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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CRUZ DE MORRIGAM / Nora Roberts
CRUZ DE MORRIGAM / Nora Roberts

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Nos últimos dias do verão irlandês do sec. XII, quando o céu se obscureceu e se encheu de relâmpagos, o feiticeiro contemplava o turbulento mar em cima do escarpado.

Elevando seu grito de pena para a tormenta, Hoyt Mac Cionaoith clama contra o ser demoníaco que levou seu irmão gêmeo, separando-o de sua família. Esse cruel ser é Lilith. Durante milhares de anos, atraiu com seus enganos incontáveis homens condenando-os à imortalidade com seu beijo e lhes roubando a alma. Mas agora, esta poderosa vampiresa fará o que seja para governar o mundo.

E nesse dia, embora Hoyt não encontre à escura sereia que procurava, receberá a ajuda da deusa Morrigan que lhe outorgará os poderes necessários para cumprir sua ansiada vingança. Em troca, deve encontrar outros cinco companheiros para formar um círculo suficientemente poderoso para destruir Lilith e seu batalhão do mal. Um círculo com seis membros: ele mesmo, a bruxa, o guerreiro, o sábio, aquele que adota várias formas, e aquele que perdeu.

Agora, viajando a Nova Iorque de nossos dias, onde topará com seu gêmeo, agora vampiro, Cian, e Glenna, uma bela bruxa. Dois guerreiros mais, Moira e Larkin, se unirão em sua luta.

E enquanto a paixão surge entre Hoyt e Glenna, os inimigos ressurgirão de entre as sombras e o Círculo de Seis, deverá preparar-se para o momento decisivo de sua confrontação com Lilith...

 

 

 

 

A chuva foi o que lhe fez pensar na história. Suas rajadas batiam nas janelas, tomavam por assalto os telhados e sopravam seu fôlego amargo por debaixo das portas.

A umidade lhe doía nos ossos apesar de estar sentado frente ao fogo. A idade se deixava sentir pesadamente sobre seu corpo nas longas e chuvosas noites do outono, e sabia que o notaria ainda mais quando chegasse o escuro inverno.

As crianças estavam ali com ele, aconchegadas no chão, ou apinhadas dois ou três juntos nas poltronas. Olhavam-no espectadores porque tinha prometido lhes contar uma história que os ajudasse a combater o aborrecimento de um dia tormentoso.

Não tinha tido intenção de lhes contar essa história, ainda não, porque alguns deles eram muito pequenos, e a história distava muito de ser tenra. Mas a chuva lhe falava ao ouvido, sussurrando as palavras que ainda não tinha pronunciado.

Inclusive um narrador de contos, sobre tudo possivelmente um narrador de contos, tinha que escutar.

—Conheço uma história — começou a dizer, e várias das crianças se agitaram ligeiramente, antecipando o que viria a seguir—. É uma história que fala de coragem e covardia, de sangue e morte, e da vida. De amor e de perda.

—Há monstros? —perguntou um dos menores, com seus olhos azuis muito abertos com uma mescla de alegria e temor.

—Sempre há monstros —Respondeu o homem mais velho —. Do mesmo modo que sempre há homens que se unirão a eles, e homens que lutarão contra eles.

—E mulheres! —exclamou uma das meninas mais velhas, lhe provocando um sorriso.

—E mulheres. Valentes e fiéis, tortuosas e mortíferas. Conheci ambos os tipos em minha época. Agora bem, esta história que vou contar ocorreu faz muito tempo. Tem muitos começos, mas um só final.

Enquanto o vento uivava fora da casa, o velho bebeu um pouco de chá para esclarecer a garganta. As lenhas crepitaram na lareira e o brilho do fogo iluminou seu rosto com um resplendor de sangue dourado.

—Este é um dos começos. Nos últimos dias do verão, com os relâmpagos arrancando brilhos azuis em um céu negro, o feiticeiro se encontrava no alto de um escarpado, contemplando o mar turbulento a seus pés.

 

                                 Capítulo 1

Eire, região do Chiarrai, 1128

Havia uma tormenta em seu interior, tão negra e selvagem como a que se abatia nesse momento sobre o mar. Estalava no caudal de seu sangue, no ar que o rodeava, lutando dentro e fora enquanto ele permanecia de pé sobre aquela rocha banhada pela chuva.

O nome de sua tormenta era aflição.

Era esse sentimento que se via em seus olhos, tão azuis e intrépidos como os relâmpagos que iluminavam o céu, enquanto a raiva escapava das pontas de seus dedos, línguas vermelhas que separavam o ar com trovões que ressonavam como os disparos de mil canhões.

Elevou seu cajado para o céu e pronunciou a gritos as palavras mágicas. Os relâmpagos vermelhos de sua fúria e o azul amargo da chuva chocaram por cima de sua cabeça em uma guerra que fez que corressem a refugiar-se em cabanas e cavernas aqueles que podiam vê-la, fechando a sete chaves portas e janelas, abraçando seus filhos, trêmulos e aterrados, enquanto elevavam suas preces aos deuses de sua preferência.

E, em seus lugares sagrados, até as fadas estremeceram.

A rocha retumbou e a água do mar se voltou negra como a boca do inferno, enquanto ele seguia sentindo a mesma fúria e a mesma aflição. A chuva que brotava torrencialmente do céu ferido caía vermelha como o sangue… e chispava, ardendo sobre a terra, sobre o mar, de modo que o ar cheirava seu fervor.

Desde aquele momento e para sempre a chamariam “Noite dos Lamentos”, e todos aqueles que se atreviam a falar dela se referiam ao feiticeiro que estava de pé no alto do escarpado, com a chuva sangrenta lhe empapando a capa, deslizando por seu rosto magro, como as lágrimas da morte, enquanto desafiava o céu e o inferno.

 

Seu nome era Hoyt, e sua família os Mac Cionaoith, de quem se dizia serem descendentes de Morrigan, deusa e rainha das fadas. Seu poder era muito grande, mas ainda jovem, como ele mesmo era. E agora o exercia com uma paixão que não deixava lugar à prudência, a obediência, a luz. Era sua espada e sua lança.

O que invocava durante essa terrível noite era a morte.

Voltou-se de costas para mar tumultuoso enquanto o vento continuava uivando. O que ele tinha conjurado se encontrava ali, em uma elevação. Ela — porque uma vez tinha sido uma mulher— sorriu. Sua beleza era indescritível e gelada como o inverno. Seus olhos eram azuis e ternos, seus lábios, aveludados como pétalas de rosa, sua pele, branca como o leite. Quando falou, sua voz era melodia pura, a voz de uma sereia que já tinha atraído incontáveis homens a seu fatal destino.

—É muito temerário para me buscar. Acaso está impaciente por receber meu beijo, Mac Cionaoith?

—Foi você quem matou meu irmão?

—A morte é… — Indiferente à chuva, jogou seu capuz para trás—… complexa. É muito jovem para entender sua glória. O que lhe dei foi um presente. Precioso e poderoso.

—Condenou-o.

—OH. —Agitou ligeiramente uma mão no ar—. Um preço muito pequeno pela recompensa da eternidade. Agora o mundo é dele e apanha dele tudo aquilo que gosta. Sabe mais coisas das que você poderia sonhar. Agora me pertence muito mais do que nunca pertenceu a você.

—Demônio, seu sangue está em suas mãos e juro que a destruirei.

Ela pôs-se a rir alegremente, como uma menina a quem prometeram um presente especial.

—Em minhas mãos, em minha garganta. Igual a meu sangue está na sua. Ele é agora como eu, um filho da noite e das sombras. Também tentará destruir seu próprio irmão? Seu gêmeo? — A névoa que cobria o chão se tornou negra, afastando-se como seda quando ela a atravessou. —Posso cheirar seu poder, sua aflição e seu assombro. Agora, neste lugar, ofereço-lhe este presente. Voltarei a transformar seu irmão gêmeo, Hoyt dos Mac Cionaoith. Darei a morte que é a vida eterna.

Ele baixou seu cajado e a olhou através da cortina de chuva.

—Me diga como se chama.

Ela deslizou agora através da neblina, sua longa capa vermelha ondulando-se a suas costas. Hoyt viu a branca turgidez dos seios que esticavam o rodeado tecido de seu vestido. Sentiu uma terrível excitação ao mesmo tempo em que percebia o aroma de seu poder.

—Tenho muitos nomes — respondeu lhe tocando o braço com a ponta do dedo. Como tinha conseguido aproximar-se tanto dele? —Quer pronunciar meu nome enquanto nos unimos? Prová-lo em seus lábios enquanto eu o saboreio?

Ele tinha a garganta seca, ardendo. Aqueles olhos, azuis e ternos, atraíam-no para ela para afogá-lo.

—Sim. Quero saber o que sabe meu irmão.

Ela pôs-se a rir outra vez, mas nesta ocasião sua risada era gutural. Um som que proclamava um desejo, o de um animal. Os olhos azuis e ternos começaram a bordear-se de vermelho.

—Está ciumento?

Roçou-lhe os lábios com os seus; estavam amargos e frios. Mas mesmo assim, eram muito tentadores. O coração dele começou a pulsar depressa e com força em seu peito.

—Quero ver tudo o que meu irmão pode ver.

Apoiou a mão sobre aquele encantador seio branco e não sentiu que nada se agitasse debaixo dele.

—Me diga seu nome.

Ela sorriu, e agora o branco de suas presas brilhou na horrível noite.

—É Lilith quem toma. É Lilith quem o faz. O poder de seu sangue se mesclará com o meu e ambos dominaremos este mundo e todos os outros.

Ela jogou a cabeça para trás, preparando-se para atacar. E nesse momento, com toda sua aflição, com toda sua fúria, Hoyt lhe cravou o cajado no coração.

O som que surgiu dela perfurou a noite, penetrou através da tormenta e se uniu a ela. Não era um som humano, nem sequer o uivo de uma besta. Ali estava o demônio que levou seu irmão, que ocultava sua maldade debaixo de uma beleza gélida, cujo coração sangrava — pôde vê-lo enquanto o sangue emanava da ferida — sem um só pulsado.

Lilith se elevou no ar, girando e lançando alaridos, enquanto um raio rasgava o céu. As palavras que ele devia pronunciar se perderam nesse horror enquanto ela se retorcia no ar e o sangue que perdia se evaporava em uma neblina pestilenta.

—Como se atreve? —Sua voz gotejava ira, dor. —Pretende usar comigo sua magia patética e insignificante? Faz mil anos que estou percorrendo este mundo. —levou a mão à ferida e depois a agitou para ele. Quando as gotas alcançaram o braço de Hoyt, cortaram-no como facas.

—Lilith! Está exorcizada! Lilith, fica desterrada deste lugar! Por meu sangue. —Tirou uma adaga de debaixo de sua capa e se fez um corte na mão. —Pelo sangue dos deuses que corre por minhas veias, pelo poder de meu nascimento, desterro você daqui…

O que chegou até ele pareceu sair voando do chão e o golpeou com a força de uma fúria selvagem. Entrelaçados, ambos se precipitaram pela borda do escarpado e caíram na saliência denteada que havia um pouco mais abaixo. Através de onda de medo e dor, ele viu que o rosto daquela coisa refletia fielmente o seu.

O rosto que alguma vez tinha sido o de seu irmão.

Hoyt pôde cheirar a morte nele, e o sangue, e também pôde ver naqueles olhos vermelhos o animal em que seu irmão se transformou. Mesmo assim, uma pequena chama de esperança tremulava no coração de Hoyt.

—Cian. Ajude-me a detê-la. Ainda temos uma possibilidade.

—Pode sentir quão forte sou? —Cian fechou a mão ao redor do pescoço de Hoyt e começou a apertar —E isto é só o princípio. —inclinou-se e lambeu o sangue do rosto de Hoyt quase brincalhão —Ela o quer para si, mas eu tenho fome. Estou realmente faminto. E, depois de tudo, o sangue que corre por suas veias é o meu.

Enquanto descobria as presas e os aproximava da garganta de seu irmão, Hoyt lhe cravou a adaga.

Cian lançou um uivo e se separou dele. Em seu rosto se desenharam a comoção e a dor. Caiu ao chão, aferrando-se a ferida. Por um instante, Hoyt acreditou ver seu irmão, seu autêntico irmão. Logo não ficou nada mais que os uivos da tormenta e o açoite da chuva.

Arrastou-se para o topo do escarpado. Suas mãos, escorregadias pelo sangue, a chuva e o suor, procuravam desesperadamente um ponto de apoio. Os relâmpagos iluminavam seu rosto, contraído pelo sofrimento, enquanto ascendia lentamente pelas rochas, rasgando a pele dos dedos no intento. O pescoço, no lugar onde lhe tinham arranhado as presas, ardia como se o tivessem marcado com um ferro candente. Chegou acima quase sem fôlego. Se o estava esperando, era um homem morto. Seu poder estava quase esgotado, debilitou-se com os estragos causados pela comoção e a dor. Não tinha nada mais que sua adaga, ainda vermelha do sangue de seu irmão.

Mas quando chegou a borda do topo e rodou sobre suas costas, com a chuva amarga caindo sobre seu rosto, viu que estava sozinho.

Talvez tivesse sido suficiente, possivelmente tinha conseguido enviar o demônio de volta ao inferno. O mesmo que, certamente, tinha mandado sua própria carne e seu próprio sangue à condenação.

Girou sobre a terra empapada e se apoiou nas mãos e joelhos. Sentia-se terrivelmente doente. A magia era um punhado de cinzas em sua boca.

Arrastou-se até onde estava seu cajado e o usou para ajudar-se a ficar em pé. Respirando de maneira agitada, afastou-se cambaleante dos escarpados ao longo de um atalho que teria podido encontrar até estando cego. O poder da tormenta tinha desaparecido do mesmo modo que tinha desaparecido o seu, e agora não era mais que uma chuva que impregnava até os ossos.

Podia cheirar seu lar: cavalos e feno, as ervas que utilizava para proteger-se, a fumaça do fogo que tinha deixado aceso. Mas não sentia nenhuma alegria, nenhum triunfo.

Enquanto avançava coxeando para sua cabana, seu fôlego escapava em leves assobios, vaias de dor que se perdiam no vento. Ele sabia muito bem que se essa coisa que levou seu irmão decidisse vir por ele estaria perdido. Cada sombra, cada forma que projetavam as árvores agitadas pela tormenta podiam significar sua morte. Algo pior que a morte. O terror a que isso acontecesse se deslizava por sua pele como uma parte de gelo sujo, de modo que reuniu todas as forças que ficavam para sussurrar conjuros, mais parecidos com preces a quem fosse, a qualquer coisa capaz de escutá-los.

Seu cavalo se agitou no abrigo deixando escapar um sopro ao perceber seu cheiro. Mas Hoyt continuou avançando cambaleante para a pequena cabana, arrastando os pés até a porta para entrar em sua casa.

Dentro estava quente e ainda ressonavam os ecos dos conjuros que tinha pronunciado antes de afastar-se para os escarpados. Ato seguido trancou a porta, deixando na madeira manchas de seu sangue e de Cian. Seria suficiente para que Lilith não pudesse entrar? Perguntou-se. Se o que tinha lido era certo, ela não podia entrar sem um convite. Quão único Hoyt podia fazer era ter fé nisso, e no conjuro protetor que rodeava sua casa.

Deixou cair sua capa molhada e suja, que ficou empapada no chão, e lhe custou um grande esforço não unir-se a ela. Prepararia umas poções para curar-se, para recuperar a força. E depois se sentaria junto a lareira, olhando o fogo. Esperando o amanhecer.

Fazia todo o possível por seus pais, suas irmãs e suas famílias. Tinha que confiar que tivesse sido suficiente.

Cian estava morto e essa coisa que tinha retornado com seu rosto e sua forma tinha sido destruída. Seu irmão já não podia lhes fazer dano, mas essa coisa sim podia.

Hoyt encontraria algo mais poderoso para protegê-los. E voltaria a caçar o demônio. Sua vida, jurou nesse momento, estaria dedicada a sua destruição.

Suas mãos, de dedos longos e palmas largas, não podiam deixar de tremer enquanto escolhia suas garrafas e potes. Os olhos do homem, de um azul borrascoso, brilhavam de dor… a dor de seu corpo, e de seu coração. A culpa pesava sobre ele como uma mortalha de chumbo, e tudo isso se agitava em seu interior.

Não tinha podido salvar seu irmão. Em troca, tinha-o condenado e destruído, tinha-o exorcizado e banido. Como tinha conseguido essa terrível vitória? Cian sempre tinha sido mais forte que ele. E aquilo no que seu irmão se converteu era algo brutalmente poderoso.

Sua magia tinha servido para derrotar o que uma vez tinha amado: a metade deles que era brilhante e impulsiva. Freqüentemente, Hoyt era aborrecido e judicioso, mais interessado em seus estudos e em suas habilidades que na sociedade.

Cian em troca era o que jogava e freqüentava as tabernas, quem gostava dos esportes e as moças.

—Seu amor pela vida foi o que o matou —murmurou Hoyt enquanto trabalhava em suas beberagens —.Eu só destruí a besta que o tinha apanhado.

Tinha que acreditar nisso.

Notou a dor intumescendo suas costelas ao tirar a túnica. Os machucados já começavam a estender-se, arrastando-se negros sobre sua pele do mesmo modo que a culpa e a aflição arrastavam-se sobre seu coração. Era hora de dedicar-se às questões práticas, disse-se, enquanto se aplicava o bálsamo. Moveu-se torpemente e amaldiçoou com violência enquanto procedia a enfaixar o torso. Tinha duas costelas quebradas, sabia, do mesmo modo que sabia quão difícil seria cavalgar de retorno a casa à manhã seguinte.

Agarrou uma poção e se aproximou coxeando do fogo que crepitava na lareira. Acrescentou um pouco de turfa e as chamas arderam com um vermelho intenso. Sobre elas, esquentou um recipiente com a infusão. Depois se envolveu em uma manta para sentar-se, beber e meditar.

Tinha nascido com um dom e, desde tenra idade, tinha procurado enobrecê-lo de maneira sóbria e meticulosa. Dedicou-se a estudar, freqüentemente em completa solidão, praticando sua arte, aprendendo seu alcance.

Os poderes de Cian tinham sido menores, mas —Hoyt o recordava muito bem —Cian nunca tinha praticado tão conscienciosamente e tampouco tinha estudado com tanto afinco. Cian só tinha brincado com a magia, como uma diversão para ele e outros.

Em ocasiões, Cian o havia arrastado em seus jogos, dobrando a resistência de Hoyt até que ambos faziam alguma coisa estúpida juntos. Uma vez tinham convertido em um asno de longas orelhas o menino que tinha empurrado sua irmã pequena a um charco de barro.

Como tinha rido Cian naquele momento! A Hoyt tinha levado três dias de trabalho, suor e pânico inverter o conjuro, mas a Cian o assunto não tinha preocupado absolutamente.

«Depois de tudo, nasceu sendo um burro. Nós não temos feito mais que lhe dar sua verdadeira forma.»

Desde que completaram doze anos, Cian se tinha mostrado muito mais interessado nas espadas que nos conjuros. Dava no mesmo, pensou Hoyt enquanto bebia a amarga infusão. Cian tinha sido um irresponsável quanto à magia e um verdadeiro mago com a espada.

Mas ao final o aço não tinha servido para salvá-lo, nem tampouco a magia.

Hoyt se apoiou no respaldo da cadeira, gelado até os ossos apesar da turfa que ardia na lareira. Podia ouvir os restos da tormenta soprando fora, caindo sobre o teto, uivando através do bosque que rodeava a cabana.

Mas não alcançou ouvir nada mais, nem besta, nem ameaça. De modo que estava sozinho com suas lembranças e seus remorsos.

Aquela noite devia ter acompanhado Cian ao povoado. Mas estava trabalhando e não gostava de ir a taberna beber cerveja.

Não desejava tampouco a companhia de uma mulher e Cian sempre queria uma.

Entretanto, se tivesse ido ao povoado, se tivesse deixado a um lado o trabalho por uma maldita noite, agora Cian estaria vivo. O demônio não teria podido contra os dois. Seu dom certamente lhe teria permitido perceber o que era aquela criatura, apesar de sua beleza, de sua fascinação.

Cian jamais teria ido com aquela mulher se seu irmão estivesse com ele. E sua mãe agora não estaria sofrendo. Aquela tumba jamais teria sido cavada e, pelos deuses, o que enterraram jamais teria se levantado dali.

Se seus poderes pudessem fazer que o tempo retrocedesse, renunciaria a eles, abjuraria deles só para voltar para aquela noite e poder reviver esse único momento quando tinha escolhido o trabalho em lugar da companhia de seu irmão.

—Que bem me fazem? Que bem representam agora? Ter recebido poderes mágicos e não ser capaz de usá-los para salvar aquilo que mais importa. Malditos sejam então. —Lançou a taça contra a parede da pequena habitação. —Malditos sejam todos eles, deuses e fadas. Ele era a luz de todos nós e o arrojaram às trevas.

Durante toda sua vida, Hoyt fazia aquilo para o que tinha nascido, o que se esperava dele. Tinha dado as costas a centenas de pequenos prazeres para dedicar-se por inteiro a sua arte. Agora os que lhe tinham concedido esse dom, esse poder, ficaram à margem enquanto levavam seu irmão.

Não em uma batalha, nem sequer limpamente com a magia, a não ser mediante um mal que superava todo o imaginável. Era este seu pagamento, era esta sua recompensa por tudo o que tinha feito?

Agitou uma mão para o fogo e as chamas se elevaram e rugiram na lareira. Elevou os braços e fora a tormenta redobrou sua força e o vento uivou como uma mulher a que estivessem torturando. A cabana estremeceu sob sua fúria e as peles se esticaram sobre as madeiras das janelas. Rajadas geladas penetraram na cabana, derrubando garrafas e agitando as folhas dos livros. E nesse vento pôde ouvir a risada abafada da maldade.

Jamais em toda sua vida se desviou de seu propósito. Nunca tinha utilizado seu dom para fazer o mal, ou tentado sequer por cima a magia negra.

Agora pensou, possivelmente, pudesse encontrar nela as respostas que necessitava. Encontrar novamente seu irmão. Combater à besta, o mal enfrentado o mal.

Levantou-se com dificuldade, ignorando a intensa dor no flanco. Voltou-se para sua cama de armar e estendeu ambas as mãos ao baú que tinha fechado valendo-se de sua magia. Quando este se abriu, caminhou até ele e tirou o livro que tinha guardado fazia anos.

Ali havia conjuros, feitiços escuros e perigosos. Conjuro que utilizavam sangue humano, dor humana. Conjuros de vingança e avareza que falavam de um poder que ignorava todos os juramentos, todos os votos.

Sentiu o livro quente e pesado em suas mãos, e a sedução que exercia sobre ele; uns dedos curvados que acariciavam a alma. Acaso não somos mais que o resto? Deuses viventes que tomam tudo aquilo que desejam?

Temos o direito! Estamos além de regras e razões.

Sua respiração se agitou porque sabia muito bem o que podia ser dele se o aceitasse, se colhia com ambas as mãos aquilo que tinha jurado que jamais tocaria. Riquezas indescritíveis, mulheres, poderes extraordinários, a vida eterna. Vingança.

Só tinha que pronunciar as palavras, rechaçar o branco e abraçar o negro. Viscosas serpentes de suor se deslizaram por suas costas enquanto escutava os sussurros de vozes de milhares de anos. «Toma-o. Toma-o. Toma-o.»

Sua visão brilhou tenuamente e, através dela, viu seu irmão tal como o tinha encontrado estendido no lodo, a um lado do caminho. O sangue emanava de quão feridas tinha no pescoço e manchava seus lábios. «Que pálido», pensou Hoyt fracamente. Seu rosto se via tão pálido em contraste com tudo aquele sangue vermelho e úmido!

Os olhos de Cian —vívidos e azuis —se abriram. Neles se percebia uma terrível dor, um imenso horror. Seu olhar implorou ao encontrar-se com o de Hoyt.

—Me salve. Só você pode fazê-lo. Não é à morte ao que estou condenado. Isto está mais à frente do inferno, além de qualquer tortura. Me leve de volta. Por uma vez não pense no preço. Quer que arda por toda a eternidade? Em nome de seu próprio sangue, Hoyt, me ajude.

Estremeceu. E não pelo frio que soprava através das peles abertas, ou da umidade do ar, e sim por causa da borda gelada sobre a qual estava parado.

—Daria minha vida por você. Juro por tudo o que sou, por tudo o que fomos. Aceitaria seu destino, Cian, se essa fosse a opção que tivesse ante mim. Mas isto não posso fazê-lo. Nem sequer por você.

A visão ficou de repente envolta em chamas e os gritos de seu irmão não eram humano. Com um alarido de aflição, Hoyt lançou o livro novamente dentro do baú. Utilizou a força que ainda ficava para encantar o ferrolho antes de desabar-se no chão, e ali se encolheu como um menino incapaz de encontrar consolo.

Talvez dormisse. Talvez sonhasse. Mas ao despertar, a tormenta tinha passado. A luz se filtrava na habitação e ia se voltando mais densa, brilhante e branca, ferindo-lhe os olhos. Piscou para proteger-se dela e lançou um gemido quando suas costelas protestaram ao tentar levantar-se.

Tinha formas de cor rosa e dourado brilhando sobre a luz branca e um calor irradiava daquela luminosidade. Deu-se conta de que cheirava a terra, um aroma rico e fecundo, e à fumaça do fogo de turfa que ainda ardia no lar.

Pôde ver uma forma feminina, e intuiu uma assombrosa beleza.

Esse não era um demônio em busca de sangue.

Apertando os dentes, conseguiu ajoelhar-se. Embora sua voz ainda estivesse carregada de ira e tristeza, inclinou a cabeça.

—Minha Senhora.

—Filho.

A luz parecia surgir dela. Tinha o cabelo vermelho intenso de uma guerreira e caía sobre seus ombros em sedosas ondas. Os olhos eram verdes como o musgo do bosque, e suavizados agora pelo que podia ser um olhar compassivo. Ia vestida de branco com cós dourados, como era seu direito por classe. Embora fosse a deusa da batalha não usava armadura, e tampouco levava espada.

Chamava-se Morrigan.

—Lutaste bem.

—Perdi. Perdi meu irmão.

—Perdeste? —Ela avançou e lhe ofereceu a mão para que pudesse levantar-se. —Permaneceu fiel a seu juramento, embora a tentação fosse muito grande.

—Se não fosse assim possivelmente poderia o ter salvado.

—Não. —Ela tocou o rosto de Hoyt e ele pôde sentir seu calor. —O teria perdido igualmente, e também a você. Asseguro-lhe isso. Entregaria sua vida pela sua, mas não poderia entregar sua alma, ou as almas de outros. Tem um grande dom, Hoyt.

—E do que me serve se não puder proteger aos de meu próprio sangue? É que acaso os deuses exigem esse sacrifício, condenar um inocente a essa tortura?

—Não foram os deuses quem o condenaram. E tampouco correspondia a você o salvar. Mas há um sacrifício que fazer e batalhas que liberar. Sangue, inocente ou não, que deve derramar-se. Foste eleito para uma importante tarefa.

—Pedirá algo de mim agora, Senhora?

—Sim. Pedirão-lhe muitas coisas, e também a outros. Há uma batalha que liberar, a maior batalha que jamais se deu. O bem contra o mal. Deve reunir as forças.

—Não sou capaz de fazê-lo. Não estou disposto a fazê-lo. Estou… Deus, estou cansado.

Deixou-se cair na beira da cama de armar e cobriu a cabeça com as mãos.

—Devo ir ver minha mãe. Devo lhe dizer que fracassei, que não consegui salvar seu filho.

—Você não fracassou porque resistiu as forças do mal. Agora deve levar esse estandarte, usar o dom que recebeste para enfrentar e derrotar aquilo que quer destruir mundos inteiros. Deixa de se compadecer de si mesmo!

Ele elevou a cabeça para ouvir seu tom cortante.

—Até os deuses sentem pena, Senhora. E eu esta noite matei meu irmão.

—Seu irmão foi assassinado pela besta faz uma semana. O que caiu por esse escarpado não era Cian. Você sabe. Mas ele… segue existindo.

Hoyt ficou de pé com esforço.

—Ele vive.

—Isso não é vida — replicou ela. — algo sem fôlego, sem alma, sem coração. Tem um nome que ainda não foi pronunciado neste mundo. É um vampiro e se alimenta de sangue. —aproximou-se dele. —Caça seres humanos, tira-lhes a vida, ou pior, muito pior, apodera-se daquilo que caça e o mata dentro de si mesmo. Multiplica-se, Hoyt, como uma pestilência. Não tem rosto e deve esconder-se da luz do sol. É contra isso que deve combater; contra isso e outros demônios que começaram a reunir-se. Deve enfrentar esta força em combate durante a celebração do Samhain. E deve sair vitorioso, ou o mundo que conhece, os mundos que ainda ficam por conhecer, serão destruídos.

—E como farei para encontrá-los? Como lutarei contra eles? De nós dois, Cian era o guerreiro.

—Deve abandonar este lugar e ir a outro, e a outro mais. Alguns virão a você, e alguns terá que buscá-los. A bruxa, o guerreiro, o sábio, aquele que adota muitas formas e aquele a quem perdeste.

—Só cinco mais? Seis contra um exército de demônios? Minha Senhora…

—Um círculo de seis, tão forte e puro como o braço de um deus. Quando esse círculo se formar, outros também se formarão. Mas os seis serão meu exército, os seis formarão o anel. Ensinarão e aprenderão, e serão maiores que a soma de vós. Um mês para reuni-los, um mês para aprender e um para compreender. Você, filho, é meu primeiro.

—Pedirá-me que abandone à família que deixei quando essa coisa que levou meu irmão pode vir a buscá-los também?

—Essa coisa que levou a seu irmão dirige essa força.

—Eu consegui feri-la… a ela. Causei-lhe uma ferida.

E essa lembrança bulia nele como a vingança.

—Fez, sim, o fez. E este é só outro passo mais para esse momento e essa batalha. Ela agora leva sua marca e, chegado o momento, virá por ti.

—E se a persigo e a destruo agora?

—Não pode fazê-lo. Está além de você neste momento, e você, meu filho, não está preparado ainda para enfrentar a ela Entre estes tempos e mundos, sua sede se voltará insaciável até que só a destruição de toda a humanidade poderá satisfazê-la. Terá sua vingança, Hoyt — disse Morrigan enquanto ele ficava de pé. —Se conseguir derrotá-la. Viajará a lugares remotos e sofrerá. E eu sofrerei ao conhecer sua dor, porque é meu. Acaso acredita que seu destino, sua felicidade, não significa nada para mim? É meu filho tanto como é de sua mãe.

—E o que será de minha mãe, Senhora? De meu pai, de minhas irmãs, de suas famílias? Se não estiver ali para protegê-los, eles podem ser os primeiros a morrer se travar-se a batalha da que falas.

—Essa batalha se travará. Mas estarão longe dela. —Estendeu as mãos. —Seu amor pelos de seu sangue forma parte de seu poder e não pedirei que renegue isso. Não poderá pensar com claridade até que não esteja seguro de que todos eles estão a salvo.

Jogou a cabeça para trás e levantou os braços com as palmas cavadas. A terra estremeceu ligeiramente sob seus pés e, quando Hoyt elevou a vista, viu umas estrelas atravessando o céu noturno. Esses pontos de luz caíram nas mãos dela e ali arderam como chamas.

O coração de Hoyt golpeou contra suas costelas machucadas quando ela falou, enquanto sua cabeleira emoldurava seu rosto iluminado.

—Forjado pelos deuses, pela luz e de noite. Símbolo e escudo, simples e verdadeiro. Por fé, por lealdade, estes dons para você. Sua magia vive através do sangue derramado, o seu e o meu.

Uma dor lhe atravessou a palma da mão. Viu que o sangue emanava na sua e na dela enquanto o fogo ardia.

—E assim viverá por toda a eternidade. Benditos sejam aqueles que levem a Cruz de Morrigan.

O fogo se extinguiu e nas mãos da deusa apareceram brilhantes cruzes de prata.

—Estas cruzes os protegerão. Devem as levar postas sempre, noite e dia, do nascimento até a morte. Quando partir, saberá que todos eles estão a salvo.

—Se fizer isto, terá piedade de meu irmão?

—Pretende negociar com os deuses?

—Sim.

Ela sorriu como o faria uma mãe que se diverte com seu filho pequeno.

—Foste eleito porque se acredita capaz de algo assim. Abandonará este lugar e reunirá todos aqueles que são necessários para esta tarefa. Prepara-se e depois empreenderá viagem. A batalha que o espera se livrará com lança e espada, com dentes e presas, com engenho e traição. Se conseguir sair vitorioso desta guerra, os mundos estarão em equilíbrio e você terá tudo aquilo que deseje.

—Como farei para lutar contra um vampiro? Já fracassei uma vez ao enfrentá-la.

—Estuda e aprende —respondeu Morrigan. —E aprende de um dos seus. De um a quem ela tenha criado. Um que era teu antes que ela o levasse. Deve encontrar seu irmão.

—Onde?

—Não só onde, mas também quando. Olhe no fogo.

Hoyt percebeu que se encontravam novamente em sua cabana e ele estava de pé diante da lareira acesa. As chamas se elevaram como torres de fogo convertendo-se em uma grande cidade. Ali havia vozes e sons que jamais tinha ouvido. Milhares de pessoas se apressavam através de ruas feitas com algum tipo de pedra. E havia máquinas que se moviam velozmente entre elas.

—O que é este lugar? — Mal podia pronunciar as palavras. —Que mundo é este?

—Este lugar se chama Nova Iorque, e a época é aproximadamente dentro de mil anos. O mal ainda percorre a Terra, Hoyt, igual fazem a inocência e o bem. Seu irmão leva já muito tempo vagando pelo mundo. Para ele passaram séculos. Faria bem em recordá-lo.

—É um deus agora?

—Não, é um vampiro. Ele deve te ensinar, e também deve lutar a seu lado. A vitória não será possível sem sua ajuda.

Uma cidade de semelhante tamanho, pensou. Edifícios de pedra e prata mais altos que qualquer catedral.

—A guerra se travará neste lugar, nesta Nova Iorque?

—Em seu momento te dirá onde e como se travará a guerra. Já saberá. Agora deve partir e levar o que necessitar. Vá ver sua família e lhes entregue sua proteção. Deve deixá-los em seguida e ir ao Baile dos Deuses. Necessitará sua habilidade e meu poder para poder passar. Encontra seu irmão, Hoyt. É hora de reunir-se.

Despertou junto ao fogo, envolto na manta. Mas se deu conta de que não tinha sido um sonho. Tinha sangue ainda líquido na palma da mão e as cruzes de prata que descansavam sobre seu regaço.

Ainda não tinha amanhecido, mas preparou sua bagagem com livros e poções, tortas de farinha de aveia e mel. E com as preciosas cruzes. Selou seu cavalo e depois, a modo de precaução, riscou outro círculo protetor ao redor da cabana.

Um dia retornaria, prometeu-se. Encontraria seu irmão e, dessa vez, salvaria-o. Não importava o que custasse.

Quando o sol projetou seus primeiros raios, Hoyt empreendeu a longa viajem para o An Clar e a casa familiar.

 

                                   Capítulo 2

Viajou na direção norte através de caminhos que a tormenta tinha convertido em autênticos lodaçais. Os horrores e os prodígios da noite revoavam em sua mente enquanto se encurvava sobre seu cavalo para atenuar a dor de suas costelas.

Jurou que, se vivesse tempo suficiente, praticaria mais freqüentemente a magia da cura, prestando mais atenção.

Durante a viagem passou junto a campos onde os homens trabalhavam o gado e pastoreavam sob o suave sol da manhã. E lagos que refletiam o azul do céu de finais do verão. Atravessou espessos bosques nos que rugiam as quebradas e as sombras, e os musgos eram o reino das histórias dos duendes e fadas.

Ali o conheciam, e os homens tiravam o chapéu ao passo de Hoyt o Feiticeiro. Mas não se deteve para aceitar a hospitalidade que lhe ofereciam em cabanas e tabernas. Tampouco procurou a comodidade das grandes casas nem distração nas conversas dos monges que viviam em suas abadias ou torres redondas.

Nessa viagem estava sozinho e, por cima das batalhas e as ordens dos deuses, o primeiro que faria seria procurar sua família. Ofereceria-lhes o máximo possível antes de deixá-los para fazer aquilo que lhe tinham encomendado.

À medida que avançava se esforçava por erguer-se em sua cavalgadura quando chegava às aldeias ou aos postos de vigilância. Sua dignidade o conduzia a um considerável desconforto, e acabava obrigando-o a descansar à beira de rios onde a água rumorejava entre as rochas.

Em uma época, pensou, tinha desfrutado plenamente desse viaje desde sua cabana até a casa de sua família, através de campos e colinas, ou ao longo da costa do mar. Só ou em companhia de seu irmão tinha cavalgado por aqueles mesmos caminhos e atalhos, sentido o mesmo sol lhe esquentando o rosto. Deteve-se a comer e dar um descanso a seu cavalo nesse mesmo lugar.

Mas agora o sol lhe machucava os olhos e o aroma da terra não penetrava em seus sentidos adormecidos.

O suor da febre suavizava sua pele e os ângulos de seu rosto eram mais agudos sob a incessante dor.

Embora não tinha fome, decidiu comer um pedaço de uma das tortas de aveia e tomar um pouco mais do remédio que levava na bagagem. Apesar da infusão e a comida, as costelas seguiam doendo como um dente podre.

O que podia fazer ele na batalha? —perguntou-se. Se neste momento tivesse que levantar a espada para salvar sua vida, sem dúvida morreria sem defender-se.

“Vampiro”, pensou. A palavra era adequada. Era erótica, exótica e de algum jeito, horrível. Quando tivesse tempo e energia para fazê-lo, escreveria mais a respeito do que sabia. Embora muito longe de estar convencido de que estava a ponto de salvar aquele mundo ou qualquer outro de nenhuma invasão demoníaca, sempre era melhor em adquirir conhecimentos.

Fechou os olhos durante um momento, tentando mitigar a dor de cabeça que pulsava atrás deles. Uma bruxa, haviam-lhe dito. Não gostava de nada tratar com bruxas. Sempre estavam revolvendo estranhas beberagens em grandes caldeirões e repetindo seus conjuros.

Depois um sábio. Ao menos esse poderia lhe ser útil.

Era Cian o Guerreiro? Isso esperava. Cian sustentando o escudo e empunhando a espada outra vez, lutando a seu lado. Quase era capaz de acreditar que poderia cumprir com a tarefa que lhe tinham encomendado se seu irmão estivesse a seu lado.

Aquele que adota muitas formas. Que estranho. Uma fada possivelmente, os deuses sabiam quão confiáveis eram essas criaturas. E supunha-se que, de algum jeito, esta seria a primeira linha na batalha pelos mundos?

Examinou a mão que enfaixou aquela manhã.

—Seria melhor para todos que só tivesse sido um sonho. Estou doente e cansado e não sou um soldado em sua melhor forma.

“Retorna.” A voz era apenas um sussurro. Hoyt ficou em pé e procurou sua adaga.

No bosque nada se movia, exceto as asas negras de um corvo posado entre as sombras de uma rocha, junto à água.

“Retorna a seus livros e ervas, Hoyt o Feiticeiro. Acredita por ventura que pode derrotar à Rainha dos Demônios? Retorna, retorna e vive sua miserável vida, e ela terá piedade de você... Segue adiante e ela se deleitará com sua carne e beberá seu sangue.”

—Acaso teme me dizer isso pessoalmente? Pois faz bem, porque penso persegui-la através desta vida e da seguinte, se for necessário. Vingarei meu irmão. E na batalha que virá, arrancarei-lhe o coração e depois o queimarei.

“Morrerá gritando e ela o converterá em seu escravo por toda a eternidade.”

—É um verdadeiro aborrecimento.

Hoyt trocou de posição a adaga na mão. Quando o corvo elevou o vôo, lançou a faca através do ar. Falhou, mas o raio de fogo que despediu com a mão livre sim deu no alvo. O animal lançou um chiado, e o que caiu a terra era só um monte de cinzas.

Hoyt olhou a adaga com uma expressão de desgosto. Tinha-lhe faltado pouco e provavelmente teria podido realizar o trabalho só com a adaga se não estivesse ferido. Ao menos Cian lhe tinha ensinado isso.

Mas agora tinha que ir procurar essa maldita coisa.

Antes de fazê-lo, agarrou um punhado de sal dos alforjes e as pulverizou sobre as cinzas do arauto. Depois recuperou a arma, aproximou-se de seu cavalo e montou com os dentes apertados.

—Escravo para toda a eternidade - murmurou—. Isso veremos, não?

Reatou a marcha rodeado de campos verdes e as ladeiras das colinas cobertas pelas sombras das nuvens sob a leve luz da alvorada. Sabedor de que o galope o faria retorcer-se de dor, manteve o cavalo ao passo. A poucos momento adormeceu, e sonhou que estava de retorno nos escarpados, lutando com Cian. Mas nesta ocasião era ele quem se precipitava pelo vazio, caindo em meio a escuridão para estalar-se contra as implacáveis rochas.

Despertou sobressaltado e com uma grande aflição. Uma pena grande assim significava sem dúvida a morte.

Seu cavalo fez um alto no caminho para comer a erva que crescia a ambos os lados. Nesse lugar havia um homem que levava a cabeça coberta e que estava levantando uma parede com uma pilha de pedras cinza. Sua barba era bicuda, amarela como os tojos que cresciam na base da colina, suas mãos largas como ramos.

—Tenha bom dia senhor, agora que despertastes para vê-lo. —O homem levou a mão à cabeça a modo de saudação e em seguida se agachou para levantar outra pedra.

—Sim, assim é. —Embora não estava completamente seguro de onde se encontrava. A febre seguia presente e podia sentir seu pegajoso calor. —Dirijo-me a An Clar e as terras dos Mac Cionaoith. Que lugar é este?

—O lugar onde esta - respondeu o homem com tom jovial. —Não acabará sua viagem até o anoitecer.

—Não. —Hoyt fixou a vista no caminho que parecia estender-se até o infinito. —Não, não chegarei antes do anoitecer.

—Encontrara uma cabana com fogo na lareira além desses campos, mas não têm tempo para se deter ali. Não quando ainda fica tanto caminho por percorrer. E o tempo se corta enquanto estamos falando. Estão cansados - prosseguiu o homem compassivamente—, mas ainda o estará mais antes de acabar a viagem.

—Quem sois?

—Só um guia em seu caminho. Quando chegar à segunda bifurcação deve ir para o oeste. Quando ouvir o rio, siga seu curso. Encontrará um poço sagrado perto de um arbusto, o Poço de Briget, a quem alguns chamam Santa. Ali poderá dar descanso a seus doloridos ossos durante a noite. Risque no lugar seu círculo, Hoyt o Feiticeiro, porque eles sairão à caça. Só esperam que o sol se oculte atrás do horizonte. Deve estar no poço, dentro de seu círculo, antes que isso ocorra.

—Se eles me seguirem, se me caçarem, estarei levando-os diretamente onde está minha família.

—Eles não são desconhecidos para os seus. Levam a cruz de Morrigan. As deixará atrás com os de seu sangue. Isso e sua fé. —Os olhos do homem eram cinza e claros e, por um instante, pareceu que vários mundos residiam neles. —Se fracassar, no Samhain se perderá algo mais que sua estirpe. Agora deve partir. O sol se encontra já no oeste.

Que alternativa tinha? Tudo lhe parecia um sonho, enquanto ardia presa da febre. A morte de seu irmão, depois sua destruição. Aquela coisa dos escarpados que chamava a si mesma Lilith. Tinha sido visitado realmente pela deusa ou só estava apanhado em algum sonho?

Provavelmente já estava morto e aquilo não era mais que uma viagem à outra vida.

Mas ao chegar à bifurcação tomou a direção para o oeste e, quando ouviu as águas do rio, guiou seu cavalo para ali. Agora sentia calafrios por causa da febre e a visão da luz que minguava no céu.

Mais que desmontar caiu do cavalo, apoiando-se depois sem fôlego contra o pescoço do animal. A ferida da mão abriu e manchou de vermelho a atadura que a cobria. No oeste, o sol se via como uma bola de fogo declinando.

O poço sagrado era um quadrado de pedras de escassa altura protegido pelo arbusto. Outras pessoas que tinham chegado ali para descansar ou rezar tinham amarrado fitas, amuletos e lembranças aos ramos da árvore. Hoyt atou o cavalo, depois se ajoelhou para agarrar a pequena concha de sopa de madeira do poço e beber um gole de água fresca. Derramou umas gotas na terra para o deus e murmurou umas palavras de agradecimento. Deixou um pêni de cobre sobre a pedra, manchando-a com o sangue que brotava de sua ferida.

Suas pernas pareciam estar feitas mais de água que de ossos, mas quando a penumbra se fez mais densa, obrigou-se a concentrar-se e se obrigou a riscar seu círculo.

Era um ato de magia simples, um dos primeiros que se aprendiam. Mas agora o poder escapava a fervuras, convertendo a tarefa em um sofrimento. Seu próprio suor lhe gelava a pele enquanto lutava com as palavras, com os pensamentos e com o próprio poder, que parecia uma enguia que escorregasse entre suas mãos.

Ouviu que algo vagava pelo bosque, movendo-se nas sombras mais profundas. Essas sombras se voltaram mais densas quando os últimos raios de sol se filtraram através das copas das árvores.

Eles vinham por ele, esperando que esse último resplendor desaparecesse e o deixasse na mais absoluta escuridão. Morreria ali, só, deixando sua família desprotegida. E tudo pelo capricho dos deuses.

—Mas isso não acontecerá.

Levantou-se. Tinha uma oportunidade mais, sabia. Uma. De modo que arrancou a atadura da mão e, com seu próprio sangue selou o círculo.

—dentro deste círculo, a luz permanece. Arde através de minha vontade. Esta magia é branca e só aquilo que é puro poderá permanecer aqui. O fogo se acende, o fogo ascende e queima com um brilho poderoso.

As chamas brotaram no centro de seu círculo, débeis, mas ali estavam. O sol desapareceu atrás do horizonte quando o fogo começou a crescer. E aquilo que tinha espreitado nas sombras se fez subitamente presente. Apareceu como um lobo, pele negra e olhos injetados em sangue. Quando a besta saltou no ar, Hoyt tirou sua adaga. Mas a besta se chocou contra a força que emanava do círculo e foi rechaçada.

O lobo uivou, grunhiu, lançou dentadas ao ar. Suas presas brancas refulgiam enquanto ia de um lado a outro, como se procurasse um ponto vulnerável no escudo.

Outro lobo se uniu ao primeiro, saindo de entre as árvores, logo outro, e outro mais, até que Hoyt pôde contar seis deles. As bestas atacavam juntas e retrocediam juntas. Percorriam unidas o perímetro de fogo, como se fossem soldados em formação.

Cada vez que atacavam, o cavalo relinchava e retrocedia. Hoyt se aproximou dele sem afastar a vista dos lobos enquanto apoiava as mãos sobre o animal. Isso era algo que ao menos podia fazer. Tranqüilizou ao animal até deixá-lo em estado de transe. Logo tirou a espada e a afundou na terra junto ao fogo.

Agarrou a comida que ficava, extraiu água do poço sagrado e jogou ervas nela, embora os deuses soubessem que sua automedicação não estava fazendo efeito. Inclinou-se junto ao fogo, a adaga a um lado e o cajado sobre as pedras.

Embrulhou-se em sua capa, tremendo de frio, e depois de ter posto mel em uma torta de farinha de aveia, obrigou-se a tragá-la. Os lobos se sentaram sobre seus quartos traseiros, jogaram as cabeças para trás e uivaram de uma vez à lua que subia no céu.

—Estão famintos, não é? —murmurou Hoyt através do bater de seus dentes. —Pois aqui não há nada para vós. OH, o que daria neste momento por uma cama e uma xícara de chá decente.

Sentou-se e o fogo dançou ante seus olhos até que começaram a fechar-se. Quando o queixo caiu sobre seu peito, nunca se havia sentido tão só. Ou tão inseguro do caminho que devia seguir.

Pensou que era Morrigan quem se aproximava dele, porque era formosa e seu cabelo tão vermelho como o fogo. Caía suave como a chuva, as pontas lhe roçando os ombros. Levava um vestido negro, estranho, e bastante atrevido para deixar seus braços a descoberto e permitir que a proeminência de seus peitos se elevasse por cima do espartilho. Ao redor do pescoço levava um colar com uma pedra no centro.

—Isto não servirá —disse ela com um tom de voz que era de uma vez estranho e impaciente. Ajoelhando-se a seu lado, apoiou-lhe uma mão na testa, seu contato foi tão fresco e balsâmico como a chuva da primavera. Cheirava a bosque, uma fragrância terrestre e secreta.

Por um momento demencial Hoyt só desejou apoiar a cabeça sobre seus seios e dormir com esse perfume enchendo seus sentidos.

—Está ardendo. Bem, vejamos o que leva aqui e o usaremos para curá-lo.

Ela se tornou momentaneamente imprecisa ante seus olhos, logo voltou a concretizar-se. Seus olhos eram verdes, como os da deusa, mas seu tato era humano.

—Quem é? Como conseguiste entrar no círculo?

—Sabugueiro, mil-em-rama. Não tem pimenta da Cayena? Bem, disse que o curaria.

Ele a observou enquanto ela punha mãos à obra, à maneira das mulheres, tirando água do poço e esquentando-a no fogo.

—Lobos —murmurou e estremeceu levemente. E nesse tremor de seu corpo, ele pôde perceber seu medo. —Às vezes sonho com lobos negros, ou com corvos. E às vezes com a mulher. Ela é a pior de todos. Mas esta é a primeira vez que sonhei contigo. —Fez uma pausa e o olhou durante um momento muito comprido com seus olhos de um verde profundo e secreto. —E, entretanto, conheço seu rosto.

—Este é meu sonho.

Ela pôs-se a rir brevemente e logo arrojou umas ervas na água quente.

—Como quer. Vejamos se podemos o ajudar a despertar dele.

A moça passou a mão por cima da taça.

—Poder da cura, ervas e água, cozido esta noite pela filha de Hécate . Esfria sua febre, mitiga sua dor para que a força e a visão não se separem dele. Revolve a magia nesta simples infusão. Igual farei, que assim seja.

—Os deuses me salvem. —Conseguiu levantar-se apoiando sobre um cotovelo. —É uma bruxa.

Ela sorriu enquanto se aproximava com a taça na mão. E sentando-se a seu lado, rodeou-lhe as costas com um braço.

—Em efeito, sou. Acaso você também não é?

—Não, eu não. —Mal tinha energia suficiente para responder. —Eu só sou um maldito feiticeiro. Afasta essa beberagem. Até o aroma é repugnante.

—É possível, mas curará o mal que o aflige. —Ela segurou a cabeça de Hoyt contra seu ombro. E, embora ele tentasse livrar-se de seu abraço, apertou-lhe o nariz e verteu o líquido através de sua garganta. — Os homens são todos umas crianças pequenas quando estão doentes. E olhe sua mão! Suja e coberta de sangue! Tenho algo para isso.

—Se afaste de mim —disse ele fracamente, embora o perfume, o contato dela eram ao mesmo tempo sedutores e reconfortantes. —Deixe-me morrer em paz.

—Não vais morrer. —Entretanto, lançou um olhar cauteloso aos lobos. —Quão forte é seu círculo?

—O bastante forte.

—Espero que tenha razão.

      O esgotamento —e as folhas de valeriana que ela tinha misturado na infusão— fez que seu queixo voltasse a cair sobre seu peito. Ela trocou de postura para poder apoiar a cabeça de Hoyt em seu regaço e lhe acariciou o cabelo enquanto contemplava o fogo. —Já não está sozinho —disse, com voz suave—. E suponho que eu tampouco.

—O sol... Quanto falta para o amanhecer?

—Oxalá soubesse. Agora deve dormir.

—Quem é?

Mas se lhe respondeu, ele não podia ouvi-la.

Quando despertou, a mulher tinha desaparecido, e também a febre. O amanhecer era um brilho brumoso que permitia que finos raios de sol se filtrassem através da folhagem estival.

Dos seis lobos só ficava um, e jazia apunhalado em um atoleiro de sangue, fora do círculo. Tinham-no degolado, comprovou Hoyt, e lhe tinham aberto o ventre. Quando ficou de pé para aproximar-se do animal morto, o sol brilhou com luz branca através das folha e iluminou o lobo.

Nesse momento, a besta ardeu em chamas deixando só um punhado de cinzas sobre a terra enegrecida.

—Que vão ao inferno contigo todos os que são como você.

Hoyt se afastou dali e se dedicou a alimentar seu cavalo e preparar um pouco de infusão. Já quase tinha acabado quando notou que a palma de sua mão estava curada. Só ficava nela uma cicatriz apenas visível. Flexionou os dedos e elevou a mão para a luz.

Curioso, levantou a túnica. Ainda tinha os machucados no flanco, mas estavam empalidecendo. E, quando tentou, deu-se conta de que podia mover-se sem sentir dor.

Se o que o tinha visitado durante a noite tinha sido uma visão e não o produto de um sonho febril, supunha que devia sentir-se agradecido.

Entretanto, jamais tinha tido uma visão tão vívida e real. Tampouco nenhuma que tivesse deixado tantas coisas atrás. Juraria que ainda podia cheirá-la, e ouvir a cadência e o fluxo de sua voz.

Havia-lhe dito que conhecia seu rosto. Que estranho era que, em alguma parte de seu interior, também ele sentisse que tinha reconhecido aquela mulher.

Lavou-se e, apesar de seu apetite que tinha retornado com força, teve que conformar-se com bagos e um pedaço de pão duro.

Logo apagou o círculo e orvalhou com sal a terra enegrecida que o rodeava. Uma vez que esteve instalado nos arreios, afastou-se rapidamente.

Com um pouco de sorte, chegaria a sua casa ao meio dia.

Durante o resto da viagem não houve mais sinais, nem arautos nem formosas bruxas. Só campos que se estendiam ondulados e verdes para as sombras das montanhas e as profundidades secretas do bosque. Agora conhecia seu caminho, o teria conhecido ainda que tivessem passado cem anos. De modo que açulou sua montaria para que saltasse um pequeno muro de pedra e se lançou a galope através do último campo em direção a seu lar.

Podia ver a fumaça da chaminé. Imaginou sua mãe sentada no salão, possivelmente tecendo uma renda ou trabalhando em uma de suas tapeçarias. Esperando, desejando receber notícias de seus filhos. Desejou poder levar melhores novas.

Seu pai devia estar com seu capataz, percorrendo suas terras, e suas irmãs casadas em suas próprias cabanas, com a jovem Nola no estábulo, brincando com os cachorrinhos da nova ninhada.

A casa estava escondida no bosque porque sua avó — quem tinha passado o poder a ele e, em menor medida, a Cian— assim o tinha querido. Elevava-se perto de um arroio e tinha uma torre de pedra com janelas de autêntico cristal. Seus jardins eram o orgulho de sua mãe, com rosas que floresciam tumultuosamente neles.

Um dos criados correu para encarregar-se do cavalo. Hoyt se limitou a menear a cabeça ante a pergunta nos olhos do homem. Dirigiu-se para a porta da qual ainda pendurava a bandeira negra de duelo.

No interior da casa lhe esperava outro dos criados para recolher sua capa. Ali, no vestíbulo, as paredes luziam as tapeçarias de sua mãe, e da mãe de sua mãe, um dos galgos de seu pai correu a lhe dar as boas-vindas.

No ar podia cheirar a cera de abelha e o aroma das rosas recém cortadas do jardim, assim como do fogo de turfa que ardia na lareira. Subiu a escada que conduzia ao salão de sua mãe.

Estava-lhe esperando, como sabia que o faria. Sentada em sua poltrona, com as mãos entrelaçadas sobre o regaço, tão apertadas que os nódulos se viam brancos. Em seu rosto se notava claramente todo o peso de sua aflição, e esse peso se fez mais visível quando viu a expressão nos olhos de seu filho.

—Mãe...

—Está vivo. Está bem. —levantou-se e estendeu os braços para ele. —Perdi meu filho mais novo, mas aqui está meu primogênito, novamente em casa. Quererá comer e beber depois de sua comprida viajem.

—Tenho muito que contar.

—E o fará.

—A todos vós, por favor, mãe. Não posso ficar muito. Sinto muito. —Beijou-a na testa—. Lamento ter que os deixar tão logo.

 

Havia comida e havia bebida, e toda a família —exceto Cian— estava sentada ao redor da mesa. Mas não era uma comida como tantas outras, com risadas e discussões a gritos, com alegria ou insignificantes desacordos. Hoyt estudou seus rostos, sua beleza, sua força e sua pena enquanto debulhava o relato do que tinha ocorrido.

—Se tiver que travar uma batalha, eu irei contigo. Lutarei a seu lado.

Hoyt olhou Fearghus, seu cunhado. Seus ombros eram largos e seus punhos estavam preparados para brigar.

—Ali aonde vou, não pode me seguir. Não o encarregaram que lute. Eoin e você, junto com meu pai, devem ficar aqui para proteger à família e a terra. Partiria com um peso maior no coração se não soubesse que ocuparão meu lugar. Devem levar isto.

Hoyt tirou as pequenas cruzes de prata.

—Cada um de vós e todos os meninos que nasçam depois. Dia e noite, noite e dia. Esta - disse enquanto elevava uma— é a cruz de Morrigan, forjada pelos deuses no fogo mágico. Um vampiro não pode transformar ninguém que a leve posta. Esta cruz deve passar a aqueles que venham depois de vós, e seu significado deve recolher-se em canções e histórias. Devem jurar que não tirarão isso nunca, que a levarão sempre posta até a morte.

Levantou-se, colocando uma cruz ao redor de cada pescoço, esperando que fizessem o juramento antes de continuar.

Depois se ajoelhou diante de seu pai. As mãos deste eram tão velhas, notou Hoyt com um sobressalto. Era mais um granjeiro que um guerreiro e, naquele instante, soube que a de seu pai seria a primeira morte, e que aconteceria antes do Natal. Do mesmo modo, soube que jamais voltaria a olhar aos olhos do homem que tinha lhe dado a vida.

E seu coração se rasgou.

—Me despeço de você, senhor. E agora lhe suplico sua bênção.

—Venha a morte de seu irmão e retorna a casa conosco.

—Farei-o. —Hoyt se levantou. —Devo reunir tudo o que necessito.

Subiu a sua habitação que conservava na torre mais elevada da casa, e uma vez ali, começou a empacotar ervas e poções sem ter uma idéia muito clara do que era o que realmente ia necessitar.

—Onde está sua cruz?

Hoyt olhou para a porta da habitação e viu Nola, com seu cabelo negro que caía até a cintura. Só tinha oito anos e ocupava o lugar mais terno em seu coração.

—Ela não fez uma cruz para mim —respondeu. —Eu tenho outro tipo de escudo para me proteger, não deve preocupar-se por nada. Sei o que faço.

—Quando partir não chorarei.

—Por que teria que fazê-lo? Já parti antes e retornei sem problemas. Não é?

—Esta vez também retornará. À torre. E ela virá contigo.

Hoyt acomodou com cuidado as pequenas garrafas em sua caixa e depois fez uma pausa para estudar sua irmã.

—Quem virá comigo?

—A mulher de cabelo vermelho. Não a deusa, e sim uma mulher mortal, uma que leva o sinal das bruxas. Não posso ver Cian e tampouco posso ver se conseguirá a vitória, mas sim posso ver você aqui, com a bruxa. E também vejo que tem medo.

—Acaso um homem deveria entrar em combate sem sentir medo? Não é o medo algo que ajuda a seguir com vida?

—Não sei nada de batalhas. Eu gostaria de ser um homem e um guerreiro. —Sua boca, tão jovem, tão suave, torceu-se em um gesto sombrio. —Se fosse, não poderia impedir que fosse contigo como tem feito com Fearghus.

—Como poderia me atrever a tal coisa? —Fechou os olhos e se aproximou de sua irmã pequena. —É verdade, tenho medo. Mas não diga aos outros.

—Não o farei.

Se, o lugar mais terno de seu coração, pensou, e agarrando a cruz de Nola utilizou sua magia para riscar seu nome no reverso no alfabeto ogham .

—Isto faz que a cruz pertença só a você. —disse-lhe.

—A mim e a quem receba meu nome depois de mim. —Seus olhos brilhavam, mas não derramou uma só lágrima. —Voltará para ver-me.

—É claro que sim.

—Quando o fizer, o círculo se completa. Não sei como nem por que.

