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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DESAFIO SOMBRIO / Christine Feehan
DESAFIO SOMBRIO / Christine Feehan

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Julian Savage parou na esntrada da porta do bar. Tinha vindo a esta cidade, para uma última viagem, antes de escolher o descanso eterno dos Cárpatos. Quase um ancestral entre os homens de sua raça, havia passado séculos vivendo em um mundo cinzento e insensível. Vazio das cores intensas e das emoções conhecidas pelos homens e diferente dos Cárpatos que haviam encontrado uma companheira. Entretanto, tinha uma última meta a obter. Um encargo que havia solicitado, seu Príncipe Mikhail e depois poderia encontrar o amanhecer destruidor, com a mente tranqüila. Não que estivesse perto de perder sua alma, de converter-se em vampiro. Podia agüentar mais, se houvesse escolher viver assim. Era o vazio de sua vida, estendendo-se eternamente ante ele, que tinha ditado sua decisão.

Não podia rechaçar a tarefa. Nos longos séculos de sua existência, sentia que havia feito pouco a sua semi extinta raça. Era um caçador de vampiros, dos mais poderosos e bem conceituados entre sua gente. Mas sabia, como a maioria dos caçadores de êxito, que era o instinto assassino dos homens dos Cárpatos, nenhum talento especial, que o fazia tão brilhante em sua tarefa. Gregori, o maior curador de sua gente, o segundo homem depois do Príncipe, havia enviado mensagem para que ele advertisse à mulher que agora procurava, a cantora, de que o nome dela estava no topo da lista de uma sociedade fanática de caçadores de vampiros humanos, que com freqüência e equivocadamente, fixava seus objetivos em mortais de costumes estranhos, assim como a raça dos Cárpatos, seu zelo assassino.

A sociedade tinha noções muito primitivas dos costumes de um vampiro... Como evitar a luz do sol ou alimentar-se de sangue. Só o traduzira numa criatura perversa e sem alma, um não-morto. Julian e os outros, de sua raça, eram a prova vivente de que nada podia estar mais longe da verdade.

 

 

 

 

Julian sabia por que esta tarefa de advertir e proteger a cantora havia sido encomendada a ele. Gregori estava decidido a não o perder para o amanhecer. O curador notara o que Julian tinha em mente, compreendera que ele havia escolhido acabar com sua solitária existência. Mas também sabia, que uma vez que Julian desse sua palavra de proteger à humana desta sociedade de assassinos, não se deteria até que ela estivesse a salvo. Gregori estava comprando o seu tempo. Mas não lhe faria nenhum bem.

Julian havia passado por muitas vidas, século após século, afastado de sua gente, até de seu próprio irmão gêmeo. Era um solitário numa raça de homens solitários. Sua espécie, a raça dos Cárpatos, estava morrendo. Seu Príncipe tentava desesperadamente, encontrar formas de dar a sua gente, esperança. Procurar novas companheiras para seus homens. Procurar formas de manter vivas suas crianças, mantendo seu minguado número. Julian, entretanto, não tinha mais escolha, que permanecer sozinho, correr com os lobos, voar com os pássaros de predadores, caçar com as panteras. As poucas vezes que havia caminhado entre humanos, tinha sido, normalmente, para lutar em uma guerra que valesse a pena ou emprestar sua incomum força para uma boa causa. Mas tinha passado a maior parte de seus anos caminhando só, invisível, indetectável até para os de sua própria raça.

Durante um momento permaneceu em pé imóvel, revivendo as lembranças de sua tola infância, o terrível momento em que andara pelo atalho e que tinha trocado sua vida por toda a eternidade.

Tinha doze anos. Já então, a terrível e inextinguível sede do conhecimento viviam nele. Era inseparável de seu irmão gêmeo, Aidan, embora nesse dia, ouvira uma chamada longínqua. Uma chamada que não pôde resistir. Estava cheio da alegria do descobrimento e se tinha saído para longe, seguindo a atração de uma promessa tácita. A rede de cavernas que tinha descoberto era um favo profundo dentro da montanha. Dentro, encontrou o mago mais assombroso, arrumado e com vontade de repartir seus vastos conhecimentos ao jovem e ansioso aprendiz. Tudo o que ele pedia em troca era o segredo. Na idade de doze anos, Julian pensava que tudo era um excitante jogo.

Olhando para trás, Julian se perguntou, se havia desejado o conhecimento, tanto como ignorar deliberadamente os sinais de advertência. Tinha dominado muitos novos poderes, mas tinha que chegar o dia em que a verdade o golpeasse o rosto com toda sua severa feiúra. Havia chegado cedo às cavernas e ouviu gritos, apressando-se descobriu que seu jovem e amigo era a mais abominável de todas as criaturas. Era um autêntico vampiro, um frio bebedor de sangue, um assassino... Um Cárpato que havia tributado sua alma e se convertera em vampiro. Aos doze anos, Julian não possuía suficientes poderes e habilidades para salvar às desgraçadas vítimas do vampiro, que esgotara seu sangue completamente, procurando não se alimentar, como faria um Cárpato, mas matá-los.

Essa lembrança estava gravada a fogo em sua mente para sempre. O sangue que vertia. Os gritos horríveis. O horror.

Depois chegou o momento em que a mão de vampiro o segurou, o tutelado que uma vez havia admirado, e lhe arrastou para perto, para permiti-lo cheirar seu hálito podre e ouvir sua risada zombeteira. Depois, os dentes como presas, rasgavam seu corpo. Mas, o pior foi que a Julian, ele não permitiu a morte, como ao resto das vítimas. Recordava a forma em que a criatura não-morta cortou a própria mão e a forçou na em sua boca. Brutalmente, ele o obrigara a aceitar o sangue corrompido, o intercâmbio de sangue com a mais ímpia das criaturas, passando seus poderes, começando o processo que poderia fazer de Julian seu escravo. O fato os conectou para sempre.

A vergonha não tinha acabado ali. O vampiro tinha começado imediatamente a usar o menino contra sua vontade, como seus olhos e ouvidos, para espiar aos membros, da que uma vez fora sua raça e que agora desejava destruir. Tivera a oportunidade de ouvir, às escondidas, através de Julian, o Príncipe ou o curador, quando o menino estava perto deles.

Ele brincou com Julian, dizendo que o usaria para destruir seu próprio irmão, Aidan. E Julian compreendeu que era possível. Havia sentido a escuridão estendendo-se em seu interior, às vezes sentia os olhos do vampiro, olhando através dos seus. Várias vezes, Aidan havia escapado das armadilhas que Julian, depois reconhecia, ter colocado inadvertidamente, sob a insidiosa compulsão do vampiro.

E assim, há muitos séculos, Julian fizera um voto de levar uma vida solitária. Manteria sua gente e seu amado gêmeo, a salvo do vampiro e de si mesmo. Tinha vivido à margem de sua sociedade, asngariado a verdadeira força dos Cárpatos e o conhecimento, até que foi o bastante adulto para seguir adiante e sozinho. O sangue de sua gente ainda pulsava fortemente nele, que fez tudo o que pôde para viver sua vida honradamente. Lutou e lutava contra a crescente escuridão e os contínuos assaltos que o vampiro fazia nele. Tinha evadido a novos intercâmbios de sangue com o não-morto e tinha caçado e matado a outros incontáveis vampiros, mas o que havia transformado tão brutalmente sua vida, sempre o evitava.

Agora, Julian era mais alto e musculoso, que a maioria dos integrantes homenms de sua raça e enquanto a maioria deles possuíam cabelos e olhos escuros, ele era como um antigo viking, com longos e espessos cabelos loiro, que precisava prendê-los na nuca com uma tira de couro. Seus olhos eram de cor âmbar e com freqüência, usava seu ardente e magnético fogo para hipnotizar sua presa.

Agora, entretanto, olhava a rua, sem ver ainda nada que considerasse incomum. Avançou como o predador que era, correntemente, músculos ondeando sob a pele. Quando era preciso, podia estar tão imóvel como as montanhas e ser implacavelmente firme. Podia ser tanto a investida do vento, como água que fluía. Possuía vários dons e podia falar em muitas línguas, mas estava sempre sozinho.

Em seus anos de juventude tinha passado muito tempo na Itália e recentemente havia vivido em Nova Orleans, no Bairro Francês, onde sua aura de mistério e escuridão, não alarmava a quase ninguém. Mas não fazia muito, tinha vendidosua casa, sabendo que nunca voltaria. E agora, depois desta tarefa, seu dever e sua honra estariam satisfeitos. Não via razão para continuar sua existência.

Julian ouviu as conversas dos humanos no interior do bar. Sentiu a excitação deles. Os espectadores pareciam encantados com o grupo de cantores que esperavam ouvir. Evidentemente, a banda era intensamente popular e as e as grandes gravadoras ofereciam acordos, mas os cantores se negavam a assinar contratos com nenhuma delas. Em troca, viajavam como antiquados músicos ou trovadores, de cidade em cidade, sem empregar nunca músicos ou técnicos de fora e sempre tocando suas próprias canções. O estranho, à parte da natureza do grupo, era a voz da cantora, descrita como formossíssima, magnetizadora, quase mágica, que havia atraído a indesejada atenção da sociedade dos caçadores de vampiros.

Julian respirou e captou a essência de sangue. Instantaneamente a fome o golpeou, se lembrando que ainda não se alimentara essa noite. Permaneceu em pé do lado de fora, invisível aos humanos que clamava para conseguir entrar ou aos guardas de segurança que silenciosamente montavam guarda na entrada. Entraria, avisaria a cantora sobre o perigo que estava correndo e partiria. Com sorte, a mulher o escutaria e sua tarefa estaria acabada. Se não, não teria outra opção, que continuar suportando sua terrível existência solitária, até que estivesse seguro de que ela estava a salvo. E estava cansado. Já não suportava mais.

Começou a se mover silenciosamente através da multidão, rumo a porta em que estavam os dois homens, ambos altos e escuros. O de cabelo longo parecia um digno competidor e lhe parecia vagamente familiar. Julian se converteu às pressas em uma brisa fresca enquanto se deslizava para passar, oculto. Enquanto caminhava com confiança entre os humanos. Mesmo assim, o guarda de cabelos longos, voltou à cabeça em alerta. Os olhos negros procuraram inquietamente, descansando em Julian brevemente, embora Julian estivesse invisível aos humanos. O guarda estava claramente intranqüilo. Pela extremidade do olho, Julian o viu voltar à cabeça de um lado a outro, antes que seu frio olhar girasse para seguir o progresso de Julian através do bar. Os dentes brancos de Julian brilharam, predadores. Sabia que estava invisível, e que o guarda possuía sentidos bem similares a um radar, incomuns em um mortal. Era interessante que a banda contasse com ele. Podia valer seu peso em ouro, tê-lo ali, durante um ataque real contra a mulher.

Julian lançou ar frio para ele, afastando-se da multidão. Olhou o cenário preparado para os músicos, depois se encaminhou para as acomodações de trás. Enquanto o fazia, o sorriso sem humor abandonou sua face, deixando a familiar linha dura de sua boca. Sabia que tinha uma fisionomia de crueldade, a fria máscara do caçador. Depois os cheirou.

O inimigo. Tinham localizado a cantora antes que dele?

Amaldiçoando silenciosa e eloqüentemente, Julian se moveu com rapidez sobrenatural até o camarim das mulheres. Era muito tarde. Ela já havia saído e abria passo para o cenário, com os outros membros da banda. Dois formosos leopardos, de pele manchada, ficavam em um canto do aposento. Simultaneamente, suas cabeças se voltaram para ele, todos os sentidos em alerta. Os animais eram maiores e mais pesados que a maioria. Seus olhos verdes amarelados fixaram-se nele, traindo sua inteligência superior. Também eram estranho, ver os dois juntos, já que os leopardos eram geralmente criaturas solitárias. Como Julian.

- Onde está ela, amigos? – Perguntou, tranquilo. - Vim salvar sua vida. Digam-me, onde ela está antes que seus inimigos a matem.

O gato macho se agachou e grunhiu, mostrando seus compridos e afiados caninos que podiam agarrar, sustentar e cravar em sua presa. A fêmea se abaixou, preparada para correr. Julian sentiu a familiar sensação de irmandade que sempre tinha quando se encontrava um membro da família da Panthera Pardus, e mesmo assim, quando alcançou as mentes dos leopardos, notou que não podia controlar a nenhum dos dois facilmente. Conseguiu confundi-los um pouco, retardar sua reação de momento. Depois o gato macho começou a mover-se, um lento passear, a cabeça baixa, os olhos fixos nele, seu acostumado movimento lento e preliminar antes da explosão de velocidade precedente a morte. Julian não queria ter que matar a formosa e estranha criatura, rapidamente saiu do camarim, fechando a porta firmemente atrás dele, e se dirigiu para o som do estrondoso aplauso.

A banda começou a tocar a abertura da primeira canção. Depois, ele ouviu a voz da mulher. Notas irreais e místicas que dançavam no ar como prata e ouro brilhando ao fogo. Ele via as notas, via a prata e o ouro dançando ante seus olhos.

Julian ficou congelado no lugar, surpreso pelos estremecimentos que o atravessavam. Olhou para o vestíbulo. O andrajoso e murcho papel de parede estava perfilado em vermelho. Haviam passado mais de oitocentos anos desde que Julian tinha visto algo colorido. Era o destino de todos os homens dos Cárpatos depois de sua juventude. Perder todo sentido da cor, perder suas emoções, lutar em uma existência cinza e vazia, contra sua natureza predadora, a menos que uma companheira aparecesse para equilibrar sua escuridão com bondade e luz. Só então as cores e emoções... Poderosas emoções... Restaurariam-se. Mas as mulheres eram estranhas e certamente alguém como Julian nunca seria bom com uma companheira. Ainda assim, seu coração saltou no peito.

Sentiu a excitação. A esperança. A emoção. Uma emoção real. As cores eram tão vívidas que quase o cegavam. O som da voz dançava através de seu corpo, tocando em lugares que havia esquecido, há muito. Seu corpo se enrijeceu, o desejo se fechou, de repente, sobre ele. Julian estava congelado em seu lugar. As cores, as emoções, a luxúria física eram tão afiadas que só podia significar uma coisa.

A cantora possuidora dessa voz devia ser sua companheira.

Era impossível.

Totalmente impossível de acreditar. Os homens de sua raça podiam atravessar uma eternidade procurando uma mulher que fosse sua outra metade. Os homens dos Cárpatos eram predadores, com os instintos escuros e famintos. Era inteligentes, rápidos, e letais. Depois de um curto período de crescimento, de risos e aventuras, tudo terminava, quando perdiam a habilidade de sentir e de ver em cores. Não havia nada exceto uma solitária e erma existência. A vida de Julian tinha sido especialmente insofrível, alienado como estava a Aidan, seu irmão gêmeo, cuja inevitável cercania podia ter feito os longos e cinzas séculos, um pouco mais fáceis de suportar.    Mas, ele sabia que estava unido a Aidan através de seu laço de sangue, e cada momento que passavam juntos, sacramentava a ameaça do vampiro, para Aidan. S´em ele estar perto, colocava em perigo a vida de seu irmão. Julian havia fugido de sua gente, sem nada contar, nunca. A nenhuma deles, contara, nem sequer a seu amado irmão, a terrível verdade. Sentia-se mais honorável, quando só restara, sua honra.

Agora Julian estava aturdido na estreita entrada, incapaz de acreditar que sua companheira estivesse perto. Incapaz, nesse deslumbrante momento de emoção e cor, de acreditar que houvesse alguma possibilidade de que ele merecesse tal milagre.

Muitos homens dos Cárpatos se convertiam em vampiros depois de séculos de uma vida cheia de desesperança. Sem emoções, o poder... O poder de caçar e matar... Parecia a única coisa que ficava para eles, tornavam um perigo para mortais e imortais. Outros, escolhiam terminar com sua erma existência, enfrentando o amanhecer, esperando que a luz do sol destruísse os que queriam viver na escuridão. Só alguns, encontravam sua outra metade, a luz para sua escuridão, a única que poderia completá-los. Depois de quase mil anos de vazia existência, depois de tomar a decisão de enfrentar o amanhecer, antes que o demônio predador, de seu interior, que lutava por controlá-lo, conquistasse-lhe, Julian não podia acreditar que tivesse encontrado sua autêntica companheira.

Mas as cores, as emoções e a esperança, diziam que era verdade.

A voz da mulher... Gutural, rouca, erótica... Continha à promessa de lençóis acetinados e luz de velas. Caía sobre sua pele como dedos acariciantes, atormentando, incitando, pecadoramente sexy. Magnetizava a todos os que estavam a ouvindo. Era irreal e cativante. As notas dançavam, puras e formosas, tecendo um feitiço de encantamento em torno de Julian, ao redor de todos os ouvintes.

Julian não sabia nada desta mulher. Só que Gregori o tinha enviado para adverti-la de que estava em perigo por causa da sociedade humana de caçadores de vampiros. Evidentemente o Príncipe desejava que ela e os que viajavam com ela fossem protegidos, se fosse necessário. A sociedade de mortais que acreditavam nos vampiros das velhas lendas e procuravam destrui-los, tinha alguma razão para fixar seu objetivo nesta cantora, Desari, por sua voz e excêntricos costumes. A maioria das vítimas da sociedade eram assassinados com uma estaca atravessando seu coração. Pior ainda, algumas vítimas eram mantidas com vida para serem torturadas e dissecadas.

Julian ouvia a formosa voz. Desari, soava como um anjo cantando, sua voz não era desta terra. Então um grito, agudo, interrompeu a beleza da canção. Foi seguido por um segundo grito, depois um terceiro. Julian ouviu o ruído de um disparo, depois uma rajada de balas produzindo um ruído surdo ao entrar na carne e nos instrumentos musicais. O edifício se sacudiu com a força de pés que golpeavam o chão, em correria, enquanto os espectadores corriam para sair da linha de fogo.

Julian se moveu rapidamente, enquanto brilhava, para converter-se em uma massa sólida. O recinto estava em completa desordem. Os mortais fugiam do lugar, tão rápido como podiam, correndo os uns sobre os outros no processo. As pessoas gritavam de terror. Mesas e cadeiras haviam sido derrubadas e quebradas. Os três membros da banda estavam no chão, salpicados de sangue, sobre o cenário e os instrumentos destroçados. Os guardas de segurança trocavam disparos com seis homens que também disparavam do interior da multidão, enquanto tentavam escapar. Julian acudiu o cenário. Jogou de um lado um corpo masculino e encontrou a imóvel forma da mulher, Desari.

Ela estava sobre a plataforma. A massa de seu cabelo negro azulado se estendia como um véu. O sangue se encharcava sob ela, manchando seu vestido azul. Não tinha tempo de examinar seus traços, a pior das feridas era mortal. Instintivamente, formou uma barreira visual, cobrindo os olhos de que pudessem estar olhando-os. Em meio a semelhante pandemônio, duvidava que alguem o notasse.

Levantou Desari facilmente em seus braços, encontrou uma débil pulsação e colocou sua mão sobre a ferida. Bloqueando o caos ao redor dele, enviou-se a procurar fora de seu corpo, no dela. A ferida de entrada era pequena, a de saída bastante grande. A bala tinha rasgado seu corpo, destroçando órgãos internos e tecidos. Selou as feridas para acautelar mais perdas de sangue antes de entrar à profundidade das sombras. Com uma unha alongada, abriu uma ferida em seu próprio peito.

- Você é minha, minha cara. Não pode morrer. Não irei tranqüilamente a minha morte, sem a vingar. O mundo não poderia conceber semelhante monstro, no qual converteria. Deve beber, piccola, por voce mesma, por sua vida, por nossa vida juntos. Bebe agora.

Ele deu a ordem com firme compulsão, não permitindo que ela fugisse de sua vontade de ferro. Antes deste momento, antes de ouvir Desari, havia escolhido destruir-se, em vez de esperar que fosse muito tarde e se convertesse em um dos monstros que passou séculos caçando e destruindo. Mas agora, tinha ela com ele, podia merecer cem vezes a morte, mas tomaria o que o destino lhe oferecia.

Depois de longos e vazios séculos, num só momento, tudo havia mudado. Podia sentir. Podia ver o brilho das cores do mundo. Seu corpo estava vivo com necessidades e desejos, não simplesmente o onipresente roer físico da fome de sangue. Poder e força corriam através dele, cantando em suas veias, fluindo através de seus músculos e ele sentia. Sentia-o. Ela não morreria. Não permitiria tal coisa. Nunca. Não depois de séculos de completa solidão. Onde existira um buraco negro, um abismo de escuridão, havia agora uma conexão. Autêntica. Sentia.

Seu sangue era ancestral e cheio de força curadora, cheio de poder. Sua vida fluía nela, formando um vínculo que não podia ser quebrado. Começou a lhe sussurrar na língua ancestral. Palavras rituais. Palavras que tornariam seus corações um só. Palavras que teceriam os andrajosos restos de sua alma unindo-os a dela e os selariam, irrevogavelmente, para toda a eternidade.

Durante um momento o tempo parou por instante enquanto lutava por fazer o mais certo. Ele esforçava-se por deixá-la, por permitir que vivesse sem a terrível carga que ele levava. Mas não foi, o suficientemente, forte. As palavras lhe foram arrancadas da alma, das profundezas onde haviam estado enterradas.

- Reclamo-te como minha companheira. Pertenço-te. Ofereço-te minha vida. Dou-te meu amparo, minha fidelidade e meu coração, minha alma e meu corpo. Os tomo em mim para guardá-los. Sua vida, sua felicidade e seu bem-estar serão sempre, os primeiros para mim. É minha companheira, unida a mim para toda a eternidade e sempre, a meu cuidado.

Julian sentiu lágrimas ardendo em seus olhos. Ali estava, outro escuro pecado em sua alma. Desta vez, contra a mulher que devia proteger acima de tudo. Sua boca roçou o sedoso cabelo, e suavemente emitiu a ordem para que ela deixasse de beber. Já se sentia fraco pela falta de alimento. Curar as feridas dela e lhe dar um grande volume de seu sangue, o tinha debilitado. Inalou sua essência, tomou-a em seus pulmões, em seu corpo, imprimindo-a em sua mente para sempre.

A advertência chegou a ele, como um roçar de pele, mas foi suficiente. Julian saltou para longe da mulher inconsciente, girando-se para encontrar a ameaça, com um grunhido expôs os dentes brancos e reluzentes. Era um enorme leopardo e saltou para ele. Era estranho, tinha os olhos negros e fixos nele com letal malevolência. Julian saltou no ar para encontrar à besta, trocando de forma enquanto o fazia, seu corpo se contorceu. A pele dourada retorcendo-se sobre os pesados músculos enquanto tomava forma para enfrentar a mortal ameaça.

Encontraram-se no meio do ar, dois enormes felinos machos em toda sua primitiva força, rasgando e esfaqueando com garras e dentes. O leopardo negro parecia decidido a lutar até morte, mas Julian esperava não ter que cobrar sua vida. O felino negro se arqueou num semicírculo, saltando para Julian que Julian sentiu o rasgar das garras afiadas rasgando seu corpo. Arremeteu-se contra seu oponente e deixou quatro largos sulcos, abertos em sua barriga. A pantera vaiou com ódio e desafio, com renovada determinação, prometendo represálias, vingança.

Julian alcançou a mente da besta. Era uma névoa vermelha, de frenesi assassino, uma necessidade destruidora. Agilmente, se afastou de um salto. Não queria matar o formoso animal, e na verdade, com toda sua experiência de luta, esta criatura era forte e experiente. E não respondia aos intentos que ele fazia, para controlar sua mente. Amaldiçoou, quando a pantera se agachou protectoramente, sobre o corpo da mulher, depois começou, uma vez mais, a mover-se para ele com os lentos movimentos de um leopardo à espreita. Os inteligentes olhos de ébano estavam enfocados em sua face com um olhar atento, sem piscar, que só um leopardo podia produzir. O felino queria o matar e Julian não tinha mais escolha que lutar até a morte ou fugir. Tinha dado à mulher um precioso sangue que não tinha para esbanjar e agora os quatro profundos sulcos em seu flanco, gotejavam o líquido da vida sobre o chão, numa corrente firme.

O felino era muito forte, uma máquina de matar. Julian não podia arriscar-se. O destino de sua companheira estava agora ligado ao dele. Não sentiu animosidade para com ela, procedente da enorme pantera, mas a necessidade de protegê-la. Da mente de Desari, recolheu lembranças de amor pelo animal. Julian se obrigou a retroceder, com seu focinho dourado grunhindo, seus olhos mostravam um brilhante desafio, sem submissão.

A pantera negra estava claramente dividida entre segui-lo e terminar o trabalho ou permanecer com a mulher. Essa informação, obtida da pantera, reafirmou a Julian, que retrocedeu outros dois passos, não desejando se equivocar e fazer mal a uma criatura que sua companheira amava.

Então outro ataque chegou de por trás. Um simples sussurro de movimento o fez saltar, um segundo, antes que um segundo leopardo aterrissasse onde ele tinhaviaha estado. Grunhia de raiva. Julian, como uma centelha, saltou pela barra, depois para uma mesa. Suas poderosas patas traseiras deixaram marcas na lisa superfície em que procurou apoio. Um terceiro felino bloqueava a entrada, mas Julian saltou e o golpeou, derrubando-o. Depois, instantaneamente se desvaneceu, dissolvendo-se no ar.

Como uma neblina, Julian saiu, na noite. Não enganava a si mesmo, pois algumas das gotas que caíam para o oceano eram de seu sangue. Os felinos poderiam lhe rastrear, se não colocasse distancia entre eles, imediatamente. Requereu uma tremenda energia ganhar velocidade, enquanto mantinha sua imagem de neblina insustancial, energia que rapidamente se estendia pelo ar noturno. Julian convocou as energias que restavam, para fechar as feridas de seu corpo e evitar assim, uma maior perda de sangue.

Totalmente perdido, revisou cada movimento que tinha feito no interior do bar. Por que o felino negro não havia respondido ao controle de sua mente? Nunca antes, havia falhado ao hipnotizar um animal. A mente da pantera não era como nenhuma outra que conhecia ou tivesse encontrado. Em qualquer caso, deveria ter derrotado facilmente à pantera, mas o macho negro era maior que outro leopardo que tivesse conhecido em liberdade.

E os felinos haviam trabalhado, em uníssono, pouco natural na espécie. Julian estava seguro de que a enorme pantera estava, de algum modo, dirigindo as ações dos outros dois. E tinha protegido Desari, não a tratara como a uma presa.

Julian voltou à atenção à ameaça mais imediata para sua companheira. Em algum lugar, havia seis humanos que tentaram matá-la. Uma mulher inocente, cujo único crime era possuir uma voz celestial. Não poderia descansar esta noite até que os rastreasse e se assegurasse de que nunca se aproximariam dela novamente. Ainda tinha seu mau cheiro nas fossas nasais. Os felinos se ocupariam de sua companheira até que voltasse. Seu trabalho agora era derrotar os assassinos, repartir a justiça dos Cárpatos, afastando o perigo de Desari, tão rapidamente, possível.

Dedicou um pensamento rápido a sua necessidade de sangue, as feridas havia suportado e a possibilidade de que a misteriosa pantera o rastreasse, mas decidiu que todo isso não importava. Não podia permitir que os assassinos seguissem livres. Retrocedeu para o interior e se dirigiu ao bar, voando alto para misturar-se com a névoa. Esperava evitar a detecção do excelente sentido de olfato do leopardo, mas se o encontravam novamente, assim seria. Enquanto se movia através do tempo e do espaço, tocou a mente de sua companheira para ver se ela havia saído da inconsciência. Precisaria curar-se, mas descobriu que ela estava viva e bem atendida. O pandemônio reinava no bar, com polícia e ambulâncias por toda parte. Provavelmente, os felinos estavam encerrados por segurança. Encontrou o primeiro corpo, a mais de dez metros da parte traseira do bar.

Julian brilhou até assumir uma forma sólida, pressionando uma mão sobre as gotejantes marca de garras que se abriam em seu flanco, não desejava deixar nenhuma evidência de sua presença. Embora não havia sinais de luta, o pescoço do assassino estava quebrado. Julian encontraram o segundo corpo, poucas jardas mais adiante, alojado em um beco. Jazia contra a parede, metade dentro e metade fora. Havia um buraco no peito do homem do tamanho de um punho, onde o coração devia estar.

Julian e olhou cuidadosamente a sua volta. O assassino havia sido morto, seguindo o tradicional ritual de matar aos não-mortos. Não a versão humana, com estacas e alhos, era o autêntico costume de um Cárpato. Estudou o corpo mutilado. Era quase como olhar um dos primeiros trabalhos de Gregori, embora não fosse. Nos dias de hoje, Gregori não teria esbanjado seu tempo. Teria ficado a distância e simplesmente matado os perversos mortais de um só golpe. Isto era uma vingança. Alguém havia tomado cada morte, como algo pessoal.

Seu irmão, Aidan, vivia aqui e com freqüência destruía os não-mortos... Havia poucos Cárpatos tão capazes como ele, nos Estados Unidos... Mas Julian não havia sentido a presença de seu gêmeo. Teria sabido, se era sua obra, no instante em que avistara. Era obra de alguma forma distinta a de frio e impessoal trabalho de um caçador Cárpato embora se aproximava bastante.

Agora, com curiosidade, procurou os outros assassinos. O terceiro e quarto corpo estavam um ao lado do outro. Uma com sua própria faca enterrada profundamente na garganta. Sem dúvidas, levado a cabo por ele mesmo, sob uma irresistível compulsão. A garganta do outro estava completamente rasgada. Parecia como se um animal houvesse feito o trabalho, mas Julian não se deixou enganar. Encontrou o quinto corpo a pouca distancia dos outros dois. Este, também havia visto chegar à morte. O horror estava em sua face. Seus olhos olhavam aterrado, o céu, embora sua mão sustentasse a arma que tinha usado para disparar em si mesmo... A mesma arma que ele tinha usado com os músicos. Julian encontrou o sexto assassino estendido de barriga para baixo, numa sarjeta, uma poça de sangue o rodeava. Havia morrido de forma dura e dolorosa.

Pensou por um longo momento. Era uma mensagem, uma clara e descarada mensagem para aqueles que tinham enviado os assassinos para a cantora. O desafio de um perigoso adversário. Vem nos pegar se te atreve. Julian suspirou. Estava cansado, e a fome estava se convertendo em uma aguda ameaça. Embora compartilhasse a necessidade de destruir brutalmente a quem ameaçasse Desari, não podia permitir que este desafio permanecesse. Colocaria sua companheira diretamente no ponto de mira. Se a sociedade sabia exatamente como havia sido despachado, seus assassinos, ficariam convencidos de que ela e seus protetores eram vampiros e redobrariam seus esforços por destrui-la imediatamente. Levou poucos momentos para recolher os corpos, na privacidade do beco. Com um pequeno suspiro solicitou energia do céu e a dirigiu por volta dos corpos. Instantaneamente houve um relâmpago de fogo e o odor de carne queimada. Esperou impacientemente, mascarando a cena a todos os olhos, inclusive a dos policiais que procuravam rua abaixo. Quando os homens mortos não foram mais que cinzas, extinguiu o fogo e recolheu os restos. Depois se lançou para o céu e se afastou da cena. Bem longe, sobre o oceano, pulverizou as grotescas e espantosas cinzas, observando como as agitadas ondas, com um movimento faminto, devorava-as para toda a eternidade.

O desaparecimento dos seis valentões, sem provas de seu paradeiro ou destino, seria um enorme golpe para a sociedade de assassinos. Com sorte, seus diretores se arrastariam a um buraco para reorganizarem-se e se manteriam inativos durantes os próximos meses, economizando aos inocentes mortais e aos Cárpatos, sua malícia.

Julian voltou para a pequena cabana que possuía nas montanhas. Seus pensamentos uma vez mais se voltaram para estranho comportamento dos leopardos. Se não soubesse, juraria que a grande pantera negra não era na realidade, um gato, era um Cárpato.

Mas era impossível. Todo Cárpato era consciente da presença de qualquer outro.

Podiam detectá-los uns aos outros facilmente e todos usavam um vínculo mental, padrão, de comunicação quando era necessário. Embora, que poucos dos antigos, podiam mascarar suas presenças dos outros. Era um estranho dom.

Outra idéia perturbou Julian. Seu próprio comportamento, havia empurrado Desari, com toda segurança, diretamente a um novo caminho de perigo. Ao reclamá-la como sua companheira, Julian a tinha marcado, com tanta segurança, como havia sido marcado aos olhos do não-morto, seu mortal inimigo. Amaldiçoando, em sua mente, Julian voltou sua atenção ao estranho animal que a protegia. Embora Julian fosse um solitário, conhecia todos os Cárpatos vivos. E a pantera negra o lembrava alguém. Seus métodos de luta, sua feroz intensidade, sua completa confiança em si mesmo. Gregori. O Escuro.

Sacudiu a cabeça. Não, Gregori estava em Nova Orleans com sua companheira, Savannah. Julian havia se ocupado do amparo da jovem Savannah até que Gregori viu completar seu voto de permitir cinco anos de liberdade, antes de reclamá-la como sua companheira. E Gregori não era o não-morto. Sua companheira assegurava isso. Nenhum Cárpato tentaria destruir a outro que não tenha se convertido em vampiro.

Não, não havia possibilidade de que fosse Gregori.

Julian se solidificou na entrada de sua cabana e empurrou a porta. Antes de entrar, se voltou e inalou a noite, procurando a essência de qualquer presa que pudesse estar por perto. Precisava de sangue, fresco e quente, que curasse completamente suas feridas. Quando baixou o olhar e viu as lágrimas de sangue em seu flanco, amaldiçoou, embora sentiu a selvagem satisfação de saber que também ele, havia se cotado bem, contra o enorme felino.

Julian tinha viajado pelo mundo. Tivera séculos para agradar sua curiosidade, sua sede e necessidade de conhecimentos. Tinha passado um tempo considerável na África e na Índia estudando os leopardos. Inexplicavelmente, se dirigia para lá, uma vez ou outra. Acreditava que os inteligentes e mortais felinos possuíam uma inteligência superior. Entretanto, eram também grosseiramente imprevisíveis, o que os fazia ainda mais perigosos. Eles deviam ser um incomum grupo de humanos que possuía amizade com os gatos. Podia assegurar-se, sabendo as permissões requeridas para viajar com eles para os Estados Unidos.

Julian questionou, novamente, o estranho comportamento dos felinos. Se haviam sido criados e treinados, a coordenação de suas forças para derrotar o intruso, especialmente quando o caos e o aroma de sangue os rodeasse, era notável.

A enorme pantera negra, sequer tinha olhado as feridas da mulher ou tentado provar o sangue dos outros dois membros da banda. O aroma de sangue fresco deveria ter ativado o instinto dos felinos de caçar e de comer. Os leopardos eram notáveis carnívoros, assim como caçadores. Algo havia acontecido, para que esses leopardos estivessem protegendo a cantora.

Julian sacudiu a cabeça e voltou-se para sua imediata atenção. Enviou-se a seu próprio corpo, procurando as lacerações e fechando-as de dentro para fora, desta vez. O esforço gastou mais energia da que pôde confrontar. Ele misturou ervas e fez-lhe uma bebida, que facilitava a cura. Flutuando para fora, no alpendre, bebeu o líquido rapidamente, obrigando a seu corpo a apegar-se à nutrição pouco familiar.

Levou poucos minutos para reunir a força necessária para sair para o bosque. Estava procurando terra rica. Uma mistura de vegetação e pó, que melhorava ao aproximar-se da terra natal dos Cárpatos, e sempre ajudava a curar as feridas dos Cárpatos. Encontrou semelhante terra sob uma espessa capa de agulhas de pinheiro no lado mais afastado de uma colina. Misturou musgo e terra com o agente curador de sua saliva e cobriu suas feridas com ela. Em seguida, a mustira aliviou a terrível queimação.

Era interessante para ele, observar as diferentes sensações e emoções que se repuxavam em seu interior. Sabia que os Cárpatos que recuperavam as emoções e as cores experimentavam tudo, muito profundamente e com mais intensidade, de quando eram jovens. Tudo. Isso incluía a dor. Todos os Cárpatos aprendiam a bloqueá-la se fosse necessário, mas requeria enorme energia. Ele estava cansado e faminto. Seu corpo clamava por alimento. Sua mente estava sintonizada com a de Desari. Sua companheira. A mente dela agora era um tumulto, mas estava viva. Quis estender-se para ela e tranqüilizá-la, mas sabia que tal intromissão só a perturbaria mais.

Fechou os olhos e se inclinou contra o tronco de uma árvore. Um leopardo. Quem teria pensado que um leopardo poderia lhe dar tal golpe? Havia tão distraído pela presença de sua recém encontrada companheira, que se descuidou? Como podia o haver superado, um animal? E os assassinos e a forma em que os havia matado? Nenhum felino ou humano vingativo poderia ter acabado com todos eles tão rapidamente. Julian possuía confiança suprema em suas próprias habilidades. Poucos dos antigos, e certamente nenhum animal podiam o derrotar numa batalha. Havia só um que podia. Gregori.

Sacudiu a cabeça tentando esclarecer seus pensamentos. A forma que tinha lutado o felino, tão concentrado, tão inquieto, tudo lhe recordava o Escuro. Porquê não podia pensar, quando sabia que era totalmente impossível? Podia outro antigo haver-se ocultado completamente de sua própria gente? Descansar ou desaparecer na terra durante umas poucas centenas de anos e surgir sem ser detectado?

Julian tentou recordar o que sabia da família de Gregori. Seus pais tinham sido massacrados durante a época da invasão Turca às Montanhas dos Cárpatos. Mikhail, agora o Príncipe e líder dos Cárpatos havia perdido seus pais do mesmo modo. Povos inteiros tinham sido destruídos. As decapitações eram comuns, assim como os corpos que se retorciam nas estacas, deixados ao sol para apodrecer. As crianças pequenas tinham sido reunidas como rebanhos em uma fossa ou numa casa e queimados vivos. As cenas de tortura e mutilação se converteram em forma de vida. Uma áspera e implacável existência para Cárpatos e humanos, por igual.

A raça dos Cárpatos tinha sido quase dizimada. No meio do horror desses dias de assassinatos, se perdeu a maior parte de suas mulheres, um bom número de seus homens, e o mais importante, quase todos as crianças. Esse tinha sido o golpe mais violento e demolidor de todos. Um dia, as crianças haviam sido presas junto com crianças mortais, e conduzidos a uma choça de palha e queimandos vivos. Mikhail tinha escapado da matança, junto com um irmão e uma irmã. Gregori não tivera a mesma sorte. Tinha perdido um irmão de seis anos e uma nova irmã, um bebê de não mais de seis meses.

Julian tomou fôlego e o deixou escapar lentamente, repassando cada um dos homens dos Cárpatos que havia encontrado durante os séculos, tentando encontrar a incomum pantera negra.

Recordou as lendas de dois antigos caçadores, gêmeos, que tinha desaparecido sem deixar rastro, quinhentos ou seiscentos anos antes. Era possível que alguém se convertesse em um vampiro. Inalou bruscamente ante a idéia. Podiam estar ainda vivo? Podia Julian ter escapado relativamente ileso, de alguém tão poderoso? Duvidava. Procurou informação em cada parte de sua mente. Teria mais alguém e ele não se lembrava? Podia algum Cárpato, homem ou mulher, da linha do sangue de Gregori ser tão poderoso, a ponto de desaparecer? Se havia uma possibilidade de que qualquer parente de Gregori existisse em algum lugar, em qualquer lugar do mundo, não saberia já, o restante de sua gente? O próprio Julian havia viajado para novas e velhas terras e não cruzzra com estranhos de sua raça. Certo, havia rumores e esperança, de que Cárpatos ainda desconhecidos por sua gente pudessem existir, mas nunca os havia encontrado.

Julian deixou o assunto e enviou uma chamada, atraindo à presa para perto dele, em lugar de esbanjar sua valiosa energia caçando. Esperou sob a árvore e uma ligeira brisa levou até ele, o som de vozes de quatro pessoas. Inalou sua essência. Adolescentes. Homens. Estavam bebendo. Suspirou de novo. Parecia ser o passatempo favorito dos jovens humanos... Beber ou consumir drogas. Não importava, no final, o sangue era o mesmo.

Podia ouvir suas conversas, enquanto tropeçavam quase às cegas através do bosque, para ele. Nenhum dos jovens tinha permissão de seus pais para saírem para um acampamento. Os dentes brancos de Julian brilharam na noite, num sorriso ligeiramente zombador. Os jovens pensavam que era divertido fazer passar por tolos, quem os amava e confiavam neles. Esta espécie era tão diferente da sua. Embora sua raça fosse, com freqüência, mais predadora que homem, um homem dos Cárpatos nunca faria mal a uma mulher ou uma criança e nem seria desrespeitoso com aqueles que o amavam. Eles protegiam ou ensinavam.

Esperou, seus olhos intensos como ouro fundido, penetrando facilmente o véu de escuridão. Sua mente continuamente se desviava para sua companheira. Todo homem dos Cárpatos sabia que a oportunidade de encontrar uma companheira, dentro de sua minguada raça era quase impossível. Seu número tinha sido repetidamente dizimado pelos vampiros e pelas caças de bruxas da Idade Média e durante as sangrentas guerras Santa e Turca. Para complicar o assunto, as poucas mulheres que restaram, não davam a luz meninas em anos, e as meninas que nasceram nos recentes séculos morreram quase todas em seu primeiro ano de vida. Ninguém, nem sequer Gregori, seu maior curador, nem Mikhail, o Príncipe e líder de sua gente, havia encontrado solução paraa esse grave problema.

Muitos haviam tentado converter a mulheres mortais em Cárpatos, mas as mulheres haviam perecido ou convertidas em vampiresas, alimentando-se do sangue vital de crianças humanas e sempre matando sua presa. Tais mulheres haviam sido destruídas, para proteger à raça humana.

Então Mikhail e Gregori haviam descoberto um estranho grupo de mulheres mortais que possuíam autênticas habilidades psíquicas e que podiam sobreviver à conversão. Tais mulheres podiam converter-se com três intercâmbios de sangue e eram capazes de produzir meninas. Mikhail fizera o emparelhamento e sua filha, Savannah, tinha nascido como companheira de Gregori. Uma nova onda de esperança se estendeu entre os homens dos Cárpatos.

Mas embora Julian houvesse viajado por todo mundo conhecido, preferentemente nas selvagens montanhas e na liberdade dos espaços abertos, e tinha passado largos períodos entre humanos... Nunca tinha cruzado com nenhuma mulher que possuísse as estranhas habilidades requeridas. Fazia longo tempo que tinha deixado de acreditar ou esperar da forma em que faziam os outros. Seu próprio irmão gêmeo encontrou uma mulher com essas habilidades. Julian sabia que era um cínico, que a escuridão de seu interior chamava o não-morto, era como uma mancha que se estendia por sua alma. Havia aceitado, como tinha aceitado o resto do universo sempre cambiante, como tinha aceitado o pecado de sua juventude e seu próprio auto desterro. Ele era da terra e do céu. Era parte de tudo. E quando se aproximasse o momento em que estivesse perigosamente perto da mudança, aceitaria também. Sabia que era forte. Era capaz de caminhar ante o sol antes de converter-se em um demônio sem alma. Durante longo tempo não tivera tido esperanças, não havia nada ao que se prender.

Agora tudo estava mudado. Um batimento de coração. Um instante e sua companheira estava aí fora. Mas estava ferida e sendo caçada. Pelo menos, ela tinha um guarda-costas decente, e seus felinos estavam obviamente protegendo-a. Embora, não podia tirar de sua cabeça que o enorme leopardo macho não era o que tinha parecido. E a forma em que os assassinos tinham sido despachados. Não era forma humana. Era o estilo de um caçador Cárpato.

Se havia um Cárpato poderoso, outro homem, de que Julian não fosse consciente, não queria que ele estivesse perto de sua companheira.

Os adolescentes se aproximavam e suas vozes eram ruidosas na quietude da noite. Tropeçavam repetidamente, pois haviam consumido muito álcool. Riam com aspereza, e das profundezas do bosque uns olhos dourados os observavam. Dentes brancos brilhavam. Julian saiu caminhando lentamente detrás das árvores. Sua face estava escondida nas sombras. Sorriu aos jovens.

- Parece que aconteceu uma boa festa esta noite. - Saudou amavelmente.

Os jovens se detiveram abruptamente. Não podiam o localizar na escuridão. E subitamente, estavam conscientes de que estavam em algum lugar do profundo bosque, longe de seu acampamento, sem ter nem idéia de como tinham chegado ali ou como voltar. Trocaram olhares confusos e alarmados. Julian podia ouvi os corações pulsando ruidosamente no interior de seus corpos. Prolongou a incerteza um momento, seus dentes brilhando, permitindo que a débil neblina vermelha da fera em seu interior, se refletisse em seus olhos.

Os jovens se congelaram, enquanto Julian surgia das sombras.

- Ninguém lhes disse que o bosque pode ser perigoso à noite? - Sua voz era ameaçadora, e deliberadamente, aprofundou seu sotaque estrangeiro, evidenciando o perigo que os jovens podiam sentir, movendo-se através de seus corpos.

- Quem é você? – Perguntou um deles, temeroso. Estavam suando de medo.

Os olhos de Julian brilharam com um vermelho feroz, e a fera, sempre escondida, lutava por liberar-se. Permitiu que a fome varresse através dele, o terrível vazio que nunca se satisfazia completamente. Nunca poderia satisfazê-lo até que estivesse com sua companheira em todos os sentidos. Precisava dela para morar nele, para ancorar à raivosa fera. Precisava do sangue dela fluindo em suas veias para deter o horrendo desejo. Para o trazer de volta à luz, para toda a eternidade.

Um dos jovens gritou, outro gemeu. Julian ondeou uma mão para silenciá-los. Não queria aterrorizá-los, só assustá-lo-los o suficiente, para que recordassem seu medo e modificassem seu comportamento. Foi bastante fácil tomar posse de suas mentes. Erigiu um véu que nublasse suas lembranças do que veriam, enquanto avançava para beber até fartar-se. Precisava de um grande volume de sangue e agradeceu que houvesse vários jovens, para que nenhum deles ficasse muito fraco. Em cada jovem, implantou uma lembrança ligeiramente distinta, desejando que reinasse a confusão. No último momento, sonrrindo sardônicamente, Julian implantou uma firme ordem em para que confessassem a verdade a seus pais, a cada vez que tivessem intenção de enganá-los.

Julian se fundiu nas sombras e soltou os adolescentes da garra que paralisava suas mentes e corpos. Observou-os enquanto voltavam para a vida, todos se sentando ou deitando-se no chão. Estavam enjoados e assustados, todos recordavam a íntima chamada, um ataque que tinha vindo das profundezas do bosque, mas cada um recordava algo diferente. Discutiram brevemente, mas sem muito espírito. Só queriam voltar para casa.

Julian se assegurou de que voltasse para acampamento sem incidentes. Depois, enquanto se apinhavam juntos ao redor do fogo, começou a imitar o lamento de um grupo de lobos. Rindo, deixou-os jogando suas coisas a toda pressa, em grandes fardos, nos carros e correndo para afastar-se dos terrores que enfrentavam por desobedecer a seus pais.

Sentindo-se muito melhor com a terra pressionando contra suas feridas, e a fome aguda aplacada no momento, Julian voltou lentamente para a cabana. Sob o piso de madeira de madeira havia um pequeno espaço escavado. Com um leve ondeio da mão abriu um profundo buraco dentro da terra. Chamava-lhe, a paz consoladora da terra. Chamando o que a pertencia.

Julian flutuou a seu lugar de descanso e se deitou imóvel, com os braços cruzados levemente sobre suas feridas. Imaginou Desari enquanto se estabelecia na terra. Ela era alta e esbelta, sua pele cremosamente branca. Seu cabelo era luxurioso e brilhante como as asas de um corvo. Massas de cachos e ondas caindo em uma brilhante cascata até os quadris. Tinha ossos pequenos e delicados, que a convertiam numa beleza clássica. Seus lábios eram cheios e sexys. Adorava o aspecto de sua boca, inclusive em seu estado inconsciente. Tinha uma boca perfeita.

Julian sentiu que um sorriso suavizava a dura linha de seus lábios cinzelados. Uma companheira. Depois de todos esses séculos, depois de não acreditar mais. Por que o mundo teria a escolhido para ele? De todos os homens dos Cárpatos que conhecia, homens que religiosamente seguiam as regras, por que ele tinha sido ele quem encontrasse uma companheira? Era um fora da lei.

Pensou na mulher mortal que agora estava ligada a ele. Precisavam três intercâmbios de sangue para converter um humano e teria que se assegurar de que ela era uma autêntica psíquica. Ainda assim, a excitação o golpeou. Uma companheira para fazer do mundo formoso e misterioso, um lugar maravilhoso e intrigante, quando só tinha vazio e escuridão. Infelizmente, para a mulher, as coisas teriam que mudar. Cantar ante as multidões seria impossível. Desari. Recordava agora que também usava um apelido. Desse. Um pensamento de reconhecimento brilhou em sua mente. Antigo. Persa. Desse. Significa a Escura.

Julian sentiu que seu coração saltava ante a conexão. Podia ser só uma coincidência? Gregori era chamado O Escuro. Como seu pai antes que dele. A linha de sangue era pura e antiga. Muito poderosa.

Por que ela se apelidava de Desse? Havia uma conexão? Tinha que haver. Mas como?

Julian sacudiu a cabeça lentamente, descartando a idéia. Nenhum ser Cárpato vivo, desconhecia o resto de sua raça. E certamente nenhuma mulher dos Cárpatos poderia fazer. Do dízimo de suas filas, as mulheres eram guardadas muito de perto. Passavam do cuidado do pai ao do companheiro, na idade de assegurar a continuação de sua raça.

De outro modo, todo os homens dos Cárpatos sem companheira, a rondariam, tentando forçar sua sorte. E Mikhail a teria sob o manto de seu amparo. Julian deixou para um lado o enigma no momento. Fechou os olhos e se concentrou em alcançar Desari. Desse. Normalmente era necessário um intercâmbio de sangue para rastrear outro, mas Julian havia estudado e possuía a experiecia de muitos anos. Podia fazer coisas incríveis, para um homem de sua raça. Construiu a imagem de Desari em sua mente, concentrando-se em cada detalhe.

Depois apontou e empurrou sua vontade na noite. Procurando. Conduzindo. Ordenando.

- Vêm a mim, minha cara Vêm mim. Você é minha. Nunca haverá outro para voce. Quer vir comigo. Precisa de mim. Sente o vazio sem mim.

Julian foi implacável em sua perseguição. Cruelmente aplicou mais pressão.

- Me encontre. Sabe que é minha. Não pode suportar o toque de outro homem, minha cara. Necessita de mim a seu lado, para encher o terrível vazio de seus dias. Já não será feliz nem estará contente sem mim. Deve me encontrar.

Enviou a imperiosa ordem, completamente concentrado em encontrar um vinculo mental com ela. Não parou até estar seguro de ter conectado, de que suas palavras tinham penetrado qualquer barreira que os separasse, e encontrado o caminho até sua alma.

 

A polícia estava por toda parte. Desari se sentou cuidadosamente, enjoada e doente. Sentia-se estranha, diferente, como se algo em seu interior houvesse mudado para sempre. Havia um estranho vazio. Um vazio que tinha que ser preenchido. Seu irmão e guarda-costas, Darius, rodeava-a com um braço. Examinava cada palmo dela são seus frios olhos negros. Havia sangue manchando seu vestido e lhe doía o estômago.

- Deram-me um tiro. – Ela estabeleceu o fato.

- Não sei como falhei em detectar o perigo para a tempo. - Darius parecia cinza e esgotado.

Desari acariciou sua forte mandíbula.

- Precisa se alimentar, irmão. Deste-me muito sangue.

Darius sacudiu a cabeça, então olhou para a polícia.

- Dei ao Barack e Dayan. Também foram atingidos. Seis mortais, Desari, todos queriam te matar.

- Barack e Dayan? Estão bem? – Ela perguntou rapidamente, com preocupação em seus suaves e escuros olhos. Olhou ao redor, freneticamente, procurando os outros dois membros da banda. Havia se criado com os dois homens e os amava como seus próprios irmãos.

Ele assentiu.

- Enviei-lhes a terra. Curarão mais rapidamente. Tive pouco tempo para lhes curar apropiadamente, mas fiz tudo o que pude por eles. Houve outro. Era forte e poderoso.

Alarmada, Desari olhou diretamente a seu irmão.

- Alguém mais me deu sangue? Está seguro? Não há engano?

Darius sacudiu a cabeça.

- Não te alcançei a tempo. Estava inconsciente. Não teve tempo de deter seu coração e pulmões como fizeram os outros, voce sangrava profusamente. Examinei-te depois, Desari. Teria morrido de suas feridas. Ele salvou-te a vida.

Ela ficou de joelhos e se aproximou mais dele.

- Seu sangue está em mim? - Soava perdida e abandonada, assustada.

Darius amaldiçoou eloqüentemente. Durante séculos tinha cuidado de sua família. Desari, Syndil, Barack, Dayan, e Savon. Os únicos outros membros de sua raça que tinham encontrado eram não-mortos, malditos. Esta criatura passou a seu lado como um estranho e frio vento e abriu caminho pelo bar. Darius tinha estado intranqüilo, preocupado. Havia sentido a presença de outro, embora não tivesse captado o mau cheiro, característico do mal. O não-morto. Vampiro. Deveria ter atuado, havia desviado os viciosos mortais que emergiram da multidão.

Por que tinha sido Desari escolhida, de repente, como objetivo por esta gente? Descobriram os membros de sua família, de algum modo? Sabia que de quando em quando, através da história, havido erupções de histeria entre os humanos, particularmente na Europa, por causa dos vampiros. E durante os últimos setenta e cinco anos, uma cadeia de assassinatos na Europa tinham sido atribuídos a membros de alguma sociedade secreta que caçava a tais criaturas da noite.

Darius tinha mantido a sua família escondida intencionalmente, não desejando os expor a esses perigosos humanos ou que pudessem ser corrompidos pelo sangue dos vampiros. Havia muitos lugares por percorrer sem se aproximar da Europa. Suas lembranças da terra natal original eram vagas e terríveis. Cravavam estacas a mulheres e crianças ainda vivos, pendurando-os ao sol para morrer de uma morte insuportavelmente dolorosa. Decapitações, queimas, torturas e mutilação. Se alguem de sua raça tinha sobrevivido, há tempo se convertera em vampiro. Se alguma outra criança havia escapado, como tinham feito eles, provavelmente estavam melhor sem serem encontrados.

- Darius? - Desari prendeu sua camisa. - Não me respondeu. Vou converter me? Pode me fazer isso o não-morto? - Sua formosa voz tremia de medo.

Ele a envolveu com um braço para conformá-la. Sua face era uma dura e implacável máscara de resolução.

- Nada vai fazer te fazer mal, Desari. Eu não permitiria.

- Podemos trocar seu sangue, substituie pelo teu?

- Enviei-me para dentro de seu corpo. Não encontrei evidência de maldade. Não sei o que é ele, mas fui capaz de lhe marcar como ele me marcou. - Elevou o braço e mostrou o flanco. Sua mão se afastou do estômago, coberta de sangue.

Desari ofegou e elevou-se ainda mais, sobre os joelhos.

- Feche suas feridas agora, Darius. Já perdeu muito sangue. Tem que atender a ti mesmo.

- Estou cansado, Desari. - Reconheceu ele.

A confissão a sobressaltou. Assustou-a. Nunca, nenhuma só vez, em todos seus séculos juntos, recordava que seu irmão tivesse admitido tal coisa. Havia ido à batalha incontáveis vezes, tinha sido ferido por animais, por mortais, tinha caçado e matado aos mais perigosos vampiros.

Colocou um braço ao redor de suas costas.

- Necessita de sangue, Darius. Agora mesmo. Onde está Syndil? - Desari sabia que estava muito fraca para ajudar seu irmão. Olhou a sua volta, à cena de caos e compreendeu que seu irmão estava já os defendendo da vista dos policiais mortais. Devia estar mantendo a ilusão durante algum tempo. Isso por si só era exaustivo. Apertou os dentes e se colocou de pé.

- Chamaremos Syndil, Darius. Deve estar escondida na terra para não ter notado esta perturbação. Já é hora de que volte para mundo dos vivos.

Darius sacudiu a cabeça, mas apoiou sua alta forma contra Desari.

- É muito cedo para ela. Ainda está traumatizada.

- Syndil, estamos em apuros. Deve vir até nós. Deve ouvir nossa chamada. - Desari procurou à mulher que considerava sua amiga mais íntima e irmã. Sentia pena por Syndil, ultraje em seu nome, mas a precisavam dela agora.

Eram seis crianças, lançadas juntas num tempo de guerra e crueldade. Darius tinha seis anos, Desari seis meses. Savon tinham tido quatro, Dayan três, Barack dois, e Syndil um ano. Tinham crescido juntos, dependendo só os uns dos outros, tendo Darius para liderá-los, protegê-los e cuidar de sua sobrevivência.

Seus pais tinham sido capturados antes que o sol estivesse para entrar, débeis e letárgicos, paralisados à maneira de sua raça. Os assassinos haviam percorrido o povo e matado a todos os adultos humanos, incluindo os Cárpatos que tentaram lhes ajudar. As crianças haviam sido reunidos em rebanho em uma cabana onde colocaram fogo.

Darius tinha notado que uma camponesa escapava sem ser vista pelos atacantes. Já que o sol não afetava os meninos dos Cárpatos tão severamente como aos adultos, Darius tinha esperado sua oportunidade, escondendo os cinco pequenos da loucura assassina. As arrumou, pela pura força de sua vontade, para cobrir a presença da mulher humana e das crianças Cárpatos, enquanto plantava a compulsão nela para que os levasse com ela. Sem ser consciente de não eram de sua raça, ela os conduziu baixando as montanhas até o mar, onde seu amante tinha um bote. Apesar de seu terror ao oceano, haviam partido, mais temerosos da crueldade e do grande número de assassinos que das serpentes de mar ou de navegar caindo pelo mundo.

Escondidos no bote, os meninos permaneceram em silêncio. Temendo a guerra, não conhecendo nenhum lugar seguro, o homem levou o bote muito mais longe do que já havia feito. Altos ventos o empurraram para longe, mar dentro. Uma terrível tempestade jogou a embarcação, até que ele se rompeu e afundou. Os mortais afundaram sob as ondas.

Darius, uma vez mais, salvou as crianças. Aos seis anos, ele era forte, o sangue de seu pai era puro e antigo. Tomou a imagem de um poderoso pássaro, um predador, tinha segurado os pequenos entre suas garras, e baixou na próxima massa de terra.

Suas vidas tinham sido extremamente difíceis nos primeiros dias, a costa da África ainda era selvagem e implacável. As crianças dos Cárpatos precisavam de sangue, mas eram incapazes de caçar. Também precisavam de ervas e outros nutrientes. A maioria das crianças, não sobreviviam a seu primeiro ano de vida. Era um tributo à força vontade de Darius, que os seis meninos tivessem sobrevivido. Aprendeu a caçar com os leopardos. Encontrou os pequenos refúgios de terra e começou a aprender as artes curadoras. Nenhuma de suas lições tinha sido fácil. Às vezes voltava ferido em suas expedições de caça. Muitos de seus experimentos fracassaram ou explodiram. Mas perseverou, decidido a não permitir que nenhum deles morresse. Com freqüência, envenenou a si mesmo, tentando novas comidas para as crianças e aprendeu a liberar seu próprio corpo do veneno.

Durante os séculos, tinham permanecido juntos, uma unidade familiar, com Darius guiando-os, sempre adquirindo mais conhecimentos, inventando novas formas de esconder suas diferenças dos humanos que encontravam, inclusive investir dinheiro. Era poderoso e decidido. Desari estava segura de que não havia outro como ele. Suas normas eram indisputáveis. Sua palavra era lei. Nenhum deles estava preparado para a tragédia de dois meses atrás. Desari não podia suportar recordar. Savon tinha escolhido perder sua alma, entregando-se à besta escondida, escolhendo a completa escuridão. Tinha ocultado a mancha de maldade que estendia nele.

Tinha esperado seu momento, esperado sua oportunidade, e então viciosamente atacou Syndil. Desari nunca tinha visto tão brutal ataque a uma mulher. Os homens sempre protegiam, entesouravam as mulheres. Nem em sonhos, podia imaginar o que aconteceria. Syndil tinha sido doce e confiada, mas Savon a tinha golpeado, esmurrado e violado. Quase a tinha matado, bebendo seu sangue. Darius os encontrou, dirigido pelos frenéticos gritos de ajuda de Syndil. Surpreendeu-lhe, que seu melhor amigo tivesse cometido tão monstruoso crime. Quase o havia matado também, Savon tinha o atacado.

Depois disso, Syndil estava tão histérica que só permitia que Desari se aproximasse dela e só Desari substituísse o sangue que havia perdido. Em troca, Barack e Dayan alimentavam Desari e Darius. Tinha sido um momento trágico e horrível, e Desari sabia que nenhum deles se recuperara completamente.

Syndil passava a maior parte do tempo na terra ou mudando à forma para um leopardo. Raramente falava, nunca sorria, e não permitia que se discutisse o ataque. Dayan havia se tornado mais calado, mais protetor. Barack também mudara. Sempre tinha parecido um playboy, sorridente e jovial durante séculos, mas durante um mês, também ele tinha permanecido na terra, e depois vivia mal-humorado e vigilante. Seus escuros olhos seguiam Syndil onde quer que fosse. Darius também estava mudado. Seus olhos negros estavam vazios e frios. Vigiava às duas mulheres mais de perto. Desari notava que também se distanciara dos homens.

- Syndil, rápido!

Desta vez deu a ordem com voz firme e decisiva. Darius era muito pesado para que Desari, em seu fraco estado, o movesse. O que havia acontecido a Syndil, não era traumatizante só a ela. Todos haviam sofrido, e todos tinham mudado, por causa disso. Precisavam dela. Darius precisava.

Syndil se materializou a seu lado, alta e formosa, com enormes olhos tristes. Empalideceu visivelmente quando viu as manchas de sangue em Desari, e quando notou que Darius cambaleava, instável, com a face acinzentada. Rapidamente o pegou, tomando a maior parte de seu peso.

- e os outros? Onde estão?

- Darius lhes deu seu sangue, sangue de que não podia prescindir. - Explicou Desari. - Fomos atacados por mortais com armas de fogo. Dayan e Barack também foram.

- Barack? - A face pálida de Syndil ficou mais branca. - E Dayan? Estão vivos? Onde estão?

- Estão na terra curadora. - Assegurou-lhe Desari.

- Quem quereria os matar? E o que aconteceu a Darius? - Syndil levantou Darius para a parte dianteira do ônibus do grupo. Sob a cobertura da escuridão, abriram passo para dentro, onde Darius tinha deixado os dois leopardos, depois que o ajudaram.

No momento em que colocaram Darius no leito, Desari lhe rasgou a camisa para expor suas feridas. Syndil se aproximou mais. Seu olhar olhou especulativamente.

- Um leopardo fez isso.

- Algo o fez. - Corrigiu Darius severamente. - Mas não era um autêntico leopardo. Nem era mortal. Seja o que for, ele deu sangue a Desari. - Sacudiu a cabeça e levantou o olhar para sua irmã. - Era forte, Desari. Nunca enfrentei nada igual antes.

Syndil se inclinou para ele.

- Precisa de sangue, Darius. Deve tomar o meu. - negou-se a permitir que o medo de estar perto de um homem, o mais forte de sua família, permitisse-lhe esquivar de seu dever. Já estava envergonhada de haver se afastado tanto dos outros, por ter sido incapaz de detectar o perigo para todos eles.

Os olhos de Darius, de tão escuros eram negros, passearam pela face dela. Podia ver tudo, via sua alma, via sua aversão em tocar um homem. Sacudiu a cabeça.

- Obrigado, irmãzinha, mas preferiria que desse seu sangue a Desari.

- Darius! - Protestou Desari. – Precisa de sangue e já.

Envergonhada, Syndil baixou a cabeça.

- Faça por mim. - Confessou brandamente. - Não posso suportar que nenhum homem me toque e ele sabe.

- Se não fosse necessário diluir o sangue do intruso nas veias de Desari. - Objetou Darius, sua voz eram tranqüilizadora. - Aceitaria encantado seu oferecimento. Se for desagradável para voce fazer semelhante coisa, então o oferecimento é mais valioso, e eu agradeço.

- Darius - advertiu Desari, cuidando de usar o vínculo mental privado que compartilhavam. - Syndil não é o suficientemente forte para diluir o sangue.

- É um pequeno detalhe pelo bem do Syndil, Desari.

Darius fechou os olhos de novo e se afundou dentro de si mesmo, fechando o pior das marcas das garras e começando o ritual curador em cada uma das profundas feridas, de dentro para fora.

Syndil observou a face de Darius, esperando até que esteve longe delas em espírito, e fosse incapaz de ouvir sua conversação, antes de falar.

- Está-me mentindo? - Perguntou.

Desari acariciou o braço de seu irmão, escolhendo as palavras cuidadosamente, pensativamente.

- Havia outro com os mortais. Não sabemos que era. Salvou minha vida, fechando minhas feridas e me dando seu sangue. Darius o atacou e eles lutaram. Aparentemente nenhum dos dois saiu vitorioso.

Syndil estudou a face do Desari.

- Tem medo. É verdade então. Tem o sangue do intruso em voce.

Desari assentiu.

- Sinto-me diferente por dentro. Ele fez algo. - Sussurro as palavras em voz alta, mas era a primeira vez que o admitia ante alguém além de si mesma. - Estou mudando.

Syndil passou um braço em volta de Desari.

- Sente-se junto de Darius. Parece que está para cair.

- Também me sinto assim. - Desari enterrou o rosto no ombro de Syndil durante um momento, abraçando-a firmemente. - O que deveríamos fazer com ele?

- Estará bem. - Disse Syndil brandamente. - Darius não morrerá tão facilmente.

- Sei. - Depois Desari confessou seu pior medo. - É só que foi tão infeliz durante tanto tempo. Sempre tenho medo de que um dia permita que algo ou alguém lhe destrua para não ter que continuar.

- Todos nós, fomos infelizes. - Assinalou Syndil enquanto empurrava Desari firmemente para sentá-la. - Como poderia, o que Savon me fez, o que fez a todos, nos deixar ilesos? Mas Darius não nos abandonará. Nunca faria tal coisa, nem sequer por causa de uma ferida recebida descuidadamente.

- Crê que foi descuidado? - Desari se asustou. Se Darius tinha sido descuidado, significava que seus medos estavam mais perto da realidade, que pensava.

- Tome meu sangue, Desari. É oferecida livremente a voce e a Darius. Espero que proveja, a ambos, com força e paz. - Replicou Syndil brandamente. Abriu sua mão, com uma unha afiada e a sustentou na boca de Desari. – Por Darius, não por você.

Desari se alimentou, depois se inclinou sobre seu irmão, sussurrando em seu ouvido.

- Tire de mim o que livremente te ofereço, meu irmão, o que precisa. Tome por voce mesmo e por todos nós que tanto dependemos de ti. Ofereço-te minha vida para que possa viver.

- Desari! - Protestou Syndil bruscamente. - Darius poderia não saber o que faz. Não pode dizer coisas como essas.

- Mas é verdade. - Disse Desari brandamente, acariciando o cabelo de seu irmão. - É o homem mais grandioso que conheço. Faria algo por salvar sua vida. - Pressionou sua mão aberta sobre a boca de seu irmão. - O que tem feito por todos nós, nenhum outro teria feito. Nenhum outro menino de seis anos podia nos haver salvado. Foi um milagre, Syndil. Ele não tinha treinamento, ninguém que o guiasse, ainda assim, fez tudo para nos manter vivos. Deu-nos uma boa vida. Merece muito mais do que tem.

- Deve tomar meu sangue, Desari. - Insistiu Syndil brandamente. - Está muito pálida. Darius se zangaria contigo se souber que não se alimentou apropiadamente. Insisto, Desari. Deve se alimentar. - Para reforçar a ordem, Syndil reabriu a própria veia com os dentes e empurrou a mão ante a boca de Desari. - Faça o que digo, minha irmã. - Deu a ordem com sua voz mais firme.

Foi tão impróprio de Syndil, que Desari pulou para obedecer. Syndil tinha uma forma de falar amável e suave e uma natureza amorosa. Raramente tinha hábitos selvagens e imprevisíveis. Desari se tinha considerado, sempre refreada, por seu irmão, que não o tinha feito muito bem. Sempre inventava algo novo e diferente. Sempre surpreendida pela beleza do mundo que a rodeava, encontrava tudo excitante, às pessoas intrigantes. Não estava contente, como estava Syndil, fazendo o que os homens a ordenavam.

Não era como se desafiasse Darius. Nunca faria isso. Ninguém se atreveria. Só que sempre terminava metida em problemas. Por exemplo, Darius não queria que Desari vagasse sozinha, mas ela gostava da privacidade e desfrutava correndo pelo bosque, sulcando os céus ou nadando como um peixe. A vida borbulhava com infinitas oportunidades de aventura, e Desari queria provar todas.

Darius, entretanto, acreditava que os vampiros poderiam estar espreitando em todas partes, esperando levar às mulheres.

Desari fechou a ferida na mão de Syndil, cuidando de não deixar marca, depois, gentilmente empurrou o próprio braço para longe de seu irmão, fechando a laceração com agente curador de sua saliva.

