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CRÔNICAS DA FUNDAÇÃO / Isaac Asimov
CRÔNICAS DA FUNDAÇÃO / Isaac Asimov

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CRÔNICAS DA FUNDAÇÃO

 

ETO DEMERZEL

        DEMERZEL, ETO - ...Embora não haja dúvida de que Demerzel tenha sido o verdadeiro governante durante a maior parte do reinado do imperador Cleon I, os historiadores se dividem quanto à natureza da sua administração. A interpretação clássica é de que ele era mais um na longa linha de opressores violentos e implacáveis que se  sucederam no último século de existência do Império Galáctico, mas existem aqueles que insistem em defini-lo como um déspota benévolo. Este último ponto de vista  está ligado ao seu relacionamento com Hari Seldon, que infelizmente até hoje não foi bem esclarecido, particularmente no que diz respeito ao curioso episódio de Laskin Joranum, cuja ascensão meteórica..

            ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

       

        "Todas as citações extraídas da Enciclopédia Galáctica aqui reproduzidas são de sua  116ª edição, publicada no ano 1020 E.F. pela Companhia Editora Enciclopédia Galáctica, Terminus, com a autorização dos editores.

       

        - Repito, Hari - disse Yugo Amaryl, - que seu amigo, Demerzel, está com problemas. - Ele enfatizou ligeiramente a palavra amigo, com uma inconfundível expressão  de desagrado. Hari Seldon percebeu o tom amargo, mas preferiu ignorá-lo. Levantou os olhos do tri-computador e replicou:

        - E eu repito, Yugo, que isso não faz sentido. - Em seguida, com um traço de contrariedade, apenas um traço, acrescentou: - Por que me faz perder tempo com a sua  insistência?

        - Porque acho que isso é importante - respondeu Amaryl, sentando-se e olhando para ele com ar desafiador. O gesto indicava que não sairia dali facilmente. Ali estava  e ali pretendia ficar.

        Oito anos antes, ele era um térmico em Dahl. Mais baixo na escala social, seria impossível. Seldon o tirara daquela situação, transformando-o em um matemático, em  um intelectual... mais do que isso, em um psico-historiador.

        Nem por um minuto poderia esquecer o que fora e o que era agora, nem a quem devia a mudança, e isso queria dizer que se tivesse que falar asperamente com Hari Seldon  - para o bem de Seldon - nem o respeito e amizade que sentia pelo homem mais velho, nem a preocupação com a própria carreira, o fariam calar-se. Devia isso, e muito  mais, a Seldon.

        - Escute, Hari - disse, agitando a mão esquerda no ar, - por algum motivo que escapa à minha compreensão, você tem esse Demerzel em alta conta, mas eu não. Ninguém  cuja opinião eu respeite, a não ser você, acha que ele vale alguma coisa. Pessoalmente, não me importo com o que possa acontecer a ele,  Han, mas já que você se importa, não me resta alternativa a não ser conversar com você a respeito.  Seldon sorriu, tanto pela franqueza do outro como pelo que considerava como uma preocupação infundada. Gostava de Yugo Amaryl. Era uma das quatro pessoas que conhecera  durante o curto período em que fora um fugitivo na superfície do planeta Trantor: Eto Demerzel, Dors Venabili, Yugo Amaryl e Raych. Quatro pessoas diferentes de  todas que conhecera desde então.

        Cada uma dessas pessoas, à sua maneira, era indispensável. Precisava de Yugo Amaryl por causa dos seus conhecimentos dos princípios da psico-história e da forma  como sabia aplicá-los a novas situações. Era uma tranqüilidade saber que se alguma coisa acontecesse a Seldon antes que a matemática da disciplina fosse totalmente  formulada (e o progresso era tão lento, as dificuldades tão grandes!), pelo menos restaria alguém para continuar a pesquisa.

        - Sinto muito, Yugo. Não queria me mostrar impaciente nem fazer pouco das suas apreensões. É esse o meu trabalho. Não é fácil ser chefe de departamento...

        Foi a vez de Amaryl sorrir e conter o riso.

        - Desculpe, Hari, eu não devia achar graça, mas você não foi talhado para essa posição.

        - Sei disso muito bem, mas terei que aprender. Preciso dar a impressão de que estou trabalhando em alguma coisa inócua, e nada, nada pode ser mais inócuo do que  ser chefe do Departamento de Matemática da Universidade de Streeling. Faço de conta que estou envolvido com tarefas sem importância para que ninguém fique curioso  a respeito de nossas pesquisas no campo da psico-história, mas o problema é que eu realmente estou envolvido com tarefas sem importância e não tenho tempo para...  - varreu com olhos o escritório, olhou para os computadores com arquivos aos quais apenas ele e Amaryl tinham acesso, e que, mesmo que alguém os consultasse, tinham  sido cuidadosamente codificados em uma simbologia especial que apenas os dois eram capazes de compreender.

        - Depois que estiver mais familiarizado com o cargo, começará a delegar poderes e terá mais tempo livre para outras atividades - afirmou Amaryl.

        - Espero que sim - disse Seldon, sem muita convicção. - Mas, afinal, o que há de tão importante a respeito de Eto Demerzel?

        - Simplesmente que Eto Demerzel, o primeiro-ministro do imperador, está criando todas as condições para um golpe de Estado.  Seldon franziu a testa.

        - Por que ele teria interesse em fazer isso?

        - Não disse que ele tem interesse. Está simplesmente fazendo isso, conscientemente ou não... e com uma ajuda substancial dos seus inimigos políticos. Por mim, está  bem, você entende. Acho que, em circunstâncias normais, seria ótimo vêlo fora do palácio, fora de Trantor... até fora do Império. Acontece que você tem Demerzel  em alta conta, e por isso acho que tenho o dever de preveni-lo, pois suspeito que não esteja acompanhando os acontecimentos políticos recentes tão de perto quanto  deveria.

        - Tenho coisas mais importantes para fazer - protestou Seldon.

        - Como trabalhar no desenvolvimento da psico-história. Concordo. Mas como vamos desenvolver a psico-história se ignorarmos a política? Estou me referindo à política  do dia-a-dia. Agora, agora, é o momento em que o presente está se transformando no futuro. Não podemos nos limitar a estudar o passado. Sabemos o que aconteceu no  passado. É com o presente e o futuro próximo que devemos comparar nossos resultados.

        - Tenho a impressão de que já ouvi esse argumento antes.

        - E vai ouvi-lo de novo. Parece que não adianta explicar isso a você.  Seldon suspirou, recostou-se no assento e sorriu para Amaryl. O rapaz podia ser insolente, mas levava a sério a psico-história, e isso compensava tudo.

        Amaryl ainda conservava a marca dos anos que passara trabalhando como térmico. Tinha os ombros largos e os músculos desenvolvidos de uma pessoa acostumada a trabalhos  braçais. Não permitira que a flacidez se apossasse do seu corpo e isso era bom, porque inspirava Seldon a resistir à tentação de passar o  tempo todo atrás de uma escrivaninha. Ele não tinha a mesma força física que Amaryl, mas ainda era um exímio truncador, embora já passasse dos quarenta anos e não  pudesse manter aquilo para sempre. Por enquanto, porém, continuaria; graças aos exercícios diários, a cintura continuava fina e as pernas e braços ainda estavam   firmes.

        - Essa preocupação com Demerzel não pode ser simplesmente porque ele é meu amigo. Você deve ter outra razão.

        - É claro que tenho. Enquanto você for amigo de Demerzel, sua posição aqui na universidade estará segura e poderá continuar a trabalhar em sua pesquisa da psico-história.

        - Aí está. Eu tenho motivo para ser amigo dele. É fácil de entender.

        - Você tem interesse em agradá-lo. Isso eu compreendo. Quanto à amizade entre vocês dois... isso eu não entendo. Entretanto... se Demerzel fosse alijado do poder,  independentemente do efeito que isso pudesse ter sobre a sua posição, o governo passaria para as mãos de Cleon, o que certamente tornaria mais acelerada a decadência  do Império. Chegaríamos à anarquia antes de termos tempo de investigar todas as implicações da psico-história e usar a ciência para salvar a humanidade.

        - Entendo o que quer dizer. Acontece que, sinceramente, não acho que vamos desenvolver a psico-história a tempo de evitar a queda do Império.

        - Mesmo que não seja possível impedir a queda, podemos amenizar seus efeitos, não podemos?

        - Talvez.

        - Pois é isso. Quanto mais tempo tivermos para trabalhar em paz, mais chance teremos de evitar a queda, ou pelo menos amenizar seus efeitos. Já que é assim, temos  a obrigação de salvar Demerzel, mesmo que nós... mesmo que eu não goste dele.  - Você disse ainda há pouco que gostaria de vê-lo fora do palácio, fora de Trantor e até fora do Império.

        - Isso em circunstâncias normais. Acontece que não estamos vivendo em circunstâncias normais e precisamos do nosso primeiro-ministro, mesmo que ele seja um instrumento de repressão e despotismo.

        - Entendo. Mas que o faz pensar que o Império esteja tão próximo do abismo que a queda de um primeiro-ministro pode representar a gota d'água?

        - A psico-história.

        - Está usando a psico-história para fazer previsões? O arcabouço ainda não está completo. Como pode fazer previsões?

        - Usando a minha intuição, Hari.

        - As pessoas sempre usaram a intuição. Queremos algo mais, não queremos? Queremos um tratamento matemático que   nos forneça as probabilidades de acontecimentos futuros a partir de uma série de condições iniciais. Se a intuição fosse suficiente, não haveria necessidade da  psico-história.

        - Não é uma questão de escolher uma ou outra, Hari. Estou falando de ambas. A combinação das duas pode ser  melhor do que qualquer uma delas isoladamente... pelo  menos até que a psico-história seja aperfeiçoada.

        - Se um dia chegar a ser - afirmou Seldon. - Mas diga-me, onde está esse perigo para Demerzel? Por que afirma que é possível que ele seja deposto? Está falando em  deposição, não está?

        - Estou - respondeu Amaryl, muito sério.

        - Então me explique. Perdoe a minha ignorância. Amaryl enrubesceu.

        - Está sendo condescendente, Hari. Certamente já ouviu falar de Jo-Jo Joranum.

        - Claro que sim. Ele é um demagogo... Espere, qual é mesmo o seu planeta? Nishaya, certo? Um planeta sem importância. Dedicado à criação de cabras, se não me falha  a memória. Queijos de boa qualidade.

        - Isso mesmo. Acontece que ele não é apenas mais um demagogo. Tem muitos seguidores e está ficando cada vez mais forte. Suas metas são a justiça social e uma maior  participação política do povo.

        - Foi o que ouvi dizer. Seu lema é: "O governo pertence ao povo."

        - Não é bem isso, Hari. O que ele diz é que "O governo é o povo".

        Seldon assentiu.

        - Sabe de uma coisa? Concordo com ele.

        - Eu também. Estaria do lado de Joranum, se acreditasse que estava sendo sincero. Acontece que usa esse lema apenas para se promover. No fundo, o que deseja é derrubar  Demerzel. Depois disso, será fácil manipular o imperador Cleon. O objetivo final de Joranum é conquistar o trono. Você mesmo disse que houve vários episódios semelhantes  na história do Império, e atualmente o Império está mais fraco e menos estável do que no passado. Um golpe que, em séculos passados, o teria apenas abalado, hoje  pode ser capaz de despedaçá-lo. Será devastado pela guerra civil e não teremos a psico-história para nos dizer o que deve ser feito.

        - Agora estou entendendo aonde quer chegar, mas acho que não vai ser fácil derrubar Demerzel.

        - Não faz idéia de como o apoio a ele tem crescido ultimamente.

        - Isso não faz muita diferença. - Uma sombra pareceu passar pelo rosto de Seldon. - Imagino por que os pais o batizaram de Jo-Jo. Parece mais um apelido.

        - Os pais não têm nada a ver com isso. Seu nome verdadeiro é Laskin, um nome muito comum em Nishaya. Ele próprio escolheu Jo-Jo, provavelmente a partir da primeira  sílaba do sobrenome.

        - Uma infantilidade, não acha?

        - Não, não acho. A multidão repete: "Jo... Jo... Jo... Jo...", sem parar. É hipnótico.

        - Nesse caso - disse Seldon, fazendo menção de voltar para diante do tricomputador e ajustar a simulação multidimensional que estava criando, - vamos ver o que acontece.

        - Como pode ser tão displicente? Estou lhe dizendo que o perigo é real.

        - Não, não é - declarou Seldon, subitamente sério. - Você não conhece todos os fatos.

        - Quais são os fatos que não conheço?

        - Discutiremos isso em outra ocasião, Yugo. No momento, continue o seu trabalho e deixe que eu me preocupe com Demerzel e a sobrevivência do Império.

        Amaryl apertou os lábios. Estava acostumado a obedecer a Seldon sem discutir.

        - Está bem, Hari.

        Daquela vez, porém, era diferente. Voltou-se da porta e disse:

        - Está cometendo um erro, Hari. Seldon sorriu.

        - Acho que não, mas ouvi sua advertência e não Vou esquecê-la. Não se preocupe, vai dar tudo certo.

        No momento em que Amaryl deixou o escritório, o sorriso desapareceu dos lábios de Seldon. Será que tudo iria dar certo mesmo?

       

        Embora Seldon não tivesse esquecido a advertência de Amaryl, não pensava nela com freqüência. Seu quadragésimo aniversário chegou e passou, com o golpe psicológico de praxe.

        Quarenta anos! Já não era nenhum rapaz. A vida não mais se estendia à sua frente como um vasto território inexplorado, o horizonte perdido na distância. Estava em  Trantor há oito anos e o tempo passara muito depressa. Mais oito anos e estaria chegando à casa dos cinqüenta. Dali à velhice seria um passo.

        E ainda não tinha conseguido desenvolver a psico-história como desejava! Amaryl falava em leis, formulava equações, baseando-se em parte na teoria e em parte na  intuição, mas como poderia testar a validade das hipóteses? A psico-história não era uma ciência experimental, ou pelo menos as experiências exigiriam populações  inteiras, levariam séculos para ser concluídas e envolveriam uma ausência total de responsabilidade ética.

        Era um problema impossível, e ele se ressentia de ter que perder tempo com as atividades do departamento, de modo que foi para casa naquele dia de mau humor.

        Normalmente, bastava pôr os pés do lado de fora do escritório para se sentir melhor. O campus tinha um pé-direito muito alto e lhe dava a sensação de estar ao ar  livre sem a necessidade de submeter-se às intempéries, como em sua primeira e única visita ao Palácio Imperial. Havia árvores, gramados e alamedas, quase como se  estivesse no campus da universidade onde se formara, em Helicon.

        Naquele dia tinha sido criada a ilusão de um céu nublado, com a luz solar (não havia nenhum sol, é claro, mas apenas luz solar) aparecendo e desaparecendo a intervalos  irregulares. E estava fazendo um pouquinho de frio. Apenas um pouquinho.  Seldon tinha a impressão de que os dias frios estavam ficando um pouco mais freqüentes nos últimos tempos. Será que Trantor estava economizando energia? Será que  estava trabalhando com menos eficiência? Ou será (ele fez uma careta quando pensou nisso) que estava ficando velho e seu sangue tinha ficado mais ralo? Enfiou as  mãos nos bolsos do casaco e encolheu os ombros.

        Em geral, não precisava prestar atenção no caminho. Seu corpo conhecia muito bem o caminho do escritório até a sala do computador e dali até o apartamento. Caminhava  sem reparar nas coisas que o cercavam, imerso em seus pensamentos. Naquele dia, porém, um som penetrou na sua consciência. Um som sem nenhum significado.

        - Jo... Jo... Jo... Jo...

        Era fraco e distante, mas o fez lembrar-se de alguma coisa. Sim, a advertência de Amaryl. O demagogo. Estaria ali, no campus?

        As pernas o fizeram mudar de rumo, quase sem pensar, e o levaram, passando por uma pequena colina, até o estádio, que era usado como campo de esportes e centro de  reuniões dos estudantes.

        No meio do campo, uma pequena multidão aplaudia com entusiasmo um desconhecido que discursava, em tom veemente, de cima de uma plataforma.

        De uma coisa tinha certeza: aquele homem não era Joranum. Seldon vira Joranum algumas vezes na holovisão, e desde a conversa com Amaryl começara a prestar atenção  nele. Joranum era corpulento e sorria com uma espécie de cumplicidade maliciosa. Tinha cabelos ruivos e olhos azuis.

        O orador era franzino e tinha cabelos escuros. Seldon não estava prestando atenção nas palavras, mas ouviu a frase "...distribuir melhor o poder..." e os vivas com  que foi recebida.

        Ótimo, pensou Seldon, mas como pretende conseguir isso? Além do mais, será que está sendo sincero?

        Agora estava no meio da multidão e olhou em torno, à procura de um conhecido. Avistou Finangelos, um jovem estudante de matemática. Era um rapazinho simpático, moreno, cabeludo.

        - Finangelos! - chamou.

        - Professor Seldon - disse Finangelos, depois de olhar fixamente para ele por alguns momentos, como se não pudesse reconhecê-lo longe de um terminal de computador.

        Aproximou-se. - O senhor veio escutar esse sujeito?

        - Vim para cá atraído pelo barulho. Quem é ele?

        - O nome é Namarti, professor. Está falando em nome de Jo-Jo.

        - Isso eu já sei - afirmou Seldon, enquanto a multidão prorrompia novamente em aplausos. Aparentemente, o orador tinha acabado de dizer mais alguma frase de efeito.

        - Mas quem é esse Namarti? Não me lembro do nome. Em que faculdade ensina?

        - Ele não é professor da universidade, professor. É um dos homens de Jo-Jo.

        - Se ele não trabalha aqui, não tem direito de falar em público sem permissão. Será que ele tem permissão?

        - Não sei, professor.

        - Pois então vamos descobrir.

        Seldon fez menção de dirigir-se para a plataforma, mas Finangelos segurou-o pelo braço.

        - É melhor não fazer isso, professor. Ele não está sozinho. Havia seis rapazes musculosos atrás do orador, de braços cruzados, com cara de poucos amigos.

        - Seguranças?

        - Isso mesmo.

        - Mesmo que tenha uma permissão, ela não cobriria os seus capangas. Finangelos, telefone para a polícia do campus. Na verdade, não sei por que eles ainda não estão aqui.

        - Talvez não queiram se envolver - murmurou Finangelos. - Por favor, professor, não faça nada até eu voltar. Se quer que eu chame a PC, eu chamo, mas espere até eles chegarem.

        - Talvez eu possa resolver isso sozinho.

        Começou a abrir caminho entre os espectadores. Não foi difícil. Alguns o reconheceram, e todos podiam ver o distintivo de professor que levava no ombro. Apoiando-se com as duas mãos, subiu para a plataforma com um leve gemido. Pensou com tristeza que dez anos antes teria vencido a altura de um metro usando apenas uma das mãos e sem gemer.

        Endireitou o corpo. O orador tinha parado de falar e estava olhando para ele, desconfiado.

        - Gostaria de ver sua permissão para falar aos estudantes - disse Seldon, calmamente.

        - Quem é você? - perguntou o orador, em voz alta, como se quisesse que todos o escutassem.

        - Sou um membro do corpo docente desta universidade - respondeu Seldon, também em voz alta. - Onde está sua permissão?

        - Não reconheço o seu direito de me interrogar a respeito.

        - Os rapazes que estavam com ele chegaram mais perto.

        - Se não tem permissão, é melhor se retirar imediatamente.

        - E se eu me recusar?

        - Para seu governo, a polícia do campus está a caminho.

        - Seldon voltou-se para os estudantes. - Meus caros alunos, o direito de expressão e manifestação é garantido nesta universidade, mas poderá ser revogado se permitirmos  a realização de palestras não autorizadas por parte de...  Sentiu uma mão pesada no ombro e interrompeu o que estava dizendo. Olhou para trás e viu que era um dos seguranças.  O homem disse, com um forte sotaque que Seldon não conseguiu identificar imediatamente

        - Dê o fora daqui, depressa.

        - De que adiantaria? - disse Seldon. - A polícia do campus vai chegar a qualquer momento.

        - Nesse caso - declarou o orador, Namarti, com um sorriso diabólico, - vai haver um tumulto. Isso não nos assusta nem um pouco.

        - Claro que não. Vocês bem que gostariam, mas não vai haver nenhum tumulto. Vão embora pacificamente.

        Voltou-se de novo para os estudantes e tirou a mão que estava no seu ombro.

        - Vamos cuidar para que seja assim, não vamos?

        Alguém na multidão gritou:

        - É o professor Seldon. Ele está certo. Deixem-no em paz!

        Seldon percebeu que a multidão estava indecisa. Havia alguns, ele sabia, que adorariam um confronto com a polícia do campus, mesmo que fosse apenas por uma questão de princípios. Por outro lado, certamente havia outros que o conheciam pessoalmente ou que, mesmo que não o conhecessem, não aceitariam que um membro do corpo docente fosse intimidado por aqueles brutamontes.

        - Cuidado, professor! - advertiu uma voz feminina. Seldon suspirou e olhou para os agressores. Não sabia se  seria capaz de enfrentá-los. Apesar de ser um excelente truncador, talvez seus reflexos não fossem suficientemente rápidos.

        Um dos capangas se aproximou, excessivamente confiante, é claro. Não estava com pressa, o que deu a Seldon o tempo de que necessitava. O homem estendeu o braço,  tentando empurrá-lo, o que tornou as coisas ainda mais fáceis.

        Seldon agarrou-lhe o braço, girou o corpo, fez um movimento rápido, com um gemido (por que tinha que gemer?) e o homem saiu voando, movido em parte pelo seu próprio impulso. Foi cair na beira da plataforma, com o ombro deslocado.

        A inesperada reação de Seldon fez a multidão dar vivas. Instantaneamente, um orgulho institucional tomou conta da platéia.

        - Muito bem, professor! - exclamou uma voz solitária. Outros se juntaram a ele.

        Seldon ajeitou o cabelo e procurou respirar normalmente. Empurrou com o pé o capanga caído para fora da plataforma.

        - Mais alguém? - perguntou, sem levantar a voz. - Não acham melhor irem embora?

        Vendo que Namarti e os outros cinco capangas não sabiam o que fazer, Seldon disse:

        - Os estudantes estão do meu lado. Se insistirem, eles vão reduzi-los a pedacinhos... OK, quem é o próximo? Um de cada vez, por favor.

        Disse a última frase em voz alta, fazendo pequenos movimentos desafiadores com os dedos. A multidão aplaudiu.

        Namarti permaneceu teimosamente onde estava. Seldon colocou-se atrás dele e deu-lhe uma gravata. Vários estudantes subiram na plataforma e se colocaram entre os   dois e os guarda-costas, gritando:

        - Um de cada vez! Um de cada vez!

        Seldon apertou com mais força a garganta do outro e sussurrou no seu ouvido:

        - Sei o que estou fazendo, Namarti. Tenho experiência. Um movimento em falso e esmago-lhe a laringe. Se dá valor à sua voz, obedeça-me. Quero que diga aos seus capangas   para irem embora. Se disser qualquer outra coisa, serão suas últimas palavras. E se voltar a este campus, não serei tão complacente.

        Afrouxou ligeiramente a pressão. Namarti disse, com voz rouca:

        - Vão embora. Vão embora.

        Os capangas se retiraram apressadamente, levando com eles o colega ferido.

        Momentos depois, quando a polícia do campus chegou, Seldon disse a eles:

        - Desculpe, senhores. Alarme falso.

        Deixou o estádio e foi a pé para casa, bastante contrariado. Revelara uma faceta de sua personalidade que não pretendia revelar. Ele era Hari Seldon, o matemático,   e não Had Seldon, o truncador. Além do mais, pensou, aborrecido, Dors na certa ficaria sabendo. Pensando melhor, era melhor contar à moça o que acontecera, antes que ela ouvisse uma versão exagerada dos fatos. Ela não iria gostar nada.

       

        Dors realmente não gostou.

        Quando Seldon chegou, ela estava à espera na porta do apartamento, com a mão na cintura, muito parecida com a Dors que ele vira pela primeira vez naquela mesma  universidade, oito anos antes. Esguia, de corpo fino, cabelos dourados com um leve  tom de ruivo, muito bonita a seus olhos, embora talvez não fosse bonita em termos  objetivos; Seldon não se sentia capaz de julgá-la em termos objetivos.

        Dors Venabili! Foi o que Seldon pensou quando viu seu rosto calmo. Havia muitos planetas, e mesmo setores de Trantor, em que ela teria passado a se chamar Dors Seldon,  mas isso, na opinião de Seldon, seria colocar indevidamente uma marca de propriedade na moça, o que ele se recusava a fazer, embora o costume fosse adotado desde os tempos nebulosos da era pré-imperial.

        - Já soube do que aconteceu - disse Dors, com um leve movimento de cabeça que mal agitou os cachos de cabelo dourado. - O que vou fazer com você?

        - Um beijo não seria nada mau.

        - Pode ser, mas primeiro vamos discutir este assunto. Entre. - Seldon entrou e fechou a porta. - Você sabe, querido, que tenho meu curso e minha pesquisa. Ainda estou escrevendo aquela horrível história do Reino de Trantor, que você considera essencial para o seu trabalho. Será que eu devia largar tudo para ficar a seu lado  e protegê-lo? Sinto-me responsável por você. Ainda mais agora, que está fazendo progresso no campo da psico-história.

        - Fazendo progresso? Gostaria de estar. Mas você não precisa me proteger.

        - Não preciso? Mandei Raych à sua procura. Afinal de contas, você estava atrasado e fiquei preocupada. Geralmente você avisa quando vai chegar tarde. Desculpe se   estou falando como se fosse sua guardiã, Hari, mas a verdade é que sou sua guardiã.

        - Já lhe ocorreu, minha guardiã, que de vez em quando posso querer um pouco de liberdade?

        - Se alguma coisa acontecer com você, o que Vou dizer a Demerzel?

        - Cheguei atrasado para o jantar? Você já ligou para o serviço de jantar?

        - Não. Estava à sua espera. Já que está aqui, ligue você. É bem mais requintado que eu em matéria de comida. E não mude de assunto.

        - Raych não informou que eu estava bem? Que mais há para discutir?

        - Quando ele encontrou você, a situação estava sob controle, mas ele não teve tempo de me contar os detalhes. Em que tipo de confusão você se envolveu?  Seldon deu de ombros.

        - Estavam realizando uma reunião ilegal, Dors, e acabei com ela. Se eu não agisse, a universidade teria um problema e tanto pela frente.

        - E só você estava em condições de evitá-lo? Hari, você não é mais um truncador. Você é um...

        - Um velho? - completou Seldon.

        - Para um truncador, sim. Você tem quarenta anos. Como se sente?

        - Meio enferrujado.

        - Posso imaginar. Se continuar a fazer de conta que ainda é um jovem atleta heliconiano, um dia desses vai quebrar uma costela. Agora conte-me exatamente o que aconteceu.      

         - Eu lhe contei que Amaryl acha que a demagogia de Joranum pode trazer dificuldades para Demerzel.

        - Jo-Jo. Sim, você me contou. O que você não me contou? O que aconteceu hoje na universidade?

        - Um grupo de estudantes se reuniu no estádio. Um partidário de Jo-Jo, chamado Namarti, estava fazendo um discurso...

        - Namarti é Gambol Deen Namarti, o braço direito de Joranum.

        - Parece que você sabe mais a respeito dele do que eu. Seja como for, ele estava falando para uma verdadeira multidão. Não tinha permissão para fazê-lo, e acho que pretendia causar algum tipo de tumulto. Se conseguisse fechar a universidade, mesmo que por pouco tempo, acusaria Demerzel de atentar contra a liberdade de expressão. Eles põem a culpa em Demerzel de tudo que acontece de errado. Mas eu os detive. Consegui pô-los para fora antes que houvesse um tumulto.

        - Parece orgulhoso disso.

        - E por que não? Nada mau, para um homem de quarenta anos.

        - Foi por isso que interveio? Para mostrar do que ainda é capaz?

        Seldon pensou na resposta enquanto ligava para o serviço de jantar. Afinal, disse:

        - Não. Eu estava realmente preocupado com a universidade. Também estava preocupado com Demerzel. Acho que as histórias de Yugo me afetaram mais do que eu pensava. É tolice, Dors, porque sei que Demerzel é perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo. Não posso revelar isso a Yugo, nem a mais ninguém, mas nós dois conhecemos a   verdade. - Respirou fundo. - Ainda bem que pelo menos posso conversar com você a respeito. Nós dois sabemos que Demerzel é intocável. Nós e mais ninguém.

        Dors apertou um botão na parede e uma luz suave, cor de pêssego, iluminou a sala de jantar. Os dois foram até lá. A mesa já estava posta, com copos, talheres e pratos. Quando se sentaram, o jantar começou chegar (àquela hora tardia, a demora era mínima) e Seldon o recebeu com toda a naturalidade. Há muito tempo se acostumara àquela posição social, que tornava desnecessário que os dois freqüentassem os refeitórios públicos.

        Seldon saboreou os fermentes que aprendera a apreciar durante a estada em Mycogen, a única coisa naquele setor estranho, místico, retrógrado, machista, que não detestara.

        - Que quer dizer com "intocável"? - perguntou Dors.

        - Ora, querida, você sabe que ele é capaz de afetar as emoções das pessoas. Se achar que Joranum está ficando perigoso, pode... alterá-lo - afirmou, com um gesto   vago. - Fazê-lo mudar de idéia.

        Dors parecia pouco à vontade e a refeição prosseguiu em um silêncio pouco natural. Só depois que terminaram e as sobras, pratos, talheres e todo o resto desceram   pelo duto de refugos ao lado da mesa foi que a moça disse:

        - Não sei se devo falar a respeito, Hari, mas não posso deixar que seja traído por sua inocência.

        - Inocência? - repetiu Seldon, franzindo a testa.

        - Isso mesmo. Nunca discutimos este assunto. Não esperava que ele viesse à baila, mas Demerzel tem suas limitações. Ele não é intocável. Pode ser vencido, e Joranum   é um perigo real.

        - Está falando sério?

        - Estou. Você não compreende os robôs, principalmente um robô tão complexo como Demerzel, mas eu sim.

       

        Houve um novo silêncio, mas dessa vez porque Seldon estava pensando furiosamente. Sim, era verdade, sua mulher parecia entender profundamente de robôs. Hari pensara nisso muitas vezes nos últimos anos, até desistir e esquecer o assunto. Se não fosse por causa de Eto Demerzel, um robô, Hari jamais teria conhecido Dors. Porque   Dors trabalhava para Demerzel. Fazia oito anos que Demerzel colocara Dors no caso Hari, encarregando a moça de protegê-lo durante sua fuga pelos vários setores de Trantor. Embora agora fosse sua esposa, sua "cara-metade", Hari ocasionalmente pensava na estranha ligação de Dors com o robô. Era a única parte da vida de Dors que não lhe dizia respeito. E isso lhe trouxe à mente a questão mais crucial de todas: seria por amor que Dors estava com ele, ou apenas por obediência a Demerzel? Gostaria de acreditar na primeira hipótese, e no entanto...

        Sua vida com Dors Venabili era feliz, mas por um preço, com uma condição. A condição era ainda mais penosa porque tinha sido estabelecida não em discussão aberta,   mas por um acordo tácito.  Seldon sabia que encontrara em Dors tudo que poderia desejar em uma esposa. Não tinha filhos, é verdade, isso não o incomodava. Tinha Raych, a quem amava como um   filho.

        O simples fato de pensar a respeito representava a quebra do acordo que lhes permitira viver em paz e conforto durante todos aqueles anos. A lembrança o deixou irritado.

        Procurou pensar em outra coisa. Aprendera a aceitar o papel da moça como protetora e continuaria a fazê-lo. Afinal de contas, era com ela que compartilhava um lar,   uma mesa e uma cama... não com Eto Demerzel.

        A voz de Dors tirou-o do devaneio.

        - Eu perguntei se ficou aborrecido, Hari.

        Seldon teve um sobressalto quando percebeu que a moça estava falando pela segunda vez.

        - Desculpe, querida. Não, não fiquei aborrecido. Estava pensando em como responder à sua afirmação.

        - A respeito de robôs? - Ela parecia muito calma ao pronunciar a palavra.

        - Você afirmou que entende muito mais de robôs do que eu. Como espera que eu reaja? - Fez uma pausa e depois acrescentou (sabendo que estava correndo um risco):

        - Isto é, sem ofendê-la.

        - Não disse que você não entendia de robôs, e sim que não compreendia os robôs. Tenho certeza de que conhece muitas coisas a respeito de robôs, talvez até mais do  que eu, mas conhecer não é necessariamente compreender.

        - Dors, você está usando paradoxos para me irritar. Os paradoxos são sempre causados por ambigüidades, propositais ou não. Não gosto de paradoxos na ciência e não  gosto deles em conversas informais, a menos que tenham propósitos humorísticos, o que não parece ser o caso.

        Dors riu da sua maneira discreta, quase como se o humor fosse precioso demais para ser compartilhado sem reservas.

        - Sabe que às vezes você fica pedante quando se aborrece? Mas Vou tentar lhe explicar. Não tive nenhuma intenção de irritar você.

        A moça deu-lhe um tapinha na mão, e Seldon percebeu, surpreso (e ligeiramente envergonhado) que ela estava crispada. Dors prosseguiu:

        - Você fala muito a respeito da psico-história. Pelo menos comigo. Já notou isso?

        Seldon pigarreou.

        - Claro que sim, e peço desculpas. O projeto é secreto, por sua própria natureza. A psico-história não dará certo a menos que as pessoas envolvidas nada saibam a  respeito, de modo que só posso conversar sobre o assunto com Yugo e com você. Para Yugo, é tudo intuição. Ele é brilhante, mas é também tão irrefletido que preciso  agir com prudência, para mantê-lo na linha. Entretanto, também tenho meus vôos de imaginação, e gosto de repetir minhas idéias em voz alta, mesmo que... - ele sorriu   - ...mesmo que eu saiba que você não entende uma palavra do que estou dizendo.

        - Sei que pensa assim, e não me importo. Eu realmente não me importo, Hari, de modo que não quero que você mude a sua maneira de ser. Naturalmente, não compreendo   a sua matemática. Sou apenas uma historiadora, e nem mesmo uma historiadora da ciência. No momento, o estudo da influência das mudanças econômicas sobre os acontecimentos  políticos toma a maior parte do meu tempo...

        - Pensa que não sei? Ultimamente, você só tem falado sobre isso! E quando chegar a hora, seus conhecimentos serão muito úteis para a minha teoria da psico-história.

        - Ótimo! Agora que sabemos por que você continua a meu lado... eu sabia que não era por causa de minha beleza radiante... deixe-me dizer que uma vez ou outra, quando  sua discussão se desvia do terreno puramente matemático, tenho a impressão de que percebo aonde quer chegar. Você já comentou comigo várias vezes o que chama de   necessidade de minimalismo. Acho que entendo o conceito. com isso, você quer dizer...

        - Sei o que quero dizer.

        Dors pareceu ofendida.

        - Não seja tão orgulhoso, por favor, Hari. Não estou tentando explicar a psico-história a você. Estou tentando explicá-la para mim mesma. Você diz que gosta de repetir   seus pensamentos em voz alta. Não é justo que eu faça o mesmo?

        - É justo, mas não precisa me acusar de ser orgulhoso só porque...

        - Chega! Cale a boca! Você me disse que o princípio do minimalismo é muito importante para a psico-história aplicada, ou seja, para a arte de tentar transformar   acontecimentos indesejáveis em acontecimentos desejáveis, ou pelo menos aceitáveis. Você me disse que as mudanças a serem executadas devem ser as menores possíveis.

        - É verdade - concordou Seldon, com entusiasmo, - porque...

        - Não, Hari. Sou eu que estou tentando explicar. Nós dois sabemos que você conhece perfeitamente o assunto. Devemos usar o princípio do minimalismo porque toda mudança,   qualquer mudança, tem milhares de efeitos colaterais que nem sempre podem ser previstos. Se a mudança for muito grande e os efeitos colaterais muito numerosos, o   resultado estará muito longe do planejado, a ponto de se tornar imprevisível.

        - Isso mesmo - disse Seldon. - É isso que define os efeitos caóticos. O problema é saber se existem mudanças suficientemente pequenas para que as conseqüências sejam   previsíveis ou se a história humana é inevitavelmente caótica. Foi isso que, desde o início, me fez pensar que a psico-história não era...

        - Eu sei, mas você não está me deixando concluir. Não estou interessada em saber se é possível executar mudanças suficientemente pequenas. O fato é que toda mudança   maior que um certo mínimo é caótica. O mínimo pode ser zero, mas, mesmo que não seja zero, deve ser muito pequeno, e não é fácil encontrar uma mudança que seja ao   mesmo tempo suficientemente grande para ser significativa e suficientemente pequena para introduzir perturbações caóticas. Essa, pelo que pude entender, é a essência   do princípio do minimalismo.

        - Mais ou menos - observou Seldon. - Naturalmente,  a questão pode ser expressa de forma muito mais compacta e elegante na linguagem da matemática. Veja, por exemplo...

        - Poupe-me - disse Dors. - Já que você usa o princípio do minimalismo na psico-história, Hari, deveria também usá-lo com relação a Demerzel. Você tem o conhecimento,   mas não a compreensão, porque aparentemente não lhe ocorreu aplicar as regras da psico-história às leis da robótica.

        - Não entendo aonde você quer chegar - replicou Seldon, debilmente

        - Ele também tem que usar o minimalismo, não é mesmo, Hari? Pela Primeira Lei da Robótica, um robô não pode fazer mal a um ser humano. Esta é a primeira regra para   um robô comum, mas Demerzel não é um robô comum. Para ele, a Lei Zero é uma realidade e tem precedência até mesmo sobre a Primeira Lei. A Lei Zero diz que um robô   não pode fazer mal à humanidade como um todo. Isso coloca Demerzel no mesmo dilema que você tem que enfrentar em seus estudos da psico-história. Não percebe?

        - Estou começando a perceber.

        - Espero que sim. Se Demerzel é capaz de influenciar as pessoas, certamente procura fazê-lo sem causar efeitos colaterais indesejáveis. Já que é primeiro-ministro   do imperador, os efeitos colaterais com os quais tem que se preocupar devem ser muito numerosos.

        - Que é que isso tem a ver com nossa discussão?

        - Pense! Você não pode contar a ninguém, exceto eu, naturalmente, que Demerzel é um robô, porque ele ajustou a sua mente para que não possa fazê-lo. Mas o ajuste  necessário foi tão grande assim? Você estava interessado a revelar a todos que ele é um robô? Estava interessado em desmoralizá-lo quando precisava da sua proteção,  das suas verbas, da sua influência? Claro que não. O ajuste que ele teve de fazer foi muito pequeno, apenas o suficiente para impedir que você dissesse a verdade   em um momento de raiva ou descuido. Um ajuste tão pequeno que provavelmente não teve efeitos colaterais significativos. É assim que Demerzel procura governar o Império   em geral.

        - E o caso de Joranum?

        - O caso de Joranum é diferente. Ele faz oposição sistemática a Demerzel. É claro que Demerzel poderia mudar isso, mas não sem afetar profundamente a personalidade  de Joranum, o que traria conseqüências que nem mesmo Demerzel seria capaz de prever. Em vez de correr o risco de fazer mal a Joranum, de produzir efeitos colaterais   capazes de fazer mal a outras pessoas e possivelmente a toda a humanidade, ele prefere deixar Joranum em paz até que consiga encontrar alguma mudança, alguma pequena   mudança capaz de corrigir a situação sem introduzir complicações desnecessárias. É por isso que Yugo está certo e Demerzel é vulnerável.

        Seldon tinha escutado, mas não respondeu. Parecia perdido nos seus pensamentos. Minutos se passaram antes que declarasse:

        - Se Demerzel não pode fazer nada, então a responsabilidade é minha.

        - Se ele não pode fazer nada, por que você poderia?

        - Porque não estou sujeito às Leis da Robótica. Não preciso me preocupar com o minimalismo. Para começar, Vou falar com Demerzel.

        Dors parecia levemente preocupada.

        - Acha isso realmente necessário? Talvez seja imprudente revelar que existe uma ligação entre vocês dois.

        - Chegamos a um ponto em que não adianta mais fingir que não existe uma ligação. É claro que não Vou anunciar isso na holovisão, mas preciso vê-lo.

       

        A demora estava deixando Seldon irritado. Oito anos antes, logo depois de chegar a Trantor, podia tomar uma decisão e executá-la sem perda de tempo.

        Tinha apenas um quarto de hotel e uns poucos pertences a deixar para trás e estava livre para viajar à vontade pelos setores de Trantor.

        Agora, tinha que pensar nas reuniões do departamento, nas tarefas do dia-a-dia. Era difícil arranjar tempo livre para ir falar com Demerzel. Além disso, o outro   também tinha uma agenda apertada. Não era fácil conciliar os horários dos dois.

        Também não era fácil ver Dors sacudir a cabeça e dizer:

        - Não sei o que pretende fazer, Hari. Ele respondeu, com impaciência:

        - Nem eu mesmo sei o que pretendo fazer, Dors. Pretendo descobrir quando Demerzel me receber.

        - A sua primeira obrigação é para com a psico-história. É o que ele vai lhe dizer.

        - Talvez sim, talvez não.

        Quando finalmente conseguiu marcar um encontro para dali a oito dias, recebeu uma mensagem na tela da parede do escritório, escrita com caligrafia ligeiramente   arcaica. O texto era ainda mais arcaico: "Anelo por uma audiência com o professor Hari Seldon."

        Seldon ficou olhando para a mensagem, surpreso. Nem mesmo o imperador costumava receber bilhetes escritos em uma linguagem tão vetusta.

        Além disso, a assinatura não estava escrita em letras de fôrma, como de costume. Tinha sido desenhada com capricho, com um requinte que a deixava perfeitamente   legível mas ao mesmo tempo lhe emprestava a aura de uma obra de arte. A assinatura era de Laskin Joranum. Nada menos que Jo-Jo, anelando por uma audiência.

        Seldon começou a rir baixinho. Agora estava clara a razão para a escolha de palavras e para a caligrafia. O autor queria transformar um simples pedido em objeto   de curiosidade. Seldon não estava ansioso para conhecer o homem, ou por outra, normalmente não estaria. Tinha que admitir, porém, que o bilhete despertara o seu   interesse.

        Pediu à secretária para reservar uma hora e um lugar para a reunião. Seria na universidade, e não na sua casa. Uma conversa de negócios, nada de pessoal. E teria que acontecer antes do encontro com Demerzel.

        - Isso para mim não é surpresa, Hari - disse Dors. - Você brigou com os seus amigos, um deles o seu braço direito; expulsouos do campus; humilhou-o, na pessoa dos   seus representantes. Por isso, quer conhecê-lo. Acho melhor ir com você.

        Seldon sacudiu a cabeça.

        - Vou chamar Raych. Ele conhece todos os truques que conheço e é bem mais moço do que eu. Embora eu esteja certo de que não Vou precisar de um guarda-costas.

        - Por que diz isso?

        - Porque ele vai me procurar na universidade. Estaremos cercados de estudantes. Joranum é o tipo de homem que planeja seus movimentos de antemão. Ele não se arriscaria   a tentar alguma coisa no meu território. Tenho certeza de que vai se portar de forma civilizada.

        - Hum - fez Dors, levantando ligeiramente o canto da boca.

          - É inteiramente mortal  - concluiu Seldon.

       

        Hari Seldon se manteve impassível e baixou a cabeça apenas o suficiente para não ser  descortês. Tinha se dado ao trabalho de examinar uma série de holografias de  Joranum, mas, como era freqüente acontecer, o original, sem retoques, mudando constantemente em reposta a condições variáveis, não se parecia muito com as holografias.  Talvez, pensou Seldon, fosse a resposta do observador ao "original" que tornava as coisas diferentes.

        Joranum era um homem alto, tão alto quanto Seldon, mas maior em outras direções. E a diferença não estava nos músculos,  porque dava a impressão de flacidez, embora não fosse exatamente gordo. Tinha rosto redondo, cabelos ruivos, olhos azuis. Usava um macacão desbotado e tinha  um meio sorriso nos lábios que dava a impressão de afabilidade, embora deixasse claro, de alguma forma, que se tratava apenas de uma impressão.

        - Professor Seldon - começou, com a voz grave e controlada de alguém que está acostumado a falar em público, - é um imenso prazer conhecê-lo. Foi muita bondade  sua concordar em receber-me. Espero que não se aborreça por ter trazido um companheiro, um dos meus braços direitos, sem lhe pedir permissão. O nome dele é Gambol  Deen Namarti. Acho que já se conhecem.

        - É verdade. Lembro-me dele muito bem - disse Seldon, olhando para o outro e dirigindo-lhe um sorriso irônico.

        Da vez anterior, Namarti estava discursando no Estádio Universitário. Agora, tinha oportunidade de examiná-lo com mais vagar. Era um homem de estatura mediana,   rosto magro, muito pálido, cabelos escuros e boca larga. Sua expressão era de cautela.

        - Meu amigo, Dr. Namarti... o título é em literatura antiga... pediu para vir comigo - afirmou Joranum. - Ele queria lhe pedir desculpas.

        Olhou para Namarti e o outro disse, com voz impessoal:

        - Sinto muito, professor, pelo que aconteceu no estádio. Eu não sabia que precisava de permissão para falar no campus e me deixei levar pelo entusiasmo do momento.

        - O que é perfeitamente compreensível - acrescentou Joranum. - Ele também não sabia com quem estava falando. Acho que podemos esquecer aquele pequeno incidente.

        - Estejam certos de que ele já foi esquecido - disse Seldon. - Este é meu filho, Raych Seldon. Como podem ver, eu também trouxe um companheiro.

        Raych tinha o bigode preto e abundante que era a marca registrada dos dahlitas. Estava bem diferente de quando Seldon o conhecera oito anos antes, quando era um   menino de rua, faminto e maltrapilho. Era baixo, mas rijo e flexível, e havia muito tempo que adotara uma expressão altiva para tentar acrescentar alguns centímetros  espirituais a sua altura física.

        - Bom dia, meu jovem - disse Joranum.

        - Com dia, senhor - respondeu Raych.

        - Sentem-se, por favor - disse Seldon. - Posso oferecerlhes alguma coisa para comer ou beber?

        Joranum levantou as mãos em sinal de recusa.

        - Não, obrigado. Esta não é uma visita social. - Sentou-se no lugar que Seldon indicara. - Embora eu tenha esperança de que muitas visitas desse tipo venham a ocorrer   no futuro.

        - Se vamos falar de negócios, é melhor começarmos.

        - Professor Seldon, fui informado a respeito do pequeno incidente que o senhor gentilmente concordou em esquecer, e imaginei por que razão se teria disposto a correr   o risco que correu. Porque foi um risco, deve admitir.

        - Na verdade, não achei que estivesse correndo nenhum  risco.

        - Discordo do senhor. Seja como for, tomei a liberdade de levantar alguns dados a seu respeito, professor Seldon. O senhor é uma pessoa fascinante. Fui informado   de que nasceu em  Helicon.

        - Sim, foi lá que nasci. Isso não é segredo.

        - Faz oito anos que está aqui em Trantor.

        - Isso também não é segredo.

        - E ficou famoso, logo ao chegar, por ter feito uma palestra a respeito de uma teoria revolucionária chamada de... como é mesmo o nome?... psico-história.

        Seldon teve um pequeno sobressalto. Como se arrependia de ter cometido aquela imprudência! Só que, naturalmente, não podia saber na época que estava cometendo uma   imprudência.

        Ele disse:

        - Um caso de entusiasmo juvenil. Não deu em nada.

        - Verdade? - Joranum olhou em torno com ar de surpresa. - E no entanto está aqui, à frente do departamento de matemática de uma das maiores universidades de Trantor,  com apenas quarenta anos de idade. A propósito, tenho quarenta e dois anos, de modo que não o considero muito velho. Deve ser um matemático muito competente para  chegar tão depressa a essa posição.

        Seldon deu de ombros.

        - Não compete a mim julgar.

        - Ou talvez tenha amigos influentes.

        - Nós todos gostaríamos de ter amigos influentes, Sr. Joranum, mas acho que não encontrará nenhum aqui. Professores universitários raramente têm amigos influentes,   ou, como às vezes sou levado a pensar, amigos de qualquer espécie. - Ele sorriu.

        Joranum retribuiu o sorriso.

        - Não consideraria o imperador como um amigo influente, professor Seldon?

        - Claro que sim, mas o que tem isso a ver comigo?

        - Fui levado a crer que o imperador era seu amigo.

        - Estou certo de que está nos registros, Sr. Joranum, que oito anos atrás tive uma audiência com Sua Majestade Imperial. Ela durou menos de uma hora e o imperador   não demonstrou nenhuma amizade especial pela minha pessoa. Desde aquele dia, não tornei a vê-lo, a não ser, naturalmente, na holovisão.

        - Professor, não é necessário falar com o imperador para tê-lo como um amigo influente. É suficiente estar nas boas graças de Eto Demerzel, o primeiro-ministro.

        Demerzel é seu protetor, o que significa que, para todos os efeitos práticos, o imperador também o é.

        - Essa minha suposta relação com o primeiro-ministro está nos registros, ou encontrou qualquer coisa nos registros que o levou a concluir que sou um protegido de

        Demerzel?

        - Para que procurar nos registros quando é fato sabido que existe uma relação entre vocês dois? O senhor sabe que é verdade e eu sei que é verdade. Vamos aceitar  isso como um fato e continuar. Por favor - acrescentou, levantando as mãos, - não tente negar. Seria perda de tempo.

        - Na verdade - disse Seldon, - eu ia perguntar por que acha que ele me protegeria. com que objetivo?

        - Professor! Está tentando me ofender fingindo pensar que sou um poço de ingenuidade? Mencionei a sua psico-história, na qual Demerzel está interessado.

        - E eu lhe disse que foi um entusiasmo juvenil, que não deu em nada.

        - Pode me dizer muitas coisas, professor. Não sou obrigado a acreditar no que me diz. Vamos, deixe-me falar francamente. Li o seu artigo original e tentei compreendê-lo  com a ajuda de matemáticos de minha equipe. Eles me disseram que é uma fantasia, uma especulação irrealizável...

        - Concordo com eles - disse Seldon.

        - Mas tenho a impressão de que Demerzel está esperando que a psico-história seja desenvolvida e posta em prática. E se ele pode esperar, eu também posso. Seria mais   interessante para o senhor, professor Seldon, que seja eu a esperar.

        - Por quê?

        - Porque Demerzel não vai continuar por muito tempo no poder. A opinião pública está se voltando contra ele. Quando o imperador se cansar de um primeiro-ministro  impopular, que ameaça arrastá-lo com ele para o ostracismo, tratará de arranjar um substituto. Pode ser até que recorra à minha humilde pessoa. E o senhor ainda  vai precisar de um protetor, alguém que lhe permita trabalhar em paz e com verbas adequadas.

        - E o senhor seria esse protetor?

        - Naturalmente, e pelas mesmas razões que Demerzel. Acho que a psico-história me permitirá governar o Império de forma mais eficiente.

        Seldon fez que sim com a cabeça, pensativamente, esperou um momento e disse:

        - Nesse caso, Sr. Joranum, por que devo me preocupar? Sou um modesto professor e levo uma vida tranqüila, envolvido em atividades pedagógicas e de pesquisa. Está   me dizendo que Demerzel é meu protetor atual e que será meu futuro protetor. Nesse caso, posso continuar a cuidar da minha vida. O senhor e o primeiro-ministro que   se entendam. Seja quem for o vencedor, poderei contar com um protetor, ou pelo menos é o que está me dizendo.

        O sorriso de Joranum pareceu ficar ainda mais forçado. Namarti, ao lado dele, olhou de cara feia para Joranum e fez menção de dizer alguma coisa, mas o outro silenciou-o   com um gesto quase imperceptível. Joranum disse:

        - Dr. Seldon, o senhor é um patriota?

        - Claro que sou. O Império deu à humanidade milênios de paz e progresso.

        - É verdade, mas nos últimos dois séculos o progresso foi bem menor.

        Seldon deu de ombros.

        - Não sei do que está falando.

        - Sabe, sim. Sabe que os últimos dois séculos foram séculos de instabilidade política. Os reinados foram curtos. Alguns imperadores morreram assassinados...

        - Não fale assim - interrompeu Seldon. - Não vê que podemos ser acusados de traição?

        - Está vendo? - disse Joranum, recostando-se no assento. - Está vendo como se sente inseguro? O Império se encontra em franca decadência. Estou disposto a dizer   isso abertamente. Aqueles que me apoiam o fazem porque sabem que é verdade. Precisamos de alguém ao lado do imperador que seja capaz de controlar o Império, subjugar   os movimentos rebeldes que parecem estar surgindo em toda parte, dar às forças armadas a liderança natural de que carecem no momento, reformular a economia...

        Seldon o interrompeu com um gesto impaciente.

        - O senhor se propõe a fazer tudo isso?

        - Exatamente. Não é uma tarefa fácil e duvido que haja muitos voluntários, por motivos óbvios. Demerzel certamente não é a pessoa indicada. Se ele continuar no poder,   a decadência do Império continuará até o colapso total.

        - O senhor acha que será capaz de reverter o processo?

        - Sim, Dr. Seldon. com a sua ajuda. com a ajuda da psico-história.

        - Talvez Demerzel pudesse usar a psico-história para evitar o colapso... se a psico-história existisse.

        - Ela existe - afirmou Joranum, calmamente. - Não vamos fingir o contrário. Entretanto, isso não torna mais confortável a posição de Demerzel. A psico-história é   apenas um instrumento. Precisa de um cérebro para compreendê-la e um braço para aplicá-la.

        - E o senhor dispõe dos dois, ao que presumo?

        - É verdade. Tenho as minhas qualidades. Quero que me dê a psico-história.

        Seldon sacudiu a cabeça.

        - Pode querer à vontade. Ela não existe.

        - Existe, sim. Não Vou perder tempo com discussões tolas. - Joranum inclinou-se para a frente, como se estivesse querendo introduzir a voz no ouvido de Seldon,   em vez de deixar que as ondas sonoras a levassem até lá. - O senhor afirmou que é um patriota. Preciso tomar o lugar de Demerzel para evitar que o Império seja destruído.

