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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DEUSES AMERICANOS / Neil Gaiman
DEUSES AMERICANOS / Neil Gaiman

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

                                                                                                                       SOMBRAS

 

                               CAPITULO UM

As fronteiras do nosso país, senhor? Como assim, senhor? Pelo norte, fazemos fronteira com a Aurora Boreal; pelo leste, com o sol nascente; pelo sul, com a procissão dos Equinócios; e, pelo oeste, com o Dia do julgamento Final.

O livro de piadas americanas, de Joe Miller Shadow havia cumprido três anos de prisão. Era bem grande e tinha uma cara de "não-se-meta-comigo", por isso seu maior problema era como fazer o tempo passar. Assim, mantinha o corpo em forma, treinava alguns truques com moedas e pensava no quanto amava sua mulher.

Na opinião de Shadow, a única coisa boa no fato de estar na prisão era um sentimento de alívio. O sentimento de ter mergulhado o máximo possível e atingido o fundo. Não se preocupava mais se o homem iria pegá-lo, porque já o havia pegado. Não tinha mais medo do que o amanhã traria, porque o ontem já trouxera o que estava reservado para ele.

Shadow resolveu que não fazia a mínima diferença se você havia mesmo feito aquilo pelo que fora condenado. Todo mundo que ele conheceu na prisão fora injustiçado em algum momento: sempre existia algo que as autoridades entenderam errado, algo que disseram que você fez quando, na verdade, não fez — ou que você não fez bem do jeito que eles falaram que você fez. O que importava é que tinham pegado você.

Percebeu isso logo nos primeiros dias, quando tudo, desde a gíria até a comida ruim, era novo. Apesar do sofrimento e da profunda sensação arrepiante de estar encarcerado, ele respirava aliviado.

Shadow tentava não falar muito. Por volta do seu segundo ano de prisão, mencionou algo sobre sua teoria a Low Key Lyesmith, seu companheiro de cela.

 

 

 

 

 

 

Low Key, um golpista de Minnesota, mostrou seu sorriso de cicatriz.

— É — disse. — É verdade. É até melhor se você for condenado à morte. É quando se lembra das piadas sobre os caras que chutaram as botas pra longe, quando sentiram o laço apertar o pescoço, porque os amigos sempre falavam que ele ia morrer de botas.

— Isso é uma piada? — perguntou Shadow.

— Claro que sim. Piada de enforcado. O melhor tipo que existe.

— Quando foi que enforcaram o último homem neste Estado?

— Como é que eu vou saber?

Lyesmith mantinha seus cabelos ruivo-alaranjados bem aparados. Dava para ver as marcas de seu crânio.

— Vou dizer uma coisa pra você. Este país começou a ir pro inferno quando pararam de enforcar os caras. Não tem mais a sujeira da forca. Não tem mais o negócio da forca.

Shadow deu de ombros. Não conseguia ver nada de romântico em uma sentença de morte.

Resolveu que, se você não está condenado à morte, a prisão é algo como uma suspensão temporária da vida. Por dois motivos. Primeiro, a vida se esgueira de volta para a prisão. Sempre há lugares mais baixos para se ir. A vida continua. E, segundo, se você agüentar ficar lá, um dia vão ter que deixar você sair.

No começo, era muito distante para Shadow a idéia de sair da prisão. Então, não conseguia se concentrar no dia da saída, o que se transformou em um raio de esperança longínquo. Quando a merda da prisão vinha à tona — e a merda da prisão sempre vem à tona — aprendeu a dizer a si mesmo: "Isso também vai passar". Um dia a porta mágica se abriria e ele a atravessaria. Por isso, marcava os dias no seu calendário de Pássaros Canoros da América do Norte, o único calendário vendido no armazém da prisão. O sol se punha e ele não via, o sol se levantava e ele não via. Treinava truques com moedas vistos num livro que encontrara na desolação da biblioteca da prisão, fazia exercícios e elaborava listas em sua cabeça sobre o que faria quando saísse dali.

As listas de Shadow iam ficando cada vez mais curtas. Depois de dois anos, só havia três coisas.

Primeiro, ele tomaria um banho de banheira. Um banho de verdade, comprido, ficaria de molho em uma banheira com espuma. Talvez lesse um jornal, talvez não. Em alguns dias pensava de um jeito, em outros dias, de outro.

Segundo, ele se enxugaria e vestiria um roupão. Talvez chinelos. Gostava da idéia de usar chinelos. Se fumasse, fumaria um cachimbo, mas ele não fumava. Pegaria a mulher nos braços ("Cachorrinho", ela guincharia com medo fingido e cheia de prazer de verdade, "o que você está fazendo?"). Ele a carregaria para dentro do quarto e fecharia a porta. Se ficassem com fome, poderiam pedir pizzas.

Terceiro, depois de ele e Laura saírem do quarto, passados uns dois dias, andaria de cabeça baixa e ficaria longe de confusão para o resto da vida.

— E daí você seria feliz? — perguntou Low Key Lyesmith. Naquele dia, trabalhavam na oficina da prisão, montando comedouros de passarinhos, o que era quase tão interessante quanto gravar placas de carros.

— Não diga que um homem é feliz — disse Shadow — até que ele esteja morto.

— Heródoto — disse Low Key. — Oba! Você está aprendendo.

— Quem diabos é Heródoto? — perguntou Iceman, enquanto encaixava as laterais de um comedouro de passarinho e o entregava a Shadow, que aparafusava e prendia a peça com firmeza.

— Um grego morto — disse Shadow.

— Minha última namorada era grega — disse Iceman. — A merda que a família dela comia... Vocês não iam acreditar. Arroz enrolado numas folhas, ou alguma merda desse tipo.

Iceman tinha o mesmo tamanho e formato de uma máquina de Coca-cola, com olhos azuis e cabelos tão louros que eram quase brancos. Havia dado umas porradas em um cara qualquer, que cometera o erro de passar a mão na namorada dele no bar em que era dançarina. Os amigos do cara chamaram a polícia, Iceman foi preso e os policias puxaram a ficha dele, revelando que fora solto em um programa de liberdade condicional, dezoito meses antes.

— O que é que eu devia fazer? — perguntou Iceman, injuriado, quando contou toda a triste história a Shadow. — Eu tinha falado pra ele que ela era minha namorada. Ia deixar ele me desrespeitar daquele jeito? Ia? Ele passou a mão nela toda.

Shadow respondeu "diz isso para eles", e deixou por isso mesmo. Uma coisa que ele aprendeu logo é que você cumpre sua própria pena na prisão. Você não cumpre a pena por ninguém.

Abaixe a cabeça. Cumpra sua própria pena.

Vários meses antes, Lyesmith havia emprestado a Shadow uma cópia em brochura bem gasta das Histórias, de Heródoto. "Não é chato. Ë legal", argumentou quando Shadow declarou não ler livros. "Lê primeiro, depois me diz se é legal."

Shadow fez uma careta, mas começou a ler, e descobriu-se fisgado contra sua própria vontade.

— Gregos — disse Iceman, com nojo. — E nem é verdade o que falam deles por aí. Eu tentei comer o eu da minha namorada, ela quase arrancou meus olhos fora.

Lyesmith foi transferido certo dia, sem aviso. Deixou sua cópia de Heródoto com Shadow. Havia um níquel escondido entre as páginas. Moedas eram contrabando: dá para afiar as bordas com uma pedra e cortar a cara de alguém em uma briga. Shadow não queria uma arma; Shadow só queria algo para fazer com as mãos.

Shadow não era supersticioso. Não acreditava em nada que não pudesse ver. Ainda assim, conseguia sentir o desastre pairando sobre a prisão naquelas semanas finais, do mesmo jeito que sentiu nos dias que precederam o roubo. Sentia um vazio na boca do estômago que, disse a si mesmo, era só medo de voltar para o mundo lá fora. Mas não podia ter certeza. Estava mais paranóico do que o normal — e, na prisão, o normal é muito, além de ser uma estratégia de sobrevivência. Shadow ficou mais quieto, mais sombrio, do que nunca. Começou a observar a linguagem corporal dos guardas, dos outros presidiários, procurando uma pista da coisa ruim que iria acontecer. Ele tinha certeza de que iria.

Um mês antes do dia marcado para sua soltura, Shadow estava em um escritório frio, sentado de frente para um homem baixo com uma mancha de nascença na testa da cor de vinho do Porto. Estavam cada um de um lado de uma escrivaninha; o homem tinha a ficha de Shadow aberta à sua frente e segurava uma caneta esferográfica. A ponta da caneta estava bem mastigada.

— Está com frio, Shadow?

— Estou — respondeu. — Um pouco. O homem deu de ombros.

— O sistema é esse — ele disse. — As fornalhas não começam a funcionar antes de 1º de dezembro. Depois são desligadas dia 1º de março. Não sou eu quem faz as regras.

O homem correu os dedos pela folha de papel grampeada na parte esquerda interna da pasta:

— Você tem 32 anos?

— Sim, senhor.

— Você parece mais novo.

— É a vida limpa.

— Diz aqui que você é um presidiário-modelo.

— Eu aprendi minha lição, senhor.

— É mesmo?

Ele olhava para Shadow com intensidade, fazendo com que a marca de nascença em sua testa ficasse mais para baixo. Shadow pensou em contar ao homem algumas de suas teorias sobre a prisão, mas não disse nada. Ao contrário, assentiu com a cabeça e concentrou-se em parecer apropriadamente cheio de remorso.

— Diz aqui que você tem mulher, Shadow.

— O nome dela é Laura.

— Como estão as coisas lá?

— Estão bem. Ela veio me visitar quando pôde, mas é uma viagem muito longa. A gente se escreve e eu telefono quando dá.

— O que a sua mulher faz?

— Ela é agente de viagem. Manda gente pró mundo inteiro.

— Como você conheceu ela?

Shadow não conseguiu descobrir por que o homem estava perguntando aquilo. Achou que não tinha nada a ver contar para ele, então disse:

— Ela era a melhor amiga da mulher do meu melhor amigo. Eles armaram um encontro às escuras entre nós dois. Deu certo.

— Há um emprego esperando por você?

— Sim, senhor. Meu amigo, Robbie, esse de quem eu acabei de falar, tem uma academia, a Muscle Farm, onde eu costumava treinar. Ele diz que o meu antigo trabalho está esperando por mim.

Uma sobrancelha se levantou.

— É mesmo?

— Diz que acha que eu vou ser uma grande atração. Vou trazer de volta alguns alunos das antigas e chamar o pessoal durão que quer ficar ainda mais forte.

O homem pareceu satisfeito. Mordeu a ponta de sua caneta esferográfica c então virou a folha de papel.

— Como você se sente em relação ao seu delito? Shadow deu de ombros:

— Eu fui estúpido — disse, e foi sincero.

O homem da marca de nascença suspirou. Assinalou vários itens de uma lista. Então, folheou os papéis na ficha de Shadow.

— Como é que você vai daqui pra casa? — perguntou. — De ônibus?

— De avião. Ë bom ter uma mulher que é agente de viagem.

O homem fez uma careta, e a marca de nascença pareceu mais profunda.

— Ela mandou sua passagem?

— Não precisa. Mandou um número de confirmação. Bilhete eletrônico. Eu só preciso aparecer no aeroporto daqui a um mês, mostrar minha identidade e estarei fora daqui.

O homem assentiu com a cabeça, rabiscou uma anotação final, então fechou a ficha e colocou a caneta esferográfica sobre a mesa. Duas mãos pálidas repousaram sobre a escrivaninha como animais cor-de-rosa. Ele juntou as mãos, fez uma igrejinha com os indicadores e, com os olhos úmidos, cor-de-avelã, olhou diretamente para Shadow.

— Você tem sorte — ele disse. — Você tem alguém pra quem voltar, tem um trabalho à sua espera. Pode deixar tudo isto pra trás. Você tem uma segunda chance. Aproveite o melhor que puder.

O homem não se ofereceu para apertar a mão de Shadow quando se levantou, mas ele também não esperava que o fizesse.

A última semana foi a pior. De certa maneira, era pior do que os três anos juntos. Shadow se perguntava se seria o clima: opressivo, parado e frio. Parecia que uma tempestade estava se aproximando, mas nunca chegava. Ele tinha tremores de medo e de ansiedade, uma sensação no fundo do estômago de que algo estava totalmente errado. No pátio de exercícios, o vento soprava forte. Shadow quase sentia o cheiro da neve no ar.

Ligou a cobrar para a mulher. Shadow sabia que as companhias telefônicas arrancavam uma sobretaxa de 3 dólares para cada ligação feita de um telefone de prisão. Shadow resolveu que era por isso que as telefonistas eram sempre muito educadas com as pessoas que ligavam das prisões: sabiam que eles pagavam o salário delas.

— Alguma coisa está esquisita — explicou a Laura. Aquilo não foi a primeira coisa que ele lhe disse. A primeira coisa foi "eu amo você", porque é uma boa coisa de se dizer se você é sincero, e Shadow era.

— Oi — disse Laura. — Eu também amo você. O que é que está esquisito?

— Não sei — ele disse. —'Talvez seja o tempo. Parece que, se pelo menos caísse uma tempestade, tudo ficaria bem.

— Aqui o tempo está bonito — ela disse. — As últimas folhas ainda não caíram. Se não tiver nenhuma tempestade, você ainda poderá ver quando chegar em casa.

— Cinco dias — falou Shadow.

— 120 horas, e daí você vem pra casa.

— Está tudo bem aí? Nada de errado?

— Está tudo ótimo. Vou me encontrar com Robbie hoje à noite. Estamos planejando sua festa-surpresa de boas-vindas.

— Festa-surpresa?

— Claro. Você não sabe nada sobre isso, sabe?

— Nadinha.

— Esse ê o meu marido.

Shadow percebeu que estava sorrindo. Estava lá dentro havia três anos, mas ela ainda conseguia fazê-lo sorrir.

— Te amo, meu bem — disse Shadow.

— Te amo, cachorrinho — respondeu Laura.

Shadow desligou.

Quando se casaram, Laura disse a Shadow que queria um cachorrinho, mas o proprietário havia chamado atenção para o fato de que não era permitido ter bichos de estimação, de acordo com o contrato de aluguel.

— Ei — Shadow falara na ocasião —, eu vou ser seu cachorrinho. O que você quer que eu faça? Morda seus chinelos? Mije no chão da cozinha? Lamba seu nariz? Enfie o focinho no meio das suas pernas? Aposto que não tem nada que um cachorrinho faz que eu não possa fazer!

E ele a pegou no colo, como se ela não pesasse nada, e começou a lamber seu nariz, enquanto ela ria e gargalhava, e depois a carregou até a cama.

No refeitório, Sam Fetisher veio se esgueirando por entre as mesas na direção de Shadow e sorriu, mostrando seus dentes velhos. Sentou-se ao lado dele e começou a comer seu macarrão com molho de queijo.

— Precisamos conversar — disse Sam Fetisher.

Sam Fetisher era um dos homens mais negros que Shadow já vira. Ele podia ler uns 60 anos. Ou talvez 80. Mas Shadow havia conhecido viciados em crack que tinham 30 anos, porém pareciam mais velhos que Fetisher.

— Hmm? — murmurou Shadow.

— Vem aí uma tempestade — comentou Sam.

— Parece que sim — disse Shadow. — Talvez neve logo.

— Não esse tipo de tempestade. Uma tempestade maior do que essa que está vindo. Estou dizendo, garoto, você vai estar melhor aqui do que lá fora, na rua, quando a grande tempestade chegar.

— Cumpri minha pena. Na sexta, vou embora. Sam Fetisher olhou nos olhos de Shadow:

— De onde você vem? — perguntou.

— Eagle Point, Indiana.

— Você é uma porra de um mentiroso — disse Sam Fetisher. — Estou perguntando qual é a sua origem. De onde os seus pais vieram?

— Chicago.

Quando menina, sua mãe havia morado lá, para onde voltara pouco antes de morrer, muitos anos atrás.

— Como eu disse. Grande tempestade chegando. Mantenha a cabeça baixa, garoto Shadow. É como se... como é que chamam aquelas coisas em que os continentes se apóiam? Uns tipos de placas?

— Placas tectônicas? — Shadow arriscou.

— É isso aí. Placas tectônicas. É igual quando elas começam a andar, a América do Norte vai escorregando pra cima da América do Sul, você não vai querer estar no meio. Sacou?

— Nem um pouco.

Um olho castanho se fechou em uma piscadela vagarosa.

— Diabos, não vai dizer que eu não avisei — disse Sam Fetisher, e enfiou na boca uma colherada de gelatina de laranja tremelicante.

— Não vou.

Shadow passou a noite meio acordado, alternando períodos de sono e de vigília, ouvindo seu novo companheiro de cela resmungar e roncar no beliche embaixo dele. A várias celas de distância, um homem choramingava, berrava e soluçava como um animal, e de vez em quando alguém gritava para ele calar a boca. Shadow tentava não escutar. Deixava os minutos vazios passarem por ele, solitários e vagarosos.

Dois dias para ir embora. Quarenta e oito horas, que começaram com mingau de aveia e café da prisão, e um guarda chamado Wilson que bateu no ombro de Shadow, mais forte do que precisava, e disse:

— Shadow, por aqui.

Shadow analisou sua consciência. Estava tranqüila, o que, na prisão, não significava estar livre de uma merda muito grande. Os dois homens caminhavam mais ou menos lado a lado, os pés ecoando sobre o concreto e o metal.

Shadow sentiu o gosto do medo no fundo da garganta, amargo como café velho. A coisa ruim estava acontecendo...

Uma voz no fundo de sua mente dizia que iam enfiar mais um ano na sentença dele, jogá-lo na solitária, cortar fora suas mãos e sua cabeça. Ele tentava se convencer de que estava sendo estúpido, mas seu coração batia tão forte que parecia explodir no peito.

— Não entendo você, Shadow — Wilson disse, enquanto eles caminhavam.

— O que é que tem pra não entender, senhor?

— Você. Você é quieto pra caralho. Educado demais. Fica esperando que nem os caras velhos, mas você tem o quê? 25? 26?

— 32,senhor.

— E o que você é? Latino? Cigano?

— Não que eu saiba, senhor. Talvez.

— Talvez você tenha sangue de preto. Você tem sangue de preto, Shadow?

— Pode ser, senhor.

Shadow estava com o corpo ereto e olhava diretamente para a frente Concentrava-se em não permitir que esse homem o irritasse.

— É mesmo? Bom, só sei que você me assusta pra caralho. Wilson tinha cabelos louro-amarelados, cara louro-amarelada e sorriso louro-amarelado.

— Você vai nos abandonar logo, logo.

— Espero que sim, senhor.

Passaram por alguns portões de controle, Wilson mostrava sua identidade toda vez. Subiram um lance de escadas, e estavam do lado de fora do escritório do diretor da prisão. O nome do diretor da prisão — G. Patterson — estava escrito em letras pretas na porta, ao lado da qual havia um semáforo em miniatura, cuja luz vermelha ardia.

Wilson apertou um botão embaixo do semáforo.

Ficaram lá parados durante alguns minutos. Shadow tentava dizer a si mesmo que tudo estava bem, que na sexta de manhã estaria dentro do avião rumo a Eagle Point, mas ele próprio não acreditava nisso.

A luz vermelha se apagou, a luz verde se acendeu, e Wilson abriu a porta. Entraram.

Shadow viu o diretor um punhado de vezes nos últimos três anos. Uma vez, quando mostrou as instalações a um político. Outra, durante uma paralisação, quando falou com os presos em grupos de cem, explicando que havia uma superpopulação na prisão, e que, como a situação permaneceria igual, era melhor que se acostumassem.

De perto, Patterson tinha aparência pior. Seu rosto era alongado, os cabelos grisalhos cortados em estilo escovinha, bem eriçados. Ele cheirava à loção pós-barba Old Spice. Atrás dele havia uma prateleira cheia de livros, todos com a palavra Prisão no título. Sua escrivaninha era perfeitamente organizada, vazia, a não ser por um telefone e um calendário com piadinhas cínicas, daqueles de que se arrancam as folhas. Ele usava um aparelho auditivo no ouvido direito.

— Por favor, sente-se.

Shadow sentou-se. Wilson ficou em pé atrás dele.

O diretor abriu uma gaveta da escrivaninha e tirou uma ficha, colocou-a sobre a escrivaninha.

— Diz aqui que você foi sentenciado a seis anos por agressão grave e por espancamento. Você cumpriu três anos. Seria solto na sexta.

Seria? Shadow sentiu o estômago balançar dentro da barriga. Ficou imaginando quanto tempo mais precisaria cumprir pena — mais um ano? Dois anos? Os três inteiros? Tudo que disse foi:

— Sim, senhor.

O diretor lambeu os lábios:

— O que foi que você disse?

— Eu disse sim, senhor.

— Shadow, nós o soltaremos hoje, no fim da tarde. Você vai sair uns dias mais cedo.

Shadow assentiu com a cabeça, e ficou esperando a tempestade que sempre vem depois da bonança. O diretor olhou para o papel sobre a escrivaninha:

— Isto aqui veio do Hospital Johnson Memorial, em Eagle Point... Sua mulher... Ela morreu nas primeiras horas desta manhã. Foi um acidente automobilístico. Sinto muito. Shadow assentiu com a cabeça mais uma vez.

Wilson acompanhou-o de volta à sua cela, sem dizer nada. Destrancou a porta e deixou Shadow entrar. Então, disse:

— É como se, quando vem uma notícia boa, a notícia ruim tirasse sarro. Boa notícia, vamos deixar você sair mais cedo; má notícia, sua mulher está morta. Ele riu, como se aquilo fosse genuinamente engraçado. Shadow não disse absolutamente nada, Entorpecido, embalou alguns de seus pertences e distribuiu a maior parte. Deixou para trás o Heródoto, de Low Key, o livro de truques com moedas e, com um sofrimento momentâneo, abandonou os discos de metal pálido surrupiados da oficina, que haviam servido como moedas. Haveria moedas, moedas de verdade, do lado de fora. Shadow fez a barba. Vestiu-se com roupas civis. Atravessou uma porta depois da outra, sabendo que nunca mais as atravessaria no sentido contrário. Sentia um vazio por dentro.

A chuva tinha começado a cair, em rajadas, do céu cinzento, uma chuva congelante. Farpas de gelo pinicavam o rosto de Shadow, enquanto a chuva ensopava seu sobretudo fino. Os presidiários libertados caminhavam em direção ao ex-ônibus escolar amarelo que os levaria para a cidade mais próxima.

Quando chegaram ao ônibus, estavam ensopados. Oito deles iam embora. Mil e quinhentos ainda sobravam lá dentro. Shadow sentou-se no ônibus e tremeu até os aquecedores começarem a funcionar. Pensava no que iria fazer, para onde iria agora.

Imagens de fantasmas enchiam sua cabeça, espontaneamente. Na sua imaginação, deixara outra prisão, muito tempo atrás.

Ele havia ficado preso em uma cela sem luz por tempo demais: sua barba estava desgrenhada e seu cabelo, embaraçado. Os guardas acompanharam-no por uma escada de pedra cinzenta, que ia para baixo e para dentro de uma praça pública cheia de coisas de cores fortes, de pessoas e de objetos. Era dia de feira e ele ficou tonto pelo barulho e pelas cores. Apertava os olhos por causa da luz do sol que enchia a praça e sentia o cheiro salobro e úmido do ar e de todas as coisas boas da feira. À sua esquerda, o brilho do sol refletia na água...

O ônibus deu uma freada brusca, em um sinal vermelho.

O vento uivava em volta do ônibus, e os limpadores de pára-brisa iam pesadamente de um lado para o outro, borrando a cidade de uma umidade amarela e vermelha néon. Era o começo da tarde, mas através do vidro parecia noite.

— Caralho! — disse o homem no banco atrás de Shadow, desembaçando o vidro da janela com a mão e olhando para a figura molhada que corria pela calçada. — Tem boceta lá fora.

Shadow engoliu seco. Ocorreu-lhe que ele ainda não tinha chorado — na verdade, não havia sentido absolutamente nada. Nenhuma lágrima. Nenhum lamento. Nada.

Ele percebeu que estava pensando em um cara chamado Johnnie Larch, com quem havia dividido a cela assim que fora colocado lá dentro. Larch disse a Shadow como havia conseguido sair, depois de cinco anos atrás das grades, com cem dólares no bolso e uma passagem para Seattle, onde sua irmã morava.

Johnnie Larch tinha chegado ao aeroporto e entregara sua passagem para a mulher no balcão, que pedira para ver sua carteira de motorista.

Ele a mostrou. Havia vencido uns anos antes. Ela lhe disse que aquilo não valia como identificação. Ele lhe falou que talvez não valesse como carteira de motorista, mas que era uma porra de identificação, e dane-se. Quem ela pensava que ele era, se não fosse ele mesmo?

Ela disse que agradecia por ele manter seu tom de voz baixo.

Ele lhe disse que entregasse a porra de um cartão de embarque, ou ela iria se arrepender. Ele não iria ser desrespeitado. Não se admite desrespeito na prisão.

Então ela apertou um botão e, alguns instantes mais tarde, seguranças do aeroporto apareceram e tentaram convencer Johnnie Larch a deixar o aeroporto calmamente, mas ele não queria ir embora, e houve uma espécie de discussão.

A conclusão disso tudo foi que Johnnie nunca chegou de fato a Seattle e passou os dias que se seguiram nos bares da cidade. Quando seus cem dólares acabaram, assaltou um posto de gasolina com um revólver de brinquedo, para continuar a beber, e a polícia finalmente o pegou por mijar na rua. Logo, ele estava de volta, cumprindo o resto de sua sentença e mais um pequeno extra pelo serviço no posto de gasolina.

E a moral da história, de acordo com Johnnie Larch, era essa: não irrite as pessoas que trabalham em aeroportos.

— Tem certeza de que não é algo como: "O tipo de comportamento que funciona em um determinado ambiente, como a prisão, pode falhar e de fato ser prejudicial quando usado fora daquele ambiente"? — perguntou Shadow quando Johnnie Larch contou a história.

— Não, ouça o que eu digo, estou/alando pra você, cara — disse Johnnie Larch. — Não irrite as vacas nos aeroportos.

Shadow deu um meio-sorriso quando se lembrou disso. Sua carteira de motorista ainda demoraria vários meses para vencer.

— Rodoviária! Todo mundo pra fora!

O prédio fedia a mijo e a cerveja azeda. Shadow entrou em um táxi e pediu ao motorista que o levasse para o aeroporto. Disse que lhe daria cinco dólares extras se ele ficasse em silêncio. Chegaram lá em vinte minutos, e o motorista não proferiu nenhuma palavra.

Shadow tropeçava pelo terminal do aeroporto, claramente iluminado. Estava preocupado com o negócio do bilhete eletrônico. Sabia que tinha uma passagem para viajar na sexta, mas não sabia se serviria hoje. Qualquer coisa eletrônica parecia fundamentalmente mágica a Shadow e suscetível de evaporação a qualquer instante.

No entanto, estava de novo com sua carteira pela primeira vez em três anos. Havia vários cartões de crédito vencidos e um cartão Visa que, ficou feliz em descobrir, não venceria até o fim de janeiro. Ele tinha um número de reserva. Estava certo de que, após chegar em casa, tudo ficaria, de um jeito ou de outro, melhor. Laura estaria bem novamente. Talvez aquilo fosse algum tipo de truque para liberá-lo alguns dias mais cedo. Ou talvez fosse apenas uma confusão: o corpo de alguma outra Laura Moon havia sido retirado dos destroços na estrada.

Raios caíam do lado de fora do aeroporto, através das janelas-parede. Shadow percebeu que prendia a respiração, esperando algo acontecer. Distante, um estrondo de trovão. Ele respirou aliviado.

Uma mulher branca, cansada, olhava para ele de trás do balcão.

— Oi — disse Shadow. Você é e primeira mulher desconhecida, em carne e osso, com quem eu falo nos últimos três anos. — Tenho um número de bilhete eletrônico. Eu deveria viajar na sexta, mas preciso ir hoje. Teve uma morte na minha família.

— Hmm. Sinto muito por isso.

Ela digitou no teclado, olhou para a tela, digitou de novo:

— Sem problema. Coloquei você no voo das três e meia. Pode atrasar por causa da tempestade, por isso é melhor ficar de olho nas telas. Tem alguma bagagem pra despachar?

Ele levantou uma mochila:

— Não preciso despachar isto, preciso?

— Não — ela disse. — Está ótimo. Você tem alguma identificação com foto?

Shadow mostrou sua carteira de motorista.

Não era um aeroporto grande, mas o número de pessoas vagando por lá, andando de um lado para o outro, surpreendeu Shadow. Viu pessoas jogando malas sem cuidado, observou carteiras cheias em bolsos traseiros, viu bolsas largadas embaixo de cadeiras, sem que ninguém estivesse por perto. Então percebeu que não estava mais na prisão.

Trinta minutos de espera antes do embarque. Shadow comprou uma fatia de pizza e queimou o lábio no queijo quente. Pegou o troco e foi até os telefones. Ligou para Robbie, na Muscle Farm, mas foi a secretária eletrônica que atendeu.

— Ei, Robbie — disse Shadow. — Falaram que a Laura morreu. E me deixaram sair mais cedo. Estou chegando em casa.

E então, porque as pessoas cometem erros, eleja vira isso acontecer, ligou para casa e ouviu a voz de Laura.

— Oi — ela disse. — Eu não estou aqui ou não posso atender. Deixe um recado e eu ligo de volta. Tenha um bom dia.

Shadow não conseguiu deixar recado.

Sentou-se em uma cadeira de plástico perto do portão de embarque, segurava sua mochila com tanta força que machucou a mão.

Estava pensando sobre a primeira vez que tinha visto Laura. Na ocasião, nem sabia o nome dela. Era amiga de Audrey Burton. Ele estava com Robbie em um reservado do Chi-Chi, quando Laura entrou e parou mais ou menos um passo atrás de Audrey, e Shadow percebeu que estava olhando para ela. Tinha cabelos compridos e castanhos e olhos tão azuis que Shadow erroneamente pensou que usasse lentes de contato coloridas. Ela havia pedido um daiquiri de morango, e insistira para que Shadow experimentasse, e rira de satisfação quando ele o fez.

Laura adorava que os outros experimentassem o que ela experimentava.

Nesse dia, dera um beijo de boa-noite nela. Tinha gosto de daiquiri de morango, e ele nunca mais quis beijar ninguém.

Uma mulher anunciou que o embarque de seu avião estava começando, e a fileira de Shadow foi a primeira a ser chamada. Sua poltrona era bem no fundo, com um assento vago atrás dele. A chuva batia continuamente contra a parte externa do avião: imaginou criancinhas pequenas jogando punhados de ervilhas secas do céu.

Quando o avião decolou, ele adormeceu.

Shadow estava em um lugar escuro, e a coisa que olhava para ele tinha uma cabeça de búfalo, fedida e peluda, com enormes olhos úmidos. O corpo da criatura era de homem, oleoso e pegajoso.

— Mudanças estão vindo por aí — disse o búfalo, sem mover os lábios. — Há certas decisões que precisarão ser tomadas.

Chamas ardiam nas paredes úmidas da caverna.

— Onde estou? — Shadow perguntou.

— Na terra e embaixo da terra — disse o homem-búfalo. — Você está onde os esquecidos aguardam.

Os olhos dele eram bolinhas de gude negras e líquidas, e sua voz era um estrondo que parecia vir de dentro da terra. Ele cheirava a cachorro molhado.

— Acredite — disse a voz ribombante. — Se você sobreviver, precisa acreditar.

— Acreditar em quê? — perguntou Shadow. — Em que eu devo acreditar? Ele olhou para Shadow, o homem-búfalo, inchou o peito e ficou enorme, e seus olhos se encheram de fogo. Abriu sua boca de búfalo coberta de cuspe, vermelha por dentro por causa das chamas que ardiam lá dentro.

— Em ludo — rugiu o homem-búfalo.

O mundo inclinava-se e rodava, e Shadow estava no avião mais uma vez; mas a inclinação continuava. Na parte da frente do avião, uma mulher gritava com hesitação.

Relâmpagos irrompiam em clarões ofuscantes em volta do avião. O comandante anunciou nos alto-falantes que tentaria ganhar alguma altitude para fugir da tempestade.

O avião sacudia e tremia, e Shadow ficou imaginando, fria e inutilmente, se iria morrer. Resolveu que parecia possível, mas improvável. Olhava através da janela e assistia aos relâmpagos iluminarem o horizonte.

Então, cochilou mais uma vez, e sonhou que estava de volta à prisão, e que Low Key sussurrava, na fila da comida, que alguém tinha colocado a cabeça dele a prêmio, mas que Shadow não poderia descobrir quem era nem por quê. Quando acordou, estavam prestes a pousar.

Tropeçou para fora do avião, piscando os olhos para acordar.

Todos os aeroportos, ele pensou, pareciam-se muito. Onde você está não faz diferença, você está em um aeroporto: pisos de cerâmica, passarelas e banheiros, portões de embarque e bancas de revistas, e luzes fluorescentes. Esse aeroporto se parecia com um aeroporto. O problema é que esse não era o aeroporto para onde ele ia. Esse era um aeroporto grande, com gente demais e portões de embarque demais.

— Por favor, moça.

A mulher olhou para ele por cima da prancheta:

— Pois não?

— Que aeroporto é esse?

Ela olhou-o, confusa, tentando definir se ele estava ou não brincando, então respondeu:

— St. Louis.

— Eu achei que esse fosse o avião pra Eagle Point.

— Era. Foi redirecionado pra cá por causa das tempestades. Não deram o aviso?

— Provavelmente. Eu dormi.

— Você tem de falar com aquele homem ali, de casaco vermelho.

O homem era quase tão alto quanto Shadow: parecia-se com o pai de uma série de TV dos anos 70. Ele digitou alguma coisa em um computador e mandou Shadow correr — correr! — até um portão de embarque, na outra ponta do terminal.

Shadow correu pelo aeroporto, mas as portas já estavam fechadas quando ele alcançou o portão de embarque. Ele viu o avião se afastar do terminal através das janelas de vidro.

A mulher no balcão de assistência ao passageiro (baixinha e parda, com uma pinta grande na lateral do nariz) consultou outra mulher e deu um telefonema ("Não, esse aí já foi. Acabaram de cancelar.") e então imprimiu outro cartão de embarque.

— Isto aqui vai levar você até lá — explicou. — Vamos ligar pro portão de embarque com antecedência pra avisar que você está chegando.

Shadow sentiu-se como uma bolinha sendo passada de mão em mão, ou uma carta sendo embaralhada. Mais uma vez correu pelo aeroporto, parando perto de onde havia desembarcado originalmente.

Um homem pequeno, no portão de embarque, pegou seu cartão:

— Estávamos esperando por você — confidenciou, rasgando o canhoto do cartão de embarque, no qual estava marcado o número da poltrona (17D). Shadow apressou-se para entrar no avião, e a porta foi fechada atrás dele.

Atravessou a primeira classe — com apenas quatro assentos, três dos quais ocupados. Um homem barbado, vestido com um temo claro e sentado ao lado do assento vago bem na frente, deu um sorriso cínico para Shadow quando ele entrou no avião, então levantou o pulso e bateu no relógio quando Shadow passou.

É isso aí, estou atrasando o seu vôo, pensou Shadow. Tomara que essa seja a menor das suas preocupações.

O avião pareceu bem cheio enquanto ele caminhava até o fundo. Na verdade estava completamente lotado, e havia uma mulher de meia-idade sentada na poltrona 17D. Shadow mostrou-lhe o canhoto do seu cartão de embarque, e ela fez o mesmo: os dois eram iguais.

— Você pode ocupar o seu assento, por favor? — pediu a comissária de bordo.

— Não — ele disse. — Acho que não vai dar.

Ela estalou a língua e checou os cartões de embarque deles, então o conduziu de volta à parte da frente do avião, e apontou para o assento vago na primeira classe:

— Parece que é o seu dia de sorte — concluiu. — Posso trazer algo pró senhor beber? Temos o tempo certinho para isso antes da decolagem. E tenho certeza de que o senhor vai precisar de um trago depois disso tudo.

— Eu quero uma cerveja, por favor — disse Shadow. — Qualquer uma que você tiver.

A comissária de bordo afastou-se.

O homem de terno claro sentado ao lado de Shadow bateu em seu relógio de pulso com a unha. Era um Rolex preto.

— Você está atrasado — disse o homem, e mostrou um enorme sorriso que não tinha nenhuma cordialidade.

— Como?

— Eu disse que você está atrasado.

A comissária de bordo entregou a Shadow um copo de cerveja.

Por um instante, ele ficou imaginando se o homem era louco, e então resolveu que ele devia estar se referindo ao avião, esperando por um último passageiro.

— Desculpe por ter segurado o vôo — ele disse, educadamente. — Você está com pressa?

O avião se afastou do terminal. A comissária de bordo voltou e levou embora a bebida de Shadow O homem de terno claro sorriu para ela e disse:

— Não se preocupe, eu seguro isso aqui firme.

E ela permitiu que ele ficasse com seu copo de Jack Daniel's, enquanto protestava, fracamente, que aquilo violava as regulamentações aéreas. ("Deixe que eu seja o juiz nesse caso, querida.")

— O tempo é certamente muito importante — disse o homem. — Mas, não. Eu só estava preocupado que você não conseguisse chegar.

— Muito gentil da sua parte.

O avião estava inquieto sobre o solo, os motores pulsando, prontos para decolar.

— Gentil o caralho — disse o homem de terno claro. — Eu tenho um serviço pra você, Shadow.

Um rugido de motores. O pequeno avião deu um tranco para a frente, jogando Shadow contra seu assento. E então eles estavam no ar, e as luzes do aeroporto iam embora atrás deles. Shadow olhou para o homem no assento ao seu lado.

Seus cabelos eram cinza-avermelhados; a barba, um pouco mais do que um punhado de pelos vermelho-acinzentados e eriçados. Um rosto marcado, quadrado, com olhos cinza-pálidos. O terno parecia caro e tinha cor de sorvete de baunilha derretido. A gravata era de seda cinza-escura, e o alfinete da gravata era uma árvore, trabalhada em prata: tronco, galhos e raízes profundas.

Ele segurou seu copo de Jack Daniel’s durante a decolagem, e não derramou nenhuma gota.

— Você não vai me perguntar que tipo de serviço? — disse.

— Como é que você sabe quem eu sou? O homem deu uma risadinha.

— Ah, é a coisa mais fácil do mundo saber como as pessoas se chamam. Um pouco de raciocínio, um pouco de sorte, um pouco de memória. Pergunte que tipo de serviço.

— Não — disse Shadow.

A comissária trouxe outro copo de cerveja, e ele tomou um gole.

— Por que não?

— Estou indo pra casa. Tenho um emprego esperando por mim. Eu não quero outro serviço.

O sorriso marcado do homem não se alterou aparentemente, mas agora ele parecia surpreso, de verdade.

— Você não tem nenhum emprego esperando por você em casa — ele disse. — Você não tem nada esperando por você lá. Ao mesmo tempo, estou oferecendo um serviço perfeitamente legal; um bom dinheiro, estabilidade razoável, benefícios notáveis. Diabos, se você viver tanto assim, posso até incluir um plano de previdência privada. Você acha que gostaria de ter um desses?

Shadow falou:

— Você deve ter visto meu nome na lateral da minha mochila. O homem não disse nada.

— Seja lá quem você for — disse Shadow —, não poderia saber que eu estaria neste avião, e depois, se o meu avião não tivesse sido desviado para St. Louis, eu não estaria aqui. Meu palpite é que você é um gozador. Talvez você esteja tramando alguma. Mas acho que provavelmente vai ser melhor se a gente terminar essa conversa por aqui.

O homem deu de ombros.

Shadow pegou a revista de bordo. O aviãozinho pulava e sacolejava pelo céu, dificultando a leitura. No momento em que lia, as palavras flutuavam em sua mente como se fossem bolhas de sabão e, um instante depois, desapareciam completamente.

O homem ficou sentado silenciosamente ao lado dele, bebendo seu Jack Daniel’s. Seus olhos estavam fechados.

Shadow leu a lista dos canais de música disponíveis a bordo dos vôos transatlânticos, e então olhou para o mapa-múndi com linhas vermelhas sobre o desenho, indicando as rotas da companhia aérea. Acabou de ler a revista e, com relutância, fechou o volume e guardou-o de volta no bolsão da cadeira.

O homem abriu os olhos. Havia algo de estranho em seus olhos, Shadow pensou. Um deles era de um cinza mais escuro do que o outro. Ele olhou para Shadow.

— A propósito — ele disse — sinto muito pela sua mulher, Shadow. Uma grande perda.

Foi então que Shadow quase bateu no homem. Mas preferiu respirar fundo. ("Como eu disse, não irrite as vacas nos aeroportos", disse Johnnie Larch, na sua cabeça, "ou elas vão te trazer de volta para cá antes de você dar uma cuspida".) Contou até cinco.

— Eu também senti muito — disse. O homem sacudiu a cabeça.

— Se pudesse ter sido de outro jeito — lamentou com um suspiro.

— Ela morreu em um acidente de carro — disse Shadow. — Existem jeitos piores de morrer.

O homem sacudiu a cabeça, lentamente. Por um instante, pareceu a Shadow que o homem não tinha substância; como se de repente o avião tivesse ficado mais real, ao contrário do seu vizinho.

— Shadow — ele disse —, não é piada. Não é truque. Eu posso pagar melhor do que qualquer outro emprego que você possa encontrar. Você é um ex-presidiário. Não vai ter uma fila comprida de gente se acotovelando pra contratar você.

— Senhor quem-porra-quer-que-você-seja — disse Shadow, apenas na altura suficiente para se fazer ouvir por sobre o zumbido dos motores —, não existe dinheiro bastante no mundo.

O sorriso ficou maior. Shadow se lembrou de um programa sobre chimpanzés a que tinha assistido no canal da TV pública. O programa afirmava que, quando os macacos ou os chimpanzés sorriem, é só para expor os dentes em uma careta de ódio, de agressividade ou de terror. Quando um chimpanzé sorri, é uma ameaça.

— Trabalhe pra mim. Pode haver um pequeno risco, claro, mas, se você sobreviver, vai poder fazer o que o seu coração desejar. Você poderia ser o próximo rei dos Estados Unidos. Agora — disse o homem —, quem é que vai pagar tão bem? Hein?

— Quem é você? — perguntou Shadow.

— Ah, sim. A era da informação... Mocinha, você poderia me servir outra dose de Jack Daniels? Pega leve no gelo... Não, claro, nunca houve um outro tipo de era. Informação e conhecimento: duas moedas que nunca saíram de moda.

— Eu perguntei quem é você.

— Vamos ver. Bom, considerando que hoje certamente é o meu dia, e que hoje é quarta-feira, por que você não me chama de Wednesday? Senhor Wednesday. Apesar de que, tendo em vista o clima, podia bem ser quinta, hein?

— Qual é o seu nome verdadeiro?

— Trabalhe para mim por bastante tempo, e trabalhe bem — disse o homem de terno claro —, que eu posso até contar isso pra você. Veja bem. Oferta de emprego. Pense sobre isso. Ninguém espera que você diga sim imediatamente, sem saber se vai ter que mergulhar em um tanque de piranhas ou entrar em uma cova de ursos. Passe o quanto for preciso.

Ele fechou os olhos e inclinou o assento para trás.

— Acho que não — disse Shadow. — Eu não gosto de você. Não quero trabalhar com você.

— Como eu disse — falou o homem, sem abrir os olhos — não sï apresse. Pense com calma.

O avião aterrissou com um baque, e alguns passageiros desembarcaram. Shadow olhou pela janela: era um pequeno aeroporto no meio do nada, e ainda faltavam dois pequenos aeroportos até chegar a Eagle Point. Shadow olhou para o homem de terno claro — Senhor Wednesday? Ele parecia dormir.

Impulsivamente, Shadow se levantou, agarrou a mochila, desceu do avião pela escadinha molhada e escorregadia que levava até a pista do aeroporto, e andou com um passo firme em direção às luzes do terminal. Uma chuva leve batia em seu rosto.

Antes de entrar no prédio do aeroporto, ele parou, virou-se, observou. Ninguém mais tinha desembarcado do avião. O pessoal de terra levou a escada embora, a porta se fechou, e o avião decolou. Shadow entrou e alugou um pequeno Toyota vermelho que esperava por ele no estacionamento.

Shadow desdobrou o mapa que lhe haviam dado. Esticou-o sobre o assento do passageiro. Eagle Point estava a cerca de 400 quilômetros dali.

As tempestades haviam passado, se é que haviam chegado tão longe. O ar estava frio e limpo. Nuvens passavam na frente da lua e, por um instante, Shadow não teve certeza se eram as nuvens ou a lua que se movia.

Ele dirigiu para o norte durante uma hora e meia.

Estava ficando tarde. Tinha fome e, quando percebeu o quão faminto estava, deixou a estrada na saída seguinte e entrou na cidade de Nottamun (população 1.301). Encheu o tanque no posto de gasolina Amoco e perguntou à mulher entediada na caixa registradora onde poderia arrumar algo para comer.

— No bar Jack's Crocodile — disse. — Fica a oeste, na estrada local N.

— Bar Jack's Crocodile?

— Ë. Jack fala que eles dão personalidade.

Ela lhe desenhou um mapa atrás de um folheto cor-de-malva que anunciava um frango grelhado em benefício de uma menina pequena que precisava de um rim novo.

— Ele tem uns crocodilos, uma cobra, uma daquelas coisas tipo lagarto.

— Uma iguana?

— É isso mesmo.

Segundo o mapa, dirigiu pela cidade, cruzou uma ponte, rodou mais alguns quilômetros e, finalmente, parou em um prédio baixo, retangular, com um luminoso de cerveja Pabst na frente.

O estacionamento estava meio vazio.

No interior, o ar estava espesso pela fumaça e tocava "Walking After Midnight" na jukebox. Shadow olhou em volta procurando os crocodilos, mas não conseguia vê-los. Perguntou a si mesmo se a mulher no posto de gasolina não tinha tirado um sarro dele.

— O que vai ser? — perguntou o barman.

— A cerveja da casa e um hambúrguer com todos os acompanhamentos. Batata frita.

— Uma tigela de chili pra começar? É o melhor chili do Estado.

— Parece bom — disse Shadow. — Onde fica o banheiro?

O homem apontou para o canto do bar. Havia uma cabeça de jacaré empalhada, pendurada em cima da porta, por onde Shadow entrou.

Era um banheiro limpo e bem iluminado. Shadow primeiro olhou em volta; força do hábito. ("Lembre-se, Shadow, você não pode revidar quando está mijando", Low Key disse na cabeça dele, com seu tom grave de sempre.) Escolheu a cabina da esquerda. Então abriu o zíper e mijou durante um tempão, aliviado. Leu a reportagem em um recorte amarelado impresso, enquadrado na altura dos olhos. Havia uma foto de Jack e de dois jacarés.

Ouviu um resmungo educado vindo da cabina imediatamente à sua direita, apesar de não ter percebido ninguém entrando.

O homem de terno claro era maior em pé do que parecia sentado no avião ao seu lado. Tinha quase a mesma altura de Shadow, e Shadow era um homem grande. Ele estava a sua frente, olhando-o. Terminou de mijar, sacudiu as últimas gotas, e fechou o zíper.

Sorriu, como uma raposa presa em uma cerca de arame farpado.

— Então — disse o senhor Wednesday —, você quer um emprego?

 

EM ALGUM LUGAR NOS ESTADOS UNIDOS

Los Angeles, 23h26

Em um quarto vermelho escuro — a cor das paredes lembra fígado cru — há uma mulher vestida de forma prosaica, com um short de seda justo demais, e peitos apertados e projetados para a frente pela blusa amarela amarrada embaixo deles. Seu cabelo preto forma uma pilha alta tricotada sobre a cabeça. Em pé ao lado dela há um homem baixo que veste uma camiseta cor-de-oliva e calças jeans caras. Ele segura, na mão direita, uma carteira e um telefone celular Nokia com uma capa vermelha, branca e azul.

O quarto vermelho contém uma cama, sobre a qual há lençóis brancos de cetim e uma colcha vermelho-sangue. Ao pé da cama há uma mesinha de madeira com uma pequena estátua em pedra de uma mulher com quadris enormes segurando um castiçal.

A mulher entrega ao homem uma pequena vela vermelha.

— Aqui está — ela diz. — Acende.

— Eu?

— É. Se você quiser me possuir.

— Eu devia ter feito você só me dar uma chupada no carro.

— Talvez. Você não me quer?

A mão dela desliza pelo corpo, do quadril até o peito, um gesto de apresentação, como se estivesse demonstrando um produto novo.

Lenços de seda vermelha sobre o abajur no canto do quarto deixam a luz vermelha.

O homem a olha faminto, então pega a vela de sua mão e enfia no castiçal.

— Você tem isqueiro?

Ela lhe entrega uma carteia de fósforos. Ele arranca um fósforo, acende o pavio: a luz dá uma tremida e depois queima com uma chama firme, que confere ilusão de movimento à estátua sem rosto que está ao lado, toda quadris e peitos.

— Coloque o dinheiro atrás da estátua.

— Cinqüenta paus.

— É — ela diz. — Agora vem aqui me amar.

Ele desabotoa o jeans e tira a camiseta cor-de-oliva. Ela massageia os ombros brancos dele com seus dedos pardos; então ela o vira e começa a fazer amor com ele com as mãos, os dedos e a língua.

Para ele, parece que as luzes no quarto vermelho diminuíram, e que a única iluminação vem da vela, que queima com uma chama brilhante.

— Qual é o seu nome? — ele lhe pergunta.

— Bilquis — ela diz, levantando a cabeça. — Com Q.

— Com o quê?

— Deixa pra lá.

Ele está ofegando agora.

— Deixa eu foder você — ele diz. — Eu preciso foder você.

— Tudo bem, querido. Vamos lá. Mas você vai fazer uma coisa pra mim, enquanto a gente estiver trepando, tudo bem?

— Ei — ele diz, irritado de repente. — Eu estou pagando, sabia? Ela abre as pernas dele, com um movimento suave, sussurrando:

— Eu sei, querido, eu sei, você está me pagando, e é verdade, olhe só pra você, eu é que devia pagar, que sorte eu tenho...

Ele aperta os lábios, tentando demonstrar que a conversa da prostituta não tem nenhum efeito sobre ele, que ele não pode ser seduzido. Ela é uma puta de rua, pelo amor de Deus, ao passo que ele é praticamente um produtor, e ele conhece todos os truques para arrancar uma grana extra no último minuto, mas ela não pede dinheiro. No lugar disso, diz:

— Querido, enquanto você me comer, enquanto você enfiar aquela coisa grande e dura dentro de mim, será que você poderia me idolatrar7 — Fazer o quê?

Ela balança para a frente e para trás em cima dele: a cabeça do pênis dele cheia de sangue está se esfregando contra os lábios molhados da vulva dela.

— Você me chama de deusa? Você reza pra mim? Me idolatra com o seu corpo?

Ele sorri. Isso é tudo que ela quer? Afinal, todo mundo tem suas manias.

— Claro — ele diz.

Ela coloca a mão entre as pernas e o faz escorregar para dentro dela.

— Está bom assim, está, deusa? — ele pergunta, ofegando.

— Me idolatra, querido —, diz Bilquis, a prostituta.

— Sim — ele diz. — Eu idolatro seus peitos, seu cabelo e a sua boceta. Eu idolatro o seu quadril, os seus olhos e os seus lábios cor-de-cereja...

— Sim... — ela sussurra, cavalgando em cima dele.

— Eu idolatro os seus mamilos, por onde o leite da vida jorra. O seu beijo é mel e o seu toque queima como fogo, e eu idolatro tudo isso.

As palavras dele estão ficando mais ritmadas agora, seguindo o compasso do vaivém de seus corpos.

— Traz pra mim o seu tesão de manhã, e traz pra mim o seu alívio e a sua bênção à noite. Me deixa caminhar por lugares escuros sem que nada aconteça comigo e vir até você mais uma vez, dormir do seu lado e fazer amor com você de novo. Eu idolatro você com tudo que existe dentro de mim, e tudo que está na minha mente, com todos os lugares que eu já fui e com os meus sonhos e os meus... — ele pára, ofegante. — O que é que você está fazendo? Isso é demais. Tão demais...

E ele olha em direção aos quadris, para o lugar onde os dois viram um só, mas o dedo indicador dela toca o queixo dele e empurra sua cabeça para trás, então ele olha apenas para o rosto dela e para o teto mais uma vez.

— Continua falando, querido — ela diz. Não pára. Não está bom?

— Está melhor do que qualquer outra coisa que eu já senti — murmura para ela, de coração. — Os seus olhos são estrelas brilhando, porra, no firmamento, e os seus lábios são ondas delicadas que lambem a areia, e eu idolatro tudo isso.

E agora ele está metendo cada vez mais fundo nela: ele se sente elétrico, como se toda a parte inferior de seu corpo houvesse ganhado carga sexual: fálica, cheia de sangue, explodindo de prazer.

— Traz seu dom pra mim —, ele murmura, sem saber o que está dizendo — seu único dom de verdade, e deixa eu ficar sempre assim... Sempre tão... Eu imploro... Eu...

E, então, o prazer atinge seu ápice e se transforma em orgasmo, explodindo sua mente para o vácuo, sua cabeça e seu próprio ser num vazio, quando ele enfia mais fundo nela e mais fundo ainda...

Olhos fechados, em espasmos, ele se deleita no momento; e então sente um puxão, c se sente como se estivesse pendurado, de cabeça para baixo, apesar de o prazer continuar.

Ele abre os olhos.

O homem pensa, tentando retomar a consciência e o raciocínio, no nascimento, e pergunta a si mesmo, sem medo, em um instante de perfeita clareza pós-coito, se o que ele está vendo não é algum tipo de ilusão.

Eis o que vê:

Ele está dentro dela até o peito, e enquanto ele olha para isso com descrença e maravilha, ela está com as duas mãos sobre seus ombros e faz uma pequena pressão sobre o corpo dele.

Ele escorrega mais para dentro dela.

— Como é que você está fazendo isso comigo? — ele pergunta, ou pensa que pergunta, mas talvez seja só sua imaginação.

— Você é que está fazendo isso, querido — ela sussurra.

Ele sente os lábios da vulva dela apertados ao redor da parte superior de seu peito e de suas costas, apertando-o e o envolvendo. E fica imaginando o que aquilo pareceria a alguém que os observasse. E fica imaginando por que não está com medo. E então, ele sabe.

— Eu idolatro você com o meu corpo — ele sussurra, enquanto ela o empurra para dentro dela.

Os lábios vaginais dela se fecham melados sobre o rosto dele, e os olhos dele escorregam para dentro da escuridão.

Ela se espreguiça na cama, como um gato enorme, e então boceja.

— E — ela diz — idolatra mesmo.

O telefone Nokia toca, alto, uma melodia eletrônica de "Ode to Joy". Ela pega o aparelho, aperta uma tecla e coloca o fone no ouvido.

A barriga dela está lisa, seus lábios vaginais, pequenos e fechados. Um lustro de suor brilha na testa e no lábio superior dela.

— Sim? — ela diz.

E, após uma pausa, responde:

— Não, querida, ele não está aqui. Ele foi embora. Ela desliga o telefone antes de se deixar cair na cama do quarto vermelho escuro, então se espreguiça mais uma vez, fecha os olhos e dorme.

 

                                             CAPITULO DOIS

— Tomei a liberdade — disse o senhor Wednesday, lavando as mãos no banheiro masculino do bar Jack's Crocodile — de pedir minha comida, pra ser servida na sua mesa. Temos muito a discutir, apesar de tudo.

— Acho que não — falou Shadow.

Ele secou as mãos em uma toalha de papel, amassou-a e jogou-a na lata de lixo.

— Você precisa de um emprego — retrucou Wednesday. — Ninguém contrata um ex-presidiário. Vocês incomodam as pessoas.

— Eu tenho um emprego me esperando. Um emprego bom.

— Seria o trabalho na Muscle Farm?

— Talvez — disse Shadow.

— Não. Você não tem. Robbie Burton está morto. Sem ele, a Muscle Farm também está morta.

— Você é um mentiroso.

— Claro, e sou bom. O melhor que você vai conhecer na vida. Mas acho que não estou mentindo agora. Retirou do bolso um jornal dobrado e entregou-o a Shadow:

— Página sete — ele disse. — Vamos voltar pró bar. Você pode ler isso aí na mesa.

Shadow empurrou e abriu a porta para dentro do bar. O ar estava azulado de fumaça, e a jukebox tocava "Iko Iko", dos Dixie Cups. Shadow sorriu, de leve, reconhecendo a antiga canção infantil.

O barman apontou para uma mesa no canto. De um lado havia uma tigela de chili e um hambúrguer, e do outro, um bife mal passado e uma tigela de batatas fritas.

Look at my king ali dressed in red, Iko lho all day, l bet you five dollars he'll kill you dead, Jockamo-feena-nay [1]

 

Shadow sentou-se no seu lugar. Colocou o jornal de lado.

— Esta é a minha primeira refeição como homem livre. Vou terminar de comer antes de ler a sua página sete.

Shadow comeu seu hambúrguer. Estava melhor do que os da prisão. O chili estava bom, mas ele resolveu, depois de algumas garfadas, que não era o melhor do Estado.

Laura fazia um chili maravilhoso. Usava carne magra, feijão preto, cenouras cortadinhas, quase uma garrafa de cerveja escura e pimentas malaguetas cortadas na hora. Ela deixava o chili cozinhar durante um tempo, então adicionava vinho tinto, suco de limão e uma pitada de endro fresco e, para terminar, media e adicionava pimentas em pó. Em mais de uma ocasião Shadow tinha pedido a Laura que lhe mostrasse como fazer: ele observava cada passo, desde cortar as cebolas e jogá-las no azeite de oliva, no fundo da panela. Ele até anotou a receita, ingrediente por ingrediente — uma vez, num fim de semana que ela havia viajado, ele preparou o chili da Laura para si mesmo. O gosto ficou bom — certamente era comível, mas não era o chili da Laura.

A notícia na página sete foi a primeira descrição que Shadow leu a respeito da morte de sua mulher. Laura Moon, que segundo o artigo tinha 27 anos, e Robbie Burton, 39, estavam no carro de Robbie, na rodovia interestadual, quando desviaram em direção a um caminhão de 32 rodas. Após o choque, o carro de Robbie saiu rodopiando para o acostamento.

Equipes de resgate retiraram Robbie e Laura dos destroços. Os dois estavam mortos quando chegaram ao hospital.

Shadow fechou o jornal e, com um empurrão, fez com que deslizasse até o outro lado da mesa, em direção a Wednesday, que estava se entupindo com um bife tão sanguinolento e tão cru que parecia nunca ter sido apresentada à chama de um fogão.

— Aí está. Pegue de volta — disse Shadow.

Robbie estava dirigindo. Devia estar bêbado, apesar de o relato do jornal não falar nada sobre isso. Shadow ficou imaginando o rosto de Laura quando ela percebeu que Robbie estava bêbado demais para dirigir. A cena desdobrava-se na cabeça de Shadow, e não havia nada que pudesse fazer para que parasse:

Laura gritando para Robbie, gritando para ele encostar, então o estrondo do carro contra o caminhão, e tudo rodando, rodando...

...o carro no acostamento, vidro quebrado brilhando como gelo e diamante sob as luzes dos faróis, e sangue empossado como um monte de rubis na estrada ao lado deles. Dois corpos sendo retirados dos destroços e acomodados no acostamento.

— Então? — perguntou o senhor Wednesday. Ele havia terminado seu bife, devorara-o como um homem faminto. Agora, mastigava as batatas fritas, espetando-as com seu garfo.

— Você está certo — disse Shadow. — Eu não tenho emprego. Shadow tirou uma moeda de 25 centavos do bolso, com o lado da coroa voltado para cima. Com um peteleco, jogou-a no ar, fazendo com que oscilasse e rodopiasse, agarrou-a e, com um tapa, acomodou-a sobre as costas da mão.

— Cara ou coroa? — perguntou.

— Por quê? — retrucou Wednesday.

— Eu não quero trabalhar pra ninguém que tenha menos sorte do que eu. Cara ou coroa?

— Cara — disse o senhor Wednesday.

— Desculpa — disse Shadow, sem nem se preocupar em olhar a moeda. — Deu coroa. Eu trapaceei.

— Jogos de trapaça são os mais fáceis de ganhar — disse Wednesday, sacudindo um dedo quadrado na direção de Shadow. — Dê outra olhada.

Shadow olhou para a moeda. O lado da cara estava virado para cima.

— Devo ter feito um movimento errado — disse, confuso.

— Você só prejudica a si próprio — disse Wednesday, e sorriu. — Eu sou só um cara sortudo, muito sortudo. Então, ele olhou para cima:

— Bom, eu nunca faço movimentos errados. Mad Sweeney! Você toma um drinque com a gente?

— Southern Comfort e Coca, na verdade — disse uma voz atrás de Shadow.

— Eu vou lá falar com o barman — disse Wednesday. Ele se levantou e caminhou em direção ao bar.

— Você não vai perguntar o que vou beber? — reclamou Shadow.

— Eu já sei o que você vai beber — disse Wednesday, e logo estava em pé ao lado do bar.

Patsy Cline começou a cantar "Walking After Midnight" na jukebox. Southern Comfort e Coca sentou-se ao lado de Shadow. Ele tinha uma barba ruiva curta. Usava uma jaqueta jeans coberta com apliques de panos coloridos e, sob ela, uma camiseta branca manchada. Na camiseta lia-se:

SE VOCÊ NÃO PUDER COMER, BEBER, FUMAR OU CHEIRAR... ENTÃO, FODA-SE Usava um boné de beisebol com a frase:

A ÚNICA MULHER QUE EU AMEI NA VIDA ERA CASADA COM OUTRO HOMEM... MINHA MÃE!

Ele abriu um maço comum de Lucky Strike com um dedão sujo, tirou um cigarro, ofereceu a Shadow. Shadow estava prestes a pegar um, automaticamente — ele não fumava, mas um cigarro é uma boa moeda de troca — quando percebeu que não estava mais na prisão. Sacudiu a cabeça.

— Você trabalha pró nosso homem, então? — perguntou o homem barbado. Ele não estava sóbrio, mas ainda não estava bêbado.

— Parece que sim — disse Shadow. — O que é que você faz? O homem barbado acendeu o cigarro.

— Eu sou um leprechaun — disse com um sorriso malicioso. Shadow não sorriu.

— É mesmo? — perguntou. — Você não deveria beber Guinness?

— Estereótipos! Você tem que aprender a pensar além dos limites — disse o homem barbado. — Tem muito mais coisa na Irlanda do que Guinness.

— Você não tem sotaque irlandês.

— Eu estou aqui há tempo demais.

— Então você veio mesmo da Irlanda?

— Já disse. Eu sou um leprechaun. A gente não vem da porra de Moscou!

— Acho que não.

Wednesday voltou para a mesa, três drinques facilmente acomodados em suas mãos que pareciam patas.

— Southern Comfort e Coca pra você, Mad Sweeney, meu homem, e um Jack Daniel's pra mim. E isto é pra você, Shadow.

— O que é?

— Experimenta.

A bebida tinha uma cor dourada amarelo-tostada. Shadow deu um golinho, sentindo o gosto de uma mistura esquisita de amargo e doce na língua. Ele conseguia sentir o gosto do álcool no fundo, além de uma mistura estranha de sabores. Lembrou-lhe um pouco o destilado da prisão, fermentado em um saco de lixo com frutas podres, pão, açúcar e água, mas era mais doce, e muito mais estranho.

— Tudo bem — disse Shadow. — Eu experimentei. O que é?

— Mulso — disse Wednesday. — Vinho de mel. A bebida dos heróis". A bebida dos deuses.

Shadow deu outro golinho. É, ele percebeu que conseguia sentir o gosto do mel. Aquele era um dos gostos.

— Tem um gosto meio de água de picles — ele disse. — Vinho doce de água de picles.

— Tem gosto do mijo de um diabético bêbado — discordou Wednesday. — Eu odeio isso aí!

— Então por que você trouxe pra mim? — perguntou Shadow, sem entender. Wednesday olhou para Shadow com seus olhos desemparelhados. Shadow achou que um deles era um olho de vidro, mas não conseguia definir qual.

— Eu trouxe mulso pra você beber porque é tradicional. E, neste momento, precisamos de toda a tradição que conseguirmos para selar nosso acordo.

— Nós não fizemos acordo nenhum.

— Claro que fizemos. Você trabalha pra mim agora. Você me protege. Você me transporta de um lugar pró outro. Você leva recados. Em uma emergência, mas só em uma emergência, você machuca pessoas que precisam ser machucadas. No evento improvável da minha morte, você conduz minha vigília. E, em troca, eu vou me certificar de que as suas necessidades sejam atendidas.

— Ele está enrolando você — disse Mad Sweeney, esfregando a barba ruiva por fazer. — Ele é um enrolador.

— Claro que eu sou um agitador — disse Wednesday. — Por isso, preciso de alguém pra cuidar dos meus interesses.

A música na jukebox terminou, e por um instante o bar ficou quieto, todas as conversas deram uma trégua.

— Alguém me disse uma vez que esses momentos em que todo mundo cala a boca ao mesmo tempo acontecem quando passaram vinte minutos de uma hora completa ou quando faltam vinte minutos pra completar uma hora — disse Shadow.

Sweeney apontou para o relógio em cima do bar, preso nas mandíbulas enormes e indiferentes da cabeça empalhada de um jacaré. Marcava 11h20.

— Está vendo — disse Shadow. — Maldição, como eu queria saber por que isso acontece!