- Crê que parece melhor, Syndil? - Darius estava no profundo sono de sua gente, seu coração e pulmões detidos.

- Sua cor não é tão cinza, agora. Devemos ir com ele para a terra, onde tenhamos a oportunidade de cura. Aonde enviou Barack e Dayan?

- Não sei. - Admitiu Desari. - Estava inconsciente.

- Em todo caso, você precisa ir a terra, para se curar também. Arrumarei-me com as perguntas da polícia. Direi-lhes que Darius manteve voce e à banda fora de perigo, que todos estão feridos, mas que o ataque contra sua vida não teve êxito.

- Eles vão querer saber onde fomos tratados. - Objetou Desari. Estava muito cansada, e a inquietação crescia nela. Sentia-se inquieta e infeliz, perto das lágrimas, algo incrível nela.

- Posso implantar lembranças tão bem como qualquer um de voces. - Disse Syndil firmemente. - Posso preferir a solidão, mas te asseguro, Desari, que sou tão capaz como você.

Desari acariciou novamente, os longos cabelos de seu irmão. Os fios sedosos caíam além dos ombros largos, numa brilhante cascata que lembrava à sua própria. Darius sempre parecera duro e implacável quando estava consciente, com um golpe de crueldade nessa boca cinzelada. Embora tudo desaparecia quando estava dormido. Parecia jovem e bonito, sem as tremendas responsabilidades que sempre levava sobre os ombros quando estava consciente.

- Eu não gosto de dormir tão perto dos mortais, especialmente quando estamos sendo caçados. - Disse Desari brandamente. - Não é seguro.

- Estou segura de que Darius levou ao Barack e Dayan aos bosques para assegurar sua segurança. Faremos o mesmo com o Darius. Desari, ele pode estar ferido e cansado, mas é engennhoso e atento, além de nossa imaginação. Pode ouvi e sentir, mesmo quando está dormindo o sono de nossa gente.

- O que quer dizer?

Syndil empurrou a espessa trança que caía sobre seu ombro.

- A noite que Savon me atacou, Darius estava profundamente na terra, se curando de uma ferida. O resto de voces estavam longe, caçando, e eu havia ficado para vigiar seu descanso. Savon me chamou para que me encontrasse com ele em uma caverna para ver uma estranha planta que tinha encontrado. – Ela inclinou a cabeça. - Fui. Deveria ter ficado vigiando Darius, mas fui à chamada do Savon. Gritei para que voces me ajudassem, embora estavam muito longe para chegar a tempo. Mas Darius me ouviu. Mesmo estando no interior da terra, no sono curador de nossa gente, ouviu-me e soube o que acontecia. Mesmo ferido, levantou-se e veio me salvar.

- Darius te ouviu enquanto dormia? - Desari, como os outros, achavam que Darius se levantou enquanto eles caçavam. Quando ela, Dayan e Barack haviam retornado, Darius já tinha destruído Savon e tinha curado as terríveis feridas de Syndil, embora estivesse fraco pela perda de sangue.

Syndil assentiu solenemente.

- Ele veio, quando eu acreditava que já não havia esperanças para mim. – Syndil inclinou a cabeça, sua voz era suave, estava cheia de lágrimas. - Senti-me tão envergonhada por não poder controlar minha pena e aliviar sua dor. Ele sentia-se culpado. Sentia que havia falhado.

Desari deitou sua cabeça, protetoramente, sobre o peito de seu irmão. Sabia que Syndil tinha razão só pela metade. Darius acreditava que tinha falhado com Syndil, mas não se sentia culpado. Não sentia nada, absolutamente. Ele ocultava a perda de suas emoções a todos eles, mas Desari estava muito perto dele, era bem consciente disso e era há algum tempo. Era sua intensa lealdade e sentido de dever, o que mantinha Darius lutando por eles. Não eram os sentimentos.

Sabia que Darius temia pela segurança dos outros, se convertesse, como Savon. Ela estava segura, como ele, de que nem Barack nem Dayan, podiam lhe derrotar na luta. Duvidava que, nem suas forças combinadas pudessem fazê-lo. Acreditava que Darius era invencível. Ele não podia converter-se. Para ela, era simples. Apesar da escuridão nele estar crescendo, estendendo-se, apesar de sua falta de sentimentos, nunca se permitiria converter-se. Sua vontade era muito forte. Darius havia demonstrado desde o começo. Nada podia desviá-lo do caminho, uma vez escolhida a opção.

A menos, que se permitisse ser honradamente assassinado. Essa era a primeira preocupação de Desari, seu mais profundo temor. Estava assustada por todos eles. Os homens dos Cárpatos tinham uma natureza completamente diferente das mulheres. Eram predadores perigosos e poderosos, quando protegiam às mulheres e mortais. Eram dominadores, arrogantes e verdadeiramente perigosos, se convertessem. Não estava na natureza de Syndil, acalorar-se sob o constrangimento dos homens ou rebelar-se contra eles. Desari só fazia o que queria e mandava ao diabo as conseqüências, o que só servia para fazer os homens mais dominantes e protetores. Estariam todos eles, em grave perigo, se Darius morresse ou se convertesse em vampiro.

- Terá que conduzir o ônibus, Syndil. - Instruiu Desari. - Eu guardarei a retaguarda para assegurar que não nos seguem.

Syndil desejou poder conduzir o enorme veículo e também lançar uma ilusão sobre ele para escondê-lo o dos mortais, mas era impossível para ela. Teria que deixar Desari, mesmo em seu fraco estado, colocasse tantos bloqueios como fosse possível para que ninguém pudesse segui-los. Estavam evidentemente em perigo devido a algum grupo assassino de humanos.

- Vamos, Syndil. - Disse Desari, abrindo passo para a parte de atrás do ônibus.

Quem havia lhe salvado a vida? Perguntava-se. Por que o tinha feito? Darius dizia que não podia detectar maldade, ou sangue corrupto nela, e ele devia saber. Tinha caçado e matado aos não-mortos com bastante freqüência ao longo dos séculos. Conhecia melhor que ninguém, o mau cheiro do sangue corrupto. Dizia que queimava a pele, levantava bolhas e abria passo através da carne, se o contato se prolongava muito. Darius tinha aprendido essa importante lição como tinha aprendido todo o resto. Pelo caminho mais difícil.

Desari se ajoelhou sobre a cama na parte de atrás do ônibus e olhou para fora, para a cena de caos. As ambulâncias e os carros da polícia estava afastando-se, a multidão começava a dispersar. Não tinha pensado em perguntar a Darius, se algum de seus atacantes tinha escapado. Conhecendo Darius, duvidava, mas ele podia ter só preocupado por ela, Barack e Dayan, que havia permitido que algum dos culpados escapasse de seu particular estigma de justiça.

Syndil conduziu o ônibus com surpreendente habilidade e Desari manteve os olhos atrás deles, vigiando que nada deixasse rastro do veículo. Súbitamente tinha o coração na garganta, batendo-lhe o peito, com alarme. Por alguma razão não queria deixar o bar. Sentia como se estivesse deixando, para trás, seu destino. Precisava estar onde ele pudesse encontrá-la. Ele?

Desari ofegou e se afundou na cama.

- O que? - Exigiu Syndil, olhando pelo espelho retrovisor. Podia ouvir o os batimentos do coração de Desari, que subitamente ofegou de alarme. O sangue corria por suas veias muito rápido. Syndil não podia ver ninguém atrás deles. - O que é, Desari? - Repetiu.

- Não posso deixar este lugar. - Disse Desari, tristemente, com pena em seu coração. Pressionou as mãos sobre suas têmporas latentes. - Me deixe sair, Syndil. Devo ficar aqui.

- Respire, Desari. Respire e pense. Se te acontecer algo, podemos nos arrumar. - Assegurou-lhe Syndil, apertando com mais força o pedal do acelerador. Não estava disposta a deixar Desari em nenhum lugar de semelhante condição.

- Desari? - O débil estremecimento em sua mente era de Darius. Reconheceu seu toque, a arrogância natural de sua voz. – Precisa de mim?

- Não posso me afastar dele. A criatura que me deu sangue nos ligou juntos de alguma forma. Darius, estou assustada.

- Syndil te deu um bom conselho. Mantenha a calma e pense. Respire. É poderosa. Possivelmente mais que esta criatura que está tentando te pegar. Use esse poder agora. Se temer lhe deixar, não o faça. Ele voltará para você, novamente. E desta vez, estarei esperando.

- Há um terrível vazio em mim. Não posso suportar me afastar dele. Ele está me chamando.

- Ouve-lhe? A voz de Darius em sua mente era forte. Havia captado seu interesse, apesar de sua necessidade de descansar e se curar. - Ouve sua voz?

Desari sacudiu a cabeça, esquecendo por um momento que seu irmão não podia vê-la. Tinha os braços cruzados sobre o estômago, e se balançava para diante e para trás, a fim de se confortar. O tamborilar de seu corpo era quase tão doloroso como a dor de sua alma.

- Não, não é isso. Só uma terrível sensação de ser rasgada. Ele é forte, Darius. Nunca me deixará partir. Nunca.

- Liberarei-te desta criatura, Desari.

De novo ela sacudiu a cabeça.

- Não acredito que possa, Darius.

- Não te falharei.

Desari apertou o dorso da mão contra a boca tremente.

- Não pode. – Sussurrou ela, em voz alta. - Se o matar, me levará com ele quando se for.

Syndil ofegou, com sua acuidade de ouvido tinha captado a voz e sentiu a pena de Desari. Sabia que Darius estava comunicando-se em privado com sua irmã, em meio a seu profundo sono. Darius era forte até nos piores momentos.

- Diga-lhe Desari. Diga a Darius, se realmente crê. Sabe que ninguém pode derrotar Darius. É impossível. Se o que diz é verdade, ele deve saber.

- Não pode me ajudar desta vez. Ninguém pode. - Disse Desari.

Syndil chamou Darius no interior de sua própria mente, algo que não havia feito desde o violento ataque que havia sofrido. - Desari acredita que se você matar a criatura, ele a levará com ele deste mundo. E acredito que se pensar que pode fazer tal coisa, você está em perigo.

Houve um curto silêncio, depois Darius suspirou brandamente. - Não se preocupe, irmãzinha. Pensarei no que disse e não me moverei muito rapidamente. Possivelmente precisamos aprender mais a respeito desta criatura.

Enrodilhada na cama, Desari se separou dos outros. A cada milha que se afastava do bar, o medo opressivo parecia aumentar. Podia sentir a transpiração em sua testa. Respirava em curtos e incômodos fôlegos. Tinha que o encontrar. Tinha que estar perto dele. De algum modo, ele havia roubado a outra metade de sua alma.

Desari mordeu com força o lábio inferior, agradecendo à dor que a ajudava a centrar-se. Fechou os olhos e procurou o interior de seu corpo. Não podia encontrar o cheiro do mal. Encontrou seu coração completo e forte. Encontrou sua alma completa. Mas já não era só Desari. Um estranho morava dentro dela. Um estranho que era de algum modo muito familiar, mais familiar que sua família.

Passada a primeira surpresa, estudou a evidência de seu trabalho. Era forte e poderoso. Crédulo em si mesmo e arrogante. Muito sábio. E queria tê-la. Podia sentir sua profunda resolução. Ninguém lhe separaria de seu caminho. Nada o deteria. Nunca a deixaria. E estava morando profundamente dentro dela... Uma escura sombra.

Desari engoliu o medo que a estrangulava. Por que estava tão assustada com o homem desconhecido? Ela não precisava de poder próprio. Ninguém podia obrigá-la a fazer o que não queria. Nem Darius permitiria, nunca. E tinha Barack e Dayan para apoiá-la. Até Syndil lutaria por ela se fosse necessário. Por que estava tão assustada?

Porque havia uma excitação nela, que não desejava sequer admitir a si mesma? Sentia-se intrigada com o estranho, atraída para ele. Seu corpo o desejava, e sequer havia posto os olhos nele. Como podia ele, ter forjado semelhante vínculo?

Não queria que Darius o fizesse mal. A idéia chegou inesperadamente e raiava a bordo da deslealdade. Não deveria pensar tais coisas. Desari esfregou a testa com as mãos. Quem quer que fosse ele, viria por ela e ela teria que decidir que fazer. Não podia deixar a sua família.

Especialmente agora, quando Darius estava passando momentos duros, lutando contra sua própria escuridão.

- Oh, Deus. - Murmurou em voz alta. - No que estou pensando?

- Dói-te?

A cabeça de Desari se elevou de repente, e olhou o interior do ônibus, cautelosamente. A voz era clara, arrogante, um ronronar aveludado. Não era Darius. Sua garganta se fechou convulsivamente, tornando quase impossível respirar. Sentiu a força, o toque de um homem. Seu coração pulsava firmemente, seus pulmões trabalhavam com facilidade, regulando a respiração dela como se fossem um só. A voz era formosa, e alcançava sua alma. Embora estivesse usando um vínculo mental que não era familiar para ela. A experiência a enervou.

- Não...- Provou o vínculo que ele estava usando.

Ouviu uma suave risada zombadora. - Não acredito que o faça, piccola. Responda-me. Dói-te?

Desari olhou ao redor, com olhos culpados. Syndil estava ocupada manobrando o enorme ônibus, baixando uma tortuosa estrada que conduzia a uma áera arborizada. Desari se sentia como se estivesse falando com o diabo, permitindo que ele pudesse acessar sua família e qualquer lugar através dela. Mas não podia deixar de sentir excitação.

- É obvio que me dói. Tomei um tiro. Quem é voce?

- Sabe quem sou.

Ela sacudiu a cabeça, sua longa massa de cabelos negros azulado voou em todas direções, captando a atenção de Syndil.

- Está bem, Desari? - Perguntou Syndil, com uma nota de preocupação na voz.

- Sim, não se preocupe. - Desari respondeu.

Sentiu o toque dele, as palmas de suas mãos, lhe roçando a face. – Está amedrontada. Tem medo de mim.

- Não temo a ninguém.

Ela ouviu ele sorrir e lhe deu vontade de estrangulá-lo.

- O que é O Escuro para voce? Perguntou-lhe ele. Não havia mais, diversão na pergunta. Era uma imperiosa ordem para que ela o respondesse. Inclusive, ele a empurrou numa compulsão.

Furiosa, Desari cortou o contato. Pensava que ela era uma simples mortal que poderia dominar facilmente? Como se atrevia? Ela era de uma linha de sangue antigo e poderoso. Merecia respeito. Ninguém, nem sequer seu irmão, o líder de sua família, tratava-a com semelhante desdém. Tomando fôlego, Desari se acalmou. Dois podiam jogar este jogo. Ela também podia rastrear ele. Tinha seu sangue nas veias. Se ele podia encontrá-la e tentar "empurrá-la", ela podia fazer o mesmo.

Desari ficou muito quieta, permitindo que sua mente se convertesse num tranqüilo lago. Tomou seu tempo, procurar cada caminho, mas encontrou um que podia conduzi-la ao estranho.

- Quem é voce? Empurrou a mente dele e empregou uma boa e dura compulsão.

Fez-se silêncio. Depois, a exasperante risada dele. – Você é como seu guardião. Cárpato, não mortal. Temos muito que aprender um com o outro. É dos Cárpatos, embora diferente.

- Você não tomou meu sangue. Como é que pode me rastrear? - Apesar de tudo, Desari estava impressionada. Sabia que Darius poderia fazer tal coisa, mas Barack e Dayan, já não podiam. Tampouco ela. Ainda. Mas sempre tentara aprender com seu irmão.

- Compreende, cara. Você agora, me pertence.

- Só se eu assim desejar. - corrigiu-lhe ela, zangada novamente. Sua arrogância a deixava atônita.

O ônibus estremeceu e parou. Syndil voltou para seu assento.

- Este é um bom lugar para nos esconder, Desari. Pode me ajudar a levar Darius para a terra?

A cor deslizou pelo pescoço e a face de Desari e ela evitou o olhar de Syndil. Não queria que ninguém soubesse o que estava fazendo.

- Sim. Sinto-me muito mais forte agora, graças a voce, Syndil. - Respondeu.

- Que pequena mentirosa você é. - Informou-lhe a zombadora voz masculina.

- Se afaste de mim.

- Deseja-me. - Sua voz foi uma carícia pronunciada com lentidão.

- Isso é o que você quer. - Desari se obrigou a ficar em pé e cambaleou corredor abaixo, para junto de seu irmão.

Desari e Syndil concentraram sua atenção em Darius e o levantaram, usando só o poder de suas mentes. Os leopardos se aproximaram, tentando comprovar por si mesmos que Darius estava bem. Sem advertência, a força de Desari aumentou. Sobressaltada, ela olhou para Syndil. Mas sabia que era o estranho que lhe emprestava seu poder.

- Afaste-se. Simplesmente, se afaste.

Desari tropeçou no último degrau, mas se recuperou. O corpo de Darius não vacilou muito.

- Está o levando você sozinha. - Disse Syndil admirada.

- Feri-lhe.

As palavras foram pronunciadas com uma profunda satisfação, mas o estranho continuou dando a Desari, a força necessária para impedir que Darius caísse a terra.

Ela se negou a reconhecer sua declaração. Zangada consigo mesma por sua deslealdade, inclusive por desejar conversar com o estranho, Desari ondeou uma mão para abrir a terra para o corpo de seu irmão. Sabia que o estranho estava morando nela, mas era totalmente consciente de seu próprio poder. Ele não poderia ler o que ela não quisesse que soubesse enquanto permanecesse alerta a sua invasão.

Darius flutuou ao interior da terra. A terra curadora se verteu sobre seu corpo. Sasha, o leopardo fêmea, deitou-se no alto do montículo.

Desari abriu a terra junto a seu irmão e entrou agradecida na consoladora tranqüilidade que a natureza lhe oferecia para curar seu corpo e mente.

- Dorme bem, irmãzinha. - Sussurrou Syndil. - Não tenha medo. Cuidarei de todos os detalhes antes de procurar descanso esta noite. Vá, Desari e permaneça a salvo.

- Cuide-se, Syndil. Pode haver mais assassinos. - Advertiu-lhe Desari. Depois, fechou os olhos e permitiu que a terra a envolvesse.

A última coisa que sentiu enquanto fechava seu corpo, foi uma mão masculina roçando sua face, numa lenta carícia que derretia seu coração. A última coisa que ouviu antes que seu coração deixasse de pulsar foi sua voz.

- Velarei por ti, piccola. Sempre estarei perto se precisar.

 

A segurança era forte no seguinte concerto do grupo. A polícia e pessoal de segurança estavam visíveis por toda parte. Ninguém teria a mínima oportunidade desta vez. Tratavam Desari, como se ele fosse um esouro nacional. Cada entrada estava firmemente protegida e cada pessoa era comprovada com um detector de metais antes de ser admitida. Os cães vagavam pelos corredores com seus adestradores, e Darius fiscalizava tudo. Não ia permitir que os assassinos tivessem uma segunda oportunidade com sua irmã.

A polícia tinha procurado os suspeitos do intento assassinato da semana passada, mas não puderam encontrar nem rastro deles. Uma boa quantidade de sangue tinha sido descoberta, perto do bar, mas não havia corpos. A polícia estava segura que ao menos um suspeito havia morrido e seus companheiros tinham movido o corpo, mas Darius estava mais bem informado. Tinha matado a todos os assassinos e os tinha deixado bem à vista para que qualquer que os tivesse enviado os descobrisse. Alguém havia interferido e ele suspeitava quem tinha sido.

Darius examinava continuamente a multidão, seus olhos negros se moviam inquietos sobre as pessoas que se apinhava na entrada do edifício. Além dos assassinos pelos quais, tinha que preocupar. Sabia que a criatura viria esta noite. Desari não lhe havia dito nada, mas estava inquieta e emocionalmente instável, completamente incomum nela. Várias vezes, se estendeu para tocar sua mente, só para encontrá-la fechada para ele. Poderia ter empurrado para transpassar a barreira com certo esforço, mas respeitava seu direito à privacidade.

Julian, vestido com uns jeans azuis descoloridos e uma camiseta negra sem mangas, abriu passo entre a multidão, para as portas. Descobriu o guarda de segurança de Desari instantaneamente e tomou alguns minutos para estudar-lhe. Mais que nunca, o homem recordava Gregori. Era alto, como tendiam a ser os Cárpatos, mas tinha mais músculos que a maioria dos homens de sua raça. Gregori era musculoso também. A face do guarda-costas era uma cinzelada máscara de áspera beleza, que recordava muito o curador, mas seus olhos eram gelo negro, onde os do Gregori eram prateados.

Seus olhos brilhavam ameaçadores e pareciam não perder nada enquanto se moviam sobre a multidão. Julian não desejava chamar a atenção sobre sua presença usando nenhuma classe de poder. O guarda-costas já o havia descoberto. Esses olhos negros e sem alma descansavam pensativamente nele enquanto se movia, aproximando-se mais da entrada. Julian se assegurou de que seus patrões cerebrais fossem os mesmos de um mortal. Um sorriso de diversão tocou sua boca. Era como um jogo de xadrez. Os pensamentos que apresentou a uma sonda mental foram os de qualquer homem humano que fosse ver uma formosa e sexy cantora.

Sentiu a presença em sua mente, o impulso afiado, a rápida exploração, depois o alívio. Julian quase riu em voz alta, mas manteve sua fece como uma máscara. O ligeiro e decisivo toque lembrou-lhe Gregori. Quem quer que fosse o guarda-costas, Julian estava seguro que devia ser um aparentado do curador, que todos os Cárpatos se referiam como O Escuro. O guarda-costas tinha que ser da mesma linha de sangue. O enigma o intrigava. A presença do homem lhe irritava. Não queria nenhum homem dos Cárpatos perto de Desari até que o círculo do ritual de emparelhamento se completasse.

A sonda chegou de novo, um direto e poderoso empurrão em sua mente. A atitude era parecida com a do Escuro, Julian estava atônito. O guarda-costas não se estava engolindo sua inocente atuação. Julian manteve sua mente no patrão humano, evidenciando antecipação e o inofensivo desejo erótico. Era irritante permitir alguém em sua mente, mas lembrou-se que o intruso estava recolhendo só o que ele estava transmitindo, deliberadamente.

Julian evitou olhar para o homem. Ele era muito preparado. Após duas sondas mentais para assegurar-se, notava-lhe o poder. Julian era suspeito, e o guarda-costas era o suficientemente intuitivo para manter-se atrás dele. Julian sentia o peso dos olhos ardentes. Este homem tinha autêntico poder. Tinha que ser um dos antigos, com o sangue e a força de séculos de aprendizagem. Julian desejou estar em posição de lhe provar, mas era indispensável parecer humano até que soubesse mais. Uma vez que estivera por séculos procurando, aceitando sua solitária existência, enquanto explorava a terra em busca dos restos de sua raça. Agora, quando havia quase terminado sua vida, encontrava um grupo de sua gente. Os místicos perdidos? Deviam ser eles.

Mas Desari lhe pertencia. E se o outro homem pensava de outra maneira, estava a favor de o dispensar uma dura lição. Julian entrou no edifício e se afastou dos negros olhos. Só então notou, que estava excitado. Gostava dos desafios. Sempre tinha procurado conhecimento. E podia sentir o poder e a força que tinha acumulado enquanto procurava informação e conhecimentos de toda classe. A luta com este outro homem poderoso podia ser bastante interessante.

Moveu-se com facilidade, através da multidão senguindo em frente. Em lugar de sentar-se, ficou em pé ao longo da parede perto de uma saída. Inalando, farejou a presença de dois gatos da selva, os mesmos haviam trabalhado em equipe, com a enorme pantera negra. Agora Julian estava seguro de que o guarda-costas tinha mudado sua forma, para a do grande predador. Embora o guarda não mostrava evidência de das feridas, Julian sabia que havia as inflingido. Ainda, estava seguro de que o homem era a pantera que dirigira os outros, no ataque a ele.

Desari. Encontrou-se sonrrindo. Seu breve intercâmbio mental tinha sido uma revelação. Ela era uma mulher dos Cárpatos! Como ela havia conseguido correr pelo mundo sem ser detectada ainda era um mistério. Havia mais pessoas de sua raça, e ele os tinha encontrado! Sempre se perguntara se alguma das crianças havia escapado da invasão turca e se perdera. Em nome de sua raça, da urgência de Gregori e Mikhail, Julian os havia procurado, particularmente às mulheres, com a esperança de procurar uma forma de salvar sua gente.

E tinha encontrado Desari, sua própria companheira, quando estava procurando companheiras para outros. E que temperamento, o desta mulher. Encontrou-se rindo em voz alta, recordando o "empurrão" em sua mente. Era muito mais forte do que tinha esperado. Ela fizera uma vazia e erma existência se tornar cheia de excitação, num abrir e fechar de olhos.

O humor da multidão era quase elétrico, o ar estava tenso de antecipação. As apresentações de Desari estavam sempre lotadas. Não importava onde ela tocasse, se era num pequeno botequim ou um enorme estádio. E com a publicidade que tece o recente atentado contra sua vida, ela ficara mais célebre. Os repórteres, também, eram muitos.

Julian ouviu as conversas na área, abatendo-se sobre ele, procurando sussurros de conspiração. Conhecia a natureza fanática da sociedade humana de caçadores de vampiros. Desari era agora uma mulher marcada. Não se deteriam com um ataque. Mas Julian estava bastante seguro de que a sociedade precisaria de tempo para recuperar-se do enorme golpe que havia recebido recentemente. Preocupava-lhe mais, a ameaça dos vampiros. A presença de uma mulher dos Cárpatos certamente atrairia às criaturas. E sua segurança era agora, de suprema importância para ele.

Sem advertência, uma intensa necessidade de sair o atacou. A sensação, de um escuro e opressivo temor, golpeou-lhe e durante um momento, não que pôde respirar. Furioso por haver se mostrado vulnerável, a semelhante ataque, por parte do guarda-costas, permitiu-se cair contra a parede, com a palma da mão pressionada contra sua testa, num gesto de angústia, enquanto cuidadosamente ficava em guarda.

Então reconheceu. O toque era feminino, não masculino. Desari. Opôs-se à compulsão de sair que o sobressaltava. Recuperou forças e esperou. Ela estava num dos camarins, sentada em um tamborete. Julian inalou sua essência, tomando-a em seu corpo. Ela estava nervosa. Não por sua atuação, mas sim porque sabia que ele estava ali. Tinha medo do que ele pudesse fazer.

Julian sorriu, seus dentes brancos brilharam como os de um predador. Alimentou um pouco seu medo. Não muito, só um simples e gentil toque de atenção. Ele estava ali. Era forte. Invencível. Nada, ninguém poderia o deter. Não tinha nenhuma possibilidade de se afastar.

A mão direita de Desari foi até a garganta, num gesto de amparo. Sabia que o estranho estava perto. Esperando. Observando. Podia sentir o peso de sua presença. Podia sentir a inquietação de Darius. Tinha medo. O que iria fazer o estranho? Não poderia suportar se Darius e ele se enredassem em outra luta. Uns dos dois morreriam. O estranho era forte e poderia matar ao Darius.

Sua cabeça se elevou bruscamente, a fúria a tomava. Ninguém podia derrotar Darius! Esse descarado. Estava amplificando seus medos, sua agitação.

- Pare!

A irritante e zombeteira risada masculina ressonou em sua mente.        - Você merece. Se quer jogar, minha cara, estou mais que disposto.

- Não o quero aqui.

- Sei que quer. – opôs-se Julian com calma. - Estou em voce. Sinto sua excitação ante minha presença. A mesma excitação está em mim.

- Sente minha agitação. Tenho um trabalho a fazer. Sua presença é afrontosa.

- Só porque tem medo de nosso futuro... Sabe que está comigo. Uma grande mudança na vida pode ser atemorizante. Mas não posso fazer outra coisa, que te fazer feliz.

Desari se prendeu a isto. - Faria-me feliz se abandonasse este lugar. Não quero que você e Darius lutem.

- O primeiro é uma mentira, cara. Parece ser capaz de proferir falsidades com facilidade. Mas respeitarei o segundo. Evitarei uma confrontação com seu guardião se for possível.

- Não entende.- Desari estava começando a sentir-se desesperada. Tinha que encontrar uma forma de o fazer sair. Não atrevia a se arriscar com sua presença, se o que ele havia dito, fosse verdade e que secretamente desejava. Nunca havia se sentido tão viva. Cada célula de seu corpo era como sua música, selvagem e livre, voando. Não o entendia, mas ele era lhe exasperava. E ele sabia.

- Entendo, piccola.

Sua voz era terna, quase acariciadora. Deslizava-se sob sua pele, produzindo um inesperado calor no sangue. - Confia em mim.

Desari estava batalhando com emoções pouco familiares. Em todos seus séculos de existência, nunca havia sentido tão eletrizante química. Na verdade, temia que nada a fizesse sentir os desejos eróticos sobre os que havia lido e ouvido falar durante tantos séculos. Seu corpo havia estado frio e sem responder a nenhuma sensação, até agora. Nunca tinha colocado os olhos sobre o estranho, embora ele facilmente evocava essa reação.

- Não te conheço. Como posso confiar em ti?

- Conhece-me.

Ele disse voz arrogante e ao mesmo tempo, suave. Um fato estabelecido. Simples. Fácil.

Uma forte batida na porta de seu camarim irritou seus nervos. Nunca antes, havia falhado em ser consciente da presença dos outros. Levantou-se e alisou a seda que se colava a cada uma de suas curvas. Deslizou uma mão por seu flanco, chegava quase a seus quadris e se movia com vida própria. Pela primeira vez em sua vida, importava-se em ter bom aspecto.

- Desari! Vamos! Mova-se! - Barack golpeou o punho contra a porta pela segunda vez. - A multidão está começando a se inquietar.

Tomando fôlego, ela saiu para o vestíbulo. O braço de Barack deslizou instantaneamente ao redor de seus ombros.

- Que estava fazendo aí? - Olhou ao redor, depois inclinou a cabeça para a dela. - Não tem medo, tem? Desta vez estamos todos em alerta, inclusive os gatos. Esses assassinos não terão uma segunda oportunidade com voce.

- Sei. - A voz de Desari saiu baixa e rouca. - Estarei bem, Barack. Por favor, não diga nada a Darius. Já está bastante inquieto.

- Não se equivoque com Darius. Não teme que voltem os assassinos. Pensa que a outra criatura voltará para aqui esta noite. - Barack acompanhou suas largas passadas com as dela enquanto avançavam pelo vestíbulo, para a entrada do cenário. Dayan deu um passo para colocar-se do outro lado dela.

- Darius destruirá esta criatura.

Os olhos escuros dela, suaves como os de uma pomba, escureceram-se como opalas negras.

- Por que insistem em se referir a ele como a criatura? Vocês estão tão intolerantes como os mortais? Só porque que não o conhecemos devemos o odiar? O rechaçar? Ele salvou minha vida. Isso deveria contar alguma coisa. Ou prefeririam que eu tivesse morrido?

Dayan a pegou pelo braço.

- Irmãzinha, não precisa defender essa criatura.

Instantaneamente ouviu um suave grunhido de advertência em sua mente. O estranho não estava gostando com que outro homem a tocasse. Agora todos estavam lhe enchendo!

Desari liberou seu braço, jogando a Dayan um olhar de puro desdém, e deslizou para o cenário. O rugido da multidão foi tremendo, encheu a cúpula e estalou no ar. Ela sorriu, seu olhar vagava sobre a massa que se levantava de seus assentos para render comemoração a sua voz, a sua música. Mas ela procurava um homem. Só um.

Infalivelmente o encontrou, seu olhar se fixou nele e seu coração permaneceu imóvel. Durante um momento não pôde respirar enquanto seus olhos escuros se encontravam com os dourados. Ele estava de pé contra uma parede, nas sombras, mas sua face era uma criação de sensual beleza. Seu olhar era cálido e ardia de posse. A boca de Desari ficou seca, e seu corpo pareceu prender-se em chamas.

- Não me olhe assim!

As palavras se formaram em sua mente através do vínculo mental privado antes que pudesse se censurar.

- Não posso evitar olhar a minha companheira. - respondeu ele. - É tão formosa, que me tira o fôlego.

A forma em que ele disse, a forma em que sua voz roçou seu coração, trouxe súbitas lágrimas a seus olhos.

Ele era intenso, sua voz sincera e faminta.

Toda ela o respondia. Quase perdeu sua entrada quando Dayan e Barack tocaram as notas para que começasse a canção. Então cantou para ele. A ele. Cada nota, uma mistura de mistério e magia.

E cada nota se entranhou nos poros de Julian, tomando sua alma. Desari era incrível. Cativava à audiência inteira. A sala estava silenciosa, nem sequer o ruído de pés interrompia a canção. A multidão podia sentir cada nota separada, vê-la reluzir como uma chama dançando no ar. Cheiravam o mar que ela cantava, sentiam o movimento das ondas. Produzia lágrimas em seus olhos, paz em seus corações. Julian não podia afastar seus olhos dela. Estava hipnotizado por ela, completamente escravizado. Encontrou-se dolorosamente esperto e surpreendentemente orgulhoso.

O olhar negro de Darius se desviava freqüentemente para homem apoiado com enganosa preguiça contra a parede mais afastada. Era alto e bonito. O poder gotejava dele, irradiando a seu redor. No momento em que seus estranhos olhos fundidos se fixaram em Desari, sua atenção pareceu consumida pela atuação. Mas Darius não se deixou enganar. Este era um predador. Não necessariamente perverso, mas tinha vindo ali para caçar. E sua presa era Desari. Havia uma linha dura em sua boca, uma afiada possissividade refletida nas profundezas dos olhos ardentes. Darius sabia que este homem era um perigoso adversário.

Os olhos de Julian nem uma vez se separaram da face de Desari. Era a mulher mais bela que havia visto. Sobre o cenário, na neblina da teatral névoa e dos refletores, ela parecia etérea, mística. Uma mulher de sonhos eróticos, de fantasias.

Seu corpo estava completamente imóvel, quase formava parte da parede atrás dele, como se ela houvesse de algum modo absorvido cada grama de sua energia.

Darius se aproximou mais, ocultando sua presença como costumava a fazer. Aproximou-se furtivamente com o avanço silencioso do leopardo, contando com que a atenção do estranho estaria captada pelo feitiço que Desari tecia sobre sua audiência. Estava a menos de quatro filas de seu destino quando um suave grunhido de advertência o deteve em seu lugar. Sabia que ninguém mais tinha ouvido esse baixo retumbar. Estava dirigido a ele. O estranho não tinha trocado de posição, não havia afastado os olhos de cenário, longe de Desari, mas Darius súbitamente soube que toda a atenção do estranho estava centrada nele.

Sobre o cenário, Desari vacilou, perdendo duas linhas de sua canção. Seu coração pulsava na garganta.

- OH, Deus, por favor, não me faça isto. - O terror estava em sua voz, preocupada com ele, por ambos.

Julian voltou à cabeça deliberadamente para Darius e sorriu. Uma amostra de reluzentes dentes brancos. Endireitou-se, seu corpo fluido e flexível. Dois dedos tocaram sua testa, numa saudação simulada dirigida a Darius. Os músculos se ondearam sob a fina camiseta. Caminhou pausadamente para a saída, mostrando arrogância a cada passo. Seus olhos cor âmbar brilhavam com ameaça, até que deslizou seu olhar outra vez para Desari. Então seus olhos arderam possessivamente, atentamente, ouro fundido que convertia em líquido o coração dela.

- Por voce, minha cara.

Sua voz abriu passo através do corpo dela com o mesmo calor inflamável de seu olhar.

Desari desejava correr atrás dele. Permanecia em pé sobre o cenário e cantou para uma multidão, mas sua mente, seu coração e sua alma estavam em outra parte. Dayan e Barack a observavam atentamente, assombrados, preocupados com seu estranho comportamento. Desari nunca havia vacilado, nunca tinha perdido uma nota em todos seus longo séculos.

Darius seguiu o estranho, para fora da sala. O homem se esfumaçou, dissolvendo-se numa neblina no meio do ar noturno. Darius o sentia, sentia o poder no ar, mas não se atreveu a deixar a sua irmã e perseguir-lhe. Algo nesse o homem o fez deter-se. Olhava a Desari com algo mais que luxúria em seu olhar. Mais que posse. Olhava-a protetoramente. Darius estava quase seguro, de que o estranho não faria mal a ela. Também estava seguro de que o homem não partira por medo. Não estava assustado. Ele caminhava com a confiança nascida de muitas batalhas, muitas penalidades e enorme conhecimento.

Darius olhou para cima, para a noite. Quem quer que fosse o estranho, partiu-se por deferência aos desejos de Desari, não porque temesse lutar com ele. Darius suspirou e voltou para a sala. Não necessitava de preocupação nesse momento. Os assassinos que espreitavam Desari requeriam sua completa atenção. Preocupava-o que o intruso tivesse chegado no mesmo dia que tinham tentado matá-la. E para piorar o assunto, estava convencido de que durante algum tempo, o mais nefando de todos os inimigos espreitava sua amada irmã... O não-morto.

Desari viu voltar seu irmão. Ansiosamente estudou sua face. Era a mesma máscara de áspera beleza sensual de sempre. Não tinha visíveis feridas. Estava segura, que sentiria a perturbação, se os dois homens tivessem lutado. O canto sempre tinha fluido dela, numa formosa criação. Tão misteriosa e maravilhosa para ela como para todos outros. Agora era difícil criar, com sua mente envolta em caos, a garganta fechada, e quase perto das lágrimas.

Onde estava? Estava vivo? Estava bem? Queria gritar, fugir correndo do cenário, afastar-se dos milhares de olhos curiosos, longe de sua família que a observava tão atentamente. Por um momento, não esteve segura de que pudesse continuar o concerto.

- Cante para mim, minha cara. Adoro o som de sua voz. É um milagre. Traz-me paz e alegria quando a ouço cantar. Cante para mim.

A voz era baixa e rouca, afastando de repente, seu caos interior como se nunca hopuvesse estado ali. Sua voz flutuou livre, elevando-se para encher a sala, explorando para a noite para o encontrar. As sensações de seu corpo, a urgente paixão, a fome selvagem, o desejo de séculos tomou sua voz. Estava em chama viva, movendo-se pelo cenário como água que flui. Nada podia tocá-la. Ela não era terrestre.

Em algum lugar seu amante esperava. Com seus olhos fixos nela. Observando. Ele também ardia. Podia sentir o calor de sua pele, os olhos famintos que nunca abandonavam sua face. Tinha saído da sala, mas havia voltado porque precisava vê-la. Nada mais importava nesse momento. Nem o perigo para ele, nem para sua família, só que visse sua atuação. Cantou para ele, com a força e a intensidade de seu desejo, em cada nota. Chamas ardentes esquentavam seu sangue levando sua música a novas alturas. Alturas eróticas, susurrantes de lençóis de seda e luz de velas.

Julian não podia afastar os olhos dela. Era belíssima. Era a única? Sua companheira? Ninguém, a ser ele, merecia tal mulher. Ela tinha estendido a mão até sua alma escura e havia meio deixado algo bom nele, algo que nem sequer sabia que existia.

Em todo mundo, ninguém cantava como ela. Sua voz era hipnotizadora, escravizava, envolvia-o numa sedosa rede de paixão e o mantinha ali. O corpo de Julian reagiu de forma selvagem e primitiva. Desejava-a como nunca. Desejava que o concerto terminasse, embora também desejasse que continuasse para sempre.

As paredes da sala pareciam ter desaparecido, enquanto ela criava a ilusão de um escuro e místico bosque, com cascatas de água, profundos charcos só com sua voz. As imagens nunca abandonariam sua mente, a erótica imagem dela cantando para ele, seus braços ansiosos estendendo-se para lhe dar boas vindas.

A audiência ficou em pé, o aplauso foi estrondoso. Julian sabia que as críticas seriam delirantes. Estava orgulhoso dela, mas ao mesmo tempo se opunha a sua atuação. Tanta publicidade ia contra seus instintos. Só serviria para atrair mais atenção indeseada sobre ela. Sabia o que os repórteres escreveriam. Que era uma feiticeira, tecendo um feitiço sobre a audiência.

Desari voltou para um bis, cansada, mas excitada. Desta vez, não era porque cantara bem, que tinha compartilhado seu extraordinário dom com outros. Era porque, em algum lugar, na escuridão, um homem esperava por ela. Um estranho realmente familiar para ela. Era terrivelmente excitante. Inclinou-se ante o público e seu corpo zumbia de vida. Desejava correr para fora do cenário e unir-se a ele.

Desejava ver esses olhos, formosos e incomuns, observando-a. Olhando-a fixamente. Esses olhos que viam so a ela. Desari saudou a multidão e se apressou em deixar o palco, movendo-se para seu camarim.

Barack e Dayan passeavam a seu lado, intranqüilos por seu estranho comportamento. Ambos haviam sentido a presença do poder na sala. Quem não sentiria? Mas haviam creditado a Darius. Seguiriam a seu líder, que em não muito tempo, se ocuparia da criatura.

Desari não olhou a nenhum deles enquanto fechava firmemente a porta do camarim. Afundando-se em numa cadeira, tirou as sandálias. Podia o sentir. Em algum lugar, perto. Limpou a maquiagem e esperou, seu coração pulsava, seus pulmões mal respiravam. Sabia que ele estava perto. Darius devia saber também.

Uma fina neblina se verteu sob a porta, recolhendo-se em uma espiral perto dela. Conteve o fôlego. Instantaneamente o bonito e rude estranho reluziu até uma massa sólida a seu lado. Seu coração parou, de repente. Ele fortíssimo. Seus traços, finamente cinzelados, eram sensuais, duros. Suas incontáveis vitórias nas batalhas durante séculos se refletiam sobre seus largos ombros, na calma compostura de sua face. Era surpreendentemente bonito e intimidador ao mesmo tempo.

A língua de Desari tocou repentinamente, os lábios secos.

- Não deveria estar aqui. É muito perigoso.

O corpo dele se enrijeceu sob o som de sua voz. Era suave, parecia gotejar através de sua pele e enroscar-se em seu coração.

- Não podia fazer outra coisa esta noite. Acredito que sabe.

- Darius te destruirá se o encontrar aqui.

Ela acreditava e seu medo era visível, nos suaves olhos escuros como o carvão.

A boca dele se suavizou, seus olhos dourados se esquentaram ante a desnecessária preocupação.

- Não sou fácil de destruir. Não se preocupe, piccola, te fiz uma promessa esta noite e tenho toda a intenção de honrá-la. - Sua voz baixou, seus olhos a consumiam enquanto falava. – Venha comigo.

Ela sentiu que seu coração pulava novamente. Cada célula de seu corpo clamava por acompanhá-lo. Seu olhar tinha um calor que não podia resistir. Havia muita fome nele, com tanta intensidade, que ardia por ela. O demônio a tentava. Resolutamente sacudiu a cabeça.

- Darius...

Julian deteve suas palavras simplesmente envolvendo sua mão pequena com a dele. Seu toque enviou dardos de fogo correndo pelo braço dela e através de seu corpo, tomando a respiração de seus pulmões.

- Estou me cansando de tanto ouvir você falar desse Darius. Deveria estar mais preocupada com o que farei, se ele tentar evitar que a leve comigo.

O temperamento flamejou nos olhos dela.

- Ninguém pode me levar, onde não deseje ir. É muito mais arrogante que meu irmão. De passagem, te faço saber que ele ganhou o direito de ser. E você?

Um pequeno e satisfeito sorriso curvou a boca dele.

- Darius é seu irmão. Isso me alivia. Como o tem em tão alta estima, não desejo ter que destruir suas ilusões sobre sua grandeza.

Ela o olhou furiosa, até que captou o brilho de humor em seus olhos dourados. Ele estava brincando com ela. Desari se encontrou rindo com ele.

- Venha comigo esta noite. - Disse ele. - Daremos um passeio. Dançaremos em algum lugar. Não importa, cara, e não caçaremos a ninguém. - Sua voz era veludo negro. O sussurro de tentação de um feiticeiro. - É pedir muito? Não te permite escolher seus próprios amigos? Fazer o que deseja?

Julian tinha cuidado em sua mente, a necessidade de independência, sua constante irritação ante os refreamentos que a impunham. Embora, nenhum homem dos Cárpatos que se respeitasse a si mesmo, permitiria que uma mulher vagar desprotegida. Não culpava Darius, pois era seu dever, proteger Desari. Em seu lugar, faria o mesmo. Havia muitas perguntas sem respostas para Desari, mas agora, a única coisa que o importava era sua resposta ao que havia proposto.

Ela estava em silêncio. Suas pálpebras ocultavam as tumultuosas emoções. Desejava ir com ele, ter só uma noite de liberdade para fazer o que quisesse. Mas conhecia Darius. Nunca permitiria. Não havia nenhum lugar que pudessem, que ele não os encontrasse. E isso só servia para fazê-la desejar sair, ainda mais. Odiava que lhe dissessem, constantemente, o que devia fazer ou não. Desejava uma noite só para ela.

Desari levantou o olhar para ele.

- Nem sequer sei seu nome

Ele se inclinou com a elegância do Velho Mundo.

- Sou Julian Savage. Possivelmente conheceste ou ouviu falar de meu irmão, Aidan Savage. Ele e sua companheira residem em São Francisco. - Seus dentes brancos brilharam. Seus olhos dourados a fizeram arder.

Algo nesse intenso, possessivo e faminto olhar, fazia fraquejar os joelhos dela. Desari retrocedeu até que sentiu o corpo contra a sólida parede.

- Savage.

Ele tomou suas palavras como uma aceitação. Inclinou-se uma vez mais, numa cortês reverencia.

- Só para meus inimigos, piccola, nunca para aqueles que estão sob meu amparo.

- E supõe que devo me tranqüilizar? - Perguntou ela.

- Não tem nada que temer de mim, Desari.

A mão dele roçou sua face na mais leve das carícias. Ela sentiu uma corrente de eletricidade baixando até seus pés. Ele era muito intenso, faminto por ela. Seus olhos ardiam de desejo. Desari baixou os olhos, tentando evitar que ele a apanhasse com seu poder e desejo. Era perigoso. Podia arriscar a vida dele? Arriscar Darius por um prazer momentâneo? Havia possibilidade de que pudesse ser tão egoísta?

- Está assustada. - Disse ele com segurança. Sua voz era suave e hipnótica, formosa e consoladora. - Mais que seu temor por seu irmão ou por mim, teme o que acontecerá se formar parte de mim.

Ela respirou profundamente, notou que suas mãos tremiam e as escondeu nas costas.

- Possivelmente tem razão. Por que me arriscar tanto por tão pouco tempo?

A mão dele emoldurou seu rosto, seu polegar acariciou a suave pele, absorvendo sua perfeição antes de encontrar um lugar de descanso sobre a frenética pulsação de seu pescoço.

O coração de Desari quase se deteve. Suas palavras saíram estranguladas.

- Não pode me tocar assim.

O polegar dele moveu-se num ritmo hipnótico sobre sua pulsação.

- Não posso fazer mais que te tocar, Desari. Sou, depois de tudo, um homem dos Cárpatos. Você não pode se ver, com esse vestido, com os cabelos em volta de voce. É formosa. Dói-me olhar voce.

- Julian, por favor, não me diga essas coisas. - Sussurrou contra a palma da mão dele.

- É a verdade, cara, não tem nada que temer. Venha comigo.

Sua voz era tentação. Nunca em sua vida tinha desejado tanro. A atração entre eles era elétrica. Amaldiçoou, podia ouvir o chiado e o arqueamento de energia. Permaneceu em pé em silêncio, a mão dele contra sua pele enviava ondas de calor que se apressavam através de seu sangue. Em todos seus séculos, nunca havia experientado algo igual.

- Desari, sabe que isto é o correto. Sente. Prometo te trazer de volta, à segurança de sua família, antes que o sol se eleve. - Julian era consciente dos homens reunindo-se do outro lado da porta. Três. Eram o formidável irmão e os outros dois, os membros da banda. - Não temos muito tempo, piccola. Os outros estão a ponto de transpassar sua porta. - Ondeou uma mão, num gesto peculiar, depois a sustentou para a porta.

- Não posso.

- Então devo ficar aqui e te convencer. - Disse sem pressa, calmamente. Como se sua morte não fosse iminenten nas mãos da protetora da família dela.

Ela o segurou pelo braço.

- Deve ir antes que este conflito escale a violência. Por favor, Julian.

Ele podia ouvir o coração dela pulsando rapidamente. Inclinou a cabeça, sua boca curvando-se num genuíno sorriso.

- Venha comigo. Prometa-me que se encontrará comigo no pequeno bar que há a três quadras daqui.

Houve um sonoro estalo do outro lado da porta, e alguém... Barack amaldiçoou em voz alta. Ambos podiam ouvir Darius o repreendendo brandamente.

- Disse a você que não tocasse na porta. Tenha um pouco de respeito. - Sua voz era baixa e hipnótica. - Desari? - Não levantou a voz, mas a deixou cair, num sussurro. - Abre a porta para nós.

- Saia pela janela. - Insistiu Desari, empurrando o peito de Julian. Foi um engano lhe tocar. Instantaneamente, ele respondeu, cobrindo sua mão com a dele, colocando sua palma contra seus pesados músculos.

- Entrei pela porta, cara, e tenho intenção de sair do mesmo modo. Encontrará comigo mais tarde ou deveremos permanecer aqui?

Ela podia sentir o batimento do coração dele sob a palma de sua mão. Firme. Sólido. Sem que fosse afetado pelo fato de que ser caçado por três poderosos predadores que estavam à distância da largura de uma porta. Seu polegar acariciava o dorso da mão dela, alimentando as chamas que já assaltavam seu corpo. Desesperadamente, Desari tentou se mover.

- O que vou fazer contigo? - Exigiu.

- Se encontrará comigo. Não permita que seu irmão controle sua vida. -      Ele podia cheirar aos leopardos agora. Eles se uniram aos três homens e passeavam inquietos pelo vestíbulo.

Desari sabia também.

- De acordo. Prometo. - Capitulou ela. - Agora vá antes que ocorra algo terrível.

Ele inclinou a cabeça e roçou sua boca com os lábios. Foi o mais ligeiro dos beijos, embora ela sentiu que tocava seu coração, sua alma. Sorriu-lhe, seus olhos dourados ardiam como calor fundido. Com desejo.

- Bom, piccola, abre a porta.

Os dedos de Desari se enroscaram na camiseta dele.

- Não, não entende. Não pode sair por aí.

- Lembre-se de sua promessa, Desari. Estou a sua espera. - Julian inclinou a cabeça uma última vez para ela porque tinha que fazer. Ela cheirava. Uma brisa de ar das mais altas montanhas que tanto amava. Sua pele era mais suave que as pétalas de rosa. Seu corpo fazia demanda urgentes e inquietas. Julian as controlou, mas precisava tocá-la, sentir sua resposta, sentir nela as ardentes chamas que igualavam a tormenta de fogo nele. Porque estava ardendo.

Sua boca encontrou a dela. Ardente. Demandando. Dominando. Sua mão foi para a nuca dela, sujeitando-a perfeitamente imóvel para que pudesse explorar sua suavidade. Imediatamente ficou perdido, alimentando-se dela, com uma postura agressiva. Seus braços deslizaram até seu corpo, tão perto que era impossível dizer onde começava um e terminava o outro.

Um grunhido que retumbou fora da porta fez Desari se retorcer, o empurrando, com os olhos totalmente abertos de medo por ele.

- Por favor, por favor, vá enquanto pode.

Ele era tão belo, que durante um momento, ela não pôde respirar, não pôde pensar. Lentamente um sorriso tomou sua boca.

- Vem para mim, cara. Guardarei sua promessa. - Sua mão, lenta e relutantemente, abandonou sua nuca e se afastou.

- Desari. - Era a suave, mas exigente voz de Darius. – Você protegeu a porta contra nós. Só você está a salvo desta ameaça. Deve abrir a porta para nós. Uma vez que a toque romperá o feitiço, e nos será permitida a entrada. Faz o que te ordeno.

Desari observou a sólida forma de Julian brilhar e depois se dissolver em nada. Olhou em volta rapidamente. Ele tinha que estar em algum lugar. Seu frenético olhar procurou pelo camarim. Não havia névoa. Nada. Caminhou para a porta, sua mão se abateu sobre o trinco. Aonde ele podia ter ido? Não havia saído pela janela. Estava fechada, com as persianas arriadas.

Lentamente abriu a porta. Os ombros de seu irmão encheram a soleira. Seus traços eram escuros e implacáveis, seus olhos negros e frios.

- Onde ele está?

Barack e Dayan estavam solidamente atrás dele, cortando qualquer saída e o que era pior, os dois leopardos rondavam atrás deles, com grunhidos de advertência surgindo em suas gargantas.

Desari elevou o queixo.

- Quero que o deixem em paz. Ele salvou-me a vida.

- Este homem é mais poderoso do que crê. - Informou-a Darius brandamente. - Não sabe nada dele. - Entrou no camarim, seus olhos sondavam procurando inquietamente, sem perder-se nada. – Ele está aqui, em seu camarim. Posso sentir sua presença, seu poder. - Darius súbitamente capturou o braço de Desari e a empurrou mais perto dele, inalando com força. - Tomou seu sangue? - Deu-lhe uma pequena sacudida.

Desari sacudiu a cabeça enquanto se retorcia, tentando afastar-se de um puxão. Darius inesperadamente a soltou, amaldiçoando-se levou a mão à boca. A palma estava chamuscada. Os olhos negros continuaram examinando o camarim.

Barack e Dayan entraram, boquiabertos pelo dano infringido a Darius.

- Está aqui. Sinto muito. - Repetiu Dayan, com amargura na voz.

- Como pudeste fazer tal coisa? Ferir o Darius! - acusou Desari, perto das lágrimas. Nunca havia sido tão emocional em todos os séculos de sua existência. Era como estar numa corda bamba. A deslealdade e a culpa estavam empurrando com força e rapidez.

- Já está curando a palma de sua mão. Ele deveria saber que não deve te segurar assim. É inaceitável para mim. - A voz do Julian foi preguiçosa e confiada. Soava alegre, como se fosse tudo muito divertido, enquanto ela estava atemorizada.

- Você deveria lhe dizer onde está. - exclamou Desari, exasperada por seu tom, por sua arrogância. Os homens eram tão irritantes às vezes.

Ele não sabe onde estou. Mas se deseja, por mim, diga a seu irmão o que pensa. Dou-te minha permissão.

Desari apertou os dentes, mas um gemido de absoluto desgosto, escapou. Ele tinha sorte em haver-se disolvido, de outro modo, estaria tentada a estrangulá-lo com as suas mãos.

Darius lançou seu frio olhar sobre ela.

- Está falando contigo. O que ele diz?

- O suficiente para me fazer desejar o esbofetear. - Exclamou Desari. - Vamos, sair deste lugar.

Barack se manifestou, triunfantemente.

- É o pó do camarim. Olhem a forma em que cai, num padrão antinatural, pelo chão. - Secretamente estava orgulhoso de si mesmo por ter notado, antes que Darius ou Dayan. - Possivelmente deveríamos fazer um pouco de limpeza aqui. - Tinha sua própria palma ardendo por haver tocado a porta.

Desari empalideceu visivelmente.

- Não. Quero que o deixem em paz.

Barack deliberadamente, passeou sobre um montão de partículas de pó e, moeu-as contra o chão.

- Não pode chegar aqui e acreditar que te possui. Ele está-te enganando de alguma forma, Desari. É nosso dever te proteger de alguém assim.

Darius deixou cair um braço ao redor dos ombros de sua irmã.

- Não tema por ele, Desse. É muito inteligente para ser capturado no pó do chão. É uma tática muito óbvia. Ele colocou aí, para nos enganar. Venha, vamos. É muito pequeno, para que o vejam sobre o chão. Provavelmente só finas moléculas no ar, e impossível de destruir neste momento. – Passeou o olhar pelo aposento e pelo teto. - Eu usei tal método para escapar da detenção em umas várias ocasiões. Deixaremos este lugar. Confio em que tenha lhe dito adeus.

Desari foi com seu irmão, confiando em que não o mentiria. Dayan e Barack, só para assegurar-se, varreram o pó e o puseram sob a água até que ele se dissolveu, descendo pelo ralo. Satisfeitos por haverem se liberado da "criatura", os dois saíram para caçar seu sustento, deixando que Darius tratasse com sua voluntariosa irmã.

 

Desari saiu do ônibus, vestindo jeans azul desbotado. Sua camiseta era de algodão, com gola em V, e ajustada. Deliberadamente, não se alimentou e mantinha a fome na superfície de sua mente, sabendo que Darius poderia encontrá-la. Ele havia saído para se alimentar e ocasionalmente poderia tentar comprovar se ela estava bem.

O sermão a que a tinha submetido havia sido longo e severo. Desari se havia sentido desafiante e um pouco desesperada. Tinha prometido a Julian que se encontraria com ele, e sabia que se não aparecesse, ele viria a ela.

- Isto é muito perigoso. Buscou-lhe, enviando para fora seu exasperado desgosto. - Darius e os outros estarão me vigiando.

Houve um momento de silêncio, o suficientemente comprido, como se fosse para ela pensasse que não havia se conectado com o vínculo mental correto. Completamente imperturbável, totalmente arrogante, Julian respondeu.

- Não me provoque deliberadamente, minha cara. Admito que sou um homem ciumento. Nossos homens não foram famosos por permitir que suas mulheres se associassem com outros homens.

- Eu não te pertenço. Pertenço a mim mesma.- respondeu ela, deliberadamente provocante.

Desari suspirou enquanto abria passo, baixando a rua para o botequim onde tinha prometido encontrar-se com ele. Sacudiu a cabeça. Era ridículo. Darius podia rastreá-la à vontade. Os homens estavam além de sua compressão, depois de séculos de tentando entendê-los. Nenhum deles tinha sentido comum.

- Darius já não tem direito de governar sua vida de agora em diante, piccola. Esse é o dever de seu companheiro, não de seu irmão.

Desari se deteve imediatamente no lugar. Ele soava tão satisfeito de si, tão insolente. Presumido. Dominador e arrogante. - O que ele estava fazendo?

A risada dele ressonou em sua cabeça e a acariciou com pequenas chamas sobre sua pele.

- Você deseja vir comigo. Sabe que tem que vir comigo. Nada pode a deter. É inevitável, como a maré. Não há volta.

Seus pés se moviam por vontade própria, empurrando-a inexoravelmente para o bar. Avançou vários metros, alcançando a esquina antes de notar que estava sob compulsão. Sua voz era baixa e belamente aguda, uma mistura de noite e sedução. Estava usando só sua voz como arma, e ela, como uma simples principiante, estava respondendo. Desari se obrigou a deixar de se mover.

A risada dele foi baixa e zombeteira. - Meu desejo é mais poderoso do que pensa. E o mesmo vale para voce.

- Se o quisesse. - respondeu ela, levantando o queixo, com olhos chamejantes. - Nego-me a jogar estes jogos infantis com voce. Vá embora e não volte. Ele estava no certo, é obvio. Nunca havia se sentido desta forma antes. Cada célula de seu corpo estava ardente, pesada e dolorida, necessitando de alívio. Desejava-o. Pura e simplesmente. Mas isso era tudo. Só sexo. Sexo ardente. Absolutamente nada mais. Quem desejaria a tal presunçoso arrogante?

- Você.

Essa simples palavra foi respirada contra seu pescoço, contra a pulsação de sua garganta. Seu corpo estava súbitamente tão perto, que podia sentir o calor emanando da pele dele. Embora fosse alta, sua enorme forma parecia abater-se sobre ela. Tão perto, podia sentir seu poder, a intensidade de suas emoções. Seu olhar flutuou sobre ela com severa possessividade.

Desari permaneceu em pé perfeitamente imóvel, temendo mover-se. Havia algo nele que não era capaz de resistir. Eram seus olhos. A forma em que seus olhos ardiam como ouro fundido. Tão intensos. Tão famintos. Como podia resistir a seus olhos? Estava em sua mente e ela era a única que podia lhe proporcionar alívio. A mão dele se moveu por seu ombro para descansar em sua estreita cintura. Seu toque era possessivo. Sua mão estava queimando através do fino material de sua camiseta.

Julian exerceu uma pequena pressão, levando-a com ele enquanto se movia para o botequim.

Ela duvidava ainda, seu cérebro estava em pé de guerra contra seus instintos, suas emoções, contra a química de seu corpo. Era totalmente consciente disso, já que agora compartilhava sua mente, de que Desari era alguém com quem não se podia brincar. Ela vivia há séculos e tinha adquirido conhecimentos e força. Esta era uma situação que exigiria muita sutileza, o que não era seu ponto forte. Julian estava acostumado a fazer tudo a sua maneira e acreditava que era sua obrigação, seu direito, proteger e cuidar de sua companheira. Mas Desari não parecia seguir o costume das mulheres de sua raça, seu temperamento, dizia.

- Ouvi seu irmão referir-se a ti como Desse. Como chegou a voce semelhante nome? - Perguntou ele. Sua sincera curiosidade a acalmou.

- Faz anos que me chamo Desse. É um apelido. Darius diz que minha mãe estava acostumada me chamar assim. - Respondeu ela, movendo-se com ele automaticamente. Seu corpo estava muito perto do dela, tanto que sentia o roçar de suas coxas, seus firmes músculos entrando em breve contato com ela. Tocou a língua com os lábios, umedecendo-os, porque haviam ficado súbitamente secos. Estava intrigada pela forma em que Julian a fazia sentir-se tão consciente de si mesmo como mulher.

- Sabe o que significa Desse? - Perguntou Julian.

Desari encolheu de ombros.

- É antigo Persa. Significa, que pertence ao escuro.

Julian assentiu.

- Recorda de onde vem? Onde nasceu?

Desari se afastou dele, uma retirada sutil do calor de seu corpo. O que na realidade precisava era fugir do calor de seus olhos. Julian deslizou o braço ao redor de sua cintura e a acolheu sob seu ombro.

Ela colocou a mão sobre seu peito e o empurrou, mas a palma de sua mão se atrasou contra sua fina camisa, saboreando seu calor. Ele mexia com ela como um ímã, da mesma forma que prendia seus olhos. Baixou os olhos. Era loucura. Mas esta noite, durante umas algumas horas, seria indulgente com seus sonhos, permitiria-se, a fantasia.

A enorme forma de Julian a urgiu a entrar no pequeno botequim. A banda estava tocando algo suave, o que lhe permitiu dar uns passos e tomá-la em seus braços.

No momento em que a apertou contra si, soube que era certo. O corpo dela encaixava perfeitamente com o seu. Moviam-se no mesmo ritmo, igualando o batimento de seus corações, deslizando-se e oscilando sobre seus pés. A cabeça dela encaixava em seu ombro, o lugar adequado para sua mão era a dele.

- Não deveríamos fazer isto. - Disse Desari. Apesar de sua determinação de não permitir que ele a controlasse, não podia obrigar-se a deter a erótica dança. As coxas dele eram colunas contra as coxas dela. Ele cheirava a bosque, misterio e perigo. Ela inalou, tomando a essência de seu sangue.

A boca dele tocou seu pescoço, só uma pequena carícia, mas a sacudida enviou surpreendentes ondas através de ambos. A fome flamejou nela, ardente e erótica, não conhecia tal sensação, tão intensa. Sentiu seu fôlego sobre sua pulsação, sob a pele dela.

- Isto é exatamente o que deveríamos estar fazendo. Não tenho outra escolha, cara. Preciso te segurar em meus braços. - Seus lábios eram suaves, sua língua uma cinta de calor que acariciava o pulso dela. Seus dedos envolveram os dela, rodeando sua cintura para poder lhe segurar uma mão firmemente contra seu coração. - Tem alguma idéia de quão bele é, na realidade, Desari? - Seus dentes roçaram um gentil ritmo sobre o pulso dela, enviando chamas através dele.

Desari fechou os olhos e deixou que se alagasse o prazer puramente físico do momento. Sua pele era ardorosa e áspera contra a suavidade da dela. Podia sentir sua força, seus músculos firmes como o aço. Moveram-se juntos, num ritmo perfeito. Desejava que continuasse para sempre. Seus braços a faziam sentir-se protegida e apreciada. A fome ardente de seus olhos a fazia sentir-se desejável. Suas palavras a faziam sentir-se formosa. Mas acima de tudo, a forma em que seu corpo se movia, ardente, duro e agressivo enquanto a sustentava contra ele, fazia que seu próprio corpo voltasse para a vida, respirando chamas.

- É sua essência interior, Desari, não só o exterior, o que te faz tão formosa. - Sua língua saboreou a garganta dela, seus lábios se deslizaram para cima por seu queixo, até sua boca.

- Não há forma que possa saber se você gosta. - Protestou ela, enquanto girava sua boca cegamente para ele. Tinha que saboreá-la, tinha que saber se era real, o feitiço, a magia negra que ele havia tecido tão fortemente a seu redor.

Desari esperava uma sensação selvagem, sendo sua fome tão profunda e forte. O primeiro toque de seus lábios foi incrivelmente terno, sua boca se moveu sobre a dela, memorizando a sensação e forma dos dela, como se adorasse saboreá-la. Desarmou-se. Suas pernas amoleceram, mas ele simplesmente a apertou com firmeza contra seu corpo, protetoramente, como se a tivesse guardando em seu coração. Sua mão rodeou sua garganta amorosamente, as pontas de seus dedos moveram numa terna carícia que enviou calor e uma onda de debilidade, através de seu corpo. Ela deixou escapar um ruído, um suave gemido de alarme. Ele estava roubando sua alma, roubando seu coração com sua ternura.

Ele estava tomando-a para a eternidade e ela estava entregando-se sem lutar. Desari procurou seus cabelos dourados

Julian um predador violento e perigoso e a sustentava protetoramente, beijando-a como se fosse a mulher mais apreciada do mundo. Era como se ele precisasse saboreá-la e senti-la, tanto como respirar. Como podia não cair sob seu feitiço? Sua voz era baixa e sedutora, um murmúrio em italiano que tomava posse de seu coração, roubando-o diretamente seu corpo. O mundo estava se dissolvendo numa estranha névoa em volta dela, a terra tremeu sob seus pés. Seus corpos deslizavam com a música, as sombras os ocultavam de olhos estranhos. Desari tinha a estranha sensação de que ele estava lhe fazendo amor. Não sexo, ele estava fazendo amor com a única mulher do mundo que o importava. Tudo nela se elevou em resposta à gentileza de sua posse.

Ele aprofundou o beijo, como se estivesse alimentando-se da suavidade de sua boca. Suas mãos se estenderam pela garganta dela, seu corpo prendia o dela contra, segurando-a imóvel, enquanto colocava fogo em seu sangue e convertia seu corpo em chamas vivas.

- Vem comigo, para longe daqui. - Sussurrou, sua voz era formosa, áspera pelo desejo. Era a sedução de um feiticeiro.

Desari descansou a cabeça sobre seu ombro, confusa e vulnerável. Desejava-o e queria estar com ele. A necessidade era forte, quase como uma compulsão.

- Sequer o conheço.

Os dedos de Julian acariciaram o cabelo sedoso dela, um sorriso masculino suavizou a dura linha de sua boca.

- Insiste em acreditar nisso, Desari, mas você esteve em minha mente como eu estive na tua. Sei sobre você. Conheço-a em seu interior, porque ouço em sua voz, porque vejo claramente seu coração e sua mente. É uma pequena trapaceira, mas nunca faria mal a uma alma. É a luz de minha escuridão, minha companheira.

Sacudiu a cabeça.

- Não sei o que quer dizer.

- Sinta. Não tente negaro. - Seus polegares estavam acariciando as mechas sedosas do cabelo dela contra seus dedos. Seus ardentes olhos eram ouro fundido, vívidos pela fome, inquietos pelo desejo, ferozmente possessivos.

- O que é uma companheira? Nunca ouvi semelhante assunto.

Julian estudou seu rosto, a forma clássica da estrutura de seus ossos.

- Como é que os Cárpatos e não sabe? Temos muito que aprender, um sobre o outro. Esta noite, explicarei a você, o que é um companheiro para as pessoas de nossa terra natal. - As palmas de suas mãos passeavam pela garganta dela, depois deslizaram por seus ombros e ao longo de seus braços para entrelaçar seus dedos aos dela. - Mas estamos sendo caçados, piccola. Devemos deixar este lugar e ir a qualquer outro, onde poderemos conversar.

Ela conteve o fôlego na garganta.

- Darius? Meu irmão? Ele nos está caçando? – Ele ainda não a havia chamado, exigindo que voltasse, como esperava, quando ele notasse sua falta. Embora tivera tempo de deixar um rastro falso, que o afastasse de Julian. - Devo te deixar. Ele pode me rastrear.

Julian a empurrou para a porta do botequim e Desari se sentiu indefesa sob seu feitiço. Era uma loucura desafiar Darius. Se ele encontrasse este homem, haveria uma terrível batalha.

- Venha comigo, Desari. Não haverá uma batalha a menos que escolha ficar aqui. Tenho necessidade de falar contigo. Prometeu-me esta noite e não a liberarei de sua palavra.

Agora, eles se moviam rapidamente, saindo pela porta e entrando na escuridão da noite. O tinha havia prometido? Ele deixava-a tão distraída, que não podia se lembrar exatamente o que havia dito.

- Não há forma de derrotar Darius. Meu sangue flui em suas veias. Pode me rastrear a vontade e é muito poderoso.

Julian deslizou um braço ao redor de seus ombros.