        Entretanto, o próprio processo de substituição pode enfraquecer o Império de forma irreversível. Não desejo que isso aconteça. O senhor pode me ajudar a assegurar   que a transição seja feita de forma suave... para o bem do  Império.

        - Isso não é verdade - disse Seldon. - Está me atribuindo conhecimentos que não possuo. Mesmo que estivesse disposto a ajudá-lo, não teria como fazê-lo.

        Joranum levantou-se bruscamente.

        - Bem, já sabe o que penso e o que espero do senhor. Pense a respeito. E pense no Império. Pode achar que tem uma dívida de amizade para com Demerzel, o homem que   está prestes a arruinar os milhões de planetas que abrigam a humanidade. Tome cuidado. O que fizer poderá abalar os fundamentos do Império. Peço-lhe que me ajude   em nome dos quatrilhões de seres humanos que habitam a Galáxia. Pense no Império.

        A voz de Joranum se transformara quase num sussurro. Seldon sentiu-se emocionado.

        - Nunca deixarei de pensar no Império - assegurou.

        - Então é tudo que lhe peço no momento - disse Joranum. - Obrigado por me receber.

        Quando a porta deslizou sem ruído e os dois homens se retiraram, Seldon ficou olhando para eles, pensativo. Franziu a testa. Alguma coisa o incomodava, mas não sabia   bem o que era.

       

        Os olhos escuros de Namarti permaneceram fixos em Joranum. Os dois estavam no escritório do setor de Streeling. Era uma sede modesta; ainda eram fracos em Streeling,  mas não o seriam por muito tempo.

        Era espantoso como o movimento estava crescendo. Começara do nada, fazia três anos, e agora seus tentáculos se  estendiam  em alguns lugares com mais força do que outros, é claro  - por todo o planeta. Os Mundos Exteriores ainda estavam praticamente intocados. Demerzel se  esforçara bastante para mantêlos satisfeitos, mas tinha sido um erro. Era ali, em Trantor, que as revoluções eram perigosas. Em outros lugares, podiam ser controladas.

        Ali, Demerzel podia ser derrubado. Era estranho que não percebesse isso, mas Joranum sempre achara que a reputação de Demerzel era exagerada; que se revelaria um   adversário insignificante se alguém tivesse coragem de desafiá-lo; e que o imperador seria o primeiro a sacrificá-lo se achasse que sua própria segurança estava   em jogo.

        Até o momento, pelo menos, todas as previsões de Joranum tinham se concretizado. Ele jamais fora derrotado, exceto em questões de menor importância, como aquele   comício na universidade, interrompido graças à interferência de Seldon.

        Talvez fosse essa a razão pela qual Joranum insistira em avistar-se com o professor. Mesmo um pequeno percalço merecia ser investigado. Joranum gostava da sensação  de infalibilidade e Namarti precisava admitir que a visão de uma série interminável de sucessos era a forma mais garantida de assegurar o sucesso continuado. As   pessoas tendiam a evitar a humilhação da derrota colocando-se do lado vencedor, mesmo contra as próprias convicções.

        Mas será que a entrevista com Seldon tinha sido um sucesso, ou um segundo pequeno percalço a se juntar ao primeiro? Namarti não gostara da idéia de acompanhar o  chefe para desculpar-se humildemente e não achava que isso tivesse contribuído em nada para a causa.

        Agora Joranum estava ali sentado, em silêncio, obviamente perdido em seus pensamentos, mordiscando um polegar como se pudesse extrair dele algum tipo de alimento

        mental.

        - Jo-Jo - disse Namarti, baixinho. Era uma das poucas pessoas que podiam chamar Joranum pelo diminutivo usado pelas multidões. Joranum usava o apelido carinhoso

        para conquistar a estima das multidões, mas exigia respeito em particular, a não ser por parte dos poucos amigos que estavam com ele desde o começo.

        - Jo-Jo - repetiu. Joranum levantou os olhos.

        - Sim, G. D., o que foi? - Parecia levemente irritado.

        - O que vamos fazer com aquele tal de Seldon, Jo-Jo?

        - Fazer? Nada, no momento. Talvez ele passe para o nosso lado.

        - Por que esperar? Podemos pressioná-lo. Basta puxarmos algumas cordinhas na universidade que a vida ficará insuportável para ele.

        - Não, não. Até agora, Demerzel tem nos deixado em paz. O idiota está nos subestimando. A última coisa que queremos é que ele entre em ação antes que estejamos preparados.

        E é o que pode acontecer se fizermos alguma coisa contra Seldon. Desconfio que Seldon desempenha um papel muito importante nos planos de Demerzel.

        - Por causa dessa tal de psico-história?

        - Isso mesmo.

        - De que se trata? Nunca ouvi falar a respeito.

        - Poucas pessoas ouviram. É uma forma matemática de analisar as sociedades humanas, que na prática eqüivale a prever o futuro.

        Namarti franziu a testa e recuou ligeiramente. Será que Joranum estava brincando? Será que esperava que ele risse? Namarti tinha dificuldade em saber quando ou por   que as pessoas esperavam que ele risse. Na verdade, raramente sentia vontade de rir.

        - Prever o futuro? Como? - perguntou.

        - Ah! Se eu soubesse, para que precisaria de Seldon?

        - Francamente, não acredito nisso, Jo-Jo. Como é que alguém poderia prever o futuro? Isso é coisa de charlatães!

        - Eu sei, mas depois que Seldon acabou com o seu comício, mandei investigá-lo. Em profundidade. Há oito anos, ele chegou a Trantor e apresentou um trabalho a respeito   da psico-história em um congresso de matemática. Depois disso, a coisa morreu. Nunca mais foi mencionada por ninguém, nem mesmo Seldon.

        - Nesse caso, parece que não tinha nenhum valor.

        - Oh, não, pelo contrário. Se tivesse desaparecido lentamente, se tivesse sido ridicularizada, eu concordaria com você. Mas o fato de ter sido suprimida de forma   completa e definitiva só pode significar que se tornou um segredo capital. Talvez seja por isso que Demerzel nada tem feito para nos deter. Talvez não esteja nos   subestimando; talvez esteja sendo guiado pela psico-história, que está prevendo alguma coisa da qual Demerzel pretende tirar partido no momento oportuno. Se for assim,   nossa única saída é recorrer também à psico-história.

        - Seldon afirma que a psico-história não existe.

        - Você não diria a mesma coisa no lugar dele?

        - Ainda acho que devíamos pressioná-lo.

        - Seria inútil, G. D. Nunca ouviu a história do Machado de Venn?

        - Não.

        - É porque você não nasceu em Nishaya. É uma lenda famosa na minha terra natal. Para resumir, Venn era um lenhador que tinha um machado mágico capaz de derrubar   qualquer árvore com um único golpe. Embora fosse extremamente valioso, o dono não se preocupava em escondê-lo ou defendê-lo, e mesmo assim ninguém se interessava  em roubá-lo, porque Venn era a única pessoa capaz de levantar o machado.

        "No momento, Seldon é a única pessoa capaz de usar a psico-história. Se ele fosse forçado a cooperar conosco, jamais poderíamos confiar nos seus conselhos. Ele poderia   perfeitamente nos sugerir uma linha de ação que nos parecesse perfeitamente razoável  mas que, a longo prazo, por algum detalhe sutil, nos levasse ao desastre. Não, ele precisa se juntar a nós voluntariamente e colaborar conosco porque deseja  a nossa vitória.”

        - Como vamos conseguir isso?

        - O filho de Seldon. Raych, acho que é esse o nome. Reparou nele?

        - Não particularmente.

        - G. D., G. D., precisa ser mais observador. O rapaz me escutou com um brilho nos olhos. Ficou impressionado, tenho certeza. Se há uma coisa de que entendo, é da   minha capacidade de impressionar as pessoas. Sei quando uma pessoa está prestes a ser convertida para a nossa causa.

        Joranum sorriu. Não foi o sorriso beatífico das aparições públicas, mas um sorriso genuíno, frio e ameaçador.

        - Vamos ver o que podemos fazer com Raych - afirmou - e se, através dele, podemos chegar a Seldon.

       

        Depois que os dois políticos saíram, Raych olhou para Hari Seldon e cofiou o bigode. O gesto era gratificante. Ali no setor imperial, alguns homens usavam bigodes,  mas eram apêndices ralos, desprezíveis, de cor indefinida. A maioria raspava o lábio superior. Seldon, por exemplo, era um, e fazia muito bem. com a sua cor de   cabelo, um bigode ficaria ridículo.

        Ficou olhando para Seldon, que parecia perdido em seus pensamentos, à espera de que lhe desse atenção. Depois, não conseguiu mais se conter.

        - Papai! - chamou.

        Seldon levantou os olhos e exclamou:

        - O quê?

        Parecia um pouco aborrecido com a interrupção, pensou Ravch. Ele disse:

        - Acho que não devia ter recebido aqueles dois.

        - Por que não?

        - Para começar, o mais magro... como é mesmo o nome dele?... aquele que enfrentou no estádio. Ele saiu daqui furioso.

        - Mas ele me pediu desculpas!

        - De má vontade. E o outro, Joranum... parece um tipo perigoso. E se eles estivessem armados?

        - O quê? Aqui na universidade? No meu escritório? Impossível. Não estamos em Billibotton. Além do mais, se partissem para uma agressão, eram apenas dois. Eu saberia  me defender.

        - Não sei, não, papai. Você está ficando...

        - Cuidado com o que diz, seu ingrato - disse Seldon, levantando o dedo em sinal de admoestação. - Está começando a falar como a sua mãe. Eu não estou ficando velho.

        - Pelo menos, não tão velho assim. Além disso, você estava comigo e é um truncador quase tão bom como eu.

        Raych torceu o nariz.

        - Nem sempre a trunca resolve. - (Era inútil. Raych ouviu a própria voz e teve consciência de que, mesmo depois de oito anos, ainda achava mais fácil falar com  o sotaque dahlita, que o identificava como membro da classe pobre. E era baixo, também, a ponto de às vezes se sentir raquítico. Por outro lado, tinha seu bigode,  e ninguém jamais o tratara com desprezo duas vezes seguidas.) - O que vai fazer a respeito de Joranum? - perguntou.

        - Nada, por enquanto.

        - Escute, papai, outro dia pedi uma listagem dos discursos de Joranum no meu computador. Todo mundo está falando nele, de modo que fiquei curioso para saber quais  eram as suas propostas. Sabe de uma coisa? O que ele diz faz sentido. Não gosto dele, não confio nele, mas tenho que concordar com a maior parte de suas reivindicações.

        Ele quer que todos os setores tenham direitos e oportunidades iguais, o que é muito justo, não acha?

        - Claro que acho. Todas as pessoas civilizadas pensam dessa forma.

        - Então por que não é assim? Por que o imperador não toma uma providência? Nem Demerzel?

        - O imperador e o primeiro-ministro têm o Império inteiro para cuidar. Eles não podem pensar apenas em Trantor. É fácil para Joranum falar em igualdade. Ele não   tem nenhuma responsabilidade administrativa. Se estivesse no governo, descobriria que seus esforços estariam diluídos por um Império de 25 milhões de planetas. Não   apenas isso, mas teria que lutar contra os interesses dos próprios setores. Cada um está atrás de igualdade para si próprio, mas não defende a igualdade dos outros.

        Diga-me, Raych, você acha que Joranum deveria ter uma oportunidade para colocar suas teorias em prática?

        Raych deu de ombros.

        - Não sei. Estou na dúvida... mas se ele tentasse fazer alguma coisa contra você, estaria no seu pescoço em um piscar de olhos.

        - Quer dizer que sua lealdade a mim é maior que a sua preocupação com o Império.

        - É claro que sim. Você é meu pai.

        Seldon olhou para Raych com carinho, mas sentiu uma certa insegurança. Até que ponto podia chegar a influência quase hipnótica de Joranum?

       

        Hari Seldon recostou-se na cadeira e o encosto se inclinou para trás, permitindo-lhe assumir uma postura semi-reclinada. Colocou as mãos atrás da cabeça e semicerrou  os olhos. Mal parecia respirar.

        Dors Venabili estava do outro lado da sala, com o visor desligado e os microfilmes de volta no lugar. Acabara de rever o que escrevera a respeito do incidente   de Fiorina, um episódio marcante na história de Trantor, e resolvera descansar tentando adivinhar no que Seldon estava pensando.

        Tinha que ser na psico-história. Provavelmente passaria o resto da vida investigando as ramificações daquela técnica semicaótica e terminaria com um trabalho inacabado,   deixando aos outros (Amaryl, principalmente, se o rapaz também não se tivesse consumido no processo), com relutância, a tarefa de completá-lo.

        Entretanto, isso lhe dava uma razão para viver. Viveria mais tempo com o problema do que sem ele, e isso agradava à moça. Um dia o perderia, ela sabia, e o pensamento   a entristeceu. Não parecia que seria assim no começo, quando sua tarefa era simplesmente a de protegê-lo para defender o que sabia.

        A partir de quando aquilo se tornara uma questão pessoal? Como podia ser uma questão pessoal? O que havia naquele homem que a fazia se sentir inquieta quando ele   não estava por perto, mesmo quando sabia que se encontrava em perfeita segurança, de modo que as ordens que recebera não estavam sendo violadas? Só devia se preocupar   com a segurança de Seldon. Como pudera permitir que outras coisas interferissem?

        Conversara a respeito com Demerzel, quando a sensação se tornara inconfundível. O primeiro-ministro olhara para ela, muito sério, e dissera:

        - Você é uma criatura complexa, Dors, e não tenho respostas simples para lhe oferecer. Na minha vida, conheci vários indivíduos em cuja presença sentia-me melhor   comigo mesmo. Tentei comparar o prazer que sentira na presença dessas pessoas com a tristeza que senti quando elas finalmente se foram, para saber se o saldo tinha   sido positivo ou negativo. Cheguei à conclusão de que o prazer de sua companhia superava de longe a tristeza de sua perda. Minha conclusão, portanto, é de que o   que está experimentando agora fará bem a você.

        Dors pensou: Hari um dia deixará um vazio, e esse dia vai ficando cada vez mais próximo, mas não devo pensar nisso.

        Foi para não pensar no assunto que finalmente o chamou:

        - Em que está pensando, Hari?

        - Ha? - perguntou Seldon, focalizando os olhos com esforço.

        - Na psico-história, imagino. Deve ter encontrado outro beco sem saída.

        - Ora, ora. Você está totalmente enganada. - Ele deu uma risada. - Quer saber em que eu estava pensando? Em cabelo!

        - Cabelo? De quem?

        - No seu cabelo.

        - Há alguma coisa errada com ele? Quer que eu o pinte de outra cor? Ou talvez, depois de todos esses anos, eu devesse deixar o grisalho aparecer?

        - Deixe disso! Ninguém quer ver o seu cabelo grisalho! Mas o seu cabelo me fez pensar em outras coisas. Em Nishaya, por exemplo.

        - Nishaya? O que é isso?

        - Nishaya não fazia parte do reino pré-imperial de Trantor, de modo que não estou surpreso de que você nunca tenha ouvido falar nele. É um planeta, um planeta pequeno.

        Isolado. Sem importância. Só o conheço porque me dei ao trabalho de consultar os registros. Bem poucos planetas entre os vinte e cinco milhões podem ser considerados  importantes, mas duvido que exista um mais insignificante do que Nishaya. O que é muito significativo, você entende.

        Dors pôs de lado as suas anotações e disse:

        - Por que essa súbita tendência para falar por paradoxos, logo você, que afirma detestá-los? O que há de significativo no planeta ser insignificante?

        - Oh, os paradoxos não me desagradam, quando são inventados por mim. Acontece que Joranum nasceu em Nishaya.

        - Ah, é em Joranum que você está pensando.

        - Isso mesmo. Estive lendo os seus discursos, por insistência de Raych. Não fazem muito sentido, mas desconfio que quando são pronunciados por ele o efeito pode  ser quase hipnótico. Pelo menos, Raych ficou muito impressionado.

        - Calculo que o efeito sobre os dahlitas deve ser considerável,

        Hari. Joranum prega a igualdade entre os setores, o que agrada sobremaneira aos pobres térmicos. Lembra-se de quando estivemos em Dahl?

        - Lembro-me muito bem, e, naturalmente, não culpo o rapaz. Só fico preocupado com o fato de Joranum ter nascido em Nishaya.

        Dors deu de ombros.

        - Ora, Joranum tinha que nascer em algum lugar, e Nishaya, como qualquer outro planeta, tem sua cota de migrantes.

        - É verdade, mas, como eu disse, dei-me ao trabalho de consultar os registros. Cheguei a entrar em contato hiperespacial com um funcionário subalterno. Isso me   custou uma soma considerável que, em sã consciência, não posso cobrar do departamento.

        - Descobriu alguma coisa que compense o investimento?

        - Acho que sim. Sabe que Joranum está sempre contando pequenas histórias para ilustrar seus pontos de vista. Histórias passadas em Nishaya, seu planeta natal. Aqui   em Trantor, essa tática rende bons frutos, pois o faz parecer um homem do povo, com uma filosofia simples e sempre um dito espirituoso na ponta da língua. Seus   discursos estão coalhados dessas histórias. Através delas, faz questão de mostrar que veio de um mundo pequeno, que passou a infância numa fazenda, cercado pela   natureza selvagem. Isso deixa as pessoas fascinadas, especialmente os trantorianos, que preferiam morrer a se verem cercados pela natureza selvagem, mas que mesmo   assim adoram sonhar com esse tipo de vida.

        - E daí?

        - O engraçado é que a pessoa com quem conversei em Nishaya não conhecia nenhuma dessas histórias.

        - Isso não é de surpreender, Hari. Nishaya pode ser um planeta pequeno, mas é um planeta. As histórias populares no setor em que Joranum nasceu podem não ser as  mesmas do lugar onde vive o funcionário com quem você falou.

        - Não, não. Histórias populares em geral são conhecidas em planetas inteiros. Além disso, tive muita dificuldade para entender o sujeito. Ele falava galáctico padrão   com um forte sotaque.  Pedi para falar com outras pessoas, só para conferir, e todas tinham o mesmo sotaque.

        - E daí?

        - Daí que Joranum não tem esse sotaque. Ele fala um excelente trantoriano. Melhor do que o meu. Meu "r" é forte, à maneira dos heliconianos. O dele, não. De acordo   com os registros, tinha dezenove anos quando chegou a Trantor. Em minha opinião, é simplesmente impossível passar os primeiros dezenove anos de vida falando a versão   nishayana do galáctico padrão e conseguir falar trantoriano sem sotaque. Olhe para Raych e sua maneira dahlita de falar. Ele está aqui desde os doze anos.

        - Que é que você concluiu de tudo isso?

        - O que concluí, depois de ficar a noite inteira aqui sentado, raciocinando... é que ele não pode ter nascido em Nishaya. Na verdade, acho que escolheu Nishaya como   seu pretenso planeta natal simplesmente porque é tão insignificante, tão fora de mão, que ninguém pensaria em verificar suas alegações. Ele deve ter executado uma   busca meticulosa para encontrar um planeta que atendesse às suas necessidades.

        - Mas isso é ridículo, Hari. Por que ele mentiria a respeito do seu planeta natal? Para sustentar a farsa, teria que falsificar vários documentos.

        - Acho que foi precisamente o que fez. Ele deve ter muitos seguidores nos órgãos públicos. Provavelmente, nenhum deles contribuiu com mais do que uma pequena alteração   nos  registros.

        - Mesmo assim... por quê?

        - Porque não quer que as pessoas saibam onde nasceu.

        - Por que não? Todos os planetas do Império são iguais perante a lei.

        - Isso não quer dizer muita coisa. Esses ideais igualitários raramente são respeitados na prática.

        - Então de onde ele vem? Você faz alguma idéia?

        - Faço. O que nos leva de volta à questão do cabelo.

        - Como assim?

        - Estava ali sentado com Joranum, olhando para ele, sentindo que havia alguma coisa errada, mas sem saber muito bem  o quê. De repente, compreendi que era o seu cabelo. Havia alguma coisa nele, uma vida, um brilho... uma perfeição que não combinava com o resto. Percebi então   que seu cabelo era artificial, cuidadosamente implantado em um couro cabeludo que normalmente não teria um fio de cabelo.

        - Não teria? - Os olhos da moça se estreitaram. Era evidente que ela entendera o que Seldon estava querendo dizer.

        - Então ele nasceu em...

        - Isso mesmo. Ele nasceu aqui mesmo em Trantor, no setor retrógrado, tradicionalista de Mycogen. É isso que está tentando esconder.

       

        Dors Venabili pensou friamente no assunto. Era sua única maneira de pensar. Nada de emoções.

        Fechou os olhos para concentrar-se. Fazia oito anos que ela e Hari tinham estado em Mycogen e não haviam passado muito tempo naquele setor. Havia pouca coisa para   apreciar ali, exceto a comida.

        As imagens chegaram à sua mente. A sociedade austera, puritana, machista; a preocupação com o passado; a remoção de todos os pêlos do corpo, um processo doloroso   a que se submetiam voluntariamente para se tornar diferentes dos outros; suas lendas; suas memórias (ou fantasias) de um tempo em que governavam a galáxia, em que   suas vidas eram prolongadas, em que os robôs existiam.

        Dors abriu os olhos e perguntou:

        - Por que, Hari?

        - Por que o quê, querida?

        - Por que ele não quer que saibam que nasceu em Mycogen?

        Não acreditava que Seldon pudesse se lembrar de Mycogen tão bem quanto ela; na verdade, sabia que isso era impossível. Por outro lado, Seldon podia pensar melhor   do que ela, ou pelo menos podia pensar de forma diferente. Dors se lembrava dos fatos e extraía deles todas as conseqüências lógicas; Seldon era capaz de vôos mais   altos. Ele gostava de dizer que a intuição era privilégio do assistente, Amaryl, mas a moça não se deixava enganar. Seldon gostava de bancar o matemático frio, que   encarava o mundo com total isenção, mas Dors sabia que não era bem  assim.

        - Por que ele não quer que saibam que nasceu em Mycogen? repetiu, enquanto Seldon continuava ali sentado, com aquela expressão nos olhos que Dors sempre associara  ao esforço para extrair mais uma pequena gota de validade e consistência dos conceitos da psico-história.

        - É uma sociedade austera, uma sociedade limitadora - afirmou Seldon, afinal. - Existem aqueles que se revoltam contra a mania que eles têm de controlar cada ato,   cada pensamento. Existem aqueles que não podem ser domados, que anseiam pela liberdade que o mundo exterior tem a oferecer. É compreensível.

        - Esses descontentes implantam cabelos artificiais?

        - Não, nem todos. Na maioria dos casos, os rebeldes... é assim que os mycogenianos chamam os desertores, e sentem desprezo por eles, é claro... usam perucas. É muito   mais simples, mas menos satisfatório. Pelo que me contaram, apenas os rebeldes mais extremados implantam cabelos. O processo é difícil e doloroso, mas os resultados   são excelentes. Nunca vi pessoalmente um exemplo, mas já tinha ouvido falar da técnica. Passei anos estudando os oitocentos setores de Trantor, na tentativa de formular   as regras básicas e as equações da psico-história. Ainda não consegui muitos resultados, infelizmente, mas aprendi alguma coisa.

        - Mas por que os rebeldes têm que ocultar o fato de que nasceram em Mycogen? Pelo que sei, não são perseguidos.

        - Não, não são. Na verdade, os mycogenianos não são considerados inferiores. É pior do que isso. Eles não são levados a sério.  São inteligentes, todos reconhecem, instruídos, bem-educados, cultos, excelentes cozinheiros, muito trabalhadores... mas ninguém os leva a sério. Os outros trantorianos   acham  que suas crenças e costumes são ridículos, totalmente divorciados da realidade. E essa pecha se estende a todos os mycogenianos, até mesmo os rebeldes. Ninguém consideraria  seriamente a possibilidade de um mycogeniano chegar ao poder. Ser temido pode ser desejável para um governante. Ser odiado não é o fim do mundo.  Ser ridicularizado, porém... isso é fatal. Joranum quer ser o próximo primeiro-ministro, e para isso tem que ocultar a sua  origem. Assim, apresenta-se como nativo de um planeta obscuro, a muitos anos-luz de distância de Mycogen.

        - Existem pessoas que são naturalmente calvas.

        - Nunca tão completamente depiladas quanto os mycogenianos. Nos Mundos Exteriores não teria muita importância. Lá, poucos ouviram falar em Mycogen. Os mycogenianos são tão isolacionistas que poucos deles já viajaram para fora do planeta. Aqui em Trantor, porém, a coisa é diferente. As pessoas podem ser calvas, mas em geral   têm um resto de cabelo que revela que não são mycogenianas... ou deixam crescer a barba. Os poucos infelizes que são totalmente desprovidos de pêlos, em geral por causa de uma doença qualquer, devem passar por maus momentos. Provavelmente andam por aí com um atestado médico, para provar que não nasceram em Mycogen.

        Dors franziu a testa e perguntou:

        - Isso nos ajuda em alguma coisa?

        - Ainda não sei.

        - Você não poderia tornar público que ele é um mycogeniano?

        - Talvez não seja fácil. Ele deve ter tomado precauções para ocultar sua origem. Mesmo que isso fosse possível...

        - Sim?

        Seldon deu de ombros.

        - Não quero estimular a discriminação racial. A situação social em Trantor já está suficientemente complicada. Prefiro não despertar paixões que nem eu nem ninguém   poderia controlar. Por isso, só usarei esse tipo de argumento como último recurso.

        - Então você também pratica o minimalismo.

        - É claro.

        - Nesse caso, o que pretende fazer?

        - Tenho um encontro marcado com Demerzel. Talvez ele tenha alguma idéia.

        Dors olhou para ele, muito séria.

        - Hari, você está caindo na armadilha de esperar que Demerzel resolva todos os problemas para você?

        - Não, mas talvez ele seja capaz de resolver pelo menos este.

        - E se ele não for capaz?

        - Então terei de pensar em alguma coisa, não é mesmo?

        - Em que, por exemplo? Seldon franziu a testa, aborrecido.

        - Dors, não sei. Não espera que eu seja capaz de resolver todos os problemas, espera?

       

        Eto Demerzel não era visto com freqüência. Preferia permanecer nos bastidores, por várias razões, entre elas a de que sua aparência praticamente não mudava com  o passar do tempo.

        Fazia anos que Hari Seldon não o via, a não ser em algumas de suas breves aparições em público. A última conversa que tivera com ele em particular ocorrera há muito tempo.

        Ao encontrar-se com Demerzel, lembrou-se daquela época com nostalgia. O fato de que Demerzel parecia exatamente o mesmo só contribuiu para acentuar esse sentimento.

        O rosto ainda era forte, as feições regulares. Ainda era alto e bem proporcionado. Tinha o mesmo cabelo castanho, com reflexos dourados. Não era bonito, mas conservava   a aparência distinta. Parecia o protótipo do primeiro-ministro do Império, mais do que qualquer  ocupante anterior do cargo. Era naquela aparência, pensou Seldon, que estava parte do seu poder sobre o imperador, e portanto sobre a corte imperial, e portanto  sobre o Império. Demerzel se aproximou, com um sorriso amável nos lábios que, curiosamente, não alterava em nada a seriedade da sua postura.

        - Hari, é um prazer tornar a vê-lo - disse. - Estava com medo de que mudasse de idéia e cancelasse a entrevista.

        - E eu estava com medo de que o senhor a cancelasse, primeiro-ministro.

        - Pode me chamar de Eto... se não quiser usar o meu nome verdadeiro.

        - Sabe que não posso usá-lo. Meus lábios se recusariam a pronunciá-lo. Sabe disso muito bem.

        - Não quando estamos sozinhos. Fale. Quero ouvi-lo. Seldon hesitou, como se não pudesse acreditar nas palavras do outro.

        - Dancei - disse, afinal.

        - R. Daneel Olivaw - corrigiu Demerzel. - Muito bem. Quero que jante comigo, Hari. Se eu jantar com você, não terei que comer, o que será um alívio.

        - Como quiser. Se bem que comer sozinho não é a idéia que faço de um jantar entre amigos. Preferia que comesse alguma coisa...

        - Se for para lhe agradar...

        - Só que não posso deixar de pensar - disse Seldon, com ar preocupado - que talvez não seja prudente passarmos muito tempo juntos.

        - Não se preocupe. Estou cumprindo ordens de Sua Majestade Imperial.

        - Como assim, Daneel?

        - O próximo Congresso Decenal de Matemática vai ser daqui a dois anos. Você parece surpreso. Tinha esquecido?

        - Não. Simplesmente não tenho pensado no assunto ultimamente.

        - Pretende comparecer? Da última vez, você foi uma das atrações.

        - É verdade. com a minha psico-história. Grande sucesso.

        - Você chamou a atenção do imperador. Nenhum outro matemático conseguiu essa proeza.

        - Foi você quem se interessou por mim, e não o imperador. Depois, tive que fugir e permanecer fora das vistas do imperador até ter certeza de que estava no caminho  certo. Você então permitiu que eu permanecesse em uma obscuridade segura.

        - Ser o chefe do departamento de matemática de uma grande universidade não é exatamente o que eu chamaria de obscuridade.

        - É, sim, porque esconde as minhas pesquisas no campo da psico-história.

        - Ah, a comida está chegando. Vamos falar de coisas mais amenas. Como vai Dors?

        - Ela é maravilhosa. Uma esposa e tanto. Seu único defeito é preocupar-se demais com a minha segurança.

        - É o trabalho dela.

        - Dors vive me lembrando isso. Falando sério, Daneel, sou muito grato a você por nos ter apresentado.

        - Obrigado, Hari, mas, para ser franco, não estava pensando em casamento. Especialmente para Dors.

        - Mesmo assim, obrigado pelo presente.

        - Sinto desapontá-lo, mas esse presente, como a minha amizade, talvez ainda venha a trazer-lhe decepções.

        Seldon não soube o que responder, e por isso, atendendo a um gesto de Demerzel, concentrou-se no prato que estava à sua frente.

        Depois de algum tempo, fez um gesto com a cabeça para o pedaço de peixe que estava no garfo e disse:

        - Não reconheço o organismo, mas certamente é um prato mycogeniano.

        - Acertou em cheio. O imperador aprecia a cozinha de Mycogen, pelo menos de vez em quando. E sei que você a adora.

        - É a desculpa que eles têm para existir. A única desculpa. Pelo menos, na minha opinião. Sei que para você é diferente.

        - Tem razão. Seus ancestrais, há muitos anos, habitavam o planeta Aurora. Viviam trezentos anos, em média, e eram os senhores  de cinqüenta planetas da galáxia. Foi um aurorano quem me projetou e construiu. Conheço melhor a história de Aurora do que qualquer mycogeniano. Um dia,  porém, faz muito, muito tempo, eu os deixei. Escolhi o que me pareceu mais apropriado para o bem da humanidade; é o que venho fazendo desde então.

        - Podemos ser ouvidos? - perguntou Seldon, subitamente preocupado.

        Demerzel pareceu achar graça.

        - Só agora você pensou nisso? Não se preocupe. Tomei as precauções necessárias. Além disso, você não foi visto por muitos olhos quando entrou aqui, nem será visto   por muitos quando sair. E aqueles que o virem não ficarão surpresos. Tenho fama de ser um matemático amador de grandes pretensões mas pouca competência. Isso serve   de consolo para os membros da corte que não simpatizam comigo. É natural, portanto, que eu esteja interessado no próximo congresso. Na verdade, é sobre isso que   eu queria conversar com você.

        - Não sei em que posso ajudar. Só há um assunto que estou em condições de discutir, mas não posso fazê-lo. Se comparecer ao congresso, será apenas como espectador.

        Não pretendo apresentar nenhum trabalho.

        - Compreendo. Entretanto, aconteceu uma coisa curiosa. Sua Majestade Imperial se lembrou de você.

        - Graças a você, suponho.

        - Não. Não tive nada a ver com isso. Às vezes, Sua Majestade Imperial me surpreende. Ele sabe que está para acontecer mais um congresso e aparentemente se lembra   da sua palestra de oito anos atrás. Continua interessado na psico-história, entende? É possível até que peça para vê-lo. Seria uma grande honra... ser chamado duas   vezes à presença do imperador, em um período de menos de dez anos!

        - Você está brincando. O que eu ganharia com isso?

        - Nada, provavelmente, mas quem é convocado para uma audiência não pode recusar... Como vão seus jovens pupilos, Yugo e Raych?

        - Você deve estar farto de saber. Imagino que me vigie de perto.

        - Claro que sim, mas apenas no que diz respeito à sua segurança. Sou muito ocupado e não tenho o dom da onisciência.

        - Dors não conta tudo a você?

        - Não. Ela evita falar comigo, a não ser que seja absolutamente necessário. Acho que não se sente bem no papel de espiã.

        Seldon fez que sim com a cabeça.

        - Meus rapazes vão bem. Cada vez fica mais difícil lidar com Yugo. Ele é melhor psico-historiador do que eu e acha que estou indo muito devagar. Quanto a Raych,   é um moleque adorável; sempre foi. Ele me conquistou quando era um menino de rua e, o que é ainda mais surpreendente, conquistou Dors. Acredito sinceramente, Daneel,   que se Dors enjoasse de mim e tivesse vontade de ir embora, continuaria comigo assim mesmo por causa de Raych. Se Rashelle de Wye não simpatizasse com Raych, ele  não estaria aqui hoje. Teria sido executado... - Remexeu-se na cadeira, inquieto. - Não gosto de pensar nisso, Daneel. Foi um acontecimento totalmente acidental,  imprevisível. Como a psico-história poderia ter ajudado?

        - Não me disse que a psico-história é capaz de lidar apenas com probabilidades e com grandes números, não com indivíduos?

        - Mas se um indivíduo é muito importante...

        - Acho que você vai chegar à conclusão de que nenhum indivíduo é realmente importante. Nem mesmo eu... ou você.

        - Talvez tenha razão. Entretanto, por mais que eu tente, não consigo deixar de pensar em mim mesmo como uma pessoa importante. E você é importante, também. Foi por   isso que vim discutir um certo assunto com você. Quero que seja franco comigo. Preciso saber.

        - Saber o quê? - Os restos da refeição tinham sido tirados e a iluminação reduzida, o que dava a impressão de maior  privacidade.

        - Joranum - respondeu Seldon. Ele cuspiu a palavra, como se não fosse necessário dizer mais nada.

        - Ah, entendo.

        - Você sabe muita coisa sobre ele.

        - É claro. Como poderia ser de outra forma?

        - Pois eu quero que me conte.

        - Em que exatamente você está interessado?

        - Ora, Daneel, deixe de evasivas. Ele é perigoso?

        - Claro que é. Tem alguma dúvida?

        - Quero dizer: é perigoso para você? Para sua posição como primeiro-ministro?

        - A resposta ainda é afirmativa.

        - E permite que ele continue a ameaçar você? Demerzel se inclinou para a frente, apoiando o cotovelo na mesa.

        - Certas coisas não dependem da minha permissão, Hari. Vamos ser realistas. Sua Majestade Imperial, Cleon I, está no trono há dezoito anos, e durante todo esse tempo   tenho sido o seu primeiro-ministro, depois de ocupar um cargo secundário nos últimos anos do reinado do seu pai. É um longo tempo e os primeiros-ministros raramente  permanecem muito tempo no poder.

        - Você não é um primeiro-ministro comum, Daneel, e sabe disso. Você precisa continuar no poder até que a psico-história esteja totalmente desenvolvida. Não sorria  para mim. É verdade. Quando nos conhecemos, oito anos atrás, você me disse que o Império estava em franca decadência. Será que mudou de idéia?

        - Não. Claro que não.

        - Nos últimos anos, a decadência se acentuou ainda mais, não é?

        - É verdade. Apesar de todos os meus esforços, as coisas pioraram.

        - O que aconteceria sem você? Joranum está levantando o Império contra a sua pessoa.

        - Trantor, Hari, Trantor. As províncias estão sob controle e razoavelmente satisfeitas, apesar da recessão e das quedas no comércio.

        - Mas é Trantor que importa. Trantor, o planeta em que vivemos, a capital do Império, o centro administrativo, é que pode derrubar você. Não conseguirá se manter

        no cargo se Trantor disser "Não".

        - Concordo.

        - Se você sair, quem cuidará das províncias? Quem impedirá que o Império entre rapidamente em colapso?

        - Concordo que isso é uma possibilidade.

        - É por isso que você precisa tomar uma providência. Yugo acredita que sua posição está seriamente ameaçada. É o que diz a sua intuição. Dors acha a mesma coisa,   e explica tudo em termo das Três... ou por outra, em termos das Quatro Leis da... da...

        - Da robótica - completou Demerzel.

        - Raych parece concordar com as teses de Joranum. Ele é um dahlita, você entende. E eu... eu estou preocupado, e por isso vim falar com você. Acho que preciso  que alguém me tranqüilize. Diga-me que a situação está sob controle.

        - Eu faria isso, se fosse verdade. Infelizmente, não posso tranqüilizá-lo. Eu estou correndo perigo.

        - E não está fazendo nada?

        - Estou, sim. Faço o que posso para atender aos descontentes e para rebater as acusações de Joranum. Mas parece que o que estou fazendo não é suficiente.

        Seldon hesitou e depois disse:

        - Tenho razões para crer que Joranum é um mycogeniano.

        - É mesmo?

        - É o que penso. Poderíamos usar isso contra ele, mas acho que seria arriscado desencadearmos as forças do preconceito.

        - Tem razão. Muitas das coisas que poderíamos fazer podem causar efeitos colaterais indesejáveis. Quero que entenda, Hari, que não tenho medo de deixar meu cargo,   se tiver certeza de que meu sucessor continuará o meu trabalho de retardar o máximo possível a decadência do Império. Entretanto, se meu sucessor fosse Joranum,   as conseqüências seriam desastrosas.

        - Então qualquer coisa que você faça para detê-lo será justificada.

        - Não é bem assim. O Império pode entrar em colapso mesmo que Joranum seja derrotado e eu continue no poder. Por isso, não devo fazer nada contra Joranum se não   tiver certeza de que meus atos não contribuirão para acelerar a decadência do Império. Até o momento, não encontrei nenhuma linha de atenção  que esteja de acordo com esse requisito. É esse o meu dilema.

        - O dilema do minimalismo - murmurou Seldon.

        - O que disse?

        - Dors me explicou que você talvez estivesse de mãos atadas por causa do princípio do minimalismo.

        - É verdade.

        - Então de nada adiantou eu vir aqui, Daneel.

        - Está querendo dizer que veio para ser tranqüilizado e vai sair tão apreensivo quanto chegou.

        - Infelizmente.

        - Mas eu também quis falar com você porque queria ser tranqüilizado.

        - Por mim?

        - Por você e a sua psico-história. A saída que não consigo encontrar sozinho, talvez consiga encontrar com o auxílio da psico-história.

        Seldon suspirou fundo.

        - Daneel, a psico-história ainda não está desenvolvida a esse ponto.

        O primeiro-ministro olhou para ele, muito sério.

        - Você teve oito anos, Hari.

        - Poderia levar oitenta, ou oitocentos, e não encontrar uma resposta. É um problema muito difícil.

        - Não espero que a técnica esteja totalmente desenvolvida, Hari, mas pode ser que você tenha um esboço, um arcabouço, um princípio que eu possa usar para formular  um plano de ação. Algo imperfeito, talvez, mas melhor que simples adivinhação.

        - Nem mesmo isso - afirmou Seldon, em tom desanimado. - Vamos resumir a situação. Você precisa deter Joranum e continuar no poder para manter a estabilidade do  Império por um tempo suficiente para que eu desenvolva a psico-história. Não poderá conseguir o seu intento, porém, a menos que eu desenvolva primeiro a psico-história.   É isso?

        - Parece que sim, Hari.

        - Nesse caso, entramos em um círculo vicioso e o Império está com os dias contados.

        - A menos que aconteça algo imprevisto. A menos que você faça algo imprevisto acontecer.

        - Eu? Daneel, o que posso fazer sem a psico-história?

        - Não sei, Hari.

        Seldon levantou-se para sair, abatido.

       

        Durante vários dias, Hari Seldon negligenciou suas tarefas de chefe de departamento para analisar notícias no seu computador. Não havia muitos computadores capazes  de acompanhar o que estava acontecendo diariamente em 25 milhões de planetas. A sede do Governo Imperial dispunha de alguns desses computadores, é claro; algumas  das grandes capitais das províncias também, embora a maioria se contentasse com uma ligação, via hiperespaço, com a Central de Notícias, em Trantor.

        Um computador do departamento de matemática de uma grande universidade tinha capacidade suficiente para funcionar como um processador de notícias independente, e  era exatamente o que Seldon se apressara a fazer com o seu computador. Afinal de contas, isso era necessário para as suas pesquisas no campo da psico-história,  embora ele tomasse a precaução de apresentar outras razões, muito plausíveis, para a conversão.

        Idealmente, o computador comunicaria qualquer coisa fora do comum que ocorresse em qualquer planeta do Império. Uma mensagem de advertência alertaria o operador  para o fato. Na prática, essa mensagem raramente aparecia, porque a definição de "fora do comum" era muito restritiva e cobria apenas grandes acontecimentos.

        Na falta de uma mensagem de advertência, o que o operador costumava fazer era dar uma olhada no que estava acontecendo  em planetas escolhidos ao acaso. Não em todos os 25 milhões, é claro, mas em algumas dezenas. Era um trabalho deprimente, porque não havia planeta que não  tivesse sua cota diária de pequenos desastres. Uma erupção vulcânica aqui, uma inundação ali, um colapso econômico acolá e, naturalmente, manifestações de massa.

        Não se passara um dia, nos últimos mil anos, sem que houvesse manifestações em pelo menos uma centena de planetas.

        Naturalmente, acontecimentos como esses não podiam merecer mais do que alguns segundos de atenção. Seria absurdo alguém se preocupar com manifestações populares   ou com erupções vulcânicas quando os dois fenômenos ocorriam constantemente nos mundos habitados. Pelo contrário: se um dia não houvesse nenhuma manifestação popular,   em parte alguma, isso seria considerado um fato tão incomum que despertaria imediatamente a atenção das autoridades.

        Até o momento, nenhum fato incomum despertara a atenção de Seldon. As províncias, com todos os seus tumultos e infortúnios, eram como o oceano num dia calmo: pequenas  ondas e nada mais. Não encontrara nenhuma indicação de que a situação geral tivesse piorado nos últimos oito anos, ou mesmo nos últimos oitenta. Entretanto, Demerzel   (na ausência do primeiro-ministro, Seldon não conseguia pensar nele como "Daneel") havia afirmado que a decadência continuara, e ele tinha meios de avaliar o estado   do Império que estava além da capacidade de Seldon... pelo menos, até que pudesse se valer das ferramentas analíticas da psico-história.

        Podia ser que a decadência fosse gradual a ponto de ser invisível até que uma situação crítica se instalasse; como uma casa que passa por um processo de deterioração   sem que ninguém perceba até que um dia o teto desaba. Quando desabaria o teto? Era uma pergunta para a qual Seldon não tinha resposta.  De vez em quando, Seldon examinava como estava a situação ali mesmo, em Trantor. Naturalmente, as notícias nesse caso eram mais substanciais. Em primeiro lugar,   Trantor era o mais populoso de todos os planetas, com quarenta bilhões de habitantes. Além disso, seus oitenta setores constituíam um  mini-império.

        Finalmente, era ali que morava a família imperial, era ali que eram realizadas todas as cerimônias oficiais.

        O que chamou a atenção de Seldon daquela vez, porém, foi o setor de Dahl. As eleições para o Conselho Setorial tinham colocado cinco joranumitas no governo. De acordo  com os registros, era a primeira vez que os joranumitas conseguiam ganhar uma eleição.

        Não era totalmente inesperado, já que as idéias de Joranum tinham tudo para ser bem recebidas em Dahl, mas Seldon considerou a vitória como um indício preocupante  de que o demagogo estava ganhando terreno. Mandou fazer uma micro-imagem da notícia e levou a pastilha para casa naquela noite.

        Raych levantou os olhos do computador quando Seldon entrou e achou necessário explicar-se.

        - Estou ajudando a mamãe a recolher material para uma pesquisa - disse.

        - E o seu próprio trabalho?

        - Está em dia, papai.

        - Ótimo... veja isso. - Mostrou a pastilha a Raych antes de colocá-la no micro-projetor.

        Raych olhou para a imagem que apareceu no ar, diante dos seus olhos.

        - Ah, eu já sabia.

        - Já?

        - Claro. Procuro me manter a par do que está acontecendo em Dahl. Sabe como é. Nasci lá.

        - E o que achou?

        - Não foi surpresa para mim. E para você? O resto de Trantor trata Dahl como se fosse a escória. Por que não deveriam apoiar Joranum?

        - Você concorda com ele, também?

        - Bem... - Raych franziu a testa, pensativo. - Devo admitir que algumas coisas que ele diz me agradam. É a favor da igualdade para todas as pessoas. Quem pode ser contra isso?

        - Ninguém, se estiver falando sério. Se estiver sendo sincero. Se não estiver usando essa bandeira apenas para conseguir votos.

        - É verdade, papai, mas a maioria dos dahlitas provavelmente pensa o seguinte: "O que temos a perder? Hoje em dia, somos discriminados, embora a lei nos garanta a igualdade."

        - É difícil combater a discriminação através de leis.

        - Isso não é consolo para quem está sofrendo a discriminação na carne.

        Seldon pensou rapidamente. Disse:

        - Raych, você nunca mais voltou a Dahl depois que eu e sua mãe o tiramos de lá, não é?

        - Voltei, sim. Não se lembra? Nós três estivemos lá faz cinco anos.

        - É verdade, mas aquela vez não conta - afirmou Seldon. - Ficamos no Hotel Internacional, que não tem nada de dahlita, e, pelo que me lembro, Dors não deixou você   sair na rua sozinho nem uma vez. Afinal, tinha apenas quinze anos. O que acha de uma nova visita a Dahl, sozinho, agora que já fez vinte anos?

        Raych riu.

        - Você nunca vai conseguir convencer mamãe.

        - Não digo que me agrade a idéia de fazer algo contra os desejos da sua mãe, mas não pretendo pedir permissão a ela. A questão é a seguinte: você estaria disposto   a fazer isso para mim?

        - Claro. Tenho curiosidade de saber o que aconteceu com meu antigo lar.

        - Acha que a viagem não vai prejudicar seus estudos?

        - Não. Uma semana sem ir à universidade não vai fazer a menor diferença. Além do mais, posso pedir a alguém para gravar as aulas. Não será difícil conseguir permissão.

        Afinal, meu pai é um dos professores... a menos que você tenha sido despedido.

        - Ainda não. Quero que entenda, porém, que não encaro isso como uma viagem de férias.

        - Eu ficaria surpreso se encarasse. Você não sabe o que é uma viagem de férias, papai. Nunca soube.

        - Não seja impertinente. Quando chegar lá, quero que tenha um encontro com Laskin Joranum.

        Raych olhou para ele, surpreso.

        - Como Vou conseguir isso? Não sei nem se vai estar lá.

        - Vai, sim. Ele prometeu falar para o Conselho, saudando  os novos membros joranumitas. Vou descobrir o dia exato e você poderá chegar alguns dias antes.

        - Será que Joranum vai me receber, papai? Deve ser difícil marcar uma entrevista com ele.

        - Também acho, mas Vou deixar os detalhes por sua conta. Quando você tinha doze anos, era furão como ninguém; espero que não tenha ficado mole com a idade.

        Raych sorriu.

        - Também espero. Suponha que eu consiga falar com ele. E aí?

        - Aí, quero que descubra o que puder. O que ele está planejando. O que realmente está pensando.

        - Acha que vai me contar?

        - Por que não? Você tem o dom de inspirar confiança nos outros, seu moleque sem-vergonha. Vamos conversar a respeito.

        Foi o que fizeram. Várias vezes.

        Seldon estava preocupado com a situação, mas não queria se aconselhar com Yugo Amaryl, com Demerzel, e muito menos com Dors. Temia que não concordassem com   a sua proposta. Temia que lhe mostrassem que seu plano era cheio de falhas. Para ele, era a única saída. Mas será que era mesmo uma saída? Em sua opinião, Raych   era o único entre eles capaz de infiltrar-se nas fileiras de Joranum, mas ao mesmo tempo era um dahlita e simpatizava com as idéias de Joranum. Até que ponto podia   confiar no rapaz?

        Horrível! Raych era seu filho... jamais colocara em dúvida, até o momento, a sua lealdade.

       

        Embora Seldon não confiasse inteiramente na eficácia do plano; embora receasse que ele pudesse desencadear uma reação prematura  ou precipitar os acontecimentos na direção errada; embora estivesse torturado por dúvidas quanto à lealdade de Raych e a capacidade do rapaz de levar a missão  a bom termo, não tinha nenhuma dúvida quanto à reação de Dors, quando se visse diante do fait accompli.

        E não ficou desapontado, se essa era a palavra correta para descrever sua emoção.

        Entretanto, de certo modo, Seldon ficou desapontado, porque Dors não levantou a voz, horrorizada, como esperava que fizesse; como se preparara para aceitar.

        Como poderia adivinhar? Dors não era como as outras mulheres e nunca a vira realmente zangada. Talvez não fosse capaz de ficar de fato zangada. Limitou-se a olhar  para ele, impassível, e perguntar, em tom desaprovador:

        - Mandou-o a Dahl? Sozinho?

        Por um momento, a reação imprevista deixou-o sem palavras. Depois, respondeu, com firmeza:

        - Tive que fazer isso. Foi necessário.

        - Deixe-me ver se entendi. Você o mandou àquele covil de ladrões; àquela toca de assassinos; àquele antro de criminosos?

        - Dors! Não gosto de ouvir você falar assim. Apenas os preconceituosos usam esse tipo de estereótipos baratos.

        - Você nega que Dahl seja como descrevi?

        - Claro que nego. Dahl tem favelas e criminosos, isso todo mundo sabe, mas tem também outras coisas. Existem favelas e criminosos em todos os setores, até mesmo  em Streeling e no Setor Imperial.

        - Mas existem mais favelas e criminosos em Dahl que nos outros setores, não é? Um não é igual a dez. Você tem um computador. Consulte as estatísticas.

        - Não é preciso. Dahl é o setor mais pobre em Trantor e existe uma correlação positiva entre pobreza, miséria e crime. Isso eu tenho que reconhecer.

        - Isso você tem que reconhecer! E mandou Raych sozinho? Poderia ter ido com ele, poderia ter me pedido para ir com ele, poderia ter mandado meia dúzia dos colegas   de turma com ele. Tenho certeza de que não perderiam a chance de passar uma semana longe dos estudos.

        - Para cumprir a missão que lhe confiei, Raych tinha que ir sozinho.

        - Que missão?

        Seldon recusou-se a responder.

        - Então chegamos a esse ponto? - queixou-se Dors. - Não confia mais em mim?

        - Não sei se vai dar certo. Prefiro correr o risco sozinho. Não quero envolver você nem qualquer outra pessoa.

        - Mas não é você que está correndo o risco. É o pobre Raych.

        - Ele não está correndo risco algum! - protestou Seldon, com impaciência. - Tem vinte anos, é esperto e forte como uma árvore. Não estou falando desses arbustos   que criamos aqui em Trantor, em estufas, mas das árvores das florestas de Helicon. Além disso, Raych é um truncador.

        - Você e sua trunca - murmurou Dors, com um sorriso amargo. - Pensa que tem uma resposta para tudo. Os dahlitas usam facas. Todos eles. Pistolas, também, provavelmente.

        - Não sei, não. As leis com relação a armas de fogo são muito severas. Quanto a facas, tenho certeza de que Raych leVou uma. Ele costuma andar armado aqui no campus,   embora seja proibido. Acha que não iria armado para Dahl?

        Dors não disse nada.

        Seldon também permaneceu em silêncio por alguns minutos. Depois, achou que era melhor tentar acalmá-la.

        - Escute, Vou lhe contar o que Raych foi fazer em Dahl. Quero que ele tenha uma conversa com Joranum.

        - Ah, é? O que espera que Raych consiga com isso? Que Joranum se arrependa do que está fazendo e volte para Mycogen?

        - Francamente, Dors. Se está interessada apenas em me agredir com os seus sarcasmos, então é melhor não continuarmos a discussão. - Seldon deu-lhe as costas e olhou   pela janela para o céu artificial, azul-acinzentado. - O que espero que ele faça - sua voz vacilou por um momento - é salvar o Império.

        - Claro. Isso é muito mais fácil.

        A voz de Seldon ficou firme de novo.

        - Isso é o que eu espero. Você não tem nenhuma solução. O próprio Demerzel não tem nenhuma solução. Ele me disse que cabia a mim encontrar uma solução, e é o que  estou tentando fazer. Foi por isso que mandei Raych para Dahl. Você sabe que ele tem o dom de inspirar confiança nos outros. Se funcionou conosco, estou convencido   de que vai funcionar com Joranum. Se eu estiver certo, tudo acabará bem.

        - Vai me dizer que está aplicando os conceitos da psico-história?

        - Não. Não Vou mentir para você. Ainda não cheguei ao ponto de usar a psico-história para formular estratégias, mas Yugo está sempre falando em intuição, e eu tenho a minha.

        - Intuição! Que é isso? Defina!

        - É fácil. Intuição é a arte, inerente à mente humana, de descobrir a resposta certa a partir de informações incompletas ou mesmo parcialmente falsas.

        - E foi isso que você fez.

        - Foi isso que eu fiz - afirmou Seldon, com convicção. Por dentro, porém, não se sentia tão seguro. E se Raych não fosse suficientemente persuasivo? Pior ainda: e se a consciência de ser um dahlita fizesse o rapaz mudar de lado?

       

        Billibotton era Billibotton; a suja, esparramada, escura, sinuosa Billibotton; uma cidade decrépita, mas com uma vitalidade que, na opinião de Raych, não era igualada  por nenhuma outra cidade de Trantor. Talvez por nenhuma outra cidade do Império, pensou o rapaz, embora não conhecesse pessoalmente outro planeta além de Trantor.