— Eu sei por quê — disse Wednesday. — Beba seu mulso. Shadow acabou com o resto do mulso com um longo gole:

— Deve ficar melhor com gelo — disse.

— Ou não — disse Wednesday. — Isso aí é horrível.

— Ë sim — concordou Mad Sweeney. — Me dêem licença por um instante, cavalheiros, mas eu me encontro em necessidade profunda e urgente de dar uma mijada bem longa.

Ele se levantou e saiu andando, era um homem incrivelmente alto. Shadow achou que ele tinha quase dois metros e dez.

Uma garçonete passou um pano na mesa e levou os pratos vazios. Wednesday lhe disse que trouxesse de novo a mesma coisa para todo mundo, mas agora o mulso de Shadow deveria ser com gelo.

— De qualquer jeito — disse Wednesday — é isso que eu preciso de você.

— E você gostaria de saber o que eu quero? — perguntou Shadow.

— Nada me deixaria mais feliz.

A garçonete trouxe a bebida. Shadow deu um golinho no mulso com gelo. O gelo não ajudou — se é que surtia algum efeito, acentuava o amargor, e fazia com que o gosto ficasse na boca depois de o mulso ser engolido. Ainda assim, Shadow consolou-se, não tinha um gosto particularmente alcoólico. Ele não estava pronto para ficar bêbado. Ainda não.

— Tudo bem — disse Shadow. — Minha vida, que durante três anos esteve bem longe de ser a melhor do mundo, acabou de dar uma virada louca e repentina pra pior. Agora tem algumas coisas que eu preciso fazer. Eu quero ir ao enterro da Laura. Eu quero me despedir. Eu deveria me desfazer das coisas dela. Se ainda assim você precisar de mim, eu gostaria de começar ganhando 500 dólares por semana.

A quantia era um tiro no escuro. Os olhos de Wednesday não revelaram nada.

— Se nós ficarmos contentes de trabalhar juntos, em seis meses você aumenta pra 1.000 dólares por semana.

Ele fez uma pausa. Esse era o maior discurso que havia feito em anos.

— Você diz que posso precisar machucar pessoas. Bom, eu vou machucar as pessoas que tentarem machucar você. Mas não machuco gente por diversão nem por lucro. Eu não vou voltar pra prisão. Uma vez foi suficiente.

— Não, você não vai precisar fazer isso — disse Wednesday.

— Não — repetiu Shadow. — Não vou.

Ele terminou o resto do mulso. De repente, começou a se perguntar em pensamento se seria o mulso o responsável por ele soltar a língua. Mas as palavras saíam como água espirrando de um hidrante quebrado no verão, e ele não poderia contê-las mesmo se tivesse tentado.

— Eu não gosto de você, senhor Wednesday ou qualquer que seja o seu nome verdadeiro. Nós não somos amigos. Eu não sei como é que você saiu daquele avião sem eu ver, ou como você me perseguiu até aqui. Mas eu estou em um beco sem saída neste momento. Quando terminarmos nosso assunto, eu me mando. E se você me encher o saco, eu me mando também. Até lá, vou trabalhar pra você.

— Muito bem — exclamou Wednesday. — Então temos um pacto. E estamos combinados.

— Que seja — disse Shadow.

Do outro lado da sala, Mad Sweeney colocava moedas na jukebox. Wednesday cuspiu na mão e a estendeu. Shadow deu de ombros. Cuspiu na própria mão. Os dois apertaram as mãos. Wednesday começou a apertar mais forte. Shadow apertou de volta. Depois de alguns segundos, sua mão começou a doer. Wednesday segurou mais um pouquinho e, então, soltou.

— Bom — ele disse. — Bom. Muito bom. Então, um último copo da porra do mulso infeliz pra selar o nosso acordo e, daí, estaremos prontos.

— Vai ser um Southern Comfort e Coca pra mim — pediu Sweeney, afastando-se da jukebox.

A jukebox começou a tocar "Who Loves the Sun?", do Velvet Underground. Shadow achou que era uma música estranha, e bem improvável, para estar numa jukebox. Mas, e daí? Por toda a noite tinham acontecido coisas cada vez mais improváveis.

Shadow pegou da mesa a moeda que havia usado para o cara ou coroa, apreciando a sensação de pegar em uma moeda recém-cunhada, segurando-a na mão direita entre o polegar e o indicador. Fingiu passá-la para a mão esquerda com um movimento suave, enquanto a escondia casualmente na palma da mão direita. Fechou a mão esquerda sobre a moeda imaginária. Então pegou uma segunda moeda na mão direita, entre o polegar e o indicador e, quando fingia deixar a moeda cair na mão esquerda, deixou que a moeda caísse na palma da mão direita, batendo na outra que já estava lá, dando a impressão de que as duas estavam agora na mão esquerda. O tilintar confirmou a ilusão de que as duas moedas estavam nessa mão, quando na verdade estavam firmes na mão direita.

— Truques com moedas, é? — perguntou Sweeney, levantando o queixo, com os pelos da nuca eriçados. — Se vamos fazer truques com moedas, olha isso.

Ele pegou um copo vazio da mesa. Esticou a mão e pegou do ar uma moeda de ouro grande e brilhante. Deixou que caísse dentro do copo. Pegou outra moeda de ouro do ar e a jogou dentro do copo, onde tilintou de encontro à primeira. Pegou uma moeda da chama de uma vela que estava na parede, outra da barba, uma terceira da mão esquerda vazia de Shadow e deixou-as cair, uma a uma, dentro do copo. Então fechou os dedos por cima do copo e assoprou forte, e várias outras moedas de ouro caíram da mão dele para dentro do copo. Ele virou o copo de moedas pegajosas no bolso da jaqueta, e depois deu um tapinha no bolso para mostrar, sem sombra de dúvida, que estava vazio.

— Pronto — ele disse. — Aí está um truque com moeda pra você. Shadow, que havia assistido a tudo com atenção, deixou a cabeça cair para o lado:

— Eu preciso saber como foi que você fez isso.

— Eu fiz — disse Sweeney, com ares de quem estava contando um grande segredo — com elegância e estilo. Foi assim que eu fiz.

E deu uma gargalhada silenciosa, balançando-se nos saltos das botas e mostrando os dentes com falhas.

— É — disse Shadow. — Foi assim que você fez. Você precisa me ensinar. Há várias maneiras de fazer esse truque, que eu li, mas você precisa esconder as moedas na mão que estiver segurando o copo e largar cada uma para que ela passe, sem ser notada, para a mão direita.

— Parece que dá muito trabalho — retrucou Mad Sweeney. — É mais fácil pegar as moedas do ar. Wednesday disse:

— Mulso pra você, Shadow. Eu vou continuar com o senhor Jack Daniels, e pró irlandês folgado...?

— Uma garrafa de cerveja, de preferência alguma coisa escura — falou Sweeney. — Folgado, é?

Ele pegou o que restava de sua bebida e levantou o copo para fazer um brinde a Wednesday:

— Que a tempestade passe por cima de nós e que nos deixe todos sãos e salvos — e, ruidosamente, colocou o copo de volta sobre a mesa.

— Um belo brinde — disse Wednesday — Mas isso não vai acontecer. Outro copo de mulso foi colocado na frente de Shadow.

— Eu tenho que beber isso?

— Acho que sim. Pra selar nosso acordo. A terceira vez é a que vale, não é?

— Merda — reclamou Shadow.

Ele engoliu o mulso em dois goles grandes. O gosto de mel com picles encheu a boca dele.

— Pronto — disse o senhor Wednesday. — Agora você é o meu homem.

— Então — perguntou Sweeney —, você quer saber como eu faço o truque?

— Quero — respondeu Shadow. — Você estava escondendo as moedas na manga?

— Nunca ficaram na minha manga.

Ele riu para si mesmo, balançando o corpo para a frente e para trás, e pulando como se fosse um vulcão desajeitado e barbudo preparando-se para entrar em erupção e ejetar seu próprio brilhantismo com prazer.

— É o truque mais simples do mundo. Eu brigo com você pela informação. Shadow sacudiu a cabeça:

— Eu passo.

— Ah, isso é ótimo — disse Sweeney para o bar inteiro. — O velho Wednesday arruma um guarda-costas e o cara tem medo até de mostrar os punhos.

— Eu não vou brigar com você — Shadow continuou a dizer. Sweeney balançava o corpo de um lado para o outro e suava. Brincou com a ponta do boné de beisebol. Então pegou uma de suas moedas do ar e a colocou sobre a mesa:

— É ouro de verdade, no caso de você estar duvidando — falou Sweeney. — Ganhando ou perdendo, e você vai perder, será sua se você brigar comigo. Um cara grande como você, quem é que ia pensar que você era uma porra de um covarde?

— Eleja disse que não vai brigar com você — falou Wednesday. — Vai embora, Mad Sweeney. Leva a sua cerveja e deixa a gente em paz.

Sweeney deu um passo para chegar mais perto de Shadow.

— Vai me chamar de folgado, é, criatura maldita? Seu macaco de sangue frio e sem coração!

Seu rosto ficou vermelho de raiva. Wednesday esticou as mãos, com as palmas para cima, pacificador:

— Que bobagem, Sweeney. Veja bem o que você diz. Sweeney olhou diretamente para ele. Então disse, com a gravidade de quem está muito bêbado:

— Você contratou um covarde. O que acha que ele faria se eu machucasse você?

Wednesday voltou-se para Shadow:

— Pra mim, chega — disse. — Resolve.

Shadow ficou cm pé e precisou olhar para cima para ver o rosto de Mad Sweeney: que altura será que aquele homem tinha?, perguntou a si mesmo.

— Você está nos incomodando — disse. — Você está bêbado. Acho que devia ir embora agora.

Um sorriso lento apareceu no rosto de Sweeney.

— Só porque você quer — retrucou.

E lançou um enorme punho na direção de Shadow. Shadow desviou para trás, mas a mão de Sweeney acertou em cheio embaixo do seu olho direito. Ele enxergou pontos de luz e sentiu dor.

E, assim, a briga começou.

Sweeney brigava sem estilo, sem ciência, sem nada além de entusiasmo pela luta em si: dava grandes golpes rápidos em todas as direções, que erravam o alvo tanto quanto acertavam-no.

Shadow brigava na defensiva, com cuidado, bloqueando os golpes de Sweeney ou evitando-os. Tomou consciência da multidão ao redor deles. Mesas foram tiradas do caminho com resmungos de protesto, abrindo espaço para que continuassem sua luta de boxe. Durante todo o tempo, Shadow percebeu os olhos de Wednesday sobre ele, e seu sorriso sem humor. Aquilo era um teste, era óbvio. Mas, que tipo de teste?

Na prisão, Shadow aprendera que existiam dois tipos de luta: brigas do tipo não se meta comigo, nas quais você causava a melhor impressão que conseguia, com bastante exibição, e as brigas particulares, brigas de verdade, que eram rápidas, duras e horríveis, e que sempre acabavam em segundos.

— Ei, Sweeney — disse Shadow. — Por que nós estamos brigando?

— Pelo prazer da luta — disse Sweeney, agora sóbrio ou, pelo menos, não mais visivelmente bêbado. — Pelo simples prazer vazio da porra da briga. Você não sente o prazer correndo nas veias, igual à seiva das plantas na primavera?

O lábio dele sangrava, assim como os nós dos dedos de Shadow.

— Então, como é que você faz aparecer aquelas moedas? — perguntou Shadow. Ele desviou para trás e se contorceu, levou um soco no ombro que deveria ter sido no rosto.

— Expliquei como eu fiz, quando a gente conversou — rosnou Sweeney — Mas ninguém é mais cego... Ai! Belo golpe!... Do que quem não ouve.

Shadow deu vários socos em Sweeney, derrubando-o por cima de uma mesa... Copos vazios e cinzeiros despedaçaram-se no chão. Shadow poderia ter acabado com ele naquela hora.

Shadow deu uma olhadela para Wednesday, e ele assentiu com a cabeça. Shadow abaixou a cabeça e olhou para Mad Sweeney:

— Terminamos? — perguntou.

Mad Sweeney hesitou, e então assentiu com a cabeça. Shadow o largou e deu vários passos para trás. Sweeney, ofegando, aprumou-se de volta a uma posição ereta.

— Nem fodendo! — gritou. — Não vai acabar até eu falar que acabou. E então ele sorriu mostrando os dentes e se jogou para a frente, dando golpes na direção de Shadow. Pisou em um cubo de gelo que tinha caído no chão e seu sorriso transformou-se em um susto de boca aberta, quando seus pés lhe fugiram e ele caiu de costas. A parte de trás da sua cabeça bateu no chão do bar, com um forte estampido.

Shadow colocou o joelho no peito de Mad Sweeney:

— Pela segunda vez, nossa briga terminou? — perguntou.

— Pode ser que sim — disse Sweeney, levantando a cabeça do chão —, porque o prazer se diluiu, como o mijo de um menininho em uma piscina em um dia de calor.

Ele cuspiu o sangue da boca, fechou os olhos e começou a roncar, roncos profundos e magníficos.

Alguém deu um tapinha nas costas de Shadow. Wednesday colocou uma garrafa de cerveja na mão dele.

Tinha um gosto bem melhor do que o mulso.

Shadow acordou estirado no banco de trás de um seda. O sol da manhã o ofuscava, e a cabeça dele doía. Sentou-se de maneira desajeitada, esfregando os olhos. Wednesday dirigia, cantarolando fora de tom. Havia um copo de papel no porta-copos. Rodavam por uma auto-estrada interestadual. O assento do passageiro estava vazio.

— Como é que você está se sentindo nesta linda manhã? — perguntou Wednesday sem se virar para trás.

— O que aconteceu com o meu carro? — perguntou Shadow. — Era alugado.

— Mad Sweeney devolveu pra você. Fazia parte do acordo que vocês dois fecharam ontem à noite. Depois da briga.

Diálogos da noite anterior começaram a se espremer de maneira desconfortável na mente de Shadow.

— Você tem mais desse café?

O homem grande esticou a mão para baixo do assento do passageiro e passou uma garrafa fechada de água para trás.

— Tome. Você vai ficar desidratado. Por enquanto, isso aqui vai ajudar mais do que café. Vamos parar no próximo posto pra tomar um café da manhã. Você também vai precisar se limpar... Está parecendo com alguma coisa que o bode trouxe, como diz o ditado.

— Que o gato trouxe.

— Bode — disse Wednesday. — Um bode enorme, fedido e sujo, com dentes grandes.

Shadow desatarraxou a tampa da água e bebeu. Alguma coisa tilintou pesadamente no bolso da jaqueta dele. Colocou a mão no bolso e tirou uma moeda do tamanho de uma de cinqüenta centavos de dólar. Era pesada e tinha uma cor amarelada, forte.

No posto de gasolina, Shadow comprou uma nécessaire, que tinha um barbeador, um sache de creme de barbear, um pente e uma escova de dentes descartável, embalada com um tubo de pasta de dente bem pequeno. Entrou no banheiro masculino e se olhou no espelho.

Tinha uma marca roxa embaixo de um dos olhos — quando a apalpou, para testar, descobriu que doía muito —, e o lábio inferior estava inchado.

Shadow lavou o rosto com o sabonete líquido do banheiro, depois passou o creme de barbear e fez a barba. Escovou os dentes. Umedeceu os cabelos e os penteou para trás. Ainda parecia maltratado.

Ficou imaginando o que Laura diria quando o visse, e então se lembrou de que Laura nunca mais diria nada, e viu seu rosto tremer no espelho, mas só por um instante.

Saiu do banheiro.

— Pareço péssimo — disse Shadow.

— Claro que sim — Wednesday concordou.

Wednesday levou alguns salgadinhos até o caixa, pagou pela comida e pela gasolina, mudando de idéia duas vezes a respeito de pagar com dinheiro ou cartão, para a irritação da mocinha que mascava chiclete atrás do balcão. Shadow observou que Wednesday ficava cada vez mais atrapalhado e não parava de se justificar. De repente, ele pareceu muito velho. A moça devolveu o dinheiro dele e debitou a compra no cartão, e então lhe entregou o recibo e pegou o dinheiro. Depois devolveu o dinheiro e pegou um cartão diferente. Wednesday estava obviamente prestes a chorar, um homem velho inutilizado pela marcha implacável do plástico no mundo moderno.

Saíram da loja quentinha do posto de gasolina e o hálito deles virou vapor no ar.

De novo na estrada: campinas de grama ressecada passavam pelos dois lados. As árvores estavam desfolhadas e pareciam mortas. De cima de um fio de telégrafo, dois pássaros pretos olhavam para eles.

— Ei, Wednesday.

— O quê?

— Pelo que eu vi, você não pagou a gasolina.

— É?

— Ela acabou pagando pelo privilégio de ter você no posto dela. Você acha que ela já percebeu?

— Nunca vai perceber.

— Então, o que você é? Um artista do contra que não vale nada? Wednesday assentiu com a cabeça.

— É — ele disse — acho que sou. Entre outras coisas. Desviou o carro para a faixa da esquerda para ultrapassar um caminhão. O céu era de um cinza uniforme e desolador.

— Vai nevar — Shadow falou.

— Vai.

— Sweeney. Ele acabou me mostrando como se faz aquele truque das moedas?

— Ah, mostrou.

— Eu não me lembro.

— Vai voltar. Foi uma noite longa.

Vários pequenos flocos de neve caíam de encontro ao pára-brisa, derretendo em segundos.

— O velório da sua mulher está sendo na funerária Wendell agora — disse Wednesday. — E, depois do almoço, vão levá-la de lá pró cemitério.

— Como é que você sabe?

— Eu liguei antes, quando você estava no banheiro. Você sabe onde é a funerária Wendell?

Shadow assentiu com a cabeça. Os flocos de neve rodopiavam e espiralavam na frente deles.

— Esta é a nossa saída — disse Shadow.

O carro saiu da rodovia interestadual e passou o aglomerado de motéis, ao norte de Eagle Point.

Três anos tinham se passado. Sim. Havia mais semáforos, fachadas de lojas estranhas. Shadow pediu a Wednesday que diminuísse quando passaram em frente à Muscle Farm. FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO, dizia o aviso na porta, escrito à mão, DEVIDO A FALECIMENTO.

A esquerda na rua principal, passaram por um novo ateliê de tatuagem e pelo Centro de Recrutamento do Exército, depois pelo Burger King, pela farmácia Olsen, familiar e imutável, e finalmente pela fachada amarela de tijolos da funerária Wendell. Um luminoso em néon dizia FUNERÁRIA. Lápides em branco repousavam sem batismo e sem entalhamento na vitrina sob o luminoso.

Wednesday parou no estacionamento.

— Você quer que eu entre? — perguntou.

— Não exatamente.

— Que bom.

O sorriso se acendeu, sem humor.

— Tem uns negócios de que eu posso ir tratando enquanto você se despede. Eu vou reservar quartos pra nós no Motel América. Vá me encontrar lá quando terminar.

Shadow desceu do carro e observou enquanto Wednesday se afastava. Então, entrou. O corredor mal-iluminado cheirava a flores e a lustra-móveis, havia um odor muito sutil de formaldeído. No fundo, ficava a capela do velório.

Shadow percebeu que estava com a moeda de ouro na mão, como se estivesse treinando seus truques. O peso dela era tranqüilizador.

O nome de sua mulher estava escrito em uma folha de papel ao lado da porta mais ao fundo do corredor. Ele entrou na capela. Shadow conhecia a maior parte das pessoas na sala: os colegas de trabalho e muitos dos amigos de Laura.

Todos o reconheceram. Ele podia perceber isso no rosto de cada um deles. Não houve sorrisos tampouco cumprimentos.

No fundo da sala havia um pequeno estrado e, sobre ele, um esquife cor-de-creme com várias coroas de flores arrumadas em sua volta: escarlates, amarelas, brancas e roxas, escuras e da cor de sangue. Deu um passo para a frente. Conseguia ver o corpo de Laura do lugar em que estava. Não queria ir mais para a frente... E não ousava ir embora.

Um homem de terno escuro — Shadow supôs que ele trabalhasse na funerária —, disse:

— Senhor? O senhor gostaria de assinar o livro de condolências'e de lembranças?

E, dizendo isso, direcionou-o a um livro com capa de couro, aberto sobre um pequeno apoio.

Ele escreveu SHADOW e a data com sua caligrafia precisa. Então, lentamente, escreveu (CACHORRINHO) do lado, descartando a idéia de andar até o fundo da sala onde estavam as pessoas, além do esquife, e a coisa dentro do esquife cor-de-creme que não era mais Laura.

Uma mulher pequena atravessou a porta e hesitou. O cabelo dela era de um vermelho cor-de-cobre, e suas roupas eram caras e muito escuras. Malditas viúvas, Shadow pensou. Ele a conhecia bem. Audrey Burton, a mulher de Robbie.

Audrey segurava um ramalhete de violetas, enrolado na base com papel alumínio. Era o tipo de coisa que uma criança faria no verão, pensou Shadow. Mas não estava na época das violetas.

Ela cruzou a sala até o esquife de Laura. Shadow a seguiu.

Laura estava deitada com os olhos fechados e os braços dobrados sobre o peito. Ela usava um tailleur azul conservador que ele não reconheceu. Os longos cabelos castanhos estavam afastados dos olhos. Era e não era Laura: o repouso dela, ele percebeu, era o que havia de artificial. Laura sempre tivera um sono agitado.

Audrey ajeitou seu ramalhete de violetas de verão sobre o peito de Laura. Então mexeu a boca por um instante e cuspiu, forte, no rosto morto de Laura.

O cuspe pegou Laura na bochecha e começou a escorrer em direção à orelha.

Audrey já se dirigia para a porta. Shadow correu atrás dela.

— Audrey? — ele disse.

— Shadow? Você fugiu? Ou deixaram você sair? Ele perguntou a si mesmo se ela estaria tomando calmantes. A voz dela estava distante e desinteressada.

— Me deixaram sair ontem. Sou um homem livre — disse Shadow. — Que merda foi aquela?

Ela parou no meio do corredor escuro:

— As violetas? Foram sempre as flores preferidas dela. Quando éramos meninas, costumávamos colher violetas juntas.

— Não estou falando das violetas.

— Ah, aquilo — ela disse.

Tirou algo invisível do canto da boca com a mão.

— Bom, eu achei que era óbvio.

— Não pra mim, Audrey — Não contaram pra você?

A voz dela estava calma, sem emoção.

— Sua mulher morreu com o pau do meu marido na boca, Shadow. Ele voltou para a funerária. Alguém já havia enxugado o cuspe.

O enterro foi depois do almoço — Shadow comeu no Burger King. O caixão cor-de-creme de Laura foi enterrado no pequeno cemitério sem nome que ficava depois da cidade: sem cerca, era uma campina cheia de morrinhos e coalhada de lápides de granito preto e de mármore branco.

Ele foi até lá no carro funerário da Wendell com a mãe de Laura. A senhora McCabe parecia achar que a morte de Laura era culpa de Shadow.

— Se você estivesse aqui — ela disse —, isso nunca teria acontecido. Eu não sei por que ela se casou com você. Eu disse pra ela. Mais de uma vez, eu disse. Mas elas não escutam as mães, não é?

Ela parou, olhou o rosto de Shadow mais de perto:

— Você andou brigando?

— Andei — ele respondeu.

— Bárbaro! — ela disse.

Apertou os lábios, levantou a cabeça, fazendo o queixo tremer, e olhou diretamente para a frente.

Para a surpresa de Shadow, Audrey Burton também estava no enterro, parada no fim da aglomeração. A cerimônia curta acabou, o esquife foi baixado no chão frio. As pessoas se dispersaram.

Shadow não foi embora. Ficou lá com as mãos nos bolsos, tremendo, olhando para o buraco no chão.

Sobre sua cabeça, o céu era cinza-aço, sem formas, e plano como um espelho. Continuava nevando, de forma irregular, em flocos fantasmagóricos que pareciam tropeçar no ar.

Havia algo que ele queria dizer a Laura, e estava preparado para esperar até descobrir o que era. O mundo começou a perder a luz e a cor lentamente. Os pés de Shadow estavam ficando dormentes, ao mesmo tempo em que seu rosto e suas mãos doíam de frio. Ele enfiou as mãos nos bolsos em busca de calor, e seus dedos se fecharam em volta da moeda de ouro.

Caminhou até a cova.

— Isto é pra você — disse.

Várias pás de terra haviam sido esvaziadas sobre o esquife, mas o buraco estava longe de estar cheio. Shadow atirou a moeda de ouro na cova, e então jogou mais terra no buraco, para esconder a moeda dos coveiros gananciosos. Tirou a terra das mãos e disse:

— Boa noite, Laura. E então, completou:

— Desculpa.

Virou o rosto em direção às luzes da cidade e começou a caminhar de volta para Eagle Point.

O hotel ficava a uns bons três quilômetros de distância, mas, depois de passar três anos na prisão, ele saboreava a idéia de simplesmente poder caminhar e caminhar mais, para sempre se precisasse. Ele poderia caminhar em direção ao norte e terminar no Alasca, ou dirigir-se para o sul, para o México e além. Poderia caminhar até a Patagônia, ou até a Terra do Fogo.

Um carro parou ao lado dele. O vidro da janela foi abaixado.

— Quer uma carona, Shadow? — perguntou Audrey Burton.

— Não — respondeu. — Não vinda de você.

Ele continuou a caminhar. Audrey andou com o carro ao seu lado, a 5 quilômetros por hora. Flocos de neve dançavam nos fachos de luz dos faróis.

— Eu pensava que ela era a minha melhor amiga — disse Audrey. — A gente conversava todo dia. Quando Robbie e eu brigávamos, ela era sempre a primeira a saber... A gente ia pró Chi-Chi, tomar umas margaritas e falar de como os homens podiam ser ordinários. E, durante todo aquele tempo, ela estava trepando com ele pelas minhas costas.

— Oi, Shadow — ele disse. — Não se meta a besta comigo.

— Tudo bem — concordou Shadow. — Você pode me deixar no Motel América, na rodovia interestadual?

— Bate nele — disse o jovem para a pessoa que estava à esquerda de Shadow. Um soco foi desferido no plexo solar de Shadow, tirando-lhe o fôlego e fazendo com que ele se dobrasse em dois. Aprumou-se, lentamente.

— Eu disse pra não se meter a besta comigo. Isso foi se meter a besta comigo. Mantenha suas respostas curtas e objetivas, senão eu vou matar você, porra. Ou talvez não mate. Talvez eu chame umas crianças pra quebrar todos os ossos dessa porra do seu corpo. Tem 206 crianças. Então, não se mete a besta comigo.

— Entendi — disse Shadow.

As luzes do teto da limusine mudaram de cor, de roxo para azul e depois para verde e para amarelo.

— Você está trabalhando pró Wednesday — disse o jovem.

— Estou.

— Que merda ele quer? Quer dizer, o que é que ele está fazendo aqui? Ele deve ter um plano. Qual é a estratégia de jogo dele?

— Eu comecei a trabalhar pró senhor Wednesday nesta manhã. — disse Shadow. — Eu sou garoto de recados.

— Você está dizendo que não sabe?

— Estou dizendo. Não sei!

O garoto abriu a jaqueta e tirou uma cigarreira de prata de um bolso interno. Ele a abriu, e ofereceu um cigarro a Shadow:

— Você fuma?

Shadow pensou em pedir para desamarrarem suas mãos, mas achou melhor não.

— Não, obrigado — respondeu.

O cigarro parecia ter sido enrolado à mão e, quando o garoto o acendeu, com um isqueiro Zippo preto-fosco, soltou um cheiro como se alguma coisa clétrica estivesse queimando.

O garoto tragou profundamente, então prendeu a respiração. Ele deixou a fumaça escorrer pelos lábios e a inalou novamente pelas narinas. Shadow suspeitou que ele tivesse treinado aquilo na frente de um espelho durante um bom tempo antes de fazer a demonstração em público.

— Se você mentiu pra mim — disse o garoto, como se estivesse muito distante —, eu vou matar você, porra. Você sabe que vou.

— Você disse que vai.

O garoto deu mais uma tragada comprida no cigarro.

— Você disse que está hospedado no Motel América? Ele deu um tapinha na janela do motorista, atrás dele. A janela de vidro se abaixou.

— Ei. Motel América, lá na rodovia interestadual. Precisamos levar nosso convidado.

O motorista assentiu com a cabeça, e a janela subiu de novo.

As luzes brilhantes de fibra ótica da limusine continuavam a mudar, em ciclos, percorrendo sua gama de cores pálidas. Parecia que os olhos do garoto cintilavam também: eram verdes como a cor de um monitor de computador antigo.

— Diz isso pró Wednesday, cara. Diz a ele que ele é passado. Ele está esquecido. Está velho. Diz a ele que nós somos o futuro e não nos importamos nem um pouco com ele ou com alguém do tipo dele. Ele foi mandado para o lixão da história, enquanto gente como eu anda de limusine pela superestrada do futuro.

— Vou dizer — respondeu Shadow.

Ele começava a se sentir zonzo. Torceu para não ficar enjoado.

— Diz a ele que a gente reprogramou a realidade. Diz que a linguagem é um vírus, que a religião é um sistema operacional e que as orações são a mesma coisa que a porra do spam. Diz isso a ele ou eu mato você — disse o jovem do meio da fumaça, docemente.

— Entendi — falou Shadow. — Pode me deixar aqui. Eu posso fazer o resto do caminho a pé.

O jovem assentiu com a cabeça.

— Foi bom conversar com você. O fumo o havia amaciado.

— Entenda que, se a gente matar você, a gente vai deletar a sua pessoa. Sacou? Um dique e você vai ser substituído por um monte de uns e de zeros. Cancelar a operação não é uma opção.

Ele bateu na janela atrás de si:

— Ele vai descer aqui — disse.

Então, voltou-se para Shadow e apontou para o cigarro:

— Pele sintética de sapo — falou. — Você sabia que agora dá pra sintetizar bufotenina?

O carro parou, e a porta se abriu. Shadow desceu desajeitado. Suas amarras foram cortadas. Shadow virou-se. O interior do carro havia se transformado em uma nuvem de fumaça distorcida, na qual duas luzes cintilavam, agora da cor-de-cobre, como os lindos olhos de um sapo.

— Tem tudo a ver com a porra do paradigma dominante, Shadow. Nada mais importa. E, ei, sinto muito pelo que aconteceu com a sua velha.

A porta se fechou, e a limusine foi embora, silenciosamente. Shadow estava a uns 200 metros de distância do hotel, e caminhou até lá, respirando o ar frio, passando por luzes vermelhas, amarelas e azuis que anunciavam todos os tipos de fast-food que alguém possa imaginar, desde que sirvam hambúrgueres; e chegou ao Motel América sem incidentes.

 

                                        CAPITULO TRÊS

Every hour wounds. The last one kitis [2]

Havia uma moça magra atrás do balcão no Motel América. Ela disse a Shadow que seu check-in já havia sido feito por seu amigo e entregou-lhe a chave do quarto, de plástico retangular. Tinha cabelo louro-pálido e um ar de roedor no rosto, que ficava mais evidente quando parecia desconfiada, e que se abrandava quando sorria. Ela se recusou a dizer o número do quarto de Wednesday e insistiu em avisar-lhe pelo telefone interno que seu hóspede havia chegado.

Wednesday saiu de um quarto no fundo do corredor e acenou para Shadow.

— Como foi o enterro? — perguntou.

— Terminou — disse Shadow.

— Quer conversar sobre isso?

— Não.

— Bom — Wednesday sorriu seu sorriso malicioso. — Há conversa demais hoje em dia. Blá-bla-blá. Este país estaria bem melhor se as pessoas aprendessem a sofrer em silêncio.

Wednesday fez com que ele o seguisse até seu quarto, que era do outro lado do corredor, na frente do de Shadow. Havia mapas espalhados por todo o quarto, desdobrados, esticados sobre a cama, colados nas paredes. Wednesday tinha desenhado sobre todos os mapas com canetas marca-texto de cores fortes: verde fluorescente, rosa e um alaranjado vívido que doíam na vista.

— Fui seqüestrado por um moleque gordo — disse Shadow. — Ele me disse pra te falar que você foi mandado pro monte de adubo da história, enquanto gente como ele anda de limusine pelas superestradas da vida. Alguma coisa desse tipo.

 — Besteira — disse Wednesday.

— Você conhece ele? Wednesday deu de ombros.

— Eu sei quem ele é.

Sentou-se pesadamente na única cadeira do quarto.

— Eles não fazem idéia — disse. — Não fazem a mínima idéia. Quanto tempo mais você precisa ficar aqui?

— Não sei. Talvez mais uma semana. Acho que preciso empacotar as coisas da Laura. Cuidar do apartamento, me livrar das suas roupas, tudo isso. Vou deixar a mãe dela louca, mas a mulher merece.

Wednesday assentiu com sua enorme cabeça.

— Bom, quanto mais rápido você terminar, mais rápido a gente pode ir embora de Eagle Point. Boa noite.

Shadow cruzou o corredor. Seu quarto era uma duplicata do quarto de Wednesday, até no quadro de um pôr-do-sol vermelho na parede sobre a cama. Ele pediu uma pizza de queijo e calabresa, depois preparou um banho de banheira, despejando na água todos os vidrinhos de xampu do hotel para fazer espuma.

Ele era muito grande para se deitar na banheira, mas sentou-se dentro dela e se refestelou da melhor maneira que conseguiu. Shadow havia prometido a si mesmo um banho de banheira quando saísse da prisão, e ele sempre cumpria suas promessas.

A pizza chegou logo depois de ter saído do banho, e Shadow comeu, mandando a comida goela abaixo com uma lata de cerveja.

Shadow ficou deitado na cama, pensando... Esta é a minha primeira cama de homem livre, e o pensamento trouxe menos prazer do que ele imaginava. Deixou as cortinas abertas, ficou observando as luzes dos carros e das espeluncas de fast-food através da janela, feliz em saber que havia um outro mundo lá fora no qual ele poderia entrar sempre que quisesse.

Shadow não poderia estar em casa, no apartamento que havia dividido com Laura — na cama que havia dividido com Laura. Mas a idéia de estar lá sem ela, rodeado pelas coisas dela, pelo cheiro dela, pela vida dela, era simplesmente dolorida demais...

Não vá lá, pensou. Ele resolveu ocupar os pensamentos com outra coisa. Pensou em truques com moedas. Shadow sabia que não tinha a personalidade certa para ser um ilusionista: não conseguiria tecer as histórias que eram tão necessárias para que ele se fizesse acreditar, nem queria fazer truques com cartas, nem fazer aparecer flores de papel. Ele só queria manipular moedas; gostava dessa arte. Começou a listar as maneiras que dominava para fazer uma moeda desaparecer. Isso o fez se lembrar da moeda que havia jogado na cova'de Laura e, então, em sua cabeça, Audrey dizia que Laura tinha morrido com o pau do Robbie na boca, e, mais uma vez, sentiu uma dorzinha no coração.

Cada hora fere. A última mata. Onde é que ouvira aquilo?

Pensou no comentário de Wednesday e sorriu, involuntariamente: Shadow tinha ouvido gente demais dizer para não reprimir os sentimentos, para deixar as emoções extravasarem, para liberar a dor. Shadow pensou que havia muito a ser dito em relação a guardar sentimentos. Achava que, se você o fizesse durante tempo o bastante e com profundidade suficiente, logo não sentiria mais nada.

Foi tomado pelo sono sem que percebesse.

Ele caminhava...

Caminhava por uma sala maior do que uma cidade e, para todos os lugares que olhava, havia estátuas e entalhes, e figuras esculpidas toscamente. Estava parado ao lado de uma estátua de uma coisa que se parecia com uma mulher: os seios nus pendiam murchos do tronco, em volta da cintura havia uma corrente cujos elos pareciam mãos decepadas, as mãos da estátua seguravam facas afiadas e, no lugar da cabeça, saindo do pescoço, havia cobras gêmeas, com os corpos arqueados, olhando uma para a outra, prontas para atacar. Existia algo profundamente perturbador naquela estátua, algo completa e violentamente errado. Shadow afastou-se.

Começou a caminhar pelo salão. Os olhos esculpidos das estátuas pareciam seguir cada passo que ele dava.

No sonho, percebeu que cada estátua tinha um nome que ardia no chão à sua frente. O homem de cabelos brancos, com um colar de dentes em volta do pescoço, segurando um tambor, era Leucotios; a mulher de quadris largos, com monstros que saíam do vasto talho entre as pernas, era Hubur; o homem com cabeça de carneiro que segurava uma bola de ouro era Hershef.

Uma voz precisa, presunçosa e exata, falava com ele, no sonho, mas Shadow não enxergava ninguém.

"Estes são deuses que foram esquecidos e que agora podem até mesmo estar mortos. Só podem ser encontrados em histórias áridas. Eles se foram, todos eles, mas seus nomes e suas imagens continuam entre nós."

Shadow dobrou uma esquina e percebeu que tinha entrado em outra sala, ainda mais ampla que a primeira. Continuava além de onde os olhos podiam enxergar. Perto dele havia a caveira de um mamute, lustrada e marrom, e uma capa ocre peluda, vestida por uma mulherzinha com a mão esquerda deformada. Perto daquilo havia três mulheres — cada uma delas esculpida a partir da mesma rocha de granito — unidas pela cintura: seus rostos tinham uma aparência inacabada, precipitada, apesar de os seios e a genitália terem sido esculpidos com cuidado elaborado. Havia um pássaro que não podia voar, que Shadow não reconheceu: era duas vezes mais alto do que ele, com um bico parecido com o de um urubu, mas com braços humanos... E assim por diante.

A voz ecoou mais uma vez, como se estivesse falando com uma sala de aula:

"Esses são os deuses que já perderam a consciência da memória. Até mesmo seus nomes foram perdidos. As pessoas que os adoravam estão tão esquecidas quanto eles. Desde há muito tempo, seus totens foram quebrados e derrubados. Seus últimos sacerdotes morreram sem passar o segredo adiante. Deuses morrem. E, quando morrem de verdade, ninguém chora nem se lembra deles. As idéias são mais difíceis de matar do que as pessoas, mas também podem ser mortas, no fim."

Ouviu-se um murmúrio que começou então a percorrer o salão, um sussurro baixo que fez com que Shadow, no sonho, experimentasse um medo arrepiante e inexplicável. Um pânico completo tomou conta dele, ali no corredor dos deuses que haviam sido esquecidos — deuses com rosto de polvo e deuses que eram apenas mãos mumificadas, ou pedras caídas, ou fogos na floresta...

Shadow acordou com o coração batendo forte dentro do peito, com a testa coberta de suor frio, totalmente desperto. Os números vermelhos do relógio de cabeceira diziam que era lh03 da madrugada. O luminoso do lado de fora do Motel América brilhava através da janela do seu quarto. Desorientado, Shadow levantou-se e entrou no minúsculo banheiro. Mijou sem acender as luzes e voltou para o quarto. O sonho ainda estava fresco e vívido na sua cabeça, mas não conseguia explicar para si mesmo por que havia ficado tão assustado.

A luz que iluminava o quarto, a partir do lado de fora, não era clara, mas os olhos de Shadow tinham se acostumado à escuridão. Havia uma mulher sentada ao lado da cama dele.

Ele a conhecia, ele a teria identificado no meio de uma multidão de milhares de pessoas, ou de centenas de milhares de pessoas. Ela ainda usava o tailleur azul-marinho que tinham colocado nela antes de ser enterrada.

Sua voz não passava de um sussurro, mas era familiar:

— Acho — disse Laura — que você vai perguntar o que eu estou fazendo aqui.

Shadow não disse nada.

Sentou-se na única cadeira do quarto e, finalmente, perguntou:

— É você mesma?

— Sou. Estou com frio, cachorrinho.

— Você está morta, querida.

— É — ela disse. — É, estou mesmo. Deu uns tapinhas na cama perto de si:

— Vem aqui e senta do meu lado.

— Não — disse Shadow. — Acho que vou ficar aqui mesmo por enquanto. Temos alguns assuntos não-resolvidos pra tratar.

— Como eu estar morta?

— Possivelmente, mas eu estava pensando mais no jeito como você morreu. Você e Robbie.

— Ah — ela disse. — Isso.

Shadow podia sentir o cheiro (ou talvez simplesmente imaginasse que pudesse) de podridão, de flores e de conservante. Sua mulher (sua ex-mulher... não, ele se corrigiu, sua mulher morta) estava sentada na cama e olhava diretamente para ele, sem piscar.

— Cachorrinho — ela disse. — Você podia... será que você conseguiria me arrumar... um cigarro?

— Eu pensei que você tivesse largado.

— Eu larguei, mas não me preocupo mais com os riscos à saúde. E acho que ia acalmar meus nervos. Tem uma máquina no lobby.

Shadow vestiu as calças jeans e uma camiseta e foi, descalço, até lá. O balconista da noite era um homem de meia-idade, que lia um livro de John Grisham.Shadow comprou da máquina um maço de Virgínia Slims. Em seguida, pediu uma carteia de fósforos ao balconista.

— Você está em um quarto de não-fumante — disse o homem. — Não se esqueça de abrir a janela.

Entregou a Shadow uma carteia de fósforos e um cinzeiro de plástico com o logotipo do Motel América.

— Entendi — disse Shadow.

Ele voltou para o quarto. Ela havia se esticado na cama, em cima das cobertas reviradas. Shadow abriu a janela e entregou-lhe os cigarros e os fósforos. Os dedos dela estavam gelados. Ela acendeu um fósforo e ele percebeu que as suas unhas, normalmente imaculadas, estavam roídas e sujas de terra.

Laura acendeu o cigarro, tragou, assoprou o fósforo. Deu mais uma tragada.

— Não consigo sentir o gosto — disse. — Acho que não está fazendo efeito nenhum.

— Sinto muito — lamentou Shadow.

— Eu também.

Quando ela tragou, a ponta do cigarro brilhou, e ele conseguiu ver seu rosto.

— Então — ela disse. — Deixaram você sair.

— Deixaram.

A ponta do cigarro brilhava alaranjada.

— Eu continuo agradecida. Nunca deveria ter envolvido você naquilo tudo.

— Bom — ele disse —, eu concordei em fazer. Eu poderia ter dito não. Ele perguntou a si mesmo por que não estava com medo dela: por que um sonho de museu conseguia deixá-lo aterrorizado, ao passo que conseguia lidar com um cadáver ambulante sem medo.

— Ë — ela disse. — Você poderia mesmo. Seu esquisitão.

A fumaça envolvia o rosto dela. Laura estava muito bonita à luz fraca.

— Você quer saber o que aconteceu entre mim e Robbie?

— Acho que sim.

Ela apagou o cigarro no cinzeiro.

— Você estava na prisão — disse. — E eu precisava de alguém pra conversar. Eu precisava de um ombro amigo pra chorar. Você não estava lá. Eu fiquei perturbada.

— Sinto muito.

Shadow percebeu que havia algo estranho em relação à voz dela, e tentou descobrir o que era.

— Eu sei. Então a gente se encontrava pra tomar café. Falava sobre o que a gente ia fazer quando você saísse da prisão. Como ia ser bom ver você de novo. Ele gostava mesmo de você, você sabe. Estava ansioso pra devolver o seu trabalho de antes.

— Sei.

— E daí a Audrey foi passar uma semana na casa da irmã. Isso foi há um ano, treze meses depois de você ter ido embora.

Faltava expressão à voz dela; cada palavra era rasa e maçante, como pedrinhas que caíam, uma por uma, em um poço fundo.

— Robbie veio me visitar. Nós bebemos juntos. Fizemos no chão do quarto. Foi bom. Foi bom mesmo.

— Eu não precisava ouvir isso.

— Não? Desculpa. É mais difícil selecionar quando a gente está morta. É igual a uma fotografia, sabe, não tem muita importância.

— Pra mim, tem.

Laura acendeu outro cigarro. Os movimentos dela eram fluídos e adequados, não eram rígidos. Shadow duvidou, por um instante, de que estivesse morta de fato. Talvez fosse algum tipo de truque elaborado.

— É — ela disse. — Eu entendo. Bom, a gente continuou com o caso (não era assim que a gente chamava, a gente não dava nome) durante a maior parte dos últimos dois anos.

— Você ia me largar pra ficar com ele?

— Por que faria isso? Você é o meu ursão. Você é o meu cachorrinho. Você fez o que fez por mim. Eu esperei três anos pra você voltar pra mim. Eu amo você.

Ele se segurou para não dizer Eu amo você também. Não iria dizer aquilo. Não mais.

— Então, o que foi que aconteceu naquela noite?

— Na noite que eu morri?

— É.

— Bom, Robbie e eu tínhamos saído pra conversar sobre a sua festa de boas-vindas. Ia ser tão boa... E eu disse pra ele que não tinha mais nada entre a gente. Fim. Agora que você ia voltar era assim que tinha que ser.

— Hmm. Obrigado, querida.

— De nada, amor.

O fantasma de um sorriso cruzou o rosto dela, então prosseguiu:

— Ficamos sentimentais. Foi uma melação só. Ficamos bobos. Eu fiquei muito bêbada. Ele, não. Ele tinha que dirigir. Nós estávamos indo pra casa e eu disse que ia dar uma chupada de despedida, uma última vez, com sentimento. Abri o zíper da calça dele e fiz.

— Grande erro.

— Nem me diga. Eu bati com o ombro no câmbio e o Robbie começou a me empurrar pra colocar o carro na marcha certa de novo, e nós começamos a andar em ziguezague. Ouvi um barulho bem alto e lembro que o mundo começou a rodar e pensei: "Vou morrer". Foi tudo tranqüilo. Eu me lembro disso. Não fiquei com medo. Depois disso, não me lembro de mais nada.

Havia um cheiro de plástico queimado. Era o cigarro, Shadow percebeu:

havia queimado até o filtro, Laura parecia não ter notado.

— O que você está fazendo aqui, Laura?

— Uma mulher não pode visitar o marido?

— Você está morta. Eu fui ao seu enterro hoje à tarde.

— É.

Ela parou de falar, olhando para o nada. Shadow levantou-se e andou até ela. Pegou a bituca de cigarro fumegante de sua mão e jogou pela janela.

— E daí?

Os olhos dela procuraram os dele.

— Eu não sei muito mais do que sabia quando estava viva. A maior parte das coisas que eu sei agora e que eu não sabia antes não dá pra colocar em palavras.

— Normalmente as pessoas que morrem ficam no túmulo — disse Shadow.

— Ficam? Ficam mesmo, cachorrinho? Eu também achava que ficassem. Agora eu não tenho tanta certeza. Talvez.

Ela levantou da cama e foi até a janela. Seu rosto, à luz do luminoso do hotel, estava bonito como nunca. Era o rosto da mulher por quem ele havia ido para a prisão.

O coração dele doía no peito como se alguém o houvesse arrancado com a mão e o tivesse esmagado com os dedos.

— Laura...?

Ela não olhou para ele.

— Você se meteu em uma coisa ruim, Shadow. Vai ferrar com tudo se não tiver alguém pra cuidar de você. E eu estou cuidando. E obrigada pelo meu presente.

— Que presente?

Ela colocou a mão no bolso da blusa e tirou a moeda de ouro que ele tinha jogado na cova naquele fim de tarde. Ainda havia sujeira preta sobre o metal.

— Acho que eu vou mandar colocar numa corrente. Foi muito legal da sua parte.

— De nada.

Ela virou-se então, olhou para ele com olhos que pareciam enxergá-lo e não enxergá-lo ao mesmo tempo.

— Acho que há vários aspectos do nosso casamento que a gente vai ter que aperfeiçoar.

— Querida — ele explicou. — Você está morta.

— Esse é um dos aspectos, obviamente. Ela fez uma pausa.

— Tudo bem — disse. — Eu vou embora agora. Vai ser melhor se eu for.

E, natural e facilmente, colocou as mãos sobre os ombros de Shadow e ficou nas pontas dos pés para dar um beijo de despedida nele, da maneira como sempre haviam se despedido.

De modo desajeitado, ele se curvou para beijá-la na bochecha, mas ela moveu os lábios quando ele se abaixou e os pressionou contra os dele. O hálito dela cheirava, levemente, à naftalina.

A língua de Laura tremia dentro da boca de Shadow. Estava fria c seca, e tinha gosto de cigarro e de bile. Se Shadow ainda tinha alguma dúvida a respeito de sua mulher estar morta ou viva, o mistério acabou ali.

Ele se afastou.

— Eu amo você — ela disse, simplesmente. — Vou cuidar de você. Ela caminhou até a porta do quarto do hotel. Ele ficou com um gosto estranho na boca.

— Durma um pouco, cachorrinho — aconselhou. — E fique longe de confusão.

Ela abriu a porta para o corredor. A luz fluorescente não era branda: ali, Laura parecia morta mas, de qualquer maneira, todo mundo pareceria morto com aquela iluminação.

— Você poderia ter me convidado pra passar a noite aqui — ela disse, com sua voz de pedra.

— Acho que não poderia — disse Shadow.

— Você vai poder, querido — falou. — Antes que tudo isso acabe. Você vai poder.

Ela virou as costas para ele e caminhou pelo corredor.

Shadow olhou para fora da porta. O balconista da noite continuava lendo seu romance de John Grisham e mal olhou quando ela passou por ele. Havia lama grossa de cemitério nos seus sapatos. E daí ela desapareceu.

Shadow respirou aliviado, um suspiro lento. O coração dele batia fora de ritmo dentro do peito. Atravessou o corredor e bateu na porta de Wednesday. Enquanto batia, teve a impressão mais estranha do mundo, de que estava sendo transpassado por asas negras, como se um enorme corvo voasse através dele, em direção ao corredor e, dali, para o mundo.

Wednesday abriu a porta. Ele tinha uma toalha branca do hotel enrolada na cintura mas, fora isso, estava nu.

— Que porra você quer? — perguntou.

— Tem algo que você devia saber — disse Shadow. — Talvez tenha sido um sonho... mas não foi... ou talvez eu tenha inalado um pouco do cigarro de pele sintética de sapo, ou talvez eu só esteja ficando louco...

— Tá, tá. Desembucha — disse Wednesday — Eu estou meio que fazendo uma coisa aqui.

Shadow deu uma olhada para dentro do quarto. Ele pôde ver que havia alguém na cama, observando-o. Um lençol cobria peitos pequenos. Cabelos louros, uma carinha de rato. Ele abaixou o tom de voz:

— Eu acabei de me encontrar com a minha mulher — disse. — Ela esteve no meu quarto.

— Um fantasma, você quer dizer? Você viu um fantasma?

— Não. Não era um fantasma. Ela era sólida. Era ela. Ela está mortinha, mas não era uma espécie de fantasma. Eu toquei nela. Ela me beijou.

— Entendo.

Wednesday jogou um olhar para a mulher na cama:

— Já volto, querida — disse.

Cruzaram o corredor até o quarto de Shadow. Wednesday acendeu as lâmpadas. Olhou para a bituca de cigarro no cinzeiro. Coçou o peito. Os mamilos d"le eram mamilos escuros, de velho, e os pelos do peito, grisalhos. Havia uma cicatriz branca em um dos lados do torso. Ele cheirou o ar. Então, deu de ombros.

— Tudo bem — disse. — Então sua mulher morta apareceu. Você está assustado?

— Um pouco.

— Muito esperto. Eu me pêlo de medo dos mortos. Mais alguma coisa?

— Estou pronto pra sair de Eagle Point. A mãe da Laura pode resolver as coisas do apartamento e tudo mais. Ela me odeia, de qualquer jeito. Estou pronto pra ir quando você quiser.

Wednesday sorriu.

— Que boa notícia, meu garoto. Vamos embora pela manhã. Agora você deveria dormir um pouco. Eu tenho um pouco de uísque no meu quarto, se você precisar de ajuda pra dormir. Quer?

— Não. Tudo bem.

— Então, não me incomode mais. Eu tenho uma longa noite pela frente.

— Boa noite — disse Shadow.

— Isso mesmo! — disse Wednesday, fechando a porta quando saiu.

Shadow sentou-se na cama. O cheiro de cigarro e de conservante continuava no ar. Ele gostaria de estar de luto por Laura: parecia mais apropriado do que estar incomodado com ela. Admitiu para si mesmo que ela já tinha ido embora, e que estava só um pouco assustado. Era a hora do luto. Ele apagou as luzes e se deitou na cama, pensou em Laura como ela era antes de ele ter ido para a prisão. Lembrou-se do seu casamento, quando eram jovens, felizes, tolos e mal podiam ficar um minuto desgrudados.

Fazia muito tempo desde a última vez em que Shadow havia chorado, tanto tempo que ele achou que tivesse esquecido como fazer. Não tinha chorado nem quando sua mãe morrera.

Mas ele começou a chorar, em soluços bruscos e doloridos e, pela primeira vez desde que era um menininho, Shadow chorou até cair no sono.

 

CHEGANDO NA AMÉRICA, 813 d.C.

Navegaram o mar verde guiados pelas estrelas e pela costa, e quando a costa era apenas uma memória e o céu noturno estava nublado e escuro, navegaram guiados pela fé, e pediam ao Pai de Todos que os levasse a salvo de volta à terra mais uma vez.

Fora uma viagem ruim, os dedos estavam entorpecidos e os ossos tinham calafrios, que nem o vinho conseguia curar. Acordavam de manhã para descobrir que a geada tinha coberto suas barbas e, até que o sol os aquecesse, pareciam homens velhos, com barbas esbranquiçadas antes do tempo.

Ao desembarcarem na terra verde do oeste, perceberam que os dentes haviam caído e os olhos estavam fundos no rosto. Os homens disseram:

— Estamos longe, longe das nossas casas e dos nossos lares, longe dos mares que conhecemos e das terras que amamos. Aqui no fim do mundo seremos esquecidos pelos nossos deuses.

O líder subiu até o topo de uma pedra grande e zombou deles por sua falta de fé:

— O Pai de Todos fez o mundo — gritou. — Ele construiu tudo com as próprias mãos a partir dos ossos despedaçados e da carne de Ymir, seu avô. Ele colocou o cérebro de Ymir no céu como nuvens, e o seu sangue salgado se transformou nos mares que cruzamos. Se ele fez o mundo, vocês não percebem que fez esta terra também? E se morrermos aqui como homens, acham que não seremos recebidos em seu átrio?

E os homens comemoraram e riram. Eles se empenharam, com gosto, a construir um salão com árvores partidas e lama, dentro de uma pequena paliçada de troncos afiados na ponta, apesar de eles, até onde sabiam, serem os únicos homens do novo mundo.

No dia em que o salão foi terminado, houve uma tempestade: o céu do meio-dia ficou tão escuro quanto a noite e foi rasgado por garfos de chamas brancas. Os estrondos dos trovões eram tão altos que os homens quase ficaram surdos, c o gato do navio que eles haviam trazido para dar sorte escondeu-se sob o bote comprido que repousava na praia. A tempestade foi tão forte e tão cruel que fez com que os homens dessem tapinhas uns nas costas dos outros, dizendo:

— O trovão está aqui conosco, nesta terra distante.

E eles agradeceram, regozijaram-se e beberam até cair.

Naquela noite, na escuridão enfumaçada do salão, o bardo cantou canções antigas para eles. Cantou sobre Odin, o Pai de Todos, que se sacrificara com tanta coragem e nobreza quanto outros que foram sacrificados para ele. Cantou sobre os três dias durante os quais o Pai de Todos ficou pendurado na árvore do mundo, com a lateral do corpo perfurada e gotejante por causa das feridas feitas à ponta de lança. Ele cantou todas as coisas que o Pai de Todos havia aprendido em sua agonia: nove nomes, nove runas e duas vezes nove amuletos. Quando falou sobre a lança que perfurou a lateral do corpo de Odin, o bardo urrou de dor da mesma maneira que o Pai de Todos tinha gritado em sua agonia, e todos os homens tremeram, imaginando sua dor.

Encontraram o scraeling no dia seguinte, que era o próprio dia do Pai de Todos. Ele era um homem pequeno, seu cabelo longo e negro como a asa de um corvo, seu corpo da cor de argila vermelho-intenso. Ele dizia palavras que nenhum deles conseguia entender, nem mesmo o bardo, que esteve em um navio que cruzara os pilares de Hércules e que sabia falar a mistura lingüística que os mercadores falavam por todo o Mediterrâneo. O intruso vestia penas e peles, e havia pequenos ossos trançados no meio de seu cabelo comprido.

Conduziram-no até o acampamento, deram carne assada para que comesse e bebida forte para acabar com sua sede. Riram, troçando do homem, enquanto ele tropeçava e cantava, do modo como sua cabeça chacoalhava de um lado para o outro, e tudo isso depois de menos de um chifre feito copo cheio de mulso. Deram-lhe mais bebida, e logo ele estava deitado debaixo da mesa, com a cabeça escondida sob o braço.

Então levantaram-no, um homem segurando em cada braço e em cada perna. Carregaram-no na altura do ombro, os quatro homens transformados em um cavalo de oito patas, e carregaram-no na frente de uma procissão até um freixo na montanha que dava vista para a baía, onde colocaram uma corda em volta do pescoço dele e o penduraram ao vento, o tributo deles ao Pai de Todos, o senhor da forca. O corpo do scraeling dançava ao vento, sua cabeça ia ficando preta, a língua ia saindo da boca, os olhos iam se esbugalhando, seu pênis ficando duro o suficiente para se pendurar um capacete de couro nele, enquanto os homens comemoravam, e gritavam, e gargalhavam, orgulhosos por mandar seu sacrifício para os céus.

E, no dia seguinte, quando dois corvos enormes pousaram sobre o cadáver do scraeling, um em cada ombro, e começaram a bicar suas bochechas e seus olhos, os homens souberam que seu sacrifício havia sido aceito.

Fora um inverno longo, e eles tinham fome, mas alegravam-se com a idéia de que, quando a primavera chegasse, mandariam o barco de volta às terras do norte, e a embarcação traria colonizadores e... mulheres. À medida que o clima ia ficando mais frio, e os dias ficavam mais curtos, alguns dos homens se empenhavam em achar o vilarejo do scraeling, esperando encontrar alimento e mulheres. Eles não acharam nada, salvo os locais onde fogueiras foram acesas, e pequenos acampamentos, abandonados.

Um dia, no meio do inverno, quando o sol estava distante e frio, e parecia uma tola moeda de prata, perceberam que os restos do scraeling tinham sido removidos do freixo. Naquela tarde começou a nevar, os flocos de neve eram enormes e caíam lentamente.

Os homens das terras do norte fecharam os portões do acampamento e isolaram-se atrás de seu muro de madeira.

A tropa de guerra dos scraelings atacou naquela noite: quinhentos homens contra trinta. Escalaram o muro e, durante os sete dias seguintes, mataram cada um dos trinta homens, de trinta maneiras diferentes. E os navegantes foram esquecidos, pela história e pelo seu povo.

O muro fora derrubado pela tropa de guerra, e o vilarejo fora queimado. O bote comprido, de ponta-cabeça, guardado em cima do telhado, também fora queimado, na esperança de que os forasteiros pálidos tivessem apenas um barco. Queimando-o, os scraelings asseguravam-se de que nenhum outro homem do norte viria até sua costa.

Passaram-se mais de cem anos até que Erif Sortudo, filho de Erik Vermelho, redescobrisse aquela terra, a qual chamaria de Vineland. Os deuses dele já o estavam esperando quando chegou: Tyr, com uma mão só; o cinzento Odin, rei da forca; e Thor, dos trovões.

Eles estavam lá.

Estavam esperando.

 

                                           CAPITULO QUATRO

Let the Midnight Special Shine its light on me Let

the Midnight Special Shine it’s ever-lovín' light on me [3]

Shadow e Wednesday tomaram café da manhã em um restaurante de comida local do outro lado da rua, em frente ao hotel. Eram oito da manhã, e o mundo estava enevoado e frio.

— Você já está pronto pra ir embora de Eagie Point? — perguntou Wednesday. — Se você estiver, eu precisarei fazer uns telefonemas. Hoje é sexta. Sexta é um dia livre. Um dia de mulher. Sábado é amanhã. Temos muito a fazer no sábado.

— Estou pronto. Nada me prende aqui.

Wednesday montou uma pilha alta no prato com todos os tipos de carne que se serve no café da manhã. Shadow pegou um pouco de melão, uma rosquinha e um pacotinho de queijo cremoso. Acomodaram-se em um reservado.

— Que sonho você teve na noite passada, hein, Shadow?

— É, foi mesmo.

Dava para ver as marcas de lama do sapato de Laura no tapete do hotel quando ele acordou naquela manhã, indo do quarto até o lobby e passando pela porta em direção à rua.

— Então, por que chamam você de Shadow? Shadow deu de ombros:

— É um nome — disse.

Do outro lado do vidro, o mundo de névoa havia se transformado em um desenho a lápis executado em uma dúzia de tons de cinza com manchas de vermelho âmbar ou de branco imaculado aqui e ali.

— Como foi que você perdeu o olho? — perguntou Shadow. Wednesday enfiou meia dúzia de pedaços de bacon na boca, mastigou e limpou a gordura sobre os lábios com as costas das mãos.

— Não perdi... sei exatamente onde ele está.

— Então, qual é o seu plano?

Wednesday parecia pensativo. Comeu várias fatias de presunto cor-de-rosa vívido, tirou um fragmento de carne da barba, deixou que caísse no prato.

— O plano é o seguinte. Amanhã à noite, devemos nos encontrar com várias pessoas de destaque em seus campos de atuação... Não deixe o comportamento delas intimidar você. Vamos a um dos lugares mais importantes do país inteiro. Depois oferecemos bebida e comida a eles. Eu preciso inscrevê-los no meu novo empreendimento.

— E onde é que e esse lugar tão importante?

— Você vai ver, garoto. Eu disse um dos lugares. As opiniões têm razão de estarem divididas. Eu já mandei avisar meus colegas. Vamos fazer uma parada cm Chicago no caminho, porque preciso pegar um pouco de dinheiro. O divertimento, da maneira como vamos precisar divertir nossos convidados, vai requerer mais dinheiro vivo do que eu tenho disponível no momento. Depois, vamos pra Madison.

Wednesday pagou e eles foram embora, atravessando a rua até o estacionamento do hotel. Wednesday jogou as chaves do carro para Shadow.

Ele pegou o caminho para a auto-estrada e saiu da cidade.

— Vai sentir saudade? — perguntou Wednesday.

Enquanto falava, ele organizava uma pasta cheia de mapas.

— Da cidade? Não. Eu nunca tive uma vida de verdade lá. Nunca fiquei muito tempo no mesmo lugar quando era criança, e só cheguei aqui quando já tinha passado dos vinte. Por isso, essa é a cidade da Laura.

— Esperemos que ela fique aqui — disse Wednesday.

— Foi um sonho — disse Shadow. — Lembre-se disso.

— Que bom. Uma atitude saudável pra se ter. Você trepou com ela ontem à noite?

Shadow respirou fundo.

— Isso não c da sua conta, droga. E não.

— Você queria?

Shadow não disse absolutamente nada. Ele dirigia rumo ao norte, para Chicago. Wednesday deu uma risadinha e começou a estudar seus mapas com cuidado, desdobrando-os e dobrando-os mais uma vez, fazendo anotações ocasionais em um bloco de papel amarelo com uma grande caneta esferográfica prateada e brilhante.

A certa altura, terminou. Guardou a caneta e colocou a pasta no banco traseiro.

— A melhor coisa em relação aos Estados aonde a gente está indo, Minnesota, Wisconsin, todos aqueles por lá, é que eles têm o tipo de mulher de que eu gostava quando era mais moço. De pele clara e olhos azuis, com cabelos tão claros que são quase brancos, lábios cor-de-vinho e seios redondos e cheios com as veias aparecendo, como um bom queijo.

— E você só gostava quando era mais moço? — perguntou Shadow. — Parece que você se deu bem ontem à noite.

— E. Você quer saber o segredo do meu sucesso?

— Você paga?

— Não é nada tão rude assim. Não, o segredo é o meu charme. Pura c simplesmente.

— Charme, hein? Bom, é como dizem por aí, você tem ou não tem.

— Dá pra aprender a ter charme — disse Wednesday.

Shadow ligou o rádio e sintonizou uma emissora que tocava músicas antigas, e ouviu canções que eram atuais antes de ele nascer. Bob Dylan cantava sobre uma chuva forte que estava para cair, e Shadow ficou se perguntando se aquela chuva já havia caído ou se era alguma coisa que ainda iria acontecer. A estrada à frente deles estava vazia e os cristais de gelo no asfalto brilhavam como diamantes à luz do sol da manhã.

Chicago foi chegando devagar, como uma enxaqueca. Primeiro, passavam pelos campos; então, imperceptivelmente, as raras casas foram se transformando em um amontoado baixo e suburbano; e o amontoado se transformou na cidade.

Estacionaram ao lado de um prédio baixo e bem antigo, de tijolinhos aparentes. A neve da calçada tinha sido limpa. Entraram no saguão. Wednesday apertou o botão de cima no metal cinzelado da caixa do interfone. Nada aconteceu. Apertou de novo. Então, experimentando, começou a apertar todos os botões, dos outros moradores, sem obter resposta.

— Não está funcionando — disse uma velha magra que descia as escadas. — Está quebrado. Chamamos o zelador, perguntamos quando ia ser consertado, quando ele ia arrumar o aquecimento, mas ele não liga, passa o inverno no Arizona por causa do pulmão.

O sotaque dela era pesado, da Europa Oriental, Shadow supôs.

Wednesday fez uma mesura.

— Zorya, minha querida, posso dizer como você está maravilhosamente linda? Uma criatura radiante. Você não envelheceu. A velha mandou um olhar furioso na direção dele.

