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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Doce Vingança / Nora Roberts
Doce Vingança / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Doce Vingança

 

Nova York, 1989

Stuart Spencer detestava aquele quarto de hotel. A única vantagem de estar em Nova York era o fato de sua esposa estar em Londres e não poder chateá-lo por causa da dieta. Ele pedira um club sandwich, que levava peru, bacon, maionese, alface e tomate, espalhados entre três torradas, e estava saboreando cada mordida.

Era um homem corpulento e calvo, com a disposição jovial esperada de alguém com sua aparência. Uma bolha no calcanhar o atormentava, assim como um resfriado persistente. Depois de tomar meia xícara de chá, ele concluiu, com o excêntrico humor britânico, que os americanos não sabiam fazer um chá aceitável, por mais que tentassem.

Queria um banho quente, uma xícara de um bom Earl Greye e uma hora de sossego, mas desconfiava que o homem irrequieto, em pé junto da janela, o obrigaria a adiar tudo isso e talvez indefinidamente.

- É aqui que eu estou.

De cara amarrada, ele observou Philip Chamberlain puxar a cortina.

- Uma vista adorável. - Philip olhava para a parede de outro prédio. - Proporciona a este quarto uma sensação de aconchego.

- Philip, sinto-me compelido a lembrá-lo que detesto voar através do Atlântico no inverno. Além disso, tenho muito trabalho acumulado para fazer em Londres... e a maior parte é por sua causa e seus procedimentos irregulares. Portanto, se tiver alguma informação para mim, transmita logo de uma vez, por favor. Imediatamente, se não for pedir demais.

Philip continuou a olhar pela janela. Estava apreensivo com o resultado da reunião informal que solicitara, mas nada em sua atitude calma sequer insinuava a tensão que sentia.

 - Preciso levá-lo a algum espetáculo enquanto está aqui, Stuart. Um musical. Você ficou azedo na velhice.

- Fale logo o que quer.

Philip largou a cortina e virou-se para o homem a quem estivera subordinado durante os últimos anos. Sua ocupação exigia uma graça confiante e atlética. Tinha 35 anos, mas já contava com um quarto de século de experiência profissional. Nascera nos cortiços de Londres. Ainda jovem, já era capaz de conseguir convites para as melhores festas da sociedade. O que não era pouca coisa, nos tempos antes de a rígida consciência de classe dos britânicos sucumbir diante da investida de artistas e roqueiros. Sabia o que era passar fome, mas também sabia o que era ter sua porção de beluga. Porque preferia caviar, tratara de levar uma vida que o incluísse. Era bom no que fazia, muito bom mesmo, mas o sucesso não viera com facilidade.

- Tenho uma proposta hipotética para lhe apresentar, Stuart. - Philip sentou-se e serviu-se de chá. - Mas quero perguntar antes se, durante os últimos anos, tenho sido útil para você.

Spencer deu uma mordida no sanduíche, torcendo para que a conversa de Philip não lhe provocasse uma indigestão.

- Está querendo um aumento de salário?

- É uma possibilidade, mas não exatamente o que pretendo. Philip era capaz de exibir um sorriso encantador, que podia usar com grande efeito quando assim decidia. E foi o que decidiu naquele momento. - A questão é a seguinte: tem valido a pena contar com um ladrão na folha de pagamento da Interpol?

Spencer fungou, tirou um lenço do bolso e assoou o nariz.

- De vez em quando.

Philip notou, ao mesmo tempo em que especulava se Stuart também percebera, que desta vez não usara o qualificativo "aposentado" depois de "ladrão", Também notou que Stuart não corrigira a omissão.

- Você se tornou absolutamente avarento com seus elogios.

- Não estou aqui para lisonjeá-lo, Philip, mas apenas para saber por que achou que o assunto era tão importante que insistiu que eu voasse para Nova York em pleno inverno.

- Você se importaria de ter dois?

- Dois o quê?

- Ladrões. - Philip pegou um triângulo do sanduíche. – Deveria experimentar com o pão de trigo integral.

- Onde está querendo chegar?

Havia muita coisa em jogo nos próximos momentos, mas Philip levara a maior parte da vida com seu futuro em jogo, até seu pescoço, tudo na dependência de uns poucos minutos. Fora um ladrão- e dos melhores - levando o Capitão Stuart Spencer e outros homens como ele a procurá-lo por becos sem saída de Londres a Paris, de Paris a Marrocos, de Marrocos a qualquer lugar em que o próximo grande prêmio esperasse. Depois, dera uma meia-volta e passara a trabalhar para Spencer e a Interpol, não mais contra.

Fora uma decisão profissional, lembrou Philip a si mesmo. Apenas uma questão de calcular os custos e benefícios. Mas o que estava prestes a propor era pessoal.

- Digamos, em termos hipotéticos, que eu conheço um ladrão muito hábil, que há dez anos vem conseguindo se esquivar da Interpol. Agora, essa pessoa decidiu deixar o serviço ativo e oferece seus conhecimentos profissionais em troca de clemência.

- Está falando do Sombra.

Philip, meticuloso, removeu as migalhas das pontas dos dedos. Sempre fora um homem meticuloso, por hábito e necessidade.

- Em termos hipotéticos.

O Sombra ... Spencer esqueceu o calcanhar dolorido e o cansaço da viagem. Milhões de dólares em jóias haviam sido roubados pelo ladrão conhecido apenas como O Sombra. Há dez anos que Spencer o perseguia, procurava e nada descobria. Nos últimos 18 meses, a Interpol intensificara as investigações, chegando a ponto de contratar um ladrão para pegar um ladrão: Philip Chamberlain, o único homem que Spencer conhecia cujos feitos superavam os do Sombra. O homem em quem confiara, pensou Spencer, com um súbito acesso de fúria.

- Você sabe quem ele é. Isso mesmo, sabe quem ele é e onde podemos encontrá-lo. - Stuart pôs as mãos em cima da mesa. Dez anos! Há dez anos que estamos atrás desse homem. E há muitos meses que você é pago para descobri-lo, mas nos deixou na ignorância! E sabia sua identidade e paradeiro durante todo esse tempo!

- Talvez eu soubesse. - Philip abriu os dedos longos de artista. - Talvez não.

- Tenho vontade de trancá-lo numa cela e jogar a chave no Tâmisa.

- Mas não vai fazê-lo, porque sou como o filho que você nunca teve.

- Não se esqueça de que tenho um filho!

- Não como eu. - Philip inclinou a cadeira para trás. - Estou propondo o mesmo negócio que fizemos há cinco anos. Você teve a visão necessária na ocasião para compreender que contratar o melhor tinha nítidas vantagens sobre perseguir o melhor.

- Você foi incumbido de pegar esse homem, não de negociar por ele. Se sabe um nome, quero esse nome. Se tem uma descrição, quero ouvi-la. Fatos, Philip, não propostas hipotéticas.

- Você não tem nada - declarou Philip, abrupto. - Absolutamente nada, depois de dez anos. Se eu sair deste quarto, continuará a não ter nada.

- Terei você. - A voz de Spencer era bastante incisiva para fazer com que Philip contraísse os olhos. - Um homem com seus gostos acharia a prisão muito desagradável.

-Ameaças?

Um calafrio breve, mas muito real, percorreu a pele de Philip. Ele cruzou as mãos. Manteve os olhos sob controle, apegando-se à certeza de que Stuart apenas blefava. O que não acontecia com Philip.

- Já esqueceu que recebi clemência? Foi esse o acordo.

- Mas é você quem está mudando as regras agora. Dê-me o nome, Philip, e deixe-me fazer meu trabalho.

- Você pensa pequeno, Stuart. Foi por isso que recuperou apenas alguns diamantes, enquanto eu consegui muito mais. Se puser O Sombra na cadeia, terá apenas prendido mais uma pessoa. Acha mesmo que poderá recuperar uma fração do que foi roubado nos últimos dez anos?

- É uma questão de justiça.

-Concordo.

O tom de Philip mudara, percebeu Spencer; e pela primeira vez na conversa, ele baixara os olhos. Mas não por vergonha. Spencer conhecia-o muito bem para acreditar que Philip pudesse se sentir envergonhado por um momento que fosse.

- É uma questão de justiça, e logo chegaremos a esse ponto. Philip levantou-se, irrequieto demais para permanecer sentado. - Quando você me designou para o caso, aceitei porque esse ladrão em particular me interessava. Isso não mudou. Na verdade, pode-se até dizer que meu interesse aumentou de forma considerável.

Não seria certo pressionar Spencer demais. Era verdade que haviam desenvolvido uma relutante admiração um pelo outro ao longo dos anos, mas Spencer sempre continuaria a se apegar - e sempre seria assim - à letra da lei.

- Digamos, ainda em termos hipotéticos, é claro, que eu conheço a identidade do Sombra. Digamos que tivemos algumas conversas que me levaram a acreditar que você poderia usar os talentos dessa pessoa, que seriam oferecidos pela pequena recompensa de uma ficha limpa.

- Pequena recompensa? O desgraçado roubou muito mais do que você!

Philip alteou as sobrancelhas. O rosto franzido, removeu uma migalha da manga do paletó.

- Não creio que seja necessário me insultar. Ninguém jamais roubou jóias com um valor total maior do que o meu ao longo de minha carreira.

- Orgulha-se dos seus feitos, não é mesmo? - A cor vermelha espalhava-se de uma maneira alarmante pelo rosto de Spencer. - Levar a vida de um ladrão não é uma coisa de que eu me gabaria.

- É essa a diferença entre nós.

- Infiltrar-se por janelas, fazer negócios em becos escuros ...

- Por favor, não me torne sentimental. Calma, Stuart. É melhor contar até dez. Não quero ser responsável por uma subida alarmante de sua pressão. - Philip tornou a pegar o bule de chá. - Talvez esta seja uma boa ocasião para lhe dizer que, enquanto eu arrombava cofres, desenvolvi o maior respeito por você. Imagino que ainda estaria em minha antiga profissão se não fosse pelo fato de você chegar mais perto a cada vez. Mas não me arrependo da maneira como vivia, assim como não me arrependo de ter mudado de lado.

Stuart acalmou-se o suficiente para tomar o chá que Philip servira.

- Isso não vem ao caso. - Mas ele tinha de  reconhecer que a admissão de Philip o deixara satisfeito. – O fato é que agora trabalha para mim.

- Não esqueci. - Philip tornou a olhar para a janela. Era um dia claro e gelado, que o fazia ansiar pela primavera. Ele tornou a fitar Stuart. - Para continuar, eu me sinto na obrigação, como um leal servidor, de tentar recrutar uma pessoa que acho que poderá ser muito útil.

- Um ladrão.

- Isso mesmo, mas excelente. - O sorriso envolvente surgiu de novo. - Além do mais, estou disposto a apostar que nem a sua organização policial nem qualquer outra jamais conseguirão descobrir a identidade dessa pessoa.

Philip voltou a ficar sério. Inclinou-se para a frente.

- Não agora nem nunca, Stuart, posso lhe garantir.

- Ele vai agir de novo.

- Não haverá mais nenhum roubo.

- Como pode ter certeza?

Philip cruzou as mãos. A aliança de casamento destacava-se em seu dedo

- Providenciarei para que assim seja, pessoalmente.

- O que ele representa para você?

- É difícil explicar. Quero que me escute, Stuart. Há cinco anos que trabalho para você. Com você. Sei que alguns serviços foram sórdidos e outros mais sórdidos ainda e também perigosos. Nunca lhe pedi nada, Mas agora peço: clemência para essa pessoa hipotética.-

- Não posso garantir...

- Para mim sua palavra é garantia suficiente - interrompeu Philip. - Em troca, recuperarei o Rubens para você. E, melhor ainda, creio que posso lhe assegurar um prêmio que proporcionará a força política necessária para controlar uma situação crítica.

Spencer não teve qualquer problema para somar dois e dois.

- No Oriente Médio?

Philip tornou a encher sua xícara. Deu de ombros.

- Em termos hipotéticos.

Independentemente da resposta, ele tencionava levar Stuart ao Rubens e a Abdu. Apesar disso, nunca fora de mostrar as cartas em sua mão antes do momento final.

- Pode-se dizer que minhas informações servirão para que a Inglaterra possa pressionar onde é mais necessário.

Spencer olhou firme para Philip. Inesperadamente, haviam passado além da discussão sobre diamantes e rubis, crime e castigo.

- Está acima de seu nível, Philip.

- Agradeço a preocupação. - Ele recostou-se, por sentir que a maré começava a mudar. - Mas posso lhe assegurar de que sei exatamente o que estou fazendo.

- Está se metendo num jogo delicado.

O mais delicado possível, pensou Philip. E também o mais importante.

- Um jogo que nós dois podemos vencer, Stuart.

Um pouco ofegante, Spencer levantou-se para abrir uma garrafa de scotch. Serviu uma dose generosa, num copo pequeno, hesitou por um instante e depois despejou mais uísque num segundo copo.

- Agora, Philip, conte-me o que você sabe. Farei tudo o que estiver ao meu alcance.

Philip deixou passar um momento, avaliando as palavras.

- Porei em suas mãos a única coisa que tem importância para mim. Lembre-se disso, Stuart. - Ele largou a xícara de chá e aceitou o copo oferecido. - Vi o Rubens quando entrei na sala do tesouro do Rei Abdu, de Jaquir.

Os olhos normalmente controlados de Spencer arregalaram-se de repente.

- E o que você fazia na caixa-forte do rei?

- É uma longa história. - Philip ergueu seu copo, numa saudação para Stuart, depois tomou um gole grande. - É melhor começar pelo início, com Phoebe Spring.

 

Jaquir, 1968

Enroscada de lado, sem conseguir dormir de tanto excita­mento, Adrianne observou o relógio bater meia-noite. Seu aniversário. Cinco anos. Ela virou de costas, guardando a satisfação para si mesma. A seu redor, no palácio, todos dormiam, mas dentro de poucas horas o sol nasceria e o muezim subiria os degraus da mesquita para chamar os fiéis à oração. E o dia, o mais maravilhoso de sua vida, começaria de verdade.

La pela tarde, haveria música, presentes e bandejas de chocolates. Todas as mulheres vestiriam as roupas mais lindas. Haveria danças. Todas viriam: vovó para contar suas histórias; tia Latifa, que sempre sorria e nunca repreendia, traria Duja; Favel, com seu riso alegre, estaria à frente de sua prole. Adrianne sorriu. Os aposentos das mulheres ressoariam com as risadas e todas diriam que ela era muito bonita.

Mamãe prometera que seria um dia muito especial. Seu dia especial. Com permissão do pai, haveria um passeio até a praia, à tarde. Ela tinha um vestido novo, lindo, de seda listrada, em todas as cores do arco-íris. Mordendo o lábio, Adrianne virou a cabeça para contemplar a mãe.

Phoebe dormia, o rosto como mármore, ao luar. Por uma ver., a expressão era serena. Adrianne adorava as ocasiões em que a mãe lhe permitia dormir em sua cama enorme e macia. Era um prazer muito especial. Ela se aconchegava nos braços de Phoebe. Fascinada, ouvia as histórias que a mãe contava sobre lugares como Nova York e Paris. Às vezes as duas riam juntas.

Com todo cuidado, pois não queria acordá-la, Adrianne estendeu a mão para afagar-lhe os cabelos. Fascinavam-na. Pareciam de fogo contra o travesseiro, um fogo ardente, deslumbrante. Aos cinco anos, Adrianne já era bastante mulher para invejar os cabelos da mãe. Os seus eram abundantes e pretos, como os das outras mulheres em Jaquir. Só Phoebe tinha cabelos vermelhos e pele branca. Só Phoebe era americana. Adrianne era meio americana, mas a mãe só a lembrava disso quando se encontravam a sós.

Porque essas coisas deixavam seu pai furioso.

Adrianne era especialista em evitar assuntos que podiam enfurecer o pai, embora não pudesse compreender por que lembrar que Phoebe era americana podia deixá-la com os olhos frios e os lábios comprimidos. Ela fora estrela de cinema. A descrição confundia Adrianne, mas ela gostava da sonoridade. Estrela de cinema. As palavras faziam-na pensar em luzes bonitas num céu escuro.

A mãe fora uma estrela, e agora era uma rainha, a primeira esposa de Abdu ibn Faisal Rahman al-Jaquir, soberano de Jaquir, o xeique dos xeiques. A mãe era a mais linda das mulheres, com seus enormes olhos azuis, os lábios cheios e macios. Pairava acima das outras mulheres no harém, fazendo com que parecessem passarinhos irrequietos. Adrianne só gostaria que a mãe fosse feliz. Agora que tinha cinco anos, Adrianne esperava começar a compreender porque a mãe parecia triste com tanta freqüência, por que chorava quando pensava que estava sozinha.

As mulheres eram protegidas em Jaquir; e as mulheres da Casa de Jaquir não deveriam trabalhar nem se preocupar. Recebiam tudo o que precisava: bons aposentos, os perfumes mais deliciosos. Sua mãe tinha as mais lindas roupas e jóias. Tinha O Sol e a Lua.

Adrianne fechou os olhos para melhor recordar a imagem fascinante do colar pescoço da mãe. Como faiscava o enorme diamante, O Sol, e como reluzia a pérola de valor inestimável, a Lua. Algum dia, prometera Phoebe, Adrianne usaria aquele colar.

Quando estivesse crescida. Confortável, contente com o som da respiração regular da mãe, com os pensamentos do dia seguinte, Adrianne deixou a imaginação à solta. Quando fosse crescida, uma mulher em vez de uma menina, poria o véu. Um dia seria escolhido um marido para ela, e casaria. Usaria O Sol e a Lua no dia de seu casamento. E se tornaria uma esposa dedicada e fértil.

Oferecia festas às outras mulheres, ofereceria bolos com cobertura, enquanto as criadas circulariam com bandejas de chocolates. O marido seria bonito e poderoso, como seu pai. Talvez fosse um rei também, e a apreciaria acima de todas as coisas.

Enquanto mergulhava no sono, Adrianne enrolou a extremidade de uma mecha dos cabelos compridos no dedo indicador. O marido a amaria, como queria que o pai a amasse. Haveria de lhe dar bons filhos, filhos maravilhosos, para que as outras mulheres a visem com inveja e respeito. Não com compaixão. Não com o tipo de compaixão que demonstravam por sua mãe.

A luz do corredor acordou-a. Projetou-se enviesada pelo quarto quando porta foi aberta, depois em linha reta pelo chão. Através do véu que cercava a cama, como um casulo, ela viu a sombra.

O amor aflorou primeiro, num ímpeto frustrado, que ela reconheceu, mas era jovem demais para compreender. Depois veio o medo que sempre acompanhava de perto o amor que sentia quando via o pai.

Ele ficaria furioso ao encontrá-la ali, na cama da mãe. Adrianne sabia, porque a conversa no harém era franca, que o pai quase nunca visitava aqueles aposentos, desde que os médicos disseram que Phoebe não teria mais filhos. Adrianne pensou que talvez ele quisesse apenas olhar para Phoebe, porque era uma mulher linda. Mas quando o pai se adiantou, o medo subiu por sua garganta. Depressa, sem fazer barulho, ela saiu da cama e agachou-se nas sombras ao lado.

Abdu, os olhos em Phoebe, puxou o véu. Não se dera ao trabalho de fechar a porta. Ninguém ousaria incomodá-lo.

O luar iluminava os cabelos de Phoebe, realçava-lhe o rosto. Ela parecia uma deusa, como na primeira vez em que Abdu a vira. O rosto ocupara a tela, em sua beleza deslumbrante, irradiando sexualidade. Phoebe Spring, a atriz americana, a mulher que os homens ao mesmo tempo desejavam e temiam, por seu corpo exuberante e olhos inocentes. Abdu era um homem acostumado a ter o melhor, o maior, o mais caro. Desejara-a naquele momento, de uma maneira como jamais desejara outra mulher. Procurara-a, cortejara-a, ao estilo que a mulher ocidental preferia. E a fizera sua rainha.

Phoebe fascinara-o. Por sua causa, traíra a herança, desafiara a tradição. Tomara como esposa uma ocidental, uma atriz, uma cristã. Fora punido. Phoebe lhe dera apenas uma criança ... uma menina.

Ainda assim, ela fazia com que Abdu a desejasse. Seu ventre era estéril, mas sua beleza o provocava. Mesmo quando o fascínio se transformara em repulsa, ele ainda a desejava. Phoebe envergonhava-o, profanava seu sharaf, sua honra, com sua ignorância do Islã. Mas seu corpo nunca deixara de ansiar por aquela mulher.

Quando cravava sua virilidade em outra mulher, era com Phoebe que fazia amor, era a fragrância da pele de Phoebe que sentia, eram os gritos de Phoebe que ouvia. Era sua vergonha secreta. Poderia odiá-la só por isso. Mas era a vergonha pública, a filha única que ela lhe dera, que o levava a desprezá-la.

Queria que Phoebe sofresse, que pagasse caro, assim como ele sofrera, assim como ele pagara. Abdu estendeu a mão, pegou o lençol e o puxou para o lado.

Pheobe acordou, confusa, o coração já batendo forte. Viu-o parado ao lado da cama, na claridade difusa. A princípio, pensou que era um sonho, em que ele voltava para amá-la, como outrora a amara. Depois, viu seus olhos e compreendeu que não era um sonho... e não havia amor.

- Abdu...

Ela lembrou a criança e se apressou a olhar a seu redor. A cama estava vazia. Adrianne fora embora. Ela agradeceu a Deus por isso.

- Já é tarde...

Phoebo sentia a garganta tão ressequida que as palavras mal podiam ser ouvidas. Numa reação de defesa, já começava a recuar, os lençóis de centim sussurrando em seu corpo, enquanto se enroscava no centro. Ele não disse nada, apenas tirou o throbe branco.

- Por favor... -  Embora soubesse que era inútil, ela começou a chorar. – Não faça isso!

- Uma  mulher não tem o direito de recusar o que o marido deseja.

Só de contemplá-la, o corpo maduro tremendo contra os travesseiros, Abdu sentia-se poderoso, outra vez no comando de seu destino. Independentemente de qualquer outra coisa que ela pudesse ser, Phobe era sua propriedade... tanto quanto os anéis em seus dedos, os cavalos em seus estábulos. Ele agarrou-a pelo corpete da camisola e a puxou.

Nas sombras, no outro lado da cama, Adrianne começou a tremer.

A mãe chorava. Os dois brigavam, gritando palavras que ela não podia entender. O pai estava nu, ao luar, a pele escura brilhante com  um suor que vinha do desejo, não do calor sufocante. Adrianne nunca vira um corpo de homem antes, mas não ficou transtornada com a cena. Sabia alguma coisa sobre sexo, que a virilidade do pai, que parecia tão dura e ameaçadora, podia ser usada para penetrar a mãe e fazer uma criança. Sabia que havia prazer nisso, que uma mulher desejava aquele ato acima de todo o resto. Na verdade, já ouvira isso mil vezes, em sua jovem vida, porque as conversas sobre sexo no harém eram incessantes.

Mas a mãe não podia mais ter crianças; e se havia tanto prazer no ato, por que ela chorava e suplicava ao marido que a deixasse em paz?

Uma mulher deveria sempre acolher o marido no leito conjugal, pensou Adrianne, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Devia oferecer qualquer coisa que ele desejasse. Devia se regozijar por ser desejada, por ser o instrumento para gerar crianças.

Ela ouviu a palavra prostituta. Não a conhecia, mas a palavra soou horrível nos lábios do pai, e Adrianne nunca mais a esqueceria.

- Como pode me chamar assim? - A voz de Phoebe tremia com os soluços, enquanto tentava se desvencilhar. Houvera um tempo em que encontrava uma profunda satisfação na sensação daqueles braços em torno de seu corpo, em que se deliciava com a maneira como a pele brilhava ao luar. Agora, sentia apenas medo. - Nunca estive com outro homem. Apenas com você. E foi você quem tomou outra esposa, mesmo depois que tivemos uma criança.

- Você não me deu nada. - Abdu enrolou os cabelos da mulher em torno de sua mão, fascinado, mas ao mesmo tempo detestando seu fogo. - Uma menina. Menos do que nada. Basta vê-la para sentir minha desgraça!

Phoebe golpeou-o nesse momento, com força suficiente para fazer a cabeça do marido recuar. Só que não teria para onde fugir, mesmo que fosse mais rápida. O dorso da mão do marido acertou em seu rosto, deixando-a atordoada. Impelido pelo desejo e fúria, Abdu rasgou camisola dela.

Ela era como uma deusa, a fantasia de cada homem. Os seios opulentos vibravam com o terror que fazia seu coração disparar. Ao luar, a pele alva brilhava, já exibindo as sombras das equimoses causadas por suas mãos. Os quadris eram arredondados. Quando a paixão a dominava, podiam se movimentar com a rapidez de um raio, acompanhando cada arremetida do homem. Uma falta de vergonha. O desejo era como uma dor que o afligia, como as garras de um demônio que o dilaceravam. Um lampião caiu da mesa, enquanto lutavam, os cacos de vidro espalhando-se pelo chão.

Paralisada pelo horror, Adrianne observou quando ele comprimiu com os dedos os seios brancos e cheios de Phoebe. A mãe ainda suplicava, ainda se debatia. Um homem tinha o direito de bater na esposa. Ela não podia recusá-lo no leito conjugal. Era assim que tinha de ser. E, no entanto... Adrianne comprimiu as mãos contra os ouvidos, a fim de bloquear os gritos da mãe, enquanto Abdu erguia-se por cima dela e mergulhava para seu corpo, com extrema violência, varias vezes.

O rosto molhado por suas próprias lágrimas, Adrianne rastejou para baixo da cama. As mãos continuaram a apertar os ouvidos até doerem, mas mesmo assim podia ouvir os grunhidos do pai, o choro desesperado da mãe. Por cima dela, a cama tremia. Adrianne enroscou-se numa bola, tentando se fazer pequena, tão pequena que nem ouviria, que nem existiria.

Nunca ouvira palavra estupro, mas depois daquela noite nunca mais precisaria que alguém definisse o que era.

- Está muito quieta, Addy

Phobe escovava os cabelos da filha, que desciam até a cintura, em movimentos longos e lentos. Addy ... Abdu desdenhava o apelido e só tolerava o Adrianne mais formal porque a primogênita era uma mulher de sangue misto. Mesmo assim, por orgulho muçulmano, determinara que a filha recebesse um nome árabe apropriado. Por isso, nos documentos oficiais, "Adrianne" aparecia como Ad Riyahd Na, seguido por um punhado de nomes de família de Abdu. Phobe repetiu o apelido agora e indagou:

- Não gosta de seus presentes?

- Gosto muito.

Adrianne usava o vestido novo, só que não mais a agradava. No espelho, podia ver o rosto da mãe, por trás do seu. Phocbe tivera o maior cuidado em encobrir as equimoses com maquilagem, mas Adrianne ainda podia perceber a pele mais escura.

- Você está linda.

Phoebe virou-a para abraçá-la. Em qualquer outro dia, Adrianne poderia não perceber a força com que a mãe a apertava, poderia não reconhecer o tom de desespero em sua voz.

- Minha pequena princesa... - acrescentou Phoebe. - Eu a amo demais, Addy. Mais do que qualquer outra coisa no mundo.

Ela recendia a flores, como as que haviam no jardim lá fora. Adrianne aspirou fundo o perfume da mãe, enquanto comprimia o rosto contra seus seios. Beijou-os, lembrando como o pai os tratara brutalmente na noite anterior.

- Você não vai embora? Não vai me deixar?

- De onde tirou essa idéia?

Com uma meia risada, Phoebe afastou um pouco a filha, para fitá-la. Quando viu as lágrimas, o riso cessou.

- O que houve, querida?

- Sonhei que ele mandou você embora. E que eu nunca mais a veria.

A mão de Phoebe hesitou por um instante, depois continuou a afagar a filha.

- Foi apenas um sonho, meu bem. Nunca a deixarei. Adrianne foi para o colo da mãe, contente em ser embalada e acalmada. Através da treliça nas janelas, dedos do sol atravessavam o quarto, fazendo desenhos no tapete.

- Se eu fosse um menino, ele nos amaria.

A raiva dominou Phoebe com tanta intensidade que ela pôde sentir o gosto na língua. Quase no mesmo instante, transformou-se em desespero. Mas ainda era uma atriz. Se não podia usar seu talento para mais nada, podia pelo menos aproveitá-lo para proteger o que era seu.

- Mas que conversa boba ... e logo no dia de seu aniversário! Que diversão pode haver num menino? Eles não usam vestidos bonitos.

Adrianne riu, e aconchegou-se ainda mais.

- Se eu pusesse um vestido em Fahid, ele pareceria uma boneca.

Phobe comprimiu os lábios, tentando ignorar a pontada de angustiva. Fahid, o filho que a segunda esposa de Abdu gerara, depois que ela fracassara. Não, não fracassara, disse a si mesma. Como podia pensar como uma muçulmana. Como podia ter fracassado quando tinha uma linda criança nos braços?

Tudo, pensou Phoebe, furiosa. Eu lhe dei tudo.

- Mamãe?

- Eu estava pensando. - Phoebe sorriu, enquanto tirava a filha do colo. -Acho que você precisa de mais um presente... presente secreto.

- Um presente secreto?

Adrianne bateu palmas, as lágrimas esquecidas.

- Sente-se e feche os olhos.

Na maior alegria, Adrianne obedeceu, contorcendo-se na cadeira, enquanto tentava ser paciente. Phoebe escondera a pequena bola de vidro entre camadas de roupas. Não fora fácil contrabandeá-la para o país, mas estava aprendendo a ser inventiva. Também fora difícil conseguir as pílulas, as pequenas pílulas rosa que lhe tornavam possível chegar ao fim de cada dia. Abrandavam a angústia, aliviavam o coração. O melhor amigo de uma mulher. E Deus sabia que naquele país, uma mulher precisava de qualquer amigo que pudesse obter. Se as pílulas fossem descobertas, ela corria o risco de enfrentar u ma execução pública. Mas, se não as tivesse, não sabia se  seria capaz de sobreviver.

Um círculo vicioso. Adrianne era a única coisa que a segurava.

- Aqui está.

Phobe ajoelhou-se ao lado da cadeira. A filha usava um colar de safiras e brincos de brilhantes. Phoebe torceu para que o pequeno presente significasse muito mais para a filha.

- Pode abrir os olhos.

Era uma coisa simples, de uma simplicidade quase ridícula. Podia-se comprar por uns poucos dólares em milhares de lojas nos Estados Unidos, durante as férias. Adrianne arregalou os olhos, como se tivesse um objeto mágico nas mãos.

- É neve. - Phoebe virou a bola, fazendo os flocos flutuarem. - Na América, neva no inverno. Isto é, na maioria dos lugares. Na época do Natal, enfeitamos as árvores com luzes e bolas coloridas. Pinheiros, como o que você vê aqui. Eu andava com meu avô num trenó como este.

A cabeça encostada na filha, ela olhou para o cavalo e trenó em miniatura dentro da bola de vidro.

- Um dia, Addy, vou levá-la até lá.

- Isso dói?

-A neve?

Phoebe soltou uma risada. Sacudiu a bola. A cena tornou a se agitar, com a neve turbilhonando em torno do pinheiro ornamentado e do homenzinho no trenó vermelho, por trás do cavalo castanho. Era uma ilusão. Só lhe restavam suas ilusões e uma menina pequena para proteger.

- Não, querida. É fria e úmida. E você pode construir coisas com a neve. Bonecos, bolas, fortes. Fica linda nas árvores. Está vendo? Como aqui.

A própria Adrianne inclinou a bola.

- É mais bonita do que meu vestido novo. Quero mostrar a Duja.

- Não. - Phoebe sabia o que aconteceria se Abdu descobris-se. A bola era um símbolo de um dia sagrado cristão. Desde o nascimento de Adrianne que ele se tornara um fanático em relação à religião e à tradição. - É nosso segredo, lembra? Quando estivermos sozinhas, você pode olhar à vontade. Mas nunca quando houver outra pessoa presente.

Ela pegou a bola e escondeu-a na gaveta.

- Agora está na hora de nos aprontarmos para a festa.

