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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DESTINO SOMBRIO / Christine Feehan
DESTINO SOMBRIO / Christine Feehan

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

       Ela despertou sabendo que era uma assassina e que mataria novamente. Era a única razão pela qual continuava sua existência. Era para o que vivia. Para matar. Dor e fome se arrastavam por seu corpo interminavelmente, implacavelmente. Estava muito quieta com a terra a seu redor e com o olhar para o céu noturno infestado de estrelas. Havia um frio penetrante. Ela estava fria, o sangue que fluía por suas veias era como água gelada, como ácido, de tão frio.

- Se me chamar a você. Não sentirá mais frio.

Fechou os olhos quando a voz se introduziu em sua mente. Ele a chamava agora, a cada sublevação. A voz de um anjo e o coração de um demônio. Seu salvador. Seu inimigo mortal. Lentamente permitiu que o ar penetrasse em seus pulmões, seu coração bateu estável. Outra noite interminável. Eram tantas e tudo o que ela queria era descansar. Flutuou saindo da terra, vestindo-se com a facilidade que proporcionava a longa prática. Seu corpo limpo, sua alma condenada. Os sons e os aromas da noite a rodeavam, sussurros e fragrâncias que enchiam seus sentidos de informação. Estava faminta. Precisava ir à cidade. Por mais que tentasse, não podia se sobrepor à necessidade do rico e cálido sangue. Ele achamava como nada mais podia.

 

 

 

 

       Destiny se encontrou em uma parte familiar da cidade. Seu corpo percorreu o caminho costumeiro, antes de sequer ter pensado aonde ia. A pequena igreja estava radicada entre os altos edifícios e o labirinto de estreitas ruas e becos que a atraíam. Conhecia a vizinhança, a pequena cidade dentro da grande cidade. Os edifícios se empilhavam uns sobre outros, com estreitas passagens entre eles. Estava familiarizada com cada edifício de apartamentos e escritórios. Conhecia seus ocupantes e conhecia seus segredos. Vigiava-os, vigiava suas vidas, embora sempre estava sozinha, sempre à parte. Contra vontade, Destiny subiu os degraus da igreja e parou na entrada, como fizera tantas vezes no passado. Com seu fino ouvido, soube que o edifício estava ocupado, o sacerdote terminara suas tarefas e logo sairia, mais atrasado do habitual.

Ouviu o sussurro da batina do sacerdote, enquanto ele percorria a igreja para as portas de saída. Fechou-as... Ele sempre as fechava antes de sair... Mas não importava, ela podia abri-las facilmente. Esperou na escuridão, imersa entre as sombras às quais pertencia, observando o sacerdote em silêncio, quase contendo a respiração. Sentia uma urgência em seu interior, um desespero. Voltava uma e outra vez, à beleza da pequena igreja. Algo a atraía, chamava-a, quase com tanta força como a chamada do sangue. Algumas vezes, acreditava que era nela que devia morrer, em outras, acreditava que o arrependimento poderia ser suficiente. Sempre ia à igreja quando sabia que não restava mais escolha, que se alimentar.

O sacerdote parou durante um momento, fora das portas, olhando a seu redor, seus olhos ajustando-se à escuridão. Realmente olhou diretamente para ela, mas ela sabia que estava invisível. Ele começou a conversar, vacilou e fez o signo da cruz em direção a ela. Destiny conteve a respiração, esperando que um relâmpago a atingisse.        - Encontre paz, minha menina. - Murmurou o sacerdote suavemente e seguiu seu caminho escada abaixo, com seu andar lento e comedido. Destiny permaneceu entre as sombras, tão imóvel como as montanhas que se elevavam sobre a cidade. Como ele havia sentido sua presença? Esperou até que ele se entrou pelo estreito beco que conduzia ao jardim, trás de sua reitoria. Só então atreveu a deixar escapar o fôlego lentamente, a respirar outra vez.

Destiny foi para as portas ornamentadas, mas desta vez não estavam fechadas. Voltou o olhar para a rua por onde o sacerdote havia desaparecido, virando a esquina. Ele sabia, então. Sabia que ela precisava de sua igreja e silenciosamente lhe dera permissão para que ela entrasse no sagrado lugar. Não sabia o que era ela, mas era um bom homem e acreditava que todas as almas podiam ser salvas. Puxou a porta com uma mão tremente. Destiny permaneceu na entrada da igreja vazia, envolta na escuridão, sua única aliada. Tremeu, não pelo ar frio que a rodeava, mas sim pelo gelo que havia no mais fundo de sua alma. A pesar do interior negro, Destiny podia ver facilmente cada detalhe da formosa igreja. Olhou o crucifixo sobre o altar durante um longo momento, com sua mente totalmente confusa. A dor a atravessou como fazia a cada momento de sua existência. A fome era aguda e voraz. A vergonha era sua companheira constante. Destiny tinha ido a este lugar sagrado para confessar seus pecados. Ela era uma assassina e mataria uma e outra vez. Essa seria sua forma de vida até que encontrasse a coragem para destruir o ser malvado no qual se convertera. Não se atrevia a entrar, não se atrevia a pedir santuário.

Permaneceu em pé durante um longo momento em silêncio, com um terrível ardor pouco familiar atrás dos olhos. Levou alguns momentos para compreender que a sensação era de lágrimas. Queria chorar, mas de que serviria? Tinha aprendido que as lágrimas traziam o eco da horrenda e demoníaca risada e ela ensinara a si mesma, a não chorar. Não chorar nunca.

- Por que insiste em sofrer? - A voz era enganosamente formosa. Masculina. Amável. Uma tranqüilizadora mistura de exasperação e encanto. - Sinto sua dor. É aguda e terrível e me atravessa o coração como uma flecha. Chame-me para seu lado. Irei a você em seguida. Sabe que não posso fazer outra coisa. Chame-me. - Havia um sussurro de poder, de compulsão. - Você me conhece. Sempre me conheceu.

A voz roçava as paredes de sua mente como a revoada de asas de uma mariposa. Sussurrava sobre sua pele, penetrava por seus poros e lhe enredava em volta do coração. Respirou a voz para o interior de seus pulmões, até que precisou responder, ouvi-la novamente. Chamar. Obedecer. Precisava dessa voz. Ela ela que havia mantido-a viva. Tinha mantido-a lúcida. Também lhe ensinara coisas... Coisas horríveis e mortíferas, mas necessárias.

- Sinto sua necessidade. Por que insiste no silêncio? Ouve-me, igual eu sinto quando sua dor se converte em muito, para poder suportá-la.

Destiny sacudiu a cabeça, numa firme negativa contra a tentação dessa voz. O movimento enviou seu cabelo escuro a voar em todas direções, desejando liberar sua mente da enganosa pureza dessa voz. Nada poderia induzi-la a responder. Nunca se deixaria prender por uma voz sedutora outra vez. Aprendera a lição do modo mais duro, sentenciada a viver um inferno no qual nem atrevia a pensar.

Destiny forçou ao ar para seus pulmões, controlando suas emoções, sabendo que havia uma possibilidade de que o caçador pudesse rastreá-la, através da acuidade de seu desespero. Um movimento nas sombras próximas a fez dar a volta, agachando-se. Um perigoso predador preparado para atacar.

Houve um silêncio e depois mais movimento. Uma mulher subia os degraus da igreja lentamente, entrando na linha de visão de Destiny. Era alta e elegante, com uma pele perfeita de cor chocolate com leite e cabelos de cor marron. Seu cabelo se frisava em todas direções, em vários cachos que desciam pelo pescoço, emoldurando sua face ovalada. Seus grandes olhos marrons exploraram as sombras mais escuras, procurando sinais de que não estava sozinha.

Destiny utilizou sua velocidade sobrenatural, deslizando para um canto, retrocedendo para longe das portas da igreja, utilizando a imobilidade para seu proveito. Congelou-se no ato, logo que conseguiu respirar. A mulher atravessou as portas e parou durante um momento, com uma mão descansando na porta aberta. Suspirou e se pronunciou:

- Vim aqui para te buscar. Meu nome é Mary Ann Delaney. Sei que sabe quem sou. Sei que vem aqui às vezes... Já vi você. Vi novamente esta noite e sei que está aqui. – Ela esperou um segundo ou dois. - Em algum lugar. – Ela murmurou em voz alta, como se falasse para si mesma.

Destiny pressionou seu corpo tão firmemente contra a parede da igreja, que sua pele doeu. Estavam as duas, em terrível perigo, mas só uma delas era consciente disso.        - Sei que está aqui, por favor não fuja outra vez. - Disse Mary Ann, com voz calma. Apesar de sua blusa grossa, ela esfregou os braços para evitar o frio. - Só fale comigo. Tenho tanto a te dizer, tanto a te agradecer. - Sua voz era baixa, amável, como se estivesse conversando com algo selvagem, persuadindo-a para que confiasse nela.

Havia um peso terrível no peito de Destiny. Estava se afogando, sufocando, apenas capaz de respirar.

Ela esperou, arrastando-se mais entre as sombras. Podia ouvir o som de seu próprio coração pulsando. Podia ouvir o coração de Mary Ann seguindo seu ritmo. Podia ouvir a chamava, o convite do fluxo vazante do sangue apressando-se pelas das veias. Chamando-a. Intensificando sua terrível fome. Sua língua sentia o fio de seus incisivos enquanto se alongavam. Tremia por causa do esforço de controlar a si mesma, de deter o inevitável.

Esta mulher era tudo o que ela não era. Mary Ann Delaney. Destiny conhecia sua bondade. Sua compaixão e bravura, sua vida dedicada a ajudar os outros. Uma luz parecia brilhar em sua alma. Destiny assistia com freqüência suas conferências, suas sessões de grupo, até mesmo suas sessões particulares de conselho. Destiny se entitulara como protetora não oficial de Mary Ann.

- Sei que me salvou a vida. Há umas semanas, quando esse homem irrompeu em minha casa, você veio e me salvou. Sei que está ferimento... Havia sangre em sua roupa... Mas quando chegaram os paramédicos, você desapareceu. - Mary Ann fechou os olhos durante um momento, revivendo o terror de despertar e encontrar a um homem furioso inclinado sobre sua cama. Ele a puxara de debaixo das cobertas pelo cabelo, agredindo-a tão forte e tão rapidamente, que ela não teve tempo de se defender. Era o marido de uma mulher que ela havia ajudado a fugir para um refúgio e ele estava decidido saber a direção do mesmo. Ela a reduzira a um farrapo ensangüentado sobre o assoalho, chutando-a e depois a apunhalando com uma faca. Ela ficara com cicatrizes em seus braços, da tentativa de se proteger. - Não contei a ninguém que você esteve lá. Não disse nenhuma palavra à polícia. Eles acreditam que o homem deve ter tropeçado inesperadamente contra a mobília, que caiu sobre ele e que caiu torpemente quebrou o pescoço. Não traí você. Não há necessidade de se preocupar. A polícia não está procurando você . Não sabem nada de você.        Destiny mordeu o lábio com força e permaneceu em silêncio. Felizmente, os incisivos haviam retrocedido. Já tinha suficientes pecados em haver, sem acrescentar Mary Ann à lista de suas vítimas.

- Por favor me responda. - Mary abriu os braços. - Não entendo por que não fala comigo. Que dano poderia haver, em me contar se saiu ferimento essa noite? Estava coberta de sangue e não era meu e tampouco dele.

Destiny sentiu lágrimas ardendo em seus olhos, entupindo sua garganta. Suas mãos se fecharam.

- Não era meu sangue. Não me deve nada. - As palavras saíram estranguladas, apenas transpassaram o nó de sua garganta. Era parcialmente verdade. O atacante de Mary Ann não tinha lhe feito nem um arranhão. - Só lamento não ter chegado antes... Antes que te fizesse mal.

- Ele teria me matado. Sabemos disso. Minha vida não só o que tenho que te agradecer. É você que doa dinheiro para nossos refúgios, não é? - Sucolocou Mary Anna. - E para os programas de recuperação de nossas mulheres.

Destiny se apoiou contra a parede, cansada da dor, cansada de estar tão sozinha. Havia algo incrivelmente quente e consolador na Mary Ann.

- Não é nada, só dinheiro. Você faz todo o trabalho. Alegra-me ajudar de algum modo, embora seja pouca coisa.

- Venha para casa comigo. - Disse Mary Ann. - Prepararei um chá e poderemos conversar. - Quande Destiny permaneceu em silêncio, Mary Ann suspirou. - Ao menos me diga seu nome. Sinto sua presença com freqüência e penso em você, como em uma amiga. Teria algum mal em me dizer seu nome?

- Não quero que a fealdade de minha vida a toque. - Admitiu Destiny.

À noite a envolvia como fazia sempre, sussurrava amavelmente para ela, fazendo-a apreciar sua beleza, apesar de sua determinação de não ver nada de bom nela.        - Não temo a fealdade. – Insistiu, Mary Ann. - Vi fealdade antes e a verei novamente. Ninguém merece estar sozinho no mundo. Todos precisamos de alguém, inclusive você.

- Não está tornando isso fácil para mim. - As palavras saíram rasgadas de Destiny, quase um soluço. - Não sabe o quanto sou malvada. Não há redenção para mim. Nunca deveria ter permitido que nossas vidas se tocassem, nem sequer por um momento.        - Estou muito agradecida de que o fizesse. Não estaria aqui de outro modo, e tenho muito pelo que viver.

Destiny se pressionou a palma da mão contra a boca, envergonhada de que estivesse tremendo. – Você é diferente a mim. É boa, ajuda muita gente.        Mary Ann assentiu de acordo.

- Sei que sim e sem você, nunca teria sido capaz de ajudar outra mulher ou crianã. Você tem feito isso, não eu. Nem poderia ter me salvado, pois agora estaria morta.

- Essa é uma lógica retorcida. - Assinalou Destiny, mas notava que um pequeno sorriso gravitava sobre seus lábios, apesar da punhalada de dor que a atravessava. Ouvira Mary Ann conversar com outras mulheres muitas vezes, sua voz era sempre amável. Mary Ann sempre sabia o que dizer para acalmar suas clientes. Estava utilizando esse mesmo dom com Destiny.

- Meu nome é Destiny. - O nome soou estranho a seus próprios ouvidos. Havia passado tanto tempo da última vez em que o ouvira. Pronunciá-lo em voz alta era quase aterrador.

Mary Ann sorriu, seus dentes muito bonitos, seu sorriso contagioso.        - Alegra-me tanto te conhecer, Destiny. Sou Mary Ann. – Ela avançou e estendeu a mão.

Antes de poder se conter, Destiny estreitou a mão estendida. Era a primeira vez em muito tempo, que tocava um ser humano. Seu coração bateu dolorosamente no peito e ela se afastou rapidamente, deslizando-se de volta às sombras.        - Não posso fazer isto. - Sussurrou. Era muito doloroso olhar esses olhos limpos, sentir a ternura de Mary Ann. Era mais fácil estar sozinha, se esconder entre as sombras, ser sempre uma criatura da noite.

Mary Ann continuou em pé imóvel, ligeiramente surpreendida pela extraordinária beleza da jovem que se escondia entre as sombras. Era mais baixa do que Mary Ann tinha pensado a princípio... Não tão baixa, mas tampouco alta. Tinha exuberantes curvas, mas seu corpo estava esculpido em músculo. Tinha uma vasta cabeleira escura. Seu rosto era belíssimo e seus olhos enormes, fantasticos e hipnotizadores. Eram de um vívido e brilhante azul esverdeado, escondendo sombras, segredos e uma dor inimaginável. Até sua boca era escultural, tentadora. Mas tinha muito mais que beleza física. Havia um atraente sutil que Mary Ann nunca antes vira numa mulher. A voz era musical, misteriosa, compelidora. Mística. Tudo em Destiny era diferente. Inesperado.

- É obvio que pode. Só estamos conversando, Destiny. O que tem de errado em conversar? Sentia-me solitária esta noite e senti que tinha que vê-la. - Mary Ann deu um passo para as sombras que ocultavam Destiny, desejando aliviar o terrível desespero dessa formosa criatura. Tinha visto o trauma muitas vezes, mas esses enormes olhos de água marinha estavam enfeitiçados, além de tudo o que Mary Ann conhecia. Esses olhos tinham visto coisas que nunca deveriam ser vistas. Coisas monstruosas.        Destiny permitiu que o ar abandonasse seus pulmões. - Sabe quantas vezes vi você exercer sua magia sobre uma mulher precisada? Tem um dom para dar esperança a alguém que deixou de acreditar na esperança. Se acredita que me deve alguma coisa, equivoca-se. Você salvou minha vida muitas vezes antes, só que nunca foi consciente disso. Ouço-a com freqüência e suas palavras são a única coisa neste mundo que tem algum sentido para mim.

- Me alegro, então. - Mary Ann tirou as luvas do bolso de sua jaqueta e colocou sobre suas delicadas mãos, para protegê-las do frio mordaz. - Sabe, às vezes todo mundo se sente sozinho e desesperado. Mesmo eu. Todos nós precisamos de amigos. Se se sentir incômoda vindo a minha casa, possivelmente poderíamos tomar algo no Midnight Marathon. Sempre há um pouco de animação por lá. Realmente será tão terrível ir tomar uma xícara de chá comigo? Não é como estivesse se comprometendo a uma relação a longo prazo. - Havia um toque de humor em sua voz, um convite a se unir a ela e compartilhar a diversão.        - Chá? Não tomo uma xicara de chá a anos. - Destiny pressionou a mão sobre o estômago. Todo seu ser queria deleitar-se na companhia de Mary Ann, seu estômago se revolvia ante a idéia de se obrigar a aparentar normalidade. Só podia imaginar o desgosto e horror nos olhos de Mary Ann, se ela averiguasse a verdade.        - Então eu digo que já é hora. Vamos a minha casa. - Convidou Mary Ann delicadamente, obviamente feliz.

O vento soprou sobre os degraus para as portas da igreja, voando folhas e ramos. No alto as nuvens começaram a agrupar em escuros fios. Havia algo mais, algo no vento que brincava gentilmente com suas suas roupas e cabelo, enquanto se apressava alarmantemente entre árvores e arbustos. Era quase como uma voz que lhes murmurava. Chamando, sussurrando, fora de alcance. Mary Ann se esforçou em ouvir, voltando à cabeça para um lado e outro, para captar o som. Destiny saltou para ela, seu fôlego escapou num lento gemido de alarme. Ela segurou a blusa grossa de Mary Ann pelas lapelas, ao mesmo tempo em que se aproximava das portas da igreja para abri-las, totalmente epuxou a Mary Ann para dentro.        - Ouça-me. - Destiny olhou diretamente os olhos da mulher. - Não abandone esta igreja até manhã. Não importa o que ouça ou veja, não saiá desta igreja. – Ela pronunciou a ordem firmemente, enterrando-a profundamente no subconsciente da outra mulher, numa compulsão que seria obedecida. Destiny pressentiu o perigo atrás dela e se deu à volta, agachando-se, tentando afastar o ombro de perigo. Tinha desperdiçado preciosos segundos em assegurar que Mary Ann estivesse a salvo, e apesar de sua incrível velocidade, unhas longas e afiadas lhe abriram o braço, do ombro até o cotovelo.

Longínqua, a suave e familiar voz, que tão freqüentemente a convocava numa língua ancestral, chegou a sua mente.

- Chame-me a ti agora! - Era uma ordem, nada menos, como se ele houvesse sentido sua dor física e soubesse que ela estava em perigo. Destiny fechou a mente firmemente a tudo, exceto a batalha que acontecia. Ela concentrou-se completamente, estudando o não-morto com um olhar predador e sem piscar. Estava tranqüila, balançando-se sobre a ponta dos pés. Vampiro. Criatura da noite. Monstro horrendo e mortal inimigo. Seu atacante era alto e magro, com pele cinzenta e cabelo negro. Seus dentes reluziram para ela quando a enfrentou.        - Chame à outra mulher até nós. - Sua voz era baixa, musical e amável, um convite sutil.

Destiny se lançou para ele, direta como uma flecha, tirando uma adaga da capa, entre suas omoplatas, levando-a diretamente ao coração do não morto. O movimento foi totalmente inesperado. Ele pensou que sua voz a tivesse cativado, que ela obedeceria. E era uma mulher. A última coisa que ele esperava de uma mulher era que o atacasse. Normalmente era o elemento surpresa o que possibilitava Destiny sair vitoriosa. A folha se afundou no peito, embora ele conseguira introduzir suas garras no ombro ferido, abrindo profundos sulcos na carne macia, enquanto saltava para trás. O vampiro se dissolveu instantaneamente, num vapor esverdeado e emanou através da noite, para longe da cidade. Gotas de cor vermelha se misturavam com o verde, deixando um rastro tóxico e venenoso, para que Destiny o seguisse. Deliberadamente, ela inalou a nociva essência pela qual o reconheceria em qualquer ligar.

Ela ouviu o eco daquela familiar voz masculina bem dentro de sua mente, de sua alma, um grito de negação seguido imediatamente por um estranho calor. Os ferimentos em seu ombro queimavam, mas estava acostumada à dor e os ignorou. O estranho canto melódico de palavras em uma língua antiga tremeluziu em sua mente e proporcionou a ela algum conforto. Entretanto, ela não poderia ignorar o sangue escorrendo de seu corpo. Ela não se alimentava há vários dias e precisava de sustento. Misturando o rico solo do jardim do padre com sua própria saliva curadora, ela fechou os ferimentos abertos. Com muito cuidado, deliberadamente, ela trançou seu cabelo em preparação para a batalha. Antes de seguir o não-morto até seu covil, ela precisava se alimentar. A cidade estava cheia com os sem-teto, com infelizes criaturas que não teriam chance de escapar dela, mesmo em seu estado de fraqueza.

 Nicolae Von Shrieder se debruçou sobre o grande penhasco que se elevava acima da cidade. Ele estava mais perto desta vez do que jamais havia estado antes. Ele estava certo disso. Ela estava lá fora em algum lugar, cansada e ferida e vulnerável, lutando sua guerra sozinha. Ele sentia sua dor em todos os momentos em que estava acordado. Quando fechava seus olhos ao nascer do sol, ele sentia a agonia das vísceras se retorcendo, formigando através do corpo dela, através do corpo dele.

Paciência. Ele tinha aprendido a paciência na escola mais difícil. Séculos de vida haviam ensinado a ele disciplina e paciência acima de tudo. Ele era um antigo com dons poderosos, e apesar disso ele não podia subjugá-la à sua vontade. Ele não podia chamá-la a ele. Ele tinha lhe ensinado bem. Bem demais.

À distância, ele ouviu o grito de uma ave de rapina, um lamento alto alertando-o, e ergueu o rosto em direção às estrelas. Lentamente se endireitou, elevando-se até sua altura completa. - Eu lhe agradeço, meu irmão. - Ele murmurou em voz baixa. O vento capturou sua voz e arrebatou-a, levando o sussurrante som através das densas copas das árvores e levando-o mais adiante, sobre a cidade. - Nossa caçada começa, então.

Ele nunca esqueceria o momento chocante quando ela se conectara com ele pela primeira vez. Uma criança em puro terror. Sua dor e agonia haviam sido tão lancinantes, tão fortes e esmagadoras, que sua jovem mente tinha se estendido através do tempo e do espaço para fundir-se com ele. Mente com mente. Mesmo em criança, ela tinha sido uma psíquica poderosa. As imagens que ele recebera dela tinham sido tão vívidas, tão detalhadas, que ele tinha vivido o pesadelo com ela, através dela. A morte brutal de seus pais, o monstro drenando seu sangue em frente a criança.

Ele fechou seus olhos contra as memórias, mas elas inundaram sua mente, como ela tão frequentemente fazia. Ele estava a continentes de distância, sem ter como rastreá-la, encontrá-la. Ainda assim, ele vivera com ela através das repetidas crueldades, as surras, através dos incontáveis estupros e assassinatos que ela fora forçada a testemunhar. Ela havia engatinhado para dentro de sua mente, buscando refúgio e o encontrara lá. Ele sussurrara para ela, a distraíra e dividira seu conhecimento com ela. Uma simples criança ensinada para matar. Ele não tinha outro dom para lhe dar. Nenhuma outra forma de salvá-la.

Aqueles foram anos hediondos, anos de busca sem esperança. O mundo era um lugar muito grande quando alguém estava procurando por uma criança pequena. Ele era um antigo, que jurara proteger mortais e imortais. Um ser poderoso, um caçador e destruidor do vampiro, enviado para terras distantes séculos antes por seu príncipe, com o juramento de libertar o mundo desse mal. Ele tinha tentado explicar a ela que havia uma diferença entre vampiro e caçador, mas em sua mente, ela vira suas batalhas, suas matanças. Ela vira a escuridão nele, espalhando-se como uma mancha sobre sua alma. E ela tivera medo de confiar nele.

Nicolae ficou completamente imóvel, puro poder brotando de sua forma muscular enquanto ele apresentava seu braço coberto de couro, para seu companheiro de viagem. A grande coruja circulou uma vez sobre sua cabeça, depois mergulhou com rapidez, projetando as garras. A ave de rapina pousou no antebraço de Nicolae e ele baixou a cabeça em direção de seu perigoso bico. - Você captou o cheiro de nossa presa.

Os olhos redondos e brilhantes que o encararam estavam cheios de inteligência. A ave bateu as asas, uma, duas vezes, como respsta e lançou-se no ar. Nicolae a olhou subir, com um sorriso fraco que em nada suavizava o traço duro de sua boca.

       Ela estava machucada. Ela estava caçando um vampiro e estava ferida.

Não havia como negar a conexão entre eles e ainda assim ela se recusava a reconhecê-lo, a lhe responder. Ele não tinha idéia de como ela podia ser tão forte quando havia convivido constantemente com tanta dor, mas ele não podia fazer outra coisa senão encontrá-la. Ele jamais a vira e ela jamais tinha falado com ele, mentalmente ou de qualquer outra forma, mas ele sentia que a reconheceria no momento em que pusesse seus olhos sobre ela.

Ele se voltou lentamente, seu corpo grande e musculoso, uma mescla de elegância e força. O vento empurrou seus longos cabelos, negros como as asas de um corvo, então ele os puxou para a nuca e os prendeu com uma tira de couro. Havia uma qualidade fluidica e animal em seus movimentos enquanto ele se alongava, levantava o nariz para farejar o vento.

Haviam se passado muitos longos séculos desde que Vladimir Dubrinsky, Príncipe do povoado de Nicolae, mandara seus guerreiros para o mundo, para caçar os vampiros. Nicolae, como tantos outros, havia sido mandado para longe de sua terra, sem o conforto do solo natal ou de outros de sua raça. Ele tinha aceitado que não teria esperança de encontrar sua companheira, mas seu dever para com seu povo naqueles dias de sofrimento era claro. Aquele tempo vazio havia sido preenchido com batalhas, com matança. As trevas tinham se espalhado lentamente e Nicolae combatendo-as a cada polegada do caminho. Um novo Príncipe tinha tomado o lugar de Vladimir e Nicolae ainda lutava. Sozinho. Resistindo. Bem dentro dele, a inevitável escuridão tinha se espalhado, consumindo-o até que ele soubera que não poderia esperar mais. Ele teria que encontrar o amanhecer, terminar sua própria existência ou se tornaria a mesma coisa que havia caçado. E então ela tinha entrado em sua vida. Naquela época, ela era uma criança aterrorizada em desesperada necessidade. Agora ela era uma máquina letal de combate.

Nicolae parou sobre a cidade e observou as luzes embaixo, cintilando como tantas estrelas. - Onde está você? - Ele murmurou. - Eu estou perto de você. Eu a sinto próxima de mim dessa vez. Finalmente estou nas proximidades de seu covil. Sei que estou.

Ela havia entrado em sua vida tantos anos atrás. Eles tinham vivido na mente um do outro enquanto um monstro depravado havia torturado uma garotinha indefesa. Nicolae forçara a si mesmo a sentir o que ela sentia, recusando-se a deixá-la sozinha em seu inferno em vida. Ele tinha tomado a decisão de treiná-la quando não tinha conseguido encontrar uma forma de fazê-la falar com ele. E ele tinha conseguido, bem até demais, ensiná-la a matar. Onde antes a violência tinha sido o seu mundo, agora toda a sua existência era dedicada a encontrá-la. De certa forma, ela tinha sido a sua salvação.

Nicolae deu um passo além do despenhadeiro. Calmamente. Casualmente. Dissolvendo simultaneamente em neblina. Ele seguiu através do céu o rastro do vampiro, seguindo a coruja enquanto esta se movia rapidamente pela noite.

Nicolae tinha formulado um vago plano de ação. Quando ele encontrasse a moça, ele a levaria à sua terra natal, diante do Príncipe, filho de Vladimir, Mickail Dubrinsky. Com certeza os curadores encontrariam uma forma de ajudá-la. Um vampiro a havia convertido, feito dela uma criatura da noite e o sangue manchado correndo em suas veias era um ácido que a queimava dia e noite. A criança havia crescido para se tornar uma mulher, forjada nos fogos do inferno, suprida com a experiência de batalha de um antigo. Nicolae ofertara aquele conhecimento a ela, técnicas que apenas um de sua raça deveria ter. Ele tinha ajudado a criá-la; ele precisava encontrar uma maneira de curá-la.

O cheiro do não-morto era um odor ofensivo para Nicolae, mesmo enquanto o vampiro tentava desesperadamente ocultar sua presença dos caçadores. O rastro levava através da própria cidade, às profundezas de seu submundo onde não havia luzes nas ruas ou belos lares. Cães latiam enquanto Nicolae passava pelo alto, mas ninguém o notou. E então ele percebeu o outro cheiro. Gotas de sangue misturadas ao traço do vampiro.

Era a mulher, ele estava certo disso. Sua mulher. Ele passara a pensar nela como pertencendo a ele e havia descoberto ao longo dos anos, que era possessivo com ela. Como outros machos de sua raça, ele há muito tinha se acostumado a não sentir nenhuma emoção e ainda assim às vezes ele sentia pequenos sinais de inesperado ciúme ou medo por ela. Ele imaginara se estaria sentindo as emoções dela, ao partilhar sua mente, mas não tinha respostas. Na verdade, isso não importava para ele.

A única coisa que importava era encontrá-la. Ele não tinha outra escolha. Ela se tornara sua salvadora, mesmo enquanto ele estava tentando salvá-la.

Ele notou onde a caçadora tinha se afastado do rastro do vampiro e se dirigido para a cidade. Nicolae soube imediatamente que ela estava procurando sangue. Ela estava ferida e provavelmente não se alimentara em vários dias.

Ele encontrou a presa dela num beco entre dois edifícios. O homem era jovem e forte e estava inclinado contra a parede, um pequeno sorriso em seu rosto. Sua cabeça caiu levemente quando Nicolae se curvou para examiná-lo, mas suas pálpebras estremeceram. Ele estava vivo.

Nicolae sabia que deveria estar aliviado em ver que ela não tinha matado sua presa, apenas tomado o que precisava dele, conforme o ensinamento que ele repetidamente infundira dentro dela, mas na verdade ele queria estrangular o homem. Entrando em sua mente, Nicolae viu que ela o havia atraído com uma promessa de paraíso, com um sexy sorriso tentador e sua vítima a havia seguido voluntariamente.

A coruja o chamou impaciente do telhado de um prédio à sua esquerda. Eles estavam caçando, ela lembrou. Nicolae estava alarmado com sua própria falta de disciplina. Inicialmente, ele se perguntara se a criança poderia ser sua companheira quando eles tinham se conectado tão fortemente, mas com o passar dos anos, quando ela inflexivelmente se recusara a falar com ele, ele tinha decidido que não poderia ser. Mas agora, considerando sua estranha reação diante de sua presa masculina. Ele se perguntou novamente.

Machos cárpatos perdiam todas as emoções e a capacidade de enxergar cores à altura em que completavam duzentos anos, e assim tinha sido para ele. Era uma existência vazia, que contava com a integridade do indivíduo para viver honoravelmente até que uma companheira fosse encontrada. Apenas uma verdadeira companheira, a outra metade da alma de cada macho, poderia restaurar as emoções e as cores para ele. Todo o tempo a insidiosa tentação de voltar a sentir apenas um momento convidava os homens.

Nicolae se elevou no ar, afastando-se da tentação. Para longe do jovem que tinha estado próximo dela. O jovem que tinha sentido o corpo dela contra o seu. Sentido o calor do hálito dela em sua garganta. Os lábios dela movendo-se sensualmente sobre sua pele. A mordida erótica e quente, mista de dor e prazer. Um nevoeiro vermelho, traiçoeiro e fora de controle, deslizou para dentro de sua cabeça, tornando quase impossível pensar com clareza. Nicolae sentiu o impulso urgente de retornar e rasgar a garganta do homem. O desejo queimou forte e brilhante, suas entranhas se contraindo e um estranho rugido enchendo seus ouvidos. Ele se voltou no ar.

A coruja mudou de rumo, voando em direção ao seu rosto, evitando que ele continuasse em seu propósito, o bico bem aberto e os olhos encarando diretamente os dele.

- Você disse que era proibido matar qualquer um exceto os vampiros! - A voz feminina estava assustada, uma negação suave, quase implorante. - Você disse para nunca matar ao se alimentar e nunca se alimentar quando estivesse matando.

Ao som daquela voz, por tanto tempo aguardada, o mundo de Nicolae virou de cabeça para baixo. Ele caiu pelo céu enquanto o cinza e o negro da noite foram substituídos com vibrantes e atordoantes cores prateadas e brilhantes. Era como uma exibição de fogos de artifício, explodindo em torno dele, roubando sua capacidade de respirar, até de enxergar. Ele fechou os olhos contra o assalto aos seus sentidos, lutando para recuperar o controle.

A coruja o golpeou com força enquanto ao mesmo tempo ela chamava por ele uma segunda vez. - Suba, você está caindo. Suba agora! - Havia terror na voz dela.

O calor se espalhou por ele, acalmando-o, e ele corrigiu sua posição. Ela havia lhe dado a vida novamente, o havia salvo das trevas eternas. Sua companheira. A única mulher capaz de evitar que ele se transformasse em vampiro.

Finalmente ela havia falado com ele. Anos de silêncio o haviam condicionado a acreditar que ela jamais lhe falaria voluntariamente, mas quando ele esteve a perigo de sucumbir à furiosa fera interior, ela saltara para salvá-lo a despeito de sua firme determinação em não fazê-lo. Ela tinha preenchido o vazio de sua existência cinzenta com cores e vida.

- Onde está você? O quanto está ferida? - Ele perguntou, rezando para que ela continuasse a se comunicar com ele.

- Deixe esse lugar. Eu jurei que se você alguma vez viesse aqui, se me encontrasse, eu não o caçaria porque você me salvou. Vá embora daqui. Eu não quero ter que matá-lo, mas eu o farei se você me obrigar.

- Eu não sou vampiro. Eu sou Cárpato. Há uma diferença.

O suspiro dela foi suave em sua mente. - Assim você diz, mas eu não sei nada sobre Cárpatos. Eu apenas encontrei os não-mortos, com suas vozes tão doces e atraentes. Vozes como a sua.

- Por que eu a ensinaria a não matar suas presas, se eu fosse vampiro? - Ele era paciente. Ele podia ser paciente. Ela era o seu mundo agora, a única coisa que importava para ele.

Ele a encontrara e finalmente encontraria um meio de fazê-la notar a diferença entre uma criatura perigosa que havia escolhido perder sua alma e de um guerreiro lutando para manter sua honra.

- Eu não lhe darei outro aviso. Se você deseja viver, deixe este lugar e não volte nunca mais.

Novamente ele ouviu a nota suave, suplicante em sua voz, a sentiu em sua mente. Ela provavelmente nem mesmo sabia que ele estava ali, mas ele a ouviu e isso o encheu de satisfação. Nicolae acreditava que ela tentaria destruí-lo. Ela era forte e bem disciplinada. Ele a tinha ensinado bem e ela era uma pupila capaz e rápida.

Eles estavam ligados, mente com mente e Nicolae sentiu a repentina imobilidade nela. Instintivamente ele sabia que ela havia alcançado o covil do vampiro. O não-morto estava ferido, duplamente perigoso e em seu próprio covil ele teria numerosas salvaguardas e armadilhas.

- Saia daí. Eu estou próximo. - Eu destruirei o vampiro. É desnecessário para você arriscar sua vida.

- Esta é minha cidade, meu lar. Minha gente está sob minha proteção. Eu não compartilho com os não-mortos. Vá embora. - Ela se fechou para ele, armando um bloqueio mental, uma barreira poderosa que ele não se deu ao trabalho de tentar penetrar.

Nicolae tomou velocidade através do céu, a coruja acompanhando seu ritmo, seus olhos procurando sinais, sentidos se abrindo para testar o ar em busca do rastro pernicioso. Ele não se incomodou em tentar rastrear Destiny. Ele a ensinara bem demais. Seu rastro era quase inexistente. Sem o ferimento, ele jamais teria percebido seu cheiro e ela já havia tratado da laceração de forma que já não havia mais o traço revelador para ele seguir.

Nicolae passou os olhos por seu companheiro de viagem, a grande coruja voando tão poderosamente ao seu lado, como vinha fazendo por anos. Eles eram companheiros de jornada. Caçadores. Irmãos. Protegendo a retarguarda um do outro. - Eu irei ao covil do vampiro e o destruirei. Não é seguro para você fazer isso, mas se algo acontecer comigo, eu lhe peço que leve essa mulher até o Príncipe. - Seu irmão não podia mais lutar com o vampiro. Ele estava próximo demais da fera para resistir ao chamado do sangue.

Houve um instante de silêncio. Dois. Nicolae sentia o vento correndo por eles enquanto se moviam pelo céu. Por um momento ele pensou que o outro não falaria. Ele o fazia tão raramente nos ultimos dias, preferindo permanecer na forma de um animal. - Você me dá uma tarefa que não estou certo de poder cumprir.

- Você não pode fazer outra coisa senão garantir que ela seja levada em segurança à nossa terra. Ela é minha companheira, embora ainda não esteja unida a mim.

Novamente houve apenas o silêncio da noite. - Nicolae, eu sou centenas de anos mais velho. Meu tempo está se desgastando. Você sente a fera preparando o bote. Eu sou a fera. Como você pode confiar em minha palavra?

Por um momento Nicolae sentiu seu coração saltar. Vikirnoff há muito vinha lutando contra o vazio de uma existência sem cor. Ele havia caçado os vampiros por centenas de anos, destruindo velhos amigos. Com cada morte se tornava mais e mais difícil resistir à necessidade de sentir alguma coisa. Se Vikirnoff matasse uma presa enquanto estava se alimentando, ele estaria perdido para todo o sempre. Nicolae fechou sua mente à possibilidade. Vikirnoff era forte e ele agüentaria pelo tempo que fosse necessário.

- Eu confio em você, Vikirnoff, porque eu o conheço. Você é um guerreiro sem igual e sua honra é tudo. Você é meu irmão, que veio me proteger em meus dias mais negros, como eu fiz por você. Dê-me sua palavra de que fará isso se eu falhar. Você nunca faltou com sua palavra. Nem mesmo a fera é mais forte que sua palavra. Ela é uma de nós, embora convertida por um vampiro. Uma fêmea capaz de produzir crianças fêmeas para nossa raça. Você deve cumprir essa última tarefa e então poderá ir para a terra, para despertar apenas quando sentir o chamado de sua companheira. - Nicolae foi firme, falando de guerreiro para guerreiro.

Não havia outra escolha para nenhum dos dois. Por séculos eles haviam enfrentado os vampiros, sozinhos em seus territórios até ambos estarem perto do fim. Até Nicolae se conectar com uma criança que estava sofrendo abusos físicos e emocionais. Seu irmão Vikirnoff, séculos mais velho, havia corrido para seu lado, para assegurar que Nicolae não sucumbisse ao desespero quando não era capaz de evitar as contínuas agressões.

 

Destiny olhou cuidadosamente a sua volta na caverna onde havia seguido o vampiro. Sua guarida estava perto, pois ela já havia encontrado duas de suas armadilhas, mas lenta e meticulosamente as desentranhara. Seu ombro estava inexplicavelmente fechado e seus pulmões se esforçavam por atrair o ar. Havia uma ansiedade nela que nunca sentira antes, quando caçava. Ele estava ali, afinal. Nicolae.

Sussurrou seu nome na mente. Ele o tinha pronunciado com freqüência, o som misturado com seu sotaque era algo formoso, mas nunca se atrevera a repeti-lo. Agora o estranho nome mexia com os fios de seu coração. Sempre soubera que chegaria o dia em que ele a encontraria. Dia que esteve aproximando mês a mês, dia a dia. Ele era incansável em sua busca e ela sempre soubera que teria de enfrentá-lo algum dia. Pensava que estava preparada, mas em realidade, estava aterrorizada. Confiava nele, em sua preocupação por ela, seu companheiro de fadigas, por estranho que pudesse ser

Nicolae tinha vindo a ela em sua hora mais escura, compartilhara sua tortura, perversas torturas de uma mente perversa. Sua voz fôra pura magia, transportando-a para terras distantes e lugares onde seu captor não fôra capaz de segui-la. Ela havia deixado seu corpo atrás, mas seu coração e sua alma voaram livres. Nicolae, mesmo de tão longe, fôra sua salvação. Salvara-lhe a vida, salvara sua prudência.

Mas Destiny tinha aprendido e da forma mais dura, a não confiar numa voz atraente. Uma vez tinha respondido a uma e esse monstro matara sua família. A partir desse momento, para tanto tempo, ouvira vozes doces uma e outra vez e todas aquelas vozes pertenciam a monstros mentirosos e depravados, que prosperavam com a dor dos outros. Pensava em Nicolae como parte de sua família, mas sabia que era melhor não confiar nele. Ela havia salvado-a, com sua formosa voz, mas também lhe tinha ensinado outras coisas. Ele ensinara-a a matar seus captores, ensinando-a a matar os monstros que sujeitavam outras famílias, outras crianças. Ele havia ensinado a ser o que ele era, um professor da morte.

Destiny passou a mão cuidadosamente ao longo da parede de pedra, sabendo que havia uma entrada, sabendo que o vampiro estaria escondido em algum lugar, atrás do que parecia ser uma sólida parede de pedra. Gotejava água firmemente, o som era ruidoso nos pequenos limites da caverna. Inclinou a cabeça, examinando a pesada rocha sobre ela. Parecia sólida, mas havia um distintivo desassossego em seu estômago, uma advertência que havia aprendido depois de uma vasta experiência, de ser cuidadosa.

A caverna dava a sensação de ser uma armadilha. Destiny demorou em examinar o chão. Era acidentado, úmido nos pontos onde a água se infiltrava continuamente das paredes. Passou ligeiramente a mão sobre a rocha e quase perdeu o sutil movimento sob a palma de sua mão. Piscando para tentar enfocar o que não podia ver, Destiny afastou a mão rapidamente da superfície da rocha. Algo estava ali, esperando uma vítima despreparada. Algo microscópico, mas mortal.

Destiny deu um cuidadoso passo para afastar-se da parede de rocha. Imediatamente sentiu que o chão sob ela afundava, como se tivesse pisado numa esponja. Ou num pântano. Seu tornozelo se afundou na estranha lama. O barro grudou em seu sapato. Apertando sua pele como um grilhão. Seu coração bateu forte e o ar abandonou seus pulmões numa pequena rajada. Ela obrigou sua mente a se tranqüilizar, mantendo o pânico a raia.

Em vez de lutar contra a lama negra que lhe sugava, Destiny escolheu se dissolver. Brilhou tenuemente durante um momento na escuridão da caverna e logo restou uma neblina de cores brilhantes, movendo-se cautelosamente sobre terra. As cores giraram, brilhantes gotas de água se uniram sobre a mancha de umidade maior, onde ela se filtrava firmemente. De repente a neblina se introduziu no coração da mancha, penetrando a terra úmida e desaparecendo completamente da câmara.

Destiny se encontrou em outra caverna maior, sob a montanha. O cheiro forte do sulfureto era horrível e o ar espesso e ardente. Gás nocivo gotejava e se elevava dos charcos verdes que dedilhavam a terra. Um vapor amarelo plainava pesadamente no ar. Ela usou de grande cuidado para examinar a terra, antes de tomar sua verdadeira forma. Logo, colocou seus pés em terreno sólido, seus joelhos ligeiramente flexionados, seu corpo relaxado e preparado para entrar em ação, se fosse necessário. Destiny tinha o pressentimento de que a necessidade seria grande e chegaria logo. Muito em breve.

Estudou a câmara, sem se mover, mal respirando, sem desejar perturbar o fluxo de ar, sem desejar deter uma armadilha perigosa. Havia duas entradas que conduziam profundamente sob a montanha. Ela podia captar as passagens subterrâneas que provavelmente se estendiam durante milhas. Afiadas lanças naturais pendurava do teto e grandes colunas de mineral se elevavam para formar uma legião de armas, suspensas sobre sua cabeça. As estalactites deixavam Destiny nervosa. O inimigo estava perto e em sua guarida, ele tinha a vantagem.

Cuidadosamente esquadrinhou a câmara, utilizando mais que sua visão física. O cheiro do mal permeaba o lugar, fazendo com que ardessem seus olhos e surgissem lágrimas. Destiny cuidou em não esfregá-los. Era provável que esse espesso vapor que enchia a câmara fosse perigoso.

Um caçador deve presumir que tudo na guarida de um vampiro, seja uma armadilha letal. Não pode passar por cima do mínimo detalhe, especialmente tudo o que pareça ser natural. Nicolae havia lhe ensinado isso. Seu salvador. Seu inimigo mortal. Ela preparara-a com esmerado cuidado, para suas batalhas com o não-morto. Ela vivia por causa dele, mas se veria obrigada a enfrentá-lo numa batalha.

Impaciente com seus pensamentos, Destiny sacudiu a cabeça. Não podia permitir ter sua atenção dividida. Decididamente o puxou fora de sua mente e voltou sua completa concentração no problema que tinha nas mãos. Esquadrinhou a câmara, anotando a posição de cada rocha, de cada charco escuro e brilhante, das colunas de vapor que se elevavam delas. Prestou atenção aos buracos do chão, o terreno acidentado, memorizando tudo antes de dar um só passo.

Cuidadosamente, foi para a esquerda, desejando ficar a descoberto, longe das paredes, mas o risco era muito alto. Algo se moveu fora de sua linha de visão. Sentiu a agitação do ar, a sutil diferença no vapor que se elevava do charco. Um fio de névoa amarelada quebrou as colunas de vapor que flutuavam ociosamente para ela.

Algo lhe roçou a perna, puxando a malha apertada da perna de sua calça. Destiny resistiu em olhar e saltou para cima, chutando-a, fazendo em pedaços duas estalactites e enviando os restos a cair nos borbulhantes charcos. Aterrissou ligeiramente agachada do outro lado da câmara, com as mãos levantadas, prontas para a defesa, enquanto examinava os resultados de seu trabalho.

O teto sobre sua cabeça se movimentou durante um momento, as formações de aspecto natural balançaram ligeiramente, com vibrações de violência. Alguém a quebrou em toda sua longitude, excolocando brevemente um interior escuro e um movimento sussurrado, antes de se romper desvanecendo-se numa irregular formação de minerais.

Sem titubear Destiny se lançou ao ataque, correndo ao longo das paredes da câmara com longos e ligeiros passos que mal tocavam a superfície da parede enquanto corria ao longo da circunferência, escalando mais alto, a cada passo, até que alcançou o teto. Ali, entrou em ação, dirigindo os pés para uma estalactite que havia permanecido imóvel.

Com a adaga na mão, atacou e a força de seu golpe rompeu a carapaça, excolocando o vampiro. Seu movimento a levou a passar à criatura, mas ela se voltou no meio do ar e enterrou a afiada lâmina no peito do não-morto.

O grito do vampiro foi horrendo, ressoando através da câmara, enquanto caía na terra. Seus lamentos era uma ordem e instantaneamente as estalactites no alto se romperam, depois cuspiram grandes predadores alados. Pterodáctilos em miniatura emergiram das carapaças, batendo as asas ferozmente e grandes bicos totalmente abertos. O vapor formou redemoinhos e se estendeu, quando as asas incomodaram o ar.

Os pássaros pré-históricos tinham corpos do tamanho de uma águia mas a envergadura de suas asas era mais curta. Ideados pelo vampiro, os carnívoros estavam destinados a guardar a câmara e afastar os inimigos. Voaram para o rosto de Destiny, lançando-se com seus bicos ferozes.

Ela aterrissara perto de um charco borbulhante e cuidadosamente permaneceu perto das paredes, sabendo que seria presa fácil para os pássaros, a campo aberto. O ruído era um assalto a seus ouvidos, mas ela não intentou em controlar o volume. Precisava ouvir menor e ligeiro dos sussurros na caverna. Deu um forte murro num dos pássaros que atacava seu pescoço, lançando-o para o alto, enquanto saltava por cima do charco para alcançar o vampiro, que estava engatinhando para longe dela.

Aterrissou sobre seus pés, mas algo bateu em sua perna esquerda com força, fazendo-a cambalear. Nesse instante, o vampiro voltou e ficou sobre ela, sua cara era uma máscara viciosa de ódio, seu hálito fétido e a adaga ensangüentada que ele tirara do peito, em sua mão.

Destiny se voltou para enfrentá-lo. Estava ferimento e sofria perdas de sangue e mesmo assim, confiava em que seria a mais forte dos dois. Pegou-o pela mão e a torceu para trás. Abaixando-se para evitar o ataque que chegavam em seu rosto, de acima e dirigiu a faca para o peito do não morto, pela segunda vez.

O vampiro rugiu de ódio, segurando a adaga. Destiny afastou o rosto uma segunda vez, de um ataque por atrás. Um lagarto monstruoso havia saído do charco, gotejando saliva de suas formidáveis mandíbulas. A longa cauda ameaçava as pernas de Destiny. A criatura parecia um dragão, com enormes garras e um peculiar andar. Sua velocidade foi incrível quando se apressou para ela. Destiny não teve tempo de arrancar o coração do vampiro, pois teve que e dissolver e pulverizar suas moléculas através do vapor nocivo, para se salvar.

O vapor na câmara era pesado, uma espécie de armadilha que ela nunca encontrara antes. Imediatamente, pareceu anexar-se às moléculas de névoa, absorvendo-as como uma esponja sedenta. O pânico flamejou nela, uma súbita compreensão de que havia sido descuida e agora estava presa numa armadilha.

- Tome a forma de um dos pássaros. - A voz mágica de Nicolae era tranqüila e firme. Próxima.

Destiny o fez instantaneamente, tomando a imagem da mente dele em vez da própria, sem compreender que automaticamente se estendeu para ele, compartilhando com ele, seu perigo, lhe permitindo "ver" a armadilha e a câmara através dela. Bateu as asas e gritou como o resto das estranhas criaturas, tudo enquanto espiava o vampiro sob ela.

Para seu horror, o réptil gigante mudou para uma forma humana, convertendo-se num homem alto e magro, com um nariz adunco e cabelo cinzento. Ele estendeu a mão casualmente para o outro vampiro, ajudando-o a ficar em pé. Na mente de Destiny, Nicolae ficou imóvel. Os vampiros viajavam juntos às vezes, mas se utilizavam uns aos outros e sacrificando outros. Em todos os longos séculos de suas batalhas, Nicolae nunca tinha visto um vampiro ajudar outro.

- Vamos, querida, estou começando a me cansar desta pequena charada. - Disse o vampiro mais alto. Ele deu uma palmada e os pássaros caíram do ar, mergulhando-se nos charcos, gritando impotentemente, enquanto desparecíam sob a superfície. - Vernon precisa de sangue. Acredito que deve ser você que o abasteça, já que foi você quem causou seu desconforto.

Destiny desceu, mudando-se para sua autêntica forma.

- Olhe só. Vejo que é o velho amigo da semana passada. – Ela disse, sorrindo serenamente aos dois vampiros. Manteve os olhos fixos no mais alto. Ele era forte e sem nenhum ferimento e muito perigoso. - Surpreende-me que um grande vampiro como você tenha se associado a um debilucho como Vernon. Parece bem fora de sua liga. Três vezes me apontei sobre ele... Um pouco demais, não acredita? - Havia uma zombeteira diversão em sua voz. E em seu rosto, uma máscara agradável, confiada e serena, enquanto por dentro, seu cérebro trabalhava numa via de escape. O caçador era agora o caçado, mas ela nunca seria, nunca se permitiria ser apanhada com vida, por semelhantes monstros.

Vernon grunhiu para ela, excolocando suas longas presas.

- Não sorrirá mais, quando eu drenar o sangue de suas veias. - A saliva gotejava pela lateral da boca e ele tossiu, mantendo as mãos sobre seus ferimentos.

- Vamos, vamos, Vernon... Ela tem razão. Uma simples mulher te amassou como a um porco. - O vampiro mais alto sorriu, excolocando seus afiados incisivos. - Não há necessidade de beber nela, por sua própria incompetência.

- Busque mais alguma coisa. Possivelmente outro. Não parece razoável que estejam na mesma guarida, mas ele está atraindo sua atenção por alguma razão. Ele está com medo de você, pois atacou com a adaga, por duas vezes, um dos não-mortos e é uma mulher, uma adivinhação para eles. Olhe com algo mais que seus olhos, mas não lhe volte às costas.

Destiny sentiu Nicolae na entrada da caverna e seu coração começou a pulsar rápidamente.

- Não demonstre temor, nem sequer por mim. Acreditarão que é débil e quer que fiquem preocupados. Nunca antes se encontraram com uma vampira.

Ela tinha que confiar em Nicolae, não tinha escolha. Ele a caçara durante anos, desejando-a para si ou para algum plano que não podia prever. Não podia se imaginar traindo a outros vampiros, a estas alturas. E sabia por experiência própria que ele tinha razão. Os vampiros não compartilhavam suas guaridas. A situação era incomum e altamente perigosa. Esquadrinhou a câmara, utilizando todos seus sentidos. Cheirou o terceiro adversário imediatamente. Não podia localizá-lo, mas sabia que ele estava ali. Compartilhou a informação com Nicolae.

Destiny sorriu maciamente, fingindo indiferença, enquanto Vernon lhe grunhia seu ódio. Ela voltou-se para o vampiro mais poderoso.

- Não entendo. Normalmente quando alguém tão poderoso como você entre em meu território, ouço rumores. – Deliberadamente, ela o adulou, tentando soar ofegante e ligeiramente coquete.

O vampiro alto lhe fez uma reverência.

- Meu nome é Pater. E você é?

- Nada de enganos. - Destiny se virou, se abaixou e tirou outra adaga de sua bota e a dirigiu para a barriga do mais recente atacante. Enquanto ele gemia e gritava, afundou a mão com dureza através de ossos e músculo,s diretamente no coração. Fechou os dedos em volta dele e o arrancou com força, enquanto saltava para trás, para evitar o sangue envenenado, como fosse possível.

Jogando o coração longe do vampiro que caía, ela provocou uma faísca na parede de pedra, abanando as brasas, enquanto corriam para cima, pela parede, lançando as chamas para o enegrecido órgão que pulsava, incinerando-o imediatamente.

Vernon agitou os braços, esquecendo por um momento seus terríveis ferimentos. Destiny tinha destruído o terceiro vampiro que esperara tão pacientemente, para atacá-la por trás enquanto Pater a distraía. Ela deixou-se cair na terra, sempre consciente das manchas de umidade e o vapor amarelo que se formavam espessamente.

- Espero que não seja amigo teu, Pater. - Disse ela, sonrrindo um pouco. Sua perna, onde a cauda do réptil golpeara com força, estava começando a palpitar e arder. - Certamente espero que não chame a se mesmo Pat. É muito jovem, sabe disso. - Ela concentrou-se no vampiro alto, sabendo que Vernon era uma pobre ameaça, a menos que se aproximasse dele. Sua força estava diminuindo rapidamente, por causa da perda de sangue e os terríveis ferimentos que lhe tinha infringido.

O vampiro alto simplesmente lhe sorriu. Ele inalou profundamente e seus olhos se abriram mais, enquanto tomava nos pulmões, a essência de Destiny.

- É uma dos nossos... O sangue de nossa gente flui em suas veias. – Ele pareceu ligeiramente desconcertado. - Não ouviu os sussurros do movimento? Estamos nos unindo, um a um, crescendo em força dentro de nossas filas. Uma fibra de erva pode ser soprada longe no vento, mas um feixe é sólido. Por muito tempo nossa gente permaneceu oculta. Vimo-nos obrigados pelo medo, enquanto criaturas inferiores, seres que não são mais que produtos para nós, regem a terra. Por quê? Porque nunca unimos forças. Juntos podemos derrotar os caçadores. Eles são poucos e a maioria perto de se unirem a nossas filas. Tenho olhos nos acampamentos de caçadores e estivemos fortalecendo nosso domínio sobre o gado, nos infiltrando em posições de influência e poder. Una-se a nós.

Um estranho formigamento lhe tinha começado no músculo da pantorrilha, alarmante porque irradiava pela perna, para a coxa e também descia para o pé. Ela elevou o queixo, súbitamente temerosa do que ele estava dizendo. Por isso Nicolae a tinha fustigado durante tanto tempo? Para convencê-la a de que se unisse às filas de não-mortos, com alguma nova oferta de poder? A idéia era arrepiante. Ela poderia deter semelhante movimento por sua conta? Quem acreditaria? Se contasse a alguém quem era, destruiriam-na.

- Seu lugar é conosco.

Destiny fez uma careta antes as palavras. Não pôde evitar o tremor que percorreu seu corpo e as repentinas lembranças que a deixavam doente. Fechou de repente a porta para eles, aterrada do que lhe fariam.

Sentindo sua vulnerabilidade, Pater deslizou um passo para ela, sem tocar o chão. Destiny saiu para o lado, sem desejar retroceder até a parede da câmara. Estava segura de que havia algo ali. Inesperadamente, sua perna dobrou e ela caiu com força, com um olhar surpreendido na face. O estranho formigamento era uma paralisia que avançava para cima, do músculo da pantorrilha, para a coxa. Seu pé estava rígido, incapaz de se mover.

Grunhindo triunfantemente, Vernon puxou Pater para o lado, apressando-se para ela, ansioso por sangue. Destiny viu seu pé se aproximar e virou-se, mas o golpe a alcançou na têmpora, sem a maior parte de sua força original. Em represália, ela lhe lançou um pedaço de rocha diretamente a um de seus ferimentos do peito. Podia ver Pater deslizando-se para ela com seu andar pausado, com um sorriso na face.

Pesada, a rocha bateu solidamente no destroçado peito de Vernon. Ele uivou, cuspindo e salpicando sangue pela boca enquanto quase se paralisava.

- Matarei você. - Prometeu, tão indignado que quase não pôde cuspir as palavras. Seu ódio se manifestou na câmara. O vapor amarelo se intensificou, fechando-se sobre Destiny, rodeando-a enquanto Vernon se aproximava.

Destiny esperou, observando cada um de seus movimeintos. Vernon estava seriamente ferido, sua perda de sangue era grande. Apesar de sua incapacidade para mover a perna, estava segura de que ainda era a mais forte dos dois. Poderia lhe arrancar o coração se ele aproximava o suficiente. Teria que matar pelo menos um deles... Antes de encontrar uma forma de destruir-se a si mesmo. Estava decidida que não a pegariam com vida, nenhum dos dois.

Algo em sua imobilidade fez o vampiro se detr. Até Pater parou para avaliá-la, intranqüilo. Com o olhar cheio de ódio de Vernon se lançou sobre ela.

A câmara explodiu com fogos artificiais que explodiu em chamas e uma chuva de faíscas. Um homem alto e de poderosa constituição aterrissou solidamente em meio a pirotécnia.

Era muito tarde para que Vernon retrocedesse. As mãos do recém-chegado seguraram sua cabeça e apertaram com força, amassando os ossos. O atacante se movia tão rápido que era uma imagem imprecisa, sua mão se introduziu profundamente na cavidade toráfica do não-morto que gritava e extraiu seu coração. Enquanto Vernon caía, Destiny captou o brilho de uma adaga. Ela saía dos dedos inertes do vampiro e aterrissou a curta distância dela.

Destiny levantou o olhar para o desconhecido. Conhecia-o. Era obrigada a reconhecê-lo em qualquer parte. Ele era puro poder e elegância com seu cabelo longo, rosto forte e olhos penetrantes. Olhos da morte. Um ciclone de morte. Ele roubava-lhe a respiração. Não podia pensar nele, como nada mais que um mortal inimigo. Um perigoso vampiro que matava uma e outra vez.

- Como você está? - Exigiu Nicolae tensamente, seu olhar brilhante atravessou o espesso vapor amarelo que se acumulava em volta deles. - Toda esta câmara é uma armadilha mortal. Temos que sair daqui. – ele deu um passo para ela, estendendo a mão para erguê-la na segurança de seus braços. Pater havia desaparecido e a sensação da câmara era alarmante. O ar vibrava de tensão e algo muito mais sinistro.

Destiny se arrojou para frente, para se encontrar com ele, com uma adaga oculta na face interna de sua mão. Tinha uma única oportunidade de salvar-se. Quande Nicolae se ergueu sobre ela, todo músculos e fluídica graça, seu estômago se retorceu alarmantemente e sua resolução se debilitou por um momento. Então ela viu seus olhos. Escuros e perigosos. Chamas titilando em suas profundezas. Ela puxou a faca para seu coração.

Mãos fortes se fecharam sobre as suas, como algemas, apertando o fio da lâmina contra sua própria pele. Alguém a pegara por trás, puxando-a contra um peito duro. Seu captor era enormemente forte, sua garra inquebrável. Destiny jogou a cabeça para trás, tentando fazer contato com seu captor, esperando poder esmagar ser nariz. À parte de atrás de sua cabeça bateu num peito tão duro, que a dor explodiu em seus olhos e têmporas. Só pôde observar impotentemente, como Nicolae se inclinava sobre ela. Destiny lançou para cima sua perna sadia, tentando acertá-lo.

- Temos que sair daqui. - Disse uma voz atrás dela. Baixa, musical e compelidora. – Você é descuidado, Nicolae. Quase que ela te acerta. - Seu captor invisível lhe retorceu a mão, fazendo a adaga cair. Depois, rapidamente ele esfaqueou a mão dela.

A ação foi rápida e inesperada, o corte profundo e extremamente doloroso. O sangue verteu de sua mão. Destiny franziu o cenho, incapaz de entender por que fariam tal coisa. Os vampiros desejavam sangue e o poder de sentir a morte de suas presas. Precisavam da onda de adrenalina no sangue de suas vítimas, tanto como o próprio sangue.

- Demônios, Vikirnoff, não era necessário lhe fazer mal. - O murmúrio da voz se registrou, enquanto a sensação de poder da mistura dos dois homens se fundia, entrando profundamente em sua mente, mantendo-a sob seu feitiço.

Completamente indefesa, incapaz de se mover ou lhes negar nada, Destiny só pôde observar com horror como Nicolae a segurava contra ele, abrindo o peito com um só corte. Pressionou-a para ele, oferecendo seu sangue ancestral. Sangue que ela sabia que os uniria por toda a eternidade. Lutou em sua própria morte, ouviu o grito de medo e pânico sair de sua alma, um grito que nunca passou por sua garganta. Mas bebeu porque não tinha escolha. Juntos, os dois eram muito poderososo.

- É necessário eliminar o sangue poluído de seu sistema. Relaxe... Temos que ser rápidos. Precisava sair deste luga. O vampiro envenenou seu corpo com algo novo para nós. Vê dentro de si mesma e analisa a composição, destrua-a e tire-a de seu corpo. - Como sempre, a voz de Nicolae era amável e firme.

Ouviu seu captor cantarolar, palavras que Nicolae já utilizara antes em sua mente, uma ritmo de música suave e consoladora, que de algum modo afastou a dor de sua pantorrilha, sua mão, do ombro e o braço onde o vampiro havia marcado-a. Extranhamente, quando o sangue de Nicolae entrou nela, o terrível ardor que a acompanhava dia e noite pareceu aliviar-se. Foi consciente da mão de Nicolae em sua nuca, embalando sua cabeça e massageando seu pescoço, gentilmente.

Destiny fechou os olhos para o que estava acontecendo, considerando suas opções, colocando a prova suas forças.

- Terá que fazer por ela, Nicolae. - A voz flutuou atrás dela e soava longínqua. – Ela não será capaz. Temos que tirá-la daqui, nós mesmos. A armadilha está se fechando e o vampiro que escapou, espera nos prender aqui.

Isso feriu seu orgulho. Ela podia fazer o que eles pudessem. Era forte e Nicolae a ensinara bem, possivelmente melhor do que pensava. Destiny procurou dentro de si mesma, deixando de lado a dor e o medo e o conhecimento do que e quem era. Simplesmente afastando-se, encontrado energia pura e encontrando um lugar de poder e cura. O sangue dele era fascinante e ela podia ver claramente a diferença entre o sangue que se espalhava no chão e o sangue que estava sendo introduzido à força em seu corpo. Podia ver o sangue ancestral lutando com o seu, numa batalha que acontecia em suas veias, por seu coração e sua alma. Havia espessas manchas negras estendendo-se da pantorrilha, invadindo seus músculos e multiplicando-se a grande velocidade.

Voltou sua atenção para essas manchas. A escura bactéria que invadira sua corrente sangüínea, para levar a cabo, à vontade do vampiro.

- Se apresse. Devemos sair já. Levarei-a perto da superfície, mas terá que ser capaz de mudar de forma para sair daqui a salvo. - Como sempre, a melódica voz foi pausada e despreocupada. Mas Destiny era consciente da urgência de sua situação. Sabia que o vampiro Pater havia escapado. Sua guarida seria uma armadilha perigosa, desenhada para apanhá-los. Os movimentos de terra foi toda a advertência que precisou. Destiny se concentrou nas manchas da bactéria, destruindo-as, empurrando a maioria delas para fora por seus poros, empurrando as manchas que se apressaram para seu coração e saíram pelo grande corte de sua mão.

A terrível paralisia estava desvanecendo, junto com a bactéria. A força entrou em torrentes em seu corpo, com o sangue ancestral. Nicolae levou sua mão aos lábios. O coração de Destiny parou, perdendo um batimento e começou a palpitar pesadamente. A dor feroz da laceração aliviou, sendo substituída por uma curiosa pulsação, um repentino calor que se arrastou por seu sangue. Os dois caçadores aliviaram a presa mental sobre ela, permitindo que sua mente e corpo se liberassem da compulsão. Ela retirou a mão da posse de Nicolae, sustentando-a contra o coração. Foi consciente de estar nos braços dele, enquanto ele se apressava através do labirinto de câmaras subterrâneas. Destiny passou a língua pelo corte do peito dele, num gesto automático para fechar o ferimento.

Deliberadamente, permaneceu inerte em seus braços, acumulando energia, esperando sua oportunidade. Voltou sua atenção para o homem de rosto sombrio que corria perto de Nicolae. Era mais ou menos tão alto como Nicolae, com o mesmo cabelo negro e olhos penetrantes. Ele olhou-a, voltando os olhos inexpressivos e sem emoção em sua direção e um arrepio tomou seu corpo. Reconhecia a morte quando a via.

A câmara pela qual fugiram, caiu e houve um estrondo que reverberou pelo labirinto subterrâneo, quando as paredes e o teto paralisaram para o interior. Eles estavam se movendo com velocidade sobrenatural, mas o espesso vapor amarelo estava a um passo deles.

- Estou muito mais forte. – Assinalou, Destiny. – Desça-me e iremos muito mais rápido.

Nicolae a moveu nos braços sem mudar o passo, permitindo que seus pés tocassem o solo, até que ela correu com ele. Nicolae imediatamente tomou posição atrás dela, protegendo suas costas, enquanto seu irmão se mantinha a um passo diante deles.

Destiny não pôde evitar admirar a fluida graça de seu inimigo enquanto corria, mudando de forma, enquanto a abertura se erguia sobre suas cabeças, numa greta estreita pela qual nenhum deles seria capaz de passar. Nunca tinha imaginado que ninguém pudesse mudar tão rápido. A enorme e elegante forma comprimindo-se até se tornar um morcego.

- Agora! Mude!

Era a primeira vez detectava urgência na voz de Nicolae. Destiny não esbanjou tempo olhando para trás, para ver o que estava seguindo-os. A urgência na ordem foi advertência suficiente. Manteve a imagem do morcego em primeiro plano em sua mente, sentindo que a mudança tomava lugar, percorrendo-a, consumindo-a. Seus ossos retorceram e se contraíram, mudando de forma e comprimindo-se. Ela deslizou através da estreita abertura, quase rasgando a ponta de uma asa. Sentiu Nicolae atrás, perto.

Uma parede de fogo se fechou atrás deles, buscando-os, movendo-se quase tão rapidamente como eles, empurrando o terrível vapor amarelo diante das ávidas chamas alaranjadas. Esta nova câmara era menor. Destiny seguiu a liderança do morcego para cima, através da estreita abertura, seu pequeno corpo encolhendo-se ante a explosão de calor.

- Mais rápido.

Ela sussurrou a palavra em sua mente, temendo ansiosa que Nicolae se visse preso no inferno. Não compreendeu que tinha enviado a palavra à mente dele. Que tinha traído sua ansiedade ante ele. De trás, mesmo na forma de morcego e fugindo de uma tormenta de fogo, ele sorriu.

- Conseguiremos. – Ele era serenamente reconfortante.

Isso a incomodou. Ouvia sua irritante diversão,ressoando em sua mente, enquanto irrompia para a câmara seguinte. Era pequena e escura e havia uma estranha densidade no ar. O calor era sufocante. Nicolae amaldiçoou, mas as palavras foram uma advertência na mente de Destiny. Em seguida, voltou a mudar sua própria forma, examinando as grossas paredes de estratos de rocha, os formados padrões. Esta estranha caverna uma vez fôra parte de um rio de lava, mas agora era uma armadilha letal desenhada por um monstro ardiloso. O vapor amarelo emanava em pequenos espaços, enchendo rapidamente cada abertura.

Nicolae e seu irmão estavam apalpando as paredes, julgando o calor com a palma das mãos, enquanto estas cobriam tanta superfície como era possível.

- Por aqui, Vikirnoff.

Destiny observou como Nicolae retrocedia para permitir que seu irmão passasse as mãos sobre o mesmo ponto. Aproximou-se, se perguntando o que eles haviam encontrado, exatamente. Nicolae a pegou pelo braço e puxou seu corpo para o amparo do dele, quando Vikirnoff golpeou a rocha, com a palma da mão.

A terra estremeceu e as paredes começaram a desmoronar. Grandes partes de rocha caíram como uma chuva sobre suas cabeças. Nicolae se voltou, abraçando-a e inclinando seu corpo sobre o dela enquanto a empurrava para o buraco que Vikirnoff fazia. Vikirnoff golpeou pela segunda vez, para aumentar o buraco. O vapor amarelo, estava enredando-se em volta de seus pescoços, como nós corrediços e começou a apertar. A terra tremeu novamente, depois deu uma dura sacudida que jogou contra a pedra ardente. Destiny engoliu um grito de dor, temendo se afogar. Não se atrevia a abrir a boca ou respirar a terrível névoa venenosa que os apanhava.

Vikirnoff saltou pela abertura, enquanto o seguinte tremor sacudia a terra. Nicolae pegou Destiny pela cintura e a lançou atrás de seu irmão. Aterrissou com força do outro lado, automaticamente esquadrinhou os arredores. Depois dela, a parede desabou. Pó e restos se fundiram com o vapor amarelo que havia saído através do buraco, tentando mantê-los na pequena caverna.

Destiny saltou de volta para a parede, estudando as rochas e jogando-as fora de seu caminho.

- Ele está preso. – Ela gritou, dando murros nas rochas. Estavam quentes e eram pegajosas. – Você está bem? – Ela chamou o Nicolae, incapaz de se conter, seu coração quase parando. Ele não podia estar morto. Seu único companheiro. Seu salvador. – Fale comigo. Diga alguma coisa.

Vikirnoff a arrastou para longe da parede.

- Vá. – ele ordenou. - Não tome este veneno em seu corpo... Vá enquanto possa. Eu o tirarei.

Destiny pensou, enquanto observando que Vikirnoff começava a trabalhar a um passo feroz, lutando contra o tempo enquanto a terra se encurvava e escavava.

- Vá.

A voz foi firme como sempre. Despreocupada. Ela não o entendia, não queria entendê-lo. Só sabia que não que podia respirar, de tão forte era sua necessidade de voltar e ir a sua ajuda.

Ela correu afastando-se dos restantes fios de vapor, mudando de forma e atravessando as cavernas e câmaras, escalando firmemente para sair à superfície. Era um cometa de névoa, permanecendo bem à frente do rastro de veneno, mas algo dela havia ficado para trás. Não era sangue, mas algo mais importante. Era sua alma que parecia ter ficado para trás, com ele .

Explodiu a céu aberto, no ar frio e refrescante. Destiny mudou para a forma de uma coruja, voando através do céu. Normalmente desfrutava da sensação, a habilidade de tomar esta forma era um benefício ao qual havia se aficionado. Agora, sua mente estava consumida pela necessidade de saber se Nicolae estava vivo e bem. Era tudo no que podia pensar, tudo o que lhe importava.

- É agradável saber que te importo.

Aí estava a inevitável diversão, desenhada para fazê-la rilhar os dentes, mas desta vez só sentiu alívio.

- Estamos livres da câmara e lutando para sair através do vapor. Logo nos uniremos a você.

Destiny rompeu a conexão bruscamente. Não se uniriam a ela, que precisava da distração da terra. Seus ferimentos ardiam e pulsavam, lhe recordando que podia sentir dor quando não fazia um esforço contínuo para bloqueá-la. Cansada, ainda fez um esforço para cobrir seu rastro. Não podia se arriscar a ser encontrada. Conhecia Nicolae, sabia o quão hábil ele era como caçador. Ele lhe dera acesso a suas lembranças, que eram de vastas experiências, séculos e séculos de batalhas. Não estava em forma para lutar com ele, especialmente quando viajava na companhia de outro.

Destiny olhou para trás várias vezes, voltando a estudar seu rastro. Estava decidida a escolher o tempo e lutar sua batalha, para se assegurar de que as vantagens estavam de seu lado. Nunca permitiria voltar a ser capturada.

Cansada até os ossos, aterrissou em um pequeno arvoredo a meio caminho de uma montanha, num parque nacional. O vento estava soprando com força, intensificando um frio mordaz que gotejou em seu corpo, até seus ossos. Tremendo, teceu suas salvaguardas, armadilhas que dissuadiriam os humanos e atrasariam aos vampiros e a alertariam de sua presença.

Enquanto abria o chão, sentindo que a terra curadora a chamava, pensou no que Nicolae fazia. Ele salvara sua vida, afastando-a da parede que se caía, agindo como seu salvador. Era isso próprio de um autêntico vampiro? Tudo o que tinha visto de vampiro, argumentava contra este ser. Certo, suas vozes eram feiticeiras, doces e atraentes até para os prudentes. Podiam parecer belos e sensuais. Mas não podiam mascarar suas perversas naturezas. Vampiros eram egoístas, rancorosos e se vangloriavam na dor de suas vítimas. Nunca ajudavam ou salvavam a ninguém voluntariamente.

Mas restavam Pater e seu plano de unir os vampiros em um grandioso esquema para dominar o mundo. Nem importava quão inverossímil fosse, a idéia verdadeiramente a aterrorizava.

Os vampiros possuíam incríveis poderes e tremenda influência sobre os humanos, criando marionetes que faziam sua vontade e serventes para levar a cabo suas ordens ,enquanto seus professores descansavam sob a terra, fora do sol.