— Ele não quer ver você. E eu também não. Você sempre traz coisa ruim.

— Isso é porque eu não venho até aqui quando não é importante. A mulher fungou. Ela carregava uma sacola de compras feita de barbante, vazia, e usava um casaco vermelho velho, abotoado até o queixo. Olhou para Shadow com desconfiança.

— Quem é esse grandalhão? Mais um dos seus assassinos?

— Você está me prestando um enorme desserviço, madame. Este cavalheiro se chama Shadow. Ele está trabalhando pra mim, sim, mas pro seu bem. Shadow, apresento a você a adorável senhorita Zorya Vechernyaya.

— Prazer.

Como um passarinho, a mulher levantou a cabeça e olhou para ele.

— Shadow... Um nome bom. Quando as sombras ficam compridas, é a minha hora. E você é a sombra comprida.

Ela o olhou de cima a baixo e, então, sorriu.

— Pode beijar a minha mão — disse, estendendo sua mão fria para ele. Shadow se abaixou e beijou aquela mão magra, que usava um grande anel de âmbar no dedo do meio.

— Bom garoto — falou. — Eu vou fazer compras. Sabe, sou a única que traz algum dinheiro pra casa. As outras duas não conseguem ganhar dinheiro lendo a sorte. Isso porque elas só falam a verdade, e a verdade não é o que as pessoas querem ouvir. É uma coisa ruim e aborrece, então elas não voltam. Mas eu consigo mentir, falo o que querem ouvir. Então eu é que compro o pão da casa. Você acha que vai ficar pro jantar?

— Espero que sim — disse Wednesday.

— Então é melhor você me dar dinheiro pra eu comprar mais comida. Sou orgulhosa, mas não sou besta. As outras são mais orgulhosas do que eu, e ele é o mais orgulhoso de todos. Então, me dá dinheiro mas não conta pra elas que me deu.

Wednesday abriu a carteira e colocou a mão lá dentro. Tirou uma nota de vinte. Zorya Vechernyaya puxou-a dos dedos dele e esperou. Ele tirou mais vinte e entregou a ela.

— Está bom. Vamos alimentar vocês que nem príncipes. Agora, subam as escadas até o último andar. Zorya Utrennyaya está acordada, mas a nossa outra irmã ainda está dormindo, então, vejam se não fazem muito barulho.

Shadow e Wednesday subiram as escadas escuras. O patamar de dois andares acima estava cheio de sacos de lixo e cheirava a verduras podres.

— Elas são ciganas? — perguntou Shadow.

— Zorya e a família dela? De jeito nenhum. Eles não são romenos. São russos. Eslavos, acho.

— Mas ela lê a sorte.

— Muita gente lê a sorte. Eu mesmo me meto um pouquinho nisso. Wednesday ofegava enquanto subiam o último lance de escadas:

— Estou fora de forma.

O patamar no alto das escadas terminava em uma única porta pintada de vermelho, com um olho mágico.

Wednesday bateu na porta. Não houve resposta. Bateu de novo, mais alto dessa vez.

— Tá bom! Tá bom! Eu ouvi! Eu ouvi!

O som de fechaduras sendo destrancadas, de travas sendo puxadas, o chacoalhar de uma corrente. A porta vermelha abriu-se em uma fresta.

— Quem e?

Era uma voz de homem, velha e rouca de cigarro.

— Um velho amigo, Czernobog. Com um sócio. A porta se abriu até onde a corrente de segurança permitia. Shadow conseguiu ver um rosto cinzento, nas sombras, espreitando-os.

— O que você quer, Votan?

— Inicialmente, nada mais do que o prazer da sua companhia. E tenho uma informação para dividir. Como é mesmo aquela frase? Ah, sim... você pode ficar sabendo de algo que vai trazer privilégio a você.

A porta se abriu inteiramente. O homem, vestido com um chambre empoeirado, era baixo e tinha cabelos de cor cinza-chumbo e traços marcados. Usava calças de pijama cinzentas e listradas, brilhantes de tão velhas, e chinelos. Segurava um cigarro sem filtro com dedos de pontas quadradas, sugando a ponta enquanto o mantinha escondido pelo punho, como um presidiário, pensou Shadow, ou um soldado. Estendeu a mão esquerda para Wednesday:

— Então, seja bem-vindo, Votan.

— Agora me chamam de Wednesday — disse, sacudindo a mão do velho. Um sorriso estreito; um vislumbre de dentes amarelados.

— É? Muito engraçado. E esse aí, quem é?

— É o meu sócio. Shadow, conheça o senhor Czernobog.

— Muito prazer — disse Czernobog.

Ele apertou a mão esquerda de Shadow. Suas mãos eram ásperas e calejadas, e as pontas de seus dedos, tão amareladas que pareciam ter sido mergulhadas em iodo.

— Como vai, senhor Czernobog?

— Vou velho. Meu intestino dói, minhas costas doem, e eu tusso até rachar o peito toda manhã.

— Por que você está parado na porta? — perguntou uma voz de mulher. Shadow olhou por sobre o ombro de Czernobog para a mulher parada atrás dele. Era menor e mais frágil do que a irmã, mas os cabelos eram compridos e ainda dourados.

— Eu sou Zorya Utrennyaya. Vocês não podem ficar aí de pé, na entrada. Entrem, sentem. Vou trazer café.

Através da porta, para dentro de um apartamento que cheirava a repolho cozido além do ponto, a caixa de areia de gato e a cigarro estrangeiro sem filtro, foram conduzidos por uma passagem estreita, ladeada por várias portas fechadas até a sala de estar no fim do corredor. Foram acomodados em um enorme sofá velho de pêlo de cavalo, incomodando um gato cinzento senil, que se espreguiçou, se levantou e andou, de maneira rígida, até uma parte mais distante do sofá, onde se deitou. Cuidadosamente, olhou para cada uma das pessoas, então fechou um olho e voltou a dormir. Czernobog sentou-se em uma poltrona na frente deles, do outro lado da sala.

Zorya Utrennyaya achou um cinzeiro vazio e o colocou ao lado de Czernobog.

— Como vocês querem o'café? Aqui a gente toma preto como a noite e doce como o pecado.

— Para mim está ótimo, madame — disse Shadow. Ele olhou através da janela para os prédios do outro lado da rua. Zorya Utrennyaya saiu da sala. Czernobog olhou para ela, enquanto caminhava.

— Aí está uma mulher boa — comentou. — Não é como as irmãs. Uma é um monstro, a outra só dorme.

Ele colocou os pés em cima de uma mesinha de centro comprida e baixa, com um tabuleiro de xadrez no meio e marcas de cigarro e de copo na superfície.

— Ela é sua esposa? — perguntou Shadow.

— Ela não é esposa de ninguém.

O velho ficou sentado em silêncio por um instante, olhando suas mãos ásperas.

— Não, somos todos parentes. Viemos pra cá juntos, muito tempo atrás. Do bolso do chambre, Czernobog tirou um maço de cigarros sem filtro.

Wednesday tirou do próprio bolso um isqueiro fino e dourado e acendeu o cigarro do velho.

— Primeiro fomos pra Nova York. Todos os nossos compatriotas foram pra lá. Então, viemos para cá, para Chicago. Tudo ficou bem ruim. Até no velho continente já tinham quase se esquecido de mim. Aqui, eu sou só uma lembrança ruim. Você sabe o que eu fiz quando cheguei a Chicago?

— Náo — disse Shadow.

— Arrumei um emprego no negócio de carnes. No pavimento da matança. Quando a vaca subia a rampa, eu era um golpeador. Sabe por que chamam a gente assim? Porque nós pegamos uma marreta e golpeamos a vaca com ela. Bam! Precisa ter força nos braços. Depois, o algemador acorrenta o bife, pendura, e dai cortam a garganta do animal. O sangue é drenado antes de cortar a cabeça. Nós éramos os mais fortes, os golpeadores.

Ele ergueu a manga e flexionou o braço para mostrar os músculos ainda visíveis sob a pele velha.

— Mas não era só força. Era preciso conhecer a arte da tarefa. Pra dar porrada. Senão a vaca só cambaleava, ou ficava brava. Então, nos anos 50, deram pra gente a pistola de ar comprimido. Era só colocar na testa... Bam! Bam! Agora, você pensa... qualquer um pode matar. Não é bem assim.

Ele fez o gesto de transpassar algo através de uma cabeça de vaca.

— Ainda é preciso ter habilidade. Sorriu, revelando um dente cinzento.

— Pára de contar essas histórias de matar vaca. — Zorya Utrennyaya carregava o café cm uma bandeja de madeira vermelha, em pequenas xícaras esmaltadas de cores fortes. Deu uma xícara a cada um e se sentou ao lado de Czernobog.

— Zorya Vechernyaya está fazendo compras. Ela deve voltar logo.

— Nos encontramos lá embaixo — disse Shadow. — Ela contou que lê a sorte.

— É. No crepúsculo, que é a hora das mentiras. Eu não sei contar uma boa mentira, por isso sou uma vidente ruim. E a nossa irmã, Zorya Polunochnaya, não consegue contar mentira alguma.

O café estava ainda mais doce e mais forte do que Shadow esperava. Ele pediu licença para usar o banheiro — um aposento parecido com um armário, decorado com várias fotografias de homens e de mulheres em poses vitorianas rígidas, com molduras cheias de manchas marrons. Era o início da tarde, mas a luz do dia já começava a ir embora. Ouviu vozes vindas do corredor. Lavou as mãos na água gelada com uma lasca de sabonete cor-de-rosa de cheiro enjoativo.

Czernobog estava parado no corredor quando Shadow saiu do banheiro.

— Você só traz problema! — gritava. — Nada mais do que problema! Eu não vou ouvir! Sai da minha casa!

Wednesday ainda estava sentado no sofá, dando pequenos goles em seu café, acariciando o gato cinzento. Zorya Utrennyaya estava parada sobre o tapete fino, com uma das mãos torcendo os longos cabelos amarelados para um lado e para outro, com nervosismo.

— Algum problema? — perguntou Shadow.

— Ele é o problema! — gritou Czernobog. — É de! Diga pra ele que não tem nada que me faça ajudar. Quero que vá embora. Quero que ele saia daqui. Os dois, vão embora!

— Por favor — disse Zorya Utrennyaya. — Fica quieto por favor... vai acordar a Zorya Polunochnaya.

— Você é igual a ele, quer que eu me junte a essa maluquice! Czernobog parecia estar prestes a chorar. Um tufo de cinzas caiu do cigarro dele sobre o tapete surrado do corredor.

Wednesday levantou-se e caminhou até onde o velho estava. Colocou a mão em seu ombro e disse, pacificador.

— Escuta. Em primeiro lugar, não é maluquice. É o único jeito. Em segundo lugar, todo mundo vai estar lá. Você não vai querer ficar de fora, vai?

— Você sabe quem eu sou — disse Czernobog. — Sabe o que estas mãos já fizeram. Está procurando meu irmão, não eu. E ele foi embora.

Uma porta abriu-se no corredor e uma voz feminina sonolenta disse:

— Tem algum problema aí?

— Nenhum problema, minha irmã — disse Zorya Utrennyaya. — Volte pra cama.

E então, virou-se para Czernobog:

— Viu? Viu o que você fez com toda essa gritaria? Volta pra lá e senta. Senta' O homem parecia pronto para protestar, mas o espírito de luta o abandonou. Ele pareceu frágil de repente: frágil e solitário.

Os três homens voltaram para a sala de estar puída. Havia um anel marrom de nicotina em volta daquela sala que terminava a uns 30 centímetros do teto, parecido com a marca que fica em uma banheira velha.

— Não precisa ser por você — disse Wednesday a Czernobog, imperturbável. — Se for pelo seu irmão, então também é por você. Aquele é um lugar que tipos dualistas como vocês usam pra nos receber, não é?

O velho não disse nada.

— Falando de Bielebog, Você tem tido notícias dele? Czernobog sacudiu a cabeça e olhou para Shadow:

— Você tem irmão?

— Não. Não que eu saiba.

— Eu tenho um irmão. Dizem que, quando estamos juntos, somos urna pessoa só, sabe? Quando éramos jovens, os cabelos dele eram muito louros, muito claros, os olhos eram azuis, e o pessoal falava que ele era o irmão bom. E os meus cabelos eram bem escuros, mais do que os seus, e o pessoal dizia que eu era o vagabundo. Eu era o irmão ruim. E agora o tempo passou, meus cabelos ficaram brancos. Os dele também, acho. E você olha pra gente, e não sabe qual era louro e qual era moreno.

— Vocês eram ligados?

— Ligados? — contestou Czernobog. — Como é que a gente podia ser? A gente se preocupava com coisas muito diferentes.

Ouviu-se um ruído vindo da outra ponta do corredor, e Zorya Vechernyaya entrou.

— Jantar daqui a uma hora — disse.

E então, saiu.

Czernobog deu um suspiro.

— Ela acha que é boa cozinheira. Onde foi criada, tinha empregados pra cozinhar. Agora, não tem mais empregado nenhum. Não tem nada.

— Não nada — disse Wednesday. — Nunca nada.

— Você — disse Czernobog. — Eu não vou escutar o que tem a dizer. E, virando-se para Shadow:

— Você joga damas?

— Jogo.

— Bom. Então, vai jogar damas comigo — disse, pegando uma caixa de peças de madeira que estava apoiada na lareira e sacudindo-a em cima da mesa. — Eu jogo com as pretas.

Wednesday encostou no braço de Shadow:

— Você não precisa fazer isso, você sabe.

— Não é problema nenhum. Eu quero.

Wednesday deu de ombros e pegou um exemplar velho de Seleções Reader's Digest de uma pequena pilha de revistas amareladas no peitoril da janela.

Os dedos morenos de Czernobog terminaram de arrumar as peças nos quadradinhos e o jogo começou.

Nos dias que viriam, Shadow se pegaria várias vezes pensando naquele jogo. Às vezes, ele ate sonharia com aquilo. Suas pecinhas lisas e redondas eram da cor de madeira velha c suja, inicialmente branca. As de Czernobog eram de um preto sombrio e desbotado. Shadow foi o primeiro a jogar. Em seus sonhos, eles não conversavam enquanto jogavam, só se ouvia um estalo alto quando as peças eram colocadas sobre o tabuleiro, ou um chiado na madeira quando eram deslizadas de um quadradinho paro o outro.

Na primeira meia dúzia de movimentos, cada um dos homens simplesmente deslizou as peças pelo tabuleiro, em direção ao meio, deixando a fileira de trás intocada. Havia longas pausas entre os movimentos, como se estivessem jogando xadrez, enquanto cada um dos homens observava e pensava.

Shadow costumava jogar damas na prisão: ajudava a passar o tempo. Ele lambem jogava xadrez, mas seu temperamento não era próprio para ficar planejando movimentos futuros. Preferia escolher o movimento certo para o momento presente. Às vezes, conseguia ganhar no xadrez assim.

 

Ouviu-se um estalo quando Czernobog pegou uma peça preta e fez com que pulasse por cima de uma peça branca de Shadow. O velho pegou a peça e a colocou sobre a mesa, ao lado do tabuleiro.

— Primeiro round. Você perdeu — disse Czernobog. — O jogo acabou.

— Não. Ainda falta muito pra esse jogo acabar.

— Você topa uma aposta? Uma fezinha pra ficar mais interessante?

— Não — disse Wednesday, sem tirar os olhos da revista. — Ele não topa.

— Eu não estou jogando com você, velho. Estou jogando com ele. Então, quer apostar no jogo, senhor Shadow?

— Por que vocês estavam discutindo antes? — perguntou Shadow. Czernobog levantou uma sobrancelha grisalha.

— Seu chefe quer que eu acompanhe vocês. Pra ajudar na loucura dele. Prefiro morrer.

— Quer fazer uma aposta? Tudo bem. Se eu ganhar, você vem com a gente. O velho apertou os lábios.

— Talvez — ele disse. — Mas só se aceitar o meu castigo, quando você perder.

— E o que seria?

A expressão de Czernobog não se alterou.

— Se eu ganhar, vou poder esmigalhar o seu cérebro. Com a marreta. Primeiro você se ajoelha. Depois eu dou um golpe e você nunca mais vai se levantar.

Shadow olhou para o rosto do velho, tentando entender o que estava por trás daquela expressão. Ele não estava brincando, Shadow tinha certeza: ali havia um tipo de sede por alguma coisa, por dor, por morte ou por retribuição.

Wednesday fechou a Seleções:

— Isso é ridículo! Eu errei em vir aqui. Shadow, vamos embora. O gato cinzento, perturbado, levantou-se e subiu na mesa ao lado do jogo de damas. Olhou para as peças, pulou para o chão e, com o rabo para cima, saiu da sala com seu andar afetado.

— Não — disse Shadow.

Ele não tinha medo de morrer. Apesar de tudo, não era como se ele tivesse algum motivo para viver.

— Tudo bem. Eu aceito. Se você ganhar o jogo, tem a chance de esmigalhar meu cérebro com um golpe da sua marreta.

E, dizendo isso, moveu sua próxima peça branca para a casa seguinte, na beirada do tabuleiro.

Nada mais foi dito, mas Wednesday não retomou sua revista. Ele observou o jogo com o olho de vidro e com o olho de verdade, com uma expressão que não entregava nada.

Czernobog comeu mais uma das peças de Shadow. Shadow comeu duas das de Czernobog. Do corredor vinha o cheiro do cozimento de comidas desconhecidas. Embora nem todos os cheiros fossem apetitosos, Shadow percebeu que estava faminto.

Os dois homens mexiam suas peças, pretas e brancas, um de cada vez. Várias peças comidas, um desabrochar de damas de duas peças de altura: não eram mais obrigadas a andar só para frente no tabuleiro, podiam escorregar para os lados de uma vez, podiam mover-se para frente ou para trás, o que fazia com que fossem duplamente perigosas. Haviam alcançado a fileira mais ao fundo, e podiam ir para onde quisessem. Czernobog tinha três damas, Shadow, duas.

O velho moveu uma das damas ao redor do tabuleiro, eliminando as peças restantes de seu adversário, enquanto usava as outras damas para manter as de Shadow paralisadas.

E então Czernobog conseguiu uma quarta dama, cercou as duas damas de Shadow c, sem sorrir, comeu-as. E foi só.

— Agora eu posso esmigalhar seu cérebro. E você vai se ajoelhar por conta própria. É bom.

Ele esticou uma das mãos e deu uns tapinhas no braço de Shadow.

— Ainda temos tempo antes do jantar — disse Shadow. — Quer fazer outro jogo? Nos mesmos termos?

Czernobog acendeu outro cigarro, usando uma caixa de fósforos de cozinha.

— Como assim, nos mesmos termos? Como é que eu vou matar você duas vezes?

— Agora pode dar um golpe, só isso. Você mesmo disse que não é só a força, também precisa de habilidade. Assim, se ganhar esse jogo, poderá dar dois golpes na minha cabeça.

Czernobog olhou para Shadow com raiva.

— Um golpe, é só o que precisa, um golpe. Essa é a arte. Ele deu uns tapinhas no ombro direito, onde ficavam os músculos, com a mão esquerda, espalhando cinzas do cigarro preso entre os dedos.

— Faz muito tempo. Se você perdeu a habilidade, talvez só me machuque. Quanto tempo faz que segurou sua última marreta assassina no matadouro? Trinta anos? Quarenta?

Czernobog não disse coisa alguma. Sua boca fechada era um talho cinzento que cruzava o rosto. Ele bateu os dedos na mesa de madeira, batucando um ritmo. Então empurrou as 24 peças de volta às suas casas, no tabuleiro.

— Joga. De novo, você é o claro e eu, o escuro.

Shadow empurrou sua primeira peça em direção ao centro do tabuleiro. Czernobog empurrou uma das suas para a frente. E ocorreu a Shadow que o oponente faria o mesmo jogo de novo, aquele que havia acabado de ganhar, e que essa era a limitação dele.

Dessa vez Shadow jogou com imprudência. Agarrava oportunidades minúsculas, fazia movimentos sem pensar, sem fazer pausa para análise. Dessa vez, enquanto jogava, Shadow sorria. E sempre que o homem mexia uma peça, sorria mais abertamente.

Logo, Czernobog batia as peças com força no tabuleiro quando as movia, tão forte que as outras peças tremiam em seus quadradinhos pretos.

— Pronto — disse Czernobog, comendo um dos componentes de Shadow com um estampido, batendo a peça preta no tabuleiro com toda a força. — Pronto. O que você tem a dizer?

Shadow apenas sorriu e saltou a peça que Czernobog havia movido, e mais uma, e mais uma, e uma quarta, limpando do centro do tabuleiro as peças pretas.Pegou uma peça da pilha ao lado do tabuleiro e transformou seu componente em dama.

Depois disso, era um exercício de limpeza: mais um punhado de movimentos, e o jogo terminou.

Shadow disse:

— Melhor de três?

Czernobog apenas olhou com seus olhos cinzentos que mais pareciam pontas de aço. E então riu e colocou as mãos nos ombros do outro:

— Eu gosto de você! Tem colhões.

Então Zorya Utrennyaya colocou a cabeça na porta para avisá-los de que o jantar estava pronto e que deviam guardar o jogo e colocar a toalha na mesa.

— Não temos sala de jantar — disse. — Sinto muito. Comemos aqui. Pratos foram colocados sobre a mesa. Cada um recebeu uma bandejinha pintada com talheres manchados, para apoiar no próprio colo.

Zorya Vechernyaya pegou quatro tigelinhas de madeira e colocou uma batata cozida com casca dentro de cada uma delas. Então despejou com uma concha uma quantidade razoável de um borscht absurdamente vermelho-carmim. Derramou uma colher de sopa de creme azedo branco por cima e entregou uma tigelinha para cada um deles.

— Achei que fôssemos seis — disse Shadow.

— A Zorya Polunochnaya ainda está dormindo — disse Zorya Vechernyaya.

— Deixamos a comida dela na geladeira. Quando acordar, ela come.

O borscht tinha gosto de vinagre, parecia ter sido feito com beterrabas em conserva. A batata cozida estava farinhenta.

O prato seguinte era uma caçarola de uma carne cozida, que mais parecia um pedaço de couro acompanhado por verduras de algum tipo — embora tivessem sido cozidas por tanto tempo e de modo tão completo que não eram mais, nem mesmo usando de muita imaginação, verdes, e estavam a ponto de ficarem marrons.

Então vieram folhas de repolho recheadas com carne moída e arroz, folhas de repolho tão duras que era quase impossível cortá-las sem espalhar carne e arroz por todo o tapete. Shadow as colocou no canto do prato.

— Nós jogamos damas — disse Czernobog, servindo-se de mais um pedaço de carne cozida. — O jovem e eu. Ele ganhou uma partida, eu ganhei outra. Como ele venceu uma, eu concordei em ajudar na maluquice deles. E por eu ter ganhado a outra, vou poder matar o jovem, com um golpe de marreta.

As duas Zoryas assentiram com a cabeça, gravemente.

— Que pena — Zorya Vechernyaya disse a Shadow. — Se eu lesse a sua sorte, diria que você iria ter uma vida longa e feliz, com muitos filhos.

— Ë por isso que é uma boa vidente — disse Zorya Utrennyaya. Ela parecia sonolenta, como se fosse um esforço enorme ficar acordada até tão tarde.

— Você conta as melhores mentiras.

No fim da refeição, Shadow ainda estava com fome. A comida da prisão era bem ruim, mas ainda era melhor do que aquilo.

— Que comida boa — disse Wednesday, que havia limpado o prato com todos os indícios de prazer. — Agradeço às senhoras. E, agora, acho que é de nossa incumbência pedir que nos recomendem um bom hotel na vizinhança.

Zorya Vechernyaya pareceu ofender-se com isso.

— Por que você tem que ir pra um hotel? Não somos seus amigos?

— Eu não quero incomodar... — disse Wednesday.

— Não incomoda — retrucou Zorya Utrennyaya, com uma das mãos brincando com seus cabelos louros e incongruentes, e bocejando.

— Você pode dormir no quarto do Bielebog. Está vazio. E pra você, moço, eu faço uma cama no sofá. Vai ficar mais confortável aqui do que em uma cama de plumas. Juro.

— Seria muito gentil da parte de vocês — disse Wednesday. — Nós aceitamos.

— E você só me paga o mesmo que pagaria em um hotel — completou Zorya Vechernyaya, com uma jogada de cabelo triunfante. — Cem dólares.

— Trinta — arriscou Wednesday.

— Cinqüenta.

— Trinta e cinco.

— Quarenta e cinco.

— Quarenta.

— Está bom. Quarenta e cinco dólares.

Zorya esticou a mão até o outro lado da mesa e cumprimentou Wednesday. Então, começou a tirar as panelas da mesa. Zorya Utrennyaya bocejou, com a boca tão aberta que Shadow ficou com medo de que ela deslocasse o maxilar. Avisou que estava indo para a cama antes que caísse de sono, de cara na torta, e disse boa noite para todos.

Shadow ajudou Zorya Vechernyaya a tirar a mesa e levar a louça para a pequena cozinha. Para sua surpresa, havia uma máquina de lavar pratos antiga embaixo da pia, e ele a encheu. Zorya Vechernyaya olhou por sobre o ombro dele, estalou a língua em desaprovação e retirou as tigelinhas de madeira de borscht.

— Essas vão pra pia — explicou.

— Desculpa.

— Não precisa se preocupar. Agora, lá dentro, tem torta — disse. A torta — era uma torta de maçã — fora comprada em uma loja e esquentada no forno... estava muito, muito boa. Os quatro comeram-na com sorvete, então Zorya Vechernyaya fez todo mundo sair da sala de estar e arrumou uma boa cama no sofá para Shadow.

Wednesday aproveitou para conversar com Shadow, enquanto esperavam no corredor:

— O que foi que você aprontou com aquele jogo de damas?

— O quê?

— Você foi bom. Muito estúpido, mas bom. Durma bem. Shadow escovou os dentes e lavou o rosto com a água fria do pequeno banheiro, então voltou pelo corredor até a sala de estar, apagou a luz e adormeceu antes que sua cabeça encostasse no travesseiro.

Houve explosões no sonho de Shadow: ele dirigia um avião por um campo minado, e bombas explodiam dos dois lados do veículo. O pára-brisa se despedaçou e ele sentiu sangue quente escorrendo pelo rosto.

Alguém gritava para ele.

Uma bala perfurou seu pulmão, uma bala despedaçou sua coluna, outra acertou o ombro. Sentiu o impacto de cada uma. Ele desmaiou em cima da direção.

A última explosão terminou em escuridão.

Eu devo estar sonhando, pensou Shadow, sozinho, na escuridão. Acho que acabei de morrer. Ele lembrava-se de ouvir e acreditar, quando criança, que se você morresse em um sonho, também morreria na vida real. Não se sentia morto, e abriu os olhos para testar.

Havia uma mulher na pequena sala de estar, parada contra a janela, de costas para ele. Seu coração deu um pulo, e então disse:

— Laura?

Ela se virou, emoldurada pelo luar.

— Desculpe. Não queria acordar você.

Ela tinha um sotaque leve da Europa Oriental.

— Eu vou embora.

— Não, tudo bem — disse Shadow. Você não me acordou. Eu estava sonhando.

— É — ela disse. — Você estava gritando e se lamentando. Uma parte de mim queria acordar você, mas eu pensei: não, devo ir embora.

Seu cabelo parecia pálido e sem cor sob a luz fraca da Lua. Ela vestia uma camisola branca de algodão, com um laço grande no pescoço e uma barra que arrastava no chão. Shadow sentou-se, totalmente desperto.

— Você é Zorya Polu... — hesitou. — A irmã que estava dormindo.

— Eu sou Zorya Polunochnaya, sim. E você é o Shadow, certo? Foi o que a Zorya Vechernyaya me disse quando eu acordei.

— É. O que você esta olhando aí fora?

Ela olhou para ele e então acenou para que fosse até a janela. Zorya virou as costas enquanto ele vestia seu jeans. Ele caminhou até ela. Parecia uma distância tremenda para uma sala tão pequena.

Shadow não conseguia adivinhar sua idade. A pele não tinha rugas, os olhos eram escuros, os cílios, longos, seus cabelos, brancos, iam até a cintura. O luar transformava as cores em fantasmas de si mesmas. Zorya era mais alta do que suas duas irmãs.

Ela olhou para o céu noturno:

— Eu estava admirando aquilo — disse, apontando para a constelação de sete estrelas da Ursa Maior. — Está vendo?

— A Ursa Maior. O grande urso.

— Esse é um modo de ver. Mas não é assim que a gente vê no lugar de onde eu venho. Eu vou subir no telhado. Quer vir comigo?

Ela abriu a janela e subiu, descalça, pela escada de incêndio. Um vento gelado soprou pela janela. Algo incomodava Shadow, mas ele não sabia o quê.

Hesitou um pouco, então colocou o casaco, as meias e os sapatos e a seguiu pela escada de incêndio enferrujada. Ela esperava por ele. Sua respiração se transformava cm vapor no ar frio. Shadow observou os pés descalços dela percorrerem os degraus de metal gelado e a seguiu até o telhado.

O vento soprava frio, fazendo com que o tecido da camisola dela grudasse no corpo, e Shadow percebeu com desconforto que Zorya Polunochnaya não usava absolutamente nada por baixo da roupa de dormir.

— Você não se incomoda com o frio? — perguntou quando chegaram ao topo da escada de incêndio, mas o vento levou suas palavras embora.

— Como?

Ela se abaixou, colocando o rosto bem próximo ao dele. Seu hálito era doce.

— Perguntei se não se incomoda com o frio.

Ela levantou um dedo como resposta: espere. Ela passou, delicadamente, da escada para o prédio, para cima do telhado chato. Shadow passou para lá um pouco mais desajeitado e seguiu-a pelo telhado, até a sombra da caixa d'água. Havia um banco de madeira ali, onde se sentaram. A caixa d'água funcionava como quebra-vento, o que agradou Shadow.

— Não — ela disse. — O frio não me incomoda. Esta é a minha hora: eu não poderia me sentir desconfortável à noite, do mesmo jeito que um peixe não poderia se sentir mal em águas profundas.

— Você deve gostar da noite — disse Shadow, lamentando por não ter dito algo mais sábio, mais profundo.

— Minhas irmãs também têm suas horas. A Zorya Utrennyaya é do amanhecer. No Velho Continente ela acordava pra abrir o portão e deixar nosso pai passar com a... humm, eu esqueci a palavra, igual a um carro, mas com cavalos?

— Carroça?

— Isso. Nosso pai saía, e Zorya Vechernyaya abria o portão pra ele ao entardecer, quando voltava pra nós.

— E você?

Ela fez uma pausa. Seus lábios eram carnudos, mas muito pálidos.

— Eu nunca via nosso pai. Eu estava sempre dormindo.

— Isso é doença?

Ela não respondeu. O dar de ombros, se é que ela deu de ombros, foi imperceptível.

— Então você queria saber o que eu estava olhando.

— A Ursa Maior.

Ela levantou o braço para apontar, e o vento fez com que o tecido da camisola grudasse em seu corpo. Os mamilos ficaram visíveis por um instante, escuros contra o algodão branco. Shadow tremeu.

— Chama-se Carruagem de Odin. E Grande Urso. De onde nós viemos, acredita-se que é uma, uma coisa, uma, não um deus, mas parecido com um deus, uma coisa ruim, acorrentada naquelas estrelas. Se escapar, vai engolir tudo c todos. E tem três irmãs que precisam tomar conta do céu, o dia inteiro, a noite inteira. Se ela escapar, a coisa nas estrelas, o mundo acaba. Pfff!, assim.

— E as pessoas acreditam nisso?

— Acreditavam. Muito tempo atrás.

— E você estava olhando pra ver se encontrava o monstro nas estrelas?

— Mais ou menos. Estava.

Ele sorriu. Pousou que, se não fosse pelo frio, poderia estar sonhando. Tudo se parecia muito com um sonho.

— Posso perguntar quantos anos você tem? Suas irmãs parecem bem mais velhas.

Ela assentiu com a cabeça.

— Eu sou a mais nova. A Zorya Utrennyaya nasceu de manhã, e a Zorya Vechernyaya nasceu ao anoitecer, e eu nasci à meia-noite. Eu sou a irmã da meia-noite, Zorya Polunochnaya. Você é casado?

— Minha mulher morreu na semana passada em um acidente de carro. O enterro foi ontem.

— Sinto muito.

— Ela veio me ver ontem à noite.

Aquilo não era difícil de dizer, na escuridão, ao luar... não era tão impensável como seria de dia.

— Você perguntou pra ela o que ela queria?

— Não. Acho que não.

— Talvez você devesse perguntar. Isso é a coisa mais sábia a se perguntar prós mortos. Às vezes eles respondem. Zorya Vechernyaya me disse que você jogou damas com o Czernobog.

— É. Ele ganhou o direito de golpear a minha cabeça com uma marreta.

— No passado, levavam pessoas até o topo das montanhas. Até os lugares altos. Golpeavam a parte de trás da cabeça delas com uma pedra. Para Czernobog. Shadow olhou para os lados. Não... estavam sozinhos no telhado. Zorya Polunochnaya riu.

— Bobo. Ele não está aqui. Mas você também ganhou um jogo. Ele não vai dar o golpe até tudo terminar. Pelo menos disse que não. E você vai saber. Igual às vacas que ele matava. Elas sempre sabiam antes. Senão, de que adianta?

— Eu me sinto como se estivesse em um mundo que tem sua própria lógica. Suas próprias regras. Igual quando você está sonhando e sabe que não pode desobedecer a certas regras. Mesmo que você não saiba o que significam. Eu só estou indo na onda, sabe?

— Sei.

Ela segurou na mão dele com a mão fria como o gelo:

— Você já ganhou proteção. Entregaram o Sol em si pra você. Mas você o perdeu, você se desfez dele. Tudo que eu posso fazer é oferecer uma proteção bem mais fraca. A filha, não o pai. Mas tudo ajuda. Quer?

O cabelo dela voou para cima do rosto com o vento gelado.

— Eu tenho que brigar com você? Ou jogar damas? — perguntou.

— Você nem precisa me beijar. Só pegue a lua de mim.

— Como?

— Pegue a Lua.

— Eu não entendo.

— Observe — disse Zorya Polunochnaya.

Ela levantou a mão esquerda e a colocou na frente da Eua, de maneira que o polegar e o indicador parecessem estar agarrando-a. Então, com um movimento suave, deu um puxão. Por um instante, pareceu que ela havia retirado a Lua de seu lugar, mas daí Shadow viu que ainda brilhava no céu, e Zorya Polunochnaya abriu a mão para mostrar um dólar de prata com a efígie da Liberdade entre o polegar e o indicador.

— Isso foi muito bem feito — disse Shadow. — Eu não vi como você escondeu na palma da mão. E não sei como é que fez a última parte.

— Eu não escondi na palma da mão. Eu peguei. E agora dou pra você, pra ficar protegido. Pronto. Não vá se desfazer dessa aqui.

Ela colocou a moeda na mão direita dele e fechou seus dedos sobre o metal. A moeda repousava fria na mão de Shadow. Zorya Polunochnaya inclinou-se para a frente, e fechou os olhos dele com seus dedos, beijou-o, de leve, uma vez sobre cada pálpebra.

Shadow acordou no sofá, totalmente vestido. Uma réstia de sol passava através da janela, fazendo com que as partículas de poeira dançassem na luz.

Ele saiu da cama e andou até a janela. A sala parecia muito menor à luz do dia.

A coisa que o incomodava desde a noite anterior voltou à tona quando olhou para fora e para baixo, e para o outro lado da rua. Não havia escada de incêndio do lado de fora da janela: não tinha sacada nem degraus de metal enferrujado.

No entanto, ele segurava na palma da mão, tão claro e brilhante quanto no dia em que havia sido cunhado, um dólar de prata de 1922 com a efígie da Liberdade.

— Ah, você acordou — disse Wednesday, colocando a cabeça no vão da porta. — Que bom. Quer café? Vamos roubar um banco.

 

CHEGANDO À AMÉRICA, 1721

A coisa mais importante a se entender a respeito da história americana, escreveu o senhor Ibis, em seu diário com capa de couro, é que tudo não passa de uma história de ficção, de um esboço simplificado para crianças ou para aqueles que se aborrecem com facilidade. Para a maior parte das pessoas, é algo sem consideração, inimaginável, imprevisto, uma representação do fato', e não o fato em si. Ë uma boa ficção, continuou, pausando por um instante para mergulhar a pena no tinteiro e juntar as idéias, pensar que a América tenha sido fundada por peregrinos à procura da liberdade de acreditar no que quisessem, que eles tenham vindo para as Américas para se espalhar, se procriar e preencher a terra vazia.

Na verdade, as colônias americanas eram tanto um campo de refúgio quanto uma fuga, um lugar esquecido. No tempo em que se podia ser enforcado em Londres, na'árvore de três copas de Tyburn, por se ter roubado doze centavos, as Américas se transformaram em um símbolo de clemência, em uma segunda chance. Mas as condições de banimento eram tais que, para alguns, era mais fácil dar um salto da árvore sem folhas e ficar dançando no ar até a dança terminar. Banimento, era como chamavam aquilo: durante cinco anos, durante dez anos, durante a vida inteira. Essa era a sentença.

Você era vendido para um capitão, e viajava no barco dele, apertado no meio de uma multidão como se estivesse em um navio negreiro, até as colônias das Índias Ocidentais. Ao desembarcar, o capitão o vendia como servo por contrato para alguém que arrancaria sua pele de tanto trabalhar até que os anos de sua servidão chegassem ao fim. Mas pelo menos você não ficava à espera de ser enforcado em uma prisão inglesa (porque naquele tempo as prisões eram locais, onde você ficava até ser solto, banido ou enforcado: você não ficava lá por um período determinado) e ficava livre para aproveitar o novo mundo o melhor que pudesse. Podia subornar um capitão do mar que o levasse de volta à Inglaterra antes que o período do seu banimento chegasse ao fim. Muita gente fazia isso. E se as autoridades o pegassem voltando do banimento — se um antigo inimigo, ou um velho amigo com contas a acertar, o visse e o delatasse — então seria enforcado sem pestanejar.

Eu me recordo, ele continuou, depois de uma pausa curta, durante a qual encheu o tinteiro de sua mesa com a garrafa de tinta marrom-avermelhada do armário e mergulhou sua pena mais uma vez, da vida de Essie Tregowan, que veio de um vilarejo gelado no topo de uma montanha na Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, onde sua família viveu desde sempre. O pai dela era pescador, e havia rumores de que ele fosse um saqueador de navios — um daqueles que pendurava suas lanternas bem alto nos penhascos perigosos quando as tempestades se enfureciam, confundindo as embarcações para que fossem de encontro às pedras, para roubar os bens a bordo. A mãe de Essie trabalhava como cozinheira na casa do senhor das terras, e, com 12 anos, Essie começou a trabalhar lá, na copa. Ela era uma coisinha magra, com grandes olhos castanhos e cabelos castanho-escuros. Não trabalhava muito, mas escapava do serviço para ouvir histórias e contos sempre que houvesse alguém disponível para narrá-los: contos sobre piskies e spriggans, sobre cães negros dos pântanos e sobre mulheres-foca do canal. E, apesar de o proprietário das terras rir de tais coisas, os serventes da cozinha colocavam todas as noites um pires do leite mais cremoso do lado de fora da porta da cozinha, para os piskies.

Muitos anos se passaram, e Essie já não era mais uma coisinha magra: agora ela tinha curvas e ondas como a maré do mar verde, e seus olhos marrons sorriam, e seu cabelo castanho jogava de um lado para o outro em cachos. Os olhos de Essie se acendiam quando olhavam para Bartholomew, o filho de 18 anos do senhor das terras, que havia chegado de Rugby para passar as férias em casa. À noite, ela foi até o dólmen na beira do bosque, e colocou sobre a pedra um pouco do pão que Bartholomew tinha deixado no prato, amarrado com uma trancinha do cabelo dela. E, logo no dia seguinte, enquanto limpava a lareira do quarto dele, Bartholomew veio falar com ela e olhou-a com a aprovação de seus próprios olhos, de um azul perigoso, como quando uma tempestade se aproxima.

Ele tinha olhos tão perigosos, Essie Tregowan dizia.

Logo Bartholomew foi para Oxford, e, quando o estado de Essie se tornou aparente, foi despedida. Mas o bebe nasceu morto e, como favor à mãe de Essie, que era uma ótima cozinheira, a vontade da esposa do senhor das terras prevaleceu sobre a do marido, e a empregada voltou ao seu antigo posto na copa.

Mas o amor de Essie por Bartholomew se transformou em ódio à família dele, c no decorrer do ano ela tomou como novo amado um sujeito de um vilarejo vizinho, com má reputação, que se chamava Josiah Horner. E, certa noite, Essie levantou-se no meio da noite e destrancou a porta lateral para deixar seu amado entrar. Ele roubou a casa enquanto a família dormia.

A suspeita logo recaiu sobre alguém da casa, porque estava claro que alguém tinha aberto a porta (que a esposa do senhor das terras lembrava-se particularmente de ter trancado pessoalmente), e devia saber onde o senhor das terras guardava seu prato de prata e qual era a gaveta onde deixava suas moedas e suas notas promissórias. Ainda assim, Essie, resolutamente negando tudo, foi condenada por nada, até que o senhor Josiah Horner foi preso, em um fornecedor de Exeter, passando para a frente uma das notas do senhor das terras. Ele a identificou como uma das suas, e Horner e Essie foram a julgamento.

Horner foi condenado em um julgamento local, e foi, como a gíria da época descrevia tão cruel e casualmente, apagado. Mas o juiz ficou com pena de Essie, por causa de sua idade e de seus cabelos castanhos, e a sentenciou a um banimento de sete anos. Ela deveria ser banida em um barco chamado Neptune, sob o comando do capitão Clarke. Então Essie foi para as Carolinas. E, no caminho, estabeleceu uma aliança com o próprio capitão e convenceu-o a levá-la de volta para a Inglaterra, como sua esposa, para a casa da mãe dele em Londres, onde ninguém a conhecia. A viagem de volta, quando a carga humana havia sido trocada por algodão e tabaco, foi uma época pacífica e feliz para o capitão e sua nova noiva: pareciam dois pombinhos apaixonados ou duas borboletinhas fazendo a corte, incapazes de se separar ou de parar de dar presentes um ao outro ou de se acariciar.

Quando chegaram a Londres, o capitão Clarke alojou Essie com sua mãe, que a tratava da maneira como deveria tratar a esposa nova do filho. Oito semanas depois, o Neptune içou as velas novamente, e a linda jovem noiva de cabelos castanhos acenou adeus para o marido, do porto. Então Essie voltou para a casa de sua sogra, onde, com a velha ausente, serviu-se de um corte de seda, de várias moedas de ouro e de uma panela de prata onde a velha guardava seus botões e, enfiando todas essas coisas no bolso, desapareceu nas névoas de Londres.

Nos dois anos que se seguiram, Essie transformou-se em uma ladra talentosa, com suas saias amplas capazes de esconder uma multidão de pecados, que consistiam principalmente em rolos de seda e de renda, e assim vivia uma vida folgada. Essie acreditava que conseguia escapar ilesa de suas vicissitudes graças a todas as criaturas que haviam sido mencionadas quando ela era criança, aos piskies (cuja influência, ela tinha certeza, chegava até Londres), e colocava uma tigela de madeira cheia de leite no peitoril de uma janela toda noite, apesar de seus amigos rirem dela; mas ela riu por último, porque seus amigos pegaram varíola ou gonorréia e Essie continuou saudável como nunca.

Ela estava a um ano de seu vigésimo aniversário quando o destino lhe desferiu um golpe sujo: estava acomodada na hospedaria Crossed Forks, na Fleet Street, em Bell Yard, quando viu um homem entrar e sentar-se perto da lareira, recém-chegado da universidade. Oh-ho! Um pombo pronto para ser depenado, pensa Essie consigo mesma, e senta-se ao lado dele. Diz que ele é um jovem maravilhoso e, com uma mão, começa a acariciar seu joelho, enquanto a outra mão, com mais cuidado, procura seu relógio de bolso. Foi então que ele olhou bem em seu rosto, e o coração dela deu um salto e se apertou quando olhos de um azul tão perigoso quanto o céu de verão — antes de uma tempestade — olharam bem dentro dos dela, e o senhor Bartholomew disse seu nome.

Ela foi levada até Newgate e acusada de voltar do banimento. Considerada culpada, ninguém se chocou quando Essie alegou estar grávida, apesar de as matronas da cidade, que avaliavam tais alegações (que normalmente eram falsas), terem se surpreendido quando foram obrigadas a concordar que, de fato, Essie estava grávida. Contudo, ela recusava-se a dizer quem era o pai.

Sua sentença de morte mais uma vez foi transformada em banimento, agora perpétuo.

Dessa vez, ela viajou no Sea-Malden. Havia duzentos banidos no porão daquele navio, como porcos gordos a caminho do mercado. Corrimentos e febres espalhavam-se desenfreadamente; mal havia lugar para sentar, quanto mais para deitar; uma mulher morreu durante o parto no fundo do porão, e as pessoas estavam tão apertadas que era impossível retirar o corpo. Ela e a criança foram empurradas por uma pequena escotilha diretamente para o mar cinzento revolto. Essie estava grávida de oito meses, e foi um milagre ter segurado o bebe, mas segurou.

Durante toda a sua vida depois daquilo, teria pesadelos relacionados ao tempo passado naquele porão, e acordaria gritando e sentindo o gosto e o fedor do lugar na garganta.

O Sea-Maiden aportou em Norfolk, na Virgínia, e o contrato de servidão de Essie foi comprado por um "pequeno latifundiário", um cultivador de tabaco chamado John Richardson, porque sua mulher morrera de febre do parto uma semana depois de a filha nascer, e ele precisava de uma ama de leite e de uma empregada para todos os serviços domésticos em sua pequena propriedade.

Então, o menino de Essie, que ela chamou de Anthony, para homenagear o marido morto e pai dele (sabendo que lá não havia ninguém para dizer o contrário, e talvez tivesse mesmo conhecido algum Anthony), sugava o seio de Essie ao lado de Phyilida Richardson. A filha de seu empregador sempre ganhava a primeira mamada, por isso cresceu forte e saudável, enquanto o filho ficou fraco e raquítico com o que sobrava.

Junto com o leite, as crianças também bebiam as histórias de Essie enquanto cresciam: sobre os golpeadores e sobre os chapéus-azuis que vivem no fundo das minas; sobre o Bucca, o espírito mais traiçoeiro da terra, muito mais perigoso dos que os piskies com seus cabelos ruivos e seus narizes arrebitados, para quem o primeiro peixe da pescaria era sempre deixado sobre o telhado, e para quem um pão que acabara de sair do forno era deixado nos campos, na época da ceifa, para garantir a colheita. Ela contava a eles sobre os homens-macieira — antigas macieiras que falavam quando assim desejavam, e que precisavam ser acalmadas com a melhor cidra da produção, que era derramada sobre suas raízes na virada do ano, para que dessem uma boa colheita no ano seguinte. Com seu sotaque lento e meloso da Cornualha, disse às crianças quais árvores deveriam ser evitadas, por meio do antigo verso:

Elm, he do brood

Ana oak, he do hate,

But the willow-man goes walking

If you stays out late [4]

Ela contava todas essas coisas, e eles acreditavam, porque ela acreditava.

A fazenda prosperava, e Essie Tregowan colocava um pires de porcelana com leite do lado de fora da porta de trás, toda noite, para os piskies. E, depois de oito meses, John Richardson veio bater calmamente à porta do quarto de Essie, e pediu a ela favores do tipo que uma mulher oferece aos homens. Essie disse a ele como ficara chocada e magoada, uma pobre viúva, e uma serva por contrato — que não era melhor do que uma escrava —, ao ouvir uma proposta de prostituição de seu corpo a um homem por quem ela tinha tanto respeito — e uma serva por contrato não podia se casar, então como é que ele ousava pensar em atormentar uma moça, serva e banida, ela não conseguia entender. E seus olhos castanhos encheram-se de lágrimas, tanto que Richardson descobriu-se pedindo desculpas a ela. O desfecho daquilo foi que John Richardson terminou, naquele corredor, naquela noite quente de verão, ajoelhado sobre uma perna na frente de Essie Tregowan, propondo fim ao seu contrato de servidão e oferecendo a mão dele em casamento. Agora, apesar de ter aceitado, não se deitaria com ele até que tudo fosse legalizado, e, por conseqüência, mudou-se do quartinho no sótão para o quarto principal na parte da frente da casa. Se alguns dos amigos do fazendeiro Richardson e suas esposas desviavam dele quando o viam na cidade, muitos outros eram de opinião que a nova senhora Richardson era uma mulher bonita demais, e que johnnie Richardson havia feito muito bem a si mesmo.

Em um ano ela havia dado à luz outra criança, um menino, tão louro quanto seu pai e sua meio-irmã, que foi chamado de John, em homenagem ao pai.

As três crianças iam à igreja local aos domingos para ouvir o padre itinerante, e iam à escolinha para aprender as letras e os números com as crianças dos outros pequenos fazendeiros. Ao mesmo tempo Essie também se assegurava de que elas conhecessem os mistérios dos piskies, que eram os mistérios mais importantes que existiam: homens ruivos com olhos e roupas tão verdes quanto um rio e narizes arrebitados, homens engraçados e de olhos apertados que, se tivessem vontade, fariam com que você saísse do seu caminho, a menos que você carregasse sal no bolso, ou um pãozinho. Quando as crianças iam para a escola, cada uma delas carregava um pouquinho de sal em um bolso e um pãozinho no outro, os velhos símbolos da vida e da terra, para assegurarem-se de que voltariam a salvo para casa mais uma vez, e elas sempre voltavam.

As crianças cresceram nas montanhas verdejantes da Virgínia, ficaram altas e fortes (apesar de Anthony, seu primeiro filho, sempre ter sido mais fraco, mais pálido, mais propenso a doenças e a falta de ar) e os Richardson eram felizes. Essie amava seu marido da melhor maneira que podia. Estavam casados havia uma década quando Richardson desenvolveu uma dor de dente tão grande que fez com que caísse do cavalo. Levaram-no à cidade mais próxima, onde o dente foi arrancado, mas já era tarde demais. A infecção do sangue levou-o embora, com o rosto escuro e gemendo: ele foi enterrado sob o seu chorão preferido.

A viúva de Richardson cuidou da fazenda até que os dois filhos atingissem a maioridade: ela administrava os servos por contrato e os escravos, e fazia a colheita de tabaco, ano sim, ano não. Derramava cidra nas raízes das macieiras na véspera de ano novo, colocava um pão recém-saído do forno nos campos na época da ceifa e sempre deixava um pires de leite do lado de fora da porta de trás. A fazenda progrediu, e a viúva ganhou fama de uma dura negociante, mas cuja colheita era sempre boa, e que nunca vendia mercadoria de segunda categoria.

Então, tudo correu bem durante os dez anos seguintes. Mas, depois disso, houve um ano ruim, porque Anthony, o filho dela, matou Johnnie, seu meio-irmão, em uma briga furiosa sobre o futuro da fazenda e a disponibilidade da mão de Phylhda. Alguns disseram que ele não tinha intenção de matar o irmão, mas que o golpe fora muito fundo, e outros disseram que não. Anthony fugiu, deixando Essie para enterrar seu filho ao lado do pai. Algumas pessoas diziam que Anthony fugira para Boston, outras que ele fora para o sul, mas sua mãe sempre foi da opinião de que ele havia tomado o navio para a Inglaterra, para se alistar no exército do rei George e lutar contra os escoceses. Mas, sem os dois filhos, a fazenda era um lugar vazio, além de triste, e Phylhda consumia-se e queixava-se como se tivesse sido abandonada por um amor, ao mesmo tempo em que nada que sua madrasta pudesse dizer ou fazer fosse capaz de devolver um sorriso aos lábios dela.

Mas, de coração partido ou não, elas precisavam de um homem na fazenda, e então Phylhda casou-se com Harry Soames, um carpinteiro de embarcações por profissão que havia se cansado do mar e que sonhava com uma vida em uma fazenda como aquela de Eincoinshire, onde havia crescido. E, apesar da fazenda dos Richardson ser bem pequena, Harry Soames descobriu semelhanças suficientes para ser feliz. Cinco crianças nasceram para Phylhda e Harry, três das quais sobreviveram.

A viúva Richardson sentia falta de seus filhos, e sentia falta de seu marido, apesar de ele não passar de uma memória... um homem justo que a tratava com gentileza. Os filhos de Phylhda vinham a Essie para ouvir histórias, e ela contava sobre o Cão Negro dos pântanos, e sobre a Cabeça-Despelada e os Ossos-Ensangüentados, ou sobre o Homem-Macieira, mas eles não se interessavam. Só queriam saber das histórias de João — João e o Pé de Feijão, João que Matou o Gigante ou João e seu Gato e o Rei. Ela amava aquelas crianças como se fossem do seu próprio sangue, apesar de às vezes chamá-los por nomes de pessoas que já tinham morrido havia muito tempo.

Era maio, e ela colocou sua cadeira no jardim da cozinha para escolher ervilhas e debulhá-las ao sol porque, mesmo no calor verdejante da Virgínia, o frio havia penetrado em seus ossos assim como a geada tinha se emaranhado em seus cabelos, e um pouquinho de calor era uma coisa muito boa.

Enquanto a viúva Richardson debulhava as ervilhas com suas mãos velhas, começou a pensar sobre como seria bom caminhar novamente nos pântanos e nas montanhas de sal da sua Cornualha nativa, e se lembrou de como ficava no telhado quando era menininha, esperando o barco de seu pai voltar dos mares cinzentos. As mãos dela, nodosas, azuladas e desajeitadas, abriam as vagens das ervilhas, derramavam as ervilhas boas em uma tigela de barro, e colocavam as vagens vazias sobre o avental que cobria o colo. E então ela percebeu que se lembrava, como não fazia há muito tempo, de um passado perdido: como roubava bolsas e afanava sedas com seus dedos hábeis. Então se lembrou do carcereiro de Newgate, dizendo que ainda se passariam umas boas doze semanas até que seu caso fosse julgado, e que ela poderia escapar da forca se alegasse estar grávida, e que coisinha bonitinha ela era — e como se virou para a parede e corajosamente levantou as saias, odiando a si e a ele, mas sabendo que ele estava certo; e a sensação da vida despertando dentro dela, que significava que poderia enganar a morte mais um pouco...

— Essie Tregowan? — disse o forasteiro.

A viúva Richardson olhou para cima, fazendo sombra sobre os olhos contra o sol de maio:

— Eu conheço você? — perguntou.

Ela não havia ouvido ele se aproximar.

O homem estava todo vestido de verde: calça xadrez verde, empoeirada, jaqueta verde e um casaco verde-escuro. Seus cabelos eram de um ruivo-cenoura, e seu sorriso, torto. Havia algo naquele homem que a deixava feliz e algo mais que denotava perigo.

— Você pode dizer que me conhece — disse.

Ele apertou os olhos e a observou, e ela fez o mesmo em sua direção, procurando uma pista da sua identidade em seu rosto redondo. Ele parecia tão jovem quanto um de seus próprios netos, no entanto, chamou-a por seu nome antigo, falando os erres numa voz que a fazia recordar de sua infância, das rochas e dos pântanos de seu lar.

— Você veio da Cornualha? — ela perguntou.

— Vim sim, sou um tipo de primo João. Ou melhor, isso eu era, mas agora eu estou aqui nesse mundo novo, onde ninguém deixa bebida ou leite para um sujeito honesto, ou um pão na época da ceifa.

A velha ajeitou a tigela de ervilhas sobre o colo.

— Se você é quem eu penso que é, então não temos nenhuma rixa. Dentro de casa, ela ouviu Phylhda reclamando com a arrumadeira.

— Não — disse o sujeito ruivo, com um pouco de tristeza. — Apesar de ler sido você que me trouxe pra cá, você e mais uns outros do seu tipo, pra esta terra que não tem tempo pra magia e não tem lugar pra piskies e outros seres assim.

— Você fez várias coisas boas pra mim — ela disse.

— Boas e ruins. Somos como o vento, sopramos em ambas as direções. Essie assentiu com a cabeça.

— Você me daria a sua mão, Essie Tregowan?

E ele esticou uma mão na direção dela. Era cheia de sardas, e, apesar de a visão de Essie estar falhando, conseguia enxergar cada pelo cor-de-laranja nas costas de sua mão, brilhando dourado sob a luz da tarde. Ela mordeu o lábio. Então, com hesitação, colocou sua mão nodosa e azulada sobre a dele.

Ela ainda estava quente quando foi encontrada, apesar de a vida ter fugido de seu corpo e apenas metade das ervilhas estarem debulhadas.

 

                                             CAPITULO CINCO

Madam Life’s a piece in blloom Death goes dogging

everywhere:

She’s the tenant of lhe room, Hes the ruffian on the stair.[5]

Apenas Zorya Utrennyaya estava acordada para se despedir deles, naquele sábado de manhã. Ela pegou os 45 dólares de Wednesday e insistiu em escrever, com caligrafia ampla e cheia de voltas, um recibo na parte de trás de um cupom expirado de refrigerante. Ela se parecia um pouco com uma boneca à luz da manhã, com seu rosto velho cuidadosamente maquiado e seu longo cabelo dourado arrumado em um coque alto sobre a cabeça. Wednesday beijou sua mão:

— Obrigada por sua hospitalidade, cara senhora. Você e suas lindas irmãs continuam tão radiantes quanto o próprio céu.

— Você é um velho mau — ela disse, sacudindo um dedo na frente de seu rosto.

Então, abraçou-o:

— Cuide-se. Eu não gostaria de saber que você se foi de vez.

— Isso me perturbaria igualmente, minha cara. Ela apertou a mão de Shadow:

— Zorya Polunochnaya tem muita consideração por você. E eu também.

— Muito obrigado. E obrigado pelo jantar.

Ela levantou uma sobrancelha para ele:

— Você gostou? Pois deve aparecer outras vezes.

Wednesday e Shadow desceram as escadas. Shadow colocou a mão no bolso da jaqueta. O dólar de prata estava frio de encontro à sua mão. Era maior e mais pesado do que qualquer outra moeda que já havia usado. Ele a escondeu na palma da mão da maneira clássica, deixando a mão pender ao lado do corpo com naturalidade, então esticou a mão quando a moeda escorregou para o outro lado. A moeda parecia natural ali, presa levemente entre os dedos.

— Você fez com bastante suavidade — disse Wednesday.

— Só estou aprendendo. Consigo fazer um monte de coisas técnicas. A parte mais difícil e fazer as pessoas olharem pra outra mão.

— É mesmo?

— É. Chama-se desviar a atenção.

Ele deslizou seus dedos do meio para a parte de baixo da moeda, empurrando-a para as costas da mão, e tateou para agarrá-la mais uma vez, sempre bem de leve. A moeda caiu de sua mão com um ruído e desceu meio lance de escadas pulando. Wednesday abaixou-se e a pegou.

— Shadow, não seja tão displicente com os presentes que as pessoas lhe oferecem. Você precisa se apegar a uma coisa dessas. Não pode ficar jogando por aí.

Examinou a moeda, olhando primeiro para o lado da águia e depois para a efígie da Liberdade no verso.

— Ah, a senhora Liberdade. Linda, não é?

Ele jogou a moeda para Shadow, que a agarrou no ar e a fez desaparecer com uma escorregadela — parecendo deixá-la cair na mão esquerda quando na verdade a mantinha na direita — e então fingiu colocá-la no bolso com a mão esquerda. A moeda permanecia em sua mão direita, bem à vista. Ficava confortável ali.

— A senhora Liberdade é estrangeira, como tantos outros deuses que os americanos prezam. Nesse caso, uma francesa, apesar de que, em deferência às sensibilidades americanas, os franceses tenham coberto aquele peito magnífico da estátua que deram de presente a Nova York. A Liberdade — ele continuou, torcendo o nariz para a camisinha que repousava no fim do lance de escadas, chutando-a para a lateral da escada com desgosto: — Alguém podia ter escorregado naquilo. Quebrado o pescoço! —, resmungou, interrompendo a si mesmo. — É igual a uma casca de banana, só que com gosto ruim e com ironia dentro.

Ele empurrou a porta para abri-la, e o sol entrou.

— A Liberdade — rugiu Wednesday enquanto se dirigiam para o carro, — é uma cadela que deve ir pra cama sobre um colchão de cadáveres.

— Ah, é? — disse Shadow.

— Estou citando uma francesa. É pra ele que botaram uma estátua lá naquele porto de Nova York: uma cadela que gostava de trepar no refugo da guilhotina. Segura a sua tocha o mais alto que puder, minha cara, porque ainda tem um monte de ratos no seu vestido e um corrimento gelado escorrendo pelas suas pernas.

Ele destrancou o carro e apontou o assento do passageiro para Shadow.

— Eu acho que ela é bonita — disse Shadow, colocando a moeda bem perto do rosto.

O rosto de prata da Liberdade o fazia pensar no da pequena Zorya Polunochnaya.

— Essa — disse Wednesday, saindo com o carro — é a estupidez eterna do homem. Andar atrás da carne doce, sem perceber que não passa de uma cobertura bonita prós ossos. Comida de verme. À noite, você fica se esfregando em comida de verme. Sem ofensa.

Shadow nunca vira Wednesday tão expansivo assim. Concluiu que o seu novo chefe passava por fases de extroversão seguidas de períodos de tranqüilidade intensa.

— Então, você não é americano? — perguntou Shadow.

— Ninguém é americano. Não de origem. Ë isso que quero dizer. Olhou para o relógio:

— Ainda temos muito tempo pra matar antes de os bancos fecharem. Aliás, fez um bom trabalho ontem à noite com Czernobog. Eu ia acabar conseguindo fazer com que ele viesse, mas você conseguiu que ele se alistasse com o coração mais aberto.

— Só porque ele vai poder me matar depois.

— Não necessariamente. Esqueceu que ele é velho? O golpe assassino pode deixar você apenas, bom, paralítico pelo resto da vida, digamos. Um inválido inútil. Então você tem o que esperar do futuro, se é que o senhor Czernobog vai sobreviver às dificuldades que vêm por aí.

— E existe alguma dúvida a respeito disso? — disse Shadow, ecoando o maneirismo de Wednesday e odiando-se por isso.

— Porra, claro que sim.

Parou o carro no estacionamento de um banco.

— Este é o banco que eu vou roubar. Ainda demora algumas horas pra fechar. Vamos entrar e dar um oi.

Ele fez um gesto para Shadow que, com relutância, saiu do carro. Se o velho pretendia fazer alguma estupidez, Shadow não entendia por que seu rosto precisava aparecer na câmera. Mas foi cutucado pela curiosidade, e entrou no banco. Olhava para o chão, esfregando o nariz com a mão, fazendo de tudo para esconder o rosto.

— Formulários de depósito, moça? — disse Wednesday à caixa solitária.

— Ali.

— Muito bem. E se eu precisar fazer um depósito noturno?

— Use os mesmos papéis — ela sorriu. — Você sabe onde fica o caixa eletrônico, querido? À esquerda da porta principal, na parede.

— Meus agradecimentos. Wednesday pegou vários formulários de depósito. Deu um sorriso de adeus à caixa, e ele e Shadow saíram.

Wednesday ficou parado na calçada por um instante, coçando a barba de maneira meditativa. Então, foi até o lugar onde ficava o caixa eletrônico e o cofre noturno, encaixados na lateral da parede, e inspecionou os dois. Conduziu Shadow para o outro lado da rua, até o supermercado, onde comprou um picolé de chocolate para si e uma xícara de chocolate quente para Shadow. Havia um telefone público na parede da entrada, sob um quadro de avisos com quartos para alugar, e cachorrinhos e gatinhos que precisavam de um bom lar. Wednesday anotou o número do telefone público. Atravessaram a rua mais uma vez.

— O que nós precisamos agora é de neve. Uma neve bem boa, enlouquecedora, irritante. Pense "neve pra mim", pode ser?

— Hã?

— Concentre-se em fazer essas nuvens... aquelas ali, a oeste... ficarem maiores e mais escuras. Pense em céus cinzentos e ventos cortantes que vêm do Ártico. Pense em neve.

— Acho que não vai servir pra nada.

— Bobagem. Se não surtir efeito, pelo menos vai manter sua cabeça ocupada — disse Wednesday, destrancando o carro. — Agora vamos parar na Kinko's, aquela loja de serviços expressos de impressão. Anda logo.

Neve, pensava Shadow, no assento do passageiro, dando pequenos goles em seu chocolate quente. Uma massa e um grupo de flocos de neve enormes e estonteantes caindo pelo ar, remendos de branco contra o céu cinza-chumbo, neve que toca sua língua com frio, que beija o seu rosto com um toque hesitante antes de congelar você até a morte. Trinta centímetros de neve de algodão-doce, criando um mundo de conto de fadas, deixando tudo irreconhecível de tão lindo...

Wednesday falava com ele.

— Como? — disse Shadow.

— Eu disse que chegamos. Você estava em outro lugar?

— Eu estava pensando em neve.

Na Kinko's, Wednesday tirou cópia dos formulários de depósito do banco. Pediu ao balconista que imprimisse dois jogos de dez cartões de visita instantâneos. A cabeça de Shadow começou a doer, e ele sentiu um desconforto na região do meio das costas. Ficou imaginando se dormira em má posição... se a dor de cabeça não seria uma herança incômoda do sofá da noite anterior.

Wednesday sentou-se no terminal de computador para escrever uma carta e, com a ajuda do balconista, confeccionar uma série de avisos grandes.