—Que mais é capaz de ver Nola?

Ela meneou a cabeça.

—Está escuro. Não posso ver nada. Acenderei uma vela por ti todas as noites até que tenha voltado para casa.

—Cavalgarei de volta seguindo essa luz. —agachou-se para abraçá-la — sentirei falta de você. —Beijou-a brandamente na testa e logo a afastou. —Se cuide.

—Terei filhas — disse ela.

Essas palavras fizeram que Hoyt se voltasse e sorrisse. Tão pequena, tão leve e tão ardente.

—Sabe?

—É meu destino —respondeu ela com uma resignação que fez que ele torcesse os lábios—. Mas não serão débeis. Elas não se sentarão e darão voltas à roca e amassarão e cozinharão todo o maldito dia.

Agora ele sorriu mais abertamente e soube que essa era uma lembrança que levaria felizmente em sua memória.

—OH, não o farão? E então jovem mãe, o que farão suas filhas?

—Serão guerreiras. E esse vampiro que imagina que é uma mulher tremerá como uma folha ante elas. —Nola enlaçou as mãos do modo que sua mãe estava acostumada fazê-lo, embora sem nada de sua docilidade nem sua paciência. —Vá com os deuses irmão.

—Que a luz a acompanhe, irmã.

Todos o olharam partir: três irmãs, os homens que as amavam, os filhos que já tinham tido. Seus pais, inclusive os criados e os cavalariços. Hoyt deu um último e longo olhar à casa que seu avô, e o pai deste antes que ele, tinham construído em pedra naquela clareira do bosque, junto às águas do arroio, naquela terra que ele amava com todo seu coração.

Logo elevou a mão em sinal de adeus e se afastou deles a galope para o Baile dos Deuses.

Elevava-se em uma elevação de erva áspera coberta pelo amarelo brilhante dos ranúnculos. As nuvens foram se espessando no céu, de modo que a luz abria passagem com dificuldade através delas em finos raios. O mundo estava tão silencioso, tão quieto, que teve a sensação de estar viajando através de uma pintura. O cinza do céu, o verde da erva, as flores amarelas e o antigo círculo de pedras que estava ali desde a noite dos tempos.

Hoyt sentiu seu poder, seu murmúrio no ar, sobre sua pele. Levou seu cavalo a passagem ao redor delas, fazendo um alto para ler as inscrições em ogham gravadas na pedra maior.

—Os mundos esperam —traduziu. — O tempo flui. Os deuses vigiam.

Tinha começado a desmontar quando lhe chamou a atenção um reflexo dourado no campo. Ali, no limite do mesmo, havia uma camponesa. O verde de seus olhos brilhava como o colar que levava. Caminhou para ele com porte real e mudou à forma feminina da deusa.

—Partiste cedo, Hoyt.

—Foi muito doloroso me despedir de minha família. Era melhor fazê-lo depressa.

Desceu do cavalo e inclinou a cabeça.

—Minha senhora.

—Filho. Estiveste doente.

—Umas febres, mas já passaram. Foi você quem me enviou à bruxa?

—Não há necessidade de enviar aquilo que virá sozinho. Voltará a encontrá-la, e também a outros.

—A meu irmão?

—Ele é o primeiro. Logo escurecerá. Aqui tem a chave do portal. —Abriu a mão e lhe deu uma pequena varinha de cristal. — Deve levá-la contigo, e mantê-la inteira e a boa cobrança. —Quando ele fez gesto de voltar a montar seu cavalo, ela negou com a cabeça e segurou as rédeas. —Não, deve ir andando. Seu cavalo retornará a casa sem perigo.

Resignado ao capricho dos deuses, Hoyt agarrou seu alforje e a caixa com suas ervas e beberagens. Ajustou a espada e levantou seu cajado.

—Como farei para lhe encontrar?

—Através do portal, no mundo que ainda não chegou. No interior do Baile, levanta a chave e pronuncia as palavras. Seu destino se encontra mais à frente. De agora em diante, a humanidade está em suas mãos. Através do portal —repetiu ela— no mundo que ainda não chegou. No interior do Baile, levanta a chave e pronuncia as palavras. Através do portal...

Sua voz o seguiu enquanto avançava entre as grandes pedras. Reprimiu o medo em seu interior. Se tinha nascido para aquilo, que assim fosse. A vida era longa, sabia. Simplesmente, chegava em breves rajadas.

Levantou a vara de cristal. Um único raio de luz se filtrou através do espesso manto de nuvens para alcançar sua ponta. O poder percorreu seu braço como uma flecha.

—Os mundos esperam. O tempo flui. Os deuses vigiam.

—Repita disse Morrigan, e se uniu a ele, de modo que as palavras se converteram em um canto.

—Os mundos esperam, O tempo flui. Os deuses vigiam.

O ar se agitou ao redor de Hoyt, converteu-se em vento, em luz, em som. O cristal que sustentava em sua mão erguida brilhava como o sol e cantava como uma sereia.

Ouviu que sua própria voz surgia em forma de rugido, gritando agora as palavras como se tratasse de um desafio.

E pôs-se a voar. Através do vento, a luz e o som. Além de estrelas, luas e planetas. Sobre extensões de água que fizeram que seu ventre de feiticeiro se revolvesse de náusea. Cada vez mais depressa, até que a luz se tornou cegadora, os sons ensurdecedores e o vento tão violento que se perguntou se não estava lhe arrancando a pele dos ossos.

Logo a intensidade da luz se atenuou, o vento desapareceu e o mundo ficou em silêncio.

Apoiou-se no cajado para recuperar o fôlego, esperando que seus olhos se adaptassem à mudança de luz. Cheirava algo... a couro, pensou, e a rosas.

Deu-se conta de que estava em uma habitação de alguma classe, mas não se parecia com nada que tivesse visto nunca. Via-se fantasticamente mobiliada, com poltronas largas e baixas de intensas cores, e o chão era de tecido. Havia pinturas penduradas em algumas das paredes e outras estavam cobertas de livros. Dúzias de livros encadernados em pele.

Tinha dado dois passos, fascinado, quando um movimento a sua esquerda o freou em seco.

Seu irmão estava sentado em uma espécie de mesa, onde o abajur que iluminava a habitação brilhava de uma maneira estranha. Levava o cabelo mais curto que antes e seus olhos tinham uma expressão que parecia ser de diversão.

Na mão sustentava algum tipo de ferramenta de metal que o instinto do Hoyt lhe disse que era uma arma.

Cian apontou com ela o coração de seu irmão e se reclinou na poltrona, apoiando os pés sobre a mesa. Em seus lábios se desenhou um amplo sorriso e disse:

—Ah, ah, olhe o que trouxe o gato.

Hoyt franziu o cenho com certa confusão e percorreu a habitação com o olhar em busca do gato.

—Conhece-me? —Hoyt avançou uns passos para a luz—. Sou Hoyt, seu irmão. Vim para...

—Me matar? Muito tarde. Já estou morto há muito tempo. Por que não fica onde está no momento? Posso ver muito bem quando a luz é escassa. Tem um aspecto... bom, bastante ridículo na realidade. Mas não obstante, estou impressionado. Quanto tempo levou para aperfeiçoar a viagem no tempo?

—Eu... —O passo através do portal devia ter ofuscado seus sentidos, pensou. Ou possivelmente se devesse simplesmente ao feito de que ver que seu irmão morto parecia estar muito vivo. —Cian.

—Já não uso esse nome nestes dias. Agora me chamo Caín. Tire a capa, Hoyt, e demos uma olhada ao que leva debaixo.

—É um vampiro.

—Sim, sou, sem dúvida. A capa, Hoyt.

Ele soltou o broche que a segurava e deixou que caísse ao chão.

—Espada e adaga. São muitas armas para um feiticeiro.

—Haverá uma batalha.

—Isso é o que acredita? —A expressão divertida voltou a desenhar-se em seu rosto com frieza—. Posso prometer que perderá. O que tenho na mão se chama pistola. É uma arma realmente muito boa. Dispara um projétil mais de pressa do que demora a piscar. Cairá morto onde está antes que possa desembainhar a espada.

—Não vim para lutar contigo.

—Sério? A última vez que nos encontramos... deixa que refresque minha memória. Ah, sim, empurrou-me por um escarpado.

—Você me empurrou primeiro —disse Hoyt com certa exasperação. —E me rompeu as malditas costelas ao fazê-lo. Pensei que tinha morrido. OH, deuses misericordiosos, acreditava que estava morto.

—Pois não estou, como pode ver. Retorna ao lugar de onde veio, Hoyt. Tive mil anos, mais ou menos, para superar meu aborrecimento contigo.

—Para mim você morreu faz uma semana. —levantou a túnica. —Fez-me estes machucados.

Cian percorreu os machucados com o olhar e depois seus olhos voltaram a fixar-se em Hoyt.

—Curaram muito rápido.

—Vim com um encargo de Morrigan.

—Morrigan, verdade? —Nesta ocasião, sua expressão divertida estalou em gargalhadas—. Aqui não há deuses. Nenhum deus. Nem fadas. Sua magia não tem capacidade nesta época, e você tampouco.

—Mas você sim.

—A adaptação é sobrevivência. Aqui deus é o dinheiro e o poder é seu sócio. E eu tenho ambos. Livrei-me das pessoas como você faz muito tempo.

—Este mundo desaparecerá, tudo desaparecerá, no Samhain, a menos que me ajude a detê-la.

—Deter quem?

—A quem fez você. A essa coisa chamada Lilith.

 

                                   Capítulo 3

Lilith. Esse nome trazia para Cian brilhos de lembranças de centenas de vidas passadas. Ainda era capaz de vê-la, de cheirá-la, de sentir a súbita e horrenda excitação experimentada no momento em que ela levou sua vida.

Ainda era capaz de saborear seu sangue e o que esta tinha incorporado. O escuro, escuro dom.

Seu mundo tinha mudado. E lhe tinha concedido o privilégio —ou a maldição— de ver como mudavam os sucessivos mundos ao longo de inumeráveis décadas.     

Acaso não tinha percebido que algo se aproximava? Por que outra razão tinha permanecido sentado, sozinho, em plena noite, esperando?

Que horrível giro do destino tinha enviado seu irmão. —ou o irmão do homem que ele tinha sido uma vez— através do tempo para que pronunciasse seu nome?

—Bem, tem toda minha atenção.

—Deve retornar comigo, se preparar para a batalha.

—Retornar? Ao século doze? —Cian tornou a rir enquanto se reclinava em sua poltrona — Asseguro que nada poderia me tentar a fazer isso. Eu gosto muito das comodidades desta época. Aqui a água brota quente, Hoyt, e também as mulheres. Não tenho nenhum interesse em suas políticas e suas guerras e, é claro, tampouco em seus deuses.

—A batalha se travará contigo ou sem você, Cian.

—Sem mim soa perfeitamente bem.

—Nunca deste as costas a uma batalha, nunca se escondeu ante uma briga.

—“Esconder-se” não seria o termo que eu empregaria —replicou Cian. — E os tempos mudam, me acredite.

—Se Lilith o derrotar, todos vós estarão perdidos para sempre. A humanidade desaparecerá.

Cian inclinou a cabeça.

—Eu não sou humano.

—É essa sua resposta? —Hoyt avançou uns passos—. Ficará sentado sem fazer nada enquanto ela destrói tudo? Ficará à margem enquanto faz a outras pessoas o mesmo que fez a você? Enquanto mata sua mãe e suas irmãs? Ficará aí, de braços cruzados, enquanto transforma Nola no que você é?

—Todos eles estão mortos. Levam mortos muito tempo. São pó.

Acaso não tinha visto ele suas tumbas? Não tinha resistido retornar e deter-se ante suas lápides, e as lápides daqueles que tinham vivido depois deles.

—Será que esqueceste tudo o que lhe ensinaram? —perguntou Hoyt interrompendo os pensamentos de seu irmão. —Os tempos mudam, disse. Entretanto é algo mais que mudança. Poderia estar aqui agora se o tempo estivesse sólido? O destino deles não está selado, e o seu tampouco. Neste mesmo momento nosso pai está morrendo e, entretanto, deixei-o. Nunca voltarei a lhe ver com vida.

Cian se levantou lentamente.

—Não tem idéia do que ela é, pelo que é capaz. Já tinha centenas de anos quando me tomou. Acaso pensa detê-la com espadas e raios? É mais estúpido do que recordava.

—Penso detê-la contigo. Ajude-me. Se não o fizer pela humanidade, faça-o ao menos por você. Ou acaso se uniria a ela? Se dentro de você não fica nada daquele que foi meu irmão, então acabemos isto entre nós agora mesmo e de uma vez por todas.

Hoyt tirou sua espada.

Durante um comprido momento, Cian estudou a folha, considerou a pistola que sustentava na mão e logo voltou a guardá-la no bolso.

—Afasta essa espada. Por Deus, Hoyt, se não foi capaz de me vencer quando estava vivo.

O desafio e a pura irritação, brilharam nos olhos de Hoyt.

—Não o fez muito bem a última vez que lutamos.

—Isso é verdade. Levou-me várias semanas me recuperar. Ocultando-me em cavernas durante o dia, meio morto de fome. Então a busquei, Lilith, quem me engendrou. Busquei-a durante a noite, enquanto me esforçava para caçar suficientes presas para me alimentar. Entretanto, abandonou-me. De modo que tenho uma dívida pendente com ela. Afasta já essa maldita espada.

Quando Hoyt duvidou, Cian só teve que dar um pequeno salto. Em um abrir e fechar de olhos planou por cima da cabeça de Hoyt e aterrissou brandamente a suas costas. Um momento depois, desarmou seu irmão com um quase imperceptível giro de mão.

Hoyt se voltou lentamente. A ponta da espada apontava sua garganta.

—Bom trabalho —disse.

—Somos mais rápidos e mais fortes. Não temos uma consciência que possa nos reprimir. Estamos obrigados a matar, a nos alimentar. A sobreviver.

—Então, por que não estou morto?

Cian deu de ombros.

—Digamos que por curiosidade, e também um pouco pelos velhos tempos. —Lançou a espada ao outro lado da habitação—. Bem, bebamos uma taça.

Cian se dirigiu a um pequeno armário e o abriu. Com a extremidade do olho, pôde ver como a espada voava através da habitação até a mão de Hoyt.

—Isso esteve muito bem —disse com leveza, e tirou uma garrafa de vinho—. Não pode me matar com aço, mas se pudesse, se fosse bastante afortunado, arrancar uma parte de mim. Não somos capazes de regenerar os membros perdidos.

—Deixarei minhas armas a um lado e você faz o mesmo.

—Parece-me bastante justo. —Cian tirou a pistola do bolso e a deixou em cima da mesa. —Embora um vampiro sempre leve uma arma consigo. —Exibiu suas presas brevemente ante Hoyt—. Não posso fazer nada a respeito disto. —Serviu duas taças de vinho enquanto Hoyt deixava a espada e a adaga—. Sente-se e me diga por que deveria participar da salvação do mundo. Agora sou um homem muito ocupado. Tenho empresas que atender.

Hoyt agarrou o copo de vinho, estudou-o e cheirou seu conteúdo.

—O que é isto?

—Um vinho tinto italiano muito bom. Não tenho nenhuma necessidade de te envenenar. —Para confirmar suas palavras, bebeu de sua taça—. Poderia te romper o pescoço como se fosse um ramo. —Cian se sentou e estirou as pernas. Depois agitou uma mão em direção a Hoyt—. No mundo de hoje, o que estamos fazendo aqui se chamaria uma reunião, e você está a ponto de levar a cabo sua intervenção. De modo que... me ilustre.

—Temos que reunir nossas forças, começando por alguns. Deve haver um sábio, uma bruxa, um que adota numerosas formas, e um guerreiro. Esse deve ser você.

—Não. Eu não sou nenhum guerreiro. Sou um homem de negócios. —Cian continuou comodamente sentado e sorriu a Hoyt com indolência—. De modo que os deuses, como de costume, deram-lhe muito pouco com o que trabalhar, e lhe encomendaram uma tarefa praticamente impossível. Com seu punhado de escolhidos, e quem quer que seja bastante estúpido para unir-se a vós, esperas derrotar um exército dirigido por um poderoso vampiro, provavelmente com tropas de sua classe, e outras formas de demônios se ela se tomar a moléstia de pedir que a ajudem. De outro modo o mundo será destruído.

—Mundos —corrigiu Hoyt—. Há mais de um.

—Nisso tem razão. —Cian bebeu um gole com expressão reflexiva. Em sua encarnação atual praticamente ficou sem provocações. E aquilo ao menos era interessante.

—E qual disseram os deuses que era meu papel em tudo isto?

—Deve vir comigo, me ensinar tudo o que saiba a respeito dela e como podemos derrotá-la. Quais são seus pontos débeis. Quais são seus poderes. Que tipo de armas e de magia serão eficazes contra eles. Temos até a celebração do Samhain para dominar estes conhecimentos e reunir o primeiro círculo.

—Tanto tempo? —O sarcasmo em sua voz era evidente—. E que ganharei eu com tudo isso? Sou um homem rico, com muitos interesses que proteger aqui e agora.

—E acredita que se ela governar, o permitirá conservar essa riqueza e esses interesses?

Cian franziu os lábios, reflexivo.

—Possivelmente não —respondeu. — Mas é mais que provável que, se o ajudar, esteja arriscando tudo isso, além de minha própria existência. Quando se é jovem como você...

—Sou o mais velho.

—Não durante os últimos novecentos anos, e a conta continua. Em qualquer caso, quando se é jovem se acredita que viverá para sempre, de modo que corre todo tipo de estúpidos riscos. Mas quando se viveu tanto tempo como eu, alguém se volta muito mais prudente. Porque a existência é imperativa. Minha prioridade é sobreviver, Hoyt. Os seres humanos e os vampiros têm esse traço em comum.

—Sobrevive sentado sozinho na escuridão, nesta pequena casa?

—Não é uma casa —respondeu Cian com expressão ausente—. É um escritório. Um lugar onde se fazem negócios. Dá a casualidade de que possuo muitas casas. Isso também é sobrevivência. Há impostos e documentos e todo tipo de coisas das que devo me ocupar. Como a maioria dos que são como eu, raramente permaneço no mesmo lugar muito tempo. Somos nômades por natureza e necessidade.

Cian se inclinou para frente e apoiou os cotovelos nos joelhos. Havia tão pouco aos quais pudesse falar do que era. Tratava-se de sua escolha, essa era a vida que tinha construído.

—Hoyt, vi guerras, incontáveis guerras como nunca poderia imaginar. E nelas ninguém ganha. Se fizer o que me explicaste, morrerá. Ou se transformará. Transformar um feiticeiro de seu poder seria para Lilith o máximo.

—Acha que temos alguma possibilidade?

—OH, sim. —Voltou a apoiar-se no respaldo da poltrona—. Sempre há uma possibilidade. Eu tive muitas em minhas vidas. —Fechou os olhos e fez girar morosamente o vinho na taça—. Algo se aproxima. Esteve havendo movimento no mundo que há debaixo de este. Nos lugares escuros. Se tratar-se do que diz, é maior do que supunha. Deveria prestar mais atenção. Por regra geral, não estou acostumado a me manter em contato com os vampiros.

Desconcertado, já que Cian sempre tinha sido muito sociável, Hoyt franziu o cenho.

—Por que não?

—Porque, em geral, os vampiros são embusteiros e assassinos e chamam muita atenção sobre si mesmos. E os humanos que se relacionam com eles estão habitualmente loucos ou condenados. Eu pago meus impostos, arquivo meus documentos e mantenho um perfil baixo. E aproximadamente cada década, me mudo, troco o nome e me mantenho afastado do radar.

—Não entendo nem a metade do que está dizendo.

—Imagino que não —respondeu. — Ela foderá tudo para todo mundo. Os banhos de sangue sempre conseguem essas coisas, e esses demônios que vão por aí pensando que querem destruir o mundo são ridiculamente míopes. Temos que viver nele, não é assim?

Permaneceu sentado em silêncio. Era capaz de concentrar-se e ouvir cada batimento do coração de seu irmão, ouvir o suave zumbido elétrico dos controles ambientais da habitação, o som do abajur que estava aceso sobre a mesa no outro lado da habitação. Ou podia bloqueá-los, como fazia freqüentemente com os ruídos de fundo.

Tinha aprendido a fazê-lo com o correr dos anos.

Uma alternativa. Voltou a pensar. Por que não?

—Trata-se de sangue — disse Cian sem abrir os olhos—. Em primeiro e último lugar, trata-se de sangue. Ambos necessitamos o sangue para viver, os de sua classe e os da minha. É o que sacrificamos, pelos deuses, pelos países, pelas mulheres, E o derramamos sempre pelas mesmas razões. Embora os que são como eu, não se preocupam com as razões.

Agora Cian abriu os olhos e Hoyt os viu acesos de uma cor vermelha intensa.

—Nós simplesmente o agarramos. Temos fome dele, desejamo-lo com veemência. Sem sangue, deixamos de existir. Está em nossa natureza caçar, matar, nos alimentar. Alguns de nós desfrutam mais que outros, quão mesmo os seres humanos. A alguns de nós gostam de causar dor, provocar medo, atormentar e torturar sua presa. Igual aos seres humanos. Não somos todos iguais, Hoyt.

—Você assassina.

—Quando caça o cervo do bosque e lhe tira a vida, é um assassinato? Vós não são mais que isso, inclusive menos, freqüentemente menos, para nós.

—Vi sua morte.

—A queda do escarpado não foi...

—Não. Vi como ela o matava. A princípio acreditei que não era mais que um sonho. Vi-o sair da taberna e subir com ela a uma carruagem. E copular com ela enquanto a carruagem se afastava do povoado. E vi como mudavam seus olhos e como brilhavam suas presas na escuridão antes que os cravasse em seu pescoço. Vi seu rosto. A dor, a surpresa, e...

—A excitação —acabou Cian a frase—. O êxtase. É um momento de enorme intensidade.

—Tentou lutar, mas ela era como um animal que se lançou sobre você. Acreditei que estava morto, mas não estava. Não de tudo.

—Não, para se alimentar simplesmente pode deixar seca a sua presa se quiser. Mas para transformar um ser humano, este deve beber o sangue de seu criador.

—Ela fez um corte no próprio peito e pressionou sua boca contra ele, e ainda assim tratou de resistir até que começou a chupar como se fosse um bebê.

—A tentação é muito poderosa, como é o impulso de sobreviver. Tratava-se de beber ou morrer.

—Quando ela acabou, lançou-o ao caminho da carruagem e ali o deixou. Foi onde eu o encontrei. —Hoyt bebeu avidamente, enquanto todo seu interior estremecia—. O encontrei coberto de sangue e lodo. É isso o que você faz também para sobreviver? Ao cervo respeita muito mais.

—Quer me dar um sermão? —perguntou Cian enquanto se levantava para servir-se mais vinho —Ou quer saber?

—Preciso saber.

—Alguns caçam em manadas, outros o fazem sozinhos. Ao amanhecer é quando somos mais vulneráveis: desde o começo, despertamos na tumba cada anoitecer e dormimos durante o dia. Somos criaturas noturnas. O sol é a morte.

—Sua luz vos queima.

—Vejo que sabe algumas coisas.

—Vi-o. Perseguiram-me em forma de lobos e tentaram me apanhar quando viajava para nossa casa.

—Só os vampiros de certa idade e poder, ou aqueles que se encontram sob o amparo de um poderoso senhor, são capazes de mudar de forma. A maioria deve conformar-se com a que tinham quando morreram. Não obstante, não envelhecemos fisicamente. Uma agradável bonificação.

—Você parece ter o mesmo aspecto que ao morrer —disse Hoyt—. Entretanto, não é assim. É algo mais que a roupa que leva, ou o cabelo. Move-se de forma diferente.

—Já não sou o que era e isso é algo que não deveria esquecer. Nossos sentidos estão intensificados, mais quanto mais tempo conseguimos sobreviver. O fogo, igual acontece com o sol, pode nos destruir. A água bendita, se tiver sido fielmente benta, também nos queima, quão mesmo o símbolo da cruz se o levar com fé. Somos repelidos pelos símbolos.

“Cruzes”, pensou Hoyt. Morrigan lhe tinha dado cruzes. Parte do peso se aliviou de seus ombros.

—O metal é absolutamente inútil conosco —continuou explicando Cian—, a menos que consiga nos cortar a cabeça. Isso resolveria o problema. Mas se não for assim...

Cian se levantou novamente de sua poltrona, avançou uns passos e agarrou a adaga de Hoyt. A fez girar no ar, agarrou-a pelo cabo e depois a cravou no peito.

O sangue brotou da ferida e manchou a camisa branca de Cian enquanto Hoyt ficava em pé de um salto.

—Tinha esquecido quanto dói. —Com um desdém, Cian extraiu a folha de seu peito—. Isto me leva a alardear. Faz a mesma coisa com uma estaca de madeira e nos converteremos em pó. Mas deve perfurar o coração. Nosso final é realmente terrível, ou ao menos isso é o que me contaram.

Cian tirou um lenço e limpou a folha da adaga. Depois tirou a camisa. A ferida já tinha começado a fechar-se.

—Já morremos uma vez, e não é fácil desfazer-se de nós uma segunda. Lutaremos ferozmente contra qualquer um que o tente. Lilith é o vampiro mais velho que conheci. Ela lutará com maior brutalidade que qualquer outro. —Fez uma pausa, meditando com a taça de vinho na mão—. Como deixou nossa mãe?

—Com o coração destroçado. Você foi seu filho favorito. —Hoyt deu de ombros quando Cian o olhou nos olhos—. Ambos sabemos. Ela me pediu que tentasse, que encontrasse uma maneira. Em sua dor, não era capaz de pensar em nenhuma outra coisa.

—Acredito que nem sequer seus poderes como feiticeiro podem ressuscitar os mortos. Ou os que não estão.

—Aquela noite fui visitar sua tumba, e pedi aos deuses que levassem um pouco de paz ao coração de nossa mãe. Encontrei-o coberto de terra.

—Sair de uma tumba cavando com as mãos é um assunto muito sujo.

—Estava devorando um coelho.

—Provavelmente foi o melhor que pude encontrar. Não posso dizer que o recorde. As primeiras horas que seguem ao Despertar são incoerentes. Só tem fome.

—Fugiu de mim. Vi o que foi, já tinha havido rumores a respeito dessas coisas, e pôs-se a correr. A noite em que voltei a vê-lo fui aos escarpados a pedido de nossa mãe. Ela me implorou que encontrasse algum modo de romper o conjuro.

—Não é um conjuro.

—Eu pensava, esperava, que se destruísse essa coisa que o tinha convertido no que foi... ou, se a debilitava, mataria isso no que o tinha convertido.

—E não fez nenhuma das duas coisas —recordou Cian—. O que demonstra o que deve enfrentar. Eu era novato e mal sabia o que podia fazer. Acredite-me, ela terá companheiros muito mais experimentados a seu lado.

—E você de que lado estará?

—Não tem nenhuma oportunidade de ganhar esta batalha.

—Subestima-me. Tenho muito mais que isso. Já passe um ano ou um milênio, você segue sendo meu irmão. Meu gêmeo. Meu sangue. Você mesmo o disse: o fundo do assunto é o sangue.

Cian passou um dedo pela borda de sua taça de vinho.

—Irei contigo. —Logo prosseguiu antes que Hoyt pudesse dizer nada—. Porque sinto curiosidade e estou um pouco aborrecido. Já levo dez anos neste lugar, de modo que, em qualquer caso, chegou o momento de me mover. Não prometo nada. Não depende de mim, deve entendê-lo, Hoyt. Eu atenderei a minha satisfação em primeiro lugar.

—Não pode caçar seres humanos.

—Já está me dando ordens? —Os lábios de Cian se curvaram ligeiramente—. Típico. Mas como disse, minha satisfação vem primeiro. Entretanto, faz oitocentos anos que não me alimentei de sangue humano. Bom, setecentos e cinqüenta, já que tive certo deslize.

—Por que já não o faz?

—Para demonstrar que sou capaz de resistir. E porque existe outra maneira de sobreviver, e bem, por certo, no mundo dos humanos, com suas leis. Se eles forem a presa, resulta impossível considerá-los outra coisa mais que comida, o que complica muito fazer negócios com eles. E por outra parte, a morte tende a deixar pistas. Amanhecerá dentro de pouco.

Hoyt olhou com expressão distraída em torno da habitação sem janelas.

—Como sabe?

—Sinto muito. E além disso já estou cansado de perguntas. Por agora deverá ficar comigo. Não é seguro que vá assim pela cidade. Talvez não sejamos idênticos, mas se parece muito comigo. Tem que se desfazer dessas roupas.

—Acaso espera que vista... o que é isso?

—Chamam-se calças —respondeu Cian secamente, e atravessou a habitação para um elevador privado—. Tenho um apartamento neste edifício, é mais simples.

—Recolherá o que necessite e partiremos.

—Eu não viajo de dia, e não aceito ordens. Agora sou eu quem as dá, e o farei durante algum tempo. Tenho que me encarregar de algumas coisas antes de poder partir. Tem que entrar aqui.

—O que é isto?

Hoyt tocou as paredes do elevador com seu cajado.

—Um meio de transporte. Levará-nos a meu apartamento.

—Como?

Cian passou uma mão pelo cabelo.

—Olhe, tenho livros ali e algum outro material educativo. Pode dedicar as próximas horas a se empapar da cultura, a moda e a tecnologia do século vinte e um.

—O que é tecnologia?

Cian fez seu irmão entrar no elevador e pulsou o botão do seguinte piso.

—É outro deus.

    

Aquele mundo, aquela época, estavam cheios de maravilhas. Hoyt desejou ter tempo de aprender tudo, de absorver tudo. A habitação não se iluminava com tochas, e sim com algo que Cian chamava eletricidade. A comida se guardava dentro de uma caixa tão alta como um homem e que a mantinha fresca e fria, e havia outra caixa que usava para esquentá-la e cozinhá-la. A água brotava de uma espécie de varinha e caía dentro de uma grande terrina, de onde desaparecia através de um buraco.

A casa onde vivia Cian estava construída a grande altura sobre a cidade... e que cidade! A breve descrição que lhe tinha feito Morrigan não tinha sido nada comparada com o que ele podia contemplar através de umas paredes de cristal que havia nas habitações de Cian.

Hoyt pensou que inclusive os deuses ficariam assombrados ante o tamanho e o alcance daquela Nova Iorque. Quis dar outra olhada à cidade, mas Cian o tinha feito prometer que manteria cobertas as paredes de cristal e que não se aventuraria fora de casa.

Apartamento, corrigiu-se Hoyt. Cian o tinha chamado apartamento.

Seu irmão tinha livros, uma grande quantidade deles, e uma caixa mágica que Cian tinha chamado televisor. As visões dentro dessa caixa mágica eram inumeráveis: de pessoas e lugares, de coisas, de animais. Mas embora só estivesse uma hora brincando com ela, acabou por aborrecer-se do incessante bate-papo.

De modo que se rodeou de livros e leu, e seguiu lendo até que os olhos lhe arderam e teve a cabeça muito cheia como para que coubessem mais palavras ou imagens.

Ficou dormindo no que Cian chamava um sofá, rodeado de livros.

Sonhou com uma bruxa e a viu em meio de um círculo de luz. Não vestia mais que o colar e sua pele brilhava com uma palidez leitosa à luz das velas.

Sua beleza simplesmente refulgia.

A bruxa elevava uma bola de cristal com ambas as mãos. Podia ouvir o sussurro de sua voz, mas não as palavras pronunciadas. Ainda assim, sabia que se tratava de um conjuro. Podia sentir todo seu poder, o poder dela através do sonho. E soube também que ela o estava procurando.

Inclusive no sonho pôde sentir sua atração, e essa mesma impaciência que tinha percebido nela dentro de seu círculo estando ele ferido, em seu próprio tempo.

    

Por um instante, teve a sensação de que seus olhos se encontravam através da névoa. E era o desejo tanto como o poder o que atravessava seu corpo. Nesse momento, os lábios dela se curvaram, abriram-se como se quisesse lhe falar.

—Que merda é essa roupa?

Despertou de repente e se encontrou de frente com o rosto de um gigante. A criatura era tão alta como uma árvore e quase tão grosa. Tinha um rosto que teria feito chorar uma mãe, negra como a noite e com uma cicatriz na face, e a cabeça cheia de cilindros de cabelo enredado.

Tinha um olho negro e o outro cinza. Ambos entrecerrados enquanto exibia uma forte dentadura branca.

—Você não é Caín.

Antes que Hoyt tivesse tempo de reagir, foi elevado pelo cangote e sacudido como um camundongo por um gato muito grande e zangado.

—Desça-o, King, antes que ele o transforme em um pequeno homem branco.

Cian saiu de seu dormitório e se dirigiu preguiçosamente para a cozinha.

—Como é que tem sua cara?

—Ele tem sua própria cara —replicou Caín —. Não nos parecemos tanto se reparar bem. Antes era meu irmão.

—É isso certo? Filho de puta! —King deixou cair Hoyt sobre o sofá sem nenhum olhar—. Como merda chegou aqui?

—Magia. —Enquanto falava, Cian tirou uma bolsa de sangue de uma pequena geladeira—. Deuses e batalhas, o fim do mundo, bla, bla, bla.

King olhou Hoyt com um sorriso.

—Quem o teria acreditado. Sempre pensei que a maior parte de todo esse lixo que me contou era, bom, lixo. Não está muito falador antes de haver-se metido seu chute noturno —disse a Hoyt—. Tem algum nome irmão?

—Sou Hoyt, dos Mac Cionaoith. E você não voltará a me pôr as mãos em cima.

—Muito bem dito.

—Ele é como você? —perguntaram Hoyt e King ao mesmo tempo.

Cian verteu o sangue em um copo alto e grosso e depois o meteu no microondas.

—Não, aos dois. King leva meu clube, que está no andar de baixo. É um amigo.

Hoyt fez uma careta de desgosto.

—Seu criado humano.

—Eu não sou criado de ninguém.

—Vejo que esteve lendo. — Cian tirou o copo do microondas e bebeu—. Alguns vampiros importantes têm criados humanos, mas eu prefiro ter empregados. Hoyt veio para me alistar no exército que espera formar para lutar contra o grande mal.

—O IRS?

Cian, já de melhor humor, sorriu. Hoyt viu que algo passava entre eles, algo que uma vez só tinha passado entre seu irmão e ele.

—Oxalá fosse isso! Não, disse que tinha ouvido movimento, ruídos surdos. Evidentemente havia uma razão para isso. Segundo os falatórios dos deuses, Lilith dos Vampiros está reunindo seu próprio exército e planeja destruir toda a humanidade, conquistar os mundos. Guerra, peste, pragas.

—É capaz de brincar com isso? —perguntou Hoyt com uma fúria mal contida.

—Por Deus, Hoyt, estamos falando de exércitos de vampiros e de viagens através do tempo. Tenho o fodido direito de brincar com isso. Se o acompanho é provável que acabe morto.

—Aonde pensam ir?

Cian deu de ombros.

—Para trás, a meu passado, suponho, para atuar ali como assessor da Sensatez geral.

—Não sei se devemos ir para trás, para frente ou para o lado. —Hoyt empurrou uns livros em cima da mesa—, mas retornaremos a Irlanda. Ali nos dirão aonde devemos viajar depois.

—Tem cerveja? —perguntou King.

Cian abriu a geladeira, tirou uma garrafinha e a lançou a King.

—Quando vamos? —perguntou este.

—Você não vem. Já lhe havia dito isso. quando chegasse o momento de partir, cederia-lhe o controle do clube. Aparentemente esse momento chegou.

King se voltou para Hoyt.

—Está reunindo um exército, general?

—Hoyt. Sim, assim é.

—Pois acaba de recrutar seu primeiro soldado.

—Basta —Cian rodeou o balcão que separava a cozinha—. Isto não é você. Não sabe absolutamente nada desta história.

—Mas sei coisas de você —replicou King—. Sei que eu gosto de uma boa briga, e faz muito tempo que não tive uma. Estão falando de uma batalha importante, o bem contra o mal. Eu gostaria de escolher meu lado desde o começo.

—Se ele for um rei? Por que deveria aceitar ordens de você? —perguntou Hoyt, e o gigante negro pôs-se a rir de tal maneira que teve que sentar-se no sofá.

—A lealdade mau entendida fará que o matem.

—É minha escolha irmão. —King elevou a garrafa em direção a Cian. Uma vez mais, algo forte e silencioso passou entre eles com apenas um olhar—. E não acredito que minha lealdade seja lealdade mal entendida.

—Hoyt, por favor, vá a outra parte. — Cian assinalou seu dormitório com o polegar—. Entra ali. Quero ter umas palavras em particular com este idiota.

Cian estava preocupado, pensou Hoyt enquanto obedecia. A seu irmão preocupava aquele homem, um traço humano. Nada do que tinha lido indicava que os vampiros pudessem ter autênticos sentimentos para os seres humanos.

Franziu o cenho enquanto examinava o dormitório. Onde estava o ataúde? Os livros diziam que os vampiros dormiam na terra de suas tumbas colocados dentro de um ataúde, durante o dia. Mas ele só via uma enorme cama, uma branda como as nuvens e coberta com um tecido muito suave.

Ouviu vozes destemperadas do outro lado da porta, mas se dedicou a explorar a habitação pessoal de seu irmão. Decidiu abrir o armário: havia roupa suficiente para vestir dez homens. Bom, Cian sempre tinha sido vaidoso.

Mas não havia nenhum espelho. Os livros diziam que os vampiros não se refletiam neles.

Entrou no banheiro e ficou boquiaberto. A ampla privada que Cian lhe tinha mostrado antes de retirar-se era assombrosa, mas nada comparado com aquilo. A banheira era bastante grande para que coubessem seis pessoas, e havia também uma caixa alta de cristal verde claro.

As paredes eram de mármore, igual ao chão.

Fascinado, entrou na caixa verde e começou a brincar com os puxadores prateados que se sobressaíam da parede de mármore. Lançou um grito quando um jorro de água fria brotou de um monte de furos de uma coisa achatada.

—Aqui costumamos tirar a roupa antes de nos colocar na ducha. —Cian tinha entrado no banheiro e fechou o jorro de água com um enérgico giro de mão. Logo farejou o ar—. Embora pensando bem, seja vestido ou nu, não resta dúvida de que deveria tomar banho. Está fodidamente sujo. Se lave - ordenou—. Depois ponha a roupa que deixei em cima da cama. Vou trabalhar.

Cian saiu do banheiro e deixou que Hoyt se arrumasse só com a ducha.

Depois de uns minutos e alguns calafrios, descobriu que podia regular a temperatura da água. queimou-se, em seguida se congelou e, finalmente, conseguiu o afortunado ponto intermediário.

Seu irmão devia estar dizendo a verdade quando falou de sua riqueza, já que ali havia um luxo que ele jamais teria imaginado. A fragrância do sabão lhe pareceu um tanto feminina, mas não havia nada mais com o que lavar-se.

Hoyt adorou sua primeira ducha do século vinte e um, e se perguntou se haveria alguma maneira de reproduzi-la por meio da ciência ou da magia uma vez que retornasse para casa.

Quão tecidos penduravam perto da ducha eram tão suaves como a cama. Sentiu-se decadente ao usar um deles para secar o corpo.

A roupa não importava especialmente, mas a sua estava empapada. Duvidou se devia sair e agarrar a túnica de reposto que tinha em seu baú, mas lhe pareceu melhor seguir o conselho de Cian quanto ao vestuário.

Vestir-se levou um montão de tempo. Os estranhos broches estiveram a ponto de derrotá-lo. Os sapatos careciam de cordões e simplesmente teria que deslizar os pés em seu interior. Teve que reconhecer que eram muito cômodos.

Entretanto, teria gostado de ter um maldito espelho onde poder olhar-se. Saiu de sua habitação e freou em seco. O rei negro ainda estava no sofá, bebendo da garrafa de vidro.

—Isso está melhor —observou King—. Provavelmente poderia passar se mantivesse a boca fechada.

—O que é este fechamento aqui?

—É um zíper. E será melhor que mantenha isso fechado, amigo. —levantou-se—. Caín desceu ao clube. O sol já se pôs. Despediu-me.

—Está queimado? Tenho ungüento.

—Não. Merda. Caín me deixou sem meu trabalho. Já passará. Ele se vai, eu vou. Não tem por que gostar.

—Ele acredita que todos morreremos.

—Tem razão... mais tarde ou mais cedo. Viu alguma vez o que um vampiro é capaz de fazer a um ser humano?

—Vi o que um deles fez a meu irmão.

Os estranhos olhos de King se escureceram.

—Sim, claro, é verdade. Bem, isso é o que ocorre. E não penso ficar sentado a esperar que um deles faça isso comigo. Cian tem razão se ouviu movimento, ruídos estranhos. Haverá uma luta e eu estarei nela.

“Um verdadeiro gigante —pensou Hoyt—, com um rosto temível, e uma enorme força.”

—Você é um guerreiro.

—Pode apostar o que quiser. Pode me acreditar, chutarei o trazeiro desses vampiros. Mas não esta noite. Por que não descemos e vemos como está o ambiente? Isso o aborrecerá.

—A seu... —como tinha chamado Cian? —... seu clube?

—Isso. Chama-o Eternity. Acredito que ele sabe algo a respeito disso.

 

                                       Capítulo 4

Encontraria-lhe. Se um homem a arrastava dentro de seus sonhos, o fazia viver experiências extracorpóreas e, em geral, rondava seus pensamentos, lhe seguiria o rastro e descobriria a razão.

E fazia vários dias que sentia como se estivesse de pé na borda de um alto escarpado açoitado pelo vento. A um lado havia algo brilhante e formoso e no outro, um vazio frio e aterrador. Mas o escarpado em si, embora um tanto instável, era o conhecido.

Fosse o que fosse o que estivesse gerando em seu interior, ele formava parte disso, isso sabia sem dúvida nenhuma. Embora não pertencia nem à aquele tempo nem a aquele lugar. Pelo geral, os homens não se dedicavam a passear a cavalo por Nova Iorque em pleno século vinte e um luzindo capas e túnicas.

Mas ele era real, um homem de carne e osso tão real como ela. As mãos tinham se manchado com seu sangue, não é? Ela tinha esfriado sua pele e o tinha contemplado enquanto dormia e a febre desaparecia. Seu rosto, pensou, tinha-lhe resultado tão familiar. Como algo que recordasse ou que tinha alcançado a vislumbrar fugazmente em sonhos.

Bonito, e inclusive em meio de seu sofrimento, refletia ela ao mesmo tempo em que o desenhava. Magro e anguloso, aristocrático. Nariz longo e fino. Boca forte e bem modelada. Maçãs do rosto marcadas e atrativas.

Sua imagem se foi fazendo realidade no papel enquanto trabalhava, primeiro com traços amplos, logo com cuidados detalhes. Olhos afundados, recordava, de um azul intenso e com um arco de sobrancelhas marcado em cima deles. E o contraste daquele cabelo e sobrancelhas escuros com aqueles olhos azuis só lhe acrescentava mais mistério.

Sim, pensou, podia vê-lo, podia desenhá-lo, mas até que não o encontrasse não saberia se devia saltar da borda do escarpado ou afastar-se dele.

Glenna Ward era uma mulher que gostava do conhecimento.

De modo que conhecia seu rosto, a forma, e o tato de seu corpo, inclusive o som de sua voz. Ela sabia, fora de toda dúvida, que ele tinha poder. E acreditava também que ele tinha as respostas.

Fosse o que fosse o que estava se aproximando e todos os augúrios a advertiam de que se tratava de algo muito grande, ele tinha que ver com isso. Glenna tinha um papel que jogar; tinha-o sabido quase desde seu primeiro fôlego. Tinha a sensação de que estava a ponto de assumir seu destino, e aquele homem atraente, ferido, envolto em magia e problemas, estava destinado a compartilhá-lo com ela.

Ele tinha falado em gaélico, gaélico e irlandês. Glenna conhecia um pouco dessa língua, tinha-a utilizado ocasionalmente nos conjuros, e inclusive era capaz de lê-lo de uma maneira bastante rudimentar.

Mas estranhamente, no sonho —experiência, visão, o que fosse—, ela não só tinha podido entender tudo o que ele havia dito, mas também tinha sido capaz de falar seu idioma como se fosse uma nativa.

De modo que, em algum lugar do passado... o bom e comprido passado, resolveu. E, possivelmente, em algum lugar da Irlanda.

Ao despertar, Glenna tinha realizado conjuros com cristais e conjuros de localização diante de um espelho, usando para isso a atadura coberta de sangue que havia trazido com ela daquela estranha e intensiva visita... em qualquer lugar que tivesse estado. Aquele sangue e seu próprio talento a guiariam novamente para ele.

Ela tinha esperado que essa tarefa se supusesse um trabalho e um esforço muito grande. Acrescentados ao trabalho e o esforço que implicaria transportar-se —ao menos em essência— até seu tempo e lugar.

Estava preparada para isso ou ao menos para tentá-lo. Sentou-se dentro de seu círculo, com as velas acesas e as ervas flutuando na água do recipiente O buscou uma vez mais, concentrando-se no desenho de seu rosto e sustentando a atadura que havia trazido de retorno com ela.

—Procuro o homem que tem este rosto, minha busca se dirige em encontrar seu tempo, seu lugar. Sustento seu sangue em minha mão e com seu poder reclamo. Procurem e encontrem e me mostrem. Como eu o farei, que assim seja.

Viu-o em sua mente, com o cenho franzido, rodeado por um monte de livros. concentrou-se e retrocedeu, viu toda a habitação. Apartamento? Luz tênue iluminando seu rosto, suas mãos.

—Onde está? —perguntou brandamente—. Mostre-me.   

E então pôde ver o edifício, a rua.

A excitação do êxito se mesclou com um desconcerto absoluto.

Quão último esperava era que ele se encontrasse em Nova Iorque, a umas setenta quadras de distância e no presente.

As fadas, decidiu Glenna, estavam fazendo horas extras para pôr as coisas em marcha. Quem era ela para questioná-las?

Desfez o círculo, recolheu tudo e guardou o desenho em uma das gavetas de sua mesa. A seguir se vestiu, duvidando um momento a respeito do que devia vestir. O que tinha que usar exatamente uma mulher quando ia encontrar-se com seu destino? Algo chamativo, discreto, prático? Algo exótico?

Finalmente se decidiu por um vestido negro com o que sentia que podia dirigir qualquer situação.

Viajou de metro para a parte alta da cidade, deixando que sua mente se limpasse. O coração pulsava com força; uma antecipação que tinha estado crescendo em seu interior durante as últimas semanas. Esse, pensou, era o passo seguinte para o que a estivesse esperando.

E fosse o que fosse o que a esperasse; fosse o que fosse o que se aproximava; fosse o que fosse o que acontecesse a seguir, queria estar aberta a isso.

Então tomaria suas decisões.

O metro ia cheio, de modo que viajou de pé, sustentando-se da asa que tinha em cima da cabeça e balançando-se ligeiramente com o movimento do vagão. Gostava do ritmo da cidade, seu passo rápido, suas músicas ecléticas. Todos os tons e matizes de Nova Iorque.

Tinha crescido em Nova Iorque, mas não na cidade, e sim ao norte do estado. Entretanto, sua pequena cidade sempre lhe tinha parecido muito limitada, muito fechada. Sempre tinha querido mais. Mais cor, mais som, mais gente. Levava na cidade os últimos quatro de seus vinte e seis anos.

E toda sua vida explorando sua arte.

Agora algo estava zumbindo em seu sangue, como se soubesse —em alguma parte dela sabia— que, durante toda sua existência, preparou-se para aquelas próximas horas.

Na seguinte estação subiram uns passageiros e outros desceram. Deixou que esse som fluísse sobre ela enquanto voltava a evocar a imagem do homem que estava procurando.

Não tinha o rosto de um mártir, pensou. Nele havia muito poder para ser um mártir. E muita ira também. Tinha descoberto, devia admiti-lo, que se tratava de uma combinação muito interessante.

O poder do círculo que ele tinha criado era muito forte, e também o que fosse que o estivesse perseguindo. Eles também se fizeram presentes nos sonhos dela; esses lobos negros que não eram animais e tampouco humanos, e sim uma horrível mescla de ambos.

Acariciou ociosamente o colar que levava no pescoço. Bom, ela também era forte. Sabia proteger-se.

—Ela se alimentará de ti.

A voz era um vaio que deslizava por trás de seu pescoço e lhe gelava a pele. Então, o que tinha falado se moveu, pareceu planar e flutuar descrevendo um círculo a seu redor, e o frio que desprendia fez que seu fôlego escapasse tremendo de entre seus lábios congelando o ar.

Os outros passageiros continuavam sentados ou de pé, lendo ou falando. Imperturbáveis. Alheios a essa coisa que deslizava ao redor de seus corpos como uma serpente.

Seus olhos eram vermelhos, suas presas longas e afiadas. O sangue os manchava, gotejava de sua boca de um modo quase obsceno. Dentro de seu peito, o coração de Glenna se fechou como um punho e começou a pulsar, pulsar, pulsar com força contra suas costelas.

Aquela coisa tinha forma humana, pior ainda, usava um traje de rua. De listras finas azuis, notou quase sem dar-se conta, camisa branca e gravata de lã de vistosas cores.

—Somos imortais.

Passou uma mão ensangüentada pela face de uma mulher que estava sentada e lia uma novela de bolso. Com a cor vermelha lhe manchando a face, a mulher virou a página e continuou com sua leitura.

—Conduziremo-os como gado, montaremo-os como cavalos, apanharemo-os como ratos. Seus poderes são insignificantes e patéticos, e quando tivermos acabado com vocês, dançaremos sobre suas tumbas.

—Então, por que tem medo?

A coisa jogou os lábios para trás com um grunhido e saltou.     

Glenna abafou um grito e retrocedeu também cambaleando.

Quando o trem passou depressa pelo interior de um túnel, a coisa se desvaneceu.

—Cuidado senhora.

Recebeu a cotovelada impaciente e as palavras resmungadas pelo homem sobre o qual tinha caído.

—Sinto muito.

Voltou a agarrar-se na asa que oscilava na barra de cima de sua cabeça com a mão gordurenta de suor.

Ainda podia cheirar o sangue enquanto percorria as últimas quadras para a parte alta da cidade.

Pela primeira vez em sua vida, Glenna tinha medo da escuridão, pelo que a rodeava, das pessoas que tinha a seu lado. Teve que fazer um grande esforço para não pôr-se a correr quando o trem se deteve. Teve que reprimir o impulso de empurrar outros passageiros para abrir passagem entre eles e correr através da plataforma para a escada que levava a rua.

Caminhou depressa, e inclusive entre os ruídos próprios da cidade, podia ouvir o som de seus saltos sobre a calçada e o ofego apreensivo de sua própria respiração.

Havia uma fila que se movia sinuosamente à entrada do clube chamado Eternity. Casais e pessoas sós se apinhavam à espera do sinal que os permitisse entrar no local. Ela, em lugar de esperar, aproximou-se decidida do homem que estava na porta. Sorriu e praticou um pequeno conjuro.

Passou junto a ele sem que comprovasse a lista ou desse uma olhada a sua identificação.

No interior havia música, luzes azuis e o batimento do coração da excitação. Mas por uma vez, a pressão das pessoas, o ritmo e a música não a excitaram.

Muitos rostos, pensou. Muitos pulsados. Ela só queria um e, de repente, a perspectiva de encontrá-lo entre tanta gente pareceu impossível. Cada tropeço e tranco enquanto abria passagem para o interior do clube faziam que estremecesse. E seu próprio medo a envergonhava.

Ela não estava indefesa, não era uma mulher débil. Mas nesse momento assim se sentia. Aquela coisa do trem resumia todo os pesadelos. E tinha sido enviada para ela.

Para ela.

Aquela coisa, pensou agora, tinha reconhecido seu medo e tinha brincado com ele, burlou dela até que seus joelhos pareceram liquidificar-se e os gritos que lançava em seu interior tinham ferido sua mente como laminas de barbear.

Ficou muito comocionada, muito assustada para recorrer à única arma que levava consigo: a magia.

Agora a ira começava a filtrar-se através do terror.

Recordou a si mesma que era uma investigadora, uma mulher que corria riscos, que valorizava o conhecimento. Uma mulher que possuía defesas e capacidades que a maioria eram incapazes de imaginar. E, entretanto, ali estava, tremendo ante o primeiro sopro real de perigo. Ergueu a coluna vertebral, controlou a respiração e logo se dirigiu para o enorme balcão circular do clube.

A metade de caminho da pista o viu.

A sensação de alívio chegou primeiro, logo o orgulho de saber que tinha tido êxito tão depressa em sua tarefa. Uma pontada de interesse abriu passagem em seu interior enquanto se dirigia para o homem.

Recuperou-se muito bem.

Levava o cabelo estudadamente despenteado em lugar de sujo e alvoroçado, de um negro brilhante e mais curto do que recordava de seu primeiro encontro. Naquela ocasião estava ferido, agitado e em um grave apuro. Agora ia vestido de negro, e lhe sentava muito bem, o fazia muito atraente. Igual ao olhar vigilante e ligeiramente irritado de seus olhos brilhantes.

Com grande parte de sua segurança recuperada, Glenna sorriu e cruzou seu caminho.

—Estive procurando-o.

Cian se deteve. Estava acostumado que as mulheres se aproximassem dele, e não era que não pudesse obter certo prazer disso, especialmente quando se tratava de uma mulher excepcional, como a que tinha diante. Seus olhos verde esmeralda faiscavam com um pingo coquete de diversão. Seus lábios eram carnudos, sensuais e bem desenhados, a voz suave e grave.

Tinha um bom corpo, embelezada com um vestido negro, curto e apertado, que mostrava uma generosa porção de pele leitosa e um forte tônus muscular. Poderia haver-se entretido com ela uns minutos se não fosse pelo colar que levava no pescoço.

As bruxas, e pior ainda, as que praticavam a feitiçaria, podiam ser um problema.

—Eu gosto que me olhem as mulheres lindas quando tenho tempo para ser encontrado.

Partiu nesse momento, continuando seu caminho, mas lhe tocou o braço.

Cian sentiu algo. E, aparentemente, ela também, porque seus olhos se entrecerraram e seu sorriso desapareceu.

—Você não é ele. Só se parece com ele. —Sua mão aumentou a pressão sobre seu braço e ele sentiu que procurava poder—. Mas isso tampouco é completamente certo. Maldita seja. —Deixou cair a mão e jogou o cabelo para trás. — Devia ter sabido que não seria tão simples.

Esta vez foi ele quem a agarrou pelo braço.

—Procuraremos uma mesa.

“Em um canto escuro e tranqüilo”, pensou Cian. Até que soubesse quem ou o que era aquela mulher.

—Necessito informação. Tenho que encontrar alguém.

—O que precisa é uma taça —disse Caín amavelmente e a guiou com rapidez através da multidão.

—Olhe sou capaz de conseguir minha própria bebida se desejar uma.

Glenna considerou a possibilidade de montar uma cena, mas decidiu que isso só conseguiria que a expulsassem do clube. Considerou também um arranque de poder, mas sabia por experiência que depender da magia quando estava irritada a metia em problemas.

Deu uma olhada a seu redor avaliando a situação. O lugar estava cheio de gente em todos seus níveis. A música era uma pulsação, apoiada no baixo, e com uma cantora que debulhava a letra com voz sensual e felina.

Um clube muito concorrido, muito ativo, decidiu Glenna, com muito cromo e luzes azuis, envernizando o sexo com classe. O que podia lhe fazer esse tipo nessas circunstâncias?

—Estou procurando alguém.

“Conversa —se disse—. Deve se manter amigável e conversadora.”

—Pensei que era o homem que estou procurando. Aqui a luz não é muito boa, e você se parece o bastante para ser seu irmão. É muito importante que o encontre.

—Como se chama? Talvez possa ajudar.

—Não sei seu nome. —E o fato de que o ignorasse fez que se sentisse como uma completa imbecil—. Ok, ok, sei bem como isso soa, mas me disseram que estava aqui. Acredito que tem problemas. Se você...

Ela foi tocar sua mão e a encontrou dura como uma pedra. O que podia lhe fazer aquele homem naquelas circunstâncias? Voltou a pensar. Praticamente qualquer fodida coisa. Com o primeiro vislumbre de pânico lhe atendendo a garganta, fechou os olhos e procurou o poder.

A mão se fechou ao redor de seu braço e aumentou a pressão.

—De modo que é uma das autênticas —murmurou, e fixou os olhos, tão acerados como seus dedos, em seu braço—. Acredito que continuaremos esta conversa lá em cima.

—Não penso ir contigo a nenhuma parte. —Um pouco parecido ao medo que tinha sentido no vagão do metro abriu passagem em seu interior.- Isso foi uma baixa voltagem. Acredite-me você não gostaria que aumentasse os ampéres.

—Me acredite —arremedou ele com voz suave—, você não gostaria de ver me zangado.

Levou-a atrás da curva que descrevia a escada de caracol aberta. Ela apoiou os pés com força no chão, preparada para defender-se com todos os meios a seu alcance. Logo levantou um pé e cravou seu salto agulha de oito centímetros no peito do pé, ao mesmo tempo em que Cian a esbofeteava com o dorso da mão. Em lugar de desperdiçar seu fôlego com um grito, Glenna começou a praticar um conjuro.

Mas o ar abandonou seus pulmões quando ele a levantou do chão como se não pesasse nada e a carregou sobre o ombro. Sua única satisfação procedia do fato de que, ao cabo de trinta segundos quando tivesse acabado o conjuro, ele estaria sentado sobre seu traseiro.

Isso não a impediu de seguir debatendo-se. Aspirou todo o ar que pôde para soltar um grito, depois de tudo.

Nesse momento se abriram as portas do que parecia um elevador particular. E ali estava ele em carne e osso. E tão parecido ao homem que a tinha carregada sobre seu ombro que decidiu que podia odiar a ele também.

—Desça-me, filho de puta, ou transformarei este lugar em uma cratera lunar.

    

Quando as portas da caixa transportadora se abriram, Hoyt se viu assaltado por uma mescla de ruído aromas e luzes. Todo isso investiu com força contra seu sistema, intumescendo seus sentidos. Através de seus olhos deslumbrados viu seu irmão com uma mulher que se debatia furiosamente em seus braços.

Sua mulher, descobriu com outro sobressalto. A bruxa de seu sonho estava meio nua e empregava uma linguagem que ele raramente tinha ouvido nem sequer na taberna mais baixa.

—É deste modo que paga alguém por tê-lo ajudado?

Separou do rosto a cortina de cabelo e olhou fixamente a Hoyt com aqueles grandes olhos verdes. Em seguida desviou o olhar e examinou King de cima abaixo.

—Posso me encarregar dos três —disse finalmente.

Como ela se encontrava tendida sobre o ombro de Cian como se fosse um saco de batatas, Hoyt não estava seguro de como pensava levar adiante sua ameaça, mas as bruxas tinham seus recursos.

—Então é real —disse Hoyt brandamente—. Seguiste-me?

—Não tenha ilusões, imbecil.

Cian a trocou de posição sem esforço aparente.

—É sua? —perguntou a Hoyt.

—Não saberia dizer.

—Pois se encarregue dela você. —Cian deixou Glenna no chão e deteve o punho dirigido a seu rosto um segundo antes que chegasse ao destino—. Faz o que tenha que fazer — disse—. Em silêncio. Depois a mande embora daqui. E mantenham a magia coberta. Os dois. King.

Cian partiu. Depois de sorrir e dar de ombros, King o seguiu.

Glenna alisou o vestido e jogou o cabelo para trás.

—Que merda passa contigo?

—Ainda me doem um pouco as costelas, mas estou quase curado. Obrigado por sua ajuda.

Ela o olhou um momento e depois deixou escapar o ar com irritação.

—Isto é o que faremos. Vamos sentar-nos e me convide para uma taça. Necessito uma.

—Eu... não levo moedas nestas calças.

—Típico. Eu pagarei.

Enlaçou um braço ao redor do seu para assegurar-se de que não voltaria a perdê-lo e logo começaram a abrir passagem entre a multidão.

—Meu irmão te fez mal?

—O que?

Hoyt teve que gritar. Como podia alguém manter uma conversa com semelhante ruído? Naquele lugar havia muita gente. Era alguma espécie de festival?

Havia mulheres rebolando no que devia ser algum tipo de dança ritual, e levando menos roupa até que a bruxa. Outras estavam sentadas em mesas prateadas e, observadas ou ignoradas, bebiam de taças e copos transparentes.

A música, pensou, chegava de toda as partes ao mesmo tempo.

—Perguntava se meu irmão te fez mal.