Fazia calor no harém, embora os ventiladores girassem e as treliças estivessem fechadas contra a força do sol. A claridade que saía dos lampiões de copas filigranadas era suave e lisonjeira. As mulheres haviam vestidos suas melhores roupas. Deixavam os véus e abaayas pretos na porta, passando de corvos para pavões num piscar de olho.

Junto com os véus, as mulheres também descartavam seu silêncio. Passaram a conversar sobre crianças, sexo, moda e fertilidade. Em poucos minutos, o harém, com os lampiões suaves e almofadas macias, era preenchido pelo incenso e o perfume forte das mulheres.

Por causa de sua posição, Adrianne recebia as convidadas com um beijo em cada face. O chá verde e o café temperado eram servidos em  pequenas e frágeis, sem alça. Havia tias e primas, uma vintena de princesas menores, que exibiam com igual orgulho, como mulheres, suas jóias e suas crianças, os dois grandes símbolo do sucesso em seu mundo.

Adrianne achava-as lindas em seus vestidos compridos, farfalhando a todo instante, cor competindo com cor. Por trás dela, Phobe usou que era um desfile de moda apropriado ao século XVII. Aceitou os olhares compadecidos lançados em sua direção com a mesma expressão estóica com que recebia os olhares presunçoso. Sabia muito bem que era a intrusa ali, a mulher do Ocidente que não fora capaz de dar um herdeiro a seu rei. Não tinha importância, disse ela a si mesma, se a aceitavam ou não. Desde que fossem gentis com Adrianne.

Nesse ponto, é verdade, não podia encontrar qualquer senão. Adrianne era uma delas, como a mãe nunca poderia ser.

Todas se lançaram famintas sobre o bufê, provando de tudo. Usavam os dedos coma mesma freqüência das colheres de prata. Se ficavam gordas demais para seus vestidos, compravam outros. Era fazer compras, pensou Phoebe, que fazia as mulheres árabes agüentarem seu dia, assim como era a pílula rosa que a ajudava a suportar aquela vida. Nenhum homem que não fosse marido, pai ou irmão poderia vê-las naquelas roupas. Quando deixavam o harém, tornavam a vestir o manto preto, cobriam o rosto com o véu, escondiam os cabelos. Fora daquelas paredes eram aurat, coisas que não podem ser mostradas.

E que jogos elas faziam!, pensou Phoebe, cansada. Com sua hena, perfumes e anéis nos dedos. Podiam pensar que eram felizes", quando até mesmo ela, que não mais se importava, percebia o tédio em seus rostos. Ela pediu a Deus que Adrianne nunca exibisse aquela expressão.

Mesmo aos cinco anos de idade, Adrianne já tinha equilíbrio suficiente para cuidar que as convidadas se divertissem. Falava em árabe agora, a voz suave e musical. Adrianne nunca fora capaz de dizer à mãe que falava o árabe com mais facilidade do que o inglês. Pensava em árabe, até mesmo sentia em árabe. Muitas vezes, pensamentos e emoções tinham de ser traduzidos para o inglês antes que pudesse comunicá-los à mãe.

Sentia-se feliz ali, naquela sala, povoada por vozes femininas, por perfumes de mulher. O mundo de que sua mãe falava, de vez em quando, não passava de um conto de fadas para ela. A neve era apenas uma coisa que flutuava dentro de uma bola de vidro.

-Duja!

Adrianne correu pela sala para beijar as faces de sua prima predileta. Duja tinha quase dez anos. Para inveja e admiração de Adrianne, já era quase uma mulher. Duja retribuiu o abraço.

- Seu vestido é bonito.

- Eu sei.

Mas Adrianne não pôde resistir à tentação de passar a mão pela manga do vestido da prima.

- É de veludo - declarou Duja, com ar de importância.

O fato de o tecido grosso ser insuportavelmente quente não era nada em comparação com a imagem que ela via no espelho.

- Meu pai comprou para mim em Paris. - Ela deu uma volta completa; era uma menina esguia, morena, com o rosto fino e olhos grandes. - Ele prometeu que vai me levar na próxima viagem.

            - É mesmo – Adrianne tratou de reprimir a inveja que a dominou. Não segrcdo para ninguém que Duja era a predileta do pai, o irmão do rei. - Minha mãe já esteve lá.

Porque tinha um coração generoso e sentia-se feliz com o vestido de veludo, Duja afagou os cabelos de Adrianne.

- Você também irá um dia. Talvez possamos viajar juntas quando crescermos.

Adrianne sentiu um puxão na saia. Baixou os olhos e viu o meio-irmão. Fahid. Pegou-o no colo, para beijar todo seu rosto, o que fazia cair na gargalhada.

- Você é o menino mais bonito de Jaquir!

Ele era pesado, embora fosse dois anos mais moço. Adrianne teve de fazer força para agüentar o peso. Cambaleou um pouco, enquanto levava até a mesa, para pegar um doce.

Outros meninos também eram beijados e acariciados. Meninas da idade de Adrianne e até menores sempre mimavam os meninos. Desde o nascimento, as mulheres eram ensinadas que deveriam devotar todo tempo e energia para agradar os homens. Adrianne sabia apenas que adorava o irmão menor, e queria sempre fazê-lo sorrir.

O que Phoebe não podia suportar. Ficou observando enquanto Adrianne servia o filho da mulher que tomara seu lugar na cama e no coração do marido. Que diferença fazia se a lei ali dizia que um homem podia ter quatro esposas? Não era sua lei, não era seu mundo. Vivia em Jaquir há seis anos, e poderia continuar a viver por mais de 60, mas nunca seria seu mundo. Detestava os cheiros ali, densos, enjoativos, que tinham de ser tolerados, enquanto um dia apático sucedia outro. Phoebe passou a mão pela têmpora, onde uma dor começava a fazê-la latejar. O incenso, as flores, as camadas de perfume sobre perfume.

Ela detestava o calor, o calor sufocante e implacável.

Queria um drinque, não o café e o chá que sempre eram servidos, mas um vinho. Apenas um copo de vinho gelado. Mas nenhum vinho era permitido em Jaquir, enquanto o estupro sim, pensou ela, ao encostar um dedo no rosto dolorido. Surras e véus, chamadas para a oração e poligamia, mas não uma gota de Chabli, ou um cálice de Sancerre.

Como pudera achar o país lindo quando o vira pela primeira vez, como noiva? Contemplara o deserto, o mar, os muros altos brancos do palácio e achara que era o lugar mais misterioso e exótico do mundo.

Mas estava apaixonada naquele tempo. E que Deus a ajudasse, pois continuava apaixonada.

Naqueles primeiros dias, Abdu fizera-a perceber a beleza de seu país e a riqueza de sua cultura. Phoebe renunciara a seu país, aos costumes em que fora criada,  para tentar ser o que ele queria. E o que ele queria, logo ficou patente, era a mulher que vira na tela, o símbolo de sexo e inocência que ela aprendera a representar. Só que Phoebe era muito humana.

Abdu desejara um filho. Ela lhe dera uma filha. Queria que a esposa se tornasse uma criança de Alá, mas ela era e sempre seria o produto de sua criação.

Phoebe não queria pensar a respeito, no marido, em sua vida, em seu sofrimento. Precisava escapar por algum tempo. Tomaria apenas mais uma pílula, disse a si mesma, para ajudá-la a agüentar o resto do dia.

 

Quando estava prestes a completar 13 anos, Philip Chamberlain já era um ladrão consumado. Aos dez anos, já graduara em esvaziar os bolsos recheados de prósperos executivos, corretores e advogados e em bater as carteiras de turistas descuidados que esbarrava na Trafalgar Square. Era um arrombador de casas apartamentos, embora quem o visse não pudesse imaginar que fosse algo mais além de um menino bonito, bem-arrumado, um pouco magro.

Tinha mãos hábeis, olhos perceptivos e o instinto nato de um ladrão. Com astúcia, trapaça e punhos fortes, evitou ser atraído para qualquer uma das gangues de rua que vagueavam por Londres durante os últimos dias dos anos 60. Também não sentiu o impulso de distribuir flores e usar colares de contas. Aos 14 anos, Philip não era moderninho nem roqueiro. Trabalhava sozinho agora, e não via o menor sentido em usar um emblema de fidelidade. Era um ladrão, não um arruaceiro. Sentia apenas desprezo pelos delinqüentes que aterrorizavam as velhinhas e roubavam seu dinheiro para as compras no mercado. Era um homem de negócios e achava graça das pessoas de sua geração que falavam em vida comunitária ou tocavam guitarras de segunda mão enquanto povoavam a cabeça com sonhos de grandeza.

Tinha outros planos para si mesmo... grandes planos.

E a mãe estava no centro desses planos. Tencionava abandona. a existência da mão à boca. Sonhava com uma casa grande no cam­po, um carro de luxo, roupas elegantes e festas. Ao longo do último ano, começara a fantasiar também sobre mulheres elegantes. Por enquanto, porém, a única mulher em sua vida era Mary Cham­berlain, a mulher que o gerara e criara sozinha. Mais do que qual­quer outra coisa, ele queria proporcionar à mãe o melhor que a vida tinha a oferecer, trocar as jóias de fantasia reluzentes que ela usava por verdadeiras, tirá-la do pequeno apartamento à beira do que estava se tornando rapidamente o elegante distrito de Chelsea.

Fazia frio em Londres. O vento soprava a neve úmida no rosto de Philip, enquanto ele seguia apressado para o Faraday's Cinema, onde Mary trabalhava. Philip vestia-se bem. Um guarda na esquina quase nunca olhava duas vezes para um garoto bem-vestido, com a gola limpa. De qualquer forma, detestava calças remendadas e punhos puídos. Ambicioso, auto-suficiente e sempre com um olho no futuro, Philip descobrira uma maneira de ter o que queria.

Nascera pobre e órfão de pai. Aos 14 anos, não era bastante maduro para pensar nisso como uma vantagem, uma determinação que fortalecia a disposição. Ressentia-se da pobreza... mas se ressen­tia ainda mais do que era capaz de expressar do homem que entrara e saíra da vida de sua mãe, depois de gerá-lo. Para ele, Mary merecia o melhor. E, por Deus, ele também! Desde cedo, começara a usar os dedos ágeis e a inteligência para providenciar que ambos tivessem algo melhor.

Tinha no bolso uma pulseira de pérolas e diamantes, com brin­cos combinando. Ficara um pouco desapontado ao examiná-los com sua lupa. Os diamantes não eram de primeira categoria, e o maior deles tinha menos de meio quilate. Mas as pérolas tinham um bilho e ele achava que seu receptador na Broad Street lhe daria um bom dinheiro pelas jóias. Philip era tão eficiente nas negociações quanto era na arte de abrir fechaduras. Sabia exatamente quanto queria pelas jóias em seu bolso. O suficiente para comprar um casaco novo para a mãe, com uma gola de pele, como presente de Natal, e ainda dispor de uma quantia razoável para guardar no que chamava de seu fundo do futuro.

Havia  uma fila sutuosa na frente da bilheteria no Faraday's. A marquise anunciava o programa especial de feriado, Cinderela, de Walt Disney. Por isso, havia muitas crianças no maior excitamento, as vozes estridentes, acompanhadas por babás e mães exaustas. Philip sorriu ao passar pela porra. Podia apostar que a mãe já assisti­ra ao filme pelo menos uma dúzia de vezes. Nada deixava sua mãe mais satisfeita do que um final de "felizes para sempre".

- Oi, mamãe.

Ele entrou pelo fundo da bilheteria para beijá-la no rosto. Ali dentro não estava muito mais quente do que ao vento frio lá fora. Philip pensou no casaco vermelho de lã que vira na vitrine da Harrods. A mãe ficaria linda de vermelho.

- Oi, Phil.

Como sempre, o prazer iluminou os olhos de Mary ao vê-lo. Um menino muito bonito, com o rosto estreito, a expressão de es­!811, os cabelos dourados. Ela não sentiu uma pontada de angustia, como poderia acontecer com muitas mulheres ao ver o homem que amara com tanta intensidade - e por tão pouco tempo- refletido no rosto do filho. Philip era seu. Todo seu. Nunca lhe dera muito trabalho, nem mesmo quando era bebê. Nem uma única vez ela se arrependera de sua decisão de tê-lo, embora sozinha, sem marido, sem apoio da família. Na verdade, nunca ocorrera a Mary procurar uma dessas salas pequenas, clandestinas, onde uma mulher podia se livrar de um problema antes mesmo que surgisse.

Philip fora uma alegria para ela, desde o momento da concep­cão. Se tinha um arrependimento, era o de saber que ele se ressentia do pai que jamais conhecera e que procurava no rosto de cada homem que via.

- Suas mãos estão geladas, mamãe. Deveria usar luvas.

- Não posso dar o troco direito com luvas.

Mary sorriu para a jovem que tinha um menino no cangote.Nunca tivera de carregar seu Phil dessa maneira.

- Aqui está o troco, minha cara. Divirta-se.

A mãe trabalhava demais, pensou Philip. Por muito tempo, por pouco dinheiro. Embora fosse reservada em relação à idade, ele sabia que Mary mal completara os 30 anos. E era muito bonita. A aparência suave e jovem da mãe era uma fonte de orgulho para Philip. Ela podia não ter condições de se vestir com as roupas de Mary Quant, mas escolhia o pouco que tinha com cuidado e aten­ção para as cores ousadas. Adorava revistas de moda e de cinema, apreciava os novos penteados. Podia cerzir suas meias, mas Mary Chamberlain não era desmazelada e gostava de andar na moda.

Philip sempre esperava que outro homem entrasse na vida de sua mãe e a mudasse por completo. Ele correu os olhos pela peque­na bilheteria, que tinha um cheiro permanente dos vapores de des­carga de carros na rua. Trataria de mudar tudo primeiro.

- Devia dizer a Faraday para pôr algo melhor do que aquele velho aquecedor aqui, mamãe.

- Não se preocupe com essas coisas, Phil.

Mary contou o troco para duas adolescentes risonhas, que ten­tavam desesperadamente flertar com seu filho. Empurrou as moe­das pela calha, enquanto reprimia uma risada. Não podia culpá-las pela atitude. Afinal, já surpreendera até a sobrinha da vizinha - que tinha 25 anos, nem menos um dia - procurando atrair Phil. Sem­pre lhe oferecia um chá. Pedia-lhe para consertar a porta que rangia. Já era demais. Mary bateu com o troco na calha, com força suficien­te para arrancar um grunhido de uma babá de rosto redondo.

Pois acabaria com aquilo imediatamente. Sabia que Phil a dei­xaria um dia, e seria por causa de outra mulher. Mas não por uma vaca de seios enormes, pelo menos uma dúzia de anos mais velha. Não enquanto Mary Chamberlain fosse viva.

- Algum problema, mamãe?

- Como? - Ela recuperou o controle, quase corando. ­– Não querido, nenhum problema. Não gostaria de entrar para assistir o filme? O Sr. Faraday não se importaria.

Desde que ele não me veja, pensou Philip, com um sorriso. Agradecia a Deus por ter eliminado Faraday de sua lista de possíveis pais há muito tempo.

- Não, obrigado. Só passei para avisar que tenho alguns servi­cós para fazer. Quer que eu compre alguma coisa no mercado?

- Uma galinha seria ótimo.

Mary soprou as mãos, distraída, enquanto se recostava. Fazia frio na bilheteria, e seria ainda pior à medida que o inverno avançasse. No verão, era como um daqueles banhos turcos sobre os quais lera. Mas era um emprego. Quando uma mulher tinha um filho para criar e não muita instrução, tinha de aceitar o que apare­cia. Ela fez menção de estender a mão para a imitação de bolsa de couro. Nunca lhe passaria pela cabeça pegar uma ou duas notas de libra do caixa.

- Ainda tenho algum dinheiro.

- Está bem. Não deixe de verificar se a galinha é fresca.

Ela estendeu quatro ingressos para uma mulher aflita, acompanhada por dois garotos brigando e uma menina com lágrimas nos olhos, enormes.

A sessão começaria dentro de cinco minutos. Mary teria de permanecer na bilheteria por mais 20, para o caso de aparecer algum retardatário.

- E não deixe de tirar o dinheiro da galinha da lata da despesa quando chegar em casa.

Ela já sabia que o filho não faria isso. Ao contrário, Philip sem­pre punha dinheiro em vez de tirar.

- Mas você não deveria estar na escola?

- Hoje é sábado, mãe.

- Sábado? Ah, sim, hoje é sábado ... - Com um esforço para não suspirar, Mary esticou as costas. Pegou uma revista lustrosa, já muito folheada. - O Sr. Faraday vai apresentar um festival de Cary Grant no próximo mês. Até me pediu para ajudá-lo a escolher os filmes.

- Isso é ótimo.

O pequeno saco de couro começava a pesar no bolso de Philipe, que ansiava em sair dali.

- Vamos começar pelo meu filme predileto, Ladrão de CasacaI (To Catch a Thief). Tenho certeza de que você vai adorar.

- É possível.

Philip estudou atentamente os olhos inocentes da mãe. Costumava especular sobre o quanto ela sabia. A mãe nunca perguntava, jamais questionava os pequenos extras que ele levava para casa. Mary não era uma idiota, mas apenas uma otimista. Ele tornou a beijá-la no rosto e acrescentou:

- Por que não a levo para assistir ao filme em sua noite de folga?

- Seria maravilhoso. - Mary resistiu ao impulso de acariciar os cabelos do filho, sabendo que isso o deixaria embaraçado. ­Grace Kelly trabalha no filme. Imagine, uma princesa da vida real. Pensei a respeito esta manhã, quando abri uma revista, e deparei com uma reportagem sobre Phoebe Spring.

-Quem?

- Oh, Philip ... - Mary estalou a língua e abriu a revista na página da reportagem. - Phoebe Spring, a mulher mais linda do mundo.

- Minha mãe é a mulher mais linda do mundo.

Philip fez a declaração porque sabia que isso a faria rir e corar.

 - Você tem mesmo um jeito todo especial! - Mary riu, uma risada vigorosa, como ele adorava ouvir. - Mas olhe só para ela. Era uma atriz, uma atriz maravilhosa. Casou com um rei. Agora, vive com o homem de seus sonhos num palácio fabuloso em Jaquir. Parece um filme. E esta é a filha do casal. A princesa. Não tem cin­co anos, mas já possui uma beleza extraordinária ... não acha?

Philip lançou um olhar desinteressado para a foto.

- É apenas uma criança.

- Mas tem alguma coisa estranha nela. A pobre menina tem os olhos mais tristes que já vi.

- Esta inventando uma história de novo, mamãe.

Philip enfiou a mão no bolso, apertando o pequeno saco de couro. Deixaria a mãe com suas fantasias, os sonhos de Hollywood, realeza e limusines brancas. Mas ainda daria um jeito para que ela andasse num carro assim. Mais do que isso, compraria uma limusine a mãe. Agora, ela só podia ler sobre rainhas, mas algum dia viveria como uma rainha.

- Tcnho de ir agora.

- Divirta-se, querido.

Mary estava absorvida de novo na revista. Uma linda menina,, pensou ela de novo, sentindo um anseio maternal.

 

Adrianne adorava os suques, os mercados árabes. Quando tinha oito anos, já aprendera a avaliar a diferença entre diamantes e vidro cintilante, entre rubis birmaneses e pedras de cor de qualidade inferior. Com Jiddah, sua avó, aprendeu a julgar, com a mesma eficiência de um mestre joalheiro, a lapida­ção, a pureza e a cor. Vagueava por horas, acompanhando Jiddah, admirando as melhores pedras que os suques tinham a oferecer.

As jóias que uma mulher podia usar eram sua segurança, comentava Jiddah. De que serviam para uma mulher barras de ouro e dinheiro guardados num banco? Diamantes, esmeraldas, safiras podiam ser pregados nas lapelas, pendurados no pescoço ou nas orelhas para que uma mulher mostrasse ao mundo o quanto valia.

Nada agradava mais a Adrianne do que observar a avó barga­nhar nos mercados, enquanto o calor subia em ondas, para tornar o ar mais tremeluzente. Iam até lá, com freqüência, bandos de mu­lheres, vestidas de preto, como corvos, para apalpar cordões de ouro e prata, enfiar nos dedos anéis de pedras polidas ou apenas estudar o brilho das jóias através do vidro empoeirado, enquanto os cheiros de animais e condimentos pairavam no ar parado e os matawain vagueavam em suas barbas desgrenhadas, as pontas pintadas de hena, prontos para punir qualquer violação da lei religiosa. Adrianne nunca temia os matawain quando estava com Jiddah. A antiga rainha era reverenciada em Jaquir. Tivera 12 crianças. Quando faziam compras, o ar ressoava com os sons, os gritos das negociações, o zurro de um jumento, o barulho de sandálias no chão duro.

Quando o chamado para a oração soava, os suques fechavam. As mulheres esperavam, enquanto os homens baixavam o rosto para o chão.  Adrianne escutava os estalidos das contas de oração, a cabeça inclinada, como as outras mulheres. Ainda não usava véu, mas já não era mais uma criança. Naqueles últimos dias do verão mediterrâneo, ela esperava, suspensa à beira da mudança.

O mesmo acontecia com Jaquir. Embora o país lutasse contra a pobreza, a Casa de Jaquir era rica. Como a primeira filha do rei, tinha direito a símbolos e sinais de sua posição. Mas o coração de Abdu nunca se abrira para ela.

A segunda esposa lhe dera duas filhas, depois de Fahid. Circulara no harém o rumor de que Abdu tivera um acesso de raiva depois da segunda menina e quase se divorciara de Leiha. Mas o príncipe herdeiro era forte e bonito. Havia a especulação de que Leiha estava grávida de novo. Para garantir sua linhagem, Abdu tomou uma terceira esposa, que logo engravidou.

Phobe passou a tomar uma pílula a cada manhã. Escapava agora para seus sonhos durante todo o tempo, dormindo ou acordada.

No harém, com a cabeça aninhada em conforto no colo da mãe, os olhos contraídos contra a fumaça do incenso, Adrianne observava as primas dançarem. A tarde longa e quente estendia-se pela frente. Pensara em sair para fazer compras, talvez adquirir uma seda nova ou uma pulseira de ouro, como a que Duja lhe mostrara no dia anterior. Mas a mãe parecia apática demais pela manhã.

Fariam compras no dia seguinte. Hoje, os ventiladores agitavam o ar impregnado de incenso, enquanto os tambores ressoavam num ritmo lento. Latifa levara para o harém, às escondidas, um catálogo da Frederick's, de Hollywood. As mulheres examinavam as ofertas e riam. Como sempre, a conversa era sobre sexo. Adrianne estava bastante acostumada às palavras francas e descrições excitadas para se sentir interessada. Gostava de observar a dança, os movimentos longos e sinuosos, o fluxo dos cabelos escuros, as voltas dos corpo.

Adrianne olhou para Meri, a terceira esposa do pai, com a bar­riga estufada, contente e presunçosa, sentada ali perto, conversando sobre o parto. Leiha, o rosto contraído enquanto amamentava a filha mais nova, lançava olhares furtivos para Meri. Fahid, um menino corpulento, de cinco anos, aproximou-se da mãe, clamando por atenção. Sem a menor hesitação, Leiha largou a filha. Seu sorri­so era de triunfo quando levou o menino ao seio.

- É de admirar que eles cresçam para abusar de nós - murmurou Phoebe.

- O que disse, mamãe?

- Não foi nada.

Distraída, ela acariciou os cabelos da filha. A batida dos tambo­res vibrava em sua cabeça, monótona, inexorável, como os dias pas­sados no harém.

- Na América, todos os bebês são amados, meninos e meni­nas. E não se espera que as mulheres passem a vida tendo filhos.

- Como uma tribo permanece forte?

Phoebe suspirou. Havia dias em que não pensava mais com cla­reza. Tinha de culpar as pílulas por isso ... e também agradecer. O último suprimento lhe custara um anel de esmeralda, mas ganhara como bonificação uma garrafa de meio litro de vodca russa. Consu­mia da maneira mais comedida, tomando apenas um copo pequeno depois de cada vez que Abdu aparecia em seu quarto. Não lutava mais contra ele, não se importava mais; suportava ao pensar no conforto que sentiria ao tomar a vodca assim que ele se retirasse.

Podia ir embora. Se ao menos tivesse coragem, podia pegar Adrianne e fugir, de volta ao mundo real, onde as mulheres não eram obrigadas a cobrir o corpo em vergonha e se submeter aos caprichos mais cruéis dos homens. Podia voltar para os Estados Unidos, onde era amada, onde as pessoas lotavam os cinemas para assisti-Ia. Ainda podia representar. Não era o que fazia todos os dias? Nos Estados Unidos, poderia proporcionar uma boa vida a Adrianne.

Só que não podia partir. Phoebe fechou os olhos, tentando blo­quear o som dos tambores. Para deixar Jaquir, uma mulher precisa­va de autorização por escrito de um homem de sua família. Abdu nunca lhe daria essa permissão, pois continuava a desejá-la, por mais que a odiasse.

Phoebe já lhe suplicara que ele a deixasse ir embora, mas Abdu recusara. A fuga exigiria milhares de dólares, e um risco que ela estava quase disposta a assumir. Mas nunca deixaria Jaquir sem Adrianne. E não havia suborno bastante grande para tentar alguém a fornecer uma passagem ilegal para a filha do rei.

Phoebe também tinha medo. Medo do que ele poderia fazer com Adrianne. Ele a tomaria da mãe, pensou Phoebe. Não haveria nada que pudesse impedi-Io, nenhum tribunal para o qual apelar senão seu próprio tribunal, nenhuma polícia para recorrer senão sua própria polícia. Ela nunca arriscaria Adrianne.

Mais de uma vez, pensara em suicídio. A suprema fuga. Pen­sava a respeito como antes pensava no ato de amor, uma coisa a ser desejada, apreciada, prolongada. Às vezes, nas tardes quentes e in­termináveis, olhava para o vidro de pílulas e especulava qual seria a sensação de tomar tudo de uma só vez, resvalando depois por com­pleto para o nebuloso mundo dos sonhos. Algo glorioso. Chegara a ponto de despejar todas as pílulas na mão, contando-as e acari­ciando-as.

Mas havia Adrianne. Sempre Adrianne.

Por isso, ficaria. Drogava-se e continuaria drogando-se até que a realidade se tornasse suportável. Mas daria alguma coisa sua para a filha.

- Quero o sol - disse Phoebe, abruptamente. - Vamos sair para o jardim.

Adrianne queria permanecer onde estava, embalada pelas fra­grâncias e sons. Mas levantou-se, obediente, e saiu com a mãe.

O calor seco envolveu-as. Como sempre, doía nos olhos de Phoebe, fazendo-a ansiar por uma brisa do Pacífico. Já tivera uma casa em Malibu, onde adorava se sentar na varanda grande e espa­çosa e contemplar as ondas no mar azul.

Aqui havia flores, viçosas, exóticas, exalando um perfume in­tenso. Os muros eram altos, para evitar que uma mulher entrasse ali e tentasse qualquer homem de passagem. O Islã era assim. Uma mulher era uma criatura sexual fraca, sem força ou inteligência para guardar sua virtude. Os homens guardavam-na por ela.

O ar no oásis do jardim vibrava com o canto dos passarinhos. Na primeira vez em que vira aquele jardim, com sua exuberância de flores e perfumes inebriantes, Phoebe pensara que saíra direto de um filme. Ao redor, as areias do deserto se movimentavam, mas ali havia jasmins, oleandros, hibiscos. Laranjeiras e limoeiros em mi­niatura vicejavam. Ela sabia que os frutos, como os olhos de seu marido, eram amargos.

De uma maneira irresistível, ela foi atraída para o chafariz. Fora o presente que Abdu lhe dera quando a trouxera para o país, como sua rainha. Um símbolo do fluxo constante de seu amor. O amor há muito que secara, mas o chafariz continuava jorrando.

Phoebe ainda era sua esposa, a primeira das quatro que as leis lhe permitiam ter. Mas em Jaquir o casamento se tornara sua prisão. Ela girou o anel de diamante no dedo, enquanto observava a água murmurar no chafariz. Adrianne começou a jogar pedrinhas na água, para fazer a carpa brilhante nadar.

- Não gosto de Meri - disse Adrianne. Num mundo tão res­trito como o de um harém havia pouco para se falar, exceto as ou­tras mulheres e crianças. - Ela estufa aquela barriga e sorri assim.

Adrianne fez uma careta e Phoebe não pôde deixar de soltar uma risada.

- Ah, como você é boa para mim ... - Phoebe beijou o topo da cabeça da filha. - Minha pequena atriz!

Ela tinha os olhos do pai, pensou Phoebe, enquanto afastava os cabelos do rosto da menina. Ajudavam-na a lembrar-se do tempo em que Abdu a contemplava com amor e afeto.

- Na América, as pessoas entrariam em filas quilométricas só para vê-la.

Satisfeita com a idéia, Adrianne sorriu.

- Como acontecia com você?

- Isso mesmo. - Phoebe olhou para a água. Às vezes era difícil lembrar a outra pessoa que ela fora. - Era o que faziam para me ver. Eu sempre quis deixar as pessoas felizes, Addy.

- Quando a repórter veio, disse que sentiam saudade de você.

- Repórter? - Fora há dois ou três anos. Não, há mais tempo. Talvez quatro anos. Era estranho como o tempo se tornava indistinto. Abdu concordara com a entrevista para silenciar qualquer rumor sobre o casamento. Ela não esperava que a menina lembrasse. Afinal, Addy não devia ter mais do que quatro ou cinco anos na ocasião. - O que você achou dela?

- Falava de uma maneira esquisita, às vezes muito depressa. Os cabelos eram muito curtos, como os de um menino, da cor da palha. Ela ficou zangada porque só a deixaram bater algumas fotos e depois tiraram a câmera.

Phoebe sentou-se num banco de mármore. Adrianne continuou a jogar pedrinhas na água.

- Ela disse também que você era a mulher mais linda e mais invejada do mundo. Perguntou se usava um véu.

- Você não esquece nada, não é?

Phoebe também lembrava. Inventara uma história sobre o calor e a poeira, o uso do véu para proteger a pele.

- Gostei muito quando ela falou sobre você. - Adrianne também lembrava que a mãe chorara muito depois que a repórter fora embora. - Ela voltará?

- Talvez algum dia.

Mas Phoebe sabia que as pessoas esqueciam. Havia novos rostos, novos nomes em Hollywood. Até mesmo ela conhecia uns poucos, pois Abdu permitia que algumas cartas lhe fossem entregues. Faye Dunaway, Jane Fonda, Ann-Margret. Atrizes jovens e lindas, deixando sua marca, ocupando o lugar que outrora lhe pertencera.

Ela tocou no próprio rosto, sabendo que agora havia canto dos olhos. Um rosto que outrora aparecera na capa de todas as revistas. As mulheres pintavam os cabelos para ficarem iguais aos seus. Fora comparada a Monroe, Gardner, Loren. Depois, não fora mais comparada a ninguém; iniciara um padrão.

- Houve uma ocasião em que quase ganhei um Oscar. É o maior prêmio para uma atriz. Não ganhei, mas mesmo assim houve uma festa maravilhosa. Todos riam, conversavam, faziam planos. Era muito diferente de Nebraska, o lugar em que eu morava na idade que você tem agora, querida.

- Havia neve lá?

- Havia. - Phoebe sorriu e estendeu os braços. - E muita neve. Eu morava com meus avós, porque meu pai e minha mãe haviam morrido. Era muito feliz, mas nem sempre soube disso. Queria ser atriz, usar roupas lindas e ter muitas pessoas me amando.

- E se tornou uma estrela do cinema.

- Isso mesmo. - Phoebe roçou o rosto nos cabelos - Parece que foi há centenas de anos. Não nevava na Califórnia mas eu tinha o mar. Para mim era como um conto de fadas. E eu era a princesa sobre quem lera em todos os livros. Era muito árduo, mas eu adorava participar. Tinha uma casa para mim.

- Devia se sentir solitária.

- Não, não me sentia. Tinha amigos, pessoas com conversar. E viajei para lugares que nunca imaginei que conheceria ... Paris, Nova York, Londres ... Conheci seu pai em Londres.

 - Onde fica Londres?

- Inglaterra, Europa. Está esquecendo as lições.

- Não gosto de lições. Gosto de histórias. – Mas Adrianne pensou um pouco, porque sabia que as lições e para a mãe, outro segredo entre as duas. - Uma rainha mora em Londres, com um marido que é apenas um príncipe.