Neve, pensou Shadow. Lá no topo da atmosfera, cristais minúsculos e perfeitos que se unem e formam uma peça diminuta de poeira, cada pedacinho de renda, um trabalho de arte fractal. E os cristais de neve se juntam em flocos quando caem, cobrindo Chicago em sua plenitude branca, centímetro por centímetro...

— Pronto — disse Wednesday.

Entregou um copo de café da Kinko's para Shadow, com uma colherada de leite cm pó meio dissolvida flutuando por cima.

— Acho que chega, você não acha?

— Chega do quê?

— Chega de neve. A gente não vai querer paralisar a cidade, vai? O céu estava de uma cor uniforme, cinzento como um navio de guerra. A neve estava vindo. Estava sim.

— Não fui eu quem fez isso, fui? retrucou Shadow.

— Bebe o café — disse Wednesday. — É uma água suja, mas vai aliviar sua dor de cabeça.

Então, completou:

— Bom trabalho.

Wednesday pagou ao balconista e levou seus avisos, suas cartas e seus cartões. Abriu o porta-malas do carro, colocou os papéis em uma caixa grande e preta de metal, do tipo que os guardas de carros-forte carregam, fechou o porta-malas e entregou um cartão de visita a Shadow.

— Quem é A. Haddock, diretor de Segurança, Al Serviços de Segurança? — perguntou Shadow.

— Você.

— A. Haddock?

— É.

— E o que é o A.?

— Alfredo. Alphonse. Augustine. Ambrose. Você escolhe.

— Ah, sei.

— Eu sou James 0'Gorman. Jimmy, prós amigos. Viu? Eu também tenho cartão.

Entraram no carro. Wednesday disse:

— Se você pensar "A. Haddock" tão bem quanto pensou em "neve", vamos ter bastante dinheiro pra embebedar e alimentar meus amigos esta noite.

— Eu não vou voltar pra prisão.

— Não vai.

— Achei que tínhamos concordado que eu não faria nada ilegal.

— Não vai fazer. Talvez vá ajudar e cooperar com uma pequena conspiração, seguida obviamente do recebimento de dinheiro roubado, mas, confie em mim, você vai sair dessa sem nenhum arranhão.

— Isso vai acontecer antes ou depois de o velho eslavo esmagar minha cabeça com uma porrada?

— A visão dele está falhando, provavelmente vai errar. Agora, a gente ainda tem um pouco de tempo pra matar... afinal, o banco fecha ao meio-dia no sábado. Quer almoçar?

— Quero. Estou morrendo de fome.

— Eu sei exatamente aonde a gente pode ir — disse Wednesday. Ele cantarolava, enquanto dirigia, uma música alegre que Shadow não conseguia identificar. Flocos de neve começaram a cair, exatamente como Shadow tinha imaginado, e ele sentiu-se estranhamente orgulhoso. Sabia, racionalmente, que não tinha nada a ver com a neve, da mesma maneira que sabia que o dólar de prata que carregava no bolso não era e nunca havia sido a Lua. Mesmo assim...

Pararam em frente a uma construção grande que parecia um galpão. Um aviso dizia que o bufe livre de almoço custava US$ 4.99.

— Eu adoro este lugar — disse Wednesday.

— A comida é boa?

— Não exatamente. Mas o ambiente é imperdível.

O ambiente que Wednesday adorava revelou-se, depois de terminado o almoço (Shadow comeu frango frito e gostou), ser o negócio que tomava o fundo do galpão: era, como a faixa pendurada no meio do salão anunciava, um Depósito de Liquidação de Estoques de Empresas Falidas e Liquidadas.

Wednesday voltou ao carro e reapareceu com uma pasta pequena que levou para o banheiro. Shadow calculou que logo, logo saberia o que Wednesday estava aprontando, quer quisesse ou não, e começou a percorrer os corredores da liquidação, examinando as coisas à venda: caixas de café "para serem usadas apenas cm filtros de companhias aéreas"; brinquedos das Tartarugas Ninja e bonecas de liarem Xena: a Princesa Guerreira; ursinhos de pelúcia que tocavam melodias patrióticas no xilofone quando eram ligados; latas de carne industrializada; galochas e diferentes tipos de protetores de sapatos; marshmallows; relógios de pulso da campanha presidencial de Bill Clinton; miniaturas de árvores de Natal artificiais; saleiros e pimenteiros no formato de animais, frutas, partes do corpo e freiras; e, o preferido de Shadow, um kit de homem de neve "só precisa adicionar uma cenoura de verdade", com olhos de carvão de plástico, um cachimbo de espiga de milho e um chapéu de plástico.

Shadow ficou pensando em como é que se fazia a Lua sair do céu e se transformar cm um dólar de prata, e o que fazia uma mulher sair do túmulo e cruzar a cidade para falar com você.

— Não e um lugar maravilhoso? — perguntou Wednesday, quando saiu do banheiro.

Como suas mãos ainda estavam molhadas, ele as enxugava em um lenço:

— As toalhas de papel acabaram.

Lie tinha trocado de roupa. Agora vestia uma jaqueta azul-escura com calças combinando, uma gravata de tricô azul, um suéter grosso azul, uma camisa branca e sapatos pretos. Estava parecendo um guarda de segurança, e foi o que Shadow disse.

— O c[ue eu posso dizer a respeito disso, moço? — disse Wednesday, pegando uma caixa flutuante, de plástico, de peixes para aquário. (Eles nunca vão desbotar — e você nunca vai precisar alimentá-los!!!) — Além de cumprimentá-lo por sua perspicácia? O que você acha de Arthur Haddock? Arthur é um bom nome.

— Muito mundano.

— Bom, então pensa em alguma coisa. Pronto. Vamos voltar pra cidade. Precisamos ser bem pontuais no nosso roubo ao banco, e daí eu devo gastar um pouquinho de dinheiro.

— A maior parte das pessoas — disse Shadow — simplesmente pegaria dinheiro no caixa eletrônico.

— O que é, estranhamente, mais ou menos o que eu estava pensando em fazer.

Wednesday parou o carro no estacionamento do supermercado do outro lado da rua, em frente ao banco. Tirou a caixa de metal do porta-malas do carro, uma prancheta e um par de algemas. Algemou a caixa ao pulso esquerdo. A neve continuava a cair. Então, colocou um boné pontudo e azul, e prendeu um pedaço de pano com velcro no bolso do peito da jaqueta. Estava escrito A1 SEGURANÇA, tanto no boné quanto no pedaço de pano. Colocou os formulários de depósito na prancheta. Então simulou uma corcunda. Parecia um policial aposentado e cansado e, de alguma maneira, parecia ter adquirido barriga.

— Agora vai e faz umas compras no supermercado e fica por perto do telefone. Se alguém perguntar, você está esperando uma ligação da sua namorada porque o carro dela quebrou.

— E por que ela está me ligando lá?

— Como é que eu vou saber?

Wednesday colocou um par de protetores de orelha cor-de-rosa desbotado. Ele fechou o porta-malas. Flocos de neve se alojaram em seu boné azul escuro e em seus protetores de orelha.

— Estou bem?

— Ridículo — disse Shadow.

— Ridículo?

— Ou idiota, talvez.

— Humm. Idiota e ridículo. Está bom — e sorriu.

Os protetores de orelha faziam com que ele parecesse, ao mesmo tempo, tranqüilizador, engraçado e, em último caso, adorável. Ele saiu andando rápido pelo meio da rua e percorreu o quarteirão até o prédio do banco, enquanto Shadow entrava no supermercado e observava.

Wednesday grudou um enorme aviso de "fora de funcionamento" no caixa eletrônico. Colocou uma fita vermelha fechando o buraco do caixa eletrônico, c colou uma cópia de um aviso em cima dele. Shadow achou divertido:

PARA SUA CONVENIÊNCIA, dizia, ESTAMOS TRABALHANDO PARA MELHORAR OS SERVIÇOS. PEDIMOS DESCULPAS PELO TRANSTORNO TEMPORÁRIO.

Então se virou de frente para a rua. Parecia frio e imponente.

Uma moça apareceu para usar o caixa eletrônico. Wednesday sacudiu a cabeça, explicando que estava quebrada. Ela disse um palavrão, depois pediu desculpas e foi embora correndo.

Um carro parou e um homem desceu segurando um malote cinzento e uma chave. Shadow observava enquanto Wednesday pedia desculpas ao homem. Então fazia com que ele assinasse a prancheta, checava o formulário de depósito, escrevia um recibo com dificuldade e se atrapalhava sobre qual cópia guardar para si. Finalmente, abria sua caixa de metal e colocava o malote do homem lá dentro.

O homem tremia na neve, batendo os pés no chão, esperando o velho guarda de segurança acabar com sua tolice administrativa para que pudesse deixar seus ganhos, sair do frio e tomar seu rumo. Então pegou o recibo e voltou para o carro quente e deu a partida.

Wednesday atravessou a rua carregando a caixa e comprou um café no supermercado.

— Boa tarde, moço — ele disse, com uma risadinha, como se fosse alguém da família, quando passou por Shadow. — Está bem frio, hein?

 

Voltou para o outro lado da rua e recolheu malotes e envelopes de gente que vinha depositar seus ganhos ou seus pagamentos naquela tarde de sábado, um ótimo segurança com seus protetores de orelha cor-de-rosa engraçados.

Shadow comprou algumas coisas para ler — Turky Hunting, People e, porque a ilustração de capa do Pé Grande era tão cativante, a Weekly Worid News — e ficou olhando para o lado de fora da janela.

— Posso ajudar em alguma coisa? — perguntou um homem negro de meia-idade, com um bigode branco. Ele parecia ser o gerente.

— Obrigado, cara, mas não. Estou esperando uma ligação. O carro da minha namorada quebrou.

— Deve ser a bateria. As pessoas esquecem que essas coisas só duram uns três, talvez quatro anos. E nem custam uma fortuna.

— Nem me diga.

— Fica firme, cara — disse o gerente, que voltou pra dentro do supermercado.

A rua coberta de neve lembrava o interior daquelas bolas de vidro que têm uma paisagem com água dentro e alguma coisa branca que parece neve caindo... era perfeito.

Shadow observava seu chefe, embasbacado. Incapaz de ouvir as conversas do outro lado da rua, parecia que estava assistindo a uma boa performance de filme mudo, toda pantomima e expressão: o velho guarda de segurança era bronco, solene... talvez um pouco atrapalhado, mas enormemente bem-intencionado. Todo mundo que entregava dinheiro a ele ia embora um pouco mais feliz por tê-lo conhecido.

E foi então que os guardas estacionaram na frente do banco. O coração de Shadow ficou apertado. Wednesday cumprimentou-os colocando a mão no boné e caminhou vagarosamente até o carro. Ele disse seus "olás" e apertou mãos através da janela aberta, e assentiu com a cabeça. Examinou os bolsos até encontrar um cartão de visita e uma carta, e passou-os pela janela do carro, enquanto dava um gole no café.

O telefone tocou. Shadow pegou o fone do gancho e fez o que pôde para parecer entediado:

— Al Serviços de Segurança.

— Posso falar com A. Haddock? — perguntou o guarda do outro lado da rua.

— Aqui é Andy Haddock falando.

— Sim, senhor Haddock, aqui é a polícia. Você mandou um homem para o banco First Illinois na esquina da Market com a Second?

— Humm, mandei sim. Está certo. É Jimmy O'Gorman. E qual é o problema, senhor policial? Jim está se comportando? Ele não andou bebendo, andou?

— Nenhum problema, senhor. Seu homem está bem. Eu só queria me certificar de que tudo estava em ordem.

— Diz ao Jim que se ele for pego bebendo de novo, será despedido. Entendeu? Desempregado. Com um pé na bunda. Nossa tolerância é zero na Al Segurança.

— Sinceramente, acho que não é meu papel dizer isso. Ele está fazendo um ótimo trabalho. Nós só estamos preocupados porque uma coisa dessas deveria ser feita por dois profissionais. É perigoso ter só um guarda desarmado para lidar com quantidades tão grandes de dinheiro.

— Nem me diga. Ou melhor, diga aos muquiranas do banco First Illinois. São os meus homens que estou colocando na linha de fogo. Homens bons. Homens como você.

Shadow achou que estava incorporando aquela identidade. Ele podia sentir que estava se transformando em Andy Haddock, com bitucas de cigarro barato no cinzeiro, pilhas de papel para analisar naquela tarde de sábado, uma casa em Schaumburg e uma amante em um apartamentinho na Lake Shore Drive.

— Sabe, você parece ser um policial moço e inteligente, senhor, hmm...

— Myerson.

— Policial Myerson. Se quiser fazer um bico de fim de semana, ou se deixar a polícia por algum motivo, dê uma ligada. Nós sempre precisamos de bons homens. Guardou o meu cartão?

— Sim, senhor.

— Muito bom — disse Andy Haddock. — E me liga.

O carro de polícia foi embora, e Wednesday confundiu-se novamente com a neve para cuidar da pequena fila de pessoas que estava esperando para entregar dinheiro a ele.

— Tudo bem com ela? — perguntou o gerente, colocando a cabeça na porta. — Sua namorada?

— Era a bateria. Agora é só esperar.

— Mulheres — disse o gerente. — Espero que valha a pena esperar pela sua. A escuridão do inverno desceu, a tarde transformou-se lentamente em noite. Luzes se acenderam. Mais gente deu dinheiro a Wednesday. De repente, como se Wednesday tivesse recebido algum sinal, ele caminhou até a parede, retirou os avisos e atravessou a rua coberta de neve derretida com dificuldade, indo em direção ao estacionamento. Shadow esperou um minuto e então o seguiu.

Wednesday estava sentado no banco de trás do carro. Ele havia aberto a caixa de metal e, metódico, arrumava tudo que recebeu em pilhas organizadas.

— Você dirige. A gente vai pro banco First Illinois lá na rua State.

— Vai repetir a performance? — perguntou Shadow. — Não seria meio que abusar da sorte?

— De jeito nenhum. Vamos fazer umas transações bancárias. Enquanto um dirigia, o outro, sentado no banco de trás, removia aos punhados as notas dos malotes de depósito, deixando os cheques e os cupons de cartão de crédito, e tirando o dinheiro de alguns envelopes, mas não todos. Colocou o dinheiro de volta na caixa de ferro. Shadow estacionou perto do banco, parando o carro a cerca de 50 metros, bem fora do alcance da câmera. Wednesday desceu do carro e enfiou os envelopes no buraco do caixa eletrônico. Então abriu o cofre noturno e colocou os malotes cinzentos lá dentro. Fechou-o novamente.

Entrou no carro e sentou-se no assento do passageiro.

— Agora vamos para a estrada 190. Siga as placas pra oeste... pra Madison. Shadow deu a partida.

Wednesday virou para trás e olhou o banco que estavam deixando.

— Aí esta, meu rapaz. Isso vai confundir tudo. Mas, pra pegar dinheiro grande mesmo, c preciso fazer isso mais ou menos às quatro e meia da manhã de domingo, quando as boates e os bares depositam os lucros de sábado à noite. Se você acertar o banco certo e o cara certo fazendo o depósito... Geralmente é algum cara grande e honesto, às vezes acompanhado de dois guarda-costas, mas não necessariamente esperto... Aí dá pra "ganhar" 250 mil dólares por uma noite de trabalho.

— Se e tão fácil assim, como é que ninguém mais faz?

— Não e exatamente uma ocupação livre de riscos, especialmente às quatro c meia da manhã.

— Você está dizendo que os guardas ficam mais desconfiados na madrugada?

— Claro que não. Mas os guarda-costas ficam. E a coisa pode ficar preta. Ele passou os dedos por um monte de notas de Cinqüenta, ajuntou um bolinho menor de notas de vinte, pesou o total na mão e entregou ao colega.

— Aqui está. Sua primeira semana de salário. Shadow enfiou o dinheiro no bolso sem contar.

— Então ê isso que você faz pra ganhar dinheiro?

— Raramente. Só quando preciso de uma boa quantidade de uma hora pra outra. No geral, ganho dinheiro de gente que nunca vai saber que foi enganada ou que nunca reclama, mas que frequentemente vai fazer fila pra ser enganada outra vez quando eu voltar ao mesmo lugar.

— Aquele tal de Sweeney disse que você era um enrolador.

— Ele estava certo. Mas isso é o mínimo que eu sou. E o mínimo para o que eu preciso de você, Shadow.

A neve rodopiava à luz dos faróis e contra o pára-brisa à medida que avançavam através da escuridão. O efeito era quase hipnótico.

— Esse ó o único país no mundo — disse Wednesday, quebrando o silêncio, — que se preocupa com o que é.

— O quê?

— O resto sabe bem o que é. Ninguém nunca precisa sair procurando o coração da Noruega. Ou procurar a alma de Moçambique. Eles sabem o que são.

— E daí?

— Só estou pensando alto.

— Então você já esteve em um monte de outros países? Wednesday não disse nada. Shadow olhou para ele.

— Não — falou Wednesday, com um suspiro. — Nunca estive. Pararam para encher o tanque, e Wednesday entrou no banheiro com sua roupa de guarda e sua maleta e saiu com um terno claro e amassado, sapatos marrons e um casaco marrom comprido até os joelhos, que parecia ser italiano.

— Então, quando a gente chegar a Madison, o que acontece?

— Pegamos a auto-estrada 14 a oeste, para Spring Green. Vamos encontrar todo mundo cm um lugar chamado Casa na Pedra. Já foi lá?

— Não — disse Shadow. — Mas vi as placas.

As placas para Casa na Pedra estavam espalhadas por todo lugar nessa parte do mundo: placas oblíquas e ambíguas por todo o Estado de Illinois, Minnesota e Wisconsin, provavelmente até lowa. Quando Shadow viu as placas, ficou pensando: Será que a Casa se equilibrava perigosamente sobre a Pedra? O que havia de tão interessante nessa Pedra? E na Casa? Ele pensou nisso, mas logo esqueceu. Shadow não tinha o hábito de visitar lugares de beira de estrada.

Abandonaram a estrada interestadual em Madison e passaram em frente ao domo do capitólio da cidade, mais uma paisagem perfeita... Então seguiram pelas estradas locais. Depois de mais de uma hora atravessando cidadezinhas com nomes como Black Earth, viraram em uma entrada estreita, passando por vários vasos de flores enormes e salpicados de neve, enfeitados com dragões que pareciam lagartos. O estacionamento ladeado por árvores estava quase vazio.

— Vão fechar logo — disse Wednesday.

— Que lugar é este? — perguntou Shadow enquanto caminhavam pelo estacionamento em direção a uma construção de madeira baixa e desinteressante.

— Ë uma atração de beira de estrada. Uma das melhores. O que significa que é um lugar poderoso.

— Pode repetir?

— É simples — disse Wednesday. — Em muitos países, com o passar dos anos, as pessoas passaram a identificar os lugares poderosos. Às vezes era uma formação natural, ou só um lugar que era, de certa forma, especial. Todo mundo sabia que alguma coisa importante acontecia ali, que havia algum ponto de foco, algum canal, alguma janela pro desconhecido. Por isso construíam templos ou catedrais, ou levantavam um círculo de pedra... Você sabe do que estou falando.

— Mas existem igrejas espalhadas pelos Estados Unidos inteiros — disse Shadow.

— Em todas as cidades. Às vezes, em todos os quarteirões. E, nesse contexto, são tão significantes quanto consultórios de dentistas. Não... nos Estados Unidos as pessoas ainda ouvem o chamado, ou algumas ouvem, se sentem atraídas pelo vazio transcendental e respondem, construindo com garrafas de cerveja um modelo de algum lugar que nunca visitaram, ou então erguendo um morcegário gigante em alguma parte do país onde os morcegos tradicionalmente se recusaram a freqüentar. Lugares de beira de estrada: as pessoas se sentem atraídas para locais onde, em outras partes do mundo, reconheceriam como parte delas mesmas, o que é verdadeiramente transcendental. Compram um cachorro-quente e dão uma volta. Sentem-se satisfeitas ao ponto de não poderem descrever de verdade e contraditoriamente insatisfeitas.

— Você tem umas teorias bem doidas — disse Shadow.

— Não existe nenhuma teoria sobre isso, rapaz. Você já devia ter percebido. Só havia uma bilheteria aberta.

— Paramos de vender entradas daqui a meia hora — disse a garota. — Demora pelo menos duas horas pra visitar tudo, sabe? Wednesday pagou as entradas com dinheiro.

— Cadê a pedra? — perguntou Shadow.

— Embaixo da casa.

 

Cadê a casa?

Wednesday colocou o indicador na frente dos lábios, e continuaram a caminhar, Mais ao fundo, uma pianola tocava algo que deveria ser O Bolero de Ravel. O lugar parecia um apartamento de solteiro dos anos 60 reconfigurado geometricamente, com trabalho em pedra à mostra, um carpete colocado em cima do outro e abajures de vidro colorido em forma de cogumelo, magnificamente horrorosos. Subindo uma escada em caracol, havia outra sala cheia de enfeites.

— Dizem que isto foi construído pelo irmão gêmeo mau de Frank Lloyd Wright — disse Wednesday. — Frank Lloyd Wrong. E riu de sua própria piada.

— Eu vi isso escrito em uma camiseta — comentou Shadow. Subindo e descendo mais escadas, chegaram a uma sala comprida feita de vidro, que se projetava, como uma agulha, por sobre a paisagem branca e preta sem folhas a dezenas de metros abaixo deles. Shadow ficou parado observando a neve cair e rodopiar no ar.

— Esta e a Casa na Pedra? — perguntou, perplexo.

— Mais ou menos. Essa é a Sala do Infinito, parte da própria casa, apesar de ser um acréscimo tardio. Mas não, meu jovem amigo, nós ainda mal arranhamos a superfície do que a casa tem a oferecer.

— Então, de acordo com a sua teoria, a Disney Word seria o lugar mais sagrado dos Estados Unidos?

Wednesday franziu a testa e afagou a barba.

— Walt Disney comprou uns pomares de laranja no meio da Flórida e construiu uma cidade turística em cima deles. Não tem magia nenhuma ali. Acho que pode ter alguma coisa, mesmo na Disneylândia original. Pode existir algum poder lá, apesar de distorcido e difícil de acessar. Mas alguns lugares da Flórida estão cheios de magia. Você só tem que ficar de olhos abertos. Ah, para as sereias de Weeki Wachee... Vamos por aqui.

Por lodo o lugar havia música: um som estridente e esquisito, sempre um pouquinho fora da batida e do tempo. Wednesday pegou uma nota de cinco dólares, colocou-a em uma máquina de troco e recebeu um punhado de moedas cor-de-cobre. Jogou uma para Shadow, que a agarrou e, percebendo que um garotinho o observava, segurou-a entre o polegar e o indicador e a fez desaparecer. O garotinho correu na direção da mãe, que examinava um dos papais-noéis onipresentes — MAIS DE 6 MIL EM EXPOSIÇÃO! diziam os cartazes — e se escondeu com urgência sob a barra do casaco dela.

Shadow seguiu Wednesday para fora da casa por um instante, e então seguiu as placas para as Ruas de Ontem.

— Há quarenta anos, Alex Jordan... o rosto dele está na lembrancinha que você escondeu na mão direita... começou a construir uma casa numa saliência de pedra em um campo que não era seu e nem mesmo ele sabia por quê. Vinha gente de todo lugar ver a construção... os curiosos, os perplexos, e aqueles que não pertenciam a nenhuma dessas categorias, mas que não sabiam dizer com honestidade por que tinham vindo. Então ele começou a fazer o que qualquer homem sensato da sua geração faria: começou a cobrar... não muito. Cinco centavos cada um, talvez. Ou 25 centavos. E continuou construindo, e as pessoas continuaram a vir. Juntou todas as moedas de 25 e de 5 centavos e fez uma coisa ainda maior e mais estranha. Construiu esses depósitos debaixo da casa, e encheu de coisas pras pessoas virem e verem, e elas vieram. Milhões de pessoas vêm aqui todo ano.

— Por quê?

Mas Wednesday simplesmente sorriu, e eles caminharam pelas Ruas de Ontem ladeadas de árvores. Uma profusão de bonecas de porcelana vitorianas, com lábios afetados, olhava para os dois através de vitrinas empoeiradas, como o enredo de tantos filmes de terror respeitáveis. Andavam sobre um calçamento de pedrinhas redondas; a escuridão de um teto estava sobre suas cabeças; música estridente tocava ao fundo... Viram uma caixa de vidro cheia de marionetes quebradas e uma caixa de música dourada, grande demais, em uma vitrina. Passaram pelo consultório do dentista e pela farmácia (RESTAURE SUA POTÊNCIA! USE O CINTO MAGNÉTICO O'LEARY).

No final da rua havia uma grande caixa de vidro com um manequim feminino dentro, vestido como uma vidente cigana.

— Então — gritou Wednesday por sobre a música mecânica — no início de qualquer expedição ou empreendimento, cabe a nós consultar as Normas. Então, vamos designar essa Sybil para ser nossa Urd, tá?

Ele colocou uma moeda cor-de-latão da Casa na Pedra no orifício da máquina. Com movimentos mecânicos e irregulares, a cigana levantou o braço e o abaixou. Uma tira de papel saiu de uma abertura.

Wednesday pegou sua sorte, leu, gemeu, dobrou e colocou no bolso.

— Você não vai me mostrar? Eu mostro o meu pra você — disse Shadow.

— A sorte de um homem é assunto dele. Eu não pediria pra ver o seu. Shadow colocou sua moeda. Pegou sua tira de papel e leu.

TODO FINAL É UM RECOMEÇO. SEU NUMERO DA SORTE É NENHUM. SUA COR DA SORTE É MORTE. Lema:

TAL PAI, TAL FILHO.

Fez uma careta. Dobrou a previsão e colocou no bolso de dentro do casaco. Seguiram caminho, percorrendo um corredor vermelho, passando por salas cheias de cadeiras com violinos, violas e violoncelos que tocavam sozinhos, ou pareciam fazê-lo, quando se colocava uma moeda no local apropriado. Teclas pareciam ser pressionadas, címbalos batiam uns contra os outros, canos mandavam ar comprimido para dentro de clarinetas e oboés. Shadow observava, com um deleite irônico, que os arcos dos instrumentos de cordas, tocados por braços mecânicos, nunca encostavam nas cordas de fato, que geralmente estavam frouxas ou nem existiam. Ficou se perguntando se os sons que ouvia eram mesmo feitos de ar e percussão, ou se eram fitas gravadas.

Andaram o que parecia ser muitos quilômetros quando chegaram a uma sala chamada Mikado, com uma parede que era um pesadelo pseudo-oriental do século XIX, cm que percussionistas mecânicos com sobrancelhas de taturana tocavam pratos e tambores dentro de seus covis incrustados de dragões. Naquele momento, torturavam majestosamente a Danse Macabre, de Saint-Saèns.

Czcrnobog estava sentado em um banco na parede, em frente da máquina Mikado, marcando tempo com os dedos. Gaitas assobiavam e sinos badalavam sem harmonia.

Wednesday sentou-se ao lado dele. Shadow preferiu ficar de pé. Czernobog estendeu a mão esquerda e cumprimentou os dois.

— Muito bem, nos encontramos.

Então se acomodou sobre o banco, aparentemente apreciando a música. A Danse Macabre chegou a um fim tempestuoso e nada harmonioso. O fato de que todos os instrumentos artificiais estivessem um pouquinho desafinados era um toque a mais ao aspecto sobrenatural do lugar. Uma nova melodia começou.

— Como foi o assalto ao banco? — perguntou Czernobog a Wednesday. — Deu certo?

Ele se levantou, relutante, para abandonar o Mikado e sua música estridente e atordoante.

— Correu tão bem quanto uma cobra em um cano cheio de manteiga.

— Eu recebo uma pensão do matadouro e não peço mais nada.

— Não vai durar pra sempre... Nada dura.

Mais corredores, mais máquinas musicais. Shadow percebeu que eles não estavam seguindo o caminho desenhado para os turistas, mas pareciam seguir uma rota diferente, de acordo com o desejo de Wednesday. Desceram uma ladeira, e Shadow, confuso, se perguntou seja não tinham passado por ali.

Czernobog agarrou o braço de Shadow.

— Rápido, venha por aqui — e o puxou na direção de uma grande caixa de vidro perto de uma parede.

Dentro dela havia uma montagem de um mendigo dormindo em um cemitério, na frente da porta de uma igreja. O SONHO DO BÊBADO, dizia o título, explicando que aquela era uma máquina do século XIX que funcionava com moedas, originária de uma estação de trem inglesa. A abertura das moedas fora modificada para aceitar as moedas da Casa na Pedra.

— Coloque o dinheiro — disse Czernobog.

— Por quê? — perguntou Shadow.

— Você precisa ver. Eu mostro pra você.

Shadow inseriu a moeda. O bêbado no cemitério levou a garrafa aos lábios. Uma das lápides moveu-se, revelando um cadáver com os braços estendidos, como se quisesse agarrar alguma coisa; um túmulo virou de ponta-cabeça e as flores foram substituídas por uma caveira sorridente. Um espectro apareceu à direita da igreja, ao mesmo tempo em que, à esquerda, alguma coisa com um rosto pontudo que lembrava um pássaro, como um pesadelo de Bosch, podia ser vislumbrada deslizando suavemente de dentro de um túmulo e desaparecendo em seguida. Então a porta da igreja se abriu, um padre saiu, e os fantasmas, as assombrações e os cadáveres desapareceram, e só o padre e o bêbado foram deixados no cemitério. O padre olhou para o bêbado com desprezo, e voltou pela porta aberta, que se fechou atrás dele, deixando o bêbado sozinho.

A história movida a corda era profundamente desconcertante. Muito mais, pensou Shadow, do que qualquer mecanismo que já vira antes.

— Você sabe por que eu mostrei isso pra você?

— Não.

— Isso representa o mundo como ele é. Esse é o mundo de verdade. Está lá, naquela caixa.

Passearam por uma sala cor de sangue cheia de órgãos de teatro antigos, com tubos enormes, e o que pareciam ser tonéis de cobre para fermentação, saídos de uma fábrica de cerveja.

— Aonde estamos indo? — perguntou Shadow.

— Para o carrossel — disse Czernobog.

— Mas já passamos pelas placas do carrossel uma dúzia de vezes.

— Ele vai pelo outro lado. Anda em espiral. O caminho mais rápido às vezes é o mais comprido.

Os pés de Shadow começavam a doer, e ele achou essa sensação extremamente imprópria para a ocasião.

Uma máquina mecânica tocava "Octopus's Garden" em uma sala que se estendia por vários andares, cujo centro estava completamente tomado pela réplica de um animal enorme e escuro que se parecia com uma baleia. Em sua boca havia a réplica de um barco em tamanho natural. Dali, passaram para o Corredor de Viagem, onde viram o carro coberto com telhas, a máquina de frango de Rube Goldberg e os anúncios enferrujados da espuma de barbear Burma na parede:

 

A Vida é Dura

É Exaustiva e Problemática

Mantenha seu Rosto

Livre de Pelos Encravados

Espuma de Barbear Burma

Ele enfiou na cabeça que alcançaria seu objetivo

A estrada fazia uma curva

A partir de agora o coveiro

É seu único amigo

Espuma de Barbear Burma

 

Agora estavam na parte debaixo de uma rampa, com uma sorveteria à frente. Estava escrito "aberto" na porta, mas a moça que limpava as mesas tinha a cara fechada, por isso eles passaram pela sorveteria e foram até a pizzaria-lanchonete vazia, a não ser por um senhor negro de idade, que usava um terno xadrez de cores vivas e luvas amarelo-canário. Ele era um homem pequeno, do tipo de velhinho que parecia ter encolhido com o passar dos anos; tomava um sundae enorme, com várias bolas de sorvete, e bebia café de uma caneca gigante. Uma cigarrilha preta queimava no cinzeiro à sua frente.

— Três cafés — disse Wednesday a Shadow. E foi ao banheiro. Shadow comprou os cafés e os levou até Czernobog, que estava sentado com o senhor negro e fumava um cigarro sorrateiramente, como se tivesse medo de ser pego. O outro homem, brincando animadamente com seu sundae, ignorava sua cigarrilha quase C[ue totalmente, mas, à medida que Shadow foi se aproximando, levou-a aos lábios, deu um trago profundo e soprou dois anéis de fumaça — primeiro um grande, depois outro menor, que quase passou através do primeiro — e sorriu, como se estivesse surpreendentemente feliz consigo mesmo.

— Shadow, este é o senhor Nancy — disse Czernobog. O velho se levantou e esticou sua mão direita enluvada.

— Prazer em conhecê-lo — falou com um sorriso radiante. — Eu sei quem você deve ser. Trabalha pró bastardo De-Um-Olho-Só, não é?

Sua voz um pouco fanhosa, dava uma pista de um patoá que poderia ser das Índias Ocidentais.

— Eu trabalho pró senhor Wednesday — disse Shadow. — É, trabalho. Por favor, sente-se.

Czernobog deu um trago no cigarro.

— Eu penso — pronunciou de modo sombrio — que a nossa gente gosta tanto de cigarro porque nos faz lembrar das oferendas que costumavam queimar pra nós, com a fumaça levantando quando buscavam nossa aprovação ou um favor de nossa parte.

— Nunca fizeram nada parecido pra mim — disse Nancy. — O máximo que eu podia esperar era um monte de fruta pra comer, talvez um pouco de bode ensopado, alguma bebida longa, monótona e fresca, e uma mulher de peito grande pra me fazer companhia.

Ele sorriu com seus dentes brancos e deu uma piscadela para Shadow.

— Hoje em dia — disse Czernobog, sem mudar de expressão — não tem nada pra gente.

— Bom, eu não chego nem perto de conseguir a quantidade de fruta que tinha — disse o senhor Nancy, com os olhos brilhando. — Mas não tem nada melhor no mundo que meu dinheiro possa pagar que uma mulher peituda. Alguns caras falam que você tem que inspecionar primeiro o traseiro, mas eu digo que, pra mim, são os peitos que ainda me fazem dar a partida em uma manhã fria.

Nancy começou a rir, uma risada ofegante, agitada, de bom caráter, e Shadow descobriu que gostava do homem, apesar da aparência dele.

Wednesday voltou do banheiro e apertou a mão de Nancy.

— Shadow, você quer alguma coisa pra comer? Um pedaço de pizza? Um sanduíche?

— Não estou com fome.

— Deixa eu falar uma coisa — disse o senhor Nancy. — Pode passar muito tempo até a próxima refeição. Se alguém oferece comida, você aceita. Eu não sou mais tão jovem quanto era, mas posso dizer... nunca perca a oportunidade de mijar, comer ou dar um cochilo de meia hora. Está entendendo?

— Estou. Mas não estou com fome mesmo.

— Você é grandão — disse Nancy, olhando nos olhos cinza-claro de Shadow com seus olhos velhos cor-de-mogno. — Um pedaço de mau caminho, mas eu preciso falar, você não parece muito inteligente. Você me lembra meu filho, que é tão imbecil como se tivesse comprado sua burrice numa liquidação de dois por um.

— Se não se importar, vou considerar isso um elogio.

— Ser chamado de idiota como um homem que dormiu até tarde na manhã que estavam distribuindo cérebros?

— Ser comparado a um membro da sua família. O senhor Nancy amassou sua cigarrilha no cinzeiro, depois tirou um ponto de cinza imaginário de suas luvas amarelas.

— Você pode não ser a pior escolha que o velho de um olho só fez, digamos. Ele olhou para Wednesday:

— Você tem alguma idéia de quantos de nós vão estar presentes nesta noite?

— Eu dei o recado pra todo mundo que consegui encontrar. Obviamente nem todos poderão vir. E alguns deles — olhou diretamente para Czernobog — podem querer não vir. Mas acho que podemos ser confiantes e esperar várias dúzias. E a notícia deve se espalhar.

Passaram por uma exibição de armaduras e Wednesday comentou:

— Falsificação vitoriana, falsificação contemporânea, elmo do século XII sobre uma reprodução do século XVII, protetor de mão esquerda do século XV...

Então Wednesday empurrou uma porta de saída e fez com que eles dessem a volta pelo lado de fora da construção — Não agüento todas essas entradas e saídas — disse Nancy — Já não sou mais tão moço, e venho de um clima mais quente.

Caminharam por um caminho coberto, entrando por outra porta de saída, e logo estavam na sala do carrossel.

Tocava música de órgão a vapor: uma valsa de Strauss, comovente e ocasionalmente fora de harmonia. Logo na entrada, a parede estava cheia de cavalos de carrossel pendurados, centenas deles, alguns precisando de uma demão de tinta, outros precisando de uma boa espanada. Sobre eles estavam pendurados dezenas de anjos alados feitos obviamente a partir de manequins femininos de vitrinas de lojas. Alguns deles revelavam seus peitos nus sem sexo; outros haviam perdido as asas e olhavam para baixo, do meio da escuridão, de maneira sincera e cega.

E então havia o carrossel.

Uma placa proclamava que era o maior do mundo, dizendo quanto pesava, quantos milhares de lâmpadas podiam ser contadas nos lustres que pendiam dele em profusão gótica, e proibia qualquer pessoa de subir e montar em um dos animais.

E que animais! Shadow olhou estupefato, sem disfarçar o espanto, para as centenas de criaturas em tamanho natural que circundavam a plataforma do carrossel. Criaturas reais, criaturas imaginárias e transformações dos dois tipos:

cada criatura era diferente. Ele viu sereia e sereio, centauro e unicórnio, elefantes (um grande, um pequenininho), buldogue, sapo e fénix, zebra, tigre, manticora e basilisco, cisnes puxando uma carruagem, um touro branco, uma raposa, morsas gêmeas, até uma serpente do mar, todos eles pintados com cores fortes e mais do que reais: cada um deles rodou na plataforma quando a valsa chegou ao fim e uma nova valsa começou a tocar. O carrossel nem mesmo diminuiu a velocidade.

— Pra que serve? — perguntou Shadow. — Quer dizer, tudo bem, é o maior do mundo, centenas de animais, milhares de lâmpadas, e fica rodando o tempo todo, mas ninguém brinca nele.

— Não foi feito pra se brincar nele. Está aí para ser admirado. Simplesmente está aí para ser.

— Como uma roda de oração que gira sem parar, acumulando poder. — disse o senhor Nancy.

— Então, onde é que vamos encontrar todo mundo? — perguntou Shadow. — Eu pensei que você tinha dito que a gente ia se encontrar aqui. Mas o lugar está vazio.

Wednesday mostrou seu sorriso assustador.

— Shadow, você está fazendo perguntas demais. Eu não te pago pra isso.

— Desculpa.

— Agora, fica ali e ajuda a gente — disse Wednesday enquanto andava até um dos lados da plataforma, que trazia uma descrição do carrossel e um aviso de que o brinquedo não deveria ser usado.

Shadow pensou em dizer alguma coisa, mas, ao invés disso, ajudou-os, um por um, a subir na base. Wednesday parecia profundamente pesado, Czernobog subiu sozinho, só usando o ombro de Shadow para se equilibrar, Nancy parecia não pesar absolutamente nada. Cada um dos velhos subiu na base e então, com um passo e um pulo, passaram para a plataforma rodopiante do carrossel.

— Bom? — vociferou Wednesday. — Você não vem?

Shadow, com certa hesitação, olhou para ver se não havia nenhum segurança de plantão e lançou-se até a base ao lado do maior carrossel do mundo. Ele se surpreendeu e ficou um pouco confuso ao perceber que estava muito mais preocupado em quebrar as regras e subir no carrossel do que ajudar e ser cúmplice no assalto ao banco daquela tarde.

Cada um dos velhos escolheu uma montaria. Wednesday subiu em um lobo dourado. Czernobog subiu em um centauro de armadura com o rosto escondido por um elmo de metal. Nancy, dando risadas, deslizou para cima de um enorme leão no meio de um pulo, capturado no instante do rugido pelo escultor. Deu alguns tapinhas no lombo do leão. A valsa de Strauss os carregava em círculos de maneira majestosa.

Wednesday sorria, Nancy ria com prazer a gargalhada de um velho e até o sério Czernobog parecia estar se divertindo. Shadow se sentia como se tivessem tirado um peso de suas costas: três velhos se divertiam, brincando no maior carrossel do mundo. E daí se todos eles fossem expulsos do local? Será que não valia à pena se divertir naquele brinquedo? Será que não valia a pena ter passeado sobre um daqueles monstros gloriosos?

Shadow inspecionou um buldogue, uma criatura do mar e um elefante com uma sela dourada, e então subiu nas costas de uma criatura com cabeça de águia e corpo de tigre, e segurou firme.

O ritmo da valsa "Danúbio Azul" ondulava, tocava e cantava em sua cabeça, a luz de mil lustres brilhava e formava minúsculos arco-íris e, durante um piscar de olhos, Shadow foi mais uma vez criança. Tudo que era necessário para deixá-lo feliz era uma volta no carrossel: estava perfeitamente imóvel, montado em sua águia-tigre no centro de tudo, e o mundo girava ao seu redor.

Shadow se pegou sorrindo. Ele estava feliz. Era como se as últimas 36 horas nunca tivessem acontecido, como se os últimos três anos não tivessem passado, como se a vida dele se evaporasse naquele delírio de criancinha. Recordou seu passeio de carrossel no Golden Gate Park, em São Francisco, em sua primeira viagem pelos Estados Unidos, uma jornada-maratona de carro e de barco, com sua mãe, olhando para ele com orgulho, e ele segurando firme e chupando seu pirulito, torcendo para que a música nunca mais acabasse, que o carrossel nunca mais diminuísse a velocidade e que a brincadeira nunca mais terminasse. Ele dava voltas e voltas e mais voltas...

Então as luzes se apagaram, e Shadow viu os deuses.

 

                                         CAPITULO SEIS

Wide open and unguarded siand our gales, And through (fiem passes a wild motiey throng. Menfrom Volga and Tartar steppes.

Featureless figures from the Hoang-ho, Malayan, Scythian, Teuton, Kelt and Siav, Flying the Oid World's poverty and scorn;

These bringing wlth them unknown gods and rites, Those tiger passions here to siretch thir claws,

In street and alley what strange langues are these, Accents of menace in our ear,

Voices that once the Tower of Babel knew. [6]

Thomas Bailey Aldrich, "The Vnguardcd Gales", 1882

Em um instante, Shadow brincava no Maior Carrossel do Mundo, segurando-se num tigre com cabeça de águia e, de repente, as luzes vermelhas e brancas do carrossel ficaram mais fortes, tremeram e se apagaram, e era como se ele estivesse caindo através de um oceano de estrelas, ao mesmo tempo em que a valsa mecânica era substituída por um rufar de tambores e um estrondo de pratos, como se fossem címbalos ou ondas quebrando nas orlas de um oceano distante.

A única luz era a das estrelas, que iluminava tudo com uma claridade fria. Sob ele, a montaria se espreguiçava e ia ficando fofa, com sua pelagem quente sob sua mão esquerda e as penas sob a direita.

— É um brinquedo legal, não é?

A voz vinha de trás dele, invadindo seus ouvidos e sua mente.

Shadow se virou lentamente, captando imagens de si mesmo enquanto se movia, movimentos congelados, cada um visualizado durante uma fração de segundo, durando um período infinito. As imagens que chegavam ao seu cérebro não faziam sentido: era como ver o mundo através dos olhos multifacetados de uma libélula, mas cada faceta via uma coisa completamente diferente da outra, como uma pedra preciosa lapidada, e ele não era capaz de conectar o que via, ou pensava que via, em um todo que fizesse sentido.

Ele olhava para o senhor Nancy, um velho negro com um bigodinho que parecia ter sido desenhado a lápis, com sua jaqueta esporte xadrez e suas luvas amarelo-limão, montado em um leão de carrossel que subia e descia, ia alto no céu. E, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, ele via uma aranha encravada de pedras preciosas tão alta quanto um cavalo, seus olhos pareciam uma nebulosa de esmeraldas, e ela andava toda empertigada, olhando diretamente para ele. Via também um homem bastante alto com pele amarelada e três pares de braços, usando um cocar repleto de penas de avestruz, com o rosto pintado com listras vermelhas, montado sobre um leão dourado irritado, com duas de suas seis mãos segurando firmemente na juba do animal. Havia também um menininho negro, vestido em farrapos, com o pé esquerdo todo inchado e se arrastando no meio de moscas pretas. Por último, atrás de todas essas coisas, Shadow via um aranha marrom bem pequena, escondida sob uma folha seca de cor ocre.

Ele via todas essas coisas e sabia que eram iguais.

— Se você não fechar a boca — disseram as muitas coisas que eram o senhor Nancy — alguma coisa vai entrar aí.

Shadow fechou a boca e engoliu, com força.

Havia um salão de madeira em uma montanha, à distância de mais ou menos dois quilômetros. Eles trotavam em direção ao salão, com os cascos e os pés de suas montarias percorrendo a areia seca da beira do mar sem fazer barulho.

Czernobog trotava sobre o seu centauro. Deu um tapinha no braço humano de sua montaria.

— Nada disto está acontecendo... — disse a Shadow. Ele parecia enormemente triste.

— Está tudo na sua cabeça. Melhor não pensar nisso.

Ê verdade que Shadow enxergava um velho imigrante do Leste Europeu com cabelo grisalho, usando uma capa de chuva surrada e com um dente cinzento. Mas ele também via uma coisa preta corpulenta, mais escura do que a escuridão que os envolvia, seus olhos eram dois carvões em brasa; e ele via um príncipe, com cabelos longos e negros esvoaçando ao vento e com um bigode longo e negro, com sangue nas mãos e no rosto, montado, nu a não ser por uma pele de urso sobre os ombros, em cima de uma criatura meio homem, meio animal, com o rosto e o torso tatuados com redemoinhos e espirais azuis.

— Quem é você? — perguntou Shadow. — O que você é? As montarias percorriam a orla. Ondas quebravam e baliam implacavelmente sobre a praia noturna.

Wednesday guiava seu lobo — agora um animal enorme e cor-de-carvão, com olhos verdes— na direção do amigo. A montaria de Shadow se desviava... e ele acariciou o pescoço do animal e sussurrou para não ter medo. A cauda do bicho assobiou com agressividade. Ocorreu a Shadow que havia um outro lobo, gêmeo daquele que Wednesday montava, que mantinha o mesmo ritmo que eles sobre as dunas de areia, saindo do campo de visão apenas por um instante.

— Você me conhece, Shadow? — disse Wednesday.

Ele estava montado em seu lobo com a cabeça empinada. O olho direito brilhava e emitia clarões de luz, o olho esquerdo parecia entorpecido. Ele usava uma capa com um capuz grande, parecido com o de um monge, c seu rosto aparecia na escuridão.

— Eu disse que eu contaria os meus nomes pra você. É assim que me chamam. Eu me chamo Feliz-com-a-Guerra, Sem-Coração, Agressor e Terceiro. Eu sou o De-Um-Olho-Só. Me chamam de Superior e de Adivinho-de-Verdade. Eu sou Grimnir, e eu sou o Encapuzado. Eu sou o Pai de Todos e sou Gondiir Que-Leva-a-Varinha. Eu tenho tantos nomes quanto os ventos, tantas denominações quanto maneiras de morrer. Meus corvos são Huginn e Muninn, Pensamento e Memória; meus lobos são Freki e Geri; meu cavalo é a forca.

Dois corvos de uma cor cinzenta e fantasmagórica, como as peles transparentes de dois pássaros, pousaram nos ombros de Wednesday, enfiaram os bicos dentro das laterais de sua cabeça como se estivessem experimentando o gosto da mente dele, e bateram as asas em direção ao mundo mais uma vez.

No que eu devo acreditar?, pensou Shadow, e a voz voltou a ele de algum lugar bem profundo, sob o mundo, em um trovejar grave: Acredite cm tudo.

— Odin? — disse Shadow, e o vento varreu a palavra de seus lábios.

— Odin — sussurrou Wednesday, e a batida das ondas quebrando na praia de caveiras não foi o bastante para afogar o sussurro.

— Odin — disse novamente, experimentando o gosto da palavra na boca.

— Odin — repetiu, com sua voz transformada em um grito triunfante que ecoou de um horizonte ao outro.

Seu nome inchou e cresceu e encheu o mundo como o sangue pulsando nos ouvidos de Shadow.

E então, como num sonho, eles não se dirigiam mais a um salão distante. Já tinham chegado lá, e suas montarias estavam amarradas no estábulo ao lado do salão.

O salão era enorme, porém primitivo. O telhado era de palha e as paredes, de madeira. Havia uma fogueira queimando no meio do salão, e a fumaça fez arder os olhos de Shadow.

— Deveríamos ter feito isso na minha cabeça, não na dele — resmungou o senhor Nancy para Shadow. — Ela estaria mais quente.

— Nós estamos na cabeça dele?

— Mais ou menos. Isso aqui é Valaskjalf, um antigo salão que pertencia a ele.

Shadow ficou aliviado ao ver que Nancy era novamente um velho com luvas amarelas, apesar de sua sombra se agitar e tremer, e se transformar à luz do fogo em coisas que não eram inteiramente humanas.

Havia bancos de madeira encostados nas paredes e umas dez pessoas sentadas ou de pé. Mantinham-se a certa distância um do outro: um grupo heterogêneo, que incluía uma senhora com cara de matrona, de pele escura e usando um sári vermelho, vários executivos surrados e outros, próximos demais ao fogo para que Shadow pudesse distingui-los.

— Onde estão todos? — sussurrou Wednesday para Nancy, com ferocidade. — Bom? Cadê todo mundo? Deveria haver dúzias de nós aqui. Montes!

— Você fez os convites. Acho que é uma surpresa ter conseguido os que estão aqui. Você acha que devo contar uma história pra começar? Wednesday sacudiu a cabeça:

— De jeito nenhum.

— Eles estão com cara de poucos amigos — disse Nancy. — Uma história é um bom método pra alguém passar pró seu lado. E você não tem nenhum bardo pra cantar pra essas pessoas.

— Sem história — disse Wednesday. — Não. Mais tarde teremos tempo pra contar histórias. Agora, não.

— Tudo bem. Então vou só quebrar o gelo. E, com um sorriso espontâneo, o senhor Nancy passou para onde a luz do fogo o iluminasse e começou a falar...

— Eu sei o que vocês todos estão pensando... O que o Compé Anansi está fazendo, vindo falar com a gente, quando foi o Pai de Todos que chamou todo mundo aqui, do mesmo jeito que me chamou? Bom, às vezes as pessoas precisam ser lembradas de algo. Eu olhei em volta quando entrei e falei: cadê o resto? Mas daí eu pensei, só somos fracos porque somos poucos e existem muitos, e eles são poderosos, mas não quer dizer que estamos perdidos. Sabe, uma vez eu vi um tigre na beira do poço: ele tinha os testículos maiores do que qualquer outro animal, garras muito afiadas e dois dentes da frente tão compridos quanto facas, e tão cortantes quanto lâminas. Eu disse pró Irmão Tigre ir nadar que eu cuidaria do seu saco. Ele tinha tanto orgulho do saco. Então, entrou no poço pra nadar, e eu peguei o saco dele, e deixei o meu, de aranha, pra ele. E daí, vocês sabem o que eu fiz? Eu fugi, corri tão rápido quanto as minhas pernas permitiam. E não parei até chegar à próxima cidade. E eu vi o Macaco Velho lá. "Você está ótimo, Anansi", disse o Macaco Velho. Eu disse a ele, "Sabe o que todo mundo está cantando naquela cidade?" "O que todo mundo está cantando?", ele pergunta para mim. "Estão cantando uma música muito engraçada." Então eu inventei uma dança, e cantei:

 

Tigers balls, yeah,

l ate Tiger's balis

Now ain't nobody gonna stop me ever at all

Nobody put me up against the big black all

'Cos I ate that Tigers testimoniais

I ate Tigers balls. [7]

 

E continuou...

— O macaco velho riu até quase explodir, segurando a barriga e tremendo, e batendo os pés no chão. Então começou a cantar Tigers balis, I ate Tigers balis, estalando os dedos e dando piruetas com os dois pés. "Essa é uma linda canção", ele diz, "vou cantar para todos os meus amigos. Faça isso e volte pró poço". Lã na beira está o Tigre, andando pra cima e pra baixo, com o rabo balançando e assobiando e com as orelhas e os pelos da nuca o mais eriçados possível, dando mordidas em cada inseto que se aproxima, com seus dentes de sabre enormes e com os olhos brilhando como fogo alaranjado. Ele parece mau e assustador e grande, mas balançando entre as pernas estão os menores testículos, balançando no menor e mais enrugado saco que você já viu na vida. "Ei, Anansi", ele diz quando me vê. "Você deveria ter guardado meu saco enquanto eu nadava. Mas quando saí do poço, não tinha nada na margem além deste saco de aranha preto e enrugado que-não-serve-pra-nada." "Eu fiz o melhor que pude, mas foram aqueles macacos... eles vieram aqui e comeram todo o seu saco, e quando eu mandei eles irem embora, arrancaram o meu próprio saquinho. E eu fiquei com tanta vergonha que fugi." "Seu mentiroso", diz o Tigre. "Eu vou comer seu fígado." Mas então ele ouve os macacos se aproximando, vindos da cidade até o poço. Uma dúzia de macacos alegres, dançando pelo caminho, estalando os dedos e cantando o mais alto que podiam...

 

Tigers balls, yeah,

l ate Tigers balis

Now ain't nobody gonna stop me ever at alli

Nobody put me up against the big black wall

'Cos l ate that Tigers testimonials

I ate Tigers balis.

 

E acabou, dizendo:

— E o Tigre rosna, ruge e se lança na floresta atrás deles... os macacos guincham e correm pras árvores mais altas. E eu coço meu maravilhoso saco novo c grande, devo dizer, que ficou bem confortável pendurado entre as minhas pernas magricelas, e vou caminhando pra casa. E, até hoje, o Tigre continua caçando os macacos. Então, lembrem-se: só porque vocês são pequenos, não quer dizer que não tenham poder.

Nancy sorriu, fez uma mesura com a cabeça e esticou as mãos, aceitando os aplausos e as risadas como um profissional, então se virou e caminhou de volta para o lugar onde Shadow e Czernobog estavam.

— Acho que eu tinha dito "nada de histórias" — disse Wednesday.

— Você chama isso de história? Eu mal limpei a garganta. Só aqueci o pessoal pra você. Vai lá c arrasa.

Wednesday foi até um lugar onde a luz do fogo o iluminasse, um velho com um olho de vidro, um terno marrom e um casaco Armani velho. Ficou em pé ali, olhando para as pessoas nos bancos de madeira, sem dizer nada por mais tempo do que Shadow pensou que alguém pudesse se sentir confortável sem dizer nada. E, finalmente, falou.

— Vocês me conhecem. Todos me conhecem. Alguns não têm motivo pra gostar de mim, mas, gostem ou não, vocês me conhecem.

Ouviu-se um murmúrio, uma agitação entre as pessoas nos bancos.

— Eu estou aqui há mais tempo do que a maior parte de vocês, e também achei que a gente poderia se virar com o que tem. Não é o bastante para ficarmos contentes, mas é suficiente pra ir em frente. Mas pode não ser mais o caso. I lá uma tempestade a caminho, e não é uma tempestade do nosso tipo.

Ele fez uma pausa. Deu um passo à frente e cruzou os braços sobre o peito.

— Quando as pessoas vieram prós Estados Unidos, elas nos trouxeram junto. Trouxeram eu, Loki e Thor, Anansi e o Deus-Leão, Leprechauns e Kobolds e Banshees, Kubera e Frau Holie e Ashtaroth, e trouxeram vocês. Viemos até aqui na cabeça dessa gente e criamos raízes. Viajamos com os colonizadores pró Novo Continente do outro lado do oceano. A terra é vasta. Mas o tempo passou e nosso povo nos abandonou, lembrando de nós apenas como criaturas do Velho Continente, como coisas que não tinham vindo com elas pró Novo. Quem acreditava verdadeiramente em nós morreu, ou parou de acreditar, e fomos abandonados, ficamos perdidos, assustados e sem posses, vivendo de migalhas de adoração e de crença que podíamos encontrar. E fomos sobrevivendo da melhor maneira possível. Então foi isso que fizemos, sobrevivemos à margem das coisas, onde ninguém prestava muita atenção em nós. Hoje temos, vamos admitir, pouca influencia. Fazemos das pessoas nossas presas, tiramos delas e sobrevivemos; nós nos despimos e nos prostituímos e bebemos demais. Pegamos gasolina, roubamos, trapaceamos e existimos nas fendas das margens da sociedade. Somos deuses antigos, aqui neste Novo Continente sem deuses.

Ele fez uma pausa. Encarou cada um de seus ouvintes, com gravidade e com jeito de político. Todos olhavam de volta para ele impassíveis, com rostos ilegíveis, que pareciam máscaras. Wednesday limpou a garganta e cuspiu com força no fogo. O cuspe reluziu e queimou, iluminando o interior do salão.

— Assim, como todos vocês tiveram oportunidade de descobrir sozinhos, existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartão de crédito e de auto-estrada, de internei e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância. Eles sabem da nossa existência e tem medo de nós, e nos odeiam — disse Odin. — Vocês estão se enganando se acreditam que não. Eles vão nos destruir, se puderem. Ë hora de a gente se agrupar. E hora de agir.

A senhora de sári vermelho deu um passo em direção ao fogo. Na testa dela havia uma pequena pedra preciosa azul-escura.

— Você chamou a gente aqui por causa dessa insensatez?

E então ela pigarreou, um pigarro que misturava surpresa e irritação.

O cenho de Wednesday se franziu.

— Eu chamei vocês aqui, sim, mas isso é sensato, Mama-ji, não insensato. Até uma criança consegue perceber.

— Então eu sou uma criança, é? Ela mostrou um dedo para ele.

— Eu já era velha em Kalighat antes de sonharem com você, seu tolo. Eu sou uma criança? Então eu sou uma criança, porque não há nada pra ver nessa sua conversa tola.

Mais uma vez, um momento de visão dupla: Shadow enxergou a senhora, seu rosto escuro marcado pela idade e pelo ressentimento mas, atrás dela, via algo enorme, uma mulher nua com a pele tão negra quanto um casaco de couro novo, e com lábios e língua da cor vermelho-vivo do sangue arterial. Em volta do pescoço dela havia caveiras, e suas muitas mãos seguravam facas, espadas e cabeças cortadas.

— Eu não chamei você de criança, Mama-ji — disse Wednesday, tranquilamente. — Mas parece evidente por si só...

— A única coisa que é evidente por si só — retrucou a velha, apontando (ao mesmo tempo que atrás dela, através dela, sobre ela, um dedo negro, com uma garra afiada, apontou em eco) — é o seu desejo pela glória. Nós vivemos em paz neste país há muito tempo. Alguns de nós se dão melhor do que os outros, concordo. Eu me viro bem. Lá na Índia, existe uma reencarnação minha que se dá muito melhor, mas deixe estar. Eu não tenho inveja. Eu vi os novos se elevarem, e os vi cair também.

A mão dela caiu ao lado do corpo. Shadow percebeu que os outros olhavam para ela com uma mistura de expressões — respeito, surpresa, embaraço — nos olhos.

— Costumavam adorar as estradas aqui, mas num piscar de olhos os deuses de ferro estão tão esquecidos quanto os caçadores de esmeraldas...

— Seja objetiva, Mama-ji — disse Wednesday.

— Objetiva?

Suas narinas se abriram. Os cantos da boca arquearam para baixo.

— Eu... e eu sou obviamente só uma criança... digo que esperemos. Que não devemos fazer nada. Nós não sabemos se eles nos querem mal.

— E você vai continuar a aconselhar que a gente espere eles virem no meio da noite pra matar ou levar você embora?

A expressão dela era de desprezo e de surpresa: estava tudo nos lábios, nas sobrancelhas e no nariz.

— Se eles tentarem tal coisa — disse —, vão descobrir que eu sou difícil de pegar e ainda mais difícil de matar.

Um jovem corpulento, sentado em um dos bancos atrás dela, fez um barulho com a garganta para chamar a atenção, então falou, com uma voz ribombante:

— Pai de Todos, meu povo está satisfeito. Nós aproveitamos o que temos da melhor maneira possível. Se o resultado dessa sua guerra for contrário a nós, perderemos tudo.

Wednesday disse:

— Vocês já perderam tudo. Eu estou oferecendo a vocês a chance de retomar alguma coisa.

As chamas do fogo crepitaram altas quando ele falou, iluminando os rostos da audiência.

Eu não acredito que isso seja verdade, pensou Shadow. Eu não acredito em nada disso. Talvez eu ainda tenha quinze anos. Minha mãe ainda está viva e eu ainda não conheci a Loura. Tudo que aconteceu até agora foi algum tipo de sonho absurdamente real. E, ainda assim, ele também não conseguia acreditar nisso. Tudo que temos para acreditar ou não em algo são os sentidos, as ferramentas que usamos para perceber o mundo: nossa visão, nosso tato, nossa memória. Se os sentidos mentem para nós, então não dá para confiar em nada. E, mesmo se não acreditarmos, ainda assim não podemos tomar qualquer outro caminho além da estrada que os sentidos mostram; e é preciso percorrê-la até o fim.

Então o fogo se extinguiu e a escuridão tomou conta de Valaskjalf, o salão de Odin.

— E agora? — sussurrou Shadow.

— Agora nós voltamos pra sala do carrossel — balbuciou o senhor Nancy. — E o De-Um-Olho-Só paga o jantar pra gente, molha algumas mãos, beija alguns bebes, e ninguém mais fala a palavra que começa com D.

— Palavra que começa com D?

— Deuses. Só pra saber, o que você estava fazendo no dia em que distribuíram cérebros, garoto?

— Alguém estava contando uma história sobre roubar o saco de um tigre, e eu tive que parar pra descobrir como terminava. O senhor Nancy deu uma risada.

— Mas não ficou nada resolvido. Ninguém chegou a acordo nenhum.

— Ele está cozinhando todo mundo em banho-maria. Vai converter um de cada vez. Você vai ver. Eles vão mudar de idéia no final.

Shadow podia sentir que um vento vinha de algum lugar, remexendo seu cabelo, tocando seu rosto, puxando-o.

Então estavam de volta à sala do maior carrossel do mundo, ouvindo a "Valsa do Imperador".

Havia um grupo de pessoas, turistas pela aparência, conversando com Wednesday do outro lado da sala, tantas pessoas quanto o número de figuras que havia no salão.

— Por aqui.

Dizendo isso, Wednesday conduziu-os pela única saída, feita de forma a parecer a boca aberta de um monstro enorme, com seus dentes afiados prontos para transformar todos em fatias. Ele circulava entre eles como um político, bajulando, encorajando, sorrindo, gentilmente discordando, estabelecendo a paz.

— Aquilo aconteceu mesmo? — perguntou Shadow.

— O quê, cérebro de merda? — perguntou o senhor Nancy.

— O salão. O fogo. O saco do tigre. O passeio no carrossel.

— Caramba, ninguém tem permissão pra andar naquele carrossel. Você não viu a placa? Agora, anda logo.

A boca do monstro levava para a Sala do Órgão, o que confundiu Shadow... eles já não haviam passado por ali? A segunda vez não havia sido menos estranha. Wednesday conduziu todos eles para cima de uma escada, passando por modelos — em tamanho natural — dos quatro cavaleiros do Apocalipse pendurados no teto, e seguiram as placas para uma saída antes do final da exposição.

Shadow e Nancy iam no fim da fila. E então estavam fora da Casa na Pedra, passando na frente da loja de lembranças e se dirigindo de volta ao estacionamento.

— Que pena sairmos antes do final — disse o senhor Nancy. — Eu queria ter visto a maior orquestra artificial do mundo.

— Eu vi — disse Czernobog. — Não era grande coisa.

O restaurante ficava a dez minutos dali, seguindo pela estrada. Wednesday havia dito a cada um de seus convidados que, naquela noite, o jantar era por conta dele, e tinha organizado caronas para quem não tivesse como chegar lá.

Shadow ficou imaginando como eles haviam chegado até a Casa na Pedra sem meio de transporte próprio e como iriam embora depois, mas não disse nada. Aquela parecia a atitude mais inteligente a se tomar.

Ficou com um carro cheio de convidados para transportar até o restaurante: a senhora de sári vermelho sentou-se na frente, ao lado dele. Havia dois homens no banco de trás: o jovem corpulento de aspecto peculiar cujo nome Shadow não havia captado adequadamente, mas que soava como Elvis, e um outro homem, de terno escuro, de quem Shadow não conseguia se lembrar.

Ele tinha parado ao lado do homem enquanto ele entrava no carro, abriu e fechou a porta para ele e era incapaz de se lembrar do que quer que fosse a seu respeito. Virou-se para trás e olhou para ele, cuidadosamente reparando no rosto, no cabelo e nas roupas, assegurando-se de que o reconheceria se o encontrasse novamente. Virou-se para frente de novo e deu a partida no carro, só para descobrir que o homem já havia fugido da sua mente. Ficou uma impressão de prosperidade, mas nada além disso.

Estou cansado, pensou Shadow. Olhou para a direita e roubou uma olhadela da mulher indiana. Reparou no diminuto colar prateado de caveiras que circundava o pescoço dela, no seu bracelete-amuleto de cabeças e mãos que tilintava, como sininhos, quando ela se mexia, e na pequena pedra preciosa azul-escura na testa. Cheirava a especiarias, cardamomo, noz-moscada e flores. Seu cabelo era da cor de sal-e-pimenta, e ela sorriu quando percebeu que ele a estava observando.

— Pode me chamar de Mama-ji — ela disse.

— Eu sou Shadow, Mama-ji.

— E o que você acha dos planos do seu patrão? Ele diminuiu a marcha quando um caminhão grande e preto passou por eles, cobrindo o carro com uma golfada de neve derretida.