—Irmão? Isso encaixa. Feriu meu orgulho principalmente.

Ela se decidiu pela escada e subiu ao nível superior, onde o som não era tão horrendo. Sem soltar-se de seu braço olhou a direita e esquerda e logo se dirigiu para um assento baixo, com uma vela que tremulava em cima da mesa. Havia cinco pessoas mais apertadas ao redor da mesa, e todas pareciam estar falando ao mesmo tempo.

Ela sorriu e Hoyt sentiu a vibração de seu poder.

—Olá — lhes saudou —. Têm que ir agora mesmo para casa, não é?

Os cinco se levantaram, sem deixar de falar, e deixaram a mesa cheia daqueles copos transparentes para beber, alguns quase cheios.

—Lamento ter tido que lhes cortar a noitada, mas acredito que isto é mais importante. Sente-se, quer? —Ela se deixou cair no assento e estendeu suas longas pernas nuas—. Deus, que noite. —Agitou uma mão no ar e acariciou o colar com a outra enquanto estudava seu rosto—. Tem melhor aspecto que a outra vez. Já está curado?

—Sinto-me bastante bem. De onde vem?

—Direto ao ponto. —Elevou a vista para a garçonete que se aproximou para limpar a mesa—. Eu tomarei um Martini Grei Goose, só, com duas azeitonas. Seco como pó. —Elevou uma sobrancelha em direção a Hoyt. Quando ele não disse nada, ela levantou dois dedos.

Glenna acomodou uma mecha de cabelo atrás da orelha e se inclinou para adiante. Do lóbulo de sua orelha penduravam umas espirais prateadas entrelaçadas seguindo um modelo celta.

—Aquela noite sonhei contigo. E outras duas vezes antes dessa acredito - começou a dizer ela—. Tento prestar atenção a meus sonhos, mas nunca conseguia retê-los tempo suficiente, até este último. Acredito que no primeiro deles estava em um cemitério e sentia uma grande pena. Meu coração sangrou por você, lembro haver sentido isso. É estranho, mas agora o recordo com mais clareza. A vez seguinte que sonhei contigo, vi-o em um escarpado sobre o mar. E vi também contigo uma mulher que não era uma mulher. Inclusive no sonho senti medo dela. E você também tinha medo.

Glenna se apoiou no respaldo, tremendo.

—OH, sim, agora recordo. Lembro que estava aterrada e que havia uma grande tormenta. E você... você a golpeou. Eu mandei tudo o que tinha para você, tentando o ajudar. Sabia que ela não... que nela havia algo que estava errado. Horrivelmente mal. Havia relâmpagos e gritos... —Desejou que sua bebida já tivesse chegado—. Despertei e, por um instante, o medo despertou comigo. Depois tudo se desvaneceu.

Quando Hoyt permaneceu calado, ela respirou profundamente.

—De acordo, continuarei com meu relato. Utilizei meu espelho e também minha bola de cristal, mas não podia ver nada com clareza. Só em meu sonho. Depois você me levou a aquele lugar do bosque, ao círculo. Ou algo o fez. Por quê?

—Não foi minha obra.

—Tampouco minha. —Fez tamborilar sobre a mesa suas unhas pintadas de vermelho, quão mesmo seus lábios—. Tem um nome, lindo?

—Sou Hoyt Mac Cionaoith.

O sorriso dela transformou seu rosto em algo que quase fez parar o coração de Hoyt.

—Não é de daqui, não é? —prosseguiu Glenna.

—Não.

—Irlanda, sei. E no sonho falávamos em gaélico, um idioma que eu não conheço... na realidade não. Mas acredito que se trata de algo mais que de onde. Também é quando, não é? Não se preocupe por me assustar. Esta noite sou imune.

Hoyt estava lavrando uma luta interna. Ela tinha aparecido diante dele e tinha entrado no círculo. Nada que pudesse representar um perigo para ele poderia ter penetrado no círculo protetor. Embora houvessem dito que devia procurar uma bruxa, ela não era absolutamente, absolutamente o que tinha esperado.

Entretanto, tinha-o curado, e tinha permanecido a seu lado enquanto os lobos rondavam seu círculo. E agora ela tinha retornado em busca de respostas, e possivelmente também de ajuda.

—Cheguei através do Baile dos Deuses, faz quase mil anos no tempo.

—De acordo. —Ela deixou escapar o ar com um assobio—. Possivelmente não totalmente imune. Há muito que aceitar mediante a fé, mas com todas as coisas que estão acontecendo, estou disposta a dar o salto. —Levantou o copo que a garçonete acabava de deixar sobre a mesa e bebeu um gole—. Especialmente com isto para que me ajude a amortecer a queda. Cobre as bebidas, quer? —disse Glenna à garçonete, e tirou um cartão de crédito de sua bolsa.

—Algo se aproxima —disse ela quando estiveram sozinhos outra vez—.Algo mau. Um mal grande e importante.

—Pode vê-lo?

—Não, não posso vê-lo claramente. Mas o sinto, e sei que estou conectada contigo nisto. Não é que o assunto me emocione. —Bebeu um pouco mais de seu copo—. Não depois do que vi esta noite no metro.

—Não a entendo.

—Algo muito desagradável, vestido com um traje de desenho —explicou ela—. Essa coisa me disse que se alimentará de mim. Parece-me que era ela... a mulher que estava aquela noite no escarpado. Sei que o que vou perguntar pode parecer uma loucura, mas, estamos tratando com vampiros?

—O que é o metro?

Glenna apertou as palmas das mãos contra os olhos.

—Bem, mais tarde dedicaremos algum tempo a te pôr ciente a algumas questões atuais, meios de transporte maciços e coisas pelo estilo, por agora preciso saber o que estou enfrentando. O que se espera de mim.

—Não sei como se chama.

—Sinto muito. Glenna, Glenna Ward. —Estendeu a mão direita até ele. Depois de uma breve vacilação, Hoyt a agarrou. —Prazer em conhecê-lo. Agora bem, que merda está acontecendo aqui?

Ele começou a explicar e ela continuou bebendo. Depois elevou uma mão e tragou com dificuldade.

—Perdoa, está-me dizendo que seu irmão, o tipo que me maltratou, é um vampiro?

—Não se alimenta de seres humanos.

—OH, bem. Genial. Ponto para ele. Ou seja, seu irmão morreu faz novecentos e setenta e poucos anos, e você veio aqui desde essa época para buscá-lo.

—Os deuses me encarregaram de reunir um exército para lutar e destruir o exército de vampiros que Lilith está formando.

—OH, Deus. Vou necessitar outro copo.

Ele começou a oferecer o seu, mas ela o afastou com a mão e chamou à garçonete.

—Obrigado, mas beba isso. Imagino que você também vai necessitar.

Quando chegou a garçonete pediu outro copo e um pouco de comida do balcão para rebater os efeitos do álcool. Já mais acalmada, escutou o resto da história sem interromper Hoyt.

—E eu sou a bruxa.

Ele se deu conta de que nela não havia só beleza; não havia somente poder. Havia uma busca e uma força. Hoyt procuraria alguns, recordou o que havia dito a deusa, e alguns buscariam a ele.

Como Glenna o tinha feito.

—Sim, acredito que é você. Você, meu irmão e eu encontraremos os outros e começaremos.

—Começar o que? Um acampamento de treinamento militar? Acaso pareço um soldado?

—Não, é claro que não.

Glenna apoiou o queixo no punho.

—Eu gosto de ser uma bruxa, e respeito esse dom. Sei que há uma razão para que isto corra por meu sangue. Um objetivo. Não esperava que fosse isto, mas é. —Então o olhou fixamente—. A primeira vez que sonhei contigo soube que era o seguinte passo desse objetivo. Estou aterrada, estou completamente aterrada.

—Eu deixei minha família para vir a este lugar a cumprir esta missão. Deixei-os só com as cruzes de prata e a palavra da deusa de que estariam protegidos. Você não sabe o que é o medo.

—De acordo. —Estendeu a mão e a apoiou sobre a sua lhe transmitindo uma espécie de consolo que Hoyt sentiu que era inato nela—. De acordo - repetiu—. É muito o que arrisca. Mas eu também tenho uma família. Vivem no norte do estado, e devo me assegurar de que estão protegidos. Preciso me assegurar para assim poder fazer o que se espera de mim. Ela sabe onde estou. Foi ela quem enviou essa coisa para que me colocasse o medo no corpo. Acredito que ela está muito mais preparada que nós.

—Então nos prepararemos. Tenho que ver do que é capaz.

—Quer me submeter a uma sessão de prova? Escuta, Hoyt, até agora seu exército está composto por três pessoas. Não me insulte.

—Somos quatro com o rei.

—Que rei?

—O gigante negro. E eu não gosto de trabalhar com bruxas.

—Sério? —Cuspiu as palavras ao mesmo tempo em que se inclinava para ele—. Eles queimavam aos de sua classe com o mesmo fogo que aos meus. Somos primos carnais, Merlin. E você precisa de mim.

—Pode se que precise, mas a deusa não disse que tivesse que gostar, não é? Tenho que conhecer seus pontos fortes e fracos.

—Parece-me justo - assentiu ela—. E eu tenho que conhecer os seus. De momento, já sei que não seria capaz de curar um cavalo coxo.

—Isso é falso. —E desta vez o ressentimento tingiu sua voz—. O que passa é que estava ferido e não podia...

—Curar um par de costelas quebradas e um talho na palma da mão. Ok, se conseguimos formar esse exército, você não se encarregará das feridas.

—Pode ficar com essa tarefa —replicou ele—. Formar esse exército é o que faremos. É meu destino.

—Esperemos que o meu seja retornar para casa inteira.

Assinou a conta e recolheu sua bolsa.

—Aonde vai?

—Para casa. Tenho muitas coisas que fazer.

—Não deve ir. Agora devemos permanecer juntos. Ela a conhece Glenna Ward. Ela nos conhece a todos. É mais seguro se estivermos juntos, porque assim somos mais fortes.

—É possível, mas devo recolher algumas coisas de minha casa. Tenho muito que fazer.

—Eles são criaturas noturnas. Terá que esperar que saia o sol.

—Já está me dando ordens?

Tentou levantar-se, mas a imagem do que a tinha rodeado no vagão do metro voltou para ela com enorme claridade.

Agora Hoyt lhe agarrou a mão, obrigando-a a permanecer sentada, e ela sentiu o choque de suas emoções no calor que vibrava entre suas palmas.

—É isto um jogo para você? —perguntou ele.

—Não. Tenho medo. Faz apenas uns dias eu simplesmente vivia minha vida. A minha maneira. Agora estão me perseguindo, e se supõe que devo lavrar uma batalha apocalíptica. Quero ir para casa. Necessito minhas coisas. Preciso pensar.

—É o medo o que a faz vulnerável e imprudente. Suas coisas estarão ali pela manhã igual à agora.

É claro, ele tinha razão. E, por outra parte, ela não estava segura de se tinha a coragem suficiente para voltar a sair de noite.

—E onde se supõe que vou ficar até que amanheça?

—Meu irmão tem um apartamento neste mesmo edifício.

—Seu irmão o vampiro. —Glenna se deixou cair no assento—. Não é encantador?

—Ele não te fará mal. Tem minha palavra.

—Preferiria ter a palavra de seu irmão, se não se importar. E se ele tentar... —Glenna colocou a mão em cima da mesa com a palma para cima e se concentrou nela até que surgiu uma pequena bola de fogo—. Se o que disserem os livros e os filmes é certo, esses tipos não se dão nada bem com o fogo. Se tentar me machucar, queimá-lo-ei vivo, e seu exército perderá um de seus soldados.

Hoyt se limitou a apoiar uma de suas mãos sobre a dela, e a chama se converteu em uma bola de gelo.

—Não oponha suas habilidades às minhas, ou ameace fazer dano a minha família.

—Bonito truque. —Glenna deixou cair a pedra de gelo dentro de um copo—. Digamos desta maneira: tenho direito a me proteger de qualquer um ou de qualquer coisa que tente me fazer dano, de acordo?

—De acordo. Não será Cian. —levantou-se e lhe ofereceu a mão—. Prometo que a protegerei, inclusive dele, se tenta fazer algum dano.

—Muito bem. —Ela agarrou sua mão e se levantou. Sentiu-o e soube que ele também pela forma em que se dilataram suas pupilas. A magia, sim, mas algo mais—. Acredito que acabamos de fechar nosso primeiro trato.

Quando desceram a escada e se dirigiram para o elevador, Cian lhes fechou a passagem.

—Um momento, aonde acha que a leva?

—Eu vou com ele — corrigiu Glenna—, ninguém me leva.

—Não é seguro que saia agora à rua. Não até que tenha amanhecido. Lilith já enviou um explorador atrás dela.

—De acordo, mas deixa sua magia na porta — disse Cian a Glenna—. Esta noite pode ocupar o quarto livre. O que significa que você terá que dormir no sofá —acrescentou dirigindo-se a seu irmão—; a menos que ela queira compartilhar a cama contigo.

—Ele pode ficar no sofá.

—Por que a insulta? —a ira tingia as palavras de Hoyt—. Ela foi enviada; veio aqui correndo um grande risco.

—Não a conheço —disse Cian simplesmente—. E de agora em diante, espero que fale comigo antes de convidar alguém a minha casa. —Marcou o código do elevador—. Uma vez que cheguem acima ficarão ali. Depois de vocês o elevador ficará fechado.

—E o que acontece se há um incêndio? —perguntou Glenna docemente. Cian se limitou a sorrir.

—Então suponho que terão que abrir uma janela e sair voando.

Glenna entrou no elevador quando se abriram as portas e logo apoiou uma mão sobre o braço do Hoyt. Antes que as portas se fechassem, brindou novamente a Cian um suave sorriso e disse:

—Será melhor que recorde com quem está tratando. É possível que o façamos.

Glenna respirou profundamente quando as portas se fecharam.

—Acredito que não gosto de seu irmão.

—Eu tampouco me sinto muito contente com ele neste momento.

—Dá igual. Pode voar?

—Não. —Hoyt a olhou—. E você?

—Até agora tampouco.

 

                                 Capítulo 5

As vozes despertaram. Eram apagadas e soavam amortecidas, de modo que a princípio temeu estar tendo outra visão. Apesar do muito que valorizava sua arte, também sabia valorizar o sonho... especialmente depois de uma noite de martinis e estranhas revelações

Glenna agarrou um travesseiro e o colocou sobre a cabeça.

Sua atitude para Cian tinha mudado ligeiramente depois que deu uma olhada ao quarto de hospedes. Ali encontrou uma grande cama com um jogo de lençóis deliciosamente suaves e muitos travesseiros para satisfazer até seu amor pelo luxo.

Não a tinha incomodado absolutamente que o quarto fosse muito espaçoso, adornado com antiguidades e pintada com a cor quente e suave das sombras do bosque. O banheiro também tinha sido uma revelação, recordou enquanto desfrutava da cama. Uma enorme banheira de um branco brilhante e com jorros de água a pressão dominava uma habitação que media aproximadamente a metade de seu loft, pintada com o mesmo verde suave que o hectare de bancadas. Mas foi a ampla pia de cobre esculpido o que fez que ronronasse de prazer.

Tinha estado a ponto de ceder à tentação de meter-se na enorme banheira, deleitar-se com alguns dos sai de banho e alguns dos óleos contidos em pesados frascos de cristal e dispostos junto a um grupo de velas grosas e brilhantes em uma das estantes. Mas as imagens das heroínas da grande tela que eram atacadas enquanto desfrutavam de um banho a tinham feito desistir da idéia.

Em geral, o pied-á-terre do vampiro —dificilmente podia chamar guarida a aquela exibição de luxo— resumia seu pequeno loft em West Village em insignificante.

Embora admirasse o gosto do vampiro, isso não impediu que colocasse um conjuro protetor na porta do dormitório, além de assegurar-se de que esta ficava fechada com chave.

Agora se virou na cama e apoiou a cabeça no travesseiro para olhar ao teto a tênue luz do abajur que tinha deixado acesa antes de deitar-se. Estava dormindo no quarto de convidados de um vampiro. Tinha deslocado um feiticeiro do século XII ao sofá. Um tipo bonito e sério estava cumprindo uma missão e esperava que ela se unisse a sua batalha contra uma antiga e poderosa rainha vampiro.

Glenna tinha vivido com a magia durante toda sua vida, tinha recebido dons e conhecimentos que a maioria das pessoas jamais imaginaria que pudessem existir na realidade. E, entretanto, aquele era um fato digno de ser registrado nos livros.

Gostava de sua vida tal como era. E sabia, sem a menor sombra de dúvida, que jamais voltaria a recuperá-la sem alterações. Sabia, de fato, que podia perder essa vida para sempre.

Mas que alternativa tinha? Não podia fazer absolutamente nada, não podia colocar um travesseiro sobre a cabeça e esconder-se durante o resto de sua vida. Aquilo a conhecia e já tinha enviado um de seus emissários a lhe fazer uma visita.

Se Glenna ficava na cidade, pretendendo que nada de tudo aquilo nunca tinha ocorrido, aquela coisa poderia ir procurá-la, a qualquer momento, em qualquer parte. E ela estaria sozinha.

Sentiria a partir de agora medo da noite? Olharia continuamente por cima do ombro cada vez que saísse à rua depois do pôr-do-sol? Perguntar-se-ia se acaso um vampiro que só ela era capaz de ver deslizaria dentro do vagão do metro a próxima vez que viajasse para a parte alta da cidade?

Não, essa não era absolutamente a maneira de viver. A única forma de vida - a única alternativa real— era enfrentar o problema e controlar seu medo. E unindo seus poderes e recursos aos de Hoyt. 

Sabia que já não poderia voltar a conciliar o sonho. Olhou o relógio e pôs os olhos em branco ao comprovar o cedo que era. Depois, resignada, levantou-se da cama.

    

Na sala de estar. Cian estava acabando a noite com uma taça de brandy na mão e uma discussão com seu irmão.

Em algumas ocasiões tinha retornado a seu apartamento ao amanhecer com uma sensação de solidão, com uma espécie de vazio em seu interior. Nunca se deitava com uma mulher de dia, nem sequer com as grossas cortinas corridas. Para Cian, o sexo era tão vulnerável como poder. E ele não escolhia compartilhar essa vulnerabilidade quando o sol brilhava no céu.

Era muito estranho que tivesse companhia depois da saída do sol e antes do crepúsculo. E essas horas freqüentemente eram longas e vazias. Mas ao entrar no apartamento e encontrar ali seu irmão, tinha descoberto que preferia estar sozinho.

—Você quer que ela fique aqui até que decida qual vai ser seu próximo movimento. E eu digo que isso é impossível.

—Como se não poderia estar ela a salvo? —argumentou Hoyt.

—Não acredito que a segurança dessa mulher figure em minha lista de preocupações imediatas.

Tanto tinha mudado seu irmão —pensou Hoyt com evidente desgosto— que não saía imediatamente em defesa de uma mulher, de um inocente?

—Agora todos estão em perigo, tudo está em perigo. Não temos mais alternativa que permanecer juntos.

—Eu sim tenho alternativa e não é precisamente compartilhar minha casa com uma bruxa, ou contigo. A propósito disso —acrescentou Cian fazendo um gesto com a taça—, eu não gosto que haja ninguém em meu apartamento durante o dia.

—Eu passei aqui o dia de ontem.

—Isso foi uma exceção. —Cian se levantou da poltrona—. E uma exceção da que já começo a me arrepender. Está pedindo muito a alguém a quem tudo importa muito pouco.

—Ainda não comecei a pedir nada. Sei o que terá que fazer. Você falou de sobrevivência, e a sua está agora tão em perigo como a dela e a minha.

—A minha mais, já que a sua ruiva poderia ocorrer me cravar uma estaca no coração enquanto durmo.

—Ela não é mi... —Frustrado, Hoyt fez um gesto para deixar de lado essa questão—. Jamais permitiria que ela o machuca-se. Juro. Neste lugar, neste tempo, você é minha única família. Meu único sangue.

O rosto de Cian se voltou inexpressivo como uma pedra.

—Eu não tenho família. E nenhum sangue salvo o meu. Quanto antes se inteire, Hoyt, quanto antes o aceite, melhor para você. O que faço, faço-o por mim, não por você. Não por sua casa, mas sim pela minha. Disse que lutaria a seu lado e isso é o que farei. Mas por minhas próprias razões.

     —E quais são essas razões? Diga-me isso ao menos.

     —Eu gosto deste mundo. —Cian se sentou no braço de sua poltrona e bebeu um gole de brandy—. Eu gosto do que consegui dele e tenho intenções de conservá-lo; e segundo meus próprios termos... não segundo o capricho de Lilith. Esse é o valor que tem esta luta para mim. Além disso, acumular séculos de existência tem seus momentos aborrecidos. Parece que agora estou vivendo um desses momentos. Mas há limites. E ter sua mulher metida em meu apartamento supera esses limites.

—Ela não é minha mulher.

Um sorriso indolente se desenhou nos lábios de Cian.

—Se não conseguir que seja, é inclusive mais lento do que recordo nesse aspecto.

—Isto não é um esporte, Cian e sim uma luta de morte.

—Eu sei mais a respeito da morte do que você nunca saberá, Hoyt. E mais também sobre sangue, dor e crueldade. Durante séculos observei os mortais; uma e outra vez vislumbrei sua extinção causada por sua própria mão. Se Lilith fosse um pouco mais paciente, só teria que esperar que desaparecessem. Toma seus prazeres ali onde os encontre, irmão, porque a vida é longa, e às vezes, muito aborrecida. —Fez um brinde elevando a taça—. Outra razão para lutar: ter algo que fazer.

—E por que não une a ela então? —espetou Hoyt—. A que o transformou no que é agora.

—Ela me transformou em um vampiro. Eu me transformei no que sou. Por que me uno ao seu bando e não ao dela? Porque posso confiar em você. Você manterá sua palavra; está em sua natureza. Ela nunca o fará; não está na dela.

—E o que há com sua palavra?

—Uma pergunta interessante.

—Eu gostaria de ouvir a resposta. —Glenna falou da porta de seu quarto. Usava um robe de seda negra que tinha encontrado pendurada no armário junto a outra série de objetos íntimos femininos—. Vocês dois podem discutir tudo o que queiram, afinal é o que fazem os homens, e os irmãos. Mas considerando que minha vida está em jogo, quero saber com quem posso contar.

—Vejo que se instalou como se fosse sua casa —comentou Cian.

—Quer que tire isso?

Quando ela inclinou a cabeça e procurou o laço que fechava o robe, Cian sorriu. Hoyt se ruborizou intensamente.

—Não o anime — disse Hoyt—. Se quiser nos perdoar um momento...

—Não, não quero. Quero ouvir a resposta a sua pergunta. E quero saber uma coisa: se seu irmão se zangar, olhará-me como se eu fosse um canapé?

—Não me alimento de seres humanos. Muito menos de bruxas.

—Devido ao profundo amor que professas à humanidade, suponho.

—Porque é uma questão chata. Se alimentar-se de seres humanos, tem que matar e correrá o boato. Se trocar de presa, segue se arriscando a que o descubram. Os vampiros também fofocam.

Ela pensou.

—Razoável. De acordo, prefiro a honestidade razoável às mentiras.

—Disse que ele não te faria mal.

—Queria ouvir de seus lábios. —Glenna se voltou para Cian—. Se está preocupado pela possibilidade de que vá atrás de você, darei minha palavra... mas por que deveria confiar nela?

—Razoável - respondeu Cian.

—Entretanto, seu irmão já me disse que me deteria se tentasse. É possível que Hoyt encontrasse isso mais difícil do que acredita, mas... seria estúpido por minha parte tentar matá-lo, e portanto afastá-lo dele, considerando a situação em que nos encontramos. Tenho medo, mas não sou uma estúpida.

—Terei que aceitar sua palavra nisso também.

Glenna brincou com a manga do robe e lhe brindou um sorriso ligeiramente coquete.

—Se estivesse interessada em matá-lo, já teria tentado um conjuro. Saberia se o tivesse feito. Sentiria-o. E se entre nós três não há mais confiança que esta, estamos condenados antes sequer de ter começado.

—Nisso tem toda a razão.

—Agora o que quero é tomar banho e tomar o café da manhã. Logo irei para casa.

—Você fica.

Hoyt se colocou entre ambos. Quando Glenna tentou dar um passo, ele se limitou a levantar uma mão e a força de sua vontade a lançou de retorno para a porta do quarto.

—Só um fodido minuto.

—Silêncio. Ninguém partirá daqui só. Nenhum de nós. Se formos estar juntos, devemos começar agora mesmo. Nossas vidas estão nas mãos dos outros, e muito mais que nossas vidas.

—Não volte a usar outra vez seu poder comigo.

—O que tiver que fazer, farei-o. Deve entendê-lo. —Hoyt passeou seu olhar de um a outro—. Devem entender os dois. Agora vá vestir-se - ordenou a Glenna—. Depois iremos onde acha que precisa ir. Se apresse.

Por toda resposta, ela deu meia volta, entrou no quarto e bateu a porta.

—Não há dúvida de que sabe como cativar às mulheres. Vou para cama.

Hoyt ficou só na sala de estar e se perguntou por que os deuses teriam acreditado que ele seria capaz de salvar mundos com aquelas duas criaturas a seu lado.

Glenna não disse nada, mas um homem que tem duas irmãs sabe que, freqüentemente, as mulheres utilizam o silêncio como uma arma. E o silêncio dela voou através da habitação como se fossem puas enquanto enchia uma espécie de estranho recipiente com água do encanamento de prata que havia na cozinha de Cian.

Era possível que a moda feminina tivesse mudado radicalmente em novecentos anos, mas ele acreditava que os mecanismos internos eram os mesmos.

E, entretanto, muitos deles seguiam sendo um autêntico mistério para ele.

Glenna usava o mesmo vestido do dia anterior, mas ainda ia sem sapatos. Hoyt não estava seguro de que classe de debilidade havia nele para que a visão de seus pés nus lhe provocasse aquela incômoda pontada de excitação.

Glenna não deveria ter paquerado com seu irmão, pensou com considerável ressentimento. Aquele era um momento para a guerra, não para o flerte. E se ela tinha intenção de passear pela casa com os braços e as pernas ao ar, então teria que...

Conteve-se. Ele não tinha direito a olhar suas pernas, não é? Não tinha nenhum direito de pensar nela como se fosse outra coisa que uma simples ferramenta. Não importava que fosse encantadora. Não importava que, quando a via sorrir, acendesse-se um pequeno fogo no interior de seu coração.

Não importava —não podia importar— que quando a olhava sentisse uns irrefreáveis desejos de tocá-la.

Manteve-se ocupado com os livros, devolveu com silêncio o silêncio de Glenna e devaneou os miolos pensando em qual seria a conduta apropriada.

Logo o ar começou a encher-se de um aroma sedutor. Olhou-a pela extremidade do olho ao mesmo tempo em que se perguntava se estaria pondo em prática algo de sua magia feminina. De costas a ele, viu-a ficar nas pontas dos pés sobre aqueles encantadores pés nus para agarrar uma taça do armário.

O estranho recipiente de antes se deu conta agora de que estava cheio de um líquido negro que fumegava com um aroma muito tentador.

Hoyt perdeu a guerra do silêncio. Segundo sua experiência, os homens sempre a perdiam.

—O que está preparando?

Ela se limitou a verter líquido negro em uma xícara, logo, sem responder, voltou-se e o observou com seus gélidos olhos verdes por cima do bordo da taça enquanto bebia a pequenos sorvos.

Para satisfazer sua curiosidade, Hoyt se levantou, foi até a cozinha e agarrou também uma xícara. Verteu o líquido que ela tinha feito, cheirou-o —não detectou nenhum veneno— e logo bebeu um pouco.

Foi algo elétrico. Como uma súbita sacudida de poder, forte e ao mesmo tempo saborosa. Potente, igual à bebida —o chamado Martini— da noite anterior. Mas diferente.

—É muito bom. —disse e bebeu um gole mais longo.

Por toda resposta, Glenna passou junto a ele, atravessou a cozinha e retornou ao quarto de hospedes.

Hoyt elevou o olhar aos deuses. Acaso ia estar permanentemente rodeado pelo mau humor e os acessos de ira daquela mulher e seu irmão?

—Como? —perguntou—. Como poderei fazer o que me ordenaram se já estamos brigando entre nós?

—Já que está nisso, por que não aproveita e pergunta a sua deusa o que pensa ela de como me tratou?

Glenna havia retornado com os sapatos postos e levando a bolsa da noite anterior.

—Foi uma defesa contra o que aparentemente é sua natureza discutidora.

—Eu gosto de discutir. E não espero que me lance contra as paredes cada vez que desgoste o que tenha que dizer. Volta a fazê-lo e devolverei o golpe. Sou contra o uso da magia como arma, mas em seu caso estou disposta a fazer uma exceção.

O caso é que ela tinha direito a fazê-lo, o que só resultava ainda mais fastidioso.

—O que é a bebida que preparaste?

Glenna suspirou.

—Café. Imagino que já teria bebido café antes, não? Os egípcios tinham café. Acredito.

E, como ela sorriu, supôs que o pior já tinha passado.

—Estou preparada para que partamos... logo que se tenha desculpado.

Deveria havê-lo imaginado. Assim era como se comportavam as mulheres.

—Lamento me haver visto obrigado a utilizar meu poder para impedir que discutisse toda a manhã.

Glenna se dirigiu para o elevador e apertou o botão de chamada.

—É o costume das mulheres deste tempo mostrarem-se agressivas e sarcásticas, ou só em seu caso?

Lançou-lhe um olhar por cima do ombro.

—Eu sou a única de quem deve preocupar-se neste momento. —Entrou no elevador e manteve a porta aberta—. Vem?

Glenna tinha elaborado uma estratégia básica. Primeiro, teria que parar um táxi. Fosse qual fosse a conversa, de qualquer maneira que Hoyt se comportasse, um taxista da cidade de Nova Iorque já teria visto e ouvido tudo antes.

Além disso, sua coragem ainda não tinha chegado ao nível de lhe permitir voltar a apanhar o metro para retornar a seu apartamento.

Como tinha antecipado, no momento em que saíram do edifício, Hoyt se deteve e olhou com os olhos muito abertos. Olhou para todas as partes, acima, abaixo, direita e esquerda. Estudou o tráfico, os transeuntes, os edifícios.

Ninguém lhe prestaria a menor atenção e, se o faziam, suporiam que era um turista.

Quando abriu a boca para falar, lhe pôs um dedo sobre os lábios.

—Terá um milhão de perguntas que fazer, de modo que, por que não as ordena e arquiva? Com o tempo, responderemos todas. Agora procurarei um táxi. Uma vez que estejamos dentro, por favor tenta não dizer nada que seja muito extravagante.

As perguntas se moviam qual formigas dentro da cabeça de Hoyt, mas decidiu cobrir-se com um manto de dignidade.

—Não sou tolo. Sei muito bem que aqui estou completamente fora de lugar.

Não, não era nenhum parvo, pensou Glenna enquanto se aproximava do meio-fio e levantava uma mão. E tampouco era um covarde. Ela previa que ia ficar boquiaberto, mas também tinha esperado ver nele um pouco de temor ante a agitação, o ruído e as multidões, entretanto, não tinha sido assim. Só percebeu no homem curiosidade, certa dose de fascinação e um pingo de desaprovação.

—Eu não gosto como cheira o ar.

Glenna lhe deu uma ligeira cotovelada quando Hoyt se reuniu com ela junto ao meio-fio.

—Acabará por se acostumar —disse. Quando um táxi se aproximou do meio-fio, sussurrou a Hoyt enquanto abria a porta do carro—: sobe como eu faço, se acomode no assento e desfruta da viagem.

Uma vez dentro do carro, ela estendeu o braço para fechar a porta e depois deu o endereço ao condutor. Quando o veículo voltou a meter-se entre o intenso tráfico, os olhos de Hoyt se abriram como pratos.

—Não posso contar muito a respeito disto —disse Glenna por debaixo da música Indiana que saía do rádio do carro—. É um táxi, uma espécie de carro. Funciona com um motor de combustível acionado por gasolina e óleo.

Esforçou-se por explicar o que eram os semáforos, cruzamento para pedestres, os arranha-céus, as lojas de departamentos e qualquer outra coisa que lhe viesse à mente. Deu-se conta de que era como se ela também visse a cidade pela primeira vez, e começou a gozar do trajeto.

Hoyt escutava. Glenna podia ver como absorvia e armazenava toda a informação, as vistas, os sons, os aromas, em algum banco de dados interno.

—Há tantos. —disse com calma, mas seu tom preocupado fez que ela se voltasse para olhá-lo—. Tanta gente — especificou ele olhando através da janela. — E não sabem o que se avizinha. Como faremos para salvar tantas pessoas?

Então ela sentiu como se uma flecha aguda e certeira lhe cravasse no ventre. Tantas pessoas, sim. E aquilo era só uma parte de uma cidade em só um estado.

—Não podemos. Não a todos eles. Nunca se pode. —Agarrou-lhe a mão e a apertou—. De modo que não deve pensar em todos eles juntos ou ficará louco. Faremos de um em um.

Quando o táxi se deteve junto ao meio-fio, tirou dinheiro da bolsa e pagou a corrida... um gesto que a fez pensar nas finanças e em como dirigiria esse pequeno problema nos próximos meses. Quando estiveram na calçada voltou a agarrar Hoyt pela mão.

—Este é meu edifício. Se virmos alguém quando entrarmos só deve sorrir e parecer uma pessoa encantadora. Pensarão que estou trazendo um amante a minha casa.

A reação em seu rosto foi evidente.

—Faz?

—De vez em quando.

Abriu a porta com a chave e logo se apertou com Hoyt no diminuto vestíbulo para chamar o elevador. Apinhados em um espaço ainda mais estreito, ambos começaram a subir.

—Todos os edifícios tem estes...

—Elevadores. Não, mas muito deles sim.

Quando chegaram a seu apartamento, Glenna abriu a porta e ambos entraram.

Era um espaço pequeno, mas a luz era excelente. As paredes estavam cobertas com suas pinturas e fotografias, e pintadas com o verde das cebolas tenras para refletir a luz. Tapetes tecidos por ela salpicavam o chão com tons e desenhos audazes.

O lugar estava limpo e ordenado, algo que ia com sua natureza. Sua cama, conversível em um sofá durante o dia, estava cheia de almofadas. A pequena cozinha se via reluzente.

—Vive sozinha. Não tem ninguém que a ajude.

—Não posso me permitir o gasto de alguém para limpar o apartamento, e, além disso, eu gosto de viver sozinha. Empregados doméstico tem que ser pagos e eu não tenho dinheiro suficiente.

—Não tem homens em sua família, nenhum estipêndio ou atribuição?

—Não cobro nenhuma atribuição desde os dez anos —respondeu ela secamente—. Trabalho. As mulheres trabalham igual aos homens. Em teoria ao menos não dependemos de um homem para que cuide de nós, seja economicamente ou de outra maneira.

Ela lançou a bolsa sobre o sofá.

—Ganho a vida vendendo minhas pinturas e fotografias. Em geral, pinturas e desenhos para cartões de felicitação ou como notas, cartas, mensagens que as pessoas se enviam entre elas.

—Ah, então é artista.

—Assim é —conveio ela, divertida pelo fato de que, ao menos sua escolha de emprego, parecesse contar com a aprovação de Hoyt—. Os cartões de felicitação servem para pagar o aluguel. Mas de vez em quando também vendo diretamente as ilustrações. Eu gosto de trabalhar por minha conta. Tenho meu próprio horário, o que é uma sorte para você. Não devo responder ante ninguém, de modo que disponho de tempo para fazer, bom, o que deve ser feito.

—Minha mãe também é uma artista, a sua maneira. As tapeçarias que tece são lindas. —aproximou-se de uma pintura que mostrava uma sereia que surgia de um mar revolto. O rosto da figura refletia poder, uma espécie de conhecimento que ele interpretava como uma qualidade inerentemente feminina —. Você o pintou?

—Sim.

—Mostra talento, e essa magia que se converte em cor e forma.

Mais que simples aprovação, decidiu Glenna, agora era admiração. E ela deixou que seu calor a envolvesse.

—Obrigado. Normalmente, essa espécie de pequena valorização me alegraria o dia. Só que hoje é um dia muito estranho. Preciso trocar de roupa.

Ele assentiu com ar ausente enquanto se aproximava de outra das pinturas pendurada na parede.

Atrás dele. Glenna levantou a cabeça e deu de ombros. Foi ao velho armário, escolheu os objetos que queria e os levou ao banheiro.

Estava acostumada que os homens lhe prestassem um pouco mais de atenção, refletiu enquanto tirava o vestido. A seu aspecto, à forma em que se movia. Resultava deprimente ser ignorada com tanta facilidade, embora ele tivesse coisas mais importantes nas quais pensar.

Vestiu uns jeans e um Top branco. Deixando de lado o sutil glamour que tinha sido bastante vaidosa para tentar pôr em prática essa manhã, maquiou-se levemente e depois recolheu o cabelo em um pequeno rabo de cavalo.

Quando retornou, Hoyt estava na cozinha, examinado suas ervas.

—Não toque em minhas coisas.

Deu-lhe um suave golpe na mão para que a retirasse.

—Eu só estava... —interrompeu-se e logo a olhou atentamente—. É assim como se veste em público?

—Sim. —Ela se voltou e invadiu seu espaço deliberadamente—. Algum problema?

—Não. Não usa sapatos?

—Quando estou em casa não necessariamente.

Seus olhos eram tão azuis, pensou ela. Tão intensos e azuis, rodeados por aquelas longas pestanas negras.

—O que é que sente quando estamos assim? Sozinhos. Perto.

—Inquietação.

—Isso é o mais agradável que me disse até agora. Quero dizer, sente algo, aqui? —Glenna apoiou o punho sobre o ventre sem afastar os olhos dele—. Uma espécie de comunicação. Nunca o havia sentido antes.

Ele também sentia, e uma espécie de fogo por debaixo de seu coração.

—Não comeste nada —conseguiu dizer Hoyt e, depois retrocedeu uns passos—. Deve ter fome.

—Aparentemente só eu —murmurou ela. Voltou-se para abrir um armário—. Não sei o que vou precisar, de modo que apanharei o que me pareça adequado. Não penso viajar leve de bagagem. Cian e você terão que aceitá-lo. Provavelmente deveríamos partir o antes possível.

Hoyt elevou uma mão e esteve a ponto de lhe tocar o cabelo, algo que tinha querido fazer desde o primeiro momento em que a viu. Mas a deixou cair.

—Partir?

—Não espera que fiquemos sentados em Nova Iorque, esperando que o exército venha por nós? O portal se encontra na Irlanda, e devemos supor que a batalha se lavrará nesse país, ou algum lugar místico próximo a ele. Necessitamos o portal, ou o necessitaremos em algum momento. Ou seja, devemos ir a Irlanda.

Ele a olhou enquanto Glenna carregava garrafas e frascos em uma caixa não muito diferente da sua.

—Sim, tem razão. É claro, tem razão. Devemos retornar. A viagem nos levará grande parte do tempo de que dispomos. OH, Deus, estarei doente como seis cães enquanto navegamos para casa.

Ela o olhou.

—Navegar? Não temos tempo para viajar no Queen Mary, querido. Iremos voando.

—Mas você disse que não voava.

—Posso fazê-lo dentro de um avião. Teremos que encontrar uma forma de conseguir um bilhete para você. Não tem nenhum documento que o identifique, tampouco tem passaporte. Podemos fazer um conjuro com o agente do controle de passaportes e também com o de alfândegas. —Fez um gesto com a mão—. Já resolverei.

—Um avião?

Glenna o olhou, logo se apoiou na bancada e pôs-se a rir até que lhe saltaram as lágrimas.

—Explicarei isso mais tarde.

—Não era minha intenção a divertir.

—Não, não era, mas foi divertido de qualquer modo. OH, merda. Não sei o que devo levar e que devo deixar. —Retrocedeu uns passos e passou as mãos pelo rosto—. É meu primeiro Apocalipse.

—As ervas, as flores e as raízes crescem, muito bem na Irlanda.

—Eu gosto das minhas. —Era algo estúpido e infantil, mas ainda assim... —. Levarei só aquilo que considere absolutamente essencial nesse aspecto, logo começarei pelos livros, a roupa e assim sucessivamente. Também terei que fazer algumas chamadas. Tenho alguns compromissos que devo cancelar.

Glenna fechou a caixa já carregada com certa relutância e a deixou sobre a bancada. Logo se dirigiu a um grande baú de madeira que havia no outro extremo da habitação e o abriu mediante um conjuro.

Curioso, Hoyt se aproximou para estudar o conteúdo do baú por cima do ombro de Glenna.

—Que guardas aí?

—Livros de feitiços, receitas, meus cristais mais poderosos. Alguns deles os herdei.

—Ah, então é uma bruxa hereditária.

—Assim é. A única de minha geração que pratica a bruxaria. Minha mãe o deixou quando se casou com meu pai. Não gostava. Meus avós me ensinaram.

—Como pôde renunciar ao que leva em seu interior?

—É uma pergunta que lhe fiz muitas vezes. —sentou-se sobre os calcanhares, tocando as coisas que podia levar e as que devia deixar—. Por amor. Meu pai queria levar uma vida singela, ela amava meu pai. Eu não poderia fazê-lo. Acredito que nunca poderia amar tanto para renunciar ao que sou. Eu necessitaria em troca que alguém me amasse o suficiente para me aceitar com o que vai comigo.

—Uma magia poderosa.

—Sim. —Extraiu uma bolsa de veludo—. Este é minha bota de cano longo. —De seu interior tirou a bola de cristal com a que ele a tinha visto em sua visão—. Está em minha família muito tempo. Mais de duzentos e cinqüenta anos. Quase nada para um homem de seus anos, mas uma carreira muito longa para mim.

—Uma magia poderosa - repetiu Hoyt, porque quando ela sustentou a bola em suas mãos, pôde ver que pulsava como se fosse um coração.

—Tem razão quanto a isso. —Olhou-o por cima da bola de cristal com olhos que se tornaram subitamente escuros—. E não é tempo de que usemos um pouco? Não é tempo de que façamos o que sabemos fazer, Hoyt? Ela sabe quem sou, onde estou e o que faço. É provável que saiba o mesmo a respeito de você, a respeito de Cian. Façamos um movimento. —Elevou a bola de cristal—. Averigüemos onde se oculta.

—Aqui e agora?

—Não me ocorre um melhor momento ou lugar. —levantou-se e assinalou com o queixo o tapete ricamente decorado no centro da habitação—.Enrola o tapete, quer?

—Está a ponto de dar é um passo muito perigoso. Deveríamos pensá-lo durante um momento.

—Podemos pensá-lo enquanto enrola o tapete. Tenho tudo o que necessito para fazer um conjuro no espelho, tudo o que necessitamos para nos proteger. Podemos cegá-la para que não nos veja enquanto nós olhamos.

Hoyt fez o que dizia e encontrou o pentágono pintado debaixo do tapete. Podia admitir que dar um passo, qualquer passo, era correto e estava bom. Mas ele teria preferido dar esse passo só.

—Não sabemos se ela pode ser cegada. Alimentou-se de sangue mágico e, provavelmente, mais de uma vez. É muito poderosa e muito matreira.

—Nós também. Está falando de entrar em batalha dentro de três meses. Quando pensa começar?

Hoyt a olhou e assentiu.

—Aqui e agora então.

Glenna colocou o cristal no centro da estrela de cinco pontas e tirou um par de folhas sagradas de seu peito. Colocou-as dentro do círculo e logo reuniu velas, uma tigela de prata e varinhas mágicas de cristal.

—Eu não necessito todas essas coisas.

—Bom para você, mas eu prefiro as utilizar. Trabalhemos juntos, Merlin.

Hoyt elevou uma das folhas de aço para estudar suas gravuras enquanto Glenna rodeava o pentágono com velas.

—Incomodaria-se se trabalhasse nua?

—Sim —respondeu ele sem levantar a vista.

—De acordo, pelo espírito do compromisso e o trabalho em equipe, deixarei a roupa posta. Mas me limita.

Glenna tirou a fita do cabelo, encheu a tigela de prata com água de um dos frascos e espaçou ervas sobre ela.

—Geralmente invoco as deusas quando risco o círculo, e me parece mais que apropriado neste caso. Parece-te bem?

—Bastante bem.

—É um autêntico falador, não é? Bem. Está preparado? —Quando Hoyt assentiu, ela se instalou na parte oposta a ele—. Deusas do este, o Oeste, o Norte e o Sul —começou a dizer, movendo-se ao redor do círculo enquanto falava—. Pedimos sua bênção. Invocamo-las para que sejam testemunhas deste círculo e o protejam, e a tudo o que há em seu interior.

—Poderes do Ar, da Água, do Fogo e a Terra - saúdo Hoyt—, viajem conosco agora, enquanto passamos entre os mundos.

—Noite e dia, dia e noite, convocamo-las a este rito sagrado. Riscamos este círculo três vezes. Assim o faremos, que assim seja.

Bruxas, pensou ele. Sempre com suas rimas. Mas sentiu que o ar se agitava e a água que havia na tigela se moveu enquanto as velas se acendiam.

—Deveríamos chamar Morrigan - disse Glenna—. Ela era a mensageira.

Hoyt começou a fazê-lo, depois decidiu que queria ver de que material parecia a bruxa.

—Este é seu lugar sagrado. Pede você a guia e feixe seu conjuro.

—De acordo. —Ela colocou a faca sagrada no chão e elevou as mãos com as palmas para cima—. Neste dia, à esta hora, convoco o poder sagrado de Morrigan a deusa e suplico que nos conceda sua graça e sua coragem. Em seu nome, Mãe, procuramos a visão, pedimos que nos guie para a luz.

Glenna se inclinou e levantou o cristal em suas mãos.

—Dentro desta bola tentamos encontrar à besta que persegue a toda humanidade, enquanto seus olhos permanecem cegos para nós. Aguça nossa visão, nossas mentes, nossos corações, para que se abram as nuvens que há dentro desta bola. Proteja-nos e nos mostre aquilo que desejamos ver. Como faremos nós, que assim seja.

A névoa e a luz giraram dentro da bola de cristal. Por um instante, Hoyt acreditou que podia ver mundos em seu interior. Cores, formas, movimentos. Ouviu seus próprios batimentos do coração, e os do coração de Glenna.

Ajoelhou-se quando ela o fez. E viu quão mesmo ela.

Um lugar escuro, um labirinto de túneis banhado por uma luz vermelha. Pensou que se ouviam os sons do mar, mas não podia estar seguro se estava ocorrendo dentro do cristal ou era só o rugido do poder dentro de sua cabeça.

Havia corpos ensangüentados, retorcidos e empilhados como se fossem lenha. E jaulas onde as pessoas choravam ou gritavam, ou simplesmente permaneciam sentadas, com o olhar morto. Havia coisas que se moviam dentro dos túneis, coisas escuras que mal agitavam o ar. Algumas subiam pelas paredes como insetos.

Ouvia-se uma risada horrível, chiados penetrantes e espantosos.

Viajou em companhia de Glenna através desses estranhos túneis onde o ar cheirava a morte e sangue. Para as profundidades da Terra, ali onde as paredes de pedra jorravam umidade e algo pior, até chegar a uma porta gravada com antigos símbolos de magia negra.

Ela dormia em uma cama própria de uma rainha, com quatro postes que sustentavam um dossel e lençóis que exibiam o brilho da seda e eram brancas como a neve, embora estivessem manchadas com pequenas gotas de sangue.

Seus peitos nus não estavam cobertos pelo lençol e a beleza de seu rosto e suas formas não tinha mudado nem um ápice da última vez que a tinha visto.

Junto a ela jazia o corpo de um menino. Tão jovem, pensou Hoyt com uma enorme tristeza. Não mais de dez anos, tão pálido na morte; com seu cabelo loiro caindo sobre a testa.

As velas agonizavam, projetando uma luz mortiça que tremulava sobre sua pele e a dela.

Hoyt colheu com força a folha de aço e a levantou por cima de sua cabeça.

Então os olhos dela se abriram e se cravaram nos seus. A mulher gritou, mas Hoyt não percebeu medo algum nesse grito. Junto a ela, o menino abriu os olhos, mostrou as presas e deu um salto para caminhar pelo teto, como se fosse um lagarto.

—Mais perto —cantarolou Lilith—. Se Aproxime, feiticeiro, e traz contigo a sua bruxa. Converterei-a em minha mascote uma vez que tenha tirado até sua última gota de sangue. Acaso acredita que pode me tocar?

Quando ela saltou fora da cama, Hoyt sentiu que saía projetado para trás, atravessando um ar tão frio que notou fragmentos de gelo em sua garganta.

Logo se encontrou sentado dentro do círculo, olhando os olhos de Glenna. Eram grandes e escuros. De seu nariz caíam gotas de sangue.

Glenna s tapou o nariz com um nódulo enquanto lutava por recuperar o fôlego.

—A primeira parte funcionou —disse—. A parte de que não nos visse não saiu muito bem, obviamente.

—Ela também tem poder. E não carece de destreza.

—Alguma vez sentiu algo assim? —perguntou ela.

—Não.

—Tampouco eu. —permitiu-se um intenso tremor—. Vamos necessitar um círculo maior.

 

                                           Capítulo 6

Antes de preparar a bagagem Glenna tomou seu tempo para limpar e ordenar todo o loft. Hoyt esteve de acordo. Ela não queria que ficasse nenhum rastro do que haviam tocado, nenhum eco, nenhum sedimento daquela escuridão em seu lar.

Finalmente, guardou os instrumentos e os livros no baú. Depois do que tinha visto, o que havia sentido, não pensava arriscar-se a escolher. Levava todo o lote, junto com seu estojo de viagem, a maior parte de seus cristais, alguns fornecimentos artísticos básicos, câmaras e duas malas.

Lançou um olhar ofegante ao cavalete que havia junto à janela e à pintura mal começada que descansava sobre ele. Se retornasse... não, corrigiu-se, quando retornasse, acabaria-a.

Permaneceu junto a Hoyt, estudando sua pilha de pertences enquanto ele também o fazia.

—Nenhum comentário? —perguntou—. Não há argumentos ou observações sarcásticas a respeito de como penso viajar com tudo isto?

—Com que fim?

—Uma atitude sábia. Agora devemos abordar a pequena questão dê tirar tudo isto daqui e levá-lo ao apartamento de seu irmão, na zona alta da cidade. Duvido que ele se mostre tão sábio como você. Mas o primeiro é o primeiro. —Brincou com seu colar enquanto pensava—. Acha que devemos levar tudo pessoalmente ou recorremos a um conjuro de transporte? Nunca tenho feito nada desta magnitude.

Hoyt a olhou imperturbável.

—Necessitaríamos três de seus táxis e a maior parte do que fica do dia para poder transportar todas estas coisas por nós mesmos.

De modo que também ele tinha estado considerando a situação.

—Visualiza o apartamento de Cian — ordenou—. O quarto onde passou a noite.

—De acordo.

—Se concentre. Encha sua mente com ele, os detalhes, a forma, a estrutura.

Ela assentiu e fechou os olhos.

—Estou fazendo.

Hoyt escolheu primeiro o baú, já que seria o objeto que albergava maior poder. Sua magia o ajudaria com sua tarefa. Caminhou a seu redor três vezes, logo inverteu o sentido e pronunciou as palavras ao mesmo tempo em que se abria ao poder.

Glenna lutou por concentrar-se no foco de sua atenção. Havia algo profundo e mais rico na voz do Hoyt, algo erótico na forma em que pronunciava esse idioma antigo. Sentiu na pele e em seu sangue o calor do que Hoyt estava agitando. Logo um súbito e sólido golpe de ar.

Quando abriu os olhos, o baú tinha desaparecido.

—Estou impressionada.

Embora, honestamente, o que estava era atônita. Ela era capaz, com um esforço e preparação consideráveis, de transportar objetos simples e pequenos a certa distância. Mas ele tinha feito desaparecer, eficaz e simplesmente, um baú que pesava mais de cem quilos.

Podia ver bem Hoyt, com as roupas agitadas pelo vento, no topo daquele escarpado da Irlanda do qual lhe tinha falado. Desafiando à tormenta, encarregando-se dela. E enfrentando algo ao qual nenhum homem deveria fazer frente, com fé e com magia.

Seu ventre se esticou de simples e absoluta luxúria.

—Era gaélica essa língua que falava?

—Irlandês —respondeu ele, tão obviamente distraído que ela não voltou a falar.

Hoyt voltou a caminhar em círculos ao redor das coisas de Glenna, agora junto às caixas que continham seu equipamento fotográfico e seu material artístico. Ela esteve a ponto de protestar e logo se recordou que devia ter fé. Apelando a esta, fechou novamente os olhos e visualizou o quarto de hospedes do apartamento de Cian. Ajudaria Hoyt tudo o que pudesse com seu próprio dom.

Levou quinze minutos completar uma tarefa que a ela, viu-se obrigada a reconhecer, teria levado horas; isso em caso de que sequer tivesse podido empreendê-la.

—Bom, isso foi... foi incrível.

A magia seguia nele, voltando opaco seu olhar, atravessando o ar entre eles. Glenna sentia que era como uma fita que os rodeava, unindo-os um ao outro. Sua excitação era tão intensa que teve que retroceder, rompendo de forma deliberada o vínculo que havia entre eles.

—Não pretendo ofender, mas está seguro de que minhas coisas estão onde as queremos?

Ele continuou olhando-a com aqueles olhos azuis e insondáveis, até que o calor que ela sentia no ventre foi tão forte que se perguntou se não faria brotar fogo das pontas de seus dedos.

Era quase demasiado, aquela pressão, aquela necessidade, o enlouquecido pulso de cada pulsado. Começou a retroceder outra vez, mas Hoyt elevou uma mão e fez que ficasse imóvel onde estava.

Glenna sentiu a atração, dele, fazia ele, com apenas possibilidade de resistir, de morder a correia e escapar. Permaneceu em troca onde estava, com os olhos fixos nos de Hoyt enquanto ele reduzia a distância que havia entre eles dando um só passo.

Logo nada foi fácil.

Hoyt a atraiu para ele de tal modo que ela expulsou o fôlego com um ofego, e esse ofego culminou em um gemido quando suas bocas se encontraram. O beijo, quente e embriagador atravessou sua cabeça, seu corpo, vaiando em seu sangue quando se aferrou ao homem.

As velas que tinha deixado na habitação se acenderam com uma chama viva.

Agressiva e ao mesmo tempo desesperada, Glenna afundou as mãos em seus ombros e se lançou de cabeça para a tormenta de sensações. Aquilo, aquilo era o que tinha estado desejando desde o primeiro momento em que o viu em seus sonhos.

Glenna sentiu as mãos dele em seu cabelo, em seu corpo, em seu rosto; e ali onde Hoyt a tocava estremecia. Agora não se tratava de um sonho, só de necessidade, calor e carne.

Hoyt não podia deter-se. Ela era como um festim depois do jejum, e o único que ele queria era saciar-se. Sua boca era suave e plena, e encaixava tão perfeitamente com a sua que era como se os deuses a tivessem formado com esse único propósito. O poder que tinha exercido havia retornado subitamente a ele, despertando um apetite impossível que lhe doía no ventre, na virilha, no coração, e que clamava ser satisfeito.

Algo ardia entre eles. Tinha-o sabido desde o primeiro instante, inclusive afligido de febre e dor, enquanto os lobos espreitavam além de sua fogueira. E o temia quase tanto como temia aquilo que estavam destinados a enfrentar juntos.

Hoyt a afastou, estremecido até os ossos. O que ambos tinham agitado ainda estava vivo no rosto de Glenna, entregue e tentador. Se ele o aceitava, se tomava, que preço ambos teriam que pagar por isso?

Sempre havia um preço.

—Peço desculpas. Eu... fiquei apanhado na cauda de um conjuro.

—Não se desculpe. É insultante.

“Mulheres”, foi tudo o que pôde pensar.

—E a tocar dessa maneira não o é?

—Se eu não tivesse querido que me tocasse dessa maneira, haveria-lhe dito isso, OH, não faça ilusões —acrescentou Glenna ao ver a expressão no rosto de Hoyt—. É possível que seja mais forte fisicamente, magicamente, mas eu posso controlar a mim mesma. E quando quiser uma desculpa, pedirei isso.

—Não posso encontrar meu equilíbrio neste lugar, ou contigo. —Agora a frustração brotava dele como antes o tinha feito a magia—. Eu não gosto, nem o que estou sentindo por você.

—Esse é seu problema. Só foi um beijo.

Hoyt a agarrou pelo braço antes que ela pudesse lhe dar as costas.

—Não acredito. Nem sequer neste mundo foi só um beijo. Você viu o que teremos que enfrentar. O desejo é uma debilidade que não podemos nos permitir. Todo nosso poder deve estar orientado para o que devemos fazer. Não penso arriscar sua vida ou o destino do mundo por uns poucos momentos de prazer.

—Posso assegurar que seriam mais que uns poucos, mas não tem nenhum sentido discutir com um homem que considera que o desejo é uma debilidade. Deixemos este assunto estacionado no momento e sigamos adiante.

—Não pretendo feri-la - começou a dizer Hoyt com certa tristeza e lhe dirigiu um olhar fulminante.

—Volta a se desculpar e se encontrará de trazeiro no chão. —Recolheu as chaves e a bolsa—. Quer apagar as velas? E saiamos daqui. Quero me assegurar de que minhas coisas chegaram sem problemas, e também devemos arrumar a questão dos vôos para Irlanda. Procurar a maneira de tirá-lo do país.

Glenna agarrou uns óculos de sol de uma mesa e os pôs. Grande parte da irritação desapareceu ao ver a expressão de desconcerto de Hoyt.

—Óculos de sol —explicou—. Reduzem o brilho do sol e, além disso, é uma manifestação de moda sexy.

Glenna abriu a porta, logo se voltou e passeou o olhar por seu loft, por suas coisas.

—Tenho que acreditar que retornarei a este lugar. Tenho que acreditar que voltarei a ver tudo isto.

Entrou no elevador e pulsou o botão do térreo, deixando atrás muito do que amava.

    

Quando Cian saiu de seu quarto, Glenna estava na cozinha preparando a comida. Ao retornar ao apartamento de seu irmão, Hoyt se tinha instalado no estúdio que havia junto à sala de estar, levando seus livros com ele. De vez em quando Glenna sentia algo que flutuava no ar e supunha que devia ser ele praticando algum conjuro.

Isso o mantinha afastado dela, mas não o mantinha fora de sua cabeça.

Glenna era muito cuidadosa com os homens. Desfrutava deles, sem dúvida, mas não se entregava de um modo imprudente. Que era exatamente o que tinha feito com Hoyt, e não podia negá-lo. Tinha sido pouco cautelosa, impulsiva e, pelo visto, tinha cometido um engano. E embora houvesse dito que só tinha sido um beijo, na realidade tinha sido um ato tão íntimo como Glenna nunca tinha experimentado.

Ele a desejava e disso não havia absolutamente nenhuma dúvida. Mas esse desejo não era algo que ele tivesse escolhido. E Glenna preferia ser escolhida.

O desejo não era uma debilidade, não em sua opinião... mas se era uma distração. Hoyt tinha razão quanto a que não podiam permitir-se distrações. Essa fortaleza de caráter e seu sólido bom senso era dois de seus traços mais atraentes. Mas considerando o sistema nervoso dela, eram também dois traços igualmente irritantes.

Assim, tinha decidido meter-se na cozinha e preparar a comida, porque isso era algo que a mantinha ocupada e a acalmava.

Quando Cian entrou, com aspecto limpo e descansado, ela estava picando verduras.

—Mi casa é, ao que parece, tu casa .

Ela seguiu picando as verduras.

—Entre outras coisas, trouxe alguns produtos perecíveis de minha casa. Não sei se você come.

Cian olhou com suspicacia as cenouras cruas e as verduras com folhas.

—Uma das vantagens de meu destino é que não tenho que comer verduras, como um bom menino. —Mas tinha percebido o aroma do que Glenna estava cozinhando e se aproximou para cheirar o molho de tomates e especiarias que bulia em um recipiente—. Por outra parte, isto tem uma aparência muito tentadora.

Inclinou-se sobre a bancada para observá-la enquanto trabalhava.

—E você também.

—Não esbanje comigo seu duvidoso encanto. Não estou interessada.

—Poderia fazer algo nesse sentido, embora só fosse irritar Hoyt. Poderia resultar divertido. Ele tenta não te olhar, mas fracassa estrepitosamente.

A mão de Glenna vacilou, logo voltou a baixar a faca com força.

—Estou segura de que finalmente terá êxito. É um homem muito decidido.