- É verdade que representa um interessante desafio, mas podemos ganhar tempo se desejar, Desari.

Apesar de tudo, a possibilidade a intrigava. Na verdade, nunca havia saboreado a liberdade. Darius e os outros a vigiavam como se fosse uma simples principiante. Era mortificante.

- Não desejo o colocar em perigo. - Seus enormes e aveludados olhos, não se encontraram com o ardente olhar dele quando fez a admissão. Sabia que estava descobrindo seus verdadeiros sentimentos.

A boca de Julian se curvou com satisfação.

- Agradeço-te a preocupação por minha segurança, cara. - Disse, com uma sedutora carícia no profundo timbre de sua voz, seu acento italiano foi mais evidente. - Mas não há necessidade. Eu não preciso de poder. Sei que esse homem é alguém a quem amas. Não haverá uma confrontação real entre nós. Possivelmente um jogo do gato e rato.

Desari estremeceu, o frio do ar noturno estava causando estragos em sua pele. Tinha que ser o ar, só sua voz não podia causa a febre em seu sangue. Podia? E não era só a força da química entre eles. Decidida, elevou o queixo, era o conhecimento que podia repartir. Este era um autêntico homem dos Cárpatos, criado em sua terra natal. Sabia coisas que ela desejava saber desesperadamente, coisas que podiam ser importantes para sua família.

- Diga-me como podemos fazser.

Havia um orgulho natural na voz dela, uma nota de imperiosa demanda. Desari estava decidida a sair e sob sua escolha.

Os braços de Julian rodearam sua pequena cintura. A eletricidade estalou entre eles. Poderia tentar negar, mas via a resposta em seus olhos, em seu corpo, em sua essência, que o chamava.

- Funda sua mente com a minha, assim não haverá nada que possa nos encontrar.

Ela tentou sair de seus braços.

- Não! Não posso.

O sorriso zombeteiro curvava outra vez a boca dele. Ele brincava com ela.

- Do que tem medo, piccola? De minha resolução? Não tenho feito nenhumatentativa de ocultar minhas intenções. Desejo-a de todas as formas. Sou implacável quando algo é importante para mim e você é a coisa mais importante de minha vida, nesses séculos todos de minha existência. Uma sua mente comigo. Voaremos daqui e falaremos de coisas importantes.

Era uma espécie de provocação. Ele não fazia de sua diversão, nenhum segredo. Os olhos escuros de Desari brilharam para ele.

- Não tenho medo de você. Sou dona de mim. Não pode me seduzir se eu não der meu consentimento. Irei contigo para aprender com voce. – Ele soava como uma princesa, concedendo um favor a um plebeu.

Julian era muito preparado para permitir que o triunfo se mostrasse em sua fisionomia. Segurou as mãos dela, nas suas.

- Agora, minha cara, venha comigo. Uma-se a mim. - Sua voz foi uma carícia, que enviou chamas através dela, chamas que ela não sabia como controlar.

O sangue dele, já corria por suas veias. Estendeu sua mente e se inundou completamente, com decisão, na dele antes que o pânico a invadisse e mudasse de opinião. Em seguida soube que estava perdida. Ele havia incitado-a a entrar no interior de um mundo erótico de ardente, faminto e feroz desejo. E era tão cruel como Darius. Um solitário. Um grande guerreiro com séculos de batalhas em suas costas. E não escondia nada dela. Nada, nem sequer a terrível e implacável escuridão. Sempre estivera só, em seu próprio mundo. Sempre só. Até agora. Desari se moveu no interior dessa escuridão, súbitamente intranqüila.

- Mude de forma, piccola, use a imagem que te dou. - Suas palavras escondiam uma urgência que ela não podia ignorar. Darius estava perto. Lançaram-se para o céu, simultaneamente. Seus corações pulsavam como um só, plumas iridescentes no céu noturno. As asas batiam com força, elevando-os rapidamente para cima e para longe. Rodaram no ar em perfeita sincronia. Voavam para as distantes montanhas.

Julian compartilhava a formosura da noite com ela. Não via em cores há séculos. Assim, tudo era novo e maravilhoso para ele. As folhas prateadas das árvores reluzindo embaixo, o brilho da água no enorme lago próximo, o pio de uma coruja que procurava sua presa e o sussurro dos ratos cinzas correndo através da vegetação, sobre o chão do bosque.

Darius seria incapaz de rastrear Desari enquanto eles estivessem fundidos tão completamente. No momento em que se afastassem, ele poderia encontrá-la. O truque estava em levá-la longe, colocar tantas barreiras como pudesse, assim Darius não teria mais opção que retroceder, procurando segurança antes que o amanhecer o surpreendesse.

Desari vacilou durante um momento quando leu as intenções de Julian. Não havia considerado em afastar-se de sua família durante o dia, quando seria tão completamente vulnerável. Em seguida Julian enviou onda de calma e segurança. A implacável resolução dos homens dos Cárpatos de proteger sua companheira superava todo o resto. Enquanto ela estivesse com ele, nada poderia lhe acontecer, ele nunca permitiria.

- E de voce? Estou a salvo de voce? - Perguntou ela maciamente, totalmente consciente das ferozes necessidades do corpo dele e de seu próprio corpo. A terrível e insaciável fome que ele sentia por ela. Ninguém mais seria capaz de saciar completamente as demandas que seu corpo fazia. Ninguéma mais poderia suavizar o fogo que ardia profundamente nele. O conhecimento só serviu para debilitar sua resistência a ele. Seu desejo era terrível.

- Sempre, Desari. Protegeria-a com minha vida. Voce sabe que eu o faria. Não posso fazer nada mais, além de assegurar sua segurança.

Julian sentiu a perturbação do ar. Ondas de poder ecoavam através do céu, procurando a presa que o caçador estava decidido a encontrar. No corpo do raptor, sorriu. Darius era muito perigoso, um autêntico antigo com uma vontade de ferro. Fundida com ele, como estava, Desari ficava mascarada para seu irmão. Mesmo assim, Darius era um brilhante adversário e Julian não era tão arrogante, aponto de menosprezar seu inimigo. Sabia que se enfrentava um igual, ou quase.

As ondas de poderosa busca retrocederam, e o ar ficou tranqüilo, fresco. Depois, sem advertência, Darius rastreou novamente. Julian sentiu a dor que se abateu de repente sobre sua cabeça, dentro da cabeça de Desari. Ela deixou escapar um ruído, um suave lamento em sua garganta, mas Julian instantaneamente tomou o golpe completamente, bloqueando-o para ela.

- Ouça-me, estrangeiro. Sei que me sente, sabe o que sou. Se fizer mal a minha irmã, de qualquer modo, encontrarei você em qualquer lugar da terra, no qual possa se esconder. Encontrarei-o e você morrerá de forma longa e dolorosa. A voz chegou nas asas da noite, transmitida em todas as longitudes de ondas, possível, de forma que não houvesse dúvida de que era ouvida e claramente entendida.

Julian estava atônito ante o poder que tinha o irmão de Dessar. Parecia tão hábil como Gregori, e igualmente perigoso. Possivelmente Darius não tinha a elegante graça de Gregori... Parecia mais terrestre e rude... Mas ostentava um poder muito real. Poucos poderiam obter o que ele estava fazendo, sustentar uma nota de dor na cabeça de Julian, embora nunca houvessem trocado sangue e Darius não tinha uma idéia real de onde estava. E ele falava a sério, cada uma das palavras. Era decidido, cruel e sem rastro de misericórdia.

Julian inalou com força e tirou Desari do céu levando-a com ele até a pequena e cômoda cabana aninhada no alto das montanhosas. Enquanto aterrissava, trocando de forma, manteve a mente de Desari unida à sua para que ela não se rebelasse em sua posição e desse margem a Darius de encontrá-la.

Tomou um momento fazê-lo, especialmente porque estava defendendo Desari da batalha entre dois homens dos Cárpatos. Ela não precisava saber que estavam colocando a prova, um ao outro. Deu volta ao sinal, trocou-a, e enviou de volta através do céu noturno. Deu-lhe uma certa satisfação, saber que era cotado, pelo menos, do arrogante e frio homem Cárpato. Só então liberou Desari de sua mente, a permitindo retirar-se completamente.

Pela primeira vez, Desari se deu conta de que estava realmente assustada. O que havia feito? Seguir a um completo estranho, longe do amparo de sua família, e para que? Sexo. Puro e simples. Sentia-se tão atraída por Julian Savage, que tinha jogado para o alto, seus valores e regras e tinha colocado Darius numa posição insustentável. Ele se preocuparia com ela. Tinha acreditado em Julian, porque nunca em sua vida havia sentido algo tão profundo, por ninguém, embora sabia que ele a estava manipulando. E era um professor nisso. Possivelmente estava manipulando o resto de suas emoções, também.

Julian se afastou dela, lhe dando espaço. Seu corpo era fluídico e poderoso. Ele passou a mão pelos cabelos e seus olhos deslizaram sobre ela possessivamente.

- Teria que haver permitido que sentisse a dor, quanto não era necessário? - Sua voz foi estritamente neutra.

Dessar sabia que ele tinha razão. Não a estava obrigando. Ou ela confiava nele ou não. Era simples. Julian cruzou os braços contra seu peito e se apoiou contra uma coluna do alpendre.

- Sei que sentiu.

- Por um momento. - Concordou ela, sabendo que ele se referia à explosão de dor que tinha florescido tão súbitamente na cabeça dele. Desaparecera num instante.

- E a suprimi imediatamente. Era seu irmão. Uma advertência.

- Ouvi sua advertência. Preocupei-lhe desnescesariamente. Tentei lhe dizer que voltaria para casa esta noite.

Suas palavras foram desafiantes, mais para si mesma, que para ele. Não queria estar ali. Julian estava excitado, com seus famintos olhos fundidos. A intensidade do que sentia por ela era amedrontador.

- Então retornaremos. Mas realmente crê que podemos conhecer, um ao outro, em companhia de seus protetores? Seria difícil. – Ele ondeou a mão para uma cadeira no alpendre. - Sente-se um momento e fale comigo.

Foi uma suave ameaça. Ele tinha a intenção seguí-la, se ela partisse. Caminhar até a guarida daqueles que procuravam sua destruição. Sua voz era formosa. Pura e elegante. Continha um toque de ternura e arrogância, e um pouco de diversão.

Parecia um desafio. Como se ela fosse uma garotinha, uma novata, temerosa de sua própria sombra e longe de seu irmão maior. Desari elevou o queixo e deslizou-se majestosamente, subindo os degraus até a cadeira do alpendre. Sentou-se. Seus olhos escuros permaneciam no rosto dele.

Ele sorriu abertamente, súbitamente dispersou o escuro perigo que se colava a ele como uma segunda pele. Por um momento pareceu quase um menino.

- Não vou manter voce prisioneira, Desari. Não há necessidade que me olhe como se eu fosse um monstro.

Desari notou que relaxava. Um lento sorriso de resposta iluminou sua face.

- É isso o que estou fazendo? Sinto-me culpada por desafiar meu irmão e fazer com que se preocupe. Possivelmente, estou culpando você. É muito mais fácil culpar a qualquer outro, que a gente mesmo.

Julian sacudiu a cabeça.

- Não se preocupe por seu irmão. Em seu coração, ele sabe que não te farei mal. E que deve abandonar seu controle sobre ti.

- O que é um companheiro? - Perguntou Desari, sabendo que era importante. Havia estado em sua mente e sabia que ele acreditava que ela era sua companheira.

- Cada homem dos Cárpatos nasce como um predador, escuro e mortal. Certo que temos fortes instintos de proteger aqueles que amamos, mas há uma escuridão em nós que cresce e é mais forte a cada século que passa. Sem uma companheira, perdemos toda emoção, a habilidade de ver cores. É uma existência vazia. Cada dia que passa, a fera, a besta interior cresce mais forte, e a escuridão se estende pouco a pouco em nossas almas. Não observou ainda, os homens de seu grupo?

Desari tamborilou a face, com a unha.

- É verdadr. Ao menos com Darius e Dayan. Barack esteve sempre cheio de alegria até recentemente. Agora está mais tranqüilo. E havia outro, Savon, que se converteu em alguém que nenhum de nós reconhecia.

- Se nossos homens não encontrarem sua autêntica companheira, a outra metade de suas almas, a luz de sua escuridão, ele desaparece. Não podemos manter nossas emoções. Estamos perdidos. - Julian suspirou, observando como a palidez que aparecia na face dela. - Temos duas escolhas, caminhar sob o sol e terminar com nossa erma existência, ou escolher perder nossa alma. Podemos nos converter em não-mortos. Vampiros que fazem sua presa, a raça humana para conseguir a última investida, o poder de matar. É o único sentimento que fica.

Desari sabia que ele estava dizendo a verdade. Savon havia escolhido converter-se em vampiro. Darius havia destruído muito desses não-mortos, durante séculos. Engoliu com força e levantou o olhar para ele.

- Como a gente faz, para saber com certeza, quando encontramos?

O sorriso de Julian foi como um toque físico, uma suave carícia.

- Vivi séculos sem ver cores ou sentir emoções. E então a encontrei. Agora o mundo é de novo, formoso e cheio de vida, com cor, com emoçõestão intensas, que quase não as posso processar. Quando olho para você, meu corpo está vivo. Meu coração está aflito. Você é única.

- O que acontece se a mulher não sente o mesmo? - Perguntou Desari, curiosa. Este era um conceito completamente novo para ela, um que nunca havia considerado.

- Só há um autêntico companheiro para cada um de nós. Se o homem sentir, sente o casal. - Seus dentes brancos brilharam para ela. – Possivelmente, ela deseje mostrar-se teimosa e não admitir em seguida, não desejando que sua liberdade seja perdida para sempre. Por haver tão pouco, de nossas mulheres, guardamo-las zelosamente desde seu nascimento e são entregues aos cuidados de seu companheiro logo que chegam à maioridade.

- Que quer dizer, com que sua liberdade seja perdida para sempre? - Desari súbitamente se sentiu inquieta. Só em observar a forma que o corpo dele se movia, podia fazê-la sentir ardente e dolorida. Não gostava como soava sua voz, suave e arrogante, francamente divertida, enquanto pronunciava as palavras. Soava como se a mulher não tivesse escolha na questão.

Julian sorriu abertamente para ela, depois se moveu com assombrosa velocidade, abatendo-se sobre ela quando pensava que estava segura.

- Não há necessite de se preocupar, Desari. Não posso fazer outra coisa, que velar por sua felicidade. – Ele estendeu uma mão. - Sua fome, por exemplo. Sinto a necessidade em meu interior como se fosse minha. Não há necessidade, de que esteja incômodada.

Sua mão estava envolta na dele, antes que ela pudesse pensar. Uma reação instintiva a sedução que a rodeava. Ele estava atraindo-a, colocando-a em pé e seus braços rodearam sua pequena cintura, antes que ela tivesse oportunidade de protestar. Seu corpo era duro e ardente, a essência dele enchia sua mente. Quando inalou, o tomou no interior de seus pulmões, e a sensação agiu em seu corpo como uma forte droga. Fora qual fosse a química que havia entre eles, não podia negar-se que se sentia ardente, inflamada e disposta.

- Não posso tomar seu sangue. - Sussurrou ela, temendo que se o saboreasse, estaria perdida para sempre.

Os dentes brancos de Julian reluziram por um instante sobre a cabeça dela, depois se inclinou lentamente, quase lánguidamente para sua garganta. Seus olhos dourados ardiam de desejo, mantendo o olhar dela durante um longo momento antes que escondesse seus olhos e ela sentisse sua boca mover-se contra a pele.

O corpo inteiro de Desari se acendeu. Os braços dele a apertaram, embora a sustentasse de forma estranhamente protetora. Seu corpo se inflamou contra o dela, com desejo, numa urgente demanda, que ele não tentou esconder. Seus lábios eram firmes e suaves quando se esfregaram contra a pulsação dela. Os dentes beliscaram-na gentilmente, a língua a acariciou. Ele a incitava.

- Negaria-me então? – Perguntou ele suavemente, com a boca contra sua pele acetinada.

Ele não podia lhe negar nada. Seu corpo já não lhe pertencia, ele era sua outra metade. Desari se pressionou a ele, precisava lhe dar o que ele precisasse. Não havia tempo para pensar. Sentia seu fôlego quente e incitante, sua língua acariciava sua pele fazendo que o calor de agrupasse em seu interior e se sentisse dolorida por ele. Fechou os olhos, seus braços se levantaram para embalar a cabeça dele. Branco calor ardente lhe furava a garganta, num prazer tão intenso que era quase dor. Ouviu-se gemer, sentiu sua boca alimentando-se dela, tomando a essência de sua vida no interior de seu corpo, selando-os juntos de forma erótica, que ela não entendia.

Ela havia se alimentara noite após noite, durante séculos. Havia dado seu sangue numerosas vezes quando havia sido necessário. Nunca se sentira assim. Fogo correndo através de seu corpo, ardentes chamas que exigiam alívio. Sentia-se como uma chama vida entre os braços dele, seu corpo se movia inquieto, dolorido e impaciente, pela dura agressão dele.

Julian selou as marcas de sua garganta com uma carícia de sua língua, ao mesmo tempo em que abria os botões da camisa, com uma das mãos e colocava a outra sobre a nuca dela. Murmurou-lhe algo em italiano. Palavras suaves e dolorosamente sexy. O fumegante desejo a tocou com selvageria. Nunca conhecera sensação igual. Ele a pressionou contra seus músculos tensos, baixando as mãos para seu traseiro, cobertos pela calça jeans, de forma que pudesse urgi-la mais perto da dura evidência de sua excitação.

Ele exalava masculinidade.

Seu corpo era fogo para ele, sua pele estava tão sensível, que seus seios doíam, seus mamilos se esfregavam contra a fina renda que os confinava. A fome a golpeava, tanto sexual como fisicamente. Não podia começar a dizer onde começava ela e terminava ele. O batimento de seu coração era forte e rápido, esperando por ela, precisando dela, desejando-a. O desejo era uma dor crua entre suas pernas, em seu estômago, seus seios. A roia, implacavelmente, até que sentiu seus dentes se afundarem na pele dele.

O momento o prazer a tomou, sustentou e apressou-se por seu corpo, como uma parede de chamas, uma tormenta de fogo, de beleza e êxtase. Doce e quente. Incomensurável. Não se parecia com nada que conhecia. Era aditivo. A consumia e sentia, era eterno. Não haveria nunca Desari sem Julian. Nunca Julian sem Desari. Precisaria sempre de seu corpo, seu sangue, e sua alma durante o resto de seus dias. E ele Precisaria dela.

Ofegando, aterrorizada, Desari fechou as pequenas feridas e se segurou nele, a única âncora sólida num mundo que parecia desintegrar-se a sua volta. Em seguida seus braços estavam ali, reais e fortes. O queixo dele se esfregava na parte alta de sua cabeça, fazendo as sedosas mechas de seu cabelo serem capturados pela sombra dourada de sua mandíbula.

- Não tema, piccola. Sei o que faço. Sou um antigo e conheço os costumes de nossa gente. Isto é natural para nós.

Ela sacudiu a cabeça, seu coração martelava em seu peito.

- Não para mim. Não entende nada, Julian. Não posso deixar a minha família. Estive em sua mente e conheço suas intenções. É um solitário, quase um renegado. Você gosta de impor suas próprias regras e seguir seu próprio caminho. Segue a seu Príncipe, mas a sua maneira.

A mão de Julian surgiu para lhe acariciar a nuca, aliviando a tensão nela.

- Temos tempo para nos acostumar o um ao outro.

- Eu canto, Julian. Adoro cantar. Eu gosto das multidões, gosto de compartilhar a excitação da audiência, a conexão com eles. E amo a minha família. Se tivermos um príncipe, um líder, esse é Darius. Dedicou-nos sua vida, vive por nós, para nos proteger. Você não sabe o que ele tem feito por nós. Não posso lhe deixar nesse momento, quando está tão perto da destruição.

À noite os sussurrou, lhes envolvendo em sua escura capa. Julian elevou a face para o céu, olhando as estrelas estendidas sobre eles como uma reluzente manta.

- Fale-me dele. Conte-me como é possível que nenhum outro Cárpato saiba de sua existência. Como fazem para escapar sem serem detectados, possivelmente haja outros também. Poderia ser muito importante para a perpetuação de nossa espécie.

Sua voz foi tão gentil e terna, que seu coração palpitou.  Embora pudesse sentir sua implacável resolução. Como Darius, ele possuía uma forte e implacável vontade. Elegia seguir seu próprio caminho, fazer suas próprias regras. Insistiu para que ela lhe contasse sua história. O terrível massacre. A precariedade do navio. O terror das crianças na selvagem e indômita terra, rodeados de predadores.

Julian logo compreendeu que Darius e Desari eram, na verdade, parentes do curador, o Escuro. Tinham que ser os irmãos menores de Gregori, presumivelmente assassinados pelos turcos. Possivelmente, outros haviam escapado também. Era o momento de saber a verdade. Ele estendeu-se através do tempo e do espaço. - Gregori! Encontrei o que durante tanto tempo procurei. Há outros. Sua linha de sangue. Sobreviveram ao massacre e escaparampara muito longe.

Não surpreendia que Darius o lembrasse tanto ao curador. Darius era um homem de recursos, tão poderoso, como seu irmão maior. Seria um amargo e implacável inimigo, perigoso além da imaginação. Seria um amigo leal e protetor apesar de sua incapacidade de sentir emoções. Sua palavra era sua lei. Não reconhecia outra. Julian se encontrou respeitando Darius, da mesma forma em que respeitava a poucos.

- Obrigado por me enviar notícias do Darius e Desse, Julian.Também sinto sua necessidade, Julian. Desari é sua companheira. Atende-a. - Havia uma satisfação evidente na voz do curador, apesar da distância. Precisa demim, d esta vez?

- Não, curador. Dou as boas-vindas, ao desafio que seu parente masculino proporciona. - E Julian o fazia. Maravilha-lhe. A beleza do mundo estava a seu alcance.

- Entrarei em contato com Mikhail e informarei Savannah. Acudiremos você se precisar, de outro modo, encontraremo-nos todos em outro momento.

- Não vou precisar, Curador. - assegurou Julian. Tinha fé em suas próprias habilidades. Não queria ou necessitava da interferência ou presença do curador.

Gregori sem dúvida conhecia a natureza exata da escuridão que espreitava na alma de Julian, um fato que Julian havia escondido com êxito, até de seu próprio irmão gêmeo. Gregori acreditava em sua honra, mas também sabia que Julian estava escurecido e podia decidir que ninguém mais possuía direito a Desari, nenhum direito.

Julian não tinha intenção de deixar Desari. Seria impossível, se estivesse inclinado a fazer tal coisa. Estavam unidos por toda a eternidade. As palavras rituais tinham sido pronunciadas. Embora não tivesse completado o círculo do ritual, as palavras ancestrais, por si só, eram vinculantes e Julian conhecia as conseqüências. Seriam incapazes de estarem separados sem um intenso pesar, sem um horrível desconforto físico. E as ondas do ardor dos Cárpatos, eventualmente os curvariam, exigindo sua união.

Era um amparo para a prudência do homem, para sua alma, e podia ligar a sua companheira a ele para sempre sem ter em conta seus medos. Os medos podiam ser superados. A destruição da alma era para toda a eternidade. Desari acreditava que podia controlar seu destino, que tinha escolha, mas Julian sabia melhor. Ela o pertencia, era uma parte dele. Nem sequer Darius poderia mudar isso, sem destrui-la. E se sua própria honra exigisse, que fizesse o que era correto, que a liberasse de alguém como ele, já era tarde. Haviam se unido, no calor de seu primeiro encontro.

Julian suspirou e a sustentou mais perto dele.

- Seu irmão é um Cárpato e um parente de sangue. Não desejaria lhe fazer mal. Se for necessário que permaneçamos juntos a ele, para assegurar que não faça nada para danificar a si mesmo, então é o que faremos.

Desari sabia que Julian acreditava estar fazendo uma grande concessão por ela, mas não fazia nenhum favor. Darius não lhe aceitaria tão facilmente em seu círculo. Nem tampouco o fariam, Dayan ou Barack. Os homens eram tão difíceis às vezes. Durante séculos tinham dependido os uns dos outros, interactuando uns com outros. Não permitiriam de boa vontade, um estranho em seu território.

 

Desari elevou a cabeça da tentação do peito DE Julian. Seus enormes olhos eram suaves e tristes.

- Sei que não entende, mas não posso fazer outra coisa que voltar para minha família agora. Nego-me a ser irresponsável e egoísta, quando meu irmão se deu tanto, por nós.

Esperava que Julian discutisse com ela e sua mão, sobre o coração dele, tremeu. Os olhos dourados de Julian deslizaram possessivamente sobre sua face transtornada. Seu ardente desejo, tão intenso, tão evidente, deixou-a sem fôlego, roubando sua resolução. Como podia um homem precisar tanto dela? Como podia mostrar essa necessidade sem ego ou temor de ser totalmente vulnerável? Como podia ela voltar às costas a tão honesto e ardente desejo?

- Julian. - Sussurrou seu nome num doloroso desejo. Sentia-se dividida entre os dois homens, duas lealdades, algo que sequer entendia.

- Temos umas poucas horas até o amanhecer, cara. Se insistir em voltar com Darius, então será assim. - Sua voz foi um suave e hipnotizador feitiço, sedutor e masculino. Só seu tom ameaçava sua precária vontade. Suas palavras diziam uma coisa, enquanto seu coração sussurrava algo totalmente diferente.

- Julian, deixe de me olhar assim. - Advertiu-lhe. Algo bloqueava sua garganta de tal forma que estava impossível respirar. Tentou afastar seu olhar da intensidade do dele. - Não posso pensar quando me olha assim.

A mão dele se moveu sobre a sedosa massa de cabelo dela, seus dedos esfregaram as mechas contra seus dedos, como se não pudesse evitá-lo.

- Sempre foi uma cantora?

Havia uma carícia pronunciada com admiração, em sua voz, que fez que o coração dela pulsasse com rapidez. Desarmou-a completamente com essa preguiçosa pronúncia italiana. Sua pergunta também a deslocou. Sentiu-a como uma sedução, embora bastante inocente.

- Sempre cantei. Viajamos por diferentes continentes cada vinte e cinco anos ou mais. Dessa forma ninguém nota que não envelhecemos.

As mãos dele, que haviam estado tão inocentemente enredada em seus cabelos, deslizaram-se de algum modo até seu ombro. Esses dedos estavam agora produzindo calor, através do fino material de sua camiseta, de forma que ela sentia como se a pele dele, estivesse conectada com a dela. Sua voz transformou-se num murmúrio, como se perdesse o fio de seu pensamento.

Julian se inclinou.

- Por favor, continue. Isto é extremamente interessante. Procurei durante séculos, Cárpatos perdidos, mas não tinha mais esperanças. Como conseguiram o que têm feito é extraordinário. - As pontas de seus dedos se moveram para a linha do decote da camiseta dela, ausentemente, traçando o delicado bordado.

Desari engoliu enquanto pequenas chamas lambiam sua pele, enquanto seus seios reagiam aos dedos que escorregava sensualmente. Levantou o olhar para ele, decidida a lhe repreender, mas ele parecia ansiosamente interessado no que ela dizia. Exceto seus olhos. Seus olhos eram ouro fundido e ardiam como fogo líquido que parecia consumi-la, hipnotizá-la.

- Não tenho nem idéia do que estava dizendo. - Admitiu finalmente. Sua voz tão rouca que foi um convite.

Seu corpo se aninhou mais perto do dela, mas sem tocá-la. Simplesmente tão perto, que seu calor e essência masculina a envolveram. Chamava-a, e nada mais podia fazer.

- Estava me falando sobre viajar de lugar em lugar. - Sua voz estava dolorida pelo desejo.

Ela o ouviu claramente, e seu corpo respondeu por vontade própria, dissolvendo-se em ardente líquido. Desari limpou a garganta.

- Nos convertemos em nossos próprios descendentes se alguém se lembra de nós. Raramente é necessário, quando o é, permanecemos longe da área durante décadas. Dayan é um poeta, um professor da palavra e não há ninguém melhor com um violão. Syndil é também uma maravilhosa música. Posso tocar quase qualquer instrumento. Barack é igual. Parece que desfruta realmente, de ficar tocando para nosso público. – Ela deu-lhe a informação, mas sua mente estava fixa no fato de que os dedos dele se deslizavam dentro de seu decote e se moviam hipnoticamente, como se estivessem memorizando o tato dela.

- Barack e Dayan. - Julian repetiu os nomes, com voz suave. Houve a menor das amarguras em sua voz, seus perfeitos dentes se fecharam, reminiscências de um faminto lobo. - Esses dois atuam como se tivessem direitos em voce. - Havia uma linha cruel brincando em sua boca, uma escuridão em seus olhos dourados. - Não os têm. Na ausência de seu pai, Darius é o único a que tem que responder até que seu companheiro te reclame. Assim o tenho feito. - inclinou-se para frente como se fora conduzido além de sua vontade e a tocou na clavícula com os lábios. A dureza de sua face se suavizou. O toque foi como uma pluma, mas penetrou em sua pele e chegou diretamente ao coração, fez-o pulsar com alguma emoção que não queria tentar entender.

Ele moveu a boca, um rastro de fogo correndo por sua clavícula até o pulso frenético em sua garganta. Sua boca tremia, seus olhos baixaram-se para cobrir o luminescente brilho. Deveria detê-lo. Por sua própria prudência, deveria detê-lo. Mas sua boca se movia lentamente, gentilmente, numa cálida exploração.

Desari tentou ordenar seus pensamentos.

- Reclamaste-me?

Seus dedos se enredaram com os dela. Ele conduziu sua mão para pressioná-la contra os músculos de seu peito, seu polegar tocava com falsa inocência, a pulsação dela. Sentia-a saltar enquanto seus lábios baixaram mais, empurrando o decote da camiseta, onde o convite de seus seios, se inflamaram com antecipação.

- Reclamei. Está ligada a mim. – Ele sussurrou as palavras, já no vale de seus seios e seu corpo inteiro se atiçou, com tanto desejo, que Desari se sentiu desfalecer.

Jurou enquanto as chamas dançavam sobre sua pele. Realmente baixou o olhar, esperando ver pequenas línguas alaranjadas de fogo lambendo sua pele. Estremeceu e tentou tirar sua mão, tentou pôr espaço entre eles.

- Você crê, eu não. - Desari notou que enquanto sua cabeça estava segura de que queria se mover, seu corpo se negava a cooperar.

A risada dele foi baixa e rouca.

- Não é possível que pense que possa se afastar de mim, agora. - Julian transferiu sua atenção para o braço dela. Seus lábios deslizaram ao longo da pele nua, detendo-se para morar na sensível face interna de seu cotovelo. Depois, acariciou a face interna de sua mão, seus dentes rasparam a pele, fazendo com que cada músculo de seu corpo se estirasse. Dessari temeu gritar de desejo. - Não seria bom companheiro se não pudesse reter o que é meu, certo?

Quando ele se inclinou para frente, sobre seu braço, seu cabelo dourado acariciou a pele dela que fechou os olhos contra as ondas de calor que se elevaram entre eles. Ela sorriu.

- Você é tão arrogante como Darius. - Gostava da sensação de suas mãos, o ardente ouro de seus olhos ardendo sobre ela. Inclusive, gostava de sua arrogância.

- Mmmm - Murmurou ele, bastante ausente, claramente distraído. - Sou? Sabe que adora tudo de mim. – Ele enterrou a face nas sedosas mechas ébano, que caíam em cascata ao redor de seus ombros e por suas costas. - Adoro seu cheiro. - Sua mão, deslizou novamente, sob a fina camiseta de algodão. Seus dedos se estenderam ampliamente para abranger a pele. A sensação foi além de suas mais selvagens fantasias. Ardente. Alcançando todos os seus nervos, seu corpo e seu coração.

- Acredito que deveríamos conversar. - Disse ela, quase em desespero. Seus braços pareciam ter vontade própria, deslizando-se ao redor do pescoço dele. Durante um momento, fechou os olhos, saboreando o calor de seu corpo na frieza da noite.

- Estou falando com voce. - Sussurrou Julian. - Não ouve o que digo?

Sua voz moveu como veludo sobre sua pele. Como podia não lhe ouvir? Ele estava dentro de seu corpo, Desari sentia-se como um vulcão entrando em erupção. O fogo corria através dela, espesso, pesado, ardente e doloroso. Desejava-o, e precisava dele. Podia realmente ser assim tão simples? Elevou sua boca para demandar a invasão da dele.

Julian jurou que a terra se moveu sob seus pés. Desari sabia que ouvia o rugido do trovão e sentia o látego branco azulado do relâmpago. Julian abriu a porta da cabana de uma vez só. Seu corpo rugia. A fera interior, sempre presente, lutava por sua supremacia. Julian fechou sua boca sobre a dela, um pouco fora de controle, um suave grunhido de advertência emanou das profundezas de sua garganta quando ela tentou levantar a cabeça.

A mão dele se expandiu por sua garganta, sustentando-a junto a ele, sustentando-a como se fosse uma parte dele. Sustentando-a como se fosse a mulher mais preciosa do mundo e não pudesse viver sem ela. Sua outra mão percorreu sua cintura, detendo-se para descansar ali, ardente e urgente, embora a palma descansasse tranqüilamente contra sua pele.

Desari era consciente dela, consciente do perto que ele estava das partes íntimas e sensíveis de seu corpo. Se ressentía de dor por ele. Desejava-o. Estava além de pensar racionalmente, desejava que sua mão se movesse. Em qualquer direção, não importava. Sua boca era ardente e dura, exigindo sua completa rendição. E então a mão se moveu, encontrando o diminuto fecho dianteiro de seu soutien e seus seios se liberaram. Foi uma passagem tão pequena, mas seu corpo inteiro se sentia selvagem e indômito pelo desejo.

Sentiu o gemido elevar-se do interior de sua alma, quando a mão dele acariciou a arredondada forma de seu seio. Assombrou-a que pudesse sentir tão intenso prazer, quando sua palma estava simplesmente segurando seus seios. Sua boca estava aberta à invasão da dele, seu corpo receptivo a cada avanço. Quando a mão o rodeou, sua palma acariciou o mamilo ereto, ofegou e empurrou para liberar sua boca e assim poder saborear a pele dele, para ser livre de levar a cabo sua própria exploração.

Podia sentir sua mão traçando a curva de seu seio, numa suave e inflamada caricia. Seu mamilo, dolorido e duro, empurrava-se contra ele. Desari deslizou suas próprias mãos sob a camisa dele, encontrou sua pele, seus músculos marcados, o cabelo dourado que se estendia através de seu peito. Ele a fazia sentir viva, completamente feminina. A fazia sentir-se inquieta e ardente. Seu corpo era fogo líquido.

Julian lhe acariciou o seio, maravilhando-se da perfeição de seu corpo. Era assombroso para ele, a textura acetinada de sua pele, a sedosa sensação de seu cabelo, o calor que surgia entre eles. A pequena e delicada mulher sob seu próprio corpo forte. Suas mãos o estavam colocando louco, ameaçando não só seu tênue controle, mas também sua prudência. Seu corpo delirava contra ele, tão duro pelo desejo, que se sentia tenso contra sua carne.

Desari deu um arrancou à camisa dele, fazendo que os botões voassem em todas direções. Precisava colar-se a ele, como fosse possível. O corpo de Julian tremeu, conduzido-o além dos limites de sua resistência. A sensação das mãos dela sobre sua pele, o excitava cada vez mais. Seu corpo ficou rígido quando a boca dela se moveu sobre seu peito, começando a traçar o caminho do fino cabelo dourado.

Julian segurou o decote da camisa dela, rompendo facilmente o tecido, jogando-o para um lado, seu soutiem, para que sua pele brilhasse na escuridão. O fôlego ficou preso em sua garganta, ante tanta perfeição. Suas mãos se estenderam lhe medindo a cintura, inclinou-a para trás para que os seios se elevassem e se encontrassem com sua boca que descia. Ela era deliciosa, formosa, a melhor e perfeita mulher do mundo. E era sua.

A boca dele era ardente e úmida, fechando-se ao redor dela, todo calor e fogo fazendo com que as chamas erupcionaran dentro dela, como uma tempestade de fogo. A cada forte impulso dos lábios dele, enquanto se alimentavam dela, recebia como resposta uma investida de ardente e cremoso líquido enquanto o corpo dela reclamava urgentemente o seu, num impulso do ardente desejo de seu próprio corpo.

As mãos de Julian deslizaram para baixo ao longo de sua cintura até a curva de seus quadris, empurrando seu gastos jeans e as calcinhas atrás deles. As pernas dela eram de cetim liso e firme, ante seu toque, suaves enquanto as percorria com seus dedos. Sua boca deixou os seios dela, por um momento, para que sua língua pudesse traçar a linha sagrada de seu tórax. Uma vez mais, ele voltou para a tentação de seus seios cheios e suaves. Sua mão atrevida, deslizou entre suas pernas para encontrar o úmido calor.

Desari gemeu. Uma suave nota musical que alcançou o interior do corpo dele e o prendeu num inferno chamejante que começou tomando a pele dela, a dele, o corpo dela, o dele, suas sensações. Sem pensar as mãos de Desari trabalhavam nos limites da calça dele, para o liberar. Ardente e exigente, o corpo dele se encontrava inflamado. Podia sentir empurrando-o contra ela, fazendo com que seu corpo se sentisse pesado e pouco familiar, ardente e dolorido por urgente desejo. Ela moveu os quadris, procurando alívio para a crescente tortura. Os dedos de Julian se afundaram profundamente, provando-a, elevando sua temperatura. Cremoso calor encontrou com suas carícias, e as unhas dela arranharam suas costas largas. O fôlego dela chegava em convulsivos gemidos.

- Minha cara. Você está ardente e preparada para mim. - Sua voz foi crua e rouca quando ele a arrastou para o interior da cabana. Sua boca ainda sobre o seio dela, seus dentes acariciavam gentilmente sua tenra pele, sua língua aliviava a ligeira dor.

Foi com ele, cada passo era quase impossível quando estava ardendo em chamas, os dedos a acariciavam ritmicamente, sua boca tomava a dela. Sus dentes eram uma erótica tortura que a deixava selvagem e desinibida, que se movia urgentemente contra a mão dele.

Os dentes de Julian se moviam pela curva do seio, sua língua lambia gentilmente o profundo vale. Suas mãos a sustentavam cuidadosamente, gentilmente, deixando-a sobre a grossa colcha da cama. Chutou de um lado, o que ficava de suas roupas e imediatamente se ajoelhou sobre ela de forma que seu corpo esbelto ficasse sob baixo ele.

O fôlego de Desari escapou em um longo gemido, quando seu corpo desceu sobre o dela. Pele com pele, quando sentiu a dura força dele. Seu longo, ardente e grosso sexo, pressionando agressivamente sua coxa. Seu coração pareceu deixar de pulsar. Temor ou antecipação, excitação ou apreensão, pânico ou impaciência... Não fazia idéia do que estava sentindo realmente. Era... Tudo de uma vez.

O joelho de Julian se colocou entre as pernas dela para poder pressionar sua sensível ponta aveludada contra a cálida e úmida entrada. De uma vez, o corpo dela sentiu o dele, com ardente antecipação, enviando ondas de urgência em seu interior. A boca de Julian cobriu a dela, e ele se introduziu um pouco em seu interior.

Seu fôlego ficou, de repente, preso em seus pulmões. Ela estava apertada. Ardente e aveludada e o apertava, tomando-o no interior de seu corpo. A sensação era próxima ao êxtase, tinha que apertar os dentes, para usar cada grama de controle, para obrigar-se a ir lentamente, para lhe dar tempo do corpo apertado dela, ajustar-se a sua invasão.

Desari moveu seus quadris, impaciente, sem pensar. Precisava de tudo dele, desejava muito mais. Em seguida houve a dor. Não segurou o gemido, ofegou e ficou rígida. Julian ficou imóvel, não se retirou, mas manteve-a perto dele, seus braços eram fortes, seus beijos eram amparo. Emoldurou a face dela com as mãos, seus olhos arderam como ouro fundido, intensos e hipnotizadores. Não afastava o olhar.

- Me olhe, piccola, Me olhe. Funda sua mente com a minha.

- É... Tão grande, Julian. Não encaixamos... - Desari desejava afastar o olhar, mas estava afogando-se em sua fome nua. - Julian. - Só disse seu nome, um sussurro, uma mistura de medo e dolorido desejo.

- Somos um do outro. - Assegurou-lhe Julian gentilmente e inclinou-se para beijar seus lábios, novamente. – Funda-se comigo, totalmente comigo. - Sua boca se moveu descendo pelo queixo dela até sua garganta. A pulsação dela estava chamando a selvagem fera de dentro dele. Os dentes traçaram um caminho ao longo da garganta até o seio duro, detendo-se para descansar sobre seu coração acelerado. - Relaxe para mim, Desari. Quando olha no interior de meus olhos, vê de minha alma, e sabe que pode confiar em mim com sua vida, com seu corpo. Abra-se para mim. - As palavras eram hipnóticas, sua voz formosa e pura, rouca pelo desejo. Seus olhos dourados encontraram com os dela, numa só chama que queimava, e depois lhe segurou os quadris entre suas mãos. Seu corpo investiu para frente. Uma poderosa estocada e seus dentes cravaram-na profundamente, fazendo-a gritar com seu delicioso fogo. Lágrimas reluziram como jóias em seus olhos. Ele enchia-a completamente. Ela enchia o terrível vazio de sua alma. Quando seu corpo se retirou quase todo e a penetrou uma segunda vez, ela sentiu que sua mente tomava a dela.

A intensidade de seus sentimentos, o ardente prazer que estava experimentando, estava ali para que ela compartilhasse. Só assim, ele poderia sentir o rapto de seu próprio corpo, revelando sua posse. Eçe começou a mover-se, cadenciadamente dentro dela, com golpes seguros e duros que pareciam crescer em intensidade, causando fricção entre seus corpos, tão ardente que estavam se consumindo em chamas.

Desari se segurou a ele, sua âncora salvadora, enquanto ele os transportava para o alto, para o êxtase, que ela não estava segura que poderia resistir. A boca dele se alimentava da dela, seus quadris se afundavam nela, numa mistura de frenesi, de luxúria e amor, de reverência e súplica. Ele tomou-a, até que o corpo dela lhe pertenceu totalmente, até que se ouviu soltar um lamento de puro assombro. Quando seu corpo pareceu fragmentar-se em mil pedaços, explodir, enquanto ondas de fogo a balançavam, convulsionando seus músculos provocando que se apertasse em torno dele ainda mais, lhe apertando e exigindo.

Julian acariciou com a língua, a curva de seu seio, fechando a diminuta evidência de seu assalto, embora deliberadamente, deixou sua marca sobre a suave pele.

- Preciso de voce, Desari. – Sussurrou. Sua voz era erótica e rouca com sua demanda. – Preciso de você, piccola.

Ela estava profundamente fundida com a mente dele e sabia o que ele estava pedindo, o que seu corpo desejava. Era quase muito, o duro impulso de seus quadris, conduzindo-se tão ferozmente em seu interior. A cada investida, ele se enterrava profundamente no corpo dela, em sua alma. Sabia o que estava acontecendo, mas se sentia incapaz de resistir, incapaz de negar nada. Sua língua saboreou a pele úmida dele, brincando sobre os pesados músculos que guardavam seu coração. Sentiu a instantânea resposta. O corpo, enterrado em seu interior, em seu apertado sexo, inflamou-se e engrossou ainda mais, ante o assalto da boca exploradora.

Julian segurou os esbeltos quadris dela firmemente, esmagando-a contra ele. Seu corpo ardente, duro e banhado com o dela, que se afogava em puro e abrasador calor. Podia senti-la a seu redor, apertada, fogo aveludado, uma fumegante e tórrida paixão. Sensação que nunca concebera pudesse sentir. Ardentes relâmpagos brancos estalaram nele quando os dentes dela finalmente atravessaram sua pele. Sua garganta se convulsionou, seu corpo era um frenesi de implacável desejo. Jogou a cabeça para trás, seus olhos dourados arderam para ela com posse e feroz compromisso. Sua mente sujeitava a dela, e seu corpo crescia ardente e duro enquanto ela tomava a mesma essência de sua vida, o sangue, em seu interior. A sua volta, o corpo dela era ferozmente ardente e firme, com sua própria resposta a profunda febre que rugia entre eles. A terra pareceu estremecer, a atmosfera se fendeu separando-se. Seu mundo se estreitou até que existiram, um para o outro. Dois seres fundidos, tão profundamente unidos, que se converteram em um, como havia que ser.

Julian a segurou firmemente. Sua facetão dura e implacável como o tempo.

- Nunca poderei deixar que se separe de mim, Dessari. Saiba disso.

Desari estava tão aturdida pelo fogo que ardia em seu corpo, por seu aditivo sabor, pelas pequenas sacudidas eróticas em seu interior que a impediam que seu corpo soltasse o dele, negando-se. Era uma sensação tão perfeita, tão correta, com Julian profundamente enterrado em seu interior. Estendeu a mão para cima, tocando a boca dele com a ponta tremente de um dedo, desenhando seus lábios. Poderia afogar-se no ouro fundido de seus olhos, viver para sempre albergada em seu coração.

- Não tinha nem idéia de que pudéssemos estar assim, que algo assim pudesse sequer ser possível.

Julian lentamente baixou a cabeça, seu comprido cabelo se deslizou sobre os ombros dela, acariciando o seu seio, sobre sua marca.

- É incrivelmente bela, Desari. Coloca-me em reverso.

Um suave sorriso curvou a boca dela.

- Quero que se lembre disso, quando fizer algo que você não goste. - O cabelo dele sobre sua pele sensível estava atiçando as brasas que ainda ardiam dentro dela. Estava surpreendida por seu comportamento despreocupado. Deliberadamente, apertou seus músculos para o atormentar, seu corpo estava já manchado pela combinação de seus ardentes líquidos e a débil mancha de sua inocência. – Tenho o pressentimento, Julian, de que você é do tipo de homem que objeta a gente em quase tudo.        As sobrancelhas dele se arquearam. Seu corpo estava provocando sensações deliciosas. Beijou-a nos lábios, depois encontrou a plenitude de seu seio. Poderia alimentar-se ali para sempre. Alimentar-se dela era delicioso, perfeito. Seu corpo havia sido criado exclusivamente para ele. Desfrutou-se no conhecimento de que era só dele, de que nenhum outro homem, humano ou Cárpato, poderia satisfazê-la. Com as palavras rituais os havia ligado, de corpo e alma. Havia tomado seu sangue, doado o seu e reclamado seu corpo. O ritual estava agora completo. Dessari nunca poderia escapar dele, em toda a eternidade.

E a tinha colocado em terrível perigo. Fechou sua mente para tal pensamento, para a advertência proferida séculos antes. Julian desejou perder-se no corpo de Desse, em sua alma. Precisava afundar-se profundamente nela, para banhar-se com sua luz e assim, ao menos por um momento, a sombra retrocederia em sua alma. Sua língua percorreu um de seus mamilos, em parte brincalhona, parte possessiva. O corpo dela era seu para explorá-lo, para despertá-lo, para satisfazê-lo, para completá-lo.

Julian estava deixando-a louca com sua preguiçosa exploração. A palma de sua mão movia deliberadamente sobre cada centímetro de seu corpo, encontrando cada curva, memorizando cada traço. Desari já estava novamente inquieta, mas quando ele lhe prendeu os quadris com mãos exigentes, seu cabelo dourado acariciou a pele dela, inflamando-a ainda mais.

- Quero conhecer cada centímetro de voce, minha cara. – Sussurrou ele, deixando que saísse seu grosso sexo, fora dela.

- Julian!

Os olhos escuros de Desari o censuraram, seus quadris se moveram para cima sobre a colcha, decididos a introduzi-lo novamente para dentro dela. A sensação dele, duro e ardente, contra sua coxa era erótica. Desejava-o.

Suas mãos a capturaram, viraram seu corpo, para que seus lábios pudessem seguir a curva completa de suas costas. Calmamente, ele explorou sua nuca, seus ombros, beijando cada pedacinho de pele em suas costas. Enquanto isso, suas coxas estavam sob ele e o corpo másculo, inflamado de desejo, acariciava seu traseiro. O sexo pronto e ardente se retorcia contra ela, necessitando-a.

Julian estava decidido a não permitir que nada quebrasse seu tênue controle. Conheceria o corpo dela tão bem como o seu próprio. Conheceria cada ponto secreto que pudesse despertá-la, cada curva que se contorcia sob seu toque. Seus dentes encontraram a redondez do músculo de seu traseiro, sentiu-a saltar sob suas mãos acariciadoras. A palma de sua mão, sob ela, encontrou o úmido convite, ardorosa de urgente necessidade, que ele sorriu, satisfeito agora com seus conhecimentos. Ele lhe levantou os quadris e pressionou-se contra sua impaciente entrada, esperando um batimento do coração até que obteve a reação que procurava. Desari empurrou-se para trás, procurando freneticamente sua invasão.

Ele segurou seus quadris, penetrando-a profundamente, enterrando-se no ardente, apertado e úmido sexo que já se encaixava perfeitamente a ele. A sensação não tinha comparação. Nunca conhecera nada igual em seus longos séculos de existência. Notou que suas mãos se moviam sobre o formoso corpo dela, acariciando seus seios, acariciando seu traseiro. Sua boca saboreava-a de cima em baixo. O comprido cabelo de ébano caía como uma cascata de ondas sobre a colcha e a sua volta. Era uma visão que nunca esqueceria. Então o fogo o sobressaltou. Ardente, rápido, encontrou-se segurando firmemente, os quadris dela e penetrando-se em seu interior, mais duro, mais rápido, mais profundo até que a cada penetração, o colocou sob o fio de uma faca, entre o prazer e a dor. O corpo dela se enrijeceu, enquanto lhe suplicava alívio. Ele desejava poder ficar eternamente no suave corpo dela, que ardia com o seu, sua mente compartilhando com a dele, o êxtase absoluto. As selvagens exigências de sua raça irromperam à superfície, e ele se inclinou sobre o corpo pequeno dela, dominando-a completamente. Seus dentes encontraram o ombro suave, para afundar-se profundamente nele.

Desari permitiu, sentindo a compulsão que o assaltava com força. Existia uma necessidade desesperada nele, que ela quase podia tocar, ver. Estava profundamente oculta, mas revolvendo-se na superfície, uma sombra fugidia que não podia capturar. Então, ela perdeu o fio do pensamento, completamente dominada pelas sensações, enquanto o corpo dele deslizava ainda mais no dela. Julian era grande e duro e estava deixando-a completamente louca, dominada pelas sensações que exploraram juntos no tempo e o espaço. As cores explodiram em volta deles, como a mais maravilhosa e bela chuva.

Julian teria caído sobre ela, mas era consciente de quão delicada ela era. Rolou para um lado, levando-a com ele porque não podia tolerar a mais leve separação. Havia visto muito de sua mente enquanto ela via a dele. Ela pensava, incorretamente, que agora voltaria com sua família e se encontraria com ele de vez em quando. Ou pior, que ele a abandonaria porque se negaria a fugir com ele. Seus braços eram pesados sobre o seio dela, sua coxa ainda a imobilizava. Prazerosamente, sua mão acariciou um dos seios. O polegar acariciou, primeiro um mamilo, depois o doutro.

Desari sentiu que seu corpo se enrijecia novamente, dominado pela reação que ele provocava. Sempre seria assim. Sabia. Julian Savage tinha domínio sobre seu corpo. Era uma união tão perfeita com ela que ninguém mais podia conseguir. Havia lido muito sobre o sexo, conhecia cada detalhe, cada posição, cada intrigante intimidade que possivelmente podia ser compartilhado. Embora seu corpo nem uma vez havia sentido o desejo. Era como se essa parte dela, estivesse morta. Simplesmente, assumiu que a maioria das mulheres dos Cárpatos não possuía urgências e desejos como as mulheres humanas. Mas seu corpo estava esperando por este homem. Sua outra metade.

Julian a beijou gentilmente.

- Não permitirei que me deixe, Desari. - Disse-o macia e tranqüilamente. Sua voz era um hipnótico feitiço de encantamento.

Ela pôde sentir um roçar em sua mente, como as asas de uma mariposa. Pura e gentil. Tão insidiosa que por um breve instante não reconheceu o elegante toque da compulsão. Desari suspirou, não desejando estragar um interlúdio tão perfeito, com um desacordo. Nunca mais poderiam ter um momento assim, novamente. Ainda tinha uma tarefa e não poderia ser egoísta e não se importar, mesmo o quanto fosse perfeito o que acontecera.

Julian era um renegado. Era um homem que poucas vezes, reconhecia a autoridade. Julian gostava de seguir seu próprio caminho e tentava levá-la longe, para algum lugar remoto. Ele tentava levá-la para algum lugar longe de sua família e de sua música. Mas isso não era possível. Um suave sorriso curvou sua boca. Conhecia-o, sabia exatamente como ele era. Julian havia fundido sua mente com a dela. Sabia que havia um lugar escuro, uma sombra em que ainda não havia penetrado. Embora sabia, que ele não era capaz de permitir que ela fosse infeliz.

Ele era definitivamente, um fora da lei. Tinha forçado os limites das leis dos Cárpatos muitas vezes durante sua existência em sua busca incessante de conhecimento. Ele possuía um cérebro ativo, era rápido e inteligente. Estava tão acostumado a seu próprio poder, que o carregava como uma segunda pele. Sabia coisas das quais a maioria dos seus eram ainda ignorantes. Era um guerreiro extraordinário, um caçador de vampiros. Já havia destruído a muitos deles.

Profundamente, dentro dele, tocou a escuridão. Parecia acreditar que fosse diferente da maioria dos homens dos Cárpatos. Essa escuridão não se desenvolveu durante séculos, mas sempre estivera presente nele, tinha começado a crescer quando era um menino. Desari acreditava que qualquer que fosse a diferença que o separava do resto de sua raça estava também no próprio irmão dela. Era o que lhes permitia possuir essa vontade de ferro e o impulso implacável de continuar sem converter-se enquando outros vacilariam. Desari havia sentido o vazio de sua vida, a sensação de falta de sentido, a existência erma. Fazia sua escolha final, pois havia acreditado que não tinha nenhuma possibilidade de encontrar sua companheira. Por um momento, tocou a estranha sombra da mente dele. Havia uma luz trêmula de pesar por não ter tido êxito em sua missão autodestrutiva, mas então, ela se foi, tão fugidia como antes. Sentiu sua alegria por encontrá-la, a intensidade de seus sentimentos por ela. Desari ainda não ouvira falar antesm, dos companheiros. Nem sequer sabia se acreditava no conceito, mas Julian acreditava.                      

Julian se estirou na cama, apoiando-se em um cotovelo para poder estudar cada expressão que cruzava a face de Desari, tomando-a em seu ser, como o ar que respirava. Parecia-lhe incrível que esta mulher, tão formosa, pudesse ser dele. Parecia um sonho, uma fantasia que de alguma forma o havia tornado para a vida. Nunca se permitira, o luxo de desejar ou esperar. Desde o começo, soubera que escolheria caminhar sob o sol. O que acontecera era um presente principesco da vida. Um tesouro. E a tinha conduzido a um mundo de escuridão e perigo quando ela só conhecia a luz.

Desari podia ouvir o firme ritmo do coração dele. Era muito consciente de seus duros músculos perto dela, sua postura de algum modo era protetora e possessiva ao mesmo tempo. Pele com pele. A porta estava ainda aberta, permitindo que a brisa noturna revoasse pela cabana, esfriando o ardor da pele de ambos. Sorriu. Sua respiração alvoroçou os finos cabelos dourados esticando os firmes músculos ao longo dos braços dele.

- Trocaste de roupa, por mim. – Ele havia ido encontrar se com ela no botequim, elegantemente vestido.

As mãos dele moveram sobre a linha das costas dela, sem pressa. A palma de sua mão saboreava a sensação de sua pele.

- Estava tão bonita com seu vestido, e eu de jeans e camiseta. Pensei que devia me elevar a seu nível.

A mão dele se movia sobre seu torso, acariciando seu seio.

- E eu coloquei jeans por voce. - Admitiu Desari. - Acredito que está muito sexy com seu jeans. – Ela pressionou seu traseiro, acomodando-se à curva do corpo dele. - Mas devo admitir que é pura dinamite, sem roupa.

Ele colocou de um lado, os cabelos sedosos, para acariciar com sua boca a nuca dela. Era extraordinário ser capaz de tocá-la assim.

- Dinamite é uma palavra interessante, piccola.

Sua voz soava distraída, Desari voltou à cabeça para o olhar. Seus olhos dourados ardiam, movendo-se por ela. Sentiu o calor ardendo em suas entranhas, apesar da brisa fria. Era muito consciente da mão que seguia acariciando a suave redondez de seu seio.

- Temos que conversar, Julian. Sabe que temos.

- Já leu minha mente, Desari. – Respondeu ele. O tom de ameaça crepitou em sua voz. - Não tem mais escolha que ficar comigo. Somos companheiros. Poderia permitir que partisse de volta, para sua família sem mim e então saberia que digo a verdade, mas seria doloroso demais para voce. Tenho que assegurar seu conforto.

Desari suspirou. Baixou as pálpebras, a fim de cobrir a súbita dor em seus olhos escuros. Precisava de mais tempo com Julian, saborear esta noite com ele. Terminar um interlúdio tão formoso, com uma discussão, era a última coisa que queria.

- Não há necessidade de discutir. - Murmurou ele gentilmente, obviamente aninhado em sua mente. - Não tenho mais escolha, que assegurar seu bem-estar todo o tempo. Está sendo caçada. Além do desconforto da separação, nunca a deixaria sozinha sem eliminar primeiro o perigo para voce.

E o perigo que havia trazido com ele?

- Julian. - Ela se girou, ignorando as pequenas chamas que dançavam inesperadamente sobre sua pele por onde os dedos dele deslizavam. - Se crê no que diz, deve ver que não posso suportar uma luta entre você e meu irmão. Nunca o desafiei antes e ele é responsável por minha segurança, da segurança de toda a família. O que estou fazendo, está verdadeiramente errado. – Ela levantou uma mão. - Não lamento, Julian. Por favor, não me interprete mal. Não esquecerei esta noite contigo durante o resto de meus dias.

Julian apertou uma mecha de cabelos ébano em seu punho e o apertou contra sua face, inalando a fresca essência dela.

- Eu me ocuparei de Darius.

- É a isso que me refiro. Não quero que faça nada. - Objetou ela pacientemente.

- E o que quer, Desari? – Interrogou ele, entre seus brancos dentes. - Uma função de uma só noite? É isso? - Em vez da raiva que ela esperava, sua voz era ligeiramente zombadora, e sua diversão a fez rilhar os dentes. Seus olhos de carvão se enegreceram ainda mais.

- Sabe que não é assim. Mas acredito que é melhor facilitar as coisas.

Ele soltou uma gargalhada, depois rodou para ficar de barriga para cima olhando ao teto, seus amplos ombros se sacudiam com humor. Desari lhe olhou fixamente, elevando-se de joelhos, sem emprestar atenção a sua pele nua, reluzindo na noite.

- O que é tão divertido? - Exigiu.

Ele tocou sua face, numa carícia com intenção de serená-la.

- Não chamaria o que aconteceu esta noite, de facilitar nada, piccola. Foi bem mais, que um fogo incontrolado, o que nos consumiu. . - Seu sorriso era toda satisfação masculina.

- Esconda pelo menos, esse sorriso satisfeito de sua cara. - Desari tocou seus lábios perfeitos com a ponta dos dedos.

- Mereço. – Ele contradisse-a, solenemente. - Sabe que tenho razão. - Seus olhos estavam ardentes e nublados de novo. Tocavam tão profundamente em seu interior, que Desari quase esqueceu o que era tão importante, momentos antes.

- Está me distraindo, deliberadamente. – Ela provocou. Mas sua mão encontrou os firmes músculos do peito dele, diretamente sobre seu coração. - Deveríamos decidir isto.

A mão dele cobriu a dela deixando sua palma pressionada firmemente sobre sua pele.

- Decidiremos. Eu vou aonde você vá. Você vai aonde eu vou. Já não está mais sob o amparo de Darius. Embora todos os homens dos Cárpatos guardam a mulheres como tesouros, sabemos como funciona isto. Ele entenderá.

- Com o tempo, Julian. – Ele disse, um pouco desesperada. - Mas não agora mesmo. Voltarei e falarei com ele. Se ele estiver de acordo com nossa relação, os outros não terão mais opção que fazer o que ele diz. Dê-me um pouco de margem, para o convencer.

Desari foi consciente da dura linha da boca de Julian. Ele não estava nem de perto de concordar com ela.          

 

Julian sentiu que sua respiração ficara presa nos pulmões. Sua garganta se apertou até o ponto de fechar-se completamente. Desse era formosa. Como ela estava, seu cabelo sedoso acariciava seu corpo, esparramando-se pela colcha a sua volta. Sua pele era imaculada, seu torso e sua pequena cintura enfatizavam a plenitude de seus seios. Adorava o som de sua voz, tão puro e autêntico, como nada que ouvira antes.

Desari não podia escapar dele. Sentia-se bastante feliz com o fato. Sua expressão, enquanto olhava para ele, tentando exasperar-se, não podia apagar a suavidade de seus olhos escuros. Não havia nada de mesquinho nela. Julian simplesmente estendeu a mão, capturou sua cintura e a levantou facilmente com sua extraordinária força. Trocou seu corpo e num movimento fluídico, a colocou diretamente sobre ele. Seu comprido cabelo acariciou suas coxas, os quadris, dançando sobre sua pele tão eróticamente como os mais sedosos dos dedos. Quando a baixou gentilmente, seu corpo já tinha tornado à vida, ardoroso e duro, ansioso por sentir sua feminilidade apertando-o.

Desari gemeu enquanto ele a penetrava, afastando todo pensamento, exceto a necessidade de que seu corpo igualasse o insaciável apetite de Julian. Seus olhos se abriram e Julian elevou as mãos para tocar seus seios enquanto seus olhos dourados capturavam os dela. Estavam compartilhando mais que seus corpos, Desari sabia. Estava vendo o interior da alma desse homem, igual ele podia ver a dela. Ele moveu os quadris, balançando-a gentilmente, contando-lhe mais sobre si mesmo do que o fazia, sua posse selvagem e indomável.

- Não há ninguém mais formosa que você, Desari. - Murmurou ele, tomado por sensações. - Em todo mundo.

O sorriso dela foi lento e sedutor, o sorriso de uma mulher segura do poder que exercia. Traçou seus músculos definidos, percorreu com seus dedos os cabelos dourados de seu peito. O tempo deteve-se enquanto seguiam a preguiçosa e sensual exploração, juntos com um consentimento mútuo. As mãos dele seguiram o contorno acetinado do corpo dela, atrasando-se em cada intrigante lugar, memorizando cada sensação.

Os quadris dele se elevaram mais agressivamente e ela pôde sentir a paixão ardente aumentar-se. Deliberadamente, ela começou a mexer-se, a fim de capturá-lo, tentá-lo. Adorava olhar sua face, a forma em que seus olhos cor de âmbar se fundiam. A forma que sua respiração estava se entrecortando, a paixão enfatizava sua escura sensualidade. As mãos dele seguraram sua cintura com força, e ele apertou os dentes. Um lamento rouco surgiu através de seu corpo enquanto ela o explorava. Elevaram-se juntos, escalando o mais alto nível do êxtase, em tão curto prazo.

Desari desabou sobre ele, a salvo entre seus braços, contendo-se para permanecer imóvel, sem pronunciar palavras que arruinassem o tempo que tinham juntos. Podia ouvir os galhos das árvores que acariciavam as laterais da cabana, ver como a lua iluminava a noite, com uma incandescência prateada. O amanhecer se aproximava mais veloz do que Desari gostaria, mas ainda restava um bom momento para estarem juntos.

O vento soprou através da porta aberta, enchendo o ar com histórias da noite. De repente as mãos do Julian sobre sua cintura a apertaram com força, mantendo-a imóvel. A advertência chegou a ela, da mente dele. Um apressado e silencioso a vestir-se rapidamente, enquanto ele saía da cama, ficando em pé com um movimento fluidico. Tudo nele sugeria ameaça. Fez um rápido movimento com uma mão e instantaneamente cobriu seu corpo musculoso com roupas civilizadas.

- Fica aquieta.

Ordenou sem olhá-la, saindo já da cabana e baixando os degraus, decidido a encontrar-se com qualquer intruso longe de Desari enquanto pudesse ainda tê-la a seu alcance. Havia sido um idiota arrogante afastando-a do amparo de sua unidade familiar quando estava sendo caçada. A escuridão nele era um farol brilhante para os não-mortos, para seu inimigo jurado. O que fosse que havia, lhes espreitando na noite, estava perto. Sentia-o, pressentia-o, embora não pudesse identificar a ameaça.

Inalou profundamente, estudando o céu, os bosques, a própria terra. Examinou cada polegada como era, um perigoso predador.

- Demônios! Se sobrevier um ataque, chame a seu irmão para que se encontre com você e vá com ele imediatamente.

Desari não tinha intenção de fazer tal coisa. Se algo os ameaçava, não ia fugir como um coelho e lhe deixar para que enfrentasse o ataque sozinho.

- O que é? Perguntou.

O suave tom de Desari aliviou a tensão de Julian.

- O que sente?

Ele exigia-lhe uma resposta. Sua conduta lembrava a seu irmão.

Houve um momento de silêncio enquanto os sentidos de Desari se estendiam na noite. Não sentiu ameaça. Nenhuma absolutamente. Cruzando os braços protetoramente sobre o peito, seguiu até a porta para apoiar-se contra o marco, inalando o ar noturno. Nada.

- Está seguro de que há uma ameaça para nós? Não detecto nada disso. Posso te assegurar, Julian, que não preciso poderes próprios. Acredito que saberia se houvesse perigo.

Se um Cárpato como Desari, não podia sentir a ameaça, havia uma única razão possível. Não era ela que estava sendo ameaçada. Julian deu vários passos para sair ao claro, caminhando em círculos cautelosamente, esperando. Estava ali. Em alguma parte, perto. Sentia a opressiva canalização de energia dirigida a ele. Era forte, muito mais forte do que tinha antecipado, golpeando sua mente com pensamentos de derrota, na intenção de derrubar sua confiança. Julian havia usado esse truque mental em muitas ocasiões. Zangou-o saber que seu adversário acreditava que ele era um principiante.

Era bastante fácil reverter à apreensão, enviar uma onda de volta através do ar noturno, reforçado com seu próprio poder e força. Houve um momento de completo silêncio. Até os insetos pareceram se conter, como se sua vingança houvesse golpeado a calma e o ambiente estivesse cheio de fúria fria e assassina. O ataque chegou da direita, um borrão de movimento impossível de ver. Foram os intensos sentidos de Julian que o salvaram das afiadas garras. O leopardo de materializou no ar, dirigindo-se diretamente a seu estômago com uma terrível ferocidade. As garras estiveram a um centímetro dele. Julian, na realidade, havia contido o fôlego para evitar que o felino lhe abrisse.

Amaldiçoando, Julian saltou no ar, trocando de forma enquanto o fazia, adquirindo garras afiadas como navalhas, e lançou-se diretamente para o musculoso leopardo negro, com as garras estendidas.

O leopardo deu um salto mortal para evitar a carga letal, dirigindo-se para a cobertura das árvores, sabendo que seu enorme oponente emplumado não seria fácil manobrar entre os galhos.

Desari permanecia perfeitamente imóvel sobre o alpendre, com os olhos fixos na terrível batalha.

Julian. Darius.

Seu pior pesadelo convertido em realidade. Respirou profundamente e deixou o ar escapar lentamente. Depois elevou as mãos para a lua e começou às ondear, enquanto cantava brandamente.

As notas tomaram vida frente a ela, notas de prata e ouro, formando redemoinhos-se por volta dos dois combatentes. Sua voz se encheu de pureza, de beleza, tomando asas, elevando-se e estendendo-se para o interior do bosque. A canção era um murmúrio, embora fosse perfeitamente clara. As notas dançavam como estranhos redemoinhos de pó de estrelas, dando voltas e entre o leopardo e a coruja.

A canção de Desari chegou longe na noite, e tudo e todos o que a ouviram se detiveram. Ouviram. A canção falava de paz e entendimento entre todas as espécies. Sua voz não era terrestre. Era uma liga de notas musicais sintonizadas com o universo, com os adversários naturais, com tudo o que ficava dentro do raio de ação da música, tornando impossível que houvesse conflito. Capturado no encantamento místico, Darius foi incapaz de manter a forma de leopardo, e Julian quase caiu do céu enquanto seu corpo recuperava sua forma original. Aterrissou bastante mal, muito perto de Darius.

Os homens se olharam, atônitos pelo poder da voz de Desari. Ela apanhou facilmente em seu feitiço, dois fortes homens dos Cárpatos incapazes de encontrar a agressividade necessária para continuar a batalha. A voz continuou, desenhando as notas em uma rede de prata e ouro que reluzia brilhantemente à luz da lua. A rede envolveu os dois homens, tecendo diminutos fios radiantes entre eles. Só podiam olhá-la, cativados pela pura magnificência e poder de seu incrível dom.