Nicolae nunca tinha mostrado esses traços, nem em suas batalhas. Durante suas brigas, Destiny havia sentido elevar a ferocidade nele, um demônio escondido e preparado para destruir, mas sempre preso, sempre sob controle. Suspirou brandamente. Precisava averiguar muito mais dele antes de destrui-lo, seu único companheiro.

Podia admitir para si mesma, que sentiria falta de Nicolae, se nunca mais ele fundisse sua mente com a dela. Contava com ele. Tantas vezes, enquanto aprendia a matar o vampiro que a atormentava, tinha se apegado às lembranças dele. Mais que isso, acreditara nele como seu suporte emocional. Mesmo nos momentos mais degradantes e aterradores de sua vida, Nicolae estivera com ela. Abrigando-a, distraindo-a. Mantendo-a viva.

Destiny se colocou mais profundamente entre os consoladores braços da terra. Nicolae lhe contava com freqüência, sobre uma raça de seres. Sobre os Cárpatos. Havia-lhe dito que ele era um deles, que caçava aqueles dos seus que traíam sua raça para se converterem em seres absolutamente perversos. A princípio, pensava que ele havia inventado as histórias para distraí-la do terror de sua existência. Depois pensou que estava tentando atrai-la para ele, fazendo-a acreditar que era diferente do vampiro. Em todo tempo que tinha caçado o não-morto, nunca havia cruzado com nenhum ser parecido com o que ele havia descrito. Enquanto fechava os olhos e a terra se amontoava sobre ela, Enquanto o ar abandonava seu corpo e seu coração cessava de pulsar, seu último pensamento foi que deveria averiguar mais sobre esta espécie. Rezou para que verdadeiramente ela existisse.

 

Destiny abriu os olhos e esperou a terrível onda de dor que atravesaria seu corpo. A agonia do despertar sempre a deixava sem respiração e sem pensamento algum, até que pudesse encontrar a forma de respirar, de funcionar. Era então quando Nicolae se fundia a ela. A dor o atraiu até ela, lhe permitindo encontrá-la no largo espaço do universo. Esta sublevação era diferente. A dor estava ali, em seu sangue e seus ossos, um ácido ardente que pulsava, mas sem a terrível tortura que a tomara através dos anos. Nicolae lhe tinha proporcionado algo de alivio com a infusão de seu sangue ancestral.

- Embora seja menor nesta sublevação, ainda sinto sua dor. Venha até mim. Meu sangue corre por suas veias, será fácil para você me encontrar. Venha e farei o que posso, para te curar.

Foi o mais suave dos sussurros, uma doce sedução. Destiny olhou fixamente para o céu noturno, arrebatada por sua beleza natural. Sobre sua cabeça, os ramos das árvores balançavam gentilmente eas folhas brilhavam como uma estranha prata. Ficou cativada pela formosa e musical voz de Nicolae. Não era somente por que se encontrasse esperando ouví-lo, precisava ouvir como lhe falava. Não podia contar às vezes que havia se aconchegado no refúgio de sua própria mente, para evitar as atrocidades de sua vida e o encontrava ali esperando, onde só ela podia ouvir a magia de sua incrível voz. A força de sua necessidade por ele parecia estar crescendo, não diminuindo, com o passar dos anos.        - Enquanto tenta encontrar razões para me temer, poderia se lembrar queeu podia ter tomado seu sangue, te atar a mim para sempre, mas não o fiz. Por que iria querer uma mulher à força, em vez de que ela viesse para mim por própria vontade? Se eu tivesse tentando te prender, teria tomado seu sangue, não teria dado o meu. Você tem poder sobre mim. Sabe que digo a verdade.        Destiny elevou o queixo, com rebeldia. Não precisava que ele assinalasse o óbvio.

- Resolverei as coisas por mim mesma, Nicolae. Não tenho necessidade e nem desejo de conselhos não solicitados.

Ele sorriu maciamente e as notas joviais e puras, tomaram a mente de Destiny, para se enredar-inesperadamente em volta de seu coração. Ela inspirou e seus olhos se abriram com surpresa, com compreensão. Uma parte dela o desejava perto. Despertara ansiosa para ouvir o som de sua voz, pela conexão entre eles. Um rubor cresceu por seu pescoço e rosto, enquanto flutuava saindo de seu lugar de descanso. Considerava-se bem disciplinada, tinha um certo orgulho, mas podia sentir asas de mariposa revoando em seu estômago e uma sensação de ternura estendendo-se traiçoeiramente através de seu corpo, ante o mero som dessa voz. Ante o conhecimento de sua cercania.        - Não o quero aqui.

Destiny disse com certo fogo. Surpreendendo-se a si mesma. Surpreendendo-se pelo que sentia por ele. A risada de resposta foi de pura diversão, deslizando-se no interior sua mente, sob sua pele, dissolvendo seus ossos. Ele havia estado muito tempo em sua mente, para não reconhecer sua confusão pelo que ele era. Destiny gemeu, em voz baixa.

- As emoções traem, Nicolae... aprendi essa lição de um professor. É uma verdade que aceito. - As emoções haviam permitido Nicolae encontrá-la. Se Destiny não tivesse ouvido Mary Ann conversando com uma de seus clientes, se suas palavras não tivessem sido tudo o que Destiny estava desejando ouvir, teria contínuado sua existência nômade e Nicolae não a teria encontrado.        - Teria te encontrado. – Ele tinha completa confiança em sua voz revoltante e formosa. - Sabe que teria te encontrado.

- Então haverá uma batalha entre nós.

Agora houve uma nota terna em sua risada.

- Nunca haveria uma guerra entre nós, nunca haverá. Somos duas metades de um mesmo todo.

       Ela fez uma careta ante as palavras. Para ela era uma acusação. Vira suas vítimas. Havia tocado a fera escura, escondida em seu interior. Por mais que desejasse outra coisa ela era ainda o monstro que ele havia feito dela. Durante um momento pressionou as pontas dos dedos sobre as têmporas, fechando os olhos, sossegando a beleza da noite, a beleza de sua voz, a magia das coisas das quais se tornara consciente.

Mudar de forma, voar através do céu, correr como um animal, estrelas reluzindo como uma chuva de diamantes no alto... O poder nu, do que era ela. Destiny achava impossível odiar sua existência. Essa compreensão só acrescentava peso a sua culpa. Sempre tivera escolha e escolheraviver. Escolhera caçar e matar monstros. Escolhera permanecer junto à Mary Ann Delany. E tinha escolhito ouvir um monstro. Ele assassinara sua família e convertido sua infância num inferno.

- Alto!

Disse Nicolae duramente, uma ordem de um antigo acostumado à obediência instantânea.

- Você era uma menina, uma garotinha sem conhecimento de semelhantes criaturas. Não podia ter evitado o que esse vampiro fez a sua família, nem é responsável. Você tem estranhos dons. Há outros no mundo como você, outras jovens, possivelmente também homens, que inadvertidamente atraem os monstros por causa de seus incríveis dons. Não são não responsáveis pelo que faz o vampiro. O vampiro escolheu sua forma de vida. No momento em que ele se separou da luz, da honra e do respeito. Em algum momento de sua vida ele soube que estava arriscando sua alma se continuasse. Sabia que o devia fazer, mas escolheu se converter no não-morto. Examine minhas lembranças, ofereço-as livremente. Não pode se acreditar responsável.

Destiny ficou em silêncio um momento, desejando acreditar nele. Desejando ser absolvida. Desejando que a magia de sua voz a envolvesse e afastasse de tudo o que tinha acontecido.

- Sua voz é uma arma.

Ela sussurrou as palavras para ele em voz alta, igual em sua mente. Precisava do som de sua própria voz, para acreditar.

- Você tem medo. É natural temer o que não entende, pequena.

A voz era tão amável que Destiny quis chorar. Quis se estender para ele e ser abraçada. A reação foi tão forte, tão alheia a sua natureza, que a surpreendeu. Assustou-a mais ainda. Sentia-se desequilibrada e indecisa e não gostava. Ele não a chamava de "pequena", há muito. Tentou dizer a si mesma, que o enfeitiço tinha colado dela, mas não se enganava.

Podia ter medo, mas não era uma covarde. Ao menos podia ser sincera consigo mesma... Com ele. Elevou o queixo e enquadrou os ombros.

- Sim. Tenho medo. Não sei como confiar em alguém. Não sei como confiar sequer em mim mesma. Confiei na beleza de uma voz e fui enganada.        - Como disse, você era menina. Sua gentileza a apanhou.        - Desculpe-me.

- Não fez nada de errado. Embora culpe a si mesma por sobreviver.

- Deixe-me te ajudar.

Destiny passou a mão pelo cabelo, espalahdo-o em torno de seu rosto, nem notar. A fome ardia em seu corpo, roendo e arranhando, tentou ignorar a verdade de que se alimentar, já não era tão repulsivo como devia. Ela tentou ignorar o quanto era fácil controlar sua presa. Fez uma careta. Presa.

- Você me ouve? Penso neles como presas, não como gente. Isso é no que me converti. Isso é o que ele fez de mim. Como pode me ajudar? Sei o que é.Você me ajudou a matá-lo. Você me ensinou a ser o que sou. Vejo a escuridão em seu interior. Nega?

- É obvio que não nego. A fera é parte de mim. É minha força, como também é minha debilidade. Mas há muito mais em mim, que uma fera sem consciencia e com inclinação à morte, a tortura e a dor de outros. Igual, a há mais em você, que aquilo no que ele tentou te converter.

- Há escuridão em mim. - Não mentiria. Não a ele. Ou a si mesma, não mais.        - Meu amor.

Ele pronunciou as duas palavras, amorosamenteenredando-a em sua magia.

- O sangue flui em suas veias, te enfeitiçando, atormentando e sussurrando, mas é a escuridão dele que você sente, não a tua. Os Cárpatos são grandes curadores. A terra aqui é adequada, mas a terra de nossa terra natal não se parece a nenhuma outra. Seu sangue corrompido pode ser substituído. Sua sombra pode ser tratada pelos curadores e a terra de nosso lar.        - Como posso confiar no que me diz?

Repetiu sua pergunta quase desesperadamente, desejando dele algo que ele nunca podia lhe dar. Tranqüilidade. Desejava tranqüilidade, mas não se atrevia a acreditar novamente.

- Isso é algo que só você pode responder. - Não havia impaciência em sua voz, nem raiva, só uma suave amabilidade que ameaçava lhe romper o coração em pedaços. Tem que encontrar essa resposta em você mesma. Se verdadeiramente, você não ver uma diferença entre eu e esse monstro que te afastou da segurança de sua casa e a submeteu... Submeteu a ambos... A suas depravadas torturas, então não tenho nada com o que me defender. E nunca terei. Tem que ver em meu coração e minha alma. Tem que ver em meu coração e minha alma. Olhe além da fera e verá o homem. Verá o que você é para mim. Meu coração e minha alma. Tudo. Olhe-me, todo, não só partes e terá suas respostas.

       Odiava-o por sussurrar as palavras em sua mente. Por tentá-la. Sua boca era ligeira como uma pluma, roçando as palavras contra suas horrendas lembranças, com toque de um artista. Ele estava atraindo-a, para sua rede. E ela estava hipnotizada por ele. Por tudo o que dizia. Por tudo o que prometia. Por tudo o que deixava de dizer. Pela força e o poder que possuía, por seu conhecimento. A forma em que protegera uma menina indefesa. Mesmo na forma em que lhe dera seu sangue e não tomara uma só gota do dela. O sangue dele era poder. Conexão. Ele a protegera como nenhum outro tinha feito. Ele abraçara-a, como se lhe importasse. Dizia coisas que perfuravam sua armadura como flechas. Coisas formosas que ela precisava e desejava ouvir, coisas que a aterrorizavam.        Estranhamente, enquanto cobria a terra onde descansara, restaurando-a a seu estado original, um ligeiro tremor em suas pernas captou sua atenção. Alarmada, Destiny levantou a mão diante do rosto. Estava tremendo. Droga! Não o quero aqui. E se tivesse que matá-lo? E se ele não lhe desse outra escolha? Ele estava deixando-a tão fraca, que seu corpo tremia. Não podia confrontá-lo e não o teria em seu território.        - Você vale que eu arrisque minha vida, sempre valeste o risco.

       Nicolae falou sinceramente, como se sentisse cada palavra.

       Destiny sacudiu a cabeça em negação. Ele não ia partir e por mais que tentasse, não podia acreditar que ele fosse perverso. Ele não ia facilitar as coisas, desaparecendo. Realmente queria que ele desaparecesse? A idéia chegou inesperada, entrando as escondidas em consciência.

       - Estou confusa. - Falou em voz alta e levantou o olhar para o céu. Desejou ser realmente amiga de Mary Ann e poder lhe falar de Nicolae. - Uma parte de mim se sentiria desiludida se ele não ficasse. Se não me desejasse. - Aí estava, admitira para si mesma e não havia utilizado a palavra devastada. A palavra podia ter flutuado durante um segundo em seu cérebro, mas não saíra em voz alta. Como poderia sobreviver sem ele? Vivera com ele durante anos. Compartilhado sua mente em cada sublevação. Ouvindo a magia de sua voz. Não sabia quando começara a A invadir seu coração. Sabia que precisava dele para as contínuas batalhas com o não-morto, mas não havia compreendido que precisava dele para viver.        Destiny podia lhe encontrar agora, a qualquer momento, em qualquer parte. Havia um vínculo de sangue entre eles. Podia lhe monitorar a vontade, tocar sua mente e ver o que ele estava fazendo. Isso lhe dava uma vantagem sobre ele. Saberia quando ele estava lhe perseguindo. E saberia quando ele matasse alguém.        Resolutamente voltou para a cidade que pululava de vida. Havia atrasado seu assunto com Mary Ann muito tempo. Preferia ocupar-se disso.

       Lançou-se ao céu, estendendo os braços enquanto surgiam plumas e o vento a levava para o alto. A terra ficou embaixo e seu medo com ela. Bloqueou todo pensamento sobre Nicolae e Vikirnoff e se permitiu o gozo da pura alegria de voar. Nunca se cansava de tomar a forma de uma coruja, a qual utilizava com freqüência para viajar.

       A terra era belíssima, vista através do céu, quando o ar banhava seu corpo limpando-o e ela se sentia completa, pura e viva. Cortou as nuvens, sem tomar tempo para brincar. Tinha negócios a atender. Procurou lugares familiares, atenta aos rastros de Mary Ann, de seu perfume, do som de sua voz. Sua risada. Encontrou-se procurando um pequeno bar onde os vizinhos estavam acostumados a sentar, para trocarem informações sobre os últimos acontecimentos. Destiny se posou no teto do restaurante em frente ao bar e examinou a rua. Apesar da hora tardia, Velda Hantz e sua irmã Inez estavam sentadas em suas cadeiras, na calçada, diante de seu edifício de apartamentos, observando o mundo passar.       Embora estivessem na casa dos sessenta, elas eram instituições permanentes na rua, saudando todos os que passavam, chamando-os por seu nome e dando amigáveis conselhos ou advertências maternais, se a situação requeria. Era impossível confundi-las, vestidas como estavam, com suas cores favoritas, rosa fluorescente e verde. O cabelo cinza ao usual estilo despenteado pelo vento, enquanto que o rico cabelo vermelho de Inez estava recolhido no alto da cabeça. Destiny achava as irmãs estranhamente cativantes e mais de uma vez permitira que elas a vissem e sempre recebia amigáveis saudações ou abanavam a mão, chamando-a para uma conversa rápida. Com os joelhos dobrados, o queixo apoiado na mão, Destiny observou as duas mulheres, sem ser consciente do sorriso que mostrava sua face.

       Mudava com freqüência, de cidade em cidade, de estado em estado, sempre caçando o não-morto. Sempre permanecendo adiante de Nicolae e sua incansável perseguição. Sabia como trabalhava sua mente. Ele lhe permitira acesso a suas batalhas, suas estratégias e seu processo mental. E ela tinha aproveitado os conhecimentos, sabendo que sua vida dependia disso, sabendo que outras vidas dependeriam disso. Isso a capacitara para permanecer adiante dele. Até que tinha ouvido Mary Ann Delaney, aconselhando uma jovem cuja vida parecia uma confusão. A voz suave e clara, as coisas que dizia Mary Ann mantiveram Destiny encadeada a Seattle, a estas ruas. Por fim, chegara a pensar secretamente, que toda as pessoas da vizinhança eram de sua responsabilidade.

       Destiny suspirou e se ergueu lentamente. Fazia uma escolha consciente, de deixar de fugir e permitir que a cidade se convertesse em seu lar, de permitir-se preocupar com seus habitantes. Dava-lhe uma sensação de normalidade, que precisava desesperadamente. Um propósito para continuar sua vida ainda sabendo que era malvada.

       - Malvada não. Cárpato. Carrega o sangue corrompido do vampiro, mas não é uma vampira. Expliquei-lhe isso em mais de uma ocasião.

      Havia uma nota paciente na voz aveludada de Nicolae. Destiny suspirou brandamente, soprando uma mecha do cabelo.

 

O medo tocou o estômago de Destiny, convulsionando-o. Seu primeiro instinto foi se voltar e lutar, mas a pressão dos dedos em sua nuca era uma clara advertência, prevendo que se movesse.

Sem afastar seu olhar censor de Mary Ann, Nicolae se inclinou perto de Destiny, até que seu hálito roçou seu ouvido e seus lábios roçaram o lóbulo da orelha, um contato que fez com que seu coração palpitasse e enviou calor por suas veias.

- Não pode chamar a atenção sobre nossa raça neste lugar, Destiny. É a última coisa que quer.

Seu cabelo lhe roçou a pele como seda e ele sentiu um arrepio por todo o corpo. Sua fragrância masculina a envolvia, chamava-a. Tentava-a. O braço musculoso casualmente sobre seus ombros, ela sentia-se através de sua blusa fina. Destiny era tão consciente de Nicolae como homem, que não podia pensar corretamente. Seu mundo se estreitou até que abrangeu os dois. Um estranho rugido palpitava em seus ouvidos. Seu corpo parecia pesado mas vivo e suas terminações nervosas gemiam, de alarme ou necessidade, ela não estava segura. Não importava.

Destiny tinha passado a maior parte de sua vida sozinha. Sem nunca tocar outra pessoa, a menos que estivesse se alimentando. Raramente conversava com alguém. Mas agora, neste lugar, estava rodeada de pessoas e incitada pelo aroma do sangue, do batimento de corações. Música pulsando a um ritmo primitivo. Estava sufocada pelo perfume, pelo alcool. O ruído era ensurdecedor.

Nunca deveria ter permitido que a porta de seu passado abrisse uma fresta, sequer por um momento. E aí estava Nicolae. Vindo para ela quando estava perdida no meio do inferno. Não estava preparada para sua estranha reação física a ele.

- Por que acredita que estou fazendo algo para ferir Destiny? - Mary Ann parecia mais surpreendida, que intimidada. - Nunca faria tal coisa. Destiny está irritada e com razão, mas não comigo. É seu amigo?

Destiny deixou escapar o ar lentamente, obrigando-se a relaxar sob os dedos fortes. A voz de Mary Ann a trouxe de volta à realidade. Fingir. Era uma professora da ilusão quando tinha que fazê-lo. O polegar dele se atrasou sobre a pulsação de sua garganta, deslizando numa gentil e consoladora carícia. Nicolae podia sentir que seu corpo tremia... Como não podia? Podia ouvir seu coração que pulsava ruidoso, forte e revelador e lhe dizia muito mais do que ela queria que soubesse. Mas não conseguia deixar de tremer. Ela, que sempre era tão controlada, não podia controlar sua próprio pulsação, sob o polegar moderador.

- Possivelmente interpretei mal a situação. Pude sentir o desassossego de Destiny e pensei que a estava incomodando. - Nicolae sorriu para a mulher, uma amostra de seu elegante encanto. Ele inclinou-se ligeiramente. Seus dentes brancos perfeitos, seu rosto sensual e sem malícia. Parecia um antigo lorde que vivia num palácio. inclinou-se para roubar um ligeiro beijo no alto da cabeça de Destiny. Fios de seu cabelo ficaram presos durante um momento em seu queixo, conectando-os. - Não posso suportar que ela se sinta irritada. Perdoe-me se a assustei. Sou Nicolae Von Shrieder.

- Mary Ann Delaney. - Mary Ann não podia afastar os olhos da face pálida de Destiny. Por um momento, pensou que havia gotas de sangue na testa de Destiny, mas Nicolae se inclinou sobre a jovem. Sua cabeça e seus ombros bloquearam a visão de Mary Ann e com delicioso cuidado, pareceu pressionar um pequeno beijo no local. Quando se ergueu, as diminutas gotas já não estavam ali e Mar Ann estava segura de tê-las imaginado.

A língua de Nicolae era muito, para que Destiny a suportasse. Mais um minuto e ela perderia o controle completamente. Não sabia se seria capaz de ficar histérica, pois o controle era tudo para ela e estava decidida a não perdê-lo. Destiny puxou sua mão da mesa, deslizando sua cadeira deliberadamente contra Nicolae e se colocou em pé, segura de que o pegaria de surpresa.

Como se houvesse coreografiado seu movimento, Nicolae a virou em seus braços, puxando-a até seu corpo.

- Nos desculpe. - Disse ele a Mary Ann e sem perder tempo, levou Destiny para pista.

- O que está fazendo?

Para seu horror, sua voz tremia. A fome era ofegante agora, um terrível e inevitável desejo que não podia ignorar. Sua face estava pressionada contra os ombros dele. Lembrava-se de seu sabor. Com seu sangue na língua, a fome insaciável se apaziguou por um momento e a contínua tortura interna havia diminuído. Nunca se sentira tão saciada.

- Estou dançando contigo. - Respondeu ele com facilidade, puxando-a mais perto.

Seus corpos estavam pressionados, suas roupas a única barreira entre eles. Com cada passado os seios dela pressionavam contra o peito masculino e seus mamilos se sensibilizavam por se esfregarem contra sua camisa. Seus músculos eram tensos e definidos enquanto ele girava pelo chão com ela. Mais que tudo, ela era consciente da grossa e dura parte dele que pressionava contra seu corpo, quando se moviam. Flutuavam juntos e isso a assustava, mas a fascinava. Seu próprio sangue parecia acumulado, baixo e espesso, fazendo-a palpitar e arder com uma necessidade pouco familiar.

Seus pés mal tocavam o chão. Nunca havia dançado em sua vida, mas seu corpo seguia cada movimento dele, perfeitamente. Como se tivesse nascido para estar com ele.

- Feche os olhos e se entregue à música.

A mim. Sussurrou a tentação em seus ouvidos. As mãos dele passeavam por suas costas, numa carícia torturante.

- Não se alimentou, Destiny. Por que veio a um lugar desse, faminta? Pretende se castigar?

Ele estava bem perto da verdade. Ela fôra até ali, para apagar as lembranças de Mary Ann, para violar a confiança de uma mulher que era boa.

-Você não é má. - Ele sussurrou as palavras contra sua pele, enquanto roçavam sua mente. Sua língua dançava sobre a pulsação dela. Saboreando-a. O corpo de Destiny se queimou em reação. – Você é uma Cárpato, uma raça em harmonia com a natureza. Uma protetora da humanidade. Não mata injustificadamente.

Ele a estava matando. Com esperança e com sonhos. Com coisas que não atrevia a alcançar. Confiança não era algo que pudesse dar a um de sua raça. Ele a fazia sentir coisas que não queria sentir. Fazendo-a desejar coisas impossíveis de ter. Cada grama de seu instinto protestava, para que se separasse de seus braços e corresse, por sua vida. Em vez disso, quase impotentemente se esfregou contra ele, encontrando sua pulsação tentadora, com a boca.

- Eu poderia te matar. - Deixou escapar. - Drenar o sangue de seu corpo aqui mesmo. - Queria que ele soubesse que estava indecisa. Que seu destino era indeciso. Que os dedos que se fechavam sobre a seda de sua camisa não significavam nada. Que o seu corpo se amoldasse ao dele, não importava. Que ela tinha o controle. Tinha poder. Sua voz era pura magia e espalhava-se sobre ela, nela, enredando-se em volta de seu coração e sua alma, mas nada disso importava. Nunca importaria.

--Sim. Você poderia. - As palavras ronronaram em sua mente, uma mistura de calor e fogo. - Tome o que precisa. Ofereço-o, livremente. – Ele esfregou o rosto contra o cabelo dela, enquanto falava em voz baixa e suave.

- Cada sublevação, acordo com a dor rasgando seu corpo. Acordo com sua dor em minha mente. - Suas mãos encontraram o cabelo, apertando sedosos fios em seu punho. - É meu direito cuidar de você, de ser sua distração. Se buscares minha morte, pequena, se isso é o que precisa para sua própria sobrevivência, que assim seja. Daria minha vida pela tua e nunca olharia pata trás. - Estou disposto a dar minha vida por você.

Havia intimidade em sua voz. Havia ternura e honestidade.

Os olhos de Destiny arderam pelo esforço de não vê-lo. Não queria ouvi-lo ou confiar nele. Não precisar dele. Ele era calor tentador e ela estava seduzida. Sua língua lambeu a pulsação dele. Sentiu sua reação. Ele não estava com medo. Fome. Aguda e terrível. Uma fome erótica tão forte que o corpo musculoso estremeceu, enrijeceu. Cresceu em ardor. O ar abandonou seus pulmões numa onda de antecipação.

Nicolae a virou, para as sombras mais profundas, longe de olhos curiosos, rabiscando suas imagens fazendo com que parecesse haver um véu de névoa entre o casal e o resto das pessoas do lugar. Ela estava entre seus braços, afinal e se adequava perfeitamente. Esse era seu lugar. Animou-a a senti-lo, a sentir a profunda necessidade que sentiam um pelo outro, mesmo enquanto tinha conhecimento da terrível luta dela que sobrevivera a abominação de sua infância, escolhendo a solidão. Sem confiar nunca. Sabia o que estava lhe pedindo. Não pedindo, mas exigindo.

Confiança. Uma palavra tão fácil. Uma qualidade tão impossível. Como podia pedir ou exigir tal coisa de Destiny? Tinham-lhe ensinado a não confiar nunca. Sua vida dependia disso. Sua alma havia dependido disso.

Nicolae permitiu que sua cabeça descansasse sobre a dela. Seu coração rompeu em pedaços. Conhecia seu próprio poder, sua enorme força. Mas não podia, não forçaria a conformidade de Destiny. Se ficassem juntos, seria com o completo consentimento dela. Não podia ser de nenhuma outra maneira. Um monstro a obrigara a atos de humilhação, de degradação, ao longo de anos de incontável dor e horror. Nicolae não podia forçá-la a uma relação. Como podia fazer o que pudesse assemelhar as ações dessa depravada criatura que roubara a infância, sua família e sua inocência?

Destiny se moveu nervosamente entre os braços de Nicolae.

- Não deveria me tentar, Nicolae.

Não tinha intenção de utilizar o formoso nome. Não queria nenhuma intimidade entre eles e seu nome lhe soava musical, rouco. Íntimo e dolorido. Respirou seu nome contra a pulsação dele enquanto seu corpo ardia e pulsava. Impotentemente, lhe tocou a pele com a boca, atormentando-se a si mesma. Torturando-lhe.

- Destiny. - Havia dor em sua voz.

Ela deixou escapar um som de horror, afastando-se dele, de ímpeto. Nicolae viu em seus olhos, a confusão e o terror, em suas profundezas.

- Se afaste de mim agora. - Exigiu ela, retrocedendo. Temendo-o. Temendo por ele.

Um movimento do outro lado do bar captou a atenção de Nicolae. Mary Ann se colocou em pé, franzindo o cenho. Deu vários passos para Destiny, mas parou a meio caminho, quando Destiny levantou a mão em advertência. Então Destiny saiu, movendo-se tão rapidamente que foi um borrão. Nicolae ficou sozinho na pista de baile, seu corpo tão duro como uma rocha, seu coração dolorido por sua companheira perdida.

Mary Ann abriu passo até Nicole.

- Me diga como ajudá-la. - Tocou-lhe o braço para atrair sua atenção completamente para ela. - Posso ver a dor em seus olhos e isso rompe meu coração. Sei que posso ajudá-la.

Nicolae baixou o olhar para a mulher, vendo a compaixão e a determinação escrita em sua face. Deslizou-se na mente de Destiny durante anos, apesar de nunca não ter tomado seu sangue para selar o vínculo entre eles. Havia sido a horrenda dor, associada a suas tremendas habilidades psíquicas, o que lhe permitira se conectar tão completamente a Nicolae. Havia captado a mulher que estava a sua frente, muitas vezes na mente de Destiny, embora Destiny tentasse protegê-la a dele.

A mulher sabia mais do que nenhum humano deveria saber. Sabia coisas que podiam fazer com que a matassem.

- Não sou uma ameaça para você. - Disse Mary Ann, brandamente. A face de Nicolae era uma máscara. Impossível de ler. Atraente, compelidora e perigosa. Instintivamente soube que ele era igual a Destiny, não de tudo humano. - Quero ajudá-la. Ela salvou-me a vida duas vezes.

- Ela sobreviveu a coisas tão horríveis, que você nem sequer pode concebê-las. Por que presume que pode ajudá-la?

Embora tovesse pronunciado as palavras em um timbre baixo e formoso, algo nesse tom perfeito a fez estremecer de apreensão. Estava conversando com um ser poderoso, alguem do qual não sabia nada. Alguém que tomava decisões de vida ou morte que concerniam a outros a cada dia de sua vida. Mary Ann sentiu o impacto de cada uma de suas palavras. Elevou o queixo.

- Porque ela me escolheu .

Nicolae estudou a face da mulher, por um longo momento. Ela teve o pressentimento de que ele estava examinando mais que seus traços. Por um horrível momento, sentiu-o mover em sua mente. Não se incomodava em ocultar-se, deliberadamente mostrou seu poder, uma ameaça nada sutil. Uma advertência. O que ele encontrou deviam lhe ter satisfeito, porque se retirou de sua mente, deixando suas lembranças ainda intactas.

- Tem idéia do que está pedindo? - Exigiu Nicolae com voz baixa e compelidora. - Deve estar segura de que é isto o que quer. Sabe o que sou. Sabe o que é ela. E tem uma idéia do demônio que caçamos. Há ao menos um nesta cidade, possivelmente mais de um. Está aí fora agora, matando algum inocente. Possivelmente está caçando uma garotinha com os assombrosos dons, como tinha Destiny. O conhecimento de nossa existência que tem agora, constitui um perigo para todos os imortais, sejam vampiros ou caçadores. Permite-se em estranhas ocasiões.

Mary Ann seguiu Nicoale através do bar, até uma mesa isolada longe das pessoas, sabendo que o que dissesse agora decidiria seu destino. Pensou nos olhos de Destiny. Preocupados, cheios de sombras e dores.

- Não posso deixá-la sofrer. Ela não encontrará seu caminho de volta, Nicolae. Sei que não. Acredito que você seria capaz de alcançá-la e poderia, a algum nível, não isso não é suficiente. Ela sofreu um trauma terrível. Por isso não posso me afastar simplesmente só porque você queira.

- Está arriscando sua vida. – Ele queria que ela soubesse a verdade. - Destiny não gostaria que você arriscasse a vida por ela. – Ele afastou uma cadeira, sujeitando-a cortesmente, enquanto Mary Ann deslizava para o assento. Enquanto se sentava em frente a ela, ele ondeou uma mão chamando o garçom. - Pense cuidadosamente antes de conversar. Posso apagar suas lembranças de tudo isto. De Destiny. De mim. Da criatura que quer te matar. De tudo. Nunca se preocupará por Destiny, porque não lembrará que ela exista.

- Não quero isso. - Mary Ann sacudiu a cabeça, inflexiblemente. - Ela é importante para mim e acredito que eu sou importante para ela. – Ela inclinou-se sobre a mesa, para ele. - Posso dirigir isto, realmente posso. Tenho medo, sim, pois seria estúpido não ter medo, mas sei o que ela fez por mim. E por duas vezes. Salvou minha vida, duas vezes. Deu ao refúgio muito dinheiro, dinheiro que necessitávamos desesperadamente para expandir e manter seguras, às mulheres as quais aconselho e oportunidades de trabalho. Destiny fez isso. Também ela merece uma oportunidade.

- Mary Ann... - A voz a envolveu, gentil. - Eu cuidarei de Destiny. Dou-te minha palavra de honra.

- Honestamente não acredito que ela melhore. Acredito que tentará, mas não será capaz de ajudá-la a sobrepor-se ao que lhe aconteceu.

- Eu o vivi com ela.

- Sei. - Respondeu ela, tranqüilamente. - Vejo as mesmas coisas em seus olhos e nos dela.

- Eu a entendo, entendo o que precisa. E estamos destinados a estar juntos. Somos duas metades de um só ser.

- Ela não está completa, Nicolae. Está aos pedaços e perdida. Não pode entrar numa relação assim e esperar que funcione. Acredito que sabe disso ou não estaria conversando comigo. Já teria apagado minhas lembranças.

- Se te deixar com estes conhecimentos, teria que ser capaz de te monitorar a vontade. Sou responsável pela segurança de minha gente. Tenho que saber que é capaz de manter nosso segredo sempre e terei que me assegurar de que o não-morto não pode te utilizar para chegar a Destiny.

Mary Ann engoliu seu medo.

- Acredito que é bastante justo.

- Implica tomar seu sangue, Mary Annn. Não te converter, simplesmente tomar uma pequena quantidade de seu sangue, para que possa tocar sua mente em qualquer momento. Não te fará mal e não estará em perigo, mas a idéia é incômoda para os humanos.

Mary Ann estava calada, apoiando o queixo na mão enquanto estudava a face de Nicolae.

- Destiny não teve escolha, não é?

Nicolae sacudiu a cabeça.

- Ela foi convertida pela mais vil das criaturas. O não-morto. Um vampiro vive da dor dos outros. Ele a fez sofrer durante anos. Submeteu-a, a cada humilhante degradação que pode imaginar. Matou homens, mulheres e crianças diante dela e a obrigou a beber seu sangue. Utilizou seu corpo dos modos mais dolorosos possíveis, apesar de ser ainda uma menina inocente.

Mary Ann esfregou a mão pelo rosto.

- E você não quer que a decepcione, me incomodando num momento ou outro? Devo-lhe mais que isso. Tome meu sangue se acha que é necessário, Nicolae e encontraremos uma forma de ajudá-la.

Destiny se apressou a sair para a noite, arrastando grandes goles de ar a seus pulmões. Era humilhante estar tremendo como uma menina só por estava tão próxima às pessoas. Não admitiria que seu desassossego tinha sido causado por nada mais. Como podia desejar tocar a pele de um homem? Ser sustentada em seus braços? Respirar-lhe ao interior de seu corpo?

Conhecia os homens, o que eles faziam, o que desejavam de uma mulher... De uma garota... De uma menina. Um grito fluiu de sua alma, o terror de uma menina seviciada por um monstro. Pressionou o grito de volta, com sua mão, como se o empurrasse para baixo, por sua garganta e enterrasse o terror, onde nunca pudesse senti-lo ou pensar nisso.

- A noite é formosa, Destiny. Clara, limpa e crespa. Olhe sobre você, às estrelas. - A voz dele chegou como magia. Consoladora e gentil. Chegada de alguma parte, simplesmente esrava ali, em sua mente. Afastando as lembranças de mãos duras e hirientes, rios de sangue, as faces dos malditos. - Não há nada tão formoso como a noite. Até as folhas são de prata. Não me lembrava disso. Você já tinha notado a cor? Prata e ouro esta noite. O vendo nos sussurra. Ouça? Ouça-o, pequena. Conta-nos os segredos da terra.

Ela fechou os olhos, escutando sua voz, encontrando o batimento de seu próprio coração, sabia que estava viva e inteira. Sabia que poderia agüentar outro minuto. Outra hora, mesmo outra noite. Destiny soube a verdade então, aceitou a verdade. Se ela sobrevivia, Nicolae também teria que fazê-lo. Os pesadelos que a enfeitiçavam eram muito fortes para conquistar por si mesma. Podia lutar a vontade, qualquer outra batalha, mas não de sua prudência. Nem de sua alma. Essa era a batalha de Nicolae.

Respirou fundo e levantou o olhar para o céu, às estrelas que brilhavam como diamantes sobre sua cabeça. A tensão estava drenando lentamente seu corpo, mas a necessidade estava ali, arrastando-se em seu interior com insistência. Um desejo do qual nunca poderia escapar.

- Seu desejo é natural, Destiny, como respirar. Somos da terra. Não nos alimentamos da carne de coisas vivas. É tão terrível nos alimentae? Não fazemos mal a ninguém. Ocupamo-nos do amparo dos humanos. Vivemos entre eles, fazemos negócios com eles. Igual a você, aprendi a cuidar das pessoas que vivem nesta cidade, como a cuidará de nossa gente.

Sua primeira reação foi negar. Mais deles? Vampiros? Sacudiu a cabeça, obrigando-se a considerar as palavras dele. Cárpatos. Uma raça de seres a qual agora pertencia. Seres com poderes especiais. Seres que podiam entrar nas Igrejas e permanecer sob réstias de alhos. Súbitamente sorriu, o som desceu pela rua como música. Tinha reflexo e sabia que aspecto tinha.

A tensão começou a abandoná-la. Destiny inalou profundamente, agradecendo em estar sozinha. Um movimento rua abaixo atraiu sua atenção e lançou um olhar nessa direção.

- Venha aqui, garota! - Velda estava ondeando uma mão imperiosamente para ela, animando-a a descer a rua.

Destiny tinha esquecido de se fazer invisível ao olho humano. Velda chamou-a novamente, ondeando tão entusiastamente a mão, que quase caiu de sua cadeira junto à de Inez. Sabendo que não tinha coragem de se negar à velha senhora, Destiny correu ao longo da calçada até parar a poucos passos das duas irmãs. Estavam sonrrindo abertamente para ela, sorrisos de boas-vindas, sem malícia, sem nada a ocultar.

- Até que enfim! Já a vimos várias vezes. - Disse Velda, com satisfação. – Não verdade, Irmã? Não te disse que uma jovem tão bonita não devia estar sozinha aqui fora tão tarde? Precisa de um jovem. Não se preocupe, Inez e eu estivemos pensando em alguém, imaginando quem a conviria.

As sobrancelhas de Destiny se elevaram e ela piscou rapidamente tentado assimilar o que Velda estava dizendo. As duas mulheres estavam procurando alguém que lhe agüentar?

- Nem sequer me conhecem. Eu poderia ser uma pessoa horrível. Não querem me arrumar um namorado, não é?

Velda e Inez se olharam e depois sorriram amplamente para ela.

- Ora, minha querida! Você é uma garota agradável. Precisa de um homem e um lugar onde se estabelecer. Estivemos pensando no pequeno apartamento do outro lado da rua. Pensamos que seria muito bom. Eu sou Velda e esta é minha irmã Inez. Pergunte a qualquer... Bem, temos reputação de casamenteiras.

Destiny nunca tinha pensado em si mesma como uma “garota agradável” e um sorriso relutante abriram brevemente em seu lábios.

- Isso, querida, é muito melhor quando sorri. - O cabelo rosa de Velda balançou jovialmente, quando ela inclinou a cabeça. - Tenho uma segunda visão, sabe. Vejo um homem para você. Bastante bonito ecom bons maneiras.

- Rico, querida. – Acrescentou, Inez. - Velda me disse que é rico e bonito. – Ela sorriu. Seu cabelo púrpura brilhava na escuridão. - Isso deveria te alegrar. Uma vez casada, terá duas ou três crianças. Será feliz. Eu queria dez, mas Velda roubou o meu apaixonado debaixo de meu nariz.

Destiny olhou boquiaberta às duas mulheres, enquanto elas mostravam a cadeira vazia, insistentemente. Claramente esperavam que se unisse a elas. Não sabendo como declinar graciosamente do convite, ela sentou-se cautelosamente na cadeira. Era consciente da diversão de Nicolae ante seu incômodo apuro, consciente de sua risada que lhe acariciava a mente. Voltando sua atenção às duas irmãs, ignorou-o decididamente, perguntando-se como podiam estar tão estreitamente conectados. Como ele podia tocar sua mente quando não tinha tomado seu sangue?

Velda falou, segurando o braço de Destiny. Não pareceu notar que Destiny fazia uma careta e se afastava.

- Inez era uma beleza. Todos os homens a desejavam. Ela não escolheria, já sabe. Gostava deles perseguindo-a. Inventou uma história que eu roubei seu apaixonado. Sou uma autêntica solteirona. Nunca desejei um homem em minha vida e certamente ela não desejou dez bebês! Não é, Inez? Desejava cantar num bar.

- Eu cantei num bar. - Inez se voltou, arrogantemente e bateu no joelho de Destiny, sem ser consciente de que Destiny se retorcia para sair de seu alcance. - Fui uma beleza delirante, carinho, não como você. Mas tinha uma boa figura. Não era tão magra como vocês de agora. E tinha uma voz de anjo. Verdade, irmã?

- Um anjo. - Concordou Velda, solenemente e se inclinou perto de Destiny. - Não me olhe, carinho. Finja estar interessada no apartamento que há sobre a loja de roupas. – ela elevou a mão no ar e Destiny seguiu a direção de seu dedo. Imediatamente Velda baixou a voz, num sussurro conspirador. - Estamos pensando em contratar um detetive particular. Acredito que precisamos de alguém endurecido como Mike Hammer, mas Inez acredita que um intelectual como Perry Mason seria melhor. Você o que acha?

Destiny a olhou, boquiaberta. Não tinha idéia do que ou a quem elas estavam se referindo.

- Por que acreditam que precisam um detetive particular? - Foi a única coisa que pôde pensar em dizer. Não tinha nem idéia de como tinha terminado sentada ali entre essas duas mulheres excêntricas. A idéia de duas sesentonas precisando de um detetive "endurecido" era risível. Destiny vigiara às duas mulheres durante as últimas semanas. Eram abertas, honestas e uma grande parte da vizinhança, não podia imaginar as ruas sem elas.

Velda olhou em volta. Inez fez o mesmo. Simultaneamente se inclinaram mais perto de Destiny.

- Vimos coisas estranhas por aqui.

Inez assentiu solenemente.

- É verdade. Escute-a, querida... É de mau augúrio.

A risada borbulhou na garganta de Destiny, mas ela piscou rapidamente, lutando para manter-se séria. As duas mulheres mereciam respeito. Eram fofoqueirss, mas boas. Destiny se recostou em sua cadeira.

- Sou Destiny, por certo. - Sentiu que devia seu nome a elas, porque a viam nas ruas com suficiente freqüência, para reconhecê-la. Se elas podiam vê-la quando se movia rapidamente pelas ruas à noite, tinham olhos atentos e mentes agudas. E mais que isso, elas haviam restaurado um pouco de equilíbrio em sua mente. - Por favor, me contem.

- Ninguém acredita na gente, Irmã. – Advertiu-a, Inez. - Acreditam que estamos mal da cabeça. – Ela afastou seu cabelo brilhante e Destiny notou suas unhas estavam pintadas de um assombroso tom púrpura, que combinava com suas sapatilhas esporte. Os cordões eram de um púrpura metálico.

- Duvido. - Respondeu Destiny, decisivamente. - São vocês muito respeitadas por todo mundo. Se disserem que está acontecendo algo, é provável que seja certo. Teria que ouvir alguns detalhes, entretanto, antes de determinar que tipo de detetive precisam.

As irmãs trocaram um olhar longo e satisfeito. Foi Velda que aceitou o desafio.

- Começou faz um mês ou mais, que começamos a notar pequenas coisas, mas a princípio não as relacionamos.

Inez assentiu, sabiamente.

- Pequenas coisas, sabe. – Repetiu, solenemente, com sua brilhante cabeça púrpura e vermelha por causa das luzes.

Velda a fez calar.

- Irmã, me deixe contar.

- Só estava verificando. Uma história deve ser verificada ou ninguém a levará a sério. Não é assim, querida, não quer certeza? Duas testemunhas são melhor que um, não acha?

Destiny não sabia se tinha se descoberto ou se Nicolae era já uma sombra em sua mente. Ou era ela uma sombra na dele. Tudo o que sabia com segurança era que desejava compartilhar com alguém a extraordinária relação que tinham estas duas mulheres maravilhosas. Eram tudo o que ela sempre havia desejado de uma avó. Faziam-na sorrir por dentro e aliviavam a carga que sempre suportava.

Ficou feliz com a reação de Nicolae. A calma a tomou, a diversão, mas não risada zombeteira. Ele via as irmãs como ela as via. Era a primeira vez ,que pudesse se lembrar, que compartilhavam algo divertido e alegre, uma conexão traquila em vez de dor e degradação. Soube que esse momento ficaria gravado em sua memória para sempre.

Destiny captou cada detalhe das duas mulheres... Suas faces abertas e honestas, seus cabelos e vestimentas excêntricas, até as cadeiras verdes e brancas. A forma em que o vento levantava as folhas dos arbustos e soprava pequenos redemoinhos de pó e lixo ao longo das ruas. Isto estava perto da tão felicidade que uma tinha desejado.

- Destiny? – Advertiu-a, Inez. - Velda tem razão sobre isto. Ela tem a segunda visão, já sabe.

- Verdade, Velda? - Perguntou Destiny, curiosamente. Nunca tinha encontrado outra pessoa que tivesse dons especiais.

Velda assentiu, sabiamente.

- Sei coisas sobre as pessoas. – Sussurrou, ela. - Assim é como posso emparelhá-los. E por isso sei que algo está errado. - O sussurro foi dramático, a voz teatral. Destiny automaticamente escaneou as mentes das duas irmãs, apesar de saber que era uma invasão da privacidade. Velda estava preocupada e também sua irmã. Acreditavam que algo miserável estava na vizinhança, mas que ninguém as ouviria. Esperavam realmente que Destiny risse delas.

- Também eu sei coisas sobre as pessoas. - Admitiu, procurando tranqüilizar às irmãs. - Pode ser aterrador ter informação e não saber como comunicá-la para que outros as ouçam. Por favor me conte o que observou, Velda.

Velda lhe segurou o braço e Inez o joelho. Nenhuma delas pareceu notar que ela se retorceu incômodamente, mas Destiny as conhecia agora. Ambas eram boas lendo às pessoas, sabiam que não gostava que a tocassem e estavam decididas a atravessar a barreira protetora que ela erguera em volta de si mesma.

- É uma boa garota, carinho. - Disse Velda, aprovadoramente. - Tinha razão, Irmã... Ela é a única que nos ouvirá.

Destiny considerou gritar de frustração. Podiam chegar lo ao assunto? Esta cercania a outros era enervante. Sua cabeça estava começando a pulsar e ela temia que explodisse.

Uma risada masculina ressonou em sua mente. Zombeteira sim, mas gentil. Típica de Nicolae, divertido por seu apuro autoinfringido, mas nunca malicioso. Por que estava se suavizando com ele? Por que estava notando pequenas coisas sobre seu caráter? Os vampiros são enganosos, falam com doçura, são ardilosos e mentirosos.

- Eu não gosto que esteja pensando que sou o não-morto. Meu coração está muito vivo e em suas mãos. Há o que possa fazer por não destroçá-lo.

- Tem muita sorte deque ele não esteja em minhas mãos. - Respondeu-lhe imediatamente. Mas suas palavras haviam tocado o coração e a tinham deixado indefesa e vulnerável. - A única coisa que sei fazer com corações é incinerá-los!

- Ai!

A risada dele escorregou por sua mente, percorrendo seu corpo com o calor de seu sangue. Convertendo-a em gelatina ali mesmo, na cadeira de jardim. Essa risada deveria ser proibida. Havia pensado nisso mais de uma vez, ao longo dos anos.

- Tudo começou com Helena. - Confiou Velda, deixando cair à voz e recuperando a atenção de Destiny, imediatamente. - Conhece à pequena Helena? Agradável menina, como uma autêntica figura, não como os corpos esquálidos que tanto se vêem agora.

Inez assentiu.

- Tem uma figura de mulher, carne sobre seus ossos para que um homem a aperte. E sabe o que vale.

- Certo. Tem a confiança de uma mulher que pode esperar o homem correto. - Confirmou Velda.

- O homem correto. - Repetiu Inez, balançando sua cabeça púrpura.

Destiny conhecia a "jovem" da qual estavam falando. Ela estava entre os trinta ou quarenta anos e era um ponto brilhante sobre a rua, quando passava e cumprimentava todo mundo. Tinha a pele morena e os cabelos negros. Seus olhos eram escuros. Vivia quase sempre sorrindo. Havia confiança em seu andar e uma forma de incitar os homens.

- Sei quem é. - Admitiu Destiny.

- Tem um amante, um homem doce, John Paul. Um homem grande como um urso.

- Um ursinho de pelúcia. – Explicou, Inez.

Destiny os havia visto juntos... Helena, uma mulher baixa com uma figura ondulada e curvilínea e John Paul, um homem enorme e musculoso que a olhava como se ela fosse o sol, a lua e tudo o que havia entre eles. Andavam de mãos dadas em todas partes e John Paul estava sempre a tocando com uma pequena carícia no cabelo, no ombro ou no braço. John Paul pareciam um gigante amável, muito felix por conseguir atrair a atenção de Helena.

- Faz anos que estão juntos. – Disse, Velda. - Sempre em harmonia, um casal perfeito. Helena é uma coquete. – Ela acrescentou.

- Uma coquete terrível. – Afirmou, Inez.

- Mas nunca sai com outros. Fala e ri, mas sempre é John Paul. Ela adora John Paul, realmente o adora. E ele está louco por ela.

Destiny sabia que diziam a verdade. Estivera observando os residentes da vizinhança durante meses. Era uma observadora silenciosa de suas vidas. John Paul vivia para Helena. Todos seus pensamentos na vigília eram para ela.

- Helena esteve chorando faz umas semanas, vagabundeando na noite. Veio até nós estava com o rosto machucado e arroxeado. John Paul a agrediu várias vezes. Ela disse que não parecia ele, absolutamente. Quando chegou em casa, do trabalho, já estava "diferente".

Os cabelos da nuca de Destiny se arrepiaram. Uma sombra moveu furtivamente na escuridão, deslizando-se ao longo da rua, para elas. No alto, uma repentina rajada de vento se formou e nuvens negras cobriram as estrelas.

- John Paul é incapaz de fazer mal a Helena. – Declarou, ela. Conhecia seus pensamentos, conhecia sua natureza gentil. Sabia o quanto ele amava Helena. Nunca arriscaria sua relação com ela. Helena não era mulher que agüentaria um homem que a agredisse. - Estão seguras disso?

Velda assentiu.

- Helena acredita que ele estava doente. Estava planejando lhe pedir que fosse ver um médico. Pensou que poderia ter um tumor cerebral ou algo assim. É tão alheio a seu caráter. No dia seguinte, quando o enfrentou, ele não parecia lembrar o que tinha feito.

- Absolutamente. – Afirmou, Inez. – Ele ficou horrorizado com os ferimentos de Helena. Não se lembrava de ter gritado ou agredido-a O... - Sua voz desapareceu e ela olhou sua irmã.

Violação. A feia palavra não foi pronunciada mas brilhou na mente de todas. O estômago de Destiny revolveu em sinal de protesto. Helena amava John Paul. E John Paul era incapaz de um ato semelhante. O que causaria um comportamento tão aterrorizante? Conteve o fôlego, esperando a resposta, esperando que Nicolae lhe confirmasse sua pior suspeita.

- Não tire conclusões apressadas. Nossas mentes estão sempre no não-morto, mas nem todos os crímenes são cometidos por vampiros. Os humanos são capazes de grandes atrocidades.

Não queria que ele a lembrasse disso. Queria pensar que um vampiro era o responsável. Como podia um homem ser responsável por uma mudança completa da personalidade de John Paul? Isso não tinha sentido para ela.

- Como está Helena?

- Não sai muito de sua casa e quando o faz, está sempre calada. E John Paul está nervoso e teme perdê-la. Disse-me honestamente, que nada recorda daquele dia. É triste. – Disse, Velda. - E, é obvio, há outras coisas.

A porta do bar se abriu, cuspindo luz e música alta e risadas, para a rua. As três mulheres se voltaram para ver que Mary Ann saía, com um homem a seu lado. Ele a segurava pelo cotovelo. Nenhum dos dois olhou para as mulheres, mas para o pequeno beco da parte de atrás do botequim.

O coração de Destiny quase deixou de pulsar durante um momento, depois acelerou temerosamente.

 

- Velda, sei que isto é importante e acredito em voce. Quero ouvir tudo o que tem que a dizer sobre o que está acontecendo, mas infelizmente, agora tenho que ir. - O ar entrava precipitadamente em seus pulmões.

- Não a toque!

Não houve nenhuma súplica, só uma ameaça muito real em sua afiada ordem. Saltou sobre seus pés, começando a correr para o beco, rabiscando sua figura para usar uma boa velocidade e que as irmãs não fossem capazes de vê-la. O vento se elevou, percorrendo a rua, num vendaval, empurrando papéis soltos, ramos e folhas sobre o chão, formando estranhos redemoinhos em torvelinhos de turbulência.

Seu corpo moveu com graça, uma máquina letal apressando-se a deter o inevitável. Tentou utilizar o vínculo de sangue entre eles, alcançá-lo, tentar imobilizá-lo. Deveria saber que ele nunca lhe daria seu sangue se isso desse a ela, o domínio completo sobre ele. Ele era um autêntico antigo com muito poder e força, com mais batalhas lutadas que as que ela podia esperar reunir em seus curtos anos. Era muito tarde para detê-lo. Soube exatamente em que momento seus dentes se afundaram profundamente no pescoço vulnerável de Mary Ann.

Destiny gemeu. Uma promessa de vingança, o sabor da traição amargo em sua boca. Por que tinha permitido que sua voz a enganasse, para acreditar que ele era algo diferente? Explodiu girando a esquina, tentando parar, quando os viu. Mary Ann estava virada para ela e os braços de Nicolae rodeavam à mulher, sujeitando-a diante dele como um escudo. Ele elevou a cabeça, quase prazerosamente e seu olhar vagou sobre Destiny, numa espécie de desafio.

Destiny se deteve a poucos metros deles. Mary Ann estava em terrível perigo. Nicolae podia matá-la facilmente. Destiny era consciente de que um movimento equivocado de sua parte poderia ser o fator decisivo.

- O que quer? - Ela daria quase tudo em troca de Mary Ann. Rezou por não ter que matar Mary Ann, para evitar que ela caísse em suas garras. - Me diga o que quer. – Ela estava se movendo em um lento círculo, enquanto falava. O ar entre eles vibrava de tensão. No alto as nuvens mais escuras começavam a ferver. Pequenas veias de relâmpago se arquearam e o vento começou a gemer estranhamente, elevando-se de vez em quando à altura de um grito de cólera.

Nicoale sorriu, revelando seus imaculados dentes brancos. Parecia o predador que era.

- Não sou um principiante para ser enganado, Destiny. Retroceda e atente a razão.

- Ela está sob meu amparo.

- E sob o meu. - Disse ele amavelmente, com seu olhar firme sobre o dela.

A boca de Destiny se apertou, formando uma linha dura. Avançou mais perto, lançando-se para a esquerda do casal. Estava sobre as pontas dos pés, pronta para um só engano dele, só uma ranhura.

Sem advertência, uma sombra caiu do céu. Silenciosa e mortal. Bico e garras afiadas caíram diretamente para a face de Mary Ann. Destiny saltou para se colocar entre eles, mas a coruja já estava subindo e Mary Ann pareceu aterrorizada pelo ataque da ave, que havia se dirigido diretamente para seus olhos.

- Não se mova. - Advertiu Destiny ,a Mary Ann. - Diga que vá, Nicolae. Diga-lhe que vá agora.

- Ele só está me protegendo, Destiny. - Explicou Nicolae, amavelmente. - Conhece suas intenções e sabe que eu não te farei mal. É sua forma de advertí-la. Se me fizer mal, ele matará Mary Ann e eu não posso detê-lo. Sabe quem é, Destiny. É meu irmão e só procura me proteger. Pense antes de atuar. - Nicolae manteve Mary Ann firmemente entre eles.

Mary Ann franziu o cenho.

- Destiny, voce está zangada com Nicolae? Ele pediu-me permissão para fazer isto. Eu queria que ele tomasse meu sangue.

Destiny fez uma careta visivel.

- Não tem nem idéia do que isso significa. Voce não quer isso. Não é razoável pensar que o faria. Sua voz é uma arma. Pode te usar para que faça algo. Sua voz sustenta compulsão. Sabe o que é? Significa que voce fará o que ele pedir, que te ordene ou deseje. Acha que ele te deu escolha, mas não o fez. Nunca houve escolha. Ele disse que é só voce colocar uma arma na cabeça e apertar o gatilho.

Os relâmpagos esfaquearam os céus, quase golpeando à coruja que voava em círculos sobre eles, mas a ave se dissolveu no meio do ar, deixando para trás, um rastro de vapor. Faíscas se pulverizaram por toda parte e facilmente, uma fina névoa cobriu a noite, apagando os pontos de luz.

- Não volte a fazer isso, Destiny. - A advertência foi um grunhido baixo. Pela primeira vez houve uma ameaça distintiva emanando de Nicolae.

- Esperem, detenham-se agora mesmo! - Mary Ann sacudiu a cabeça, decididamente. - Isto foi minha idéia, raciocinei cada passo do caminho. Nicolae queria apagar minhas lembranças, tanto para te proteger, proteger sua gente e inclusive a mim. Disse que meu conhecimento me fazia mais vulnerável ao vampiro.

Essa revelação penetrou na neblina vermelha da mente Destiny. A terrível dor da traição. Havia verdade no que dizia Mary Ann. Um vampiro poderia escanear facilmente os pensamentos de Mary Ann e saber se ela tinha um conhecimento que não deveria possuir. Destiny respirou, deixando o ar escapar lentamente, tentando se acalmar, enquanto o vendo soprava para ela e um relâmpago estalava no céu. O retumbar do trovão reverberou ruidosamente sacudindo a terra, sacudindo os edifícios.

A coruja posou no teto sobre suas cabeças, seus olhos escuros intensamente fixos na face de Destiny e ficou em silêncio, vigiando com a atenção absorta de um predador.

Os ferimentos de seu coração se sentiam frescos e abertas. Ela havia permitido que Nicolae se aproximasse muito. Tinha o deixado entrar.

- Não a traí, Destiny. Fiz o que tinha que fazer, o que sabia que não podia deixar de fazer. Ela está ilesa e agora protegida. Foi exclusivamente sua escolha. Dou-te minha palavra de honra.

Sua voz era sempre a mesma. Perfeita. Ela baixou os olhos, indecisa outra vez. Tinha ido ao beco para matá-lo, mas a esperança esmagava seu coração, ao mesmo tempo. Adorava sua voz e o odiava.

- Destiny... - Mary Ann podia ver diminutas gotas de suor na testa da jovem. Só que não era suor, eram gotas de sangue. - Me olhe. Por favor, olhe para mim. Se puder fazer o que diz que pode, olhe em minha mente e vê o que aconteceu entre nós. Eu quis fazer isto. Não quero que esqueça. Sou sua amiga. Isso me importa.

Os dedos de Destiny se fecharam.

- Eu não tenho amigos.

- Sabe que nos têm. Pode ser aterrador ter amigos, mas estão aí para voce. Sabe o que sinto e sabe que é real. Importa-me o que acontece com voce.

- Não quero que se importe. - Destiny cuspiu as palavras, seus olhos vívidos brilhando, iluminados pelas veias de relâmpagos fazendo-a parecer perigosa. - Não quero nada disto. - Deslizou uma mão para abranger todos eles. A vizinhança. Mary Ann. A sentinela silenciosa do telhado. Nicolae. Especialmente Nicolae. Não queria ter nada com ele. Odiava-o, odiava a forma em que suas mãos se fechavam sobre os ombros de Mary Ann.

Nicolae permitiu que seus braços caíssem para os lados. Se Destiny desse um passoa para ele, estava seguro de ser forte para escapar do perigo, mas não podia controlar a resposta de Vikirnoff a um ataque sobre ele. - Não lhe faça mal. - Não pôde evitar de advertir seu irmão.

- Sou totalmente consciente de que se ela atacar, estará obrigado a protegê-la de mim. - Vikirnoff Não se comovia. - Não lhe permitirá te fazer mal. Se ela tentar, distrairei-a, atacando à humana.

Nicolae suspirou.

- Destiny vêm comigo. – Ele estendeu a mão para ela. - Esta situação é perigosa e isto é entre nós e ninguém mais. Vêm comigo, antes que ocorra algo que nenhum de nós possa controlar.

Destiny ficou pálida. Seus dentes morderam o lábio inferior. Olhou fixamente à coruja, olhou para Mary Ann e deu um passo relutante para Nicolae. Outro. Nicolae sentiu como se pudesse respirar novamente. Sabia que ela acreditaria que ele tinha tomado a decisão de tomar o sangue de Mary Ann, mas não como ela reagiria. Não contara o quanto dolorosa seria para ela, sua aparente traição. Vê-la sofrer, o sacudiu mais do que imaginara.

Destiny olhava para mão estendida, como se temesse ficar sozinha com ele.

- Mary Ann, voce ficará bem? – Sua voz soava como se estivesse suplicando para Mary Ann que a salvasse.

- Perfeitamente. - Disse Mary Ann, firmemente. - Vá com o Nicolae e conversem. Estou segura de que esse pássaro tão interessante se ocupará de que eu chegue em casa a salvo. – Ela sorriu para Nicolae, saudando atrevidamente à coruja.

Nicolae não pôde evitar sorrir em resposta. Gostava de Mary Ann. E quem não? Havia algo especial nela. Sua coragem e lealdade a colocavam à parte. Podia ver agora, por que Destiny se estabelecera na vizinhança, atraída por esta mulher que trabalhava tão diligentemente para os outros. Ela era uma mulher de grande compaixão.

Nicolea tomou a mão de Destiny. Não podia dizer que ela a estendesse para ele ou sequer que lhe encontrasse a meio caminho. Teve que estender sua mão, para atrair a dela. Entrelaçou seus dedos com os dela. Mas ela não se afastou. Era uma pequena vitória, mas uma que entesouraria. Ela estava com os dedos gelados e estava tremendo.

Não cometeu o engano puxá-la para seu lado. Foi para ela, permanecendo perto, para que sua grande forma defendesse o corpo dela do vento. Para que ela pudesse sentir o calor de seu corpo. Para que essa eletricidade que parecia se arquear entre eles, estalasse com vida própria.

A coruja agitou as asas, elevando o vôo. O movimento pareceu acalmar o vento selvagem. Mesmo os látegos brancos de relâmpagos empalideceram nas negras nuvens, quando Destiny começou a relaxar.

Mary Ann estendeu os braços e para horror de Destiny, abraçou-a brevemente antes de se afastar, caminhando decididamente. Destiny ficou congelada no lugar, tão imóvel com uma estátua, sem ser consciente de que sua mão estava apertando a de Nicolae tão forte, que ele temeu que pudesse lhe pulverizar os ossos. Observou como Mary Ann saía do beco com a coruja voando sobre ela, como se a guardasse. Ou a espreitasse.

- Não lhe farei mal. – Disse, Nicolae. Ela tinha em mente tentar outro ataque sobre a coruja. Atirar-lhe golpes do céu, para poder estar segura de que Mary Ann estaria a salvo.

- Ele só a ameaçava, para evitar que me atacasse. - Nicolae se aproximou dela. - Não se alimentou. - Era um convite.

- Ainda não confio em mim mesma. – Ela levantou o olhar para ele. Estudou sua face, com a escura sensualidade, olhos agudos ângulos e planos. Os olhos tinham visto muitos séculos. Enfrentado muitas batalhas. Ele era um homem que vivera sozinho muito tempo. - Não posso ser o que desejas de mim. - Havia tocado a mente dele com freqüência. Conhecia seus pensamentos. Companheira. Entendia tudo o que a palavra implicava. Companheira. Algo que ela nunca seria.

A mão dele lhe emoldurou o rosto. Gentil, seus dedos traçaram as maçãs do rosto de Destiny, atrasando-se com ternura.

- Você é tudo o que quero que seja. Não há necessidade de se preocupar com tais coisas.

- Não me conhece. Como pode saber?

Seu contato fazia estragos em cada célula de seu corpo, provocando uma pequena rebelião em seus sentidos. Um motim de sangue, ossos e terminações nervosas. Ele a confundia, a cada vez que se aproximava dela, que se sentia diferente do normal. Intranqüila. Sua voz encontrava a forma dese introduzir em sua mente, enredando-se com força em volta do seu coração, de forma que cada vez que ele falava, deixava-a sem fôlego. Sem vida. Ou sem a habilidade de odiá-lo. Ou a si mesma. Ao que era.

- Era mais fácil sem voce.

- Nunca esteve sem mim. – Assinalou, ele e fechou os dedos em volta dos dela, levando-os aos lábios.

O coração de Destiny saltou ante o toque dos lábios contra sua pele. Uma carícia de calor. Ele estava belo, ali na noite. Alto, forte e vivo. Muito real e muito masculino, forte. Havia um nó em sua garganta que quase tornava impossível conversar.

- É... Muito forte para mim. - Sua voz surgiu rouca, estrangulada e imprópria dela.

O polegar de Nicolae acariciou sua face, traçando o caminho de uma lágrima imaginária. Sua mão tocou a testa dela, apagando cada rastro das diminutas gotas de sangue.

- Foi forjada nos fogos do inferno, Destiny. Ninguém será tão forte como você. Sei que teme perder a si mesma por estar comigo, mas isso seria impossível. Não estou pedindo que se una comigo. Não estou te pedindo nada mais, que se acostume a minha presença. Compartilhei sua mente durante muitos anos. Compartilheu seus medos e cada maldade inominável que passou. Compartilhei suas batalhas e conheço cada um de seus segredos. É minha presença física o que te inquieta.

Ele inclinou-se mais perto, tão perto que seus lábios deslizaram sobre a boca dela. De Destiny que sentiu seu sangue ferver.

- Preciso de voce para viver. Para salvar minha alma. Estou disposto a esperar o tempo que for.

Seus olhos encontraram os dele e ela se sobressaltou pela escura sensualidade que viu neles. Pela tremenda intensidade.

- Sei que está disposto a esperar. Mas na realidade não pode, não é? Tenho lido sua mente. Sei que essa coisa que voce chama companheira é essencial para evitar que se converta em vampiro.

Ele nem piscou ante a acusação. Assentiu e seu olhar vagava possessivamente sobre o rosto dela.

- Posso esperar, Destiny. Se for difícil, não é sua culpa, mas minha. Deixe que eu me preocupe de como me arrumarei.

- Não posso intimar contigo. - Seu queixo se elevou ligeiramente, sua boca tremia. - Nunca poderia intimar contigo e isso é uma grande parte do que quer de mim.

- Somos íntimos, Destiny. O sexo não é necessariamente intimidade. compartilhamos muito mais que outros casais, compartilhado detalhes íntimos de nossas vidas. – Ele elevou-lhe o queixo, estudando seus vívidos olhos. - Vêm comigo. Deixe-me te mostrar o que é, não o que imagina que é.

- Por que tudo o que diz soa como uma tentação? - Um sorriso débil brilhou por um momento em seus olhos. - Não pode simplesmente ser tolo e pouco interessante?

Ele sorriu, levando sua mão uma vez mais, aos lábios. Seus dentes tocaram a seus dedos.

- É um princípio. É melhor ser uma tentação, que tolo e pouco interessante.

- Aonde vamos? – Ela afastou-se, numa retirada sutil. - Não passei muito tempo com pessoas em toda minha vida. É... - procurou a palavra correta - Incômodo.

Pelo menos ela estava disposta a ir com ele. Não podia pedir mais que isso. Quando estava perto dela, sua pulsação e sua cabeça, palpitavam. Seu corpo estava duro e cheio, dolorido por ela. As palavras rituais golpeavam em sua mente e profundamente em seu interior. A fera o espreitou e elevou a cabeça. Rugia pedindo liberação. Nicolae não se sobressaltou pelo conhecimento nos olhos dela. Deliberadamente lhe dava vantagem. Ela precisava ser capaz de tocar sua mente a vontade. Sentir que podia conhecer suas verdadeiras intenções. Não tinha intenção de ocultar suas dificuldades. Era a forma de vida dos Cárpatos, os homens lutavam para manter a escuridão a raia. Era um fato e encontrar sua companheira criava suas próprias complicações.

Nicolae se dissolveu sem outra palavra, atravessando as nuvens escuras, numa pesada bruma misturada com a névoa e movendo-se decididamente sobre a cidade. Não duvidou. Uma vez mais deua a Destiny, uma escolha. Ela teria que querer seguir seus passos, querer lhes dar uma oportunidade.

- Isso não é o que estou fazendo-. – Ela replicou, respondendo a seu último pensamento. Não havia possibilidade de que eles fossem casal. Juntos. Companheiros. Destiny saltou para o ar, entrando na cidade como um foguete. Seu corpo se dissolveu num prisma de moléculas coloridas, diminutas gotas que deslizaram ligeiramente através das nervuras de névoa.

Sabia qual seria sua resposta e e se preparou. Sua risada deslizou em sua mente. Nada podia lhe roubar o fôlego como fazia o som de sua risada. Havia algo incrivelmente sexy na risada dele. Destiny seguiu a cauda do cometa através do céu, longe da cidade, para as montanhas e o bosque que havia a alguma distância dali.

Permitiu que a alegria de voar a absorvesse completamente, bloqueando toda preocupação. Havia certos prazeres inegáveis nos escuros dons que possuía.

- Bem mais que alguns. – Assinalou, Nicolae. - Cada espécie tem seus inconvenientes e incríveis maravilhas. Não acredito que tenha apreciado completamente o que é.

Destiny tentou não se sobressaltar com suas palavras.

- Sabia o que era, o que tinha chegado a se converter. Caçava o não-morto e se tornou boa matando-os.

- Como é que pode ler minha mente quando meu sangue não te chama? Não conectei contigo.

- Criamos um vínculo através dos anos. Essa é minha melhor resposta. Somos duas metades de um mesmo ser. Acredito que seríamos capazes de nos encontrar, por mais longe que estejamos, sem importar as circunstâncias.

A resposta a agradou e assustou. Mesmo sem as palavras rituais que Nicolae sempre tinha em mente, estavam unidos. Não podia imaginar sua existência sem ele. Não haveria prudência e não haveria realidade. Sua mente se fragmentaria e desmoronaria até que não houvesse substância e nem pensamento. A idéia a aterrorizou. Aterrorizou-a mais, o quanto confiava nele para manter sua prudência.

O coração de Nicolae se contraiu ao ler os pensamentos dela. Permanecia como uma calada sombra em sua mente, ao igual ela era uma sombra na dele. Destiny se aferrava a ele sem ser consciente disso. Ele era bem consciente de que se aferrava a ela.

Encontrou o que queria, um pequeno lugar recôndito, no coração do bosque. A espessura das árvores e a folhagem, o chamaram. Tomou terra, recuperando sua verdadeira forma. Um homem alto e de ombros largos, espesso cabelo negro, uma boca perigosamente sensual e olhos compelidores. apoiou-se prazerosamente contra o tronco de uma árvore, estudando intensamente como as coloridas moléculas começavam a tomar forma. O corpo curvilíneo de Destiny.

Ela permaneceu a alguma distância dele, com um olhar perdido e cauteloso na face. Sua boca vulnerável estava em conflito com seus olhos vívidos. Ela passeou de um lado a outro ,com passos rápidos e descontentes..

- Por que estou aqui?

Nicolae a avaliou com seu olhar frio e sereno. Podia sentir a necessidade de solidão palpitando nela.

- Escaneaste este lugar?

Ela olhou-lhe e a impaciência se formava na turbulência azul esverdeada de seus olhos.

- É obvio que escaneei. Acha que eu permitiria que me conduzisse a uma armadilha?

Ele podia ver que ela estava preparada, espectadora e seu corpo numa boa posição defensiva. Ensinara-a bem.

- O que encontra aqui?

Destiny o olhou fixamente. Enquanto a névoa se formava, nuvens escuras vagavam cruzando o céo e sobre a lua, para obstruir seu brilho. Calor e fogo resplandeceram e refletiram o vermelho nos olhos de Destiny. Pequenas chamas pareciam arder ali. Ela piscou e a ilusão desapareceu. Mantendo seu olhar cauteloso sobre ele, Destiny inalou lentamente, profundamente. Tomando o ar limpo em seus pulmões. O vento soprou através das árvores, movendo as folhas, sussurrando para ela.

- O que ouve?

- Muito. Sabe disso. Ouço os animais e as histórias de suas vidas. Não há humanos perto, nem sequer de acampamento.

- Esta é uma parte pouco transitada do bosque. – Ele concordou. - Os Cárpatos são uma espécie em harmonia com a terra. A terra aqui é rica e quando a abraça, suas propriedades curadoras a rejuvenescem. A terra curadora de nossa terra natal está além de tudo o que possa imaginar. Como esta, mas mil vezes mais rica. - Seus dentes brancos brilharam brevemente na noite. - Especialmente depois de uma batalha particularmente longa.

- O que está tentando me dizer? – ela passou a mão pela casca de um pequeno galho. Podia ouvir a seiva correr pela árvore. Os insetos abundavam sobre sua cabeça, na copa acima. Uma coruja se moveu entre os ramos perto deles, com ociosa curiosidade. A poucas milhas de distância, um puma caçava, com a fome retumbando em sua barriga.

- Quero que conheça nosso mundo. Não é o mundo do vampiro. Não somos piores do que é o humano. Temos dons maravilhosos e muitos problemas a solucionar. Temos longevidade, sim. Aparentamos imortalidade, mas podem nos matar. Não facilmente, pois um ferimento que seria fatal pode ser curado com nossa saliva e terra rica. O sangue de um antigo tem propriedades curadoras. Utilizamos ervas que abundam em nosso mundo. Podemos comandar o tempo se houver necessidade. Mas devemos descansar nas horas de sol. Temos limitações.

Destiny o avaliou cuidadosamente.

- Me conte mais.

- Contei estas coisas com freqüência a você, Destiny. Finalmente, está preparada para ouvir?

- Eu pensava que eram contos de fadas. Eu precisava de algo pelo qual viver e você me deu. Converteu-me numa... Do não-morto.

Pela primeira vez ele pareceu triste. Nicolae passou a mão pelo cabelo.

- Sei o que fiz, Destiny. Não podia pensar em outra forma de deter as coisas que o vampiro estava fazendo a você. Não podia te encontrar. Não foi conversar comigo. Tive que te utilizar para matá-lo.

Ela elevou o queixo, seus olhos estavam tormentosos.

- Não se atreva a lamentar isso. É a única coisa que não lamento, nunca lamentarei. Ele fez coisas... Coisas que ainda não posso confrontar. Com sua ajuda, encontrei forças para derrotá-lo. Não me tire isso. Derrotei-o, liberei o mundo de algo nefando. E estava com quatorze anos quando o fiz. – Ela ocultou sua face, mas Nicolae captou o inferno de sua mente.

- Nunca quis que a morte a tocasse. Nunca quis isso para voce.

- Tocou-me no primeiro dia que ouvi sua voz. – Ela se voltou para ele, seu olhar movendo-se mal humoradamente sobre sua face. Estudando-lhe. Olhando além da máscara que ele vestia. - Uma voz como a tua. Formosa além da acreditável, mas tão perigosa, intensa e cheia de promessas. Tem esse mesmo perigo em voce. O poder de esmagar a outro com sua voz. Atrai alguém e lhe compele a fazer sua vontade.

Ele assentiu, lentamente.

- É verdade, tenho sim e é uma arma que pode ser utilizada tanto para bem ou mau. Você tem esse dom agora. Empregou-o, Destiny. - Sobre o jovem que utilizou para se alimentar. Chamou-o a voce, mantendo-o tranqüilo com promessas do paraíso.

