Desde o começo, Brand e ele tinham compartilhado um laço. Brand sempre riu e conversou com ele, assegurando-se de lhe convidar a participar de cada atividade de dragão. Enquanto que Darius o tinha declinado — inclusive embora ele se impôs uma estrita distância mental dos outros — tinha encontrado companheirismo em Brand, encontrou alguém em quem escutar e confiar.

   — Culpa ao seu estúpido jogo. — Disse Darius com um ligeiro grunhido, recordando as anteriores palhaçadas, — não a mim.

   As comissuras dos lábios de Brand se estiraram completamente.

   — Já há emoções de sua parte? Tomarei isso como que quer minha cabeça em um prato.

   — Sua cabeça será… o começo. — Obrigando-se a relaxar-se, alcançou uma cadeira e se sentou recostando-se nela. Descansou seus antebraços contra o recortado veludo do respaldo. — O que causou esta vez sua transformação?

   — O aborrecimento e a monotonia — lhe chegou o tom seco de seu amigo. — Tentamos começar a primeira ronda de um torneio, mas não podia deixar de lutar o tempo suficiente. Estamos à beira da completa loucura.

   —Merece ficar louco depois do caos que causou antes.

   O sorriso do Brand se renovou.

   —Tsk, tsk, tsk, Darius. Deveria me agradecer, não me ameaçar.

   Ele franziu o cenho.

   Arqueando as sobrancelhas, Brand respondeu.

   — Não me diga que estou a ponto de ganhar a aposta. Não quando não há ninguém aqui que possa testemunhar minha vitória.

   Seu cenho se intensificou.

   — Além disso, do jogo, o que posso fazer para ajudar a aliviar este aborrecimento?

   — Voltará a considerar a nos trazer mulheres?

   — Não. — Respondeu rapidamente. O adorável rosto de Grace cintilou em sua mente, e a parte baixa de seu abdômen se contraiu com força. Não haveria mais mulheres em seu palácio. Não quando alguém tão diminuta como Grace causava este tipo de reação nele.

   Brand não pareceu advertir seu desconcerto.

   — Então levaremos a cabo nosso jogo. Tentaremos fazer você rir.

   — Ou me encher o saco?

   — Sim, isso também. Passou muito tempo desde que alguém atravessou suas barreiras.

   Ele sacudiu a cabeça.

   — Sinto muito, mas minha resposta segue sendo a mesma.

   — Cada ano eu te observo tornando-se um pouco mais distante. Um pouco mais frio. O jogo é mais em seu benefício que do nosso.

   Com a fluidez inerente de todos os dragões, Darius ficou em pé, derrubando a cadeira dele. Não necessitava disto agora, não quando lutava tão ferozmente por controlar-se. Um sorriso e possivelmente se derrubaria. Uma lágrima e possivelmente caísse. Um grito e suas mais profundas agonias seriam liberadas. Oh, sim. Ele sabia que se chegava o dia em que perdesse totalmente o controle, seria destruído por um redemoinho de emoções.

   — Sou dessa maneira por uma razão, Brand. Se abrisse uma porta a minhas emoções, não seria capaz de fazer meu trabalho. É realmente isso o que deseja?

   Brand passou uma mão através de suas tranças.

   — Você é meu amigo. Enquanto entenda a importância do que faz, também desejarei que encontre a alegria. E para fazê-lo, algo precisa mudar em sua vida.

   — Não. — Disse ele firmemente. Quando Grace tinha transpassado o portal, sua vida tinha mudado irrevogavelmente e não para melhor. Não, não necessitava mais mudanças. — Acontece que eu abraço a monotonia.

   Dando-se conta que esse argumento não servia, Brand mudou de tática.

   — Os homens são diferentes de você, então. Eu sou diferente. Necessitamos algo no que ocupar nossas mentes.

   — Minha resposta ainda é não.

   — Precisamos de excitação e desafio. — Insistiu Brand. — Desejamos descobrir o que fazem os vampiros entre nós, e, contudo estamos obrigados a ficar aqui e treinar.

   — Não.

   — Não, não, não. Estou cansado dessa palavra.

   — Contudo deve manter a paz com ela, porque é única que posso te oferecer.

   Brand se dirigiu à mesa, seus dedos percorrendo casualmente a superfície.

   — Odeio te ameaçar, e sei que não o faria se sentisse que há outro caminho. — Acrescentou rapidamente. — Mas se não nos permitir alguma coisa, Darius, o caos reinará com supremacia em seu lar. Continuaremos brigando a menor provocação. Continuaremos interrompendo as comidas. Continuaremos…

   — Fez sua observação. — Darius viu a verdade nas palavras de seu amigo e suspirou. Se ele não suavizasse de algum jeito, não conheceria a paz. — Diga aos homens que lhes permitirei terminar sua aposta, se jurarem sobre seu sangue manter-se afastados de meus aposentos. — Seus olhos se entrecerraram e fixaram sobre Brand. — Mas marca minhas palavras. Se alguém — um só homem — se aproximar de meus aposentos privados sem minha permissão expressa, passará o próximo mês acorrentado no poste.

   Brand inclinou o queixo a um lado, e seu olhar dourado se fixou nele. O silêncio se espessou ao redor deles quando a curiosidade se desenhava em seus traços. Darius nunca antes tinha excluído a ninguém de seus aposentos. Seus homens sempre tinham sido bem recebidos quando vinham a ele com suas dificuldades. Que retirasse agora esse acolhimento parecia estranho.

   Ele não ofereceu explicação alguma.

   Sabiamente, Brand não fez pergunta alguma. Assentiu com a cabeça.

   — De acordo. — Disse ele, lhe dando a Darius uma amistosa palmada no ombro. — Acredito que verá uma notável mudança em cada um.

   Sim, mas a mudança seria para melhor?

   — Antes que volte para a área de treinamento. — Disse-lhe Darius, — envia a um mensageiro aos domínios de Javar. Desejo uma reunião.

   — Considere-o feito. — Com leveza acrescentada agora ao seu passo, Brand saiu do cômodo tão rápido como tinha entrado.

   Só uma vez mais, Darius permitiu que seu olhar se enfocasse nas escadas e ascensão que levava para seus cômodos. Uma insidiosa necessidade de tocar a sedosa pele de Grace tecia uma complicada rede através de seu corpo, tão potente como se ela estivesse sentada em seu colo.

   Brand havia dito que os homens estavam loucos, mas era o próprio Darius o que estava perigosamente perto de enlouquecer. Passou uma mão pelo cabelo. Afastar-se de Grace não lhe tinha ajudado em nenhuma forma; a imagem dela sobre sua cama brilhava tão real em sua mente como se estivesse frente a ela. Ele se deu conta de que estava igualmente tranquilo como estava preocupada a mulher. O qual não era absolutamente tranquilizador. Melhor encarregar-se dela agora, antes que o desejo por ela aumentasse.

   Acariciando os dois medalhões que levava, seguiu o caminho que tinha tomado seu olhar até que se encontrou de pé ante a entrada. Dar-lhe-ia as respostas que queria, pensou com determinação, e ele atuaria como um Guardião. Nem um homem, nenhuma besta. Se não um Guardião.

   Decidido, soltou os medalhões e abriu as portas.

   As dobradiças não chiaram. De fato não surgiu nem um só som. Em um momento as portas do dormitório estavam fechadas e ao seguinte, os dois painéis se deslizaram abrindo-se.

   Grace ficou à esquerda, invisível e oculta pelas sombras que projetavam o mármore escuro. Quando Darius entrou atravessando-a, seus pés se enredaram no lençol — no também conhecido como corda.

   Ele se projetou para frente com um grunhido.

   No momento em que golpeou o chão, Grace saltou a suas costas, usando-o como trampolim e correu ao corredor. Sua cabeça voava de um lado a outro procurando a direção correta. Nenhuma parecia melhor que a outra, assim correu. Ela não chegou muito longe antes que umas fortes mãos masculinas a agarrassem pelos antebraços e a puxassem para que se detivesse. De repente se encontrou levantada sobre o ombro do Darius, muito atônita para protestar quando a levou de volta ao seu quarto. Uma vez ali, baixou-a deslizando-a por seu corpo. Ela ficou quieta, sentindo a suave textura de sua camisa e o calor de sua pele transpassando suas próprias roupas. Seus corpos estavam tão perto que inclusive sentia a ondulação de seus músculos.

   Sem liberá-la, ele fez algo que causou que as portas se fechassem, bloqueando sua única saída. Ela se virou, observando, seu olhar alargando-se. O fôlego se congelou em seus pulmões quando o fracasso surgiu ao redor dela. Não. Não! Em apenas dois segundos, tinha perdido sua melhor oportunidade de liberdade.

   — Você nunca deixará este lugar. — Disse-lhe sem um pingo de cólera, só determinação. E arrependimento? — Por que não está em minha cama, mulher?

   Afligida pelo fracasso, ela sussurrou.

   — O que planeja fazer comigo?

   Silêncio.

   — O que planeja fazer comigo? — Gritou.

   —Sei o que deveria fazer — disse ele, sua voz agora um baixo grunhido que vibrava com raiva, — mas ainda não sei o que farei.

   —Tenho amigos, — disse ela. — Família. Nunca descansarão até me encontrar. Machucando-me só ganhará sua ira.

   Ali havia uma concentrada vacilação, então.

   — E se não te faço mal? — perguntou tão suavemente que apenas o ouviu. — E se só te oferecer prazer?

   Se a superfície calosa de suas palmas não acariciasse seus antebraços, poderia haver-se assustado por suas palavras. Agora ela estava estranhamente cativada. Cada fantasia que tinha criado alguma vez se precipitou por sua mente. Suas bochechas se fundiram com calor. E se só te ofereço prazer? Ela não respondeu. Não podia.

   Ele respondeu por ela.

   — Não importa o que eu te ofereça, não há nada que você ou qualquer possa fazer sobre isto. —Sua voz se endureceu, perdendo seu tom sensual. — Está em meu lar, em meus aposentos pessoais, e farei o que quiser. Não importa o que diga.

   Com tal advertência extrema soando em seus ouvidos, ela quebrou qualquer classe de feitiço que tivesse tecido e convocou seu treinamento terrorista da escola de vôo. Lute, ela cantou interiormente. Plexo solar, dorso do pé, nariz, virilha. Passando á ação, deu-lhe uma cotovelada no plexo solar, lançou seu pé ao dorso do pé, balançou-se ao redor e empurrou seu punho para seu frio e impassível rosto. Os nódulos de seus dedos se chocaram com sua bochecha em vez de seu nariz, e ela lançou um grito de dor.

   Ele nem estremeceu. Nem se incomodou em agarrar seu pulso para impedir-lhe que o fizesse outra vez.

   E ela o fez de novo.

   Retirou outro braço e o lançou voando. No impacto, experimentou uma repetição do primeiro murro.

   Dor palpitante para ela, satisfeita diversão para ele. Não, diversão não, deu-se conta ela. O azul de seus olhos era muito frio e oco para sustentar qualquer classe de emoção.

   Ele arqueou uma sobrancelha.

   — Lutar contra mim só fará que se machuque.

   Seu olhar se elevou incrédula, encontrando-se com o seu. Depois de tudo o que tinha suportado nos dois últimos dias, o caráter de Grace e a frustração explodiu com toda sua força.

   — O que você tem? — Levantou o joelho, com força e rapidez, ganhando um golpe direto entre suas pernas. Pênis: A última lição de seu treinamento.

   Uma leve respiração escapou de seus lábios enquanto se inclinava e fechava os olhos com força.

   Ela correu à porta e começou a procurar a união.

   — Abra, maldição! — Clamou ela contra a saída. — Por favor. Só se abra.

   — Não parece capaz de tal atrevimento, — disse Darius com voz estirada. — Mas não a subestimarei outra vez.

   Ela nunca o ouviu mover-se, mas de repente ali estava seus braços à altura de suas têmporas, seu fôlego quente em seu pescoço. Ela não tentou lutar desta vez. Do que lhe serviria? Ele tinha demonstrado já que não reagia... muito... à dor física.

   — Por favor. —Disse ela. — Só me deixe ir. —O batimento do de seu próprio coração trovejava em seus ouvidos. De medo, assegurou-se, não da sensual força de seu corpo tão perto do dela.

   — Não posso.

   — Sim, pode. — voltou-se, encarando-lhe, e o empurrou para trás. O impacto, quase imperceptível, causou que tropeçasse uma vez mais com o lençol. Ele a levou com ele e quando caiu, rodou e a segurou. Automaticamente ela se endireitou para lhe empurrar longe dela. Mas seus dedos se enredaram em sua camisa, causando que se abrisse o decote. Ambos os medalhões que levava se liberaram e um deles estatelado contra seu nariz

   Ela ofegou. Qual era o que pertencia ao Alex? Que tinha os olhos brilhantes? O que importava? Pensou ela então. Ela tinha vindo aqui com um medalhão e voltaria com um. A determinação soou como um surdo tambor em seu peito. Para lhe distrair, ela gritou com todo o poder que lhe permitiam seus pulmões. Agitou as pernas e se abraçou ao seu pescoço, como se estivesse se afogando. Ela trabalhou apressadamente em um dos medalhões e quando sentiu que estava aberto, baixou suas mãos e o colocou no bolso. Ela deu outro estridente grito para cobrir sua satisfação.

   — Acalme-se. —Disse-lhe, suas feições enrugando-se.

   — Me morda. Ela gritou.

   Quando ela se acalmou, ele respondeu.

   — Ficaria muito zangado se danifica meus ouvidos.

   Zangado? Ela deveria estar zangada. Não furiosa, nem perdida na raiva. Simplesmente ligeiramente chateada. De algum jeito, com este homem, que parecia ter o mais espantoso controle de sua fúria. Com uma profunda, estremecedora respiração, ela relaxou no chão. Depois de tudo, tinha o que queria e lutar com ele não faria mais que pressionar seus corpos unindo-os.

   Suas sobrancelhas se elevaram e ele piscou, transmitindo sua surpresa ante sua fácil conformidade.

   — Assim fácil? — perguntou ele, com suspeita.

   — Sei quando sou vencida.

   Darius usou sua calma como vantagem e permitiu que mais de seu musculoso peso se colocasse sobre ela. Agarrou-lhe os pulsos sobre a cabeça — algo que obviamente gostava de fazer, desde que era a terceira vez que fazia — causando que suas costas se arqueassem e seus peitos se elevassem para sua vista.

   — Deseja que te morda? — Perguntou ele, mortalmente sério.

   Ela experimentou uma breve confusão. Então se deu conta do que queria dizer. Oh, Meu Deus. Havia-lhe dito que a mordesse. Algo escuro e quente se enroscou em seu estômago, algo que não tinha nada a ver com o que sentia por este homem. Uma imagem de seus brancos dentes afundando-se em seu corpo e tomando uma pequena dentada encheu sua linha de visão. Erótico e sexual; exceto…

   Se ele era um vampiro, tinha-lhe dado um convite aberto para fazer dela sua próxima refeição.

   — Eu não quis dizer isso literalmente. — ela conseguiu chiar. — É só uma frase retórica. — Com apenas uma pausa, ela acrescentou. — Por favor. Saia de cima de mim. — Ele cheirava tão bem, tão masculino, igual ao sol, a terra e algo mais e ela estava aspirando grandes haustos dessa essência como se fosse à chave de sua sobrevivência. Ele era mais que perigoso. — Por favor. — Disse ela outra vez.

   — Eu gosto muito de onde estou.

   Essas palavras ecoaram em sua mente com tal claridade que seu corpo ofereceu uma réplica: Eu também gosto de onde está. Ela passou os dentes sobre o lábio inferior. Como ele fazia? Como ele fazia sentir-se tão estranhamente cativa e encantada, e ainda temerosa ao mesmo tempo? Era bastante possível que fosse um vampiro sanguessuga. Era tão sexy que dava água na boca. Fazia que lhe doesse em lugares que pensava que morreriam por falta de uso. Deixando-a ansiosa, fantasiando e faminta.

   Controle-se, Grace. Somente uma idiota desejaria a um homem de duvidosas origens e de motivos mais duvidosos ainda. O que queria ele dela? Estudou-lhe o rosto, mas não encontrou nenhum indício de suas intenções. Seus traços estavam completamente em branco. Seu olhar fixo sondou ainda mais profundamente, prestando atenção à cicatriz que atravessava sua bochecha, elevada e franzida, interrompendo o fluxo de suas escuras sobrancelhas. Assim de perto, observou uma cicatriz em seu nariz, como se tivesse sido feita repetidas vezes.

   Ele era obscuramente sedutor. Perigoso, repetiu sua mente.

   Deu-se conta disso com recriminação. Isso é por que me sinto tão atraída por ele. Sou uma maníaca por perigo.

   — O que lhe tem feito com as suas mãos, mulher? — exigiu de repente. Seus traços já não estavam em branco, mas sim projetavam uma ferocidade que estava além da intimidação.

   — Se lhe disser isso, — disse ela, vacilado ante aquela seriedade, — me deixará ir?

   Seus olhos se estreitaram, e ele trouxe uma de suas palmas a sua boca. Seus quentes lábios chamuscaram sua carne antes que a ponta da língua estalasse, lambendo e lavando as feridas. Correntes elétricas atravessaram seu braço e ela quase experimentou um orgasmo ali.

   — Por que está fazendo isso? — perguntou com um gemido abafado. Qualquer que fosse a razão, sua ação era completamente provocadora, encantadoramente doce e ela ofegou ante a delícia disso. — Para. — Mas inclusive enquanto falava, rogava que ele não prestasse atenção a sua petição. Sua pele ficava cada vez mais quente, suas terminações nervosas mais sensíveis. Uma entorpecida frouxidão flutuou através dela, e Deus a ajudasse, queria que essa língua seguisse mais adiante, escavando territórios mais profundos.

   — Minha saliva te curará, — disse ele, sua voz ainda dura. Mas era um tipo diferente de dureza. Mais cansado, mais aquecido, menos zangado.

   — O que fez a suas mãos? — Perguntou outra vez.

   — Subi pelas paredes.

   Ele fez uma pausa.

   — Por que faria tal coisa?

   — Tentava escapar.

   — Tola. — Resmungou ele. Um de seus joelhos pressionado entre a união de suas coxas. A dor em seu ventre se intensificava quando suas pernas se entrelaçavam.

   Ele mudou uma mão por outra, formando redemoinhos com sua língua ao longo dos cumes e ocos, fazendo-a consciente de toda classe de coisas eróticas.

   A maneira em que seus olhos vacilavam do azul claro ao dourado marrom. A maneira em que seu suave e sedoso cabelo caía sobre seus ombros e fazia cócegas na pele. Se ele planejasse machucá-la ou matá-la, certamente não se preocuparia com sua comodidade. Certamente ele não faria…

   Ele sugou um de seus dedos no interior de sua boca. Ela gemeu e ofegou seu nome. Ele fez espirais com a língua ao redor da base. Esta vez, ela gemeu incoerências e se arqueou, esmagando seus mamilos em seu peito e criando uma deliciosa fricção.

   — Isso está melhor. — Disse ele satisfeito.

   Suas pálpebras tremularam abrindo-se. Sua expressão tensa, ele sustentava suas mãos para que as visse. Nem um só arranhão aparecia em sua pele agora sã e rosada.

   — Mas como… — a confusão eclipsou o prazer. Como isso era possível? Como uma coisa dessas era possível?

   — Não sei o que dizer.

   — Então não diga nada.

   Ele poderia havê-la deixado com suas chagas e havê-la machucado, um castigo por tentar escapar, mas não o tinha feito. Não entendia a este homem.

   — Obrigado. — Disse ela suavemente.

   Ele assentiu uma tensa ação.

   — De nada.

   — Deixará agora que me levante? — Perguntou ela, temendo, antecipando? — sua resposta.

   — Não. — Ele colocou sua palma ao seu lado, mas a sustentou firme à direita. Seus dedos continuavam acariciando e riscando cada linha, como se não pudesse suportar romper o contato. — O que planejava fazer seu irmão com o medalhão?

   Por um breve instante considerou lhe mentir, algo para deter o fluxo de desejos contraditórios que corria desenfreado. Então, só brevemente, ela considerou não lhe responder absolutamente. Ela sabia instintivamente, entretanto, que ele não toleraria nenhuma dessas alternativas e isso simplesmente prolongaria seu contato. Assim que encontrou a si mesma dizendo:

   — Já falamos antes disso, e ainda não sei. Possivelmente queira vendê-lo no eBay. Possivelmente queira conservá-lo para si mesmo, para sua coleção pessoal.

   Darius franziu o cenho.

   — Não entendo. Explique-me sobre o eBay.

   Quando lhe expôs o conceito de leilão on-line, ele a olhou com um furioso cenho franzido.

   — Por que faria tal coisa? — Perguntou Darius, verdadeiramente perplexo. — Vender um artigo a um estranho é uma absoluta tolice.

   — De onde venho às pessoas precisam de dinheiro para sobreviver. E uma maneira de fazer dinheiro é vender nossas posses.

   — Aqui também necessitamos de dinheiro, contudo nunca trocaríamos nossas mais apreciadas posses. O seu irmão é muito preguiçoso para trabalhar por sua comida?

   — Que eu saiba ele trabalha muito duro. E não disse que fosse vendê-lo. Só que poderia. Ele é um viciado nos leilões.

   Darius deixou escapar um suspiro e finalmente liberou sua mão, colocando ambas as palmas dos lados da cabeça dela.

   — Se está tentando me confundir, está fazendo um bom trabalho. Por que te daria seu irmão o medalhão se tinha desejo de vendê-lo?

   — Não sei. —disse ela. — Por que se importa?

   Em silêncio, ele a olhou, afastou o olhar além dela e a olhou outra vez, seus pensamentos escuros formando redemoinhos detrás de seus olhos. Em vez de respondê-la, disse:

   — Você diz não saber nada, Grace, e ainda te encontrei na névoa. Viajou através dela. Deve saber algo mais, algo que não disse.

   — Eu nem sequer sabia que entrava em seus domínios. — A debilidade em sua voz pendeu entre eles. — Sei que não quer me fazer mal, e sei que quero ir para casa. Eu só quero ir para casa.

   Quando suas feições se endureceram perigosamente, ela voltou a repassar suas palavras na mente. O que podia haver dito para causar um efeito tão sinistro nele?

   — Por quê? — exigiu ele, a única palavra que saía dele.

   Ela enrugou a frente e o olhou fixamente.

   — Agora é você quem me confunde.

   — Há ali algum homem te esperando?

   — Não. — O que tinha isso a ver? A menos… certamente não estava ciumento. A perspectiva a assombrava. Ela não era a classe de mulher que inspirava qualquer classe de forte emoção em um homem. Não a relampejante luxúria e certamente menos ainda o ciúme.

   — Sinto falta da minha mãe e da minha tia, Darius. Sinto falta do meu irmão e meu apartamento. Meus móveis. Meu pai fez tudo antes de morrer.

   Darius se relaxou.

   — Você me perguntou por que me importava o medalhão. É o mesmo para meu lar. Farei algo para protegê-lo, justo como você faria algo para retornar ao seu.

   — Como pode o fato de eu ter o medalhão fazer mal ao seu lar? — perguntou ela. — Não o entendo.

   —Tampouco o necessita. —respondeu ele. — Onde está seu irmão agora?

   Seus olhos se estreitaram e sua mandíbula se levantou em outra amostra de desafio.

   — Não lhe diria isso mesmo que soubesse.

   — Respeito sua lealdade e a admiro, mas é em seu benefício que me diga se viajou ou não pela névoa.

   — Disse-lhe isso antes. Não sei.

   — Isto não nos leva a nenhuma parte. —Disse ele. — Que aparência tem?

   A pura teimosia se mesclava com o verde e azul de seus olhos, criando um mar turquesa. Seus lábios apertados. Darius podia dizer que não tinha planejado lhe responder.

   — É a única maneira de saber se já o matei. — Apontou ele, embora não estivesse seguro se reconheceria a qualquer de suas vítimas se voltasse a vê-las outra vez. O assassinato era sua segunda natureza, e ele apenas os olhava.

   — Se já o matou? — pronunciou em um grito estrangulado. — Mede algo mais de um e oitenta e dois. Cabelo avermelhado. Olhos verdes.

   Já que Darius não tinha vista cores antes de Grace, a descrição que lhe dava não significava nada.

   — Tem algum tipo de marca distinta?

   —Eu… eu… — quando ela se esforçou em dar uma resposta, um tremor se estendeu por sua coluna e vibrou dentro dele. Seus olhos se encheram de lágrimas. Uma gota solitária se deslizou por sua bochecha.

   Os músculos de seus braços se esticaram enquanto lutava contra a necessidade de apagar a umidade. Ele a viu deslizar-se lentamente até cair em sua clavícula. Sua pele estava pálida, muito pálida.

   Esta mulher estava mortalmente assustada.

   O clamor de sua consciência — algo que pensou que tinha se dissipado fazia muito tempo —ressoou dentro de sua cabeça. Tinha ameaçado a esta mulher, tinha trancado ela com chave no interior de seu quarto estranho e brigou com ela no chão, e apesar disso, ela retinha seu feroz espírito. O conceito da morte de seu irmão a estava quebrando como nada tinha sido capaz.

   Havia uma boa possibilidade, uma muito boa possibilidade, de que tivesse matado ao seu irmão. Como reagiria então? Aqueles olhos de mar olhariam para ele com ódio? Juraria derramar seu sangue em vingança?

   — Tem alguma marca que o diferencie dos demais? — perguntou-lhe de novo Darius, quase temendo sua resposta.

   —Ele usa óculos. —seus lábios e queixo tremiam. — São de fina armação porque acredita que lhe dão um aspecto dig… digno.

   —Não sei que são esses óculos. Explica-o.

   —Cla.. claras, or… círculos redondos para os olhos. —Seus tremores se incrementaram tanto que tinha problemas para formar as palavras.

   Ele deixou escapar o fôlego que não sabia que tinha estado retendo.

   — Não entrou pela névoa nenhum homem que usasse óculos. — Saberia por que teria encontrado os óculos depois de que a cabeça rodasse ao chão — e não o tinha feito. — Seu irmão está a salvo. — não mencionou que havia uma possibilidade de que Alex pudesse ter entrado por outro portal. O portal de Javar.

   Grace começou a chorar soltando grandes suspiros de alívio.

   — Não tinha querido pensar na possibilidade… e quando o disse… estava tão assustada.

   Possivelmente deveria havê-la deixada sozinha naquela hora, mas o alívio que irradiava dela atuava como uma corrente invisível. Não podia mover-se, não queria mover-se. Estava com ciúmes dos fortes sentimentos que tinha por outro homem, não importava que esse homem fosse seu irmão. Mais que ciúmes, entretanto, se sentia possessivo. E mais que a possessividade, sentia necessidade de consolar. Queria envolver seus braços ao redor dela e cercá-la com sua força, seu aroma. Queria marcá-la para ele.

   Quanta estupidez pesou enigmaticamente.

   O amor que possuía por seu irmão era o mesmo que ele tinha sentido por suas irmãs. Ele teria lutado até a morte para protegê-las. O teria… Seus lábios se curvaram em um grunhido, e empurrou essa linha de pensamentos a um canto escondido de sua mente.

   Grace apertou os lábios, mas lhe escapou outro soluço.

   — Pare com isso mulher, — disse ele mais severo do que tinha pretendido. — Proíbo você de chorar.

   Ela chorou mais forte. Enormes e grossas lágrimas rodando por suas bochechas, detendo-se em seu queixo, então gotejando em seu pescoço. Vermelhas manchas destacavam-se nos cantos de seus olhos e se estenderam até suas têmporas.

   Passaram horas — certamente esses longos e tortuosos momentos podiam ter sido simples minutos — até que por fim ela prestou atenção a sua ordem e se acalmou. Estremecendo-se com cada respiração, fechou os olhos. Suas longas e escuras pestanas faziam sombra sobre o potente vermelho de suas bochechas. Ele se manteve em silêncio, permitindo-lhe recuperar a compostura. Se ela começava a chorar outra vez, não sabia o que ia fazer.

   — Há… algo que possa fazer para ajudá-la? — ele perguntou, suas palavras instáveis. Quanto tempo tinha passado desde que lhe tinha devotado consolo a alguém? Não podia recordá-lo e não estava certo do por que oferecia agora.

   Suas pálpebras tremeram abrindo-se. Não havia acusação alguma nas profundidades molhadas de seu fixo olhar. Nem medo. Só compassiva curiosidade.

   — Se viu obrigado a fazer mal a muita gente? — perguntou ela. — Para salvar seu lar, quero dizer.

   Ao princípio, não lhe respondeu. Gostaria que ela quisesse acreditar no melhor dele, mas sua honra exigia que a advertisse que não fizesse ilusões sobre um homem que nunca tinha sido. Nem seria nunca.

   — Guarda sua compaixão, Grace. Engana-se se acha que me vi obrigado a fazer algo alguma vez. Tomo minhas próprias decisões e atuo por minha própria vontade. Sempre.

   — Isso não responde a minha pergunta. — insistiu ela.

   Ele se encolheu de ombros.

   — Há alternativas. Pode falar com as pessoas, se comunicar.

   Ela estava tentando lhe salvar, ele deu-se conta não sem um pequeno golpe de surpresa. Ela não sabia nada dele, nem de suas razões, nem de seu passado, nem sequer de suas crenças, e ainda estava tentando salvar sua alma. Quão… extraordinário. As mulheres ou lhe temiam ou lhe queriam, atrevendo-se a tomar a uma besta em suas camas. Elas nunca lhe ofereciam mais que isso. Ele nunca tinha querido mais. Com Grace, ele se encontrava a si mesmo desejoso de tudo o que lhe tinha dado. Ela atraía a profunda necessidade em seu interior. Necessidade que nem sequer se deu conta que possuía.

   Admitir tal profundo desejo, inclusive para si mesmo, era perigoso. Exceto, que de repente já não lhe preocupava.

   Tudo nesse momento, esta mulher, esta necessidade, parecia completamente insignificante. Não importava que tivesse atravessado a névoa. Não importava que tivesse um juramento que cumprir.

   Isso não importava.

   Ele baixou o olhar a seus lábios. Eram tão exóticos, tão maravilhosamente convidativos. Os seus próprios doíam pelos dela, uma suave pressão ou uma tumultuosa aglomeração. Ele nunca antes tinha dado um beijo, nem sequer lhe tinha importado tentá-lo, mas agora mesmo a necessidade para consumir —e ser consumido — por esses embriagadores lábios provavam ser mais forte que algo que tivesse encontrado nunca.

   Deu-lhe uma advertência. Só uma.

   — Levanta-te ou te beijarei. — disse a ela.

   Ela ficou com a boca aberta.

   — Sai de cima de mim de modo que possa me levantar!

   Ele se levantou, e ela o seguiu rapidamente. Eles permaneceram ali de pé, dois adversários congelados no momento. O estado desalinhado de seu corpo, entretanto, não tinha diminuído sua necessidade.

   — Vou beijar-te. — disse-lhe. Ele queria prepará-la, mas as palavras emergiram mais como uma advertência.

   — Disse isso se não me levantava. — ofegou ela.

   —Mudei de idéia, — disse ele.

   —Não pode. Absolutamente não.

   —Sim.

   Seu olhar foi desde sua boca aos seus olhos, e ela lambeu-se os lábios do jeito que ele queria lambê-los. Quando ela arrastou novamente o olhar, ele a encontrou, mantendo-a cativa e os rescaldos âmbar do seu próprio. Suas pupilas dilatadas, o negro quase se sobrepondo ao brilhante azul turquesa.

   Ele a capturou em seus braços e a arrastou de volta ao chão.

   — Me dará sua boca? — perguntou ele.

   Uma pausa sufocante.

   Quero isto, deu-se conta Grace com certa vergonha. Quero que me beije. Se o fogo de seu desejo tinha incendiado seu interior, ou o desejo era todo dele, queria lhe saborear.

   Seus olhares se encontraram e ela conteve o fôlego. Tal desejo. Chocou-lhe. Tinha alguma vez olhando um homem que tivesse olhado a ela, Grace Carlyle, dessa maneira? Com tal desejo nos olhos, como se fora um grande tesouro para ser saboreado? O mundo exterior retrocedeu e ela somente viu este atrativo homem. Sabendo somente da necessidade de lhe dar algo de si mesma — e tomar algo dele. Ele vivia, respirava satisfação sexual, refletiu ela, e mais perigoso que uma arma carregada, ainda era tão suave e terno como uma cama de nuvens. Realmente estou em perigo, pensou ela, adorando as contradições dele. Era um bruto ou um cordeiro — E que mais ansiava ela?

   — Não deveria querer te beijar, — respirou ela.

   — Mas o quer.

   — Sim.

   — Sim. — repetiu Darius. Sem necessidade de mais estímulo, acariciou seus lábios com os seus uma vez, duas vezes. Ela se abriu imediatamente, e sua língua entrou em interior. Ela gemeu. Ele gemeu. Seus braços subindo por seu peito e fechando-se ao redor de seu pescoço. Ele aprofundou o beijo instintivamente, escorregando e deslizando-se e beliscando sua boca justo da maneira que o tinha imaginado. Justo da maneira em que o queria, sem lhe importar se tinha direito ou não.

   Suas línguas empurraram e se retiraram devagar ao princípio, logo crescendo em intensidade, voltando-se tão pouco civilizadas como uma tormenta de meia noite. Convertendo-se em selvagens. Convertendo-se no tipo de beijo que era a causa que todos os homens perdessem o sentido de si mesmos — e estivessem contentes de perdê-lo. Suas pernas se relaxaram ao redor dele, lhe atraindo mais perto, e ele se encaixou em todos os vãos, duro onde ela era suave.

   — Darius, — disse ela em um agudo gemido.

   Seu nome em seus lábios resultou ser uma abrupta bênção.

   — Darius, — repetiu ela. — Tem um gosto bom.

   — Bem. —sussurrou ele roucamente. Cativa na mesma tormenta, ela se esfregou vigorosamente contra a dureza de sua ereção. Esfregando-se contra todo ele. A surpresa se mesclou com a excitação em sua expressão, como se não pudesse acreditar no que estava fazendo, mas sem poder fazer nada para evitá-lo.

   — Isto não pode ser real. — Disse ela. — Quero dizer, te sinto muito bem. Tão bem.

   — E você tem o sabor igual — Darius inundou a língua mais profundamente em sua boca. Sim, saboreou-a. Realmente a saboreou — Ela era doce e forte, tudo ao mesmo tempo, e indefetivamente quente. Temperada tão delicadamente como o vinho antigo.

   Tinha provado alguma vez a algo tão delicioso?

   — Ambrósia. — disse ele. — Seu sabor é como a ambrósia.

   Ele enterrou uma mão em seu cabelo, desfrutando da suavidade. Sua outra mão viajou baixando desde seu ombro pela costa, seu peito, suas costelas e sobre sua coxa. Ela tremeu, apertando suas pernas ao redor de sua cintura. Ele subiu a mão e voltou a fazer o mesmo outra vez. Ela ronronou baixo.

   Ele se perguntou que pareceria ela nesse momento, e queria ver seus olhos enquanto tomava seu tempo com ela, agradando-a em uma forma que nunca tinha feito com outra mulher. O conceito de olhá-la, vendo-a tomar seu prazer, era tão estranho como seu desejo de saboreá-la, mas a necessidade estava ali. Ele se arrancou de sua boca, interrompendo o beijo certamente a coisa mais difícil que tinha feito e levantou-se ligeiramente.

   Suas exalações eram curtas e rápidas, e quando baixou o olhar para ela, apertou a mandíbula. Seus olhos estavam fechados, seus inchados lábios separados. O feroz vermelho de suas mechas era uma exótica massa revolta ao redor de seu rosto. Suas bochechas brilhavam com um atraente rosa, e as sardas de seu nariz pareciam mais escuras, mais exóticas. Queria-lhe tão desesperadamente como ele a queria. Seu sexo perigosamente duro com o conhecimento. Ela provavelmente sentia a mesma desesperada fascinação e indiscutível paixão que ele sentia. Uma paixão que não entendia. Sua alma era muito negra, há sua muito luminosa. Eles deveriam desprezar o um ao outro. Deveriam ter a distância que desejavam.

   Ele deveria ter desejado sua morte.

   Não era assim.

   Ela abriu lentamente os olhos. A delicada ponta de sua língua apareceu e riscou seus lábios, tomando a última amostra de sua posse enquanto deixava um brilhante rastro de umidade. Quão suave e frágil ela era. Quão completamente formosa.

   — Não estou pronta para que pare, — disse ela com um sorriso sedutor.

   Ele não respondeu. Não podia. Suas cordas vocais se apertaram de repente quando algo constrangeu seu peito, algo frio e lhe queimavam ao mesmo tempo. Não deveria tê-la beijado. Ele se abaixou e ficou de joelhos, sentando-se com a perna de cada lado sobre seus quadris.

   Como podia ter permitido que passasse algo assim, sabendo que tinha que destruí-la?

   Ele era quem merecia a morte.

   — Darius? — disse ela de maneira inquisitiva.

   A culpa pousou pesadamente em seus ombros, mas ele lutou por passar por cima. Sempre tinha lutado para passar por cima. Não podia permitir a culpa em sua vida se esperava sobreviver.

   Quando continuava olhando-a, sua expressão se encheu de confusão e cautelosamente, ela se levantou sobre os cotovelos. Essa longa cascata de cachos vermelhos caía por seus ombros em uma sensual desordem, tocando-a em todos os lugares que queria tocar. Sua blusa aberta sobre um cremoso ombro.

   O silêncio se espessou entre eles. Sorrindo amargamente, molhou a ponta de dois dedos e passou-os nos exuberantes lábios, deixando que a qualidade curadora de sua saliva curasse o inchaço e apagasse os rastros de sua posse. Ela o surpreendeu chupando os dedos em sua boca justo como ele tinha feito antes.

   A sensação da ponta quente de sua língua causou que cada músculo saltasse em espera. Ele silvou ao respirar e puxou seus dedos afastando-os.

   — Darius? — disse ela, sua confusão aumentou.

   Ele tinha vindo aqui para interrogá-la, mas no momento em que a tinha visto, tocado, saboreado, aquelas perguntas tinham sumido.

   Sim, tinha arrumado para que lhe respondesse uma ou duas, mas a necessidade de capturar um brilho de seu inocente sabor tinha sido tão feroz que logo se esqueceu de seu objetivo.

   Tinha esquecido Javar. Tinha esquecido Atlantis.

   Não o esqueceria outra vez.

   Se somente pudesse demonstrar sua duplicidade, poderia matá-la agora sem uma só náusea e arrancar depois a imagem de sua mente. Como estava aquilo, não estava certo de poder forçar-se a lhe arrancar sequer uma de suas rosadas unhas. O pensamento o acovardou, derrubando-o e o encheu com a urgência de gritar aos deuses. Fracassar em agir contra ela significaria quebrar seu voto e render sua honra. Mas machucá-la significaria apagar os últimos fragmentos de sua humanidade.

   Deuses, o que ia fazer?

   Ele se sentiu esmigalhado quando cambaleou ficando em pé. Um suor frio encheu sua testa, e exigiu toda sua força para dar meia volta e dirigir-se para a porta. Ali, fez uma pausa.

   — Não tente escapar outra vez, — disse-lhe sem voltar o olhar para trás, para ela. Se ele a enfrentava, poderia perder a força que necessitava para abandoná-la. — Você não gostará do que acontecerá se o fizer.

   — Aonde vai? Quando voltará?

   — Lembre-se do que eu disse.

   O grosso marfim se abriu para ele, e entrou em seu banheiro. Então a porta fechou-se automaticamente, sem emitir nem um só ruído quando bloqueou sua perigosa beleza de sua vista.

   Grace permanecia sentada onde estava tremendo como… machucada? Ele a tinha desejado, verdade? Se for assim, por que a tinha deixado abandonada na cambaleante intensidade de seu beijo?

   Por que a deixava de todos os modos?

   Ele tinha se afastado alegremente, quase insensível, como se não tivessem feito nada mais que falar de sua enfermidade favorita.

   Ela riu sem humor.

   Tinha jogado simplesmente com ela? Enquanto ela ofegava e doía por ele, enquanto se banhava na decadência, a selvagem e a deliciosa necessidade. Tinha-a usado só para controlá-la? Para obter as respostas que pensava que possuía?

   Que ele pulou fora quem sabe se não foi melhor — pensou furiosamente. Ele era um assassino confesso, mas se tivesse ficado, ela teria se despido completamente, logo teria feito amor com ele aqui mesmo no chão.

   Por um momento em seus braços, ela se sentiu finalmente completa e não queria que essa sensação acabasse.

   Esta fome que ele despertava dentro dela… era muito intensa para ser real, mas muito real para ser negada.

   Detrás de sua fria e intocável máscara, pensou que tinha visto arder um fogo em seu interior, um tenro fogo que o lambia com doçura mais que o devora desnecessariamente. Quando tinha baixado o olhar por ela de maneira tão carnal e disse. — Quero te beijar. — tinha estado tão certa de que o fogo estava ali, chiando sob a superfície de sua pele.

   Seus hormônios longamente reprimidos gritavam cada vez que ele estava perto, lhe assegurando que qualquer contato íntimo com ele seria selvagem e mágico. Da classe que tinha fantasiado durante anos. Do tipo que lia nos romances, jogada em sua cama, desejando um homem ao seu lado.

   Chega! Tem que encontrar uma forma de sair daqui. Esquecer de Darius e seus beijos.

   Embora seu corpo protestasse por algo tão profano, esquecendo uma experiência tão transcendental, Grace enviou o beijo a um canto de sua mente e pinçou pelo medalhão de seu bolso, fixando ao redor do pescoço, onde pertencia. Ha! Toma essa, Darius.

   Ela saltou ficando em pé e girou em círculo, esperando que ao examinar o quarto uma segunda vez, encontrasse uma saída. Um fechamento oculto, um sensor, algo. Quando viu as mesmas paredes irregulares, sem que se rompesse o modelo, amaldiçoou em voz baixa. Como fazia Darius para entrar e sair sem uma palavra ou contato?

   Magia, provavelmente. Ela piscou surpreendida ante a facilidade com a qual aceitava o conceito. Magia. Ontem teria enviado a um psiquiatra qualquer um que afirmasse que os feitiços mágicos eram reais.

   Não possuindo nenhum tipo de magia própria, decidiu golpear a porta com seu ombro. Rezou por não quebrar nenhum osso enquanto se preparava para o impacto.

   Tomando ar uma vez, dois. Precipitou-se para diante.

   Nunca a bateu.

   A porta se abriu ligeiramente.

   Quase tropeçou com seus próprios pés, mas conseguiu reduzir o ímpeto de seus passos. Quando se deteve, fulminou a porta com o olhar. Se não soubesse que era impossível, juraria que estava viva e que tinha proposto atormentá-la. Não havia nenhuma razão para que se abrisse esta vez. Nenhuma exceto o medalhão… Seus olhos se abriram de par em par e ela manuseou a liga quente que rodeava seu pescoço. Tinha que ser alguma classe de chave mestra, como um detector de movimento. Isso explicava por que Darius não tinha querido que o tivesse.

   Posso escapar, pensou ela com excitação, Contemplou seus novos arredores. Não estava no corredor que tinha esperado. Estava em algum tipo de sala de banho. Havia um divã lavanda enfeitado com contas e travesseiros de cetim. Um brilhante e grande lago descansava no interior de um suporte de pedra. Colunas muito altas, enroscadas.

   Múltiplas capas de tecido penduradas do teto. O sonho de um decorador.

   Em cada um dos três cantos havia uma arcada que levava a algum lugar. Grace refletiu sobre qual direção tomar. Respirando profundamente, correu através da rota do centro. Suas pernas atalhavam a distância enquanto o compassava com os braços. As paredes consistiam em jóias empilhadas uma sobre outra. De rubi a safira, de topázio a esmeralda, os cristais estavam pulverizados por uma filigrana de ouro parecida com uma teia de aranha.

   Tinha bastante riqueza neste pequeno corredor para alimentar a todo um país. Inclusive a menos ambiciosa das pessoas teria problemas para resistir a tal luxo. Isso era exatamente o que Darius guardava, deu-se conta, a cobiça da sociedade moderna de hoje em dia. Exatamente pelo que matava.

   Com toda essa óbvia riqueza, esperava que houvesse serventes ou guardas, mas ela permaneceu sozinha enquanto corria e corria. Uma luz ao final do corredor captou seu olhar — e não, não se perdia a ironia disso. Resfolegando pelo esforço, dirigiu-se diretamente à luz. Pode que não tivesse uma vida tão emocionante a que retornar, mas ao menos teria uma vida. Tinha a sua mãe, a sua tia Sophie e a Alex. Aqui só tinha medo.

   E os beijos de Darius.

   Ela franziu o cenho, não gostando da embriagadora emoção que recebia ao lembrar seus lábios contra os dela, sua língua invadindo sua boca Oh, tão doce. De seu corpo pressionado contra o seu.

   Perdida outra vez nas lembranças de um beijo que abrasava a alma, não ouviu as frenéticas vozes masculinas até que foi muito tarde. Uma mesa de armas assobiou passando antes que Grace se detivera. A areia salpicou ao redor de seus tornozelos. Ficou com a boca aberta enquanto lhe contraía o estômago.

   Oh, Meu Deus.

   Tinha escapado de Darius só para se lançar a outros seis homens como ele.

  

   Grace ficou em pé á beira de uma enorme arena de pedra branca e mármore que parecia um restaurado coliseu romano. Só o teto prejudicava a ilusão, ostentando da mesma cúpula de cristal coberta pelo mar que compreendia todo o resto do… Edifício? Palácio?

   Ampla e larga, a arena atravessava o comprimento de um campo de futebol. O ar estava perfumado por suor e sujeira, cortesia dos seis homens que brandiam suas espadas e basicamente tratavam de aniquilar uns aos outros. Seus grunhidos e gemidos se mesclaram com os sons metálicos do metal. Contudo, tinham que adverti-la.

   Seu coração emudeceu em seu peito, e girou em círculo, tentando fugir de volta ao corredor.

   Quando ela divisou a outro guerreiro, este só estava entrando pela parte mais afastada, escapuliu a um lado, fora de sua vista. Tinha-a visto? Não sabia. Só sabia que estava bloqueando a saída mais próxima. A saída mais próxima estava bloqueada!

   — Acalme-se — sussurrou ela. Esperaria dois minutos. Certamente o corredor estaria deserto por então; certamente por um breve espaço de tempo poderia ficar ali mesmo sem que a descobrissem. Então escaparia.

   Simples. Fácil.

   Por favor, deixa que seja simples e fácil.

   — Quem te ensinou a lutar Kendrick? — grunhiu um homem. Ele era o homem mais alto dos presentes, com amplos ombros e músculos poderosos. Seu pálido cabelo estava preso em um baixo rabo-de-cavalo, e a o movimento deste açoitou-lhe a bochecha quando empurrou o seu oponente ao chão. — Sua irmã?

   O chamado Kendrick saltou ficando em pé, a espada levantada diante dele. Levava as mesmas calças de couro negras e camisa que os outros. Obviamente era o mais jovem.

   — Possivelmente foi sua irmã. — Resmungou ele. — Depois de deitar-me com ela, é obvio.

   Grace ficou boquiaberta quando umas escamas verdes apareceram momentaneamente no rosto do primeiro dos homens. Quando piscou, já tinham desaparecido.

   O loiro alto embainhou sua espada e elevou as mãos. Fez gestos a Kendrick para que se aproximasse dele.

   — Se eu realmente tivesse uma irmã, o mataria onde está. Como não a tenho, somente vou golpear-te até deixá-lo sem sentido.

   Um homem se adiantou interpondo-se entre os dois combatentes. Tinha o cabelo castanho e umas surpreendentemente tristes feições. Ele estava desarmado.

   — Chega. —disse ele. — Somos amigos. Não inimigos.

   — Cale-se, Renard. — Um menino um pouco maior que Kendrick saltou argumentando. Apontou a ponta de sua espada para o peito do triste. Úmidas mechas de cabelo castanho penduravam de suas têmporas e emolduravam a tatuagem de dragão que discorria da linha de sua mandíbula. — É hora para que você e todos os outros lucíferes aprendam que não são infalíveis.

   Os olhos dourados de Renard se entrecerraram.

   — Afasta a arma, pequeno trapaceiro, ou te degolarei onde está.

   O rosto do ‘pequeno trapaceiro empalideceu’, enquanto fazia o que lhe ordenava.

   Grace retrocedeu um passo. Respira, disse-se a si mesma. Só segue respirando. Eles vão matar uns aos outros.

   — Elegante movimento, — disse outro homem. Este tinha o cabelo loiro avermelhado e um rosto impressionantemente formoso, que contrastava com o fato de que estava polindo duas tochas largas. Uma seca diversão brilhava em seus olhos dourados. — Renard matou homens por muito menos. Acho que ajuda o saber exatamente onde cortá-los, onde fazê-los sangrar e sofrer durante dias antes que finalmente morram com misericórdia.

   Ante suas palavras, um frio suor se alojou na testa de Grace. Ela se arrumou para retroceder outro centímetro.

   — Só está tentando te assustar. — Gritou um dos moços mais jovens. — Não lhe dê ouvidos.

   — Espero que se matem uns aos outros. — Acalorada-a frase veio de um guerreiro com o cabelo negro que cravou sua arma de repente no chão. — Os deuses sabem que estou cansado de escutar vocês choramingarem.