— Eu não pergunto, ele não conta.

— Quer saber a minha opinião? Ele quer que a gente desapareça em um esplendor glorioso. É isso que ele quer. E já somos velhos o bastante, ou imbecis o bastante, pra concordarmos com isso.

— Meu trabalho não é fazer perguntas, Mama-ji. O interior do carro foi tomado pela risada tilintante dela. O homem no banco de trás — não o jovem de aparência peculiar, o outro falou alguma coisa, e Shadow respondeu, mas, um instante depois, já não conseguia se lembrar de jeito nenhum do que dissera.

O jovem de aparência peculiar não havia dito nada, mas agora começava a cantarolar para si, uma melodia profunda e grave que fazia com que o interior do carro vibrasse, chacoalhasse e zumbisse.

Ele tinha altura mediana, mas sua figura era estranha. Shadow já ouvira falar de homens com corpo de barril, mas não tinha uma imagem registrada na cabeça para acompanhar a metáfora. Esse homem tinha corpo de barril e pernas que se pareciam com... isso mesmo, com troncos de árvores, e mãos como, exatamente jarretes de presunto. Ele usava uma parca preta com capuz, vários suéteres, vários macacões grosseiros e, inadequadamente, no inverno e com aquelas roupas, um par de tênis brancos, que eram do mesmo tamanho e formato de uma caixa de sapatos. Seus dedos se pareciam com lingüiças, com pontas chatas e quadradas.

— Nossa, como você canta! — disse Shadow, do assento do motorista.

— Desculpa — falou o jovem, com uma voz peculiar, profunda, encabulada. Parou de cantarolar.

— Não, eu gostei — acrescentou Shadow. — Não pára.

O jovem peculiar hesitou por um instante, e então recomeçou a cantarolar, com a voz tão profunda e reverberante quanto antes. Desta vez havia palavras entremeadas no ritmo. "Para baixo, para baixo, para baixo", ele cantava, tão profundamente que fazia as janelas chacoalharem. "Para baixo, para baixo, para baixo, para baixo, para baixo, para baixo, para baixo."

Luzinhas de natal estavam penduradas em todas as calhas das casas e prédios por onde eles passavam. Variavam entre luzes douradas e discretas que emanavam brilho até exibições gigantes de homens de neve, ursos de pelúcia e estrelas multicoloridas.

Shadow parou no restaurante, uma estrutura grande que lembrava um celeiro, e deixou os passageiros saírem pela porta da frente. Levou o carro até o estacionamento dos fundos. Ele queria percorrer o curto caminho até o restaurante sozinho, no frio, para refrescar as idéias.

Estacionou o carro ao lado de um caminhão preto. Ficou imaginando se não seria o mesmo que os havia ultrapassado antes. Fechou a porta"e ficou lá parado, observando sua respiração se transformar em vapor.

Shadow conseguia imaginar Wednesday dentro do restaurante já acomodando seus convidados ao redor de uma mesa grande, pensando bem no lugar de cada um. Perguntou a si mesmo se realmente havia transportado Kali no banco da frente de seu carro, e quem tinha carregado no banco de trás...

— Ei, cara, você tem um fósforo? — disse uma voz quase familiar. Shadow se virou para pedir desculpas e dizer que não, mas o cano do revólver o atingiu acima do olho esquerdo, e ele começou a cair no chão. Esticou um braço para se equilibrar enquanto caía. Alguém enfiou uma coisa macia em sua boca para evitar que gritasse, e colou uma fita adesiva por cima para mantê-la no lugar: foram movimentos fáceis e treinados, como um açougueiro degolando uma galinha.

Shadow tentou gritar, para avisar Wednesday e os outros, mas nada além de um barulho abafado saiu de sua boca.

— As presas estão todas lá dentro — disse a tal voz. — Todo mundo está posicionado?

Ouviu-se uma voz crepitante saída de um rádio.

— Vamos entrar e cercar todos eles.

— O que fazemos com o grandalhão? — perguntou outra voz.

— Empacota, leva embora — disse a primeira voz.

Enfiaram um capuz parecido com um saco na cabeça de Shadow, amarraram os pulsos e as canelas dele com fita adesiva, colocaram-no na traseira de um caminhão e o levaram embora.

Não tinha janelas no quarto minúsculo em que prenderam Shadow. Havia uma cadeira de plástico, uma mesa de dobrar leve e um balde com uma tampa em cima que servia de privada, além de uma tira de espuma amarela de dois metros no chão, e um cobertor fino encardido com uma mancha marrom no meio: sangue ou merda ou comida, Shadow não sabia, e não se preocupou em descobrir. Havia uma lâmpada nua atrás de uma grade de metal bem no alto do quarto, mas nenhum interruptor. A luz ficava sempre acesa. A porta não tinha maçaneta.

Ele estava com fome.

A primeira coisa que fez, quando os agentes secretos o jogaram para dentro do quarto, depois de terem arrancado a fita adesiva de suas canelas, de seus pulsos e de sua boca, e de o terem deixado sozinho, foi dar uma volta cuidadosa pelo quarto e inspecioná-lo. Bateu nas paredes. Pareciam de metal à prova de som. Havia uma pequena grade de ventilação no alto do quarto. A porta estava convenientemente trancada.

Ele sangrava no supercílio esquerdo, o sangue escorria lentamente. Sua cabeça doía.

O chão não tinha carpete. Deu batidinhas nele. Era feito do mesmo metal que as paredes.

Tirou a tampa do balde, mijou lá dentro e o cobriu novamente. De acordo com seu relógio de pulso, apenas quatro horas haviam se passado desde o ataque no restaurante.

Sua carteira não estava mais com ele, mas deixaram as moedas.

Sentou-se na cadeira da mesa de jogos. A mesa era coberta com um feltro verde todo esburacado de queimaduras de cigarro. Shadow fingiu fazer as moedas atravessarem a mesa. Então pegou duas moedas de 25 centavos e fez um truque inútil.

Escondeu uma das moedas na palma da mão direita e, abertamente, colocou a outra moeda na mão esquerda, entre o indicador e o polegar. Fingiu que tirou a moeda da mão esquerda, quando na verdade a deixara cair de novo na mão. Abriu a mão direita para mostrar a moeda que estava lá o tempo todo.

O segredo da manipulação de moedas fazia com que Shadow se concentrasse totalmente naquilo e esquecesse o resto. Ou melhor, ele não conseguia fazer aquilo quando estava bravo ou chateado. Por isso a ação de praticar um truque de ilusionismo o acalmava e refrescava sua mente do turbilhão e do medo, mesmo que fosse um truque que, por si só, não tivesse nenhuma utilidade possível — ele gastou grande quantidade de esforço e de habilidade para fingir que a moeda passou de uma mão para outra, algo que não requer nenhuma espécie de destreza para fazer de verdade.

Começou a treinar um truque ainda mais inútil: transformar uma moeda de 50 centavos em uma de l centavo com uma mão só, mas usando as duas moedas de 25 centavos. Cada uma das moedas era escondida e mostrada alternadamente, à medida que o truque progredia. Levou a mão até a boca e assoprou na moeda visível, enquanto fazia com que deslizasse com um gesto clássico para escondê-la, ao mesmo tempo que os dois primeiros dedos recuperavam a moeda escondida e a apresentavam. O efeito era mostrar uma moeda na mão, assoprá-la e exibi-la mais uma vez, mostrando sempre a mesma moeda.

Ele fez o truque seguidas vezes.

Ficou imaginando se iriam matá-lo, e sua mão tremeu, só um pouquinho, e uma das moedas caiu da ponta do dedo para o feltro verde furado da mesa de jogos.

E como ele não agüentava mais fazer aquilo, guardou as moedas e pegou o dólar com a efígie da Liberdade que Zorya Polunochnaya lhe dera. Segurou-a firmemente e esperou.

Às três da manhã, segundo seu relógio, os agentes secretos voltaram para interrogá-lo. Dois homens de cabelos escuros, vestidos com ternos escuros e usando sapatos pretos lustrados. Agentes secretos. Um deles tinha rosto quadrado, ombros largos, cabelos volumosos, parecia ter jogado futebol americano na escola, unhas muito roídas. O outro estava ficando careca, usava óculos redondos de armação prateada, tinha unhas feitas. Apesar de não se parecerem nem um pouco, Shadow desconfiou que, em algum nível, provavelmente celular, os dois homens eram idênticos. Ficaram parados, em pé, um de cada lado da mesa de jogos, olhando para baixo, para ele.

— Há quanto tempo o senhor trabalha pró Cargo? — perguntou um deles.

— Eu não sei o que é isso — respondeu Shadow.

— Ele se apresenta como Wednesday. Sem-Coração. Velho-Pai. Velho. O senhor tem sido visto com ele.

— Eu trabalho pra ele há uns dias.

— Não minta pra nós, senhor — disse o agente de óculos.

— Tudo bem, não vou mentir. Mas, ainda assim, só faz alguns dias.

O agente de rosto quadrado esticou a mão para baixo e torceu a orelha de Shadow entre o indicador e o polegar. Apertava enquanto torcia. A dor era intensa.

— Dissemos ao senhor que não mentisse pra nós — falou, com suavidade.

Então, largou sua orelha.

Cada um dos agentes tinha uma saliência de revólver embaixo do paletó. Shadow não tentou revidar. Fingiu que tinha voltado para a prisão. Cumpra sua própria pena, pensou Shadow. Não diga a eles nada que ainda não saibam. Não faça perguntas.

— Essas pessoas com quem o senhor está se envolvendo são perigosas — disse o agente de óculos. — O senhor vai prestar um serviço ao seu país transformando sua declaração em prova.

Ele sorriu, simpático: Eu sou o guarda bacana, insinuava o sorriso.

— Entendo.

— E se o senhor não quiser nos ajudar — completou o agente de rosto quadrado —, poderá ver como agimos quando não estamos contentes.

Ele deu um tapa de mão aberta na barriga de Shadow, tirando-lhe o fôlego. Não era tortura, Shadow pensou, era só afirmação: Eu sou o guarda mau. Parecia que ele ia vomitar.

— Eu gostaria de deixar vocês contentes.

— Tudo que estamos pedindo é que o senhor coopere.

— Posso saber... — arfou Shadow (não faça perguntas, pensou, mas já era tarde demais, as palavras já tinham começado a sair de sua boca) — posso saber com quem é que eu vou cooperar?

— O senhor quer saber nossos nomes? — perguntou o agente de rosto quadrado. — Você só pode estar louco.

— Não, ele tem razão — disse o agente de óculos. — Pode ser que assim fique mais fácil pra ele se relacionar com a gente.

Olhou para Shadow e sorriu como uni homem de anúncio de pasta de dente.

— Oi, eu sou o senhor Stone, senhor. Meu colega é o senhor Wood, — Na verdade, o que eu queria saber é pra quem vocês trabalham. A CIA? OFBI?

Stone sacudiu a cabeça.

— Xi. Não é mais tão fácil assim, senhor. As coisas não são tão simples assim.

— Setor privado — disse Wood — setor público. Sabe como é. Existe muita influência mútua hoje em dia.

— Mas eu posso lhe assegurar — acrescentou Stone, com outro sorriso refrescante — de que nós somos os caras bacanas. O senhor está com fome, senhor?

Colocou a mão em um dos bolsos do paletó e tirou uma barra de chocolate Snickers.

— Aqui está. É um presente.

— Obrigado — disse Shadow.

Abriu a embalagem e comeu o chocolate.

— Imagino que o senhor gostaria de algo pra beber também. Café? Cerveja?

— Água, por favor.

Stone caminhou até a porta, bateu. Disse alguma coisa ao guarda do lado de fora da porta, que assentiu com a cabeça e voltou um minuto depois com um copo de plástico cheio de água fresca.

— A CIA — disse Wood, sacudindo a cabeça com tristeza. — Aqueles palhaços. Ei, Stone. Ouvi uma piada nova da CIA. Como é que dá pra ter certeza de que a CIA não estava envolvida no assassinato do Kennedy?

— Não sei — respondeu Stone. — Como é que dá pra ter certeza?

— Ele esta morto, não está? — disse Wood. Os dois riram.

— Está se sentindo melhor agora, senhor? — perguntou Stone.

— Acho que sim.

— Então, por que não conta pra nós o que aconteceu hoje à noite, senhor?

— Fizemos um programa de turismo. Visitamos a Casa na Pedra. Saímos pra comer. Vocês sabem o resto da história.

Stone deu um suspiro profundo. Wood sacudiu a cabeça, como se estivesse desapontado, c chutou Shadow na rótula. A dor era lancinante. Depois Wood empurrou o punho lentamente contra as costas de Shadow, bem em cima do rim direito, e torceu a mão, com força... a dor foi pior que a do joelho.

Eu sou melhor do que qualquer um deles, pensou. Eu consigo agüentar. Mas eles estavam armados; e mesmo se ele — de algum jeito — matasse ou dominasse os dois, ainda estaria trancado na cela com eles. (Mas daí ele teria um revólver. Ele teria dois revólveres.) (Não.)

Wood mantinha as mãos afastadas do rosto de Shadow. Sem marcas. Nada permanente: só punhos e pés em seu torso e em seu joelho. Doía, e ele apertava o dólar com a efígie da Liberdade bem forte na palma mão, esperando que tudo terminasse.

E, depois de um tempo longo demais, o espancamento terminou.

— Voltamos daqui a duas horas, senhor — disse Stone. — Sabe, Wood detestou de verdade fazer isso. Nós somos homens razoáveis. Como eu já disse, somos os caras bacanas. O senhor está do lado errado. Enquanto isso, por que não tenta dormir um pouco?

— É melhor você começar a levar a gente a sério — argumentou Wood.

— O Woody tem razão, senhor — completou Stone. — Pense bem sobre isso.

A porta se fechou com uma batida atrás deles. Shadow se perguntou se iriam desligar a luz, mas não desligaram, e a lâmpada brilhava no quarto como um olho frio. Ele se arrastou pelo chão até o colchão de espuma amarela e se deitou sobre ele, colocando o cobertor fino sobre o corpo. Fechou os olhos e, como não tinha nada a que se agarrar, agarrou-se aos sonhos.

O tempo passava.

Tinha 15 anos novamente, e sua mãe eslava morrendo. Ela tentava dizer algo muito importante, mas ele não conseguia entender. Ele se mexeu durante o sono c uma pontada de dor levou-o de semi-adomercido para semi-acordado, e ele se contorceu.

Shadow tremia sob o cobertor fino. O braço direito cobria os olhos, bloqueando a luz da lâmpada. Ficou imaginando se Wednesday e os outros ainda estavam livres, se é que ainda estavam vivos. Ele esperava que sim.

O dólar de prata continuava frio em sua mão direita. Podia senti-lo ali, como havia sentido durante o espancamento. Perguntou a si mesmo, sem pensar muito no caso, por que a moeda não esquentava com a temperatura do seu corpo. Meio adormecido e meio delirante, a moeda, a idéia da Liberdade, a Lua e Zorya Polunochnaya de alguma maneira fundiram-se em um feixe de luz prateada que vinha das profundezas do firmamento, e ele percorreu o feixe prateado para longe da dor, da desilusão e do medo... longe da dor e, abençoadamente, de volta aos sonhos...

Ele ouvia um tipo de barulho vindo de longe, mas era tarde demais para pensar sobre aquilo: estava dormindo agora.

Um meio pensamento: esperava que não fosse alguém vindo acordá-lo, bater ou gritar com ele. E então percebeu, com prazer, que estava dormindo de verdade, e que não sentia mais frio.

Alguém em algum lugar estava pedindo socorro, alto, em seu sonho ou fora dele.

Shadow virou para o lado na espuma, dormindo, descobrindo novas áreas de dor à medida que se mexia.

Alguém sacudia seu ombro.

Ele queria pedir para que não o acordassem, para deixarem que dormisse c para deixá-lo em paz, mas soou como um ronco.

— Cachorrinho? — disse Laura. — Você tem que acordar. Por favor acorda, querido.

E, por um instante, sentiu um alívio benévolo. Ele teve um sonho tão estranho, de prisões e de condenados e de deuses maltrapilhos, e agora Laura o acordava para dizer que era hora de ir trabalhar, e talvez ainda tivesse tempo bastante para roubar um café e um beijo, ou mais que um beijo; e ele esticou o braço para tocá-la.

A pele dela era fria como gelo, e pegajosa.

Shadow abriu os olhos.

— De onde veio todo esse sangue? — perguntou.

— Dos outros. Não é meu. Eu estou cheia de formaldeído, misturado com glicerina e lanolina.

— Que outros?

— Os guardas. Está tudo bem. Eu matei todo mundo. É melhor você se mexer. Acho que não dei oportunidade pra ninguém dar o alarme. Pega um casaco ali fora, ou então você vai congelar.

— Você matou todo mundo?

Ela deu de ombros, e esboçou um sorriso, sem jeito. Suas mãos estavam cobertas de vermelho, como se ela tivesse pintado a dedo uma figura exclusivamente em tons de carmim, e havia manchas e respingos em seu rosto e em sua roupa (o mesmo tailleur azul com que fora enterrada) que fez com que Shadow pensasse em Jackson Pollock, porque era menos problemático pensar nele do que aceitar a outra alternativa.

— É mais fácil matar alguém quando você mesma está morta — explicou. — Quero dizer, não é tão difícil. A gente perde o preconceito.

— Pra mim, continua sendo difícil.

— Você quer ficar aqui até o pessoal da manhã chegar? — ela perguntou. — Pode ficar, se quiser. Mas eu pensei que você queria ir embora.

— Eles vão pensar que eu fiz isso — disse, de maneira estúpida.

— Talvez. Coloque um casaco, querido. Você vai congelar.

Ele passou para o corredor. Indo até o final havia uma sala de vigilância. Lá, três guardas e o sujeito que tinha se apresentado como Stone estavam mortos. O amigo dele não estava em lugar algum onde pudesse ser visto. Pelas marcas no piso, dois deles tinham sido arrastados para dentro da sala e largados no chão.

Seu casaco estava pendurado no cabide. Sua carteira ainda estava no bolso interno, aparentemente intocada. Laura abriu algumas caixas de papelão cheias de doces.

Os guardas, agora que ele podia vê-los melhor, usavam uniformes camuflados escuros, mas não tinham distintivos oficiais, nada que revelasse para quem trabalhavam. Eles poderiam ser caçadores de patos de fim de semana, prontos para a caça.

Laura esticou a mão fria e apertou a mão de Shadow. Ela usava a moeda de ouro, que ele havia dado, numa corrente dourada no pescoço.

— Ficou bonito — ele disse.

— Obrigada.

Ela sorriu, linda.

— E os outros? — ele perguntou. — Wednesday e o resto? Onde eles estão? Laura entregou-lhe um punhado de doces, e ele encheu os bolsos com as guloseimas.

— Não tinha mais ninguém aqui. Um monte de celas vazias e uma com você dentro. Ah, e um dos homens tinha ido até aquela cela lá no fundo pra bater uma punheta com uma revista. Ele levou o maior susto.

— Você matou o cara enquanto ele estava se masturbando? Ela deu de ombros.

— Acho que sim — respondeu, desconfortável. — Eu estava preocupada... achei que eles tivessem machucado você. Alguém precisa cuidar de você, e eu disse que faria, não disse? Pega isso aqui.

Eram esquentadores de mãos e de pés químicos: almofadinhas finas que, ao romper o lacre, esquentam e se mantêm quentes durante horas. Shadow guardou tudo no bolso.

— Cuidar de mim? É — ele disse —, você falou que ia cuidar.

Ela esticou a mão e encostou um dedo no supercílio esquerdo dele.

— Você está machucado.

— Está tudo bem.

Ele abriu lentamente uma porta de metal na parede. Tinha um degrau a mais de um metro do chão, e ele pulou sobre o que parecia ser cascalho. Pegou Laura pela cintura e a ajudou a descer, como costumava carregá-la, com facilidade, sem pensar duas vezes...

A lua saiu detrás de uma nuvem espessa. Estava baixa no horizonte, pronta para se pôr, mas a luz que jogava sobre a neve era suficiente para iluminar.

Os dois saíram do que se revelou ser um vagão de metal pintado de preto de um trem de carga comprido, estacionado ou abandonado ao lado de uma floresta. Os vagões se estendiam até onde os olhos podiam ver, para dentro das árvores e mais longe ainda. Ele estava em um trem. Já deveria ter percebido.

— Como foi que me achou aqui? — perguntou para a mulher morta. Ela sacudiu a cabeça, lentamente, surpresa.

— Você brilha como uma brasa em um mundo escuro — explicou. — Não foi tão difícil assim. Agora, vai embora. Vai o mais rápido e o mais longe que puder. Não use os seus cartões de crédito e acho que tudo vai ficar bem.

— Pra onde eu devo ir?

Ela passou a mão pelos cabelos embaraçados, tirando os fios da frente dos olhos.

— A estrada fica pra lá — explicou. — Faça o que puder. Roube um carro se precisar. Vá pró sul.

— Laura — ele disse, e hesitou. — Você sabe o que está acontecendo? Sabe quem são essas pessoas? Quem você matou?

— Claro. Acho que sei.

— Estou te devendo uma. Eu ainda estaria lá dentro se não tosse você. Acho que eles não tinham nada de bom planejado pra mim.

— Não — ela disse. — Acho que não.

Eles se afastaram dos vagões de trem vazios. Shadow ficou imaginando o que seriam os outros trens que tinha visto, vagões de metal vazios e sem janelas que se estendiam por milhas e milhas, apitando por seu caminho através da noite. Seus dedos se fecharam em volta do dólar com a efígie da Liberdade em seu bolso e ele se lembrou de Zorya Polunochnaya e da maneira como ela havia olhado para ele sob o luar. Você perguntou o que ela queria? Isso é a coisa mais sábia a se perguntar para os mortos. As vezes eles respondem.

— Laura... O que você quer? — ele perguntou.

— Você quer mesmo saber?

— Quero. Por favor.

Laura olhou para ele com seus olhos azuis mortos.

— Eu quero viver de novo — ela disse. — Não nessa meia-vida. Eu quero estar viva de verdade. Eu quero sentir meu coração batendo no peito novamente. Eu quero sentir o sangue correndo pelas minhas veias... quente, salgado e verdadeiro. É esquisito, a gente não acha que sente o sangue no corpo mas, acredite, quando pára de correr, você sabe na hora.

Ela coçou os olhos, espalhando uma cor vermelha sobre a pele, por causa do estado de suas mãos.

— Olha, é difícil. Você sabe por que os mortos só aparecem à noite, cachorrinho? Porque é mais fácil se passar por uma pessoa de verdade no escuro. E eu não quero ter que me passar por uma pessoa. Eu quero estar viva.

— Eu não entendo o que você quer que eu faça.

— Faz acontecer, querido. Você vai descobrir como. Eu sei que vai.

— Está bem. Vou tentar. E se eu descobrir, como é que eu acho você? Mas ela já tinha desaparecido e não havia coisa alguma na floresta além de um cinza sutil no céu para mostrar a ele onde estava o leste. No vento gelado de dezembro, ouviu-se um uivo solitário que podia ser o grito do último pássaro da noite ou o despertar do primeiro pássaro da manhã. Shadow olhou para o sul e começou a caminhar.

 

                                                       CAPITULO SETE

Como os deuses hindus são "imortais" apenas em um aspecto muito particular — porque nascem e morrem —, experimentam a maior parte dos grandes dilemas humanos c geralmente parecem discordar dos mortais em relação a alguns detalhes triviais... e parecem discordar ainda menos dos demônios. Ainda assim, são vistos pelos hindus como uma classe de seres por definição totalmente diferentes de qualquer outra. São símbolos de uma maneira que nenhum ser humano, por mais "arquetípica" que sua historia de vida seja, jamais pode ser. São atores encenando papéis que são reais apenas para nós, suo as mascaras atrás das quais enxergamos nossos próprios rostos.

Wendy Doniger O'Flaherty, Introdução, Hindu Myths

 

Shadow caminhava fazia horas em direção ao sul, ou para o que ele esperava que fosse mais ou menos o sul, seguindo uma estrada estreita e sem sinalização através de uma floresta em algum lugar, ele imaginava, no sul do Estado de Wisconsin. Alguns jipes vieram em sua direção a certa altura, com os faróis brilhando, e ele se agachou no meio das árvores até que eles tivessem passado. A neblina do começo da manhã batia na altura da cintura dele. Os carros eram pretos.

Quando, trinta minutos mais tarde, ouviu o barulho de helicópteros ao longe, vindo do oeste, saiu da trilha de asfalto e entrou na floresta. Eram dois helicópteros, e ele ficou acocorado em um espaço vazio debaixo de uma árvore caída e os ouviu passar. Quando foram embora, olhou em volta e para cima c deu uma checada rápida no céu cinzento de inverno. Ficou satisfeito ao observar que os helicópteros eram pintados de um preto fosco. Ficou esperando debaixo da árvore até que o barulho cessasse completamente.

Sob as árvores, a neve não passava de uma poeira, que estalava sob os pés. Sentiu-se profundamente agradecido pelos esquentadores químicos de mãos e de pés, que os impediam de congelar. Além disso, sentia o coração, as idéias e a alma entorpecidos. E o torpor, sentiu, aumentava e tinha história.

Então, o que é que eu quero? perguntou-se. Ele não conseguia responder, por isso apenas continuou andando devagar, entrando cada vez mais fundo na floresta. As árvores pareciam familiares, momentos de paisagens pareciam perfeitos dejà vu. Será que estava andando em círculos? Talvez ele fosse só andar, andar e andar até que os esquentadores e os doces acabassem e, então, se sentaria no chão e nunca mais levantaria.

Alcançou um riacho grande, do tipo que as pessoas do lugarejo chamariam de córrego e pronunciariam corgo, e resolveu segui-lo. Riachos levam a rios, todos os rios levam ao Mississipi, e se ele continuasse caminhando, ou se roubasse um barco ou construísse uma balsa, no fim chegaria a Nova Orleans, onde era quente. A idéia pareceu tão reconfortante quanto improvável.

Não viu mais os helicópteros. Imaginou que aqueles que passaram por sobre sua cabeça tinham sido designados para limpar a bagunça no desvio da estrada de ferro, não estavam procurando por ele, ou então teriam retornado. Haveria cães de farejar, sirenes e toda a parafernália da perseguição. Em vez disso, não havia nada.

O que ele queria? Não ser pego. Não ser acusado pelas mortes dos homens no trem. Não fui eu, ele disse a si próprio, foi a minha mulher morta. Conseguia imaginar a expressão no rosto dos oficiais da lei. Então as pessoas discutiriam se ele era louco ou não, enquanto era encaminhado para a cadeira elétrica...

Ficou perguntando a si mesmo se o Estado do Wisconsin tinha pena de morte. Mas isso fazia alguma diferença? Ele queria entender o que estava acontecendo — c descobrir como tudo aquilo iria terminar. E, finalmente, dando um sorriso meio pesaroso, percebeu que queria que tudo voltasse ao normal acima de tudo. Gostaria que nunca tivesse ido para a prisão, que Laura ainda estivesse viva, que nada disso tivesse acontecido.

Acho que essa não é exatamente uma opção, meu rapaz, pensou consigo mesmo, com a voz rouca de Wednesday, e fez que sim com a cabeça para concordar. Não e uma opção. Você fechou suas portas. Então, continue caminhando. Cumpra sua própria pena...

Um pica-pau distante batucou em uma árvore apodrecida.

Shadow percebeu que estava sendo observado: um punhado de cardeais vermelhos olhou em direção a ele a partir de um arbusto velho e esquelético e então voltou a bicar os cachos de frutinhas pretas. Pareciam as ilustrações do calendário dos Pássaros Canoros da América do Norte. Ele ouviu os pios e os estrilos dos passarinhos o acompanharem pela margem do riacho. No fim, cessaram.

Um filhote de cervo morto estava deitado em uma clareira à sombra de uma montanha e um pássaro negro do tamanho de um cachorro pequeno bicava a carcaça com seu bico grande e perigoso, rasgando e puxando nacos de carne vermelha do cadáver. Os olhos do animal não estavam mais lá, mas a cabeça estava intocada, e manchas brancas e amareladas eram visíveis em seu lombo. Shadow ficou imaginando como o animal teria morrido.

O grande pássaro negro tombou a cabeça para o lado e disse, com uma voz que se parecia com pedras batendo:

— Você, homem-sombra.

— Eu sou Shadow.

O pássaro pulou para cima do lombo do cervo, ergueu a cabeça, eriçou as penas da cabeça e do pescoço. Era enorme, e seus olhos se pareciam com contas negras. Havia algo intimidador num pássaro daquele tamanho, tão próximo.

— Ele disse que vai encontrar você no Key-ro — proferiu o pássaro. Shadow se perguntou qual dos corvos de Odin seria esse: Huginn ou Muninn, Memória ou Pensamento.

— Key-ro?

— No Egito.

— Como é que eu vou até o Egito?

— Siga Mississipi. Vá pro sul. Encontre Chacal.

— Olha — disse Shadow. — Eu não quero parecer que... Meu Deus, olha... Ele fez uma pausa. Juntou as idéias. Estava com frio, parado no meio de uma floresta, conversando com um enorme pássaro negro que fazia de Bambi seu café da manhã.

— Está bem. O que eu estou tentando dizer é que não quero enigma algum pra resolver.

— Enigma — concordou o pássaro, solícito.

— O que eu quero é explicação. Chacal no Key-ro. Isso não me ajuda. E uma fala de um filme ruim de espionagem.

— Chacal. Amigo. Tok. Key-ro.

— Você já disse. Eu queria um pouco mais de informação. O pássaro se virou e arrancou outra tira de carne crua do quadril do cervo.

Então voou para dentro da floresta com a tira vermelha pendendo do bico, como uma minhoca comprida e ensangüentada.

— Ei! Será que você podia, pelo menos, me levar até uma estrada de verdade? — gritou Shadow.

O corvo voou para o alto e para longe. Shadow olhou para o cadáver do cervo-bebê e pensou que, se fosse um legítimo homem da floresta, tiraria um bife e o assaria em uma fogueira. Em vez disso, sentou-se sobre uma árvore caída, comeu uma barra de chocolate e percebeu que realmente não era um legítimo homem da floresta.

O corvo grasnou da beira da clareira.

— É pra seguir você? — perguntou Shadow. — Ou o Timmy caiu em outro poço?

O pássaro grasnou mais uma vez, com impaciência. Shadow começou a caminhar em sua direção. Quando estava quase alcançando-o, o corvo bateu as asas pesadamente até outra árvore, indo um pouco à esquerda do caminho que Shadow percorreu originalmente.

— Ei, espera! — Huginn ou Muninn, ou quem quer que seja. O pássaro se virou, com a cabeça inclinada para um lado, cheio de suspeita, e olhou para ele com olhos brilhantes.

— Fala "Nunca mais" — disse Shadow.

— Foda-se — respondeu o corvo.

Ele não disse mais nada, e então atravessaram a floresta juntos.

Depois de meia hora, chegaram a uma estrada de asfalto nos arredores de uma cidadezinha, e o corvo voou de volta para a floresta. Shadow viu a placa de um restaurante de fast-food de cadeia, o Culvers Frozen Custard Butterburgers, c, ao lado dele, um posto de gasolina. Entrou no Culvers, que estava vazio. Havia um rapaz entusiasmado, com a cabeça raspada, atrás da caixa registradora. Shadow pediu dois hambúrgueres e batatas fritas. Depois entrou no banheiro para se limpar. Sua aparência estava péssima. Fez um inventário do conteúdo de seus bolsos: algumas moedas, incluindo o dólar com a efígie da Liberdade, uma escova de dentes descartável e pasta, três barras de chocolate, cinco almofadinhas de esquentador químico, uma carteira (com nada dentro além de sua carteira de motorista e um cartão de crédito — perguntou a si mesmo quanto tempo de validade o cartão ainda teria) e, no bolso interno do casaco, mil dólares em notas de Cinqüenta e de vinte, sua parte no serviço bancário do dia anterior. Lavou o rosto e as mãos com água quente, alisou o cabelo escuro, então voltou para o restaurante e comeu hambúrgueres e batatas e bebeu café.

Ele voltou ao balcão.

— Quer sorvete de pudim? — perguntou o rapaz entusiasmado.

— Não, obrigado. Tem algum lugar por aqui onde eu possa alugar um carro? Meu carro pifou, bem lá pra trás, na estrada.

O rapaz coçou o resto de cabelo eriçado que tinha na cabeça.

— Por aqui não, senhor. Se o seu carro pifou, você pode chamar um guincho. Ou ver se podem ajudar você no posto aí do lado.

— Boa idéia — disse Shadow. — Obrigado.

Ele andou por cima da neve que derretia, do estacionamento do restaurante até o posto de gasolina. Comprou chocolates e um pacote de carne seca e mais esquentadores químicos de mãos e pés.

— Tem algum lugar por aqui onde eu possa alugar um carro? — perguntou à mulher atrás da caixa registradora.

Ela era imensamente rechonchuda e usava óculos, e ficou muito feliz por ter alguém com quem conversar.

— Deixa eu pensar... A gente aqui está meio fora da civilização. Tem isso aí cm Madison. Para onde você vai?

— Key-ro — ele disse. — Seja lá onde fique isso.

— Eu sei onde é. Me passa um mapa de Illinois daquela prateleira ali. Shadow pegou o que ela pediu. Desdobrou-o, e então apontou, triunfante, para o canto mais embaixo do Estado.

— Aqui está.

— Cairo?

— É assim que eles pronunciam aquela que fica lá no Egito, mas esta aqui se chama Keyro. Tem também um tipo de Tebas por aqui. Minha cunhada nasceu cm Tebas. Perguntei o que ela achava da cidade do Egito, e ela olhou pra mim como se eu tivesse um parafuso solto.

A mulher riu fazendo um barulho de cano entupido.

— Tem alguma pirâmide lá?

A cidade ficava a cerca de 800 quilômetros dali, quase que totalmente ao sul.

— Não que eu saiba. Falam que lá é o Egito em miniatura porque, hmm, talvez há 100, 150 anos, aconteceu uma falta de comida geral. As plantações não deram colheita. Mas lá não. Então todo mundo foi até lá pra comprar comida. Igual à Bíblia, naquela passagem de José do Egito.

— Então, se você fosse eu e precisasse chegar lá, o que faria? — perguntou Shadow.

— Ia de carro.

— Meu carro pifou a algumas milhas daqui, lá na estrada. Era uma porcaria, se você puder perdoar meu linguajar.

— R — ela disse. — Ë assim que o meu cunhado fala também. Ele tem uma revendedora pequena de carros. As vezes me liga e fala que acabou de vender outra R Talvez até se interesse pelo seu carro velho. Pra desmanche ou algo assim.

— O carro é do meu patrão — argumentou Shadow, surpreendendo-se com a fluência e a facilidade de suas mentiras. — Preciso ligar pra lá, pra ele vir pegar o carro.

Então, ocorreu-lhe uma idéia:

— Seu cunhado está por aqui?

— Ele fica em Muscoda, a dez minutos ao sul, bem do outro lado do rio. Por quê?

— Bom, será que ele tem uma E pra me vender por... hum, uns 500, 600 dólares?

Ela sorriu com doçura.

— Senhor, ele não tem nem um carro naquele pátio que valha 500 dólares com o tanque cheio. Mas não conta pra ele que eu disse isso.

— Você poderia ligar pra ele?

— Claro, sem problema nenhum — pegou o telefone. — Querido? É a Mattie. Vem aqui agora mesmo. Tem um homem querendo comprar um carro.

A porcaria que ele escolheu era um Chevy Nova 1983, que comprou, com o tanque cheio de gasolina, por 450 dólares. Tinha quase 400 mil quilômetros no velocímetro e um cheiro de uísque e de cigarro, e um outro mais forte de algo que poderia ser banana. Ele não conseguia distinguir a cor do carro embaixo da sujeira e da neve. Ainda assim, de todos os veículos do pátio do cunhado de Mattie, era o único que parecia ser capaz de conduzi-lo por 800 quilômetros.

O negócio foi fechado em dinheiro vivo, e o cunhado de Mattie não pediu nome nem RG do comprador, só o dinheiro.

Shadow dirigiu para oeste, e depois para o sul, com 550 dólares no bolso, mantendo-se longe da interestadual. A porcaria tinha um rádio, mas nada acontecia quando era ligado. Uma placa na estrada avisava que tinha saído do Estado de Wisconsin e que estava agora no Illinois. Passou por um serviço de mineração, com enormes lâmpadas de eletrodo de carvão acesas na luz fraca do meio do inverno.

Com fome, parou e comeu em um lugar chamado Mom's, pouco antes de encerrarem o serviço.

Cada cidade que atravessava tinha uma placa extra, ao lado da placa oficial, informando que ele adentrava Nossa Cidade (população 720). As placas extras anunciavam que o time de basquete infantil da cidade era o terceiro na classificação estadual, ou que o vilarejo era o lar da semifinalista feminina de luta, na categoria juvenil, do Estado de Illinois... coisas desse tipo.

Ele seguia em frente, pescando sobre a direção, sentindo-se mais esgotado a cada minuto. Passou um sinal vermelho e quase foi atingido na lateral por uma mulher em um Dodge. Assim que alcançou um local sem cidade nenhuma, pegou uma trilha de trator ao lado da estrada e estacionou ao lado de um campo sem arar, todo salpicado de neve, em que uma lenta procissão de perus negros e gordos andava como uma fila de carpideiras diminutas. Desligou o motor, esticou-se no banco detrás e caiu no sono.

Escuridão. Uma sensação de queda — como se desmoronasse por um enorme buraco, como Alice. Durante cem anos ele caiu no meio da escuridão. Rostos passavam por ali, nadando no meio do escuro, e então cada um era arrancado e levado embora antes que pudesse tocá-los...

Abruptamente, e sem transição nenhuma, não estava mais caindo. Agora estava em uma caverna, e não mais sozinho. Shadow olhou dentro de olhos familiares: olhos enormes, negros e líquidos, que piscavam.

Sob a terra... era isso. Ele se lembrava daquele lugar. O fedor de cachorro molhado. Chamas tremeluziam nas paredes úmidas da caverna, iluminando a cabeça de búfalo, o corpo de homem, a pele da cor de argila de tijolo.

— Será que vocês podem me deixar em paz? — perguntou. — Eu só quero dormir.

O homem-búfalo assentiu com a cabeça, lentamente. Seus lábios não se moveram, mas uma voz dentro da cabeça de Shadow disse:

— Pra onde você está indo, Shadow?

— Pro Cairo.

— Por quê?

— Pra onde mais eu posso ir? É pra lá que Wednesday quer que eu vá. Eu bebi o mulso dele.

No sonho de Shadow, com o poder da lógica dos sonhos, a obrigação parecia indiscutível: ele bebeu o mulso de Wednesday três vezes e selou o pacto — que outra escolha ele tinha?

O homem com cabeça de búfalo esticou uma mão até o fogo e remexeu as brasas c os galhos quebrados, transformando-os em uma labareda.

— A tempestade está chegando — disse.

Agora tinha cinzas em suas mãos, e ele as limpou no peito sem-pelos, deixando um rastro de fuligem.

— Ë o que vocês todos ficam falando. Posso fazer uma pergunta? Houve uma pausa na conversa. Uma mosca pousou na testa peluda. O homem-búfalo a espantou.

— Pergunte.

— É verdade? Essas pessoas são mesmo deuses? É tudo tão... — fez uma pausa. — ...impossível... — esta não era exatamente a palavra que ele procurava, mas parecia a melhor que conseguiu encontrar.

— Que deuses? — perguntou o homem-búfalo.

— Não sei.

Ouviram-se algumas batidinhas, lentas e implacáveis. Shadow ficou esperando para ver se o homem-búfalo iria dizer mais alguma coisa, se explicaria o que eram deuses e todo aquele pesadelo emaranhado em que sua vida parecia ter se transformado. Estava com frio.

Tap. Tap. Tap.

Shadow abriu os olhos e, como se estivesse embriagado, sentou-se. Ele estava congelando, e o céu do lado de fora do carro tinha aquela cor púrpura típica do anoitecer.

Tap. Tap. Alguém disse "ei, senhor", e Shadow voltou a cabeça em direção ao som. Essa pessoa estava parada ao lado do carro, não era nada mais do que uma figura ofuscada pelo céu que escurecia. Shadow esticou uma das mãos e abriu a janela alguns centímetros. Fez alguns ruídos de quem está acordando e então disse:

— Oi.

— Tudo bem com você? Está doente? Bebeu demais? A voz era aguda... de uma mulher ou de um menino.

— Tudo bem. Espere um pouco.

Ele abriu a porta e saiu do carro esticando os membros e o pescoço dolorido. Então esfregou as mãos para fazer o sangue circular e esquentá-las.

— Uau. Você é bem grande.

— E o que falam por aí — disse Shadow. — Quem você é?

— Eu sou Sam.

— Garoto Sam ou garota Sam?

— Garota Sam. Eu costumava ser Sammi com um i, e aí eu fazia um sorrisinho em cima do i, mas fiquei completamente enjoada disso porque todo mundo fazia, então parei.

— Tudo bem, garota Sam. Vá até ali e fique olhando pra estrada.

— Por quê? Você é algum tipo de assassino maluco?

— Não. Eu preciso fazer xixi e gostaria de ter um mínimo de privacidade.

— Ah. Está bem. Tudo bem. Entendi. Sem problema. Concordo com você. Eu não consigo fazer xixi nem se tiver alguém na cabina do lado. Um caso de timidez da bexiga bem grave.

— Agora, por favor.

Ela andou até o outro lado do carro, e Shadow deu alguns passos em direção ao campo, abriu o zíper e mijou contra uma cerca durante um tempão. Caminhou de volta até o carro. O último crepúsculo tinha se transformado em noite.

— Você ainda está aí? — ele perguntou.

— Estou. Você deve ter uma bexiga do tamanho do lago Erie. Acho que impérios se ergueram e caíram enquanto você estava mijando. Eu fiquei ouvindo o tempo todo.

— Obrigado. Você quer alguma coisa?

— Bom, eu queria saber se estava tudo bem. Quer dizer, ver se você estava morto ou qualquer coisa assim... aí eu teria chamado a polícia. Mas como os vidros estavam meio embaçados, eu pensei, bom, ele ainda deve estar vivo.

— Você mora por aqui?

— Não. Estou pegando carona desde Madison.

— Não é seguro.

— Eu faço isso cinco vezes por ano, já faz três anos. Ainda estou viva. Pra onde você está indo?

— Vou até Cairo.

— Obrigada — ela disse. — Vou para El Paso. Vou passar as férias com a minha tia.

— Obrigado por quê? Não vou levar você até lá.

— Não para El Paso no Texas. A outra cidade, no Illinois. Fica a algumas horas daqui, pro sul. Você sabe onde está?

— Não faço a mínima idéia. Em algum lugar na rodovia 52?

— A próxima cidade é Peru. Não aquela que fica no Peru. A de Illinois. Deixa eu cheirar você. Abaixa.

Shadow abaixou-se, e a garota cheirou seu rosto.

— Tudo bem. Você não cheira a bebida. Dá pra dirigir. Vamos.

— Por que acha que eu vou dar carona pra você?

— Porque eu sou uma donzela em perigo. E você é um cavaleiro em sei lá o quê. Em um carro bem sujo. Sabia que alguém escreveu "lave-me" na janela de trás?

Shadow entrou no carro e abriu a porta do passageiro. A luz que acende quando se abre a porta da frente não se acendeu.

— Não. Não sabia. Ela entrou.

— Eui eu — ela disse. — Fui eu quem escreveu. Quando ainda tinha luz suficiente pra enxergar.

Shadow deu a partida, acendeu os faróis e voltou em direção à estrada.

— Â esquerda — disse Sam, solícita.

Ele virou para a esquerda e foi em frente. Depois de vários minutos, o aquecedor começou a funcionar, e um calor abençoado invadiu o carro.

— Você ainda não falou nada — disse Sam. — Fala alguma coisa.

— Você é humana? — perguntou Shadow. — Um ser humano honesto, nascido de mãe c pai, que respira?

— Claro.

— Tudo bem. Eu só estava checando. O que você quer que eu diga?

— Alguma coisa pra me dar segurança, por enquanto. Vai que, de repente, sinto "ah, merda, entrei no carro errado com um maluco".

— É. Já ouvi essa. O que eu tenho que fazer pra se sentir segura?

— Só dizer que não fugiu da prisão nem foi condenado por uma chacina ou algo do tipo.

Ele pensou por um instante.

— Sabe, não fui mesmo.

— Mas você precisou pensar, né?

— Cumpri minha pena. Mas nunca matei ninguém.

— Ah.

Entraram em uma cidadezinha, iluminada pelas luzes urbanas e por enfeites de Natal que piscavam, e Shadow deu uma olhadela para a direita. A garota tinha uma trança nos cabelos curtos e escuros e seu rosto era, pensou, atraente, mas um pouco masculino. Seus traços pareciam ter sido esculpidos em pedra. Ela olhava para ele.

— Por que você foi pra prisão?

— Eu machuquei bastante umas pessoas. Fiquei nervoso.

— Elas mereceram?

Shadow pensou por um instante.

— Na época, achei que sim.

— Você faria de novo?

— Sem chance. Eu perdi três anos da minha vida lá.

— Humm. Você tem sangue índio?

— Não que eu saiba.

— Pareceu que tinha, só isso.

— Desculpa decepcionar você.

— Tudo bem. Está com fome? Shadow assentiu com a cabeça.

— Bem que eu comeria alguma coisa — ele disse.

— Tem um lugar legal passando o próximo farol. Boa comida. Barata também.

Shadow entrou no estacionamento e saíram do carro. Ele não se preocupou em trancar a porta, apesar de ter guardado as chaves no bolso. Pegou algumas moedas para comprar um jornal.

— Você tem dinheiro pra comer aqui?

— Tenho — ela disse. — Posso pagar minha conta.

— Olha só, vamos tirar no cara ou coroa. Cara você me paga o jantar, coroa eu pago pra você.

— Deixa eu ver a moeda primeiro — argumentou, desconfiada. — Um tio meu tinha uma moeda de vinte e cinco centavos com duas caras.

A garota inspecionou a moeda e ficou satisfeita ao constatar que não havia nada de estranho. Shadow arrumou a moeda com a cara aparecendo em cima do polegar e fez um truque quando a jogou para cima, de modo que a moeda balançou e pareceu que rodopiava. Ele a pegou e a colocou sobre as costas da mão esquerda, e revelou o resultado com a mão direita, na frente dela.

— Coroa — ela disse, alegremente. — Você paga o jantar.

— Pois é. Não dá pra ganhar todas.

Shadow pediu bolo de carne e Sam, lasanha. Ele folheou ü jornal para ver se lia algo a respeito de homens mortos em um trem de frete. Mas não. A única notícia interessante estava na primeira página: corvos em número recorde infestavam a cidade. Os agricultores locais queriam pendurar corvos mortos pela cidade, em prédios públicos, para espantar os outros. Ornitologistas diziam que não funcionaria, que os corvos vivos simplesmente comeriam os mortos. Eles eram implacáveis. "Quando virem os cadáveres de seus amigos", dizia um porta-voz, "vão saber que a gente não os quer aqui".

A comida veio amontoada em pratos fumegantes, mais do que uma pessoa poderia comer.

— O que você vai fazer em Cairo? — disse Sam, com a boca cheia.

— Não faço a mínima idéia. Recebi uma mensagem do meu patrão dizendo que precisa de mim lá.

— Qual é o seu trabalho?

— Sou um garoto de recados. Ela sorriu.

— Bom, você não é da máfia, não com essa aparência, não dirigindo aquela porcaria. Falando nisso, por que o seu carro tem cheiro de banana? Ele deu de ombros e continuou a comer. Sam apertou os olhos:

— Talvez você seja traficante de banana. Você ainda não me perguntou o que eu faço.

— Imaginei que você estudasse.

— Na universidade estadual de Madison.

— Onde você, sem dúvida, estuda história da arte, feminismo e provavelmente modela seus próprios bronzes. E ainda trabalha em uma lanchonete pra ajudar a pagar o aluguel.

Ela largou o garfo, com as narinas abertas e os olhos arregalados.

— Caralho, como é que você fez isso?

— O quê? Agora você tem que falar: "não, na verdade eu estudo línguas românticas e ornitologia".

— Então você está me dizendo que foi um chute ou coisa parecida?

— Do que é que você está falando? Ela olhou para ele com olhos escuros.

— Você é um cara esquisito, senhor... Eu nem sei o seu nome.

— Me chamam de Shadow.

Sua boca se contorceu como se ela estivesse comendo algo de que não gostasse. Parou de falar, abaixou a cabeça, terminou a lasanha.

— Sabe por que aquele lugar se chama Egito? — perguntou Shadow.

— Lá perto de Cairo? Sei. É o delta dos rios Ohio e Mississipi. Igual ao Cairo no Egito, no delta do Nilo.

— Isso faz sentido.

Ela se recostou na cadeira, pediu um café e uma torta de musse de chocolate e passou a mão pelos cabelos pretos.

— Você é casado, senhor Shadow? Ele hesitou.

— Caramba, fiz outra pergunta delicada, né?

— Ela foi enterrada na quinta-feira — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. — Morreu em um acidente de carro.

— Ai meu Deus, Jesus. Sinto muito.

— Eu também.

Uma pausa desconfortável.

— Minha meio-irmã perdeu o filho, meu sobrinho, no fim do ano passado. É difícil.

— É, é mesmo. Do que é que ele morreu? Ela deu um gole no café.

— A gente não sabe. Nem sabemos ao certo se ele está morto. Ele simplesmente sumiu. Mas só tinha 13 anos. Foi no meio do inverno passado. Minha irmã ficou supermal.

— Não descobriram nenhuma pista?

Ele parecia um policial de TV. Tentou mais uma vez:

— Estão suspeitando de crime? Aquilo soou ainda pior.

— Suspeitaram do imbecil do meu cunhado, que não tem a custódia, o pai dele. Era bastante imbecil pra levar o menino embora. Deve ter levado. Mas aconteceu em uma cidadezinha das florestas do norte. Uma cidadezinha linda, querida, charmosa, onde ninguém nunca tranca a porta.

Ela suspirou, sacudiu a cabeça. Segurou a xícara de café com as duas mãos.

— Tem certeza de que você não tem sangue de índio?

— Não que eu saiba. É possível. Eu não sei muita coisa a respeito do meu pai. Mas acho que a minha mãe teria dito se ele fosse americano nativo. Talvez.

De novo, a boca contorcida. Sam desistiu no meio da torta: a fatia era do tamanho da metade da cabeça dela. Empurrou o prato na direção de Shadow:

— Quer?

— Claro.

E acabou com o doce.

A garçonete entregou a conta para eles e Shadow pagou.

— Obrigada — disse Sam.

Estava ficando mais frio. O carro tossiu algumas vezes antes de pegar. Shadow voltou para a estrada e seguiu sua rota para o sul.

— Você já leu um cara chamado Heródoto?

— Jesus. O quê?

— Heródoto. Você já leu as Histórias dele?

— Sabe — ela disse, sonhadora —, eu não entendo o jeito que você fala, as palavras que você usa nem nada. Uma hora você é um grandalhão meio burro, depois lê meus pensamentos e, logo em seguida, a gente fala de Heródoto. Então, não. Eu não li Heródoto. Já ouvi falar dele. Talvez no rádio. Não é ele que chamam de pai da mentira?

— Pensei que esse aí fosse o diabo.

— É, ele também. Mas falaram que Heródoto disse que tinha formigas gigantes e grifos vigiando minas de ouro... como ele inventou esse negócio?

— Acho que não. Ele escreveu o que contaram pra ele. Ë como se ele estivesse só escrevendo aquelas histórias. E são, na maioria, bem legais. Têm um monte de detalhezinhos, tipo, você sabia que, no Egito, se uma moça muito bonita  ou a mulher de algum nobre, ou alguém assim, morresse, ela só era mandada pro embalsamador depois de três dias? Deixavam o corpo dela apodrecer no calor primeiro.

— Por quê? Ah, espera aí. Está bem, acho que sei por quê. Ai, que nojo.

— E ele também fala de batalhas, tem todo tipo de coisa normal. E tem também os deuses. Um cara qualquer volta correndo pra contar o resultado da batalha. Ele corre, corre e vê Pa em uma clareira. E Pa fala: "Diga que construam um templo aqui". Então, ele responde: "Tudo bem", e corre todo o resto do caminho. Ele relata as notícias da batalha, e então diz: "Ah, falando nisso, Pa quer que vocês construam um templo pra ele". É bem prático, sabe?

— Então ele conta histórias sobre deuses. O que você está tentando dizer? Que aqueles caras tinham alucinações?

— Não — disse Shadow. — Não é isso. Ela roeu uma cutícula solta.

— Eu li um livro aí sobre o cérebro. Era da minha colega de quarto, que vivia falando dele. Era tipo, 5 mil anos atrás, os lados do cérebro se fundiram e, antes disso, as pessoas pensavam que quando o lado direito do cérebro dizia alguma coisa, era a voz de um deus qualquer falando o que deveria ser feito. Mas era só o cérebro.

— Eu prefiro a minha teoria — disse Shadow.

— Qual é?

— Que naquele tempo as pessoas costumavam cruzar com os deuses de vez cm quando.

— Ah.

Silêncio: só o barulho do carro, o ronco do motor, o gorgolejar do amortecedor — que não parecia em bom estado. Então, ela disse:

— Você acha que eles ainda estão lá?

— Onde?

— Na Grécia. No Egito. Nas ilhas. Naqueles lugares. Você acha que, se fosse aos lugares aonde aquelas pessoas iam, veria os deuses?

— Talvez. Mas acho que as pessoas não saberiam que era isso que viram.

— Aposto que é igual ao caso dos extraterrestres — ela disse. — Hoje em dia, as pessoas vêem extraterrestres. Naquele tempo, viam deuses. Talvez os extraterrestres venham do lado direito do cérebro.

— Duvido que os deuses alguma vez tenham colhido amostras retais — disse Shadow. — E eles não matavam gado pessoalmente. Arranjavam gente pra fazer isso.

Ela deu uma risada. Continuaram o caminho em silêncio por alguns minutos, e então ela falou:

— Ei, isso aí me lembra da minha história preferida de deuses, da aula de Religião Comparada. Quer ouvir?

— Claro.

— Tudo bem. É a respeito de Odin. O deus nórdico. Sabe? Tinha um rei viquingue em um barco viquingue... isso aconteceu nos tempos dos viquingues, obviamente... e ele estava no meio de uma calmaria, então disse que sacrificaria um dos seus homens pra Odin se este mandasse vento pra eles chegarem em terra firme. Tudo bem. O vento veio e eles conseguiram. Então, fizeram um sorteio pra ver quem seria sacrificado... e seria o próprio rei. Bom, ele não ficou contente com isso, mas acharam que dava pra fazer um enforcamento simbólico, sem machucar. Pegaram o intestino de um bezerro, enrolaram bem frouxo no pescoço do cara e amarraram a outra ponta em um galho fino. Pegaram um pedaço de bambu em vez de uma lança e começaram a cutucar o rei e talar:

"Pronto, você foi enforcado, foi sacrificado a Odin".

A estrada fez uma curva: outra cidade (população 300), lar do segundo colocado no campeonato estadual de patinação de velocidade, na categoria infanto-juvenil, e duas enormes funerárias de cada lado da estrada. Quantas funerárias eram necessárias, Shadow se perguntou, em uma cidade que só tinha 300 habitantes?

— Tudo bem. Assim que falam o nome de Odin, o bambu se transforma em uma lança e fura o cara na lateral do corpo, o intestino de bezerro se transforma em uma corda grossa, o galho fica forte e a árvore cresce. O chão foge de seus pés, e o rei fica lá pra morrer, com um machucado na lateral do corpo e o rosto ficando preto. Fim da história. Os brancos têm uns deuses bem fedidos, senhor Shadow.

— É. Você não é branca?

— Eu sou Cherokee.

— De sangue puro?

— Não. Só dois litros. Minha mãe era branca. Meu pai era um índio de reserva indígena de verdade. Um dia ele saiu fora, casou-se com a minha mãe, me tiveram e, quando se separaram, ele voltou para Oklahoma.

— Ele voltou pra reserva indígena?

— Não. Pegou dinheiro emprestado e abriu uma cópia do Taco Bell chamada Taco Bill's. Meu pai se vira bem. Ele não gosta de mim. Diz que eu sou mestiça.

— Sinto muito.

— Ele é um imbecil. Eu me orgulho do meu sangue indígena. Me ajuda a pagar a mensalidade da faculdade. Caralho, um dia vai me ajudar a arrumar emprego, se eu não conseguir vender meus bronzes.

— É, é uma alternativa.

Ele parou em El Paso, Illinois (população 2.500), para deixar Sam em uma casa caindo aos pedaços, longe do centro da cidade. Uma enorme rena de arame coberta com luzes piscantes enfeitava o jardim da frente.

— Quer entrar? — ela perguntou. — Minha tia pode oferecer um café pra você.

— Não. Preciso ir em frente.

Ela sorriu para ele, de repente parecendo, pela primeira vez, vulnerável. E lhe deu alguns tapinhas no braço.

— Você é um cara fodido, mas é legal.

— Acho que é o que chamam de condição humana — disse ele. — Obrigado pela companhia.

— Sem problema. Se você vir algum deus na estrada pro Cairo, diga que eu mandei um beijo.

Ela desceu do carro e foi até a porta da casa. Tocou a campainha e ficou parada na soleira sem olhar para trás. Shadow esperou até a porta se abrir e ela estar lá dentro a salvo antes de pisar no acelerador e voltar para a estrada. Passou por Normal, Bloomington e Lawndale.

Às 11 h daquela noite, Shadow começou a tremer. Ele havia acabado de entrar em Middletown. Decidiu dormir, ou pelo menos parar de dirigir, e estacionou em frente a uma pousada. Pagou 35 dólares, em dinheiro vivo adiantado, por um quarto térreo, e entrou no banheiro. Havia uma barata morta de barriga para cima no meio do chão azulejado. Shadow pegou uma toalha, limpou a parte interna da banheira e abriu a torneira. Voltou para o quarto, tirou a roupa e colocou-a em cima da cama. As escoriações de seu torso estavam escuras e brilhantes. Sentou-se na banheira, observando a cor da água mudar. Então, nu, lavou suas meias, cueca e camiseta na pia, torceu bem e pendurou tudo no varal que puxou da parede em cima da banheira. Deixou a barata onde estava, por respeito aos mortos.

Shadow se deitou na cama. Pensou na possibilidade de assistir a um filme pornô, mas o aparelho de pay-per-view perto do telefone precisava de um cartão de crédito para funcionar, e era muito arriscado. Além disso, ele não tinha certeza se ver outras pessoas fazerem sexo, coisa que não fazia há muito tempo, iria ajudar muito. Ligou a TV em busca de companhia e apertou o botão do timer três vezes, programando o aparelho para se desligar automaticamente em 45 minutos. Faltavam quinze para a meia-noite.

A imagem estava embaçada, e as cores pareciam correr pela tela. Ele mudou de um talk-show para outro no meio da devastação televisiva, sem conseguir se concentrar. Alguém demonstrava alguma coisa em uma cozinha, usando uma dúzia de utensílios domésticos diferentes, nenhum dos quais Shadow possuía. Troca de canal. Um homem de terno explicava que era o fim dos tempos e que Jesus — uma palavra de quatro ou cinco sílabas, de acordo com a maneira que o homem a pronunciava — faria com que os negócios de Shadow prosperassem e obtivessem sucesso se enviasse dinheiro a ele. Troca de canal. Um episódio de M*A*S*H terminou e um do Dick Van Dyke Show começou.

Fazia anos que Shadow não assistia a um episódio do Dick Van Dyke Show, mas havia algo de reconfortante no mundo em branco e preto, de 1965, que o programa mostrava, e ele largou o controle remoto ao lado da cama, e apagou o abajur de cabeceira. Assistiu ao programa, olhos lentamente se fechando, consciente de que algo estava esquisito. Shadow não tinha o costume de assistir a muitos episódios do Dick Van Dyke Show, por isso não se surpreendeu ao constatar que esse episódio não era um deles. O que achou estranho mesmo foi o tom.

Todos os personagens habituais estavam preocupados com a bebedeira de Rob. Ele estava faltando no trabalho. Foram até sua casa e ele havia se trancado no quarto. Precisou ser convencido para sair. Ele tropeçava de bêbado, mas ainda era bem engraçado. Seus amigos, representados por Maury Amsterdam e Rose Marie, foram embora depois de fazer algumas piadas engraçadas. Então, quando sua esposa chegou para censurá-lo, Rob bateu nela, bem forte, no rosto. Ela se sentou no chão e começou a chorar, não com aquele choramingo famoso de Mary Tyler Moore, mas com soluços curtos e desesperados, apertando os braços em torno de si e sussurrando: "Não me bata, por favor. Eu faço o que você quiser, mas não me bata mais".

— Que merda é essa? — Shadow disse alto.

A imagem se dissolveu em um chuvisco brilhante. Quando voltou, o Dick Van Dyke Show havia se transformado, inexplicavelmente, em I Love Lucy. Ela estava tentando convencer Ricky a trocar a geladeira velha por uma nova. Mas quando ele saiu, ela foi até o sofá e se sentou, cruzando as pernas, repousando as mãos no colo, e olhando pacientemente através dos anos em branco e preto.

— Shadow. Precisamos conversar.

Ele não disse nada. Ela abriu a bolsa e tirou um cigarro, acendeu com um isqueiro prateado claro e guardou o isqueiro.

— Estou falando com você. Vai responder?

— Isso é loucura — disse Shadow.

— E o resto da sua vida é bem normal? Dá um tempo, porra.

— Sei lá. Lucille Ball falando comigo pela TV é mais esquisito, em uma ordem de magnitude muito maior, do que qualquer coisa que já aconteceu comigo até agora.

— Não é Lucille Ball. É Lucy Ricardo. E quer saber o que mais? Eu nem sou ela. Esse é só um jeito fácil de aparecer, tendo em vista o contexto. Só isso. Ela se ajeitou de maneira desconfortável no sofá.

— Quem é você? — perguntou Shadow.

— Tudo bem. Boa pergunta. Eu sou a caixa dos idiotas. Sou a TV Eu sou o olho que vê tudo e sou o mundo do raio catódico. Eu sou o tubo dos tolos... o pequeno altar na frente do qual a família se reúne pra adorar.

— Você é a televisão? Ou é alguém na televisão?

— A TV é o altar. Eu sou aquilo pelo que as pessoas se sacrificam.

— Como se sacrificam? — perguntou Shadow.

— O tempo que têm — disse Lucy. — Às vezes, umas às outras. Ela levantou os dois indicadores e soprou a fumaça de revólveres imaginários das pontas dos dedos. Então piscou um olho, aquela piscadela famosa e adorada de I Love Lucy.

— Você é uma deusa?

Lucy deu um sorriso forçado e uma tragada de dama no cigarro.

— Posso dizer que sim.

— Sam mandou um beijo — disse Shadow.

— O quê? Quem é Sam? Do que é que você está falando? Shadow olhou para o relógio. Eram meia-noite e vinte e cinco.

— Não importa — ele disse. — Então, Lucy-na-TV, sobre o que a gente precisa conversar? Gente demais tem precisado falar comigo recentemente. E geralmente termina com alguém me batendo.

A câmera se moveu para um dose: Lucy parecia preocupada, com os lábios apertados.

— Eu detesto isso. Detesto saber que alguém machucou você. Eu nunca faria isso, querido. Não, eu quero oferecer um trabalho pra você.

— Pra fazer o quê?

— Trabalhar pra mim. Ouvi falar dos problemas que você teve com o show dos agentes secretos, e fiquei impressionada com a maneira como você lidou com aquilo. Eficiente, nada tola. Quem é que ia pensar que você tinha tudo aquilo dentro de você? Todo mundo está puto da vida.

— É mesmo?

— Todo mundo subestimou você, queridinho. Um erro que eu nunca cometeria. Eu quero você ao meu lado.

Ela se levantou e andou até a câmera:

— Pense assim, Shadow: nós somos o futuro. Nós somos os shopping centers... Seus amigos são umas atrações de beira de estrada vagabundas. Caralho, nós somos shopping centers on-line, enquanto seus amigos ficam sentados no acostamento vendendo num carrinho algum troço que plantaram em casa. Não... eles não são nem vendedores de frutas. Vendem chicotes pra carroças. Consertam corseletes de barbatana de baleia. Somos hoje e amanhã. Seus amigos não são mais nem ontem.

Era um discurso estranhamente familiar. Shadow perguntou:

— Você conhece um rapaz gordo que anda de limusine? Ela abriu as mãos e virou os olhos comicamente, a engraçada Lucy Ricardo lavando as mãos de um desastre.

— O moço da técnica? Você conheceu o moço da técnica? E um bom rapaz. Ele é um de nós. Só não trata bem as pessoas que ainda não conhece. Quando você estiver trabalhando com a gente, vai ver como ele é fantástico.

— E se eu não quiser trabalhar pra você, I-Love-Lucy?

Ouviu-se uma batida na porta do apartamento de Eucy e a voz de Ricky fora da cena, perguntando a Luuuu-cy por que ela estava demorando tanto, por que eles precisavam estar no bar na próxima cena. Um traço de irritação passou pelo rosto caricatural de Lucy — Caralho — ela disse. — Olha, não importa quanto o velho está pagando pra você, eu pago o dobro. O triplo. Cem vezes mais. Posso dar muito mais do que eles.

Ela sorriu, um sorriso cheio de malandragem, um sorriso de Lucy Ricardo.