        Da última vez que estivera em Billibotton, tinha pouco mais de doze anos, mas até mesmo as pessoas pareciam iguais: ainda eram uma mistura de velhacaria e irreverência,   de orgulho e ressentimento. Os homens ainda usavam fartos bigodes e as mulheres vestidos em forma de saco que, aos olhos mais velhos e mais sofisticados de Raych,  agora pareciam extremamente deselegantes.

        Como os homens podiam se sentir atraídos por mulheres vestidas daquela forma? Era uma pergunta tola. Mesmo quando tinha doze anos, fazia idéia da facilidade com   que aqueles trajes podiam ser removidos.

        De modo que ali estava, perdido nos seus pensamentos, caminhando por uma rua cheia de lojas, tentando convencer-se de que se lembrava deste ou daquele lugar, imaginando   que, entre os passantes, devia haver pessoas que conhecera e que agora eram oito anos mais velhas. Entre eles talvez houvesse mesmo alguns amigos de infância; a  idéia lhe trouxe à memória alguns dos apelidos com que costumavam se chamar. Não se lembrava mais dos nomes verdadeiros.

        Na verdade, as lacunas em suas lembranças eram enormes. Oito anos não era tanto tempo assim, mas correspondiam a dois quintos da sua existência, e sua vida depois   que deixara Billibotton tinha sido tão diferente que o que ficara para trás mais lhe parecia um sonho nebuloso.

        Entretanto, lembrava-se dos cheiros. Parou do lado de fora de uma padaria, pequena e encardida, para sentir o aroma do glacê de coco, que não encontrara em nenhum   outro setor do planeta. Mesmo quando parará para comprar bolos com glacê de coco; mesmo quando eram anunciados como "à moda de Dahl", não passavam de reles imitações.

        Sentiu uma tentação irresistível de entrar e comprar um bolo. Por que não? Tinha dinheiro, e Dors não estava ali para franzir o nariz e criticar a higiene da loja.

        Quem se preocupava com limpeza nos velhos tempos?

        A padaria era escura e os olhos de Raych levaram algum tempo para se acostumar. Havia umas poucas mesas no lugar, que certamente eram usadas pelos fregueses para   fazer uma refeição  ligeira, como café com bolo. Um rapaz estava sentado a uma das mesas, com uma xícara vazia à sua frente, usando uma camiseta que um dia tinha sido branca  e provavelmente pareceria ainda mais suja se a iluminação fosse melhor.

        O padeiro saiu de um quarto nos fundos e perguntou, de cara amarrada:

        - O que vai querer?

        - Um coquinho - disse Raych, no mesmo tom (não seria um billibottoniano se tratasse o outro com cortesia) e usando o termo coloquial que recordava dos velhos tempos.  O termo não havia caído em desuso, pois o empregado entendeu e foi pegar um bolo, segurando-o com a mão. Raych, o moleque de rua, não teria achado nada de mais,   mas Raych, o adulto, sentiu-se ligeiramente incomodado.

        - Quer uma sacola?

        - Não - disse Raych. - Vou comer aqui mesmo. - Tirou-o da mão do outro e deu uma dentada, semi-cerrando os olhos. Na infância, comer bolo de coco tinha sido uma festa.

        Vez por outra, conseguia o dinheiro necessário; outras vezes, um amigo mais afortunado lhe permitia uma mordida; mais freqüentemente, apoderava-se de um bolo quando ninguém estava olhando. Agora, podia comprar quantos quisesse.

        - Ei! - chamou uma voz.

        Raych abriu os olhos. Era o homem da mesa.

        - Falou comigo? - perguntou Raych.

        - Falei. Que que está fazendo?

        - Comendo um coquinho. Que que tem com isso? - Automaticamente, assumira a maneira de falar dos billibottonianos.

        - Que que está fazendo em Billibotton?

        - Nasci aqui. Cresci aqui. Em uma casa. Não na rua, como você. - O insulto saiu com facilidade, como se ele nunca tivesse deixado Billibotton.

        - É mesmo? Mas não se veste como um billibottoniano. Nem cheira como um. - Levantou o dedo mínimo, acusando o outro de ser efeminado.

        - Não Vou falar do seu fedor. Eu subi na vida.

        - Subiu na vida? Muito bemmm... - Dois outros homens entraram na padaria.

        Raych ficou um pouco preocupado, porque não sabia se eles tinham sido chamados ou não. O homem da mesa disse aos recém-chegados: - Esse sujeito  subiu na vida. Ele diz que nasceu em Billibotton.

        Um dos recém-chegados cumprimentou-o com um gesto irônico e sorriu sem o menor traço de amabilidade. Seus dentes eram manchados.

        - É sempre bom ver um billibottoniano subir na vida. Assim ele pode ajudar os colegas menos afortunados. Que tal umaajuda para os pobres?

        - Quanto você tem aí? - perguntou o outro.

        - Ei! - exclamou o padeiro, de trás do balcão. - Saiam da minha loja, vocês três. Não quero confusão aqui.

        - Não vai haver nenhuma confusão - disse Raych. - Estou saindo.

        Fez menção de se retirar, mas o homem que estava sentado pôs uma perna no caminho.

        - Não vá, amigo. Vamos sentir sua falta.

        O padeiro, temendo pelo pior, desapareceu nos fundos da loja. Raych sorriu e disse:

        - Uma vez, eu estava aqui em Billibotton com meu velho e minha velha e dez sujeitos nos cercaram. Dez. Eu contei. Dez. Tivemos que dar uma surra neles.

        - É mesmo? - disse um dos recém-chegados. - Seu velho deu uma surra nos dez?

        - Meu velho? Não. Ele não estava a fim de se cansar. Quem deu uma surra neles foi minha velha. Eu sei brigar melhor do que ela, e vocês são apenas três. De modo que é melhor me deixarem passar.

        - Claro. É só deixar todo o seu dinheiro. E a roupa também.

        O homem da mesa se levantou, com uma faca na mão.

        - Pronto. Agora Vou ter que me cansar - disse Raych. Acabou de comer o bolo de coco e se voltou para o agressor. De repente, rápido como um raio, apoiou-se na mesa com uma das mãos e desferiu um pontapé na virilha do homem.

        Ele deu um grito e caiu. Ao mesmo tempo, Raych jogou a mesa em cima do segundo homem, imprensando-o contra a parede, e desferiu uma cutilada certeira no pescoço do terceiro homem.

        Em dois segundos, Raych estava com uma faca em cada mão, perguntando:

        - Algum de vocês ainda quer brigar?

        Os três olharam para Raych de cara feia, mas permaneceram onde estavam. Raych disse:

        - Nesse caso, até a vista.

        Mas o padeiro, que se refugiara no quarto dos fundos, devia ter pedido ajuda, porque outros três homens entraram na loja, enquanto ele gritava:

        - Arruaceiros! São todos arruaceiros!

        Os recém-chegados usavam trajes idênticos, mas Raych não reconheceu o uniforme: calças enfiadas para dentro das botas, camisetas verdes e estranhos capacetes hemisféricos que pareciam vagamente cômicos. No ombro esquerdo das camisas havia um grande "J" maiúsculo.

        Tinham jeito de dahlitas, mas não usavam o bigode típico dos dahlitas. Os bigodes eram pretos e fartos, mas estavam cuidadosamente aparados na altura dos lábios   e não eram muito largos. Raych olhou-os com uma certa condescendência. Não tinham o mesmo vigor que o seu próprio bigode, mas teve de admitir que pareciam limpos   e bem-cuidados.

        O líder dos três homens disse:

        - Sou o cabo Quinber. O que está acontecendo aqui? Os billibottonianos derrotados estavam se levantando com  dificuldade. Era evidente que tinham levado a pior na briga. Um ainda andava meio curvado, o outro esfregava a garganta e o terceiro agia como se o seu ombro estivesse   deslocado.

        O cabo olhou filosoficamente para eles, enquanto seus dois auxiliares bloqueavam a saída. Voltou-se para Raych, o único que parecia inteiro.

        - Você é daqui, rapaz?

        - Nasci e cresci aqui, mas vivo no exterior há oito anos. - Deixou de lado o sotaque de Billibotton, mas ele não desapareceu totalmente, como também não estava totalmente   ausente  da forma de falar do cabo. Havia outras cidades em Dahl além de Billibotton, algumas com pretensões de refinamento. Raych perguntou:

        - Vocês são da polícia? Não me lembro do uniforme que estão...

        - Não somos da polícia. Você não vai encontrar muitos policiais em Billibotton. Somos da Guarda de Joranum e mantemos a paz neste bairro. Conhecemos esses três e   vamos cuidar deles. É em você que estamos interessados. Nome. Número de  referência.

        Raych forneceu os dados solicitados.

        - O que aconteceu?

        Raych contou o que acontecera.

        - O que está fazendo aqui?

        - Escute aqui - disse Raych. - Você não tem o direito de me interrogar. Se não é da polícia...

        - Escute você - interrompeu o cabo, com ar severo. - Não me venha falar em direitos. Somos tudo que existe em Billibotton e temos o direito porque conquistamos   o direito. Você disse que brigou com esses três homens e ganhou. Acredito em você. Mas não vai ganhar de nós. Nós temos permissão de andar armados... - O cabo tirou,   sem pressa, uma pistola do cinto. - Agora diga-me o que faz aqui.

        Raych suspirou. Se tivesse ido diretamente para o Palácio do Setor... se não tivesse parado para matar a saudade das ruas de Billibotton e de um bolo de coco...

        - Vim conversar com o Sr. Joranum a respeito de um assunto muito importante, e já que o senhor parece fazer parte da organi...

        - Veio falar com o Líder?

        - Sim senhor.

        - Armado com duas facas?

        - Apenas para defesa pessoal. Não pretendia entrar com elas no palácio.

        - É o que está dizendo. Vamos ter que levá-lo, rapaz. Pode levar algum tempo, mas você vai nos contar a verdade.

        - Mas vocês não têm o direito de fazer isso! Não há nenhuma lei que...

        - Então encontre alguém para se queixar. Até lá, você é nosso.

        Raych ficou sem as facas e teve que ir com eles.

       

        Cleon não era mais o jovem monarca das holografias. Talvez ainda fosse - nas holografias - mas o espelho lhe contava uma história diferente. Seu último aniversário  tinha sido comemorado com a pompa e circunstância de costume, mas nem por isso deixava de ser o quadragésimo aniversário.

        Não havia nada de errado em ter quarenta anos. Sua saúde era perfeita. Ganhara um pouco de peso, mas não muito. O rosto pareceria talvez um pouco mais velho se não   fosse pelos microajustes que eram feitos periodicamente e que tinham deixado sua pele ligeiramente brilhosa.

        Estava no trono há dezoito anos. Já era um dos mais longos reinados do século e não via nada que o impedisse de reinar durante mais quarenta anos, o que tornaria   o seu reinado o mais longo da história do Império.

        Olhou de novo para o espelho e pensou que sua imagem ficava melhor quando deixava o espelho plano, sem ligar a terceira dimensão.

        Lembrou-se de Demerzel, o fiel, confiável, necessário, insuportável Demerzel. Esse não mudara nem um pouco. Conservava a mesma aparência do dia em que o conhecera   e, até onde Cleon sabia, sem necessidade de microajustes. Naturalmente, Demerzel era muito discreto em tudo que fazia. Além disso, parecia jamais ter sido jovem.

        Não tinha nada de jovem quando trabalhava para o pai de Cleon quando ele ainda era o príncipe herdeiro. Será que era melhor amadurecer cedo e não envelhecer mais?

        Envelhecer!

        Isso o fez lembrar-se de que mandara chamar Demerzel com um propósito específico e não para ficar ali parado, enquanto o imperador sonhava acordado. Demerzel poderia tomar os devaneios imperiais como sinal de senilidade.

        - Demerzel - disse Cleon.

        - Majestade?

        - Aquele tal de Joranum. Estou farto de ouvir falar dele.

        - Não precisa se preocupar, majestade. Joranum é um desses oportunistas que ficam em evidência por uns tempos e depois desaparecem.

        - Mas ele está demorando para desaparecer.

        - Às vezes leva um certo tempo, majestade.

        - O que pensa dele, Demerzel?

        - É perigoso, mas tem uma certa popularidade. Na verdade, é a popularidade que o torna perigoso.

        - Se você o considera perigoso e eu me cansei de suas provocações, por que esperar mais? Não podemos simplesmente mandar prendê-lo, ou executá-lo?

        - A situação política aqui em Trantor é delicada, majestade...

        - Como sempre. Alguma vez você já me disse que a situação política não era delicada?

        - Vivemos em tempos difíceis, majestade. Não devemos tomar nenhuma ação drástica contra ele se não tivermos certeza dos resultados.

        - Não estou gostando da situação. Posso não ser muito letrado. Um imperador não tem tempo de estudar. Mesmo assim, conheço a história do Império. Nos últimos séculos, esses populistas, como são chamados, chegaram algumas vezes ao poder. Em todas essas vezes reduziram o imperador da época a um fantoche. Não quero ser um fantoche, Demerzel.

        - Isso é impensável, majestade.

        - Não será impensável se você não agir enquanto é tempo.

        - Estou agindo, majestade, mas de forma cautelosa.

        - Existe pelo menos um homem que não é tão cauteloso quanto você. Faz mais ou menos um mês, um professor universitário, um professor, acabou sozinho com uma manifestação dos joranumitas. Ele simplesmente se adiantou e deu um basta no que eles estavam fazendo.

        - É verdade, majestade. Como ficou sabendo?

        - Acontece que estou interessado nesse professor. Por que não me falou a respeito?

        Demerzel respondeu, de forma quase servil:

        - Seria correto incomodá-lo com todos os assuntos insignificantes que passam por minha mesa?

        - Insignificantes? O professor em questão era Hari Seldon.

        - De fato, era esse o seu nome.

        - Um nome familiar. Não foi ele quem apresentou um trabalho, faz alguns anos, que nos chamou a atenção?

        - Sim, majestade.

        Cleon parecia satisfeito consigo mesmo.

        - Como pode ver, eu tenho boa memória. Não dependo dos meus ministros para tudo. Interroguei Seldon a respeito do assunto daquele trabalho, não foi?

        - Sua memória é sem dúvida invejável, majestade.

        - O que aconteceu com a idéia de Seldon? Era um método para prever o futuro. Apesar da minha memória invejável, não me recordo do nome do método.

        - Psico-história, majestade. Não era exatamente um método para prever o futuro, e sim uma teoria para prever tendências gerais da história humana.

        - E o que foi feito dela?

        - Nada, majestade. Como expliquei na ocasião, a idéia era totalmente inexequível. Um trabalho pitoresco, mas inútil.

        - No entanto, Seldon enfrentou os joranumitas. Será que teria coragem de fazer isso se não soubesse de antemão que seria bem-sucedido? Será que isso não é prova de que essa tal de... psico-história está dando certo?

        - Isso prova apenas que Hari Seldon é uma pessoa muito impulsiva, majestade. Mesmo que a teoria da psico-história tivesse fundamento, não permitiria prever eventos isolados.

        - O matemático não é você, Demerzel. É Seldon. Acho que está na hora de interrogá-lo novamente.

        Acho que seria perda de... Demerzel, é o que eu quero. Sim, majestade.

        Providencie.

       

        Raych escutava, tentando disfarçar a sua impaciência. Estava sentado numa cela improvisada, em um prédio de Billibotton, após ter passado por corredores dos quais não mais se lembrava. (Ele, que nos velhos tempos teria percorrido esses mesmos corredores sem hesitação, livrando-se de qualquer perseguidor.)

        O homem que estava com ele, e que usava o uniforme verde da Guarda de Joranum, era um missionário, um torturador ou uma espécie de teólogo frustrado. Fosse o que fosse, anunciara que seu nome era Sander Nee e estava fazendo um longo discurso, com um sotaque dahlita muito carregado, que obviamente tinha sido decorado palavra por palavra.

        - Se a população de Dahl deseja a igualdade, deve fazer por merecê-la. Precisamos de gente ordeira, respeitadora, cumpridora das leis. Os outros nos acusam de ser agressivos e arruaceiros para justificar sua intolerância. A única maneira de nos livrarmos dessa pecha é nos comportarmos de forma impecável. Se não agirmos assim...

        - Concordo inteiramente com o senhor - interrompeu Raych, - mas preciso falar com o Sr. Joranum o mais cedo possível.

        Nee sacudiu lentamente a cabeça.

        - Não posso atendê-lo, a menos que tenha uma audiência marcada.

        - Escute, sou filho de um professor da Universidade de Streeling. Um professor de matemática.

        - Não conheço nenhum professor... pensei que você tinha dito que era de Dahl.

        - Claro que sou. Não reconhece o meu sotaque?

        - E seu velho ensina numa universidade? Não acredito.

        - Na verdade, ele é meu pai adotivo.

        O outro absorveu aquilo e sacudiu a cabeça.

        - Conhece alguém em Dahl?

        - Fale com Mãe Rittah. Ela me conhece. (Mãe Rittah devia estar com mais de oitenta anos. Será que ainda estava viva?)

        - Nunca ouvi falar.

        (Quem mais? Era pouco provável que aquele homem conhecesse um dos seus antigos companheiros. Seu melhor amigo tinha sido um rapaz chamado Cascão... ou pelo menos era o único nome pelo qual o conhecia. Mesmo na situação aflitiva em que se encontrava, Raych não conseguia se imaginar dizendo: "Conhece um rapaz da minha idade chamado Cascão?")

        Finalmente, disse:

        - bom, eu também conheço Yugo Amaryl.

        Uma luz débil pareceu se acender nos olhos de Nee.

        - Quem?

        - Yugo Amaryl - repetiu Raych, esperançoso. - Ele trabalha para meu pai adotivo, na universidade.

        - Ele também é um dahlita? Todos na universidade são dahlitas?

        - Não, só ele e eu. Ele era um térmico.

        - O que ele está fazendo na universidade?

        - Meu pai o tirou dos termotubos faz oito anos.

        - Hummm... Vou mandar alguém.

        Raych teve que esperar. Mesmo que conseguisse sair do prédio, aonde poderia ir, no labirinto de corredores de Billibotton, sem que o capturassem quase instantaneamente?

        Já não tinha mais o mapa da cidade na cabeça.

        Vinte minutos se passaram antes que Nee voltasse acompanhado pelo cabo que o prendera na padaria. Raych ficou um pouco mais animado. O cabo parecia ser uma pessoa razoável. Ele perguntou:

        - Quem é esse dahlita que você diz ser seu amigo?

        - Yugo Amaryl. Um térmico que meu pai conheceu aqui em Dahl, faz oito anos, e levou para a universidade.

        - Por que ele faria isso?

        - Meu pai achou que Yugo tinha capacidade para fazer coisas mais importantes do que cuidar dos termotubos.

        - O que, por exemplo?

        - Estudar matemática. Ele...

        O cabo interrompeu-o com um gesto.

        - Em que termotubo ele trabalhava? Raych pensou por um momento.

        - Eu era apenas um menino, na ocasião, mas acho que era em Tyrrell Dois.

        - Passou perto. Ele trabalhava em Tyrrell Três.

        - Então você o conhece?

        - Não pessoalmente, mas a história dele ficou famosa entre os térmicos e eu também já trabalhei nos termotubos. Talvez tenha sido assim que você ouviu falar dele.

        Pode provar que tealmente conhece Yugo Amaryl?

        - Preste atenção no que Vou lhe propor. Deixe-me escrever meu nome em um pedaço de papel, ao lado do nome do meu pai e de mais uma palavra. Entre em contato com

        alguém da comitiva do Sr. Joranum... ele deve chegar amanhã... e leia para ele o meu nome, o nome do meu pai e a outra palavra. Se nada acontecer, ficarei aqui até apodrecer, suponho, mas tenho certeza de que não vai ser assim. Acho que eles vão me tirar daqui em três segundos e você vai ser promovido por ter passado a informação.

        Por outro lado, caso se recuse a me atender e eles descobrirem que estou aqui, o que vai acontecer mais cedo ou mais tarde, você será severamente punido. Afinal de contas, se você sabe que Yugo Amaryl saiu daqui para trabalhar para um matemático famoso, meta na sua cabeça que esse matemático famoso é meu pai. Ele se chama Hari Seldon.

        A expressão do cabo mostrou com clareza que o nome não era totalmente desconhecido. Ele perguntou:

        - Qual é a palavra que você vai escrever?

        - Psico-história.

        O cabo franziu a testa.

        - O que significa?

        - Não importa. Tudo que tem a fazer é passá-la adiante. O cabo lhe entregou uma folha de papel, tirada de um caderno.

        - Está bem. Escreva tudo aqui e vamos ver o que acontece.

        Raych percebeu que tremia. Ele também estava curioso para saber o que iria acontecer. Tudo dependia da pessoa a quem o cabo entregasse a mensagem.

       

        Hari Seldon viu as gotas de chuva escorrerem pelas janelas envolventes do carro imperial e foi assaltado por uma profunda nostalgia.  Era a segunda vez em oito anos que saía da Cúpula para visitar o imperador no único espaço aberto que havia em Trantor, e das duas vezes estava chovendo. Da primeira   vez, logo depois de sua chegada ao planeta, o mau tempo o deixara apenas irritado. Para ele, não era nenhuma novidade. O planeta natal, Helicon, tinha sua cota de tempestades, especialmente na região onde nascera e crescera.

        Depois, porém, passara oito anos no interior de uma cúpula onde o clima era artificial, onde o mau tempo se limitava a nuvens programadas para aparecer a intervalos aleatórios, com chuvas regulares durante os períodos de descanso. Os furacões eram substituídos por brisas e não havia extremos de calor e frio, apenas pequenas mudanças que faziam a pessoa desabotoar a camisa de vez em quando ou vestir um agasalho leve vez por outra. Mesmo essas alterações suaves eram objeto de críticas.

        No momento, porém, estava chovendo forte, coisa que não via há anos. Seldon estava adorando. Aquela chuva o fazia lembrar-se de Helicon, da infância, de uma época relativamente despreocupada de sua vida, e teve vontade de pedir ao motorista para tomar o caminho mais longo.

        Impossível! O imperador queria vê-lo e seria uma longa viagem, mesmo que tomassem o caminho mais curto e não tivessem que enfrentar nenhum congestionamento. O imperador, é claro, não pretendia esperar por ele...

        Era um Cleon diferente do que Seldon conhecera oito anos antes. Estava uns cinco quilos mais gordo e tinha uma expressão preocupada no olhar. A pele das bochechas e em volta dos olhos estava esticada demais e Hari reconheceu o resultado de um excesso de cirurgias plásticas. De certa forma, Seldon tinha pena de Cleon – apesar de todo o seu poder, o imperador não era imune à passagem do tempo.

        Cleon I recebeu-o sozinho. Não totalmente só, é claro, pois um imperador nunca estava sozinho. Havia dois soldados estacionados em pontos estratégicos da sala, com a aparência de terem sido moldados em plástico, cada um com uma pistola carregada na mão. Era uma precaução de rotina contra assassinos que se apresentassem disfarçados de visitantes. Naturalmente, o imperador tinha que confiar nos soldados, e a história deixara bem claro que isso nem sempre era seguro.

        - Prazer em vê-lo, professor - disse o imperador em tom coloquial. - Vamos dispensar as formalidades, como fizemos da outra vez em que nos encontramos.

        - Como quiser, majestade - disse Seldon, muito sério. Nem sempre era seguro tratar o imperador de modo informal, mesmo que fosse para obedecer a uma ordem explícita.

        Cleon fez um gesto imperceptível e a sala sofreu uma mudança drástica, quando a mesa foi posta automaticamente e os pratos começaram a aparecer. Seldon, confuso, não conseguiu acompanhar os detalhes.

        - Vai comer comigo, Seldon? - perguntou o imperador. A entonação era de uma pergunta, mas tinha a força de uma ordem.

        - Será uma honra, majestade - respondeu Seldon. Olhou em torno, curioso. Sabia muito bem que não se devia fazer perguntas ao imperador, mas não via outra saída. Disse, da forma mais casual possível, tentando fazer com que não soasse como uma pergunta: - O primeiro-ministro não vai comer conosco?

        - Não, não vai - respondeu Cleon. - Está ocupado com outras coisas e, de qualquer forma, quero conversar com você em particular.

        Comeram em silêncio por algum tempo, Cleon olhando fixamente para ele e Seldon respondendo com um sorriso amável. Cleon não era considerado uma pessoa cruel, mas, teoricamente, podia mandar prender Seldon, levantando contra ele alguma vaga acusação e, se quisesse de fato exercer sua influência, providenciar para que jamais fosse submetido a julgamento. Era sempre melhor evitar ser notado, o que, no momento, parecia impossível.

        Certamente, tinha sido pior oito anos antes, quando fora conduzido à presença do imperador por guardas armados, mas a lembrança não lhe servia de consolo.

        De repente, Cleon disse:

        - Seldon, o primeiro-ministro é uma pessoa admirável, mas às vezes tenho a impressão de que as pessoas pensam que não tenho idéias próprias. Você concorda?

        - De forma alguma, majestade - respondeu Seldon, calmamente. Era melhor não negar com muita veemência.

        - Não acredito em você. Seja como for, tenho idéias próprias e me lembro de que na época em que chegou a Trantor estava interessado numa coisa chamada psico-história.

        - Estou certo de que também se lembra, majestade, de que expliquei que se tratava de uma teoria matemática, sem nenhuma aplicação prática.

        - Foi o que você disse. Ainda acha a mesma coisa?

        - Sim, majestade.

        - Tem trabalhado nisso desde então?

        - Ocasionalmente, mas os resultados não são animadores. Infelizmente, o caos introduz um elemento de imprevisibilidade e...

        - Quero que investigue um problema específico - interrompeu o imperador. - Prove a sobremesa, Seldon. Está deliciosa.

        - Qual é o problema, majestade?

        - O problema é um homem chamado Joranum. Demerzel me explicou, ha, polidamente que não posso prendê-lo e não posso usar a força para esmagar seus seguidores. De   acordo com Demerzel, isso só servirá para agravar a situação.

        - Se o primeiro-ministro pensa assim, deve ter suas razões.

        - Mas não quero me preocupar com esse tal de Joranum. Demerzel não está fazendo nada!

        - Estou certo de que ele está fazendo o que pode, majestade.

        - Se está trabalhando para resolver o problema, não me mantém informado a respeito.

        - Talvez isso se deva a um desejo natural, majestade, de mantê-lo fora da disputa. O primeiro-ministro talvez pense que se Joranum... se ele por acaso...

        - Tomar o poder - completou Cleon, com uma expressão de profundo desagrado.

        - Sim, majestade. Nesse caso, seria indesejável que houvesse uma inimizade declarada entre ele e Vossa Majestade. A estabilidade do Império deve ser mantida a todo custo.

        - Prefiro manter a estabilidade do Império sem Joranum. O que sugere, Seldon?

        - Eu, majestade?

        - Você, Seldon - insistiu Cleon, impaciente. - Não acredito que a psico-história seja apenas um jogo. Demerzel é seu amigo. Acha que não sei? Ele espera algo de   você. Ele espera que você aperfeiçoe a psico-história. É o que espero, também... Seldon, você está do lado de Joranum? Diga-me a verdade!

        - Não, majestade, não estou do lado dele. Considero-o um grande perigo para o Império.

        - Muito bem, acredito em você. Ouvi dizer que impediu uma manifestação dos joranumitas no campus da universidade onde leciona.

        - Foi um ato impulsivo de minha parte, majestade.

        - Pode enganar os outros, mas não a mim. Fez o que fez porque a psico-história lhe permitia prever as conseqüências.

        - Majestade!

        - Não adianta protestar. O que está fazendo para deter Joranum? Se está do lado do Império, deve estar fazendo alguma coisa.

        - Majestade - começou Seldon, cauteloso, tentando adivinhar o quanto o imperador sabia, - mandei meu filho se encontrar com Joranum no setor de Dahl.

        - Para quê?

        - Meu filho é dahlita, e é muito esperto. Talvez descubra alguma coisa que nos seja útil.

        - Talvez?

        - Não podemos ter certeza, majestade.

        - Você me manterá informado?

        - Sim, majestade.

        - Seldon, não me diga que a psico-história é apenas um jogo; que ela não tem aplicações práticas. Não quero ouvir isso. Espero que faça alguma coisa para deter Joranum. O que será, não posso saber, mas você precisa fazer alguma coisa. Não me desaponte. Agora pode ir.

        Seldon voltou para Streeling bem mais apreensivo do que partira. Cleon deixara bem claro que não toleraria um possível fracasso.

        Agora tudo dependia de Raych.

       

        Raych estava sentado na ante-sala de um edifício público de Dahl no qual jamais entrara, nem poderia ter entrado, quando era um moleque de rua. Para dizer a verdade,  sentia-se pouco à vontade, como se estivesse invadindo um território proibido.

        Tentou parecer calmo, seguro, afável.

        O pai lhe dissera que eram qualidades que possuía naturalmente.

        Se era esse o caso, tinha que tomar cuidado para não estragar tudo esforçando-se demais para parecer o que realmente  era.

        Procurou relaxar observando um assistente que operava um computador atrás da escrivaninha. Não se tratava de um dahlita. Na verdade, era Gambol Deen Namarti, o mesmo   homem que estava com Joranum quando este fora falar com Seldon.

        De vez em quando, Namarti levantava os olhos e olhava para Raych com hostilidade. Sua afabilidade natural não estava funcionando com Namarti, pensou o rapaz.

        Raych não tentou anular a hostilidade com um sorriso amável. Teria parecido muito artificial. Limitou-se a esperar. Já tinha chegado muito longe. Quando Joranum   chegasse, teria uma chance de falar com ele.

        Joranum chegou, distribuindo sorrisos. Namarti levantou a mão e ele parou. Os dois conversaram em voz baixa, enquanto Raych os observava atentamente, tentando sem   sucesso fazer de conta que não estava prestando atenção. Parecia claro que Namarti estava aconselhando Joranum a não recebê-lo, o que o deixou contrariado. Por que   Namarti era imune à sua afabilidade?

        De repente, Joranum olhou para Raych, sorriu e empurrou Namarti para o lado. Ocorreu a Raych que Namarti podia ser o cérebro da dupla, mas era Joranum quem tinha   todo o carisma.

        Joranum deu um passo à frente e estendeu uma mão gorducha, ligeiramente úmida.

        - Ora, ora. O filho do professor Seldon. Como vai?

        - Vou bem, obrigado.

        - Soube que teve algumas dificuldades para chegar aqui.

        - Nem tanto, Sr. Joranum.

        - Está trazendo um recado do seu pai, imagino. Espero que ele tenha mudado de idéia e decidido juntar-se a mim na grande cruzada.

        - Acho que não. Joranum franziu a testa.

        - Está aqui sem o conhecimento do seu pai?

        - Não senhor. Foi ele que me mandou.

        - Entendo... Está com fome, rapaz?

        - Não no momento, obrigado.

        - Incomoda-se se eu comer? Não tenho muito tempo para os "prazeres simples da vida" - afirmou Joranum, com um largo sorriso.

        - Por mim está bem, Sr. Joranum.

        Os dois foram juntos até uma mesa e se sentaram. Joranum desembrulhou um sanduíche e deu uma dentada. Perguntou, com a boca cheia:

        - E para que ele mandou você, filho? Raych deu de ombros.

        - Desconfio que ele achou que eu poderia descobrir algo que pudesse usar contra o senhor. Ele é unha-e-carne com o primeiro-ministro Demerzel.

        - E você? Não é?

        - Não senhor. Nasci em Dahl.

        - Isso eu sei, rapaz. E daí?

        - Daí que pertenço à categoria dos oprimidos e por isso estou do seu lado e quero ajudá-lo. Naturalmente, meu pai não pode saber.

        - Ele não precisa saber. De que forma pretende me ajudar? - Joranum olhou rapidamente para Namarti, que estava encostado na escrivaninha, escutando, com os braços cruzados e ar reprovador. - Sabe alguma coisa a respeito da psico-história?

        - Não senhor. Meu pai não gosta de conversar comigo a respeito, e mesmo que gostasse eu não seria capaz de compreender. O que sei é que ele não está conseguindo chegar a lugar algum.

        - Tem certeza?

        - Tenho certeza. Ele tem um assistente chamado Yugo Amaryl, que também é dahlita e às vezes conversa comigo a respeito. Ele está muito frustrado com a falta de resultados.

        - Ah! Será que eu poderia ter uma conversa com esse Yugo Amaryl, um dia desses?

        - Acho difícil. Ele não simpatiza muito com Demerzel, mas tem uma verdadeira veneração pelo meu pai. Jamais o trairia.

        - E você?

        Raych fez um muxoxo e depois murmurou, em tom desafiador:

        - Antes de mais nada, sou um dahlita. Joranum pigarreou.

        - Nesse caso, Vou repetir a pergunta. Como pretende me ajudar, meu filho?

        - Tenho uma coisa para lhe contar que vai achar difícil de acreditar.

        - Verdade? Experimente. Se eu não acreditar, direi a você.

        - Tem a ver com o primeiro-ministro, Eto Demerzel.

        - O que é?

        Raych olhou em torno, desconfiado.

        - Alguém pode me ouvir?

        - Apenas eu e Namarti.

        - Está bem. Acontece que Demerzel não é um homem. É um robô.

        - O quê? - exclamou Joranum.

        - Isso mesmo. Um homem mecânico, Sr. Joranum. Ele não é um ser humano, e sim uma máquina.

        - Jo-Jo, não acredite no que o rapaz está dizendo! - interrompeu Namarti, veemente. - Isso é ridículo!

        Joranum silenciou-o com um gesto. Seus olhos brilhavam.

        - Por que diz isso?

        - Meu pai esteve em Mycogen uma vez. Ele me contou. Em Mycogen, falam o tempo todo a respeito de robôs.

        - Eu sei. Já ouvi falar.

        - Os mycogenianos dizem que os antepassados conviviam com robôs, mas depois eles foram destruídos.

        - Está bem, mas o que o faz pensar que Demerzel é um robô? - interveio Namarti. - Pelo pouco que conheço a respeito dessas fantasias, os robôs são feitos de metal, não são?

        - É verdade - concordou Raych. - Acontece que havia uns poucos robôs que eram parecidos com seres humanos e podiam viver para sempre...

        Namarti sacudiu a cabeça.

        - Lendas! Lendas ridículas! Jo-Jo, por que estamos escutando...

        - Não, não, G. D. - protestou Joranum. - Quero ouvir o que o rapaz tem a dizer.

        - Mas é um absurdo, Jo-Jo.

        - Nem sempre as coisas são o que parecem. Mesmo que fosse um absurdo, as pessoas vivem e morrem para defender absurdos. O que importa não é tanto o que é quanto o que as pessoas pensam que é... Diga-me, filho, que o faz pensar que Demerzel é um robô? Mesmo supondo que os robôs existam, por que afirma que o nosso primeiro-ministro é um robô? Foi ele próprio quem lhe contou?

        - Não senhor - declarou Raych.

        - Foi seu pai?

        - Não senhor. Eu mesmo cheguei a essa conclusão.

        - Como? Baseado em quê?

        - Na maneira de ser de Demerzel. Ele não mudou nada desde que o conheci. Não envelheceu nem um pouco. Não parece ter emoções. Não parece ser humano.

        Joranum recostou-se na cadeira e ficou olhando para Raych por um longo tempo. Era quase possível ver seu cérebro funcionando furiosamente. Afinal, disse:

        - Suponhamos que ele seja um robô, meu rapaz. Qual a diferença? Por que se importa com isso?

        - Claro que me importo - afirmou Raych. - Sou um ser humano. Não quero ser governado por um robô. Não quero que o Império seja governado por um robô.

        Joranum voltou-se para Namarti com um gesto de aprovação.

        - Ouviu isso, G. D.? "Sou um ser humano. Não quero ser governado por um robô. Não quero que o Império seja governado por um robô." Faça-o dizer isso na holovisão. Faça-o repetir essa declaração até que todos os cidadãos de Trantor a conheçam de cor...

        - Ei! - protestou Raych, quando recuperou a fala. - Não posso repetir isso na holovisão. Meu pai não pode saber...

        - Não, claro que não - interpôs Joranum rapidamente. - Não podemos deixar que isso aconteça. Vamos apenas usar as palavras. Encontraremos outro dahlita. Usaremos   habitantes de outros setores, cada um falando no seu dialeto, mas sempre com a mesma mensagem: "Não quero ser governado por um robô.  Não quero que o Império seja governado por um robô!"

        - O que vai acontecer quando Demerzel provar que não é um robô? - perguntou Namarti.

        - Francamente - disse Joranum. - Como é que ele vai fazer isso? É impossível. Psicologicamente impossível. O quê? O grande Demerzel, a eminência parda, o homem que   sempre mexeu os pauzinhos durante todos esses anos, desde o tempo do pai de Cleon. Como terá coragem de descer do seu pedestal e declarar à população que é um humilde   ser humano? Não, G. D., temos finalmente o nosso inimigo onde o queremos, e tudo graças a este jovem idealista!

        Raych enrubesceu.

        - Seu nome é Raych, não é? - disse Joranum. - Quando nosso partido chegar ao poder, não nos esqueceremos do que fez. Dahl será bem tratado e você ocupará um cargo   importante na nossa administração. Um dia, Raych, você será o governador do setor de Dahl. Não se arrependerá do que fez. Está arrependido?

        - De maneira alguma! - exclamou Raych, com veemência.

        - Nesse caso, vamos providenciar para que volte para o lado do seu pai. Diga a ele que não lhe queremos mal, que o admiramos muito. Pode dizer-lhe que descobriu   isso da forma que quiser. Se souber de alguma coisa que possa nos ser útil, principalmente a respeito da psico-história, volte a entrar em contato conosco.

        - Combinado. Estava falando sério quando disse que Dahl será bem tratado no seu governo?

        - Claro que sim. Igualdade entre os setores, meu rapaz. Igualdade entre os planetas. Vamos ter um novo Império, livre da corrupção, dos privilégios e das injustiças.

        - É o que espero - concordou Raych, sacudindo a cabeÇa entusiasticamente.

       

        Cleon, imperador da galáxia, caminhava apressadamente pelo corredor que ligava os seus aposentos particulares aos escritórios do imenso corpo de funcionários que  viviam nos vários anexos de um palácio que funcionava como centro nervoso do Império.

        Vários dos auxiliares imediatos o acompanhavam, com uma expressão de profunda preocupação estampada no rosto. O imperador não procurava outras pessoas; mandava   chamá-las. Nas raras vezes em que caminhava, jamais mostrava sinais de pressa ou de descontrole emocional. Como poderia? Era o imperador e, como tal, muito mais   um símbolo do que um ser humano.

        No momento, porém, parecia um ser humano. Afastava os passantes com um gesto impaciente da mão direita, enquanto, na esquerda, brandia um holograma reluzente.

        - O primeiro-ministro - dizia, com uma voz estrangulada, nada parecida com o  tom neutro e superior que assumira juntamente com o trono. - Onde esta o primeiro-ministro?

        Todos os altos funcionários que encontrava no caminho gaguejavam e balbuciavam, incapazes de oferecer uma resposta coerente. Seguia em frente, furioso, deixando   neles a impressão indubitável de que estavam tendo um pesadelo.  Por fim, irrompeu no escritório de Demerzel, um tanto ofegante, e berrou, literalmente berrou:

        - Demerzel!

        Demerzel levantou os olhos com um traço de surpresa e se pôs de pé devagar, pois ninguém ficava sentado na presença do imperador, a menos que fosse convidado a fazê-lo.

        - Majestade?

        O imperador pousou o holograma com força na mesa do primeiro-ministro e perguntou:

        - Que é isso? Pode me explicar o que é isso? Demerzel olhou para o holograma. Era um trabalho bem feito.

        Quase se podia ouvir o menino, que devia ter uns dez anos, pronunciar as palavras que estavam escritas abaixo da sua imagem: "Não quero ser governado por  um robô. Não quero que o Império seja governado por um robô."

        - Majestade, também recebi um holograma igual a este - disse Demerzel, calmamente.

        - Quem mais recebeu?

        - Tenho a impressão, majestade, de que se trata de um panfleto que foi distribuído em todo o planeta.

        - Quem é a pessoa para quem o menino está olhando? - perguntou o imperador, colocando o dedo indicador sobre o holograma. - É você?

        - A semelhança é notável, majestade.

        - Estou errado ao supor que o objetivo deste... deste panfleto, como você diz, é acusá-lo de ser um robô?

        - Tive a mesma impressão, majestade.

        - Os robôs não são homens mecânicos lendários, que aparecem nas histórias infantis?

        - Os mycogenianos consideram como dogma de fé, majestade, que os robôs...

        - Não estou interessado nos mycogenianos e seus dogmas de fé. Por que está sendo acusado de ser um robô?

        - É apenas uma metáfora, majestade. Querem insinuar que sou um homem sem coração, cujas decisões mais parecem ter sido tomadas por uma máquina impessoal.

        - Isso seria muito sutil, Demerzel. Eu não sou tolo. - Colocou de novo o dedo sobre o holograma. - Estão tentando fazer as pessoas acreditarem que você realmente é um robô.

        - Se as pessoas acreditarem, majestade, não há nada que possamos fazer.

        - Isso não deve acontecer. Põe em risco a dignidade do seu cargo. Pior ainda: compromete a dignidade do imperador. Sugere que eu... eu seria capaz de escolher um   homem mecânico Para meu primeiro-ministro. É intolerável. Escute, Demerzel, não existe uma lei que proíbe as pessoas de difamarem os funcionários do governo?

        - Sim, existe uma lei, majestade, e é bastante severa. Datá  do tempo da grande reforma jurídica de Aburamis.

        - E difamar a pessoa do imperador é considerado um crime capital, não é?

        - Punível com a morte, majestade. Sim.

        - Pois este holograma não ofende apenas a você, mas a mim também, e o responsável por ele devia ser executado. Naturalmente, só pode ser obra daquele Joranum.

        - Também acho, majestade, mas vai ser difícil provar.

        - Bobagem! As provas são suficientes. Quero que ele seja executado!

        - O problema, majestade, é que as leis sobre difamação raramente são aplicadas. Neste século, pelo menos, não me lembro de nenhum caso.

        - É por isso que a sociedade está se tornando tão instável e o Império está sendo abalado em suas raízes. As leis ainda estão nos livros. Basta colocá-las em prática.

        - Acha que isso seria prudente? Faria com que Vossa Majestade parecesse um tirano, um déspota. O sucesso do governo atual está justamente no fato de ser um governo   humano, esclarecido...

        - Sim, e está vendo onde chegamos. Acho que está na hora de me amarem um pouco menos e me temerem um pouco mais.

        - Recomendo que não tome nenhuma medida drástica, majestade. Poderia ser o estopim de  uma revolução.

        - Que você faria, então? Chegar para as pessoas e dizer: "Olhem para mim. Eu não sou um robô."

        - Não, majestade, porque, como disse, isso comprometeria a minha dignidade e, pior ainda, a vossa.

        - Então?

        - Não estou bem certo, majestade. Ainda não tive tempo de pensar.

        - Não teve tempo de pensar?... Entre em contato com Seldon.

        - Majestade?

        - Que há de tão difícil de entender na minha ordem? Entre em contato com Seldon.

        - Quer que eu o chame ao palácio, majestade?

        - Não, não há tempo para isso. Presumo que você possa providenciar uma linha de comunicações entre nós que seja à prova de escutas.

        - É claro, majestade.

        - Pois faça isso. Já!

        

        Seldon não tinha a mesma tranqüilidade que Demerzel, o que era natural, pois era feito apenas de carne e osso. A chamada ao escritório e o brilho súbito do campo  decodificador eram uma indicação segura de que algo fora do comum estava ocorrendo. Já falara antes em linhas protegidas, mas nunca com o Palácio Imperial.

        Esperava que algum funcionário do governo o colocasse em contato com Demerzel em pessoa. Em vista do tumulto causado pelo panfleto, não se surpreenderia com isso.

        Quando, porém, a imagem do próprio imperador, cintilando ligeiramente por causa do campo decodificador, entrou no seu escritório (ou pareceu fazê-lo), Seldon ficou   de boca aberta e não conseguiu nem levantar-se da cadeira.

        Cleon fez um gesto impaciente para que permanecesse sentado.

        - Deve estar a par do que está ocorrendo, Seldon.

        - Refere-se ao panfleto, majestade?

        - Exatamente. Que vamos fazer?

        Seldon, apesar da permissão para permanecer sentado, finalmente levantou-se.

        - O panfleto não é tudo, majestade. Joranum está organizando manifestações em todo o planeta a respeito do assunto. Pelo menos foi o que ouvi nos noticiários.

        - Eu ainda não sabia. Claro que não. Quem se daria ao trabalho de informar ao imperador?

        - Isso não é assunto para o imperador, majestade. Estou certo de que o primeiro-ministro...

        - O primeiro-ministro não está fazendo nada. Não consegue nem mesmo me manter informado. Estou recorrendo a você e a sua psico-história. Diga-me o que fazer.

        - Majestade?

        - Não Vou jogar o seu jogo, Seldon. Está trabalhando na psico-história há oito anos. O primeiro-ministro me disse que não seria aconselhável mandar prender Joranum.

        Que devo fazer, então?

        - N-nada, majestade! - gaguejou Seldon.

        - Não tem nada para me dizer?

        - Não me entendeu, majestade. Estou dizendo que não deve fazer nada. Nada! O primeiro-ministro tem toda a razão ao recomendar que não mande prender Joranum. Isso  só serviria para piorar as coisas.

        - Muito bem. O que vai servir para melhorar as coisas?

        - Não fazer nada. Nem Vossa Majestade nem o primeiro-ministro. Deixar que Joranum proceda como quiser.

        - De que forma isso vai nos ajudar?

        - Isso logo ficará claro - afirmou Seldon, tentando disfarçar o seu nervosismo.

        O imperador pareceu se acalmar subitamente, como se toda a sua raiva e indignação tivessem desaparecido.

        - Ah! Estou entendendo! Você já sabe o que vai acontecer!

        - Majestade! Não foi isso que eu...

        - Não precisa dizer mais nada. Já ouvi o suficiente. Você sabe o que vai acontecer e não está preocupado, de modo que também não preciso me preocupar. Seja como  for, ainda tenho as forças armadas. Elas me são leais e, caso haja uma insurreição, saberão como sufocá-la. Mas Vou esperar para ver se você está certo.

        A imagem do imperador desapareceu e Seldon ficou ali sentado, olhando para o espaço vazio.

        Desde aquele primeiro momento desafortunado em que mencionara  a psico-história no Congresso Decenal, oito anos antes, tivera que encarar o fato de que não possuía o que impulsivamente prometera.

        Tudo que tinha eram algumas idéias vagas e o que Yugo Amaryl chamava de intuição.

       

        Em dois dias, a cruzada de Joranum se estendera a todo o planeta, em parte por obra do líder, em parte através dos seus auxiliares. Como Hari comentou com Dors,  era uma campanha que tinha todos os sinais de eficiência militar.

        - Ele nasceu para ser um almirante da velha guarda - observou Seldon. - Sua presença na política é um desperdício.

        - Desperdício? - protestou Dors. - Do jeito que vai, será primeiro-ministro em uma semana, e, se quiser, imperador em duas semanas. Ouvi dizer que já está sendo   aclamado por algumas guarnições militares.

        Seldon sacudiu a cabeça.

        - Não vai durar muito, Dors.

        - O quê? O partido de Joranum ou o Império?

        - O partido de Joranum. A história do robô criou uma certa celeuma, especialmente porque o panfleto foi muito bem-feito, mas com o tempo a população vai  cair em si e compreender que se trata de uma acusação ridícula.

        - Hari, você se esqueceu de que está falando comigo! Essa acusação não é ridícula. Como será que Joranum descobriu que Demerzel é um robô?

        - Raych lhe contou.

        - Raych?

        - Isso mesmo. Ele fez um bom trabalho. Joranum chegou a prometer-lhe que um dia será governador do setor de Dahl.

        É claro que Joranum acreditou nele. Eu sabia que acreditaria.

        - Está me dizendo que contou a Raych que Demerzel é um robô e fez com que ele passasse a informação a Joranum? - perguntou Dors, horrorizada.

        - Não. Sabe que eu não poderia fazer isso. Não posso contar a ninguém que Demerzel é um robô. Garanti a Raych que Demerzel não é um robô, e mesmo isso foi difícil.   Passei dois dias com uma dor de cabeça daquelas. Mas pedi a Raych para dizer a Joranum que Demerzel é um robô. Ele está convencido de que mentiu.

        - Mas por que fez isso, Hari? Por quê?

        - Não foi por causa da psico-história, isso eu lhe garanto. Não cometa o mesmo erro do imperador, de achar que sou uma espécie de mágico. Tudo que queria era que   Joranum acreditasse que Demerzel é um robô. Ele nasceu em Mycogen e ouve falar em robôs desde criança. Assim, estava predisposto a acreditar e convenceu-se de que   o povo acreditaria com ele.

        - E isso não vai acontecer?

        - Não. Depois que passar o choque inicial, chegarão à conclusão de que se trata de uma acusação sem nenhum fundamento. Convenci Demerzel a fazer um pronunciamento   pela holovisão subetérica, que será visto em Trantor e outros planetas-chave do Império. Falará sobre vários assuntos, mas não sobre a acusação que pesa sobre ele.

        Existem crises suficientes no Império, você sabe, para justificar um pronunciamento desse tipo. As pessoas vão prestar muita atenção, mas não ouvirão uma única palavra   a respeito de robôs. No final, um repórter vai perguntar a Demerzel o que pensa do panfleto. Ele se limitará a rir.

        - Rir? Pensei que Demerzel não fosse capaz de rir. Na verdade, não me lembro nem de tê-lo visto sequer sorrir.

        - Desta vez, Dors, ele vai rir. É uma coisa que ninguém associa a robôs. Você já viu os robôs que aparecem nessas fantasias holográficas, não viu? São sempre mostrados  como máquinas frias, inumanas, incapazes de emoções. É isso que as pessoas esperam. Assim, Demerzel só precisa rir. Além do mais... lembra-se de Mestre do Sol Quatorze,  o líder religioso de Mycogen?

        - Claro que me lembro. Frio, inumano, incapaz de emoções. Ele também nunca ria.

        - E não vai rir desta vez. Desde aquele incidente no campus, andei investigando a vida de Joranum. Conheço seu nome verdadeiro. Sei onde nasceu, onde moram os pais,   onde estudou, e mandei tudo isso, com provas documentais, para o Mestre do Sol Quatorze. Duvido que ele goste de rebeldes.

        - Pensei que você estivesse evitando usar o preconceito como arma.

        - E estou. Se eu tivesse fornecido essa informação aos repórteres, para ser mostrada na holovisão, seria diferente. Enviei-a ao Mestre do Sol, que, afinal de contas,  é o principal interessado.

        - E que se encarregará de divulgá-la.

        - Acho que não. Mesmo que o faça, ninguém em Trantor dá importância às declarações do Mestre do Sol.

        - O que pretende conseguir com isso, então?

        - Ainda não sei ao certo, Dors. Não disponho de uma análise psico-histórica da situação. Nem mesmo sei se ela é possível. Só espero que minha intuição esteja certa.

       

        Eto Demerzel estava rindo.

        Não era a primeira vez. Estava ali sentado, com Hari Seldon e Dors Venabili, em uma sala à prova de escuta, e de vez em quando, a um sinal de Hari, começava a rir.

        Tinha experimentado jogar a cabeça para trás e dar uma sonora gargalhada, mas Seldon meneara a cabeça em sinal de desaprovação.

        - Está muito pouco convincente.

        Por isso, Demerzel apenas sorriu e depois riu baixinho, com dignidade. Seldon fez uma careta.

        - Estou perplexo - afirmou. - Não adianta lhe contar piadas. Você entende onde está a graça, mas apenas intelectualmente. Terá que memorizar o som de uma risada, e pronto.

        - Por que não usamos uma claque holográfica? - sugeriu Dors.

        - Nada disso! Nesse caso, não seria Demerzel, e sim um bando de idiotas pagos para rir. Não é isso que eu quero. Tente de novo, Demerzel.

        Demerzel tentou mais algumas vezes, até que Seldon disse:

        - Muito bem. Agora, memorize o som e tente reproduzi-lo quando lhe fizerem a pergunta. Procure parecer surpreso. Não deve reproduzir o som de riso com uma cara séria.

        Sorria um pouquinho, só um pouquinho. Levante o canto da boca. - Os lábios de Demerzel se afastaram lentamente. - Nada mau. Pode fazer seus olhos faiscarem?

        - Como assim? - protestou Dors, indignada. - Ninguém faz os olhos faiscarem. É apenas uma expressão metafórica.

        - Está enganada - disse Seldon. - Quando os olhos ficam úmidos, por causa de uma sensação de dor, alegria, surpresa, o que seja... a luz se reflete neles de forma   diferente.

        - Você espera seriamente que Demerzel seja capaz de chorar?

        - Meus olhos produzem lágrimas para fins de limpeza - informou Demerzel. - Nunca em excesso, porém. Talvez, se eu imaginar que meus olhos estão ligeiramente irritados...

        - Experimente - disse Seldon. - Não custa tentar.

        E foi assim que quando o pronunciamento por uma rede de holovisão terminou e as palavras estavam sendo enviadas subetericamente para milhões de planetas a uma velocidade milhares de vezes maior que a da luz - palavras que eram sérias, objetivas, informativas e sem adornos de retórica... e que falavam de tudo, exceto robôs - Demerzel  colocou-se à disposição dos repórteres para possíveis perguntas.

        Não teve que esperar muito tempo. Logo a primeira pergunta foi:

        - Sr. primeiro-ministro, o senhor é um robô?

        A princípio, Demerzel se limitou a olhar para o repórter, deixando a tensão se acumular. Depois, sorriu, balançou ligeiramente  o corpo e começou a rir. Não era uma gargalhada barulhenta, mas um riso franco, profundo, o riso de alguém que está apreciando um momento de fantasia. Era contagiante.

        A platéia riu com ele.

        Demerzel esperou que os risos cessassem e perguntou, olhando para a câmara com olhos faiscantes:

        - Será que preciso responder?