   — Choramingar? — Disse alguém. — Isso é bonito vindo de você, Tagart.

   Kendrick escolheu esse momento para lançar-se contra o alto loiro. Com um uivo, os dois homens caíram ao chão, voando murros. Cada um dos outros homens presente se detiveram só um momento antes de lançarem-se eles mesmo à briga.

   Suficientemente estranho, que cada um deles estivesse sorrindo.

   Grace lançou uma rápida olhada ao corredor. Vazio. O alívio ameaçou derrubá-la. Ela manteve os olhos sobre os combatentes e se moveu outro centímetro para trás… então outra… e outra.

   E se encontrou chocando-se com a mesa das armas.

   Em uma repetida sinfonia de dissonância, os diferentes metais ressonaram ao mesmo tempo e se cambalearam caindo ao chão.

   Então… silêncio.

   Seis homens se detiveram, girando-se e enfrentando-a. No espaço de uns segundos suas sangrentas e machucadas expressões registraram a surpresa, a felicidade dos homens e então uma maliciosa fome. Sua respiração ficou presa na garanta. Ela se moveu colocando-se depois da mesa, bolinhas de sujeira voando sobre seus sapatos. Uma fina peça de madeira não a separaria desses homens, sabia, mas reuniu a pouca coragem que tinha como uma barreira entre eles. Ela tentou levantar uma das espadas, mas era muito pesada.

   Uma sólida parede se elevou repentinamente atrás dela. Uma parede muito viva, sólida.

   — Você gosta de jogar com a espada de um homem, verdade?

   Os fortes braços do homem lhe rodearam a cintura— e não eram os de Darius. A pele deste homem era escura, suas mãos não tão grossas. Mas mais que isso, não lhe causava a mesma onda de desejo que Darius agitava nela. O abraço deste homem só lhe causava temor.

   — Tire suas mãos de mim neste instante. — Disse ela calmamente, aplaudindo-se mentalmente. — De outra maneira se arrependerá.

   — Me arrepender ou continuarei adorando-o?

   — A quem tem aí, Brand? —perguntou um dos guerreiros.

   — Me dê um momento para descobri-lo. — Respondeu seu sequestrador. Sua voz rouca se aproximou de sua orelha em um ronronar sugestivo. — Que faz aqui, hum? — Perguntou ele. — Não se permitem mulheres neste palácio e muito menos na arena de treinamento.

   Ela tragou ar.

   — Eu…eu… Darius é…

   Ele se esticou contra ela.

   — Enviou-te Darius?

   — Sim. — Respondeu ela, rezando por que tal admissão assustasse ao homem e a liberasse. — Sim, assim é.

   Uma risada saiu retumbando dele.

   — Então prestou atenção ao meu conselho, depois de tudo. Para impedir que nos colocássemos com ele, nosso líder nos envia uma puta. Nunca o esperei. Mais ainda, nunca esperei que atuasse tão rapidamente.

   Sua mente só registrou uma parte de seu discurso. Uma puta? Uma puta! Pensavam que lhe tinham pagado para que tivesse sexo com eles, provavelmente veriam qualquer amostra de resistência de sua parte, como parte de um jogo. Ela se estremeceu.

   — Excitada já, pequena puta? — riu de novo entre dentes. — Eu também.

   Aplicando a mesma técnica que tinha utilizado com Darius, fincou o pé na virilha de seu sequestrador, então afundou o cotovelo no estômago. Ele ofegou e soltou seu aperto. Ela se voltou, voando seu punho. Os nódulos de seus dedos chocaram-se contra sua mandíbula. Com o impacto, sua mandíbula rodou a um lado, açoitando as tranças de cor arenosa contra sua bochecha. Ele uivou e a liberou.

   Liberada agora, tentou correr. Os outros guerreiros já a tinham rodeado, entretanto, detendo qualquer progresso. Seu coração deixou de pulsar. Parecia que sua sede de sangue os tivesse abandonado completamente — deixando somente luxúria.

   Um deles assinalou a Brand.

   — Acho que não gosta de você, Brand. — riu ele.

   — Apostaria que gostará de mim.

   — Nenhum de nós gosta Madox. Por que ela gostaria?

   —Por que não me trás aqui? Sei como tratar a uma mulher.

   —Sim, mas sabe como comer uma?

   Eles começaram a rir.

   Comer-lhe Bom Deus. Eles eram canibais. Queriam-na como uma puta para eles e depois convertê-la em seu aperitivo da tarde. De mal a pior. Um tremor a sacudiu, descendo por sua coluna, então se estendeu pelo resto de seu corpo. Morte por um banquete humano. Não, obrigado.

   Brand, o único que a tinha agarrado, esfregou-se a mandíbula e lhe sorriu com genuína diversão.

   — Trouxe algumas amigas, pequena puta? Não acredito que queira te compartilhar com os outros. Quando falou, ‘os outros’ começaram a rodeá-la. Sentiu-se igual a um filé de vitela em um almoço para famintos. Literalmente. Tudo o que precisavam fazer para a refeição ser completa era uma faca, um garfo e uma garrafa extra de ketchup.

   — Eu a quero primeiro, — disse o guerreiro com os ombros mais largos.

   — Não pode tê-la primeiro. Deve-me um favor e o quero. Ela é minha. Pode tê-la quando tiver feito eu.

   — Podem calar os dois — disse o mais bonito do grupo — o que tinha estado polindo a tocha. — Tenho o pressentimento de que a pequena puta vai me querer primeiro. As mulheres ficam encantadas com esta cara.

   — Não, não o fará e não, nenhum pode me ter primeiro. — Anunciou Grace. — Ninguém pode me ter. Não sou uma puta!

   O homem com a tatuagem na mandíbula sorriu abertamente provocando-a.

   — Se não quer ser nossa companheira de cama, pode ser nossa comida.

   Ela ofegou, movendo-se em círculos para evitar suas mãos estendidas. Ameaça-os, assuste-lhes.

   — Tenho um sabor ácido. — precipitou-se ela. — Demonstrou-se que provoco azia.

   Seus sorrisos se alargaram.

   — A acidez é uma coisa séria. Pode causar câncer de esôfago. Pode corroer o fundo de seu estômago!

   Perto, eles se aproximavam cada vez mais.

   — Pertenço a Darius! — precipitou-se ela então, aferrando-se a qualquer frenético pensamento que produzia sua mente.

   Cada um deles se deteve.

   — O que disse? — perguntou Brand, olhando-a com um abrasador cenho franzido.

   Ela tragou ar. Possivelmente reclamar a Darius como seu amante não era tão boa idéia. Poderia ter uma esposa — por que queria de repente destruir algo? — e estes homens poderiam ser irmãos da esposa.

   — Eu, uh, pertenço a Darius? — as palavras lhe saíram mais como uma pergunta como uma declaração.

   — Isso é impossível. — O cenho franzido de Brand se fez mais pronunciado, e seu olhar se centrou nela, inspecionando a de uma maneira diferente a que tinha utilizado antes. — Nosso rei não reclamaria a uma mulher como você como própria.

   Rei? Uma mulher, como ela? Pensavam que era o bastante boa para comê-la no jantar, para prostituir-se, mas não o bastante boa para pertencer ao seu precioso líder, Darius? Bom, isso a ofendia em altos níveis.

   Ela não podia ser mais irracional, sabia, e culpava a suas emoções superexcitadas. Transbordaram-se hoje e não era capaz de manter o controle sobre elas. Sempre tinha sido emocional, mas geralmente controlava seus impulsos.

   — Está casado? — exigiu ela.

   — Não.

   — Então, sim. — Disse ela, sem dar-se tempo para analisar seu alívio. — Ele daria a bem-vinda a uma mulher como eu. De fato, está esperando que volte. Melhor vou. Sabem como se zanga quando alguém chega tarde.

   Riu com nervosismo.

   Brand não a deixou passar. Continuou estudando-a com pasma intensidade. O que estava procurando? E o que tinha visto?

   De repente sorriu, um sorriso que se ampliava e iluminava todo seu rosto. Era extremamente bonito, mas não era Darius.

   — Acredito que diz a verdade, homens. — disse ele. — Olhem a marca de amor em seu pescoço.

   Com a rapidez de um estalo, Grace se levou a mão ao pescoço. Suas bochechas arderam. Darius lhe tinha deixado um chupão? A surpresa a impactou primeiro, então uma inesperada, ridícula e não desejada onda de prazer. Nunca antes teve um chupão.

   O que vai mal comigo? Ficando em movimento, Grace se moveu passando a Brand e aos outros. Eles a deixaram ir sem protestar. Ela correu para o corredor, esperando completamente que a seguissem. Não ouviu passos e uma olhada rápida a suas costas demonstrou que estava sozinha. Quando alcançou a bifurcação da área de banhos, deu um rodeio dirigindo-se para a abertura da esquerda. Uma brisa salgada bateu em seu rosto. Ela rogou que tivesse elegido corretamente esta vez.

   Não o tinha feito.

   Ao final, encontrou-se em uma imensa cantina. Darius estava ali, sentado a enorme mesa, seu olho enfocado na longínqua parede de janelas como se estivesse perdido em seus pensamentos. Um pesado ar de tristeza o envolvia.

   Via-se tão perdido e sozinho. Grace sentiu que seus músculos congelavam travando-a no lugar.

   Ele devia havê-la sentido, ou cheirado, ou algo, porque seu olhar se levantou abruptamente para ela, alargando-se com perplexidade, depois entrecerrando com ira.

   — Grace.

   — Fica onde está. — disse ela.

   Ele grunhiu por baixo e se levantou, uma pantera pronta para atacar. E igual a uma pantera, saltou à mesa, indo diretamente para ela. Ela rapidamente olhou ao seu redor, enlouquecida. Um lado da mesa descansava perto dela, decorada com multidão de objetos quebráveis. Ela os golpeou, fazendo que floreiros e pratos caíssem e se quebrassem jogando cristais em todas as direções. Possivelmente isso reduziria sua marcha, ou possivelmente não. De uma ou outra maneira, virou as costas e fugiu.

   Braços batendo repetidamente, passos golpeando o ébano, ela serpenteou pela esquina e se precipitou através do corredor final. Não tinha que voltar a vista atrás para saber que Darius se aproximava dela. Seus passos ressoavam em seus ouvidos. Sua fúria adquiria intensidade, ardendo a suas costas.

   Ao final do corredor, ela divisou uma ascendente escada em espiral. Aumentou sua velocidade.

   Quão perto estava da vitória? Quão perto do fracasso?

   — Volta aqui, Grace. — Chamou-a.

   Sua única resposta foi à falta de respiração.

   — Irei detrás de você. Não descansarei até te encontrar.

   — Estou cansada de suas ameaças. — Resmungou ela, lançando as palavras por cima de seu ombro.

   — Não ameaçarei mais. —Prometeu-lhe ele.

   — Não me importa.

   Mais e mais rápido, precipitava-se pelas escadas.

   — Não o entende.

   Chamando-a, que retornasse. Casa gritava sua mente. Quase em casa.

   —Grace!

   Jogando uma olhada em sua direção, saltou à névoa.

   Imediatamente seu mundo girou fora de controle e perdeu a sólida âncora sob seus pés. O enjôo a assaltou, as náuseas arderam em seu estômago. Uma e outra vez tudo ao seu redor se inundava e girava, então de um puxão, o irregular medalhão se arrancou de seu pescoço. Chiando, estendeu a mão e tentou agarrar a corrente com as mãos.

   — Nãoo! — gritou ela quando dançou fora de seu alcance. Mas imediatamente seguinte, esqueceu-se do colar.

   As estrelas piscaram em cada direção, tão brilhantes e ofuscantes com força. Grace agitou os braços e as pernas; Estava mais assustada desta vez que a anterior. E se aterrissava em um lugar mais assustador que o último? E se não aterrissava absolutamente, se não permanecia neste enigmático buraco de inexistência?

   Fortes gritos ressoaram, perfurando seus ouvidos, mas um destacou entre outros: uma profunda voz masculina que continuava clamando seu nome.

  

   Uma vez que recuperou seu sentido de estabilidade, Grace avançou lentamente pela caverna. O ar quente e úmido lhe acariciava a pele, descongelando seu interior. Seguindo os brilhos de luz, logo emergiu pela rochosa saída.

   Os familiares sons do Amazonas lhe deram a bem-vinda: o chiado dos macacos uivadores, o incessante zumbido dos insetos, a rápida corrente de um rio. Completamente aliviada, ficou em pé. Seus joelhos quase se venceram, mas se obrigou a seguir para frente, pondo distância entre este mundo e o outro.

   Enquanto corria, os sons de fundo pareciam acalmá-la. A luz do sol se desvanecia deixando uma horrenda escuridão.

   Então, o céu estalou em chuva, caindo e empapando-a. Sob o peso da água e a escuridão, viu-se obrigada a procurar refúgio sob um arbusto próximo. Depressa, depressa, depressa.

   Finalmente a chuva cessou e ela saltou, uma vez mais se lançando pelo bosque. Os nodosos ramos das árvores se estendiam lhe açoitando os braços e as pernas, salpicando as restantes gotas de chuva em seus olhos. Limpou-os e continuou movendo-se, sem alterar o passo. Os raios de luz do sol voltavam ocasionalmente, penetrando entre as nuvens e a folhagem, iluminando um traiçoeiro montão de árvores, sujeira e rochas. Os galhos se quebravam sob suas botas. Cada poucos passos lançava um tenebroso olhar por cima do ombro. Procurando, sempre procurando, temendo o pior.

   Irei atrás de você, disse Darius. Não descansarei até te encontrar.

   Ela deu outra olhada por cima do ombro… e se chocou contra o peito de um homem.

   Grace voou para trás, aterrissando de costas com um golpe. O homem com que se topou era mais alto que ela e também caiu, ficando de pé, ofegando por respirar. Ela sentou balançando-se. Tinha escapado de um grupo de guerreiros, e não ia ser capturada ou assaltada agora.

   — Whoa, quieta. — Disse outro homem, passando por cima de seu camarada caído e elevando suas sujas palmas vazias. Gotas de água orvalhavam seu boné de beisebol. — Acalme-se, não lhe faremos mal.

   Inglês. Ele estava falando em inglês. Igual ao homem estendido no chão da selva, este era de altura média, com cabelo castanho, olhos marrons e pele bronzeada. Era magro, sem músculos volumosos e usava uma camisa de lona cor bege. O logotipo da Argonautas estava costurado sobre o lado esquerdo do peito, um antigo navio com duas lanças eretas a ambos os lados. O nome de Jason se encontrava em cima do navio.

   Jason dos Argonautas, ela pensou, sem senso de humor, rindo-se interiormente.

   Alex trabalhava para Argonautas. Ela avaliou o nome de Jason em sua mente, perguntando-se se Alex teria falado dele, mas não encontrou nenhuma referência. Isso não importava. Ele trabalhava com seu irmão e isso era bastante bom.

   A cavalaria está aqui.

   — Graças a Deus, — ofegou ela.

   — Levante-se, Mitch, — disse Jason ao homem caído. — A mulher não está ferida, e não vai falar bem se você estiver. — ofereceu-lhe um cantil de água — Bebe. Devagar.

   Ela agarrou o cantil com impaciência e tirou de um gole tudo o que seu estômago podia conter. A frescura. A doçura. Nada tinha sido mais gostoso. À exceção de Darius, sussurrou sua mente. Saborear-lhe a ele era uma experiência sem igual.

   — Reduz a velocidade, — disse-lhe Jason, alcançando o cantil. — Ficará doente.

   Ela queria grunhir e morder, mas permitiu que reclamasse sua propriedade. A água gotejou descendo por seu queixo e a limpou com a mão.

   — Obrigado. — Ofegou ela. — Agora saiamos deste inferno.

   — Espere um minuto, — disse ele, cortando a distância entre eles. Agarrou-lhe o pulso e colocou dois dedos sobre seu pulso. — temos que saber quem é e o que está fazendo aqui.

   — Depois. Saíamos daqui. — ela não tinha visto Darius sair da névoa, não lhe tinha ouvido, mas não ia permitir nenhuma oportunidade. Ele poderia matar a esses homens com um mero estalo de seus dedos.

   Jason deve ter captado seu desespero, porque a olhou com os olhos alargados enquanto tirava uma 9mm.

   Glock. Alex sempre levava uma arma quando ia de expedição, ainda que a visão desta não deveria incomodá-la, entretanto o fez.

   — Há alguém atrás de você? Nem sequer lhe lançou um olhar. Estava muito ocupado escaneando a área de árvores detrás dela.

   — Não sei, — respondeu ela, seu olhar penetrando através das árvores. Que não daria de ter sua própria arma agora mesmo. — Não sei.

   — Como pode não sabê-lo? — Exigiu ele. Então suavizou seu tom e acrescentou — Se estava sendo perseguida, a que distância estaria seu perseguidor?

   — Quinze metros, possivelmente. —Sua voz apenas se elevou além de um sussurro. — Há alguém aí fora?

   — Não que eu possa ver. Robert. — Gritou, dirigindo o olhar às árvores.

   — Yeah. — Da distância, chegou uma áspera voz. Ela não podia ver quem tinha gritado a resposta e se imaginava que estava oculto nos grossos tocos e folhas.

   — Robert é um de nossos guardas, — explicou-lhe Jason. Ao Robert gritou. — Vê alguém aí fora?

   — Não, senhor.

   — Tem certeza?

   — Cem por cento.

   Depois Jason baixou a arma, ancorando-a na cintura de seus jeans.

   — Não há ninguém atrás de você. — disse a Grace. — Pode relaxar.

   —Mas…

   — Inclusive se houver alguém aí fora, temos exploradores em todos os arredores e não deixarão que ninguém se aproxime de você desde nenhum lado.

   Assim Darius não a tinha seguido. Por que não a tinha seguido? A pergunta ecoou através de sua mente, incomodando-a, confundindo-a.

   — Tem certeza de que não há um enorme homem meio nu aí fora? — perguntou ela. — Com uma espada?

   — Uma espada? — Uma intensidade escura encheu os olhos do Jason, e ele a estudou. Seu corpo pareceu surgir ao seu redor, maior do que tinha pensado. — Um homem com uma espada estava te perseguindo?

   — Queria dizer uma lança, — mentiu ela, nada segura de por que o fazia.

   Jason se relaxou.

   — Não há ninguém aí fora exceto meus homens. — disse ele confiante. — As tribos daí fora não nos incomodarão.

   Isso não tinha sentido. Darius estava tão decidido a agarrá-la. Por que não a tinha seguido?

   Ela estava dividida entre o medo e — certamente não — desilusão.

   Seus pensamentos se dispersaram quando uma onda de enjôo passou através dela. Ela cambaleou e passou uma mão na testa.

   — Quanto tempo esteve aí fora? — perguntou-lhe Jason. Colocou-lhe uma manta ao redor dos ombros. — Possivelmente tenha sido picada por um mosquito. Está tremula e roxa, apostaria que tem febre.

   Malária? Ele pensava que tinha malária? Ela riu sem vontade, lutando com o nó que se enroscava em seu estômago.

   Estava cansada e fraca, mas ela sabia que não tinha malária. Antes de voar para o Brasil, tinha tomado medicação para prevenir da enfermidade.

   — Não estou doente, — disse ela.

   — Então por que tem medo de nós, — disse ele. Sorrindo. — Não tem nada que temer de nós. Igual a você, somos americanos. Dificilmente perigosos.

   Alcançou-a outra onda de enjoos. Agarrou o agasalho impermeável mais perto de seu peito, usando seu calor para recuperar o equilíbrio.

   — Trabalha para Argonautas, verdade? — perguntou fracamente.

   — Assim é. — Disse ele, perdendo seu sorriso. — Como sabe?

   —Meu irmão também trabalha ali. Alex Carlyle. Está ele aqui contigo?

   — Alex? — Chegou à voz de outro homem. — Alex Carlyle?

   Grace voltou sua atenção a… Qual era seu nome? Mitch lembrou-se ela.

   — Sim.

   — Você é a irmã de Alex? —perguntou Mitch.

   — Sou. Onde está ele?

   Mitch era maior que Jason, com o cabelo salpicado com fios brancos e aparência ligeiramente desbotada pelo tempo. Umas linhas de tensão se bifurcavam desde seus olhos.

   — Por que está aqui? — ele perguntou.

   — Primeiro me responda. Onde está meu irmão?

   Os dois homens trocaram um olhar, e Mitch se moveu incômodo sobre seus pés. Quando ela voltou sua atenção a Jason, ele arqueou uma de suas sobrancelhas. Parecia tranquilo e casual, mas tinha um brilho especulativo em seus olhos.

   — Tem alguma identificação? — perguntou ele.

   Ela piscou ante ele e abriu os braços de par em par.

   — Vejo-me como se tivesse alguma identificação?

   Seu olhar vagou sobre ela, detendo-se brevemente em seus seios e coxas, apenas visíveis para o tom de camuflagem.

   — Não, — disse ele. — Não se vê.

   A inquietação rodou através dela. Era uma mulher sozinha, a dias de distância da civilização, em companhia de homens que não conhecia. São Argonautas, recordou-se a si mesma. Trabalham com o Alex. Está bem. Com mãos trêmulas, afastou-se o cabelo do rosto.

   — Onde está meu irmão?

   Mitch suspirou e limpou umas gotas de chuva da sobrancelha.

   — Para sermos honestos, não sabemos. É por isso que estamos aqui. Queremos encontrá-lo.

   — Viu-o? — perguntou Jason.

   Decepcionada e preocupada, Grace se esfregou os olhos. A visão começava a nublar-se.

   — Não. Não o vi. — disse ela. — Não ouvi falar dele há um tempo.

   — É por isso que está aqui? Para buscar-lhe?

   Ela assentiu, então pressionou as pontas de seus dedos contra as têmporas. Essa simples ação lhe provocou uma aguda dor de cabeça que não diminuía. O que lhe acontecendo? Enquanto ainda se perguntava, a dor em suas têmporas esfaqueou seu abdômen.

   Ela gemeu. No momento seguinte soube, era que estava dobrada vomitando, com cada fibra de seu ser rebelando-se.

   Jason e Mitch saltaram afastando-se dela como se fora resíduos nucleares. Quando por fim acabou, limpou-se a boca com a palma da mão e fechou os olhos. Mitch deu a volta rodeando-a e lhe estendeu outro cantil de água. Ele ficou a uma prudente distância.

   — Está bem? — perguntou ele.

   Com o estômago ainda revolto, bebeu alguns goles.

   — Não. Sim. — respondeu ela. — Não sei. — Onde diabo estava seu irmão? — Fazem parte da equipe de Alex?

   — Não, mas trabalhamos com ele. Infelizmente, igual a você, não ouvimos nada dele em um tempo. Simplesmente deixou de dar noticias. — Jason fez uma pausa. — Qual é seu nome?

   —Grace. Acaba de chegar ao Brasil?

   — Chegamos faz uns dias.

   Ela odiava sua próxima pergunta, mas tinha que fazê-la.

   — Você suspeita que jogou sujo?

   — Ainda não. — Respondeu Mitch. Ele pigarreou. — Encontramos um dos homens de Alex. Estava desidratado, bastante mal, mas disse que Alex o tinha abandonado para seguir a outro guia. O homem está agora em nosso navio, sendo hidratado.

   — Aonde esse outro guia o levou? — perguntou ela.

   — Não sabemos. — Seu olhar se deslizou longe dela. — Sabe que era o que estava procurando Alex? Seus companheiros de equipe balbuciam sobre, uh, Atlantis.

   — Atlantis? — Ela fingiu surpreender-se. Sim, este homem trabalhava com Alex. A julgar por suas palavras, entretanto, não sabia nada de suas intenções. Isso queria dizer que seu irmão não queria que soubesse, e Grace não ia ser quem o dissesse. Além disso, Como ia explicar ela algo tão incrível?

   — Acredito que estava tentando provar a lenda a respeito das mulheres guerreiras. Já sabe, as Amazonas.

   Ele assentiu, satisfeito com isso.

   — Quanto tempo esteve aqui fora?

   — Desde segunda-feira. — Dois miseráveis dias que pareciam uma eternidade.

   — A segunda-feira passada? —Perguntou Jason, unindo-se de novo à conversação. — Sobreviveu aqui fora — por você mesma — por sete dias?

   —Sete dias? Não. Estive aqui somente dois.

   —Hoje é segunda-feira, 12 de Junho.

   Afogando um gemido, Grace contou os dias. Ela tinha entrado na selva no dia cinco. Tinha passado dois dias vagando através do bosque tropical antes de viajar através da névoa. Hoje deveria ser sete.

   — Diz que hoje é doze? — perguntou-lhe ele.

   — Assim é.

   Meu Deus tinha perdido cinco dias. Como era isso possível? Que sim… Não. Ela cortou imediatamente o pensamento.

   Entretanto, a possibilidade seguia flutuando sobre ela.

   Ela deixou escapar um suspiro. Se não fora por esses desaparecidos dias, não perderia nem um segundo com toda essa idéia. Mas… E se tudo o que tinha passado era um mero invento de sua imaginação? Igual a uma miragem em um deserto? Quais eram as possibilidades de que um homem lhe ensinasse uma nova linguagem com um feitiço mágico? Ou lamber suas feridas e as curar? Ou beijá-la e fazê-la querer chorar pela beleza disso?

   Inconscientemente procurou pelo medalhão de seu pescoço. Seus dedos só tocaram pele e algodão, e ela franziu o cenho. Tinha-o perdido na névoa, verdade? Só não sabia, porque em realidade podia havê-lo perdido em qualquer lugar dessa selva afastada da mão de Deus.

   Sua confusão aumentou, a verdade dançando fora de seu alcance. Depois, decidiu ela. Preocupar-se-ia com diferenciar a verdade da ficção depois. Antes tinha que tomar banho e comer uma comida decente.

   Não tinha maneira de explicar suas suspeitas a esses homens sem soar total e completamente louca, assim nem sequer o tentaria.

   — Sim, na segunda-feira passada. — disse ela fracamente.

   — E esteve sozinha todo este tempo? — perguntou Jason atônico.

   — Não, tinha um guia. Abandonou-me.

   Isso pareceu lhe aplacar, e relaxou sua postura.

   — Viu Alex depois de tudo? — Deu uma tapinha em seu ombro em um gesto que tentava consolá-la.

   Ela fingiu tropeçar, livrando-se de sua mão. Não queria ser consolada ou mimada. Só queria encontrar a Alex. Quando ele entrou na Floresta Amazonas, não tinha se preocupado por ele, não tinha se preocupado que se perdesse ou se ferisse em algum lugar. Ou pior. Ele foi firme e criativo, e em seu diário tinha rido sobre fugir de sua ‘sombra’, assim que ela achava que ele não estaria em nenhum perigo real.

   — Desejaria o ter visto. — disse ela. — Estou preocupada com ele.

   — Sabe de algum lugar ao que possivelmente pudesse ter ido?— perguntou Mitch.

   — Não. Não deveria sabê-lo sua equipe?

   — Não necessariamente. — Jason suspirou revelando o brilho de uns dentes muito brancos. — Certo. — disse ele. — Eu tenho que ficar aqui e seguir investigando, mas vou mandar o Patrick — que é outro membro de nossa equipe.

   Patrick saiu das sombras em traje de camuflagem, sustentando uma semiautomática. Um rápido estremecimento a atravessou ante a vista do homem e sua arma. Ele ignorou seu transtorno e fez um movimento com o queixo a modo de saudação.

   — Ele não te fará mal, — continuou Jason. — Vou enviar o Patrick para que te leve ao nosso navio. Está equipado com material médico. Quero que aplique uma intravenosa quanto antes.

   — Não, — disse ela depois de pensar um momento. Alex possivelmente estivesse ainda na selva, só e faminto. Possivelmente precisava dela; ele sempre tinha estado ali por ela, durante os anos de câncer de seu pai, e queria estar ali para ele. — Ficarei com você e ajudarei nas buscas.

   — Temo que isso seja impossível.

   — Por quê?

   — Se estiver ferida, ou pior, será um peso nas minhas costas. Deixa que Patrick te leve ao navio. —sorriu com amabilidade. — Está atracado rio acima e não muito longe daqui, aproximadamente à uma hora de caminhada.

   — Não. Entrarei no povoado e…

   — Está a dois dias da civilização. Nunca o conseguirá sozinha. E não vou enviar nenhum de meus homens ao povoado agora mesmo. Preciso deles aqui.

   — Então ficarei aqui. Posso ajudar, — disse ela com teimosia.

   — Para sermos honestos, não seria mais que um obstáculo. Está perto do colapso, e perderíamos um tempo precioso carregando-a conosco.

   Embora não gostasse, entendia sua lógica. Sem força e energia, seria um estorvo.

   De qualquer maneira, a impotência a bombardeou porque ela queria desesperadamente fazer algo para ajudar a seu irmão.

   Possivelmente perguntaria ao homem do navio, o único que tinha passado tempo com ele.

   Deu ao Mitch e a Jason um apenas perceptível assentimento.

   — Irei ao navio.

   — Obrigado. — disse Jason.

   — Manteremos a par de nossos progressos. — Acrescentou Mitch. — Prometo.

   —Se não o encontrarem em um ou dois dias, — advertiu-lhe ela. — Voltarei aqui.

   Jason elevou os ombros em um casual encolhimento de ombros.

   —Te darei um conselho, Grace. Vai para casa quando tiver recuperado suas forças. Alex pode já estar ali, preocupado por você.

   Endireitou as costas e o avaliou com o cenho franzido.

   — O que quer dizer?

   — Há uma boa oportunidade de que ele já tenha abandonado o Brasil. Sua equipe não só mencionou que tinha seguido outra direção, também mencionaram que Alex comprou um bilhete de avião faz três dias.

   — Aonde? — Confusa, sacudiu a cabeça. — E por que estão ainda aqui?

   — Não sabemos e são ordens do Chefe, — disse Mitch, ficando em pé — Esse foi o último lugar em que foi visto. Investigaremos até que os escritórios saibam dele.

   Para casa pensou ela. Alex podia muito bem estar em casa. O conceito era muito bem-vindo depois de tudo o que tinha passado que o considerou como uma vingança. Ela girou para Patrick.

   — Estou preparada. Me leve ao navio.

  

   Outra vez vendo só em branco e negro, Darius apoiou as palmas por cima de sua cabeça, contra a parede rochosa da caverna. Olhava fixamente a névoa que formava redemoinhos. Ela tinha escapado. Grace realmente escapou. Tudo em seu interior lhe impulsionava a saltar a seu mundo e caçá-la. Agora, entretanto, suas razões não eram a que tinham sido. Era a besta dentro dele que a desejava sua proximidade… não o Guardião.

   Rugindo os dentes, permaneceu no lugar. Não importavam seus desejos, subir ao mundo da superfície não era uma opção. Não até que designasse um guardião temporário. Darius pronunciou uma maldição brutal na névoa, odiando ter que esperar. Com toda sua impaciência era uma pontada de incrível alívio. Grace viveria mais tempo e ele voltaria a vê-la, não importava onde estivesse, o longe que fosse.

   Deixou cair uma de suas mãos e apalpou o medalhão sob a camiseta. Quando sentiu só um, paralisou-se. Franzindo o cenho, jogou a mão ao bolso, encontrando unicamente o suave deslizar do couro. Sua respiração se fez tão estremecedora e fria como a névoa e uma fúria negra subiu através dele.

   Grace não só tinha escapado dele, e com bastante facilidade, além disso, tinha-lhe roubado o Ra-Dracus. Suas mãos se fecharam com tanta força que seus ossos ameaçaram converte-se em pó.

   A mulher tinha que ser encontrada. Rápido.

   Com um último olhar à névoa, abandonou a maldita caverna e entrou no palácio. Sete de seus guerreiros estavam esperando no salão.

   Eles se mantinham em formação, com os braços cruzados e as pernas separadas. Em postura de guerra. No centro estava Brand. Seus lábios estavam apertados em desgosto e o cenho franzido com severidade. Havia um malicioso brilho em seus olhos que não concordava com o resto de sua expressão.

   — Tem algo que nos dizer Darius? — disse seu primeiro no comando.

   Darius se deteve a meio passo, então ele também assumiu uma posição de pré-batalha. Seus homens nunca o tinham enfrentado de tal maneira, e amaldiçoou a si mesmo por permitir seu jogo.

   — Não. — disse. — Não tenho nada a dizer.

   — Bom, eu tenho algo a dizer para você — grunhiu Zaeven.

   Madox colocou uma mão a modo de advertência sobre o ombro do jovem dragão.

   — Esse tom fará que ganhe um golpe.

   Zaeven apertou os lábios em silêncio.

   — Não tenho tempo para jogar o seu estúpido jogo agora mesmo.

   — Jogo? — disse Renard exasperado. — Acha que estamos jogando?

   — O que estão fazendo aqui se não for tentar ganhar sua aposta? Ordenei que ficassem na arena de treinamento durante o resto do dia. É onde esperava que estivessem.

   Darius os evitou e se dirigiu para o corredor.

   — Sabemos da mulher — disse Tagart, adiantando-se.

   Uma careta prejudicava as claras linhas de seu rosto.

   Darius se deteve abruptamente e se voltou para ele. Preparou suas feições para que revelassem só simples curiosidade.

   — Que mulher é essa? — perguntou com um falso tom casual.

   — Quer dizer que há mais de uma? — Zaeven saltou diante de Tagart.

   Suas feições perderam a expressão de aço.

   — Cale-se — disse Brand ao menino.

   Voltou-se a dirigir a Darius. Suas seguintes palavras repartiram golpes a torto e a direito com tanta força como uma espada.

   — Perguntarei isso outra vez. Tem algo a nos dizer?

   — Não. — o tom de Darius era absoluto.

   O cenho de Tagart se obscureceu com um vislumbre de escamas.

   — Quanto tempo faz que se permite ter uma mulher aqui e a nós não?

   Brittan se inclinou contra a parede mais afastada. Cruzou os pés pelos tornozelos e sorriu ironicamente. O exasperante homem encontrava diversão em cada situação.

   — Eu digo que compartilhemos à mulher igual aos pequenos e amigáveis lagartos de fogo que somos.

   — Não há nenhuma mulher — anunciou Darius.

   Seus protestos saltaram ao momento.

   — Nós a vimos, Darius.

   — Brand a tocou.

   — Inclusive brigamos por ver quem a teria primeiro.

   Silêncio. Espesso e frio silêncio.

   Muito lentamente, muito casualmente, Darius deixou vagar seu olhar sobre cada homem presente.

   — O que querem dizer com que Brand a tocou?

   A pergunta levantou diferentes reações. Brittan riu entre dentes. Os dragões mais jovens empalideceram e Madox e Renard sacudiram suas cabeças. Tagart irrompeu o cômodo, murmurando.

   — Já tive bastante disto.

   Brand — os deuses o condenassem — pôs os olhos em branco.

   — Está fugindo do assunto — disse Brand. — Durante anos seguimos suas ordens e suas regras sem discutir. Disse que as mulheres não estavam permitidas, de modo que sempre nos esquecemos dos prazeres da carne enquanto residimos no palácio. Para descobrir que você tem uma puta oculta em seus aposentos para seu próprio uso pessoal, fazendo desfeitas de suas regras.

   — Ela não é uma puta — grunhiu ele.

   Em vez de oferecer uma explicação, repetiu sua pergunta anterior.

   — O que querem dizer com que a tocou?

   Seu amigo deixou escapar um exasperado suspiro e elevou suas mãos.

   — Isso é tudo? É tudo o que tem que dizer?

   — Tocou-a?

   — Ela tropeçou com uma mesa e a ajudei a manter-se em pé. Agora se concentrará?

   Darius se relaxou… até que Madox murmurou.

   — Sim, mas tinha que ‘ajudá-la’ durante tanto tempo, Brand?

   Seus lábios se apertaram com surpresa.

   Sua mandíbula se apertou com incredulidade.

   Suas fossas nasais ameaçavam cuspir fogo.

   Darius reconheceu as emoções e nem sequer tentou silenciá-las. As três martelaram através dele, quentes e famintas, quase lhe consumindo. Não queria que nenhum de seus homens tocasse em Grace. Nunca. Não ia parar para examinar o absurdo de sua possessividade. Só sabia que estava ali. Não gostava, mas ali estava.

   — Feriu-a? — exigiu.

   — Não. — disse Brand, voltando a cruzar os braços sobre o peito. — É obvio que não. Insulta-me que me tenha perguntado isso.

   — Não voltará a tocá-la. Nenhum de vocês, entendido? — seu olhar rodeou ao grupo.

   Cada homem tinha sua própria expressão de surpresa durante o conseguinte silêncio. Então, como se uma represa transbordou-se, assediaram-no com uma rápida sucessão de perguntas.

   — O que é ela para você? Leva sua marca no pescoço.

   — Onde está?

   — Qual é seu nome?

   — Quanto tempo esteve aqui?

   — Podemos vê-la outra vez?

   Ele apertou os dentes.

   — Tem que nos dizer algo — espetou Madox.

   Ou haverá uma rebelião, as palavras ficaram no ar.

   Darius inclinou a cabeça para a esquerda, sentindo ranger os ossos, seus homens inclinaram a cabeça à direita, sentindo ranger os seus. Controle. Precisava controlar-se.

   — Ela acaba de partir — disse, lhes oferecendo um pouco de informação para apaziguá-los. Amava e respeitava a todos seus homens. Tinham estado juntos por duzentos anos, mas agora mesmo eles eram mais do que sua precária disciplina podia resistir. Vários gemidos de desilusão fizeram coro, dos mais profundos barítonos aos faiscantes timbres dos mais jovens.

   — Pode trazê-la de volta? — Perguntou Zaeven com impaciência. — Eu gostei. Nunca antes tinha visto essa cor de cabelo.

   — Não voltará, não — Uma aguda pontada de desilusão lhe pegou com a guarda baixa.

   Queria vê-la outra vez — e o faria — mas não achava que a desejasse ali, em sua casa, iluminando o cômodo somente com sua presença. Não achava que esperasse encontrá-la com tanta ilusão, para enfrentá-la ou tocá-la. Tampouco achava que lhe afligiria sua perda.

   Não era à mulher a quem queria, assegurou-se a si mesmo. Somente sua habilidade para regenerar seus sentidos.

   — Tem que haver uma maneira em que possamos trazê-la de volta — disse Zaeven.

   Eles não sabiam que era uma viajante e que devia morrer, e ele não o ia dizer. Alguma vez tinham entendido seu juramento, assim que como podia lhes explicar que esta era a mais repugnante tarefa de todas?

   — Brand — clamou. — Preciso falar com você em particular.

   — Não terminamos com esta conversação — um músculo palpitou na têmpora do Madox. — Ainda não explicou suas ações.

   — Nem o farei. A mulher não era minha amante e não estava aqui para cuidar do meu prazer pessoal. Isso é tudo o que precisam saber — girou sobre seus calcanhares. — Por aqui, Brand.

   Sem outra palavra ou inclusive um olhar para trás para certificar-se de que seu amigo o seguia, Darius se dirigiu aos seus aposentos. Afundou-se com rigidez no comprido divã e ancorou as mãos atrás da cabeça. Como sua vida tinha se tornado tão caótica em somente umas poucas horas? Os homens estavam perto de amotinar-se. Uma mulher o tinha burlado — não uma, a não ser duas vezes. E embora pensasse que tinha tempo suficiente, tinha falhado em cumprir com seu dever. Suas mãos se fecharam em punhos.

   Agora tinha que deixar tudo o que conhecia e viajar a superfície.

   Apesar do caos, apesar de tudo, no momento em que encontrasse Grace a receberia com os braços abertos.

   Brand passou a um lado e se deteve quando alcançou a beirada do lago de banho. Darius sabia que se agora mesmo pudesse ver em cor, os olhos de Brand seriam de um profundo dourado cheio de desconcerto.

   — O que está acontecendo? — Perguntou seu amigo. — Não está atuando como de costume.

   — Preciso de sua ajuda.

   — Então é sua.

   — Devo viajar a superfície e…

   — O que! —A exclamação de Brand ressoou em seus ouvidos, seguida rapidamente por uma grave pausa. — Por favor, repete o que acaba de dizer. Acho que ouvi mal.

   — Ouviu perfeitamente. Devo viajar a superfície.

   Brand franziu o cenho.

   — Deixar Atlantis está proibido. Sabe que os deuses nos vincularam a este lugar. Se nós partirmos, debilitamo-nos e morremos.

   — Não vou mais que um dia.

   — E se isso for muito tempo?

   — Ainda assim tenho que ir. Houve uma… ligeira complicação. A mulher era minha prisioneira. Escapou.

   A confissão tinha um sabor fatal em sua boca.

   — Devo encontrá-la.

   Brand absorveu a informação e sacudiu a cabeça.

   — Quer dizer que a deixou ir?

   — Não.

   — Certo que não escapou por si mesma.

   — Sim, o fez.

   Ele ficou com a boca aberta.

   — Então, você não a deixou ir? — insistiu Brand, obviamente bloqueado pelo conceito de que seu líder fracassasse. — Ela conseguiu te enganar?

   —De quantas maneiras fará que lhe diga isso? A prendi, mas ela descobriu uma maneira de escapar.

   Porque me tirou o medalhão do pescoço quando estava distraído pela sensação de seu corpo sob o meu, acrescentou ele em silêncio.

   Lentamente, Brand sorriu.

   — Isso é assombroso. Apostaria a que essa mulher parece um demônio selvagem na cama e…

   Suas palavras ficaram pela metade quando advertiu o tempestuoso olhar de Darius. Ele pigarreou.

   — Por que a prendeu?

   — É uma viajante.

   Seu sorriso se desvaneceu e seus olhos perderam toda faísca de alegria.

   — Ela deve morrer. Inclusive uma mulher pode liderar uma invasão contra nós.

   — Sei — suspirou Darius.

   O tom de Brand se endureceu.

   — O que necessita que eu faça?

   — Que guarde a névoa enquanto estou fora.

   — Mas eu não sou um verdadeiro guardião. A frieza da caverna me debilitará.

   — Só temporariamente.

   Darius desviou seu olhar para o decorado teto. A água do mar que rodeava sua enorme cidade era tão feroz como sua necessidade de ver a Grace. A tentadora, a atormentadora. A inocente, a culpada. Qual era ela?

   As ondas romperam com turbulência contra o cristal, sussurrando e formando redemoinhos, afastando toda vida marinha. Tão rápido como aparecia uma onda, outra tomava seu lugar, deixando um rastro de espuma em cada prisma individual. Era este, possivelmente, um presságio de seus próximos dias? Dias de tormentas e confusão?

   Ele soltou outro suspiro.

   — O que diz Brand? Permanecerá nesta caverna e destruirá qualquer humano que passe através do portal, seja homem, mulher, menino ou adulto?

   Com só uma breve vacilação, Brand assentiu.

   — Guardarei a névoa enquanto você estiver fora. Tem minha palavra de honra.

   — Obrigado.

   Confiava completamente em Brand nesta tarefa. Somente um homem que tivesse perdido aos que amava nas mãos dos viajantes entendia realmente a importância do Guardião. Brand não deixaria entrar ninguém.

   Brand inclinou a cabeça em reconhecimento.

   — O que direi aos outros?

   — A verdade. Ou nada absolutamente. Deixo-o a sua escolha.

   — Muito bem. Irei agora para que possa preparar a viagem.

   Darius assentiu e perguntou se realmente havia alguma maneira de preparar-se para outro encontro com Grace.

   O mensageiro que tinha enviado à casa de Javar voltou quando os sons do dia começavam a despontar. Darius estava submerso da cintura para baixo em sua banheira, contemplando a magnífica vista do oceano além da janela que tinha exposto fazia só uma hora. Esta visão se converteu em um ritual noturno, lhe concedendo alguma medida de tranquilidade. Chamou o jovem dragão para que compartilhasse suas notícias.

   De pé, na borda da piscina e mudando nervosamente o peso de um pé a outro, Grayley disse:

   — Sinto muito, mas fui incapaz de entregar sua mensagem. Isso faz — tragou ar—, faz que queira gritar comigo?

   Os olhos de Darius se entrecerraram e suas mãos vagaram sobre o calor da água.

   — Propor-se a atuar contra minhas ordens simplesmente para ganhar seu jogo?

   — Não, não. — se precipitou o moço, esquecendo o jogo. — O juro. Os guardas me negaram a entrada.

   — Guardas? Que guardas?

   — Os guardas que me disseram que partisse. Os que me disseram que não me queriam ali.

   — E Javar?

   — Também se negou a falar comigo.

   — Disse-lhe isso ele mesmo?

   — Não. Os guardas me informaram de sua negativa.

   Darius franziu o cenho. Isso não tinha sentido. Por que negaria Javar à entrada a um mensageiro? Essa era sua maneira habitual de comunicação e nenhum deles teria negado ao outro. Além disso, por que um dragão rejeitaria a outro dragão?

   — Há algo mais — disse o dragão, vacilando. — Os guardas… eram totalmente humanos e levavam estranhos objetos de metal como armas.

   Estranhos objetos de metal… ficou imediatamente de pé, salpicando água por cima da beira da banheira, então caminhou nu até seu escritório e agarrou uma folha de papel e tinta, entregando ambas ao Grayley.

   — Me desenhe a arma.

   O que o jovem guerreiro desenhou parecia mais larga que a que tinha levado Grace, contudo era aproximadamente o mesmo desenho. Darius absorveu essa informação, avaliando levá-los aos homens para que decidissem.

   — Reúna os meus homens no salão. Depois disto, desejo que procure a unidade que está de patrulha na Cidade Exterior. Vorik está atuando como seu líder. Diga-lhe que quero que ele e os outros rodeiem o palácio de Javar, invisíveis, detendo qualquer que entre ou saia.

   — Ás suas ordens — o jovem dragão se inclinou e correu a fazer o que lhe tinha pedido.

   Darius secou-se com a túnica mais próxima antes de vestir um par de calças. Em que confusão se estava convertendo isto. Tinha pensado que Javar estava vivo e tinha esperado que seu tutor simplesmente tivesse perdido o medalhão. Agora isso parecia pouco provável. O que estavam fazendo os humanos no palácio de seu tutor? Humanos. Plural. Mais de um. Possivelmente um exército.

   Frustrado, Darius passou uma mão pelo cabelo. A chegada de Grace não era uma coincidência. A resposta residia nela e seu irmão. Tinha certeza disso. Encontrá-la, deu-se conta, já não era um capricho. Era uma necessidade.

   Seus guerreiros esperavam no salão. Estavam sentados à mesa, em silêncio, inseguros de suas intenções. Ele se colocou na cabeceira. Antes que pudessem pensar em começar seu jogo, disse-lhes:

   — Queriam algo para fazer e agora lhes vou dar isso. Quero que se preparem para a guerra.

   — Guerra? — ofegaram todos, havia uma corrente subterrânea de excitação em cada voz.

   — Vai permitir declarar-nos guerra aos vampiros? — perguntou Madox.

   — Não. Os humanos tomaram o palácio de Javar e usam armas estranhas. Ainda não sei se mataram aos dragões em seu interior, nem sequer sei o que estão planejando. Mas enviei Grayley à Cidade Exterior onde informará à unidade de Vorik que rodeie o palácio. Amanhã se unirão a eles.

   — Amanhã? — Madox bateu na mesa com o punho. — Deveríamos atuar hoje. Agora. Neste instante. Se houver alguma possibilidade de que os dragões estejam vivos, devemos fazer o que pudermos para lhes salvar.

   Darius arqueou uma sobrancelha.

   — Que bem vão fazer se morrerem? Temos que saber que tipos de armas controlam os humanos. Não sabemos como nos proteger delas.

   — Tem razão — disse Renard, inclinando-se para frente. — Devemos descobrir o que fazem essas armas.

   — Eu viajarei a superfície — disse Darius. — Descobrirei o que possa.

   — A superfície? — ofegou Zaeven.

   — Não pode — grunhiu Madox.

   — Afortunado bastardo — disse Brittan com um irônico sorriso.

   — Vão agora — disse-lhes Darius. — Afiem suas armas e preparem suas mentes. Brand, seus novos deveres começarão imediatamente.

   Seu amigo abriu a boca para lhe perguntar, mas mudou de opinião. Assentiu em entendimento. As cadeiras se arrastaram enquanto se apressavam a obedecer, ressoando depois os passos de seus pés.

   Darius se trancou em seus aposentos pessoais. Com Brand agora guardando a névoa, fechou os olhos e imaginou o palácio do Javar. Em segundos, encontrou-se dentro das paredes que tinha imaginado. Exceto aquelas paredes estavam estéreis, carentes de qualquer tipo de jóia ou decoração. Ele franziu o cenho. Uma ondulante névoa se estirava para o teto de prismas, e quando flutuou ao interior do cômodo seguinte, contemplou o que pareciam ser cristais de gelo dispersos pelo chão. Esses vidros projetavam uma espessa névoa.

   Inclinou-se e passou a palma sobre uns pedaços, desejando poder sustentá-los em suas mãos e sentir sua frieza. Por que não se derretiam? Franzindo o cenho com profundidade, incorporou-se. A diferença do primeiro cômodo vazio, este estava cheia de humanos. Nenhum o via, porque era igual à névoa. Ali, mas não ali. Capaz de observar, incapaz de tocar.