—Sempre foi, se a memória não me falha. Sóbrio e sério, e tão preso por seu dom como um rato em uma jaula.

—É assim como vê seu dom? —Glenna deixou a faca sobre a bancada e se voltou para ele—. Como uma armadilha? Não o é, nem para Hoyt nem para mim. É uma obrigação, sim, mas também uma alegria e um privilégio.

—Já veremos a alegria que sentirá quando se encontrar no caminho de Lilith.

—Já esteve ali. Em minha casa fizemos um conjuro com o espelho. Está escondida em uma caverna que tem um monte de túneis. Perto do mar, acredito. Não muito longe desses escarpados onde Hoyt se enfrentou com ela. Lilith nos deu uma boa sacudida. A próxima vez não será tão fácil.

—Os dois estão loucos. —Abriu sua pequena geladeira e tirou uma bolsa de sangue. Seu rosto ficou tenso ante o pequeno som que Glenna não pôde reprimir—. Terá que se acostumar a isto.

—Tem razão. Farei-o. —Observou-o enquanto vertia o conteúdo da bolsa em uma taça de cristal esculpido e logo o metia no micro-ondas para esquentá-lo. Essa vez não pôde reprimir uma risada—. Sinto muito. Mas é algo tão fodidamente estranho.

Estudou-a, obviamente não notou segundas intenções e relaxou

—Quer um pouco de vinho?

—Claro, obrigado - respondeu ela—. Temos que viajar a Irlanda.

—Isso me disseram.

—Não. Temos que fazê-lo agora. Logo que possamos arrumar as coisas. Eu tenho passaporte, mas temos que encontrar a maneira de tirar Hoyt do país e de que possa entrar em outro. E necessitaremos também um lugar onde possamos ficar e, bom, treinar, praticar.

—Iguais —murmurou Cian, servindo uma taça de vinho para ela—. Não é uma questão simples, sabe? Delegar minhas responsabilidades; sobre tudo tendo em conta que o homem em quem confio para que leve o clube que há no térreo está decidido a unir-se ao exército sagrado de Hoyt.

—Ah. Hoje passei grande parte do dia preparando a bagagem, transferindo meus muitos limitados recursos para poder pagar o aluguel de meu loft até outubro, cancelando entrevistas e passando a um sócio dois do que serão uns trabalhos muito lucrativos.

Cian retirou a taça de sangue do micro-ondas.

—E a que se dedica? O que são esses trabalhos tão lucrativos?

—Desenho de cartões de felicitação. Da variedade mística. E Pinto. Também faço um pouco de fotografia.

—É boa?

—Não, sou um desastre. É claro que sou boa. Obtenho dinheiro das fotos que faço nos casamentos. Logo me dedico à fotografia artística como uma atividade mais pessoal, e vendo algo ocasionalmente. Sou bastante regulável para poder me manter com meu trabalho. —Elevou sua taça de vinho—. O que me diz de você?

—Não poderia sobreviver outro milênio, de modo que partiremos esta noite.

—Esta noite? Mas isso é impossível...

—Adaptar-se —disse Cian simplesmente, e bebeu um gole.

—Devemos comprovar os vôos, comprar os bilhetes...

—Tenho meu próprio avião e licença de piloto.

—OH.

—Um bom piloto — assegurou-lhe. — Tenho várias décadas de horas de vôo, assim não deve preocupar-se por isso.

Vampiros que bebiam sangue em taças de cristal esculpido e possuíam aviões. Do que tinha que preocupar-se?

—Hoyt não tem nenhuma identificação, nem passaporte, nem documentos. Posso fazer um conjuro para que passe o controle de alfândegas, mas...

—Não é necessário.

Cian atravessou a cozinha, abriu um painel na parede que ela não tinha detectado, e deixou descoberta uma caixa forte.

Uma vez que a teve aberto, tirou dela uma pequena caixa de segurança, retornou junto à Glenna, deixou-a sobre a bancada e acionou a combinação.

—Hoyt pode escolher - disse Cian, e tirou da caixa meia dúzia de passaportes.

—Uau! —Glenna agarrou um dos passaportes, abriu-o e estudou a fotografia—. Resulta muito conveniente que sejam tão parecidos. A ausência de espelhos neste lugar me confirma que o que se diz a respeito de que os vampiros não se refletem neles é verdade. Não tem problemas em que o fotografem?

—Se experimentar usar comigo uma câmara de reflexão haverá um momento, quando intervier o espelho, em que se sentirá muito confusa. Uma vez disparado, o espelho desaparece... e ali estarei eu.

—Interessante. Trouxe minhas câmaras. Eu gostaria de fazer algumas fotos suas quando tivermos tempo para isso.

—Pensarei.

Glenna deixou o passaporte na caixa de segurança.

—Espero que seu avião tenha muito espaço de carga, porque tenho um monte de bagagem.

—Arrumaremos isso. Tenho que fazer algumas chamadas e preparar minhas malas.

—Espera, ainda nos falta um lugar onde nos alojar ali.

—Isso não será um problema - disse Cian enquanto abandonava a cozinha—. Tenho algo que nos virá muito bem.

Glenna suspirou e jogou uma olhada ao recipiente com o molho.

—Bom, ao menos primeiro desfrutaremos de uma boa comida.

    

Não era uma questão simples, nem sequer com o dinheiro e os contatos de Cian aplainando o caminho. Nesta ocasião, a bagagem e a carga deviam ser transportadas através dos meios convencionais. Glenna pôde ver como os três homens aos quais tinha unido seu destino procuravam alguma maneira de reduzir sua carga. Ela se encarregou de solucionar a questão com um firme: “Levo isso tudo...” e não se falou mais do assunto.

Não tinha nem idéia de que levava Cian na única mala ou nos dois grandes baús metálicos.

Não estava segura tampouco se queria sabê-lo.

Não era capaz de imaginar o aspecto que deviam ter para outros: dois homens altos e morenos, o enorme homem negro e a ruiva com suficiente bagagem para voltar a afundar o Titanic.

Ela desfrutava do privilégio de ser mulher e deixou nas mãos dos homens a tarefa de carregar as coisas no aeroplano, enquanto explorava o estilizado e elegantemente equipado avião particular de Cian.

Ele não temia gastar seu dinheiro, devia lhe reconhecer esse mérito. Os assentos eram de um azul profundo combinado com um couro cor manteiga, bastante generosos em suas dimensões para acomodar alguém do tamanho de King. Por sua parte, o tapete era bastante grosso para dormir sobre ele.

    

O avião contava com uma pequena e funcional sala de conferências, dois sofisticados banheiros e o que ela, a princípio, tomou por um acolhedor dormitório. Entretanto, ao ver que não tinha janelas nem espelhos e que contava com seu próprio meio banheiro se deu conta do que era: uma habitação para um vampiro.

Entrou na cozinha, aprovou-a e soube apreciar o fato de que Cian se encarregou de tê-la aprovisionada. Não passariam fome durante sua viagem a Europa.

Europa. Passeou um dedo por um dos assentos totalmente reclináveis. Sempre tinha pensado em viajar a Europa, em passar um mês ali. Pintando, tirando fotografias, explorando. Visitando lugares antigos, fazendo compras.

Agora ia viajar ali, e o faria muito por cima do nível de primeira classe, entretanto, não percorreria as colinas e os lugares sagrados, como tinha desejado.

“Bom, queria um pouco de aventura em sua vida —se recordou—. Agora já o tem.”

Fechou uma mão ao redor do colar que pendia de seu pescoço e rogou não só a força mas também a inteligência para sobreviver.

Quando os homens subiram ao avião, ela estava sentada em seu assento desfrutando de uma taça de champanha.

—Abri uma - disse a Cian—. Espero que não se importe. Pareceu-me o mais indicado.

—Sláinte - disse Cian e se dirigiu diretamente à cabine do piloto.

—Quer o tour de dois dólares? —perguntou- Glenna a Hoyt—. Quer dar uma olhada? —esclareceu-lhe—. Imagino que King já voou antes a bordo desta pequena beleza e a deve conhecer de cima abaixo.

—A seu lado, qualquer avião comercial é uma merda - respondeu King, e procurou uma cerveja em lugar do champanha—. O chefe sabe como dirigir este pássaro. —Disse a Hoyt com uma palmada no ombro—. Não tem que preocupar-se.

Como Hoyt parecia muito longe de estar convencido, Glenna ficou de pé e serviu outra taça de champanha.

—Aqui tem, bebe e relaxe. Passaremos aqui dentro toda a noite. Em um pássaro feito de metal e tecido - prosseguiu ela—. Uma máquina voadora. —Hoyt assentiu e, como tinha a taça na mão, bebeu o vinho espumoso—. É uma questão de ciência e mecânica.

Logo Hoyt se dedicou duas horas a ler a respeito da história e a tecnologia da aviação.

—Aerodinâmica.

—Exatamente. —King fez chocar a garrafa de cerveja contra a taça do Hoyt e logo contra a da Glenna—. Brindo por chutar alguns trazeiros.

—Parece como se o estivesse desejando. — comentou ela.

—Fodidamente certo. E quem não? Temos que salvar ao fodido mundo. O chefe esteve inquieto, eu estou inquieto. E isto é precisamente o que o médico me receitou como remédio.

—Não se preocupa que alguém possa morrer?

—Todo mundo morre. —Desviou o olhar para a cabine do piloto—. De uma maneira ou outra. Além disso, não é fácil acabar com um bode tão grande como eu.

Cian saiu da cabine.

—Meninos e garota, já podemos decolar. Agora terá que sentar-se e apertar os cintos.

—Vou contigo, capitão.

King seguiu Cian à cabine.

Glenna se sentou e sorriu a Hoyt enquanto dava umas palmadas no assento junto ao dele, disposta a tranqüilizá-lo em sua primeira viagem.

—Terá que prender o cinto de segurança. Deixa que o ensine como funciona.

—Sei como funciona. Tenho lido. —Estudou o broche metálico durante um momento e logo encaixou ambas as peças—. Para o caso de que haja turbulências. Bolsas de ar.

—Não parece muito assustado.

—Cheguei através de um portal no tempo — recordou-lhe, começou a brincar com o painel de comandos do assento, mostrando uma expressão divertida quando este se reclinava e voltava logo para sua posição original—. Acredito que desfrutarei. É uma maldita lástima que devamos ir sobre a água.

—OH, quase esquecia —disse Glenna, e colocando a mão na bolsa, tirou um frasco—. Bebe isto. O ajudará. Bebe —insistiu quando Hoyt franziu o cenho ao ver o pequeno frasco—. São ervas e alguns cristais em pó. Nada perigoso. Pode te ajudar com as náuseas.

A desconfiança era evidente em seu rosto, mas Hoyt bebeu a mescla de um gole.

—Tem uma mão generosa com o cravo-da-índia.

—Me agradecerá isso quando não tiver que usar a bolsa para vomitar.

Glenna ouviu o zumbido dos motores e sentiu a vibração debaixo dela.

—Espíritos da noite, nos concedam asas para iniciar este vôo. Mantenham-nos a salvo em suas mãos até que tenhamos posado em terra. —Olhou Hoyt—. Nunca está de mais.

Hoyt não sucumbiu, mas Glenna podia ver claramente que sua poção e sua vontade estavam liberando uma dura batalha para manter seu sistema estável. Preparou-lhe um pouco de chá, cobriu-o com sua manta e logo reclinou o assento e levantou o descanso para os pés.

—Tenta dormir um pouco.

Muito esgotado para discutir, Hoyt assentiu e fechou os olhos. Quando Glenna esteve segura de que estava cômodo, foi à cabine reunir-se com Cian e King.

Ouvia-se música. Nine Inch Nails, reconheceu o grupo. No assento do co-piloto, King tinha reclinado completamente o respaldo e roncava seguindo o ritmo da música. Glenna olhou através do pára-brisa e sentiu que o coração lhe dava um tombo.

Não se via nada mais que escuridão.

—Nunca tinha estado na cabine do piloto. A vista é incrível,

—Posso lhe jogar daqui se quiser se sentar um momento.

—Não. Estou bem. Seu irmão está tentando dormir um pouco. Não se sente muito bem.

—Hoyt estava acostumado a ficar verde quando cruzávamos o Shannon. Imagino que neste momento estará vomitando como um cão.

—Não, só tem náuseas. Dei-lhe algo para que bebesse quando decolamos e sua vontade de ferro aumenta o efeito. Necessita algo?

Cian voltou a vista para ela.

—Não é o anjo guardião dele?

—Estou muito cansada para dormir e muito intranqüila para me sentar, de modo que café, chá, leite?

—Não me importaria um pouco de café. Obrigado.

Glenna preparou uma pequena cafeteira e lhe levou uma xícara. Logo ficou de pé atrás dele, contemplando o céu noturno.

—Como era de pequeno?

—Como contei.

—Duvidou alguma vez de seu poder? Desejou alguma vez não ter recebido esse dom?

Era uma sensação estranha, ter uma mulher o interrogando a respeito de outro homem. Geralmente, se não estavam falando de si mesmos, perguntavam-lhe coisas sobre ele, tentando afastar o que alguma delas viam como uma cortina de mistério.

—Nunca me disse isso. E Hoyt o teria feito —disse Cian depois de um momento—. Estávamos muito unidos naquela época.

—Havia alguém, uma mulher, uma garota, para ele na Irlanda?

—Hoyt teve algumas garotas. É um feiticeiro, não um sacerdote. Mas nunca me falou de que houvesse nenhuma em especial. Nunca vi que olhasse a nenhuma dessas garotas como olha você. Eu te diria que tomasse cuidado, Glenna, mas os mortais são estúpidos quando se trata de amor.

—Eu diria que, se não for capaz de amar, não merece a pena lutar para enfrentar à morte. Lilith tinha um menino com ela. Hoyt lhe disse isso?

—Não, não o fez. Tem que entender que nisto não cabe nenhum sentimento, nenhuma ternura. Um menino é só uma presa fácil; e uma comida muito doce.

Glenna pensou que ia vomitar, mas conseguiu manter sua voz serena.

—Eu diria que esse menino teria uns oito ou dez anos - continuou—. Estava na cama com ela, nessas cavernas. Tinha-o transformado em algo igual a si mesmo. Fez esse menino como ela.

—E isso a emociona e a enfurece, bom, está bem então. A comoção e a fúria podem ser duas armas poderosas nas mãos adequadas. Mas recorda isto: se a encontrar com esse menino, ou com um como ele, deixa sua compaixão a um lado, porque a matará sem nenhum tipo de piedade a menos que você o mate primeiro.

Agora Glenna estudou Cian, aquele perfil tão parecido ao de seu irmão e, entretanto, tão completamente distinto. Queria lhe perguntar se alguma vez tinha transformado um menino em vampiro ou se alimentou dele. Mas tinha medo de sua resposta, e ela o necessitava.

—Poderia fazer algo assim; destruir um menino fosse o que fosse ao que pudesse ter-se transformado?

—Sem piedade e sem pensar. —Cian a olhou e ela soube que ele sabia a outra pergunta que lhe estava rondando a cabeça—. E se você não for capaz de fazer o mesmo, não é boa nem para nós nem para si mesma.

Glenna abandonou a cabine e retornou a seu assento para deitar-se junto a Hoyt. A conversa com Cian a tinha deixado gelada, de modo que se cobriu com sua manta até o pescoço e se aconchegou junto ao calor do corpo de Hoyt.

Quando finalmente dormiu, sonhou com meninos de cabelo muito loiros e presas manchadas de sangue.

Despertou sobressaltada e viu que Cian estava inclinado sobre ela. Um grito subiu até sua garganta até que se deu conta de que estava sacudindo Hoyt para que despertasse.

Jogou o cabelo para trás e passou os dedos pelo rosto para limpar-se um pouco. Os dois irmãos falavam em voz muito baixa e, conforme pôde comprovar em irlandês.

—Em inglês por favor. Não posso lhes seguir, especialmente com o sotaque.

Ambos voltaram para ela seus intensos olhos azuis, e Cian se ergueu ao mesmo tempo em que Glenna punha o respaldo de seu assento em posição vertical.

—Estou-lhe dizendo que fica aproximadamente uma hora de vôo.

—Quem está pilotando o avião?

—King tem se encarregado dos comandos no momento. Aterrissaremos ao amanhecer.

—Bem. Genial. —Mal pôde reprimir um bocejo—. Prepararei um café e o café da manhã de modo que... Ao amanhecer?

—Sim, ao amanhecer. Necessitarei uma boa capa de nuvens. A chuva seria um bem-vinda adicional. Pode fazê-lo? —perguntou a Hoyt—. Se não for assim, King se encarregará da aterrissagem. É capaz disso e eu passarei o resto do vôo e do dia na parte posterior do avião.

—Disse que podia fazê-lo e o farei —disse Hoyt.

—Podemos fazê-lo corrigiu Glenna.

—Bom, mas é importante que se apressem, de acordo? Chamusquei-me já um par de vezes e os asseguro que não é nada agradável.

—De nada - murmurou Glenna quando Cian partiu—. Procurarei algumas coisas em minha maleta de viagem.

—Eu não as necessito. —Hoyt fez a manta a um lado e se levantou—. Desta vez faremos a minha maneira. Depois de tudo é meu irmão.

—Que seja a sua maneira então. Como posso ajudar?

—Se concentre na visão em sua mente. Nuvens e chuva. Chuva e nuvens. —Recuperou seu cajado—. Quero que as veja, sinta-as, cheire-as. Densas e regulares, com o sol preso atrás de sua penumbra. Luz nebulosa, luz sem poder nem perigo. Olha-a, sinta-a, cheira-a.

Hoyt sustentou o cajado em ambas as mãos, separou as pernas para conseguir um maior equilíbrio, e depois o ergueu.

—Invoco a chuva, às negras nuvens que cobrem o céu. Invoca as nuvens, carregadas de chuva que cai do céu. Que forma redemoinhos e se aproxima e espessa se assenta.

Ela sentiu o conjuro sair girando dele, elevando-se para o ar. O avião estremeceu, corcoveou, tremeu, mas Hoyt permaneceu imóvel, como se estivesse ancorado em um chão de granito. Uma luz azul brotava da ponta de seu cajado.

Voltou-se para ela e assentiu.

—Isso deve bastar.

—Muito bem. Então irei preparar o café.

    

O avião aterrissou em meio de uma tênue escuridão enquanto a chuva caía como uma cortina cinza. Um tanto exagerado, na opinião de Glenna. Seria uma viagem espantosa do aeroporto até onde demônios fossem.

Desceu do avião e pisou em terra irlandesa. De repente sentiu. Uma conexão instantânea e surpreendente inclusive para ela. Teve a fugaz sensação da lembrança de uma granja; colinas verdes, cercas de pedra e uma casa Branca com roupa estendida em uma corda e agitada por um forte vento. Tinha um jardim diante com dálias grandes como pratos e lírios brancos.

Mas desapareceu quase tão depressa como tinha chegado. Perguntou-se se era sua lembrança de outro tempo, de outra vida, ou simplesmente uma chamada de seu sangue. A mãe de sua avó tinha nascido na Irlanda, em uma granja do condado de Kerry.

Ela tinha levado sua roupa de casa e sua melhor baixela - e sua magia aos Estados Unidos.

Glenna esperou que Hoyt descesse do avião. Para ele, esse seria sempre seu lar. Pôde vê-lo na satisfação desenhada em seu rosto. Já se tratasse de um aeroporto cheio de gente ou de um campo deserto, aquele era seu lugar no mundo. E uma parte, uma parte muito importante, agora o entendia, daquilo pelo que daria sua vida se com isso a salvava.

—Bem-vindo a casa.

—Não se parece em nada ao que era.

—Algumas parte se parecerão. —Agarrou-lhe a mão e a apertou brandamente—. Por certo, fez um bom trabalho com o tempo.

—Bom, isso ao menos me resulta familiar.

King desceu a seguir, molhado como uma foca. A chuva gotejava das grossas rastafaris de seu cabelo.

—Caín está se encarregando de que a maioria das coisas sejam transportadas no caminhão. Terão que agarrar agora o que necessitem ou possam levar. O resto estará a caminho em um par de horas.

—Aonde vamos? —perguntou Glenna.

—Caín tem uma casa aqui. —King deu de ombros— Ali é aonde vamos.

Tinham uma caminhonete mas, mesmo assim, foram um tanto apertados. E Glenna descobriu que era uma verdadeira aventura viajar sob a intensa chuva por caminhos molhados, muitos dos quais pareciam tão estreitos como o tronco de um salgueiro.

Viu sebes cobertas de fúcsias, e colinas cor esmeralda que se ondulavam para o céu cinza esvaído. Viu casas com flores no jardim dianteiro. Não como as que tinha visto em sua visão fugaz, mas bastante parecidas para fazê-la sorrir.

Havia algo naquele lugar que nunca lhe tinha pertencido. Agora possivelmente voltaria a lhe pertencer.

—Conheço este lugar —disse Hoyt——. Conheço esta terra.

—Vê? —Glenna lhe deu um tapinha na mão—. Sabia que parte disto resultaria conhecido.

—Não, este lugar, esta terra. —inclinou-se para frente para agarrar Cian pelo ombro—. Cian.

—Não incomode o condutor —ordenou Cian e afastou a mão de seu irmão antes de girar entre as sebes e continuar por uma estreita franja de terra que serpenteava através de um denso bosque.

—Deus! — exclamou Hoyt quase sem fôlego—. Deus bendito!

A casa era de pedra e se elevava sozinha entre as árvores, silenciosa como uma tumba. Velha e grande, com uma destacada torre e adornos deste modo de pedra. Em meio da penumbra cinza, a casa parecia deserta e como de outra época.

E, entretanto, havia um jardim na parte da frente, com rosas e lírios e dálias grandes como pratos. As dedaleiras subiam altas e habitavam entre as árvores.

—Ainda está aqui. —Hoyt falou com uma voz carregada de uma profunda emoção—. Sobreviveu. Ainda está em pé.

Glenna, entendendo agora o que estava ocorrendo, voltou a lhe apertar a mão.

—É seu lar.

—Que abandonei faz só uns dias. O lar do qual parti faz quase mil anos. Voltei para casa.

 

                                           Capítulo 7

Não era o mesmo. Os móveis, as cores, a luz, inclusive o som dos passos ao caminhar por seu interior tinham mudado. Reconheceu algumas peças: alguns candelabros e um baú. Mas não estavam nos mesmos lugares.

Alguém tinha colocado lenhas na lareira mas ainda não estavam acesos. E tampouco havia cães deitados no chão ou meneando caudas a modo de saudação.

Hoyt se moveu pelas distintas estadias como um fantasma. Talvez fosse precisamente isso. Tinha nascido naquela casa, e grande parte de sua vida se desenvolveu sob seu teto ou em seus campos. Ele tinha brincado ali, trabalhado ali, comido e dormido naquela casa.

Mas isso tinha sido no passado, fazia já centenas de anos. De modo que, possivelmente, em certo sentido, sua vida também tinha terminado ali.

Sua alegria inicial ao ver novamente a casa se desvaneceu sob o peso da tristeza por tudo aquilo que tinha perdido.

Então, debaixo de um cristal, em uma das paredes, viu uma das tapeçarias que tinha tecido sua mãe. Aproximou-se dele, tocou o cristal com as pontas dos dedos enquanto a lembrança de sua mãe chegou voando para ele. Seu rosto, sua voz, sua fragrância eram tão reais como o ar que o rodeava.

—Foi a última tapeçaria que ela teceu antes que...

—Eu morresse. —Cian acabou a frase—. A recordo. Topei com ela em um leilão. Isso e algumas outras coisas com o passar do tempo. Pude comprar a casa faz ao redor de quatrocentos anos, mais ou menos. E a maior parte das terras também.

—Mas você já não vive aqui.

—Fica um pouco longe e não resulta adequado para meu trabalho ou para meus prazeres. Tenho um administrador a quem dei umas pequenas férias até que ordene que retorne. E geralmente venho aqui uma vez ao ano.

Hoyt tirou a mão do cristal que cobria a tapeçaria e se voltou.

—Está mudada.

—A mudança é inevitável. A cozinha foi modernizada. Há encanamentos novos e eletricidade. Apesar de tudo, segue havendo correntes de ar. Os dormitórios do segundo andar estão mobiliados, de modo que podem escolher. Eu irei dormir um momento.

Deu uns passos e logo se voltou.

—OH, e podem fazer que afaste a chuva se quiserem. King, quer me dá uma mão para levar estas coisas acima?

—Claro. São umas habitações muito bonitas, se não importar um pouco de calafrios.

King carregou o baú com a mesma facilidade com que outro homem tivesse pego uma mala e subiu a escada.

—Está bem? —perguntou Glenna a Hoyt.

—Não sei o que sou. —Foi até a janela e afastou os pesados cortinados para contemplar o bosque banhado pela chuva—. É aqui, este lugar, as pedras que colocaram meus antepassados. Sinto-me agradecido por isso.

—Mas eles não estão aqui agora. A família que você deixou atrás. É muito duro o que está fazendo. Mais duro para você que para o resto de nós.

—Todos o compartilhamos.

—Eu deixei atrás meu loft. Você deixou sua vida.

Glenna se aproximou dele e o beijou na face. Tinha pensado em oferecer-se para preparar comida quente, mas compreendeu que o que Hoyt necessitava nesse momento era solidão.

—Vou subir, escolher um quarto, tomar banho e me colocar na cama.

Hoyt assentiu sem deixar de olhar através da janela. A chuva se adaptava bem a seu estado de ânimo, mas era melhor acabar com aquele conjuro. Inclusive depois de havê-lo feito, a chuva continuou caindo, mas agora em forma de fina garoa vaporosa. A névoa arrastava-se através do terreno e se enroscava ao redor das matas de roseiras.

Poderiam ser ainda as de sua mãe? Era muito improvável, mas depois de tudo eram rosas. Isso teria gostado. Perguntou-se se, de algum jeito, o fato de ter seus filhos novamente na casa, juntos, também a agradaria.

Como podia sabê-lo? Como jamais ia saber?

Acendeu os lenhos dispostos na lareira. O fogo fazia que a casa tivesse mais aspecto de lar. Decidiu não subir a um quarto para descansar, ainda não. Mais tarde, pensou, levaria suas coisas à torre. Converteria-a de novo em seu lugar. De momento se envolveu na capa e saiu da casa sob a fina chuva do verão.

Primeiro se dirigiu para o arroio, onde as empapadas dedaleiras balançavam suas pesadas campainhas e os lírios tinham um laranja intenso. Nola adorava as esgrimir como se fossem lanças de fogo. Na casa deveria haver flores, pensou. Teria que agarrar algumas antes que anoitecesse. Na casa sempre tinha havido flores.

Deu um amplo passeio aspirando a fragrância do ar úmido, das folhas molhadas, das rosas. Seu irmão mantinha o lugar bem cuidado; Hoyt não podia dizer nada nesse sentido. Viu que o estábulo ainda estava ali... Não era o mesmo, mas estava no mesmo lugar. Era maior que o anterior, com um saliente de um lado, onde havia uma grande porta.

Encontrou-a fechada com chave, de modo que a abriu valendo-se de um pensamento concentrado. A folha se abriu para fora revelando um chão de pedra e uma espécie de carro. Não era como os de Nova Iorque, advertiu. Não como o táxi ou a caminhonete em que tinham viajado do aeroporto. Aquele carro era negro e quase roçava o chão. No capô exibia uma brilhante pantera prateada. Passou as mãos pela máquina.

Desconcertava-lhe que naquele momento houvesse tantos tipos diferentes de carros. Tamanhos, formas e cores diferentes. Se um deles era cômodo e prático, para que necessitavam tantos distintos?

Ali havia também um banco de trabalho muito grande e todos os tipos de ferramentas de aspecto fascinante penduradas da parede ou colocadas nas gavetas de um grande baú metálico vermelho. Passou uns minutos as examinando e também a pilha de madeira que tinha sido escovada e cortada em compridos pedaços.

Ferramentas, pensou, madeira, máquinas, mas nada de vida. Não havia cavalariços nem cavalo, não havia gatos caçando ratos. Não havia nenhuma ninhada de cachorrinhos para que Nola brincasse com eles. Fechou a porta atrás dele ao sair e pôs-se a andar pelo flanco do estábulo.

Dirigiu-se ao abrigo onde se guardavam os arnês dos cavalos, confortado de algum jeito pelo aroma de óleo e couro. Podia ver que o lugar estava bem organizado, igual estava a quadra do carro. Passou as mãos sobre uma cadeira de montar, agachou-se para examiná-la e descobriu que não era tão distinta a que tinha usado em sua época.

Brincou com rédeas e bridas e, por um instante, sentiu falta da sua égua do mesmo modo que teria feito com uma amante.

Entrou por uma porta. O chão de pedra apresentava uma leve inclinação, com duas baias a um lado e uma ao outro. Menores das que havia antes na casa mas melhores, conforme pôde notar. A madeira era suave e escura. Podia cheirar o feno e o grão e...

Agora se moveu depressa sobre o chão de pedra.

Na última das três baias havia um garanhão negro como o carvão. Hoyt teve um baque no coração ao vê-lo. Depois de tudo, ainda havia cavalos, e aquele, conforme podia ver, era magnífico.

O animal golpeou o chão com o casco e jogou as orelhas para trás quando Hoyt abriu a porta da baia. Continuando, o homem levantou ambas as mãos e começou a cantar brandamente uma melodia irlandesa.

Como resposta, o cavalo chutou a parte traseira da baia e soprou a modo de advertência.

—Está bem, está bem. Quem poderia culpá-lo por se mostrar desconfiado com um desconhecido? Mas só estou aqui para admirá-lo, para contemplar sua formosa natureza, isso é tudo. Aqui me tem, por que não me cheira? Vejamos o que é que pensa. Ah, eu disse que cheirasse não que mordesse.

Com um sorriso, Hoyt retirou a mão enquanto o cavalo lhe mostrava os dentes.

Continuou falando brandamente e permaneceu muito quieto enquanto o animal exibia todo seu repertório de bufos e golpes com os cascos no chão. Hoyt decidiu que o suborno era a melhor solução e conjurou uma maçã.

Quando viu o interesse refletido nos olhos do cavalo, levantou a fruta e lhe deu uma boa dentada.

—Deliciosa. Quer um pouco?

Agora o cavalo se aproximou, farejou, soprou e acabou por agarrar a maçã com os dentes da mão de Hoyt. Enquanto a mastigava, permitiu que o acariciasse.

—Eu deixei um cavalo atrás. Uma boa égua que me tinha acompanhado durante oito anos. Chamei-a Áster, porque tinha a forma de uma estrela justo aqui - Apoiou os dedos sobre a testa do garanhão—.sinto falta dela. Sinto falta de tudo. Apesar de todas as maravilhas do mundo, é muito duro estar longe de tudo aquilo que conhece.

Depois de alguns minutos partiu da baia e fechou a porta atrás dele. A chuva tinha cessado, de modo que agora podia ouvir o murmúrio do arroio e o som das gotas que caíam ao chão das folhas das árvores.

Haveria fadas ainda no bosque? Perguntou-se. Brincando e conspirando e observando as debilidades do homem? Estava muito cansado mentalmente para sair para buscá-las. Muito cansado em seu coração para empreender o solitário caminho para onde sabia que devia estar enterrada sua família.

Retornou à casa, agarrou suas coisas e subiu pela sinuosa escada em direção à torre mais alta.

Uma pesada porta lhe impedia o passo, uma porta profusamente gravada com símbolos e palavras mágicas. Hoyt passou os dedos sobre a madeira esculpida, sentindo o calor e o zumbido. Quem quer que tivesse feito aquilo, sem dúvida tinha algum poder.

Bem, não pensava ficar fora de seu próprio quarto de trabalho. Pôs mãos à obra para desfazer o conjuro que mantinha a porta hermeticamente fechada e utilizou seu próprio sentido da imprecação e a ira para esquentá-la.

Aquele era seu lar. E jamais em sua vida tinha havido uma porta fechada com chave para ele.

—Que se abram os ferrolhos. —ordenou que—. É meu direito entrar neste lugar. É minha vontade que se rompa este conjuro.

A porta se abriu de par em par acompanhada por uma rajada de vento. Hoyt entrou junto com seu ressentimento, deixando que a porta se fechasse violentamente a suas costas.

A habitação estava vazia, salvo pela presença de pó e teias de aranha. E fria também, pensou. Fria e rançosa, e sem que se usasse em anos. Em outro tempo, essa habitação tinha contido a fragrância de suas ervas e a cera das velas, o calor de seu próprio poder.

Ao menos voltaria a ter isso, tudo voltaria a ser tal como o tinha sido. Havia muito trabalho que fazer e era ali onde tinha intenções de levá-lo a cabo.

De modo que limpou a lareira e acendeu o fogo. Subiu do térreo tudo o que necessitava: uma mesa, cadeiras. Na torre não havia eletricidade e isso o agradou. Ele criaria sua própria luz.

Colocou velas, tocou seus pavios para acendê-las. Sob sua tênue luz dispôs seus instrumentos e equipamento.

Com o coração e a mente sossegados pela primeira vez em muitos dias, estendeu-se no chão, diante do fogo, enrolou a capa a modo de travesseiro, apoiou a cabeça nela e adormeceu.

Sonhou.

Hoyt estava com Morrigan no topo de uma elevada colina. O terreno descendia em pronunciados desníveis, ondulações cortados com abismos sombrios espreitados pelo mecha distante de uma cadeia de montanhas escuras. A erva era grossa e estava salpicada de rochas. Algumas se elevavam como lanças, outras sobressaíam em forma de estratos cinza, plainas como mesas gigantes. O terreno subia e baixava e voltava a subir para as montanhas, onde a névoa se afundava em profundas cavidades.

Podia ouvir vaias em meio da névoa, a respiração ofegante de algo mais velho que o tempo. Naquele lugar flutuava a ira. Uma selvagem violência esperando manifestar-se.

Mas no momento, até onde alcançava a vista, nada agitava a terra.

—Este é seu campo de batalha — disse Morrigan—. Sua última posição. Haverá outros antes que chegue aqui. Mas é aqui aonde a atrairá a ela e a enfrentará com todos os mundos nesse dia.

—O que é este lugar?

—É o Vale do Silêncio, nas montanhas da Névoa, no Mundo do Geall. Sangue será derramado neste lugar, sangue do demônio e sangue humano. O que cresça depois aqui virá determinado pelo que você faça e quem esteja contigo. Mas não deve ficar nesta terra até o momento da batalha.

—Como farei para retornar outra vez aqui?

—Ensinarão a fazê-lo.

—Só somos quatro.

—Vêm mais. Agora deve dormir, porque quando despertar, deverá agir.

Enquanto ele dormia, a névoa se dissipou. Viu que nesse mesmo terreno elevado havia uma donzela. Era magra e jovem, com o cabelo castanho solto sobre os ombros, como correspondia a uma donzela. Levava uma vestimenta de rigoroso luto e seus olhos mostravam estragos do pranto.

Mas agora esses olhos estavam secos e cravados naquela terra desolada, como o tinham estado os seus. A deusa falou, mas suas palavras não eram para ele.

Seu nome era Moira e sua terra era Geall. Sua terra, seu coração e sua obrigação. Aquela terra tinha permanecido em paz desde que os deuses a tinham criado e os de seu próprio sangue tinham protegido essa paz. Agora, ela sabia, a paz se romperia, do mesmo modo em que estava quebrado seu coração.

Tinha enterrado sua mãe aquela mesma manhã.

—Eles a mataram como se fosse um cordeiro jovem.

—Conheço sua pena, filha.

Seus olhos inchados lançaram um duro olhar através da chuva.

—Sofrem os deuses, minha Senhora?

—Não fez mal a ninguém em sua vida. Que tipo de morte é essa para alguém que era tão bom, tão generoso? —Moira elevou as mãos, umas mãos que nunca havia sentido tão pequenas e vazias—. Mais sabedoria e astúcia? As que tenho não são suficientes.

—Foi-te concedido tudo o que necessita. Usa-o, aperfeiçoa-o. Há outros e a estão esperando. Deve partir agora, hoje.

—Partir? —Moira se voltou assombrada para olhar à deusa—. Meu povo perdeu sua rainha. Como posso os deixar e como pode me pedir isso? Terá que passar a prova; os próprios deuses assim o decidiram. Embora não seja eu quem deve ocupar o lugar de minha mãe, tomar a espada e a coroa, mesmo assim devo ficar aqui para ajudar a quem o faça.

—Ajudará partindo, e isso é o que querem os deuses. Este é seu dever, Moira de Geall. Partir deste mundo para podê-lo salvar.

—Fará que deixe meu lar, minha gente, em um dia como este? As flores ainda não se murcharam sobre a tumba de minha mãe.

—Crê que sua mãe quereria que ficasse chorando por ela e olhando como seu povo morre?

—Não.

—Deve partir, você e aquela pessoa em quem mais confie. Devem viajar até o Baile dos Deuses. Uma vez ali, entregarei-te uma chave, e essa chave a levará aonde tenha que ir. Encontra aos outros, forma seu exército. E quando retornar aqui, a esta terra, pelo Samhain, então lutará.

Lutar, pensou ela. A ela jamais tinham convocado para uma briga, só tinha conhecido a paz.

—Minha Senhora, não sou necessária aqui?

—Será. Agora te digo que deve partir ali onde a necessitam já. Se ficar, está perdida. E sua terra estará perdida, como estarão os mundos. Este é o destino reservado para você desde antes que nascesse. É a razão de que esteja aqui. Mas deve partir imediatamente. Depressa. Eles só esperam o crepúsculo.

A tumba de sua mãe estava ali, pensou Moira com desespero. Sua vida estava ali, e tudo o que conhecia.

—Estou de luto. Só uns dias mais, Senhora, suplico-lhe isso.

—Se ficar um só dia mais, isto é o que ocorrerá a seu povo, a sua terra.

Morrigan agitou um braço dissipando a névoa. Atrás dela se estendia a negra noite, onde só se via o feixe prateado da luz da lua fria. Os gritos atravessavam o ar. E logo se distinguiu fumaça e o resplendor alaranjado das chamas.

Moira viu o povo que dominava desde seu lar. As lojas e as cabanas estavam ardendo e esses gritos eram os que proferiam seus amigos, seus vizinhos. Homens e mulheres feitos pedaços, meninos que eram devorados por essas coisas horríveis que levaram sua mãe.

Viu como seu tio lutava contra eles, lançando estocadas com sua espada enquanto o sangue manchava seu rosto e suas mãos. Mas aquelas criaturas com presas e os olhos de um vermelho selvagem saltaram sobre ele das alturas, de baixo. Caíram sobre ele de todos os lados lançando alaridos que lhe gelaram os ossos. E enquanto o sangue regava a terra, uma mulher de grande beleza planava sobre a cena. Levava um vestido vermelho de seda, apertado ao corpo e adornado com jóias. Seu cabelo estava solto e caía dourado como a luz do sol sobre seus ombros brancos.

Nos braços sustentava um bebê ainda envolto em fraldas.

Enquanto o massacre continuava a seu redor, essa coisa de esplêndida beleza descobriu suas presas e as afundou no pescoço do bebê.

—Não!

—Mantém sua pena e sua ira aqui, e isto é o que ocorrerá. —A fúria gelada que cobria a voz de Morrigan atravessou o terror de Moira—. Tudo o que conhece será destruído, arrasado, devorado.

—O que são esses demônios? Que inferno os deixou soltos sobre nós?

—Aprende. Toma o que tem, o que é e busca seu destino. A batalha chegará. Deve se armar.

Despertou junto à tumba de sua mãe, tremendo pelos horrores que acabava de desprezar. Sentia o coração tão pesado como as pedras que tinha utilizado para assinalar a tumba.

—Não pude te salvar. Como poderia salvar alguém? Como posso impedir que essa coisa chegue até aqui?

Abandonar tudo o que tinha conhecido alguma vez, tudo o que tinha amado. Era muito fácil para os deuses falar do destino, pensou ela enquanto se obrigava a levantar-se. Olhou por cima das tumbas para as verdes e tranqüilas colinas, para a faixa azul do rio. O sol estava alto e brilhava com força, alagando de luz seu mundo. Ouviu o canto de uma cotovia e o distante mugido do gado.

Os deuses tinham sorrido aquela terra durante centenas de anos. Agora teria que pagar um preço, um preço de guerra, sangue e morte. E era seu dever pagá-lo.

—Sentirei falta de você todos os dias —disse em voz alta, e logo desviou o olhar por volta da tumba de seu pai—. Mas agora estão juntos. Farei o que devo fazer para proteger Geall. Porque sou quão único fica de vós. Juro aqui, neste chão sagrado ante aqueles que me deram a vida. Irei encontrar-me com desconhecidos em um mundo desconhecido, e entregarei minha vida se for minha vida o que pedem. É tudo o que posso oferecer agora.

Recolheu as flores que havia trazido com ela e as repartiu sobre ambas as tumbas.

—Me ajudem - implorou. Logo partiu.

Ele a estava esperando junto ao muro de pedra. Ela sabia que ele sofria sua própria aflição, mas lhe tinha dado o tempo que ela necessitava a sós. Era a pessoa em quem mais confiava. O filho do irmão de sua mãe, o filho daquele tio que ela tinha visto morrer em sua visão.

Ele se levantou agilmente quando ela se aproximou e simplesmente abriu os braços. Moira apoiou a cabeça em seu peito.

—Larkin.

— Os perseguiremos. Os encontraremos e acabaremos com eles. Aonde quer que estejam.

—Sei o que são essas criaturas e as encontraremos, as mataremos. Mas não aqui. Não agora. —separou-se dele—. Morrigan me visitou e me disse o que devia fazer.

—Morrigan?

Ao ver a expressão de cepticismo em seu rosto, ela esboçou um leve sorriso.

—Nunca chegarei a entender como alguém com suas habilidades pode duvidar dos deuses. —Elevou uma mão e lhe acariciou as faces —. Mas confiará em mim?

Ele agarrou seu rosto entre suas mãos e a beijou na testa.

—Sabe que o farei.

Quando Moira lhe contou o que a deusa havia dito, a expressão dele voltou a mudar. Sentou-se no chão e passou uma mão por seu arbusto de cabelo leonado. Tinha invejado seu cabelo desde que tinha memória, lamentando que a ela fosse concedida só uma cabeleira de castanho vulgar. Seus olhos também eram leonados, dourados, tinha pensado ela sempre, enquanto que os seus eram cinza como a chuva.

Larkin tinha sido dotado de uma maior estatura, além de outras coisas que ela também invejava.

Quando terminou de lhe explicar o que tinha acontecido, deixou escapar um suspiro com uma longa exalação.

—Virá comigo?

—Dificilmente poderia deixar que partisse sozinha. —Suas mãos se fecharam sobre a dela—. Moira, como pode estar segura de que essa visão não foi simplesmente um produto de sua dor?

—Sei. Só posso dizer que sei que o que vi era real. Mas se não for nada mais que dor, unicamente teremos desperdiçado o tempo que nos levará chegar até o Baile. Larkin, tenho que tentar.

—Então tentaremos juntos.

—Não diremos a ninguém.

—Moira...

—Me escute bem. —Lhe agarrou as mãos com um gesto peremptório—. Seu pai faria todo o possível para nos deter. Ou para nos acompanhar, em caso de que acreditasse em minhas palavras. Este não é o caminho, não é meu destino. Só um; isso me disse a deusa. Devia levar só um, aquele em quem eu mais confiasse. E esse só pode ser você. O deixaremos por escrito. Enquanto estejamos fora, ele governará Geall e o protegerá.

—Levará a espada... —começou a dizer Larkin.

—Não. A espada não deve abandonar este lugar. Esse foi um juramento sagrado e não serei eu quem o rompa. A espada ficará aqui até minha volta. Não ocuparei meu lugar até que possa elevá-la, e não a laçarei até que não tenha ganhado meu lugar. Há outras espadas. “Deve se armar”, disse-me ela, de modo que você deve fazer o mesmo. Se reúna comigo dentro de uma hora. Recorda, não deve dizer a ninguém.

Agora lhe apertou as mãos.

—Jura-me isso pelo sangue que compartilhamos. Pela perda que compartilhamos.

Como podia negar-lhe quando as lágrimas ainda estavam úmidas em suas faces?

—Juro. Não o direi a ninguém. —Esfregou-lhe ligeiramente os braços em um gesto de consolo—. Em qualquer caso, arrumado que estaremos de retorno para o jantar.

Moira se dirigiu velozmente a sua casa através do campo e colina acima, até o castelo onde sua linhagem tinha reinado sobre aquelas terras desde que foram criadas. Aqueles junto aos que passava inclinavam a cabeça para mostrar compaixão, e ela pôde ver as lágrimas que brilhavam nos rostos curtidos.

E sabia que quando essas lágrimas se secassem, muitos deles voltariam seu olhar para ela em busca de guia, de respostas. Muitos se perguntariam como governaria.

Ela também o fazia.

Cruzou o grande salão do castelo. Agora não havia risadas, tampouco soava música. Elevando as pesadas saias de seu vestido, subiu a escada que levava a seus aposentos.

Ali havia mulheres, tecendo, atendendo as crianças, falando em voz muito baixa de modo que pareciam pombas arrulhando.

Moira passou silenciosamente junto a elas e entrou em sua habitação. Trocou o vestido por roupa de montar e atou as botas. Não estava bem tirar tão cedo sua roupa de luto, tão facilmente, mas viajaria mais de pressa com a túnica e as botas. Recolheu o cabelo em uma trança e começou a preparar a bagagem para a viagem.

Não necessitaria mais do que pudesse carregar à costas, decidiu. Consideraria essa viagem como uma caçada, nisso, ao menos, tinha certo talento. De modo que tirou seu arco, a aljava com as flechas e uma espada curta e deixou tudo em cima da cama enquanto se sentava a escrever uma mensagem para seu tio.

Como diria a um homem que tinha sido como um pai para ela durante tantos anos que levava seu filho a lavrar uma batalha que não entendia, a lutar contra algo que era impossível conceber, em companhia de homens que não conhecia?

A vontade dos deuses, pensou ela, a boca tensa enquanto escrevia. Não estava segura se estava seguindo isso ou simplesmente sua própria ira. Mas iria de todos os modos.

    

     Devo fazê-lo - continuou com prudência—. Rogo-te que me perdoe por isso, e quero que saiba que vou só pelo bem de Geall. Peço-te que se não retornar para o Samhain, eleve a espada e governe em meu lugar. Quero que saiba que parto por ti, por Geall; e juro pelo sangue de minha mãe que lutarei até a morte para defender e proteger tudo aquilo que amo.

     Agora o deixo em suas mãos.

    

Dobrou a carta, esquentou a cera e a selou.

Prendeu a espada e pendurou o arco e a aljava do ombro. Uma das mulheres se aproximou apressadamente a ela quando saiu da habitação.

—Minha Senhora!

—Quero sair a cavalgar sozinha.

Sua voz era tão cortante, sua atitude tão decidida, que só ouviu um ofego de assombro a suas costas quando se afastou pelo corredor.

Sentia um tremor no ventre, mas não se deteve. Quando chegou ao estábulo, disse-lhe ao cavalariço que se afastasse e selou ela mesma seu cavalo. Logo se voltou para o menino, seu rosto tenro e suave coberto de sardas.

—Quando se ocultar o sol deve ficar dentro de casa. Esta noite e todas as noites até que eu diga. Entendeste-me?

—Sim, minha senhora.

Ela fez dar meia volta ao cavalo, esporeou-o ligeiramente os flancos e se afastou a galope curto.

Não voltaria a vista atrás, pensou Moira. Não voltaria a vista atrás para contemplar seu lar, mas sim olharia para frente.

Larkin a estava esperando, sentado em sua sela enquanto seu cavalo mordiscava a erva.

—Sinto muito, levou-me tempo.

—Às mulheres sempre levam mais tempo.

—É muito o que estou te pedindo, Larkin. E se nunca retornamos?

Ele esporeou seu cavalo e se colocou junto a ela.

—Uma vez que não acredito que vamos a nenhuma parte, não estou preocupado. —Olhou-a com um sorriso tranqüilizador—. Só estou sendo complacente contigo.

—Não sentiria mais que alívio se tudo isto não fosse mais que isso.

Mas uma vez mais insistiu a seu cavalo que galopasse. O que fosse que lhes estivesse esperando, queria conhecê-lo quanto antes.

Larkin emparelhou com ela enquanto cavalgavam, como o tinham feito tantas vezes antes, através das colinas que brilhavam sob os raios de sol. Os ranúnculos salpicavam os campos de amarelo e proporcionavam às mariposas uma razão para dançar no ar, Moira viu como um falcão descrevia círculos no alto do céu e parte de seu abatimento deixou de pesar sobre seus ombros.

Sua mãe adorava observar o vôo do falcão. Dizia que era o pai da Moira, que as vigiava enquanto voava livre pelo céu. Agora rezou para que sua mãe também pudesse voar livre.

O falcão descreveu um círculo por cima do anel de pedras e lançou seu grito.

Os nervos fizeram que se sentisse intranqüila e tragou com dificuldade.

—Bem, já chegamos. —Larkin jogou o cabelo para trás—. O que sugere?

—Tem frio? Sente o frio?

—Não. Faz calor. O sol se faz sentir hoje com força.

—Algo está nos vigiando. —Ela estremeceu enquanto desmontava—. Algo frio.

—Aqui só estamos nós.

Mas quando Larkin saltou a terra de sua montaria, levou a mão ao punho da espada.

—Nos vê. —disse ela. Ouvia vozes em sua cabeça, murmúrios e sussurros. Como se estivesse em transe, Moira agarrou seu alforje da sela—. Agarra o que precise. Vêem comigo.

—Moira, está agindo de um modo muito estranho.

Larkin suspirou e agarrou seu próprio alforje, carregando-o sobre o ombro enquanto se apressava para alcançar Moira.

—Moira... seus olhos.

Ela os voltou para ele. Estavam quase negros e eram insondáveis. E quando abriu a mão, nela havia uma varinha de cristal.

—Estou unida, igual a você, a isto. Você é meu sangue.

Tirou sua espada, fez-se um corte na mão e a aproximou da de Larkin.

—Isso são tolices.

Entretanto, estendeu a mão e permitiu que lhe fizesse um pequeno corte na palma.

Moira embainhou a espada e uniu sua mão ensangüentada com a dele.

—O sangue é vida e o sangue é morte - disse—. E aqui abre o caminho.

Com sua mão obstinada a dele, Moira entrou no círculo de pedras.

—Os mundos esperam - começou, entoando as palavras que giravam dentro de sua cabeça—. O tempo flui. Os deuses vigiam. Repete as palavras comigo.

A mão de Moira pulsava dentro da de Larkin enquanto ambos repetiam as palavras.

O vento formou redemoinhos, agitando as altas ervas, levantando seus mantos. Larkin, instintivamente, rodeou Moira com seu braço livre, apertando-a contra ele enquanto colocava seu corpo a modo de escudo para protegê-la. Produziu-se um relâmpago de luz que os cegou.

Ela se colheu com força de sua mão e sentiu que o mundo dava voltas a seu redor.

Logo a escuridão. Erva Úmida, ar nebuloso.

Ambos permaneceram imóveis dentro do círculo de pedras, nessa mesma colina. Mas não era a mesma, conforme descobriu Moira. O bosque que se estendia mais à frente não era o mesmo.

—Os cavalos desapareceram.

Ela negou com a cabeça.

—Não. Somos nós que desaparecemos.

Larkin elevou a vista. Pôde ver a lua que deslizava atrás das nuvens. O vento minguante era bastante frio para senti-lo nos ossos.

—É de noite. Mal era meio-dia e agora é de noite. Onde demônios estamos?

—Onde devemos estar, isso é quão único sei. Temos que encontrar os outros.

Ele estava confuso e intranqüilo. E reconhecia que não tinha pensado além daquele momento. Mas isso se acabou, porque agora só tinha uma obrigação: proteger sua prima.

—O que vamos fazer será procurar um refúgio e esperar que amanheça.

Lançou-lhe o alforje e logo começou a sair do círculo de pedras. Enquanto o fazia começou a se transformar.

A forma de seu corpo, os tendões, os ossos. Pêlo em lugar de pele, leonado como seu cabelo, mas crina em lugar de cabelo. Agora havia um cavalo onde antes havia um homem.

—Bom, suponho que assim será mais rápido. —Ignorando o nó que tinha no estômago, Moira montou—. Cavalgaremos em direção para onde estaria nosso lar. Acredito que isso é o mais razoável... se é que algo de tudo isto tem sentido. Será melhor não galopar, se por acaso o caminho é diferente de que conhecemos.

Afastaram-se a trote, enquanto ela examinava as árvores e as colinas iluminadas pela luz da lua. Era uma paisagem quase idêntica, pensou, mas com sutis diferenças.

Havia um grande carvalho onde antes não tinha havido nenhum, e o murmúrio de um manancial na direção equivocada. O caminho tampouco era o mesmo. Fez que Larkin se separasse dele e se dirigisse em direção onde estaria seu lar se aquele fosse seu mundo.

Voltaram-se entre as árvores, escolhendo agora o caminho com muito cuidado, seguindo seu instinto e um atalho acidentado.

Ele se deteve, elevou a cabeça como se cheirasse o ar. Seu corpo se esticou debaixo de Moira enquanto girava. Ela sentiu que os músculos dele se inchavam.

—O que ocorre? O que é o que...?

Ele saiu a galope rapidamente, arriscando-se a se chocar contra os ramos baixos e as rochas ocultas enquanto o fazia. Moira, sabendo só que ele tinha pressentido o perigo que os espreitava, inclinou o corpo e se aferrou a sua crina. O que fosse chegou como um relâmpago, voando entre as árvores como se tivesse asas. Ela não teve tempo de gritar, tempo de tirar a espada curta antes que Larkin se elevasse e golpeasse a aquela coisa com os cascos.

A coisa lançou um grito e caiu em meio da escuridão.

Moira ia dizer-lhe que reatasse o galope, mas ele já a estava desmontando, recuperando de novo sua forma humana. Colocaram-se costas contra costas, com as espadas nas mãos.

—O círculo - sussurrou ela—. Se pudéssemos retornar ao círculo.

Ele negou com a cabeça.

—Cortaram-nos a retirada — respondeu—. Estamos cercados.

Agora se aproximavam lentamente, escorrendo-se furtivamente entre as sombras. Cinco, não seis, contou Moira enquanto o sangue lhe gelava nas veias. Suas presas brilhavam sob a trêmula luz da lua.

—Fica junto a mim —disse Larkin—. Não permita que a afastem de mim.

Uma daquelas coisas pôs-se a rir, um som que era horrivelmente humano.

—Percorreram um comprido caminho para morrer.

E saltou.

 

                                         Capítulo 8

Glenna estava muito intranqüila para dormir, e vagava pela casa. Era bastante grande, supôs, para alojar todo um exército e, sem dúvida, suficiente para albergar a quatro relativos desconhecidos com conforto e certo grau de intimidade. Os tetos eram altos —embelezados com magníficas molduras de gesso— e havia escadas que se curvavam ou subiam em forma de caracol para outros aposentos. Alguns desses aposentos eram pequenos como celas, outros espaçosos, e estavam bem ventilados.

Os candelabros pendentes eram de ferro, trabalhados com um estilo intrincado e destro que se orientava para o gótico. Combinavam com a casa muito mais que qualquer objeto contemporâneo, ou até mesmo que a elegância do cristal.

Fascinada pelo que a rodeava, retornou em busca de uma de suas câmaras. Enquanto percorria a casa, ia fazendo pausas conforme ditava seu ânimo, enquadrando no visor uma parte de teto ou um abajur. Dedicou trinta minutos só aos dragões esculpidos no mármore negro da lareira que havia no salão principal.

Feiticeiros, vampiros, guerreiros. Dragões de mármore e casas antigas e isoladas em bosques densos e profundos. Uma grande quantidade de motivos para sua arte, pensou. Quando retornasse a Nova Iorque poderia incrementar notavelmente seus ganhos.

Terei que pensar positivo.

Cian devia ter dedicado um monte de tempo e dinheiro a modernizar, decorar e mobiliar novamente a casa, pensou. Mas Cian dispunha de ambas as coisas em grandes quantidades. Cores vivas, tecidos ricos, formosas antiguidades conferiam à casa uma atmosfera de luxo e estilo. E sim, pensou também, a casa se limitava a permanecer ali, ano após ano; vazia e com seus antigos ecos reverberando entre suas paredes.

Uma pena, realmente. Um desperdício de beleza e história. Ela detestava o desperdício.

Não obstante, era uma verdadeira sorte que Cian tivesse essa casa. Sua localização, seu tamanho e, supôs Glenna, sua história, convertiam-na em uma base de operações perfeita.

Encontrou a biblioteca e assentiu com aprovação. Ali havia três altas estantes que se elevavam até o teto, onde outro dragão —nesta ocasião de vidro de cores— lançava fogo e luz.

Havia candelabros mais altos que um homem e abajures profusamente trabalhados. Não duvidou nem por um instante que os tapetes orientais, do tamanho de um lago, fossem autênticos e que, possivelmente, teriam centenas de anos.

Aquela casa não era só uma boa base de operações, refletiu, e sim uma base extremamente confortável e acolhedora. Com sua imensa mesa de biblioteca, macias poltronas e a enorme lareira, considerou que aquele era um perfeito gabinete de trabalho.

Concedeu-se o prazer de acender a lenha na lareira e os abajures para dissipar a penumbra do dia cinza. Logo dispôs pela habitação os cristais, livros e velas que havia trazido com ela.

Embora também tivesse gostado de incluir algumas flores, era um começo. Sem no entanto necessitar mais. A vida não se limitava somente ao estilo, a sorte ou a magia.

—O que faz ruiva?

Glenna se voltou. King ocupava todo o vão da porta.

—Suponho que poderíamos chamar de preparar o ninho.

—Pois é um pedaço de ninho.

—Eu estava pensando o mesmo. E me alegra que esteja aqui. É justo o homem que necessito.

—Você e todas as mulheres. O que tem em mente?

—Coisas práticas. Você já esteve antes nesta casa, não é?

—Sim, um par de vezes.

—Onde estão as armas? —quando King arqueou as sobrancelhas ela abriu os braços—. Essas coisas chatas que se necessitam para fazer a guerra, ou isso ouvi, já que esta será minha primeira guerra. Acredito que me sentiria melhor se tivesse um par de morteiros ao alcance da mão.

—Não acredito que o chefe goste dessas intrigas.

—E o que é que gosta seu chefe?

King considerou a pergunta.

—O que é que tem aqui?

Glenna jogou uma olhada aos cristais.

—Só algumas das coisas que reparti aqui e lá para proteção, coragem, criatividade e demais. Este aposento me pareceu um lugar perfeito para planejar estratégia. Um centro de comando. O que? —perguntou ao ver que os lábios de King se curvavam em um amplo sorriso.

—Acredito que vai bem encaminhada.

King se dirigiu a uma das paredes cobertas de livros e passou seus dedos grandes e grossos sobre a borda esculpida.

—Não me diga que há um... painel secreto. —Glenna acabou a frase com uma risada encantada quando a parede se abriu.

—Este lugar está cheio deles. —King empurrou a parede, fazendo-a girar por completo, antes que Glenna pudesse dar uma olhada—. Não sei se o chefe quereria que farejasse por estes passadiços. Mas como disse arma. —Fez um amplo gesto—. Aqui tem armas.

Espadas, machados, maças, adagas, foices. Todo tipo de folhas brilhantes penduradas e expostas na parede. Havia também bestas, arcos largos, inclusive algo que pensou que era um tridente.

—Tudo isto é um pouco inquietante —disse ela, mas avançou uns passos e agarrou uma adaga.

—Um pequeno conselho —começou a dizer King—. Se escolher uma dessas adagas, algo que venha para você teria que estar muito perto para que possa te servir de alguma coisa.

—Uma boa observação. —Glenna deixou a adaga em seu lugar e agarrou uma das espadas—. Uau. É muito pesada. —Voltou a pendurá-la na parede e agarrou o que pensou que podia denominar-se em florete—. Melhor.

—Tem idéia de como se usa essa arma?

—hack, hack, hack, jab, jab? —Fez girar a folha como um ensaio, e se surpreendeu que gostasse da sensação que experimentou ao sustentar a arma na mão—. De acordo, não. Não tenho a menor idéia. Alguém teria que me dar algumas aulas.

—Acredita que seria capaz de cravá-la em alguém? —perguntou Cian entrando no aposento secreto—. Quebrar ossos, derramar sangue?

—Não sei — respondeu ela e baixou a fina espada. — Temo que seja algo que terei que averiguar. Vi o que era essa mulher, o que fez, o que estava com ela. Não penso entrar nesta guerra só com poções e conjuros. E estou fodidamente segura de que não vou ficar sem fazer nada se ela tentar me morder.