Darius podia sentir as profundas emoções de sua irmã, seu desejo por este homem, as exigências que seu corpo sentia por ele, suas incertezas e temores. Podia sentir a fera, protetora e natural veta possessiva, a profunda fome e desejo por Desari, a paixão que corria profundamente no homem dos Cárpatos. Sentia a fusão das duas almas em uma sólida unidade, compartilhada em dois corpos separados.

Julian podia ver claramente o coração de Darius. As exigências de sua alma, em proteger sua irmã, de cuidar que todos os membros de sua família estivessem a salvo. O homem temia que Julian fosse um vampiro, um não-morto, que atraía com enganos, a sua irmã, a própria condenação. Lutaria até morte, contra qualquer um que a ameaçasse. Não havia paz para o Darius. Lutava com a terrível escuridão que os homens de sua raça estavam forçados a combater no final de sua existência. Opunha-se a ela e só por pura força de vontade, sobrevivia cada sublevação.

As notas de prata e ouro começaram a brilhar tenuemente, sua luminescência lentamente decaiu quando o sussurro da voz dela se apagou. Houve silêncio. Era ruidoso, quase obsceno, depois da beleza de sua canção. Darius continuou olhando sua irmã. Julian estava francamente impressionado por seu desdobramento de poder. Ele, como a maioria dos homens dos Cárpatos, geralmente pensava no poder como uma força destruidora. Desari tinha muito mais poder que qualquer homem, mas de uma classe totalmente diferente.

- Não me levei a isso, para lhe fazer mal.

Os olhos do Desari chamejaram.

- Ninguém podia "me levar", Darius. Vou aonde quero, não aonde alguém me leva.

- Posso notar que fez sua escolha, minha irmã. - Replicou Darius, com sinceridade. - Mas este homem não será uma companhia fácil. – Ele podia cheirar a combinação de essências de seu ato de amor, o sangue do homem misturado ao dela. O que o homem, o estrangeiro de cabelo dourado, fez a ela, Desari estava unida a ele por toda a eternidade. - Eu sou Darius. - apresentou-se, relutantemente. - Desari é minha irmã.

- Julian Savage. - Devolveu Julian, deslizando-se até o alpendre para tomar posição acima, junto a Desari. Sua postura clamava amparo, quase ternura para Desari. - Desari é minha companheira.

- Nunca tínhamos encontrado a outro como nós. Todos outros eram não-mortos e foram destruídos. - Os olhos de Darius, eram escuros como os do Desari embora letalmente frios, calibraram aos de Julian. O que Darius encontrou em Julian, positivo ou não, ficou oculto sob a impassível máscara.

- Restam poucos dos nossos. - Disse Julian tranqüilamente. - Com freqüência somos caçados por aqueles que se convertem em vampiros, tão agressivamente, como nós os caçamos. - Sua mão encontrou os cabelos sedosos que caíam pelas costas de Desari e pegou-os em sua mão, quase ausentemente, com um toque de ternura. - Sabia que ela podia fazer isso?

- Nem sequer sei que demônios, ela fez. - Admitiu Darius.

- Estou aqui. – Falou Desari, indignada. - E sei exatamente que fiz. Se os dois não fossem tão arrogantes e presunçosos, poderiam ter considerado que as mulheres de nossa raça possuem dons equiparáveis aos dos homens.

Julian olhou para Darius, só um rápido relâmpago de olhos, mas Darius captou um brilho que poderia ter sido diversão.

- Arrogante? Presunçoso? - Repreendeu-a Julian com uma careta. - Desari, isso é um pouco duro.

- Eu não acredito. - Disse-lhe ela severamente. – Vocês estão agindo como dois animais territoriais, dando voltas em círculo sem saber nada, um sobre o outro. Que inteligência é essa?

- Desari... - Havia uma inequívoca advertência na voz de Darius.

Ela baixou o olhar a seus pés nus, então se ruborizou, compreendendo que Darius sabia exatamente o que havia acontecido na cabana. Como poderia ele não saber? A essência de Julian grudava-se em cada centímetro de sua pele. A mão de Julian foi até sua nuca, seus dedos fortes começaram uma lenta e consoladora massagem. Estava encadeado a sua mente e sentia seu desconforto, ante o conhecimento de seu irmão, da intimidade que compartilhavam.

O toque protetor sobre sua nuca lhe deu coragem e convicção, e seu olhar saltou de novo para o rosto de seu irmão.

- Tenho-te no mais alto respeito, Darius, você sabe. Nenhuma irmã poderia amar mais a seu irmão, como amo voce. Não sei exatamente, o há entre Julian e eu, mas é forte e urgente. Vocês dois terão que se arrumar para prescindir da violência física. E ponto. Peço-lhes pouco, mas lhes insistirei com ambos. Devem me prometer. Devem me dar sua palavra de honra.

Os olhos de Darius arderam com uma advertência.

- Não ponha muitas esperanças nele, minha irmã. Não lhe conhece. Um estranho surge entre nós, arauto de um ataque contra sua vida, e você confia nele completamente. Possivelmente é muito confiada.

O fôlego de Julian escapou num lento e furioso gemido. Seus olhos dourados brilharam com ameaça.

- É rápido para julgar a quem não conhece. - Sua voz era suave, inclusive agradável, mas ninguém poderia confundir a ameaça que se escondia sob a superfície. Darius era como Gregori... Tinha o mesmo sangue que o curador, a mão direita do Príncipe... E sentia a sombra de Julian, igual a Gregori.

- E você subestima a seus inimigos. - Assinalou Darius. Sua voz era como veludo negro. - Está tão seguro de si, que toma poucas precauções para proteger o que reclama como próprio. Foi incrivelmente fácil, desentranhar seus patéticos intentos de me despistar.

Os dentes brancos de Julian reluziram a decrescente luz da lua.

- Sabia que nos seguiria. Como não, quando é responsável pela segurança de sua irmã? Em qualquer caso, não teria alternativa, depois de permitir que esses assassinos tivessem ocasião de tentar matá-la. - Deu o golpe sorrindo, mas sem humor.

Desari empurrou Julian tão forte e inesperadamente que ele balançou por um momento, no alpendre.

- Já basta. Tive suficiente de vocês dois. - Levantou o queixo para eles. - Não vou permitir mais esta estupidez. Não deixarei minha família, neste momento, Julian. Pode aceitar minha decisão e permanecer conosco como um membro de nosso grupo, ou pode seguir seu próprio caminho. Se você negar a aceitar ele, Darius, não terei outra opção, que segui-lo aonde quer que vá. - Exasperada, olhou-lhes. - Decidam já.

A boca de Julian se torceu, os olhos ambarinos se suavizaram, com diversão.

- Sempre é assim? Tem que ser um homem tolerante para ter criado uma mulher tão impertinente.

Desari o empurrou novamente, mas desta vez, Julian estava preparado para ela. Sorrindo ante sua explosão de temperamento, capturou sua cintura facilmente e a trouxe para ele. - Fiz a seu irmão um elogio, caríssima. - Sua voz foi uma carícia, tentadora, reavivando as brasas fumegantes de seu interior com um calor instantâneo. - Não era isso o que queria?

Ela levantou o queixo.

- Isso não é exatamente o que tinha em mente, Julian.

- Não tenho muita experiência em agradar às mulheres nestes últimos séculos. Na realidade, havia me esquecido o quanto podiam ser difíceis, as mulheres de nossa raça. - Disse Julian a Darius com rosto sério.

- Difíceis? - Desari estava ultrajada. - Chama-me difícil quando meu irmão e você estavam tentando se despedaçarem, membros a membro? Os homens de nossa raça têm uma tremenda necessidade de autocontrole. Fezem as coisas a sua maneira, por muito tempo.

- Por isso se tornou arrogante, presunçosa e muito mimada.

Darius se moveu repentinamente. Sua velocidade era incrível para alguém de sua raça. Seu corpo obrigou ao de sua irmã a entrar sob o refúgio do alpendre.

- Se una ao Savage, como fez antes. - Ordenou, um assobio na quietude da noite.

Desari obedeceu porque sempre obedecia a Darius. Fundiu sua mente completamente com a de Julian. Esperava fúria, pelo menos algum ressentimento pelo despotismo de Darius. Em vez disso, encontrou-o em alerta, movendo-se para colocar-se junto a Darius a fim de protegê-la. Ela se inundou no interior da mente de Julian. O que houvesse aí fora medindo e procurando um toque feminino, não conseguisse nada.

Sentiu a escuridão deslizar-se sobre a terra. A pervertida-a aberração que chamavam o não-morto. O vil toque do vampiro a adoeceu enquanto ele se movia aproximando-se mais. Procurando, sempre procurando. Cheirou o mal, a alma retorcida de alguém que tinha matado a sua presa, drenando o sangue vital de sua vítima, com freqüência, depois de torturar e atormentar a criatura condenada.

Protegida entre dois homens poderosos, Desari não tinha medo, mas a baixeza do vampiro fez reagir seu corpo. Seu estômago se retorceu e apertou. Julian envolveu sua mente tão completamente como tinha feito antes, defendendo-a do não-morto enquanto se dispunha a cruzar o céu a toda velocidade. O amanhecer estava nos calcanhares do vampiro, que não podia enfrentar os primeiros raios do sol. Precisava encontrar santuário imediatamente. Passou sobre suas cabeças e se foi, deixando um rastro escuro no céu como uma oleosa mancha de maldade.

- Procuram a nossas mulheres. - Gemeu Darius enojado. - Sempre nos seguem. Sei que sentem às mulheres. – Ele enviou uma pergunta a viajar sobre o vento. - Está Syndil protegida? O vampiro nos encontrou uma vez mais.

Julian relutantemente permitiu a Desari emergir-se, seu braço a rodeou pelos ombros, protetoramente. O coração de Julian martelava com alarme. A escuridão de seu interior tinha atraído a vil criatura diretamente até sua companheira? Tinha que destruir o demônio.

A resposta à pergunta de Darius, chegou de volta, pelo vinculo mental que usava com sua unidade familiar, assim tanto Darius como Desari ouviram as notícias.

- Sentimos sua aproximação e tomamos precauções. Syndil está profundamente na terra, onde ele não pode encontrá-la, embora tente outra sondagem. Está perto. Deve ir a terra logo. - A voz era a de Barack. - Não tema, Darius, ninguém afastará ao Syndil de nós e ninguém lhe fará mal e continuará vivo.

- Haverá outros. - Informou Darius a Julian, satisfeito que tudo estava bem. – Eles estão viajando em grupo, possivelmente pensando que nós, que o caçamos sejam facilmente derrotados. - Havia uma confiança natural na voz de Darius que indicava que não se importava quantos vampiros tentassem o derrotar. Seria impossível.

- Meu irmão reside em São Francisco há muitos anos, caçando aos não-mortos no oeste dos Estados Unidos. - Disse Julian. – Ele também notou que vampiros, usualmente solitários, estão se agregando de repente. Parecia-me uma loucura que simplesmente não evitassem sua área.

Julian desceu do alpendre, levando Desari com ele, seus dedos a sujeitavam pela mão, como grilhões.

- Que notícias há do resto de sua família? O vampiro não detectou à outra mulher? - Sabia que Darius tinha contatado com sua família. Ele teria feito o mesmo.

Os olhos escuros de Darius se fixaram sobre ele. Julian estava atônito. Em tudo, o homem recordava Gregori, o curador da gente dos Cárpatos. Embora os olhos de Gregori brilhavam com uma ameaça prateada, os olhos negros de Darius poderiam refletir ameaça igual.

- Nossa família está a salvo. - Respondeu Darius, pensativamente. - Caçarei a este agora. Irei a terra quando o tiver feito.

- Não te arrisque, Darius. Recorda que está necessitado. - Disse Desari em voz baixa, traindo seu medo.

- Preciso caçar esses assassinos. - Recordou-lhe Darius com grande gentileza. - Seguem aonde quer que vamos. A razão pela que se agregam, os vampiros nesta parte do país é porque Desari prefere atuar nesta região. Seu lugar favorito para tocar é um pequeno centro ao norte daqui chamado Konocti Harbor Resort and Spa. O pessoal de lá, lhe têm muita afeição. As pessoas são amigáveis, a audiência receptiva, a paisagem formosa e o lugar é pequeno, o bastante íntimo para agradá-la.

Julian envolveu a cintura de Desari com um braço e a atraiu ao calor de seu corpo, precisando senti-la só um momento.

- Deveria ter sabido que foi problemática, Desari. - Sussurrou contra a pele nua do pescoço dela, desejando confortá-la com suas brincadeiras.

- Não faça isto, nenhum dos dois. - Os suaves olhos de Desari estavam cuidadosos. - Estão tentando me distrair. Vão caçarem a esse vampiro, apesar de meus desejos.

- Eu o caçarei. - Corrigiu Darius firmemente. - Savage ficará aqui para a proteger.

- Não. Desari está a salvo aqui por agora. Irei com voce. - Estabeleceu Julian com voz suave, consciente do silencioso terror de sua companheira, de que seu irmão escolhesse ser ferido e ter uma morte honorável em luta com um vampiro. – Tranqüilize-se, cara. Assegurarei-me de que seu irmão volte ileso. Nenhum vampiro tem possibilidade de nos derrotar. Vá para terra. Voltaremos contigo depois de destruir ao não-morto. – Ele não queria entregar a caça do vampiro a seu irmão, por razões próprias.

Os dedos dela lhe seguraram o braço. Havia lágrimas em sua mente. - Provavelmente terminarão matando o um ao outro sem mim para intermediar.

- Dou-te minha palavra, piccola. Deve confiar em mim.

O profundo timbre da voz de Julian em sua mente foi reconfortante, enviando onda de calma e conforto, através dela.

- Não há necessidade de irmos os dois. - Desafiou Darius.

Os dente brancos de Julian reluziram em resposta, mas o sorriso não alcançou seus olhos.

- Estou de acordo contigo, Darius. Como Desari confia tanto em seu amparo, seria melhor que ficasse com ela. – Ele inclinou-se e acariciou com sua boca, os lábios de Desari. - Cara, não se incomode. - Sua forma sólida já estava brilhando, evaporando-se, como se fosse um prisma de cristal elevando-se para o céu cinza.

Darius jurou, claramente pego de surpresa. Estava começando a sentir respeito, mesmo contra sua vontade, pelo estranho de olhos dourados. Não havia sido tão fácil, como tinha dito, desentranhar a pista de Savage e estava bastante seguro que o homem sabia que ele o seguia. Darius estava começando a achá-lo interessante. Embora não confiava de tudo nele. Ele era um renegado e havia alguma coisa que não estava bem nele. Algo profundamente enterrado. Darius tinha intenção de manter um olho nele.

- Vá para terra, Desari. Não discuta comigo, estou te dando uma ordem, não lhe pedindo Quero saber sua localização exata para poder dormir sobre você. - Sua mão tocou a face dela, numa demonstração do amor e afeto que desejava sentir, que poderia ter sido capaz de sentir, embora já não pudesse mais. Não obstante, sempre concedia a ela estes gestos porque sabia que ela precisava. Sabia que ela gostaria que ele sentisse essas emoções.

Sem esperar resposta, sabendo que a primeira luz do amanhecer faria impossível o vampiro caçar Desari, Darius saltou para o céu, dissolvendo-se em uma fina neblina, que se moveu a grande velocidade na penumbra, antes que o amanhecer começasse a substituir a escuridão.

Ela não queria sentir temor por nenhum deles... Ambos eram fortes e poderosos... Embora não poderia evitar preocupar-se. Em mais de uma ocasião, tinha visto Darius voltar ferido e sangrando pela horrível batalha com um vampiro. E também se enfrentavam ao amanhecer, o que os debilitava enormemente, embora não tão drasticamente como os que já se haviam convertido.

Darius sempre tentara manter as mulheres longe desse aspecto de sua existência, mas ela compartilhava o mesmo sangue. O mesmo poder e inteligência corriam profundamente nela. Conhecia a terrível luta que enfrentava Darius. Sabia que ele estava deslizando-se para longe dela. Temia por sua alma, temia por sua raça e a dos mortais. Verdadeiramente acreditava de coração, que Darius devia ficar, embora não havia caçador vivo que pudesse o derrotar. Tudo se perderia, incluindo Darius e tudo o que tinha conseguido, tudo o que tinha sacrificado por eles, através dos séculos.

Ela entrou na pequena cabana e deu voltas em seu interior, tocando tudo. Obras de arte incomuns, antigas e únicas. Julian gostava das coisas formosas. Recolheu a camisa de seda dele, levando-lhe à face e inalando sua essência masculina. Julian.

- Estou contigo, cara.

Era assombroso, que essa comunicação entre eles fosse tão forte. Um só pensamento, a preocupação em sua mente e ele ficava consciente, instantaneamente. - Estarei contigo logo. Vá para terra agora.

- Irei à terra, - assegurou-lhe ela, - mas não dormirei até que saiba que voces dois estão a salvo.

- Não me vigiará enquanto destruo ao não-morto. Seria molesto... Possivelmente, perigoso... Para voce. Por favor, faz o que te peço, Desari.   Ele utilizou a palavra, por favor, como se estivesse pedindo, mas havia um tom sutil de ordem sob ela.

Desari nunca havia considerado isso. Quando Darius caçava, Syndil e ela, sempre estavam a salvo, o contato com ele restringido. Nunca havia lhe ocorrido, desafiar Darius. Em tais casos, sua palavra era lei. Agora, tudo havia mudado. De certa forma, de algum modo, estava ligada a Julian. A idéia de que ele estivesse em perigo era tão terrível. Como podia fazer o que ele pedia e não lhe tocar?

Darius era um guerreiro por excelência, uma máquina de matar, quando a situação o exigia. Julian era um homem com emoções, o que lhe conferia de uma só vez, debilidade e força.

Desari saiu da cabana. Era estranho em sua família, usar uma casa para descansar. A maior parte do tempo, preferiam a terra profunda. Haviam aprendido na infância, que era o único refúgio real, numa terra perigosa. Todos eles se sentiam incômodos, muito mais vulneráveis que o normal, se dormiam sobre terra. Nas horas em que o sol estava em alto, sua força ficava totalmente drenada. E se seus corpos, de alguma forma, chegavam a ser exposto à intensa luz, arderiam. Cedo pela manhã ou tarde antes da noite, até podiam tolerá-la, embora não comodamente. Inclusive a luz tênue, afetava a seus hipersensíveis olhos que ardiam de dor, introduzindo-se em suas cabeças como pequenas navalhas de cristal.

Desari se colocou sobre uma discreta colina coberta por erva ondeante. Gostou imediatamente da paz do lugar. Com um gesto da mão abriu a terra e flutuou às profundidades até o interior de sua cama. Imediatamente enviou as coordenadas a seu irmão e Julian.

- Feche a terra e durma.

Ela reconheceu a suave voz de Julian na ordem. Era como Darius. Não precisava levantar a voz para comunicar ameaça ou autoridade.

- Não até que volte.

- Não quero ter que te obrigar a obedecer.

- Como se pudesse. Parece esquecer que não sou uma principiante. Sou igual a você. Não esbanje energia tentando o impossível. Destrua este vampiro, é o que deve fazer, depois volte para mim rapidamente. Discutiremos sua presunção quando voltarmos a nos levantar.

Chegou-lhe o suave eco da risada dele. Quando chegou, estava completamente despreparada, a compulsão foi forte, total, a necessidade de lhe obedecer, suprema. Antes de poder evitar, deixou que ele a controlasse. Imediatamente Julian a fez dormir o profundo sono de sua gente, detendo o coração e os pulmões, cobrindo-a com a terra curadora, consoladora, para seu amparo e rejuvenescimento.

Depois de sua ordem a Desari, Julian voltou sua atenção ao objetivo. Teria que enfrentar a fúria do Desari a seguinte sublevação, mas por hora, ela estava à frente do alcance de qualquer vampiro. Estava a salvo. Nenhum vampiro poderia tocá-la usando Julian como arma. Sentindo a presença escura do não-morto, Julian aterrissou na terra. Sua forma vaporosa brilhou até tornar-se carne e osso sólido. Darius se materializou um segundo, depois que ele.

- Deveria lhe ter ensinado a obedecer, a quem a protege. - Disse Julian com censura.

Os olhos negros de Darius, tão frios como uma tumba, percorreram-lhe uma vez mais.

- Nunca tive necessidade de forçar a obediência de Desse.

Moveram-se juntos, uma caçada lenta e cautelosa, pelo escarpado, com todos os sentidos alerta. O vampiro protegeria seu lugar de descanso, agressivamente.

- Por isso veio comigo? Por que você o passou? - Julian estava percorrendo ligeiramente com a mão a superfície da rocha.

Darius o empurrou para trás, quando uma enorme rocha se desprendia sobre suas cabeças e golpeava o lugar antes estava a cabeça de Julian.

- Sabia que ela não estava em perigo. Se quizesse fazer mal a ela, teria feito no concerto, quando os assassinos atacaram. - Replicou Darius complacentemente. Estava examinando uma seção da rocha enquanto falava, sua atenção concentrada nos estratos de ágata e granito, comprimidas.

- Ah, o famoso concerto no que você estava a protegendo.

- Não tente muito minha paciência, Savage. Você é o responsável pelo que aconteceu nesse concerto. Se não tivesse estado distraído pelo poder que emanava de voce, os assassinos não tinham entrado. Você abriu-lhes a porta. - Darius retrocedeu e examinou o escarpado. - Esta parte de rocha parece estranha, não acha?

Julian estudou a cara mutilada do escarpado.

- Suas salvaguardas, possivelmente. Não me são muito familiares. Viu padrões como estes, antes? Acreditava que tinha aprendido a maior parte dos antigos trabalhos.

Darius lhe olhou fixamente.

- É afortunado em ter a vantagem de que lhe tenham ensinado tais coisas. A maior parte do que aprendi, foi o resultado de me chamuscar os dedos, quando fazia o movimento equivocado. Isto é relativamente novo, desenvolvido no Novo Mundo em algum momento do último século. Acredito que começou na Suramérica, onde um grupo de vampiros tinha uma fortaleza. Copiaram os padrões da arte nativa. Isto parece ser um derivado daquilo. - Fez uma pausa. - Na Suramérica, encontrei evidências de outros também, possivelmente, outros como você. Mas não pude assegurar que não fossem não-mortos e com as mulheres, não quis me arriscar. Tirei minha família rapidamente de lá.

Julian o olhou, depois examinou a rocha cuidadosamente, arquivando para futuras referências a possibilidade de que pudessem existir outros Cárpatos na Suramérica. Transmitiria a informação a Gregori. O Príncipe gostaria de saber e o que Gregori sabia, sabia o Príncipe Mikhail.

- Interessante. O padrão não trabalha da forma habitual. Vai de atrás para frente.

- Exatamente. Quando o desentranhar, tem que reverter o padrão e movê-lo acima e abaixo e de atrás para frente. É intrincado, muito complexo de desentranhar. Não estou seguro de que tenhamos tempo suficiente para isso. O sol está subindo. E sinto seus efeitos. - Admitiu Darius.

Julian estudou seu companheiro, seus olhos dourados viam mais do que Darius gostaria. A maior parte dos Cárpatos podiam suportar os raios da manhã. Duas coisas, entretanto, os fazia hipersensíveis. Alimentar-se de sangue de uma morte, e estar perto do momento da conversão. Darius estava perto. Muito perto. Estava claro nos poços sem emoção de seus olhos, na total falta de atenção por sua própria vida. Darius não só lutava com plena confiança em suas habilidades. Ele lutava como um homem que não se interessava pelo resultado da luta.

- Volte com minha irmã, Savage. Guarde-a bem. Farei o que posso aqui, estou mais familiarizado com este tipo de salvaguardas que você. Se algo me acontecer, possivelmente tomaria meu lugar e proveria de liderança ao resto de minha família. - Disse Darius casualmente, embora a última sugestão, devia haver franqueza. Mesmo assim, seu sentido de dever, o fazia desejar que alguém, embora fosse Julian, protegesse sua família enquanto ele procurava uma morte honorável.

Julian sacudiu a cabeça.

- Sou estritamente um solitário. Não tenho qualidades de líder. – Ele não facilitaria a Darius, deixar a sua irmã e lhe partir o coração.

- Desari teme, que se algo te acontecer, também acontecerá a ela. Isso é certo? - Darius fez a pergunta quase ausentemente, como se não estivesse prestando atenção.

Julian assentiu.

- É assim. Liguei-a mim. Se eu morrer, ela poderia muito bem preferir enfrentar o amanhecer em lugar de viver sem mim. Teria que enviá-la a à terra, durante um longo tempo para protegê-la.

- É muito arriscado. Não tenho intenção de arriscar a vida de Desari ou seu estado mental. É bastante capaz de ser um líder, se assim o decidir. Possivelmente não deseje ser, mas na minha falta, estou seguro de que não deixaria que outro tomasse seu lugar. - Replicou Darius.

Julian havia sentido que Darius estava lhe provando, de alguma forma. Não importava. Ele estava vivendo há muito tempo, com a escuridão escondida nele. Havia se afastado de sua gente, de seu próprio irmão gêmeo, inclusive de seu Príncipe. Converteu-se em um solitário e desconfiado.

- OH, não, Darius. Você não fará isto. Desari temia que tentaria fazer com que o ferissem mortalmente. Isso, eu não posso permitir. Desari não está preparada para abandonar sua família, nem os outros me aceitariam. Nós dois voltaremos para sua irmã agora e nos ocuparemos do vampiro, quando o sol se por.

Darius continou imóvel, ao mesmo tempo, parecia ser, cada centímetro do predador que realmente era.

- Eu oferecia liderança sobre minha família, Savage, não sobre mim. Eu sigo meu próprio caminho.

- Como eu. Não é falta de respeito com você. Na verdade, Darius, quero conhecer sua história. Acredito que você é irmão de Gregori, nosso curador. É um grande homem e não muito diferente de voce. - Julian fez uma careta súbitamente. - Gregori e eu nem sempre coincidimos.

Darius piscou, a única evidência de movimento.

- Não posso imaginar porquê. - Murmurou.

- Confio em voce. - Assegurou Julian.

- Não acredito que deva contar muito com isso. - Replicou Darius.

- O sol está alto, amigo. Vamos.

- Não será fácil viver sob minhas regras. - Advertiu Darius maciamente.

As sobrancelhas de Julian se arquearam.

- Sério? Como eu respondo, só ante meu Príncipe, acredito que encontrarei a experiência interessante.

Darius começava a dissolver-se em uma fina névoa. Era mais fácil viajar sem um corpo à luz do sol. Ainda assim, o cérebro insistia em que os olhos se inchassem, tornando-se vermelhos, ante a terrível luz.

 

O vento soprava através dos grossos galhos das árvores e os ramos balançavam e se inclinavam para baixo, para varrer o chão. As folhas sussurravam, num deslumbrante desdobramento de música natural. Sob a terra, as notas ressonavam, atraindo os dois caçadores adormecidos, de volta ao mundo. Os dois corações começaram a pulsar simultaneamente. O sol se afundava lentamente sob a linha da montanha.

Houve uma explosão amortecida no ar. Primeiro um geiser, depois, a vários metros de distância, um segundo. Quando o pó e a terra se assentaram, dois homens elegantemente vestidos estavam em pé olhando um para o outro. Um deles era uma ameaça dourada. O outro, uma ameaça escura e perigosa. Dentes brancos brilharam quando silenciosamente, eles se reconheceram.

- Minha irmã? - Darius se dedicou a sua principal preocupação.

- Dormirá até que esta desagradável tarefa esteja completada. - Respondeu Julian. Seus olhos brilharam, encontrando o ponto exato, onde Desari jazia clandestinamente.

- Está seguro disso? - Darius arqueou uma expressiva sobrancelha sépticamente.

Os olhos dourados de Julian se congelaram. Tornaram-se frios e duros.

- Posso dirigir minha própria companheira. Não se equivoque.

Se Darius pudesse ser capaz de se divertir, estava seguro de que gargalharia nesse momento. Desse era uma antiga. Uma descendente direta do Escuro original. Podia ser uma mulher, sim. Uma com tremenda compaixão e bondade, mas era muito mais caprochosa, do que Julian imaginava.

- Conhece muitas mulheres de nossa raça? - Perguntou Darius com enganosa tranqüilidade.

- Não. Restam poucas. Estão custodiadas todo o tempo, como deveria ser. É quase impossível que uma mulher não esteja escolhida antes que complete os dezoito anos.

Darius deu a volta para olhar fixamente para Julian.

- É isso certo? Com dezoito não é sequer uma principiante, quase uma menina. Como pode ser isso?

Julian encolheu seus largos ombros.

- São poucas as nossas mulheres. Poucas, são as crianças nascidas de nossa raça, que sobrevivem. Com tão pouca esperança e tantos homens perto da conversão, é a única forma segura. Qualquer mulher não reclamada é muito desestabilizadora.

- Mas a mulher não pode esperar fazer frente a um homem poderoso, com tão tenra idade. Como poderia desenvolver seus próprios talentos e habilidades? - Darius soava um pouco aborrecido com os homens de sua própria raça.

Os olhos dourados brilharam durante um momento.

- Se encontrar a mulher que te traga de volta, as cores e emoções, a que trará sua alma morta à vida e te mostrará a luz, seria capaz de se afastar, porque ela é ainda jovem? Possivelmente suas habilidades não estejam desenvolvidas, mas seu corpo seria o de uma mulher e muitos homens, nessas circunstâncias, estariam mais que felizes de passar séculos ajudando-a a aprender. - Seu corpo estava começando a brilhar, a dissolver-se em diminutas gotas de neblina. - O que está esperando, velho? Se não dormiu o suficiente, asseguro-te que, posso me ocupar disto sozinho.

- Velho? - Repetiu Darius. Levando a cabo sua própria transformação, com assombrosa velocidade. O sol, embora estava baixo, ainda brilhava o suficiente para danificar seus sensíveis olhos. Tinha notado que Julian piscava e os entrecerrava um pouco, mas seus olhos não reagiam tão mal como os de Darius. - Tenho que me assegurar de que não cometa nenhuma outra falha estúpida.

Uma nuvem de névoa cruzou o céu, levando o sol para os escarpados. As cores iridescentes de Julian se misturaram com as de Darius e o escarpado logo surgiu ante eles. Uma intimidante parede de rocha pura. Julian se solidificou, com os braços cruzados no peito, olhando com interesse como Darius começava a sondar um estranho padrão, passando a mão sobre o estrato de granito. Darius movia-se tranqüilamente, como se tivesse todo o tempo do mundo, como se não importasse com o sol ficasse e o vampiro se levantasse.

O vampiro estava enterrado profundamente na parede do escarpado, mas era consciente dos dois caçadores qure rondavam perto. Ele estava consciente da posição exata do sol e quanto tempo lhe restava antes de poder elevar-se. Seus lábios retrocederam numa aguda careta de ódio, mostrando seus dentes afiados manchados do sangue de suas vítimas. Sua pele era cerosa, cinzenta, apertada firmemente contra o crânio. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, suas longas unhas amarelas, pareciam garras. Seu assobio venenoso era uma sentença de vingança e de ódio. Não podia esperar simplesmente, apanhado dentro da prisão de pedra e sua terrível debilidade, enquanto foras, essas criaturas que o caçavam, arranhavam a entrada a sua guarida.

Julian estava intrigado pela facilidade com que Darius desentranhava as salvaguardas que o vampiro havia colocado. Darius se movia com grande confiança, mas com calma, mesmo enquanto o sol ainda brilhava. Parecia absorvido por seu trabalho, como se exigisse sua completa atenção, mas Julian não se deixou enganar. Darius era consciente do perigo que eles corriam. Enquanto Darius continuava ondeando seu estranho padrão, com o passar do escarpado, uma fina linha começou a tomar forma, ziguezagueando através da rocha.

Com um trovão, a linha começou a aprofundar-se e ampliar-se. Em seguida começaram a sair escorpiões da fenda. Milhares deles, enormes e horrendos, saíam apressando-se para Darius. Enquanto Darius se movia para evitar a cascata de insetos venenosos, o chão se ondeou, exalou e abriu, o jogando diretamente em meio deles. Julian o atirou para cima e para fora do caminho dos escorpiões, lançando ambos no ar, enquanto os guardiães do vampiro formigavam pelo chão.

Darius olhou o céu, e um relâmpago desenhou um arco de nuvem a nuvem. Olhou diretamente para as nervuras de luz, reunindo a energia até que a formou numa brilhante bola de fogo e a dirigiu diretamente à massa de escorpiões. Num momento, eles sentiram o cheiro de insetos sendo queimados.

Quando Julian aterrissou uma vez mais, no chão, Darius tinha voltado para seu trabalho como se a interrupção não tivesse acontecido. Julian observou o estranho padrão, intrigado pelo trabalho no qual não conhecia, em seus longos séculos de caça. Tinha que admirar a fluida graça que exibia Darius. Sua segurança e confiança, sua falta de dúvida. Seu próprio coração pulsava fora de ritmo, de excitação e medo. Seria este? Seria o malvado antigo, que o aguardava dentro de sua guarida, esperando reclamar o tutelado que tão destramente dirigira?

- A terra. - Darius pronunciou as palavras, em voz baixa. Julian quase as perdeu, por causa de seu ódio agudo, tão imerso como estava, em suas escuras lembranças.

- Perdão? - enquanto ouvia suas próprias palavras, Julian prestava atenção à advertência, estudando a terra abaixo deles, cuidadosamente. Darius não havia afastado o olhar do escarpado, trabalhando nas salvaguardas até que as rompeu. A greta dilatou, a rocha gemeu como se fosse forçada a afastar-se. Julian captou um movimento... Tão rápido e repentino, que quase o perdeu... Que passava sob os pés de Darius, levantando o terreno apenas meia polegada como se algo se movesse sob a superfície.

Então um tentáculo apareceu, a três polegadas dos sapatos de Darius, rebolando obscenamente, procurando cegamente sua presa. Julian instantaneamente lutou contra a demoníaca raiz que o vampiro dominava. Murchou cada apêndice, que surgiam da terra procurando Darius, que aparentemente ignorava toda a batalha, trabalhando eficientemente inclusive quando os tentáculos tentaram enrolar-se em seus tornozelos. Julian apressadamente destruiu a repulsiva forma.

Quando o último tentáculo serpenteou se converteu em cinzas, uma enorme bolha erupcionou a poucos passos de Julian. Uma boca totalmente aberta. Um spray de líquido amarelo esverdeado disparou na direção de Darius, que se manteve imóvel, alargando a fenda, revelando a câmara oculta em seu interior e confiando em Julian para que os defendesse desta última ameaça. Julian bombardeou a bolha com uma explosão parecida com um raio de fogo do céu, incinerando-a antes que o spray ácido pudesse tocar Darius.

- O sol. - Recordou-lhe Julian, consciente da baixa posição do mesmo no céu, notando que os vermelhos e rosados raios do pôr-do-sol, já manchavam os céus.

- Não há forma de apressar este procedimento. - Replicou Darius brandamente. - O não-morto é consciente de nós e envia seus serventes para nos atrasar.

Julian estendeu-se até a mente de seu oponente oculto.

- Você está débil, maldito. Não deveria desafiar alguém muito mais forte que você. Sou de sangue ancestral e poderoso. Outros, bem mais experimentados que você, não puderam me derrotar nestes séculos. Não tem forma de ganhar. Já está derrotado.

Do escuro interior da câmara saiu apressado um exército de enormes ratos, saltando em volta dos homens dos Cárpatos, com uma selvagem ferocidade, alimentadas pela fome e a compulsão. Com sua desesperada e inteligente mente, o vampiro orquestrava o vicioso grupo de ataque. Julian compreendeu que os ratos estavam contra Darius. O vampiro estava preparado para este, mas possivelmente não tinha compreendido que outro caçador, também o espreitava-lhe.

Os ratos atentavam contra o protetor de Desari, sugerindo que era Desse, o objetivo final do não-morto. Com uma selvagem satisfação, Julian saltou sobre a apertada massa de corpos peludos e abriu caminho para o interior das vísceras da montanha.

O antigo, que ele havia passado várias vidas procurando, não estava nesta guarida. Ele teria reconhecido imediatamente a Julian, sua voz, seu sangue e sua a sombra. Ainda assim, a fúria derramava nele, procurando sua presa. Este não escaparia. As paredes do estreito túnel se fendiam com fios dentados como navalhas, erupcionando inesperadamente à direita, depois à esquerda, quando o vampiro colocava obstáculos no caminho do caçador, para o atrasar. O vampiro era consciente do perigo que se aproximava e de que o sol se afundava no céu. Sentia que teria oportunidade de lutar. Ele podia atrazar o progresso do caçador, o suficiente para que o sol entrasse e ele recuperasse forças para elevar-se.

Julian se encolheu, expandiu seu corpo, deslizando-se facilmente através do labirinto de afiados navalhas, aprofundando mais nas vísceras da montanha. Cheirou o malvado, a guarida da besta. Era a morte e decadência. Enquanto Julian se introduzia na câmara, milhares de morcegos se equilibraram sobre ele, emitindo agudos chiados de alarme. Sua mente, automaticamente, os acalmava e lhes fazia retroceder às profundezas da cova onde não estivessem ao alcance da luz.

O vampiro estava deitado, olhando-o fixamente, com os olhos vermelhos ardentes de ódio. Seus magros lábios sem sangue retrocederam em uma careta, para revelar dentes podres. Sua pele encolheu até pegar-se à caveira, quase revelando o esqueleto. Julian queria sentir pena por essa criatura maldita, mas sua repulsão ante tal proximidade com o mal foi esmagadora. Detestava vampiros, de uma forma implacável e desumana, da qual não poderia sobrepor-se. Em sua infância, havia estado perto de tão repulsivo ser, que o podre e pestilento mau cheiro, havia ficado gravado para sempre em sua memória.

O vampiro estava numa depressão da terra, com roupas que uma vez foram elegantes e finas e agora cobriam seu corpo extenuado. Tinha um aspecto grotesco. Enquanto Julian se aproximava, a boca se curvou em uma paródia de sorriso.

- Chega muito tarde, caçador. O sol está cansado do céu. - O vampiro flutuou do chão até ficar em pé.

Julian encolheu de ombros com estudada despreocupação.

- Não me reconhece? Crescemos juntos. Uma vez foi um grande homem, Renaldo. Como desceu tão baixo, aponto de vagar pela terra em busca de presas frescas?

A cabeça ondulou para frente e para trás, num movimento brusco.

- Por que vieste a este lugar, Savage? Nunca o importaram as políticas de nossa raça. - A voz do vampiro foi um som desagradável cuspido por sua garganta.

- Escolheu se converter em algo distinto, aquilo para que nasceu. Levo muitos anos, caçando a aqueles que escolhem condenar suas almas e pôr em perigo os outros. - Replicou Julian, quase amavelmente. Sua voz era de formosa pureza, seu tom enchia a cova, afastando para o lado, o mau cheiro, a decadência. - Houve um tempo, Renaldo, que você caçou a meu lado. Já naquela época, não podia nem de perto, igualar minha força e poder. Por que se crê capaz de me desafiar agora? - parecia uma pergunta bastante inocente, mas sua voz era hipnótica, aveludada, ainda mais poderosa porque era quase impossível detectar a compulsão escondida nela.

Darius havia seguido Julian ao interior da montanha, permanecendo na retaguarda para ocupar-se de outros perigos, sabendo por experiência que o não-morto teria muitas armadilhas e enganos e que sempre tentavam levar aqueles que o caçavam, com eles à morte. Com um não-morto, nada era nunca, o que parecia ser.

Ele estava interessado na suave e gentil aproximação de Julian com vampiro. Darius era mais direto, caçava ao não-morto e o despachava rapidamente em uma batalha breve e feroz. Julian era como o próprio vampiro... Indireto e enganoso, cavando a confiança de seu oponente. Ele despistava e desconcentrava, recordando os velhos tempos. Darius sacudiu a cabeça, mas permaneceu silencioso e escondido. O amante de sua irmã era um homem interessante, um renegado, seguindo seu próprio caminho em tudo, com um humor tão descuidado e sardônico, que saltava quando menos esperava. Julian aparentava não temer nada, respeitar pouco e ser sua própria lei.

A curiosidade de Darius ia querer conhecer melhor o homem que reclamava sua irmã como companheira. Havia algo fugidio neste homem que sua irmã tinha escolhido como companheiro. Algo escuro e misterioso que o afligia.

O vampiro estava se movendo em círculos, tentando colocar-se mais perto da presa. Julian não cedia terreno, simplesmente se movia com o monstro em uma estranha e flutuante dança.

- Sabe que não posso permitir você viver, Renaldo. Seria desumano de minha parte.

- Você não sente nenhuma emoção pelos humanos, Julian. - Assinalou o vampiro. - Não segue a ninguém, nem sequer ao Príncipe de todos os Cárpatos. Crê que não sinto a sombra estendendo-se e crescendo em seu interior? É de nosso sangue. Meu desafio não foi arrojado a você. Foi para outro. Um que não conhece às pessoas de nossa terra natal. Esse que retém a mais de uma mulher elegível para si mesmo. Isso vai contra nossas leis.

Os dentes brancos de Julian brilharam na escuridão da caverna.

- E você segue estas leis? - Perguntou com enganosa tranqüilidade, mas as palavras do vampiro o haviam golpeado profundamente. "É de nosso sangue".

Inclusive enquanto falava, ele sentia a leve mudança da terra sob seus pés, o princípio do desesperado assalto do não-morto. Imediatamente, se moveu com a velocidade de um raio, passando de uma posição relaxada a lançar-se diretamente para o vampiro, suas mãos se afundaram profundamente no peito, extraindo o palpitante coração.

A imagem foi tão imprecisa, a velocidade tão grande, inclusive para um de sua raça, que Darius pensou por um instante, que se imaginou a hábil carga de Savage. O vampiro se balançou incertamente, cuspindo sangue. Seus grotescos rasgos se contorceram formado uma máscara grotesca. Caiu em um lento movimento, aterrissando quase aos pés de Julian.

Julian atirou o coração a certa distância do corpo e imediatamente reuniu energia em suas mãos para limpar o sangue de sua pele. Depois dirigiu uma chama laranja para o ainda pulsante órgão, incinerando-o, até convertê-lo em cinzas. A chama saltou de sua mão para o corpo, incinerando instantaneamente os restos, para que o vampiro não pudesse elevar-se de novo.

A terra sob seus pés se moveu, exalou e ondeou.

Houve um ameaçando ranger de rocha, um chiar de estratos de pedra, quando as placas de granito começaram a deslizarem-se umas para as outras. Darius apareceu e saltou para a fenda, suas mãos ondearam um estranho padrão, enquanto cantarolava, desfazendo a armadilha letal do vampiro. Julian não esperou um convite formal. Trocou de forma no vôo, fazendo-se tão pequeno como foi possível, retorcendo-se pela greta que se fechava para o ar aberto e para a noite, Darius ia atrás dele. Os dois irromperam à liberdade de céu, ao espaço aberto, poucos antes da fenda se fechar com um estrondo.

- Acreditava que ele planejava lhe falar até a morte. - Informou secamente Darius ao morcego dourado enquanto ele mudava a forma de um morcego negro, para a de um predador emplumado muito mais poderoso.

- Alguém tinha que fazer alguma coisa, enquanto você estava tentando seus padrões na rocha. - Replicou Julian facilmente, permitindo que surgissem plumas iridescentes por todo seu corpo, convertendo-se em uma ave capaz de manter o agressivo vôo de seu companheiro. Começaram a voar cotovelo com cotovelo para o bosque onde haviam deixado Desari.

- Não tinha outra opção, que proteger o homem que escolheu minha irmã. - Darius deu a intenção de que parecesse que sua irmã tivesse a cabeça oca.

Julian soprou.

- Me proteger? Não acredito, velho. Você é que ficou atrás, entre as sombras, enquanto eu destruía à besta.

- Tinha que me assegurar de que não havia outras armadilhas e truques. Certamente, não viveste tempo suficiente com os não-mortos. - Replicou Darius macio. Virou à esquerda, sobrevoando as árvores. Quando Julian continuou pelo mesmo curso, Darius riscou um amplo círculo retrocedendo para ele.

- Não deseja voltar comigo, para minha família?

- Primeiro devo despertar Desari. - Replicou Julian complacentemente.

- Desari se levantou faz uma hora. - Darius entregou a mensagem com voz tranqüila e neutra.

Julian, dentro do corpo da coruja, quase caiu no chão, tomado pela surpresa. Não podia aceitar que Darius estivesse falando a verdade. Darius já não tinha mais, senso de humor. Estava mais perto de converter-se que nenhum outro homem dos Cárpatos. Era um pensamento inquietante pensar que algum dia pudesse ter que caçar e tentar destruir o irmão de Desari.

Desari. Sussurrou o nome no céu, em algum lugar entre a ternura e a raiva. De algum modo, ela havia se levantado, apesar de sua forte ordem. Devia ter sido consciente do momento de sua sublevação. Era sua companheira. Estavam conectados, duas metades do mesmo tudo. Darius soubera que Desari partira. Ela estava contatada com ele? Por um momento, o corpo emplumado de Julian tremeu de raiva. Desari não entendia o que significava ser reclamada por seu homem. Estava ligada a ele, com ocoração e a alma. Precisava aprender muito mais do homem que agora era seu companheiro. Uma vingança mesquinha, só porque ela a havia obrigado a obedecer. não seria tolerada.

- Tolerada? Disse desdenhosamente a suave voz de Desari em sua mente. - Não te devo obediência, Julian. Não sou uma principiante que o segue, sem perguntas. É você que precisa aprender mais da mulher que reclama para voce. Não serei tratada de semelhante maneira.

Julian fez calar a sua mente enquanto lutava com uma raiva pouco familiar. Nunca havia esperado sentir raiva ou ciúme. Nunca havia tido razões. E, como poderoso homem dos Cárpatos, tinha acreditado naturalmente que sua companheira seria a que teria que mudar sua vida por ele. Quereria encaixar ela em seu mundo, não obrigar a viver ele, no dela. Embora Desari parecia ter idéias próprias. Julian deliberadamente se afastou de Darius, lutando por reprimir seu inesperado temperamento. Precisava de um momento a sós, para se controlar, para pensar nas coisas. Para tentar entender que Desari não era uma principiante para ser guiada por seu companheiro. Como ele, havia vivido muitos séculos, tinha muitos poderes, e estava acostumada a tomar suas decisões e obter um certo respeito. Voou para os picos da montanha, onde sempre sentia uma paz. Passaria um tempo ponderando a situação e a melhor forma de dirigi-la.

"É de nosso sangue", havia dito o não-morto. E era a terrível verdade. Como havia pensado que poderia reclamar uma companheira e viver como um honorável Cárpato? Não duvidava que Mikhail, o Príncipe de sua gente, soubesse a verdade. Também Gregori. E Darius certamente pressentia. Pior ainda. Agora Julian compreendia que se Darius sabia, também saberia Desari. "É de nosso sangue".

Desari vagava pelo lugar que Dayan tinha escolhido para acampar. Estavam perto de outros campistas, campistas humanos, embora protegidos de olhos curiosos. Ainda assim, por alguma razão, sentia-se inquieta. Passeava de um lado a outro, até que Dayan chamou sua atenção. Ou ela parava ou ia cobrir se de pó. A princípio, ela pensou que era porque estava zangada com Julian, por ele enviá-la a dormir como a uma principiante. Depois decidiu que estava furiosa comsigo mesma por ser tão vulnerável a tal compulsão. Agora não sabia o que era. Sua mente estava um caos, esforçando-se constantemente para encontrar Julian. Isso, por si só era desconcertante. Possivelmente, o que precisava era alimentar-se.

Não, o que precisava era encontrar Julian. Poder tocá-lo. Poder vê-lo.

Um palavrão saiu rápido de sua boca enquanto golpeou a mesa de picnic. Forest, o leopardo macho que sempre viajava com eles, deitava-se em toda sua longitude, sobre a mesa. Irritada, Desari o afastou, com um empurrão.

- Saia.

O felino lhe respondeu com uma desafiante careta de seus lábios, mas não se moveu. Dayan se voltou a olhá-la com surpresa.

- Que demônios está acontecendo?

- Tudo. Nada. Não sei. O ônibus estragou pela quarta vez, este mês. Barack não tem nem idéia de como arrumar o veículo, só o remenda, todo o tempo. Ninguém quer comprar um novo e eu continuo dizendo que temos que aprender a arrumar o motor ou contratar um mecânico que viaje conosco.      - Os gatos nunca tolerariam um humano junto a nós. - Disse Darius enquanto se materializava junto à mesa. Ele estendeu a mão, para afastar o leopardo macho.

- Tolerarão. - Repôs Desari. Seus olhos negros brilharam para o irmão, depois procuraram no céu e nos bosques dos arredores. Onde estava Julian?     - Onde está? – A voz escapou antes de poder evitar. Um lamento por tocar sua mente. Tudo o que encontrou foi silêncio e sua agitação aumentou. Por que se importa? Depois, o que era ele para ela? Um amante. As pessoas arrumavam amantes todo o tempo.

Barack era como um cão de caça. Pelo menos, tinha tido um par nos últimos séculos. Desari afastou sua mente imediatamente.

Não podia pensar nisso. Não podia pensar em Julian e seu paradeiro.

- Desse, acalme-se. - Ordenou Darius brandamente. - Seu estado mental não tem nada a ver com nosso veículo.

- Não presuma conhecer meu estado mental, Darius. - Replicou ela. – Eu já disse que precisamos de um novo motor. O caminhão está quebrado, agora. Ninguém quer fazer nada a respeito? Syndil está muito ocupada escondendo-se do mundo. Barack está vagabundeando em algum lugar. E Dayan e você não prestam atenção nos detalhes de nossa vida.

- Cuido o cenário de cada noite. - Disse Dayan, defendendo-se. - Escrevo as canções e a música para voce. Não sei nada de motores, nem desejo saber. Não somos mortais para nos ocupar de tais coisas.

Darius simplesmente estudava sua irmã, sem falar. Ela esfregava os braços com as mãos, como se tivesse frio. O ar da noite era fresco, mas não incômodo. Ela estava anormalmente pálida.

- Atender o cenário não é atender os detalhes necessários, Dayan. - Informou-lhe Desari. - Temos que reservar os tours, manter em dia as contas, planejar as rotas, cuidar que possamos alimentar aos felinos, nos assegurar de ter o combustível adequado e os mantimentos para qualquer avaria que apresentar no caminho. Devemos parecer humanos. Devemos atuar como humanos. Faz você isso, Dayan? Digo que precisamos de novos veículos ou de um mecânico. Vocês só têm que escolher o que preferirem ou calar a boca e viver com qualquer decisão que eu tome.

Darius arqueou uma elegante sobrancelha.

- E qual é a melhor solução, Desse? Um mecânico? Os gatos provavelmente comeriam o homem antes que terminasse de o entrevistar. Mas, se encontrasse a alguém, que para os gatos parecesse pouco apetecível, poderíamos deixarque viajasse conosco.

- Um humano? Um homem? - Dayan pareceu ultrajado. - Não seria passível que ele estivesse em volta de nossas mulheres.

A cabeça de Desari saltou, seus olhos cuspiam jogo.

- Nós as mulheres, não são de sua propriedade, Dayan. Temos direito de fazer o que quisermos, estar ao redor de homens ou mulheres, mortal ou imortal... Que prefiramos. Você não nos controla e nunca o fará.

Dayan deixou escapar o fôlego, num longo e lento assobio de desaprovação.

- Esse estranho que escolheste como consorte a noite passada, deve te ter contagiado com um vírus. Sua predisposição veio a menos, Desari.

- Dayan. - Darius se colocou entre sua irmã e seu segundo no comando. - Já é suficiente. O "estranho", Julian Savage, é um poderoso Cárpato. Um caçador de vampiros. Faremos bem em aprender o que pudermos com ele. Se ele vier ao acampamento, quero que o trate com o mesmo respeito que a qualquer de nós.

Dayan sacudiu a cabeça, molestado pela loucura de permitir um estranho entre eles.

- Farei o que ordena, Darius, mas acredito que esse homem, de algum jeito, enfeitiçou Desari.

- Por que? - Exigiu ela. - Porque insito em que você ajude com alguns detalhes de nossa vida? Não somos animais da selva, o macho defendendo seu orgulho e seu território. Deve ajudar mais.

Dayan arqueou uma sobrancelha, mas refreou o impulso de continuar discutindo com Desari.

- Ocupe-se disso. - Disse ele a Darius. - Você é o único que pode. - E depois, ele se foi antes que Desari pudesse tomar represálias.

Desari ficou para enfrentar seu irmão.

- Não diga nada, Darius. Sei que algo está terrivelmente mal em mim. Não sei que é, mas me sinto como se estivesse perdendo a cabeça. É mais que um simples mal-estar físico é também mental.

- O chame. - Darius deu a ordem tranquilamente, como era seu estilo. Não teve menos impacto. Sua voz carregava séculos de autoridade.

Ela fechou os olhos firmemente, pressionando as mãos sobre seu estômago revolto.

- Não posso, Darius. Não me peça isso.

- Não posso fazer mais que te dizer isso. - Disse ele. – Chame-o.

- Se eu fizer isso, ele acreditará que tem direito de exigir minha obediência.

- Está sofrendo sem necessidade. O que seja que este homem tenha feito para te unir a ele, não podemos desfazer, até que saibamos mais. – Darius forçou amabilidade em sua voz. - Sabe que não posso permitir que sofra, Desari. Chame-o.

- Não posso. Não ouviste o que eu disse a Dayan? As mulheres têm direitos, Darius. Não podemos obedecer aos homens, simplesmente, porque eles crêm que deva ser assim.

Os olhos gelados e negros de Darius, capturaram os escuros dela, cheios de pena e sustentaram seu olhar.

- Sempre fui responsável por voce e por Syndil. Nisto, devo insistir. Posso sentir sua dor, o caos de sua mente. Faça o que te ordeno.

- Por favor, Darius. Não desejo te desafiar abertamente. - Desari estava mordendo as unhas, a tensão em seu rosto era terrível de presenciar, para seu irmão. Sua outra mão torcia nervosamente a massa de cabelo ébano, que caía em volta de seus ombros e por suas costas.

- Tem feito isso, repetidas vezes, desde que esse homem entrou em nossas vidas. - Recordou-lhe Darius gentilmente. - Só tolerei o desafio, minha irmãzinha. Compreendo que é uma nova experiência, uma que ultrapassa nosso conhecimento, mas não posso permitir que sofra. Chama Savage para seu lado.

As lágrimas brilhavam nos olhos dela e sobre seus cílios. Ela afundou-se no banco de madeira, perto da mesa, abaixando a cabeça, derrotada.

- Não há necessidade de me chamar. - A forma musculosa de Julian se solidificou a seu lado, bastante perto dela, como para que ela pudesse sentir o calor de seu corpo. Seu braço rodeou os ombros finos. - Não posso suportar me separar de voce, Desari. - Fez a admissão sem duvidar, sem se importar que Darius estivesse ouvindo. Só não desejava provocar mais dor a ela.

- O que me fez? - Havia lágrimas na voz de Desari assim como em seus olhos. Seus dedos se apertaram tanto, que seu afundou profundamente as unhas nas palmas das mãos. Sua voz se converteu num trágico sussurro. - O que me fez, que não posso estar sem voce?

Julian inclinou a cabeça para a dela, segurou gentil e meigamente sua mão, enquanto obrigava seus dedos a abrir-se, um a um. Cuidadosamente, levou as mãos dela aos lábios, pressionando um beijo no centro de cada palma ferida. Seus olhos dourados mantiveram o olhar escuro cativo.

Desari podia sentir que o terrível nó, no fundo de seu estômago, começava a fundir-se com o calor dele. Fosse o que fosse, o fogo que ardia profundamente dentro dele, se emparelhava com o inferno que ardia nela. Havia também uma paz que deslizava em sua alma e seu coração, enchendo o terrível vazio. Estava completa. Totalmente completa novamente, com ele tão perto. Seus pulmões podiam trabalhar, seu coração pulsava com um ritmo forte e firme.

- Posso sentir seu medo, Desari. -Disse Julian brandamente. - Não há necessidade. Não posso te fazer mal. Sou seu companheiro, responsável por sua felicidade.

- Como pode ser? Eu não possso sequer estar longe de você, durante um curto período de tempo? - Desari olhou para seu irmão, numa silenciosa súplica de privacidade. Já tinha suficientes problemas para aceitar tão estranho fenômeno sem ter testemunhas de sua humilhação.

Julian esperou até que Darius fez gestos aos dois leopardos para que se colocassem a seu lado e desapareceu no escuro interior das árvores para caçar. Colocou a mão na nuca de Desari, seus dedos acariciaram o cabelo sedoso.

- Nossos corpos físicos podem estar em diferentes lugares, piccola, mas nossas mentes devem tocar-se com freqüência quando estamos longe.

- Sabia disto, e partiu. Eu escolhi afirmar minha independência e você me castigou por isso. - Disse ela, levantando o queixo para ele.

- Ignorou sua própria segurança, minha cara. - Disse ele. - Negou-se a acreditar no que eu disse, mesmo quando te dava acesso a minha mente. Não tive escolha que deixar você aprender de primeira mão que o que digo é certo. Sou seu companheiro, não pode haver mentiras entre nós.

Desari encontrou um dos botões da imaculada camisa dele e o retorceu nervosamente.

- Não acreditava que você mentia. As coisas que você crê... Não duvido que estejam certas. Mas tudo parece tão irreal, é como uma fantasia, um sonho. Como poderiam, umas simples palavras, nos unir por toda a eternidade? Como poderia um homem ter o poder de mudar a vida de uma mulher?

- Estamos conectados desde nosso nascimento, cara. - Explicou ele, aproximando mais seu corpo quando sentiu que um estremecimento a percorria. - Duas metades de um mesmo todo. Só há um autêntico companheiro. Tenho a sorte de que a minha seja tão talentosa e formosa. Infelizmente, entretanto. - Acrescentou ele. - também é voluntariosa e não sabe o que se espera.

Desari saltou para longe dele, limpando a mesa de picnic de um só golpe. Parecia selvagem e indomável, uma sexy encantadora feiticeira capaz de lhe roubar o fôlego.

- Crie que sou voluntariosa porque insisto em tomar o controle de meu próprio destino? Não me fale de companheiros. Isso não significa nada para mim. Nada absolutamente. Penetra-te em minha vida, faz algo que nos une, e depois, se vê no direito de me ditar como devo viver?

Julian estudou as expressões que cruzaram sua formosa e furiosa face. Tudo nela era um milagre para ele. Os pequenos e delicados ossos de seu corpo. O brilho e a massa de seu cabelo sedoso era tão luxuriante, que podia se perder nele.

- Sou um homem dos Cárpatos, do Velho Mundo. Não levei em conta que não conhece os costumes de nossa gente.

- E supõe que isso é uma espécie de desculpa? - Desari cruzou os braços, tremendo como se tivesse frio. - Não me importa os costumes sua gente.

- Nossa gente. - Corrigiu-a ele amavelmente.

- Minha gente é aquela com quem vivo. A que compartilha minha vida. Por exemplo, meu irmão, ao que tentou matar.

- Se tivesse tentado matar, minha cara, ele estaria morto. - Levantou a mão para evitar sua indignada interrupção. - Não estou dizendo, que não me tivesse levado, provavelmente o teria feito. Mas, não estávamos tentando nos matar. Darius não ia entregar a sua amada irmã a um estranho que não fosse capaz de protegê-la. Era uma prova.

- Darius estava te colocando a prova? - Repetiu ela lentamente. - Isto é uma espécie de coisa de machões que eu deveria entender?

Julian se moveu tão rapidamente, que estava sobre ela antes que Dessari tivesse tempo de correr. Nem sequer houve advertência, não moveu nem um músculo. Simplesmente estava ali, seu corpo aproximando-se agressivamente. Sua mão se estendeu pela garganta dela, seu polegar acariciou a delicada mandíbula.

- Desari, cara, não temos mais escolha, que aprender os costumes um do outro. Estamos unidos. Eu gostaria de ser capaz de dizer as palavras formosas que desejas ouvir. Sei que fiz mal em te obrigar a obedecer...

- Tentar me obrigar. - Corrigiu-lhe ela com fogo nos olhos.

Julian se inclinou para roçar com os lábios, a tentação acetinada da testa dela, enquanto a diversão se abria nas profundezas de seus olhos dourados.

- Tentar te obrigar. Está certo. Tenho sorte que minha companheira seja tão poderosa. Embora, piccola, eu também estou em meu direito de cuidar de sua segurança. Não posso fazer outra coisa, que assegurar seu bem-estar. Nossa gente não pode confrontar a perda de nenhuma mulher, Desari. A extinção total de nossa raça é já quase completa. Nossas mulheres são nossa única esperança. Admitirei que, nem sempre sigo as leis de nossa gente, mas nisto não tenho escolha e tampouco você. Sua segurança e saúde devem estar acima de todo o resto, para mim. A outra mulher que viaja com vocês deve ser bem guardada.

Ela se passou à mão pelo cabelo.

- Então devemos prover crianças para nossa raça? Essa é a única razão de nossa existência?

- Não, cara. A existência da mulher traz alegria ao este mundo, como tem feito durante tantos séculos. Deus não a teria honrado com semelhante voz e tão poderosa arma para a paz, não teria sentido que não a usasse. Mas... - Julian encolheu seus amplos ombros, seu polegar riscou um padrão no pescoço dela... - por hora, tenho a esperança, de que você e eu, poderemos dar a nossa raça, algumas meninas. Não estou seguro de que classe de pai eu seria, já que nunca me imaginei nesse papel, mas tampouco pensei que encontraria ou seria companheiro de alguém. Algo próximo ao humor, faiscou durante um momento, em seus olhos. - Não posso dizer que tenha tido êxito total nessa área. - Mas o louvor a seus talentos a tinha esquentado, assim como a suave carícia de sua voz, a admiração em seus olhos, nas profundezas de sua mente.

A mão dele encontrou sua nuca, enquanto inclinava sua cabeça para a dela. Sua boca desceu com infinita lentidão, até a dela, para poder saborear sua doçura. Desari sentiu o coração saltar ante seu toque, e seu corpo instantaneamente se fundiu. Sentiu sua grande força, o desejo surgindo através dele enquanto o calor se arqueava entre eles. Sua boca se moveu para saborear os lábios dela, para deixar um rastro de fogo ao longo de seu queixo.

- Entretanto, sou bastante bom em uma ou duas coisas. – Murmurou ele, com confiança casual. Seus dentes lhe mordiscaram o queixo.

- Supõe-se que isto deve te tirar do atoleiro? - Perguntou ela com os olhos fechados, saboreando o toque e a sensação que ele provocava. Em seguida pareceu imperativo que estivessem sozinhos.

- Não deveria estar num atoleiro. Sou tão novo nisto como você, Desari. Até agora, passei toda minha vida só. - Seus lábios roçaram a sedosa coluna de seu pescoço. - Tratar de encaixar esta situação me é tão alheio como a voce. Se precisar permanecer com tua familia, então não posso fazer outra coisa que ficar aqui com você. Mas deve reconhecer que também tenho necessidades. Não desejo encontrar outros homens perto de você e nem quero que questões me julguem, quando sua segurança estiver em jogo. - Quando ela ia protestar, ele deu-lhe uma pequena sacudidela. – Pense no que diz antes de falar. Estou em sua mente. Sei que não deseja outra pessoa te dizendo o que fazer com sua vida. Eu, melhor que ninguém, compreendo-a. Mas obedeceria a seu irmão, em questões de segurança. A mesma responsabilidade que ele aceitou sobre sua segurança é agora minha. Preciso da mesma confiança e lealdade que dá sempre dá a ele.

- A confiança se ganha, Julian. - Assinalou Desari brandamente. - E dos dois sentidos. Meu irmão não me dita arbitrariamente o que posso e não posso fazer. Mas estou em sua mente. Algumas vezes, sinto as violentas emoções que está contendo, seu intenso desgosto quando há outros homens perto de mim. Nem sequer quer que me alimente.

Julian sentiu as palavras como uma punhalada em sua alma. Cada músculo se contraiu em protesto quando a vívida imagem brotou em sua mente. Desari atraindo um homem até ela, com sua beleza e mistério, inclinando-se para perto dele, até que seus corpos se tocassem, tanto que os lábios dela podiam vagar pelo pescoço do homem até encontrar a pulsação ali. A raiva explodiu nele, profunda, quase incontrolável, certamente como nada que tivesse sentido antes. Era selvagem e indomável. Uma fúria transbordada.

Julian sacudiu a cabeça. Era ilógico sentir tão intensa emoção, por algo tão natural como se alimentar. Nada em todos seus séculos de vida, o havia preparado para algo semelhante. Não entendia.

- Não te alimentará de nenhum outro homem que não eu seja. - Declarou, incapaz de deter-se, antes de ordenar-lhe.

Desari o observou atentamente, examinando seus pensamentos. Julian não tentou lhe ocultar nada. Queria confiança total entre eles. Não era culpa dela, que ele experimentasse dificuldades para as quais não estava preparado, não queria que ela acreditasse assim. A boca da mulher se curvou súbitamente num sorriso.

- Tem razão, Julian, não o farei. Não desejo estar perto de outro homem. - Seus dedos acariciaram o maxilar dele, sua primeira amostra de afeto real, por iniciativa própria. - Não vejo inconveniente de permitir que proveja para mim se isso for o que precisa.

O alívio dele foi tremendo, o curioso sobressalto de seu coração, foi inesperado.

- Farei tudo o que posso, para chegar a algum compromisso com sua família e sua necessidade de cantar. É um grande dom, Desari, sua voz e o que é capaz de fazer com ela. Sinto-me orgulhoso de seu talento, mas não posso mentir. Temo por sua segurança. Suas atuações estão anunciadas com antecipação. Acredito que estará a salvo dos assassinos humanos por hora, mas devemos explorar toda possibilidade real de que os vampiros estejam se congregando nesta região com a esperança expressa de encontrar a voce e à outra mulher.

Agora mais que nunca era imperativo que ele tivesse êxito em sua busca de séculos, para destruir seu mentor vampiro, ou ela nunca estaria verdadeiramente a salvo. Agora, ele podia rastreá-la facilmente através de Julian.

Desari fez uma careta ante seu último comentário.

- A "outra mulher" é Syndil. Quero-a como se fosse minha irmã. Tem acesso a minhas lembranças. Pode ver. Também pode ver que somos especialmente protetores com ela e por que prefere tomar a forma de um leopardo.

- Enquanto é um leopardo não tem que confrontar seu trauma. - Filosofou Julian. - Mas tem que compreender, Desari, isso não está bem. Só atrasa sua recuperação. Tudo o que tenta é ajudá-la, mas ela precisa ser forte por si mesma. Pode lhe fazer frente. Fingir que o assalto não aconteceu, não permitirá sua recuperação. Precisa reunir valorem, para começar a recuperar sua vida.

Desari ergueu a cabeça, para o olhar, atônita ante sua percepção.

- Como pode saber de tudo isso, se sequer a conhece? Por que nós não notamos que só estávamos atrasando sua recuperação? - A angústia de Desari pulsou em sua voz musical. - Foi minha negligência o que evitou que a atendesse.

Julian lhe sorriu.

- Toma muitas responsabilidades sobre seus ombros, Desari. Tenta protegê-la de tudo. Estou seguro de que a princípio era isso exatamente o que ela precisava. Agora a coisa mudou. Compartilhando sua mente, mas ver as coisas de uma nova perspectiva me permite mostrar as conclusões, que você mesma teria chegado com o tempo.

Desari se moveu inquieta, desejando a calidez e conforto do corpo dele. Julian respondeu imediatamente trazendo-a para mais perto. Seus fortes braços a envolveram e a sustentaram firmemente contra ele.

- Tudo estará bem, Desari. Prometo-lhe.

- Darius disse a Dayan que você deve ser tratado com respeito. - Sussurrou ela contra seu peito.

Julian encolheu de ombros despreocupadamente, antes de poder deter-se. Não procurava a aprovação ou amparo de ninguém.

 

Desari levantou o olhar para a face de Julian. Parecia esculpida em pedra. Uma máscara implacável, inexpressiva e pétrea. Suspirou. Integrar Julian em sua família não ia ser fácil. Ele não era dos que seguiam à liderança de outro. Seguia seu próprio caminho. Darius e ele, iriam se chocar em tudo. Os outros homens de sua família tratariam Julian com desconfiança, e isso poderia muito bem ser como colocar um fósforo junto à lenha seca. Julian era arrogante e tinha um sardônico senso de humor que com freqüência, beirava o desprezo. A mão dele deslizou possessivamente por seu braço, atrasando-se por um momento sobre a suave pele antes que os dedos inquietos se perdessem na riqueza luxuosa de seu cabelo. Ele inclinou-se para aproximar a boca a sua orelha. Seu hálito quente a tentou.

- Posso ler seus pensamentos, minha cara, e deveria ter mais fé em seu companheiro. Não posso fazer mais que velar por sua felicidade. Se deseja que vivamos durante um tempo, em paz, entre sua família, "bastante infestada de machos territoriais", então não posso fazer mais, que oferecer minha amizade.

Desari estalou em gargalhadas. Ele havia tentado parecer sincero, mas acabou soando dolorido. Em qualquer caso, ela podia ler seus pensamentos tão facilmente como ele os dela.

- Machos territoriais? Isso o que significa? Nós não temos território próprio, a menos que conte a costa da África, onde vivemos durante muito tempo.

- Passei algum tempo na África, entre os leopardos. – Ele disse para deixar para um lado, o perigoso tema de sua família.

Os olhos dela, tão enormes e formosos, faiscaram para ele.