   Alguns dos ocupantes entravam e saíam, levando armas iguais às que havia descrito Grayley. Atados as suas costas foram uns estranhos e redondos contêineres com um único tubo que se elevava para a parte de cima. Os homens que não levavam armas levavam estacas criadas pelo próprio Hefestos. Eles cravavam essas estacas na parede e recolhiam as jóias. Onde tinham adquirido esses humanos as ferramentas dos deuses?

   Se ele tivesse sido um homem que permitisse deixar-se levar pelas emoções, Darius teria metamorfoseado na forma de dragão. Aguilhões de fúria ferveram a fogo lento sob sua pele. Observou a uma fêmea vampiro se deslizar casualmente no cômodo e lamber os lábios enquanto seu olhar recaía nos humanos. Um fio de sangue caía de sua bochecha, testemunha de uma recente alimentação. Deteve-se para falar com um humano.

   — Informe ao seu líder que temos feito tudo o que se exigiu de nós — disse na linguagem humana, arrastando um dedo por sua agora pálida bochecha. — Estamos preparados para nossa recompensa.

   O homem se estremeceu com nervosismo, mas assentiu.

   — Estamos quase preparados para entrar.

   — Não demorem muito. Possivelmente decidamos voltar nossos apetites sobre vocês.

   Com uma última lambida de seus lábios, o qual fez retroceder ao homem com temor, partiu tão tranquilamente como tinha entrado. Seu vestido branco flutuou atrás dela em sensuais ondas.

   Darius observava em choque. Vampiros e humanos ajudando-se? Inconcebível. Perplexo, voltou seu olhar sobre o resto da câmara. Seções de paredes e pisos estavam enegrecidas pelo fogo. Em uma longínqua esquina estava estendido o destroçado corpo morto de um dragão. Veran, um dos mais ferozes soldados de Javar. Uma lâmina branca lhe cobria da cabeça até os pés. Tinha várias feridas, mas não havia sangue ao seu redor.

   Esse tipo de arma podia destruir a uma criatura tão forte? Os vampiros eram fortes, sim. Os humanos criativos, sim. Mas isso não era suficiente para capturar todo um palácio dragão. Sua fúria aumentou. Darius se encontrou indo para um dos humanos, tentando curvar seus dedos ao redor do vulnerável pescoço do bastardo, mas suas mãos atravessaram ao homem igual à névoa.

   Agora mais que antes sabia que não podia enviar o seu próprio exército ali até que descobrisse como combater a esses homens e suas armas.

   Darius examinou o resto do lugar. Não encontrou sinal de Javar nem de nenhum outro de seus homens. Tinham encontrado o mesmo destino que Veran? Ou simplesmente abandonaram o lugar?

   Menos inseguro, viajou de volta aos seus aposentos. Respostas. Ele queria respostas. Respostas que suspeitava que estivessem com Grace. Esperava obter o que queria dela, precisava estar centrado, distante. Completamente insensível.

   Desumano.  

Só desejava não sentir-se tão vivo cada vez que pensava nela. Tão vital.

 Bom, tiraria sua imagem da mente. Todo esse glorioso cabelo caindo além dos ombros. Olhos mais brilhantes que o mar. Tiraria inclusive o som de sua voz dos ouvidos.

   Essa doce voz que lhe suplicava que seguisse com seu beijo.

   Em vez de tirá-la de seus pensamentos, unicamente conseguiu mantê-la aí com mais força.

   Viu-se facilmente levando a cama, estendendo-a e lhe arrancando as roupas do corpo. Imaginou separando suas doces coxas, desfrutando da suavidade de sua pele e então se deslizando em seu interior. Podia ver sua cabeça agitando-se de um lado a outro. Quase podia ouvir seus gemidos de êxtase.

   O desejo se converteu em uma embriagadora essência em suas veias, seu pênis se estirou em uma grossura insuportável. Grunhiu pela dor disso. Com a mandíbula apertada, tirou-se o medalhão do pescoço e o sustentou em sua palma.

   — Me mostre a Grace Carlyle — ordenou ele.

   Os dragões gêmeos brilharam com incandescente energia. O poder rodou dentro deles, forte, borbulhante e quando este se fez muito para contê-los, raios vermelhos como o sangue saíram disparados de seus olhos, criando um círculo de luz. Dentro da luz, o ar chispou e se espessou.

   A imagem de Grace se formou no centro.

   Nesse instante, seus sentidos cobraram vida. Não tinha entendido como um simples olhar para ela podia derrubar séculos de defesas. Ela permanecia deitada em uma pequena cama e ele a estudou. Seus olhos estavam fechados; suas bochechas pálidas, fazendo mais escuras as sardas que manchavam seu nariz e frente. Seus cachos vermelhos estavam recolhidos sobre sua cabeça, todos exceto umas poucas mechas que emolduravam suas têmporas. Levava a mesma camisa suja e algum tipo de pequeno tubo transparente lhe saindo do braço, parcialmente coberta por um fino lençol branco que a cobria até o peito. Dois machos humanos se aproximaram de sua cama.

   Darius franziu o cenho quando sua possessividade ressurgiu.

   — Parece que a morfina está funcionando — disse o homem com o cabelo escuro, sua voz um liso tom de barítono.

   — Não é somente a morfina. Administrei-lhe três sedativos diferentes. Estará fora de combate durante horas.

   — O que vamos fazer com ela?

   — O que ela quer que façamos — riu entre dentes. — Bancaremos os perfeitos anfitriões.

   — Deveríamos matá-la e acabar com isto.

   — Não necessitamos a atenção que traria seu desaparecimento, não quando seu irmão já está desaparecido.

 — Ela não deixará de procurar a Alex. Isso é muito óbvio.

   — Pode procurar tudo o que queira. Nunca encontrará.

   O de cabelo escuro se estirou e arrastou seus dedos sobre a bochecha de Grace. Ela não despertou, mas resmungou algo inteligível em voz baixa.

   — É bonita — disse.

   Um baixo e ameaçador grunhido se elevou da garganta do Darius.

   — É muito gorda — disse o outro.

   — Não é gorda, simplesmente não é anoréxica. É suave nos lugares corretos.

— Bom, guarde as mãos para você mesmo. As mulheres sabem quando seus corpos foram usados e não necessitamos suas queixas por isso. O chefe não gostaria — com uma desgostosa sacudida de cabeça acrescentou, — vamos, temos trabalho que fazer.

   Os dois humanos partiram — o que salvou suas vidas. A imagem de Grace começou a desvanecer-se. Com muita pena, Darius devolveu a corrente ao seu pescoço.

   Logo. Logo estaria com ela outra vez.

   — Lar.

   Suspirou Grace quando deixou as chaves e a carteira, depositando-os sobre a pequena mesa a um lado da porta principal. Acomodou-se em seu dormitório, o som dos ruidosos carros enchia seus ouvidos. A luz do sol impactava diretamente em sua linha de visão das abertas persianas, muito brilhante, muito alegre.

   Não estava de bom humor.

   Tinha passado a semana com os Argonautas. Apesar de que tinham sido perfeitamente solícitos com ela, tinham falhado em encontrar qualquer pista sobre o paradeiro de seu irmão. Nem sequer ela a tinha. Cada dia tinha ligado para o seu telefone celular. Cada dia tinha ligado para seu o apartamento. Nunca tinha respondido. Não teve sorte em rastrear o vôo que tinha tomado para sair do Brasil.

   Finalmente pegou o avião e aqui estava, pensando em que não sabia o que ia fazer. Dar queixa de pessoas desaparecidas? Contratar um investigador particular? Soltando outro suspiro, pegou o telefone sem fio apoiado na beira de sua mesa. Três novas mensagens de voz, todas de sua mãe.

   Grace marcou o número de seu irmão. Um tom, dois. Três, quatro, cinco. Não houve resposta.

   Chamou-lhe ao celular. Ali tampouco houve resposta.

   Pendurou e marcou o número de sua mãe.

   — Olá? — respondeu sua mãe.

   — Olá mamãe.

   — Grace Elizabeth Carlyle. Meu identificador de chamadas me diz que está ligando de casa. A acusação transbordava de sua voz. Grace a imaginou sentada na esquina da cozinha, uma mão sobre o quadril enquanto olhava as cortinas de xadrez vermelho que pendurava nas janelas.

   — Voei para casa ontem de noite.

   — Não tinha percebido que no Brasil não tinha tecnologia moderna.

   — Do que está falando?

   — Telefones, Grace. Não sabia que não havia telefones no Brasil.

   Ela revirou os olhos.

   — O rumor que ouviu que diz que há cabines telefônicas em todas as árvores da selva, bom, é falso.

   Ignorando-a, sua mãe disse.

   — Não recebi nenhuma ligação de minha única filha. Nenhuma. Já sabe como se preocupa sua tia.

   — É Grace? — disse uma segunda voz feminina do fundo. Sua ‘preocupada’ tia Sophie estava provavelmente pendurada sobre o ombro de sua mãe, sorrindo abertamente de orelha a orelha.

   As duas irmãs tinham vivido juntas os últimos cinco anos. Eram pólos opostos, mas se arrumavam para complementar uma a outra de uma estranha maneira. Sua mãe era propensa a orientar e prosperava arrumando os problemas de outras pessoas. Sophie era um espírito livre que causava problemas.

   — Sim, é Grace — disse sua mãe. — Está ligando para nos dizer que está viva e bem, e não morta na selva como temia.

   — Como eu temia? — riu Sophie. — Hei!

   — Como esteve se sentindo, mamãe? — a saúde de sua mãe tinha sido precária ultimamente. Perda de peso. Fadiga. Não sabiam exatamente o que o tinha causado.

   — Bem, só bem.

   — Me deixe falar com ela — disse Sophie.

   Uma leve pausa, um estalo de estática, então.

   — Teve sorte?

   — Não quero ouvi-lo — gemeu sua mãe ao fundo.

   Grace abriu a boca para dizer automaticamente sim, que tinha topado com um sexy guerreiro tatuado e que quase lhe tinha dado tudo o que uma mulher poderia dar a um homem. Então fechou a boca de repente. Sonhos ou miragens, ou o que queira que tivesse sido Darius, não contava na avaliação de Sophie.

   Ao longo da semana passada, ela tinha estado refletindo sobre sua experiência em Atlantis, obtendo sempre a mesma conclusão. Nada disso tinha sido real. Não podia ter sido real.

   — Não. — disse, mantendo cuidadosamente oculta a desilusão em sua voz. — Não o fiz.

   — Levou o conjunto que te comprei? A saia de lycra de leopardo que fazia conjunto com a muito curta e ajustada camiseta?

   — Não tive oportunidade.

   — Os homens enlouquecem com essas coisas, Gracie, querida. São como o peixe. Tem que enganchá-los com a isca apropriada e então puxar a linha.

   Sua mãe reclamou o telefone com um murmúrio.

   — Não permitirei que dê a minha filha lições sobre sedução — então disse a Grace. — Como vai o Alex? Está comendo suficiente? Ele nunca come o bastante quando vai a essas suas expedições.

   Com cada palavra, o temor se desenroscava dentro do Grace.

   — Não falou com ele? — Perguntou, esperando que seu medo e incerteza ficassem mascarados . — Não te ligou?

   — Bom, não. — lhe disse sua mãe. — Voltou? Voltou, verdade? E é que só não ligou?

   — Não, eu só…

   Só o que? Não sei se está comendo o suficiente porque não ouvi nada dele em várias semanas?

   — O que está acontecendo, Grace? — O tom de sua mãe estava tingido de preocupação. — Fez essa viagem especificamente para ver seu irmão. Por que não sabe como está?

   — Tem algo que ver com o homem que nos ligou? — perguntou Sophie, sua voz o bastante clara para que Grace soubesse que estava ainda pendurada no ombro de sua mãe.

   — Que homem? — perguntou. — Quando?

   — Alguém ligou perguntando por Alex faz coisa de uma semana — disse sua mãe. — Quis saber se tínhamos ouvido dele, se sabíamos onde estava. Grace, o que está acontecendo? Está me preocupando.

   Dizer-lhe a verdade ou não lhe dizer a verdade… Ela adorava a sua mãe e odiava causar-lhe qualquer preocupação. Ainda, como mãe de Alex, Gretchen tinha direito de saber que seu filho estava desaparecido. Embora a preocupação possivelmente a fizesse adoecer. Tinha que dizer-lhe, decidiu então Grace, mas não agora e não por telefone. Esperaria uns poucos dias e veria se descobria algo novo. Não havia razão para lhe causar ansiedade a sua mãe até que fora absolutamente necessário.

   — Já sabe como Alex gosta esses donuts — disse ela evadindo-se e sem mentir. — Não posso dizer com certeza que não esteja comendo bem — já que nunca o fazia.

   — Assim, está bem? — perguntou sua mãe aliviada.

   — Dir-lhe-ia se algo estivesse mau, não?

   Outra vez, evadindo-se sem mentir, já que tinha colocado as palavras como uma pergunta.

   — Você sempre diz a verdade — disse sua mãe com orgulho, então estalou a língua. — Juro, seu irmão é um anúncio andante de uma enfermidade cardíaca. Possivelmente lhe envie alguns muffins. Posso enviá-los pelo Fedex. Sabe se Fedex faz entregas no Brasil?

   — Não no coração da selva.

   — Eu lhe enviarei um DVD da Cindy Crawford — disse Sophie.

   — Duvido que em sua barraca de acampar tenha uma tomada elétrica.

   — Terá que ir a seu quarto de hotel alguma vez — disse sua mãe.

   Grace esfregou as têmporas.

   — Odeio fazer isto, mas tenho que te deixar.

   — O que! Por quê? Não me contou nada de sua viagem. Comprou algo? Visitou os nativos? Ouvi que andam por aí… — fez uma pausa e soltou uns escandalizados ofegos, — nus.

   — Infelizmente não vi nenhum. O que é uma pena, já que prometi tirar fotos para Tia Sophie.

   — Falando de Sophie, ela está perguntando se lhe comprou um suvenir.

   — Não o fiz — disse a sua tia.

   — Irei até aí em uns dias e te darei todos os detalhes. Prometo-o.

   — Mas…

   — Adeus. Amo vocês.

   Grace deixou o telefone em sua base e se encolheu. Oh, ia ser castigada por isso. Um sermão interminável seguido de um aviso cada vez que sua mãe necessitasse um favor. Recorda a vez que desligou? Chorei durante dias.

   Revirando os olhos, Grace marcou um último número. Sua amiga Meg era a chefe de reservas de uma importante linha aérea, assim podia lhe pedir a Meg que comprovasse em todas as bases de dados o nome de Alex. Não estava nas listas, mas isso não queria dizer nada. Podia ter pegado um vôo privado.

   Sem render-se, Grace agarrou as chaves, a bolsa e uma lata de Mace e os pôs em sua mochila favorita. Podia pegar um metrô no Upper East Side. Precisava encontrar a seu irmão, ou ao menos encontrar provas de que estava bem.

   Ele sempre esteve lá para ela quando crianças. Tinha sido o único em lhe enfaixar os cortes e as feridas. Foi o único que a sustentou e consolou quando seu pai morreu. Ambos viajavam muito, mas sempre arrumavam tempo para o outro.

   Por favor, por favor, deixa que Alex esteja em casa, recitou interiormente, um mantra ao ritmo do balanço do veículo contra os trilhos. Se estiver em casa, poderiam passar o resto do dia juntos. Possivelmente tinha jantado no Joe Shanghai em Chinatown, um de seus restaurantes favoritos.

   Logo estava passando diante do posto de segurança no bloco de apartamentos de Alex. Vivia nesse edifício de cinema fazia pouco tempo. Apesar de suas poucas visitas, o porteiro deve tê-la reconhecido porque a deixou passar sem mais. Depois de um breve momento no elevador, encontrou-se batendo na porta de Alex. Quando ele não respondeu, usou sua chave e entrou. Só deu três passos, então se deteve com um ofego. Os papéis estavam pulverizados sobre o espesso tapete de lã. Ou alguém tinha forçado a entrada (outra vez!) ou seu irmão o monstro da desordem partiu com muita pressa.

   — Alex — chamou ela, permanecendo na entrada.

   Não houve resposta.

   — Alex — chamou outra vez, nesta ocasião mais forte, mais desesperada.

   Nem sequer o arrastar de pés ou um leve som a saudou.

   Embora ela soubesse que não deveria, sabia que devia pedir primeiro ajuda, Grace tirou seu Mace, sustentando a lata enquanto inspecionava cada polegada do espaçoso apartamento. Sua necessidade por saber do paradeiro de Alex apagava qualquer sentido de precaução.

   Não havia intrusos esperando por ela, mas tampouco havia sinais de seu irmão. Passou ao salão e levantou um porta-retratos dela e Alex, sorrindo e de pé no Central Park com o sol brilhando ao seu redor. Sua tia tinha tirado a foto fazia vários meses quando todos tinham decidido fazer uma corrida ao redor do parque. Dois minutos correndo e Sophie tinha ofegado que estava muito cansada para continuar. Assim que tomaram uma pausa e tiraram a foto. A lembrança lhe era dolorosa.

   Desalentada, Grace fechou a porta e apoiou as costas contra ela. Uns segundos depois, um homem saiu para um passeio.

   — Desculpa — o chamou. Dirigiu-lhe um rápido sorriso ao estilo de ‘sou uma doce garota sulina’ — que proclamava ‘pode me dizer o que é isso’. — Só esperava que funcionasse. — Vive neste edifício, verdade?

   Ele assentiu brevemente.

   — Por quê?

   — Conhece o Alex Carlyle?

   — Sim — de novo perguntou. — Por quê?

   —É meu irmão. O estou procurando e me estava perguntando se o teria visto.

   Suas palavras o fizeram relaxar e dedicou-lhe um meio sorriso. Inclusive estendeu-lhe a mão.

   —Você é Grace — disse ele. — A foto que Alex tem de você em seu escritório é a de uma menina pequena. Pensei que era mais jovem.

   — No escritório? — Perguntou Grace. — Trabalha para os Argonautas?

   — Quase todo mundo aqui o faz. O edifício é de sua propriedade — ele se deteve, seu sorriso se desvaneceu em um cenho. — Infelizmente não vejo o seu irmão em semanas. Não esteve em casa nem no trabalho.

   — Sabe de alguém com quem possivelmente tenha contatado?

   —Bom, Melva do 402, esteve recolhendo suas correspondências… a vi esta manhã. É a caseira — Sussurrou como se fosse um vergonhoso segredo. — Os Argonautas não podem despedi-la. Não legalmente ao menos.

   Grace lhe dedicou seu maior e brilhante sorriso.

   — Obrigado, disse ela, partindo. Sua primeira pista. Outra corrida para o elevador e já estava batendo na porta de Melva.

   — Já vai, estou chegando — disse uma voz áspera.

   Momentos depois, a porta se abriu de repente. Melva era magra, enrugada e abrigada com um fofo penhoar branco. Guardava o equilíbrio com um bastão. A única diferença entre ela e cada avó ao longo e largo do país era que levava uma gargantilha de diamantes e pendentes de safiras.

   — Posso ajudá-la? — perguntou, sua voz áspera era testemunha de vários anos fumando.

   — Sou Grace Carlyle. Estou procurando o meu irmão e me perguntava se ele teria contatado com você recentemente.

   O olhar fixo de Melva a estudou.

   — Irmã né? Esse ardiloso moço nunca mencionou a uma irmã. Tenho que ver alguma identificação.

   Grace tirou um documento de identificação de seu bolso e permitiu a Melva que desse uma olhada à foto. A anciã assentiu satisfeita.

   — Não vejo o Alex há muito tempo. Embora, tenho suas correspondências. Estavam amontoando-se em sua caixa de correio. Pediu-me que as recolhesse por ele, mas tinha a impressão de que voltaria a semana passada.

   — Se não fosse muito incômodo, eu gostaria de levar as correspondências comigo.

   — Me dê um segundo. Ainda estou me recuperando de uma operação de quadril e me leva muito tempo dar a volta.

   Girou-se lentamente, seus diamantes cintilando à luz e desapareceu mais à frente da entrada. Quando voltou, levava um pacote cheio com envelopes de diferentes tamanhos e cores.

   — Aqui tem — firmou uma na bengala e com a outra estendeu as cartas a Grace.

   — Muito obrigado.

   Grace deu uma rápida olhada ao conteúdo. Quando nada lhe chamou a atenção, colocou-os em sua mochila. Olharia com mais tranquilidade quando voltasse para casa.

   — Necessita ajuda para voltar dentro?

   — Oh, não — Melva a despediu com um movimento da mão. — Estou bem.

   Com a mente de novo flutuando, Grace foi para fora. Ao cabo de uns segundos, sentiu um sinistro olhar cravado em suas costas, observador, penetrante. A sensação a deixou nervosa e lançou uma olhada por cima do ombro. Nada parecia fora do normal. Depois de tudo o que tinha acontecido com Alex, entretanto, não tentou convencer-se de que sua imaginação estava enlouquecendo-a. Apressou o passo e levou uma mão à mochila, apertando seus dedos ao redor de seu Mace.

   Em vez de ir diretamente a casa, deteve-se em uma cafeteria, uma loja de presentes e uma confeitaria, tentando perder-se entre a multidão. No momento em que se sentiu a salvo, o sol já estava começando a descender. Chegou ao seu edifício quando a escuridão caía por completo. Recolheu sua própria correspondência e se repreendeu por sua pouca eficácia. Onde me meti? Perguntou-se, verificando todas as janelas. A sensação de perigo parecia ser tão absurda agora.

   Exausta tanto física como mentalmente, deixou a mochila na mesinha e se afundou na cadeira de seu escritório. Ligou o computador e comprovou seu e-mail. Quando viu um remetido no endereço de Alex, datado na manhã de ontem, explodiu em um enorme sorriso e pressionou rapidamente ‘Abrir’.

‘Ei Grace, estou bem. Consegui um indício em outra parte e tive que segui-lo. Sinto o da nota, mas não houve tempo para ligar.

   Com carinho,

   Alex’

   Enquanto lia, seu sorriso ia se desvanecendo. Deveria ter estado aliviada pela nota. Isto era, depois de tudo o que tinha querido. Contatar com Alex. Mas se não teve tempo para telefonar, como ia ter tempo para escrever uma nota? Com essa pergunta flutuando em sua mente, se despiu ficando de camiseta de alça e as calcinhas, serviu-se um copo de vinho e se estendeu através da cama. Classificou meticulosamente o correio de Alex.

   Publicidade em sua maioria, com alguns postais e bilhetes através da mistura. Comprovou seu próprio correio. Seus olhos se alargaram e então se entrecerraram no momento em que viu um postal de seu pai. Seu pai! Um homem que tinha morto cinco anos, depois de uma longa batalha com o linfoma. Confusa, sacudiu a cabeça e a leu outra vez.

   Gracie Lacie, não pode vir para me ver como planejamos. Fui detido. Estarei em contato contigo. Não se preocupe. Estarei bem.

   Seu,

   Papai.

   Essa não era a letra de Alex e tinha algum tipo de código. Mas, o que significava isto e, além disso, do fato de que alguém a tinha enviado um correio falso? Possivelmente a mesma pessoa que tinha ‘detido’ a Alex. Por que tinha sido detido? E por quanto tempo? Onde estava ele agora?

   Ela estudou o postal. Enviado do Brasil, fazia três semanas. Podia ter acontecido um montão de coisas em três semanas.

   Alex dizia que não se preocupasse com ele, mas ela não podia deixar de preocupar-se. Estava preocupada. Nada disto tinha sentido.

   Uma onda de fadiga a alcançou. A luz da lua se instalou comodamente no interior de seu dormitório e o aroma das velas de canela e maçã inundou o ar. Grace deixou escapar um suspiro trêmulo e deixou a correspondência a um lado. Fechou os olhos e deitou contra a montanha de travesseiro detrás dela, perguntando-se que faria depois. Se somente Darius estivesse ali…

   Ele não é real, recordou-se a si mesma. Sem convite, sua imagem flutuou no interior de sua mente. Com seu rosto de severos ângulos, irradiava crueldade e cruel virilidade masculina.

   Deveria saber que no momento em que o viu que ele não era um invento de suas mais profundas fantasias. Os homens reais não eram como ele. Os homens reais careciam de selvageria, de ferocidade e não tinham gosto de fogo, paixão e excitação quando a beijavam.

   Os homens reais não a perseguiam e a ameaçavam ferir e então a acariciavam meigamente no próximo pulsar do coração.

   Um tremor de lembranças a atravessou, até que recordou o último feito sobre ele. Os homens reais não admitiam alegremente serem uns assassinos.

   Sua confissão a tinha assombrado, fazendo-a se sentir inesperadamente triste por ele, porque embora ele tivesse clamado que fazia suas próprias eleições, que nunca era obrigado a matar, ela vislumbrou vestígios de agonizante desespero em seus olhos.

   Tinha percebido uma interminável tortura. E nesse momento, seus olhos não tinham contido nenhum fragmento de esperança.

   Nenhum homem deveria viver sem esperança.

   Grace virou-se de lado, tomando um travesseiro com ela. Esquece a Darius e dorme um pouco. Não importa nada exceto Alex. Possivelmente a chave para encontrar viria a ela depois de uma boa noite de sonho.

   Mas… Como podia saber ela que a chave viria em um pacote de um metro oitenta e dois e noventa quilogramas?

   Darius estava de pé, ao lado da cama, contemplando a Grace.

   Estava rodeada por uma multidão de cores. Um lençol rosa de cetim embaixo dela, uma cascata de cachos avermelhados ao redor de seus ombros e uma manta esmeralda cobrindo-a. A visão era intoxicante. Parecia mais relaxada do que tinha estado em sua visão. Dormindo pacificamente, languidamente, sua expressão era suave e inocente. Desde a primeira vez que a viu, seus pensamentos tinham estado unidos a ela. Como tinha saudades de estender a mão e acariciar a delicadeza pálida de sua pele. Afundar os dedos dentro da sedosa nuvem de seu cabelo.

   Possivelmente deveria honrar ao seu juramento aqui e agora, refletiu, simplesmente para acabar com essa estranha fascinação que tinha com ela. Mas sabia que não o faria. Era um homem de estratégias. Não gostava dos fatos diante dele, e muitos ainda era um mistério. Precisava saber mais sobre esses moradores da superfície e suas armas. Só então, seu exército invadiria o Palácio de Javar e conquistaria a tudo o que estivesse no interior.

   Darius tinha passado várias horas procurando a Grace, seguindo os rastros mágicos do feitiço de entendimento. Já que os Atlantes não podiam sobreviver fora de Atlantis durante muito tempo, deveria ter estado cheio de um sentido de urgência agora que a tinha encontrado.

   Não o tinha.

   Estava aliviado.

   Com respiração desigual, Darius continuou bebendo da visão de sua atormentadora. Ela usava uma fina camiseta branca, deixando seus ombros ao descoberto e brilhante à luz da lua, deixando seus seios fartos claramente delineados.

   Seus mamilos formavam círculos sombreados que ele morria de vontade de desenhar com a língua. Observou o subir e descer de seu seio, contemplando a vida que irradiava dela. Quanto mais a estudava, mais faminto e desesperado ficava. Como soaria o batimento de seu coração sob sua mão? Estável e suave? Ou apressado e errático? Seu sangue cantava com vitalidade, precipitando-se para seu pênis e endurecendo-o dolorosamente.

   Não quero machucar a esta mulher, pensou ele. Quero saborear cada momento em sua presença.

   Sacudiu a cabeça contra tais desonrosos pensamentos.

   Tinha vivido tanto tempo para seu juramento de destruição, que não sabia o que fazer com esses adquiridos novos desejos — desejos que não se silenciaram com a distância entre eles.

   Desejos que podiam expulsar a um homem de seu caminho eleito, empurrando-lhe e açoitando-lhe até paralisar pela pena. Franziu o cenho quando lhe ocorreu algo. Possivelmente os deuses tinham criado a Grace simplesmente para castigá-lo. Frequentemente pensava que podia suportar qualquer castigo que se lhe impusesse. Se soubesse quão cruéis podiam ser os deuses…

   Grace murmurou algo em voz baixa, então gemeu suave e deliciosamente. O que estava sonhando? Estaria se enganando se negasse que desejava que sonhasse com ele. Fascinava-lhe de tantas formas. Sua engenhosidade. Sua valentia desafiando-o como nenhum homem se atreveu a fazer. Seu desafio. O que faria se deitasse ao seu lado na cama? Se a despia e saboreava cada centímetro de sua doce e macia pele, acariciando-a, provando-a, afundando-se profundamente no quente almíscar de suas coxas? Deslizando, baixando e repetindo-o lentamente?

   Arrancou seu olhar dela. Endureça-se contra ela. Distancie-se da situação. Permaneça equilibrado.

   Certo. Esta mulher era uma ameaça maior que qualquer exército. Tinha aparecido da névoa e tinha destruído completamente seu sentido de ordem. Tinha violado seus mais íntimos pensamentos, ignorando suas ordens e lhe atraindo à desonra com sua beleza.

   E ainda vivia.

   Não podia recordar a última vez que tinha tido uma mulher, mas sabia que tinha sido primitivo, selvagem e rápido, como todos seus encontros sexuais. Com esta mulher, Darius desejava algo lento e fácil. Algo suave. Igual aos seus beijos.

   Quando observou o resto do quarto, viu cortinas florais penduradas sobre ambas às janelas, cada uma, uma sinfonia de cor. Rosa, amarelo, azul, púrpura… Cores mais formosas do que se lembrava.

   Um espelho ocupava uma das paredes, enquanto que flores e videiras decoravam a outra. Folhas verdes e uvas douradas iluminadas pela falsa luz do sol. Grace era uma mulher que desfrutava da sensualidade da vida. Coisas que ele, também, desfrutava antes.

   Grace, Grace, Grace. Sua mente cantava seu nome. Se pudesse saboreá-la uma vez mais, poderia esquecê-la. Só uma mais. Encontrou-se se aproximando ao lado da cama. Empurrado por uma força maior ele inclinou-se e inalou sua exótica fragrância. Seus olhos se fecharam quando saboreou sua exótica fragrância. Acariciou suavemente seus lábios contra os dela. Perdida em seus sonhos, instintivamente tentou amoldar-se a ele.

   Sabia, entretanto, que se ela despertasse naquele momento teria lutado contra ele. Sabia com tanta segurança como sabia que sua vontade para resisti-la não sobreviveria a um contato mais corporal. Sem saber o que fazer, murmurou um feitiço de paz temporária que a manteria relaxada durante uns instantes antes que despertasse.

   Quando acabou, endireitou-se.

   — Grace — disse suavemente. — Acorda.

   — Hmm — murmurou ela.

   Seus olhos permaneciam felizmente fechados enquanto se movia, causando que os pálidos tecidos rosa e esmeralda se envolvessem e juntassem.

   — Grace — lhe disse. — Devemos conversar.

   Lentamente suas pálpebras se abriram. Ofereceu-lhe um doce e sonolento sorriso.

   — Darius? —perguntou ela com um ofego.

   Ante o som de seu nome em seus lábios, sua boca secou e encontrou-se incapaz de responder.

   — Está aqui — sorrindo amplamente, esticou os braços por cima da cabeça e ronronou. — Estou sonhando? — Considerou suas palavras e franziu o cenho. — Não parece um sonho.

   — Não é um sonho — disse ele arrastando as palavras.

   A cor de seus olhos era mais formosa que qualquer outra cor que tivesse encontrado.

   — É real? — perguntou ela, sem o menor temor por ele.

   Assentiu, sabendo que o feitiço de paz era o responsável por sua frouxidão. Era irracional, sabia, mas desejava que ele mesmo fora a causa dessa reação, não seus poderes.

   — O que está fazendo aqui?

   — Tenho mais pergunta para você.

   — Alegro-me de que veio — disse ela.

   — Preciso do medalhão, Grace. Onde está?

   Ela o observou durante um longo, sonolento momento, então se esticou e enlaçou seus braços ao redor de seu pescoço, seus seios pressionados contra seu peito. Abraçou-o aproximando-o até que estiveram nariz com nariz.

   —Perguntas depois — disse ela. — Agora beijo.

   Suas fossas nasais se ampliaram ante sua demanda. Um traiçoeiro fogo lambeu através dele. Tinha querido relaxá-la, não despertá-la sexualmente. Deuses, fez o feitiço de paz para evitar tocá-la e, contudo, aqui estava ela, lhe exigindo que o fizesse!

   — Me solte — disse ele suavemente, sabendo que poderia afastar-se quando pudesse encontrar a vontade.

   — Não quero.

   Seus dedos brincaram com o cabelo da base de seu pescoço e seus olhos lhe suplicaram.

   — Sonhei com nosso beijo a noite toda. É a única coisa que me tem feito sentir completa e o que mais quis — ela franziu o cenho ligeiramente. — Eu não sei por que lhe digo isso. Eu… por que não tenho medo de você?

   Mereço esse golpe, reprovou-se a si mesmo, mas baixou a cabeça de todos os modos. Sua admissão o atraiu com tanta segurança como um dedo lhe fazendo gestos. Estava indefeso contra seu encanto. De um momento para o outro, o aura de paz ao seu redor se desvaneceria e ela o afastaria. Até então…

   — Abre — disse-lhe ele.

   Já não se importava o tipo de homem que fazia isto. Desonroso, assim o seria.

   Ela obedeceu imediatamente. Sua língua se deslizou dentro, rodando e procurando. Seu gemido áspero se mesclou com seu irado suspiro.

   Ela era uma mescla de sabores: quente, delicioso e que o hipnotizavam. Era um sabor que só tinha experimentado uma vez, a primeira vez que se beijaram. Queria provar essa doçura uma e outra vez. Ela segurou sua camisa, então lhe acariciou o pescoço, abrindo-se a si mesma, exigindo em silêncio que não se guardasse nada. Humilhava-lhe que respondesse tão abertamente, tão desinibida e tão rapidamente.

   Uma profunda ânsia gritou para deixar que se escoasse nele florescendo e aumentando. Queria desesperadamente pressionar-se profundamente dentro dela, uma e outra vez, e tomá-la em cada posição imaginável até que esta fome se desvanecesse dele.

   Descansou sobre ela, permitindo que ambos deitassem em sua cama como tinha imaginado fazer momentos antes. Ele os fez rodar suavemente de lado. Se ela tivesse estado distraindo-o para lhe matar, teria lhe dado sua vida de boa vontade.

   A exuberante plenitude de seus seios amortecia seu peito. Além da camiseta fina, ela levava um pequeno pedaço de tecido entre as coxas. Era a mais erótica e pequena criatura, e ele realmente detestava as barreiras têxteis que evitavam estar em pleno tato com sua pele.

   Ela colocou uma perna sobre sua cintura, embalando-o tão intimamente que se afundou profundamente no oco de suas pernas. Assobiou baixinho ante o delicioso prazer. Sabia que devia afastá-la, sabia que devia começar o interrogatório. Não tinha muito tempo, já começava a sentir os debilitantes efeitos de deixar Atlantis.

   Mas não podia deter-se. Estava indefeso. Desesperado por ela.

   Tinha que possuir a esta mulher.

   Sua luxúria era perigosa, proibida, mas o tempo se deslizava fora da realidade e Darius permitiu a si mesmo sentir em vez de pensar.

   Quando o fez assim, as coisas que sempre tinha desprezado se converteram em grandes aliados.

   Ternura. Paixão. Avareza. Cálida pele feminina lhe atormentando. Sua doce essência feminina o drogava. Lisa e perfeita. Um brilho de suor cobriu seu cenho.

   Como se ela lesse a mente e adivinhasse suas necessidades, chupou sua língua, mordiscando seus lábios e estendeu sua boca para uma penetração mais profunda. Ensinou-lhe o caminho, lhe consumindo pouco a pouco.

   E ele deixou fazê-lo. Teria rogado que continuasse se necessário.

   Ele arrastou uma mão sobre seu corpo, seguindo a aveludada textura de sua pele, primeiro ao longo da coluna, depois, sobre a redondeza de seu traseiro. Ela gemeu, e ele deslizou seus dedos entre suas pernas, permitindo-lhes viajar acima e abaixo sobre sua calcinha, seu úmido calor e, logo, sob sua camiseta.

   — Amo a sensação de suas mãos — ofegou ela quando as pontas de seus dedos acariciaram seu mamilo. Ele traçou círculos sobre o duro botão com a ponta de seu dedo. — Tão bom.

   Ela havia lhe dito antes e ele saboreou suas palavras de todos os modos. Estas faziam que cada nervo dançasse e clamasse por agradá-la. Lambeu-lhe o pescoço e acariciou contra ele, apoiando sua ereção no pulsante coração de seu desejo. Seus abafados gemidos se mesclaram, o seu forte e o dela rouco. O que só deixava claro que ambos necessitavam mais.

   — Quero-a nua — disse com voz entrecortada.

   — Sim, sim.

   Impaciente por vê-la, rasgou as dobras de sua camiseta em dois. Ela não se assustou por sua ação; em vez disso, arqueou as costas, oferecendo-se a ele. Dizendo-lhe em silêncio que fizesse com ela o que quisesse.

   Seus seios saltaram livres, revelando dois rosados mamilos, ambos tensos e ofegantes. À luz da lua, sua pele brilhou igual à nata fresca e uma pequena jóia cintilou em seu umbigo.

   Ele se deteve e acariciou a pedra com os dedos.

   — O que é isto? — perguntou.

   Ela molhou-se os lábios.

   — Um piercing de umbigo.

   Nunca tinha ouvido tal coisa, mas elogiados os deuses por esta criação. O erotismo de ver uma jóia descansando no côncavo de seu abdômen quase o derruba. Com seus músculos tensos, inclinou a cabeça e passou a língua sobre o pequeno botão. Ela ofegou e tremeu. Seu corpo saltou em resposta.

   — Não deveria tê-lo feito — disse ela, agarrando seus ombros, pedindo-lhe com a mordida de suas unhas. — Não sou magra o bastante.

   — É a visão mais formosa que alguma vez tenha contemplado.

   Seu pesado olhar encontrou a seu. Ela abriu a boca para protestar, então ele cavou sua mandíbula e a lambeu. Esticou a mandíbula, tomando mais dela, afundando-se em seu interior. Enquanto seus dedos continuavam acariciando a jóia, deixou um rastro de beijos sobre seu ombro e pescoço, então se moveu aos seus seios. Mordendo o lábio, gemendo, arqueou-se para ele, deixando ele sugar profundamente seus mamilos, com fome. Queria saborear tudo dela ao mesmo tempo: seu estômago, seus mamilos, seu centro.

   — Darius? — disse, seu tom espesso e drogado com excitação.

   — Hmm?

   Embora seu corpo exigisse terminar o que tinha começado, continuou saboreando-a. Continuou deleitando-se nela.

   — Quero minhas mãos sobre todo seu corpo.

   Deteve-se, baixando o olhar para ela e pensando que devia ter ouvido mal. Nenhuma mulher havia lhe dito antes nunca nada igual. Possivelmente as deixava muito rapidamente. Ou, possivelmente, tinham sido tão indiferentes como ele o era com elas.

   — Me diga o que deseja me fazer — sua voz emergiu rouca, surpreendida.

   — Quero te agradar — seus olhos eram iguais às chamas turquesa. — Muito prazer.

   — Como?

   —Te beijando igual a você está me beijando. Tocando você igual está me tocando.

   — Onde?

   Não podia deixar de fazer perguntas. Necessitava as palavras.

   — Em todos os lados.

   — Aqui? — ele deslizou sua mão dentro de sua calcinha, sentindo a suavidade de seu pêlo e mergulhou dois dedos dentro de sua sedosa umidade.

   — Deus, sim! — gritou ela. Fechou os olhos e moveu seus quadris contra seus dedos. Gemeu. — Isto é maravilhoso… isto me faz… Oh Meu Deus!

   — Quer me tocar desta maneira, doce Grace? Entre as pernas?

   — Sim. Oh, sim — pronunciou Grace em uma forçada exalação e passou as mãos sob sua camiseta e através das tatuagens negras sobre seu peito.

   As pontas dos mamilos se endureceram sob suas palmas com um profundo tinido de prazer que sacudia todo seu corpo.

   Seus dedos a estiravam, mas Oh, Senhor, o prazer. O polegar de Darius encontrou e rodeou seus clitóris. Perdida na magia das sensações agarrou-se a seus braços e se deixou ir. Tão perto… quase ali.

   — Vejo que você gosta disto — sussurrou ele. — Te tocar desta maneira me agrada mais do que mereço.

   Ele esmagou seus lábios contra os seu em um profundo beijo com a boca aberta que lhe roubou o ar dos pulmões. Estava beijando-a da maneira em que um homem beija uma mulher justo antes de afundar-se em seu corpo. Beijando-a do modo em que precisava ser beijada. Seus joelhos apertaram sua cintura e lhe agarrou o traseiro com as mãos. Seus dedos nunca deixaram de trabalhar nela.

   — Quero com tanto desespero te fazer minha — disse através dos apertados dentes.

   Algo quente e selvagem explodiu no interior dela justo então, sem permitir a nenhum dos dois ir lentamente. Queria fazê-la sua mulher, mas ela necessitava que o fizesse. Ela afundou as mãos em seu cabelo, segurando-a enquanto aprofundava o beijo. Outros homens a tinham beijado, mas esta era a primeira vez que experimentava um beijo com todo seu corpo. Era a primeira vez que um homem a fazia sentir como se fora todo seu mundo.

   A grossa ereção pulsava contra sua coxa e a necessidade de ter ele dentro dela, ser uma parte dela, consumia-lhe de coração e alma.

   — Está grosso e duro. Amo você, Darius — Disse ela, as palavras saindo de um lugar secreto dentro dela. A parte mais honesta de si mesma, uma parte que não podia negar, embora sabia que o faria. — Faça-o. Faça amor comigo.

   — Eu…

   Um golpe de razão impactou no subconsciente de Darius. Não podia fazer amor com esta mulher. Fazê-lo e depois destruí-la, seria a coisa mais rasteira de tudo o que tinha feito no passado.

   Ela passou a ponta da língua pelo pescoço, subindo por seu queixo e dando pequenas mordidas ao longo de sua mandíbula.

   — Quero fazê-lo contigo cada noite. Justo… — beijo —, desta… — dentada —, maneira.

   Cada noite. A única coisa que ele não podia lhe dar. Tinha um dever a cumprir. Tocar e saborear a esta mulher não era parte disso, por mais que desejasse outra coisa. Cheio de culpa, quebrou todo contato, arrancando-se dela e saltando fora da cama. Ficou de pé, olhando-a, lutando por controlar-se. E perdendo. Seu sabor estava ainda em sua boca.

   Suas bochechas estavam coloridas iguais a sua rosada nudez. A luz da lua captava a umidade de seus lábios, fazendo-os brilhar, lhe chamando a prová-los uma vez mais. Aproximar-se dela outra vez seria pura loucura, pensou ele aborrecido consigo mesmo. Ainda, cada instinto que possuía gritava que ela era dele. Que lhe pertencia e que era sua única razão de viver. Sua conquista — não, sua rendição — seria sua maior vitória. Mas inclusive, ainda quando ele se entretinha com esses selvagens pensamentos, negou-se a eles.

   Javar tinha se apaixonado por uma mulher. Faz muitos anos, seu antigo tutor tinha tomado a uma fêmea dragão como esposa. Ela tinha suavizado a Javar, fazendo que relaxasse seus deveres. Tornou-se menos cauteloso com a névoa, nem sequer matava com tanta rapidez. Essa lentidão quase o tinha conduzido à morte. Ou pior. Inclusive agora, Javar possivelmente estivesse prisioneiro em algum lugar, sendo torturado por seu conhecimento e autoridade sobre a névoa.

   Darius não podia permitir o mesmo para ele. Suavizar-se significaria a destruição de Atlantis.

   A irritação surgiu através dele — pelo que não podia ter, por isso não deveria querer. Como podia o simples toque dos lábios de Grace e seu corpo lhe reduzir a um lagarto de fogo enfocado unicamente nas sensações? E como um ser como ela deixava vislumbrar tudo o que tinha desaparecido de sua vida? Carinho. Amor. Uma maneira de escapar da escuridão.

   Permitindo-se conhecer o doce desfrute de seus braços, de seu corpo, podia destruir tudo o que se esforçou tão duramente para construir. Ela era vida e luz e ele era morte e sombras. Unir seus corpos seria uma loucura maior que simplesmente permitir que ela vivesse com o conhecimento da névoa.

   — Temos que parar — disse ele.

   As palavras foram arrancadas. Convocou toda sua força, toda sua resolução.

   — Não. Não pare.

   Ela se sentou muito devagar, um cenho franzido danificando seus traços. Seus olhos estavam ainda pesados e nublados pelo sonho, ainda relaxada pelo feitiço de paz. Piscou.

   — Quero que faça amor comigo. Preciso que faça amor comigo. Estou perto. Tão perto do clímax.

   — Cubra-se — ele disse as palavras inclusive mais duras que antes.

   Se não o fazia, possivelmente ele pediria que se despisse por completo.

   A frente de sua camiseta estava rasgada, revelando essas curvas perfeitas. Quando não se apressou a obedecer, inclinou-se e agarrou sua camiseta, cuidando de não tocar sua pele. Estava sendo empurrado além de sua resistência, um toque mais… Se sua vontade estava se debilitando por sua distância com Atlantis ou pela mesma Grace, não sabia. O suor lhe desceu pelas sobrancelhas enquanto tentava uni-los, cobrindo parcialmente seus peitos, deixando ainda uma tentadora quantidade à vista.

   — O que está fazendo? — perguntou ela, dirigindo a vista a suas mãos, vendo a mesma imagem que via ele.

   Sua escuridão contra sua palidez. Sua força contra sua feminilidade.

   Ele se afastou, sem responder.

   Grace piscou. Sacudiu a cabeça. A embriagadora paixão ainda a mantinha em uma maravilhosa névoa. Feriu-se. Deus, como doía. Ao princípio, tinha dito a si mesma que Darius não era mais que outro invento de sua imaginação, mas sabia a verdade. Agora sabia. Ele era real e estava aqui. Tinha prometido que ia atrás dela e tinha feito.

   Um tremor lhe percorreu a coluna. Como tinha convencido a si mesma de que aquelas poucas horas com ele em Atlantis tinham sido nada mais que produto de sua acalorada imaginação, não sabia. E agora não importava. Não importava por que tinha vindo. Tudo o que importava era que estava ali e a desejava.

   O olhar de Grace viajou ao longo do corpo de Darius. Usava as mesmas calças de couro negro que antes. Em vez da camisa, entretanto, levava uma camiseta negra que marcava cada músculo, delineando cada tendão.

   Enquanto o olhava, a pacífica frouxidão tecida tão deliciosamente em seu sangue começou a desvanecer-se. Os cantos de seus lábios baixaram quando um único golpe de luz da lua golpeou o rosto de Darius, fazendo que seus olhos marrons dourado brilhassem. Ela se deteve. Dourado? Antes, em Atlantis, seus olhos tinham sido azuis. Um azul gelo tão frio como o que implicava a cor. Agora era um quente marrom dourado e insinuavam um inexprimível prazer, mas também uma assombrosa dor tão profunda que lhe assombrava de que ele não se dobrasse sob a carga disso.

   Suas feições apertadas e seus olhos iluminados. Acesos até que esse frio e cristalino olhar esteve de volta.

   Que estranho, pensou ela, sacudindo a cabeça.

   — A muito do que temos que falar, Grace — disse ele. — O cortante tom de sua voz deslizou-se como música através dela. — Quando terminar de se cobrir, começaremos.

   Ali estava ela, oferecendo-se a ele apesar de tudo e ainda não queria nenhuma parte. A rejeição doía profundamente.

   Deve ter vacilado muito tempo, porque ele acrescentou.

   — Faça. Agora — disse apertando a mandíbula.

   A inquietação a golpeou transpassando cada uma das outras emoções que trabalhavam nela, murchando seu relaxamento um pouco mais. Este era o homem que tinha ameaçado machucar-lhe. Este era o homem que a tinha açoitado e a tinha aprisionado. Não o homem que a tinha sustentado com tanta ternura, que a tinha beijado tão apaixonadamente.

   — Darius? — disse ela com uma fibra de incerteza.

   — Utiliza o lençol — ele respondeu.

   — Darius — repetiu, ignorando sua ordem.

   Ele elevou o olhar ao teto, como se rogasse por uma intervenção divina.

   — Sim, Grace?

   — O que está acontecendo?

   Essa era uma pergunta estúpida, mas não podia pensar em nada mais para dizer.

   —Disse que viria por você, assim o fiz.

   Ela tragou.

   — Por quê?

   Antes que tivesse tempo de piscar, ele desembainhou uma pequena lamina da cintura de sua calça e sustentou a afiada ponta contra o seu pescoço. O contato foi ligeiro, não tanto como para sangrar, mas sim o suficiente para picar. Ela ofegou e gemeu, o som se mesclou e ecoou nas paredes.

   Darius arqueou uma sobrancelha.

   — Vamos ter um bate-papo, você e eu.

   — Não viajou todo este caminho para falar — ela disse-lhe.

   E tampouco tinha viajado até aqui para lhe fazer amor. Ela tragou. O que queria exatamente dela?

   — Por agora a conversação é tudo o que quero de você — a lâmina ficou suspensa no ar por outra fração de segundo antes de deslizar-se a seu lugar. — Não esqueça que sou perigoso.

   Sim, era perigoso. E se o agora era para falar, o que seria depois?