Adrianne esperou, certa de que a mãe a corrigiria desta vez. Era uma idéia absurda: uma mulher reinando sobre um país. Mas Phoebe limitou-se a sorrir e acenar com a cabeça em confirmação.

- Faz frio em Londres - acrescentou Adrianne. - E chove muito. Em Jaquir, o sol sempre brilha.

- Londres é uma cidade linda. - Uma das maiores habilidades de Phoebe sempre fora a facilidade que tinha de se situar num lugar, real ou imaginário, e vê-lo com absoluta nitidez. - Pensei que era o lugar mais lindo que já conhecera. Filmávamos lá, e as pessoas ficavam atrás das barreiras para assistir. Gritavam meu nome. Às vezes eu dava autógrafos e também posava para fotos. Foi nessa ocasião que conheci seu pai. Ele era muito bonito. E elegante.

- Elegante?

Um sorriso sonhador no rosto, Phoebe fechou os olhos.

- Não importa. Fiquei muito nervosa, porque ele era um rei. Havia um protocolo para lembrar e fotógrafos por toda parte. Mas depois que conversamos, nada mais tinha importância. Ele me levou para jantar e depois para dançar.

- Dançou para ele?

- Com ele. - Phoebe pôs Adrianne no banco, a seu lado. Ali perto, uma abelha zumbia, absorvendo néctar. O som era agradável em seus ouvidos, tornado musical pela droga. - Na Europa e na América, homens e mulheres dançam juntos.

Os olhos de Adrianne contraíram-se. - Isso é permitido?

- É sim. Uma mulher pode dançar com um homem, conversar, passear, ir ao teatro. Muitas coisas são permitidas. As pessoas saem juntas em dates.

- Saem? - Adrianne ainda tinha dificuldades com o inglês. - Dates são para comer!

Phoebe riu de novo. A filha ainda não distinguia o date que era um encontro romântico do date que significava tâmara. Sentia-se sonolenta ao sol. Podia lembrar como era dançar nos braços de Abdu. Como seu rosto era forte. E como as mãos eram gentis.

- O date neste caso não significa tâmara. Acontece quando um homem convida uma mulher para sair. Vai buscá-la em casa. Às vezes, leva flores. - Rosas, lembrou Phoebe, sonhadora. Abdu lhe enviara dúzias e mais dúzias de rosas brancas. - Podem jantar fora, ir ao teatro e cear depois. Ou podem ir dançar em alguma casa noturna superlotada.

- Dançou com meu pai porque eram casados?

- Não. Dançamos, nos apaixonamos e depois casamos. É diferente, Adrianne, muito difícil de explicar. A maior parte do mundo não é como Jaquir.

O medo insidioso, com que Adrianne convivia desde que testemunhara o estupro da mãe, aflorou-lhe agora.

- Você quer voltar.

Phoebe não percebeu o medo. Estava absorvida em seu pesar.

- É muito longe, Addy. Longe demais. Quando casei com Abdu, deixei tudo para trás. Mais do que imaginei na ocasião. Eu o amava e ele me queria. O dia do casamento foi o mais feliz da minha vida. Ele me deu O Sol e a Lua.

Ela levou a mão ao corpete, quase sentindo o peso e o poder do colar.

- Quando o usei, senti-me como uma rainha. Parecia que todos aqueles sonhos que eu tinha quando menina, em Nebraska, estavam se tornando realidade. Ele me deu parte de si mesmo na ocasião, parte de seu país. Significou tudo para mim quando ele prendeu o colar em meu pescoço.

- É o tesouro mais precioso de Jaquir. Mostrava que ele a prezava acima de qualquer outra coisa.

- Tem razão. Era o que realmente acontecia. Só que ele não me ama mais, Addy.

Adrianne sabia disso, já sabia há algum tempo, mas não queria aceitar.

- Você é esposa dele.

Phoebe baixou os olhos para o anel de casamento, que outrora significava tanto.

Uma de três esposas.

- Ele só tomou as outras porque precisa de filhos. Um homem deve ter filhos.

Phoebe pegou o rosto da filha entre as mãos. Viu as lágrimas e a angustia. Talvez tivesse falado demais, mas já era tarde para retirar as palavras.

- Sei que ele a ignora, e que isso a deixa magoada. Tente compreender que o problema não é com você, mas comigo.

- Ele me odeia.

-Não.

Mas era verdade. Abdu odiava a filha, pensou Phoebe, enquanto puxava Adrianne. E a assustava o ódio frio que percebia nos olhos do marido sempre que fitava a menina.

- Não, ele não a odeia - continuou Phoebe. - Tem um res­sentimento de mim, pelo que sou e pelo que não sou. E só percebe isso quando olha para você. Não vê a parte de si mesmo, talvez a melhor parte de si mesmo, que existe em você.

-Eu o odeio.

O medo tornou-se mais intenso. Ela olhou ao redor. Estavam a sós no jardim, mas as vozes se projetavam para longe, e sempre havia ouvidos para escutá-las.

- Não deve dizer isso, querida. Não deve nem pensar. Não pode compreender o que há entre mim e Abdu, Addy. Nem deve.

- Ele bate em você. - Adrianne recuou. Tinha os olhos secos agora, parecendo subitamente envelhecidos. - Por isso, eu o odeio. Ele olha para mim e não me vê. Por isso o odeio também.

- Não diga isso ...

Sem saber o que mais fazer, Phoebe tornou a puxar a filha para seus braços e balançou-a.

Adrianne não disse mais nada. Nunca tivera a intenção de deixar a mãe transtornada. Até as palavras saírem, nem mesmo tinha noção de que as guardava no coração. Agora que as expressara, tinha de aceitá-las. O ódio já se enraizara antes mesmo da noite em que vira o pai abusar da mãe. Crescera desde então, alimentado pela negligência e desinteresse de Abdu, os insultos sutis que a distinguiam das outras crianças.

Ela odiava, mas o ódio a envergonhava. Uma criança devia reverenciar os pais. Por isso, ela não falou mais a respeito.

Ao longo das semanas subseqüentes, Adrianne passou mais tempo do que nunca com a mãe, passeando pelo jardim, ouvindo as histórias de outros mundos. Continuavam a parecer irreais para ela, mas as apreciava, da mesma maneira como gostava das histórias de piratas e dragões da avó.

Quando Meri deu à luz uma menina e foi punida com um divórcio sumário, Adrianne ficou contente.

- Estou feliz porque ela foi embora.

Adrianne jogava uma partida de três-marias com Duja. O brinquedo fora permitido no harém depois de muito debate e discussão.

- Para onde vão mandá-la?

Embora Duja fosse mais velha, era um fato aceito que Adrianne tinha mais habilidade para obter informações.

- Ela terá uma casa na cidade. Pequena.

Adrianne riu e pegou as três pedras com dedos ágeis. Poderia ter compaixão pelo destino de Meri, mas a ex-esposa do rei tudo fizera para ser detestada pelas outras mulheres.

- Fico contente porque ela não vai mais viver aqui. - Duja jogou os cabelos para trás, enquanto esperava sua vez. - Agora não teremos mais de ouvi-la se gabar da freqüência com que o rei a visitava e de quantas maneiras ele plantava sua semente.

Adrianne errou a jogada. Olhou ao redor, à procura da mãe. Mas como falavam em árabe, concluiu que a mãe não entenderia.

- Você quer fazer sexo?

- Claro! - Duja jogou as pedras e estudou o resultado. - Quando casar, meu marido me visitará todas as noites. Eu lhe darei tanto prazer que ele nunca irá precisar de outra esposa. Manterei minha pele macia, os seios firmes. E as pernas abertas.

Adrianne notou que uma das pedras tremeu, mas deixou a infração passar. Suas mãos eram mais rápidas e mais ágeis do que as de Duja, e era a vez de a prima ganhar.

- Pois eu não quero fazer sexo.

- Não diga bobagem! Todas as mulheres querem fazer sexo. A lei nos mantém separadas dos homens porque somos fracas demais para resistir. Só paramos quando ficamos velhas como a vovó.

- Então sou tão velha quanto a vovó.

As duas riram e voltaram ao jogo.

Duja não entenderia, pensou Adrianne, enquanto continuavam a jogar. Sua mãe não queria fazer sexo e era jovem e bonita. Leiha tinha medo porque dera ao marido duas filhas. Adrianne não queria  porque já vira que era cruel e feio.

Apesar disso, não havia outro jeito de ter bebês, e ela gostava muito de bebês. Talvez encontrasse um marido gentil, que já tivesse esposas e filhos. Nesse caso, ele não ia querer fazer sexo com ela, que poderia cuidar das crianças da casa.

Quando se cansaram do jogo, Adrianne encontrou a avó e subiu para seu colo. Jiddah era viúva e fora uma rainha. O amor por doces estava lhe custando os dentes, mas os olhos continuavam penetrantes.

- Aqui está minha linda Adrianne.

Jiddah abriu a mão e ofereceu-lhe um chocolate embrulhado em papel laminado. Com uma risada, Adrianne pegou-o. Porque gostava do lindo papel, tanto quanto do chocolate, ela o abriu devagar, com todo cuidado. Num hábito que nunca deixava de acalmá-la, Jiddah pegou uma escova e começou a passá-la nos cabelos da neta.

- Vai visitar o novo bebê, vovó?

- Claro. Amo todos os meus netos. Até aqueles que roubam meus chocolates. Por que Adrianne parece tão triste?

- Acha que o rei vai se divorciar de minha mãe?

Jiddah já notara e se preocupava com o fato de Adrianne não chamar mais Abdu de pai.

- Não sei. Mas ele não fez isso em nove anos.

- Se ele se divorciasse, nós iríamos embora e eu sentiria muita saudade sua.

- Eu também teria saudade. - A criança já não era mais criança sob muitos aspectos, pensou Jiddah, largando a escova. ­Não deve se preocupar com isso, Adrianne. Você está crescendo. Um dia, muito em breve, vai se casar. E eu terei bisnetos.

- E dará chocolates e contará histórias.

- Isso mesmo. Inshallah. - Ela comprimiu um beijo nos cabelos de Adrianne. Eram um pouco perfumados e escuros como a noite. - E amarei meus bisnetos como amo você.

Adrianne virou-se e passou os braços pelo pescoço de Jiddah. A fragrância de papoulas e condimentos em sua pele era tão confortadora quanto a pressão do corpo franzino.

- E eu sempre amarei você, vovó.

- Adrianne. Yellah.

Fahid puxava sua saia. Tinha a boca já suja de chocolate de uma visita anterior à avó. O throbe de seda que a mãe lhe fizera estava sujo.

- Venha comigo - disse ele, em árabe, dando outro puxão na saia.

- Ir para onde?

Porque já estava disposta a brincar com o irmão, Adrianne deixou o colo da avó e fez cócegas nas costelas do menino.

- Quero a piorra. - Ele gritou e se contorceu, antes de dar um beijo estalado em Adrianne. - Quero ver a piorra!

Ela embolsou outro punhado de chocolates, antes de deixar que Fahid a levasse embora. Riam enquanto disparavam pelos corredores, com Adrianne soltando gemidos e ofegos exagerados, enquanto Fahid a puxava pela mão. Ela tinha um quarto menor do que o da maioria das outras crianças, um dos insultos sutis do pai. A única janela dava para a beira do jardim. Ainda assim, era bonito, decorado no rosa e branco que ela mesma escolhera. Num canto havia prateleiras com brinquedos, muitos dos quais enviados da América por uma mulher chamada Celeste, a melhor amiga de sua mãe.

A piorra chegara anos antes. Era um brinquedo simples, mas muito colorido. Quando a alça era puxada, girava depressa, emitin­do um zumbido agradável e misturando o vermelho, o azul e o ver­de. Logo se tornara o brinquedo predileto de Fahid ... a tal ponto que recentemente Adrianne o tirara das prateleiras e o escondera.

- Quero a piorra.

- Sei disso. Na última vez em que quis, bateu com a cabeça no chão ao tentar subir para pegá-lo, quando eu não estava aqui. - E quando o rei soubera, Adrianne passara uma semana de castigo em seu quarto. - Feche os olhos.

Ele sorriu e sacudiu a cabeça em negativa.

Também sorrindo, Adrianne abaixou-se, até que ficaram com os narizes quase encostados.

- Feche os olhos, meu irmão, ou não terá a piorra. O menino fechou os olhos.

- Se for bonzinho, deixarei que fique com a piorra durante o dia inteiro.

Ela recuou enquanto falava e enfiou-se embaixo da cama, onde guardava seus maiores tesouros. No momento mesmo em que estendia a mão para a piorra, Fahid rastejou a seu lado.

- Fahid! - Com a exasperação que as mães demonstram com os filhos prediletos, ela beliscou de leve o rosto do menino. - Você é muito mau.

- Eu amo Adrianne.

Como sempre, o coração de Adrianne se derreteu. Afastou do rosto do irmão os cabelos desgrenhados.

- Eu amo Fahid. Mesmo quando ele é mau.

Ela pegou a piorra e começou a sair de baixo da cama. Mas os olhos penetrantes de Fahid já haviam focalizado a bola de Natal.

- Que linda! - Com uma intensa satisfação, ele pegou a bola, com as mãos sujas de chocolate. - É minha!

- Não, não é sua! - Adrianne segurou-o pelos calcanhares para puxá-lo. - E é um segredo.

Os dois acomodados no tapete, Adrianne pôs as mãos nos lados das mãos do irmão e as sacudiu. A piorra foi esquecida, enquanto a irmã observavam a neve cair dentro da bola.

- É o meu tesouro mais precioso. - Ela suspendeu as mãos para que a luz passasse através do vidro. - Uma bola mágica.

- Mágica! - Fahid ficou com a boca entreaberta, enquanto à irmã tornava a inclinar a bola. - Dá para mim!

Ele tirou a bola de Adrianne e levantando-se de um pulo.

 - Mágica! Quero mostrar para mamãe!

- Não, Fahid, não!

Adrianne também levantou-se enquanto o irmão corria para à porta. Encantado com a nova brincadeira, o menino acionou as pernas curtas e roliças. Sua risada ressoava pelas paredes enquanto corria, brandindo a bola de vidro como se fosse um troféu. Para animar a brincadeira, ele entrou no túnel que ligava a ala das mulheres com os aposentos do rei.

Adrianne sentiu nesse instante uma pontada de preocupação, que a fez hesitar. Como uma filha da casa, o túnel era proibido. Então se adiantou, com a idéia de atrair Fahid de volta com a promessa de uma nova e fascinante brincadeira. Mas quando o riso do irmão cessou abruptamente, ela entrou no túnel. Ele estava esparramado no chão, os lábios tremendo, aos pés de Abdu.

O rei parecia muito alto e poderoso, parado ali, as pernas entreabertas, olhando para o filho. Seu throbe branco roçava no chão, no lugar onde Fahid caíra. Não havia muita luz no túnel, mas Adrianne podia ver o brilho de raiva nos olhos de Abdu.

- Onde está sua mãe?

- Por favor, senhor. - Adrianne adiantou-se, apressada. Manteve a cabeça baixa, em submissão, enquanto o coração batia forte. - Eu estava cuidando de meu irmão.

Abdu fitou-a. Viu os cabelos desgrenhados, a poeira no vestido, as mãos úmidas e nervosas. Poderia empurrá-la para o lado com um simples movimento do braço. Mas seu orgulho lhe dizia que ela não valia nem mesmo isso.

- Faz um péssimo trabalho ao cuidar do príncipe.

Ela não disse nada, pois sabia que nenhuma resposta era esperada. Manteve a cabeça baixa, para que o pai não pudesse perceber o brilho de fúria em seus olhos.

- Lágrimas não são para os homens, muito menos para os reis. E abaixou-se com alguma gentileza para levantar Fahid. Foi então que notou a bola que o filho ainda segurava.

- Onde conseguiu isso? - A raiva estava de volta, cortante como uma espada. - É uma coisa proibida!

Abdu arrancou a bola do filho, fazendo-o choramingar.

- Vai me envergonhar? E envergonhar nossa casa?

Porque sabia que a mão do pai podia golpear depressa e com força, Adrianne interpôs-se entre o pai e o irmão.

- A bola é minha. Eu a dei para ele.

Ela preparou-se para o golpe, que não veio. Em vez de fúria, deparou com gelo. Adrianne descobriu que a indiferença fria podia ser mais dolorosa do que as punições. As lágrimas afloraram aos olhos, mas ela fez um esforço para contê-las, enquanto fitava o pai. Tinha certeza de que Abdu queria que ela chorasse. E se olhos secos eram sua única defesa, então não permitiria que as lágrimas se derramassem.

- Então quer corromper meu filho? Oferecer símbolos cristãos sob o disfarce de um brinquedo? Eu já deveria esperar a traição de alguém como você!

Ele jogou a bola contra a parede, espatifando-a. Apavorado, Fahid agarrou-se nas pernas da irmã.

- Volte para as mulheres, que é seu lugar! E daqui por diante está proibida de tomar conta de Fahid!

Abdu pegou o filho e virou-se. Fahid, o rosto inchado e molhado de lágrimas, estendeu os braços, gritando o nome da irmã.

 

A desgraça a tornou forte. E calada. E orgulhosa. Ao longo dos meses subseqüentes, Phoebe preocupou-se com a filha. Há anos que Phoebe convivia com a própria infelicidade, usando-a como uma muleta, porque não via opção. Seu modo de vida americano terminara quando pisara no país de seu marido. Desde o início, as leis e as tradições de Jaquir haviam sido contra ela. Era uma mulher, e, como tal, apesar de suas convicções, apesar de seus desejos, era obrigada a se conformar.

Ao longo dos anos, Phoebe encontrara um único conforto para aliviar seu encarceramento. A seus olhos, Adrianne era uma menina contente, até mesmo apropriada para a vida em Jaquir. Tinha uma herança, um título, uma posição que nem mesmo o desfavor do rei podia lhe tirar. Tinha família, companheiras. Tinha segurança.

Phoebe sabia que os ocidentais começavam a vir em levas para Jaquir e outros países do Oriente Médio, atraídos pelo petróleo. E por causa dessa nova situação, ela tornava a se encontrar com repórteres, desempenhando o papel de rainha do deserto dos contos de fadas. Com os ocidentais em Jaquir, haveria progresso. Com o tempo, poderia até haver uma liberação. Ela se apegava a essa possibilidade... não mais por si mesma, mas por Adrianne. À medida que os meses foram passando, no entanto, ela começou a compreender que se novas liberdades viessem para Jaquir, chegariam tarde demais para beneficiar a filha.

Adrianne era quieta e obediente, mas não se mostrava muito feliz. Brincava com as outras meninas e escutava as histórias da avó, mas não era mais uma criança. Phoebe passou a ansiar por sua terra com mais intensidade do que antes. Sonhava em voltar, levando Adrianne, em mostrar à filha um mundo além das leis e limitações de Jaquir.

Mas, mesmo enquanto sonhava, ela não acreditava que fosse possível. Por isso, recorria aos tranqüilizantes e bebidas alcoólicas proibidas como o único refúgio que podia encontrar.

Não era uma mulher sofisticada. Apesar de sua ascensão no mundo do entretenimento, permanecera a moça ingênua da pequena fazenda em Nebraska. Em seus dias no cinema, testemunhara o consumo excessivo de bebidas e drogas. Mas, de uma maneira que lhe era natural, passava por cima do que era desagradável e acreditava em ilusões.

Em Jaquir, tornou-se uma viciada, embora ignorasse o fato. As drogas tornavam-lhe os dias suportáveis e as noites indistintas. Vivia no Oriente Médio há quase tanto tempo quanto vivera na Califórnia, mas com as drogas perdera a noção do tempo. Tornara-se ali uma ilusão, tal como as mulheres que representara no cinema.

Ser chamada aos aposentos de Abdu deixou-a com muito medo. Nunca se falavam em particular agora. Em público, quando ele desejava, apresentavam-se como um casal de romance. A deslumbrante estrela de cinema e o rei elegante. Embora detestasse câmeras, Abdu permitia que a imprensa os fotografasse juntos. Ele trilhava um caminho delicado entre o líder tradicional de sua cultura e o símbolo do progresso. Mas os dólares, marcos alemães e ienes entravam em jorros no país, enquanto o petróleo saía.

Era um homem que estudara no Ocidente. Podia jantar com presidentes e primeiros-ministros, deixando-os com a impressão de uma mente brilhante e aberta. Mas fora criado em Jaquir, educado no Islã. Na juventude, acreditara que poderia haver uma fusão. Agora, via o Ocidente apenas como uma ameaça, até mesmo uma abominação para Alá. Essas convicções haviam se consolidado por causa de Phoebe. Ela era seu símbolo de corrupção e desonra.

Fitou-a agora, parada à sua frente, num traje preto que a cobria do pescoço aos tornozelos. Tinha os cabelos cobertos por um lenço de tal maneira que nenhuma insinuação do brilho de fogo aparecia. A pele era pálida, não tão sedosa quanto antes, e os olhos continuavam opacos.

Drogas!, pensou Abdu, repugnado. Sabia tudo a respeito, mas optara por ignorar. Bateu com um dedo na escrivaninha de ébano, sabendo que o medo de Phoebe aumentava a cada momento que a deixava esperando.

- Você foi convidada a ir a Paris, para um baile de caridade.

- Paris?

- Parece que houve um festival com seus filmes. Talvez a pessoas achem engraçado ver a esposa do Rei de Jaquir se expor.

Phoebe levantou a cabeça, num movimento abrupto. Ele sorriu, esperando que ela protestasse, a fim de que pudesse esmagar até mesmo aquele pequeno desafio. Mas Phoebe falou em voz suave:

 - Houve um tempo em que o Rei de Jaquir também se sentia satisfeito em assistir Phoebe Spring no cinema.

O sorriso desapareceu. Abdu lembrou as horas de auto-aversão que passara vendo-lhe os filmes e desejando-a.

- Consideram que sua presença seria de interesse para as pessoas que costumam comparecer a essas festas de caridade.

Phoebe fez um esforço para manter a voz calma, sob controle.

- Vai permitir minha viagem a Paris?

- Tenho negócios para tratar lá. Seria conveniente que minha esposa americana me acompanhasse, para mostrar a ligação de Jaquir com o Ocidente. E tenho a certeza de que compreende o que espero de você.

- Claro que compreendo. - Phoebe sabia que não devia se mostrar muito satisfeita, mas não pôde evitar um sorriso. - Um baile ... em Paris?

- Já mandei fazer um vestido. Você usará O Sol e a Lua e se apresentará como se espera da esposa do Rei de Jaquir. Se me causar algum embaraço, você terá uma "indisposição" e será mandada de volta no mesmo instante.

- Compreendo perfeitamente. - A perspectiva de voltar a Paris, a simples perspectiva, já a deixava mais forte. - Adrianne ...

- Já foram tomadas as providências para ela - interrompeu Abdu.

- Providências? - Phoebe sentiu o bafo gelado do medo na nuca. Deveria ter se lembrado de que Abdu sempre que dava com uma das mãos tirava com a outra. - Que tipo de providências?

- Não lhe interessam.

- Por favor ... - Sabia que tinha de ser muito cuidadosa. - Só quero prepará-la, para ter certeza de que ela será uma glória para a Casa de Jaquir.

Phoebe baixou a cabeça, mas não pôde evitar que os dedos se retorcessem e entrelaçassem.

- Sou apenas uma mulher e ela é minha única filha.

Abdu arriou na cadeira atrás da mesa, mas não gesticulou para Phoebe sentar.

- Ela vai para uma escola na Alemanha. Achamos que é uma boa disposição para as mulheres de sua posição antes do casamento. - Oh, não! Pelo amor de Deus, Abdu, não a mande para uma escola tão longe!

O orgulho esquecido, a cautela esquecida, Phoebe contornou a mesa para se jogar a seus pés.

- Não pode levá-la! Adrianne é tudo o que tenho! E você não se importa com o que lhe possa acontecer. Não fará diferença para você se ela ficar comigo.

Ele agarrou-a pelos pulsos, afastando-lhe as mãos de seu throbe.

 - Ela faz parte da Casa de Jaquir. O fato de que seu sangue corre pelas veias da menina é mais uma razão para que ela seja sepa­rada de você e educada de uma maneira apropriada, antes de seu noivado com Kadeem al-Misha.

- Noivado? - Tremendo de medo, Phoebe tornou a segurá-lo. - Ela é apenas uma criança! Nem mesmo em Jaquir casam as crianças.

- Ela casará quando completar 15 anos. Os acertos já estão quase concluídos. Ela terá finalmente algum proveito para mim, como esposa de um aliado.

Abdu tornou a agarrá-la pelos pulsos, mas desta vez puxou-a ao encontro de seu corpo.

- Devia se sentir agradecida por eu não entregá-la a um inimigo. A respiração de Phoebe era forte, com o rosto quase encontrando o de Abdu. Por um instante atordoada, teve vontade de matá-lo com as próprias mãos, cravando as unhas em seu rosto e vendo o sangue correr. Se servisse para salvar Adrianne, ela o teria feito. Mas a força de nada adiantaria. Nem a razão. Só restava a astúcia.

- Perdoe-me. - Ela ficou murcha, deixando os olhos brilharem com lágrimas. - Sou fraca e egoísta. Pensei apenas em perder minha filha, não na sua generosidade em providenciar um bom casamento para ela.

Phoebe tornou a se ajoelhar, tomando cuidado para manter a pose subserviente ao máximo. Enxugou os olhos, como se recuperasse o bom senso.

- Sou uma mulher tola, Abdu, mas não tão tola que não possa me sentir agradecida. Ela aprenderá a ser uma boa esposa na Alemanha. Espero que se orgulhe de sua filha.

- Cumprirei meu dever para com ela.

Impaciente, ele gesticulou para que Phoebe se levantasse.

- Talvez permita que ela nos acompanhe na viagem a Paris. ­O coração batendo forte, ela cruzou as mãos. - Muitos homens preferem uma esposa que já viajou, que possa acompanhá-lo nas viagens de negócios ou de turismo, para que seja uma ajuda em vez e um estorvo. Por causa de sua posição, muito vai se esperar de Adrianne. A educação que você teve na Europa e suas experiências ali serviram com certeza para proporcionar uma melhor compreensão do mundo e do papel de Jaquir.

O primeiro pensamento de Abdu foi o de descartar a idéia no esmo instante. Mas as últimas palavras de Phoebe acertaram o alvo. Ele estava absolutamente convencido de que o tempo que passara em cidades como Paris, Londres e Nova York haviam-no transformado num rei melhor, num filho mais puro de Alá.

- Pensarei a respeito.

Phoebe resistiu ao impulso de suplicar. Baixou a cabeça.

- Obrigada.

O coração de Phoebe ainda batia forte quando ela voltou a seus aposentos. Queria beber, tomar uma pílula, esquecer sua situação. Em vez disso, deitou na cama e forçou-se a pensar.

Todos aqueles anos desperdiçados, esperando que Abdu voltasse a ser o homem que era antes, esperando que sua vida voltasse a ser como antes. Permanecera em Jaquir porque ele exigira; e porque, mesmo que conseguisse fugir, Abdu ficaria com Adrianne.

Porque fora fraca, confusa, medrosa, vivera quase dez anos de sua vida como escrava. Mas isso não aconteceria com Adrianne. Nunca! Não importava o que ela precisasse fazer, não permitiria que Adrianne lhe fosse tirada, entregue a algum estranho, para levar uma vida de prisioneira.

O primeiro passo era Paris, disse ela a si mesma, enquanto enxugava o suor da testa. Levaria Adrianne para Paris e nunca mais voltariam.

- QUANDO EU FOR A PARIS, COMPRAREI UMA PORÇÃO DE roupas bonitas. - Duja observou Adrianne ajeitar no braço uma pulseira de ouro e tentou não sentir inveja. - Meu pai diz que vai comer num lugar chamado Maxim's, e que eu terei qualquer coisa que quiser.

Adrianne virou-se. Tinha as palmas sempre úmidas de nervosismo, mas sentia medo de limpá-las no vestido.

 - Trarei um presente para você.

A inveja esquecida, Duja sorriu.

-Só um?

- Um presente especial. Vamos subir na Torre Eiffel e ir a um lugar em que há milhares de quadros. E depois... - Ela comprimiu a mão contra a barriga. - Estou me sentindo mal.

- Se estiver doente, não vai poder viajar. Portanto, é melhor não ficar. Leiha está zangada.

Ela falou apenas na esperança de fazer Adrianne se sentir melhor. As criadas já haviam levado as malas. Duja passou o braço pelos ombros de Adrianne para acompanhá-la.

- Ela quer ir, mas o rei só vai levar você e sua mãe. Leiha tem de se contentar com a nova gravidez.

- Se eu comprar presentes para Fahid e minhas irmãs, você pode entregar?

- Claro. - Ela beijou o rosto de Adrianne. - Sentirei saudade.

- Voltaremos logo.

- Mas você nunca viajou.

O harém estava cheio de mulheres, todas dominadas pelo excitamento da viagem que só duas fariam. Havia abraços para serem trocados, risos partilhados. Phoebe estava de véu e abaaya, as mãos cruzadas na cintura, o rosto impassível. As fragrâncias, os cheiros intensos do harém sufocavam-na, quase a ponto de poder vê-los. Se houvesse um Deus, ela nunca mais veria aquelas pessoas nem aquele lugar! Por uma vez, sentiu-se grata por ter o rosto quase todo coberto. Significava que só precisava controlar os olhos.

A onda de pesar surpreendeu-a, enquanto beijava as cunhadas, a sogra, as primas pelo casamento. Todas as mulheres com quem convivera há quase dez anos.

- Adrianne deve sentar-se à janela - disse Jiddah a Phoebe, enquanto beijava e abraçava as duas. - Assim ela poderá ver Jaquir, enquanto o avião sobe.

Ela sorriu, satisfeita, porque o filho finalmente demonstrava algum interesse pela criança, que era, secretamente, sua predileta. - Não coma muito creme francês, minha doce menina. Adrianne sorriu e, erguendo-se na ponta dos pés, beijou Jiddah pela última vez.

- Comerei tanto que ficarei gorda. Não vai me reconhecer quando eu voltar.

Jiddah riu. Afagou o rosto de Adrianne com a mão ornamentada com hena.

- Sempre a reconhecerei. Vá agora. E volte sã e salva. lnshallah.

 Elas deixaram o harém, atravessaram o jardim e passaram por um portão no muro. O carro as esperava ali. Os nervos de Adrianne estavam tensos demais para perceber o silêncio da mãe. Falou sobre a viagem de avião, Paris, o que veriam, o que comprariam. Fez uma pergunta e depois continuou a falar, sem esperar pela resposta.

Ao chegarem ao aeroporto, Adrianne sentia-se mal de tanto excitamento, enquanto Phoebe passava mal de medo.

Até agora, a vinda dos executivos ocidentais apenas complicara o procedimento no aeroporto. Os aviões pousavam e partiam com mais freqüência e o transporte em terra limitava-se a alguns táxis cujos motoristas falavam em inglês. O pequeno terminal estava lotado, com as mulheres de um lado e os homens do outro. Americanos e europeus, confusos, esforçavam-se em proteger suas bagagens de carregadores com algum excesso de entusiasmo, enquanto esperavam desesperados por vôos de conexão, que às vezes demoravam dias. Esses czares do capitalismo eram quase sempre obrigados a esperar, vítimas de um hiato cultural que se alargara para um abismo ao longo dos séculos.

O ar vibrava com o barulho dos aviões, a cacofonia de vozes em línguas diferentes, que subiam e desciam, muitas vezes sem que o interlocutor entendesse. Adrianne avistou uma mulher sentada ao lado de uma pilha de bagagem, o rosto molhado de lágrimas, pálida de exaustão. Outra conduzia três crianças pequenas, que olhavam e apontavam para as mulheres árabes, em seus mantos pretos e véus.

- Há muitos estrangeiros aqui - murmurou Adrianne, enquanto eram conduzi das através da multidão pelos seguranças. - Por que eles vêm?

- Pelo dinheiro. - Phoebe olhou para a esquerda e a direita. Fazia tanto calor que tinha medo de desmaiar. Mas as mãos estavam geladas. - Vamos depressa.