- Sério? Incrível. Passamos quase duzentos anos ali e ainda voltamos algumas vezes, de visita. Seria divertido que tivéssemos estado no mesmo continente, ao mesmo tempo e nunca nos tivéssemos conhecido. Especialmente, se você corria entre nossos leopardos.

Ele sacudiu a cabeça.

- Duvido que isso acontecesse. Senti o poder de seu irmão como ele sentiu o meu no mesmo momento em que nos aproximamos. Não teríamos deixado de notar se tivéssemos nos encontrado na África. E mais, você e eu, nascidos companheiros, haveríamos sentido a presença, um do outro em qualquer parte. - Mas ele achava interessante, essa inexplicável atração que havia sentido pela África e pelos leopardos, quando andara em sua busca a outros Cárpatos. Possivelmente algum rastro de Desari o tinha conduzido ali.

- Me conte mais sobre sua gente. - Disse ela.

- Também são sua gente. Você tem parentes de sangue, Desari, ainda com vida. Seu irmão mais velho é um grande homem entre os nossos. É muito respeitado e igualmente temido. Chama-se Gregori, e Darius se parece muito com ele. - Súbitamente fez uma careta, transformando seus formosos e severos traços, na face de um moço travesso. – Se parecem muito. Gregori, O Escuro é usado com freqüência, para manter as crianças na linha. O outro único imortal tão grande como ele é Mikhail. Mikhail é reconhecido como o Príncipe de nossa gente, que manteve nossa raça viva e com esperanças durante todos estes séculos. Mikhail e Gregori estão tão unidos como irmãos, a sua estranha maneira. Cada um deles é poderoso, que ninguém se atreveria a desafiar um, por medo das represálias do outro.

Desari assentiu com a cabeça.

- Como nossa família.

Julian pensou nisso.

- De certo modo, embora poucos Cárpatos seguem vivendo em unidades familiares como esta.

- O que tem que sua família? - Perguntou Desari inocentemente.

Viu como ele fazia uma careta, e seu olhar dourado se separava da dela.

- Já lhe contei. Tenho um irmão gêmeo, Aidan. Vive em São Francisco. Não falo com ele há muitos anos, nem conheci sua companheira.

As sobrancelhas dela se arquearam. Havia algo escuro formando redemoinhos, perto da superfície, outra vez. Sentiu uma dor profunda em Julian e não tentou explorar seus pensamentos em uma área muito sensível. Escolheu as palavras cuidadosamente.

- Houve palavras duras entre vós?

- Há sangue entre nós, Desari. Assim como seu irmão pode rastrear voce, também nós podemos nos rastrear o um ao outro. - Julian suspirou e passou uma mão pelo cabelo. - A maioria de nossos homens, se negam a compartilhar sangue com outros, pela simples razão de que todos sabem que é inevitável, sem uma companheira, que devam escolher entre terminar sua vida ou perder sua alma por toda a eternidade e converter-se em vampiro. É muito mais fácil rastrear aqueles com quem se compartilhou sangue, particularmente para um caçador.

Desari tomou um profundo fôlego. Julian possuía algum terrível segredo, que não compartilharia com ela.

- Você compartilhou seu sangue com outros, Julian? - Perguntou.

Julian lhe sorriu, seus dentes brancos brilharam.

- Só tem que procurar a resposta em minha mente, minha cara.

Ele estava tentando-a, uma sedução patente para que entrasse em sua mente e o conhecesse da forma mais íntima. Uniam-se mais intimamente cada vez que se fundiam. Podia sentir. A mente dele se tornava mais familiar, a cada toque. Sua mente desejava ardentemente tocar a dele, a necessidade crescia em seu interior do mesmo modo que a necessidade de compartilhar seu corpo. Eram brasas ardendo, chamas se estendendo, um calor escuro que sabia ser incapaz de resistir.

Embora em algum lugar da mente dele, profundamente enterrada, havia uma sombra, muito dolorosa, que ele se negava a compartilhar.

Desari afastou o olhar dele para a espessura do bosque. A liberdade estava tão perto. Julian não a estava tocando, nem sequer com a mente. Simplesmente estava ali a seu lado. Alto. Musculoso. Pecaminosamente atrativo. Com uma dor enterrada tão profundamente nele, que ela só podia se perguntar, se ela seria capaz de encontrar e erradicar. Seus olhos dourados flamejavam com fome e desejo, atraindo-a para ele. O coração saltou em seu peito e ela soube que estava perdida.

- Compartilhei sangue em mais de uma ocasião, pequena, embora, como sou um caçador muito conhecido, minha ajuda foi rechaçada com freqüência. Quem a recebe, Sabe que posso o rastrear com facilidade e o destruir, se for o caso. - Quando disse as palavras em voz alta, recordou, também, porque poucos homens com companheira caçavam aos não-mortos. Por proteger à companheira, o caçador poderia muito bem duvidar em entrar ou não, numa batalha feroz que poderia o destruir e conduzir sua companheira, a dor inconsolável, a destruir-se.

O caçador ideal era um idoso, experiente e hábil, inclemente e poderoso. Um que tivesse pouca esperança em encontrar a sua companheira, que perder sua vida, não seria algo que temesse. Com uma companheira, se o caçador morresse, sua companheira provavelmente escolheria o amanhecer. E sua raça não sobreviveria à perda de uma de suas mulheres. Julian tinha ouvido um único caso em que um companheiro sobreviveu sem o outro. A mulher morreu, e o homem se converteu em vampiro, fazendo estragos nas montanhas dos Cárpatos, investindo contra todos os que consideravam responsáveis, chegando a assassinar a seu próprio filho e tentar assassinar o companheiro de sua filha, sabendo que isso terminaria também com a vida dela.

Desari colocou uma mão gentil sobre seu braço, finalmente tocando sua mente para saber que os pensamentos que lhe faziam estar tão imóvel e distante. Viu na lembrança de Julian, a lenta aproximação de um homem bonito. O homem tinha olhos negros. Olhos que haviam visto muito. Os olhos de um homem que tinha sido torturado além do suportável. Brutalmente ferido, o precioso sangue derramando-se, tinha observado a aproximação de Julian com olhos cautelosos e perigosos. Viu como Julian falava brandamente, estendendo seu braço para o homem, para que ele pudesse viver com o sangue de um antigo fluindo por suas veias.

Jacques. O irmão de Mikhail. O companheiro daquela, cujo pai havia assassinado a seu irmão, atraído sua gente aos assassinos humanos, torturado a seu marido, tentado matá-la. Captou muito antes que Julian afastasse a lembrança de sua mente e lhe segurasse o queixo com seus dedos.

Os olhos escuros dela imediatamente ficaram cativos pelos dourados dele.

- Resolveremos isto, para a satisfação de ambos, Desari. - Prometeu ele. – Venha comigo. Precisa alimentar-se esta noite antes que deixemos este lugar com os outros. E eu preciso sentir seu corpo, te tocar, saber que é realmente minha e não algo que imaginei em meio a meu desespero.

Havia tanta intensidade em seu desejo, que todo o resto deslizou fora da mente de Desari. O calor se enroscou e dançou por sua pele, arqueando-se entre eles, como um relâmpago branco. A mão de Julian deslizou por sua nuca, aproximando-a a ele enquanto começava a caminhar afastando-se do acampamento. Com cada passo que davam juntos, seus corpos se roçavam mais o um com o outro.

Desari sentia como ele, um ardente desejo. Mas também uma paz interior, plenitude. Adorava a forma em que o corpo dele se movia, arqueando-se como um sedoso felino da selva. A sensação de seu braço, tão seguro e forte, faziam-na sentir delicada e feminina, apesar do fato de que sabia que lhe igualava em poder. Os dedos dele moviam sobre sua nuca e enquanto caminhavam internando-se no bosque, longe do som dos outros. Podia sentir ele acariciando as mechas de seu cabelo, entre os dedos. Então os dedos caíram casualmente até seu pescoço, sua clavícula, a mover-se sobre sua pele, acariciando gentilmente, quase ausentemente. Cada carícia, enviava um fogoso batimento de seu coração, a pulsar através do corpo dela. Como poderia ter sido feliz sem ele? Antes dele seu corpo nunca havia estado tão inquieto e faminto como agora. Tinha amado sua vida, sua música, embora agora pensava sempre nele, sua estranha e solitária vida, sua solidão, e a terrível dor do desejo que só ela podia preencher. E ele parecia preencher sua vida como, nenhuma outra coisa tinha feito antes. Ela havia mudado-a para sempre, justo como temera, embora agora, enquanto caminhava tranqüilamente a seu lado, não tinha medo de nada.

Enquanto caminhavam, em perfeita harmonia, respirando o ar fresco da montanha, escutando as criaturas do bosque, o crepitar dos ramos que se balançavam e o rumor de uma corrente próxima, Julian podia pensar numa única coisa. Antes que perdesse a cabeça, tinha que encontrar a boca de Desari com a sua. Desejava saboreá-la até que ela permanecesse nele para sempre. Tinha intenção de ser gentil com ela... Uma carícia, não mais... Mas no momento em que sentiu a suavidade de seus lábios, a lava ardente, fundida e faminta flamejou e o consumiu. Seus músculos se enrijeceram até a dor. Seus braços, por própria vontade, deslizaram-se para aproximá-la mais. Imprimiu sua forma sobre a dela, deixando-a sentir seu doloroso desejo. Seu corpo estava pleno e exigente, sua boca se apressou sobre a dela como se fosse sua vida.

- É minha vida. - Murmurou na suavidade dos lábios dela. - É a única razão de que siga vivo, Desari. Tinha intenção de enfrentar o amanhecer depois de completar minha tarefa de te advertir do perigo que corria. - Sua língua explorou a boca dela, depois a moveu-se para o pescoço. Enquanto continuava alimentando o fogo entre eles, internou-se nas sombras do bosque. Suas mãos deslizaram sob a blusa dela, para descansar em seu estreito torso, tomando de sua suave pele como foi capaz. Julian fechou os olhos durante um momento, simplesmente saboreando a sensação, a textura de pétalas de rosa de sua pele.

Desari lhe rodeou a nuca com um braço, acariciando as mechas do cabelo dourado que caíam ao redor da face dele antes de desabotoar lentamente os diminutos botões perolados do peitilho da própria blusa. Afastou o fino tecido e conduziu a cabeça dele para baixo, até sua pele nua. O soutiem de renda protegia seus seios. Seus mamilos estavam duros e agudos, seu desejo era tão grande como o dele.

Ele sussurrou algo em italiano, mas soou amortecido, enquanto deixava um rastro de fogo desde sua garganta até o vale entre seus seios. Ela ouviu o próprio gemido, num suave lamento de desejo enquanto se arqueava para encontrar a boca errante. A língua lambeu os mamilos através do soutiem. Uma carícia ardente e úmida que provocou uma resposta também úmida e quente entre suas pernas.

- Preciso de você, Desari. Estou vazio sem voce. E esse tipo de vazio me consome. Consome minha alma que é escura e horrenda. Tudo o que importa é saciar a fome. Mas nada enche o vazio. Nada. Ano após ano, resisti no vazio até que a vida é uma maldição que não que pode ser suportada. Enquanto na escuridão a besta que te sussurra, um sussurro insidioso que te promete poder para matar, te provoca a esquecer sua fé em Deus, em todas as coisas que estão bem, são reais e boas. O monstro dentro de a gente é negro e faminto de vida, cresce e cresce até que consome tudo o que foi. Essa é a maldição que suportam os homens dos Cárpatos, Desari.

Os braços de Julian se apertaram ao redor dela até que sua força ameaçou lhe romper os ossos, mas Desari se lhe aproximou mais, escutando a angústia em sua voz. Embalou sua cabeça para ela, seu protetor e feminino refúgio e salvação.

- Perdemos a tantos. Cacei a amigos da infância, sem me atrever a se aproximar muito de alguém, que se aproximavam do fim de sua vida. - Suas mãos se moveram sobre a pele dela, desenhando cada costela. As palmas de estavam quentes enquanto se moviam, procurando a cintura. Julian levantou a cabeça permitindo que seus olhos a fitassem. Seu olhar acendeu uma tormenta de desejo em Desari. Adorava o peso de seus olhos sobre ela, a fome tão ardente e intensa que havia neles.

Observou como ele levantava uma mão lentamente, e cravava o olhar em suas perfeitas unhas durante um momento antes de alongá-las, até formar uma garra afiada. Muito lentamente a inseriu entre os peitos dela, tocando o soutiem de renda, que oprimia seu corpo, liberando seus seios.

Desari conteve o fôlego, temerosa de mover-se ou de falar, não desejando romper o encanto do momento, As mãos dele se moveram para cima, deslizando-se sobre sua pele para tocar reverenciadamente seus seios. Seu olhar acalorado subiu à face dela, estudando cada detalhe, cada expressão, cada emoção de seus olhos escuros.

- Nunca te merecerei, Desari, não importa quanto vivamos, não importa quanto tente. Não mereço uma mulher como você. - Sussurrou as palavras, sentindo cada uma delas.

Ela sorriu, inclinando a cabeça a um lado.

- Possivelmente não, Julian. – Ela concordou, sorrindo. - Mas não sou o anjo que crê. Só tem que perguntar a meu irmão, o problema que arrumaste.

A voz suave e pura, diretamente do céu, deslizou-se sobre o corpo de Julian como a carícia de seus dedos, lhe tocando em todas partes, tentando, acariciando, prometendo tornar todas as suas fantasias.

Ela desejava terminar com seu sofrimento, afastando os séculos de solidão desesperada, a terrível carga das mortes que carregava em suas costas, obrigado a caçar a seus amigos e terminar com suas vidas para salvar a mortais e imortais. Ela queria ser travessa, o quanto fosse possível, ensinando a ele, o que significava para ela "problema".

Um som os interrompeu. Os outros estavam muito perto deles. O acampamento estava a alguma distância, mas os Cárpatos tinham uma audição excepcional. Julian podia ouvi-los levantar o acampamento e subir nos veículos. Respirou fundo e se obrigou a acalmar a raiva que explodiu em seu interior. Não esfregaria a outros homens, tão perto de se converterem, os sons de seu ato de amor.

Meigamente, segurou os seios cremosos e cheios de Desari nas palmas das mãos. Seus polegares acariciaram os mamilos até que se endureceram.

- É belíssima, Desari. Sua pele é tão cálida e suave. - Inclinou a cabeça e traçou o vale dos seios com a língua, atrasando-se sobre o firme batimento de seu coração.

- Desejo-te tanto que sinto que ficarei louco, se não a tomar neste momento.

Ela apoiou a cabeça sobre a dele, esfregando seus cabelos dourados, com o queixo.

- Mas?

Julian suspirou brandamente.

- Terei que me contentar, olhando-a com adoração. – Relutantemente, ele a soltou e deu um passo atrás. - Acredito que posso esperar um momento. - Seus olhos dourados brilharam para ela, perigosamente. - Se fizer algo para me distrair.

Desari inclinou a cabeça e seu cabelo deslizou sobre seu ombro, cobrindo parcialmente a pele nua e ocultando-a a vista. Um sorriso pequeno e feminino curvou sua boca. A visão o fez gemer.

- Te distrair? - Sua voz vibrava como uma promessa. - Posso pensar em várias coisas interessantes que podemos tentar, para evitar que pense em minha família. - Seu sorriso era sexy, incitante, uma promessa.

- Não está me ajudando.

Desari tinha fundido sua mente lentamente com a dele. Sentiu seu terrível desejo por ela e viu as imagens deles dois entrelaçados. Sentia fogo correndo pelo sangue dele, a sensação pesada entre suas pernas. O monstro rugia pedindo alívio, o incitando a tomar a sua companheira com ardor e paixão e amaldiçoar os desconhecidos que estava tentando consider.

Era uma medida de sua própria paixão, não ter considerado os homens, sua audição, sua capacidade para cheirá-los. O vento levaria facilmente aos outros, o que acontecia no bosque.

- Está mais perto de me merecer do que crê. - Sussurrou ela, tão orgulhosa dele, que desejou atirar-se entre seus braços.

O fogo da fome e o desejo continuavam nela. Desejava o corpo dele esmagado contra o seu, enchendo-a. Seu sangue correndo em suas próprias veias. Precisava estar mais perto dele para afastar o medo de ser separada dele.

Julian sacudiu a cabeça, sua mão se curvou ao redor do pescoço dela.

- Não pode me olhar assim, piccola, ou estou seguro de que me prenderei em chamas.

Desari deixou que seus dedos emaranhassem os cabelos dourados. - Obrigado por pensar em minha família quando eu não podia. - Sua voz foi um murmúrio de sedução, deslizando-se sobre sua pele ardente. O som fez que cada músculo de seu corpo se estitasse.

Julian fez outro esforço por respirar. O ar estava a seu redor, embora não pudesse introduzir suficiente em seus pulmões. Pegou a mão dela entre as suas e a levou a boca.

- Precisamos encontrar um tema seguro, minha cara, ou deixarei de conversar nos próximos minutos.

A suave risada de Desari foi como música no vento. Ela apoiou-se no enorme tronco de uma árvore caída no chão do bosque. A brisa atirou seu comprido cabelo fazendo que se colocasse a sua volta, como um véu. Num momento escondendo a tentação da pele brilhante e nua, no seguinte revelando-a.

- Um tema seguro. - Pensou ela em voz alta. - Qual seria?

O ar abandonou os pulmões dele uma vez mais ante a visão. Parecia formar parte do que a rodeava. Selvagem. Sexy. Provocadora.

- Poderia tentar fechar sua camisa. - Sua voz soou rouca e desesperada, inclusive para seus ouvidos.

Desari não fez intenção de abotoá-la e seus seios apontavam para ele, numa tentação que sabia não seria capaz de resistir mais tempo. Os botões da calça jeans dela estavam parcialmente soltos, expondo sua diminuta cintura. Ela continuou sorrindo. Uma sedução patente, enquanto seus dedos brincavam com o terceiro botão dos jeans.

Seu olhar dourado a tocou, depois se afastou rapidamente.

- Não está me ajudando, Desari. - Sua voz estava rouca, tomada pelo terrível desejo. Um pouco mais e ele, de verdade, arderia em chamas. Combustão espontânea.

A ponta da língua dela tocou o lábio inferior.

- Um tema que mantenha nossas mentes afastadas de outras coisas. – Ela tocou-lhe gentilmente o peito, apenas um roçar com a ponta dos dedos, mas pôde sentir como ele saltava. - Estou pensando, Julian. - Disse, inocentemente, seus enormes olhos escuros levantaram o olhar para ele. Os olhos deslizaram então até os botões da camisa dele liberando-os para que as palmas de suas mãos pudessem encontrar os firmes músculos de seu peito.

Julian apertou os dentes.

- Desari, meu coração não agüentará muito mais.

- Só te estou tocando. - Assinalou ela timidamente. Suas unhas deslizavam ligeiramente sobre a pele, riscando cada músculo bem definido com delicioso cuidado. - Eu gosto da sensação. - Inclinou a cabeça mais perto de forma que seu cabelo assumiu a acariciar a pele sensível dele e um som escapou de sua garganta. - Adoro a forma que você cheira, também.

Ele apanhou suas mãos e as sustentou firmemente.

- Vais se colocar em problemas.

- Pergunto-me, se você ficaria mais cômodo, se eu abrisse seu jeans. Parece muito justo.- Desari liberou suas mãos, riscando travessamente, o caminho de pêlo dourado, para baixo do estômago plano. Seus dedos estavam já trabalhando, separando o tecido antes que Julian pudesse pensar em detê-la.

- Está sendo má, Desari. – Acusou ele, gemendo de novo quando seu corpo se viu livre da restrição das calças.

As pálpebras dela se elevaram, para que pudesse, fitar os olhos dourados.

Sexy, brincalhona, intrigante.

- Mmmm... Agradável. - Sussurrou, estudando a evidência de seu desejo. - Muito Bom.

Ele estaria perdido, se continuasse olhando-a. Nunca seria capaz de manter o controle. Como se pudesse ler sua mente, as mãos delas baixaram, acariciando suas coxas, movendo-se para cima lentamente até que uma vez mais, Julian se sentiu incapaz de respirar. Então, ela segurou o sexo enorme, em sua pesada plenitude entre as mãos, acariciando a ponta aveludada com dedos cariciosos.

Julian não podia mais se conter. Jogou a cabeça para trás, enquanto o prazer ondeava através dele, como fogo correndo por suas veias. Apertou os dentes.

- O que está fazendo, mulher? Tentando me colocar louco?

Os olhos escuros de Desari refletiram a lua e brilharam intensamente. Sua voz ronronou de inocência e risonhas notas prateadas, que dançaram e o acariciaram.

- Pensei que te estava proporcionando alívio.

Suas mãos seguiam as instruções das imagens que passavam pela cabeça dele, fazendo-se mais habilidosas, mais persuasivas, tentando e deslizando-se sobre e em volta dele, até que o ouviu suplicar clemência.

- Minha família já foi? – Sussurrou ela, intrigada por suas reações. Moveu a cabeça para acariciar o estômago com a boca. A cascata do cabelo negro, em volta de sua face, esfregou-se contra a pele dele.

Um grunhido baixo escapou de sua garganta.

- Estão começando a mover os veículos. - Disse ele, entre dentes.

- Seriamente? - Disse Desari, distraída com sua ardente plenitude. Suas mãos deslizaram pelos quadris masculinos, enquanto se baixava, procurando o tapete de vegetação, com os joelhos. Ouviu-o gemer e levantou o olhar para a face marcada por linhas de desejo. Sorriu lentamente e uma vez mais inclinou a cabeça para ele.

Julian nunca tinha visto nada mais belo em sua vida. As árvores se balançavam com o vento. A face dela era branca e perfeita à luz da lua, seus escuros olhos eram misteriosos, a boca tão erótica que desejou que este momento durasse toda a eternidade. A blusa dela se abriu e seus seios apareceram nus e incitantes. Parecia uma deusa pagã de tempos ancestrais.

Então o quente hálito terminou, de repente, com sua capacidade de pensar. A boca cálida e úmida, acabou com seu autocontrole. Enquanto os suaves lábios deslizavam sobre seu sexo latejante, acariciou loucamente, cabelo sedoso e a trouxe para perto. Seus quadris começaram a procurá-la, quase desesperadamente. Queria poder introduzir-se nela.

As unhas de Desari percorriam suas coxas gentilmente, lhe urgindo a aproximar-se mais. Sua boca apertou-o até que ele desejou gritar de prazer. As mãos dela se moviam sobre suas nádegas, adorando as percorrer, depois se moveram para o acariciar, uma vez mais.

- Graças a Deus já estão longe. - Ofegou Julian, seu corpo empurrou-se. Introduzia-se na boca dela.

Depois, rilhou os dentes e começou a colocá-la em pé. Relutantemente Desari deixou sua erótica exploração e o permitiu levantá-la para cima, contra seu duro corpo. Sua boca se apressou a cobrir a dela, devorando-a, dominando-a, possuindo-a. Seus braços ameaçavam, esmagando-a.

Desari celebrou a força de seus braços, seu desejo por ela, sua necessidade dela. Estava chutando longe seu jeans com frenesi, esquecendo no momento, sua habilidade em simplesmente fazê-los desaparecer.

Adorava seu selvagem e incontrolável homem e o desejo, o fogo e a fome que ele sentia por ela. Só por ela. Sentia-se completa, feminina, poderosa. Estava perdida entre seus braços, entregando-se completamente ao que ele pudesse necessitar ou desejar. O desejava com a mesma selvagem fúria e necessidade. Seu corpo estava ardendo em chamas. Só um beijo dele e provocava seus ossos a se fundirem. Deixou que sua blusa flutuasse até o chão e lhe deslizou os braços ao redor do pescoço dele. Pressionou-se mais perto.

Julian rasgou os jeans, tirando eles com força, tornando-os tiras. Levantou-a em seus braços para que ela pudesse lhe rodear a cintura com as pernas. Enterrou o rosto em seu ombro, respirando sua selvagem essência, ofegando quando a baixou sobre ele, enchendo-a completamente.

Era um milagre, a forma em que seu corpo se alargava para acomodar sua invasão, a forma em que seus músculos lhe davam as boas vindas. O batimento de sua pulsação captou a atenção dela e instantaneamente a fome surgiu. Precisava dele em seu interior, a mente dele fundida com a sua, o sangue dele fluindo em suas veias, seu corpo tomando o dela com selvagem abandono.

Acariciou-lhe o pescoço com a língua. Sentiu que o coração dele saltava contra seu peito. Ele empurrava-a com os quadris, cadenciada, mas violentamente, enterrando-se nela. Arranhou com os dentes a pele, ligeiramente, gentilmente, em dentadas tentadoras até que os quadris dele se moveram com um frenesi selvagem e ele grunhiu uma advertência, suas mãos lhe apertaram o traseiro, urgindo-a a uma cavalgada feroz e turbulenta.

Afundou os dentes, profundamente e gritou com êxtase, em algum lugar entre o céu e o inferno. Podia sentir o que ele sentia, sua mente era uma neblina de ardor e paixão.

Julian se moveu mais perto de um tronco caído, para poder apoiar Desari contra ele. O ângulo lhe deu a possibilidade de aprofundar sua estocada para que o corpo dela se visse obrigado a tomar em sua totalidade. Moveu-se agressivamente, duro e rápido, enterrando-se nela várias vezes, enquanto um relâmpago estalava através em volta deles. Queria que durasse toda a eternidade.

Dessari afastava sua terrível solidão, a escuridão que se escondia em seu interior. Ela mantinha-a a raia, com seu fogo aveludado.

O vento se elevou ao redor deles, alvoroçando os ramos sobre suas cabeças. Ela fechou as diminutas feridas de sua garganta com a língua. Lentamente começou a apoiar-se para trás contra a árvore, seus seios apontavam para o céu, seus quadris enchiam as mãos dele enquanto se introduzia nela. Quando baixou o olhar para ela, viu o triângulo de sedosos cachos negros que seu fundiam com os seus dourados. Estava hipnotizado pela beleza de seus corpos unidos.

Os músculos dela se esticaram, sua úmida e receptiva carne, se apertou e relaxou. A sensação entre eles foi tanta que ele sentiu as chamas dançando sobre sua pele, sobre a pele dela. Ele sentia que estava inchando-se, crescendo. Seu membro estava mais grosso, mais duro e ainda queria seguir.

- Julian.

Foi a mais suave das súplicas. A beleza de Desari, sua voz irreal e formosa, brilhou liberando sua mente. Enviou-lhe à frente do limite, levando-a com ele de forma que se mantiveram unidos, enquanto a terra sacudia e os céus explodiam.

Julian quase caiu sobre ela, sua força, esgotada por um momento. Seu corpo brilhava no ar noturno, os cabelos dourado e selvagem, lhe emprestavam um ar felino e sua face estava marcada pelo êxtase, quase animal. Desari tocou os lábios amados, com a ponta dos dedos.

- Como pode ser, Julian? Como pode ser que em todos estes longos e solitários séculos, não tenha conhecido nada como o que está acontecendo? Por que, nunca senti desejo como este?

Seus olhos brilharam para ela, uma ameaçadora advertência. O mesmo gelo da morte.

- Você foi feita para mim, Desari, só para mim. Não há necessidade que procure a outro.

Ela negou-se se sentir intimidada. O rosto dele estava sério, um toque de crueldade marcava sua boca.

- Agora não. Mas vivi muito. Por que meu corpo não sentiu isto? Tenho lido livros, ouvido dos humanos. Syndil e eu falamos de tais desejos, mas nunca senti tal desejo. Passei séculos sem conhecer a beleza disto.

As mãos de Julian se enredaram em seu cabelo de ébano.

- É minha. Você é minha cara, só minha. Não há outro que possa fazer seu corpo sentir o que eu posso te fazer sentir. E se tentar experimentar com outro, teria que o matar. Não te equivoque, Desari. É bom adquirir conhecimentos, mas não há necessidade de que vá com nenhum outro. Se desejar tentar algo novo, agradarei e seguirei-te, mas não tolerarei outro homem perto de voce.

Ela empurrou seu peito com as palmas de suas mãos e o olhou.

- Oh, cale-se. Não estou planejando sair por aí com o primeiro homem que aparecer. Só estava me perguntando por que esperei tanto.

Julian se negou a mover um centímetro. Sua pesada forma a imobilizou sob ele, seu corpo ainda estava firmemente enterrado nela.

- Esperava-me, como devia ser. Para nós há só um.

As sobrancelhas dela se arquearam.

- Seriamente? Então por que Barack usa às mulheres humanas desta forma? Ele não aceitará um novo padrão.

Julian afastou seu cabelo para trás, num gesto de ternura enquanto se inclinava para lhe roçar uma sobrancelha com os lábios.

- Os homens sentem durante duzentos anos mais ou menos, piccola. Alguns tomam medidas para satisfazer estas necessidades, embora seja uma pobre imitação do que sentimos com nosso verdadeiro companheiro. O verdadeiro ardor sexual chega quando encontramos a nossa companheira. É mais que amor ou sexo. É uma combinação de mente, coração, alma e corpo. A emoção é forte e um sempre deve estar próximo ao outro.

Desari guardou silêncio durante um momento, súbitamente consciente do quanto vulnerável se sentia. Não era só seu corpo que havia aberto a ele, ou a profundidade de seu desejo. Eram as emoções que ele evocava nela. Seus olhos baixaram, para ocultar uma repentina dúvida.

Em seguida, as mãos de Julian afastaram de seu cabelo, novamente.

- Minha cara, não tema tanto nossa união. Velarei por sua felicidade. Nunca poderia te fazer mal. Não entende ainda? – Ele capturou sua mão, levando-a à boca e a manteve pressionada contra seus lábios cinzelados. - Se escolhe estar com outro homem, nunca te faria mal, apesar de tê-la ameaçado há pouco. Tal coisa não seria possível para mim. Mas estou sendo honesto contigo, quando digo que mataria o homem. Sou um predador. Nada, nem sequer sua luz, pode mudar completamente o que sou. Não permitirei que ninguém a tire de meu lado.

- Não te assusta, Julian, a intensidade de nossos sentimentos? – Ela sussurrou, com seus olhos escuros emsombreados. - Me assusta muito. Não poderia suportar ser a causa de outra morte. Vi-te lutar com suas emoções, essas que o assaltam. É uma batalha em seu interior que não pode me esconder. E há algo mais, algo que tenta esconder inclusive de voce mesmo.

Os dedos dele esfregaram os dedos, da delicada mão, carinhosamente.

- Sim. As emoções são novas e estranhas, desconhecidas para mim há séculos. E se é difícil aprender dirigi-las, quando são intensas e violentas. - O "algo mais" não podia compartilhá-lo com ela ainda, tampouco podia confrontá-lo. - Mas temos séculos para aprender. - Concluiu. Relutante liberou seu corpo do dela. - Sinto seu desconforto, piccola. Vêm comigo. – Ele estava se levantando para poder examinar o corpo dela, em busca de marcas.

- Estou perfeitamente bem, Julian. - Por alguma razão a envergonhava que estivesse procurando sua pele clara em busca de algum machucado que delatasse que sua paixão. - Me explique porque Syndil experimentou sentimentos sexuais enquanto que eu não, até que te conheci. Sou diferente? Não sou feminina?

A cabeça de Julian se elevou, seus olhos âmbar se esquentaram.

- Como pode não saber, o quanto desejável é, Desari? Certamente vê os efeitos que tem sobre os homens, mortais e imortais por igual.

Os dedos dela se uniram aos dele.

- Você é o primeiro imortal que encontrei além de minha família. E só porque os homens humanos me acham desejável, não significa que o seja. Nossa raça, com freqüência tem esse efeito sobre os mortais. Não sou eu. Além disso, eu não sinto nada em resposta.

- Por isso estarei eternamente agradecido. Por que Syndil sente essas urgências? Não sei. Possivelmente, não reconheceu seu companheiro. - Houve um leve franzir de cenho nos traços de granito de Julian. - É possível que algumas mulheres sejam capazes de ter aventuras sexuais com outros homens, antes que seu autêntico companheiro, faça sua reclamação. Mas não posso ver como, tendo em conta que nossas mulheres estão vigiadas muito de perto. Não posso ver Darius permitindo que os homens se aproximem de voce ou de Syndil, apesar de não haver se criado nas tradições de nossa gente.

- É certo. Darius nunca permitiria que nenhuma de nós se fosse com um homem. Nem sequer com Dayan ou Barack, que nos vigiam todo o tempo. Depois do traiçoeiro comportamento de Savon, vigiam-se os uns aos outros estreitamente. - Acrescentou tristemente.

- Só Darius luta tão desesperadamente com a escuridão. - Respondeu Julian amargamente. - Introduziu-se profundamente nas sombras porque teve que matar para proteger a todos. Os outros podem agüentar muito mais se desejam fazê-lo. A batalha de Darius é a mais difícil.

As lágrimas umideceram os olhos escuros de Desari.

- Não posso o deixar, Julian. Não podemos deixar ele acreditar que podemos sair de seu amparo. Eu vi você, e temo por ele constantemente. Cada vez, se afasta mais e mais. Raramente compartilha seus pensamentos comigo. É um grande homem, e não quero perdê-lo.

Julian inclinou a cabeça para roçar suas pálpebras com o toque consolador de seus lábios.

- Então não podemos fazer outra coisa que cuidar que permaneça conosco.

Desari elevou a face para ele, sorrindo, como se ele tivesse lhe entregado a lua.

- Obrigado, Julian, por entendê-lo.

- Estive em sua mente muitas vezes, cara. Posso vê-lo, como voce vê. Vi sua vontade de ferro, que permitiu que todos voces sobrevivessem. - Então seu olhar dourado deslizou pelo corpo dela e uma vez mais o desejo apareceu em seus olhos.

 

Desari se afastou, saindo para longe dele, como uma gazela. Sua tentadora risada flutuou no vento enquanto descia do enorme tronco de árvore. Roubava-lhe o fôlego, vê-la ali, nua à luz da lua, com os galhos balançando-se a sua volta. O vento ondeava seus cabelos, como uma capa. O gemido escapou da garganta de Julian.

Ele era um homem duro e moldado por séculos de séria existência. Se alguma vez, compartilhara risos com outros, fazia muito tempo e era só uma vaga memória de sua juventude. Havia sido amaldiçoado com uma vida de solidão, embora agora não desejava mais nada, que estar com esta mulher, compartilhar sua vida com ela, mostras as montanhas, as cidades e o mundo. Não sabia como se comportar, nem sequer acreditava ter senso de humor à parte de uma ocasional diversão estranha, ante as ações de outros. Mas algo novo estava nascendo nele. O som da risada de Desari havia encontrando resposta de algum lugar profundo dentro dele.

Saltou atrás dela sobre do tronco, prendendo-a pela cintura, mas ela escapou, seu corpo brilhou no meio do ar e mudou enquanto aterrissava ligeiramente sobre outro tronco e se afastava de um salto. Agora, uma pele lisa e luzidia cobria a pele nua. O leopardo fêmea olhou para trás incitadoramente, depois saiu correndo ligeiramente através do bosque, misturando-se com a folhagem. Julian sorriu e a seguiu. Sua forma se estendeu e se contorceu até tomar a forma musculosa do leopardo macho. Podia cheirar sua selvagem essência estendendo-se na noite, com o vento noturno o chamando. A ferocidade cresceu em resposta, em seu interior. Para o leopardo macho a essência da fêmea era tão atraente como o mais raro perfume. O rugido da fêmea de leopardo ressonou misteriosamente na noite, o reclamando. O macho respondeu como se a chamada fosse um cicio de sedução.

Ele acelerou a velocidade e se moveu sem esforço. Uma mancha de pelagem dourada enquanto silenciosamente espreitava a sua presa. Quando a viu, sua ferocidade aumentou até torná-lo um leopardo selvagem, não um homem moderno. Ela girava em torno de uma cama de agulhas de pinheiro, suas curvas eram voluptuosas, quase serpentinas. Era tão atrativa, que o leopardo macho só pôde observá-la durante um momento, até que seus velhos instintos provocaram seu crescente desejo e cautelosamente se aproximou da fêmea.

A fêmea o olhou com receio, mas não rugiu ante sua aproximação. Rodeou-a, observando-a, a todo o momento. Ela rodou novamente, aproximando-se mais, para que ele pudesse tocá-la com o focinho. Aceitou sua carícia, lhe devolvendo outra. Olharam-se um ao outro e começaram a correrem juntos, saltando sobre troncos e ramos, serpenteando através do bosque, com consumada graça.

Dentro do corpo do leopardo, Julian desfrutou da elasticidade de músculos e tendões, da própria noite e da liberdade do bosque. Cheirou o convite dela, lendo a sedutora atitude brincalhona de seu corpo. Ficou perto da fêmea, empurrando-a ocasionalmente, desfrutando da forma em que seu corpo ansiava o dela. Foi paciente. O rechaço de uma leopardo fêmea podia ser perigoso e nenhum macho arriscaria a receber um golpe forte. Simplesmente permaneceu perto dela, seguindo seus instintos.

Ela reduziu sua carreira, depois começou a lhe rodear incitadoramente, agachando-se ante ele. Quando o corpo pesado dele a cobriu, ela grunhiu uma advertência e saltou afastando-se, só para voltar com outro convite sedutor. Julian podia sentir a crescente urgência do felino macho. Ela tornava-se mais forte e intensa,m a cada passo que ela dava. Ela era formosa, seu pelo brilhante e suave, seu focinho perfeito. Uma vez mais, ela se agachou, o convidando, tentando. Cobriu seu corpo, seus dentes encontraram o ombro, segurou-a imóvel, enquanto se pressionava mais perto dela, usado seu peso para mantê-la imóvel.

No momento, era leopardo. Puro animal e instinto, que não soube depois, se havia sido o leopardo ou o homem, que tinha reagido. Sentiu a escura sombra os alcançar, no momento em que chegava o ataque. Usou seu considerável poder para jogar à fêmea, para longe dele e lhe dar uma melhor oportunidade de fugir. Ao mesmo tempo tentou se virar, para atacar o visitante indesejado, sobre seu ombro.

A dor foi intensa, quando garras afiadas rasgaram seu ombro até o osso. Instantaneamente, demarcou a área sensível, enquanto deslizava-se para baixo de seu atacante, mudando de forma, enquanto o fazia. Enfrentou o vampiro em sua forma humana, elegantemente vestido, o sangue gotejando de sua ferida, e a cabeleira dourada, em volta de seu rosto pétreo.

Seria este? Havia ele chamado seu sangue, a seu atormentador, traindo a sua companheira?

Da curta distância que havia entre eles avaliou seu inimigo, mantendo seu corpo humano colocado ante o de Desari. Não a olhou, não esbanjou tempo advertindo-a que obedecesse. Toda sua atenção estava centrada no vampiro. Um pequeno sorriso curvou sua boca, sem refletir-se nos frios olhos dourados. Ele fez uma reverência lentamente.

- Muito inteligente. Saúdo sua habilidade em escolher o momento oportuno para atacar. - Suas palavras foram suaves, sua voz gentil e pura.      Não houve reconhecimento, este não era seu archiinimigo. Julian não sabia se se sentia aliviado ou decepcionado.

O vampiro o estudou com olhos nublados. Era alto, mais alto que Julian, Mas sem sua musculatura. Sua face estava rosada por ter matado recentemente. Algum desafortunado campista, sem dúvida. Julian estava intranqüilo, porque o vampiro se negava a entrar no diálogo. A criatura simplesmente o olhava. Era incomum que um não-morto não se gabasse ou pressumisse, quando conseguia acertar um golpe como o que Julian acabava de receber.

Ao redor de Julian, o bosque pareceu nublar-se, a terra ondeou quase gentilmente sob seus pés. Deliberadamente, ele sorriu, mostrando seus fortes dentes brancos.

- Um truque infantil. Aprendi quando era quase um novato. Insulta-me ao me tratar com tal falta de respeito. - A voz de Julian não mudou de tom. Permaneceu como um hipnótico sopro de compulsão hipnotizadora. Sua voz estava afetando o vampiro, ele podia notar, claramente. O vampiro já fazia caretas e sacudia a cabeça, com a intensão de liberar-se da compulsão.

A criatura sem alma se moveu então, seus passos seguiam uma dança hipnótica formando um padrão. Julian permaneceu imóvel, sem o seguir na estranha dança. Permaneceu alerta, com o corpo preparado e apoiado sobre os pés. Sua mente estava explorando a área a sua volta e os céus. O comportamento do não-morto era totalmente antinatural. Julian estava perdendo alguma, com o Desari em perigo, não se atrevia a atuar logo ou cometer um engano. Sua companheira não havia fugido, então tinha que protegê-la.

- Crê que há outro por aí?

Desari era uma sombra em sua mente, consciente de seus pensamentos, de sua ansiedade. Ela já havia explorado, mas não tinha sido capaz de detectar outro ser.

- Estou seguro de que sim.

- E o melhor não seria enfrentá-los juntos?

- Teria uma melhor oportunidade de orquestrar a batalha.

Desari tinha adotado uma forma pequena, esperando dar a Julian, a menor preocupação possível. Agora, havia se erguido em toda sua altura, e com graciosa confiança, caminhou até ficar ao lado de Julian. Dando a seu companheiro, total liberdade de manobra enquanto o permitia vê-la para que não tivesse que procurá-la com sua mente.

- Não ouça a música, Julian. – advertiu ela. As palavras foram como um roçar de dedos em sua mente. Elevou a face para manto de estrelas e começou a cantar brandamente.

O corpo inteiro de Julian estirou-se ante a primeira nota prateada. Requereu da parte dele, um tremendo esforço, para obrigar-se a isolar o som. A voz era fantástica e formosa, elevando-se no ar noturno e propagando-se através do bosque. Foi levada sobre um vento incomum que parecia formar redemoinhos-se através das árvores, alcançando as copas e explorando as ravinas mais profundas. Era uma convocação, uma suave ordem para virem a ela. Estava dirigida a todas as criaturas boas ou más. Quem ou o que, podia resistir essa voz extraterrena? Eram puras e formosas notas de ouro e prata, brilhando visivelmente na noite escura. Chamando. Estendendo-se. Fazendo gestos para que a socorresse. Uma ordem suave e irreal, tão formosa que tinha efeito hipnotizante, impossível de ignorar.

Julian observou os efeitos da canção de Desari sobre o vampiro. A face começou a ficar cinza e esticada, a pele encolheu sobre os ossos até que o não-morto pareceu um esqueleto. As roupas começaram a parecer farrapos, encolhendo-se em seu corpo ao igual à pele. Não podia manter por mais tempo a ilusão de juventude e esmero. Parecia ter mil anos, decadente e sem alma, uma paródia de um homem vivo. As notas o estavam deixando louco, o chamando com a luz da bondade e da compaixão, das coisas que tinha abandonado junto com sua alma.

Grunhindo e cuspindo, lutado cada polegada do caminho, o vampiro gemeu e se arrastou para perto de Julian e da morte. Desari ainda cantava. O ar noturno gemeu com o esforço de ter que suportar o peso das corujas que voavam nele, manter os ramos em volta deles. Os veados, os gatos monteses, ursos, até raposas e coelhos, rodearam as três figuras erguidas.

O vampiro se cobriu, grunhindo juramentos e amaldiçoando, embora seus pés continuavam dirigindo-se através do pó para Desari. Detrás de Julian outro vampiro saiu engatinhando dos arbustos. Seus olhos eram vermelhos e brilhavam de ódio. Olhava para Desari, rilhando os dentes. O mau cheiro anunciou sua chegada. Era mais velho e mais hábil que o primeiro e evidentemente usava ao outro vampiro como isca. Lutava também, contra a compulsão de Desari com cada fôlego de seu corpo.

Mas não era ele.

Julian soube imediatamente que ele era perigoso e inteligente. Havia uma crueldade nata, na boca do velho não-morto e algo alarmante na forma em que seus olhos não abandonavam a face de Desari.

- Tome o cuidado de não o olhar. - advertiu-a Julian.

Um golpe de medo invadiu sua confiança. Amaldiçoou o fato de que ela estivesse ali, pois seus sentidos estavam divididos.

Julian golpeou sem preâmbulos, movendo-se com a velocidade da qual era tão famoso entre os seus. Mas o vampiro já não estava ali. De algum modo, ele havia quebrado o feitiço de Desari e estava sobre ela antes que ela pudesse mover-se. Julian se rebelou imediatamente e ele foi seu segundo objetivo. Seu punho acertou o peito, introduzindo-se através de músculos, ossos e tendões até alcançar a única coisa que podia destruir o vampiro menor. O corrupto e latente coração estava na palma de sua mão, quando a retirou do peito, retrocedendo rapidamente, para longe do não-morto que chiava.

O sangue viciado salpicou por toda parte, enquanto o vampiro corria dando voltas, enlouquecido, antes de cair ao chão convulsionando-se horrorosamente. Julian estava movendo-se novamente, dirigindo energia do relâmpago que se arqueava de nuvem a nuvem sobre suas cabeças e golpeou o corpo que se retorcia, incinerando-o imediatamente. As chamas saltaram até o coração que jazia onde Julian o havia atirado. Em segundos o vampiro menor, não era nada mais que cinzas fumegantes. E Julian desapareceu, como se não tivesse estado ali.

A respiração falhou em Desari e bloqueou seus pulmões, quando os dedos como garras, do vampiro rodearam seu pescoço. Seu toque era vil e fazia arder sua pele. O ar a sua volta era pestilento. Julian havia destruído o outro vampiro tão rapidamente, que logo que havia sido consciente do que ele tinha feito, desaparecera sem deixar rastro em nenhuma parte. Confiava completamente nele. Não parou a pensar por que, mas sabia, com certeza que ele nunca a abandonaria.

- Por que me espreita, antigo? - Inquiriu brandamente, usando sua voz como a arma que era. As notas musicais se arrastaram até o malvado.

O vampiro se sobressaltou e sibilou. Suas garras venenosas cravaram a pele como advertência.

- Não falar. – Ordenou ele, cuspindo e grunhindo as palavras.

- Sinto muito. - Replicou ela gentilmente. Sua voz suave e inocente. Estava decidida a dar a Julian qualquer vantagem que pudesse.

O vampiro dava voltas em todas direções, usando seu corpo esbelto como escudo, enquanto mantinha uma garra pressionada contra sua jugular. A ponta cravava a pele, criando um diminuto rastro de sangue que gotejava para baixo, pelo pescoço, manchando a branca camisa de seda que ela havia dado forma. Seu captor explorava desesperadamente o bosque a seu redor. Não podia encontrar rastro de Julian.

Sobre suas cabeças, as corujas começaram a desviar-se. Dois os gatos monteses miaram, soando como estranhos lamentos humanos. Outros animais passeavam inquietos, fora do círculo invisível que Desari tinha criado. Seus olhos brilhavam ferozmente enquanto o relâmpago continuava arqueando-se entre as nuvens.

- Seu herói te abandonou. – zombou o vampiro, com seus olhos cheios de ódio procuravam na noite, interminavelmente.

- Crê que preciso que me salvem? Sou uma antiga. Posso defender a mim mesma. Por outro lado, você não quer me matar. Não me espreitaste tanto tempo simplesmente para liberar ao mundo de minha presença. - Sua voz era como notas musicais. - Desafiaste a dois dos antigos mais poderosos que conheço, para me conseguir. Faria isso para depois me matar? Não acredito, antigo.

Os dedos apertaram mais sua garganta com força para machucar, ameaçando-lhe cortando o ar. Ela riu suave, zombeteira.

- Acredita que me assusta com suas ameaças vazias? É mais provável que seja seu mau cheiro, me corte a respiração em vez de seus dedos.

O não-morto sibilou em sua orelha, soltando maldições e ameaças, mas súbitamente gritou, atirando ela para trás e revolvendo-se grosseiramente, tentando escapar das chamas que irromperam por sua roupa e carne putrefata.

O vampiro puxou o cabelo de Desari, cruelmente, em vingança pelo inesperado assalto de Julian. Mas quando o fez, as corujas se lançaram de todas asdireções, com fortes garras estendidas, dirigidas diretamente aos olhos brilhantes do vampiro. O bater das asas, criou um redemoinho, um frenesi de folhas, ramos e agulhas de pinheiro que monopolizavam toda a visão. Desari se agachou rapidamente quando as corujas se equilibraram sobre a cabeça do vampiro. Uma enorme coruja, com as plumas empapadas em sangue, materializou-se no meio do ar, com as garras estendidas. Passaram pelos os olhos do vampiro e foram diretamente a seu peito. Quando as garras entraram na carne, as outras corujas seguiram arranhando e esfaqueando a face do vampiro, o mantendo uivando e balançando-se, incapaz de usar seu poder e suas habilidades ancestrais.

Desari deitou-se chão e se cobriu a cabeça, mas nenhum dos pássaros a sequer a roçou. Julian havia orquestrado perfeitamente a batalha, sem dar ao não-morto tempo para fazer mal a ela que ficou perfeitamente imóvel, esquecendo no momento que ela também podia desaparecer. O som da carne rasgando-se era terrível, os gritos do vampiro, sobrenaturais. Só quando seus pés a tocaram, que Desari se lembrou de como se dissolver em gotas de neblina e deslizar-se rapidamente para a segurança das árvores. Instalou-se no alto de uma árvore enorme, deu-se à volta e reapareceu, mordendo o lábio inferior nervosamente enquanto observava.

A cena era de um filme de horror. Darius sempre a tinha protegido de suas caças, como tinha feito Julian quando a enviou para dormir. Tudo era brutal e aterrorizante. O maligno mau cheiro do vampiro se intensificou. Deliberadamente, ele estava tentando envenenar o ar, tornando impossível às feras ou o homem respirar. Mas era difícil que conseguisse, Julian rebatia cada rajada de ar venenoso, com uma de ar fresco.

O não-morto estava quase cego pelas corujas que arranhavam seus olhos. Sua cavidade torácica de arrebentou e arrojou um gêiser de sangue corrupto que orvalhava a toda criatura que pilhasse em seu caminho, ardendo como ácido. Chegou a matar algumas aves, por que os animais se aproximavam mais e mais, num cerco implacável. Feras famintas, empurradas pela febre do espetáculo, de violência e o aroma de carne.

O olhar de Desari se dirigiu a enorme coruja, que sabia ser Julian, seu companheiro, terrível de ver em seu ato destruidor. Tocando sua mente, descobriu que ele havia afastado todo o pensamento dela. Era cruel e implacável, o mais eficiente predador. Atacava de todos os ângulos, vezes seguidas, veloz e mortal, derrubando o maligno a cada navalhada, cada profunda laceração, sempre dirigindo ao coração.

O vampiro não teve oportunidade de dissolver-se ou escapar, mas suas garras e o sangue corrompido estavam fazendo um incomensurável dano. Na forma da coruja, Julian estava severamente ferido pelo primeiro golpe surpresa do vampiro. Poderia ver como a criatura emplumada protegia o flanco, a asa nunca se estendia completamente. Desari compreendeu que ele podia ter escapado do golpe, se não estivesse pensando nela. Ele era incrivelmente rápido, movendo-se como um raio, golpeando-se e movendo-se, não dando ao antigo não-morto, nenhuma oportunidade de recuperar energias ou exercer seu malvado poder.

Os uivos eram terríveis de ouvir. Sua fealdade destroçava os ouvidos. Queria fechar os olhos, não ver a morte e os pássaros cansados, as salpicaduras de sangue brilhavam negras à luz da lua, sibilando e fumegando como se estivessem vivas.

Não desejava olhar o grotesco vampiro coberto de sangue, seu cabelo gordurento e os poços de seus olhos. Os profundos sulcos de sua face acrescentavam horror a suas vis facções. Ele estava esfarrapado e destroçado por dezenas de feridas, embora se negava a cair. Negava-se a reconhecer, que não tinha possibilidade de sobreviver.

Sobre o chão, o sangue corrompido se movia, estendendo-se através da vegetação em busca de uma vítima. Por onde tocava, as folhas murchavam e enegreciam sob a luz da lua. Então Desari compreendeu que o sangue seguia os movimentos da enorme coruja, esperando uma oportunidade para golpear.

O diminuto ponto onde a garra do vampiro tinha cravado seu pescoço estava palpitante e inchado, como se a garra tivesse envenenada. Se essa diminuta ferida a fazia mal, o que devia estar sentindo Julian com essa navalhada profunda? Não podia imaginá-lo e de novo tocou sua mente, mas compreendeu que ele tinha bloqueado toda dor e estava totalmente enfocada em destruir ao maldito.

Desari queria adiantar-se e recolher todos os pássaros cansados que havia ajudado Julian em sua luta contra o antigo não-morto. Ferido como estava, ele não tinha outra opção, que aceitar a ajuda, embora ela sabia instintivamente, que daria pena destruir formosas criaturas.

Seu coração se concoeu por Julian, por seu irmão, por todos aqueles que lutavam e destuiam vampiros e não mortos em toda sua vida. Sabia que os não-mortos eram completamente malvados, que a única coisa que podia ser feita era liberar ao planeta deles, embora isso os obrigasse a arriscar sua vida, ou pior, sua alma, enquanto o faziam.

Desari tentou acalmar-se, enquanto evitava a confusão mental, para que sua mente se enchesse só de confiança e força. Depois se enviou ao interior da mente de Julian, lhe dando a rajada de energia de seu próprio sangue antigo e o poder que ela proporcionava. Ela era incapaz de matar, não podia sobrepor-se à veia de compaixão que corria profundamente nela... Mas rogava não ser a razão que impedisse que a habilidade de Julian o fizesse.

Julian agradeceu a força que ela derramou sobre ele. Estava sofrendo uma tremenda perda de sangue, e o sangue corrompido do vampiro que havia entrado em contato com sua pele, através das plumas da coruja, tinha aprofundado em sua carne. Ainda assim, não vacilou em seu incansável ataque, golpeando uma e outra vez ao frio e assassino não-morto com suas garras, aprofundando mais e mais em seu peito. Só quando transpassou os músculos protetores e o osso mudou de forma, de volta a seu próprio corpo, sua mente se estendeu para as corujas que restaram, para livrá-las da compulsão de atacar.

Desari gemeu, sua mão foi à garganta enquanto notava que as manchas de sangue corrompido sobre a terra, estavamformando um enorme atoleiro. O líquido negruzco formava obscenamente a paródia de um braço, que se estirou para à frente, numa mão diabólica e fantasmal, que começou a arrastar-se furtivamente através das folhas de pinheiro e sobre os ramos caídos, para alcançar sua meta.

- Julian, no chão!

Ele não respondeu ou deu mostra de reconhecer a advertência. Simplesmente enfrentou ao vampiro com calma. Sua formosa face estava marcada pelo cansaço. Seu cabelo dourado flutuava sobre os ombros. Ele permanecia em pé, com os ombros quadrados e seus olhos âmbar brilhando como fogo.

- Trago-te, a justiça de nossa gente, antigo. Cometeste crímes contra a humanidade, contra a terra. Entrego-te sua sentença pronunciada por nossa raça e o Príncipe de nossa gente e espero que encontre piedade em outra vida porque eu não posso te dar nenhuma nesta. - As palavras foram suaves e amáveis, hipnóticas e sugerentes.

Ainda assim o corpo do vampiro começou a rebolar, no último esforço por escapar, enquanto o sangue corrompido estava a poucas polegadas dos sapatos de Julian.

O caçador Cárpato mergulhou a mão na fenda do peito do não-morto, extraindo o coração. Ouviu-se um horrível som de sucção quando o órgão saiu do demônio que sibilava. Julian saltou para longe da salpicadura de sangue e da grotesca mão que estendia a seus pés.

O vampiro flutuou sobre o chão, tentando duas vezes elevar-se, depois começou a apalpar cegamente a seu redor, procurando a única coisa que podia o manter vivo. Julian deixou cair o coração a uma distância segura da aparição, que recusava acreditar que houvesse sido derrotada.

Desari sentiu a terrível debilidade, a dor que pulsava e ardia no corpo de Julian. Observou como ele reunia a energia do raio e a dirigia primeiro ao coração, depois ao corpo de não-morto, e por último a terra, incinerando o sangue escuro que se estendia como uma mancha sobre o chão do bosque. Só então se deixou cair sobre um tronco. Desari observou com fascinação enquanto ele convocava uma luz ainda mais brilhante que manteve durante um momento para limpar as mãos e antebraços.

Saltou de seu ramo e correu para ele, mas Julian sacudiu a cabeça e assinalou com seu braço bom, para o bosque.

Movendo-se lenta, mas firmemente, vários humanos se dirigiam diretamente ao cerco de animais inquietos. Desari instantaneamente começou a cantar, aliviando os animais de maior tamanho, liberando-os do feitiço cativante que ela mesma havia tecido. Grunhindo e buzando, os animais se afundaram na escuridão do interior do bosque, afastando-se do grupo de humanos.

- Devem ter estado acampando no raio de ação de minha voz. - Disse ela a Julian.

- Temos muitos que fazer esta noite antes que possamos descansar. - Replicou ele. - Devemos achar à vítima do vampiro e destruir toda evidência. Estou acostumado a limpar todo rastro do não-morto. - Desari podia ouvir a debilidade em sua voz, senti-la em sua mente. A perda de sangue havia sido grande.

- Eu me ocuparei disso. Você volta para acampamento e convoque o sono reparador enquanto completo a tarefa.

Um pequeno sorriso suavizou a boca de Julian.

- Vem aqui, piccola. Preciso de você perto de mim. - Sua voz foi suave e quente e ela não pôde ignorar.

Desari notou que seus pés se moviam para ele antes de registrar que estava obedecendo a suave ordem. Num segundo, estava a seu alcance, sua mão se estendeu, segurando-a e exercendo pressão de forma que se viu forçada a sentar-se a seu lado no tronco.

- Fique quieta, cara. - Ordenou. - A garra do vampiro estava envenenada. O veneno já está movendo-se através de seu sistema. Vou extraí-lo de seu corpo e depois devemos apagar a lembrança de sua canção da mente destes humanos, assim suas vidas seguirão tranquilas.

- Você precisa se curar muito mais que eu, Julian. – Ela protestou. - Não se preocupe por uma insignificância como este arranhão. Já nos ocuparemos dele mais tarde.

- Não permitirei tal coisa. - Disse Julian. - Sua saúde está sobre tudo. O vampiro foi destruído, mas seu veneno é ainda letal. Fique quieta, Desari. Eu o farei. Sei o que é ter a escuridão crescendo e estendendo-se em seu interior, algo que não pode ser extirpado. Não permitirei que tal coisa aconreça a você.

Ela leu a decisão em sua face, desejando poder ver a fonte de sua amarga determinação, mas isso ainda estava escondido para ela. Embora se sentia estúpida, vendo Julian atender tão pequena laceração quando estava gravemente ferido, Desari não tentou protestar mais. Não tentaria fazer ele mudar de opiniã, e não estava disposta a deixar que ele esbanjasse tempo e energia em discutir.

Os olhos dourados de Julian se fecharam enquanto se concentrava e uma vez mais, separava de sua dor e fadiga. Ele enviou-se para fora do próprio corpo e entrou no dela. Encontrou as gotas de veneno, quase imediatamente. As grossas bolinhas negras cresciam insidiosamente, estendendo-se pela veia sangüínea e multiplicando-se. Ele era luz e energia, fogo movendo-se velozmente para alcançar todas e cada uma das minúsculas partículas, explorando cada artéria, veia e órgão para assegurar que ela estava completamente livre de qualquer toxina residual que pudesse crescer depois e estender-se, causando enfermidade.

Quando terminou, fez a viagem de volta a seu próprio corpo. Desari tocou sua face amorosamente, com dedos gentis. Ele estava pálido e vacilante pelo cansaço. Jogou-lhe o cabelo para trás, seu coração se condoía por ele. Podia sentir o ardor de sua ferida, de suas vísceras. A ferida aberta em seu ombro.

- Deve descansar. Deixe-me fazer o resto do trabalho.

Julian sacudiu a cabeça.

- Seria de grande ajuda para mim que te ocupasse dos humanos. Não posso permitir que eles se aproximem dos restos do vampiro ou de suas vítimas. Não pode confiar em um não-morto, nem sequer na morte.

- Destruíste-o, Julian. – Lembrou-lhe ela.

- Me acredite, cara, tratei com os de sua índole durante séculos. Suas armadilhas, com freqüência permanecem depois de suas mortes. – ele levou-se a mão dela aos lábios. - Faça o que digo, Desari. Ajude os humanos. Não vai querer que eles vivam o resto de suas vidas como zumbis. Vá agora. E depois voe até Darius. Eele te enviará à terra. Eu irei encontrar você, logo que seja seguro.

Desari riu dele brandamente.

- Persiste em suas fantasias, meu amor. Estou segura de que posso te ajudar nestes momentos difíceis. – Ela afastou sua mão e saiu longe dele e para ir a atender ao grupo de campistas que se amontoavam perto da clareira, no bosque.

Julian a observou afastar-se da cena brutal da morte. Parecia serena e formosa e intocável para a violência e a fealdade que os rodeava. Sentiu que seu coração saltava, e uma curiosa sensação de amolecimento se seguiu. Sacudiu a cabeça assombrado, colocando para trás o cabelo e ficando em pé com pernas trêmulas. Estava débil, mais fraco do que havia permitido Desari sentir ou ver. A ferida de seu ombro era uma feroz dor que abrangia todo o seu peito. Podia sentir o veneno estendendo-se por seu sistema e cada laceração de sua pele pulsava e ardia. Mas tinha um trabalho que fazer; sua honra o obrigava a ocupar-se primeiro de sua companheira e depois, apagar todo rastro do vampiro, a fim de ocultar sua raça, dos mortais que procurariam destrui-los.

Ajoelhou-se junto às aves mortas e feridas. Pelas que já estavam mortas não podia fazer nada. As que estavam vivas estavam sofrendo. Reunindo às vivas, uma vez mais se enviou a entrar nas pequenas criaturas que o haviam socorrido, em seu pedido de ajuda. Não importava quão difícil fosse, curaria todas as que pudesse. Julian sentia um profundo respeito pela vida selvagem. Corria com os lobos, sulcava o céu com os pássaros, nadava nas águas com os peixes, e caçava na selva com os felinos. Era como a natureza, e a natureza vivia dentro dele. Antes de Desari, a vida selvagem tinha sido sua única distração nos longos séculos de sua existência.

Desari completou a tarefa de mascarar a horrenda cena do bosque, para os humanos e voltou para ver Julian ajoelhado junto às corujas caídas. Ele parecia um guerreiro legendário, marcado pelas cicatrizes da batalha, mas invicto. O cabelo dourado flutuava a sua volta, o sangue gotejava firmemente, sua face estava pétrea, tomada pela dor e o cansaço, embora suas mãos fossem gentis enquanto tocava os pássaros, acariciando as plumas, e cantarolando as palavras do ritual curador dos Cárpatos, tão velhas como o mesmo tempo. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Este homem que permanecia em pé tão calmo, que enfrentara a morte e podia destruir um inimigo, sem piedade, pensava primeiro em curá-la e depois às criaturas do bosque. Orgulhou-se dele. Não podia entender como suas palavras os tinha ligado, mas de repente se alegrava de que ele houvesse feito.

Julian era um homem dos Cárpatos excepcional. Estava claro para ela, que ele pensava nos outros antes de em si mesmo.

- Poderia estar me apaixonando por voce. – Ela deixou cair às palavras na mente dele. Sua voz foi como uma suave carícia.

Julian não levantou o olhar, mas ela sentiu seu sorriso presunçoso.

- Na verdade, piccola, já está apaixonada por mim. É muito teimosa para admitir. Estive em sua mente. Sei que me ama.

- Está fantasiando. – brincou ela antes de voltar para a tarefa que tinha nas mãos. Conduzir o grupo de humanos de volta para seu acampamento.

Julian ficou inquieto quando a viu desaparecer de sua vista.

- Me chame, se sentir perturbada. Não esqueça a recente tendência dos vampiros de viajarem juntos por estas paragens. E já viu por voce mesma, os vampiros menores, os que se converteram recentemente. Com freqüência, eles são utilizados pelos vampiros mais antigos e hábeis. Deve ser cuidadosa.

- Estou começando a pensar que seus discursos são ainda mais tediosos que os de meu irmão.

Replicou Desari em algum ponto entre a exasperação e o riso, enquanto conduzia aos humanos. Não era uma principiante para ser tratada como se não tivesse cérebro.

Algumas vezes, os homens de sua raça, a punham nervosa.

Julian não podia apressar a cura das corujas. Cada corpo emplumado tinha que ser curado e cicatrizado de dentro para fora. Tentou afastar qualquer pensamento para converter-se em energia e luz de forma que não pudesse comer enganos. Ainda assim, se sentia culpado por utilizar tão formosas criaturas... O preço que tinha de pagar, por sentir emoções. A pena e a culpa pelas corujas que tinham perdido a vida. Temor por Desari, pela separação a que os obrigava sua própria debilidade.

Cansado, lançou à última coruja no ar e observou as poderosas asas do pássaro ganhar altura e voar para longe. Cambaleava, sacudido pela tremenda perda de energia, pelo volume de sangue que havia perdido. Precisava desesperadamente, de ir à terra e procurar o sono rejuvenescedor de sua gente, enquanto a terra curava seu corpo.

Julian se girou e examinou com uma careta, a terra enegrecida coberta pelas corujas que não pudera salvar. Com um suspiro, chamou o relâmpago das nuvens e enviou um arco a golpear a terra e prender os corpos. Quando por fim, o chão do bosque esteve limpo, afastou-se da área para levantar o vento. Formou redemoinhos, como um pequeno tornado, levando para o alto, as cinzas dentro do funil e as dispersando em todas direções.

Julian trocou de forma lentamente, seus músculos e tendões protestaram, seus ombros gritaram ultrajados enquanto comprimia seu corpo à forma de um pássaro predador. Não podia mover uma asa corretamente, assim gastou concentração e habilidade empreender o vôo. Uma vez no ar, sobrevoou o bosque, procurando a vítima recente do vampiro. Era uma tarefa desagradável e não queria que Desari se aproximasse do lugar. Divisou-a em suas ocupações, devolvendo aos campistas a suas lojas e caravanas. Desceu para assegurar que nenhum perigo a ameaçava antes de descer à beira do rio, do acampamento central. Desari tocou sua mente com suavidade e preocupação e ele tentou sentir-se forte e capaz para que ela não se preocupasse. Podia sentir a compassiva natureza dela, seu suave coração era um farol que chamara seu companheiro de volta da raias da loucura predadora.

Embaixo, ele sentiu o cheiro da morte. Desceu e rodeou o rio por duas vezes. Trocou de forma enquanto aterrissara. Uma vez mais, seu corpo protestou. Desta vez a dor quase o pôs de joelhos. Nunca havia sido capaz de suportar a debilidade em si. Amaldiçoando eloqüentemente, ele mesmo, em língua ancestral, caminhou para os corpos de dois jovens. Estavam quebrados e descartados segundo o costume normal e confuso dos vampiros, com as faces rígidas pelo terror. Estes dois haviam visto o não-morto em todo seu horror. Eram jovens, não mais de vinte e três ou vinte e quatro anos. Julian sacudiu a cabeça, irritado consigo mesmo por não haver sentido a presença do antigo antes. Normalmente, nenhum vampiro podia aproximar-se dele ,sem que soubesse. Suas emoções eram muito novas e intensas, as cores eram vívidas, os desejos exigentes, quase se sentia cegado. Certamente, estivera ocupado com sua companheira e suas próprias necessidades, em vez de estar atento no que acontecia a seu redor.

- Desari? - Tocou a mente dela gentilmente, precisando saber se ela não estava em perigo.

- Aqui tudo está sob controle, Julian. Posso ir com voce? - Sua voz era um sopro calmante de ar fresco em sua cabeça.

- Não! - Sua advertência foi afiada. - Não o faça, cara. Vá com os outros e me encontrarei com você lá. Ele estava agradecido pela beleza da voz dela e da forma em que afastava da vista o mal e a morte, que retrocediam ante sua presença, em que encontraria conforto.

Ela não se incomodou em discutir, sensível à debilidade dele, sabendo que ele escondia a verdadeira extensão de suas lesões. Alimentou-se, segura que ele precisaria de sangue, mas tomou cuidado de usar só mulheres. A última coisa que precisava era que seu companheiro se tornasse louco de ciúmes.

Julian sentia a sombra em sua mente, sorriu-se ante os pensamentos dela. Ele podia estar muito esgotado para ficar louco de ciúmes, nesse preciso momento, mas agradecia que ela considerasse seus sentimentos. Incinerou os corpos humanos e pulverizou as cinzas por toda a área, deixando o lugar abrasado e enegrecido, como se tivesse cansado um raio em uma tormenta feroz. As autoridades nunca encontrariam os corpos e possivelmente presumiriam que os campistas se afogaram e as correntes levaram os corpos. Julian sentia pelas famílias, mas não podia deixar nenhuma evidência do trabalho do vampiro ou do sangue corrompido que pudesse ser analisada pelo forense humano. Proteger sua raça era sua máxima prioridade. Não tinha mais escolha. Jogou um último olhar para assegurar-se de que tinha feito tudo o que podia, para ocultar qualquer evidência do não-morto. Satisfeito, começou a caminhar para o acampamento.

 

Desari chutou a roda do ônibus.

- Essa maldita coisa se nega a andar. Sabia. Sabia que aconteceria no pior momento possível. - Chutou o pneu novamente, com frustração.