Destiny não podia negar. Sabia que sua voz sustentava um feitiço. Era fácil atrair os homens a ela e mantê-los complacentes enquanto se alimentava. Era fácil deixá-los com lembranças boas, que de algum modo aliviava a culpa que sentia.

Nicolae se moveu, num ondear de ameaça e instantaneamente atraiu sua completa atenção de volta a ele. Ele lutou para manter o demônio preso e sob controle. O ciúme era uma feia emoção. Não tinham lugar em sua vida, em sua relação com Destiny. Ela temia a intimidade e o compartilhar de seu corpo e ele sabia porquê. Conhecia seus mais escuros segredos. O ciúme estava sob ele e se negava a permitir que crescesse como um câncer, quando já havia tantos obstáculos a superar.

- Obrigado. - Disse ela, estudando-o, com olhos cautelosos.

O sorriso dele foi tímido.

- É coisa de homens.

A sobrancelha dela se arqueou.

- Pensava que os ciúmes eram universais. Eu não gostei de ver seus braços em Mary Ann, mas acredito que foi porque temia por ela. – ela encolheu os ombros, num movimento estranhamente elegante.

Nicolae achava tudo nela, intrigante e tentador. Tocava-a a tantos níveis, mas o de menos era seu instinto de amparo. Destiny não queria um protetor, não acreditava precisar de um.

Mas ele via a vulnerabilidade em seu rosto, via tão claramente a tortura em seus olhos. Podia ver a terrível luta pela prudência que ela havia suportado a cada sublevação. Cada célula de seu corpo rugia para ele, para que a tomasse em seus braços, para protegê-la com seu corpo, de todo dano. Ela permanecia ali tão corajosamente, admitindo que havia se incomodado de vê-lo com Mary Ann nos braços. E tinha confessado, para lhe fazer sentir melhor.

Seu sorriso se ampliou, antes de poder recuperar sua costumada máscara. A ternura se propagou através de seu corpo e atiçou todas as fibras de seu coração.

- Mary Ann é toda uma mulher. Tem seus dons, por própria conta. – ele foi cuidadoso, na escolha das palavras.

Destiny assentiu.

- Acredito que isso me atraiu até ela. Mary Ann não é sequer consciente de suas habilidades psíquicas. Senti a pequena onda de poder cada vez que ela se conectava a uma mulher e a a aconselhava. Passei tempo no balcão de seu escritório ouvindo-a. Até suas sessões de grupo me tocaram. – Ela estava admitindo algo para ele, que esperava que compreendesse. Reconhecia que não podia viver uma vida normal e tentava encontrar uma forma de curar-se.

- Voce não é um monstro, Destiny. Nossa gente confronta muitos problemas. Nossos homens perdem a habilidade de ver cores, de sentir emoção depois de duzentos anos. Tudo desaparece. Nos velhos dias, quando nossa gente estava em plenitude e nossas companheiras estavam perto, não era assim. Agora sentimos a escassez de companheiras, agudamente. Sem mulheres para nos dar filhos, não há esperança para nossa raça moribunda. Muitos de nossos homens escolheram a momentâneas rajada de poder, o golpe de uma morte sobre a honra e uma existência árida. Isso nos obriga a caçá-los, apesar do fato de que com freqüência, são familiares e amigos. Cada morte estende a escuridão, até que nos consome. Não é uma vida fácil, ser atormentado por memórias desfalecidas, de cores e risos e do que era ter autênticas emoções.

Destiny esfregou as têmporas. Não gostava de pensar na vida dele ou tocar suas lembranças. Uma existência árida em branco e preto, um deserto interminável estendendo-se diante dele. Até que ela tinha se conectado com ele. Via claramente sua preocupação por Vikirnoff. Via claramente sua necessidade por ela.

- Algumas mulheres humanas com habilidades psíquicas são capazes de serem convertidas a nossa espécie. Obviamente você é uma dessas mulheres. Precisamos de filhos. Nossas mulheres e nossas crianças são preciosos para nós, autênticos tesouros. Protegemo-os com cada fibra de nosso ser. Nossas mulheres e crianças são nossa única esperança.

- E isso é o que o vampiro me fez, verdade? Converteu-me. Como?

- Requer três intercâmbios de sangue, mas com um companheiro, não é doloroso ou terrível como foi sua experiência. Quando fazemos amor é natural compartilhar a essência do outro. Desejar que nosso sangue flua nas veias do outro. É quase uma compulsão. Quando estamos com nossa companheira, nos beijando, pele contra pele, intercambiar sangue é uma formosa necessidade.

Sua voz parecia sussurrar sobre ela, uma tentação na qual ela não podia pensar.

- Vejo o que tenta me dizer. Vejo em sua mente e coração e posso ver que o que diz a sério. Só desejo que tudo isto fosse real, Nicolae, mas não, nunca poderá ser para mim. Acredito o que o que diz sobre os Cárpatos é um fato. Sinto bondade em voce, junto com a fera que lhe espreita. Mas você e eu sabemos que não foi você que me converteu. Ou um homem dos Cárpatos. Posso sentir o cheiro de sangue corrompido a milhas de distância. O mau cheiro é asqueroso. Acha que não posso cheirar a mim mesma? Na caverna, eles me chamavam, para que se unisse a eles. Ouviu-lhes me chamar. Até o não-morto reconhece o que sou. Possivelmente se um de sua raça me tivesse convertido, eu seria tudo isso que diz, mas foi um vampiro e seu sangue corre por minhas veias.

- Pode ser limpo.

- Pode curar minhas lembranças? Pode apagar as coisas que isso me fez? Acha que você me converteu numa assassina, Nicolae, mas não foi você. Nunca foi você.

- Ensinei-te a matar, Destiny. Não importa se acreditava ser necessário, Matar era alheio a sua natureza. Não à minha. - Não posso permitir que se sinta um monstro. - Eu toquei sua mente com a minha. Ainda faço isso. As sombras que há aí são obra do vampiro, não tuas. Meu sangue já tem aliviado a carga em suas veias. Com o tempo podemos superar o que ele fez.

Destiny sacudiu a cabeça.

- Vivi com isto, sempre. Se tivesse uma forma de mudar, o teria feito. Posso estar parcialmente em seu mundo, mas também no mundo do não-morto. Estou suja. Sei antes de abrir os olhos, antes de tomar meu primeiro fôlego ao me elevar. Matei muitas vezes e não posso limpar o sangue de minhas mãos. – Ela olhou-o, sem ser consciente da terrível dor de sua face.

Nicolae notou.

- Examinei suas lembranças, Nicolae. Tive muitos anos para estudar sua mente, as batalhas e técnicas utilizadas para matar. Não sente nada quando ataca. Não conhece o ódio. E não conhece a raiva. Não conhece a satisfação e a alegria de matar. Eu sim. É isso o que quer na mãe de seus filhos? – ela afastou-se dele, odiando-o por fazê-la confessar suas faltas em voz alta. Por fazê-la notá-las, tão claramente. - Você nunca sentiu, mas eu senti e muito. Queria matar. Você não teve escolha.

Nicolae chegou mais perto, seu coração rompia por ela.

- Você tampouco teve escolha, Destiny. – Recordou, ele. - Ele não te deu escolha.

- Sempre há escolha. Você mesmo disse que os homens podem acabar com suas vidas em vez de se converter em vampiros. Vejo em sua mente a determinação de fazer isso, se for necessário... E ainda assim eu não tomei essa escolha.

A mão dele desceu pela linha do cabelo de Destiny, segurando-a pela nuca e sujeitando-a.

- Não é um vampiro, Destiny. É uma Cárpato.

- Então por que sinto ódio e o desejo de matar? Por que sou como ele e não como você, Nicolae? Acha que isso torna mais fácil ter voce perto de mim, sabendo o que sou, no que me converti? – Ela colocou a uma mão no peito dele, com os dedos abertos e tentou empurrá-lo, para lhe afastar dela.

Ele era sólido como uma rocha, não se movia, apesar de sua insistência.

- Voce não é como o monstro que roubou uma menina da sagrada segurança de sua casa. Não é como a criatura que destruiu o direito de uma garotinha, a um mundo de inocência. Não se parece em nada com o pervertido que desfrutava de torturar e matar os outros. Vejo você tua mente tão claramente como você vê a minha. Sei quem é, Destiny. Sempre saberei.

- Intimidade. - Ela murmurou a palavra e houve lágrimas em seus olhos. - Olhe em minha mente, o que chama intimidade. Eu a chamo inferno.

Nicolae a abraçou.

- Sua fome me golpeia. Sinto-a profundamente em meu interior, uma dor vazia e interminável. - Seus dedos acariciaram o cabelo dela e ele virou o rosto dela até sua garganta para que ela sentisse sua forte pulsação, sob os lábios dela. - Sinto como o sangue dele arde como ácido em suas veias. Deixe-me substitui-lo com meu sangue. Permita-me esse pequeno presente. Isso é verdadeira intimidade, Destiny, saber o que precisa e lhe proporcionar.

- E suas necessidades? - Quase impotentemente, ela descansou a cabeça contra sua garganta. Sua boca já se movia sobre a pele dele. Eua uma tentação muito grande para resisti-la. Podia recordar o sabor dele. A sensação de seus braços, de sua pele. O poder fluindo para o interior de seu próprio corpo. - E se não posso te dar o que você precisa? A idéia de um homem me tocando é... – Ela interrompeu-se, inalando a fragrância dele, tomando-a profundamente em seus pulmões. Nunca poderia ser. Era muito tarde para as coisas que ele tinha em mente.

Não queria que um homem a tocasse, mas cada terminação nervosa ardia por ele. Uma dormência pouco familiar se assentou em seu corpo. Seus seios estavam inchados e doloridos, ansiando pelo toque dele. Não o toque de um homem. Por seu toque. Só o seu. Arderam lágrimas em seus olhos, consumindo-a. Se gritasse, não poderia pará-las. Poderia alagar o mundo com suas lágrimas. - Não necessito lástima. Nunca pedi lástima. – Ela disse, com os lábios saboreando sua pele, seu calor. Absorvendo-o, nela. Sentia como o corpo dele se enrijecia, os músculos se esticavam contra sua suavidade de mulher, sua ereção pressionava firmemente contra ela.

- Não te estou oferecendo lástima, Destiny. Isto é amor. – Disse ele, com ternura. Persuadindo-a. – É teu, para tomá-lo. Isto é amor incondicional. Nada mais.

Os braços dele eram fortes e quentes e seu corpo encaixava perfeitamente no dele.

- Seu corpo deseja o meu. - Sussurrou ela, o terrível pesar emanou dela como uma fonte. Sua voz era rouca e rasgada. Estava danificada para sempre, rota, sempre poluída pelo mal.

As mãos dele seguraram o cabelo dela, empurrando-o para o lado para lhe expor a nuca vulnerável. Lamentava por ela e por si mesmo.

- É obvio que meu corpo deseja o teu. Isso é correto e natural, Destiny. É minha companheira. Não há outra mulher para mim. Não haverá nunca. Olhe além de meu corpo, para meu coração e minha alma. Olhe-se a se mesma, como eu a vejo. Valente e formosa. É tudo. Olhe em minha mente e vê que só quero ser o que você precisa.

Destiny não podia olhar em sua mente. Ou em seu coração. Ou em sua alma. Temia que encontraria exatamente o que ele dizia. Felicidade e esperança. Saber o que poderia ter sido. Sabia exatamente o que era ela. Vivia com seu corpo, mente e alma cheia de cicatrizes, a cada sublevação. Não havia lugar para os sonhos em seu mundo. Destiny fechou os olhos e permitiu que os incisivos se alongassem. Precisava de alimento. Isso era tudo. Isso era tudo o que poderia haver entre eles. Ele era uma presa como qualquer outro homem. Nada mais. Nunca, mais que isso. Tinha intenção de afundar seus dentes profundamente, esperando lhe fazer mal, esperando vê-lo se afastar dela.

Foi impossível lhe fazer mal. Não podia. Sua língua brincou sobre a pulsação, seu fôlego quente e consolador. Seu corpo moveu por vontade próprio e inquieto, com uma sensação de urgência, para perto dele, suas mãos movendo-se sobre o peito, pelas costas, traçando os músculos definidos, enquanto a pele se esquentava mais e a respiração dele se alterava.

Nicolae sussurrou o nome dela, roucamente, numa súplica de piedade, seu corpo ardia em chamas. Destiny saiu de seus braços. Estava tremendo e sua expressão era uma mistura de medo e raiva.

- Se afaste de mim. - Disse. – Mantenha-se longe de mim. Tenho medo do que farei se ficar. – Retrocedeu, afastando-se dele. - Por favor, se realmente te importar, simplesmente vá para outra terra onde saiba que estará a salvo.

Ele a deixou e não fez movimento algum para segui-la. O caos da mente dela era muito turbulento. Uma borbulhante massa de violência e raiva, dor e medo. Nicolae permaneceu onde estava durante um longo momento, com a cabeça baixa, respirando fundo, para superar sua dor. Para superar a dor dela. Quando tocou seu rosto, ficou surpreso de ver as lágrimas vermelhas como sangue, que havia chorado.

 

No momento em que Destiny colocou um pé um os degraus da fachada da igreja, sentiu as vibrações de violência. Tinha tentado deixar Seatle, voltar a ser uma nômade, vagando pelo mundo, mas depois de várias sublevações, tinha voltado contra a vontade. Deliberadamente, permanecera longe da vizinhança, decidida a sair de lá. Decidida a não se preocupar com nenhum deles. Nem por senhoras de cabelos vermelhos ou violeta, nem pela Mary Ann e nem por Nicolae. Nenhum deles lhe importava. Nenhum.

Mas era uma mulher de honra. Não tinha terminado seu assunto com Velda e Inez e tinha dado sua palavra. Então, não tinha outra escolha que voltar. Disse a si mesma que a honra era sua única razão, mas era mentira e lhe pesava no coração.

Destiny olhou fixamente as portas da igreja. Tinha voltado para este lugar, sua âncora e seu último refúgio, seu santuário. E neste sagrado lugar, algo perverso a tinha seguido. Subiu as escadas cautelosamente, com pegadas silenciosas, quase se deslizando sobre o chão. Moveu-se com todo o sigilo de um caçador. A mão de Destiny foi firme quando puxou as portas da igreja. Logo, sentiu o cheirou de sangue. O aroma era quase forte, uma escura riqueza que a chamava. Sentiu que o coração se acelerava e a pulsação lhe saltava. As palmas de suas mãos estavam suarentas quando abriu a porta. O estômago se contraiu e a fome se intensificou até um terrível desejo.

Esquadrinhou a igreja, sem encontrar ninguém oculto, mas as reverberações de violência eram fortes. Levantou o pé e pensou, uma trepidação encheu sua alma.

- Pai Mulligan? - Disse seu nome e resolutamente cruzou a soleira.

Não aconteceu nada, Não um só relâmpago golpeou do céu para incinerá-la por semelhante sacrilégio. O coração lhe tranqüilizou a um ritmo firme, enquanto ganhava confiança. Podia ver facilmente no interior escurecido. Várias velas acesas em um pequeno lugar a sua esquerda, lançavam pontos e luzes oscilantes. Divisou o sacerdote no chão, perto do altar. Com sua túnica marrom, ele parecia trapos atirados sobre as escadas de mármore que conduziam ao altar. Destiny se ajoelhou a seu lado.

- Pai... Você não. - Sussurrou. - Quem iria lhe fazer mal?

O sacerdote permaneceu imóvel durante vários segundos. Destiny se inclinou mais perto dele. Podia ouvir a respiração trabalhosa. Ele estava vivo, mas ela estava com medo de lhe tocar. Ele parecia tão frágil, que ela temia que pudesse lhe fazer mal. E uma parte dela temia que se tocasse um homem sagrado, poderia cair morta no lugar. O sacerdote gemeu, levantou os dedos para tocar o pescoço ensangüentado. Seus olhos revoaram e ele a olhou.

- Pai? Quem lhe fez isto? – Ela retrocedeu alguns centímetros, procurando automaticamente entre a sombras.

- Menina, acho que vai ter que me ajudar a sentar. Estou um pouco enjoado. - Seu sotaque irlandês ainda era notório apesar dos muitos anos nos Estados Unidos.

- Tocar-lhe, Pai? – Ela estava horrorizada. - E se lhe faço mal?

Ele tentou sorrir.

- Não acredito que vá fazer mais mal a minha cabeça dura, do que já fizeram. Dê-me a mão.

Tomando fôlego, Destiny colocou seu braço em volta dos ombros do homem. Quando não aconteceu nada, firmou-o. Cuidadosamente o ajudou a sentar. Ele era bem mais magro de que aparentava com a batina. Seus ossos eram pronunciados e frágeis.

Seu corpo tremia e ele cambaleava, como se não fosse capaz de senta sozinho, ela manteve o braço a seu redor. Notou que era mais velho do que tinha pensado a princípio.

- Quando compreendi que iam me golpear, pensei em você e todas suas visitas de ultimamente. Sabia que Deus a enviaria para mim. – ele tentou uma piscada, em vez disso, fez uma careta. - Só para inclinar as probabilidades um pouquinho a meu favor, aprovei enviar algumas preces a Deus para que ele te passasse a mensagem.

- Bem, pois ele me enviou um pouco tarde. - Ela não era a heroína de ninguém. Zangou-se, que alguém tivesse feito mal a um homem tão generoso e compassivo. - Deus devia estar dormindo quando lhe enviou a mensagem. Só agora acaba de entregar. - Não fazia idéia do por que tinha ido à igreja, mas de algum modo, havia sentido uma urgente necessidade de visitá-la.

- Está aqui... E isso é tudo o que importa.

- Pode se levantar? - Sua palidez extrema a preocupava. - Possivelmente seria melhor que chamasse uma ambulância.

- Não, não o faça. Só me deixe me sentar aqui um momento e descansar. - O sacerdote estava segurando sua mão amavelmente, para reconfortá-la. - Se chamar a uma ambulância, teremos que explicar tudo isto e seria melhor chegar ao fundo do assunto, nós mesmos.

Destiny franziu o cenho.

- Isso não tem nenhum sentido, Pai. Tem que chamar à polícia. Quem quer que tenha feito isto deveria ser castigado.

Ele se aproximou mais, apoiando mais seu peso contra ela.

- Não, é por isso que preciso de você. - Sua voz soava mais fraca. - Não posso ir à polícia. Foi um de meus paroquianos. Ele não é assim. Não sei que aconteceu. Não precisava do dinheiro... E não havia muito que pegar... Mas não havia forma de raciocinar com ele. – Ele fechou os olhos e caiu contra ela. - Conto contigo.

- Está realmente ferido, Pai. – Assinalou, Destiny. - Precisa de atenção médica.

- Qual é seu nome?

- Destiny. - Disse elae e sentia-se homicida contra o atacante do sacerdote. - Nicolae. Preciso que venha à igreja. - Odiava lhe chamar. Sabia que sorriria como um tolo, quando recebesse sua chamada. Destiny olhou fixamente para sacerdote. - Não tem nem idéia do que me está obrigando a fazer.

- Temo-me que sei, menina. Sei que não quer ter contato com ninguém, mas tenho o pressentimento de que só você pode resolver isto por mim. Não quero envolver a polícia. Prometa-me que se ocupará disso você mesma.

- Não posso acreditar nisto. - Destiny elevou as mãos com exasperação, depois rapidamente pegou o sacerdote, para evitar que ele batesse a cabeça no degrau de mármore. - Primeiro as irmãs e agora você.

- Parece que está impaciente. –

Em sua voz ronronava a satisfação másculina. Destiny apertou os lábios para evitar gritar de frustração.

- O mundo de repente se tornou louco. Bom, não te encha ilusões ainda. Tem alguma habilidade para curar humanos?

Houve um pequeno silêncio. Destiny não pôde evitar o pequeno sorriso que flertou brevemente, cruzando sua face e abriu passo até sua mente. E na dele.

- Quer que eu cure um humano para você?

- Acreditava que desejava sua companhia?

A risada chegou como sempre. Enredando-a em calma e ternura, encaminhando-se para seu coração.

- Essa é minha mulher, sempre tão cálida e acolhedora. Seu humano é um homem?

Destiny captou esse pequeno indício de ameaça flamejando nele.

- Sim. De fato é e é importante para mim, então deixa de conversar e coloque-se em movimento.

- Você me assombra. Sabe que a ajudarei, embora quis se liberar de mim.

Destiny revirou os olhos e segurou mais firme o sacerdote.

Estou te salvando a vida, colega. Realmente quero te fazer algo violento. Está em meu território. - Um repentino golpe de suspeita. - Está a alguma distância, não é? Está caçando um vampiro. - A fúria acompanhou à compreensão. - É meu vampiro! Está em minha vizinhança. Não preciso de nenhum caçador de segunda aqui, enredando as coisas.

- Destiny? - O sacerdote atraiu sua atenção, com sua voz débil.- Possivelmente poderia afrouxar sua mão. Está esmagando meus ossos.

Logo que notou o que estava fazendo, ela afrouxou e um rubor se espalhou por seu pescoço.

- Sinto, Pai. Eu disse que poderia lhe fazer mal se o tocasse. Não sou boa para este tipo de coisas, mas acredito que deveria se deitar. –Se der risada, Nicolae, matarei-o aqui mesmo nesta igreja.

A gargalhada chegou de toda maneira, no sussurrou de uma carícia. Obviamente, ele não estava intimidado o mínimo, por sua ameaça. Era um momento roubado de camaradagem e ambos o reconheceram como tal.

- Se não se importar, preferiria não me mover. – Disse, Pai Mulligan. – Minha cabeça doe e tenho medo de enjoar.

- Nicolae! Acredito que ele tem uma contusão! - Havia medo em sua voz.

No momento, Nicolae estava consolando-a, todo o riso desapareceu. Destiny poderia enfrentar um vampiro sem se sobressaltar, mas esta situação estava além de sua experiência.

- Estou em caminho e te ensinarei o que terá que fazer. Mantenha-o tranqüilo. - Nicolae não pôde evitar o pequeno dardo de prazer que lhe atravessou, ao pensar que ela se estendeu para ele em seu momento de necessidade. Havia contado com ele. Aceitara que ele estaria ali com ela.

- Tem que ficar quieto, Pai. - Disse Destiny, esperando soar informada e confiada. Acariciou o cabelo fino do sacerdote e tentou ignorar a forma em que a fragrância do sangue aumentava sua fome.

- Conhece Martin Wriht? Um homem agradável. Conheço-o desde que era menino. Foi sempre um menino sensível, amoroso e amável com os outros.

Destiny conhecia homem. Era o amante de Tim Salvadore. Wright era sempre o mais tranqüilo dos dois. Destiny lhe havia visto muitas vezes ajudando os idosos da vizinhança, com as bolsas pesadas e era o que com freqüência deixava dinheiro para o jovem casal que vivia na casinha ao lado de Velda e Inez.

- Conheço Martin. - Admitiu.

- Foi Martin. - Havia uma profunda dor na voz de sacerdote. - Disse-lhe, que se precisava do dinheiro, eu daria, um empréstimo pessoal, mas nada do que pedi lhe afetou. Não tem sentido, absolutamente. A única coisa que importava para ele era conseguir a caixa onde guardo o dinheiro para os pobres. Não havia nada nele.

- Isso é completamente alheio a seu caracter. - Pensou Destiny, em voz alta. - E não tem sentido. Tim e Martin têm dinheiro. Vivem bem e não são esbanjadores ou jogadores. Não tomam drogas e Martin nem sequer bebe. É difícil de acreditar que faria tal coisa.

Sabia que Martin Wright e o Pai Mulligan eram velhos amigos. Jogavam xadrez cada a Sábado e Martin com freqüência trabalhava com o sacerdote em seu jardim. Para o que precisasse, e Pai Mulligan pedisse voluntários, sempre era Martin quem liderava o projeto. - É completamente alheio a seu caráter. - Repetiu, franzindo o cenho. Esta situação se parecia muito com a história que Velda lhe tinha contado sobre Helena e John Paul.

- Ele esteve vindo toda noite, trabalhando nos planos de um centro comunitário para maiores. Esteve pensando que os mais velhos precisam de ajuda médica, precisam de mãos, de alguém que lhes faça a compra. Mas quando veio esta noite... Bem, era Martin, mas não era ele. – Disse Pai Mulligan. - Nota por que não quero chamar à polícia. – Ele segurou a mão dela, com dedos frágeis. - Você averiguará - que acontece. Sei que é a única que pode fazer isso.

- Ocuparei-me disso. - Disse ela antes de poder deter as palavras. Outra promessa. Outro fio que a atava a este lugar. A esta gente.

- Obrigado, Destiny. Sabia que este trabalho te importaria. Depois de trabalhar tantos anos como sacerdote, a gente pressente coisas sobre as pessoas. – ele segurou seu braço outra vez. - Sei que tem muitos problemas.

Ela se retirou, com a boca súbitamente seca.

- Não os tem todo mundo?

Ele sorriu com os olhos fechados e sua cabeça descansando sobre o ombro dela.

- Me conte.

- Olhei no coração de alguém e pensei que era um monstro porque matava sem emoção. Podia sentir a escuridão nele, mas ele não sentia nada quando matava. Ele só cumpria com seu dever de proteger os outros de um ser monstruoso. Diz-me que não sou o monstro que acredito que sou, que mato para proteger os outros também, mas há ódio em mim. Ódio e desejo matar. Não acredito que ele faça. Ele mata porque o considera seu dever. - Destiny esperou até que o sacerdote abrisse os olhos e os enfocasse nela. - Eu mato porque tenho que matar.

O Pai Mulligan olhou em sua face, durante um longo momento, em silêncio.

- A quem matas, Destiny? – Perguntou ele, sem medo.

Seu olhar se desviou longe dele, durante um longo momento. Ele captou o brilho de lágrimas em seus olhos.

- Há coisas neste mundo que possivelmente você não pode conhecer, Pai. Seres monstruosos. Não humanos. Alguém me afastou de minha família quando era menina. – Ela saboreou a morte em sua boca, a malvada e amarga essência do mal. Não esperava poder explicar ao sacerdote, nem a forma de fazer que o entendesse. Havia momentos nos quais pensava que estava louca, vivendo num mundo de ilusão.

Pai Muligan lhe apertou a mão. O conhecimento se arrastou nas profundezas de seus olhos. A surpresa se estendeu por sua face.

- É um deles. Ouvi rumores sobre vós, mas duvidava de sua existência. É uma caçadora, não é? Das Montanhas dos Cárpatos?

Logo, ela sentiu a imobilidade de Nicolae, sua cautela e sua vigilância. Era uma sombra escura que o sacerdote não sabia que existia. Destiny tentou imediatamente cortar o enlace com o caçador antigo. Inesperadamente, provou ser impossível. Podia sentir Nicolae fundido com ela, esperando sua resposta.

- Onde ouviu tal coisa? - Perguntou cuidadosamente, totalmente consciente de que poderiam ter que apagar as lembranças do sacerdote. - Não é correto, Nicolae. É um homem de Deus. Não devemos lhe tocar.

- Nunca deveria dizer nada, mas estava surpreso. Há alguns anos tive o privilégio de ser atribuído a um certo cardeal. Era um grande homem, muito amado pela igreja, por seus paroquianos e sua gente. Ele estava bastante doente e conseqüentemente morreu. Empacotando seus livros e papéis pessoais, seus diários e cartas, encontrei uma carta escrita por um sacerdote da Rumanía. Esse sacerdote também está morto, mas na carta, ele tinha escrito sobre um amigo. Um homem chamado Mikhail que vivia nas Montanhas dos Cárpatos. Era um homem extraordinário, de uma espécie completamente distinta. Parecia haver uma espécie de discussão teológica entre o cardeal e o sacerdote sobre o lugar desta espécie, no grandioso esquema das coisas. O cardeal tinha jurado manter o segredo e queimar metodicamente as cartas do sacerdote. Eu sei, porque sabia bem que freqüentemente ele queimava correspondência da Rumania. Era assunto de especulação, o por que ele queimaria as cartas desse sacerdote, em particular. Já cheguei algum tempo depois de que queimasse as cartas e nunca presenciei, mas encontrei a única carta que ficava.

- Ainda existe? - Destiny olhou diretamente em seus olhos. - Não te atreva a lhe fazer mal.

- Sua confiança é reconfortante.

A mesma diversão, não exasperação ou frustração, só uma paciente espera. Destiny tentou não permitir que a voz de invadisse sua mente, enredando-se em volta de seu coração.

Pai Mulligan tentou sacudir a cabeça, depois gemeu.

- Queimei a carta, embora quis conservá-la, como tinha feito o cardeal. O conteúdo era interessante e historicamente importante, mas compreendi que o sacerdote tinha sido relutante a revelar o que sabia, mesmo enquanto estava tentando resolver uma questão teológica.

- Não fale mais, Pai. Você está realmente ferido. Ocuparemo-nos disto mais tarde. - Está arrastando as palavras.

Destiny já estava lhe levantando, segurando-s entre seus braços, como se o sacerdote não pesasse mais que um menino. - Encontre-se comigo na reitoria, e se apresse! - Ordenou ela enquanto corria, utilizando sua velocidade sobrenatural, para a casa de sacerdote.

- Estou atrás de você. - A voz de Nicolae era forte e tranqüilizadora, completamente confiante e ela sentiu que a tensão a abandonava.

Destiny colocou cuidadosamente Pai Mulligan em sua cama, ignorando a presença dos outros sacerdotes no vestíbulo. Tinha camuflado sua entrada para que nenhum deles a visse. Nenhum deles viu Nicolae quando cuidadosamente fechou a porta e mentalmente dirigiu aos ocupantes para longe do quarto de Pai Mulligan. Nicolae fingiu não notar que ela deixava escapar um suspiro de alívio.

- Pai Mulligan, tem um bom ferimento na cabeça. - A voz de Nicolae era amável, mas Destiny reconhecia a compulsão oculta nela. - Abra os olhos um momento e me olhe. - Foi uma ordem e apesar da gravidade de seu ferimento, o sacerdote lutou para obedecer.

Nicolae sorriu tranquilizadoramente, mas Destiny se abateu protetoramente, só para lhe mostrar que estava vigiando cada um de seus movimentos. O revoltante sorriso de Nicolae se converteu num sorriso afetado. Destiny não podia olhar seu rosto confiante. Derreteu-se por dentro. Ele era assim, simples e isso a desgostava. Um homem de Deus estava ensangüentado e machucado por causa de um ataque provocado e ela olhava impotentemente o amado rosto de Nicolae.

O estômago se contraiu e ela pressionou-se uma mão sobre ele, com firmeza, alarmada perante seus pensamentos. Amada e bonita. Sensual e masculina. Não era amada. De onde tinha chegado isso?

- É tão irritante. – Vociferou, indignada.

Nicolae estendeu a mão até sua face, olhando-a por um momento. Foi um segundo breve, mas suficiente para lhe roubar a razão.

- Ouvirá o ancestral canto curador em sua mente. Ouça as palavras, Destiny e as repita comigo. Permita-se sair de seu próprio corpo. É difícil a princípio, pois sempre somos muito conscientes de nós mesmos, mas você pode fazer. Converta-se em luz e energia e viaje comigo. Mantenha a mente firmemente fundida e utilize minhas imagens como guia. - As pontas de seus dedos acariciavam seu rosto, deixando um rastro de fogo atrás. Deixando-a trêmula e confusa.

Pai Mulligan olhou fracamente até que relutantemente e cautelosamente ela deixou que ele encontrasse sua mão.

- Acredito que conhece as respostas que está procurando, menina. Tenha coragem.

Ela observou-o com admiração. Ali estava um homem que se entregava voluntariamente a ser curado por um caçador de não-morto. Dando sua confiança a um completo desconhecido, de uma espécie diferente. Um homem que podia pensar em reconfortá-la, quando estava tão ferido. Destiny se sentiu humilhada, pela natureza caridosa e abnegada daquele homem.

- Relaxe, Pai. - Disse Nicolae brandamente, com sua voz musical. - Não deve sentir dor, sentirá calma. Acredito que tem uma contusão, senhor, mas posso lhe ajudar se assim me permitir.

O sacerdote seguiu sustentando a mão de Destiny, mas fechou os olhos uma vez mais, com um pequeno assentimento.

Destiny sentiu a alteração na mente de Nicolae. Uma liberação de seu espírito, do corpo. Conhecia o procedimento, ele havia lhe ensinado como fazer tal coisa, para curar seu próprio corpo quando sofria ferimentos em batalha. Nunca tinha curado outra pessoa. Destiny foi com Nicolae, seguindo sua liderança, como fizera durante tantos anos. Fundindo-se com ele, convertendo-se em parte dele.

Parecia que sempre tinha sido parte dele. Sua vida tinha começado realmente, quando havia se escondido em sua mente e encontrado Nicolae com sua voz suave e sedutora e sua infatigável paciência. Destiny tinha fechado a porta a sua vida como humana, para ajudar a manter sua prudência. Só permitira Nicolae entrar em seu mundo. Ele sabia tudo sobre ela... O bom e o mau, cada sonho e cada pesadelo. Seu próprio inferno particular. Conhecia-a, mas ficava.

Olhando para trás, perguntou-se se alguma vez pensou que ele era um vampiro. Havia escuridão nele. Caçava e matava. Mas se entregava infalivelmente a si mesmo e seus conhecimentos, a ela. Que vampiro faria isso? Todo o tempo tivera medo do que ele veria quando a encontrasse. Rota e danificada. Sem salvação. Respirou as palavras entre eles.

- Fique comigo, Destiny. - Sua voz era firme. - Não se distraia. Deve se concentrar no sacerdote, não em você mesma.

Destiny pensou um minuto mais, vacilando indecisa. Ele estava atraindo mais profundamente a seu mundo. A sua vida e em sua alma. Destiny soltou últimos restos de seu ser e foi voluntariamente, permitindo que seu corpo se afastasse, sentindo a liberdade de se converter em energia e luz. Este foi um bálsamo duas vezes mais forte do que tudo que tivesse experimentado.

A fratura estava no crânio do sacerdote, uma escura violação de seu ser. Destiny ouviu o suave canto na melódica voz de Nicolae e acrescentou sua voz a dele, para que se fundissem em perfeita harmonia. Palavras de cura. Palavras ancestrais que ela não entendia mas que eram formosas e corretas. Sentia a paz e correção disto, a energia fluindo entre eles e o sacerdote. Destiny observou cuidadosamente como Nicolae soldava meticulosamente o ferimento, para que o crânio estivesse uma vez mais liso. Ele prestou atenção ao mínimo detalhe, eliminando coágulos de sangue e reduzindo o inchaço como se o ferimento nunca tivesse existido.

Nicolae não parou ali, apesar de que ela sentia seu cansaço. Ele emanou através de seu paciente, examinando seu coração, seus pulmões ecada órgão vital, até que ficou completamente satisfeito, de que o sacerdote despertasse curado e sadio.

Emergiram ao mesmo tempo, voltando para seus próprios corpos, sorrindo um ao outro, como velhos amigos.

- Obrigado, Nicolae. Salvou sua vida.

Valia a pena cada grama de sua forç, para ver esse olhar no rosto dela. Olhar suave, feliz e de aceitação. Ela estava olhando-o, com estrelas nos olhos. Nunca havia pensado que veria um olhar assim. Nicolae tomou cuidado de não permitir que nenhuma amostra de emoção o traísse. Sua posição com ela era frágil. Não cometeu o engano de lhe apertar em seus braços, apesar de que isso era tudo o que queria. Ela estava pálida, sua fome o golpeava, mas não podia prover para ela.

- É um bom homem, Destiny. Teve tempo de examinar suas lembranças para ver o que aconteceu?

Destiny assentiu.

- Foi como me contou. Martin Wright entrou e o enfrentou. Pai Mulligan lhe ofereceu dinheiro, pediu-lhe que se sentasse e conversasse, tentou raciocinar com ele, mas Martin o atacou.

Nicolae se sentou no chão junto à cama do sacerdote.

- Isso não tem sentido.

- Não, não tem. Velda e Inez me contaram uma história similar sobre John Paul chegando em casa e atacando Helena.

- Não me são familiares. Vi Wright no bar, mas não esse outro casal.

- John Paul adora Helena. Nunca a agrediria. - Destiny tamborilou as unhas, contra a armadura da cama. - Algo está definitivamente errado. - Nicolae tinha um aspecto pálido e cansado, parecia cinza na escuridão, enquanto esfregava o queixo sombreado, pensativamente.

- Não se preocupe tanto, Destiny. Daremos com isso. Está segura de que Pai Mulligan destruiu essa carta? Mikhail Dubrinsky é o Príncipe de nossa gente. Não podemos permitir que nada e nem ninguém o coloque em perigo nestes tempos tão tensos. Nossa existência como povo, está ameaçada.

Ela inclinou-se para ele, precisando examinar seus traços de perto. As pontas de seus dedos moveram sobre os ângulos e planos do rosto dele, acariciando as linhas próximas de sua boca.

- Precisa se alimentar. - Não quis que soasse como um convite, mas mesmo assim, saiu. Suave e sedutora. Inesperada. E sobressaltou os dois.

O corpo de Nicolae respondeu à tentação dessa voz, de seu convite. Uma dor implacável e selvagem o golpeou com força. O calor o tomou. Relampagos estalaram através de suas veias, com ardente intensidade. Seus olhos se encontraram com os dela. E ele esteve perdido imediatamente, afogando-se nas profundezas dos olhos água marinha. Ela voltou à cabeça ligeiramente, expondo seu pescoço suave e vulnerável, uma extensão de pele Lisa e fragrante.

Nicolae se estendeu procurando-a, aproximando-a. Ela encaixava entre seus braços, com seu corpo suave luxurioso e flexível. Tinha pele ardente e acetinada, elevando sua febre. Lentamente inclinou a cabeça até a pele perfeita.

- Não! - Não foi nada menos que uma ordem. A voz de seu irmão foi afiada, advertindo-o. Nicolae inalou a fragrância dela, sentiu sua pulsação saltando sob seus lábios. A chamada de seu sangue era potente em sua mente, em seu coração. - Ela está poluída. Ainda não estão unidos! Detenha-se Nicolae, você vai colocar os dois em perigo, a ti e a ela.

Nicolae fechou os olhos, desejando sossegar a razão e o pensamento. Colocaria os dois em perigo, a ele e a ela. Era certo. Relutantemente retrocedeu, longe da tentação. Seus incisivos retrocederam. Não podia arriscar Destiny. Não a arriscaria.

Destiny ficou sentada muito quieta com a advertência ressoando em sua mente. Ela está poluída. Ela está poluída. Soava como um terrível estribilho em sua mente. Golpeava-a com a intensidade da horrível verdade. Empurrou Nicolae para longe dela, enquanto saltava sobre seus pés.

- Destiny. - Seu nome saiu miúdo, do coração dele. - Fique comigo.

A dolorosa solidão em sua voz era feiticeira, destruía a alma. Pela primeira vez podia ver quanto a precisava. Não era sozinho desejo; precisava-a. Cada instinto feminino, cada instinto humano nela lutou por ser o que ele precisava. Ela está poluída. O feio estribilho reverberou ruidosamente em sua mente.

Sacudiu a cabeça enquanto retrocedia longe dele.

- O que acha que acontecerá se fico contigo, Nicolae? Acredita em milagres? Eu rezava pedindo um milagre a cada noite, quando o ouvia vir por mim, quando me enrodilhava como uma bola no canto sujo de uma suja caverna. - Fechou os dedos firmemente, até que as unhas afundaram nas palmas de suas mãos. - Seu lugar está aqui com Pai Mulligan. Com esta gente. - Gesticulou para o sacerdote com seu punho apertado. - O meu não e nunca será. Por favor agradece Virkinoff por sua advertência. Não teria desejado te infectar.

- Destiny. - A dor em sua voz era crua e real, expressando uma dor além da dela.

- Não. - Alguém tinha que ter sentido comum. - Me responda. Teria se infectado se tivesse tomado meu sangue, não é?

Seus olhos estavam brilhando como pedras preciosas, cintilando com lágrimas. Ela limpou a umidade com uma impaciente passada do braço. Nicolae pensou que era a mulher mais extraordinária que já vira. A mais valente. Ele se negava a ser nada menos.

Seu olhar encontrou a dela diretamente e assentiu.

- Sim, Destiny. E como não tenho âncora que me mantenha na luz, seria muito perigoso.

Ela elevou o queixo, orgulhosamente.

- Essa sou eu. Sua âncora. O que acontecerá se eu não poder ser o que precisa?

- Destiny, isto não é necessário. Você é tudo o que preciso. Tudo o que desejo.

- Me responda, Nicolae. O que te acontecerá? - Sua voz foi muito suave, porem, firme. Seu olhar não vacilou.

Umlaivo de dor atravessou o rosto de Nicolae, antes que sua expressão se fixasse uma vez mais em uma máscara estóica.

- Sou um homem dos Cárpatos, um caçador antigo muito perto do momento de me perder. Se não me unir a minha companheira, deverei procurar o amanhecer ou me converter em vampiro. Minha escolha está clara.

Ela pressionou as pontas dos dedos contra os olhos brevemente, em reação.

- Não há outra companheira para você? Deve haver outra.

Nicolae negou com a cabeça.

- Só há uma. Você é a outra metade de minha alma.

Destiny fugiu para longe dele, dissolvendo-se em uma fina neblina, fluindo por baixo da porta e descendo pelo corredor até o ar noturno. Elevou-se veloz, remontando-se alto até que ficou acima, sobre a cidade, gemendo e gritando em sua mente, para que as ondas de choque não incomodassem às pessoas lá embaixo.   -      - Sabia todo o tempo que eu era sua companheira? - Foi uma acusação.

- Não! Se soubesse, haveria lhe dito. Volta para mim, Destiny. Deve se alimentar logo. Precisa de mim.

Ele tinha razão. Sua força decrescia velozmente. Não se alimentava a várias sublevações e passar sua força para Nicolae, enquanto ele curava o sacerdote, drenara o pouco que restara. Aterrissou, recuperando sua forma natural. Sabia exatamente ande ir encontrar o que precisava. E não era Nicolae.

Destiny estava furiosa. Toda sua vida estava de pernas para o ar, outra vez. O mundo parecia estar girando fora de controle. Enquanto espreitava rua abaixo, seus dedos se apertaram e seus lábios se apertaram firmemente. Estava procurando briga. Qualquer briga. E haveria briga à antiga. Onde estavam todos os criminosos da cidade? Estavam todos na cama? Onde estava um vampiro quando precisava?

Destiny procurou em cada beco que conhecia, acessando s ruas tentando desesperadamente encontrar uma vítima. Um pobre e solitária garota completamente só na escuridão. Seus olhos brilhavam perigosamente enquanto estudava a noite, procurando qualquer um que a atacasse.

Lançou um gemido de indignação. Passeava por uma rua suja onde sabia que uma pessoa podia ser esfaqueada por causa de um par de sapatos. Pior nenhuma só pessoa tentou nada. Os edifícios se elevavam dos dois lados, feios exemplos de negligência desmoronando-se. O grafite era espesso nas paredes, igual outras coisas que preferiu não identificar. Os lugares de escada e quartos era abundantes e eram esconderijos perfeitos para alguém com o latrocínio em mente. Destiny estava segura de ser um objetivo perfeito. Uma mulher sozinha e indefesa. Não havia faróis que iluminassem nenhum crime. Era a oportunidade perfeita para o caos total e ninguém estava aceitando seu convite. Estava totalmente desgostasa com os criminosos da cidade.

Pareceu passar uma eternidade antes que se fixasse em três homens apoiados contra uma parede, vigiando seu processo e murmurando uns com os outros. Podia ouvi-los claramente, discutindo idéias de como passar o resto da noite com ela. A conversa aliviou seu espírito, grandemente. Afinal, uma oportunidade de tirar sua frustração e agressividade. Deliberadamente diminuiu seu passo, dando-lhes bastante tempo para formar e concretizar a idéia. Havia permanecido longe durante três sublevações e não se alimentara. A fome era uma entidade vivente que respirava através de seu corpo, com uma implacável demanda. A sensação de vizinhança era incrivelmente forte. A voz amável de Mary Ann, a Igreja, Velda e Inez. Evitava pensar na palavra lar. Ela não tinha lar. Eraa uma nômade. Uma solitária. Por que não podia tirar Nicolae da cabeça?

Não havia razão para se preocupar com ele ou sentir-se culpada. Nicolae provavelmente estava inventando tudo. Exceto que nunca o havia pilhado numa mentira. Tinha passado toda uma vida procurando suas mentiras para provar a si mesma, que ele era um vampiro. Olhou brevemente para os homens, depois baixou os olhos para o chão, continuando seu passo firme. Precisava de ação física.

Um dos três homens se ergueu, deu dois passos para ela como se fosse a interceptá-la. Destiny deixou escapar um gemido de antecipação, o anseio percorreu seu corpo como adrenalina, enquanto se voltava para ele, esperando, esperando. Mesmo o vento pareceu conter o fôlego com ela. Dois ratos, perto das latas de lixo, ergueram-se sobre seus quartos traseiros, imóveis, esperavam.

Sentiu-o então. Nicolae. Real, não imaginário. Perto. Não havia formosa voz, nem palavras suaves para afastá-la do caminho. Mas quando voltou a cabeça, seu olhar encontrou o que seria seu atacante e ele parou, de improviso.

Destiny soube imediatamente que a chama faminta que ardiam profundamente em seu estômago a traiu, brilhando com ardente vermelho nas profundezas de seus olhos.

- Que tipo de idiota é? – Brincou com ele, depois olhou para os outros, desafiando-os a atacá-la.

Então ouviu a suave risada de Nicolae. - Deveria atraí-los, com sexo.- Algo em sua voz a fez estremecer, uma ameaça soterrada que lhe disse que não seria uma boa idéia. - Chame-me a você.

O ar escapou entre seus dentes, num lamento de raiva. Não ia lhe chamar. Não seria seduzida. Atraída e tentada. Abandonaria Seattle para escapar dele, mas tinha assuntos pendentes. Tinha prometido a Inez e Velda e ao Sacerdote, que se ocuparia dos problemas da vizinhança.

- Covardes. - Inalou com desprezo e voltou às costas aos três homens, que a olhavam fixamente, alarmados.

Havia uma pequena onda de poder no ar? Tinha Nicolae interferido de algum modo, realçando o fogo que ardia em seus olhos, permitindo que os três homens vissem o perigo em que estavam? Destiny deu a volta, seu vívido olhar procurou em cada lugar e cada greta. Os ratos. Eles estavam agachados no chão, perto das latas de lixo, diminuindo-se, na tentativa de evitar serem advertidos. Olhou-os até que eles se ocultaram no meio do lixo. - Está-me seguindo? Atreve-se a me seguir! - Nicolae não se atreveria. Destiny parou na entrada da rua estreita, tamborilando com as unhas contra a parede. É obvio que ele se atreveria. Era um caçador.

Sua cólera esmaecia. Tudo no que podia pensar era na dolorosa necessidade da voz dele, a fome extrema de seus olhos. O desespero era uma faca que lhe atravessava o coração, cada vez que recordava a labareda de dor que cruzara o rosto de Nicolae. Apoiou seu peso contra a parede e contemplou as estrelas. O vento soprava mais forte agora, estendendo numa manta de névoa cinza para cobrir a noite, apagando as estrelas e amortecendo o som. Uma fina garoa começou a cair sobre ela. Olhou para os ratos que escapuliam para se proteger. Algo na forma de deles captou sua atenção... Na forma em que a mantinha à vista, olhos em forma de miçangas e com muita inteligência. No momento um arrepio lhe percorreu o corpo e ela se imobilizou por dentro, seus sentidos estendendo-se para descobrir os outros. E havia outros. Desta vez tinha sido verdadeiramente atraída para uma emboscada.

 

Destiny se moveu lentamente, colocando-se cuidadosamente enquanto examinava cada centímetro dos arredores. O vento soprava papéis e pequenas folhas do lixo, rua abaixo. Seu olhar precavido deslizou sobre os edifícios, tomando nota de cada detalhe, de cada sombra. Tinha vindo procurando briga e estava a ponto de experimentar uma guerra total.

Precisava de espaço para manobrar. Sorrindo docemente ao pequeno rato, Destiny deslizou velozmente a campo aberto, longe dos imponentes edifícios até colocar-se no meio da rua.

- Vejo que voltou a sua verdadeira forma, Pater. A de um pequeno rato asqueroso. E esta vez traz para todos os seus amiguitos contigo, correndo em grupos como tendem a fazer os roedores. O que é isto? Uma reunião? Uma volta ao velho lar? Um seminário de vampiros e para mim não há convite? Sinto-me deslocada.- Utilizou sua voz mais compelidora, para que os que a escutassem se revelassem a si mesmos, embora fosse por um momento.

Imediatamente os viu em sua verdadeira forma. Altas e fracas figuras com dentes bicudos e manchados e pele cinza estirada sobre seus crânios. A ilusão de beleza física era projetada por suas mentes, enquanto seu corpo se corrompia para igualar a seus pútridos espíritos. Havia dois junto às latas de lixo. Um no telhado do edifício mais perto. Outro entre as sombras do próprio beco. E o último aderido à lateral do edifício que se erguia sobre ela, escondido como uma mancha escura, uma aranha esperando no centro da rede, para atacar quando a armadilha apertasse.

O coração de Destiny palpitou rudemente, depois voltou para seu ritmo normal. Ela moveu-se com facilidade, casualmente, saudando a macabra figura que se aferrava à lateral do edifício. Ele despiu os dentes para ela, seu hálito fétido enfestando o ar fresco, fazendo-a agradecer que a fina garoa dispersasse o mau cheiro e à corrupção.

Pater cruzou de braços, recuperando serenamente sua ilusão de beleza.

- Na verdade, querida minha, temos um convite para você. Viemos te pedir que se una a nós. Que sentido tem lutar entre nós mesmos? - Sua voz era suave e persuasiva fazendo que no fundo de seu coração, Destiny se encolhesse de medo, recordando outra voz que a chamava, convocando-a. E ela o havia seguido. Seu mais grave pecado. Por que não o tinha confessado ao sacerdote? Por que não lhe tinha contado a verdade enquanto tivera a oportunidade?

Destiny sacudiu a cabeça para livrar-se da culpa. Agora precisava de absoluta concentração e ia ter uma oportunidade de derrotar o não-morto.

- Por que iria te servir, quando posso seguir meu próprio caminho?

O vampiro do telhado começou a cantarolar em voz baixa, seus pés riscando uma rítmica dança. O vampiro junto à lata de lixo à direita de Pater seguiu o monótono estribilho e o brilho de seu pé em movimento entre os prateados fios de chuva era hipnotizador. Destiny apertou os dentes e resolutamente e afastou seu olhar fascinado, bloqueando o canto. Era um velho truque, mas que com freqüência funcionava com os incautos.

- Acha que sou uma principiante para cair tão facilmente? - Seus olhos brilharam para Pater.

Ele fez uma profunda reverência, sem perturbar-se. Um simples movimento da mão deteve o estribilho e o patrão dançante. Uma vez mais os vampiros estavam imóveis e vigilantes. Esperando sua oportunidade. Esperando um descuido, um engano por sua parte. Só um momento de distração.

- É uma curiosidade. Sabe muito para alguém tão jovem. É uma mulher, mas nos combates com êxito. Compartilha nosso sangue. Não ouviste as notícias que se pulverizam pelo mundo? Somos emissários do mais forte. Eu sou seu comandante de maior confiança. Estamos em guerra com os caçadores, mas você não sabe que entramos numa nova era, na qual vamos combater nosso inimigo.

Houve um movimento no interior da névoa. Sentiu-o, mais que o viu. Nicolae. É obvio que ele viria. E seu irmão estaria lhe guardando as costas. Sentiu-se relaxar um pouco.

- Lutar para quem? Para que? O que diz não tem sentido, antigo. Por que ia lutar para proporcionar poder a um perverso? Minha morte não significa nada para ele. Suas mortes não significam nada para ele. Nós somos carne de canhão enquanto ele se esconde, regozija-se e espera que coloquemos os caçadores de joelhos. Não tem sentido morrer por outro.

- Mas derrotaremos aos caçadores, atacando em grupo. É sábio, nosso líder. Fará nosso mundo. - Sua voz ocultava compulsão. Podia sentir que funcionava em sua mente, minando sua confiança, arrastando-a mais perto da rede de foragidos. Havia algo diferente na compulsão, algo fugidio que não podia definir em sua totalidade. A cadência deveria ter sido reconhecível, mas não era. Era quase como se a voz estivesse sintonizada pessoalmente para ela, notando que tom seria mais agradável.

Destiny levantou as mãos, as palmas estendidas, afastando o intrigante som da voz de Pater. Inclinou a cabeça de um lado, sorrindo novamente, num convite lento e sexy, seus pequenos dentes brancos perfeitos e reluzentes.

- Por que alguém tão poderoso como você seguiria a outro? - Seu tom era coquete e adulador, admirador. Suas mãos revoavam graciosamente enquanto falava. Destiny notou que o peito de Pater se inchava visivelmente. Como todo vampiro, ele era suscetível à adulação. – Você me parece um líder. Sobreviveu a três caçadores outro dia. Quantos outros podem ter um lucro semelhante? Poderia seu líder? Ele esconde-se atrás de você, acovardado e temeroso, enquanto você enfrenta os caçadores.

- Ele tem visão. - Disse-lhe Pater.

- Já o viu alguma vez? Atreveu-se a se mostrar para você? – Ela soava curiosa e feminina. Cheia de admiração. Suas mãos fluíam enquanto falava, um arqueio gracioso que igualava sua voz atraente. Sorriu. Um sorriso conspirador, baixando o tom. Sua voz era rouca e sexy. Tentadora. – Uma-se você a mim. Não precisamos nos aliar a outros. Este é meu território. Todo ele. Compartilhe-o comigo. Podemos derrotar os outros.

Imediatamente os grunhidos e estrondos começaram. Os vampiros se removeram tensamente, presas expostas, garras despindo-se com raiva. Não custava muito semear discórdia entre ímpios aliados. Eram mentirosos e traidores, fazendo presa uns dos os outros, iguais sobre suas vítimas humanas

Pater indicou silêncio aos outros uma vez mais, um indicador de sua liderança entre as piores abominações. Estendeu a mão para Destiny.

- Venha comigo agora, se una a nós. Está fraca por causa da fome. Não tem possibilidade de nos derrotar a todos. Deixe-me te dar meu sangue para te manter com vida. Una-se a nossa família.

Suas palavras abriram a fresta de uma porta em sua mente, pela qual saiu uma lembrança. Uma pequena menina engatinhando no chão, arrastando-se pelo chão úmido de uma caverna, chorando lágrimas inúteis e tentando afogar os sons das súplicas, dos rogos. Os horríveis gritos, o rio de sangue. O monstro deixando cair sua última vítima e lançando a ela um olhar. Sempre se voltava para ela, com lentamente, com seus dentes ainda negros pelo sangue de sua vítima. Uma sombra escura erguendo-se sobre ela. Gargalhada maníaca. “Tome meu sangue para se manter com vida”. Mãos rudes apertando e explorando seu pequeno corpo. As bofetadas, o aroma fétido, os dentes rasgando sua pele tenra. Uma brutalidade selvagem palpitando em seu interior, rasgando seu corpo em dois, enquanto um ácido ardente e de sabor acobreado descia por sua garganta.

Destiny não podia pensar. Não podia respirar. Fechou-lhe a garganta, seus pulmões ficaram duros. Começou a se sufocar. A violação dessa menina era mais do que podia suportar. O suor cobriu seu corpo, um terrível tremor a invadiu, um que não podia controlar. Já não estava nas ruas de Seattle, uma mulher adulta, uma poderosa lutadora. Estava apanhada de volta a caverna, arrastando descuidadamente seu pequeno corpo aquebrantado, pelo chão úmido e coberto de sangue.

- Estou aqui contigo. - A voz chegou de alguma parte, simplesmente estava em sua mente. Tranqüila e frme. Uma rocha que sempre a ancorava. Quando não restava nada, quando não havia nem prudência nem razão, sempre aparecia essa voz. - Sempre estarei contigo. Sou um caçador, Destiny. Aproximam-se de acima e de baixo. Retorne a este tempo e lugar. Venha comigo agora.

Seguiu-o fora do labirinto de seus pesadelos. Fora das lembranças que nunca desapareciam. Nicolae. Sua prudência. Sua vida. Quando tinha acontecido? Por que não o tinha compreendido? O vento lhe golpeou a face. A chuva limpa estava empapando suas roupas e os cabelos. Foi instantaneamente consciente do que a rodeava, dos vampiros que enfrentava, movendo-se velozmente para ela.

Sabendo o quanto era vulnerável nesse momento, Destiny se dissolveu em meio a névoa, abandonando seus intentos de tecer um feitiço restritivo sobre Pater. Estava segura de que ele era o mais forte do grupo. Ele orquestraria a batalha. Era o único ao qual devia derrotar se queria ter êxito na tarefa de liberar sua vizinhança do não-morto. Imediatamente se converteu em parte do tempo, misturando-se a névoa cinza.

Pater grunhiu enquanto segurava o ar vazio, suas garras mordiscaram a névoa a seu redor. Logo, começou a cantarolar um feitiço para atrair vítimas humanas. Sua voz era poderosa, uma chamada de sangue. Seus seguidores tomaram as palavras, enviando suas chamadas ao interior dos edifícios e ao longo das estreitas ruelas. Uma vingança pela perda da mulher que estiveram tão seguros de que adquiririam.

Não ceda ao pânico, Destiny. - O conselho de Nicolae foi tão amável, como tranqüilo. Ele está utilizando isto para atraí-la. Demonstra que a estudou. Sabe que protegerá à população humana daqui.

- Não vou trocar suas vidas pela minha.

- Vikirnoff agirá primeiro. Os dois entre as sombras são meus. Você deve eliminar o vampiro da lateral do edifício. Não se preocupe pelo Pater. É esquivo. Não vamos pegá-lo, a menos que tenhamos uma sorte incrível. Se for possível, evite que Vikirnoff tenha que matar alguma das feras. Ele alcançou seu limite e só matará se for necessário para salvar nossas vidas.

Para horror de Destiny, as portas começaram a se abrir quando as presas humanas responderam à chamada coletiva dos vampiros. Podia ver chamas vermelhas nos olhos fundos dos não-mortos, caretas de alegria ante a expectativa de um festim de sangue. O sangue rico em adrenalina dos humanos daria aos vampiros uma onda de tremendo poder. As criaturas saltavam para as vítimas, decididas a matar a tantas como fosse possível e acumular força para a batalha vindoura.

No alto as nuvens de tormenta estavam agitando-se, girando como o caldeirão de uma bruxa em negros fios. Veias de relâmpagos iluminavam-os, banhando a sombria cena do chão.

Sob ela, Vikirnoff chegou a um dos não-mortos. Um monstro grande e volumoso que grunhia continuamente. Vikirnoff deslizou com tal graça e elegância, que o vampiro pareceu torpe e rígido em comparação. Os dois pareceram explodir entrando em ação, executando um momento, um balé ritual de sombrios passos e a seguir, irrompendo em violência, letal e desagradável.

Nicolae ondeou a mão para acalmar os gritos das vítimas, quando ficaram conscientes do iminente perigo, eliminando imediatamente a oportunidade de uma falsa segurança para os vampiros. Para os vampiros, podia ser que conseguissem o que procuravam, mas não o impulso da adrenalina. Dois vampiros se lançaram sobre um casal que permanecia na soleira de um apartamento. Nicolae chegou antes que os vampiros, empurrando o casal para dentro, para fora do perigo e voltando-se para encarar aos não-mortos. Os dois monstros se abateram sobre ele, ansiosos por terminar com o caçador e reclamar seu prêmio. Nicolae entrou em ação, um borrão movendo-se tão rápido que Destiny não podia lhe seguir, fluido, poderoso e extraordinariamente perigoso.

Destiny captou uma olhada de Pater, enquanto deslizava entre as sombras, retirando-se para permitir que seus serventes menores lutassem contra os caçadores, enquanto ele esperava uma oportunidade de atacar sem risco. Era a tática de um vampiro mais inteligente e experiente. Deveria tê-lo seguido, mas houve um movimento no segundo andar. Uma jovem vagava pela escada de incêndio, sobre onde um vampiro que estava do lado do edifício. Em resposta a convocação da criatura, a face dela se iluminou de êxtase e ela estendeu os braços, como se abraçasse à morte.

Destiny viu o júbilo na cara do vampiro, viu o triunfo enquanto ele subia edifício acima rapidamente, uma escura aranha retorcida pelo poder e a necessidade de infringir dor. Destiny estava atacando, atravessando a névoa como uma flecha, enquanto o vampiro alcançava a escada de incêndios, seguro de ter sua vítima. A criatura se voltou no último momento para enfrentar Destiny. Seu rosto horrendo, seus dentes nus e seus olhos de um brilhante vermelho e flamejando de ódio. Saltou para ela, lhe afundando as garras profundamente na pele dela, enquanto seu corpo de réptil se grudava ao dela, arranhando com as garras e lhe afundando os dentes na garganta.

Deram voltas através do espaço, arranhando e rasgando. O vampiro afundando os dentes e rasgando-a com suas garras. Ele era bem mais forte do que parecia e estava rasgando sua pele, para debilitá-la. Destiny procedeu sem desfalecer, introduzindo o punho profundamente através do músculo, pegando com a mão, o órgão enegrecido que proporcionava vida à criatura. O grito foi horrível, inclusive amortecido contra sua própria garganta enquanto ele lhe arrancava uma grande parte de carne. Caíram juntos, ricocheteando sobre a cornija de um edifício, batendo no chão. Destiny segurava teimosamente seu prêmio.

- Nicolae!

Ela atirou o coração na rua, para que o raio que Nicolae havia conduzido pudesse incinerá-lo até negras e fedidas cinzas. A criatura que segurava continuou convulsionando-se, com as garras ainda profundamente em seu flanco e braço. Os dentes ainda afundados em sua garganta. Destiny o separou com um empurrão e com a força que lhe restava, saiu cambaleando do beco para a rua aberta. Suas pernas falharam e ela se sentou bruscamente.

Destiny inclinou a cabeça para levantar o olhar para o céu e o relâmpago brando e as nuvens que se formavam loucamente sobre ela. Realmente era belo. Mas frio. Surpreendentemente, sentia muito frio. Por alguma razão, não podia regular a temperatura de seu corpo e estava tremendo. Tentou concentrar-se em Nicolae, para ver se precisava de ajuda, mas ele tinha muitos problemas a sua frente, para virar a cabeça. Ficou surpreendida quando se encontrou deitada de costas, seu corpo pesado e com uma sensação estranha. Deveria sentir medo, mas só se sentia medianamente curiosa. Mais que tudo, preocupada com Nicolae.

Longe, ou possivelmente em sua própria mente, ouviu sua voz. - Não deixe que se vá, Destiny. Não deixe que se vá! - Não estava claro o que ele queria dizer. Não estava segurando nada, mas havia desespero em sua voz, um tom que nunca o ouvira utilizar, então tentou permanecer concentrada nele.

Pater se ergueu sobre ela, com seus sombrios traços cinzas, um índice de sua terrível raiva, mostrando-se em seus brilhantes olhos vermelhos.

- Deveria ter se unido a nós. Vais morrer de uma morte horrenda. – Ele sibilou as palavras para ela, cuspindo-as, arruinando sua fachada civilizada.

- Isso não é uma surpresa. Vivi uma vida horrenda. - Tentou pronunciar as palavras, mas sua garganta estada rasgada e não emergiu nenhuma palavra. Quando piscou para limpar a neblina de seus olhos, Pater havia desaparecido, talvez nunca estivera ali.

Nicolae e Vikirnoff se materializaram dos lados dela. Nicolae tinha um arranhão vermelho descendo pelo lado esquerdo da face e um ferimento de mau aspecto no peito. Levantou-a nos braços enquanto Vikirnoff lhe guardava as costas. Ela desejou poder apagar a ansiedade da face de Nicolae, mas nenhum som saia de sua garganta e ela não conseguia ter a força necessária para levantar a mão e acariciar suas rugas de preocupação. Suspirou maciamente, reconhecendo que algo estava terrivelmente errado, mas não se importava. Destiny simplesmente fechou os olhos e deixou que Nicolae a levasse para longe, como tinha feito sempre, voando alto sobre a cidade até um mundo de sonhos, onde não havia mais monstros.

Nicolae manteve a mente intumescida, em branco, atravessando o céu para sua guarida. Se o não-morto os perseguisse, Vikirnoff os protegeria, guardando suas costas... Seu rastro, enquanto se apressavam se salvar. Deveria saber que ela faria algo semelhante. Deveria saber que não seria capaz de enfrentar à idéia de ser responsável por sua vida... Ou sua morte.

- Não tinha tal coisa na cabeça. Vikirnoff foi à voz da razão.

A raiva alagou o corpo de Nicolae, tomando o controle de seu coração e sua mente. - Como sabe? Por que acha que a conhece melhor que eu?

- Porque eu não penso nela dia e noite, cada minuto que estou acordado. Vi ela defender à humana. Estava caçando como acreditava que devia fazer. Nada mais. - Vikirnoff não estava perturbado pela explosão de Nicolae. Nada parecia lhe provocar estes dias. - Não lhe tire isso.

Nicolae se sentiu imediatamente envergonhado por ter desforrado seus medos, com seu irmão. - Sinto muito, fui grosseiro.

- Seriamente? Não o notei.

Nicolae olhou para a face impassível de seu irmão, enquanto entravam nas profundezas da terra. Não havia humor, nem rastro de reprimenda. Vikirnoff realmente não tinha notado sua raiva momentânea. E isso preocupou Nicolae. Selou os ferimentos de Destiny com sua própria saliva e a terra curadora, cantarolando brandamente enquanto trabalhava.

- Ela perdeu muito sangue. – Ele examinou os ferimentos, os sujos arranhões e marcas de dentes. O vampiro tinha tratado de destrui-la tão dolorosamente como fosse possível.

- Isso é bom para nossos propósitos, Nicolae. - Disse Vikirnoff. - Em vez de matá-la diretamente, tentaram prolongar sua morte, para atormentá-la. – Ele estava recolhendo ervas de um pequeno esconderijo onde as tinham armazenado, na câmara subterrânea. Levou um segundo para acender as chamas das velas aromáticas.

- Seus inimigos não a conhecem. - A voz de Nicolae era suave, cheia de emoção que mantinha firmemente sob controle. – Ela conviveu com a dor cada momento de sua existência. Isto não é nada para ela. – Ele piscou para conter inesperadas lágrimas, enquanto limpava cuidadosamente o rosto dela. Os ferimentos da garganta e ombro eram horríveis à vista. - Isto não é nada para ela. - Repetiu. Suas mãos foram gentis sobre os ferimentos da garganta. Ele inclinou-se para mais perto dela, colocando os lábios em seu ouvido. - Fique comigo, Destiny. Desta vez serei eu, que seguirá, aonde quer que a conduza. Deixe que seja aqui, neste tempo e lugar. Fique neste mundo.

Nicolae permitiu que seu corpo caísse longe dele, transformando-se em um instrumento imaterial de luz e energia. Era muito mais difícil conter a tormenta emocional que se formava dentro dele. Precisava estar tranqüilo e firme para salvá-la. Para curar seus ferimentos. Esta era a tarefa mais importante de sua vida. Seu corpo machucado era uma massa e como sempre, o vampiro tinha deixado um veneno que destruiria velozmente as células em volta das mordidas. A decomposição se estendia rapidamente.

Nicolae foi meticuloso em seu trabalho, rápido e eficiente mas firme enquanto reparava os danos nas artérias, músculos e tecidos. Prestou atenção ao mínimo detalhe, descobrindo cada gota do veneno do vampiro. Não foi uma tarefa fácil. Seu sangue poluído fez o trabalho especialmente difícil, porque o mal estava já pronto no interior de seu corpo, o mal que a atormentava continuamente.

Duas vezes Nicolae pensou que algo se movia na corrente sangüínea, algo microscópico, uma sombra que fugia de sua energia curadora, mas quando retrocedeu para inspecionar, não pôde encontrar nada.

Começou a cambalear ligeiramente, seu rosto pálido pela concentração e por gastar tanta energia. Pálido, pelo conhecimento do que ela suportava a cada noite normal. Seus olhos encontraram os de Vikirnoff.

- Não sei como ela sobreviveu. – Disse, brandamente.

Vikirnoff estendeu a mão para seu irmão.

- Somos Cárpatos. Resistimos. Ela é Cárpato e tem honra e instintos tão velhos como o tempo. Pouco importa que um vampiro a convertesse. Não poderia ter tido êxito se ela não tivesse sido da luz. Pensa com o coração, Nicolae.

- E está me rompendo. - Nicolae inclinou a cabeça para a oferenda de seu irmão, bebendo profundamente, para recuperar suas forças, para ser capaz de passar o dom a sua companheira.

Vikirnoff sacudiu a cabeça.

- Um de vós deve estar inteiro. Ela procura um caminho para você. Não cometa o engano de lhe falhar, por ter muita compaixão.

Nicolae permitiu que a rajada de sangue ancestral enchesse seu ser. O que podia dizer a Vikirnoff? Suas palavras eram uma espada dois gumes. Dolorosas, mas lógicas. Cheias de sabedoria. Desde que Nicolae podia se lembrar, Vikirnoff falava assim. Quando fechou cuidadosamente as pequenas incisões da mão de seu irmão, utilizando sua saliva curadora, atraiu de Destiny para ele.

Embalando-a em seu colo, abriu a camisa e pressionou a boca dela contra sua pele. - Tomará o que é livremente devotado a você, Destiny. Para que possamos viver. - Ordenou-lhe, utilizando a força de um antigo, de um companheiro. E ela obedeceu. Seus lábios se esfregaram contra ele. Gentilmente, quase sensualmente. Ele fechou os olhos, quando uma dor ardente enviou um relâmpago através de seu sangue, esticando cada músculo de seu corpo. Instintivamente a manteve perto, seus braços protetores.

Nicolae levantou o olhar para seu irmão.

- Como eliminaremos a mancha do vampiro? Em todos seus anos, alguma vez encontrou este problema?

Vikirnoff negou com a cabeça lentamente.

- Destiny não é um vampiro, então deve haver um jeito. Só posso pensar em diluir o sangue como está fazendo. Ela perdeu muito, então pode permitir-lhe Nós dois lhe daremos sangue ancestral e convocaremos os curadores. Possivelmente a terra, de nossa terra natal seria de ajuda.

Nicolae descansou a testa gentilmente contra a de Destiny.

- Ela é uma lutadora, Vikirnoff. Se alguém pode superar isto, é ela.

- Não põe objeção a que dê meu sangue a ela? – A pergunta foi exposta, calmamente.

Nicolae encolheu os ombros enquanto olhava à face da mulher que amava.

- Eu lhe darei tudo o que puder e você terá que repor meu sangue como tem feito tantas vezes. Ela tem uma necessidade e não podemos fazer outra coisa que nos ocupar dela. - Seus dedos pentearam o cabelo de Destiny, acariciando os sedosos fios. Desejo afastá-la a deste lugar, voltar para sua terra natal, onde os curadores e a terra teriam uma possibilidade de obrar sua magia sobre ela.

- Você sempre foste minha magia. Não preciso de outros.

A voz chegou roçando as paredes de sua mente como gentis asas de mariposa. Seu corpo tremeu em reação. O coração saltou em seu peito.

- Já era hora de que admitisse.

- Não se encha de ilusões. Ainda acredito que é irritante.

Isso soava tanto a sua Destiny, que ele soltou um suspiro de alívio. Sentiu o toque de sua língua, fechando as marcas de seu peito.

- Não bebeu o suficiente para substituir o sangue que perdeu, Destiny.

- Sinto crescer sua debilidade. Vá caçar. Posso esperar.

Uma onda de dor atravessou seu corpo, um sinal seguro de que estava despertando. Seus olhos revoaram como leques contra a pálida pele

Nicolae se inclinou sobre ela, roçando os olhos com seus lábios e depois deixou um rastro de beijos em seu rosto e descendo pela linha de seu pequeno nariz, depois se atrasando nos seus lábios.

- Está se aproveitando. Estou muito fraca para resistir.

- Não, não está. Não quer resistir.

- Possivelmente tenha razão. Mas se a tem, é porque me hipnotizou enquanto estava inconsciente. Não tem nada a ver com seu aroma. Ou o som de sua voz. Ou como sua boca é perfeita.

Nicolae brincou com seus lábios, roçando-os gentil e persistentemente até que eles se moveram sob os dele. Suaves. Receptivos. Ele tomou sua respiração, oferecendo a dele. .

Destiny abriu a boca e não conteve um gemido de dor, enterrou o rosto contra o peito dele e se manteve quieta.

- Sinto muito, me escapou. Não é tão mau. - A debilidade era quase pior que a dor.

A mão dele roçou uma gentil carícia através de seu cabelo.

- Sei que te dói, Destiny. Precisa ir para a terra e permitir que a terra a cure. Vikirnoff e eu cuidaremos de sua gente.

- Não está em plena forma. Deste-me muito sangue. - Sua voz era apenas audível, inclusive com o fino ouvido dele. Abriu os olhos e estudou sua face pálida. – Vá se alimentar.

Havia muita dor nas profundezas dos olhos dela.

- Acredito que ficarei aqui mais um pouco. Não estou seguro se voltarei a ter novamente esta oportunidade. Por uma vez em sua vida está cooperando.

Um pequeno sorriso marcou a boca de Destiny.

- É isso o que estou fazendo? - Fez uma careta e se moveu para vê-lo melhor. – É claro que tenho um aspecto estupendo.

As sobrancelhas dele se arquearam.

- Está linda.

- Sabia que diria isso. Mentiroso. Por favor vá alimentar. Não quero ter que lutar com mais vampiros esta noite e você não está em forma para chutar traseiros.

- Você não poderia atravessar uma bolsa de papel. – Assinalou, ele.

- Destruí a meu vampiro. – Ela disse e suas mãos foram à garganta, como se lhe fizesse mal conversar. - O que conseguiu fazer?

- Ocupei-me de dois deles. Vikirnoff se ocupou do dele, embora não deveria ter feito. - Nicolae lançou um rápido olhar para seu irmão.

- Tem que fazer isso? É uma coisa de homens ou algo assim? Admitirei que não sei muito de homens, mas é irritante.

Nicolae se inclinou mais, afastou-lhe a mão da garganta porque não podia suportar ver seus dedos revoando impotentes ali. Ela parecia tão vulnerável com seu rosto pálido e corpo aquebrantado.

- Fazer o que?

- Se mostrar superior. Eu mato um e você mata dois. O grande caçador mau, mostrando seus músculos. É irritante.

- Não vai choramingar simplesmente porque eu tenho habilidades superiores na caça, não é? – Ele esfregou os dedos dela ao longo do queixo, desejando o contato. Precisava lhe mostrar o que sentia profundamente e não conseguia expressar. - Não me passou pela cabeça que fosse choramingar.

- Dificilmente é choramingar, assinalar o quanto você é irritante. E não é superior, só tem mais sorte. - Sua voz era rouca es oava longínqua, mas ela agradecia poder conversar.

- Duvido se mencionar que eu não sou o único que precisa se curar.

- A mim, não parece que duvide o mínimo. Deixou bem claro. Estou segura de que seu irmão te ouviu. – Seus olhos se fecharam e ela voltou à face para ele, para que seus lábios lhe roçassem o dorso da mão, onde ele a estava sujeitando. - Sabe que há leis contra os perseguidores?

Nicolae sentiu o toque da boca dela, em todo seu corpo. Foi um toque acidental, nada mais, sequer uma carícia autêntica, mas seu coração se sobressaltou.