Ela pegou a filha pela mão e levou-a para fora do terminal. O novo avião particular de Abdu, comprado com dinheiro do petróleo, as esperava na pista.

Adrianne sentiu a boca ressequida ao ver o avião.

- É muito pequeno.

- Não se preocupe. Estarei com você.

Lá dentro, a cabine era luxuosa, apesar do tamanho. As poltronas  eram estofadas, com um tecido cinza-escuro. O tapete era vermelho tinto. Havia pequenas lâmpadas junto de cada poltrona. Maravilhosamente fresco, o ar recendia a sândalo, a fragrância preferida do rei. Os criados, esperando para servir as comidas e bebidas, fizeram uma reverência, em silêncio.

Abdu já embarcara. Examinava uma pilha de documentos, junto com seu secretário. Trocara o throbe por um terno feito em Londres, mas o usava com turbante do Oriente Médio. Não olhou quando as duas embarcaram e se sentaram. Limitou-se a fazer um sinal indiferente para um de seus homens. O motor entrou em funcionamento momentos depois. Adrianne sentiu um frio no estôma­go quando o avião começou a subir.

-Mamãe!

- Estaremos acima das nuvens num instante. - Phoebe manteve a voz baixa, agradecida por Abdu ignorá-las. - Assim como as aves, Addy. Fique olhando.

Ela encostou o rosto na cabeça de Adrianne, enquanto acres­centava:

- Jaquir está ficando para trás.

Adrianne tinha vontade de vomitar, mas sentia medo, por causa da presença do pai. Com determinação, cerrou os dentes, engoliu em seco e observou o mundo diminuir lá embaixo. Depois de algum tempo, o embrulho em seu estômago diminuiu. Foi a vez de Phoebe falar. E ela falou em voz tão baixa que embalou Adrianne para o sono. Phoebe ficou olhando para as águas azuis do Mediter­râneo, enquanto orava.

PARIS ERA UMA FESTA PARA OS SENTIDOS. ADRIANNE SEGURAVA a mão da mãe e olhava aturdida para tudo, enquanto atravessavam o aeroporto, apressadas. Sempre pensara que as histórias da mãe sobre outros lugares não passavam de contos de fadas. Agora, ela passava por uma porta e entrava num mundo que só existira em sua imaginação.

Até mesmo sua mãe estava diferente. Tirara a abaaya e o véu. Por baixo, usava um elegante tailleur ocidental, da mesma tonalida­de de seus olhos. Os cabelos estavam soltos, gloriosamente ruivos, espalhando-se pelos ombros. Ela até falara com um homem, um estranho, ao passarem pela alfândega. Adrianne olhara para o pai, amedrontada, esperando pela punição. Mas ele nada fez.

Mulheres passavam por ali, às vezes sozinhas, às vezes de braço dado com um homem. Usavam saias e calças compridas justas, mostrando os contornos das pernas. Andavam de cabeça ergui da, os quadris balançando, mas ninguém olhava aturdido para elas. Espantada, Adrianne viu até um casal se beijar e se abraçar, enquanto outras pessoas passavam pelos lados. Não havia matawain, com o chicote de pêlo de camelo e a ponta da barba pintada de hena, para prendê-los.

O sol se punha quando deixaram o terminal. Adrianne esperou para ouvir o chamado para a oração, mas não houve nada. Também havia confusão ali, mas era mais rápida e um pouco mais organizada do que a confusão no aeroporto de Jaquir. As pessoas espremiam-se em táxis, homens e mulheres juntos, sem inibição, sem segredo. Phoebe teve de puxá-la para a limusine, enquanto ela se empenhava em descobrir mais coisas.

Ver Paris pela primeira vez ao pôr-do-sol... Sempre que Adrian­ne pensasse de novo na cidade, haveria de se lembrar da magia daquele primeiro momento, quando a luz pairava entre o dia e a noite. Os prédios antigos projetavam-se, fascinantes, de certa forma femininos, com um brilho rosa, dourado e branco suave ao sol poente. O carro enorme desceu rápido pelo bulevar, para o coração da cidade. Mas não foi a velocidade que deixou Adrianne atordoada e sem fôlego.

Ela imaginou que devia haver música. Num lugar assim, não podia deixar de haver música. Mas não se arriscou a pedir permissão para baixar a janela. Em vez disso, deixou que a música tocasse em sua cabeça, grandiosa, gloriosa, enquanto seguiam ao longo do Sena.

Havia casais andando por ali, de mãos dadas, os cabelos e as saias curtas das mulheres à brisa que recendia a água e flores. Que recendia a Paris. Ela viu cafés em que as pessoas se agrupavam em torno de mesinhas redondas, bebendo de copos que faiscavam vermelhos e dourados, como a luz do sol.

Se fosse informada que o avião os levara a outro planeta e a outra época, Adrianne teria acreditado. Quando o carro parou no hotel, Adrianne esperou que o pai saltasse, antes de perguntar à mãe: - Podemos ver mais?

- Amanhã. - Phoebe apertou a mão da filha com tanta força que ela estremeceu. - Amanhã.

A menina teve de fazer um esforço para não tremer no ar fragrante do anoitecer. O hotel parecia um palácio, e ela estava cansa­da de palácios.

Com a comitiva de criadas, seguranças e secretários, eles ocuparam um andar inteiro no Crillon. Para desapontamento de Adrianne, ela e a mãe foram levadas para sua suíte e deixadas sozinhas.

- Podemos sair para jantar no lugar chamado Maxim's?

- Não esta noite, querida.

Phoebe espiou pelo olho mágico. Já havia um guarda postado no lado de fora da porta. Seria como um harém, mesmo em Paris. O rosto estava pálido quando se virou, mas sorriu e fez um esforço para manter a voz jovial.

- Teremos de pedir alguma coisa para comer aqui. O que você quiser.

- Estar aqui não é muito diferente de Jaquir.

Adrianne correu os olhos pela elegante suíte. Como os aposentos das mulheres, era luxuosa e isolada. Ao contrário do harém, no entanto, havia janelas abertas para a noite. Ela atravessou a sala e contemplou Paris. As luzes faiscavam, proporcionando à cidade uma aparência festiva, de conto de fadas. Estava em Paris, mas não tinha permissão para participar da vida na cidade. Era como se tivesse recebido a jóia mais gloriosa do mundo e só pudesse admi­rá-la por uns poucos momentos, antes de lhe ser arrebatada e trancada de novo no cofre.

- Addy, querida, você deve ser paciente.

Como a filha, Phoebe foi atraída para a janela. Contemplou as luzes, a vida nas ruas. Seu anseio era ainda mais forte porque outrora fora livre.

- Amanhã ... amanhã será o dia mais emocionante de sua vida. - Ela abraçou e beijou a filha. - Confia em mim, não é?

- Claro que confio, mamãe.

- Vou fazer o que é melhor para você. Juro. - Phoebe apertou a menina. Abruptamente, soltou-a e riu. - Agora, fique apreciando a vista. Voltarei num instante.

-Aonde vai?

- Apenas até o quarto ao lado. - Ela sorriu, para tranqüilizar as duas. - Olhe pela janela, meu bem. Paris é linda a essa hora.

Phoebe fechou a porta entre a sala e o quarto. Era arriscado usar o telefone. Passara dias tentando encontrar uma maneira melhor e mais segura. Embora precisasse de alívio, não tomava um tranqüilizante ou uma bebida desde que Abdu anunciara a viagem. Tinha a mente lúcida, como não acontecia há anos. Tão lúcida que até doía. Mesmo assim, não fora capaz de imaginar outro meio que não o telefone. Sua única esperança era a de que Abdu não esperasse a traição de uma mulher que tolerara seus abusos por tanto tempo.

Ela pegou o fone. Parecia estranho em sua mão, como uma coisa de outro século. Quase riu. Era uma mulher adulta, vivendo no século XX, mas que há quase dez anos não tocava num telefone. Os dedos tremiam quando ligou. Foi atendida por uma voz falando num francês rápido.

- Você fala inglês?

- Falo, madame. Em que posso ajudá-la?

Havia um Deus, pensou Phoebe, enquanto se sentava na beira da cama.

- Quero mandar um telegrama. Urgente. Para os Estados Unidos. Nova York.

Adrianne continuava na janela, as mãos comprimidas contra o vidro, como se pudesse dissolvê-lo pela força da vontade e se tornar parte do mundo que passava apressado lá fora. Havia alguma coisa errada com sua mãe. Seu medo mais profundo era o de que Phoebe estivesse doente, o que faria com que as duas fossem mandadas de volta para Jaquir. Sabia que, se partissem agora, nunca mais veria um lugar como Paris. Não veria mulheres com as pernas à mostra e os rostos pintados, nem os edifícios com centenas de luzes. Imaginou que o pai ficaria contente por ela ter visto, mas não tocado, ter sentido o cheiro, mas não saboreado. Seria outra maneira de puni-la, por ser mulher e de ter sangue misto.

Como se seus pensamentos o conjurassem, Abdu passou pela porta, entrando na suíte. Adrianne virou-se. Era pequena para sua idade, tão delicada quanto uma boneca. Já havia insinuações da beleza morena e sedutora de seu sangue beduíno. Abdu viu apenas uma garota magricela, de olhos grandes e queixo erguido numa atitude obstinada. Como sempre, seus olhos se tornaram gelados ao contemplá-la.

- Onde está sua mãe?

- Está ali.

Quando o pai se encaminhou para o quarto, Adrianne deu um passo rápido à frente.

- Podemos sair esta noite?

Abdu lançou-lhe apenas um olhar rápido e desinteressado.

- Vocês ficarão aqui.

Porque era jovem, Adrianne insistiu, quando outras teriam recuado.

- Não é muito tarde. O sol acabou de se pôr. Vovó disse que havia muito para fazer em Paris à noite.

Ele parou de repente. Era raro que a filha tivesse coragem de lhe falar, mais raro ainda que ele se desse ao trabalho de escutar.

- Você permanecerá no hotel. Só está aqui porque eu permiti.

- E por que permitiu?

A temeridade da filha ao fazer a pergunta fez com que Abdu contraísse os olhos.

- Minhas razões não são da sua conta. E devo adverti-la de que, se me lembrar de sua presença com muita freqüência, tratarei de me livrar de você.

Os olhos de Adrianne faiscavam com uma mistura de pesar e raiva que ela não podia compreender.

- Sou o sangue de seu sangue - murmurou ela. - Que motivo tem para me odiar?

- Você é sangue do sangue dela.

Abdu virou-se para abrir a porta. Phoebe apressou-se em sair.

Tinha o rosto corado, os olhos arregalados, como uma corça quando fareja o caçador.

- Queria me ver, Abdu? Eu precisava ir ao banheiro, depois da viagem.

Ele percebeu-lhe o nervosismo. Sentiu o cheiro do medo. Isso o agradou por ela não se considerar segura nem mesmo fora das paredes do harém.

- Já foi marcada uma entrevista. Faremos o desjejum aqui, às nove horas, com a repórter. Você vai se vestir de acordo e providenciar para que ela esteja preparada.

Phoebe olhou para Adrianne.

- Claro. Depois da entrevista, eu gostaria de fazer compras, talvez levar Adrianne a um museu.

- Pode fazer o que desejar entre dez da manhã e quatro horas da tarde. Depois, quero você comigo.

- Obrigada. Somos gratas pela oportunidade de visitar Paris.

- Cuide para que a menina controle a língua, ou ela só verá Paris através daquela janela.

Depois que ele se retirou, Phoebe deixou que as pernas trêmulas dobrassem um pouco.

- Por favor, Addy, não o irrite.

- Só preciso existir para irritá-lo.

Quando viu as primeiras lágrimas, Phoebe abriu os braços.

- Você é muito pequena - murmurou ela, enquanto embalava Adrianne em seu colo. - Pequena demais para tudo isso. Mas prometo que a compensarei.

Por cima da cabeça da filha, os olhos focalizados e decididos, Phoebe acrescentou:

- Juro que a compensarei por tudo.

ADRlANNE NUNCA FIZERA UMA REFEIÇÃO COM O PAI. PORQUE tinha a flexibilidade de uma menina de oito anos, ela descobriu que era fácil esquecer as palavras ditas na noite anterior e aguardar ansiosa para seu primeiro dia em Paris.

Se ficou desapontada porque fariam a refeição na suíte, não disse nada. Gostara demais de seu vestido azul novo, com um casaco combinando, para se queixar de qualquer coisa. Dentro de uma hora, começaria de verdade sua semana em Paris.

- Não tenho palavras para dizer o quanto me sinto grata pela entrevista, alteza.

A repórter, já encantada com Abdu, sentou-se à mesa. Adrianne manteve as mãos cruzadas no colo, fazendo um esforço para não fitá-la fixamente. A jovem tinha cabelos muito compridos, da cor de pêssegos maduros. As unhas eram pintadas de vermelho, assim como a boca. O vestido era justo, da mesma tonalidade. A saia subiu-lhe pelas coxas quando cruzou as pernas. Falava inglês com um suave sotaque francês. Para Adrianne, ela era tão exótica quanto uma ave da selva e igualmente fascinante.

- O prazer é nosso, Mademoiselle Grandeau.

Abdu fez um sinal para o café. Um criado apressou-se em obedecer.

- Espero que aprecie sua estada em Paris.

- Sempre aprecio Paris.

Abdu sorriu de uma maneira que Adrianne nunca vira. Depois, seus olhos passaram por ela como se a cadeira estivesse vazia, enquanto ele acrescentava:

- Minha esposa e eu estamos ansiosos para participar do baile esta noite.

- A sociedade parisiense também espera ansiosa para cumprimentá-lo e à sua linda esposa. - Mademoiselle Grandeau virou-se para Phoebe. - Seus fãs estão emocionados, alteza. Acharam que os abandonou por amor.

O café queimou amargo na garganta de Phoebe quando ela sorriu. Seria capaz de trocar todas suas jóias por uma dose de uísque.

- Quem já esteve apaixonado pode compreender que nenhum sacrifício e nenhum risco são grandes demais.

- Posso perguntar se tem algum arrependimento por renunciar à sua vitoriosa carreira no cinema?

Phoebe olhou para Adrianne e seus olhos se tornaram mais suaves.

- Como posso me arrepender quando tenho tudo?

- É como um conto de fadas, não é mesmo? A linda mulher evada pelo xeique do deserto para uma terra misteriosa e exótica ...

Uma terra que se torna cada dia mais rica por causa do petróleo. - ­Mademoiselle Grandeau tornou a olhar para Abdu. - O que acha da crescente presença dos ocidentais em seu país?

-Jaquir é um pequeno país que acolhe com satisfação os avanços que o petróleo proporciona. Mas, como rei, tenho a responsabilidade de preservar nossa cultura, ao mesmo tempo em que abro as portas para o progresso.

- Obviamente, sente atração pelo Ocidente, porque se apaixonou e casou com uma americana. Mas é verdade, alteza, que tem outra esposa?

Abdu levantou um copo de cristal com suco de fruta. A expressão era afável, um pouco divertida, mas os dedos apertavam o copo com força. Desdenhava ao ser interrogado por uma mulher.

- Em minha religião, um homem tem permissão para tomar quatro esposas, desde que possa tratar cada uma igualmente.

- Com o movimento feminista tornando-se mais forte nos Es­tados Unidos e na Europa, acha que esse choque de culturas causará problemas para os países que vão realizar obras no Oriente Médio?

- Somos diferentes, mademoiselle, na maneira de vestir, nas convicções. As pessoas em Jaquir ficariam igualmente chocadas pelo fato de que, em seu país, uma mulher pode ter intimidades com um homem antes do casamento. Mas essas diferenças não vão prejudicar o interesse financeiro dos dois lados.

-Concordo.

Mademoiselle Grandeau não estava ali para falar sobre política. Os leitores queriam saber se Phoebe Spring ainda era linda. Se seu casamento ainda era romântico. Ela cortou o crepe e sorriu para Adrianne. A menina era impressionante, com os olhos pretos e ardentes do rei, mas com os lábios cheios e impecáveis de Phoebe. Embora a cor da pele indicasse os ancestrais beduínos, ela tinha a estampa da mãe. As feições eram menores e mais delicadas do que a mulher que fora outrora chamada de "rainha das amazonas" do cinema. A pureza da estrutura 6ssea, o perfil espetacular, a vulnerabilidade dos olhos penetrantes também se encontravam na filha.

- Princesa Adrianne, o que acha de saber que sua mãe foi considerada a mulher mais linda do cinema?

Ela ficou atordoada. O olhar breve e duro do pai fez com que se empertigasse.

- Sinto muito orgulho. Minha mãe é mesmo a mulher mais bonita do mundo.

Mademoiselle Grandeau riu. Comeu outro pedaço de crepe.

- Seria difícil encontrar alguém que discordasse de você. Talvez um dia possa seguir os passos de sua mãe em Hollywood. Há alguma possibilidade de fazer outro filme, alteza?

Phoebe tomou mais café, torcendo para que permanecesse no estômago.

- Minha prioridade é a família. - Ela tocou na mão de Adrianne, por baixo da mesa. - Claro que fiquei encantada por ser convidada a vir a Paris, pela oportunidade de rever velhos amigos. Mas a opção que eu fiz, como você disse, foi por amor.

Por cima da mesa, seus olhos se encontraram com os de Abdu.

E não se desviaram.

- Quando há amor, pouco existe que uma mulher não faça.

- A perda de Hollywood é o ganho óbvio de Jaquir. Há muita especulação, todos querendo saber se vai usar O Sol e a Lua esta noite. O colar é considerado um dos maiores tesouros do mundo. E como todas as grandes jóias do mundo, O Sol e a Lua é um colar envolto por lendas, mistério e romance. As pessoas estão ansiosas para ver esse fabuloso colar. Vai usá-lo?

- O Sol e a Lua foi um presente de meu marido em nosso casamento. Em Jaquir, é considerado o preço da noiva, uma espécie de dote ao contrário. Perde apenas para Adrianne, o presente mais precioso que Abdu já me deu. - Ela tornou a fitá-lo, com uma insinuação de desafio. - Sinto orgulho em usar o colar.

- Não haverá uma mulher no mundo que não a inveje esta noite, alteza.

Ainda segurando a mão da filha, Phoebe sorriu.

- Só posso dizer que aguardo ansiosa por esta noite, mais do que qualquer outra em anos. Será gloriosa. - Seus olhos tornaram a se encontrar com os de Abdu. - lnshallah.

COMO PHOEBE JÁ ESPERAVA, ELAS FORAM ACOMPANHADAS por dois guardas e um motorista quando deixaram o hotel. Sentia-se extasiada por sua primeira vitória. Passara pela recepção e pedira seu passaporte, no qual Adrianne fora incluída, como criança. Os guardas estavam conversando, aparentemente pensando que ela indagava por algum serviço trivial. Não notaram quando o recepcionista voltou do escritório, no outro lado do balcão, e lhe entregou o documento encadernado em couro. Phoebe podia ter chorado de alegria ... e pelo primeiro ímpeto de orgulho que experimentava em anos. Mas disciplinara-se a não deixar transparecer qualquer coisa. Agora, não tinha nenhum plano definido, apenas uma determinação profunda e nervosa. A seu lado, na limusine, Adrianne não ficara quieta de tanto excitamento. Estavam mesmo em Paris, com horas de folga antes da volta ao hotel. Ela queria subir na Torre Eiffel, sentar-se num café, andar e andar e andar, ouvir a música da cidade, que apenas imaginara.

- Vamos fazer umas compras. - Phoebe tinha a boca tão seca que teve de fazer um esforço para desgrudar a língua do palato. ­Podemos ir à Chanel, Dior. Espere só até ver todas as lindas roupas, Addy. As cores, os tecidos. Mas você terá de ficar bem perto de mim. Não quero perdê-la. Não se afaste. Prometa.

-Prometo.

Adrianne sentiu que seu próprio nervosismo começava a aumentar. Às vezes, quando a mãe falava assim - muito depressa, com as palavras juntas, quase se atropelando -, costumava cair em depressão logo em seguida. Ficava muito quieta, distante, fechada em si mesma, indiferente às outras pessoas, num estado que sempre deixava Adrianne apavorada. Apreensiva com o que tinha certeza de que estava prestes a acontecer, Adrianne não parava de falar, sempre grudada na mãe, enquanto visitavam as lojas mais exclusivas da Europa.

Era como outro sonho, diferente da visão de Paris ao crepúsculo. Os salões brilhavam, com mesas douradas e cadeiras de veludo. Em cada uma, foram tratadas com uma deferência que Adrianne nunca recebera em seu próprio país. Era cortejada por mulheres de rosto maquilado, serviam limonada ou chá, ofereciam biscoitos, enquanto modelos de aparência frágil deslizavam de um lado para outro, mostrando a última moda.

Phoebe encomendou, despreocupada, dezenas de vestidos de coquetel, com alças mínimas e camadas de contas, tailleurs de seda e linho. Se o plano desse certo, não usaria um único daqueles vestidos que comprava de uma maneira tão negligente. Parecia-lhe uma espécie de justiça, a menor e mais doce das vinganças. Ela foi de salão em salão, acompanhada de guardas silenciosos carregando caixas e bolsas.

- Visitaremos o Louvre antes do almoço - disse ela a Adrianne, ao se acomodarem de novo na limusine.

Phoebe olhou para o relógio. Recostou-se e fechou os olhos.

- Podemos comer num café?

- Veremos. - Ela pegou a mão de Adrianne. - Quero que você seja feliz, querida. Feliz e segura. Isso é tudo que importa.

- Gosto de estar aqui com você. - Apesar de todos os biscoitos, chá e limonada nas casas de haute couture, ela estava faminta, mas não queria dizê-lo. - Há muita coisa para ver. Quando você e falava sobre lugares assim, pensei que inventava histórias. É melhor do que uma história.

Phoebe abriu os olhos para olhar pela janela. Seguiam ao longo do rio, na cidade mais romântica do mundo. Ela baixou o vidro e respirou fundo.

- Pode sentir o cheiro. Addy?

Com uma risada, Adrianne inclinou o rosto para a janela, como um cachorrinho, para deixar a brisa envolver seu rosto.

- Da água?

- Da liberdade - murmurou Phoebe. - Quero que se lem­bre desse momento.

Quando o carro parou, Phoebe desembarcou devagar, imponente, sem oferecer um único olhar aos guardas. Com a mão de Adrianne na sua, ela entrou no Louvre. Havia uma multidão ali ... estudantes, turistas, namorados. Adrianne achou as pessoas tão fascinantes quanto as obras de arte que sua mãe mostrava, enquanto passavam pelas galerias. As vozes ressoavam nos tetos altos, uma ampla variedade de tons e sotaques. Ela viu um homem com os cabelos tão compridos quanto os de uma mulher, usando um jeans rasgado no joelho e carregando uma mochila velha. Quando percebeu que Adrianne o observava, ele sorriu e piscou, depois levantou dois dedos em V. Embaraçada, Adrianne baixou os olhos para seus sapatos.

- Muita coisa mudou - disse Phoebe. - Parece um mundo diferente. A maneira como as pessoas se vestem, a maneira como falam. Eu me sinto como Rip Van Winkle.

-Quem?

Com um som perigosamente próximo de um soluço, Phoebe abaixou-se para abraçá-la.

- É apenas uma história.

Ao se erguer, ela olhou para os guardas. Estavam uns poucos passos atrás, entediados.

- Quero que faça exatamente o que eu disser - sussurrou Phoebe. - Sem perguntas. Segure firme a minha mão.

Antes que Adrianne pudesse concordar, Phoebe puxou-a para um grupo de estudantes. Andou depressa, empurrando as pessoas quando necessário, saiu pelo outro lado do grupo e correu por um longo corredor.

Soaram gritos por trás. Sem alterar o ritmo, ela pegou Adrianne no colo e desceu um lance de escadas. Precisava de uma porta, qualquer porta que a levasse para fora dali. Se pudesse alcançar a rua e pegar um táxi, teria uma chance. Sempre que um corredor aparecia à frente, ela seguia por ali, passando por visitantes e funcionários. Não importava se ia para uma saída do prédio ou se se embrenhava mais fundo. Precisava despistar os guardas. Ouvia passos em sua esteira e corria às cegas, como uma lebre tentando desesperadamente escapar de uma raposa.

Quadros pareciam faiscar enquanto corria. A respiração ofegante foi se tornando mais alta à medida que passava sem ver pelas obras de arte mais valiosas do mundo. As pessoas as olhavam, aturdidas. Os cabelos haviam se soltado do coque meticuloso e esvoaçavam em torno de seus ombros, como uma nuvem vermelha. Ela viu a porta. Quase tropeçou. Apertou Adrianne ainda mais, o coração prestes a explodir, e saiu do prédio. Mas não parou de correr.

Podia outra vez sentir o cheiro do rio, o cheiro da liberdade. Parou, com dificuldade para respirar - uma linda mulher, apavorada, apertando uma criança no colo. Bastou levantar a mão para que um táxi parasse.

- Aeroporto de Orly - balbuciou Phoebe, enquanto entrava com Adrianne, olhando para os dois lados. - Depressa, por favor!

- Oui, madame.

O motorista levantou o quepe e pisou no acelerador.

- O que aconteceu, mamãe? Por que fugimos? Para onde vamos?

Phoebe cobriu o rosto com as mãos. Não havia como voltar agora.

- Confie em mim, Addy. Ainda não posso explicar.

Quando a mãe começou a tremer, Adrianne abraçou-a. Ficaram enlaçadas, enquanto o táxi deixava Paris. Os lábios da menina tremeram quando ouviu o barulho dos aviões.

- Vamos voltar para Jaquir?

Phoebe abriu a carteira. Deu ao motorista o dobro do preço da corrida. O medo ainda a dominava, um gosto metálico e horrível na língua. Abdu a mataria se a pegasse agora. E depois descarregaria o resto de sua vingança em Adrianne.

- Não. - Ela agachou-se na calçada, o rosto no mesmo nível do de Adrianne. - Nunca mais voltaremos para Jaquir.

Ela olhou para trás, por cima do ombro, certa de que Abdu saltaria do carro seguinte e faria suas palavras se tornarem uma mentira. - Vou levá-la para a América, Addy. Para Nova York. E acredite em mim: faço isso porque a amo. Agora, vamos andar depressa.

Phoebe entrou com a filha no terminal. Por um instante, o barulho e a agitação a confundiram. Há anos que não ia a qualquer lugar sozinha. Antes do casamento, sempre viajava com uma comitiva de divulgadores, secretárias, costureiras. O pânico quase a dominou, até que sentiu os dedos pequenos e tensos de Adrianne se ligarem aos seus.

Pan American. Pedira a Celeste para providenciar que as passagens ficassem à espera no balcão da Pan American. Enquanto avançava apressada pelo terminal, Phoebe rezou para que a amiga tivesse resolvido tudo. No balcão, ela tirou o passaporte da bolsa e ofereceu seu sorriso mais encantador ao recepcionista.

- Tenho duas passagens reservadas, já pagas, para Nova York. O sorriso deixou-o tão atordoado que ele piscou.

- Oui, madame. - Deslumbrado, o homem mexeu nos papéis. - Assisti a todos os seus filmes. É uma atriz magnífica.

- Obrigada. - Phoebe sentiu que um pouco de sua coragem voltava. Não fora esquecida. - As passagens estão em ordem?

- Pardon? Ah, sim ... claro, claro ... - Ele carimbou e escreveu. Apontou. - Este é o número de seu vôo. O portão. Tem 45 minutos.

Ela tinha as palmas pegajosas de suor quando pegou as passagens e pôs na bolsa.

- Obrigada.

- Espere, por favor.

Phoebe ficou imóvel, apertando a mão de Adrianne, pronta para sair correndo.

- Pode me dar seu autógrafo?

Ela comprimiu os dedos contra os olhos, o gesto acompanhado por uma pequena risada.

- Claro. Terei o maior prazer. Qual é seu nome?

- Henri, madame. - Ele estendeu um papel. - Nunca a esquecerei.

Phoebe deu o autógrafo, as letras largas e generosas, como sempre.

- Pode ter certeza, Henri, de que também nunca o esquecerei.

- Ela devolveu o papel, com um sorriso. - Vamos embora, Adrianne. Não queremos perder o avião.

Enquanto andavam, ela murmurou:

- Deus abençoe Celeste. Ela estará nos esperando em Nova York, Addy. É minha melhor amiga.

-Como Duja?

- Isso mesmo. - Com um esforço para manter a calma, Phoebe olhou para baixo e deu outro sorriso. - Isso mesmo, como Duja é para você. Ela vai nos ajudar.

O terminal não mais interessava a Adrianne. Tinha medo, porque a mãe tinha o rosto pálido e sua mão tremia.

- Ele ficará zangado.

- Ele não vai magoá-la de novo. - Phoebe parou de novo e segurou Adrianne pelos ombros. - Prometo a você. Não importa o que eu tenha de fazer, ele não a magoará.

Foi nesse instante que transbordou a tensão de tantos dias e noites de espera. Uma das mãos comprimidas contra o estômago embrulhado, Phoebe correu com Adrianne para o banheiro, onde ceve um violento acesso de vômito.

- Por favor, mamãe! - Apavorada, Adrianne segurava a cintura da mãe, que se inclinava para o vaso. - Devemos voltar antes que ele saiba. Diremos que nos perdemos, e por isso nos separamos dos guardas. Ele ficará só um pouco zangado. A culpa será minha. Direi que a culpa foi toda minha.

- Não posso. - Phoebe encostou na parede do boxe e esperou que a náusea passasse. - Não podemos voltar. Nunca mais. Ele ia mandá-la embora, querida.

- Mandar embora?


- Para a Alemanha. - Com a mão trêmula, Phoebe pegou um lenço de papel e enxugou o rosto úmido. - Eu não podia deixar que seu pai a mandasse embora, e depois a fizesse casar com um homem igual a ele.

Mais firme, Phoebe abaixou-se e passou os braços em torno da filha.

- Não podia admitir que você levasse a vida que eu tive. Isso me mataria!

Lentamente, o medo nos olhos de Adrianne se desvaneceu. No boxe estreito, ainda recendendo a vômito, as duas cruzaram um novo limiar em suas vidas. Gentilmente, Adrianne ajudou Phoebe a levantar-se.

- Sente-se melhor, mamãe? Apóie-se em mim.

Phoebe estava ainda mais pálida quando embarcaram, sentaram em suas poltronas, afivelaram os cintos de segurança e escutaram o zumbido dos motores. Seu coração deixou de disparar. Agora era apenas um tamborilar em sua cabeça, lembrando-a do harém e do calor opressivo. O gosto de vômito ainda persistia em sua boca quando fechou os olhos.

- Com licença, madame. A senhora e mademoiselle desejam beber alguma coisa depois que decolarmos?

- Quero sim. - Phoebe não se deu ao trabalho de abrir os olhos. - Traga alguma coisa gelada e doce para minha filha.

- E para a senhora?

- Um scotch - respondeu ela, cansada. - Duplo.


 

Celeste Michaels adorava um bom drama. Quando criança, tomara a decisão de ser uma atriz ... e não apenas uma atriz, mas uma estrela. Suplicara, argumentara, brigara e conseguira fazer com que os pais pagassem um curso de arte dramática. Indulgentes, eles achavam que era apenas uma fase da filha. Continuaram a pensar assim mesmo quando levavam Celeste a audições, ensaios e apresentações em teatros comunitários. Andrew Michaels era um contador que preferia encarar a vida como um balanço de lucros e perdas. Nancy Michaels era uma linda dona de casa que adorava fazer sobremesas extravagantes para os eventos sociais da igreja. Ambos acreditavam, mesmo depois que o teatro começou a dominar suas vidas, que a pequena Celeste superaria sua paixão pela maquilagem e a chamada dos atores para receber os aplausos da audiência.

Aos 15 anos, Celeste decidiu que nascera para ser loura. Pintou os cabelos castanhos para um halo dourado, que se tornaria sua marca registrada. A mãe protestara, o pai fizera um sermão. Os cabelos de Celeste continuaram louros. E ela obteve o papel de Marion na produção da escola secundária de The Music Man.

Uma ocasião, Nancy queixou-se a Andrew que saberia melhor como agir se Celeste estivesse envolvida com rapazes e bebidas alcoólicas em vez de Shakespeare e Tennessee Williams.