   Lutando com um frio suor e um estremecimento de temor, Grace pôs-se de pé. O lençol e o cobertor caíram aos seus pés. Darius permaneceu no lugar, como se não lhe importasse nada do que ela pudesse fazer.

   Decidida, alcançou a mochila de cima da mesinha de noite, derrubando a taça vazia em sua pressa.

   Recolheu seu Mace e sem nenhuma vacilação, borrifou em seus olhos. Enquanto seu rugido ecoava em seus ouvidos, ela saiu pela porta do dormitório.

  

   Tudo aconteceu em questão de segundos.

   Em um momento atravessava correndo a sala de estar e, ao seguinte, Darius a abordou desde atrás. Empurrando-a de rosto no chão. Lançaram-se sobre o sofá e o impacto arrancou-lhe cada molécula de oxigênio de seus pulmões.

   Quando lutou por respirar, ele se estirou sobre ela e agarrou-lhe os pulsos por cima da cabeça. Sua posição favorita, obviamente. Ela não teve tempo para assustar-se.

   — Minha alma te pertence e a tua me pertence — cantou, sua voz estranha, hipnótica.

   Seu olhar se fechou no seu, olhos azul gelo contra incerteza turquesa. As bordas de seus olhos eram vermelhas e estavam dilatados, mas quando olhou para ele, todo rastro do tóxico spray se desvaneceu.

   — O que está fazendo? — ofegou ela, enjoando-se cada vez mais.

   — Atados estaremos — continuou ele, — desde esta lua até a seguinte, então seremos livres.

   Seu sangue girou em suas veias quando uma estranha, obscura e irresistível essência a invadia. Sombria, tão escura. Dispersos pensamentos a atravessaram, imagens imóveis, em branco e preto; imagens do terror de um menino, ferido e procurando o amor que nunca encontrou. Imagens de desolação e uma última onda de emoções.

   A infância de Darius.

   Ela se encontrava na periferia de uma visão, olhando fixamente um sangrento massacre. Homens, mulheres e crianças estendidos imóveis nas poças de seu próprio sangue. O menino ‘Darius’se ajoelhava sobre um dos pequenos. Uma garotinha. O longo cabelo negro formava um rio de tinta ao redor de seu rosto e ombros, misturado com o sangue que emanava do seu pescoço. Usava um vestido da cor da safira que estava recolhido ao redor de sua cintura. Seus olhos estavam fechados, mas havia uma promessa de beleza em cada uma das linhas de seu rosto ligeiramente redondo.

   Suavemente, Darius baixou a barra do vestido até seus tornozelos, cobrindo sua exposta carne. Permaneceu ajoelhado e com o olhar elevado para a cúpula de cristal. Golpeou com um punho no sujo chão e uivou, o som mais animal que humano, mais tortura da que nenhum menino deveria ter sofrido.

   Grace queria soluçar. Encontrou-se a si mesma estirando-se, esperando agasalhar ao menino em seus braços. Mas no momento de mover-se, voltou em uma piscada à realidade. Darius ainda colocado sobre ela.

   — O que você me fez? — gritou.

   Ele não respondeu imediatamente. Seus olhos estavam fechados, como se estivesse perdido em sua própria visão. Quando finalmente abriu os olhos, disse.

   —Vinculei a ambos — parecia satisfeito. — Durante um dia, deverá permanecer em minha presença. Não haverá mais escapatórias.

   — Isso não é possível.

   — Não? Não pode entender minha linguagem? Não viajei até aqui, Grace Lacie? — acrescentou suavemente.

   Ela ofegou.

   — Como conhece esse nome?

   — Seu pai te chamava assim.

   — Sim, mas como sabe?

   — Vi-o no interior de sua mente — disse simplesmente. Ficou em pé e ela retrocedeu até a beira do sofá. — Vá ao seu quarto e se vista — ele disse. — Coloque algo que te cubra do pescoço até os pés. Temos muito que discutir e não temos muito tempo.

   — Não vou mover-me.

   Seu olhar se entrecerrou.

   — Então eu mesmo a vestirei.

   Com essa ameaça soando em seus ouvidos, Grace saltou e deslizou-se ao seu redor. Quando alcançou o dormitório, fechou rapidamente a porta e fechou o ferrolho, então correu até a janela mais próxima. Tirou o trinco, subiu o vidro e tentou passar uma perna por cima.

   Uma parede invisível deteve qualquer movimento de sair ao exterior.

   Quase gritando de frustração, chutou e deu murros à parede, mas não podia transpassá-la. Finalmente, resfolegando, deu-se por vencida. Como se atrevia Darius a lhe fazer isso! O que havia dito? Um feitiço de vinculação. Como se atrevia a lhe lançar um feitiço de vinculação, atando-a a ele?

   Um duro golpe soou na porta.

   — Tem cinco minutos para se vestir, e então entrarei.

   Isso também o faria, pensou ela. Inclusive se tinha que chutar a porta. Inclusive se tinha que agarrar o edifício de apartamentos e desmontá-lo tijolo a tijolo. Com um sorriso sem humor, apoiou-se no suporte e descansou a cabeça contra a moldura de madeira.

   Como tinha passado de ser um menino perdido a um homem tão intransigente? Ela não acreditava que esses flashes de sua vida fossem reais, mas ele sabia o apelido que seu pai lhe tinha dado. E ela não tinha compartilhado essa informação com ninguém. A infância de Darius, essas coisas que tinha visto, tinha acontecido. Não queria saber que ele tinha tido uma vez uma família. Não queria saber da dor que tinha sofrido ante suas mortes. Precaver-se fazia que quisesse consolá-lo ainda mais, protegê-lo. Ficar com ele.

   — Não quero me trocar enquanto esteja em minha casa — gritou ela. — Não confio em você.

   — Isso não importa. Fará como te digo.

   Ou ele o faria por ela, terminou ela mentalmente. Grace arrastou os pés até a cômoda e tirou a camiseta rasgada. Rapidamente colocou um suéter de gola alta e uma malha. Não queria ver sua pele e não a mostraria. Franzindo o cenho, empurrou umas meias três-quartos e uns tênis — o melhor para lhe dar um chute. Quando esteve completamente vestida se deteve. O que faço agora?

   Iria até ele, decidiu Grace, e seria civilizada. Responderia a suas perguntas honestamente. Depois o deixaria tal e como o tinha encontrado. O menino que tinha visto não permitiria outra coisa. Isso esperava. Certamente tinha tido a possibilidade de feri-la: enquanto dormia, enquanto se beijavam. Um brilho de lembranças a atravessou e franziu o cenho. Como podia desejá-lo ainda?

   Reunindo seus dispersos objetos, destravou a porta e a abriu. Darius estava a poucos metros de distância, seu ombro apoiado na parede em frente. Sua expressão era tão fria e desumana como sempre. Seus olhos poderiam ter sido esculpidos de uma geleira no Alaska.

   — Muito melhor — disse ele, lançando um olhar a sua roupa.

   —Vamos à sala de estar — disse ela.

   Não queria uma cama perto deles. Sem esperar resposta, rodeou-o. Decidiu-se pela poltrona reclinável — assim ele não poderia sentar-se perto dela — e disse a primeira coisa que lhe passou pela mente.

   —Vai me comer?

   — O que? — ele meio grunhiu meio ofegou.

   Sentou-se no sofá, tão longe dela como era possível. Suspeitava tanto dela como ela dele? O pensamento deveria havê-la preocupado, mas não o fez. Ela não tinha feito nem dito nada para provocar esse desgosto.

   — Seus amigos — disse ela. — São canibais e queriam me comer — se estremeceu ante a lembrança.

   Seus lábios se curvaram no que podia ser diversão ou fúria.

   — Nunca o farão. Posso prometer — ele disciplinou suas feições até que fossem de novo como uma lousa em branco. — Onde está o medalhão, Grace?

   Hora de confessar.

   —Eu, uh, o perdi.

   — O que? — rugiu, ficando em pé.

   — O perdi?— ela propôs mais como uma pergunta do que uma declaração.

   Ele se afundou de novo no assento e passou uma mão pela cara.

   — Explique-se.

   — Enquanto estava dentro da névoa à segunda vez, arrancou-se de meu pescoço — ela encolheu os ombros. — Tentei recuperá-lo, mas falhei.

   Seu olhar se centrou nela com intensidade.

   — Se está me dizendo isto em um intento de ficar com medalhão para você, eu…

   — Reviste minha casa se quiser — saltou a se defender.

   Ele massageou as têmporas com dois dedos e continuou olhando-a. Então assentiu como se tivesse tomado uma decisão monumental.

   — Vamos fazer uma pequena viagem, Grace.

   — Parece-me que não.

   — Vamos à caverna. Não ficaremos muito.

   O calor se drenou de seu rosto e mãos, deixando-a fria e pálida. Esperava enviá-la de volta a Atlantis? Aprisioná-la? Para matá-la, torturá-la, incomodá-la — bem, este último apelava a ela em uma forma que não deveria — em seus próprios domínios?

   — Nem pense em protestar — disse ele, como se estivesse lendo seus pensamentos. — Eu devo ir, portanto você irá também. Estamos atados.

   — Atlantis está…

   — Não é ali aonde vou levar você. Só desejo visitar a caverna.

   Ela se relaxou, acalmada pelo tom de verdade em sua voz. Outra viagem ao Brasil possivelmente fosse realmente benéfico, deu-se conta ela, lembrando o postal que Alex enviou. Podia levar sua foto com ela, algo que não tinha feito à última vez e passear pela cidade perguntando às pessoas se o tinham visto.

   — Se for contigo — disse ela, omitindo a propósito sua mudança de opinião—, me ajudará a encontrar ao meu irmão?

   — Sabe onde está?

   — Não. E o procurei. Seus colegas de trabalho não o viram. Não esteve em casa. Nem sequer telefonou para nossa mãe, e geralmente o faz. Alguém me enviou um e-mail supostamente dele, mas sei que não é porque encontrei um postal que Alex tinha me escrito dizendo que estava com problemas.

   Um golpe de culpa atravessou os olhos de Darius.

   — Não posso ficar muito tempo aqui, mas tem minha palavra de honra que enquanto estiver aqui, ajudarei a encontrá-lo.

   — Obrigada — ela disse suavemente.

   Ele se levantou e lhe estendeu a mão, a palma para cima.

   — Temos que ir agora?

   — Agora.

   — Mas tenho que chamar à companhia aérea. Preciso…

   — Só precisa tomar minha mão.

   Piscando ante ele confusa, tragou então se obrigou a levantar-se.

   — Me dê só… — se aproximou do armário apressadamente. — Um… — agarrou um álbum de fotos — Segundo — tirou uma das muitas fotos de Alex, agarrou-a e a levou ao bolso. Correu de volta a Darius e, com um meio sorriso, colocou sua mão na sua. — Estou preparada.

   — Fecha os olhos — a profunda voz de barítono era hipnótica.

   — Por quê?

   — Só faz o que eu te digo.

   — Primeiro me diga por que.

   Ele franziu o cenho.

   — O que estou a ponto de fazer pode te enjoar.

   — Bem. Não foi tão mau, não é verdade? — fechou os olhos, aproximando a total escuridão. Passou um completo minuto e não passou nada. O que estava acontecendo? — Já posso olhar?

   — Ainda não. — sua voz era estranha e sua mão apertou a dela. — Não tenho pleno uso de meus poderes, assim que a viagem me força mais que habitual.

   Viagem? E por que não tinha o pleno uso de seus poderes?

   — Já pode olhar — disse ele um momento depois.

   Esquecido seu dilema, ela abriu os olhos e ofegou. As paredes cinza de rocha a rodeava.

   A água gotejava em um constante progresso, o som era fantasmagórico. Uma espessa névoa fumegante os rodeava fria e triste, empoeirando tudo o que tocava com frieza. De repente, sentiu-se agradecida por suas roupas. A única luz vinha de Darius. Inclusive através da camiseta, suas tatuagens brilhavam o suficiente para iluminar um estádio de futebol.

   — Como faz isso? — perguntou ela, intimidada. — Como nos trouxe até aqui tão rápido sem dar um só passo?

   —Sou um garoto dos deuses — disse ele, como se isso explicasse tudo. — Não se mova desse lugar.

   Dado que isso casava perfeitamente com seus desejos, assentiu. Não ia se aproximar da névoa.

   Com os olhos escaneando e procurando, ele passeou majestosamente pela caverna, seus músculos se esticavam sob sua roupa com cada movimento. Ela facilmente recordou como toda essa força e tendões se sentiam sob a ponta de seus dedos. Ficou com água na boca e mudou o peso de um pé a outro. Não importava o que fizesse este homem, gotejava perigo e excitação; emanava de cada poro de sua pele. Era de longe muito ameaçador, muito imprevisível e muito poderoso. Tinha prometido ajudá-la enquanto estava com ela e acreditava que o faria. Se alguém podia encontrar a Alex, esse era este homem.

   Ele tentou afastar um enorme galho de seu caminho, mas suas mãos o transpassaram de maneira fantasmagórica. Quando ela o viu, ficou com os olhos muito abertos. Voltou-se para a parede e passou sua própria mão sobre a irregular superfície. Surpreendendo-a, seus dedos desapareceram na rocha.

   — Somos fantasmas — grasnou ela, voltando-se para olhar a Darius.

   — Só enquanto estamos aqui — ele assegurou.

   Saber que não seria permanentemente um fantasma aliviou sua preocupação e relaxou. Estava acostumada às novas experiências. A maioria das vezes encontrava sua própria maneira de encarregar-se delas. Mas com Darius, esses tipos de coisas só aconteciam — coisas estranhas para as que possivelmente não pudesse estar preparada. Ele era a excitação personificada.

   — Está procurando o medalhão? — perguntou-lhe quando ele continuou sua investigação.

   Um longo silêncio caiu entre eles. Obviamente não queria lhe responder.

   — E bem? —insistiu.

   — Devo encontrá-lo.

   O que acontecia a essa corrente? Inclusive ela tinha lutado por possuí-la, havia sentido uma estranha e indisputável atração.

   — Você a quer, Alex a queria e alguém tentou roubar-lhe uma vez. A parte de que abre a fechadura da porta de seu quarto, o que faz a essa coisa tão valiosa?

   — Os Medalhões Dragão são criações de Hefestos, o ferreiro dos deuses, e cada um guarda um especial poder para seu proprietário, como viajar no tempo ou a invisibilidade. E mais, abre as portas de todas os cômodos em cada palácio dragão, — como você mesma comprovou —acrescentou ironicamente.

   — Se soubesse que oferecia poderes especiais, possivelmente o tivesse guardado mais rigorosamente — disse ela. Viajar no tempo. Que genial podia ser isso? — Meus livros favoritos são os de viagens no tempo e sempre pensei que seria genial visitar a Idade Média.

   — Se tivesse conhecido o poder do medalhão, não teria vivido o bastante para viajar através do tempo.

   Bom, isso certamente colocava as coisas em outra perspectiva, não?

   — Acho, então, que possivelmente não deveria te perguntar o que pode fazer.

   — Não, não deveria. Você e os outros moradores da superfície não deveriam saber sequer que existem os medalhões.

   Ela suspirou.

   — Alex encontrou um antigo texto, o Livro de Ra—Dracus. Assim foi como soube deles. Assim foi como soube sobre o portal para entrar em Atlantis.

   Darius elevou o queixo e a enfrentou; seus olhos se entrecerraram.

   — Nunca ouvi falar desse livro. O que diz?

   — Ele não mencionou muito, mas disse que o livro falava de maneiras de vencer as criaturas do interior. Embora Alex não me mencionasse nenhuma especificamente, sinto muito.

   — Devo ver esse livro.

   Devo destruí-lo, repetiu em silêncio.

   — Pouco depois de que ele o encontrou — disse ela, levantando os braços em um gesto de impotência,— alguém o roubou.

   Darius esfregou o pescoço ante uma mancha de lama.

   — Os Atlantis são seres perigosos, mais forte que sua gente e mais mortais. Por que os da superfície continuam tentando invadir nosso país está além de meu entendimento. Aqueles que o fazem sempre morrem. Todo o tempo.

   — Eu não. — ela recordou suavemente.

   Sua cabeça se virou em sua direção durante um segundo. Silêncio. Depois:

   — Não. — disse finalmente. — Você não.

   Ele continuou olhando-a e ela se moveu incômoda. Sua atenção se concentrava entre sua boca e suas curvas. Se seu olhar se tornasse mais quente, lhe queimaria a roupa, calcinha e tudo.

   — Onde seu irmão encontrou o livro?

   — Na Grécia. No Templo de Erinias — disse ela, estalando os dedos quando lembrou o nome.

   — Erinias, a castigadora dos infiéis — franziu o cenho. — Uma deusa menor. Não entendo por que ela ou suas seguidoras possuiriam tal livro, um livro que conta como nos vencer.

   — Possivelmente ela queria castigar os habitantes de Atlantis — sugeriu Grace.

   Suas fossas nasais se dilataram.

   — Nós não somos, nem fomos jamais, infiéis a ninguém.

   Ceeerrto. Resposta errada. E uma que não voltaria a tocar.

   — Tenho certeza que não, grandalhão — disse ela, tentando lhe acalmar.

   — Nós não tentamos conquistar a superfície. Servimos a nossos deuses devotamente. Não fizemos nada para merecer que nos castigue.

   — Bom, agora, isso não é exatamente certo — inclusive embora prometeu a si mesma que não o faria outra vez, encontrou-se dizendo. — Obviamente fizeram algo. Toda sua cidade estava oculta no mar.

   — Existimos. É por isso que estamos ocultos no mar. A maneira em que eu o entendo, é a de que nunca devíamos ter sido criados, mais, quando Zeus cortou —fez uma pausa — a masculinidade de seu pai, causando que o sangue de Cronos se derramasse pela terra. Assim, criaram-nos. Embora ele era — é — nosso irmão, Zeus temia o que podemos fazer, assim que nos desterrou da terra a seu quintal. Nós não somos infiéis.

   — Foi criado pelo sangue de um deus? — perguntou ela, além da curiosidade sobre ele.

   — Não. — respondeu ele. — Meus pais me conceberam da maneira tradicional. Meus ancestrais são os únicos criados pelo sangue de um deus.

   Seus lábios se fecharam com firmeza, teimosamente, e ela soube que não diria nada mais sobre o assunto.

   Seus pais estavam mortos, recordou por sua visão, e lamentou por ele. Lamentou porque ele tinha sido o único que os encontrou. Lamentou porque eles tinham morrido de maneira tão cruel que se encolhia ante o pensamento. Sabia que era devastador perder a alguém que amava. Ele tinha perdido a todos os próximos a ele em um fatídico golpe.

   — Seu irmão — disse Darius, mudando efetivamente de tema. — Disse que esteve desaparecido durante várias semanas.

   A menção de Alex lhe serviu como um frio aviso do por que estava ali.

   — Não esteve em casa, nem telefonou, e isso não é próprio dele.

   — E esses homens que o buscavam através da selva, tentavam conseguir o medalhão através dele?

   — Correto.

   — Possivelmente deveria me dizer tudo o que aconteceu antes e depois de que escapou de mim.

   Disse-lhe o que sabia, sem deixar de fora nenhum detalhe.

   — Esses homens — disse ele, — os Argonautas que te encontraram na selva. Machucariam o seu irmão se soubessem do medalhão?

   — É obvio que não.

 Darius apertou os lábios enquanto se perguntava quantos mais estariam enrolados nessa rede de mistério — o qual estava ficando mais complicado cada vez que Grace abria a boca.

   — Ainda desejo encontrá-los e falar com eles — ele ficou em pé. — O medalhão não está aqui — grunhiu, — olhei cada centímetro da caverna.

   — Não menti para você — assegurou-lhe ela. — Perdi-o na névoa.

   Ele passou uma mão pelo cabelo. Outra vez não sabia se devia acreditar em Grace. Seus motivos pareciam puros, o amparo de seu irmão, contudo, clamar a perda do medalhão parecia uma mentira. Tinha-o roubado ou só o tinha perdido?

   Enquanto ficava ali, em conflito consigo mesmo, suas tatuagens iluminaram um escuro objeto, brilhando no canto de seu olho. Tinha visto o objeto durante seu exame, mas o tinha ignorado. Agora se inclinou e o estudou. A arma de Grace, deu-se conta. O mesmo tipo de arma que levavam os guardas humanos no palácio de Javar.

   — Por que levava isto? — perguntou-lhe.

   Seus dedos passando pelo metal.

   — A pistola? — ela cortou a distância entre eles e ajoelhou-se ao seu lado.

   Sua embriagadora essência lhe rodeando.

   — Uma pistola — repetiu ele. — Por que a levava? — perguntou outra vez.

   — Para me proteger. Comprei-a de um vendedor em Manaus.

   — Para que serve? — sua voz era solene, profunda. — Quando eu te chamei, tentou me ferir com isto, mas não aconteceu nada.

   —O cilindro estava vazio. Se o cilindro não foi carregado, as balas que teriam que disparar-se quando aperto o gatilho e a miro em você para lhe machucar. Possivelmente inclusive lhe matariam.

   Intrigado, observou a pistola com novas expectativas. Uma complicada peça de armaria tinha certeza. O cilindro, o fino eixo.

   — Eu gostaria de vê-la em ação.

   — Apostaria que sim — murmurou ela.

   Dedicou-lhe um olhar.

   — Se fizer que possa segurar a arma, ensinar-me-ia como funciona?

   — Não tenho balas — disse ela.

   — Consiga algumas.

   — Onde? Não estamos exatamente no animado coração da cidade, com vendedores ambulantes impacientes por empurrar seus artigos.

   — Depois, então. Quando voltarmos a sua casa. Pode conseguir essas balas e me mostrar como funciona essa arma.

   — Certo — disse ela.

   Embora Grace não estivesse certa se queria que ele manejasse uma arma carregada. De fato, certa de que quisesse que usasse nenhuma classe de arma.

   — Mas como vamos levar a casa? Nem sequer podemos pegá-la.

   Um minuto se mesclou com o seguinte. Linhas de tensão fazendo parêntese em sua boca e sua pele bronzeada empalidecendo. Grace não pronunciou nem um som, não se moveu.

   Ele se girou para a pistola, deixando suas mãos estendidas em cima desta, e fechou os olhos. Não sabia o que estava fazendo, mas era resistente a interromper.

   Finalmente, ele deixou escapar um suspiro e abriu os olhos. Passou sua mão sob a pistola e a levantou. Em vez de que o material transpassasse sua palma, a pistola permaneceu nela.

   — Como fez isso? — o temor marcava sua voz.

   Ela agarrou a arma e a meteu na cintura das calças.

   Ele ignorou sua pergunta.

   — Vamos — disse, caminhando para a entrada. — Quero encontrar esses Argonautas.

   — Eles têm suas próprias pistolas — lhe advertiu ela. — As vi.

   A extrema advertência não lhe causou nem um momento de preocupação, embora seu olhar brilhasse com uma pequena tintura de prazer que ela duvidou em oferecer.

   — Eles nem sequer sabem que estamos aqui. Somos iguais a fantasmas, lembra?

   Viram-se obrigados a engatinhar sobre suas mãos e joelhos até que alcançaram a entrada da caverna. Grace adorava a maneira em que seus joelhos se deslizavam sobre as rochas e os galhos, mas se perguntou por que Darius não fazia sua transferência foto instantânea. Alcançaram o final e ela pôde ficar em pé. O calor e a umidade do Amazonas ameaçavam assar e já não estava tão agradecida por suas roupas. As familiares essências se filtraram através de seu nariz: folhas cobertas de brisa, orquídeas, chuva recente.

   — Como faz um de vocês para protegerem-se de uma pistola? — perguntou Darius, acompanhando-a além de um florido arbusto verde.

   — Coletes de Kevlar. De qualquer maneira, é o que usa a polícia.

   Sua expressão se voltou pensativa.

   — Quero alguns desses coletes.

   — Possivelmente possa te pedir algum pela Internet. Investigarei.

   Seu corpo arqueou em estranhas onda e ela ofegou. Uma peça de fruta tinha navegado através dela e se estrelou em uma árvore. A risada encheu seus ouvidos, não era humano, mas se divertia apesar de tudo. Dois mísseis mais navegaram através dela quando Darius deu a volta. Ele se lançou para ela, atirando-a ao chão. Seu peso esmagando-a.

   — Como foi descoberta, mulher? — exigiu ele.

   — Aqueles malditos macacos!

   Ela o fulminou com o olhar, amaldiçoando-o por seus truques, lentamente consciente do perfeito peso de seus corpos e sua cálida e sedutora essência.

   — Disse que ninguém saberia que estávamos aqui.

   — Os macacos são os responsáveis? — seus lábios se apertaram, e se não se enganava, a diversão brilhou em seus olhos dourados.

   Ela se deteve. Outra vez dourados? A única vez que foram dourados foi justo antes de beijá-la. O que os fazia mudar?

   — Os animais podem ver o que os olhos humanos não vêem — disse ele.

   — Está brincando comigo?

   — Possivelmente.

   — O que quero saber é porque não lançam nada em você.

   — Minha hipótese é que sabem que faria deles minha próxima refeição se o fizessem.

   Gostava desse lado de Darius, brincalhão e comediante.

   Grace sorriu.

   Seu olhar fixo baixou aos seus lábios e o calor de repente queimou seus olhos. Todo traço de alegria fugiu de sua expressão. Seu próprio sorriso se desvaneceu. As lembranças da última vez em que ele deitou-se sobre ela voaram através de sua mente. E justo como então, buscou-o de novo. O conhecimento a zangou. Como podia desejar tanto a esse homem?

   Ela devia haver se movido, devia ter arqueado seus quadris, porque Darius deixou escapar uma corrente de ar entre os dentes. Seus músculos se esticaram e se inclinou para ela. Perto, mais perto ainda.

   Em um rápido movimento, ficou em pé.

   —Em pé — ele ordenou, seu tom inexorável. — Está perdendo o tempo.

   Perdendo o tempo? Perdendo o tempo! Ela? Irritada, Grace se levantou e ancorou ambas as mãos no quadril.

   — Não vou fazer nada exceto passar uma boa quantidade de tempo contigo. Posso dizer.

   Darius a deixou rondar durante a seguinte hora. O calor obviamente estava de acordo com ele. Enquanto ele parecia tão fresco e vibrante como se saísse de uma aula de ioga, a sujeira se pegava a suas roupas e corpo. Inclusive seu cabelo estava úmido e desalinhado. Era um fantasma. Não era para permanecer limpa e intocável pelos elementos?

   — Odeio este lugar — murmurou ela.

 Já estava cansada e sedenta. E angustiada.

   — Necessito uma mousse de coco.

   O homem responsável por sua angústia se deteve finalmente.

   — Aqui não há Argonautas.

   Merda, Sherlock. Sim, definitivamente cética.

   — Disse-lhe isso, eles estiveram aqui.

   — Eu acredito — assegurou a ela, como se nunca o tivesse questionado. — Pisaram por toda parte.

   Ele escaneou as árvores.

   — Conhece os nomes dos homens que lhe ajudaram?

   — Sim. Jason e Mitch. E Patrick, — acrescentou ela.

   —Também necessito seus sobrenomes.

   — Lamento — negou com a cabeça. — Não o disseram e nesse momento não me incomodei em perguntá-lo.

   Darius lutou contra uma onda de desgosto. Tinha esperado encontrar aos homens, interrogá-los e finalmente obter algumas das respostas que procurava. Quanto antes terminasse com isso, antes poderia reclamar o palácio de Javar — e antes voltaria sua vida à normalidade. Não mais caos. Não mais desejos inextinguíveis.

   Não mais Grace.

   Seus lábios se franziram em um gesto. Estava conduzindo-o rapidamente à loucura. A maneira sensual em que se movia, com suavidade. A maneira desafiante em que falava, melodiosa. A maneira em que olhava para ele com fome nos olhos, fome que não podia ocultar.

   Ela não queria lhe querer, mas lhe queria. Muito.

   E ele a queria igualmente — alarmante, certamente.

   Depois de que tinha pronunciado o feitiço de vinculação, tinha visto no interior de sua mente e sabia que ela se guiava por seus próprios desejos. Sabia que seu irmão, Alex, fazia o mesmo. Eles tinham visto seu pai deteriorar-se lentamente, depois morrer. Grace tinha amado a seu pai pelo carinhoso homem que tinha sido, mas vê-lo desvanecer-se tinha sido tão doloroso que se retirou à fantasia, imaginando-se em qualquer lugar menos em casa. Inventando-se a si mesmo em todo tipo de estimulantes situações. Uma lutadora contra o crime sem comparação. Uma dama pirata que cruzava os mares. Uma sereia que seduzia aos homens para levar-lhe à cama e agradá-los até a inconsciência. O último era o que mais lhe intrigava.

   Ela ansiava a excitação e a paixão e todas as coisas que tinha criado em seus sonhos, mas a vida não lhe tinha oferecido, nem de longe, nenhuma dessas coisas. Nada conseguia cumprir suas expectativas. Tinha conhecido uma decepcionante aventura atrás da outra… até que irrompeu através da névoa. Então havia finalmente encontrado o regozijo que sempre tinha procurado.

   Como podia considerar acabar com sua vida, quando ela estava apenas começando a experimentar seus sonhos?

   A pergunta lhe incomodou porque sabia a resposta, simplesmente, não podia aceitá-la. Embora possivelmente quisesse que vivesse, tinha que cumprir seu juramento.

   Darius suspirou. Estava perdendo o tempo, tempo que não tinha que desperdiçar. Seus poderes estavam já se debilitando. Não estava certo de quanto mais teria até que se debilitassem por completo.

   — Voltamos a viajar de retorno a sua casa — disse a Grace.

   Não esperou por sua resposta, simplesmente rodeou seu pulso com os dedos.

   — Espera. Quero ir a cidade e perguntar por Alex — disse ela. — Isso é pelo que peguei sua fot…

   Antes que pudesse terminar a frase, a imagem de seu lar e as paredes se materializou ao redor deles.

  

   A manhã em Nova Iorque anunciou sua presença com raios de luz do sol que penetravam através da janela da sala de estar de Grace. Carros buzinando lá fora; gente que fazia ruído sobre ela cruzando seu apartamento, fazendo que tremesse o teto.

   — Tem que deixar de me transportar dentro e fora dos lugares. Estou assim de perto… — disse a Darius, aproximando seu polegar e o indicador, — de ter um ataque do coração. E além disso, não estava pronta para partir — acrescentou ela. — Quero que me leve à cidade para que assim possa mostrar a foto de Alex e perguntar se alguém o viu.

   — Não o considerei necessário — disse ele, liberando-a.

   Seu rosto estava pálido e aquelas linhas de expressão tinha retornado.

   Ele não o considerava necessário, imitou-o em silêncio. O que acontecia ao que ela considerava necessário? Franzindo o cenho, foi até a cozinha, colocou a pistola dentro de uma gaveta e tirou um copo alto de água fria. Bebeu cada gota. Só depois de ter consumido três copos mais ofereceu a Darius uma bebida.

   — Tem algo mais que água? Algo com sabor?

   — Posso fazer limonada — não é que o merecesse.

   — Isso será suficiente.

   Ela pegou vários limões da geladeira, golpeou-os contra a pia para liberar o mais suco e então fez um buraco na cabeça de cada um. Ela espremeu o forte líquido em um copo e acrescentou um substituto do açúcar — ela não mantinha açúcar de verdade em nenhum lugar perto dela — e água. Deslizou a bebida pelo balcão.

   Havendo-a visto mesclar os conteúdos com olho crítico, levantou o copo e sorveu a modo de prova.

   Ela soube o momento exato no qual os sabores doces e ácidos se mesclaram em suas papilas gustativas, sabendo o momento justo no qual ele quis uivar de prazer. Seus fortes dedos apertaram a base, curvando-se ao redor do copo com surpreendente gentileza. Seus olhos se abriram desmesuradamente, causando que suas escuras pestanas se afundassem sobre os sensuais planos de suas bochechas.

   Quando tragou, sua garganta se moveu. Um malicioso estremecimento serpenteou por sua coluna e teve a repentina urgência de lhe lamber ali. Estou-me acendendo pela traquéia de um homem. Tão patética sou?

   — Certamente é Ambrósia — disse ele.

   Felizmente tinha recuperado a cor. Ele deixou a contra gosto o copo vazio sobre a pia.

   — Não me importa fazer mais se você…

   — Eu gostaria de mais — a interrompeu.

   Se ele reagia assim pela limonada, como reagiria pelo chocolate? Orgasmo espontâneo?

   Possivelmente tivesse uma barra Hershey oculta em algum lado…

   Ele consumiu dois copos mais de limonada em uma rápida sucessão. Pediu um terceiro, mas tinha ficado sem limões. Seu desgosto era evidente, mas se encolheu de ombros.

   Observando-a com olhar quente, lambeu a última gota da beira do copo.

   — Antes me perguntou o que poder possuía meu medalhão. Mostrar-lhe-ei isso agora — disse ele. — Primeiro necessitarei o sobrenome de seu irmão.

   — Carlyle. Igual ao meu.

   Ele arqueou uma sobrancelha.

   — Isso é comum aqui? Compartilhar os nomes?

   — Sim. Não compartilha o mesmo nome que os membros de sua família?

   — Não. Por que deveríamos? Cada um de nós é individual e nossos nomes são nossos.

   — Como mostram então o parentesco?

   — Com nosso afeto uns pelos outros.

   Darius tirou o medalhão, e quando o manteve aberto em sua palma, iluminou-se de um brilhante e estranho vermelho.

   — Me mostre Alex Carlyle — disse ele às cabeças de dragão.

   Quatro linhas carmesins saíram disparadas desde ambos os olhos. Formaram um círculo no ar e as linhas cresceram ampliando-se por segundos. Grace observou com fascinação como o ar começava a cristalizar-se.

   — O que está acontecendo? — sussurrou ela.

   A imagem de Alex apareceu no centro do círculo e todas as perguntas foram esquecidas. Ficou boquiaberta pelo choque.

   A sujeira, o suor e as feridas cobriam o seu irmão da cabeça aos pés, e quando reparou em sua aparência, congelou-lhe o sangue. Estava pálido, sua pele tão branca que podia ver o tênue vestígio das veias. Só usava um jeans rasgado. Seus olhos estavam fechados e se encolhia sobre um chão imundo. Os tremores o percorriam. Pelo frio? A febre? Ou medo? O quarto estava mobiliado com uma pequena cama e uma cabeceira de madeira. Com uma mão cobriu a boca e com a outra se estirou, esperando poder lhe alisar o cenho, esperando lhe assegurar que ela estava ali. Só, que igual na caverna, seus dedos navegaram atravessando-o igual a uma miragem.

   Sentindo-se inútil, deixou cair às mãos aos lados.

   — Alex — disse tremula.

   — Ele não pode lhe ouvir — lhe disse Darius.

   — Alex — disse ela outra vez, decidida a obter sua atenção da forma em que fora necessária.

   Quanto tempo tinha passado da última vez que comeu? Quem fez essas feridas em sua pele? Que fazia que estivesse tão pálido? Ela engoliu um profundo gemido de angústia.

   — Reconhece esse lugar? — perguntou Darius.

   — Não. — seus lábios tremendo, seu olhar sem desviar-se, ela sacudiu a cabeça. — E você?

   — Não. — suspirou ele.

   — É um quarto de motel, acho. O encontraremos — ela suplicou, observando com horror como seu irmão rodava a um lado, revelando dois pontos ensanguentados em seu pescoço. — Disse que poderia.

   — Só desejaria que fosse assim de fácil, Grace.

   Ao final ela devolveu sua atenção, lançando a Darius um acusador olhar.

   — Você me encontrou.

   — Nós estamos conectados através do feitiço de entendimento. Simplesmente segui minha própria magia. Eu não tive contato com seu irmão, nem fiz nada que vinculasse a ele.

   A imagem de Alex começou a desvanecesse justo quando uma mulher se aproximou dele. Era a mulher mais formosa que Grace tinha visto jamais. Onde Alex era alto e magro, a mulher era pequena e delicada com flutuante cabelo prateado. Feições de fada, pele de porcelana. Abaixou-se ao seu lado e lhe sacudiu suavemente o ombro.

   — Quem é essa? — exigiu Grace asperamente.

   Darius entrecerrou o olhar, enfocando-a.

   — Essa é Teira — disse ele, uma corrente subterrânea de incredulidade em seu tom. — A esposa de Javar.

   — Não me importa de quem é esposa, se deixar em paz ao meu irmão. Ela é cruel? O machucará? O que lhe está fazendo?

   Tão rapidamente como tinha aparecido, a imagem se desvaneceu por completo.

   — Traga-os de volta — exigiu Grace.

   —O medalhão me mostra uma visão durante um pequeno espaço de tempo e nunca a mesma pessoa mais de uma vez.

   Não. Não! Ela controlou a urgência de chutar o chão com o pé, para choramingar. Para chorar.

   — Me leve a Alex.

   — Desejaria poder fazê-lo, mas não conheço a superfície.

   — Disse que me encontrou porque estamos conectados. Eu posso te dar algo que pertença a Alex. Ou uma fotografia dele.

   Próxima ao ponto de desespero, ela tirou a foto de Alex de seu bolso e agarrou os dedos de Darius e os pôs ao redor dos cantos.

   —Pode se conectar com isto e o encontrar.

   — Não é assim que funciona meu poder, Grace.

   Agora não havia emoção nele. Voltou para sua indiferença, imperturbável, a parte dele que mais a incomodava. Com frios e duros olhos azuis, deixou a foto a um lado.

   Uma solitária lágrima se deslizou por sua bochecha.

   —Tem que me ajudar — disse ela, agarrando o tecido de sua camiseta. — Está doente. Não sei quanto tempo passou sem comida ou água. Não sei o que essa mulher planeja fazer com ele.

   — Teira não o machucará. Ela é gentil e carinhosa.

   — Ele precisa de mim.

   — Te dei minha palavra de que te ajudaria a encontrar ele enquanto estiver aqui. Não duvide de mim.

   — Não duvido de que me ajudará Darius, — disse ela bruscamente. Vazia. Permanecendo ante ele com olhos aquosos. — Só me pergunto se chegaremos a ele a tempo.

   Nesse momento, Darius soube que ela não prejudicaria Atlantis. Sabia que o único que queria era ao seu irmão são e salvo. Suas emoções eram muito cruas. Reais. Odiava-se a si mesmo por isso, porque não podia deixar que isso mudasse seu propósito. Ele possivelmente aborreceria ao homem no qual se converteu, o homem que estava destinado a ser — um assassino e um soldado — mas isso não mudava nada.

   Quando Grace descobrisse que a estava ajudando só para destruir a Alex, tanto como à mesma Grace…

   Esticando-se, obrigou a sua mente a voltar para o assunto que tinha entre mãos. Por que estava Teira com um humano? Onde estavam sendo retidos? O teto era o de uma moradia da superfície, contudo, Alex tinha sido mordido por um vampiro — um fato que Darius não diria a Grace. A presença da fêmea dragão acrescentava uma nova complicação. Era prisioneira ou sequestradora? Uma adorável mulher que possuía uma doce natureza e se entregava de coração, não podia ser uma sequestradora. Até porque, Javar jamais permitiria que agarrassem a sua esposa. A menos que estivesse morto.

   O que fez que Darius se encontrasse uma vez mais voltando para a linha anterior de pensamentos. Tinha, possivelmente, outro dia antes que devesse voltar, contudo, não estava perto de obter as respostas que tinha vindo procurar quando chegou. Em vez disso o mistério tinha acrescentado novos rumos às coisas.

   — A chave é o medalhão — disse ele. — Imagino que qualquer humano tem muito que ganhar ao possuí-lo.

   — Não necessariamente um humano — com um estremecedor suspiro, Grace se afundou em um tamborete. — Qualquer em Atlantis poderia usar isso para entrar em sua casa e roubar o que tiver de valor. Por Deus santo, possui jóias de todos os tipos e tamanhos.

   Isso é exatamente o que esses humanos tinham estado fazendo no palácio de Javar, roubando, usando as ferramentas dos deuses para arrancar as jóias.

   — Os Atlantis só devem perguntar e compartilhamos. Não há razão para roubar.

   — Há uma razão. Pura cobiça. Sei de fato que essa é a emoção inerente a todas as raças, deuses e humanos por igual. Todos nossos mitos e lendas expuseram alguma vez tais coisas.

   Agora ele suspirou.

   — Os humanos são os responsáveis desta vez — ele rememorou as palavras do mensageiro e a arma que o menino tinha desenhado. — Os humanos estão inclusive agora no interior da casa de meu amigo, levando pistolas e só os deuses sabem o que outras armas.

   — Poderia os humanos estar trabalhando com esse amigo?

   — Nunca — ele nem sequer considerou a possibilidade. — Javar despreza aos humanos tanto como eu. Nunca daria acolhida a um.

   Ela afastou o olhar dele, defendendo sua expressão. Passaram vários segundos até que ela disse.

   — Detesta a todos os humanos?

   Um rastro de dor perfilou sua voz.

   — Não a todos — respondeu resistente.

   Gostava de uma pequena fêmea mais do que era devido. Uma mulher com cachos avermelhados e suaves curvas arredondadas. Com luxuriosos seios e elevados mamilos.

   Uma fêmea que ansiava mais, em sua cama, com cada momento que passava.

   — Bem, então — disse ela, lhe dando as costas, fingindo que não a tinha importado. — Nos concentraremos nos humanos. Eu tenho certeza que lhe disse isso, mas Alex escreveu sobre que alguém lhe tinha estado perseguindo através da selva durante sua investigação sobre o portal. Apostaria a que os humanos que estão dentro desse palácio, são os mesmos que escreveram a Alex.

   — Escrever? — interrompeu-a, concentrando-se sobre essa única palavra.

   Não podia permitir que ninguém escrevesse sobre seu lar. Em sua lista, já tinha o conteúdo do Livro Ra—Dracus.

   — Disse que ele lhe disse isso.

   — O fez. Em seu diário. Mantinha um diário sobre sua investigação da névoa. Quer lê-lo?

   — Onde está? — perguntou bruscamente.

   — Te mostrarei isso.

   Ela saiu da cozinha e Darius a seguiu lhe pisando o calcanhar.

   Dirigiu-o baixando um pequeno, estreito corredor perfumado com a calmante essência da camomila. Entraram em seu dormitório e só necessitou um olhar à cama para que lhe encolhesse o estômago. Ela se deteve ante a mesa e manteve em alto um recipiente para que o visse.

   — Parece uma comum laca para o cabelo, verdade?

   — É obvio — disse ele, embora não tinha idéia do que era laca para o cabelo.

   — Bom, não é.

   Com rápidos e precisos movimentos, desenroscou o final e tirou uma chave. Seus luxuriosos lábios rosa se estiraram em um meio sorriso, revelando uma porção de seus brancos dentes.

   Seu estômago não se encolheu desta vez, mas se elevou e lhe devorou a garganta.

   Como podia uma mulher possuir tal beleza? Com um gracioso toque de seus dedos, segurou umas mechas de cabelo detrás das orelhas. Inclinou-se e inseriu a chave sob o a gaveta da mesa.

   — Meu pai estava muito doente para manter um trabalho, o qual é pelo que nos transladamos desde a Carolina do Sul a Nova Iorque, de modo que pudesse estar perto de Sloan Kettering. De todas as maneiras, passou o tempo e fez dinheiro nos processos, vendendo e moldando o mobiliário. Ele me construiu isto faz muito tempo.

   — Lamento sua perda.

   — Obrigada — disse ela suavemente. — Meu pai também construiu um para Alex, embora seus compartimentos secretos sejam diferentes. Acredito. Estávamos acostumados a utilizá-los para ocultar as coisas um do outro, o qual fazia que nos zangássemos. Alex lia meu diário e eu lhe roubava as fotos de seus amigos. Assim que meu pai nos fez um escritório a cada um onde pudéssemos ocultar por fim nossos tesouros.

   A melancolia em sua voz permaneceu durante longo tempo antes que suas palavras se desvanecessem. Darius quase cai de joelhos e jurava que nunca a machucaria a ela ou ao seu irmão se só sorrisse outra vez. Conteve o impulso, sabendo que tal promessa era impossível de manter.

   Dentro da gaveta secreta descansava um fino livro coberto de couro negro. Quando Grace passou a ponta dos dedos sobre a superfície, mordeu-se o lado inferior, liberando-o lentamente. Passou o livro a ele, retendo o contato até o último segundo possível.

   Ele olhou as páginas, franzindo o cenho ante a escritura pouco familiar. Enquanto que seu feitiço de entendimento lhe dava completa compreensão da linguagem oral de Grace, este não o provia com um entendimento da escrito. Nunca lhe tinham preocupado as opiniões que os outros poderiam ter dele, mas não queria que Grace percebesse nenhuma debilidade nele. Queria que lhe visse forte e capaz, tudo o que uma mulher pudesse desejar.

   Devolveu-lhe o diário, lhe dizendo.

   — Pode ler para mim, por favor.

   Felizmente ela não fez comentário algum, simplesmente aceitou o livro e se levantou.

   — Estaremos mais cômodos na sala de estar.

   Uma vez ali, Grace se situou no sofá escarlata e ele se acomodou ao seu lado. Possivelmente deveria ter elegido outra cadeira, mas desejava o contato físico com ela e não via nenhuma razão para negar isso a si mesmo.

   Não enquanto estivesse faminto pela essência que cheirava. Faminto por seu toque. Inclusive assim, tão pequeno como era.

   Suas coxas roçaram as dela, o que fez com que ofegasse e tentasse se afastar. Pensava ela lhe negar até a menor conexão? Depois de tudo o que já lhe tinha permitido? Poucas horas antes, a mulher lhe tinha beijado como se não pudesse viver sem o sabor de sua boca. Tinha lhe deixado chupar os mamilos dela, tinha lhe deixado enterrar dois dedos profundamente em seu interior.

   Esticou os joelhos, endireitando amplamente a largura de seus ombros, ambas as ações consumindo todo seu espaço.

   — Tem que se sentar tão perto? — perguntou-lhe ela com um afogado gemido.

   — Sim — foi sua única resposta.

   — Quer me dizer por quê?

   — Não.

   — Eu não gosto disto — insistiu ela, afastando-se dele pela segunda vez.

   E se aproximou mais.

   — Quer me dizer por quê? — ele parafraseou.

   — Não. — repetiu ela como um louro, sua expressão estóica.

   — Então pode começar a ler.

   Ela examinou suas cutículas e bocejou de maneira maravilhosa. Só a necessidade que brilhava em seus olhos lhe dava outro ar.

   — O que está fazendo? — perguntou ele. — Não tenho tempo que perder. Começa.

   — Estou esperando.

   Ele arqueou as sobrancelhas.

   — Por?

   — Que se mova.

   Franzindo o cenho, Darius permaneceu onde estava durante um longo tempo. Esta era uma pequena batalha de vontades e ele não queria perdê-la. Embora, tinha alguma outra opção? Apertando os dentes, se afastou apenas uns centímetros dela. Quando se moveu, a doce essência dela se fez mais débil e o calor que emanava se desvaneceu. Queria uivar.

   — Assim está melhor.

   Ela se acomodou no sofá e abriu o livro. Seus dedos vagaram sobre a primeira página e um olhar de tristeza encheu sua expressão. Ela começou a ler, o pesar também se refletia em seu tom.

   Ele inclinou a cabeça para trás, colocando as mãos sob o pescoço e fechando os olhos. Sua melodiosa voz flutuando sobre ele, como uma gentil carícia. Havia algo tão pacífico em escutá-la, como se sua voz, apesar da melancolia, fora reflexo da alegria, a risada e o amor. Como se os três estivessem ao seu alcance, se só se esticasse e pegá-los. Mas sabia que nunca seriam dele

   Os guerreiros como ele estavam destinados a passar suas vidas, sozinhos. Era a única forma de conservar a lucidez.

   Um assassino a sangue frio necessitava uma retirada absoluta.

   Muito rápido, Grace fechou o diário com um suave giro de pulso e o olhou. Ele tamborilou dois dedos contra seu queixo.

   —Me conte outra vez onde adquiriu o medalhão roubado de seu chefe.

   —Em uma festa de gala beneficente patrocinada pelos Argonautas.

   Outra vez os Argonautas, pensou Darius, sua determinação falava de seu crescimento. Alex o tinha roubado, alguém quase o tinha roubado a ele e assim sucessivamente.

   Ele franziu o cenho quando lhe ocorreu algo.

   — Se sabia que seu irmão estava em perigo — disse a Grace, sua voz tornando-se inclusive mais dura com cada palavra, — por que foi ao Brasil?

   — Não ouviu a última passagem? Alex encontrou a chamada de perigo excitante, assim…—elevou o queixo em modo desafiante. — Eu também o fiz.

   Estava furioso quando se inclinou para ela, ficando nariz com nariz. Sua respiração se mesclou, girando entre eles e convertendo-se em uma simples essência. Exatamente o que ele queria de seus corpos. Isso fez com que rapidamente convertesse sua fúria em um olhar de luxúria. Seu sangue de Dragão cobrou vida, clamando por ela. Doendo-se por ela. Frenético por ela.

— E você ainda deseja a emoção? — Perguntou suavemente, de um jeito ameaçador. — Não pense em negá-lo, porque eu sei que você vai fazer. — acrescentou ele quando ela abriu a boca para protestar. — Sinto a necessidade em teu interior. Sinto-a pulsando através de suas veias nesse momento.