—Com isso pode os ferir, fazer que vão mais devagar, mas não poderá matá-los. Não poderá a menos que corte a cabeça.

Glenna fez uma careta e examinou a fina folha. Logo, com um gesto de resignação, voltou a deixar o florete em seu lugar e agarrou a pesada espada.

—Para poder brandir essa espada se necessita muita força.

—Então me porei forte, bastante forte para poder usá-la.

—Os músculos não são a única classe de força que necessitará.

Ela manteve o olhar fixo em seus olhos.

—Conseguirei a força que necessito. Você sabe como usar esta espada. Você e Hoyt e você também —disse a King—. Se acham que quando chegar o momento de lutar vou ficar comodamente sentada, revolvendo um caldeirão, sugiro que meditem de novo. Não me trouxeram até aqui para que uns homens me protejam. Não me concedeu este dom para que me comporte como uma covarde.

—Eu o farei —disse King com aquele grande sorriso novamente em seus lábios—. Eu gosto das mulheres que têm colhões.

Glenna agarrou o punho com ambas as mãos e cortou o ar com a pesada folha.

—Muito bem. Quando vai ser minha primeira lição?

 

Hoyt desceu a escada. Tentou não lamentar o que estava mudado, o que tinha desaparecido. Ele retornaria, voltaria para seu verdadeiro lar, sua família e sua vida.

Veria novamente as tochas que ardiam nas paredes e aspiraria outra vez o perfume das rosas de sua mãe no jardim. E caminharia junto aos escarpados que se elevavam perto de sua cabana no Chiarri, e saberia que o mundo já estava livre de quão canalhas tentavam destruí-lo.

Precisava descansar, isso era tudo. Descanso e solidão em um lugar que conhecia e entendia. Agora trabalharia e faria planos. Já tinha desaparecido aquela sensação de ser arrastado para algo que era incapaz de entender.

Tinha anoitecido e as luzes —aquelas luzes estranhas e intensas que eram produto da eletricidade e não do fogo— iluminavam a casa.

Irritou-lhe não encontrar ninguém, e tampouco podia cheirar que se estivesse preparando o jantar na cozinha. Era hora de pôr mãos à obra e de que outros entendessem que era necessário dar os passos seguintes.

Um som fez que se detivesse, logo deixou escapar o ar com um vaio. Seguiu o som de aços que chocavam. Logo girou por volta de onde antigamente havia uma porta e amaldiçoou ao comprovar que agora havia uma parede. Apertou o passo e irrompeu na biblioteca, onde viu que seu irmão brandia uma espada contra Glenna.

Não pensou; não duvidou um instante. Dirigiu seu poder para Cian e enviou a espada girando no ar até que esta caiu ao chão. Ao não encontrar oposição a sua estocada, Glenna feriu Cian no ombro.

—OH, merda.

Cian afastou a espada ao mesmo tempo em que Glenna a soltava com uma expressão de horror.

—OH, Deus! OH, Meu deus! É grave? Muito grave?

Correu para Cian.

—Atrás! —com outro golpe de poder, Hoyt fez que Glenna cambaleasse para trás e caísse sentada no chão —. Quer sangue? —perguntou a seu irmão enquanto agarrava a espada de Glenna—. Vêem pegar o meu.

King desprendeu uma espada da parede e a brandiu frente a Hoyt.

—Retrocede, menino feiticeiro. Agora.

—Não se meta nisto — disse Cian a King—. Se afaste. —Cian recolheu lentamente sua espada e olhou fixamente Hoyt—. Tenta.

—Basta! Basta agora mesmo. Que merda passa com vocês dois? —Sem importar as folhas das espadas, Glenna se interpôs entre os irmãos—. Cravei-lhe a espada, pelo amor de Deus. Deixa que examine a ferida.

—Ele a estava atacando.

—Ele não estava me atacando. Estava-me ensinando como se usa uma espada.

—Não é nada. —Com o olhar ainda ardendo e cravado nos olhos de Hoyt, Cian afastou Glenna—. Tenho a camisa rasgada e é a segunda vez que isto ocorre por sua culpa. Se tivesse querido seu sangue, não a teria pegado com uma espada, para desperdiçá-lo. Mas com o seu posso fazer uma exceção.

O fôlego de Glenna queria sair de sua boca, as palavras queriam brotar atropeladamente, mas se ela conhecia um pouco os homens, sabia que, naquele momento, só necessitaria o leve movimento de um dedo para que aqueles dois tipos se lançassem um contra o outro.

Falou portanto com tom seco: uma garota incomoda frente a dois meninos estúpidos.

—Isto é um erro, foi um acidente. Quero que saiba que aprecio que tenha vindo em meu resgate —disse a Hoyt—. Mas não necessitava nem necessito o cavalheiro branco. E quanto a você... —agitou um dedo ante o rosto de Cian—, você sabe muito bem o que devia parecer a cena a Hoyt, de modo que relaxe um pouco. E você —se voltou para King— já pode deixar de acrescentar lenha ao fogo.

—Né! Quão único tenho feito foi...

—Acrescentar mais problemas — interrompeu ela. — Agora vá procurar umas ataduras.

—Não as necessito. —Cian recolheu sua espada—. Minhas feridas curam depressa, um detalhe que conviria que recordasse. —Estendeu a mão para a espada de King. O olhar que Cian lhe dirigiu poderia ter sido de afeto, pensou Glenna. Ou de orgulho—. A diferença de nossa zangada bruxa, aprecio o gesto, King.

—Não há problema.

King lhe entregou a espada a Cian e depois deu de ombros olhando Glenna como se estivesse envergonhado.

Cian, agora desarmado, voltou-se para seu irmão.

—Quando era humano, não podia me vencer com a espada. E sabe fodidamente bem que não poderia fazê-lo agora tampouco.

Glenna apoiou uma mão sobre o braço de Hoyt e sentiu o tremor de seus músculos.

—Baixa a espada —disse com voz calma —Isto tem que acabar.

Depois deslizou a mão até sua mão e agarrou a espada.

—Terá que limpar a folha —disse Cian.

—Eu me encarregarei de fazê-lo. —King se separou da parede—. E, de passagem, prepararei um pouco de jantar. Tudo isto me deu fome.

Inclusive depois de que King partiu, Glenna sentiu que na habitação ficava ainda tanta testosterona que poderia havê-la talhado com um dos machados de Cian.

—Podemos continuar? —perguntou com voz enérgica—. Pensei que poderíamos utilizar a biblioteca como nosso centro de comando. E, considerando as armas que há aqui, e os livros de magia, guerra, vampiros e demônios, parece o mais apropriado. Tenho algumas idéias...

—Aposto que sim —resmungou Cian.

—Em primeiro lugar...

Glenna se aproximou da mesa e elevou sua bola de cristal.

—Não aprendeu nada a primeira vez? —perguntou Hoyt.

—Não quero procurar essa mulher. Já sabemos onde está. Ou onde estava.

Queria mudar o ambiente que reinava no aposento. Se tinha que haver tensão, pensou, ao menos que pudessem utilizá-la de um modo construtivo.

—Virão outros, nos disseram. Acredito que chegou o momento de encontrarmos alguns deles.

Hoyt tinha planejado fazer exatamente isso, mas não podia dizê-lo então sem ficar como um estúpido.

—Baixa isso. É muito cedo para usá-la depois da última vez.

—Limpei-a e recarregou —disse ela.

—Não importa. —voltou-se para o fogo que ardia na lareira—. Faremos isto a minha maneira.

—Uma frase que me soa familiar. —Cian se dirigiu a um armário e tirou uma pesada taça de conhaque—. Deixo-os com suas coisas. Beberei um pouco de brandy em outra parte.

—Por favor, fique. —Glenna lhe ofereceu um sorriso, e nele havia tanto uma desculpa como uma lisonja—. Se encontrarmos alguém, acredito que deveria estar aqui para vê-lo. É necessário que decidamos o que fazer. Todos devem decidir. De fato, deveria ir procurar King, para que estejamos os quatro juntos.

Hoyt fingiu ignorar a ambos, mas descobriu que não resultava tão simples fazer a mesma com essa pequena espetada interior que muito bem podia ser ciúmes. Ensiná-la a usar a espada e ela preocupada com um leve arranhão...

Estendeu as mãos e começou a concentrar-se no fogo, aproveitando sua irritação para provocá-lo.

—Uma boa idéia. —Cian assinalou Hoyt com a cabeça—. Mas parece que alguém já começou.

—Bom, para... Está bem, está bem. Deveríamos criar um círculo.

—Não necessito um círculo para isto. As bruxas sempre estão criando círculos e entoando versos. Por isso a verdadeira feitiçaria as evita.

Quando Glenna foi abrir a boca, Cian lhe sorriu e piscou um olho.

—Hoyt sempre foi muito arrogante. Brandy?

—Não. —Glenna voltou a deixar sua bola de cristal em cima da mesa e cruzou os braços—. Obrigado.

O fogo crepitou, as chamas se elevaram e começaram a devorar avidamente as lenhas.

Hoyt empregou sua própria língua, o idioma de sua terra e sangue para fazer que o fogo dançasse. Uma parte dele sabia que estava alardeando, prolongando o momento e o drama.

Com uma nuvem de fumaça e um vaio, as imagens começaram a formar-se entre as chamas. Sombras e movimento, formas e silhuetas. Agora se esqueceu de tudo salvo da magia e o propósito, de tudo salvo da necessidade e o poder.

Sentiu que Glenna se aproximava dele... em corpo e mente. Em magia.

As formas e as silhuetas se definiram no fogo.

Uma mulher montada a cavalo, o cabelo recolhido em uma longa trança sobre as costas, uma aljava de flechas pendurada no ombro. O cavalo era dourado e brilhante e avançava com um poderoso galope através do bosque escuro. Havia medo no rosto da mulher, e também férrea determinação enquanto cavalgava quase deitada sobre o lombo do animal com uma mão obstinada à crina.

O homem que não era um homem saltou do bosque e foi rechaçado. Mais criaturas cobraram forma, deslizando-se fora da escuridão, movendo-se para rodeá-los.

O cavalo estremeceu e, com um súbito relâmpago de luz, converteu-se em um homem, alto, magro e jovem. A mulher e ele se colocaram costas contra costas, as espadas desembainhadas. E os vampiros se lançaram sobre eles.

—Estão no caminho que leva ao Baile. —Cian saltou para onde estavam as armas e agarrou uma espada e um machado de duplo fio—. Fique com King - ordenou a Glenna ao mesmo tempo em que corria para a janela—. Fique ali e não deixe entrar ninguém. Nada nem ninguém.

—Mas...

Abriu a janela e pareceu sair... voando através dela.

—Hoyt... —começou Glenna. Mas ele já estava agarrando uma espada e uma adaga.

—Faz o que lhe disse — respondeu a ela, continuando, saltou também pela janela, quase tão velozmente como seu irmão.

Glenna não duvidou um instante. Seguiu-os.

Hoyt se dirigiu ao estábulo, lançando seu poder diante para abrir as portas. Quando o garanhão foi arremeter contra ele, Hoyt elevou as mãos para detê-lo. Não havia tempo para delicadezas.

—Retorna —gritou a Glenna.

—Vou contigo. Não perca tempo em discussões. Eu também estou metida nisto. —Quando ele agarrou um punhado de crina e saltou ao lombo do cavalo, ela jogou a cabeça para trás—. O seguirei a pé.

Hoyt a amaldiçoou, mas estendeu a mão para ajudá-la a montar.

O cavalo retrocedeu quando King apareceu no estábulo.

—Que merda está acontecendo aqui?

—Temos problemas —gritou Glenna—. No caminho que leva ao Baile. —Quando o cavalo voltou a retroceder, rodeou com seus braços o corpo de Hoyt e se apertou contra ele. —Vamos!

No clareira do bosque, Moira seguia lutando embora já não por sua vida. Eles eram muitos e também muito fortes. Acreditava que ia morrer e lutava por um pouco mais de fôlego, por cada precioso momento.

Não havia espaço nem tempo para que pudesse usar o arco, mas tinha sua espada curta. Ela podia feri-los, de fato o fazia. Quando a folha da espada penetrava na carne, aquelas coisas chiavam e alguns inclusive caíam. Mas voltavam a levantar-se e atacavam outra vez.

Não podia contar quantos eram, e não sabia tampouco contra quantos deles brigava Larkin. Mas sabia que, se ela caía, aqueles seres acabariam com ele. De modo que procurava manter-se em pé e conservar sua posição, lutava só para poder seguir lutando.

Dois deles a atacaram e, com uma mescla de ofegos e soluços, alcançou um com a espada. Um jorro de sangue brotou da ferida acompanhado de um horrível alarido enquanto os olhos vermelhos ficavam brancos. Ante o olhar horrorizado de Moira, um de seus companheiros se lançou sobre ele e começou a beber seu sangue. Mas chegou outro e o lançou voando pelo ar. Depois saltou sobre o ferido como um cão raivoso, ávidos de sangue e com os olhos vermelhos.

Ouviu que Larkin gritava seu nome e percebeu o horror em sua voz enquanto notava como umas presas roçavam seu pescoço; a queimadura lhe produziu uma dor insuportável.

Nesse momento, algo surgiu da noite, um guerreiro escuro armado com uma espada e um machado. A criatura que estava em cima dela foi lançada a um lado. Com os olhos muito abertos pelo assombro, Moira viu que o guerreiro baixava o machado com força e lhe cortava a cabeça. A criatura gritou e crepitou antes de converter-se em pó.

—Corte-lhes a cabeça — gritou o guerreiro a Larkin, logo voltou seus olhos azuis e ardentes para ela—. Usa suas flechas. A madeira através do coração.

Logo sua espada começou a assobiar e cortar.

Moira se levantou e tirou uma flecha da aljava que levava no ombro. Tentou relaxar a mão coberta de sangue para poder encaixar a flecha na corda do arco. “Chega outro cavaleiro”, pensou fracamente quando ouviu o trovejar de cascos sobre a terra.

Outra das criaturas se lançou sobre ela, uma garota muito jovem. Moira se virou mas não tinha tempo de disparar a flecha. A garota saltou e ficou empalada na mesma. Dela não ficou mais que o pó.

O cavaleiro recém-chegado saltou a terra brandindo a espada.

Larkin e ela não morreriam, pensou enquanto o suor caía sobre seus olhos. Não morreriam essa noite. Colocou uma flecha e disparou.

Os três homens tinham formado um triângulo de costas uns aos outros e estavam rechaçando seus inimigos. Um dos horríveis seres conseguiu deslizar-se para o cavalo, em cuja cadeira havia uma mulher que observava a batalha. Moira avançou engatinhando, tentando encontrar um ângulo de tiro, mas só conseguiu gritar uma advertência.

O segundo guerreiro se voltou rapidamente, com a espada elevada disposto ao ataque, mas a mulher fez que o cavalo se elevasse sobre suas patas traseiras e derrubasse seu atacante com os cascos dianteiros.

Quando a espada lhe cortou o pescoço, no chão só ficou sangue e pó.

No silêncio que seguiu, Moira caiu de joelhos, lutando contra uma terrível sensação de náusea e por levar ar a seus pulmões. Larkin se ajoelhou junto a ela e lhe passou as mãos pelo corpo, pelo rosto.

—Feriram-lhe, está sangrando.

—Não é grave. Não é grave. —Sua primeira batalha, pensou. E estava viva—. E você?

—Cortes, arranhões. Pode se levantar? Eu a levarei.

—Sim, posso me levantar, e não, não me levará. —Ainda de joelhos, Moira olhou o homem que tinha saído primeiro da escuridão do bosque—. Salvaste-me a vida. Obrigado. Acredito que viemos aqui para encontrá-lo, mas me sinto agradecida de que você nos tenha encontrado em troca. Sou Moira e chegamos através do baile, de Geall.

Ele se limitou a olhá-la durante um momento que pareceu interminável.

—Devemos retornar à casa. Não é seguro ficar aqui

—Meu nome é Larkin —disse este lhe tendendo a mão—.Luta como um demônio.

—Isso é bastante certo. —Cian deu umas palmadas—.Os levemos de volta —disse a Hoyt, e olhou para onde estava Glenna—. Vocês duas podem montar juntas.

—Posso andar —começou a dizer Moira, só para sentir que era elevada do chão e depositada sobre o lombo do cavalo.

—Devemos sair daqui —disse Cian em tom peremptório—. Hoyt, vá a frente e você Larkin, fica junto às mulheres. Eu irei atrás.

Hoyt apoiou a mão no pescoço do garanhão ao passar junto a este e olhou Glenna.

—Cavalga muito bem.

—Monto desde que tinha quatro anos, então não volte a pensar em me deixar atrás. —Logo se voltou para olhar Moira—. Sou Glenna. Prazer em conhecê-la.

—É a pura verdade se disser que, nunca em toda minha vida, alegrei-me mais de conhecer alguém.

Quando o cavalo ficou em marcha, Moira se aventurou a olhar para trás. Não pôde ver o guerreiro. Parecia haver-se dissolvido na escuridão.

—Como se chama? O guerreiro que chegou a pé?

—Chama-se Cian. Hoyt é o que marcha adiante. São irmãos e há muito que explicar de ambos. Mas uma coisa é fodidamente segura, conseguimos sobreviver a nossa primeira batalha. E chutamos o trazeiro de alguns vampiros.

Em circunstâncias normais, Moira teria se considerado uma convidada, e teria se comportado como tal. Mas ela sabia que esse não era o caso de jeito nenhum. Agora Larkin e ela eram soldados e formavam parte do que era um exército muito pequeno.

Podia parecer absurdo, mas se sentia aliviada ao ver que não era a única mulher do grupo.

Uma vez dentro da casa, instalou-se em uma maravilhosa cozinha. Um homem enorme, com a pele escura como o carvão, estava ocupado nos fogões, embora não acreditava que se tratasse de um criado.

—Curaremos a ferida —disse Glenna—. Se quiser se lavar antes, acompanharei-a ao andar de cima.

—Não até que estejamos todos aqui.

Glenna ergueu a cabeça.

—Muito bem então. Não sei o resto de vocês, mas eu quero um copo.

—Eu mataria por um —disse Larkin com um breve sorriso—. Na realidade, parece-me que isso é o que acabo de fazer. Não acreditei o que me dizia. —Apoiou sua mão sobre a da Moira—. Sinto muito.

—Está bem, não tem importância. Estamos vivos e no lugar onde devíamos estar. Isso é quão único importa.

Moira elevou a vista quando a porta se abriu. Mas era Hoyt quem chegava, não o homem que chamavam Cian. Ainda assim, ficou de pé.

—Não o agradecemos como corresponde que tenham vindo em nossa ajuda. Eles eram muitos. Estávamos perdendo terreno até que vocês chegaram.

—Estávamos esperando-os.

—Sei. Morrigan me deixou ver você. E a você —acrescentou, assinalando a Glenna —Isto é a Irlanda?

—Sim.

Mas...

Moira apoiou uma mão sobre o ombro de Larkin.

—Meu primo acredita que a Irlanda é um conto de fadas, inclusive agora.

Nós dois viemos de Geall, que foi criada pelos deuses com uma parte da Irlanda para que prosperasse em paz e fosse governada pelos descendentes do grande Finn.

—Você é o sábio, ou deveria dizer a sábia - constatou Hoyt.

—Bom, Moira ama seus livros, disso não resta dúvida. Isto está muito bom —disse Larkin bebendo um gole de seu vinho.

—E você o que adota muitas formas —acrescentou Hoyt.

—Esse seria eu, assim é.

Quando a porta voltou a abrir-se, Moira sentiu que a sensação de alívio a percorria por dentro como uma maré.

Cian a olhou brevemente e depois a Glenna.

—Necessitam que a atendam.

—Não quis mover-se daqui até que não estivesse toda a turma reunida. Por que não se serve outra taça de vinho, Larkin? Moira, vêem acima comigo.

—Tenho tantas perguntas —comentou esta.

—Todos as temos. Falaremos durante o jantar.

Glenna agarrou Moira pela mão e juntas saíram da cozinha.

Cian se serviu uma taça e se sentou à mesa. Tinha a camisa manchada de sangue.

—Sempre acostuma levar sua mulher a lugares estranhos?

Larkin bebeu outro gole de vinho.

—Ela não é minha mulher e sim minha prima e, de fato, foi ela quem me trouxe . Moira teve uma visão ou um sonho ou algo místico... algo que não é incomum nela. É um pouco extravagante. Mas estava absolutamente decidida a fazer isto, e eu não teria podido detê-la em seu empenho. Essas coisas que vimos ali fora, algumas vieram a Geall. Mataram sua mãe.

Larkin bebeu outro comprido gole de vinho.

—A enterramos esta mesma manhã, se é que o tempo é o mesmo aqui. Cortaram-na em pedaços, isso foi o que lhe fizeram. Moira viu tudo.

—Como conseguiu sobreviver para contar?

—Não sabe. Ao menos... bom, na realidade não quis falar disso. Não até agora.

    

No piso superior da casa, Moira se lavou na ducha tal como Glenna a tinha ensinado a fazê-lo. O puro prazer da água caindo sobre seu corpo a ajudou a mitigar suas dores e feridas, e considerou o calor da água como algo próximo a um milagre.

Quando o sangue e o suor desapareceram de seu corpo, vestiu o robe que Glenna lhe tinha deixado e saiu do banheiro para encontrar sua nova amiga esperando-a no dormitório.

—Não estranha que falemos da Irlanda como se fosse um conto de fadas. Isso é o que parece.

—Tem melhor aparência. Um pouco de cor nas faces. Demos uma olhada a essa ferida que tem no pescoço.

—Arde muito. —Moira tocou a ferida com os dedos—. Mas é apenas pouco mais que um arranhão.

—Segue sendo a mordida de um vampiro. —Glenna a examinou cuidadosamente e franziu os lábios—. Não há orifício entretanto, ou é apenas perceptível, e isso é bom. Tenho algo que deveria ajudar.

—Como sabiam onde encontrar-nos?

—Vimo-los no fogo.

Glenna procurou o bálsamo adequado entre suas coisas.

—Você é a bruxa.

—Mmmm-hmmm. Aqui está.

—E o que chamam Hoyt é o feiticeiro.

—Sim. Ele tampouco é deste mundo... ou melhor não deste tempo. Parece como se nos estivessem recolhendo de todas as partes. Como o sente?

—Frio. —Moira deixou escapar um suspiro enquanto o bálsamo acalmava o ardor da ferida. Olhou Glenna—. Delicioso, obrigado. E Cian, que tipo de homem é?

Glenna duvidou. Sinceridade total, decidiu. A honestidade e a confiança tinham que ser consubstancial a seu pequeno batalhão.

—É um vampiro.

Moira se levantou de um salto. Estava novamente muito pálida.

—Por que diz isso? Ele lutou contra eles, salvou-me a vida. Agora inclusive está na cozinha, dentro da casa. Por que diz que é um monstro, um demônio?

—Não o disse, porque não considero que seja nenhuma dessas duas coisas. Cian é um vampiro e leva sendo-o há novecentos anos. Quem o transformou no que é se chama Lilith, e é dela de quem temos que nos preocupar. Cian é o irmão de Hoyt, Moira, e jurou lutar, igual ao resto de nós.

—Se o que diz é certo... Ele não é humano.

—Seu primo se transforma em um cavalo. Eu diria que isso o faz também algo diferente de humano.

—Não é o mesmo.

—Talvez não. Não tenho todas as respostas. Quão único sei é que Cian não pediu o que lhe fizeram faz centenas de anos. Que nos ajudou a chegar até aqui e que foi o primeiro em sair da casa para lutar junto a vocês quando os vimos no fogo. Sei como se sente.

Moira viu em sua memória o que tinham feito a sua mãe, voltou a ouvir os terríveis gritos, cheirou o sangue.

—Não pode sabê-lo.

—Bom, sei que a princípio eu tampouco confiava nele. Mas agora sim. Totalmente. E sei que o necessitamos para ganhar esta guerra. Toma. Trouxe um pouco de roupa. Sou mais alta que você mas pode dobrar a bainha da calça até que encontremos algo que se assente melhor. Agora desceremos, comeremos e falaremos de todo este assunto. E já veremos como se desenvolvem os acontecimentos.

    

Aparentemente comeriam na cozinha, como se fossem uma família ou os criados. Moira se perguntou se poderia engolir um bocado, mas descobriu que seu apetite era enorme. O frango frito estava suculento e ia acompanhado de montes de batatas e feijões.

O vampiro comeu muito pouco.

—Nós já estamos reunidos —começou Hoyt— e ainda devem unir-se alguns outros em algum ponto que ainda não conhecemos. Mas o grupo devia começar conosco e assim foi. Amanhã começaremos a treinar, a aprender. Cian você é quem melhor sabe como lutar contra eles. Você estará encarregado. Glenna e eu trabalharemos com a magia.

—Eu também quero treinar —disse Glenna.

—Então estará muito ocupada. Precisamos descobrir nossos pontos fortes e nossos pontos fracos. Devemos estar preparados quando se lavrar a batalha final.

—No mundo de Geall —disse Moira— no Vale do Silêncio, nas montanhas da Névoa. No sábado do Samhain. —Evitando os olhos de Cian olhou Hoyt—. Morrigan me mostrou isso.

—Sim. —Hoyt assentiu—. A vi ali.

—Quando chegar o momento, voltaremos a atravessar o Baile e partiremos para o campo de batalha. Está a cinco dias de caminho, de modo que terá que partir com tempo suficiente.

—Há no Geall gente que lutará a nosso lado?

—Todos lutarão a nosso lado. Todos morrerão por salvar nosso lar, e os mundos. —O peso de suas palavras caiu sobre ela—. Só tenho que pedir.

—Tem muita fé em sua gente —comentou Cian.

Agora ela o olhou, obrigou-se a encontrar-se com seus olhos. “Azuis — pensou — e bonitos. Voltariam-se vermelhos como os de um demônio quando se alimentasse de sangue humano?”

—Assim é. E em meus compatriotas, e na humanidade. E se não a tivesse, ordenaria-os que o fizessem. Porque quando retornar devo ir à Pedra Real e, se for digna disso, se não houver ninguém que possa igualar-se a mim conseguirei tirar a espada de sua bainha, e então serei a rainha de Geall. Não verei meu povo sacrificado como se fossem cordeiros por essa coisa que se converteu no que é. Se tiverem que morrer, o farão lutando.

—Tem que saber que a pequena escaramuça em que se viu envolvida esta noite não foi nada. Nada. Quantos havia ali? Oito, dez deles? Se apresentarão em batalha aos milhares. —Cian ficou de pé—.Ela teve quase dois mil anos para formar seu exército. Seus camponeses terão que fazer algo mais que transformar seus arados em espadas se quiserem sobreviver.

—Então o farão.

Cian inclinou a cabeça.

—Se prepare para treinar duramente, e não amanhã, terá que começar esta noite. Esqueceste-o irmão, mas eu durmo durante o dia.

E uma vez dito isto, partiu.

 

                                         Capítulo 9

Glenna fez um gesto a Hoyt e deixou os outros com King. Voltou a vista para a cozinha e o corredor. Não tinha idéia de aonde podia ter ido Cian.

—Temos que falar. Em particular.

—Temos que trabalhar.

—Não discutirei isso, mas é necessário que antes você e eu falemos de algumas coisas. A sós.

Hoyt franziu o cenho, mas assentiu. Se ela queria privacidade, havia um lugar onde estava seguro de que a encontraria. Subiu a escada em direção a seu quarto na torre seguido de Glenna.

Ela passeou pelo quarto estudando suas áreas de trabalho, seus livros e ferramentas. Foi até cada uma das estreitas janelas, abriu as folhas de cristal que estavam ali da época de Hoyt e voltou às fechar.

—Bonito. Muito bonito. Pensa compartilhar a riqueza?

—A que se refere?

—Também necessito um lugar para poder trabalhar; mais ainda, diria que você e eu necessitamos um lugar onde possamos trabalhar juntos. Não me olhe desse modo.

Glenna fez um gesto displicente enquanto se aproximava da porta e a fechava.

—De que modo?

—Como dizendo “Sou um feiticeiro solitário e não quero bruxas.” Estamos unidos, entre nós e com outros. De algum jeito que só Deus sabe, temos que nos transformar em uma unidade. Porque Cian tem razão.

Glenna se aproximou novamente a uma das janelas e olhou para a escuridão apenas quebrada pela luz da lua.

—Cian tem razão. Ela terá milhares junto a ela. Nunca olhei tão longe, nunca pensei em um pouco tão grande, embora, Meu Deus, há algo que seja maior que um Apocalipse? É claro, ela terá um exército de milhares de vampiros. Nós somos apenas um punhado.

—É tal como nos disseram —recordou Hoyt—. Nós somos os primeiros, o círculo.

Ela se voltou, e embora seus olhos sustentassem o olhar de Hoyt, ele notou o medo refletido neles. E a dúvida.

—Todos nós somos desconhecidos e estamos muito longe de estar preparados para unir nossas mãos em um círculo e entoar algum conjuro de unidade. Estamos intranqüilos e receamos os outros. Inclusive ressentidos, no caso de seu irmão e de você.

—Eu não estou ressentido com meu irmão.

—É claro que está. —Glenna afastou o cabelo do rosto e Hoyt também pôde ver frustração nela—. Faz só duas horas o ameaçou com sua espada.

—Pensei que ele...

—Sim, sim, e agradeço que tenha se deslocado a me resgatar.

Seu tom indiferente insultou seu sentido de cavalheirismo e o irritou.

—Não tem nenhuma fodida importância.

—Se em algum momento realmente me salva a vida, Hoyt, minha gratidão será sincera, prometo-lhe isso. Mas defender à dama só formava parte do assunto entre vocês, e me haver respondido como fez só foi uma pequena parte de por que Cian esteve a ponto de lutar contigo. Você sabe, eu sei e Cian também sabe.

—Se esse for o caso, não há necessidade de que siga falando disso.

Glenna se aproximou dele. Hoyt comprovou não sem satisfação que não era o único que estava irritado.

—Está furioso com Cian por ter permitido que o matassem e, pior ainda, que o transformassem no que é agora. Ele está furioso contigo por havê-lo arrastado a esta situação, obrigando-o a recordar quem era antes que Lilith lhe cravasse suas presas no pescoço. Tudo isso não é mais que uma perda de tempo e energia. De modo que temos que deixar de lado todas essas emoções, ou temos que as usar. Porque, tal como estão as coisas, tal como estamos nós, ela nos aniquilará, Hoyt. E eu não quero morrer.

—Se tiver medo...

—É claro que tenho medo. Acaso é estúpido? Depois de tudo o que vimos e enfrentado esta noite, seríamos uns imbecis se não tivéssemos medo. —Apertou as palmas das mãos contra suas faces, tentando recuperar o ritmo de sua respiração—. Sei o que devemos fazer, mas não sei como fazê-lo. E você tampouco sabe. Nenhum de nós sabe.

Glenna baixou as mãos e foi para ele.

—Quero que você e eu sejamos honestos. Vamos depender um do outro, temos que confiar um no outro, de modo que sejamos sinceros. Só somos um punhado, com poder, sim, com habilidades, mas um punhado contra um número incalculável de inimigos. Como podemos sobreviver a isso, e muito menos alcançar a vitória?

—Reuniremos mais gente.

—Como? —Glenna levantou as mãos—. Como? Nesta época, neste lugar, as pessoas não acreditam nessas coisas, Hoyt. Qualquer um que vá por aí falando de vampiros, feiticeiros, batalhas apocalípticas e missões encomendadas pelos deuses é considerado um excêntrico no melhor dos casos, ou o metem em uma cela com paredes acolchoadas.

Glenna, necessitando o contato físico, passou uma mão por seu braço.

—Temos que enfrentar isso. Aqui não há nenhuma cavalaria que virá em nosso resgate. Nós somos a cavalaria.

—Expõe-me os problemas, mas nenhuma solução.

—Talvez —disse ela com um suspiro—. Talvez. Mas não se podem encontrar soluções até que se exponham os problemas. Eles nos superam em número de uma maneira entristecedora. Vamos enfrentar essas criaturas, a falta de uma palavra melhor, que só podem ser mortas de um número limitado de maneiras. Estão controladas ou dirigidas ou governadas por um vampiro de enorme poder e, bom, com uma enorme sede. Não sei muito a respeito da guerra, mas sim sei quando as probabilidades estão contra mim. De modo que devemos igualar essas probabilidades.

Ela falava com um bom senso que ele não podia discutir. O fato de que Glenna pudesse falar desse modo era, em sua opinião, um tipo de coragem.

—Como?

—Bom, não podemos simplesmente sair e cortar algumas centenas de cabeças, não seria prático. De maneira que devemos encontrar a maneira de cortar a cabeça do exército. A cabeça dela.

—Se fosse algo tão simples, já se teria feito.

—Se fosse impossível, não estaríamos agora aqui. —Frustrada, Glenna deu uns leves golpes com o punho no braço de Hoyt—. Quer colabora comigo?

—Temo que não tenha outra alternativa.

Agora em seus olhos havia aflição, uma leve sombra desse sentimento.

—Realmente lhe é tão desagradável? Assim que me vê?

—Não. —Agora havia vergonha no olhar do homem—. O sinto. Não, desagradável não. Difícil. Perturbadora. É perturbador, seu aspecto, seu perfume, sua maneira de ser.

—OH. —Os lábios dela se curvaram lentamente—. Isso é muito interessante.

—Não tenho tempo para você, nesse sentido.

—Em que sentido? Quero que seja específico. —Ela sabia que não era justo jogar com ele dessa maneira. Mas era um autêntico alívio ser simplesmente humana.

—Há vidas em jogo.

—Que sentido tem viver sem sentir nada? Eu sinto coisas por você. Você agita coisas dentro de mim. Sim, é difícil, e é perturbador, mas isso me diz que estou aqui, e que o ter medo não é quão único há. Necessito isso, Hoyt. Preciso sentir algo mais que medo.

Ele levantou a mão para acariciar sua face com os dedos.

—Não posso prometer que a protegerei, mas sim que o tentarei.

—Não estou pedindo que me proteja. Não estou pedindo nada mais que a verdade... por agora.

Hoyt manteve sua mão sobre o rosto de Glenna, levantando a outra para emoldurá-lo entre ambas enquanto baixava os lábios. Os dela se abriram para recebê-los, oferecendo-se. E ele se dedicou a sentir, ou seja, com a mesma necessidade que ela experimentava.

A ser humano.

Foi um lento fogo no sangue, uma progressiva tensão nos músculos, uma agitação no pulso... dela e dele.

Era tão fácil, pensou ele, tão fácil afundar-se no calor e a suavidade. Estar envolto por ela na escuridão e permitir-se esquecer, por um momento, por uma hora, tudo aquilo que se estendia diante deles.

Os braços de Glenna deslizaram por seu corpo, apertando-se contra sua cintura enquanto se elevava nas pontas dos pés para que seus lábios se unissem mais intensamente aos dele. Ele saboreou sua boca, sua língua e a promessa que albergava. Aquilo podia ser dele. E ele queria acreditar mais do que jamais tinha acreditado em nada em toda sua vida.

Os lábios da Glenna se moveram sobre os seus, formando seu nome, uma vez, depois duas. Nesse instante se acendeu uma súbita faísca e seu calor percorreu sua pele e ardeu em seu coração.

Atrás deles, o fogo da lareira, que tinha ficado reduzido a uns poucos rescaldos, avivou-se como uma dúzia de tochas

Hoyt a afastou ligeiramente, mas sem separar as mãos de suas faces. Podia ver o fogo dançando em seus olhos.

—Há verdade nisto —sussurrou—. Mas não sei o que é.

—Eu tampouco sei. Mas me sinto melhor por isso. Mais forte. —Olhou para o fogo—. Juntos somos mais fortes. E isso significa algo.

Glenna retrocedeu uns passos.

—Vou trazer minhas coisas aqui. Trabalharemos juntos e descobriremos o que significa.

—Acha que nos deitar juntos é a resposta?

—Pode sê-lo, ou pode ser que seja uma das respostas. Mas ainda não estou preparada para me deitar contigo. Meu corpo está, — reconheceu ela — mas minha mente não. Quando me entrego a um homem, para mim significa um compromisso. Um compromisso importante. Você e eu nos comprometemos o bastante. Agora ambos devemos estar seguros de que estamos dispostos a entregar mais.

—Então que foi isto?

—Contato —disse ela tranqüilamente—. Prazer. —Agarrou-lhe a mão—. Conexão. Faremos magia juntos, Hoyt, magia importante. Para mim é algo tão íntimo como o sexo. Vou conseguir o que necessito, fazer que apareça.

As mulheres, pensou ele, eram umas criaturas místicas e poderosas inclusive sem a bruxaria. Se acrescentássemos a isso uma dose de poder, um homem estava em uma grande desvantagem.

Acaso seu perfume não seguia o envolvendo, e seu sabor não permanecia ainda em seus lábios? Armas de mulher, pensou. O mesmo que escapulir-se.

Ele faria muito bem em proteger-se contra essa classe de coisas.

Glenna tinha intenção de trabalhar ali, em sua torre, junto a ele. Isso tinha muito sentido. Mas como se supunha que um homem podia trabalhar quando seus pensamentos eram arrastados indevidamente para a boca da mulher, ou a sua pele, seu cabelo, sua voz?

Possivelmente fosse inteligente de sua parte utilizar algum tipo de barreira, ao menos de maneira temporária. Foi até sua mesa de trabalho e se dispôs a preparar precisamente isso.

—Suas poções e conjuros terão que esperar —disse Cian da porta—. E também o romance.

Hoyt continuou trabalhando.

—Cruzei com Glenna na escada. Sei quando uma mulher teve as mãos de um homem sobre ela. Pude cheirar você em seu corpo. Não é que o culpe —acrescentou Cian quase com inapetência enquanto entrava e passeava pelo quarto da torre—. Tem uma bruxa realmente sexy. Desejável —acrescentou ante o olhar gélido de seu irmão—. Tentadora. Leve-a à cama se quiser, mas mais tarde.

—A quem levo para cama e quando, não é de sua incumbência.

—Com quem, certamente não, mas quando já é outra história. Utilizaremos o salão principal para o treinamento de combate. King e eu já começamos a prepará-lo. Não penso acabar com uma estaca de madeira cravada no coração só porque você e a ruiva estejam muito ocupados para treinar.

—Isso não será um problema.

—Não penso deixar que o seja. Os recém chegados são entidades desconhecidas. O homem luta bem com a espada, mas se preocupa em proteger sua prima. Se ela não pode valer-se por si mesma na batalha, teremos que encontrar alguma outra tarefa que lhe dar.

—É seu trabalho fazer que ela seja útil no combate.

—Trabalharei nisso —prometeu Cian—. E o mesmo farei com o resto de vocês. Mas necessitaremos algo mais que espadas, estacas, muito mais que músculos.

—Teremos. Deixe-me essa parte, Cian —disse antes que seu irmão abandonasse o aposento—. Voltou a vê-los alguma vez? Sabe como foi sua vida, o que foi deles?

—Viveram e morreram, como fazem todos o seres humanos.

—Isso é quão único são para você?

—As sombras são o que são.

—Você os amou alguma vez.

—Meu coração também pulsou alguma vez.

—É essa a medida do amor? Um batimento do coração?

—Podemos amar, inclusive nós somos capazes de amar. Mas amar um ser humano? —Cian meneou a cabeça—. Isso só traria desgraças e tragédia. Seus pais fizeram de mim o que fui. Lilith fez de mim o que sou.

—E sente amor por ela?

—Por Lilith? —Seu sorriso foi lento, reflexivo e carente de todo humor—. A minha maneira. Mas não deve preocupar-se. Isso não impedirá que a destrua. Agora desça e veremos de que madeira é feito.

    

—Todos os dias duas horas de combate corpo a corpo —anunciou Caín quando estiveram reunidos—. Duas horas de treinamento com armas, todos os dias. Duas horas de resistência e duas horas de artes marciais. Trabalharei com vocês de noite. King se encarregará do treinamento durante o dia, então podem praticar fora de casa.

—Necessitamos tempo para o estudo e a estratégia também —Assinalou Moira.

—Então encontrem tempo para essas tarefas também. Eles são mais fortes que vocês, e mais malvados do que ninguém pode imaginar.

—Sei o que são essas criaturas.

Cian se limitou a olhá-la.

—Isso é o que você acha.

—Tinha matado algum deles antes de hoje? —perguntou Moira.

—Sim, mais de uma vez.

—Em meu mundo, as pessoas que matam aos de sua mesma espécie são malvados e escória.

—Se não o tivesse feito, agora ambos estaríamos mortos.

Cian se moveu tão depressa que nenhum deles teve a mínima possibilidade de reagir. Um segundo depois, estava atrás de Moira, com um braço lhe rodeando a cintura e uma faca apoiada em sua garganta.

—É claro, não necessito a faca.

—Não a toques. —Larkin apoiou a mão no cabo de sua faca—. Não deve lhe pôr as mãos em cima.

—Então me impeça isso convidou Cian, e arrojou sua faca a um lado—. Imagina que acabo de lhe romper o pescoço. —Apoiou ambas as mãos a cada lado da cabeça de Moira e logo lhe deu um leve empurrão que a enviou onde estava Hoyt. — Pode vingá-la. Venha, me ataque.

—Não atacarei o homem que lutou costas contra costas junto a mim.

—Agora não estou contra suas costas, não é? Demonstra um pouco de coragem, ou acaso os homens de Geall não têm?

—Temos muito.

Larkin tirou sua faca e, agachado, começou a descrever um círculo ao redor de Cian.

—Deixa já de brincar — burlou este—. Estou desarmado. Você leva vantagem. Use-a... depressa.

Larkin investiu, fez uma finta e logo tentou apunhalar Cian, mas de repente se encontrou estendido de costas no chão, com sua faca longe dele.

—Nunca tem vantagem sobre um vampiro. Primeira lição.

Larkin jogou o cabelo para trás e sorriu.

—É melhor que eles.

—Grandemente.

Cian, com expressão divertida, estendeu-lhe a mão e ajudou Larkin a levantar-se.

—Começaremos com algumas manobras básicas e veremos o que parecem. Escolham um competidor. Têm um minuto para derrubar seu rival... sem armas. Quando eu disser que troquem, escolham outro. Se movam depressa e sem olhares. Agora.

Cian viu que seu irmão duvidava e que a bruxa o aproveitava para lançar-se usando seu corpo para desequilibrá-lo e depois colocava um pé atrás dele para derrubá-lo.

—Treinamento de defesa pessoal —explicou Glenna—. Vivo em Nova Iorque.

Enquanto ela sorria, Hoyt lhe fez uma varredura por trás que acabou com o traseiro de Glenna golpeando duramente contra o chão.

—Argh, Primeira petição, um tapete amaciado para o chão.

—Troquem de oponente!

Todos se moveram através do salão, manobraram, lutaram corpo a corpo. Mas era mais brincadeira e competição que treinamento. Mesmo assim, pensou Glenna, ela receberia sua ração de machucados. Enfrentou Larkin e sentiu que ele duvidava. De modo que lhe sorriu com uma careta sedutora e, quando a risada iluminou os olhos dele, agarrou-o por um braço e o lançou por cima de seu ombro.

—Sinto muito. Eu gosto de ganhar.

—Troquem de oponente.

O enorme corpanzil de King ocupou todo seu campo visual e Glenna elevou e elevou a vista até encontrar seus olhos.

—Eu também.

Ela começou a mover-se por instinto, agitando ligeiramente as mãos, entoando um cântico. Quando ele sorriu desconcertado, Glenna lhe tocou o braço.

—Por que não se senta? —disse.

—De acordo.

Quando King obedeceu, ela olhou por cima do ombro e viu que Cian a estava observando. Ruborizou-se ligeiramente.

—É provável que vá contra as regras e é pouco provável que eu seja capaz de consegui-lo no fragor da batalha, mas acredito que deveria contar.

—Não há regras. Ela não é a mais forte —disse aos outros, elevando a voz—. Tampouco é a mais rápida. Mas é a mais preparada. Utiliza a astúcia e o engenho tanto como o músculo e a velocidade. Agora lhe falta adquirir força —disse a Glenna—. E ser mais rápida.

Pela primeira vez, Cian sorriu.

—E busca uma espada. Começaremos a praticar com as armas.

Ao acabar a seguinte hora, Glenna estava banhada em suor. O braço com que sustentava a espada lhe doía como um dente cariado, do ombro até a mão. A excitação do trabalho, de estar fazendo algo tangível, converteu-se fazia muito em um doloroso esgotamento.

—E eu que pensava que estava em boa forma —se queixou Glenna a Moira—. Todas essas duas horas de pilates, de ioga, de pesos... embora talvez para você o que digo soe a chinês.

—Está fazendo bem. —Moira também se sentia débil e torpe.

—Mal posso me sustentar sobre as pernas. Faço exercício regularmente, um duro treinamento físico e, em troca, tudo isto está me convertendo em um merengue. Parece fatigada.

—É que foi um dia muito duro.

—Para dizer de uma maneira suave.

—Senhoritas? Não queria as interromper mas deveriam voltar a se unir ao grupo. Ou possivelmente prefeririam que nos sentássemos a falar das últimas tendências da moda?

Glenna deixou sua garrafa de água no chão.

—São quase as três da manhã — replicou a Cian—. Uma hora perigosa para os comentários sarcásticos.

—E a melhor hora para o inimigo.

—Pode ser, mas nem todos nós estamos no mesmo fuso horário. Hoje Moira e Larkin fizeram uma viagem exaustiva e tiveram que enfrentar umas boas-vindas muito desagradável. Precisamos treinar, nisso tem toda a razão. Mas se não descansarmos não conseguiremos ser mais rápidos. Olhe-a —acrescentou Glenna, assinalando Moira—. Mal pode sustentar-se em pé.

—Estou bem —respondeu Moira em seguida.

Cian a olhou longamente.

—Então culparemos ao cansaço por sua lamentável atuação com a espada e de seu pobre estado físico.

—Faço-o bastante bem com a espada. —Quando tentou agarrá-la, Larkin se aproximou dela com os olhos avermelhados, apoiou uma mão sobre seu ombro e o apertou levemente.

—Moira o faz bastante bem, e assim o demonstrou esta noite no bosque. Mas a espada não seria a arma que minha prima escolheria para o combate.

—Ah, não?

Nessa simples frase, Cian expressou todo seu aborrecimento.

—Ela tem boa mão para dirigir o arco.

—De acordo, poderá nos fazer uma demonstração amanhã, mas agora...

—Vou fazê-lo esta noite —disse Moira—. Abram as portas.

O tom autoritário de sua voz fez que Cian arqueasse as sobrancelhas.

—Você não manda aqui, pequena rainha.

—E você tampouco. —Foi em busca de seu arco e da aljava—. Abrirá as portas ou terei que fazê-lo?

—Você não sairá da casa.

—Ele tem razão Moira —disse Glenna.

—Não terei necessidade de fazê-lo. Larkin, por favor.

Larkin se aproximou das portas e as abriu de par em par ao amplo terraço que se estendia atrás dela. Moira colocou uma flecha na corda do arco ao mesmo tempo em que se aproximava da soleira.

—O carvalho.

Cian se colocou a seu lado enquanto outros se apinhavam junto à porta,

—Não é muita distância comentou.

—Ela não se refere à árvore que está mais perto —explicou Larkin ao mesmo tempo em que assinalava para o bosque—. A árvore é aquela, justo à direita do estábulo.

—Ao ramo mais baixo.

—Mal posso vê-la —comentou Glenna.

—Você pode? —perguntou Moira a Cian.

—Perfeitamente.

Moira elevou o arco, manteve-o fixo e apontou. Um segundo depois, a flecha saiu disparada da corda.

Glenna ouviu o zumbido e depois um débil som quando alcançou o alvo assinalado.

—Uau. Temos um Robin Hood entre nós.

—Um tiro preciso —conveio Cian com tom aprazível, deu meia volta e começou a afastar-se. Percebeu o movimento antes inclusive de ouvir a ordem severa de seu irmão.

Quando se voltou, Moira tinha preparada outra flecha e a estava apontando.

Cian sentiu que King se preparava para lançar-se sobre ela e elevou uma mão para detê-lo.

—Se assegure de acertar no coração —aconselhou a Moira—. De outro modo, só conseguirá me chatear. Que assim seja —disse a Hoyt—. É sua escolha.

O arco tremeu um instante e logo Moira o baixou. E também baixou o olhar.

—Preciso dormir. Sinto muito, preciso dormir.

—É claro que sim. —Glenna agarrou o arco de suas mãos e o deixou a um lado—. Eu irei contigo e a ajudarei no que necessite.

A seguir dirigiu a Cian um olhar tão aguçado como a flecha enquanto acompanhava Moira fora do salão.

—Sinto muito —repetiu Moira—. Estou envergonhada

—Não deve está-lo. Está exausta, completamente esgotada. Todos estão. E isto acaba de começar. Umas horas de sono são o que todos necessitamos.

—Eles também? Eles dormem?

Glenna entendeu a que se referia. Aos vampiros. A Cian.

—Sim, aparentemente sim.

—Eu gostaria que já tivesse amanhecido para poder ver a luz do sol. Eles então se arrastam a seus buracos. Estou muito cansada para pensar.

—Mas eles não. Vêem, deixa que a ajude a se despir.

—Acredito que perdi todas minhas coisas no bosque. Tampouco tenho camisola.

—Nos encarregaremos disso manhã. Hoje pode dormir nua. Quer que fique um momento contigo?

—Não. Obrigado, não. —As lágrimas apareceram fugazmente em seus olhos—. Estou-me comportando como uma menina.

—Não. Só como uma mulher esgotada. Sentira-se melhor pela manhã. Boa noite.

Glenna pensou por um momento em retornar ao salão, mas logo se dirigiu para seu quarto. Não lhe importava absolutamente se os homens pensavam que se estava esquivando. Queria dormir.

    

Os sonhos a perseguiram, através dos túneis da caverna da vampira onde os gritos dos torturados eram como facas afiadas em sua mente, em seu coração. Cada vez que girava nesse labirinto, cada vez que corria pelo interior daquela greta negra, tão parecida com uma boca esperando para devorá-la, aqueles terríveis chiados a seguiam.

E pior que os gritos, muito pior, era a risada.

Seus sonhos a levaram a borda rochosa de um mar revolto onde um relâmpago vermelho cortava um céu negro, um mar negro. Ali, o vento a rasgava, as rochas surgiam da terra e lhe cravavam nas mãos, nos pés, até deixá-la coberta de sangue.

O denso bosque cheirava a sangue e morte, e ali as sombras eram tão espessas que podia as sentir contra sua pele como dedos gelados.

Podia ouvir que aquilo que a buscava chegava com o leve som de um bater de asas no deslizamento das serpentes, com o furtivo arranhão das garras na terra.

Ouviu o uivo do lobo e seu som de fome.

Estavam em todas as partes e ela só tinha as mãos vazias e o coração lhe golpeando com força no peito. Ainda assim, pôs-se a correr às cegas e com o grito abafado em sua garganta ardente.

Saiu de entre as árvores e chegou ao topo de um escarpado que se elevava sobre um mar de águas turbulentas. Abaixo dela, a dezenas de metros, as ondas chocavam violentamente contra as rochas que se sobressaíam, afiadas como facas. Presa do terror, tinha deslocado em círculos, e se encontrava novamente em cima da caverna que albergava algo que inclusive a morte temia.

O vento continuava açoitando-a e o poder cantava nele. O poder dele, o poder ardente e claro do feiticeiro. Ela o buscou, estendeu as mãos para ele, mas deslizou através de seus dedos trêmulos deixando-a sozinha.

Quando se voltou, ali estava Lilith, magnífica com seu traje vermelho, sua beleza luminosa contrastando sobre o negro fundo aveludado. A cada lado tinha um lobo, ansiosos por matar. Lilith lhes acariciou o lombo com mãos nas quais brilhavam os anéis.

E quando sorriu, Glenna sentiu uma horrível pontada no ventre. Um profundo e terrível desejo.

—O demônio ou as profundidades do mar. —Com uma gargalhada, Lilith fez estalar os dedos e os lobos se sentaram—. Os deuses jamais concedem a seus servos uma opção decente, não é? Eu tenho algumas melhores.

—Você está morta.

—Não, não, não. Eu sou a vida. Nisso é no que eles mentem. Estão mortos, carne e ossos convertendo-se em pó. Quanto tempo vivem atualmente? Setenta e cinco, oitenta anos? Tão pouco, Tão limitado.

—Aceitarei o que me deram.

—Então será uma estúpida. Pensava que foi mais esperta que isso, prática. Sabe que não pode ganhar. Já está cansada, esgotada, já começou a fazer perguntas. Eu ofereço uma saída, e mais. Muito mais.

—Para que seja como você? Para caçar e matar? Para beber sangue?

—Como se fosse champanha. OH, a primeira vez que a saboreia. Tenho saudades disso. Esse primeiro sabor embriagador, esse momento em que todo o resto desaparece salvo a escuridão.

—Eu gosto do sol.

—Com essa tez? —perguntou Lilith com um alegre sorriso—. Depois de uma hora na praia, assaria-se como bacon. Eu a ensinarei a frescura. A fria, fria escuridão. Já está em seu interior, esperando só ser despertada. Pode senti-la?

Porque sim podia senti-la, Glenna se limitou a negar com a cabeça.

—Embusteira. Se vier para mim, Glenna, estará a meu lado. Concederei-te a vida eterna. A juventude e a beleza eternas. E um poder muito maior que o que lhe foi dado. Governará seu próprio mundo. Isso é o que darei, um mundo próprio.

—Por que faria algo assim?

—Por que não? Terei muitos. E poderia desfrutar da companhia de uma mulher como você. O que são os homens, na realidade, a não ser ferramentas para nós? Se os quiser, os tomará. É um grande presente o que ofereço.

—O que me oferece é uma maldição.

Sua risada era sedutora e alegre.

—Os deuses atemorizam as crianças com histórias do inferno e da condenação eterna. Utilizam-nas para mantê-los controlados. Pergunte a Cian se trocaria sua existência, sua eternidade, sua bela juventude e seu corpo esbelto pelas cadeias e as armadilhas da mortalidade. Não o faria, asseguro-lhe isso. Vêem. Vêem comigo e lhe proporcionarei prazeres com os que jamais sonhaste.

Quando ela se aproximou, Glenna levantou ambas as mãos, concentrou-se tudo o que pôde em apesar de seu sangue gelado, e lutou por criar um círculo protetor.

Lilith se limitou a mover a mão. O azul aprazível de sua íris começou a tornar-se vermelho.

—Acredita acaso que essa magia insignificante poderá me deter? Bebi o sangue de feiticeiros, deleitei-me com a carne das bruxas. Todos eles estão em mim, como também você estará. Vêem voluntariamente e encontra a vida. Ou luta contra mim e encontra a morte.

Lilith se aproximou ainda mais, e os lobos se prepararam para atacar.

Glenna sentiu a pontada, hipnótica, gloriosa e escura, um estremecimento elementar e primário no ventre. Era como se o batimento do coração de seu sangue respondesse a essa chamada. Eternidade e poder, beleza, juventude. Tudo por um só momento.

Unicamente tinha que estender a mão e agarrá-lo.

O triunfo iluminou os olhos de Lilith com um vermelho ardente. Suas presas brilharam quando sorriu.

As lágrimas escorregavam pelas faces de Glenna quando esta se voltou, quando saltou por volta do mar e as rochas. Quando escolheu a morte.

Ao sentar-se de repente na cama um grito lhe rasgava a cabeça. Mas não era seu grito, ela sabia que não era dela. Era de Lilith. Um grito de fúria.

Com o fôlego entrecortado, Glenna saltou do leito arrastando consigo a manta. Pôs-se a correr, tremendo de frio e terror e com os dentes tocando castanholas. Voou através do corredor como se os demônios ainda estivessem tentando lhe caçar. O instinto a levou ao único lugar onde se sentia segura.

Hoyt despertou de um profundo sonho para encontrar entre os braços uma mulher nua e sacudida pelos soluços. Mal podia vê-la a tênue luz prévia do amanhecer, mas conhecia seu perfume, sua forma.

—O que? O que aconteceu?

Hoyt começou a afastá-la de seu lado enquanto procurava a espada que tinha junto à cama, mas Glenna se aferrou a ele como a hera ao tronco de um carvalho.

—Não. Não vá. Fique. Por favor, por favor, fique.

—Está gelada. —Hoyt a cobriu com a manta tentando lhe dar calor, tentando não perder a calma—. Estiveste fora da casa? Por todos os diabos. Fez algum conjuro?

—Não, não, não. —apertou-se contra ele—. Ela veio. Veio. Dentro de minha cabeça, dentro de meu sonho. Mas não era um sonho. Era real. Tinha que ser real.

—Basta. Acaba de uma vez com isto. —Sacudiu-a com força pelos ombros—.Glenna!

A cabeça dela oscilou adiante e atrás, seu fôlego saindo tremulo de seus lábios.

—Por favor. Tenho muito frio.

—Vamos, se tranqüilize, se tranqüilize. —Seu tom e seu contato foram se suavizando enquanto enxugava as lágrimas de suas faces. Envolveu-a completamente com a manta e a aproximou de seu corpo—. Foi um sonho, um pesadelo. Nada mais.

—Não foi. Olhe-me. —Glenna elevou a cabeça para que Hoyt pudesse olhá-la nos olhos—. Não foi só um sonho.

Hoyt compreendeu que era verdade. Podia ver que não tinha sido só um sonho.

—Então me fale dele.

—Ela estava dentro de minha cabeça. Ela... ela tirou uma parte de mim fora de meu corpo. Igual quando você estava naquele bosque, ferido, com os lobos espreitando fora de seu círculo. Tão real como aquilo. E você sabe que aquilo foi real.

—Sim, foi real.

—Eu corria —começou Glenna, e contou tudo o que tinha acontecido.

—Tentou seduzi-la com enganos. Agora pensa. Por que Lilith iria fazer algo assim a menos que soubesse que você é forte, a menos que soubesse que pode lhe causar dano?

—Eu morri.

—Não o fez, não, nem morreste. Está aqui. Fria —Lhe esfregou os braços e as costas. Conseguiria voltar a esquentá-la alguma vez? —, mas viva e aqui. A salvo.

—Ela era linda. Fascinante. Eu não gosto das mulheres, quero que me entenda, mas me sentia atraída para ela. E parte disso era sexual. Inclusive no meio do terror, eu a desejava. A idéia de que me tocasse, de que tomasse, era premente.

—É uma espécie de transe, nada mais que isso. Pensa que você não o permitiu. Que não a escutou, não acredite no que ela lhe dizia.

—Mas sim que a escutei, Hoyt. E uma parte de mim sim acreditou no que ela dizia. Uma parte de mim queria aceitar o que ela estava me oferecendo. Queria-o intensamente. Viver para sempre, e ter todo esse poder. Eu pensava, dentro de mim, pensava, sim, por que não deveria tê-lo? E ter que me afastar disso... Quase não consegui, porque fazê-lo foi o mais difícil que tenho feito em toda minha vida.

—E, entretanto, o tem feito.

—Esta vez sim.

—Todas às vezes.

—Eram seus escarpados. Podia o sentir nesse lugar. Sentia-o ali, mas não podia chegar até você. Eu estava sozinha, mais só do que jamais estive antes. E depois caía, e estava mais só ainda.

—Não está sozinha. —Hoyt a beijou na testa —. Não está sozinha, não é?

—Não sou uma covarde, mas tenho medo. E a escuridão... —Glenna estremeceu e olhou ao redor do quarto—. Tenho medo da escuridão.

Hoyt se concentrou na vela que havia na mesinha de noite e na lenha do lareira, acendendo-os.

—Logo amanhecerá. Vêem e verá. —Abraçou-a, desceu da cama e a levou junto à janela—. Olhe para o oeste. Está saindo o sol.

Glenna pôde ver a luz, um resplendor dourado sobre o horizonte. A bola fria que havia em seu interior começou a reduzir-se.

—A manhã —murmurou—. É quase de amanhã.

—Você venceste de noite e ela perdeu. Vêem, necessita um pouco de sono.

—Não quero estar sozinha.

—Não estará.

Hoyt a levou de novo à cama e a apertou contra ele. Porque ela seguia tremendo e porque ele podia fazê-lo, passou-lhe a mão pela cabeça e a enviou brandamente para o sono.

 

                                   Capítulo 10

Despertou com a luz do sol deslizando-se por seu rosto, e despertou sozinha.