Um dia depois de receber o diploma do curso secundário, Ce­leste deixou a aconchegante comunidade suburbana de Nova Jersey, onde passara a infância e boa parte da adolescência, e mudou-se para Manhattan. Os pais acompanharam-na até o trem com uma mistura de alívio e perplexidade.

Ela não perdia uma audição. Ganhava o suficiente para pagar as aulas de teatro e o aluguel do apartamento no quarto andar, sem elevador, virando hambúrgueres e fritando ovos numa lanchonete. Casou aos 20 anos, um relacionamento que começou com uma profunda emoção e terminou em lágrimas um ano depois. A essa altura, Celeste já deixara de olhar para trás.

Pouco mais de dez anos depois, era a rainha do teatro, com uma trilha de sucessos, três prêmios Tonys e um apartamento de cobertura no Central Park West. Mandara para os pais um Lincoln de presente, em seu último aniversário de casamento. Eles ainda acreditavam que Celeste voltaria para Nova Jersey quando se cansasse de ser atriz e assentaria no casamento com um bom rapaz metodista.

Naquele momento, andando de um lado para outro do terminal do aeroporto, ela se sentia satisfeita com o relativo anonimato da atriz de teatro. Se as pessoas notavam-na, viam uma loura atraente, um tanto robusta, estatura mediana. Não viam a sensual Maggie the Cat, nem a ambiciosa Lady Macbeth. A não ser que Celeste quisesse que vissem.

Ela olhou para o relógio e especulou mais uma vez se Phoebe estaria no avião.

Quase dez anos, pensou ela, enquanto se sentava e revistava a bolsa à procura de um cigarro. Haviam se tornado grandes amigas quando Phoebe viera a Nova York para fazer em locação seu primeiro filme. Celeste acabara de sair do casamento e sentia-se um pouco amargurada. Phoebe fora como um sopro de ar fresco, divertida e meiga. Cada uma se tornara a irmã que a outra nunca tivera. Visitavam-se de costa em costa sempre que podiam, acumulavam enormes contas de ligações interurbanas quando não dava para viajar.

Ninguém ficara mais contente do que Celeste quando Phoebe fora indicada para o Oscar. Ninguém aplaudira com mais entusiasmo do que Phoebe quando Celeste ganhara seu primeiro Tony.

Eram diferentes sob muitos aspectos. Celeste era firme e determinada.  Phoebe era maleável e confiante. Sem perceberem, uma havia proporcionado equilíbrio à outra, com uma amizade que sempre haveriam de acalentar.

Depois, Phoebe casara e voara para seu reino no deserto. A correspondência tornara-se esporádica depois do primeiro ano, até virar quase inexistente. E doera muito. Celeste nunca admitiria para ninguém, mas o encerramento gradativo da amizade, por parte de Phoebe, deixara-a bastante magoada. Na superfície, ainda encarava o problema em termos filosóficos. Sua vida era plena e rica, progredindo pelo caminho que delineara quando era menina em Nova Jersey. Mas havia um lugar em seu coração que se angustiava.

Ao longo dos anos, Celeste continuara a mandar presentes para a menina, que considerava sua afilhada. Achava engraçado os bilhetes de agradecimento que Adrianne enviava, sempre formais e solenes.

Estava pronta para amar a menina. Em parte porque era casada com o teatro, e essa paixão nunca geraria filhos. Em parte porque Adrianne era filha de Phoebe.

Celeste apagou o cigarro, antes de enfiar a mão numa bolsa de compras e pegar uma boneca de porcelana com os cabelos vermelhos. Tinha um vestido de veludo azul com debruns brancos. Celes­te a escolhera porque imaginara que a menina gostaria de ter uma boneca com a mesma cor dos cabelos da mãe. E não tinha a menor idéia do que dizer para a menina ou para Phoebe.

Quando ouviu o aviso sobre a chegada do vôo, ela levantou-se e recomeçou a andar de um lado para outro. Não demoraria muito agora. O desembarque, a passagem pela alfândega. Não havia razão para a preocupação insistente na base de seu crânio.

Exceto pelo telegrama, que dissera muito pouco.

Celeste lembrava cada palavra. Como uma boa atriz, acrescentou sua própria inflexão ao texto.

CELESTE. PRECISO DE SUA AJUDA. POR FAVOR PROVIDENCIE DUAS PASSAGENS PARA NOVA YORKA SEREM ENTREGUES NO BALCÃO DA PAN AMERICAN EM PARIS. VÔO ÀS DUAS HORAS DA TARDE DE AMANHÃ. ESPERE POR MIM EM NOVA YORK SE PUDER. NÃO TENHO MAIS NINGUÉM. PHOEBE.

Ela viu quando as duas passaram pelas portas, a ruiva alta e deslumbrante, a menina que parecia uma boneca. As duas estavam juntas, de mãos dadas, os corpos se roçando. Celeste estranhou o fato de que, por um momento, não pôde determinar quem tranqüilizava quem.

Depois, Phoebe levantou os olhos. Uma ampla gama de emoções passou por seu rosto, o alívio predominante. Antes do alívio, porém, Celeste reconhecera o terror. E adiantou-se apressada ao encontro da amiga.

- Phoebe! - Celeste pôs tudo o que sentia, sua imensa amiza­de, no abraço. - É um prazer tornar a vê-la!

- Graças a Deus, Celeste! Graças a Deus que você está aqui!

O desespero deixou Celeste muito mais preocupada do que a percepção de que as palavras estavam engroladas pela bebida. Com o cuidado de manter o sorriso, ela olhou para Adrianne.

- Então esta é sua Addy. - Celeste encostou a mão de leve nos cabelos da menina, notando as olheiras e os sinais de exaustão. Lembrou-a das fotos de sobreviventes de desastres, a mesma expressão de choque, apática, vulnerável. - Fizeram uma longa viagem, mas agora acabou. Tenho um carro à espera lá fora.

- Nunca poderei lhe pagar pelo que fez - balbuciou Phoebe.

- Não diga bobagem. - Ela deu um último abraço apertado em Phoebe e depois entregou a sacola de compras a Adrianne. ­Trouxe um presente para celebrar sua visita à América.

Adrianne olhou para a boneca. Invocou energia suficiente para Jassar um dedo pela manga do vestido. O veludo lembrou-a de Duja, mas se sentia cansada demais para chorar.

- É muito bonita. Obrigada.

Celeste alteou uma sobrancelha, surpresa. A criança falava de uma maneira tão exótica e estranha quanto sua aparência.

- Vamos pegar a bagagem e ir para meu apartamento, onde poderão descansar.

- Não temos bagagem. - Phoebe quase cambaleou, mas firmou-se a tempo, com a mão no ombro de Celeste. - Não temos nada.

- Está certo.

As perguntas podiam esperar, decidiu Celeste, enquanto passa­va o braço pela cintura de Phoebe. Um olhar constatou que a criança podia andar sozinha.

- Vamos para casa.

AO CONTRÁRIO DE SUA EXPERIÊNCIA EM PARIS, ADRIANNE pouco notou na viagem entre o aeroporto e Manhattan. A limusine era silenciosa e aquecida, mas ela não conseguia relaxar. Como fizera durante o longo vôo através do Atlântico, observava atentamente mãe. Pôs a boneca que ganhara de Celeste debaixo do braço e manteve a mão de Phoebe na sua. Sentia-se cansada demais para fazer perguntas, mas estava preparada para fugir.

- Já faz muito tempo... - Phoebe olhou ao redor, como se saísse de um transe. Sentia uma pulsação ao lado da boca, enquanto os olhos deslocavam-se de uma janela para outra. - Mudou. Mas, ao mesmo tempo, não mudou.

- Sempre se pode contar com Nova York. - Celeste soprou um fluxo de fumaça. Viu que Adrianne observava seu cigarro, com os olhos escuros e fascinados. - Talvez amanhã Addy queira dar um passeio pelo parque, ou fazer compras. Alguma vez andou num carrossel, Adrianne?

- O que é isso?

- São cavalos de madeira em que se pode andar num círculo, ao som de música. Há um no parque em frente ao meu prédio.

Ela sorriu para Adrianne. Já havia notado que Phoebe tinha um sobressalto cada vez que o carro parava. Se a mãe era uma massa de nervos à flor da pele, a criança parecia uma torre de controle. Mas, em nome de Deus, o que se podia dizer para uma criança que não sabia o que era um carrossel?

- Não poderia escolher melhor ocasião para visitar Nova York - acrescentou ela. - Todas as lojas estão enfeitadas para o Natal.

Adrianne pensou na bola de vidro e no irmão. Subitamente, queria apenas encostar a cabeça no colo da mãe e chorar. Queria ir para casa, ver a avó, as tias, sentir os cheiros do harém. Mas não havia como voltar.

- Vai nevar? - perguntou ela.

- Mais cedo ou mais tarde. - O impulso de pegar a criança no colo e confortá-la surpreendeu Celeste. Nunca se considerara maternal. Havia alguma coisa muito triste, mas ao mesmo tempo forte, na maneira como Adrianne afagava a mão de Phoebe. ­Estamos passando por um período de calor. Duvido que dure por mais tempo.

Por Deus, ela estava falando sobre o tempo! Com algum alívio, inclinou-se para a frente, quando o carro diminuiu a velocidade.

- Chegamos - anunciou Celeste, quando o carro parou. ­Mudei para cá há cinco anos, Phoebe. E gosto tanto que só saio se for expulsa à força.

Passaram pelo segurança e entraram no saguão do prédio, elegante e antigo, no Central Park West. Celeste levou Phoebe e Adrianne para o elevador. Para Adrianne, foi como uma lenta viagem para o nada, pois a fadiga a dominava cada vez mais. No avião, resistira ao sono, fazendo muito esforço para sair de cochilos irrequietos, a fim de se certificar de que ninguém a estava separando de Phoebe. Agora, nervosa, ela entrou entre as duas mulheres na cobertura de Celeste.

- Mostrarei todo o apartamento depois que estiverem descansadas. - Celeste largou seu casaco no encosto de uma cadeira, pensando no que fazer em seguida. - Devem estar famintas. Posso mandar fazer um omelete?

- Eu não poderia comer. - Com extremo cuidado, Phoebe sentou-se num sofá. Tinha a sensação de que todos os ossos de seu corpo quebrariam se fizesse movimentos bruscos. - Está com fo­me,Addy?

-Não.

O simples pensamento de comida já deixava seu estômago embrulhado.

- A pobre coitada está dormindo em pé. - Celeste adiantou-­se e passou o braço pelos ombros de Adrianne. - Não quer dormir um pouco?

- Pode ir com Celeste - disse Phoebe, antes que Adrianne tivesse tempo de protestar. - Ela cuidará de você.

- Mas você não vai embora não, não é, mamãe?

- Não. Estarei aqui quando você acordar. - Phoebe beijou as faces da filha. - Prometo.

- Venha comigo, querida.

Celeste quase carregou a criança exausta pela escada. Murmurando palavras gentis, tirou o casaco e os sapatos de Adrianne e ajeitou-a na cama.

- Teve um dia longo e cansativo.

- Se ele vier, vai me acordar para que eu possa tomar conta da mamãe?

A mão de Celeste hesitou, quando quis afagar os cabelos da menina. A pele por baixo dos olhos estava contraída de cansaço, com olheiras, mas os olhos se mantinham alertas e exigentes.

-. - Não se preocupe. - Meio embaraçada, ela beijou a testa de Adrianne. - Eu também a amo, querida. Nós duas cuidaremos dela.

Satisfeita com isso, Adrianne fechou os olhos.

Celeste fechou as cortinas e deixou a porta entreaberta. Ao sair do quarto, Adrianne já mergulhara num sono profundo. E, quando desceu, descobriu que Phoebe também dormia.

O PESADELO ACORDOU ADRIANNE. TINHA O MESMO SONHO esporadicamente, desde que completara cinco anos: o sonho do pai entrando no quarto da mãe, o choro, os gritos, vidro espatifado. Ela própria rastejando para baixo da cama, as mãos nos ouvidos.

Despertou com o rosto molhado de lágrimas, reprimindo um grito, porque tinha medo de incomodar as mulheres no harém. Mas não estava no harém. Seu senso de tempo e lugar havia se tornado tão confuso que teve de se sentar na cama, imóvel, por alguns minutos, antes, que os acontecimentos se ajustassem numa progressão ordenada em sua mente.

Viajaram para Paris no avião pequeno, e ela sentira medo. A cidade parecia ter saído de um livro de histórias, com pessoas vestidas de uma maneira estranha, flores por toda parte. As lojas, todas as cores, as sedas, os cetins. A mãe lhe comprara um vestido rosa com a gola branca. Não haviam subido na Torre Eiffel. Mas foram ao Louvre. E fugiram. A mãe ficara apavorada. Vomitara.

Agora, estavam em Nova York, com a mulher loura que tinha a voz bonita.

Só que ela não queria estar em Nova York. Queria ficar em Jaquir, com Jiddah, tia Latifa e as primas. Adrianne esfregou os olhos, fungando, enquanto saía da cama. Queria voltar para casa, onde os cheiros eram cheiros que reconhecia, onde as vozes falavam numa língua que entendia. Ela pegou a boneca que Celeste lhe dera, como conforto, e foi procurar a mãe.

Ouviu as vozes quando chegou no topo da escada curva. Desceu até o meio da escada. Dali, podia ver a mãe e Celeste, sentadas numa enorme sala branca com as janelas pretas. Ela se sentou num degrau, abraçando a boneca, e escutou.

- Nunca poderei retribuir o que fez por mim.

- Não diga bobagem. - Com um gesto teatral, Celeste descartou tudo. - Somos amigas.

- Não pode imaginar o quanto precisei de uma amiga durante esses últimos anos.

Tensa demais· para permanecer sentada, Phoebe levantou-se, com um copo na mão, para dar uma volta pela sala.

- Não, não posso. - Celeste falou devagar, preocupada com o  nervosismo que lhe percebia em cada movimento brusco. - Mas gostaria de saber.

- Não sei por onde começar.

- Parecia radiante na última vez em que a vi, em quilômetros de tule e seda branca, usando um colar que saiu direto das Mil e Uma Noites.

- O Sol e a Lua. - Phoebe fechou os olhos. Tomou um gole prolongado. - Era a coisa mais linda que já havia visto. Pensei que era uma dádiva ... o mais extraordinário símbolo de amor com que uma mulher poderia sonhar. O que eu não sabia era que ele me comprara com isso.

- Do que está falando?

- Nunca consegui fazer com que você entendesse a vida em Jaquir.

Phoebe virou-se. Tinha os olhos azuis injetados. Embora estivesse bebendo desde que acordara de seu sono irrequieto, a bebida não a relaxara.

-Tente.

- A princípio, foi adorável. Ou pelo menos eu queria acreditar que era assim. Abdu era gentil, atencioso. E lá estava eu, a menina de Nebraska, uma rainha. Porque parecia importante para Abdu, tentei viver de acordo com os costumes locais ... nas roupas, atitudes, essas coisas. Na primeira vez em que pus um véu, senti-me muito sensual e exótica.

-. Como em Jeannie É um Gênio? - indagou Celeste, com um riso. Ao olhar impassível de Phoebe, ela se apressou em acrescentar. - Não importa. Foi uma piada de mau gosto.

- Não me importei com o véu. Parecia uma coisa insignificante, e Abdu só insistia que eu o usasse quando estávamos em Jaquir. Viajamos muito naquele primeiro ano, e tudo parecia uma aventura. Durante a gravidez, fui tratada como uma espécie de jóia muito preciosa. Houve complicações, e Abdu não poderia ter sido mais afetuoso e preocupado. Então nasceu Adrianne. - Phoebe baixou os olhos para seu copo. - Preciso de outra dose.

- Pode se servir.

Phoebe foi até o bar. Encheu o copo curto até quase a borda.

- Fiquei surpresa quando Abdu se mostrou transtornado. Era uma criança linda e saudável. Parecia um milagre, porque eu quase abortara duas vezes. Sei que ele falava incessantemente em ter um menino, mas não esperava que ele ficasse furioso quando nasceu uma filha. Senti-me magoada. Fora um parto longo e difícil, e sua reação diante de Adrianne me deixou perturbada. Tivemos uma briga terrível ainda no hospital. Depois, a situação piorou... e ainda mais quando os médicos disseram que eu não poderia mais ter filhos.

Phoebe tomou outro gole, estremecendo, quando a bebida alcançou o estômago.

- Ele mudou, Celeste. Culpava-me, não apenas por lhe dar uma filha que ele não queria, mas também por seduzi-lo, afastando-o de seu dever e tradição.

- Seduzi-lo? Mas que absurdo! - Celeste tirou os sapatos. ­O homem nunca lhe deu a menor chance, conquistando-a com centenas de rosas brancas, alugando restaurantes inteiros para que pudessem ter jantares íntimos. Ele queria você, e fez tudo para alcançar esse objetivo.

- Nada disso importava mais. Ele me via como um teste, uma espécie de teste em que fracassara, e por isso me odiava. Via Adrianne como uma punição em vez de uma dádiva, uma punição por casar com uma mulher ocidental, uma cristã, uma atriz. Não queria ter qualquer contato com a filha, e o mínimo possível comigo. Fui relegada para o harém, e deveria me sentir contente por não ter havido um divórcio.

- Harém? Está mesmo se referindo ao lugar em que só tem mulheres? Véus e romãs?

Phoebe tornou a sentar-se, envolvendo o copo com as mãos.

- Não há nada de romântico nisso. Os aposentos das mulheres. Você fica sentada ali, num dia-a-dia interminável, enquanto elas falam sobre sexo, parto e moda. Sua posição depende da quantidade de filhos homens que gerou. Uma mulher que não pode ter filhos é posta de lado, digna de compaixão.

- Obviamente, nenhuma delas leu Gloria Steinem - comentou Celeste.

- As mulheres do harém não lêem coisa alguma. Não trabalham, não dirigem. Não há nada para fazer, além de sentar-se, tomar chá e esperar que o dia termine. Ou então sair em grupos para fazer compras, cobertas de preto da cabeça aos pés, para não tentar um homem.

- Está brincando comigo, Phoebe ...

- É a pura verdade. A polícia religiosa está em toda parte. Você pode ser açoitada por dizer a coisa errada, fazer a coisa errada, vestir a coisa errada. Não pode sequer falar com um homem que não seja membro de sua família.

- Estamos em 1971, Phoebe!

- Não em Jaquir. - Com uma meia risada, ela comprimiu a mão contra os olhos. - O tempo não existe em Jaquir, Celeste. Perdi quase dez anos de minha vida. Às vezes parece que foram 100 anos, outras apenas alguns meses. A vida é assim em Jaquir. Como eu não podia mais ter filhos, Abdu tomou uma segunda esposa. A lei permite. O homem é a lei.

Celeste tirou um cigarro da caixa de porcelana na mesinha baixa. Examinou-o enquanto tentava compreender o que Phoebe descrevia.

- Li algumas reportagens. Saíram várias, nos últimos anos, sobre você e Abdu. Nunca falaram nada disso.

- Nem podia. Só tinha permissão para falar com a imprensa porque ele queria publicidade para o petróleo do Oriente Médio.

- Sei disso - murmurou Celeste, irônica.

- Teria de estar lá para compreender. Nem mesmo a imprensa tem permissão para contar toda a história. Se tentassem, a ligação seria rompida. Há bilhões de dólares em jogo. Abdu é um homem ambicioso, além de inteligente. Enquanto eu tivesse algum proveito, seria mantida.

Celeste acendeu o cigarro. Soprou a fumaça lentamente. Tinha a impressão de que metade do que Phoebe dizia era um produto da abundante imaginação da amiga. Se fosse verdade, mesmo que apenas uma parte, havia uma questão que não podia ser resolvida.

- Por que ficou? Se era tratada assim, se era tão infeliz, por que não fez as malas e foi embora?

- Ameacei ir embora. Nessa ocasião, logo depois que Addy nasceu, ainda acreditava que poderia salvar alguma coisa, se assumisse uma posição firme. Ele me deu uma surra.

- Oh, Deus, Phoebe!

Celeste foi para junto da amiga.

- Em todos os meus pesadelos, nada foi tão horrível. Gritei e gritei, mas ninguém me ajudou. - Ela sacudiu a cabeça, removendo as lágrimas à medida que escorriam. - Ninguém ousava ajudar. Ele me bateu e bateu, até que eu não podia sentir mais nada. E. depois, me estuprou.

- Mas isso é uma insanidade! - Com os braços em torno de Phoebe, Celeste levou-a para o sofá. - Devia haver alguma coisa que você pudesse fazer para se proteger. Foi à polícia?

Com uma risada sem humor, Phoebe tomou mais um gole . drinque.

- É legal para um homem bater na esposa em Jaquir. Quando tem um motivo. As mulheres cuidaram de mim. Foram muito gentis.

- Por que não me escreveu para contar o que estava acontecendo, Phoebe? Eu poderia ajudar. Teria ajudado.

- Mesmo que eu conseguisse enviar uma carta às escondi não haveria nada que você pudesse fazer. Abdu é o poder absoluto em Jaquir, em termos religiosos, políticos e legais. Você nunca experimentou nada parecido. Sei que deve ser quase impossível para alguém como você imaginar a maneira como eu vivia ali. Comecei a sonhar em sair de lá. Legalmente, precisaria da permissão de Abdu para ir embora. Mas fantasiava uma fuga, por causa de Adrianne. Não poderia partir sem levá-la. Ela é a coisa mais preciosa em minha vida, Celeste. Acho que eu teria acabado com tudo uma dúzia de vezes se não fosse por Addy.

- O quanto ela sabe?

- Muito pouco, eu espero. Não tenho certeza. Percebe os sentimentos do pai por ela, mas tentei explicar que são apenas o reflexo de seus sentimentos por mim. As mulheres a adoravam, e acho que ela se sentia feliz com a vida no harém. Afinal, nunca conheceu qualquer outra coisa. Abdu ia mandá-la embora.

- Para onde?

- Para uma escola na Alemanha. Foi quando compreendi que tinha que fazer alguma coisa. Então ele iniciou os acertos para casá-la assim que completasse 15 anos.

- Pobre criança ...

- Não pude suportar a perspectiva de Adrianne enfrentar tudo qual eu estava passando. A viagem a Paris foi como um aviso. Era agora ou nunca. E, sem você, eu não conseguiria.

- Eu só gostaria de poder fazer mais. Por exemplo, pegar o desgraçado e castrá-lo com uma faca de manteiga.

- Nunca mais posso voltar, Celeste.

A amiga levantou os olhos, surpresa.

- Claro que não.

- Nunca mesmo. - Phoebe serviu-se de mais bebida, deixando escorrer um pouco pela borda. - Se ele vier me buscar, prefiro me matar a voltar.

- Não fale assim. Você está segura em Nova York.

- Mas tem Addy.

- Ela também está segura. - Celeste lembrou os olhos escuros e intensos, com as olheiras de cansaço. - Ele teria de passar por cima de mim. A primeira coisa que temos de fazer agora é procurar a imprensa, talvez o Departamento de Estado.

- Não quero publicidade. Não ouso me arriscar por causa de Addy. Ela já sabe mais do que deveria.

Celeste abriu a boca para protestar, mas logo tornou a fechá-la.

- Tem razão nesse ponto.

- Preciso deixar tudo isso para trás. Quero voltar a trabalhar, recomeçar a viver.

- Por que não começa a viver primeiro? Quando estiver um pouco mais segura, poderá pensar na volta ao trabalho.

- Tenho de arrumar um lugar para Addy morar, pensar na escola, comprar roupas.

- Há tempo para tudo isso. Por enquanto, você pode ficar aqui, recuperar o fôlego, dar algum tempo para as duas se acertarem.

Phoebe balançou a cabeça enquanto as lágrimas voltavam a escorrer.

- Quer saber do pior, Celeste? Eu ainda o amo.

Em silêncio, Adrianne subiu a escada.

 

O sol entrava pelas brechas das cortinas quando Adrianne acordou de novo. Sentia os olhos pesados de chorar, a cabeça atordoada. Ainda assim, tinha apenas oito anos, e comida foi a primeira coisa em que pensou. Pôs o vestido que usara em Paris e resolveu descer.

O apartamento era muito maior do que imaginara na noite anterior. Havia várias portas no corredor. Como sentia muita fome para explorações, ela desceu direto, na esperança de encontrar frutas e pão.

Ouviu pessoas falando. Um homem e uma mulher. Havia risos, muitos risos. As pessoas voltaram a falar, discutindo, a mulher numa voz estridente, chata, o homem num estranho tipo de inglês. Quanto mais eles falavam, mais risos Adrianne ouvia. Cautelosa, ela seguiu na direção dos sons. Descobriu-se na cozinha de Celeste.

Estava vazia, mas as vozes continuavam a soar. Adrianne descobriu que saíam de uma caixa pequena, onde havia pessoas pequenas. Encantada, adiantou-se para tocar na caixa. As pessoas nem notaram sua presença e continuaram a discutir.

Não eram pessoas, compreendeu Adrianne, sorrindo. Eram imagens de pessoas. Imagens se movimentando e falando. Isso significava que as pessoas na caixa eram artistas de cinema, como sua mãe. Esqueceu a vontade de comer, apoiou os cotovelos no balcão e ficou olhando.

- Ponha tudo ali. Ei, Adrianne, então já se levantou!

A menina empertigou-se no mesmo instante, à espera de uma repreensão.

- Isso é ótimo.

Celeste esperou até que o entregador pusesse as sacolas no balcão, antes de acrescentar:

- Agora terei mais companhia do que I Lave Lucy. - Ela entregou algumas notas ao garoto. - Obrigada.

- Eu é que agradeço, Srta. Michaels.

O garoto deu uma piscadela para Adrianne e saiu.

- Sua mãe ainda está dormindo, mas pensei que o estômago faria você acordar. Como não tinha idéia do que meninas na sua idade costumam comer, pedi ao dono da mercearia para escolher. - Ela tirou uma caixa de Rice Krispies de uma sacola. - Parece um bom começo.

A televisão passou para um comercial, com um fluxo de som e cor. Adrianne ficou boquiaberta. O White Tornado turbilhonou para salvar uma dona de casa do amarelado nas roupas.

- Incrível, não é mesmo? - Celeste baixou a mão para o ombro de Adrianne. - Não tem televisão em Jaquir?

Impressionada demais para falar, Adrianne limitou-se a sacudir a cabeça em negativa.

- Pode assistir todo o tempo que quiser durante os próximos dias. Tenho uma televisão maior na sala. Mantenho esta aqui para deixar a empregada feliz. Quer comer alguma coisa?

- Seria ótimo.

- Rice Krispies?

Adrianne olhou para a caixa. Tinha desenhos de pessoas pequenas e engraçadas usando chapéus brancos. Pela palavra rice, pensou que era arroz comum.

- Gosto muito de arroz.

- Este é um pouco diferente. Vou lhe mostrar.

A um gesto de Celeste, Adrianne sentou-se. Da mesa, podia ao mesmo tempo olhar para a televisão e Celeste.

- Primeiro, você despeja um pouco numa tigela. Depois...

Num gesto teatral, divertindo-se com a cena, Celeste acrescentou o leite.

- Agora escute. - Ela mexeu os dedos para Adrianne. ­Ponha o ouvido mais perto.

- Parece assobiar.

- Estala, crepita e estoura - corrigiu Celeste, enquanto punha um pouco de açúcar. - Cereal assobiando não seria gostoso. Experimente.

Hesitante, Adrianne enfiou a colher. Não podia entender por que alguém gostaria de comer uma coisa que fazia barulho, mas era bem-educada demais para ser grosseira. Pôs a colher com o cereal na boca, depois outra, e recompensou Celeste com seu primeiro sorriso genuíno.

- É muito bom. Obrigada. Gostei do arroz americano.

- Rice Krispies. - Celeste passou a mão pelos cabelos da menina. - Acho que também vou comer uma tigela.

Entre todas as suas recordações dos primeiros dias na América, aquela hora que passou com Celeste permaneceu uma das prediletas. Não foi muito diferente do harém. Celeste era mulher, e conversaram sobre coisas de mulher. Fazer compras, a comida que ela ajudou Celeste a guardar. Havia coisas estranhas, como manteiga feita de amendoim e sopa de letras. Para alívio de Adrianne, havia também chocolate.

Celeste era diferente, de cabelos dourados bem curtos e usando calça comprida. Adrianne gostou da maneira como sua graciosa voz subia e descia, o jeito com que usava as mãos e os braços, até mesmo o corpo, para enfatizar as palavras.

Quando Phoebe desceu, Adrianne sentava empertigada no sofá de Celeste, assistindo à sua primeira novela na televisão.

- Puxa, há muito tempo que eu não dormia tanto! Olá, querida.

-Mamãe!

Adrianne levantou-se de um pulo para abraçar Phoebe. Apesar da cabeça latejante da ressaca, ela apertou a filha.

- A melhor maneira de começar o dia. - Com um sorriso, ela recuou. - Como começou o seu, querida?

- Comi Rice Krispies e assisti televisão.

Celeste entrou, à frente de uma esteira de fumaça de cigarro.

- Como pode perceber, Addy já está se tornando americanizada. Como vai a cabeça?

- Ficou pior.

- Você, mais do que qualquer outra pessoa, tinha o direito de tomar um porre.

Celeste olhou para a TV, especulando se o programa era apropriado para uma menina de oito anos. Mas, pelo que Phoebe lhe contara, Adrianne ficaria mais chocada com Vila Sésamo do que com as paixões de Hospital Geral.

- Agora que você se levantou, sugiro que tome um café e coma alguma coisa, antes de sairmos - acrescentou Celeste.

A claridade que passava pelas janelas doía nos olhos de Phoebe. Por isso, ela virou as costas.

- Vamos sair?

- Querida, sabe que partilharia qualquer coisa em meu guarda-roupa com você, mas nada do que eu tenho cabe direito em você, assim como não cabe em Adrianne. Sei que tem muito com que se preocupar, mas achei que devemos cuidar de uma coisa de cada vez.

Phoebe pressionou os dedos contra os olhos. Resistiu ao impulso de voltar correndo para a cama e puxar as cobertas por cima da cabeça.

- Tem razão. Addy, por que não sobe, penteia os cabelos e se arruma? Depois, sairemos para conhecer Nova York.

-Você quer?

- Claro. - Phoebe deu um beijo na ponta do nariz da filha. - Vá logo se arrumar. Eu a chamarei assim que estivermos prontas.

Celeste esperou que Adrianne subisse para comentar:

- Ela adora você.

- Sei disso. - Phoebe sentou-se, cedendo à cabeça que latejava. - Às vezes penso que ela foi a recompensa por tudo que passei.

- Meu bem, se não está com vontade de sair ...

- Não. - Phoebe interrompeu a amiga, balançando a cabeça. - Você tem razão. Devemos começar pelo básico. Além do mais, não quero manter Addy presa aqui em cima. Ela já passou a vida inteira presa. O problema é dinheiro.

- Se isso é tudo...

- Já me aproveitei demais de você, Celeste. Não me restou muito orgulho, e por isso tenho de me apegar ao que tenho. - Está certo. Farei um empréstimo.

- Quando parti, nossa situação era de igualdade. - Com um suspiro, Phoebe correu os olhos pelo apartamento de cobertura. ­Você subiu, e eu não fui a parte alguma.

Celeste se sentou no braço do sofá.

- Phoebe, você seguiu pelo caminho errado. Pode acontecer com todo mundo.

- Tem razão. - Ela queria desesperadamente tomar um drinque. Para resistir, pensou em Adrianne e na vida que queria lhe proporcionar. - Tenho algumas jóias. Fui obrigada a deixar a maior parte, mas trouxe algumas ao escapar. Venderei tudo. Com o divórcio, o acordo com Abdu nos dará o suficiente para vivermos bem. E como logo voltarei a trabalhar, o dinheiro não será um problema por muito tempo.

Phoebe virou-se e olhou pela janela.

- Darei tudo a Addy ... o melhor de tudo. Tenho de fazê-lo.

- Vamos nos preocupar com isso mais tarde. No momento, acho que Addy pode aproveitar alguns jeans e tênis.

ADRIANNE PAROU NA ESQUINA DA QUINTA AVENIDA COM A Rua 52, segurando a mão de Phoebe, enquanto a outra mão, irrequieta, mexia nos botões do casaco novo, de gola de pele. Se o breve vislumbre de Paris fizera com que a cidade parecesse de outro mundo, Nova York era outro universo. E ela era parte dele.