Produziu um nó na garganta e tragou. O desânimo rondava a lava do azul-turquesa de seus olhos, mas também viu fome, um tormentoso desejo. Ela nunca seria feliz com uma vida normal. Necessitava aventura, necessitava realizar suas mais profundas fantasias e, embora fosse irracional, queria ser ele quem lhe desse, essas coisas.

   Seu olhar desceu aos seus lábios. Encontrou-se a si mesmo cortando o resto da distância, a um pulsar do coração de possuir sua boca com a sua própria. Ela moveu seus pés, lhe dando as costas e lhe obsequiando uma sedutora vista de sua encaracolada cascata.

   Uma adorável visão tinha certeza, mas não a única que ele desejava.

   — Sinto muito.

   Grace acariciou-se os lábios. Darius não a tinha beijado, somente tinha sido um sussurro, mas ainda assim seus lábios clamavam por ele. De todas as coisas que lhe tinha feito, de todas as coisas que lhe tinha feito sentir, esta era a que mais temia… este aparentemente inextinguível desejo que ela tinha por ele. Sua necessidade dele e só por ele.

   Essa consumível dor por seu toque que fazia com que esquecesse a única coisa que deveria lhe preocupar.

   Seu irmão.

   Mas…

   Quanto mais tempo passava na presença de Darius, via além de sua fria e dura máscara e entrava no vulnerável coração de um homem. E isso fazia que o quisesse inclusive mais. Isto a assustava completamente.

   Tal intensidade beirava a obsessão. Nenhum homem deveria ter tal poder sobre ela. Nenhum homem deveria ser capaz de envolver-la dessa maneira e consumir cada um de seus pensamentos.

   A maioria das mulheres sonhava tendo um forte e sensual homem ao alcance dos dedos. Fazia uma semana, ela teria estado em sua fila, pensando que não era mais que uma mulher que queria que um homem a olhasse com tal indiscutível fome, como se não houvesse nenhuma outra mulher que pudesse lhe fazer sentir dessa maneira. Agora mesmo, Grace se sentia muito exposta, muito vulnerável.

   — Não estou pronta para isto — disse ela. — Nem pronta para você. A noite passada, e inclusive em Atlantis, tudo parecia tão irreal. Isto… não o é. Isto é real e está ante seu rosto e não pode ser desfeito. Eu só não estou pronta — disse ela outra vez. — Mais que isso, o tempo se esgotando é horrível. Minha primeira preocupação tem que ser a segurança de meu irmão. Não meus próprios… desejos.

   Enquanto ela enumerava a lista de razões pelas que não podia ir para cama com ele, a mente de Darius formou uma lista de todas as razões pelas que sim deveria. E nenhuma só delas importava. Ela é minha, pensou. Seus instintos tinham tentado lhe advertir, realmente o tinham gritado a última vez que a beijou. Este indiscutível puxão tinha estado entre eles desde o começo e não ia partir. Só agora o admitia. Não esqueceria seu juramento, mas teria a essa mulher. No que a ela concernia, não lutaria muito tempo com suas necessidades.

   Faria um favor si mesmo, pensou ele, se tomava e arrancava essa obsessão que tinha por ela.

   Queria se levantar e se esticar para agarrá-la pela cintura. Obrigou-se a permanecer no lugar, as mãos dos lados. Tomaria, sim. Mas tomaria quando fosse ela a que estivesse desesperada por seu amor. Não ele. Gotas de suor apareceram sobre seu cenho e caíram por suas têmporas. Apertou as mãos no suave tecido do sofá.

   Necessitando de uma distração, Darius se levantou e liberou o diário de entre seus dedos. Ela ofegou ante a repentina perda e o fulminou com o olhar. Enquanto o fazia, colocou o pequeno livro em uma terrina e acendeu um fogo — com sua boca. Ele se surpreendeu quando o fogo se extinguiu rapidamente em nada e franziu o cenho. O fogo deveria ter durado muito mais. Seus poderes deviam haver se debilitado mais do que se deu conta.

   — O fogo saiu voando de sua boca — ofegou Grace. — Fogo de verdade e realmente saiu de sua boca.

   — Sim.

   — Mas o fogo saiu de sua boca.

   — Te disse que era um dragão.

   — Eu só não esperava que o fogo saísse de sua boca — Grace se esforçou por formar uma resposta apropriada.

   Darius era realmente um dragão. O conceito era ridículo — ou deveria havê-lo sido. Tudo isto deveria ter sido ridículo. Atlantis, os portais místicos, os deuses. Contudo, ela tinha passado de comprimento, aceitando cada fantástica experiência que se topava no caminho.

   Mas isto… Esperou que seu cérebro gritasse isto é muito. Não posso aceitar outro impossível sucesso.

   Surpreendentemente, sua mente não gritou. Deu-lhe a bem-vinda.

   Jogou a ponta de seu cabelo e soltou a respiração. Quando era uma menina, seu pai lhe tinha lido um livro cada noite. Seu favorito tinha sido a história de um longínquo príncipe que resgatava a uma princesa de um feroz dragão. Grace nunca tinha gostado dessa história. Ela sempre tinha querido que o dragão vencesse ao pusilânime príncipe de modo que a princesa pudesse atravessar as nuvens, montada em suas costas.

   Um verdadeiro e vivo dragão se sentava em sua sala de estar.

     — O que mais pode fazer? — perguntou ela, sua voz rasgada.

   Ele simplesmente arqueou uma sobrancelha, um você não gostaria de sabê-lo brilhou em seus olhos.

   — E bem? — exigiu ela.

   — Quando estiver preparada para a resposta, possivelmente eu diga isso. Até então… — ele se encolheu de ombros.

   — Bem — se zangou ela. — Se não quer falar sobre suas habilidades, ao menos diga por que destruiu o diário de meu irmão. Queria devolver a ele.

   — Não pode haver nenhum lembrete de Atlantis — enquanto falava, seus olhos azuis brilharam e arderam com vida própria, igual à névoa que guardava. — Decidi entre destruir o livro ou te destruir. Possivelmente, tomei a decisão equivocada.

   Ela preferia ao outro Darius, ao Darius com olhos cor mel. O homem que fazia que seu sangue cantasse e pelo que clamavam suas mais profundas fantasias. O homem que se enredava em seus nós.

   — Agora, conseguirá os coletes — ele disse, cruzando os braços sobre o peito.

   Ela enrugou o nariz.

   — Que coletes?

   — Os que prometeu na caverna que me compraria. Os que protegem contra as pistolas.

   É verdade. O tinha prometido. Com um suspiro, Grace desceu pelo corredor e entrou em seu quarto. Depois ligou o computador, com Darius permanecendo junto a ela todo o tempo, suas mãos aos lados dos braços da cadeira, seu peito pressionando contra suas costas; ela encontrou uma página especializada em pistolas e outros equipamentos.

   — Eu gosto dessa coisa — disse ele. — Esse computador.

   Com ele tão perto, tinha problemas para se concentrar.

   — Os coletes valem duzentos e cinquenta dólares cada um — disse ela, encolhendo-se no assento. Possivelmente deveria pôr o ar condicionado. Sua pele de repente se sentia muito quente para seu corpo. — Ainda quer comprar um?

   — Um? Não. Quero conseguir vinte. Por agora.

   —Vinte! De onde tirará o dinheiro? Duvido que traga algo com você.

   — Permitirei que você os pague.

   É obvio que o faria.

   — Quer um tamanho extragrande, não? — fazendo isto provavelmente se colocaria na lista dos mais procurados do FBI. Mas Darius queria os coletes, e o que quisesse Darius, ela o conseguiria. Depois de tudo, estavam se ajudando um ao outro.

   Ela fez o pedido e teve que utilizar seus dois cartões de crédito. Também pediu um envio noturno o dobro de caro. — Chegarão pela manhã.

   — Quero fazer uma visita aos Argonautas — disse Darius. — Depois disso, conseguiremos balas e me ensinará como usá-las.

   Um ditador, ela pensou e se perguntou, estupidamente, se ele seria assim de exigente na cama. Ela lançou um olhar aos duros ângulos de seu perfil. Oh, sim. Ele seria exigente e o conhecimento a fazia vibrar.

   Tragando ar, desligou o computador e se esticou na cadeira, desentorpecendo as mãos.

   — Acha que sabem mais do que me disseram?

   — Possivelmente sim. Possivelmente não.

   O qual não lhe dizia nada.

   — Se formos agora, podemos estar ali em menos de uma hora.

   — Ainda não é suficiente.

   Ele se inclinou, substituindo suas palmas sobre os braços de sua cadeira. Seus joelhos golpearam suas coxas quando seu olhar viajou sobre ela toda. Queimando-a. Devorando-a em uma maneira que deveria ter sido ilegal.

   Via além de suas roupas, suspeitou sem respiração, e via as duras protuberâncias de seus mamilos.

   — Primeiro, — disse ele— Tomarás um banho. Rapidamente.

   Um brilhante vermelho se instalou em suas bochechas.

   — Está dizendo que eu… — a mortificação era tão grande que quase não podia acabar a frase —… estou fedendo?

   — Tem manchas de sujeira aqui — dirigiu a ponta de seus dedos sobre o lado de sua boca. — E aqui — aquele dedo se moveu a seu queixo e suas fossas nasais se dilataram. — Embora para mim é formosa tal e como está, pensei que possivelmente queria se lavar.

   Ele pensava que era formosa? Que o era? Grace quase se derrete na cadeira. A maioria dos homens há encontravam um pouco gordinha, um pouco ruiva e cheia de sardas.

   Ela se esforçou para formar defesas contra ele e se recordar que não estava pronta para controlar a um homem tão perigoso.

   — Não me levará muito tempo.

   Com as pernas tremendo, levantou-se e correu para o banheiro. Fechou a porta de repente e colocou o ferrolho.

   Só no caso de lhe ocorrer à ideia de se deslizar ao interior, se despir e entrar na banheira com ela, deixando que a cálida água molhasse seus corpos nus e entrelaçados, passou-lhe a chave.

   Pressionou as costas contra a fria madeira, respirando agitadamente.

   Maldita fosse se não rogava que Darius queimasse a fechadura.

  

   Alex Carlyle estava quente e frio ao mesmo tempo.

   Um só guarda o transladou ao interior de sua nova prisão. Um único maldito guarda porque estava muito fraco para ser alguma ameaça real. As drogas que seus sequestradores tinham introduzido em seu sistema nervoso causavam um inferno ao seu corpo. Mantinham-no dócil, grogue e dependente. O mantendo sem interesse em escapar. O mantendo estúpido.

   Ou possivelmente sua debilidade se devia ao pouco nível de sangue. Aos vampiros lhes tinha permitido alimentar-se de seu pescoço cada vez que quisessem, sempre e quando não o matassem. Quase desejava que terminassem o trabalho.

   Durante meses não tinha feito outra coisa que respirar e viver Atlantis. Tinha adquirido a prova que queria de sua existência, mas já não dava uma maldita coisa por isso.

   Estremeceu-se. O quarto estava frio. Tanto que formava gelo cada vez que respirava. Por que então, ardia-lhe a pele? Afundou-se com força no chão. Outro tremor o sacudiu descendo por sua coluna igual às afiadas unhas.

   Uma mulher foi colocada a empurrões à cela. A única saída se deslizou fechando-se de repente atrás dela.

   Alex fechou os olhos, muito cansado para lhe importar. Momentos depois, umas pequenas e delicadas mãos lhe agarraram os ombros e o sacudiram suavemente. Seus olhos bateram as pálpebras abrindo-se, e se encontrou contemplando a formoso rosto etéreo de Teira.

   — Precisa de mim? — disse ela.

   Ele tinha perdido os óculos, mas não precisava deles para ver que seus pálidos olhos marrons estavam iluminados com preocupação.

   Tinha os cílios mais longos que jamais tinha visto; tão suave como o comprido corte até a cintura. Ela clamava que era uma prisioneira, igual a ele. Os dois tinham sido ‘escoltados’ a tantos lugares que já não sabia onde estava.

   Esta nova cela estava vazia e nua, como se alguém tivesse limpado recentemente as paredes.

   — Estou bem, — mentiu. — Onde estamos desta vez?

   — Em minha casa.

   Sua casa. Suspirou interiormente. Isso não lhe dizia nada. Ela nunca tinha mencionado onde vivia, e ele não tinha perguntado por que ainda não sabia se acreditar em uma só palavra da maravilhosa boca dessa mulher.

   Não sabia se poderia confiar em ninguém mais.

   Ultimamente tinha sido traído e lhe tinham dado as costas todos com os que se encontrava.

   Cada membro de sua equipe o tinha traído, dando sua localização a propósito por umas poucas centenas de dólares. O guia que tinha contratado para que cuidasse de sua segurança através do Amazonas tinha sido pago por um mercenário. Agora tinha que contentar-se com Teira.

   Ela era formosa, deliciosa e ingênua também, mas a beleza frequentemente ocultava uma montanha de mentiras. E ela estava muito preocupada com ele, muito ansiosa por saber mais dele. Possivelmente tinha sido enviada para lhe seduzir e lhe tirar a localização de seu medalhão, pensou com irritação. Por que a prendiam em uma cela com ele? Ele riu sem humor. Por qualquer motivo que lhe tirasse uma maldita resposta.

   Bom, a brincadeira era ela mesma. Teira não era seu tipo. Preferia a uma mulher que levasse muita maquiagem, e roupa ajustada sobre seu inclusive, cirurgicamente melhorado corpo. Ele preferia às mulheres que fodiam duro e lhe deixavam a mesma noite sem se despedir. — Se não lhe falavam enquanto isso, inclusive melhor.

   As mulheres como Teira o assustavam. Em vez de maquiagem e roupas ajustadas, levava um ar de inocência ao estilo de — se case comigo e me dê bebês — que o deixava nervoso. Tinha passado muitos anos cuidando de seu pai doente, muito assustado para deixar a casa se por acaso lhe necessitava.

   Ele se mantinha tão longe das mulheres honestas como podia. Em somente pensar em estar permanentemente atado lhe causava náuseas. Seus sequestradores deveriam havê-lo trancado com uma morena de aspecto luxurioso.

   Então possivelmente tivesse falado.

   Apertou a mandíbula. Nunca deveria ter adquirido esse maldito medalhão.

   O que Grace tinha feito com ele? E por que infernos tinha enviado para ela? Não tinha querido envolvê-la; simplesmente não se deu conta da extensão do perigo até que foi muito tarde. Não sabia o que faria se estivesse ferida. Tinha só três pessoas pelas que quais daria uma merda, e Grace era a primeira da lista. Sua mãe e Tia Sophie reclamavam um próximo segundo e terceiro posto.

   Teira lhe deu outra suave sacudida. Seus dedos eram iguais ao gelo, e ele advertiu que ele estava batendo os dentes.

   — O que quer? —ladrou ele.

   Ela se sobressaltou, mas não se afastou.

   — Precisa de mim? — perguntou ela outra vez. Sua suave voz flutuava sobre ele, como balançada por uma brisa primaveril. Seu inglês não era muito bom, mas tinha se arrumado para aprender o básico — e bastante rapidamente, também.

   Que conveniente.

   — Estou bem, — repetiu ele.

   — Ajudarei a se esquentar.

   — Não preciso de sua maldita ajuda. Vai para seu lado da cela e me deixe sozinho.

   Suas inocentes feições se apagaram enquanto ia para um lado.

   Ele lutou com uma onda de desgosto. Nunca o diria, nunca o admitiria em voz alta, mas gostava de sua proximidade. A sujeira manchava a cremosidade de sua pele, mas ainda cheirava como uma exótica tormenta de verão. A essência o confortava — mas também o assustava. Ela não era seu tipo, mas frequentemente se encontrava olhando-a, ansioso por sustentá-la, por tocá-la.

   Como se ela sentisse seus desejos interiores, moveu-se de novo para ele e passou seus dedos trêmulos sobre sua testa, descendo por seu nariz e além de seu queixo, com um ligeiro toque.

 — Por que não deixa que te ajude? — disse ela.

   Ele suspirou, saboreando suas carícias embora soubesse que deveria detê-la. Provavelmente havia câmaras ocultas em todos os lados, e não queria que ninguém pensasse que finalmente tinha sucumbido no que se referia a esta mulher.

   — Tem uma seringa de injeção? Tem o que demônios queiram que eles me dêem?

 — Não.

   — Então não pode me ajudar.

   Ela começou a riscar símbolos sobre a bochecha. Uma intensa concentração se assentou sobre suas feições.

   Seus tremores se fizeram gradualmente mais lentos, e o frio diminuiu. Seus músculos se relaxaram.

   — Sente-se melhor? — perguntou ela, um rastro de debilidade tingindo as palavras.

   Ele se arrumou para franzir o cenho com indiferença e encolheu ligeiramente os ombros. Que símbolos tinha desenhado ela e o que significavam? E como em nome de Deus lhe tinham ajudado? Ele era muito obstinado para perguntar.

   — Por que não te agrado? — sussurrou ela, mordendo o lábio inferior.

   — Agrada-me. — ele não admitiria que teria morrido sem ela. Seus sequestradores, os mesmos homens que o tinham caçado através da selva, levando-o depois de uma localização a outra, tinham sido brutais.

   Tinha sido golpeado, drogado e quase drenado e se encolhia com cada lembrança.

   Teira sempre estava ali, esperando por ele, consolando-o. Sustentando-lhe com sua tranquila fortaleza e dignidade.

   — Por que trancaram você aqui? — perguntou a ela, desejando imediatamente que pudesse recuperar as palavras. Não queria ver seu rosto nublado com a decepção quando ela tecesse uma rede de mentiras. Sabia por que estava ela ali, verdade?

   Suavemente, com delicadeza, estendeu-se ao seu lado e lhe passou um braço ao redor da cintura. A mulher desejava o contato corporal como ninguém que tivesse conhecido, como se o tivesse negado a maior parte de sua vida. E estaria mentindo se dizia que seu pequeno corpo não se sentia bem curvado perto dele.

   — Eles assassinaram ao meu homem e a todo seu exército. Eu tentei… Qual é a palavra? — ela franziu o cenho enquanto procurava em sua mente.

   Seu olhar caiu aprofundando em seus olhos. Eles estavam tão isentos de duplicidade como sempre.

   — Derrotá-los?

   — Sim. — disse ela. — Derrotá-los. Tentei derrotá-los.

   Acreditasse ou não em sua história, não gostava do pensamento de que estivesse atada a outro homem. E gostava ainda menos que lhe importasse.

   — Não sabia que estava casada.

   Ela afastou o olhar dele, passando-lhe, por cima de seus ombros. A tristeza e a pena irradiavam dela, e quando falou de novo, sua dor era algo vivo.

   — A união terminou muito rapidamente.

   Ele se encontrou pela primeira vez esforçando-se por ela. Rodeou sua palma com os dedos e lhe deu um ligeiro apertão.

   — Por que o mataram?

   — Para controlar a névoa que ele protegia e roubar sua riqueza. Inclusive ali, nessa cela, eles tiraram as jóias das paredes. Sinto saudades. — Acrescentou suavemente.

   Para controlar a névoa que ele protegia… Alex soube que ela era de Atlantis, embora nunca se imaginou que fora a esposa de um Guardião. Ou mas bem, antiga esposa. Deus sentia-se estúpido. É obvio que ela devia ser mantida com vida. Ela saberia coisas sobre a névoa que ninguém saberia.

   Ele estudou o rosto de Teira com novos olhos, notando-se na elegante curva de seu nariz e a elegante curva de suas pálidas sobrancelhas.

   — Quanto tempo faz que você… — Alex não podia dar um jeito para dizer marido. —… que ele se foi?

   — Semanas. Muitas semanas. — Levantando-se, Teira riscou a linha de seus lábios. — Me ajudaria a escapar?

   Escapar. Quão maravilhosamente soava essa palavra. Quão assustadora. Tinha perdido a noção do tempo e nem sequer sabia quanto tinha estado como prisioneiro. Um dia? Um ano? Ao princípio, tinha tentado liberar-se em numerosas ocasiões, mas sempre tinha sido impossível. Rodou sobre suas costas, e a ação fez que lhe doessem os ossos.

   Ele grunhiu. Teira não perdeu tempo em introduzir a cabeça no oco de seu pescoço e colocar a perna sobre ele.

   — Está tão só como eu, — disse ela. — Sei que o está.

   Ela encaixava perfeitamente contra ele. Muito perfeitamente. Como se tivesse sido especialmente feita para encaixar em seu corpo curva por curva. E estava sozinho. Ficou olhando o teto plano. O que ia fazer com esta mulher?

   Era uma puta sem coração que somente queria o medalhão e venderia seu corpo em troca disso? Ou era tão inocente como parecia?

   — Me fale de você.

   Ela tinha feito o mesmo pedido mil vezes antes. Não lhe faria mal dar-lhe um pouco de informação a respeito de si mesmo, decidiu. Nada importante, somente uma ou duas coisinhas. É obvio, não mencionaria a Grace.

   Não se atrevia. Seu amor por sua irmã podia ser usado contra ele, e isso não o permitiria.

   — Tenho vinte e nove anos, — disse a Teira. Ele posou suas mãos sobre sua cabeça e deslizou seus dedos através de seu cabelo. Não só pareciam fios da cor da luz, sentiam-se também dessa maneira.

   — Sempre tive paixão pelos carros rápidos. — E pelas mulheres rápidas, mas não compartilhou essa parte. — Nunca me casei, e não tive filhos. Vivo em um apartamento na zona de Upper East Sid de Manhattan.

   — Man-hat-tan, — disse ela, provando a palavra em sua língua. — Me conte mais.

   Não tinha mencionado o crime ou a poluição se não lhe dava detalhes do que sabia que gostaria.

   — Não importa que seja de dia ou de noite, a multidão lota as ruas tão longe como pode ver. Os edifícios se elevam até o céu. Lojas e confeitarias que nunca fecham. É um lugar onde cada desejo pode se tornar realidade.

   — Minha gente raramente sai à superfície, mas seu Man-hat-tan soa como um lugar de que poderíamos desfrutar.

   — Me fale de sua casa.

   Lembranças de sonho fecharam seus olhos, fazendo que o dourado se obscurecesse em chocolate. Ela se encolheu profundamente ao seu lado.

   — Estamos dentro de um palácio dragão, embora não possa dizê-lo por este teto. Fora, o mar alaga tudo ao redor. As flores florescem de cada cor. Há muitos templos de artesanato. — disse ela, deslizando-se a sua língua natal. — Mas a maioria de nós o esqueceu por que nós mesmos fomos esquecidos.

   — Sinto muito. — Enquanto ele entendia algo de sua linguagem, não estava nem de perto de ser fluido. — Só entendi um pouco do que disse.

   — Disse que gostaria de poder te mostrar isso.

   Não, tinha dito mais que isso, mas deixou pra lá. Quão maravilhoso seria passear através de Atlantis. Se conhecesse os habitantes, estudaria as casas, passearia pelas ruas e se encharcaria com a cultura, poderia escrever um livro de suas experiências. Poderia… Alex se encolheu quando se deu conta de que estava voltando para sua antiga maneira de pensar.

   — Desejaria ter o poder para te ajudar a entender minha linguagem. — Disse Teira. — Mas meus poderes não são bastante fortes para criar um feitiço. — Fez uma pausa, desenhando sua mandíbula com os dedos. — Quem é Grace?

   Horrorizado, arrastou-se e se separou dela como se fosse à donzela do demônio e viesse a lhe reclamar. Ele se encolheu quando uma onda de mal-estar o golpeou, sobressaltando-se quando uma aguda dor lhe rasgou as têmporas. Cambaleou-se ao recipiente de água no canto e sorveu um gole. Quando se sentiu mais estabilizado, deu um olhar para Teira.

   — Onde ouviu esse nome?

   Ela estava tremendo quando se sentou e levou os joelhos ao peito.

   — Disse-o enquanto dormia.

   — Não diga seu nome outra vez. Nenhuma vez. Entendido?

   — Sinto muito. Nunca quis te incomodar. Eu simplesmente…

   A porta se abriu.

   A sujeira voou em cada direção quando três homens irromperam em seu interior. Levava uma pequena mesa, outro uma cadeira e o terceiro, um prato de comida. Logo um quarto homem se uniu a eles, carregando uma semiautomática em suas mãos. Apontou com a pistola a Alex e sorriu abertamente, desafiando-o a que se movesse. Sua chegada significava que tinha sido drogado, assim era incapaz de ter medo.

   O tremor da Teira se incrementou. Cada dia esses mesmos homens lhe traziam comida, uma simples bandeja de pão, queijo e água. Cada dia eles escoltavam a Teira fora do quarto, lhe deixando comer sozinho. E cada dia ela lutava com eles, esperneando e gritando. Alex sempre tinha suposto que sua resistência era uma atuação, que a levavam a um lado para descobrir o que tinha descoberto com o passar do dia, mas quando a olhou, olhando-a realmente esta vez, viu os sinais de verdadeiro medo. Sua pele pálida tinha empalidecido ainda mais, revelando o vestígio das veias detrás dela. Seus olhos se voltaram impossivelmente redondos, e apertou os lábios… Para evitar sussurrar?

   A mesa foi colocada em frente de Alex. Com as mãos agora livres, o guarda que a tinha segurado se dirigiu a Teira e a agarrou com força pelo braço. Ela não protestou quando a puxou para pô-la em pé. Simplesmente olhou a Alex, rogando em silêncio que a ajudasse.

   — É hora de que seja você mesma, por um momento, coração. — disse-lhe o homem.

   Trabalhasse com essas pessoas ou contra elas, Alex se deu conta de que seu medo era real.

   — Deixa-a em paz. — disse ele. Ele a segurou pelo outro braço, fazendo que a puxasse como se fora um cabo de guerra.

   Um dos guardas franziu o cenho e foram para ele. Algo golpeou a têmpora de Alex. Sua visão se rabiscou. Seus joelhos venceram, e caiu ao chão. Com força. Teira gritou, tentando alcançar-lhe, e Alex observou com crescente horror como era esbofeteada. Sua cabeça se inclinou, e ele captou o sangue em seus lábios.

   A fúria o consumiu. Quente, cegadora fúria, lhe dando força quando não deveria havê-la tido. Com um rugido, levantou-se e se lançou pelo supliciador de Teira. Os três homens voaram para ele, e se encontrou sendo reduzido e vaporizado, incapaz de fazer nada uma vez mais.

   — Alex. — gritou Teira.

   Levante-se, gritava-lhe sua mente. Ajude-a. Quando se empurrou ficando novamente em pé, alguém lhe agarrou o braço. Experimentou uma aguda espetada quando uma agulha se introduzia em suas veias. Familiar calidez o invadiu, acalmando-o, relaxando-o. A dor de seus ossos se desvaneceu. Sua seca boca se alagou com pastosidade. Quando foi liberado, afundou-se no chão, a vontade de lutar o tinha abandonado por completo.

   Teira foi arrastada fora.

   Ele fechou os olhos e deixou que sua mente flutuasse à inconsciência. Passos ecoando em seus ouvidos, voltando para a quietude quando o restante dos homens evacuou o quarto. De repente soou um novo conjunto de passos, aproximando-se mais e mais a ele.

   — Desfrutando da mulher, né? — disse um homem, com voz familiar. Alex lutou por passar a rede que nublava seu cérebro e piscou. Uns olhos avelã o perfuraram baixando seu olhar para ele, os mesmos olhos cor avelã que pertenciam ao seu chefe, Jason Graves. Jason levava uma aura de autoimportância que era quase evidente. Também levava um medalhão de dragão ao redor do pescoço.

   Alex entrecerrou os olhos. Ele nunca tinha considerado a esse homem um amigo, mas tinha sido um deplorável chefe durante os quatro anos que tinha trabalhado para ele. A traição banhou a Alex, amarga e lhe picavam, quando se deu conta do que isso significava.

   Tinha-o suspeitado, mas ter a atual evidência ainda o surpreendia. Nunca devia ter roubado o medalhão, pensou ele.

   — Não sou outra coisa que hospitaleiro, — disse Jason. Seus olhos brilhando com superioridade.

   Ressurgiram fragmentos de sua fúria, passando a complacência das drogas. Se somente seu corpo tivesse a força para atuar.

   — O que lhe está fazendo a Teira? — ele se encolheu ante a resposta que se formava em sua mente, agora estava seguro que ela não estava trabalhando com ninguém, mas sim simplesmente tentava sobreviver. Igual a ele.

   — Nada que ela não desfrute, asseguro-lhe isso.

   — Traga-a de volta, — grunhiu ele. — Agora.

   — Primeiro, você e eu teremos um tête-à-tête.

   O grau de sua impotência brilhou tão alegremente como um sinal de néon. Fechou os olhos.

   — O que é exatamente o que quer de mim, Jason?

   — Me chame Professor, — disse seu chefe. — Todos os daqui o fazem. — ele pegou a cadeira que tinha sido posta em frente da mesa e tirou a tampa que cobria o prato de comida.

   A essência dos condimentos da comida e a fruta fresca perfumavam o ar, fazendo que a Alex lhe fizesse a boca água. Isto não era o pão e queijo que tinha esperado. Mas claro, a comida não era para ele. Quanto tempo tinha passado da última vez que tinha comido algo tão divino? Perguntou-se. Então riu. O que importava?

 — Que tal se te chamo Bastardo em vez disso? — disse-lhe.

   — Fá-lo e te estrangularei com seus próprios intestinos, — disse Jason com facilidade, quase feliz. — Depois, farei o mesmo a Teira.

   — Professor, então. — Bastardo. Estremeceu, endireitando-se até sentar-se e cruzar os braços sobre o peito.

   Jason enrolou o garfo no que parecia ser massa e disse.

   —Tem que estar faminto, Alex, una-se a nós.

   Um espinho de inquietação o atravessou e lutou para permanecer inexpressivo.

   — O que quer dizer?

   — Sua irmã, Grace. — Jason levou a comida à boca como por acaso. Fechou os olhos e mastigou lentamente, saboreando-a — a foto que tem dela em seu escritório é de uma menina de dez anos.

   A expressão de Alex mudou rapidamente para uma de terror, e o ar frio lhe filtrou até o tutano dos ossos.

   — E? — disse ele, esforçando-se por parecer despreocupado.

   — Uma voluptuosa, muito amadurecida Grace foi encontrada te procurando na selva. É maravilhosa, sua irmã.

   Jason lambeu o cremoso molho branco do garfo.

   Alex tentou levantar-se e envolver suas mãos ao redor do pescoço de Jason. Entretanto seu corpo se negou a cooperar, e ao meio movimento caiu direto ao chão.

   — Onde está? — ofegou. — Machucou-a? Fez-lhe algo?

   — É obvio que não. — O tom do Jason realmente continha um elemento de indignação. — Que tipo de homem acha que sou?

   — Realmente não quer que te responda a verdade?

   Ele passou uma mão pelo rosto.

   — Onde está?

   — Não se preocupe. Deixamos ela voar de volta a Nova Iorque. Está a salvo… no momento. Enviamos-lhe um e-mail de sua parte, dizendo que estava bem, e para sua segurança, espero que esteja satisfeita com isso.

   Sua mandíbula se apertou

   — Deixa-a em paz.

   — Isso depende de você, não é certo? — Jason colocou seus talheres sobre a mesa e se inclinou para ele.

   — Onde está meu medalhão, Alex? — perguntou-lhe, sua voz voltando-se dura, mais áspera.

   — Disse a seus homens, o perdi. Não sei onde está.

   — Acredito que isso é uma mentira. — disse-lhe Jason suavemente. Ele agarrou um abacaxi deslizando-a entre os dedos e lhe afundou os dentes, causando que os sucos corressem descendo por seu queixo. Limpou ligeiramente a umidade com o guardanapo, imitando a um perfeito cavalheiro sulino… o tipo de homem que frequentemente comparava com Alex.

   — Para que o quer, de todas as maneiras? Você já tem um novo.

   — Quero-os todos.

   — Por quê? Não estão elaborados em ouro e prata. São feitas de filigranas de metal. São peças de decoração, nada mais.

   Ambos sabiam que ele mentia.

   Jason se encolheu de ombros.

   — Eles oferecem o poder além da compreensão, embora ainda não tenhamos descoberto como funciona esse poder. Com o tempo. — Disse em confidência. — Com o tempo. Também abrem cada porta neste palácio, oferecendo um banquete de riquezas. Poderia ser parte disto… ao final teria solicitado sua ajuda, mas escolheu trabalhar contra mim.

   — Você acha que pode só roubar alegremente a essa gente e sair caminhando como se nada tivesse acontecido? — bufou ele. — Eles são meninos dos deuses. Eu, ao menos, somente queria estudá-los.

   — Não, você queria expô-los. Acha que isso teria feito algum bem a eles? Acha que todo mundo poderia resistir a vir aqui e roubar a superabundância de tesouros? — Agora foi Jason o que bufou. — Para responder a sua pergunta, não, não acredito que pudesse roubá-los tão alegremente. Sei que posso. Com bastante facilidade, também.

   Alex sacudiu a cabeça ante tal visível arrogância.

   — Suponho que me vai dizer que foi justamente como o fez. Podemos ter nosso momento de confissões de um tio mal.

   Um brilho de dureza entrou nos olhos de Jason, mas sua necessidade de gabar-se superava com muito sua cólera.

   Darius lançou uma olhada nos símbolos ao seu redor. Os edifícios se elevavam tão longe como o olho podia ver, estirando-se para o céu — um céu que era amplo e aberto, com nuvens, não cheio com cristal e água. Cores, tantas cores. Brilhando por todos os lados. Eles se moviam juntos como massas de gente passando a passos largos diante dele. Inclusive o sol brilhava em tons amarelo, laranja e ouro. Entretanto, o que mais o deixava atônito, era a multidão de aromas que se misturavam e lotavam o ar.

   O transbordamento de seus sentidos era estranhamente bem-vindo.

   Esse lugar não lhe oferecia a exuberante folhagem verde de seu lar, contudo, Nova Iorque era sedutora e adorável ao seu próprio modo. Um lugar que chamava à besta em seu interior — igual fazia Grace. Quando isto acabasse, ele faria… Não, não podia pensar dessa maneira. Não podia se permitir ver Grace em seu futuro. Devia acabar com isto.

   Alguns de seus homens estavam rodeando o palácio de Javar, evitando que os humanos estendessem sua violência. Ainda… seus punhos se apertaram. O fato de que vivessem lhe ofendia.

   E não gostava de ser ofendido.

   Ao seu lado, Grace passava rodeando uma mesa cheia de fotos.

   — Logo estaremos lá, — disse-lhe, dando uma olhada para ele. — Está bem? Parece pálido.

   Ela tinha mudado novamente de roupa depois de seu banho. Ela se via comestível. Pálidas calças azuis penduravam de suas pernas e uma camiseta verde mar moldava seus seios. Ela era igual a uma onda do oceano, completamente cativante. Ele podia afundar-se nela e morrer feliz.

   — Não se preocupe por mim.

   — Poderia nos transportar aos Argonautas e nos evitar caminhar, — disse ela. — Estou ansiosa para interrogá-los outra vez.

   Darius, também, estava ansioso por interrogá-los, mas ele não podia transportar-se nessa cidade. Para fazê-lo, tinha que visualizar seu objetivo. Não sabia nada desta área, pensou ele, deixando que seu olhar varresse. Uma gota de suor lhe caiu nos olhos, e a afastou.

   O sol continuava açoitando sobre ele, fazendo que tivesse mais calor com cada passo que dava. Geralmente seu corpo abraçava o calor. Agora lutava com uma profunda lassidão. Cambaleou quando seus pés tropeçaram com uma rocha. Um canto de seus lábios se elevou em uma careta quando se estabilizou. Detestava a debilidade de qualquer tipo, especialmente a própria.

   — Não está bem. — disse Grace, sua preocupação mais aguda. Agarrou-lhe o braço e tentou lhe levar a um lado.

   Ele se soltou e continuou caminhando na direção que lhe tinha dado ela antes. A preocupação de uma mulher não era algo com o que tivesse que tratar. A preocupação desta mulher era algo com o que não podia tratar. Vou levar-te a cama e te matar antes que vá, quase grita. Não perca o que fica de sua vida preocupando-se por mim.

   Apertando o cenho, saiu da rua. Queria sua pacífica e vazia existência de volta. Não mais desse sem sentido ‘A quero e não posso lhe machucar’.

   Não mais!

   A dor transpassou-lhe de repente a cabeça. Uma dor mais intensa que qualquer que tivesse experimentado.

   Dobrou-se com isso, amaldiçoando a todos os deuses enquanto isso.

   — Darius! — Gritou Grace, agarrando-o pelo braço e puxando-o para ela. — Olhe.

   Soou uma buzina. Uma freada. Carros saindo do caminho. O medo fez que o coração de Grace deixasse de pulsar quando um táxi quase roça o flanco de Darius. O órgão voltou a pulsar sozinho quando ela se assegurou ele de estar a salvo na calçada. Com o passar do caminho, ela chocou acidentalmente com uma garota que se dirigia em direção contrária.

   — Sinto muito, — disse ela, saltando fora do caminho para evitar o café que salpicava fora do copo da garota.

   — Olhe por onde anda, — se queixou a garota, sem mover-se realmente.

   — Darius, fale comigo. Diga-me o que está errado. — temendo muito soltar-lhe, agarrou-lhe a mão e o olhou. — Não nos vamos mover deste lugar até que o faça.

   — Meu tempo está correndo. — disse ele.

   Ela o estudou. Suas esculpidas feições estavam tensas, seus lábios apertados, e a fina linha ao redor de seus olhos se esgotaram.

   — Já disse isso antes. O que acontece se fica muito tempo?

   Ele se encolheu de ombros. Um minuto deu passo a outro, mas não se moveu. Não falou. Não a reconheceu de novo em uma ou outra forma. Ele simplesmente olhava aos homens, mulheres e meninos que continuavam passando por eles, alguns falando e rindo. Outros discutindo.

   Possivelmente ele pensava que utilizaria esse conhecimento contra ele. Não sabia, mas estava decidida a ajudá-lo.

   — Me olhe, Darius. Por favor, me olhe.

   Seu olhar descendeu gradualmente, caindo do alto dos edifícios, aos sinais de néon e finalmente a ela.

   Quando seus olhares se encontraram, ela ficou ligeiramente com a boca aberta. Quando o olhou, viu muitas coisas. Coisas que lhe atormentaram o coração. Viu dor em seus olhos, viu também traços de culpa e tristeza. E detrás de todo isso, estava o ligeiro brilho de… Esperança?

   — Quando voltamos da caverna, — disse ela— estava débil e pálido, mas depois bebeu limonada e se sentiu melhor. Se me esperar aqui, comprar-te-ei algo de comer.

   A culpa em seus olhos se incrementou, e ela se perguntou pela origem desta. Mas ele assentiu lentamente, e sua preocupação por ele se sobrepôs a tudo.

   — Esperarei.

   Ela correu ao interior da confeitaria. Suaves grãos de café, com um toque de baunilha, e uns apetitosos muffins perfumavam o ar. Ela agarrou um pouco de cauda. Quando chegou a sua vez, pediu uma garrafinha de água e uma barrinha de cereais para ela. Para Darius, pediu um delicioso e pecaminoso bolo de chocolate e um café expresso.

   Com a sacola e as bebidas na mão, reuniu-se com Darius. Ele não se moveu do ponto onde ela o tinha deixado e estava ainda muito pálido.

   — Aqui tem, — disse ela, lhe passando o bolo e o café. Seu olhar se deteve adoravelmente sobre o chocolate. Quanto tempo tinha passado desde que se concedeu esse prazer? Muito. Ela e Alex estavam acostumados a passar suas férias comendo caixas e caixas de bolos de chocolate. Tinham comido tantos como seus estômagos puderam suportar, e algumas vezes mais.

   Ela piscou afastando as lembranças, sua determinação por lhe encontrar crescia.

   —Vamos, — disse a Darius. — Caminharemos e comeremos ao mesmo tempo.

   Quando ficaram em movimento, Darius sorveu sua bebida. Recuperou algo de sua cor, e seus passos se fizeram mais fluidos. Os homens lhes dedicaram um amplo olhar e as mulheres lhe deram, mais a Darius, um segundo — e às vezes um terceiro — olhar. Grace sabia o que aquelas mulheres estariam se perguntando se ele se mostrava assim selvagem simplesmente passeando pela rua, Quão selvagem seria fazendo amor? Com a apertada camiseta negra e a calça justa, o homem emanava prazer sexual.

   Darius agarrou o bolo entre os dedos, estudando a suntuosa massa sob cada ângulo.

   Ela o olhou enquanto comia sua insípida barrinha de cereais.

   —Só o coma. — disse-lhe ela.

   — Isto parece como barro cremoso,

   — Se essa for sua atitude, merece comer minha barrinha. — A boca lhe enchendo d’água, colocou-lhe a barrinha na mão e lhe confiscou o bolo.

   — Devolva-me isso — disse ele.

   — Por cima de meu cadáver.

   — Tenho fome.

   — Bom, eu também.

   Ela estava só perto de levar o chocolate reverentemente à língua, a ponto de deixar que a nata Bavarian se deslizasse dentro de sua boca, quando Darius lhe arrancou a sobremesa das mãos.

   — É meu, — disse e lhe devolveu a barra de cereais.

   Pronta para lhe replicar, grunhiu em voz baixa.

   Seus lábios se estiraram.

   — Por que não compra um desse você mesma se o deseja tanto?

   — Por que… Justo por que! — Grace tragou sua água, deixando que o frio líquido lhe devolvesse a prudência. Estou sendo irracional, recordou-se, e não preciso engordar gramas extras. Além disso, o que importa uma sobremesa à vista de tudo o que aconteceu ultimamente?

   — Todas as mulheres da superfície se negam a comprar elas mesmas a comida que querem comer? — perguntou Darius.

   Ela voltou a pôr a tampa na garrafa de água.

   — Não vou falar sobre isso agora. Empurrou-me contra o chão, prendeu-se ao meu lado… colocou algum tipo de feitiço mágico de luxúria sobre mim. — uma vez disse as palavras, Grace piscou atônita. É obvio! Um feitiço mágico explicava o que parecia um inextinguível desejo por ele, tão bem como o fato de que frequentemente se encontrava pensando nele quando deveria estar pensando em maneiras de encontrar a seu irmão.

   Lentamente seus lábios se encheram em um meio sorriso, um verdadeiro sorriso de diversão. O primeiro que lhe dava. Também tinha um pingo de possessividade nesse sorriso. Seus olhos se obscureceram ao dourado.

   — Deseja-me?

   — Não, absolutamente. — Ela tirou o boné, suas bochechas escaldando-se com o calor. — Suspeito que seja capaz de tal desprezível feito, isso é tudo.

   Suas fossas nasais se dilataram de uma maneira que proclamava que sabia, sabia, exatamente como ela se sentia por ele — e sabia que o desejo era inteiramente dele.

   — Se hoje não tivéssemos muito que fazer, levar-te-ia de retorno a sua casa, doce Grace, e exploraria esse feitiço mágico de luxúria. Muito, muito a fundo.

   Enquanto ela se agitou por alguma classe de réplica, ele deu uma dentada em sua comida. Ele se deteve. Instantâneo e completamente, mastigando devagar. Fechou os olhos. Abrindo os olhos, revelando um desfrute equivalente a um orgasmo. Mastigou um pouco mais e então, engoliu.

   —Isto é… isto é…

   —Sei… — grunhiu ela, terminando sua barrinha. — Não é barro.

   O sabor era assombroso, pensou Darius, e lhe ajudou a recuperar mais de seu vigor. Como tinha chamado Grace a este tesouro culinário? Um bolo de chocolate. O delicioso bocado não era tão saboroso como o seria a própria Grace, mas se aproximava. Melaria seu corpo com isso e lamberia cada pedaço, possivelmente encontrasse a liberação antes que entrasse nela.

   Fazia tanto tempo que não saboreava nada e agora saboreava tudo. Sabia que Grace era a responsável, que ela era o catalisador. Mas não lhe importava. Ele se regozijou nessas novas experiências. Quando morresse — quando se fosse, corrigiu-se, não gostava de associar seu nome com a morte — perguntou-se se o saborearia sequer outra vez.

   Deu-lhe outra dentada no bolo e advertiu a Grace olhando sua boca com desejo em seu olhar turquesa. O estômago lhe encolheu. Ou desejava a ele ou a comida que comia? Bem mais a comida, refletiu ele, e se formou um humilde sorriso. Ela esteve a ponto de lhe morder a mão quando lhe arrebatou a sobremesa, recordando-lhe uma fêmea dragão que levava muito tempo sem comida.

   Limpou os restos de debaixo do nariz e suas pálpebras se fizeram pesadas e abafadiças.

   — Você gostaria de compartilhá-lo comigo? — perguntou.

   Ela gemeu como se lhe tivesse oferecido fazer seus sonhos realidade. Sonhos que eram proibidos, cobiçados.

   Sonhos que ela não podia entender, mas que desejava com cada ânsia de seu ser.

   — Não, — disse ela, essa simples palavra soava rasgada, como se a tivessem arrancado da garganta. Obviamente desejava compartilhá-lo, e com bastante desespero, Assim, por que pensava em negar? Não importa, pensou ele no momento seguinte. Antes que ela pudesse afastar-se, lhe colocou a comida nos lábios.

   — Abre. — exigiu.

   Ela obedeceu automaticamente. Então ofegou. Uma dentada. Saboreando-o. Quando tragou, fez ruídos de prazer.

   Ruídos entrecortados que só ouvia das mulheres em sua cama. Seu sangue se esquentou, saindo de sua cabeça e entrando em seu membro. Deuses, queria a essa mulher. Suas respostas para ela eram cada vez mais rápidas. E também um pouco mais intensas. No que concernia a ela, ele era uma besta. Primitivo e bárbaro. Em um momento a queria lentamente e fácil, terno. Ao seguinte a queria áspero, duro. Ao momento.

   Precisava saciar-se dela, mas para fazê-lo necessitava que ela estivesse tão desesperada por ele como o estava pela sobremesa.

   Seus dedos se curvaram ao redor de sua mão, mantendo o bolo no lugar.

   — Oh, Meu Deus! — Disse ela, fechando os olhos — Isto é tão bom.

   Ao primeiro contato de seus dedos, abrasou-o um calor vermelho vivo. Ele se separou dela de repente, então se encontrou voltando outra vez, alcançando a tomá-la pela base do pescoço e trazê-la para ele.

   Esticando-se para beijá-la, duro, profundo e molhado. Ele deixou cair às mãos aos seus lados. Apertando os dentes, incrementou a velocidade. Ele tinha que permanecer centrado no que se referia a essa mulher. O tempo para fazê-la lhe desejar viria depois de que ele aprendesse tudo o que pudesse dela e dos outros humanos. Maldição!

   — Reduz a velocidade. — resfolegou ela depois de uns poucos minutos.

   Lançou-lhe uma olhada por cima do ombro e viu uma mancha escura que manchava o canto de seu lábio. Antes que pudesse deter-se, estendeu o braço e limpou a mancha com a ponta do dedo. O contato foi ligeiro, rápido. Se demorasse, se prolongasse o contato, despi-la-ia. Penetrá-la-ia. Já estava perto do ponto de ruptura.

   Ele afastou o rosto dela assim que não lhe viu lamber a mancha que lhe tinha tirado em seu dedo.

   — Mais devagar, — disse outra vez. Quando indicava as direções, tinha que mover os braços e correr para lhe seguir o passo — vai baixar o ritmo? Já tenho feito bastante exercício durante os últimos dias para ao menos toda a vida.

   — Poderá descansar quando tivermos completado nossa missão.

   — Não sou um de seus homens. E só para que saiba, o resultado disto é tão importante para mim como o é para você — se não mais ainda — mas não farei nenhum bem a ninguém se desmaiar.

   Ele baixou o ritmo.

   — Obrigado, — disse-lhe ela. — Nem sequer me movia tão rapidamente quando pensei que me seguiam ontem.

   Darius se deteve de repente, causando que o casal que vinha detrás dele se topasse com suas costas. Ele permaneceu no lugar, absorvendo o impacto sem mover uma polegada. Murmurando maldições, o casal o fulminou com o olhar passando ao seu lado.

   — Estavam-lhe seguindo? — Exigiu Darius, com um olhar fulminante. — Por quem? Homem ou mulher? Machucaram-na?

   Quando Grace se deu conta que já não estava ao seu lado, que realmente lhe tinha passado se deteve e voltou para trás, esquivando um chiclete e rodeando a um vendedor de DVD pirata até que chegou ao seu lado.

   — Não tenho certeza, — disse ela. — Penso que um homem, embora não o visse. E não, não me machucou.

   — Então possivelmente lhe permita viver um dia mais.

   Oh, Deus, pensou Grace, de novo sem respiração por uma razão que nada tinha que ver com o exercício.

   A luz do sol delineou as feições de Darius, lhe dando a suas bochechas e nariz uma classe de brilhante dureza. Quando ele acendeu a intensidade disso, com sua atitude de mandão, seu ventre fez coisas estranhas. Sua mente fez coisas estranhas. Como tratar de convencer de que se lançasse aos seus braços, colocasse a língua na sua boca e se esfregasse de novo contra ele, sobretudo ele e esquecesse ao resto do mundo.

   — Manter-me-ei vigilante ao seu lado, — disse ele, seu olhar escaneando o lugar, procurando. — Se algum homem se aproxima hoje a você, o eliminarei. Não se preocupe.