       

        - Tenho certeza de que funcionou - disse Seldon. - Naturalmente, os resultados não serão instantâneos, mas tudo indica que a situação está evoluindo na direção desejada.

        Quando interrompi o comício de Namarti no campus da universidade, a multidão estava com ele até que mostrei claramente que não estava com medo, apesar de me encontrar  em inferioridade numérica. Imediatamente, passaram para o meu lado.

        - Acha que esta situação é análoga? - perguntou Dors, em tom de quem não estava convencida.

        - Naturalmente. Já que não tenho a psico-história, é melhor começar a usar as analogias e o meu cérebro. Ali estava o primeiro-ministro, encurralado pelos seus acusadores,  e enfrentou a situação com um sorriso e uma risada, uma reação totalmente inesperada para um robô, e que, portanto, constituía em si mesma uma resposta à pergunta. É claro que ele conquistou a simpatia da audiência. Nada poderia impedir isso. Entretanto, é apenas o começo. Temos que esperar para saber o que o Mestre do Sol Quatorze tem a dizer.

        - Acredita que ele também vai nos ajudar?

        - Tenho certeza.

       

        O tênis não era um esporte heliconiano e Hari Seldon jamais o praticara. Ele controlou a impaciência, portanto, e observou com interesse o imperador Cleon atravessar  a quadra, com passos largos, para devolver a bola.

        Na verdade, o que estavam jogando era Tênis Imperial, assim chamado porque se tratava de um dos esportes favoritos dos imperadores, uma versão do jogo que utilizava   uma raquete computadorizada, capaz de alterar ligeiramente o ângulo dos golpes em resposta a uma pequena pressão no cabo. Dors Venabili uma vez tentara mostrar  a Seldon como era o jogo, colocando uma raquete em sua mão e fazendo-o rebater uma bola. Seldon achara o esporte muito difícil; a bola rebatida por ele tinha ido  parar fora da quadra. Era evidente que seriam necessários anos de treinamento para que jogasse razoavelmente bem.

        Cleon colocou a bola fora do alcance do adversário e ganhou a partida. Trotou para fora da quadra, aplaudido pelos espectadores, e Seldon lhe disse:

        - Parabéns, majestade. Jogou muito bem.

        - Acha mesmo, Seldon? - disse Cleon, com indiferença. - Eles sempre me deixam ganhar. Não tem muita graça.

        - Nesse caso, majestade, poderia ordenar que se empenhassem mais - observou Seldon.

        - Isso não iria adiantar. Eles perderiam da mesma forma. E se ganhassem, eu acharia ainda menos graça do que ganhando sem merecer. Ser imperador tem suas desvantagens,  Seldon. Joranum chegaria a essa conclusão se conseguisse chegar onde estou.

        Desapareceu no vestiário imperial e voltou algum tempo depois, de banho tomado, usando trajes mais formais.

        - Seldon - disse, ordenando aos outros, com um gesto, que se afastassem, - a quadra de tênis é um lugar discreto e está fazendo um dia maravilhoso, de modo que  prefiro conversar com você aqui fora. Li a mensagem escrita por esse tal de Mestre do Sol Quatorze. Acha que vai fazer efeito?

        - Certamente, majestade. Como teve oportunidade de ler, Joranum é acusado de ser um mycogeniano rebelde, que traiu  seu próprio povo.

        - Isso vai acabar com ele?

        - Seu prestígio ficará seriamente abalado, majestade. Atualmente, ninguém mais acredita naquela história maluca de que o primeiro-ministro é um robô. Além disso,

        Joranum passou a ser considerado como um mentiroso, um impostor e, pior que tudo, alguém que foi pego em suas mentiras.

        - Alguém que foi pego, isso mesmo - observou Cleon, pensativamente. - Está querendo dizer que usar de meios tortuosos pode ser sinal de esperteza e portanto pode   ser motivo de admiração, mas ser apanhado é sinal de burrice, e portanto jamais pode ser motivo de admiração.

        - Tem um notável poder de síntese, majestade.

        - Quer dizer que Joranum não oferece mais perigo.

        - É cedo para dizer, majestade. Pode ser que consiga se recuperar. Ainda dispõe de uma organização e de seguidores fiéis. A história está cheia de exemplos de homens   e mulheres que sobreviveram a reveses como esse, ou piores.

        - Nesse caso, talvez seja melhor mandar executá-lo, Seldon.

        Seldon sacudiu a cabeça.

        - Seria uma atitude irrefletida, majestade. Não queremos criar um mártir, ou que Vossa Majestade fique parecendo um  déspota.

        Cleon franziu a testa.

        - Você está falando como Demerzel. Sempre que me decido a tomar uma atitude, ele murmura: "déspota". Houve imperadores antes de mim que recorreram à força sempre   que necessário e foram apreciados por isso.

        - Sem dúvida, majestade, mas vivemos tempos difíceis. Além disso, seria uma execução inteiramente desnecessária. Podemos nos livrar de Joranum de uma forma que fará   Vossa Majestade parecer um soberano esclarecido e benevolente.

        - Parecer esclarecido?

        - Mostrar que é esclarecido, majestade. Desculpe se não soube me expressar. Executar Joranum seria uma forma de vingança,  o que a população talvez não encarasse com simpatia. Como imperador, porém, Vossa Majestade tem uma atitude bondosa, e mesmo paternal, em relação aos credos de  todos os segmentos da sociedade, pois, no final de contas, são todos seus súditos.

        - Aonde quer chegar?

        - O que estou querendo dizer, majestade, é que Joranum ofendeu a dignidade dos mycogenianos e Vossa Majestade ficou horrorizado com o sacrilégio que ele cometeu.

        Que melhor solução do que entregar Joranum aos mycogenianos para que seja punido? Vossa Majestade será aplaudido por respeitar a fé de uma população humilde.

        - E os mycogenianos o executariam?

        - Talvez. As leis contra a blasfêmia são muito severas. No mínimo, será condenado à prisão perpétua com trabalhos forçados.

        Cleon sorriu.

        - Excelente. Fico com a fama de ser um imperador tolerante e esclarecido e eles fazem o serviço sujo.

        - E realmente fariam, majestade, se Joranum fosse entregue a eles. Entretanto, isso não deixaria de criar um mártir.

        - Agora me deixou confuso. O que está sugerindo que eu faça?

        - Deixe Joranum escolher. Diga que ele deveria ser entregue aos mycogenianos para ser julgado, em nome do bem-estar dos súditos do Império, mas que Vossa Majestade,   um soberano de bom coração, teme que o castigo imposto por eles seja muito severo. Assim, ofereça a ele a opção de ser enviado para Nishaya, o pequeno e obscuro   planeta no qual alega ter nascido, onde poderá levar uma vida de obscuridade e paz. Naturalmente, Vossa Majestade providenciará para que seja bem vigiado.

        - Acha que isso resolverá tudo?

        - Com toda a certeza. Joranum estaria praticamente decretando a própria sentença de morte se escolhesse voltar para Mycogen, e não acho que tenha tendências suicidas.  Garanto que vai escolher Nishaya, o que, embora seja a opção mais segura, o deixará muito longe dos centros de poder. Como exilado em Nishaya nunca mais terá a oportunidade  de liderar um movimento revolucionário. Os seguidores o abandonarão. Poderiam lutar  pela memória de um mártir com um ideal sagrado, mas não lutarão para defender um covarde.

        - Espantoso! Como conseguiu planejar isso tudo, Seldon? - perguntou o imperador, visivelmente impressionado.

        - Majestade, era razoável supor...

        - Esqueça - interrompeu Cleon. - Duvido que me conte a verdade; mesmo que decidisse fazê-lo, não conseguiria acompanhar o seu raciocínio. Prefiro tratar de outro  assunto. Demerzel vai deixar o cargo. Esta última crise o deixou extenuado e concordo com ele que está na hora de se aposentar. Por outro lado, não posso passar  sem um primeiro-ministro. Sendo assim, a partir de agora, você é o novo primeiro-ministro.

        - Majestade! - exclamou Seldon, com um misto de surpresa e horror.

        - Primeiro-ministro - repetiu Cleon, com toda a calma.

        - É a vontade do imperador.

       

        - Não fique assustado - disse Demerzel. - A idéia foi minha. Já fiquei no cargo tempo demais e a sucessão de crises atingiu o ponto em que as Quatro Leis me deixam  paralisado. Você é a pessoa mais indicada para ser meu sucessor.

        - Eu não sou a pessoa mais indicada - protestou Seldon, irritado. - O que sei a respeito de administrar um Império? O imperador pensa que resolvi esta crise usando   a psico-história. Você sabe que não é verdade.

        - Isso não importa. Se ele acredita que você conhece as respostas para tudo através da psico-história, confiará cegamente em você, o que o tornará um ótimo primeiro-ministro.

        - E se eu não corresponder ao que ele espera de mim?

        - Tenho certeza de que o bom senso... ou intuição... o manterão no rumo certo, com ou sem a psico-história.

        - Mas o que farei sem você... Daniel?

        - Obrigado por me chamar assim. Não sou mais Demerzel, mas apenas Daneel. Quanto ao que fará sem mim... Que tal começar a pôr em prática algumas das idéias de Joranum  quanto à igualdade e a justiça social? Pode ser que ele não estivesse sendo sincero; pode ser que as usasse apenas para conseguir o apoio da população; a verdade,  porém, é que muita coisa que ele pregava faz sentido. E procure se valer da ajuda de Raych sempre que possível. Ele permaneceu leal a você, embora se sentisse atraído   pelas idéias de Joranum, e deve estar se sentindo quase como um traidor. Mostre a ele que fez a escolha certa. Além disso, você terá uma excelente oportunidade de desenvolver a psico-história, pois contará com todo o apoio do imperador.

        - E quanto a você, Daneel? O que vai fazer?

        - A galáxia é muito grande. A Lei Zero me impele a trabalhar para o bem da humanidade, onde quer que me encontre. E, Hari...

        - Sim, Daneel?

        - Você ainda tem Dors. Seldon assentiu.

        - Ainda tenho Dors.

        Sem dizer mais nada, o robô se afastou, a veste pesada de ministro farfalhando enquanto ele atravessava, de cabeça erguida, o corredor do palácio.

        Seldon ficou onde estava por alguns minutos, perdido em seus pensamentos. De repente, teve um sobressalto e se dirigiu, a passos rápidos, para os aposentos do primeiro-ministro.

        Tinha mais uma coisa para dizer a Daneel... a mais importante de todas.

        Chegou à ante-sala, iluminada por uma luz suave, e hesitou por um instante. Quando entrou, finalmente, constatou que não havia ninguém no quarto. A veste negra estava  sobre uma cadeira. As paredes do apartamento do primeiro-ministro ecoaram as últimas palavras de Hari para o robô:

        - Adeus, meu amigo.

        Eto Demerzel não existia mais; . Daneel Olivaw desaparecera.

       

        CLEONI

        CLEONI- ...Embora freqüentemente receba elogios por ter sido o último imperador em cujo governo o Primeiro Império Galáctico foi razoavelmente unido e próspero,  o reinado de um quarto de século de Cleon I se caracterizou por uma contínua decadência. Não se pode atribuir ao monarca uma responsabilidade direta pelo fato, já  que o Declínio do Império se deveu a fatores políticos e econômicos impossíveis de serem combatidos com os recursos disponíveis na época. Na verdade, foi muito  feliz na escolha dos primeiros-ministros: primeiro Eto Demerzel e depois Hari Seldon. O imperador sempre acreditou que este último usaria a psico-história com sucesso  para formular suas estratégias de governo. Cleon e Seldon enfrentaram juntos a conspiração dos joranumitas, que teve um desfecho inesperado...

        ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

       

        Mandell Gruber era um homem feliz. Pelo menos, dava essa impressão a Hari Seldon. Seldon interrompeu os exercícios matinais para observá-lo.

        Gruber, que aparentava ter quarenta e tantos anos, ou seja, alguns anos a menos que Seldon, estava com a pele um pouco envelhecida pelo trabalho ao ar livre, mas  tinha uma cara limpa, jovial, encimada por cabelos ruivos, muito ralos, que deixavam quase totalmente à mostra o couro cabeludo rosado. Ele assoviava baixinho enquanto  examinava as folhas dos arbustos, em busca de sinais de insetos daninhos.

        Ele não era o jardineiro-chefe, é claro. O jardineiro-chefe do Palácio Imperial era um alto funcionário que ocupava um escritório em um dos edifícios do gigantesco  complexo palaciano, comandando um exército de homens e mulheres. Era provável que não pisasse nos jardins mais que uma ou duas vezes por ano.

        Gruber pertencia àquele exército. Seu cargo, Seldon sabia, era Jardineiro de Primeira Classe, e bem merecido, depois de quase trinta anos de serviços bem prestados.

        Quando ele parou no caminho de cascalho perfeitamente plano, Seldon lhe disse:

        - Mais um dia perfeito, Gruber.

        Gruber olhou para ele e seus olhos brilharam.

        - É verdade, primeiro-ministro. Tenho pena dos que passam o dia trancados em um escritório.

        - Como eu, por exemplo.

        - Tem uma vida invejável, primeiro-ministro, mas se vai  desaparecer no interior de um edifício em um dia como este, não posso deixar de sentir pena do senhor.

        - Agradeço pela simpatia, Gruber, mas sabe muito bem que quarenta bilhões de trantorianos passam a vida inteira debaixo da cúpula. Tem pena de todos eles?

        - Tenho, sim. Ainda bem que não nasci em Trantor e por isso consegui este cargo de jardineiro. Poucas pessoas neste planeta trabalham ao ar livre, mas sou um desses   poucos afortunados.

        - O tempo nem sempre está tão bonito.

        - Isso é verdade. Tenho que ficar aqui mesmo quando está chovendo torrencialmente ou o vento ameaça me carregar. Mesmo assim, contanto que se esteja vestido adequadamente...

        Veja. - Gruber abriu os braços, em um gesto amplo como o seu sorriso, como se quisesse mostrar toda a extensão dos jardins imperiais. - Tenho meus amigos, as árvores,   os gramados e todos os pequenos animais para me fazer companhia, e jardins para manter em formas geométricas, mesmo no inverno. Já reparou na geometria dos jardins,   primeiro-ministro?

        - Estou olhando para eles agora, não estou?

        - Estou falando na planta geral dos jardins, que é maravilhosa. Eles foram projetados por Tapper Savand há mais de trezentos anos e mudaram muito pouco desde aquela  época. Tapper foi um grande paisagista, o maior de todos... e é meu conterrâneo.

        - Você nasceu em Anacreon?

        - Isso mesmo. Um planeta localizado nos confins da galáxia, onde a natureza ainda é preservada e a vida pode ser doce. Vim para cá ainda rapaz, quando o atual jardineiro-chefe   foi contratado pelo antigo imperador. Hoje estão falando em reformar os jardins. - Gruber suspirou fundo e balançou a cabeça. - Isso seria um grande erro. Estão   ótimos do jeito que são, bem proporcionados, agradáveis aos olhos e ao espírito. Mas é verdade que, no passado, os jardins foram reformados várias vezes. Os imperadores   logo se cansam do que é antigo e estão sempre em busca de novidades, como se o novo fosse sempre melhor. Nosso atual imperador, que tenha vida longa, está planejando  uma reforma com o jardineiro-chefe. Pelo menos, é o que corre entre os jardineiros. - Disse a última frase rapidamente, como se estivesse envergonhado de repetir  os mexericos palacianos.

        - Pode ser que a reforma ainda demore.

        - Espero que sim, primeiro-ministro. Por favor, se tiver uma chance, o que não deve ser fácil para um homem ocupado como o senhor, dê uma olhada na planta dos jardins.

        É uma obra de rara inspiração. Se dependesse de mim, não tirariam uma folha que fosse do seu lugar, nem uma flor, nem um coelho, em todas essas centenas de quilômetros quadrados.

        Seldon sorriu.

        - É um homem dedicado, Gruber. Não ficarei surpreso de um dia for nomeado jardineiro-chefe.

        - Espero que não. O jardineiro-chefe não respira ar puro, não tem tempo para apreciar a beleza das flores e esquece tudo que aprendeu da natureza. Ele mora ali, apontou Gruber, com uma expressão de desdém - e acho que não sabe mais distinguir um arbusto de um regato, a menos que um dos assistentes o leve para fora e ponha sua mão em um ou a mergulhe no outro.

        Por um momento, parecia que Gruber iria cuspir no chão em sinal de desprezo, mas não encontrou nenhum lugar para depositar sua saliva. Seldon começou a rir.

        - Grubei, gosto de conversar com você. Quando estou assoberbado com as tarefas do dia, é bom tirar alguns momentos para escutar a sua filosofia de vida.

        - Ah, primeiro-ministro, não sou nenhum filósofo. Não tenho estudo para isso.

        - Ninguém precisa de estudo para ser um filósofo. Basta uma mente ativa e muita experiência de vida. Tome cuidado, Gruber. Posso me sentir tentado a promovê-lo.

        - Se me deixar como estou, primeiro-ministro, terá minha eterna gratidão.

        Seldon estava sorrindo quando se despediu do jardineiro, mas o sorriso desapareceu no momento em que seus pensamentos se voltaram para os problemas do dia-a-dia.

        Dez anos como primeiro-ministro... se Gruber soubesse como Seldon estava farto do cargo que ocupava, sua simpatia atingiria proporções astronômicas.

        O jardineiro seria capaz de compreender o fato de que o progresso de Seldon no terreno da psico-história ameaçava colocá-lo diante de um dilema insuperável?

       

        O passeio de Seldon pelos jardins do palácio era o epitome da paz. Difícil acreditar, ali no meio dos domínios imediatos do imperador, que estava em um planeta quase  totalmente coberto por uma cúpula. Ali, naquele lugar, era como se estivesse no planeta natal, Helicon, ou em Anacreon, o planeta de Gruber.

        Naturalmente, a sensação de paz era ilusória. Os jardins eram guardados... muito bem guardados.

        Antigamente, no passado remoto, os jardins do Palácio Imperial, muito menos sofisticados, muito menos contrastantes com um planeta que apenas começava a construir   cúpulas em regiões limitadas, eram abertos a todos os cidadãos e o imperador podia caminhar pelas alamedas, desacompanhado, cumprimentando os súditos com um gesto   de cabeça.

        Isso era coisa do passado. Agora, havia guardas armados e nenhum habitante de Trantor podia entrar nos jardins sem permissão. Isso, porém, não eliminava o perigo,  pois este estava principalmente nos funcionários descontentes e nos soldados corruptos e  subornáveis. O perigo para o imperador e seus ministros estava do lado de  dentro do palácio, e não do lado de fora. O que teria acontecido se, naquela ocasião, quase dez anos antes, Seldon não estivesse acompanhado por Dors Venabili?

        Tinha sido no seu primeiro ano como primeiro-ministro e era natural, supunha agora, que sua inesperada escolha para o cargo gerasse ressentimentos. Outros pretendentes, que se julgavam mais bem qualificados, por terem mais experiência, por terem mais anos de serviço e, acima de tudo, por terem uma opinião muito lisonjeira a respeito de si próprios, haviam ficado indignados com a nomeação de Seldon.

        Eles não tinham conhecimento da psico-história ou da importância que o imperador atribuía a essa ciência, e a maneira mais simples de corrigir a situação era subornar  um dos homens que havia jurado proteger o primeiro-ministro.

        Dors talvez fosse naturalmente mais desconfiada do que Seldon. Ou talvez, antes de desaparecer de cena, Demerzel a tivesse instruído para vigiar de perto o novo   primeiro-ministro. Fosse como fosse, depois que Seldon assumira o cargo, a moça passava quase todo o tempo a seu lado.

        E foi na tarde de um dia quente e ensolarado que Dors vislumbrou o reflexo do sol (um sol que nunca era visto no interior da cúpula de Trantor) no metal de uma pistola.

        - Abaixe-se, Hari! - gritou, e seus pés devoraram a grama quando correu em direção ao sargento.

        - Passe-me essa pistola! - ordenou, em tom imperioso.

        O pretenso assassino, imobilizado temporariamente pela visão de uma mulher correndo em sua direção, tentou reagir, apontando a pistola para Dors. A moça, porém,   segurou-lhe com força o pulso direito e levantou-lhe o braço.

        - Largue - disse, por entre dentes cerrados.

        O sargento fez uma careta e tentou livrar o braço.

        - Não faça isso, sargento - advertiu Dors. - Meu joelho está a cinco centímetros da sua virilha. Se mover um músculo, seu equipamento genital será coisa do passado.  Fique bem quietinho. Isso mesmo. Agora, abra a mão. Se não deixar cair a pistola agora, quebro o seu braço.

        Um jardineiro chegou correndo com um ancinho na mão, mas Dors fez um gesto para que se mantivesse a distância. A pistola caiu no chão.

        Seldon também se aproximou.

        - Deixe comigo, Dors.

        - Nada disso. Esconda-se atrás daquelas árvores e leve a Pistola com você. Pode haver outros conspiradores por perto.

        Dors continuava segurando o pulso do sargento. Ela disse:

        - Agora, sargento, quero o nome da pessoa que o persuadiu a atentar contra a vida do primeiro-ministro, e o nome dos outros cúmplices.

        O sargento permaneceu calado.

        - Não seja tolo - disse Dors. - Fale! - Torceu-lhe o braço e o sargento caiu de joelhos. A moça encostou o bico do sapato no seu pescoço. - Se aprecia o silêncio,   posso esmagar-lhe a laringe e ficará em silêncio para sempre. É melhor falar.

        O sargento falou.

        Mais tarde, Seldon lhe disse:

        - Como pôde fazer isso, Dors? Nunca pensei que fosse capaz de tal, tal... violência.

        - Na verdade, eu não machuquei o homem, Hari. A ameaça foi suficiente. De qualquer forma, o mais importante era a sua segurança.

        - Devia ter deixado que eu cuidasse dele.

        - Para quê? Para não ferir o seu orgulho masculino? Para começar, você não teria sido suficientemente rápido. Afinal, já não é tão jovem. Em segundo lugar, fizesse   você o que fizesse, ninguém se admiraria, porque você é homem. Sou mulher, e as mulheres não são consideradas tão agressivas quanto os homens. Além disso, poucas   têm força suficiente para fazer o que fiz. Quando contarem a história, certamente vão exagerar. Ninguém mais terá coragem de atentar contra a sua vida. Terão medo  de mim.

        - Medo de você e de serem executados. O sargento e seus cúmplices foram condenados à morte, você sabe.

        O rosto normalmente tranqüilo de Dors assumiu uma expressão angustiada, como se não pudesse aceitar a execução do sargento traidor, mesmo sabendo que ele seria  capaz de assassinar seu amado Hari sem pensar duas vezes.

        - Não há necessidade de executar os conspiradores - protestou. - O exílio seria suficiente.

        - É tarde demais para discutir a questão - afirmou Seldon. - Cleon já se decidiu pela pena de morte. Não que eu não tenha tentado dissuadi-lo.

        - Quer dizer que conversaram a respeito?

        - É claro. Eu disse a Cleon que bastava prendê-los ou desterrá-los, mas ele se recusou a me atender. Ele disse: "Sempre que tento resolver um problema através de  uma medida simples e direta, alguém tem que me acusar de despotismo e tirania. Primeiro foi Demerzel; agora é você. Acontece que este palácio é meu. Estes jardins  são meus. Estes guardas são meus. Minha segurança depende da segurança deste lugar e da lealdade do meu povo. Acha que uma traição como a que acabamos de assistir  pode ser punida com algo menos que a morte? De que outra forma podemos garantir a sua segurança? De que outra forma podemos garantir a minha segurança?"

        "Argumentei que eles não podiam ser condenados sem julgamento. "Tem razão", concordou. "Serão submetidos a um julgamento sumário, e ai do juiz que não votar pela  execução. Vou deixar isso bem claro."

        Dors parecia horrorizada.

        - Você está aceitando isso muito passivamente. Concorda com o imperador?

        Seldon fez que sim com a cabeça, relutante.

        - Concordo.

        - Porque foi um atentado contra a sua vida. Trocou seus princípios pela vingança?

        - Você me conhece, Dors. Não sou uma pessoa vingativa. Entretanto, não era apenas eu que estava em perigo, muito menos o imperador. Se há alguma coisa que a história   recente no Império nos mostra, é que os imperadores não duram muito tempo no poder. É a psico-história que deve ser protegida. Mesmo que alguma coisa me aconteça,   a psico-história um dia será desenvolvida, mas o Império está decaindo rapidamente e não temos muito tempo. Sou a única pessoa capaz de obter as técnicas necessárias   a tempo de evitar o pior.

        - Talvez você devesse transmitir o que sabe a outras pessoas - sugeriu Dors, muito séria.

        - É o que estou fazendo. Yugo Amaryl seria um substituto razoável, e reuni um grupo de especialistas competentes, mas... eles não são... não são... - ele interrompeu  a frase no meio.

        - Não são tão bons quanto você, tão capazes, tão inteligentes? É isso que pensa?

        - É o que penso - concordou Seldon. - Acontece que sou humano. Fui eu que criei a psico-história e, se for possível, quero que todos saibam disso.

        - Humano - suspirou Dors, sacudindo a cabeça, quase tristemente.

        Os conspiradores foram executados. Há mais de um século que não se ouvia falar de um expurgo daqueles. Dois conselheiros, cinco oficiais e quatro soldados, entre   eles o infeliz sargento. Todos os guardas considerados suspeitos foram enviados para outros planetas.

        Desde aquele dia, ninguém mais se atrevera a conspirar contra o governo e tão notório se tornara o cuidado com que o primeiro-ministro era protegido, para não falar  da prodigiosa mulher que zelava por ele, que Dors não teve mais necessidade de acompanhá-lo o tempo todo. Sua presença invisível já era uma proteção adequada, e o  imperador Cleon desfrutou de quase dez anos de tranqüilidade e de absoluta segurança.

        Agora, porém, a psico-história estava finalmente chegando ao ponto em que se tornava possível fazer algumas previsões, e quando Seldon cruzou o jardim para passar   do escritório de primeiro-ministro para o laboratório de psico-historiador, sabia muito bem que aquela era de paz estava provavelmente chegando ao fim.

       

        Mesmo assim, Hari Seldon não pôde deixar de sentir uma ponta de satisfação quando entrou no laboratório. Como as coisas tinham mudado!

        Tudo começara vinte anos antes, com as primeiras tentativas desajeitadas em um computador heliconiano de segunda. Tinha sido naquela época que tivera a primeira   visão distante do que seria mais tarde conhecido como a matemática para-caótica.

        Depois, vieram os anos na Universidade de Streeling, quando ele e Yugo Amaryl, trabalhando juntos, tentaram renormalizar as equações, livrar-se de infinitos incômodos  e descobrir uma forma de contornar os piores efeitos caóticos. O progresso, porém, tinha sido muito pequeno.

        Agora, depois de dez anos como primeiro-ministro, dispunha de um andar inteiro de computadores de última geração e uma equipe completa de especialistas trabalhando   em uma grande variedade de problemas.

        Naturalmente, nenhum dos membros da equipe, com exceção de Yugo, conhecia mais do que o problema específico que lhe tinha sido proposto. Cada um deles trabalhava   apenas em um pequeno vale ou pico da gigantesca cadeia de montanhas de psico-história, que apenas Seldon e Amaryl eram capazes de ver como uma cadeia de montanhas.

        Eles próprios podiam divisá-la apenas vagamente, os picos escondidos pelas nuvens, as encostas envoltas na neblina.

        Dors Venabili estava certa, é claro. Já era tempo de revelar à equipe a verdadeira extensão do mistério. Dois homens não eram suficientes para analisar todas as   implicações das novas descobertas. Além disso, Seldon estava envelhecendo. Mesmo que pudesse trabalhar durante mais algumas décadas, seu período de maior criatividade   certamente tinha ficado para trás.

        O próprio Amaryl faria 39 anos no mês seguinte. Embora ainda fosse relativamente moço, não era tão jovem assim para um matemático, e estava trabalhando no problema   quase há tanto tempo quanto Seldon. Sua capacidade de contribuir com novas idéias também devia estar se esgotando.

        Amaryl o tinha visto entrar e estava se aproximando. Seldon olhou para ele com carinho. Amaryl era tão dahlita quanto Raych, o filho adotivo de Seldon, mas não   se parecia em nada com um dahlita típico. Não usava bigode, não tinha sotaque, nem mesmo se considerava um dahlita. Mostrara-se indiferente à pregação  de Jo-Jo Joranum, que afetara de forma tão profunda a população de Dahl.

        Era como se Amaryl não tivesse vínculos com o seu setor, nem com o seu planeta, nem mesmo com o Império. Ele pertencia, total e exclusivamente, à psico-história.

        Seldon sentiu uma ponta de inveja. Ele próprio tinha uma consciência muito nítida de que passara as primeiras três décadas de vida em Helicon e não podia deixar   de considerar-se um heliconiano. Imaginou se essa consciência não prejudicaria suas análises psico-históricas. Para usar a psico-história de forma apropriada, era   preciso colocar-se acima de setores e planetas e lidar apenas com a raça humana, o que era exatamente o que Amaryl fazia.

        E o que ele próprio não fazia, admitiu para si mesmo, com um suspiro de resignação.

        - Nós estamos fazendo progresso, Hari, suponho.

        - Você supõe, Yugo? Simplesmente supõe?

        - Não quero sair da minha nave sem um traje espacial. - Ele disse aquilo muito sério (não tinha muito senso de humor, pensou Seldon) e os dois entraram no escritório   que compartilhavam. Era pequeno, mas bem protegido contra aparelhos de escuta.  Amaryl sentou-se e cruzou as pernas. Ele disse:

        - Seu último método para contornar o problema do caos parece estar funcionando... com algum sacrifício da precisão, é claro.

        - É claro. O que ganhamos na reta, perdemos nos desvios. É assim que o universo funciona. O que temos de fazer é arranjar um jeito de tapeá-lo.

        - Já conseguimos tapeá-lo um pouquinho. É como olhar por uma janela embaçada.

        - Melhor que os anos que passamos tentando olhar por uma janela fechada.

        Amaryl murmurou alguma coisa consigo mesmo e depois, disse:

        - Podemos distinguir algumas formas.

        - Explique!

        - Não posso, mas tenho o Primeiro Radiante, no qual venho trabalhando como um... como um...

        - Como um lamec. É um animal, uma besta de carga, que temos em Helicon. Não existe em Trantor.

        - Se o lamec trabalha duro, é assim que tem sido o meu trabalho com o Primeiro Radiante.

        Amaryl apertou o fecho de segurança da escrivaninha e uma gaveta se abriu silenciosamente.

        Tirou da gaveta um cilindro opaco, de cor escura, que Seldon observou com interesse. Seldon projetara os circuitos do Primeiro Radiante, mas Amaryl se encarregara   de construir o aparelho. Amaryl era muito habilidoso para aquele tipo de trabalho.

        O escritório ficou escuro e equações e relações brilharam no ar. Números se espalharam abaixo delas, adejando pouco acima do tampo da escrivaninha, como se estivessem   suspensos por fios invisíveis.

        - Excelente - observou Seldon. - Algum dia, se vivermos o suficiente, veremos o Primeiro Radiante produzir um rio de símbolos matemáticos que traçará a história   passada e futura. Nele, poderemos encontrar correntes e torvelinhos e descobrir maneiras de mudá-los de forma a obter novos padrões, mais desejáveis.

        - Isso - disse Amaryl, secamente - se conseguirmos conviver com a idéia de que as ações que tomarmos, com a melhor das intenções, poderão ter trágicas conseqüências.

        - Acredite, Yugo, jamais Vou para a cama sem que me ocorra uma idéia parecida. Acontece, porém, que esse dia ainda não chegou. Tudo que temos é isto... que, nas   suas palavras, equivale a enxergar algumas formas através de uma janela embaçada.

        - É verdade.

        - E o que acha que está vendo, Yugo? - Seldon observou Amaryl com olhar crítico. Tinha ganho um pouco de peso, estava ficando roliço. Passava tempo demais trabalhando   nos computadores (e agora no Primeiro Radiante) e quase não fazia exercícios físicos. E embora tivesse tido algumas namoradas, nunca se casara. Um erro! Mesmo  um homem fanático pelo trabalho é forçado a tirar algum tempo de folga para atender à esposa, para dedicar-se aos filhos.

        Seldon pensou na sua silhueta esguia e na maneira como Dors se esforçava para conservá-la assim.

        - O que estou vendo? O que estou vendo é que o Império não vai nada bem - disse Amaryl.

        - Há muito tempo que o Império não vai bem.

        - É verdade, mas desta vez trata-se de algo mais específico. A própria integridade do Império está ameaçada.

        - Trantor corre perigo?

        - Pode ser. Ou a Periferia. Ou a situação vai degenerar aqui, levando talvez a uma guerra civil, ou as províncias exteriores vão se rebelar.

        - Não precisamos da psico-história para reconhecer essas possibilidades.

        - O interessante é que parecem ser mutuamente exclusivas. Ou uma ou a outra. A probabilidade de que ambas ocorram é muito pequena. Aqui! Olhe! A matemática é sua. Observe!

        Os dois examinaram o Primeiro Radiante durante um longo tempo. Afinal, Seldon comentou:

        - Não entendi por que as duas possibilidades são mutuamente exclusivas.

        - Nem eu, Had, mas de que adiantaria a psico-história se nos mostrasse apenas coisas que somos capazes de deduzir por outros meios? Ela está nos indicando uma coisa  imprevista. Entretanto, fica faltando saber duas coisas. Primeiro: qual das duas alternativas é a melhor? Segundo: o que podemos fazer para aumentar a probabilidade   de que a melhor alternativa se concretize?

        - Eu sei qual é a melhor alternativa - afirmou Seldon. - Perder a Periferia e conservar Trantor.

        - Tem certeza?

        - Tenho. Afinal de contas, estamos aqui, não estamos?

        - Não está querendo dizer que nossa escolha deve se basear em interesses pessoais...

        - Não, mas a psico-história deve ser preservada a todo custo. De que adiantará salvar a Periferia, se as condições em Trantor nos forçarem a interromper a nossa   pesquisa? Não digo que fôssemos  assassinados, mas talvez nos impedissem de trabalhar. Nosso destino depende do desenvolvimento da psico-história. Se a Periferia se rebelar, isso apenas dará  início a um processo de desintegração, que levará muito tempo para chegar à parte central  do Império.

        - Mesmo que esteja certo, Hari, o que devemos fazer para salvar Trantor?

        - Para começar, temos de pensar a respeito. Depois de alguns momentos, Seldon rompeu o silêncio:

        - Acaba de me ocorrer uma idéia desanimadora. E se o Império estiver no caminho errado? E se sempre tiver estado no caminho errado? Fico com essa impressão toda   vez que converso com Gruber.

        - Quem é Gruber?

        - Mandell Gruber. Um jardineiro.

        - Ah. Aquele que chegou correndo com um ancinho para defendê-lo, no dia do atentado.

        - Esse mesmo. Nunca me esquecerei do que fez. Afinal de contas, mostrou-se disposto a enfrentar um número desconhecido de atacantes, presumivelmente armados com   pistolas, para tentar salvar minha vida. Isso é que é lealdade. Seja como for, conversar com ele é como um sopro de ar puro. Não posso passar o tempo todo falando   apenas com burocratas e psicohistoriadores.

        - Obrigado pela parte que me toca.

        - Deixe disso, Amaryl. Você sabe o que quero dizer. Gruber aprecia a natureza. Ele gosta do vento, da chuva, do frio e de tudo mais que existe fora da cúpula. Eu   mesmo às vezes sinto falta dessas coisas.

        - Pois eu, não. Poderia passar o resto da vida sem ir lá fora.

        - É porque você está acostumado ao nosso modo de viver. Suponha, porém, que o Império fosse constituído por planetas não-industrializados, de baixa densidade populacional,   cujas Populações se dedicassem à agricultura e à pecuária. Não teriam todos uma melhor qualidade de vida?

        - Sei lá. Para mim, parece horrível.

        - Andei investigando a questão. Tudo indica que se trata de um caso de equilíbrio instável. Duas coisas podem acontecer a um planeta do tipo que acabei de descrever:   ou a pobreza atinge níveis extremos e os habitantes passam a viver em condições subumanas, quase como animais, ou o planeta se industrializa. É como se a sociedade   estivesse equilibrada em uma base muito estreita e tivesse que cair em uma das duas direções. Na prática, quase todos os planetas da galáxia caíram na direção da   industrialização.

        - Porque era a melhor.

        - Talvez. Acontece que esse processo não pode continuar para sempre. Estamos observando atualmente os resultados do excesso de industrialização. O Império não vai   resistir por muito tempo porque está... está superaquecido. Não conheço termo melhor. Não sei o que virá em seguida. Se, através da psico-história, conseguirmos evitar   a queda, ou, o que é mais provável, conseguirmos apressar a recuperação depois da queda, estaremos trabalhando apenas para assegurar que haja outro período de superaquecimento?

        Será esse o único futuro a que a humanidade pode aspirar, empurrar a pedra, como Sísifo, até o alto da montanha, só para vê-la rolar de volta?

        - Quem é Sísifo?

        - Um personagem de uma lenda antiga. Amaryl, você precisa ler mais.

        Amaryl deu de ombros.

        - Para saber quem é Sísifo? Isso não importa. Talvez a psico-história nos mostre o caminho para uma sociedade totalmente nova, diferente de tudo que conhecemos,   que seja estável e desejável.

        - Espero que sim - suspirou Seldon. - Espero que sim, mas ainda não vejo nenhum sinal disso. Por enquanto, vamos ter que trabalhar pela emancipação da Periferia.

        Isso marcará o início da Queda do Império Galáctico.

       

        - Foi o que eu disse a Amaryl - comentou Hari Seldon. - "Isso marcará o início da Queda do Império Galáctico." E é verdade, Dors.

        Dors até então não fizera nenhum comentário. Ela aceitava o cargo de Seldon da mesma forma como aceitava tudo mais... com toda a tranqüilidade. Sua única missão   era protegê-lo e proteger a psico-história. Entretanto, a posição de Seldon tornava mais difícil essa tarefa. A melhor defesa era não ser notado, e enquanto Seldon   estivesse em evidência, graças à posição que ocupava, todas as precauções seriam insatisfatórias e insuficientes.  Os aposentos luxuosos que agora ocupavam, as sofisticadas proteções contra dispositivos de escuta, a vantagem de dispor de uma verba quase ilimitada para suas pesquisas   históricas

        - Nada disso a satisfazia. Trocaria de bom grado tudo aquilo por seu antigo alojamento na Universidade de Streeling. Melhor ainda: por um apartamento anônimo em um setor anônimo, onde ninguém os conhecesse.

        - Pode ser, Hari querido - disse, afinal. - Mas não é tudo.

        - O que não é tudo?

        - A informação que acaba de me fornecer. Você disse que vamos perder a Periferia. Como? Por quê?

        Seldon sorriu.

        - Gostaria de saber, Dors, mas a psico-história ainda não está suficientemente desenvolvida para nos fornecer todas as respostas.

        - Nesse caso, diga-me a sua opinião. Os governadores desses planetas distantes têm interesse em proclamar a independência?

        - Claro que esse é um fator de peso. Você sabe melhor do Que eu que houve rebeliões no passado, mas elas foram logo sufocadas. Desta vez, porém, os efeitos serão permanentes.

        - Porque o Império está mais fraco?

        - Sim, porque o comércio diminuiu, as comunicações se tornaram mais precárias, os governadores da Periferia se sentem mais fortes do que nunca. Se um deles tiver ambições pessoais...

        - Pode descobrir qual deles vai ser?

        - De forma alguma. Tudo que podemos extrair da psico-história a esta altura é o conhecimento de que se surgir um governador de capacidade fora do comum, que seja   suficientemente ambicioso, encontrará condições extremamente favoráveis para rebelar-se contra o Império. O estopim pode ser outra coisa, como um grande desastre   natural, ou uma guerra civil entre dois grupos de planetas. Nada disso pode ser previsto com precisão, mas sabemos que qualquer coisa do gênero que aconteça agora   terá conseqüências mais sérias do que se tivesse acontecido há um século.

        - Mas se você não sabe exatamente o que vai acontecer na Periferia, como poderá influir sobre os acontecimentos de forma a garantir que o Império comece a desmoronar   da periferia para o centro, e não do centro para a periferia?

        - Acompanhando de perto os fatos; tomando medidas para estabilizar a situação de Trantor e não tomando medidas para estabilizar a situação da Periferia. Não podemos   esperar ainda que a psico-história nos permita controlar automaticamente o desenrolar da história, de modo que teremos de recorrer constantemente a ajustes manuais.   No futuro, a técnica será aperfeiçoada e haverá menos necessidade de ajustes manuais.

        - Mas isso só será possível no futuro. Certo?

        - Certo. E mesmo assim, tudo não passa de uma esperança.

        - Quais os perigos que ameaçam Trantor, caso a Periferia não se desligue do Império?

        - As mesmas possibilidades: fatores econômicos e sociais, desastres naturais, disputas entre altos funcionários. E algo mais. Eu disse a Yugo que o Império está   superaquecido. Acontece que Trantor é a parte mais superaquecida de todas. O planeta já chegou ao seu limite. Os problemas de infra-estrutura... abastecimento de  água, aquecimento, recolhimento de lixo, suprimento de combustíveis... são cada vez mais freqüentes.

        - O que me diz da morte do imperador? Seldon abriu os braços.

        - Cleon vai morrer um dia, mas ele tem boa saúde e ainda é relativamente jovem. Os dois filhos são totalmente incapazes, mas certamente surgirão outros pretendentes   ao trono. A luta pela sucessão será acirrada, mas provavelmente não conduzirá a nenhuma catástrofe, do ponto de vista histórico.

        - Digamos, então, que ele seja assassinado. Seldon olhou em torno, preocupado.

        - Não diga isso. Sei que estamos sozinhos, mas não use esta palavra.

        - Hari, não seja tolo. É uma possibilidade que deve ser considerada. Houve uma época em que os joranumitas quase tomaram o poder. Se conseguissem seu intento, o imperador teria sido...

        - Acho que não. Provavelmente o usariam como figura decorativa. Seja como for, é coisa do passado. Joranum morreu ano passado em Nishaya, em total esquecimento.

        - Ele tinha seguidores.

        - É claro. Todo mundo tem seguidores. Por acaso, nos seus estudos da história do Império e do Reino de Trantor, você leu alguma coisa sobre o Partido Globalista,   fundado no meu planeta natal, Helicon?

        - Não, Hari. Não se ofenda, mas os livros falam muito pouco sobre Helicon.

        - Não estou ofendido, Dors. Feliz o planeta que não tem uma história, é o que sempre digo. Seja como for, há cerca de dois mil e quatrocentos anos, havia um grupo   de pessoas em Helicon que afirmava que Helicon era o único planeta habitado no universo. Helicon era o universo e além dele só havia uma esfera celeste, salpicada   de pontos luminosos.

        - Como podiam pensar assim? Naquela época, já deviam Pertencer ao Império.

        - É verdade, mas os globalistas acreditavam que todas as Provas de que o Império existia eram ilusórias ou forjadas, e todos os emissários do Império eram heliconianos  disfarçados. Não havia nada que os convencesse do contrário.

        - O que aconteceu?

        - Acho que é sempre agradável pensar que o seu planeta é o planeta. Quando estavam no auge da popularidade, os globalistas tinham o apoio de cerca de dez por cento  da população. Eram apenas dez por cento, mas constituíam uma minoria agressiva, que fazia mais barulho que a maioria indiferente e ameaçava tomar o poder.

        - Mas eles não conseguiram, não é?

        - Não, não conseguiram. O que aconteceu foi que o globalismo começou a afetar o comércio com o resto do Império e a economia de Helicon entrou em recessão. Quando  a crença começou a afetar o bolso da população, sua popularidade diminuiu rapidamente. A ascensão e a queda do globalismo deixaram muita gente intrigada na época,  mas tenho certeza de que a psico-história teria explicado o fenômeno de forma muito lógica.

        - Entendo. Hari, por que me contou essa história? Suponho que tenha alguma relação com o assunto que estávamos discutindo.

        - O que eu estava querendo mostrar é que movimentos desse tipo nunca morrem totalmente, por mais ridículas que sejam as suas premissas. Mesmo hoje em dia, mesmo  hoje em dia, ainda existem globalistas em Helicon. Não são muitos, mas de vez em quando setenta ou oitenta deles se reúnem no que chamam de Congresso Global e extraem  um imenso prazer de conversar a respeito do globalismo. Pois bem: apenas dez anos se passaram desde a época em que o movimento joranumita parecia prestes a conquistar  o poder, e eu ficaria surpreso se não tivessem restado alguns adeptos. Pode ser que daqui a mil anos ainda haja alguns adeptos.

        - Essas pessoas não podem ser perigosas?

        - Acho que não. O verdadeiro perigo estava no carisma de Jo-Jo, e ele está morto. Nem mesmo foi uma morte heróica ou dramática. Ele simplesmente definhou e morreu   no exílio. Provavelmente, tinha perdido a vontade de viver.

        Dors levantou-se e caminhou até a outra extremidade da sala, balançando os braços, com os punhos cerrados. Voltou e ficou de pé diante de Seldon, que continuara   sentado.

        - Hari, Vou lhe dizer o que está me preocupando. Se a psico-história aponta para a possibilidade de que ocorram tumultos em Trantor, e você acha que ainda restaram   alguns joranumitas, pode ser que eles estejam tramando o assassinato do imperador.

        Seldon riu nervosamente.

        - Está vendo fantasmas, Dors. Calma.

        Ele próprio, porém, tinha ficado impressionado com as palavras da moça.

       

        O setor de Wye tinha a tradição de se opor à dinastia Entun de Cleon I, que governava o Império há mais de dois séculos. A oposição datava da época em que a linha   de prefeitos de Wye assumira por algum tempo o governo do Império. A dinastia de Wye não tinha sido nem duradoura nem particularmente bem-sucedida, mas a população   e as autoridades de Wye achavam difícil esquecer que tinham sido, ainda que de forma temporária e imperfeita, os supremos governante do Império. O breve período  em que Rashelle, a prefeita de Wye, desafiara o poder do imperador, dezoito anos antes, contribuíra para aumentar tanto o orgulho quanto a frustração de Wye.

        Por tudo isso, era razoável que o pequeno bando de conspiradores se sentisse mais seguro em Wye do que em qualquer outro setor de Trantor.

        Cinco deles estavam sentados em torno de uma mesa, em um bairro pobre do setor. A sala em que se encontravam era pobremente mobiliada, mas dispunha de um equipamento   à prova de escuta.

        Em uma cadeira ligeiramente melhor que as outras estava sentado o homem que parecia ser o líder. Um homem magro,  de aspecto doentio, com uma boca larga e lábios tão pálidos que eram quase invisíveis. Os cabelos estavam começando a branquear e os olhos tinham um brilho feroz.

        Estava olhando para o homem à sua frente, bem mais velho e corpulento, de cabelos brancos e bochechas roliças que balançavam quando ele falava.

        - E então? - disse o líder, bruscamente. - É evidente que você ainda não fez nada. Explique por quê!

        O homem mais velho tentou responder no mesmo tom. Ele disse:

        - Sou um joranumita veterano, Namarti. Por que tenho que justificar minhas ações?

        Gambol Deen Namarti, que um dia tinha sido o braço direito de Laskin "Jo-Jo" Joranum, replicou:

        - Existem muitos joranumitas veteranos. Alguns são incompetentes, alguns são fracos; outros esqueceram nossa missão. É possível ser um joranumita veterano e não passar de um velho tolo.

        O homem mais velho recostou-se na cadeira.

        - Está me chamando de velho tolo? Eu? Sou Kaspal Kaspalov... estava ao lado de Jo-Jo quando você ainda não tinha entrado para o partido, quando não passava de um   joão-ninguém à procura de uma causa.

        - Não chamei você de tolo - protestou Namarti. - Disse apenas que alguns joranumitas são tolos. Você agora tem a oportunidade de provar que não é um deles.

        - Minha ligação com Jo-Jo...

        - Esqueça! Ele morreu!

        - Seu espírito ainda vive.

        - Se esse pensamento nos ajudar em nossa luta, então seu espírito ainda vive, mas para os outros, não para nós. Sabemos que ele cometeu uma série de erros.

        - Não concordo com isso.

        - Não insista em fazer um herói de um homem que errou. Ele pensou que fosse capaz de mudar o mundo apenas pela força de suas palavras...

        - A história mostra que as palavras podem mover montanhas.

        - Não as palavras de Joranum, obviamente, porque ele cometeu erros lamentáveis. Tentou, sem sucesso, esconder o fato de que era mycogeniano. Pior ainda, foi tolamente   levado a acusar o antigo primeiro-ministro de ser um robô. Aconselhei-o a não levar adiante a acusação, mas ele não me deu ouvidos... e isso acabou com ele. Agora   vamos começar do zero, está bem? Mesmo que usemos a memória de Joranum para conquistar o público, não vamos nos deixar influenciar por ela.

        Kaspalov permaneceu em silêncio. Os outros três olhavam alternadamente para Namarti e Kaspalov e pareciam dispostos a deixar que Namarti conduzisse a discussão.

        - Depois do exílio de Joranum em Nishaya, os joranumitas se dispersaram e o movimento quase desapareceu - afirmou Namarti. - Teria desaparecido, se não fosse por   minha causa. Pouco a pouco, fragmento por fragmento, consegui reconstruílo, transformando-o numa rede que se estende por todo o planeta. Está a par disso, suponho.

        - Perfeitamente, chefe - murmurou Kaspalov. O uso do título tornava claro que estava propondo uma reconciliação.

        Namarti sorriu. Ele não insistia no título, mas gostava de ouvi-lo na boca dos correligionários. Ele disse:

        - Você faz parte dessa rede e deve cumprir suas obrigações. Kaspalov se remexeu na cadeira. Era óbvio que estava passando por um drama íntimo. Afinal, resolveu falar.

        - Acaba de me dizer, chefe, que aconselhou Joranum a não acusar o antigo primeiro-ministro. Ele não atendeu ao conselho, mas pelo menos você pôde expressar sua opinião.

        Posso ter o mesmo privilégio de apontar o que considero como sendo um erro que estamos prestes a cometer? Terá a paciência de me escutar da mesma forma como Joranum o escutou, ainda que, como ele, decida não me atender?

        - Claro que você pode expressar a sua opinião, Kaspalov. Está aqui para isso. Qual é o problema?

        - Essa nossa nova tática, chefe. É um grande erro. Vai provocar tumultos e inquietação política.

        - Naturalmente! É isso que queremos. - Namarti agitou-se na cadeira, controlando com esforço o seu ódio. - Joranum tentou usar a persuasão. Não deu certo. Vamos subjugar Trantor pela ação.

        - Em quanto tempo? A que preço?

        - Levaremos o tempo que for necessário e o custo será, na verdade, muito pequeno. Uma falta de energia aqui, um cano furado ali, um esgoto entupido, um sistema de  ar-condicionado com defeito. Incômodo e desconforto; essas são as nossas armas.

        Kaspalov sacudiu a cabeça.

        - Essas coisas tendem a ser cumulativas.

        - É claro, Kaspalov, e queremos que o descontentamento  do público seja cumulativo, também. Escute, Kaspalov. O Império está em franca decadência. Todo mundo sabe  disso. Todo mundo que tem um pingo de inteligência sabe disso. Mesmo que a gente não faça nada, a tecnologia do Império vai começar a falhar. Estamos apenas dando  um pequeno empurrão.

        - É perigoso, chefe. A infra-estrutura de Trantor é extremamente complexa. Um golpe mal calculado pode provocar um colapso. Puxe o barbante errado e Trantor desabará  como um castelo de cartas.

        - Isso não aconteceu até agora.

        - Mas pode acontecer no futuro. E se a população descobrir que somos os responsáveis? Não se darão ao trabalho de chamar a polícia ou as forças armadas; seremos  linchados em praça pública.

        - Ninguém vai desconfiar. O alvo natural do ressentimento do povo é o governo... os conselheiros do imperador. Jamais pensarão em nós.

        - E como vamos viver com nossa consciência, sabendo o que fizemos?

        A última frase foi dita como um sussurro. O velho estava visivelmente emocionado. Dirigiu um olhar suplicante ao líder do partido, ao homem a quem jurara obediência.

        Tinha feito isso com a impressão de que Namarti continuaria a carregar a bandeira da liberdade antes empunhada por Laskin Joranum; agora, Kaspalov não estava certo  de que Jo-Jo aprovaria o que seu sucessor estava fazendo.

        Namarti fez um muxoxo, como um pai diante de uma traquinagem de um filho.

        - Kaspalov, será que você está ficando sentimental? Quando chegarmos ao poder, vamos juntar os pedaços e iniciar o processo de reconstrução. Será fácil conquistar  o apoio das massas usando aquela velha conversa de Joranum a respeito da participação do povo no governo; depois que consolidarmos nossa posição, poderemos estabelecer  um governo mais forte e eficiente. Ficaremos assim com um Trantor melhor e um Império mais sólido. Instituiremos uma espécie de conselho de Estado onde representantes   das diversas regiões poderão discutir os problemas do Império até ficarem roucos, mas as decisões finais serão nossas. Kaspalov não disse nada. Namarti prosseguiu:

        - Você parece indeciso. Por quê? Nosso plano vai dar certo. Até agora, funcionou perfeitamente. O imperador não sabe o que está acontecendo. O primeiro-ministro   é um matemático que vive fora da realidade. Ele derrotou Joranum, é certo, mas depois disso não fez mais nada que prestasse.

        - Ele inventou uma coisa chamada... chamada...

        - Esqueça. Joranum atribuía uma grande importância a esse invento, mas isso, como a sua obsessão por robôs, se deve ao fato de ter nascido em Mycogen. Na verdade,  o suposto invento não tem...

        - Psicanálise histórica, ou coisa parecida. Ouvi Joranum dizer...

        - Esqueça. Limite-se a fazer a sua parte. Você é o encarregado da ventilação do setor de Anemoria, não é? Providencie para que o sistema apresente algum tipo de  defeito. Uma pane que faça aumentar a umidade, uma falha nos filtros que produza um cheiro desagradável, qualquer coisa do gênero. Ninguém vai morrer; por isso,   não há razão para sentir-se culpado. Você vai apenas tornar a vida das pessoas um pouco menos agradável, de modo a aumentar o nível geral de insatisfação. Podemos   contar com a sua ajuda?