— Peça o que quiser, querido. Do que você precisa? E começou a desabotoar a blusa.

— Você nunca quis ver os peitos da Lucy? A tela ticou preta. O timer havia entrado em ação e o aparelho se desligou sozinho. Shadow olhou para o relógio: eram meia-noite e meia.

— Acho que não — respondeu Shadow.

Ele virou para o outro lado e fechou os olhos. Chegou à conclusão de que a razão pela qual ele gostava mais de Wednesday e do senhor Nancy e de todos os outros, do que da oposição, estava bem clara: eles podiam ser sujos e mesquinhos, e a comida deles podia ter gosto de merda, mas pelo menos não falavam um monte de clichês.

E achou que preferiria, em qualquer situação, uma atração de beira de estrada a um shopping center, por mais desprezível, deformada ou triste que fosse.

A manhã encontrou Shadow de volta à estrada, seguindo por uma paisagem marrom levemente ondulada, de grama de inverno e de árvores desfolhadas. O resto de neve tinha desaparecido. Ele encheu o tanque da porcaria em uma cidadezinha que era o lar da segunda colocada estadual juvenil em corrida de trezentos metros rasos e, com esperança de que não fosse a sujeira que mantinha o carro em pé, passou no lava rápido do posto. Ficou surpreso ao descobrir que o carro era, quando limpo — e contra toda a lógica —, branco e quase sem ferrugem alguma. Shadow continuou o caminho.

O céu estava exageradamente azul, e a fumaça industrial branca que levantava das chaminés das fábricas parecia congelada no céu, como uma fotografia. Um falcão se lançou de uma árvore morta e voou na direção dele, as asas batendo em câmera lenta sob a luz do sol como se fosse uma série de fotografias estáticas.

A certa altura, percebeu que estava indo em direção à parte leste de St. Louis. Tentou evitar, mas se deu conta de que estava passando pelo que parecia ser uma zona de meretrício em um parque industrial. Caminhões de dezoito rodas e enormes veículos de carga estavam estacionados na frente de prédios que se pareciam com bordéis temporários, que clamavam ser CLUBES NOTURNOS 24 HORAS e, em um caso, O MELHOR SHOW DE STRIP-TEASE DA CIDADE. Shadow sacudiu a cabeça e continuou em frente. Laura adorava dançar, vestida ou nua (e, em várias noites memoráveis, passando de um estado ao outro), e ele adorava observá-la.

O almoço foi um sanduíche e uma lata de Coca em uma cidade chamada Red Bud.

Passou por um vale repleto de destroços de milhares de escavadoras, tratores e tratores de esteira amarelos. Ficou imaginando se aquele seria o cemitério das escavadeiras, aonde elas iam para morrer.

Shadow passou pelo Pop-a-Top Lounge. Atravessou Chester ("Lar de Popeye"). Reparou que as casas tinham ganhado pilares nas fachadas, que até as casas mais modestas, mais estreitas, tinham seus pilares brancos, proclamando-se, aos olhos de alguém, uma mansão. Cruzou por cima de um rio grande e lamacento, e riu alto quando viu que seu nome era, de acordo com a placa, Rio Grande Lamacento. Viu um vinhedo marrom cobrindo três árvores desfolhadas pelo inverno, dando a elas aparência estranha, quase humana: poderiam ser bruxas, três velhas corcundas prontas para revelar sua sorte.

Seguiu o curso do rio Mississipi. Shadow nunca vira o rio Nilo, mas o sol da tarde ofuscante que queimava sobre o rio marrom e largo fez com que ele pensasse na extensão lamacenta do rio Nilo: não o rio Nilo de agora, mas aquele de muito tempo atrás, correndo como uma artéria por entre os pântanos de papiro, lar de najas, de chacais e de vacas selvagens...

Uma placa de estrada apontava para Tebas.

A estrada era construída a cerca de quatro metros do chão, acima dos pântanos. Massas disformes e grupos de pássaros voavam de um lado para o outro, pontos negros contra o céu azul, em movimentos Brownianos desesperados.

No fim da tarde, o sol começou a baixar, iluminando o mundo com a luz dos elfos, uma luz espessa e quente, cor-de-creme, que fazia com que o mundo parecesse sobrenatural e mais do que real, e foi sob essa luz que Shadow passou pela placa... Você Está Entrando na Cairo Histórica. Cruzou por baixo de uma ponte e entrou em uma pequena cidade portuária. As estruturas imponentes do fórum de Cairo e as ainda mais imponentes estruturas da alfândega pareciam enormes bolachas recém-saídas do forno no dourado melado da luz do fim do dia.

Estacionou o carro em uma rua secundária e andou até o aterro na beira de um rio, sem ter muita certeza se olhava para o rio Ohio ou para o Mississipi. Uma gatinha parda colocou a cabeça para fora e pulou no meio das latas de lixo atrás de um prédio... a luz transformava até o lixo em magia.

Uma gaivota solitária planava na beira do rio, batendo uma asa de vez em quando para corrigir o curso.

Shadow percebeu que não estava sozinho. Uma garotinha, usando tênis velhos nos pés e um suéter masculino de lã cinza como vestido, estava parada na calçada, a dez metros de distância, olhando para ele com a gravidade sombria de uma criança de seis anos. Seus cabelos eram pretos, lisos e longos; sua pele era tão marrom quanto o rio.

Ele sorriu para ela, que olhou diretamente para ele, desafiadora.

Ouviu-se um grito estridente e um uivo vindos do lado da cidade, e a gatinha parda saiu como uma flecha de uma lata de lixo tombada, seguida por um cachorro preto de focinho comprido. A gata correu para debaixo de um carro.

— Ei — Shadow chamou a menina. — Você já viu pó de invisibilidade? Ela hesitou por um instante. Então sacudiu a cabeça.

— Tudo bem. Então veja isto.

Shadow pegou uma moeda de 25 centavos com a mão esquerda, mostrou-a, virando de um lado para o outro, então fingiu passá-la para a mão direita, fechando a mão bem firme em cima do nada, e esticando o braço.

— Agora, vou pegar um pouco de pó de invisibilidade do meu bolso... E colocou a mão esquerda no bolso de cima do casaco, deixando a moeda cair no bolso.

— E vou salpicar a minha mão que está com a moeda... E fez uma mímica.

— E, olha, agora a moeda também ficou invisível.

Ele abriu a mão direita vazia e, fazendo ar de surpresa, mostrou a mão esquerda vazia também.

A garotinha só olhava.        Shadow deu de ombros, colocou as mãos de volta nos bolsos, segurando uma moeda de 25 centavos em uma das mãos, uma nota de 5 dólares dobrada na outra. Ele estava pensando em fazer o dinheiro surgir do ar, e então dar à menina a nota de cinco paus: ela parecia precisar.

— Ei — ele disse. — A gente tem platéia.

O cachorro preto e a gatinha parda também o assistiam com atenção, formando uma fileira com a garota. As enormes orelhas do cachorro estavam para cima, passando uma expressão comicamente alerta. Um homem, cuja postura lembrava a silhueta de um guindaste e que usava óculos de aros dourados, veio andando pela calçada na direção deles, olhando de um lado para o outro como se estivesse procurando alguma coisa. Shadow imaginou que ele poderia ser o dono do cachorro.

— O que você achou? — Shadow perguntou para o cachorro, tentando conquistar a garotinha. — Não foi legal?

O cachorro preto lambeu o focinho comprido. Então disse, com uma voz profunda e seca:

— Eu vi o Harry Houdini uma vez e, acredite, cara, você nem chega aos pés dele.

A garotinha olhou para os bichos, olhou para Shadow e saiu correndo, os pés batendo no chão como se os poderes do inferno a estivessem perseguindo. Os dois animais olharam ela ir. O homem alto alcançou o cachorro. Abaixou-se e acariciou as orelhas apontadas para cima.

— Dá um tempo — disse o homem para o cachorro. — Foi só um truque com moeda. Não foi como se ele estivesse se livrando de correntes embaixo d'água.

— Ainda não — falou o cachorro —, mas ele vai fazer isso. A luz dourada acabou e começou o cinza do crepúsculo. Shadow guardou a moeda e a nota dobrada no bolso.

— Tudo bem. Qual de vocês dois é o Chacal?

— Use os olhos — disse o cachorro preto de focinho comprido. O bicho começou a andar devagar pela calçada, ao lado do homem, e, depois de um instante de hesitação, Shadow os seguiu. A gata estava fora de vista. Chegaram a um grande prédio antigo em uma fileira de casas de madeira. A placa ao lado da porta dizia IBIS EJACQUEL. UMA EMPRESA DE FAMÍLIA. FUNERÁRIA. DESDE 1863.

— Eu sou o senhor Ibis — disse o homem com óculos de aros dourados. — Acho que devo convidar você pra ceia. Meu amigo aqui tem um serviço a fazer.

EM ALGUM LUGAR NOS ESTADOS UNIDOS Nova York assusta Salim, por isso ele agarra seu mostruário de maneira protetora com as duas mãos, segurando-o junto ao peito. Tem medo dos negros, da maneira como olham para ele, e também dos judeus — daqueles vestidos inteiramente de preto com chapéus, barbas e costeletas encaracoladas, que ele consegue identificar, e tantos outros que não consegue — ele tem medo da quantidade absurda de pessoas, de todos os formatos e tamanhos, que saem de seus prédios altos e sujos demais para as calçadas. Tem medo das buzinas e do tumulto do tráfego, e até do ar, que não tem nada a ver com o ar de Orna.

Salim está em Nova York, nos Estados Unidos, há uma semana. Todo dia ele visita dois, talvez três escritórios diferentes, abre seu mostruário, mostra suas bugigangas de cobre, os" anéis e as garrafinhas, as minúsculas lanternas, os modelos do Empire State, da Estátua da Liberdade, da Torre Eiffel, que brilham lá dentro... Todo dia passa um fax para o cunhado, Fuad, que está em casa, em Mascate, dizendo que não conseguiu uma só encomenda ou, em um dia feliz, que conseguiu várias encomendas (mas que, como Salim sabe bem, ainda não bastam para pagar sua passagem e sua hospedagem).

Por razões que Salim não entende, os sócios de seu cunhado fizeram reservas no hotel Paramount, na rua 46. Ele considera o local confuso, claustrofóbico, caro, estranho.

Fuad c o marido da irmã de Salim. Ele não é rico, mas é um dos donos de uma fábrica de bugigangas. Tudo é feito para exportação, para outros países árabes, a Europa e os Estados Unidos. Salim trabalha para o cunhado há seis meses. Fuad o assusta um pouco. O tom de seus faxes está ficando cada vez mais áspero. À noite, Salim fica sentado no quarto, recitando seu Alcorão, dizendo a si mesmo que isso vai passar, que sua estadia neste mundo estranho é limitada e finita.

O cunhado deu a ele mil dólares para as despesas de viagem, e o dinheiro, que parecia uma alta soma quando o viu pela primeira vez, está evaporando mais rápido do que Salim pode acreditar. Quando chegou, com medo de ser tomado por um árabe mesquinho, dava gorjetas para todo mundo, a toda hora; e então percebeu que estavam se aproveitando dele, talvez até rindo dele, e assim parou de dar gorjetas totalmente.

Em sua primeira e única viagem de metro, ficou confuso e se perdeu, e não chegou à reunião. Agora ele só toma táxis quando precisa, e caminha o resto do tempo. Chega tropeçando aos escritórios quentes demais com as bochechas amortecidas por causa do frio lá fora, suando por sob o casaco, com os pés encharcados de neve derretida. Quando os ventos sopram pelas avenidas (que vão de norte para sul, assim como as ruas vão de oeste para leste, tudo tão simples... Salim sempre sabe para onde fica Meca), ele sente um frio tão grande na parte da pele que está exposta que é como se recebesse um golpe.

O árabe nunca come no hotel (porque ao mesmo tempo em que a conta do hotel é paga pelos sócios de Fuad, ele precisa pagar por sua própria comida), mas compra comida em casas de falafel e mercadinhos. Passou dias levando a comida escondida para o quarto, até perceber que ninguém ligava para aquilo. E, mesmo assim, ele se sente estranho por carregar sacolas de plástico pelos elevadores mal iluminados (Salim sempre precisa se curvar e apertar os olhos para achar o botão do seu andar) e para dentro do quartinho branco onde está hospedado.

Salim está preocupado. O fax que esperava por ele nesta manhã era curto e grosso, com tom de desaprovação e frustração. Salim estava desapontando todo mundo — a irmã, Fuad, os sócios de Fuad, o sultanato de Orna, todo o mundo árabe. A menos que ele conseguisse as encomendas, Fuad não consideraria mais sua obrigação dar emprego a Salim. Todos dependiam dele. O hotel era caro demais. O que Salim estava fazendo com o dinheiro deles, vivendo como um Sultão nos Estados Unidos? Salim leu o fax no quarto (que sempre estava quente e abafado demais, por isso abriu a janela na noite anterior, só que agora estava muito frio) e ficou sentado lá durante um certo tempo, com o rosto congelado em uma expressão de pura tristeza.

Então Salim vai até o centro, segurando seu mostruário como se levasse diamantes e rubis, percorrendo quarteirão após quarteirão com dificuldade, no meio do rio, até que, na esquina da Broadway com a rua 19, encontra um prédio mal-cuidado em cima de uma rotisseria. Sobe as escadas até o quarto andar, e vai ao escritório da Importação Panglobal.

O lugar é sombrio, mas ele sabe que a Panglobal negocia quase a metade dos suvenires decorativos que entram nos EUA vindos do Oriente. Uma encomenda de verdade, uma encomenda significativa da Panglobal, poderia redimir a viagem de Salim, poderia ser a diferença entre fracasso e sucesso, por isso ele se senta em uma cadeira de madeira desconfortável na sala de espera, com o mostruário equilibrado sobre o colo, olhando para a mulher de meia-idade, com o cabelo tingido de uma cor muito forte, que está sentada na recepção, usando um Kleenex atrás do outro. Depois que assoa o nariz, ela o limpa e joga o papel no lixo.

Salim chegou lá às 10h30 da manhã, meia hora antes do horário marcado. Agora, está sentado ali, corado e tremendo, se perguntando se não está com febre. O tempo passa tão devagar...

Salim olha para o relógio. Então limpa a garganta.

A mulher na recepção olha para ele.

— Bois não?

— São 11h35— diz Salim.

A mulher olha para o relógio na parede e fala:

— É.É besbo.

— Minha reunião era às 11 h — diz Salim, com um sorriso conciliador.

— O senhor Blanding sabe que bocê está aqui — ela explica, com um tom de desaprovação.

Salim pega um exemplar antigo do New York Post da mesa. Ele fala inglês melhor do que lê, começa a ler as reportagens como se estivesse resolvendo um diagrama de palavras cruzadas, sem entender muitas coisas. Ele espera, um rapaz rechonchudo com olhos de cachorrinho perdido, olhando do relógio de pulso para o jornal, e do jornal para o relógio na parede.

Ao meio dia e meia, vários homens saem de dentro do escritório. Eles falam alto, fazendo piadas um com o outro em inglês. Um deles, um homem grande e barrigudo, leva um charuto, sem acender, na boca e olha para Salim quando sai. Diz para a mulher da recepção que experimente tomar suco de limão e zinco, porque a irmã dele fala que zinco e vitamina C são as melhores coisas para curar gripe. Ela promete que vai tomar, e lhe entrega vários envelopes. Ele coloca todos no bolso e então, junto com todos os outros homens, sai para o corredor. O som de suas risadas desaparece escada abaixo.

É uma hora da tarde. A mulher da recepção abre uma gaveta e retira um saco de papel pardo, do qual retira vários sanduíches, uma maçã e uma barra de chocolate Milky Way. Ela também tira uma garrafa pequena de suco de laranja espremido na hora.

— Com licença — diz Salim —, será que você poderia dizer ao senhor Blanding que eu ainda estou esperando?

Ela olha para ele como se estivesse surpresa ao constatar que ainda está ali, como se não houvesse um metro e meio de distância entre eles, há duas horas e meia.

— Ele está alboçando — ela diz.

Salim sabe, sabe no fundo de sua alma, que Blanding era o homem com o charuto sem acender.

— Quando ele volta?

Ela dá de ombros e morde o sanduíche.

— Ele bai estar ocupado com combromissos o resto do dia.

— Ele vai me receber quando voltar?

Ela dá de ombros mais uma vez e assoa o nariz.

Salim sente fome, cada vez mais, e frustração e impotência.

Às três da tarde, a mulher olha para ele e diz:

— Ele não bai boltar.

— Perdão?

— O senhor Blanding. Ele não bai boltar hoje.

— Posso marcar uma reunião para amanhã? Ela limpa o nariz.

— Bocê bai ter que telefonar. Só barcabos reuniões por telefone.

— Entendo — disse Salim.

E então, ele sorri. Um vendedor, Fuad dizia sempre isso, está nu nos Estados Unidos sem um sorriso.

— Amanhã eu telefono.

Ele pega seu mostruário e desce todas as escadas até a rua, onde a chuva fria se transforma gradualmente em neve. Salim pensa na longa e gelada caminhada até o hotel da rua 46, e em seu pesado mostruário, então vai até a beira da calçada e acena para todos os táxis amarelos que se aproximam, sem olhar se a luz está acesa ou não, e todos passam direto por ele.

Um deles acelera quando passa; uma das rodas mergulha num buraco na rua, jogando água enlameada e gelada sobre as calças e o casaco de Salim. Por um instante, ele pensa em se jogar na frente de um dos carros que se movem pesadamente, e então lembra que seu cunhado ficaria mais preocupado com o destino do conteúdo do mostruário do que com o próprio Salim, e depois aquilo não magoaria ninguém além de sua querida irmã, a esposa de Fuad (porque ele sempre foi uma espécie de vergonha para o pai e a mãe. Seus encontros românticos sempre eram, por necessidade, tão breves quanto relativamente anônimos). Além disso, ele duvidava que algum dos carros tivesse velocidade suficiente para acabar com sua vida.

Um táxi amarelo amassado encosta ao lado dele e, feliz por poder abandonar seus pensamentos, Salim entra.

O assento traseiro está remendado com silver tape; os vidros laterais estão cobertos com avisos de proibido fumar e tabelas de preços das corridas para os vários aeroportos. A voz gravada de alguém famoso, de quem ele nunca ouviu falar, diz para se lembrar de usar o cinto de segurança.

— Hotel Paramount, por favor — diz Salim.

O taxista dá um gemido, acelera e volta para o trânsito. Ele tem a barba por fazer, usa um suéter grosso, cor-de-terra, e óculos escuros de plástico. O tempo está cinzento, e a noite está caindo: Salim fica imaginando se o homem tem algum tipo de problema na vista. Os limpadores de pára-brisa borram a paisagem da rua em tons de cinza e em luzes fora de foco.

Vindo de lugar nenhum, um caminhão entra na frente deles, e o taxista fala um palavrão, pelas barbas do profeta.

Salim olha para o nome no painel, mas não consegue enxergar daquela distância.

— Há quanto tempo você é taxista, amigo? — ele pergunta ao homem, em sua própria língua.

— Dez anos — diz o motorista, na mesma linguagem. — De onde você é?

— Mascate. Eu sou omani.

— De Orna. Eu já fui pra Orna. Há muito tempo. Você já ouviu falar da cidade de Ubar?

— De fato ouvi... A Cidade Perdida das Torres. Descobriram a cidade no meio do deserto há uns cinco, dez anos, não me lembro bem. Você participou da expedição arqueológica?

— Mais ou menos. Era uma cidade boa — diz o taxista. — Na maior parte das noites havia três, talvez quatro mil pessoas acampadas por ali. Todo viajante parava pra descansar em Ubar, e tocavam música, e o vinho corria como água e a água corria também, porque era por isso que a cidade existia.

— Foi o que eu ouvi dizer — diz Salim. — E desapareceu há... mil anos? Dois mil anos?

O taxista não diz nada. Estão parados em um sinal vermelho. O sinal abre, mas o motorista não se move, apesar do barulho desafinado e instantâneo das buzinas atrás dele. Com hesitação, Salim toca o motorista no ombro. O homem leva um susto, e enfia o pé no acelerador, derrapando um pouco na neve derretida do cruzamento.

— Merdabostamerdabosta — ele diz, em inglês.

— Você deve estar muito cansado, amigo.

— Faz trinta horas que eu estou dirigindo esse táxi esquecido por Alá. É demais. Antes disso, dormi cinco horas, e tinha dirigido por catorze horas antes. Nessa época, antes do Natal, as pessoas andam mais de táxi.

— Espero que você tenha ganhado muito dinheiro. O motorista suspira.

— Não muito. Hoje de manhã eu levei um homem da rua 51 até o aeroporto de Newark. Quando chegamos lá, ele correu pra dentro do aeroporto, e eu não consegui mais achar o cara. Uma corrida de Cinqüenta dólares perdida, e eu mesmo tive que pagar os pedágios da volta.

Salim assente com a cabeça.

— Eu tive que passar o dia inteiro esperando um homem que não quer me receber. Meu cunhado me odeia. Eu estou nos Estados Unidos há uma semana e não aconteceu nada além do meu dinheiro ter desaparecido. Não vendi nada.

— O que é que você vende?

— Porcaria — diz Salim. — Quinquilharias e badulaques sem valor e suvenires de turistas. Uma porcaria feia, horrível, tola e vagabunda.

O taxista dá uma guinada para a direita, desvia de alguma coisa, continua o caminho. Salim fica se perguntando como é que ele consegue enxergar entre a chuva, a noite e os óculos espessos.

— Você tenta vender porcaria?

— Tento — diz Salim, assustado e mortificado pelo fato de ter contado a verdade a respeito da mercadoria de seu cunhado.

— E ninguém compra?

— Não.

— Estranho. Você olha as lojas daqui e é só isso que elas vendem. Salim sorri nervosamente.

Um caminhão bloqueia a rua à frente deles: um guarda com o rosto vermelho parado na frente do veículo acena, grita e aponta a rua mais próxima.

— Vamos pegar a oitava avenida e chegar ao seu hotel por lá — diz o taxista.

Eles viram na rua seguinte, onde o tráfego está totalmente parado. Ouve-se uma cacofonia de buzinas, mas os carros não se movem.

O motorista cabeceia em seu assento. O queixo começa a se aproximar do peito, uma, duas, três vezes. Então ele começa a roncar suavemente. Salim estica o braço para acordar o homem, torcendo para estar fazendo a coisa certa. Quando sacode seu ombro, o motorista se mexe, e a mão de Salim resvala no rosto do homem, derrubando os óculos dele no seu colo.

O taxista abre os olhos, pega os óculos pretos de plástico e coloca de volta sobre o nariz, mas é tarde demais. Salim viu seus olhos.

O carro se arrasta no meio da chuva. Os números no taxímetro crescem.

— Você vai me matar? — pergunta Salim.

Os lábios do motorista se apertam. Salim observa o rosto do taxista refletido no espelho retrovisor.

— Não — diz o motorista, com muita calma.

O carro pára mais uma vez. A chuva tamborila no teto.

Salim começa a falar.

— A minha avó jura que viu um ifrit, ou talvez um marid, um dia bem tarde da noite, perto do deserto. A gente disse pra ela que era só uma tempestade de areia, um ventinho, mas ela disse que não, que viu seu rosto, e que os olhos dele, como os seus, ardiam em chamas.

O motorista sorri, mas seus olhos estão escondidos pelos óculos pretos de plástico, e Salim não sabe dizer se há algum humor naquele sorriso ou não.

— Meus avós também vieram pra cá — ele diz.

— Tem muito jinn em Nova York? — pergunta Salim.

— Não. Não muitos.

— Existem os anjos, e existem os homens, que Alá fez do barro; e daí existe o povo do fogo, os jinn.

— As pessoas daqui não sabem nada sobre o meu povo — diz o motorista. — Acham que nós realizamos desejos. Se eu pudesse fazer isso, você acha que eu ia estar dirigindo um táxi?

— Não entendo.

O taxista parece deprimido. Enquanto fala, Salim olha para o 'rosto dele pelo espelho, observando os lábios escuros do ifrit.

— Acreditam que nós realizamos desejos. Por que será que acreditam nisso? Eu durmo em um quarto fedido no Brooklin. Eu dirijo este táxi pra qualquer doido fedorento que tem dinheiro pra pegar um táxi, e pra alguns que não têm. Levo todo mundo pra onde precisa ir, e às vezes me dão uma gorjeta.

 

 O lábio inferior dele começou a tremer. O ifrit parecia estar no seu limite.

— Um desses cagou no banco detrás uma vez. Eu tive que limpar antes de pegar o próximo passageiro. Como é que ele pôde fazer isso? Eu tive que limpar o coco mole do assento. Isso tá certo?

Salim estica uma mão, dá alguns tapinhas no ombro do ifrit. Ele consegue sentir a carne sólida através da lã do suéter. O ifrit tira uma das mãos do volante e a coloca sobre a mão de Salim por um instante.

Então Salim pensa no deserto: areias vermelhas sopram uma tempestade pelos seus pensamentos, e a seda escarlate das tendas que circundavam a cidade perdida de Ubar esvoaçam e ondulam através de sua mente.

O táxi sobe a Oitava Avenida.

— Os velhos acreditam nessas coisas. Não mijam em buracos, porque o Profeta disse a eles que os jinn moram lá. Eles sabem que os anjos jogam estrelas de fogo em nós quando tentamos ouvir as conversas deles. Mas, até pros velhos, quando vêm pra este país, nós estamos muito, muito longe. Lá eu não tinha que dirigir táxi.

— Sinto muito — diz Salim.

— Essa é uma época ruim — continua o motorista. — Uma tempestade está vindo por aí. Me assusta. Eu faria qualquer coisa pra ir embora.

Os dois homens não disseram mais nada no caminho para o hotel.

Quando Salim desce do táxi, dá ao ifrit uma nota de 20 dólares e diz para ele guardar o troco. Então, com um repentino arroubo de coragem, dá o número de seu quarto a ele. O taxista não responde nada. Uma moça entra no banco detrás e o carro sai mais uma vez para o meio da chuva fria.

Seis da tarde. Salim ainda não escreveu o fax para o cunhado. Ele sai andando na chuva, compra seu kebab da noite, além de batatas fritas. Só se passou uma semana, mas ele acha que está ficando mais pesado, mais redondo, mais fofo nesse país de Nova York.

Quando volta ao hotel, surpreende-se ao ver que o taxista está parado no saguão, com as mãos enfiadas nos bolsos. Ele está olhando para os cartões-postais em preto e branco expostos ali. Quando vê Salim, sorri, acanhado.

— Eu liguei pro seu quarto, mas não tinha ninguém. Então eu pensei em esperar.

Salim também sorri e toca no braço do homem.

— Estou aqui — diz.

Entram juntos no elevador esverdeado mal-iluminado e sobem até o quinto andar de mãos dadas. O ifrit pergunta se pode usar o banheiro de Salim.

— Eu me sinto muito sujo — diz.

Salim assente com a cabeça. Senta-se na cama, que toma quase todo o pequeno quarto branco, e ouve ò barulho do chuveiro aberto. Salim tira os sapatos, as meias, e então o resto das roupas.

O taxista sai do chuveiro, molhado, com uma toalha enrolada no meio do corpo. Ele não usa seus óculos escuros, e no quarto mal iluminado seus olhos queimam como chamas escarlates.

Salim tem os olhos cheios de lágrimas.

— Gostaria que você pudesse ver o que eu estou vendo — diz.

— Eu não realizo desejos — sussurra o ifrit, deixando a toalha cair e empurrando Salim suave, porém irresistivelmente, para a cama.

Demora mais ou menos uma hora até o ifrit gozar, fazendo movimentos ritmados e se esfregando na boca de Salim. Durante esse tempo Salim já tinha gozado duas vezes. O sêmen do jinn tem um gosto estranho, ardente, e queima a garganta de Salim.

Salim vai para o banheiro lavar a boca. Quando volta para o quarto, o taxista já está adormecido sobre a cama branca, roncando tranqüilamente. Salim se deita na cama ao lado dele e se aconchega, imaginando o deserto em sua pele.

Quando começa a cair no sono, se lembra de que ainda não escreveu seu texto para Fuad, e se sente culpado. Bem no fundo, sente-se vazio e solitário: ele estica o braço, coloca a mão sobre o caralho protuberante do ifrit e, reconfortado, dorme.

Acordam nas primeiras horas da manhã, esfregando-se um no outro, e fazem amor mais uma vez. A certa altura, Salim percebe que está chorando, e que o ifrit beija suas lágrimas com lábios em fogo.

— Qual é o seu nome? — Salim pergunta ao taxista.

— Tem um nome na minha carteira de motorista, mas não é meu — diz o ifrit.

Depois disso, Salim não sabe dizer onde o sexo terminou e onde os sonhos começaram.

Quando Salim acorda, com o sol frio se arrastando pelo quarto branco, está sozinho.

Ele também descobre que seu mostruário não está mais lá, todas as garrafinhas e os anéis e os suvenires de lanternas de cobre, tudo desapareceu junto com sua mala, sua carteira, seu passaporte e sua passagem aérea para voltar para Orna.

Ele encontra um par de jeans, a camiseta e o suéter de lã cor de terra jogados no chão. Embaixo das roupas, há uma carteira de motorista em nome de Ibrahim bin Irem, uma licença de taxista no mesmo nome, e um chaveiro com um endereço em inglês, escrito em um papel preso nele. As fotografias da licença e da carteira não se parecem muito com Salim, mas também não se pareciam muito com o ifrit.

O telefone toca. É a recepção chamando para avisar que Salim já pagou a conta e foi embora, e que seu convidado precisa sair logo para que possam arrumar o quarto, para prepará-lo para o próximo hóspede.

— Eu não realizo desejos — diz Salim, sentindo o gosto das palavras em sua boca.

Ele se sente estranhamente leve enquanto se veste.

Nova York é muito simples: as avenidas vão de norte para sul, as ruas vão de oeste para leste. Não pode ser muito difícil, diz para si mesmo.

Ele joga as chaves para o alto e as apanha. Então coloca os óculos escuros pretos de plástico que encontrou nos bolsos, e sai do quarto de hotel para ir procurar seu táxi.

 

                                           CAPITULO OITO

He said (he dead had souls, but whien I ashed him

How that could be — l thought lhe dead were souls,

He broke my trance. Don't lhat make you suspicious

That lhere's somethmg the dead are hecping back?

Yes, theres something the dead are heeping back. [8]

Robert Frost, "Two Witches"

Shadow ficou sabendo durante o jantar que a semana que antecede o Natal costuma ser tranqüila em uma funerária. Estavam sentados em um pequeno restaurante, a dois quarteirões da Funerária de Ibis e Jacquel. A refeição consistia em um café da manhã completo com todo tipo de comida. O senhor Ibis ficava brincando com uma fatia de torta de café no prato e explicava a ele:

— Os que sobram agüentam firme pra passar seu último Natal ou até mesmo o ano novo, enquanto os outros, aqueles pra quem a alegria e a comemoração dos outros vai ser muito dolorida, ainda não foram empurrados pro abismo pela última exibição de A Felicidade Não se Compra, ainda acham que têm algo a fazer ou, melhor dizendo, ainda acham que podem resolver alguma coisa.

E ele fez um barulho quando disse isso, uma risada meio afetada, parecida com um ronco, sugerindo que tinha acabado de proferir uma teoria muito criativa da qual se orgulhava demais.

A funerária Ibis c Jacquel era uma empresa familiar e pequena: uma das últimas funerárias realmente independentes da região, ou pelo menos era a idéia que o dono defendia.

— A maior parte do comércio humano valoriza marcas que podem ser identificadas nacionalmente.

O senhor Ibis falava por meio de explicações: uma doutrinação suave e cuidadosa que fez com que Shadow se lembrasse de um professor universitário que trabalhava na Muscle Farm e que não conseguia falar, só sabia discursar, expor, explicar. Shadow percebeu logo nos primeiros minutos depois de conhecer o homem que a parte que caberia a ele em qualquer conversa com o diretor da funerária era falar o menos possível.

— Isso acontece, eu acredito, porque as pessoas gostam de saber o que vão encontrar pela frente com antecedência. É o caso do McDonald's, Wal-Mart, Blockbuster: marcas de loja consolidadas e visíveis por todo o país. Aonde quer que se vá, obtém-se, com pequenas variações regionais, a mesma coisa. No campo das funerárias, no entanto, as coisas são, forçosamente, diferentes. E preciso se sentir como se estivesse recebendo aquele serviço pessoal de cidade pequena, de alguém que tem um dom pra profissão. Deseja-se atenção particularizada, pra si e pra aquele que lhe é caro na hora da perda inestimável. É preciso entender que o pesar acontece de forma local, não nacional. Em todos os ramos da indústria... c a morte é uma indústria, meu jovem amigo, não se engane em relação a isso. Ganha-se dinheiro operando volumes, comprando-se grandes quantidades, centralizando-se as operações. Isso não é bonito, mas é verdade. O problema é que ninguém quer ver as pessoas que lhe são caras sendo transportadas por um caminhão refrigerado e levadas pra qualquer galpão enorme e adaptado onde tem mais vinte, Cinqüenta, cem cadáveres ao mesmo tempo. Não senhor. As pessoas querem ter a certeza de lidar com alguém que esteja pessoalmente preocupado, em um lugar no qual serão tratadas com respeito por alguém que depois as cumprimentará tocando os dedos na aba do chapéu quando as encontrar na rua.

O senhor Ibis usava chapéu. Era um chapéu sóbrio e pardo que combinava com seu blazer e seu rosto, ambos sóbrios e pardos. Pequenos óculos com aros dourados repousavam sobre seu nariz. Na memória de Shadow, era um homem baixo, mas, cada vez que ficava parado ao seu lado, Shadow redescobria que ele tinha bem mais de 1,80 metros, com a cabeça inclinada que lembrava a silhueta de um guindaste. Sentando na sua frente agora, do outro lado da mesa vermelha lustrosa, Shadow se pegou olhando diretamente no rosto do homem.

— Então, quando as grandes empresas chegam, compram o nome da empresa, pagam aos diretores funerários pra continuarem no serviço, criam uma aparência de diversidade. Mas isso é só a ponta da lápide. Na verdade, Funcionam como um Burger King local. Agora, por nossas próprias razões, nós somos verdadeiramente independentes. Fazemos o embalsamamento, e é o melhor do país, apesar de ninguém — além de nós — saber disso. Mas não fazemos cremações. Poderíamos ganhar mais dinheiro se a gente tivesse nosso próprio crematório, mas isso vai contra nossa especialidade. O que o meu sócio diz é que, se o Senhor dá a você um talento ou uma habilidade, você tem a obrigação de utilizá-lo da melhor maneira possível. Você não concorda?

— Me parece direito — disse Shadow.

— O Senhor deu ao meu sócio a dominação sobre os mortos, assim como me deu a habilidade com as palavras. São coisas ótimas, as palavras. Eu escrevo livros de contos, sabe? Nada literário. Só pra me divertir. Relatos de vidas.

Ele fez uma pausa. Quando Shadow percebeu que deveria ter perguntado se poderia ler um dos contos, o momento certo já havia passado.

— De qualquer modo, o que damos a eles aqui é continuidade: Ibis e Jacquel funciona aqui há quase duzentos anos. Mas não fomos sempre diretores de funerária... Já fomos coveiros e, antes, agentes funerários.

— E antes disso?

— Bom — disse o senhor Ibis, sorrindo de maneira levemente orgulhosa —, remontamos a muito tempo. Claro, foi só depois da Guerra entre os Estados que conseguimos encontrar, aqui, o nosso nicho. Foi quando nos transformamos na funerária para as pessoas de cor das redondezas. Antes daquilo, ninguém nos via como homens de cor... estrangeiros, talvez, exóticos e de pele escura, mas não de cor. Logo que a guerra acabou, ninguém mais se lembrava do tempo quando não éramos considerados negros. Meu sócio sempre teve a pele mais escura do que a minha. Foi uma transição fácil. A verdade é que você é o que pensam que você é. Só acho estranho quando falam de afro-americanos. Me faz pensar em gente de Punt, Ofir, Núbia. Nunca pensamos em nós mesmos como africanos — éramos o povo do Nilo.

— Então vocês eram egípcios?

O senhor Ibis fez um beiço com o lábio inferior e deixou a cabeça pender de um lado para o outro, como se fizesse considerações, pesando os prós c os contras, avaliando as coisas por todos os pontos de vista.

— Bom, sim e não. "Egípcio" me faz pensar no povo que vive lá agora. Aqueles que construíram suas cidades sobre nossos cemitérios e nossos palácios. Aquela gente se parece comigo?

Shadow deu de ombros. Ele viu negros que se pareciam com o senhor Ibis. Viu brancos bronzeados que também se pareciam com ele.

— Gostou da sua torta de café? — perguntou a garçonete, completando as duas xícaras de café.

— Foi a melhor que eu já comi — respondeu o senhor Ibis. — Mande lembranças pra sua mãe.

— Mandarei — ela agradeceu e apressou-se em direção a outra mesa.

— Quando se é diretor de funerária, não se faz perguntas a respeito da saúde de ninguém. As pessoas ficam achando que você está conferindo se vai ter trabalho — disse, em um tom grave. — Será que podemos ir ver se o seu quarto está pronto?

A respiração deles transformava-se em vapor no ar da noite. Luzinhas de Natal piscavam nas vitrinas das lojas por onde passavam.

— É muito gentil da sua parte me receber — disse Shadow. — Fico muito grato.

— Devemos vários favores ao seu empregador. E Deus sabe, nós temos espaço. E uma casa grande e velha. Tinha mais gente, mas agora somos apenas três. Você não vai atrapalhar.

— Tem alguma idéia de quanto tempo eu vou ficar com vocês? O senhor Ibis sacudiu a cabeça.

— Ele não disse. Mas estamos contentes por estar aqui, e podemos achar um trabalho pra você. Se você não for enjoado. Se tratar os mortos com respeito.

— Então — perguntou Shadow —, o que vocês estão fazendo aqui em Cairo? Foi por causa do nome ou alguma coisa assim?

— Não, de jeito nenhum. Na verdade, essa região se chama assim por causa de nós, apesar de quase ninguém saber. Era um posto de escambo antigamente.

— Nos tempos da fronteira?

— Pode chamar assim — disse o senhor Ibis. — Boa noite, seu Simmons! Feliz Notai pra você também! As pessoas que me trouxeram pra cá subiram o Mississipi há muito tempo.

Shadow parou no meio da rua e olhou estupefato para ele.

— Você está tentando me dizer que foram os egípcios antigos que vieram aqui fazer escambo 5 mil anos atrás?

O homem não disse coisa alguma, mas soltou um riso afetado bem alto. Depois, disse:

— Há 3.530 anos. Mais ou menos.

— Está bem. Vou acreditar, acho. O que é que eles escambavam?

— Nada demais... Peles de animais. Alguma comida. Cobre das minas que agora seriam a península superior de Washington. A coisa toda foi meio que uma decepção. Não valia à pena. Ficaram aqui tempo bastante pra acreditar em nós, fazer sacrifícios por nós e até que um punhado de escambadores morresse de febre e fosse enterrado aqui, deixando a gente pra trás.

Ele parou, como se tivesse congelado no meio da calçada, virou-se lentamente, com os braços estendidos.

— Este país é a estação central faz dez mil anos. Você me pergunta: "e Colombo?"

— O que é que tem?

— Colombo fez o que já se fazia há milhares de anos. Não tem nada demais chegar à América. De vez em quando eu escrevo algumas histórias sobre isso. Começaram a andar novamente.

— Histórias verdadeiras?

— Até certo ponto, sim. Eu deixo você ler uma ou duas, se quiser. Está tudo ali, para qualquer pessoa que tenha olhos pra ver. Pessoalmente, e falo isso como assinante da Scientific American, eu tenho pena dos profissionais que encontram mais uma caveira desconcertante, algo que pertencia ao tipo errado de gente, ou quando encontram estátuas ou artefatos que os confundem... porque falam sempre de coisas extraordinárias, mas nunca das impossíveis, e é por causa disso que tenho pena, por que logo que algo se toma impossível, passa a ser desacreditado, sendo ou não verdade. Quer dizer, pegue uma caveira que mostra que os ainu, a raça aborígine japonesa, esteve na América 9 mil anos atrás. Pegue uma outra que prova que havia polinésios na Califórnia quase 2 mil anos depois disso. E todos os cientistas ficam resmungando entre si e quebrando a cabeça pra saber quem descende de quem, perdendo totalmente o fio da meada. Só Deus sabe o que vai acontecer se algum dia realmente encontrarem os túneis de emergência dos índios Hopi. Vai abalar algumas crenças, pode esperar pra ver. "Os irlandeses vieram à América na era das trevas?", você me pergunta. Claro que sim, além dos galeses e dos viquingues, enquanto os africanos da Costa Oeste, que no passado era chamada de Costa dos Escravos ou Costa do Marfim, faziam escambo com a América do Sul. Os chineses visitaram o Oregon algumas vezes... que eles chamavam de Eu Sang. Os bascos estabeleceram seus campos sagrados de pesca na costa da Newfoundiand, no Canadá, há 1.200 anos. Agora, suponho que você diga:

"Mas, senhor, esses povos eram primitivos, não tinham controles de rádio nem pílulas de vitaminas nem aviões a jato".

Shadow não disse e não planejou dizer nada, mas sentiu que deveria, então...

— Mas não eram?

As últimas folhas mortas do outono estalavam debaixo dos pés deles, quebradiças por causa do inverno.

— A conclusão equivocada é achar que os homens não percorriam grandes distâncias por água antes de Colombo. No entanto, a Nova Zelândia e o Taiti e inúmeras ilhas do Pacífico foram colonizadas por pessoas em barcos cujos conhecimentos sobre navegação deixariam Colombo envergonhado; e a riqueza da África vinha do escambo, embora a principal fonte fosse no Oriente, na Índia e na China. Meu povo, o povo do Nilo, logo descobriu que um barco de fundo chato poderia levá-lo a dar a volta ao mundo, se houvesse paciência e jarras de água doce suficientes. Você vê, o maior problema de vir à América antigamente era que aqui não havia muito pra escambar, e era longe demais.

Chegaram a uma casa grande, construída no estilo que chamam de Queen Anne. Shadow ficou se perguntando quem era essa tal rainha e por que ela gostava tanto de casas no estilo da família Adams. Era a única construção do quarteirão que não tinha as janelas seladas por tábuas de madeiras pregadas. Atravessaram o portão e caminharam até os fundos.

Passando por enormes portas duplas, que o senhor Ibis abriu com uma chave de seu chaveiro, entraram em um quarto grande e sem aquecimento, ocupado por duas pessoas. Eram um homem muito alto, de pele escura, segurando um bisturi grande de metal, e uma menina nos últimos anos da adolescência, morta, deitada sobre uma mesa de porcelana comprida, que se assemelhava a uma laje e a uma pia ao mesmo tempo.

Havia várias fotografias da menina morta penduradas em um quadro de cortiça na parede sobre o corpo. Ela sorria em uma delas, um busto para o anuário do colegial. Em outra, fazia fila com mais três garotas; usavam o que parecia ser vestidos de formatura, e o cabelo dela estava preso sobre a cabeça em um penteado confuso.

Frios sobre a porcelana, seus cabelos estavam para baixo, soltos ao lado dos ombros, respingados de sangue seco.

— Este é o meu sócio, o senhor Jacquel — disse Ibis.

— Nós já nos conhecemos. Perdoe-me por não apertar sua mão. Shadow olhou em direção à mesa:

— O que aconteceu com ela?

— Tinha um péssimo gosto pra namorados.

— Nem sempre é fatal — disse o senhor Ibis, com um suspiro. — Desta vez, foi. Ele estava bêbado e tinha uma faca, e ela falou que pensava estar grávida, mas ele não acreditou que era seu.

— Foi esfaqueada... — disse o senhor Jacquel, em tom explicativo. Ouviu-se um barulho quando ele pisou sobre um interruptor no chão, ligando um pequeno gravador sobre uma mesa próxima.

— Cinco vezes. Há três marcas de faca na parede peitoral anterior. A primeira liça entre o quarto e o quinto espaço intercostal, na beirada medial do seio esquerdo, tem 2,2 centímetros de extensão; a segunda e a terceira ficam na porção inferior do espaço entre os seios, penetrando no sexto espaço intercostal, uma por cima da outra, e medindo 3 centímetros. Há uma ferida de 2 centímetros de extensão na parte superior anterior do lado esquerdo do peito, no segundo espaço intercostal, c uma ferida de 5 centímetros de extensão e profundidade máxima de 1,6 centímetro no deltóide esquerdo ântero-lateral, uma ferida que rasgou a pele. Todas as feridas do peito são profundamente penetrantes. Não há outras feridas externas visíveis.

Ele liberou a pressão do interruptor no chão. Shadow reparou que havia um pequeno microfone pendurado pelo fio sobre a mesa de embalsamamento.

— Então você também é o legista?

— O legista é uma indicação política por aqui — disse Ibis. — O trabalho dele e dar um chute no cadáver. Se o morto não der outro chute como resposta, ele assina o atestado de óbito. O Jacquel faz a dissecação, faz as autópsias e guarda amostras de tecidos para análise. Trabalha para o verificador médico do condado. Eleja fotografou as feridas dela.

Jacquel os ignorava. Pegou um bisturi grande e fez uma incisão profunda em forma de V, que começava nas clavículas e terminava na ponta do esterno, e então transformou o V em um Y, com outra incisão profunda que começava no esterno e ia até o púbis. Pegou o que parecia ser uma furadeira pesada e cromada, com uma lâmina serrada do tamanho de uma medalha na ponta. Ligou o aparelho e cortou as costelas dos dois lados do esterno.

A menina abriu-se como uma bolsa.

Shadow de repente tomou consciência de um cheiro suave, porém desagradavelmente penetrante, pungente, de carne.

— Eu pensava que o cheiro fosse bem pior.

— Ela está bem fresca — disse Jacquel. — E os intestinos não foram perfurados, por isso não cheira a merda.

Shadow percebeu que olhava para o outro lado, não por repulsão, como era de se esperar, mas pelo estranho desejo dar alguma privacidade à garota. Seria difícil estar mais nua do que aquela coisa aberta.

Jacquel desembaraçou o intestino, que brilhava e se parecia com uma cobra dentro da barriga dela, abaixo do estômago até o fundo da pelve. Passou cada centímetro da víscera por entre os dedos, descrevendo-o para o microfone como "normal" e colocou-a em um balde no chão. Secou todo o sangue do peito dela com uma bomba de sucção a vácuo e mediu o volume. Então examinou seu interior. Disse ao microfone:

— Há três lacerações no pericárdio, que está cheio de sangue coagulado e líquido.

Jacquel segurou o coração dela, cortou a ponta de cima, remexeu-o na mão, examinando-o. Pisou em seu interruptor e disse:

— Há duas lacerações no miocárdio; uma laceração de 1,5 centímetro no ventrículo direito e uma laceração de 1,8 centímetro penetrando o ventrículo esquerdo.

Jacquel removeu cada um dos pulmões. O pulmão esquerdo havia sido apunhalado e estava meio afundado. Ele os pesou, além do coração, e fotografou as feridas. Tirou um pedacinho de tecido de cada pulmão com o bisturi e guardou em um pote.

— Formaldeído — sussurrou o senhor Ibis, solicito.

Jacquel continuava a falar com o microfone, descrevendo o que fazia, o que via, à medida que removia o fígado da menina, o estômago, o baço, o pâncreas, ambos os rins, o útero e os ovários.

Pesou cada órgão, reportou-os como normais e intactos. De cada órgão, tirava um pedacinho e colocava em um pote de formaldeído.

Do coração, do fígado e de um dos rins, cortou um pedaço extra. Esses ele mastigou, lentamente, fazendo com que durassem na boca, enquanto trabalhava.

De certa maneira pareceu a Shadow uma boa coisa: respeitosa, não obscena.

— Então você quer passar um período aqui conosco? — disse Jacquel, mascando o pedaço do coração da menina.

— Se vocês me aceitarem...

— É claro que sim! — disse o senhor Ibis. — Não temos nada contra, só a favor. Você ficará sob nossa proteção enquanto estiver aqui.

— Espero que você não se importe de dormir sob o mesmo teto que os mortos — disse Jacquel.

Shadow pensou na sensação do toque dos lábios de Laura, amargos e frios.

— Não. É só eles se manterem mortos.

Jacquel virou-se e olhou para ele com olhos castanho-escuros tão inquisidores e frios quanto os de um cão do deserto.

— Eles sempre ficam mortos aqui — foi tudo que respondeu.

— Parece... — comentou Shadow —, parece que os mortos conseguem voltar com bastante facilidade.

— De jeito nenhum — disse Ibis. — Até os zumbis são feitos a partir de gente viva, sabe? Um pozinho, uma cantoria, um empurrãozinho, e você tem um zumbi. Eles estão vivos, mas acreditam que morreram. A verdade é que servem pra trazer os mortos à vida, no corpo deles. E é preciso ter poder.

Hesitou por um instante, e completou:

— Na terra antiga era mais fácil.

— Dava pra amarrar o ka de um homem ao seu corpo durante 5 mil anos — disse Jacquel. — Amarrar ou soltar. Mas isso foi há muito tempo.

Ele pegou Iodos os órgãos que havia retirado e colocou, respeitosamente, nas devidas cavidades do corpo. Colocou de volta o intestino e o esterno e juntou as pontas de pele. Então pegou agulha e linha grossas e, com golpes rápidos c ágeis, costurou-a como um homem que costura uma bola de beisebol: o cadáver, de carne, passou a ser uma menina mais uma vez.

— Eu preciso tomar uma cerveja — disse Jacquel.

Tirou as luvas de borracha e deixou-as cair na lata de lixo. Jogou seu avental marrom-escuro em um cesto de roupa suja. Pegou a bandeja de papelão de potes cheios de pedacinhos de órgãos vermelhos, marrons e roxos.

— Você me acompanha?

Subiram as escadas do fundo até a cozinha. Era uma sala respeitável, marrom e branca, que parecia ter sido decorada em 1920. Tinha um enorme refrigerador Kelvinator fazendo barulho sozinho encostado em uma parede. Jacquel abriu a porta do Kelvinator, guardou os potes plásticos com seus pedacinhos de baço, rim, fígado e coração lá dentro. Tirou três garrafas marrons. Ibis abriu um armário com porta de vidro, tirou três copos altos. Então fez gestos para que Shadow se sentasse à mesa da cozinha.

Ibis serviu a cerveja e passou um copo para Shadow e um para Jacquel. Era uma ótima cerveja, amarga e escura.

— Muito boa essa cerveja — comentou Shadow.

— Nós mesmos que fazemos — disse Ibis. — No passado, eram as mulheres que faziam a cerveja, e era melhor do que a nossa. Mas agora só sobramos nós três... eu, ele e ela.

Fez um gesto em direção à gatinha parda, profundamente adormecida em uma cesta de gato no canto da cozinha.

— No começo, havia mais de nós. Mas Set foi embora pra fazer explorações há o quê...? Uns duzentos anos? Deve ser mais ou menos isso agora. Recebemos um cartão-postal dele em 1905, 1906. E depois, mais nada. E o coitado do Hórus... — sua voz foi ficando mais baixa, como um suspiro, e ele sacudiu a cabeça.

— Eu ainda vejo ele, de vez em quando — disse Jacquel. — Quando vou recolher algum corpo.

Deu um gole na cerveja.

— Vou trabalhar pra compensar a hospedagem enquanto eu estiver aqui. — disse Shadow — Digam o que preciso fazer, e eu faço.

— Vamos encontrar trabalho pra você — concordou Jacquel. A gatinha parda abriu os olhos e se espreguiçou, antes de levantar. Atravessou a cozinha com seus passos leves e esfregou a cabeça nas botas de Shadow. Ele abaixou a mão esquerda e acariciou sua testa, a parte detrás das orelhas e o pescoço. Ela arqueou o corpo de felicidade, pulou no colo dele, esfregando-se em seu peito, e encostou seu nariz gelado no dele. Então se enrolou sobre seu colo c voltou a dormir. Ele colocou a mão sobre a gata e a acariciou... seu pêlo era macio, e estava quente e confortável no colo dele. Parecia se sentir no lugar mais seguro do mundo. Shadow se sentiu reconfortado.

A cerveja deixou um zumbido agradável em sua cabeça.

— Seu quarto fica no topo das escadas, ao lado do banheiro — explicou Jacquel. — Suas roupas de trabalho estarão penduradas no armário... você vai ver. Mas acho que gostaria de se lavar e barbear primeiro.

Foi o que Shadow fez. Tomou uma chuveirada, em pé, na banheira moldada em ferro, e se barbeou, com muito nervosismo, com uma navalha que Jacquel lhe emprestara. Era obscenamente afiada e tinha cabo de madrepérola. Shadow desconfiou que fosse usada para dar aos mortos seu último barbear. Ele nunca usara uma navalha, mas não se cortou. Tirou o resto de espuma de barbear do rosto, olhou para si mesmo, nu, na frente do espelho manchado do banheiro. Estava machucado: marcas frescas no peito e nos braços, encobrindo as marcas já fracas que Mad Sweeney tinha feito nele. Seus olhos o encaravam no espelho, desconfiados.

E então, como se alguém segurasse sua mão, ele ergueu a navalha e a colocou, com a lâmina aberta, contra a garganta.

Seria uma saída, pensou. Uma saída fácil. E se havia alguém que podia lidar com aquilo com naturalidade, que simplesmente limparia a sujeira e continuaria a viver sem trauma nenhum, seria os dois caras sentados à mesa da cozinha bebendo sua cerveja no andar de baixo. Sem preocupações. Sem Laura. Sem mistérios nem conspirações. Sem pesadelos. Só paz, silêncio e descanso para sempre. Um corte reto, de orelha a orelha. Bastava isso.

Shadow ficou ali parado com a navalha contra a garganta. Uma pequena mancha de sangue apareceu no lugar em que a lâmina encostava na pele. Ele nem reparou no corte. Viu, disse a si mesmo, e quase conseguia ouvir as palavras sendo sussurradas em seu ouvido. Não dói nada. Está muito afiada para machucar. Vou ter ido embora antes de me dar conta.

Então a porta do banheiro se abriu alguns centímetros, o suficiente para a gatinha colocar a cabeça para dentro do banheiro e ronronar curiosamente para ele.

— Ei... Eu achei que tinha trancado a porta.

Ele fechou a navalha, repousou-a ao lado da pia, limpou o sangue do corte com um pedaço de papel higiênico. Então enrolou uma toalha ao redor da cintura e foi até o quarto ao lado do banheiro.

Seu quarto, assim como a cozinha, parecia ter sido decorado em algum ano da década de 1920: havia um lavatório e um jarro ao lado da cômoda com espelho. Alguém já tinha separado roupas para ele em cima da cama: terno preto, camisa branca, gravata preta, cueca e camiseta brancas, meias pretas. Sapatos pretos repousavam sobre o tapete persa, desgastado, ao lado da cama.

Ele se vestiu. As roupas eram de boa qualidade, apesar de não serem novas. Ficou se perguntando de quem haviam sido. Será que calçava as meias de um morto? Será que pisava dentro dos sapatos de um morto? Arrumou o nó da gravata na frente do espelho e pareceu que seu reflexo sorria para ele, com sarcasmo.

Agora parecia inconcebível ter pensado, em algum momento, em cortar a garganta. Seu reflexo continuava a sorrir para ele enquanto ajustava a gravata.

— Ei — disse para o espelho. — Você sabe de alguma coisa que eu não sei? Imediatamente, sentiu-se tolo.

A porta se escancarou e a gata escorregou por entre o batente e a porta, percorreu o quarto com seus passos leves e pulou no peitoril da janela.

— Ei — ele disse à gata. — Eu fechei a porta. Eu sei que fechei. Ela olhou para ele, interessada. Seus olhos eram amarelo-escuros, da cor do âmbar. Então ela pulou do peitoril da janela para a cama, onde se enrolou em uma bolinha de pêlo e voltou a dormir, uma esfera de gato sobre a colcha velha.

Antes de descer as escadas, Shadow deixou a porta entreaberta, para que a gata pudesse sair e para que o quarto arejasse um pouco. Os degraus rangiam e estalavam à medida que os pisava, protestando contra seu peso, como se quisessem apenas ser deixados em paz.

— Caramba, você está bonito! — exclamou Jacquel. Ele esperava à beira da escada e eslava vestido com um terno preto parecido com o de Shadow.

— Você já dirigiu um carro fúnebre?

— Não.' — Há uma primeira vez pra tudo na vida — disse Jacquel. — Está estacionado aí na frente.

Uma senhora havia morrido. O nome dela era Lila Goodchild. Seguindo as instruções do senhor Jacquel, Shadow levou a maca de alumínio dobrada pela escada estreita até o quarto dela e a abriu próximo à cama. Pegou um saco de cadáveres azul translúcido, ajeitou-o na cama ao lado do corpo e abriu o zíper. A mulher usava uma camisola cor-de-rosa e um robe bordado. Shadow a levantou e a enrolou, frágil e quase sem peso nenhum, em um cobertor, e colocou-a dentro do saco. Fechou o zíper e colocou o saco sobre a maca. Enquanto ele fazia isso, Jacquel conversava com um senhor bem velho, viúvo de Lila Goodchild. Ou melhor, Jacquel escutava, e o senhor falava. O velho explicava como seus filhos eram ingratos, assim como seus netos, apesar de não ser culpa deles, mas sim de seus pais, que quem puxa os seus não degenera, e que ele pensava que os havia criado melhor do que aquilo.

Os dois empurraram a maca carregada até a escadaria estreita. O velho os seguiu, ainda falando, na maior parte do tempo, sobre dinheiro, cobiça e ingratidão. Ele usava chinelos de ficar em casa. Shadow carregou a ponta mais pesada da maca escada abaixo e para a rua. Jacquel abriu a porta traseira do carro fúnebre. Shadow hesitou, e Jacquel disse:

— Só enfia aí dentro. Os suportes vão se recolher sozinhos quando você empurrar.

Shadow empurrou a maca, e os suportes se dobraram para cima com um estalo, as rodas fizeram uma rotação, e a maca escorregou pelo chão até o fundo do veículo. Jacquel mostrou a ele como amarrar a maca seguramente lá dentro, e Shadow fechou a porta traseira enquanto o outro escutava atentamente o senhor, sem se importar com o frio, um velho com seus chinelos e seu chambre na calçada gelada explicando a Jacquel como seus filhos eram urubus, nada além de urubus que pairam, esperando para tomar o pouco que ele e Lila juntaram, e como os dois haviam fugido para St. Louis, Memphis, Miami, e como eles acabaram em Cairo. Ele estava feliz por Lila não ter morrido em um asilo e tinha medo de ele próprio ser mandado para um deles.

Acompanharam o velho até dentro de casa, escada acima até o quarto. Uma TV pequena assobiava em um canto do cômodo. Quando Shadow passou pelo aparelho, reparou que o apresentador do jornal sorria e piscava para ele. Quando teve certeza de que ninguém o observava, mostrou o dedo para a TV.

— Eles não têm dinheiro nenhum — Jacquel comentou quando voltaram ao carro. — Ele vai falar com Ibis amanhã. Vai escolher o enterro mais barato. Os amigos dele vão convencê-lo a dar tudo que ela tem direito, creio. Mas ele vai reclamar. Não tem dinheiro. Ninguém por aqui tem dinheiro hoje cm dia. De qualquer modo, ele morre daqui a seis meses. Um ano, no máximo.

Flocos de neve caíam e espiralavam na frente dos faróis. A neve estava chegando ao sul. Shadow disse:

— Ele está doente?

— Não é isso. As mulheres sobrevivem aos seus homens. Os homens... homens como ele... não vivem muito depois que a mulher se vai. Você vai ver... ele vai começar a delirar, todas as coisas que ele conhece vão embora com ela. Vai ficar cansado, e então vai se apagar aos poucos, desistir e pronto, morreu. Talvez a pneumonia o leve, ou o câncer, ou talvez o seu coração pare. Velhice, você perde toda a vontade de lutar. Daí você morre.

Shadow refletiu.

— Ei, Jacquel?

— O que é?

— Você acredita em alma?

Não era bem a pergunta que ele ia fazer e se surpreendeu ao ouvir as palavras saírem de sua boca. Ele pretendia dizer algo menos direto, mas não encontrou nada que pudesse dizer.

— Depende. No meu tempo, tudo era bem resolvido. Você entrava na fila quando morria e daí respondia por seus atos maus e bons, e se os seus atos maus fossem mais pesados do que uma pluma, a sua alma e o seu coração eram dados para Ammet, o devorador de almas.

— Ele deve ter devorado um monte de gente.

— Nem tantas assim. Era uma pluma bem pesada. Era feita sob medida. Você tinha que ser muito ruim mesmo pra fazer aquela balança pender pró outro lado. Pára ali, no posto de gasolina. Vamos abastecer um pouco.

As ruas estavam silenciosas, da maneira que ficam apenas quando cai a primeira neve.

— Vamos ter um Natal branco — disse Shadow enquanto enchia o tanque.

— Só. Merda. Aquele menino era um filho de uma virgem sortudo.

— Jesus?

— Um cara sortudo, sortudo mesmo. Ele podia cair dentro de uma fossa que saía com perfume de rosas. Diabos, não é nem mesmo o aniversário dele, você sabia? Ele pegou do Mithras. Você já esbarrou no Mithras? É ruivo. Um garoto legal.

— Não, acho que não.

— Bom... Eu nunca vi o Mithras por aqui. Ele era um rato de exército. Talvez tenha voltado pró Oriente Médio, dando um tempo, mas eu acho que eleja deve ter ido embora a essa altura. Um dia, todos os soldados do império têm que se banhar no sangue de seu touro sacrificado. No outro, não se lembram nem do dia do seu aniversário.

Os limpadores de pára-brisa faziam um barulho contínuo, empurrando a neve para o canto, agrupando os flocos em nós e redemoinhos de gelo transparente.

Um sinal de trânsito ficou momentaneamente amarelo e depois vermelho, e Shadow pisou no freio. O veículo rabeou e derrapou na rua vazia antes de parar.

O sinal ficou verde. Ele conduzia o carro fúnebre a um máximo de 15 quilômetros por hora, o que parecia suficiente nas ruas escorregadias. O veículo parecia perfeitamente feliz andando em segunda marcha: ele supôs que devia ter passado boa parte do seu tempo andando naquela velocidade e prendendo o trânsito.

— Tudo bem — disse Jacquel. — Tá, então Jesus se dá bem por aqui. Mas eu conheci um cara que disse ter encontrado com ele na beira de uma estrada, pedindo carona, no Afeganistão, e ninguém parou. Sabe? Tudo depende de onde você está.

— Acho que uma tempestade de verdade está se aproximando — disse Shadow. Ele estava comentando sobre o clima.

Quando Jacquel finalmente começou a responder, não falava sobre o clima coisa nenhuma.

— Olhe pro Ibis e pra mim. Em alguns anos, não teremos mais trabalho. Temos economias guardadas para os anos magros, mas os anos magros já estão aqui faz um bom tempo, e a cada ano ficam mais magros. O Hórus está bem louco, louco pra caralho, passa o tempo todo transformado em falcão, come animais vitimas de acidentes em estradas, que tipo de vida é essa? Você já viu a Bast. E nos estamos em melhor forma do que a maior parte deles. Pelo menos ainda temos um pouco de crença pra seguir em frente. A maioria dos babacas por aí mal tem isso. É igual ao negócio de funeral... Os grandes vão acabar comprando seu negócio um dia desses, goste você ou não, porque eles são maiores e mais eficientes e porque trabalham. Brigar não vai mudar porra nenhuma, porque nós perdemos essa batalha especificamente quando viemos pra esta terra verde há cem, mil ou dez mil anos. Nós chegamos e os Estados Unidos nem ligaram pró fato de estarmos aqui. Ou somos comprados e forçados a aceitar o que não queremos, ou botamos o pé na estrada. Então, sim. Você tem razão. A tempestade está se aproximando.

Shadow virou na rua onde ficavam as casas, todas mortas, com às janelas cegas e fechadas com tábuas, a não ser uma.

— Entre pelo beco dos fundos — disse Jacquel.

Ele deu ré até quase encostar nas portas duplas nos fundos da casa. Ibis abriu o carro e as portas do necrotério, e Shadow liberou a maca e a puxou para fora. Os suportes com rodas fizeram uma rotação e caíram assim que passaram do pára-choque. Ele empurrou a maca até a mesa de embalsamar. Pegou Lila Goodchild nos braços, ninando-a em seu saco opaco como se fosse uma criança adormecida, e a colocou com cuidado sobre a mesa do necrotério frio, como se estivesse com medo de acordá-la.

— Sabe, tem aí uma mesa de transferência — disse Jacquel. — Você não precisa carregar o corpo.

— Não é nada — disse Shadow. Ele estava começando a suar como Jacquel.

— Eu sou um cara grande. Não me incomodo.

Quando criança, Shadow era pequeno para a idade, parecia só ter cotovelos e joelhos. A única fotografia de Shadow quando criança, que Laura gostou o suficiente para colocar em um porta-retratos, mostrava uma criança solene com cabelos desobedientes e olhos escuros parada ao lado de uma mesa abarrotada de bolos e bolachas. Shadow achava que a foto fora tirada em uma festa de Natal em uma embaixada, porque ele usava uma gravata borboleta e suas melhores roupas.