   Ela assentiu, lutando com um involuntário estremecimento. Apesar de tudo, ou possivelmente por isso, ela sabia que Darius a manteria a salvo. Quando voltaram a se movimentar, ele continuou observando o mundo ao seu redor, notando-se em cada detalhe e sem perder nada. Igual ao guardião que tinha prometido ser, manteve-se alerta.

   Se estiverem sendo seguidos, ele saberia — e ela se compadecia de quem quer que fosse.

   Só passaram dois minutos depois de que Darius a arrastasse a uma loja de presentes próxima, fazendo a um lado às pessoas em sua pressa por entrar.

   — Sinto muito, senhora, — disse Grace. — A você, também, senhor.

   Ela se voltou rapidamente para Darius.

   — O que está fazendo?

   O feroz brilho em seus olhos azul gelo fez que tragasse um nó de apreensão.

   — Tinha razão. —disse ele. — A estavam seguindo. —Ele lançou um olhar por cima do ombro. — Ainda o fazem.

   — O que! — ofegou ela, justo quando ele a fixou contra uma prateleira de camisetas. Hoje não havia sentido nenhuma presença ameaçadora, não sentiu os olhos cravados em suas costas.

   — Deveria ter dado conta antes, — disse ele seco, mantendo seu treinado olhar na vitrine da loja, — mas minha mente não estava onde deveria ter estado.

   — O que deveríamos fazer? Quem é?

   —Um homem humano. De baixa estatura. Leva alguma classe de casaco, embora o dia seja caloroso.

   Grace tentou olhar sobre o ombro de Darius, mas este resultou ser muito largo e muito alto.

   — Pode nos ver?

   — Não, mas está esperando fora da loja.

   — Saímos por trás. Nunca saberá, e podemos...

   — Não. — Darius afundou as mãos nos bolsos, deu um giro de pulso e extraiu duas adagas. A grossura de suas mãos e braços mantinha as armas ocultas do público, mas ela sabia que estavam ali. Ele segurou cada arma encravada com força.

   — Desejo ter… uma conversa com esse homem.

   Atônita, horrorizada, só conseguiu ofegar a modo de resposta.

   Bom Senhor. Esse dia poderia haver um banho de sangue.

   — Não pode matar a ninguém, — murmurou ela com ferocidade. Seu olhar percorreu grosseiramente os arredores. Os turistas ficavam olhando como se eles fossem o entretenimento matutino. — Por favor, — acrescentou mais lentamente — guarda as facas antes que alguém se dê conta.

   — As facas ficam, — respondeu ele, com voz fria, sem sentimentos.

   — Não o entende. Isto…

   — Não, Grace. — Ele a fixou com um olhar. — Você é a que não entende. Pega algo desta loja. Algo. Já.

   Muito nervosa para preocupar-se com o que comprar, Grace levantou tremula uma réplica de plástico do Empire State Building.

   Depois de pagar por ele, agarrou a bolsa e caminhou com Darius para a porta. Ainda com o estômago encolhido.

   — Boa escolha, — disse ele, indicando o pequeno edifício. — Utiliza a ponta como arma se precisar cravar-lhe nos olhos.

   Cravar-lhe nos olhos? Grace tragou. Deveria ter comprado um globo de neve. Não se opunha em usar o Mace; era um spray, por Deus Santo! Mas usar uma réplica do Empire State Building, para cegar a um humano era…

   Só sou uma auxiliar de voo com uma permissão ampliada, pensou ela. Não apunhalo as pessoas.

   Darius deve ter sentido seu desconforto por que se deteve justo antes de sair fora. Enfrentando-a, disse:

   — Deixar-te-ia aqui se pudesse, mas o feitiço de vinculação não me permite isso.

   — Ter uma conversa com essa pessoa não é realmente necessário. — inclusive ao seu próprio ouvido soava tímida e estremeceu. Não queria que Darius fosse ferido ou se metesse em problemas com a lei. — Vi suficientes filmes e li muitos livros para saber que algumas vezes o curso de ação mais seguro é retirar-se.

   — E às vezes o curso de ação mais seguro é o equivocado.

   — Quando te pedi que me ajudasse a encontrar a Alex, nunca quis te pôr em perigo.

   Suas feições se suavizaram ante sua admissão, mas o brilho de culpa havia retornado.

   — Esse homem pode ter informação a respeito de seu irmão. Poderia ser um dos que o seguiu através da selva, um dos que o têm encerrado. Realmente quer deixá-lo ir?

   — Não. — disse ela rapidamente. Depois com mais firmeza. — Não.

   — Estarei bem. E você também.

   — Entretanto, utilizemos à violência como último recurso, ok?

   Um longo e prolongado silêncio os envolveu.

   — Como deseja, — disse ele a contra gosto. — Em troca dessa concessão, quero que fique atrás de mim. E não fale até que lhe de licença. De outra maneira me distrairá.

   Resistindo a urgência de enlaçar seus dedos aos dele, seguiu-o à luz do sol. Uma cálida brisa os saudou quando começaram a passear. Ao princípio pensou que Darius os dirigia a um beco privado, mas seu guerreiro nem sequer tinha pretendido tal ignorância. Aproximou-se do homem vestido com um impermeável marrom que estava parado frente ao mostruário de uma loja olhando para o interior. Uma loja de Maternidade?

   Absurdo.

   Ao observar seus reflexos, o homem se deu conta de que Darius iria por ele. Ficou rígido, ofegou e ficou em movimento, fugindo deles tão rápido como lhe permitiam seus pés.

   — Corre, Grace. — gritou-lhe Darius por cima do ombro, quando ele, também, começou a correr.

   Uma força invisível a puxou detrás de Darius, obrigando ao seu corpo a entrar em ação. Seus pés apenas tocavam o chão enquanto voava, literalmente voava, detrás dele. Maldito feitiço de vinculação!

   Darius seguiu ao homem através das luzes do tráfego e esquivando carros, passando às pessoas e os postos de comércio.

   Irritados bufos e gritos de surpresa ecoavam em seus ouvidos, misturado com o som de seus próprios ofegos.

   Isso era uma sirene de polícia? O ar lhe ardia nos pulmões. Ela agarrou o Empire State Building de plástico enquanto corriam sem cessar.

   Se isto continuava, possivelmente diminuiria seu tamanho em três números até o final do mês.

   Quando Darius finalmente chegou a lhe alcançar com os braços, agarrou a seu objetivo pelo pescoço, cortando rapidamente qualquer grito de protesto. Utilizando uma única mão, levantou ao homem e o levou a interior de um beco próximo. Ali, soltou-o, observando ao agitado homem cair sobre seu traseiro e apoiar-se na parede. Darius cruzou os braços sobre o peito, desafiando-lhe a que se atrevesse a mover-se.

   Detrás deles, Grace soprou e resfolegou ao deter-se, logo se dobrou, ofegando por respirar. Se sobreviver a esse dia, ia conceder a si mesma e a Alex um enorme pote de sorvete. Ou possivelmente uma banana Split. Ou possivelmente uns donuts cobertos com calda de chocolate. Ou possivelmente os três. Endireitou-se e viu vários homens amontoados contra a suja parede. Suas roupas estavam rasgadas, e seus rostos sujos e assustados. Pensariam que teriam que enfrentar-se depois com Darius?

   Forçando um sorriso, Grace entregou a um dos homens seu Empire State Building — hoje não ia apunhalar a ninguém — e alcançou sua carteira. Extraiu vários bilhetes. Ante a vista do dinheiro, todos os homens do beco perderam o interesse em Darius.

   — Para vocês, — disse ela, lhes pagando para que partissem e guardassem — seu pequeno segredo. — Estou ajudando e instigando a um criminoso, pensou ela, uma incrível onda de excitação estrelando-se dentro dela.

   Excitação? Não, certo que não. Esquiar em Aspen não a tinha excitado. Fazer parapente no México não a tinha excitado.

   Com maior probabilidade o que sentia era um intenso medo. Em qualquer momento esperava que aparecesse a polícia para prender a ela e a Darius.

   — Gritarei.

   A ameaça chegou quando o homem ficou em pé.

   Darius arqueou ambas as sobrancelhas. Um rastro de suor brilhava em seu pescoço e rosto, mas sua expressão não mostrava debilidade alguma.

   — Acaso é uma mulher? — disse-lhe. — Primeiro te esconde nas sombras, e quando lhe pegam, grita?

   — Me coloque uma só mão em cima, e a polícia estará sobre vocês.

   Darius lhe agarrou pelos ombros, levando seus pulsos em um cruzamento e pressionando suas facas de maneira sutil na artéria do homem. Não tanto como para lhe transpassar a pele, mas o suficiente para cravá-la.

   Então foi quando Grace deu um primeiro olhar ao homem. A surpresa a congelou durante um comprido momento.

   — Patrick? — disse ela quando finalmente encontrou a voz. Esse homem trabalhava com seu irmão. Tinha sido o que a tinha escoltado ao navio, e a tinha entretido com várias conversas sobre sua família.

   — O que está fazendo? Por que me está seguindo?

   Silêncio.

   — Responde suas perguntas. — exigiu Darius. Quando Patrick se negou a falar, Darius incrementou a pressão das armas, fazendo pequenas espetadas e extraindo sangue.

   — Não me matará, — disse-lhe com suficiência.

   — Tem razão. Não te matarei. Não com as facas, ao menos. — Darius atirou suas armas e as substituiu por suas mãos rodeando o pescoço do homem.

   — Eu… eu não estava seguindo-a. Juro-o. — saltou Patrick, seu rosto desvanecendo-se lentamente do rosa, deste ao branco e ao azul.

   Ele chutou e apertou as mãos, perdendo sua satisfação pela necessidade de ar.

   Com os olhos totalmente abertos, deu uma olhada de Darius a Patrick, de Patrick a Darius. A intimidação era uma boa tática para obter o que queriam, mas ela sabia que Darius não estava tentando lhe intimidar. Realmente mataria a Patrick sem sentir uma só náusea.

   — Está mentindo, e eu não gosto dos mentirosos, — disse Darius, sua voz tão aborrecida que poderia ter estado dissertando sobre os hábitos de acasalamento das moscas. Mas seus olhos se estreitaram e sua voz se fez mais profunda, não com aborrecimento, se não com raiva. — Te reconheci. É o que tocou a Grace enquanto dormia.

   Os olhos do Patrick quase saíram de suas órbitas.

   —Não, não, — ofegou ele, lutando para se soltar do agarre de Darius. — Eu não o fiz.

   —Te vi fazê-lo. —disse ele, expondo os dentes.

   Essas eram presas? Ela se estremeceu quando viu os longos e afiados incisivos. Então suas palavras penetraram em seu cérebro.

   — Ele me tocou? — ofegou ela, suas mãos ancorando-se em seus quadris. Fulminando a Patrick com o olhar, perguntou. — Que parte de mim?

   — Sua bochecha. — disse-lhe Darius.

   Ela apertou a mandíbula com fúria.

   — Não pôde me haver visto, — disse Patrick a Darius. — Não estava no navio.

   Não, não tinha estado no navio, mas então, Darius não o necessitava. Teria utilizado seu medalhão com ela igual que tinha feito com o Alex, deu-se conta ela, sem gostar que ele a tivesse visto e ela não o tivesse sabido.

   Patrick fez um som do fundo da garganta, e intensificou sua luta por liberar-se. Suas pernas se agitaram e suas mãos deram golpes.

   — Se estivéssemos em minha casa, — disse Darius. — Te arrancaria as mãos por tal ofensa.

   — Não lhe fiz mal. — Chiou Patrick. — Sabe que não lhe fiz mal.

   — Novo engano. — disse Darius. Um brilho de escamas verdes pulsando por sua pele. — Tocou a minha mulher. Minha. Só por isso quero te matar.

   O coração de Grace parou. Literalmente parou, suspenso em seu peito. A que deveria reagir primeiro? Às escamas ou à declaração — ela é minha mulher.— A nenhuma, decidiu. Somente Alex importava agora. Não é que a surpreendesse o fato de que houvesse escamas de dragão sob a pele de Darius, e é obvio não se alegrou por suas palavras.

   Aplacando suas emoções, obrigou-se a centrar-se em Patrick. Seus lábios se moviam, mas não saia nenhum som.

   — Acredito que está tentando dizer algo, Darius, — disse ela.

   Passaram vários segundos antes que Darius afrouxasse seu aperto.

   — Tem algo a dizer?

   — Eu… — Patrick ofegou em busca de ar. — Só necessito… — uma profunda respiração—… um momento.

   — Supunha-se que está procurando ao meu irmão, — disse-lhe Grace. — Por que não está no Brasil?

   — Está morto. Alex está morto. Encontramos provas justo depois de que fosse. Sinto muito.

   Se Darius não lhe tivesse mostrado a Grace prova de que Alex vivia, teria afundado de joelhos e teria soluçado. De todas as coisas ditas, de todos esses fingidos remorsos, esse era o mais cruel.

   Seus olhos se entrecerraram.

   — Pode lhe matar, Darius.

   Darius a olhou com surpresa, olhando seus lábios como se não pudesse realmente acreditar o que tinham proclamado. Ele sorriu lentamente, então voltou esse sorriso a Patrick.

   — O que a mulher quer, — disse-lhe — eu o dou.

   Ambas as mãos de Patrick empurraram o peito de Darius, mas a ação não fez efeito.

   — Não posso te dizer nada. Perderei tudo, maldição. Tudo!

   — Então prefere perder sua vida?

   Darius incrementou a pressão. Patrick gorjeou, abrindo e fechando a boca em busca de ar.

   Grace colocou de lado suas inclinações assassinas. Pensar na morte e realmente presenciá-la era duas coisas totalmente diferentes.

   Sem saber sequer o que fazer, posou sua mão no braço de Darius.

   — Possivelmente me apressei em falar. — disse ela. —Daremos a ele uma mais oportunidade.

   Darius lançou uma olhada a sua mão, então ascendeu seu olhar ao rosto dela, sem liberar a Patrick. O azul dos olhos de Darius se desvaneceu substancialmente, fazendo que parecessem quase completamente brancos.

   — Deixe ir. Por favor. — Sua mão ascendeu, e lhe acariciou a bochecha com os dedos. — Por mim.

   Não sabia por que tinha acrescentado àquelas últimas palavras e não esperava que funcionassem. Com tudo a cor começou a voltar para os olhos de Darius, não o gelado azul se não a maravilhosa cor marrom dourada. A cor que estava começando a amar.

   —Por favor. —disse-lhe de novo.

   Ele liberou a Patrick no instante seguinte. O ofegante homem caiu no sujo concreto, tentando lutar por encher seus pulmões.

   As marcas avermelhadas rodeavam seu pescoço, mudando a um negro azulado enquanto as olhava. Ela e Darius esperaram a cada lado, em silêncio, enquanto Patrick respirava trazendo a vida de volta ao seu corpo.

   — Por que está seguindo a Grace? — Exigiu Darius. — Não te darei outra oportunidade de responder, assim escolhe cuidadosamente suas palavras.

   Patrick fechou os olhos e apoiou os ombros contra a parede. Seus dedos lhe massageando a garganta.

   — O medalhão, — disse ele, sua voz áspera, quebrada. — A segui pelo medalhão.

   — Por quê? — Cada músculo que possuía Darius se contraiu. — Que espera fazer com ele?

   — Meu chefe… quer suas jóias, — ofegou Patrick. Isso é tudo.

   — Como sabe o que sou?

   — É igual aos outros. O único que nós… — suas palavras se desvaneceram. — Eu só segui a Grace aonde quer que fora, para lhes comunicar aonde fora ou com quem falava. Não iria machucá-la de maneira nenhuma. Juro-o.

   — Nos dê um nome. — disse ela com brutalidade, embora estivesse começando a suspeitar da resposta.

   Seus ombros se estremeceram, e riu, um riso sem humor — não posso acreditar que isto esteja acontecendo.

     — Dir-lhe-ei isso, mas sabe o que? Melhor que esteja preparada para caminhar com a merda até o nariz, porque isso é o que ele vai fazer você passar. É o mais avaro filho da puta que jamais conheci, e fará algo, algo para conseguir o que quer.

   — Seu nome, — insistiu ela.

   — Jason Graves. — Ele fez uma pausa, acrescentando bruscamente. — O chefe de Alex. O proprietário do Argonautas.

   Um frio tremor de medo atacou a Grace. Argonautas. Jason. Os fragmentos de informação começaram a juntar-se em sua mente. Tremendo interiormente, Grace se dobrou até que ela e Patrick estiveram olhando-se nos olhos. Ela cavou sua mandíbula com tremulas mãos e o obrigou a enfrentá-la, a olhá-la diretamente aos olhos.

   — Jason Graves está mantendo Alex cativo?

   Patrick assentiu a contra gosto.

   — Onde? — a palavra explodiu dela. — Aqui nos Estados Unidos? Brasil?

   — Em diferentes lugares. Nunca passa muito tempo no mesmo lugar.

   — Estava no Brasil enquanto eu estava ali? É por isso que sua gente estava tão desejosa de me enviar a casa?

   Por que não a mataram? Por que não tinham ameaçado a Alex com sua vida? Tinha que haver uma razão.

   — Queríamos que saísse dali de modo que não dificultasse a nossa busca do medalhão. A parte disso estou tão confuso como você a respeito de onde o têm. — acrescentou ele. — Me disseram que precisava saber o básico, não precisava saber nada mais que isso.

   — Quanto tempo esteve prisioneiro?

   — Umas poucas semanas. — Patrick se encolheu de ombros, então tossiu. — Se supunha que encontraria o e-mail que lhe enviamos e que deixaria de investigar. Por que diabo não deixou de procurar?

   Sua pergunta era retórica, assim não se incomodou em respondê-la.

   — O que Jason planeja fazer com ele? Matar? Liberar-lhe no final?

   — Quem sabe. — disse ele, mas a verdade estava em seus olhos. Alex nunca seria posto em liberdade. Não com vida.

   — O que ouvi por último, é que ele estava bem.

   Ficando em pé, Grace elevou o olhar para Darius.

   — Temos que ir à polícia, — disse ela. — Temos que lhes contar o que está passando.

   — O que é polícia?

   Quando ela o explicou, ele disse bruscamente.

   — Não. — Sacudiu a cabeça, causando que negras mechas de seu cabelo acariciassem suas têmporas. — Não envolveremos a ninguém mais.

   — Ajudar-nos-ão. Eles…

   — Só dificultariam nossa busca. Eu seria incapaz de usar minhas… habilidades especiais. Encontrarei ao seu irmão por mim mesmo.

   Estava-lhe pedindo que confiasse completamente nele, depositando a vida de seu irmão em suas mãos. Poderia? Atrever-se-ia?

   Ela baixou o olhar a suas mãos.

   — O que faria com essa tua polícia? — Exigiu Darius. — Dizer-lhes que o mito de Atlantis é real e que seu irmão descobriu a prova disso? Dir-lhes-á que viajou para lá? Trairá a nossa gente e causará dor ao meu lar?

   Seus olhos se fecharam durante um breve instante. Suspirou mentalmente. Atrever-se-ia a confiar nele? Perguntou-se a se mesma outra vez.

   Sim. Atrever-se-ia. Nenhum homem era mais competente. E nenhum homem possuía os dons mágicos que tinha Darius. Ele podia fazer coisas que a lei não podia; poderia levá-la a lugares que a lei não poderia.

   — Confio em você. — disse ela. — Não irei a eles.

   Ele assentiu como se sua resposta tivesse significado pouco para ele, mas ela viu o fluxo de alívio em seus olhos.

   Ele voltou sua atenção a Patrick.

   — Aproxime-se de novo de Grace — disse seu tom duro, letal — e não encontrará mais piedade de minha parte. Entendeu?

   Patrick assentiu lentamente. A ação provocou-lhe um estremecimento.

   Seus olhos brilhando de um gelado azul, Darius se inclinou e recuperou as facas. Ele sentiu-se tonto de repente, mas se estabilizou. Grace lhe agarrou pelo braço para ajudar-lhe a manter-se. Sua pele estava pálida outra vez quando voltou a colocar suas armas em seus bolsos. Enlaçou seu braço ao redor da cintura dela e curvou seus dedos possessivamente encerrando suas costelas.

   — Vamos fazer uma visita a esse Jason Graves.

    

   Os Argonautas estavam hospedados em um conjunto de edifícios de cristal e cromo, e quando Grace entrou no elevador para subir ao quadragésimo terceiro andar, refletiu, pensando que a companhia deveria haver-se hospedado em uma choça de vergonha e cobiça.

   Acaso Jason Graves pensava realmente que podia encerrar sem mais ao seu irmão e sair impune? Suas mãos se fecharam em bolas de punhos aos seus lados. Debaixo de sua raiva, entretanto, aqueles pingos de medo se negavam a abandoná-la. Recordava o frio e doente que estava Alex.

   — Estou assustada, Darius. — murmurou ela.

   Curiosamente ele permaneceu em silêncio. Solene. Em realidade.

   Grace se voltou para ele e piscou. Embora houvesse retornado um pouco de cor as suas bochechas, as linhas ao redor de seus lábios estavam tensas, e havia um novo oco em suas bochechas. Não gostava de ver esse duro, forte e extraordinário homem debilitar-se de tal maneira. Não porque isto o fizesse menos capaz de ajudá-la, se não porque lhe importava. Darius. Tudo o que fazia lhe importava. Vê-lo aflito era pior que experimentá-lo ela mesma.

   A realidade se chocou contra ela quando se deu conta do que isso significava… Oh, Deus! Não podia estar simplesmente preocupada com ele. Amava-o.

   Grace gemeu, e Darius a fulminou com o olhar. Ofereceu-lhe um forçado meio sorriso. De todas as coisas estúpidas que tinha feito. Apaixonar-se por este forte guerreiro era como saltar de um avião. Sem pára-quedas. Sem aterrissagem. Só… pegar-lhe.

   Quando disse a Darius que não estava pronta pra ele. Tinha dito a verdade. Ele era muito intenso. Muito obstinado. Era muitas coisas, como pode ter sucedido isso?

     Não te preocupe com isso agora. Só alimenta-o. Devolva-lhe a força. Sua mão tremeu quando buscou o pacote de mentos. Mantendo a vista longe de seu rosto. — Não queria que ele soubesse o que estava pensando. — Esticou a mão e lhe pegou a mão. Sua palma estava quente e seca, grossa e áspera. Ele deu um puxão.  

     — Não me faça nenhum favor, — ela se soltou e tentou afastar a mão. Acabava de saber que o amava, e ele não queria que o tocasse. — Só saiba que, não queria pegar sua mão. Só queria te dar um mentos.

   — Deixa-a de todos os modos, — disse ele, dignando-se a falar com ela.

   — Deixe ir…

   — Fecha a boca, ou a fecharei por você. Com a minha.

   Entrecerrando os olhos, levantou sua mão livre e lhe colocou vários mentos na boca, lhe calando com efetividade.

   Que fechasse a boca, não? Seu nariz se enrugou enquanto mastigava, mas o apertão sobre sua mão se fez mais forte.

   Alguém desde atrás riu entre dentes, lhe recordando que havia dois homens com maleta e pastas também no elevador. Dirigiu-lhe um olhar a ambos e deu a cada um rápido e forçado sorriso.

   Sem prestar atenção à advertência de Darius, sussurrou-lhe.

   — Quando estivermos ali, me deixe fazer as perguntas. Não quero que ninguém saiba que sabemos o que está acontecendo.

   Ele franziu o cenho.

   — Te permitirei fazer as perguntas, já que é sua gente, — disse em voz alta, sem lhe importar a audiência. — Entretanto, se não responderem como quero, ver-me-ei obrigado a atuar.

   — Não pode ameaçar a todo mundo que se negue a responder a suas perguntas, — disse ela, ainda mantendo a serenidade. — Ou acabará na prisão,—numa masmorra — ou como chame a isso.

   — Algumas vezes, doce Grace, sua inocência me diverte. Como se pudessem me reter em uma prisão. —Franziu o cenho. — Este artefato não pode ir mais rápido? Já perdemos bastante tempo.

   Com sua mão livre, pressionou os botões da parede.

   O elevador se deteve na seguinte planta. Como na seguinte… e na seguinte.

   — As escadas teriam sido mais rápidas, — murmurou um dos homens de negócios, sua voz cheia de irritação.

   Grace lhe dedicou outro sorriso, este de desculpa.

   O homem a fulminou com o olhar, como se tudo fora culpa dela. Como se ela pudesse controlar a essa massa de mais de um metro oitenta de guerreiro quem… Oh Meu Deus! Darius estava mostrando outra vez suas presas, desta vez ao pobre e inocente homem de negócios.

   Quando o elevador se deteve outra vez, os dois se escorreram com assustados ofegos—mas ao menos estavam vivos.

   — Viu isso? — dizia um deles. — Tem dentes afiados.

   Quando as porta se fecharam, deixando ela e Darius a sós, o silêncio os rodeou como em um punho. Uma e outra vez o elevador fazia paradas. Quando alguém tentava entrar, Darius lhes dava o mesmo recebimento que lhes tinha dado aos homens de negócios e cada um deles retrocedia e partiam antes que as porta se fechassem.

   Depois da quarta parada, o estômago de Grace ameaçou revelando-se, e ela empurrou a Darius do elevador à planta… Vinte e nove. Precaveu-se com horror.

   —Desculpe-me, — disse a primeira pessoa que viu, uma mulher idosa que levava uma bandeja com aroma de capuccinos de baunilha. — Onde estão as escadas?

   — No final do corredor. A última porta a sua direita.

   — Obrigado. —Só quando estiveram dentro das vazias escadas de serviço, Grace voltou a falar. — Possivelmente agora é um bom momento para que me fale a respeito de suas peculiaridades draconianas. — disse ela, mordendo o lábio com nervosismo. Sua voz ecoando nas paredes. — Preciso estar preparada… só no caso de...

   Enquanto subiam, ela conservou o firme apertão sobre sua mão. Não lhe pediu que o liberasse e ela se permitiu pensar que era porque necessitava o contato tanto como ela, que era porque estavam relacionados de alguma intangível maneira e que o contato físico reforçava esse vínculo.

   — Os dragões podem voar, — disse com um suspiro.

   — Com asas?

   — Tem alguma outra maneira?

   — Não há necessidade de ser grosseiro. Não há nenhum vulto nas costas de sua camisa que indique a presença de asas ou outro tipo, ela procurou em sua mente a palavra correta, acabando por ‘artefato’ para voar.

   — Estão ocultas ao longo de minha pele. Quando emergem as asas, a pele se retrai. Possivelmente lhe mostre isso. Depois. Quando estivermos sozinhos.

   Havia uma promessa de algo em sua voz, algo quente e selvagem e eroticamente a perturbava e o imaginou sem a camiseta, imaginando os dedos riscando um atalho pelos músculos e flancos de suas costas. Estremeceu-se. Sua essência escolheu esse momento para rodeá-la, envolvê-la, inundá-la, despertando-a a um profundo nível de necessidade.

   Tinha que mudar de tema antes que fizesse algo estúpido, como ignorar ao mundo exterior e suas responsabilidades e lhe arrastar a casa.

   — Há humanos em Atlantis? —perguntou.

   — Alguns. Faz anos os deuses trouxeram humanos ao nosso país para nos recordar nossa humanidade. Não muito depois de sua aparição, comeram os vampiros.

   — Fantástico. — Deu-lhe uma olhada através das pestanas, então se voltou a concentrar rapidamente nas escadas antes que tropeçasse — Hum, bom, tiveste alguma vez um encontro com uma humana antes? Não é que esteja tendo um encontro agora, — precipitou-se ela. — Quero dizer… — Ela apertou os lábios.

   Ele foi direto ao miolo do assunto.

   — Por encontro se refere a ir à cama?

   — Se a perguntar não te incomoda, então sim.

   — Tem certeza de que deseja ouvir a resposta?

   Sim. Não. Suspirou. Realmente queria sabê-lo.

   — Sim.

   — Só há uma humana com a que iria à cama, Grace, e planejo fazê-lo. —um de seus dedos acariciou sua cálida palma.

   Oh. Laços de prazer se enrolaram a seu redor, e seus lábios se elevaram em um suave sorriso que não pôde conter. Para o momento em que alcançaram a planta quarenta e três, as coxas do Grace ardiam com fadiga. Sempre tinha sonhado tendo uma perfeita talha seis, mas a tortura requerida para obtê-la era muita.

   Exercício… como tinha chegado a aborrecer essa palavra. Era uma coisa mais estúpida que o alinho de rancho de poucas calorias.

   Darius sustentou a porta e ela passou junto a ele, finalmente liberou sua mão. Ela entrou no interior do Argonautas, o tapete debaixo de seus pés era de uma felpuda lã em cor Borgonha. Seu olhar escaneou os escritórios. Sobre as paredes penduravam Picasso, Monet e Renoir. Os guardas ocupavam várias esquinas, e as câmaras de segurança vagavam girando em cada direção. Uma pequena cascata rochosa enchia o centro da área de espera, e um caro e exótico perfume flutuava no ar, flutuando à deriva como nuvens sobre o sol em um perfeito dia de primavera. Ambos eram pacíficos e ambos zombavam dela.

   Que bastardo! Não havia duvida em sua mente de como Jason Graves confrontava essas coisas. Uma onda de raiva ferveu profundamente em seu interior. Quando Alex tinha começado a trabalhar pela primeira vez para os Argonautas, apenas fazia suficiente dinheiro para pagar o aluguel e se transladou ao seu decadente novo apartamento no Upper East Sede.

   Também os Argonautas se transladaram de seus pequenos escritórios no Brooklin até aqui.

   Ontem, ou inclusive fazia uma hora, ela teria pensado que esses sucessos eram por causa dos recentes descobrimentos mitológicos. Agora sabia a verdade. Jason Graves confrontava esses luxos a base de saquear Atlantis.

   Ela se dirigiu à mesa de recepção. Três mulheres se encarregavam dos telefones e os computadores. A primeira, a que Grace se aproximou, tinha o cabelo negro e curto e encaixava perfeitamente com suas feições. Não era bonita no sentido tradicional, se não atrativa. Franziu o cenho com impaciência ante Grace, então ficou com a boca aberta quando viu Darius. Esse maldito sex appeal dele!

   — Um momento, por favor, — disse a mulher ao seu microfone vocal, falando com receptor. A Darius, disse-lhe.

   — Posso ajudar? — sua voz era modulada, rica.

   Grace fechou as mãos em punhos para evitar soltar suas garras.

   — Veremos a Jason Graves agora. — disse ele.

   E ia levar ela toda a conversa, ela suspirou.

   — Qual é seu nome, Senhor?

   — Darius en Kragin.

   Os dedos da mulher voaram sobre o teclado, suas largas e ovais unhas sem lhe incomodar ao escrever. Sem levantar o olhar, perguntou.

   — Qual é sua companhia?

   — Venho em meu próprio nome.

   Ela acabou de escrever, leu sobre a tela do computador, depois o avaliou com um olhar.

   — O Sr. Grave não está hoje. Está fora por negócios.

   Grace passou uma mão pela cara. Estava cansada de atrasos e lhe tinha acabado por completo a paciência.

   — Quando espera que retorne? — perguntou ela com mais dureza da que pretendia.

   — Ao final da semana. Possivelmente a princípios da que vem. Se deixar seu nome e número, assegurar-me-ei de que receba a informação quando voltar.

   Pouco disposta a esperar esse tempo, Grace disse.

   — O seu assistente? Está?

   — Esse seria Mitch Pierce, — disse a mulher. Apoiou os cotovelos sobre o escritório, unindo seus delicados e largos dedos e apoiando o queixo no berço que formavam suas mãos. — E sim, está.

   Mitch… outro Argonautas que a tinha ajudado na selva. Ela continuou franzindo o cenho.

   — Veremos a ele. Hoje.

   Arqueando as sobrancelhas e um sorriso de superioridade ante suas palavras.

   — Tem hora marcada?

   Grace abriu a boca para dizer não, mas se deteve. Admitir que não tinha hora marcada seria a maneira mais rápida de lhes mostrar a porta. Entretanto, agarrá-la-ia mentindo se dizia que sim. Sem saber o que fazer, riscou seu lábio inferior com a ponta de um dedo e fingiu lhe dar voltas à pergunta. Provavelmente pareça uma idiota.

   Felizmente a recepcionista se cansou de esperar e disse, exasperada.

   — Verei se pode recebê-la. Qual é seu nome?

   — Grace Carlyle.

   Uma mão esmurrava o computador enquanto a outra apertava uma série de números no teclado do telefone.

   Depois de solicitar a visita ao Sr. Pierce, pendurou o telefone e olhou a Grace.

   — A verá em uma hora. Podem esperar nas portas duplas a sua esquerda.

   — Obrigado. — disse Grace. Tentando sem êxito dissimular seu triunfo, acompanhou a Darius ao interior da sala de espera. Estavam sozinhos no cômodo. Uma mesa redonda de cristal ocupava o centro e estava cheia com livros e revistas; junto à parede mais longínqua se encontrava um sofá e várias cadeiras. Todos elegantes e caros.

   Durante sua espera tiveram várias visitas dos guardas de segurança. Ela deu uma olhada a algumas revistas. (Segundo o teste de amor de Cosmo, ela e Darius não eram compatíveis).

   Em uma das revistas havia um artigo sobre Jason Graves, seus recentes descobrimentos, e sua recente acumulação de riqueza. O artigo contava como tinha adquirido o edifício de apartamentos no Upper East Sid e tinha permitido a todos seus empregados ficar ali — o qual era onde vivia Alex. Isso sabia.

   O mesmo Jason ficava em Penthouse. Isso não sabia.

   Darius passou pouco tempo acomodado em seu assento, suas mãos fechadas atrás do pescoço. Mantinha os olhos fechados. Ela suspeitava que estivesse reunindo forças e preparando-se mentalmente para a confrontação que se aproximava.

   Finalmente uma mulher, ligeiramente idosa e menos hostil que a recepcionista, entrou dizendo.

   — O Sr. Pierce a verá agora. Se me seguirem…

   Grace ficou em pé, Darius justo ao seu lado. Compartilharam um olhar antes de sair. Um ao lado do outro, saíram ao corredor e giraram uma esquina. A mulher se deteve e gesticulou com a mão para diante.

   — A última porta à direita. — disse-lhes.

   Deslizando-se por diante dela, Grace observou cada porta que encontrou. Ela não tinha visto o nome de Alex. Onde estava seu escritório?

   — Estou mais que pronta para cravar aos Argonautas na parede. — murmurou a Darius.

   Um genuíno sorriso brincou nas comissuras de seus lábios.

   — Não tinha me dado conta antes da moça tão sanguinária que é. Tenta conter sua sede de sangue o suficiente para que possamos interrogar a esse Mitch.

   — Sede de sangue? — ofegou ela, então se deu conta que tinha pensado que ela queria cravar ao Mitch na parede literalmente.

   — Queria dizer… Oh, não importa. — O que tivesse querido dizer ou não, a idéia tinha seu mérito. — Tentarei me conter.

   Ao final do corredor surgiu uma só porta. O nome da placa no centro anunciava o nome de Mitch em rotuladas letras negras.

   — É essa, — disse Grace, alisando camiseta e os jeans. Não sabia o que diria ou faria quando o visse.

   Darius nem se incomodou em chamar. Simplesmente abriu a porta e entrou.

   Seguiu-lhe pisando os calcanhares.

   Mitch se sentava em uma enorme mesa de mogno. Não havia nenhuma desordem, os papéis estavam colocados ao seu redor. Ele se via tão normal como Grace recordava, com amplos ombros e magros membros agradavelmente atrativo com umas ligeiras sardas que lhe davam um ar distinto. Uma única coisa sobre sua aparência captou seu interesse. O suor que aflorava sobre sua sobrancelha.

   Estava nervoso.

   Que interessante. Seu olhar catalogou o escritório, que seguia a maré de riqueza e indulgência. Arte, vasilhas, cristais e figuras de madeira. O tapete tão suave sob seus pés que se sentia como caminhando sobre nuvens. Com um visivelmente forçado ar de despreocupação, Mitch juntou as mãos — mãos que lhe tremiam ligeiramente — e apoiou os cotovelos sobre a superfície do escritório. Havia algo em seus olhos, algo que não tinha advertido antes… eram redondos e brilhavam. Cobiça.

   Ele lhes ofereceu um agradável e falso sorriso.

   — É um prazer te ver outra vez, Grace. — disse ele. — Parece bem depois de sua viagem pela selva amazônica.

   — Obrigada. — Bastardo. Não lhe ofereceu o mesmo elogio.

   — Por favor, sentem-se. — Ele tossiu e lançou um nervoso olhar a Darius. — Sentia realmente a necessidade de trazer um guarda-costas?

 — É um amigo, — disse ela. — Está ficando comigo durante um tempo.

   — Sei. Bom, de novo, por favor, sentem-se.

   Darius cruzou os braços sobre seu enorme peito, estirando o material de sua camisa negra até esticar-se sobre seus músculos, em silencioso declínio. Só um idiota subestimaria suas capacidades.

   Mitch usou um lenço branco para limpar a testa. Obviamente não era tolo.

   Grace permaneceu ao lado de Darius. Só rogava para suas presas de dragão permanecessem retraídas. Ver a Mitch mijar-se nas calças não era como queria começar esta reunião. A única vez que, possivelmente, estivesse encantada de ver essas presas era na cama. Enquanto ele estivesse nu. Olhando-a embaixo dele. Movendo-se nela.

   Por Deus santo, se concentre.

   — Muito bem, então. — Disse Mitch. — Como posso te ajudar?

   — Onde está seu líder, Jason Graves? — exigiu Darius.

   — Fora da cidade. Ainda no Brasil, temo-me. Eu estou mais que disposto a te ajudar se necessitar alguma coisa.

   Mitch riu com nervosismo.

   — Quero saber por que tinha um homem seguindo a Grace. — Ele sublinhou a palavra tinha, deixando claro que Patrick já não lhes seguiria mais.

   Com um audível glup, Mich se reclinou em seu assento. Muito perdido em sua apreensão, nem sequer tentou negá-lo.

   — Suponho que ameaçaram a esse homem. Posso perguntar o que lhes disse?

   — Não nos disse nada, — mentiu Darius. — Somente que vocês o tinham enviado.

   Os ombros de Mitch se relaxaram.

   — Enviamos a alguém para seguir a Grace, mas o fizemos por sua própria segurança. Tememos que algo tenha acontecido a Alex, e não queríamos que o mesmo destino caísse sobre Grace.

   —Disse — acontecido, como passado. — Apontou Grace. — Então, agora sabe que não lhe aconteceu nada?

   —Não, não. Isso não é o que queria dizer. — o sorriso que lhe dedicou era fraco. — Como disse, ainda temos homens buscando-o, tanto no Brasil como aqui. Eu retornei porque alguém tinha que levar a companhia. Mas, não se preocupe. Encontrá-lo-emos e o traremos para casa são e salvo.

   — Estou certa de que o farão. — ela agarrou as barras da calça jeans e os retorceu, desejando que em seu lugar, fora o pescoço de Mitch.

   — É isso pelo que está aqui? — perguntou ele. — Para perguntar por nossos progressos com o Alex? Deveria ter me ligado. Poderia ter te economizado a viagem.

   — Estou aqui porque quero ver seu escritório, se puder.

   — Oh, uh, temo que isso me é impossível, — disse ele, seu sorriso ampliando-se. — Só os empregados dos Argonautas têm permissão para entrar nos escritórios. Confidencialidade de clientes e tudo isso. — Ele riu de modo instável. — Está procurando emprego, Grace?

   Ela arqueou as sobrancelhas.

   — Está-me oferecendo trabalho, Mitch?

   Ele fez uma pausa.

   — Sempre estamos necessitados de bons empregados.

   Provavelmente porque os matam a todos, pensou ela. Ela ouviu Darius ofegar e se perguntou tardiamente se o haveria dito em voz alta.

   —Quando saírem, — acrescentou Mitch, seu comportamento não tinha mudado, o qual queria dizer que não tinha ouvido seu comentário—, lhe peça a recepcionista uma solicitude. Se for um pouco parecida com Alex seria um magnífico acréscimo a nossa equipe.

   — Assegurar-me-ei de fazê-lo, — lhe contemplando com serenidade, ela inclinou a cabeça a um lado. — Tenho curiosidade. Suspeitava que algo mau lhe tivesse acontecido a Alex, por que não chamou à polícia?

   — Não queremos envolver as autoridades dos Estados Unidos até que não tenhamos informação mais concreta.

   Como um corpo? Refletiu ela.

   — O que têm feito para lhe localizar?

   — Jason pode te dar mais detalhe a respeito disso quando voltar. Possivelmente deveria contatar você mesma com a polícia.

   Ela abriu os olhos completamente quando lhe ocorreu uma idéia. Mitch queria que ela fosse às autoridades. Por quê? Que bem poderia fazer a ele? A menos… Poderiam estar planejando fazê-la passar por uma estúpida, uma irmã preocupada? Ou pior, culpa-la de um crime? Condenar à irmã. É obvio. Essa era a razão pela que lhe permitiram abandonar o Brasil, a razão pela que a mantiveram com vida e não a esgrimiram ante o Alex como um incentivo para que falasse.

   A verdade a percorreu. O devia a Darius. Uma muito grande. Tinha-a salvado de cometer um tremendo engano, de cair diretamente nas mãos de Jason.

   — Ainda não fui, não, — disse a Mitch. — Possivelmente o farei.

   — Isso possivelmente seja sábio, — disse ele, lhe oferecendo pela primeira vez um genuíno sorriso. — Há simplesmente tanto que podemos fazer. —Ele fez uma pausa para respirar. — Quer beber algo?

   Quão casualmente voltava para o cavalheirismo. Como posso te ajudar? Quer beber algo?

   De repente Grace queria chutar, chiar e largar tudo o que sabia que tinham feito escondendo e encerrando a seu irmão. Queria atravessar o escritório, com um par de mágicas luvas, e golpear a Mitch entre seus ambiciosos olhos. Também, queria encontrar o medalhão e oferecer-lhe em bandeja de prata.

   Só me devolva ao meu irmão, gritou interiormente.

   Isto a deprimiu mais do que podia fazê-lo nenhuma outra coisa. Se suspeitassem que sabia a verdade, matariam a Alex. Se encontrasse e lhes entregasse o medalhão, matariam a Alex. Destruiriam as provas de suas maldades, por assim dizê-lo. De uma maneira ou outra, ele morreria.

   Nunca em sua vida se havia sentido mais indefesa.

   — Nada de beber, — disse ela, surpreendida por seu calmo tom. — Embora, tenho algumas pergunta para você. Quando foi a última vez que ouviste de Alex? — Se ela o fazia falar o tempo suficiente, possivelmente se confundisse e deixasse escapar inadvertidamente informação crucial.

   — Acredito que já respondi a essa pergunta. Faz umas poucas semanas. — Disse Mitch. — Me telefonou para nos fazer saber que estava entrando na selva.

   — Qual é o nome do homem que encontrou sua equipe? Foi o último que tinha visto Alex? Tinha ido quando despertei no navio, assim não tive oportunidade de falar com ele. — E agora sabia por que.

   Mitch tragou.

   —Eu, uh, não posso recordá-lo.

   Ela retorceu de novo os jeans com força.

   — Os Argonautas não arquivam as viagens de Alex? Não deveriam ter provas litográficas com os nomes dos homens que contratam?

   — Nós não financiamos a viagem, — ele ofereceu com muita rapidez. — Possivelmente Jason possa te dizer o nome do homem quando voltar.

   — Na selva, queria ficar e procurar Alex, mas me disseram que ele já tinha adquirido um bilhete para voltar para Nova Iorque. Sabe em que companhia aérea?

   — Não posso recordá-lo. — riu, estirando o som. — Serei honesto com você, Grace. Não tenho certeza onde está e de que vôo tomou. Desejaria poder te ajudar, mas… — se encolheu de ombros. — Poderia estar em qualquer lado.

   — Suspeitam de que haja jogo sujo no meio?

   — Certamente esperamos que não. Não queremos considerar essa possibilidade até que devamos fazê-lo.

   Grace vasculhou o cérebro procurando outra pergunta, outro comentário, mas ficou em branco. Olhou a Darius. Sua expressão estava em branco, estoica, como ela tinha a sensação de que morria por cruzar o cômodo e golpear a Mitch sobre o tapete. Obviamente Mitch recebeu a mesma impressão; movia-se incômodo na cadeira.

   Com a completa atenção de Mitch centrada sobre ele, Darius se passou pela mesa de maneira casual, levantando floreiros e figuras como se não fossem mais importantes que ácaros de poeira.

   Seus dedos os calibraram, desprezando-os e colocando-os de novo em seus lugares com completa indiferença. Mitch se esticou, tragando. Entretanto, não saiu nenhum só protesto de sua boca.

   — Eu não gosto, — disse-lhe Darius, sopesando uma pesada taça encravada em suas palmas. Ele ofereceu as palavras com certa tranquilidade, uma segurança que só possuíam as pessoas mais confiadas.

   — Recorda a um vampiro sanguessuga.

   Mitch puxou sua gravata azul claro.

   — Aqui, uh, não há tais coisas como vampiros.

   — Nem dragões, tenho certeza, — respondeu Darius. Toda cor se esfumou do rosto do homem, mostrando os magros ocos de suas bochechas. Seu olhar se alargou, e transladou sua atenção entre Darius e a taça.

   — Isso é verdade. — rompeu ele, estirando-se instintivamente pelo artefato.

   Darius fez um estalo com a língua. Lançou a taça ao ar, agarrando-a, para lançá-la outra vez. Quando a agarrou pela segunda vez, disse por acaso.

   — Já que é tão incrédulo, nunca terá que preocupar-se de ser comido vivo por um dragão. —Arqueou uma sobrancelha. — Não?

   Com um estrangulado grito. Mitch ficou em pé, sua cadeira escorregando detrás dele enquanto ancorava as palmas das mãos sobre a superfície de seu escritório.

   — Deixe isso antes que chame a segurança. Tudo o que tenho feito é tentar ajudar, e assim é como me pagam isso. Podem encontrar a saída vocês mesmos.

   — Vi antes estes objetos, — comentou Darius, ficando justo onde estava e lhe dando à taça uns passes mais.

   — No Archeologist Digest, tenho certeza. — Mitch deu uma breve e desesperada olhada a Grace. Ela nem se incomodou em lhe olhar. — Agora, por favor — acrescentou ele. — Tenho trabalho que fazer, e tenho certeza que não querem me tirar mais tempo.

   Depois de deixar a taça em seu lugar, Darius palmeou uma vasilha adornada com uma série de dragões sobrepostos ao redor da borda.

   — Onde o encontrou?

   Uma pausa. Uma tosse.

   — Em Madrid. Realmente tenho que voltar para o trabalho.

   — Juraria sobre minha vida que isto pertence a meu amigo. Possivelmente tenha ouvido dele. Seu nome é — ou era — Javar ta 'Arda. O deu de presente a sua esposa, Teira, com uma vasilha idêntica a esta em vésperas de seu casamento.

   — Possivelmente deveria deixar isso no chão. — Mitch lambeu nervosamente os lábios. — Falava a sério quando disse que ia chamar a segurança. Não quero fazê-lo, mas o farei.

   Darius devolveu a vasilha ao seu lugar, deixando-a cambaleando-se sinistramente na borda.

   — Como disse faz um momento. Eu não gosto. Mas Grace me pediu que não matasse hoje a ninguém. Contudo, — acrescentou ele depois de uma estudada pausa — sempre há um amanhã.

   Com isso, saiu a passos largos do escritório. Esse é meu homem, pensou Grace com orgulho.

   — Que tenha um bom dia, Mitch, — disse-lhe ela, lhe dando uma última olhada. Tinha o rosto tão pálido que parecia um fantasma — ou um vampiro. Estendeu a mão, correndo para a mesa em seu afã por salvar a vasilha da aniquilação.

   Quando saiu detrás de Darius, ouviu o romper da porcelana, o uivo de um homem. Ambos empolgando seu espírito, e segurou um sorriso.

   Perdido na intensidade de suas tormentosas emoções, Darius olhava fixamente para diante enquanto ele e Grace se dirigiam para sua casa.

   — Acha que Alex estará bem? — perguntou ela, sua voz tão baixa que tinha que esforçar-se por ouvi-la.

   — De momento. Ele tem algo que eles querem. De outra maneira, o teriam matado faz tempo.

   Isso a manteve tranquila durante um tempo.

   — Onde acha que o estão retendo?

   — Em Atlantis.

   Ela se deteve a meio passo, antes de voltar a ficar em movimento.

   — Mas o comprovou. Disse que não estava ali.

   — Nesse momento, não o estava. A visão de Alex o confirmou, estava na superfície. Entretanto, depois de conhecer o gravatinha de Mitch suspeito que já foi transladado.

   — Como averiguaremos onde o têm retido em Atlantis? Interrogando a Mitch? Irrompendo no Argonautas?

   — Não, — respondeu ele. — Mas bem teremos que descobrir o lugar em que reside Jason Graves. — Mas mais que isso, irromper na casa de Jason lhe proveria de um maior entendimento do homem com o que logo lutaria.

   Oh, sim. Lutaria com o Jason. Sua antecipação crescia com cada segundo que passava.

   — Tem razão. — Grace pigarreou e curvou sua luxuriosa boca com antecipação. Suas afeições eram tão adoráveis que lhe doía o peito quando a olhava. — Desde que está fora da cidade, — ela se mofou da palavra. — Hoje é o dia perfeito para que nós mesmos entremos no apartamento.