Havia pessoas por toda parte, milhões de pessoas, pela impressão que ela tinha, e nenhuma parecia com outra. Não havia unidade na maneira de vestir, como acontecia em Jaquir. À primeira vista, muitas vezes era difícil distinguir homens de mulheres. Ambos os sexos tendiam a usar cabelos compridos. E algumas mulheres vestiam calça comprida. Nova York não tinha lei contra isso, nem contra outras roupas que as mulheres usavam... como as saias pequenas, que subiam acima dos joelhos. Ela viu homens com colares de contas e turbante, homens de terno e sobretudo. Havia mulheres envoltas por casacos de pele, enquanto outras usavam roupas de brim bem justas.

Independentemente do que vestissem, as pessoas andavam depressa. Adrianne atravessou a rua entre a mãe e Celeste, tentando ver tudo ao mesmo tempo. Às pessoas ocupavam toda a cidade, cada palmo, cada esquina, e o barulho de sua existência elevava-se do chão como uma celebração. Andavam em bandos ou andavam sozinhas. Vestiam-se como mendigos e como reis. Milhares de palavras, em milhares de vozes, ressoavam em seus ouvidos.

E havia também os prédios. Projetavam-se para o céu, mais altos do que qualquer mesquita, mais grandiosos do que qualquer palácio. Adrianne especulou se teriam sido construídos para homenagear Alá. Só que ainda não ouvira qualquer oração. As pessoas entravam e saiam apressadas dos prédios, mas ela ainda não vira nenhum que fosse proibido para as mulheres.

Alguns comerciantes espalhavam suas mercadorias pela calçada. Mas quando Adrianne parava e olhava, a mãe a puxava.

Ela entrava nas lojas, paciente, mas por uma vez não se senti: interessada em comprar. Queria ficar lá fora, absorvendo tudo. Havia cheiros para lembrar. O fedor do cano de descarga de centenas de carros, caminhões e ônibus que se arrastavam pelas ruas, tocando a buzina. Havia uma fumaça de cheiro penetrante, que ela soube ser de castanhas assando. E havia a fragrância forte da carne de tanta humanidade.

Era uma cidade suja, muitas vezes implacável, mas Adrianne não viu as camadas de fuligem, nem os contornos agressivos. Viu apenas a vida, numa variedade e com um excitamento que nunca imaginara que existisse. E queria mais.

-Tênis...

Com uma exaustão agradável, Celeste arriou numa cadeira no departamento de calçados da Lord & Taylor. Sorriu para Adrianne. O rosto da menina, pensou ela, contava mil histórias. Todas de espanto e admiração. Sentia-se contente por terem dispensado o motorista e optado por andar, embora os pés a estivessem matando.

- O que achou até agora de nossa cidade grande e iníqua, Addy?

- Podemos ver mais?

- Claro. - Já apaixonada, Celeste empurrou os cabelos de Adrianne para trás das orelhas. - Podemos ver tudo o que você quiser. Como se sente, Phoebe?

-Muito bem.

Phoebe forçou um sorriso e desabotoou o casaco. Tinha os nervos à flor da pele. O barulho, as pessoas, depois de tantos anos de silêncio e solidão. As decisões. Parecia haver centenas de decisões a tomar depois que passara tanto tempo sem tomar nenhuma. Queria um drinque. Oh, Deus, seria capaz de matar por um drinque! Ou por uma pílula.

- Phoebe?

- O que foi? - Com um suspiro profundo, ela recuperou o controle e sorriu calmamente para Celeste. - Desculpe. Minha mente estava vagueando.

- Comentei que você parecia cansada. Quer encerrar do dia?

Ela começou a acenar com a cabeça em concordância, mas depois percebeu a expressão de desapontamento da filha.

- Não. Apenas preciso recuperar o segundo fôlego. - Inclinou-se para beijar o rosto da menina. - Está se divertindo? - É melhor do que uma festa.

Celeste soltou uma risada e flexionou os dedos dos pés.

- Meu bem, Nova York é a maior festa deste país. - Ela cruzou as pernas e ofereceu um sorriso provocante para o vendedor. ­Queremos ver alguns tênis apropriados para uma menina. Pode trazer aquele par rosa, com flores, que está ali? E talvez outro par todo branco.

- Pois não.

O homem abaixou-se e sorriu para Adrianne. Recendia ao creme de hortelã que Jiddah às vezes comia. Tinha apenas uma orla de cabelos grisalhos na cabeça.

- Que tamanho calça, minha jovem?

O homem falava com ela. Diretamente com ela. Adrianne fitou-o, aturdida, sem ter a menor idéia de como agir. Não era um membro de sua família. Ela olhou para a mãe, desamparada, mas Phoebe tinha o olhar perdido no espaço.

- Por que não mede? - sugeriu Celeste.

Ela apertou a mão de Adrianne. Percebeu, com uma combinação de divertimento e aflição, como os olhos da menina ficaram arregalados, quando o homem pegou seu pé para tirar o sapato.

- Ele vai medir seu pé para saber qual é o tamanho.

- Isso mesmo. - Com uma expressão jovial, o vendedor ajeitou o pé de Adrianne na placa de medição. - Levante-se, meu bem.

Adrianne engoliu em seco. Levantou-se, olhando direto por cima da cabeça do homem, enquanto seu rosto ficava vermelho. Perguntou-se se o vendedor de sapatos seria como um médico.

- Hum... Vamos ver o que temos em estoque.

- Por que não tira o outro sapato também, Addy? Assim, poderá andar com os novos, para saber se são confortáveis.

Adrianne abaixou-se para abrir a fivela.

- O homem dos sapatos tem permissão para tocar na gente?

Celeste teve de morder o lábio para reprimir um sorriso.

- Tem sim. O trabalho dele é vender sapatos que caibam direito nos seus pés. Para ter certeza, ele precisa medir seus pés. E, como parte do serviço, tira os sapatos velhos e calça os novos.

- Um ritual?

Sem saber o que responder, Celeste recostou-se.

- De certa forma, é isso mesmo.

Satisfeita, Adrianne cruzou as mãos e ficou esperando, imóvel, até que o vendedor voltou com as caixas. Observou com uma expressão solene enquanto ele punha os tênis rosa e floridos em seus pés, puxava os cadarços e os prendia num laço.

- Pronto, querida. - O vendedor bateu de leve no pé da menina. - Pode experimentar.

Ao gesto de Celeste, Adrianne levantou-se e deu alguns passos.

- São diferentes.

- Diferentes bons ou diferentes ruins? - indagou Celeste.

- Diferentes bons.

Ela sorriu à idéia de usar flores nos pés. Não se importou quando o vendedor fez sinal.

- Coube direitinho.

Adrianne respirou fundo e sorriu para o homem.

- Gosto muito deles. Obrigada.

Ela deixou o ar escapar numa risadinha. Pela primeira vez na vida, falara com um homem que não era de sua família.

 

AS TRÊS SEMANAS QUEADRIANNE PASSOU EM NOVA YORK SE destacaram entre os dias mais felizes e mais tristes de sua vida. Havia muita coisa para aprender, muita coisa para ver. Parte dela, a parte que fora criada com as normas estritas e inflexíveis de comportamento, desaprovava a impudência da cidade grande. Outra parte, a parte que começava a se abrir, ficou encantada. Nova York era a América para Adrianne. Permaneceria a América para sempre, no que tinha de melhor e pior.

As regras haviam mudado. Ela também tinha um quarto só seu, mas era maior e mais claro do que o quarto que ocupava no palácio do pai. Não era uma princesa ali, mas era estimada. Continuava a se esgueirar para o quarto da mãe à noite, a fim de confortá-la se esta chorava, e ficar acordada se esta dormia. Compreendia que havia demônios dentro da mãe, e isso a assustava. Havia dias em que Phoebe parecia transbordar de energia, alegria e otimismo. Falava sobre as glórias do passado e as glórias do futuro. Planos e promessas eram feitos, num turbilhão de palavras risonhas. No entanto, um ou dois dias depois a animação desaparecia. Phoebe queixava-se de dores de cabeça e cansaço, passava horas sozinha no quarto.

Nesses dias, Celeste saía para passear no parque com Adrianne ou a levava ao teatro.

Até mesmo a comida era diferente, e a menina tinha permissão para comer o que quisesse e quando quisesse. Logo se tornou viciada no gosto forte e borbulhante de Pepsi, que tomava direto da garrafa gelada. Comeu seu primeiro cachorro-quente sem fazer a menor idéia de que era feito de carne de porco, proibida para os muçulmanos.

A televisão tornou-se-Ihe mestra e diversão. Sentia-se ao mesmo tempo embaraçada e fascinada quando via mulheres abraçando ho­mens... de uma maneira ostensiva, até agressiva. As histórias muitas vezes tinham finais de contos de fadas, com as pessoas se apaixonando ou se desiludindo. Nas histórias, as mulheres escolhiam com qual homem queriam casar, e às vezes nem casavam. Ela assistia, em silêncio, aturdida. Bette Davis em Jezebel Katharine Hepburn em Núpcias de Escândalo (Philadelphia Story) e Phoebe Spring em Noites de Paixão (Nights of Passion). Passou a sentir a maior admiração por mulheres fortes, capazes de vencer no mundo dos homens.

Mas eram os comerciais, em que as pessoas se vestiam de maneira estranha e resolviam seus problemas em segundos, que a fascinavam, mais do que as comédias e dramas. E foi por intermédio dos comerciaiss que Adrianne refinou seu inglês ao estilo americano. três semanas, ela aprendeu mais do que poderia aprender em três anos de escola. Sua mente era como uma esponja, an­asiosa para absorver tudo.

Era seu espírito, tão em sintonia com o de Phoebe, que sofria os altos e baixos.

E então, a carta chegou. Adrianne sabia do divórcio. Ainda hábito de descer pela escada à noite, sem fazer qualquer barulho ­e ouvir a mãe e Celeste conversarem sobre coisas que nunca lhe diriam. Por isso, sabia que a mãe ia se divorciar de Abdu. O que a deixava contente. Se houvesse o divórcio, não haveria mais surras, não haveria mais estupros.

Quando a carta chegou - a carta de Jaquir -, Phoebe foi para seu quarto. Passou o dia inteiro ali. Não saiu para comer, e quando te batia na porta, pedia que a deixasse em paz.

Perto de meia-noite, Adrianne foi despertada de um sono irrequieto pela riso da mãe. Saiu da cama e foi até a porta do quarto de Phoebe.

- Fiquei muito preocupada com você.

Celeste andava de um lado para outro do quarto, o pijama de seda  sussurrando.

- Desculpe, querida, mas eu precisava de algum tempo sozinha. Adrianne encostou o rosto na fresta da porta. Viu Phoebe esparramada numa poltrona, os cabelos soltos, os olhos brilhando, os dedos tamborilando numa melodia interior acelerada.

- Receber uma notícia de Abdu me deixou abalada - continuou Phoebe. - Eu sabia que ia acontecer, mas não estava preparada. Pode me dar os parabéns, Celeste. Sou uma mulher livre!

- Do que está falando?

Os movimentos bruscos, Phoebe levantou-se para encher seu copo de uma garrafa de cristal. Sorriu, levantou o copo num brinde e tomou um enorme gole.

- Abdu divorciou-se de mim.

- Em três semanas?

- Poderia fazê-lo em três segundos, e foi o que aconteceu.

Ainda tenho de cuidar das formalidades aqui, mas o divórcio está consumado.

Celeste notou o nível de uísque na garrafa de cristal.

- Por que não desce e toma um café?

- Isto é uma comemoração. - Ela comprimiu o copo contra a testa e começou a chorar. - O desgraçado nem sequer me deu a chance de terminar à minha maneira. Nem uma única vez, durante todos esses anos, tive uma opção... nem mesmo nisso.

- Vamos nos sentar.

Celeste estendeu a mão para puxá-la, mas Phoebe sacudiu a cabeça e tornou a pegar a garrafa.

- Não se preocupe. Estou bem. Apenas precisava me embriagar. O caminho dos covardes.

- Ninguém que fez o que você fez, Phoebe, jamais poderia ser chamado de covarde.

Celeste tirou o copo da mão da amiga, depois a levou para sentar na cama.

- Sei que é difícil. O divórcio faz com que você sinta que baixou o pé para um terreno conhecido, apenas para descobrir que não há nada ali. Mais cedo ou mais tarde, no entanto, pode ter certeza de que tornará a encontrar um solo firme.

- Não há mais ninguém para mim.

- Não diga bobagem. Você é jovem e bonita. O divórcio é um começo para você, não um fim.

- Ele tirou alguma coisa de mim, Celeste. E parece que não consigo recuperar. - Phoebe cobriu o rosto com as mãos. - Mas não importa. Só Addy é importante agora.

- Ela está bem.

- Addy precisa de coisas. Merece coisas. - Phoebe pegou um lenço de papel. - Preciso ter certeza de que ela será bem cuidada.

- Claro que será.

Phoebe enxugou os olhos. Respirou fundo.

- Não haverá um acordo.

- Como assim?

- Se não quer fazer qualquer acerto financeiro para Addy. Nada. Nem  um fundo de investimentos, nem o dinheiro para seu absolutamente nada. Ela tem apenas um título que não vale nada, mas que nem mesmo Abdu pode lhe tirar. Ele ficará com tudo que eu tinha quando casei e o que me deu depois. Não poderei ter nem mesmo O Sol e a Lua, o colar com que ele me comprou.

- Não pode, Phoebe. Arrume um bom advogado. Pode exigir algum tempo e esforço, mas Abdu tem uma responsabilidade com você e Adrianne.

- Não. Suas condições foram bastante claras. Se eu tentar lutar a isso, ele me tomará Adrianne. - O uísque lhe deixara a língua engrolada. Ela bebeu mais, para tentar soltá-la. - E pode ter certeza, Celeste, de que ele é capaz de consegui-lo. Não a quer em sua casa,  e só Deus sabe a que a submeteria ali, mas não hesitaria em tirá-la de mim se tivesse de brigar. E nada vale isso, Celeste, O Sol e a Lua, nem qualquer outra coisa.

Pela segunda vez, Celeste tirou o copo da mão de Phoebe. Largou-o na mesinha-de-cabeceira.

- Muito bem, concordo com você que o bem-estar de Addy fica  em primeiro lugar. O que vai fazer?

- Já fiz. - Phoebe levantou-se. Pôs-se a andar de um lado para outro, a camisola branca esvoaçando. - Tomei um porre. Vomitei. E depois telefonei para Larry Curtis.

- Seu agente?

- Isso mesmo. - Phoebe virou-se. Tinha o rosto vivo de novo, ainda pálido, mas fascinante. - Ele está vindo para cá.

Esplêndido, pensou Celeste ... como o fogo quando se torna brilhante demais.

- Tem certeza de que está preparada, querida?

- Tenho de estar.

- Está certo. - Celeste levantou a mão. - Mas Larry Curtis? Falam muito sobre ele ... e os comentários não são nada lisonjeiros.

- Sempre se fala dos outros em Hollywood.

- Sei disso, mas... Larry é um desgraçado atraente e insinuante. Lembro-me de que você pensou em trocar de agente antes de casar.

- Isso ficou para trás. - Phoebe tornou a pegar o copo. Sentia-se no topo do mundo. E com um enjôo monumental. - Larry foi bom para mim no passado, e será de novo. Eu voltarei, Celeste. Serei alguém outra vez.

ADRIANNE NÃO PÓ DE EXPLICAR POR QUE SEU PRIMEIRO VIS­lumbre de Larry Curtis deixou-a apreensiva; e também não pôde determinar por que ele lembrava seu pai. Não havia, com toda certeza, uma semelhança física. Curtis era atarracado e um pouco mais baixo que o 1,78m de Phoebe. Tinha uma massa de cabelos louros encrespados, que emolduravam um rosto liso e bronzeado, quase quadrado. E sorria sem parar, exibindo dentes brancos e grandes, retos e uniformes.

Adrianne gostou de seu traje. A camisa era cor de lavanda, com mangas largas, aberta no pescoço para deixar à mostra uma grossa corrente de ouro. A calça, em quadrados bem pequenos, abria-se nos tornozelos, mas era apertada na cintura por um cinto preto bem largo.

A mãe mostrou-se contente ao vê-lo. Abraçou-o quando ele entrou. Adrianne ficou consternada e desviou os olhos quando Larry bateu de leve na bunda de Phoebe.

- Seja bem-vinda de volta, querida.

- Não imagina como me sinto contente ao vê-lo, Larry.

Ela riu e manteve o tom jovial, mas Larry era bastante esperto para perceber o desespero por trás daquele rosto. E tratou de se aproveitar.

- Também fico satisfeito em vê-la, meu bem. Vamos dar uma olhada. - Ele manteve Phoebe à distância do braço, examinando-a de alto a baixo, de uma maneira que deixou Adrianne com as faces ardendo. - Parece muito bem. Emagreceu um pouco, mas isso agora está na moda.

Larry lamentou as rugas nos cantos dos olhos e da boca, mas refletiu que uma pequena cirurgia resolveria o problema. Phoebe Spring era uma mina de ouro quando deixara Hollywood. Com um pouco de esforço e alguma habilidade, voltaria a ser como antes. Ainda com o braço em torno dos ombros de Phoebe, ele comentou:

- Belo apartamento, Celeste.

- Obrigada. - Celeste lembrou a si mesma que Phoebe o queria, talvez precisasse dele. Larry tinha a reputação de fazer as manobras certas. E os rumores, em especial os insidiosos e desfavoráveis, muitas vezes não passavam de rumores. - Como foi seu vôo?

- Suave como seda. - Ele sorriu, os dedos subindo e descendo pelo braço de Phoebe. - Mas bem que preciso de um drinque.

- Vou buscar. - Phoebe levantou-se de um pulo, de uma maneira que fez Celeste estremecer. - Gosta de bourbon, não é mesmo, Larry?

- Isso mesmo, querida. - Ele se acomodou, à vontade, no sofá branco de Celeste. - E quem é essa coisinha bonita?

Ele ofereceu um sorriso para Adrianne, sentada numa cadeira to da janela, rígida.

- É minha filha. - Phoebe entregou o copo. Sentou-se ao lado do agente. - Adrianne, venha cumprimentar o Sr. Curtis. É meu amigo antigo e muito querido.

Relutante, mas com uma atitude imponente, da qual não tinha consciência, Adrianne levantou-se e atravessou a sala.

- Prazer em conhecê-lo, Sr. Curtis.

Ele riu e pegou a mão de Adrianne, antes que ela pudesse evitar.

- Nada de Sr. Curtis, meu bem. Somos praticamente uma família. Pode me chamar de tio Larry.

Os olhos de Adrianne se contraíram. Não gostava do contato. Era quente e ávido, diferente do toque do homem dos sapatos.

- Você é irmão de minha mãe?

Larry recostou-se e caiu na gargalhada, como se tivesse acabado de ouvir uma piada muito engraçada.

- Ela é demais!

- Addy leva as coisas ao pé da letra - explicou Phoebe, lançando um sorriso nervoso para a filha.

- Vamos nos dar muito bem.

Larry tomou um gole, avaliando Adrianne por cima do copo, como se fosse um carro novo ou um terno caro. Havia potencial, concluiu ele. Mais alguns anos, mais algumas curvas, e poderia ser um arranjo muito interessante.

- Adrianne e eu pensamos em terminar nossas compras de Natal. - Celeste estendeu a mão. Adrianne pegou-a, agradecida. - Deixaremos vocês dois conversando sobre negócios.

- Obrigada, Celeste. Divirta-se, querida.

- Trate de se agasalhar, menina. - Larry piscou para Adrianne. - Está frio lá fora.

Ele esperou que a porta fosse fechada. Tornou a se recostar nas almofadas.

- Como eu disse, querida, é bom ter você de volta. Mas está na costa errada.

- Eu precisava de algum tempo. - Phoebe entrelaçou os dedos. - Celeste tem sido maravilhosa conosco. Não sei o que eu faria sem ela.

- É para isso que servem os amigos.

Ele afagou a coxa de Phoebe. Ficou satisfeito por ela não protestar quando sua mão perdurou. De um modo geral, preferia o tipo menos voluptuoso, mas não havia nada como sexo para pôr o homem no comando.

- Quanto tempo pretende ficar, meu bem?

- Estou aqui para sempre.

No momento em que ele tomou o último gole do bourbon, Phoebe levantou-se para tornar a encher o copo. Dessa vez serviu-se também de uma dose. Larry alteou uma sobrancelha. A Phoebe de qua1 se lembrava nunca tomava qualquer coisa mais forte do que vinho.

- E o tal xeique?

- Entrei com um pedido de divórcio. - Phoebe passou a língua pelos lábios. Olhou ao redor, como se alguém pudesse agredi-la a declaração. - Não posso mais viver com ele.

Tomou um gole. Tinha medo de também não ser capaz de viver Abdu.

- Ele mudou, Larry. Não dá nem para começar a descrever o quanto. Se ele vier atrás de mim...

- Você está nos Estados Unidos da América agora, meu bem. Larry puxou-a, mais uma vez avaliando seu corpo. Calculou que já avançara um pouco pela casa dos 30 anos. Mais velha do que sua escolha habitual. Mas ela estava vulnerável. E preferia suas mulheeres ... e clientes ... vulneráveis. - Não cuidei sempre de você?

-Cuidou.

Phoebe fez um esforço para se controlar, pronta para chorar de alivio. Sabia que sua aparência começara a se deteriorar. Não tinha importância, disse a si mesma, enquanto Larry acariciava suas costas. Ele cuidaria dela.

- Quero um papel, Larry. Qualquer coisa para começar. Tenho de pensar em Adrianne. Ela precisa de coisas... e merece o melhor.

 - Deixe comigo. Começaremos com uma entrevista, antes de seu retorno à Costa Oeste. “ A rainha está de volta”... alguma coisa nessa linha. - Ele apertou o seio de Phoebe, de uma maneira rápida e casual, antes de tornar a pegar seu copo. - Tiraremos uma sua com a princesinha. Crianças sempre despertam interesse. E começarei logo a abrir caminhos, a conversar, negociar. Confie em mim. Todos estarão em nossas mãos dentro de seis semanas.

- Espero que sim. - Phoebe fechou os olhos, apertando-os com toda força. - Passei muito tempo longe... e tanta coisa mudou...

- Faça as malas e viaje para Los Angeles no final da semana. Continuarei tudo lá.

O mero nome de Phoebe seria suficiente para fechar alguns contratos, concluiu Larry. E mesmo que ela fracassasse no retorno, ainda o ajudaria a ganhar um bom dinheiro. E havia também a menina. Ele tinha o pressentimento de que a criança ainda seria muito útil.

- Não tenho muito dinheiro. - Ela ergueu o queixo, determinada a enfrentar a vergonha. - Vendi algumas jóias, e é suficiente para me sustentar durante algum tempo. Mas preciso de mais dinheiro para pagar uma boa escola para Adrianne. E sei como a vida é cara em Los Angeles.

Era verdade, a criança seria muito conveniente. Enquanto ela estivesse em cena, Phoebe se disporia a fazer qualquer coisa.

- Não falei que cuidaria de você?

Ele baixou o zíper nas costas do vestido.

- Larry ...

- Vamos, querida, demonstre que confia em mim. Arrumarei um papel para você, uma casa, uma escola para a menina. A melhor. Não é o que você quer?

- É sim. Quero que Addy tenha o melhor.

- E você também. Eu a levarei num instante de volta ao centro do palco. Desde que coopere.

Que diferença fazia?, perguntou ela a si mesma, enquanto Larry a despia. Abdu possuía seu corpo sempre que queria, e nada dava em troca, nem para ela nem para Adrianne. Com Larry, havia uma promessa de proteção, talvez até um pouco de afeição.

- Você ainda tem peitos maravilhosos, meu bem.

Phoebe fechou os olhos e o deixou fazer o que queria.

 

Philip Chamberlain escutava o zunido e as batidas secas das bolas de tênis, enquanto tomava seu gim com tônica. Parecia ainda melhor no traje branco de tênis por ter adquirido algum bronzeado nas três semanas que passara na Califórnia. Ele cruzou os tornozelos, olhando para as quadras, através dos óculos escuros espelhados.

Fazer amizade com Eddie Treewalter III não fora nem um pouco agradável para Philip, mas compensara pelos convites para ir ao country club. Philip fora a Beverly Hills a trabalho, mas nunca fazia mal aproveitar um pouco o sol. Porque deixara Eddie vencê-la nos dois últimos games da partida, o jovem americano mostrava-se agora expansIvo.

- Tem certeza de que não quer almoçar, meu velho?

Para crédito de Philip, ele não estremeceu ao ouvir o "meu velho", que Eddie pensava ser o máximo da camaradagem entre os ingleses.

- Eu bem que gostaria, mas tenho de sair às pressas daqui a pouco, se quiser chegar a meu encontro na hora marcada.

- Um dia horrível para tratar de negócios.

Eddie levantou os óculos escuros, as lentes cor de âmbar, com a mão em que um relógio de ouro faiscava no pulso. Os dentes, que haviam perdido o aparelho apenas dois anos antes, também faiscaram. Ele tinha um saquinho com a melhor maconha colombiana em sua bolsa de tênis de couro com monograma.

Como o filho de um dos mais bem-sucedidos cirurgiões plásticos da Califórnia, não precisara trabalhar em um único dia de sua vida. Treewalter II cortava e esculpia as estrelas, enquanto o filho passava indiferente pelo curso superior, vendia drogas como um passatempo e se divertia no country club.

- Vai à festa na casa de Stoneway esta noite?

- Não a perderia por nada neste mundo.

Eddie terminou de tomar sua vodca com gelo e fez sinal para que o garçom trouxesse outra.

- O homem faz os piores filmes, mas sabe como oferecer uma festa. Haverá pó e erva em quantidade suficiente para abastecer um exército. - Ele sorriu. - Esqueci. Você não aprecia essas coisas, não é mesmo?

- Prefiro apreciar outras coisas.

- Como quiser. Mas Stoneway serve coca em bandejas de prata. Muito chique. - Eddie olhou para uma loura magricela, num short de tênis bem apertado. - Sempre pode aproveitar aquilo. Dê um pouco de pó para a pequena Marci cheirar e ela fode com qual­quer um!

- Ela é uma adolescente.

Philip usou o gim para tirar da boca o gosto ruim pela estupidez e arrogância juvenil de Eddie.

- Ninguém nesta cidade é adolescente. E, por falar em trepada fácil... - Eddie acenou com a cabeça para uma ruiva exuberante, num vestido leve de verão. - A velha e infalível Phoebe.

E soltou uma risada, antes de acrescentar:

- Não é por nada que ela se chama Spring... está sempre pronta para saltar em cima de qualquer homem. Acho que até meu velho já a comeu. Um pouco passada, mas ainda tem peitos maravilhosos.

Talvez usufruir da companhia de Eddie não valesse a recompensa que teria depois, pensou Philip.

- É melhor eu partir agora.

- Claro. Ei, ela veio com a filha! - Eddie passou a língua pelos lábios. - Ali está uma garota que vai ser muito gostosa. Doce e pura. Estará pronta para ser comida muito em breve. A mamãe não vai levá-la para a festa esta noite, mas não poderá mantê-la trancafiada para sempre.

Philip olhou, disfarçando sua irritação. E sentiu o impacto. Teve apenas um vislumbre de um rosto jovem e delicado. Mas havia massa de cabelos pretos, lisos e gloriosos. E pernas. Mesmo contra sua vontade, Philip não pôde deixar de admirá-las. Pernas realmente deslumbrantes. Ele soltou um grunhido de auto-repulsa. A  garota era tão jovem que fazia Marci parecer de meia-idade. Ele cantou-se, abruptamente, e virou as costas.

- Um pouco jovem para meu gosto... meu velho. Até de noite.

 Filho da puta!, pensou Philip sobre Eddie, enquanto se afastava da mesa. Dentro de um ou dois dias não precisaria mais de seu “companheiro”  e poderia voltar para casa. Voltar para Londres. Encontraria o verde e o frescor em Londres, e poderia remover dos olhos a poluição de Los Angeles. Precisava providenciar alguns suvenires para a mãe. Sabia que Mary adoraria ter um mapa das casas dos artistas de cinema.

Que ela continuasse a romancear Hollywood. Não havia necessidade de contar que por trás do brilho havia uma sórdida camada de sujeira. Drogas, sexo e traição. Nem tudo era assim, é claro, mas havia o suficiente para que ele se sentisse contente porque a mãe nunca insistira em seu sonho de virar atriz. Apesar de tudo, porém, devia trazê-la para Hollywood um dia. Levá-la para almoçar no Grauman's Chinese Theater, deixar que pusesse os pés sobre as pegadas de Marilyn Monroe. Poderia apreciar um pouco a cidade se a mãe estivesse ao lado para se mostrar impressionada e emocionada.

Uma bola de tênis rolou à sua frente. Ele abaixou-se para pegá­-la. A garota de pernas sensacionais pusera enormes óculos escuros. Sorriu por baixo, fazendo Philip sentir de novo o mesmo impacto, enquanto lhe devolvia a bola.

- Obrigada

- Não foi nada.

Philip enfiou as mãos nos bolsos e relegou para o fundo da mente a filha muito jovem de Phoebe Spring. Tinha um trabalho para fazer.

Vinte minutos depois, ele seguia para Bel Air numa van branca fechada. O letreiro no lado anunciava KARPETS KLEANED. A mãe de Eddie ficaria muito infeliz quando descobrisse que suas jóias também seriam limpas. De graça.

Com uma peruca castanha cobrindo os cabelos agora clareados pelo sol, um elegante bigode por cima dos lábios finos, Philip sal­tou da van. Ainda se vestia de branco, mas agora era um macacão, com enchimento para dar a ilusão de corpulência. Precisara de duas semanas para fazer um levantamento da casa dos Treewalters e descobrir a rotina da família e dos criados. Dispunha de 25 minutos para entrar e sair antes que a governanta voltasse de sua viagem semanal ao supermercado.

Era quase fácil demais. Uma semana antes, ele tirara os moldes das chaves de Eddie. Na ocasião, Eddie estava drogado demais para passar sozinho pela porta da frente. Depois que entrou, Philip desligou o alarme. Quebrou um vidro na porta que dava para o pátio, a fim de causar a impressão de arrombamento.

Em movimentos rápidos, subiu para o quarto principal. Ficou satisfeito ao descobrir que era do mesmo modelo do cofre dos Mezzenis, em Veneza. Levara apenas 12 minutos para arrombar o cofre e aliviar a amorosa matrona italiana de um dos mais valiosos colares de esmeraldas da Europa. Mas isso acontecera seis meses antes. Philip não era um homem de descansar sobre os louros conquistados.

A concentração era tudo. Embora fosse quase tímido, aos 21 anos, Philip sabia como alcançar uma concentração absoluta, num cofre, num alarme ou numa mulher. Era fascinante descobrir os segredos de cada coisa.

Ele ouviu as primeiras lingüetas se soltando.

Era tão eficiente ali quanto durante os coquetéis, ou entre os lençóis de uma cama. Aprendera muito bem. Como se vestir, como falar, como seduzir uma mulher. Seus talentos abriram-lhe portas, da sociedade e dos cofres. Conseguira instalar a mãe num apartamento espaçoso. Ela agora passava as tardes fazendo compras ou jogando bridge em vez de tremer de frio ou suar de calor na bilheteria do Faraday's. Cuidaria para que ela continuasse a viver assim. Havia outras mulheres em sua vida, mas Mary ainda era seu primeiro amor.

Ele ouviu os mecanismos se movimentarem, através do estetoscópio.

Saíra-se bem em seu trabalho, e tencionava conseguir ainda mais. Tinha uma casa pequena e elegante em Londres. Em breve, muito em breve, começaria a fazer um reconhecimento da região ao redor, à procura de uma casa de campo. Com um jardim. Tinha uma fraqueza por coisas pequenas e bonitas que precisavam ser bem cuidadas.

Philip estava parado, a mão deslocando o dial, com toda delicadeza, os olhos meio fechados, igual a um homem ouvindo música ou apreciando as carícias de uma mulher afetuosa.