Ele tinha apagado as velas, embora tivesse deixado que o fogo da lareira continuasse ardendo com escassa chama. Tinha sido um gesto muito amável por sua parte, pensou ela enquanto se sentava na cama e cobria os ombros com a manta. Hoyt tinha sido muito amável e muito terno, e lhe tinha proporcionado exatamente o consolo e a segurança que necessitava naquele momento.

Não obstante, uma onda de vergonha foi a primeira sensação que experimentou. Tinha deslocado para ele como uma menina histérica que foge do monstro que se oculta no armário. Soluçando, tremendo e dizendo incoerências. Não tinha sido absolutamente capaz de controlar a situação e então tinha procurado alguém — ele— para que a salvasse. Sempre havia se sentido orgulhosa de sua coragem e de seu engenho, entretanto não tinha sido capaz de fazer frente a sua primeira confrontação com Lilith.

Nem têmpera, pensou com desgosto, nem autêntica magia. O medo e a tentação os tinham anulado. Não, pior ainda, pensou, o medo e a tentação os tinham congelado dentro dela, profundamente, em um lugar onde ela não tinha sido capaz de chegar. Agora, à luz do dia, podia ver com claridade quão ridícula tinha sido, quão estúpida, quão fácil. Não tinha feito absolutamente nada para proteger-se antes, durante ou depois. Tinha deslocado através dos túneis das cavernas, através do bosque, chegando até a borda dos escarpados porque eles assim o tinham querido, e tinha permitido que o terror bloqueasse tudo, exceto a desesperada necessidade de fugir.

Tinha sido um engano que nunca mais voltaria a cometer.

E tampouco pensava ficar aqui sentada lambendo as feridas, não por algo que já tinha passado.

Levantou-se, envolveu-se na manta e logo apareceu ao corredor. Não viu ninguém e tampouco ouviu nada, e se sentiu agradecida por isso. Não queria falar com ninguém até que não se tranqüilizasse.

Entrou no banheiro, tomou banho, vestiu-se e em seguida dedicou tempo a maquiar-se com esmero. Como toque final, colocou nas orelhas uns brincos de âmbar para aumentar a força. Ao fazer a cama. Pôs um cristal de ametista e um pouco de romeiro debaixo do travesseiro. Depois de escolher uma vela com azeite para expulsar Lilith de seus sonhos e todos aqueles que eram como ela.

E também fabricaria uma estaca, e procuraria uma espada entre as armas. Não voltaria a ficar indefesa e exposta.

Antes de abandonar o quarto olhou longamente seu reflexo no espelho. Seu aspecto era o de alguém que estava alerta, pensou, e que era competente.

Ela seria forte.

Primeiro dirigiu seus passos à cozinha, porque considerava que era o coração de qualquer casa. Alguém tinha preparado café e, mediante um processo de eliminação, supôs que tinha sido King. Havia provas de que alguém tinha comido ali. Podia cheirar o bacon. Mas não havia ninguém nos arredores e tampouco pratos na pia.

Era uma sensação agradável saber que alguém tivesse comido —ou, ao menos, alguém tivesse cozinhado—depois tinha deixado tudo limpo e ordenado. Não gostava da desordem, mas tampouco importava encarregar-se dos aspectos domésticos.

Serviu-se uma xícara de café e sopesou a possibilidade de preparar um café da manhã. Mas o sonho ainda rondava em sua cabeça e a sensação de estar sozinha na casa era inquietante.

Sua seguinte opção foi à biblioteca, que considerava como a artéria principal do coração. Ali, com certo alívio, encontrou Moira.

Esta estava sentada no chão, diante do fogo e rodeada de livros. Nesse momento estava encurvada sobre um deles como uma estudante que se prepara para um exame. Levava postos uma túnica cor aveia, calças marrons e as botas de montar.

Ao ouvir Glenna entrar, elevou a vista e lhe dedicou um tímido sorriso.

—Bom dia.

—Bom dia. Estudando?

—Sim. —O acanhamento desapareceu e os olhos cinza mostraram seu intenso brilho —Este é um aposento maravilhoso, não acha? Em nosso castelo temos uma grande biblioteca, mas esta não tem nada que invejar.

Glenna se agachou junto a ela e apoiou um dedo sobre um livro grosso como uma viga. Em sua capa de couro esculpido havia uma só palavra: VAMPIROS.

—Está-se pondo em dia? —perguntou—. Estudando o inimigo?

—Acredito que é sensato saber o máximo possível sobre um tema. Nem todos os livros que tenho lido até agora concordam em tudo, mas sim em alguns elementos.

—Poderia perguntar a Cian. Imagino que ele poderia lhe explicar tudo que queria saber.

—Eu gosto de ler.

Glenna se limitou a assentir.

—De onde tirou a roupa?

—OH. Esta manhã saí, muito cedo, e recuperei minhas coisas.

—Sozinha?

—Estava bastante segura, já que não me afastei do caminho iluminado. Eles não podem sair à luz do sol. —Olhou por volta das janelas—. Não havia nenhum rastro dos que nos atacaram ontem à noite. Até as cinzas tinham desaparecido.

—Onde estão todos os outros?

—Hoyt subiu a sua torre para trabalhar, e King disse que se ia ao povoado procurar provisões agora que somos mais na casa. Nunca tinha visto um homem tão grande. Cozinhou para nós e preparou suco de fruta: laranja. Era delicioso. Acha que poderia levar algumas sementes dessa laranja quando retornarmos a Geall?

—Não vejo por que não. E os outros?

—Imagino que Larkin ainda está dormindo. Ele tem tendência a evitar as manhãs como se fossem a peste. E suponho que o vampiro está em seu quarto. — Moira passou o dedo sobre a palavra gravada na capa do livro—. Por que fica conosco? Não encontrei nada nos livros que possa explicar sua conduta.

—Então suponho que nem tudo pode ser encontrado nos livros. Há algo mais que necessite por agora?

—Não, obrigado.

—Pois irei à cozinha comer algo e depois eu também subirei para trabalhar. Imagino que quando King retornar do povoado teremos que começar a sessão de tortura que tenha planejado para nós.

—Glenna... queria te agradecer o que fez ontem à noite por mim. Estava tão cansada e zangada. Sinto-me tão fora de meu lugar.

—Entendo. —Glenna apoiou a mão sobre a de Moira—. Acredito que, de algum jeito, todos nos sentimos igual. Talvez isso forme parte do plano, nos afastar de nossos lugares, nos reunir para que encontremos a nós mesmos, para que encontremos o que há em nosso interior, juntos e individualmente, para lutar contra essa coisa. —Glenna se levantou—. Mas até que chegue o momento de nos pôr em marcha, teremos que converter esta casa em nosso lugar.

Deixou Moira em companhia de seus livros e retornou à cozinha. Ali encontrou o que restava de uma fornada de pão de centeio e encheu uma fatia de manteiga. Que dessem às calorias nesse momento. Foi comendo enquanto subia a escada que levava a torre de Hoyt.

Encontrou a porta do aposento fechada. Estava a ponto de chamar quando recordou que aquela era também sua área de trabalho e não o solitário domínio de Hoyt. De modo que colocou a fatia de pão a meio comer em cima da caneca de café e abriu a porta.

Hoyt levava uma camisa de tecido jeans desbotado, jeans negros e botas muito gastas, e ainda assim as arrumava para parecer um feiticeiro. Não se tratava só do cabelo negro, brilhante e espesso, pensou ela, ou daqueles intensos olhos azuis. Era o poder, que se via nele mais autêntico que suas roupas emprestadas.

A irritação foi a primeira emoção que cruzou pelo rosto do homem quando desviou o olhar e a viu. Glenna se perguntou se seria algo habitual nele esse chateio instantâneo quando era interrompido ou incomodado. Logo o gesto de contrariedade desapareceu e ela se encontrou sendo cuidadosamente estudada.

—Então que se levantou.

—Isso parece.

Hoyt voltou a concentrar-se em seu trabalho, vertendo um líquido escuro de uma espécie de tubo de ensaio no interior de um frasco.

—King foi ao povoado comprar provisões.

—Isso me disseram. Encontrei Moira na biblioteca, aparentemente lendo todos os livros que há ali.

O seguinte ia ser difícil, pensou Glenna enquanto Hoyt continuava trabalhando em silêncio. O melhor seria encará-lo quanto antes.

—Pensava me desculpar por tê-lo incomodado ontem à noite, mas o faria só para agradá-lo. —Esperou, um batimento do coração, logo dois, antes que ele deixasse o que estava fazendo e a olhasse—. De modo que pode me dizer que não me preocupe com isso, que, é claro, não há nenhum problema. Eu estava assustada e alterada.

—Mas isso não seria de tudo certo.

—Sim seria, e como ambos sabemos todos os demais me agrade. Assim, não me desculparei, mas sim quero lhe agradecer

—Não tem importância.

—Para mim sim tem, a vários níveis. Você estava ali quando necessitei e, por outro lado, tranqüilizou-me. Fez que me sentisse segura. Mostrou-me o sol através da janela.

Deixou a caneca sobre a mesa para ter as mãos livres quando se aproximou dele.

—Assaltei sua cama na metade da noite. Nua. Estava histérica e era vulnerável. Estava indefesa.

—Não acredito que esse último seja verdade.

—Naquele momento era. Não voltará acontecer. Poderia ter me tomado. Ambos sabemos.

Produziu-se um comprido silencio que confirmou essa simples verdade mais autenticamente que qualquer palavra.

—Que tipo de homem teria sido se a tivesse tomado em um momento assim? Se tivesse aproveitado seu medo para minhas próprias necessidades?

—Um homem diferente do que é. E estou agradecida ao homem que é. —Rodeou a mesa e ficou nas pontas dos pés para beijá-lo em ambas as faces—. Muito. Você me deu consolo, Hoyt, e me deu o sono. E deixou o fogo aceso. Não esquecerei.

—Agora está melhor.

—Sim. Agora estou melhor. Surpreenderam-me com a guarda baixa, a próxima vez não será assim. Não estava preparada para ela mas na seguinte ocasião estarei. Não tomei as precauções necessárias, nem sequer as mais elementares, porque estava esgotada. —aproximou-se do fogo que ele mantinha ardendo fracamente—. Descuidei-me.

—Assim é.

Ela levantou a cabeça e sorriu.

—Desejou-me?

Hoyt voltou para seu trabalho.

—Essa não é a questão.

—Tomarei isso como um sim e prometo que a próxima vez que me meta em sua cama não estarei histérica.

—A próxima vez que se meter em minha cama não permitirei que durma.

Ela pôs-se a rir a gargalhadas.

—Bom, vejo que nos entendemos.

—Não sei se a entendo, mas isso não impede que a deseje.

—É recíproco em ambos os aspectos. Mas acredito que eu sim estou começando a entendê-lo.

—Veio aqui para trabalhar ou só me distrair?

—A ambas as coisas, suponho. Posto que já consegui o segundo, perguntarei no que está trabalhando.

—Um escudo.

Glenna, intrigada, aproximou-se dele.

—Mais ciência que feitiçaria —disse ela.

—Não são excludentes, mas sim estão ligadas.

—Estou de acordo. —Cheirou o tubo de ensaio—. Um pouco do salvia —decidiu ao cabo de um momento— e cravo-da-índia. O que usa para fixá-los?

—Pó de ágata.

—Boa escolha. Que tipo de escudo está procurando?

—Um escudo que proteja do sol. É para Cian.

Glenna desviou os olhos da poção para olhá-lo, mas Hoyt seguiu concentrado no seu.

—Entendo.

—Se sairmos de noite nos arriscamos a sofrer um ataque, e Cian morrerá se expuser-se-se à luz do sol. Mas se tivesse um escudo que o protegesse da luz, poderíamos trabalhar e treinar com mais eficácia. Se ele tivesse um escudo, poderíamos sair para caçar essas coisas durante o dia.

Glenna não disse nada no momento. Sim, estava começando a entendê-lo. Era um homem muito bom, um homem que tinha princípios elevados. De modo que podia mostrar-se impaciente, irritável e inclusive autocrítico.

E amava seu irmão.

—Acha que Cian sente falta do sol?

Hoyt suspirou.

—Não o sentiria você?

Tocou-lhe o braço. Um bom homem, voltou a pensar. Um homem muito bom que se preocupava com seu irmão.

—O que posso fazer para ajudar?

—Talvez eu esteja começando a entender você também.

—Sério?

—Tem um coração aberto. —Agora Hoyt a olhou nos olhos—. Um coração aberto e uma mente disposta. São duas coisas difíceis de resistir.

Glenna agarrou o frasco que Hoyt sustentava entre as mãos e o deixou em cima da mesa.

—Quer me beijar? Ambos estamos desejando, e resulta muito difícil trabalhar nestas condições. Beije-me, Hoyt, para que possamos nos tranqüilizar.

A voz dele transluzia um vislumbre de diversão:

—Nos beijar fará que nos tranqüilizemos?

—É algo que não saberemos até que não tenhamos tentado. —Glenna apoiou as mãos sobre seus ombros e deixou que seus dedos brincassem com seu cabelo—. Mas sei que, neste preciso instante, não posso pensar em nenhuma outra coisa. De modo que me faça um favor e me beije.

—Um favor então.

Os lábios dela eram suaves e quentes debaixo dos de Hoyt. E ele foi tenro, abraçando-a e degustando-a como tinha desejado fazê-lo a noite anterior. Acariciou-lhe o cabelo com uma mão, deslizando-a logo para baixo, por suas costas, de modo que o tato dela se mesclou em seus sentidos com seu sabor e seu aroma.

E o que havia dentro dele acabou por abrir-se e acalmar-se.

Ela deslizou os dedos pelo duro contorno de suas maçãs do rosto e se entregou completamente ao momento. Ao prazer e a quietude, e à onda de calor que fluía debaixo de ambos.

Quando seus lábios se separaram, Glenna apertou sua face contra a dele, e permaneceu assim durante segundos.

—Sinto-me melhor - disse—. E você?

—Eu também. —Hoyt retrocedeu, logo agarrou a mão da Glenna e a levou aos lábios—. E suspeito que precisarei voltar a me tranqüilizar. Pelo bem do trabalho.

Ela pôs-se a rir, encantada.

—Tudo que seja pela causa.

Ambos trabalharam juntos durante mais de uma hora, mas cada vez que expunham a poção ao sol, o líquido fervia imediatamente.

—Um conjuro diferente - sugeriu Glenna.

—Não. Necessitamos um pouco de sangue de Cian. —Olhou-a por cima do cubo—. Para a própria poção e para poder prová-la.

Glenna pensou.

—Mas pede você.

Nesse momento alguém golpeou a porta e King a abriu de par em par. Levava calças de camuflagem e uma camiseta verde oliva. Recolheu as rastas em um rabo de cavalo grosso e frisado. E ele sozinho parecia todo um exército, pensou Glenna.

—A hora da magia se acabou. Formar lá fora! Temos que nos pôr em forma.

 

Se King não tinha sido um sargento instrutor em outra vida, o carma se perdeu numa passagem. O suor se metia nos olhos de Glenna quando atacava o manequim que Larkin tinha construído com palha e envolto em tecido. Levantou o antebraço para bloquear um golpe imaginário, como lhe tinham ensinado, e logo cravou a estaca na palha.

Mas o manequim seguia aproximando-se dela, movendo-se graças ao sistema de polias que King tinha instalado, e a lançou de costas ao chão.

—E está morta —anunciou King.

—OH, é uma merda. Cravei-lhe a estaca.

—Mas não no coração, ruiva. —King estava de pé junto a ela, enorme e desumano—. Quantas oportunidades acha que terá? Se não puder com o que vem de frente, Como fará para eliminar os três que a ataquem pelas costas?

—Está bem, de acordo. —levantou-se e sacudiu o pó—. Farei de novo.

—Esse é o espírito que eu gosto.

Glenna o fez outra vez, e outra, até que detestou o boneco de palha tanto quanto tinha detestado sua professora de história de curso. Então se voltou, furiosa, agarrou uma espada com ambas as mãos e o fez em pedaços.

Uma vez que teve terminado, os únicos sons que se ouviam eram sua agitada respiração e a risada sufocada de Larkin.

—Muito bem. —King esfregou o queixo—. Acredito que agora está fodidamente morto. Larkin, quer fazer o favor de construir outro boneco? E você deixa que lhe faça uma pergunta, ruiva.

—Dispara.

—Como é que não acabaste com o boneco usando sua magia?

—A magia requer concentração, Acredito que poderia utilizar um pouco de magia em uma briga... parece-me. Mas agora a maior parte de minha concentração está orientada ao uso da espada ou da estaca, especialmente se tivermos em conta que não estou acostumada a usar nenhuma das duas coisas. Se não me concentrasse, minha arma poderia sair simplesmente voando de minha mão falhando assim o alvo. É algo sobre o que tenho que trabalhar.

Deu uma olhada ao redor para assegurar-se de que Hoyt não podia ouvi-la.

—Geralmente necessito instrumentos, cânticos, certos rituais, mas posso fazer isto.

Abriu a mão, concentrou-se e fez aparecer uma bola de fogo.

King, curioso, tocou-a com o dedo. E o retirou rapidamente para levá-lo à boca e acalmar a queimadura.

—Fodido truque.

—O fogo é elementar, como o ar, a terra, e a água. Entretanto se fizer isto durante uma batalha e o lançar a um de nossos inimigos, poderia alcançar sem querer um dos nossos ou a ambos.

King estudou a bola luminosa com olhos assombrados.

—É como apontar com uma arma sem saber disparar. Não pode estar segura da quem alcançaria a bala. Ou acabará disparando contra seu próprio e fodido pé.

—Algo assim. —Glenna fez desaparecer a bola de fogo—. Mas é agradável o ter de reserva.

—Tome um descanso, ruiva, antes que machuque alguém.

—Nem penso discutir.

Glenna entrou na casa com intenção de beber vários litros de água e comer algo. Esteve a ponto de se chocar com Cian.

—Não sabia que estava acordado.

Cian se mantinha afastado da luz que se filtrava através das janelas, mas Glenna viu que tinha uma perspectiva perfeita e completa das atividades que estava se desenvolvendo fora da casa.

—O que pensa? —perguntou-lhe—. Como estamos fazendo?

—Se eles viessem agora procurar por vocês, eles comeriam como um frango em uma comida campestre.

—Sei. Somos torpes e não há nenhum sentido de equipe. Mas melhoraremos.

—Terão que fazê-lo.

—Bom, vejo que esta tarde está cheio de entusiasmo e ânimo para nós. Levamos treinando duas horas e não estamos acostumados a este tipo de coisas. Larkin é o mais parecido a um guerreiro que King pode ter, e ainda está verde.

Cian se limitou a olhá-la.

—Será melhor que maturem logo ou acabarão todos mortos.

Podia enfrentar o cansaço, o suor e o esforço, pensou Glenna, mas agora a estavam insultando.

—Já é bastante difícil fazer o que estamos fazendo sem necessidade de que um de nós se comporte como um completo imbecil.

—É assim como chama ser realista?

—A merda a realidade, e você com ela.

Glenna entrou na cozinha e meteu em uma cesta um pouco de fruta, pão e uma garrafa de água. Quando voltou a sair, ignorou por completo a presença de Cian.

Uma vez fora, deixou a cesta em cima da mesa que King tinha tirado para ter ali as armas.

—Comida! —exclamou Larkin como alguém a ponto de desfalecer de fome—. Abençôo-a até a planta dos pés, Glenna. Já começava a me consumir.

—Não tenho dúvida disso, considerando que faz apenas duas horas que se abarrotou de comida —disse Moira.

—O senhor das trevas acredita que não estamos nos esforçando o suficiente, e nos comparou com os frangos de uma comida campestre para os vampiros. —Glenna agarrou uma das maçãs da cesta e o visualizou, e a seguir lançou a maçã. A fruta voou para o boneco e, na metade do vôo, converteu-se em uma estaca que perfurou a palha e o tecido,

—OH, isso foi magnífico —disse Moira quase sem fôlego —Isso foi brilhante.

—Às vezes o mau gênio me dá um pouco de estímulo à magia.

A estaca deslizou fora do boneco e caiu ao chão convertida novamente em uma maçã. Glenna olhou Hoyt.

—É algo que devemos desenvolver —disse.

—Necessitaremos algo mais que nos una, que nos mantenha juntos —disse mais tarde a Hoyt. Estava sentada na torre, esfregando os machucados com um bálsamo enquanto ele passava as páginas de um livro de conjuros—. As equipes levam uniformes ou têm canções de guerra.

—Canções? Agora deveríamos cantar? Ou melhor, talvez encontrar um fodido harpista?

O sarcasmo, decidiu Glenna, era algo que os irmãos compartilhavam tanto como seus traços físicos.

—Necessitamos algo. Olhe-nos. Inclusive agora: você e eu aqui, Moira e Larkin juntos ali fora, King e Cian na sala de treinamento, planejando novas torturas para nós. Está bem e é positivo ter uma equipe grande dividida em equipes menores e trabalhando em seus próprios projetos, mas é que nós não somos ainda uma equipe grande.

—Então devemos trazer a harpa e começar a cantar? Temos um trabalho importante que fazer, Glenna.

—Não está me acompanhando. —Paciência, disse-se a si mesmo. Ela tinha trabalhado tão duramente como ele e estava igualmente cansada—. Trata-se de simbolismo. Temos o mesmo inimigo, isso é verdade, mas não o mesmo propósito.

Glenna se aproximou da janela e comprovou como se foram alargando as sombras e quão baixo estava o sol no céu.

—Logo escurecerá.

Seus dedos procuraram o colar. Nesses momentos tudo lhe parecia tão simples, tão óbvio.

—Está procurando um escudo para Cian porque ele não resiste à luz do sol. E o que acontece conosco? Não podemos nos arriscar a sair da casa depois de que escurece. E embora permaneçamos entre estas paredes, sabemos muito bem que ela pode chegar até nós, meter-se em nosso interior. Onde está nosso escudo, Hoyt? O que pode nos proteger contra o vampiro?

—A luz.

—Sim, sim, isso já sei, mas que símbolo? Uma cruz. Temos que fazer cruzes e dotá-las de magia. As converter não só em um escudo mas também em uma arma, Hoyt.

Ele pensou nas cruzes que Morrigan lhe tinha entregado para todos os membros de sua família. Mas seus poderes, inclusive as suas misturas com os da Glenna, não podiam competir com os deuses.

Não obstante...

—Prata - murmurou ele—. A prata seria o melhor.

—Com jaspe vermelho para a proteção noturna. Necessitamos um pouco de alho e também salvia. —Glenna começou a procurar em sua caixa de ervas e raízes secas—. Começarei a preparar a poção agora mesmo. —Agarrou um de seus livros e passou rapidamente as folhas— Tem alguma idéia de onde podemos tirar a prata?

—Sim.

Hoyt saiu da sala, desceu ao primeiro andar da casa e entrou no que agora era a sala de jantar. Os móveis eram novos... ao menos para ele. Mesas de madeira escura e pesada, cadeiras de respaldo alto e belamente esculpidos. As cortinas que estavam jogadas na janela eram de uma cor verde brilhante e escura, como as sombras do bosque, e feitas com uma seda grosa e pesada.

Nas paredes havia pinturas, todas elas representando cenas noturnas do bosque e clareiras umbrosas, e escarpadas. Inclusive ali, pensou Hoyt, seu irmão fugia a luz. Ou acaso preferia a escuridão inclusive nas pinturas?

Altos albergues com portas de cristal esmerilhado continham baixelas e cristais de ricos tons. Posses, pensou, de um homem de fortuna e posição e que tinha tido toda uma eternidade para colecioná-las.

Alguma daquelas coisas significava algo para Cian? Tendo tanto, podia lhe importar um só objeto?

No aparador maior havia dois altos candelabros de prata e Hoyt se perguntou se possivelmente... se tinham tido tanta importância para seu irmão alguma vez.

Esses candelabros tinham pertencido a sua mãe.

Elevou uma mão e teve uma imagem dela —clara e transparente como a água de um lago— sentada à roca e fiando, cantando uma das velhas canções que tanto gostava enquanto seguia o ritmo com os pés.

Levava um vestido azul e véu, e seu rosto era jovem e sereno, uma aprazível satisfação a cobria como um manto de seda suave. Pôde ver que seu corpo estava volumoso pelo menino que levava no ventre. Não, corrigiu-se, pelos meninos: Cian e ele.

E, sobre o aparador que havia debaixo da janela, junto à mulher os dois candelabros.

—Foram um presente de meu pai no dia de minhas bodas, de todos os pressente que recebi, é o que mais estimo. Algum dia, um deles será para você e o outro para Cian. E desse modo passará de uns aos outros, e o doador será recordado cada vez que se acenda a vela.

Hoyt se consolou pensando que não necessitava nenhuma vela para recordar sua mãe. Mas o candelabro pesava em suas mãos quando o levou a torre.

Glenna elevou a vista do caldeirão onde estava mesclando suas ervas para preparar a poção.

—OH, é perfeito. E tão lindo. Machuca que tenhamos que fundi-lo. —Glenna deixou seu trabalho por um momento para examinar melhor o candelabro—. É muito pesado. E antigo me parece.

—Sim, é muito antigo —confirmou Hoyt.

Então Glenna o entendeu, e sentiu uma leve pontada no coração.

—Era de sua família?

O rosto, a voz do Hoyt eram deliberadamente inexpressivos.

—Devia ser para mim, e assim foi.

Glenna esteve a ponto de lhe dizer que procurasse alguma outra coisa, algum objeto que não tivesse um significado afetivo tão grande para ele, mas decidiu engolir as palavras. Pensou que entendia perfeitamente por que tinha feito essa escolha. Tinha que ter um custo. A magia pedia um preço.

—O sacrifício que está fazendo fortalecerá o conjuro. Espera. —Ela tirou um anel do dedo do meio da mão direita—. Era de minha avó.

—Não é necessário.

—É um sacrifício pessoal, teu e meu. Estamos pedindo muito. Necessito um pouco de tempo para idear o conjuro. Não encontrei nada em meus livros que possa nos servir para nosso propósito, de modo que teremos que resolver isso.

Quando Larkin chegou à porta da torre, ambos estavam profundamente absortos nos livros. Jogou uma olhada ao redor da sala e permaneceu na soleira.

—Enviaram-me para buscá-los. O sol se pôs e logo começaremos o treinamento noturno.

—Diga ao King que iremos assim que tenhamos terminado o que estamos fazendo —disse Glenna—. Estamos na metade de algo.

—O direi, mas não acredito que vá gostar disso.

Larkin fechou a porta e partiu.

—Já quase o tenho. Vou desenhar o que acredito que deveria ser seu aspecto e logo ambos o visualizaremos. Hoyt?

—Deve ser puro —disse quase falando consigo mesmo—. Conjurado tanto com fé como com magia.

Glenna deixou Hoyt com isso e começou a desenhar. Simples, pensou, e com tradição. Elevou a vista e viu que Hoyt estava sentado, com os olhos fechados. Reunindo poder, supôs, e seus pensamentos.

Uma expressão tão séria, e um rosto, deu-se conta, no que tinha chegado a confiar plenamente. Tinha a sensação de que conhecia esse rosto sempre, igual ao som e a cadência de sua voz.

Em troca, o tempo de que dispunham era muito pouco, um punhado de grãos na areia do relógio.

Se conseguissem a vitória —não, quando, quando conseguissem a vitória—, Hoyt retornaria a seu tempo, sua vida, seu mundo. E ela aos seus. Mas nada voltaria a ser o mesmo. E nada poderia encher jamais o vazio que ele deixaria atrás.

—Hoyt.

Seus olhos eram diferentes quando se encontraram com os dela. Mais profundos e mais escuros. Empurrou o desenho para ele.

—Acha que isso servirá?

Hoyt levantou o papel e estudou o desenho.

—Sim, exceto por isso.

Agarrou o lápis que Glenna tinha na mão e acrescentou umas linhas na larga base da cruz celta que ela tinha desenhado.

—É escrita ogham. O que diz?

—Diz “luz”.

Ela assentiu com um sorriso.

—Então é perfeito. Este é o conjuro. Parece-me bom.

Hoyt agarrou o papel e a olhou.

—Versos?

—Assim é como trabalho. Terá que aceitá-lo. E quero um círculo. Sentirei-me melhor se tivermos um.

Hoyt se levantou, aceitando o pedido de Glenna de que riscassem o círculo juntos. Ela colocou umas velas e observou enquanto Hoyt as prendia.

—Faremos o fogo juntos —disse.

Hoyt estendeu a mão para ela.

O poder subiu por seu braço e chegou até seu coração. E o fogo, puro e branco, ardeu a uns centímetros do chão. Hoyt elevou o candelabro dentro do caldeirão—. Volte-se líquida sob esta luz.

—Da torre do feiticeiro —continuou Glenna, acrescentando o jade vermelho e as ervas —exortam a esta chama para que libere seu poder.

Deixou cair o anel de sua avó dentro do caldeirão.

—Poderes do céu e o mar, do ar e da terra, invocamo-los. Nós, seus servos, imploramos esta bênção, nos protejam neste tempo de prova. Respondemos a seu encargo com cabeça, coração e mão para derrotar a escuridão na Terra. De modo que os invocamos três vezes para proteger aqueles que lhes servem fielmente.

—Que esta cruz arroje luz na noite.

Enquanto ambos entoavam juntos o último cântico três vezes, o caldeirão começou a desprender uma fumaça cinza e as chamas brancas que ardiam debaixo se voltaram mais brilhantes.

A luz, o calor e a fumaça envolveram Glenna por completo enquanto que sua voz se elevava junto à de Hoyt. Através dessa mescla pôde ver os olhos dele, só seus olhos, fixos nos dela.

Em seu coração, em seu ventre, a mulher sentiu que algo se esquentava e crescia. Mais forte, mais potente que qualquer outra coisa que nunca tinha conhecido e que formou redemoinhos em seu interior enquanto Hoyt, com sua mão livre, arrojava o resto do pó de jade dentro do caldeirão.

—E cada cruz de prata será um escudo para nós. Que assim seja.

A sala estalou de luz e sua força fez que tremessem o chão e as paredes. O caldeirão se derrubou, derramando o líquido prateado em cima das chamas.

A força esteve a ponto de derrubar também Glenna, mas os braços de Hoyt a seguraram. Deu meia volta para protegê-la com seu corpo das chamas subitamente crescidas e do vento ensurdecedor.

Hoyt viu que a porta se abria. Por um instante Cian ficou emoldurado na entrada da torre, imerso nessa luz impossível e depois desapareceu.

—Não! Não! —Hoyt arrastou Glenna com ele e rompeu o círculo. A luz se encolheu sobre si mesmo, engoliu-se a si mesmo e se esfumou com um poderoso estrondo.

Cian sangrava estendido no chão, com a camisa meio queimada e ainda fumegante.

Hoyt ficou de joelhos e seus dedos procuraram o pulso de seu irmão antes de recordar que não o encontraria em nenhum caso.

—Meu Deus, meu Deus, o que é que tenho feito?

—Está gravemente queimado. Tire-lhe a camisa. —A voz da Glenna era fresca como água e igualmente tranqüila—. Com cuidado.

—O que aconteceu? Que merda tem feito? —King afastou violentamente Hoyt—. Filho da puta. Cian. Meu Deus.

—Estávamos acabando de fazer um conjuro e Cian abriu a porta. Havia muita luz. Não foi culpa de ninguém. Larkin —continuou Glenna—, ajuda King levar Cian a seu quarto. Eu irei em seguida. Tenho algumas coisas que podem ajudar.

—Não está morto —disse Hoyt em voz baixa, olhando seu irmão—. Não está morto.

—Não está morto —repetiu Glenna—. Eu posso ajudá-lo. Sou uma boa curadora. É um de meus pontos fortes.

—Eu a ajudarei. —Moira se aproximou e se apoiou na parede enquanto King e Larkin levantavam Cian —. Tenho alguma experiência nisto.

—Bem. Vá com eles. Procurarei as coisas que necessito. Hoyt, posso ajudá-lo.

—O que é que temos feito? —Hoyt olhava as mãos com expressão de impotência. Embora ainda vibrassem como conseqüência da potência do conjuro, sentia-as vazias e inúteis. — Era algo mais poderoso que tudo o que tenho feito até agora.

Glenna lhe agarrou a mão e o arrastou novamente dentro da sala da torre.

O círculo era visível sobre o chão depois ter ardido e deixado um anel branco abrasado. No centro do mesmo brilhavam nove cruzes de prata com um círculo de jaspe vermelho na união de ambos os braços.

—Nove. Três vezes três. Pensaremos a respeito disto mais tarde. Acredito que por agora deveríamos as deixar onde estão. Não sei, deixar que se esfriem.

Hoyt ignorou as palavras de Glenna, entrou no círculo e agarrou uma das pequenas cruzes de prata.

—Está fria.

—Genial. Bem —disse Glenna. Mas sua mente já estava concentrada em Cian e no que teria que fazer para ajudá-lo. Agarrou sua caixa com poções e ervas—. Tenho que descer e fazer por ele tudo o que possa. Não foi culpa de ninguém, Hoyt.

—Duas vezes. Estive a ponto de matar a meu irmão duas vezes.

—Isto foi coisa minha tanto como sua. Vem comigo?

—Não.

Glenna foi dizer algo, logo meneou a cabeça e abandonou rapidamente a sala.

    

No esplêndido dormitório, o vampiro jazia imóvel sobre a enorme cama. Seu rosto era o de um anjo. Um anjo do inferno, pensou Moira. Enviou os homens por água quente e ataduras; o fez sobre tudo para tirá-los do meio.

Agora estava a sós com o vampiro, quem estava estendido sobre a cama, imóvel como a morte.

Se apoiasse a mão sobre seu peito não perceberia absolutamente nenhum pulsado de seu coração. Não haveria fôlego algum que empanasse um cristal se o aproximava de seus lábios. E sua imagem não se refletiria nele.

Moira tinha lido todas essas coisas nos livros, e muitas mais.

Entretanto, lhe tinha salvado a vida, e o devia.

Aproximou-se de um lado do leito e usou a escassa magia que tinha para tentar esfriar sua pele queimada. Sentiu um acesso de náusea que conseguiu controlar. Nunca tinha visto uma carne tão chamuscada. Como era possível que alguém —algo —pudesse sobreviver a umas feridas tão terríveis?

Os olhos azuis de Cian se abriram subitamente. Sua mão se fechou ao redor de seu pulso.

—O que está fazendo?

—Está ferido gravemente. —Odiava ouvir o tremor de sua voz, mas o medo que sentia ante ele, estando sozinha com ele, era incontrolável—. Tiveste um acidente. Estou esperando Glenna, o ajudaremos. Agora não deve se mover. —Moira pôde ver o momento em que a dor crescia nele, e parte de seu medo desapareceu—. Não se mova - repetiu—. Posso aliviar um pouco as queimaduras.

—Não preferiria acaso que ardesse no inferno?

—Não sei. Mas sei que não quero ser eu quem o envie ali. Ontem à noite não teria disparado a flecha, e me sinto envergonhada por ter permitido que acreditasse que poderia fazer semelhante coisa. Devo-te a vida.

—Parte e estaremos em paz.

—Agora virá Glenna. Refresca-te um pouco?

Caín se limitou a fechar os olhos e seu corpo estremeceu.

—Necessito sangue.

—Bom, posso lhe assegurar que não será o meu. Não sou tão agradecida.

Moira acreditou ver que seus lábios se curvavam ligeiramente.

—Não me refiro ao seu, embora apostasse que é muito saborosa. —Teve que recuperar o fôlego que a dor lhe roubava—. Nessa caixa que há no outro lado do quarto. A caixa negra com a asa de prata. Necessito sangue para... bom, necessito-o.

Moira deixou que fosse ele quem abrisse a caixa, depois fez um esforço para reprimir a repulsão que sentiu ao ver as bolsas transparentes, com seu conteúdo de líquido vermelho escuro.

—Aproxima-me isso traga-me e põe-se a correr o que preferir, mas o necessito agora.

Moira lhe levou a caixa, logo viu que Caín fazia um esforço para levantar-se e tentar abrir uma das bolsas de sangue com suas mãos queimadas. Sem dizer nada, ela agarrou a bolsa de plástico e a abriu, derramando algumas gotas.

—Sinto muito.

Olhou e reuniu coragem para lhe passar um braço por cima dos ombros enquanto que com a mão livre lhe aproximava a bolsa aos lábios.

Cian a olhou enquanto bebia e ela se obrigou a sustentar seu olhar sem pestanejar.

Quando esvaziou a bolsa, Moira voltou a apoiar com cuidado a cabeça de Cian sobre o travesseiro antes de ir ao banheiro em busca de uma toalha para lhe limpar o sangue da boca e o queixo.

—É uma mulher pequena mas valente.

Moira percebeu certa ironia em sua voz e que recuperava algo de suas forças.

—Você não tem escolha por causa do que é. Eu não a tenho por causa do que sou.

Moira se separou da cama quando Glenna entrou no quarto.

 

                            Capítulo 11

—Quer algo para a dor? —perguntou Glenna enquanto encharcava uma fina gaze com bálsamo.

—O que é o que tem?

—Um pouco de tudo. —Apoiou brandamente a gaze sobre o peito de Cian—. Sinto muito. Cian. Teríamos que ter fechado a porta com chave.

—Uma porta fechada com chave não teria me impedido de entrar na sala, não em minha própria casa. A próxima vez poderiam tentar com algum tipo de cartaz, algo assim como... vá passear!

—Sei, sinto muito, sei. Em uns minutos se sentirá melhor. Um cartaz? —continuou dizendo Glenna com voz suave e sedativa enquanto trabalhava sobre as queimaduras de Cian. —. Algo como magia inflamável. Não passar.

—Isso ajudaria que ninguém saísse machucado. —Cian sentia a dor das queimaduras não só na pele mas também nos ossos, como se o fogo tivesse ardido dentro e fora dele—.Que merda estavam fazendo?

—Mais do que nenhum de nós esperava. Moira, unta mais bálsamo em uma atadura, por favor. Cian?

—O que?

Ela se limitou a lhe olhar intensamente, com suas mãos revoando em cima de suas queimaduras mais graves. Glenna sentia o calor, mas não sua liberação.

—Isto não funcionará a menos que você o permita —disse—. A menos que confie em mim e o deixe sair.

—Um preço muito alto para um pouco de alívio, somado ao feito de que você é em parte responsável pelo que me pôs neste estado.

—Por que quereria Glenna te machucar? — interveio Moira enquanto que seguia enchendo a atadura com bálsamo—. Ela o necessita. Todos o necessitamos, nós gostemos ou não.

—Um minuto —disse Glenna—. Confia em mim só um minuto. Quero ajudá-lo; é necessário que acredite. Tem que me acreditar. Olhe-me nos olhos. Sim, isso.

“Agora sim. Calor e liberação.”

—Muito bem, isso está melhor. Um pouco melhor. Sim?

Caín compreendeu que ela tinha transpassado parte das queimaduras dele dentro dela. Jamais o esqueceria.

—Um pouco melhor, sim. Obrigado.

Glenna aplicou mais gaze untadas com bálsamo sobre as feridas e se voltou para a caixa onde guardava suas pomadas e ervas.

—Agora limparei os cortes e tratarei os machucados e depois lhe darei algo que o ajudará a descansar.

—Não quero descansar.

Glenna trocou de postura acomodando-se na cama, para poder limpar os cortes que Cian tinha no rosto. Com um gesto de assombro apoiou os dedos sobre suas faces e o fez girar a cabeça.

—Pensei que eram piores.

—Eram. Curo-me depressa da maioria das feridas.

—Me alegro por você. Como está sua visão?

Ele voltou para ela seus quentes olhos azuis.

—Vejo-a bastante bem, ruiva.

—Poderia ter uma contusão. Pode sofrer contusões? Imagino que sim —disse ela antes que ele pudesse responder—. Tem queimaduras em alguma outra parte do corpo? —Começou a descer o lençol e depois lhe lançou um olhar travesso—. É verdade o que dizem a respeito dos vampiros?

A pergunta fez que Cian pusesse-se a rir e logo lançasse um gemido de dor.

—Isso é um mito. Temos os mesmos atributos que antes da mudança. Pode comprová-lo por si mesma, mas não estou ferido nessa área. Deu-me totalmente no peito.

—Preservaremos sua modéstia... e minhas ilusões. —Quando ela retirou as mãos, a expressão divertida desapareceu do rosto de Cian—. Pensei que o tínhamos matado. E ele também. Agora está sofrendo.

—OH, ele está sofrendo, não é? Talvez gostasse de trocar de lugar comigo.

—Sabe muito bem que o faria. Não importa o que pense de Hoyt, ele o ama. Não pode eliminar esse sentimento, e não teve tanto tempo como você para afastar-se de seu irmão.

—Deixamos de ser irmãos na mesma noite de minha morte.

—Não, não é verdade. E está enganando se pensar isso. —levantou-se da cama—. Tenho feito tudo o que está em minhas mãos para que esteja cômodo. Voltarei dentro de uma hora e trocarei as ataduras.

Glenna recolheu suas coisas. Moira abandonou o quarto antes que ela e esperou.

—O que foi o que provocou essas queimaduras?

—Não estou de todo segura.

—É necessário que saiba, porque é uma arma muita poderosa contra os de sua espécie. Poderíamos utilizar contra eles.

—Não estávamos controlando. Não sei se podemos fazê-lo.

—Se pudesse —insistiu Moira.

Glenna abriu a porta de seu quarto e guardou a caixa com suas coisas. Não estava preparada para retornar ainda à torre.

—Que eu saiba, isso nos controlava. Era algo enorme e poderoso. Muito poderoso para que qualquer um de nós possa dirigi-lo. Inclusive Hoyt e eu juntos, e estávamos tão unidos como nunca estive com ninguém, não fomos capazes de controlá-lo. Era como estar dentro do sol.

—O sol é uma arma.

—Se não saber como usar uma espada, pode cortar sua própria mão tanto como a de seu inimigo.

—Por isso aprende a utilizá-la —disse Moira.

Glenna se inclinou sobre a cama e logo levantou uma mão.

—Estou tremendo —disse, olhando-a oscilar no ar—. E há partes dentro de meu corpo que não sabia que tivesse e que estão tremendo igual a minha mão.

—E eu a estou importunando, sinto muito. Quando estava curando o vampiro parecia tão tranqüila, tão controlada.

—Ele tem nome: Cian. Começa a usá-lo. —Ante o tom cortante de Glenna, a cabeça da Moira se sacudiu como se tivesse recebido uma bofetada, e seus olhos se abriram como pratos. —Lamento por sua mãe. Sinto-me doente por isso, mas Cian não a matou. Se sua mãe tivesse sido morta por um homem loiro de olhos azuis, você iria pelo mundo odiando a todos os homens loiros de olhos azuis?

—Não é o mesmo, de jeito nenhum.

—É bastante parecido, especialmente em nossa situação.

Uma férrea obstinação endureceu as feições de Moira.

—Alimentei-o com sangue e lhe dei o pouco que podia para aliviá-lo. Ajudei-a curar suas queimaduras. Isso deveria ser suficiente.

—Pois não é. Um momento —pediu Glenna quando Moira deu meia volta para partir—. Só um momento. Estou tremendo e irritada por tudo isto. Só quero que espere um momento. Se antes pareceu que estava tranqüila é porque assim é como eu funciono. Manejo as crises e depois me derrubo. Agora estamos na parte em que me toca me derrubar. Mas o que disse segue sendo válido, Moira. Você mesmo disse ali dentro. Necessitamo-lo. Terá que começar a pensar nele como Cian, e a tratá-lo como uma pessoa e não como uma coisa.

—Eles a fizeram em pedaços. —Os olhos de Moira se encheram de lágrimas enquanto o muro do desafio caía. —Não, ele não estava ali, não tomou parte no que aconteceu. Ele elevou sua espada para me defender, sei; mas não posso senti-lo. —Moira apoiou uma mão no coração. —Não posso senti-lo. Eles não permitiram que vivesse o luto. Não me deram tempo para chorar minha própria mãe. E Agora. Agora que estou aqui, tudo é fúria e aflição. Tudo é sangue e morte. Não quero levar esta carrega sobre os ombros. Longe de minha gente, longe de tudo o que conheço. Por que estamos aqui? Por que nos encomendaram esta missão? Por que não há respostas?

—Não sei, o que é outra falta de resposta. Sinto muito, sinto horrivelmente o que ocorreu a sua mãe, Moira. Mas você não é a única que sente fúria e dor. E tampouco é a única que faz perguntas e deseja voltar para a vida que conhecia.

—Um dia, você retornará. Eu em troca nunca poderei fazê-lo. —Moira abriu a porta e partiu.

—Perfeito. Simplesmente perfeito. —Glenna ocultou o rosto entre as mãos.

    

Na sala da torre, Hoyt colocou cada uma das cruzes sobre um pedaço de tecido branco. Eram frias ao tato, e embora o metal se empanou ligeiramente, sua luz era bastante brilhante para lhe fazer piscar.

Agarrou o caldeirão de Glenna. Estava negro e chamuscado. Hoyt duvidou que pudessem voltar a utilizá-lo e se perguntou se isso era o que se pretendia. As velas que ela tinha colocado e aceso não eram mais que pequenos atoleiros de cera no chão. Terei que limpar. Toda a sala tinha que ser limpa a conscientizada antes de realizar outra sessão de magia nela.

O círculo agora tinha ficado gravado no chão: um fino anel de branco puro. E o sangue de seu irmão manchava o chão e as paredes do outro lado da porta.

Sacrifício, pensou. O poder sempre tinha um preço. Sua entrega do candelabro de prata de sua mãe, o anel da avó da Glenna não tinham sido suficientes.

A luz tinha ardido com enorme brilho e intensidade, com um calor violento. Entretanto, não tinha queimado sua pele. Elevou a mão, examinou-a. Intacta. Tremula, teve que reconhecer, mas sem uma só marca.

A luz o tinha enchido por completo, quase o tinha consumido. Tinha-o unido de tal modo a Glenna que tinha sido quase como se fossem uma só pessoa, um único poder.

E esse poder tinha sido impetuoso e fantástico, lançou-se contra seu irmão como a ira dos deuses. Tinha derrubado à outra metade de si mesmo enquanto o feiticeiro guiava o raio.

A agora Hoyt se sentia completamente vazio. O poder que ficava nele era como chumbo, pesado e frio; chumbo recoberto por uma grossa capa de culpa.

De momento não podia fazer nada, nada salvo pôr um pouco de ordem na sala. Dedicou-se às tarefas básicas para acalmar-se. Quando King irrompeu na sala, Hoyt permaneceu imóvel, com os braços aos lados do corpo, e recebeu em pleno rosto o golpe que estava esperando.

Enquanto saía disparado para a parede, teve um instante para pensar que era como ser golpeado com um aríete. Depois simplesmente deslizou ao chão.

—Se levante. Se levante, filho da puta.

Hoyt cuspiu sangue. Sua visão estava desfocada, de modo que via vários gigantes negros de pé junto a ele com punhos grandes como presuntos. Apoiou uma mão na parede e conseguiu ficar em pé.

O aríete voltou a lhe golpear com violência. Esta vez sua visão se voltou vermelha, negra, e tremulou fracamente até voltar-se cinza. A voz de King se converteu apenas em um sussurro em seus ouvidos, mas lutou por obedecer a ordem de voltar a levantar-se.

Viu um relâmpago de cor através do cinza, sentiu uma corrente de calor através da dor gelada.

Glenna entrou na sala como uma exalação. Não se incomodou em empurrar King, mas sim lhe atirou uma violenta cotovelada no abdômen e logo se ajoelhou diante do Hoyt para protegê-lo.

—Basta! Se afaste dele, fodido bode. OH, Hoyt, seu rosto.

—Vá.

Hoyt logo que pôde murmurar as palavras e seu estômago se revolveu quando empurrou Glenna e tentou ficar de novo em pé.

—Adiante, me golpeie. Venha. —King estendeu os braços e depois golpeou a si mesmo no queixo—. O deixarei me devolver um golpe. Porra, lhe darei de presente dois golpes, miserável filho de puta. É mais do que você deu a Cian.

—Então morreu. Se aparte de mim. —Hoyt empurrou Glenna—. Adiante —disse a King—. Acaba seu trabalho.

Embora mantivesse os punhos fechados, King os baixou uns centímetros. Hoyt mal se mantinha em pé e o sangue lhe emanava do nariz e da boca. Um de seus olhos estava já completamente fechado. Balançava-se diante do gigante esperando o seguinte golpe.

—É estúpido ou só se tornou louco? —perguntou King.

—Nenhuma das duas coisas —respondeu Glenna—. Ele acredita que matou seu irmão, de modo que ficará quieto e permitirá que o mate a golpes porque se culpa tanto quanto você o culpa. E ambos estão errados. Cian não morreu. Hoyt, seu irmão ficará bem. Está descansando, isso é tudo. Está descansando.

—Não morreu? —perguntou Hoyt.

—Não conseguiu e não terá uma segunda oportunidade —disse King.

—OH, pelo amor de Deus! —Glenna se voltou para ele—. Ninguém tentou matar ninguém.

—Se afaste, ruiva. —King moveu o polegar—. Não quero te machucar.

—Por que não? Se ele for responsável, eu também sou. Estávamos trabalhando juntos. Estávamos fazendo o que devemos fazer aqui, maldito seja. Cian entrou no momento errado, é tão simples e trágico como isso. Se Hoyt pudesse e quisesse ferir deliberadamente Cian desse modo, acha que agora você estaria aqui tão tranqüilo? Ele poderia o fazer pedaços com seu pensamento. E eu o ajudaria.

King entrecerrou seus olhos bicolores e fez um gesto desagradável com a boca. Mas manteve os punhos fechados aos lados do corpo.

—E por que não o fazem?

—Porque isso vai contra tudo o que somos. Possivelmente não possa entendê-lo, mas a menos que seja estúpido como um tijolo, deveria compreender que qualquer afeto e lealdade que sinta por Cian, Hoyt também sente. E os sentiu desde o dia em que nasceu. Agora te largue daqui.

King abriu as mãos e as esfregou contra suas calças.

—Possivelmente estava errado.

—Isso é um grande consolo.

—Vou ver Cian. Se não ficar satisfeito, voltarei para terminar meu trabalho.

Quando King abandonou a sala, Glenna o ignorou e se voltou para ajudar Hoyt.

—Vêem, precisa te sentar.

—Quer me largar?

—Não, não o farei.

Por toda resposta, Hoyt se deixou cair no chão.

Glenna, resignada, foi procurar um pano e verteu em uma terrina um pouco de água de uma jarra.

—Parece que terei que passar toda a tarde limpando sangue.

Ajoelhou-se junto a Hoyt, molhou o pano e limpou brandamente o sangue de seu rosto.

—Menti. Sim, é um estúpido por permitir que o golpeasse. E um estúpido por se sentir culpado. E um covarde, também.

Os olhos de Hoyt, inchados e injetados em sangue, voltaram-se para ela.

—Tome cuidado com o que diz.

—Covarde —repetiu Glenna com voz cortante, porque as lágrimas começavam a surgir da base de sua garganta—. Ficar aqui, lamentando-se, em lugar de descer e nos ajudar. Em lugar de descer e ver em que estado se encontrava seu irmão. Que não é muito pior que o seu neste momento.

—Não estou de humor para que me fira com suas palavras ou revoe a meu redor.

Fez um gesto com a mão para lhe indicar que partisse.

—Bem. Muito bem —disse ela. E lançou o pano dentro da terrina salpicando o chão com a água. —Cuide-se você mesmo então. Estou cansada de todos vocês. Sempre se lamentando, se compadecendo. Inúteis. Se quiser minha opinião acredito que Morrigan cometeu um grave engano ao escolher este grupo.

—Sempre nos lamentando, nos compadecendo, inúteis? Esquece sua parte nisto, harpia.

Ela inclinou a cabeça.

—Essa é uma palavra débil e antiquada. Hoje dizemos simplesmente puta.

—Seu mundo, sua palavra.

—Assim é. Enquanto fica aqui em cima lamentando-se de suas desgraças, pode dedicar um minuto a considerar isto: esta noite temos feito algo realmente assombroso. —Assinalou as pequenas cruzes de prata que descansavam sobre a mesa. —Algo que vai muito além de qualquer coisa que eu tenha experimentado antes de alguma vez. O fato é que devemos, pudemos, unir de algum jeito este grupo ridículo. Mas em troca todos estamos gemendo em nossos cantos, de modo que suponho que a magia e o momento foram desperdiçados.

Glenna abandonou a sala justo no momento em que Larkin subia à torre.

—Cian está se levantando. Diz que já perdemos muito tempo e que esta noite treinaremos uma hora extra.

—Pode lhe dizer que me beije o trazeiro.

Larkin piscou e logo se voltou para ver como Glenna descia a escada rapidamente.

—Não tenho dúvida de que o tem muito bonito —disse, embora em um tom de voz apenas audível.

Larkin apareceu a cabeça à sala da torre e viu Hoyt sentado no chão e sangrando.

—Pelos pregos de cristo! Ela te fez isso?

Hoyt fez uma careta e decidiu que seu castigo ainda não tinha terminado.

—Não. Pelo amor de Deus, acaso pareço um homem que pode ser derrotado por uma mulher?

—Ela me parece uma mulher formidável. — Embora tivesse preferido manter-se afastado das áreas onde se praticava a magia, não podia deixar Hoyt ali atirado, de modo que se aproximou e se agachou junto a ele—. Bem, parece um desastre, sabia? Tem cara de enterro.

—Tolices. Quer me ajudar a me levantar?

Larkin o ajudou e lhe ofereceu seu ombro para que Hoyt se apoiasse nele.

—Não sei que raios ocorreu aqui, mas Glenna está furiosa. E Moira se encerrou em seu quarto. Cian parece ter sido alvo da cólera de todos os deuses, mas se levantou da cama e diz que devemos treinar. King tem aberto uma garrafa de uísque e eu estou pensando em me unir a ele.

Hoyt se apalpou com cuidado a maçã do rosto e lançou um gemido quando a dor lhe atravessou a cara.

—As palavras são a arma mais afiada de uma mulher. Pelo aspecto que tem, eu diria que você também deveria beber um pouco desse uísque.

—Deveria. —Hoyt apoiou uma mão sobre a mesa e rezou por poder recuperar logo o equilíbrio—. Larkin, faz o que puder para reunir todos na área de treinamento. Eu descerei em seguida.

—Arriscando minha vida, mas de acordo. Tentarei convencer às damas com doçura e encanto. Elas ficarão agradadas de mim ou chutarão minhas bolas.

Não as chutaram, mas tampouco desceram radiantes de felicidade. Moira se sentou com as pernas cruzadas em cima de uma mesa, cabisbaixa e com os olhos inchados pelo pranto. Glenna ficou em um canto, com uma taça de vinho e um evidente mau humor. King permaneceu em seu próprio canto, sacudindo o gelo em seu copo de uísque.

Cian estava sentado e tamborilava com os dedos no braço da poltrona. Seu rosto estava branco como o gesso e as queimaduras das áreas que a camisa solta não alcançava cobrir se viam lívidas.

—Não estaria mal um pouco de música —disse Larkin para romper o silêncio—. O tipo de música que se escuta nas piras funerárias e outras pelo estilo.

—Hoje trabalharemos a agilidade e a forma física. —Cian passeou o olhar pela sala—. Até agora não vi muito disso em nenhum de vocês.

—É necessário que seja tão insultante? —perguntou Moira cansativamente—. Tem sentido tudo isto? Intercambiar golpes e estocadas com as espadas? Sofreste as queimaduras mais horríveis que vi em minha vida e aqui está, uma hora depois, novamente em pé. Se uma magia semelhante não pode o derrubar, o manter no chão, o que poderá fazê-lo?

—Deduzo que se sentiria mais feliz se me tivesse convertido em um monte de cinzas. Alegra-me a decepcionar.

—Isso não é o que Moira queria dizer.

Glenna jogou o cabelo para trás com um gesto de irritação.

—Agora é sua interprete? —perguntou Cian.

—Não necessito que ninguém fale por mim —replicou Moira—. E não necessito que me digam o que devo fazer cada maldita hora de cada maldito dia. Sei o que mata os vampiros, tenho lido nos livros.

—OH, bem, assim que as leu nos livros. —Cian assinalou as portas—. Então adiante. Sai ali fora e se encarregue de um par deles.

—Isso seria melhor que estar dando cambalhotas pelo chão aqui dentro, como se estivesse em um circo —replicou ela.

—Estou de acordo com Moira. —Larkin apoiou a mão no cabo de sua faca—. Deveríamos sair a os caçar, passar à ofensiva. Nem sequer colocamos um guarda ou enviamos um explorador.

—Esta não é esse tipo de guerra, moço.

Os olhos de Larkin cintilaram de fúria.

—Não sou um moço e, por isso posso ver, esta não é uma guerra de nenhum tipo.

—Não sabe o que enfrentamos —interveio Glenna.

—Não sei? Matei três deles com minhas mãos.

—Eram débeis, jovens. Ela não desperdiçou seus melhores elementos com vocês. —Cian se levantou da poltrona, Movia-se rigidamente e com evidente esforço—. Além disso, receberam ajuda e tiveram sorte. Mas se tivessem topado com alguns vampiros veteranos, hábeis, neste momento estariam mortos.

—Sou capaz de defender meu terreno.

—Pois o defende comigo. Ataque-me.

—Está ferido. Não seria justo.

—Deixa de injustiças. Se me derrubar, irei contigo. —Cian assinalou para a porta—. Sairemos a caça esta noite.

O interesse brilhou nos olhos de Larkin.

—Tenho sua palavra?

—Tem minha palavra. Derrube-me.

—Muito bem então.

Larkin se aproximou rapidamente a Cian, logo girou afastando-se dele. Lançou alguns golpes, fez umas fintas e voltou a girar. Cian se limitou a esticar a mão, agarrar Larkin pelo pescoço e levantá-lo do chão.

—Não quer dançar com um vampiro —disse e o lançou até quase o outro extremo da sala.

—Bode. —Moira se levantou e correu ao lado de seu primo—. Quase o estrangula.

—O “quase” é aqui o que conta.

—Isto era realmente necessário?

Glenna se aproximou de Larkin e apoiou as mãos sobre sua garganta.

—O menino procurou —disse King e Glenna se voltou para ele furiosa.

—Não é mais que um valentão. Os dois o são.

—Estou bem, estou bem. —Larkin tossiu e esclareceu garganta—. Foi um bom movimento —disse a Cian —. Nem sequer o vi vir.

—Até que possa fazê-lo, e o faça, não sairá para caçar. —Cian voltou a sentar-se na poltrona—. É hora de trabalhar.

—Pediria-te que esperasse.

Hoyt entrou na habitação.

Cian nem sequer se dignou a olhá-lo.

—Já esperamos muito.

     —Só um pouco mais. Tenho algumas coisas que dizer. Em primeiro lugar a você. Cometi uma imprudência, mas você também. Eu teria que haver trancado a porta, mas você não teria que ter entrado.

—Esta é agora minha casa. Não é sua há séculos.

—Pode ser que assim seja. Mas a cautela e a cortesia não deveriam esquecer-se quando alguém se aproxima de uma porta, especialmente quando dentro da sala se está praticando magia. Cian —esperou que seu irmão o olhasse—, eu nunca teria te feito mal. Não me importa se acredita ou não. Eu nunca teria te feito mal.

—Não sei se eu poderia dizer o mesmo. —Assinalou com o queixo o rosto de Hoyt—. Sua magia te fez isso no rosto?

—É outra conseqüência do mesmo.

—Parece doloroso.

—É.

—Pois então isso de algum jeito equilibra a balança.

—E isto é ao que chegamos, à separação de nossos poderes. —Hoyt se voltou para olhar os outros—. Discussões e ressentimentos. Tinha razão —disse a Glenna—. Grande parte do que disse era certo, embora fale muito.

—OH, sério?

—Não estamos unidos e, até que não seja assim, estaremos perdidos. Podemos treinar e nos preparar cada hora de cada dia do tempo que resta, e não conseguir nunca a vitória. Porque, isto é o que disse, temos um inimigo comum, mas não um objetivo comum.

—O objetivo é lutar contra eles —interrompeu Larkin—. Lutar contra eles e matá-los. Matá-los a todos.

—Por quê?

—Porque são demônios.

—Ele também é.

Hoyt apoiou uma mão no respaldo da poltrona de Cian.

—Mas ele luta a nosso lado. Cian não ameaça Geall.

—Geall. Você pensa em Geall e você —disse a Moira —pensa em sua mãe, King está aqui porque segue Cian a toda parte e, a minha maneira, eu também o faço. Cian, por que está você aqui?

—Porque eu não sigo a ninguém. E você e ela?

—Por que está aqui, Glenna?