   — Iremos de noite, quando as sombras nos ocultem.

   — Depois disso, — vacilou ela,— irá para casa?

   — Primeiro devo pegar os coletes.

   Aproximaram-se da porta de Grace, e ela tirou uma chave.

   — Quero ir com você quando voltar.

   — Não. Absolutamente não.

   Ela entrecerrou os olhos.

   — Entra. Agora. — Ele a empurrou com suavidade para que cruzasse a entrada. — Há algo que devo fazer antes de me unir a você.

   Uma escura tormenta se formava em seu interior. Necessitava algum tipo de liberação, precisava planejar seu próximo movimento Mas mais que nada, precisava pôr alguma classe de distância entre Grace e seus crescentes sentimentos por ela.

   Não lhe deu tempo a que lhe fizesse perguntas. Simplesmente fechou a porta ante sua atônita e formosa cara.

   — Estarei justo aqui se precisar de mim. — disse-lhe através da madeira.

   Possivelmente foi sua imaginação, ou possivelmente via mais claramente inclusive que antes, mas nos olhos de sua mente viu a ponta de seus dedos acariciando as nervuras da madeira, vendo-a apertar os lábios e seu entristecido olhar. Ela não sabia o que estava acontecendo com ele e isso a preocupava. Não era a primeira vez que se preocupava com ele, e cada vez isso o tocava mais profundamente, lhe abrandando de algum jeito.

   Esperou até que ouviu a fechadura fazer clique encaixando em seu lugar antes de afastar-se e começar a passear acima e abaixo pelo corredor. Teria gostado de explorar essa Nova Iorque, mas o feitiço de vinculação evitava qualquer enorme distancia entre ele e Grace. Ocasionalmente os humanos passavam junto a ele e o olhavam com curiosidade, mas ninguém se deteve e lhe perguntou.

   Quero ir contigo, havia dito Grace.

   Ele empalideceu ante o pensamento de levá-la de volta ao seu lar, inclusive quando a alegria lhe inundava. Como teria amado deitar Grace sobre sua cama, seu corpo nu aberto e impaciente por ele. Ele ansiava que fosse realidade.

   O pensamento de estar sem ela o deixava frio. E o conhecimento dessa frieza o deixava cambaleante.

   Amanhã teria que ir-se. Tinha momentos de completa força e momentos de completa debilidade.

   Não importava que tivesse descoberto ou que não, não importasse que tivesse adquirido ou o que não, voltaria para casa de manhã, ou não acreditava que tivesse força para transportar-se a si mesmo à névoa.

   Contudo, ainda tinha muito que fazer.

   Ainda tinha que matar a Grace.

   Embora, poderia? Poderia lhe machucar?

   Darius não tinha que pensar nisso. Não. Não podia.

   A resposta se deslizou através dele como uma navalha afiada. Não poderia ferir a doce e inocente Grace de nenhuma forma.

   Cativava a tantos níveis. Tinha chegado a depender dela em maneiras que uma vez tinha considerado impossível, ansiando as emoções que o fazia sentir com a mesma ferocidade que uma vez as tinha odiado. Sem ela, não estava completamente vivo.

   Ele a tinha observado de pé ante esse homem, Mitch, e se havia sentido orgulhoso. Não se tinha vindo abaixo. Tinha-o interrogado sem revelar sua dor, sem derrubar-se sob a necessidade de administrar justiça. Era uma mulher de força e honra uma mulher de amor e confiança.

   Sua mulher.

   Suas botas palpitaram silenciosamente no tapete. Deleitou-se no rico aroma da comida que parecia envolver todo o edifício, a cidade, conduziu sua mente a seu próprio lar. Javar e todos os dragões dessa unidade estavam mortos. A escura pena tingiu seu sangue quando finalmente admitiu a verdade. Soube além de qualquer duvida no momento em que divisou os tesouros da casa de Javar expostos em tom zombador dentro do Argonautas.

   Seus amigos estavam mortos, repetiu em sua mente. Eles tinham morrido pelas pistolas, principalmente. Pistolas… e vampiros.

   Possivelmente o Livro do Ra-Dracus tinha ajudado inclusive. Não importava o que acontecesse, o que teria que fazer, vingar-se-ia.

   Isto era o que acontecia se permitisse que os humanos soubessem de Atlantis; isto era do que Javar lhe tinha advertido.

   Embora Javar não tivesse sido um homem fácil de conhecer, tinha sido como um pai para Darius. Entenderam-se mutuamente. Quando Teira entrou na vida de Javar, o homem se suavizou e o laço entre tutor e estudante se fez mais profundo, inclusive mais longo. Que morte sem sentido. Uma morte inútil.

   Tinha perdido ao único próximo a ele da morte de sua família. E agora os fios de dor, tanto passado como presente, elevavam-se dentro dele igual a uma maré, filtrando-se insidiosamente atravessando suas defesas e erodindo o tecido de sua separação. Uma aguda dor o esfaqueou, e ele agarrou o peito.

   Nega suas lágrimas e mantém a dor em seu interior, menino. Utiliza-o contra aqueles que nos querem fazer mal. Mata-os com isso.

   Havia-lhe dito Javar variando uma ou outra daquelas palavras. Ele não queria que Darius se afligisse, mas assim era. Não teria sobrevivido aqueles primeiros anos sem Javar, sem o propósito que lhe tinha dado seu tutor.

   Deveria ter matado ao humano, Mitch, pensou Darius desapaixonadamente. Deveria ter matado a ambos os humanos. Mitch e Patrick. Cada um deles possuía conhecimentos da névoa, certamente teriam entrado e teriam tomado parte na morte de Javar. Entretanto, se os tivesse destruído, sentia que o irmão de Grace teria sido assassinado em vingança.

   Mais que isso, não queria que Grace o visse como um assassino. Protetor, sim. Amante, definitivamente.

   Mas desumano assassino? Já não.

   Ele só podia supor como reagiria ela se contemplasse totalmente à besta em seu interior. Tremeria com medo e desgosto? Fugiria dele como se fosse um monstro? Não queria que lhe tivesse medo; Queria suave. Dando-lhe a bem-vinda. Ele só a queria a ela, toda ela. Agora… e possivelmente sempre.

   Tinha estado tão perto de perder o controle com o chamado Patrick, e lhe tinha tomado um consciente esforço acalmar-se. Estar cara o rosto com o homem que tinha passado seus dedos sobre o dormido corpo do Grace o deixava furioso. Só ele tinha direito de tocá-la. Só ele, Darius, tinha direito de contemplar suas exuberantes curvas e imaginá-la nua e aberta, pronta e impaciente.

   Pertencia-lhe.

   Desejava lhe dar o mundo, não arrebatar-lhe.  

   Desejava encher seus dias com excitação e suas noites de paixão. Desejava protegê-la, honrá-la e dedicar-se a suas necessidades. Não podia deixá-la ir, deu-se conta agora. Nunca. Necessitava-a porque ela era seu coração. Suas emoções nunca tinham sido tão suaves no que a ela concernia nem tão impossível de parar como uma turbulenta tempestade.

   Nunca serei capaz de lhe machucar. A admissão se solidificou em seu interior. Seus profundos instintos masculinos souberam desde o começo. A mulher era parte dele, a melhor parte, e feri-la o destruiria a ele.

   Havia um modo de ter todo isso, decidiu. Uma maneira de evitar machucá-la, uma maneira de conservá-la para si mesmo e ainda honrar seu juramento.

 Só tinha que descobrir qual era.

  

   Com o medalhão roubado em seu bolso, Alex agarrou a mão de Teira na sua, agradecido por seu calor, sua suavidade e sua força.

   Percorreu-o um estremecimento. Não pelo frio ou a perda de sangue, se não pela forte fome induzida pelas drogas. Ele ansiava, Oh, como ansiava mais dessas malditas substâncias. Tinha a garganta seca. A cabeça lhe pulsava, incrementando uma surda dor que sabia que logo se converteria em um furioso inferno de dor. Necessitava essas malditas drogas e lhe horrorizava que uma parte dele queria ficar aqui e esperar por outra dose.

   A outra parte dele, a parte sã, projetava imagens de sua irmã e sua mãe atravessando sua mente. A seguinte imagem que lhe veio foi da Teira sendo arrastada, ferida da pior maneira possível. Essa imagem ficou, abastecendo de combustível uma faísca de cólera. E isso se sobrepôs à fome.

   Ia deixar esse lugar essa noite.

   Salvar a Teira era necessário para sua paz mental. O devia. Estavam juntos nisto; ajudavam-se o um ao outro.

   — Está preparada? — perguntou-lhe. Tinham esperado a que o palácio estivesse em silêncio, e agora o silêncio os envolvia como uma presa.

   — Pronta. — respondeu ela.

   — Manter-te-ei a salvo, — prometeu-lhe, rogando que fora verdade.

 —E eu te manterei a salvo, — replicou ela, seu tom mais seguro que o dele.

   Como tinha podido sequer duvidar dela? Perguntou-se Alex. Apertou-lhe a mão.

   — Façamos.

   Juntos caminharam para as portas, e as grossas barreiras de marfim se abriram deslizando-se suavemente, como se nunca tivessem devotado nenhuma resistência. Quão simples, pensou ele. Leva um medalhão e entra e sai ao seu prazer. Respirando profundamente, Alex apressou a Teira a deixar a cela. Ele mantinha seus passos ligeiros, mas o coração lhe retumbava no peito.

   Quanto mais se afastavam da cela, mais frio se fazia o ar, gretando sua pele. A névoa ondeava sobre eles igual a uma tormenta de neve, tão espessa que só podia ver o que havia diretamente frente de seu rosto. Gelo seco deu-se conta, recordando como Jason se gabou de enviar as bolsas disto através do portal. A geada rangia sob suas botas.

   Estava agradecido à névoa. Abraçava-lhe nestas arrepiantes profundidades e lhe mantinha oculto da vista. Usando sua mão livre, arrastou as pontas dos dedos sobre a parede, deixando que a grosseira textura fora seu guia.

   Detrás dele, o corpo de Teira tremia. Ele liberou sua mão e ancorou seu braço ao redor de sua fina cintura, atraindo-a ao calor de seu flanco, esfregando sua mão sobre o congelado braço.

   Sua delicada essência golpeou seu nariz, lhe esquentando o sangue. Desejava poder ver seu rosto, desejava poder ver a brilhante névoa criando um halo ao redor dela porque sabia além da dúvida alguma que seria a visão mais erótica que tinha visto jamais.

   — Estou aqui, — acalmou-a ele.

   — O frio… debilita-me, — disse ela, tremendo.

   Sua própria debilidade o fazia tremer, também, mas ele utilizou sua força para mantê-los a ambos estáveis.

   — Manter-te-ei quente, — disse ele. Quando se escapuliram atravessando o mais profundo do palácio, Alex esperava que os alarmes saltassem. Esperava que os rodeassem homens armados com pistolas. Em vez disso, silêncio.

   A parede acabou muito rapidamente, e ficou só com o ar e a névoa para lhe guiar. Aonde iria daqui? A fantasmagórica névoa era muito espessa. Enquanto pensava, uma solitária figura apareceu entre a névoa e deu a volta à esquina.

   Invisível, Alex obrigou a Teira a mover-se rapidamente atrás dele, esperando até que o homem cortasse a distância.

   O pêlo da parte de atrás de seu pescoço lhe formigava com tensão com cada minuto que passava. Quando o guarda se aproximou o suficiente, Alex não se permitiu pensar. Simplesmente lançou um murro à exposta traquéia do homem, lhe cortando o ar.

   Gemendo, desabou-se com força e rapidez. Alex não sabia se o tinha matado, mas não lhe importava.

   Ficando em movimento, tirou-lhe o casaco e envolveu os ombros de Teira com ele. O espesso material marrom engoliu sua diminuta figura. Procurou uma arma, mas não viu nenhuma. Quando tropeçou com um extintor caído, levantou-o e se passou as correias pelos ombros. Não era uma arma fantástica, mas teria que valer.

   — Qual é o caminho para o portal? — sussurrou a Teira.

   — Não pode utilizar o portal daqui. Eu tentei escapar antes, quando me levaram a ti. Muitos guardas. Muitas armas.

   Ele deixou escapar um frustrado suspiro e passou uma mão pelo cabelo. Não tinha chegado tão longe para ser detido agora.

   — Teremos que pegá-los por surpresa.

   Embora como ia conseguir os dois, não sabia.

   — Há outro caminho, — disse ela. — Um segundo portal sobre o outro lado da ilha. Darius en Kragin é o Guardião ali e nós devemos convencê-lo, é essa a palavra? Para que nos deixe passar.

   Um sorriso de alívio levantou as comissuras de seus lábios. Ele colocou seu rosto tão perto do dela que seus narizes se tocaram, e ele ficou preso em seus olhos dourados.

   —Você mostra o caminho, bebê. Seguirei a qualquer parte.

   Devolveu-lhe o sorriso, embora um ar de tristeza levantou as comissuras dos seus.

   — Não quero te perder, — disse ela. — Não quero que vá.

   — Então vem comigo. — Quando ela abriu a boca para protestar, ele interveio. — Não me dê sua resposta agora. — ele tampouco queria perdê-la, deu-se conta, e realmente lutaria para mantê-la com ele. Depois de se aferrar a sua liberdade todos esses anos, finalmente desejava render-se em favor de ficar com uma mulher. Esta mulher. — Só pensa nisso, certo. Agora mesmo precisamos sair daqui.

   Ele enlaçou os dedos com os dela outra vez, e Teira o conduziu debilmente subindo umas tortuosas escadas. O cômodo em que entraram era inclusive mais gelado, mas a névoa não era tão espessa. Alex examinou esses novos arredores.

   Não havia mobiliário, contudo era mais rico do que tinha visto. Ébano aos seus pés, jóias aos lados, e cristal no teto. Ele se deteve a meio passo e só pôde ofegar.

   Isto é pelo que Jason deseja a névoa. Diabos, eu também o quero.

   Um momentâneo sentido de cobiça lhe apertou a garganta. Tinha que haver alguma maneira de tomar algo desta casa. Ocultar umas poucas jóias sob a camiseta. Encher seus bolsos. Seria capaz de manter luxuosamente a sua família durante o resto de suas vidas.

   O pensamento de sua família se derramou sobre ele em uma desesperada necessidade de lhes ver. Jason clamava que eles não estavam feridos, mas Alex não podia acreditar nenhuma só palavra que saísse da asquerosa boca de um assassino.

   Ninguém deveria saber sequer o que tinha feito, e isso era em efeito um embriagador pensamento. Estirou-se e passou os dedos sobre a parede de jóias. Quando o fez, a exótica essência de jasmim o rodeou, perdendo a opressão na garganta e lhe recordando que já tinha um tesouro. Teira. Ele baixou o olhar para ela, e esta lhe sorriu lentamente — um sorriso de verdade. Sua mão caiu a um de seus flancos.

   Atlantis tinha que manter-se em segredo. Homens como Jason continuariam saqueando, sem cessar em sua busca de riquezas, matando homens, mulheres e crianças no processo. Deus, que estúpido fui, como fui pego em minha própria necessidade de glória. Tinha metido a toda sua família nisto. Por prestígio e dinheiro. Seu estômago se encolheu com a culpa, lhe fazendo muito mais consciente de que seu corpo necessitava as drogas.

   — Vamos, — disse ele. — Saiamos daqui.

   — Sim.

   Eles manobraram girando nas esquinas, irrompendo através de cômodos vazios, fazendo que Alex se sentisse igual a se estivesse navegando em um labirinto. A maioria das paredes estavam nuas, vazias de jóias. Vários guardas estavam encostados nelas, mas nunca detectaram a Alex e Teira, ocultos como estavam pela névoa e sombras. Dois painéis de marfim de dez metros encravado por uma jóia de um reluzente dragão acabaram com sua tortuosa busca. Os pares de comportas se abriram, lhes dando a bem-vinda da noite. As ondas que rompiam criavam uma calmante canção de ninar, e o quente ar cheio da fragrância de sal e mar caía suavemente sobre eles. Teira se deteve, permitindo que a descongelasse e a fortalecesse. A cor retornou a suas bochechas, e sua força retornou.

   Ela deixou cair o casaco e estendeu os braços por completo.

   Alex bebeu na assombrosa beleza de ambas. Teira e Atlantis. Havia um escuro brilho sobre a impressionante e exuberante folhagem esverdeada e as atônitas séries de vistosas flores. Flores das que Teira parecia formar parte.

   Como é que uma cidade sob o mar tinha noite e dia? Não havia sol, nem lua. Os prismas de cristal se estendiam formando uma cúpula tão longe como podiam ver seus olhos. A vivacidade e a vitalidade pulsavam ao seu redor, alcançando seu próprio centro, lhe fazendo esquecer a secura de sua boca, lhe fazendo esquecer sua aguda necessidade.

 — Se seguirmos pelo caminho do bosque, — disse Teira, sua voz mais forte do que tinha sido no interior do palácio, — podemos alcançar a Darius pela manhã.

   — Então vamos.

   Um dos guardas postados com ao longo das muralhas os viu.

   — Ali abaixo, — gritou ele.

   Alguém inclusive gritou.

   — Detenha-os!

   Pop. Assobios. As balas voavam, furando o chão a poucos pés detrás deles. Alex incrementou sua velocidade, correndo tudo o que podia, o extintor lhe golpeava as costas. Depois, sentiria as feridas. Mas agora, só sentia o bendito intumescimento da adrenalina. Ainda mão a mão com Teira, obrigou-a a manter o passo ao seu lado. Ele se lançou à segurança das árvores antes que finalmente baixasse o ritmo.

   Alex gostava de pensar que estava em perfeitas condições física, ou o tinha estado, graças aos seus exercícios diários. Mas agora mesmo sua respiração era rasgada e seu pulso saltava como que se estivesse conectado a uma via.

   — Precisa descansar, — ofegou sua companheira. — Aqui estamos a salvo. Podemos nos deter…

   — Não. Nada de descansar. Continuaremos nos movendo.

   Ela acusava já o cansaço e ele obrigou a seus repentinamente pesados pés a dar um passo frente a outro. Obrigando a sua mente a seguir com o que tinha entre mãos e não as drogas que estava deixando atrás. Sua visão se nublou durante um momento e ele tropeçou. Teira lhe lançou uma olhada por cima do ombro, sua expressão preocupada.

   —Segue se movendo, — disse ele outra vez.

   Quando viraram bruscamente ao redor de um grande olmo, um homem enorme saltou das sobras, seguido rapidamente por outro. Suas feições não eram visíveis na crescente escuridão, mas Alex sentiu a raiva enrolando-se com força em seus corpos.

   Teira gritou.

   Atuando instintivamente, Alex pulverizou o nitrogênio líquido, soltando-o em círculo enquanto o fazia. Uma grossa capa de espuma branca cobriu aos homens e grunhiram inteligíveis maldições enquanto se limpavam a cara. Lançou o contêiner vermelho ao chão e puxou de Teira através da densa folhagem. Então correram. Correndo esquivando árvores e arbustos, flores e pedras. Vadearam dois cristalinos rios com o passar do caminho, e ao atravessá-lo tudo o que ouviam era aos homens lhes perseguindo, seus passos mais rápidos, decididos.

   — Por onde? — gritou ele.

   — Este, — disse ela, ofegando um pouco. O vestido branco que levava ondeava e se enrolava ao redor de seus tornozelos, e seu pálido cabelo da cor da luz da lua formava redemoinhos a suas costas.

   — Há… um povoado… perto. Perder-nos-emos entre eles.

   Alex virou ao leste, obrigando-se a ir além de sua resistência. Quanto mais corria, menos ouvia de seus seguidores. Nem se os tinham perdido ou lhes estavam dando alcance. Ou eram algo capaz de segui-los em silêncio. Ele não relaxou suas defesas. Só quando Teira estivesse a salvo no interior de seu apartamento, descansaria—depois de lhe fazer o amor. Várias vezes.

   Depois do que pareceu uma eternidade, alcançaram o povoado. Em um momento estavam rodeados pela densidade do bosque e ao seguinte pelos brilhantes edifícios de ouro e prata. Ele foi mais devagar quando se encontrou sobre um lotado caminho de pedras. Multidões de pessoas indo em cada direção. Não, gente não. Homens alados, animais similares a um touro, mulheres com chifres. Pulverizados por toda parte eram altos e magros humanóides, criaturas com a pele da cor da neve. Eles se deslizavam mais que andavam.

   Alex sentiu seus dinamicamente surrealistas olhos lhe olhando com fome, como se pudessem saborear já cada gota de seu sangue. Vampiros. Estremeceu-se. Moviam-se com fluída graça, como a de um gato, simples capa de pele branca e vaporosa roupa negra. A única cor que possuíam estava em seus olhos, um azul desumano que hipnotizava e prometia satisfazer cada desejo.

   Seus tremores se intensificaram, e se estirou, massageando o pescoço, cobrindo as marcas de seu último encontro com um vampiro. O Livro Ra-Dracus falava de sua insaciável sede de sangue — mais do que proclamava qualquer lenda da terra. Isso sabia de primeira mão.

   —Por aqui, — disse Teira. Ela o acompanhou ao interior de um edifício próximo. — Nos ocultaremos até que estejamos certos de que estamos a salvo.

   Música elevada, mais fluída que o rock, menos estruturada que a clássica, soava em todas as direções. As vozes e risadas se mesclavam com a música enquanto as pessoas conversavam e dançavam. Ele e Teira passaram através da multidão, tentando permanecer despercebidos. Ali, na parte de atrás, havia uma mesa vazia e rapidamente a reclamaram.

   Ele se desabou em seu assento. A corrente de adrenalina que tinha experimentado no bosque lhe tinha ajudado a mascarar sua necessidade das drogas, mas agora, quando a onda retrocedeu, começou a ser mais consciente do tremor de suas mãos e a dor das têmporas.

   Uma mulher se aproximou deles e depositou dois copos de cristal sobre a mesa. Dois pequenos chifres marrons se sobressaíam de sua cabeça. Ela lhes dedicou um frágil sorriso e disse algo na mesma língua que Teira usava algumas vezes. Ele estava começando a captar as incomuns inflexões e pronúncias, assim não necessitava um intérprete para saber o que a garçonete havia dito,

   — Bebam e vão, ou esta será sua última noite. — disse antes de dar meia volta e perder-se na multidão.

   — Aqui há muitos vampiros, — disse Teira, dando uma olhada ao redor. — Mais que o normal.

   Um sussurro de roupa escura. Um calafrio de energia eletrizante. Então alguém estava ali, em pé detrás de Teira, lhe acariciando o ombro. As risadas e a música diminuíram até ficar em silêncio e todas as olhadas se voltaram sobre eles.

   — Cheira bem, dragãozinha, — disse um vampiro, sua voz hipnótica e sombria. Sedutora. — Embora, pergunto-me, que sabor terá.

   A Alex levou um momento traduzi-lo. Quando o fez, viu tudo vermelho. Não lhe importava quão fortes fossem os vampiros, não lhe importava que possivelmente estivesse iniciando uma briga, não permitiria que ameaçassem a vida de Teira.

   — Deixe-a, — disse ele, fulminando com o olhar ao vampiro. — Ou será seu sangue a que se derrame esta noite.

   O vampiro riu com dissimulação.

   — Meu sabor é igual ao da morte, — respondeu finalmente Teira. Seu olhar voou nervosamente de Alex ao vampiro. — Agora nos deixe. Só desejamos descansar. Iremos logo.

   — Não, não o farão. Não até que lhe tenhamos provado a ti e seu humano.

   Outro vampiro se uniu a eles, sua boca um franzir vermelho sangue.

   — Nós não fazemos mal aos humanos, Aarlock. Já sabe.

   — Não o matarei. O dragão, entretanto…

   Aproximou-se outro vampiro mais, reunindo-se ao redor da mesa.

   — O humano não leva a marca. Podemos matá-los a ambos se assim o desejarmos.

   Os três vampiros lançaram uma olhada ao pescoço do Alex. O chamado Aarlock sorriu lentamente.

   — Não, não leva a marca dos outros humanos. Está livre no jogo.

   Alex quase podia ver a faca e o garfo esfregando-se um com outro em suas mentes, e se perguntou que marca levariam para evitar os ataques dos vampiros.

   Tenho que fazer alguma coisa, pensou ele, ficando em pé. Sem saber que mais poderia fazer, lançando para trás o punho. Antes que tivesse tempo de piscar, o vampiro lhe agarrou o braço e o sustentou em um apertado agarre. Aqueles estranhos olhos se voltaram para ele, aprofundando, provando.

   Uma estranha letargia o transpassou como se tivesse sido disparado completamente por essas deliciosas drogas.

   De repente só queria sentir as presas do vampiro afundando-se em seu pescoço, unicamente queria entregar-se a si mesmo a esse poderoso homem.

   A delicada e gentil Teira, quem adorava o terno contato, grunhiu um som mais animal que humano, saltou e expôs umas garras mais que afiadas. Ela afastou ao vampiro, causando que se cambaleasse quando liberou a Alex.

   — Não o toque, — grunhiu-lhe. — Ele é meu.

   O resto dos vampiros se reuniu ao seu redor, alguns despindo as presas, outros assovios.

   Alex sacudiu o estupor justo quando Teira despia seu próprio par de presas, os seus tão longos quanto os dos vampiros.

   Os olhos de Alex se abriram de par em par. Soube que ela era um dragão mutante, mas não tinha esperado realmente que seu corpo mudasse fisicamente.

   — Temos que ir, — mencionou Teira, uma vez mais falando no idioma dele, sem desviar nunca sua atenção das criaturas frente a ela.

   — Precisamos uma distração.

   A determinação correu através de suas veias, com as palmas suando, deu uma olhada ao redor, procurando uma lança, uma tocha, algo. Algo. Quando isso falhou, procurou uma porta pelos fundos,—não é que pudessem havê-la utilizado. Os vampiros tinham formado um círculo ao redor deles, seus corpos quase transparentes e vibrando com faminta energia.

   Seus instintos protetores se afiaram. Teria que utilizar seu próprio corpo para distrair sua atenção. Nunca antes tinha golpeado a um vampiro — obviamente — mas sempre lhe dava a bem-vinda às novas experiências.

   — Eu os distrairei.

   Seus músculos se esticaram, preparando-se.

   — Corre, bebê, e não olhe atrás.

   Ela ofegou.

   — Não, Não!

   — Faz!

   As portas dianteiras de abriram de repente, salvando a de outra réplica.

   Três dos homens mais altos do que nunca tinha visto entraram. Um ar de ameaça os rodeava, tão escuros como suas roupas. Seus rostos estavam vermelhos, seus olhos inchados por algum tipo de toxina. Alex concluiu quase instantaneamente em que eles eram os gigantes do bosque.

   Os vampiros soltaram um coletivo assobio e retrocederam uns centímetros.

   Teira largou de seu ombro e quando viu quem tinha entrado, ofegou.

   — Braun, Vorik, Coal!

   Sorrindo com alívio, ela abanou com uma mão e colocou a outra no ombro de Alex.

   — Eles nos ajudarão.

   Os três homens lhe lançaram um olhar, dando um apenas imperceptível assentimento, então se dispersaram e assumiram um significativo olhar de ‘vem e me enfrente, vampiro’.

   Alex ainda brigava por sair do choque.

   — Conhece-lhes?

   — São os homens de Darius.

   — Então por que gritou quando se aproximaram no bosque?

   — Não me dava conta que eram eles. Vamos. Iremos com eles.

   Enquanto estava agradecido pela ajuda, Alex também estava chateado. Queria ser o único que salvasse a Teira. Ele queria que ela rogasse ser toda dele. Que estupidez, já que não viveria para ouvir tal rogo.

   Quando Alex e Teira se moveram para a porta principal, os vampiros e dragões dividiram o bar, cada grupo tomando um bando, enfrentando ao outro. Ao momento em que Alex cortou a distância de seus libertadores, foi rudemente empurrado atrás deles. Teira foi suavemente feita a um lado.

   — O que estava fazenda no bosque, Teira? — perguntou um dos guerreiros. Ele nunca afastou o olhar do inimigo.

   — Fugindo. — respondeu ela.

   Um duro e perigoso brilho consumiu seus olhos dourados.

   — Fugindo? Contar-me-á depois mais sobre isso. — Ele indicou ao humano com um gesto do queixo. — O que há do humano?

   Teira deu uma olhada a Alex. E o humano? A pergunta a tinha espreitado durante as últimas semanas. Se só fora um dos seus, ela simplesmente poderia lhe ignorar. Se só não tivesse estado tão completamente atraída por ele… Ele era quase tão alto como um guerreiro dragão, com largos ombros e um forte corpo magro.

   Curto e encaracolado cabelo avermelhado emoldurando um forte rosto. Seus lábios eram amplos e suaves, sua mandíbula angular. Mas eram seus olhos o que a tinham cativado. Eram grandes e verdes e cheios de tantos sonhos. Esses sonhos a chamavam em muitas formas.

   — É meu amigo, — disse a Vorik. — Não deve machucá-lo.

   Tendo escutado a conversa, Braun se deu a volta, enfrentando-a, irradiando fúria.

   — E Javar?

   Ela odiava lhes dar as notícias, aqui e agora, dessa maneira, mas não mentiria nem se evadiria.

   — Está morto, — disse ela com tristeza.

   — Morto! — exclamaram os três dragões ao mesmo tempo.

   O remorso revoou sobre a expressão de Braun, mas rapidamente endureceu a emoção convertendo-a em determinação.

   — Há outros humanos no palácio. Levavam estranhos objetos que disparam algum tipo de disco.

   — Esses discos ficam no interior dos corpos dos dragões, mantendo a carne aberta e evitando que sarem.

   — Só isso não poderia…

   — Só isso sim poderia. O lugar foi convertido em um país de gelo. Quando nossa força foi drenada, os humanos nos atacaram com suas armas. — Ela recordava com que facilidade tinha sido destruída sua gente.

   Em um momento, sãos, felizes e completos. Ao seguinte, foram-se. Assassinados.

   Suas mãos se fecharam em punhos, fazendo que a acuidade de uma de suas garras lhe cortasse a pele. Ela apenas sentiu a espetada. O porquê os humanos a tinham mantido com vida e prisioneira, só podia supô-lo. Para ameaçar a Alex, possivelmente? Uma ferramenta de mudança? Tinham-na mantido fraca pelo frio, e também tinham tentado mantê-la faminta, mas ela tinha roubado pedaços de comida aqui e ali. Mais que nada, entretanto, os humanos a tinham atemorizado. Por ela mesma, por Alex.

   Ela não descansaria até que os intrusos fossem destruídos.

 Tinha amado ao seu marido, tinha amado o tempo que tinha passado com ele, e inclusive sentia saudades, mas ele nunca a tinha preenchido com tal desejo como o fazia Alex, como se ela não pudesse respirar sem ele perto. Suspirou. O que ia fazer com o atrativo humano? Ela queria que ficasse aqui, com ela.

   Queria que a sustentasse em seus braços cada noite, e despertar com seus beijos cada manhã. Se não ficava, perder-lhe-ia. Ela não poderia sobreviver na superfície.

   O som de guturais maldições se deslizou ante suas revelações.

   — Não são bem-vindos aqui, dragões. — grunhiu um vampiro.

   — Viemos pelo humano e a mulher, — disse Vorik com calma. Ele mantinha suas mãos sobre o punho de suas espadas—espadas que podiam destroçar o peito de um vampiro, enviando o veneno através do corpo da criatura e dando uma estocada letal. — Não queremos problemas com vocês.

   —Nós a reclamamos primeiro. Pertencem-nos.

   — Possivelmente queira brigar conosco por eles. — Coal ofereceu aos seus oponentes um sorriso de antecipação.

   — Esse é um convite que não podemos rejeitar. —o vampiro lhe ofereceu seu próprio sorriso de antecipação.

   Os dragões eram fortes, mas os vampiros eram mais rápidos. Fazia anos, os dois tinham guerreado e os dragões se elevaram com a vitória. Mas ambas as raças tinham sofrido horrivelmente. Se lutassem agora, Teira não estava certa de que um só homem ficasse em pé.

   —Deixemo-los ir, — disse um vampiro aos seus irmãos, surpreendendo-a. — Esses dragões se dobrarão a nós muito em breve.

   — Nunca nos dobraremos ante vocês, — espetou Braun.

   As palavras…

   — Já veremos. — Foram entregues com superior confiança.

   —Sim, já veremos.

   Vorik arqueou uma sobrancelha.

   — Veremos agora.

   Sem emitir um só som, os dragões voaram para os vampiros, os dentes nus e brilhando com uma branca fome, uma visão de morte silenciou quando se transformaram de homem a besta. Eles lançaram as espadas, liberando em seu lugar seus reflexos naturais. Os vampiros se moveram rapidamente, elevando-se para o teto, lançando-se de novo contra os dragões antes de voltar a elevar-se de novo. Este era um baile perigoso.

   Tinha grunhidos e grasnidos de dor, o som do tecido ao rasgar-se. O brilho de garras, e o aroma do sangue e o enxofre.

   — O fedor de dragão pode cheirar-se a milhas de distância, — grunhiu um dos vampiros, dando um gancho com suas afiadas unhas quando escorregou passando junto a eles.

   — Já que pode me cheirar, Aarlock, possivelmente também possa sentir minhas chamas. —Vorik cuspiu umas chamas avermelhadas alaranjadas desde sua boca, alcançando o vampiro na mira.

   Um atormentador grito explodiu, misturado com o som da sufocante pele. Com os olhos brilhantes de ódio, o vampiro respondeu, atacando diretamente, despindo as presas. Antes que Vorik tivesse tempo de mover-se, seus corpos colidiram e Aarlock afundou seus dentes no pescoço do Vorik.

   Vorik o agarrou pelo pescoço, arrancando-o, e lançando-o ao chão.

   — Vejo que ainda remói como uma menina, Aarlock. — burlou-se ele.

   — Vejo que ainda respira como um moço.

   Eles se lançaram de novo o um contra o outro.

   — Me passe uma adaga. — disse Alex por cima do ombro da Teira. Quando a briga começou, ele a tinha movido detrás dele.

   Não sabia se seria de alguma ajuda, mas não deixaria que esses homens dragão lutariam sozinho. Ele tinha que fazer algo.

   Ela tentou lhe rodear o que tinha parecido ser um cento de vezes. A mulher queria lhe proteger em vez de que fora ele.

   — Não, — disse ela. — Não devemos interferir. Os distraímos.

   Alex continuou procurando uma arma, vislumbrando a briga pelo canto de seu olhar. Cada espécie lutava com força e crueldade, mordendo e arranhando. Os dragões arrancavam o sangue com os dentes, dente, garras e caudas, enquanto os vampiros aproveitavam a velocidade, movendo-se de um extremo da barra à outra. Seu sangue marrom como o óxido, gotejava sobre os dragões, atuando como ácido.

   Ao final, a velocidade e o sangue envenenado não eram bastante fortes.

   Quanto mais fogo produziam os dragões, mais forte se voltavam. Inclusive Teira parecia sugar o calor igual a uma flor que se volta para o sol. As bochechas tinham recuperado toda a cor. Alex se limpou o suor que lhe gotejava na cara.

   Quando a batalha finalmente terminou, quentes rescaldos e as cinzas dos vampiros sujavam o chão. Braun, Vorik, e Coal estavam ainda em pé. Estavam cobertos de sangue e feridas, mas Por Deus, que estavam em pé. Um dos dragões, Braun, empurrou a Alex a fora. Os outros, Teira incluída, seguiram-lhe. Ela fez rapidamente as apresentações. Alex nunca tinha sido mais consciente de sua fragilidade humana. Os homens que conhecia não eram como estes guerreiros, preparados e impacientes por matar.

   — O que queriam os humanos do palácio, Teira? — perguntou Vorik.

   — As riquezas. Agarram-nas para levá-las a superfície.

   — Malditos sejam. — grunhiu Coal. Lançou-lhe um ameaçador olhar para o Alex.

   Alex se tornou atrás, elevando as mãos.

   — Não estou com eles. Ajudar-lhes-ei da maneira que possa.

   — Ele era um prisioneiro, igual a mim. — Teira encontrou o olhar de cada um dos homens. — Há outros guerreiros contigo? Podemos recuperar o palácio esta noite?

   Braun sacudiu a cabeça.

   — Não podemos atuar até que Darius volte. Nossas ordens são ficar fora do palácio, atentos a qualquer que tente entrar ou sair.

   Vorik franziu o cenho.

   — O tempo da guerra está chegando, e então atuaremos. Até então, não faremos nada. — Seu olhar perfurante. — Entendido?

   — Quando voltará Darius? — exigiu ela. — Estou desejosa de vingança.

   Ignorando sua pergunta, Coal trocou um preocupado olhar com o Braun.

   — Como o estamos nós. Como o estamos.

      

   Jason Graves estudou a fortaleza do vampiro com olhos assassinos. Enquanto que esta fortaleza tinha a mesma magnitude de riqueza que o palácio dragão, tinha o suficiente para captar sua atenção. Paredes de prata. Chãos de ouro. A lã violeta de um carneiro.

   Possivelmente devia repensar sua aliança com os vampiros.

   Eles tinham subministrado as ferramentas necessárias para extrair as jóias das paredes do dragão, como também a localização das moedas e outros tesouros.

   E em retribuição, Jason tinha massacrado aos dragões. Um bom pacto, em sua opinião. Ou assim o tinha pensado. Estava começando a suspeitar que no momento em que os dragões fossem exterminados, os vampiros os comeriam a ele e a seus homens, esquecendo a aliança.

   Ele tragou, permitindo que a idéia de golpear primeiro lançasse raízes em sua mente. Dessa maneira, não só salvaria sua própria vida, também ganharia as riquezas dos vampiros. Tinha ouvido que eles sabiam onde encontrar o maior tesouro de todos. A Jóia de Atlantis, um poderoso diamante, que garantia ao proprietário vitórias inimagináveis.

   Agora mesmo, seus indesejados aliados sabiam que qualquer humano que levasse um medalhão, devia deixá-lo em paz. Jason tinha deixado claro ao princípio que se um de seus homens era ferido, só um, uniria suas forças com os dragões.

   Essa ameaça já não funcionaria quando os dragões se extinguissem.

   — Venceu a Javar, — disse Layel, o rei vampiro. Ele acariciou a borda dos lábios com dedos mortalmente pálidos e se reclinou em seu trono. Um trono feito à base de ossos humanos. — É hora de que vença também a Darius,

   — Ainda não esvaziamos este primeiro palácio, — resmungou Jason. Estava de pé no centro da sala e tremia com nervosismo. Odiava estar ali e nunca ficava mais tempo além do necessário. Sabendo que seus homens esperavam fora das portas da sala do trono, armados e preparados, não aliviava seu desconforto. Layel poderia lhe haver esmigalhado o pescoço antes de conseguisse emitir um só grito de ajuda.

   — Não me importa. Quero-os mortos imediatamente. — O rei deixou cair um punho sobre o braço da cadeira — um fêmur, pensou Jason. — Os dragões mantiveram a minha gente oprimida durante centenas de anos. Devem morrer.

   — E o farão. Só necessitamos um pouco mais de tempo. Não posso dividir minhas forças, e não deixarei o primeiro palácio até que esteja completamente vazio.

   O pesado silêncio os acompanhou.

   — Atreve-se a nos dizer que não? — disse Layel com rapidez.

   — Não, não exatamente. Simplesmente estou dizendo que tenha mais paciência.

   Layel passou lentamente a língua pelos afiados dentes.

   — Sabia que era ambicioso, humano. Mas não sabia que também fosse estúpido.

   Jason bufou.

   — É mais que bem-vindo a lutar com os dragões você mesmo. — Ele já não precisava dos vampiros — já possuía as ferramentas. Mas ambos sabiam que Layel ainda lhe necessitava. Jason possivelmente estivesse intimidado por esta criatura, mas maldito se não desfrutava do pequeno poder que tinha sobre ele.

   Uma intensa fúria cintilou nos estranhos olhos azuis de Layel.

   — Quanto mais? —grunhiu.

   — Uma semana. Duas no máximo.

   — Isso é muito tempo! A única razão pela que foi capaz de vencer a Javar era porque o surpreendeu. Sem essa surpresa, não vencerá a Darius. — Em um assobio de raiva, Layel lançou a taça cravejada à cabeça de Jason.

   Jason se agachou e a taça lhe passou por cima. Apenas.

   — Ele é mais forte do que o era seu tutor, — disse Layel.

   Jason o fulminou com o olhar, uma acalorada réplica pressionando à porta de seus lábios.

   As portas se abriram antes que escapasse uma simples palavra. Um de seus homens entrou correndo.

   — Alex e a mulher escaparam.

   — O que! — gritou Jason, voltando-se como um raio.

   — O aviso chegou faz somente uns segundos. Eles escaparam através do bosque.

   — Como? — franzindo o cenho, voltou-se para seu homem e se reuniu com ele a metade de caminho.

   — Não temos certeza.

   — Maldição! Rastreiem o bosque. Quero que lhe encontre em menos de uma hora e me tragam ele de volta.

   — Vivo?

   — Se for possível. Se não…

   O homem se apressou a fazer como lhe tinha ordenado.

   Jason ficou ali, apertando os dentes. A uma parte dele não importava que Alex tivesse escapado. O bastardo possivelmente seria encontrado e assassinado por qualquer número de viciosas criaturas. Mas a outra parte de Jason, a parte que sabia que as guerras podiam perder-se por um simples engano, tal como este, reconhecendo o dano que poderia fazer-se. Alex poderia topar-se uma vez com o Darius, poderia lhe advertir.

   — Jason, — disse Layel.

   O pêlo da base do pescoço arrepiou-se e sem olhar soube que o rei vampiro estava diretamente detrás dele. Jason se voltou lentamente, esperando que suas feições permanecessem em branco.

   — Sim?

   — Dois dias. Quero a Darius e seu exército destruído em dois dias.

   As horas passavam enquanto Grace passeava pelo tapete em sua pequena sala de estar, indo daqui para lá, de uma parede à outra. O corredor ficou em silêncio fazia uma hora. Cada vez que piscava, imaginava a Darius sentado além de sua porta, os olhos fechados, expressão pensativa, sua mente pensando em formas de deixá-la atrás. Franziu o cenho. Darius possivelmente viajasse a casa pela manhã, mas não sem ela. Aprovasse ou não, ela ia.

   Deixando escapar o fôlego, Grace esfregou as têmporas. Seus ombros caíram com desalento.

   O que vou fazer?

   Sob sua frustração com Darius se abatia um constante temor por Alex, e ela sabia que ele era o verdadeiro catalisador de suas amotinadas emoções. A impotência a comia porque sabia que não havia nada que pudesse fazer exceto esperar e rogar que Darius tivesse razão. Que Jason Graves tivesse mantido vivo a Alex por que seu irmão tinha algo que ele queria.

   O medalhão.

   Riu sem humor. Sempre se voltava para o mesmo.

   Se tivesse suspeitado o verdadeiro valor dessa maldita corrente, a teria segurado com mais força. Onde diabo estava?

   Ela necessitava a Darius. Necessitava que ele a tranquilizasse. Necessitava que envolvesse seus braços ao redor dela, que voltasse a lhe assegurar que tinha razão e que a vida seguiria com promessas de prazer e felicidade.

   — Darius, — disse com frustração. O que estava fazendo?

   O ar frente a ela se espessou e se turvou, cintilando com chuva de gotas de cristal. Um sussurro de calor, um sopro de essência masculina, então Darius se materializou justo ante seus olhos. Seus rasgos tensos, seu olhar indo de esquerda à direita.

   — O que ocorre?

   — Preciso de você, — disse ela. — Te necessito. Isso é tudo.

   Seu rosto se relaxou, desvanecendo as linhas de preocupação deixando só as linhas de tensão que havia atrás.

   Seus olhares se encontraram. Ela se congelou, bebendo dele. Mais que tenso, via-se… mudado.

   De algum jeito diferente. Mais sexy que antes. Quente. Necessitado. Ele possivelmente sentiu crescer seu desejo, porque suas fossas nasais se dilataram e seus olhos se iluminaram com fogo.

   O coração de Grace deu um salto em seu peito. Darius não se parecia com o homem que a tinha acossado na caverna, uma espada sobre sua cabeça, a morte em seu olhar. Tampouco se parecia com o homem que quase tinha estrangulado a Patrick. Agora mesmo lhe recordava ao homem que se deleitava com as cores e o chocolate, que tinha beijado meigamente seus lábios, saboreando cada matiz. O que tinha lambido sua mão e tratado suas feridas.

   Oh, Deus, como queria a este homem.

   Mas a culpa nadou através dela, bloqueando-a no lugar. Como podia lhe querer, desfrutar dele, quando Alex estava ferido?

   — Agora mesmo não pode ajudar ao seu irmão. — Disse Darius, como se adivinhasse seus pensamentos. Seu olhar chegou a cruzar o espaço entre eles, acariciando-a com sua força.

   — Sei. — disse suavemente, desejando-o ainda mais. Ela tentou absorver sua comodidade de uma distância, mas isso não era o que necessitava. Só o contato corpo a corpo, pele a pele funcionaria.

   Ele estirou a mão.

   — Então vem aqui.

   Sem outra palavra, Grace se lançou aos braços de Darius. Ele a colheu com um humph e envolveu seus braços ao redor de sua cintura, ancorando suas mãos sobre seu traseiro e apoiando-a em uma parede.

   Imediatamente sufocou sua boca com um beijo. Não, não um beijo. Devorando-a. Ele adorava seu sabor, e ela se deleitava no dele, enquanto suas línguas dançavam, ela se converteu em uma parte dele e ele em parte dela. Ela gemeu, suas pernas apertando-se ao redor dele.

   Ele se afastou.

   — Desta vez eu não me deterei, — disse-lhe de maneira irregular.

   — Bem, porque não vou deixar.

   Ele apanhou o lóbulo de sua orelha entre os dentes e a puxou suavemente. O momento tinha chegado; a espera se acabou.

   Uma mão cavando seu pescoço, a outra amassando suas costas, ela se fixou contra sua ereção. O contato lhe queimou. Um tremor movendo-se através dela, deixando uma desesperada excitação no seu caminho. Ele reclamou seus lábios em total posse, marcando sua própria alma.

   Ela era sua mulher, e ele era seu homem.

   Sua língua varreu no interior de sua boca, e seu desejo correu para o ponto sem retorno.

   Não, isso não era exatamente certo. Ela tinha alcançado o ponto sem retorno no primeiro momento que o viu.

   Ela tremeu com a força de sua necessidade, com a intensidade de seu calor, e a dolorosa consumação de que finalmente o conheceria. Todo ele.

   — Darius. — sussurrou ela.

   — Grace. — sussurrou em resposta.

   Aqui era onde pertencia, pensou Darius grosseiramente, baixando o olhar a Grace. Justo aqui. Com esta mulher.

   Ele nunca tinha sentido mais vivo do que o estava agora mesmo, em seus braços. Mostrou-lhe um mundo que nunca tinha pensado ver de novo, um mundo de cor e sabor… e emoções. Verdadeiras emoções. E ele se exaltava nisto. Nela.

   Devagar, de maneira sedutora, seus dedos avançaram sobre seu peito. Ela sorriu, um feminino sorriso. Ele quase derramou sua semente justo então. A profunda, mais primitiva parte dele a tinha reconhecido no momento em que tinha atravessado a névoa. Ela era sua companheira.

   Sua razão de ser.

   Casar-se-ia com ela, decidiu Darius no seguinte instante.

   Enquanto ele continuava olhando-a, Grace lambeu um dos dedos e desenhou um molhado coração ao redor de seu mamilo direito. O ar lhe escapou entre os dentes.

   Ao casar-se com ele, Grace se converteria em uma cidadã de Atlantis. Seu juramento estipulava sozinho que matasse aos viajantes da superfície que passassem através da névoa.

   Se ela fosse Atlante …deuses, sim. Fá-la-ia Atlante. O alívio, a alegria, ressonou através dele igual a uma corrente de chuva.

   Ele reclamou sua boca com mais ferocidade, grunhindo sua necessidade. Ela respondeu levando as mãos ao seu cabelo e inclinando seus lábios ainda mais sobre ele. Esfregou-se a contra sua ereção, ofegando, tomando, dando. Suas roupas só acrescentavam à fricção.

   Seus dedos se afundaram no arredondado de suas nádegas, acelerando seu ritmo, e seus beijos continuaram, duro e rápido, depois lento e tenro.

   — É tão formosa, — disse com voz quebrada.

   — Não, eu não…

   — É. Ardo por você. Estou em chamas.

   Ela se derreteu contra ele. Nele. Seus seios esmagados contra seu peito, seus mamilos inchados, esperando.

   Saboreá-lo fazia-se quase tão necessário como respirar. Em todos seus outros acoplamentos, Darius tinha precipitado. Tinha sido selvagem, dando prazer à mulher, tomando-o para si mesmo, mas sem oferecer nada mais. Aqui, agora já não havia precipitação.

   Queria saborear e dar.

   — Eu cuidarei de você, — sussurrou ele. — Confia em mim?

   — Tanto que dói.

   Com as pernas ainda envoltas firmemente ao seu redor, afundou-se de joelhos e a estendeu sobre o tapete.

   Segurou-lhe o queixo e a obrigou a encontrar seu olhar.