- Sei que não está querendo me acusar de te espreitar. Você veio atrás de mim. Eu sigo aonde quer que conduza. – Ela soava razoável. As pontas de seus dedos traçavam a boca esculpida, os lábios cheios, enviando um tremor pelo corpo dela através do dele.

- Tem a boca mais fascinante que já vi.

- O que é tão fascinante? É uma boca como qualquer outra.

- Acredito que é seu lábio inferior que faz biquinho.

- Agora sei que está louco. Eu nunca faço biquinho e tampouco meu lábio.

- Tenho que discordar. - O puro prazer que florescia dentro dele, notava-se em sua voz. Ela estava viva. Sua valente Destiny!

Ela abriu os olhos uma vez mais e o olhou diretamente.

- O que fazemos agora, Nicolae? Fiz o que pude para protegê-lo, mas você não capta muito bem.

Os dentes dele mordiscaram os dela, gentilmente, insistentemente. - É voce não tinha razão? Deveria ter obedecido?

- Ao menos me ouvido. - Seus dedos tocaram a sombra da barba, ao longo do queixo, num movimento fraco e tremulo, que lhe disse mais do que suas palavras poderiam ter expressado. - Quero que esteja a salvo, Nicolae. É importante para mim.

- Estou a salvo, Destiny. – Ele tranqüilizou-a. O nó de sua garganta ameaçava estrangulá-lo. - Enquanto tenha a voce, enquanto estejamos juntos, estarei a salvo.

Vikirnoff pigarreou, atraindo a atenção de Destiny. Ele estava olhando para seu irmão.

- Não estão unidos, Nicolae. Nunca estará a salvo se uni-la a voce, segundo o costume de nossa gente.

Uma veloz impaciência cruzou os escuros e sensuais traços de Nicolae. Antes de poder reagir, Destiny pousou uma mão na boca dele e levantou o olhar para Vikirnoff.

- Essas palavras que sempre estão dando voltas na cabeça dele... Isso de "é minha companheira" – Secretamente, ela achava as palavras rituais tão belas, que chegavam a ser aterrorizante. - Como poderiam nos unir algumas palavras ou manter Nicolae seguro?

Os dentes de Nicolae morderam levemente a palma da mão dela, provocando-lhe um gemido e fazendo com que ela o olhasse.

- Não pense nisso, Destiny. Temos tempo de sobra.

- Não acredito ter falado com voce. Respondeu ela. - Não falo com voce, quando está com esse ridículo humor de macho. Ssshhhh! Em tudo o que pensa é em proteger a mulherzinha. Agora estou conversando com seu irmão. – Destiny tentou elevar o queixo mas ele doía muito, com um gemido de dor, teve que se contentar em lhe dirigir um olhar desafiante.

O coração de Nicolae derreteu. Ela era valente e cheia de coragem. Estava em seus braços, machucada e com sua carne feita pedaços. A dor atravessava suas veias e a mancha do vampiro permanecia entre eles, mas ela sustentava o olhar de Vikirnoff, sem titubear. O que lhe importava era que Nicolae estivesse a salvo. Lia a determinação em sua mente, sua completa resolução, apesar de que também lia seu medo, pelo que Vikirnoff pudesse falar.

- Deve se unir a ele, para que atue como sua âncora. Uma vez pronunciadas as palavras e o ritual completado, ele não pode se converter em vampiro. A menos que você morra. Voce proporcionará luz em sua escuridão.

Destiny olhou para Vikirnoff durante vários segundos. Um só som lhe escapou. Amortecido e estrangulado. Em algum lugar entre o riso sem humor, a histeria e as lágrimas.

- Está louco? Por que eu tenho que ser a luz de sua escuridão? Tem idéia do que está dizendo? Nicolae é minha luz. Minha única luz.

- Destiny. - A voz de Vikirnoff não mudou de tom. Era suave, e tranqüila. - Dedicaste toda sua vida em amparar os outros. Pensa primeiro em Nicolae mesmo ferida, como está. Esses não são os atos de alguém que vive na escuridão.

- Nicolae vive para o amparo dos outros.

- Foi educado para isso. É sua direita e sua honra. É sua forma de vida. Não foi assim para voce.

- Não pode ver meu intimo. – Ela afastou os olhos dele, para encontrar Nicolae. Sempre Nicolae. Ele sempre estava ali em sua mente. Em seu coração. Sujeitava-a com segurança em seus braços.

- Nicolae vê e sabe o que há em seu interior. Nicolae não é um homem que seja fácil de se enredar por uma mulher. É um caçador antigo do não-morto. Um perigoso predador que é capaz de destruir mais do que poderia compreender. Nunca poderia enganá-lo, Destiny. Voce é exatamente como ele te vê. Sua luz.

- Voce se esquece que teve que nos advertir que estou poluída?

- O sangue não diz quem ou o que voce é. Ele simplesmente corre por suas veias. Se um humano tiver um câncer crescendo em seu corpo, faz dele um ser corrompido? Não permita que esse vampiro siga controlando sua vida. Ele não te possui. Já não vove neste mundo. Deixe-o ficar em paz.

Destiny deixou escapar o fôlego lentamente, quase sem notar que o tivesse prendido. Seu olhar encontrou o de Nicolae e ela se sentiu perdida, imediatamente. Tinha que deixar de fitá-lo assim. A antes de poder se conter, seus dedos estavam alisando as rugas de apreensão, na testa dele. Podia suportar a dor melhor do que vê-lo sofrer.

- Sabe que ele tem razão. - Disse Nicolae, gentilmente.

Ela colocou os olhos em branco.

- Simplesmente tinha que se manifestar, certo? Não podia ficar calado? Voce é totalmente irritante. - Se não brincasse, choraria e seria muito humilhante, para suportar. Este homem já tinha visto o pior dela. Não precisava que ele visse tambem suas lágrimas.

Pela primeira vez, algo fazia sentido. Vikirnoff realmente lhe tinha dado algo em que se apegar. Seu sangue não ditava quem era. Ou o que era.

Olhou para outro lado da caverna, para o irmão de Nicolae.

- Obrigado pelo que fez, Vikirnoff. Lutou com o vampiro, ao nosso lado. Sei que é difícil para voce matar. Se não estivesse conosco, teriam destruído muita gente. Você também parece um pouco pálido. Deu-me seu sangue?

Vikirnoff assinalou seu irmão.

- De certo modo. Dei a meu irmão. - Era fácil ver que Destiny se apegava a um fio.

- Parece que Pater está perdendo a todos os seus. Estão caindo como moscas. Duvido que seja tão bom para vir a nós. Voces dois vão a caça e recuperem forças. Eu estarei bem. - Destiny tentou sair dos braços de Nicolae. O movimento lhe arrancou um gemido. - Ignore isso. Escapou-me sem permissão. – Ela não conseguira se mover mais que um centímetro, mas estava sustentada pelos braços de Nicolae.

Sobre a cabeça dela, Nicolae olhou para seu irmão. Alguma comunicação passou claramente entre eles, mas Destiny estava muito cansada para ler Nicolae. A dor era mais do que podia suportar. Suas lesões eram severas e os ferimentos ardiam. Como sempre, quando eram infringidas por um vampiro.

Vikirnoff se inclinou para ela segundo o elegante costume dos antigos.

- Deixarei-lhes, para poder caçar. – Ele desapareceu numa neblina, já em movimento, movendo-se a grande velocidade pela estreita estreita entrada que conduzia ao exterior.

Destiny olhou aos traços de Nicolae e conseguiu desenhar um sorriso hesitante.

- Está procurando briga, não é? Não tenho a energia necessária. Não vou me queixar se quer ficar. Bem, não muito. Não mencionarei o quanto está pálido ou que posso sentir sua fome, mais ainda, que está sendo tolo.

Ele a deteve facilmente, lhe roubando o ar dos pulmões. Roubando-lhe a palavra, o pensamento e a razão. Inclinando-se, ele capturou seu olhar. Destiny leu em seus olhos, o desejo. A absoluta necessidade. Ele baixoul lentamente a cabeça para ela.

O coração de Destiny disparou e seu corpo amoleceu. Calor líquido atravessou sua corrente sangüínea, acumulando-se e pulsando, pedindo ser reconhecido. Nada mais importava. Só existia Nicolae em seu mundo e em sua mente. Seus braços a apertaram, quase a esmagando contra ele, mas todo o tempo foi cuidadoso com suas lesões.

E então sua boca tomou a dela e seu mundo mudou para sempre.

 

O tempo parou. O mundo ficou fora, desapareceu. A mistura era sabia e selvagem. Exótica. Uma forma de perfeição, que criava um poderoso vício. A boca dele era firme e segura, a dela suave mas cheia de incerteza. Nicolae foi imensamente terno, enquanto a aconchegava a seu corpo, para que ficasse impresso no dela. Reclamando-a. E ela derreteu contra ele, como fosse feita para ele.

Seu coração pulsava com o ritmo do dele. A eletricidade arqueaou-se entre eles. Látegos de relâmpagos dançavam em seu sangue. Destiny era vagamente consciente do firme rugido que soava em seus ouvidos, quando a boca dele tomou posse da dela. Sua gentileza a estava desfazendo, o delicioso cuidado que ele tomava com ela. Foi sua ternura, que foi capaz de fazer ela fundir-se a ele, completamente.

Nicolae permitiu que a necessidade o embargasse, o atravessasse. Como sobrevivia um homem, quando seu corpo se prendia em chamas e ardia tão claramente? Tão completamente? Quando a mente rugia de necessidade e cada músculo estava duro, com um desejo além do suportável? Dançavam cores em seus olhos, explodiam foguetes em sua mente, lançando faíscas em seu sangue. Aprofundou o beijo, alimentando-se do exótico sabor dela. Posse e obsessão estavam entrelaçadas.

Foi o quase imperceptivel trejeito de dor de Destiny, que lhe devolveu o sentido. Contra vontade, ele elevou a cabeça. Precisava dela, desejava-a, mas estava atento aos seus terríveis ferimentos. Descansou a testa gentilmente contra a dela, lutando para recuperar o controle de sua respiração.

Os olhos de Destiny revoaram e se elevaram. Ela avaliou-lhe com um olhar sonolento e desfocado. A respiração lhe chegava, pequena e dificil. Nicolae ralentizou deliberadamente sua própria respiração, persuadindo-a para que ela seguisse seu ritmo. Seus dentes brancos brilharam, numa pequena e presumida amostra de arrogância. De satisfação.

A palma da mão dele roçou o queixo dela e depois emoldurou o rosto.

- Aprendeu bem em todos esses anos dando voltas pela terra, certo?

Ele sorriu amplamente e seus olhos brilharam.

- Não acredito que tenha experimentado nada igual. Acredite-me, teria me lembrado. É melhor que saltar por um escarpado em queda livre ou através dos céus.

Destiny ficou feliz, mas estava muito exausta. Lentamente mudou de posição, para ficar mais cômoda em seu colo. Logo entrou em contato com a completa excitação de seu corpo. Seus olhos verdes azulados se abriram com surpresa.

- Não ceda ao pânico, pequena. – Consolou ele, gentilmente. - Não estou pedindo nada. - Seu polegar deslizou sobre o lábio inferior dela, pela perfeição de sua boca.

O olhar de Destiny vagou sobre sua face durante um longo momento, atrasando-se nas escuras profundezas de seus olhos.

- Não pede nada, mas está pedindo tudo.

- Quando voce ditar, Destiny. - Respondeu ele, gentilmente. – Acontecerá. Temos todo o tempo do mundo.

Um sorriso fraco curvou os lábios dela.

- Temos? Isso você gostaria que eu acreditasse, não é? Esta não é a primeira vez que vai acontecer o ritual de companheiros. Se o que diz é certo, não importa o tempo, para dizer às palavras que nos unirão. Já estamos presos um ao outro. - Havia um fraco rastro de humor em sua voz.

As sobrancelhas dele se arquearam. Nicolae sentiu vontade de beijá-la outra vez. Estava fascinado com a forma em que sua boca se curvava e ela o tentava com seu sorriso.

- Eu não diria, presos.

- Preso a mim com cola, então. – Insistiu, Destiny. Uma risada suave escapou e imediatamente foi afogada, quando a dor deslizou por seu corpo. – Diga-as. De outra forma, teu irmão voltará me olhando furiosamente.

- Vikirnoff não te olha furiosamente.

- Oh! Ele olha, sim. Seus olhos me dizem, "faça de uma vez". É irritante.

- O que é irritante é que tenha notado seus olhos. Não acredito que haja nenhuma necessidade de voce estar fixando seus olhos. – Ele olhou-a com o cenho franzido.

Ela levantou o olhar para sua face e um lento sorriso enfeitou seu rosto.

- Está com ciume! Oh! Meu Deus, está totalmente ciumento porque me fixei em que seu estúpido irmão me olha furiosamente.

- Não estou com ciúme. E não é porque tenha notado que ele a olha com fúria. É porque voce se fixou em seus olhos, o qual é algo totalmente distinto.

- Está com ciúme e isso é divertido. Como se eu me fixasse no silencioso homem das cavernas. Já é bastante ruim ter que carregar voce. Diga logo essas palavras, para que eu possa dormir.

- Destiny. - Nicolae suspirou, com exasperação. - Está complicando as coisas. Elas devem ser românticas. Parece que lhe falta algo no momento.

- Romance? Definitivamente, absolutamente! Nós não vamos ter um romance. – Ela parecia aterrorizada.

Nicolae não pôde resistir. Inclinou-se e a beijou gentilmente. Seus lábios se atrasaram sobre os dela, leves como plumas, por alguns segundos. Não o suficiente para lhe arrebatar, mas para fazer com que os olhos dela tornassem a se mostrar sonhadores.

- E o que estamos tendo? - Havia diversão em sua voz.

Destiny parecia confusa e com um olhar perseguido, que lhe fez aconchegá-la mais perto.

- Diga as malditas palavras, Nicolae. Vejamos se vai funcionar.

- Bem, já que voce insisti tão amorosamente, - ele zombou, - não posso fazer outra coisa. – Ele estava mais que disposto. - Mas eu devo insistir num pouco de romance.

Destiny semicerrou os olhos.

- Nem sempre vou estar deitada e indefesa. – Advertiu, ela.

- Espero que não. Uma vez só já foi suficiente para me causar problemas no coração. - Suas mãos roçaram o rosto dela, acariciando suas lágrimas. Sua voz era tão terna, que enviou uma enorme sensação de calor através de seu corpo.

Os braços dele a embalaram, aconchegando-a ainda mais a seu colo. Destiny fechou os olhos quando ele aproximou o rosto do dela, quando sua respiração esquentou o frio de sua pele. Ela sentiu seu corpo se converter no mais puro calor, como nunca pensou que sentiria, embora pudesse viver séculos. Os lábios de Nicolae eram suaves, roçando sua face, até seus lábios. Sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ele estava roubando seu coração e não era só o que sentia. Sua alma estava desejando-o. Realmente o desejava. Nunca imaginara, que algum dia teria algo que importasse tanto, para si.

Destiny. O nome brilhou em sua mente. A forma em que ele o pronunciava era musical. Sempre a fazia sentir-se formosa, mesmo quando sabia que não era. Mas ele a fazia acreditar, onde quer que estivesse com ela ou quando falava com ela, que era formosa e importante. Que podia sonhar e ter esperança. Que podia pertencer a alguém. Que alguém a via como uma mulher e não como um monstro.

Tremiam-lhe as mãos, quando ela colocou-as contra seu peito, para afastá-la. Não podia se dirigir, com isto. Não podia estar com alguem, após ser sozinha por tanto tempo. Não saberia como proceder. Mas suas mãos simplesmente pousaram ali, impotentes. Seus dedos se curvaram sobre a seda de sua camisa.

Por um momento o fôlego de Nicolae ficou retido na garganta. Ela estava se entregando a seus cuidados, sem um pensamento para si mesma. Nicolae se sentiu pequeno, ante sua generosidade.

- Eu não sou tão generoso, Destiny. Sou Nicolae e meu lugar é contigo. Compartilhaste sua vida comigo durante anos, até agora. – Ele beijou sua face. - Reclamo-te como minha companheira. - Seus dentes mordiscaram o lóbulo de sua orelha, enviando um tremor através do corpo dela, esquentando seu sangue, deixando-a sem fôlego. Sem palavras de protesto. – Pertenço a você...

O estômago de Destiny se sobressaltou. Nicolae lhe pertencia. Quase lhe pertencia. Ele era sua prudência. Seu salvador. A boca dele deslizava por seu pescoço, gentil e meigamente, para atrasar-se sobre os ferimentos de sua garganta.

- Ofereço-te minha vida. Dou-te meu amparo, minha lealdade, meu coração, minha alma e meu corpo. Do mesmo modo tomo em mim os teu,s para guardá-los.

Ele sentiu. Nicolae sentiu a diferença dentro dela, a repentino contração em sua mente, mudando, formando, completando algo que há tempo, fôra dividido em dois. O medo a sacudiu, mas ainda assim ela não soltou sua camisa. Ao contrário, Destiny se pegou a ele, enterrando os dedos em seu peito, mantendo-o perto dela.

- Sua vida, sua felicidade e seu bem-estar serão apreciados e colocados sobre meus, sempre. É minha companheira e está unida a mim por toda a eternidade e sempre aos meus cuidados.

Seus lábios pousaram sobre os dela, roubando o seu ar e dando o seu próprio fôlego. Tomando seu coração e ofertando o dele. Sua mente se estabeleceu dentro da dela. Seus dentes mordiscaram o lábio inferior até que ela se abriu para ele. A língua de Nicolae deslizou dentro do suave reduto de sua boca, desafiando-a a um duelo erótico. Não lhe deu tempo para ela sentir os laços que se fortaleciam entre eles, aproximando-os mais, até que se converteram numa só alma. Duas metades de um mesmo tudo. Isso só a assustaria.

Nicolae realizou um trabalho consciencioso ao beijá-la. Seu corpo estava duro e dolorosamente cheio. O demônio rugia pedindo liberação, rugia pedindo que continuasse o ritual, que a reclamasse completamente, tornando-a irrevogavelmente dele. Suas presas ameaçavam se alongar, desejando saborear o sangue dela, desejando um autêntico intercâmbio, como devia ser. Seu coração e sua alma cantavam em completa alegria.

Nicolae. Havia dor em sua voz, traindo suas próprias profundas necessidades e desejos. Ele sentiu que sua força diminuía.

- Precisa ir para a terra, Destiny. Uma vez mais, tome meu sangue. – Ele murmurou as palavras contra seus lábios.

- Você está fraco. - Foi um protesto débil, mas sua boca abandonou a dele e viajou do pescoço até a garganta.

Todo seu corpo se enrijeceu quando os dentes dela tentaram o ponto sobre sua pulsação. - Terá tempo de caçar antes de ir para a terra?

- Me alimentarei. - A antecipação endurecia os músculos, claramente definidos sob a fina camisa. O ar escapou dos pulmões quando as presas dela afundaram em seu pescoço. Ardente e erótico prazer. Nicolae fechou os olhos e permitiu que acontecesse. O fogo se estendeu através de seu sangue, diretamente para seu membro já enrijecido. O calor ameaçava ser sua perdição. Tremeu pelo esforço de manter o controle.

Destiny foi cuidadosa tomando o suficiente para se manter, através da recuperação. Deslizou a língua sobre as diminutas marcas, atrasando-se durante um momento, antes de elevar a cabeça. Era bem consciente do desconforto dele, da terrível necessidade que lhe aferrava. Deu-lhe a única coisa que tinha para dar.

- Coloque-me na terra e use as salvaguardas. Por favor, Nicolae. Estou muito cansada.

Nicolae ficou quieto. Sabia que teria que forçar sua concordância, mas ela o surpreendia. Não cometeu o engano de permitir que pensasse muito em sua rogativa. Tomou o controle imediatamente e a enviou para dormir.

Nicola a sustentou durante um longo tempo, olhando o rosto dela. Destiny parecia jovem e vulnerável, um anjo com traços muito sedutores, para sua paz mental. Ou para a paz de seu corpo. Sentiu-se humilde por sua confiança. Nunca acreditaria que ela confiaria nele o suficiente para dormir na mesma câmara, sem importar o severo ferimento que tivesse. Suspirou suavemente e a baixou à rica cama de terra. Destiny. Ela jazia imóvel, com seu fôlego imobilizado nos pulmões. Demorou as mãos sobre as dela enquanto examinava os ferimentos.

O ar da câmara se moveu sutilmente e ele se voltou velozmente, um escuro e perigoso predador, com a ameaça desenhada em cada linha de seu corpo. Seus olhos brilharam com uma ardente reprimenda para seu irmão.

- Voce não me advertiu.

- É bom para você. Passou muito tempo compartilhando a cabeça dela , que acredito que seja melhor colocar suas habilidades a prova agora, que mais adiante.

Nicolae relaxou ligeiramente.

- Muito divertido. Seu senso de humor se distorceu com o passar dos séculos.

- Não sabia que tinha senso de humor. - Vikirnoff estudou as linhas de cansaço na face de seu irmão. - É arrogante e sequer nota que é. Sequer procura ocultar de mim, seu lugar de descanso.

- Confio em voce.

- Não confie em mim com sua vida, Nicolae. Estou em sua mente como você está na minha. Sabe o quão forte é e acha que não sou uma ameaça, porque sabe que pode protegê-la.

Nicolae passou uma mão pelo cabelo, deixando-o mais despenteado que nunca.

- Acredito em você, Vikirnoff.

Vikirnoff sacudiu a cabeça.

- Eu não acredito em mim mesmo. Ela não tem idéia do quanto voce é perigoso. Do quanto é forte. Depois de se conectar com ela, assumiu parte de sua dor física, aliviando sua dor emocional, tudo enquanto andou de continente em continente, perseguindo-a. Batalhou com o vampiro, quando a encontrou e evitou todo contato com nossa gente, como Vladimir solicitou. Seguiu-a em suas caças, ajudando-a, alimentando-a com sua própria força e poder, de grandes distancias e defendendo a desse conhecimento. Não sei de nenhum outro Cárpato que tenha conseguido com êxito, tal lucro. Por que oculta dela, sua força? E por que permite isto? - Suas mãos gesticularam para a cama de terra onde Destiny jazia, machucada e rota. - Por que não proíbes este comportamento dela e simplesmente põe fim a seu sofrimento? É um homem dos Cárpato. Isto é um inferno para você.

Não havia reprimenda na voz de Vikirnoff, nunca a havia. Sentia um pouco de curiosidade sobre um comportamento que não podia imaginar. Vikirnoff achava claramente incompreensível que um homem dos Cárpatos permitisse que sua companheira vivesse em constante perigo.

Nicolae encolheu seus ombros. O simples movimento enviou uma onda através de seus poderosos músculos, numa sutil advertência a aqueles que pudessem ver somente sua infalível elegância.

- Ela é minha companheira. Farei o que for necessário por ela, não importa o custo. Destiny precisa controlar sua vida, mais do que precisa de meu amparo.

- Isso não tem sentido. Temos poucas mulheres. Precisamos dela, viva e capaz de dar a luz uma menina. Por que permite semelhante perigo desnecessário para ela? Leve-a a nossa terra natal, onde pertence.

- Um vampiro roubou sua vida, forçando sua dominação sobre ela. Deveria fazer eu o mesmo? - Nicolae sacudiu a cabeça. - Sabe que ela nunca se submeteria a algo semelhante.

- Pode tomar o controle sobre ela. Uma vez que esteja curada...

- Vikirnoff, ela nunca estará completamente curada, sabe disso. O que está em sua mente é para sempre e ela dDeve vir para mim por própria vontade.

- O custo para você...

- Não importa o custo. Nunca importará. O perigo físico para ela não é nada em comparação ao perigo de perdê-la para seus próprios demônios. São mais reais e mais letais que nenhum vampiro com que possa lutar. Sei que não pode entender, mas você e eu permanecemos juntos durante séculos. Conhece-me. Conhece minha força. Não há perigo de que lhe falte, me convertendo em vampiro. Se ela escolher outro mundo, outro tempo e lugar, eu a seguirei.

- Lembra-sse daqueles anos quando nosso Príncipe nos chamou a ele? Já éramos conscientes de que nossas companheiras não estavam no mundo conosco. As maiorias de nós já tinham lutado inúmeras batalhas e vimos nossos irmãos e amigos se converterem a uma existência corrupta. Aceitamos que não teríamos nossas companheiras, que tinha acontecido alguma coisa que evitou seu nascimento e ou que haviam morrido antes de ter a oportunidade de crescer. - Vikirnoff rasgou casualmente, a mão com os dentes.

Nicolae nunca deixaria Destiny desprotegida, enquanto ela jazia indefesa no sono curador que ele ordenara. Nem sequer com Vikirnoff para guardá-la.

Nicolae aceitou a oferenda, também casualmente, assentindo antes de inclinar a cabeça para a mão de seu irmão

- Pensei muito nesta situação. – Disse, Vikirnoff. - Aceitamos nossas vidas como guardiães do mundo. Não pedimos nada em troca e cumprimos com nosso dever e defendemos a honra de nossa gente. - Vikirnoff olhou fixamente à mulher que jazia tão imóvel, seu corpo maltratado e machucado, as marcas de sua pele ainda frescas. - Isto não é certo. Ela nunca deveria ter sofrido assim. É justo para acautelar que entregamos nossas vidas e esperanças. De todas as pessoas, não deveria haver acontecido a sua companheira. O não-morto nunca deveria ter lhe tocado.

- E ainda assim o fez. - Disse Nicolae com resignação, fechando a laceração da mão de seu irmão. - Obrigado por sua ajuda nesta situação difícil.

- É mais fácil continuar, quando vejo sua companheira e sei que há esperanças para nossa raça. Que há esperanças de que meu irmão viverá e continuará nossa linhagem.

- Possivelmente o Príncipe Vladimir sabia que alguns de nós encontraríamos nossas companheiras neste século, em vez de no nosso. Ele possuía o dom da premonição. Se houve esperanças para mim, com toda segurança há esperanças para continuar sua existência, Vikirnoff.

- Possivelmente por isso ele escolheu alguns para ficar e outros para partir. Nosso Príncipe era um grande homem e viu longe, no futuro. A princípio, eu pensava que ele estava equivocado não conversando com seu filho, sobre nossa existência, mas Vlad tinha razão. Mikhail conduziu nossa gente como nenhum outro poderia ter feito. Eram poucos, mas lutaram duro pela preservação de nossa raça.

Nicoale assentiu.

- Nossa gente teria se dividido, se não pemanecêssemos ocultos. Vlad previu muito e por isso é tão importante que todos os nossos homens continuem agüentando.

- Como é que alguém tão forte, tão habil caçador e tão intuitivo, não soube que a menina com a qual se comunicava era sua companheira? – A pergunta foi casual, mas o olhar de Nicolae imediatamente se agudizou, enfocado sobre seu irmão. Havia um significado oculto neste pergunta, mas quando Nicolae tocou ligeiramente a mente de seu irmão, ela estava fechada para ele. Pensou em sua resposta cuidadosamente, escolhendo suas palavras.

- Acredito que não podia saber que ela era minha companheira. - Replicou Nicolae, francamente. – Se tivesse esse conhecimento, teria perdido a prudência sabendo que ela estava sendo torturada, violada e obrigada a presenciar seus assassinatos. Tentei, uma ou duas vezes, utilizá-la para ver e matar o vampiro, mas não havia intercâmbio de sangue entre nós e não era possível. Estava muito longe para ajudá-la. Saber que não podia proteger minha companheira, teria me feito ultrapassar o limite. Como não estava seguro, ainda podia continuar protegendo-a, o melhor que podia. Acontece que a algum nível, ela sabia a verdade. Não como sabemos nós, mas ainda assim, ela protegeu-me da única forma que podia, não conversando. Poderia tê-la encontrado antes, possivelmente não. Ela estava tão assustada que sempre se mantinha em movimento.

- É uma mulher forte e muito valente. Mas está em constante perigo lutando com o não-morto. Não valoriza sua vida.

- Mas valoriza a minha. Sempre valorizou minha vida e sabe que nossas vidas estão entrelaçadas. Não entregará voluntariamente sua vida numa briga e não é descuidada. Eu tampouco o serei, mas não posso lhe impor minha vontade. Ela encontrará seu caminho para mim, no momento oportuno.

- Estou em sua mente, Nicolae. As únicas emoções que posso sentir são as suas. A batalha por ela te curva. Leve-a a nossa terra natal. É muito mais forte que ela, muito mais forte que a maioria dos antigos, que a maioria dos caçadores. Ela não teria mais escolha, que obedecer. – Discutiu, Vikirnoff. - Pode ser que fique brava, um tempo.

- Não estaria a salvo. Não toleraria tal comportamento de minha parte. A seus olhos eu não seria melhor que o vampiro, impondo minha vontade. Minha comodidade não é importante para mim, só sua vida e sua prudência.

- Uniste-a a você. Viverão ou morrerão juntos.

- Vivíamos ou morreríamos juntos antes que eu pronunciasse as palavras. Ela aceitou ao ritual para me proteger, me ancorando ao mundo da luz.

Vikirnoff apoiou o quadril contra uma rocha e estudou a face de seu irmão.

- Insiste, então, em permanecer aqui neste lugar infestado de não-mortos?

- Sei o que tem em mente, embora esteja tentando fechá-la a mim. Não pode sacrificar a si mesmo caçando vampiro aqui. Sabemos que está muito perto de se converter, para continuar matando. Vá para casa e nós o seguiremos, logo que sejamos capazes.

Vikirnoff encolheu os ombros, um gesto característico às maneiras de seu irmão e aos de sua gente. Uma amostra de pura força.

- Um de nós deve continuar nossa linhagem.

- Acredito que você tem uma companheira em alguma parte, Vikirnoff. Acredito que Vlad nos enviou há este século com o conhecimento de que teríamos uma oportunidade de encontrar nossas companheiras. Por que levou tanto tempo, não sei, mas este não é momento de escolher o final. Não tínhamos esperanças, não acreditávamos que fosse possível, mas resistimos. Agora que há esperança, não pode nos abandonar.

Vikirnoff avaliou Nicolae um longo momento, em silêncio. Depois, sacudiu a cabeça ligeiramente.

- Cedo ou tarde ela descobrirá que só pode ler em você é o que quer que leia. Que oculta o que ela não pode confrontar. E daí, Nicolae? Se ela escolher o amanhecer para os dois e eu esperei muito, não terei nada que me ancore, mesmo à luz. Nos sentençia, os dois, se ela não for capaz de sobrepor-se a essas terríveis cicatrizes de sua alma.

Nicolae se estendeu, pousando uma mão sobre o ombro de seu irmão.

- Voce sobreviverá.

Vikirnoff ficou em silêncio outra vez, enquanto a água gotejava continuamente pelas paredes da caverna. Finalmente assentiu, depois deslizou a mão sobre a terra para abri-la a curta distância de onde Destiny jazia rodeada de rica terra.

- O não-morto foi clandestinamente. Suspeito que fugirá daqui ou ao menos retrocederá, para se reagrupar. Seus amigos estão a salvo por um tempo. – ele flutuou cruzando a câmara, para deitar na terra.

Nicolae observou a terra se fechar sobre seu irmão, observou como a superfície se alisava e estabelecia como se tivesse permanecedo imperturbável durante anos. Colocou salvaguardas nas entradas da caverna e ao longo da estreita e pronunciada saída. Nicolae não se arriscaria com Destiny a seus cuidados. Colocou uma intrincada salvaguarda sobre o lugar de descanso de seu irmão, uma que pela primeira vez o aletaría, se Vikirnoff se elevasse primeiro.

Nicolae deitou na escura e rica terra junto ao corpo de Destiny. Ainda intranqüilo pelas sombras no sangue de Destiny, decidiu levar a cabo outra inspeção, desta vez justificada. Uma vez mais se despojou de seu próprio corpo para se converter em luz e energia, entrando no corpo dela para comprovar as reparações que tinha feito, para meticulosamente repassar as células onde o vampiro tinha injetado seu veneno. Inspecionou o sangue, desejando ver se seu sangue ancestral estava ralentizando o avanço da mancha corrupta do vampiro. Seu sangue era diferente. Sentia-o, pressentia-o, mas não importava quão cuidadosamente procurasse, não podia encontrar a bactéria venenosa. Sentia que havia algo ali com ele, consciente dele, mas não encontrou nada que justificasse o pressentimento. Alegrou-lhe ver que o sangue fluía bem mais livremente nas veias. Algo do dano interno fôra curado e dava-lhe esperança de que haveria uma forma de curá-la completamente. Finalmente a embalou e permitiu que a terra se fechasse sobre eles, seus lábios lhe roçaram a face, enquanto a terra os envolvia, tomando-os a seu cuidado.

Destiny despertou lutando. Soube que não estava sozinha no momento em que a consciencia a tomou, ainda sob a terra enquanto esta se abria sobre ela. Seu coração começou a pulsar e o ar encontrou espaço em seus pulmões. Sentiu o corpo perto dela... Duro, musculoso e masculino. Muito forte para lutar, mas o tentou de todos os modos. Estava de lado e no instante em que ficou consciente se voltou e o canto de sua mão golpeou com a força de um martelo, a garganta de quem estava perto da dela. Mas ele já não estava ali.

Quando sua mão transpassou o ar, Nicolae lhe segurou a mão, atraindo-a para sua própria garganta, para que descansasse sobre sua pulsação.

- Está a salvo, Destiny. Sempre estará salvo comigo. Cada sublevação a partir desta noite até o fim de nossos dias, nunca despertará sozinha ou em perigo. Eu estarei aqui.

Destiny retorceu o braço para libertar-se lançou seu corpo para fora da terra, seu coração palpitava tão ruidosamente que soava como um tambor, nos limites da caverna. Aterrissou a alguma distância dele, completamente vestida, o cabelo tensamente trançado e seu olhar continuamente em movimentos, voando intranquilamente em todas direções.

- Onde está Vikirnoff? Não se elevou?

Nicolae demorou para elevar-se, detendo-se deliberadamente antes de se vestir para lhe proporcionar uma boa vista de seu corpo robusto. Depois jogou o cabelo para trás, utilizando gestos humanos, prendendo-o na nuca, com uma tira de couro.

- Está nervosa, Destiny? Não pode ficar nervosa com seu companheiro.

Destiny tentou não olhar para a perfeição de seu corpo masculino, mas não pôde se conter. Nicolae possuía os ombros incrivelmente largos, cintura estreita e longas e musculosas pernas. Um autêntico e masculino macho, de músculos bem definidos. E estava completamente excitado e bastante despreocupado, enquanto se vestia.

Ela começou a passear com movimentos rápidos e agitados, que traíam seu conflito interno.

- Não posso estar com alguém todo tempo. Preciso de espaço.

- Há um mundo esperando fora desta câmara, Destiny. - Nicolae gesticulou para a entrada. - A noite está esperando.

A mão dela voltou para a garganta. Os ferimentos estavam curados. Sua pele não tinha um só marca. Seu coração estava começando a se acalmar, encontrando o ritmo exato do dele. Forçou um pequeno sorriso, um breve que curvou sua boca, mas seus olhos continuaram saltando em volta da caverna

- Acredito que esta poderia ser considerara minha primeira aventura de uma noite.

- Aventura de uma noite? Sinto-me ofendido. Planejava me utilizar e me descartar depois de uma noite, não é? Não sou desse tipo de homens, Destiny. Sou daqueles, a longo prazo. Uma eternidade. Voce dormiu comigo. Seria mal de sua parte me desprezar.

Um sorriso relutante mudou os lábios dela e brilhou por um instante em seus olhos.

- Vi vários filmes... Não acredito que tenhamos dormido juntos.

O sorriu aberto largo e zombador alisou as linhas esculpidas no sensual semblante e lhe deu o aspecto de um menino travesso.

- Definitivamente dormimos juntos, Destiny. E como pode ver, só dormir, não fazer amor. – Ele passou a mão pela evidência sob a calça.

Destiny ruborizou. Sentiu a cor elevar-se com firmeza e não importou o quanto tentou detê-la, arrastando-se para pescoço e seu rosto. Estava olhando-o, especulando. Mesmo admirando.

- Voce estava nu e junto a mim. Aliás, nós estávamos nus...

- É uma prática comum, acredito, quando se vai a terra, especialmente para curar ferimentos. – Ele não parecia nada arrependido.

- Voce disse que não haveria nada disso. – Ela gesticulou com o queixo, para a evidente ereção.

Ele sorriu tranquilamente. Pura diversão masculina.

- Não acredito que tenhamos muitas probabilidades de controlar certas partes de minha anatomia. Simplesmente terá que fingir que não nota.

Os olhos de Destiny se abriram, desmesuradamente.

- Como supõe que não vou notar isso?

- Bom... Bem, então. – Ele suspirou pesadamente. - Suponho que pode notar, mas nada de tocar. - Sua voz baixou um tom. - Ou acariciar.

Por alguma maluca razão lhe doeram os seios e todo seu corpo palpitou. Era sua voz. A idéia das mãos dele movendo-se sobre seu corpo, acariciando seus seios... Podia visualizar seus polegares brincando com os mamilos, podia senti-lo. Ficou com boca inesperadamente seca e seus incisivos ameaçaram alongar-se. Desejava sentir o peso dseu membro na palma de sua mão, seu desejo por ela. Desejava beijá-lo, ver o desejo flamejando em seus olhos. Desejava lhe acariciar. Destiny retrocedeu alguns passos, longe dele.

- Pare. - A voz dele era rouca. – Estou falando sério, Destiny. Sou seu companheiro, não um santo. Não pode ter imagens eróticas na cabeça e esperar que eu não reaja a elas.

Tinha imagens na cabeça... Suas mãos movendo-se sobre o corpo dele, sua boca marcando-o todo de beijos. Fechou os olhos, desejando sossegar as imagens, mas elas ainda estavam ali e seu corpo estava sentindo. Quente, pesado e ardendo por ele.

- O que vocême fez? - Olhou-o, acusadoramente.

- Curei seus ferimentos e não me aproveitei de você. Sabe disso.

- Nunca me senti assim em toda minha vida!

- É um alívio. Duvido que me alegrasse saber que tivesse desejado muitos homens, Destiny. - Havia um rastro de riso na voz de Nicolae.

- Alegra-me que voce ache divertido.

- Venha aqui. – Ele estendeu a mão para ela. – Deixe-me te alimentar. Esteve na terra durante duas sublevações e não se alimentou.

O queixo dela continuou elevado.

- Você tampouco e me deu sangue antes de ir para a terra. Posso encontrar minha própria presa. – Ela sentia-se estranha. Dividida. Desejando estar perto dele e desejando fugir dele. Nicolae a fazia sentir fora de controle e vulnerável. Odiava sentir-se vulnerável.

- Por que se alimentaria de humanos, quando pode ter o sangue de um antigo para te sustentar? Não pode sentir os efeitos de meu sangue? Seu sofrimento é muito menor nesta sublevação.

- Não me diga que meu sofrimento é muito menor. - Seus olhos flamejaram para ele, cintilando fogo vermelho na escuridão da câmara. - Posso conviver com esse tipo de dor. Sei o que fazer, como enfrentá-la. - Não sei como fazer frente a você.

Ela não esperou para ouvir o que ele tinha a dizer. Escapou da caverna, fugindo como se os demônios a perseguissem. Sabia exatamente aonde ia. À igreja. Aonde ia sempre antes de se alimentar. Onde podia encontrar algum de equilíbrio. De paz. Entrara na igreja e não caíra. Não surgira um raio do céu para incinerá-la. Havia tocado o sacerdote. E desejava se olhar num um espelho, novamente.

- Está com bom aspecto. Não acredito que precise se tornar vaidosa. Já tem maus hábitos, suficientes .

Nicolae estava rindo dela outra vez, mas não se importou. Havia algo novo e inesperado em sua vida. Estava vendo o mundo de forma diferente. As estrelas brilhavam como diamantes sobre sua cabeça e ela não podia evitar notá-las e apreciá-las. O vento soprava gentilmente sobre seu corpo como o sussurro da voz de um amante. Esfriava seu corpo, frisando seu cabelo. Aliviando-lhe o coração.

Pela primeira vez em anos, seu sangue não ardia. Pela primeira vez em anos, não despertara com a idéia de matar. Estava totalmente desperta e sua mente estava cheia de Nicolae. Por mais que tentasse, não podia extinguir o diminuto raio de esperança que brilhava em seu interior.

As portas da igreja não estavam fechadas e ela soube antes de empurrá-las, que Pai Mulligan estava dentro, ouvindo uma confissão. Com seu fino ouvido, podia distinguir palavras suaves e os soluços estrangulados de uma mulher enquanto falava com o sacerdote. No banco perto do confessionário havia um homem grande como um urso. John Paul. Sua cabeça estava inclinada e Destiny podia ver que seus ombros tremiam. As lágrimas deslizavam por sua face.

Destiny entrou na igreja suprimindo um pequeno estremecimento, enquanto cruzava a soleira e deslizava no interior insuficientemente iluminado. Titilavam velas na sala e lançavam estranhas e cambiantes sombras sobre as janelas de cristais coloridos. Ela estudou a imagem da Madonna e o menino, o semblante doce e a forma em que a mão segurava a criança contra ela, enquanto a outra se estendia para Destiny.

John Paul não levantou o olhar, não pareceu vê-la, então Destiny chegou mais perto, desejando conseguir uma impressão do homem. Teria sido tocado por um vampiro? Havia uma explicação para seu estranho comportamento com Helena? Destiny lhe escaneou a mente, procurando os pontos brancos que revelariam a presença do não-morto.

John Paul estava cheio de dor e confusão. Temia perder Helena e acreditava que podia estar perdendo a cabeça. Seus pensamentos eram confusos e se misturavam com planos de levar sua amada nos braços, para um lugar afastado, até que pudesse convencê-la que a amava e nunca lhe faria mal.

Pai Mulligan e Helena emergiram do confessionário e o sacerdote tinha o braço em volta dos ombros dela. Mesmo com a luz tênue, Destiny pôde ver o olho machucado de Helena e o lábio cortado. Agressão ressente. Ela ainda chorava, enquanto o sacerdote a ajudou chegar a um banco e fez gestos solenes para John Paul. O enorme homem encurvou os ombros, como se houvesse sido agredido, mas como um menino obediente, ficou em pé. Sua tremenda massa corporal fazia com que o sacerdote parecesse pequeno, magro e muito frágil.

Destiny esperou até que os dois homens desapareceram na privacidade do confessionário antes de se deslizar silenciosamente para o corredor, perto de Helena, esquadrinhando as lembranças da mulher. Helena certamente tinha lembranças de John Paul atacando-a. Era aterrador, um homem tremendamente forte com mãos como martelos e um corpo tão sólido como um carvalho. Helena acreditava que John Paul estava louco. Planejava deixá-lo e temia por sua vida. Como deixar o homem que amava-a tão ferozmente e tão protetoramente?

Seu coração se retorceu inesperadamente, tomado de simpatia e Destiny pousou a mão sobre o ombro de Helena.

-Velda e Inez me pediram que te ajudasse, Helena. Espero que não se importe. - Desejou ser Mary Ann com seu dom de dizer o que Helena precisava ouvir.

Helena sacudiu a cabeça sem levantar o olhar.

- Ninguém pode me ajudar. Perdi John Paul. Não posso ficar com um homem que me faz isto.

Destiny segurou gentilmente o queixo dela e lhe elevou a face. Esperou tranqüilamente até que Helena ficou presa em seus olhos. Viu a relação deles, claramente. Helena e John Paul eram quase inseparáveis. Duas pessoas totalmente devotas uma à outra.

- Não sei de ninguém que pudesse sentir algo tão forte como o que eles sentem um pelo outro.

- Só porque não quer saber, Destiny.

Destiny franziu o cenho, desejando que Nicolae estivesse diante dela. Enviou-lhe uma imagem visual, no caso dele não ter captado que estava incomodando. Destiny suspirou. Não podia permitir que Helena e John Paul perdessem algo tão estranho, mas precioso. Enquanto continuava olhando profundamente os olhos da Helena, plantou em sua mente, a idéia de arrumar as coisas com John Paul. Helena precisava permitir que Mary Ann a colocasse em lugar seguro até que Destiny pudesse averiguar o que estava passando. Destiny estava segura de que John Paul entenderia e estaria de acordo com seu plano.

- Não detecto um vampiro. – Ela disse a Nicolae.

- Está segura? John Paul é um homem simples. Possivelmente está tão sacudido que não está recebendo um padrão cerebral confiável.

Destiny franziu o cenho. - Isso pode acontecer?

- É possível. Se o vampiro tiver um toque suave e fez a sugestão a distância, poderia não encontrar o vazio que deixam.

Destiny tamborilou ligeiramente com os dedos no respaldo do banco.

- Há possibilidade de que não seja nenhum vampiro? Há alguma enfermidade que fizesse John Paul se tornar violento? Não sei muito sobre enfermidades. Era uma menina quando fui convertida e não passei muito tempo em volta de humanos.

Podia sentir Nicolae pesando sua resposta.

- Detecta um tumor ou algum coágulo cerebral, algo físico que afetaria seu comportamento?

- Não. Seus padrões cerebrais são bastante normais. Está muito concentrado em Helena. Não acredito que seja capaz de feri-la deste modo.

- Por que? - Advertiu Nicolae. - Todo mundo é capaz de violência.

Destiny se afundou no banco. Nicolae tinha razão. John Paul era um homem enorme, bastante disposto a uma briga se apresentasse oportunidade. Mas não violência para com Helena.

- Ele a ama.

Uma onda de ternura fluiu em sua mente em coração. Em seu sangue.

- Entendo como se sente. Acredito em você, Destiny. Vamos averiguar.

 

Nicolae não poderia ter passado pela mulher de cabelo púrpura que o saudava, por muito que gostasse. Ela estava agitando os braços e de um lado para outro na calçada, enquanto a pequena senhora de cabelo rosa que estava a seu lado gritava uma saudação. Ele encontrava-se nos arredores, próximo ao bar, procurando Mary Ann. A conselheira de mulheres maltratadas e violadas significava muito para Destiny. Mary Ann também tinha alguma habilidade psíquica e ele queria saber mais dela.

Destiny podia ter fugido dele fisicamente, mas podia senti-la, uma sombra calada em sua mente, compartilhando seus medos, discutindo sobre o enigmático problema de "seus" humanos ou rindo com ele. Não lhe concedeu nenhuma simpatia, quando deliberadamente compartilhou a embaraçosa visão das senhoras de cores fluorescentes saltitando sobre a calçada, fazendo frenéticos ruídos e gestos selvagens.

Suas travessuras estavam atraindo uma atenção indevida sobre ele, algo que nenhum Cárpato gostava. Resignado, deu a volta, afastando-se do escritório de Mary Ann para percorrer lentamente a rua, até as duas senhoras que obviamente queria sua atenção. Ouviu a risada amortecida de Destiny lhe roçar a mente e aliviou seu coração. Sempre estariam conectados.

- Às vezes ser invisível não é ruim. Poderia ter me advertido.

- Acredito que uma boa dose de Velda e Inez é exatamente o que voce precisa.

Ele gemeu exageradamente, somente para ouvir o som da risada dela. Após tantos anos de dor era um milagre ouvir o riso em sua voz, sentir a leveza de seu coração. Lentamente ela estava chegando a um acordo com o que se convertera, aceitando lentamente que podia não ser a malvada criatura que tinha sido induzida a acreditar.

- Não estou seguro de que tenha feito esta sublevação para merecer semelhante castigo. - Lançando seu sorriso mais encantador às duas mulheres, Nicolae fez uma reverência sobre a mão de Velda, roçando os dedos de Inez, a moda antiga. As mulheres bateram os cílios e riram como colegiais.

- O que posso fazer por vocês?

- Alto com a voz, Nicolae! Quer que elas tenham um ataque do coração?

Destiny gargalhava realmente e soava tão despreocupada, que Nicolae sentiu uma forte emoção.

As mulheres se apresentaram e mostraram a cadeira entre as duas, cochichando sobre seu nome, seu sotaque estrangeiro e suas maravilhosas maneiras.

- O que o traz a nossa vizinhança, Nicolae? - Perguntou Velda, curiosamente.

- Nós o vimos com nossa querida Mary Ann. – Acrescentou, Inez.

- Estou cortejando - anunciou ele, compartilhando diabólicamente a conversa com o Destiny. – a formosa mulher com a qual estavam conversando a outra noite. Destiny. Estou fazendo tudo o que posso para fazê-la minha esposa, mas ela tenta resistir aos meus encantos. Suponho que nenhuma das duas terá nenhuma sugestão para ajudar minha causa? – Acrescentou ele, esperançado.

As mulheres deixaram escapar suspiros e Destiny gemeu. Nicolae se recostou satisfeito. Dar uma guinada em Destiny não era tarefa fácil e ele estava decidido tomar essa atirude, a menor oportunidade. – Atenda seus assuntos, pequena e deixe os meus. Acredito que estas mulheres poderiam ter informação de valor incalculável sobre a psique feminina.

- Acho tão romântico. - Resmungou Inez, batendo palmas. - Não acha, Irmã? O romance não está na moda, na sociedade de hoje em dia. Mas romance é o que precisa para cortejá-la.

Velda cacarejou, sacudindo a cabeça com desaprovação.

- Hoje em dia e nesta época temos que ser práticos. – Ela se inclinou, aproximando-se de Nicolae, atravessando-o com um agudo olhar. - Não pode conseguir só com boa aparência ou maneiras, jovenzinho, precisa ter substância. Que tipo de trabalho tem?

A risada de Destiny lhe esquentou o sangue. Não era música, mas sustentava uma sensualidade latente que sussurrava promessas de noites cálidas e sedosas.

- Shhh! Tem uma imaginação vívida! Mantenha a cabeça no negócio que tem entre mãos, Nicolae. Conte a elas que você caça vampiros e vejamos se elas acreditam que é uma aposta segura como marido.

Nicolae sorriu presunção. O sorriso arrogante e superior de um predador que garantia fazer Destiny rilhar os dentes.

- Sou um agente da lei, de uma unidade especial, mas também sou rico por direito próprio, assim nunca lhe faltará de nada. - Seus longos dedos acariciaram o próprio queixo, atraindo a atenção para a singular beleza masculina de sua face. - Percorri o mundo procurando-a. Sei que devemos estar juntos.

As duas irmãs trocaram um longo olhar como se estivesse felizes com sua resposta. Foi Velda quem fez cargo, enquanto Inez suspirava sobre o puro romance de amor verdadeiro, qua nascia.

- Por que a moça resiste? É um homem atraente.

- Oh! Deus, claro que é. – Concordou Inez, ganhando uma feroz careta de sua irmã. - Bem, ele é. - Defendeu-se ela, indignada. Ela tocou a coxa de Nicolae. – É atraente sim, querido. Justo o tipo de pretendente que tive em meus bons tempos. – Ela inclinou-se mais perto. - Eu era selvagem, sabe. - Sussurrou em confidência.

Nicolae levou a mão dela aos lábios.

- Obrigado, Inez. Isso é um autêntico elogio, vindo de uma mulher como você. Agradecerei qualquer sugestão com minha noiva relutante.

- Nicolae... Deveria se envergonhar.

Novamente ela gargalhou, provocando o imediato enrijecimento de seu corpo, que ele temeu que Inez fosse ter algo que segurar, se não tomasse cuidado. Mudou de posição na cadeira. O som feliz da voz de Destiny era um poderoso afrodisíaco.

- Flores. - Disse Velda, firmemente. - Deve averiguar qual é sua flor favorita e lhe mandar tantas quanto conseguir.

- Não esqueça de chocolate. Nenhuma mulher pode rechaçar um homem com chocolate. – Acrescentou, Inez.

- Não preste atenção em Inez. – Disse, Velda. - Mas é importante que corteje Destiny corretamente. Faça-a saber que tem intenções estritamente honradas e leve-a para dançar. Não há nada como um homem segurando de perto uma mulher e dançando com ela. – Ela arqueou uma sobrancelha, atravessando-o como um inseto, com seu olhar acerado. - Sabe dançar? Não essa sandice dos jovens de hoje em dia, mas dançar como um homem de verdade. Não há nada mais sexy que uma boa valsa ou tango.

- Foi uma grande parte de minha educação. - Tranqüilizou-a, Nicolae. – Você me fez sugestões magníficas. Seguirei-as ao pé da letra.

- E volta aqui para me informar, imediatamente. - Recordou-lhe, Inez. - Não é assim, Irmã? Precisamos de um relatório para saber como vai.

- Com certeza. – Concordou, Velda. – Oh! Aí está Martin. Notamos que ele parece um pouco abatido ultimamente, é tão incomum nele. Pobre querido deve estar trabalhando muito. – Ela ficou em pé, saudando tão violentamente a Martin, que Nicolae temeu que ela pudesse cair. - Martin! Martin! Bom menino, vêm conversar conosco.

- É esse projeto dele. Ele e Tim trabalham noite e dia nele, apesar de terem trabalhos regulares. – Disse, Inez. - Estes meninos trabalham demais.

Nicolae observou o homem se aproximar, notando a pele pálida e os círculos escuros sob seus olhos. Este era o homem que tinha atacado tão viciosamente o sacerdote. Nicolae esquadrinhou as lembranças de Martin e não encontrou lembranças do que acontecera. Só a lembrança de estar sentado em sua cama segurando a caixa de madeira da igreja e de examiná-la em completo sobressalto. Nicolae não pôde encontrar malícia no jovem, só uma pesada dor e extrema confusão.

- Exatamente o que está sentindo John Paul. - Assinalou Destiny. - Pode encontrar os vazios da marca do vampiro?

Nicolae era um antigo, bem mais forte que Destiny w bem versado nas artes de vampiros. Estava seguro de que detectaria a presença de um vampiro se a criatura tivesse tocado Martin de algum modo, mas não havia evidência de uma violação semelhante. Nicolae ficou em pé, atraindo a atenção instantaneamente, oferecendo a mão enquanto Velda lhe apresentava ao jovem.

Martin fez o que pôde por ser cortês apesar de sua distração. Nicolae pôde ver que era de natureza amigável e caráter extrovertido. Seu afeto por Velda e Inez era evidente, como o afeto delas pelo jovem que tinham visto crescer.

- Martin é um defensor dos velhos e tem um novo projeto no qual está trabalhando com Tim Salvatore. Pai Mulligan me contou que é uma maravilhosa oportunidade de proporcionar uma vida independente e um ambiente seguro a pessoas com capacidades limitadas. Ele acredita que é bastante brilhante. Os dois devem ser grandes amigos. – Deliberadamente, Nicolae utilizou o nome do sacerdote, mantendo sua voz suave, amigável e atraente. Conhecia o poder de uma arma semelhante. Poucos podiam resistir ao convite.

Os ombros do Martin baixaram.

- O Pai Mulligan é um grande homem. Conheço-o de toda a vida. – Ele eevou a cabeça e olhou diretamente para Nicolae, a angústia clara em seus olhos. - Também lhe contou que alguém o assaltou? E que p golpeou na cabeça repetidamente e lhe roubou a caixa de esmola para os pobres, de suas mãos?

Velda gemeu. Inez gritou e as duas fizeram o sinal da cruz, levantando o crucifixo de prata que cada uma levava em perfeita sincronização, para beijar a cruz.

- Isso não pode ser, Martin. – Protestou, Velda. - Ninguém faria mal ao Pai Mulligan.

- Nunca há nenhum dinheiro caixa dos pobres. Não é, Irmã? - Acrescentou Inez, retorcendo-as mãos. - Aonde vai parar este mundo se alguém ataca um sacerdote na própria casa de Deus?

- Possivelmente Inez e eu teremos que mover à comunidade depois de tudo, Martin. – Disse, Velda. - Se as coisas estão tão mal nesta vizinhança que um ladrão tenha ferido Pai Mulligan, ninguém está a salvo.

- O pobre homem se recuperará? – Perguntou, Inez. - Querida Irmã, devemos fazer nossa famosa sopa de frango e levar para ele, imediatamente. – Ela segurou o braço de Nicolae. - Ninguém pode fazer uma sopa de frango tão perfeita como a querida Velda. É obvio eu tenho que sempre lembrar o que está ela fazendo, senão se distrai em um de seus projetos em desenvolvimento. Velda procura provas de que existem os vampiros e homens lobos.

O assunto recuperou a atenção de Nicolae. Estava estudando Martin atentamente procurando qualquer reação e registrando a conversa que fluía a seu redor. Seu escuro olhar encontrou Velda, estabelecendo-se ali pensativamente.

Velda arrumou o cabelo e lhe sorriu.

- É um velho hobby. Faço alguns feitiços mágicos, mas não sou muito boa lançando-os. Inez é muito mais exáta que eu. Martin, querido, sente-se. Parece que vai desmaiar. Farei duas receitas de minha sopa e te darei uma. entrará em forma em pouco tempo.

Martin, ainda parcialmente sob o feitiço da voz de Nicolae, afundou-se pesadamente na cadeira que Nicolae tinha ocupado, franzindo o cenho para ele.

- Acredita... Pai Mulligan acredita que eu o golpeei o dinheiro dos pobres. - A confissão surgiu numa onda, terminando num soluço estrangulado.

Velda e Ineza voltaram instantaneamente sua atenção para ele, tocando-o e lhe acariciando o cabelo, consoladoramente.

- Pai Mulligan deve ter sofrido uma contusão. Sabe que você nunca faria algo semelhante, Marty. Irei conversar com ele. - Disse Velda, oferecendo seu apoio.

- Oh! Devemos ir já – Repetiu, Inez. - O Pai deve estar gravemente ferido para acusar o pobre Marty de algo semelhante.

Martin Wright olhava fixamente as mãos.

- E se eu fiz? Pai Mulligan nunca me mentiria e Tim disse que eu voltei para coberto de sangue naquela noite. Diz que eu estava com a caixinha da igreja em minhas mãos e não falei com ele. Que simplesmente me sentei, olhando a caixa. - Levantou o olhar para a Velda com lágrimas brilhando em seus olhos. - Não me lembro. Poderia ter atacado o Pai? Nunca fiz mal a ninguém em minha vida.

- Martin. - Nicolae se abaixou até que seus olhos estiveram à altura dos do homem. A angústia emanava de Wright.

- O que se lembra desse dia antes do assalto de Pai Mulligan? Aonde foi? Com quem esteve? O que fez? Lembra de alguma coisa?

- Fiz tudo normalmente. Fui trabalhar, encontrou-me com o Tim para almoçar. Discutimos o projeto como fazemos normalmente. Fui ao local do projeto para conversar com o empreiteiro. Estive lá um longo tempo. Lembro-me de ter pensado que queria mostrar os planos para o Pai Mullien, porque estava preocupado por uma série de degraus e uma rampa que descem para os jardins da alaa oeste. Tinha medo de que algum dos residentes pudesse se machucar ao passar por ali. O empreiteiro insistiu em a rampa não era pronunciada, mas Pai mulligan sabe muito bem das dificuldades das pessoas que cuidam dos idosos, basicamente todos os dias. Queria uma segunda opinião.

- Oh! Irmã! - Inez pegou Velda. - Vamos ver Pai Mulligan essa noite. Tem razão. Está acontecendo alguma coisa nesta vizinhança.

Velda assentiu, sombriamente.

- Algo malvado está rondando. Devemos ativar a vigilância do bairro imediatamente.

Nicolae fez uma careta interiormente. Teve visões das senhoras de cabelo surpreendente pintados, andando de um lado para outro pelas ruas, com poções mágicas e réstias de alho.

- Martin, ante que fosse à igreja ver Pai Mulligan, recorda ter ido a algum outro lugar? Parou para conversar com alguém, embora casualmente ou foi jantar? Foi a algum bar do bairro?

Martin pensou.

- Devo tê-lo feito. Saí do trabalho depois das seis. Pai Mulligan foi assaltado bem mais tarde. Sempre vai à igreja em volta das oito e meia ou nove horas, teria tentado lhe pegar antes disso.

- Quando encontrou Pai Mulligan? - Perguntou Nicolae, a Destiny.

- Eram perto das dez, entre as nove e meia e às dez horas.

Nicolae se voltou maus uma vez para oMartin. As irmãs estavam revoando sobre ele, deixando Martin entre a diversão e as lágrimas, ante seu leal apoio.

- Irmã, deve lhe fazer um talisman. – Insistiu, Inez. - Algo para afugentar o mal. Martin, Velda pode te dar um perigoso totem para levar em volta do pescoço.

- Acha que estão rodeados de vampiros? - Perguntou Nicolae a Velda com cara séria.

Velda o olhou fixamente.

- Voce zomba de mim, mas não me importa. Vivi com o conhecimento do mundo sobrenatural durante anos. Sei qual é meu dever.

- Velda. – Interrompeu, Martin. - Tem que ter sido eu. Tim não mentiria e tampouco Pai Mulligan. Tim diz que não é a primeira vez que atuo de forma estranha e não me lembro. Prometi-lhe que iria ao médico.

- Velda. - A voz de Nicolae estava incrivelmente gentil, completamente compelidora. - Lamento profundamente que me tenha interpretado mal. Não tenho idéia se existem ou não os vampiros e nunca me divertiria as suas custas ou riria de voce. Estava pedindo sua opinião.

Velda avermelhou de um brilhante tom escarlate.

- Pensei... - Sua voz desapareceu, suas mãos revoaram impotentemente. - Estou tão acostumada que as pessoas riem de minhas crenças, que tirei conclusões precipitadas.

- Acredito que Martin deveria ir ao médico e acredito que deveríamos fazer uma pequena investigação sobre este assunto. Não me importa me ocupar por vocês. Depois, sou um agente da lei. Pai Mulligan prefere manter isto em sigilo, o quanto for possível. Ele acredita que te aconteceu algo esta noite, Martin. Não quer implicar à polícia no caso. É um amigo pessoal dele e estou aqui para ajudar. E é óbvio que Destiny me pediu ajuda.

- Que garota doce. - Disse Inez. - Querida irmã, ela não é uma garota doce?

A atenção de Velda estava sobre Nicolae.

- Sim, acredito que voce foi enviado aqui para nos ajudar. – Ela continuou olhando-o fixamente e seus olhos brilhavam, sua expressão se tornou sonhadora e longínqua. Encolheu os dedos, claramente danificados pela artrite, movendo-os em um complicado padrão ante os olhos de Nicolae.

Nicolae sentiu que ar abandonava de repente seus pulmões. O coração de Destiny saltou um batimento, depois começou a pulsar fortemente. Nicolae levantou as mãos para Velda, com as palmas para fora.

- Não! Não a detenha. Não pode detê-la. Permite que o "veja".

Foi o desespero na voz de Destiny, que evitou que Nicolae contivesse a leitura que Velda era tão obviamente capaz de levar a cabo. Seu talento era profundo, bem oculto e treinado com a idade.

Velda gemeu em voz alta, cambaleou para trás e sacudiu a cabeça para limpar visão. Imediatamente sua mão tremula foi até o crucifixo que rodeava seu pescoço.

- Não me sinto bem, Irmã. Leve-me para dentro. - Sua voz tremia e ela evitava olhar para Nicolae.

- Me olhe, Velda. - Era uma ordem e a mulher se virou para enfrentá-lo, aparentando sua idade pela primeira vez. Parecia ter diminuído de tamanho e era frágil . - Sabe que nunca terá nada a temer de mim. Vim a este lugar para ajudar você e seus amigos. Acredite nisso.

Velda assentiu, solenemente.

- Eu sei. - Murmurou ela.

Sabia muito. Nicolae compreendeu de repente que nada era o que aparentava nesta tranqüila vizinhança. O chão estremeceu e ondeou sob seus pés. - Destiny! Vêm aqui, agora. - A ordem foi enviada por um antigo em pleno poder, uma compulsão impossível de resistir. Ele sequer pensou nas repercussões de incliná-la a sua vontade. Não podia pensar nisso. Havia um fio de maldade tecida na vizinhança e precisava encontrar sua raiz. A preservação de sua raça podia muito bem estar em jogo.

Nicolae liberou Velda de seu feitiço e observou como Inez ajudava sua irmã a entrar em casa, deixando-o só com Martin.

- Ela parece doente. - Disse Martin, com genuína preocupação. – Não acha que deveríamos chamar o Dr. Arnold? Ele atende na clínica, mas sei que faria uma visita a domicilio, por Velda ou Inez. Elas são uma espécie de instituição, aqui.

- Acredito que ela só precisa descansar. - O olhar brilhante de Nicolae se moveu pensativamente sobre o homem, em sua cadeira. - Onde jantou na noite em que atacou o sacerdote, Martin? Não disse.

Martin franziu o cenho e esfregou a cabeça, como se ela doesse.

- Sempre vou ao bar. Devo ter ido lá. Sabia que Tim não ia estar em casa e sempre vou ao bar em busca de companhia. Não me lembro. Como posso ter perdido toda uma noite de minha vida?

- Averiguaremos, Martin. - Tranqüilizou-o Nicolae, utilizando voz consoladora. Em seguida, algo da ansiedade se aliviou na face do homem. - Será bastante fácil perguntar no bar se lhe viram por lá, nessa noite. Todo mundo te conhece.

- Tim está preocupado. Não sabe o que pensar ou acreditar e não posso lhe tranqüilizar. - Disse Martin, intensamente.

- Velda e Inez parecerem saber do que estão conversando, quando dão conselhos, Martin. E também Mary Ann. Possivelmente deveria falar com alguém em quem confia e ver o que lhe dizem.

Ele pôde sentir a onda de poder enquanto Destiny voava veloz pelo céu noturno, para ele. Destiny.

Martin levantou-se da cadeira e estendeu a mão para Nicolae.

- Sentia-me bastante desesperado até que falei com você. Obrigado, amigo. Acredito que tem razão. Vi Mary Ann ir em direção a seu escritório. Possivelmente irei conversar com ela.

- Convocaste-me?

As palavras foram cuspidas. Destiny não estava contente com a forma em que ele a atraíra. Ou com o fato de que pudesse atraí-la. Seu sangue corria no corpo dela, mas era ele que lhe dava ordens.

- Excelente ideia, Martin. - Nicolae elevou uma mão em despedida e andou até a esquina, para sair da vista. Sabia exatamente onde ela esperava e que estava decidida a começar uma briga.

Destiny olhou fixamente para ele, quando Nicolae apareceu perto dela, brilhando até uma forma sólida, sobre a rua.

- Você gostaria de me explicar seu arrogante comportamento para comigo?

Seus olhos eram de um verde fumegante, com turbulentos redemoinhos em suas profundezas. Ela parecia selvagem e imprevisível. Seu corpo estava posicionado e preparado para lutar, tenso como uma mola, embora tão imóvel e vigilante como uma tigresa. O vento espalhava seu cabelo e sua boca era... Tentadora. O olhar de Nicolae caiu sobre seu lábio inferior. Que este estivesse ligeiramente franzido não significava que estivesse contrariada. Significava problemas para alguém.

Todo seu ser reagiu ante a visão do lábio cheio. Sua ereção foi veloz e dura, acompanhada de uma dor castigante, que não o abandonava realmente, nem quando estava longe dela.

Destiny estava furiosa. Não só furiosa. Estava frustrada e inquieta e tão tensa como um arco. A cólera bulia em seu intimo, misturada com uma excitação tão velha como o tempo, que não podia conter. Era uma reação à forma em que ele a olhava. Seu ardente olhar estava cheio de desejo, da intensa necessidade e a fome que ele não se incomodava em tentar ocultar.

- Meu comportamento foi arrogante? - Seu olhar não abandonou a boca dela.

O poder de sua voz mexeu com Destiny, fazendo seu corpo pulsar. Reconheceu o desejo como o que era e a assustou poder estar tão presa na força de seu esse poder. Sua voz acariciava sua pele como uma luva de veludo, fazendo-a intensamente consciente de cada centímetro dela.

- Vamos conversar sobre isso? - Sua própria voz soava rouca e estrangulada, como se não pudesse conter a respiração. – Você utilizou seu poder contra mim. Isso é completamente inaceitável. – Destiny teve que afastar o olhar. Estar tão perto dele estava lhe roubando a razão, colocando idéias eróticas em sua mente, que nunca deveriam estar ali. Destiny fechou os olhos e inalou profundamente esperando que o ar fresco e lhe limpasse a mente.

- É isso o que acha que fiz? Utilizei meu poder contra você? Quando fiz algo contra você? Vivi para você durante mais anos dos quais atrevo considerar, Destiny. Tem que se encontrar comigo em algum lugar, se não no meio do caminho, pelo menos fazer algumas concessões. Dê alguns passos para mim.

Ela inalou sua essência. A chamada de um homem a uma mulher. O ar explodiu para fora dela.

- Nicolae. - O nome escapou num sussurro dolorido. - Tentei. Juro que tentei.

Nicolae se estendeu para ela, incapaz de se conter, quando havia uma dor tão crua esculpida em sua face e tão urgente necessidade em seus olhos.

- Venha aqui comigo. Nada pode fazer até que resolvamos o que há entre nós. Suas mãos se colocaram em volta dela, embalando-a no escudo de seu corpo e ele se elevou no ar.

Destiny sabia que devia protestar. Onde ele a estivesse levando era um lugar no qual estariam sozinhos. Não podia se permitir estar sozinha com ele e a tentação que representava. Sua mão estava aberta sobre seu peito, sentindo o calor de sua pele através do tecido de sua camisa. Rodeou seu pescoço para liberar seu longo cabelo, para que os fios voassem em volta de sua face e sobre seus braços.

Nicolae sentiu o estremecimento que percorreu de Destiny, quando a levou longe da cidade, numa das enormes câmaras subterrâneas que havia encontrado em suas explorações da região. Seus lábios deslizaram pela garganta de Destiny, atrasando-se sobre a frenética pulsação, roçando seu pescoço, para pressionar contra seu ouvido.

- Precisamos de um lugar privado para conversar este assunto. Não confio inteiramente no que está acontecendo no bairro. Alguma coisa ou alguem poderia estar nos ouvindo.

Colocou-a sobre seus pés, ondeando a mão para que as chamas tomassem vida na caverna que encontrado, dias antes. Chamas douradas titilaram e dançaram sobre as paredes, iluminando-a, fazendo com que a câmara parecesse cintilar. Um anel de rochas capturou uma piscina de água reluzente que borbulhava saindo da terra, como uma banheira.

Destiny se afastou da pura potência, da forma grande e masculina.

- O que aconteceu com Velda? Ela é como eu?

Seus olhos rogavam que ele lhe desse a resposta correta. Nicolae tocou sua mente, gentilmente enquanto ela compartilhava com ele, essa primeira lembrança perigosa. A garotinha com uma massa de cabelos caindo em volta dos ombros e olhos muitos grandes, para seu rosto, sorrindo para um homem bonito. O desconhecido se inclinou a seu nível, conversando brandamente com ela e seu sorriso se ampliou. Ela assentiu com a cabeçinha várias vezes, tomando sua mão e caminhando com ele de volta a uma pequena casa. Uma mulher estava em pé no alpendre, franzindo um pouco o cenho enquanto observava sua filha conversando animadamente com um homem alto e bastante atraente, que lentamente tomava a forma de um monstro. Sua pele perfeita se tornou cinza. Seu escuro e espesso cabelo, se tornou branco e ralo. Sua boca revelou dentes pontiagudos e negros pelas manchas de sangue, longas e afiadas garras que morgaram o braço da menina. Imediatamente, Nicolae compreendeu que estava vendo o vampiro através dos olhos da menina que tinha sido Destiny.

- Como poderia uma menina de seis anos reconhecer um vampiro? Como poderia saber que existiam um? Uma criança é inocente de semelhantes coisas.

- Atraí-o até minha família. – Ela não pode dizer outra coisa. - Velda tem setenta anos. Em todo este tempo, por que não atraiu um vampiro até ela ou sua família? E Mary Ann? Também ela é psíquica. Destruímos a vários vampiros nesta região, mas nenhum deles se sentiu atraído por estas mulheres.

Nicolae podia sentir as lágrimas queimar olhos dela, embora ela mantivesse o queixo alto e seu olhar verde azulado era tão firme como sempre.

- Uma pergunta melhor seria por que todos os vampiros estão se congregando aqui? Isso me perturba imensamente. Três mulheres com variados talentos psíquicos estão aqui, juntas. Isso é realmente uma coincidência? E o Pai Mulligan sabe de nossa gente e também está aqui. Nesta cidade onde há tanta gente, simplesmente os conhecemos e nos vemos envolvidos em sua vida. Isso não o perturba? E temos dois homens, John Paul e Martin, comportando-se de forma totalmente alheia a seu caráter. Examinei Martin. Não há nenhuma escuridão nele. É incapaz de fazer mal a outro ser humano, embora deva ter assaltado o sacerdote. Ou alguém o fez, fingindo ser ele. Como poderia uma pessoa tomar o papel de John Paul, um homem grande e musculoso ou igual a Martin Wright, um homem magro e bem mais baixo?

- Um vampiro poderia. Poderia assumir qualquer forma. – Assinalou, Destiny.

- E atuar tão bem para enganar Pai Mulligan? - A sobrancelha de Nicolae se arqueou. - Um homem da igreja? Um homem de semelhante sabedoria?

- É óbvio. Um vampiro poderia enganar Pai Mulligan. Eu poderia. Poderia tomar sua forma e fazer com que todo mundo acreditasse que sou você. – Ela encolheu o ombro com desdém. - Bem, a quase todos. Possivelmente não a Vikirnoff.

Houve um pequeno silêncio enquanto Nicolae a estudava atentamente, com um olhar que não piscava. Viu em que momento ela entendeu aonde queria chegar. Um vampiro poderia enganar a qualquer humano. Não havia forma de que ela, uma menina inocente de seis anos, pudesse ter reconhecido o monstro que destruiu a sua família.

- Ouço o que diz, Nicolae e sei que tem razão. Em minha cabeça sei que tem razão. Digoa mim mesma, que deixe de colocar a culpa da morte de meus pais sobre meus ombros, mas meu coração não ouve.

- Ao menos está me ouvindo . – Disse ele, tranqüilamente. - Não foi um vampiro que entrou na igreja. Nenhum vampiro faria algo assim, nem tampouco um de seus ghouls. São sujos e não se atreveriam a entrar num lugar santificado.

- Isso eu sei. – Ele a pegara, fazendo admitir a si mesma de que não estava suja, já que tinha entrado na igreja. Desejava que a verdade entrasse em seu coração e alma, liberando-a do peso da culpa e o ódio contra si mesma. Ela estava viva. Pouco importava que sua vida tivesse sido uma forma de inferno. Estava viva e o vampiro que tinha assassinado sua família e a incontáveis outras pessoas havia morrido por sua mão.

A face de Nicolae estava escondida entre as sombras da caverna, mas ela podia ver seus olhos. Famintos e intensos. Carentes, mas ardendo de desejo. Privava-a de todo protesto. Privava-a inclusive de sua autoconservação. Saboreou o desejo dele em sua boca, que se estendeu por todo seu sangue, pulsando latente em busca de alívio. Sentia seu corpo estranho, como se não fosse dela. Estaca pesado e dolorido.

O olhar de Nicolae se fechou sobre ela. Podia sentir a chamada de sua fragrância. Podia ler a confusão em seus olhos. Não importava o muito que seu corpo gritasse. Seu coração se derretia, mesmo quando seu corpo desejava o dela com uma obsessão a que não podia deixar sobrepor-se.

- Não se alimentou, Destiny. Por que? - Sua voz foi um sussurro, nos limites da câmara subterrânea. Um convite rouco que quase a colocou de joelhos.

Destiny se debilitou ante o som de sua voz. Observou como seus dedos deslizava até os botões da camisa, para abri-los. Observou em completa fascinação como ela a jogava para o lado e revelava seu peito largo. Seus músculos eram sutis, mas definidos. Não podia afastar o olhar. A largura de seus ombros, a pela de seu peito. Sua estreita cintura. A força de seus braços.