—Estou aqui porque se não lutar, se não tentar, tudo o que temos e somos e sabemos cada um de nós poderia se perder. Porque o que tenho em meu interior me exige que esteja aqui. E, sobre tudo, porque o bem precisa de soldados para lutar contra o mal.

“OH, sim, aquilo era uma mulher”, pensou Hoyt. Fazia que todos os outros se envergonhassem.

—Essa é a resposta. Não há outra, e ela é a única que há disse. Somos necessários. Isso é mais forte que a coragem ou a vingança, que o orgulho ou a lealdade. Somos necessários. Podemos permanecer separados e fazê-lo? Não, nem em mil anos nem com mais mil de nós para lutar. Nós somos os seis, o núcleo, o começo. Não podemos seguir sendo estranhos.

Separou-se da poltrona de Cian e colocou a mão em um bolso.

—Glenna propôs que fizéssemos um símbolo e um escudo, um símbolo do objetivo comum. Essa unidade de propósito produziu a magia mais poderosa do que se podia esperar —acrescentou, olhando Cian —. Acredito que pode ajudar a nos proteger se recordarmos que uma espada necessita um escudo, e se utilizarmos ambos com um propósito comum.

Tirou as cruzes de modo que a prata brilhou sob a luz. Aproximou-se de King e ofereceu uma.

—A usará?

King deixou o copo a um lado e agarrou a cruz e a corrente. Examinou o rosto de Hoyt enquanto colocava a corrente ao redor do pescoço.

—Poderia pôr um pouco de gelo nesse olho —disse.

—Poderia pôr muito gelo. E você?

Estendeu uma cruz a Moira.

—Trabalharei para ser digna dela. —Olhou Glenna com uma desculpa nos olhos—. Esta noite não o tenho feito muito bem.

—Igual a todos — disse Hoyt—. Larkin?

—Não só por Geall —disse Larkin enquanto agarrava a cruz.

—E você. —Hoyt fez gesto de alcançar a cruz a Glenna, mas logo se aproximou dela e a colocou ele mesmo ao redor do pescoço enquanto a olhava nos olhos—. Acredito que esta noite conseguiste envergonhar a todos.

—Tentarei não convertê-lo em um costume. Toma.

Agarrou a última cruz e passou a corrente por cima da cabeça de Hoyt. Logo, muito lentamente, tocou sua face ferida com os lábios.

Finalmente Hoyt se voltou e se aproximou de Cian.

—Se for me perguntar se usaria uma dessas armas, pode economizar o fôlego —disse Cian.

—Sei que não pode levar uma destas cruzes. Sei que não é como nós e, ainda assim peço que nos acompanhe neste propósito. —Ofereceu-lhe um pendente em forma de pentágono, muito parecido ao que tinha Glenna—. A pedra do centro é jade, como a que levam as cruzes. Não posso te dar um escudo, ainda não, de modo que ofereço um símbolo. Aceitaria-o?

Cian não disse nada e estendeu a mão. Quando Hoyt depositou o pendente e a corrente sobre ela, Cian a moveu ligeiramente como se estivesse comprovando o peso.

—O metal e a pedra não formam um exército.

—Mas são armas.

—Isso é verdade. —Cian passou a corrente por cima da cabeça—. Agora, se a cerimônia tiver terminado, poderíamos voltar para o fodido trabalho?

 

                                 Capítulo 12

Glenna, procurando um pouco de solidão e algo em que ocupar-se, serviu-se uma taça de vinho, tirou um caderno de notas e um lápis e se sentou à mesa da cozinha.

Uma hora de tranqüilidade, pensou, para sentar-se e confeccionar algumas listas. Depois, possivelmente, dormiria um momento.

Quando ouviu que alguém se aproximava se ergueu na cadeira. Em uma casa tão grande não podiam encontrar outro lugar aonde ir?

King entrou na cozinha e ficou de pé junto a ela, trocando o peso do corpo de uma perna a outra e com as mãos afundadas nos bolsos.

—Sim? —disse Glenna.

—Isto... sinto haver partido a cara de Hoyt.

—Era sua cara, acredito que deveria se desculpar com ele.

—Ambos sabemos onde estamos. Só queria deixar as coisas claras contigo.

Ao ver que ela não dizia nada, King arranhou o cocuruto através de sua espessa cabeleira, e se um homem de quase dois metros e cento e trinta quilos era capaz de retorcer-se, King o fez.

—Escuta, subo à torre e me encontro com essa explosão de luz, e ele está estendido no chão, sangrando e ardendo. Esse tipo é meu primeiro feiticeiro —continuou King depois de fazer outra pausa—. Faz só uma semana que o conheço. E Cian conheço desde... faz muito tempo, e lhe devo muito.

—De modo que quando encontrou Cian ferido, supôs, naturalmente, que seu irmão tinha tentado matá-lo.

—Sim. E imaginei que você também tinha participado disso, mas a você não podia moer a pauladas.

—Aprecio seu cavalheirismo.

O aguilhão de sua voz fez que King desse um salto.

—Não tenho dúvida de que sabe como cortar em seco um tipo.

—Para cortar você, eu agarraria uma moto serra. OH, deixa de se mostrar tão digno de pena e culpado. —Glenna afastou o cabelo com um suspiro fastidioso—. Nós cagamos, você cagou e todos estamos fodidamente dignos de penas pelo que aconteceu. Suponho que agora quer um pouco de vinho. Possivelmente um biscoitinho?

King não teve mais remédio que sorrir.

—Tomarei uma cerveja. —Abriu a geladeira e agarrou uma garrafa—. Passo do biscoitinho. É uma chutadora, ruiva. Uma qualidade que admiro em uma mulher, embora seja meu trazeiro o que recebe a bota.

—Nunca fui assim. Acredito que não.

A garota era bonita embora estivesse pálida; devia estar esgotada. Ele a tinha feito trabalhar, a todos eles, duramente essa tarde, e de noite, Cian os tinha terminado de espremer.

É claro, ela tinha se queixado um pouco, pensou King. Mas não tanto como ele tinha esperado. E quando pensava nisso, Hoyt tinha razão: a ruiva tinha sido a única que tinha sabido explicar que merda estavam fazendo ali.

—Esse assunto de que falou Hoyt, o que você disse, tem muito sentido. Se não unirmos as forças, estamos perdidos. —Levantou a garrafa de cerveja e bebeu a metade de seu conteúdo de um comprido trago—. De modo que eu o farei se você o faz.

Glenna olhou a enorme mão que King lhe estendia e logo colocou a sua nela.

—Acredito que Cian é afortunado por ter alguém que lutará por ele. Que se preocupa com ele.

—Ele faria o mesmo por mim. Faz muito que estamos juntos.

—Em geral leva tempo formar, solidificar esse tipo de amizade. Outros não terão esse tempo.

—Então suponho que deveremos tomar alguns atalhos. Estamos em paz por agora?

—Eu diria que agora estamos em paz.

King acabou de beber a cerveja e logo lançou a garrafa vazia em um balde que havia debaixo da pia.

—Vou para meu quarto. E você teria que fazer o mesmo. Dorme um pouco.

—Farei-o.

Mas quando a deixou novamente sozinha, ela estava machucada, cansada e nervosa, de modo que se sentou na cozinha com sua taça de vinho e as luzes acesas para combater a escuridão. Não sabia que hora era e se perguntou se isso tinha alguma importância.

Todos eles estavam se transformando em vampiros, dormindo durante a maior parte do dia e trabalhando durante a maior parte da noite.

Acariciou a cruz que tinha pendurada no pescoço enquanto continuava escrevendo sua lista, e sentiu a pressão da noite sobre as omoplatas como se fossem mãos geladas.

Sentia falta da cidade, pensou. Não a envergonhava admiti-lo. Sentia falta dos sons, as cores, o ruído constante e monótono do tráfico que era como um batimento do coração. Desejava sua complexidade e sua simplicidade. Ali a vida era simplesmente vida. E se havia morte, se havia crueldade e violência, tudo era absolutamente humano.

A imagem do vampiro no vagão do metro cruzou como um relâmpago por sua cabeça.

Ou ela tinha tido uma vez o consolo de acreditar que era.

Entretanto, seguia tendo vontade de levantar-se pela manhã e caminhar até a padaria em busca de rosquinhas recém assadas. Queria colocar o cavalete sob a luz matinal e pintar, e até que sua principal preocupação fosse como ia pagar o cartão VISA.

Ela havia possuído a magia durante toda sua vida, e Glenna tinha acreditado que a respeitava e a valorizava. Mas tudo aquilo não tinha sido nada comparado com isto, sabendo que a magia estava nela por aquela razão, para aquele propósito que muito bem poderia significar a morte para ela.

Agarrou a taça de vinho e se sobressaltou ao ver Hoyt na porta.

—Tendo em conta a situação, não é uma boa idéia andar rondando na escuridão.

—Não estava seguro de se devia incomodá-la.

—Não importa. Só estava tendo minha festa de auto-compaixão particular. Já passará —disse ela, dando de ombros—. Sinto falta de minha casa. Mas suponho que isso não é nada comparado com o que você deve sentir.

—Ocupo o quarto que compartilhei com Cian quando fomos crianças, e noto que sinto muitas coisas, e de uma vez não as suficientes.

Glenna se levantou, procurou outra taça e serviu um pouco de vinho.

—Sente-se —disse.

Logo ela voltou a sentar-se e deixou a taça de vinho sobre a mesa.

—Tenho um irmão —disse—. É médico, acaba de começar. Possui um sopro de magia e a utiliza para curar. É um bom médico, um bom homem. Ama-me, mas não me entende muito bem. É duro quando não o entendem.

—Preocupa-me a perda de Cian, pelo que fomos um para o outro.

—É claro que deve preocupar-se.

—As lembranças que Cian tem de mim são velhas e estão esvaídas, enquanto que as minhas são frescas e fortes. —Hoyt levantou sua taça—. Sim, é duro que não o entendam.

—O que sou, o que há em mim —disse Glenna—. Eu estava acostumada a me gabar disso. Como se tratasse de um brilhante troféu que sustentava entre as mãos, só para mim. OH, tomava cuidado com isso, sentia-me agradecida, mas de qualquer modo me gabava disso. Acredito que nunca mais voltarei a fazê-lo.

—Tendo em conta o que nos aconteceu esta noite, duvido de que nenhum dos dois volte a fazê-lo.

—Ainda assim, minha família, meu irmão, não entendia, não totalmente, essa satisfação vaidosa ou esse prêmio. E não serão capazes de entender, não totalmente, o preço que estou pagando agora por isso. Não podem.

Glenna estendeu uma mão e a apoiou sobre a de Hoyt.

—Cian não pode entendê-lo. De modo que, embora nossas circunstâncias sejam diferentes, compreendo de que perda está falando. Por certo, tem um aspecto horrível —acrescentou com um tom mais leve—. Posso te ajudar a reduzir esses machucados um pouco mais.

—Está muito cansada. Posso esperar.

—Não merecia isso.

—Deixei que o que fosse que acontecesse tomasse o controle. Deixei que escapasse voando de mim.

—Não, escapou voando dos dois. Quem pode dizer que não foi isso o que devia fazer?

Glenna tinha recolhido o cabelo para treinar, para trabalhar, e agora o deixou solto caindo desordenadamente até quase lhe roçar os ombros.

—Olhe, aprendemos, não é? Juntos somos mais fortes do que nenhum dos dois poderia ter previsto. Agora nos toca aprender a controlá-lo, a canalizá-lo. E, pode me acreditar, todos nossos companheiros nos respeitarão mais.

Hoyt sorriu.

—Isso soa um pouco presunçoso.

—Sim, suponho que sim.

Ele bebeu um pouco de vinho e se deu conta de que pela primeira vez em muitas horas, sentia-se cômodo. Sentado tranqüilamente na cozinha bem iluminada, com a noite presa atrás dos vidros, falando com Glenna.

Seu perfume estava ali, justo na borda de seus sentidos. Aquele perfume sensual, feminino. Seus olhos, tão claros e verdes, mostravam uma ligeira sombra de fadiga na delicada pele de debaixo deles.

Assinalou o papel com a cabeça.

—Outro conjuro?

—Não, é algo mais prosaico. Listas. Necessito mais provisões. Ervas e essas coisas. E Moira e Larkin necessitam roupa. Logo temos que estabelecer algumas regras domésticas básicas. Até agora esse aspecto esteve a cargo de King e de mim, refiro-me a cozinhar. Mas uma casa não se leva sozinha, e inclusive quando está preparando uma guerra necessita comida e toalhas limpas.

—Há muitas máquinas para fazer esse trabalho. —Hoyt passeou o olhar pela cozinha—. Deveria ser bastante simples.

—Isso acredita.

—Estava acostumado a haver um jardim de ervas aromáticas. Não percorri os campos. —Tinha-o adiado voluntariamente, teve que admitir. Tinha atrasado ver o que tinha mudado e o que seguia igual—. Possivelmente Cian fez que plantassem um. Ou eu poderia trazê-lo novamente aqui. A terra recorda.

—Bem, isso poderia incluir-se na lista para amanhã. Você conhece os bosques da área. Poderia-me dizer onde posso encontrar o que necessito. Posso sair pela manhã e recolher as ervas.

—Conhecia-os —disse quase para si.

—Também necessitamos mais armas, Hoyt. E, ao larga, mais mãos que as empunhem.

—Em Geall haverá todo um exército.

—Esperemos. Conheço alguns como nós, e Cian... é provável que conheça alguns como ele. Talvez devêssemos começar a alistá-los.

—Mais vampiros? Confiar em Cian já foi bastante complicado. Quanto a mais bruxas, nós ainda estamos aprendendo um do outro, como pudemos comprovar hoje mesmo. Devemos nos dedicar aos que temos. Mal começamos. Mas temos que fabricar as armas do mesmo modo que temos feito com as cruzes.

Glenna agarrou de novo sua taça de vinho e bebeu lentamente.

—De acordo estou preparada.

—As Levaremos conosco quando formos a Geall.

—Falando disso. Quando e como?

—Como? Através do Baile dos Deuses. Quando? Não posso saber. Tenho que acreditar que nos avisarão quando chegar o momento. Então saberemos quando.

—Acredita que alguma vez poderemos retornar? Se conseguimos sobreviver? Acha que alguma vez poderemos voltar para casa?

Hoyt a olhou. Glenna estava desenhando, os olhos fixos no papel, a mão firme, tinha as faces pálidas, deu-se conta ele, devido à fadiga e a tensão. Seu cabelo, espesso e brilhante, caía-lhe para frente quando ela baixava a cabeça.

—O que mais a preocupa? —perguntou Hoyt—. Morrer ou não voltar a ver sua casa?

—Não estou do todo segura. A morte é inevitável. Ninguém se salva disso. E a gente espera, ou eu ao menos o faço, que quando chegar o momento terei coragem e curiosidade para enfrentá-la.

Com gesto distraído, Glenna colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha com a mão esquerda enquanto continuava desenhando com a direita.

—Mas sempre foi abstrato. Até agora. Resulta difícil pensar em morrer e mais difícil ainda sabendo que possivelmente não volte a ver nunca mais minha casa ou minha família. Eles não entenderão o que me possa acontecer. —Elevou a vista—. E estou pregando no deserto.

—Eu não sei quanto tempo viveram meus familiares. Como morreram. Quanto tempo me procuraram.

—Ajudaria-o sabê-lo?

—Sim, ajudaria-me. —Hoyt sacudiu esse pensamento e ergueu a cabeça—. O que está desenhando?

Ela franziu os lábios enquanto olhava o desenho.

—Parece-se com você.

Virou-o e o mostrou.

É assim como me vê? —seu tom de voz soava desconcertado e não de todo satisfeito—. Tão severo.

—Severo não, sério. É um homem sério. Hoyt McKenna. —Escreveu o nome no esboço—. Assim é como deveria escrever-se e dizer hoje. Procurei-o. —Assinou o desenho com uma rápida rubrica—. E sua natureza séria muito atraente.

—A seriedade é para os homens mais velhos e os políticos.

—E também para os guerreiros, para os homens que têm poder. Ao conhecê-lo, me senti atraída por você. Fez que me desse conta do que sabia antes em relação aos mais novos. Pelo visto, agora eu gosto dos homens mais velhos.

Hoyt se sentou, olhando-a, com o desenho e o vinho entre eles. Com as palavras entre eles, disse-se. E, não obstante, nunca havia se sentido tão perto de ninguém.

—Sentado aqui contigo, em uma casa que é minha, mas que não é, em um mundo que é meu, mas tampouco, é o único que quero.

Glenna se levantou da cadeira, aproximou-se de Hoyt, e o rodeou com os braços. Ele apoiou a cabeça entre seus seios, escutou os batimentos de seu coração.

—É bem-estar? —perguntou Glenna.

—Sim, Mas não só isso. Tenho uma necessidade tão grande de você que não sei como controlá-la dentro de mim.

Ela baixou sua cabeça, fechando os olhos enquanto apoiava a face em seu cabelo.

—Sejamos humanos. Pelo que fica desta noite, sejamos humanos, porque não quero ficar só na escuridão. —Agarrou-lhe o rosto entre as mãos—. Leve-me para cama.

Agarrou-lhe as mãos enquanto se levantava da cadeira.

—Essas coisas não mudaram nada em mil anos, não é?

Ela pôs-se a rir.

—Algumas coisas nunca mudam.

Hoyt reteve a mão da Glenna entre as suas enquanto saíam da cozinha.

—Não levei muitas mulheres para cama... sendo como sou um homem sério.

—Eu nunca fui levada para cama por muitos homens... sendo como sou uma mulher sensata. —Ao chegar à porta de seu quarto, voltou-se para Hoyt com um sorriso rápido e travesso. —Mas acredito que podemos compensá-lo.

—Espera.

Aproximou-a para ele antes que ela pudesse abrir a porta e apoiou os lábios sobre sua boca. Ela sentiu uma onda de calor e um subjacente tremor de prazer.

Logo Hoyt abriu a porta.

Glenna comprovou que tinha acendido as velas. Todas elas, de modo que o quarto estava alagado de uma luz dourada e um leve perfume. A lenha também ardia na lareira com um fogo lento e vermelho.

Isso comoveu um lugar recôndito em seu coração enquanto arrepiava sua pele por antecipação.

—Um começo muito agradável. Obrigado. —Ouviu o som metálico da chave na fechadura e levou uma mão ao coração—. De repente estou nervosa. Nunca havia me sentido nervosa por estar com um homem. Nem sequer a primeira vez. É vaidade outra vez.

A Hoyt não importavam seus nervos. De fato, acrescentavam um fator estimulante a sua própria excitação.

—Sua boca. Esta plenitude aqui. —Acariciou o lábio inferior dela com o dedo—. A degustação em meus sonhos. Distrai-me inclusive quando não está comigo.

—Isso o incomoda. —Ela enlaçou os braços por trás de seu pescoço—. Estou tão contente.

Glenna se abandonou entre seus braços, observando como o olhar de Hoyt descia até seus lábios, atrasava-se ali um momento e logo voltava a fixar-se em seus olhos. Sentiu seu fôlego misturado com o seu e como seu coração pulsava contra o de Hoyt. Ficaram assim durante um momento que pareceu interminável, logo seus lábios se encontraram e ambos se afundaram um no outro.

Os nervos voltaram a revoar no ventre dela, uma dúzia de asas de veludo que respiravam o desejo. E esse tremor de poder era como um zumbido no ar.

Então as mãos dele se elevaram para afastar o cabelo de seu rosto com um gesto de urgência que a mantinha estremecida de antecipação ante o que ia acontecer. A boca de Hoyt abandonou a sua para vagar por seu rosto, para encontrar o pulso que pulsava em sua garganta.

Ele podia afogar-se nela. Hoyt era consciente disso enquanto tomava mais. Essa imperiosa necessidade de Glenna podia levá-lo para as profundidades, a um lugar onde jamais tinha estado. E sabia que, em qualquer lugar que estivesse esse lugar, a levaria com ele.

Modelou a forma da mulher com suas mãos e se embebeu dela. Glenna voltou a procurar sua boca, avidamente. Ele ouviu o tremor de seu fôlego quando ela retrocedeu. A luz das velas se derramou sobre seu corpo quando Glenna começou a desabotoar a blusa.

Debaixo levava algo branco e adornado com renda que parecia sustentar seus seios como uma oferenda. Viu mais renda branca quando ela deslizou as calças para baixo por seus quadris; um tentador triângulo impregnado muito baixo sobre o ventre e muito alto na parte superior das coxas.

—As mulheres são as criaturas mais sutis —murmurou ele, e deslizou a mão até roçar a renda com as pontas dos dedos. Quando ela estremeceu, Hoyt sorriu —. Eu gosto destes objetos. Sempre os usa debaixo dos outros?

—Não. Depende de meu estado de ânimo.

—Pois eu gosto deste estado de ânimo.

Ele acariciou com os polegares a renda que cobria seus seios.

Glenna jogou a cabeça para trás.

—OH, Deus.

—Isso te dá prazer. E isto?

Hoyt repetiu a carícia sobre a renda que rodeava a parte inferior de seu ventre e viu como a excitação se estendia pelo rosto da Glenna.

Tinha uma pele suave, delicada e suave, mas com músculos debaixo. Fascinante.

—Só deixa que a toque. Seu corpo é lindo. Só quero te tocar.

Glenna estendeu as mãos para trás e agarrou com força os pilares da cama.

—Pode se servir.

Seus dedos percorreram seu corpo, fazendo que sua pele estremecesse. Logo pressionaram levemente e Glenna gemeu. Ela podia sentir como seus ossos se liquidificavam e seus músculos se debilitavam enquanto ele a explorava. Entregou-se totalmente a isso, ao lento e enervante prazer que era ao mesmo tempo um triunfo e uma rendição.

—Então, este é o broche?

Ela abriu os olhos enquanto ele brincava com o fechamento dianteiro de seu sutiã. Mas quando ela foi abri-lo, lhe afastou as mãos.

—Já me engenharei isso para fazê-lo sem ajuda. Ah, sim, já está. —Quando conseguiu abri-lo, os seios dela ficaram livres em suas mãos—. Engenhoso. Lindo.

Hoyt inclinou a cabeça e provou a carne suave e cálida.

Queria saboreá-la; queria lançar-se.

—E a outra parte? Onde está o broche?

Deslizou os dedos para baixo.

—Aí não há...

Quase sem fôlego, cravou os dedos nos ombros de Hoyt enquanto um leve grito escapava de seus lábios.

—Sim, me olhe. Assim. —Introduziu as mãos por debaixo do pequeno tecido puxado—. Glenna Ward, que esta noite é minha.

E ela gozou ali mesmo, seu corpo estalou enquanto seus olhos permaneciam apanhados pelos de Hoyt.

Sua cabeça repousou flácida sobre seu ombro enquanto estremecia violentamente.

—Quero-o em cima de mim, quero-o dentro de mim.

Glenna puxou a camisa que Hoyt usava e a tirou por cima da cabeça. Encontrou músculo e carne com suas mãos, com seus lábios. Agora o poder voltou a filtrar-se nela enquanto o atraía à cama.

—Dentro de mim. Dentro de mim.

Sua boca se apertou com força contra a dele, ao mesmo tempo em que ela se oferecia com os quadris arqueados. Hoyt lutou para tirar o resto da roupa, lutou para devorar mais do corpo de Glenna enquanto uma de onda de calor os envolvia.

Quando a penetrou, o fogo bramou, e as chamas das velas se elevaram como flechas.

A paixão e o poder os golpearam, arrastando-os à loucura. Entretanto, ela se entrelaçou ao redor de Hoyt e o olhou enquanto as lágrimas nublaram seus olhos.

Uma rajada de vento agitou seu cabelo, brilhante como o fogo contra a cama. Hoyt sentiu que a mulher se esticava como um arco debaixo de seu corpo. Quando o estalo o alcançou, só foi capaz de pronunciar seu nome: Glenna.

Ela se sentia acesa, como se o fogo que tinha acendido entre os dois ainda estivesse ardendo. Surpreendeu-lhe não ver raios de sua luz dourada brotando das pontas dos dedos.

Na lareira, os lenhos queimavam agora lenta e silenciosamente, outro resplendor crepuscular. Mas o calor que havia surgido da lareira, e deles, umedecia sua pele. Seu coração ainda pulsava desbocado.

A cabeça do Hoyt descansava ali, sobre seu coração, e a mão dela, sobre sua cabeça.

—Alguma vez...

Os lábios de Hoyt roçaram ligeiramente seus seios.

—Não.

Ela passou os dedos por seu cabelo.

—Eu tampouco. Talvez seja porque foi a primeira vez, ou porque algo do que temos feito antes ainda estava dentro de nós.

“Juntos somos mais fortes”. Suas próprias palavras ressonaram em sua mente.

—E agora aonde vamos daqui?

Quando ele elevou a cabeça, ela meneou a sua.

—É só uma expressão —explicou—. Não tem importância. Seus machucados desapareceram,

—Sei. Obrigado.

—Não sei se eu o tenho feito.

—Tem-no feito. Tocou meu rosto quando nos unimos. —Agarrou sua mão e a levou aos lábios—. Tem magia nas mãos, e no coração. E seus olhos seguem preocupados.

—Só estou cansada.

—Quer que parta agora?

—Não, não quero. —Acaso não era esse o problema? —. Quero que fique.

—Fico então. —Hoyt mudou de postura e a aproximou dele, junto com os lençóis e a manta—. Tenho uma pergunta.

—Hum.

—Tem uma marca aqui. —Deslizou-lhe os dedos pela região lombar—. Uma estrela de cinco pontas. Nesta época se marca às bruxas desta maneira?

—Não. É uma tatuagem... eu decidi me fazer isso Queria levar um símbolo do que sou, inclusive quando estava nua.

—Ah. Não quero faltar com respeito a seu propósito secundário. —Sinto-me completo outra vez —disse ele—: Sinto-me eu mesmo outra vez.

—Eu também.

Mas cansada, pensou ele. Podia percebê-lo em sua voz.

—Agora dormiremos um momento.

Glenna elevou a cabeça de modo que seus olhos se encontraram.

—Disse que quando me levasse para cama não me deixaria dormir.

—Só por esta vez.

Ela apoiou a cabeça sobre seu ombro mas não fechou os olhos, apesar de que ele diminuiu a luz das velas.

—Hoyt, não importa o que possa acontecer, isto foi precioso.

—Para mim também. E pela primeira vez, Glenna, não só porque devemos ganhar, mas também podemos fazê-lo. E acredito porque está comigo.

Agora ela fechou os olhos um momento com uma leve pontada no coração. Ele falava de guerra, pensou. E ela tinha falado de amor.

    

Glenna despertou com a chuva e o calor de Hoyt. Permaneceu deitada na cama, escutando o som das gotas, absorvendo a sensação boa, natural de ter o corpo de um homem junto ao dela.

Tinha tido que repreender-se durante a noite. O que acontecia com Hoyt era um presente, um que devia ser apreciado e entesourado. Não tinha nenhum sentido renegar dele porque não era suficiente.

E quem podia perguntar-se por que tinha acontecido?

Perguntar-se se o que fosse que os estava levando para o campo de batalha os tinha unido, tinha acendido essa paixão, essa necessidade e, sim, amor, porque eram mais fortes desse modo?

Era suficiente sentir, ela sempre tinha acreditado nisso. E agora só duvidava porque sentia muito.

Era hora de voltar a mostrar-se prática, de desfrutar do que tinha enquanto o tivesse. E de fazer o trabalho que tinha por diante.

Afastou-se brandamente dele e começou a descer da cama. à mão do Hoyt se fechou ao redor de sua mão.

—Ainda é cedo e está chovendo. Vêem, fica um momento.

Ela o olhou por cima do ombro.

—Como sabe que é cedo? Aqui não há nenhum relógio. Tem um relógio de sol na cabeça?

—Não me serviria de muito com a chuva que está caindo. Seu cabelo é como o sol. Volta para a cama.

Ele não parecia tão sério agora, observou Glenna, não com seus olhos sonolentos e o rosto coberto por uma sombra de barba. O que parecia era comestível.

—Precisa se barbear.

Hoyt passou a mão pela rosto e notou a barba incipiente. Voltou a passar mão e a barba desapareceu.

—Assim está melhor para você, a stór?

Ela se aproximou e passou um dedo por sua face.

—Muito suave. Poderia usar um corte de cabelo decente também.

Ele franziu o cenho e passou a mão pelo cabelo.

—O que tem de mau meu cabelo?

—É bonito, mas não viria mal um pouco de forma. Eu posso me encarregar de fazê-lo.

—Acredito que não.

—OH, não confia em mim?

—Não com meu cabelo.

Ela pôs-se a rir e se colocou escarranchada em cima de Hoyt.

—Confiou-me outras partes mais sensíveis de seu corpo.

—Essa é uma questão totalmente diferente. —Suas mãos lhe cobriram os seios—. Como se chama esse objeto que usava ontem à noite sobre seus encantadores seios?

—Chama-se sutian e não mude de assunto.

—Sinto-me mais feliz falando de seus seios que de meu cabelo.

—Está muito alegre esta manhã.

—Me enches de luz.

—Adulador. —Agarrou-lhe uma mecha de cabelo. —Snip, snip, e será um homem novo.

—Parece-me que você gosta bastante do homem que sou agora.

Os lábios da Glenna se curvaram enquanto levantava os quadris e logo os descia para permitir que entrasse nela. As velas quase consumidas durante a noite, avivaram-se subitamente.

—Só recortá-lo um pouco —sussurrou ela, inclinando-se para esfregar seus lábios com os de Hoyt. —Depois.

Hoyt experimentou o considerável prazer que era tomar banho com uma mulher e depois a fascinação de contemplá-la enquanto se vestia

Glenna untou a pele com vários cremes e aplicou outros tantos no rosto.

O sutiã, e o que ela chamava calcinhas, hoje eram azuis. Como um ovo de petirrojo . Em cima vestiu uma calça grosseira e a túnica curta e folgada que chamava camiseta. Sobre ela tinha escritas umas palavras que diziam ENTRANDO EM UM MUNDO FANTÁSTICO WICCA:

Hoyt pensou que os objetos exteriores convertiam o que ela usava debaixo em uma espécie de maravilhoso segredo.

Sentiu-se relaxado e muito satisfeito de si mesmo. E também frustrado quando lhe disse que se sentasse sobre a tampa da privada. A seguir agarrou umas tesouras e as abriu e fechou várias vezes.

—Por que a um homem com bom senso permitiria que uma mulher se aproximasse dele com uma ferramenta como essa?

—Um feiticeiro grande e duro como você não deveria temer que lhe cortassem um pouco o cabelo. Além disso, se você não gostar de como fica quando tiver terminado, sempre pode voltar a mudá-lo.

—Por que às mulheres sempre gostam de brincar com um homem?

—É nossa natureza. Agrade-me.

Hoyt suspirou e se sentou. E se retorceu.

—Fica quieto e terei acabado antes que se dê conta.

—Como supõe que se arranja Cian para arrumar-se?

Hoyt elevou a vista tentando ver o que lhe estava fazendo.

—Não sei.

—Não poder ver-se no espelho deve ser uma trabalheira. E em troca sempre está perfeito.

Agora Hoyt a olhou nos olhos.

—Você gosta, não é?

—São quase iguais, de modo que é claro. Embora Cian tenha essa pequena fenda no queixo e você não.

—Onde lhe beliscaram as fadas. Isso costumava dizer minha mãe.

—Seu rosto é um pouco mais fino e tem as sobrancelhas mais arqueadas. Mas os olhos, esta boca e estas maçãs do rosto... são os mesmos.

Ele viu como caíam as mechas de seu cabelo sobre seu regaço e o poderoso feiticeiro estremeceu.

—O que faz, mulher, está-me deixando calvo?

—Tem sorte de que eu goste do cabelo comprido em um homem. Ao menos eu gosto em você. —Deu-lhe um beijo no cocuruto—. O seu é como seda negra, com uma leve ondulação. Sabe? Em algumas culturas, quando uma mulher corta o cabelo de um homem é um voto matrimonial.

A cabeça do Hoyt se ergueu bruscamente, mas ela tinha antecipado a reação e apartou as tesouras. Sua risada, divertida e brincalhona, ressonou nas paredes do banheiro.

—Era uma brincadeira. Menino, sei que é ingênuo. Já está quase.

Glenna se sentou escarranchada sobre suas pernas e aproximou com isso os seios a seu rosto. Hoyt começou a pensar que um corte de cabelo não era algo tão duro depois de tudo.

—Eu gostava do tato de uma mulher.

—Sim, acredito recordar isso de você.

—Não, o que quero dizer é que eu gostava do tato de uma mulher quando tinha uma. Sou um homem, e tenho necessidades como qualquer outro. Mas nunca nenhuma ocupava tanto minha mente como acontece contigo.

Glenna deixou as tesouras e logo passou os dedos através de seu cabelo úmido.

—Eu gosto de ocupar sua mente. Já está, dá uma olhada.

Hoyt se levantou e se olhou no espelho. Tinha o cabelo mais curto mas não muito. Supôs que agora caía de uma forma mais agradável, embora tivesse parecido que já estava bem antes que ela agarrasse as tesouras.

Não obstante, Glenna gostava, e não o tinha tosquiado como se fosse uma ovelha.

—Está bastante bem, obrigado.

—De nada.

Ele acabou de vestir-se e, quando ambos desceram, encontraram todos na cozinha, exceto Cian.

Larkin estava engolindo uma generosa porção de ovos mexidos.

—Bom dia —disse—. Este homem tem mãos de mago com os ovos.

—E meu turno na cozinha terminou —anunciou King—. De modo que se querem tomar café da manhã, deverão fazê-lo sem minha ajuda.

—Isso é algo do que queria falar. —Glenna abriu a geladeira—. Turnos. Cozinhar, lavar a roupa, tarefas domésticas básicas. Devem repartir-se entre todos.

—Eu estarei encantada em ajudar —disse Moira—. Se me ensinar o que devo fazer e como fazê-lo.

—Muito bem, observa e aprende. Esta manhã nos limitaremos aos ovos e o bacon.

Glenna pôs mãos à obra enquanto Moira observava cada um de seus movimentos.

—Não me importaria comer um pouco mais, já que estão nisso —disse Larkin.

Moira o olhou.

—Come igual a dois cavalos —disse.

—Hum. Precisaremos ir renovando provisões. —Agora Glenna se dirigiu a King—. Eu diria que isso recai em você ou em mim, já que nenhum destes três sabe conduzir. Além disso, tanto Moira como Larkin necessitam roupas apropriadas. Se me fizer um mapa, eu irei ao povoado.

—Hoje não há sol —disse Hoyt.

Glenna o assinalou.

—Tenho proteção, e o dia pode limpar-se.

—A casa deve funcionar, tal como disse, de modo que pode propor esses planos, nós os seguiremos. Mas quanto às outras questões, também terá que seguir umas normas. Acredito que ninguém deve sair sozinho fora da casa para ir ao povoado. E que ninguém deve sair desarmado.

—Então, devemos ficar aqui sitiados, imobilizados pela chuva? —Larkin apunhalou o ar com o garfo—. Não é hora de que demonstremos que não vamos permitir que eles sejam os que fixem os termos?

—Larkin tem razão —conveio Glenna—. Prudentes mas não covardes.

—E, além disso, no estábulo há um cavalo —acrescentou Moira—. Necessita que o atendam.

O fato era que Hoyt pensava encarregar-se disso enquanto os outros estavam ocupados fazendo outras coisas. Agora se perguntou se o que havia dito a si mesmo, que era responsabilidade e liderança, não seria na realidade só outra falta de confiança.

—Larkin e eu nos encarregaremos do cavalo. —sentou-se quando Glenna dispôs os pratos sobre a mesa—. Glenna necessita ervas e eu também, de modo que iremos buscá-las. Com prudência —repetiu.

E começou a planejar como fazê-lo enquanto comia.

    

Hoyt sujeitou uma espada no cinturão. A chuva era agora uma fina garoa, o tipo de precipitação que sabia que podia seguir caindo durante dias. Glenna e ele podiam conseguir que saísse um sol tão brilhante que deixasse o céu sem uma nuvem, mas a terra também necessitava chuva.

Larkin e Hoyt saíram juntos, separando-se a direita e esquerda, costas contra costas para examinar o terreno.

—Devem ter uma vigilância muito pobre se com este tempo ficam sentados esperando.

Cruzaram o terreno, procurando sombras e movimentos. Mas não encontraram nada mais que chuva e o aroma das flores e a erva molhadas.

Quando chegaram ao estábulo, o trabalho foi simples rotina para eles. Tirar o esterco, colocar palha fresca, grão e atender o cavalo. Era reconfortante estar perto daquele animal, pensou Hoyt.

Larkin entoava uma alegre melodia enquanto trabalhava.

—Tenho uma égua zaina em casa —disse a Hoyt—. É uma beleza. Aparentemente não se podem trazer cavalos através do Baile dos Deuses.

—Também me disseram que devia deixar minha égua. É verdade o que diz a lenda? Que a espada e a pedra decidem quem é rainha em Geall? Como na lenda de Arthur?

—Sim, é verdade, e alguns dizem que esta última está inspirada na nossa. —Enquanto falava, Larkin encheu o bebedouro de água limpa—. Depois da morte de um rei ou de uma rainha, um mago volta a colocar a espada na pedra. O dia depois do funeral, chegam os herdeiros, um por um, e tentam tirá-la dali. Só um o conseguirá, e esse será quem reinará em Geall. A espada é conservada no grande salão, para que todos possam vê-la, até que o rei morre. E de novo se repete o ritual, geração após geração.

Enxugou o suor da testa.

—Moira não tem irmãos nem irmãs. Ela é a que deve governar.

Hoyt, intrigado, deixou de trabalhar um momento para olhar a Larkin.

—E se ela não consegue tirar a espada da pedra, a responsabilidade recairá sobre você?

—Olhe, me livre disso! —exclamou Larkin com sentimento—. Não tenho nenhum desejo de governar. É um maldito chateio, se quer saber. Bom, já está preparado, não acha? —Escova o flanco do cavalo—. É um diabo muito bonito, essa é a verdade. Necessita exercício. Um de nós deveria dar um passeio.

—Hoje não, mas tem razão. Precisa correr. Ainda assim, o cavalo é de Cian, de modo que é ele quem deve decidir.

Aproximaram-se da porta do estábulo e, como tinham feito antes, saíram juntos.

—Por ali — indicou Hoyt — havia um jardim de ervas aromáticas e possivelmente ainda exista. Ainda não reconheci essa parte do terreno.

—Moira e eu o temos feito. Não vimos nenhum jardim.

—Daremos uma olhada de qualquer modo.

Saltou do teto do estábulo tão rapidamente que Hoyt não teve tempo nem de tirar a espada. Por sorte, a flecha o alcançou no coração enquanto ainda estava no ar.

Suas cinzas voaram ao vento enquanto um segundo saltava a sua vez. Uma segunda flecha deu no alvo.

—Poderia deixar um para os outros! —gritou Larkin a Moira.

Ela estava de pé, na porta da cozinha, e tinha uma terceira flecha preparada no arco.

—Então pode se encarregar do que chega pela esquerda.

—Para mim —gritou Larkin ao Hoyt.

Dobrava-o em tamanho e Hoyt tentou protestar, mas Larkin já estava atacando. As folhas de aço chocaram e ressonaram. Por duas vezes viu que aquela coisa retrocedia quando a cruz que Larkin levava no pescoço brilhava ante ele. Mas tinha uma espada muito longa.

Quando Hoyt viu que Larkin escorregava na erva molhada, lançou-se para frente. Volteou a espada para o pescoço da criatura... e encontrou ar.

Larkin se levantou de um salto e lhe cravou limpamente a estaca no peito.

—Só estava tentando que perdesse o equilíbrio.

—Muito bem feito.

—Pode haver mais.

—É possível —conveio Hoyt—. Mas faremos o que viemos fazer.

—Eu protegerei suas costas e você a minha. Deus sabe que Moira protege os dois. Isto o machucava —acrescentou, tocando a cruz de prata—. Em qualquer caso lhe causava problemas.

—Podem nos matar, mas não poderão nos transformar enquanto levemos as cruzes.

—Então eu diria que têm feito um bom trabalho.

    

                                  Capítulo 13    

Já não havia nenhum jardim de ervas aromáticas, com seu tomilho trepador e seu fragrante romeiro. O bonito jardim que sua mãe tinha cuidado com tanto esmero se converteu em um espaço ligeiramente ondulado coberto de grama. Seria um lugar ensolarado quando o céu se limpasse, ele sabia. Embora não estivesse imediatamente fora da cozinha, como tivesse sido mais conveniente, sua mãe o tinha escolhido para que suas ervas pudessem desfrutar da luz do sol.

Quando era pequeno, tinha aprendido de sua mãe tudo o que sabia das ervas, de seus usos e sua beleza. Sentado junto a ela enquanto semeava, podava e colhia, tinha-o ensinado seus nomes e propriedades. Ele tinha aprendido às identificar por seus aromas e as formas de suas folhas, pelas flores que brotavam delas se sua mãe permitia.

Quantas horas tinha passado ali com ela, trabalhando a terra, falando ou simplesmente sentado em silencio para desfrutar das mariposas e o zumbido das abelhas?

Aquele tinha sido seu lar, pensou Hoyt, mais que qualquer outro.

Mal tinha se transformado em um homem e encontrado seu lugar no escarpado do que hoje se chamava Kerry. Tinha construído ali sua cabana de pedra e encontrado a solidão que necessitava para sua própria colheita, para sua magia. Mas sempre tinha retornado a seu lar. E sempre tinha encontrado prazer e quietude com sua mãe justamente ali, em seu jardim de ervas.

Agora se encontrava de pé onde uma vez tinha estado o jardim, lamentando-se e recordando. Uma chama de ira se acendeu dentro dele para seu irmão por permitir que desaparecesse.

—Era isto o que estava procurando? —Larkin estudou a erva, logo seguiu a direção de seu olhar para as árvores através da chuva.

Hoyt ouviu um som e se voltou junto a Larkin. Glenna se aproximou deles com uma estaca na mão e uma faca na outra. A chuva posava em seu cabelo como se as gotas fossem jóias diminutas.

—Deveria ficar dentro da casa. Poderia haver mais.

—Se os houver, agora somos três. —Glenna fez um gesto com a cabeça em direção à casa—. Cinco já que Moira e King estão nos cobrindo.

Hoyt deu uma olhada. Moira estava na janela mais próxima, a flecha na corda e o arco apontando para baixo. Na porta da esquerda viu King, com uma espada longa de dois fios nas mãos.

—Isso deveria bastar. —Larkin sorriu a sua prima. —Tome cuidado de não nos cravar uma flecha no trazeiro.

—Só se apontar para esse lugar —respondeu ela.

Glenna, que estava junto a Hoyt, examinou o terreno.

—Estava aqui? O jardim?

—Estava. Estará.

Passava algo mau, muito mau, para que Hoyt tivesse essa expressão tão dura.

—Tenho um conjuro rejuvenescedor. Tive êxito com ele curando algumas plantas —disse ela.

—Não o necessitarei para isto.

Ato seguido, cravou a espada na terra molhada para poder ter as mãos livres.

Então pôde vê-lo exatamente como tinha sido, e poliu essa imagem em sua mente enquanto estendia os braços e abria as mãos. Aquilo, ele sabia bem, nasceria de seu coração tanto como de sua arte. Seria uma comemoração a quem lhe tinha dado a vida.

E por isso mesmo seria doloroso.

—De semente a folha, de folha a flor. Terra, sol e chuva. Recorda.

Seus olhos trocaram e seu rosto pareceu de repente esculpido em pedra. Larkin foi dizer algo mas Glenna apoiou um dedo sobre seus lábios para que guardasse silêncio. Ela sabia que nesse momento só deviam ouvir a voz e as palavras de Hoyt. O poder já estava espessando o ar.

Glenna não pôde recorrer à visualização porque Hoyt não lhe havia descrito o jardim, mas podia concentrar-se nas fragrâncias. Romero, lavanda, salvia.

Hoyt repetiu o conjuro três vezes enquanto seus olhos se obscureciam cada vez mais e sua voz se elevava com cada uma das repetições. Sob seus pés a terra começou a tremer ligeiramente.

O vento começou a levantar-se, logo girou e logo soprou com força.

—Se levante! Retorna. Cresce e floresce. Presente da terra, dos deuses. Para a terra, para os deuses. Airmed , OH, antiga deusa, libera sua generosidade. Airmed, dos Tuatha Dê Danann, alimenta esta terra. Deixa que retorne como uma vez foi.

Seu rosto estava pálido como o mármore, seus olhos escuros como o ônix. E o poder fluía dele para o interior da terra trêmula.

Esta se abriu.

Glenna ouviu como Larkin continha o fôlego, ouviu seus próprios batimentos do coração retumbando em seus ouvidos. As plantas se elevaram, as folhas se abriram, os casulos estalaram. A excitação se apoderou dela, fazendo que se pusesse a rir de puro prazer.

Salvia prateada, lustrosas agulhas de romeiro, tapetes de tomilho e camomila, louro e arruda, delicados dardos de lavanda e muitas mais ervas brotavam da terra sob a chuva.

O jardim descrevia um nó celta, comprovou Glenna, com estreitos laços e atalhos para facilitar o recolhimento.

Quando o vento desapareceu, quando a terra serenou, Larkin deixou escapar o ar com um assobio.

—Bom, esta sim que é uma curiosa forma de cultivar a terra.

Glenna apoiou uma mão sobre o ombro de Larkin.

—É maravilhoso, Hoyt. É um dos atos de magia mais belos que vi em minha vida. Bendito seja.

Hoyt extraiu a espada da terra. O coração, que tinha aberto para obrar a magia, doía-lhe como se estivesse ferido.

—Agarra tudo o que necessite, mas se apresse. Já estivemos fora muito tempo.

Ela utilizou a faca e trabalhou com eficácia e rapidez, embora tivesse desejado atrasar-se, desfrutar do trabalho.

As fragrâncias a rodeavam, e sabia que o que estava recolhendo seria inclusive mais potente graças à forma em que tinha aparecido na terra.

O homem que a tinha acariciado aquela noite, que a tinha tomado essa mesma manhã, possuía mais poder que ninguém que ela nunca tivesse conhecido. E que qualquer um que tivesse imaginado.

—Isto é algo que sinto falta na cidade —disse ela—. Tenho um monte de vasos de barro nas janelas, mas não é o mesmo que a jardinagem autêntica.

Hoyt não disse nada, simplesmente a olhou: o cabelo brilhando sob a chuva, as mãos finas trabalhando entre as ervas. Sentiu algo em seu coração, só um pequeno beliscão.

Quando Glenna se levantou, com os braços cheios de ervas e os olhos reluzentes ante tanta maravilha, esse mesmo coração golpeou ligeiramente contra seu peito e quase deixou de pulsar, como se tivesse sido atravessado por uma flecha.

Enfeitiçado, pensou Hoyt. Tinha-lhe enfeitiçado. A magia de uma mulher aponta sempre primeiro ao coração.

—Posso preparar muitas coisas com esta quantidade de ervas. — Jogou a cabeça para trás para afastar o cabelo molhado de seu rosto—. E ficará bastante para alinhar uma boa sopa para o jantar.

—Então será melhor que o levemos para dentro. Temos movimento pelo oeste. —Larkin assinalou por volta da borda ocidental do bosque—. Por agora só estão vigiando.

Enfeitiçado, pensou novamente Hoyt enquanto se voltava para a direção que assinalava Larkin, tinha esquecido sua vigilância; enfeitiçado por Glenna.

—Conto meia dúzia —continuou dizendo Larkin com voz fria e serena—. Embora possa haver mais atrás. Confiando em nos atrair com um chamariz para que os persigamos. De modo que certamente haverá mais esperando para nos atacar se nos aproximarmos deles.

—Por esta manhã já temos feito tudo o que precisávamos —começou a dizer Hoyt, e logo pareceu pensá-lo melhor—, mas é melhor que não pensem que nos obrigaram a retornar à casa. Moira — acrescentou, elevando a voz para que ela pudesse lhe ouvir. —pode alcançar algum deles desta distância?

—Qual prefere?

Hoyt, divertido, deu de ombros.

—Deixo-o a sua escolha. Vamos lhes dar um pouco em que pensar.

Mal tinha pronunciado a última palavra quando uma flecha saiu voando, e logo a segunda, tão depressa que acreditou que o tinha imaginado. Ouviram-se dois gritos, a gente fundindo-se com o outro. E ali onde havia seis daquelas criaturas, agora ficavam só quatro... que fugiram a ocultar-se entre as árvores do bosque.

—Dois menos lhe darão mais que um pouco em que pensar. —Com um sorriso turvo, Moira preparou outra flecha—. Posso lançar um par de flechas para o bosque e os obrigar a retroceder ainda mais se quiser.

—Não esbanje as flechas.

Cian apareceu na janela, atrás dela. Estava desgrenhado e parecia irritado. Moira se afastou automaticamente.

—Não se esbanjam se alcançarem o alvo.

—Já terão partido por agora. Se estavam aqui para algo mais que nos chatear, teriam atacado enquanto nos superavam em número.

Cian passou junto a ela e saiu pela porta lateral.

—Já passou sua hora de dormir, não é? —disse Glenna.

—Eu gostaria de saber quem poderia dormir com toda esta baderna. Parecia um fodido terremoto. —Examinou o jardim —Isto é obra sua, suponho —disse a Hoyt.

—Não. —A amargura de sua ferida interna se fez evidente—. De minha mãe.

—Bem, a próxima vez que tenha intenção de se dedicar ao paisagismo, me avise, assim não terei que me perguntar se a casa está caindo em cima de minha cabeça. Quantos matou?

—Cinco. Moira acabou com quatro deles. —Larkin embainhou a espada—. O outro foi meu.

Cian olhou para a janela.

—A pequena rainha está aumentando o marcador.

—Queríamos examinar o terreno e atender seu cavalo — disse Larkin.

—Sinto-me agradecido por isso.

—Estava pensando que poderia tirá-lo um momento a galopar de vez em quando, se não se importar.

—Não me importa e Vlad gostaria.

—Vlad? —repetiu Glenna.

—É só uma brincadeira pessoal. Se a emoção já se acabou, voltarei para cama.

—Tenho que falar contigo. —Hoyt esperou que Cian o olhasse—. Em particular.

—E esta conversa em particular requer que fiquemos sob a chuva?

—Caminharemos.

—Como queira. —Depois olhou Glenna e sorriu—. Está muito bonita esta manhã.

—E molhada. Há muitos lugares secos e privados dentro de casa, Hoyt — disse ela.

—Prefiro estar fora.

Houve um momento de incomodo silêncio.

—É um pouco lento, Glenna. Ela está esperando que a beije —prosseguiu dirigindo-se agora a Hoyt—, desse modo se preocupará menos se lhe cortarem o pescoço por se empenhar em caminhar sob a chuva.

—Volta dentro. —Embora não se sentia absolutamente cômodo com a exibição pública, Hoyt agarrou o queixo de Glenna com sua mão e a beijou levemente nos lábios—. Estarei bem.

Larkin voltou a tirar a espada e a ofereceu a Cian.

—É melhor estar armado.

—Sábias palavras. —Depois o vampiro se inclinou e deu um beijo rápido arrogante em Glenna—. Eu também estarei bem.

Ambos os irmãos caminharam em silêncio e sem indício da camaradagem que Hoyt recordava que tinham compartilhado em outro tempo. Um tempo, pensou, em que eram capazes de saber o que o outro pensava sem necessidade de palavras. Agora os pensamentos de seu irmão eram herméticos para ele, do mesmo modo que imaginava que os seus eram para Cian.

—Conservou as rosas, mas deixou morrer o jardim de ervas aromáticas. Esse jardim era um dos grandes prazeres de nossa mãe.

—As roseiras foram substituídas não recordo quantas vezes desde que adquiri este lugar. Mas as ervas tinham desaparecido já antes que comprasse a propriedade.

—Não é uma propriedade como esse lugar que tem em Nova Iorque. É nosso lar.

—É para você. —A ira de Hoyt rodou pelas costas de Cian igual à chuva—. Se esperas mais do que posso ou quero dar, viverá em um estado de decepção permanente. É meu dinheiro o que comprou esta terra e a casa que se levanta sobre ela, é meu dinheiro que mantém a ambas. Acreditava que esta manhã estaria de melhor humor, depois de ter pulado com essa bonita bruxa ontem à noite.

—Tome cuidado por onde pisa —disse Hoyt.

—Tenho boa base. —E não pôde resistir a pisar em um terreno ainda mais delicado—. Ela é sem dúvida uma magnífica mulher, mas tenho alguns séculos mais de experiência que você com as mulheres. Há algo mais que luxúria nesses assombrosos olhos verdes. Ela pode ver o futuro através deles. E me pergunto o que fará você a respeito.

—Não é teu assunto.

—No mínimo, mas resulta entretido especular, especialmente quando, como neste momento, não tenho uma mulher que me distraia. Ela não é uma garota fácil de povoado que se contente com uma queda no palheiro e uma bagatela. Glenna quererá e esperará muito mais de você, como tendem a fazê-lo as mulheres, especialmente as mulheres inteligentes.

Cian elevou a vista instintivamente, comprovando o manto de nuvens cinza. O clima irlandês era enganoso, sabia, e o sol podia decidir-se a aparecer junto à chuva.

—Acredita que se conseguir sobreviver estes três meses e satisfazer a seus deuses, poderia lhes pedir o direito de levá-la de volta contigo?

—Por que se importa com isso?

—Nem todo mundo faz perguntas por que lhe importem as respostas. É capaz de imaginá-la, encerrada em sua cabana de pedra, nos escarpados do Kerry? Sem eletricidade, sem água corrente, sem nenhuma Saks à volta da esquina. Preparando-lhe o jantar em uma panela sobre o fogo, reduzindo provavelmente sua expectativa de vida na metade por causa de cuidados médicos e má nutrição. Mas bom, tudo que seja por amor.

—O que sabe você disso? —perguntou Hoyt bruscamente—. Você não é capaz de amar.

—OH, nisso se equivoca. Os de minha espécie podem amar profundamente, com desespero até. E sem dúvida também de um modo imprudente, algo que aparentemente você e eu temos em comum. De modo que não a levará de volta contigo, porque isso seria algo muito egoísta de sua parte. E você é muito bom, muito puro para isso. E também desfruta muito com o papel de mártir. Deixará Glenna aqui para que se consuma por você. Eu poderia me divertir lhe oferecendo um pouco de consolo e, considerando que nos parecemos muito, arrumado que ela aceitaria. E a mim também.

O golpe o fez retroceder uns passos, mas não o derrubou. Notou o sangue, seu maravilhoso sabor, logo passou a mão pela boca ensangüentada. Havia-lhe custado muito menos do que supunha provocar seu irmão.

—Bem, fazia tempo que isto deveria vir, para os dois. —Lançou a espada a um lado, como o tinha feito Hoyt—. Vamos lá então.

O punho de Cian se moveu tão rápido que foi apenas uma mancha... uma mancha cheia de estrelas que estalaram diante dos olhos de Hoyt, convertendo seu nariz em um fornecedor de sangue. Logo ambos carregaram um contra o outro como aríetes.

Cian recebeu um golpe nos rins e outro que lhe fez zumbir os ouvidos. Tinha esquecido que Hoyt era capaz de brigar como um autêntico demônio quando o provocavam. Ele lançou um golpe curto e alcançou Hoyt no abdômen, derrubando-o. Mas também ele se encontrou sentado no chão quando seu irmão o golpeou com ambas as pernas.

Poderia haver se levantado em um abrir e fechar de olhos e acabar com aquela briga, mas tinha o sangue quente e preferia a luta corpo a corpo.

Agora ambos rodaram sobre a erva, lançando golpes e maldições enquanto a chuva lhes empapava a roupa. Cotovelos e punhos golpeavam a carne, chocavam-se contra os ossos.

Então Cian retrocedeu com um vaio e um brilho de suas presas. Hoyt viu a marca da queimadura na mão de seu irmão, com a forma de sua cruz.

—Que me fodam —murmurou Cian, enquanto lambia a queimadura e o sangue—. Aparentemente necessita uma arma para me vencer.

—Sim, que o fodam. E não necessito nada mais que meus punhos.

Hoyt se levou a mão à corrente e esteve a ponto de arrancá-la. Logo deixou correr ao compreender a enorme estupidez que estava a ponto de cometer.

—Isto é genial, não é? —Hoyt cuspiu as palavras e um pouco de sangue junto com elas—. Isto está muito bem. Brigando como dois ratos guias de rua e nos expondo assim frente a algo que queira nos atacar. Se algum deles tivesse estado perto, agora estaríamos mortos.

—Eu já estou... fala por si mesmo.

—Não é isto o que quero, me atar a golpes contigo. —Embora a vontade de briga ainda estivesse em seu rosto enquanto limpava o sangue da boca. — Não tem nenhum sentido.

—Entretanto, esteve bem.

Hoyt sentiu uma pontada no lábio inchado e lhe doía o bordo da têmpora.

—Sim, esteve bem, essa é a verdade. Mártir e puro, e uma merda.

—Sabia que isso chegaria fundo.

—Sempre soube como chegar ali. Se não pudermos ser irmãos, Cian, o que é o que somos?

Cian se sentou na terra, sacudindo com ar ausente as ervas e as manchas de sangue da camisa.

—Se conseguir a vitória, partirá dentro de uns meses. E se não, verei-o morrer. Sabe quantos vi morrer?

—Se o tempo estiver curto, deveria ser ainda mais importante.

—Você não sabe nada sobre o tempo. —Cian se levantou—. Quer caminhar? Vêem então e aprende algo sobre o tempo.

Pôs-se a andar pela erva empapada e Hoyt se viu obrigado a apertar o passo para alcançá-lo.

—Ainda te pertence? O terreno?

—A maior parte. Algumas terras foram vendidas faz uns séculos e outras foram tomadas pelos ingleses, durante uma de suas guerras, e entregues aos cupinchas do Cronwell.

—Quem é Cronwell?

—Era. Um autêntico bode que dedicou tempo e esforço a queimar e assolar a Irlanda para a família real britânica. Políticos e guerras, parece que deuses, seres humanos e demônios não podem prescindir de tudo isso. Convenci o filho de um desses homens para que, depois de que herdasse as terras, vendesse-me isso. A bom preço.

—Convenceu-lhe? Matou-o quer dizer.

—E se o fiz? —disse Cian com voz cansada—. Foi há muito tempo.

—É assim que tem feito sua fortuna? Matando?

—Tive mais de novecentos anos para encher meus cofres e o tenho feito de diferentes maneiras. Eu gosto do dinheiro e sempre tive cabeça para os negócios.

—Sim, isso é verdade.

—A princípio houve anos de vacas magras. Décadas deles, mas consegui superá-lo. Viajei. É um mundo enorme e fascinante, e eu gosto de possuir partes dele. Por isso me preocupa a idéia de que Lilith queira representar seu próprio Cronwell.

—Protege seu investimento —disse Hoyt.

—Faço-o. Seguirei fazendo. Ganhei o que tenho. Falo quinze idiomas... uma vantagem muito útil no mundo dos negócios.

—Quinze? —Agora o passeio e a conversa eram mais fáceis—. Lembro que inclusive era capaz de massacrar o latim.

—Nada como o tempo para aprender e mais ainda gozar de seus frutos. Desfruto muito disso.

—Não te entendo. Ela tirou sua vida, sua humanidade.

—E me concedeu a eternidade. Apesar de que não me sentir particularmente agradecido, já que não o fez em meu benefício, não vejo que sentido pode ter passar essa eternidade lamentando-se por isso. Minha existência é longa, e isto é em troca do que têm você e os de sua espécie. —E Cian assinalou uma tumba—. Um punhado de anos e logo nada mais que terra e pó.

Havia umas ruínas de pedra cobertas de trepadeiras cheias de espinhos e bagos negros. A parede do fundo ainda permanecia em pé, e acabava em uma espécie de pico. Tinham gravado algumas figuras nela como em um marco, mas o tempo e a intempérie haviam tornado a deixar a superfície da pedra quase lisa.

Algumas flores, inclusive pequenos arbustos, abriam passagem através das gretas com seus casulos roxos que venciam sob o peso da chuva.

—Uma capela? Nossa mãe sempre falava de construir uma.

—E construiu —confirmou Cian— Isto é tudo o que fica dela. E deles, e de todos os que chegaram depois. Lápides mofo e matas.

Hoyt se limitou a menear a cabeça. As grandes lápides tinham sido cravadas na terra ou apoiadas sobre ela para assinalar o lugar onde descansavam os mortos. Agora se moveu entre elas, sobre o terreno irregular onde o chão tinha sido levantado uma e outra vez, com as ervas altas reluzentes sob a chuva.