Julian permanecia entre as sombras das árvores, cambaleando ligeiramente, com os olhos fixos na esbelta figura de Desari. Ela era toda graça, como água em movimento. Seu cabelo negro caía em cascata a seu redor, como ondas de seda. Ela estava formosa, mesmo em seus arrebatamentos de fúria.

Ela olhou em volta e os enormes olhos o localizaram, instantaneamente, embaixos das árvores. Num instante, sua expressão mudou para o profundo desconcerto.

Julian parecia pálido e cansado, com sangue coagulado na camisa. Parecia tão cansado que ela se alarmou. Instantaneamente pulou o espaço que os separava, com o esbelto braço rodeando a cintura dele, na intenção de servir de apoio.

- Apóie-se em mim. - Disse brandamente. Ele havia percorrido a distância caminhando, não flutuando ou usando sua assombrosa velocidade. Evidência que sua força havia minguado.

Ele rodeou-lhe os ombros, apoiando um pouco de seu peso nela. Ela parecia tão ansiosa, que quis beijá-la para consolá-la, mas o veneno de seu interior crescia e se estendia, e não poderia infectá-la.

- Deve chamar Darius até nós, Desari. - Ordenou brandamente. Tinha pensado muito enquanto voltava para ela. Poderia ter chamado Gregori, o curador, que conhecia e em quem confiava, mas não havia tempo a perder. Teria que se valer da força e da perícia de Darius.

Ela o ajudou a subir o degrau e entrar no ônibus. Julian percorreu o corredor com pernas trêmulas e quase caiu sobre o sofá.

- Precisa de sangue, Julian e uma vez, que vá para a terra, recuperará-se rapidamente. – Ela soava ansiosa, apesar de sua determinação em não parecer. Julian sacudiu a cabeça.

- Chame Darius. - Disse com um fio de voz. As pálpebras lhe pesavam como se estivesse lutando para permanecer acordado e consciente.

- Darius. Pode me ouvir?

Desari estava alarmada. Julian não era homem que pedia ajuda.

- Precisa de mim? - Darius estava longe, mas podia sentir seu temor.

- Venha até nós agora. Por favor, se apresse, Darius. Tenho medo.

Julian entrelaçou seus dedos com os dela.

- Chamaste-o?

Ela afirmou, temendo que ele se afastasse dela.

- Sim. Alimente-se agora, Julian e vá para a terra até que ele chegue.

- Não correrei o risco de te poluir. Vá com os outros. Ele a protegerão até que seu irmão e eu sejamos capazes de fazê-lo. - Seus olhos estavam agora completamente fechados e a pele cinzenta.

Desari levou a mão dele à boca, mas antes que pudesse beijar as lacerações de seus nódulos, curando-os com o agente de sua saliva, ele afastou a mão, de um golpe.

- Não! - Foi uma severa reprimenda.

- Me Diga. Conte-me por que recúsas o que te ofereço. Estou em meu direito de te curar, te alimentar e te cuidar. - Desari se sentia ferida e atemorizada. As emoções em um caos.

Sentiu uma agitação em sua mente, calidez, a impressão de braços rodeando seus ombros e mantendo-a perto. O coração dele pulsava anormalmente lento, podia sentir em sua mente, o pulso irregular.

- Era um antigo, cara. Um dos mais velhos vampiros, muito hábil nos velhos costumes. Seu sangue é extremamente perigoso.

- Tirou o veneno de meu sistema, Julian. - inclinou-se sobre ele ansiosamente. - Tire-a do teu.

- Não tenho forças, piccola. Não tema por mim. Não te deixarei. Agora vá com os outros e assim saberei que está a salvo.

Desari se endireitou, compreendendo súbitamente.

- Crê que poderiam vir mais não-mortos.

- Acredito que você e a outra mulher... Syndil... Os atraem. Procuram companheiras. Acreditam que isso os guiará de volta a suas emoções e almas. Vá, Desari, enquanto o sol está ainda longe. - Julian temia que ele chegasse. Seu ancestral inimigo. Temia que fosse diretamente a Desari.

A voz de Julian quase se apagou. Sua respiração era trabalhosa. O que se estendia por seu interior estava estrangulando seus pulmões e seu coração. Desari com uma carícia jogou para trás o cabelo dourado que caía sobre sua testa. Ele estava frio, úmido e pegajoso. Sabia que seus medos por ela eram muito poderosos, mas como podia o deixar?

Ele havia entrado em sua vida há pouco tempo, mas já era o ar que respirava. Seu corpo o reconhecia. Seu coração e sua alma estavam finalmente, completos. Tinha que estar onde quer que ele estivesse.

- Darius, por favor, te apresse. - Sussurrou, sabendo que ele já voava para eles, cobrindo com asas poderosas, a distância que os separava no menor tempo possível. Mas tinha que se apressar.

O que faria se o vampiro tinha outros companheiros? Não era uma caçadora, Como defenderia Julian em seu fraco estado? De novo teve a impressão de conforto, proveniente de Julian.

Algo golpeou o lateral do ônibus com a bastante força, para balançar o sólido veículo. Seu coração saltou de apreensão. Em seguida, Julian lutou para ficar em pé, com a face dura e implacável, esculpida em granito.

- Cante o antigo canto curador, Desari. Está em sua mente, eu o ouvi. Funda-se comigo enquanto canta.

A transformação de estar quase morto, a esta presença dominante, foi surpreendente. Ele levantou a cabeça, e avançou para a porta do ônibus. Desari ficou sentada imóvel, com o coração martelando. Não podia deixar ele sair sem ajuda. Teria sua própria força e coragem, sua fé nele e qualquer outra coisa que necessitasse. Sua voz começou o ancestral canto, era tão velho como o tempo, algo com o que nasciam. O canto era uma lembrança já impressa neles. Era balsâmico e apaziguador e a voz dela reforçava seu poder.

Julian escutou as notas enquanto abria passo para a noite. Sua voz era pura e fazia ele deixar no fundo da mente, os efeitos do veneno do vampiro, o tempo suficiente para que pudesse se concentrar. Lá fora, moviam-se sombras sob as árvores, rodeando o ônibus.

Julian deixou escapar um suspiro de alívio. Não era outro vampiro. Eram somente os escravos, os ghouls do não-morto. Essas formas humanas tinham a força e inteligência do sangue do vampiro que corria por suas veias... Mas não eram imortais. Dormiam em redes de esgoto e cemitérios para escapar do sol mortal, comiam carne viva e sangue. Viviam para servir a seu professor, esperando que um dia lhes fosse outorgada a imortalidade. Julian sabia que tal coisa era impossível. Já estavam mortos. Eram simples marionetes, vivendo só pelo desejo do vampiro e do sangue corrompido.

Saiu do ônibus e enfrentou os mortos viventes. Sua força seria Desari. Embora seu professor tinha sido destruído, eles não tinham mais escolha que levar a cabo suas ordens até consegui-la e seriam brutais em sua raiva e medo. A primeira tarefa de Julian era proteger Desari, rodeando o ônibus com as mais poderosas salvaguardas que fosse capaz de levantar, no caso dos ghouls o derrotar em seu fraco estado. Darius teria que desentranhar o que Julian colocasse.

- Entretenha eles, até que Darius chegue. - Julian ouviu a súplica na voz de Desari. Não podia suportar que lhe fizessem mais dano.

- Cante para mim, minha cara. Isso conterá a dor. Não posso fazer mais do que estou fazendo. Você é minha vida. Minha única razão de existir. Não fracassarei em te proteger.

- Uma tormenta então. Posso atrair a névoa ou algo que necessite. Permita-me tomar qualquer carga que possa. – Ela não desejava discutir com ele ou lhe distrair. Podia ouvir os escuros murmúrios, o arrastar de folhas e o quebrar de ramos sob seus pestilentos pés. Os ghouls estavam avançando para Julian.

- Cante para mim, piccola. Seu irmão enviará ajuda. Prepare-se para permitir que ele utilize seus olhos.

Desari tinha que ficar satisfeita com isso. Começou o ancestral canto uma vez mais, enquanto se movia até a janela para poder ver algo que Darius precisa. Julian parecia tão sozinho. Permanecia em pé alto e erguido, com o vento formando redemoinhos a seu redor. Seu corpo, que sofria a dor, estava preparado para o ataque. Sentiu-se ainda mais orgulhosa dele.

- Desari?

Era Darius, sua voz tranqüila e sem excitação como sempre, cheia de completa confiança. Soava forte e próximo.

- Me diga o que está errado com Julian.

Desari continuou cantando para o Julian, mas dirigiu seus pensamentos para seu irmão. Havia falando tanto com ele, durante séculos, através de seu vínculo mental privado, que dividiu sua atenção facilmente.

- O vampiro com qual ele lutou era antigo e seu sangue tinha um poderoso veneno. Julian está ferido, mas não permite que eu o ajude, o alimentando. Está muito fraco para extrair o veneno ele mesmo. Espera por voce.

- Já sabe o que precisarei. - respondeu Darius. - Prepara o ônibus com as velas e ervas necessárias. Tenha as essências no ar, quando despacharmos aos que o ameaçam agora. Chame os outros. Precisaremos que se unam a nós no ritual curador. Insista com Syndil. Ela possui tremendos poderes curadores.

Darius interrompeu o contato com sua irmã e deslizou invisível sobre o círculo de serventes do não-morto. Sete. Este certamente tinha sido um poderoso ancião para poder sustentar a tantos mortos viventes de uma só vez, com seu sangue.

Darius sentiu um profundo respeito pelo Cárpato que permanecia em pé em terra, estudando cada polegada do intimidante caçador. O fato de que não tivesse materializado uma camisa limpa, indicava a extensão da debilidade de Julian. Apesar da dor e da debilidade, Julian estava preparado para lutar.

Darius desceu do céu, trocando de forma enquanto tocava o chão, saltando silenciosa e diretamente para sua presa. O enorme macho de leopardo afundou as presas na garganta do primeiro ghoul, o despachando com mortal eficiência. Deixou cair o corpo e dirigiu silenciosamente a sua seguinte vítima. Desta vez, o servente do não-morto havia fugido dele, mas o leopardo simplesmente saltou sobre o demônio, enterrando os caninos profundamente, destroçando a garganta.

Julian observou às abominações arrastar-se para ele. Eram sete e fortes, em vários estados de decadência. Com o professor morto e não eram capazes de manter vivos. Então uma escura sombra apareceu, após a linha das árvores e Julian captou que o enorme felino despachou rapidamente a dois dos zumbis.

Julian deixou escapar o fôlego lentamente. Estes ghouls estavam poluídos pelo sangue infectado do vampiro, assim era mais que provável que Darius também pudesse ser envenenado pelas mortes desta noite. Sobre suas cabeças, as nuvens estavam se reunindo, negras e ameaçadoras, acabando com a luz da lua. Um relâmpago começou a arquear-se. Uma forte e rápida tormenta bramava entre as árvores, fazendo que seus ramos dançassem e se balançassem. Julian sabia que era coisa de Darius. Um ghoul cambaleou para frente, com os olhos ardentes sobre o ônibus e seu objetivo. A única coisa que se interpunha entre ele e sua meta era Julian. Grunhindo enlouquecido e babando, ele moveu-se para Julian, mostrando os asquerosos dentes enquanto se aproximava arrastando os pés. Seus enormes braços balançaram torpemente para a cabeça de Julian. O caçador evitou o golpe e devolveu o seu próprio. A cabeça do ghoul estalou e o pescoço rompeu sonoramente.

Julian se afastou de um salto, para encontrar-se com um segundo adversário que se movia em busca da presa. Silenciosamente amaldiçoou o fato de que seu braço pendurasse inutilmente de um lado, Julian tomou represálias e varreu as pernas do servente do vampiro. Depois rapidamente administrou o golpe mortal em sua cabeça, afundando o crânio, quando o terceiro zumbi, o alcançava.

Apesar de sua lentidão, o monstro era forte e inteligente. Foi pelo ombro ferido do Julian, chegando nele como um touro. A dor foi extrema, explodindo através de Julian, com a força da dinamite, fazendo-o cair de joelhos antes de poder encontrar energiaa e forças para demarcar a área afetada. O ar escapou de seus pulmões, obrigando-o a lutar por respirar. Seu estômago encolheu, revolvendo-se com nauseia.

Imediatamente um relâmpago golpeou seu atacante, o raio atravessou seu corpo. Saía fumaça de sua boca e nariz e as roupas e pele, tornaram-se negras. Uma bola de chamas alaranjadas como um meteorito, golpeou no estômago, incinerando o monstro, que uivou enquanto se convertia em cinzas. As chamas saltaram de corpo a corpo, dirigidas pela mão de Darius, despachando os restantes ghouls com a facilidade de um caçador com larga experiência e pleno rendimento.

Rapidamente seu braço deslizou em volta de Julian e tomou todo seu peso. Carregou o homem como se fosse um menino, elevando-o gentilmente em seus braços.

- Tem forças para tirar as salvaguardas? - Perguntou. Sua voz era tranqüila e confiada, sua respiração não sofria nenhuma mudança depois do comprido vôo, da terrível luta e a carga que levava.

Julian assentiu em resposta, ante a pergunta do Darius e começou a complicada tarefa de desentranhar as salvaguardas, assegurando-se cuidadosamente de que estavam a salvo. Desari abriu a porta, de repente, de forma que seu irmão pudesse levar seu companheiro para dentro. Ansiosamente os seguiu até a cama. O ônibus estava às escuras. Só as velas aromáticas proporcionavam alguma luz. O aroma consolador de ervas e velas enchia o ar e então, a cada vez que Julian tomava fôlego, a essência curadora entrava em seu corpo ajudando a aliviar a dor que o apunhalava.

- Ele vai se recuperar? Pode lhe ajudar? - Perguntou Desari ansiosamente, revoando atrás de Darius, tentando ver seu companheiro.

- Tinha razão. O veneno do vampiro é forte e incomum. Quero que saia daqui. Uma-se aos outros, no canto curador e me empreste sua força. Curarei a ele e depois a mim mesmo.

Desari mordeu o lábio, sua mão foi à garganta.

- Como te infectaste?

- Os serventes do não-morto estavam corrompidos. Uma armadilha que o vampiro deixou atrás para os que tentassem frustrar seus planos. - Darius se expressou, como um fato consumado, sem espionagem de alarme. Sua voz firme e tranqüila, tão familiar para ela, foi confortante.

Darius se inclinou sobre Julian. O caçador Cárpato sacudiu a cabeça sem abrir os olhos.

- Você primeiro, Darius. O veneno se estende rapidamente e cresce com força. Cure-se antes que seja muito tarde. Eu não serei capaz de te ajudar. Faça por Desari, não posso velar por ela como deveria.

- Descanse, Julian. - Ordenou Darius, acostumado a ser obedecido. Poucos desafiavam sua autoridade.

Darius se enviou ao interior de seu próprio corpo, procurando cada partícula do veneno que avançava através da veia sangüínea. Estudou a natureza do veneno, suas células e comportamento. Satisfeito de saber como trabalhava, começou a destrui-las, extirpando-as de seu corpo da mesma forma pausada em que fazia tudo. Julian tinha razão. O veneno era forte e atuava rápido, destruindo as células e multiplicando-se rapidamente. Era um tributo a incrível força de Julian, que estivesse ainda vivo, sabendo que o veneno podia fazer, ele havia colocado sua companheira e seus deveres antes de seu próprio bem-estar. O canto curador, pela formosa voz de Desari, reforçava Darius, embora ele se encontrou levemente enjoado, quando voltou para seu próprio ser.

- Está pálido, Darius. Toma o que ofereço livremente para que Julian e você possam recuperar forças. - Desari sustentou tranqüilamente, sua mão, ante seu irmão.

Darius tomou sua mão e a girou. Sua irmã parecia frágil e delicada, embora o sangue ancestral que percorria suas veias era forte e poderoso. Inclinou a cabeça e bebeu. Em seguida sentiu retornar sua força. Havia sido difícil e complicado extirpar o veneno letal de seu próprio corpo, em tão curto tempo. Seria um trabalho monumental salvar Julian.

Desari tocou seu irmão ligeiramente, Precisando de conforto. Julian tinha um aspecto terrível, as linhas de sua face pareciam marcadas profundamente pelo sofrimento. Estava cinzento e fraco. Havia ralentizado seu coração e pulmões para impedir o avanço do veneno, mas ele estava ganhando a partida. Quando tocou sua mente para fundir-se com ele, encontrou-a bloqueada. Julian não se arriscaria, a que pudesse sentir a agonia que estava suportando silenciosamente.

- Precisaremos da ajuda de toda a família. - Disse Darius enquanto fechava a ferida da mão dela. - Cuida de que nenhum delesvacile, não importa meu aspecto. Sempre podem proporcionar o que necessito, quando tudo tiver terminado aqui.

- Ouça-me, Julian. Ficarei com voce. Aonde queira que vá, eu te seguirei. Não está sozinho. Sempre estaremos juntos. - Sussurrou Desari solenemente na mente de Julian, o obrigando a ouvir sua promessa, a que entendesse sua determinação. Não perderia seu companheiro, mesmo que isso significava o seguir a onde quer que fosse. Nesta vida ou na seguinte, iria com ele.

Darius tomou um profundo fôlego para inalar as ervas aromáticas, levando-as com ele enquanto se convertia em luz e energia e entrava no corpo de Julian. Em seguida, pôde notar que a corrente sanguínea dele, parecia um desastre. O veneno atuava como um vírus, mudando rapidamente, reproduzindo-se e atacando as defesas do corpo. Corria descontrolado, trabalhando para matar o Cárpato, tão rápido como era capaz, para levar a cabo as ordens de seu professor. O vampiro devia ser muito estudado e experiente. Este era um desafio que Darius nunca havia enfrentado.

Mesmo assim, confiava em si e em suas habilidades. Sempre encontrava um modo. Nunca se rendia. Triunfaria. Não se permitia outro pensamento. A ele, não cabia nenhum outro resultado.

Moveu-se para a cavidade do coração e examinou o dano. Julian sabia o que ocorria em seu interior e a dor devia ser atormentadora. Havia ralentizado o coração e os pulmões para atrasar a extensão do veneno. Enquanto Darius trabalhava para reparar o dano, estudou as mutações. Não era tão difícil deter a decomposição original, pois já conhecia a estrutura, por havê-la estudado em seu próprio corpo. As mutações eram mais agressivas e complicadas. Era importante saber que se movia rápido e fazia o maior dano possível, antes de começar a persegui-lo.

No momento, tinha as paredes do coração e a corrente principal destruída. Possuía idéia de como o vírus destruía a célula, reconstruindo-a e multiplicando-se. Introduziu-se em uma artéria e começou o autêntico trabalho. O veneno se apressou para ele, um sólido exército de células em ofensiva, correndo a alcançar a ameaça. Darius se converteu, construindo seu próprio exército de anticorpos. Enviou onda atrás de onda para o veneno que avançava. Suas criações começaram a cobrar velocidade, movendo-se rapidamente para destruir a última armadilha mortal de vampiro. Levou-lhe uma tremenda força manter seu corpo imaterial, ser só luz e energia, manter o ritmo do vírus que mudava para tentar escapar dos ataques de guerreiros que tinha criado para combatê-lo.

Encontrou-se admirando o trabalho do vampiro. Era genial, esta corrupção, em algum lugar entre um vírus e um veneno, atuava rápido e letalmente com uma espécie de inteligência programada. Sua única razão de existir era triunfar sobre o anfitrião e assegurar sua própria sobrevivência. O trabalho de Darius era complicado, mas o fez com sua confiança e tranqüilidade habitual. Esta batalha era estranha e pouco familiar, mas era simplesmente questão de desentranhar o que o vampiro tinha construído. Nada o derrotaria.

Ao mesmo tempo, uma parte dele analisava o homem dos Cárpatos que sua irmã tinha escolhido. Savage tinha conhecido a extensão da ameaça que se abatia sobre ele, embora tivesse colocado o bem-estar e a segurança de Desari antes da sua. E, tinha curado os pássaros feridos que haviam o ajudado na batalha com o antigo. Um grande custo de tempo e de energia. E ele havia limpado todo o rastro dos vampiros e suas vítimas para preservar os segredos de sua raça.

Então Darius descobriu uma profunda sombra dentro do corpo de Julian. Estudou-a por longo tempo. O vírus não o tinha poluído tão profundamente e isto era algo que Darius nunca havia visto. Intranqüilizou-lhe. Julian, entretanto, estava extremamente tranqüilo e aceitava a presença de Darius em seu corpo, confiando em sua habilidade para curar. Não havia dúvida, nem adrenalina a que fazer frente, nenhuma das defesas do corpo se elevou contra ele enquanto trabalhava. E Julian era consciente de que ele havia descoberto a escura sombra.

O ancestral canto curador, suave e melodioso, deu ao Darius força adicional quando sua energia começou a faltar. As vozes familiares estavam todas presentes.

Desari, sua voz por si só curava e aliviava.

Syndil, gentil e pacífica como sua natureza.

Barack, forte e seguro.

Dayan, o segundo ao comando, estava preparado para ajudá-lo no que necessitasse.

Só quando se arrumou para limpar a última mutação e construir apropiadamente, anticorpos para mantê-la a raia, Darius se permitiu voltar para ao próprio corpo.

Sua grande força estava quase esgotada. Havia trabalhado durante duas horas, um tempo extraordinário para estar fora de seu próprio corpo. Cambaleava de tanta fraqueza, seu corpo clamava por sustento, e podia sentir os primeiros golpes de ansiedade pela aproximação do amanhecer.

Em seguida, Dayan estendeu a mão para seu líder.

- Toma o que ofereço livremente. - Disse formalmente.

Desari tocou o ombro de seu irmão.

- Está pálido, Darius. Por favor, se alimente. - Não queria dizer que ele estava quase em tão mau aspecto como Julian. Ela retorcia as mãos ansiosamente, temerosa em tocar a mente de Darius para saber se acreditava que Julian viveria, temerosa de fazer a pergunta em voz alta.

- Estou vivo, preciosa. - A voz masculina de Julian acariciou sua mente, envolvendo-a em cor, conforto e uma espécie de divertida exasperação. - Vivo para ensinar a minha companheira, o que significa a obediência. Seu irmão é tão hábil como Gregori. Ele soava débil e longínquo, como se o esforço por lhe alcançá-la tivesse o debilitado mais.

- Julian. - Sussurrou em voz alta.

Darius deslizou seu frio e negro olhar para sua face com uma clara reprimenda. Com cuidadosa cortesia fechou a laceração da mão de Dayan e inclinou a cabeça para falar com o Julian.

- Me ouça, renegado. Não está em condições de se opor a mim. Se não quer que o ponha sob compulsão, permaneça em silêncio e conserve suas forças para lutar com o que está tentando destruir você e minha irmã. - Havia uma dura autoridade em sua voz e a completa convicção de que cumpriria o que ameaçava, se fosse necessário. Darius nunca se repetia enem sequer se incomodava em advertir. Golpeava forte e rápido. Os que o conheciam obedeciam sem questionar. Julian permanecia quieto como se estivesse morto. O funcionamento de seu coração e pulmões era apenas discernido, mas incrivelmente, uma débil careta aliviou a aparência de morte de sua face.

Darius olhou para sua irmã.

- Este não gosta da autoridade. À terra, Desari e deixa de se torturar.

Imediatamente o ar se espessou com opressivas sombras. Uma advertência, uma promessa de represálias. Desari se encontrou contendo o fôlego. Não podia acreditar que alguém desafiasse as ordens de Darius, e muito menos um homem meio morto e que ainda necessitava da ajuda daquele a quem ameaçava. Certamente Julian sabia que Darius nunca faria mal a ela. Simplesmente a incomodava por costume.

Darius golpeou o Cárpato imóvel na cama com uma poderosa compulsão para dormir. Em seu presente estado, Julian não tinha como combater tal poder. Pensou nele antes de sucumbir à vontade de Darius. Esse homem era com muito perigoso. Julian ainda não tinha encontrado em todos seus séculos de vida, alguém igual. Possivelmente, ele seria mais que Gregori.

Desari rodeou seu irmão e afastou o cabelo da testa de Julian com uma carícia. Sua mão se atrasou amorosamente sobre sua pele.

- Ele só está-me me protegendo. - Sussurrou.

Darius rilhou os dentes, com um audível estalo.

- Não há necessidade de amparo enquanto eu esteja com voce. E ele sabe. Está me advertindo que cuide como falo com voce. - Seus olhos negros brilharam com ameaça. - É muito arrogante. - Darius inalou com força, tomando o aroma reparador em seus pulmões. - Retome o canto e acrescenta uma ou duas velas. Poderia te tirar do problema.

Uma vez mais, ele bloqueou tudo e a todos até que foi só luz e energia que eram sua força e inteligência. Muito cuidadosamente voltou a entrar na veia sangüínea de Julian para examinar o venenoso vírus em busca de novas ameaças. Estava certo. Uma nova ameaça atacava os anticorpos que Darius tinha criado.

Darius examinou a estrutura da célula, perguntando-se como poderia causar tanto descalabro. O veneno original estava carregado de sementes para implantar-se além da veia virulenta. Lutava por reproduzir-se, replicando ao monstro que lutava com tal ferocidade para levar a cabo a última ordem do vampiro. Darius enviou uma vez mais, seu exercito a lutar com a infecção, ficando ele livre para começar a reparar as horríveis feridas e lacerações da carne de Julian. O novo veneno tinha debilitado uma vez mais a parede arterial e a cavidade do coração. Darius passou um tempo restaurando os sistemas. A ferida do ombro era particularmente má, a carne e o músculo estavam rasgando até o osso. Darius a reparou lentamente, depois meticulosamente voltou para veia sangüínea para assegurar-se de que estava completamente limpo do venenoso vírus do vampiro. Não se arriscaria a que sua irmã pudesse poluir-se. Seguiu através de cada músculo, tendão, e osso, cada órgão e veia, comprovando duas vezes que tinha eliminado todo vestígio das células estranhas.

Depois voltou uma vez mais a inspecionar a estranha sombra. Estava na mente de Julian, em seu corpo. Era escura. Corrupta. A marca de um vampiro. Darius a estudou. Não havia forma de combater semelhante marca. Julian havia estado em íntimo contato com um vampiro e a fera era forte nele. Para um solitário homem dos Cárpatos, lutar por conservar sua alma era já bastante dura sem a marca do vampiro em seu interior; Darius só podia imaginar a feroz batalha que Julian devia ter sofrido cada momento de sua existência. Não podia fazer nada por ajudar ao Cárpato que tinha reclamado sua irmã. Com um suspiro de derrota, voltou a seu próprio corpo. Manteria um olho em Julian para assegurar a segurança de sua irmã.

Instantaneamente, seus olhos reagiram ante o amanhecer. A luz estava começando a debilitar lentamente a escuridão, convertendo-a num fraco cinza, arauto da manhã. Fechou os olhos para suavizar os efeitos. Sua recente debilidade o incomodava. Darius nunca precisara fazer frente à debilidade. Durante séculos tinha se arrumado para permanecer sobre a terra até as dez, algumas vezes até as onze da manhã, mas nos últimos anos, seus olhos se tornaram mais sensíveis a qualquer luz. Tinha uma vontade de ferro. Quando decidia fazer algo, não importava quão difícil fosse, fazia. Mesmo assim não podia sobrepor-se a esta sensibilidade à luz da amanhã.

- Darius? - Dayan tocou ligeiramente seu ombro, para o trazer de volta a eles. - Parece?

- Devemos o enviar a terra e permitir que a terra o cure. Darei-lhe mais sangue justo antes de o colocar. Meu sangue é antigo e deveria acelerar sua recuperação. Embora não posso imaginar porque ia desejar tal coisa.

- Darius, já deste muito de ti esta noite. - Objetou Dayan. - Eu o alimentarei.

Darius sacudiu a cabeça.

- Não correrei riscos com sua vida. Se deixei alguma célula do vírus, há possibilidade de que possa te infectar. - A razão real era mais completa. Se Dayan se convertia, Julian não devia ser seu caçador. Darius tomaria essa responsabilidade para si mesmo. E se a sombra em Julian provava ser um farol para um vampiro, colocava em perigo Desari. Seria responsabilidade de Darius destruir o companheiro escolhido por sua irmã.

- Há possibilidade de que te tenha deixado algo?

Exigiu Desari a seu irmão, não acreditando nem por um minuto. Darius era absolutamente minucioso.

- Não seja ridícula.

Darius soou mais cansado do que pretendia. Compreendeu, quando viu o alarme nos olhos escuros dela. Em seguida estendeu uma mão para confortá-la.

- Não se preocupe, irmãzinha.

Dayan imediatamente ofereceu sua mão para alimentar o líder. Por hora, Barack enviaria Syndil a terra, colocando fortes proteções para sua segurança. Era sempre Barack que se ocupava de Syndil, especialmente depois do ataque. Uma vez, Barack havia sido depravado e arrogante, agora era muitos mais tranqüilo. Seus olhos vigilantes e pensativos sempre descansavam em Syndil. Dayan tinha sido o que ajudasse a sua líder na cura do estranho, enquanto Barack havia protegido a Syndil. Dayan se sentiu bruscamente enjoado, pelo volume de sangue que tinha subministrado. Darius estava obrigando Julian a alimentar-se. Dayan não podia ajudar, mas admirava a eficiência com que Darius fazia tudo. Seus movimentos eram sempre seguros e poderosos. O estrangeiro tinha a mesma segurança dele.

Dayan estudou a escolha de Desari. O homem Cárpato parecia perigoso mesmo em seu estado de quase morte. Olhou atentamente a Desari, pensando por que ela escolheria um homem tão parecido a seu irmão, quando com freqüência a irritavam as estritas regras de Darius para as mulheres.

- Vá se alimentar, Dayan. - Disse Darius. - Desari e eu enviaremos Julian à terra. Descansarei sobre eles dois para protegê-los enquanto ele se cura. Deve colocar salvaguardas ao redor do acampamento e se ocupar dos outros enquanto dormimos até a próxima sublevação.

Dayan assentiu.

- Não há problema Darius. Não se preocupe.

- Me chame se precisar de ajuda.

Dayan ficou em pé e saiu, silenciosamente à caça.

Desari suspirou brandamente.

- Parece-me muito só, algumas vezes Darius.

- Os homens estão sempre sozinhos, irmãzinha. - Respondeu Darius tranqüilamente. - É algo que temos que confrontar. – Ele tocou-lhe o queixo com as pontas do cabelo. - Não temos sua natureza compassiva e amorosa.

- O que podemos fazer para ajudar? - Perguntou Desari imediatamente, seus olhos se nublaram com preocupação.

- Sua canção ajuda, a paz que há em voce. Syndil e você são nossa força, Desari. Nunca creia que não o são.

- Embora sejamos as únicas responsáveis por reunir os vampiros nesta região? Buscam-nos.

Darius assentiu.

- É mais que provável. Mas dificilmente é sua culpa.

- Embora tenha que destrui-los?

- É minha responsabilidade. Aceito-a sem questioná-la ou pensar nisso. Agora, Desari, estou cansado e devemos colocar este teu homem nas profundezas da terra e completar sua cura. Vamos.

Desari começou a percorrer o corredor, depois voltou a dirigir-se a ele sobre seu ombro.

- O ônibus está quebrado novamente, Darius. Tenho intenção de colocar um anúncio em alguns periódicos procurando um mecânico que viaje conosco. Compreendo que mudará um pouco as coisas, mas podemos controlar facilmente a um só humano. Posso colocar uma compulsão no anúncio a fim de atrair só o que estamos procurando.

- Se é que está aí fora. Se escolher um que não desperte ciúmes. Este aqui... Parece ser bem possessivo.

Desari voltou às costas a seu irmão, encantada de ter sido capaz de lhe arrancar semelhante concessão. Obviamente, Darius achava que ela nunca encontraria tal pessoa, mas estava decidida. Estava cansada de cuidar de cada detalhe da viagem, sozinha.

Saiu para o exterior, na luz cinza do amanhecer e se apressou para o bosque paa fim de selecionar uma área protegida do sol, mas com várias rotas de fuga.

Desari encontrou o ponto e ondeou a mão para abrir a terra, revelando seu frescor curador que rejuvenescia pessoas de sua espécie. Chamava-a, sussurrando promessas de sono e amparo.

Depois dela, Darius flutuou silenciosamente até o lugar, com sua carga. Muito cuidadosamente deitou Julian na cama de terra.

- Durme profundamente o sono de nossa gente, esolhido de minha irmã, isso te curará completamente. Despertará novo e em plena forma. – Ele pronunciou as palavras formalmente enquanto Desari seguia Julian. Observou como sua irmã tomava seu último fôlego antes que a terra os cobrisse.

Darius permaneceu em pé um momento, ouvindo os pássaros e o roçar dos ratos e pequenos roedores que rebuscavam entre os arbustos. Normalmente, estava na terra antes que o sol estivesse tão alto. Quase havia esquecido os sons da manhã. Enquanto olhava em volta, o mundo negro e cinza, sentiu a solidão absoluta que os homens de sua raça suportavam durante a maior parte de sua árida existência. O tempo se estendia ante ele, longo, interminável e sem esperança. Nada poderia mudar isso. Mas faltava ainda um pouco, para que a negra mancha se estendesse e envolvesse completamente sua alma. Era só sua vontade de ferro e seu estrito código de honra, sua obrigação em proteger à família, que evitava que ele caminhasse sob o sol e acabasse com o inferno de sua existência. Quanto devia ter sido negro, para o companheiro de Desari, com a marca do vampiro consumindo sua alma, roendo-o e acinzentando sua alma? Julian Savage era uma ameaça para todos os que estivessem em contato com ele. E agora era parte de sua família.

 

O sol, lentamente tomou tons laranjas, rosas e vermelhos, que se estendiam através do céu. Afundou-se depois das montanhas, irradiando cores através do bosque, enviando sombras dançarinas sobre folhas e ramos. O vento soprava gentil, fresco e limpo, renovando o ciclo da vida.

A maior parte dos campistas tinham abandonado a área há muito. Dois campistas desaparecidos que tinham estado procurando ouro não tinham sido encontrados apesar de uma busca intensiva da área, a cavalo, com helicópteros e com cães. As equipes de busca e resgate se sentiam afligidos, uma carga opressiva em seus peitos os fazia quase impossível respirar. Todos desejavam secretamente abandonar a zona. A barreira que Dayan havia erguido era boa, e Darius a tinha reforçado, quando se levantou, várias noites antes. O ônibus havia sido reparado finalmente.

Julian tomou consciência de que seu coração e pulmões começavam a funcionar, com o batimento de outro coração perto dele. Cuidadosamente, explorou a área sobre e ao redor dele, para assegurar que estavam sozinhos e livres de perigo. Comprovou os pontos em branco que podiam mascarar a presença do não-morto. Depois, abriu a terra sobre eles para revelar o dossel de ramos cambaleantes e a noite a que pertencia. Moveu-se com lenta e cuidadosa elasticidade para sentir seu corpo. O movimento o colocou em contato com uma pele suave e um cabelo sedoso. Inalou profundamente, embebendo seus pulmões com a fragrância dela.

Desari. Ela era um presente, um milagre que havia sido entregue a ele, para que nunca tivesse que voltar a despertar sozinho. Nunca voltaria a vagar pela terra, sempre sozinho. Seus dedos tocaram as mechas de ébano, levando-lhe à boca. Como lhe contaria a verdade? Nunca poderia deixá-la. Julian tinha sido forte para separar-se de seu irmão gêmeo, de sua gente, mas não teria força para afastar-se de Desari, mesmo que cada momento em sua companhia, fosse um instante carregado de perigo para ela. Voltou-se para ela para enterrar a face na riqueza do cabelo escuro.

Em seguida Desari respondeu, colocando os braços em volta de seu corpo e abraçando-o com ferocidade. Podia senti-la tremer contra ele.

- Pensei que havia perdido voce. - Sussurrou ela, contra seu pescoço. - Esteve tão perto.

Ele afagou seu próprio abraço, moldando o suave e flexível corpo ao dele.

- Disse que confiasse em mim, cara. Preocupa-se desnecesariamente.

O desejo dela pulsava nele como o seu. Haviam permanecido na terra, as últimas noites, enquanto ele se curava e rejuvenescia. Agora, ambos precisavam alimentar-se. Julian chegou ao ar livre primeiro, elevando-se rapidamente para enfrentar qualquer perigo potencial para eles. Desari o seguiu, quando ele assinalou que estava limpo. Fechou a terra, sem deixar sinais de sua ocupação, enquanto seguia Julian, cruzando o céu em busca de uma presa.

O bosque parecia tranqüilo, quase vazio de presas humanas. No interior dos corpos de duas corujas, rodearam a copa das árvores, abrangendo mais áreas de caça. Várias milhas, rio acima, de seu lugar de descanso, Julian observou movimento embaixo.

Desceu. Dois homens estavam junto a uma loja, briancando um com o outro. Julian assinalou a Desari que encontrasse uma árvore e esperasse por ele. Continuou sobrevoando, explorando a área em busca de perigos, assegurando-se de que ela estava a salvo antes de voar para as árvores, para perto de suas presas. Baixou as asas e caminhou ao longo de um ramo. Suas garras cravando na madeira. Estudou a localização do acampamento, elevando a cabeça para captar as histórias que contava o vento, dos arredores do bosque e do rio, assegurando-se de que estavam sozinhos.

Desari esperou pacientemente, que Julian se alimentasse dos dois homens. Observou-o, encontrando prazer em tudo o que ele fazia. O que ele possuía, que atraía seu olhar como um ímã? De alguma maneira, ele havia roubado seu coração e tinha se moldado a sua volta, que não havia forma de viver sem ele. E já não se importava nada mais. Sua espécie era da terra e do céu, uma parte da própria natureza. Tinha aprendido há séculos, em cada mudança do mundo, que a natureza era selvagem e livre, impunha suas próprias regras e rapidamente abandonava a aqueles que não precisava. As pessoas não podiam permanecerem rígidas.

Como as estações, a saída e por do sol, o ressurgir da terra, tudo mudava. Incluindo sua vida. Agora Julian era uma parte dela.

Observou-lhe mudar sua forma humana. Em seguida seu coração se sobressaltou, e sentiu um intenso arrepio, ante a visão de sua forma alta e musculosa. Ele parecia um antigo guerreiro intimidante e perigoso, embora formoso e sensual. Desari seguiu cada um de seus movimentos. A forma casual e fluída em que se movia, enquanto se aproximava dos dois campistas, seu amigável sorriso e a suave pronúncia das palavras que escondiam a instantânea dominação. Inclinou a cabeça para beber. Notou que ele era cuidadoso e respeitoso, quase gentil com o primeiro humano quando o ajudou a sentar-se sob a árvore, antes de voltar-se para o segundo homem, que esperava pacientemente, seu turno para prover como a suave voz tinha ordenado. Desari se maravilhou, com a forma que Julian tratava os humanos, quase como se gostasse deles.

Ela gostava dos humanos. Havia muita gente boa no mundo. Darius e os outros homens os consideravam, a todos, uma ameaça potencial, mesmo que os Cárpatos possuíam a habilidade de controlar os pensamentos humanos e inclusive implantar ou eliminar lembranças, se fosse necessário. Desari tinha assumido que todos os homens eram iguais. Era agradável ver que Julian sentia simpatia pela raça humana.

- Não dê tanto crédito a seu companheiro, minha cara. Não sinto a compaixão e camaradagem que você é capaz de sentir. Desejaria que assim fosse, mas acima de tudo sou um predador.

Desari sorriu, ainda dentro do corpo do pássaro. Julian era uma sombra em sua mente, controlando seus pensamentos.

- É a única forma de ouvir algo bom sobre mim mesmo. - explicou ele.- Em voz alta, prefere me ensinar em tudo. Seus pensamentos são muito mais agradáveis.

- Deveria ser mais cuidadosa. Já é o suficientemente arrogante.

- Você está louca por mim. - Sua voz estava cheia de satisfação masculina.

Desari tentou evitar rir, mas foi impossível. Julian Savage era tudo o que podia ter desejado. Seu estranho senso de humor, sua arrogância e excessiva auto confiança eram muito cativantes para fingir outra coisa.

- Isso quisesse.

- Não posso evitar. Indubitavelmente é minha boa aparência.

- E suas maneiras encantadoras. – Ela sorriu novcamente, abandonando o galho da árvore. A coruja sobrevoou em círculos, antes de descer a terra, trocando de forma enquanto o fazia. - Particularmente é sua modéstia o que me atrai.

- Caminhe além das árvores, enquanto libero estes dois homens, de meu controle. Não os quero perto de voce.

A cabeça de Desari ergueu-se e seus olhos escuros arderam perigosamente. Afastou-se, mas estava cansada de todas essas ordens que os homens de sua raça pareciam decididos a lançar sempre que podiam.

- Já pensou, Julian, que posso cantar uma canção e te deixar preso no corpo de um pássaro, na próxima vez que trocar de forma?

Julian riu em resposta, com essa mesma satisfação que a fazia desejar torcer seu pescoço. Ele tinha se movido com sua incrível velocidade e seguia seu passo tranqüilamente com facilidade. Seu braço a rodeou pela cintura, e se inclinou para lhe acariciar o flanco do pescoço com a maciez de seus lábios.

- Podia ser, minha cara, mas não me deixaria nesse estado muito tempo. Seu desejo por minha companhia seria minha liberdade.

A excitação cresceu no corpo dela, com o contato dele. Ele estava exalando limpeza e frescor e suas roupas estavam imaculadas, como se não foram cobertas de terra, nos últimos dias. Suas veias ferviam de vida e seu coração chamava ao dela.

- Homem arrogante. - Soprou com fingida indignação. Ao mesmo tempo a arrogância dele carecia de importância. Ela estava faminta, seu corpo clamava sustento e se misturava com o desejo que era como um raio atravessando-a, convertendo seu interior em lava fundida.

Julian a levantou em seus braços e a levou voando, através do bosque, longe de qualquer outro ser, para uma ilha deserta, no meio de um pequeno lago. Ele já chegou procurando sua boca, numa feroz dominação que se encontrou com as ardentes demanda dos lábios sedosos de Desari. Suas mãos estavam por toda parte, lhe arrancando a roupa, insistindo em liberá-la delas.       Ela desenhou seu corpo, freneticamente. As pontas de seus dedos exploraram a pele, assegurando-se de que não haviam ficado sinais de sua batalha com o não-morto, de que estava completamente curado.

Suas roupas ficaram pesadas e opressivas, uma irritação em sua sensível pele. Livrou-se delas, para que nada se coocasse entre ela e a dura forma de Julian.

Era uma sensação maravilhosa, seus braços rodeando-a. Apertou-se a ele. Precisava o sentir, desejava afundar-se nele. Precisava dele, profundamente enterrado em seu interior.

Após tantos séculos sem alguém que fosse só dele, sem a possibilidade de crianças ou de alguém que o amasse realmente e o desejasse, Desari o despertava com alegria, a cada noite.

- Alguém que precisa de você. – corrigiu-a, ele. Sua voz era rouca enquanto suas mãos continuavam a exploração. Dobrou os joelhos ante ela, levantando o olhar para sua beleza, o fogo e a chama nela. Ela era parte da noite, parte de seu mundo e brilhante como a lua e as estrelas.

Julian segurou seus quadris firmemente entre as mãos e a acariciou, traçando suas coxas acetinadas. Seu corpo já estava gravado em sua memória para toda a eternidade. Foi como se o tempo congelasse para ele, permitindo que por um momento, ele segurasse o universo. Um momento que duraria sempre. Momentos de completamente de admiração pela mulher. A firmeza de seus músculos, a suavidade de sua pele, o brilho de seu cabelo de seda, o atrativo sexual de seus olhos negros como o carvão. Ela era lindíssima, formosa para ele. Dessari era um autêntico milagre de luz e bondade. Por um momento, seus olhos umideceram por lágrimas brilhantes, antes que pudesse piscar para afastá-las..

Descansou a cabeça contra as coxas dela, inalando sua essência, enquanto o vento sussurrava seus segredos e tentava seus corpos. Ela era uma criatura da noite, tão selvagem e faminta como ele. Era sua outra metade, embora uma parte dele temia que ela desaparecesse, para deixá-lo consumir-se no isolamento, no total desespero.

Sua boca encontrou a maciez de uma coxa, deixando um longo rastro de beijos. Cada um deles, em agradecimento pelo que ela havia concedido. Ainda estava impressionado pela promessa que ela sussurrara, enquanto estava gravemente ferido, com voz suave e rouca, mas pura e exigente. Ela nunca poderia mentir, não com essa voz. Tinha feito a promessa a ele, sentindo-a com todo seu ser. Se tivesse deslizado para a outra vida, ela o teria seguido. Sempre juntos. Não está sozinho. Seguirei-te. Seu compromisso para com ele estava além do que podia esperar.

Suas mãos apertaram possessivamente, o pequeno traseiro, aproximando-a mais a ele. Seu calor o chamava, sua selvagem essência o atraía para que apaziguasse sua necessidade. Julian só desejava agradá-la, que tudo fosse perfeito para ela... O toque de sua boca, de suas mãos, seu corpo dentro dela, unindo-os como deveriam estar, desde o começo dos tempos.

Desari gemeu roucamente, ao primeiro toque de seus lábios. Seu corpo deixou de lhe pertencer. Era dele, para que acariciasse e a tocasse. Para beijar e explorar. Ele estava encontrando lugares secretos que ela não sabia que existiam. Lugares tão prazerozos, que só podia permanecer impotente, imóvel, enquanto era preenchida pelas sensações. Um êxtase que sacudia a terra. Estava com os dedos, entrelaçados nos cabelos dourados de seu homem, para manter-se ancorada na terra. Estava elevando-se. Ele a estava levando alto, sobre a terra, enquanto seu corpo sacudia de prazer.

Ela ofegava em busca de ar, quando a boca dele cobriu a sua e começou a incliná-la sobre a terra. Seu corpo era duro e agressivo, suas mãos separaram as coxas e as conduziram para que rodeassem sua cintura. Os dentes arranharam seu pescoço, depois traçaram caminho pela garganta para encontrar a suavidade de seu seio.

Desari pressionou-se a ele, desejando-o ter dentro dela. Mantê-lo como uma parte dela para sempre. Sua fome era crua e dolorosa. Um desejo tão intenso, que ela levantou a cabeça para poder encontrar a pele dele, com a boca. Sentia o corpo dele estremecer, enquanto ele deslisava inteiro, para dentro dela. Empurrou os quadris a seu encontro, tentando obrigar ele a completar sua entrada, mas Julian negou a mover-se. A palma de sua mão segurava a cabeça dela, para mantê-la pressionada contra seu peito.

Julian queria tudo, sua completa união com ele, coração, alma e corpo. A boca dela movia-se sobre a pele acalorada, enviando chamas que o lambiam, fazendo ele apertar os dentes e pressioná-la, com antecipação. Ela o arranhava. Julian achou que ia enlouquecer de tanto desejo. Seus quadris se moveram impacientemente, mas ele se conteve, esperando, prolongando o momento. Ela mordeu-lhe. Em seguida, consoladora, acariciou-a com a língua.

- Desari! - Seu nome escapou, uma súplica.

Sentiu-a tremer em resposta a sua dolorosa necessidade. Sentiu-a em sua mente. Quando se enterrou profunda e selvagemente dentro dela, os dentes brancos enterravam-se profundamente em seu peito. Um relâmpago branco estalou entre os dois. A eletricidade se arqueava, fumegando e derretendo até que os soldou juntos, um só ser. Julian ouviu-se gritar roncamente. O prazer era tão intenso, que foi incapaz de permanecer em silêncio. Quando mais profundo se introduzia, mais selvagem era a resposta do corpo dela, a fricção do ardoroso sexo que o apertava e liberava era agudamente erótica.

A boca dela se movia com faminto frenesi e desejo, a rica essência do sangue de sua vida aumentava o prazer. Seu corpo se movia sem descanso, sem inibição, exigindo que ele ficasse tão profundamente nela como fosse possível. Acariciava-a em lugares que destruíam suas idéias pálidas e preconcebidas, de erotismo.

Ela fechou as pequenas lacerações que seus dentes haviam feito, com uma carícia da língua. Julian segurou suas mãos e estendendo os braços, imobilizou-a sob ele enquanto inclinava a cabeça até a cremosa plenitude de seus seios. Ela gemeu alto, quando a boca se aproximou do mamilo ereto, já dolorido e sensível pelo desejo. Julian respondeu enterrando-se mais ainda, montando-a com mais força, mantendo-os as raias da consumação.

- Julian, por favor. - implorou Desari, sussurrando. Seu corpo estava teso, completamente tomado pelo desejo.

Os lábios dele se moveram para a garganta dela e seus dentes beliscaram a pele, sua língua, os seguiam. Ele traçou um caminho de beijos até o seio intumescido e seus dentes encontraram a tenra pele. Uma leve mordiscada, seguida do úmido calor de sua boca. Ela gemeu seu nome, tentando liberar os braços para poder abraçá-la, obrigá-la a liberar-se das chamas que lambiam sua pele. O fogo que resplandecia entre suas pernas.

Julian a manteve imóvel, seu corpo profundamente enterrado, as linhas de sua face máscula, estava marcado pelo desejo. A selvageria estava nele, o calor e o desejo o dominavam.

- Desejo você, Desari. Como está agora, selvagem pelo desejo que eu posso provocar. Sentir o fogo entre nós, meu corpo no teu, onde pertence. Sou tão parte de voce como seu coração. – ele inclinou-se para acariciar os mamilos dela. - Não quero que termine nunca.

Ele estava tão transbordante com sua semente e com a fúria do fogo entre eles, que o corpo dela pareceu explodir. A sensação estava rasgando-a como se nunca fosse cessar, como se nunca pudesse cessar. Gritou com o final de clímax, temendo que se continuasse morreria de prazer. Embora... Ele continuou. Sua boca esfregou a garganta dela.

- Quero-te assim. Adoro vê-la, exigindo que eu te alivie, mas desejando que continue toda a eternidade. - Sussurrou contra a pele dela. – Gosto de ver você me suplicando que termine com isto, me rogando que não me detenha nunca. Está em sua mente. Ouço você, vejo suas fantasias. Conheço cada uma delas e as converterei em realidade todas. - Seus dentes perfuraram a pele, com dominação, com posse, enquanto um relâmpago rugia através dela, com um calor azul.

Ele a tomou completamente. Sua mente e seu coração, seu corpo e sua alma, ele tomava seu sangue, reclamando-a enquanto a sustentava em seu clímax, até que a tormenta de fogo o consumiu e seu corpo reagiu às desesperadas súplicas dela. Seus quadris seguiram as ordens de sua mente, enterrando-se, repetidas vezes dentro dela. Enquanto vertia sua semente, tomava a essência de sua vida, em sua garganta. Suas mãos se emaranharam no cabelo negro, mantendo-a imóvel, enquanto seu corpo procurava alivio, levando-a com ele, explodindo, saindo fora de controle até que não houve Desari ou Julian. Só existia o completo êxtase e fogo. Unidos como se fossem um só.

Desari ficou sob ele, incapaz de acreditar na incrível e extraordinária sensação que os dominara. Incapaz de acreditar que ele pudesse provocar uma resposta tão explosiva em seu corpo. Ainda estava sendo atravessada por ondas e ondas e seus músculos se convulsionavam e apertavam o sexo rijo.

Julian Parou por um momento, sua boca na garganta dela, antes de fechar relutantemente as pequenas marcas. Uma vez mais, inclinou a cabeça para tomar posse de seu seio. Era suave e firme. Ainda podia sentir a resposta que provocava nela, a umidade entre suas perna. O corpo dela estava ainda aceso, a mais simples carícia de seus dedos em seus seios, a fazia ofegar. Moveu os lábios gentilmente, sem o mínimo indício de agressão, um ritmo consolador e estudado, para relaxá-la.

Podia sentir a elasticidade de seus músculos internos, o envolvendo, a forma em que seu corpo se colava ao dele. Continuou movendo-se gentilmente, aliviando qualquer dor que houvesse provocado seu rude comportamento.

- Adoro a forma em que te sinto, Desari. É um milagre como estamos juntos. - Suas mãos traçaram os flexíveis músculos sob a pele suave. - E adoro a forma que me responde.

Ela segurou a cabeça dele e fechou os olhos, elevando-se para o gentil toque, a aveludada fricção que prometia alívio às terríveis exigências que ainda espreitavam em seu corpo. Julian os fez rolar com um só movimento, temendo que seu peso fosse muito para ela. Em seguida Desari se sentou sobre ele, a fim de poder arquear as costas e colocar-se sob o próprio ritmo. Cada movimento, a levava mais perto de sua meta.

Gostava de observar a face dele, a satisfação em seu sorriso, a admiração em seu olhar dourado. Seus olhos estavam fixos nela, seguindo a linha de sua garganta, o movimento de seu cabelo e de seus seios. Julian a fazia sentir-se imensamente sexy. Enquanto movia os quadris, tomando-o profundamente em seu interior, observava-o como era observada. Seu corpo estava estremecendo-se de prazer. Desari jogou para trás a cabeça, o cabelo acariciou a pele de Julian, intensificando sua própria reação. A explosão chegou enchendo-os de cores.

Desari deixou escapar o fôlego lentamente.

- Não posso acreditar no que acontece quando estamos juntos. Certamente vamos queimar nos em um par de anos.

- O calor aumenta com os séculos, companheira, não esfria. – Disse ele, com uma careta zombadora e arrogante.

- Não sobreviverei. - Advertiu ela, tornando o cabelo sobre um ombro, seus olhos escuros ainda embaçados pela paixão.

O gesto foi mais sexy do que ela podia imaginar, elevando seus seios, seu torso enfatizando a pequena cintura. Julian a tirou de cima dele, encontrando os lábios dela com os seus. Ele tinha que encontrar a forma de agradecer, dela simplesmente existir, de ser tão deliciosa e perfeita.

Desari devolveu o beijo com a mesma ternura que ele mostrava. Julian podia comovê-la facilmente. A forma em que ele podia ir do desejo selvagem a semelhante ternura era algo intenso e irreal. Contra gosto, permitiu que o corpo dele se liberasse do dela. Foi difício suportar a separação.

E Julian dizia que só aumentaria. A necessidade que tinha dele, a intensa emoção que sentia, sabia que era o sentimento que os humanos chamavam amor. Era uma emoção que ela não podia nomear facilmente. Não tinha palavras para descrever a força e intensidade do que sentia por Julian. Para evitar chorar e parecer tola levantou-se e caminhou até o lago, inundando-se na água brilhante. Julian se levantou apoiando-se sobre um cotovelo e a observou na escuridão. Desari nadava como uma lontra, movendo-se através da água com o cabelo brilhando atrás dela. Ela percebeu a incitante fixação dele, pois sentia o olhar dourado fixo em seu arredondado traseiro. Só de olhá-la, ele roubava seu fôlego. Doía dentro de sua alma, a alguma emoção que ele provocava.

Ele ficou em pé e se dirigiu para o lago, incapaz de ficar quieto quando seu interior se retorcia, com tantos sentimentos pouco familiares, dominando seu interior. Mergulhou para águas mais profundas.

Precisava estar a seu lado. Havia falhado com ela, não vira o perigo para eles, várias noites antes, porque estava distraído. Era uma difícil lição, que podia ter custado à vida de Desari e a sua própria. Não aconteceria novamente. Uma parte dele explorava continuamente os arredores. Não parecia provável, que houvesse mais vampiros na zona. Com freqüência, os que viajavam temporáriamente juntos eram, um vampiro antigo ou experiente e um ou dois vampiros inferiores. Os não-mortos, inclusive o mais velho deles, não toleraria companhia durante muito tempo sem que tivesse lugar uma batalha pela supremacia. Mas fora, em algum lugar estava seu archiinimigo esperando. Possivelmente, observando-os.

Estava seguro de que a sociedade de assassinos humanos, não atacaria tão rápida, embora não esqueceria, que eles haviam tentado contra a vida de Desari.

Desari tinha vários concertos programados, mas o grupo tomaria um descanso merecido, depois do próximo. Os membros da família já estavam preparando tudo, esperando ansiosamente a chegada dela. Desari e ele tinham que cobrir a distância que os separavam, esta noite. Tal como estavam não era dificil perderem o último concerto. Desejou que ela perdesse todos. Mas seus concertos eram anunciados com antecipação e ela odiava decepcionar seu público. Ainda intranqüilizava Julian, a idéia de que qualquer hum deles pudesse saber onde estariam.

Julian observou os céus. Nessa noite, brilhavam as estrelas. A água rendia-se para seu corpo, provocando sons na noite. Uma ligeira brisa ondeou as copas das árvores e os morcegos voavam sobre suas cabeças.

Seu mundo. À noite.

Olhou para Desari que nadava com força cruzando o lago. Nadou atrás dela, cobrindo com facilidade à distância. Ela estava decidida a levar a cabo, seu próximo concerto, a se expor ao perigo, só para entreter seus fãs humanos.

Seu punho golpeou com força a superfície, enviando em geiser de água para ar. Isso atraiu a atenção de Desari de volta a ele. Sentiu sua mente antes de poder censurar seus próprios pensamentos.

- Não é só por entreter, Julian. É por mim mesma, por minha família. Por Darius. Ele precisa manter-se ocupado. Houve mudanças sérias nele, através dos séculos. Não posso me arriscar que ele, não posso desistir agora, quando mais ele precisa de mim. Contei a você, como me sentia.

Julian já havia dito que ficariam com sua família, para que ela não tivesse que se preocupar com o Darius.

- Não mudei de opinião, piccola. Simplesmente considerava a ameaça sobre você. Ajudaria-me muito, se você aprendesse o que é obediência. - Na verdade, ele se envergonhava por pô-la em perigo, mas não era homem para deixá-la. Não era uma questão de honra? Tinha vivido sempre com honra, embora agora, quando mais importava...

Desari sorriu, acrescentando beleza de noite.

- Isto será bom para você aprender a tratar minha família, interactuar com a raça humana. Melhorará suas habilidades sociais, significativamente.

- Está dizendo que minhas habilidades sociais precisam melhorar? - Havia ameaça em sua voz e ele começou a nadar para ela, seu corpo deslizando silenciosamente através da água, como um tubarão, como o predador que era.

Desari lhe salpicou água no rosto e mergulhou para escapar do braço que se estendia para ela. Sentiu os dedos lhe roçar o tornozelo. Chutou com força, esperando pôr distância entre eles antes de voltar para a superfície. Mas a risada difícultou sua respiração sob a água e se viu obrigada a lutar para alcançar a superfície. Em seguida, braços fortes a capturaram.

- Sempre posso te encontrar, minha cara. - Lembrou-lhe Julian. Seus lábios procuraram a maciez do pescoço dela. - Não pode escapar de mim.

- Não conte muito com isso. - Disse-lhe Desari docemente, e muito inocentemente começou a cantar.

Julian estava cativado pelas notas que cruzavam a água. Notas prateadas como os peixes que saltavam. Ficou com o olhar fixo, intrigado pelo desdobramento de poder. Possuíam, todas as mulheres dos Cárpatos, dons especiais? As poucas mulheres que havia conhecido eram muito jovens nos padrões dos Cárpatos, para ter aprendido habilidades mais complicadas. As notas se elevaram no ar e dançavam como se estivesse vivas.

Ele sentiu paz em seu interior, o rodeando, fazendo seu corpo relaxar e durante um momento, sua mente se negou a funcionar, além de beber a consoladora e pacífica pureza da voz. Nunca havia conhecido semelhante paz, desde que era um menino. Julian deliberadamente se afundou sob a água para clarear a mente. Estava furioso consigo mesmo. Uma vez mais, estava intrigado com tudo o que concernia a Desari, que se distraiu com as novas e vívidas cores e as assustadoras emoções que o dominavam. Era como renascer. Mas precisava estar sempre alerta, inclusive quando pensava que estavam sozinhos. Não podia esquecer nunca, que estavam sendo caçados. Ela estava sendo caçada. Sua companheira. Desari.

-Julian? - Desari nadou de volta para ele, seus braços enroscaram amorosamente no pescoço dele. - O que acontece? – Ele estava fiscalizando os céus, os arredores. Sua imobilidade, o brilho de seus olhos dourados, a fazia tremer.

- Distraí-me, minha cara. Não posso esquecer que você é o mais importante para mim. Acima de tudo, sua segurança. Não permitirei que esteja em perigo outravez.

Sua voz era tranqüila, a voz suave e aveludada, mas que constituía uma ameaça personificada. Desari podia ver que ele sentia o que estava dizendo. Tinha estado brincando com ele e só por isso, ele voltava a doutrinar. Não o respondeu, simplesmente deixou cair os braços, mas seus olhos escuros refletiam a dor que sentia, antes de fechar sua mente a ele e afastar-se nadando.

Estivera brincando com ele, admitia-o. Mas que mal havia em ter um pouco de diversão? Sentiu sua confusão interna, sentiu o quanto era difícil para ele, ter sentimentos. Ele estava experimentando tudo, da necessidade sexual ao ciúme e o medo por ela. A frustração que lhe causavam suas travessuras. E essa estranha sombra que ele era tão relutante em compartilhar com ela. Tinha usado sua voz para lhe proporcionar um concerto, só para ele, para compartilhar com ele seu dom especial. Algo que não havia feito para nenhum outro ser. Estava errado em querer brincar com ele, lhe consolar? Era sua companheira e tinha a mesma necessidade de cuidar dele, como ele dela.

Os movimentos de Desari eram suaves e graciosos enquanto nadava para longe dele, mas Julian não se deixou enganar. A dor irradiava dela. Deixou escapar o fôlego, num suave suspiro. Tinha muito que aprender com sua companheira. Sabia o necessário, para assegurar sua segurança e saúde, embora parecesse uma tarefa simples, não era nem de perto fácil pô-la em prática como o era na teoria.

- Feri você novamente, Desari. Isto parece ser um costume que eu não gosto, vi outros homens em dilemas similares, embora pensei que eram tolos, por não impor sua vontade a suas mulheres. Na verdade, está claro que o tolo era eu. Tenho muito que aprender. – Ele falava sério cada palavra. Incomodou-se em armazenar séculos de conhecimento, sabia como mover a terra e dominar os mares, dirigir o relâmpago e as nuvens, podia caçar aos mais desafiantes adversários, fossem animais ou vampiros, embora não podia cuidar das necessidades de sua companheira, sem feri-la. Era ridículo. A coisa mais importante de sua vida, a única pessoa vital para ele, a única pessoa a que importava sua existência, e ele não sabia como comunicar-se apropiadamente com ela.

Nadou atrás dela, tentando encontrar as palavras para expressar-se. Como encontrar o equilíbrio, entre a segurança e a diversão? Fazer amor fora, a campo aberto era um risco. Mesmo agora, enquanto nadavam cruzando o lago ansiava por ela, seu corpo a desejava ardentemente. Parecia ter passado um longo tempo em que estiveram juntos, pois era intensa, sua ânsia por nova união.

Desari se retraiu. Não estava zangada com Julian, podiam entender. Era uma mulher de paixões profundas, mente rápida e inteligente. Podia escolher seguir a liderança de Darius, mas era porque a maior parte das vezes, seu caminho era também o dela. Mesmo assim ninguém mais, nem sequer Dayan ou Barack, podia exigir lealdade, da forma em que fazia Darius. Não desejava ter Julian, a mesma relação que tinha com seu irmão. Queria um companheiro, ser considerada igual. Desari, instintivamente, que nunca poderia ser verdadeiramente feliz com menos. Queria o respeito de Julian, ser capaz de discutir as coisas e tomar decisões juntos, não o ter dirigindo-lhe, enquanto o seguia cegamente. Tinha seus próprios poderes e podia usá-los para ele nos momentos de necessidade, se ele acreditava nela.

Por que podia ela, ver sua força, enquanto ele não podia ver a dela?

- Desari? - Havia dor em sua voz e ela se emocionou. - Sei que está brava. – Ele segurou seu braço, gentil, detendo sua fuga. As pernas dele flexionavam na água, mantendo-os flutuando. Um de seus braços rodeava sua cintura, segurando-a contra o corpo. - Não se afaste de mim. Se eu não puder ler seus pensamentos e saber o que é importante para voce, não posso te dar o que precisa.

Os dentes dela morderam o lábio inferior. Seus olhos escuros não encontravam co os dourados dele. Enquanto ela tentava evitar seu olhar, Julian podia ler sua confusão. Ela não queria fundir sua mente a dele. Suas mãos moveram pela suave linha das costas dela, até a nuca e seus dedos aliviaram a tensão de seus músculos.

- Tenho muito que aprender, Desari, sobre a relação entre companheiros. Tenho emoções intensas... Selvagens e caóticas... Quase sinto pânico... Lutando com o medo de te perder ou permitir que lhe façam mal.

Apertou os braços firmemente ao redor dela, sustentando-a contra seu coração.

- Darius tinha razão quando disse que eu era parcialmente responsável pelo êxito dos assassinos em te atacar. Repassei o que aconteceu, um milhão de vezes, em minha mente. Em minha arrogância, pensei que você e o resto de seu grupo fossem humanos e não pensei na distração que causaria minha presença. Darius sentiu meu poder e esteve ocupado tentando detectar o não-morto. Depois, quando começou a cantar, estava tão surpreso com as cores que via e as emoções que sentia, com a excitação de saber que você estava no mund e que era minha companheira, não podia acreditá-lo. Acredito que fiquei ali congelado, incapaz de me mover, em estado de choque. Se não tivesse estado tão desatento, dominado pelas novas emoções, não teria permitido que nenhum assassino se aproximasse de voce.

Seu polegar traçou a linha da maxilar dela, depois moveu para roçar o lábio inferior. A simples sensação fazia saltar seu coração.

- Desari. - Sua voz era hipnotizadora. Ele estava jogando sua alma para que ela pudesse lhe ouvir. - Falhei muitas vezes. Falhei em detectar o perigo para voce. Em todos os séculos de minha existência, nunca havia cometido tantos enganos. Pode entender o que te digo?

 

Desari apoiou a cabeça sobre seu ombro, indecisa sobre que fazer para facilitar a situação.

- Estou tentando entendê-lo, Julian, mas não é fácil. Ao contrário do que pensa, não sou santa. Não tenho a paciência do . O que quero de minha união contigo é ser respeitada pelo que sou e o que contribuo com a relação. Se eu não souber mais de seu passado, das coisas que me ajudariam a compreender melhor seus medos é porque respeitei seus desejos e deixei suas lembranças para voce mesmo.

Julian sentiu como se fosse golpeado com força no estômago. Seus dedos apertaram com força, os braços dela.

- Convidei você a fundir sua mente com a minha.

Ela se endireitou a seu lado, a água lhe chegava à cintura.

- Por que se esconde, Julian? Por que vive só? Escolheste uma vida de solidão absoluta, quando não está em sua natureza. Nasceste com um gêmeo. Precisam estar perto um do outro. Sei que ama a seu irmão, embora não fale nunca dele, não me falará dele. - Seus olhos escuros o avaliaram com firmeza. - Não sou uma menina, que tenha que proteger. Quero completo companheirismo com você absolutamente nada.

- Meu passado não é o que escurece nossa relação.

- Seu passado escurece a voce, Julian. – Ele gesticulou para a pacífica paisagem. - Estamos num paraíso, onde desejo fazer amor com você e de diversos modos. Não vejo nada de mau nisso, embora você teme atrair o perigo para mim. Não posso entender por que prefere me fazer mal, me castigar, em vez de me contar simplesmente o que teme tanto.

Ela parecia tão formosa à luz da lua. Roubava-lhe o fôlego tão facilmente, como tinha tomado seu coração.

- Intercambiei sangue com um vampiro. - Pronunciou as palavras com firmeza, sem amáveis explicações. A simples e horrível verdade que havia açoitado toda sua vida. A verdade que lhe tinha roubado sua família e seus direitos de nascimento. A verdade que não tinha contado nunca, a ninguém.

Desari ficou imóvel. Seu rosto estava pálido, enquanto o olhava fixamente, com os olhos cheios de dor. A ponta de sua língua umedeceu os lábios, sua única reação.

- Que terrível, Julian. Quando aconteceu? - Havia amor em sua voz, compaixão. Estava em seus olhos. Ela moveu-se para cobrir a distância entre eles, seus braços apertaram firmemente sua cintura, pressionando os seios contra o peito dele.

Julian realmente sentiu como as lágrimas enchiam seus olhos. Enterrou a face no cabelo dela.

- Eu entenderia, se decidisse não permanecer comigo.

Os dentes dela arranharam a pele máscula, num pequeno castigo por ele duvidar dela.

- Quando, Julian?

- Tinha doze anos. Ele parecia jovem e bonito e sabia todas as coisas que eu queria aprender. Visitei-lhe em sua guarida da montanha todos os dias e não o contei a ninguém, como ele me ordenou. Nem sequer a Aidan, embora Aidan suspeitava que algo estava errado. - Havia desprezo em sua voz.

Desari se apertou mais contra ele, beijando seu ombro, percorrendo com as mãos, suas costas, para confortá-lo.

- Não sabia que era um vampiro. Você era uma criança, Julian.