- Não posso respirar. – Ela elevou o olhar para ele. - Não posso respirar, Nicolae.

Destiny parecia frágil, vulnerável e tão perdida. Nicolae caminhou para ela e segurou seu rosto entre as mãos. Inclinou a cabeça para ela, tomando posse de sua boca, respirando por ela, compartilhando seu ar. Compartilhando sua força.

Logo, o fogo os dominou. Profundo e ardente. Elementar. Chamejou entre eles, neles, ardendo de dentro. Ela simplesmente se rendeu ao seu dominio, sua língua lutando com a dele, em selvagem emparelhamento. Por própria vontade, seu corpo se suavizou e flexibilizou, moldando-se ao dele. Seus seios pressionaram firmemente contra seu peito. Suas mãos se moveram sobre ele quase impotentemente, como se movessem em convulsão, para sentir sua pele sob os dedos. O beijo continuou. Nenhum deles podia ter o suficiente. Cada um queria engatinhar até a alma do outro, sob a pele do outro, no corpo do outro.

Era pura posse. Luxúria e amor misturavam-se, elevando-se veloz e rápidamente, entrelaçando-se, girando fora de controle, para criar uma tormenta de fogo turbulante e ardente. Um som escapou de sua garganta, uma mistura de gemido de medo e de desejo. Quando o ouviu, Nicolae começou mesmo contra vontade, recuperar o controle, afastando-se ligeiramente para trás, para lhe permitir fugir.

Os braços dela o envolveram e o atraiu de volta a sua boca faminta. Ele estivera sozinho por muitos séculos, procurando-a, esperando por ela, precisando dela. E ela estivera isolada do mundo. Desejando-lhe. Asegurando-se a ele e ao mesmo tempo, empurrando-o longe, para protegê-lo, salvá-lo. Sua boca era selvagem, elevando o calor. Nada salvaria nenhum dos dois. Ela estava indefesa sob o ataque de sua boca e precisava estar mais perto dele, exigia estar mais perto.

- Não vou ser capaz de me deter. - Havia uma súplica na voz dele. Sua fome por ela o consumia. Alimentou-se do mel de sua boca, tomando em vez de pedir, um homem dominante em pleno ataque de paixão, embora houvesse ternura na forma em que a sustentava, que só se acrescentava a sua súplica.

- Não pare, então. Não pare, nunca. – Ela sussurrou as palavras na boca dele. - Não quero que pare. - E ela não queria. Estava mais além do temor. Estava aterrorizada. Mas isso nada significava para ela, em meio da tormenta de fogo que a consumia, por sua obsessão por ele. Seu corpo ardia, palpitava e pulsava por ele. Suplicava por ele. E quando a beijava, não havia nada mais em sua mente, nem monstros e nem mortes. Nem culpa ou lembranças de vítimas moribundas. Só havia puro sentimento e Nicolae.

As mãos dele deslizaram por sua face, para seguir a linha suave de seu pescoço.

- Tem medo de mim, Destiny? - Seus dentes prenderam seu lábio inferior, que ele achara tão intrigante, tão impossível de resistir. - Sinto seu coração palpitando muito forte. - A mão dele pousou sobre o coração dela, os dedos se estenderam para que o seio dolorido e seu coração, pulsassem em sua palma, como se ele estivesse sustentando-os. - Não quero que sinta medo ou que tema nossa união. Nos unir no amor é algo formoso, não um ato de desprezível violência. É incrivelmente maravilhoso. Confia em mim, para unir seu corpo ao meu?

Antes que ela pudesse responder, a boca dele tomou a sua, com fome desenfreada. As mãos dele deslizaram acariciando seus peitos. Seus polegares atormentavam os diminutos mamilos já duros, através do tecido de sua blusa. Destiny gemeu quando as sensações inéditas tomaram seu corpo, convertendo-o num vulcão de desejo. Suas pernas ameaçaram dobrar-se. Suas roupas estavam muito apertadas, pesadas sobre seu corpo.

- Nicolae. - Havia uma fome sensual em sua voz. Abriu os olhos para fitá-lo, para procurar seu escuro olhar.

A paixão estampava uma erótica sensualidade na perfeição dos traços masculinos. Ele não era um menino, mas um ser perigoso e poderoso, embora ela via sua vulnerabilidade.

- Diga-me que sim, Destiny. Permita-me te fazer minha.

Ela se afogava em desejo. Em fome. No que tinha que ser amor. Se não era amor, por que havia lágrimas em seus olhos e um nó que estrangulava sua garganta? Por que estava lutando para salvá-lo?

- Sabe o que acontecerá, Nicolae. Voce tomará meu sangue e eu permitirei isso. Nunca seria capaz de encontrar força para te deter. – Ela sussurrou as palavras, enquanto as mãos dele se deslizavam sobre seu torso, até encontrar sua cintura. As mãos dela roçaram a carne nua. Ela ardeu, pulsou e esperou a reação dele. Era a única resposta para eles. Sua força infinita.

 

O som da água gotejando, se misturava com o ritmo acelerado de seus corações. As chamas ondeantes na urna de pedra dançavam sobre seus corpos, banhando-os em luz mística. Passou um segundo, enquanto os olhos de Nicolae se fixavam nos dela. Seus dedos seguraram a blusa de Destiny, passando-a sobre sua cabeça, num um movimento veloz.

Destiny ouviu a dificuldade da respiração do homem, enquanto lhe percorria o corpo com o olhar. As mãos em sua cintura deixavam uma ardente marca, que parecia gravar-se em sua pele. Ela celebrou a intesidade desse olhar, a forma em que suas mãos moviam sobre seu corpo, ardentes, possessivas, reclamando-a. Reclamando sua alma. Sabia que sua mente estava firmemente arraigada na dela, lhe permitindo experimentar a extensão de sua fome por ela. Não lhe ocultava nada... Nem a forma em que fazia com que sentisse seu corpo, nem a forma em que desejava tocá-la. Nem como precisava tão desesperadamente, tão urgentemente, dela.

Destiny sentiu uma resposta selvagem elevando-se em seu interior. A roupa parecia uma intrusão, um peso morto que já não podia suportar contra sua pele sensível. A fina renda de seu soutien lhe irritava a pele, evitando que o ardente olhar a acariciasse. Mesmo enquanto as mãos dele seguravam sua cintura e ele inclinou a cabeça, puxando seu corpo para ele.

A boca dele se fechou sobre seu seio, ardente e úmida, sugando-o através da renda do soutien. Seus dentes mordiscavam gentis, mas intensamente, fazendo-a gritar e segurar sua cabeça, para ela. Os joelhos de Destiny quase se dobraram, a sensação era forte, caótica e inédita. Suas mãos acariciaram os cabelos escuros e espessos, sujeitando-o contra ela, enquanto sua língua dançava e acariciava, criando uma ardente e palpitante sensação de necessidade em seu íntimo. O calor de sua boca a deixava louca. Destiny arqueou-se para ele, entregando-se ao puro prazer.

Quando elevou a cabeça para ir ao outro seio, o soutien flutuou livremente para o solo. Seus lábios encontraram a carne nua, raptando-a. Sua língua lhe prodigalizou atenção, seus dentes os mordiscaram até que ela gritou. Temia desmaiar, dominada pelas intensas sensações que ele habilmente provocava. Não havia forma de se manter em pé. Todo a força abandonara suas pernas. Só os braços dele a mantinha em pé.

Nicolae a inclinou ligeiramente para trás, mordiscando, lambendo, sugando, amando, cobiçando-a. Estalavam chamas. As mãos de Nicolae moviam-se, traçando os contornos de seu corpo dela, de seus seios duros, da estreita cintura e dos quadris desenhados para serem desejadas por ele.

- Como pode ser assim? – Ofegou, ela. - Nunca pensei que seria assim. - Um fogo selvagem e fora de controle. Uma feroz tormenta de fogo que nenhum dos dois podia apagar. Eles haviam começado ela e ardia brilhante, ardente e perfeita. Estava derretendo, tomada de desejo por ele. Desejava seu toque... Precisava dele. Nunca teria tempo suficiente para que estivessem juntos. Ela estava em outro mundo, em outro tempo e lugar, longe das realidades nas quais sua vida se convertera.

Ouviu seu próprio gemido, quando a língua dele sugou parte inferior de seus seios. Seu estômago se contraiu. Só sentia sensações maravilhosas e puras.

- Minha roupa. Está me incomodando. - A voz rouca de Nicolae a inflamou.

Foi sua voz novamente, com sensualidade, com urgente necessidade, que a incitou. Destiny achou impossível resistir a ele. Seu olhar caiu até a parte da frente de sua calça, onde o tecido estava estirado. Seu coração deu um salto. De medo ou de antecipação, Destiny não estava segura de qual emoção era predominante, mas a grossa protuberância atraiu sua atenção, imediatamente. Não pôde resistir a roçar sua mão contra a dura evidência de seu desejo. Quando ele se sobressaltou, ela fechou a mão sobre o vulto, pressionando-o. Estava quente e palpitante e cresceu mais, inchando-se em sua palma. Os dedos dela, brincaram ligeiramente sobre a dura ereção, obtendo prazer no que estava fazendo, sentindo o transbordante fogo em suas veias, através de suas mentes fundidas. As cores pareciam cintilar em volta deles e havia diminutas faíscas nos olhos escuros. Destiny permitiu-se navegar à deriva, no mundo de sensualidade, no mundo de calor e paixão de Nicolae.

Mantendo sua mão onde estava, ela tirou-lhe a roupa, da forma em que estava acostumada. Destiny utilizando a mente, em vez das mãos. Sua palma encontrou carne quente e dura. Nicolae conteve a respiração e murmurou contra a suave pele dela. Seus dentes mordiscaram-na, incitantes e eroticamente, depois sua língua a acariciava, como se fosse para aliviar.

- Sua roupa. - A voz dele estava mais rouca, além do normal. O toque de sua boca sobre o estômago de Destiny deixava um rastro de fogo. – Livre-se dela. - Seus quadris estavam encostados ao dela. – Preciso delas fora de voce. - Suas mãos estavam tirando a roupa dela, tentando ser gentil quando o que desejava era rasgar o tecido ofensivo, em seu luxurioso corpo.

Destiny sentiu o calor das chamas, observando as sombras que eles lançavam sobre as paredes. Um homem inclinando-se sobre o corpo de uma mulher. Seus seios elevados para cima, num convite e a cabeça dele que baixava, explorando o oferecimento. Era uma imagem erótica e surpreendente, quando considerava que fossem parte dela. Observando as figuras sombreadas, permitiu que seu jeans de algodão e sua lingerie de renda deslizassem para longe de seu corpo, observando-as desaparecer, ficando pele a pele com Nicolae.

As mãos dele moviam possessivas sobre seus quadris e suas nádegas, acariciando, explorando. Seus dedos procuraram a feminilidade escondida, fazendo-a ofegar, seu corpo estirando-se de antecipação. A necessidade estava tornando-se uma terrível urgência.

Destiny abraçou o pescoço dele, pois seus joelhos dobraram, quando os dedos se inundaram no longo e acariciante toque.

- Nicolae!

Ele ondeou a mão para a terra e flores brotaram em milhares de suaves pétalas, quando os fez flutuar facilmente para a cama que os esperava. Destiny podia sentir as pétalas sobre sua pele, roçando contra seu corpo. O corpo de Nicolae se posicionou sobre o dela, sua boca uma vez mais, tomando-a.

Imediatamente se fundiram em calor e fogo, em algum lugar entre o amor e a luxúria. Suas mãos estavam por toda parte, reclamando os corpo. Destiny sentia-se impotente sob o ataque, quase soluçando com a urgência da necessidade de seu corpo. Era uma sensação alucinada e pouco familiar, como se outra pessoa estava em sua pele, em sua mente e ela seguia esta viagem de erótica sensualidade.

A boca dele endureceu, tomando o controle, afugentando todo pensamento até ela que voltou a sentí-lo. Suas mãos acariciavam seu corpo, procurando seu sexo pulsante, fazendo-a se mover inquietamente, procurando maior contato. Precisando de mais contato.

Destiny estava imersa num mundo de sentimento e amor. Um mundo que a rodeava, abraçava-a, um paraíso perfeito. Mas a serpente começou seu insidioso ataque, reptando até seu mundo perfeito e trazendo imagens que ela não pôde deter. A sensação de estar presa sob outro corpo, bem mais pesado e seus suaves gemidos de prazer foram afogados pelo agonizante grito de uma menina. Obrigou a sua mente a se afastar das imagens de pesadelos, decidida a recapturar a sensação perfeita de compartilhar com Nicolae.

Nicolae estava em sua mente, aumentando seu prazer quando seu coração começou a pulsar muito rápido e o medo voltou a entrar em seu mundo. Quando as imagens do pesadelo se aproximavam, ele a beijava, afugentando as lembranças. Ele beijou-a, suas mãos gentis exploraram-na com ternura, até que ele voltou a ficar ardente e úmida de desejo por ele, seu corpo receptivo ao dele. Ainda assim, Nicolae foi cuidadoso, quando a fera interior rugiu pedindo a posse. Gentilmente, ele introduziu um dedo dentro dela, lentamente, cuidadoso com sua tensão, não desejando que ela experimentasse desconforto. Os pequenos músculos se apertaram a seu redor e o corpo dela estremeceu pela intensidade do prazer. Seus quadris impeliram-se contra ele, instintivamente.

Nicolae inclinou a cabeça e lhe beijou o estômago enquanto lentamente, centímetro a centímetro, deslizava dois dedos profundamente em seu interior. Ela ofegou, segurando-se a cabeça dele, enquanto ele deslizava sobre sua pele sensibilizada. Seus quadris começaram um ritmo lento seguindo a liderança da mão dele.

Um calor fumegando a varreu e Destiny desejou comprimir seu corpo contra ele. E quando ele se retirou, ela gritou, necessitando que ele a preenchesse. As mãos dele afastaram gentilmente suas coxas e seu corpo tomou lugar entre as pernas dela. Logo, o coração de Destiny se sobressaltou. Ela sentia-se vulnerável e aberta. Seu peso a prendeu, quando ele deitou sobre ela. Instintivamente, destiny se moveu afastando-se, mas a perna dele reteve o súbito movimento. Ele era forte. Bem mais forte do que pensara, a princípio. Sua perna lhe sujeitava a coxa, mantendo-a sob ele.

O estranho rugido de sua mente se tornou mais forte. A boca sobre a dela era terna, amorosa, mas não podia impedir as lembranças de dentes perfurando sua carne, mordendo-a de forma antinatural. O homem todo-poderoso introduzindo algo muito grande em seu diminuto corpo, seguidamente, golpeando-a contra o chão, atirando-a sobre uma rocha, tomando-a por trás, sem se preocupar com seus gritos, celebrando sua dor e humilhação. Recordou o sangue que deslizou dentro da caverna, em volta dela, e do corpo morto com os olhos abertos olhando fixamente os seu, enquanto ele tomava-a seguidamente.

Ela gemeu, gritou, esticou-se em estado de choque. Sua respiração era rápida e descontrolada.

- Espere... Por favor, sinto muito, espere um minuto. - Destiny passou os dedos pelo cabelo dele. - Espere, Nicolae. Estamos indo muito rápido. Diminua. - Ela não queria diminuir a marcha. Consumia-se em chamas. Mesmo enquanto lhe suplicava para reter-se, seus quadris se moviam contra ele, num flagrante convite que não podia evitar. Precisava dele enterrado profundamente em seu interior; essa era a única solução para a terrível pressão que sentia. Mas as imagens de sua mente eram tenazes. Queria que as mãos e a boca de Nicolae eliminassem as imagens, não que as invocassem. Queria o êxtase de seu corpo para eliminar cada lembrança de pesadelo.

Nicolae sentiu as perturbadoras imagens de morte e loucura movendo-se pela mente dela, movendo através da dele. Sentiu sua retirada parcial, sentiu sua tremenda necessidade física em contradição com sua vacilação mental. No momento, elevou a cabeça, movendo sua perna para permitir que se liberasse.

- Podemos ir bem devagar, Destiny. Posso passar horas te tocando. Ou te abraçando, te beijando. – Ele encontrou os lábios dela, gravando a fogo sua posse, diretamente no coração de Destiny.

Destiny se movia sob ele, mas a boca dele mantinha um calor familiar e suas mãos eram gentis e vagavam sobre seu corpo. Nicolae era paciente, beijando-a até que ela ficou sem fôlego e o beijou em resposta. Até que o corpo dela começou lentamente a relaxar. Até que ela ficou outra vez faminta por ele. Até que o toque de seus dedos sobre sua pele enviou diminutas chamas através de seu corpo.

Nicolae mudou de posição uma vez mais, seu joelho deslizou entre os dela, afstando suas pernas até pressionar-se firmemente contra ela. Destiny podia lhe sentir ali, em sua entrada, onde estava preparada com um úmido convite, chamando-o, tentando.

Escapou um gemido e ela não podia encontrar ar para respirar.

- O que é, pequena? - Sua voz chegou suave, na escuridão, suas mãos se deslizavam sobre o corpo dela com deliciosa ternura. - Aonde vai? - Ela se crispava sob suas mãos e ela não podia suportar, não podia suportar deixá-la partir. Alimentou a consciência intensificada dela, com seu próprio desejo, ralentizando seus batimentos do coração, para ajudá-la a aceitá-lo. Depois, moveu seu corpo para longe do dela, a fim de lhe dar tempo de aceitar o que havia entre eles.

Lutando contra sua necessidade instintiva de intercambiar sangue, beijou-a com ternura. As mãos dela acariciavam suas costas e seu corpo se suavizou ligeiramente, uma vez mais preparada para render-se a ele.

Destiny estava decidida a se entregar completamente a ele, a tomá-lo para si. Estivera sozinha por muito tempo, precisava muito dele. Ele era tudo o que algum dia sonhara.

Uma risada vaiou em seu ouvido, perversa e zombeteira. A monstruosa criatura estava arrastando-a pelo cabelo enquanto ela lutava, golpeando dentro dela, sem atenção a seu tamanho e força. Sem se preocupar em romper seus ossos. Sem se preocupar que rasgava seu corpo pela metade. A dor estava além de tudo o que experimentara e era interminável, prendendo-a. Sentiu o sabor do sangue em sua boca, enquanto ele a obrigava a beber dos escuro e corrupto sangue dele. Era ácido ardendo em sua garganta, em seu estômago, queimando-a do interior. Será como eu. O mau cheiro era assustador, parte da loucura de sua existência. A maldade permeaba por seus poros, deslizando-se em seu interior, procedente dele.

Bruscamente afastou sua mente, com lágrimas em seus olhos fechados. Desejava Nicolae, doía-se por ele, com cada fibra de seu ser. Ele era-lhe tão necessário, como respirar. Desejava-o, mas a escuridão estava tomando-a e seus pulmões se negavam a funcionar. Uma pedra esmagava seu peito e parecia que mãos lhe apertavam a garganta, estrangulando-a. Podia ter detido Nicolae, a muito, mas havia insistido. Estava suja. Sempre estaria suja. O amor de Nicolae não podia voltar a fazer com que se sentisse inteira. Pura outra vez.

Só o decepcionaria, faria-lhe mal, arriscando-se a que ele se convertesse no que ela era.

- Sinto muito. Sinto muito... - Sussurrou, virando o rosto, colocando o punho na boca para evitar gritar. Sentia-se humilhada além do imaginável. Tentar Nicolae, lhe trazer a este ponto e não ser mulher para lhe dar o que precisava, era intolerável. Tentou fingir, recuperar a intensidade de seu desejo, mas as paredes da câmara encolhiam, ameaçando sufocá-la. Sabia que não podia ser o que Nicolae precisava tão desesperadamente.

- Não posso. - Destiny afastou-se, atacada pelo pânico, lutando por respirar.

- Tentei te dizer que não seria capaz deste tipo de intimidade, mas voce não me ouviu.

Nicolae estremeceu pelo esforço de controlar seu corpo, de conter sua paixão. Os olhos verdes azulados brilhavam cheios de lágrimas, escurecendo-se com turbulência, uma amostra de seus instintos de lutar para sair de uma situação que não podia dirigir. Sentiu a resistência dela em sua mente, em seu corpo. Ela estava rígida, afastando-se dele, tremendo. E havia medo, onda de medo tomando-a, espessando o ar entre eles. As lembranças das atrocidades da infância eram agudas e terríveis, como uma faca em seu coração. Sobre o dele. Obrigou o ar a entrar em seus pulmões e nos dela. Nada mais o importava, exceto que ela se sentisse cômoda e segura. Os olhos, enormes e escurecidos pelas lembranças, sustentavam tanta dor que quase rompia seu coração.

- Destiny, se acalme, respire. Não vou fazer nada que não deseje. Intimamos cada vez que nos olhamos um ao outro. Cada vez que respiramos. Isso nunca mudará entre nós. Crê que está poluída, mas para mim não há luz mais grandiosa que você. Se só pudermos ter o que temos mesmo, para mim é suficiente. - Sentir a sensação do corpo dele prendendo o seu era uma grande parte do problema, Ela se sentia impotente contra sua força e ela sabia que essa emoção era o que provocava sua resposta agressiva.

O braço de Nicolae lhe rodeou a cintura possessivamente e seu corpo se curvou em volta do dela. Não fez nenhum movimento para ocultar sua ereção, pressionando contra as nádegas dela.

- Não espero que as lembranças das coisas que lhe fizeram com violência, desapareçam. Mas aquilo não foi fazer o amor. Foi uma abominação do que tinha que ser. Aqui, entre nós, só expressamos com nossos corpos o que sentem nossos corações. Fazer amor pode ser rude ou terno, pode ser rápido ou lento, pode ser muitas coisas, mas sempre é uma expressão de amor.

Ela jazia encurvada junto a ele, sentindo o conforto do calor de seu corpo, quando ela se sentia tão fria. Estava ouvindo o som de sua voz, Destiny fechou os olhos. Adorava sua voz, a única âncora a qual podia aferrar-se a cada tormenta.

- Acha que não sei, Nicolae, que não sinto o mesmo que você? Sei que fazer amor contigo é a coisa mais natural do mundo. Meu corpo... - Sua voz desapareceu. Ela estava ardendo novamente. Um caldeirão de calor e fogo, girando quase fora de controle. Desejava-o mais do que nunca pensara ser possível. Seu punho apertou em sua boca, tentando conter as lágrimas em seus olhos. Sentia-se completamente fora de controle, quando precisava tão desesperadamente estar controlada.

Nicolae beijou-a na nuca.

- Por que se afastou de mim? Poderia ter te ajudado quando sentiu pânico.

- Não utilize a palavra pânico. É humilhante. – Ela era consciente da mão dele em sua cintura, seus dedos abertos sobre sua pele. Sua mão era uma marca, ardendo em seu ventre, diretamente através do centro quente e úmido de seu desejo. Moveu-se para que os dedos dele entrassem em contato com a parte inferior de seus seios. A sensação do ligeiro toque a surpreendeu, deixando-a mais tremulça. Desejava-o. Desejava-o com loucura. Suas células clamavam por ele. Embora sentisse o terrível nó em seu estômago e o bloqueio em sua mente.

- Quero desaparecer. - Murmurou as palavras, brandamente. - Desaparecer para não ter que voltar olhar para você.

- Destiny. Não diga isso. Nem sequer sinta. - Seus dentes lhe mordiscaram o pescoço, um pequeno castigo, uma sedução a seus sentidos já drogados. - Não preciso da expressão física de nosso amor, tanto como parece acreditar. Posso esperar. Vamos. Não vais ficar chorando e partindo meu coração em um milhão de pedaços. Isso não posso aceitar. - Era a primeira vez que dizia deliberadamente uma mentira a ela. Esperava não ter que voltar a dizer, nunca. Precisava sim da expressão física de seu amor, mais do que respirar. Seu corpo estava quente e incômodo. Estava tão ardente que temia que pudesse entar em combustão espontânea, mas seus traços permaneceram impassíveis, sua mente serena, enquanto seu estômago se atava de frustração.

Nicolae levantou-a facilmente ,para que ela não tivesse escolha, que enredar os braços em volta de seu pescoço. Seu olhar vívido encontrou o dele.

- O que está fazendo? - Estavam apertados um ao outro e sua consciencia do corpo dele, aumentou imediatamente.

Houve um pequeno silêncio enquanto seus corações pulsavam fora de ritmo, causado pela fome. O olhar dele vagou pela face dela, possessivamente e desceu para admirar a exuberante tentação de seus seios plenos.

- O corpo de uma mulher é um milagre.

- Está me envergonhando. - Seus seios a estavam envergonhando, saltando para ele, ansiando sua atenção.

Seus mamilos estavam duros e tão sensíveis, que a respiração dele enviava espirais de desejo através de seu corpo.

- É um milagre. Pode carregar vida em seu corpo. – Ele inclinou a cabeça para ela, não lhe dando escolha, que encontrá-lo a meio caminho.

Ela elevou o rosto para ele, atraída por seu desejo compartilhado, atraída por uma necessidade além de seu conhecimento, tão elementar como o tempo. A boca dele tomou a sua. Ele havia dito que havia vida em seu corpo. Se assim fosse, ele a teria dado. Desejava ser tudo o que ele precisava. Tinha estado no interior de sua mente tantas vezes no passado. Tinha vivido ali, ali tinha procurado refúgio, e o conhecia por dentro e por fora.

- Nicolae.

Enviou seu nome revoando como uma mariposa através de sua mente. Um sussurro de dolorido amor. De compromisso. Só o toque da mente dele, de suas mãos, debilitava-a, fazendo-a voar. Sonhar.

- Por que sente semelhante pesar, Destiny? – ele beijou-lhe o queixo, seus dentes mordiscaram gentilmente sua pele. - Sinto lágrimas em seu coração.

Porque carregava morte em seu corpo. Enfermidade. Uma corrupção que não era da terra. Como podia lhe dizer isso, quando ele a olhava com tanto amor? Em vez disso, engoliu as palavras e enterrou a face contra sua garganta ,para evitar que ele lesse sua expressão.

- Quero ser o que precisa, Nicolae. Quero ser sua companheira.

Os lábios dele estavam sobre seu cabelo.

- É minha companheira, Destiny. Estamos unidos, somos duas metades do mesmo tudo. Sei que o sente.

Ela levantou a cabeça para fitar seus olhos.

- Como poderia não saber? Mas que tipo de companheira faria o que fiz? - Desejava que ele a visse. Que a visse realmente, não o que desejava ver.

Nicolae dirigiu-se ao charco, embalando-a em seus braços.

- O que me fez, pequena? Tudo o que te pedi e mais. Compartilhe minha mente. Compartilho sua mente e o que pensa é uma tolice.

Ela apertou-se sobre o pescoço dele e beijou seu queixo, agradecendo sua interminável lealdade. Sua fé absoluta lhe dava esperanças, derretia seu coração, fazia-a sentir formosa.

- Não acredito que pedisse algo para si mesmo se pensasse que isso me faria sentir incômoda ou infeliz, Nicolae.

Ele sorriu. .

- Não sou a maravilha que está pretendendo que eu seja, Destiny. Desejo-a com tudo o que sou. Posso me permitir ser paciente. Temos a eternidade. Posso sentir a urgência de desejar a união física com você, mas se esperarmos, sei que cedo ou tarde acontecerá.

- Total confiança em si mesmo? - As sobrancelhas dela se arquearam. Tentava zombar dele, desejando encontrar uma forma de resgatar algo de seu tempo juntos.

- Total confiança em você. – Corrigiu-a, ele, afundando os pés dela lentamente na água.

A água estava convidativa e úmida, com diminutas bolhas. Ela mergulhou imediatamente, deleitando-se com a sensação.

Nicolae era bem consciente dos olhos dela sobre ele, bebendo-o com acanhamento, cautelosamente. Sob as bolhas, podia ver o corpo dela, realçado pela água trêmula. Ela parecia bem mais sedutora, uma ninfa que o enfeitiçava. Seu corpo endureceu, ao ponto da dor. Pensara que entrar na água o relaxaria, mas parecia ter o efeito oposto. As bolhas pareciam pequenos dedos acariciando sua ereção.

- Línguas. - Destiny nadou mais perto dele. Seu corpo estirado fazia com que suas nádegas bem proporcionadas reluzissem através da água. Ansiava por ela, uma vez mais.

Só olhar para ele, a fazia sentir inquieta e com os nervos eriçados pelo desejo. E mais que isso, desejava agradá-lo, fazer algo para expressar o que sentia por ele. Algo que mostrasse o quanto ele significasse para ela.

Nicolae permaneceu imóvel como uma estátua, observando a água acariciar sua pele. As luzes das chamas lançavam sombras pelo charco, aumentando a consciência, um do outro.

- Línguas? - Repetiu ele. A palavras saiu numa rouca mistura de desejo e urgência.

Ela assentiu, nadando muito perto dele.

- Parecem línguas sobre seu corpo, não dedos. Sobre meu corpo também. – Destiny ficou em pé e a água correu por seu corpo, pelo vale entre seus seios até descerem, sob a linha da água.

O faminto olhar dele seguiu as gotas, como um homem desidratado e sedento, ávido de sede. Nicolae compreendeu que ela tinha razão. Se fosse possível, seu corpo inchou ainda mais ante a idéia. Voltou-se consciente de que ela estava lendo sua mente, outra vez, de que captava cada imagem erótica, cada pensamento sensual.

- Sabe o que desejo fazer, Destiny. É isso o que quer? Só me diga. Diga em voz alta. Não há ninguém aqui além de nós dois. Diga-me o que me deseja neste momento. - Desejava muito mais que isso dela. Desejava as palavras, se não podia ter a ação.

Ela ruborizou e a cor manchou delicadamente sua face.

- Quero te tocar, sentir minhas mãos sobre sua pele. A necessidade é tão forte como qualquer compulsão, mas não vem de você.

Os dedos dele traçaram a linha colorida em sua face.

- O desejo entre companheiros é forte, Destiney, como deve ser. Vivemos muito neste mundo. Se o que há entre nós for algo frágil, nunca duraria. Entreguei meu corpo a seu cuidado. O que escolha fazer com ele estará sempre bem. É bom. Se sentir o desejo de me tocar, de aprender a me conhecer fisicamente, não é uma intrusão ou uma violação. Seria bem-vindo.

Ela afastou o rosto.

- Não pode ser, Nicolae.

Ele voltou-a gentilmente para ele.

- Você controla isto, Destiny. O que fazemos é com o consentimento de ambos. Não é por mim, nem para me satisfazer. Tem que ter a coragem de tomar o que deseja. Permaneça fundida comigo enquanto me toca. Sempre saberá o que estou sentindo, se está aumentando suas sensações ou me fazendo sentir incômodo.

Houve um pequeno silêncio enquanto a água lambia seu corpo, as diminutas bolhas explodiam contra suas peles. Ela colocou a imagem na mente dele. A sensação, definitivamente recordou Nicolae de línguas roçando e acariciando cada centímetro dele, que quase gemeu sob a pressão da erótica sensação. Já não estava seguro de sobreviver a esta experiência com ela.

Destiny podia ter imagens de pesadelo e lembranças lutando para se liberar, mas não lhe faltava coragem. Desejava seu momento com Nicolae. Negava-se a permitir que um monstro controlasse sua vida, controlasse a vida de Nicolae. Desejava ser capaz de desfrutar completamente do que era seu direito. Desejava ter a completa liberdade de explorar o corpo de seu companheiro. E desejava as mãos e boca dele sobre seu corpo. Desejava tudo, a fantasia completa.

Permitiu que seu olhar vagasse lentamente sobre o corpo dele, para morar em seus músculos definidos, seu peito poderoso, sua cintura e quadris, para cair mais embaixo e estudar o grosso membro, que ele não tentava lhe ocultar.

Um som escapou da garganta de Nicolae. Um pequeno gemido de súplica, de piedade, que provocou o fogo no corpo dela. Destiny sorriu.

- Se eu te disser que mantenha as mãos sobre a rocha e fosse meu enquanto eu vejo se posso fazer isto, promete que não me tocará?

Com toda segurança, ela o mataria. Nicolae pensou que seu corpo não podia endurecer-se mais ou se esquentar mais. Embora só a visão de seu sorriso brincalhão e as imagens de sua mente, o provocassem. Retrocedeu, para poder descansar as mãos obedientemente sobre as grandes rochas que estavam ligeiramente atrás dele, deixando a maior parte de seu corpo exposto e fora da água.

Passou um segundo, no qual ela não se moveu. Enquanto reunia sua coragem. O único som era o do salpicar da água contra seu corpo e o palpitar de seus corações. Destiny levantou os olhos para o rosto dele, encontrando-o espectador. Notou sua fome terrível, mas ele não se moveu, não tentou persuadi-la, permitindo sua completa liberdade de escolha. Destiny escolheu Nicolae.

Aproximou-se tão perto dele, que seus mamilos lhe roçaram o peito, quando ela elevou os braços para enroscar-se em seu pescoçoAcariciou os cabelos dele.

- Adoro seu cabelo, Nicolae. - Era espesso e longo e deslizava por sua mão que o acariciaava como fina seda. Seu corpo deslizou para cima, contra os quadris dele. Estava escorregadia, pois a água umedecia sua pele, quando roçou contra ele como uma gata ronronante. Seus lábios se atrasaram sobre as pálpebras dele e depois seguiram a linha das maçãs de seu rosto, encontrando seus lábios.

Era mais fácil expressar seu amor e sua esperança, quando estava livre, em pé e dominando todos os movimentos e decisões, quando ele estava mantendo a promessa de não tocá-la. Seu corpo ansiava-a e o que estava fazendo aprofundava seu desejo. Havia alegria em manter afastados os demônios. Em não permitir que tomassem o controle. Celebrou dar a Nicolae o prazer, permitindo-se a si mesma o mesmo prazer.

Sua língua deslizou ao longo de seus lábios, tentando, provando e lambendo delicadamente. Cada toque de sua língua provocava um feroz batimento do coração dele, diretamente a seu membro.

Nicolae gemeu e seus dedos se enterraram na rocha, quando abriu os lábios para ela. Fundiram-se. Fundiram-se, devorando um ao outro, esfomeados por mais.

Enquanto a língua dela lutava com a sua, ela deslizou as mãos do cabelo dele, para encontrar seus ombros e depois desceram e seus dedos acariciaram cada centímetro, como se gravasse seu corpo na memória. Sua boca abandonou a dele para mordiscar seu queixo orgulhoso. Sua língua dançou, serpenteou sobre sua garganta, encontrando sua pulsação. O ar abandonou os pulmões de Nicolae, suas vísceras se contraíram e sua ereção palpitou, inchou até que ele temeu que fosse explodir.

- Ainda não. - Sussurrou ela, para alertar-se. Sua língua lambeu a pulsação uma segunda vez, seu hálito uma cálida promessa. - Nicolae.

Todo o corpo dele estremeceu.

- Está comigo, Destiny? - Sua voz evidenciava sua terrível necessidade. - Sente o que está me fazendo? Continua fundida comigo. Fique comigo. - Se ela fundisse com ele, sentindo o que ele sentia, sentiria sua fome e seu amor, a admiração por sua valentia e não seria capaz de parar, entregaria-se completamente a ele.

Destiny pensou um momento antes de fazer o que ele pedia. Sua mente se fundiu completamente a dele. A intensidade de seu prazer lhe roubou o fôlego, a habilidade de fazê-la nada mais que tremer de desejo. A profundidade de seu amor e respeito por ela, se alojou em sua alma, permitindo-a ver-se, através dos olhos dele. Era uma visão que nunca esperara, completamente diferente à sua. Valente. Honesta. Compasiva. Formosa e sedutora. Sustentava o coração dele em suas mãos e ele era incrivelmente vulnerável a ela. A sua dor, a seus medos e a seu rechaço.

Sua boca abandonou a pulsação dele, seu hálito dançou sobre a pele dele, enquanto suas mãos deslizavam ao longo de seu peito, suavizando as linhas de seus músculos.

O ar abandonou os pulmões de Nicolae, mais uma vez. Seu corpo ficou rígido. Com Destiny, fundida profundamente em sua mente, pôde sentir o fogo percorrendo sua corrente sangüínea, os látegos de relâmpago ardendo em seu interior. Esse mesmo fogo que ardia profundamente em seu próprio corpo, numa conflagração que desejou aliviar completamente.

Suas mãos vagaram mais embaixo, enquanto sua boca deixava beijos sobre o peito dele e ao longo de seu torso. Encontrou suas costas, cada músculo definido. Suas nádegas eram firmes e duras.

Nicolae estremeceu de prazer. Os dedos dela estavam deixando-o louco. Era muito consciente da boca dela enquanto vagava sobre ele, numa lenta tortura, que ele não queria que acabasse nunca. Agradecia os longos séculos que levara, para administrar seu controle, pois de outro modo, bruscamente a tomaria para levar a cabo sua própria exploração, para enterrar-se profundamente nela. Também desejavam encher suas mãos no cabelo dela, puxar sua cabeça para ele, sugando despudoradamente sua boca, para terminar com a tortura. Mas, manteve-se quieto, lhe permitindo o controle total. Permitindo sua exploração.

A língua dela lambeu seu quadril e suas mãos deslizaram para seu sexo, apertando-o gentilmente. Seu hálito estava sobre a ponta de seu membro, numa tortura implacável. Nicolae cravou os dedos na rocha.

- Isto é perigoso, Destiny. – Ele tentou que as palavras passassem por sua garganta estrangulada.

Ela estava em sua mente. Podia sentir sua explosão de prazer.

- Não acredito, Nicolae. Não está gostando? - Sua língua lambeu a umidade, experimentalmente. Ele pulou, com cada músculo de seu corpo, tenso e apertado. - Sei que eu estou. - Havia sedução em sua voz. O medo havia sido empurrado, para dar vazão ao intenso prazer. Cada terminação nervosa do corpo de Destiny estava viva e palpitante. Podia sentir o acolhedor calor umedecendo seu corpo, de antecipação.

A boca dela era indiscritivelmente, calor e umidade, quando se fechou firmemente sobre seu membro. A cabeça de Nicolae caiu para trás e ele gemeu seu nome, tomado de prazer. Tentou não se mover, tentou permanecer imóvel sob o ataque da boca pequena e disposta, mas era pedir o impossível. Estava perdendo o controle seus quadris arremetiam involuntariamente, enquanto a boca dela experimentava toda sua longitude, para depois apertá-lo entre os lábios, arrastando-o desalmadamente, sob seu feitiço.

- Destiny! - Seu nome explodiu dele, numa súplica de piedade.

Ela elevou a cabeça, sem disfarçar o sorriso que brilhava em seu rosto, enquanto lambia os lábios, como uma gata satisfeita, a fim de sorver uma gota da essência dele. Sua boca encontrou os lábios de Nicolar, enquanto sua úmida cavidade deslizava contra a ereção sensível, fazendo-o gemer roucamente e prender seus braços a fim de sacudir-lhe.

- Não vou sobreviver a isto, Destiny.

- Oh! Eu acredito que sim. - Suas mãos lhe rodearam o pescoço e ela deslizou seu corpo úmido sobre o dele, esfregando-se como uma gata dengosa. - Porque te desejo profundamente dentro de mim, onde pertence. - Havia absoluta resolução em sua voz.

Nicolae não esperou. Elevou-a para a rocha a qual estivera segurando-se, como se fosse vida, seu corpo já entre as pernas dela.

- Está preparada para mim, Destiny? - Precisava que ela estivesse. Ele estava mais que preparado para ela e não sabia o quanto amável poderia ser. Já estava empurrando-se em seu interior, a ponta de seu membro encontrara a apertada resistência do corpo dela, enquanto abria passo centímetro a centímetro, no interior do apertado sexo. Ela estava ferozmente ardente e apertava-o. Nicolae compartilhou sua penetração com ela, o prazer e a dor, o ardente êxtase vibrando através deles.

Destiny elevou os joelhos, permitindo-lhe melhor acesso, com os olhos nos dele, enquanto lentamente Nicolae entrava dentro dela. A magia era muito grande, muito intensa. Destiny nunca sentira nada igual. Nada remotamente parecido. Havia resistência de seu corpo. Ele se sentia muito grande e ela estava muito apertada, mas também havia tanta beleza e maravilha e fogo, que ela desejava mais. Desejava muito, muito mais. Ele parou várias vezes para permitir que o corpo dela se ajustasse ao dele, que acomodasse seu membro grande. Cada vez que ele a penetrava um pouco, Destiny sentia seda e aço tomando-a, fustigando-a com látegos de dançarinos relâmpagos. Ouviu-se si sorrir, uma feliz acedência. Desejava-o. Tomara o que desejava dele e Nicolae estava profundamente dentro dela.

Nicolae inclinou seu corpo sobre o dela, suas mãos seguravam seu traseiro para ele.

- Está bem, Destiny? Está sentindo-se cômoda? - Havia ainda uma súplica em sua voz, mas também necessidade e fome. Linhas de cansaço estavam gravadas no rosto sensual e masculino. Mas era sua escolha, mesmo com ele profundamente em seu interior. Com cada uma de suas células gritando que a possuísse, mesmo com os demônios rugindo em sua mente. Era sua escolha.

- Absolutamente. Desejo-o. – Destiny deu-lhe aceitação, com lágrimas brilhando em seus olhos. Lágrimas de gratidão por que Nicolae era seu companheiro e não algum outro que nunca tivesse encoberto suas necessidades. Ou suas falhas.

E Nicolae começou a se mover, roubando-lhe o fôlego e a habilidade de pensar. Só existia Nicolae, seu corpo entrando e saindo do dela. Pulsando com fogo, vida e absoluto prazer. Sentiu seu amor tão fortemente, esquentando-a, enchendo sua mente e seu coração, igual a seu corpo que enchia seu vazio. Destiny levantou os olhos para ele, para as linhas esculpidas e soube que ela as colocara ali. Ele teria leves sinais de velhice por causa dela. E ela o amou por isso. Por estar sempre perto, a um fôlego de distância, a um batimento de coração, quando precisava.

Ele continuava a amaá-la com desenvoltura, intensamente e com rapidez, levando-a com ele, até que seu corpo sentiu a pressão que se acumulava com a força de um vulcão. Destiny não conteve os gemidos e se segurou a ele trêmula, temendo romper-se, temendo que nunca mais seria a mesma. Ele continuava investindo, tomandodo-a, aprofundando-se, até que ela sentiu que Nicolar tocava não só seu corpo e sua mente, mas seu coração e sua alma.

Seu peito se erguia sobre ela, próximo e tentador. Instintivamente se estendeu buscando-o, elevando a cabeça. Sua língua saboreou a pele dele, brincando sobre sua pulsação. Os dedos dele afundaram nos quadris de Destiny, mantendo-a imóvel para que seu membro entrasse todo no dela. E ele entiu sua necessidade, sua prece silenciosa, enquanto ela adiava o inevitável, aumentando sua consciência e seu prazer. Seu próprio prazer. Sabia como saberia ele. Cravou os dentes profundamente.

No ato, explodiu um relâmpago através da câmara e invadiu seus corpos, faiscando, dançando e estalando. Vibraram cores em volta deles. Ele a levou para o alto, para algum lugar onde ela teve sua visão do paraíso. Seu sangue era ancestral e continha a essência dele. Compartilhando o mesmo corpo, o mesmo coração, alma e mente.

- Vamos, Destiny. Venha comigo. Fique aqui, comigo.

Um convite. Uma tentação. Sua voz a atraía como sempre fizera. E ela confiou nele. Sua língua fechou as marcas de seu peito e depois se aconchegou em seus braços firmemente e se entregou a ele. A seu companheiro. Explodiram juntos.Destiny segura em seus braços, voando junto com ele, para depois caírem através do tempo e do espaço.

Ela não conseguiu tirar os olhos do rosto de Nicolae, seu perfeito rosto. Sua ua mente em paz. Perfeita paz. Como ele conseguira? Seus dedos traçaram a boca masculina, com maravilha.

- Você é meu milagre, Nicolae. - Sussurrou.

Ainda obstinado a ela, ele inclinou sua cabeça para a garganta dela. O corpo dela se esticou. Pequenos tremores secundários os sacudiram. O pouco ar que permanecia em seus pulmões escapou, ante o primeiro toque da boca de Nicolae sobre sua pele. A língua dele brincou sobre sua pulsação e sentiu o batimento de seu coração. Frenético, marcava o ritmo do dele. As pálpebras de Nicolae desceram, enquanto seus dentes mordiscavam a latente pulsação.

Sua mão encontrou o seio, clamando posse, seu polegar roçou o mamilo. Cada carícia enviava ondas de choque através de seu corpo para o interior do dele, já que estavam intimamente conectados. Destiny se estendeu para atraí-lo. A dor atravessou sua garganta, mas o êxtase banhou seu corpo com chamas dançarinas.

De repente, com cada grama de sua força, com as palmas abertas sobre seus ombros, jogou-o para trás, na água borbulhante.

- Não! - Gritou. - O que está fazendo? No que estamos pensando? Nicolae!

O sangue gotejava por sua garganta e descia, misturando-se com as gotas de suor e água. Suas vísceras doíam e pulsavam pela perda dele. Destiny sentia-se vazia e abandonada sem ele.

Nicolae afundou sob a superfície da água, que fechou sobre sua cabeça. Arrancou sua mente firmemente da dela. Não desejando pensar. Não desejando sentir... Abandonado.

Destiny se estendeu para ele de todas formas. Sentia-se terrivelmente perdida, doía seu coração.

Estava intensamente angustiada, por ele. A dor em sua mente e em sua alma, ameaçava enterrar os dois.

- Nicolae. Sinto muito... Tinha que te afastar de mim. Não vê? Não pode tomar meu sangue. - Estava lhe suplicando que a entendesse. - Não estava te rechaçando. Meu sangue é perigoso para você. Por favor não se zangue comigo.

Ela estava afogando os soluços e isso lhe rompia o coração. Nicolae saiu à superfície, sacudindo a cabeça, salpicando água, quando se jogou o cabelo para trás. Ela estava sentada sobre a rocha, ainda nua e com os joelhos encolhidos. Suas mãos estavam fechadas e as lágrimas desciam de seus olhos. Ela estava observando cada um de seus movimentos, julgando seu humor, sentindo-se totalmente inadequada.

Com um pequeno juramento, Nicolae abriu passo através da água para sumeergir, de forma que sua cabeça estivesse à mesma altura que a dela.

- Como poderia me zangar contigo quando estava me protegendo, Destiny? – Ele atraiu-a para a água, junto com ele. Atraiu-a para a parte mais profunda, onde ele podia ficar em pé, mas ela tinha que se segurar nele para permanecer sobre a superfície. - Retirei minha mente porque era preciso. A intensidade de minhas emoções era assustadora e você não tinha necessidade de experimentá-las. Não tinha intenção de te fazer mal.

Nicolae inclinou a cabeça e seguiu o rastro de sangue, de seus seios até sua garganta, atrasando-se nas marcas, para fechá-las.

- Envolva suas pernas em minha cintura. - Murmurou as palavras contra seu ouvido, enquanto a puxava-a para mais perto, encaixando seu corpo ao dele.

Destiny notou que estava sobre sua enorme ereção. Podia lhe sentir aproximando-se de seu sexo, ansioso por unir-se a ela. Rodeando-lhe a cabeça com as mãos, colocou a face sobre seu ombro. Fechou os olhos enquanto ele a possuiu, encaixando-a a seu membro intumescido.

Nicolae amou-a gentil, com mais cuidado que nunca. Beijou-a ofegante, seus lábios vagaram sobre a face e depois sobre a garganta dela e seus dentes mordiscaram ocasionalmente, mas manteve uma apertada rédea sobre a necessidade de tpmá-la.

- Amo-a, Destiny. Tal como é. Com ou sem seu sangue. Sempre será minha. Sempre será tudo o que preciso e desejo. Entende-me? Voce é tudo para mim. - Era sua desculpa por desejar mais. Possivelmente precisando mais. Mas também era verdade. Queria que ela visse em sua alma onde contava, que era a verdade.

Destiny jogou a cabeça para trás, tomando-o com um ritmo longo e lento, de deleite. Ouviu sua declaração, leu seu coração e alma. Nicolae dizia a verdade. O que tinham era suficiente, mas ela sabia que não era tudo. Não era como devia ser. Ele podia dar-lhe tudo, mas ela nunca seria capaz de provê-lo. Nicolae aceitava sua falha, mas ela não podia. E em seu interior chorava por ele. Pelos dois.

 

No momento em que Destiny entrou no escritório de Mary annn, sentiu as trêmulas vibrações de maldade no ar. Horrorizada, colocou a mão na garganta, sua mente correndo a toda pressa. Ainda em pé na porta, Destiny esquadrinhou cada uma das três pequenas salas que constituíam o escritório de Mary Ann.

Mary Ann estava tranqüilamente sentadae com seu costumado sorriso sereno de saudação, quando Destiny entrou.

- Esperava que viesse esta noite. - Disse Mary Ann. Seus olhos escuros se mostravam suaves e acolhedores. - Entre, Destiny. – Ela assinalou uma cadeira grande e confortável. – Sente-se e converse comigo.

O coração de Destiny estava batendo forte, enquanto estudava cuidadosamente o escritório, procurando armadilhas ocultas. Ao mesmo tempo, escaneou a mente de Mary Ann, esperando encontrar evidência de que tudo estava bem. Mas, encontrou pontos em branco nas lembranças da mulher. O alarme de Destiny cresceu. Mary Ann parecia à mesma... Doce, amável, compassiva.

- O não-morto encontrou Mary Ann, Nicolae. Esteve aqui, em seu escritório. Por que não o sentiu, através de seu vínculo de sangue?

Havia acusação misturada ao medo, em sua voz. Mais que isso, ela compreendeu que havia uma súplica de ajuda.

- Eu vim porque estou me tornando uma dessas mulheres estúpidas que acreditam não poder calçar os sapatos, sem a ajuda de um homem. - Anunciou Destiny, com desgosto e compreendendo que contava com a ajuda de Nicolae, quando antes nunca teria pensado em confiar em ninguém mais que nela mesma.

O fogo verde que flamejava nos olhos dela, fascinava Mary Ann. Um lento sorriso se estendeu por sua face.

- E eu aqui pensando que ia ter uma noite aborrecida. Sente-se. Nunca teria imaginado que voce se achasse incapaz de calçar os sapatos sem ajuda. Quem é ele? Nicolae? Ele conseguiu despertar seu interesse?

- Não se alegre tanto. - Destiny chegou mais perto e se sentou no canto da mesa, olhando os escuros e expressivos olhos de Mary Ann. Não havia sombras neles, nem lacerações marcavam a pele suave do pescoço.

- Sinto sua presença, embora ele tenha tentado escondê-la. – Ele examinou-a e lhe deu uma ordem. Destiny sentia que Nicolae estava se aproximando.

- Não quer se mostrar feliz, quando me libera de uma noite tediosa presa entre essa papelada? Não se ocupa de muita papelada, não é?

Destiny permitiu que escapasse um pequeno sorriso.

- Bem, não. Felizmente, caçar vampiros não requer isso ainda.

- Sequer uma permissão? Hoje em dia, se pensaria que precisa de uma permissão e uma licença de caça.

A risada de Destiny borbulhou, o humor mantinha o medo à raia. Nicolae estava a caminho e ele possuía mais experiência. Saberia o que fazer para proteger Mary Ann.

- Na verdade, se saísse o assunto é mais provável que os vampiros fossem colocados na lista de espécies em perigo de extinção e que nos proibisse caçá-los. – Assinalou, Destiny.

A porta abriu sem a pretensão de uma chamada e Nicolae entrou pausadamente, parecendo mais belo, que a incomodou uma vez mais.

- Conversando do diabo.

Nicolae se inclinou e a beijou na nuca.

- Ela está absolutamente louca por mim. - Assegurou ele, a Mary Ann.

Destiny elevou os olhos para o teto.

- Definitivamente não está louca por ele. – Negou, ela. - Nem sequer gosto.

Nicolae pressionou seu corpo sugestivamente contra Destiny. Foi o mais breve dos contatos, mas enviou em arrepio por todo seu corpo.

- Mary Ann, não pude me manter afastado. - Disse, voltando-se para a outra mulher. Quando ela se levantou para lhe saudar, ele tomou sua mão, inclinando-se galantemente sobre seus dedos.

- Está vendo, Mary Ann? - As sobrancelhas de Destiny se arquearam. - Está cheio de tolices.

Mary Ann sorriu.

- Não sei, Destiny. Particularmente gosto bastante suas maneiras. – Ela retirou sua mão e olhou para Nicolae. - O que te traz por aqui, além de querer deixar Destiny mais louca que o normal? – Ela ficou quieta, colocando uma mão defensivamente sobre sua garganta. - Algo está errado?

- Não o anime, Mary Ann. Ele é presunçoso além de toda crença. - Destiny mascarou a face, decidida a manter a preocupação longe de sua amiga.

- Estava me perguntando se recebeu algum visitante ultimamente, Mary Ann. - Disse Nicolae, casualmente. - Destiny e eu estamos nos ocupando do assunto de John Paul e Martin.

- Oh! Isso é bom, Nicolae. Estou preocupada com eles. - Mary Ann parecia confusa, esfregando-as têmporas como se de repente estivesse doendo sua cabeça. - Alguém esteve aqui hoje, mais cedo. Pouco antes de Destiny. Um cavalheiro muito agradável. Fez-me várias perguntas e pareceu muito interessado em nosso refúgio.

Destiny trocou um olhar de alarme com Nicolae. – Ela não tem lembranças visuais deste homem. Recorda a conversação, mas não sua aparência. Não parece ter feito pergunta sobre ti ou sobre mim. - Nicolae fez um sinal pouco perceptível com a cabeça, advertindo-a de que permanecesse em silêncio enquanto jogava todo o poder de sua voz e olhar sobre a Mary Ann.

- Conhecia este homem de antes?

- Não acredito, Nicolae. Não me lembro... Não é estranho? Mas tomei notas. Deve estar nas notas. Ele queria algo... - Sua voz desapareceu novamente, deixando-a desconcertada.

- Ela tem os sinais clássicos de cor alterada. Cada vez que tenta visualizá-lo, sente dor. - Nicolae conduziu Mary Ann de volta a sua cadeira, consolando-a com seu toque, passando os dedos pela mesa do escritório, para que ela seguisse o gesto hipnótico.

- O que ele queria? - Nicolae soava casualmente interessado, mas havia uma compulsão oculta nos tons aveludados de sua voz.

Destiny franziu o cenho. – Ela não pode lembrar. Faz-lhe mal pensar nele. Não a compulções assim. - As pontas de seus dedos tamborilavam um ritmo de advertência.

Nicolae se estendeu e gentilmente pousou uma mão sobre a de Destiny, imobilizando seus dedos nervosos. - Sabe que isto é necessário. Protegerei-a da dor, pequena. Já posso imaginar você com nossos filhos. Nunca me atreverei a corrigir seu comportamento.

O coração de Destiny palpitou. Seus olhos se abriram, de surpresa. - Ninguém disse nada de crianças. – Ela sibilou as palavras para ele. – Você nunca disse uma palavra sobre crianças.- Havia pânico em sua voz, em seus olhos.

Mary Ann se recostou para trás em sua cadeira, mas nenhum dos Cárpatos, a olhavam. Seus olhares estavam presos no outro.

- Essa seria a progressão natural, acredito eu. - Nicolae retirou os dedos de Destiny da mesa e lhe colocou sua mão sobre seu coração. - Estou começando a compreender que tem mais medo do que é natural, que do não-morto.

Destiny não atreveu a responder-lhe. Não sabia como responder. Ele estava em sua mente, lendo cada um de seus pensamentos. Sabia que a idéia de um lar, uma lareira e uma família, a aterrorizava. Seus olhos brilharam firmes para ele, desafiando-o a brincar.

Mary Ann o salvou.

- Ele procurava alguém. Uma mulher com um talento especial. Queria que o chamasse se acontecer dela aparecer por aqui. Ele seguiu-a até aqui, até Seatle, mas ela desapareceu. - Mary Ann abriu uma gaveta e tirou um cartão de visita para oferecer ao Nicolae.

Ele se inclinou perto de Destiny para que ela pudesse ler com ele. Assim, ela poderia inalar sua fragrância masculina e sentir o toque de sua pele contra a dela. A língua percorreu o lábio inferior repentinamente seca e a ação imediatamente captou a atenção dele. Destiny baixou o olhar de seus lábios esculpidos até o cartão.

- Centro Morrison para a Investigação Psíquica. - Leu as palavras em voz alta. – O que eles, Nicolae? Mary Ann? – Ela deu a volta ao cartão. - Tem várias direções e em várias cidades, nenhuma aqui em Seatle. Por que seguem uma mulher até um refúgio de mulheres maltratadas? Será que ela foge deles?

- Mary Ann. – Disse, Nicolae. - O cavalheiro te pediu que chamasse este número se a mulher aparecesse por aqui pedindo ajuda?

Mary Ann sorriu com a inocência de uma menina, assentindo com a cabeça.

- Foi estranho. Depois me perguntei por que não tinha pensado em Destiny. Ela encaixa com a descrição, já que tem tanto talento. Mas é estranho que não me viesse à mente.

- O amparo agüentou firme. - Observou Nicolae com um pouco de alívio. Havia uma certa arrogância em seu tom. Destiny o olhou cautelosamente, consciente de que a algum nível, havia muitas coisas que Nicolae era capaz de fazer e ela não. A mão dele deslizou por seu braço, num gesto de camaradagem. - Sou um antigo, meu amor e seu protetor. Há muitas coisas que aprendi ao longo dos séculos.

- Claro que sim.

- Mary Ann, nos conte algo da mulher que este homem está procurando. - Procolocou Nicolae.

Mary Ann franziu o cenho outra vez.

- Deu-me uma foto dela, uma foto impressa de computador. Foi como soube que não era Destiny. – Ela revolveu as gavetas, confusa por não poder lembrar onde colocara a foto. Encontrou-a em sua agenda, apertada entre duas páginas. - Esta é a mulher. Conhecem-na? – Apesar das persuasivas ordens de Nicolae, Mary Ann sustentava a foto quase contra vontade.

A mulher podia estar entre os vinte e a metade dos trinta anos. Tinha uma figura exuberante, cabelos escuros caindo em uma cascata de cachos. Estava olhando para trás, para a câmara com olhar perseguido e ansioso. Destiny sentiu irmandade instantânea com ela. Sabia o que era estar só e ser perseguida. Se a mulher fugia de um noivo violento ou um marido, sabia que tinha problemas muitos maiores com um vampiro rastreando-a.

- Qual é seu talento? - Perguntou Destiny.

- Pode sustentar um objeto e saber quem o tocou e a história associada a ele. Um dom maravilhoso e muito estranho.

- Perguntou-lhe se sabia de qualquer outra pessoa com um dom semelhante. Por que o vampiro está mais interessado no talento, que na mulher que o possui?

Destiny podia sentir a confusão de Nicolae. Os vampiros não atuavam como se esperava, absolutamente.

Mary Ann afastou o cabelo do rosto e sorriu.

- Velda pode ver a aura das pessoas. Sabiam? Não falamos disso, é obvio, porque ninguém nos acreditaria, mas ela sabe de mim e eu dela.

- E o que tem você, Mary Ann? - Perguntou Destiny, com curiosidade. - Com que talento foste dotada?

Ela sorriu inocentemente, sem nada de malícia, ainda completamente sob a compulsão de Nicolae. Não havia forma de ocultar o brilho de seu interior.

- Tenho um pequeno dom, apenas discernível para a maior parte das pessoas, mas útil com as clientes que precisam ajuda. Sei quando uma mulher está dizendo a verdade. Como a pobre Helena. Sei que John Paul a atacou. E sei que ele a ama mais que tudo. Quando as mulheres vêm aqui procurando refúgio, eu as oculto. Mais de uma vez, uma mulher veio por razões equivocadas. Ou pior, houve poucas que aceitaram dinheiro para atuar como espiões, para encontrar outra mulher que já estava em uma casa segura.

- Este cavalheiro que veio vê-la, Mary Ann... Quais foram suas instruções específicas? - Perguntou Nicolae, tranqüilamente.

De novo ela franziu o cenho ligeiramente e esfregou a testa.

- Que eu o chame no momento ela aparecer aqui. Um pedido razoável. Quer ajudá-la. O centro de investigação tem dinheiro e conselheiros e estão mais que dispostos a ocultá-la de qualquer pessoa que deseje lhe fazer mal. Disse que seu talento é de grande valor e o centro fará tudo para ajudá-la. Ele acredita que ela está tentando encontrar uma via clandestina até a Sudamérica.

- Não pode nos contar nada mais. Não posso ver sequer um indício do aspecto deste vampiro.

- Pater? Poderia ser ele? - Destiny baixou o olhar para a foto, para os olhos perseguidos. - O que vamos fazer com respeito a ela?

- Deve ser encontrada e protegida. Não há outra escolha.

Uma terrível sensação pesou sobre o peito de Destiny. Ciúmes. Elevou-se, afiada e inesperada. Lutou para sufocar a estranha emoção, exercendo controle sobre si mesma, assegurando-se de não encontrar o agudo olhar de Nicolae.

- Não posso te deixar, Destiny. Não a deixaria. Vikirnoff deve encontrar e proteger esta mulher. Ela deve ser escoltada até nossa terra natal e colocada sob o amparo de nosso Príncipe. - Nicolae emoldurou a face de Destiny com as mãos e inclinou a cabeça para a dela, beijando-a intensamente.

E saiu, deixando-a para enfrentar Mary Ann, que estava sentada atrás de sua mesa, com uma sobrancelha arqueada e um sorriso afetado em sua face.

- Uau! Voces dois são tão ardentes, que me fritam o cérebro.

- Não os dois, Mary Ann. - Disse Destiny, com desgosto. - Assim é ele. Impossível. – Destinu começou a passear como um tigre enjaulado, rondando pelo escritório de Mry Ann, esquivando cuidadosamente as cômodas cadeiras para os clientes. Movia-se com elegante graça, mais como um animal à espreita que como um ser humano. Deslizando. Seus pés não faziam ruídos, seus movimentos eram um sussurro no ar imóvel do escritório.

Apoiando o queixo nas mãos, com os cotovelos sobre a mesa, Mary Ann a observava solenemente, hipnotizada pela beleza dos movimentos de Destiny.

- Pretende abrir um buraco em meu tapete ou vai dizer o que está errado?

Destiny a olhou, fixamente.

- É ele. Ele é o que está errado. – Ela puxou uma cadeira de respaldo alto fora de seu caminho e fez outro circuito em volta da sala.

Mary Ann assentiu.

- Presumo que por “ele”, você quer dizer Nicolae.

Destiny voltou o rosto para ela, com as mãos apertadas.

- Não se atreva a rir, Mary Ann e não utilize esse tom. Sei o que está pensando. Não preciso de riso, não é divertido.

Mary Ann manteve a face cuidadosamente lisa.

- O que é que te incomoda exatamente em Nicolae, Destiny?

- Tudo! - Destiny sentou e estirou as pernas, ainda olhando fixamente para Mary Ann. – Notou como ele age comigo. Tudo nele me deixa louca.

Houve um pequeno silêncio. Mary Ann pegou uma caneta e começou a rabiscar padrões em sua agenda.

- Poderia ser um pouco mais específica? Possivelmente ajustá-lo para mim?

- De acordo. - Havia um desafio na voz de Destiny. – Olhe para mim. – Ela elevou o queixo, desafiando silenciosamente Mary An.

Se as sobrancelhas de Mary Ann pudessem elevar-se mais, teriam alcançado a linha do cabelo. Sua boca se retorceu e apressadamente ela mordeu a ponta da caneta.

- Oh! Meu Deus.

Destiny entrelaçou os dedos e olhou a Mary Ann, com mordacidade.

- Poderia tentar levá-lo a sério? Supõe-se que é uma profissional, pois bem lá vai. É a forma em que me olhe.

Mary Ann gesticulou com as mãos. Bonitas mãos, notou Destiny. Graciosas, com unhas perfeitas. Os dedos não eram muito longos, mas bem proporcionados, como Mary Ann. Destiny sempre fôra fascinada pelos movimentos de Mary Ann. Por sua bondade inata.

- Por favor,contínue, Destiny. Estou certamente intrigada.

- Ele me olhe como... Explicou Destiny, contra vontade. - Como se eu fosse preciosa. Como se pensasse que sou incrivelmente bela, inteligente e tudo o que sempre quis.

Mary Ann lhe sorriu e inclinou-se mais perto.

- É possível que para Nicolae voce seja formosa e inteligente e tudo o que sempre quis? Por que isso te faz sentir ameaçada?

Um rápido toque de impaciência cruzou a face de Destiny.

- Eu não disse me sinto ameaçada. Eu disse isso? Ele está louco se me desejar. Não sou normal.

Mary Ann se recostou em sua cadeira, seu olhar sobre a face de Destiny.

- Normal? O que é normal, Destiny? Por que deveria ele se conformar com o normal quando poderia ter vocêi? O que é normal para você?

- Você sabe, normal. Não como eu. Não o que eu sou. – Impacientemente, Destiny saltou sobre seus pés e recomeçou seu passeio, com rápidos e intranqüilos movimeintos que revelavam mais que suas frases curtas e secas.

- O que acha que é? - Persistiu Mary Ann.

- Lá vem voce outra vez com isso. Está utilizando sua voz de conselheira comigo. Sabe muito bem o que sou. Converto-me em vapor e vôo com asas e de quatro patas. Isso é normal para você?

Mary Ann sorriu, com um rápido brilho de humor.

- Na realidade, Destiny, soa muito normal quando falamos disso. Ou de Nicolae. Você não é ele como?

- Você eEstá atuando ridiculamente. Eu tento salvar a situação aqui e voces dois, Velda e Inez têm alguma idéia idiota de romance. Realmente pode me imaginar em meio de um romance? - Destiny ondeou as mãos, numa espécie de fúria. - É absolutamente estúpido. Não posso fazer esse tipo de coisas.

- Suponho que é verdade, se você o diz. Que nunca tenha feito esse tipo de coisa, não significa que não possa fazer. Não há razão para não tentar novas experiências. - Mary Ann inclinou o queixo na palma de sua mão e tamborilou com com a caneta sobre a mesa. – Acreditei que fosse aventureira, Destiny. Possivelmente deveria ver Nicolae como uma nova página de sua vida.

Destiny deixou de passear, mantendo-se de costas para Mary Ann.

- Bem, ele não é uma nova página em minha vida. Esteve em minha vida desde que posso me lembrar. – Ela passou a mão através do espesso cabelo, elevando-o de sua nuca.

Mary Ann notou o ligeiro tremor em sua mão e se endireitou.

- Como conheceu Nicolae? – Porque dizia isto? - Algo no passado estava provocando que a perfeitamente controlada Destiny passeasse como um animal enjaulado. Provocava tremor suas mãos e sua alma rechaçasse um maravilhoso companheiro.

Os ombros de Destiny se encurvaram ligeiramente. Um pequeno sinal, mas Mary Ann notou. Observou à mulher mais jovem examinar uma pintura na parede. O silêncio se estendeu entre elas até que Mary Ann teve certeza de que Destiny não responderia.

- ele veio para mim, quando era uma menina. - A voz, normalmente calma era estrangulada, um sussurro sufocado. – Devia ter seis anos. É difícil de recordar. O tempo já não me parece o mesmo. É interminável e se estende para sempre.

- É difícil recordar porque foi um tempo doloroso?

Destiny tocou o quadro, traçando a silhueta da menina.

- Prefiro não me lembrar. Fechei a porta dessa parte de minha vida.

Mary Ann assentiu. Entrelaçou os dedos e avaliou Destiny, sobre suas mãos.

- Essa é uma técnica de autoconservação, com freqüência é empregada por crianças que abusadas e traumatizadas, para sobreviver. Tem compartimentos em suas mentes para manter as coisas à parte e assim poder continuar. - Sua voz não emitia nenhum julgamento. - Associa Nicolae a esse momento de sua vida?

- Nicolae é... - Destiny pensou, procurando a palavra correta. - Mágico. Não real. Um sonho que não é possível que seja real. É como um cavalheiro branco. O herói de um filme de ação, maior que a vida e só um produto da imaginação.

- Destiny. - Mary Ann esperou até que a outra mulher se voltou para fitá-la. - O que aconteceria se Nicolae fosse real e não um sonho?

Destiny elevou uma mão ao nível dos olhos, sustentou-a ali para que Mary Ann a visse. Ambas a observaram tremer incontrolavelmente.

- Ele poderia me tirar isso tudo. Tudo o que sou, tudo o que trabalhei tão duro para obter, para me converter nisso. Poderia me fazer pedaços e me converter em cinzas ao sol.

- Está dizendo que é muito vulnerável a ele,e isso te assusta. Que ele é capaz de te fazer mal se lhe permite entrar.

- Estou dizendo que poderia me destruir. Já fui destruída uma vez e reconstruí-me, de algum modo. - Destiny abaixou a cabeça. Nicolae lhe havia devolvido sua vida, transformara-a e agora estava pedindo que ela mudasse tudo, novamente.

- Acredito que é natural para alguém que entra numa relação, ter medo de que lhe façam mal, não acha, Destiny? Quando nos permitimos amar, sempre somos vulneráveis. Todo mundo é, Destiny. Não faz muito, desconfiava de estabelecer uma simples amizade. – Assinalou, Mary Ann.

- Atraí-o, a um mundo perigoso. - Destiny suspirou e deu outra volta pelo escritório. - Eu poderia lhe destruir.

Aí estava. Jogando limpo. As palavras escaparam antes de poder detê-las. Possivelmente, há tempo queria contar a Mary Ann. Talvez fosse por por isso que fôra atraída a este lugar de paz. Para contar a verdade a alguém a quem importava.

Mary Ann jogou para trás sua cadeira e rodeou a mesa, para apoiar seu quadril nela.

- Sobre isso que quer conversar, não é? Está preocupada com Nicolae.

- Diz que tem um talento. Que pode ler às mulheres. O que vê em mim? - Destiny elevou o queixo, seu olhar firme sobre a de Mary Ann.

- Ver coisas nem sempre é cômodo. Está segura de que quer que lhe diga?

Destiny encolheu os ombros, com estudada despreocupação.

- Poderia ler facilmente sua mente, Mary Ann. Mas te respeito e a menos que seu fosse por seu próprio amparo ou de outros, nunca violaria a confiança entre nós, lendo sua mente sem permissão.

- Sei que está presa de algum modo que não posso entender, a Nicolae. Está além dos limites da terra. E sei que abusaram horrorosamente de você e teme que ficar com ele causará de algum modo sua destruição. Nicolae é um homem forte. Nunca conheci ninguém com seu poder. - Mary Ann inclinou a cabeça de lado, avaliando Destiny cuidadosamente. - Por que está tão segura de que não é o que Nicolae precisa? Eu acredito que é. Acredito que é exatamente o que ele precisa. Sei que você é o que ele deseja.

Destiny descartou com um gesto de mão, o comentário de Mary Ann. Estavam dando voltas em círculo. Já haviam falado a respeito de como Nicolae a olhava, não precisava que Mary Ann o mostrasse. Sabia que ele a desejava, que precisava dela. Também sabia que o preço que podia ser mais do que nenhum dos dois podia permitir. Afastou o cabelo dos olhos.

- Não são pequenos problemas, Mary Ann.

Mary Ann observou como Destiny se deixava cair na cadeira, com suas pernas estendidas diante dela.

- Vou falar claramente, Destiny.

- Por favor, faça isto. - Destiny tinha intenção de conversar com Mary Ann, claramente.

- As mulheres, as quais violaram ou das quais abusaram sexualmente sendo meninas têm problemas com a intimidade. Esses problemas não desaparecem simplesmente. E mesmo quando crêm ter deixado o passado para trás, este volta súbitamente. É uma reação normal Destiny, esperada.

- Esperada. Bem... A química entre Nicolae e eu é bem maior e mais explosina do que tinha pensado. Não fazia idéia de que podia ser tão forte. Também compreendo que não desejo entregar o controle. Sou honesta comigo mesma e com Nicolae, para admitir isso.

Mary Ann pareceu compreender.

- Enquanto entender isso, tudo estará bem. Nicolae parece ser homem para lhe dar o espaço que precisa e quando precisa. Deveria ser capaz de trabalhar nesse aspecto de sua relação.

- Verdade. - Destiny suspirou, pesadamente. - Mas nossa atração vai além do simplesmente físico. Precisamos estar juntos. Precisamos nos unir fisicamente e mentalmente. É parte do que somos. Não posso explicar-lhe de outra forma, que dizendo que é intenso e às vezes incômodo.

- Acha-o, incômodo?

Destiny assentiu, seus pequenos dentes brancos mordendo seu lábio inferior.

- Ele toma tudo de repente. Pareço uma confusão. É tão intenso. Não há outra palavra. Quando estou com ele, sinto-me tão fora de controle. É tão aterrador ser assim. Desejar tanto alguém, que não importa nada mais que estar com ele.

Mary Ann sorriu, maciamente.

- Destiny, você não se conhece, absolutamente. Obviamente importa muito este homem ou não estaria tão preocupada se vai lhe fazer mal de algum modo. Acha que amar ou desejar ele tão intensamente vai fazer lhe mal?

- Meu sangue está poluído. - Destiny resmungou, saltando sobre seus pés, para passear pela sala, outra vez. O movimento lhe permitiu evitar os olhos da Mary Ann.

Houve um pequeno silêncio.

- Importaria-se em explicar?

Destiny gesticulou bastante impotentemente com as mãos.

- O vampiro me converteu. Seu sangue estava corrompido e corrompeu meu sangue. É como uma espécie de enfermidade.

Mary Ann franziu o cenho.

- Sente-se, Destiny. Está me deixando nervosa com seus passeios. Isto é importante e está fora de minha área de conhecimento. O sangue corrompido é perigoso para você?

- Para Nicolae. - Só havia aceitação e a necessidade de entender, na voz de Mary Ann. O terrível nó no estômago de Destiny relaxou. Voltou para a cadeira. - Não sei muito sobre os Cárpatos, mas há uma escuridão nos homens, por isso Nicolae me contou. Essa escuridão é o que lhes permite converter-se em vampiros. Lutam conra ela, é obvio. Nicolae esteve lutando durante muito tempo.

Mary Ann arrastou sua cadeira, para perto de Destiny.

- E seu sangue torna tudo mais difícil? O que está dizendo?

- Não sei o que acontecerá se ele tomar meu sangue. Quando fazemos amor, é difícil, quase impossível não... – Ela pensou, procurando a palavra correta. - ... ser indulgente com esse lado de nosso desejo também. Torna-se erótico. A necessidade de Nicolae é muito forte. Não acredito que haja cura para mim. Se estivermos juntos, não vamos ser capazes de resistir à atração desse lado de nossa fome. – Ela passou a mão no rosto. - Não poderia suportar ser sua destruição, Mary Ann. Queria me afastar dele, mas é muito tarde para isso.

Mary Ann se levantou imediatamente, para envolver Destiny em seus braços.

- Discutiu seus medos com Nicolae?

Destiny tocou a mente de Mary Ann, temendo o que ela devia estar pensando de suas revelações, mas Mary Ann estava centrada como sempre. Aceitava as coisas que Destiny lhe contava com seu usual equilíbrio e estava lutando por entender.

- Falamos disto, mas ele não se preocupa com si mesmo, só pensa em mim. - Isso a fazia rilhar os dentes. O total compromisso dele, para ela. Destiny não se sentia cômoda com a devoção. Ou o amor.

- A gente procura toda vida o que você tem, Destiny. Não tenha medo disso.

Destiny olhou a Mary Ann, com desgosto.