A igual à escrita gravada nas ruínas da capela, as palavras esculpidas nas lápides quase tinham desaparecido, e as pedras estavam cobertas de mofo e líquen. Em algumas alcançou ler o que tinha escrito sobre elas, nomes que não conhecia. Michael Thomas McKenna, amado marido de Alice. Abandonou esta terra em 6 de maio de 1825. E Alice, que tinha se reunido com ele seis anos mais tarde. Seus filhos, um dos quais tinha abandonado o mundo apenas uns dias depois de ter chegado a ele, e três mais.

Este Thomas e essa Alice tinham vivido e morrido, séculos depois que ele nascesse, e quase dois séculos antes que ele estivesse ali, lendo seus nomes.

O tempo era fluido, pensou, e muito frágeis aqueles que passavam por ele.

Havia cruzes e lápides redondas caídas. Em alguns lugares cresciam jardins cobertos de ervas daninhas em cima das tumbas, como se estivessem cuidados por fantasmas indolentes. E pôde sentir esses fantasmas com cada passo que dava.

Uma roseira cheia de casulos vermelhos crescia luxuriosamente atrás de uma lápide não mais alta que seus joelhos. Suas pétalas brilhavam como o veludo. Foi um golpe rápido ao coração, uma dor surda retumbada atrás.

Hoyt soube que estava ante a tumba de sua mãe.

—Como morreu?

—Seu coração se deteve. É a forma habitual.

Hoyt apertou os punhos.

—Como pode ser tão frio, inclusive aqui, inclusive agora?

—Alguns disseram que foi a tristeza que a matou. Possivelmente foi assim. Ele partiu primeiro. —Cian fez um gesto por volta de uma segunda lápide. —Umas febres o levaram ao redor do equinócio, o outono depois que... eu fosse. Ela o seguiu três anos depois.

—E nossas irmãs?

—Ali. Estão todas ali. —Fez um gesto para um grupo de lápides—. E as gerações que as seguiram, as que ficaram aqui, em todo caso. Houve uma terrível fome e a terra se apodreceu. As pessoas morriam como moscas ou se lançavam a América, a Austrália, a Inglaterra, a qualquer parte menos ficar aqui, onde havia sofrimento, dor, peste, pilhagem. Morte.

—E Nola?

Cian ficou calado durante um momento, logo continuou falando com um tom de deliberada indiferença.

—Viveu até passar os setenta anos; teve uma vida boa e longa para uma mulher nesses tempos, para o ser humano. Teve cinco filhos. Ou talvez fossem seis.

—Foi feliz?

—Como poderia sabê-lo? —respondeu Cian com impaciência. —Nunca voltei a falar com ela. Eu não era bem-vindo na casa que agora é minha. Por que ia ser?

—Ela disse que eu retornaria.

—Bom, tem-no feito, não é assim?

O sangue de Hoyt estava morno agora, e logo estaria frio.

—Não há nenhuma tumba para mim aqui. Se voltar, haverá uma? Trocará acaso o que há aqui?

—Um paradoxo. Quem pode dizer? Em qualquer caso, esfumou-se ou, ao menos, isso era o que se dizia. Dependia da versão. É uma espécie de lenda nesta parte do país. Hoyt de Clare, embora Kerry também o reclame como patrimônio deles. Sua canção e sua história não alcançam à altura de um deus, nem sequer a de Merlin, mas tem uma nota em alguns guias de viagem. O círculo de pedras que se encontra ao norte daqui, que você usava, hoje atribui a você e se chama o baile de Hoyt.

Hoyt não sabia se sentir-se adulado ou incômodo.

—Esse lugar é o Baile dos Deuses e estava aqui muito antes que eu nascesse.

—Isso é o que acontece a verdade quando a fantasia é mais luminosa. Recorda as cavernas que havia debaixo dos escarpados onde me jogou no mar? Conta-se que você jaz ali, enterrado profundamente sob as rochas, protegido pelas fadas, debaixo da terra da que chamou o raio e ao vento.

—Tolices.

—Uma divertida reclamação da fama.

Nenhum dos dois disse nada durante um momento, simplesmente permaneceram ali, dois homens de assombrosa semelhança física no mundo chuvoso dos mortos.

—Se eu tivesse ido contigo aquela noite, como me pediu que fizesse, se tivesse cavalgado a seu lado até a estalagem no povoado. Um gole e uma queda... —Hoyt sentiu a garganta quente enquanto recordava—. Mas tinha trabalho e não queria companhia. Nem sequer a sua. Só que se tivesse acompanhado-o, nada disto teria acontecido.

Cian passou a mão pelo cabelo molhado.

—Joga um grande peso de em cima dos ombros, mas bom, sempre o fez. Se aquela noite me tivesse acompanhado ao povoado, é provável que ela tivesse pegado a ambos... ou seja que é verdade, nada disto teria acontecido.

Cian viu algo no rosto de Hoyt que fez que voltasse a lhe invadir a fúria.

—Acaso pedi que se sinta culpado? Não foi meu guardião então e não o é tampouco agora. Estou aqui, como estive faz séculos e, deixando de lado a má sorte, ou minha própria estupidez por permiti-lo me arrastar a esta loucura e o grave risco de que me atravessem o coração com uma estaca, aqui seguirei durante muitos séculos mais. Enquanto você, Hoyt, será alimento para os vermes. De modo que, a qual dos dois acha que sorriu o destino?

—Que valor tem meu poder se não for capaz de mudar aquela noite, aquele único momento? Tivesse ido contigo ao povoado. Teria morrido por você.

Cian elevou a cabeça subitamente e em seu rosto se notava a mesma ira que tinha mantido durante a briga.

—Não carregue sua morte ou seus remorsos sobre meus ombros.

Mas nas palavras de Hoyt não havia indício de ira quando prosseguiu:

—E você teria morrido por mim, por qualquer deles. —E abriu os braços para abranger as tumbas.

—Uma vez.

—É a metade de mim. Nada do que é, nada do que ocorreu pode trocar isso. Você sabe tão bem como eu. Inclusive além do sangue, além dos ossos, debaixo de tudo isso somos o que sempre fomos.

—Eu não posso existir neste mundo sendo isto —disse Cian. Agora a emoção era evidente em seu rosto, em sua voz—. Não posso sentir pena pelo que sou, ou por você... Ou por eles. E maldito seja por me haver trazido novamente aqui.

—Te amo. Esta ligado a mim.

—O que você ama desapareceu.

Não, pensou Hoyt. Nesse momento estava vendo o coração de seu irmão. Podia vê-lo nas rosas que tinha plantado sobre a tumba de sua mãe.

—Está aqui comigo e com os espíritos de nossa família. Não mudaste tanto quanto acredita Cian, ou não teria feito isto. —Acariciou as pétalas de uma rosa—. Não poderia havê-lo feito.

De repente os olhos de Cian se voltaram intemporais, cheios de tormento de séculos.

—Vi a morte. Milhares e milhares de vezes. Velhice e enfermidade, assassinatos e guerras. Mas não vi as suas. Isto é quão mínimo podia fazer por eles.

Quando Hoyt moveu a mão, as pétalas de uma rosa muito amadurecida caíram e se pulverizaram sobre a tumba de sua mãe.

—Foi suficiente.

Cian olhou a mão que Hoyt lhe estendia. Suspirou uma vez, profundamente.

—Bom, malditos sejamos os dois então —disse e estreitou a mão de seu irmão—. Já estamos fora muito tempo, não tem sentido que sigamos tentando à sorte. E quero voltar para minha cama.

Puseram-se a andar de retorno por onde tinham vindo.

—Sente falta do sol? —perguntou Hoyt—. Caminhar sentindo seu calor no rosto?

—Têm descoberto que produz câncer de pele.

—OH. —Hoyt pensou nisso—. Mesmo assim, o calor do sol em uma manhã de verão.

—Não penso nisso. Eu gosto da noite.

Possivelmente não era o momento de pedir a Cian que lhe permitisse praticar uma pequena sangria experimental.

—O que faz nesse negócio que tem? E com seu tempo livre? Você...

—Faço o que gosto. Eu gosto de trabalhar, é gratificante. E faz que o jogo seja mais atraente. E não é possível se pôr a par de vários séculos durante um passeio matinal sob a chuva, embora estivesse disposto a fazê-lo. —apoiou a espada sobre o ombro—. Mas em qualquer caso, provavelmente se inteiraria de sua morte através dessa história e deixaria então de me fazer perguntas.

—Sou feito de uma madeira mais forte do que acredita —respondeu Hoyt alegremente—, como demonstrei faz um momento, quando te parti a cara. Tem um bonito machucado no queixo.

—Irá mais rápido que em você, a menos que essa bruxa intervenha outra vez. Em qualquer caso, eu me contive.

—É uma merda.

As sombras que sempre caíam sobre Cian quando visitava aquele cemitério começaram a dissipar-se.

—Se me tivesse empregado a fundo contigo, agora estaríamos cavando uma tumba ali.

—Voltemos a tentá-lo então.

Cian olhou seu irmão. As lembranças, o prazer que emanava destes, reprimidos durante tanto tempo, voltaram para ele.

—Em outro momento. E quando tiver acabado contigo não poderá se levantar para se deitar com a ruiva.

Hoyt sorriu.

—Te senti saudades.

Cian olhou para a casa que aparecia entre as árvores.

—O fodido de todo este assunto é que eu também senti sua falta.

    

                             Capítulo 14

Com um arco armado e preparado a seu lado, Glenna vigiava da janela da torre. Tinha considerado o fato de que tinha muito pouca prática com a arma em particular e que sua pontaria podia ser muito seriamente questionada, mas não podia ficar simplesmente sentada ali. Desarmada e retorcendo as mãos, como uma mulher indefesa.

Se o fodido sol saísse de uma maldita vez não teria do que preocupar-se. Mais que isso pensou com um ligeiro sussurro de ira, se os meninos McKenna não tivessem saído a passeio —obviamente para brigar em particular— ela não teria agora na cabeça essas imagens nas que ambos eram feitos pedaços por uma manada de vampiros.

Manada? Rebanho? Bando?

O que importava? Chamasse como chamasse, essas coisas seguiam tendo presas e uma fodida atitude.

Aonde tinham ido? E por que tinham permanecido fora, expostos e vulneráveis, durante tanto tempo?

Talvez o rebanho/manada/bando já os tivesse despedaçado e arrastado seus corpos mutilados... E, OH, Deus, oxalá pudesse apagar o vídeo de sua cabeça durante cinco fodidos minutos.

À maioria das mulheres só se preocupava que seu homem pudesse ser atacado, ou atropelado por um ônibus. Mas, OH, não, ela tinha que enredar-se com um tipo que estava em guerra com uns seres malignos que adoravam chupar sangue.

Por que não podia haver-se apaixonado por um agradável contador ou de um bonito agente da bolsa?

Tinha pensado empregar suas habilidades e a bola de cristal para procurá-los. Mas logo decidiu que isso teria sido... invadir sua intimidade. Ofensivo portanto.

Mas se Hoyt e Cian não retornassem em dez minutos, importaria-lhe um caralho as boas maneiras e iria procurá-los.

Ela não tinha pensado, não de tudo, no torvelinho emocional que Hoyt estava experimentando, o que estranhava e o que arriscava. Mais que o resto deles, decidiu. Glenna se encontrava a milhares de quilômetros de sua família, mas não a centenas de anos. Ele em troca estava na casa onde tinha nascido e crescido, mas já não era seu lar. E cada dia, cada hora, era um aviso disso.

Ter criado novamente o jardim de ervas de sua mãe lhe tinha feito muito dano. Glenna teria que ter caído nisso e manter a boca fechada em relação ao que queria e necessitava. Deveria haver-se limitado a fazer uma fodida lista e depois sair e procurar ou comprar as provisões.

Olhou algumas das ervas que já tinha amarrado e pendurado para que se secassem. As pequenas coisas, as coisas de todos os dias, eram as que podiam provocar mais dano.

Agora ele estava fora, em alguma parte, sob a chuva, com seu irmão o vampiro. Ela não acreditava que Cian fosse capaz de atacar Hoyt... ou não queria acreditar. Mas se Cian estava furioso, se o pressionassem muito, poderia controlar o que eram seus impulsos naturais?

Provavelmente era uma tolice preocupar-se. Eles eram dois homens de considerável poder, homens que conheciam aquelas terras. Nenhum dos dois dependia exclusivamente de espadas e facas. Hoyt estava armado, e levava uma das cruzes que ambos tinham conjurado, de modo que não estava indefeso.

E o fato de que ambos estivessem ali fora, movendo-se livremente, demonstrava um fato importante: que não poderiam os submeter a um assédio.

Ninguém mais estava particularmente preocupado. Moira tinha retornado a estudar na biblioteca. Larkin e King estavam na área de treinamento, dedicados a fazer um inventário das armas. Seguro que ela estava se preocupando com nada.

Mas onde diabos estavam?

Enquanto continuava vigiando o terreno viu que algo se movia. Apenas umas sombras na penumbra. Agarrou a besta, ordenou a seus dedos que deixassem de tremer enquanto se colocava em posição na estreita janela.

—Só respira — se disse—. Só respira. Inspira, espira. Inspira, espira.

Deixou escapar o fôlego com um assobio de alívio quando viu Hoyt com Cian a seu lado. Caminhando e jorrando água como se tivessem todo o tempo do mundo e nenhuma preocupação.

Arqueou as sobrancelhas quando estiveram mais perto. Era sangue o que havia na camisa do Hoyt e uma ferida recente debaixo do olho direito?

Inclinou-se para fora e se chocou contra o parapeito de pedra. A flecha saiu disparada do arco com um som mortal. Lançou um grito. Mais tarde se odiaria por isso, mas aquele som de comoção e medo puramente feminino escapou de seus lábios enquanto a flecha cortava o ar e a chuva e aterrissava a poucos centímetros da ponta da bota de Hoyt.

Ambos tiraram as espadas, um pilar de aço, enquanto giravam costas contra costas. Em outras circunstâncias, ela sem dúvida tivesse admirado esse movimento, a elegância e o ritmo do mesmo, como se fosse uma coreografia. Mas nesse momento estava apanhada entre a mortificação e o horror

—Sinto muito! Sinto muito! —inclinou-se ainda mais fora da janela e agitou freneticamente o braço enquanto gritava—. Fui eu. A flecha escapou. Eu só... —OH, merda—. Agora baixo.

Deixou o arco onde estava, prometendo-se que praticaria durante uma hora antes de voltar a disparar a qualquer outra coisa que não fosse um alvo. Antes de pôr-se a correr alcançou ouvir o som inconfundível de umas gargalhadas masculinas. Um rápido olhar lhe confirmou que era Cian, quase dobrado em dois pela risada. Hoyt simplesmente olhava para a janela.

Quando girou na curva da escada, Larkin saiu da sala de treinamento.

—Problemas?

—Não. Não. Nada. Está tudo bem. Não foi nada.

Glenna podia sentir que o sangue subia às faces enquanto corria para o térreo.

Hoyt e Cian já entravam pela porta principal, sacudindo-se como cães encharcados ao mesmo tempo em que ela descia os últimos degraus.

—Sinto muito. Sinto muito.

—Me recorde que não devo a zangar, ruiva —disse Cian—. Poderia querer me apontar ao coração e em troca me atingir as bolas.

—Só estava vigiando para ver se vinham e devo ter disparado o arco sem me dar conta. Algo que nunca teria feito se vocês não tivessem demorado tanto em retornar fazendo que me preocupasse dessa maneira.

—Isso é o que eu gosto das mulheres. —Cian deu uma palmada no ombro de seu irmão—. Quase o matam, mas ao final a culpa é sua. Sorte, vou para cama.

—Tenho que examinar suas queimaduras,

—Não, não, não.

—O que aconteceu? Eles atacaram? Tem sangue na boca e você também —disse a Hoyt—. E um olho praticamente fechado pelo inchaço.

—Não, ninguém nos atacou—. Em sua voz havia uma nota de exasperação—. Bom, até que você quase me atravessa o pé com uma flecha.

—Mas têm golpes no rosto e as roupas sujas... rasgadas. Se não os atacaram... —deu-se conta ao ver a expressão de seus rostos. Depois de tudo, ela também tinha um irmão—. Brigaram? Entre vocês?

—Ele me pegou primeiro.

Glenna lançou a Cian um olhar que teria murchado uma pedra.

—Muito bem, isso está muito bem, não é? Não passamos já por tudo isto ontem? Não falamos acaso das brigas internas, das inúteis e destrutivas que são?

—Parece-me que iremos para cama sem jantar.

—Não se faça de esperto comigo. —Cravou o indicador no peito de Cian—. Eu aqui, doente de preocupação, e vocês dois ali fora lutando como um par de estúpidos cachorrinhos.

—E você quase me crava uma flecha no pé — recordou Hoyt—. Acredito que por hoje estamos quase ao mesmo tempo quanto a comportamentos estúpidos.

Ela deixou escapar o ar com um vaio.

—À cozinha os dois. Encarregarei-me desses cortes e machucados... outra vez.

—Eu vou para cama —começou a dizer Cian.

—Os dois. Agora. E não lhe convém discutir comigo neste momento.

Enquanto ambos se dirigiam à cozinha, Cian esfregou brandamente o lábio partido com um dedo.

—Passou muito tempo, mas não recordo que sentisse uma predileção especial pelas mulheres dominantes.

—Não sentia. Mas as entendo o suficiente para saber que deveríamos deixar que se de bem nisto. E a verdade é que o olho está me matando.

Quando entraram na cozinha, Glenna estava colocando sobre a mesa tudo o que necessitava para suas curas. Tinha posto o bule a ferver e levava as mangas enroladas.

—Quer sangue? —perguntou a Cian, com suficiente gelo nas palavras para que ele esclarecesse a garganta.

Resultava-lhe quase assombroso sentir-se realmente compungido. Era uma sensação que não tinha experimentado em... muito tempo para recordá-lo. Obviamente, o fato de viver tão estreitamente com os seres humanos não era uma boa influência.

—A infusão que está preparando é suficiente, obrigado.

—Tire a camisa.

Tinha um comentário irônico na ponta da língua que Glenna quase pôde ver. Demonstrando que era um homem preparado, teve a prudência de tragá-lo.

Tirou a camisa e se sentou.

—Tinha esquecido as queimaduras. —Agora Hoyt as examinou atentamente. Já não havia bolhas e a pele tinha adquirido uma cor vermelha e desagradável—. Se me tivesse lembrado —disse enquanto se sentava diante de Cian —teria dado mais golpes no peito.

—Típico —disse Glenna em voz baixa, e ambos a ignoraram.

—Já não briga como estava acostumado a fazê-lo. Agora usa mais os pés e os cotovelos. —E Hoyt ainda podia sentir o doloroso resultado deles—. E logo está também esse salto para se levantar do chão.

—Artes marciais. Sou faixa preta em várias delas. Categoria Mestre —explicou Cian—. Têm que dedicar mais tempo ao treinamento.

Hoyt esfregou as costelas machucadas.

—Farei-o.

“Não haviam se tornado sociáveis de repente?”, pensou Glenna. O que era que fazia que os homens decidissem serem amigos depois de haver-se amassado mutuamente a cara a golpes?

Verteu a água em uma chaleira sobre umas ervas e, enquanto a infusão se assentava, aproximou-se da mesa com seu bálsamo.

—Eu haveria dito três semanas para que se curassem, considerando a extensão das queimaduras. —sentou-se e passou o bálsamo em seus dedos—. Retifico e digo três dias.

—Podemos ser feridos, com gravidade. Mas a menos que seja um golpe mortal, curamo-nos... e rapidamente.

—É afortunado, especialmente com esses bonitos machucados que acompanham às queimaduras. Mas não os podem regenerar —continuou Glenna enquanto aplicava o bálsamo sobre as queimaduras—. Se, por exemplo, cortamo-lhes um braço. Não voltará a lhes crescer.

—Essa é uma idéia horrível e interessante. Não. Nunca ouvi que acontecesse nada pelo estilo.

—Então, se não podermos lhes alcançar na cabeça ou no coração, podemos ir por um de seus membros.

Glenna foi à pia para lavar o bálsamo das mãos e preparar compressas frias para os machucados.

—Aqui tem. —Deu uma a Hoyt—. Ponha isso no olho.

Hoyt a cheirou e logo fez o que Glenna lhe dizia.

—Não tinha que ter se preocupado.

Cian deu um bufo.

—Isso não esteve nada bem, Hoyt. É mais inteligente dizer.” Meu amor, sentimos muito que tenha se preocupado. Fomos egoístas e desconsiderados, e deveríamos ser açoitados por isso. Confiamos que possa nos perdoar”. E dizê-lo marcando muito a pronúncia. As pronuncias enlouquecem as mulheres.

—E depois lhe beijar os pés, suponho —respondeu seu irmão.

—Na verdade melhor o trazeiro. Beijar o trazeiro é uma tradição que nunca passa de moda. Precisará ter paciência com ele, Glenna. Hoyt ainda está aprendendo.

Ela levou a infusão à mesa e logo surpreendeu a ambos ao apoiar uma mão na face de Cian.

—Está perdoado. Agora bebe sua infusão.

—Assim fácil? —protestou Hoyt—. Ele recebe uma carícia na face e um beijo e já está? Não foi a ele a quem estiveste a ponto de cravar uma flecha.

—As mulheres são um mistério permanente. —Cian falou sossegadamente—. E uma das maravilhas do mundo. Levarei a bebida para o quarto. —levantou-se—. Necessito roupa seca.

—Beba tudo. —Glenna falou sem virar-se enquanto agarrava outro frasco—. O ajudará.

—Então farei. Faça-me saber se não aprender bem depressa para satisfazê-la. Não me incomodaria ser a segunda alternativa.

—É só sua forma de ser — disse Hoyt quando Cian partiu—. Uma espécie de brincadeira.

—Sei. De modo que se têm feito amigos de novo enquanto se moíam a golpes.

—É verdade que eu o peguei primeiro. Falei-lhe de nossa mãe e do jardim, e ele se mostrou frio como o gelo. Embora eu pudesse ver o que ocultava debaixo dessa frieza, eu... bom, ataquei-o, e... depois, Cian me levou onde está enterrada nossa família. Isso é tudo.

Agora Glenna se voltou e toda a pena que sentia se refletiu em seus olhos.

—Deve ter sido muito duro para ambos estar ali.

—Faz que para mim seja algo real. Que enquanto eu estou aqui sentado contigo eles estejam mortos, antes não parecia real. Nem possível, nem real.

Glenna se aproximou dele e lhe passou uma tintura pelas áreas machucadas.

—E para Cian? Ter vivido durante todo este tempo sem uma família é outra das crueldades que cometeram com ele. Com todos eles. Não tínhamos pensado nisso, não é, quando falamos da guerra e de como destruí-los? Todos eles foram pessoas alguma vez, igual a Cian.

—Querem nos matar, Glenna. A todos nós, face à pena que possamos sentir por eles.

—Sei, sei. Algo os despojou de sua humanidade. Mas uma vez foram seres humanos, Hoyt, com famílias, amantes, esperanças. Nós não pensamos nisso. Talvez não possamos fazê-lo.

Afastou o cabelo do rosto. “Um contador agradável —voltou a pensar—. Um agente de bolsa. Que ridículo, que ordinário.” Ela tinha ali mesmo, o maravilhoso.

—Acredito que Cian foi posto aqui, neste caminho, para que entendêssemos que o que estamos fazendo não é fácil. Para que ao acabar o dia saibamos que temos feito o correto, mas que não nos saia de graça.

Ela retrocedeu e o olhou.

—Isso teria que bastar. Agora trata de manter o rosto separado de novos punhos.

Glenna começou a virar-se, mas Hoyt lhe agarrou a mão, levantando-se enquanto a atraía para ele. Seus lábios se uniram aos dela com enorme ternura.

—E você, o destino pôs aqui. Glenna, para me ajudar a entender que não se trata somente de morte, sangue e violência. No mundo há tanta beleza, tanta bondade. E eu tenho tudo isso. —Envolveu-a em seus braços—. O tenho aqui mesmo.

Ela se entregou, deixando que sua cabeça repousasse sobre seu ombro. Queria perguntar o que teriam quando tudo tivesse acabado, mas sabia que era importante, essencial inclusive, viver somente o dia a dia.

—Temos que trabalhar. —Glenna se afastou—. Tenho algumas idéias relacionadas com a criação de uma área de segurança ao redor da casa. Uma área protegida onde possamos nos mover livremente. E acredito que Larkin tem razão quando diz que deveríamos enviar exploradores. Se pudermos chegar até as cavernas durante o dia, talvez pudéssemos descobrir algumas coisas. Inclusive poderíamos colocar algumas armadilhas.

—Vejo que sua mente esteve ocupada.

—Preciso mantê-la assim. Não tenho tanto medo se estou pensando, se estou fazendo algo.

—Então trabalhemos.

—Moira poderia nos ajudar uma vez que tenhamos começado —acrescentou Glenna quando abandonavam a cozinha—. Está lendo todos os livros que pode sobre este assunto, de modo que será nossa principal fonte de dados... informação —explicou—. E além disso também possui certo poder. Está verde e carece de treinamento, mas aí está.

    

Enquanto Glenna e Hoyt se encerravam na torre e a casa permanecia em silêncio, Moira encontrou na biblioteca um livro que tratava de temas populares relacionados com o demônio. Era fascinante, pensou. Havia tantas teorias e lendas diferentes. Considerou como sua tarefa principal separar a palha do trigo.

Cian sem dúvida as conheceria, ao menos algumas delas, deduziu. Séculos de existência era um tempo mais que suficiente para aprender. E alguém que enchia de livros uma sala daquelas dimensões sem dúvida procurava e respeitava o conhecimento. Mas ainda não estava preparada para lhe perguntar, e não estava segura de se alguma vez estaria.

Se Cian não era como as criaturas sobre as quais estava lendo, esses seres que procuravam o sangue humano noite após noite —e estavam sedentos não só de sangue mas também ávidos de caça—,o que era ele? Estava-se preparando para fazer a guerra contra o que ele mesmo era, e isso Moira não podia entender.

Precisava aprender mais coisas, a respeito daquilo contra o que lutavam, a respeito de Cian, a respeito de todos os outros. Como podia entender, e depois confiar, em algo que não conhecia?

Tomou notas, abundantes nota, em papel que tinha encontrado em uma das gavetas da enorme mesa. Gostava do papel e o instrumento que se utilizava para escrever. A pluma, corrigiu-se, que sustentava a tinta dentro de um tubo. Perguntou-se se poderia levar alguns papéis e plumas de volta a Geall.

Fechou os olhos. Sentia falta de seu lar e essa nostalgia era como uma dor constante no ventre. Tinha escrito sobre seus últimos desejos e selado. Deixaria entre suas coisas para que Larkin o encontrasse se algo lhe acontecesse.

Se morresse deste lado, queria que seu corpo fosse levado de retorno a Geall para ser enterrado ali.

Continuou escrevendo com os pensamentos girando dentro de sua cabeça. Havia um pensamento em especial ao que voltava uma e outra vez, medindo-o com cuidado. Tinha que encontrar alguma maneira de perguntar a Glenna se podia fazer-se, e se outros acessariam a isso.

Haveria alguma maneira de selar o portal, de fechar a porta a Geall?

Ouviu passos que se aproximavam e acariciou o cabo de sua faca com as pontas de seus dedos. Apartou a mão quando King entrou na biblioteca. Por razões que não podia identificar, sentia-se mais cômoda com ele que com os outros.

—Tem algo contra as cadeiras, pequena?

Ela torceu os lábios. Gostava da forma em que as palavras saíam dele, como rochas caindo pela ladeira de uma colina pedregosa.

—Não, mas eu gosto de me sentar no chão. É hora de continuar com o treinamento?

—Tomamos um descanso. —hospedou-se em uma poltrona, com uma grande caneca de café na mão—. Larkin poderia estar treinando todo o fodido dia. Agora está lá em cima, praticando algumas katas .

—Eu gosto das katas. São como dançar.

—Pois se dançar com um vampiro, se assegure de que é você quem marca o passo.

Moira voltou ociosamente a página de um livro.

—Hoyt e Cian brigaram.

King bebeu um gole de café.

—Ah, sim? Quem ganhou?

—Acredito que nenhum dos dois. Vi-os quando retornavam à casa, e por seus rostos e claudicações, eu diria que foi um empate.

—Como sabe que a briga foi entre eles? Talvez os atacassem.

—Não. —Percorreu as palavras escritas com os dedos—. Ouço coisas.

—Tem as orelhas muito grandes para ser tão pequena.

—Isso me dizia minha mãe. Fizeram as pazes entre eles... Hoyt e seu irmão.

—Isso elimina uma complicação... se essas pazes durarem. —Tendo em conta suas respectivas personalidades, King calculou que uma trégua entre os irmãos tinha a mesma expectativa de vida que uma mosca fora da fruta—. Que esperas encontrar em todos esses livros?

—Tudo. Cedo ou tarde. Sabe como apareceram os primeiros vampiros? Nos livros há diferentes versões.

—Nunca pensei nisso.

—Eu o fazia... faço. Uma das versões é uma história de amor. Faz muito tempo, quando o mundo era jovem, os demônios estavam se extinguindo. Antes, muito antes disso, eram muitos mais. Milhares deles que viajavam pelo mundo. Mas o homem era cada vez mais forte e preparado, e o tempo dos demônios se acabava.

King era um homem que desfrutava das histórias, de modo que se acomodou na poltrona.

—Uma espécie de evolução.

—Uma mudança, sim. Muitos dos demônios se meteram debaixo da terra, para esconder-se ou dormir. Então havia mais magia, porque as pessoas não a rechaçavam. Os homens e as fadas forjaram uma aliança para liberar uma guerra contra os demônios, para acabar com eles de uma vez por todas. Um deles foi envenenado e sofreu uma morte muito lenta. Esse demônio amava uma mulher mortal e isso era algo que estava proibido inclusive no mundo dos demônios.

—De modo que o homem não tem a exclusividade da intolerância. Continua —disse King quando ela fez uma pausa.

—Assim, o demônio moribundo levou a mulher mortal de seu lar. Estava realmente obcecado com ela e seu último desejo antes de morrer era acasalar-se com ela.

—Nesse sentido não era tão diferente dos homens.

—Acredito que possivelmente todas as criaturas vivas desejam o amor e o prazer. E o ato físico que representa a vida.

—E os tipos querem gozar.

Ela perdeu o fio do que estava dizendo.

—Querem o que?

King esteve a ponto de cuspir o café, mas em troca se engasgou. Fez um gesto com a mão enquanto punha-se a rir.

—Não me faça conta. Acaba a história.

—Ah... Bom, o demônio a levou ao mais profundo do bosque e conseguiu o que queria, e ela, como uma mulher sob um feitiço, queria seu contato. Então, para tentar lhe salvar a vida lhe ofereceu seu sangue. Ele a mordeu e ela bebeu também o sangue dele, já que esse era outro tipo de acoplamento. A mulher morreu junto a ele, mas não deixou de existir, mas sim se converteu no que chamamos vampiro.

—Um demônio por amor.

—Sim, suponho que sim. Como vingança contra os homens que tinham matado seu amado, ela os caçava, alimentava-se deles, os transformava, para aumentar assim o número dos de sua espécie. Mas apesar de tudo, seguia sofrendo por seu amante demônio e se matou com a luz do sol.

—Não se parece muito a Romeo e Julieta, não é?

—Uma peça de teatro. Vi o livro aqui, em uma estante. Ainda não o li.

Levaria anos ler todos os livros que havia naquela sala, pensou Moira enquanto brincava com a ponta de sua trança.

—Mas tenho lido outra história de vampiros. Fala de um demônio, doente e louco por causa de um conjuro ainda pior que ele, que procurava grosseiramente o sangue humano. Alimentava-se dele e quanto mais o fazia, mais louco ficava. Morreu depois de ter misturado seu sangue com a de um mortal, e esse mortal se converteu em um vampiro. O primeiro de sua espécie.

—Acredito que você gosta mais da primeira versão.

—Não, eu gosto mais da verdade, e acredito que a segunda história é a verdadeira. Que mulher mortal poderia amar um demônio?

—Levava uma vida protegida em seu mundo, não é? Desde onde eu venho, a gente perde a cabeça pelos monstros, ou o que outros consideram monstros, todo o tempo. Não há nenhuma lógica no amor, pequena. É assim.

Ela jogou a trança para trás ao dar de ombros.

—Bom, se eu amar, não ficarei estúpida por isso.

—Espero estar por aqui tempo suficiente para ver como engole essas palavras.

Moira fechou o livro e olhou King.

—Você ama alguém?

—Uma mulher? Estive perto de fazê-lo um par de vezes, e por isso sei que não dava no alvo.

—Como pode sabê-lo? —perguntou Moira.

—Quando alcança o centro do alvo, pequena, já está perdido. Mas é divertido disparar para tentar alcançá-lo. Necessitarei uma mulher especial para que isso aconteça.

King deu uns golpes no rosto com o dedo.

—Eu gosto de seu rosto. É tão grande e escuro —disse Moira.

King pôs-se a rir, tão forte que esteve a ponto de derramar o café.

—Nisso tem razão.

—E é muito forte. Falas bem e sabe cozinhar. É leal com seus amigos.

Aquele rosto grande e escuro se suavizou.

—Quer se apresentar para o posto de amor de minha vida?

Devolveu-lhe o sorriso.

—Acredito que não sou seu alvo. Se devo ser rainha, um dia terei que me casar, ter filhos. Espero que não seja só uma obrigação, mas sim possa encontrar o que minha mãe encontrou em meu pai. O que encontraram um no outro. Eu gostaria que fosse um homem forte e leal.

—E bonito.

Ela fez um pequeno gesto com os ombros, porque não esperava que fosse um homem especialmente bonito.

—As mulheres aqui só procuram beleza?

—Não poderia dizê-lo, mas é algo que nunca faz mal. Os tipos como Cian, por exemplo, têm que tirá-las de cima com um pau.

—Então, por que está só?

King a estudou por cima do bordo da caneca.

—Boa pergunta.

—Como o conheceu?

—Cian me salvou a vida.

Moira abraçou as pernas e se acomodou. Havia poucas coisas que gostasse mais que uma história.

—Como foi?

—Eu estava no lugar errado no momento errado. Um bairro perigoso no leste de Los Angeles —Bebeu outro gole de café e encolheu levemente os ombros—. Verá, meu velho se largou antes que eu nascesse e minha mãe teve o que poderíamos chamar um pequeno problema com as substâncias ilegais. Overdose. Passou dos limites com a droga.

—Ela morreu. —Toda ela sentia uma enorme tristeza por ele—. Sinto muito.

—Más escolhas, má sorte. Tem que ter em conta que algumas pessoas vêm ao mundo preparadas para atirar sua vida pela privada. Ela era uma delas. De modo que me encontro na rua, fazendo o que posso para sobreviver, e fora do sistema. Um dia vou a esse lugar que conheço. Está escuro e faz muito calor. Eu só procurava um lugar onde passar a noite.

—Não tinha casa.

—Tinha a rua. Um par de tipos estão rondando por ali, provavelmente esperando para dar um golpe. Eu preciso passar junto a eles para chegar aonde quero ir. Aparece um carro e começam a disparar. Como em uma emboscada. Eu fico preso no meio do tiroteio. As balas passam roçando minha cabeça. A coisa fica realmente feia e sei que vou morrer. Então alguém me colhe com força e me arrasta para trás. Tudo se volta impreciso, mas eu sinto como se voasse. Logo estava em outro lugar.

—Onde?

—Em um elegante quarto de hotel. Nunca tinha visto algo assim exceto no cinema. —Cruzou seus grandes pés calçados com as botas enquanto recordava—. Uma cama enorme, para dez pessoas pelo menos, e eu estava deitado ali. A cabeça me dói horrivelmente, e só por isso não penso que estou morto e que aquilo é o céu. Esse tipo sai do banheiro. Tira a camisa e leva uma vendagem no ombro. Tinha recebido um balaço quando estava me tirando do fogo cruzado.

—O que fez então?

—Não muito, suponho que estava emocionado. Ele se senta, estuda-me como se eu fosse um fodido livro. “É afortunado —me diz— e estúpido.” Tem esse sotaque ao falar. Eu penso que deve ser uma estrela de rock ou algo assim. O aspecto que tem, a voz estranha. A verdade é que pensei que era um pervertido e que queria que eu... Digamos somente que eu estava cagado de medo. Tinha oito anos.

—Era uma criança? —Os olhos de Moira se abriram como pratos—. Não foi mais que uma criança?

—Tinha oito anos —repetiu King—, mas se vive como eu fiz, não é uma criança durante muito tempo. Ele me pergunta que merda estava fazendo ali e eu lhe respondo de maus modos. Tento me tranqüilizar. Ele me pergunta se tinha fome e eu respondo algo assim como que não penso... fazer nenhum favor sexual por um fodido prato de comida. Então pede o jantar, bife, uma garrafa de vinho, refrigerante. E me diz que não está interessado em foder com meninos. Que se tiver algum lugar onde preferiria estar, deveria ir ali. Se não for assim, posso ficar e esperar que chegue o bife.

—E você ficou esperando que chegasse o bife.

—Pode apostar. —deu-lhe uma piscada—. Esse foi o começo de tudo. Ele me deu comida e também me deu a escolha. Eu podia retornar onde tinha estado até então, não era assunto dele, ou podia trabalhar para ele. Escolhi o trabalho. Não sabia que o trabalho significava ir à escola. Deu-me roupa, uma educação, dignidade.

—Disse o que era?

—Então não. Embora não passou muito tempo antes que o fizesse. Eu pensava que estava louco, mas não me importava muito. Quando compreendi que estava me dizendo a verdade, literalmente a verdade, eu já teria feito qualquer coisa por ele. O homem que eu estava condenado a ser morreu na rua aquela noite. E ele não me transformou em alguém como eles —prosseguiu King—. Embora seja verdade que Cian me trocou.

—Por que o fez? Alguma vez o perguntaste?

—Sim. E isso deveria dizer-lhe.

Moira sentiu. Com a própria história já tinha bastante no que pensar.

—O descanso terminou —anunciou King—. Podemos treinar durante uma hora e fortalecer esse trazeiro fraco que tem.

Ela sorriu.

—Ou podemos trabalhar com o arco e melhorar essa lamentável pontaria que você tem.

—Venha espertinha. —De repente franziu o cenho e olhou para a porta—. Ouviste algo?

—Como se alguém golpeasse?

Moira deu de ombros e, como se atrasou ordenando os livros, saiu da biblioteca depois que King o fizesse.

    

Glenna desceu rapidamente a escada. Com o escasso progresso que estavam fazendo, podia deixar Hoyt no momento. Alguém tinha que encarregar-se de preparar o jantar e, posto que tinha incluído seu nome na lista, ela tinha sido a escolhida. Podia preparar um escabeche de frango e logo voltar para a torre a trabalhar durante outra hora.

Uma boa comida melhoraria o ambiente para a reunião da equipe.

Passaria pela biblioteca e arrancaria Moira dos livros para lhe dar uma lição de cozinha enquanto preparava o jantar. Talvez fosse sexista pôr a seguir na lista de cozinheiros à outra única mulher, mas tinha que começar por alguma parte.

O golpe na porta a sobressaltou e passou uma mão nervosa pelo cabelo.

Esteve a ponto de chamar o Larkin ou King, logo meneou a cabeça. Falando de sexismo, como ia participar de uma batalha séria se nem sequer era capaz de abrir a porta da casa numa tarde de chuva?

Podia tratar-se de um vizinho que se aproximou para fazer uma visita de cortesia. Ou o zelador de Cian, que ia para assegurar-se de que tinham tudo o que necessitavam.

E um vampiro não podia entrar na casa, não podia passar da soleira a menos que o convidasse a entrar.

Algo altamente improvável.

Não obstante, Glenna olhou primeiro pela janela. Viu uma jovem de uns vinte anos, uma bela loira vestida com jeans e um pulôver vermelho brilhante. Levava o cabelo recolhido em um rabo de cavalo pendurado atrás de uma boina também vermelha. Tinha um mapa na mão e parecia procurar a solução de um problema enquanto mordia a unha do polegar.

“Alguém que se perdeu”, pensou Glenna, e quanto antes conseguisse que essa garota continuasse seu caminho e se afastasse da casa, melhor para todos.

A jovem voltou a golpear a porta quando ela se separou da janela.

Glenna lhe abriu, cuidando de manter-se do lado de dentro da soleira.

—Olá? Necessita ajuda?

—Olá. Obrigado, sim. —Havia alivio na voz da jovem e um forte acento francês—. Estou, ah, perdida. Excusez moi, meu inglês não é muito bom.

—Não há problema. Meu francês é praticamente inexistente. O que posso fazer por você?

—Ennis? S´IL vous plaît? Pode me dizer você como o caminho vai a Ennis?

—Não estou segura. Eu tampouco sou daqui. Posso dar uma olhada no mapa. —Glenna vigiou os olhos da jovem enquanto estendia a mão... com as pontas dos dedos de seu lado da porta—. Eu sou Glenna. Je suis Glenna.

—Ah, oui. Je m´apelle Lora. Estou de férias, estudante.

—Isso está bem.

—A chuva. —Lora estendeu a mão e as gotas caíram sobre ela—. Estou perdida na chuva, acredito.

—Pode acontecer a qualquer um. Vamos dar uma olhada ao mapa, Lora. Está sozinha?

—Pardon?

—Sozinha? Está sozinha?

—Oui. Mês amies, meus amigos, tenho amigo no Ennis, mas virei mau. Errado?

“OH, não —pensou Glenna—. Realmente não acredito.”

—Surpreende-me que pudesse ver a casa da estrada principal. Estamos muito retirados.

—Sinto muito?

Glenna sorriu.

—Arrumado que você gostaria de entrar e desfrutar de uma boa xícara de chá enquanto decidimos qual é o caminho que deve seguir. —Viu o brilho que acendia os olhos azuis da jovem—. Mas não pode, não é? Não pode atravessar esta porta.

—Je NE comprend os.

—Aposto que sim entende, mas em caso de que meu instinto de aranha esteja me enganando hoje, tem que voltar para a estrada principal e girar à esquerda. Esquerda —repetiu e começou a fazer o gesto com a mão para indicar-lhe...

O grito do King a suas costas fez que se voltasse. Sua cabeleira revoou com o gesto e as pontas do cabelo se sobressaíram mais à frente da soleira da porta. Sentiu uma explosão de dor quando atiraram violentamente dele, quando seu corpo saiu voando da casa e se chocou contra o chão com um ruído surdo de ossos quebrados.

Havia dois mais que saíram de alguma parte. O instinto fez que Glenna aferrasse a cruz de prata com uma mão enquanto lançava chutes em todas as direções. O movimento deles era como um pilar no ar e sentiu o sabor do sangue na boca.

Viu que King atravessava a um deles com a faca, apartando o dela ao tempo que gritava que se levantasse e corresse à casa.

Glenna ficou de pé cambaleando-se, bem a tempo de ver como as criaturas rodeavam ao King. Ouviu-se gritar e pensou —esperou— escutar gritos de resposta da casa. Mas em todo caso chegariam muito tarde. Os vampiros estavam já em cima de King como uma matilha de cães.

—Puta francesa —cuspiu Glenna e se lançou sobre a loira.

Seu punho rompeu um osso, e sentiu uma enorme satisfação nisso, logo viu brotar um jorro de sangue. Então se sentiu levada para trás uma vez mais e, quando lançou um novo golpe, sua visão se voltou cinza.

Sentiu que a arrastavam e lutou. A voz de Moira ressonou em seu ouvido.

—Já a tenho. Já a tenho. Está novamente dentro da casa. Não se mova.

—Não. King. Eles têm King.

Moira estava já correndo fora da casa com a adaga na mão. Quando Glenna começou a levantar-se, Larkin saltou por cima dela e através da porta.

Ajoelhou-se e logo conseguiu ficar em pé. As náuseas lhe queimaram a garganta com seu gosto ácido quando cambaleou para a porta.

Tão rápido, pensou torpemente, como era possível que algo se movesse tão rápido? Enquanto Moira e Larkin se lançavam sobre eles, conseguiram introduzir King dentro de uma caminhonete negra apesar de que ele seguia lutando, e desapareceram antes que Glenna pudesse sair outra vez da casa.

O corpo do Larkin estremeceu e se converteu em um puma. O felino saiu disparado atrás da caminhonete e se perdeu de vista.

Glenna caiu de joelhos sobre a erva molhada em meio de intensas arcadas.

—Entra na casa. —Hoyt a agarrou por um braço com sua mão livre. Na outra empunhava uma espada—. Dentro da casa. Glenna, Moira, entrem na casa.

—É muito tarde - gritou Glenna, enquanto lágrimas banhavam suas faces—. Têm King. —Elevou a vista e viu Cian detrás de Hoyt—. Eles o levaram. Levaram King.

    

                                          Capítulo 15    

—Entrem na casa —repetiu Hoyt. Quando começou a arrastar a Glenna para dentro, Cian passou velozmente junto a eles e correu para o estábulo.

—Vá com ele. —Glenna lutou contra o pranto e a dor—. OH, Deus, vá com ele. Depressa!

Deixá-la ali, tremendo e sangrando, foi a coisa mais dura que Hoyt nunca havia feito.

A porta do lugar onde se encontrava a máquina negra estava aberta. Seu irmão estava colocando armas em seu interior de qualquer maneira.

—Com isto podemos agarrá-los? —perguntou Hoyt.

Cian apenas lhe dirigiu o olhar com seus olhos bordejados de vermelho.

—Fica com as mulheres. Não o necessito.

—Necessite-me ou não, tem-me. Como demônios me coloco dentro desta coisa?

Lutou com a porta e, quando conseguiu abri-la, instalou-se no assento.

Cian não disse nada e deslizou atrás do volante. A máquina deixou escapar um inquietante rugido e pareceu tremer como um potro a ponto de iniciar um galope. Um momento depois quase voavam. Pedras e partes de terra com ervas saíram disparados para o ar como mísseis. Hoyt alcançou ver Glenna de pé na porta, segurando o braço que ele temia que tivesse quebrado.

Rezou a todos os deuses para que pudesse voltar a vê-la.

Ela o observou afastar-se e se perguntou se teria enviado seu amado à morte.

—Agarra todas as armas que possa -— disse a Moira.

—Está ferida. Deixa que me ocupe de você.

—Agarra essas armas, Moira. —voltou-se com uma expressão selvagem no rosto ensangüentado. —Ou pretende que fiquemos aqui como duas meninas indefesas enquanto os homens lutam?

Moira assentiu.

—O que quer, espada ou arco?

—Ambos.

Glenna foi rapidamente à cozinha e procurou várias garrafas. O braço a estava matando, de modo que fez tudo o que pôde para atenuar a dor. Aquilo era a Irlanda, pensou sombriamente, o que significava que devia haver um monte de Igrejas. E nas Igrejas tinha que haver água benta. Levou as garrafas à caminhonete, junto com uma faca de açougueiro e um feixe de estacas de jardim.

—Glenna.

Com um arco e uma aljava pendurados dos ombros e duas espadas nas mãos, Moira se aproximou da caminhonete. Colocou as armas dentro e logo elevou uma das cruzes de prata por sua corrente.

—Isto estava lá em cima, na sala de treinamento. Acredito que deve ser de King. Não tem nenhuma proteção.

Glenna fechou a porta de carga.

—Tem a nós.

    

As colinas e as sebes não eram mais que uma mancha através da densa cortina cinza de chuva. Hoyt viu outras máquinas —carros, recordou a si mesmo —viajando pela estrada molhada e os contornos do povoado.

Também viu gado nos campos, e ovelhas, e o serpenteio das cercas de pedra. Mas não distinguia Larkin por nenhuma parte, e tampouco o carro que levou a King.

—Pode lhe seguir o rastro com isto? —perguntou a Cian.

—Não. —Fez girar o volante e levantou um fornecedor de água—. Mas eles o levaram a Lilith. E o manterão com vida. —Tinha que acreditar nisso—. O levarão para Lilith.

—Às cavernas?

Hoyt pensou no tempo que tinha levado ao viajar dos escarpados até Clare, a casa. Mas o tinha feito no lombo de um cavalo, e ferido e consumido pela febre. Ainda assim, a viagem levaria tempo. Muito tempo.

—Com vida? Cian, por que quereriam levá-lo com vida?

—Como um presente para ela. Isso é o que King é, um presente. Lilith quereria a presa para si mesma. Não podem estar muito longe. Não é possível. E o Jaguar é muito mais veloz que essa fodida caminhonete em que o levaram.

—Não poderão lhe morder. A cruz o impedirá.

—Mas não poderá fazer nada contra uma espada ou uma flecha. Ou contra uma fodida bala. Embora as pistolas e os arcos não sejam armas de nossa escolha —disse quase para si—. Muito longínquas. Nós gostamos de matar de perto, e há um pouco de tradição nisso. Nós gostamos de olhar nos olhos das vitima. Lilith quererá torturá-lo antes. Não desejará para ele uma morte rápida. —Suas mãos aferraram o volante com tanta força que os nódulos ficaram brancos. Isso deveria nos dar um pouco de tempo.

—Está anoitecendo.

O que Hoyt não disse, e ambos sabiam, era que ao cair da noite seus inimigos seriam mais numerosos.

Cian adiantou a outro carro a uma velocidade que fez que o Jaguar patinasse sobre o pavimento molhado, logo os pneus se afirmaram e continuaram viagem. O resplendor de uns faróis dianteiros cegaram Cian um instante mas não reduziu a velocidade. Teve um momento para pensar: “fodidos turistas”, enquanto o carro que vinha em sentido contrário o obrigava a sair da estrada. Os ramos das sebes arranharam e golpearam o lado e vidros das janelas do Jaguar. O cascalho solto saiu desprendido como balas de pedra.

—Já deveríamos tê-los alcançado. A não ser que tenham tomado outro caminho, ou que talvez ela tenha outro buraco onde... —Muitas opções, pensou Cian, e acelerou—. Pode fazer algo? Alguma tipo de conjuro para localizá-lo? —perguntou a Hoyt.

—Não tenho nenhum... —De repente deu um golpe no painel com a mão aberta enquanto Cian tomava outra curva a toda velocidade—. Um momento.

Aferrou a cruz de prata que tinha pendurada ao pescoço e lhe insuflou poder. Logo trouxe sua luz a sua mente.

—Escudo e símbolo. Guiem-me. Dêem-me visão.

Viu o puma, correndo através da chuva, com a cruz agitando-se como um chicote de prata ao redor do pescoço.

—Larkin está perto. Perdido atrás de nós. Nos campos. Está cansado. —Procurou, apalpando com a luz como se fossem dedos—. Glenna... e Moira junto a ela. Não ficaram na casa, estão-se movendo. Glenna sofre grande dor.

—Eles não podem me ajudar. Onde está King?

—Não posso encontrá-lo. Está na escuridão.

—Morto?

—Não sei. Não posso chegar até ele.

De repente, Cian afundou o pé no freio e torceu o volante. O Jaguar começou a girar, aproximando-se cada vez mais à caminhonete negra que estava atravessada na estreita estrada. Os pneus chiaram e logo se ouviu um ruído seco quando o metal se chocou contra o metal.

Cian estava fora do carro antes sequer que este se detivesse, com a espada na mão. Quando abriu a porta da caminhonete não encontrou a nada nem ninguém.

—Aqui há uma mulher - gritou Hoyt—. Está ferida.

Cian amaldiçoou, rodeou a caminhonete e abriu a porta de carga. Viu que havia sangue no chão... sangue humano por seu aroma. Mas não o suficiente como para que a pessoa estivesse morta.

—Morderam-na, mas está viva - disse Hoyt.

Cian olhou por cima do ombro. Viu a mulher tendida na estrada e o sangue que emanava dos orifícios que tinha no pescoço.

—Não puderam lhe chupar todo o sangue. Não tiveram tempo. Reanima-a. Aproxima-a até aqui —ordenou Cian—. Pode fazê-lo. Faça-o depressa. Agarraram o carro que ela conduzia. Averigua que carro era.

—Esta mulher necessita ajuda.

—Maldita seja, viva ou morta agora deve reanimá-la.

Hoyt apoiou as pontas dos dedos nas feridas e sentiu a queimadura.

—Senhora, me escute. Desperte e me escute.

A mulher se agitou, depois seus olhos se abriram de repente, com as pupilas grandes como luas.

—Rory! Rory! Ajude-me.

Cian afastou bruscamente Hoyt. Ele também tinha um pouco de poder.

—Me olhe. Nos olhos. —inclinou-se até que os olhos da mulher ficaram fixos nos seus. —O que ocorreu aqui?

—Uma mulher, a caminhonete. Necessitava ajuda, isso pensamos. Rory parou o carro. Desceu. Saiu do carro e eles... OH, Deus bendito. Rory.

—Eles levaram seu carro. Que carro era?

—Azul. BMW. Rory. O levaram. Eles o levaram. Não há lugar para você. Eles disseram que não havia lugar para mim e me lançaram ao chão. Riam.

Cian se levantou.

—Me ajude a tirar a caminhonete do caminho. Foram bastante preparados para levar as chaves.

A fúria fez que Hoyt se voltasse de repente e a caminhonete saiu disparada dois metros fora da estrada.

—Bom trabalho.

—Poderia morrer aqui. Esta mulher não tinha feito nada.

—Não seria a primeira nem a última. Isto é uma guerra, não é? —replicou Cian—. Ela é o que chamam um dano colateral. É uma boa estratégia —murmurou e avaliou a situação—. Trocar por um carro mais veloz e nos atrasar. Agora não poderei lhes dar caça antes que cheguem às cavernas. Se for ali onde se dirigem. —voltou-se para seu irmão—. Pode ser que agora o necessite, depois de tudo.

—Não penso deixar uma mulher ferida atirada junto a uma estrada como se fosse um cão.

Cian retornou a seu carro, abriu o compartimento central e tirou um telefone móvel. Falou brevemente.

—É um aparelho que serve para comunicar—explicou a Hoyt enquanto voltava a guardar o móvel—. Chamei pedindo ajuda. Uma ambulância e à polícia. Se ficar aqui, só conseguirá que o detenham e lhe façam um monte de perguntas às quais não poderá responder.

Abriu o porta-malas e tirou uma manta e uns sinais luminosos.

—Cobre-a com a manta —disse—. Eu colocarei estes sinais. Agora King é uma isca —acrescentou ao mesmo tempo em que acendia os sinais—. Uma isca e um prêmio. Ela sabe que vamos ali, e quer que o façamos.

—Então não a decepcionaremos.

Sem nenhuma esperança de poder alcançar à partida de caça antes que chegassem às cavernas, Cian conduziu com mais cuidado.

—Foi mais esperta que nós. Mais agressiva e mais disposta a perder soldados. De modo que agora nos leva vantagem.

—Superam-nos em número.

—Assim teria sido em qualquer caso. Chegados a este ponto, pode ser que ela queira negociar. Fazer um trato.

—Um de nós em troca de King.

—Vocês são todos iguais para ela. Um humano é um humano, de modo que não têm um valor especial em tudo isto. Você, possivelmente, porque Lilith respeita e anseia o poder. Mas o mais provável é que me queira.

—Está disposto a trocar sua vida pela de King?

—Ela não me matará. Ao menos não imediatamente. Primeiro quererá utilizar suas consideráveis habilidades comigo. Desfruta com isso.

—Tortura.

—E persuasão. Se conseguir me atrair a seu bando, seria um verdadeiro golpe.

—Um homem que é capaz de trocar sua vida pela de um amigo, logo não se volta e o trai. Por que ia pensar ela que faria isso?

—Porque somos criaturas volúveis. E porque ela me criou. Isso lhe confere um poder muito grande.

—Não, não tem que ser você pois. Eu acredito que trocaria sua vida pela do King, mas penso que ela não acreditaria assim. Tem que oferecer a mim —disse Hoyt depois de pensar um momento.

—OH, acha isso?

—Não signifiquei nada para você durante centenas de anos. King é mais importante que eu em sua vida. Ela entenderá assim. Um humano por um feiticeiro. Para Lilith seria uma boa troca.

—E por que ia ela acreditar que você se trocaria por um homem que conhece há quanto, uma semana?

—Porque terá uma faca apoiada em minha garganta.

Cian fez tamborilar os dedos sobre o volante.

—Poderia funcionar.

Quando chegaram aos escarpados, a chuva tinha deixado passagem à luz melancólica da lua. Subiram até o topo pela estrada, que sobressaía da parede de rocha projetando sombras dentadas sobre o mar turbulento.

Só se ouvia o som da água açoitando as rochas e o zumbido do ar era como o fôlego dos deuses.

Não havia sinal algum de outro carro, de humanos ou de criaturas.

Ao longo da costa da estrada que dava ao mar havia um parapeito. Abaixo se viam rochas, água e o labirinto de cavernas.

—Vamos atraí-la até aqui. —Cian assinalou a beira do abismo—. Se descermos, ficaremos apanhados com o mar as nossas costas. Subiremos e a obrigaremos que venha a nós.

Começaram a subir, subindo sobre pedras escorregadias e ervas encharcadas. No promontório havia um farol e seu feixe de luz perfurava a escuridão.

Ambos pressentiram o ataque antes que houvesse movimento algum. A criatura saltou detrás das rochas com as presas descobertas. Cian se limitou a se virar, golpeou-a com o ombro e a mandou rodando pela estrada. Para o segundo atacante usou a estaca que levava segura no cinto.

Logo se ergueu e se voltou para o terceiro, que parecia mais prudente que seus companheiros.

—Diga a sua senhora que Cian McKenna quer falar com ela.

Os dentes imundos brilharam à luz da lua.

—Esta noite beberemos seu sangue.

—Ou você morrerá de fome nas mãos de Lilith porque não lhe levou a mensagem.

A criatura desapareceu.

—Pode haver mais dessas coisas nos esperando no topo —disse Hoyt.

—É pouco provável. Ela estará esperando que ataquemos as cavernas, não que dirijamos ao terreno elevado para negociar pelo King. Lilith se sentirá intrigada e irá falar conosco.

De modo que continuaram a ascensão, e logo se dirigiram ao lugar onde Hoyt enfrentou Lilith e a aquela coisa em que ela tinha convertido seu irmão.

—Lilith saberá apreciar a ironia do lugar que escolhemos.

—Suponho que sim. —Hoyt escondeu a cruz de prata debaixo da camisa—. O ar. À noite. Este foi meu lugar alguma vez, onde podia vir e convocar o poder com o pensamento.

—Será melhor que ainda possa fazê-lo. —Cian tirou sua faca—. Ponha-se de joelhos. —Alcançou o pescoço de Hoyt com a ponta do aço e observou o fino fio de sangue que brotava da ferida. Agora.

—De modo que se trata de escolher.

—Sempre se trata de escolher. Você teria me matado aqui se pudesse fazê-lo.

—Eu o teria salvado aqui, se tivesse podido.

—Bom, não fez nenhuma das duas coisas, não é? —Tirou a faca da bainha de Hoyt e formou um V com as folhas de ambas junto à garganta de seu irmão—. Ajoelhe-se.

—Que espetáculo tão agradável —ouviram. Lilith apareceu sob a luz da lua. Levava um vestido até os pés cor verde esmeralda e o cabelo, comprido e solto, caía-lhe sobre os ombros como raios de sol.

—Lilith. Passou muito tempo.

—Muito tempo. —A seda rangeu quando se moveu—. Percorreste este comprido caminho para me trazer um presente?

—Um trato —a corrigiu Cian—. Afasta seus cães —prosseguiu com voz firme— ou o mato e depois a eles. Então ficará sem nada.

—Impressionante. —Lilith fez um gesto com a mão para os vampiros que se arrastavam a seu lado—. Maturaste. Não foi nada mais que um pequeno cachorrinho quando lhe dava o dom, e olhe agora, um lobo elegante. Eu gosto.

—E segue sendo seu escravo - disse Hoyt com desprezo.

—Ah, o poderoso feiticeiro ajoelhado ante mim. Isso também eu gosto. Você me marcou. —abriu o vestido para mostrar a Hoyt o pentágono sobre o coração—. Doeu-me durante mais de uma década. E a cicatriz não desaparece. Tem uma dívida comigo. Diga-me, Cian, como conseguiste trazê-lo até aqui?

—Ele acredita que sou seu irmão. Foi fácil.

—Ela te tirou a vida. Ela não é mais que mentiras e morte.

Cian sorriu por cima da cabeça de Hoyt.

—Isso é o que eu adoro nela. Trocarei este pelo humano que levou. Resulta-me muito útil e é fiel. Quero que me devolva isso.

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