Shadow e sua mãe haviam se mudado vezes demais, primeiro pela Europa toda, de embaixada em embaixada, onde sua mãe trabalhava como comunicadora para o Serviço Exterior, transcrevendo e enviando telegramas confidenciais para o mundo inteiro. E depois quando ele estava com 8 anos, de volta aos Estados Unidos, onde sua mãe, então muito doente para segurar um trabalho fixo, mudou-se de cidade em cidade incansavelmente, passando um ano aqui e outro ali, preenchendo uma vaga durante um período mais longo quando estava bem o bastante para tanto. Nunca passaram tempo suficiente em lugar nenhum para Shadow fazer amigos, para se sentir em casa, para relaxar. E ele era só uma criancinha...

Tinha crescido rápido demais. Na primavera de seus 13 anos, os garotos locais implicavam demais com ele, fazendo com que se envolvesse em brigas que sabiam que iriam ganhar e, depois, das quais Shadow correria, bravo e frequentemente chorando, até o banheiro para limpar a lama e o sangue do rosto antes que alguém visse. Então chegou o verão, o verão comprido e mágico dos 13 anos, que ele passou mantendo-se fora do caminho dos garotos maiores, nadando na piscina pública e lendo livros da biblioteca. No começo do verão ele mal conseguia nadar. No fim de agosto, fazia uma piscina atrás da outra em um crawl fácil, mergulhando do trampolim mais alto, amadurecendo em um bronzeado profundo por causa do sol e da água. Em setembro, voltou para a escola e descobriu que os garotos que transformaram sua vida em um inferno eram pequenos, coisinhas frouxas que não eram mais capazes de incomodá-lo. Os dois que tentaram aprenderam bons modos à força, de maneira dura, rápida e dolorida, e Shadow descobriu que tinha que mudar: ele não podia mais ser um garoto quieto, dando o melhor de si para não interferir nas coisas e ficando sempre por trás de tudo. Ele era grande demais para aquilo, era óbvio. Antes do fim daquele ano, já fazia parte do time de natação e do time de levantamento de peso, e o técnico queria que participasse do time de triatlo. Shadow gostava de ser grande e forte. Conferia-lhe identidade. Tinha sido um garoto quieto e tímido que se afundava nos livros, e aquilo fora dolorido demais. Agora era um cara grande e burro, e ninguém esperava que fosse capaz de fazer algo mais do que carregar sozinho um sofá da sala para o quarto.

Ninguém até Laura aparecer, de qualquer modo.

Ibis preparou o jantar: arroz e verduras cozidas para si e o irmão.

— Eu não como muita carne — explicou. — Ao passo que Jacquel consegue toda a carne que quer no decorrer de seu trabalho.

No lugar de Shadow havia uma caixa de papelão da KFC cheia de pedaços de frango e uma garrafa de cerveja.

A porção era muito grande e então ele dividiu as sobras com a gata, tirando a pele e a cobertura crocante, e depois desfiando a carne para ela com os dedos.

— Tinha um cara na prisão chamado Jackson — contou Shadow, enquanto comia. — Trabalhava na biblioteca. Ele me disse que mudaram o nome da Kenlucky Fried Chicken para KFC porque não servem mais frango de verdade lá. Agora e uma coisa geneticamente modificada, tipo uma centopéia gigante sem cabeça, só um segmento atrás do outro de coxas e peitos e asas. Alimentam a coisa com tubos de nutrientes. O cara disse que o governo não deixava mais eles usarem a palavra chicken.

O senhor Ibis ergueu as sobrancelhas:

— Você acha que é verdade?

— Não. Mas o meu companheiro de cela, Low Key, disse que mudaram de nome porque a palavra fried tinha adquirido um significado ruim. Talvez quisessem que as pessoas achassem que o frango se cozinhava sozinho.

Depois do jantar, Jacquel pediu licença e foi para o necrotério. Ibis foi escrever no estúdio. Shadow ficou sentado na cozinha mais um pouco, dando pedaços de peito de frango para a gatinha parda e bebendo sua cerveja. Quando terminou, lavou os pratos e os talheres, colocou-os no escorredor para secar e subiu as escadas.

Chegando no quarto, a gatinha dormia mais uma vez ao pé da cama, enrolada cm um arco peludo. Na gaveta do meio da penteadeira, encontrou vários conjuntos de pijamas de algodão listrado. Pareciam ter setenta anos, mas tinham cheiro de limpos, e Shadow escolheu um conjunto que, assim como o terno preto, ficou sob medida.

Havia uma pequena pilha de Seleções Reader's Digest no criado-mudo ao lado da cama, todas publicadas antes de março de 1960. Jackson, o cara da biblioteca — o mesmo que jurou ser verdade a história dos frangos mutantes da Kenlucky Fricd Chicken, e que contou a história dos trens de frete pretos que o governo usa para rebocar prisioneiros políticos até os campos de concentração secretos no norte da Califórnia, cruzando o país na calada da noite —, também disse que a CIA usava a Seleções como fachada para suas filiais espalhadas pelo mundo. Ele dizia que todas as redações de Seleções em todos os países, na verdade, eram a CIA.

— Piada — disse o falecido senhor Wood, na memória de Shadow. — Como é que dá pra ter certeza de que a CIA não estava envolvida no assassinato do Kennedy?

Shadow abriu uma fresta de alguns centímetros na janela — o bastante para que o ar fresco entrasse, e para que o gato fosse capaz de sair para a varanda do lado de fora.

Acendeu o abajur de cabeceira, deitou-se na cama e leu um pouco, tentando desligar o cérebro para esquecer os últimos dias, escolhendo os artigos mais idiotas das Seleções. Percebeu que estava caindo no sono no meio de "Eu sou Joe Pâncreas". Mal teve tempo de apagar o abajur da cabeceira e repousar a cabeça no travesseiro antes de seus olhos se fecharem naquela noite.

Mais tarde, foi incapaz de se lembrar da seqüência e dos detalhes daquele sonho:

tentativas de recordá-lo não resultavam em nada mais do que imagens escuras e emaranhadas. Havia uma garota. Ele a conhecera em algum lugar e agora eles atravessavam uma ponte sobre um pequeno lago, no meio de uma cidadezinha. O vento encrespava a superfície do lago, fazendo ondas com uma espuminha na ponta, que pareciam a Shadow pequenas mãos querendo alcançá-lo.

— Aqui embaixo —, dizia a mulher. Ela usava uma saia com estampa de leopardo, que esvoaçava e rodava com o vento, e a pele entre o fim das meias e a saia era cremosa e macia. No sonho Shadow se ajoelhou na frente dela, na ponte, na frente de Deus e do mundo, enterrando a cabeça entre suas pernas e bebendo seu cheiro feminino, selvagem, que intoxicava. Ele percebeu, no sonho, a ereção na vida real, uma coisa rígida, pulsante, monstruosa e tão dolorida quanto a ereção que teve quando garoto, ao entrar na puberdade.

Ele se afastou e olhou para cima, mas nem assim conseguiu ver seu rosto. Mas a boca dele procurava a dela, com aqueles lábios macios... suas mãos seguravam os seios exuberantes, e logo percorriam a maciez sedosa de sua pele, escondida pelas roupas, e afastando suas pernas, escorregando para dentro da maravilhosa racha, que estava quente e molhada esperando por ele, abrindo-se para sua mão como uma flor.

A mulher ronronava com o corpo contra o dele, estática... e sua mão procurava a dureza dele e a apertava. Ele tirou os lençóis do caminho e trepou em cima dela, com as mãos separando suas coxas... ela o guiava para dentro de seu corpo por entre suas pernas, onde um impulso, uma enfiada mágica...

Agora ele estava com ela de volta à sua antiga cela de prisão, e a beijava profundamente. Ela enlaçou os braços com firmeza ao redor de seu corpo e prendeu suas pernas firmemente nas dele, para que ficasse bem preso e não pudesse se desvencilhar nem mesmo se quisesse.

Shadow nunca beijara lábios tão macios. Não sabia que existia uma boca tão gostosa assim no mundo inteiro. A língua dela, no entanto, era áspera como uma lixa quando deslizava contra a dele.

— Quem é você? — perguntou.

Ela não respondeu, só jogou-o de costas sobre a cama e, com um pequeno movimento, sentou em cima dele e começou a montá-lo, como um cavalo. Não, não a montá-lo: a insinuar-se contra ele em uma série de movimentos de ondas macias como a seda, cada uma mais poderosa do que a anterior, golpes, ataques e ritmos que iam de encontro à mente e ao corpo dele da mesma maneira que as ondas no lago batiam nas margens. As unhas dela eram afiadas como agulhas e perfuravam sua pele, arranhando-o, mas ele não sentia dor, só prazer, tudo se transmutava por algum tipo de alquimia em momentos de prazer total.

Ele lutou para se encontrar, lutou para falar, sua mente agora era invadida por dunas de areia e ventos do deserto.

— Quem é você? — perguntou novamente, ofegando nas palavras. Ela olhou para ele com olhos da cor do âmbar, escuro, então se abaixou levando sua boca de encontro à dele e beijou-o com paixão, beijou-o tão completa e profundamente que ali, na ponte sobre o lago, em sua cela de prisão, na cama da funerária em Cairo, ele quase gozou. Aproveitou a sensação de uma pipa voando em uma tempestade, sem desejar chegar ao cume, sem explodir, querendo que aquilo nunca acabasse. Ele conseguiu controlar o desejo, mas precisava avisá-la.

— Minha mulher, a Loura, vai matar você.

— Eu, não — ela disse.

O fragmento de alguma tolice veio à tona em algum lugar na sua mente: na era medieval, dizia-se que uma mulher por cima conceberia um bispo. Era assim que chamavam: tentativa de fazer um bispo...

Ele queria saber seu nome, mas não ousava perguntar pela terceira vez. Ela empurrava seu corpo de encontro ao dele, Shadow conseguia sentir as pontas intumecidas dos mamilos dela contra seu peito, a mulher o apertava bem lá dentro dela e, desta vez, ele não conseguiu controlar nem surfar a onda... desta vez a onda o pegou, o encobriu e o fez perder o pé. Seu corpo se arqueava, entrando nela o mais fundo que conseguia imaginar, como se eles fossem, de algum modo, parte da mesma criatura, sentindo o gosto, bebendo, abraçando, querendo...

— Deixa rolar— ela falava, com sua voz rouca que parecia um rosnado felino. — Goza em mim. Deixa rolar.

E ele gozou, cm espasmos e se liquefazendo, sua própria consciência se transformando em líquido e logo sublimando lentamente de um estado ao outro.

A certa altura, no fim de tudo, ele tomou fôlego, sentindo uma corrente de ar fresco entrando até o fundo de seus pulmões, e soube que tinha prendido o fôlego durante um longo período. Três anos, pelo menos. Talvez até mais.

— Agora, descanse — beijou as pálpebras dele com seus lábios macios. — Deixa ir embora. Deixe que tudo se vá.

O sono que ele dormiu depois daquilo foi profundo, sem sonhos e reconfortante, e Shadow mergulhou fundo e o abraçou.

A luz parecia estranha. Eram, ele conferiu no relógio, 6h45 da manhã, e ainda estava escuro lá fora, apesar de o quarto estar tomado por uma semi-escuridão azulada. Shadow saiu da cama. Tinha certeza de que vestira um pijama antes de se deitar, mas agora estava nu, e o ar que vinha de encontro à sua pele era frio. Caminhou até a janela e a fechou.

Uma tempestade de neve caíra durante a noite: havia uns 15 centímetros de neve no chão, talvez mais. A parte da prefeitura que Shadow enxergava da janela, suja e em ruínas, tinha se transformado em algo limpo e diferente: aquelas casas não estavam abandonadas e esquecidas, estavam congeladas em elegância. As ruas desapareceram completamente, perderam-se sob um campo branco de neve.

Havia uma idéia que pairava nas beiradas de sua percepção. Algo a respeito de transição. Mas, aos poucos, foi se extinguindo e sumiu.

Ele conseguia enxergar tão bem como se o sol brilhasse.

No espelho, Shadow percebeu alguma coisa estranha. Chegou mais perto e observou, confuso. Todas as feridas haviam desaparecido. Tocou a lateral do próprio corpo, pressionando as pontas dos dedos com firmeza, tateando para encontrar alguma das dores profundas que lhe contavam sobre seu encontro com os senhores Stone e Wood, procurando algum dos brotos de ferida esverdeados com que Mad Sweeney o havia presenteado, mas não encontrou nada. Seu rosto estava limpo e sem marcas. As laterais do corpo e as costas (ele se contorceu para enxergá-las), no entanto, estavam arranhadas como que por marcas de garras.

Então ele não sonhara. Não completamente.

Shadow abriu as gavetas e tirou tudo que encontrou: um antigo par de jeans Levi's azul, uma camisa, um suéter azul grosso e um casaco preto de coveiro que encontrou pendurado no guarda-roupa no fundo do quarto.

Calçou seus sapatos velhos.

A casa ainda dormia. Andou silenciosamente, torcendo para que as tábuas do assoalho não rangessem, e então estava na rua. Caminhou na neve, deixando pegadas profundas na calçada. Lá fora, o ar parecia mais leve do que dentro da casa, a neve refletia a luz do céu.

Depois de quinze minutos de caminhada, Shadow chegou a uma ponte com uma grande placa que avisava dos limites da histórica Cairo. Um homem estava parado debaixo da ponte, alto e magro, fumando um cigarro e tremendo sem parar. Shadow achou que o conhecia.

E então, embaixo da ponte e na escuridão do inverno, aproximou-se o bastante para ver a mancha de cor púrpura ao redor do olho do homem, e disse:

— Bom dia, Mad Sweeney.

O mundo estava quieto demais. Nem os carros atrapalhavam o silêncio nevado.

— Ei, cara — disse Mad.

Ele não levantou a cabeça. O cigarro tinha sido enrolado a mão.

— Se continuar passeando embaixo de pontes, vão pensar que você é um troll. Dessa vez, Mad Sweeney olhou para cima. Shadow conseguia enxergar o branco dos olhos dele por toda a volta das íris. Parecia assustado.

— Eu estava procurando por você — disse. — Preciso da sua ajuda. Pisei na bola legal.

Ele deu um trago em seu cigarro e tirou-o da boca. O papel do cigarro ficou colado em seu lábio inferior, e então se abriu, espalhando seu conteúdo sobre a barba cor-de-gengibre e sobre a camiseta imunda. Mad Sweeney tirou a sujeira convulsivamente com suas mãos escurecidas, como se o tabaco fosse um inseto perigoso.

— Meus recursos estão mais que secos, Mad Sweeney. Mas, do que você precisa? Você quer que eu arrume um café?

Mad Sweeney sacudiu a cabeça. Pegou um saco de tabaco e papel de cigarro do bolso de sua jaqueta jeans e começou a preparar outro cigarro. Sua barba estava eriçada e sua boca tremia enquanto ele fazia isso, apesar de nenhuma palavra ser dita em voz alta. Ele lambeu o lado adesivo do papel e enrolou-o entre os dedos. O resultado não se parecia com um cigarro. Então, desabafou:

— Não sou troll nenhum. Merda. Aqueles filhos da puta são maus.

— Eu sei que você não é um troll, Sweeney — disse Shadow, com gentileza. — Como posso ajudar?

Mad Sweeney acendeu seu Zippo de latão e os primeiros centímetros de seu cigarro queimaram e então definharam em cinzas.

— Você lembra que eu mostrei como arrumar uma moeda? Lembra?

— Lembro — disse Shadow.

Ele viu a moeda de ouro no olho de sua mente, viu-a cair no caixão de Laura, viu-a brilhando no pescoço dela.

— Eu me lembro.

— Você pegou a moeda errada, cara.

Um carro se aproximou nas trevas debaixo da ponte, cegando-os com suas luzes. Reduziu a marcha quando passou por eles, então parou, e a janela abaixou.

— Tudo bem por aqui, senhores?

— Tudo certinho, obrigado, policial — disse Shadow. — Nós só saímos para um passeio matinal.

— Tudo bem, então.

O guarda não parecia acreditar que tudo estava bem. Ele esperou. Shadow colocou a mão no ombro de Mad e o conduziu para a frente, para longe da cidade c do carro de polícia. Ele ouviu o vidro da janela se fechar, mas o carro ficou onde estava.

Shadow caminhava. Mad Sweeney caminhava e às vezes tropeçava.

A polícia cruzou com eles lentamente, então fez a volta e retornou à cidade, acelerando pela rua coberta de neve.

— Agora, por que você não me conta o que está acontecendo? — disse Shadow.

— Eu fiz o que ele mandou. Eu fiz tudo, mas dei a moeda errada pra você. Não era pra ser aquela moeda. Aquela é a da realeza. Percebe? Eu nem devia ser capaz de encostar nela. Aquela é a moeda que deveria ser dada pro próprio rei dos Estados Unidos. Não pra um bastardo mijado como você ou eu. E agora me meti na maior confusão. Só me devolve a moeda, cara. Você nunca mais vai me ver, eu juro por tudo que é sagrado, é só me devolver. Juro por todos os anos que passei naquelas porras daquelas árvores.

— Quem pediu, Sweeney?

— Grimnir. O cara que você chama de Wednesday. Você sabe quem ele é? Quem e de verdade?

— Sei, acho.

Um olhar de pânico passou pelos loucos olhos azuis do irlandês.

— Não era nada de ruim. Nada que você possa... nada de ruim. Ele só me disse pra estar lá naquele bar e arrumar briga com você. Queria ver se você era durão.

— Ele disse alguma outra coisa?

Sweeney tremia e se contorcia; por um instante Shadow pensou que era o frio, mas logo lembrou que já vira aquele tipo de tremor antes. Na prisão: era o tremor de um viciado. Sweeney estava em abstinência de alguma coisa, e Shadow podia apostar que era heroína. Um leprechaun viciado? Mad Sweeney apagou a ponta acesa do cigarro, bateu a cinza no chão e guardou no bolso o resto amarelado sem fumar. Esfregou os dedos pretos de sujeira, respirou em cima deles para tentar trazer algum calor. Sua voz transformou-se em um choramingo:

— Olha, só me dá a porra da moeda, cara. Eu dou outra pra você, tão boa quanto aquela. Caralho, eu dou um carregamento inteiro delas.

Ele tirou o boné de beisebol ensebado e então, com a mão direita, golpeou o ar, fazendo aparecer uma moeda grande de ouro. Deixou-a cair dentro do boné. Em seguida, pegou outra de um sopro que se transformava em vapor, e outra, pegando-as e agarrando-as do ar parado da manhã até que o boné estivesse transbordando e fosse obrigado a segurá-lo com ambas as mãos.

Ele estendeu o boné de beisebol cheio de ouro para Shadow.

— Toma. Leva. Só me devolve a moeda que eu dei pra você.

Shadow olhou para o boné, imaginando quanto valeria seu conteúdo.

— Onde vou gastar essas moedas, Mad Sweeney? — Shadow perguntou. — Existe algum lugar que converte ouro em dinheiro vivo?

Por um instante, pensou que o irlandês fosse acertá-lo, mas o instante passou e Mad Sweeney apenas ficou parado ali, segurando seu boné cheio de ouro, como Oliver Twist. E então lágrimas encheram seus olhos azuis e começaram a escorrer pelas bochechas. Ele pegou o boné, agora vazio a não ser por uma faixa retentora de suor ensebada, e colocou de volta na cabeça que já havia perdido alguns cabelos.

— Você tem que me devolver. Eu não mostrei como se faz? Eu mostrei como pegar as moedas do tesouro. Mostrei onde ficava o tesouro. Só me devolve a primeira moeda. Não era minha?

— Eu não estou mais com ela.

As lágrimas de Mad Sweeney secaram, e pontos de cor apareceram em suas bochechas.

— Seu puto...

Ele começou a falar, mas as palavras lhe faltaram e sua boca abriu e fechou, sem emitir um som.

— Estou falando a verdade — jurou Shadow. — Desculpa. Se estivesse comigo, eu devolveria na hora. Mas dei pra alguém.

As mãos sujas de Sweeney fecharam-se sobre os ombros de Shadow, e os olhos azuis olharam dentro dos dele. As lágrimas deixaram traços no rosto sujo de Mad Sweeney.

— Merda — ele disse.

Shadow podia sentir cheiro de tabaco, de cerveja azeda e de suor de uísque.

— Você está falando a verdade, seu porra. Você entregou porque quis. Porra de olhos escuros, você deu pra alguém!

— Desculpa.

Shadow lembrou-se do estampido sussurrante que a moeda fez quando caiu sobre o caixão de Laura.

— Com desculpas ou não, eu estou fedido e ferrado.

Ele enxugou o nariz e os olhos na manga, deixando marcas enlameadas e estranhas no rosto.

Shadow apertou o antebraço de Sweeney em um gesto masculino desajeitado.

— Seria melhor se eu nunca tivesse sido concebido — disse Mad Sweeney, afinal.

Então, levantou a cabeça:

— O cara para quem você deu. Será que ele devolve?

— Foi uma mulher. E eu não sei onde ela está. Mas não, acho que ela não vai devolver.

Sweeney suspirou, de maneira melancólica.

— Quando eu era nada mais do que um filhotinho, conheci uma mulher sob as estrelas, que deixou eu brincar com as tetas dela, e ela leu a minha sorte. Me disse que eu ia ser arruinado e abandonado a leste do pôr-do-sol, e que a bugiganga de enfeite de uma mulher morta ia selar o meu destino. Eu ri e servi um pouco mais de vinho de cevada, brinquei com as tetas mais um pouco e beijei bem aqueles lábios lindos. Aqueles eram os bons tempos... O primeiro monge cinzento ainda não tinha chegado à nossa terra, nem tinham atravessado o mar verde pró oeste. E agora...

Ele parou, no meio da frase. Virou-se e olhou diretamente para Shadow.

— Você não devia confiar nele — disse, com reprovação na voz.

— Quem?

— Wednesday. Você não devia confiar nele.

— Eu não preciso confiar nele. Eu trabalho pra ele.

— Você se lembra de como fazer?

— O quê?

Shadow se sentia como se estivesse conversando com meia dúzia de pessoas diferentes. O leprechaun de estilo próprio pulava de uma personalidade a outra, de assunto a assunto, como se os terminais de suas células cerebrais restantes estivessem se acendendo, queimando e, então, apagando-se para sempre.

— As moedas, cara. As moedas. Eu mostrei pra você, lembra? Ele ergueu dois dedos até o rosto, olhou para eles, então tirou uma moeda de ouro da boca. Jogou a moeda para Shadow, que esticou um braço para agarrá-la, mas nenhuma moeda chegou até ele.

— Eu estava bêbado — disse Shadow. — Eu não lembro.

Sweeney tropeçava pela rua. Estava claro agora, e o mundo era branco e cinzento. Shadow o seguiu. Ele andava a passos longos e em forma de oito, como se estivesse sempre caindo, mas as pernas estavam lá para impedir a queda, a impulsioná-lo para o próximo tropeço. Quando chegaram à ponte, ele se apoiou nos tijolos com uma das mãos, virou-se e disse:

— Você tem uns trocados? Eu não preciso de muito. Só o bastante pra comprar uma passagem pra longe deste lugar. Vinte paus é suficiente. A miséria de vinte paus.

— Pra onde é que você consegue ir com uma passagem de ônibus de 20 dólares? — perguntou Shadow.

— Consigo sair daqui. Posso sair fora antes da tempestade cair. Sair fora de um mundo em que os opiáceos viraram a religião das massas. Sair fora.

Ele parou. Enxugou o nariz com as costas da mão, depois limpou a mão na manga. Shadow colocou a mão no bolso da calça, tirou uma nota de vinte e entregou para Sweeney.

— Toma.

Sweeney amassou a nota e a enfiou bem no fundo do bolso da jaqueta jeans manchada de óleo, debaixo do aplique de pano colorido que mostrava dois urubus em cima de um galho morto e, embaixo deles, as palavras: PACIÊNCIA O CARAEHO! VOU É MATAR ALGUMA COISA! Ele assentiu com a cabeça, — Com isso eu vou conseguir chegar onde preciso ir — disse. Ele se apoiou contra a parede de tijolos, remexeu nos bolsos até achar a bituca de cigarro que tinha abandonado antes. Acendeu com cuidado, tentando não queimar os dedos nem a barba.

— Vou falar uma coisa — disse, como se não tivesse dito nada naquele dia. — Você está andando em terreno de enforcado, e tem uma corda ao redor do seu pescoço e um corvo em cada um dos seus ombros esperando pra comer seus olhos. A árvore da forca tem raízes profundas, porque se estende do céu até o inferno, e o nosso mundo é só o galho em que a corda está pendurada.

Ele parou.

— Vou descansar aqui um pouco — falou, agachando-se com as costas apoiadas contra a parede de tijolos negros.

— Boa sorte — disse Shadow.

— Caralho, estou fodido. Sei lá. Obrigado.

Shadow caminhou em direção à cidade. Eram 8h da manhã e Cairo acordava. Ele deu uma olhadela de volta à ponte e viu o rosto pálido de Sweeney, rajado de lágrimas e sujeira, observando-o enquanto se afastava.

Foi a última vez que Shadow viu Mad Sweeney vivo.

Os dias curtos de inverno que antecederam o Natal foram como instantes de luz entre as escuridões e passavam rapidamente na casa dos mortos.

Era dia 23 de dezembro, e a funerária Jacquel e Ibis abrigava o velório de Lila Goodchild. Mulheres alvoroçadas lotaram a cozinha com vasilhas, panelas, frigideiras e potes Tupperware, e a falecida repousava arrumada em seu caixão na sala da frente da funerária, com flores de estufa ao seu redor. Havia uma mesa do outro lado da sala com salada de repolho, feijão, bolinhos de milho, frango e costeletas com ervilhas. No meio da tarde, a casa estava tomada por gente que chorava e ria e apertava a mão do pastor, tudo silenciosamente organizado e supervisionado pelos senhores Jacquel e Ibis, vestidos de maneira sóbria. O enterro seria na manhã seguinte.

Quando o telefone na entrada tocou (era de baquelita preta e tinha um disco rotativo na frente), o senhor Ibis atendeu. Então puxou Shadow para o lado.

— Era a polícia — ele disse. — Você pode ir lá recolher um corpo?

— Claro.

— Seja discreto. Toma.

Ele escreveu o endereço em um pedaço de papel, com uma caligrafia perfeita para uma placa de condecoração em cobre, então o entregou a Shadow, que o dobrou e o enfiou no bolso.

— Vai ter um carro de polícia lá — Ibis completou.

Shadow foi até os fundos e pegou o carro fúnebre. Tanto o senhor Jacquel quanto o senhor Ibis tinham explicado, individualmente, que, na verdade, o carro fúnebre deveria ser usado apenas para os enterros, e que eles tinham uma perua que usavam para recolher os corpos, mas a perua estava na oficina, já estava lá por três semanas... ele teria que tomar muito cuidado com o carro. Shadow dirigiu cuidadosamente pela rua. Os tratores limpadores de neve já haviam limpado as ruas, mas ele se sentia bem dirigindo vagarosamente. Parecia certo andar devagar em um carro fúnebre, apesar de ele mal poder se lembrar da última vez que vira um na rua. A morte tinha desaparecido das ruas dos Estados Unidos, pensou Shadow; agora acontecia em quartos de hospital e em ambulâncias. Não se deve assustar os vivos. O senhor Ibis tinha explicado que os mortos são transportados em alguns hospitais na parte de baixo de macas cobertas aparentemente vazias, os falecidos percorrem seus próprios caminhos de seu próprio jeito disfarçado.

Uma viatura azul-escura estava parada em uma rua lateral, e Shadow estacionou o carro atrás dela. Havia dois guardas dentro da viatura, bebendo café naquelas xícaras que servem de tampa para garrafas térmicas. O motor estava ligado para que a calefação funcionasse. Shadow bateu na janela lateral.

— Sim?

— Eu sou da funerária.

— Estamos esperando o legista — disse o guarda.

Shadow se perguntou se seria o mesmo policial que havia falado com ele debaixo da ponte. O guarda, que era negro, saiu do carro, deixando seu colega no assento do motorista, e conduziu Shadow até um contêiner de lixo. Mad Sweeney estava sentado na neve ao lado do lixo. Havia uma garrafa verde vazia em seu colo, uma poeira de neve e de gelo em seu rosto, em seu boné de beisebol e em seus ombros. Ele não piscava.

— Bêbado morto — disse o guarda.

— Parece que sim — concordou Shadow.

— Não toque em nada ainda. O legista deve chegar a qualquer momento. Se você quiser saber a minha opinião, o cara bebeu até perder os sentidos e congelou o rabo.

— Ë... é o que parece.

Shadow abaixou-se e olhou a garrafa no colo do morto. Uísque irlandês Jameson: uma passagem de 20 dólares para longe deste lugar. Um Nissan pequeno parou, e um homem de meia-idade perturbado, com cabelos e bigodes cor-de-areia saiu e caminhou até eles. Tocou o pescoço do cadáver. O trabalho dele e dar um chute no cadáver, pensou Shadow, e se o morto não der outro chute nele como resposta...

— Está morto — disse o legista. — Algum documento de identificação?

— Ele é um Zé Ninguém — respondeu o guarda. O legista olhou para Shadow.

— Você trabalha pra Jacquel e Ibis?

— Trabalho.

— Fala pro Jacquel pegar a arcada dentária e as impressões digitais pra podermos fazer a identificação e pra tirarmos fotos também. Não precisamos alardear isso. Ele só precisa tirar uma amostra de sangue pra toxicologia. Entendeu tudo? Quer que eu escreva pra você?

— Não. Tudo bem. Eu consigo lembrar.

O homem fez uma expressão de mau humor por um instante, depois tirou um cartão de visitas da carteira, rabiscou algo no papel e entregou a Shadow, dizendo:

— Entregue isso pro Jacquel.

Depois, o legista disse "Feliz Natal" para todo mundo e tomou seu rumo. Os guardas ficaram com a garrafa vazia.

Shadow assinou a retirada do Zé-Ninguém e o colocou na maca. O corpo estava bem rígido, e Shadow não conseguia tirá-lo da posição em que estava. Ficou experimentando os mecanismos da maca e descobriu que dava para abaixar só uma ponta. Amarrou o Zé-Ninguém, sentado, na maca e o colocou na traseira do carro, com o rosto virado para a frente. Pelo menos ele podia fazer um passeio legal. Fechou as cortinas de trás. Então voltou para a funerária.

O carro fúnebre estava parado em um sinal vermelho quando Shadow ouviu uma voz coaxar:

— E eu espero ter um velório bacana, com o melhor de tudo, e mulheres lindas derramando lágrimas e tirando as roupas de desespero, e homens corajosos lamentando-se e contando histórias sobre mim nos bons tempos.

— Você está morto, Mad Sweeney. A gente aceita o que oferecem quando está morto.

— Ai, acho que sim — suspirou o morto, sentado no carro. O choramingo viciado desapareceu de sua voz e foi substituído por uma monotonia resignada, como se as palavras fossem transmitidas de um lugar muito, muito longe, palavras mortas transmitidas em uma freqüência morta. O sinal ficou verde e Shadow pisou no acelerador com delicadeza.

— Mas vê se pelo menos faz um velório pra mim — disse Mad. — Me arruma um lugar em uma mesa e faz um velório cheio de bebida hoje à noite. Você me matou, Shadow. Você me deve pelo menos isso.

— Eu não matei você, Mad Sweeney.

Vinte dólares, ele pensou, por uma passagem pra longe deste lugar.

— Foi a bebida e o frio que mataram você, não eu.

Não houve resposta, e o carro ficou silencioso durante o resto da viagem. Depois de estacionar nos fundos, Shadow empurrou a maca até o necrotério. Colocou o morto sobre a mesa de embalsamamento como se estivesse lidando com um pedaço de carne de vaca.

Cobriu o corpo com um lençol e o deixou lá, com a papelada ao seu lado. Quando subia as escadas do fundo, achou que ouviu uma voz, tranqüila e abafada, como se fosse um rádio ligado em uma sala ao longe, que dizia:

— E o que você acha que a bebida e o frio estariam fazendo... me matando, um leprechaun de sangue puro? Não, foi você quem perdeu aquele sol de ouro, Shadow, c me deixou mortinho da silva, tão certo quanto a água é molhada e os dias são longos e um amigo que vai acabar decepcionando você.

Shadow ficou com vontade de dizer a Sweeney que aquela era uma filosofia muito amarga, mas concluiu que a morte deixava as pessoas amargas.

Ele subiu as escadas até a casa principal, onde várias mulheres de meia-idade arrumavam sanduíches em pratos de porcelana e abriam tampas de potes Tupperware cheios de batatas fritas e macarrão frio com molho de queijo.

O senhor Goodchild, marido da falecida, colocou o senhor Ibis contra uma parede e dizia como tinha certeza de que nenhum de seus filhos apareceria para mostrar respeito à mãe. Quem puxa os seus não degenera, ele falava alto para quem quisesse ouvir. Quem puxa os seus não degenera.

Naquela noite, Shadow colocou um lugar extra na mesa. Colocou um copo em cada lugar, e uma garrafa de Jameson Gold no centro da mesa. Era o uísque irlandês mais caro à venda na loja de bebidas. Depois de comerem (um enorme prato de sobras deixado pelas mulheres), Shadow serviu uma dose generosa em cada copo — no seu, no de Ibis, no de Jacquel e no de Mad Sweeney.

— E daí que ele está sentado em uma maca no porão — disse Shadow, enquanto servia —, pronto pra ir pra vala comum? Hoje à noite vamos beber em sua homenagem, e dar a ele o velório que queria.

Shadow levantou o copo em direção ao lugar vazio na mesa.

— Eu só vi Mad Sweeney vivo duas vezes. Na primeira vez, achei que ele era um operário imbecil com tudo de ruim que uma pessoa pode ter dentro de si. Na segunda, achei que era um louco de pedra e dei dinheiro pra ele se matar. Ele me mostrou um truque com moedas que eu não lembro como fazer, deixou algumas feridas em mim e disse que era um leprechaun. Descanse em paz, Mad Sweeney.

Deu um gole na bebida, deixando que o sabor defumado evaporasse na boca. Os outros dois beberam, brindando à cadeira vazia junto com ele.

O senhor Ibis colocou a mão dentro de um bolso interno do paletó e tirou um bloquinho, que folheou até encontrar a página apropriada, e leu alto um resumo da vida de Mad Sweeney.

De acordo com o senhor Ibis, Mad começara a vida como guardião de uma pedra sagrada em uma pequena clareira irlandesa, há mais de 3 mil anos. O senhor Ibis contou sobre os casos de amor de Mad, suas inimizades, á loucura que lhe conferiu seus poderes (uma versão posterior da história ainda é contada, apesar de a natureza sagrada e a antiguidade, da maior parte da poesia, terem sido esquecidas havia muito tempo), a veneração e a adoração em seu próprio país que lentamente transmutou-se em respeito cauteloso e, finalmente, em diversão. Contou a eles a história da garota de Bantry que veio para o Novo Mundo e que trouxe sua crença em Mad Sweeney, o leprechaun, porque ela o havia visto certa noite, ao lado do laguinho, e não é que ele havia sorrido para ela e a chamado por seu próprio nome de verdade? Ela tinha se transformado em refugiada, no porão de um navio de gente que vira suas batatas se transformarem em uma massa negra no chão, que vira seus amigos e seus entes queridos morrerem de fome, que sonhara com uma terra de barriga cheia. A garota da baía de Bantry sonhava, especificamente, com uma cidade onde uma garota seria capaz de ganhar o suficiente para mandar trazer sua família para o Novo Mundo. Muitos dos irlandeses que vieram para os Estados Unidos se consideravam católicos, mesmo que não soubessem nada de catecismo, mesmo que tudo o que soubessem a respeito de religião fosse a Bean Sidhe, a banshee, que vinha esperar nos muros das casas aonde a morte chegaria em breve, e santa Bride, que havia sido a Brígida das duas irmãs (cada uma das três era uma Brígida, cada uma delas era a mesma mulher), e histórias de Finn, de Oísin, de Conan Careca — até de leprechauns, os pequeninos (e não era essa a maior piada irlandesa, porque os leprechauns eram os maiores seres folclóricos de seu tempo)...

O senhor Ibis contou tudo isso e muito mais a eles, na cozinha, naquela noite. Sua sombra na parede estava esticada e parecida com a de um pássaro, e, à medida que o uísque descia, Shadow imaginava que a sombra fosse a cabeça de um enorme pássaro aquático, com o bico longo e recurvado. Foi a certa altura do meio do segundo copo que Mad Sweeney começou a inserir pessoalmente detalhes e informações irrelevantes na narrativa de Ibis (...que garota ela era, com peitos cor-de-creme e salpicados de sardas, com os mamilos da cor rosa-avermelhada do nascer do sol que vai brilhar forte demais ao meio-dia, mas que fica excelente novamente na hora do jantar...) e então Sweeney tentava, com as duas mãos, explicar a história dos deuses na Irlanda, cada onda de deuses que chegava, vindos da Gália e da Espanha, e de todas as porras de lugares, cada onda transformando os deuses anteriores em trolls e em fadas e em todo tipo de criatura até que a própria Igreja Mãe Abençoada chegou e todos os deuses da Irlanda foram transformados em fadas ou em santos ou em um rei morto sem pedir licença...

O senhor Ibis limpou seus óculos de aros dourados e explicou — enunciando as palavras ainda com mais clareza e precisão do que normalmente fazia, de modo que Shadow pôde perceber que ele estava bêbado (suas palavras e o suor que formava gotas em sua testa, naquela casa gelada, eram os únicos indícios) —, com o indicador levantado, que ele era um artista e que suas histórias não deveriam ser vistas como reconstruções literais, mas sim como recriações imaginativas, mais verdadeiras do que a verdade, e Mad Sweeney disse:

— Eu vou mostrar pra você uma recriação imaginativa, com o meu punho, recriando a porra da sua cara, pra começar.

E o senhor Jacquel mostrou os dentes e rosnou para Sweeney, o rosnado de um cachorro enorme que não está procurando briga, mas que sempre pode terminar rasgando sua garganta, e Sweeney entendeu o recado, sentou-se e serviu-se de mais um copo de uísque.

— Você se lembrou de como fazer aquele meu truquezinho com moeda? — perguntou a Shadow com um sorriso.

— Não me lembrei.

— Se você conseguir adivinhar como eu fiz — disse Mad Sweeney, com os lábios arroxeados, os olhos azuis vidrados —, eu falo quando você chegar perto.

— Não é um truque de esconder moeda, é?

— Não.

— É algum tipo de engenhoca? Alguma coisa escondida na sua manga ou em algum outro lugar que atira as moedas pra você pegar?

— Não é isso também. Alguém aí quer mais uísque?

— Eu li em um livro sobre como fazer as moedas aparecerem cobrindo a palma da mão com látex, fazendo uma bolsa da cor da pele para esconder as moedas dentro.

— Este é um velório triste pro Grande Sweeney, que voou como um pássaro sobre toda a Irlanda e comeu agrião em sua loucura: estar morto e não ser velado por ninguém além de um pássaro, um cachorro e um idiota. Não, não é uma bolsa.

— Bom, eu não tenho mais nenhuma idéia — disse Shadow. Acho que você tira as moedas do nada.

Era para ser sarcasmo, mas foi então que ele viu a expressão no rosto de Sweeney.

— É isso que você faz... tira as moedas do nada.

— Bom, não exatamente do nada — disse Mad. — Mas você está começando a entender. Eu pego do tesouro.

— Do tesouro — disse Shadow, começando a se lembrar. — Sei.

— Você só precisa se concentrar e pronto, é sua. Pode pegar. É o tesouro do sol. Aparece naqueles momentos em que o mundo faz um arco-íris. Aparece no momento do eclipse e no momento da tempestade.

E mostrou a Shadow como fazer.

Dessa vez, Shadow aprendeu.

A cabeça de Shadow doía e latejava, sua língua parecia grudenta e tinha gosto de veneno para inseto. Ele apertou os olhos ao brilho da luz do dia. Havia caído no sono com a cabeça em cima da mesa da cozinha. Estava totalmente vestido, apesar de ter tirado a gravata preta a certa altura.

Ele desceu ao andar debaixo, até o necrotério, e sentiu-se aliviado, porém não surpreso, ao constatar que o Zé-Ninguém ainda estava na mesa de embalsamento. Shadow retirou furtivamente a garrafa de Jameson Gold dos dedos enrijecidos pelo rigor-mortis do cadáver e a jogou no lixo. Ouvia acima dele alguém andando de um lado para o outro da casa.

O senhor Wednesday estava sentado à mesa da cozinha quando Shadow subiu. Ele comia um resto de salada de batatas de um potinho Tuppérware com uma colher de plástico. Usava um terno cinza-escuro, uma camisa branca, e uma gravata muito cinzenta: o sol da manhã reluzia no alfinete de gravata em forma de árvore. Sorriu para Shadow quando o viu.

— Ah, Shadow, meu garoto, que bom ver que você está de pé. Pensei que você fosse dormir pra sempre.

— Mad Sweeney morreu.

— Ouvi dizer. Que pena. Claro que, no fim, vai acontecer com todos nós. Ele puxou uma corda imaginária, mais ou menos na altura da orelha, e deixou o pescoço cair para um lado, com a língua para fora, os olhos esbugalhados. Por mais que a cena tenha sido breve, foi perturbadora. Então ele largou a corda e mostrou seu sorriso familiar.

— Quer um pouco de salada de batata?

— Acho que não.

Shadow percorreu a cozinha e o corredor com o olhar:

— Você sabe onde Ibis e Jacquel estão?

— Sei. Estão enterrando a senhora Eila Goodchild... e acho que teriam apreciado muito se você estivesse ajudando, mas eu pedi a eles que não o acordassem. Temos uma longa viagem pela frente.

— Nós vamos embora?

— Em menos de uma hora.

— Eu deveria me despedir.

— As despedidas são valorizadas demais. Você vai se encontrar com eles de novo antes desse negócio terminar, não tenho dúvida.

Pela primeira vez desde aquela primeira noite, Shadow reparou, a gatinha parda estava enrolada em sua cesta. Ela abriu seus olhos cor-de-ãmbar desinteressados e o observou enquanto se afastava.

Ele deixou a casa dos mortos. O gelo cobria os arbustos e as árvores escurecidas pelo inverno como se tivessem sido isoladas, transformadas em sonhos. O chão estava escorregadio.

Wednesday foi na frente até o Chevy de Shadow, estacionado na rua. Fora lavado recentemente, e as placas de Wisconsin haviam sido substituídas por placas de Minnesota. A bagagem de Wednesday já estava empilhada no banco de trás. Ele abriu o carro com chaves que eram cópias das que Shadow carregava em seu próprio bolso.

— Eu dirijo — disse Wednesday — Vai demorar pelo menos uma hora até você prestar pra alguma coisa.

Rumaram em direção ao norte, com o Mississipi à sua esquerda, um rio largo e prateado sob um céu cinzento. Shadow viu, empoleirado em uma árvore cinzenta e sem folhas ao lado da estrada, um enorme falcão pardo e branco, que olhou diretamente para eles com olhos enlouquecidos quando se aproximaram, então abriu as asas e levantou vôo em círculos lentos e poderosos.

Shadow percebeu que a temporada na casa dos mortos tinha sido apenas um adiamento temporário, e que já começava a se parecer com algo que aconteceu com alguma outra pessoa, muito tempo atrás.

 

                                       CAPITULO NOVE

Not to mention mythie creatures in the rubble...[9]

Wendy Cope, "A Policeman's Lot"

Quando eles saíram do Estado de Illinois, bem tarde naquela noite, Shadow fez a Wednesday sua primeira pergunta. Ele viu a placa de BEM-VINDO AO WISCONSIN e disse:

— Então, quem eram aqueles caras que me pegaram no estacionamento? O senhor Wood e o senhor Stone?

Os faróis do carro iluminavam a paisagem invernal. Wednesday avisou que eles não pegariam auto-estradas porque não sabia para onde as auto-estradas levavam, por isso iam rodar pelas estradinhas locais. Shadow não se importou. Ele nem tinha certeza se Wednesday era louco.

Wednesday deu um grunhido.

— Só uns agentes. Membros da oposição. Gente ruim.

— Eles acham que são gente boa.

— Claro que sim. Nunca aconteceu uma guerra entre dois lados que não se achavam corretos. As pessoas perigosas fazem o que querem somente e apenas porque acham que é o certo, sem sombra de dúvida. E é isso que as torna perigosas.

— E você? — perguntou Shadow. — Por que você faz o que faz?

— Porque eu quero fazer — disse Wednesday. Então, sorriu:

— Então está tudo certo. Shadow disse:

— Como foi que vocês conseguiram escapar? Todos escaparam?

— Todos, apesar de ter sido por pouco. Se não tivessem parado pra pegar vocês, poderiam ter pegado um monte de nós. Serviu pra convencer algumas pessoas que estavam em cima do muro de que eu talvez não estivesse completamente louco.

— Mas como foi que escaparam? Wednesday sacudiu a cabeça.

— Eu não pago você pra fazer perguntas — ele disse. — Já falei isso antes.

Shadow deu de ombros.

Passaram a noite no Motel Super 8, ao sul de La Crosse.

O dia de Natal foi passado na estrada, seguindo em direção ao nordeste. As fazendas se transformaram em uma floresta de pinheiros. As cidadezinhas pareciam estar cada vez mais distantes umas das outras.

O almoço de Natal foi no fim da tarde, em um restaurante caseiro que se parecia com um salão, na parte centro-norte do Wisconsin. Shadow brincava sem interesse algum com os pedaços de peru ressecado, com os caroços vermelhos de molho de amoras que mais parecia uma geléia, com as batatas assadas duras como pau e com as ervilhas verdes enlatadas. Considerando-se a maneira como Wednesday atacava o prato e como estalava os lábios, parecia apreciar a comida. À medida que a refeição progredia, ele ficava cada vez mais positivamente expansivo — conversava, fazia piada e, quando se aproximavam, flertava com a garçonete, uma loura alta e magra que mal parecia velha o suficiente para ter largado o colegial.

— Com licença, querida, será que eu podia incomodá-la pedindo mais uma xícara daquele chocolate quente delicioso? E acredito que você não vai me achar muito abusado se eu disser como esse seu vestido é encantador e está na moda. Festivo e, ainda assim, elegante.

A garçonete, que usava uma saia vermelha e verde de tons bem fortes, bordada com enfeites brilhantes prateados, deu risadas, corou, sorriu alegremente e saiu para buscar o chocolate quente.

— Encantador — disse Wednesday, pensativo, observando-a enquanto ela se afastava. — Na moda.

Shadow acha que ele não estava falando do vestido. Wednesday enfiou a última fatia de peru na boca, limpou a barba com o guardanapo e empurrou o prato para a frente.

— Aaah. Muito bem.

Ele olhou em volta, para o restaurante caseiro. Uma fita de canções de Natal tocava no fundo: o garotinho do tambor não tinha nenhum presente para trazer, parupapom-pom, rapapom pom, rapap-pom pom.

— Algumas coisas devem mudar — disse Wednesday, abruptamente. — As pessoas, no entanto... as pessoas continuam sempre as mesmas. Alguns golpes duram pra sempre, outros logo são engolidos pelo tempo ou pelo mundo. Meu golpe preferido já não é mais possível. Ainda assim, surpreendentemente, muitos golpes são eternos: estelionato, fingir que achou uma carteira cheia de dinheiro ou uma jóia na rua, o golpe do violinista...

— Nunca ouvi falar desse golpe — disse Shadow. — Acho que conheço os outros. Meu antigo companheiro de cela aplicava golpes. Ele era golpista.

— Ah — disse Wednesday, e o olho esquerdo brilhou. — O jogo do violonista era um logro ótimo e maravilhoso. Na sua forma mais pura é um golpe pra dois homens. Trabalha no campo da estupidez e da ganância, como todos os grandes golpes. Sempre dá pra enganar um homem honesto, mas dá mais trabalho. Então. A gente está em um hotel, numa pousada ou num bom restaurante e, jantando lá, vemos um homem... pobre, mas um pobre requintado, não alguém da ralé, mas que certamente anda sem sorte. Vamos chamá-lo de Abraham. E, quando chega a hora de pagar a conta... não é uma conta muito alta, veja bem, 50, 75 dólares... uma vergonha! Cadê a carteira? Deus do céu, deve ter ficado na casa de um amigo, não muito longe dali. Ele deve ir buscar sua carteira imediatamente! Abraham diz para o maitre que aceite o velho violino como depósito. Ë bem velho, mas é assim que ele ganha a vida.

O sorriso de Wednesday ficou grande e predatório quando viu a garçonete se aproximar.

— Ah, o chocolate quente! Trazido pelo meu anjo natalino! Diga-me, querida, será que você poderia trazer mais um pouco desse pão maravilhoso quando tiver um tempinho?

A garçonete — quantos anos será que ela tinha, Shadow imaginou, 16, l 7? — olhou para o chão e suas bochechas coraram forte. Colocou o chocolate sobre a mesa com as mãos tremendo e voltou para a ponta do salão, perto da vitrina rotativa de tortas, onde parou e olhou para Wednesday. Então, esgueirou-se para dentro da cozinha para pegar o pão.

— Então. O violino... velho, inquestionavelmente, talvez um pouco surrado... é deixado com seu estojo, e Abraham, temporariamente sem recursos, sai pra buscar sua carteira. Mas um senhor bem vestido, que tinha acabado seu jantar, observara a negociação, e então se aproxima do maitre: será que ele, por acaso, poderia inspecionar o violino que o honesto Abraham deixou pra trás? Claro que pode. Nosso anfitrião entrega o estojo, e o homem bem vestido... vamos chamá-lo de Barrington... abre a boca, então percebe o que fez e a fecha, examina o violino com reverência, como um homem que recebeu permissão pra entrar em um santuário e examinar os ossos de um profeta. "Meu Deus!", ele diz. "Isso é... tem que ser... não, não pode ser... mas é, é mesmo... Meu Deus do céu! Isso é inacreditável'.", e aponta pra marca do fabricante, em uma tira de papel amarelado dentro do violino... de qualquer jeito, ele diz, mesmo sem aquilo, ele saberia pela cor do verniz, pela voluta, pelo formato. Então Barrington coloca a mão no bolso e retira um cartão de visita em relevo, proclamando-o um comerciante proeminente de instrumentos musicais antigos. "Então este violino é raro?", pergunta o maitre. "De fato", diz Barrington, ainda admirando a peça com assombro, "e pode valer até 100 mil dólares, a não ser que eu esteja errado. Mesmo como negociante dessas coisas eu pagaria Cinqüenta... não, 75 mil dólares, em dinheiro vivo, por uma peça tão extraordinária. Eu tenho um comprador na Costa Oeste que o compraria amanhã, sem olhar, com um telegrama, e pagaria o que eu pedisse por ele". Ele consulta o relógio e seu rosto adquire uma expressão de desânimo. "Meu trem... Eu mal tenho tempo de pegar o trem! Meu bom homem, quando o dono deste inestimável instrumento retornar, por favor dê-lhe meu cartão, porque, ai de mim, preciso ir embora". E, dizendo isso, Barrington vai embora, um homem que sabe que o tempo e o trem não esperam ninguém. O maitre examina o violino, a curiosidade misturando-se com a estupidez em suas veias, e um plano começa a emergir em sua mente. Mas os minutos passam, e Abraham não volta. Já é tarde, e o pobre, mas orgulhoso Abraham, atravessa a porta e traz em suas mãos uma carteira que já viu dias melhores, uma carteira que nunca carregou mais do que 100 dólares em seu melhor dia, e dali tira o dinheiro pra pagar sua refeição ou sua estadia, e pede que seu violino seja devolvido. O maitre coloca o violino em seu estojo sobre o balcão, e Abraham o pega como uma mulher ninando o filho. "Diga-me", diz o anfitrião (com o cartão de visita em relevo do homem que pagaria 50 mil dólares, um bom dinheirinho à vista, queimando no bolso interno do paletó), "quanto vale um violino desses? Porque a minha sobrinha tem vontade de aprender a locar violino, e o aniversário dela é daqui a uma semana." "Vender este violino?", diz Abraham. "Eu nunca poderia vendê-lo. Eu o tenho há vinte anos... já toquei com ele em todos os Estados da União. E, pra falar a verdade, custou quinhentos dólares quando eu comprei, há um tempão." O maitre mantém o sorriso afastado do rosto. "Quinhentos dólares? E se eu oferecesse mil dólares por ele, aqui e agora?" O violinista parece deleitado e, logo, deprimido. E diz: "Mas, senhor, eu sou violinista, é a única coisa que eu sei fazer. Esse violino me conhece e me ama, e meus dedos o conhecem tão bem que eu poderia tocar uma canção no escuro. Onde é que eu vou encontrar outro que tenha um som tão bom? Mil dólares é bastante dinheiro, mas este é o meu ganha-pão. Nem por mil nem por 5 mil dólares". O anfitrião vê seu lucro encolher, mas isso e um negócio, e é preciso gastar dinheiro pra ganhar dinheiro. "Oito mil dólares", ele diz. "Não vale tudo isso, mas eu gostei dele, e eu amo e mimo a minha sobrinha." Abraham quase vai às lágrimas quando pensa em perder seu amado violino, mas como é que ele pode dizer não a 8 mil dólares, especialmente tendo em vista que o maitre vai até o cofre na parede e retira não oito, mas nove mil dólares, todos organizadamente arranjados em montes de mil, prontinhos pra serem depositados no bolso surrado do violinista. "Você é um bom homem", ele diz ao maitre. "Você é um santo! Mas você precisa jurar que vai tomar conta do meu menino!" e, com relutância, entrega o violino.

— Mas e se o maitre simplesmente entregar o cartão de Barrington e dissera Abraham c[ue ele deu sorte? — pergunta Shadow.

— Então vamos ter que arcar com o custo de dois jantares — disse Wednesday. Ele limpou o molho e as sobras em seu prato com um pedaço de pão, que comeu com o prazer, estalando os lábios.

— Deixa eu ver se entendi... — disse Shadow. — O Abraham sai, 9 mil dólares mais rico, e, no estacionamento perto da estação de trem, ele e o Barrington se encontram. Eles dividem o dinheiro, entram no Ford Model A de Barrington e se dirigem pra próxima cidade. Aposto que, no porta-malas do carro eles têm uma caixa cheia de violinos de 100 dólares.

— Eu pessoalmente estabeleci a regra de nunca pagar mais de cinco dólares por nenhum deles — disse Wednesday.

Então, voltou-se para a garçonete, hesitante:

— Agora, querida, regale-nos com a descrição das sobremesas suntuosas que você tem pra nós hoje, Natal do nosso Senhor.

Ele olhava diretamente para ela — era quase um olhar de segundas intenções —, como se nada que ela pudesse oferecer fosse mais apetitoso do que ela mesma. Shadow sentiu-se profundamente desconfortável: era como assistir a um lobo velho atacando um cervo novo demais para saber que, se não corresse, e se não corresse agora, terminaria em uma clareira distante com os ossos descarnados pelos corvos.

A garota corou mais uma vez e disse que a sobremesa era torta de maçã à Ia mode — "Quer dizer, com uma bola de sorvete de baunilha" —, ou um pudim vermelho e verde batido. Wednesday olhou-a bem nos olhos e disse que experimentaria a torta de Natal à Ia mode. Shadow recusou.

— Agora, como todos os golpes — disse Wednesday —, o do violino remonta a trezentos anos ou mais. E se você escolher seus frangos direitinho, ainda dá pra aplicar o golpe em qualquer lugar dos Estados Unidos amanhã.

— Eu pensei que você tinha dito que o seu golpe preferido não era mais possível — disse Shadow.

— Disse mesmo. No entanto, esse não é o meu preferido. Não. O meu preferido era um que chamavam de golpe do bispo. Tinha tudo: provocação, subterfúgio, mobilidade, surpresa. Bom, talvez com algumas modificações, poderia...

Pensou por um instante, então sacudiu a cabeça:

— Não. O tempo dele passou. Se fosse, digamos, 1920, em uma cidade de tamanho médio a grande... Chicago, talvez, ou Nova York, ou Filadélfia. Estamos em um empório de jóias. Um homem vestido como sacerdote... e não qualquer sacerdote, mas um bispo, vestido de roxo... entra e escolhe um colar, um trabalho glorioso e maravilhoso em diamantes e pérolas, e paga com uma dúzia de notas de 100 dólares das mais novinhas que você já viu. Tem uma mancha verde na primeira nota da pilha e o dono da loja, pedindo desculpas mas com firmeza, manda a pilha de notas pró banco da esquina pra ser conferida. Logo, o balconista da loja volta com as notas. O banco diz que nenhuma delas é falsa. O dono pede desculpas mais uma vez e o bispo é muito compreensivo, entende bem o problema. Existem tantos tipos fora-da-lei e maldosos no mundo hoje em dia, tanta imoralidade e grosseria no mundo lá fora... e mulheres sem-vergonha. Agora que o submundo conseguiu sair da sarjeta e veio morar na tela dos palácios das fotos, o que mais era de se esperar? E o colar é colocado em seu estojo, e o dono da loja dá o melhor de si pra não imaginar por que um bispo da Igreja compraria um colar de diamantes de 1.200 dólares, nem por que o estaria pagando em dinheiro vivo. O bispo acena a ele um adeus de coração, sai pra rua e, na mesma hora, uma mão pesada repousa em seu ombro. "Então, Soapy, você continua aplicando seus golpes, é?" e um guarda enorme com um rosto irlandês bem honesto leva o bispo de volta à joalheria. "Com sua licença, será que este homem acabou de comprar alguma coisa daqui?", pergunta o guarda. "Claro que não", diz o bispo. "Diga a ele que não comprei." "De fato, ele comprou", responde o joalheiro. "Comprou um colar de pérolas e diamantes... pagou em dinheiro também." "O senhor teria as notas pra que eu examine, senhor?", pergunta o guarda. O joalheiro então tira as doze notas de cem dólares da caixa registradora e as entrega ao guarda, que as segura contra a luz e sacode a cabeça em desgosto. "Ah, Soapy, Soapy", ele diz, "Essas são as melhores que você já fez! Você é um artesão, é mesmo!" Um sorriso de satisfação pessoal espalha-se pelo rosto do bispo. "Você não pode provar nada", diz o bispo. "E o banco disse que eram verdadeiras. É a coisa verde de verdade." "Tenho certeza de que falaram que são", concorda o guarda na mesma hora, "mas eu duvido que o banco tenha sido avisado sobre o fato de Soapy Sylvester estar na cidade, nem sobre a qualidade das notas de cem dólares que ele tem passado em Denver e em St. Louis". E, dizendo isso, enfia a mão no bolso do bispo e tira o colar. "Mil e duzentos dólares em diamantes e pérolas em troca de papel e tinta no valor de Cinqüenta centavos", diz o policial, que obviamente, no fundo, é um filósofo. "E se passando por um homem da Igreja. Você deveria se envergonhar", diz, ao mesmo tempo cm que fecha as algemas em volta dos pulsos do bispo, que obviamente não é bispo nenhum, e o leva embora, mas não sem antes entregar ao joalheiro um recibo pelo colar e pelos 1.200 dólares falsificados. São provas, apesar de tudo.

— Eram falsificadas de verdade? — perguntou Shadow.

— Claro que não! Notas fresquinhas do banco, só com uma impressão digital e uma mancha de tinta verde em algumas delas para parecerem um pouco mais interessantes.

Shadow deu um gole no café. Era pior do que o café da prisão.

— Então, obviamente, o guarda não era guarda coisa nenhuma. E o colar?

— Prova — disse Wednesday.

Ele desatarraxou a tampa do saleiro, colocou um montinho de sal sobre a mesa.

— Mas o joalheiro fica com um recibo e a garantia de que vai receber o colar de volta assim que Soapy for julgado. Ele recebe cumprimentos por ser um bom cidadão e observa com orgulho, já pensando na história que vai ter que contar no próximo encontro do clube, amanhã à noite, enquanto o policial conduz o homem que se finge de bispo pra fora da loja, com 1.200 dólares em um bolso e um colar de diamantes no valor de 1.200 dólares no outro, s. caminho de uma delegacia de polícia que nunca vai ouvir falar de nenhum deles.

A garçonete havia voltado para limpar a mesa.

— Diga-me, querida... Você é casada? Ela sacudiu a cabeça.

— Ë impressionante que uma jovem com tanta graça ainda não esteja comprometida.

Ele mergulhava a unha no sal derramado, desenhando formas sólidas e quadradas que se pareciam com runas. A garçonete ficou parada passivamente ao lado dele, fazendo Shadow pensar menos em um cervo e mais em um coelhinho pego pelos faróis de um caminhão de dezoito rodas, congelado de medo e de indecisão.

Wednesday abaixou a voz, tanto que Shadow, que estava do outro lado da mesa, mal pôde ouvi-lo.

— A que horas você sai do serviço?

— Às 9h — ela disse, engolindo em seco. — Às 9h30, no máximo.

— E qual é o melhor hotel por aqui?

— Tem o Motel 6 — ela disse. — Não é muito bom.

Wednesday tocou as costas da mão dela, rapidamente, com as pontas dos dedos, deixando grãos de sal sobre sua mão. Ela não fez nenhuma tentativa de limpar a sujeira.

— Pra nós vai ser um palácio de prazer — ele disse, sua voz transformada em um ruído quase inaudível.

À garçonete olhou para ele. Mordeu os lábios finos, hesitou, então assentiu com a cabeça e fugiu para dentro da cozinha.

— Por favor — disse Shadow. — Sair com ela é quase ilegal.

— Eu nunca me preocupei demais com a legalidade. E eu preciso dela, não pró objetivo em si, mas pra me acordar um pouco. Até o rei Davi sabia que só tinha uma receita fácil pra fazer o sangue quente correr através de uma carcaça velha: pegue uma virgem e me acorde de manhã.

Shadow perguntava a si mesmo se a garota da noite no hotel de Eagle Point era virgem.

— Você nunca se preocupa com doenças? E se ela engravidar? E se tiver um irmão mais velho?

— Não... Não me preocupo com doenças. Eu não pego nada. Infelizmente, na maior parte das vezes, gente como eu ejacula em branco, então não tem muito cruzamento de raças. Acontecia no passado. Hoje em dia é possível, mas tão improvável que é quase inimaginável. Então também não me preocupo. Noventa e nove por cento da vezes, eu já saí da cidade.

— Então, vamos passar a noite aqui? Wednesday coçou o queixo.

— Eu devo ficar no Motel 6 — disse.

Então colocou a mão no bolso e tirou uma chave de porta, cor-de-bronze, com uma etiqueta de papel com um endereço datilografado: Rua Nortfindge, 502, apto. 3.

— Você, por outro lado, tem um apartamento em uma cidade bem longe daqui.

Wednesday fechou os olhos cinzentos e brilhantes por um instante. Então os abriu, desconjuntados, por uma fração de segundo e disse:

— O ônibus Greyhound vai passar por aqui em vinte minutos. Pára no posto de gasolina. Aqui está sua passagem.

Ele tirou do bolso uma passagem de ônibus dobrada, passou-a por cima da mesa. Shadow pegou o papel e olhou.

— Quem é Mike Ainsel?

Era o nome impresso na passagem.

— É você. Feliz Natal.

— E onde fica Lakeside?

— Será seu novo lar nos próximos meses. E, agora, porque as coisas boas vem de três cm Ires...

Ele tirou um pacote pequeno do bolso, embrulhado para presente, e o fez deslizar ate o outro lado da mesa. O pacote parou ao lado da garrafa de ketchup com borras pretas do molho na ponta. Shadow não fez nenhum movimento de pegá-lo.

— Então?

Com relutância, Shadow rasgou o papel de embrulho vermelho para descobrir uma carteira bege de couro de cervo, brilhante de tanto uso. Obviamente era a carteira de alguém. Dentro havia uma carta de motorista com a fotografia de Shadow, em nome de Michael Ainsel, com um endereço em Milwaukee, um Mastercard para M. Ainsel e vinte notas novinhas de 50 dólares. Shadow fechou a carteira e guardou em um bolso interno.

— Obrigado.

— Pense nisso como um bônus de Natal. Agora, deixa eu acompanhar você até o Greyhound. Vou acenar pra você quando rumar pró norte no cão cinzento.

Saíram do restaurante. Shadow pensou como havia esfriado nas últimas horas. Agora estava frio demais para nevar. Agressivamente frio. Este era um inverno bem forte.

— Ei. Wednesday. Os dois golpes que você me explicou... o do violino e aquele do bispo e do guarda...

Ele hesitou tentando formatar sua idéia, colocá-la em foco.

— O que é que tem? Então, conseguiu.

— Os dois são golpes pra dois homens. Um cara de cada lado. Você costumava ter um parceiro?

A respiração de Shadow formava nuvens. Ele prometeu a si mesmo que, quando chegasse em Lakeside, gastaria um pouco do bônus de Natal no casaco de inverno mais quente e mais grosso que o dinheiro pudesse comprar.

— Costumava — disse Wednesday. — É. Eu tinha um parceiro. Um parceiro-mirim. Mas, ai de mim, esse tempo já se foi. Aqui está o posto de gasolina, e ali, a não ser que os meus olhos me enganem, está o ônibus.

O veículo já sinalizava que iria virar e entrar no estacionamento.

— Seu endereço está na chave. Se alguém perguntar, eu sou seu tio, e devo me regozijar sob o nome improvável de Emerson Borson. Acomode-se em Lakeside, sobrinho Ainsel. Eu me juntarei a você durante a semana. Vamos viajar juntos pra ver as pessoas que eu preciso visitar. Enquanto isso, ande de cabeça baixa e fique longe de confusão.

— Meu carro...? — disse Shadow.

— Eu cuido bem dele. Divirta-se em Lakeside. Ele esticou a mão, e Shadow a apertou. A mão de Wednesday estava mais fria do q^ue a de um cadáver.