Abriu o cofre, sem qualquer barulho.

Desenrolou a bolsa de veludo que encontrou lá dentro e arrumou tempo para examinar as pedras com uma lupa. Nem tudo o que faiscava, ele sabia, era ouro. Ou diamantes. Mas aquelas pedras eram genuínas. Grau D, indubitavelmente russas. Ele estudou a safira maior. A gota central era defeituosa, como era de esperar numa pedra daquele tamanho. Era linda e valiosa, com um azul na tonalidade da centáurea. Como um médico meticuloso fazendo um exame, ele verificou cada pulseira, anel e outras jóias. Achou que os brincos de rubi eram feios demais... e, como um homem que se considerava um artista, concluiu que era um crime produzir uma coisa tão desagradável, em termos estéticos, com uma pedra tão ardente. Mas levou os brincos assim mesmo, calculando que deveriam valer em torno de 35 mil dólares americanos. Artista ou não, era acima de tudo um homem de negócios.

Satisfeito, ele ajeitou tudo no meio do tapete Aubusson, que enrolou em seguida.

Vinte minutos depois de entrar na casa, Philip encaminhou-se para a van, com o tapete no ombro. Sentou ao volante e partiu. Passou pela governanta dos Treewalters no momento em que ela virava a esquina.

Eddie tinha razão, pensou Phil, enquanto ligava o rádio. Era um dia horrível para tratar de negócios.

NADA ERA EXATAMENTE COMO PARECIA EM HOLLYWOOD. A primeira impressão de Adrianne foi de admiração. Aquela América era muito diferente da América de Nova York. As pessoas eram mais atraentes, tinham menos pressa e todo mundo parecia conhecer todo mundo. Adrianne refletiu que era como uma pequena aldeia, Só que os nativos não eram tão cordiais quanto fingiam ser.

Ao completar 14 anos, ela já aprendera que as atitudes eram muitas vezes tão falsas quanto as fachadas num estúdio de cinema. E também sabia que o retorno de Phoebe fora um fracasso.

Tinham uma casa, ela estudava numa boa escola, mas a carreira de Phoebe entrara em decadência. Mais do que a beleza começara a se desvanecer em Jaquir; o talento fora erodido tão depressa quanto a auto-estima.

- Ainda não está pronta?

Phoebe entrou apressada no quarto de Adrianne. Os olhos mui­to brilhantes e a voz excitada avisavam a Adrianne que a mãe obti­vera um novo suprimento de anfetaminas. Ela fez um esforço para reprimir o sentimento de desamparo e conseguiu sorrir. Não suportaria outra briga naquela noite, nem as lágrimas e promessas inúteis da mãe.

- Quase.

Adrianne prendeu a faixa da cintura do smoking. Queria dizer que a mãe estava linda, mas o vestido de Phoebe a deixava arrepiada. O decote era profundo demais, a um ponto embaraçoso, o vestido tão apertado quanto  uma segunda pele de lantejoulas douradas. Uma idéia de Larry, pensou Adrianne. Larry Curtis ainda era o agente de sua mãe, amante ocasional e manipulador constante.

- Ainda temos bastante tempo – acrescentou ela.

- Sei disso. – Phoebe circulou pelo quarto, esfuziante, estimulada pela energia das pílulas e por suas imprevisíveis oscilações de ânimo. – Mas as estréias são sempre emocionantes. As pessoas, as câmeras...

Ela parou diante do espelho de Adrianne e viu-se como outrora fora, sem as marcas da doença e dos desapontamentos.

- Todos estarão presentes. Será como nos velhos tempos.

Confrontada por seu reflexo, Phoebe pôs-se a sonhar, como fazia com muita freqüência. Viu-se no centro dos refletores, cercada por fãs e colegas que exibiam toda sua admiração. As pessoas amavam-na, queriam estar perto dela, falar com ela, escutar, tocar...

- Mamãe...

Apreensiva com o silencio abrupto de Phoebe, Adrianne estendeu a mão para o seu ombro. Havia dias em que a mãe perdia o contato com a realidade daquele jeito, e não voltava durante horas.

- Mamãe... – repetiu ela, apertando o ombro de Phoebe, com medo de que a mãe tivesse se aprofundando pelo comprido túnel de suas fantasias.

- Hem? – Phoebe voltou-se espantada, piscando. Sorriu ao focalizar o rosto de Adrianne. – Minha princesinha... Está tão crescida!

- Eu amo você, mamãe.

Com um esforço para reprimir as lagrimas, Adrianne abraçou a mãe. No ultimo ano, as oscilações de ânimo de Phoebe haviam se tornado mais e mais como a montanha-russa em que outrora haviam andado na Disneylândia. Uma confusão de altos vertiginosos e baixos depressivos. Nunca podia ter certeza se encontraria Phoebe cheia de risos e promessas delirantes, ou dominada pelas lágrimas e arrependimentos.

- Também amo você, Addy. - Ela acariciou os cabelos da filha, desejando que sua cor e textura não a lembrassem tanto de Abdu. - Estamos progredindo, não é mesmo?

Phoebe desvencilhou-se do abraço e passou a andar pelo quarto.

- Dentro de poucos meses, teremos minha estréia. Sei que não é um filme tão importante quanto este. Mas também não podemos nos esquecer de que esses filmes de baixo orçamento são muito populares. E, como diz Larry, tenho de me manter disponível. Com a publicidade que ele está planejando ...

Ela pensou na ilustração de nu para a qual posara na semana anterior. Ainda não era o momento de falar com Adrianne a respeito. Era trabalho, lembrou a si mesma, retorcendo os dedos. Apenas trabalho.

- Tenho certeza de que será um filme maravilhoso.

Mas os outros não haviam sido, refletiu Adrianne. As críticas haviam sido insultuosas. Ela detestara ver a mãe se embaraçando na tela, usando o corpo em vez do talento. Mesmo agora, depois de cinco anos na Califórnia, Adrianne tinha plena consciência de que Phoebe apenas trocara um tipo de servidão por outro.

- Quando o filme se tornar um sucesso, um grande sucesso, teremos aquela casa na praia que prometi.

-Já temos uma boa casa.

- É tão pequena ...

Phoebe olhou pela janela para o jardim modesto que separava a casa da rua. Não havia muro imponente, nem portão de ferro batido, nem um gramado extenso. Estavam na margem de Beverly Hills, na margem do sucesso. O nome de Phoebe caíra para a lista B das anfitriãs importantes de Hollywood. Os grandes produtores já não lhe enviavam mais seus roteiros.

Ela pensou no palácio de onde tirara Adrianne, com todos os seus luxos. Era mais fácil, à medida que o tempo passava, esquecer as restrições de Jaquir e lembrar apenas a opulência.

- Não é o que eu quero para você, nem de longe é o que você merece, mas reconstruir uma carreira leva tempo.

- Sei disso. - Já haviam conversado antes a respeito muitas vezes. - As aulas acabam daqui a duas semanas. Pensei que poderiamos ir para Nova York, visitar Celeste. Precisa relaxar.

- Hum ... Teremos de esperar um pouco, Larry está negociando um novo papel para mim.

Adrianne sentiu um profundo desânimo. Não precisava que ninguém lhe dissesse que o papel seria medíocre, ou que a mãe passaria horas fora de casa, manipulada por homens que só queriam explorar seu corpo. Quanto mais Phoebe tentava provar que podia voltar ao topo, mais resvalava para o abismo.

Phoebe queria uma casa na beira da praia e seu nome à luz dos refletores. Adrianne poderia se ressentir da ambição de Phoebe, tal­até lutasse contra, se os motivos fossem egoístas. Mas o que a mãe  fazia era por amor, pela necessidade de ser generosa. Não havia como Adrianne fazê-la compreender que estava construindo uma prisão tão forte quanto a outra da qual escapara.

- Mamãe, você não tira uma folga de verdade há meses. Podemos assistir à nova peça de Celeste, visitar alguns museus. - Seria bom para você.

- Vai me fazer mais bem ainda ver todo mundo cortejar a Princesa Adrianne esta noite. Está linda, querida. - Ela passou o braço pelos ombros de Adrianne. As duas se encaminharam para a porta. - Aposto que os garotos vão ficar de coração partido por você.

Adrianne deu de ombros. Não estava interessada em garotos nem em seus corações.

- Esta é a nossa noite. É uma pena que Larry tenha viajado. Seria ótimo se tivéssemos um homem bonito para nos acompanhar.

- Não precisamos de ninguém, e sim uma da outra.

ADRIANNE ESTAVA ACOSTUMADA As MULTIDÕES, LUZES FOR­tes e câmeras. Phoebe preocupava-se de vez em quando, achando que a filha era séria demais. Mas não precisava se preocupar com o equilíbrio de Adrianne. Embora jovem, a menina tratava a imprensa como a realeza, sorrindo quando devia, respondendo a perguntas sem revelar muita coisa, e se mantendo em segundo plano quando alcançava o limite de sua tolerância. Em conseqüência, a imprensa a adorava. Era do conhecimento geral que as colunas se mostravam mais gentis do que o necessário com Phoebe Spring porque eram apaixonadas por sua filha. Adrianne sabia disso, e tratava de aproveitar, com a habilidade de alguém com o dobro de sua idade.

Ela deixou Phoebe sair primeiro do carro que haviam contratado. As duas ficaram paradas, de braços dados, enquanto as câmeras focalizavam-nas. Quaisquer fotos publicadas seriam das duas.

Phoebe adquiriu vida subitamente. Adrianne já vira isso acontecer antes. E, sempre que ocorria, diminuía o fervor do seu desejo para que a mãe abandonasse a carreira no cinema. Havia felicidade no rosto de Phoebe, o tipo de alegria simples que Adrianne quase nunca via. Phoebe não precisava de pílulas agora, nem de uma garrafa, nem de seus devaneios.

A multidão agitou-se ao seu redor, as luzes aumentaram, a música tornou-se mais alta. Por um instante, ela era de novo uma estrela.

Os espectadores, espremidos contra as barricadas, esperavam por um vislumbre das celebridades prediletas e contentavam-se com atrações menores. Bem-humorados, aclamavam todos, enquanto algumas carteiras eram roubadas e inúmeros pacotes de drogas trocavam de mãos.

Phoebe, vendo apenas os sorrisos, parou para acenar. Exultou com os aplausos, enquanto se encaminhava para o cinema. Com a devida discrição, Adrianne conduziu-a para o saguão, já lotado com homens e mulheres do mundo da sétima arte. Havia muita cintilação, muitos decotes, muitas fofocas.

- Querida, que prazer em revê-la! - Althea Gray, uma atriz esguia, que deixara sua marca numa série de televisão, aproximou-se para dar um beijo no ar, a três ou quatro centímetros do rosto de Phoebe. Ofereceu um sorriso neutro para Adrianne, acompanhado um irritante tapinha em sua cabeça. - Continua tão linda como sempre, não é mesmo? Um smoking ... mas que idéia fascinante!

Ela especulou depressa quanto tempo levaria para fazer um igual. Phoebe ficou surpresa com a recepção efusiva. Althea esnobara­-a ostensivamente na última vez em que haviam se encontrado.

- Você está maravilhosa, Althea.

- Obrigada, querida.

Ela esperou até um cinegrafista focalizar as duas, antes de bater de leve no rosto de Phoebe, num gesto de intimidade.

- Fico contente por encontrar rostos amigos no circo. - Ela acendeu o isqueiro na extremidade do cigarro comprido, dando um o para que a esmeralda em seu dedo faiscasse. - Eu pretendia faltar esta noite, mas meu divulgador teria um ataque! O que tem  feito ultimamente, querida? Não a vejo há séculos!

- Acabo de terminar um filme. - Agradecida pelo interesse, Phoebe sorriu e ignorou a fumaça ardendo em seus olhos. Tratou de elevar o filme de horror barato ao acrescentar: - Um thriller. Deve ser lançado no inverno.

- Maravilhoso. Também estou prestes a fazer um filme, agora e me livrei do atoleiro da televisão. O roteiro é de Dan Bitter­. Não ouviu falar a respeito de ... Tormento?

Ela fez uma pausa, lançando um olhar insinuante para Phoebe.

- Acabei de assinar o contrato para o papel de Melanie. – Com outra pausa, apenas o suficiente para ter certeza de que a farpa gira o alvo, Althea tornou a sorrir. - Tenho de voltar para junto do meu acompanhante, antes que ele fique irrequieto. Foi maravilhoso vê-Ia, querida. Precisamos nos encontrar para almoçar um desses.

- Mamãe, qual é o problema? - perguntou Adrianne.

- Não foi nada.

Phoebe fixou um sorriso no rosto, enquanto alguém chamava nome. Melanie ... Larry lhe prometera o papel. Era apenas uma questão de acertar alguns detalhes nas negociações, garantira ele, prometendo que o filme a levaria de volta ao lugar de destaque que já ocupara.

- Quer voltar para casa?

- Voltar? - Phoebe aumentou a voltagem do sorriso, até parecer crepitar. - Claro que não. Mas adoraria tomar um drinque antes de entrar. Ei, lá está Michael!

Ela acenou e atraiu a atenção do ator que fora seu primeiro par num papel principal. Michael Adams. Havia alguns fios brancos em suas têmporas, que ele não se dava ao trabalho de pintar. Também havia umas poucas rugas no rosto, que ele não se preocupava em esconder. Refletira muitas vezes que seu sucesso derivara tanto de saber quem era quanto de sua competência como ator. Ainda representava o papel masculino principal em muitos filmes, embora já se aproximasse dos 50 anos e a cintura tivesse se avolumado.

- Phoebe ... - Com afeição e um pouco de compaixão, ele inclinou-se para beijá-la. - E quem é essa linda jovem?

Ele sorriu para Adrianne, aparentemente sem reconhecimento. - Olá, Michael.

Adrianne ergueu-se na ponta dos pés para beijá-lo no rosto, um gesto que em geral fazia com uma relutância evidente. Com Mi­chael, no entanto, havia o maior prazer. Era o único homem, entre todos que conhecia, com quem Adrianne sentia-se à vontade.

- Não pode ser a nossa pequena Addy! Você ofusca por com­pleto todas as nossas starlets. - Michael riu e beliscou o queixo de Adrianne, fazendo-a sorrir. - Aqui está a melhor obra que você já fez, Phoebe.

- Sei disso.

Ela apertou o lábio entre os dentes, antes que tremesse. Conseguiu exibir outro sorriso. Problemas, pensou Michael, bastante perceptivo para interpretar o excesso de brilho nos olhos de Phoebe. Mas sempre havia problemas com Phoebe.

- Não me diga que veio desacompanhada.

- Larry teve de viajar.

- Ahn ... - Não era o momento de fazer outra preleção para Phoebe sobre Larry Curtis. - Será que eu poderia persuadi-la a fazer companhia a um homem solitário?

- Você nunca está solitário - interveio Adrianne. - Li na semana passada que teve um romance em Aspen com Ginger Frye.

- Uma menina precoce. Na verdade, passei o fim de semana esquiando, e tive sorte de escapar sem ossos quebrados. Ginger estava presente para o caso de eu precisar de cuidados médicos.

Adrianne sorriu.

- E precisou?

- Tome aqui. - Michael tirou uma nota de seu clipe com dinheiro. -Vá comprar um refrigerante, como uma boa menina.

Ela se afastou, rindo.

Michael observou-a, admirando a maneira como ela se esgueirava pela multidão. Dentro de um ou dois anos Adrianne teria a seus pes os homens daquela cidade ... de qualquer cidade.

- Ela é um tesouro, Phoebe. Minha filha Marjorie tem 17 anos.  Há três anos que não a vejo vestir outra coisa a não ser jeans rasgados. E ela sempre faz tudo que pode para infernizar minha vida. Eu invejo você.

- Addy nunca me deu qualquer problema. Com toda sinceridade, não sei o que eu faria sem ela.

- Ela é muito devotada a você. - Michael baixou a voz. -Já em procurar o médico que sugeri?

- Não tive tempo. - Phoebe queria que ele a deixasse em paz, para poder ir ao banheiro e tomar outra pílula. - E, para dizer a verdade, tenho me sentido muito melhor. Superestimam demais a analise, Michael. Às vezes penso que a indústria do cinema foi criada para sustentar os psiquiatras e os cirurgiões plásticos.

Ele reprimiu um suspiro. Era evidente que ela estava sob o efeito de alguma coisa que tomara, mas que agora passava depressa.

- Nunca faz mal conversar com alguém .

- Pensarei a respeito.

Adrianne não se apressou em voltar. Sabia que Michael, se tivesse a oportunidade, falaria com sua mãe sobre terapia. Já conversara com Adrianne a respeito, quando a encontrara quase histérica por não conseguir fazer com que Phoebe reagisse, uma tarde, depois das aulas. Phoebe ficara sentada em seu quarto, muda, olhando fixamente pela janela.

Dera muitas desculpas quando se recuperara. Fadiga, excesso de trabalho, tranqüilizantes. Michael conversara com as duas sobre procurar ajuda, mas Phoebe relutava. Era por esse motivo que Adrianne queria desesperadamente levar a mãe para Nova York, longe de Larry Curtis e de seu abundante estoque de drogas.

Ela não precisava ser adulta para saber que nevava no sul da Califórnia. A cocaína se tornara à droga da moda na indústria do cinema. Com bastante freqüência, era servida nos cenários de filmes de uma maneira tão natural quanto um almoço. Até agora, Phoebe recusara, preferindo o inferno de suas pílulas ao inferno do pó. Mas Adrianne sabia que, mais cedo ou mais tarde, o dia chegaria. Tinha de afastar a mãe antes que essa última fronteira fosse cruzada.

Adrianne tomou um gole da Pepsi. Deu uma volta lenta pela sala. Não podia dizer que detestava todas as pessoas no mundo que sua mãe escolhera. Muitas eram como Michael Adams, com um talento genuíno, leais com os amigos, dedicados a um ofício que muitas vezes exigia horários extenuantes, sem o menor glamour.

E ela gostava do glamour, das refeições em restaurantes elegantes, das roupas maravilhosas. Compreendia-se bastante bem para saber que teria dificuldades para se satisfazer com o ordinário. Mas não queria o extraordinário à custa da sanidade da mãe.

- Viu só aquele vestido? - Althea Gray deu uma tragada no cigarro e acenou com a cabeça na direção de Phoebe, enquanto Adrianne parava atrás. - Dá para pensar que ela quer mostrar a todo mundo que ainda tem aqueles peitos.

- Depois dos seus últimos filmes, ninguém pode ter mais qualquer dúvida a respeito - comentou seu companheiro. - Eles deviam ter cobrado dois ingressos.

Althea riu.

- Parece uma amazona que já passou do ponto. Ela acreditava de verdade que lhe seria oferecido o papel de Melanie. Todo mundo que Phoebe nunca mais terá outro papel decente. Se não fosse tão patético, poderia até ser engraçado.

- Ela tinha alguma coisa no passado - comentou o homem lado de Althea. - Nunca houve ninguém igual a ela.

- Pare com isso, querido. - Althea apagou o cigarro. – As excrusões  pela estrada do passado são muito chatas.

- Não tão chatas quanto ouvir o lamento de uma atriz de segunda classe.

Adrianne falou em tom incisivo e não se intimidou quando as cabeças se viraram em sua direção.

- Essa não! - Althea bateu no lábio inferior com a ponta do dedo. - Jarros pequenos têm orelhas grandes.

Adrianne fitou-a, de mulher para mulher.

- E talentos pequenos têm egos enormes.

Quando seu companheiro riu, Althea lançou-lhe um olhar fulminante. Depois, sacudiu os cabelos.

- Pode se mandar, querida. Essa é uma conversa de adultos.

- É mesmo? - Adrianne controlou o impulso de jogar o refrigerante na cara de Althea. Em vez disso, tomou um gole. – Pois me parecia bastante imatura.

- Pirralha mal-educada... - Althea desvencilhou-se do braço do companheiro, que tentava contê-la, e deu um passo à frente. - Alguém deveria lhe ensinar boas maneiras.

- Não preciso de aulas de boas maneiras de uma mulher como você. - Adrianne avaliou Althea de alto a baixo, depois olhou para grupo ao redor. Foi um olhar longo e firme, bastante frio e adulto para deixar todo mundo contrafeito. - Não vejo ninguém aqui que possa me ensinar qualquer coisa além de hipocrisia.

- Mas que desgraçada! - murmurou Althea, quando Adrianne virou-se e afastou-se.

- Cale-se, Althea - aconselhou seu companheiro. - Ela demonstrou mais classe do que você.

 

- MEU BEM, EU GOSTARIA QUE ME DISSESSE SE HÁ ALGUMA coisa errada.

Adrianne empurrou a porta lateral que dava para o pequeno jardim. Havia bem pouco que a cativava na Califórnia, mas aprendera a apreciar o sol.

- Não há nada errado. Apenas tenho muitos deveres de casa.

Era a melhor maneira de se manter sozinha e pensar nas coisas que ouvira desde a noite da premíere. Já lidara com o rumor de que Phoebe posara nua para uma revista de homens. Duzentos mil dólares fora o preço pelo auto-respeito da mãe.

Era difícil, muito difícil, justificar a vergonha através do amor. Adrianne passara anos se esforçando para aprender um novo modo de vida. Adotara com todo entusiasmo a igualdade da mulher, sua liberdade de escolher, o direito de ser ela própria, em vez de um mero símbolo de fragilidade ou desejo. Queria acreditar, precisava acreditar. Mas a mãe se despira, vendera seu corpo, para que qualquer homem pudesse abrir as páginas de uma revista e possuí-la.

A escola era cara demais. Adrianne observou a rosa enorme largar suas pétalas e pensou nas mensalidades que a mãe pagava para mantê-la exclusivamente na escola particular. Phoebe vendia seu orgulho pela educação da filha.

Havia também as roupas... as roupas que a mãe insistia que Adrianne precisava. E o motorista... a combinação de motorista e segurança que Phoebe achava necessário para manter a filha a salvo do terrorismo... e de Abdu. O Oriente Médio se encontrava agora permanentemente atormentado por uma terrível violência. Quer Abdu a reconhecesse ou não, Adrianne ainda era a filha do Rei de Jaquir.

- Mamãe, eu estava pensando em ir para uma escola pública no ano que vem.

- Escola pública? - Phoebe verificou a bolsa para ter certeza de que incluíra o cartão de crédito. Até Larry voltar, estava com pouco dinheiro. - Não seja ridícula, Addy. Quero que você tenha a melhor educação.

Ela fez uma pausa, desorientada por um momento. O que procurara na bolsa? Phoebe olhou para o cartão de crédito de plástico, balançou a cabeça e tornou a guardá-l na carreira.

- Não se sente feliz em sua escola? As professoras sempre me dizem que você é brilhante. Mas se as outras meninas são um problema, podemos procurar outra escola.

- Não, as outras garotas não são um problema. - Em particular, Adrianne achava que a maioria era arrogante e egocêntrica, mas inofensiva. - Apenas parece um desperdício de dinheiro, quando eu poderia aprender as mesmas coisas em outra escola.

- Isso é tudo? - Phoebe atravessou a sala para beijar a filha, rindo. - O dinheiro é a última coisa com que você deve se preocupar. É importante para mim, Addy, muito importante, que você tenha o melhor. Sem isso... ora, não importa.

E deu outro beijo na filha, antes de acrescentar:

- Você terá sempre o melhor... e no próximo ano estará vendo o mar ao olhar pela janela.

-Já tenho o melhor - murmurou Adrianne. - Tenho você.

- Você é muito boa para mim. Tem certeza de que não quer ir comigo para fazer as unhas?

- Tenho uma prova de espanhol na segunda-feira. Preciso estudar.

- Você estuda demais.

Desta vez, Adrianne sorriu.

- E minha mãe também.

- Então ambas merecemos um presente. - Phoebe abriu a bolsa outra vez. Estava com o cartão de crédito. - Iremos àquele restaurante italiano de que você gosta tanto, e comeremos espaguete até nos mandarem embora.

- Com alho extra?

- O suficiente para que ninguém chegue perto de nós. Iremos ao cinema depois. Para assistir o tal Guerra nas Estrelas de que todo mundo fala. Voltarei por volta das cinco horas.

- Estarei pronta.

Tudo vai acabar dando certo, decidiu Adrianne, quando fico sozinha. Phoebe estava bem... as duas estavam bem, enquanto tivessem uma à outra. Ela ligou o rádio. Foi mudando a sintonia, até encontrar uma emissora de rock. Música americana. Adrianne sorriu e cantou alguns versos com Linda Ronstadt.

Gostava de música americana, carros americanos, roupas americanas. Phoebe providenciara para que a filha recebesse a cidadania, mas Adrianne não podia se ver como uma adolescente americana.

Era cautelosa com os meninos, enquanto as garotas de sua idade os perseguiam por todos os meios. Riam e falavam em beijo de língua, em carícias. Era duvidoso que qualquer daquelas garotas já tivesse testemunhado o estupro da mãe. Até mesmo suas melhores amigas pareciam fazer da rebelião sua maior prioridade. Como Adri­anne podia se rebelar contra a mulher que arriscara a vida para mantê-la sã e salva?

Algumas levavam maconha para a escola, puxando fumo no banheiro. Aceitavam as drogas com a maior tranqüilidade, enquanto ela sentia pavor.

Havia o título, que a separava das colegas. Mais do que uma palavra, estava em seu sangue; um vínculo com o mundo em que vivera durante os oi;o primeiros anos de sua vida. Um mundo que nenhuma daquelas privilegiadas garotas americanas poderia compreender.

Adrianne partilhava sua cultura, grata por muitas coisas que elas consideravam como corriqueiras. Mas ainda havia momentos, momentos pessoais, em que sentia saudade do harém e do conforto da família.

Ela pensou em Duja, que casara com um milionário americano do petróleo, mas que vivia tão distante de sua vida quanto Jiddah ou Fahid ... ou o irmão e a irmã que haviam nascido depois que ela deixara Jaquir.

Adrianne tratou de remover o passado para o fundo da mente e abriu os livros, sentada a uma mesa perto da janela do jardim.

Passou uma tarde agradável, com a música mais alta do que Phoebe gostava, e um saco de batatas fritas como almoço. A escola era uma alegria para ela, outra coisa que deixava as amigas espantadas. Elas, no caso, pensavam na educação como um direito, até mesmo uma necessidade chata, não como um privilégio. Nove anos da vida de Adrianne haviam passado antes que ela aprendesse a ler. Mas compensara o tempo perdido, agradando e surpreendendo Phoebe ao se tornar uma aluna destacada. Aprender exercia tanto fascínio sobre Adrianne quanto o rock agitado que saía pelo rádio.

Tinha sonhos. Aos 14 anos, queria se tornar uma engenheira. A matemática era como uma linguagem para ela, e já era fluente em álgebra. Com a ajuda de uma professora interessada, estava estudando cálculos. Também se sentia atraída por computadores e eletrônica.

Adrianne tentava resolver uma equação difícil quando ouviu a porta ser aberta.

- Voltou cedo, hein?

O sorriso de saudação se desvaneceu quando ela levantou os olhos para deparar com Larry Curtis.

- Sentiu saudade de mim, querida?

Ele jogou a bolsa de vôo no sofá e sorriu para Adrianne. Aspirara uma linha de coca no banheiro do avião antes do pouso, e sentia-se muito bem.

- Que tal um beijo no Larry?

- Minha mãe não está.

Adrianne parou de balançar as pernas e empertigou-se na cadeira. Ele avaliou o short curto e os seios pequenos por baixo da camiseta. Com Larry, ela queria ter a proteção da abaaya e do véu. - Deixou você sozinha?

Era raro encontrar Adrianne sem companhia na casa. Larry foi pegar uma garrafa de bourbon, sentindo-se à vontade. Ela o observava num silêncio desaprovador.

- Mamãe não esperava que você voltasse tão cedo.

- Resolvi tudo mais depressa do que imaginava. - Larry tomou um gole do uísque. Virou-se para admirar as pernas morenas por baixo da mesa. Há meses que vinha querendo enfiar a mão entre aquelas coxas lindas. - Dê-me os parabéns, querida. Acabo de fechar um negócio que vai me manter no topo pelos próximos cinco anos.

- Meus parabéns.

Adrianne começou a empilhar os livros. Escaparia para seu quarto e trancaria a porta.

- É isso que você costuma fazer numa linda tarde de sábado?

Larry pôs a mão sobre a dela, em cima do livro de espanhol. Adrianne ficou imóvel, esperando que a pulsação na nuca diminuísse. Sabia quando um homem desejava uma mulher. Fora criada com isso. Sentiu um frio no estômago ao fitá-lo.

Ele mudara pouco desde a primeira vez que o vira. Usava os cabelos um pouco mais curtos, e as correntes e camisas em tons pastéis haviam sido trocadas por trajes esportes lzod e tênis. Por baixo, no entanto, continuava exatamente o que sempre fora. Celeste o chamara de untuoso. Adrianne pensou agora em outra palavra: seboso.

- Quero guardar meus livros.

Ela manteve os olhos firmes, mas o nervosismo aflorou em sua voz. Ao perceber, Larry sorriu.

- Você fica muito atraente com todos os seus livros empilhados... estudiosa.

Ele terminou de tomar o uísque, enquanto mantinha a mão sobre a dela. Adrianne estava excitada, pensou ele, enquanto sentia o pulso bater forte sob seus dedos. Era assim que gostava das garotas.

- Você cresceu um bocado, meu bem.

Quanto a isso, não resta a menor dúvida, pensou Larry. Os cabelos desciam até a cintura, pretos e lisos. A pele era viçosa, parecendo coberta de orvalho, da cor do pó de ouro. Os olhos, tão escuros quanto os cabelos, arregalavam-se em medo. A garota sabia o que ele estava pensando. O que o deixava excitado, tanto quanto aquele corpo firme que ainda não amadurecera de todo.

- Há anos que estou de olho em você, meu bem. Podemos formar uma dupla e tanto. - Larry passou a língua pelos lábios. Depois, num gesto deliberado, esfregou a mão livre em sua própria virilha. - Posso lhe ensinar muito mais do que aprenderá nesses livros.

- Você faz sexo com minha mãe.

Os dentes de Larry faiscaram. Gostava da maneira como ela falava abertamente.

- Isso mesmo. Vamos manter em família.

- Você é nojento! - Adrianne desvencilhou a mão e levantou os livros, como um escudo. - Quando eu contar à minha mãe ...

- Não vai contar nada. - Ele continuou a sorrir. A droga fazia com que se sentisse alto, forte, sensual; o álcool o deixava confiante, duro e determinado. - Não se esqueça de que sou eu quem paga a comida aqui.

- Você trabalha para minha mãe. Não é ela quem trabalha para você.

- Caia na real. Sem minha ajuda, Phoebe Spring não conseguiria um trabalho de vender sacos de lixo num comercial de 30 segundos. Sou eu quem põe um teto sobre sua cabeça, meu bem. Arrumo um trabalho para ela de vez em quando, e escondo da imprensa que sua mãe é uma viciada em drogas e ainda por cima uma alcoólatra. Você devia demonstrar um pouco de gratidão.

Ele avançou tão depressa que o grito de Adrianne ficou preso na garganta. Os livros caíram no chão, quando ele a puxou através da mesa. Ela resistiu, chutando, golpeando-o com as mãos, mas só conseguiu fazer um arranhão em seu rosto antes que Larry lhe imobilizasse os braços.

- Ainda vai me agradecer por isso - disse ele antes de comprimir a boca contra os lábios de Adrianne.

Ela sentiu a náusea subir pela garganta, quente e amarga. Deixou-a sufocada e ela teve de ofegar para respirar. Larry estendeu-a em cima da mesa. Quando Adrianne manteve os lábios fechados, ele deslocou a boca, passando a sugar-lhe um seio através da camiseta. Houve dor, uma dor intensa, mas a vergonha foi ainda mais profunda.

Adrianne desatou a gritar, várias vezes, contorcendo-se, tentando desesperadamente se desvencilhar. O copo que Larry deixara em cima da mesa caiu no chão, espatifando-se. O barulho levou-a de volta a Jaquir, ao quarto de sua mãe.

Através de olhos aterrorizados, Adrianne viu o pai assomando por cima dela, sentiu que suas mãos a violavam, rasgando a camiseta. Seus gritos transformaram-se em soluços quando a mão de Larry subiu por sua perna, enfiou-se por baixo do short, para sondar e penetrar.