        - O que será apenas um desconforto para as pessoas jovens e saudáveis pode pôr em risco a vida das crianças, dos idosos, dos doentes.

        - Quer fazer uma revolução sem que ninguém saia ferido? Kaspalov murmurou alguma coisa.

        - É impossível tomar o governo sem que ninguém se machuque - afirmou Namarti. - Faça a sua parte. Escolha um método que não coloque em perigo as vidas dos velhos  e das crianças, se isso tranqüiliza a sua consciência, mas faça o trabalho.

        - Gostaria de perguntar mais uma coisa, chefe.

        - Então pergunte - disse Namarti, em tom resignado.

        - Até o momento, estamos apenas tentando abalar o prestígio do governo, mas vai chegar o dia em que você vai tirar vantagem da insatisfação popular para tomar o  poder. Como pretende fazer isso?

        - Quer saber exatamente como vamos fazer?

        - Quero. Quanto mais depressa agirmos, menores serão os danos, mais eficiente será o ato cirúrgico.

        - Ainda não chegamos a um acordo quanto à natureza exata desse ato cirúrgico - respondeu Namarti, destacando bem as palavras. - Logo que decidirmos, você será informado.

        Até lá, concorda em fazer a sua parte?

        - Concordo, chefe - respondeu Kaspalov, sem muita convicção.

        - Nesse caso, pode ir - disse Namarti, dispensando-o com um gesto.

        Kaspalov levantou-se e saiu. Namarti esperou que ele se retirasse e disse para o homem à sua direita:

        - Não podemos mais confiar em Kaspalov. Ele se vendeu ao inimigo e quer conhecer nossos planos apenas para nos trair. Acabe com ele.

        O outro assentiu e os três saíram, deixando Namarti sozinho. Ele desligou os painéis luminosos das paredes, deixando apenas um quadrado no teto para quebrar a escuridão.

        Namarti pensou: toda corrente tem elos fracos, que precisam ser eliminados. Foi o que fizemos no passado; em conseqüência, nossa organização se tornou muito mais forte.

        Sorriu na penumbra, contorcendo o rosto numa espécie de alegria feroz. Afinal, a rede agora se estendia até o palácio... era precária, é verdade, ainda não totalmente   digna de confiança, mas estava lá. E seria reforçada.

       

        O tempo nos jardins do Palácio Imperial estava quente e ensolarado há vários dias.

        Aquilo não era comum. Hari lembrou-se de que Dors uma vez lhe explicara como aquela região do planeta, onde os invernos eram frios e as chuvas freqüentes, tinha   sido escolhida para sede do governo.

        - Ela não foi propriamente escolhida - explicara a moça. - O terreno pertence à nobreza desde a época do Reino de Trantor. Quando o Reino se tornou um Império, os   imperadores passavam o ano em vários lugares: balneários, residências de inverno, casas de campo. Pouco a pouco, o planeta foi sendo coberto por cúpulas. Um dia,   um imperador passou alguns dias aqui, gostou do lugar e mandou que o deixassem de fora quando o programa de instalação das cúpulas foi completado. Justamente porque  era o único local do planeta que não tinha sido coberto por uma cúpula, ele se tornou algo especial, um lugar diferente dos outros. Em conseqüência, o imperador  seguinte também decidiu morar aqui. Assim nasceu uma tradição que vem sendo mantida até hoje.

        Como sempre acontecia quando ouvia relatos semelhantes, Seldon imediatamente tentara imaginar como a psico-história lidaria com um caso como aquele. Conseguiria  prever que uma parte do planeta seria deixada do lado de fora da cúpula, embora sem especificar a região? Ou levaria à conclusão errônea de que várias partes do   planeta seriam deixadas de fora, ou de que o planeta seria totalmente coberto? Como a psico-história podia levar em conta o gosto pessoal de um certo imperador que   estava no trono em um momento crucial e tomara uma decisão apenas por um capricho? À sua frente, Seldon via o caos - e talvez a loucura.  bom tempo deixara Cleon I visivelmente satisfeito.

        - Estou ficando velho, Seldon - comentou. - Não preciso  lhe dizer isso; somos da mesma idade. Sei que é sinal de velhice não ter vontade de jogar tênis ou de ir pescar, mesmo sabendo que o lago recebeu novos peixes,  mas hoje prefiro passear nas alamedas.

        Estava comendo sementes enquanto falava, algo parecido com o que em Helicon, o planeta natal de Seldon, seria chamado de sementes de abóbora, só que maiores e de  sabor menos delicado. Cleon as quebrava com os dentes, removia a casca fina e colocava a parte comestível na boca.

        Seldon não gostava muito daquele tipo de semente, mas quando o imperador lhe ofereceu algumas, teve que aceitar.

        O imperador estava com um punhado de cascas na mão e olhou em volta à procura de uma cesta de lixo. Não viu nenhuma, mas avistou um jardineiro a uma certa distância,   em posição de sentido, como tinha de estar na presença do imperador, e com a cabeça respeitosamente baixa.

        - Jardineiro! - chamou Cleon. O jardineiro se aproximou.

        - Majestade!

        - Jogue isto no lixo - ordenou Cleon, colocando as cascas na mão do jardineiro.

        - Sim, majestade.

        - Jogue também as minhas, Gruber - pediu Seldon.

        Gruber estendeu a mão e disse, timidamente:

        - Sim, primeiro-ministro.

        O jardineiro se afastou, enquanto o imperador ficava olhando para ele, curioso.

        - Conhece esse homem, Seldon?

        - Conheço, sim, majestade. É um velho amigo.

        - O jardineiro é um velho amigo seu? Quem é ele? Um matemático que está passando por uma fase difícil?

        - Não, majestade. Talvez ainda se lembre da história. Aconteceu no dia em que... - Seldon hesitou, pensando na forma mais diplomática de descrever o incidente -  ...no dia em que o sargento ameaçou minha vida, logo depois que Vossa Majestade teve a generosidade de me nomear para o cargo de primeiro-ministro.

        - O atentado. - Cleon olhou para o céu, como se estivesse em busca de paciência. - Não sei por que todo mundo tem medo de usar essa palavra.

        - Talvez seja porque nos preocupemos com a possibilidade de que algo aconteça com o nosso imperador - disse Seldon, censurando-se mentalmente por ter aprendido tão depressa a recorrer à lisonja.

        Cleon sorriu ironicamente.

        - Entendo. E que isso tem a ver com Gruber? É esse o nome dele, não é?

        - Sim, majestade. Mandell Gruber. Vossa Majestade talvez se lembre de que um jardineiro chegou correndo, com um ancinho na mão, para me defender do sargento.

        - Oh, sim. Esse jardineiro era ele?

        - Ele mesmo, majestade. Considero-o um amigo desde aquele dia, e faço questão de falar com ele sempre que venho passear no jardim. Acho que ele toma conta de mim,   sente-se responsável pela minha segurança. E eu, naturalmente, tenho muita simpatia por ele.

        - E com razão. Já que estamos falando do assunto, como vai sua formidável esposa? Não a tenho visto ultimamente.

        - Dors é uma historiadora, majestade. Vive mergulhada no passado.

        - Ela não deixa você assustado? Soube como tratou aquele sargento. Quase tive pena dele.

        - Minha mulher fica uma fera apenas quando acha que estou sendo ameaçado, majestade. No momento, a situação está muito tranqüila.

        O imperador olhou na direção em que o jardineiro tinha desaparecido.

        - Nós recompensamos aquele homem?

        - Tomei a liberdade de fazê-lo, majestade. Ele tem mulher e duas filhas; providenciei para que cada uma recebesse uma Quantia em dinheiro para a educação dos filhos.

        - Excelente. Mas ele merece uma promoção, não acha? É bom jardineiro?

        - Dos melhores, majestade.

        - O jardineiro-chefe... o nome dele é Malcomber, se não me falha a memória... está chegando à idade de se aposentar. Deve ter quase oitenta anos. Acha que Gruber seria capaz de substituí-lo?

        - Tenho certeza que sim, majestade, mas prefere continuar como está. Adora a vida ao ar livre.

        - Ele se acostumará ao novo cargo, Seldon. Eu estou precisando de alguém com novas idéias. Hummm... Preciso pensar no assunto. Seu amigo Gruber pode ser exatamente a pessoa que eu estava precisando. A propósito, Seldon, o que você quis dizer quando afirmou que a situação está muito tranqüila?

        - Quis dizer apenas, majestade, que não existem no momento vozes dissidentes na Corte Imperial.

        - Você não diria isso, Seldon, se fosse imperador e tivesse que lidar com todos esses funcionários e suas reclamações. Como pode me dizer que a situação está calma quando toda semana chegam notícias de distúrbios nos mais variados pontos de Trantor?

        - Essas coisas acontecem.

        - Pelo que me lembro, não costumavam acontecer com tanta freqüência.

        - Talvez não acontecessem, majestade. Nossa infra-estrutura está velha e desgastada. Para reformá-la, seria necessária uma verdadeira fortuna. O momento não é propício para um aumento dos impostos.

        - Não existe um momento propício para isso, Seldon. O que sei é que a população está cada vez mais descontente com os serviços públicos. Você precisa tomar providências.

        O que diz a psico-história?

        - A mesma coisa que o bom senso: que tudo está envelhecendo.

        - Sabe de uma coisa? Esta conversa está estragando o meu dia. Deixo o caso em suas mãos, Seldon.

        - Sim, majestade - disse Seldon, humildemente.

        O imperador se afastou e Seldon pensou consigo mesmo que a conversa também tinha estragado o seu dia. O colapso do celltro era a alternativa indesejável. O que fazer, porém para evitá-lo e transferir a crise para a Periferia?

        A psico-história não explicava.

       

        Raych Seldon estava muito contente, porque era a primeira vez em meses que tinha oportunidade de jantar com as duas pessoas que considerava como pai e mãe. Sabia muito bem que não eram seus pais biológicos, mas isso não importava. Sorriu para eles com amor.

        O ambiente não era tão aconchegante como em Streeling, onde moravam em um pequeno apartamento que se encaixava como uma jóia no cenário mais amplo da universidade.

        Agora, infelizmente, nada podia esconder a pompa de uma suíte palaciana.

        Raych às vezes se olhava no espelho e custava a acreditar que a vida que estava levando fosse verdadeira. Não era alto; tinha apenas 1,63m, bem menos que Hari e Dors. Era corpulento, mas por causa dos músculos, não de gordura. Tinha cabelos negros e o bigode típico dos dahlitas, que tratava de manter o mais farto possível.

        No espelho, ainda podia ver o moleque de rua que tinha sido um dia, antes que o destino o fizesse conhecer Hari e Dors. Hari era muito mais jovem na época; na verdade,  Raych estava agora mais ou menos com a mesma idade que Hari tinha quando se encontraram pela primeira vez.

        Estranhamente, sua mãe, Dors, praticamente não mudara. Continuava jovem e esbelta como nos dias em que ela e Hari abordaram Raych em uma rua de Billibotton. E ele, Raych, nascido na Pobreza e na miséria, agora era funcionário público, desempenhando uma função secundária no Ministério de Populações.

        - Como vão as coisas no Ministério de Populações, Raych? - perguntou Seldon. - Estão fazendo algum progresso?

        - Muito pouco, papai. As leis são votadas, os juizes passam sentenças, os políticos fazem discursos, mas é difícil mudar as pessoas. Por mais que se pregue a fraternidade,  os homens não se consideram irmãos. O que mais me choca é que os dahlitas não são melhores que os outros nesse particular. Exigem ser tratados como iguais, mas,  quando têm a oportunidade, são os primeiros a discriminar os outros.

        - É impossível mudar o coração dos homens, Raych - afirmou Dors. - O máximo que se pode fazer é tentar eliminar algumas das injustiças mais flagrantes.

        - O problema - acrescentou Seldon - é que durante a maior parte da nossa história ninguém se preocupou com essa coisa. Há muito tempo que a raça humana vem praticando   alegremente o jogo do sou-melhor-do-que-você, e não é fácil consertar isso de uma hora para outra. Se permitimos que a sociedade seguisse o seu curso durante mil   anos, não podemos reclamar se forem necessários cem anos, digamos, para reverter essa tendência.

        - Às vezes, papai - disse Raych, - penso que me arranjou este emprego para me punir.

        Seldon levantou as sobrancelhas.

        - Que razão eu teria para puni-lo?

        - O fato de simpatizar com as idéias de Joranum a respeito da igualdade entre os setores e o aumento da representação popular no governo.

        - Não o culpo por isso. São boas idéias, mas você sabe que Joranum e seu grupo as estavam usando apenas como artifício para chegarem ao poder. Depois que conseguissem esse objetivo...

        - Apesar de saber como eu me sentia, você me fez enganar Joranum.

        - Não foi fácil para mim lhe pedir isso, meu filho.

        - E agora me faz trabalhar na implementação do programa de governo de Joranum, apenas para me mostrar que se trata de uma tarefa quase impossível.

        - Que acha, Dors? - disse Seldon para a esposa. - O garoto está me atribuindo um maquiavelismo que simplesmente não combina com o meu caráter.

        - Claro que não - concordou Dors, com a sombra de um sorriso nos lábios. - Raych seria incapaz de pensar isso de você, não é, filho?

        - Normalmente, você é a pessoa mais franca que conheço, papai - afirmou o rapaz. - Em caso de necessidade, porém, sabe mexer seus pauzinhos. Não é isso que pretende   fazer com a psico-história?

        - Até agora, não consegui fazer muita coisa com a psico-história - disse Seldon, em tom melancólico.

        - É pena. Eu tinha esperança de que a solução para o problema do preconceito estivesse na psico-história.

        - Talvez esteja, mas ainda falta muito para chegarmos lá. Depois que acabaram de jantar, Seldon disse:

        - Agora, Raych, nós dois precisamos ter uma conversa.

        - É mesmo? E eu não estou convidada? - perguntou Dors.

        - Vamos falar de assuntos do governo, querida.

        - Deixe disso, Hari. Você vai é pedir ao menino para fazer alguma coisa que eu não aprovaria.

        - Garanto a você que não Vou pedir que faça nada que ele não queira fazer - afirmou Seldon.

        - Tudo bem, mamãe - disse Raych. - Pode deixar. Prometo que depois conto tudo a você.

        Dors revirou os olhos.

        - Vocês dois vão invocar "segredo de Estado". Tenho certeza disso.

        - O que preciso discutir com Raych é segredo de Estado, Dors - afirmou Seldon. - Estou falando sério.

        Dors se levantou, cerrando os lábios. Deixou a sala com um apelo final:

        - Não jogue o menino aos lobos, Hari. Depois que ela saiu, Seldon disse: - Infelizmente, jogar você aos lobos é exatamente o que eu terei de fazer, Raych.

       

        Os dois se encontravam no escritório particular de Seldon, a sua "sala de meditação", como costumava dizer. Ali passara muitas horas tentando entender as complexidades do governo do Império e de Trantor. O primeiro-ministro perguntou ao filho:

        - Está a par dos freqüentes problemas que têm ocorrido nos serviços públicos, Raych?

        - Estou - respondeu o rapaz. - Papai, você sabe que nosso planeta envelheceu. O que temos a fazer é tirar todo mundo daqui, derrubar tudo, substituir tudo, instalar computadores de última geração e trazer todo mundo de volta, ou melhor, trazer de volta metade da população. A vida em Trantor seria bem melhor com apenas vinte bilhões de habitantes.

        - Quais vinte bilhões? - perguntou Seldon, sorrindo.

        - Quisera saber - respondeu Raych, de cara feia. - O problema é que não podemos reformar o planeta, e por isso temos que continuar a remendá-lo.

        - Você está certo, Raych, mas estão acontecendo coisas estranhas. Quero saber o que pensa a respeito disto.

        Tirou do bolso uma pequena esfera.

        - O que é? - quis saber Raych.

        - Um mapa de Trantor, programado com informações. Faça-me um favor, Raych, e abra um espaço vazio em cima da mesa.

        Seldon colocou a esfera no meio da mesa e apertou um botão no braço da cadeira. Imediatamente, as luzes se apagaram e o tampo da mesa começou a brilhar com uma   luminosidade branca e suave que parecia ter cerca de um centímetro de espessura. A esfera tinha se achatado e se expandira até ocupar toda a superfície da mesa.

        Aos poucos, a luz se tornou mais forte em alguns lugares do que em outros, formando um desenho. Depois de trinta segundos, Raych exclamou, surpreso:

        - É mesmo um mapa de Trantor!

        - Claro que é. Eu não lhe disse? Só que você não compra um mapa como este em qualquer supermercado. É um desses brinquedinhos que os generais adoram. Poderia representar  Trantor como uma esfera, mas uma projeção bidimensional será mais adequada para o que quero lhe mostrar.

        - O que quer me mostrar, papai?

        - Nos últimos dois anos têm ocorrido muitos acidentes. Como você diz, o planeta envelheceu e é inevitável que ocorram acidentes, mas eles estão ocorrendo com muita   freqüência e resultam, na imensa maioria dos casos, de falha humana.

        - Isso não é razoável?

        - Seria, dentro de certos limites. Acontece que no caso dos terremotos esses limites foram ultrapassados.

        - Terremotos? Em Trantor?

        - Admito que Trantor é um planeta de baixa atividade sísmica, e ainda bem que é assim, porque não seria nada prático ter que consertar a cúpula várias vezes por  ano. Sua mãe garante que uma das razões pelas quais Trantor foi escolhido para capital do Império foi o fato de ser um planeta geologicamente moribundo. Foi essa  a expressão pouco lisonjeira que usou. Pois bem: Trantor pode estar moribundo, mas não está morto. Uma vez ou outra ocorrem pequenos terremotos. Foram três, nos  últimos dois anos.

        - Eu não sabia disso, papai.

        - Pouca gente sabe. A cúpula não é um objeto único. É dividida em centenas de partes, que podem ser abertas separadamente para aliviar as tensões no caso de um terremoto.

        Como um terremoto dura no máximo um minuto, a cúpula não passa muito tempo aberta. Tudo acontece tão depressa que os trantorianos nem chegam a perceber que aconteceu  alguma coisa fora do normal. É mais provável que sintam um pequeno tremor, ou escutem o barulho das máquinas, do que se dêem conta de que estiveram expostos por  alguns instantes ao tempo que estava fazendo do lado de fora.

        - Isso é bom, não é?

        - Deveria ser. É tudo controlado por computador. Quando  os sensores detectam a aproximação de uma onda de choque, a cúpula é aberta antes que as vibrações tenham intensidade suficiente para causar prejuízos.

        - Ainda parece bom.

        - Acontece que nos últimos três terremotos o sistema falhou. A cúpula não se abriu e sofreu sérios danos. Os consertos foram demorados, custaram caro e o controle   do tempo funcionou de forma precária durante um período considerável. Raych, quer saber qual é a probabilidade de que o sistema não funcione três vezes seguidas?

        - É pequena?

        - Muito pequena. Menor que um por cento. Tudo leva a crer que alguém tenha sabotado o sistema, Raych. Mais ou menos uma vez a cada cem anos, ocorre um vazamento  de magma, algo muito mais sério do que um pequeno terremoto. Não quero nem pensar nas conseqüências de um vazamento desses, se não for detectado a tempo. Felizmente,   isso não aconteceu até hoje, nem há razão para que venha a acontecer no futuro, mas... dê uma olhada. Aqui no mapa estão assinalados os locais onde ocorreram acidentes   nos últimos anos que podem ser atribuídos a erro humano, embora não tenha sido possível determinar, em nenhum caso, quem foi o funcionário responsável.

        - Isso porque todo mundo tratou de tirar o corpo fora.

        - Tem razão. Esta é uma característica de qualquer burocracia, e Trantor abriga a maior burocracia de todos os tempos. Mas o que acha dos pontos no mapa?

        O mapa mostrava pontinhos vermelhos que pareciam pequenas pústulas na superfície de Trantor.

        - Não vejo nenhum padrão - disse Raych, cautelosamente. - Eles parecem estar distribuídos por toda a superfície.

        - Exatamente. É isso que me intriga. Era de se esperar que as partes mais antigas de Trantor, as partes que foram cobertas há mais tempo, estivessem com o equipamento  em piores condições e fossem mais sujeitas a defeitos, o que aumentaria a probabilidade de uma falha humana. Vou colorir de azul as partes mais antigas de Trantor.   Verá que os acidentes não parecem estar ocorrendo com maior freqüência nas partes azuis do que nas partes brancas.

        - E daí?

        - Minha conclusão, Raych, é que os acidentes não se devem a causas naturais, mas estão sendo provocados deliberadamente em todo o planeta, de forma a criar um descontentamento geral.

        - Isso parece impossível.

        - É mesmo? Vamos analisar a distribuição cronológica dos acidentes.

        As manchas azuis e os pontos vermelhos desapareceram. O mapa de Trantor ficou vazio por alguns instantes e depois os pontos vermelhos começaram a aparecer e desaparecer, um de cada vez, aqui e ali.

        - Observe que a distribuição temporal também é uniforme. Acontece um acidente, depois outro, depois outro, a intervalos praticamente iguais.

        - Acha que também é proposital?

        - Tem que ser. Quem está fazendo isso quer causar o máximo de perturbação com o mínimo de esforço. Não faria sentido provocar um acidente logo depois de outro, porque os dois se cancelariam parcialmente nos noticiários e na opinião pública. Eles querem extrair o máximo de Cada acidente.

        O mapa se apagou e a esfera voltou à forma original. Seldon guardou-a no bolso.

        - Quem são os responsáveis,- perguntou Raych.

        - Faz alguns dias, houve um crime de morte no setor de Wye - replicou Seldon.

        - E daí? Embora Wye não seja um dos setores mais violentos, tenho certeza de todo dia ocorrem muitos assassinatos lá.

        - Centenas - confirmou Seldon, balançando a cabeça. - Em certos dias, o número de homicídios em todo o planeta chega a quase um milhão. Muitos desses crimes jamais  são solucionados. Os mortos simplesmente passam para os livros como estatísticas anônimas. Este assassinato, porém, foi fora do comum. O homem tinha sido esfaqueado,   mas ainda estava vivo Quando o encontraram. Teve tempo para balbuciar uma única Palavra antes de morrer: "chefe". Isso despertou uma certa curiosidade e ele acabou  sendo identificado. Trabalhava em Anamoria  e não se sabe o que estava fazendo em Wye. Um funcionário mais diligente conseguiu descobrir que ele era um antigo joranumita chamado Kaspal Kaspalov, que  havia sido muito ligado a Laskin Joranum. E agora estava morto. Assassinado.

        Raych franziu a testa.

        - Está suspeitando de uma conspiração dos joranumitas? Eles não existem mais.

        - Não faz muito tempo, sua mãe me perguntou se eu achava que os joranumitas ainda estavam ativos; respondi que certas crenças custam a morrer, por mais ridículas   que sejam, mas eu achava que o número de joranumitas era tão pequeno que não precisávamos nos preocupar com eles. Depois, comecei a pensar: e se os joranumitas   conservaram sua organização? E se ainda têm uma certa força, são capazes de matar alguém que consideram um traidor e estão provocando esses acidentes como parte   de um plano para tomar o poder?

        - Não acha que está abusando da imaginação, papai?

        - Pode ser. Pode ser que eu esteja totalmente errado. Acontece que o crime ocorreu em Wye, e, até agora, não houve nenhum acidente em Wye.

        - O que é que isso prova?

        - Isso pode significar que o centro da conspiração é em Wye e os conspiradores não querem tornar a vida desagradável para si próprios, apenas para o resto da população   de Trantor. Pode significar também que os culpados não sejam os joranumitas, e sim os governantes de Wye, que ainda sonham em conquistar o Império.

        - Papai, você não tem informações suficientes para chegar a nenhuma conclusão.

        - Sei disso. Suponha, porém, que seja uma conspiração dos joranumitas. O braço direito de Joranum era um homem chamado Gambol Deen Namarti. Não temos nenhum registro   de sua morte, nem sabemos o que aconteceu com ele nos últimos nove anos. Isso, em si, não quer dizer nada. Afinal de contas, é fácil uma pessoa se esconder no meio   de quarenta bilhões. Houve uma época da minha vida em que tentei fazer a mesma coisa. Naturalmente, ele pode estar morto. Esta seria a explicação  mais simples. Por outro lado, pode ser que não esteja.

        - O que vamos fazer? Seldon suspirou.

        - A coisa mais lógica a fazer seria procurar a polícia, as forças de segurança, mas não posso fazer isso. Não sou como Demerzel. Ele sabia intimidar as pessoas.  Eu não sei. Ele tinha uma personalidade forte; eu sou apenas um... um matemático. Eu não devia estar no cargo de primeiro-ministro; não fui talhado para isso. E  não estaria, se o imperador não atribuísse à psico-história uma importância maior que ela merece.

        - Está sendo severo demais consigo mesmo, papai.

        - Talvez esteja, mas me imagino procurando as forças de segurança, por exemplo, com o que mostrei para você no mapa - apontou para a mesa, agora vazia - e afirmando  que corremos um grande perigo por causa de uma conspiração de natureza e objetivos desconhecidos. Eles me escutam com ar solene e, depois que me retiro, começam  a rir dos desvarios do "matemático". Naturalmente, não movem um músculo.

        - Nesse caso, o que vamos fazer? - insistiu Raych.

        - É você que vai fazer, Raych. Preciso de mais provas e quero que você as descubra para mim. Mandaria sua mãe, mas ela se recusa a sair de perto de mim. Eu mesmo  não posso deixar o palácio tão cedo. Depois de mim mesmo e de Dors, você é a pessoa em quem mais confio. Pensando melhor, confio mais em você do que em nós dois.  Você é jovem, é forte, sabe lutar trunca melhor do que eu e é muito inteligente. Quero que uma coisa fique bem clara. Não estou lhe pedindo para pôr a vida em risco.  Nada de heroísmos. Sua mãe jamais me perdoaria se acontecesse alguma coisa com você. Descubra o que puder, e só. Talvez fique sabendo que Namarti está vivo e conspirando  contra nós, talvez descubra que ele morreu há muito tempo. Talvez fique sabendo que os joranumitas ainda são um grupo ativo, talvez descubra que eles já se dispersaram.  Talvez fique sabendo que os governantes de Wye pretendem derrubar o imperador, talvez descubra que não há razão para duvidar da sua lealdade. Todas essas informações  seriam interessantes, mas não vitais. O que eu realmente quero que você descubra é se todos esses acidentes foram propositais, como  desconfio, e, mais importante ainda, caso se trate realmente de sabotagem, o que os conspiradores pretendem fazer em seguida. Ao que tudo indica, devem estar planejando  um golpe de vulto, e, nesse caso, é muito importante que eu saiba o que é.

        - Tem alguma idéia do que devo fazer para começar? - perguntou Raych, desconfiado.

        - Tenho sim, Raych. Quero que vá até Wye, onde Kaspalov foi assassinado. Descubra se ele continuava a se encontrar com os joranumitas e veja se consegue entrar  para o grupo.

        - Talvez não seja muito difícil. Posso alegar que sempre fui um joranumita de coração. Que no tempo de Jo-Jo eu era apenas um menino, mas fiquei muito impressionado  com as idéias dele. O que não deixa de ser verdade.

        - Só há um problema: alguém pode reconhecê-lo. Afinal de contas, seu pai é o primeiro-ministro. Você já apareceu algumas vezes na holovisão. Chegou a dar uma entrevista  a respeito da igualdade entre os setores.

        - É verdade, mas...

        - É melhor não facilitarmos, Raych. Você vai usar sapatos de solas grossas, para aumentar sua altura, e Vou pedir a alguém para mudar a forma das suas sobrancelhas  e lhe ensinar a mudar o timbre de voz.

        Raych deu de ombros.

        - Tanto trabalho por nada.

        - E além disso - disse Seldon, - você vai ter que raspar o bigode.

        Raych arregalou os olhos e ficou sem fala por alguns instantes. Depois, repetiu, incrédulo:

        - Raspar o bigode?

        - Isso mesmo. Ninguém o reconhecerá sem ele.

        - Não posso fazer isso. Seria como cortar o meu... Vou! me sentir como se estivesse castrado!

        Seldon sacudiu a cabeça.

        - É apenas um hábito. Yugo é tão dahlita quanto você e não usa bigode.

        - Yugo é maluco. Para ele, não existe nada além da matemática.

        - Ele é um grande matemático e a falta de bigode não altera esse fato. Além do mais, não é como se você estivesse sendo castrado. Seu bigode crescerá de novo em   duas semanas.

        - Duas semanas! Vai levar dois anos para voltar a ser como... como...

        Levantou as mãos, como que para cobrir e proteger o bigode.

        - Raych, você tem que me atender - insistiu Seldon. - Esse sacrifício é necessário. Se você for espionar os joranumitas sem tirar o bigode, estará correndo um grande   risco. Não posso permitir que isso aconteça.

        - Prefiro morrer! - exclamou Raych.

        - Não seja melodramático. Você prefere viver, e é por isso que vai ter que abrir mão do seu bigode por uns tempos. Só mais uma coisa - acrescentou Seldon, depois   de uma leve hesitação. - Não conte nada a sua mãe. Deixe que eu o faça.

        Raych baixou a cabeça e disse, em tom resignado:

        - Está bem, papai.

        - Vou pedir a alguém para cuidar do seu disfarce e providenciar o seu transporte aéreo até Wye - disse Seldon. -  Anime-se, Raych, não é o fim do mundo.

        Raych sorriu amarelo e Seldon ficou olhando enquanto ele se afastava. Era fácil recuperar um bigode, mas não um filho. Seldon estava perfeitamente a par do risco   que Raych iria correr.

       

        Todos nós temos nossas pequenas ilusões e Cleon - imperador da galáxia, rei de Trantor, e uma grande coleção de outros  títulos que, em ocasiões especiais, eram recitados  em tom pomposo - estava convencido de que era uma pessoa democrática. Sempre se aborrecia quando Demerzel (e mais tarde Seldon)  - tentava demovê-lo de um curso de ação com o argumento de que " tal procedimento seria encarado como tirânico ou despótico.

        Em sua opinião, agir com firmeza e decisão não significava necessariamente ser despótico ou tirânico; a diferença estava na intenção.

        Falava com saudade do tempo em que o imperador podia misturar-se livremente com os seus súditos. Lamentava a série de golpes de Estado e tentativas de assassinato  que forçara o imperador a isolar-se em seu palácio.

        É pouco provável que Cleon, que jamais se encontrara com outras pessoas a não ser em circunstâncias extremamente formais, conseguisse se sentir à vontade no meio  de estranhos, mas ele gostava de imaginar que seria uma experiência muito agradável. Sentia-se grato, portanto, pela oportunidade rara de conversar com um dos empregados  no jardim, de sorrir, de despojar-se dos adereços imperiais por alguns minutos. Isso o fazia sentir-se um democrata. Aquele jardineiro de quem Seldon lhe falara,  por exemplo. Seria um prazer recompensá-lo, ainda que tardiamente, pela sua lealdade e bravura, e fazê-lo pessoalmente, em vez de deixar a tarefa a cargo de algum   subalterno. Por isso, marcou um encontro com ele no jardim de rosas, que, na ocasião, estava florido. Seria um local apropriado, pensou Cleon, mas, naturalmente,   o jardineiro teria que chegar primeiro. Seria impensável que o imperador tivesse que esperar. Uma coisa era ser democrático; outra, ser humilhado.

        O jardineiro estava esperando por ele no meio das rosas, de olhos arregalados e lábios trêmulos. Ocorreu a Cleon que talvez ninguém tivesse se lembrado de explicar   ao coitado a razão do encontro. Bem, trataria de tranqüilizá-lo - se bem que, para falar a verdade, não se lembrava mais do nome do homem. Voltou-se para um dos   auxiliares e perguntou:

        - Como se chama o jardineiro?

        - Mandell Gruber, majestade. Trabalha há vinte e dois anos nos jardins do palácio.

        O imperador fez que sim com a cabeça e disse:

        - Ah, Gruber. É um prazer falar com um jardineiro iluStre e trabalhador.

        - Majestade - murmurou Gruber, com voz trêmula, - não sou um homem de muitos talentos, mas procuro ser bom no que faço.

        - É claro, é claro - disse o imperador, imaginando se o jardineiro desconfiava que estivesse sendo sarcástico. Esses homens das classes inferiores não tinham a sensibilidade   das pessoas bem-educadas. Era isso que dificultava suas tentativas de se mostrar democrático.

        Cleon disse:

        - O primeiro-ministro me falou de sua coragem e lealdade, ao correr para defendê-lo, e de sua competência como jardineiro. Também me disse que são muito amigos.

        - Majestade, o primeiro-ministro é muito bondoso, mas conheço meu lugar. Nunca falo com ele a menos que me dirija a palavra primeiro.

        - Excelente, Gruber. Isso mostra que você tem bom senso, mas o primeiro-ministro, como eu, é um homem democrático, e sabe escolher os amigos.

        Gruber fez uma reverência. O imperador disse:

        - Como sabe, Gruber, o jardineiro-chefe, Malcomber, está muito velho e precisa se aposentar. As responsabilidades do cargo estão ficando pesadas demais para ele.

        - Majestade, o jardineiro-chefe é muito respeitado por todos os jardineiros. Que viva ainda muitos anos, para que todos possam se beneficiar de sua experiência e sabedoria.

        - Você fala bonito, Gruber - disse o imperador, em tom irônico, - mas nós dois sabemos que isso é bobagem. Ele não vai viver muitos anos, e mesmo que vivesse não teria forças para trabalhar. Ele próprio pediu para se aposentar até o final do ano e concordei. Só preciso encontrar um substituto.

        - Oh, majestade, existem cinqüenta homens e mulheres neste palácio que poderiam ocupar o cargo.

        - Acredito, mas acontece que escolhi você - declarou Cleon, com um sorriso magnânimo. Era esse o momento que estava esperando. A qualquer momento, Gruber cairia de joelhos, em um êxtase de gratidão.

        Quando isso não aconteceu, o imperador franziu a testa.

        - Majestade, não mereço essa honra - afirmou Gruber.

        - Bobagem - disse Cleon, aborrecido porque a sua escolha estava sendo questionada. - Já é mais do que tempo que suas qualidades sejam reconhecidas.  Não precisará mais ficar sujeito às intempéries. Ocupará os aposentos do jardineiro-chefe,  que mandei redecorar para você, e poderá trazer a família... você tem família, não tem, Gruber?

        - Tenho, majestade. Mulher, duas filhas e um genro.

        - Excelente. Sua vida vai melhorar, Gruber. Estará em um lugar confortável e protegido dos caprichos do tempo, como qualquer trantoriano que se preza.

        - Vossa   Majestade   talvez  não   saiba  que   nasci   em Anacreon...

        - Sei, sim, Gruber. Todos os planetas são iguais aos olhos do imperador. Está resolvido. Você vai ter o que merece.

        Despediu-se do jardineiro com um aceno de cabeça e foi embora. Cleon estava satisfeito com sua última demonstração de benevolência. É claro que o homem podia ter  demonstrado um pouco mais de gratidão, podia ter valorizado um pouco mais o seu gesto, mas pelo menos estava feito.

        Era muito mais fácil fazer a felicidade de um jardineiro do que resolver o problema das falhas nos serviços públicos.

        Em um momento de irritação, Cleon declarara que sempre que um acidente pudesse ser atribuído a falha humana, o responsável deveria ser executado.

        - Depois de algumas execuções, tudo vai voltar ao normal, você vai ver - dissera a Seldon.

        - Infelizmente, majestade, essa medida teria efeitos indesejáveis - argumentara Seldon. - Os funcionários provavelmente entrariam em greve; se tentasse fazê-los   voltar ao trabalho, haveria uma insurreição, e se tentasse substituí-los por soldados, descobriria que eles não sabem operar direito as máquinas, de modo que a freqüência   das falhas aumentaria, em vez de diminuir.

        Era por essas e outras que Cleon achava mais agradável a tarefa de escolher o novo jardineiro-chefe.

        Quanto a Gruber, ficara simplesmente arrasado. Perderia as delícias do ar livre para ficar confinado entre quatro paredes.

        Quem, porém, se atreveria a contestar uma ordem do imperador?

       

        Raych olhou-se no espelho do quarto de hotel, em Wye, e não gostou do que viu. Estava sem bigode; as costeletas tinham sido aparadas; o cabelo estava cortado rente.

        Parecia que tinha sido... tosquiado.

        Pior que isso. Em conseqüência das mudanças, ficara com cara de bebê.

        Era muito desagradável.

        Além disso, não tinha feito nenhum progresso. Seldon lhe fornecera o relatório da polícia a respeito da morte de Kaspal Kaspalov. Não dizia muita coisa; apenas que   Kaspalov tinha sido assassinado e a polícia local não conseguira descobrir o criminoso. O relatório deixava evidente que a polícia não atribuía grande importância  à investigação.

        Não era de surpreender. No último século, a criminalidade aumentara acentuadamente em muitos planetas, especialmente na capital, sem que a polícia pudesse fazer  muita coisa. Na verdade, o número de policiais diminuíra consideravelmente e eles estavam se tornando cada vez mais corruptos, embora isso fosse difícil de provar.

        Com os salários se recusando a acompanhar o custo de vida, era inevitável que acontecesse. Era preciso pagar bem para que os funcionários públicos se conservassem   honestos.

        Se o governo não fizesse isso, eles arranjariam outras formas de se compensar pelos salários inadequados.

        Seldon vinha tentando praticar essa doutrina há vários anos, mas era inútil. Não havia meio de aumentar os salários sem eleVar os impostos, e a população não admitia  qualquer aumento dos impostos. Aparentemente, preferia pagar dez vezes mais em  propinas.

        Tudo aquilo fazia parte (afirmara Seldon) do processo geral de decadência que a sociedade do Império vinha sofrendo nos últimos dois séculos.

        Que deveria fazer? Estava no hotel onde Kaspalov se hospedara dias antes de ser assassinado. Esperava que ainda houvesse alguém ali que soubesse alguma coisa a respeito  do crime. Se mostrasse interesse pela morte de Kaspalov, alguém poderia ficar assustado e tomar alguma atitude. Era perigoso, mas talvez fosse a única forma  de conseguir alguma coisa.

        Bem...

        Raych olhou para o relógio. Estava quase na hora do jantar. Os hóspedes deviam estar tomando aperitivos no bar do hotel. Era melhor juntar-se a eles e ver o que   acontecia.

       

        Sob certos aspectos, Wye era um setor austero. (Na verdade, isso se podia dizer de todos os setores, embora a rigidez de um setor fosse completamente diferente da  rigidez de outro.) Ali, as bebidas não eram alcoólicas, mas projetadas sinteticamente para estimular o organismo de outras formas. Raych não apreciava o gosto dos  coquetéis de Wye, mas isso lhe dava mais tempo para bebericar o seu drinque enquanto observava o que se passava em torno.

        Seu olhar se deteve em uma jovem que estava a algumas mesas de distância. Era muito bonita, e deixava claro que Wye não era um setor austero sob todos os aspectos.  A moça percebeu que ele estava olhando e, depois de um momento, sorriu ligeiramente e levantou-se. Dirigiu-se para a mesa  de Raych, enquanto o rapaz a observava, pesaroso. No momento, infelizmente, não podia perder tempo com uma aventura amorosa.  Ao chegar à mesa, ela parou por um momento e depois se sentou na cadeira em frente à do rapaz.

        - Olá - disse. - Você não é um freqüentador habitual. Raych sorriu.

        - Acertou em cheio. Você conhece todos os freqüentadores habituais?

        - Quase todos - respondeu a jovem, muito à vontade. - Meu nome é Manella. Qual é o seu?

        Raych ficou mais pesaroso ainda. Ela era alta, mais alta do que ele próprio, sem os sapatos de solas grossas, algo que sempre achara atraente em uma mulher. Tinha   pele clara e cabelos longos e esvoaçantes, com reflexos vermelhos. As roupas que usava eram razoavelmente discretas e poderia, com algum esforço, passar por uma   mulher respeitável da classe média.

        - Meu nome não importa - respondeu Raych. - Não tenho dinheiro.

        - Oh. É pena. - Manella fez uma careta. - Pode arranjar algum?

        - Bem que gostaria. Estou desempregado. Sabe onde eu poderia arranjar um emprego?

        - De que tipo? Raych deu de ombros.

        - Não tenho muita experiência, mas também não sou orgulhoso.

        A moça olhou para ele, pensativa.

        - Vou lhe dizer uma coisa, estranho. Para você, eu daria um bom desconto.

        Raych ficou surpreso. Em geral era bem-sucedido com as mulheres, mas isso quando estava usando bigode. Será que havia as que preferiam uma cara de bebê?

        - Estou procurando um amigo que passou alguns dias hospedado aqui. Já que você parece conhecer todos os freqüentadores, talvez possa me ajudar. O nome dele é Kaspalov.

        - Kaspal - disse o rapaz, levantando ligeiramente a voz.

        A moça sacudiu a cabeça.

        - Nunca ouvi falar.

        - É pena. Ele era um joranumita como eu. A moça não disse nada.

        - Sabe o que é um joranumita? - insistiu Raych.

        - Não, não sei. Já ouvi a palavra, mas não sei o que significa. Algum tipo de profissão?

        - Eu levaria muito tempo para explicar - disse o rapaz, desapontado.

        Aquilo soou como um sinal de que Raych queria ficar sozinho e, depois de um momento de hesitação, a moça se levantou e afastou-se. Ela não sorriu, e Raych ficou  um pouco surpreso de que tivesse ficado tanto tempo depois que ele deixara claro que não podia lhe pagar.  (Seldon sempre lhe dissera que tinha a capacidade de despertar a afeição das mulheres, mas certamente isso não se aplicava às profissionais. Para elas, o dinheiro  era a única coisa que importava. Isso também queria dizer que não ligavam para o fato de um homem ter uma estatura abaixo do normal, mas, felizmente, o mesmo acontecia  com muitas mulheres comuns.)

        Seus olhos acompanharam Manella automaticamente. A jovem parou em outra mesa, onde um homem estava sentado sozinho. Era um tipo de meia-idade, cabelos louros, rosto  bem barbeado. Raych pensou que provavelmente ele ficaria melhor de barba, pois tinha um queixo muito saliente e um pouco assimétrico.

        Aparentemente, a moça não teve mais sorte com o novo cliente em potencial. Os dois trocaram algumas palavras e ela seguiu caminho. O que estava acontecendo não   devia ser freqüente. Manella era sem dúvida uma mulher extremamente desejável.

        Sem querer, começou a pensar no que aconteceria se deixasse a missão de lado por uma noite e... de repente percebeu que não estava sozinho. Desta vez, era um homem.

        Na verdade, o homem com quem Manella acabara de falar.

        Recriminou-se por ter-se distraído a ponto de permitir que um desconhecido se aproximasse sem ser visto. Aquilo não devia acontecer.

        O homem olhou para ele com um brilho de curiosidade nos olhos.

        - Você estava conversando com uma amiga minha. Raych não pôde deixar de sorrir.

        - Ela é uma pessoa muito simpática.

        - É verdade. E é muito amiga minha. Não pude deixar de ouvir o que você disse a ela.

        - Espero não ter dito nada de errado.

        - Absolutamente. Você disse que era um joranumita, não disse?

        O coração de Raych deu um pulo. A idéia de falar com Manella tinha funcionado, afinal de contas. A palavra não significava nada para a moça, mas parecia significar alguma coisa para o seu "amigo".

        Isso queria dizer que agora estava na pista certa? Ou simplesmente que estava em apuros?

       

        Raych fez o possível para avaliar o interlocutor, sem permitir que seu rosto perdesse a expressão inocente. O homem tinha um olhar penetrante e a mão direita estava crispada de forma quase ameaçadora. O rapaz esperou pacientemente que o outro prosseguisse. O homem insistiu:

        - Ouvi você dizer que era um joranumita.

        Raych fez o possível para parecer nervoso. Não foi difícil.

        - Por que pergunta? - replicou.

        - Porque você é muito criança para isso.

        - Engano seu. Costumava ouvir os discursos de Jo-Jo Joranum.

        - Conhece-os de cor?

        Raych deu de ombros.

        - Não, mas concordo com suas idéias.

        - Você é corajoso, admitindo em público que é joranumita. Algumas pessoas não gostam disso.

        - Ouvi dizer que há muitos joranumitas em Wye.

        - Pode ser. Foi por isso que veio para cá?

        - Estou procurando um emprego. Talvez um colega joranumita possa me ajudar.

        - Existem joranumitas em Dahl, também. De onde você é? Não havia dúvida de que ele reconhecera o sotaque de Raych.

        Era uma coisa que não podia ser disfarçada. O rapaz respondeu:

        - Nasci em Millimaru, mas passei a infância e a adolescência em Dahl.

        - Fazendo o quê?

        - Não muita coisa. Estudei um pouco.

        - E por que é joranumita?

        Raych ficou irritado. Ele não podia ter morado em um setor decrépito e discriminado como Dahl sem ter razões óbvias para ser joranumita. Ele respondeu:

        - Porque acho que o povo deveria participar mais do governo e que deveria haver mais igualdade entre os setores e planetas. Não é o que pensam todas as pessoas de bom senso?

        - Acha que o Império deve ser abolido?

        Raych parou para pensar. Muita gente falava contra o governo, mas pregar a queda do imperador era considerado tabu.

        - Não foi o que eu disse - protestou. - Acredito no imperador, mas acho que governar o Império é uma tarefa grande demais para um único homem.

        - O Império não é governado por um único homem. Você se esquece da burocracia imperial. Que acha de Hari Seldon, o primeiro-ministro?

        - Não acho nada. Não sei muita coisa a respeito dele.

        - Tudo que sabe é que o povo deveria ter maior participação no governo, não é mesmo?

        Raych procurou parecer confuso.

        - É o que Jo-Jo Joranum costumava dizer. Não sei o nome  que você daria a isso. Uma vez, ouvi alguém chamar de "democracia", mas não sei se está certo.

        - Democracia é um sistema de governo que existe em alguns planetas. Não sei se a vida nesses planetas é melhor do que nos outros. Quer dizer que você é um democrata?

        - Sinto-me mais como um joranumita - respondeu Raych.

        - Naturalmente, se você é um dahlita...

        - Só morei lá por uns tempos.

        - ...você tende a lutar pela igualdade e coisas parecidas. Como os dahlitas são um povo oprimido, eles naturalmente combatem as injustiças.

        - Existem muitos joranumitas em Wye. Eles não são oprimidos.

        - Aqui, o motivo é outro. Os antigos governantes de Wye sempre quiseram ser imperadores. Você sabia?

        Raych sacudiu a cabeça.

        - Faz dezoito anos, a prefeita Rashelle quase conseguiu derrubar o imperador - afirmou o homem. - Os wyanos não são joranumitas autênticos; o que querem é a cabeça de Cleon.

        - Não tenho nada com isso - disse Raych. - Não sou contra o imperador.

        - Mas é a favor da representação popular, não é? Acha Que uma assembléia eleita pelo povo poderia governar o Império Galáctico sem se perder nos meandros da política partidária? Sem sofrer um processo de paralisia?

        - Não estou entendendo.

        - Acha que um grupo muito grande de pessoas poderia chegar rapidamente a uma decisão em caso de emergência? Ou eles se limitariam a ficar discutindo interminavelmente a situação?

        - Não sei, mas não parece correto que um pequeno grupo decida o destino de todos os planetas.

        - Está disposto a lutar pelas suas convicções? Ou prefere aPenas falar sobre elas?

        - Ninguém ainda me pediu para lutar - afirmou Raych.

        - Suponha que alguém o fizesse.

         - Lutaria por elas... se achasse que iria adiantar alguma coisa.

        - É um rapaz corajoso. Quer dizer que veio a Wye para lutar pelas suas convicções.

        - Não - protestou Raych, nervoso. - Não é verdade. Vim para cá em busca de um emprego. Não é fácil arranjar trabalho nos dias de hoje... e não tenho dinheiro. A gente precisa de dinheiro para viver.

        - Entendo. Como se chama?

        A pergunta foi feita bruscamente, mas Raych estava preparado.

        - Planchet.

        - Nome ou sobrenome?

        - Não sei  é o único que tenho.

        - Pelo que entendi, você não tem dinheiro e estudou muito pouco.

        - Infelizmente, é verdade.

        - E não tem nenhuma experiência de trabalho?

        - Não, mas sou muito esforçado.

        - Está bem. Vou lhe fazer um favor, Planchet. - O homem tirou do bolso um pequeno triângulo branco e apertou-o até aparecer uma mensagem. Em seguida, esfregou-a com o dedo, fixando-a. - Vou lhe dar um endereço. Vá até lá com este cartão e talvez consiga um emprego.

        Raych aceitou o cartão e examinou-o. Não conseguiu entender o que estava escrito. Olhou para o outro com o canto do olho.

        - Será que não vão pensar que eu o roubei?

        - Não pode ser roubado. O que coloquei aí foi o seu nome e a minha assinatura.

        - E se me perguntarem o seu nome?

        - Não vão perguntar. Você disse que precisava de um emprego. Essa é a sua chance. Não posso garantir nada, mas vai ter uma chance. - Entregou-lhe outro cartão. -

        Aqui está o endereço.

        Raych pôde ler com facilidade o que estava escrito no segundo cartão.

        - Obrigado - murmurou.

        O homem o dispensou com um gesto.

        Raych levantou-se, saiu... e começou a pensar em que confusão estaria se metendo.

       

        Para lá e para cá. Para lá e para cá.

        Gleb Andorin ficou olhando enquanto Gambel Deen Namarti andava para lá e para cá. Namarti não conseguia ficar parado um só instante, tal a violência da sua paixão.

        Andorin pensou: ele não é o homem mais inteligente do Império, ou mesmo do movimento, nem o mais esperto, nem o mais sensato. Tem que ser vigiado constantemente... mas não há ninguém tão decidido. Qualquer um de nós teria desistido, mas ele não. Acho que precisamos de alguém assim.

        Namarti parou, como se estivesse sentindo os olhos de Andorin nas suas costas. Voltou-se e disse:

        - Se pretende me recriminar mais uma vez pelo que aconteceu a Kaspalov, é melhor nem começar.

        Andorin deu de ombros.

        - De que adiantaria? O que está feito, está feito. Se houve algum prejuízo, paciência.

        - Que prejuízo, Andorin? Que prejuízo? Se eu não tivesse feito nada, aí haveria um prejuízo. O homem estava a ponto de trair a nossa causa. Mais um mês e ele iria falar com...

        - Eu sei. Eu estava lá. Ouvi o que ele disse.

        - Então você compreende que não tive escolha. Não acha Que gostei de mandar matar um velho camarada, acha? Eu não tive escolha.

        - Está certo. Você não teve escolha.

        Namarti começou a andar de novo de um lado para o outro. De repente, perguntou:

        - Andorin, você acredita em deuses? Andorin olhou para ele, surpreso.

        - Acredito em quê?

        - Em deuses.

        - Nunca ouvi essa palavra. O que significa?

        - Não existe no galáctico padrão. Significa influências sobrenaturais.

        - Ah, influências sobrenaturais. Por que não disse logo? Não, não acredito nesse tipo de coisa. Por definição, algo é considerado sobrenatural quando não obedece às leis da natureza, e tudo que existe obedece às leis da natureza. Está se tornando místico? - perguntou Andorin, como se achasse que o outro estivesse brincando, mas seus olhos revelavam uma preocupação genuína.

        Namarti fuzilou-o com os olhos. Aqueles olhos eram capazes de intimidar qualquer um.

        - Não seja idiota. Estive lendo a respeito. Trilhões de pessoas acreditam em influências sobrenaturais.

        - Eu sei - concordou Andorin. - Sempre foi assim.

        - Não se conhece a origem da palavra "deuses". Aparentemente, trata-se de um resíduo de uma língua primitiva, da qual só restou essa palavra. Sabe quantas diferentes

        crenças existem em diferentes tipos de deuses?

        - Imagino que o número de crenças deve ser aproximadamente igual ao número de variedades de tolos na população da galáxia.

        Namarti ignorou a observação.

        - Algumas pessoas acreditam que a palavra tenha aparecido no tempo em que toda a humanidade vivia em um único planeta.

        - Isso não passa de uma lenda ridícula. É uma idéia tão absurda quanto a das influências sobrenaturais. A humanidade não teve um planeta de origem.

        - Tem que ter tido, Andorin - afirmou Namarti, irritado. - Os seres humanos não podem ter surgido em vários planetas. Afinal, somos uma única espécie.

        - Mesmo assim, na prática não existe nenhum planeta de origem. Ele não pode ser localizado, não pode ser definido, não pode ser discutido racionalmente e portanto não existe na prática.

        - Esses deuses - disse Namarti, continuando sua linha de raciocínio - supostamente protegem a humanidade contra os perigos, ou pelo menos tomam conta da parte da humanidade que sabe como recorrer a eles. Na época em que existia apenas um planeta habitado, fazia sentido supor que os deuses estivessem particularmente interessados em cuidar desse mundo e de sua população. Eles se preocupariam com esse planeta como seu filho, ou seu irmão mais moço.

        - Gostaria de vê-los cuidar de todo o Império.

        - E se pudessem? E se fossem infinitos?

        - E se o sol congelasse? De que adianta fazer hipóteses absurdas?

        - Estou apenas especulando. Só isso. Nunca deu asas à mente? Você mantém seus pensamentos atrelados a uma coleira?

        - Acho que é a maneira mais segura de viver. Que foi que a sua mente lhe disse depois de sair voando por aí, chefe?

        Namarti olhou de cara feia para o outro, como se suspeitasse de um sarcasmo, mas Andorin encarou-o sem pestanejar.

        - O que minha mente me disse - prosseguiu Namarti - foi o seguinte: se os deuses existem, devem estar do nosso lado.

        - Excelente... se for verdade. O que o faz pensar assim?

        - O que me faz pensar assim? Sem os deuses, seria apenas uma coincidência, suponho, mas uma coincidência muito conveniente para nós. - De repente, Namarti bocejou e sentou-se. Parecia exausto.