- Não me desculpe. - Sua voz foi um látego de ódio, para si mesmo. - Desejava o que ele tinha. Sempre querendo aprender coisas não que devia saber. Ele viu em mim. A escuridão que se acumulava. E um dia, quando o vi matar, ele saltou sobre mim, tomou meu sangue e me obrigou a receber seu sangue poluído em meu corpo. Uniu-nos para sempre. Sabia onde e com quem eu estava. Podia me usar para espiar outras pessoas, para traí-los. Se quizesse podia me usar para matar. Era poderoso, e eu ainda não, assim não tive alternativa, que partir, me manter longe de tudo o que me importava. – Ele esfregou-se o pescoço como se ardesse. - Durante séculos, ele me atormentou, mas cresci em força e emconhecimento até que ele não pôde usar seus poderes comigo. Mas então ele desapareceu e nunca pude lhe encontrar para tentar o destruir. Procurei em cada continente, ao redor do mundo e não pude lhe encontrar. Deve usar algum poder especial e não sei evitar que ele me rastreie, como poderiam fazer os outros que tem meu sangue em suas veias.

- Possivelmente está morto. - Desari rodeou seu pescoço com os braços, mantendo-o perto.

Julian sacudiu a cabeça.

- Eu sentiria sua morte. A sombra se partiu. Temo conduzir ele até você. Através de mim, ele chegará a ti.

Ela ficou imóvel entre seus braços, encontrando consolo na força de seu corpo.

- Já não é um menino, Julian. É muito poderoso.

Ele podia sentir a tensão que a percorria, como um fino arame esticado. Levou-a gentilmente até a borda do lado. Tinham que completar a viagem para o lugar do seguinte concerto, antes que saísse o sol.

- Ele era poderoso, enquanto eu não era mais que um menino, Desari, embora não um principiante. - Julian escolheu suas palavras cuidadosamente. - Durante séculos cacei os não-mortos e os destruí, eliminando todo vestígio de sua existência para proteger nossa gente. Fui testemunha de muita morte e horror, da astúcia e da destruição que causam estas criaturas sem alma. Atacam a nossa gente e aos humanos por igual. E crescem em poder quando envelhecem.

- Era só um menino. - Disse ela brandamente. - É mais que provável que ele parecesse a você, como um antigo. - Seu coração se condoía por ele, pela terrível solidão que tinha suportado. - Por que não contou a seu Príncipe, ou a seu curador? Para seu irmão?

- Ele disse que me utilizaria para matar meu irmão. - Admitiu sem expressão. Essa dor corria tão profundamente, que Julian não podia compartilhá-la totalmente. – Depois disso, dediquei minha vida a destruir vampiros. Não viu, como eu, o que eles podem fazer. Não posso permitir que esteja em tão perigosa situação, para apaziguar seu desejo de "igualdade". Tenho que te proteger, embora às vezes, possamos não estar de acordo.

Desari alcançou a borda e automaticamente, conscientemente, regulou a temperatura de seu corpo para não sentir o frio da noite sobre sua pele molhada. Depois, torceu seu longo cabelo.

- É tão diferente assim, ser um caçador, um homem poderoso, que uma mulher antiga e poderosa que não caça?

Julian encolheu os ombros, com um preguiçoso ondear de músculos, caminhando facilmente atrás dela.

- Nós os homens, somos acima de tudo, predadores, Desari. Não encontrará a compaixão e bondade das mulheres em nós. Nossas vidas são de justiça. O que está bem contra o que está mal. Aquele de nós, que são caçadores, vê a morte continuamente, traídos por velhos amigos e inclusive por membros da família. Estamos obrigados a destruir aqueles que uma vez protegemos ou com quem tinhamos uma dívida. Devemos proteger às mulheres dos horrores, para os quais não foram feitas.

- Você parace meu irmão. Você e Darius atuam quase do mesmo modo. - Admitiu Desari enquanto formava sua roupa, com um ondeio de sua mão. Jeans azuis e bata branca, com botões de pérolas na parte dianteira. - Vejo por que crê que deveria te obedecer, mas não sou uma menina e não sou capaz de retornar a esse estado.

- Minha cara, valorizo sua opinião. Mas sou um caçador, um homem dos Cárpatos. Está impresso em nós desde antes de nascer, o que é nosso dever. Conhecemos as palavras rituais de enlace e sabemos que devemos proteger a nossas mulheres e nossas crianças, acima de tudo. Não posso me desembaraçar dessa responsabilidade, nem sei se quero fazê-lo.

Desari permaneceu em pé alta e ereta. Seus longos cabelos flutuavam com a suave brisa. Parecia régia, como uma rainha.

- Surpreende-me, que homens tão antigos como você, tenham obrigado a mulheres não mais que principiantes, a unir-se a eles. Não sou uma menina e nenhuma principiante, companheiro. Sou uma mulher com muito poder. Sei quem e o que sou. Não desejo receber ordens como se não tivesse sentido comum. Por que crê, que eu interferiria em suas batalhas com os não-mortos? Mas é meu direito como sua companheira te ajudar, mesmo que seja te curando.

Julian se vestiu com jeans azuis e camisa branca. Deu voltas às palavras dela em sua mente e compreendeu que estava de acordo com ela. Ela merecia o mesmo respeito que dava a Darius. Eram seus dons, menores que os de seu irmão? Se ele a respeitava por que não podia fazê-lo ele, Julian? Respeitava qualquer mulher com força suficiente, para converter-se na companheira de um homem dos Cárpatos, principiante ou não. Deixou escapar o fôlego lentamente. Este era o dilema de todo caçador quando encontra a sua companheira?

- Julian? - Desari lhe tocou a mão. - Não estou tentando te castigar, mas acredito que deveria saber o que sou. Quem sou. Nunca terei um dono. Será meu companheiro ou nunca teremos uma autêntica relação. Não posso estar sujeita a suas regras mais do que você poderia estar às minhas. Não vê que o que digo é certo?

Julian estudou uma mecha de seu cabelo de ébano, segurando entre os dedos.

- Crê que penso em ti menos que em mim?

Desari levantou o olhar para ele.

- Acredito que pensa que não sou forte ou sábia para cuidar de mim mesma.

- E é? – Perguntou ele seriamente, seu olhar fixo e vigilante não abandonou sua face. Não tentou entrar em sua mente, desejando lhe dar a cortesia da privacidade.

A primeira inclinação de Desari foi lhe dizer que é obvio que era suficientemente forte e sábia para cuidar de si mesma e que certamente poderia evitar que um vampiro tomasse posse dela. Inclusive abriu a boca para dizê-lo, mas, depois a fechou de novo. Poderia matar, embora fosse a um vampiro? A resposta foi negativa. Não poderia. Não poderia destruir sequer há um, menos malvado. Não estava em sua natureza. Não teria conseguido lutar contra os efeitos do veneno, como Julian. O vampiro poderia ter triunfado.

- Não teria vontade para destruir. - Respondeu honestamente. - Mas isso não nega o que disse. Só porque eu não possa fazer o que você faz, deva ser obrigada a obedecer como se fosse uma menina. Não fiz nada para impedir que lutasse, nem o faria.

Os dedos dele, se enroscaram na nuca dela, meigamente.

- Sua presença foi um risco, Desari. Minha atenção estava dividida. Cada vez que está em perigo, mal posso respirar. No passado, quando ia à batalha, tudo o que existia era o vampiro e eu.

- E o que é diferente agora? - A voz de Desari foi suave e formosa, sua pureza tocou a escuridão de seu interior com uma paz balsâmica.

Julian se deu conta de que deixava escapar o fôlego lentamente.

- A diferença agora é que se sou destruído, também poderia destruir você. Desari, não pode notar que o mundo necessita de seu dom? A paz que proporciona sua voz a todas as criaturas do céu e da terra? Aos humanos, a nós, a nossa gente? Não sabemos ainda como poderia ajudar sua voz a nossa causa, ajudar a encontrar a forma de proporcionar meninas a nossa raça agonizante. Por outro lado, está a possessividade que sinto, a necessidade de ter você comigo, sinto o peso da responsabilidade de sua segurança, sobre meus ombros. Posso entender a pressão que teve submetido Darius todos estes séculos. Possuir um tesouro principesco, não pode arriscar.

Desari sorriu apenas ante a gravidade de sua conversa.

- Não me ponha em um pedestal, companheiro. Não sei se minha voz pode fazer as maravilhas que imagina, mas te agradeço a honra que me faz. O assunto é... Julian... É que posso não ter habilidades para destruir a um não-morto, mas tenho a sabedoria necessária para saber que não devo entrar em batalha com ele. Mais importante ainda, Julian, respeito sua habilidade e me sinto orgulhosa de sua força. Não sou ilógica ou o tipo de pessoa que se colocaria deliberadamente em perigo por despeito. E devo te lembrar, que não deve tentar me obrigar a obedecer, particularmente quando sua mente está dividida. Seguirei seu conselho, porque assim escolho eu. - Seu queixo se elevou para cima, de forma ligeiramente arrogante.

Julian estava acostumado a ser a única autoridade de seu mundo. Sempre tinha visto as mulheres como o sexo débil, para ser protegidas e guardadas do perigo. Não lhe tinha ocorrido que uma companheira pudesse esgrimir tanto poder em suas mãos, como ele. Desari tinha razão. Não devia forçá-la a obedecer, nem sequer quando suas vidas estavam ameaçadas, ela devia obedecer só quando consentisse completamente. Quanto arrogantes se tornaram os homens de sua raça. Julian passou a mão pelo cabelo dourado e arqueou uma sobrancelha para ela.

- Há algo de verdade no que diz. - Admitiu, com deliberada lentidão, como se pensasse nisso.

Os olhos escuros dela arderam.

- Não há mais que verdade no que digo.

Ele esfregou a ponte do nariz, pensativamente.

- Suponha que posso entender que poderia ser verdade o que diz.

Ela não pôde evitar rir.

- Está-me provocando deliberadamente porque não pode suportar que eu tenha razão. Desinflaria seu ego masculino.

- Não só o meu, minha cara. – Ele admitiu, com uma careta travessa. - Mas o de todos outros caçadores que encontram suas companheiras. Gostaria de ver eles aprender este interessante fato da vida. Mas enquanto isso, Desari, pelo bem dos outros homens, poderia fingir que obedece minhas palavras, não vamos avisar os outros e estorvar sua aprendizagem.

Desari se encontrou súbitamente relaxada, seus olhos escuros dançavam. Julian queria vê-la assim. E finalmente, ele abriu suas lembranças a ela por própria vontade, lhe permitindo ver as cicatrizes de sua infância.

- Darius se parece muito com você, Julian.

- Esse teu irmão. - Disse Julian com sua voz arrastada e zombeteira.

- Você gosta.

Julian arqueou uma sobrancelha.

- Darius não é um homem que possa "gostar", cara. É alguém que inspira uma emoção mais intensa. Para qualquer que possa sentir emoções, a palavra "gostar" fica curta. Pode o admirar, respeitar. Inclusive temer. Mas Darius não é alguém que goste de. É um caçador. Poucos lhe desafiariam.

- Você o faria. - Disse Desari completamente convencida.

- Ninguém nunca disse que fosse muito inteligente. - Respondeu Julian.

- Crê que meu irmão permanecerá conosco?

Julian esfregou a ponte do nariz novamente.

- É possível que em algum momento, Desari, ele queira estabelecer sua própria família em vez de permanecer com esta unidade familiar?

Ela se afastou dele, depois voltou.

- Crê que está perto de converter-se em vampiro.

- Acredito que seu irmão é um caçador poderoso. Seria um adversário letal, e eu não gostaria de o perseguir. Darius agüentará tanto como seja capaz. Não escolherá perder sua alma sem lutar.

- Conhece algum caçador maior que você? - Perguntou Desari curiosa. - À parte de meu irmão, é obvio. - Acrescentou travessa.

Ele elevou ambas as sobrancelhas.

- Quer te converter na groupie de um caçador? Asseguro-te, que eu sou mais que adequado para o trabalho.

Ela estalou em gargalhadas.

- Bôbo. Era curiosidade, isso é tudo. Darius aprendeu através de sua própria experiência. Suas habilidades são tão boas como as de nossa gente?

- Seu irmão é extremamente forte e hábil. Possivelmente é hereditário em sua linha de sangue. - Pensou ele, em voz alta. – Lembre-se, cara, que Gregori, o Escuro, é o mais poderoso caçador, o segundo de Mikhail, nosso Príncipe, é irmão tanto teu como de Darius. São da família.

Desari assentiu, intrigada.

- Crê que todas as habilidades de caçador são hereditárias?

- O caçador maior e o mais poderoso vampiro, provêm de sua linha de sangue. Aqueles que escolhem a vida de um caçador às vezes prestam serviço de aprendizagem sob a guia de alguém experiente e aprendem os procedimentos de como deve ser destruído um vampiro, quase do berço. Mas seu irmão não teve esta informação.

- Mas não todos os caçadores têm professor? - Perguntou Desari.

Julian sacudiu sua cabeça dourada sardônicamente.

- Alguns não têm a paciência nem para aprender nem para ensinar.

Desari riu o olhando

- Acredito que já sei de que classe é você.

Julian viu, no interior dos olhos dela, sua beleza.

- Caçar é sempre uma escolha, ou seu Príncipe o ordena?

- É por escolha, a menos, é obvio, que tropece com um não-morto. Nessa situação é matar ou morrer. Perdemos muitos homens sem preparação, nessas situações. Quanto mais antigo é o vampiro, mais perigoso é. Um caçador pouco experiente tem poucas possibilidades contra um vampiro que sobreviveu por muitos séculos. Assim como nossas habilidades crescem com a experiência e o tempo, igualmente acontece com as habilidades e conhecimentos do vampiro.

- E em minha linha de sangue estão de uma vez o vampiro e o caçador mais famosos por sua perícia? – Ela não estava segura de querer ouvir o do vampiro. Queria ouvir que sua linha de sangue era muito forte para permitir que um dos seus, se convertesse. Seu irmão estava se convertendo e se tornando mais mortalmente a cada dia. Tentava não notar, o quão distante podia ser, como ele não sentia já nenhuma emoção. Estava acostumado a fingir, ao menos, que podia sentir afeto por ela, agora fazia o esforço.

O braço de Julian a rodeou pelos ombros com familiar facilidade, um movimento reconfortante. Seu queixo acariciou a parte alta da cabeça dela.

- Darius não escolherá a eterna escuridão, minha cara. Ele viveu muito. Não tema pela alma de seu irmão. - como sempre, ele lia seus pensamentos facilmente, uma sombra em sua mente.

Desari deixou escapar o fôlego lentamente, a proximidade dele aliviava suas preocupações. Tinha experiência sobre como os homens dos Cárpatos mudavam com os séculos. Perdiam os sentimentos e as cores até que seu mundo fosse uma eterna escuridão. Julian havia sobrevivido à marca da besta, à sombra do vampiro em sua alma.

- Me conte sobre meus ancestros. Todos estes séculos acreditando que eramos os únicos de nossa espécie, é interessante saber que nossa família pode ser rastreada por tão legendárias criaturas.

Julian assentiu.

- Havia dois deles. Eram gêmeos. Gabriel e Lucian. Eram iguais em tudo. Altos e escuros, com olhos que podiam olhar diretamente através de uma pessoa e chegar a sua alma. Eu os vi uma vez, quando era um menino. Eram como deuses atravessando a pé nosso povo. Visitaram Gregori e Mikhail durante um breve tempo, depois foram embora novamente. O vento ficava totalmente imóvel quando eles estavam por perto. A terra parecia conter o fôlego quando passavam. Eram anjos da morte, implacáveis e inquebráveis, quando decidiam obter algo.

Desari estremeceu. Nem tanto por suas palavras como pela imagem que relampejou em sua mente. Eram as lembranças de um moço, embora pudesse ver a imagem claramente. Os dois homens muito altos e elegantes, suas faces cruelmente formosas, como se estivessem esculpidas em pedras, seus olhos ausentes de toda piedade. Cárpatos fortes tremiam em sua presença.

- Eram leais ao Príncipe de nossa gente, mas todos sabiam que se esses dois escolhessem a escuridão, ninguém seria capaz de destrui-los.

- Era o príncipe este Mikhail de que falas? - Perguntou Desari.

- O pai do Mikhail era nosso líder quando eu era um menino. Acredito que os gêmeos eram antigos e haviam servido ao avô de Mikhail, muito tempo antes. Em qualquer caso, sempre estavam juntos, inseparáveis. Dizia-se que possuíam um pacto de infância. Se um se convertesse, o outro destruiria ambos. Estavam tão unidos, que pensavam como um. Sempre sabia que o outro o faria a cada momento, caçavam e lutavam como uma equipe.

- Haviam nascido juntos, como seu irmão e você?

Julian assentiu.

- Alguns dizem que eram demônios. Outros, os chamavam anjos, mas todos estavam de acordo em que eram os mais letais de todos os Cárpatos, os de maior conhecimentos e maiores habilidades. O que um aprendia através do estudo ou da experiência, compartilhava com o outro, dobrando seu poder e habilidade. Muitos de nossa raça se sentiam aterrorizados por eles, embora suas habilidades eram muito necessárias. Naqueles dias, os vampiros haviam ganhado popularidade entre os humanos. Um desastre em florações para nossa gente. Sem os dois anjos da morte, os Cárpatos teriam sido caçados até a extinção, os vampiros teriam triunfado e o mundo se converteria num lugar de morte e desolação. Houve caos e guerra, os caçadores de nossa raça se viram ultrapassados além de sua capacidade.

- Por que os humanos abraçaram os não-mortos?

- Foi um tempo de grande autoindulgencia e decadência entre os ricos. Faziam orgias de bebida, comida e sexo. Observavam sangrentas e violentas lutas e aclamavam o vencedor. Foi uma boa atmosfera para os não-mortos. Podiam ser tão inteligentes e encantadores como fosse preciso e influenciavam os que já eram por si corruptos e sem muita dificuldade. Tínhamos que fazer alguma coisa, para trocar o curso da história. Foram Gabriel e Lucian que o fizeram.

- Qual foi o vampiro?

Julian sacudiu a cabeça com seu, agora, familiar sorriso zombeteiro.

- Mulheres, não têm paciência.

Ela mudou de expressão arqueando uma sobrancelha.

- Sou eu a que não tem paciência? Não acredito, Julian. Você é o único impaciente aqui.

Os lábios dele tomaram os dela, numa lenta e pausada exploração. Ele Levantou a cabeça e seus olhos dourados velaram-se.

- Então terei que ser mais cuidadoso. Da próxima vez, será lento e exaustivo. Desejo te agradar completamente em tudo, companheira.

Os esbeltos braços de lhe rodearam o pescoço.

- Sabe que o estou. E se me tomar com mais calma, podemos morrer os dois.

Ele a abraçou protetoramente, pressionando a face contra ela.

- Você é tão perfeita, Desari, que para mim nunca haverá outra.

- Nem para mim. Antes de voce, meu mundo era pouco prometedor e ermo... Tinha emoções e cores, meu canto para me manter viva, uma família para que amar... Mas estava sozinha. Havia uma parte de mim que desejava. Uma parte inquieta e selvagem que procurava algo. Vagávamos pelos continentes para encobrir o fato de que não temos idade, mas procurávamos também, algo que terminasse com o vazio. Só que não sabíamos o que era o que procurávamos. - Suas mãos acariciaram os cabelos dele, permitindo que as mechas douradas corressem por seus dedos. - Quero ser parte de voce, Julian. Desejo que estejamos sempre juntos.

Ele abraçou-a em silencio durante um momento, respirando sua essência, tentando compreender como o haviam concedido tal milagre, por que havia sido premiado no último momento ser recompensado com uma mulher como Desari. Julian tentou não pensar no vampiro que podia destruir os dois.

Ela sentiu seus pensamentos, as intensas emoções que o afligiam, coisas que não podia expressar com palavras. Desari descansou a cabeça sobre seu peito e escutou o firme pulsar de seu coração, sabendo que o dela pulsava exatamente no mesmo ritmo. Estavam bem. Eram duas metades de um todo. Queria lhe confortar de qualquer forma que pudesse. As necessidades de Julian eram tudo para ela.

- Deixe de esbanjar o tempo, irmãzinha. Posso suportar uma certa quantidade de todo este caramelamento entre você e teu escolhido. Esqueceste que tem compromissos que cumprir?

A suave reprimenda desapaixonada de Darius ressonou em sua mente.

- Estou a caminho. – De novo a entristecia o fato de que Darius não sentisse nenhuma emoção, nem sequer amor por ela.

- Posso não sentir, minha irmã, mas você sabe que está aí. Não tema por mim agora depois de todos estes séculos.

- Temo por ti, Darius. Não se afaste de nós. – Ela não queria mostrar a profundidade de sua ansiedade, mas escapou.

Só houve silêncio. Desari se encontrou tremendo, súbitamente ficou difícil encontrar o fôlego.

Julian levantou seu queixo, para procurar em seus olhos escuros, como estava procurando em sua mente, aquilo que a assustava.

- Ele não te abandonará, Desari. Não procurará a morte até que saiba que não pode resistir mais contra a escuridão de seu interior. Se tal coisa acontecer, deve permitir-lhe enfrentar o amanhecer. Ele é muito poderoso para se converter em um não-morto. Muitos de nossos caçadores morrerão, antes de poder destrui-lo. Ele guarda todo esse conhecimento em seu interior. Isso faz sua existência ainda mais difícil, uma espada de dois gumes. Sabe que tem a possibilidade de sobreviver como vampiro, de sentir ao menos a emoção das mortes, embora ainda conserve suas lembranças de amor e dever, seu código de honra. O ajuda a seguir suportando. Sabe que aqueles a quem ama serão os primeiros a serem destruídos, se converter.

Desari se afastou dele para passear inquieta através das agulhas de pinheiro sobre o chão do bosque. Seus movimentos eram graciosos, seu cabelo de ébano brilhava como se mil estrelas estivessem emaranhadas nele.

- Me conte mais sobre meus parentes, Julian. Fale-me de seu destino.

Ele assentiu.

- Deve se lembrar, Desari, que os gêmeos haviam vivido mais séculos que a maior parte de nossa gente, sem encontrar uma companheira. Eram caçadores, habituados a matar. Uma espécie de dupla carga, quase impossível de resistir mais tempo. À medida que passava cada século e sua lenda crescia, mais gente os temia e fugia. Os rumores diziam que eram mais poderosos que o Príncipe, muito mais perigosos. Parecia não se importar que os seguissem e protegessem os que não podiam caçar. Suas vidas eram de um isolamento quase total de toda sociedade. Devia que ser um tortura. - Julian conhecia o tortura do isolamento.

- Embora seguissem adiante, como seguiu você. - Desari se apoiou contra uma árvore, seus olhos enormes, procuravam na história, a sombra de uma esperança para seu irmão.

Julian assentiu.

- Sempre resistiam. Perseguiam os vampiros que a alta sociedade gostava. As batalhas eram ferozes, já que os não-mortos eram antigos e gozavam de muito poder entre os humanos. Ofereceram-se recompensas por Gabriel e Lucian de forma que tanto humanos como não-mortos os caçavam. Eles lutaram com muitos serventes dos vampiros, ghouls, zombis e criaturas dementes criadas pelo capricho do não-morto. Sempre saíam vitoriosos, e embora nossa gente estivesse agradecida, cada vez que os gêmeos voltavam vivos, os rumores de que eram criaturas metade de nosso mundo e metade do da escuridão, cresciam.

- Que injusto! - Desari estava zangada ante tão traidor comportamento de sua própria raça. O que aconteceria se Darius fosse traído de tal forma, pelos seguidores de Mikhail? Suas mãos se apertaram, até que doeram.

- Sim. Foi injusto, embora não de todo falso. Quando um homem envelhece, enquanto cresce em força e número de habilidades, vive parcialmente no mundo da escuridão. Como podiam eles não fazer? Eram poderosos e havia dois, seu pacto era forte. Seriam invencíveis se se convertessem. Quem poderia destrui-los? Gregori era jovem, como Mikhail, embora algumas vezes, secretamente, acolhiam aos dois guerreiros quando suas feridas eram graves. Sei que tanto Gregori como Mikhail, lhes deram sangue em mais de uma ocasião. - Julian esfregou uma sobrancelha, pensativo. - Gregori sabia que eu os tinha visto, mas não me disse nada. Era muito jovem, me entenda, não tinha mais de nove anos. E estava muito impressionado pelas duas lendas, e também por Gregori, que rapidamente cresceu em estatura e por Mikhail, herdeiro do Príncipe. Nunca teria traído seu segredo, acredito que eles sabiam.

- Que tristes deveriam ser as vidas dos gêmeos. - Desari estava a ponto de chorar. Julian cruzou a distância que os separava instantaneamente, apertando-a entre seus fortes braços. – Na verdade, Julian, que houvesse pessoas que não apreciasse seu sacrifício deve ter sido algo terrível. Eram homens sem família nem país ou amigos. - Como havia sido Julian. Súbitamente compreendeu a enormidade de seu sacrifício. Ele tinha sido um homem sem família, país ou amigos e sequer teve seu irmão gêmeo a seu lado. O amor e a compaixão surgiram nela, forte e poderosa. Julian conheceria o amor. Teria um lar, uma família, tudo o que ela pudesse lhe dar.

- Esse é o risco inerente na aquisição de poder e habilidade por parte de um caçador e a experiência de séculos de batalhas. Os dois eram caçadores letais, iguais em força, intelecto e habilidades de luta. Nenhum era melhor que o outro. E então chegou a guerra. As tropas invasoras turcas dizimaram as filas dos nossos, destruindo nossas mulheres e crianças. Nossa gente tinha escolhido lutar junto aos humanos que nos conheciam e eram nossos amigos durante anos, mas perdemos o antigo príncipe e a maioria dos peritos na caça.

- Então foi quando Darius nos salvou. - Ofereceu Desari.

Julian assentiu.

- Durante esse período, sim. - Esteve ele de acordo. - Foi nesse momento quando Gabriel e Lucian se converteram em guerreiros lejendarios. Eram dois contra multidões de turcos e vampiros lançando-se contra eles, afastando os exércitos que faziam coisas horrorosas com seus prisioneiros... As torturas e mutilações que pode ler nos livros de história. Alguns indivíduos esfaquearam mulheres e crianças inocentes, bebendo seu sangue, banhando-se com ele e deleitando-se com a carne viva, enquanto os diretores de orquestra, os vampiros, observavam e se regozijavam. Mas Gabriel e Lucian seguiam em constante perseguição desses inimigos, e a conta de corpos que os dois acumulavam era tão alta, que ninguém podia acreditar que fossem reais e não algum misterioso vento mortal que soprasse dos povos, deixando a morte atrás de si. Os vampiros desapareciam a dúzias e legiões de seus soldados e criaturas dementes. A maior parte de homem e mulheres nobres eram assassinados ou postos ao descoberto. A guerra recrudescia em todas partes. O dano para humamos e Cárpatos por igual era devastador. A enfermidade e a morte os levavam adiante, sem lar e famintos, a selvagem escravidão dos pobres. Foi um tempo horrível e implacável.

- E meus parentes?

- poucos podem reclamar ter posado seus olhos neles, mas estavam em alguma parte, destruindo incansavelmente ao inimigo, salvando às poucas mulheres que restaram, ainda sem companheiras, mas esperando. Diz-se que consultaram Gregori e Mikhail e eu fui testemunha de tal reunião justo quando o pai de Mikhail foi assassinado tentando salvar os humanos. Pouco depois, por ordem de Mikhail, tiraram-me da região e me ocultaram em um lugar remoto com os meninos que restaram. Mikhail era jovem para ser líder, mas tinha visão e compreendeu que nossa gente enfrentava à extinção. Ele e Gregori, o seguinte supervivente de mais idade, moveram-se em seguida para proteger às poucas mulheres e crianças que haviam sobrevivido. Gregori e Mikhail, raramente falam dos dois antigos ou desse tempo, possivelmente porque ambos haviam perdido... Ou pensavam que tinham perdido... A suas próprias famílias enquanto tratavam de salvar sua raça. Mas suas habilidades e talentos, numa idade tão jovem eram quase inconcebíveis.

- E que aconteceu com os gêmeos? - A Interrompeu, intrigada pela história que nunca soubera. Suas raízes, sua ascendência.

- Quando as coisas finalmente se tranqüilizaram na Transilvania e Rumanía, através das Montanhas dos Cárpatos, dizem que viajaram para Paris e Londres ou outro lugar da Europa em que os vampiros estivessem tentando estabelecer-se. Caçaram por todo o continente, sempre trabalhando juntos como uma equipe. As histórias de seus poderes sobrenaturais se converteram em lendas e as lendas em mitologia.

Julian se afastou dela e passou a mão pelos cabelos.

- Os rumores começaram meio século depois. Que Lucian tinha cansadoe passado para o lado escuro. Que era um vampiro, fazendo sua presa, os humanos. Nenhum caçador o conseguia encontrar ou sequer lhe rastrear. Só Gabriel seria capaz. A caça a Lucian continuou durante um século. Foi distinto a tudo o que nossa gente havia conhecido. Os vampiros são assassinos desordenados, deixando um rastro de sangue e morte reconhecível para qualquer de nós, nos expondo a ser descobertos pelos mortais, que indevidamente em seu engano, assumem que vampiro e Cárpato são a mesma gente. De alguma forma, temos sorte que a polícia humana com freqüência etiqueta os assassinatos e mutilações como obra de assassinos em série ou seitas. De outra maneira, todos seríamos caçados até que não restasse nenhum. Mas Lucian não era nenhum vampiro conhecido. Não havia nenhuma mulher ou criança entre suas vítimas, nem criava serventes ou ghouls. Possuía centenas de mortes nas costas, mas só entre os corruptos, os perversos, a escória da terra. Muitos de nossos caçadores estavam confusos, perplexos e chegaram a pensar que os gêmeos eram mitologia, não realidade. Só Gabriel reconhecia o trabalho de Lucian. Só Gabriel podia o perseguir.

- Ninguém mais o ajudou?

Julian sacudiu a cabeça.

- Ninguém podia ajudar. Gabriel era uma lenda em si mesmo. Um anjo da morte. Ninguém se aproximava dele ou atrevia a o liberar de sua tarefa. Ele perseguiu Lucian com freqüência e o encontrou, mas ao serem tão iguais, as batalhas eram longas e ferozes embora nunca decisivas. Ambos conseguiam acertar golpes terríveis, só para separarem-se e tentar curar-se para a próxima batalha. Continuou durante anos. Um dia, ambos desapareceram da face da terra.

- O que é isto? Essa é toda a história? Só desapareceram?

- Correm muitas histórias entre nossa gente. Uma delas, que Gabriel terminou com a vida de Lucian e escolheu enfrentar o sol. Acredito que foi isso o que ocorreu. Antigo como era, tinha que estar muito perto da escuridão ele mesmo e sem uma companheira ou seu irmão em quem se apoiar, acredito que Gabriel se rendeu. Tinha vivido muito tempo sozinho. Merecia o descanso da outra vida.

Desari sacudiu a cabeça.

- Não posso acreditar que depois de agüentar tanto, de lutar em tantas batalhas, Lucian escolhesse a escuridão e Gabriel se visse obrigado a caçar seu próprio irmão, seu gêmeo. É tão terrível.

- É a escolha que toma todo caçador. A morte provoca em nós uma sensação de poder. Para alguém que não tem emoções nem outros sentimentos, pode ser tentador, aditivo. Também está o problema de quando parar. Se Lucian agüentou lutando com vampiros tanto tempo como foi capaz, podia ter sido muito tarde para fazer uma escolha racional. Alguns dizem que Gabriel se converteu também e quando os dois vampiros lutaram pela supremacia, ambos morreram. Não acredito que tenha acontecido, porque teriam deixado alguma evidência da batalha. Gabriel respeitava o Lucian. Ele escolheu destruir toda evidência de sua batalha e a derrota de Lucian, antes de caminhar sob o sol.

- Você não pode caçar como esses homens. - Disse Desari, mordendo o lábio inferior. - Não poderia suportar que isso te acontecesse. É uma história terrível. Dois homens que deram suas vidas por sua gente e a ninguém importavam, nem os apreciavam.

O sorriso dele foi terno.

- Piccola, não tem necessidade de temer nada. Agora não posso me converter. Você é minha luz, a bondade para minha escuridão, o ar que respiro e minha razão de existir. Os gêmeos não encontraram suas companheiras, mas não acredito que não fossem apreciados pelos nossos. Embora fossem temidos, também eram muito reverenciados e se têm escrito muitas histórias e canções em sua honra.

- Um pouco tarde para isso. - Disse ela indignada. - Dificilmente é uma história feliz e eu não gosto do final. Não desejo isso para meu irmão. Devemos procurar algo, que ela precisa, para sobreviver.

- Ele precisa encontrar sua outra metade, cara. Não há forma de dizer quando ou se ao menos acontecerá.

-Verei o que posso fazer. Minha voz é poderosa, minhas palavras podem levar encantamentos. Levou casais de volta ao amor e ao riso, curado a pais afligidos. Tentarei atrair até nós, aquela a que meu irmão necessita.

- Se for a um de seus concertos, me acredite, Desari, não haverá necessidade de encantamentos. Darius a reconhecerá imediatamente.

       - Ele não tem seus conhecimentos. Possivelmente deva contar-lhe.

Julian sacudiu a cabeça.

- Não, é melhor deixar que a natureza siga seu curso nestas coisas. Se a pessoa estiver perto de converter-se, poderia tentar forçar o que não há. Se acontecer, ele saberá o que fazer. Todos os homens nascem com as palavras rituais, com o instinto de unir sua mulher a ele. Estará nele quando precisar.

- E o que acontece se não lhe quer? - Perguntou Desari.

- Nos Comprovamos. – brincou ele.

A mão dela acariciou sua face. Seu dedo traçou amorosamente a dura linha de seu queixo.

- Desejei você, no primeiro momento em que te vi. - Desari sacudiu a cabeça. - Não me assombra que os homens de nossa espécie se tornem tão arrogantes. São capazes de unir uma mulher a eles, sem seu consentimento e sem que saibam sequer. Isso deve fazer-se sentir superiores. - Seu tom mostrava irritação.

- Acredito que estão mais inclinados a sentirem-se humildes. - Respondeu ele sinceramente. - Quando um homem que sobreviveu tantos séculos sem cores ou emoções encontra quem lhe traz de retorno à luz, a compaixão, a música e a alegria, não pode fazer outra coisa, que reverenciá-la.

Ela arqueou uma sobrancelha.

- Mesmo assim não deveria ter o poder de atar a mulher sem seu consentimento. O que tem de errado em cortejá-la? Poderia ajudar a acalmar seus medos e a faria sentir que é especial para ele.

- Como pode não sentir que é especial, quando um homem a deseja tanto? Uma mulher só tem que tocar a mente de seu companheiro para saber o que há em seu coração. Sabe quem é ele, suas boas e as más qualidades.

- Mesmo se for uma principiante? Qualquer antigo poderia ocultar o que quisesse, de alguém tão jovem. Não posso imaginar o medo que uma mulher sentiria, ao unir-se a um ser tão poderoso. Não teria um sentido de seu próprio valor, de quem é ou que dons ou talentos especiais possui.

Julian segurou a mão de Desari da mão, colocando um beijo em sua palma, sentindo sua aflição, pela mulher desconhecida que teriam roubado sua infância. Era bastante difícil para Desari, uma mulher tão forte, aceitar que Julian tinha algum domínio sobre ela. Mesmo sabendo que ela possuía o mesmo domínio sobre ele era atemorizante. Era uma admissão de necessidade. Uma necessidade de estar perto dele sempre.

A mão de Julian emoldurou sua face.

- Nunca tema esta necessidade entre nós. O que quer que sinta, cara, eu sinto duas vezes mais. Estive muito tempo sem cor, canções ou emoções. Passei muitos séculos em branco, para ajudar a compreender a apreciar minha companheira. Você não precisa de minha existência, do mesmo modo que eu preciso da sua... Mesmo para continuar minha vida, para salvar minha alma. Se nunca houvéssemos nos encontrado, você viveria muito mais antes que o vazio de sua existência fosse muito difícil de suportar.

Desari apoiou a cabeça sobre seu ombro, desejando manter-lhe perto.

- Acredito que a necessidade é mútua, Julian.

- Desari. A noite desliza no céu, e vocês dois ainda estão olhando os olhos um do outro. Este concerto é teu. Ainda não ensaiamos e não há forma de fazer isso, sem sua presença. Não me repetirei.

A voz aveludada de Darius foi suave, mas com um toque de ameaça. Ele exigia sua presença, e ela devia obedecer.

- Devemos ir, Julian. – Sussurrou ela, temerosa de que ele pudesse tentar desafiar Darius.

Ele sorriu para ela. Seus dentes brancos brilharam.

- Vamos lá, piccola. Devemos obedecer ao grande lobo mau ou algo terrível poderá acontecer.

- Você não o conhece ainda. - Respondeu ela solenemente.

Sua risada foi à única resposta.

 

A multidão era enorme. Julian inalou profundamente, permitindo que o ar lhe contasse todas as histórias. O aroma da excitação, do suor, dos temperamentos acessos e da luxúria. Estava tudo no ar que introduzia em seus pulmões. Ele procurava perigo para sua companheira. Seus olhos âmbar inspecionavam a enorme multidão que se empurrava para entrar no edifício. Encontrava-se tenso, inclinado a manter Desari longe dos humanos. Podia ouvir inumeráveis conversas, enquanto escaneava inumeráveis mentes. Os guardas de segurança humanos usavam detectores de metal com as pessoas que entrava, mas ele ainda estava intranqüilo.

Julian captou uma olhada de Darius. Era uma figura imponente, movendo-se silenciosa e ligeiramente através da multidão, com os olhos negros e gelados penetrando na maré de humanos intranqüilos, em incessante movimento. Estava tão atento, como Julian, decidido a proteger sua irmã a todo custo. Dayan, embora tocasse na banda, estava a um lado da entrada, em guarda como os outros. Barack rondava pelo interior do edifício, misturando-se com a multidão, acrescentando mais segurança ao amparo de Desari. Ambos os músicos projetavam imagens irreconhecíveis para o público.

Os dois leopardos, Sasha e Forest, estavam fechados nos camarins da banda. Também Syndil, havia tomado seu habitual forma de leopardo fêmea e esperava com os outros felinos. Julian quis protestar por este fato, consciente da tristeza de Desari ante a evasão de Syndil da realidade. Julian havia notado que Barack estava com os nervos à flor da pele. Com freqüência, colocava seu corpo diretamente entre os outros homens e Syndil. Claramente, o terrível ataque sobre ela tinha sacudido a fé que os homens possuíam um nos outros. Com assassinos atentando contra Desari e vampiros ameaçando a eles e suas mulheres, os homens estavam no limite.

Darius fez uma breve pausa a seu lado.

- Nada?

Julian sacudiu a cabeça.

- Nada, exceto uma sensação de intranqüilidade. Eu não gosto de ver Desari exposta a todos estes humanos.

- Não haverá enganos desta vez. - Disse Darius suave e confidencialmente. - Não haverá mais atentados contra a vida de minha irmã.

Julian tinha que respeitar a total convicção do homem. Era difícil não acreditar em Darius, o poder colava a ele como uma segunda pele. Não haveria nenhuma possibilidade esta noite. Julian assentiu para Darius e continuou passeando entre os humanos, explorando mentes, escutando conversas a seu redor. A sua direita começou uma luta entre dois homens. Empurrões e golpes, vozes que se elevavam. Mas o pessoal de segurança, humanos, estava ali instantaneamente, escoltando os bagunceiros para fora do edifício. Julian não podia detectar animosidade para sua companheira, assim ignorou o incidente, não desejando ver-se distraído de sua tarefa prioritária de proteger Desari.

Desari estava no camarim, dando os últimos toques a sua maquiagem. Gostava de ficar, do modo humano. Tranqüilizava-a de algum modo, antes de subir ao cenário. Como também era um hábito antes de cada concerto explorar as mentes da multidão, e tentar encontrar aqueles mais necessitados, para poder escolher as canções mais adequadas para curar e ajudar. Era importante para ela captar o humor do público, escutar o que desejavam ouvir. Suas baladas favoritas ou as novas melodias que podia produzir. Gostava de saber que pessoas haviam assistido a mais de um, de seus concertos, que haviam viajado longas distâncias para vê-la cantar. Algumas vezes, depois do espetácul, procurava os que tinham vindo de longe ou estavam acostumados a ouvi-la cantar. Se apresentava e conversava com eles.

Mas em sua maior parte, a multidão estava ansiosa, movendo-se impacientemente, excitadamente, em seus assentos, ansiosa por ouvi-la. Desari se desconectou, para preparar o cenário. Em seguida, sua mente, por vontade própria, procurou Julian. Sorriu quando sentiu imediatamente uma corrente de calma e suavidade e fortes braços rodeando-a.

Julian não estava emocionado com sua "unidade familiar", como ele os chamava, nem eles estavam muito felizes com ele, mas ninguém atacava a ninguém. Teria que conceder a Julian o crédito. Ele não tinha feito o mínimo protesto, quando ela entrou no teatro vestida para o concerto.

Era a companheira de um homem sensível e moderno. A preguiçosa diversão de Julian a reconfortou, confirmando o que já suspeitava. Que com freqüência, ele permanecia entre as sombras em sua mente.

- Que sorte tenho.- Desari se sorriu a si mesmo no espelho. Sua escura cascata de cabelo caía em ondas pelas costas. Havia um brilho em seus olhos. Sabia que Julian a fazia sentir-se mais viva do que nunca havia sentido. Os homens modernos e sensíveis são uma de minhas afeições. – pensou ela.

- Homens? Estou seguro de que não ouvi minha companheira usar a palavra homens, no plural. Não se permita nenhum homem ser sua afeição, exceto eu.

Julian soava pomposo. A ferocidade do homem dos Cárpatos em sua forma mais pura e ameaçadora.

Desari riu em voz alta. - Suponho que posso te conceder este ponto, Julian, Mas na realidade, é difícil não notar todos esses homens bons entre o público.

- Homens bons? – A voz dele carregava uma afronta. - São mequetrefes adoentados de amor. Se pudessem sentir as vibrações do ar, mostrariam mais sentido comum e correriam para salvar a vida. Já é bastante ruim ler suas fantasias e os ouvir falar desse lixo, cara, mas pior é ouvir o que minha mulher pensa. Um sorriso, ao homem equivocado, companheira e os problemas começarão, rapidamente.

- Parece-me ciumento. - acusou-o ela, mas a diversão curvava sua boca.

- A primeira regra de todas as mulheres que conheço é não esquecer nunca que os homens dos Cárpatos não compartilham suas companheiras. Seu irmão tem muito o que responder, por não haver ensinado isso desde seu nascimento. Era seu trabalho te preparar para o que viria. – Disse Julian, entre a brincadeira e a queixa.

Desari deixou escapar o fôlego lentamente, encontrando-se vacilando entre a o riso e a exasperação. - Meu irmão não tinha nem idéia de sua existência, homem arrogante. Por outro lado, como poderia me haver preparado para sua total ignorância sobre as mulheres? Provavelmente, se ele soubesse que você chegaria para pronunciar as palavras do ritual, estaria o esperando para te emboscar. Eu me enterraria profundamente na terra, até que você passasse pelos arredores.

- Teria saltado da terra diretamente a meus braços, minha cara, e sabe que é a verdade.

Agora era ele quem sorria. A diversão masculina que devia fazê-la apertar os dentes em vez de sorrir.

- Acredito que está tentando procurar algo para me ordenar, só para não perder o costume.

- Cantará para mim esta noite, piccola, e para nenhum outro homem.

- Parece um garotinho mimado e não um homem adulto.

- Quer que eu demonstre que sou um homem adulto? Sua voz foi súbitamente baixa e cálida, tão sexy que ela pôde sentir o despertar do desejo. Podia sentir o roçar de seus dedos na garganta, traçando um caminho para baixo, pelo vale entre seus repentinamente doloridos seios.

- Julian... - ela sorriu novamente. - Não pode me excitar justo agora.

- Desde que te conheci, estiveste quente e excitada para mim, mas considerarei o que pede e voltarei para trabalho.

- Assim espero.

Desari ouviu os passos familiares que se aproximavam de porta. Dayan chamou ruidosamente com sua advertência habitual dos cinco minutos. Sabia que Barack estaria fazendo as comprovações de último minuto, sobre o Syndil. A excitação estava ali, a agitação antes de sair para o palco.

Desari andou pelo camarim, liberando seu corpo da adrenalina. O segundo chamado chegou três minutos mais tarde. Julian e Darius permaneciam em pé junto à porta, seus olhos e suas mentes exploravam continuamente cada polegada do edifício e da audiência. Desari se sentia pequena encaixada entre os dois enormes homens, súbitamente consciente do perigo potencial que havia para ela. Alguém queria vê-la morta por razões desconhecidas que a surpreendia. Aproximou-se mais de Julian procurando amparo. Ele tocou seu braço, numa gentil carícia, nada mais demonstrativo. Sua mente estava cheia de medidas de segurança, sintonizando o ar a seu redor. Instantaneamente, Desari se sentiu confortada e a salvo. Dayan e Barack esperavam para entrar no palco com ela. Enquanto o faziam, o rugido da multidão afogou qualquer outro som.

Julian começou a percorrer o perímetro do edifício, tomando-se seu tempo, obtendo uma percepção da audiência. Conhecia cada local do interior, cada possível esconderijo, cada entrada e saída. Conhecia cada posição, alta ou baixa, que um franco-atirador podia utilizar. Seu olhar deslizava continuamente pelas áreas que dariam maior cobertura a um assaltante.

Recentemente, havia vigiado à filha de Mikhail e Raven, Savannah, enquanto ela fazia seus shows mágicos durante os cinco anos de liberdade que Gregori lhe havia permitido antes de reclamá-la como sua companheira. Várias vezes, seu pessoal de segurança humano tiveram que se ocupar de alguns fãs ansiosos que tentaram saltar para o palco a fim de conhecê-la. Mas Julian tinha mantido em segredo sua presença, lutando contra os vampiros que com freqüência a espreitavam sem que ela soubesse. Não teve que lidar com humanos que se sentiam atraídos por ela.

Isto era diferente. A voz de Desari era um atrativo, uma tentação para todos o que a ouvia. E estava tão formosa sobre o palco, com seu longo de noite, que flutuava em volta de sua esbelta figura, depois se colava a seu corpo, no momento seguinte. Seu cabelo de ébano brilhava a luz e uma cascata de ondas descia por suas costas, roçando seus ombros e seios, sua cintura e quadris. Ela era irresistível.

Julian sentiu o fôlego preso na garganta. Atemorizava-lhe. A forma em que ela se movia, a forma em que sua alma perfeita reluzia brilhantemente para que todos a vissem. Desari era formosa não só por fora, mas também por dentro. Ela, literalmente, cortava a respiração.

Afastou o olhar, obrigando sua mente a permanecer alerta, para explorar em busca de problemas. A voz pura de Desari encheu o ar e flutuou pela sala de concertos. O silêncio da multidão foi completo. Não havia cochichos nos assentos, nem suaves murmúrios. A audiência estava encantada. Havia um sortilégio em sua voz, uma suave mistura de riso e lágrimas, evocando lembranças, criando esperanças. Sensações de profundo e duradouro amor que fluíam para os que escutavam. Os membros maiores da audiência reviviam cada maravilhoso momento com seus cônjuges, fazendo amor. Sua alegria por estarem juntos, amantes e pais. Os jovens sonhavam com seus amores perfeitos, amor a primeira vista, com o primeiro toque, o primeiro beijo. Os casais distanciados lembravam seus votos e o amor que sentia o um pelo outro antes que os ressentimentos começassem a separá-los.

       A voz de Desari proporcionava a todos, conforto e esperança. Julian estava assombrado com seu poder. Não estava usando nenhuma compulsão, simplesmente possuía um dom que era um tesouro. Seu orgulho por ela crescia com cada canção. Era como se ela instintivamente, sentisse o que precisavam certas pessoas ou todo um grupo e pudesse entregar-lhes.

Julian se voltou para a área que estava diante do cenário. Uma sombra se arrastava lenta, mas certa em sua mente. Em seguida fez gestos a Darius, que estava perto. Darius já estava movendo, dirigindo-se aos seguranças, na mesma direção. Dayan e Barack se aproximaram de Desari imediatamente, movendo-se rapidamente, que quase pareciam borrões, colocando seus corpos diante dela enquanto dois homens subiam até o palco. Ligeiramente bêbados, eles cambalearam-se para os membros da banda. Não tinham dado mais de dois passos antes que uma parede de guardas de segurança os tivessem sob custódia e os acompanhassem até a porta da saída.

A voz de Desari se suavizou, fazendo um convite, para que o público se unisse a ela.

- Pobres meninos, não têm nem idéia do que os golpeou. Mas por causa de um desafortunado incidente que houve recentemente, meu pessoal de segurança me cuida como se eu fosse de ouro.

Ela trazia à multidão, na palma de sua mão. Julian não podia acreditar, como facilmente ela o fazia. A suavidade com que desculpava aos dois fãs exaltados, brincando de seus guardas de segurança e menosprezando sua vulnerabilidade e seu status de celebridade.

Infelizmente, a sombra permaneceu na mente de Julian. Olhou para Darius, cujos olhos escuros estavam frios como o gelo. Darius sacudiu a cabeça ligeiramente para indiciar que o perigo para Desari não havia passado. Os dois começaram a mover-se em direções opostas, rodeando o enorme teatro, cobrindo o terreno lentamente, explorando enquanto o faziam. Algo não estava bem. Ambos sentiam. Dayan e Barack, sentiam também. Suas faces eram inexpressivas, mas permaneciam colocados protetoramente perto de Desari, e seus olhos se moviam inquietos, incessantes. Todos eles procuravam a fonte dessa sombra.

Os Cárpatos sobre o cenário continuavam tocando e a voz de Desari era mais formosa que nunca. Esgrimia encantamento sobre todos os que a ouviam, que era difícil para Julian manter a atenção totalmente em seu amparo.

Algo maligno estava infiltrando-se no edifício. O fluxo de ar corrupto era tão suave e lento que foi apenas discernido. Julian tentou averiguar para onde se dirigia. Já tinha explorado a multidão várias vezes e sabia não que havia nenhuma ameaça real dessa direção. Era algo muito mais poderoso. Nosferatu. Não-morto. Desari e Syndil tinham que ser a razão de que os vampiros freqüentassem tanto essa zona, inclusive com o irmão de Julian, Aidan, vivendo tão perto. Aidan era um caçador de renome por suas habilidades. Julian não podia imaginar outra razão, que a presença das duas mulheres Cárpatos. Poucos seriam conscientes de que Desari tinha sido reclamada e para um vampiro, dificilmente importaria. O não-morto era arrogante, tão inflado por seu próprio poder, que se acreditava capaz de ganhar a posse de qualquer mulher.

O olhar de Julian, um golpe de reluzente ouro, retornou ao cenário. Barack de repente pulou uma nota, sua cabeça se elevou alerta. Ao mesmo tempo, Julian sentiu a onda do horrendo poder que entrava pelas torrentes, no ar que os rodeava, soprando para os camarins da banda. Automaticamente, lançou-se, cruzando velozmente através da sala de concertos, como fazia Darius. Mas foi Barack quem os fez ir à habitação em que os leopardos esperavam. Depois deles, como se tivesse sido a propósito, Dayan seguiu uma animada melodia, acompanhando Desari com a voz e o violão, para que a audiência se exaltasse e aplaudisse com ensurdecedora aprovação.

Darius e Julian tiveram que conter ao Barack antes que irrompesse através da porta fechada. Grunhiu-lhes, com os dentes nus e olhos vermelhos pela raiva assassina. Foi Darius quem falou com ele, usando o peculiar vínculo mental que estava se tornando lentamente familiar a Julian. A ordem foi suave e consoladora. Uma promessa de proteger a Syndil. Barack tomou um profundo fôlego para acalmar-se, relaxando-se sob a garra dos dois caçadores.

Julian se dissolveu imediatamente, fluindo sob a porta para entrar na habitação como diminutas moléculas de ar. Os três leopardos passeavam intranquilamente e soltavam grunhidos de advertência, que retumbavam profundamente em suas gargantas. Tentou tocar suas mentes, mas encontrou caos e fúria, todos na habitação estavam com humor perigoso. Deliberadamente, Syndil se enterrou profundamente no corpo do leopardo para evitar que não pudessem diferenciá-la, dos outros dois espécimes autênticos. Nem sequer podia dizer qual das fêmeas era Syndil e qual o autêntico leopardo. Julian ainda não a conhecia o suficiente para discernir seu espírito, pois havia enterrado tão profundamente dentro do espírito do leopardo.

Julian sentiu que o poder de Darius enchia a habitação, no momento em que ele se estendeu para acalmar os leopardos que rondavam. O vampiro estava perto, muito perto, espreitando Syndil, mas o não-morto projetava seu paradeiro em todas as direções, conseguindo que nem Darius, nem Julian pudessem fixar sua localização. Eles esperaram com a paciência de caçadores ancestrais. Imóveis, com calma, simplesmente esperando o momento em que o agressor fizesse o primeiro movimento.

O impacto que golpeou contra a porta foi tremendo, um enorme vulto se estendeu para dentro. A porta enegreceu ao mesmo tempo em que um trovão sacudiu o edifício. Uma parte de Julian permanecia conectada com Desari, decidido a assegurar sempre sua segurança. Estava fazendo-se facilmente com a audiência, projetando calma, sua voz tranqüilizava enquanto cantava uma balada irreal e Dayan a acompanhava ao violão. Dayan e o pessoal de segurança a rodeavam de perto, os guardas humanos estavam intranqüilos de como tinha Barack havia desaparecido do palco. Ninguém tinha captado sua saída. Mesmo assim permaneciam perto de Desari, dirigidos por Julian, embora sem saber. Desari e Dayan eram incrivelmente suaves. Desari estava sobre um tamborete, no meio do palco. Dayan tocava com suavidade, hipnotizando com a música de seu violão, enquanto a beleza da voz de Darius continuava enchendo a sala de concertos.

Os leopardos passeavam mais intranqüilos. O macho se lançou duas vezes para a porta agitado. Julian fluiu de retorno ao outro lado da porta, surgindo pelo vestíbulo como uma corrente de ar frio. Sabia que Darius ficaria atrás para proteger Syndil.

Do outro lado da porta, Barack estava numa feroz batalha com um estranho alto e fraco. O maligno tinha olhos bordeados de vermelho e uma viciosa navalhada por boca. Lançou para Barack, suas afiadas garras, procurando a jugular, mas Barak esquivou rápido do golpe e sua mão se introduziu diretamente no peito do esquelético vampiro. Suas presas rasgaram a garganta, enquanto sua mão arrancava diretamente o coração. Com facilidade, Barack pareceu perder-se no interior da feroz besta que tinha tomado seu lugar.

Julian procurou a mente do homem e encontrou uma neblina vermelha de ódio e raiva, dirigida não só a este vampiro, mas também ao que havia atacado tão violentamente Syndil e a tinha traumatizado. Levou poucos segundos para encontrar o vínculo mental que a família de Desari compartilhavam os uns com os outros.

- Não beba seu sangue, Barack. Ele já está morto. Destruíste-o. O sangue está corrompido. - Julian falou brandamente na mente enlouquecida e raivosa.

- Não interfira. Ele está vivo.

Quando Julian deslizou para eles, Barack rugiu uma advertência. Um grunhido que sacudiu o vestíbulo. Julian deteve-se em seguida, absolutamente surpreso quando Darius se materializou a seu lado.

- Não o faça, Barack. - A voz de Darius foi uma suave, mas ameaçadora. - Não pode beber enquanto morre. Não furioso como está. Solte-o e deixa que caia longe de voce.

Barack elevou a cabeça, suas presas estavam manchadas de vermelho, seus olhos resplandeciam apaixonadamente. O coração foi arrojado a um lado, ainda pulsando malvadamente. O grunhido foi mais forte, uma clara advertência de que retrocedesse, que afastassem dele.

Darius e Julian se olharam, tomados pela mesma idéia. Juntos, podiam obrigar Barack a obedecer, mas ele nunca voltaria a lhes respeitar ou confiar. Barack era definitivamente perigoso e nenhum dos dois queria o alienar. Era um homem dos Cárpatos e estava em seu direito de fazer o que estava fazendo, proteger às mulheres de sua família. Proteger a qualquer mulher de sua raça. Não só seu direito, mas também seu dever. Julian se estendeu para as mentes dos leopardos e encontrou Syndil aninhada na fêmea pequena.      - Barack está em perigo. Não podemos o alcançar. Você deve tentar. Chame-o. Faça agora antes que seja muito tarde e o perderemos para toda a eternidade. Não pode consumir o sangue dessa coisa que está matando.

Julian sentiu o imediato alarme de Syndil. Em seguida, ela mudou sua forma, sua esbelta e bem proporcionada figura mais baixa que a de Desari, mas radiante com a mesma luz interior e beleza das mulheres dos Cárpatos. Ela moveu-se com fluída graça e elegância, seus escuros e expressivos olhos o tocaram, depois se afastou precipitadamente. Ofegou de forma audível quando viu a sangrenta e violenta cena no meio do vestíbulo e a escuridão tão perto da superfície em Barack, que tinha a face quase da fera interior dos homens dos Cárpatos. Darius estava perto do não-morto, bastante perto para distrair Barack do festim de sangue. Mesmo assim, o poder e a raiva carcomiam o jovem Cárpato, permitindo que a fera de seu interior tomasse o controle de sua mente, fazendo que tudo restasse fosse instinto e fúria.

Sem duvidar, Syndil se aproximou de Barack.

- Não pise no sangue. - Advertiu-a Darius. Seus olhos escuros permaneciam vigilantes. Se Barack fizesse um movimento equivocado para Syndil, não havia duvida na mente de Julian, de que ele seria homem morto. Syndil não tinha medo, ignorava Darius e Julian como se fossem invisíveis.

- Barack. - Sussurrou brandamente, quase intimamente. Seus olhos se posavam sobre as selvagens manchas vermelhas do peito e da face dele. – Venha comigo agora. Preciso curar suas feridas. - Apesar de seus ferozes grunhidos, ela estendeu a mão gentilmente sobre o braço de Barack. Cuidadosamente, permaneceu longe do sangue que cobria a roupa dele. – Venha comigo, irmão. Permita-me te curar.

A cabeça de Barack balançou. Seus olhos vermelhos brilhavam ferozmente. Durante um momento os olhos passaram do vermelho ao negro, como se o homem lutasse com a fera que compartilhava corpo e mente.

- Não sou seu irmão, pequena. – sibilou ele, lutando para sobrepor-se à raiva assassina.

Durante um momento Syndil abaixou a cabeça, como se as palavras que negavam sua relação, a tivessem ferido profundamente. Depois se aproximou mais dele, tanto que seu suave corpo roçava contra a enorme forma dele. As mãos de Barack imediatamente, instintivamente, rodearam sua pequena cintura e a elevaram longe da espessa mancha de sangue estendido sobre o chão. No momento em que soltou ao vampiro, o corpo do não-morto caiu escancarado, com a cabeça caída e as garras produzindo longos e profundos sulcos na parede.

- Barack não toque a pele de Syndil com esse sangue corrompido nas mãos. - Advertiu-lhe Darius com sua autoridade.

Julian já estava reunindo energia nas palmas de suas mãos, tomando a da eletricidade do próprio ar, enroscando-a em uma bola que enviou ondulando para o latente coração do vampiro para que não houvesse possibilidade de que o não-morto se elevasse novamente. As faíscas saltaram então do órgão incinerado para o sangue, reduzindo a mancha a cinzas.

Barack permitiu relutantemente que os pés do Syndil tocassem o chão longe da horrenda cena. Respirava com dificuldade, lutando por ganhar o controle da fera em seu interior, envergonhado de que Syndil o visse tão fora de controle. Ante o gesto de Julian, estendeu suas mãos para que as chamas dançassem durante um momento sobre sua pele manchada, queimando o sangue poluído de suas mãos e braços. Barack tomou posse da bola branca e ardente de energia e percorreu a cintura de Syndil onde a havia tocado, limpando-a de qualquer rastro de sangue corrompido que manchasse suas roupas. Lançou então o fogo de volta a Julian antes de voltar toda sua atenção para a mulher que tinha demonstrado tanto coragem.

- Está ferido? - Perguntou Syndil suavemente, ignorando os outros dois Cárpatos como se eles não existissem. As pontas de seus dedos roçaram o braço do Barack e tentou não mostrar como sua negativa da relação que os unia, a afligia. Se ele escolhia, depois de todos aqueles anos, rechaçar o que os unia, ela não ia deixar ele notar o quanto a fazia mal, sentir isso. Só podia suspeitar que era porque Savon a tinha violado e Barack já não podia aceitá-la. Possivelmente pensava que ela tinha provocado o assalto de alguma forma. Barack não era mais o mesmo do ataque. Tinha passado muito tempo na terra evitando ela e aos outros. Agora parecia soberbo e severo, tão distinto a sua anterior natureza brincalhona. Vigiava-a como um falcão, quase como se não confiasse nela, ou como se ela fosse uma principiante em que não podia confiar que cuidasse de si mesma, corretamente. Desejava chorar, sair correndo e esconder-se de novo, mas algo nela se negava a deixar ao Barack em tal estado, com tantas feridas.

Syndil elevou o queixo, mas se negou a encontrar seu olhar.

- Me deixe te curar agora, Barack. Só tomará alguns minutos.

Finalmente ele a pegou pelo cotovelo e a conduziu longe dos outros dois homens. Julian e Darius os observaram se afastar. Julian baixou a vista para corpo do vampiro e depois a elevou para Darius.

- Nos tocou limpar isso aqui. - Dirigiu as chamas para o não-morto. Como sempre fazia quando o vampiro destruído não era o antigo que procurava. Experimentou uma profunda desilusão. Mas desta vez não estava sozinho.

Do salão de concerto Desari lhe enviava, amor e sua formosa voz o agasalhava eo mantinha muito perto de seu coração.

Darius se tinha assegurado de que estavam sozinhos no vestíbulo, mantendo os humanos afastados, enquanto Barack destruía ao vampiro.

- Barack nunca antes tinha lutado com um não-morto. Nunca tinha mostrado interesse pela caça. Embora chegou aqui antes que nós.

Julian assentiu pensativamente.

- É realmente uma surpresa?

Darius encolheu seus amplos ombros.

- Barack sempre ficou perto ddeo Syndil. Com freqüência a protege. Desde meninos foram inseparáveis. Ultimamente, entretanto, ela está tão traumatizada que não quer que ninguém se aproxime, nem sequer Desari.

- Ela passa muito tempo na forma do leopardo. Não há forma de que se recupere do trauma se não enfrentá-lo. - Replicou Julian casualmente.

Darius assentiu.

- Não confia em nenhum homem. Parece um milagre que respondesse a sua chamada e nos ajudasse a persuadir Barack de que deixasse ao vampiro a sua sorte. Não gosta de estar perto de nenhum homem.

- Não acredito que ninguém possa culpá-la. - Disse Julian distraídamente. Na realidade sentia a necessidade de estar com Desari. Podia tocar sua mente a vontade, ver o que ela estava vendo através de seus olhos, olhar em sua mente, mas ainda estava intranqüilo sem tê-la à vista. Saber que Desari era tão vulnerável diante de tão enorme multidão tirava o pior dele. Sua necessidade de protegê-la era incrivelmente forte. Encontrou se opondo aos primitivos instintos profundamente arraigados nele. Foi rapidamente à sala de concertos. Observou a forma em que ela se movia, gentil e fluída, deslizando os quadris, seu comprido cabelo caindo em cascata como ondas de seda descendo por suas costas para roçar seu esbelto corpo, dirigindo a atenção a suas curvas. Desejava levar-lhe à força para algum lugar recôndito para sempre, fora de perigo e longe de olhos curiosos. Desejava escutar sua voz por toda a eternidade e observá-la sorrir e iluminá-lo.

Imediatamente, no meio uma suave risada no microfone, com aspecto de estar totalmente entregue à multidão, sentiu o roçar de seus dedos na nuca e chamas ardentes o engoliram e enrijeceram seus músculos. Ficou imóvel, surpreso pelo poder que seu toque tinha sobre ele. Havia passado toda uma eternidade sentindo um buraco aberto e vazio em sua alma, a pouca compaixão e gentileza que tinha experimentado evaporou lentamente, perdida para ele. Ela havia trazido de volta suas emoções e a alegria da vida. Sempre havia pensado que poderia resentirse pela necessidade de uma companheira. Era um caçador solitário, que desfrutava dos animais e da natureza mais que da companhia dos outros. Mas já não era assim. Desari era um milagre para ele.

Houve um suave toque em sua mente, não pelo vínculo mental comum com o que se comunicava a família de Desari, mas por um privado, um novo encontro de mentes. Poder. Autoridade. Homem. Só podia ser Darius. Ter compartilhado sangue tinha forjado um vínculo, permitindo a Darius comunicar-se facilmente com ele, e a vontade.

- Deixa de sonhar. Temos trabalho a fazer. Minha irmã o tem a mando de seu dedo mindinho.

- Tomo nota de que não pudeste evitar a perigosa carreira que escolheu. Não fui eu o que permitiu este sem sentido em primeiro lugar. - Julian estava mais que feliz de assinalar esse ponto. Movia-se pela sala lotada, seus sentidos estendidos para ler qualquer sinal de perigo.

- São suas decisões que deveriam guiá-la agora. - replicou Darius.

- Não tente jogar sobre mim, suas falhas. Levará-me muito tempo desfazer todo o dano que tem feito com sua guia. Tenho que trabalhar lentamente, sem que ela note. Liberá-la a de sua louca convicção de que está permitido tomar suas próprias decisões. - Julian não pôde evitar que o humor crepitasse em sua voz. A última coisa que ninguém podia fazer era tomar conta de Desari. Ela não era uma principiante para ser empurrada daqui para lá por um homem arrogante.

Barack voltou para o palco, com seu longo cabelo recolhido para trás na nuca, sua face imutável e suas roupas imaculadas. Julian sentiu a presença de Syndil na sala, mas invisível aos olhos humanos. Foi Barack, olhando severamente para um canto do cenário, que assinalou sua localização a Julian. Barack obviamente a tinha trazido até ali. Julian podia dizer que certamente ele se negava a atuar, a menos que Syndil estivesse onde ele pudesse vê-la a todo o momento. Estava sentada ao bordo da plataforma, ligeiramente à direita de Barack. Parecia tão triste, que Julian sentiu uma reposta instantânea, desejando consolá-la. Syndil parecia frágil e cansada. Uma figura pequena. Barack devia ter exigido sua presença de tal modo que ela não tinha outra escolha que o obedecer. Julian não podia culpá-lo ou a nenhum dos outros, por seu protecionismo. Esta era uma situação explosiva, e nada fácil de controlar. Proteger a duas mulheres entre uma multidão tão grande de assassinos humanos, fãs superexcitados e vampiros era difícil. Precisassem que as mulheres permanecessem juntas onde todos pudessem vigiar.

- Não somos meninas. - Recordou-lhe Desari, saudando ante a rugente multidão. - E Barack é muito duro com Syndil. Deveria ser mais amável com ela. Ela não provocou o ataque do vampiro sobre sua pessoa. – Desari sorriu para multidão, mostrando o rosto sexy que parecia paralisar corações, para a paz mental de Julian. Seu braço saudou para trás graciosamente, por volta dos dois homens dos Cárpatos que estavam sobre o cenário, incluindo-os na ovação.

Várias mulheres da fila dianteira gritaram e ondearam a mão para os dois violonistas, alguém se atirou contra o cerco dos guardas de segurança, chamando Barack e atirando um par de meias de seda em sua direção. A roupa interior aterrissou quase no colo de Syndil. Ela a recolheu com cuidado com a aponta do polegar e o dedo indicador. Estudando-a durante um momento, depois, sem nenhuma expressão em sua face, atirou-a sobre o pescoço do violão de Barack. Para a audiência, as meias vermelhas pareceram voar diretamente no ar até ele. Rugiram com deleite, ficando em pé uma vez mais.

Syndil se levantou com sua graça casual e começou a sair do cenário. Em seguida Barak se moveu cortando sua retirada. Para a audiência, simplesmente pareceu que ele se afastara de Dayan dando-lhe as costas, balançando os quadris provocativamente. Várias garotas gritaram alto, tentando alcançar o cenário. Barack tocou um solo de violão de vários acordes. A música aumentou, crescendo como uma onda que corria a toda velocidade para depois se derrubar sobre a areia. A audiência estava eletrificada pela intensidade, embora a atenção de todos os Cárpatos estava na cena sobre o cenário entre o homem e a mulher.

Syndil olhava fixamente para Barack, seu corpo estava rígido pela raiva. Seus olhos flamejavam.

- Não tem direito a me dizer o que fazer e aonde ir. Como assinalou antes, você não é meu irmão. Darius é nosso líder e ele não disse que deva ficar e observar como você entretem estas mulheres. - Ondeou uma mão desdenhosa para o grupo de garotas estridentes.

- Não me empurre desta vez, Syndil. - Advertiu Barack, um grunhido retumbou de sua garganta. - Não me importa o que diga ou não Darius. Não sairá de minha vista até que saiba que está completamente a salvo. Nisto me obedecerá.

Durante um momento Syndil o enfrentou em silenciosa rebelião. Era impossível adivinhar o que ia decidir fazer.

- Por favor, Syndil. - Disse Desari suave e persuasivamente. - Temos público. Não dê a Barack nenhuma razão para nos descobrir.

Syndil piscou. Seus enormes olhos se moveram sobre Barack com arrogância. Passou o longo cabelo sobre o ombro e se sentou pela segunda vez, de costas para Barack. Houve algo régio na forma em que se colocou.