— Jesus. Você está frio.

— Então, quanto mais rápido eu estiver comendo a gostosinha do restaurante em um quartinho do Motel é melhor.

Ele esticou a outra mão e apertou o ombro de Shadow. Shadow experimentou um momento vertiginoso de visão dupla: viu o homem grisalho à sua frente, apertando seu ombro, mas viu algo mais: tantos invernos, centenas e centenas de invernos, e um homem cinzento usando um chapéu de abas largas, andando de povoamento em povoamento, apoiando-se em seu cajado, olhando através de janelas para o fogo na lareira e para uma alegria e uma vida quente que ele nunca seria capaz de tocar, nem mesmo seria capaz de sentir...

— Vai — disse Wednesday, sua voz transformada em um murmúrio tranqüilizador. — Está tudo bem e tudo vai ficar bem.

Shadow mostrou sua passagem para a motorista.

— Que dia maldito pra viajar — ela disse.

E então concluiu, com um certo sorriso de satisfação:

— Feliz Natal.

O ônibus estava quase vazio.

— A que horas chegaremos a Lakeside?

— Em duas horas. Talvez um pouco mais — respondeu a motorista. — Disseram que uma frente fria vem por aí.

Ela apertou um botão e as portas se fecharam com um assobio e uma pancada.

Shadow andou até o meio do ônibus, reclinou o assento da poltrona até onde dava e começou a pensar. O movimento do ônibus, combinado ao calor ali dentro, começaram a embalá-lo e, antes de perceber que estava ficando sonolento, já dormia.

Na terra, e embaixo da terra. As marcas na parede eram vermelhas como barro molhado: marcas de mãos, de dedos e, aqui e ali, representações cruas de animais, de pessoas e de aves.

O fogo ainda queimava e o homem-búfalo ainda estava sentado do outro lado do fogo, olhando para Shadow com olhos enormes, olhos como piscinas de lama escura. Seus lábios, rodeados de pelos castanhos e embaraçados, não se moviam, mas sua voz dizia:

— E então, Shadow? Agora você acredita?

— Não sei.

A boca dele também não tinha se movido. Qualquer palavra que passava entre os dois não era proferida, não da maneira como Shadow entendia o discurso.

— Você é de verdade?

— Acredite — disse o homem-búfalo.

— Você é... — Shadow hesitou, e então perguntou: — Você também é um deus? O homem-búfalo esticou uma das mãos para dentro das chamas do fogo e retirou um ferrete em brasa. Segurou o ferrete pelo meio. Chamas azuis e amarelas lambiam sua mão vermelha, mas ela não se queimava.

— Esta não é uma terra de deuses.

Não era mais o homem-búfalo que estava falando, Shadow sabia, em seu sonho: era o fogo, era o próprio crepitar e queimar da chama que falava com Shadow no lugar escuro embaixo da terra.

— Esta terra foi trazida das profundezas do oceano por um mergulhador. Foi fiada a partir de sua própria substância por uma aranha. Foi cagada por um corvo. É o corpo de um pai caído, cujos ossos são montanhas, cujos olhos são lagos.

— Esta é uma terra de sonhos e de fogo — disse a chama. O homem-búfalo colocou o ferrete de volta no fogo.

— Por que você está me falando essas coisas? — perguntou Shadow. — Eu não sou importante. Não sou nada. Eu era um professor de ginástica, um golpista de ocasião bem ruim e um marido não tão bom quanto eu pensava que fosse...

Sua voz desapareceu.

— O que preciso fazer pra ajudar a Laura? — ele perguntou para o homem-búfalo. — Ela quer viver de novo. Eu disse que iria ajudar. Devo isso a ela.

O homem-búfalo não disse nada. Apontou para o teto da caverna. Os olhos de Shadow seguiram o gesto. Havia uma luz rala de inverno entrando por uma abertura minúscula bem lá no alto.

— Lá em cima? — perguntou Shadow, torcendo para que alguma de suas perguntas tivesse resposta. — Devo subir lã?

O sonho então o levou, a idéia se transformando na própria ação, e Shadow estava esmagado na pedra e na terra. Era como um texugo escalando a terra, como uma marmota tirando a terra do caminho, como um urso, mas a terra era muito densa, muito dura, e ele arfava para respirar. E logo não conseguia mais ir cm frente, não conseguia mais cavar nem escalar, e foi então que soube que iria morrer cm algum canto daquele lugar profundo embaixo do mundo.

Sua própria força não era suficiente. Suas tentativas ficavam cada vez mais fracas. Ele sabia que, apesar de seu corpo estar dentro de um ônibus quente que passava pelo meio de bosques gelados, se ele parasse de respirar ali, embaixo do mundo, pararia de respirar lá também... agora sua respiração era um resfolegar fraco.

Ele lutava e impulsionava o corpo, cada vez mais fracamente, gastando ar precioso cm cada movimento. Estava preso em uma armadilha: não podia ir em frente e não podia voltar pelo caminho que havia percorrido.

— É hora de negociar — disse uma voz em sua mente.

— O que é que eu tenho pra negociar? — Shadow perguntou. — Não tenho nada.

Agora ele sentia o gosto do barro, denso e enlameado em sua boca.

— A não ser eu mesmo. Eu tenho a mim, não lenho? Parecia que tudo segurava a respiração.

— Eu me ofereço — ele disse.

A resposta foi imediata. As pedras e a terra que haviam circundado Shadow começaram a espremê-lo, apertaram tanto que a última grama de ar nos seus pulmões foi espremida para fora. A pressão se transformou em dor, empurrando-o por todos os lados. Ele chegou ao ápice da dor e agüentou firme. Sabia que não conseguiria mais agüentar aquele movimento, e então o espasmo relaxou e ele conseguiu respirar novamente. A luz vinda de cima aumentou.

Ele estava sendo empurrado para a superfície.

Quando o próximo espasmo da terra chegou, Shadow tentou acompanhá-lo. Desta vez sentiu que estava sendo empurrado para cima.

A dor, naquela última contração horrível, era impossível de se acreditar... à medida que era esmagado, espremido e empurrado através de uma falha na pedra que não cedia, seus ossos se esmigalhavam, sua carne se transformava em algo sem forma. Quando sua boca e sua cabeça despedaçada saíram do buraco, ele começou a gritar, de medo e de dor.

Imaginou, enquanto gritava, se lá no mundo real ele também gritava — durante o sono no ônibus escuro.

E, quando o último espasmo terminou, Shadow estava no chão, com os dedos agarrados à terra vermelha.

Ajeitou-se, sentou, tirou a terra do rosto com a mão e olhou para cima, para o céu. Era um crepúsculo duradouro e purpúreo, e as estrelas estavam saindo, uma por uma, tão mais brilhantes e mais vívidas do que qualquer estrela que ele já havia visto ou imaginado.

— Logo — disse a voz crepitante da chama, vinda detrás dele —, eles cairão e o povo das estrelas vai se encontrar com o povo da terra. Haverá heróis entre eles e homens que continuarão sendo monstros e que trarão conhecimento, mas nenhum deles será um deus. Este é um lugar ruim pra deuses.

Uma corrente de ar, chocante por sua frieza, tocou seu rosto. Era como ser mergulhado em água gelada. Ele conseguia ouvir a voz da motorista dizendo que chegaram a Pinewood:

— Se alguém quiser fumar ou esticar as pernas, vamos parar aqui durante dez minutos, daí voltamos pra estrada.

Shadow desceu do ônibus tropeçando. Estavam parados ao lado de outro posto de gasolina rural, idêntico ao que haviam deixado para trás. A motorista ajudava duas adolescentes a subirem no ônibus, guardando suas malas no compartimento de bagagem.

— Ei — a motorista disse quando viu Shadow. — Você vai descer em Lakeside, certo?

Shadow concordou, sonolento, que iria.

— Caramba, aquela é uma cidade bem-boa. De vez em quando penso em largar tudo e me mudar pra lá. É a cidade mais bonita que já vi. Você mora lá faz tempo?

— É a primeira vez que vou pra cidade.

— Come uma empanada na Mabel's por mim, tá? Shadow preferiu não pedir esclarecimentos.

— Me conta uma coisa... Eu falei enquanto dormia?

— Se falou, eu não ouvi. Ela olhou para o relógio:

— De volta pro ônibus. Eu acordo você quando a gente chegar. As duas meninas que tinham subido em Pinewood — ele duvidava de que alguma delas tivesse mais do que 14 anos — estavam acomodadas no assento à sua frente. Bisbilhotando sua conversa sem querer, Shadow descobriu que eram amigas, não irmãs. Uma delas não sabia quase nada sobre sexo, mas sabia várias coisas sobre animais, tinha trabalhado ou passado um tempo em algum tipo de abrigo de animais, enquanto a outra não estava interessada em animais, mas armada de uma centena de fofocas colhidas na Internet e em programas de TV diurnos, e pensava que sabia muito a respeito da sexualidade humana. Shadow escutava, com fascinação horrorizada e surpresa, àquela que se achava sabida sobre o funcionamento do mundo, detalhando a mecânica precisa de como usar pastilhas de antiácido para realçar o sexo oral.

Shadow começou a sair da sintonia delas, não ouvia mais nada além do barulho da estrada, e agora apenas fragmentos de conversa chegavam a seus ouvidos de vez em quando.

O Goldie é, tipo, um cachorro tão legal, e ele é um labrador de sangue puro, se o meu pai dissesse que tudo bem, ele balança o rabo toda vez que me vê...

É Natal, ele tem que me deixar usar o snowmobile.

Você pode escrever seu nome com a língua na lateral da coisa dele.

Eu sinto saudade do Sandy.

Só, eu também sinto saudade do Sandy.

Falaram que hoje à noite nevou quinze centímetros, mas eles inventam tudo, inventam a previsão do tempo e ninguém reclama...

E então os freios do ônibus chiaram e a motorista gritou:

— Lakeside!

As portas se abriram com um estampido. Shadow seguiu as meninas até o estacionamento bem iluminado de uma locadora de fitas de vídeo e de um salão de bronzeamento artificial que funcionavam, imaginou, na estação da Greyhound, em Lakeside. O ar estava terrivelmente frio, mas era um frio fresco. Fez com que ele acordasse. Olhou para as luzes da cidade a sul e a oeste e para a pálida extensão de um lago congelado a leste.

As meninas estavam paradas, batendo os pés no chão e respirando dentro das mãos em forma de concha com dramaticidade. Uma delas, a mais nova, roubou uma olhadela de Shadow e sorriu desajeitadamente quando percebeu que ele a havia visto.

— Feliz Natal — disse Shadow.

— Só — respondeu a outra, talvez um ano ou quase mais velha do que a primeira. — Feliz Natal pra você também.

Ela tinha cabelos vermelho-cenoura e um nariz de batatinha coberto com mil sardinhas.

— Esta cidade é bem legal — comentou Shadow.

— A gente gosta — concordou a mais nova.

Ela era a que gostava de animais. Deu um sorriso tímido, revelando um aparelho fixo de elásticos azuis esticando-se de uma ponta à outra em seus dentes da frente.

— Você se parece com alguém — ela disse com ar sério. — Você é irmão de alguém ou filho de alguém ou qualquer coisa assim?

— Você é tão boba, Alison — disse a amiga. — Todo mundo é irmão de alguém ou filho de alguém ou qualquer coisa assim.

.Faróis as emolduraram completamente por um instante brilhante e branco. Atrás dos faróis vinha uma perua com uma mãe dentro que, em instantes, recolheu as meninas e suas bagagens, deixando Shadow sozinho no estacionamento.

— Moço? Posso ajudar?

O velho trancava a porta da locadora e colocou as chaves no bolso.

— A loja não abre no Natal, mas eu sempre venho até aqui pra ver o ônibus chegar e conferir se está tudo certo. Não iria conseguir me perdoar se algum pobre coitado ficasse abandonado no dia de hoje.

Ele estava perto o bastante para Shadow enxergar seu rosto: velho porém forte, o rosto de um homem que experimentou o vinagre da vida e achou o gosto parecido com o de uísque, e de uísque bom.

— Bom, você podia me dar o telefone da empresa de táxi local — disse Shadow.

— Eu poderia, mas o Tom deve estar na cama a essa hora da noite e, mesmo que você conseguisse acordar ele, não ia ser bom... Eu o vi no Buck Stops Here no começo da noite e estava muito alegrinho. Muito alegrinho mesmo. Pra onde você está indo?

Shadow mostrou a etiqueta com o endereço na chave da porta.

— Bom, isso aí fica a dez, talvez vinte minutos a pé, atravessando a ponte e dando a volta. Mas não é legal quando está frio assim, e quando você não sabe aonde está indo sempre parece mais longe... você já percebeu? Da primeira vez demora um tempão, depois passa em um segundo.

— É verdade. Nunca pensei nisso antes.

O velho assentiu com a cabeça. Seu rosto se abriu em um sorriso.

— Caramba, é Natal. Eu levo você na Tessie.

Shadow seguiu o velho até a rua, onde um conversível enorme e antigo estava estacionado. Parecia-se com algo que gângsteres poderiam ter se orgulhado de dirigir nos Vibrantes Anos Vinte, com frisos e tudo. Era de uma cor profunda e escura, que sob a iluminação de sódio poderia ser vermelha ou verde.

— Esta é a Tessie — o velho disse. — Não é linda? Ele deu tapinhas carinhosos no carro com orgulho de proprietário, no lugar em que o capo fazia uma curva e se arqueava sobre uma das rodas da frente.

— Que tipo de carro é esse?

— É um Wendt Phoenix. A fábrica faliu em 1931 e o nome foi comprado pela Chrysler, mas eles não fazem mais nenhum Wendt. Harvey Wendt, que fundou a empresa, era um rapaz daqui. Foi pra Califórnia e se matou em... hum... 1941, 1942. Uma tragédia enorme.

O carro tinha cheiro de couro e fumaça velha de cigarro — não era um cheiro recente, mas era como se bastante gente tivesse fumado tantos cigarros e charutos com o passar dos anos— a ponto de o cheiro de tabaco queimado ter se tornado parte integrante da estrutura do carro. O velho virou a chave na ignição e Tessie pegou na primeira tentativa.

— Amanhã ela vai pra garagem. Vou cobrir com uma capa antipoeira, e é onde vai ficar até a primavera. Pra dizer a verdade, eu não devia estar andando com ela agora, com essa neve toda.

— Ela não anda bem na neve?

— Vai bem. É o sal que colocam na rua. Faz essas belezuras antigas enferrujarem mais rápido do que dá pra acreditar. Você quer ir direto pra casa ou gostaria de dar uma volta ao luar pela cidade?

— Eu não quero incomodar...

— Não incomoda. Quando você chegar à minha idade, vai ver que só precisa dormir uma piscadela. Me sinto sortudo quando consigo dormir cinco horas hoje em dia... Acordo e a minha cabeça fica dando voltas. Onde está a minha educação? Meu nome é Hinzelmann. Eu diria pra você me chamar de Richie, mas por aqui o pessoal só me chama de Hinzelmann. Não vou apertar a sua mão porque preciso das duas pra dirigir. A Tessie sabe quando eu não estou prestando atenção.

— Mike Ainsel — disse Shadow. — Prazer em conhecê-lo, Hinzelmann.

— Então vamos dar uma volta no lago.

A rua principal, onde eles estavam, era uma rua simpática, mesmo à noite, e parecia antiga no melhor sentido da palavra — como se, nos últimos cem anos, as pessoas tivessem cuidado daquela rua sem pressa de perder qualquer coisa de que gostavam.

Hinzelmann mostrou os dois restaurantes da cidade quando passaram por eles (um restaurante alemão e o que ele descreveu como "parte grego, parte norueguês, e que oferece um bolinho em todos os pratos"), mostrou a padaria e a livraria ("Eu digo, o que é uma cidade sem uma livraria? Pode até se chamar de cidade mas, se não tiver uma livraria, sabe que não engana nenhuma alma"). Ele diminuiu a marcha de Tessie quando passaram em frente à biblioteca para que Shadow pudesse olhar com atenção. Luminárias antigas a gás tremeluziam cm cima da entrada — Hinzelmann orgulhosamente chamou a atenção de Shadow para elas.

— Foi construída na década de 1870 por John Henning, um barão da madeira local. Ele queria que se chamasse Biblioteca Memorial Henning mas, depois que morreu, começaram a chamar de Biblioteca de Lakeside, e acho que vai ser assim até o fim dos tempos. Não é um sonho?

Ele não poderia se orgulhar mais do prédio se o tivesse construído pessoalmente. A construção fazia Shadow pensar em um castelo, e disse isso a Hinzelmann.

— É isso mesmo. Com torres e tudo. Henning queria que fosse assim por fora. Dentro, ainda estão todas as prateleiras de pinho originais. Míriam Shultz quer destruir o interior e modernizar, mas está tombado pelo patrimônio histórico, e ela não pode fazer nada.

Eles se dirigiram para o lado sul do lago. A cidade circundava o lago, que ficava 10 metros abaixo do nível da rua. Shadow conseguia ver os pedaços de gelo branco que embaçavam a superfície do lago e, aqui e ali, um pouco de água brilhante refletindo as luzes da cidade.

— Parece que está congelando.

— Está congelado há mais de um mês. As manchas opacas são de neve, e as brilhantes, de gelo. Congelou logo depois do Dia de Ação de Graças em uma noite fria... congelou igual a vidro. Você pratica pesca no gelo, senhor Ainsel?

— Nunca pratiquei.

— É a melhor coisa que se pode fazer. Não pelos peixes, mas pela a paz de espírito que você leva pra casa no fim do dia.

— Vou me lembrar disso. Shadow olhou para o lago através da janela do carro.

— Dá pra andar em cima do lago?

— Dá. Também dá pra ir de carro, mas eu ainda não arriscaria. Está frio faz seis semanas. Mas você também tem que considerar que as coisas aqui no norte do Wisconsin congelam mais rápido e melhor do que em qualquer outro lugar. Uma vez eu saí pra caçar veado, isso foi, humm, quarenta anos atrás, e atirei em um gamo, errei e fiz ele correr pela floresta... Foi lá na margem norte do lago, perto de onde você vai morar, Mike. Era o melhor gamo que eu já vi, do tamanho de um cavalo pequeno, sério. Eu era mais moço e mais animado naquele tempo e, apesar de ter começado a nevar antes do Dia das Bruxas naquele ano, era o Dia de Ação de Graças e tinha neve limpa no chão, fresquinha, consegui ver as pegadas do cervo. Parecia que o bicho estava se dirigindo pro lago em pânico. Bom, só um tremendo imbecil tenta perseguir um gamo, mas lá estava eu, um tremendo idiota, correndo atrás dele. E lá estava ele, parado em cima do lago com as patas em, humm, 20, 25 centímetros de água, só olhando pra mim. Naquele mesmo instante, o sol se escondeu atrás de uma nuvem e a água congelou — a temperatura deve ter caído uns quinze graus em dez minutos, não estou mentindo. E aquele veado velho se apronta pra correr, mas não consegue se mexer. Ele ficou congelado no meio do gelo. Eu fui andando devagar até lá... dava pra ver que ele queria correr, mas estava preso no gelo e não ia dar mesmo. E eu não tive coragem de atirar em um veado indefeso que não tinha como fugir... Que tipo de homem eu seria se fizesse aquilo, hein? Então peguei minha espingarda e dei um tiro pró alto. Bom, o barulho e o choque foram suficientes pra fazer aquele gamo quase pular pra fora da pele. E tendo em vista que as suas patas estavam presas no gelo, é exatamente o que o bicho faz. Ele deixa a pele e os chifres presos no gelo enquanto volta correndo pra floresta, rosado que nem um rato recém-nascido e tremendo como se fosse explodir. Eu fiquei tão mal por causa daquele gamo que convenci as senhoras do Clube de Tricô de Lakeside a fazerem uma roupa quentinha pra ele vestir durante o inverno, e elas tricotaram um macacão pró coitado não morrer de frio. Claro que a gozação veio pra cima de nós, porque o macacão era de lã cor-de-laranja bem forte, e por isso nenhum caçador atirava nele. Por aqui, os caçadores usavam roupas cor de laranja na estação de caça — completou, solícito. — E se você acha que tem uma só mentira nesta história, eu posso provar. Tenho os chifres dele pendurados no meu escritório em casa até hoje.

Shadow riu, e o velho 'deu um sorriso de satisfação de um especialista. Estacionaram ao lado de um prédio de tijolos com uma grande varanda de madeira, da qual luzes de Natal douradas pendiam e piscavam convidativamente.

— Este é o número cinco-zero-dois — disse Hinzelmann. — O apartamento três deve ser no último andar, do outro lado, com vista pro lago. Aqui está, Mike.

— Obrigada, senhor Hinzelmann. Posso pagar a gasolina?

— Só Hinzelmann. E você não me deve nenhum centavo. Feliz Natal, meu e da Tessie.

— Você tem certeza de que eu não posso ajudar? O velho coçou o queixo.

— Sabe o quê? Alguma hora na semana que vem eu venho aqui vender um bilhete pra você. Pra nossa rifa. Caridade. Por enquanto, moço, você pode ir p rã cama.

Shadow sorriu.

— Feliz Natal, Hinzelmann.

O velho apertou a mão de Shadow com suas mãos nodosas e avermelhadas. Pareciam tão duras e calejadas quanto um galho de carvalho.

— Agora, preste atenção no piso quando você subir. Vai estar escorregadio. Eu consigo ver a sua porta daqui, ali do lado, está vendo? Vou esperar aqui no carro ate que entre a salvo. Me faz um sinal quando estiver instalado e eu vou embora.

Ele ficou com o Wendt ligado e parado até Shadow estar a salvo dentro de casa, depois de subir os degraus de madeira ao lado do prédio e abrir a porta do apartamento com a chave. A porta se escancarou. Shadow fez um sinal e o velho no Wendt — Tessie, pensou Shadow, e a idéia de um carro com nome fez com que sorrisse mais uma vez — fez a volta e pegou seu caminho atravessando a ponte.

Shadow fechou a porta da frente. A sala estava gelada. Cheirava a pessoas que tinham ido embora há muito tempo para viver outras vidas, e a tudo que tinham comido e sonhado. Ele achou o termostato e regulou para 21 graus. Entrou na cozinha minúscula, conferiu as gavetas, abriu a geladeira cor de abacate, mas estava vazia. Nenhuma surpresa. Pelo menos a geladeira tinha cheiro de limpa por dentro, não mofada.

Havia um pequeno quarto com um colchão descoberto ao lado da cozinha, perto de um banheiro ainda mais minúsculo que era quase só o box do chuveiro. Uma bituca de cigarro antiga repousava na privada, manchando a água de marrom. Shadow deu a descarga.

Encontrou lençóis e cobertores em um armário e fez a cama. Então tirou os sapatos, o casaco, o relógio e se deitou na cama vestido, pensando em quanto tempo demoraria para se aquecer.

As luzes estavam apagadas e o silêncio era quase total, a não ser pelo zumbido da geladeira e, em algum lugar do prédio, um rádio tocando. Shadow ficou ali deitado, na escuridão, perguntando a si mesmo se havia dormido tudo o que precisava no ônibus, se a fome e o frio, a cama desconhecida e as loucuras das últimas semanas se combinavam para mantê-lo acordado naquela noite.

No meio do silêncio, ouviu um estalo parecido com um tiro. Um galho, ele pensou, ou o gelo. Tudo estava congelado lá fora.

Ficou imaginando quanto tempo teria que esperar até a chegada de Wednesday. Um dia? Uma semana? Não importa... ele sabia que precisava se concentrar em alguma coisa enquanto isso. Resolveu que começaria a fazer exercícios novamente e que treinaria seus truques com moedas até ficar melhor do que qualquer mágico (treine todos os seus truques, alguém sussurrou dentro da cabeça dele, em uma voz que não era sua, todos menos um, não o truque que o pobre Mad Sweeney ensinou depois de morto, morto por não ter um teto, por causa do frio, porque foi esquecido e porque ninguém mais chamava por ele. Não aquele truque. Ah, não aquele lá).

Mas aquela era uma cidade legal. Ele podia sentir que era.

Pensou no sonho, se é que foi um sonho, que teve na primeira noite em Cairo. Pensou em Zorya... que diabos era mesmo o nome dela? A irmã da meia-noite.

E então pensou em Laura...

Foi o pensar em sua mulher que fez abrir uma janela em sua mente. Ele conseguia vê-la. De alguma maneira, ele conseguia.

Ela estava em Eagle Point, no pátio traseiro da casa grande da mãe.

Parada no frio, que ela não sentia mais ou que sentia o tempo todo, estava do lado de fora da casa que sua mãe havia comprado em 1989, com o dinheiro do seguro depois que o pai de Laura, Harvey McCabe, faleceu de um ataque do coração enquanto se matava de trabalhar. Ela olhava para dentro, com as mãos frias pressionadas contra o vidro, sem que sua respiração o embaçasse, nem um pouquinho, observando a mãe, a irmã, os sobrinhos e o cunhado do Texas, em casa para o Natal. Ali estava Laura, na escuridão, incapaz de não olhar.

Lágrimas encheram os olhos de Shadow, e ele se virou para o outro lado na cama.

Sentindo-se como um bisbilhoteiro, desviou o pensamento. Via o lago se estendendo abaixo dele enquanto o vento que vinha do Ártico soprava, tornando o ar mais frio do que qualquer cadáver.

A respiração de Shadow ficou superficial. Ele ouvia um vento soprar, uma gritaria triste em volta do prédio e, por um instante, pensou ouvir palavras no vento.

Se precisava estar em algum lugar, melhor que fosse ali, pensou. E caiu no sono.

 

ENQUANTO ISSO, UMA CONVERSA

Ding-dong.

— Senhorita Crow?

— Pois não.

— Senhorita Samantha Black Crow?

— Pois não.

— A senhorita se importaria se fizéssemos algumas perguntas?

— Vocês são tiras? O que vocês são?

— Meu nome é Town. Meu colega aqui é o senhor Road. Estamos investigando o desaparecimento de dois de nossos associados.

— Qual era o nome deles?

— Perdão?

— Me diz o nome deles. Eu quero saber como eles se chamavam. Seus associados. Diz o nome deles e talvez eu ajude.

— Tudo bem. Senhor Stone e senhor Wood. Agora, será que podemos fazer algumas perguntas?

— Vocês olham pras coisas e escolhem nomes? "Ah, você vai ser o senhor Sidewalk, ele e o senhor Carpet, fala oi pró senhor Airplane."

— Muito engraçado, mocinha. Primeira pergunta: precisamos saber se a senhorita conhece este homem. Aqui está. Poder pegar a foto.

— Uau. De frente e de perfil, com esses números embaixo... E grande. Ele é fofo, apesar de tudo. O que ele fez?

— Se envolveu em um assalto a banco numa cidadezinha há alguns anos. Os dois colegas resolveram ficar com o saque e o largaram na mão. Ele ficou bravo. Adiou os caras. Quase matou os dois com as próprias mãos. O Estado fez um acordo com os homens que ele feriu: testemunharam contra ele. Shadow aqui pegou seis anos. Cumpriu três. Se a senhorita quiser saber a minha opinião, deviam pegar esses caras, prender, trancar e jogar a chave fora.

— Nunca ouvi ninguém falar isso na vida real, sabia? Não alto, pelo menos.

— Falar o quê, senhorita Crow?

— "Saque". Não e uma palavra que as pessoas falam. Talvez nos filmes alguém fale isso. Mas não de verdade.

— Isto não e um filme, senhorita Crow.

— Black Crow. É senhorita Black Crow. Meus amigos me chamam de Sam.

— Saquei, Sam. Agora, falando desse homem...

— Mas vocês não são meus amigos. Têm que me chamar de senhorita Black Crow.

— Ouça aqui, sua abelhuda porcaria...

— Tudo bem, senhor Road. A Sam aqui... perdão, madame... quero dizer, a senhorita Black Crow aqui quer nos ajudar. Ela é uma cidadã que respeita a lei.

— Senhorita, sabemos que você ajudou esse homem. A senhorita foi vista com Shadow, em uma Chevy nova, branca. Ele lhe deu uma carona e pagou o seu jantar. Será que ele disse algo que pudesse nos ajudar em nossa investigação? Dois dos nossos melhores homens desapareceram.

— Eu nunca vi esse cara.

— A senhorita o conhece. Por favor, não cometa o erro de pensar que somos estúpidos. Nós não somos estúpidos.

— Humm. Eu conheço muita gente. Talvez eu tenha falado com ele e já tenha me esquecido.

— Senhorita, seria realmente bom que cooperasse conosco.

— Ou então vocês vão me apresentar prós seus amigos, senhor Thumbscrews e senhor Pentothal?

— Senhorita, você não está facilitando as coisas pra si mesma.

— Puxa. Desculpa. Tem mais alguma coisa que vocês querem? 'Porque eu vou dar tchauzinho agora e fechar a porta e deduzir que vocês vão pegar o senhor Car e sair fora.

— Sua falta de cooperação foi anotada, senhorita.

— Tchauzinho, então.

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                                           CAPITULO DEZ

I'll tell you ali my secrets But l lie about my past Só send me

off to bed forevermore [10]

Tom Waifs, "Tango Till They're Sore"

Uma vida inteira na escuridão, rodeada de imundice... foi com isso que Shadow sonhou, em sua primeira noite em Lakeside. A vida de uma criança, há muito tempo e bem longe dali, em uma terra do outro lado do oceano, nas terras onde o sol se levantava. Mas essa vida não continha nasceres do sol, só ofuscamento durante o dia e cegueira durante a noite.

Ninguém falava com ele. Ouvia vozes humanas, do lado de fora, mas ele não entendia o discurso humano, assim como também não entendia o uivo das corujas nem o latido dos cães.

Ele se lembrava, ou achava que se lembrava, de uma noite, muito tempo antes, quando uma das pessoas grandes entrou, silenciosamente, e não o esmurrou nem alimentou, mas o levou ao peito e o abraçou. Ela cheirava bem. Gotas de água quente caíram do rosto dela sobre o dele. Ficou com medo e chorou alto em seu temor Ela o colocou de volta sobre a palha, apressadamente, e deixou a cabana, travando a porta atrás dela.

Ele se lembrava daquele momento, e o estimava, assim como se lembrava da doçura do miolo de repolho, do sabor acido das ameixas, do barulho crocante das maças, da delícia de um oleoso peixe assado.

E agora ele enxergava os rostos â luz das chamas, todos olhando para ele, enquanto era conduzido para fora da cabana pela primeira vez, a única vez. Então era essa a aparência das pessoas. Criado na escuridão, ele nunca havia visto rostos. Tudo era tão novo. Tão estranho. A luz da fogueira feria seus olhos. Puxaram-no pela corda ao redor do pescoço, para levá-lo ao lugar onde o homem o esperava.

E quando a primeira lâmina se levantou à luz do fogo, quanta comemoração veio do povo. A criança da escuridão começou a rir com eles, em deleite e liberdade.

E foi então que a lâmina caiu.

Shadow abriu os olhos e percebeu que estava com frio e fome, em um apartamento com uma camada de gelo que embaçava o lado de dentro do vidro da janela. Era sua respiração congelada, pensou. Saiu da cama, feliz de não precisar se vestir. Arranhou uma janela quando passou por ela, sentiu o gelo se amontoar sob a unha e depois se transformar em água.

Tentou lembrar-se do sonho, mas nada conseguiu além de mistério e escuridão.

Calçou os sapatos. Calculou que iria até o centro da cidade, caminhando pela ponte que passava sobre a ponta norte do lago, se é que ele compreendeu bem a geografia da cidade. Vestiu sua jaqueta fina, lembrando-se da promessa que fez de que compraria um casaco de inverno bem quente. Abriu a porta do apartamento e saiu para a varanda de madeira. O frio tirou-lhe o fôlego: inspirou e sentiu todos os pelos da narina se congelarem e ficarem rígidos. A varanda proporcionava uma ótima visão do lago, remendos irregulares de cor cinzenta rodeados por uma expansão de branco.

A frente fria chegou, era certeza. A temperatura devia estar em torno dos quinze graus negativos, e a caminhada não seria agradável, mas ele tinha certeza de que conseguiria chegar à cidade sem maiores problemas. O que é mesmo que Hinzelmann tinha dito na noite anterior... uma caminhada de dez minutos? E Shadow era um homem grande. Ele andaria ligeiro e ficaria aquecido.

Saiu no sentido sul, na direção da ponte.

Logo que o ar tocou seus pulmões começou a tossir, uma tosse seca e rala. Logo suas orelhas, seu rosto e seus lábios começaram a doer, e seus pés também. Ele enfiou as mãos sem luvas bem no fundo do bolso do casaco e apertou os dedos em busca de algum calor. Lembrou-se das histórias exageradas de Low Key Lyesmith sobre os invernos de Minnesota — uma em particular, de um caçador encurralado em uma árvore por um urso durante uma geada pesada, que tirou o pau para fora e mijou um jato de urina fumegante e amarelada em forma de arco, que congelou antes de chegar ao chão. Então ele escorregou pelo poste de mijo duro como pedra para a liberdade. Esboçou um sorriso destorcido à memória e deu mais uma tossida seca e dolorida.

Passo, após passo, após passo. Shadow olhou para trás. O prédio de apartamentos não estava tão distante quanto esperava.

Ele viu que aquela caminhada tinha sido um erro. Mas já estava a três ou quatro minutos do apartamento, e a ponte sobre o lago estava à vista. Fazia tanto sentido continuar em frente quanto voltar para casa (e daí, o quê? Chamar um táxi pelo telefone sem linha? Esperar a primavera? Não tinha comida no apartamento).

Continuou a caminhar, reexaminando sua estimativa de temperatura. Dez negativos? Vinte negativos? Quarenta negativos talvez, aquele estranho ponto no termômetro em que Celsius e Fahrenheit dizem a mesma coisa. Provavelmente não estava tão frio assim. Mas havia o vento gelado que agora era duro, fiel e contínuo, soprando sobre o lago, vindo do Ártico e atravessando o Canadá.

Shadow se lembrou, com raiva, dos esquentadores químicos de mãos e de pés. Ele bem que queria ter um daqueles agora.

Mais dez minutos de caminhada, imaginou, e a ponte não parecia mais próxima. Estava com frio demais para tremer. Seus olhos doíam. Não estava simplesmente frio: aquilo era ficção científica. Era uma história que se passava no lado escuro de Mercúrio, no tempo em que ele achava que o planeta tinha um lado escuro. Isso era algo que acontecia no rochoso Plutão, onde o sol é apenas mais uma estrela que brilha só um pouco mais forte na escuridão. Isso, pensou Shadow, está só um tiquinho afastado dos lugares em que o ar vem em baldes e é servido como cerveja.

Os carros que passavam ocasionalmente por ele pareciam irreais: naves espaciais, pacotinhos congelados de metal e vidro, ocupados por pessoas vestidas com roupas mais quentes do que as dele. Uma antiga canção que a mãe dele adorava, "Walking in a Winter Wonderland", começou a passar por sua cabeça, e ele a cantarolou por entre os lábios fechados, seguindo o ritmo enquanto caminhava.

Shadow perdeu toda a sensibilidade dos pés. Olhou para seus sapatos de couro preto, para as meias finas de algodão, e começou a preocupar-se, seriamente, com o enregelamento.

Isso ia além de uma piada. Já tinha ido além da tolice, invadido a fronteira do precioso território de ai — meu-Deus-dessa-vez-eu-pisei-feio-na-bola. Suas roupas pareciam ser de tela ou de renda: o vento soprava através dele, congelando os ossos e o tutano dos ossos, os cílios dos olhos e o lugar quente debaixo do saco, que se encolhia para dentro da cavidade pélvica.

Continue caminhando, disse a si mesmo. Continue caminhando. Posso parar e beber um balde de gelo quando chegar em casa. Uma música dos Beatles surgiu em sua cabeça, e ele ajustou a velocidade para combinar com a melodia. Só quando chegou ao refrão percebeu que cantarolava "Help".

Estava quase na ponte agora. Depois, precisava atravessá-la e andar mais dez minutos até as lojas do lado oeste do lago — talvez um pouquinho mais...

Um carro escuro passou por ele, parou, então deu ré em uma nuvem espessa de fumaça do escapamento e parou ao seu lado. Uma janela se abriu, e a névoa e o vapor da janela se misturaram com a fumaça do escapamento em forma de dragão que circundava o carro.

— Tudo bem aí? — disse um guarda lá de dentro.

O instinto automático da mão de Shadow era colocar o polegar para cima e dizer Sim, tudo está átimo por aqui, obrigado, policial. Mas já era tarde demais para tanto, e ele começara a dizer "acho que estou congelando. Estava caminhando até Lakeside para comprar comida e roupa, mas calculei mal a extensão da caminhada"... Eleja havia dito todas aquelas frases na cabeça quando percebeu que tudo que falou era "c-c-congelando" e um barulho de dentes batendo...

— Mil d-desculpas. Frio. Desculpa.

O guarda abriu a porta de trás da viatura e disse:

— Entre já aí e se esquente, certo?

Shadow entrou agradecido, sentou-se no banco detrás e esfregou as mãos, tentando não se preocupar com os dedos dos pés congelados. O guarda voltou para o assento do motorista. Shadow olhou para ele através da tela de metal e tentou não pensar na última vez que esteve no banco detrás de uma viatura, ou não reparar que não tinha maçanetas nas portas traseiras e, ao contrário, concentrar-se em fazer a vida voltar às suas mãos. Seu rosto doía e seus dedos avermelhados também, e agora, no calor, seus dedos dos pés começavam a doer novamente. Aquilo era, concluiu, um bom sinal.

O guarda engatou a marcha e saiu com o carro.

— Sabe que isso foi, se você me perdoa dizer, uma idéia bem estúpida — disse o guarda sem se virar para Shadow, apenas falando mais alto. — Você não ouviu nenhum dos avisos sobre o tempo? Está fazendo menos de vinte graus negativos lá fora. Só Deus sabe quanto a temperatura cai com o vento... 50, 55 graus negativos, apesar de eu imaginar que o vento deva ser a menor das suas preocupações.

— Obrigado — disse Shadow. — Obrigado por parar. Estou muito, muito agradecido.

— Uma mulher em Rhinelander saiu hoje de manhã pra encher o comedouro dos pássaros, de penhoar e chinelo, e congelou, congelou literalmente, na calçada. Ela está na UT1 agora. Passou na TV de manhã. Você é novo por aqui.

Era quase uma pergunta, mas o homem já sabia a resposta.

— Eu cheguei de ônibus ontem à noite. Resolvi que hoje iria comprar umas roupas quentes, comida e um carro. Não esperava que estivesse tão frio.

— É — disse o guarda. — Eu também fiquei surpreso. Estava ocupado demais pensando no efeito-estufa. Eu sou Chad Mulligan . Sou o delegado aqui em Lakcside.

— Mike Ainsel.

— Oi, Mike. Está se sentindo melhor?

— Um pouco, sim.

— Então, onde você quer ir primeiro?

Shadow colocou os dedos na frente da saída de ar quente, mas sentiu dor, e então os tirou dali. Deixe que as coisas aconteçam em seu próprio ritmo.

— Será que você podia me deixar no centro?

— Contanto que você não me peça pra dirigir um carro de fuga do seu assalto a banco, eu levo você aonde precisar ir, com prazer. Pense nesta viatura como seu trenzinho de boas-vindas à cidade.

— Por onde você sugere que eu comece?

— Você acabou de se mudar na noite passada.

— É isso mesmo.

— Já tomou café da manhã?

— Ainda não.

— Bom, esse me parece um ponto de partida bem-bom — disse Mulligan.

Agora eles estavam do outro lado da ponte, entrando na parte noroeste da cidade.

— Esta é a rua principal — disse Mulligan . — E aqui, cruzando a rua principal e virando à direita, está a praça central.

Mesmo no inverno, a praça central era impressionante, mas Shadow sabia que o lugar tinha sido feito para ser visto no verão: devia ter uma profusão de cores, com papoulas, íris e flores de todos os tipos, e as moitas de bétulas em um canto se transformariam em uma cobertura verde e prateada. Agora estava sem cor, bonita de uma maneira esquelética, o coreto vazio, a fonte desligada durante o inverno e o prédio antigo da prefeitura coberto de neve branca.

— E isso aqui — concluiu o policial, estacionando a viatura em frente a um prédio com janelas altas de vidro na frente, do lado oeste da praça — é a Mabels.

Ele desceu do carro e abriu a porta do passageiro para Shadow. Os dois homens abaixaram a cabeça contra o frio e o vento, e correram pela calçada para entrar em um salão aquecido, que cheirava a pão recém-assado, massa de torta, sopa e bacon.

O lugar estava quase vazio. Mulligan sentou-se em uma mesa. Shadow, sentado à sua frente, desconfiou que Mulligan estivesse fazendo aquilo para sentir qual era a do estranho na cidade. Mas, e daí, talvez o delegado só fosse o que aparentava ser: amistoso, solícito, bom, Uma mulher foi até a mesa, não era gorda, mas grande, uma mulher grande na casa dos sessenta, com cabelos em um tom de bronze, parecido com aquele de garrafas de cerveja.

— Oi, Chad — disse. — Vocês vão querer um chocolate quente enquanto pensam?

Ela entregou a eles dois cardápios laminados.

— Sem chantilly — ele concordou.

— A Mabel me conhece bem demais — disse a Shadow — O que você quer, amigo?

— Chocolate quente me parece maravilhoso — concordou Shadow. — E eu gostaria com chantilly.

— Ótimo — disse Mabel. — Viva perigosamente, querido. Você não vai me apresentar, Chad? Este rapaz é um novo policial?

— Ainda não — respondeu Chad Mulligan , mostrando seus dentes brancos. — Esse aqui é Mike Ainsel. Ele se mudou pra cá ontem à noite. Agora, se você puder me dar licença...

Ele se levantou, andou até o fundo do salão e atravessou a porta assinalada com CAVALHEIRO. Ficava ao lado de uma porta assinalada com DAMA.

— Você é o novo habitante do apartamento da rua Northridge. O antigo prédio Pilsen. Ah, sei — ela disse, alegremente. — Eu sei bem quem você é. Hinzelmann passou aqui hoje de manhã pra comer a empanada da manhã e me contou tudo sobre você. Vocês, rapazes, só vão tomar chocolate quente ou querem dar uma olhada no cardápio de café da manhã?

— Eu vou tomar café — disse Shadow. — O que você recomenda?

— Tudo aqui é bom. Eu que faço. Este é o lugar mais distante a sudoeste da Península Superior em que você pode comer uma empanada, e elas são particularmente gostosas. Têm bastante recheio e vêm quentinhas também. São minha especialidade.

Shadow não fazia a mínima idéia do que seria uma empanada, mas disse que estava bom, e em poucos instantes Mabel voltou carregando um prato com o que parecia ser uma torta dobrada. A metade de baixo estava enrolada em um guardanapo de papel. Shadow pegou o salgado pelo guardanapo e deu uma mordida: era quente e recheado de carne, batata, cenoura e cebola.

— É a primeira empanada que eu como na vida — disse. — É boa mesmo.

— São uma especialidade da Península Superior. Você precisa estar pelo menos em Ironwood pra conseguir uma. O povo que veio da Cornualha trabalhar nas minas de ferro que trouxe a receita.

— Península Superior?

— É o pedacinho de terra que fica no nordeste de Michigan. O delegado voltou. Pegou o chocolate quente e tomou.

— Mabel, você está forçando esse rapaz simpático a comer uma das suas empanadas?

— Está boa — disse Shadow.

E estava mesmo, uma delícia saborosa enrolada em massa quente.

— Vão direto pra barriga — disse Chad, batendo em seu próprio estômago. — Eu avisei. Tudo bem. Então, você precisa de um carro?

Sem a capa, ele se revelou um homem magro com uma barriga protuberante em forma de maçã. Parecia perturbado e competente, tinha jeito mais de engenheiro que de guarda.

Shadow assentiu com a cabeça e a boca cheia.

— Certo. Eu dei uns telefonemas. O Justin Liebowitz está vendendo seu jipe, quer 4 mil dólares mas aceita três. Os Gunther estão tentando vender um Toyota 4-Runner há oito meses, é uma porcaria bem feia, mas a essa altura provavelmente vão pagar pra você tirar a lata velha da garagem. Se você não se importar com a beleza do carro, deve ser um bom negócio. Eu usei o telefone do banheiro e deixei um recado pra Missy Gunther lá na imobiliária Lakeside. Ela ainda não tinha chegado, deve estar arrumando o cabelo no salão da Sheila.

A empanada continuava boa à medida que Shadow a engolia. Saciava de forma surpreendente. "Comida que vai direto prós quadris", diria a mãe dele. "Fica armazenada nas coxas."

— Então — disse o delegado, limpando a espuma de chocolate dos lábios. — Creio que nossa próxima parada é na loja Hennings Farm and Home Supplies, pra comprar um guarda-roupa de inverno de verdade pra você, em seguida passamos no mercado Dave's Finest Food pra encher sua despensa e, depois, largo você na imobiliária Lakeside. Se puder pagar uns mil dólares pelo carro, eles vão ficar felizes; se não, uma parcela de quinhentos dólares durante quatro meses deve servir. É um carro feio, como eu disse, mas se o garoto não tivesse pintado de roxo, valeria uns 10 mil, e é confiável, você precisa de algo assim pra sair neste inverno, se quiser saber a minha opinião.

— E muita gentileza da sua parte — disse Shadow. — Mas você deveria estar por aí prendendo criminosos, não ajudando recém-chegados. Não que eu esteja reclamando, veja bem.

Mabel riu.

— Nós todos dizemos isso pra ele — disse. Mulligan deu de ombros.

— Esta é uma boa cidade — disse, simplesmente. — Não tem muito problema. Sempre tem alguém acima do limite de velocidade dentro da cidade... o que é uma coisa boa, porque as multas de velocidade pagam o meu salário. Sexta, sábado à noite, você pega algum idiota que fica bêbado e espanca o cônjuge... e isso acontece dos dois lados, acredite. Homens e mulheres. Mas por aqui as coisas são calmas. Me chamam quando alguém esquece as chaves dentro do carro. Cachorros latindo. Todo ano tem alguns garotos de colegial que são pegos com maconha atrás das arquibancadas da escola. O maior caso de polícia que aconteceu aqui, nos últimos cinco anos, foi quando o Dan Schwartz ficou bêbado e deu um tiro no próprio trailer. Fugiu pela rua principal, em cima da cadeira de rodas, sacudindo o revólver, gritando que ia atirar em qualquer um que ficasse no caminho e que ninguém impediria seu caminho até a estrada. Eu acho que ele queria ir pra Washington e atirar no presidente. Ainda dou risada quando me lembro do Dan indo em direção à estrada naquela cadeira de rodas com um adesivo de carro atrás. "Meu delinqüente juvenil está trepando com a sua estudante laureada." Você se lembra, Mabel?

Ela assentiu com a cabeça, os lábios apertados. Parecia não achar tanta graça naquilo quanto Mulligan .

— O que você fez? — perguntou Shadow.

— Eu conversei com ele. Ele me entregou o revólver. Dormiu na cadeia. O Dan não é um sujeito ruim, ele só estava bêbado e aborrecido.

Shadow pagou seu café da manhã e, sob os protestos quase sinceros de Chad Mulligan , os dois chocolates quentes.

A loja Hennings Farm and Home Suppiies era uma construção do tamanho de um galpão na parte sul da cidade que vendia de tudo, desde tratores até brinquedos (os brinquedos, ao lado dos enfeites de Natal, já estavam em liquidação). A loja fervilhava de compradores pós-Natal. Shadow reconheceu a menina mais nova que sentou na sua frente no ônibus. Ela andava atrás dos pais. Ele acenou para ela, que devolveu um sorriso hesitante e azulado. Sem compromisso, Shadow pensou em como ela seria dali a dez anos.

Provavelmente tão bonita quanto a garota na caixa registradora da Hennings, que fazia a leitura dos códigos de barras das compras com uma pistola de luz infravermelha portátil que apitava, capaz de, Shadow não tinha a menor dúvida, registrar um trator se alguém passasse com um deles por ali.

— Dez ceroulas? — disse a garota. — Está fazendo estoque, é?

Ela se parecia com uma aspirante a atriz.

Shadow sentiu-se com 14 anos de novo, envergonhado e tolo. Não disse nada enquanto ela registrava as botas térmicas, as luvas, os suéteres e o casaco acolchoado com plumas de ganso.

Ele não tinha nenhuma vontade de testar o cartão de crédito que Wednesday havia lhe dado, não com o delegado Mulligan parado ao seu lado, solícito, por isso pagou tudo em dinheiro. Depois levou as sacolas para o banheiro e saiu usando várias de suas aquisições.

— Você está bem, amigo — comentou o delegado.

— Pelo menos, estou aquecido — disse Shadow.

Fora da loja, no estacionamento, apesar de o vento queimar a pele de seu rosto de frio, o restante do corpo estava bem aquecido. A convite de Mulligan , colocou as sacolas de compras no banco traseiro da viatura e sentou-se no assento do passageiro, na frente.

— Então, o que é que você faz, senhor Ainsel? — perguntou o delegado. — Um cara grande como você. Qual é a sua profissão? Você vai trabalhar em Lakeside?

O coração de Shadow começou a pulsar, mas sua voz saiu firme.

— Eu trabalho pró meu tio. Ele compra a vende coisas pelo país inteiro. Eu só ajudo a carregar o peso.

— Ele paga bem?

— Eu sou da família. Ele sabe que não vou enrolar, e também aprendo um pouco sobre comércio até descobrir o que quero fazer de verdade.

Ele falava tudo aquilo com naturalidade e convicção, suave como uma cobra se arrastando pelo chão. Naquele instante, sabia tudo sobre o grande Mike Ainsel, e gostava dele. Não tinha nenhum dos problemas de Shadow, nunca fora casado nem interrogado em um trem de frete pelo senhor Wood e senhor Stone. As televisões não falavam com Mike Ainsel ("Quer ver os peitos da Lucy?", perguntava uma voz em sua mente). Ele não tinha pesadelos, nem acreditava que uma tempestade se aproximava.

Shadow encheu sua cesta de compras no mercado Dave's Finest Food com os alimentos que compraria em uma loja de conveniência de um posto de gasolina — leite, ovos, pão, maçãs, queijo, biscoitos. Só um pouco de comida. Ele faria uma compra de verdade mais tarde. Enquanto Shadow ia de um lado para o outro, Chad cumprimentava pessoas e o apresentava a elas. "Esse aqui é o Mike Ainsel, ele ficou com o apartamento vazio no antigo prédio Pilsen. Aquele nos fundos, em cima", dizia. Shadow desistiu de tentar guardar nomes. Ele apenas apertava as mãos das pessoas e sorria, suando um pouco, desconfortável com suas camadas de roupas térmicas dentro da loja quente.

O delegado levou Shadow de carro até o outro lado da rua, à imobiliária Lakeside. Missy Gunther, com o cabelo recém penteado e coberto de laquê, não precisou de apresentação — ela sabia exatamente quem era Mike Ainsel. Claro, aquele homem tão gentil, o senhor Borson, seu tio Emerson, tinha estado lá, o quê, seis, oito semanas atrás, e alugou o apartamento no antigo prédio Pilsen, e a vista não era de tirar o fôlego lá em cima? Bom, querido, espere só até a primavera, e temos tanta sorte, porque os lagos dessa região ficam de um verde forte no verão por causa das algas que quase fazem seu estômago embrulhar, mas não o nosso lago, quase dá para beber a água no Quatro de Julho e o senhor Borson pagou um ano inteiro de aluguel adiantado. Em relação ao Toyota 4-Runner, ela não acreditava que Chad Mulligan ainda se lembrava e, claro, ela ficaria feliz em se livrar dele. Para dizer a verdade, estava quase decidida a dá-lo para Hinzelmann transformá-lo na próxima lata velha e conseguir um desconto no imposto de renda, não que o carro fosse uma lata velha, longe disso, não, era o carro do filho dela antes de ele ir fazer faculdade em Green Bay, e, bom, ele tinha pintado o carro de roxo, ela certamente esperava que Mike Ainsel gostasse de roxo, e era tudo que tinha a dizer, mas se ele não gostasse ela não o culparia... O delegado Mulligan pediu licença no meio dessa ladainha.

— Parece que estão precisando de mim na delegacia. Prazer em conhecê-lo, Mike — disse, transferindo as sacolas de compras de Shadow para o porta-malas da perua de Missy Gunther.

Missy levou Shadow até a casa dela, onde, na entrada, estava um jipe velho. A neve tirada do caminho tinha coberto metade dele com um branco ofuscante, enquanto o resto do carro estava pintado de um tipo de roxo escorrido que alguém precisaria estar bem chapado, ser viciado mesmo, para ao menos começar a apreciar.

No entanto, o carro pegou na primeira tentativa, e o aquecedor funcionou, apesar de levar quase dez minutos com o motor ligado e o aquecedor no máximo para que o interior do carro passasse de insuportavelmente frio para apenas gelado. Enquanto tudo isso acontecia, Missy Gunther levou Shadow até a cozinha — desculpe a bagunça, mas as crianças deixaram os brinquedos todos espalhados depois do Natal e ela não tinha tido coragem, será que ele gostaria de comer um pouco de sobra de peru? Bom, então café, só vai demorar um instante pra passar um café fresco — e Shadow retirou um carro de brinquedo grande e vermelho de um assento de janela e se sentou, enquanto Missy Gunther perguntava se ele já tinha conhecido os vizinhos, e Shadow confessou que não.

Enquanto o café pingava, ela falava de quatro outros moradores em seu prédio de apartamentos — no passado era o prédio dos Pilsen porque os Pilsen moravam no apartamento do térreo e alugavam os dois de cima, agora o apartamento deles, que estava ocupado por um casal de moços, o senhor Holz e o senhor Neiman, eles são mesmo um casal e quando ela diz casai, senhor Ainsel, céus, temos todos os tipos de pessoas por aqui, tem mais de uma espécie de árvore na floresta, apesar da maior parte desse tipo de gente se estabelecer em Madison ou em Twin Cities, mas, para dizer a verdade, ninguém aqui pensa duas vezes. Eles estão passando o inverno em Key West, vão voltar em abril, aí você vai conhecê-los. O que deve ser dito a respeito de Eake City é que é uma cidade boa. Então a vizinha do senhor Ainsel, Marguerite Olsen e seu garotinho, é uma senhora gentil, gentil demais, mas ela teve uma vida dura, ainda é doce como uma torta, e ela trabalha no Lakeside News. Não é o jornal mais excitante do mundo, mas Missy Gunther achava que era do jeito que a maior parte do povo dali gostava.

Ela contou, enquanto servia o café, que esperava que o senhor Ainsel pudesse ver a cidade no verão ou pelo menos no fim da primavera, quando os botões de lilás, de maçã e de cereja aparecem, ela achava que não havia nada tão bonito, nada assim no mundo todo.

Shadow entregou-lhe um depósito de 500 dólares, subiu no carro e começou a dar ré, primeiro no pátio da frente e logo na entrada da garagem propriamente dita. Missy Gunther bateu no vidro da frente.

— Isso é pra você — disse. — Quase esqueci.

Ela lhe entregou um envelope amarelo.

— É um tipo de piada. Nós mandamos imprimir há alguns anos. Você não precisa olhar agora.

Shadow agradeceu e acelerou, com cuidado, de volta à cidade. Pegou o caminho que dava a volta no lago. Pensou que gostaria de ver aquilo na primavera, no verão, ou no outono: seria muito bonito, não tinha nenhuma dúvida.

Em dez minutos, estava em casa.

Estacionou o carro na rua e subiu os degraus externos até seu apartamento gelado. Tirou as compras da sacola, colocou a comida nos armários e na geladeira e então abriu o envelope que Missy Gunther entregou a ele.

Continha um passaporte. Azul, com capa plastificada e, dentro, uma declaração de que Mike Ainsel (o nome dele escrito à mão com a caligrafia precisa de Missy Gunther) era um cidadão de Lakeside. Havia um mapa da cidade na página seguinte. O resto estava cheio de cupons de desconto para várias lojas locais.

— Acho que vou gostar daqui — disse Shadow, em voz alta. Olhou pela janela esbranquiçada de neve e para o lago congelado e completou:

— Se algum dia esquentar.

Por volta das 14h, ouviu-se uma batida na porta. Shadow estava treinando um truque com moeda, passando-a de uma mão para a outra de maneira imperceptível. Suas mãos estavam tão frias que ele deixava a moeda cair com freqüência sobre o tampo da mesa, e a batida na porta fez com que a derrubasse novamente.

Ele foi abrir a porta.

Um instante de medo puro: o homem à porta usava uma máscara preta que escondia a metade inferior do rosto. Era o tipo de máscara que um ladrão de bancos usaria na TV, ou que um assassino em série de um filme barato usaria para assustar suas vítimas. O topo da cabeça do homem estava coberto por uma touca de tricô.

No entanto, o homem era menor e mais magro que Shadow, e não parecia estar armado. Vestia um casaco em xadrez escocês de cores fortes, do tipo que assassinos em série geralmente evitariam.

— I o hihelhan — disse o visitante.

— Hã?

O homem puxou a máscara para baixo e revelou o rosto afável de Hinzelmann.

— Eu disse "é o Hinzelmann". Sabe, não sei o que a gente fazia antes de inventarem essas máscaras. Bom, eu me lembro, sim. Usávamos uns gorros de tricô bem espessos que cobriam quase o rosto todo, e cachecóis e mais tudo o que você possa imaginar. Acho um milagre essas coisas que inventam hoje em dia. Eu posso ser velho, mas não vou ficar reclamando do progresso, eu não.

Terminou o discurso empurrando uma cesta na direção de Shadow, cheia de queijos da região, garrafas, potes e vários salaminhos que se intitulavam salsichas de carne de veado, e entrou.

— Feliz dia depois do Natal — disse.

Seu nariz, as bochechas e as orelhas estavam vermelhos como framboesas, com ou sem máscara.

— Ouvi dizer que você comeu uma empanada inteira da Mabel. Trouxe umas coisas pra você.

— É muito gentil da sua parte — disse Shadow.

— Gentil nada. Vou ficar quite com você na rifa da semana que vem. É a Câmara de Comércio que organiza, e eu é que mando lá. No ano passado, levantamos quase 17 mil dólares pra ala infantil do hospital de Lakeside.

— Bom, então por que você não me vende um bilhete agora mesmo?

— Porque só começa depois que a lata velha já está em cima do gelo — disse Hinzelmann.

Ele olhou através da janela de Shadow para o lago.

— Está bem frio lá fora. A temperatura deve ter caído uns trinta graus na noite passada.

— Foi mesmo.

— Antigamente, as pessoas costumavam rezar por um frio assim — disse Hinzelmann. — Meu pai que me contou.

— Vocês rezavam por dias como hoje?

— Bom, era o único jeito que os colonizadores conseguiam viver antigamente. Não tinha comida suficiente pra todo mundo e eles não podiam simplesmente ir ali no Dave's e encher o carrinho, não senhor. Então o meu vô, que era muito criativo, quando tinha um dia bem frio que nem hoje, ele pegava minha vó e as crianças, o meu tio, a minha tia, o meu pai, que era o mais novo, a empregada e o empregado, e ia com eles até o riacho. Dava pra todo mundo um golinho de rum com ervas, uma receita que trouxe do velho continente, e daí ele jogava água do riacho em cima deles. Claro que congelavam em segundos, duros e azulados iguais a um monte de pirulitos. Ele empurrava as pessoas congeladas até um buraco que tinham cavado antes e forrado de palha, e ele guardava todos lá, um por um, igual a um monte de lenha empilhada. Embrulhava tudo com palha, depois cobria o buraco com dois oleados bem presos pra manter os bichos longe. Naquele tempo tinha lobo, urso e todos os tipos de animais que a gente não vê mais por aqui, mas não tinha nenhum hodag, essa coisa de hodag é lenda e eu não vou ficar abusando da sua credulidade com uma história dessas, não senhor... Então ele cobria o buraco com os dois oleados e, quando a nevasca seguinte caía, cobria tudo completamente, menos a bandeira que ele tinha colocado lá pra marcar o lugar do buraco. Então meu vô passava o inverno com todo conforto e nunca precisava se preocupar se a comida ou o carvão iam acabar. Quando percebia que a primavera estava chegando de verdade, ele ia até a bandeira e cavava na neve, tirava os oleados, carregava cada uma das pessoas e colocava a família na frente do fogo pra derreter. Ninguém ligava pra isso, a não ser um dos empregados, que perdeu metade de uma orelha pra uma família de ratos que fez ninho lá uma vez, por que o meu avô não tinha ajeitado direito os oleados. Claro que naquele tempo a gente tinha uns invernos de verdade. Dava pra fazer isso naquele tempo. Nesses inverninhos de bicha de hoje, quase nunca faz bastante frio.

— Não? — perguntou Shadow.

Ele fazia semblante de homem sério e se divertia muito com aquilo.

— Não desde o inverno de 49, e você é muito novo pra se lembrar dele. Aquele sim foi um inverno. Eu vi que você comprou um veículo.

— É. O que você acha?

— Pra falar a verdade, eu nunca gostei daquele filho dos Gunther. Eu tinha um criadouro de trutas lá no meio da floresta, no fundo do meu terreno, bem no fundo, bom, ainda é um terreno urbano, mas eu tinha colocado umas pedras no rio e tinha feito umas piscinas e uns lugares em que as trutas gostavam de ficar. E tinha uns peixes que eram uma beleza, tinha uma truta de riacho que devia pesar uns 2,5 quilos, 3, e aquele Guntherzinho filho de uma mãe destruiu cada uma das piscinas e ainda ameaçou me denunciar pró departamento florestal. Agora ele está em Green Bay, e logo, logo vai voltar pra cá. Se existisse alguma justiça no mundo ele leria ido embora como fugitivo do inverno, mas não, ele é igual a um carrapicho que gruda em um casaco de lã.

Ele começou a arrumar o conteúdo da cesta de boas-vindas de Shadow no balcão da cozinha.

— Isso aqui é a geléia de maçã silvestre da Katherine Powdermaker. Ela me dá um pote de Natal desde antes de você nascer, e a triste verdade é que eu nunca abri nenhum. Estão todos no meu porão, quarenta, Cinqüenta potes. Talvez eu abra um e descubra que é gostoso. Enquanto isso, aqui está um pote pra você. Talvez goste.

— O que é um fugitivo do inverno?

— Humm.

O velho puxou a touca de lã para cima das orelhas e esfregou a testa com um indicador cor-de-rosa.

— Bom, não é uma coisa que só tem aqui em Lakeside... Esta aqui é uma cidade boa, melhor do que a maioria, mas nós não somos perfeitos. Em alguns invernos, bom, talvez um garoto fique meio maluco, quando fica tão frio que não dá pra sair, e a neve é tão seca que mal dá pra fazer uma bola de neve sem ela se esfarelar...

— Eles fogem?

O velho assentiu com a cabeça, com gravidade.

— Eu culpo a televisão, que fica mostrando pras crianças todas essas coisas que elas nunca vão ter... Dallas e Dinastia e toda aquela bobagem. Eu não tenho televisão desde o outono de 1983, a não ser um aparelho em preto e branco que eu guardo em um armário pró pessoal que vem de fora quando tem jogo pra assistir.

— Posso oferecer alguma coisa pra você, Hinzelmann?

— Café não. Me dá azia. Só água. Hinzelmann sacudiu a cabeça.

— O maior problema aqui nesta parte do mundo é a pobreza. Não o tipo de pobreza que existia durante a Depressão, mas uma coisa mais... como é que é aquela palavra, que significa que vai comendo pelas bordas, igual às baratas?

— Pérfida?

— É. Pérfida. A lenha morreu. A mineração morreu. Os turistas quando vão pro Norte não passam de Delis, a não ser por um punhado de caçadores e alguns garotos que vão acampar nos lagos... e eles não gastam dinheiro nas cidadezinhas.

— Mas Lakeside parece uma cidade próspera. Os olhos azuis do velho piscaram.

— E, acredite em mim, dá muito trabalho — disse. — Trabalho duro. Mas essa cidade é boa, e todo o trabalho que as pessoas daqui se propõem a fazer vale a pena. Não que a minha família não tenha sido pobre quando eu era criança. Pergunta pra mim se a minha família era pobre quando eu era criança.

Shadow fez seu semblante de homem sério e disse:

— A sua família era muito pobre quando você era criança, senhor Hinzelmann?

— Só Hinzelmann, Mike. Nós éramos tão pobres que não tínhamos dinheiro pra acender um fogo em casa. Chegava na véspera de Ano Novo, meu pai chupava uma bala de hortelã bem ardida e nós, os filhos, ficávamos em volta dele com as mãos esticadas, nos esquentando no ardor.

Shadow emitiu um barulho nasalado. Hinzelmann vestiu sua máscara de esqui e fechou o enorme casaco xadrez, tirou as chaves do carro do bolso e então, por último, vestiu as luvas fofas.

— Se ficar muito entediado aqui, vá até a loja e mande me chamar. Eu mostro pra você a minha coleção de iscas artificiais feitas à mão. Você vai ficar tão entediado que voltar pra cá vai ser um alívio.

A voz dele estava abafada, porém audível.

— Pode deixar — disse Shadow. — Como vai a Tessie?

— Hibernando. Ela sai de novo na primavera. Cuide-se bem, senhor Ainsel.

E fechou a porta atrás de si quando saiu.

O apartamento ficou ainda mais frio.

Shadow vestiu o casaco e as luvas. Então calçou as botas. Ele mal podia enxergar através das janelas por causa do gelo que se acumulava na parte interna dos vidros, o que transformava a vista do lago em uma imagem abstraía.