        Ótimo, pensou Andorin. Talvez a imaginação febril do chefe estivesse dando lugar ao bom senso.

        - A questão do colapso dos serviços públicos... - começou Namarti, falando mais baixo.

        - Sabe, chefe, talvez Kaspalov não estivesse totalmente errado - interrompeu Andorin. - Quanto mais tempo continuarem os atos de sabotagem, maior a probabilidade de que as forças imperiais descubram que somos os responsáveis. Mais cedo ou mais tarde, o programa vai explodir, por assim dizer, em nossas mãos.

        - Não é hora de parar. Até o momento, as coisas estão explodindo nas mãos do imperador. A insatisfação em Trantor é algo que posso sentir. - Levantou as mãos, esfregando os dedos. - Posso sentir. Estamos quase conseguindo. Está na hora do próximo passo.

        Andorin sorriu ironicamente.

        - Não estou interessado em conhecer os detalhes, chefe. Kaspalov estava e mandou eliminá-lo. Não sou Kaspalov.

        - Justamente por não ser Kaspalov posso lhe contar. E porque sei de uma coisa que não sabia na ocasião.

        - Imagino - disse Andorin, acreditando apenas em parte no que estava dizendo - que pretenda atacar o próprio Palácio Imperial.

        Namarti levantou os olhos para ele.

        - É claro. O problema é entrar lá. Tenho minhas fontes de informação, mas são apenas espiões. Preciso de homens de ação.

        - Não vai ser fácil colocar homens de ação na região mais vigiada de toda a galáxia.

        - Claro que não. Era isso que estava me preocupando ultimamente... até que os deuses me ajudaram.

        - Acho que podemos deixar de lado a metafísica - observou Andorin, procurando não demonstrar o seu desagrado com aquela nova faceta do chefe. - O que aconteceu?

        - Fui informado de que Sua Majestade, nosso amado imperador, Cleon I, nomeou um novo jardineiro-chefe. É a primeira vez que isso acontece em quase um quarto de século.

        - E daí?

        - Não percebe a importância do fato? Andorin pensou um pouco.

        - Não sou um protegido dos seus deuses. Não sei aonde quer chegar.

        - Se eles estão com um novo jardineiro-chefe, Andorin, vai acontecer o que sempre acontece quando muda a administração, o mesmo que aconteceria, guardadas as devidas  proporções, se tivéssemos um novo primeiro-ministro, ou um novo imperador. O novo jardineiro-chefe certamente não vai querer trabalhar com o pessoal antigo. Vai forçar os antigos funcionários a se aposentarem e começar a contratar centenas de novos jardineiros.

        - É possível.

        - Mais do que possível. É garantido. Foi exatamente o que aconteceu quando o antigo jardineiro-chefe foi nomeado, quando o seu predecessor foi nomeado, e assim por diante. Centenas de desconhecidos dos Planetas Exteriores...

        - Por que dos Planetas Exteriores?

        - Use a cabeça, Andorin. O que é que os trantorianos entendem de jardinagem, se passam a vida debaixo de uma cúpula, cuidando de plantas em vasos? O que é que eles  entendem da vida ao ar livre?

        - Ah! Agora estou entendendo!

        - De modo que o palácio vai ser invadido por estrangeiros. Eles serão cuidadosamente investigados, suponho, mas o exame não será tão rigoroso como se fossem trantorianos.

        Isso quer dizer que poderemos introduzir alguns dos nossos, com identidades falsas. Mesmo que nem todos sejam contratados, uns poucos conseguirão entrar... uns poucos terão que entrar. Finalmente poderemos contar com agentes no palácio, apesar de toda a segurança que foi instalada depois que o atentado contra Seldon fracassou.

        - Namarti pronunciou o nome "Seldon" como se fosse uma palavra obscena. - É a nossa chance, afinal.

        Agora era Andorin que se sentia tonto, como se tivesse caído em um remoinho.

        - Pensando melhor, chefe, essa história dos deuses deve ter algum fundamento, porque estava esperando para lhe contar uma coisa que se encaixa perfeitamente no seu plano.

        Namarti olhou para o outro, desconfiado, e depois olhou em torno, como se temesse que estivessem sendo espionados. Sua Preocupação, porém, não tinha razão de ser.

        A sala ficava no meio de um complexo residencial e era bem protegida contra aparelhos de escuta. Ninguém podia escutá-los e ninguém, mesmo com instruções detalhadas, podia chegar onde estavam, sem passar Por membros leais da organização.

        - De que está falando? - perguntou Namarti.

        - Encontrei o homem ideal para você. É muito jovem... e muito inocente. Um sujeito simpático, do tipo em que você confia à primeira vista. Tem um rosto franco,   um olhar expressivo; viveu em Dahl; defende a igualdade entre os setores; acha que Joranum é a melhor coisa que apareceu desde os doces de Mycogen; e tenho certeza   de que será fácil convencê-lo a fazer qualquer coisa para a causa.

        - Você acha? - repetiu Namarti, em tom desconfiado. Ele é um dos nossos?

        - Não exatamente. O rapaz sabe que Joranum era a favor da igualdade entre os setores.

        - Era essa a sua bandeira. Certo.

        - É a nossa, também. Mas o rapaz acredita nela. Quer que o povo participe do governo. Chegou a falar em democracia.

        Namarti fez um muxoxo.

        - Nos últimos vinte mil anos, nenhum governo democrático conseguiu se manter por muito tempo no poder.

        - É verdade, mas isso não vem ao caso. Eu lhe digo, chefe, no momento em que vi aquele rapaz, tive certeza de que poderíamos usá-lo para alguma coisa, mas não sabia exatamente o quê. Agora sei. Podemos infiltrá-lo no Palácio Imperial, como jardineiro.

        - De que forma? Ele entende de jardinagem?

        - Não, acho que não. Ele me disse que não tinha nenhuma qualificação. No momento, está operando um guindaste, mas nunca tinha feito isso antes. Mesmo assim, se pudermos apresentá-lo como ajudante de jardineiro, com um par de tesouras na mão, será o suficiente.

        - O suficiente para quê?

        - Para introduzirmos no palácio alguém capaz de se aproximar da pessoa que quisermos sem despertar suspeitas. Estou lhe dizendo que o rapaz tem um ar de honestidade, de franqueza, que inspira confiança em qualquer um.

        - E ele fará o que lhe pedirmos?

        - Sem pestanejar.

        - Como encontrou essa pessoa?

        - Na verdade, não fui eu. Foi Manella.

        - Quem?

        - Manella. Manella Dubanqua.

        - Oh. Aquela sua amiga. - Namarti fez uma careta de desaprovação.

        - Ela é amiga de muita gente - afirmou Andorin, em tom condescendente. - Essa é uma das coisas que a tornam útil para a organização. É capaz de avaliar um homem  rapidamente. Conversou com o sujeito... o nome dele é Planchet... porque ele lhe chamou a atenção, e posso lhe assegurar que não é qualquer um que chama a atenção   de Manella. Trocou algumas palavras com ele e depois me disse: "Tenho um peixe para você, Gleb." Deixarei que ela cuide dos peixes a qualquer dia da semana.

        - O que você acha que esse seu maravilhoso agente vai fazer quando conseguir se infiltrar no palácio, Andorin? - perguntou Namarti, em tom irônico.

        Andorin respirou fundo.

        - O que vai fazer? Ora, se fizermos as coisas direito, até mesmo nos livrar para sempre no nosso amado imperador, Cleon I.

        Namarti ficou vermelho de raiva.

        - O quê? Está maluco? Qual a vantagem de assassinarmos Cleon? Ele é indispensável para nós. É a fachada atrás da qual poderemos controlar o Império. É o nosso passaporte para a legitimidade. Onde está o seu juízo? Precisamos dele como testa-de-ferro. Não vai nos atrapalhar em nada e tornará muito mais forte o nosso governo.

        Andorin finalmente perdeu a calma.

        - O que você pretende, então? O que está planejando? Já estou cansado de ouvir desaforos.

        Namarti levantou a mão.

        - Está bem. Está bem. Retiro o que disse. Mas pense um pouco, está bem? Quem foi que acabou com Joranum? Quem foi que acabou com nossas esperanças, dez anos atrás?

        Foi aquele matemático, não foi? Hoje em dia, é ele que governa o Império com aquela conversa idiota a respeito da psico-história. Cleon não representa nada. Nosso verdadeiro inimigo é Hari Seldon. Hari Seldon que estamos tentando desmoralizar com esta série de acidentes. Os prejuízos que eles causam são interpretados como resultado de sua apatia, de sua incompetência. - Havia saliva nos cantos da boca de Namarti. - Quando ele for eliminado, todo o Império dará vivas. Deixem que saibam quem foram os responsáveis. - Levantou a mão e deixou-a cair, como se estivesse cravando uma faca no coração de alguém. – Seremos aclamados como heróis, como salvadores do Império. Hein? Hein? Acha que o seu rapaz será capaz de eliminar Hari Seldon?

        Andorin tinha recuperado a calma, pelo menos na aparência.

        - Tenho certeza que sim - afirmou. - Por Cleon, poderia ter algum respeito; ele está envolvido por uma aura de misticismo, como você sabe. - Namarti amarrou a cara, porque ele tinha destacado ligeiramente o "você". - No caso de Seldon, é diferente.

        Por dentro, porém, Andorin estava furioso. Aquilo não era o que queria. Sentia-se traído.

       

        Manella tirou os cabelos dos olhos e sorriu para Raych.

        - Eu lhe disse que faria um bom abatimento. Raych piscou para ela e coçou o ombro nu.

        - Na verdade, não me custou nada... a menos que tenha deixado a cobrança para depois.

        A moça deu de ombros.

        - Por que faria isso?

        - Ainda me pergunta?

        - Às vezes, tenho direito de me divertir.

        - Comigo?

        - com você.

        Houve uma longa pausa e depois Manella observou, em tom carinhoso:

        - Além disso, você ganha muito pouco. Como vai o trabalho?

        - É melhor do que nada. Muito melhor. Você pediu àquele sujeito para me arranjar um emprego?

        Manella sacudiu a cabeça devagar.

        - Está falando de Gleb Andorin? Não pedi nada a ele. Apenas lhe disse que você estava procurando trabalho.

        - Acha que ele vai ficar aborrecido porque você e eu...

        - Por que deveria? Ele não tem nada com isso.

        - O que é que ele faz?

        - Não creio que Gleb trabalhe. Ele tem muito dinheiro. É parente dos antigos prefeitos.

        - De Wye?

         - Isso mesmo. Não gosta do governo. Gente como ele geralmente não gosta. Ele acha que Cleon devia ser... - A moça interrompeu o que estava dizendo e comentou: -

        Acho que estou falando demais. Não vá sair por aí repetindo o que eu disse.

        - Eu? Não ouvi nada do que você disse. Nem pretendo ouvir.

        - Certo.

        - Mas você estava falando daquele sujeito, Andorin. Ele é um joranumita importante?

        - Não sei.

        - Nunca conversou com você a respeito da organização?

        - Não.

        - Entendo - disse Raych, procurando não parecer desapontado.

        A moça olhou para ele, desconfiada.

        - Por que o interesse?

        - Eu gostaria de entrar também para a organização. Talvez seja um meio de subir na vida. Um emprego melhor. Mais dinheiro. Você sabe.

        - Talvez Andorin possa ajudá-lo. Ele gosta de você. Isso ele me disse.

        - Pode interceder por mim?

        - Posso tentar. Gosto de você. Gosto de você muito mais do que de Gleb.

        - Obrigado, Manella. Gosto de você, também. - Acariciou-lhe as costas e desejou ardentemente que pudesse dedicar mais tempo à moça e menos à sua missão.

       

        - Gleb Andorin - disse Hari Seldon, com voz cansada, esfregando os olhos.

        - Quem é ele? - perguntou Dors Venabili, de mau humor, como tinha estado desde o dia em que Raych partira.

        - Até poucos dias atrás, eu nunca tinha ouvido falar dele  - explicou Seldon. - É esse o problema de tentar governar um planeta com quarenta bilhões de habitantes. Você nunca ouve falar de ninguém, exceto dos poucos que   se intrometem na sua vida. Apesar de dispor do sistema de informações mais desenvolvido da galáxia, Trantor é um planeta de anônimos. Num piscar de olhos, podemos   obter dados a respeito de qualquer cidadão, mas que cidadão? Acrescente a isso vinte e cinco milhões de Mundos Exteriores e o milagre é que o Império Galáctico tenha   durado todos esses milênios. Francamente, acho que sobreviveu apesar do governo central, e não graças a ele. E agora, finalmente, está prestes a se desintegrar.

        - Chega de filosofia, Hari - disse Dors. - Quem é esse Andorin?

        - Alguém de quem eu devia ter ouvido falar. Acabo de examinar a sua ficha. É membro da família de prefeitos de Wye. Um membro importante. Tão importante que a Guarda   Imperial tem um arquivo especial a seu respeito. Acham que ele é um tipo ambicioso, mas que é hedonista demais para fazer alguma coisa de concreto.

        - Está envolvido com os joranumitas?

        Seldon fez um gesto vago.

        - Aparentemente, a G. I. não sabe nada a respeito dos joranumitas. Isso pode querer dizer que eles não existem mais, ou, se existem, perderam toda a importância.  Pode também querer dizer que a G. I. simplesmente não está interessada. A verdade é que não posso forçá-los a investigar ninguém; devo ficar grato por me fornecerem   informações. E sou o primeiro-ministro...

        - É possível que você não seja um bom primeiro-ministro? - perguntou Dors.

        - É mais que possível. Há muito tempo não escolhem alguém menos indicado para o cargo. Mas isso não tem nada a ver com a Guarda Imperial. Apesar do nome, eles são   totalmente independentes do governo. O próprio Cleon não parece conhecer muita coisa a respeito deles, embora, teoricamente, estejam diretamente subordinados ao   imperador. Se soubéssemos mais a respeito da Guarda Imperial, estaríamos tentando incluí-la nas nossas equações psico-históricas, acredite.

        - Eles estão do nosso lado, pelo menos?

        - Acredito que sim, mas não posso jurar.

        - Por que está interessado nesse homem?

        - Em Gleb Andorin? Porque recebi uma mensagem indireta de Raych.

        Os olhos de Dors brilharam.

        - Você não me contou. Ele está bem?

        - Tudo indica que sim, mas espero que não tente se comunicar de novo comigo. Se for pego em flagrante, não ficará bem por muito tempo. Seja como for, ele fez contato   com Andorin.

        - E com os joranumitas, também?

        - Acho que não. O movimento joranumita é um movimento proletário, e Andorin é o aristocrata dos aristocratas. O que faria ele no meio dos joranumitas?

        - Se Andorin pertence à família de prefeitos de Wye, pode ter pretensões ao trono imperial, não é verdade?

        - Claro que sim. Eles estão de olho no trono há várias gerações. Lembra-se de Rashelle? Era tia de Andorin.

        - Nesse caso, ele poderia estar usando os joranumitas como um degrau para chegar ao poder, não acha?  Se é que eles ainda existem. Se existem, e se Andorin hesitando usá-los, vai descobrir que está jogando um jogo  perigoso. Os joranumitas devem ter seus próprios  planos e um homem como Andorin pode ver-se, de uma hora para a outra, montado num greti...

        - O que e um greti?

        - Um animal extinto, muito feroz, acredito. É apenas um provérbio que aprendi em Helicon. Quando você monta num greti, logo percebe que não pode apear, ou será devorado.

        - Seldon fez uma pausa. - Mais uma coisa. Parece que Raych se envolveu com uma mulher que conhece Andorin. Através dela,  pretendeu  obter informações importantes.  Estou lhe contando isto agora para que mais tarde não me acuse de ocultar nada...

        Dors franziu a testa.

        - Uma mulher?

        - Ao que parece, uma mulher que conhece muitos homens e que pode extrair deles muitos segredos durante encontros íntimos.

        - Ah, uma dessas - disse Dors, em tom preocupado. - Não gosto da idéia de Raych...

        - Ora, ora. Raych tem trinta anos e muita experiência. Acho que saberá usar de bom senso no seu relacionamento com esta mulher... ou com qualquer outra. - Voltou-se   para Dors com um olhar muito cansado, muito preocupado, e concluiu: - Acha que estou gostando disto? Acha que estou muito satisfeito com o que está acontecendo?

        Dors não soube o que responder.

       

        Gambol Deen Namarti não era, mesmo quando tudo estava tranqüilo, conhecido pela sua polidez e suavidade, e a proximidade  do clímax de uma década de planejamento o deixara ainda mais agressivo.

        Levantou-se da cadeira e disse, em tom de censura:

        - Levou muito tempo para chegar aqui, Andorin. O outro deu de ombros.

        - O importante é que cheguei.

        - E esse seu rapaz... essa peça notável que você conquistou para nossa causa. Onde está ele?

        - Daqui a pouco estará aqui.

        - Por que ainda não está?

        Andorin hesitou ligeiramente, como se estivesse decidindo o que responder, e depois disse, em tom abrupto:

        - Não quero que fale com ele até que eu saiba quais são as suas intenções.

        - Que quer dizer com isso?

        - Você me entendeu. Há quanto tempo o seu objetivo é derrubar Hari Seldon?

        - Sempre foi! Sempre foi! É tão difícil de entender? Ele merece pagar pelo que fez a Jo-Jo. Além disso, é o primeiro-ministro; temos que livrar-nos dele.

        - Mas é Cleon... Cleon... que deve ser derrubado! Se quiser a cabeça de Seldon, também, é problema seu; mas Cleon não pode ficar.

        - Por que se preocupa tanto com uma figura decorativa?

        - Você não nasceu ontem. Nunca lhe expliquei minha motivação porque ela era óbvia desde o começo. O que ganho apoiando seus planos se você pretende deixar o imperador no trono?

        Namarti riu.

        - Você está certo. Há muito tempo que você deixou claro Que pretendia usar-me como degrau para chegar ao trono.

        - Não acha justo?

        - Acho, sim. Eu planejo o golpe, corro todos os riscos, e depois, quando tudo estiver terminado, você colhe a recompensa. É muito justo.

        - Você se esqueceu de dizer que a recompensa também será sua. Você vai ser o novo primeiro-ministro, não vai? Vai  contar com toda a simpatia do novo imperador, não vai? Porque  eu Vou ser - Andorin cuspiu as palavras com uma careta irônica - a nova figura decorativa, não Vou?

        - É isso que gostaria de ser? Uma figura decorativa?

        - Quero ser o imperador. Financiei o seu partido. Arranjei adeptos. Tornei sua organização respeitável aqui em Wye. Posso fazê-lo voltar à estaca zero.

        - Impossível.

        - Quer arriscar? Não pense que pode se livrar de mim como se livrou de Kaspalov. Se alguma coisa acontecer comigo, não haverá mais lugar para você e seus companheiros   aqui em Wye, e duvido que encontrem o que precisam em outro setor.

        Namarti suspirou.

        - Então você faz questão de que o imperador seja morto.

        - Eu não disse "morto". O que eu disse foi "derrubado". Os detalhes ficam por sua conta - afirmou Andorin, com um gesto autoritário, como se já estivesse no trono.

        - E depois de derrubarmos Cleon você se tornará o novo imperador?

        - Isso mesmo.

        - Não, isso não vai acontecer. Você vai morrer, Andorin, e não será pelas nossas mãos. Deixe-me ensinar-lhe alguns fatos da vida. Se Cleon for afastado, haverá uma   disputa feroz pela sucessão; para evitar que haja uma guerra civil, a Guarda Imperial será forçada a eliminar todos os membros da família de prefeitos de Wye em   que conseguir pôr as mãos.  Você será provavelmente o primeiro. Por outro lado, se apenas o primeiro-ministro for eliminado, você estará seguro.

        - Por quê?

        - Um primeiro-ministro é apenas um primeiro-ministro. Eles vão e vêm. Podemos espalhar o boato de que Cleon se cansou de Seldon e mandou matá-lo. A Guarda Imperial  levará algum tempo para agir e teremos tempo de consolidar nossa posição no poder. Na verdade, é bem possível que eles fiquem satisfeitos com a saída de Seldon.

        - O que Vou fazer depois que você assumir o cargo de primeiro-ministro? Continuar esperando indefinidamente?

        - Não. Depois que me tornar primeiro-ministro, darei um jeito de afastar Cleon. Pode ser até que consiga voltar a Guarda Imperial contra ele. Depois de me livrar de Cleon, chamarei você para ocupar o lugar dele.

        - Por que faria isso? - perguntou Andorin.

        - Como assim?

        - Você quer vingar-se de Seldon. Depois de conseguir o seu intento, por que arriscaria o pescoço por minha causa? Não, você vai é fazer um acordo com Cleon e me   deixar com meus sonhos impossíveis. Talvez até mande me matar.

        - Não! - protestou Namarti. - Cleon nasceu no trono. Ele descende de várias gerações de imperadores... a orgulhosa dinastia Entun. Eu jamais conseguiria me entender   com ele. Você, por outro lado, chegaria ao trono como membro de uma nova dinastia, sem ligações com o passado, pois os poucos imperadores nascidos em Wye foram,   como todo mundo sabe, figuras medíocres. Você estará sentado em um trono instável, precisará de alguém para apoiá-lo... eu. Vamos, Andorin, nosso casamento não é   um casamento de amor, que não dura um ano; é um casamento de conveniência, que pode durar uma vida. Temos que confiar um no outro.

        - Jure que eu serei o novo imperador.

        - De que adianta jurar, se não acredita na minha palavra? Digamos que acho você um imperador extremamente útil e pretendo colocá-lo no lugar de Cleon assim que for   politicamente viável. Agora apresente-me ao homem que considera como o instrumento ideal para o nosso plano.

        - Está bem. Só quero que não se esqueça do que lhe disse. Esse rapaz é um idealista não muito inteligente. Vai cumprir as instruções à risca, sem se preocupar com   o perigo, sem se preocupar com segundas intenções. E tem um jeito tão franco que a vítima confiará nele mesmo que esteja com uma pistola na mão.

        - Acho isso impossível de acreditar.

        - Espere até conhecê-lo - disse Andorin.

       

        Raych baixou os olhos. Olhara de relance para Namarti e era o que bastava. Conhecera o homem dez anos antes, quando participara do plano para desacreditar Jo-Jo

        Joranum, e um olhar era mais que suficiente.

        Namarti mudara pouco em dez anos. A irritação e o ódio ainda eram seus traços principais - ou, pelo menos, era assim que Raych o via, pois o rapaz reconhecia que   não era uma testemunha imparcial - e haviam moldado sua fisionomia. O rosto estava um pouquinho mais macilento, os cabelos tinham ficado grisalhos, mas os lábios   finos traduziam a mesma determinação e os olhos escuros continuavam com o mesmo brilho feroz.

        Manteve os olhos baixos. Namarti não parecia ser o tipo de pessoa que gosta de ser encarada de frente.

        Namarti examinou Raych dos pés à cabeça, mas a leve expressão de desdém que raramente deixava seu rosto não desapareceu.

        Voltou-se para Andorin, que estava a seu lado, nervoso, e disse, como se o rapaz não estivesse presente:

        - Então este é o homem. Andorin fez que sim com a cabeça. Namarti voltou-se abruptamente para Raych.

        - Como se chama?

        - Planchet.

        - Acredita na nossa causa?

        - Sim, senhor. Sou um democrata e quero que o povo tenha maior participação nas decisões do governo - respondeu o rapaz, pausadamente, obedecendo à orientação de

        Andorin.

        Namarti olhou para Andorin.

        - Ele sabe falar! - Voltou-se novamente para Raych: - Está disposto a arriscar a vida pela causa?

        - Sim, senhor.

        - Vai fazer o que lhe ordenarem? Sem perguntas? Sem titubear?

        - Sei obedecer ordens.

        - Conhece alguma coisa de jardinagem?

        - Não, senhor - respondeu Raych, depois de um momento de hesitação.

        - Então você é trantoriano? Nasceu debaixo da cúpula?

        - Nasci em Millimaru, senhor, e passei a infância em Dahl.

        - Está certo - disse Namarti. Voltou-se para Andorin. - Entregue-o temporariamente aos homens que estão à espera do lado de fora. Eles cuidarão do rapaz. Depois,  volte aqui, Andorin. Quero falar uma coisa com você.

        Quando Andorin voltou, Namarti tinha sofrido uma mudança profunda. Seus olhos brilhavam e a boca exibia um sorriso malévolo.

        - Andorin, os deuses de que falamos outro dia estão mesmo do nosso lado! - exclamou.

        - Eu lhe disse que o rapaz era perfeito para os nossos propósitos.

        - Mais do que pensa, meu caro. Sabe, naturalmente, que Hari Seldon, nosso querido primeiro-ministro, conseguiu desmoralizar Joranum graças a uma armadilha plantada  por seu filho, ou melhor, por seu filho adotivo, na qual Jo-Jo caiu ingenuamente, apesar dos meus conselhos.

        - Sei - admitiu Andorin, balançando a cabeça. - Conheço a história. - Disse aquilo com ar de quem preferia nunca ter ouvido falar no assunto.

        - Eu vi aquele menino apenas uma vez, mas seu rosto ficou gravado no meu cérebro. Será que ele pensou que dez anos a mais, sapatos de solas grossas e a falta do  bigode seriam suficientes para me iludir? Aquele homem que você me apresentou é Raych, o filho adotivo de Hari Seldon.

        Andorin empalideceu.

        - Tem certeza, chefe? - perguntou, quando recuperou a fala.

        - Tanta certeza quanto a de que você introduziu um inimigo no nosso meio.

        - Eu não fazia idéia...

        - Não fique nervoso - disse Namarti. - Talvez tenha sido  a melhor coisa que fez em sua vida imprestável de aristocrata. Acho que foram os deuses que o inspiraram. Se eu não soubesse quem ele é, teria cumprido a contento  a missão que certamente o trouxe aqui: espionar-nos e informar o pai a respeito de nossos planos mais secretos. Agora, porém, as coisas não vão funcionar assim.  A vantagem está toda do nosso lado. Namarti esfregou as mãos, contente, e depois, meio sem jeito, como se aquilo não combinasse com a sua maneira de ser, deu uma   sonora gargalhada.

       

        - Acho que não poderemos mais nos ver, Planchet - disse Manella, em tom compungido.

        Raych estava se enxugando depois de tomar um banho.

        - Por quê?

        - Gleb Andorin não quer.

        - Por que não? Manella deu de ombros.

        - Parece que você tem um trabalho importante pela frente e não deve perder tempo comigo. Talvez ele esteja pensando em promovê-lo.

        - Que tipo de trabalho? Ele disse?

        - Não, mas comentou que estava a caminho do setor imperial.

        - É mesmo? Ele sempre lhe conta coisas assim?

        - Você sabe como é, Planchet. Quando um homem está na cama com a gente, diz coisas que normalmente não diria.

        - Entendo. O que mais ele disse? Manella franziu a testa.

        - Por que quer saber? Ele também vive me perguntando a respeito de você. Acho que os homens são todos assim. Morrem de curiosidade a respeito dos outros homens.

        - Que foi que você contou a ele sobre mim?

        - Pouca coisa. Só que você é um tipo decente. Naturalmente, não posso contar a Gleb que gosto mais de você do que dele. Isso o deixaria magoado... se não o deixasse furioso.

        Raych começou a se vestir.

        - Então não vamos mais nos encontrar.

        - Pelo menos por uns tempos, espero. Gleb pode mudar de idéia. Gostaria que ele me levasse para conhecer o setor imperial. Nunca estive lá.

        Raych quase se traiu, mas conseguiu conter-se a tempo.

        - Eu também nunca estive lá - declarou.

        - É lá que estão os edifícios mais altos, as casas mais bonitas, os restaurantes mais famosos. É lá também que moram os homens ricos. Gostaria de conhecer alguns homens ricos.

        - Melhor do que conhecer um pobretão como eu - observou Raych.

        - É verdade. Não se deve pensar o tempo todo em dinheiro, mas também não se pode viver sem pensar em dinheiro. Especialmente agora, que acho que Gleb se cansou de mim.

        - Ninguém poderia se cansar de você - disse Raych, descobrindo, para própria surpresa, que estava sendo sincero.

        - É isso que os homens sempre dizem, mas não é verdade. bom, Planchet, é isso aí. Cuide-se e, quem sabe, talvez um dia a gente se veja de novo.

        Raych fez que sim com a cabeça e não soube o que dizer. Não havia nada que pudesse fazer para expressar seus sentimentos.

        Procurou pensar em outra coisa. Precisava descobrir o que o Pessoal de Namarti estava planejando. Se o estavam separando de Manella, era porque algum evento importante se aproximava. A única pista de que dispunha era aquela pergunta extemporânea a respeito de jardinagem.

        Não podia consultar Seldon. Desde o encontro com Namarti, vinha sendo vigiado de perto; todos os meios de comunicação com o exterior tinham sido cortados, outro sinal seguro de que algo  estava para acontecer.

        Mas se descobrisse o que estava para acontecer apenas depois do fato consumado, sua missão poderia ser considerada um fracasso.

       

        Não estava sendo um dia bom para Hari Seldon. Fazia muito tempo que não tinha notícias de Raych; não tinha a menor idéia de como ele estava.

        Além da natural preocupação com a segurança do rapaz (certamente tomaria conhecimento se algo realmente sério acontecesse), tinha de pensar no que os inimigos deviam estar planejando.

        Devia ser algo sutil. Um ataque direto ao palácio estava totalmente fora de questão. O lugar estava muito bem defendido. Nesse caso, o que estariam tramando?

        Aquilo o mantinha acordado à noite e distraído durante o dia.

        A luz de advertência começou a piscar.

        - Primeiro-ministro. Seu compromisso das duas horas, senhor...

        - Que compromisso é esse?

        - Com o jardineiro, Mandell Gruber. Está na sua agenda.

        Seldon lembrou-se.

        - Está bem. Mande-o entrar.

        Aquilo não era hora para falar com Gruber, mas concordara em recebê-lo num momento de fraqueza... o homem parecia tão ansioso! Um primeiro-ministro não devia ter   momentos de fraqueza, mas Seldon era Seldon muito antes de ser primeiro-ministro.

        - Entre, Gruber - disse, em tom carinhoso.

        Gruber entrou, cumprimentou-o mecanicamente com a cabeça  e ficou olhando de um lado para outro. Seldon tinha certeza de que o jardineiro jamais estivera em uma sala tão luxuosa, e teve vontade de dizer: "Gostou? Fique  com ela, por favor. Eu não gosto dela." Em vez disso, falou:

        - Que há com você, Gruber? Por que essa cara triste? O outro não respondeu; limitou-se a sorrir amarelo.

        - Sente-se, homem - disse Seldon. - Ali, naquela cadeira.

        - Oh, não, primeiro-ministro. Não quero sujá-la.

        - Se isso acontecer, não será difícil de limpar. Faça o que estou dizendo... ótimo! Agora, descanse aí um minuto ou dois. Depois, diga-me qual é o problema.

        Gruber ficou sentado em silêncio por um momento e depois as palavras saíram como uma enxurrada:

        - Primeiro-ministro, querem que eu seja o jardineiro-chefe. Foi o imperador em pessoa que me convidou.

        - Eu sei, Gruber, e quero aproveitar a oportunidade para lhe dar os parabéns pelo novo cargo. Sabe que talvez eu tenha contribuído para a sua promoção? Nunca me   esqueci da forma como agiu no dia em que tentaram me assassinar, e tive oportunidade de comentar a respeito com Sua Majestade. De qualquer forma, sei que está perfeitamente   qualificado para ser o novo jardineiro-chefe. Agora, diga-me o que o está incomodando.

        - Primeiro-ministro, o que está me incomodando é justamente essa promoção. Não me sinto qualificado para o cargo.

        - Modéstia sua. Gruber ficou agitado.

        - Querem que eu passe o resto da vida em um escritório? Não nasci para isso. Gosto de trabalhar ao ar livre, com plantas e animais. Seria como uma prisão, primeiro-ministro.

        Seldon arregalou os olhos.

        - Bobagem, Gruber. Você não vai passar o tempo todo no escritório. Poderá circular livremente pelos jardins, supervisionando tudo. Terá o melhor dos mundos: ar livre   à vontade, sem ter que trabalhar duro.

        - Gosto de trabalhar duro, primeiro-ministro, e não vão me deixar sair. Vi o que aconteceu com o atual jardineiro-chefe.  Ele não conseguiria deixar o escritório, mesmo que quisesse. A burocracia o mantém ocupado o dia inteiro.  Quando quer saber o que está acontecendo nos jardins, temos que ir até lá contar a ele. No máximo, observa as novidades  na holovisão. Como se uma imagem pudesse revelar alguma coisa sobre seres vivos -acrescentou, em  tom amargo. - Não, essa vida não é para mim, primeiro-ministro.

        - Ora, Gruber, seja corajoso. Não vai ser tão mau assim. Você se acostumará. Vá devagar e tudo correrá bem.

        Gruber sacudiu a cabeça.

        - Logo de saída, Vou ter que contratar novos jardineiros. Isso vai tomar todo o meu tempo. Não quero esse trabalho,   primeiro-ministro! - exclamou, com veemência.

        - No momento, Gruber, pode ser que não queira esse trabalho, mas você não é um caso isolado. Sabe que eu preferia não ser primeiro-ministro? Este cargo é terrível.   Desconfio que o próprio imperador às vezes tem vontade de ser um mortal comum. Estamos todos nesta galáxia para fazer o nosso trabalho, e o nosso trabalho nem sempre   é agradável.

        - Entendo o que quer dizer, primeiro-ministro, mas o imperador tem que ser imperador, porque foi educado para isso. O senhor tem que ser primeiro-ministro, porque   não há mais ninguém à altura do cargo. No meu caso, porém, o que estamos discutindo é a posição de jardineiro-chefe. Existem cinqüenta jardineiros no palácio que   poderiam se sair tão bem ou melhor do que eu e não se importariam de passar o dia inteiro no escritório. O senhor disse que contou ao imperador que tentei salvar   sua vida. Não poderia falar com ele de novo e explicar que a melhor recompensa seria me deixar como estou?

        Seldon recostou-se na cadeira e disse, em tom solene:

        - Gruber, eu faria isso se pudesse, mas tenho que lhe explicar uma coisa e espero que compreenda. O imperador, teoricamente, é o senhor supremo do Império. Na prática,   porém, quase não manda nada. O Império é governado por mim. Meu poder é muito maior do que o dele, mas também não posso fazer muita coisa. Existem bilhões de pessoas   em todos os níveis do governo, todas tomando decisões, todas cometendo erros, algumas agindo com bravura e heroísmo, outras com covardia e  desonestidade. É impossível controlá-las. Está me acompanhando, Gruber?

        - Estou, mas o que isso tem a ver com o meu caso?

        - Acontece que existe apenas um lugar onde o imperador é realmente o senhor supremo: o Palácio Imperial. Aqui sua palavra é lei e existem tão poucos funcionários   que ele pode dar as ordens pessoalmente. Pedir-lhe para voltar atrás de uma decisão que diz respeito ao palácio seria invadir o único setor que ele considera inviolável.   Se eu dissesse a ele: "Por favor, majestade, reconsidere a nomeação de Gruber para jardineiro-chefe", ele provavelmente preferiria me demitir do que voltar atrás.   O que talvez fosse bom para mim, mas não ajudaria você em nada.

        - Quer dizer que não pode mudar o que está feito?

        - Exatamente. Não se preocupe, Gruber. Vou ajudar você no que puder. Sinto muito. Agora, infelizmente, tenho que cuidar de outros assuntos.

        Gruber levantou-se, torcendo nas mãos o boné verde de jardineiro. Seus olhos estavam úmidos.

        - Obrigado, primeiro-ministro. Sei que gostaria de ajudar. O senhor... o senhor é um homem bom.

        Saiu da sala, cabisbaixo.

        Seldon ficou onde estava, pensativo. Sacudiu a cabeça. Era só multiplicar os problemas de Gruber por um quatrilhão e teria os problemas da população dos 25 milhões de mundos do Império. Como podia ser responsável pela felicidade de todos eles, quando não conseguia resolver o problema de um único homem que o procurara em busca de ajuda?

        A psico-história não podia salvar um homem. Poderia salvar um quatrilhão de homens?

        Sacudiu a cabeça de novo, consultou a agenda, e de repente teve um sobressalto. Gritou ao comunicador, em tom urgente, Que em nada lembrava a sua circunspecção habitual:

        - Não deixem aquele jardineiro sair do palácio! Mandem-no de volta para cá!

       

        - Que história foi aquela de contratar novos jardineiros? - perguntou Seldon, sem convidar Gruber a sentar-se.

        Gruber piscou os olhos, assustado por ter sido chamado de volta de forma tão inesperada.

        - N-novos jardineiros? - gaguejou.

        - Você disse: "Logo de saída, Vou ter que contratar novos jardineiros." Foram essas as suas palavras. Que novos jardineiros?

        Gruber estava perplexo.

        - Ora, com a nomeação do novo jardineiro-chefe, será necessário contratar novos jardineiros. É o costume.

        - Nunca ouvi falar desse costume.

        - Da última vez que o jardineiro-chefe foi substituído, o senhor ainda não era primeiro-ministro. Provavelmente, ainda nem morava em Trantor.

        - Explique melhor o que acontece.

        - Na verdade, os jardineiros nunca são demitidos. Alguns morrem; outros, se aposentam. Acontece que um jardineiro-chefe fica tanto tempo no cargo que quando é finalmente substituído a maioria dos auxiliares já está com idade avançada. Por isso, é costume que sejam todos aposentados e contratados novos jardineiros.

        - Para formar uma equipe mais jovem.

        - Para isso, e também porque o novo jardineiro-chefe normalmente assume o cargo com novos planos para os jardins. Os jardins do palácio cobrem uma área de quase quinhentos quilômetros quadrados; a reorganização pode levar vários anos, e serei o responsável por ela! Por favor, primeiro-ministro - insistiu Gruber, em tom suplicante, - um homem esperto como o senhor saberá encontrar uma forma de convencer o imperador a voltar atrás.

        Seldon não estava prestando atenção.

        - De onde vêm os jardineiros? - perguntou.

        - Eles são recrutados nos outros planetas... há sempre gente disposta a trabalhar em Trantor. Vão começar a chegar às centenas. Levarei pelo menos um ano...

        - De onde eles vêm? De onde?

        - De qualquer um dos milhões de planetas do Império. Quanto mais variado o conhecimento dos nossos jardineiros, melhor. Qualquer cidadão do Império pode se candidatar.

        - De Trantor, também?

        - Não, não de Trantor. Não temos nenhum jardineiro nascido em Trantor. - Sua voz assumiu uma expressão de desdém. - Um trantoriano jamais será um bom jardineiro. Os parques que existem debaixo da cúpula são muito diferentes dos nossos jardins. As plantas estão em vasos e os animais são mantidos em jaulas. Os trantorianos não entendem nada de ecologia.

        - Muito bem, Gruber, Vou lhe dar uma missão. Quero que descubra para mim os nomes de todos os jardineiros novos que vão chegar nas próximas semanas. Quero saber   tudo sobre eles. Nome, planeta, número de identificação, experiência profissional. Tudo. Vou destacar alguns funcionários para ajudá-lo. Funcionários especialistas   em processamento de dados. Que tipo de computador você usa?

        - Um modelo bem simples, que serve apenas para manter um cadastro das espécies de plantas e animais, coisas assim.

        - Tudo bem. Os homens que Vou mandar cuidarão disso, também. Não quero que nada corra errado.

        - Se ficar satisfeito com o meu trabalho...

        - Gruber, não é hora de fazer acordos. Se eu não ficar satisfeito com o seu trabalho, será demitido sem direito a pensão.

        Novamente sozinho, berrou ao comunicador:

        - Cancele todas as audiências de hoje.

        Deixou-se cair na cadeira, sentindo cada um dos seus cinqüenta anos, e mais, sentindo a dor de cabeça piorar. Há muitos anos, há muitas décadas, que a segurança   vinha sendo reforçada em torno do palácio, cada vez mais sólida, cada vez mais impenetrável. No entanto, vez por outra, hordas de completos desconhecidos tinham   acesso ao palácio. Provavelmente não tinham  que responder a nenhuma pergunta, a não ser: "Você entende de jardinagem?"  Era uma estupidez tão grande que quase não dava para acreditar.  E só conseguira detectá-la no último momento. Se é que o mal já não estava feito.

       

        Gleb Andorin olhou para Namarti com os olhos semicerrados. Não gostava do outro, mas havia ocasiões em que o detestava mais que de costume, e essa era uma dessas  ocasiões. Por que Andorin, um wyano da linhagem real (estava convencido disso) teria que trabalhar com aquele plebeu, aquele paranóico quase psicótico?

        Andorin sabia a razão, e tinha que ser paciente, mesmo quando Namarti resolvia contar, mais uma vez, como conseguira, em dez anos, transformar um partido praticamente  extinto num prodígio de organização. Será que ele repetia essa história para muita gente, ou escolhera Andorin como vítima?

        O rosto de Namarti parecia brilhar de júbilo quando ele dizia, com voz cantada, como se conhecesse as palavras de cor:

        - ...assim, ano após ano, trabalhei nesse sentido, sem desanimar, aumentando nossos efetivos, minando a confiança no governo, criando e intensificando a insatisfação   no seio do povo. Quando houve um aumento geral dos impostos, eu... - Namarti interrompeu bruscamente o que estava dizendo. - Já lhe contei isso muitas vezes. Deve   estar cansado de ouvir, não é?

        Os lábios de Andorin se contraíram num leve sorriso. Namarti não era nenhum idiota; sabia que às vezes podia ser extremamente maçante. O problema era que não conseguia se controlar.

        - É, você já me contou isso muitas vezes - concordou Andorin. Não havia necessidade de ofender Namarti respondendo que sim; isso estava implícito.

        O rosto chupado de Namarti ficou vermelho. Ele disse:

        - Entretanto, minha luta poderia continuar indefinidamente, sem resultados concretos, se eu não dispusesse de uma arma decisiva. E sem que eu fizesse qualquer esforço, essa arma veio parar nas minhas mãos.

        - Os deuses lhe enviaram Planchet - afirmou Andorin, em tom neutro.

        - Isso mesmo. Daqui a alguns dias, um grupo de jardineiros será admitido no Palácio Imperial. - Fez uma pausa e pareceu saborear a idéia. - Homens e mulheres, em número suficiente para servirem de cobertura para os nossos agentes. Entre eles estarão você e Planchet, os únicos armados com pistolas.

        - Não vamos passar do portão - afirmou Andorin. - Imagine, entrar no palácio com uma arma ilegal...

        - Ninguém vai saber que estão armados - explicou Namarti. - Vocês não serão revistados. Está tudo previsto. Normalmente, seriam recebidos por um funcionário subalterno, mas no caso de vocês Seldon em pessoa se encarregará disso. O grande matemático sairá para dar boas-vindas aos novos jardineiros.

        - Você tem certeza de que isso vai acontecer, suponho.

        - Claro que tenho. Seldon vai ficar sabendo, mais ou menos no último momento, que o filho está entre os recém-chegados. Não resistirá ao impulso de sair para vê-lo.

        No momento em que aparecer, Planchet vai sacar a pistola. Nossos agentes começarão a gritar: "Traição!" Na confusão subseqüente, Planchet matará Seldon e será morto por você. Em seguida, você deixará o palácio, protegido pelos outros agentes.

        - É mesmo necessário matar Planchet? Namarti franziu a testa.

        - Está brincando? Quer que ele conte às autoridades o que sabe a nosso respeito? Além disso, sua morte faz parte do plano. Não se esqueça de que Planchet é na realidade Raych, o filho adotivo de Seldon. Vai parecer que os dois atiraram um no outro, ou que Seldon deu ordem para que atirassem no filho se ele fizesse algum movimento suspeito. Queremos dar a impressão de que a tragédia foi o resultado de uma briga de família. Todos vão se lembrar do que aconteceu no tempo de Manowell, o imperador Sanguinário. Isso, combinado com os transtornos a que a população vem sendo submetida em conseqüência de falhas sucessivas nos serviços públicos, fará com que exijam uma mudança de governo. O imperador será forçado a atendê-los. É aí que entramos em cena.

        - Assim sem mais nem menos?

        - Não, não vai ser sem mais nem menos. Não vivemos num mundo de sonho. Provavelmente haverá um governo provisório, que vai fracassar. Cuidaremos para que fracasse.

        Ao mesmo tempo, entraremos em cena, revivendo os antigos argumentos dos joranumitas, que os trantorianos jamais esqueceram totalmente. Em pouco tempo, serei primeiro-ministro.

        - E eu?

        - Você será o novo imperador.

        - A probabilidade de que tudo dê certo é muito pequena. Isto está previsto. Aquilo está previsto. Tudo tem de funcionar ao mesmo tempo, sem nenhum erro. Em algum ponto, alguém vai fazer uma bobagem. É um risco inaceitável.

        - Inaceitável? Para quem? Para você?

        - Claro que para mim. Você quer que eu esteja presente para assegurar que Planchet mate Seldon e depois espera que eu mate Planchet. Por que eu? Por que não mandamos outro membro da organização, alguém que não faça muita falta se as coisas não correrem da forma prevista?

        - Porque nesse caso a probabilidade de êxito seria ainda menor. Quem, a não ser você, tem tanto interesse nessa missão que jamais desistiria no último momento?

        - O risco é muito grande.

        - Não vale a pena? A sua recompensa será o trono imperial.

        - E você, que risco está correndo? Vai ficar aqui, longe da ação, esperando pelas boas-novas.

        Namarti fez uma careta de desdém.

        - Você é um tolo, Andorin! Vamos estar bem-arranjados, tendo você como imperador! Pensa mesmo que não Vou correr nenhum risco?  Se o plano falhar, se alguns dos nossos forem feitos prisioneiros, acha que não vão contar tudo que sabem? Se você fosse apanhado, resistiria ao tratamento  carinhoso da Guarda Imperial apenas para não me denunciar? Depois de uma tentativa de assassinato fracassada, acha que eles não vasculhariam Trantor até me encontrarem?   E quando me encontrassem, o que acha que fariam comigo? Risco? Corro um risco maior do que você, mesmo que não participe diretamente da ação. A coisa se resume ao   seguinte, Andorin: você quer ou não quer ser imperador?

        - Quero - afirmou Andorin, em voz baixa.

        E assim ficou decidido que prosseguiriam com o plano.

       

        Raych podia ver que estava sendo tratado de forma especial. Os candidatos a jardineiros tinham sido alojados em um dos hotéis do Setor Imperial, embora, naturalmente,  não fosse um dos mais luxuosos.

        Formavam um grupo heterogêneo. Havia indivíduos nascidos em cinqüenta planetas diferentes, mas Raych praticamente não tivera oportunidade de conversar com eles.

        Andorin, agindo de forma discreta, mantivera-o afastado dos outros.

        Raych imaginava a razão pela qual o outro estaria agindo assim. A falta de contato com os companheiros deixava-o deprimido. Na verdade, vinha se sentindo deprimido  desde que chegara ao Setor Imperial. Tentara reagir, mas sem muito sucesso. O rapaz estava sendo vigiado de perto e não tivera nenhuma oportunidade de avisar ao   pai.

        Pelo que sabia, podiam estar fazendo isso com todos os joranumitas do grupo. Raych calculava que era cerca de uma dúzia, entre homens e mulheres.

        O que o intrigava era que Andorin o estava tratando quase com afeição. Ele o monopolizava, insistia para fazerem juntos todas as refeições, tratava-o com extrema  deferência.

        Poderia ser porque ambos haviam compartilhado o amor de Manella? Raych não conhecia suficientemente bem os costumes do Setor de Wye para saber se havia algum traço  de poliandria naquela sociedade. Se dois homens amavam a mesma mulher, isso criava algum tipo de ligação entre eles?

        Raych nunca tinha ouvido falar de nada parecido, mas não tinha a pretensão de conhecer mais que pequena fração das infinitas sutilezas que caracterizavam as sociedades  galácticas, ou mesmo as sociedades trantorianas.  Depois de pensar em Manella, teve dificuldade para tirá-la da cabeça. Sentia muita falta da moça, e ocorreu-lhe que talvez fosse essa a causa da sua depressão, embora,   para dizer a verdade, o que sentia no momento, enquanto almoçava com Andorin, era quase desespero... um desespero inexplicável.

        Manella!

        Manella lhe dissera que tinha vontade de conhecer o Setor Imperial; teria convencido Andorin a atendê-la? O desespero o fez perguntar:

        - Sr. Andorin, estive pensando. Quando viajou para cá, trouxe a Srta. Dubanqua em sua companhia?

        Andorin pareceu genuinamente surpreso. Começou a rir.

        - Manella? Consegue imaginá-la cuidando de um jardim? Não, não, Manella é dessas mulheres que existem apenas para nossas horas de lazer. Fora disso, não serve para nada. Por que pergunta, Planchet?

        Raych deu de ombros.

        - Não sei. As coisas aqui estão meio devagar. Pensei que se ela... - não concluiu a frase.

        Andorin olhou para ele, intrigado. Depois, disse:

        - Não me venha dizer que Manella é uma pessoa especial para você. Posso lhe assegurar que para ela todos os homens são iguais. Quando isto terminar, haverá outras mulheres. Muitas mulheres.

        - Quando é que isto vai terminar?

        - Mais cedo do que imagina. E você vai desempenhar um papel muito importante nos nossos planos - afirmou Andorin, com um sorriso.

        - Importante? Não Vou ser apenas... um jardineiro?

        - Vai ser mais do que isso, Planchet. Você vai estar armado com uma pistola.

        - O quê?

        - Você me ouviu.

        - Nunca atirei na minha vida.

        - Não é difícil. Você levanta a arma, faz pontaria, puxa o gatilho e a pessoa morre.

        - Eu não seria capaz de matar uma pessoa.

        - Pensei que fosse um dos nossos; que fosse capaz de fazer qualquer coisa pela causa.

        - Qualquer coisa, menos... matar. - Raych estava confuso. Quem esperavam que ele matasse? Qual seria o plano? Como poderia alertar os guardas do palácio antes que fosse tarde demais?

        O rosto de Andorin assumiu uma expressão dura. De amigo e confidente, transformara-se em superior hierárquico.

        - Você vai ter que matar - afirmou.

        - Não. Não Vou matar ninguém. Não adianta insistir.

        - Planchet, você vai me obedecer.

        - Não sou um assassino.

        - Mesmo assim.

        - Como vai me obrigar?

        - Não tem escolha.

        Raych se sentiu confuso. Por que Andorin estaria tão confiante? Sacudiu a cabeça.

        - Não Vou matar ninguém.

        - Temos cuidado da sua alimentação, Planchet, desde que saímos de Wye. Fiz todas as refeições com você. Supervisionei pessoalmente a sua dieta, especialmente o prato que acaba de comer.

        De repente, Raych compreendeu.

        - Desesperina!

        - Acertou em cheio - disse Andorin. - Você é esperto, Planchet.

        - Isso é contra a lei!

        - Claro que é. Assassinato também.

        Raych já ouvira falar da desesperina. Era uma modificação química de um tranqüilizante totalmente inofensivo. A forma modificada, porém, em vez de tranqüilidade,   produzia desespero. Tinha sido prescrita, mas corriam boatos de que era usada pela Guarda Imperial.

        - A desesperina tem esse nome por motivos óbvios. Deve estar desesperado, Planchet.

        - Não estou, não - murmurou Raych.

        - Pode mentir, mas não pode escapar aos efeitos da droga.

        - Deixe-me em paz.

        - Não adianta resistir, Planchet. Namarti reconheceu-o imediatamente, mesmo sem o bigode. Ele sabe que você é Raych Seldon, e, orientado por mim, vai matar o seu pai.

        - Não antes de matar você! - exclamou Raych, levantando-se da cadeira. Andorin podia ser mais alto, mas ele era mais forte e mais ágil. Podia fazer picadinho do outro com uma mão atrás das costas. Ao se levantar, porém, percebeu que estava tonto. Sacudiu a cabeça, mas a tontura não passou.

        Andorin levantou-se também, e recuou. Enfiou a mão direita no bolso e sacou uma arma.

        - Como vê, vim preparado. Já me disseram que é um truncador de primeira. Infelizmente, não vai haver nenhuma briga corpo-a-corpo. - Fez um gesto com a arma. - Isto não é uma pistola; não pretendo matá-lo antes que cumpra a sua missão. É um chicote neurônico. Muito pior do que uma pistola. Vou apontá-lo para o seu ombro esquerdo e, acredite, a dor será tão forte que o homem mais estóico do mundo não conseguiria suportá-la.

        Raych, que tinha dado dois passos na direção do outro, parou onde estava. com doze anos de idade, fora atingido de raspão por um chicote neurônico. Nunca mais se esquecera da dor que sentira.

        - Além do mais - prosseguiu Andorin, - Vou usar a força máxima, de modo que os nervos do seu braço vão ser primeiro estimulados até que a dor se torne insuportável e depois danificados de forma irreversível. Seu braço esquerdo ficará inutilizado. Vou poupar o braço direito, para que você possa usar a pistola. Por outro lado, se você se sentar e ficar quieto, não perderá nenhum braço. Naturalmente, você vai ter que comer de novo, de modo que o seu desespero vai aumentar ainda mais.

        Raych sentiu o desespero induzido pela droga tomar conta da sua mente. Não havia mais o que fazer; teria que obedecer às ordens de Andorin.

       

        - Não! - exclamou Hari Seldon, quase com violência. - Não quero que você vá lá fora, Dors!

        - Então você também não vai, Hari - declarou a moça, com igual firmeza.

        - Preciso ir!

        - Não é sua obrigação. Quem recebe os novos empregados é o jardineiro-chefe.

        - Pode  ser,   mas  Gruber  não  está  em  condições  de recebê-los.

        - Ele deve ter um assistente, um substituto, sei lá. Deixe o antigo jardineiro-chefe cuidar disso. Ele só vai deixar o cargo no final do ano.

        - O antigo jardineiro-chefe está muito doente. Além disso - acrescentou Seldon, com relutância - , existem impostores entre os novos jardineiros. Trantorianos.

        Estão aqui por algum Motivo. Tenho os nomes de todos eles.