- Voce parece como Pai Mulligan. Fiz-lhe uma pergunta e ele me deu uma espécie de resposta filosófica. Que tipo de conselho é "tenha coragem"? O que significa isso? Coragem para fazer o que? Não se supõe que um sacerdote tenha que dar conselho espiritual? Mary Ann, estou começando a acreditar que vocês inventam isso tudo, você e o Pai Mulligan.

A sobrancelha da Mary Ann se arqueou.

- Supõe que nós temos as respostas? Se você não tiver as respostas... Como vamos tê-las? Só pode seguir, movendo para frente, Destiny. Mantenha os olhos abertos e com sorte erá os obstáculos antes que se encontre com eles. Abraçe a vida e viva o melhor que puder.

- Me diga alguma coisa, Mary Ann. Acha que sua vida mudou, sabendo que há semelhantes criaturas no mundo, como os vampiros?

- É obvio que minha vida mudou. Mas vou viver com medo? Espero que não. Espero enfrentar cada dia com coragem e dignidade. Você o faz. Não me importaria ser como você.

A surpresa dessas palavras era tremenda, sacudindo Destiny do centro de sua existência. Encontrou-se ofegando para Mary Ann, quase se afogando com seu protesto. Mary Ann era tudo o que Destiny sempre quisera ser. - Está louca? Pareço uma confusão.

Mary Ann segurou seu braço.

- Isso é normal, Destiny. Tudo parece uma confusão em nossas cabeças. Bem-vinda ao mundo da realidade humana.

Um débil sorriso iluminou a face de Destiny.

- Bem, suponho que resolvemos os problemas do mundo, mas me sentei em uma cadeira e falei pela primeira vez em anos, sem me sentir como se não pudesse respirar. - No momento em que pronunciou as palavras, seu sorriso diminuiu. - Foi você, Nicolae. Está me ajudando a ser capaz de estar dentro deste edifício, conversando com ela, não é? Nunca fui capaz de fazer isto.

Ela sentiu uma impressão de calma rodeando-a como braços. Destiny saltou da cadeira, como se esta fosse uma víbora ameaçando mordê-la. Seus olhos se escureceram.

- Este homem é um verdadeiro...! Por que pensaria que poderia querer uma relação com ele? - Sua mão voou defensivamente para a garganta. Podia sentir os lábios dele roçando sobre sua pulsação. No ato, sua pele arrepiou e seu corpo esquentou. - Não está me ajudando com seu absurdo cortejo. Não sou um bebê para que me ajudem, sem meu consentimento ou conhecimento. Não quero sua ajuda, não a necessito!

- Só está zangada porque não sentiu meu toque. - Havia uma arrogante diversão masculina em seu tom. – Destiny, aqui está acontecendo alguma coisa que não entendemos. Devemos estar vigilantes.

Destiny soprou.

- Nicolae é o homem mais irritante sobre a face da terra. Por que iria querer um presumido, arrogante e doloroso pé no traseiro como ele, em minha vida? Responda-me a isso, Mary Ann! - Eu sempre estou vigilante!.

- Sexo. - Respondeu Mary Ann, sucintamente. - É sexo, Destiny. Ele goteja sexo. Presumo que seja telepático.

- É irritante, isso é o que ele é. - Não há nada sexual em você. Sei que é todo arrogante, mas não acredito que seja o mínimo sexy.

- Não sabia que fosse tão mentirosa, Destiny. Você me acha sexy.

- Acredito que é sexy. - Admitiu ela, abrindo a porta do escritório de Mary Ann. - Mas eu não gosto.

- Destiny. - Disse Mary Ann tranqüilamente, detendo sua fuga. - Todo mundo precisa de alguma coisa, às vezes.

Destiny voltou às costas a Mary Ann, para Nicolae e a toda relação. Não queria ajuda, decidiu enquanto fugia do escritório. Ocuparia-se das coisas a seu modo. E de todas essas perguntas fastidiosas que surgiam. Mantinha-as a raia, não desejando enfrentá-las, mas aí estavam e não podia ignorá-las para sempre. Por que podia ele encontrá-la a vontade quando nunca havia tomado seu sangue? E como era capaz de estar em sua mente, ajudando-a ativamente, embora ela não sentisse sua onda de poder? Nem empurrão? Por que era ela incapaz ou não tinha vontade para lutar contra a compulsão de lhe obedecer, nem quando sabia que era uma compulsão?

Seria ele tão poderoso? Havia acusação e admiração em sua mente. Fechou-a de repente a ele e tomou os céus. Era o único lugar no qual se sentia absolutamente livre. Sobrevoou as nuvens, celebrando sua habilidade em poder fazer o que gostava. Não queria saber o quanto Nicolae era poderoso. Não queria pensar muito no que tinha que fazer com ele.

Nicolae não a tinha pressionado. Nem sequer podia lhe culpar. Ela tinha insistido em que ele pronunciasse as palavras. Ele nunca faria amor se ela não tivesse insistido também. O vento a golpeou, esfriando sua pele e aliviando o caos de sua mente. Nicolae. Seu lugar era com ela e não tinha nem idéia do que fazer com ele.

Era tão fácil para o sacerdote lhe dizer que tivesse coragem. Ele não tinha imagens de pesadelo passeando por sua mente a cada minuto que passava acordado. Não tinha cicatrizes em seu corpo e em sua alma. Não tinha veneno em seu sangue que podia corromper e retorcer todo o bom, em mau.

- Estou tão perdida. - Murmurou as palavras em voz alta, ouvindo como o vento carregava-as para longe dela, desejando que pudesse levar sua dor, igualmente.

- Eu posso acabar com sua dor.

E ele estava ali, novamente. Como se ela o tivesse convocado. Estava sempre com ela quando seu mundo estava em efervescência. O vento arrancava lágrimas de seus olhos enquanto atravessava o céu. E o que devo fazer eu em troca? Havia desespero em seu coração quando desejava lhe mostrar alegria. Desejava ser diferente. Desejava poder ir para ele limpa, sem enfermidade, sem cicatrizes. Sem o terrível peso e pecado do que era. Sem o que não podia mudar. Odiava sentir lástima por si mesma e não queria sua piedade.

Isso não era suficiente e ambos sabiam. Seu pranto de pesar ressonou através dos céus.

 

Render-se a seu cuidado. Palavras tão simples. Ele as pronuciava com calma, com convicção. Destiny percorreu os céus sem ter nem idéia de onde ia, só sentia a necessidade de voar rápido e para longe.

Nunca quis isto. Detestava choramingar. Detestava sentir lástima por si mesma. Realmente detestava ter medo. Não temea suas batalhas com o não-morto. Se tivesse morrido, teria terminado o sofrimento, os agonizantes problemas que causava seu sangue poluído. Se ela fosse a vencedora, o mundo estaria livre de outro monstro. O único que conseguira encontrar o caminho até sua alma era Nicolae. Desejo-o com todo meu coração. Com cada fôlego de meu corpo.

Ele era implacável em sua perseguição. Entendeu, de repente. Sempre a caçara, não pelas razões que tinha pensado, mas para satisfazer uma terrível necessidade e fome, o mesmo desejo que ela sentia agora. Um vício que nunca terminaria. Não podia encontrar a força que precisava para liberá-los deste perigoso laço.

- Onde está, Deus? - Gritou as palavras entre as nuvens, como tinha feito tantas vezes antes.

O vento lhe trouxe de volta, a resposta. Acariciou sua pele com um toque amoroso e afetuoso. O vento a rodeou, envolvendo-a com a beleza do céu noturno. As nuvens se moveram para permiti-la passar através delas, deixando um rastro de fina névoa a seu passo, polvilhando sua pele com vapor fresco como se fossem rastros de lágrimas. Era impossível vê-los.

- Volte para mim, Destiny. - A voz dele oferecia conforto. Oferecia o paraíso. Oferecia tudo.

- Por que me deseja? Porque sou a luz que arde tão brilhantemente, que o impedirá de se converter? É isso tudo o que há entre nós? Isso e química? Não o conheço, não é?

O vento lhe murmurou, um suave e consolador arrulho. Podia sentir a selvageria apaziguando-se em seu interior, para permitir que seu coração e pulmões trabalhassem sem esforço. Um pequeno som, débil e longínquo captou sua atenção. Sem pensamento consciente, mudou de direção, virando de volta à cidade.

- Só tem que tocar minha mente, Destiny, para encontrar as coisas que deseja saber. Para amar realmente, tem que escolher a intimidade. Tem que escolher conhecer seu companheiro. Você não tem feito essa escolha.

- Me intimei contigo! - Estava furiosa porque ele a acusasse de se conter. Tinha sido difícil se comprometer fisicamente com ele. Como ele se atrevia a pensar uma coisa semelhante!

- A intimidade é muito mais que algo físico, pequena.

As luzes da cidade brilhavam intermitentemente como milhares de estrelas, atraindo a de volta para a humanidade. De volta ao Nicolae. Sabia que ele esperava. Que a observava. Quão poderoso era? Havia de algum modo dirigido seus sentimentos para ele? Amplificava-os de alguma forma que não podia detectar? Estava preparada para seu poder? Sabia a resposta. Estava totalmente cativada por ele. Total e completamente.

Destiny brilhou até sua forma humana, aterrissando facilmente. Já estava em movimento, escaneando, apressando-se a sair do beco afastado, para a rua. Em algum lugar próximo estava a suave e discordante nota que tinha perturbado seu vôo. O pranto apagado de uma criança, que mexia com as fibras de seu coração. Apressou-se, com suas pegadas silenciosas e sua postura completamente confiaante.

Havia pouca gente na rua, pois era tarde na noite. Esquadrinhou a região, enquanto caminhava, comprovando vários apartamentos em busca da localização da criança. A maioria dos edifícios estavam escuros e silenciosos. Podia ouvir televisões em alguns poucos apartamentos e música soando em outros. A criança estava irradiando definidas ondas de dor. Infalivelmente, Destiny girou até o outro lado da rua onde os edifícios de apartamentos acabavam e davam passo a pequenas casas, colocadas umas junto a outras. Cercas separavam poucas das propriedades distanciadas e pequenas moradas individuais construídas apertadamente. A pintura estava descascada das desgastadas paredes. Portas curvadas e as grades gretadas, caindo de suas dobradiças.

Destiny saltou a cerca facilmente, rodeando para a parte de trás de uma das casas. Caixas de papelão e hornais estavam empilhados, montanhas deles, ocupando quase todo o espaço do diminuto pátio traseiro. Deveria ir embora, deixar a cidade e se afastar o tanto que pudesse, de Nicolae. Mas sua mente já estava se voltando para ele. Precisando estar imersa na dele.

Eram realmente as palavras rituais, que os uniam ou a necessidade dele tinha começado há muito tempo? Estendeu-se buscando-o em cada sublevação. Sua calma e sua presença no mundo eram sua prudência. Durante anos utilizara, lhe obrigando a compartilhar sua dor, sua alma danificada. Sentenciara-o a viver entre as sombras, sempre a procurando. Havia lhe castigado com seu silêncio, enquanto compartilhava com ele cada aspecto das torturas e o abuso do vampiro.

- Eu estava nas sombras, Destiny. Você me puxou para a luz.

Sua voz. Sua formosa voz podia levá-la a um mundo de sonho. Podia tecer contos de fadas e lhe dar esperanças.

Podia absolver toda sua culpa. Seus olhos baixaram, enquanto fazia uma pausa junto a uma escada traseira. Sempre havia tanta culpa. Algum dia teria paz?

O som do pranto desconsolado a arrancou de seu próprio desespero. Uma criança nunca deveria experimentar uma emoção tão dilaceradora. Destiny podia sentir as vibrações de violência, a seqüela que permanecia no ar. E cheirava sangue. Abaixou-se para esquadrinhar sob as escadas instáveis. A criança não podia ter mais que nove ou dez anos. Estava magro e sua roupa era folgada e suas mãos ossudas e tornozelos estavam à vista. Não estava de meias e dava para ver os buracos nos sapatos. As lágrimas deixavam sulcos de sujeira em sua face. Ele esfregava o rosto continuamente, mas não podia conter os soluços que sacudiam seu corpo miúdo. Havia manchas de sangue fresca em sua roupa, mas não podia ver ferimentos.

- Olá. - Disse ela, utilizando sua voz mais amável, temendo sobressaltá-lo. Aprendera a usar esses tons suaves, com Nicolae. Sempre voltava para Nicolae. - Há lugar aí embaixo para mim? - Havia compulsão em sua voz, um pequeno "empurrão" para que fosse mais fácil para menino, aceitar sua presença.

Ele lhe pareceu assustado e seus olhos se abriram enormemente, tomados pela surpresa, mas obedientemente se moveu para lhe dar espaço sob as escadas. Destiny se sentou, usando seu o calor de seu corpo para aquecer o menino.

- Uma má noite?

O menino assentiu silenciosamente. Destiny podia ver as cicatrizes dos dorsos de suas mãos e braços. Cicatrizes defensivas. Reconheceu-as pelo que eram.

- Meu nome é Destiny. E o seu? – Ela estendeu os braços, com as mãos para baixo, para que ele pudesse ver os cortes que marcavam seus braços. Os mesmos ferimentos defensivos. - Fazemos um bom par.

Ele se inclinou na escuridão para examinar suas cicatrizes.

- Você tem mais.

- Mas empalideceram. – Assinalou ela. - E já não me fazem mal. Ao menos não por fora. E as tuas?

- As minhas tampouco doem. - Seu olhar se fixou no dela. - Bom, possivelmente um pouco por fora. Eu sou Sam.

- Um montão por dentro, não é Sam? - Roçou o polegar sobre a pior das cicatrizes, deixando nela um bálsamo consolador. - Me conte. Isto não aconteceu esta noite. Diga-me o que aconteceu.

Ele sacudiu a cabeça, o código da rua lhe manteve em silencio durante um momento, mas era impossível resistir à atração de sua voz. Seu lábio inferior tremeu, mas ele quadrou seus magros ombros.

- Não lavei os pratos. Sabia que ele ficaria louco com ela se não lavasse os pratos, mas Tommy queria que eu fosse jogar basquete. Todos as crianças jogavam e pensei que só um jogo durante alguns minutos... - Seus olhos estavam cobertos de lágrimas e o peso em seu peito era como uma pedra no dela.

Destiny já sabia. O horror se filtrava através da pranchas do assoalho de madeira e se estendia pelo ar, sob as escadas. - Nicolae. - Estendeu-se à volta dele, como sempre fazia. Como fizera durante anos. E ele estava ali. Em sua mente, como sempre havia estado. Rodeando a de conforto, de coragem. Sujeitando-a em seus fortes braços e lhe dando um refúgio, um escudo quando a dor do mundo era muita, para suportá-la sozinha.

- Levarei-o ao Pai Mulligan, mas a polícia terá que ir a este lugar de morte. - Sabia que Nicolae ouviria a dor em sua voz. Sentiria-a em seu coração. E a compartilharia com ela e suportaria parte de sua carga.

- Foi minha culpa. - Os magros ombros sacudiram e o menino cobriu o rostinho com as mãos. - Ela chegou em casa do trabalho e estava cansada. Ouvi-a me chamar para que me apressasse, mas eeu stava do outro lado do bloco e era muito tarde. Vi ele entrar. Sabia o que ia fazer a ela. Sempre está muito zangado. Queria dinheiro para suas drogas e o pegou de sua bolsa. Ela estava chorando porque ia precisar para nossa comida. Então foi quando ele viu os pratos.

- Sam, não precisa estar neste lugar. Vou levar para meu amigo. - Disse Destiny, gentilmente.

Sam sacudiu a cabeça.

- Não posso deixá-la. Ele sempre fica como louco com os pratos. Ele bateu nela e continuou atirando os pratos no chão. Ela tentou fazer ele parar, mas ele me puxou e lhe atirou o bule. Ela disse que não me tocasse ou chamaria à polícia. Foi então quando pegou a faca.

Destiny atraiu a criança para ela, embalando-o gentilmente, lhe permitindo conversar.

- Se tivesse lavado os pratos e a faca não estivesse na pia. Estaria na gaveta. Ele não tinha visto. Deveria ter lavado os pratos em vez de jogar basquete.

- Não foi tua culpa, Sam. Ele está doente e é o responsável por fazer mal a sua mãe e você. Nunca você. Todos nós adiamos as tarefas. Todo mundo faz isso. Isso não é desculpa para que um ser humano mate outro. Ele matou, não você. Sua mãe nunca gostaria que pensasse isso. Venha comigo. Deixe-me te levar ao Pai Mulligan. Ele se assegurará de que ficará bem. A polícia virá e se ocuparão de sua mãe.

- Vão me prender. Ele disse que a polícia me pegaroa porque não tenho ninguém mais.

- Pai Mulligan não permitirá que te aconteça nada de mau. E a polícia não prende crianças que perderam seus pais, Sam. Ajudam-os. Encontram-lhes uma casa com pessoas que se ocupam deles. Venha comigo agora. - Queria lhe afastar da casa, longe do homem que podia voltar a qualquer momento. Sam não precisava ver mais violência. Não precisava sentir-se responsável pelas coisas que os adultos faziam uns aos outros.

Atraiu ao menino fora da escada e o urgiu a afastar-se rapidamente da casa. Sentiu os primeiros golpes de apreensão quando se apressavam pelo estreito caminho na lateral da casa. O menino parou bruscamente quando ganharam o pátio dianteiro. Destiny sentiu o tremor que percorreu seu pequeno corpo e voltou a cabeça para ver um homem sentado contra uma coluna do alpendre dianteiro.

Seus dedos se fecharam sobre o ombro do menino e ela levou uma mão aos lábios, para indicar a necessidade de silêncio. Não foi difícil tomar o controle da mente do menino, defendendo-o de mais temor. O homem estava obviamente em transe, à cabeça pendia para trás e a boca totalmente aberta. Estava com os braços e as roupas salpicadas de sangue.

Escapou-lhe um gemido de raiva, enquanto observava silenciosamente o homem. Seus dedos se fecharam e depois voltaram a se abrir. Estava tão concentrada no assassino que falhou ao notar a névoa que se estendia pelo pátio ou em sentir a onda de poder, quando Nicolae brilhou a uma forma sólida.

- Pegue a criança e saia deste lugar, Destiny. - Disse Nicolae, sobriamente. Sua mão acariciou a parte de atrás da cabeça dela, com o mais breve dos toques, mas lhe proporcionou um conforto que não esperava.

Destiny pegou o menino aproximando-o dela.

- Isto nunca deveria ter acontecido. Uma criança nunca deveria ter que viver isto, Nicolae. Ele acredita que é culpado.

Os olhos enormes estavam lhe suplicando que fizesse alguma coisa. Confiavam em que ele faria. Seu coração contraiu no peito. Nicolae quis atraí-la para seus braços, para lembrá-la de que quando era uma menina, ela se acreditava culpada de coisas sobre as quais não tinha controle, mas sabia que ela havia chegado a essa conclusão, por si mesma. A compreensão tinha que ser mais que intelectual, tinha que estar em seu coração, em sua alma, onde estavam as cicatrizes.

- Leve-o daqui. Pai Mulligan está esperando e a polícia está a caminho. Não me encontrarão neste lugar. - Sua voz era muito gentil.

Destiny encontrou seu olhar. Algo da tensão se aliviou nela.

- Obrigado, Nicolae. Alegro-me de que esteja aqui. – Ela estendeu-se e lhe tocou o braço.

Um simples toque, mas seu coração estava cheio de alegria quando se voltou para se afastar. Não podia evitar a forma em que se sentia cada vez que ela o olhava. Havia orgulho, confiança, química e uma curiosa sensação em seu íntimo. Uma parte dela podia lutar sempre para evitar admitir o quanto estava entrelaçada em volta de seu coração, mas podia admitir a si mesmo, que era uma grande parte do que era bom em sua vida.

Destiny elevou o menino em braços. O menino lhe rodeou o pescoço confidencialmente, apoiando-se nela em busca de refúgio. O gesto infantil de confiança, a desarmou. Apertou os braços protetoramente e tomou os céus. Desejava dar a este menino algo para rebater a terrível lembrança da morte de sua mãe. Colocando-lhe em um estado de sonolência, voou através do céu, vagando através das nuvens e permitindo que a alegria de voar enchesse a mente e o coração da criança, que sempre levaria com ele o sonho, sempre teria a sensação de voar livre pelo céu noturno.

Destiny tinha pouco a lhe dar e isso a incomodava. Desejava ser capaz de lhe liberar do peso da culpa. Fazer-lhe entender de alguma forma que era uma vítima, um sobrevivente, que sua vida podia ser reconstruída. Quando o levou para a pequena cúpula da igreja, perguntou-se como havia chegado sua vida a este ponto. Não fazia muito, vivia uma existência solitária, mas agora sua vida estava entrelaçada com a de tantas pessoas.

Pai Mulligan estava esperando-a em seu jardim. Sorriu, numa amável saudação, quando Destiny liberou o menino do escudo. Havia uma qualidade consoladora no sacerdote que mesmo o menino perturbado, não deixou de notar.

- Este é Sam. Sam, este é meu amigo, Pai Mulligan. – ela abaixou-se ao nível do menino, que estava com os dedos afundados no braço de Destiny, aferrando-se a ela, em busca de amparo.

O menino deixou escapar um som estrangulado quando o sacerdote voltou sua atenção para ele. Ele aproximou-se mais de Destiny.

- Nicolae o explicou? - Perguntou ao Pai Mulligan.

O sacerdote assentiu.

- Sam, voce estará seguro aqui. Um amigo de Destiny está conversando com o assistente social, que concordou em deixar que ele fique na reitoria comigo e os outros sacerdotes durante um tempo. Há aqui um sacerdote com o qual ele achará fácil conversar. Ele está te esperando agora. Também há dois oficiais de polícia que precisam conversar com você, sobre o que aconteceu. Só conte a verdade a eles. Ficarei contigo se quiser enquanto fala com eles.

Sam assentiu, mas seu olhar era suplicante quando olhou Destiny. Ela sorriu, animando-o.

- O Pai Mulligan é sacerdote, Sam. Não mente e o respeitam muito. Ele se assegurará de que esteja bem.

- E se Jerome me encontrar? - Perguntou Sam, ansiosamente.

- Jerome é seu pai? – Interrogou, Pai Mulligan.

Sam sacudiu a cabeça negativamente.

- Ela mora conosco faz alguns anos. Não tenho pai. Só somos eu e mamãe.

Destiny se sentiu sacudida. Ela tivera mãe e pai. Lembrava-se do rosto de sua mãe. Seu sorriso, seu cheiro. Lembra-se de seu pai lançando-a no ar fazendo-a gritar, depois sorrir e lhe suplicar por mais. A lembrança era vívida e destroçava os fechamentos cuidadosamente construídos nas portas de sua mente.

- Por que acontece isto? Deixei para trás tudo isto. – Ela voltou-se para Nicolae, a única pessoa em que acreditava.

- Como poderia não se identificar com este menino? Você tinha uma vida decente com sua mãe até que um monstro os encontrou. Pouco importa que esse monstro fosse humano. O monstro os encontrou e o menino não pôde fazer nada para mudar o que veio. Ele culpa-se a si mesmo por algo sobre o qual não tinha controle. Você se vê nele.

A completa calma de Nicolae, a reafirmou. Havia muita verdade nas observações de Nicolae.

- Estará bem, Sam. O Pai Mulligan se ocupará de você e eu voltarei com freqüência para ver como está. Por favor, fale com o sacerdote que o Pai Mulligan tem esperando por você e conte à polícia exatamente o que aconteceu. - Não pôde evitar de lhe dar outro pequeno estímulo, para lhe ajudar a aceitar a ajuda do sacerdote.

Sam elevou o queixo, corajosamente. Destiny acariciou seu cabelo.

- Voltarei, Sam, prometo. Esta noite, há algumas coisas que devo fazer. Quero que durma logo depois de conversar com a polícia. - Queria voltar ao tempo, para salvar Sam de anos de lutar por sua vida e prudência, num um mundo que um monstro havia tornado do avesso. - Voltarei. - Sussurrou novamente.

- Ocuparei-me dele. - Tranqüilizou-a, Pai Mulligan. - Não há necessidade de se preocupar, querida.

Destiny assentiu, mordendo o lábio enquanto se voltava. Podia sentir Sam observando-a enquanto se afastava, então sorriu sobre o ombro e elevou a mão. Sentiu sua mente voltar-se para Nicolae, como parecia fazer cada poucos minutos. Precisava saber que ele estava vivo e bem, por mais que a incomodasse. Ela que valorizava altamente sua independência. Não lhe assentava bem, ter que buscá-lo, continuamente.

Escolheu caminhar rua abaixo, precisando da normalidade da vida humana. O tempo que demoraria caminhando, a ajudaria a reagrupar seus pensamentos. Havia prometido a Velda, Inez e Helena que ajudaria John Paul. Precisava investigar mais. Era difícil obrigar seus pensamentos a se afastarem do Sam. Não tinha pensado realmente, que havia monstros humanos no mundo. Concentrou-se tão completamente nos vampiros, que não tinha deixado pensamento algum a outra classe de ameaças.

Profundamente imersa em seu pensamento, não que registrou a mudança de direção do vento, que soprava afastando-se dela, levantando pó na rua. Uma luz piscou, chispando e apagando-se bruscamente em meio a uma chuva de faíscas. Elevou a cabeça alerta, olhando a seu redor cautelosamente. John Paul estava entrando no bar La Taverna, com a cabeça baixa e os pés arrastando-se pela calçada. A postura de seu corpo traía seu desalento. Mais abaixo na rua, uma segunda luz foi destroçada por uma pedra, chovendo cacos sobre o chão.

John Paul pensou quando empurrava a porta do bar, levantando a vista até a luz com uma careta. Olhou rua abaixo para a outra luz destroçada na esquina, perto de Destiny. John Paul deixou que a porta se fechasse enquanto arrastava os pés pela rua, para Destiny. Estava olhando não para ela, mas para os cacos de vidro. Parecia atraído pelas partes do grande abajur.

Destiny o observou, a forma em que ele parecia atraído pelos brilhantes pedaços de vidro. Sua expressão estava em branco, seus olhos ligeiramente brilhantes. Ele ficou em pé sobre os cacos, com os ombros tremendo, seu peito pesado com falta de ar, como havia estado correndo. Suas mãos se abriam e fechavam, seguidamente.

Ela registrou os céus, que estavam escurecidos e fiapos cinzas giravam grosseiramente para engrandar nas ameaçadoras nuvens. Pequenos redemoinhos de pó davam voltas pela rua, quando os carros passavam a toda velocidade. Um banco de névoa começou a cair sobre a rua, acumulando-se a seus pés. Os primeiros sinais, só rastros de vapor que se espessaram rapidamente.

John Paul continuava olhando fixamente os cacos de vidro, enquanto estudava os afiadas partes esparramadas pela calçada, como se fosse uma fascinação. Destiny chegou mais perto, escaneando enquanto mantinha um olho cauteloso no enorme homem. Algo não estava bem, mas não podia detectar nenhuma onda de poder. A tespestade havia chegado um muito rápido, para ser legitimamente a causa do clima Não havia movimento nas nuvens vertiginosas e obscurecidas. A manta de estrelas desaparecera. As nuvens negras cruzaram diante da lua, até ocultá-la completamente, num xale negro de renda, envolvendo o círculo com uma magra orla escura.

- John Paul. - Disse Destiny, brandamente. Não o queria exposto na rua. Ele era um objetivo muito grande.

John Paul se voltou, silenciosa e mortalmente. Impossivelmente rápido para um homem de seu tamanho. Seu total assombro a manteve imóvel durante os poucos segundos que ele levou atacá-la. Destiny sentiu o golpe, como o de um rinoceronte, com uma força descomunal, lançando-a ao chão. Quando golpeou a calçada, o ar abandonou seus pulmões. Uma parte dela quis sorrir quando o corpo dele aterrissou sobre o dela, esmagando-a contra a calçada.

Destiny lutava com vampiros, criaturas de imenso poder e força. Era ridículo pensar que um humano conseguira golpeá-la. A névoa se enredava pesadamente em volta dos dois, como se súbitamente tivesse tomado vida. O vapor fluía sobre e em volta deles, como trepadeiras selvagens.

John Paul estava sentado sobre seu estômago, às mãos gigantescas em volta da sua garganta, a cara uma sombria máscara quando começou a apertar. Os dedos se afundaram em sua traquéia, lhe cortando o ar, lhe esmagando a garganta.

Destiny o golpeou com força, com as mãos abertas, apontando cuidadosamente o alto de seus ombros, para evitar que ele se ferisse quando sua força o enviasse voando para trás.

- Jesus! O homem pesa uma tonelada. – Ela saltou sobre os pés, aterrissando ligeiramente, com as mãos para cima, os olhos brilhando com advertência. – Para trás, John Paul. Sabe o que está fazendo?

John Paul havia aterrissado sobre o traseiro. Estava sentado na calçada, aturdido e sacudia a cabeça para esclarecê-la. Destiny lhe estudou cuidadosamente, consciente de que ele não estava em seu são julgamento. Só podia ler a necessidade de violência nele, violência dirigida para ela. Não estava segura de ter sido o objetivo original, mas ele parecia uma marionete levando a cabo, à vontade de alguem. Não havia pontos brancos em sua mente que indicasse um vampiro, mas não acreditava que John Paul fosse consciente do que estava fazendo.

Um fio de névoa se enredou em volta de seu pescoço e seus tornozelos, mordendo profundamente como diminutos dentes. Sentiu uma dor feroz atravessando inesperadamente sua perna. Baixou o olhar e viu diminutas gotas de sangue. O ar abandonou seus pulmões em um golpe de surpresa, enquanto tentava dissolver-se em névoa, mas o vapor a reteve. Estava encerrada entre os misteriosos círculos tão certamente como se fossem cadeias.

Seu coração irrompeu num ritmo palpitante, mas bloqueou a dor e o medo, concentrando-se em seu tornozelo onde o vapor estava se solidificando em diminutos arames de ferpas aguçadas, afundando-se mais em sua carne. Seu tornozelo e pé afinaram, para que as algemas escorregassem.

Levantou o olhar jusnto quando John Paul atacou-a novamente, atirando-a ao chão com a força de um tornado. Destiny não lhe dedicou outro pensamento, da irritação. Podia dirigir John Paul, mas seu inimigo invisível era outra questão. A névoa estava viva e eram pequenos criaturas que se precipitavam para ela, vivas, com dentes e esperneando de ódio. De novo tentou se dissolver, mas o feitiço que a mantinha presa, não se rompia.

Os vermes ignoraram John Paul, precipitando-se para ela, com voraz apetite por seu sangue. Como se seu sangue os atraísse para ela. A resposta a golpeou com força. Seu sangue poluído uma vez mais a traíra. Pior ainda, recordava às microscópicas criaturas que ocasionalmente vislumbrava em seu próprio sangue. Deixavam-na doente. Vaiou seu desafio a seus inimigos, elevando precipitadamente uma barreira entre seu corpo e os retorcidos vermes. Alguns tinham conseguido atravessá-la já, mordendo seus braços e pernas, viciosamente.

John Paul balançou seu punho como um martelo para sua face, mas antes de poder acertá-la, atiraram-no para trás, com seu enorme corpo arrojado através do ar como se não pesasse mais que um menino. Os sombrios traços de Nicolae a olharam fixamente.

- Parece como se precisa de um pouco de ajuda. – Ele a colocou em pé, ignorando os vermes que deslizavam em volta dela.

- Não se envenene, tolo. - Gritou ela, arrancando uma das criaturas de seu corpo. Chutou outra quando tentava engatinhar por sua perna. - Sou perfeitamente capaz de me ocupar destas coisas.

- Hum... Posso notar. - Disse ele, enquanto elevava a mão para o céu. Em seguida, às escuras nuvens se agruparam no alto, iluminadas por nervuras de ardentes relâmpagos. - Um pouco movimentada esta noite, não?

- Pois eu gostaria de ver você com estas coisas afundando seus dentes em tua carne. - A verdade era que as feias criaturas lhe revolviam o estômago. Estremecendo, ela arrancou mais duas, afastando-as. A névoa estava flutuando em volta da barreira que ela havia erguido, os vermes irrompiam em frenesi, enquanto tentavam chegar até ela. - Estão irritados. - Os vermes saíam da névoa, contorcendo-se ferozmente, estrelando-se contra a parede invisível, rasgando-a com seus dentes.

- Mulheres. - Nicolae elevou casualmente os braços para dirigir os látegos de relâmpago para a névoa. Cinzas negras explodiram do vapor e um pestilento mau cheiro permeou o ar. Destiny tapou o nariz contra o mau cheiro.

Nicolae não que podia olhar para ela, que estava furiosa... Justificadamente, após um ataque semelhante. Não o havia chamado. O coração de Nicolae ainda tentava recuperá-la. A visão dela, coberta de diminutos pontos de sangue, adoecia-o. Podia sentir o demônio nele rugindo pedindo liberação, lutando pela supremacia, precisando protegê-la, precisando destruir algo que colocava em perigo sua segurança. Manteve a face cuidadosamente voltada para longe dela, sabendo que seus olhos trairiam sua luta interna.

Ela era sua companheira e mais que tudo, sua saúde, felicidade e amparo, importavam. Embora sua felicidade e amparo, pareciam ser dramaticamente opostos um do outro.

Destiny esquadrinhou a zona, procurando seu inimigo.

- Covarde. – Espetou ela, ao vento. - Uma mulher te derrota e voce se esconde. Não há grandeza em você. Vá embora. Não vale a pena o tempo de te caçar. – Destiny ondeou a mão, num gesto de desgosto, de descrédito e de puro desprezo. Enviou o vento sobre a cidade, a cada oco e cada cemitério, em cada lugar que o não-morto pudesse escolher chamar sua guarida.

Nicolae reagiu imediatamente, imobilizando o vento, acalmando a névoa. Seu brilhante olhar capturando o dela, permitindo-a ver as ferozes chamas que ardiam neles. A profundidade de seu desagrado.

- Chega! Não desafiará este vampiro. Não o fará, Destiny.

O queixo dela se elevou.

- Sou uma caçadora. Isso é o que faço. Encontro-os de qualquer forma que posso, e os destruo. Você me ensinou isso, Nicolae.

Ela sangrava por incontáveis ferimentos, diminutas navalhadas de dentes afiados. Havia linhas de cansaço em volta de sua boca. Seus olhos eram mais cautelosos, que furiosos. Inclinou a cabeça para um lado ,de forma que sua longa cabeleira caísse sobre um ombro, enquanto estudava o teimoso queixo dele.

Nicolae parecia intimidante e cruel. E tinha razão ao pensar que era muito mais poderoso do que havia mostrado. Um tremor começou em alguma parte em seu interior e sua boca secou. Temeu-lhe mais que ao vampiro que perseguia. Nicolae podia feri-la facilmente. Destrui-la com uma palavra equivocada.

- Não! - Falou ele severamente, sua voz infalivelmente terna era agora, completamente diferente. - Não ouvirei suas magras desculpas. É descuidada com o perigo. Se caça o não-morto, não deve fazê-lo com a metade de sua atenção. Não te ensinei a ser descuidada ou distraída. E não te ensinei a ser estúpida. Tem habilidades e um cérebro. Contava com que utilizasse ambos.

Os dedos dela se fecharam ante a reprimenda. A cor manchou sua face.

- Teria conseguido sair dessa. Não pedi sua ajuda e não a precisava.

- Parece uma menina desafiante, Destiny, mas é uma mulher adulta, uma caçadora hábil. – Ele afastou-se dela, caminhando rapidamente para John Paul, seus velozes movimentos traíam a raiva ainda latente nele. Ele olhou-a fixamente, com seus traços firmes e duros. – Devia me chamar imediatamente. Sabe que deve me chamar, mas foste infantil, está furiosa porque o companheiro que pensava ser seu igual em força, resultou ser mais do que podia esperar. Essa não é razão para colocar nossas vidas em perigo.

Nicolae se abaixou e pegou John Paul pela parte de atrás da camisa, colocou-o em pé e ondeou uma mão quase descuidadamente, para silenciar qualquer protesto.

Destiny permaneceu em pé na rua, observando-o cautelosamente.

- Não acredito que seja necessário, Nicolae. Estou dizendo que no meu entender, isso não é necessário.

A força completa de seu brilhante olhar a golpeou quando ele se voltou para enfrentá-la.

- É tão tola para acreditar que essas criaturas realmente atacavam a você? Por que um vampiro esbanjaria sua energia?

O desgosto em sua voz lhe trouxe lágrimas aos olhos.

- É obvio que não acredito nisso. Sabia que estava tentando me debilitar. Utilizou um feitiço para me manter presa. Ele teria se mostrado se não tivesse chegado. - Ele sempre a respeitara, respeitava suas habilidades. Suas palavras lhe faziam mais mal que os dentes mordendo sua carne.

- Envenenou-a, Destiny. – Ele espetou as palavras. O vento varreu a rua com uma baforada de fúria. - Permitiu-o te envenenar.

O coração dela gaguejou.

- Meu sangue já está poluído, Nicolae. Não importa o que eletenha feito a meu sangue. - Havia um estranho barulho em seus ouvidos. Não podia captar as palavras, mas a voz estava rasgando suas vísceras, como garras afiadas.

Nicolae pegou John Paul, olhando profundamente em sua mente, em suas lembranças, lhe sacudindo, de pura frustração.

- Não tem lembranças do que o conduziu a isto. Não temos tempo para você. Vá para casa e durma. Ocuparei-me de você mais tarde. - Bem mais tarde. Sua mente estava consumida pelo problema imediato.

John Paul olhou os dois e obedientemente arrastou os pés afastando-se para sua casa, sem olhar a direita ou esquerda, desinteressado do mundo que o rodeava.

Nicolae esquadrinhou cuidadosamente a região. As nuvens no alto se formavam em espessos fios negros, mas não havia vento. Moveu-se, deslizando-se com incrível velocidade, seus dedos pousaram em volta do braço de Destiny.

- Temos que ir agora.

- Não quero que o vampiro faça mal a alguém daqui, nem sequer a John Paul, porque está zangado por me perder. - Destiny tentou não soar como se estivesse suplicando. O zumbido de sua cabeça estava piorando, um milhão de abelhas picando-a por dentro. Requereu um grande esforço evitar cobri-los ou rasgá-la cabeça para eliminar a voz.

Os longos dedos se apertaram em volta de seu braço, como umas algemas.

- Destiny, o vampiro não te perdeu ainda. Seu veneno está em seu sangue, destruindo suas células, enquanto perdemos tempo conversando. Devemos procurar refúgio, um lugar que possamos defender.

A urgência de sua voz lhe disse, mais que o áspero som em sua mente, que tinham que se apressar. Tomando a imagem de uma coruja da mente dele, ela começou imediatamente a mudar de forma. Simplesmente não funcionou. Sua forma, mas não acontecia nada.

- Saia daqui, Nicolae. – ela puxou a mão. – Ele está me utilizando para te pegar numa armadilha. Afaste-se de mim.

Nicolae amaldiçôou, em sua língua ancestral.

- O que te acontece, acontece a mim . Permaneceremos juntos.

Puxou-a novamente, desta vez com suficiente força para desestabilizá-la.

- Isso é o que quer. Atraso-o, sou uma pedra em volta de seu pescoço. Saia daqui. Se te importo , me deixe aqui. - As picadas de verme estavam piorando, não só em sua mente, agora se estendiam através de seu corpo e ela pensou que poderia ficar louca. Não podia baixar o volume ou controlar a dor.

Mais que a loucura, mais que a dor, seu único pensamento era o amparo de Nicolae. Sabia que tinha razão. O vampiro tinha compreendido que Nicolae era seu mais poderoso inimigo. Embora ela tivesse falhado ao detectar o poder de Nicolae, o não-morto o pressentira. O vampiro reconhecia um antigo e sabia que se queria ter êxito em seus planos, era importante destruir Nicolae.

Nicolae ignorou seus protestos, simplesmente bloqueou o som das lágrimas em sua voz. Não podia se permitir sentir emoção. Pegou-a em braços e tomou os céus. Ela ficou imóvel, sabendo de que era melhor não se opor a ele, sentindo sua absoluta resolução. Ele forçaria sua conformidade e ela seria incapaz de vê-lo como nenhuma outra coisa, que não fosse uma completa violação.

Deslizou os braços em volta do pescoço dele e se concentrou em seu rastro, tentando rabiscá-lo apesar da voz estridente chiando em sua cabeça e as ferozes picadas de seu corpo. Não deixaria toda a briga para Nicolae, não importava quão difícil fosse se concentrar.

A dor era execrável. Nicolae podia senti-la em ondas. Compartilhava sua mente e ouvia a horrorosa voz do vampiro. O coração dela pulsava muito rápido, galopando pelo esforço de sobrepor-se à dor do veneno e o exército hiriente que a atacava por dentro. Ela lutava por permanecer concentrada, para tecer feitiços e atirar frágeis obstáculos para atrasar o vampiro que os seguia. Para dar mais tempo a ele.

Nicolae enterrou a face durante um momento na garganta de Destiny, inalando sua essência, lhe sussurrando brandamente. Sem advertência, o mundo escureceu em volta de Destiny, deixando pequenos puntinhos de luz explodindo em seus olhos. Depois toda luz empalideceu, toda sensação desapareceu. A voz de sua cabeça calou bruscamente e o mundo se afastou.

 

- Quanto tempo temos? - Era Vikirnof, tranqüilo como sempre. Estava longe, mas movendo-se rapidamente para seu irmão. Seu sangue chama o não-morto, como um farol brilhante. - Não será capaz de oculá-la deles.

- Não tenho intenção de ocultá-la. - Nicolae soava mal educado. Supremamente crédulo. Soava exatamente como aquele que seu irmão Vikirnoff conhecera durante séculos. Seu poder enchia os céus, estalava em raios e relâmpagos, em látegos que atacavam em todas as direções. Nicolae tomava a ofensiva. Os céus se abriram e correntes de chuva caíram a terra. – Deixe que ele venha a nós.

Na distância, Nicolae ouviu o eco de um grito de ódio, de raiva. Um segundo e um terceiro grito seguiram quando suas armas encontraram os objetivos. Os céus se iluminaram com fogo e um trovão sacudiu a terra. O solo ondeou. Embaixo, numa pequena lacuna, uma enorme onda se elevou, percorrendo a superfície em espumosa loucura. As estrelas pareceram explodir em volta dele. Era um grito de guerra, em resposta aos vampiros.

Nicolae varreu o céu com uma mão, elevando o vento em furioso assalto sobre as ardentes explosões de luz, afastando-as da mulher que estava entre seus braços. Correu diretamente para as montanhas, longe dos humanos, onde outros podiam se ver presos em meio à batalha que aconteceria. Deliberadamente, ele a levou longe de sua câmara de piscinas, não desejando que o vampiro encontrasse seu lugar de descanso. Fugiu, profunda e clandestinamente, onde uma série de cavernas se abria no interior da terra. Onde se elevava vapor através das ventilações e o aroma de sulfureto era forte, mas os minerais do solo eram exatamente os que estava procurando.

Levantou salvaguardas de amparo, só medidas táticas para lhe dar o tempo que precisava para extrair o veneno do corpo de Destiny. As pequenas marcas de dentadas já estavam se encarnando e manchas escuras, a marca da fera. Nicolae levou Destiny para a terra, numa das cavernas menores, numa câmara onde as paredes estavam perto e não havia espaço para seus corpos. Não era um bom lugar para lutar, mas muito mais defensável que uma das cavernas maiores. Ondeou uma mão para abrir a rica terra, colocando o corpo de Destiny no terreno fresco. Ela estava quente ao tato e bolhas estavam formando em sua pele.

- Tem pouco tempo. É um veneno de ação rápida e um que não tinha visto ainda. Estão quase sobre nós. - Nicolae não estava preocupado pelos vampiros que se congregavam. Sentia o peso de sua raiva e determinação. Pensavam que estava preso nas montanhas, incapaz de se mover, com uma mulher para vigiar, mas ainda não conheciam sua Destiny. Nem sabiam que Vikirnoff estava cruzando os céus, decidido a unir-se à batalha.

Utilizando saliva e a rica terra, Nicolea cobriu apressadamente as lacerações. Os diminutos e afiados dentes tinha ofendido profundamente a carne, até encontrar as veias de Destiny e injetar veneno em sua vítima. Trabalhou rápido, mas metodicamente, sem se arriscar a perder nada. O vampiro que tinha orquestrado o ataque, fôra inteligente e rápido, utilizando a cobertura da névoa já esperando o momento no que a falta de atenção de Destiny a fizesse vulnerável. O vampiro não se expora em nenhum momento ao perigo ou a ser ferido. Tinha sido um movimento inteligente e Nicolae sentiu que o inimigo era um perigoso adversário.

Foi o veneno que se movia através do corpo de Destiny o que o alarmou mais.

- Acorde, meu amor. Acorde com o conhecimento da batalha que nos vem.

Destiny obedeceu a sua ordem com um gemido de dor. Seu olhar, escurecido pelo sofrimento, encontrou o dele.

- Buscam-lhe, Nicolae. Eles vêm por ti.

Ele recebeu a informação, tranquilo.

- Dixe que venham. Subestimaram-lhe. Irão à própria perdição. Devemos extrair o veneno de seu corpo tão rapidamente como seja possível e precisarei toda sua força e ajuda.

Ela assentiu, a confiança brilhava nas profundezas de seus olhos.

- Me diga que fazer e seguirei suas ordens.

Nicolae forçou sua mente a se afasta da confiança absoluta desse olhar, de suas palavras, e do quanto significavam para ele. Do muito que ela significava para ele. Ralentizou seu coração até um batimento forte e firme, pronto para entorpecer a velocidade do veneno. Enviara-a a dormir pela mesma razão. Tomou sua mão e a colocou sobre seu próprio coração.

- Assim, Destiny. Mantenha seu coração exatamente no mesmo ritmo. - Seu polegar acariciou o dorso da mão dela, enquanto seu coração pulsava diretamente sob a palma.

Destiny foi consciente de quão rápido pulsava seu coração. Enchia a câmara com o som de um trovão, um poderoso tambor que pulsava a um ritmo mortal. Logo, ralentizou o batimento, tomando o controle de seu corpo, seguindo o batimento do coração bem mais firme e lento do dele. Sentiu-se adormecida e drenada, cansada além do acreditável, quando seu coração baixou o ritmo.

- Irá se surpreender quando entrarmos. Não ceda ao pânico e não tema por mim. Lidei com venenos muitas vezes. Concentre-se no que deve fazer. O medo é nosso pior inimigo.

Destiny assentiu, mostrando que entendia.

- Não te decepcionarei. – Ela era consciente do perigo em que estavam. Estava na mente de Nicolae e já sentia a presença de Vikirnoff. Ele já não se incomodava em lhe ocultar sua presença e ela sabia que ele estava correndo em sua ajuda.

Nicolae permitiu que seu corpo se convertesse em luz e energia, para poder entrar no corpo de Destiny. Gastou preciosos minutos em estudar a composição química utilizada para envenenar sua companheira. Ela replicava-se velozmente e mudava, enquanto se estendia através do corpo. A forma mudada parecia lhe sentir, um exército de intenções hostis, preparado para atacar sua luz.

- Saia!

Destiny não esperou para ver se ele ouvira sua ordem, Bateu em seu rosto, com cada grama de força que ainda possuía, tirando-o de seu corpo, utilizando seu vínculo de sangue para atraí-lo até ela.

O movimento foi tão forte e tão inesperado, que pegou Nicolae despreparado. Ele encontrou-se de volta a seu próprio corpo, piscando para ela.

- Se eu tivesse senso de humor, agora mesmo teria que gargalhar. - Vikirnoff soava como sempre. Tranqüilo, nada perturbado pelo fato de que estava sendo espreitado por um número desconhecido de vampiros e logo teria lugar numa sangrenta batalha.

Nicolae suspirou.

- Não deveria ter feito isso, Destiny. – Repreendeu-a. - O veneno deve ser eliminado de seu corpo. Não temos tempo para discutir.

- Não, não temos. - Gotas de suor banhavam sua pele. Algumas eram rosadas, os primeiros rastros de sangue. - Terão que atrasá-los, nos defender enquanto eu faço isto por mim mesma. O veneno foi elaborado para atacar o curador. Podemos ficar infectados. – Ela pousou a mão sobre o braço dele. - Sabe que tenho razão, Nicolae.

- Pela primeira vez, realmente você tem razão. – A voz de Vikirnoff se fez presente.

- Ouça-o. – Disse, Destiny. - Nicolae, não temos tempo para discutir. Seu irmão está de acordo e sabe que você vive completamente na Idade de Pedra, no que concerne às mulheres.

Nicolae amaldiçoou eloqüentemente na nativa língua ancestral e incluiu Vikirnoff em seu letanía, só por prazer. O veneno era virulento. Depois ele inclinou a cabeça, para descansar sua testa contra a dela.

- Ser seu companheiro não é fácil para o ego de um homem.

A mão dela acariciou seus lábios.

- Os cães de caça estão na porta principal.

Nicolae roçou a boca com a dela.

- Tome cuidado, Destiny. Trabalhe bem. Não temos muito tempo. Precisarei de você em pé e pronta para partir. Devem ser mantidos fora desta câmara se for possível. Encontrarei-os encima.

- Vá. – Ela apertou-lhe os dedos, deixando que sua mão caísse. Nicolae já estava se dissolvendo, voando para longe dela e para a saída que irrompia no céu noturno. Iria encontrar a seus inimigos. O sangue de sua companheira era um brilhante farol que convocava o não-morto, diretamente a sua localização. Seu trabalho era mantê-los longe dela até que ela fosse capaz de se mover e caçar.

Destiny não esbanjou tempo e ele não pôde detectar medo nela, quando uma vez mais permitiu que seu corpo se afastasse. Ela converteu-se em luz e energia, reunindo sua força minguante para lutar contra o exército de micróbios invasores em sua corrente sangüínea. Nicolae permaneceu como uma sombra em sua mente, preparado para lhe proporcionar a força que fosse necessária, preparado para ajudá-la de qualquer modo.

Subiu, tomando nota do que o rodeava. Esperava que os vampiros fossem descuidados em seu ataque, seguros de que estaria muito ocupado com Destiny para levar a cabo uma ofensiva. Esta era uma batalha cuidadosamente preparada e Nicolae estava seguro de que Pater estava atrás dela. Pater estava decidido a reunir os vampiro, unindo-os contra os caçadores.

- Poderia funcionar, se podem evitar matar uns aos outros. - Observou Nicolae.

Vikirnoff pensou nisso. - Não acredito que haja um vampiro o bastante poderoso, nem sequer um antigo, para ter êxito em algo como unir os vampiros com um propósito comum, mas nosso inimigo parece ter conseguido aqui.

- Devem ter feito antes, mas não com antigos. Sempre há um que tem o poder, o resto são peões sacrificáveis. - Nicolae ocultou seu ser em diminutas moléculas pulverizadas pelo céu entre as nuvens turbulentas. Vikirnoff estava em sua mente, e profundamente fundido com Destiny também, esperando para prestar sua força, quando houvesse necessidade.

Destiny era consciente dos dois. Totalmente concentrada em sua própria guerra, confiava em Nicolae para esquivar o não-morto, até que ela pudesse se unir a ele. Reconhecia que tinha perdido muito sangue através das muitas mordidas em sua pele. O composto em seu corpo, estava levando a cabo uma destruição maciça, mudando suas células a uma rápida velocidade. Tomou nota dos parasitas que sempre estavam presentes em seu sangue, familiares para ela, mas de todas formas, horrendos. Mesmo eles tentavam se ocultar do veneno atacante. Procurou rapidamente, encontrando anticorpos naturais e começando a replicá-los, apressando-se a lançar a seu próprio exército para os micróbios, para ralentizar sua reprodução e ter mais tempo para conseguir destruí-los, permanentemente. Divisou uma bolha, quase oculta depois das células. Era de um negro avermelhado, um grande coágulo formando-se a conseqüência dos micróbios. Podia lutar contra as células mudadas, programadas para atacar a onda de energia que ela irradiava, mas teve o pressentimento de que o demônio real era essa massa desconhecida.

Ignorou as lesões que se estavam formando em seus órgãos, onde o veneno a tocava. Ignorou seu sangue poluído, ardendo e escaldando fazendo com que as paredes de suas veias parecessem finas e frágeis, prontas para explodir. Em certos lugares, elas se inchavam alarmantemente, igual a alguns de seus órgãos.

De quais armas dispunha para lutar com algo semelhante? Energia e luz. Deixou de esbanjar tempo em criar anticorpo que simplesmente ralentizavan o exército de mutantes. Esperou, estudando o enxame emergente de células que se inclinavam para envolver a essência de sua vida.

Destiny manteve sua posição, consciente de que acabava o tempo. Não sentia ninguém perto dela, não ouvia nada, nem sequer o batimento do coração de seu coração. Toda sua atenção estava nessa massa de células malignas. Esperou, acumulando sua energia até que esta se tornou um branco ardente, um laser preciso, apontando para os micróbios mortais. Deu rédea solta a seu poder e o converteu em uma pulsação letal, concentrado de energia tão grande, que soube que não era somente obra dela.

Não podia permitir que o conhecimento a distraísse. Estava vendo as células se enrugar e morrer, vendo como a coisa atrás delas, aparecia claramente pela primeira vez. Era mais ou menos do tamanho de uma noz, alojada em seu estômago. Seu coração gaguejou. Não podia utilizar fogo ou calor nisto. Era algum tipo de explosivo esperando um detonador. Os elementos químicos estavam presos ao primeiro componente injetado em seu corpo, através dos dentes que morderam sua carne. Quando as células mudaram na segunda geração, os elementos químicos se apressaram através de seu corpo em todas as direções, para se unir no que deviam ser. Ela havia se convertido em uma bomba viva, armada e dirigida diretamente para Nicolae que deveria tentar curá-la.

Destiny inalou profundamente, sabendo que Nicolae estava com ela agora e vendo o que ela via. Temendo o que ela temia. - Faça o que tem que fazer, Nicolae. Eu encontrarei a resposta para isto.

Nicolae sentiu que seu coração fraquejava. - Deve se apressar, Destiny. As células malignas estão danificando seu corpo. Precisa de um curador. – ele enviou calma, tranqüilidade e completa fé nela, mesmo apesar de que no fundo de seu coração, o medo rabiava por ter que lutar contra o inimigo, quando desejava estar a seu lado.

Os céus se iluminaram com foguetes, em milhares de vertiginosas chamas alaranjadas que o buscavam na escuridão. Enquanto assobiavam pelo ar, fios ardentes giravam e açoitavam o espaço a seu redor, procurando um objetivo.

Tranqüilamente Nicolae varreu-os com um vento feroz, jogando as lanças de volta a seu inimigo, anunciando sua presença. - Venham para mim, todos os que procuram a justiça de nossa gente. Ajudarei-os a partir para o próximo mundo, como deveria ter feito há muito. Venham para mim, agora. Estou me cansando de suas intrigas.

Gritos de ódio e raiva ressoaram através do céu, em resposta. Nicolae já estava em movimento, sabendo que os vampiros tentariam precisar sua localização, pela direção do terrível vento. Ouviu um canto agudo e o ar a sua esquerda, onde estivera a pouco, foi irrompido por um exército de morcegos. Grandes criaturas parecidas com morcegos vampiros, serventes do não-morto, com longas presas, procuravam seu sangue. Voaram para ele, tanto que os céus estavam cheios de seus corpos peludos. Todos de uma vez, os gritos e o canto continuavam como se transmitissem sua presença a seu amo.

Nicolae bombardeou a zona com relâmpagos, carregando tanto o ar que os látegos dançaram e ziguezaguearam, derramando faíscas radiantes, enquanto procuravam seus objetivos. Quando as criaturas eram incineradas, soltavam um mau cheiro pestilento que picava os olhos de Nicolae e ardia em sua garganta e nariz. O céu noturno, negro pelas ameaçadoras nuvens, estava iluminado pelo fenomenal desdobramento de relâmpagos. O trovão o seguiu, um ruído seco que sacudiu a terra, mas que também carregava um ataque oculto, as ondas de som eram tão fortes como qualquer terremoto através dos céus e sacudiu a posição do não-morto.

Gritos ásperos feriram seus ouvidos quando um dos vampiros caiu de acima, reluzindo de um opaco cinzento, enquanto a horrenda forma se materializava da névoa, apanhando-se a si mesmo no meio do ar e rapidamente se escondendo nas nuvens, temeroso de atacar. Quando o vampiro atirou lanças de eletricidade em Nicolae, Vikirnoff emergiu a campo aberto.

Nicolae golpeou seu irmão com força, afastando-o do alcance de uma lança ardente. Esta roçou seu próprio ombro, ardendo através de seus músculos, enquanto passava por ele.

- Está ficando velho para isto. Os reflexos o abandonaram. - Nicolae zombava de seu irmão mesmo enquanto estava atrás do vampiro.

- Só comprovava para me assegurar de que estava nesta batalha e não com sua mulher.

Nicolae grunhiu enquanto se lançava através da fina nuvem diretamente para o vampiro. Imediatamente o céu estalou de três lados com monstruosas criaturas reptilinas, muito parecidas com a da caverna onde havia enfrentado Pater pela primeira vez. Claramente, o vampiro antigo tinha orquestrado estava batalha muito bem. As horrendas criaturas atacaram, quando o vampiro tomou a mesma forma, lhe buscando com enormes garras e a enorme cabeça balançando para ele.

O hálito que cheirava a carne podre, esquentava seu rosto, mas Nicolae se lançou para frente, deslizando-se longe das garras. Ele acelerou e seu punho se lançou para o peito escamoso da fera. No último momento, o vampiro girou, flagelando-o com a cauda bicuda, impregnada com um veneno paralizador.

As outras três feras se lançaram contra Nicolae, estalando seus queixos aplastantes, suas grandes asas batendo com força, criando um vendaval, revolvendo pó no céu. As nuvens se agitaram, enegrecidas por partes de escombros arrancados de terra firme e que se elevaram a grande altura, no funil de um tornado. A força do vento criava seu próprio clima, numa tempestade de gelo com lascas e lanças de cristal procurando um objetivo.

No instante em que Nicolae havia disolvido para permitir que a ondeante penetra e os queixos aplastantes passassem impotentemente através dele, uma das criaturas abriu sua horrenda boca, para revelar seu prêmio. Um homem gritava impotentemente, ondeando os braços grosseiramente, pois suas pernas estavam aprisionadas pelas filas de dentes. Seu olhar horrorizado se cruzou com a de Nicolae enquanto a fera gigante começava a exercer pressão.

Vikirnoff se deixou cair, emergindo das nuvens escuras, para aterrissar nas costas do lagarto. Em suas mãos ele levava uma ardente lança resplandecente. Lançou a arma diretamente para a nuca do réptil. Quando ele gritou de dor e ódio, as grandes mandíbulas se abriram, soltando o humano de dentro. O homem caiu para terra e seu grito um fraco gemido de terror.

Nicolae mergulhou, lançando-se atás do homem ,enquanto caía para o nascente túnel de nuvens. As lascas e lanças de gelo se dirigiam para os dois, Nicolae e a vítima do não-morto. Nicolae se apressou a construir uma rede de sedosos fios sob o homem, enquanto ao mesmo tempo movia as mãos num intrincado padrão, atraindo fogo do céu para derreter as armas geladas.

A vítima do vampiro golpeou a rede, ricocheteando-a, ficando presa no final dos fios, enforcando-se desagradavelmente. Era completamente consciente dos extravagantes sucessos e ainda assim lutava por manter-se com vida. Precisando dele consciente, Nicolae decidiu não defendê-lo enquanto o segurava nos braços.

- Segure-se! - Ordenou Nicolae, que havia reconhecido Martin Writgh. O homem fechou as mãos em volta do pescoço dele, deslizando por suas costas e depois fechou os olhos contra a aterrorizante realidade. O sangue gotejava firmemente de suas pernas onde os dentes marcaram sua carne.

- Não permita que nada aconteça a ele. - A súplica de Destiny foi forte na mente de Nicolae.

Nicolae baixou a vista para a montanha, enquanto as criaturas lagartos se lançavam atrás dele, afastando-o de sua companheira. O lagarto gigante contra o qual Vikirnoff se lançou, estava caindo do céu, num salto mortal, ainda com Vikirnoff precariamente obstinado a suas costas. O vampiro estava rugindo de raiva e terror, mas os outros não foram em sua ajuda. Em vez disso, apressaram para Nicolae e Martin, a uma velocidade alarmante.

Evitando-os com assombrosa velocidade, Nicolae quase perdeu a sombra perto da entrada da montanha. Uma forma escura reptava sobre o chão silenciosamente, movendo-se de sombra em sombra. Nicolae logo a imagem da cauda do monstro desaparecendo na terra muito, abaixo dele. O coração acelerou riodosamente em seu peito. O não-morto sabia que se conseguisse matar Destiny, destruiria pelo menos um dos caçadores com segurança. Seu companheiro nunca continuaria sem ela e era possível que os dois os caçadores a seguissem ou se convertessem.

- Destiny!

- Sinto o mal se aproximando. Senti o mau cheiro antes.

Havia uma confiança em sua voz, que Nicolae não sentia. Pater era um poderoso e perigoso adversário. Destiny estava seriamente ferida, doente e lutando contra o veneno em seu corpo.

- Nicolae, deixe o humano. Precisará toda sua força para lutar com o não-morto. - Vikirnoff disse a seu irmão, com voz sem inflexão, mesmo quando estava sentenciando um homem a uma morte segura.

- Não! - Destiny estava furiosa com o Vikirnoff. - Não o ouça, Nicolae. Não preciso de sua ajuda com um vampiro chato.

Os elementos químicos em ebulição se misturaram em seu estômago, para formar um artefato explosivo que estava começando a arder em suas vísceras, como se soltasse algum terrível gás. Destiny estudou o componente, sentiu Nicolae e Vikirnoff através dele, estudando os elementos químicos com ela.

- O primeiro é ácido nítrico ou algo similar. – Identificou, Nicolae.

- E encontraram uma forma de introduzir glicerina, unindo os dois elementos. - Assinalou Vikirnoff.

Destiny fez uma careta. Nitroglicerina. Instável e perigosa. Assentando-se em seu interior e esperando algum sinal para explodir. Uma sutil mudança na temperatura de seu corpo serviria. O vírus mesmo podia ser o detonador, se elevasse à temperatura de seu corpo. Destiny controlou o pânico, decidida a utilizar o cérebro. Sua raça existia a base de sangue. O sangue não teria efeito sobre a massa raivosa. Um raio laser de pura energia a acenderia. O vampiro esperaria que ela pensasse como um caçador, não como uma humana. Nunca esperaria que ingerisse outra coisa que não fosse sangre.

Pater estava se aproximando, abrindo passo através das cavernas para a câmara onde ela descansava. Destiny podia sentir sua perversa presença propagando-se através da montanha, num suave troar de protesto do solo, dos insetos e moradores das cavernas. A sombra se alongou, crescendo. Uma sensação de perdição iminente começava a lhe invadir a mente com força insidiosa, sacudindo sua confiança.

O veneno estava fazendo seu trabalho, afligindo as defesas dos anticorpos que havia colocado e acabando com as habilidades de seu corpo para lutar. Diminutas gotas de sangue começavam a emanar de seus poros.

Destiny fechou a mente a tudo, exceto ao problema de seu interior. Nicolae devia ser protegido a todo custo. Esta coisa, esta armadilha fôra colocada para ele e tinha que ser destruída. Só podia pensar numa forma de fazê-lo. Cuidadosamente ondeou seu feitiço, chamou os minerais da terra, procurando o que precisava. Carbonato sódico. Quilos e mais quilos dele. Podia neutralizar o ácido no sistema e destruir a glicerina de forma natural, isolados não eram tóxicos. Preparou uma bebida utilizando a água mineral, assegurando-se de que estava à temperatura exata de seu corpo.

Teve que lutar para ingeri-la, para mantê-la em seu corpo quando tudo nela se revelava. Uma vez mais, entrou em um estado imaterial para dirigir a mistura de carbonato sódico aonde a precisava. Estudou-a atentamente enquanto sua única esperança corria, para fazer o que ela lhe pedia. Se não funcionava, tentaria esperar até que o vampiro estivesse sobre ela, elevaria a temperatura de seu corpo tão alto e tão rápido como pudesse e detonaria a bomba, levando-o com ela. Não permitiria que pusesse suas mãos imundas sobre ela. Os elementos químicos se tocaram, se misturaram. Destiny soube o momento preciso em que ganhou sua batalha.

Nicolae suspirou com alívio e a presença de Vikirnoff desapareceu.

O vampiro ainda se aproximava e ela ainda estava fraca. Mas era uma caçadora. Manteve o composto em seu corpo, o tanto que pôde suportá-lo, depois o expeliu rapidamente, engatinhando para um canto da câmara, violentamente doente.

Voltou à cabeça, quando um leve serpenteio traiu o intruso.

- Pater. Que agradável ver que tomou sua verdadeira forma. As escamas lhe deixam bem. Estou muito impressionada com sua cabeça de réptil. Linda!. Vai enlouquecer as mulheres com esta forma.

Havia pouco espaço para manobrar e Destiny pensou, se teria forças para mudar de forma. Recostou-se para trás, olhando para a enorme fera enquanto esta lhe sorria amplamente, com olhos frios e mortos, triunfantes.

- Acha que conseguiu uma espécie de vitória, mas não me conhece. E não conhece Nicolae. Nunca sairá vivo desta.

O vampiro reteve o corpo da fera, mas a cabeça de crocodilo ondeou, solidificando-se na cabeça de um homem. Era um feio amalgama, A cabeça de Pater no corpo de um lagarto. Ele mostrou-lhe os dentes, sem se incomodar em manter a ilusão de beleza.

- Tampouco você viverá, querida. Dei-te a oportunidade de se unir a nós, em mais de uma oportunidade. Eles nunca aceitarão alguém como você. Nunca. Se um caçador tomar seu sangue, companheiro ou não, reforçará seu lado escuro. Que sentido tem sofrer, só para ser jogado de lado? O que acha que o Príncipe fará quando conhecê-la? E Gregori? Acha que eles a aceitarão a seus cuidados? Que permitirá que se associe com suas mulheres?

O coração de Destiny revoou. A verdade dessas palavras foi como uma flecha lhe atravessando o coração. Afiadas e letais. Terríveis. Sempre seria uma pária. Sempre. Até o irmão de Nicolae a reconhecia assim. Afastou seu olhar dos olhos redondos e acusadores, envergonhada.

- Siga olhando para ele. - Disse Nicolae. - Pouco me importa o que pense o Príncipe, Gregori ou qualquer outro. E a ti tampouco deveria importar. Este malvado é um vampiro e mente. Está utilizando o truque mais velho do mindo, minando sua vontade de lutar contra ele.

Foi uma severa reprimenda, que lhe chegou ao coração. O arranhar de uma garra sobre rocha a advertiu e ela fixou seu olhar no do vampiro. Logo sentiu o poder e a força movendo-se através dela. Enormes. Força e poder assombrosos.

Pater se retorceu, tentando dar a volta nos pequenos limites da câmara, sua cauda açoitou a parede de pedra, sua massa corporal o derrotou. Dançaram chamas sobre as escamas, fumegando e queimando a pele do réptil, abrasando até o osso. O fogo correu por todo seu corpo, enegrecendo as escamas, saturando o ar com um terrível mau cheiro. O cadáver partiu ao meio, jogando o vampiro sobre o piso da caverna. Ele estava gritando de raiva, seus olhos brilhando de um vermelho vivo, olhando-a com malícia.

Destiny tentou se recuperar para enfrentar o ataque, mas seu corpo falhou, impotente sem nutrição. Sua força se esgotara na batalha com o vírus venenoso.

- Olhe para ele.

Nicolae estava completamente crédulo. Sua certeza provocou um acorde profundamente em seu interior. Ele estava lutando sua própria batalha de vida ou morte, com um humano a seus cuidados eevadindo o vampiro enquanto a ajudava, mas confiava supremamente em sua habilidades, para protegê-la. E acreditava nela.

Destiny não afastou o olhar de Pater. Um pequeno sorriso sombrio tocava sua boca. Parecia exausta e fraca, mas também estava relaxada e segura.

Pater leu sua expressão, viu em seus olhos, o poder se formando nas profundezas verde azuladas, não seu próprio poder. Então Pater soube que havia falhado. Seus serventes não haviam mantido o antigo ocupado. Ele estava assistindo sua morte. Com desespero elevou uma barreira, enterrando-se na terra. A centímetros de Destiny, irromperam trepadeiras. Tentáculos gigantes que a buscavam, flores abrindo-se para revelar diminutos dentes afiados que rilhavam em direção as suas pernas.

Ela separou-se das plantas, com sua última força restante. Em seguida, sentiu o poder movendo-se através dela e viu as trepadeiras murchar e morrer, caindo no chão, para se desintegrar em negras cordas. Destiny se apertou contra as paredes da, soltando um suspiro de alívio. Pater escapara pela segunda vez, mas não tinha conseguido utilizá-la para destruir Nicolae.

A batalha no ar estava acabando, os vampiros se retiravam à chamada de seu amo. Vikirnoff destruiu um dos não-mortos, chamando um relâmpago para incinerar seu negro coração. E Nicolae conseguiu evitar os outros três, enquanto mantinha Martin a salvo e lutava contra o ataque de Pater sobre Destiny. Estava preocupado, pois pPodia sentir a debilidade de Destiny.

- Leve Martin de volta à cidade, enquanto me ocupo de Destiny. - Disse Nicolae a seu irmão. – Ele deve ser curado e suas lembranças apagadas.

- Ele é seu humano. Eu não me dou muito bem com pessoa semelhante. Têm pouco sentido para mim. Devo me alimentar, se tenho que te abastecer. Deveria tomar o que precisa desse aí, antes ir a sua companheira. Mas não fará porque ela se zangaria com você. Não tem sentido. Uma presa é uma presa.

Nicolae olhou fixamente para seu irmão. - Destiny. Devo me ocupar de que os ferimentos de Martin sejam curados e de que ele chegue em casa a salvo.

- É obvio que deve. - Havia algo novo na voz de Destiny. Uma leve nota de ternura e de amor, que não estavam ali antes. Nicolae não estava seguro de que ela fosse consciente disso, mas fazia seu coração saltar de alegria. - Estou um pouco cansada, mas estou bem. Faça o que tenha que fazer, depois volte para mim. Até te deixarei o lugar de grande herói. Pode me pegar em seus braços e me levar para casa. - Nicolae se encontrou sorrindo enquanto levava Martin pelo do céu, de volta à comparativa segurança da cidade. - Você gosta que eu a leve nos braços por aí. Especialmente se não tiver nada de roupa.

A risada dela borbulhou, suave e melódica, esquentando-o mais, enchendo-o completamente de felicidade. Também ouviu a nota de cansaço extremo em sua voz quando lhe falava.

- Você gosta que eu não tenha nada de roupa. Essa tua mente é uma mina de imagens eróticas. É verdade o que dizem, sobre que os homens pensam em sexo a cada poucos segundos.

- Eu também estive em sua mente, Destiny.

- Eu tenho uma desculpa, entretanto. Você tem todas essas imagens na mente e eu penso nelas. Memorizando-as.

A voz zombeteira lhe acariciou, aumentando suas chamas de urgente necessidade, quando sabia que descanso e a terra curadora eram a única coisa que permitiria a sua companheira esta noite. - Estou orgulhoso de você. - Tinha que falar de seu orgulho, não podia guardá-lo para si mesmo. A intensidade de suas emoções o encheu. Nicolae achou que poderia explodir. Destiny fizera o impossível, o impensável.

- Você trabalhou bastante bem esta noite, embora poderia melhorar sua velocidade. Acha que não notei o ferimento em seu ombro, por que foi um pouco lento, empurrando o idiota de seu irmão para fora do perigo.

- Está me criticando? – Nicolar injetou surpresa e horror em sua voz, para fazê-la sorrir. Adorava sua risada. - Pensei que ferir o lagarto era agradável.

Um professor me ensinou. Realmente, eu poderia utilizar alguns alguns truques. - A diversão estava desaparecendo de sua voz, deixando-a sonolenta. Estou cansada, Nicolae. Devo descansar até que você volte.

Ele compartilhou sua mente, enquanto ela colocava salvaguardas, que seriam bastante fáceis de desentranhar, agora que conhecia os complicados padrões. - Voltarei rapidamente.

- Não é necessário. Descansarei na terra.

Como chegara em sua mente, Nicolae saíra,pois sabia que Destiny estava a salvo, que tinha ido para a terra, permitindo que ela a acolhesse, mas ele precisava abraçá-la, ver por si mesmo que ela estava livre de todo o veneno. Queria levá-la às cavernas dos charcos, fazer um ritual curador nela e lhe dar sangue antes de lhe colocar na rica terra de sua guarida.

Nicolae controlou sua descida para não alarmar ainda mais Martin. Escolheu um pequeno parque a curta distância da casa do homem.

Martín tremia incontroladamente.

- O que aquelas essas coisas? Voce salvou-me a vida.

Nicolae o ajudou a sentar em um banco do parque.

- Não são necessárias explicações. Não se lembrará delas. Não lembrará nada disto.

Ante essas palavras, Martin se afastou de Nicolae.

- Como não lembro do ataque ao Pai Mulligan? Teve algo a ver com isso? Tiveram... Foram essas coisas?

- Não sei por que não lembra o que aconteceu, Martin. - Respondeu Nicolae, honestamente. - Não posso encontrar evidência de que um dos não-mortos te te tocado. Um vampiro de grande poder ou alguma outra coisa que posso conceber ou não houve influência externa de ninguém. Não sei o que te aconteceu, mas estou tentando averiguar. – Ele examinou os ferimentos das pernas de Martin. - Felizmente, não lhe injetaram veneno. Foi afortunado desta vez.

- Afortunado? - Martin parecia que ia chorar, mas começou a rir, quase histéricamente. - Suponho que tem razão. E se você não tivesse chegado, essa coisa teria me comido vivo. Não é?

- Martin? Nicolae? - Pai Mulligan se aproximou por trás deles, sobressaltado ao vê-los no parque. Estivera sentado no banco, poucos minutos antes e não vira ninguém.

Nicolae soltou um suspiro. O mundo estava conspirando contra ele.

- Como está esta noite, Pai?

- Que aconteceu às pernas de Martin? - O sacerdote esquadrinhou ansiosamente as abertas e sangrentas lacerações. - Deveria chamar uma ambulância?

- Eu posso me ocupar dele. – Disse, Nicolae. - O que está fazendo fora de casa, tão tarde?

- A tempestade sobre as montanhas me deixou intranqüilo. - O olhar do sacerdote era sagaz e avaliador, enquanto estudava Nicolae e depois Martin. O ferimento enegrecido em Nicolae e as pernas rasgadas de Martin, lhe diziam mais de que nenhum deles admitiria em palavras. - Essa não era uma tempestade natural. Quem ganhou?

Nicolae passou uma mão pelo cabelo.

- Teria que dizer que foi um empate. Não posso ficar mais. Destiny está doente e devo voltar. – Ele olhou agudamente para o sacerdote. - Sentiu uma compulsão para vir aqui agora, não é?

- Quer dizer se não pude me conter?

Nicolae assentiu.

- Eu não gosto do fato de que fosse atacado. De que utilizassem Martin para atacá-lo e ele estivesse fora esta noite. E agora o encontro aqui.

Pai Mulligan sacudiu a cabeça firmemente.

- Despertei quando o trovão soou alto. Acredite-me, estava em completo controle de todas minhas faculdades. Sabia que algo estava errado e estava preocupado por meus paroquianos.

- Seria muito mais seguro ficar dentro de casa, Pai. – Assinalou, Nicolae e voltou sua atenção à perna de Martin. - Como conseguiram colocar as mãos em você?

Martin franziu o cenho.