   — Isto não será um acoplamento, doce Grace. Vou me dar a ti. Todo eu. —Ele se deteve para estudar suas feições. — Entende?

   Algo que não podia ler saltou nos olhos dela. Incerteza? Ou excitação? Ela mordeu o lábio inferior, então sacudiu a cabeça.

   — Quero te fazer minha agora e para sempre. — explicou-lhe.

   Ela franziu o cenho.

   — Quer dizer… casar-nos?

   — Mais que isso. Companheiros de vida.

   — Há diferença?

   — Uma que não pode ser explicada. Uma que deve ser mostrada.

   — E quer fazê-lo aqui? —Seus olhos se abriram de par em par. — Agora?

   Ele assentiu.

   Grace tragou. Certamente não estava falando a sério. Tinha que estar brincando. Mas as linhas de seu rosto eram de forte determinação, e um ar de vulnerabilidade se agarrou a seus ombros. Ele se negou a afastar seu olhar dela.

   Ele tinha querido dizer cada palavra.

   E ela não sabia como reagir.

   Grace en Kragin, sussurrou sua mente.

   Embora não entendesse o que o tinha levado a tomar essa decisão, o pensamento a tentava a todos os níveis e uma grande necessidade crescia em seu interior. Ela já tinha admitido que estava apaixonada por ele. Por que negar seus sentimentos nisto? Quero ser sua esposa. Disse-lhe. Agora e sempre, como havia dito ele.

   Quão maravilhoso seria ser a única que se aconchegasse na cama com ele cada noite, A única que estivesse estreitamente ao seu lado, sua respiração na base de seu pescoço, seus sussurros de amor nos ouvidos. Quão maravilhoso ser a única que lhe desse filhos. Sua mente lhe subministrou facilmente à imagem de um bebê gordinho. Seu bebê. Um menino tão forte como Darius ou uma menina tão intensa e enfocada.

   —Viu a violência de meu passado, — disse ele, confundindo seu silêncio. — Sabe as coisas que tenho feito e pode supor as coisas que farei. Estou te pedindo que me aceite apesar de tudo. Se pode fazê-lo, dar-te-ei minha vida, minhas riquezas e meu juramento de que sempre te protegerei.

   As últimas palavras deixaram seus lábios com todo o desespero dentro dele. Com todo o desejo. Com toda a necessidade. Sua expressão se suavizou; suas pestanas se baixaram na metade.

   — Não necessito suas riquezas, — disse ela. — Só de você.

   Ante suas palavras, a possessividade que sempre tinha sentido Darius arranhou até a superfície. Crua e primitiva, a excitação ardeu em seu interior, mais quente inclusive que antes. Tudo em seu interior gritava por ela. Não só por uma parte dela, se não por toda sua essência.

   Ele uniu suas mãos, palma a palma.

   Sem deter-se nem por um momento, não que ela mudasse de opinião, ele pronunciou.

   — Te pertenço. Meu coração só pulsa por você. — Ele sustentou o olhar com a força do seu próprio. — Nenhuma outra me tentará, desde este dia e mais à frente. Pertenço-te.

   Enquanto falava, os lugares onde seu corpo tocava o seu se esquentaram, voltando-se brilhantes, e um estranho redemoinho se desdobrou fazendo um buraco no estômago de Grace, varrendo-a dos pés a cabeça.

   — Me devolva às palavras, — ele entoou com severidade.

   Sim. Sim.

   — Te pertenço. Meu coração pulsa só por você. — Enquanto falava, ele aproximou seus lábios aos seus. — Nenhum outro me tentará, desde este dia e mais à frente. Pertenço-te.

   Ao momento em que a última palavra deixou sua boca, ele uniu diretamente os lábios com os seus. Ela gritou, e ele recolheu o som. Seus olhos se fecharam com força enquanto todo seu corpo se esticava e arqueava.

   Uma parte de sua alma se arrancou de seu corpo e entrou no dele. Imediatamente esse vazio se encheu com sua essência, atravessando-a como um fogo incontrolável. O intercâmbio era poderoso, totalmente erótico. Seu estômago se esquentou e zumbiu, e ela ficou ali, ofegando. O pêlo sobre seu corpo clamou por ele.

   — O que está acontecendo? — perguntou ela entre ofegos.

   — Nossa união.

   Não tinha necessidade de dizer mais porque ela o entendia. Eles estavam unidos, não fisicamente — ainda não — mas sim em uma maneira que era inclusive mais tangível. Indiscutível. Ela não entendia as implicações ou os mecanismos disso. Eles agora não eram duas entidades separadas. Eram uma só… Tinha-lhe necessitado antes, mas agora morreria sem ele. Ela o sentiu assim, sabendo-o no mais profundo de seu ser.

   — Eu não sou nada sem você, — disse ele, fazendo-se eco de seus pensamentos. — Sente quão faminto estou por você?

   Sentia-o. Deus, sentia-o. Sua fome se mesclou com a própria, ronronando dentro de suas veias.

   — É mais importante para mim que o ar, — disse ele. — Mais importante que a água. Você, Grace, é minha única necessidade.

   —Te amo, — disse ela, ao final lhe entregando as palavras de coração. Quando falou, a alegria que sempre tinha permanecido evasiva e fora de seu alcance esteve de repente ali e sua para tomá-la. Assim que a agarrou, sustentando perto a Darius. Ele encarnava tudo o que faltava em sua vida: perigo, excitação, paixão.

   O fogo ardia em seus olhos. Alcançando as costas, agarrou a camisa e a tirou pela cabeça.

   — Vou te dar tudo o que ansiaste doce Grace. Agora lento e tenro. —Seus lábios se estiraram em um sorriso. — Duro e rápido depois.

   A antecipação tremeu através dela. Ela subiu suas mãos riscando a força de seu peito, sobre suas costelas e mamilos, sobre suas tatuagens. Ele ofegou em busca de ar. Suas tatuagens estavam ligeiramente desvanecidas, não tão vermelhas e zangadas como antes, mas ainda ali. Ainda sexy e quente. A boca enchia d’água por prová-los, e lhe deu a volta lhe girando sobre suas costas. Inclinando-se, ela lambeu uma parte ao longo das vistosas asas de dragão, saboreando o gosto de sal.

   Seus músculos saltaram ao primeiro toque de sua língua.

   Ele deslizou as mãos entre suas pernas e brincou: O tecido dos jeans criando uma estranha fricção. Ela gemeu, arqueando o pescoço e se perdeu na impressionante carícia sensual.

   Tudo dentro dela saltava à vida, inclusive lugares que não sabia que existiam, desejando mais de seus cuidados.

   Ansiava ser preenchida. Por Darius. Somente Darius.

   Ele afirmava ter feito coisas horríveis, mas profundamente ela estava faminta por essa parte fera dele. Pela fúria. O perigo. Possivelmente tivesse tentado negá-lo em alguma ocasião, mas sempre soube a verdade.

   Ele era cada uma de suas fantasias; só sua presença lhe oferecia mais excitação que nenhum desafio ou aventura. Quando ela estava com ele, sentia-se completa. Sentia-se viva. Vital.

   — Quero você nua. — Darius não esperou sua resposta, não podia, impaciente como sempre por ela, fez exatamente o que tinha feito antes. Agarrou a gola de sua camiseta e a rasgou.

   Debaixo encontrou o tecido de renda verde, seu sexy piercing de umbigo e o ligeiro contorno da tatuagem de um dragão.

   Ele riscou as linhas com a ponta de seus dedos.

   — Olhe, — disse a ela.

   Perdida como estava nas sensações, passou um momento até que obedecesse. Quando o fez, ofegou.

   — Que dem… Não o entendo. Tenho uma tatuagem. — A surpresa gotejou de seu tom, e seu atônito olhar foi da tatuagem a ele e dele à tatuagem. — Nunca tive uma tatuagem em minha vida.

   — Leva minha marca, — disse-lhe, rodando com ela outra vez e pondo-a facilmente debaixo. — Sou uma parte de você para sempre.

   Ele rasgou o material verde na metade, igual tinha feito com sua camiseta. Seus seios eram exuberantes e adoráveis, e vê-lo o fazia tremer. Tremer igual a um menino.

   Ele massageou um depois o outro, adorando a maneira em que fechava os olhos e arqueava as costas, um silencioso rogo para que continuasse. Ele se moveu descendo por seu corpo e chupou um mamilo no interior de sua quente boca. Ela ofegou seu nome como uma reverente prece.

   Ele chupou mais forte.

   — Oh, Deus! — gemeu ela.

   Seus joelhos apertados ao redor de sua cintura; suas mãos lhe agarrando o cabelo. Ele seguiu massageando um glorioso seio, raspando o duro mamilo entre seus dedos enquanto lambia e chupava o outro.

   Iguais a framboesas, eram rosados e atrativos, doces e delicados. Uma de suas mãos se arrastou por seu ventre, tocando o delicado aro prateado. Tudo enquanto se deslizava entre suas pernas. Ela se moveu grosseiramente contra ele, então com ele. Quando ofegava incoerentemente, lhe tirou os sapatos, depois a calça, abaixando-os de um puxão e chutando-os desde seus tornozelos com o pé. A visão dela, estendida debaixo dele com somente uma calcinha esmeralda quase faz que lhe parasse o coração. Tal beleza. Sua beleza.

   Ele conduziu os dedos passando a delicada renda e encontrando seu sedoso calor. Ela estava molhada e quente. Pronta.

   Mas ele a queria além de preparada. Queria-a desesperada. Usando a ponta de um dedo, alisou a umidade sobre suas suaves dobras, acariciando suavemente o centro de seu desejo.

   — Sim, — disse ela, curvando-se para sua boca. — Sim. Toque-me ali.

   — Precisa ser preenchida, Grace.

   — Sim. Por favor.

   Ele afundou lentamente um dedo dentro dela, depois outro.

   — Está pronta para mais? — uma gota de suor gotejou descendo por sua têmpora. Mordeu-lhe o pescoço, fazendo uma pequena marca, então o lambeu enquanto empurrava aqueles dedos em um delicioso ritmo.

   Ela gritou e levantou os quadris. Seu membro vibrou por ela, mas ele colocou outro dedo dentro dela. Como amava a sensação de sua estreiteza. Seu úmido calor. Suaves gemidos escapavam de seus lábios quando fazia círculos com o polegar ao redor de seu clitóris.

   — Estou preparada, — disse ela. — Juro que estou preparada.

   Grunhindo, equilibrou-se sobre sua boca e bebeu dela. Ele não a merecia, mas os deuses a tinham dado e ia fazer tudo o que estivesse em seu poder para fazê-la feliz. Ela nunca se arrependeria de entregar-se a ele.

   — Quero te beijar ali, — disse ele, rodando seu polegar sobre o coração de sua umidade.

   Seus olhos se fecharam em rendição. Tão generosa como era, sua Grace não se contentava tomando prazer só para ela; ela insistiu em devolver-lhe.

   — Eu… quero te beijar… a ali, — disse entre ofegantes suspiros, deslizando sua própria mão entre eles e embalando sua larga e grossa longitude. — Quem o faz primeiro?

   Essas gotas de suor cresceram e cobriram todo o seu corpo. Ela desejava a excitação, pensou ele, assim que o daria.

   — Ambos seremos os primeiros.

   Sua língua saiu e riscou seus próprios lábios, tomando o sabor residual que ele mesmo tinha deixado detrás.

   — Sério? Como?

   Em um total de dois segundos, tirou as calças, depois as calcinhas dela, lhes deixando a ambos completamente nus. Ele a agarrou em seus braços e se voltou sobre as costas, colocando-a em cima. Nunca lhe tinha permitido a uma mulher tomá-lo em sua boca. Imagens dos cachos avermelhados de Grace derramando-se através de seu estômago, sobre suas coxas e pênis, imaginando seus dentes raspando sua longitude e sua boca chupando-o profundamente, lhe fazendo quase gozar.

   — Sente-se com a perna de cada lado sobre mim, — disse, surpreendendo-se de possuir ainda voz. A necessidade palpitando por suas veias. — Não para mim. Olhe na outra direção.

   Seus mamilos balançando-se para frente, ela baixou o olhar para ele com uma expressão de completo desejo. Lentamente fez como lhe instruiu. Suas costas eram ampla e magra e perfeitamente proporcionada. Ele passou a ponta do dedo descendo por cada vértebra, e pequenos golpes de prazer apareceram sobre sua pele.

   Ele abraçou seus quadris, puxando-a, aproximando-a mais e mais a sua boca.

   — Agora se incline.

   Com sensual frouxidão, moveu sua boca para sua grossa ereção. Seu quente fôlego soprou seus pesados testículos quando ele baixou a cabeça e lambeu habilmente seu calor.

   Ao primeiro contato, Grace gritou de prazer. Não um orgasmo, mas perto. Muito perto.

   Suas mãos ancoraram os quadris de Darius. Ele continuou lambendo-a e ela introduziu pouco a pouco sua grossa longitude na boca—e quase grita outra vez. O erotismo de ter seu membro na boca enquanto Darius a saboreava provocava terremotos.

   — Isto é o que queria dizer quando disse que queria te devorar, — balbuciou ele, as vibrações ressoando dentro dela.

   Suas palavras e ações combinadas levaram-na rapidamente a um torturante clímax. Seu corpo tremeu e se sacudiu enquanto milhares de luzes estalavam em sua mente. Prazer, tantísimo prazer. Ela arrancou os lábios dele quando seu nome lhe atravessou a garganta.

   — Darius, Darius, Darius.

   O calor daquilo o marcava.

   Quando seu clímax se desvaneceu, ela deveria ter estado saciada, completamente cheia. Mas não o estava. Queria-o enterrado profundamente dentro dela, tão profundo que ele deixaria sua marca nela durante dias.

   Desesperado, Darius a levantou e a girou para ele. Ele caiu sobre ela e baixou o olhar.

   — Agora? — A palavra emergiu rouca e impaciente. Frenética. Ele precisava estar dentro dela. Ela separou suas longas pernas, fixando sua dura longitude onde pertencia, quase. — Mas não o bastante — a beira da doce penetração.

   — Eu sempre estarei pronta para você.

   — É minha mulher. Diga-o.

   — Sou sua. Agora. Sempre.

   — E eu sou seu. —ele selou sua boca sobre a sua ao mesmo tempo em que a penetrou.

   O gritou pela alegria disso, a embriagadora felicidade, seu desfrute tão intenso que suas asas se desdobraram sem convite desde suas costas, acariciando como um cálido filme sobre seus corpos. Suas majestosas asas ficaram suspensas no ar durante um silencioso momento, duas ilusórias capas estendidas que por fim baixaram, rodeando-o a ele e a Grace em um iridescente casulo.

   Atônito, ficou olhando. Seus olhos estavam fechados, e seus lábios apertados. Em vez de chorar de dor, murmurou em rendição.

   Para Grace, a aguda dor da virgindade se foi tão rápido como apareceu, deixando somente a grossura dele.

   A dureza.

   — Você é… isto é… Sou seu primeiro amante, —disse ele, quando a dimensão do conhecimento penetrou nele.

   — Único amante.

   Uma possessividade mais potente que o orgasmo o atravessou estremecendo-o.

   — Não o faça, — disse ela. — Mmm. Sinto-te tão bem.

   —Seu único companheiro, — disse ele com temor. Ele se moveu lentamente ao princípio, mas isso não era suficiente para ela. Agarrou-lhe os quadris, elevando-se a si mesmo e afundando-se em seu interior. Ele não necessitou mais estímulo.

   Ancorou seu traseiro e bombeou dentro dela, uma e outra vez, mais e mais.

   Montou-a duro, incapaz de reduzir a marcha. Seus beijos se voltaram ferventes, inundando-se em sincronia com suas poderosas investidas.

   A deliciosa tensão a sustentou nesse agarre, incrementando-se, mais e mais, então explodiu obsequiando-a com a mais demolidora gratificação que tivesse experimentado jamais. Ela se estremeceu com isso, ofegou e gritou.

   — Pelos deuses, é tão doce. — disse através dos dentes apertados. Ancorando suas pernas em cima de seus ombros e enviando-se mais profundamente dentro dela, acelerou seus embates e se uniu a ela, clamando seu nome.

   Inesperadamente ela alcançou outra vez o clímax.

   Darius levou Grace à cama e nenhum deles se levantou durante várias horas.

   Ele queria passar o resto de sua vida ali mesmo em seus braços, seu redondo traseiro apoiado contra ele, mas sabia que isso não era possível.

   A meia-noite teria abandonado o país.

      

   A luz da lua irrompeu através das janelas, seus prateados dedos entrelaçando-se com a escuridão.

   A cidade pulsava com vida, inclusive a essa última hora. O tempo se esgotava. Contudo…

   Permitiu-se uns minutos mais desse tranquilo luxo, de sustentar a Grace no protetor escudo de seus braços.

   Sua essência o rodeava, e seu calor se filtrou em seus ossos. Virgem. Ela tinha sido virgem. Essa formosa, sensual criatura o tinha dado o que não tinha dado a outro homem.

   Ela era um tesouro mais rico e satisfatório que nenhum outro.

   Protegê-la-ia com sua vida.

   — Darius? — suspirou ela, encolhendo-se mais perto.

   — Hmm?

   — Estamos casados? Quero dizer, não assinamos nada ou…

   — Estamos unidos. Nunca pense de outra maneira.

   — Estou feliz. — Ela se apoiou no cotovelo e lhe ofereceu um sorriso satisfeito.

   — Como eu estou. — disse ele.

   — O que fizemos — não acredito ter uma palavra para descrever a felicidade.

   Ele beliscou a suavidade de seu ombro com os dentes.

   — Pensei em ir devagar, esposa, queria te saborear.

   Suas pálpebras revoaram fechando-se.

   — Diga-o outra vez.

   — Queria ir…

   Não. A parte em que me chamou sua esposa.

   Seus braços se apertaram ao seu redor.

   — Nos pertencemos, esposa.

   Ela rodou sobre um lado e o olhou.

   — Sabe que eu gosto da maneira em que se dá para mim, marido.

   Seu pênis não deveria haver-se movido durante horas—dias possivelmente—mas quando a olhou e se banhou em suas palavras, a necessidade se desdobrou por ele. Se não tivessem que se levantar, a tomaria outra vez, e sabia que não teria a força para partir depois.

   — Se vista, — disse-lhe, lhe palmeando o traseiro. — É hora de que visitemos a Jason Graves.

   Grace perdeu sua ofegante expressão. O indulto sexual tinha terminado quando se introduziu a vida real. Ela se levantou pesadamente e cambaleou até o banheiro. Estremecendo-se pelas moléstias em seu corpo, deu-se uma ducha rápida e vestiu uma calça preta e uma camiseta negra de manga curta combinando.

   Quando elevou o olhar, Darius estava na soleira da porta do banheiro, olhando-a com intensos olhos dourados.

   Olhos dourados! Seu pulso revoou ao tempo que um só pensamento: É meu marido! Sua calça pendurada baixa em sua cintura, lhe dando um ar sexy, libertino. Ela se encontrou dando um passo para ele, tentando deslizar os dedos por debaixo do negro material e — deteve essa linha de pensamento quando se deu conta de que era muito tarde. Antes que se perdesse nele.

   Ele não parecia desperto, absolutamente. Parecia… dolorido, como se essa estranha debilidade o afligisse outra vez. Orgulhoso como era, não diria uma palavra.

   — Vem comigo, — disse ela. Conduziu-lhe à cozinha. Ali, fez-lhe rapidamente um sanduíche, e uma vez que terminou de comer, ele se inclinou para trás em sua cadeira. Ele parecia o mesmo. Por que não o tinha ajudado? Ela franziu o cenho e lhe agarrou a mão, tratando de tomar a temperatura. Mas enquanto sustentava sua palma nas suas, voltou-lhe a cor. Não era a comida o que o fazia forte, deu-se conta, se não ela. Seu contato.

   — Tem que me dizer o que está acontecendo, — disse ela, sustentando seu olhar e retendo o aperto em sua mão. — O que causa sua debilidade? — Quando ele permaneceu em silêncio, ela insistiu. — Diga isso — Não. Ambas as coisas.

   Ele suspirou.

   — Quando os deuses desterraram a Atlantis, vincularam-nos irrevogavelmente ao país. Aqueles que tentam partir morrem.

   Seu estômago deu um tombo, e lhe gelou o corpo. Se permanecer aqui significava sua morte, queria que se fora.

   — Tem que ir a casa. Agora. —E ela permitiu que toda sua preocupação, toda sua angústia ante o pensamento de seu falecimento, penetrasse em sua voz.

   — Voltarei pela manhã como estava planejado.

   — Investigarei a casa de Jason por mim mesma, depois voarei ao Brasil. Posso estar em Atlantis em dois dias.

   — Não. Para ambas as coisas.

   — Mas…

   Não, Grace.

   Ela tinha que lhe convencer de que partisse. Mas como?

   Soltou-lhe e começou a limpar os pratos, lhe dando as costas. Em segundos, ele estava justo detrás dela, mantendo-a cativa em seus braços.

   — Está zangada, — disse ele.

   Ela se deteve, dizendo:

   — Temo por você. Temo pelo Alex. Quero que isto acabe.

   Uma corrente de ameaça cobriu sua voz quando disse.

   —Logo. Muito em breve.

   As luzes de néon brilhavam nos edifícios próximos. Grace ofegou com força quando seu olhar se lançou de esquerda à direita. Sou uma criminosa. Estou irrompendo e entrando — ou cometendo um B e E como lhe diria o oficial da detenção. Apertou os lábios e lutou contra o tremor. Nunca o confessaria em voz alta, se não que ocultou seu nervosismo detrás de um intenso golpe de adrenalina.

   Ela e Darius estavam no exterior do bloco de edifícios de apartamentos de luxo. Uma ligeira brisa passou junto a ela, esfriando sua acalorada pele. Pressionou suas costas contra a parede de arenito e deu outra olhada à direita. Infelizmente Darius não podia transportá-los magicamente ao interior. Ele tinha que visualizar primeiro o cômodo e nunca tinha estado no interior do de Jason.

   Perguntou-se, entretanto, como planejavam entrar sem que os detectassem.

   — E se saltarem os alarmes? — perguntou. Perguntou suavemente. As pessoas que passeavam pelas ruas suspeitavam da verdade?

   Ela vestia completamente de negro, depois de tudo. A cor dos criminosos.

   — Não o farão. — respondeu Darius crédulo.

   — Os guardas de segurança vigiam as telas de cada corredor, possivelmente inclusive cada apartamento.

   — Isso não importa. Por-lhes-ei um feitiço aos guardas antes que ponhamos um só pé dentro. — Ele a calibrou com um intenso olhar. — Está preparada?

   Ela tragou, assentindo.

   — Me rodeie o pescoço com os braços e se agarre forte.

   Depois de uma ligeira vacilação, Grace entrelaçou seus trêmulos dedos ao redor de seu pescoço, pressionando seus seios na dureza de seus peitos. Um formigamento lhe atravessou os mamilos.

   — Podemos nos colocar em problemas por isso. Não sei por que o sugeri.

   Acariciou-lhe os lábios com os seus.

   — Por que ama ao seu irmão.

   Ela ouviu o rasgar do tecido um segundo antes que a camiseta de Darius caísse ao chão. Suas largas e gloriosas asas se desdobraram. Seu coração ficou a galope quando seus pés perderam sua sólida âncora ao chão. Whoosh. Whoosh. Elevou-se uma fresca brisa.

   — O que está acontecendo? — Ofegou ela, mas já conhecia a resposta. — Darius, isto é…

   — Não se assuste. — disse ele, apertando-a contra ele. — Não esqueci como voar. Tudo o que precisa é se agarrar a mim.

   — Não estou assustada. —riu ela. — Estou encantada. Estamos voando no Darius Express.

   Eles se moviam rapidamente, com suavidade, subindo com cada segundo que passava.

   Ele emitiu um sorriso de sua própria colheita e sacudiu a cabeça.

   — Esperava que estivesse assustada. Vai deixar de me assombrar alguma vez, doce Grace?

   — Espero que não. — Ela olhou para baixo, adorando como os carros e as pessoas pareciam tão pequenas como bolinhas de pó, adorando a vertigem de pairar no ar.

   A lua do Caçador surgiu próxima e enorme, crescendo em intensidade até que somente pôde ofegar ante esta luminosidade.

   Darius cantarolou em voz baixa, e uma estranha vibração se liberou desde ele, uma vibração que começava nada mais como um ligeiro tremor, então cresceu até um intenso tremor que sacudiu todo o edifício de apartamentos.

   Ninguém abaixo parecia notá-lo.

   O tremor se deteve.

   — Agora estamos a salvo, — disse ele.

   Ela não tinha perguntado como exatamente, já que tinham alcançado a varanda de Jason. Quando suas asas se deslizaram lentamente para frente, Darius a deixou com firmeza no chão. A ação lhe arrancou um grunhido, e ela elevou o olhar ao seu rosto. Suas maçãs do rosto tensos e carentes de cor. Sustentou-lhe o olhar enquanto deixava escapar uma tremula respiração.

   — Está outra vez débil, — disse ela, preocupada. — Possivelmente deveria ir a casa e…

   — Estou bem. — A irritação, Com ela ou consigo mesmo? Açoitava seu tom.

   Ela tragou, decidida a lhe tirar dali o mais breve possível.

   — Então nos demos pressa.

       As brancas cortinas ondeavam ao redor da dupla porta Francesa. Grace as deixou a um lado e o tentou com o bracelete. Fechado.

   — Sabe como as forçar?

   — Não há necessidade. — Darius passou a seu lado, colocando-se ante as portas e expeliu raios de fogo.

   A madeira que rodeava os painéis de cristal se carbonizaram imediatamente. Os cristais tilintaram rompendo-se quando os painéis caíram e golpearam o chão.

   Obrigado. —passando sobre os destroçados restos, Grace abanou a mão frente a seu nariz para afastar a fumaça. Com todo o descaramento entrou na casa de Jason Graves.

   — Está tão escuro, — murmurou ela.

   — Seus olhos se adaptarão. — Ele não utilizou uma voz de quebra e entra. — Utilizou um tom por que está sussurrando, mulher estúpida.

   Inclusive quando falava, sua visão se abriu e os objetos se fizeram mais claros. Um enorme divã, uma mesinha de café de cristal.

   — O que acontece os sensores de movimento e as câmaras de segurança? — perguntou ela. — Estamos protegidos disso cem por cento?

   — Sim. O feitiço os desabilitou.

   Permitindo-se a relaxar-se, passeou-se por toda a sala de estar, passando a ponta dos dedos sobre os quadros e as jóias — sim, jóias — que penduravam das paredes.

   — Quanta riqueza, — disse ela. — E nenhuma lhe pertence. É como se atravessássemos a névoa e entrássemos em Atlantis.

   Darius permaneceu na soleira, apertando os dentes em um feroz grunhido tocou os artefatos roubados de Atlantis.

   — Sei que é um menino dos deuses, — disse ela, esperando distrair o de sua fúria—, mas não é tecnicamente um deus. De onde vem sua magia?

   — Meu pai, — disse ele, perdendo parte de sua fúria. Entrou, os punhos fechados com força. — Ele praticava as artes antigas.

   A imagem dos corpos sem vida de seus pais cintilou em sua mente outra vez, exatamente como os tinha visto em sua visão quando ele tinha posto seu feitiço de vinculação sobre ambos. Doía-se pelo menino pequeno que tinha sido, o menino que tinha encontrado a sua família massacrada. Não podia imaginar a dor que devia ter sofrido—e ainda sofria.

   — Lamentos suas mortes, — disse-lhe ela, deixando que seu remorso e pena se filtrassem com suas palavras. — Perdeu a sua família.

   Darius ficou rígido e a fulminou com o olhar.

   — Como sabe que eles se… foram?

   — Vi-os. Em sua mente. Quando colocou o feitiço de vinculação.

   Endireitou os ombros e a surpresa relampejou atravessando seus olhos.

   — Eles eram minha vida, — disse ele.

   — Sei. — respondeu ela suavemente, doendo-se por ele.

   — Possivelmente um dia te fale deles. — A oferta emergiu vacilante, mas apesar de tudo, ali estava.

   — Eu adoraria.

   Ele assentiu, um pouco tenso.

   — Agora mesmo, devemos procurar alguma informação que este Jason tenha a respeito de Atlantis e seu irmão.

   —Darei uma olhada à biblioteca em busca do Livro Ra-Dracus. —ela deu uma olhada ao seu redor. — Apostaria que ele é o único que roubou a meu irmão.

   — Eu investigarei o resto da casa.

   Com um último olhar insistente, separaram-se. Os chãos eram painéis de mogno polidos e a decoração um pouco puxada para uma casa medieval e uma revista de jardinagem. Grace subiu ao piso de cima, encontrando rapidamente o escritório. Montanhas de livros se empilhavam em cada esquina, e alguns pareciam velhos e muito usados. Ela deu uma olhada a cada um, encontrando referências de dragões e líquido nitrogênio, feitiços mágicos e vampiros, mas nenhum era o Livro Ra-Dracus. Um enorme escritório cor noz ocupava o centro e um enorme globo do mundo feito completamente do… que era isso? Algum tipo de jóia, possivelmente? Púrpura, igual a uma ametista, mas denteado como o cristal.

   Ela o estudou mais de perto. No centro, uma cascata formava redemoinhos ao redor de um simples corpo de terra. Ao redor de Atlantis. E uma pulsante safira.

   Embora o quisesse estudar mais de perto, obrigou-se a concentrar-se no assunto que tinham entre mãos. Obrigou-se a mover-se para o escritório e revolveu os papéis que tinha em cima. Ao não encontrar nada de importância, agarrou um abridor de cartas e lutou durante vários minutos, forçando as fechaduras das gavetas. No fundo da gaveta, descobriu fotos que a surpreenderam e repeliram. Cobriu a boca para afogar um horrorizado ofego. As gráficas imagens mostravam a um dragão decapitado e a guerreiros humanos cobertos por uma espuma branca, sangue correndo das múltiplas feridas de bala. Algumas mostravam a Alex e Teira. Os dois estendidos em uma cela com jóias incrustadas, sujos, mas vivos. Várias mostravam grotescas imagens de altas e pálidas criaturas com estranhos olhos azuis dando um festim com os corpos dos dragões. Os humanos ficavam fora da vista, sua expressão uma mescla de temor, repugnância e excitação.

   Por que tirar fotos de seus crimes? Como uma lembrança? Para provar a existência de Atlantis? Ou ela franziu o cenho.

   Ela voltou a recordar a visão de seu irmão que tinha projetado o medalhão de Darius. Esse quarto não era a que tinha ocupado Alex. Este era um quarto diferente, um que sabia, se encontrava em Atlantis. Aquelas paredes enjoiadas eram muito parecidas com as que tinham visto no interior do lar de Darius. Quando seu marido voltasse para casa, pensou, mais decidida agora que antes, ia-se com ele.

   Possivelmente Darius sentiu sua crescente inquietação, porque o seguinte que soube, é que estava sobre ela.

   — O que há…? — ele fez uma pausa, então muito lentamente, com precisão, estirou-se por cima de seu ombro e deslizou as fotos de suas mãos. Ela tentou tirar-lhe porque não queria que visse o que os viajantes tinham feito a seus amigos. Ele as sustentou com força.

   — Estes são Javar e seus homens. E esses são vampiros.

   Vampiros. Ela se estremeceu. Contar com a prova de sua existência lhe sentou igual a chumbo no estômago.

   — Sinto muito, — disse ela, voltando-se para lhe olhar. Seus olhos se entrecerraram, mas inclusive desde aquelas diminutas ranhuras podia ver a cor azul gelo de seus olhos. Fragmentos de raiva irradiando dele e entrando nela. — Alguma coisa por ali?

   Ele deixou as fotos a um lado com um fluido e ilusório movimento de tranquilidade. Permitindo-lhe mudar de tema, respondeu.

   — O que é? Encontrou algo?

   — Mais artefatos de Atlantis. — Irradiando uma fria determinação, agarrou-lhe a mão. — Jason Graves merece muito mais que a morte. Merece sofrer.

   Outro estremecimento a percorreu, mas sabia o que faria o que estivesse em seu poder para ver que Jason obtivera exatamente o que se merecia.

   E ela planejava lhe ajudar.

   Grace queria dar-se de golpes contra a parede.

   Ela e Darius tinham chegado a casa fazia várias horas, e ele ainda seguia rígido com a tensão.

   Negava-se a falar e ela odiava isso. Odiava o remorso que irradiava dele.

   Ele estava sentado no sofá, com a cabeça encurvada e os olhos fechados. Sem saber o que fazer, ela se aproximou silenciosamente.

   — Quero te mostrar algo.

   Suas pálpebras se levantaram inapetência. Quando não ofereceu resposta e não se moveu para levantar-se, ela acrescentou.

   — É a cereja do bolo.

   Nenhuma só palavra escapou de seus lábios, mas se levantou. Grace envolveu seus dedos ao redor dos dele e o arrastou até o banheiro. Ela não explicou suas ações, simplesmente lhe tirou a roupa, então se despiu. Ele estava necessitado de amor — e ela ia dar tudo. Todo o amor que pudesse suportar.

   Depois de girar os nódulos e comprovar a temperatura da água, entrou na banheira e puxou Darius detrás dela. Ele ainda permanecia em silêncio. A cascata da água quente caía por seus corpos nus, e ela ficou de pé ante ele, lhe ensaboando o peito com sabão.

   — Tenho uma piada para você. — disse ela, convertendo mentalmente todas as piadas que conhecia em piadas de dragões.

   Ele franziu seu cenho a primeira reação. Não importava que somente lhe tivesse franzido o cenho. Ao menos tinha conseguido algo.

   — O que diz o dragão quando vê um cavalheiro de brilhante armadura?

   Ele enrugou o cenho e suspirou.

   — Oh, não, não mais comida enlatada.

   Lento, muito lentamente, seus lábios se ampliaram em um sorriso.

   Fiz, pensou ela com uma onda de orgulho. O fiz sorrir. Ela se banhou nessa calidez e em tudo enquanto seu sorriso continuava crescendo. Tão doce, tão agradável que iluminou todo seu rosto. Seus olhos escuros, converteram-se no marrom dourado que tanto amava.

   — Me conte outra, — disse ele.

   Ela quase se afunda de joelhos de alívio ante o som de sua rica e rouca voz. Sorrindo com felicidade, ela se deslizou detrás dele e passou suas ensaboadas mãos por suas costas.

   — Este é longo. —advertiu ela.

   — Melhor inclusive, — disse ele, puxando ela para frente. Mordiscou-lhe orelha, arrastando o sensível lóbulo por seus dentes.

   —Este era um dragão que tinha uma antiga obsessão com os seios de uma rainha, — disse ela, ofegando. — O dragão sabia que a pena por tocá-la seria a morte, contudo ele revelou seu segredo ao médico do rei. Este homem lhe prometeu que poderia arrumar-lhe para que o dragão cumprisse seu desejo, mas que lhe custaria mil moedas de ouro. —Ela arrastou suas ensaboadas mãos sobre seus mamilos, baixando então por seus braços. — Embora ele não tivesse o dinheiro, o dragão esteve imediatamente de acordo com o assunto.

   —Grace, — gemeu Darius, sua ereção pulsando contra seu estômago.

   Ela ocultou seu sorriso, encantada de ter tanto poder sobre um homem tão forte. Que ela, Grace Carlyle, o fazia se doer de desejo.

   —Ao dia seguinte o médico preparou uns pós de coceira — lançou e os pulverizou pelo sutiã da rainha… um, você possivelmente o conheça como regata… enquanto se banhava. Depois de vestir-se, ela começou a se coçar, coçar e coçar. O médico foi convocado aos Aposentos Reais e lhe informou ao rei que somente uma saliva especial, aplicada durante várias horas, poderia curar essa classe de dor. E só um dragão possuía essa classe de saliva. —Ela fez uma pausa, estava sem respiração.

   — Continua. — Disse-lhe Darius. — Seus braços a rodeavam apertando-a tão estreitamente que apenas podia respirar.

   Sua pele ardia quente contra a sua, mais quente inclusive que a vaporosa água.

   — Tem certeza?

   — Continua. — As linhas de tensão formaram um parêntese em sua boca.

   — Bom, o rei convocou ao dragão. Enquanto isso, o médico lhe deslizou o antídoto para a poderosa coceira, o qual o dragão pôs em sua boca, e durante as seguintes horas, o dragão trabalhou apaixonadamente nos seios da rainha.

   De todas as formas. — Continuou ela, estirando-se a rodeá-lo e ensaboando os duros músculos de seu traseiro—, a coceira da rainha foi finalmente aliviada, e o dragão ficou satisfeito e foi tratado como um herói.

   — Isso não soa como uma piada, — disse-lhe Darius.

   — Estou quase aí. Espera. Quando o médico exigiu seu pagamento, o agora satisfeito dragão se negou. Ele sabia que o médico não poderia contar ao rei o que tinha acontecido realmente. Assim ao dia seguinte, o médico deslizou uma enorme dose do mesmo pó coceira — lançou na cueca do rei. E o rei convocou imediatamente ao dragão.

   Darius lançou a cabeça para trás e riu a gargalhadas. O som retumbava com força, e ela se apaixonou ainda mais por ele nesse momento. Ela nunca tinha ouvido algo tão precioso porque sabia quão estranha era para ele a diversão. Esperava que encontrasse tamanha alegria a cada dia que passassem juntos.

   Quando sua risada se acalmou, um brilho sensual iluminava seus olhos. Suas feições estavam tão relaxadas, tão abertas.

   — Estou intrigado por esse festim de seios, — murmurou ele, esfregando seu nariz contra a dela.

   — Eu também, — ela admitiu. — Tenho uma coceira.

   — Me permita te ajudar. — ela pressionou seus lábios nos seu, num preguiçoso e delicioso peito. Seu feroz sabor, seu calor, sua masculinidade, ainda as arrumava para cativá-la. A necessidade e o desespero rodeavam cada polegada de seu corpo, e ela envolveu suas úmidas mãos ao redor de seu pescoço.

   Suas palmas se deslizaram em uma ligeira carícia por sua coluna e se detiveram na pequena incisão da base. Quando esses quentes dedos se afundaram mais abaixo, cobrindo-a e puxando pressionando-a contra ele, ela ofegou de repente com força. Ela pressionou sua metade inferior contra ele, embalando sua ereção. Seus nervos estavam à flor de pele com as lembranças de fazer amor, e desejava repetir a experiência.

   — Vou te ter outra vez. — disse ele.

   — Sim, sim.

   — Diga que me deseja

   — Sim. Desejo-te.

   — Diga que precisa de mim.

   — Tanto que morreria sem você.

   — Diga que me ama.

   — Sim. Amo você.

   Ela era vívida paixão em seus braços, pensou Darius, e o era tudo para ele.

   — Me beije. E não deixe de me beijar, — disse-lhe ela.

   Ele fez mais que beijá-la. Obsequiou-lhe com pequenas e doces dentadas e eróticas lambidas, então procedeu a chupar cada gota de água de seu corpo. Ele invadiu seus sentidos até que tudo o que podia ver, tudo o que podia sentir, tudo o que podia saborear era a ele. Ela tremeu quando a ponta de sua língua fez círculos com o passar da borda de sua orelha.

   De repente se deteve. Um só momento, em suspenso silêncio:

   — Me ajude a esquecer o passado. — sussurrou ele com voz quebrada.

   Ele lhe acariciou o pescoço e afundou a mão sobre seu ondulado abdômen. Quando abraçou sua grossa ereção, ele assobiou em busca de ar. Ela nunca o havia segurado tanto tempo, só o justo para lhe acariciar acima e abaixo.

   Então ela se soltou dele, lhe concedendo uma última e breve carícia antes de lhe cobrir o saco dos testículos.

   Enquanto seus dedos apertavam suavemente, ela rodeou seus mamilos com a língua. Sentiam-se igual a pequenos botões em sua boca e saboreou o sabor masculino misturado com a água.

   — Como o estou fazendo até agora?

   — Preciso mais tempo para dizer, — disse ele grosseiramente, de maneira desigual. Seus dedos enroscando-se em seu cabelo, depois lhe massageando o pescoço… os seios.

   A visão de suas fortes e bronzeadas mãos sobre sua suave e macia carne era a coisa mais erótica que tinha visto nunca.

   Uma vez mais rodeou sua longitude com os dedos. Estava tão quente e grande, tão duro. Acima e abaixo, atormentava-o. Estava desesperada por encher seus dias com felicidade, de lhe ajudar a ‘esquecer’ sua dor, como lhe tinha pedido. Não, não esquecer, se não sarar. Faria o que fosse necessário para lhe dar a paz que ansiava.

   — Qual é sua fantasia sexual? — murmurou ela contra sua clavícula. Mordeu-lhe, não com tanta força para lhe atravessar a pele, mas o suficiente para lhe deixar sua marca. — Possivelmente possa fazê-la realidade.

   —Você é minha fantasia, Grace. — Suas mãos cobriram seu queixo, e a obrigou a levantar o olhar para ele. — Só você.

   Se ela não o tivesse amado já, teria se apaixonado justo então.

   —Eu tenho uma fantasia, — sussurrou ela. Lambeu-lhe o canto dos lábios. — Quer ouvi-la?

   Ele arrastou suas mãos por suas costas, fazendo-a tremer, então lhe cobriu o traseiro e a puxou para ele para um profundo contato.

   — Me diga.

   — Bom, eu gosto de ler livros eróticos a respeito de enormes guerreiros que amam com tanta ferocidade como brigam, e sempre quis um para mim.

   Seus lábios se ampliaram com nervosismo.

   — Agora tem um.

   — Oh, sim. — A água quente fez uma capa sobre sua pele e ela se esfregou contra ele, deixando que os bicos de seus mamilos lhe roçassem o peito, deixando a gorda cabeça de seu pênis cativa entre suas pernas.

   — Fantasiei com meu enorme e forte guerreiro me levantando, pressionando minhas costas em uma parede de azulejos do banheiro e me penetrando.

   Ele pressionou suas costas contra o frio azulejo e se moveu ao seu interior, profundo, com força, ardente. O vapor ondeava ao seu redor, mas era a picante essência de dragão e sabão que inundava suas fossas nasais. Ele se sentia tão bem dentro dela, mais excitante que escalar uma montanha ou lançar-se de uma ponte.

   Ele bombeou dentro e fora dela, e ela o rodeou com os braços. Sua força debaixo de suas palmas a enchia com um embriagador poder. Mordeu-lhe o pescoço, fazendo-a tremer. Estendeu-lhe mais ainda os joelhos e se impulsionou com mais força. Ela ofegou seu nome. Gemendo-o, choramingando seu nome.

   — Grace. — grunhiu ele. — Minha.

   E o era. Completamente.

   Darius sustentou a uma dormida Grace em um abraço apertado. Ela possuía uma força interior, um coração que dava uma profunda capacidade de amor. Seu sorriso brilhava mais que o sol. Sua risada o sarava. Realmente o sarava.

   Enquanto tinha na calma da noite, com a nublada luz da lua envolvendo-o, permaneceu débil e satisfeito de seu amor. Largas lembranças esquecidas finalmente voltaram para a superfície, fragmentos e peças de seu passado, peças que tinha enterrado tão profundamente que tinham permanecido perdidos para sempre. Não lutou com isso, mas ao fechar os olhos, viu sua mãe rindo, seu sorriso tão gentil e formoso como as antigas águas que rodeavam sua cidade. Seus olhos dourados brilhando alegremente.

   Ela o pegou com a espada de seu pai, balançando a arma através do ar com um dramático floreio, tentando imitar a força do guerreiro que possuía seu pai.

   — Um dia, — disse-lhe ela em sua doce e lírica voz, — sua força superará com muito a de seu pai.

   Ela reclamou a espada dele e apoiou a brilhante prata contra a parede próxima.

   — Lutará ao seu lado e protegerão um ao outro de qualquer dano.

   Esse dia nunca chegou.

   Ele viu seu pai, forte, orgulhoso e leal, cruzando de um salto o escarpado que levava a sua casa. Ele logo que chegava de uma batalha com os Formorians, lavava o sangue da pele, mas sua roupa ainda guardava rastros dela. Quando o divisou, seu pai lhe sorriu e abriu os braços. Um Darius de sete anos correu para ele e se lançou aos braços entrando no esperado abraço.

   — Só estive fora três semanas, mas olhe como cresceste, — disse seu pai, abraçando-o estreitamente.

   — Deuses, senti saudades.

   — Eu também senti saudades. — ele lutou para reter uma lágrima. Seu forte e guerreiro pai limpou a umidade de seus olhos. — Vamos, filho. Vamos saudar sua mãe e a suas irmãs.

   Juntos, caminharam um ao lado do outro entrando na pequena casa. Suas três irmãs dançavam ao redor de um fogo, rindo, cantando, seu longo cabelo escuro flutuando sobre seus ombros. Cada uma delas possuía idênticas feições, arredondadas bochechas e tal inocência que lhe doía olhar.

   — Darius, — chamaram-lhe quando o viram, correndo a ele primeiro, embora só fizesse umas poucas horas que o tinham visto.

   Elas compartilhavam com ele um vínculo especial que não podia explicar. Sempre tinha estado ali e sempre estaria.

   Ele as abraçou as aproximando, absorvendo a doçura de suas essências.

   — Pai voltou. Dêem-lhe um apropriado recebimento.

   Seus rostos se iluminaram com seus sorrisos e se lançaram a si mesmos para o guerreiro.

   — Minhas preciosas garotinhas, — disse, rindo-se através de mais lágrimas.

   Sua mãe ouviu sua alegria e correu ao interior do cômodo. Eles passaram o resto do dia juntos, nem um só membro da família muito longe.

   Quão felizes tinham sido.

   Aqui, no presente, uma única lágrima se deslizou do canto dos olhos de Darius. Não a limpou, se não que permitiu que se deslizasse descendo por sua bochecha e entrasse em seu ouvido.

   Tão unida como estava a ele, Grace sentiu sua tortura. Ela se moveu para lhe olhar, suas feições iluminadas com a preocupação.

   — Darius? —Disse com suavidade. — Está bem. Seja o que for, estará bem.

   Chegou outra lágrima, depois outra. Não podia detê-las, e não tinha certeza de querer fazê-lo.

   — Sinto sua falta. —Disse ele com voz quebrada. — Eram minha vida.

   Ela o entendeu imediatamente.

   — Me fale disso. Conte-me as coisas boas

   — Minhas irmãs eram iguais à luz do sol, a luz das estrelas e a luz da lua. — suas imagens encheram sua mente uma vez mais, e nesta ocasião quase se afoga com a dor. E ainda… a dor não era o temível destruidor que tinha esperado, se não um aviso de que ele vivia e amava. — Cada noite criavam um pequeno fogo e dançavam ao redor das chamas. Estavam tão orgulhosas de sua habilidade e estavam decididas a que um dia criariam a fogueira maior que se viu em Atlantis.

   — Não temiam queimar-se?

   — Os dragões dão à bem-vinda e prosperam em tal calor. Desejo que pudesse tê-las visto. Elas eram tudo o que é bom e correto.

   — Quais eram seus nomes? — perguntou ela suavemente.

   — Katha, Kandace e Kallia. — disse ele. Com um grunhido animalístico, esmurrou um lado do colchão com o punho. — Por que tinham que morrer? Os viajantes violaram e torturaram a minhas irmãs como se fosse lixo.

   Grace apertou seus braços a seu redor e colocou a cabeça no oco de seu pescoço. Não tinha nada que pudesse dizer para aliviar sua angústia, assim que o sustentou mais perto.

   Ele esfregou os ardentes olhos.

   — Elas não mereciam tal morte. Não mereciam o que sofreram.

   — Sei, sei. — arrulhou ela.

   Ele enterrou seu rosto no oco de seu pescoço e chorou.

   Ao final, Darius soluçou.

   Grace lançou um olhar através da caixa de Coletes Kevlar que ela pegou lá embaixo. Darius se ajoelhou do outro lado e apertou uma das pesadas vestes negras entre os dedos. Seus lábios se contorceram de desgosto.

   Ela o viu. Seus olhos brilhavam com vitalidade, vivo como o ouro, brilhando com contentamento. Eles haviam estado assim desde a noite passada e não haviam mudado. Nem sequer tinham vacilado ao azul. As linhas ao redor de seus olhos e boca se relaxaram também, e tinha uma tranquilidade nele que lhe esquentava o coração. Oh, ainda possuía essa perigosa aura. O perigo sempre seria parte dele. Mas a frieza, a desesperança, tinham partido.

   Como ela amava esse homem.

   — Experimente um, - disse ela.

   Carrancudo, ele puxou o material sobre os ombros. Ela inclinou-se e fechou o velcro para ele.

   —É muito apertado, - disse ele.

   — Se uma bala roça em você, você gostaria que fosse ainda mais apertado.

   Ele bufou.

   —Como pode isto fazer algum bem?

   — Talvez você vá entender melhor depois que eu lhe mostrar como usar uma arma. —Ela correu para a cozinha e tirou a pistola que tinha guardado em uma das gavetas. Comprovou-a duas vezes para assegurar-se que não ficavam balas no cilindro

   —Isto é um revolver. —ela explicou-lhe, quando parou detrás de Darius. Envolvendo os braços em torno dele, ela colocou o frio metal em suas mãos e dobrou os dedos nos lugares corretos. — Mantenha-os assim.

   Seus tr&ec