        - Nesse caso, mande prendê-los. É simples. Por que complicar as coisas?

        Porque não sabemos o que pretendem. Estão tramando coisa. Não vejo o que uma dúzia de espiões pode fazer,  mas... Não, deixe-me dizer a coisa de outra forma. Existem muitas coisas que uma dúzia de espiões pode fazer, mas ainda não sei quais delas estão nos seus planos.

        É claro que vamos prendê-los, mas antes eu gostaria de observá-los de perto e tentar descobrir quais são as suas verdadeiras intenções.

        O ideal seria capturarmos todas as pessoas envolvidas na conspiração, e não apenas os falsos jardineiros. Não quero que esses doze homens e mulheres se queixem   de que estão sendo discriminados, de que fomos nós que os obrigamos a fornecer dados falsos, caso contrário não conseguiriam o emprego. Desse jeito, o povo ficará   do lado deles. Não, quero dar uma oportunidade para que eles próprios se denunciem. Além disso...

        Houve uma longa pausa. Afinal, Dors perguntou, impaciente:

        - Não vai dizer qual é o outro "além disso"?

        - Um dos doze é Raych, usando o nome falso de Planchet - revelou Seldon, em voz baixa.

        - O quê?

        - Por que a surpresa? Enviei-o a Wye para se infiltrar no movimento joranumita, e parece que ele conseguiu o que queria. Tenho confiança em Raych. Se está aqui,  sabe por que está aqui e deve ter um plano para impedir que os joranumitas consigam os seus objetivos. Mesmo assim, quero estar lá para ajudá-lo no que puder.

        - Se quer ajudá-lo, mande os guardas do palácio cercarem os novos jardineiros.

        - Não posso fazer isso sem que eles percebam. A segurança do palácio estará presente, mas não de forma ostensiva. Quero que pensem que estão seguros para fazer o   que pretendem. No momento em que começarem a agir, nossos homens entrarão em ação.

        - Será arriscado. Arriscado para Raych.

        - Às vezes temos que correr riscos. Existe muito mais em jogo do que as vidas de alguns indivíduos.

        - Que coisa mais impiedosa de se dizer!

        - Acha que não tenho sentimentos? Você sabe que nossa primeira preocupação deve ser com o futuro da psico...

        - Não precisa dizer. - Dors desviou os olhos, aflita.

        - Compreendo que esteja apreensiva - disse Seldon, - mas vai ter de ficar aqui. Sua presença lá fora seria tão pouco apropriada que os conspiradores suspeitariam   de que sabemos de tudo e cancelariam o plano. Não quero que cancelem o plano. - Fez uma pausa e depois prosseguiu. - Dors, você diz que o seu trabalho é zelar pela   minha segurança. Não por mim, mas pelo que poderei fazer pela psico-história e, em conseqüência, por toda a raça humana. É isso que vem em primeiro lugar. O que   conheço de psico-história me diz que preciso proteger o centro, custe o que custar, e é o que estou tentando fazer. Você entende?

        - Entendo - disse Dors, sem encará-lo. Espero que eu esteja certo, pensou Seldon.

        Se não estivesse, Dors jamais o perdoaria. Pior ainda, ele próprio jamais se perdoaria. com ou sem a psico-história.

       

        Estavam dispostos em colunas, em posição de descansar, mãos atrás das costas, usando elegantes uniformes verdes, com bolsos grandes. Os uniformes eram iguais para  ambos os sexos; alguns dos mais baixos deviam ser mulheres, mas era difícil ter certeza. Os capuzes cobriam os cabelos, mas, de qualquer forma, os jardineiros sempre   cortavam o cabelo bem curto e jamais usavam barba ou bigode.

        Por que era assim, ninguém sabia dizer. A palavra "tradição" explicava tudo, como explicava tantas outras coisas, algumas úteis, outras tolas.

        Em frente a eles estava Mandell Gruber, ladeado por seus ajudantes. Gruber estava trêmulo, os olhos arregalados fitando o vazio.

        Hari Seldon mordeu os lábios. Se Gruber conseguisse dizer "Sejam bem-vindos, em nome dos jardineiros do imperador", isso seria suficiente. O primeiro-ministro se encarregaria do resto.

        Percorreu com os olhos o novo contingente até localizar Raych.

        Seu coração bateu mais depressa. Ali estava o filho, sem bigode, na primeira fila, um pouco mais rígido que os outros, olhando fixamente para a frente. Seus olhos   não se moveram para encontrar os de Seldon. Não houve nenhum sinal, mesmo sutil, de que o tivesse reconhecido.

        Ótimo, pensou Seldon. É assim que se age, filho. Eles não vão desconfiar de nada.

        Gruber murmurou a saudação e Seldon entrou em cena.

        Adiantando-se, colocou-se à frente de Gruber e disse:

        - Obrigado, jardineiro-chefe em exercício. Homens e mulheres, jardineiros do imperador, uma importante tarefa os aguarda. Serão responsáveis pelo viço e beleza da  única área descoberta do nosso grande planeta de Trantor, capital do Império Galáctico. Se não temos os grandiosos panoramas dos mundos selvagens, mantemos aqui  uma pequena jóia de brilho inigualável.  Trabalharão sob as ordens de Mandell Gruber, que em breve será nomeado jardineiro-chefe. Ele está diretamente subordinado a mim, que estou diretamente subordinado   ao imperador. Assim, como podem ver, estão apenas três níveis abaixo do imperador na hierarquia do governo, e estarão sempre sob as vistas benignas de Sua Majestade. Estou certo de que neste exato momento o imperador os observa do Pequeno Palácio, sua residência particular, que é a construção que podem ver à direita, aquela com   uma abóbada dourada, e está satisfeito com o que vê.

        "Antes de começarem a trabalhar, naturalmente, passarão por um período de treinamento para se familiarizarem com os jardins e suas necessidades. Em seguida... Enquanto falava, Seldon estava se dirigindo para um ponto bem à frente de Raych, que permanecia imóvel, sem sequer pestanejar.”

        De repente, Seldon franziu a testa. O homem que estava logo atrás de Raych lhe parecia familiar. Talvez não o reconhecesse, se não tivesse examinado recentemente o seu holograma. Aquele não era Gleb Andorin, de Wye? O protetor de Raych? O que estava fazendo ali?

        Andorin devia ter notado o súbito interesse de Seldon, pois murmurou alguma coisa entre dentes e Raych tirou uma pistola do bolso do uniforme. Andorin imitou-o.

        Seldon ficou atônito. Como tinham conseguido entrar com armas no palácio? Confuso, mal ouviu os gritos de "Traição" e os sons do tumulto que se formou em sua volta.

        Tudo que ocupava a mente de Seldon era a pistola de Raych, apontada diretamente para ele, e o rosto do filho, uma máscara impassível. O primeiro-ministro compreendeu,  horrorizado, que o filho estava prestes a apertar o gatilho, que lhe restavam poucos segundos de vida.

       

        O efeito de um tiro de pistola sobre um ser humano é impressionante. Os órgãos internos são vaporizados. A implosão produz um som sibilante que pode ser ouvido a  uma certa distância.

        Hari Seldon não esperava ouvir aquele som; esperava apenas a morte. Foi portanto com grande surpresa que ouviu o ruído característico de um tiro de pistola. Baixou   os olhos para olhar Para si próprio.  Por que ainda estava vivo?

        Raych continuava no mesmo lugar, a pistola na mão, os olhos esgazeados. Estava absolutamente imóvel, como se acometido

        Por algum tipo de paralisia.

        Atrás do filho, viu o corpo retorcido de Andorin, no meio de uma poça de sangue, e de pé a seu lado, com uma pistola na  mão, um jardineiro. Tinha tirado o capuz; pôde ver que se tratava  de uma mulher, com o cabelo cortado rente. Ela disse:

        - Seu filho me conhece como Manella Dubanqua. Sou agente da Guarda Imperial.  Quer ver minhas credenciais, primeiro-ministro?

        - Não será necessário - murmurou Seldon com esforço. Os guardas da segurança estavam começando a chegar. - Meu  filho! O que aconteceu com o meu filho?

        - Desesperina, ao que parece - afirmou Manella. - O efeito não vai durar muito tempo. - Estendeu a mão para tirar  a arma da mão de Raych. - Desculpe por não ter agido antes. Estava esperando que eles dessem o primeiro passo e, quando  isso aconteceu, quase fui pega de surpresa.

        - Passei pelo mesmo problema. Precisamos levar Raych para o hospital do palácio.

        De repente, Seldon ouviu um barulho estranho, vindo do Pequeno Palácio. O primeiro-ministro se lembrou de que o imperador devia estar observando a cena de longe,  sem saber ao certo o que estava acontecendo.

        - Tome conta do meu filho, Srta. Dubanqua - pediu Seldon. - Preciso ir falar com o imperador.

        Atravessou correndo o jardim e entrou no Pequeno Palácio. Logo na entrada, cercado por um grupo de cortesãos horrorizados, estava o corpo de Sua Majestade Imperial,  Cleon I, com o rosto deformado por um tiro de pistola. As ricas vestes de imperador agora lhe serviam de mortalha. Encolhido a um canto, olhando estupidamente para  o vazio, estava Mandell Gruber.

        Seldon suspirou fundo. Pegou a pistola que estava aos pés de Gruber. Era a mesma que pertencera a Andorin, tinha certeza.

        - Gruber, o que você fez? - perguntou, sem levantar a voz.

        - Estavam todos correndo e gritando... - balbuciou Gruber. - Pensei comigo mesmo: "Quem vai saber? Vão pensar que os conspiradores mataram o imperador." Depois,   não tive forças para fugir.

        - Mas por que, Gruber? Por quê?

        - Para não ter que ser jardineiro-chefe - explicou Gruber, antes de perder os sentidos.

        Seldon ficou olhando, pensativo, para o jardineiro inconsciente.

        Tinham conseguido escapar por um triz. Ele estava vivo. Raych estava vivo. A conspiração fracassara e os joranumitas seriam perseguidos até o último homem.

        O centro teria sido preservado, como exigia a psico-história.

        Só que um homem, por um motivo banal, assassinara o imperador.

        E agora, pensou Seldon, desolado, o que vamos fazer? O que vai acontecer?

       

        DORS VENABILI

        VENABILI, DORS - A vida de Hari Seldon está tão envolta em lendas e incertezas que provavelmente jamais será possível escrever uma biografia que se baseie inteiramente  em fatos comprovados. Talvez o aspecto mais intrigante da existência de Seldon seja o seu relacionamento com Dors Venabili. Nada se sabe a respeito de Dors Venabili  até sua chegada à Universidade de Streeling, para lecionar história. Pouco depois, conheceu Seldon, com quem se casou e viveu durante 28 anos. Alguns relatos lhe   atribuem uma força e rapidez sobre-humanas, que lhe valeram o apelido de "mulher-tigre". Ainda mais curiosa que a sua chegada, porém, é a sua partida, pois, depois  de um certo tempo, ela não é mais mencionada e não há nenhuma indicação do que aconteceu.  Entre suas principais obras como historiadora, podemos mencionar...

        ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA.

       

        Wanda tinha quase oito anos de idade. Já parecia uma mocinha: muito séria, cabelos lisos castanho-claros, olhos azuis, que estavam escurecendo com o passar do  tempo. Talvez acabasse com olhos castanhos, como o pai.  Estava ali sentada, perdida nos seus pensamentos. Sessenta. Aquele era o número que a preocupava. O aniversário do avô estava chegando e ele iria fazer sessenta   anos. Sessenta era um número muito grande. Na véspera, sonhara a respeito. Um sonho muito desagradável.

        Resolveu ter uma conversa com a mãe. Ela devia saber.

        Não foi difícil encontrar a mãe. Estava conversando com o avô, certamente a respeito do aniversário. Wanda hesitou. Não queria fazer aquela pergunta na frente do avô.

        A mãe percebeu imediatamente que alguma coisa estava incomodando Wanda. Ela disse:

        - Um minuto, Hari, deixe-me ver o que Wanda quer. O que foi, querida?

        Wanda puxou-a pela mão.

        - Aqui não, mamãe. É particular. Manella voltou-se para Hari Seldon.

        - Está vendo como começam cedo? Vidas particulares. Problemas particulares... Está bem, filha, vamos conversar no seu Quarto?

        - Vamos, mamãe - concordou Wanda, visivelmente Aviada.

        As duas foram de mãos dadas até o quarto da menina. Chegando lá, Manella perguntou:

        - Qual é o problema, Wanda?

        - É o vovô, mamãe.

        - O vovô?

        - O vovô - repetiu a menina, começando a chorar. - Ele vai morrer?

        - Seu avô? Quem lhe deu essa idéia, Wanda?

        - Ele vai fazer sessenta anos. Está muito velho.

        - Não, não está. Não é mais nenhum garoto, mas também não é um velho. As pessoas podem viver oitenta, noventa, até cem anos, e seu avô é um homem forte e saudável.

        Ainda vai viver muito tempo.

        - Tem certeza? - perguntou Wanda, fungando. Manella segurou a filha pelos ombros e olhou-a nos olhos.

        - Todos nós temos que morrer um dia, Wanda. Já lhe expliquei isso. Só que não precisa se preocupar, porque no caso do seu avô esse dia está muito distante. - Enxugou   os olhos da filha com carinho. - O vovô vai continuar vivo até você crescer e ter filhos. Você verá. Agora venha comigo. Quero que fale com o seu avô.

        Wanda fungou novamente.

        Quando as duas voltaram à sala, Seldon olhou afetuosamente para a menina e perguntou:

        - O que foi que houve, Wanda? Por que está triste? Wanda sacudiu a cabeça.

        Seldon voltou-se para a mãe.

        - O que foi, Manella? Manella também sacudiu a cabeça.

        - Ela mesma vai ter que lhe contar.

        Seldon sentou-se e deu um tapinha no próprio colo.

        - Venha, Wanda. Sente-se aqui e me diga o que a está incomodando.

        A menina se ajeitou no colo do avô e disse:

        - Estou com medo. Seldon abraçou-a.

        - Ah  - Não precisa ter medo do seu velho avô. Manella fez uma careta.

        - Usou a palavra errada. Seldon olhou para ela.

        - Avô?

        - Não. Velho.

        Foi como se um dique se rompesse. Wanda começou a chorar convulsivamente.

        - Você está velho, vovô.

        - Acho que sim. Afinal, Vou fazer sessenta anos. - Seldon aproximou o rosto do de Wanda e suspirou. - Também não gosto de ficar velho, Wanda. É por isso que fico contente quando me lembro de que você só tem sete anos.

        - Seu cabelo é branquinho, vovô.

        - Nem sempre foi assim.

        - Isso quer dizer que você vai morrer, vovô.

        Seldon pareceu chocado. Perguntou a Manella:

        - O que significa isso?

        - Não sei, Hari. É coisa dela.

        - Eu tive um sonho ruim - explicou Wanda.

        Seldon pigarreou.

        - Todos nós temos sonhos ruins de vez em quando, Wanda. É para o nosso bem. Os sonhos ruins nos ajudam a pôr para fora os pensamentos ruins.

        - Sonhei que você tinha morrido, vovô.

        - Entendo. A gente pode sonhar com a morte, mas não deve se preocupar. Olhe para mim. Não vê que estou vivo... alegre... rindo? Parece que estou morrendo? Diga-me.

        - N-Não.

        - Então? Agora vá brincar e esqueça esse sonho ruim que

        teve. Vou fazer aniversário e quero que todo mundo se divirta.

        Wanda se afastou, razoavelmente satisfeita, mas Seldon gesticulou a Manella para que ficasse.

       

        - Onde você acha que Wanda arranjou essa idéia? - perguntou Seldon.

        - Seja razoável, Hari. Wanda tinha um animal de estimação, um gecko salvaniano, e ele morreu. O pai de um dos seus amiguinhos morreu num acidente. A toda hora ela   vê alguém morrer na holovisão. É impossível esconder das crianças a existência da morte. Na verdade, nem seria aconselhável. A morte é uma parte essencial da existência;   quanto mais cedo ela aprender isso, melhor.

        - Não estou falando da morte em geral, Manella, mas da minha morte em particular. Quem foi que colocou essa idéia na cabeça da menina?

        Manella hesitou. Gostava muito de Hari Seldon (quem não gostava?), mas tinha que dizer a verdade.

        - Hari, foi você mesmo que colocou essa idéia na cabeça dela.

        - Eu?

        - Você mesmo. Há meses que vem falando que está para fazer sessenta anos e se queixa de que está ficando velho. A única razão pela qual vamos dar essa festa é para   consolá-lo.

        - Não tem graça nenhuma fazer sessenta anos - protestou Seldon, indignado. - Não perde por esperar. Você vai ver!

        - Verei, se tiver sorte. Muita gente não chega aos sessenta. Seja como for, se você não pára de falar que está ficando velho, acaba assustando uma garotinha impressionável.

        Seldon suspirou.

        - Sinto muito, mas é difícil para mim. Olhe para minhas mãos. Estão ficando manchadas, e daqui a pouco não vão servir mais para nada. Já se vai o tempo em que eu   era um exímio truncador. Hoje em dia, uma criança me derrubaria.

        - De que forma isso torna você diferente de qualquer sexagenário? Pelo menos, sua cabeça está funcionando melhor do que nunca. Você mesmo já me disse várias vezes que é isso que importa.

        - Eu sei, mas sinto falta do meu corpo.

        - Especialmente quando Dors continua jovem como sempre - observou Manella, com um toque de malícia na voz.

        - Pois é... - concordou Seldon. Desviou os olhos, mostrando claramente que preferia não discutir o assunto.

        Manella fitou o sogro, preocupada. O problema era que ele não entendia nada de crianças ou de pessoas em geral. Era difícil acreditar que, após passar dez anos como primeiro-ministro, tivesse aprendido tão pouco a respeito das pessoas.

        Naturalmente, estava totalmente concentrado em desenvolver a psico-história, que lidava com quatrilhões de pessoas... o que equivalia a não considerar pessoa alguma individualmente. E como podia entender de crianças quando jamais tivera contato com nenhuma criança além de Raych, que conhecera aos doze anos de idade? Agora, tinha Wanda, que era, e provavelmente jamais deixaria de ser, um mistério completo para o avô.

        Manella pensou em tudo isso com carinho. Desejava sinceramente poder proteger Hari Seldon de um mundo que ele não compreendia. Era uma das poucas coisas que ela e a sogra, Dors Venabili, tinham em comum: o desejo de proteger Hari Seldon.

        Manella salvara a vida de Seldon dez anos antes. Dors, naquele seu jeito estranho, considerara aquilo como uma afronta pessoal e jamais perdoara a moça. Logo depois,

        Seldon tivera a oportunidade de salvar a vida de Manella. Ela fechou os olhos e toda a cena voltou à sua mente, como se estivesse acontecendo de novo.

       

         Numa semana que Cleon tinha sido assassinado, e tinha sido  uma semana terrível. Trantor mergulhara no caos.

        Hari Seldon ainda era o primeiro-ministro, mas não tinha mais nenhum poder. Ele mandou chamar Manella Dubanqua.

        - Queria lhe agradecer por ter salvo a vida de Raych e a minha. Ainda não tinha tido a oportunidade. Não pude fazer muita coisa na última semana - acrescentou, com um suspiro.

        - O que aconteceu com o jardineiro? - perguntou Manella.

        - Foi executado! Sumariamente! Sem julgamento! Tentei salvar-lhe a vida, argumentando que tinha perdido o juízo, mas foi inútil. Se tivesse cometido outro crime  qualquer, reconheceriam sua insanidade e o recolheriam a um asilo. Mas assassinar o imperador... - Seldon sacudiu a cabeça tristemente.

        - O que vai acontecer agora? - perguntou Manella.

        - Vou dizer-lhe o que penso. A dinastia Entun está acabada. Nenhum dos filhos de Cleon vai querer sucedê-lo no trono. Eles temem ser assassinados e não posso culpá-los   por isso. É muito melhor retirar-se para uma das propriedades da família num dos Mundos Exteriores e viver confortavelmente até o final dos seus dias. Como membros   da família real, têm esse privilégio. Eu e você talvez não sejamos tão afortunados.

        - O que quer dizer com isso? - perguntou Manella, franzindo a testa.

        Seldon pigarreou.

        - Alguém pode argumentar que foi você quem atirou em Gleb Andorin, fazendo-o deixar cair a pistola usada por Mandell Gruber para matar Cleon. Assim, foi indiretamente responsável pelo crime. Podem mesmo afirmar que foi tudo premeditado.

        - Isso é ridículo! Pertenço à Guarda Imperial! Estava cumprindo ordens!

        - Você está usando a lógica, e a lógica vai ficar fora de moda por uns tempos - disse Seldon, com um sorriso triste. - O que vai acontecer agora, na falta de um sucessor legítimo para ocupar o trono imperial, é que os militares vão tomar o poder.

        (Anos mais tarde, quando Manella veio a conhecer melhor os objetivos da psico-história, imaginou se Seldon não teria usado a técnica para prever o que estava para acontecer, já que realmente os militares assumiram o governo. Na época, porém, ele não fez nenhuma menção à sua nova teoria.)

        - Se tivermos um governo militar - prosseguiu, - eles vão sentir a necessidade de dar uma demonstração imediata de força, agindo com vigor e crueldade, mesmo à custa da justiça e da racionalidade. Se a acusarem de participar do plano para assassinar o imperador, você será executada, não como um ato de justiça, mas como uma forma de intimidar a população de Trantor.

        "Pode ser que também me acusem de fazer parte da conspiração. Afinal de contas, saí para receber os novos jardineiros, quebrando o protocolo. Se não o fizesse, não haveria nenhum atentado, você não teria que intervir em minha defesa e o imperador ainda estaria vivo. Está vendo como tudo se encaixa?”

        - Não acredito que sejam capazes de cometer tamanha injustiça.

        - Pode ser que não cometam. Vou fazer uma proposta aos militares que talvez considerem aceitável.

        - Qual vai ser essa proposta?

        - Renunciar ao cargo de primeiro-ministro. Eles não me querem; estão loucos para me ver pelas costas. Acontece que tenho muitos aliados na corte e, o que é ainda   mais importante, nos Mundos Exteriores. Se os militares me depuserem, mesmo que não me executem, a reação será considerável. Por outro lado, se eu renunciar, afirmando   que, na minha opinião, o governo militar é a melhor solução para Trantor e para o Império, a transição se dará sem traumas. - Seldon sorriu e acrescentou: - Além   disso, há a questão da psico-história.

        Era a primeira vez que Manella ouvia a palavra.

        - O que é isso?

        - Uma teoria em que estou trabalhando. Cleon fazia muita fé na psico-história... mais até do que eu, no princípio... e  muitos pensam que a psico-história se tornará  um importante instrumento nas mãos do governo... seja qual for o governo. Não  importa que não conheçam os detalhes da ciência. É melhor assim. A ignorância pode reforçar o que chamo de aspecto místico  a situação. É provável que me deixem continuar a pesquisa como  um cidadão comum, o que me leva a você.

        - Como assim?

        - Como parte do trato, pretendo pedir que seja desligada da Guarda Imperial com a promessa de que não será acusada de cumplicidade no assassinato de Cleon. Eles certamente vão concordar.

        - Você está falando em acabar com a minha carreira!

        - Sua carreira já acabou. Mesmo que não a acusem de nada, acha que permitiriam que continuasse a trabalhar para eles?

        - O que Vou fazer? De onde Vou tirar o meu sustento?

        - Deixe isso por minha conta. Ao que tudo indica, Vou voltar para a Universidade de Streeling com uma verba substancial para minha pesquisa na área da psico-história, e não será difícil contratá-la.

        Manella arregalou os olhos.

        - Por que faria isso?

        - Ainda pergunta? Você salvou a vida de Raych. Salvou a minha vida. Não pensa que sou grato por isso?

        Tudo se passou como ele dissera. Seldon renunciou ao cargo que ocupara durante dez anos. O recém-formado governo militar lhe agradeceu publicamente pelos serviços prestados. Voltou para a Universidade de Streeling, e Manella Dubanqua foi com ele e sua família.

       

        Raych entrou, soprando as mãos.

        - Todo mundo sabe que sou a favor da variedade no clima. Se o tempo fosse sempre o mesmo debaixo da cúpula, seria muito monótono. Hoje, porém, acho que exageraram  um pouco no frio. Além do mais, está ventando muito. Alguém devia holografar para o controle do tempo.

        - A culpa não é do controle do tempo - afirmou Seldon.

        - Está ficando cada vez mais difícil controlar todos os parâmetros da nossa sociedade.

        - Eu sei. Deterioração.

        Raych esfregou o farto bigode preto com as costas da mão. Fazia aquilo com freqüência, como se nunca tivesse conseguido esquecer os meses que passara sem bigode   em Wye. Também tinha ganhado um pouco de peso e, no geral, parecia um membro satisfeito da classe média. Até o seu sotaque de Dahl estava menos carregado. Ele tirou   o casaco e disse:

        - Como vai o aniversariante?

        - Um pouco melancólico. Espere, espere, meu filho. Daqui a dois meses, vai estar comemorando seu quadragésimo aniversário. Vai ver como é bom.

        - Não tanto quanto fazer sessenta anos.

        - Parem com essa brincadeira - ralhou Manella, que estava friccionando as mãos de Raych, tentando aquecê-las.

        Seldon abriu os braços.

        - É melhor atendê-la, Raych. Sua mulher acha que toda essa conversa a respeito do meu aniversário de sessenta anos deixou Wanda preocupada com a possibilidade de que eu morra a qualquer momento.

        - Verdade? Então é isso. Quando passei por ela, ao chegar em casa, Wanda me disse que tinha tido um sonho ruim. Ela sonhou que você tinha morrido?

        - Parece que sim - confirmou Seldon.

        - Ora, ela vai superar isso. Afinal, não passa de um pesadelo.

        - Não é tão simples assim - protestou Manella. - O sonho deixou a menina muito preocupada, e isso não é bom. Preciso ter uma conversa com ela.

        - Como quiser, Manella - disse Raych, com um sorriso. - Você é minha querida esposa e tenho muito respeito pela sua opinião - concluiu, esfregando de novo o bigode.

        Sua querida esposa! Não tinha sido fácil casar-se com Manela. Raych se lembrava muito bem da primeira reação da mãe quando lhe falara a respeito. Pesadelos! De vez em quando, ainda via o rosto furioso de Dors Venabili em seus pesadelos.

       

        A primeira lembrança de Raych, depois que saíra do torpor causado pela desesperina, tinha sido a de estar sendo barbeado. Ao sentir a vibrolâmina no rosto, protestara debilmente:

        - Não chegue nem perto do meu lábio superior, barbeiro. Quero meu bigode de volta.

        O barbeiro, que recebera instruções de Seldon, usou um espelho para tranqüilizá-lo.

        Dors Venabili, que estava sentada à sua cabeceira, interveio:

        - Deixe-o trabalhar, Raych. Não fique nervoso.

        Os olhos de Raych se voltaram momentaneamente para Dors e ele ficou quieto. Depois que o barbeiro saiu, ela perguntou:

        - Como está se sentindo, Raych?

        - Péssimo - murmurou. - Tão deprimido que você nem imagina.

        - Ainda é efeito da desesperina. Vai passar.

        - Não acredito. Há quanto tempo foi isso?

        - Não importa. Vai levar algum tempo. Você ingeriu uma dose muito grande.

        Raych olhou em torno, inquieto.

        - Manella apareceu para me ver?

        - A mulher? - Sempre que Dors se referia a Manella, usava aquela palavra e aquele  tom de voz. - Não. Você ainda não está em condições de receber visitas.

        Interpretando o olhar de Raych, Dors apressou-se a acrescentar:

        - Sou uma exceção porque sou sua mãe, Raych. Você não está em condições de ser visto por mais ninguém.

        - Mais uma razão para que ela venha me ver - murmurou Raych. - Quero estar com Manella nos bons e nos maus momentos. - Virou-se de lado e disse, em  tom desanimado:

        - Quero dormir.

        Dors Venabili sacudiu a cabeça. Mais tarde, disse a Seldon:

        - Não sei o que vamos fazer com Raych, Hari. Parece que perdeu o juízo!

        - Ele não está bem, Dors. Leve isso em conta.

        - Não pára de falar naquela mulher. Como é mesmo o nome?

        - Manella Dubanqua. Um nome difícil de esquecer.

        - Acho que pretende morar com ela. Casar-se com ela! Seldon deu de ombros.

        - Raych já tem trinta anos. Idade suficiente para tomar suas próprias decisões.

        - Como pais, temos todo o direito de dar a nossa opinião. Hari suspirou.

        - Aposto que já deu a sua, Dors. E depois disso, tenho certeza de que ele vai fazer exatamente o que quer.

        - Essa é sua palavra final? Não vai fazer nada para impedir Raych de se casar com uma mulher como aquela?

        - Que espera que eu faça, Dors? Manella salvou a vida de Raych. Acha que ele vai se esquecer disso? Na verdade, ela também salvou a minha vida.

        A observação pareceu deixar Dors ainda mais zangada. Ela disse:

        - E agora você salvou a vida dela. Estão quites.

        - Não foi bem o que eu...

        - Claro que foi. Os militares corruptos que hoje governam o Império a teriam executado se você não renunciasse ao seu cargo e os apoiasse em troca da vida dela.

        - Mesmo que eu esteja quite com Manella, como você diz, o mesmo não acontece com Raych. Além disso, minha querida, acho melhor tomar cuidado com o que diz quando   fala do governo. Estes tempos não vão ser tão fáceis como no tempo de Cleon e sempre haverá informantes para repetir as suas palavras.

        - Esqueça isso. Eu não gosto daquela mulher. Não tenho esse direito?

        - Claro que tem, mas de que adianta isso?

        Hari baixou os olhos e pareceu imerso em seus pensamentos. Os olhos negros de Dors, normalmente impassíveis, estavam  brilhando de raiva. Hari olhou para ela.

        - O que eu gostaria de saber, Dors, é: por que, Por que implica tanto com Manella? Ela salvou a nossa vida. Se não fosse por ela, eu e Raych não estaríamos aqui.

        - Eu sei, Hari. Sei disso melhor do que ninguém. E se ela não estivesse lá, eu não poderia fazer nada para ajudá-los. Sei que acha que eu deveria me sentir grata  por isso. Entretanto, cada vez que olho para aquela mulher, não posso deixar de me lembrar do meu fracasso. Sei que o que sinto por ela não é racional... é algo  que não posso explicar. Mas não me peça para gostar dela, Hari, porque está fora do meu alcance.

        No dia seguinte, porém, Dors teve que ceder quando o médico disse:

        - Seu filho está querendo falar com uma mulher chamada Manella.

        - Ele não está em condições de receber visitas – replicou Dors.

        - Pelo contrário. Está passando muito bem. Além disso, parece ser uma coisa muito importante para ele. Acho melhor atendê-lo.

        De modo que mandaram chamar Manella. Raych a recebeu efusivamente e com o primeiro leve sinal de alegria desde que chegara ao hospital.

        Ele fez um sinal inconfundível para que Dors se retirasse. A mãe saiu, trincando os dentes.

        Dias depois, Raych comentou:

        - Ela me aceitou, mamãe.

        - E havia alguma dúvida, seu bobo? Você é a única saída para ela, agora que caiu em desgraça, foi expulsa da Guarda Imperial...

        - Mamãe, não gosto que fale assim.

        - Estou só pensando no seu bem.

        - Sei cuidar de mim mesmo, obrigado. Se parar para pensar, verá que não sou um bom partido. Não sou nada bonito. Não sou alto. Papai não é mais primeiro-ministro.

        Minha educação não é lá essas coisas. Mas Manella não está ligando para nada disso. Ela gosta de mim, e eu gosto dela.

        - Mas você sabe quem ela é.

        - Claro que sei. É uma mulher que me ama. É a mulher que eu amo. É isso que ela é.

        - E antes de se apaixonar por essa mulher, quem era ela? Sabe o que ela teve que fazer enquanto espionava em Wye... você foi uma das suas "missões". Quantos outros   houve antes de você? Conseguirá aceitar o passado dessa mulher? As coisas que fez em nome do dever? Agora, pode se dar ao luxo de ser tolerante. Mas quando tiver   a primeira briga com ela, ou a segunda, ou a décima nona, perderá o controle e acabará dizendo: "Sua pu...".

        - Está muito enganada! - protestou Raych, irritado. - Quando brigarmos, Vou chamá-la de irracional, implicante, presunçosa... um milhão de adjetivos que se apliquem   à situação. E ela terá palavras semelhantes para mim. Mas serão todas palavras inócuas, que possam ser retiradas quando fizermos as pazes.

        - Agora você pensa assim... mas espere até acontecer!

        Raych estava pálido. Ele disse:

        - Mamãe, você vive com papai há quase vinte anos. O papai é um homem muito cordato, mas vocês tiveram suas discussões. Presenciei algumas delas. Em todos esses   anos, ele alguma vez lhe faltou com o respeito? Sabe o que quero dizer. A propósito: eu já lhe faltei com o respeito? Pode me imaginar lhe faltando com o respeito,   por mais zangado que esteja?

        Dors não respondeu. Seu rosto não mostrava o que estava sentindo da mesma forma que o de Raych, mas era evidente que tinha ficado sem fala.

        - Na verdade - disse Raych, aproveitando-se da vantagem temporária (e odiando-se por fazê-lo), - acho que você está é com ciúmes porque Manella salvou a vida do   papai. Preferia que ela não fizesse nada e deixasse papai morrer? E eu também?

        Dors finalmente recuperou a fala. Ela disse, com voz abafada:

        - Hari insistiu em sair sozinho para receber os jardineiros. Não permitiu que eu o acompanhasse.

        - Manella não teve nada a ver com isso.

        - É por isso que quer se casar com ela? Por gratidão?

        - Não. Por amor.

        E assim foi. Depois da cerimônia, porém, Manella disse a Raych:

        - Sua mãe compareceu ao casamento porque você insistiu, Raych, mas parecia uma daquelas nuvens de tempestade que às vezes eles soltam debaixo da cúpula.

        Raych riu.

        - Mamãe é uma pessoa de boa paz. Você está imaginando coisas.

        - Não estou, não. Que devo fazer para que ela me aceite?

        - Basta ter um pouco de paciência. Ela vai se acostumar com você.

        Isso, porém, não aconteceu.

        Dois anos depois do casamento, nasceu Wanda. A atitude de Dors com relação à criança foi melhor do que Raych e Manella esperavam, mas a mãe de Wanda continuou a ser "essa mulher" para a mãe de Raych.

       

        Hari Seldon estava lutando contra a melancolia. Ele recebeu conselhos de Dors, Raych, Yugo e Manella. Todos tentavam convencê-lo de que sessenta anos não era uma  idade avançada.

        Eles simplesmente não eram capazes de entender. Seldon tinha trinta anos quando a idéia da psico-história lhe ocorrera pela primeira vez, 32 quando apresentara seu  primeiro trabalho em um congresso de matemática, depois do que tudo parecera ocorrer ao mesmo tempo. Fugindo dos inimigos, conhecera Demerzel, Cleon, Dors, Yugo  e Raych, para não falar dos habitantes de Mycogen, Dahl e Wye.

        Tinha quarenta anos quando se tornara primeiro-ministro" cinqüenta quando renunciara ao cargo. Agora, tinha sessenta.   Passara trinta anos tentando aperfeiçoar a psico-história. Quantos anos ainda seriam necessários? De quantos anos ainda dispunha? Seu destino seria morrer antes   de terminar o projeto?

        Não era a idéia de morrer que o deixava aborrecido, repetiu para si próprio, e sim a de deixar o projeto inacabado.

        Foi conversar com Yugo Amaryl. Desde que o projeto aumentara de vulto, não se viam mais com tanta freqüência. Nos primeiros anos em Streeling, eram apenas os dois

        trabalhando, ombro a ombro. Agora...

        Amaryl estava com quase cinqüenta anos. Não era mais nenhum garoto, e, sob vários aspectos, tivera uma vida estéril. Em todos aqueles anos, não se interessara por nada a não ser a psico-história. Nunca se casara; não praticava nenhum esporte; não tinha passatempos.

        Amaryl piscou para Seldon, que não pôde deixar de notar as mudanças que o outro sofrerá. Boa parte provavelmente se devia ao fato de ter sido forçado a reconstruir os olhos. Enxergava muito bem, mas seus olhos tinham um aspecto pouco natural, e piscava mais devagar que o normal, o que lhe dava um ar sonolento.

        - O que acha, Yugo? - perguntou Seldon. - Existe alguma luz no fim do túnel?

        - Luz? Existe, sim - respondeu Amaryl. - Aquele novo assistente, Tamwile Elar, por exemplo. Lembra-se dele?

        - Claro que me lembro. Fui eu que o contratei. É um sujeito muito agressivo e cheio de vida. Como está se saindo?

        - Não posso dizer que me sinto à vontade com ele, Hari, mas tem uma mente privilegiada. O novo sistema de equações combina perfeitamente com o Primeiro Radiante, e talvez permita contornar o problema do caos.

        - Talvez?

        - Ainda é cedo para ter certeza, mas estou muito esperançoso. Até agora, as equações sobreviveram a todos os testes a Que foram submetidas. Estou começando a pensar nelas como equações acaóticas"...  

        - Imagino que ainda não tenhamos nenhuma demonstração rigorosa.

        - Não, não temos, mas estou com meia dúzia de pessoas trabalhando no problema, incluindo Elar, é claro. - Amaryl voltou-se para o seu Primeiro Radiante, que era   tão sofisticado quanto o de Seldon, e observou as linhas curvas das equações luminosas se contorcerem no ar, pequenas demais para serem lidas sem ampliação. - com   as novas equações, talvez seja possível começar a fazer previsões.

        - Hoje em dia, cada vez que olho para o Primeiro Radiante, penso no Defragmentador e no modo como torna as curvas mais compactas. Foi um trabalho de Elar, também, não foi?

        - Foi, sim. com a ajuda de outros pesquisadores.

        - É bom poder contar com jovens brilhantes no projeto. Isso me faz acreditar no futuro.

        - Acha que um dia Elar pode vir a ser o chefe do projeto? - perguntou Amaryl, ainda olhando para o Primeiro Radiante.

        - Talvez. Depois que eu e você nos aposentarmos, ou morrermos.

        Amaryl pareceu se acalmar e desligou o aparelho.

        - Gostaria de terminar o projeto antes de me aposentar ou morrer.

        - Eu também, Yugo. Eu também.

        - A psico-história nos guiou muito bem nos últimos dez anos.

        Seldon sabia que aquilo era verdade, mas não queria atribuir uma importância excessiva ao fato. Na verdade, tinham sido dez anos de tranqüilidade, sem grandes surpresas.

        A psico-história previra que o centro sobreviveria à morte de Cleon... previra esse fato de forma muito vaga e incerta... e o centro sobrevivera. Trantor estava em paz. Mesmo depois do assassinato de um imperador e do fim de uma dinastia, o centro sobrevivera.

        No momento, estavam sendo governados por uma junta militar. Dors estava certa ao chamá-los de "moleques". Poderia até usar uma palavra mais forte. Mesmo assim, tinham conseguido preservar a unidade do Império e continuariam a fazê-lo por algum tempo. Tempo suficiente, talvez, para permitir que a psico-história viesse a desempenhar um papel ativo nos acontecimentos subseqüentes.

        Ultimamente, Yugo vinha falando a respeito da possível criação de Fundações, separadas, isoladas, independentes do próprio Império, servindo como sementes para a   formação de um novo e melhor Império depois de um inevitável período de trevas. Seldon estava estudando as conseqüências de uma medida desse tipo. Entretanto, seu   tempo era escasso, e não tinha mais (o que reconhecia com grande tristeza) a mesma energia da juventude. Sua mente, embora ainda perfeitamente lúcida e capaz, não   era tão criativa quanto trinta anos antes; ele sabia que, com o passar do tempo, a diferença só poderia aumentar.

        Talvez devesse encarregar o jovem e brilhante Elar da tarefa, dispensando-o das demais obrigações. Seldon tinha que admitir para si mesmo, envergonhado, que a idéia   não lhe agradava nem um pouco. Não inventara a psico-história para que um garoto aparecesse na última hora para colher os louros.

        Entretanto, quisesse ou não, teria que recorrer cada vez mais à ajuda dos mais jovens. A psico-história não era mais monopólio de Seldon, Amaryl e uns poucos assistentes.

        Durante sua década como primeiro-ministro, ela se convertera em um projeto importante, apoiado e financiado pelo governo; para sua surpresa, depois que renunciara ao cargo de primeiro-ministro, o projeto crescera ainda mais. Fez uma careta ao pensar no pomposo nome oficial: Projeto Seldon para o Desenvolvimento da Psico-história na Universidade de Streeling.

        A junta militar aparentemente considerava o projeto como uma possível arma política; enquanto pensasse assim, dinheiro não seria problema. Sua única obrigação era apresentar relatórios anuais, que, porém, eram bastante vagos. Apenas resultados secundários eram relatados, e mesmo assim a matemática usada estava muito além da compreensão dos membros da junta. Despediu-se do antigo assistente com a convicção de que Amaryl, pelo menos, estava otimista quanto ao futuro da psico-história.

        Mesmo assim, continuava a se sentir deprimido. Devia Ser a proximidade do aniversário, que o fazia sentir-se velho. Além do mais, aquilo estava perturbando sua rotina, e ele era um homem de hábitos regulares. O seu escritório e salas adjacentes tinham sido esvaziados e há vários dias não conseguia trabalhar direito. Os aposentos provavelmente seriam usados para abrigar uma exposição comemorativa e levaria algum tempo para tê-los de volta. Amaryl era a única exceção: ele se recusara terminantemente a ceder seu escritório e continuava a ocupá-lo normalmente.

        Seldon gostaria de saber de quem tinha sido a idéia de comemorar o seu aniversário daquela forma. Não parecia ser coisa de Dors. Amaryl e Raych não se lembravam nem dos próprios aniversários. Suspeitou de Manella e interrogou-a a respeito. A moça admitiu que participara da organização da festa, mas afirmou que a idéia original tinha sido de Tamwile Elar.

        Ele é brilhante em tudo, pensou Seldon.

        Suspirou. Gostaria que seu aniversário já tivesse passado.

       

        Dors enfiou a cabeça para dentro.

        - Posso entrar?

        - Claro. Por que não?

        - Não é aqui que você costuma ficar.

        - Eu sei - suspirou Seldon. - Tenho evitado meu lugar habitual por causa da ridícula festa de aniversário. Como eu gostaria que já tivesse passado.

        - Lá vem você. Sempre que a mulher põe uma idéia na cabeça, ela toma a frente e cresce até não poder mais.

        Seldon mudou de lado imediatamente.

        - Vamos, ela tem boa vontade, Dors...

        - Disso o inferno está cheio - retrucou Dors. - De qualquer modo, vim aqui discutir algo mais. Algo que pode ser importante.

        - Vá em frente. O que é?

        - Estive falando com Wanda sobre o sonho dela... - Ela hesitou.

        Seldon pigarreou no fundo da garganta, depois disse:

        - Não acredito nisso. É melhor deixar pra lá.

        - Não. Você chegou a perguntar-lhe pelos detalhes do sonho?

        - Por que eu deveria fazer a garota passar por isso?

        - Nem Raych nem Manella o fizeram. Sobrou para mim.

        - Mas por que razão torturá-la com perguntas sobre isso?

        - Porque tenho a sensação de que devo - respondeu Dors, carrancuda. - Em primeiro lugar, ela não teve o sonho quando estava em casa, na cama.

        - Onde estava ela, então?

        - Em seu escritório.

        - O que ela estava fazendo em meu escritório?

        - Ela queria ver o lugar onde seria a festa e foi até seu escritório. E é claro que lá não havia nada para se ver, pois fora esvaziado para a preparação. Mas sua   cadeira permanecia lá. A maior... de espaldar alto, braços longos, quebrada... aquela que você não me deixa trocar.

        Hari suspirou, como se relembrasse uma antiga discordância.

        - Não está quebrada. Eu não quero uma nova. Continue.

        - Ela se enroscou na sua cadeira e começou a meditar no fato de que talvez você não estivesse realmente querendo uma festa e sentiu-se infeliz. Em seguida, ela deve   ter adormecido, porque não se lembra de mais nada, a não ser de que no sonho havia dois homens (não eram mulheres, ela fez questão de frisar). Dois homens, conversando.

        - Qual o assunto da conversa?

        - Ela não sabe exatamente. Disse que tinha algo a ver com a morte, e se lembrou logo de você, porque é uma das pessoas mais velhas que ela conhece. E se lembra nitidamente de três palavras que um deles pronunciou: "limonada da morte".

        - O quê?

        - Limonada da morte.

        - Que significa isso?

        - Não sei. Seja como for, os dois homens foram embora  e ela se viu na cadeira, assustada e com frio... e desde então, tem estado muito agitada.

        Seldon ficou pensativo por alguns momentos. Depois, disse:

        - Escute, querida, que importância pode ter um sonho de criança?

        - Não temos certeza se foi um sonho, Hari.

        - Como assim?

        - A própria Wanda não está certa. Ela disse que "deve ter adormecido". Foram essas as suas palavras. Não disse que adormeceu, mas que deve ter adormecido.

        - E qual é a sua conclusão?

        - De que devia estar cochilando, e, nesse estado, ouviu dois homens, dois homens de verdade, conversarem.

        - Homens de verdade? Planejando assassinar-me com limonada?

        - Algo parecido.

        - Dors, eu sei que você se preocupa com minha segurança, mas acho que desta vez foi longe demais. Por que alguém estaria interessado em me matar?

        - Já tentaram duas vezes.

        - É verdade, mas as circunstâncias eram outras. O primeiro atentado ocorreu logo depois que Cleon me nomeou primeiro-ministro. Ao fazê-lo, ele passou por cima da  hierarquia da corte, desagradando muita gente. Foi por isso que resolveram me eliminar. Da segunda vez, os joranumitas estavam tentando chegar ao poder e acharam  que eu estava no caminho... isso, e mais o desejo distorcido de vingança por parte de Namarti.

        Felizmente, nenhum dos dois atentados foi bem-sucedido, mas por que haveria um terceiro? Faz dez anos que renunciei ao cargo de primeiro-ministro; hoje sou apenas  um matemático em fim de carreira. Os joranumitas foram presos e Namarti executado. Ninguém teria a menor razão para querer me matar. Por isso, Dors, é melhor esquecer  o sonho de Wanda. Você fica nervosa quando se preocupa comigo, e não queremos que isso aconteça, não é mesmo?

        Dors levantou-se e debruçou-se sobre a escrivaninha de Seldon.

        - É fácil para você dizer que não há razão para alguém querer matá-lo, mas não é preciso nenhuma razão. O governo atual é totalmente irresponsável e se eles quiserem...

        - Pare por aí! - exclamou Seldon. Em seguida, baixando a voz, acrescentou: - Nem uma palavra, Dors. Nem uma palavra contra o governo. Caso contrário, eles terão  um motivo para querer acabar conosco...

        - Estou falando apenas com você, Hari.

        - No momento está, mas é melhor não se habituar mal. Se começar a dizer o que pensa a respeito do governo, logo se verá em apuros. Acostume-se a guardar as críticas   para você mesma.

        - Vou tentar, Hari - disse Dors, sem conseguir disfarçar sua indignação. Ela deu meia-volta e retirou-se.

        Seldon ficou olhando para a porta, pensativo. Dors soubera envelhecer com elegância; às vezes, tinha a impressão de que ainda era a mesma mulher que conhecera há   28 anos. Os cabelos agora estavam grisalhos, mas conservavam o brilho habitual. A pele tinha menos viço, a voz ficara um pouco mais rouca e, naturalmente, usava   trajes compatíveis com sua idade. Entretanto, seus movimentos ainda eram os de uma jovem. Era como se nada pudesse interferir com sua capacidade de proteger Seldon   em caso de emergência.

        Seldon suspirou. Aquela história de ser protegido, mais ou menos contra a vontade, dia após dia, podia ser um fardo pesado.

       

        Logo depois, Seldon foi surpreendido pela chegada de Manella.

        - Desculpe, Hari, mas o que Dors estava falando com você?

        Seldon olhou para a nora. Aquele parecia ser o dia das interrupções.

        - Nada de importante. Wanda teve um sonho. Manella fez um muxoxo.

        - Eu sabia. Wanda me contou que Dors lhe fez um monte de perguntas. Por que ela não deixa minha filha em paz? Até parece que é crime ter um pesadelo.

        - Na verdade - explicou Seldon, - Dors ficou preocupada com alguma coisa que Wanda lhe contou a respeito do sonho. Parece que ela ouviu alguém falar em "limonada da morte".

        - Hum! - Manella ficou pensativa por alguns momentos e depois disse: - Eu não daria muita importância a isso. Wanda é louca por limonada e já me pediu para servir a bebida na sua festa, misturada com gotas mycogenianas. Prometi atendê-la.

        - O que você está querendo dizer é que talvez Wanda tenha ouvido alguma palavra parecida com limonada.

        - Exatamente.

        - Nesse caso, o que será que os homens realmente disseram?

        - O que importa? E se ela realmente estava sonhando? Por favor, não quero que tornem a falar com ela a respeito.

        - Está bem. Vou pedir a Dors para não tocar mais no assunto.

        - Obrigada. Não importa que ela seja avó de Wanda, Hari. Sou a mãe, e sei o que é melhor para minha filha.

        - Claro que sabe - concordou Seldon, em tom apaziguador. Depois que a moça saiu, ficou pensativo por um longo tempo. Ali estava outro fardo pesado: a competição permanente entre aquelas duas mulheres.

       

        Tamwile Elar tinha 36 anos de idade e fazia quatro anos que trabalhava no projeto de Seldon. Era um homem alto, de olhos muito vivos, com um leve excesso de autoconfiança.

        Os cabelos eram castanhos e ondulados, o que se tornava mais evidente porque eram bastante compridos. Tinha uma maneira brusca de rir e um inegável talento para a matemática.

        Elar havia sido recrutado na Universidade de Mandanov e Seldon tinha de sorrir quando se lembrava da forma como Amaryl desconfiara dele a princípio. Na verdade,

        Yugo Amaryl desconfiava de todo mundo. Seldon tinha certeza de que, no fundo do coração, Amaryl achava que a psico-história devia ser exclusividade dele e de Seldon.

        Mesmo Amaryl, porém, tinha de admitir que a chegada de Elar dera um novo impulso ao projeto.

        - As técnicas que Elar propôs para evitar o caos são extremamente interessantes - comentou um dia com Seldon. - Ninguém no nosso grupo seria capaz de desenvolvê-las.

        Eu, pelo menos, nunca tinha pensado em nada parecido. Acho que você também não, Hari.

        - Devo estar ficando velho - observou Seldon, de cara feia.

        - Se pelo menos ele não risse tão alto... - queixou-se Amaryl.

        A verdade era que Seldon também estava tendo alguma dificuldade para aceitar Elar. Era um pouco humilhante saber que não chegara nem perto das "equações acaóticas",  como agora eram chamadas. Seldon não se importava de não ter tido parte ativa no desenvolvimento do Defragmentador; afinal, não era o seu campo. No caso das equações  acaóticas, porém, era diferente. Tentava consolar-se pensando que elas não existiriam sem a psico-história. Elar seria capaz de fazer o que ele próprio fizera três décadas antes? Estava convencido de que não. Mesmo assim, não conseguia se sentir perfeitamente à vontade com o rapaz. Um velho cansado diante de um jovem na flor da idade.

        Entretanto, Elar nunca lhe faltara com o respeito ou insinuara de alguma forma que estava na idade de se aposentar.

        Naturalmente, Elar estava interessado na festa de aniversário. Na verdade, como Seldon descobrira ao interrogar Manella, tinha sido o primeiro a sugeri-la. (Seria uma forma sutil de lembrar que Seldon estava ficando velho?) Rejeitou imediatamente a hipótese.

        Devia estar se deixando influenciar pelas constantes desconfianças de Dors.

        Elar se aproximou e disse:

        - Mestre...

        Seldon fez uma careta de desagrado, como sempre. Preferia que os colegas do projeto o chamassem de Hari, mas achava que ficaria ridículo chamar a atenção de Elar.

        - Mestre - repetiu Elar. - Ouvi dizer que foi convocado para uma audiência com o general Tennar.

        - É verdade. Ele é o novo chefe de Estado e provavelmente vai querer que eu lhe explique o que é a psico-história. É o que sempre fazem, desde o tempo de Cleon e   Demerzel. - (O novo chefe de Estado! A junta era como um caleidoscópio, com alguns dos membros caindo em desgraça, enquanto outros surgiam do nada.)

        - Pode ser, mas ele queria falar com o senhor imediatamente... no dia da sua festa de aniversário!

        - Não tem importância. Vocês podem comemorar sem mim.

        - Não, não podemos, mestre. Espero que não se importe, mas tomamos a liberdade de holografar para o secretário da junta e transferir a sua audiência para a semana que vem.

        - O quê?! - exclamou Seldon, aborrecido. - Não tinham esse direito!

        - Ele concordou imediatamente. O senhor poderá usar bem esse tempo.

        - Para que Vou precisar de uma semana? Elar hesitou.

        - Posso falar francamente, mestre?

        - Claro que pode.

        Elar enrubesceu ligeiramente (ficava vermelho com facilidade, porque tinha pele clara), mas sua voz permaneceu firme.

        - O que tenho a dizer não é simples, mestre. O senhor É um gênio da matemática. Nenhum membro do projeto duvida disso. Nenhum cidadão do Império, se conhecesse o   senhor e entendesse de matemática, duvidaria disso. Entretanto,  não é um gênio universal.

        - Sei disso tão bem quanto você, Elar.

        - Claro que sabe. Para ser mais explícito, o senhor não é capaz de lidar com pessoas comuns... com pessoas medíocres, digamos. O que lhe falta é uma certa prudência,  uma certa habilidade política, e se estiver lidando com uma pessoa que seja ao mesmo tempo poderosa e medíocre, poderá facilmente pôr em risco o projeto e até sua  própria vida, simplesmente por um excesso de franqueza.

        - O que é isso? De repente voltei a ser criança? Há muitos anos que venho lidando com os políticos. Fui primeiro-ministro durante dez anos, como talvez se lembre.