- Briguei com Tim. Nunca discutimos, mas esta coisa de perder as lembranças e quase matar Pai Mulligan está arruinando nossa relação. Acredito que Tim tem um pouco de medo de mim. Sigo lhe dizendo que eu nunca lhe faria mal, mas tampouco faria mal a você Pai Mulligan e o fiz. Então isso não significa muito.

- Conhece John Paul, Martin?

- Claro. Todo mundo o conhece. Parece um bruto, mas realmente é um gigante gentil. Daria a você, até a camisa se precisasse.

- Ele agrediu Helena, mais de duas vezes. - Disse Nicolae, estudando a face de Martin, cuidadosamente.

Martin empalideceu visivelmente, parecia genuinamente horrorizado - Não acredito. Ele adora a Helena. Mataria qualquer um que a tocasse. Não acredito! – Ele olhou para o sacerdote em busca de confirmação. – Deve ser algum outro.

- Ele tampouco se lembra de nada, Martin. - Disse Pai Mulligan, amavelmente.

Martin enterrou a face nas mãos.

- Não entendo nada disto. Por que está acontecendo isto? Tem algo a ver com essas criaturas? – Ela passou as mãos pelo rosto duas vezes, como se limpasse as lembranças. - Estou me tornando um louco? Juro que deixar essa criatura me morder, seria a metade da dor de ferir alguém a quem amo.

- Não acredito que esteja louco. - Disse Pai Mulligan, colocando a mão consoladoramente sobre o ombro do homem. - Tampouco está John Paul.

- Estava passeando esta noite. Não queria que Tim me visse chorar. Não vi a coisa se aproximar de mim. Num momento estava sozinho e depois me... – Ele estremeceu com a lembrança das ardentes mandíbulas esmagando-o. - Algum animal, Pai... Um cruzamento entre um dragão e um crocodilo, mas com asas. Soa loucura, mesmo para mim mesmo. – Ele deixou-se cair contra o respaldo do banco de madeira. - Não sei se seria melhor ir a um hospital cuidar de minha cabeça oudar um tiro nela.

Nicolae se inclinou, olhando diretamente os olhos de Martin.

- Não fará nenhuma das duas coisas. Não se lembrará das criaturas que viu esta noite ou de minha presença ou mesmo de voar. Não houve batalha nos céus. Voce sentou aqui no parque e falou com Pai Mulligan. Ele o acalmou e disse que tivesse fé e esperança.

Martin assentiu e seus olhos brilharam ligeiramente quando se sentou novamente, sob a compulsão de Nicolae. Nicolae curou suas pernas, assegurando-se de que não ficasse uma diminuta cicatriz que chamasse a atenção sobre o incidente. Levantou o olhar para o sacerdote. - Terá que partir, Pai. Ocuparei-me de que ele chegue em casa. Possivelmente conversarei com Tim e lhe pedirei que seja mais compreensivo com Martin. Ele não é perigoso.

- Tampouco é John Paul, mas fez mal a Helena. - Disse o sacerdote. - Informaram-me que esta noite ele ficou louco e destroçou sua casa, destruindo os móveis com uma fúria terrível. Um vizinho quis chamar à polícia, mas chamou Velda. Ela aconselhou-o. Helena estará a salvo e ele não pode se aproximar dela por ora. Se entrar no sistema da policia será fichado pelo resto da vida.

- O Vi no começo da noite. Não era ele mesmo, parecia um zumbi, programado para a violência, mas não pude detectar ao não-morto, nele. – Disse, Nicolae.

- Está conversando de vampiros. Indivíduos que bebem sangue para viver e entregam suas almas para continuar seus estoques imortais. Essas são as criaturas que você caça. E Martin as viu. - A voz de Pai Mulligan estava cheia de respeito. - É difícil acreditar que semelhantes criaturas possam existir. São completamente perversos? Estão além de redenção?

Nicolae ficou em pé, erguendo-se sobre o sacerdote, seus olhos brilhando perigosamente.

- Não se atreva a tentar salvá-los, Pai. Eles se deleitariam colocando suas mãos sobre você, que está para salvar almas. Eles não têm almas a salvar. Os vampiros são capazes de lhe fazer cometer os atos mais depravados, que não você não pode sequer conceber. Devo lhe dar uma ordem, Pai?

Pai Mulligan olhou fixamente Martin, que estava caído sobre o banco, com uma falta de expressão. Afastou-se de Nicolae. - Não é necessário. Manterei distância deles.

- Assegure-se em manter. - Nicolae "puxou" com sua voz, assegurando-se de que o sacerdote permaneceria longe dos vampiros. Ondeou a mão para despertar Martin. Logo se dissolveu, fluindo para fora da cidade num rastro de vapor.

 

Destiny estava tão imóvel como um cadáver, numa câmara pouco profunda, mostrando o quanto estava debilitada. Ele sabia que ela estava exausta, mas ocultara a extensão completa desse cansaço. Nenhum caçador, sabendo que havia vampiros na região e seu lugar de descanso estivesse comprometido, teria ido para a terra de tal forma. Nicolae a fina camada de terra e fechou os olhos ante o que viu. A raiva tomou seu ser, misturada a dor em seu coração. Destiny parecia extremamente jovem e vulnerável, com a pele translúcida, quase cinza. Gotas de sangue manchavam seus poros. Em seu cançaso, ela fôra incapaz de convocar a força necessária para curar todo seu corpo. O veneno havia sido eliminado, mas vindo do vampiro infectado, seu sangue poluído tinha abraçado o escuro presente. Parecia como se ela estivesse afastando-se dele.      Nicolae não despertaria ali. Queria-a fora deste úmido e diminuto espaço, um suporte mortal onde o aroma de sangue retinha o mau cheiro do vampiro. O enegrecido cadáver do lagarto permanecia ali, com as negras cordas dos tentáculos, um aviso do dobro ataque.        Destiny não pertencia a este lugar de morte. Segurou-a em seus braços. Ela parecia ligeira e insustancial. A confrontação com o mal a tinha debilitado além de seus limites. Sustentou-a contra ele, contra seu peito, desejando defendê-la de cada luta.                                                                                                                               Baixou o olhar para seu rosto e inesperadamente sentiu lágrimas em seus olhos. Destiny havia passado por maus pedaços em sua vida. Como seu companheiro, desejava protegê-la de todo mal, defendê-la de toda adversidade. Era um guerreiro ancestral. Seu amparo era considerável, mas nunca poderia obrigar Destiny a deixar de caçar o vampiro. Ela precisava saber que era forte. Precisava saber que tinha o controle. Precisava ser capaz de liberar ao mundo de tantas dessas criaturas, como pudesse. Sabia que Vikirnoff não o entendia. O mais provável é que tampouco a maioria dos Cárpatos, homens ou mulheres, entendessem-no. Mas ele conhecia Destiny. Conhecia seu coração e sua alma. Conhecia cada cicatriz de sua mente. Ferimentos profundos que ele não poderia liberá-la deles. Na verdade, já não queria liberá-la. Compreendia que essas lembranças, essa vida horrenda que ela havia suportado e sobrevivido, tornaram-a a mulher valorosa que era. Destiny era uma mulher compassiva que tratava de proteger, com cada fôlego de seu corpo, a aqueles aos quais permitia entrar em sua vida.Tirou-a da toca subterrânea até o ar livre, para que a brisa suave deslizasse sobre seu corpo, lhe despenteando o cabelo e derramando uma limpa fragrância sobre ela. Nicolae, dolorido de amor, levou-a as montanhas, onde entrara numa série de câmaras, até sua caverna. Ondeou a mão para que as velas tomassem vida, lançando sombras sobre as paredes e a superfície da água. Aromas curadores encheram o espaço, misturando-se para proporcionar paz consoladora. Nicolae tirou sua roupa, eliminou a dela e levando-a até o mais profunda e ardente dos charcos. Com os lábios contra sua pele, sussurrou-lhe suavemente, para que despertasse.

- Amo você, minha senhora. - Murmurou. Precisando pronunciar as palavras para ela. Destiny poderia procurar em sua mente e encontrar a emoção profunda e real, mas ele queria declarar-se, Ela despertou, o coração pulsou sob sua mão. O ar encheu seus pulmões. As pálpebras revoaram e deram espaço aos incríveis olhos verde-azulados. Ela sorriu-lhe. Incrivelmente, ela sorriu-lhe.                                               - Estava sonhando com você.                                                                              Ele beijou-a. Não pôde se conter. Sua boca se atrasou sobre a dela, lhe roubando o ar.- Isso seria impossível, pequena. O sonho de nossa gente é um sono de morte. Não há atividade cerebral.

- De todas formas. – Disse ela, complacente. Seu olhar vagou sobre a face dele com um toque de posse. - Estava preocupada com você. - Seus dedos encontraram o ferimento enegrecido em seu ombro. - Senti que te machucaram. Dói? - Ele sacudiu a cabeça, negando.- Vou me sentar na água. Está quente, mas te fará bem. Preciso substituir seu sangue. Não se alimentou. - Era uma reprimenda. - Vikirnoff queria que eu utilizasse Martin, mas pensei que você poderia me dar um sermão. Nunca tendo vivenciado tal situação, pensei que era melhor não começar nossa vida junta, desse modo. Não se preocupe, meu irmão me proverá. Agora ele está se alimentando.                                                                                                               Nicolae sentou-se na água, levando-a com ele, segurando-a perto para que o calor tirasse o frio de suas veias. Ela gemeu, mantendo-se ligeiramente longe dele, tentando não lutar. A água quente sobre sua pele fria não era muito cômoda, mas depois de alguns minutos relaxou, achegando-se contra ele, encaixando seu corpo ao dele. A água lhe acariciava os seios, provocando sobre seus mamilos, limpando, eliminando todo rastro de sangue, todo o resto de veneno. Fechou os olhos e permitiu que sua cabeça caísse para trás, desfrutando-se do puro luxo de ter água quente e os fortes braços de Nicolae. - Vikirnoff precisa de uns bons tapas, lhe fará muito bem. – Ela murmurou, sem incomodar-se em elevar os olhos. - Mas esquecerei sua egocêntrica arrogância porque ele cuida de você. Deveria ter se alimentado.

     - Ele me alimentará.

Logo que seja possível, quero lhe dar a foto da mulher da qual Mary Ann nos falou. Deveríamos ter perguntado ao Pai Mulligan e a Velda e Inez se ela a viram. Parecem ser os olhos e ouvidos da vizinhança. Ela esfregou o nariz contra a garganta dele. A fome se elevava, aguda e exigente. A água borbulhante e a proximidade de Nicolae ajudavam muito. Inalou sua limpa e masculina fragrância e eprendeu-a em seu próprio corpo, mantendo-a ali. Estivera no interior de uma tormenta, uma vertiginosa e turbulenta tempestade, mas certamente tinha chegado ao lar. Nicolae era seu lar. Estabelecera-se em sua mente. Seu único refúgio. Agora podia admitir e não se sentir envergonhada ou humilhada.        - Fiz o que pude para te afastar. Deveria ter sido mais forte, mas me alegro de não ter sido. – Ela deslizou os lábios por sua garganta. A língua serpenteou sobre sua pulsação. Estava sentada em seu colo e ela pôde sentir a forte reação de seu corpo, ante o pequeno e erótico movimento de sua língua. Nicolae enrijeceu, pulsante de desejo. Saboreou a sensação, desejando recordá-la sempre. Nicolae deslizou a mão pelo cabelo dela, soltando sua trança. - Não permitiria que me afastasse. Sou tenaz quando algo me importa. - Ela sorriu contra sua pele e beijou a firme pulsação em seu pescoço. - Essa é a palavra certa? Pensava que teimoso seria melhor.                             - Não está em melhores condicões para tentar liberar uma batalha. – Ele lembrou-lhe.                                                                                                                       Destiny ganhou a batalha sem uma só palavra. A cabeça dele caiu para trás e ela tomou o que ele oferecia. O ar abandonou seus pulmões, um suave som de êxtase escapou quando dor e prazer atravessaram seu corpo. A intensidade de seu amor por ela o sacudiu. Seus braços se apertaram possessivamente em torno dela. Ela o encia de ternura, com sua necessidade, com a forma em que o desejava. Sob isso, ele ainda sentiu o pesar de Destiny, o peso que as palavras que Pater havia implantado em sua mente e em seu coração. Nunca acreditaria que a raça dos Cárpatos a aceitaria com seu sangue poluído. Se Nicolae chamasse o curador, Destiny nunca permitiria que ele se aproximasse dela. Fugiria. Não havia forma de apagar o que o vampiro havia feito a ela. Nicolae podia eliminar todo rastro do vírus. Podia restaurar sua força, podia lhe dar amor incondicional, mas nunca apagaria as palavras.     Porque suas palavras eram certas. As mãos de Destiny encontraram seu cabelo, passando os dedos pelos sedosos fios. Desejava se perder na sensação. Não podia fazer com que as palavras fossem falsas, mas podia colocá-las em algum canto de sua mente, substituindo-as por algo que a consumisse.           - Adoro seu cabelo.

- Voce supõe-se que me adora.

- E não é verdade.                                                                                            

       - Os vampiros distorcem a verdade até que não pode vê-la. Destiny, mais que a maioria, você sabe que eles fazem isso. Neste instante mesmo um grau de verdade é muito.

Ela passou a língua sobre as diminutas marcas, fechando-as com sua saliva curadora, elevando a cabeça e encontrando a escura intensidade de seu olhar, sem pestanejar.        - Pode me amar com seu coração, sua mente e sua alma. Pode ser minha salvação quando as lembranças me rondarem, Nicolae. Pode ser tudo para mim, mas não pode mudar o que sou. Um vampiro colocou algo aterrorizante em meu interior. É escuro e perigoso. Vivi com isso a maior parte de minha vida. - A pesar de tudo, não haveria forma de apagar a mancha do vampiro. Aceitava como um fato, mas não estava segura de que Nicolae o fizesse. Ou que sequer pudesse. Destiny não tinha nem idéia de como resolver o problema e estava muito cansada para continuar pensando. Permitiu-se dormir, incentivada pelo ritmo tranqüilizador da água e a calma que se estendia.                                                                         Através de seu corpo enquanto Nicolae começava o lento e meticuloso processo curador de sua raça.     Nicolae trabalhou longo tempo, reparando o mal feito pelos micróbios, comprovando cada órgão, cada veia, assegurando-se de que não havia células infectadas a espreita, a espera para atacar novamente, quando ela estivesse mais vulnerável. Apesar de seu esmerado cuidado, sentia-se intranqüilo, como se algo tivesse passado por alto.         Soube em que momento seu irmão começava a desentranhar as salvaguardas para entrar na câmara.                                                   Ouviu a voz musical dele se unindo a sua enquanto cantarolava. Sentiu-se agradecido por Vikirnoff, que sempre aparecia com sua força e sua lealdade, guardando suas costas e sempre preparado para lhe ajudar em momentos de necessidade. Nicolae saiu do corpo de Destiny, cambaleando, tomado pela debilidade. Lançou a seu irmão um rápido olhar, mais para comprovar que não havia sofrido nenhum ferimento enquanto lutavam contra seus inimigos.        - Como vai? - Perguntou Vikirnoff, cortesmente.

- Teimosa, audaz e impossível. - A voz de Nicolae era entrecortada, enquanto enviava Destiny a um profundo sonho. Somente depois permitiu que sua fúria reprimida chegasse perigosamente perto da superfície. A terra sob seus pés se ondeou ligeiramente e a água do charco borbulhou ferozmente. – Ela deveria ter me chamado a seu lado, no primeiro indício de problemas. Se tivesse feito, nada disto teria acontecido. Em vez disso, sua vida ficou em perigo e quase a perco.

Vikirnoff o olhou, com seu jeito casual. - Não tem sentido se zangar com ela, por não te chamar. Não vejo razão para sua fúria.

- Foi você, em primeiro lugar, que me repreendeu por permiti-la caçar, Vikirnoff. Agora acha que não tenho que estar zangado com ela, quando se lança diretamente ante o perigo?

- Não teve ninguém que a educasse ou que a guiasse. Separaram-na de sua família aos seis anos. Tudo o que ela aprendeu foi com você. Você lhe ensinou a caçar, a confiar em si mesma e em seu próprio julgamento. A você não teria ocorrido chamá-la. Não te ocorre chamar a mim. Ela não teme a morte, mas teme ser capturada pelo não-morto e sabe que está decidida a que isso não volte a acontecer novamente. Ela é como você. Independente e valente. Não a culpe por esses traços, pois são admiráveis. Você é o único capaz de detê-la ou obrigá-la a voltar para nossa terra natal.

Nicolae quis discutir com seu irmão. Quis mostrar que possuía mais experiência, que era muito menos vulnerável e bem mais poderoso que Destiny, mas nada disso mudaria a verdade das palavras de Vikirnoff. Destiny agia como ele a ensinara. Não lhe chamara, porque estava acostumada a confiar em si mesma. Não havia sentido o perigo imediato, porque estava pensando nele e ele sabia que uma boa parte de sua ira era causada por seu medo por ela, mas outra parte estava apoiada na incorreta hipótese de que depois de fazer amor, ela se voltaria para ele de forma natural. Suspirando, Nicolae passou a mão pelo cabelo, deixando-o mais despenteado ainda.- Não vou dizer que você tem razão, porque não poderia suportar seu sorriso zombeteiro.

- Eu não sou zombeteiro. - Reclamou Vikirnoff.        - Você é zombeteiro, sim e detesto que depois de todos estes séculos, continue sendo criterioso. Francamente, é arrepiante.

- É porque você não é desde que encontrou sua companheira. Espero que isso não aconteça a todos os homens. Seria uma lástima.        - Seu senso de humor não está melhorando. - Assinalou Nicolae ,secamente.        - Eu não tenho senso de humor. - Respondeu Vikirnoff

- Não tinha notado. – Zombrou, Nicolae, mas seu sorriso desvaneceu rapidamente. - Ela batalha bem.

Vikirnoff assentiu. - Sim, e é uma companheira digna de você. Achei que nunca a considerasse assim, com seu sangue corrompido e suas maneiras selvagens, mas ela é valente. Houve uma chamada, não faz muito. A companheira de um dos nossos está grávida e está morrendo. Estão pedindo os curadores e nossa gente foi convocada para se unir e ajudar no ritual curador, mesmo à distância.        O coração de Nicolae bateu forte, cheio de esperança.

- É certo e não foi longe daqui. Os curadores devem estar ainda com a mulher. Um deles era Gregori.                                                                                                      Houve um silêncio entre eles. Vikirnoff compartilhava a mente de seu irmão durante as batalhas com o não-morto, o que faziam mais fácil coordenar seus planos de batalha. Ambos ouviram o vampiro sussurrar suas cruéis palavras a Destiny, dizendo que o Príncipe não a aceitaria. Que Gregori a caçaria. Que nenhum deles a quereria perto das outras mulheres. Ambos haviam sentido a resposta envergonhada de Destiny. O vampiro soubera exatamente o que dizer, para jogar com seu medo e humilhação.- Ela não aceitará, fugirá.        Vikirnoff sacudiu a cabeça. – Você não tem outra escolha, que chamar Gregori. Ele logo voltará para nossa terra natal. Nunca conseguirá levá-la para lá, depois do que foi dito. Acredita que não há cura para ela. Chame-o. Gregori não pode fazer outra coisa, que responder a você, que encontrará uma forma de persuadi-la para que aceite o poder do curador.        Nicolae lhe deu voltas a idéia, na mente. O que Vikirnoff dizia fazia sentido. - É possível que não há cura. - Assinalou Nicolae.

Vikirnoff encolheu os ombros. – Voce pode tentar.

       Antes de poder mudar de opinião, Nicolae enviou a chamada pelo vínculo comum dos Cárpatos. - Ouça-me, curador. Temos grande urgencia de sua cura. O sangue do vampiro atormenta minha companheira a cada sublevação. Não quero perdê-la. É um farol para o não-morto e evita nossa união. Peço-te que venha para nós, quando tiver assegurado a vida da mulher que está ajudando.        Passou um breve momento. A água borbulhou e as chamas titilaram sobre as paredes da caverna. Cintilaram cores no teto durante um momento, depois desapareceram. A resposta chegou e não houve perguntas e nem exigência para saber quem era Nicolae e como sua companheira estava em semelhante situação.         - Irei ao momento. Começaremos na próxima sublevação.

Era o estilo dos Cárpatos, de ajuda rapida. O coração de Nicolae ficou tão cheio que alegria, que ele quase não pôde responder.        - Obrigado, Curador.

- Vikirnoff, ele virá. - Nicolae procurou dentro de sua camisa, a foto já amassada. - Um vampiro visitou Mary Ann em seu escritório e plantou uma compulsão para que ela chamasse o número de seu cartão de visita, se esta mulher chegasse procurando refúgio. Acredito que precisamos encontrá-la e fazer o que pudermos para protegê-la. Não posso partir neste momento. Você pode começar a busca? Podemos fazer cópias da foto... Mary Ann tem uma máquina dessas... E distribui-la entre nossa gente.

Vikirnoff pegou a foto, olhando-a sem muito interesse. Logo, seu olhar voltou a focá-la, estudando-a cuidadosamente.- Quem é esta mulher?

- Ele não lhe deu nome. Havia poucas lembranças da conversa dela com opróprio vampiro. Não pude "lhe ver" nas lembranças da Mary Ann. Por que? Reconhece-a?

- Esta fotografia é colorida, Nicolae? – Vikirnoff não olhava para seu irmão, mas continuava olhando fixamente a foto, como se estivesse hipnotizado.        Nicolae observou como o polegar de Vikirnoff acariciava a face que lhe devolvia o olhar, da foto. – Sim, é colorida. Reconhece-a? - Perguntou novamente, nunca tinha visto Vikirnoff exibir interesse por nenhuma mulher.        - Vi este rosto. Seus olhos. Não realmente, mas num sonho. Faz muito tempo, Nicolae, em um sonho. Seu cabelo era negro como a meia-noite e seus olhos eram tão azuis como o mar quando está limpo e calmo. É a única cor que me lembra, esse azul profundo de seus olhos. Nunca deixei escapar essa lembrança. São azuis seus olhos? Nicolae, nesta foto, os olhos dessa mulher são azuis? De um azul intenso e vívido?        O coração do Nicolae se alagou de esperança.- Sim, Vikirnoff. Seus olhos são azuis e seu cabelo negro como a meia-noite. Nunca me falou de um sonho semelhante.        Vikirnoff continuava com seu olhar preso à foto. - Não havia razão para te contar algo semelhante. Era somente um sonho. O que você sabe dela? - Acreditam que é humana e tem talento psíquico. O vampiro indicou que tinha o dom da psicometría. É tudo o que sabemos. Reclamou que ela pertence a um centro de investigação para psíquicos e disse que queriam ajudá-la. Ela está fugindo de alguém, provavelmente do vampiro. Acredito que é melhor que nossa gente a encontre primeiro.

- Poderia levar anos, Nicolae e não posso te deixar agora, quando está rodeado de vampiros e carregando uma companheira que pode muito bem te pôr em perigo sem que saiba ou note. Seu sangue está poluído. Não quero te perder, Nicolae. Sabe o quanto estou perto do fim. Se algo sair errado aqui contigo e sua companheira, também será ruim para mim. Aqui, posso te ajudar, mas procurando esta mítica mulher, não posso fazer nada por você.

 

Destiny despertou com a fragrância de flores. Já não estava na terra, mas numa cama macia e lençóis sedosos. Podia sentir a seda sobre sua pele nua, excitando seu corpo, quando a seda roçava contra ela a cada movimento. Seu cabelo estava solto e caía em volta dela sobre os travesseiros. Destiny inalou profundamente, arrastando a fragrância de flores e o masculino aroma de seu companheiro, a seus pulmões. Um pequeno sorriso curvou sua boca.

- Nicolae. Está aqui comigo. - Abriu os olhos, voltando a cabeça para fitá-lo, praticamente bebendo os duros e planos ângulos de sua face, a sensualidade de sua boca. A beleza de seus olhos.

- Onde mais poderia estar que com minha companheira? – Ele estava sentado na beirada da cama e seu olhar vagava amorosamente sobre o rosto de Destiny, como dedos acariciantes. Sua era foi uma carícia, tão suave que a tocou profundamente e sobrecarregou cada terminação nervosa sua.

Com um esforço, Destiny afastou os olhos dele. Seu olhar surpreso percorria a câmara, a qual ele a tinha levado. Não havia possibilidade de que o mau cheiro do mal entrasse em seu mundo escondido. Havia rosas por toda parte. Subindo pelas paredes da caverna e no alto formavam um lindo arranjo. Algumas, flutuavam na superfície do charco. Outras, estavam espalhadas entre as rochas. Rosas de todas as cores e com suas suaves fragrâncias, para agradá-la.

O sorriso de Destiny se ampliou e ela se voltou para Nicolae.

- Levou Velda e Inez a sério, não é? Devo esperar chocolates e as coisas interessantes que podem ser feitas com ele?

Os dedos deles acariciavam a pele de sua garganta e desceram vagarosamente pelo vale entre os seios, até seu estômago plano. A menor carícia enviou calor através de seu corpo.

- Deu-me medo, perguntar a Inez exatamente os detalhes do que pode ser feito com o chocolate, então pulei essa parte. Entretanto, eu gostei de sua idéia das flores.

Havia uma nota em sua voz, que fez seu coração bater forte no peito.

- Eu também gostei. – Destiny era consciente de que estava nua sobre a cama, com o corpo aberto a sua inspeção. Uma parte dela queria se cobrir, sentindo-se súbitamente tímida, mas havia outro lado, bem mais forte, que sussurrava sedutoramente. Esse sussurro que celebrava a forma em que os olhos escuros e famintos se moviam possessivamente sobre ela. Adorava ver seu corpo duro e agressivo, reagindo à vista do dela. E adorava saber que gostava do que via.

Nicolae lhe levantou o braço e o virou, como se inspecionasse as pequenas cicatrizes brancas que marcavam sua pele. As cicatrizes não deveriam estar ali depois de que seu corpo fôra reparado pelo sangue Cárpato, mas como foram feitas por um vampiro, essas cicatrizes permaneceriam para sempre. Acelerou-lhe o coração, em reação. Ele inclinou sua cabeça e colocou os lábios gentilmente contra as cicatrizes, deixando beijos ao longo da parte sensível de seu braço e sua mão.

Destiny sentiu que seu estômago se contraía, em reação. Os lábios viajaram para seus dedos, atraindo-os um a um, outro até o ardente calor de sua boca. Seu olhar se cruzou de repente com a dela e captou as chamas que ardiam em seu interior, endurecendo cada músculo de seu corpo. Destiny ficou presa no fogo, com o corpo inquieto e ardente. Moveu seus quadris contra os lençóis de seda e suas pernas moveram incitantemente.

Para ela era surpreendente que pudesse ficar presa a ele tão rapidamente, precisando tanto dele e desejando-o de tal forma. Uma parte dela sempre duvidaria, permanecendo presa a seu violento passado, mas olhando-o nos olhos. Destiny estava disposta a se perder nele. Em suas fantasias e em sua posse. Estava disposta a confiar nele com seu corpo, porque podia sentir a profundidade de seu amor.

Ele inclinou a cabeça para a dela. Seu cabelo lhe acariciou a pele com os sedosos fios. Diminutas chamas arrepiaram sua pele. A eletricidade arqueou entre eles, quando os lábios de Nicolae encontraram os dela, totalmente possessivos. Enquanto suas mãos eram gentis e seus movimentos lentos e tranqüilos, sua boca era urgente e possessiva. Tomando a dela. Devorando-a e alimentando-se dela, como se nunca fosse tê-la, o suficiente.

Seu beijo acendeu uma tormenta de desejo e urgência nela. Sua temperatura se elevou vários graus. Seus lábios tomaram os deles enquanto seu corpo arqueou contra ele, sentindo-se apertada, torcida e dolorosamente desesperada por seu toque.

A mão dele encontrou sua garganta, deslizando-lentamente para baixo, para capturar seu seio. Um suave gemido de felicidade escapou de sua gargante. As sensações eram fortes. Seus lábios se elevaram em flagrante convite. Ele levantou a cabeça para fitá-la.

- Tenho que te dizer que te amo? - Perguntou ele brandamente, com sua voz feiticeira. A que sempre lhe derretia e a deixava completamente a mercê de seu enfeitiço.

- Se não dizer, certamente me demonstra. - Ele havia demonstrado o que ela supunha ser o amor incondicional. Amando sem reservas e com total aceitação. - Sinto-me muito afortunada neste momento. – Destiny confessou.

Era uma grande concessão para ela, uma admissão. Desejava-o desesperadamente, cada célula de sua mente, de seu corpo e de sua alma clamava por sua posse.

Ele tinha outras idéias.

- Quero chegar a te conhecer como deve um companheiro. - Sua língua dançou em volta de um mamilo, seu hálito o esquentou. - Tenho necessidade de explorar cada centímetro de você.

Sua boca se fechou sobre o mamilo, ardente, úmida e incrivelmente provocante. Ela gemeu, incapaz de conter o florescente fogo que a explorava. Podia sentir como seu corpo se arrepiava implacavelmente, cruelmente. Nunca havia sentido a pressão crescer tão velozmente, tão rápido.

- A exploração terá que esperar.

Ele sorriu contra sua pele suave.

- Prazenteira exploração. Mencionei que seria prazenteira? Quero demorar muito. Aproveitar cada minuto.

Destiny fechou os olhos quando a sensação a tomou novamente e bem mais forte.

- Quanto tempo? - Gemeu as palavras. - Não sei se poderei suportar.

A língua brincou e prodigalizou atenção aos mamilos até que Destiny lhe envolveu sua cabeça com os braços embalando-o contra ela. Não havia espaço para nada que não fosse alegria, necessidade e prazer. As sensações a atravessavam, enchendo-a de fogo, deixando-a sem fôlego e desejando mais.

As mãos de Nicolae começaram uma lenta e íntima busca de seu corpo. Suas mãos percorreram sua pele como um homem cego, memorizando textura e forma. Foi à experiência mais incrível de tinha vivido. Seu corpo se fragmentou sob suas carícias, rompendo-se. As sensações eram tão poderosas, que ela não podia se manter imóvel, sob as mãos tão ávias e curiosas. Se Nicolae não havia prendido-os completamente antes, estava prendendo agora. Nunca seria capaz de se afastar dele, nunca se veria livre do desejo de seu toque. Sentia-se como se estivesse unida a ele por toda a eternidade, em corpo e alma. Não havia lugar sobre ou em seu corpo que não o desejasse. Sua mente procurava a dele. Seu corpo palpitava por sua posse. Ele estava em todas as partes, em cada sombra, tomando seu corpo quase que reverentemente.

Os lábios seguiram às mãos. Diminutos beijos desenhados para deixá-la transtornadas. Ele deu particular atenção a cada ponto que a fazia gemer e se retorcer sobre os lençóis de seda. Carícias que elevavam seus quadris da cama. A língua se atrasou em seu abdomem, um dos muitos lugares que o fascinavam, enquanto suas mãos encontravam o diminuto triângulo que guardava seu tesouro.

Nicolae sentiu a primeira onda de intranqüilidade nela, mas estava preparado, sabendo que ela se sentiria intensamente vulnerável e aberta, a ele. Acariciou-a gentilmente, sua mão acariciando seu sexo úmido, com incrivel atenção.

- Isto é por mim, Destiny. Seu corpo dá as boas vindas ao meu. Pode imaginar como me sinto? A visão de seu corpo e sua fragrância, quando estive sozinho tanto tempo? A forma em que você me faz sentir quando mostra que realmente me deseja, que tem necessidade de ter meu corpo do mesmo modo que eu preciso do teu? – Ele sussurrou as palavras, inclinando a cabeça para a conjunção entre as pernas dela, como se procurasse néctar.

Destiny podia sentir seu hálito em seu úmido sexo e seu corpo se ondeou de prazer, em vez de medo. Nicolae separou suas coxas suavemente e seus dedos a tocaram lentamente, gentilmente, invadindo-a. Em resposta, seus músculos internos se fecharam de repente a seu redor, prendendo-o em ardente e escorregadio calor, enquanto estremecia, necessitando sua invasão. De repente, sua língua a saboreou. Foi a menor das carícias, mas ela quase saiu fora de sua pele, seu gemido foi mais de súplica, que de objeção.

Depois sentiu língua ousada, profundamente em seu interior, numa forte e exigente carícia, que a fez voar. Gemeu, gritou, quando seu corpo foi tomado por uma tempestade de fogo. Destiny sentiu que só podia sujeitar-se a Nicolae, enquanto ele a conduzia para o alto, com sua lingua impiedosa reclamando-a, marcando-a, fazendo-a sua.

Ela se deixou ir, permitindo-lhe a intensa satisfação de levá-la ao limite. Seu orgasmo foi tão forte que a sacudiu, retorcendo-se sob ele e gemendo seu nome, num som articulado.

Destiny era apenas consciente de que os joelhos dele afastaram ainda mais suas pernas, que suas coxas se colocavam entre as dela.

Sentiu-o, grande, grosso e quente, pulsando de vida e desejo, exigindo a passagem para seu corpo. Ele era maior do que se lembrava, enchendo-a enquanto a invadia, pressionando firmemente, enquanto lentamente começava a colocar seu peso sobre ela. A sensação dele em seu interior estava além do prazer, além de sua experiência prévia com ele. Era seu lugar. Sabia que era só para ele. Não importava que estivesse ligeiramente dilatada e custasse ajustar-se, não importava que tivesse que lhe elevar os quadris para melhor lhe acomodar. Encaixavam como um só corpo.

Profundamente em seu interior, Nicolae baixou o olhar para ela, assegurando-se de que ela não estava com medo. Ele estava prendendo-a, com o peso de seu corpo, suas mãos fechadas firmemente em volta de seus quadris. Ela sentiu seu poder e sua força, soube em que preciso momento ele pôde dominar sua vontade, tomando o controle de sua vida. Que não seria nada sem ele.

O medo nublou seus olhos, mas o afastou. Era agora, consciente que possuia o mesmo poder sobre ele. Não permitiria que o medo a separasse do que queria. E queria este homem. Este único homem, seu escuro e maravilhoso caçador. Foi ela quem se moveu primeiro, colando seu corpo a ele. Empurrando-se para ele, estabelecendo um ritmo, convidando-o a tomá-la, como queria. Como sabia que ele desejava. Suas mentes estavam unidas.

Nicolae sentiu a selvageria elevando-se nele, com a total entrega dela. Seu corpo estava quente e apertado, sexo ardia de urgente necessidade. Penetrou-a profundamente, numa investida dura que os sacudiu. Ela elevou os quadris para encontrá-lo, sem medo da força de seu corpo, enquanto ele acelerava o ritmo, tornando-o duro e rápido. Ela era toda mente, coração e corpo exuberante, suave e provocante. Podia sentir o fluxo do sangue dela, chamando-o, incitando-o.

Os mamilos endurecidos atraíram sua atenção, provocando-o a uma ateanção especial. Incitantemente, prazerosamente, Nicolae sugou-os demoradamente, no que logo foi recompensado, quando os músculos dela se apertaram sobre seu membro, feroz e ardentemente. Destiny era tão apertada que ele quase não podia respirar, tomado pela intensidade de seu prazer.

Soube no momento em que ela despertara, o que estava fazendo e a excitação, a antecipação havia sido intolerável. Agora, ela era dele, estava fazendo-a completamente dele. Destiny era só para ele, que a desejava de corpo e alma. Sem reservas. O crescimento do urgente edelicioso desejo, levou-os ao limite, por várias vezes e Nicolae se segurou, até vê-la choramingar cheia de dengos, pedindo piedade.

- Quero meu sangue fluindo em suas veias. - Ele sussurrou, a tentação. - Não te darei alívio até que tenha tudo de você. Quero estar aqui, profundamente em seu corpo, quero minha mente profundamente fundida a tua e quero meu sangue em suas veias.

Não havia forma de resistir. O desejo estava sobre ela, alongando seus incisivos fazendo com que elevasse a cabeça para o peito que ele estava oferecendo. A fragrância selvagem e incitante a envolveu. O corpo dele cada vez mais rijo, as investidas mais longas e profundas, levavam-na a loucura. Acariciou a pele dele com a língua e sem mais preâmbulos, marcou a carne de seu caçador, cravando seus dentes, conectando-os como devia ser.

Ele gemeu roucamente e sua voz carregada de ardente êxtase, fizeram com que as chamas dançassem no corpo dela, que se apertou a seu redor. A força vital dele, seu dom ancestral, enchia-a como ele enchia seu corpo.

Nicolae soube o momento em que ela alcançava o degrau maior, em sua deliciosa escalada. O momento em que seu corpo prendeu-se ao dele, levando-o com ela ao limiar. A língua de Destiny lambeu as incisões, para fechar as diminutas marcas, para gritar seu prazer às rosas, aos deuses e a Nicolae, que a seguiu prazerozamente, vertendo-se nela, permitindo-a tomar a última gota de sua essência.

Nicolae continuou prendendo-a contra os lençóis de seda com o corpo ainda sobre o dela. Seus corações pulsavam uníssonos, os corpos estremeciam e se abraçavam como se pudessem entrar um no outro. Nicolae moveu os cabelos de Destiny afastando-os do ombro, despindo-lhe a pele e seus seios, ao seu olhar. Lentamente, como se temesse assustá-la, ele baixou seu peso completamente, enterrando a face na suavidade de sua garganta.

Ele acariciou seus seios mais uma vez e seu seu hálito roçou pele da garganta dela. Estavam unidos e seu corpo incrivelmente ainda duro e latejante. Estava ainda desejoso.

- Me abrace, Destiny. – Ele pediu. Suas palavras foram sussurradas contra a pele dela, seu nariz contra o pescoço macio e provocante.

Os braços de Destiny envolveram-no, imediatamente. Seu corpo estava ainda vivo, tomado pelos tremores do êxtase. Quando ele se mexeu, ela pôde sentir como seus músculos se contraíam e dilatavam, fazendo-a gemer com prazer renovado. Vagaram à deriva no prazer e na completa harmonia, segurando-o perto dela, adorando a sensação de seu corpo masculino contra a suavidade do dela.

Sem advertência, os braços de Nicolae se tornaram duros, imóveis e seus dentes se penetraram profundamente o palpitante pescoço de Destiny. Os relâmpagos os golpearam, arqueando e faiscando através de seus corpos. Dor e prazer misturados, dando passo ao intenso e inimaginável êxtase. Um fogo deslumbrante que os consumia. Nicolae bebeu sofregamente, enquanto seu membro continuava investindo dentro dela. Duro e insistente. Profundamente dentro dela, como se ele estivesse tentando alcançar sua alma.

- Nicolae! Não!

As palavras de Destiny foram um lamento e ela lutava para manter-se concentrada no perigo. O prazer era intenso e era difícil pensar corretamente. Lembrar que o que estava acontecendo era errado.

Não desejava a febre novamente, o desejo que rápidamente se convertera em obsessão. Não queria a urgência que já a estava tomando. Um deles tinha que ser cordato nesse mundo de prazer. Destiny precisava protegê-lo, mais que precisava de seu próprio prazer. Tentou afastar a cabeça dele de seu pescoço.

- Nicolae! Pare! Não sabe o que está fazendo. Deve parar. O que está fazendo é perigoso.

Ela tentou ser a fria, ser voz da razão em meio as sensações indescritíveis, mas era impossível penetrar o arrebatador êxtase que tomava os sentidos de Nicolae. Destiny empurrou-ocom força, mas a boca dele estava firmemente em seu pescoço e seu corpo traía-a, entregando-se sem reservas ao dele, totalmente fora de controle. Não conseguia evitar. Cada terminação nervosa estava viva. Sua pele estava ardendo, suas vísceras explodiam de prazer, sacudindo-a enquanto ele a levava ao limite, tão rápido e com tanta posse, que ela não pôde controlar.

- Nicolae! Por favor. Por favor, me ouça. - Ele era muito forte e ela não estava conseguindo evitar o desastre, pois seu corpo a traía, preso em uma dança feroz, ao dele. As lágrimas encheram seus olhos, enquanto lhe suplicava. - Por mim. Detenha-se e pense.

- É tarde. Seu sangue flui em minhas veias. Agora somos iguais.

Sua voz estava tranqüila, aceitando-a completamente, quando ele passou a língua por sua garganta e levantou a cabeça para que seu olhar encontrasse o dela.

Obsidiana negra. As palavras estavam na mente de Destiny quando ela levantou os olhos para ele. Um vibrante e intenso orgasmo os sacudiu, mas eles continuavam se olhando, sem piscar os olhos. Nenhum deles se moveu e ninguém conversou.

Como iniciara, a imobilidade dos braços dele se dissolveu e relutantemente ele a soltou, para que ela pudesse mover a cabeça. O pescoço de Destiny palpitava.

- Eu sabia o que estava fazendo, Destiny. – Nicolae pronunciou as palavras em voz alta, provando-as.

Mesmo pensar nas palavras de Nicolae, fazia-a sentir-se culpada. Estava tão presa em seu ato de amor, estava tão segura, que se sobrecolocou à tentação do momento.

- É minha companheira. Pertencemos um ao outro. Onde você está, eu estou. Teme que o Príncipe não a aceite, não é? Agora eu compartilho seu destino. O que acontecer a você, acontecerá comigo.

O estômago de Destiny se revolveu. E seus músculos se contraíram.

- Se afaste de mim! Afaste-se agora! - Quando ele ele se afastou, ela atacou. - Como pôde? Como pôde tomar deliberadamente o que tínhamos e convertê-lo em algo tão errado?

Ele se sentou, observando-a tranqüilamente com olhos escuros e pensativos.

- O que acha que fiz, Destiny?

- Tomaste-me em seu interior! – Ela gritou-lhe. – Convidou-o, ao fazer meu sangue entrar dentro de você. Se realmente me conhecesse, se realmente soubesse como me sinto, nunca poderia ter feito tal coisa. O aborrecimento e a enfermidade vivem em mim. Ele vive em mim e não posso fazer com que desapareçam. Você permitiu que ele ganhasse. – Destiny encostou-se contra a parede da câmara, sem olhar para as rosas e se deslizou até o chão. - Nicolae, você permitiu-lhe ganhar. – Sem mais se conter, ela começou a chorar silenciosamente, sem noção do quadro que apresentava. Seus joelhos estavam encolhidos e ela tinha a cabeça entre as mãos.

Nicolae suspirou, suavemente. Podia suportar tudo, exceto as lágrimas de Destiny. Havia esperado fúria, pois podia lidar facilmente com ela, estava preparado para ela. Mas não com suas lágrimas. E não eral lágrimas comuns. Ela estava chorando como se ele houvesse rompido seu coração, como se não houvesse mais esperança. Como se desconfiasse não poder estar com um homem semelhante, sem que seu coração se rompesse em pedaços?

Nicolae cruzou a distância entre eles, para sentar-se cuidadosamente junto a ela. Perto dela, mas sem tocá-la. Ela não levantou o olhar para ele.

- Destiny, eu tinha que encontrar uma forma de te fazer entender o quanto significa para mim.

Ela fez um pequeno som, sacudindo a cabeça e levantando o olhar.

- Essa é sua resposta? Isto é o que pôde fazer para me mostrar que importo a você? Está louco ou é só estúpido?

- Pensei durante muito tempo. Não há outro modo. Não vejo nada mais que a diferença em seu sangue.

Ela afastou os cabelos do rosto e o olhou fixamente.

- Não é pouca coisa, Nicolae. Não é como se estivéssemos conversando de meus antecedentes familiares. Estamos conversando de sangue poluído. Não entende? Chamou o vampiro. Não pode mais ir até eles e surpreendê-los. Nunca mais. Sempre saberão onde está. Você é um caçador e acaba de perder sua vantagem, puseste a si mesmo em terrível perigo. – Ela esfregou as mãos no rosto. – Oh! Nicolae, como pôde fazer algo tão ridículo? - Havia desespero em sua voz.

- Destiny. - A voz dele sussurrou sobre sua pele. – Olhe para mim, pequena. Só nos uni mais firmemente. Nosso vínculo de sangue não me fará mal. Sou forte e capaz de lutar contra qualquer escuridão. Tenho a você como uma âncora, para me sujeitar.

- Você é minha âncora. - Gritou ela, levantando o olhar para ele. Foi um engano. Instantaneamente ela ficou presa nas escuras profundezas de seus olhos. Nicolae olhava-a com tanto amor, que ela não podia afastar o olhar. Não podia condená-lo. – Eu precisava saber que podia te manter a salvo.

Ele sorriu, estendendo-se para entrelaçar seus dedos aos dela e levando-os aos lábios.

- Estou a salvo, Destiny. Desde o momento em que ouvi aquela menina chorar, me senti a salvo.

- Não entende. Queria ter certeza que podíamos estar juntos e não te fazer mal. Queria o vampiro longe de você. - Havia uma terrível tristeza em sua voz.

Nicolae se aproximou mais dela.

- Deve me ouvir, Destiny. Ele nunca esteve longe de mim. Nunca. Eu estive contigo desde a primeira vez fundiu sua mente a minha. Senti sua dor e a humilhação que lhe fazia. Escolhi compartilhar tudo com você e soube de primeira mão o que era ser tão indefesa e vulnerável ante um ser poderoso e mau. Todo o tempo, me sentia envergonhado em não poder te encontrar e te proteger como deveria fazer. Esse vampiro caminhava em meu pensamento e comia minha alma. Cada vez que colocava as asquerosas mãos sobre você, ele arrancava-me o coração. Ele nunca esteve longe de mim.

Destiny baixou a cabeça, envergonhada.

- Eu não podia te deixar partir. Sabia que devia afastar minha mente, sabia que nunca deveria ter me conectado a você, em primeiro lugar, mas sua voz me salvou. Mesmo quando era menina sabia que devia te deixar partir, mas precisava de você, desesperadamente.

- Como eu precisava de você. Não parece capaz de compreender que igual, eu precisava de você, desesperadamente. A fera era forte em mim, e havia chegado ao final de meus dias. Você deu propósito e significado a minha vida. E trouxe amor a meu mundo. Agora vejo cores quando havia só um vazio cinza. Sinto emoções, quando minha vida era interminavelmente monótona. Sua necessidade não era maior que a minha.

- Ainda me sinto envergonhada de ter trazido esse monstro para sua vida. - Ela havia conduzido um monstro até seus pais. E agora permitira que encontrasse Nicolae.

Nicolae levou suas mãos unidas ao coração.

- Vi esta tragédia com freqüência ao longo dos séculos, Destiny. As coisas que acreditamos nossos pecados quando crianças, não podem ser absolvidos nem sendo adultos. É triste que não possamos deixá-los passar, porque essas coisas marcam nossas vidas. Acredito que aquele pobre menino sempre se acreditará responsável pela morte de sua mãe ,simplesmente porque não lavou os pratos. Nunca sentirá que merece amor.

Destiny se apoiou contra a parede de flores. Sabia muito bem o que ele estava dizendo.

- Onde estão os espinhos?

- Espinhos? Do que está conversando?

- Nas rosas. Onde estão os espinhos?

Nicolae pareceu surpreso, enquanto lhe mordiscava os dedos.

- Nunca deixaria espinhos nas plantas. Você poderia se ferir.

Destiny estalou em gargalhadas. Não conseguiu evitar.

- Nicolae, tem alguma idéia do quanto estúpido que é isso? Caçamos vampiros. Temos sangue poluído fluindo em nossas veias e não acredito que me arranhar com um espinho vá me fazer mal.

Ele encolheu os ombros.

- Eu não gosto que cace vampiros e espero te liberar do sangue poluído. É desnecessário arriscar-se a se arranhar com um espinho, se eu posso evitar. – Nicolae soava perfeitamente razoável.

Destiny gemeu, tentando não notar a forma em que seu coração pulsava feliz, ante suas palavras e ante o toque dos lábios dele contra sua pele

- Não acredito que vai ser um desses homens superprotectores que sempre estão tropeçando nos próprios pés, para tentar resgatar uma mulherzinha frágil, não é?

Nicolae fez uma careta visível.

- Eu não gosto muito da imagem que está conjurando. Sinto que é meu dever e direito te proteger.

Ela ergueu os olhos para o alto e soltou um suspiro exagerado.

- Você é um desses homens do tipo resgatador. Algo que vem da infância, talvez. Possivelmente tenhamos que examinarmos mais esse teu lado.

Ele elevou as sobrancelhas.

- Não acredito que seja necessário. Proteger a companheira é um ato tão necessário como respirar.

- Seriamente? - Destiny ficou em pé, empurrando-o para o lado. - A próxima vez que tomar uma decisão como tomar o sangue poluído, poderia me consultar primeiro. Posso bater em tua cabeça, se sair com outra dessa.

Nicolae encontrou-se a sorrindo ante a expressão exasperada dela.

- Voce tem problemas com autoridade.

Ela jogou a cabeça para trás, seus olhos faiscavem com malícia. Seus cabelos esparramaram em volta de sua face e desceram por seus ombros.

- Felizmente, não conheço nenhuma autoridade, então de toda forma, não importa. – Destiny vestiu-se, no costume da gente dos Cárpatos, naturalmente, sem vacilar. Estava com seis anos quando a tinham afastado de sua família. Sabia mais dos costumes dos Cárpatos que dos humanos. - Se o Príncipe não gostar de mim, - Ela fez um jesto com a mão. - por mim, está perfeitamente bem.

Nicolae segurou seu queixo, elevando seu olhar até ele.

- Precisa aperfeiçoar a arte de mentir.

Ela não se mostrou nada arrependida.

- Vou ter que pensar no que fazer contigo, Nicolae. Não planejei te deixar entrar em minha vida, mas voce a colocou de pernas para o ar. O que acha que vamos fazer, exatamente? Não é como se pudéssemos ter uma vida normal. Certamente não podemos ter todos essas crianças que parece desejar.

- Por que não?

Os olhos de Destiny brilharam com repentino fogo.

- Seu sangue, está poluído, esqueceu? - Ainda havia um rastro de acusação em sua voz e por um momento as chamas brilharam em seu olhar. – E muito obrigado por ser tão teimoso e impetuoso.

Ele se vestiu a seu usual estilo elegante, afastando-se dela para ocultar sua diversão. Não a agradaria, que ele pensasse que era graciosa, quando ela estava procurando briga.

- Sinto-me ofendido pela palavra impetuoso. Certamente não descreve minha ação cuidadosamente pensada.

Ela olhou-o, fixamente.

- Não me lembre que não estava tomado pela paixão, pois é a única desculpa que tinha para você. No que estava pensando, Nicolae? Não sabe o que esse sangue pode te fazer. Arde e corrompe e você tem a escuridão espreitando em seu interior. Olhei-a, senti-a, em mais de uma vez. Odiaria ter que arrancar teu coração nas primeiras horas da manhã, quando menos esperar, mas se me der qualquer problema ou começar a exibir qualquer comportamento vampírico, está acabado. – Ela disse com mais alegria, que relutância.

Nicolae não pôde evitar que a alegria explodisse ante sua audácia.

- Me assegurarei de me precaver.

- Sério, Nicolae? Se planejou tudo cuidadosamente, que bem acredita que reportaria?

Houve um súbito silêncio. Ele não respondeu, mas logo, tudo lhe pareceu diferente. Ali já não estava o tranquilo companheiro em sua guarida. Destiny podia sentir as ondas de poder, de força e reconhecia o perigo nele. E ele estava observando-a sem piscar. Era o olhar de um predador. Por um momento, ela ficou em pé lhe devolvendo o olhar, mas seu coração saltou em seu peito e ela se encontrou dando um passo atrás, longe dele.

Nicolae estendeu a mão para voltar tocá-la.

- Não me olhe com medo nos olhos. Você é minha companheira e está unida a mim para sempre. Nunca te faria mal, Destiny. Seria impossível fazer algo semelhante.

- Estamos brincando sobre sangue poluído, mas e se não for uma brincadeira? E se você se converter? Eu realmente não poderia matá-lo. Sei que não me obrigaria a fazer isso.

O sorriso dele suavizou os ângulos de seu rosto.

- Agrada-me ouvir semelhante admissão. Não tema nunca, Destiny. Vikirnoff se ocuparia desse assunto se houvesse necessidade, mas não me preocupa. Se devo viver com sangue poluído, que assim seja. Entretanto, acredito que o curador pode nos liberar dele.

O estômago de Destiny se sobressaltou. Havia descoberto, enfim.

- O curador. - Repetiu ela. – Você continua conversando sobre um curador. Tentou me curar, mas o sangue poluído está ainda aí. - Nicolae era um trabalhador milagroso e ela sabia, vira de primeira mão, o que ele podia fazer. Se ele era incapaz de liberar seu corpo do sangue poluído do vampiro, então ninguém poderia fazer tal coisa.

- Nossa gente tem curadores muito maiores do que eu. Eles nascem de uma linhagem de antigos, que têm esse talento. São os verdadeiros trabalhadores milagrosos de nossa gente. Há um bem perto de nós. Chegou uma chamada dos curadores, para salvar a uma mulher grávida e com problemas de coração. Acredito que a mulher e o bebê estão vivos e bem. Convoquei um deles curadores a nós.

A mão dela foi à garganta defensivamente, como se esperava que os lobos a rasgassem.

- Esta é outro de suas brilhantes decisões arbitrárias?

- Acredito que é a melhor. Se ele pode nos curar, levaremos uma vida normal. – Nicolae ignorou seu gemido incrédulo. - Se não puder, nunca se sentirá sozinha neste mundo. Se nossa gente decidir nos condenar, ainda estaremos juntos.

Ela fechou os olhos, afastando-se, para que ele não pudesse ver a expressão de face.

- Voce se arrisca a viver o resto de sua vida imortal como uma mulher como eu? Só para que eu não me sinta sozinha? – Ela desejou lhe sacudir até que lhe batesse os dentes. Desejava beijaá-lo até que ambos caíssem sobre a cama, sem sentidoa. Desejava chorar pela força do amor e so compromisso de Nicolae.

- Você é minha alma, Destiny. Não podia fazer outra coisa.

Essas simples palavras a sacudiram. Realmente podia alguém amar tanto a outra pessoa? Tão desinteresadamente? Permitiu que seu fôlego escapasse lentamente, tentando recuperar alguma compostura.

- Quem é esse poço de virtudes e tanto talento?

- Chamam-lhe de "o escuro". É descendente de uma grande linhagem de caçadores e é o segundo homem, depois de nosso Príncipe. Ele guarda nosso Príncipe e é um renomado curador. Sustenta poder em sua mente e suas mãos. Acredito que é o único que seria capaz de nos ajudar. Ele chama-se Gregori.

Destiny não pôde evitar o involuntário estremecimento de medo ante o imponente nome. Já havia ouvido falar do tal homem, de Gregori. Todos os vampiros o temiam. Ela tinha crescido com as maldições sussurradas do não-morto, se esse nome fosse pronunciado em voz alta. Enquadrou os ombros. - E se ele não puder nos ajudar e diz a seu Príncipe que somos vampiros, Nicolae? Ele nos caçará, se diz que é muito poderoso.

- Sou um antigo, Destiny, maior que Gregori. Ele não pode me derrotar. Vivo segundo o código dos Cárpatos. Ele não me condenaria por causa de sangue corrompido.

- Sempre é tão seguro de si mesmo, Nicolae. Esta foi sua decisão e já que arrisca sua vida, não tenho outra escolha que concordar. Eu nunca teria chamado este homem em minha vida. - A compreensão floresceu. – Você tomou meu sangue para que me visse obrigada a aceitar este curador. Sabia que não poderia fazer outra coisa.

Nicolae não pareceu arrependido. Destiny o olhou fixamente.

- Tenho coisas a fazer esta noite. Quero ver Sam e estou querendo conversar com Velda e Inez, sobre o que está acontecendo na vizinhança. Podia desfazer as salvaguardas para mim. – Ela queria continuar conversando com ele ou seguir olhando seu rosto. Dar-lhe um chute também poderia aliviar sua frustração, mas duvidava. Ela havia manipulado-a e sabia.

Não outra escolha que aceitar os cuidados de Gregori, embora o temesse. Não se preocupava com si mesma, mas Nicolae que era tudo para ela. Não queria que o sangue poluído começasse seu feio trabalho nele. Fôra só uma pequena quantidade, mas cedo ou tarde, o sangue começaria sua corrupção, ardendo como ácido. A dor começaria a cada sublevação. Ele começaria a odiá-la, acabaria por desprezá-la. Como poderia não fazê-lo?

- Porque foi minha escolha, Destiny. - Tranqüilizou-a, Nicolae, lendo facilmente seus pensamentos. Não considerara que ela pensaria tal coisa.

- Não importa, Nicolae. Quando passar o tempo e sua gente não te aceitar, quando a dor se estender e a corrupção cresçer e voce ter que lutar a cada momento de sua existência, esquecerá por que e como foi. Só se lembrará que foi por minha causa.

- Luto contra a crescente escuridão, um mal muito mais forte que este sangue poluído, a cada momento de minha vida desde que cumpri os duzentos anos. Ela esconde-se em mim, esperando um momento de fraqueza. Por que acredita que, agora que a tenho, sucumbiria ante semelhante abominação?

Destiny andou de um lado a outro, presa entre as lágrimas e a fúria.

- Não sei, Nicolae. Não deveria ter feito, não deveria ter arriscado tanto sua vida. Arriscou sua alma. Eu vivi com semelhante monstro. Sinto-me como se ele se estendesse por nós de sua tumba, empenhado em nos separar.

- Nada, nem ninguém, a afastará de mim. - Declarou Nicolae, com sua voz perfeitamente tranqüila. Não havia nota jactanciosa ou de falsa bravata. E era simplesmente a declaração de um fato.

Destiny levantou o olhar para seu rosto e notou em seu semblante o mais puro poder e completa confiança. Algo de sua tensão se apagou. Permitiu-se respirar novamente.

- Espero que ele seja tão bom como crê, que seja do tipo duro, porque se este Gregori vem nos fazer uma visita, pode precisar ser. – Ela manteve elevada a mão. - Tenho coisas a fazer, lugares a ir e pessoas a ver.

- Está me despedindo?

- Voce tambem tem problemas para separar as coisas, certo? Acredito que deberia ir visitar Mary Ann. Eu vou ver Inez e Velda. Acho que voce poderia vir comigo, se insistir realmente. Elas adorarão as rosas.

Ele gemeu em voz alta, segurando-a firmemente e beijando-a, até que Destiny lhe devolveu o beijo.

 

Destiny encontrou às irmãs em seu lugar habitual sobre a calçada, com suas cadeiras de jardim colocadas e prontas para receber visitas. Abraçaram-na com bem mais entusiasmo do que ela teria gostado, especialmente com o eco da risada de Nicolae em sua mente. Destiny ainda se sentia incômoda com o contato físico, mas Inez e Velda a abraçaram e beijaram, como se ela fosse uma menina a quem adoravam.

- Você não se desgosta com o contato físico comigo.

Nicolae zombava deliberadamente dela, sabendo que ela reagiria, que também sorriria e o intercâmbio a deixaria divertida e relaxada.

- Ainda quero te chutar. - Disse Destiny, sossegando-o, firmemente. Inez já estava tentando lhe ensinar uns passos de dança que ela acabava de aprender de um vídeo.

- Venha, querida. - Inez pegou sua mão, tentando obrigar os quadris de Destiny a balançarem apropiadamente, com a música metálica do aparelho de som, colocado junto às cadeiras.

- Irmã, deveria aprender o tango, não esses passos. Esse não é suficientemente romântico. – Objetou, Velda. - Seu pretendente está bastante enamorado por você, Destiny. Está aprendendo formas de te cortejar verdadeiramente, muito estranho nestes tempos atuais.

- Não posso lhes agradecer em ter dado as pistas. - Disse ,Destiny. – Ele admitiu que foram vocês que pensaram nas rosas. Eram adoráveis. – Destiny afastou-se cuidadosamente de Inez, sorrindo. - Não sei muito de dança, Inez, mas voce sim e maravilhosamente.

As irmãs tagarelaram, felizes de que Nicolae tivesse seguido seu conselho de coração.

- Ele conseguiu seus chocolates, querida? - Pergunto Inez, astutamente.

- Espero com ilusão esse prazer. – Mentiu, Destiny, ruborizando-se sem nenhuma razão ante a idéia de que as duas mulheres tivessem tão maliciosos pensamentos em suas cabeças.

O olhar de Inez se tornou sonhador.

- Será uma lembrança para entesourar. - Advertiu.

- O que vim mesmo fazer é conseguir mais informação sobre esses estranhos incidentes. Nicolae está me ajudando a investigá-los,e acredito que voces poderiam ter alguma informação a mais, para nós. - Disse Destiny, apressadamente. - Alguma de vocês lembra de acontecimentos similares no passado? – Ela perguntou, sentando-se na cadeira entre as duas senhoras. - Algo estranho? Alguém agindo de forma completamente fora de seu caracter?

Inez deixou escapar um som inarticulado, enquanto pensava.

- Irmã, lembra-se da pobre Blythe Madison. Agora está numa instituição mental. Era uma garota tão doce.

- Oh! Inez! Tinha esquecido dessa pobre garota. Nós a visitamos algumas vezes, mas ela estava insensível e seu marido nos disse que nossas visitas só pareciam incomodá-la. Entretanto, deveríamos ter continuado fazendo perguntas.

- Irmã, que horríveis nós somos. - As mãos de Inez voaram para a garganta. Parecia afligida. - Nem sequer perguntamos por ela ultimamente. Pobre Harry, provavelmente acredita que todo mundo se esqueceu dela. Pobre querido, levando tal carga, sozinho.

- Blythe não tinha outra família. – Continuou, Velda. - Só o pobre Harry. Ele estava tão desconcertado quando ela sofreu sua crise nervosa.

- Blythe era um doce. – Acrescentou, Inez. - Não que falava sem permissão. Por isso foi tão difícil de acreditar quando começou a fazer coisas tão estranhas. Não foi horrível, Irmã? Porque ela correu por esta mesma rua, ameaçando a todo mundo com uma faca de açougueiro.

Velda, assentiu.

- Não era o primeiro incidente, mas foi o que finalmente convenceu Harry de que era perigosa para si mesma e para outros. Devo ir visitá-la.

Destiny tocou seu braço.

- Estou segura de que Blythe apreciaria, Velda, mas poderia me dar mais alguns detalhes? Qual foi a primeira coisa estranha que ela fez?

- Foi justo depois que o bar La Taverna começou a ficar famoso. - Disse Velda. - Blythe pensou em transformar o restaurante num bar, esperando dar à vizinhança um lugar onde se reunir à noite, depois do trabalho. Era uma idéia maravilhosa. Todo mundo adorou e todos iam para La Tavernas, a noite. Sua idéia revolucionou todos os negócios dos arredores.

- Vocês gostavam. – Sugeriu, Destiny.

- Muito. - Admitiu Velda, enquanto Inez inclinava a cabeça com entusiasmo. - Um amor, doce menina... Ela ajudava todo mundo. Sempre estava resgatando animais ou levando sopa quem estivesse doente.

- Uma garota adorável. - Reiterou Inez, tristemente. - Perfeitamente sensata. Todo mundo gostava dela. Deveríamos ter contínuado nossas visitas, Irmã.

Destiny se manteve firme em sua paciência.

- Lembram como tudo começou?

- Estávamos em La Taverna celebrando o aniversário de Inez. - Disse Velda. – Lembro-me, porque estávamos com nossos chapéus de festa.

- Era meus sessenta e cinco anos, um verdadeiro marco. – Assinalou, Inez.

Velda colocou ergueu os olhos para o alto.

- Era seus setenta anos, Inez. Voce é cinco anos mais velha do que diz às pessoas.

- Irmã! Certamente que não. Estou segura de minha idade.

- É dois anos mais jovem que eu.

Inez pareceu surpreendida e começou a se abanar.

- Estou segura de que está equivocada, Irmã. Sou ao menos cinco anos mais jovem.

Velda tomou fôlego, sacudindo sua irmã, amorosamente.

- Agora que está dizendo, acredito que tenha razão. Confundi-me por um momento, querida.

- Estavam conversando dos chapéus de festa. - Disse Destiny, redirigindo a conversa, mas estava olhando Velda com muito mais respeito. Havia genuíno amor e compaixão nos olhos da mulher, enquanto olhava sua irmã.

- Bom... – Continuou, Velda. - Eu tinha tentado uma dessas novas permanentes e meu cabelo estava encaracolado e se sobressaindo sob o chapéu de festa. Estava me olhando no espelho e rindo. Blythe estava rindo comigo. Mostrávamos uma à outra no espelho. Ela também estava de permanente, mas seu cabelo não como o meu. Estava belissimo. Não achou, Inez? – Deliberadamente, ela atraiu sua irmã à conversa, afastando de sua mente, o perturbador assunto da idade. - Não acha que o cabelo do Blythe estava realmente precioso, todo encaracolado como estava?

- Oh! É claro! Ela parecia tão jovem.

- Mas o espelho quebrou. Simplesmente se quebrou. Nada o tocou. Eu estava me olhando justamente nele. - Velda franziu o cenho. - Havia partes de cristal por toda parte. O espelho devia significar realmente alguma coisa para Blythe. Possivelmente era uma relíquia familiar, pois ela imediatamente foi à pessoa mais próxima, levantou uma cadeira e a golpeou. Quem ela golpeou, Irmã? Você se lambra?

- Aquele amigo do Harry. Já não vem muito por aqui. Não o vi, mais que uma ou duas vezes após. – Respondeu, Inez. – Davis... Davis alguma coisa. Não me lembro o sobrenome.

- Morgan Davis. - Velda citou o nome, orgulhosa de sua memória. - É obvio. Eu não gostava dele. Era um homem muito frio para mim, mas as jovens o perseguiam. – Ela olhou para Destiny. - Eu não gostava de sua aura. Não tinha cor. Trabalhou com Harry durante uns poucos meses e depois deixou a cidade.

- É certo. Davis era muito alto e Blythe fez pedaços dessa cadeira, justo sobre ele. - Inez sorriu ante a lembrança. - Todo mundo queria rir. Uma mulher pequena como ela, quebrando uma cadeira. Mas depois, ela pegou um dos pés e começou a se bater com ele. Não emitia nem um som e não parava. Harry a conteve, não é Irmã?

- No dia seguinte, ela não se lembrava de nada. – Disse, Velda. - Quando perguntamos a ela, o que havia acontecido, ela negou, chorou. Acredito que começava a pensar que havia uma conspiração contra ela. Nenhum de nós pôde convencê-la de que realmente ela agredira Davis com uma cadeira. Depois de um tempo, pareceu render-se e afastou-se de todo o mundo. Quase não a víamos. Houve quatro incidentes em um mês ou pouco mais. Finalmente Harry a levou para o hospital. Ninguém fala mais dela. - A mão de Velda tremia quando ela a estendeu em busca do talismã que pendurava em volta de seu pescoço. - Eu era sua amiga. Deveria ter contínuado a visitá-la. – Ela baixou a vista até o chão. - Esqueci-a, totalmente.

- Velda. - Disse Destiny, com tom consolador. - Blythe sabe que é uma boa amiga. Ela é incapaz de fazer frente a nada neste momento, mas possivelmente encontraremos um pouco de informação que a ajudará. – As palavras de Velda estavam dando voltas em sua mente.

- Um espelho quebrado, Nicolae. Na outra noite, antes do estranho comportamento de John Paul, as luzes se quebraram. Deve haver uma conexão. – Ela se estendeu para ele facilmente, naturalmente. Nicolae era sua outra metade.

- Sabia que se sentiria assim.

Sua voz se mostrava muito feliz, para seu gosto. - É minha outra metade, admitirei, mas é a pior metade. A metade ridícula e impetuosa que devo ficar vigiando, continuamente.

- Ah, essa palavra novamente. Impetuoso, espontâneo e imprudente. Um amante sem medida.

Destiny explodiu em gargalhadas. - Desde onde saiu isso? Está sonhando outra vez?- Voltando-se para Velda, ela disse: - Obrigado por me contar Velda, sei que não é fácil trazer a tona, lembranças difíceis. Voces sempre são tão generosas. - Destiny estudou às duas excêntricas mulheres. O cabelo rosa e púrpura, as chamativas sapatilhas, Inez com sua maquiagem exagerada e Velda com seu rosto limpo.

- Voces são mulheres extraordinárias. - Destiny sabia que era verdade. Serviam aos outros, vigiando e cuidando das pessoas que amavam e queriam bem. Alguns pensavam que eram entrometidas, outros que eram tolas, mas eram os que não paravam para conhecê-las. Para ver quem eram, realmente. - Sinto-me privilegiada de ter conhecido voces duas.

- Não somos extraordinárias, querida. Absolutamente. – Negou, Velda. - Vivemos a vida muito simplesmente, sem medo ao rechaço. Os outros não têm que nos entender. - Como se compreendessem que estava se aproximando do assunto de seus talentos ocultos, ela mudou completamente de assunto, segurando a mão de Destiny, como se isso fosse distraí-la. – Soube o que fez por esse menino. Pai Mulligan veio aqui esta manhã e mencionou que vocçe levou o menino para ele. Inez e nós adoraríamos poder trazê-lo para casa, mas somos muito velhas. – Ela olhou fixamente para sua irmã. - Eu sou muito velha e Inez deve cuidar de mim. Não é verdade, Irmã?

- É obvio que nos ocuparemos do menino, se não aparecer ninguém mais. Velda se queixa e os estraga, mas eu me ocuparei de que ele coma apropiadamente e vá à escola. Ela seria inútil, levaria-o de ôninus o tempo todo e lhe daria comida enlatada.

- Pai Mulligan tem uma família em mente. – Disse, Velda. - Um casal que sempre desejou ter filhos e nunca puderam. Está ajudando-os a preencher a papelada necessária e conversando com os agentes sociais. Acredito que ele está reunindo com seu pretendente.

A esperança floresceu em Destiny, uma estrela que tentou com força, aplacar. Tinha vivido a maior parte de sua vida sem esperança, sem permitir que outros entrassem em sua vida. Velda e Inez viviam suas vidas sem medo do rechaço. Vestia-se como queriam e escolhiam se divertir. Ter alegria em suas vidas. Pai Mulligan lhe falara de ter coragem. Estava começando a compreender que ter coragem, significava desfrutar a vida.

De repente desejou estar com Nicolae, sentir seus braços a sua volta. Ele tivera a coragem de tomar o sangue poluído dela. Para que nunca se sentisse uma enjeitada, para que nunca se sentisse sozinha. Ela tivera medo de permitir que o alcance completo de semelhante e magnífico sacrifício entrasse em sua mente, em seu coração, porque temia poder amá-lo demais e sem reservas.

Destiny se sentiu instantaneamente envergonhada de si mesma. Nicolae merecia algo melhor do que estava conseguindo. Impulsivamente se inclinou para beijar a face de Velda e depois de Inez.

- Obrigada às duas. São as melhores! Vou incomodar Mary Ann, agora. Voces a viram?

- Bem...Não. É Terça-feira hoje e ela sempre está com seus livros as Terças-feiras e não é boa companhia.

A sobrancelha de Destiny se arqueou. Era intrigante, pois nunca emprestara atenção ao dia da semana, mas terça-feira com Mary Ann, soava interessante. Destiny encontrou à mulher em seu escritório, com a face enterrada num livro cheio de números.

- Não me parece que esteja se divertindo, amiga. – Saudou, com um alegre sorriso.

Mary Ann levantou a vista para ela, com o cenho franzido.

- Detesto contabilidade. Sempre descubro que preciso de muito mais dinheiro do que luto para conseguir. Olhei esta página até ficar vesga e não posso mudar os número.

Destiny estudou os grandes olhos cor chocolate, de Mary Ann.

- Não parece nem um pouco vesga. Podemos dar um jeito nisso. De quanto precisa?

Mary Ann sorriu e atirou seu lápis, com um pequeno gesto de desafio.

- Digamos que roubar um banco está começando a me parecer uma boa saída.

Destiny se apoiou na mesa, com os cotovelos e se sujeitou o queixo com a mão.

- Posso me ocupar disso por você. - Ofereceu, séria. - Na verdade é uma de minhas especialidades. Entrar, sem ser vista, recolher o que preciso e sair. Nenhuma testemunha. E as portas não me detêm, nem as caixas fortes. De onde acha que saiu o dinheiro que doei? – Ela abriu enormemente os olhos, com aspecto tão inocente e doce, como foi possível.

Houve um momento de silêncio. O sorriso desapareceu da face de Mary Ann e ela mostrou-se horrorizada.

- Destiny, certamente não roubou esse dinheiro. Deus! Será que utilizei dinheiro de roubo a banco em meu refúgio? - Havia um gemido de alarme em sua voz.

Destiny piscou rapidamente. Mary Ann amontoou os papéis sobre a mesa e jogou nela.

- É horrível! Quase me dá um ataque ao coração.

- É tua culpa, por pensar sequer em coisa semelhante. Embora que. agora que mencionou, as possibilidades são ilimitadas.

- Sequer brinque sobre isso, Destiny. Isso seria realmente o fim de meus refúgios. Arrecadar recursos é tão condenadamente difícil e com todo o escrutínio governamental, tenho que comprovar duas vezes cada ponto e cada vírgula.

- Realmente está preocupada com dinheiro, Mary Ann? – Perguntou, Destiny.

- É obvio, não está todo mundo? Os refúgios são caros para manter e tento trabalhar treinando e ajudando cada família que começa. Uma mulher que foge é difícil de esconder, especialmente se crianças estão envolvidas. Tenho um pouco de ajuda, mas não é fácil manter o financiamento. As doações só cobrem tanto como o que doam nossos benfeitores, mas as pessoas tende a se esquecer, se não mantermos nossa causa na ativa. Quando é uma mulher que se esconde de um marido decidido e violento, a última coisa que querem é publicidade. É complicado, tudo isso. - Mary Ann suspirou, brandamente. - Não me leve em conta, Destiny. As Terças-feiras são meus dias de se queixar.

Destiny lhe sorriu, maliciosamente.

- Eu já sabia. Velda me advertiu que a evitasse a todo custa, esta noite.

Mary Ann gemeu e descansou a cabeça sobre a mesa.

- Não me diga que todo mundo sabe que sou uma queixosa.

- Só as Terças-feiras. - Assinalou Destiny, sorrindo. - Vamos, não se afunde. Diga-me de quando dinheiro precisa e conseguirei para você.

Mary Ann levantou a cabeça para avaliar Destiny, com profunda suspeita.

- Não pode roubar um banco. Encontrarei uma forma de pagar as faturas do mês, sem isso.

- Eu estava pensando em roubar, a algumas milhas daqui. É um homenzinho asqueroso e esquálido que tem muito dinheiro, para seu próprio bem. Só por diversão, de vez em quando vou lá e destruo todo seu carregamento de drogas.

Mary Ann se sentou, muito ereta.

- Realmente não faz isso? Esse tipo de gente é perigoso.

Destiny fez um jesto com a mão.

- Não para mim. Detesto-os... São pequenos vermes destruindo vidas e pensando que sabem o que é o poder. Por que não deveriam doar um pouco de dinheiro a um refúgio? Deveria utilizá-lo para algo bom. Só tenho que tomar cuidado de não começar uma guerra de drogas ou deixar que ninguém fique com a culpa.

Mary Ann olhava com surpresa, o sorriso decididamente mau, de Destiny.

- Como faz isso?

Destiny sorriu, ampliamente.

- Planto lembranças em sua asquerosa cabeça. De vez em quando ele bebe muito ou de repente tem um ataque intenso de remorsos. Essa hora é pessoalmente a minha favorita. Acredita que dá o dinheiro, mas não pode se lembrar a quem e ainda acha que é ele que destrói as drogas.

- Realmente você faz isso? Nicolae sabe?

Destiny se endireitou, bruscamente.