Barack terminou o solo de violão, seu corpo relaxou, mas seus olhos permaneceram duros e vigilantes. Desari dedicou um rápido e aliviado sorriso a Julian. O violão de Dayan se uniu ao de Barack e a voz de Desari se elevou no ar, colocando os espectadores a seus pés. Syndil começou a bater com o pé no ritmo da música. Era inteiramente involuntário, a primeira vez que havia respondido a música do selvagem ataque. Sempre tinha sido musical, tocava facilmente qualquer instrumento que colocassem ante ela, normalmente o teclado e os tambores. O grupo havia explicado sua ausência aos fãs, dizendo que ela estava de férias e voltaria logo.

Desari suspirou interiormente, um pequeno suspiro de alívio. Era o primeiro sinal em muito tempo de que Syndil poderia encontrar uma forma de voltar para eles, por si mesmo. Possivelmente seu amor pela música a traria de volta. Enquanto sua mente estava em outra área, sua voz continuava mantendo a audiência hipnotizada. E súbitamente lhe ocorreu que, enquanto que ela sempre estivera perto de sua família, Julian havia estado sempre sozinho.

- Já não estou mais. - disse Julian, com voz cariciadora. - Como agora é minha responsabilidade, suponho que não tenho mais escolha que ajudar seu irmão a proteger e guiar esta turma de tolos. O que deveria fazer é levar seu bonito traseiropara fora daqui. As Montanhas dos Cárpatos é nossa terra natal. É aonde pertencemos, não a aqui, entre tantos mortais. - Na verdade, ele estava começando a gostar de sentir que pertencia a uma família. Que pertencia a Desari.

- Carinho. - Ela sussurrou em sua mente como a carícia de seus dedos lhe percorrendo a pele. Amorosa. Seu próprio mundo privado.

Julian engoliu com força. Sua face era uma máscara de indiferença, longínqua, seus olhos duros e vigilantes examinavam a multidão implacavelmente, embora por dentro se derretia com a suavidade que só ela podia produzir em seu interior.

 

Julian tomou a mão do Desari e se entranhou com ela no bosque. O concerto parecia interminável e havia muitas pessoas que queriam falar com ela depois da atuação. Pesoas de boas intenções, repórteres, fãs... Muitas pessoas, para o gosto de Julian. Continuou durante a maior parte da noite. Agora, deixaria que a paz das montanhas e a brisa da noite afastassem os sons da multidão e de tantos humanos empurrando para aproximar-se de sua companheira. Ele não estava completamente seguro de sobreviver a esta vida, se ela insistisse em continuá-la. Era estranho à natureza de um homem dos Cárpatos, permitir tanta gente perto de sua companheira. Embora Desari gostasse.

Ela protestou, compartilhando seus pensamentos. - Sei que é difícil para você, suortar minha escolha.

Os olhos dele deslizaram sobre a sincera expressão dela, depois arqueou as sobrancelhas ligeiramente.

- Seriamente? Gosta da forma em que suporto sua escolha? - Pronunciou as palavras brandamente, com um toque de riso. - E parece tão perfeitamente honesta e genuinamente ansiosa, com esses olhos tão formosos.

Ela apertou sua mão.

- Sou completamente sincera, Julian. Sei que é duro para voce, mas é minha forma de vida.

- Neste século, cara. Só por neste século permitirei isso.

Ela riu brandamente.

-Você crê?

- Sim. Meu coração não poderia suportar a constante tensão da preocupação. Tantos homens babando a sua volta e com pensamentos tão impuros. E isso sem contar aos vampiros que parecem espreitar voce e à outra mulher, a cada momento.

- Syndil. - Corrigiu-lhe Desari suavemente. - Seu nome é Syndil.

Julian ouviu a recriminação em sua voz, sentiu as lágrimas em sua mente. Ela amava Syndil como a uma irmã, amava-a e sentia falta de sua camaradagem. Mesmo com Julian enchendo sua vida, não podia evitar a pena pelo que havia acontecido. Queria Syndil outra vez de volta, completa e recuperada. Nem sequer sua voz, podia desfazer a brutalidade do que havia feito Savon. Syndil não aceitaria sua ajuda. Desari se sentia inútil e só podia observar como Syndil parecia retirar-se mais e mais, para dentro de si mesma.

Julian captou retalhos das lembranças de Desari. Syndil sorrindo, com os olhos iluminados pela pura alegria de viver. Syndil abraçando-a com força, sussurrando tolices femininas depois de que aprontavam com Darius só por diversão. Os complôs que tinha urdido para obter umas poucas horas de liberdade. Secretamente, achavam graça da raiva de Barack com Syndil e os sermões de Darius quando eram capturadas. Haviam estado juntas durante séculos, unidas, como só duas mulheres podiam estar, sem nenhuma outra amiga ou confidente para compartilhar seus pensamentos mais íntimos, seus medos e alegrias. Julian inclinou a cabeça e esfregou o queixo com o sedoso cabelo de Desari. Amava-a.

Amor. Era uma palavra tão pequena, que a gente parecia usá-la para tudo. Para ele era sagrada. Desari era alegria e luz. Verdade e beleza. Era amor em estado puro. Era o mundo e o tudo que devia ser. Sentia-se completo e em paz com ela, mesmo quando ela o deixava louco. Assombrava-lhe, sua confiança e seus tremendos dons. Era certo que as mulheres Cárpatos possuíam dons extraordinários. Por que nenhum deles havia compreendido? Haviam sido arrogantes em suas crenças, de que só os homens tinham os poderes, embora na realidade, os homens só possuíam poderes escuros. Como podiam compará-los, aos dons que as mulheres traziam para seu mundo? Por outro lado, elas criavam a vida, mas obviamente tinham outras coisas que oferecer, bênções de natureza e paz, dons de curadoras lém do alcance dos homens.

Julian deixou escapar o fôlego lentamente.

- Syndil estará completa de novo, piccola. Ela será completa e feliz uma vez mais. O tempo pode curar o que outras coisas não podem. Sei que acontecerá. Não continue com seu pesar. Ela voltará para vocês, de uma forma totalmente inesperada. Não sei como sei, mas voltará.

Os enormes olhos dela procuraram em sua face, antes que as pálpebras os ocultassem.

- Não diz só para aliviar minha mente?

- Não estou acostumado a dizer as coisas para aliviar a mente de ninguém. Já deveria me conhecer melhor. Os companheiros não podem contar mentiras uns aos outros. Busque a informação em minha mente e saberá que acredito no que te digo. E chamarei Syndil quando quiser que o faça. Se deseja, que ela seja uma irmã para mim, então será.

- Por que não a chama pelo nome?

Ele encolheu de ombros com graça, fácil e casual. O poder que possuía era certo e a enorme força que Desari estava começando a habituar.

- Hábito. Não estamos acostumados a nos socializar com as mulheres não reclamadas de nossa raça, e não as personalizamos. É um amparo para ambas as partes. Quando os homens se aproximam do final, não queremos que nenhum deles se apegue a nenhuma de nossas mulheres elegíveis e possivelmente... - interrompeu-se, não desejando súbitamente expressáe-se com palavras.

Desari passou uma mão pelo cabelo.

- Atacá-las. - Terminou por ele. - Syndil não fez nada para provocar Savon. Sei que não o fez.

- Nunca me ocorreu nem por um momento que ela fizesse tal coisa. Uma mulher não tem que fazer nada para seduzir um vampiro. O não-morto é pervertido e grotesco, completamente perverso. Em suas distorcidas imaginações, acreditam que se encontrarem uma mulher não reclamada, ou possivelmente uma viúva, poderão encontrar sua alma perdida. Isso não pode ser. Uma vez que escolhem tal caminho, é para toda a eternidade, até que um de nossos caçadores consegue destrui-los apropiadamente. A maioria tenta por um tempo, procurar companheira. Usam mulheres mortais e algumas vezes são capazes de convertê-las sem as matar. Mas as mulheres ficam loucas e se alimentam do sangue de crianças. É uma terrível carga ser obrigado a destruir uma criatura victimizada. É o pior de nossos trabalhos. - Declarou-o como um fato certo, sem procurar simpatia.

A cabeça dela roçou seu ombro, seus corpos se aproximaram enquanto passeavam juntos através do bosque, serpenteando sem rumo fixo entre as árvores e arbustos. Foi um pequeno gesto, mas o toque enviou pequenas ondas através do corpo dele. Afastou seu desassossego. Proporcionava-lhe prazer. Só estar perto dela lhe dava prazer. Respirar sua essência lhe proporcionava prazer.

- Julian você me provoca a mesma sensação. - Assegurou-lhe ela, feliz de ser capaz de levantar seu ânimo.

- É um milagre. - Disse ele. – Você não tem nem idéia do que significa para mim, o que é para mim. Nunca poderei encontrar palavras para expressar-me.

Mas ela estava em sua mente. Podia sentir suas emoções e elas a estavam afligindo. Pensar como ele pensava nela! Era uma arma poderosa, que esgrimiam os homens de sua raça. Como podia uma companheira rechaçar o conforto e amor de semelhante homem? Desejava igual para Darius. Desejava uma mulher que o amasse como ela amava ao Julian. Desejava alguém para Syndil, Barack e Dayan também.

Julian sorriu e abraçou-a, colocando-a sob o amparo de seu ombro. É obvio que Desari pensaria em todos outros, desejando que compartilhassem sua alegria. Isso só o fazia amá-la mais.

- Olhe as estrelas esta noite, Desari. Amanhã a noite haverá tempestade. Sinto-a aproximar-se de nós. Mas esta noite caminharemos juntos a céu aberto e temos tempo para desfrutar de nós.

- Quase está amanhecendo. - Lembrou-lhe ela, com um sorriso arrastado em sua voz.

- Faltam algumas horas para o amanhecer. - Replicou Julian. - Mais que suficiente para terminar minha tarefa.

- Tem uma tarefa? - Perguntou ela, seus olhos escuros dançavam sobre ele.

- Absolutamente. Tenho que te convencer completamente, de que sou o único homem que desejará ou precisará em toda sua vida.

- Minha vida pode ser bastante longa. - Assinalou ela como lembrete.

- Sempre será meu primeiro dever na vida assegurar sua segurança todo o tempo, minha cara. Quero que vivas comigo muito tempo.

Ela voltou-se para ele, seu corpo pressionou o dele, seus braços deslizaram para seu pescoço.

- Quando tempo é "muito tempo"? - Murmurou, seus dentes lhe mordiscavam a forte linha do queixo.

Os braços dele a rodearam com firmeza enquanto a alegria deslizava por sua alma e uma gigantesca onda de desejo o consumia. Julian inclinou a cabeça para encontrar sua boca. A suave perfeição. Fogo aveludado deslizando-se sobre ele, através dele, eletricidade arqueando-se entre eles, fazendo com que as chamas dançassem sobre suas peles e através de seus corpos. Um grunhido baixo escapou de sua garganta, um suave som de posse. Desari respondeu aproximando-se mais dele, moldando sua pequena forma com a dele.

Um som os interrompeu. Foi apenas o roçar de uma folha, mas suficiente para provocar um gemido frustrado em Julian. Apoiou a testa contra a dela.

- Esta familia me vai colocar louco. Não temos privacidade, piccola, para nada.

Ela riu brandamente com a mesma frustração.

- Eu sei, Julian. Mas é um dos pequenos sacrifícios que temos que aguentar por cuidar uns dos outros. Ajudamo-nos em qualquer crise.

- E quem vai ajudar a mim a atravessar a minha? Acredite-me, cara, definitivamente estou sofrendo uma crise. Preciso de você, antes de começar enlouquecer.

- Eu sei, Acontece o mesmo comigo. - Sussurrou ela, com os lábios contra a boca dele, tentando. Havia dor em sua voz, em resposta à dor dele. - Teremos nosso momento.

- Terá que ser logo. - Grunhiu ele, falando sério. Havia uma gargalhada oculta nela, que ele sentia em sua mente, em seu coração. Ela encontrava humor na situação embora o desejava com a mesma urgência. Julian se encontrou sonrrindo apesar das demandas de seu corpo. Havia algo contagioso na risada de Desari, tanto em sua mente ou fora dela. Era alegria. Pura e simples, alegria. Havia alegria nele agora, onde antes não havia nada.

Desari beijou seu queixo teimoso.

- Não podemos abandonar Syndil desta vez.

- É bastante difícil ajudá-la quando passa todo o tempo em forma de leopardo.

- Shh... - Alertou Desari, ficando nas pontas dos pés para lhe beijar uma sobrancelha, esfregando seu cenho franzido com a face. - Se estiver disposta só a me buscar e me falar como estávamos acostumados a fazer, então devo atendê-la.

- Bem. - Julian concordou, mesmo a contra gosto. - Mas se for esse idiota do Barack com seu olhar de cão de presa...

- Ele está me parecendo bem machista esses dias. - Assinalou Desari. - Está piorando progressivamente desde que Savon atacou Syndil. Designou-se a ser seu guarda-costas pessoal e não é muito simpático nesse papel, Julian. – Acrescentou ela. Seus olhos negros se iluminaram com uma brilhante ideia. - Possivelmente deveria lhe dizer que deixe de ser tão mandão. Ela precisa de alguém mais amável.

Julian soprou de forma nada elegante.

- Como se isso pudesse ocorrer. Nego-me absolutamente a interferir em nada que Barack tente fazer. Os homens dos Cárpatos não fazem semelhantes coisas. Acreditam que cada um deve resolver seus assuntos. Especialmente com o que pode haver com uma mulher. Agora penso que deveria partir e deixar que vocês dois tivessem um bate-papo privado.

- Covarde. - Sussurrou ela, mordiscando sua orelha. - Não vá muito longe, tenho grande necessidade de voce.

A alta e musculosa forma de Julian brilhou e se tornou transparente no ar noturno. Sorria para ela. Desari sentiu que seu coração criava asas, remontava-se, enquanto ele desaparecia, convertendo-se em parte da noite. Desari se voltou enquanto o leopardo fêmea irrompia dos arbustos, trocando de forma enquanto o fazia.

- Desari. - Disse Syndil com um fio de voz. - Vou embora. Preciso me afastar destes homens arrogantes. Não quero te deixar, mas é necessário.

Syndil estava transtornada. Desari a conhecia bem, conhecia cada matiz de sua voz. Embora, como sempre, Syndil se mostrassecalma e serena. Desari estendeu uma mão e segurou a dela.

- Nunca antes a incomodou que os homens agissem como homens das cavernas. Sempre rimos juntas de suas estupidez. Por que permite que a incomodem agora? Se Darius te incomodou, eu falarei com ele.

Syndil retirou, impacientemente, as mechas de cabelo da face.

- Não é Darius, embora ele seja bastante ruim. E Dayan, também me vigiando todo o tempo. Mas ao menos ele não diz nada que incomode. Barack, entretanto, acredita que é meu chefe. É grosseiro e abominável todo o tempo. Não quero agüentar sua arrogância nem um momento mais. – Ela abaixou a cabeça para que a sedosa cabeleira caísse a sua volta, como uma capa, escondendo sua expressão. – Ele nega que eu seja sua irmã.

Desari sentiu a dor de Syndil. Barack a tinha ferido realmente com sua negativa. Haviam sido unidos como uma família durante séculos. Como podia Barack ter dito algo tão ruima Syndil? Desari teve vontade de o agredir. Colocou um braço protetor nos ombros de Syndil.

- Não sei por que ele diria tal coisa, mas voce sabe que ele não sente. Devia estar preocupado por ti e o disse essas coisas sem pensar.

- Coisas para me castigar, porque acredita que, de alguma forma, sou responsável pelo que fez Savon. Possivelmente pensa que Darius devia me matar em vez de matar Savon. Sempre admirou Savon, você sabe. - Syndil encolheu de ombros dolorosamente, levantando o olhar para o escuro céu. - Quem sabe, fiz algo inadvertidamente que provocou Savon.

- Absolutamente! - Negou Desari inflexivelmente. - Você não acredite nisso, Syndil e tampouco ninguém de nós. Julian diz que os homens se convertem depois de muitos séculos sem encontrar sua outra metade. Disse-me que eles têm escolha. Encontrar o amanhecer ou escolher perder suas almas. Obviamente Savon escolheu o último. Não pode, de nenhuma forma, acreditar que é responsável pelo que acontece aos homens de nossa raça durante centenas, inclusive milhares de anos.

- Tratam-me de forma distinta agora, mas Barack é o pior.

- Syndil. - Disse Desari gentilmente, com voz consoladora e gentil. - Você é diferente. Todos nós somos. É uma mudança que temos que superar como qualquer outra, mas como sempre, superaremos todos juntos. Barack pode estar passando um momento difícil, ajustando-se ao que passou. Pode inclusive sentir-se responsável. Possivelmente notou que Savon se afastava de nós e não disse nada. Quem sabe? Acredito que simplesmente está tentando te proteger. Possivelmente esteja exagerando, mas pode ser que devamos lhe cortar um pouco.

As perfeitas sobrancelhas de Syndil se arquearam.

- cortar um pouco? Ele deveria cortar-se um pouco comigo. Você não nota como ele é comigo. É grosseiro e autoritário, passa-se totalmente da medida. Nem sequer Darius me fala como ele.

Desari suspirou e passou uma das mãos pelo cabelo.

- Quer que fale com ele, Syndil?

- Não acredito que seja necessário. Tirarei férias. Desta vez, seguirei meu próprio caminho durante um tempo. - A voz de Syndil era desafiante.

- Darius nunca permitirá ver você partir desprotegida. - Lembrou-lhe Desari gentilmente. - Enviará a um dos homens a cuidar de voce.

Um leopardo macho, enorme e musculoso saiu a campo aberto e saltou com casual facilidade, sobre o galho baixo de uma árvore. Olhou fixamente para duas mulheres, sem piscar. Seus flancos ondeavam enquanto respirava com firmeza. Syndil olhou para o animal. Desari sacudiu a cabeça.

- Barack, tem que deixar de empurrá-la com tanta força. Ela vai fugir se você continuar assim. Desari usou o vínculo mental comum que compartilhavam, tentado comunicar o desespero que Syndil estava sentindo.

- Ela não se irá a nenhum lugar, sem o consentimento de Darius. E se ele der, de toda forma, não haveria nenhum lugar onde ela pudesse ir que eu não a seguiria. Sua voz era arrogante.

Sem advertência, Julian brilhou tenuemente até tomar forma sólida junto a Desari, deixando cair um braço protetoramente ao redor de seus ombros. Seus olhos, de ouro fundido e cheios de ameaça, estavam fixos no leopardo sobre eles. A perturbação na mente deesari havia otrazido para seu lado. Nesse momento não havia nada de brincalhão nele, só um duro e implacável guerreiro formado por uma vida desumana.

- Não a afugente para longe de nós. - suplicou Desari. Peço-te. Seja mais amável com ela. Você não entende o que lhe aconteceu. Ela precisa de tempo para recuperar-se.

- Entendo muito mais do que acredita, Desari. Ela já não vive. Simplesmente existe. Não posso permitir que isto continue. - Barack soava frio e distante.

Os olhos escuros de Desari encheram de lágrimas. Ela enterrou a cabeça no ombro de Julian.

- Por favor, Syndil, não me deixe. Agora não. Preciso de você aqui comigo. Tudo é tão diferente.

Syndil reagiu e tocou sua mão.

- Se for assim, então não conseguirá me afastar de minha própria família. Sou o suficientemente forte para enfrentar ele. – Ela olhou para o leopardo, que lhe devolveu o olhar sem pestanejar. Em seguida, saudando Julian com a cabeça, afastou-se deles, desaparecendo entre as árvores. O leopardo saltou do ramo sem fazer ruído e saiu tranqüilamente atrás dela.

Desari levantou o olhar para o Julian.

- Sabe que me intimida, você poder chegar quando quer? O que acreditava que Barack faria?

Ele encolheu os ombros, com sua graça casual.

- Não importa, cara. Eu não gosto da forma em que ele falou com você. Estes homens parecem pensar que têm direito de interferir na vida das mulheres. Só seu irmão, como líder reconhecido, tem direito e dever. Os outros não podem fazer mais que as proteger, como Barack tentou fazer com Syndil. Ele não pode te exortar. É minha companheira e responde só a mim e ao Príncipe de nossa gente. Em seu caso, possivelmente também ante Darius. Mas não ante Dayan. Nem Barack. Só ante o líder e seu companheiro.

Os olhos escuros dela flamejaram.

- Então tenho que responder ante voce? - Sua voz foi mais suave que o normal. Um vulcão esperando entrar em erupção.

Julian esfregou a ponta do nariz dela, tentando não permitir que o sorriso que crepitava em seu coração, se mostrasse em sua mente e sua face.

- Tanto como eu tenho que responder a você, minha companheira. E ante o Príncipe de nossa gente.

Ela estudou a beleza de sua face durante um longo tempo. Ele fazia graça com sua explosão de feminismo, podia notar, embora sabiamente tratava de encobrir. Embora apreciasse que Julian se importasse em tentar colocá-los no mesmo nível. Qualquer que fossem as regras, que ele achava necessárias para sua companheira, tentava ser justo para colocar-se no mesmo lugar. Julian era em certas coisas, um chouvinista, como quase todos os homens que conhecia, embora ele tentasse igualar sua relação. Ela segurou-lhe do braço e deslizou a mão para seu cotovelo.

- Acredito seriamente que estou começando a me apaixonar por voce.

Seu sorriso foi pura arrogância masculina. – Você está louca de amor por mim. Enfrente, minha cara. Você sabe que não pode resistir a mim.

O pequeno punho esmurrou seu peito.

- Ocasionalmente acredito que devo estar louca para te agüentar. "Louca de amor" não é a forma em que o expressaria.

O braço dele rodeou sua cintura.

- Não pensei, piccola, que fosse tão teimosa. - Julian inclinou a cabeça para colocar-se na curva do pescoço dela. Adorava sua essência. Cheirava a tentação. Sob sua boca errante e a língua acariciante, sentiu a corrente de vida que pulsava em suas veias. O chamando.

Deliberadamente esfregou o nariz contra seu pescoço, seus dentes rasparam a delicada pele, uma tentação que enviou arrepios por sua espinha e causou um tremor dentro dela.

Desari se aproximou mais a ele, sua pele pressionando-o incitadamente. – Podemos ficar sozinhos... - Seu sorriso foi francamente sexy, sua voz, um convite .

Os braços de Julian a sustentava cuidadosamente para que ela pudesse sentir o poder de seus braços, mas sabendo que ele a protegeria.

Desari adorava como ele a fazia sentir tão feminina, valiosa e apreciada, enquanto não tomava nada dela.

- Por que te desejo tanto? - Sussurrou contra seu ouvido. - Por que me sinto ardente por uma necessidade que é muito mais que desejo?

A risada dele foi toda satisfação.

- Porque sou incrivelmente sexy. – Ele estava-se elevando da terra levando-a com ele enquanto a sua volta a noite os envolvia com braços amorosos. O vento soprou roçando a face de Desari e ela a escondeu contra o peito dele, com os braços enroscados em seu pescoço.

- Pode ser que seja verdade, arrogante. - Concedeu ela com um suave ronronar que converteu seu íntimo em lava fundida. - É mais que isso. Minha pele não pode suportar estar longe da tua. Minha mente procura a tua. Meu coração também. Por dentro, anseio por nossa união. Cresce mais forte a cada momento. Por que?

- Somos companheiros. - Respondeu ele seriamente. Suas mãos começaram uma lenta exploração das costas dela, enquanto flutuavam no ar. - Conhece esta regiaão melhor que eu, mostre uma imagem que nos guie aonde não possamos ser incomodados.

Houve um tom de gravidade em sua voz que fez seu coração sobressaltar no peito, como se também ele estivesse impaciente por sua união, que não podia esperar muito mais.

Automaticamente, recorreu a suas lembranças de seus lugares de descanso nas profundezas das montanhas.

- Os companheiros são tão unidos, cara, que devem compartilhar seus corpos e mentes com freqüência. É necessário, quando nossas almas e corações estão tão conectados. As duas metades devem estar juntas com freqüência ou as demandas se tornam tão grandes que são incontroláveis. -   Julian havia recolhido a informação que necessitava, da mente dela, e já descia ao topo da montanha, passando através de uma estreita fenda apenas vista de acima.

O alívio de ambos foi tremendo. Viver com sua família era parte de Desari como respirar, mas à vontade de estar a sós com Julian eram imensas. Levantou a cabeça antes que começassem a desceer através da passagem que se afundava com as regiões internas do adormecido vulcão. Seu mundo. Sua casa.

Sua boca encontrou a dele cegamente. As roupas simplesmente desapareceram, o redemoinho completamente desenfreado de seus corpos continuou voando através do canal. Uma das mãos de Julian se moveu para segurar o traseiro dela, urgindo seu corpo para o dele.

Desari sorriu, quase sem respiração. O calor do interior da montanha se misturava com o fogo que ardia em seu corpo. Desejava-o, enquanto se moviam através do ar em um lânguido passeio.

- Não podemos fazer isto, verdade? - Perguntou-lhe ela, sua língua acariciou o pulso do pescoço dele. Todo o corpo se enrijeceu em reação. O roçar erótico de seus dentes acrescentados à tentação de sua pele nua contra ele. Os seios cheios, doloridos pela necessidade, empurravam tentadoramente o peito dele e ela se pressionava ardente contra seu abdômen.

Julian gemeu em voz alta e suas mãos a levantaram sobre a grossa evidência de seu desejo.

- Desari, agora mesmo. – Ele sussurrou roucamente, enquanto começava a baixá-la sobre ele, penetrando-lhe como se o pequeno e apertado sexo fosse uma luva de veludo. - Não me tente, minha cara. Deixe-me sentir meu sangue em seu interior, enquanto tomo o que tão desesperadamente preciso.

Seu poder sobre ele era assustador. Possuía este homem dos Cárpatos, com sua enorme força, com todas as suas capacidades e habilidades, completamente apaixonado por ela. Lambeu gentilmente seu ombro, desenhando um rastro de fogo sobre os músculos de seu pescoço para encontrar a pulsação forte e firme. Ele gemeu. Um gemido que saiu das profundezas de sua garganta enquanto ela deixava que os dentes se introduzissem em sua pele.

- Desari! - Seu nome foi uma súplica de piedade.

Moviam-se pausadamente. Desari era apenas consciente que estavam ainda flutuando através da passagem da fenda. Podia sentir o membro dele invadindo o sexo dela, com deliciosa lentidão. Julian sentia o apertado sexo se ajustando a ele, apertando-o com músculos fortes, fazendo ele rilhar os dentes para manter o vestígio de controle. Então os dentes dela afundaram em seu pescoço. Um golpe de relâmpago azul cruzou velozmente seu corpo, estrelando em seu interior com tanto êxtase, que não se conteve. Introduzir-se nela com fortes e seguras estocadas, penetrando-a decisivamente, Queria entrar na mente dela e compartilhar seus eróticos pensamentos, suas emoções e o puro e apaixonado prazer que seu corpo estava proporcionando. Sentiu a alegria dela, sem censura. Alegria por compartilhar suas mentes e corações, seus corpos e almas, na especiaria do sangue que fluía como o mais fino dos vinhos dentro dela. O cabelo de Desari caía em volta deles como uma cascata ébano, roçando suas peles sensíveis como dedos acariciantes. Sabia que ela o queria selvagem e indomável. Uma erótica amostra de animal e homem. Julian podia saborear a mesma essência de vida através dela. Revoavam no ar, enquanto Julian mergulhava dentro dela, sujeitando seu corpo exatamente onde queria. Exatamente onde precisava que estivesse para que a sensação crescesse mais e ferozmente que se tornasse quase ao ponto da dor.

Desari fechou as diminutas feridas do peito dele com um lento e preguiçoso toque, claramente feito para o conduzir à loucura. Jogou a cabeça para trás, expondo a garganta, num claro convite para ele. Seus braços o rodearam e ela começou a mover os quadris, implacavelmente, da mesma forma que ele fazia.

Ela estava formosa. Seus olhos escuros o olhavam com paixão e sua boca era uma tentação exuberante, impossível de ignorar.

Os lábios de Julian vagaram pela acetinada pele, entre os suaves seios. Seu fôlego ficou preso na garganta dela, ofegando de prazer. Um pequeno som escapou num grito de desejo. Desari se arqueou para ele, enquanto seu quadril igualava o frenético ritmo. Desejava que o látego do relâmpago a atravessasse, fazendo-a arder em chamas. A língua de Julian acariciava a pele, a curva de seus seios. Seus dentes atormentavam um mamilo ereto enquanto seu corpo a reclamava com uma fera. Adorava a possessividade com que ele a amava.

- Julian. - Sussurrou Desari em meio da agonia da antecipação. Era a pura tentação de uma sereia. Sua melodiosa voz enviava estremecimentos de prazer em todo seu corpo - Posso arder antes que terminemos.

Julian a respondeu, como só um companheiro podia, sabia. Afundando os dentes na pulsação freneticamente sobre seu seio. Ela gritou e se segurou nele com força enquanto o calor se abria em sua pele. Os movimentos dele eram ferozes e suas mãos a sustentavam imóvel enquanto se afundava profundamente. A sensação de seu corpo enroscando-se nele, sendo tomado, como desejava a tirou do eixo. Só existia sensação, só o prazer, só o erótico sabor deles. Uma pele, um coração e uma alma. Sobrevoavam juntos o tempo e o espaço, e seguiriam por toda a eternidade.

Como a amava! Como precisava dela! Desari o fizera voltar a viver. Ele podia acreditar que sua felicidade duraria, mesmo com a ameaça do vampiro. Sentia que a qualquer momento, ela poderia escapar entre os dedos. E sabia também que se tornaria perigoso. Mais do já havia sido.

Saboreou seu sabor, a combinação de suas essências, estava os conduzindo ao êxtase. Podia senti-la pronta. Os músculos aveludados apertavam com força, seu sexo latejante, enquanto ela gemia alto. A intensidade do clímax compartilhado os lançou através do passadiço, sobre as colinas e as barreiras do tempo e do espaço.

Desari pegou-se a ele enquanto se entregava ao festim, enquanto o corpo másculo permanecia fixo ao dela.

O suave suspiro de total aceitação de Desari o tirou de seu estupor, onde só havia prazer, só sensações fora de controle. Esse suspiro o trouxe de volta. A cabeça de Desari se apoiava em seu ombro. Parecia pálida além do normal, sua pele quase translúcida.

Julian amaldiçoou-se enquanto fechava impacientemente as pequenas feridas do seio dela. Jogou o cabelo dela para trás, expondo a face translúcida.

- Desari. Olhe-me, piccola. Abra os olhos. - Foi claramente uma ordem, com uma voz cheia de compulsão, cheia de nua preocupação.

Ela sorriu adormecida, apoiando-se nele para que suportasse seu peso.

- Deve se alimentar, cara. Tirei muito sangue de você, em minha fome insaciável. É imperdoável que não tenha tido cuidado em meio da névoa de paixão. Não tenho desculpa, meu amor, mas perdoe-me. Beba. – Ele pressionou-lhe a boca contra seu peito nu. A cabeça de Desari não se mantinha sobre o pescoço. Murmurou algo ininteligível, um murmúrio de amor. Julian os levou até terra e gentilmente desenlaçou seus corpos. O protesto dela não foi mais que um leve cenho franzido que cruzou suas escuras sobrancelhas, uma débil retorcida de seus lábios, mais que algo verbal. Julian se amaldiçoou e a sua absoluta falta de controle. Não havia censura na mente dela ou em seu coração. Aceitava o lado animal de sua natureza tanto como o lado Cárpato. Ele havia tomado muito mais sangue do que devia, indulgente em sua paixão, com o preço que pagaria a fortaleza dela. Julian a embalou entre os fortes braços, deixando um beijo em sua boca.     - Ouça-me, piccola. Por Deus, amor de minha vida. Tomei muito de voce. Deve substituir. Tome o que te dou, com amor.

Desta vez não foi uma súplica. Foi uma forte e deliberada ordem, uma compulsão enviada por um homem de sua espécie com tremendos poderes. Não pensou, simplesmente deu a ordem para assegurar a saúde e segurança dela. Julian abriu um corte nos músculos do peito e pressionou a boca dela firmemente para ele.

Estava zangado consigo mesmo, zangado por ter sido tão egoísta em sua paixão. Tinha passado tanto tempo entre animais, que havia esquecido como devia comportar um homem? Era mais uma fera que um ser civilizado. Suas recém encontradas emoções eram muito difíceis de dirigir, que o mais poderoso dos não-mortos que havia vencido. As regras de uma batalha eram sempre claras para ele, agora suas emoções se entremetiam para fazer pó de seu controle. Não desejava ferir os sentimentos dela ou se fazer equivocado, que pudesse fazer que pensasse mal dele. Constantemente se encontrava em guerra com seus próprios instintos. Desejava levar-lhe embora e mantê-la a salvo todo o tempo e para toda a eternidade.

Julian descansou a cabeça sobre a dela.

- Parece que preciso te manter a salvo de seu próprio companheiro. – Gemeu ele, cheio de preocupação.

Desari se moveu inquieta entre seus braços enquanto se alimentava sob sua hipnótica ordem. Profundamente imersa nos efeitos da compulsão sentia a ferocidade da fúria dele contra si mesmo pelo que considerava sua abusiva natureza. Enviou-lhe seu mais quente amor. Projetou um amável sorriso formando-se em sua mente para compartilhar com ele, com os profundos sentimentos que já tinha desenvolvido por ele.

Foi assombroso para Julian, que ela já fosse tão parte dele, que pudesse sentir a profundidade de sua raiva e procurar como o consolar.

E de algum modo ela conseguira. Estava-se acalmando e aceitando sua natureza. Era o que era. Tentaria, mas sentia que nunca poderia mudar. Nem sequer estava seguro de querer, se pudesse. Desari tinha visto suas qualidades e a permitiu que o visse através de seus olhos. Era outro presente majestoso que ela oferecia, e ele o entesouraria para sempre. Estava compreendendo rapidamente por que os homens de sua raça necessitavam tão desesperadamente do equilíbrio que proporcionava uma companheira. Suas mulheres traziam luz e compaixão para a escuridão interior.

Julian levantou a cabeça e a estudou cuidadosamente, procurando em sua face, sinais de recuperação. A cor corria sob sua pele, uma coloração saudável. Com um suspiro, permitiu-a despertar lentamente. Seus braços a embalaram protetoramente.

- Sinto muito, cara. Deveria haver me contido ao te possuir.

A mão dela lhe roçou a garganta, enviando um calor que o percorreu inteiro, uma sensação de amorosa aceitação. Seu sorriso encolhia o coração.

- És meu amor, Julian. Nunca me faria mal. Sei com tanta segurança como sei que eu seria incapaz de fazer mal a voce. Ela estava satisfeita.

Ele acariciou o cabelo negro, com olhos de ouro fundido.

- Quero algo mais que te dar e agradar, meu amor. Quero compartilhar algo formoso além do imaginável e isso não posso fazer se não controlar meu desejo por voce. - Sua expressão era imensamente terna enquanto estudava sua face.

Desari não pôde respirar durante um momento. Julian Savage era um homem formoso entre os de sua espécie, mas sempre parecia remoto e bastante duro. Não podia acreditar que estivesse vendo agora, tanta ternura nas profundezas de seus olhos, na curva de sua boca, no toque de suas mãos.

- Acredita que o trocaria por alguém mais gentil? - Perguntou ela, muito tranquila.

Os olhos dele se fecharam durante um momento para esconder a dor que aquelas palavras causavam.

- Você não pode escolher quem é seu companheiro, nós dois sabemos, Desari. Se tivesse escolher, possivelmente seria alguém muito diferente de mim.

O sorriso dela roubou seu ar.

- Acredito em Deus, Julian. Sempre acreditei. Vivendo durante séculos como fazemos nós, fui testemunha de muitas maravilhas, coisas milagrosas que são obra dele. Acredito que você e eu fomos criados como duas metades. Não tinha idéia disto até que o conheci, mas agora estou convencida. Nunca iria querer outro, nunca me encaixaria com outro. Posso sentir que estamos bem juntos, e não acredito que Deus unisse duas criaturas que não se igualariam uma à outra. – Ele esfregou-se na face dele. - Acho seu entusiasmo por mim muito sexy, Julian. Adoro o jeito que me ama. Pode me desejar assim sempre que querer. - Seu sorriso foi à tentação urgente de uma sereia.

Sem esforço algum, ele a trocou de posição entre seus braços para poder pressioná-la contra seu coração. Encontrou-se respirando novamente, após conter o fôlego.

- Não quero nunca estar sem voce, Desari. - Admitiu ele, com ternura. As palavras saíram rasgando seu coração. Sentiu-as sair de seu corpo. Sentiu a verdade nelas.

Desari apertou os braços em volta dele, encantada de sentir o longo cabelo dele contra sua pele.

- Não espero que permita nos separmos. Conto com isso, companheiro. Agora, nos encontre um lugar para descansar esta noite. Amanhã viajaremos ao Konocti, no ônibus, com os outros. Eles permanecerão no acampamento que estabelecemos esta noite. - Uma débil careta curvou sua boca. - Quer dizer, se o ônibus funcionar. É uma vergonha que nenhum de nós tenha habilidades mecânicas. Tentei ler o manual de proprietário e o achei muito dofícil.

- Não necessitamos habilidades mecânicas. - Lembrou-lhe Julian, enquanto dava a volta, levando-a com ele como se seu peso não fosse mais que uma pluma. - Temos outras formas de viajar, com nosso próprio poder.

- Se queremos nos misturar ao resto do mundo. - Assinalou ela. – Temos que viajar em máquinas dos mortais.

- É muito mais rápido viajar de nosso modo, através de tempo e do espaço.

Ela sorriu. Julian soube o que significava a alegria. Era a risada de uma mulher, era seu o sorriso e o brilho de seus olhos.

- É certamente menos frustrante, convocar o vento e ir aonde desejamos sem seguir essas intermináveis linhas das estradas. - Concordou ela.

Julian tomou o túnel de entrada da direita, tirando as instruções da mente dela. O caminho se abria quase imediatamente a uma ampla câmara. Ele ondeou uma mão para abrir a terra.

- O amanhecer chegou, cara e passaria mais tempo me divertindo em sua companhia, mas tem que atuar diante de muita gente e está cansada.

- Não importa, Julian. - Disse-lhe ela. - Eu gosto, aliás, adoro a forma que passa seus momentos comigo. – Desari pressionou-se mais perto. Seus seios nus contra o peito dele. A resposta foi um beijo lento e terno, uma gentil exploração.

- Esta é minha única razão de existir. Seu bem-estar acima de tudo, inclusive de nosso prazer. Na próxima noite teremos mais tempo para passarmos juntos. Este amanhecer devemos descansar.

Ela tentou manter a diversão se separada de sua mente. Era tão positivo para ele dar uma ordem.

- É obvio, Julian. - Murmurou suavemente. Seu corpo moveu inquieto contra o dele, seus seios se apertaram contra ele. - Se seu disser que não podemos, então devo estar de acordo contigo, mas lamento ouvir isso. - Suas mãos se moviam sobre o traseiro de Julian, seus dedos desenhavam os músculos torneados. Os dedos moveram para os quadris dele, acariciando as coxas, abrindo-se passo para encontrar o sexo já enrijecido. - Farei o que diz, companheiro, se isso te agradar. - Sua boca desceu pela garganta e pelo peito dele, seguindo o caminho de cabelo dourado até os tensos músculos do estômago.

Sob os dedos acariciantes, o corpo dele endureceu em resposta, e o fôlego pareceu o abandonar de repente.

- Deliberadamente, está pondo a prova, minha resolução, piccola, e estou fracassando miseravelmente.

- Isso é exatamente o que quero ouvir. - Respondeu ela complacente, com a cabeça já ocupada em assuntos muitos mais interessantes.

 

O ônibus claudicava, o motor cuspia e tossia, com dificuldade a cada milha que passava, deixando finos rastros de fumaça escura. O ar dentro do veículo pareceu espessar-se, tornando difícil de respirar. Os dois leopardos grunhiam inquietos e a ponta de suas caudas se retorcia em protesto.

Toda esta experiência estava tornando Julian precavido. Sentia-se inquieto pela proximidade de tanta gente de sua raça. Os leopardos tinham que ser vigiados e controlados. Eram de temperamento rápido e inconstante e mesmo entre os Cárpatos eram capazes de fazer um grande dano se os irritassem pelo confinado espaço. Julian sentia uma perturbação na balança de poder que o rodeava e sabia que os outros homens também eram conscientes deles. Reduzidos dimensões do ônibus, produziam a sensação de estarem presos, embora pudesse se dissolver facilmente em moléculas e flutuar através da janela aberta se desejasse. A inquietação dos homens estava afetando os animais, tornando difícil controlar suas naturezas selvagens. Darius havia esbanjado uma preciosa energia mantendo os felinos. Julian sacudiu a cabeça ante a loucura da forma de viver desta familia.

Desari tamborilava impaciente com os dedos sobre o respaldo de seu assento, desejando chutar seu irmão. O ambiente do interior do ônibus era de intensa frustração. Darius tinha insistido em que viajassem todos juntos, deixando os outros veículos no acampamento. Era incômodo dizer algo. Ela queria estar a sós com Julian e sabia que ele não estava acostumado a estar confinado em companhia de outros. Ele devia estar odiando tudo.

Darius olhou a sua irmã só uma vez, seus olhos negros estavam vazios.

- Não tenho que dar explicações. - Recordou-lhe tranqüilamente. Não o importava a perturbação que flutuava no ar. Um homem de sua raça estava perto, mas era um que fazia a longo tempo havia escolhido renunciar à honra, a sua própria alma, por uns poucos momentos de intensidade durante o assassinato. Darius sabia também que o inimigo estava muito perto para evitar uma confrontação e as mulheres eram o objetivo. Todos eles sabiam. Desari também precisava de mais tempo para estar a sós com Julian. O casal precisava de espaço para se conhecer melhor. Darius vigiava Julian de perto. Respeitava o companheiro de sua irmã, sua força casual, a forma em que parecia manter Desari feliz a custa de sua própria comodidade.

O grupo tinha passado bastante tempo tentando a difícil tarefa de remendar seus cambaleantes veículos outra vez a fim de dispor de um pouco de tempo para chegar ao Konocti para o próximo concerto. Darius gostava de chegar no lugar do concerto, um dia antes de tempo, para explorar os arredores e assegurar-se de que a segurança era a adequada. O equilibro de poder tinha sido destruído e o ar gemia por causa da presença do mal. Todos podiam cheirá-lo no odor de um fogo recente. A fumaça e o aroma estavam presos no lugar, pela ausência da brisa. Desta vez, ao menos, estariam num território familiar.

Konocti era o lugar de atuação favorito de Desari. Era um espaço pequeno e mais pessoal que os enormes estádios que normalmente cantava. Desari também gostava da área, formada por vulcões que escondiam atoleiros fumegantes e reluzentes diamantes pulverizados aqui e ali. Há muito tempo haviam estabelecido vários refúgios para cada um deles e podiam ter uma semelhança de privacidade frente aos outros.

- Pare o ônibus, Dayan!

Syndil gritou de repente, com urgência na voz. - Toma a pequena estrada.

- Não temos toda à noite. - Grunhiu Barack sem levantar o olhar. - temos que nos encontrar com o pessoal da segurança, e, como sempre, chegamos tarde. Dayan siga em frente.

A esbelta forma de Syndil começou a brilhar. Desari ofegou ante a ação. Syndil raramente desafiava os homens, mesmo assim, estava dissolvendo na névoa, decidida a filtrar-se através da janela aberta até o escuro céu.

Barack estendeu a mão casualmente. Uma ação enganosamente preguiçosa, quando na realidade era um borrão de velocidade. Capturou o comprido cabelo de Syndil antes que esta pudesse desaparecer completamente.

- Não acredito, Syndil. Não exploraste ou haveria sentido os espaços em branco na escuridão que só podem significar uma coisa. Há perigo muito perto de nós.

Um pequeno som escapou da garganta de Syndil enquanto reaparecia em sua forma sólida.

- Não ouve o choro da terra me chamando? Não posso fazer outra coisa que responder. - Replicou ela brandamente. - Os espaços em branco não significam nada para mim. O perigo não significa nada quando a terra me chama. Essas coisas são para voce e os outros homens.

Barack enrolou o cabelo sedoso ao redor de sua mão.

- Eu só sei que estas se colocando em perigo e não estou seguro de se meu coração pode suportar duas vezes em duas noites consecutivas.

- Em minha cabeça ouço o lamento da terra ferida, as árvores queimadas. Não posso continuar sem ajudar o que está morrendo. Devo ir. - Disse Syndil. - É o que sou, Barack. - Pouco importava para ela o que dissessem outros, desta vez. Devia curar a terra quando estava clamando de dor por ela.

Dayan suspirou brandamente, um pouco impotentemente e, com óbvia relutância, acessou a sua demanda. Lentamente girou o volante do ônibus, para entrar na poeirenta estrada que conduzia ao interior das montanhas. Parecia ser um velho caminho florestal. Barack estava tranqüilamente sentado, não voltou a protestar, mas não soltou o cabelo de Syndil, assegurando-se de que ela não correria diretamente a se envolver em problemas. O ônibus chegou a curva, e Desari contemplou com horror a vista. O lado oeste da montanha era uma ruína enegrecida. Dayan desacelerou lentamente o ônibus junto à estrada e começou a detê-lo completamente. Não teve mais escolha. Syndil se tinha posto em pé, ignorando a mão inibidora de Barack. O homem dos Cárpatos suspirou e se levantou com ela, relutantemente permitiu que o cabelo deslizasse de sua mão. Desari observou Syndil empurrar a porta de ônibus para abri-la. Sua face refletia a mesma profunda pena que Desari tinha presenciado cada vez que Syndil encontrava a terra machucada.

Julian ficou em pé, com o cenho franzido. Não gostava dos espaços em branco na zona que os rodeava. Olhou cada um dos homens, ultrajado por ele permitirem que uma de suas preciosas mulheres se colocasse em campo aberto quando estava tão claramente ameaçada. Desari o tocou ligeiramente, numa advertência de que ficasse calado. Ele desviou o olhar para pequena mão que retinha Darius. Como sempre, a expressão do homem era impossível de ler. Darius estava procurando fora de si mesmo, obviamente procurando algo que pudesse ameaçar a sua família. Estava aí fora. Ele sentia-o. Todos os homens o sentiam, embora nenhum deles parecia querer deter Syndil.

Barack tomou a iniciativa, como sempre fazia ultimamente, em tudo o que concernia a Syndil. Encolheu os ombros, com sua fácil e fluída graça e eloqüentemente passeou descuidadamente atrás dela. Ela já se movia através do retorcido e chamuscado chão, suas mãos ondeavam em um estranho, mas fascinante padrão no ar imóvel. Olhou sobre o ombro para Barack, com um leve franzir do rosto.

-Ouve isso, Barack? A terra está gritando de dor. Este fogo foi aceso deliberadamente por alguém perverso. - A voz de Syndil era suave e gentil, um simples sussurro, embora todos eles, com seu fino ouvido, puderam entendê-la claramente.

- Malvado como... - Advertiu-a Barack.

- Não um pirómano. Nem tampouco um humano. – Ela já havia voltado sua atenção para as árvores e a terra enegrecida, descartando a fonte como um pouco importante para ela. Se os homens desejavam tratar com tão terrível ser, esse era seu direito e privilégio. Ela era da terra, era parte dela, como certamente a terra era parte de Syndil. Amava a terra, as árvores e as montanhas. Toda a natureza cantava para ela, envolvendo-a em seus amorosos braços. Era tão necessário para ela como respirar. Ninguém podia ter evitado, que ela fosse ajudar a sua amada terra.

Julian a observou inclinar-se e tocar emocionada o terreno chamuscado, com dedos acariciantes. Juraria que a terra se moveu ao redor e sobre a mão, desejando o contato com ela. Encontrou-se contendo o fôlego, surpreso pelo que estava presenciando. Enquanto o dom de Desari era sua voz, o de Syndil evidentemente era muito diferente. Tinha uma profunda afinidade com a terra. Ela podia curar o que estava doente, prejudicado. Julian se dirigiu para a porta do ônibus e observou a reverência com que as pequenas mãos se enterravam profundamente na terra enegrecida, ondeando o mesmo formoso e intrincado padrão sob a terra, de forma que sobre o chão, a terra se ondeou e começou a formar uma espiral que se ampliava mais e mais.

Julian saiu do ônibus e se colocou a um lado, cuidando de permanecer fora do caminho de Syndil. Desari enlaçou seus dedos firmemente com os de seu companheiro. Darius e Dayan estava se desdobrando, como sempre faziam, guardando o perímetro, com a atenção posta nos céus sobre eles e as árvores que os rodeavam. Algo estava ali fora, algo que havia colocado uma armadilha para eles. Algo malvado que sabia que Syndil não seria capaz de resistir ao uivo da terra.

Uma parte de Julian não podia deixar de proteger Desari dos outros homens, sequer por um momento. Assim permaneceu a seu lado e simplesmente observou Syndil, fascinado pelo círculo em espiral de riqueza que se estendia e crescia. A cor do chão estava começando a mudar lentamente para um rico, fértil e profundo negro em vez do chamuscado cinza que estava antes. Ele foi consciente de que Syndil cantarolava na língua ancestral. Eram melodiosas e formosas palavras. Uma ode a terra, a essência da terra. Ele entendia a língua ancestral e pensava que havia ouvido cada poema, cada poesia lírica, que sabia cada arte curadora. Este canto era completamente novo para ele. Interpretou facilmente as palavras, misteriosamente consoladoras, embora alegres. Falavam de renascimento, de verdor, e de brilho intenso, de chuva prateada. De árvores altas e exuberante vegetação. Encontrou-se sorrindo sem razão. Syndil nunca lhe tinha parecido tão formosa. Ela brilhava. Raios de luz a rodeavam por toda parte. Desari lhe deslizou um braço ao redor de sua cintura.

- Não é amorosa? Magnífica. Syndil pode curar as piores cicatrizes da terra. Tudo cresce para ela. Fico tão orgulhosa de suas habilidades quando a vejo assim. Tudo na natureza a responde. Embora possa ser duro para ela, tomar a dor do que destruiu o bosque, a terra.

- Nossas mulheres são autênticos milagres. - Disse Julian brandamente, mais para si mesmo que para ela. Nenhum dos seus sabia disto. Nenhum só dos homens dos Cárpatos conhecia uma mulher, suficientemente antiga, para ter dons semelhantes aos que Desari e Syndil desdobravam. As mulheres que restaram eram milagrosas pela luz e compaixão que traziam para a escuridão do homem, mas eram muito jovens, simples principiantes, para ter desenvolvido seus próprios poderes.

Baixou a vista para Desari. A olhava com inconfundível amor brilhando em seus olhos. Seu coração pareceu deter-se. A respiração parou em seus pulmões. Era formosa, além ter sido testemunha em seus séculos de vida. Quando ela o olhava assim, sentia algo próximo ao terror, algo que nunca tinha experimentado antes. Havia enfrentado experiências com vampiros numerosas vezes, tinha lutado em guerras, havia sofrido graves feridas e de algum modo sobrevivido, embora nunca havia sentido um temor como o atual. Agora nunca parecia o abandonar.

O último amanhecer havia estado perto e esta noite estava mais. Era o preço que devia pagar pela felicidade: o terror a perdê-la.

- As mulheres deveriam ser guardadas sob chave e fora da vista. - Grunhiu, sentindo-se pela metade.

Desari acariciou seu braço, num gesto tranqüilizador.

- Sobrevivi muitos séculos, Julian, e pretendo sobreviver muitos mais. Não posso imaginar por que estaria em maior perigo agora que me uni a você, que quando meu irmão era meu guardião e o de Syndil. Estou mais protegida que antes.

O semblante de Julian enrijeceu, sua face ficou súbitamente sem expressão, mas os olhos lhe encheram de dor. Ele a colocava em perigo. Ele estava marcado e ambos sabiam.

- Isso não troca o fato de que preferiria que estivesse a salvo todo o tempo. - Disse Julian resmungando. Trocou de posição sutilmente, automaticamente, sem pensar, seu corpo se aproximou de Desari defendendo-a. Seus olhos exploraram o céu.

- Darius. – Ele enviou a chamada pelo vínculo mental que estava se convertendo algo familiar.

- Estou consciente disso. - A resposta de Darius foi tranqüila e serena, como se tivesse todo o tempo do mundo e não fossem sofrer um ataque a qualquer momento. – Pegue Desari e a coloque a salvo.

- Voltarei logo que saiba que está fora de perigo.

- Ficará com ela e a protegerá se eu fracassar. Dayan e Barack terão a mesma obrigação com Syndil.

Julian tomou o braço de Desari.

- Vamos, cara, temos que partir agora.

Desari olhou os duros traços cinzelados da face inexpressiva de seu irmão.

- O não-morto se aproxima. - Disse.

Julian assentiu. Estava observando Barack, que agora se colocava em posição para proteger Syndil. Dayan se moveu para flanqueá-la. Surpreendeu-lhe que não se limitassem a levantá-la nos braços e levar-lhe Syndil parecia despistada, totalmente concentrada.

- Deveriam tirá-la daqui. - Disse ele em voz alta. A desaprovação era patente em sua voz. Achava importante para ele, proteger a sua companheira, esmagado pela primeira vez. Era parte de uma família e não queria deixar os outros desprotegidos.

- Ela já não está em seu corpo, Julian. - Disse Desari brandamente. - Está voando livre, movendo-se através da terra para curar o que foi destruído. Onde há ruínas enegrecidas fará brotar pequenas sementes de vida. Crescerão exuberantes e altas e se estenderá rapidamente por esta zona. As árvores brotarão e serão fortes. As criaturas selvagens ajudarão na recuperação, concorrendo a este lugar, para contribuir com vida. Os homens não podem incomodá-la enquanto esteja fora de seu corpo.

Julian deixou escapar o fôlego lentamente num assobio de irritação. Seu primeiro pensamento tinha sido ocupar-se da segurança de Desari como Darius tinha ordenado, mas ia contra seus instintos deixar Syndil exposta.

- Isto é uma armadilha, Desari. Foi colocada de propósito e para ela. Uma isca só para atraí-la. Ele está tentando utilizar suas habilidades contra ela.

- Como sabe?

- Vi armadilhas similares, desenhadas para espreitar certo indivíduo, em particular. Tentará tomá-la sem seu corpo para que não possamos a segurar sem evitar que ela morra. Não podemos deixá-la. - Julian enviou uma advertência ao irmão dela por seu canal privado.

- Darius, isto é uma armadilha só para Syndil. Vi tais coisas antes.

- Não pode haver outra explicação. Tentei trazer Syndil de volta conosco, mas está muito tomada pela terra. Ele está a conduzindo para longe de nós rapidamente. Não havia medo em sua voz ou em sua mente, nem expressão de incredulidade.

- Julian. - Continuou Darius em voz alta. - Nunca encontrei uma armadilha igual, mas Syndil está escapando para longe de nós muito rápido.

- Barack. - Julian se manifestou imediatamente. - Você e Desari estão mais perto que ninguém, do coração de Syndil. Desari pode usar sua voz para sujeitar Syndil a nós. Você deve ir atrás dela e encontrá-la. Provavelmente vai ser difícil, pois ela estará desorientada, ainda na terra e meio hipnotizada pela armadilha em que está presa. Darius, Dayan e eu iremos depois do não-morto. É muito habilidoso. Vamos tomar cuidado, este é dos fortes. Não será um adversário fácil.

Barack olhou para Darius procurando confirmação. O líder simplesmente assentiu com a cabeça. Pouco acostumado à técnica que o vampiro estava usando, não ia passar por cima de qualquer conselho perito que o fosse devotado.

- Está seguro de poder rastrear Syndil enquanto ela está fora de seu corpo? - Perguntou Julian a Barack, sem inflexão na voz. Não tinha intenção de ofender Barack, mas não conhecia bem a nenhum deles para saber de suas habilidades. Darius era o único homem do grupo no qual possuía fé absoluta. O líder era capaz de derrotar a qualquer oponente e certamente poderia rastrear a um membro de sua família saindo de seu próprio corpo.

- Posso encontrar Syndil em qualquer lugar do mundo e em qualquer momento. - Respondeu Barack, em voz baixa e confiada. - E posso protegê-la.

Julian assentiu.

- Bem. - voltou-se para o Dayan e Darius, confiando em que Barack pudesse fazer o que afirmava. - Este vampiro é inteligente, esteve rondando por longo tempo. Não enfrentaria este movimento contra quatro homens dos Cárpatos a menos que acreditasse que era uma muito boa a oportunidade de nos derrotar. Deve notar que Darius tem uma tremenda experiência. Ele estudou a este grupo durante algum tempo, mas pode ser que não me conheça ainda. Esta armadilha requer um planejamento, assim podemos assumir que ele passou tempo preparando-a. Provavelmente contou com o fato de que Syndil esteve ausente da banda estes últimos meses e a união entre todos vocês se debilitou. Por isso escolheu a ela como objetivo e por isso enviou antes o vampiro menor, para fazer uma medição, esse em que Barack, sem experiência como caçador, facilmente derrotou.

- Como crê que ele nos estudou sem que saibamos? - Interrogou Darius, com voz sem inflexão.

- Não posso responder a isso. - Replicou Julian. - Só posso assumir que estamos tratando com um ser poderoso e paciente, o que a maior parte dos de sua classe não são. Tentará concentrar-se em te destruir, Darius, porque sabe que é o mais letal para ele. Ele contará com que você envie Dayan para afastar-se com Desari. Golpeará no momento em que crer que tem Syndil cativa em sua rede.

-Então seria uma grosseria o decepcionar. - Respondeu Darius moderadamente. Seus olhos negros estavam vazios e frios.

Julian assentiu em acordo.

- Dayan, peço que fique com Desari e cuide de que não sofra nenhum mal.

- Possivelmente eu poderia o atrair com minha voz. - Ofereceu Desari, súbitamente ansiosa, não desejava separar-se de Julian.

- Não tentará atrair ao vampiro. Dayan ficará perto de voce. Permaneça unida a mim a menos que eu rompa o contato subitamente e não te funda de novo comigo, a menos que esteja em perigo. Por favor, faça o que te peço. Sem sua cooperação, serei incapaz de ajudar Darius.

Desari mordeu o lábio inferior. Dayan estava se colocando a seu lado, com a face fria e dura.

- Concentrarei-me em manter Syndil conosco. - Concordou enquanto Dayan gentil, mas firmemente a pegava pelo braço. - Não falharei.

- Será duro. Sei que ele será. O não-morto não desistirá de seu plano facilmente. Requererá tua força e a de Barack combinadas. Chama-e agora, e sujeite a voce. Traga-a de volta se puder. Darius e eu caçaremos o monstro.

- Dayan pode lhe ajudar. – Desari não pôde evitar se manifestar.

- Devo ficar com Darius, se quero manter a promessa que te fiz. Dayan não tem experiência para ajudar quando for necessário.

Desari lhe enviou ondas de calma e de amor, o rodeando por um momento com a riqueza dessa emoção antes de brilhar até a transparência e permitir que Dayan a afastasse da área perigosa. Em sua mente, Julian ouviu sua suave e persuasiva voz. Uma arma poderosa, além do imaginável, um consolador e exuberante encantamento chamando à mulher que era como uma irmã para ela. Era uma chamada de necessidade, de amor, prometendo unidade, irmandade e família.

Julian sacudiu a cabeça para livrar-se do poderoso enfeitiço de encantamento mágico de Desari. Olhou para Darius.

- É única em meu mundo. Maravilha-me cada vez que a ouço.

Darius estava ocupado explorando a área ao redor deles, todos os sentidos alerta.

- Como a mim. – Replicou ele com sinceridade. As mulheres tinham extraordinários poderes. Embora ele havia tido o privilégio de conhecê-las durante séculos, não tinha perdido suas lembranças de admiração e respeito pelos incríveis dons das mulheres. Darius recordava seu orgulho e amor por elas e se segurava com firmeza a essa lembrança. Ninguém faria mal a suas mulheres.

A forma de Julian já estava contornando-se enquanto se lançava ao céu. Estendia as asas ampliamente aos olhos até converter-se em um pássaro para poder captar algo incomum no chão, abaixo dele. Teria um campo muito mais amplo de visão de acima. Estudou a área enegrecida, procurando algo que se sobressaísse da linha da paisagem, não importava quão leve pudesse ser. Sabia que Darius procuraria o vampiro usando a habilidade que tinham para sentir os fracos e incertas mudanças no ar e a terra mesma. Darius era um homem muito perigoso. Um Cárpato poderoso, experiente e de confiança, que Julian gostaria de ter que lutar com ele. Este vampiro não teria vivido tanto sem saber que seria o equivalente a um suicídio enfrentar alguém como Darius.

Estavam lidando com um antigo autenticamente poderoso.

Julian se concentrou em bloquear qualquer outra coisa que não fosse o que devia procurar. A ameaça real para Darius viria de outra direção. O não-morto lutaria contra a força combinada da voz de Desari e da determinação de Barack em reclamar Syndil. Julian acreditava no amor de Desari por Syndil e na firme decisão de Barack de que ninguém a fizesse mal novamente. Estava seguro de que poderiam sujeitar Syndil a eles enquanto Darius lutava com quem quer que fosse o não-morto que pudesse lançar-se contra ele.

Julian, dentro do corpo do pássaro que voava em círculos, captou um ligeiro movimento em uma árvore enegrecida a poucos pés de Darius. A árvore, já retorcida pela dor e que morria lentamente, pareceu ondear. Julian fixou os olhos nele. Uma nova ondulação e o tronco da árvore começou se rasgou. Darius estava se movendo agora, afastando-se da árvore para o centro da paisagem queimada. Os restos retorcidos e enegrecidos, do que uma vez havia sido um formoso bosque, pareceram súbitamente sinistros, enquanto os ramos das árvores se estendiam de forma estranha como pessoas doentes. Darius havia sido conduzido ao centro da armadilha. O vampiro deliberadamente havia deixado um espaço vazio aonde queria que se dirigisse Darius. Do alto, o pássaro sobrevoou a terra enegrecida e vigiou várias árvores chamuscadas que começaram a ondear como ondas, a casca se separava dos troncos. Largas sombras negras se moviam silenciosamente para rodear ao homem alto de largos ombros.

- Darius. - sussurrou Julian na mente do líder.

- Sou consciente deles. Eles não são conscientes de voce. Desari ainda não alcançou Syndil? - Darius continuava movendo-se para o centro do bosque enegrecido. Não olhava a direita nem à esquerda. Caminhava com tranqüilidade, com passos fluídicos, como se simplesmente desse um passeio. Ninguém poderia supor que ele estava se comunicando com outro ou que tinha uma só preocupação no mundo.

Julian notou que ele havia mudado de direção ligeiramente para virar para o oeste.

- Desari, tire Syndil de volta a nós para dar a Barack uma oportunidade de fundir seu espírito com o de Syndil. Estão juntos, os três unem suas forças contra o poder do vampiro. Terá que abandonar seus serventes a seu próprio destino, se quizer capturá-la.

- Irá por seu corpo se não poder tomar posse de seu espírito.

Julian sabia que a avaliaçãoda situação que Darius havia feito era correta. Julian teria que manter o não-morto longe dos corpos de Barack e Syndil. Não poderia prestar muita atenção à batalha que esperava Darius. Já teria suficiente com o seu. Os corpos de carne e osso de Barack e Syndil deviam ser protegidos a tod custo.

Sobre o pássaro começaram a recolher escuras nuvens de tormentas. Eram enormes e ameaçadoras, cheias de água em suspensão e energia. O arco de um relâmpago iluminou o céu, seguido rapidamente do retumbar do trovão, como se fosse o arauto de abertura da grande batalha.

- Fogo não. - urgiu Julian rapidamente.

- Não estou louco. Estas criaturas foram criadas pelo fogo. O fogo só aumentará seu poder. - Darius Estava calmo como sempre, sem nenhum tipo de expressão. Dentro do corpo do pássaro, Julian se encontrou sorrindo apesar do perigo que os rodeava. Darius era um guerreiro. Tinha total e completa confiança em suas habilidades. Julian foi consciente de acreditar que essa confiança estava bem fundada.

O relâmpago se arqueou de nuvem a nuvem, largos látegos de feroz energia. O trovão rompeu diretamente sobre suas cabeças, golpeando a terra com um rugido, sacudindo o chão com tremendas vibrações. As figuras negras se sobressaltaram ante o som. Suas estranhas sombras se contorsionaron, estiraram-se, parecendo magras caricaturas de humanos vestidos com largas túnicas encapuzadas e vazias, deixando buracos onde deveriam estar os olhos, as navalhadas de suas bocas permaneciam totalmente aberto e gemiam incessantemente. As figuras das túnicas estenderam seus braços-ramos para fora e começaram a formar um círculo solto ao redor de Darius.

O líder ainda não havia cuidado deles. Seu passo não vacilou, nem pareceu ouvir os terríveis gemidos que escapavam dos ghouls que o perseguiam. Sacudiu a cabeça levemente, fazendo com que o comprido cabelo de ébano caísse ao redor de seus ombros, lhe dando a aparência de um guerreiro ancestral. Parecia o que era... Um perigoso lutador, sua face dura e implacável. Não havia pena em seus olhos negros, nem compaixão por aqueles modelados pelo não-morto.

As figuras das sombras começaram a murmurar brandamente um canto ancestral enquanto caminhavam em círculos para a direita. Um cerco frouxo, enquanto pareciam flutuar sobre a terra chamuscada. Julian sentiu que o coração lhe saía do peito. Uma atadura das profundidades da escuridão. Podia Darius conhecer o contrafeitiço? Era difícil não ficar absorvido pelo que estava acontecendo embaixo dele, não sem apressar-se a ir em sua ajuda. A tarefa de Julian era vigiar aqueles dois corpos, assegurar-se de que continuavam ilesos. Formou um círculo preguiçoso sobre o Barack e Syndil, vigiando a terra, procurando sinais de perturbação. Sua mente estava ainda parcialmente fundida com Desari, assim podia ver a batalha que empreendiam com Syndil para liberá-la da armadilha do não-morto. O vampiro era paciente, tirando Syndil sem descanso, empenhando sua vontade com um só propósito. Sua melhor possibilidade era dirigir o espírito de Syndil para longe de Desari e de Barack. Isso o faria triunfar.

Desari era uma oponente formidável, sua formosa voz era uma rede de segurança de prata e ouro lançada para o espírito de Syndil, a fim de prendê-la a ela. O tom era tão puro que o não-morto, sem alma, todo maldade como era, sabia que a voz diminuía suas habilidades. Ele estava manchado, e a pureza das notas era um gentil, mas poderoso aviso do vil e pestilento caminho que deliberadamente tinha escolhido para si mesmo. Via-se a si mesmo tão claramente como se Desari estivesse segurando um espelho para sua face. Os longos séculos se mostravam em sua face, a pele enrugada e decadente pendurava de sua caveira em largas tiras. Os vermes gotejavam de seu corpo, e a baixeza de sua existência ficou ao descoberto para ele. Sangue envenenado, tirado das mortes de humanos e Cárpatos, gotejava como ácido por sua pele, removendo o que uma vez havia sido carne lisa. Gotejava de seus olhos avermelhados e ao longo das garras que eram seus dedos. Seu fétido fôlego era uma nuvem visível de verde e amarelo e sua horrenda voz era um assobio de sons que contrastavam com a pureza da formosa voz de Desari que o obrigava a pressionar os ouvidos com as mãos e gritar de agonia. Enquanto o fazia, perdeu, por um pequeno momento, seu elo sobre Syndil.

Imediatamente, como se tivesse estado esperando tal reação, a mão de Barack sobre Syndil se voltou mais firme. Seu espírito se fundiu completamente com o dela e assim sentiu seu horror ante o ataque que abrangia sua mente, enchendo a de desprezo. Ela acreditava que de algum modo havia conduzido o mal a ela, que estava pondo em perigo o resto da família ao permanecer com eles.

Julian sentiu a repentina vacilação em Desari, o pequeno grito de negativa enquanto Syndil fazia um intento de deslizar-se para longe de Barack. O homem dos Cárpatos, que era muito mais informal que nenhum outro que Julian tivesse conhecido, súbitamente desdobrou uma vontade de ferro. Syndil se estampou contra a sólida barreira da vontade de Barack.

O vampiro rugiu de raiva, o som competiu com o rugido do trovão. Barack se manteve firme. Havia tranqüilidade e confiança nele. Syndil não se afastaria dele. Estava decidido a morrer se fosse necessário, para evitar. No momento em que ela sentiu sua total resolução, uma vez mais uniu suas forças com o Barack e Desari, retrocedendo lenta, mas firmemente para seu corpo.

O pássaro vigiava o chão cuidadosamente. Agora, podia ver a agitação enquanto a luta se intensificava entre a viciosa resolução do vampiro e a posição de Barack, Desari e Syndil. Os olhos do pássaro captaram um movimento no epicentro da armadilha. Em seguida o vento se levantou com força, uivando em sinal de protesto enquanto os ghouls que se moviam em círculos, gemiam e balançavam seus braços-ramos juntos, em um velho e rítmico bater, acompanhando seu canto. Darius deixou de se mover e levantou a cabeça lentamente para o céu. Seus braços se estenderam, como se desse em oferenda, às distorcidas sombras. Permaneceu em pé completamente imóvel, uma magnífica estátua sem expressão. As vozes dos ghouls se elevaram horrivelmente, o som crispava os nervos e desagarrava a mente do Cárpato. O ancestral canto, que murmuravam antes, agora era audível para Julian, que podia entender as