        - Perdão, mestre, mas a sua maneira de fazer política não era particularmente brilhante. Felizmente, teve que lidar com o primeiro-ministro que o precedeu, Demerzel,  que era uma pessoa muito inteligente, e com o imperador Cleon, que tinha uma grande amizade pelo senhor. Agora, porém, vai ter que enfrentar os militares, que não   são nem inteligentes nem amistosos. A situação é totalmente diversa.

        - Já lidei com os militares e sobrevivi.

        - Não com o general Dugal Tennar. Ele é um osso duro de roer.

        - Você o conhece?

        - Não pessoalmente, mas ele nasceu em Mandanov, que, como sabe, é o meu setor. Foi um líder local antes de entrar para a junta.

        - O que sabe sobre ele?

        - É um homem ignorante, supersticioso, violento. Não é uma pessoa fácil de lidar. O senhor pode usar a semana de Que dispõe para planejar sua estratégia.

        Seldon mordeu o lábio inferior. Elar tinha certa razão; talvez fosse difícil argumentar com um tipo teimoso e inculto, com um poder incomensurável nas mãos.

        - Eu dou um jeito - afirmou, sem muita convicção. - Seja como for, a junta militar se encontra em uma situação instável em relação ao Império. Já durou mais do que   deveria ter durado.

        - É mesmo? Não sabia que tínhamos analisado a estabili-psico-histórica da junta.

        - Amaryl fez alguns cálculos, usando suas equações acaóticas - explicou Seldon. - Por falar nisso, alguns matemáticos as estão chamando de Equações de Elar.

        - Eu jamais fiz isso, mestre.

        - Ainda bem. Os elementos da psico-história devem ser apresentados de forma impessoal, para evitar preconceitos.

        - Concordo plenamente, mestre.

        - Na verdade - acrescentou Seldon, ligeiramente envergonhado, - sempre achei errado chamar as equações básicas da psico-história de Equações de Seldon. O problema   é que o nome já está em uso há tanto tempo que não adianta querer mudá-lo.

        - Em minha opinião, mestre, o seu caso é especial. Ninguém põe em dúvida o fato de que foi o inventor da ciência da psico-história. Se não se importa, porém, gostaria   de voltar a falar do seu encontro com o general Tennar.

        - O que mais há para discutir?

        - Talvez fosse melhor o senhor não se encontrar com ele.

        - Como, se ele mandou me chamar?

        - O senhor poderia alegar que não está passando bem e mandar alguém em seu lugar.

        - Quem?

        Elar não respondeu, mas seu silêncio foi eloqüente.

        - Você? - perguntou Seldon.

        - Por que não? Nasci no mesmo setor que o general, o que pode pesar. O senhor é um homem muito ocupado, de certa idade, e não será difícil convencê-los de que não   está gozando de boa saúde. E acredito sinceramente... espero que não se ofenda, mestre... que saberei lidar com eles melhor do que o senhor.

        - Mentir para eles, você quer dizer.

        - Se for necessário.

        - Estará correndo um grande risco.

        - Nem tanto. Duvido que ele mande me executar. Se não ficar satisfeito com a minha atitude, posso alegar... ou o senhor pode alegar em minha defesa... que sou jovem  e inexperiente. Seja como for, se alguém tem que correr algum risco, é melhor que seja eu. Estou pensando no bem do projeto, que necessita muito mais do senhor do  que de mim.

        - Não Vou me esconder atrás de você, Elar - afirmou Seldon, com a testa franzida. - Se o general quer falar comigo, vai falar comigo. Recuso-me a permitir que se arrisque em meu lugar. Quem pensa que sou?

        - Um homem franco e honesto, quando precisamos de um político.

        - Posso ser político, quando é necessário. Não me subestime, Elar.

        Elar deu de ombros, desanimado.

        - Como quiser. É difícil discutir com o senhor.

        - Na verdade, Elar, seria preferível que você não tivesse adiado o encontro. Eu preferia perder minha festa de aniversário e conversar logo com o general. Esta festa não foi idéia minha.

        - Desculpe - disse Elar.

        - Agora está feito. Vamos ver o que acontece. Seldon despediu-se de Elar e saiu. Às vezes, gostaria de ser um pouco mais atuante, tomando todas as decisões, deixando pouco espaço de manobra para os assistentes. Para fazer isso, porém, perderia um tempo enorme, tempo que seria roubado dos seus estudos da psico-história. Além do mais, não tinha temperamento para isso.

        Suspirou. Teria que conversar com Amaryl.

       

        Seldon entrou no escritório de Amaryl sem se fazer anunciar.

        - Yugo, o encontro com o general Tennar foi adiado - anunciou, de supetão.

        Como sempre, Amaryl levou alguns momentos para desviar a atenção do seu trabalho. Finalmente, levantou os olhos e perguntou:

        - Qual foi a desculpa dele?

        - A iniciativa não partiu dele. Alguns dos nossos matemáticos não quiseram que o encontro interferisse com minha festa de aniversário e pediram um adiamento de uma semana. Uma coisa desagradável.

        - Então por que permitiu que fizessem isso?

        - Não permiti. Eles fizeram tudo sem me avisar. - Seldon deu de ombros. - De certa forma, a culpa é minha. Tenho me queixado tanto de estar ficando velho que todo mundo se julga na obrigação de me consolar, afogando-me em festividades.

        - Esta semana a mais talvez venha a calhar, sabia? Seldon ficou imediatamente tenso.

        - Por quê? Alguma coisa deu errado?

        - Não. Pelo que sei, nada deu errado, mas não custa examinarmos melhor nossa posição. Escute, Hari, depois de quase trinta anos de trabalho, esta é a primeira vez que finalmente vamos poder fazer uma previsão com o auxílio da psico-história. Não é nada do outro mundo, apenas um pequeno passo no desconhecido, mas tem um grande significado para nós. Muito bem. Queremos tirar vantagem dessa experiência, avaliar seus resultados, provar para nós mesmos que a psico-história é o que pensamos que é: uma ciência capaz de fazer previsões. Por isso, todo cuidado é pouco. Podemos usar esta semana extra para nos certificarmos de que não nos esquecemos de nada.

        - Então vamos deixar como está. Antes de me encontrar com o general, voltarei a falar com você para ver se surgiu alguma novidade de última hora. Enquanto isso, Amaryl, prefiro que não comente com os outros a respeito desta pequena experiência. Se ela fracassar, não quero que o pessoal do projeto fique desanimado. Eu e você saberemos aceitar o insucesso com tranqüilidade.

        Amaryl deixou transparecer um dos seus raros sorrisos.

        - Você e eu. Lembra-se quando éramos apenas nós dois?

        - Lembro-me muito bem. Não pense que não sinto saudade daquele tempo. Quase não dispúnhamos de meios para trabalhar - Ainda não contávamos com o Primeiro Radiante, para não falar do Eletro-desfragmentador.

        Mesmo assim, eram tempos felizes.

        Felizes - concordou Amaryl, balançando a cabeça.

       

        A universidade estava diferente e Hari Seldon não podia deixar de se sentir lisonjeado.

        Os escritórios que formavam o complexo do projeto tinham ficado repletos de cores e luzes, com holografias mostrando Seldon e seus amigos em diferentes lugares   e em diferentes épocas. Ali estava Dors Venabili, sorrindo, e realmente parecendo um pouco mais jovem. Ali estava Raych, ainda adolescente. Ali estavam Seldon e   Amaryl, com cara de meninos, nos teclados dos seus computadores. Havia até mesmo uma holografia de Demerzel, que encheu de saudade o coração de Seldon, pois ele   nunca mais se sentira tão seguro como na época em que Demerzel era o primeiro-ministro.

        O imperador Cleon não aparecia em nenhuma das holografias. Não que não existissem holografias dele, mas a junta militar não veria com bons olhos qualquer referência ao antigo imperador.

        Sala após sala, edifício após edifício, toda a universidade tinha sido transformada em uma exposição como Seldon jamais vira igual. Até mesmo a iluminação da cúpula tinha sido desligada para produzir uma noite artificial na qual a universidade pudesse brilhar por três dias.

        - Três dias! - exclamou Seldon, entre maravilhado e preocupado.

        - Três dias - repetiu Dors Venabili, fazendo que sim com a cabeça. - A universidade fez questão.

        - Quanta despesa! Quanto trabalho! - comentou Seldon, de testa franzida.

        - O que você fez pela universidade vale muito mais que o que gastaram com a festa - argumentou Dors. - Quanto ao trabalho, é todo voluntário. Os estudantes cuidaram de tudo.

        Uma vista aérea da universidade tinha acabado de aparecer e Seldon ficou olhando para ela, com um sorriso involuntário nos lábios.

        - Não pode negar que está feliz - disse Dors. - Passou o último mês dizendo que não queria comemorar o seu aniversário, e agora olhe para você.

        - É claro que fiquei comovido. Não imaginava que fossem preparar algo assim.

        - Por que não? Você é um símbolo, Hari. O planeta inteiro, o Império inteiro conhece você.

        - Está muito enganada - afirmou Seldon, sacudindo a cabeça. - Nem uma pessoa em um bilhão sabe alguma coisa a meu respeito, ou a respeito da psico-história. Ninguém   fora do projeto faz a menor idéia de como a psico-história funciona, e mesmo entre os que trabalham no projeto poucos a compreendem.

        - Isso não importa, Hari. É você que importa. Mesmo os quatrilhões que nada sabem a seu respeito ou a respeito da psico-história já ouviram dizer que Hari Seldon é o maior matemático do Império.

        - Pelo menos, é assim que estão me fazendo sentir agora - afirmou Seldon, olhando em torno. - Mas três dias e três noites! O lugar vai ficar uma bagunça!

        - Não, não vai. Todos os registros foram guardados. Os computadores e outros equipamentos estão em lugar seguro. Os estudantes destacaram vigias para assegurar que nada seja danificado.

        - Você pensou em tudo, não foi, Dors? - comentou Seldon, em tom carinhoso.

        - Não fui só eu. Seu colega Tamwile Elar tem trabalhado com incrível dedicação.

        Seldon fez uma careta.

        - Não gosta de Elar? - perguntou Dors.

        - Ele vive me chamando de "mestre".

        - E isso é crime? - disse Dors, sacudindo a cabeça.

        Seldon ignorou o comentário e acrescentou:

        - Além disso, é muito jovem.

        - Ora, ora. Hari, você vai ter que aprender a envelhecer com elegância... e para isso, a primeira coisa a fazer é mostrar que está se divertindo. Isso deixará os   outros felizes, como certamente é o seu desejo. Vamos, mexa-se. Não fique aqui escondido. Cumprimente a todos. Sorria. Pergunte como vão. E lembre-se de que, depois  do banquete, vai ter que fazer um discurso.

        - Detesto banquetes e detesto discursos mais ainda.

        - Mesmo assim. Agora, mexa-se!

        Seldon suspirou dramaticamente, mas obedeceu. Quando apareceu na entrada do salão principal, era uma figura imponente. Os trajes exagerados de primeiro-ministro  eram coisa do passado, assim como as roupas de corte heliconiano que usara na juventude. Agora Seldon se vestia como um professor graduado: calças simples, de vincos  bem marcados, acompanhadas por uma túnica modificada. Bordada com linha prateada, acima do coração, estava a inscrição: PROJETO SELDON DE PSICO-HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE  DE STREELING. As letras se destacavam contra o discreto cinza-titânio da túnica. Os olhos de Seldon brilhavam em um rosto marcado pela idade; os sessenta anos transpareciam  tanto nas rugas como nos cabelos brancos.

        Entrou na sala onde as crianças estavam comendo. O aposento se achava totalmente vazio, a não ser pelas mesas de armar com as travessas de comida. Assim que o viram,  as crianças correram em sua direção, pois sabiam que a festa era em sua homenagem. Seldon se encolheu.

        - Esperem, esperem, crianças. Cheguem para trás. Tirou do bolso um pequeno robô computadorizado e  colocou-o no chão. Em um Império sem robôs, era algo realmente extraordinário. No momento, parecia um pequeno animal peludo, mas era capaz de mudar repentinamente  de forma (o que provocava gritinhos e risadas nas crianças) e quando o fazia, os sons e movimentos também mudavam.

        - Podem brincar com ele, mas cuidado para não quebrá-lo. Mais tarde, haverá um para cada um de vocês.

        Seldon saiu para o corredor que levava ao saguão principal e percebeu que Wanda o seguia.

        - Vovô! - chamou a menina.

        Wanda era diferente. Levantou-a no colo por um momento e depois tornou a colocá-la no chão.

        - Está gostando da festa, Wanda? - perguntou.

        - Estou - respondeu a menina, - mas não entre naquela sala.

        - Por que não, Wanda? É o escritório onde eu trabalho.

        - Foi lá que tive meu pesadelo.

        - Eu sei, Wanda, mas isso já passou, não é? - Seldon hesitou e depois conduziu a menina até uma das cadeiras que estavam enfileiradas ao longo do corredor. Sentou-se e colocou a neta no colo.

        - Tem certeza de que foi um sonho, Wanda?

        - Acho que sim.

        - Estava realmente sonhando?

        - Acho que estava.

        Seldon percebeu que não adiantava insistir. Decidiu mudar de tática.

        - Os dois homens no seu sonho falaram em uma tal de limonada da morte, não foi?

        Wanda assentiu com relutância.

        - Tem certeza de que a palavra que eles usaram foi limonada?

        Wanda assentiu novamente.

        - Não poderia ter sido uma palavra parecida?

        - O que eles disseram foi "limonada".

        - Está bem, Wanda - disse Seldon, desistindo. - Pode ir. Brinque bastante e veja se não pensa mais nesse sonho.

        - Até logo, vovô. - A menina parecia aliviada. Saltou do colo de Seldon e foi embora.

        Seldon saiu à procura de Manella. Levou muito tempo para encontrá-la, porque a cada momento era abordado por pessoas que queriam cumprimentá-lo.

        Finalmente, avistou-a a distância. Murmurando "Desculpe.

        - Com licença... Há uma pessoa com quem preciso... Desculpe...", conseguiu aproximar-se da moça.

        - Manella - chamou, enquanto sorria mecanicamente em todas as direções.

        - Sim, Hari. Alguma coisa errada?

        - É o sonho de Wanda.

        - Não me diga que ela ainda está preocupada com aquele sonho.

        - Acho que sim. Escute, estão servindo limonada na festa, não estão?

        - É claro. As crianças adoram limonada. Preparei misturas de limonada com gotas mycogenianas de vários sabores e coloquei em recipientes de formas diferentes. As  crianças estão experimentando para ver qual o sabor que mais lhes agrada. Os adultos estão provando, também. Por que não experimenta, Hari? Ficou uma delícia.

        - Estou pensando. Se não foi um sonho, se Wanda realmente ouviu dois homens conversarem a respeito da limonada da morte... - ele interrompeu a frase, como se tivesse  vergonha de prosseguir.

        - Está com receio de que alguém tenha envenenado a limonada? - perguntou Manella. - Isso é ridículo. A essa altura, todas as crianças estariam passando mal...

        - Eu sei - murmurou Seldon. - Eu sei.

        Afastou-se e quase não viu Dors quando passou por ela. A moça agarrou-o pelo cotovelo.

        - Que cara é essa? Você parece preocupado.

        - Estive pensando na limonada da morte de Wanda.

        - Eu também, mas ainda não cheguei a nenhuma conclusão.

        - Não consigo tirar da cabeça a idéia de um envenenamento.

        - Esqueça. Eu lhe asseguro que todas as comidas e bebidas desta festa foram analisadas a nível molecular. Sei que vai Pensar que mais uma vez me comportei como uma paranóica, mas minha missão é tomar conta de você e pretendo cumpri-la o melhor possível.

        - E tudo está...

        - Em perfeitas condições. Fique tranqüilo.

        Seldon sorriu.

        - É ótimo saber disso. Sinto-me aliviado. Na verdade, eu mesmo não estava levando a sério minhas suspeitas.

        - Ainda bem - disse Dors, secamente. - Estou muito mais preocupada com o fato de que daqui a alguns dias você vai se  encontrar com Tennar, aquele monstro.

        - Não o chame de monstro, Dors. Tome cuidado. As paredes têm ouvidos.

        Dors imediatamente abaixou a voz.

        - Você está certo. Olhe em volta. Todos esses rostos sorridentes... e no entanto quem sabe qual dos nossos "amigos" irá fazer um relatório ao chefe do governo e seus asseclas quando a noite terminar? Ah, os humanos! Pensar que mesmo depois de todos esses milhares de séculos ainda existe gente mesquinha e traiçoeira! Isso me parece tão desnecessário... No entanto, sei muito bem o mal que essas pessoas podem fazer. É por isso que preciso ir com você, Hari.

        - Impossível, Dors. Isso apenas complicaria as coisas para mim. Irei sozinho e não haverá nenhum problema.

        - Você não vai saber como lidar com o general. O rosto de Seldon assumiu uma expressão séria.

        - E você, saberia? Está soando como Elar. Ele também acha que sou um velho idiota. Também quer ir comigo... ou melhor, ofereceu-se para ir em meu lugar. Imagino quantas pessoas em Trantor gostariam de tomar o meu lugar - acrescentou, ironicamente. - Dúzias? Milhões?

       

        Fazia dez anos que o Império Galáctico não tinha um imperador, mas não havia nenhuma indicação desse fato na forma  como o Palácio Imperial era cuidado. Milênios de tradição tornavam desnecessária a presença do imperador.

        Naturalmente, não havia ninguém usando as vestes imperiais para presidir as cerimônias. Nenhuma voz imperial dava ordens; nenhum desejo imperial se manifestava;  não havia elogios imperiais; nenhum prazer imperial alegrava os palácios, nenhuma doença imperial os entristecia. Os aposentos do imperador estavam vazios; a família   imperial não existia.

        Mesmo assim, um exército de jardineiros mantinha os jardins em perfeitas condições. Um exército de pedreiros e pintores mantinha os edifícios como novos. A cama   do imperador, sempre vazia, tinha os lençóis trocados todas as manhãs; os quartos eram limpos; todo o pessoal do palácio, com exceção do imperador e sua família,  continuava a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Aqueles que estavam em posições de mando davam ordens como se o imperador estivesse presente, as mesmas ordens  que o imperador daria. Em muitos casos, especialmente nos altos escalões, os funcionários eram os mesmos desde o tempo de Cleon. Os recém-contratados eram treinados  de acordo com as antigas tradições.

        Era como se o Império, acostumado a ser governado por um imperador, insistisse em perpetuar um mito; como se só esse mito pudesse preservar a unidade do Império.

        A junta reconhecia esse fato, se não explicitamente, pelo menos de forma inconsciente. Em dez anos, nenhum daqueles militares que agora dirigiam os destinos do Império   ousara ocupar os aposentos particulares do imperador. Fossem o que fossem, não tinham sangue real e portanto nada tinham a fazer ali. Uma População que aceitava   a perda da liberdade não aceitaria qualquer sinal de falta de respeito pelo imperador, vivo ou morto.

        Mesmo o general Tennar não tinha coragem de tocar nas preciosas estruturas que durante tanto tempo haviam abrigado imperadores de uma dúzia de dinastias diferentes.

        - Posso fundar uma nova dinastia - afirmou.

        O general morava e trabalhava em construções que ficavam na Periferia do palácio; pouco elegantes, mas cercadas por fortalezas, suficientemente robustas para suportar um cerco.

        Tennar era um homem atarracado, que usava bigode. Não um bigode farto, espalhafatoso, como o dos dahlitas, mas um bigode fino, bem aparado, que deixava uma faixa  de pele nua acima do lábio. O bigode era ruivo e Tennar tinha olhos azuis e frios. Provavelmente, fora um homem bonitão na mocidade, mas agora estava muito gordo  e os olhos eram fendas que refletiam a raiva com maior freqüência do que qualquer outra emoção.

        De modo que ele disse, com raiva, o que era compreensível para um general que se considerava senhor absoluto de milhões de mundos, mas não tinha coragem de intitular-se  imperador:

        - Posso fundar uma nova dinastia - afirmou, dirigindo-se a Hender Linn. Olhou em torno e fez uma careta de desprezo. - Este não é o lugar apropriado para quem governa um Império.

        - Governar é o importante - afirmou Linn. - Melhor ser senhor em um cubículo do que uma figura decorativa em um palácio.

        - Melhor ainda ser senhor em um palácio. Por que não?

        Linn usava o título de coronel, mas jamais estivera envolvido em qualquer operação militar. Sua função era dizer a Tennar o que o outro queria ouvir, e transmitir suas ordens a outras pessoas. Vez por outra, argumentava com o chefe, mas apenas quando isso parecia seguro.

        Linn era conhecido como "o lacaio de Tennar", e sabia que era assim que o chamavam. Isso não o incomodava. Como lacaio, ocupava uma posição confortável, e assistira à queda de muitos que eram orgulhosos demais para ser lacaios.

        Naturalmente, chegaria a hora em que o próprio Tennar seria alijado da eterna disputa pelo poder entre os membros da junta, mas Linn achava, com uma certa fleuma, que reconheceria os sintomas a tempo de salvar a própria pele. Ou talvez afundasse junto com o general. Tudo tinha um preço.

        - É claro que pode fundar uma dinastia, general - disse Linn. - Muitos outros o fizeram, na longa história do Império. Entretanto, isso leva tempo. As pessoas custam a se acostumar com as coisas. Quase sempre, apenas o segundo ou mesmo terceiro membro da dinastia é que consegue ser reconhecido como o legítimo imperador.

        - Não acredito. Basta que eu me apresente como o novo imperador. Quem terá coragem de me desafiar? Conhecem o meu poder.

        - É verdade, general. Seu poder não é contestado em Trantor e na maior parte dos Mundos Interiores, mas é possível que os Mundos Exteriores ainda não estejam preparados para aceitar uma nova dinastia imperial.

        - Mundos Interiores ou Mundos Exteriores, é o poder militar que controla a todos. Um velho provérbio imperial.

        - É um bom provérbio - concordou Linn, - mas hoje em dia muitos dos vice-reis têm exércitos próprios, que podem não ser usados em defesa do poder central. Vivemos tempos difíceis.

        - Então você recomenda cautela.

        - Sempre recomendo cautela, general.

        - Um dia desses você vai errar por excesso de cautela. Linn baixou a cabeça.

        - Só posso recomendar o que me parece mais apropriado, general.

        - Como quando me recomenda para tomar cuidado com esse tal de Hari Seldon?

        - Ele é o seu inimigo mais perigoso, general.

        - É o que você vive dizendo, mas não consigo entender. Ele não passa de um professor universitário.

        - É verdade, mas já ocupou o cargo de primeiro-ministro.

        - Eu sei, mas isso foi no tempo de Cleon. Seldon fez alguma coisa desde aquela época? Em tempos difíceis como os de hoje, com os vice-reis montando exércitos, por que um professor seria o meu inimigo mais perigoso?

        - Às vezes é um erro - disse Linn, cautelosamente (porque era preciso ser cauteloso para ensinar uma coisa ao general) - supor que um homem quieto, discreto, seja necessariamente inofensivo. Os adversários de Seldon não o chamariam de inofensivo. Há dezoito anos, o movimento joranumita quase derrubou o poderoso primeiro-ministro de Cleon, Eto Demerzel.

        Tennar fez que sim com a cabeça, mas a testa franzida mosfava que estava tendo dificuldade para se lembrar.

        - Foi Seldon quem derrotou Joranum e sucedeu a Demerzel como primeiro-ministro. Entretanto, o movimento joranumita sobreviveu e conseguiu assassinar Cleon antes de ser dissolvido por Seldon.

        - Mas Seldon escapou impune, não foi?

        - Exatamente. Seldon escapou impune.

        - Isso é estranho. Um primeiro-ministro que permite que o imperador seja assassinado deveria ter sido condenado à morte.

        - Tem razão. Entretanto, a junta nada fez contra ele.

        - Por quê?

        - Por causa de algo chamado psico-história, general.

        - Não sei do que se trata - afirmou Tennar.

        Na verdade, lembrava-se vagamente de ter ouvido Linn mencionar aquele nome estranho em várias ocasiões. Não se mostrara interessado e Linn não era do tipo de forçar  um assunto. Ainda não estava interessado, mas as palavras de Linn pareciam traduzir uma certa preocupação. Talvez fosse melhor ouvir o que ele tinha a dizer.

        - Quase ninguém sabe do que se trata - afirmou Linn. - Entretanto, existem alguns... ha... alguns intelectuais que se interessam por ela.

        - E o que é?

        - Uma complexa teoria matemática. Tennar sacudiu a cabeça.

        - Poupe-me os detalhes, por favor. Sei contar as divisões do meu exército. É toda a matemática de que preciso.

        - Acontece que a psico-história pode tornar possível prever o futuro - declarou Linn.

        O general arregalou os olhos.

        - Então esse Hari Seldon é uma espécie de vidente?

        - Eu não disse isso. As previsões da psico-história são previsões científicas.

        - Não acredito.

        - É difícil de acreditar, mas Seldon se tornou uma espécie de mito aqui em Trantor, e em certos lugares dos Mundos Exteriores. Se puder ser usada para prever o futuro,  ou mesmo se as pessoas simplesmente pensarem que ela pode ser usada como tal, a psico-história se tornará um importante instrumento de sustentação do regime.  Tenho certeza de que já compreendeu isso, general. Basta prevermos que nosso regime será duradouro e trará paz e prosperidade para o Império.  Acreditando nisso, as pessoas se encarregarão de fazer com que as previsões se concretizem. Por outro lado,  se Seldon quiser sabotar o seu governo, poderá prever uma guerra civil, o que terá o efeito de desestabilizar o regime.

        - Nesse caso, coronel, basta assegurarmos que as previsões da psico-história sejam as que nos interessam.

        - As previsões teriam que ser feitas por Seldon, que não é exatamente um simpatizante do regime. É importante, general, que façamos uma distinção entre o projeto   que está sendo executado na Universidade de Streeling para desenvolver a psico-história e a pessoa de Hari Seldon. A psico-história pode ser extremamente útil para   nós, mas apenas se outra pessoa que não Hari Seldon esteja conduzindo os trabalhos.

        - Existem outras pessoas capacitadas?

        - Oh, sim. Será necessário apenas tirar Seldon do caminho.

        - Qual é o problema? Uma ordem de execução, e pronto.

        - Seria melhor, general, se o governo não se envolvesse diretamente nesse tipo de coisa.

        - Explique!

        - Convidei Seldon para vir aqui. Assim, poderá examiná-lo de perto e verificar se algumas idéias que tenho em mente são fundamentadas ou não.

        - Para quando foi marcado o encontro?

        - Deveria ocorrer imediatamente, mas os assistentes de Seldon no projeto pediram que esperássemos alguns dias, até terminarem as comemorações do seu sexagésimo aniversário.

        Achei que isso atendia aos nossos interesses e concordei.

        - Por que fez isso? - quis saber Tennar. - Detesto demonstrações de fraqueza.

        - Tem razão, general. Tem toda a razão. Sua intuição, como sempre, está correta. Entretanto, pareceu-me que talvez houvesse uma certa vantagem em que o encontro tivesse lugar após as comemorações do aniversário de Seldon.

        - Por quê?

        - Porque poderíamos colher informações adicionais a respeito dele. Gostaria de ver parte das festividades?

        O rosto do general Tennar permaneceu sombrio.

        - Isso é necessário?

        - Penso que achará interessante, general.

        A reprodução visual e sonora era excelente; por algum tempo, a alegria da festa encheu o aposento austero onde se encontrava o general.

        Linn comentou o que estava acontecendo em voz baixa.

        - A maior parte da comemoração, general, está acontecendo no complexo do projeto, mas toda a universidade decidiu participar. Daqui a pouco vamos ter uma vista aérea e poderá ver que as festividades cobrem uma área considerável. Na verdade, embora eu não possa exibir provas no momento, existem certos lugares no planeta, especialmente universidades e fundações, onde estão sendo realizadas manifestações em homenagem a Seldon. As comemorações continuam e deverão durar pelo menos até amanhã.

        - Está querendo me dizer que se trata de uma festa em escala planetária?

        - Sob certo aspecto, sim. Apenas uma pequena parcela da população está envolvida, a dos intelectuais, mas eles estão espalhados por todo o planeta. Pode ser até que o aniversário de Seldon esteja sendo comemorado em outros planetas além de Trantor.

        - Onde conseguiu esta reprodução? Linn sorriu.

        - Tenho meus contatos no projeto. Na verdade, dificilmente acontece alguma coisa lá sem que eu tome conhecimento.

        - Pois bem, Linn, quais são as suas conclusões a respeito deste assunto?

        - Ao que me parece, general, e tenho certeza de que concorda comigo, Hari Seldon se tornou uma figura extremamente popular entre os intelectuais. Seu nome está indissoluvelmente ligado à psico-história. Se o eliminássemos abertamente, destruiríamos a credibilidade da ciência, o que a tornaria inútil para nossos propósitos.

        Por outro lado, general, Seldon está ficando velho e é natural que seja substituído por um discípulo mais jovem, alguém em cuja escolha podemos influir e que poderia ser manipulado de forma a permitir que usássemos a psico-história para apoiar o regime. Se Seldon puder ser afastado de forma não-traumática, nossos problemas estarão resolvidos.

        - E você acha que devo conversar com ele - disse o general.

        - Sim, para conhecê-lo pessoalmente e decidir o que devemos fazer. Mas devemos ser cautelosos, porque, como já disse, ele é uma figura muito popular.

        - Já lidei com outras figuras populares - afirmou Tennar, em tom sombrio.

       

        - Claro que gostei - disse Hari Seldon, com voz cansada. - Foi uma grande festa. Diverti-me a valer. Mal posso esperar pelo meu aniversário de setenta anos, para repetir a farra. A verdade, porém, é que estou exausto.

        - Então vá dormir, papai - disse Raych, sorrindo. - Isso é fácil de curar.

        - Não sei como Vou conseguir relaxar sabendo que terei que me encontrar com nosso Grande Líder amanhã à noite.

        - Sozinho, você não vai - declarou Dors Venabili. Seldon franziu a testa.

        - Não diga isso, Dors. É importante para mim conversar a sós com o general.

        - Não quero que corra riscos desnecessários. Lembra-se do que aconteceu quando não me deixou ir com você cumprimentar os novos jardineiros?

        - Como poderia não me lembrar, se você fala nisso no mínimo duas vezes por semana? Neste caso, porém, já decidi que Vou sozinho. Que é que ele pode fazer comigo quando eu chegar lá, só e desarmado, para saber o que pretende?

        - E o que acha que ele pretende? - perguntou Raych.

        - Provavelmente, o mesmo que Cleon. Alguém lhe contou que a psico-história pode ser usada para prever o futuro, e ele quer aproveitar-se disso em seu benefício. Eu disse a Cleon, há quase trinta anos, que a ciência ainda não estava suficientemente desenvolvida para permitir qualquer tipo de previsão. Pretendo dizer a mesma coisa ao general Tennar.

        - Acha que vai acreditar em você? - perguntou Raych.

        - Tentarei ser convincente.

        - Não quero que vá sozinho - insistiu Dors.

        - O que você quer não faz diferença, Dors.

        Nesse ponto, Tamwile Elar interveio. Ele disse:

        - Sou a única pessoa presente que não pertence à família. Não sei se um comentário meu seria bem-aceito.

        - Vá em frente - disse Seldon.

        - Gostaria de propor uma solução de compromisso. Por que vários de nós não vão com o mestre, como uma espécie de escolta? Seria um fecho de ouro para as comemorações  do seu aniversário! Espere, não estou sugerindo uma invasão do escritório do general. Nem mesmo que nosso grupo entre no palácio. Podemos reservar quartos de hotel  no Setor Imperial, nas proximidades do palácio. O Hotel da Beira da Cúpula seria ideal. Teríamos mais um dia de festa.

        - É disso que estou precisando - resmungou Seldon. - Mais um dia de festa.

        - Não para o senhor, mestre - apressou-se a dizer Elar. - Poderá descansar à vontade. Nós nos encarregaremos de oferecer à população do Setor Imperial uma demonstração da sua popularidade... e talvez ao general, também. Se ele souber que estamos todos à sua espera, terá que tratá-lo de forma civilizada.

        Todos ficaram em silêncio por algum tempo. Finalmente, Raych observou:

        - Parece uma demonstração desnecessária. Não combina com a imagem que as pessoas fazem de papai.

        - Não estou interessada na imagem de Hari, e sim na sua segurança - protestou Dors. - Se não podemos acompanhá-lo até o palácio, por que não esperar por ele nas vizinhanças? Gostei da sua idéia, Dr. Elar.

        - Pois eu, não - afirmou Seldon. - Prefiro ir sozinho.

        - Sinto-me responsável pela sua proteção pessoal - disse Dors - e insisto em acompanhá-lo até onde for possível.

        Manella, que até então escutara a conversa sem fazer nenhum comentário, observou:

        - Sempre tive vontade de conhecer o Hotel Beira da Cúpula. Vai ser divertido.

        - Não estava pensando na sua diversão - disse Dors, - mas aceito seu voto favorável.

        Foi assim que, no dia seguinte, de manhã cedo, vinte colaboradores de Seldon no projeto da psico-história se registraram no Hotel da Beira da Cúpula, ocupando quartos cujas janelas davam para os jardins do Palácio Imperial.

        À noite, soldados armados foram buscar Hari Seldon para o encontro com o general.

        Quase no mesmo momento, Dors Venabili desapareceu, mas sua ausência não foi notada por um longo tempo. Quando finalmente foi notada, ninguém tinha a menor idéia do que lhe acontecera, e o clima festivo deu lugar a uma atmosfera de apreensão.

       

        Ela vivera no Palácio Imperial durante dez anos. Como esposa do primeiro-ministro, tinha acesso livre ao palácio e podia sair da cúpula usando as impressões digitais como passe.

        Na confusão que se seguira ao assassinato de Cleon, tinham se esquecido de cancelar o seu passe. Por isso, agora podia usá-lo para entrar nos jardins.

        Ela sabia que só poderia fazer aquilo uma vez; a primeira coisa que fariam depois de descobri-la seria cancelar o passe. Não tinha importância; aquela era a hora de usá-lo.

        No momento em que deixou a cúpula, o céu ficou mais escuro e a temperatura caiu vários graus. O mundo debaixo da cúpula era sempre um pouco mais claro durante a noite e um pouco mais escuro durante o dia do que do lado de fora. Além disso, naturalmente, a temperatura era mantida em níveis confortáveis. A maioria dos trantorianos não tinha consciência disso, já que passavam a vida inteira no interior da cúpula. Dors, por outro lado, conhecia muito bem os dois mundos e não se deixou impressionar pelo contraste.

        Tomou o Caminho Central, que começava em frente ao Hotel da Beira da Cúpula. O passeio era muito bem-iluminado, de modo que a escuridão do céu não fazia a menor diferença.

        Dors não esperava percorrer cem metros antes de ser detida; talvez menos, naqueles tempos paranóicos. A segurança do palácio não tardaria a detectar a presença de um estranho nos jardins.

        Não se enganara. Um pequeno carro se aproximou e um guarda gritou da janela:

        - Aonde vai?

        Dors ignorou a pergunta e continuou a caminhar.

        O guarda gritou "Pare!", pisou no freio e saltou do carro, o que era exatamente o que Dors queria que ele fizesse.

        O guarda segurava uma pistola, não de forma ameaçadora, mas apenas para demonstrar que ela existia. Ele disse:

        - Sua identificação.

        - Preciso do seu carro - afirmou Dors.

        - O quê? - exclamou o guarda, indignado. - Mostre sua identificação. Já!

        - Não Vou mostrá-la - replicou a moça, calmamente, aproximando-se do guarda. O guarda recuou um passo.

        - Se não parar e mostrar sua identificação, eu atiro.

        - Não! Largue essa pistola.

        O guarda cerrou os lábios e tentou apertar o gatilho, mas não teve tempo. Mais tarde, teve dificuldade para descrever o que acontecera. Tudo que pôde dizer foi:

        - Como eu iria saber que estava diante da mulher-tigre? - (Mais tarde ainda, sentir-se-ia orgulhoso de tê-la conhecido) - Ela foi tão rápida que não consegui acompanhar seus movimentos. No momento em que decidi atirar, pensando tratar-se de algum tipo de fanática assassina, fui totalmente dominado.

        Dors deu uma gravata no guarda, segurando-lhe o pulso com a outra mão, e disse:

        - Largue a pistola, ou quebro o seu braço.

        O guarda, quase sufocado, não teve escolha: deixou cair a arma.

        Dors soltou-o, mas antes que o guarda tivesse tempo de se recuperar, viu-se sob a mira da própria pistola.

        - Acho melhor não contar o que aconteceu aos seus superiores - disse Dors. - Se eles souberem que uma mulher desarmada tomou o seu carro e a sua pistola, seus dias no palácio estarão contados.

        A moça entrou no carro e colocou-o em movimento. Sabia exatamente para onde ir. O veículo em que se encontrava, um carro de patrulha, não atrairia a atenção. Entretanto, tinha de correr o risco de abusar da velocidade, pois estava com pressa para chegar ao destino. Acelerou para duzentos quilômetros por hora.

        A velocidade em que ia realmente atraiu a atenção. Ignorou as chamadas pelo rádio, perguntando por que ultrapassara o limite de velocidade, e, pouco depois, os detectores mostraram que outro carro a perseguia de perto.

        Dors sabia que tinham dado o alarma e haveria outros carros à sua espera quando chegasse, mas não havia nada que pudessem fazer no momento, a não ser explodir o seu carro, coisa Que aparentemente não estavam dispostos a fazer sem conhecer Suas intenções.

        Quando chegou ao edifício que procurava, dois carros estavam esperando por ela. Saltou calmamente e caminhou para a entrada.

        Dois homens foram ao seu encontro, obviamente surpresos ao constatar que o motorista apressado não era um guarda, mas uma mulher em trajes civis.

        - Que faz aqui? Por que estava correndo tanto?

        - Tenho uma mensagem importante para o coronel Hender Linn - respondeu Dors.

        - É mesmo? - disse o guarda, em tom sarcástico. Agora havia quatro homens entre ela e a porta de entrada. - Identificação, por favor.

        - Não posso perder tempo - disse Dors.

        - Eu pedi para ver a sua identificação.

        - Estou com pressa.

        - Já sei quem ela é! - exclamou um dos guardas. - E a mulher do antigo ministro, a Dra. Venabili. A mulher-tigre.

        Os quatro recuaram um passo, mas um deles disse:

        - A senhora está presa.

        - Estou? - disse Dors. - Se sabem que sou a mulher-tigre, devem saber também que sou mais forte que os quatro, e que meus reflexos são muito mais rápidos que os de vocês. Por que não facilitam as coisas e me levam à presença do coronel Linn?

        - A senhora está presa - repetiu o guarda, enquanto quatro pistolas eram apontadas para Dors.

        - Se vocês insistem...

        Dors se moveu rapidamente e dois dos guardas foram parar no chão, gemendo, enquanto Dors encarava os outros com uma pistola em cada mão. Ela disse:

        - Fiz o possível para não machucá-los, mas pode ser que estejam com o pulso quebrado. Restam vocês dois, e sou mais rápida no gatilho. Não me forcem a atirar.

        Os dois guardas que ainda estavam de pé ficaram absolutamente imóveis.

        - Por que não me levam à presença do coronel e depois vão procurar um médico para os seus companheiros?

        A sugestão não era necessária. O coronel Linn saiu do seu escritório.

        " - O que está acontecendo aqui? Quem é... Dors voltou-se para ele.

        - Ah! Gostaria de me apresentar. Sou a Dra. Dors Venabili, esposa do professor Hari Seldon. Vim conversar com o senhor a respeito de um assunto importante. Esses quatro tentaram me deter e, em conseqüência, dois deles se machucaram. É melhor dispensá-los. Não Vou lhe fazer mal.

        Linn olhou para os quatro guardas e depois para Dors.

        - Não vai me fazer mal? Esses quatro guardas podem não ter conseguido detê-la, mas posso chamar mais quatro mil, se for preciso.

        - Então chame-os - disse Dors. - Não chegariam a tempo de salvá-lo, se eu decidisse matá-lo. Dispense os guardas e vamos ter uma conversa civilizada.

        Linn dispensou os guardas com um gesto.

        - Entre, entre, vamos conversar. Deixe-me preveni-la, porém, Dra. Venabili, de que tenho uma excelente memória.

        - Eu também - retrucou Dors. Entraram juntos no escritório de Linn.

       

        - Diga-me exatamente o que veio fazer aqui, Dra. Venabili - Pediu Linn, educadamente. Dors sorriu para ele.

        - Para começar - declarou, - vim aqui para provar que era capaz de fazê-lo.

        - Hein?

         Isso mesmo. Meu marido foi levado para uma entrevista com o general, em um carro oficial, com escolta. Deixei o hotel ao mesmo tempo que ele, a pé, desarmada... e aqui estou. Acredite ou não, cheguei antes do meu marido. Tive que passar por cinco guardas para chegar ao senhor. Teria passado por cinqüenta, se fosse preciso.

        Linn fez que sim com a cabeça, resignadamente.

        - Ouvi dizer que alguns a chamam de mulher-tigre.

        - É verdade... Agora, que estou aqui, minha missão é zelar pela segurança do meu marido. Ele está se aventurando nos domínios do general, se me permite a expressão, e quero que saia daqui como chegou.

        - No que me diz respeito, pode ficar tranqüila. Não tenho a menor intenção de fazer mal ao seu marido. Mas se está preocupada, por que veio falar comigo? Por que não procurou diretamente o general?

        - Porque, dos dois, o único que pensa é o senhor. Houve um breve silêncio e depois Linn observou: - Este poderia ser um comentário muito perigoso... se chegasse aos ouvidos de uma certa pessoa.

        - Mais perigoso para o senhor do que para mim, de modo que é do seu interesse cuidar para que isso não aconteça. Quero que saiba de uma coisa. Se pensa que pode prender o meu marido ou mandar executá-lo, e não haverá nada que eu possa fazer, está muito enganado.

        Apontou para as duas pistolas que estavam na mesa à sua frente.

        - Entrei nos jardins do palácio desarmada. Cheguei até aqui com duas pistolas. Se não pudesse contar com pistolas, usaria facas. Sou exímia com facas. E mesmo que não tivesse pistolas nem facas, nada poderia me deter. Esta mesa é feita de metal, não é?

        Dors levantou as mãos, com os dedos bem abertos, como para mostrar que não estava segurando nenhum objeto. Depois, colocou-as sobre a mesa, com a palma para baixo.

        De repente, Dors levantou o punho e golpeou a mesa com força, produzindo um ruído que era quase o de metal contra metal. Sorriu e levantou a mão.

        - Não estou machucada - disse. - Não senti nenhuma dor. Mas pode observar que o tampo da mesa está ligeiramente amassado. Se eu atingisse com a mesma força a cabeça de uma pessoa, ela não sobreviveria. Nunca fiz uma coisa dessas; na verdade, jamais matei alguém. Entretanto, se o professor Seldon for ameaçado...

        - A senhora continua a fazer ameaças.

        - Ameaças, não. Promessas. Não farei nada se o professor Seldon sair daqui ileso. Caso contrário, coronel Linn, terei que matá-lo, e farei o mesmo com o general Tennar.

        - Por mais ágil que seja, não pode enfrentar um exército inteiro, Dra. Venabili - disse Linn.

        - As histórias que contam a meu respeito são exageradas - disse Dors, - mas muita coisa que você ouviu falar realmente aconteceu. Os seus guardas ficaram assustados quando me reconheceram, e eles mesmos se encarregarão de contar, com algumas fantasias, como cheguei até aqui. Até um exército hesitaria antes de me atacar, coronel

        Linn, mas mesmo que o fizesse, e eu fosse vencida, vocês não teriam como evitar a indignação do povo. A junta está conseguindo manter a ordem, mas com muita dificuldade; para que complicar as coisas? A alternativa é simples: não façam mal ao professor Hari Seldon.

        - Ninguém pretende lhe fazer mal.

        - Por que, então, o chamaram aqui?

        - Isso é algum mistério? O general ficou curioso a respeito da psico-história. Temos acesso aos registros do antigo governo. Cleon, o último imperador, se interessou.

        Demerzel, que foi primeiro-ministro antes de Seldon, se interessou. Agora chegou a nossa vez. E ainda com mais razão.

        - Por que com mais razão?

        - Porque o tempo passou. Pelo que sei, a psico-história começou como uma idéia do professor Seldon. Ele vem trabalhando nela há quase trinta anos. Nesse período, o número de Pessoas empenhadas no projeto aumentou consideravelmente. Essas pessoas têm sido pagas pelos cofres públicos, de modo que, na verdade, suas descobertas pertencem ao governo. Pretendemos perguntar a ele em que estágio se encontra no momento a Psico-história. Certamente deve estar bem mais avançada que no tempo de Demerzel e Cleon. Esperamos algo mais prático do que a visão de equações dançando no ar. Está me entendendo?

        - Perfeitamente - disse Dors, franzindo a testa.

        - Mais uma coisa. Não cometa o erro de imaginar que a única ameaça ao seu marido vem do governo. É muito provável que ele tenha inimigos pessoais.

        - Não me esquecerei disso. No momento, a única coisa que desejo é estar presente ao encontro do meu marido com o general, para ter certeza de que tudo correrá bem.

        - Isso será difícil de conseguir. Nem mesmo eu tenho autoridade para interromper a entrevista, mas se esperar até que termine...

        - Não me importa o que faça, quero estar segura de que Seldon sairá ileso daquela sala. E nem pense em me trair...

       

        O general Tennar ficou olhando fixamente para Hari Seldon, enquanto seus dedos tamborilavam no tampo da escrivaninha.

        - Trinta anos! - exclamou. - Trinta anos, e tem coragem de dizer que ainda não obteve nenhum resultado concreto?

        - Na verdade, general, foram vinte e oito anos. Tennar ignorou a observação.

        - E tudo financiado pelo governo. Sabe quantos bilhões de créditos galácticos foram investidos no projeto, professor?

        - Não conheço o número de cabeça, general, mas posso consegui-lo para o senhor em nossos computadores.

        - Já fizemos esse levantamento. Professor, o governo não é uma fonte ilimitada de recursos. Os tempos mudaram. Não podemos nos dar ao luxo de ser tão desprendidos   quanto Cleon em relação às verbas públicas. A população não receberia bem um  novo aumento dos impostos, e precisamos de dinheiro para muitas coisas. Chamei-o aqui na esperança de que a sua psico-história pudesse ajudar o governo, de uma forma  ou de outra. Se não é assim, infelizmente teremos que fechar a torneira. Se puder continuar a pesquisa sem apoio financeiro do governo, muito bem; se não, acho que  chegou a hora de encerrar o projeto.

        - General, está me fazendo uma exigência que não posso cumprir, mas se, como represália, retirar o apoio do governo, estará cometendo um grande erro. Se me der mais algum tempo, certamente os resultados começarão a aparecer.

        - Provavelmente, você disse a mesma coisa ao meu antecessor. Não é verdade, professor, que de acordo com as previsões da psico-história o meu governo é instável e não vai durar muito tempo?

        Seldon franziu a testa.

        - A técnica ainda não está suficientemente desenvolvida para permitir esse tipo de previsão.

        - Não é o que seus assistentes andam comentando por aí.

        - É possível que tenham interpretado alguns dos nossos resultados como uma indicação de que a junta é uma forma instável de governo, mas existem outros resultados   que poderiam ser interpretados de forma radicalmente oposta. É por isso que devemos continuar o nosso trabalho. No momento, seria muito fácil usar dados incompletos   e teorias inacabadas para chegar à conclusão que desejássemos.  - Mas se vocês divulgarem essa conclusão de que o governo é instável, afirmando que ela é sustentada pela psico-história, mesmo que isso não seja verdade, isso não   comprometeria a estabilidade do governo?

        - É bem possível, general. E se anunciássemos que o governo é estável, estaríamos contribuindo para estabilizá-lo. Tive essa mesma discussão com o imperador Cleon   em várias ocasiões. A psico-história pode ser usada para manipular a opinião pública e conseguir resultados imediatos. A longo prazo, porém, as Previsões se revelarão   incompletas, ou mesmo errôneas, e a ciência Perderá toda a sua credibilidade. Será como se nunca houvesse  existido.

        - Chega de conversa fiada! O que, exatamente, a psico-história tem a dizer a respeito do meu governo?

        - A meu ver, a psico-história revela que existem alguns elementos de instabilidade, mas, até o momento, é impossível dizer que medidas contribuiriam para aumentar ou reduzir essa instabilidade.

        - Em outras palavras, a psico-história não revela nada que não pudéssemos saber sem ela, e é nisso que o governo vem investindo somas incalculáveis.

        - Chegará o dia em que a psico-história nos revelará muita coisa que não poderíamos saber sem ela e o investimento será pago várias vezes.

        - Quando vai chegar esse dia?

        - Em breve, espero. O progresso tem sido animador nos últimos anos.

        Tennar recomeçou a tamborilar na mesa.

        - Não é o bastante. Dê-me um exemplo. Um exemplo interessante.

        Seldon pensou um pouco e depois disse:

        - Posso preparar um relatório para o senhor, mas vai levar algum tempo.

        - Sei que vai. Dias, meses, anos... pensa que sou tolo?

        - Não, claro que não, general. Por outro lado, não estava querendo me precipitar e lhe dizer algo que talvez não passe de uma interpretação pessoal dos resultados fornecidos pela psico-história. Entretanto, já que insiste...

        - Eu insisto.

        - Há poucos momentos, o senhor falou dos impostos. Disse que era difícil aumentá-los. Na verdade, isso sempre foi difícil. Todo governo precisa de dinheiro para fazer o seu trabalho. Só existem duas formas de conseguir esse dinheiro: roubá-lo dos vizinhos ou persuadir a população a contribuir, de forma voluntária e pacífica, com parte de suas economias. Desde que o Império Galáctico foi formado, há milhares de anos, a possibilidade de roubar os vizinhos praticamente desapareceu, a não ser no caso de uma rebelião ocasional. Trata-se, porém, de fenômenos isolados e pouco significativos. - Seldon respirou fundo e prosseguiu: - Assim sendo, a única forma que o governo possui de financiar seus gastos é pedir dinheiro ao povo, sob a forma de impostos. Teoricamente, é mais interessante para os cidadãos abrir mão de parte dos seus rendimentos para que o governo mantenha uma sociedade organizada do que se negar a contribuir e viver em uma anarquia caótica e perigosa.

        "Entretanto, embora o pedido seja razoável e os cidadãos tenham muito a ganhar pagando impostos para manter um governo estável e eficiente, eles relutam em fazê-lo.   Para vencer essa relutância, o governo procura dar a impressão de que não está sendo excessivamente ganancioso e está respeitando os direitos e as situações particulares   dos cidadãos. Por isso, passa a taxar menos as pessoas de baixa renda, permite que sejam feitas deduções de vários tipos antes que o imposto final seja calculado, e assim por diante. Com o passar do tempo, o cálculo do imposto a pagar se torna cada vez mais complexo, pois diferentes planetas, diferentes setores dentro de cada planeta e diferentes   classes econômicas exigem e conseguem tratamento especial. O resultado é que o sistema de arrecadação de impostos do governo cresce em tamanho e complexidade até  se tornar quase incontrolável. O cidadão comum não consegue mais compreender por que ou em quanto está sendo taxado; não sabe mais de que isenções pode se beneficiar.   Freqüentemente, o próprio governo não consegue responder a essas perguntas.”

        "Além do mais, uma porcentagem cada vez maior do dinheiro arrecadado tem que ser usada no sistema de coleta de impostos, para manter os registros, localizar e punir   os sonegadores etc., de modo que os fundos disponíveis para finalidades produtivas começam a diminuir.”

        "No final, a situação se torna caótica. Os casos de desobediência civil se multiplicam. Os livros de história costumam pôr a culpa por essa situação na ganância   dos banqueiros, na corrupção dos políticos, na truculência dos militares, na ambição dos vice-reis, mas esses são apenas indivíduos que tiram proveito da situação   fiscal.”

        - Está me dizendo que nosso sistema de impostos é excessivamente complicado? - interrompeu o general bruscamente.

        - Se não fosse, seria o único na história - respondeu Seldon. - Se há uma coisa que, segundo a psico-história, é inevitável, essa coisa é o crescimento excessivo do setor de coleta de impostos.

        - E o que podemos fazer a respeito?

        - Isso eu não sei. É por essa razão que gostaria de preparar um relatório, o que, como disse, vai levar algum tempo.

        - Esqueça o relatório. O sistema de impostos é excessivamente complicado, não é? Não é isso que está dizendo?

        - É possível que seja - respondeu Seldon, cautelosamente.

        - Para consertar isso, temos que tornar o sistema de impostos mais simples, o mais simples possível, na verdade.

        - Eu teria que examinar...

        - Bobagem. O oposto da complexidade é a simplicidade, Não preciso de relatório algum para chegar a essa conclusão.

        Nesse momento, o general levantou os olhos, como se estivesse sendo chamado, e realmente estava. Cerrou os punhos e, no meio da sala, apareceram as imagens holográficas do coronel Linn e Dors Venabili.

        - Dors! O que está fazendo aqui? - exclamou Seldon, surpreso.

        O general não disse nada, mas amarrou a cara.

       

        O general tivera uma noite mal dormida. O coronel, também. Agora, olhavam um para o outro, sem saber o que fazer.

        - Conte-me de novo o que essa mulher fez - disse o general.

        Linn parecia ter um grande peso nos ombros.

        - Ela é a mulher-tigre. É assim que a chamam. Na verdade, não parece humana. É algum tipo de superatleta, cheia de autoconfiança e, acredite, general, capaz de meter medo em qualquer um.

        - Você ficou com medo dela? Uma mulher?

        - Deixe-me contar-lhe exatamente o que ela fez, e mais algumas coisas a seu respeito. Não sei se tudo que dizem é verdade, mas vi com meus próprios olhos o que aconteceu ontem à noite.

        Ele contou novamente a história e o general escutou com atenção.

        - O que faremos agora? - perguntou, quando o outro concluiu o relato.

        - Acho que não há muito que discutir. Queremo