- Tinha que colocar ele nisto? Nicolae não tem nada a ver com isso. Também entro às escondidas no cinema e tampouco peço sua permissão. - Havia uma nota de desafio em sua voz que a fazia soar um pouco infantil e a incomodou. Não precisava responder ante Nicolae e não ia se desculpar por sua independência. Não fazia idéia do por que se sentia culpada.

A ternura que fluiu em seu corpo, aumentou sua irritação. Sabia que ele estava secretamente divertido. Pior ainda, sempre conseguia produzir uma resposta nela, fosse física ou emocional. - Costumava ser uma pessoa perfeitamente razoável antes que me pegasse .

- Entrar no cinema não é a mesma coisa. Uma é perigosa, a outra não. - Disse Mary Ann, severamente.

- Está passando filme romântico no cinema? Podíamos passar alguns momentos interessantes, na uúltima e escura fila. - Sua voz era suave e sedutora sobre sua pele, como o toque de seus dedos. - Eu adoraria te manter fora de problemas.

Apesar de sua determinação, Destiny não pôde evitar sua resposta. Sentia-se feliz. Nunca experimentara realmente, a felicidade. - A mim isso soa definitivamente a problemas, - mas queria ir com ele. Seria divertido sentar-se no cinema fingindo que eram um casal normal e loucamente apaixonado, desejando roubar alguns momentos juntos. - Mas irei contigo.

- Acredito que Velda e Inez têm algo a ver com isso. Deveríamos conseguir chocolate, depois de tudo.

Destiny adorava a nota zombeteira de sua voz. - Deixarei que me surpreenda. - Adorava compartilhar as coisas com ele. Buscar-lhe e tê-lo com ela.

- Está-me escutando, Destiny? Os traficantes são criminosos perigosos. Não importam matar pessoas. Não pode fazer coisas como essas, sequer por uma boa causa.

Destiny voltou à atenção para sua amiga. Amiga. Quando conhecera Mary Ann pela primeira vez, nunca imaginaria que estaria um dia em seu escritório, sentado sobre sua mesa, brincando com ela.

- Deixe-me ver o que precisa. A arrecadação de fundos é meu talento particular. – Ela estendeu-se casualmente pelo escritório e espiou o ofensivo livro, esquadrinhando rapidamente as páginas abertas, antes que Mary Ann pudesse afastá-lo.

- Não. É impossível. Realmente você gosta de filmes?

- É minha distração favorita. – Admitiu, Destiny. - Vi cada filme de vampiro que já foi feito. Os antigos são ótimos e viciei. Repassava cada jornal procurando lançamentos. Algumas vezes assistia ao filme, duas vezes.

- Foi de onde tirou seu medo de alhos e Igrejas? – Zombrou, Mary Ann, feliz.

- Já que estamos falando nisso, por que aceitou que eu fosse diferente, um vampiro... Bom, uma Cárpato... Tão facilmente? – Exigiu, Destiny. – Realmente, me incomoda que não tenha sentido de precaução, Mary Ann.

Mary Ann jogou para trás a cabeça e sorriu.

- Facilmente? Acha que simplesmente aceitei a existência de vampiros, facilmente? Esquece que não pude sair da igreja, que fiquei ali sentada toda à noite, rezando. Gemendo e chorando? Desejando correr o resto de minha vida? Depois, compreendi que você parecia diferente.

- Ainda não entendo por que me aceitou, Mary Ann. – Insistiu, Destiny. - Deveria ter me condenado. Deveria ter se ocultado de mim.

Mary Ann sorriu.

- Já te conhecia. Cuidava seus olhos. Se fosse me fazer mal, teria feito. Seus olhos eram... – Ela se interrompeu, procurando a descrição correta.- Fantásticos. Seus olhos eram fantasticos e não queria virar as costas, sem importar o que é.

- Me alegro de que não tenha feito. Obrigado, Mary Ann. - Destiny se sentia humilde, pela verdade. Não podia imaginar Mary Ann dando as costas a ninguém.

Mesmo enquanto estavam brincando uma com a outra, a escura sombra da violência deslizou até o interior de sua mente. Destiny suspirou, deslizando-se para fora do escritório, voltando-se em seguida, totalmente consciente do homem que se apressava para entrar.

- Fique atrás de mim, Mary Ann. - Seu tom havia mnudado completamente. Era autoritário e firme.

Antes que Mary Ann tivesse oportunidade de responder, a porta se abriu de repente, ricocheteando contra a parede, estilhaçando o caixilho da porta. John Paul permanecia em pé na soleira, respirando com força, com os olhos selvagens e as mãos abrindo e fechando, como martelos.

- John Paul. - Disse Mary Ann, tranqüilamente. - O que posso fazer por você, esta noite? Já é tarde e eu estava saindo com minha amiga.

John Paul sequer olhou para Destiny. Seu olhar vidrioso estava fixo em Mary Ann, quando arrastou os pés para perto.

- Onde está Helena? Preciso dela, Mary Ann. Devolva-me ela.

Destiny tocou a mente dele e notou que estava cheia de intensa resolução de conseguir Helena. Não tinha um plano real, nem idéia do que faria quando a encontrasse, só uma profunda necessidade de encontrá-la. Podia sentir a sombra da violência, profundamente encravado nele, mas não havia mancha do vampiro. Nem onda alguma de poder, por mais leve que fosse, que pudesse indicar que era uma marionete do não-morto.

- John Paul, você sabe que Helena está em um lugar seguro. Você queria que ela fosse, lembra-se? Queria que estivesse segura. - Mary Ann foi firme, mas ainda consoladora. – Você me pediu que os ajudasse.

John Paul sacudiu a cabeça, inflexivelmente.

- Devolva-me ela. – Ele afastou cadeira grande e fora de seu caminho e se aproximou mais de Mary Ann. Não olhava para Destiny e nem parecia notar que havia alguém mais na sala.

John Paul estava tão perto dela, que a manga de sua camisa roçava o ombro de Destiny. Ela limpou a garganta, para atrair sua atenção, mas ela estava completamente centrada em Mary Ann.

- Eu não levei Helena, John Paul. Ela precisava de um pouco de tempo longe de você, enquanto pensa em tudo o que qconteceu. Lembra-se de ter vindo a este escritório com ela? Os dois choravam e você me suplicou que me ocupasse dela e te prometi que o faria.

Sem advertência, John Paul bateu seu pesado braço sobre a mesa, enviando papéis para todas as direções. O abajur voou pela sala, bateu na parede e rompeu-se em pedaços. Diminutos pedaços do cristal, caíram como uma chuva sobre o tapete. A atenção de John Paul ficou imediatamente presa pelos brilhantes cacos.

- Mary Ann, lentamente saia daí e vá para outra sala. - Disse Destiny, sussurrando. – Ele está sob algum tipo de compulsão e tem algo a ver com cacos de vidro ou cristal. Parece que é o detonante. - Não podia ler nada na mente do homem, mais que a súbita necessidade de extrema violência. Era um desagradável rugido, uma necessidade de pegar e despedaçar tudo e a todos os que estavam perto dele. O rugido era tudo o que ela pôde distinguir a princípio, mas Destiny se concentrou nos sons que germinavam na mente dele.

John Paul esmagou o punho contra a parede, abrindo um buraco. Apareceram rachaduras como teias de arranha, do chão até o teto, iradiando do centro.

Mary Ann, gemeu.

- Oh! Não, as reparações são tão caras.

A cabeça de John Paul virou, ao som da voz de Mary Ann.

- Oh! Tipo duro. Pensei que queria dançar comigo.

- Eu sou do tipo ciumento.Deixe de brincadeiras, Destiny. Se esse idiota embrutecido colocar outra vez, a mão sobre você, partirei-o ao meio. Não estou me divertido, nem estou brincando.

A pesar do tom sombrio de Nicolae, Destiny sentiu vontade de rir. - Pobre homem. Não estou dançando uma música lenta com ele. Não há necessidade de sentir ciúme. - Ela esquivou-se do punho de John Paul e deslizou fora de seu alcance, permanecendo por perto, para que o homem mantivesse sua atenção nela.

- O que quer que eu faça? Devo chamar à polícia? - Perguntou Mary Ann ansiosamente, fazendo uma careta quando John Paul tentou golpear Destiny, novamente.

- Não, não fale. Quero sua atenção sobre mim, todo o tempo. - Destiny estava trabalhando, decifrando o código na cabeça do homem. Ele era rápido para ser um homem grande, mas ela era bem mais e não estava preocupada se ele a acertasse. O ruído da cabeça dele era quase insuportável. Altos rugidos e grunhidos, como assobios e chiados. Um zumbido como o de um enxame de abelhas. Separou os sons, filtrando-os, enquanto se esquivava pelo escritório, sempre a centímetros fora do alcance de John Paul.

- Algo plantou estes sons em sua mente e não foi natural. – Ela compartilhava com o Nicolae, como sempre fazia. - Foi programado como poderia uma bomba. Se os cristais quebrados forem o detonante, qual é o objetivo? Qual é a finalidade desta violência?

Agora ela já podia ouvir uma voz baixa, murmurando alguma coisa. Soava como se fosse um rápido ataque demoníaco, dando uma ordem. Desconcertada, amplificou-a para Nicolae. John Paul não era consciente da ordem, não era consciente absolutamente da voz que era parte do terrível rugido de sua cabeça.

Destiny ondeou a mão e silenciou a voz, silenciando o rugido. John Paul ficou em pé no centro da sala, piscando para ela com olhos embaciados. Parecia perplexo. Seus ombros estavam sacudindo e ele desandou a suar. Elevou a cabeça e olhou além de Destiny, para Mary Ann.

Destiny cobriu sua visão para assegurar-se de que ele não visse as partes quebradas de cristal, no chão.

- John Paul. - Sua voz foi melódica, com a compulsão enterrada sob eka. - Deve voltar para casa e ficar lá. Você quer dormir. Não nai ouvir música e nem usar o telefone. Só quer ir dormir.

- Vou passar por sua casa agora, Destiny. Deve haver algo que o prepara, antes de receber o detonante. Encontrarei o que é. Vikirnoff está a caminho do escritório de Mary Ann, para fazer cópias da fotografia da jovem que vampiro está perseguindo.

John Paul murmurou algo e esfregou os olhos. Parecia mais confuso que nunca. Quando Destiny tocou sua mente, sentiu pena por ele. Ele estava completamente surpreso e não sabia como havia chegado ao escritório ou o por que de estar ali.

- Mary Ann? – Ele soava como um garotinho, procurando tranqüilidade. - Acredito que estou perdendo a cabeça. Estou tão... Não sei o que aconteceu. – Ele olhou com atenção a seu redor. – Eu fiz isto? Destrocei seu escritório?

Destiny pegou seu braço, com um gesto que lembrava Velda.

- Vá para casa e durma, John Paul. Tudo ficará bem.

Mary Ann o observou partir, com olhos preocupados.

- Ele estará bem, Destiny? Isso tem algo a ver com um vampiro? Tem idéia de que está acontecendo? Esta violência não pode continuar. Está arruinando a vida de todo o mundo.

- Velda me falou de uma mulher, Blythe Madison, que teve problemas similares um tempo atrás. Seu marido a internou num hospital.

- A mulher de Harry. É uma mulher maravilhosa. Vou visitá-la a duas vezes ao mês. Não se lembra de nada do que fez. Permanece voluntariamente no hospital. Nem sequer considerei que sua crise tivesse algo a ver com o que acontece a John Paul e Martin. Como poderiam estar conectados os fatos? - Mary Ann se ajoelhou perto de seu abajur e começou a recolher os pedaços, jogando os cacos no cesto de papéis.

Destiny podia notar que as mãos da Mary Ann estavam tremendo. Brilhavam lágrimas em seus olhos. Sua reação sacudiu Destiny como não podia, nada mais. Mary Ann se preocupava muito por esta gente e era doloroso para ela, que tivessem problemas.

- Estamos muito perto de averiguar o que está acontecendo, Mary Ann. - Tranqüilizou-a, Destiny. - Não sei quem está por trás disto, mas John Paul estava sob algum tipo de ordem.

Mary Ann levantou a vista para ela, piscando por causa das lágrimas.

- Como hipnose? - Havia repentina especulação em sua voz.

- Há alguém por aqui que trabalhe com hipnose?

- Há um médico na clínica. Vem uma vez por mês. Acredita na hipnose para coisas como o alívio da dor e deixar de fumar, esse tipo de coisas. Fui ver lhe uma vez e ele achou que eu não seria de cama. É aparentado de Harry, um primo ou algo assim. Por isso se irrita em vir a nosso pequeno bairro. Ele tem consultório na parte alta da cidade e também no hospital.

Destiny franziu o cenho, tentando assimilar esta nova informação.

- Não sei o que quer dizer com maneiras de cama. - Profundamente em sua cabeça Nicolae soltou um som pouco elegante.

- Bem, não sei. - Insistiu ela.

- Provavelmente tentou alguma coisa com ela, enquanto a examinava.

- Nicolae! É um médico!

- Destiny, os vampiros não são os únicos monstros do mundo. Muitos deles são humanos.

Destiny se sentou bruscamente junto à Mary Ann.

- O médico foi inapropriado contigo? Ele...

- Tocou-me inapropiadamente? Sim. E era um verme fracote com um sorriso encantador e uma cara bonita. Obviamente, as mulheres o aceitam e se emocionam com seus avanços. Eu não e deixei perfeitamente claro. Pensou que o hipnotismo funcionaria comigo e quis que o deixasse tentar. Imbecil.

- Mas não o denunciou?

Mary Ann baixou a cabeça.

- Não havia ninguém mais na sala. Fazer esse tipo de acusação contra um profissional de sua reputação e dinheiro é arriscado. Nem quis arriscar o que faço aqui. Simplesmente nunca mais voltei.

- Pergunto-me se John Paul foi vê-lo, por alguma razão. Ou Martin e antes deles, Blythe Madison.

- Se Harry é primo do doutor, não seria natural que lhe pedisse que desse uma olhada em sua esposa doente? - Perguntou Mary Ann, em voz alta.

Destiny estava mais inclinada a pensar que o culpado era um vampiro. Todo o tempo havia concentrado sua energia nessa direção. As legiões do não-morto estavam envolvidas. Para Destiny, quem quer que estivesse atrás destas estranhas mudanças de caráter, estava atormentando e fazendo mal deliberadamente às pessoas, por diversão. Não podia conceber um humano cometendo semelhantes atrocidades. Os demônios eram vampiros, não humanos.

Logo, Nicolae estava com ela, sensível a esses pensamentos que começavam a sacudir os alicerces de sua visão do mundo. Seus braços eram fortes e seu corpo protetor, sua mente firmemente fundida a dela. Ele era sua âncora. Nicolae estava sempre com ela. Podia contar com ele, sempre. Apesar da escuridão com a qual tinha lutado a maior parte de sua vida, apesar do sangue poluído que agora fluía em suas veias, Nicolae era infalivelmente bom.

Nicolae. Respirou seu nome com uma súbita onda de amor. Ele estava lentamente mudando sua vida. Um pequeno pedaço a cada vez. E todo o tempo estava ali, reconfortando-a, tranqüilizando-a como sempre fizera.

- Destiny? - A voz de Mary Ann a sacudiu de sua reflexão. - Se o médico estiver de algum modo envolvido nisto... Se ele realmente fez algo para fazer mal a Helena, John Paul, Martin, Tim e o Pai Mulligan... E a pobre Blythe vivendo em um hospital pensando que perdeu a cabeça... Eu podia ter evitado. Podia ter apresentado denuncias contra ele. E poderia ter lhe detido? – Ela parecia perdida, sentada no chão, com seus grandes olhos e horror na mente.

- Não! Mary Ann, no que está pensando? - Destiny levantou-a, para aproximá-la e abraçou-a com força, em protesto. - É muito sensata para pensar algo tão ridículos. Como poderia ser responsável por algo que decide fazer um louco? Sequer sabemos se este médico tem algo que ver com o que aconteceu. Não encaixamos todos os fatos ainda, mas mesmo se ele estivesse ondeando sua varinha mágica e lançando feitiços pela vizinhança, não é possível que se culpe.

- Isso soa para mim. Tudo está muito bem em teoria, mas se tivesse apresentado denuncia contra ele, possivelmente não teria sido capaz de tocar a nenhum de meus amigos.

- Ou provavelmente, teria dirigido seu comportamento aberrante a alguma outra parte, onde ninguém teria notado a diferença em seus amigos. Não nota, Mary Ann? Esta vizinhança e as pessoas estão tão perto, que não aceitam facilmente que alguém como John Paul que ama tanto Helena de repente se volte contra ela e lhe faça mal. Não aceitam que Martin tenha atacado Pai Mulligan. Todos começam a vigiar uns aos outros e tentam averiguar o que está errado.

- Por favor averigua quem está fazendo isto e detennha-o, Destiny. – Suplicou, Mary Ann.

Destiny a abraçou-a, outra vez.

- Isso é justo o que penso fazer.

 

Nicolae estava esperando fora do escritório, com sua forma apoiada negligentemente contra a parede. Destiny parou para olhar para ele. A brisa frisava serenamente seu cabelo. A lua lançava um raio de prata em seu rosto, iluminando sua pura sensualidade. Seu corpo era duro e poderoso, uma perigosa mistura de predador e homem sedutor. Ele voltou à cabeça e sorriu para ela, lhe roubando o ar, facilmente.

- Você é muito bonito. - Disse ela, inclinando a cabeça para estudar seu magnífico físico. - Todos os homens dos Cárpatos são tão bonitos como você?

Uma sobrancelha negra arqueou.

- Não acredito que esse seja um assunto seguro para você. - Estendeu sua mão para ela. Destiny a estudou cuidadosamente, como se a examinasse em busca de uma armadilha. Como demônios tinha chegado a obcecar-se tanto por ele, que a vista de sua mão estendida podia fazer que seu coração se sobressaltasse? Seus dedos se entrelaçaram quase que relutantemente aos dele. Tão perto, ele podia sentir como fazia que sua pulsação se elevasse, como seu coração pulsava de forma irregular. Seu corpo inteiro doía por ele, se aproximasse muito de seu puro magnetismo. Um fato humilhante e impossível de ocultar quando ele estava tocando-a.

- Mulher boba. - Disse ele, afetuosamente. - Não há nada que ocultar de um companheiro. Nunca há nenhuma necessidade. Estou em sua mente e você na minha.

- Bem, se estiver em minha mente, então deveria ser perfeitamente consciente de que estou passando por um momento difícil, aceitando nossa extravagante relação.

Nicolae levou as mãos entrelaçadas à boca e seus lábios brincaram com a face interna da mão dela.

- Você aceita nossa extravagante relação, mas teme confiar nela. Ou em si mesma. Faz-te feliz e você não confia nisso.

Ela o fitou, fixamente.

- Esteve com Pai Mulligan? Ele sempre está dando esses conselhos de dois centavos.

- Só te cobra dois centavos? Fez-me encher a caixinha dos pobres. - Disse Nicolae, séria. - E nem sequer falou uma só palavra sobre matrimônio. Só diz tenho coragem.

Destiny caiu na gargalhada.

- A velha fraude, provavelmente falou de propósito, só para me deixar louca. Onde está Vikirnoff?

Nicolae segurou sua mão até que começou a caminhar ao longo da rua com ele.

- Está procurando informação sobre a mulher da fotografia. O curador está a caminho e meu irmão está decidido a manter as cidades livres dos vampiros. Não precisamos de Vikirnoff alvoroçando os céus esta noite. Tenho planos.

Essas três palavrinhas tocaram Destiny. Realmente havia ficado muito tempo longe dele. O desejo disparou através dela, sacudindo seus alicerces. Ficou com a boca seca e seu corpo queimava, só em ouvir suas palavras. Só pensar em seu corpo duro, a fazia tremer. Não se atreveu a olhar sua boca, temeu ver seus joelhos falharem.

- Que tipo de planos? – Ela não soube como conseguiu que as palavras passassem por sua garganta estrangulada.

Ele se aproximou, seu corpo roçando contra o dela, para que a eletricidade se arqueasse entre eles. Pequenos látegos dançarinos de relâmpagos crepitaram em sua corrente sangüínea. Só passear com ele era um milagre para ela.

Nicolae baixou o olhar para ele. Ela sim era para ele um milagre. Ainda não podia acreditar que havia encontrado-a depois de tão longa caça. A interminável busca havia terminado e ela estava com ele. Era uma parte dele. A intensidade de seu sentimento lhe surpreendia às vezes.

- Disse que queria ver um filme. Encontrei um cinema que abre toda à noite.

Ela levantou o olhar para ele, recompensando-o com um pequeno sorriso.

- Eu gostaria, obrigado.

A idéia de estar sentado com ela em um cinema escuro era uma recompensa. Não pôde evitar as fantasias eróticas que enchiam sua mente. Destiny ruborizou intensamente, ao captar seus pensamentos. Nunca tinha considerado o que alguém podia fazer no escuro de um cinema.

Destiny limpou a garganta, procurando desesperadamente algo a dizer. Procurando desesperadamente um assunto seguro.

- Mary Ann está preocupada com dinheiro outra vez. Não quer que eu olhe os livros e agora John Paul destroçou seu escritório. Tentou agir como se não fosse grande coisa, mas obviamente é.

- Não quero que roube um banco ou arrisque a vida tirando dinheiro de um traficante de drogas.

- Você fala como ela. - Destiny sorriu ante o tom severo.

- Tem razão. Eu conseguirei o dinheiro que precisa. Vivendo no mundo durante séculos, nós os Cárpatos temos uma certa experiência em aumentar nosso dinheiro. Não há necessidade de que faça nada ilegal ou perigoso para ajudar Mary Ann.

- Deixarei isso a você. Eu não gosto que se preocupe tanto.

- Ótimo. Sou um perito coletor de recursos. Conte comigo, Destiny.

É obvio que podia contar com ele. Soubera a algum nível, durante a maior parte de sua vida, que ele sempre estaria para ela. Agora era real. Nicolae era sólido e estava junto a ela, compartilhando sua vida e seus pensamentos. Contava com ele.

Ele inclinou a cabeça, roçando-a, enquanto caminhavam pelas ruas escurecidas, de mãos dadas.

- Compartilho seu corpo também. - Murmurou ele, maliciosamente.

A voz sussurrou sobre seu corpo, fazendo com que cada músculo se enrijecesse com urgente necessidade. Uma rajada de calor acumulou-se, em antecipação. Não queria saber como ele havia conseguido tê-la tão firmemente em volta de seu coração e tão rapidamente.

- Ainda acredito que utilizou algum feitiço de magia negra comigo. - Disse ela.

- Está funcionando?

- Não se alegre tanto. - Uma fina garoa havia começado a cair. Destiny elevou a face para os céus, permitindo que as gotas molhassem sua face. - Adoro a chuva. Adoro tudo nela. O ar sempre cheira tão limpo e fresco depois da chuva e o som é tão consolador. Algumas vezes, me deito sob as cobertas e simplesmente ouço a chuva. É músical.

- Quer ir até a reitoria ver Sam? – Aventurou, Nicolae. – Daqui a duas horas, não quero que se preocupe de repente por ele.

- Está lendo minha mente outra vez. – Destiny sorriu para ele, porque não pôde se conter. Nicolae, estava compartilhando sua vida e lhe dando esperança. Unindo sua vida a dela, para que nunca mais voltasse a estar sozinha. Era quase mais do que poderia confrontar e aceitar. Felicidade era um sentimento que nunca se atrevera a acreditar que podia ser dela. A crença parecia estar gotejando em sua mente e tomando força, um pouco de cada vez.

Ainda de mãos dadas, lançaram-se ao céu, mudando de forma. Duas corujas voando para as janelas da reitoria. Mudaram uma segunda vez, convertendo-se em vapor fluindo através da noite até encontrar a abertura na janela, não mais que uma fresta, mas que lhes permitia entrar. Névoas coloridas entraram em torrentes na casa, movendo-se rapidamente através do escurecido corredor, para encontrar a fresta sob a porta.

O Pai Mulligan parecia dormitar numa cadeira junto à cama. Sam estava dormido, mas as lágrimas ainda marcavam sua face pálida. O coração de Destiny estava com ele. Materializou-se junto a ele e seus dedos acariciaram para trás o cabelo de, que caía sobre sua testa.

- Pobre pequeno. – Murmurou, brandamente.

O Pai Mulligan se sentou direito, levando dramaticamente a mão no coração, enquanto os olhava.

- Atravessaram as paredes? Quase me matam chegando assim.

Destiny pareceu instantaneamente arrependida.

- Sinto muito, Pai. Pensava que estava realmente dormido. Deveria ter sido mais cuidadosa.

- Seu coração sequer se sobressaltou. – Assinalou, Nicolae. - Deveria ser ator, Pai Mulligan, não sacerdote.

Pai Mulligan sorriu travesamente, o que lhe fez parecer um menino.

- O fazia bastante bem, nas funções da escola quando era jovem, para desgosto de meu pai. Ele pensava que atuar era um pecado perfeito. Esperava-os, esta noite.

- Deveríamos ter vindo antes mas estivemos investigando sobre o estranho e antinatural comportamento de seus paroquianos. Está seguro de que o vinho que está servindo não está em mal estado? - Inquiriu Nicolae, com semblante sério. - Todos eles vêm muito à igreja.

- Não havia pensado nisso. - Concordou Destiny, olhando acusadoramente para o sacerdote.

- Estão se aproximando muito à blasfêmia. - Advertiu o Pai Mulligan, tentando parecer severo. Seus olhos brilhavam alegremente, arruinando sua credibilidade como ator.

- Bom, suponho que podemos descartar a você e seu vinho, mas tenho que fazer uma pergunta. – Disse, Destiny. - A noite que Martín pegou a caixinha dos pobres, lembra-se de ver ou ouvir algum barulho de vidro sendo quebrado? Antes que ele ficasse violento.

Pai Mulligan franziu o cenho.

- Que estranho você perguntar isso. Falei com Tim e ele me contou que havia dado um remédio a Martin e o copo de água caiu no chão, quando Martin o devolveu. Tim disse que Martin simplesmente ficou olhando os cacos, puxou Tim fora de seu caminho e abandonou o apartamento. Evidentemente, Martin veio diretamente para a igreja.

Será que Martin alguma vez foi a clínica pequena, a que esta ao lado do escritório de Mary Ann?

- Sim. Há um médico que vem duas vezes no mês. Tem reputação de ser brilhante no tratamento da dor. Martin teve um terrível acidente faz um par de anos e quebrou muitos ossos. Ele esteve indo ao doutor em busca de ajuda e parece estar funcionando. Mas Tim disse que tiveram alguma série de problemas e Martín decidiu não retornar. Uma lástima, porque sua dor estava sob controle.

- Tem alguma idéia de que problema houve? – Perguntou, Destiny. Vendo que o sacerdote vacilava, continuou. - Não perguntaria, mas acredito que o doutor pode estar envolvido em tudo isto, de algum modo. Quanto mais informações tivermos, mais fácil será resolver toda esta confusão.

- Tinha a ver com seus negócios... Tim e Martín estão planejando uma comunidade para os cidadãos mais velhos. Estavam tentando unificá-los e mantê-los a salvo, mas com médicos. Está implicada uma grande quantidade de dinheiro. O doutor queria ser acrescentado ao pessoal, mas com um salário alto. Martin já o ouviu ameaçando a até paciente velho e pensou que suas maneiras eram impacientes e insultantes. Já tinha ouvido várias queixas sobre a forma dele lidar com os mais velhos e quando Martin pediu minha opinião, contei-lhe o que havia dito alguns de meus paroquianos.

- Assim, em sua seguinte sessão com o doutor, Martin provavelmente lhe disse cortesmente que não precisava de seus serviços. – Filosofou, Destiny.

- Não quero te dar a impressão equivocada. - Disse o Pai Mulligan. - O doutor pode não ser muito bom com os mais velhos, mas ajudou tremendamente, outras pessoas. Sei que ele visita a pobre Blythe Madison, regularmente. Vi-o sair de lá, quando vou fazer minhas visitas.

- Blythe é uma mulher atraente? – Perguntou, Nicolae.

- Surpreendentemente, ainda é. - Respondeu Pai Mulligan, rapidamente.

- Ao igual à Helena. – Assinalou, Destiny. - Harry está tão louco por sua mulher como clama todo mundo?

- Com certeza. – Disse, Pai Mulligan. - Estava devastado. Não passam muitos dias sem que vá ver sua mulher no hospital. Suplica-lhe que volte para casa com ele, mas diz que ela se torna mais retraída.

- Possivelmente deveríamos lhe fazer uma visita tranqüila. - Sugeriu Nicolae e estendeu a mão quando Pai Mulligan parecia querer protestar. - Não se preocupe, ela sequer saberá que estamos lá.

- Obrigado por se ocupar de Sam, Pai. - Disse Destiny. - Lamento ter que deixá-lo a seu cargo.

- Não me importa. Nicolae ajudou os agentes sociais a ver as coisas a minha maneira, então acredito que temos o futuro do Sam bem assegurado, incluindo um compromisso que Nicolae estabeleceu para ele. O casal que o quer é gente maravilhosa e estamos atravessando a burocracia agradavelmente.

Nicolae. Ela sempre voltava para ele. Sua preocupação. Sua atenção ao detalhe. Por alguma razão, a idéia fez com que Destiny ruborizasse novamente e ela baixou a cabeça para ocultar seus pensamentos do sacerdote. Mas não os ocultou de Nicolae.

- Os detalhes são importantes. – Concordou ele, com sua voz aveludada, implicando todo tipo de coisas.

- Vai cair um raio sevocê continuar com isso diante de um homem santo.

- Vamos sair daqui, para onde esteja muito mais a salvo então. Mas primeiro devemos nos deter no La Taverna.

Destiny murmurou um adeus ao sacerdote, acariciou o cabelo de Sam uma vez mais e se dirigiu para a porta.

- Saiam do mesmo modo que entraram. – Suplicou, Pai Mulligan. - Só uma vez, para mim. Quero ver como é.

Destiny olhou para Nicolae, que arqueou uma sobrancelha para ela. Seus lábios se retorceram contendo o riso. Juntos derreteram-se em vapor e depois fluíram para fora, pela pequena fresta da porta enquanto o sacerdote sorria, deleitado.

Harry já tinha fechado o La Taverna e havia subido as escadas até seu apartamento sobre o bar, quando eles chegaram. Estava sentado numa cadeira, com uma foto emoldurada em suas mãos, se testa descansava sobre o cristal. Sentou-se ali imóvel, segurando a foto de sua mulher. A visão dele sentado tão só e infeliz, machucou o coração de Destiny.

- Resolveremos isto, Destiny. Agora que sabemos que aspecto tem Blythe, podemos encontrá-la. Pressinto que estamos muito perto de resolver este mistério. O doutor está muito mais que envolvido nestes ataques.

Deixaram Harry e voaram saindo da cidade. Destiny baixou o olhar para as luzes cintilantes. - Isto é tão formoso, Nicolae. Adoro esta cidade. Adoro as pessoas daqui.

Agora podia admitir, para ele. Ele lhe tinha dado esse dom. Não tinha tanto medo de se permitir preocupar com outros. Estava começando a acreditar que não era responsável pela morte de todos os que amava.

- É esse o hospital onde vive Blythe? - Destiny estava dirigindo-se para os terrenos, segura da direção, quase como se Blythe estivesse chamando-a.

- Possivelmente está te chamando. - Disse Nicolae, entendendo-a. – Ela sofreu muito. Acredito que é melhor que você fale com ela a sós. Eu estarei perto, mas invisível.

Destiny agradecia sua sensibilidade. Nicolae podia forçar facilmente Blythe a lhe aceitar, mas Destiny era relutante em obrigar a cooperar, alguém que provavelmente sofria e Nicolae compartilhava seu ponto de vista.

Destiny lhe soprou um beijo enquanto caminhavam através das salas do hospital, invisíveis aos olhos humanos. Ela encontrou Blythe sentada perto de uma janela, balançando-se para diante e para trás e seu olhar atormentado vagava sobre a porta. Não pareceu notar Destiny a princípio, pois toda sua concentração estava enfocada na porta.

Destiny limpou a garganta para atrair a atenção da mulher. Quando Blythe virou a cabeça, Destiny reconheceu em seus olhos, o mesmo olhar que havia visto uma e outra vez, nos rostos de mulheres maltratadas e abusadas que tinha fugido de suas vidas e pedido socorro a Mary Ann. Havia desespero, vergonha e desesperança. Blythe estava drogada, mas havia consciencia nela. Uma forte faísca de vida, apesar de sua situação.

- Quem é você? Como conseguiu entrar aqui? - Perguntou Blythe nervosamente, mas olhava espectadora para a porta, não para Destiny.

- Está chegando, o doutor? - Perguntou Destiny, brandamente.

Blythe se concentrou completamente nela. Assentiu.

- Se te vir aqui, você pode estar em perigo. - Ante a menção do médico, o ritmo cardíaco de Blythe aumentou dramaticamente.

- Ele a hipnotiza, Blythe, não é? - Perguntou Destiny, em voz baixa.

- Suspeito que sim. - A voz de Blythe era surpreendentemente forte, para uma mulher que todo mundo acreditava que estava mentalmente doente. - Não há forma de se afastar dele e saber que Harry está a salvo. Ele utiliza drogas e hipnose. – Ela baixou a cabeça. - Todo mundo acredita que estou louca. – Acrescentou, como um pensamento final.

Destiny notou que Blythe estava começando a se agitar. Suas mãos estavam abrindo e fechando. Destiny sentiu a mesma presença que havia discernido antes, em John Paul. Mal. Estava movendo-se para elas, em pisadas duras sobre o piso do corredor. Blythe sussurrou pressionando uma mão com força contra a boca para evitar chorar.

Destiny deslizou para trás, entre as sombras.

- Deixe-o conversar, Blythe. - Disse ela, suavemente. - Me dê algo com o qual trabalhar. - Podia tomar facilmente a informação da mente do médico, mas queria que Blythe participasse ativamente de sua própria liberação.

A fechadura soou e a porta se abriu. Destiny quase esperava um vampiro, mas o homem que viu entrar era completamente humano e tão vil como qualquer monstro ao qual tivesse vencido. Destiny podia ver através da ilusão que projetava um vampiro com sua voz e seu olhar, até a pútrida malevolência, mas o homem a surpreendia. Era incrivelmente bonito, alto e loiro, mas com um sorriso de tubarão. Mesmo olhando atentamente, Destiny podia ver através de sua superfície de boa aparência, o mal que jazia sob ele.

- Parece que a ouvi conversando com alguém. – ele fechou a porta com deliberada finalidade. - Ou está tão mal que agora conversa contigo mesma?

Blythe se escostou mais perto da janela, como se pudesse atirar-se por ela, mas o caminho estava bloqueado por barras. Seu olhar voou para o canto do quarto, onde Destiny havia desaparecido. Elevou o queixo.

- Não deixarei que me toque novamente.

Ele riu, o som era estridente.

- É obvio que sim. Fará exatamente o que eu disser, como sempre tem feito. Não gostaria que eu matasse seu marido, o maravilhoso Harry. Quer vê-lo cortado em pequenos pedaços, enquanto dorme na cama, certo? Poderia fazer você matá-lo, Blythe e mereceria isso, por me desprezar por um homem que não é nada. Um garçom! Pelo por amor de Deus! Eu sou um gênio, sou um homem de grandeza e você me voltou às costas e se deitou com um joão ninguém. Permitiu que ele a tocasse. Blythe elevou o queixo.

- Pode vir aqui a cada noite e me violar, me drogar, se impor a mim, mas nunca o desejarei. Sempre pertencerei ao Harry, nunca a você.

Destiny pôde sentir que em seu estômago se agitava a bílis, com uma raiva feroz tão fria como o gelo e tão ardente como um fogo fora de controle. Ouvia a humilhação na voz de Blythe, seu desespero, enquanto ela desafiava seu atormentador. Destiny olhou para o médico e viu um monstro. Sem pensar, impôs silêncio a Blyte, enviando-a para dormir, fazendo com que ela caísse sobre o assento da janela, com os olhos fechados.

O médico amaldiçoou.

- Pequena puta, acha que isso vai me enganar?

Destiny saiu das sombras, seus olhos flamejando com um vermelho feroz. Ela tossiu levemente, atraindo sua atenção.

- Não. Ela merece viver.

Ele deu a volta, retrocedendo e levantando rapidamente a mão.

- Não tem provas de nada. Estava tentando uma forma de terapia. Como se atreve a entrar neste quarto?

- Fez mal a John Paul, porque Helena rechaçou seus doentios avanços. Feriu Martin porque se negou a te deixar participar de seu projeto. Utiliza sua profissão para fazer mal às pessoas, não é, Doutor?

Ele ergueu a mão despreocupadamente, quando se assegurou de que estavam sozinhos.

- Eu gostaria de ver como prova essas acusações. Tenho uma reputação impecável. – ele tirou uma seringa de injeção do bolso, sorrindo para ela. – Não deveria ter metido o nariz no que não importa a você. - Caminhou para ela, confiando completamente em que podia submetê-la.

Destiny lhe permitiu que a pegasse pelo braço. Sorriu-lhe fríamente enquanto por dentro ardia de ultraje, ante sua completa falta de remorsos.

- Não tenho que provar nada, Doutor. Não sou humana. - Durante um momento, lhe permitiu ver sua raiva, a fúria, a chama vermelha de vingança.

O doutor perdeu a cor e sua boca abriu para emitir um agudo gemido de terror. Destiny ondeou a mão para deter o som, capturando-o ainda em sua garganta, lhe cortando o ar. Piscou, compreendendo repentinamente o que estava fazendo.                - Nicolae. Não será como o não-morto. Poderia ter seu sangue, mas não me unirei a suas filas e aterrorizar esta asquerosa desculpa de homem. Não farei o que eles fazem. Este merece ser levado ante a justiça e assim o farei, prov...

Ela soltou o doutor enquanto Nicolae se materializava, tirando a seringa de injeção dos dedos repentinamente nervosos do médico.

- Acredito que eu gostaria que nos escrevesse uma confissão completa, Doutor. E inclua o por que e o como de tantas maldades. Deve contar ao mundo em geral, que não podia viver com a culpa de seus crimes. - Sua voz era tão suave e alegre, que Destiny retrocedeu afastando-se dele, longe do poder da compulsão.

Estava tremendo pela necessidade de justiça e agradecida de que Nicolae tivesse intervindo com a cabeça fria, lhe recordando que precisariam de provas, para todas as vítimas.

Era aterrador pensar o quanto havia desejado que o doutor visse a morte se aproximar. Destiny queria que ele sentisse tudo o que Blythe havia sentido. Tudo o que ela mesma havia sentido.

Colocou os braços em volta de Blythe, lhe prometendo que tudo sairia bem. - Não podemos deixá-la assim, Nicolae.

- Não se preocupe, ocuparemo-nos dela.

O doutor se voltou como sonâmbulo e saiu do quarto. Nicolae colocou os braços em volta de Destiny e juntos, a um passo muito mais calmo, seguiram o médico vestíbulo abaixo. Ambos observaram quando o homem entrava em seu colsultório e escrevia cuidadosamente sua confissão. Depois, deixou-a sobre a mesa e uma vez mais voltou a subir as escadas até o teto, a vários andares de altura, onde simplesmente caminhou para o ar. Não o viram estatelar no chão embaixo, mas se apressaram em se afastar, detendo-se só para permitir que Nicolae sussurrasse a um dos homens de segurança e a uma enfermeira. Atravessaram a paz das ruas tranqüilas, ganhando facilmente a entrada da casa de Harry. Destiny observou Nicolae, com seu coração cheio de orgulho, enquanto ele se inclinava para dar a Harry uma ordem suave.

Harry se vestiu rapidamente e se apressou em descer as escadas, dirigindo-se para o hospital, sem estar seguro do por que era tão importante, mas ele precisava desesperadamente passar o que restava da noite, no quarto de hospital com sua esposa.

Destiny tremeu, enterrando a face contra o pescoço de Nicolae.

- Nunca pensei que aquilo fosse um homem. Um médico, alguém que se supõe ser um curador. Por que alguem escolheria ser tão malvado?

Nicolae lhe roçou um beijo no cabelo, desejando afastar a dor de suas lembranças, de outros monstros.

- Não posso te dar uma resposta, pequena, mas não fique triste. Blythe aprenderá a ser feliz com Harry outra vez e cedo ou tarde, toda esta gente será capaz de viver sua vida em paz, agradecendo-a por se preocupar em escutá-los e juntar todas as peças.

- Obrigado por pensar em enviar Harry a ela. Sabia que não podíamos tirá-la do hospital, mas não podia suportar a idéia de que ficasse sozinha. – Ela enredou os dedos em seu cabelo e esfregou o nariz contra seu pescoço, desejando poder lhe abraçar e fazer amor. Ele sempre contribuía a dar sentido a um mundo que nunca estava o bastante certo. - Como me arrumei sem você?

Ele a beijou. Dura e possessivamente. – Venha comigo. Fizemos o que estava a nosso alcance, por nossos amigos. Desejo fazer algo por você. Deixe-me te levar para ver esse filme.

Era a última coisa que ela esperava e a fez sorrir.

- Está louco, sabe disso?

Nicolae não pôde evitar sorrir. A alegria começava em sua alma e se estendia através de seu corpo, até que seus lábios se curvaram em completa felicidade.

Destiny e Nicolae mudaram de forma uma vez mais, materializando-se novamente sobre a calçada em frente ao cinema. Nicolae imediatamente a atraiu para seus braços, trazendo-a firmemente contra seu corpo. Seus dedos acariciaram o cabelo dela.

- Esperei horas para ter você.

- Seriamente? - O prazer floresceu através de seu corpo. - Eu também queria estar a sós contigo. – Confiou, ela. Não importava o que dizia ele sobre a escuridão dos homens dos Cárpatos, Nicolae sempre seria sua luz.

Uma brisa fresca deslizou sobre seu corpo, atraindo a inevitável névoa com ela. Feliz, deslizaram-se na escuridão do cinema. Só poucos casais estavam ali e Nicolae achou o canto mais escuro, onde ficaram completamente sozinhos. Não era um filme de vampiros, mas de ação. Destiny tinha visto a propaganda de um videojogo popular convertido em filme e particularmente adorava a atriz. Os assentos eram amplos e confortáveis. Destiny se sentou, com um pequeno suspiro.

- Realmente convocou o curador? Convocou Gregori?

- Não pareça tão preocupada. - Respondeu ele, deslizando o braço pelo respaldo do assento, para descansar sobre seus ombros. – Ele tem uma companheira e seria impossível para ele ser outra coisa, que bom.

Destiny se moveu, apoiando-se mais perto dele.

- Como ele é?

Ele esperou para responder, lhe emoldurando a face entre as mãos, encontrando sua boca com a dele. O fogo fluiu nela, nele. Sua língua dançou com a dela. Já havia esperado muito para tê-la. Seu corpo estava duro e dolorido. Sua boca disse todo isso a ela, tomando o controle, numa dura posse, numa declaração de suas intenções.

Elevou a cabeça e olhou para os olhos enormes e sorridentes. Sua voz era tranqüila, quando lhe respondeu.

- Gregori procede de uma linhagem reverenciada. Seus ancestrais sempre guardaram o Príncipe de nossa gente e a maior parte deles têm uma tremenda habilidade para curar. Todos nós podemos curar quando requer, é obvio, mas o talento corre fortemente em sua linhagem. Não o conheço, mas conheci seu pai, um homem de lealdade e integridade que sempre resistiu por nossa gente.

Ela estava começando a conhecer bem Nicolae.

- Um guerreiro. Um caçador. - Interpretou.

- Exatamente.

Um homem muito parecido a Nicolae, um ao qual ele respeitaria.

Destiny assentiu.

- De acordo então. Ficarei por aqui e verei como ele é.

A ação da tela era rápida e intensa enquanto um homem sinistro espreitava a mansão da heroina. Nicolae olhou para a tela, depois olhou em volta da sala.

- Então isto é ver um filme. Devo confessar que nunca fui muito de filmes. - Seu polegar deslizou ao longo da linha do pescoço dela, sob a blusa, para acariciar a pele nua.

Um arrepio intenso tomou Destiny.

- Os filmes são maravilhosos. Realmente admira a imaginação das pessoas que as unem em mundos tão maravilhosos. - Olhou-o fixamente. Ele não estava olhando à tela, mas ela e seus olhos escuros estavam nublados de desejo, com pura fome sexual. Suas mãos foram até a parte dianteira de sua blusa e o coração dela começou a palpitar. - Nicolae, este é realmente um bom filme.

- É? - Murmurou ele, claramente distraído.

Destiny era bem consciente dos dedos dele desabotoando os diminutos botões de sua blusa. Seus dedos roçavam a pele nua, enquanto o tecido se abria. Tentou mostrar-se surpreendida, mas a excitação estava em seu rosto e seu corpo.

- É isto o que faz em suas idas ao cinema? – Ela estava achando ardentemente erótico estar sentada na escuridão de uma sala de cinema, com a blusa aberta e os seios doloridos e inchados de desejo. Observou, fascinada, como seus longos dedos acariciavam sua pele.

- Acredita que vim ver o filme? – Nicolae soava divertido.

- Bem... Sim. - O ar de repente faltou em seus pulmões, quando os dedos de Nicolae começaram a desenhar a forma de seus seios. O polegar roçava amorosamente o mamilo.

- Queria ver voce e o filme. Adoro vê-la desfrutar as coisas. Tem alguma objeção em vestir uma camiseta?

- Uma camiseta? - Repetiu fracamente.

- Em vez de calças, use uma camiseta curta. Não use nada sob ela. - Sua voz desvanecia enquanto os dedos acariciaram o corpo dela.

A resposta lhe pareceu pecaminosamente malvada e maravilhosamente sexy, enquanto ela usava o fácil costume de sua gente, vestindo uma camisa curta. Logo, sentiu a onda de calor aumentar em seu corpo.

- Então vou me sentar aqui e ver o filme enquanto você me observa?

- Excelente ideia. – Nicolae concordou e alongando uma unha, ele cortou o fino soutien de renda, liberando os seios túmidos, de seus apertados limites. - Só quero que se divirta. - Nicolae segurou os seios dela, na palda de sua mão.

O ar fresco tentou sua pele quente, atiçando seus mamilos.

Na tela, a heroína estava correndo através da grande mansão, enquanto os intrusos finalmente irrompiam, decididos a roubar um ícone que seu pai havia deixado.

Nicolae inclinou sua escura cabeça, para a incitante oferenda de Destiny. Sua boca encontrou a garganta vulnerável, quando a cabeça dela caiu para trás. Sua língua provou a pele quente e a tentação de sua pulsação.

- Cada vez que me toca, sei que estou viva. - Para dizer a verdade estritamente, seu corpo inteiro amoleceu, no momento em que a tocou. Nicolae beijá-la, a enlouquecia, o fogo percorria suas veias e ardia em seu intimo, mas acima de tudo, maior que sua tremenda resposta física a ela, era a intensidade de seu amor. Amor que a sacudia como nada mais o fazia.

A pele de Destiny era assombrosamente suave. Desejava tocar cada centímetro dela. Demorada e simplesmente, a sentiu, celebrando sua habilidade em conseguir. O contraste entre o corpo de um homem e o de uma mulher o fascinava. Suas curvas eram exuberantes e provocantes, Desejava perder-se nelas, passar longas horas desfrutando de cada momento.

Roçou beijos pela garganta dela e seus lábios viajaram até os mamilos endurecidos. Os gemidos que ela emitia, só serviam para aumentar seu prazer. Desejava-a, com a mesma urgência cega que ela estava sentindo por ele. Desejava que o olhar quase sempre frio abandonasse sua face. Gostava de vê-los nublados de desejo por ele. Queria-a tão distraída, que nunca mais ela seria capaz de voltar a ver um filme sem lembrar desta noite e arder ante a lembrança.

Os dentes dele mordiscaram gentilmente, sua língua acariciava amavelmente. Nicolae sentiu-se feliz, quando os braços dela envolveram sua cabeça, puxando-o para seus seios. A música da trilha sonora palpitava em seu corpo, um duro e compelidor toque, que igualava o ritmo de seus lábios, quando ele tomava posse de seus seios. Ela se arqueou para ele, seus quadris retorcendo no assento, incapaz de ficar quieta sob o selvagem assalto a seus sentidos.

Destiny gemeu.

- Homem selvagem, vamos para casa. Está me deixando louca. - Mas abraçava-se a ele, desejando que ele não parasse.

Nicolae fez um festim com seu corpo, tentando seus seios, primeiro um, depois o outro, deleitando-se. Era dela, compartilhando seu corpo, permitindo-se reinar livremente enquanto explorava cuidadosamente cada abundante oferecimento. Ouviu ao longe, a música pulsando através da sala, mas tempo e espaço desapareceram, fazendo com que não fosse consciente de mais nada.

Nicolae encontrou a parte alta das coxas e sua mão deslizou entre as pernas dela e urgiu-as a se abrirem, para lhe dar acesso ao tesouro que sabia que era dele. Um calor úmido que irradiava e o clamava. Sua satisfação aumentava intensamente o próprio desejo. Destiny lhe respondia, como uma flor abrindo-se para ele.

Acariciou suas coxas, encontrou seu seuxo úmido e acariciou as dobras que guardava a estreita passagem, viu-se recompensado quando ela puxou-o, procurando alívio.

- Quero ir para casa, Nicolae. - Sussurrou ela, novamente.

- Sim, pequena. Precisamos ir para casa. – Ele concordou, penetrando-a com seus dedos, só para sentir sua reação. Ela se estremeceu de excitação e desejo. Seus quadris se retorceram no assento.

Logo, os limites da sala de cinema eram restritivos para Destiny. Precisava estar a campo aberto onde pudesse respirar. Onde pudesse gritar de alegria. Onde pudesse ter privacidade completa com Nicolae.

- Me leve para casa. – Choramingou ela cheia de desejo e seus braços lhe rodearam o pescoço.

Nicolae encontrou seus lábios novamente, inundando-a em seu mundo de fogo e prazer, seus dedos a levavam a um ponto febril. Levantou-a nos braços e a tirou do mundo dos humanos, de volta para a noite. Sua noite e seu mundo.

Destiny sentiu lágrimas em seus olhos. A noite era fresca sobre sua pele. A névoa deslizou pelo chão e uma suave neblina os envolveu instantaneamente. as sombras eram lugares de beleza, não de maldade. Ela estendeu-se para a noite, abraçando-a. Abraçando sua vida com Nicolae. Sua boca encontrou a dele enquanto permaneciam juntos. Pertencia a ele, irrevogavelmente, pertencia a este homem.

Colocou tudo o que sentia em seu beijo. Suas necessidades e seus sonhos, sua aceitação e acima de tudo, sua completa confiança nele. Esqueceu a escandalosa camiseta que vestia, enredando uma perna em volta dele, pressionando seu corpo contra o dele.

Nicolae encontrou a curva nua de seu traseiro e a abraçou firmemente a ele. Destiny era voraz, igualando-se a ele, beijo por beijo, chama por chama. Ele elevou a cabeça para a névoa fresa e sorriu ante a pura alegria de ser capaz de segurá-la nos braços. Levou-os aos céus, sobre a cidade, com seus braços enredados em volta dela, enquanto atravessavam as nuvens.

As roupas eram muita carga e ambos se livraram delas quase no mesmo momento. Com suas bocas se fundiram e as mãos de Destiny se uniram na nuca dele e as pernas firmemente em volta de sua cintura. A ponta de seu membro era grande, pressionando firmemente contra sua abertura, procurando sua entrada. Sabia que devia esperar, mas estavam muito excitados e a tentação era muito grande. Estava pulsando de desejo, desesperada e ardente. Cada nervo de seu corpo clamava por sua posse. Cada músculo se estirava com desesperada urgência.

Nicolae gemeu enquanto ela baixou sobre ele, no ar, tomando-o profundamente em seu corpo. Seu sexo apertado e ferozmente ardente, em completo contraste com o ar frio que os abraçava. Girou-os, numa vertiginosa queda, enquanto atravessavam o céo a toda velocidade, para sua casa, fazendo-a apertar-se a ele e seus seios pressionarem firmemente contra seu peito.

Ela tentava ficar imóvel enquanto ele a levava através do céu, mas a sensação dele enchendo-a com seu membro grosso era muito. O movimento de voar simplesmente se acrescentava às intensas e deliciosas sensações. Começou a se mover numa lenta e erótica dança, subindo e descendo. Seus quadris se elevavam alto e depois lentamente desciam sobre ele, alucinando-os.

Cada músculo do corpo de Nicolae estava tenso. Estremecia a cada vez que ela baixava seu corpo em volta do dele, cada vez que sentia invadí-la e a acariciava ardentemente. A penetração era profunda e enviava chamas sobre sua pele, apesar da fria névoa. Destiny estava sensual e tentadora, através do céu, empalada sobre seu corpo duro. A nuvem escura do cabelo de Destiny espalhava-se em volta deles, como uma sedosa proteção, tentando seus sentidos. Cada movimento, provocava os luxuriosos seios a roçar contra seu peito. Só podia abraçá-la ferozmente, se concentrando em mantê-los no alto, enquanto os músculos dela se apertavam em volta dele, num delicioso e alucinante ritmo.

Nicolae estava quase fora de si no momento em que a levava através dos níveis da montanha, para as câmaras ocultas. Não tinha tempo para chamas ou flores, pois só podia pensar em enterrar-se mais e mais no corpo de Destiny. Mais rápido e mais duro, puxou seus quadris surgindo para ele. Logo que sentiu os pés em terra antes de tomar o controle, suas mãos moviam-se sobre ela, em todo seu corpo, explorando-a e excitando-a. além do frenesi de desejo. Recostou-a contra a parede mais próxima, lembrando-se e no único momento, de acolchoar suas costas enquanto penetrava-a duro e profundamente. Destiny verteu sobre ele, com braços e pernas, aceitando-o, tão frenética como ele.

Mas de repente, ali estava novamente. Inesperada e insidiosa como uma serpente em seu jardim, lhe roubando o paraíso. Desta vez permaneceu fundida com o Nicolae, lhe permitindo ver as mais escuras imagens das sombras deslizando-se em sua mente, desejando desesperadamente confiar em que ele soubesse o que fazer.

Nicolae a beijou e continuou tomando-a e suas mãos eram tão gentis que ela as sentia, como o roçar de asas sobre sua pele nua. Seu beijo era amoroso e quente, todo o tempo que seu corpo se movia gentilmente no dela.

- Você gostaria de estar a campo aberto.

- Sim. – Destiny desejou desculpar-se, mas parecia presa, quando ele estava fazendo somente uma observação, não a condenando.

Ele a beijou novamente.

- Estamos a campo aberto. Estamos onde quer que você deseje estar.

Destiny fechou os olhos e tomou a imagem das estrelas em sua mente. Tomou a essência da névoa clara e a manteve nela enquanto ele a enchia com a beleza de suas mãos e seus lábios. O corpo dele amou o dela, até que ela se rompeu, voando livre com Nicolae através do céu que tanto adorava.

Ele abraçou-a, ouvindo seus corações pulsarem juntos. Lentamente, Destiny abriu os olhos para se encontrar sob a montanha, na câmara dos charcos.

- Desejava me mostrar selvagem e fora de controle. Lamento que teve de ser tão cuidadoso comigo.

Nicolae não assinalou que seu corpo estava ainda bastante disposto a tomá-la outra vez. Tinham umas poucas horas mais, antes de procurarem a distração da terra e ele tinha intenção de utilizar cada minuto, juntos.

- Não me importa ser cuidadoso. - Seus dentes lhe morderam o pescoço.. - Não me importa nada do que fazemos. Algum dia, seremos selvagens e fora de controle. Temos uma eternidade juntos. Não precisamos ter tudo de uma vez. - Seus dentes mordiscaram o ombro de Destiny, o seio. – Alguma dia usarei amarras de veludo e você confiará em mim o suficiente, para me permitir atar suas mãos e fazer o que quiser com você sem medo da intimidade entre nós.

- Você acha que serei capaz de fazer isso? - Ela era cética.

Nicolae segurou sua mão, para que ela o seguisse até a água. Girou-a longe dele, colocando suas mãos sobre a mesma parede a qual lhe tinha obrigado a segurar-se.

- Sim. Sei que sim. Confiará completamente em mim. Tenho intenção de te dar tanto prazer cada vez que a tocar, que só pensará em prazer quando eu me aproximar de você. - Sua mão estava sobre as costas dela, empurrando-a para frente, para que seu traseiro ficasse ante ele. - Fazer o amor não tem nada a ver com controle e o poder. Não importa o que façamos ou nos mostrar um ao outro nosso corpo o que é quase impossível expressar de nenhum outro modo. Nunca deveria haver vergonha, só prazer e eu tenho intenção de te dar muito prazer.

Nicolae passou as mãos sobre suas curvas.

- Voce é linda, Destiny. - Suas mãos passearam pelas coxas bem torneadas, para depois roçar carícias sobre sua entrada úmida.

- Isto me faz sentir muito vulnerável. – Admitiu, ela.

Ele se aproximou mais dela, estendendo-se para segurar e acariciar seus seios. Deliberadamente se esfregou contra ela, permitindo-a sentir seu grosso e duro membro, que estava pronto para ela, mostrando o quanto a desejava.

- Tudo o que tem a fazer é dizer-me que não. Isso é tudo. Paro no momento em que você não gostar de algo que façamos. – Ele penetrou-a com os dedos, provando sua disposição.

Se sua mente se mostrava temerosa, seu corpo não. Ela estava ardente e úmida, mais acolhedora que antes. Nicolae segurou seu quadril, trazendo-a até ele e penetrou-a de uma vez. O corpo dela se apertou a seu redor, depois se abriu lentamente, aceitando-o.

- Cada posição é uma nova sensação, não uma ameaça, Destiny. - Disse ele, esperando um segundo, para permitir que o corpo dela se ajustasse completamente a sua invasão.

Investiu novamente e esperou mais um pouco até que Destiny puxou-o contra ela, procurando o contato total. Seu corpo estava realmente ardente, mais ardente que acreditava possível. A sensação de intensa vulnerabilidade desapareceu, deixando-a capaz de participar completamente. Queria que ele a tomasse mais forte, para criar a tormenta de fogo que gostava. Sedosas amarras havia dito ele e seu corpo se esquentou ante a idéia. Duvidava que alguma vez confiasse tanto nele, mas quando ele a tomava, compreendia que era forte para se livrar delas. Era simplesmente a imagem de uma restrição, não algo real, pois Nicolae desejava seu prazer, acima do próprio. Destiny se relaxou completamente e começou a acompanhá-lo, enquanto ele investia nela. Cada vez que os quadris dele mergulhavam para frente, seus seios moviam no mesmo ritmo e um fogo ardente percorria seu sangue. Estava consciente de tudo, até da sensação da água lambendo sua pele, como diminutas línguas. Sentiu a mudança no corpo dele, que começou a penetrá-la mais rápido e mais duro até que a sensação a tomou por completo.

Não queria que ele parasse mais e nem que fosse gentil. As grandes mãos estavam segurando firme seu quadril, mas ela se sentia maravilhosamente bem. O corpo dele agora estava tomando posse do dela, ferozmente, obviamente estabelecendo uma reclamação, mas Destiny o aceitava, abandonando-se a esta nova forma de fazer amor.

Atravessou o limite rápida e inesperadamente e gritou ruidosamente nos limites da câmara. Seu corpo se negava a ir sozinho, aferrando-se e drenando sua semente, para que ele salpicasse a essência da vida dentro dela.

Nicolae descansou a cabeça nas costas lisas, tentando acalmar sua respiração. - Notou, pequena, que nem tudo tem que ser perfeito para se ter prazer. Se houver vezes nas quais só podemos nos abraçar, estará bem. Desfrutaremos desses momentos juntos. Teremos muitas perfeições e bem poucas falhas, mas serão todas prazerosas. Isso é a autêntica intimidade. E isso é vida.

Um lento sorriso abriu os lábios de Destiny, apesar de que suas pernas tremiam e só a força a mantinha em pé. Nicolae permitiu contra vontade, que seu corpo se deslizasse afastando-se do dela e suas mãos a atraíram ao centro do charco para que a água borbulhante acariciasse seus seios.

 

Gregori estava perto. Destiny soube no momento em que abriu os olhos, na seguinte sublevação. O coração dela palpitava forte eruidoso. O som ressoava através da pequena caverna. Seu fôlego chegou em grandes rajadas e seus pulmões arderam desesperadamente em busca de mais ar. Vestiu-se apressadamente, seu olhar atravessando a pequena caverna como se o caçador pudesse estar em qualquer canto.

- Preciso sair daqui. - Disse a Nicolae. - Só um pouquinho. Não posso respirar aqui embaixo. - Soava tolo, como uma desculpa esfarrapada, mas era muito real.

- Ele está aqui. – Anunciou, Nicolae, suas mãos enredadas entre os cabelos dela. Destiny sabia que o gesto era para reafirmá-la.

Subiu o braço e lhe segurou a mão, aferrando-se sem vergonha, a ele. Seu Nicolae. Sua rocha. Ele já estava impecavelmente vestido, como um principe da antigüidade.

O homem que se materializava sob a montanha, nunca emitiria um julgamento sobre ela. Ele se aproximou. Era um homem musculoso, mostrando poder em cada centímetro de seu corpo, nas linhas esculpidas em seus duros traços. Seus olhos era uma navalhada de prata.

Durante um momento, o mundo cambaleou, tornando-se de um estranho negro com incontáveis estrelas, mas o braço de Nicolae em volta de seu corpo, atraiu-a sob seu amplo ombro contra o escudo de sua força. O mundo girou até sua posição correta e ela seguiu o ritmo firme de sua respiração.. A pesar do peso de sua opinião, este homem de nenhuma forma perturbava Nicolae que não se preocupava com seu veredito. Seu olhar era duro e vigilante. Depois deles um pouco a sua direita estava Vikirnoff.

Destiny foi consciente do olhar fixo de Vikirnoff, tão fria como morta, estudando cada movimento de Gregori. Vikirnoff permaneceria solidamente com seu irmão como sempre, com sangue corrompido ou não. Passou-lhe pela mente, que Vikirnoff soubera o instante em que Nicolae havia tomado seu sangue e não se uniu a ela com a intenção de detê-lo. Com essa consciencia, chegou à compreensão de que Gregori tinha entrado nesta pequena câmara clandestina, sem conhecer realmente a nenhum dos convidados da festa. Estava verdadeiramente arriscando sua vida para lhes oferecer ajuda.

Ele parecia grande, forte e capaz. Uma resplandecente ameaça, mas os dois Cárpatos eram antigos, bastante versados na batalha, tanto quanto ele. Destiny compreendeu que Gregori era um homem muito valente.

Nicolae deu um passo adiante para saudá-lo segundo o costume dos guerreiros, apertando o antebraço de Gregori e seu corpo se inseriu engenhosamente entre Destiny e o desconhecido.

- Gregori, que bom que tenha vindo tão rapidamente. Sou Nicolae, uma vez às ordens de Vladimir Dubrinsky. Este é meu irmão, Vikirnoff. – Ele ondeou a mão para o silencioso sentinela a sua direita.

Vikirnoff se adiantou e seus olhos mortos e frios se encontraram com os brilhantes prateados.

- Obrigado por responder à chamada. É bom vê-lo aqui. - Disse, apertando formalmente o antebraço de Gregori.

Destiny compreendeu que o gesto tornava os dois os homens vulneráveis. Encontravam-se cara a cara, lendo o que tinham em mente.

- É bom vê-los. Mikhail soube recentemente da continuidade da existência de antigos no mundo e enviou uma chamada para reagrupar todos. Alegrará-se em saber que existem mais dois antigos. Falcon ainda vive. - Seu olhar brilhante se moveu além de Nicolae, para descansar sobre Destiny.

Ela elevou o queixo para ele, deixando-lhe emitir seu julgamento. Vivera muito tempo sem família ou amigos e podia viver novamente. Embora secretamente, já não estava segura de que essa fosse a verdade. Começara a ter esperanças e sonhar, apesar de sua determinação de não cair nessa armadilha. Seu olhar se moveu até Nicolae. E se este homem estranho, com seus poderosos olhos, lhe tirarasse seu companheiro?

- Ele não pode. - Nicolae não enviou onda de calma e tranqüilidade. Suas palavras eram simples e tranqüilas, completamente crédulas. A terrível cólica em seu estômago se assentou.

- Minha companheira, Destiny. - Nicolae a pegou pela mão, atraindo-a para ele e seu braço deslizou em volta da cintura dela, possessivamente.

Gregori se inclinou num gesto elegante e cortês, que reconheceu tê-lo visto em Nicolae.

- Passou por momentos difíceis. É meu privilégio e honra conhecer uma mulher tão valente. - Seu olhar percorreu a câmara. - Minha companheira deveria estar aqui. Esta mulher sempre se atrasa. - Se ele tentava impôr impaciência no formoso tom de sua voz, fracassou estrepitosamente, pois soava tão amoroso, que Nicolae sorriu e Vikirnoff elevou uma sobrancelha arrogante.

Logo, ouviu-se o som de risos e uma pequena mulher de cabelo escuro, brilhou tenuemente até formar-se junto a Gregori. Nicolae soube imediatamente que Gregori havia insistido em sua segurança, não lhe permitindo aparecer até que tivesse se assegurado que os arredores eram perfeitamente seguros para sua companheira. Era exatamente o que teria feito Nicolae. Agradecia o curador por ter decidido tranqüilizar Destiny, insinuando que sua companheira se atrasava.

Gregori aproximou a pequena mulher, sob seu ombro.

- Minha companheira, Savannah. É filha do Príncipe Mikhail e sua companheira, Raven. Savannah, esta é Destiny, seu companheiro, Nicolae e o irmão dele, Vikirnoff.

Savannah gemeu.

- Não acredito que seja necessário recitar meu pedigree. Pelo amor de Deus! – Ela esfregou a mão amorosamente sobre o queixo de Gregori. - É um grande prazer conhecer todos voces. E tão maravilhosa surpresa saber que estão no mundo, conosco. Nossa raça precisa de cada um de nós.

- Obrigado por fazer a viagem. - Disse ,Nicolae. - Não sabemos se é possível eliminar o sangue poluído de nossas veias, mas esperamos que Gregori tente.

A face de Gregori era uma máscara inexpressiva, mas sua voz era tão gentil como uma brisa.

- Confesso que nunca me confrontei com este problema, exatamente. Aidan, uns de nossos caçadores, tem uma companheira que foi obrigada a tomar o sangue de um vampiro. O não-morto não a converteu completamente, pois a quantidade de sangue era pequena e ele estava tentando mantê-la faminta para fazer com que tomasse voluntariamente seu sangue, mas Aidan foi capaz de limpá-la. Se ela foi capaz de lutar contra os efeitos do sangue todo este tempo, então tenho que acreditar que é possível eliminá-lo de seu sistema. Sua alma está intacta.

O fôlego de Destiny abandonou seus pulmões, em uma longa rajada de alívio. Manteve as palavras do curador em sua mente. Sua alma estava intacta. Voltando a face para Nicolae simplesmente sorriu. - Quero-o.

O fôlego dele se imobilizou e seu corpo ficou quieto. - Agora? Tem que me dizer isso, agora?

- Acredito que é melhor.

- Temos que trabalhar com o dom da oportunidade. - O braço de Nicolae a apertou, possessivamente.

Destiny riu em voz alta, o som espalhou para fora de sua mente e coração, para encher a pequena caverna de alegria. - Velda e Inez ficariam desiludidas comigo.

Nicolae se inclinou para ela.

- Eu não. - Sussurrou as palavras contra seus lábios. Seu beijo foi amoroso, terno.

- Tentem não se fixar neles. – Aconselhou, Vikirnoff. - É a única forma. Ele perdeu todo o sentido comum e não há nada a fazer.

- Eu acredito que é genial. - Declarou Savannah, abraçando-se a Gregori.

- Temos muito que conversar. - Vikirnoff brandamente chamou a atenção de Nicolae.

Nicolae acabou de beijar sua companheira, com conscienciosa indiferença para seu irmão. Elevou a cabeça relutantemente e sua mão deslizou pelo cabelo de Destiny.

- Vikirnoff é homem de poucas palavras. Há notícias que é importante que nosso Príncipe conheça.

Gregori se sentou na maior das pedras plainas, atraindo Savannah para perto dele.

- Nós gostaríamos de muito ouvi-los e temos informações para trocar.

- Um vampiro fez uma armadilha para Destiny, seu nome é Pater. Não só tem vários vampiros menores com ele, como estão bem coordenados e ajudam uns aos outros. Até ofereceu o sangue dela a um deles.

Detiny estudou a reação de Gregori, atentamente. Sentia que ele era um homem poderoso e perigoso, muito parecido com seu companheiro. Notou quando a boca dele endureceu, perceptivelmente.

- Um fenômeno incomum.

A água gotejava da parede mais afastada e agia ruidosamente no silêncio da caverna.

- Queria que eu me unisse a eles. - Admitiu Destiny, com um pouco de pressa. – Ele reconheceu o cheiro do mal em meu sangue, me chamou e pediu que me unisse a seu movimento.

Savannah deixou escapar um som de desassossego.

- Que horrível para você e tão aterrador.

- Foi difícil enfrentar a verdade de suas palavras. Meu sangue é como um farol que atrai os vampiros. Quando eu os caço, sempre estão ou são conscientes de mim.

Gregori elevou uma mão, imperioso. Seus olhos prateados moveram de Destiny para Nicolae.

- Esta mulher caça o não-morto?

Destiny puxou a mão do peito de Nicolae, súbitamente furiosa de que ele tivesse que defender suas ações. Diminutas chamas vermelhas saltaram em seus olhos.

- Não preciso que Nicolae responda por mim. Sou perfeitamente capaz de conversar por mim mesma.

A suave boca de Savannah se retorceu e ela tossiu delicadamente.

Gregori se moveu. Um poderoso ondeio de músculos e seus olhos voltaram para a face furiosa de Destiny. Inclinou a cabeça, ligeiramente.

- Me perdoe. Em nossa sociedade, as mulheres são guardadas cuidadosamente como os tesouros que são. Precisamos de cada uma delas e não arriscamos suas vidas. Não pretendia ofendê-la. - Havia uma clara reprimenda em suas palavras semiconciliadoras.

Destiny encontrou os olhos risonhos de Savannah.

- Pobrezinha. Ele é sempre assim? Vikirnoff tem a mesma atitude.

- Acostuma-se a ele. - Savannah ignorou o toque de advertência de Gregori. – Latem mas não mordem. Faço o que posso para lhe convencer de que seria uma grande caçadora, mas ele está longe de ficar convencido. Voceê realmente caça vampiros? - Havia genuíno interesse e admiração em sua voz.

Os estranhos olhos prateados de Gregori, brilharam ameaçadores.

- Savannah. – Ele soava severo e moveu-se, num movimento ameaçador.

Savannah se apoiou nele, mas não se importou.

- Como conseguiu começar? – Ela perguntou para Destiny.

O meio sorriso zombeteiro, dirigido em direção a Gregori congelou na face de Destiny. Ela estendeu-se quase cegamente em busca da mão de Nicolae e ele instantaneamente entrelaçou seus dedos aos dela.

- Destiny foi tomada por um vampiro ainda era uma menina. Ele obrigou-a a tomar seu sangue e a converteu. Felizmente é psíquica e a conversão não a destruiu. Não teve outra escolha que aprender a caçar. Foi o único modo de obter sua liberdade. - Nicolae deu a informação facilmente, casualmente, como se não estivesse contando uma história de terrível atrocidade e tortura.

Savannah virou para seu companheiro. A mão dele moveu amorosamente sobre seu pequeno rosto e depois se inclinou outra vez para Destiny, com um gesto de respeito.

- Pouca gente poderia sobreviver a algo semelhante. É uma honra para mim, tentar curar uma pessoa tão forte e valente. Sua sobrevivência é um autêntico testamento da beleza do espírito de uma mulher.

Destiny esperava ser rechaçada. Endureceu-se para esperar. Ser aceita era inquietante. Não sabia como responder a ternura e a aceitação. Olhou boquiaberta para os recém chegados, como se fossem de outro mundo.

- Nicolae.

Ela soava perdida. Uma menina procurando tranqüilidade. As areias se moviam sob seus pés. Tudo aquilo em que acreditara, parecia ser falso. Gregori era intimidante, mas certamente não menos que Nicolae podia ser. E Savannah era completamente aberta e amigável.

- Obrigado. - Gaguejou em voz alta.

- Contem-me mais sobre este vampiro Pater e sua coalizão. - Sugeriu Gregori a Nicolae.

- Notei que os vampiros estão viajando juntos, unindo-se em pequenos grupos. Às vezes ao longo dos séculos, vi a mesma coisa, mas nunca em semelhantes números. Esta é a primeira vez que encontrei um que realmente tenta recrutar. Falou do poder do número e de como poderiam derrotar os caçadores, unindo-se uns aos outros. Falava com outros, como um comandante a seu exército. E ele se esforçou bastante para conseguir Destiny e é preparado. Os venenos que utiliza são mais sofisticados que qualquer que tenha visto antes. - Nicolae passou os dedos pelo cabelo e encontrou os olhos brilhantes de Gregori. - Acredito que seja ameaça para nossa gente e em particular para nosso Príncipe. E é séria.

Produziu-se um pequeno silêncio enquanto Gregori ponderava os comentários de Nicolae.

- Muito dos antigos utilizam a vampiros menores ou principiantes como peões sacrificáveis. Isto não é o mesmo. Realmente estão ajudando uns aos outros e compartilhando sangue?

- Vi Pater oferecer seu sangue a um vampiro ferido. – Disse, Destiny. - Estava tentando agressivamente me recrutar para seu lado. O pior é que realmente tinha sentido. Emboscam a seus inimigos e logo fogem rápido para minimizar suas perdas.

Nicolae assentiu.

- Estão utilizando estratégia de batalha em vez de simplesmente golpear rápido, com força e emocionalmente. É estranho neles. - Olhou fixamente para seu irmão.

Vikirnoff encolheu os ombros, descuidadamente.

- Estão bem organizados e tem alguém os dirigindo. Alguém poderoso.

- Um antigo poderoso, inteligente e bem versado em batalha. Mostra-se comedido e os vampiros que decide recrutar e manter em pequenos bandos, também se mostram comedidos. – Acrescentou, Nicolae. - Teria que dizer que provavelmente tentou isto antes, possivelmente muitas vezes ao longo dos séculos e aprendeu pacientemente com seus enganos. Vai atás da morte de cada caçador. Depois o mundo será colocado ante ele.

- A paciência não é algo que se tenham muitos vampiros. - Pensou Gregori em voz alta. - São notícias inquietantes. – Ele não pensou em questionar a conclusão de Nicolae. Nicolae e Vikirnoff eram ambos os antigos e mais experimentados em batalha, que mesmo ele.

- O veneno que utilizaram é multigeneracional. - Disse Nicolae. - Quando a segunda geração mudou dentro do corpo de Destiny, estava preparada para atacar a qualquer curador. Não tenho notícia de que alguma vez se utilizasse o veneno como método para capturar e derrotar caçadores. Sei que esses humanos que caçam a todos, utilizaram métodos semelhantes e acredito que esta coalizão de vampiros utilizará esses humanos para experimentar os métodos químicos de nos derrotar.

Gregori suspirou.

- Químicos muito sofisticados pelo que parece. Vi vampiros utilizar à sociedade de caçadores humanos, para além de suas próprias causas. Não é difícil para um deles se infiltrar em suas filas.

- Pater mencionou espiões, Cárpatos possivelmente, trabalhando com ele. – Disse, Destiny. - Ao menos insinuou.

- Nenhum Cárpato faria tal coisa. - Savannah soava atônita ante a idéia. - Teriam que haver se convertido em vampiros.