A maneira como Adrianne se debatia, angustiada, levava-o a um frenesi sexual. Para ele, a garota era como um fruto novo, firme, saboroso, úmido. Seu corpo era tão esguio quanto o de um menino, mas macio como manteiga. Larry sentia-se duro e pesado como uma pedra. Não havia nada igual a uma virgem, pensou ele, enquanto a arrastava para o chão. Nada igual a uma virgem. Ofegante, ele apertou-lhe os pequenos seios e observou as lágrimas escorrerem por suas faces. Ela estava perdendo a disposição para lutar. Larry puxou-a para baixo de seu corpo, com alguma facilidade, quando ela tentou se afastar.

Adrianne mal podia senti-l o agora. Corpo e mente haviam se separado. Ouvia o choro, mas tinha a sensação de que vinha de outra pessoa. Havia dor, mas era vaga, embotada pelo choque.

Uma mulher era mais fraca do que um homem, submissa a um homem, feita para ser guiada por um homem.

E, de repente, Larry não estava mais em cima dela. Adrianne ouviu gritos, um estrépito. Não a envolviam. Ela rolou de lado, enroscando-se como uma bola.

- Seu filho da puta!

Phoebe agarrara Larry pela garganta. Os olhos desvairados, os dentes à mostra, ela deixou-o sem fôlego. Surpreendido, ele cambaleou para trás. Conseguiu remover os dedos de Phoebe de sua garganta, sorvendo o máximo de ar possível, um instante antes de as das bem-cuidadas cortarem seu rosto.

- Sua puta maluca! - Com um uivo de dor, Larry empurrou-a para trás. - Ela pediu por isso! Estava querendo!

Phoebe tornou a atacá-lo, como uma tigresa, aos socos, cravando unhas e dentes. Rasgou roupas e carne. Eram mais ou menos iguais em peso e altura, mas Phoebe estava impulsionada por uma raiva tão intensa, tão profunda, que só o assassinato poderia saciá-la.

- Você vai morrer! Vou matá-lo por tocar em minha filha com suas mãos imundas!

Ela deu uma mordida profunda no ombro dele, sentindo o gosto sangue. Larry desferiu um soco e, mais por sorte do que por habilidade, acertou-a no queixo, deixando-a atordoada.

- Sua vagabunda!

Larry também chorava, soluços profundos, espantado por descobrir que uma mulher podia machucá-lo. O rosto sangrava, o peito e os braços estavam doloridos. Uma dor intensa lhe subiu pela perna quando fez um esforço para se levantar.

- Ficou com ciúme porque eu queria experimentar a garota. - Ele passou a mão por baixo do nariz. Procurou um lenço para estancar o sangue. - Você quebrou meu nariz!

Ofegante, Phoebe também se levantou. Viu a garrafa de bourbon aberta no balcão do bar. Pegou-a, quebrou-a e levantou-a com os fragmentos afiados. O rosto glorioso estava contorcido em fúria. Havia sangue em seus lábios... o sangue de Larry.

- Saia... saia daqui, antes que eu o retalhe em pedacinhos!

-Já vou sair!

Capengando, ele encaminhou-se para a porta, o lenço ensangüentado comprimindo o rosto.

- Acabou, meu bem. E se pensa que outro agente poderá aceitá-la, vai ter uma surpresa. Está liquidada, querida. Não passa de uma piada nesta cidade. - Larry se apressou em abrir a porta quando Phoebe avançou. - E não me ligue quando ficar sem pílulas e sem dinheiro!

Quando a porta foi batida, ela jogou a garrafa em sua direção. Tinha vontade de gritar... parar no meio da sala, erguer o rosto e gritar. Mas havia Adrianne. Phoebe ajoelhou-se ao lado da filha e gentilmente a enlaçou.

- Calma, querida, calma. Não precisa ter medo. Mamãe está aqui.

Adrianne, estremecendo, aconchegou-se à mãe.

- Estou aqui, Addy, com você. Ele já foi embora, e nunca mais voltará. Ninguém mais ousará machucá-la.

A camiseta toda rasgada, Phoebe apertou a filha com força e embalou-a. Não havia sangue. Larry não chegara a estuprá-la. Só Deus sabia o que o desgraçado fizera com Adrianne antes de ela os encontrar, mas não estuprara sua filha.

Quando Adrianne começou a chorar, a mãe fechou os olhos e continuou a embalá-la. As lágrimas ajudaram. Só ela sabia disso tão bem, ninguém mais.

- Tudo vai acabar bem, Addy. Prometo. Farei o que for melhor para você.


 

Adrianne fizera 18 anos. Estava no tranqüilo consultório, em tons pastéis, do Dr. Horace Schroeder, uma das maiores autoridades em distúrbios de comportamento no país. Era seu aniversário, mas ela não sentia qualquer alegria, qualquer ânimo.

Além da janela, estendia-se um vasto gramado cruzado por caminhos de lajotas, pelos quais pessoas andavam ou eram empurradas em cadeiras de rodas por serventes e enfermeiras de uniforme branco. Havia uma cerejeira em flor e uma sebe ornamental de azaléias. Ela podia ver abelhas pairando sobre as flores, e depois se afastando, cheias de néctar. O sol refletia-se na água da banheira de passarinho, feita de mármore, mas os tordos e pardais que faziam ninho no bosque de carvalhos próximo não se sentiam tentados hoje.

Através da janela, além do gramado e das árvores, ela podia avistar as sombras das Montanhas Catskills, ao norte. Ofereciam uma vista de abertura, de liberdade. Adrianne especulou se a sensação seria a mesma quando a janela fosse gradeada.

- Oh, mamãe ... - Ela encostou a testa no vidro por um momento, deixando os olhos se fecharem e os ombros arriarem. ­Como chegamos a esse ponto?

Ela se empertigou no instante em que ouviu a porta se abrir. O Dr. Schroeder entrou para deparar com uma jovem calma, um pouco magra, usando um tailleur azul-claro. Tinha os cabelos presos no alto da cabeça, para aumentar a altura e a impressão de maturidade.

- Princesa Adrianne ... - Ele atravessou a sala, apertando a mão estendida. - Perdoe-me por deixá-la esperando.

- Não foi muito tempo. - Para Adrianne, cinco minutos naquele lugar já era demais. - Queria me falar antes de eu levar mamãe para casa.

- Isso mesmo. Sente-se, por favor.

Ele indicou uma das bergeres que faziam com que o consultório parecesse uma sala de estar aconchegante. Havia uma mesinha redonda ao lado, antiga, toda esculpida, com uma caixa de lenços de papel em cima. Adrianne lembrou que usara os lenços de papel em sua primeira visita, dois anos antes. Agora, cruzou as mãos no colo e ofereceu um pequeno sorriso ao Dr. Schroeder. Com o rosto de queixo comprido e olhos castanhos empapuçados, ele a fazia pensar num cachorro enorme e triste.

- Deseja um café ou um chá?

- Nada, obrigada. Quero que saiba o quanto me sinto agradecida por tudo O que fez por minha mãe ... e por mim. - Quando o médico fez menção de descartar o assunto, como se não tivesse importância, ela ergue a a mão. - Falo sério. Ela se sente bem em sua presença, e isso significa muito para mim. Também sei que fez mais do que devia para evitar que a imprensa tomasse conhecimento dos detalhes de sua doença.

- Todos os meus pacientes têm direito à privacidade. - O Dr. Schroeder sentou-se, escolhendo a poltrona ao lado de Adrianne, em vez de ir para trás de sua mesa. - Minha cara, sei o quanto sua mãe significa para você e o quanto se preocupa com seu bem-estar. Eu gostaria que reconsiderasse a decisão de levá-la para casa.

Adrianne preparou-se para um golpe. Embora os olhos não se alterassem, os dedos se contraíram em seu colo.

- Está querendo dizer que ela teve uma recaída?

- Não, não foi isso. O progresso de Phoebe é satisfatório. A medicação e o tratamento fizeram muito para estabilizar sua condição. - Ele fez uma pausa, deixando escapar um longo suspiro – Não quero encher a conversa com termos, técnicos. Já ouviu todos antes. Também não quero subestimar a doença ou o prognóstico.

- Eu compreendo. - Adrianne resistiu ao impulso de se levantar e de andar de um lado para outro. - Dr. Schroeder, sei qual é o problema de minha mãe. Sei também por que acontece e o que é preciso fazer para ajudá-la.

- Minha cara, a depressão obsessiva é uma doença muito difícil e angustiante... para o paciente e para a família do paciente. Você já sabe muito bem, a essa altura, que as depressões e a hiperatividade podem ter inícios abruptos e recuperações repentinas. A reação de Phoebe, ao longo dos dois últimos meses, tem sido boa.  Mas são apenas dois meses.

- Desta vez - lembrou Adrianne. - Nos últimos dois anos ela tem passado nesta clínica tanto tempo quanto em casa. Não havia nada que eu pudesse fazer até agora para mudar isso. Mas fiz 18 anos hoje, doutor. Para a lei, agora sou adulta. Posso assumir a responsabilidade por minha mãe, e é o que tenciono fazer.

- Ambos sabemos que você assumiu a responsabilidade por sua mãe há muito tempo. Admiro-a por isso mais do que posso dizer.

- Não há nada para admirar. - Desta vez Adrianne levantou-se. Precisava ver o sol, as montanhas. A liberdade. - Ela é minha mãe. Nada ou ninguém significa mais para mim. Ninguém sabe tanto quanto o senhor sobre a vida dela e a minha. No meu lugar, Dr. Schroeder, poderia fazer menos?

Ele a estudou quando Adrianne virou-se para fitá-lo. Ela tinha os olhos muito escuros, muito adultos, muito determinados.

- Eu esperaria que não. Você ainda é muito jovem, Princesa Adrianne. E sua mãe pode precisar de cuidado constante e intensivo p­elo resto de sua vida.

- Ela terá. Contratei uma enfermeira da lista de candidatas que me forneceu. Arrumei meus horários para que mamãe nunca fique sozinha. Nosso apartamento é num bairro sossegado, perto da residência da maior e mais antiga amiga de mamãe.

- Amor e amizade, com toda certeza, desempenharão um papel importante na saúde emocional e mental de sua mãe.

Adrianne sorriu.

- Essa é a parte fácil.

- Ela terá de ser trazida até aqui para a terapia todas as semanas, pelo menos por enquanto.

- Darei um jeito.

- Não posso insistir que deixe Phoebe conosco por mais um ou dois meses. Mas tenho de recomendar com veemência, para seu próprio bem, tanto quanto por ela.

- Não é possível. - Porque respeitava o médico, Adrianne queria que ele compreendesse. - Prometi a ela. Quando a trouxe desta vez, jurei que a levaria de volta para casa na primavera.

- Não preciso lembrá-la que Phoebe estava comatosa quando chegou. Não vai se lembrar dessa promessa.

- Mas eu me lembro. - Adrianne tornou a se adiantar, estendendo a mão. - Obrigada por tudo que fez e por tudo que tenho certeza que continuará a fazer. Levarei mamãe para casa agora.

O Dr. Schroeder sabia que desperdiçava seu tempo em insistir. Segurou a mão de Adrianne um pouco mais.

- Telefone, mesmo que precise apenas conversar.

- Farei isso. - Adrianne teve medo de chorar de novo, como acontecera na primeira vez em que o encontrara. - Pode estar certo de que cuidarei muito bem dela.

Mas quem vai cuidar de você? - especulou o médico, enquanto saíam para o corredor.

Ela foi andando a seu lado em silêncio. Era muito fácil lembrar outras visitas, outras caminhadas pelos largos corredores. Nem sempre fora tranqüilo. Às vezes, houvera choro. Ou pior, muito pior, risadas. Na primeira vez em que fora hospitalizada, a mãe parecia uma boneca quebrada, os olhos arregalados e fixos, o corpo inerte. Adrianne tinha 16 anos, mas conseguira alugar um quarto num hotel a 30 quilômetros de distância, para poder visitar a mãe todos os dias. Três semanas haviam transcorrido antes que a mãe pronunciasse qualquer palavra.

Pânico. Adrianne sentiu uma pequena bolha de pânico percorrer seu corpo. Era o mesmo tipo de pânico que experimentara na primeira vez. Tinha certeza de que Phoebe morreria na cama estreita e branca, para pacientes de cuidados crônicos, cercada por estranhos. E, depois, Phoebe falara. Apenas uma palavra. Adrianne.

Daquele momento em diante, a vida das duas entrara em uma nova fase. Adrianne fizera tudo o que podia para que Phoebe recebesse o melhor tratamento. Tudo mesmo, inclusive escrever para Abdu e suplicar ajuda. Quando o pai recusara, ela encontrara outro jeito. Respirou fundo, ao virarem uma esquina no corredor. E con­tinuava a encontrar outro jeito.

 

No Instituto Richardson, os pacientes não-violentos tinham quartos espaçosos, mobiliados com a mesma elegância de uma suíte num hotel cinco estrelas. A segurança era discreta, ao contrário da ala leste, com suas grades de ferro, cadeados e vidro reforçado, onde Phobe passara duas semanas angustiantes, no ano anterior.

Adrianne encontrou-a agora sentada junto à janela de seu quarto, os cabelos ruivos lavados e penteados para trás. Usava um vestido brilhante com uma borboleta de ouro presa na gola.

- Olá, mamãe.

Phoebe virou a cabeça rapidamente. O rosto, que controlara com todo cuidado, para o caso de uma enfermeira olhar, animou-se no mesmo instante. Ela conseguiu, com a habilidade de atriz que ainda lhe restava, esconder o desespero que sentia, enquanto se levantava e abria os braços.

-Addy!

- Você está maravilhosa.

Adrianne apertou-a com força, aspirando o perfume que a mãe usava. Por um momento, teve vontade de se aconchegar nos braços da mãe, ser criança de novo. Mas recuou, com um sorriso, para disfarçar a cuidadosa avaliação do rosto da mãe.

- Relaxada - murmurou ela, com algum alívio.

- Eu me sinto muito bem, ainda mais agora que você está aqui. Já arrumei minhas coisas. - Era difícil evitar que o nervosismo transparecesse em sua voz. - Vamos para casa, não é?

- Claro que vamos. - Era a decisão certa, pensou Adrianne, enquanto acariciava o rosto da mãe. Tinha de ser. - Quer falar com alguém antes de partirmos?

- Não. Já me despedi de todo mundo.

Phoebe estendeu a mão. Queria sair dali, o mais depressa possível. Mas sabia que uma boa atriz fazia com que sua saída fosse em grande estilo, tanto quanto na entrada.

- Foi muita gentileza sua ter vindo, Dr. Schroeder. Quero lhe agradecer por tudo.

- Cuide-se bem, e esse será todo o agradecimento de que preciso. - Ele pegou a mão de Phoebe entre as suas. - Você é uma mulher muito especial, Phoebe. E tem uma filha muito especial. Eu a verei na próxima semana.

- Na próxima semana?

Phoebe contraiu o braço que envolvia a filha.

- Virá para a terapia - explicou Adrianne, tranqüilizadora.

- Como paciente externa.

- Mas viverei em casa, com você.

- Isso mesmo. Eu a trarei de carro para as sessões. Poderá conversar com o Dr. Schroeder sobre qualquer coisa que quiser.

- Está bem. - Ela relaxou o suficiente para sorrir. - Estamos prontas para ir embora?

- Só vou pegar sua mala.

Adrianne pegou a mala pequena. Depois, porque sabia que Phoebe precisava, tornou a segurar sua mão.

- Obrigada de novo, doutor - disse ela, enquanto saíam pelo corredor. - Está um lindo dia. Foi maravilhoso ver todas as árvores cobertas de botões no caminho... sem falar das flores.

Saíram para o sol. Uma fragrância delicada pairava no ar.

- Cada vez que venho de carro até aqui, fico pensando como deve ser agradável ter uma casa no campo. Obrigada, Robert. - O  agradecimento foi para o motorista, que pegou a mala. Adrianne entrou com a mãe no banco traseiro da limusine. - Mas depois voltou para Nova York, e não sei como as pessoas podem viver em qualquer outro lugar.

- Você é feliz lá.

Phoebe engoliu em seco quando a limusine partiu, afastando-se do instituto. Fuga. Estavam escapando de novo.

- Sempre gostei de Nova York, desde a primeira vez. Lembra-se daquela primeira tarde, quando você, Celeste e eu passeamos pelo centro? Achei que era o lugar mais fabuloso do mundo.

- Celeste estará esperando?

Celeste estava com as passagens. Iria encontrá-las no aeroporto.

- Ela disse que só vai aparecer mais tarde hoje. Está prestes a estrear uma nova peça.

Phoebe piscou, enquanto focalizava o rosto de Adrianne. Sua menina estava crescida. E apenas seguiam para casa, em vez de fugi­rem de Abdu. Ninguém jamais magoaria Adrianne de novo.

- Fico contente que você tenha ficado com ela por algum tempo... enquanto eu não estava bem.

Phoebe olhou pela janela. Adrianne tinha razão. Estava mesmo um lindo dia. Talvez o dia mais lindo que ela já vira.

- Mas estou melhor agora. - Ela deu um beijo rápido e risonho na filha. - Na verdade, nunca me senti melhor em toda minha vida. Mal posso esperar para voltar ao trabalho.

-Mamãe...

Ela sentia a adrenalina subir como as borbulhas de champanhe, rápidas e espumantes.

- Não comece a me dizer que preciso descansar. Já descansei o suficiente. Só preciso de um bom roteiro. - Phoebe cruzou as mãos, convencida de que havia um à espera. - É tempo de eu voltar a tomar conta de minha filha. Assim que se espalhar a notícia de que estou disponível, as ofertas vão começar a aparecer. Não se preocupe.

Phoebe parecia incapaz de conter o fluxo de palavras otimistas sobre os papéis que a aguardavam, os produtores que a convidariam para almoçar, as viagens que Adrianne e ela fariam juntas. Adrianne pouco falou. Conhecia aquele excitamento. O planejamento totalmente irrealista era tão sintomático da doença da mãe quanto as depressões profundas. Mas depois de testemunhar o sofrimento de Phoebe, era impossível sequer tentar destruir suas ilusões.

- Detestei pensar em você morando aqui sozinha - disse Phoebe, quando entraram no apartamento.

- Quase não tenho ficado sozinha. - Depois de largar a mala, Adrianne tirou o casaco de seu tailler. - Celeste passa mais tempo aqui do que em sua própria casa. Leva muito a sério o fato de você tê-la escolhido para minha guardiã.

A preocupação ressurgiu nos olhos de Phoebe. Sem o casaco, Adrianne parecia de novo uma criança. Vulnerável.

- Eu sabia que ela agiria assim. Contava com isso.

- Pois não temos mais com que nos preocupar. Celeste pode voltar a ser apenas minha amiga. Ah, mamãe... - Adrianne abraçou-a, balançando um pouco. - É tão bom ter você em casa!

- Meu bebê... - Phoebe pegou o rosto da filha entre as mãos, dando um passo para trás. - Só que você não é mais um bebê. Faz 18 anos hoje. Não esqueci. Ainda não pude arrumar um presente, mas...

- Já ganhei o presente, e adorei. Gostaria de vê-lo?

Satisfeita com o riso nos olhos de Adrianne, Phoebe disse jovial:

- Oh, querida, espero que seja de bom gosto!

-O melhor!

Ela levou Phoebe para a sala. Havia um retrato em cima da lareira. Phoebe tinha 22 anos quando fora tirada a foto em que o pintor se baseara. Estava no auge de sua beleza, com um rosto que fazia os homens estremecerem, olhos que os faziam acreditar. Era uma deusa usando as jóias de uma rainha. Em seu pescoço, O Sol e a Lua faiscavam. Fogo e gelo.

- Oh, Addy...

- Foi Lieberitz quem pintou. É o melhor. Um pouco excêntrico e, sem dúvida, um tanto dramático, mas um mestre. Não queria entregar o quadro depois que ficou pronto.

- Obrigada.

- É meu presente - lembrou Adrianne, jovial. - A única coisa que eu mais queria era ter o original.

- O colar... - Phoebe passou a mão pelo pescoço, desceu-a para os seios. - Ainda me lembro da sensação de usá-lo, a noção de seu peso. Tinha magia, Addy.

- Ainda lhe pertence. - Adrianne olhou para o retrato e lembrou. De tudo. - Um dia você o terá de volta.

- Um dia ... - Phoebe sorriu, apreciando o momento. ­Farei melhor desta vez. Prometo. Sem bebida, sem pílulas, sem cometer os erros do passado.

- Era isso que eu queria ouvir.

Ela foi atender o telefone.

- Alô? Está bem. Pode mandar subir. Adrianne desligou. Fitou a mãe, ainda sorrindo.

- É a enfermeira. Já expliquei que o Dr. Schroeder recomendou que mantivéssemos uma enfermeira, pelo menos temporariamente.

- Sei...

Phoebe virou as costas para o retrato e sentou-se.

- Por favor, mamãe, não fique assim.

- Não ficar como? - Phoebe deixou os ombros penderem. - Não quero que ela use um daqueles horríveis uniformes brancos.

- Falarei com ela.

Ela levou Phoebe para a sala. Havia um retrato em cima da lareira. Phoebe tinha 22 anos quando fora tirada a foto em que o pintor se baseara. Estava no auge de sua beleza, com um rosto que fazia os homens estremecerem, olhos que os faziam acreditar. Era uma deusa usando as jóias de uma rainha. Em seu pescoço, O Sol e a Lua faiscavam. Fogo e gelo.

- Oh, Addy ...

- E não quero que fique me olhando enquanto durmo.

- Ninguém vai vigiá-la durante o sono, mamãe.

- Seria a mesma coisa que voltar ao sanatório.

- Não, não seria. - Adrianne estendeu a mão, mas Phoebe esquivou-se. - Este é um passo para a frente, não para trás. A enfermeira é muito simpática, e acho que você gostará dela. Por favor, não... não resista ao tratamento.

-Tentarei.

E ELA BEM QUE TENTOU. DURANTE OS DOIS ANOS E MEIO seguintes, Phoebe lutou contra uma doença que parecia a todo instante dominá-la. Queria ser fone e saudável, mas era mais fácil, muito mais fácil, fechar os olhos e resvalar para a maneira como as coisas haviam sido ou, melhor, para a ilusão da maneira como as coisas poderiam ter sido.

Quando renunciava ao controle, ela imaginava que se encontrava entre trabalhos, um filme sendo editado, um novo roteiro sendo avaliado. Podia flutuar por dias na euforia da realidade que criava em sua mente. Gostava de pensar em Adrianne como uma jovem socialite feliz, sem a menor preocupação no mundo, passando pela vida com a riqueza e prestígio com que nascera.

Até que de repente o mundo virava pelo avesso, agitava-se irrequieto por um terreno intermediário, deixando-a atolada numa depressão tão profunda, tão desesperada, que perdia a noção dos dias. Imaginava-se de volta no harém, com os mesmos cheiros, uma claridade mínima, as horas intermináveis de calor e frustração. Acuada, ouvia Adrianne chamar, suplicar, mas não conseguia encontrar energia para responder.

Vezes sem conta lutava para voltar; e, em cada ocasião, era mais difícil, mais doloroso.

- Feliz Natal!

Celeste entrou, com um casaco de lince russo nos ombros, os braços cheios de caixas, embrulhadas com papel prateado.

Adrianne levantou-se de um pulo para pegar as caixas. Olhou para o casaco com uma mistura de inveja e divertimento.

- Papai Noel chegou mais cedo este ano?

- É apenas um presentinho para mim por uma temporada de oito meses de sucesso em Windows. - Ela tocou na gola antes de tirar o casaco e largá-lo em cima de uma cadeira. - Phoebe, você está maravilhosa.             

Era uma mentira, mas gentil. Ainda assim, Celeste achou que a amiga parecia melhor do que em qualquer outra ocasião das últimas semanas. A palidez era menos acentuada. Adrianne contratara uma cabeleireira para pintar e arrumar os cabelos de Phoebe naquela tarde. Pareciam quase tão cheios e lustrosos quanto no passado.

- É doce de sua parte ter vindo. Sei que deve ter sido convidada para uma dúzia de festas.

- Variando das detestáveis às chatas. - Com um suspiro, Celeste arriou no sofá. Esticou as pernas ainda firmes e bem torneadas. - Sabe muito bem que não há ninguém com quem eu prefira passar o Natal em vez de você e Addy.

- Nem mesmo com Kenneth Twee? - indagou Phoebe, conseguindo exibir um sorriso.

- Isso já é notícia antiga, querida. - Também sorrindo, ela esticou os braços por cima do encosto do sofá. - Cheguei à conclusão de que Kenneth era sério demais.

Celeste sentiu Adrianne às suas costas e ergueu a mão.

- Você se superou com a árvore este ano.

- Queria uma coisa especial.

Adrianne pegou a mão estendida. Celeste sentiu a vibração dos nervos.

- E deu certo. - Celeste examinou o pinheiro. Em cada galho havia ornamentos pintados à mão diferentes. Elfos dançavam nos galhos, renas voavam, anjos cintilavam. - São os ornamentos que você havia encomendado para a campanha das crianças que são vítimas de maus-tratos?

- Isso mesmo. Acho que ficaram muito bons.

- E parece que você mesma comprou todos.

- Nem todos. - Adrianne, rindo, foi endireitar um ornamento que tinha o formato de uma lágrima. - Mas o projeto superou os objetivos. O sucesso foi tão grande que estou pensando em transformá-lo num evento anual.

Satisfeita, ela virou-se. Atrás, as luzes da árvore piscavam. - Que tal um eggnog?

Adrianne sabia que Celeste gostava muito do drinque típico do Natal.

- Leu meus pensamentos, minha querida. - Celeste tirou os sapatos. - Será que a Sra. Grange ainda tem aqueles biscoitos especiais das festas?

- Ela preparou uma fornada esta manhã.

- Pode trazê-los também. - Celeste passou a mão pela barriga. - Renovei minha matrícula na academia.

- Volto num instante.

Adrianne lançou um olhar preocupado para a mãe antes de deixar a sala, apressada.

- Adrianne espera por neve. - Phoebe olhou pela janela, deixado que as lâmpadas coloridas que Adrianne pendurara na moldura ofuscassem sua visão. - Lembra-se daquele primeiro Natal, antes de nossa partida para Hollywood? Jamais esquecerei a expressão de Adrianne quando acendemos a árvore.

-Nem eu.

- Há muito tempo eu dei para ela uma dessas pequenas bolas de vidro que criam uma nevasca quando são sacudidas. Gostaria de saber o que aconteceu com o presente. - Distraída, Phoebe esfregou as têmporas, preocupada e com dor-de-cabeça. Parecia tê-las constantemente. - Seria ótimo se Adrianne saísse esta noite, na companhia de jovens.

- O Natal é melhor quando se passa com a família.

- Tem razão. - Phoebe sacudiu os cabelos, determinada a se alegre. - Ela anda muito ocupada com as obras de caridade e as festas. E também passa horas no computador. Não tenho a menor idéia do que ela faz, mas isso a deixa feliz.

- Agora, seria ótimo se pudéssemos juntar nossas cabeças e promover seu casamento com um homem maravilhoso e de uma beleza fantástica.

Com uma risada, Phoebe abriu os braços.

- Seria sensacional, não é mesmo? Não demoraria muito para os tornarmos avós.

- Fale por você. - Celeste alteou uma sobrancelha, enquanto batia com o dorso da mão sob o queixo. - Sou jovem demais para me tornar uma avó.

- A alegria do Natal? - Adrianne voltou à sala, com uma bandeja grande. - Do que vocês duas estão soltando risadinhas?

- Risadinha é pouco distinto - ressaltou Celeste. - Sua mãe e eu estamos partilhando um riso sofisticado. Oh, Deus, esses biscoitos são Snickerdoodles?

- Apenas o biscoito certo para o paladar sofisticado.

Adrianne ofereceu o biscoito, depois serviu o eggnog, temperado penas com noz-moscada.

- A outro Natal com minhas duas pessoas prediletas.

- E a dezenas de outros - acrescentou Celeste, enquanto tomava um gole.

Dezenas de outros. As palavras ressoaram na mente de Phoebe, zombeteiras. Ela forçou um sorriso e levou o copo aos lábios. Como podia celebrar o pensamento de anos, quando cada dia era um tormento para viver? Mas Adrianne não devia saber. Phoebe deslocou os olhos e percebeu que a filha a observava, com um princípio de preocupação no rosto. Conseguiu exibir seu sorriso mais exuberante, embora a mão tremesse um pouco quando largou o copo.

- Devemos ouvir alguma música.

Phoebe entrelaçou os dedos trêmulos. Mesmo quando Adrian­e levantou para ligar o som, ela não relaxou. Tinha a sensação de que centenas de olhos a observavam, esperando que cometesse qualquer erro. Se tomasse um drinque, apenas um, então o latejamento na cabeça cessaria e poderia pensar com clareza.

- Phoebe?

- O que é?

Ela teve um sobressalto, apavorada. Celeste lera seus pensamentos. Celeste sempre via demais, queria demais. Por que todos queriam tanto?

- Perguntei o que achava dos planos de Adrianne para a festa de caridade no Réveillon. - Preocupada, Celeste inclinou-se para apertar a mão da amiga. - Não acha que é maravilhosa a reputação que Addy está adquirindo como organizadora?

-É sim.

Silent Night ... Não era Silent Night que estava tocando no rádio? Phoebe lembrou que ensinara a canção a Adrianne há muito tempo, nos aposentos quentes e silenciosos em Jaquir. Era um se­gredo entre as duas. Tinham muitos segredos. E continuavam a ter segredos agora.

Tudo é calmo, tudo é alegre... Ela tinha de se manter calma, porque todos a observavam.

- Tenho certeza de que será um sucesso sensacional.

Celeste olhou para Adrianne, as duas trocando uma mensagem silenciosa.

- Estou contando com isso.

Num hábito antigo, ela sentou-se junto de Phoebe e pegou sua mão. Num dia bom, esse pequeno contato era tudo de que a mãe precisava.

- Esperamos levantar cerca de 200 mil dólares para os desabrigados. Mas tenho me preocupado com a idéia de que um baile de gala, com um jantar, champanhe e trufas não é o mais apropriado para ajudar os desabrigados de Nova York.

- Qualquer coisa que levante dinheiro para uma boa causa é apropriada - argumentou Celeste.

Adrianne lançou um sorriso rápido para Celeste, sem qualquer humor, antes de olhar para Phoebe.

- Acredito nisso. E acredito com toda a sinceridade. Quando o fim é bastante importante, mais do que justificam os meios.

- Estou cansada. - Se a voz parecia petulante, Phoebe não se importava. Queria escapar dos olhos vigilantes, das expectativas não mencionadas. - Acho que vou me deitar.

- Subirei com você.

- Não precisa.

A reação de Phoebe foi de irritação, que se desvaneceu no instante seguinte, quando viu o rosto da filha.

- Fique aqui com Celeste e apreciem a árvore de Natal. - Ela abraçou Adrianne, apertando-a com força. - Até amanhã, querida. Vamos levantar cedo e abrir os presentes, como fazíamos quando você era pequena.

- Está bem. - Adrianne virou o rosto para um beijo,tentando ignorar o fato de que o corpo outrora vigoroso de Phoebe parecia agora muito frágil. - Eu amo você, mamãe.

- Eu também amo você, Addy. Feliz Natal. - Ela virou-se, estendendo as mãos para Celeste. - Feliz Natal, Celeste.

- Feliz Natal, Phoebe. - Celeste roçou os lábios pelas faces de Phoebe. Depois, num súbito impulso, abraçou-a. - Durma bem.

Phoebe encaminhou-se para a escada. Parou, antes de subir, e ­olhou para trás. Adrianne estava por baixo do retrato, o retrato de Phoebe Spring no auge da beleza e juventude, sob o poder e a glória de O Sol e a Lua. Com um último sorriso, Phoebe virou-se e subiu os degraus.

- Que tal mais um eggnog?

Celeste pegou a mão de Adrianne antes que alcançasse a tigela de ponche.

- Sente-se, meu bem. Não precisa ser forte para mim.

Era angustiante observar. Camada por camada, grau a grau, o controle de Adrianne desmoronou. A princípio foi apenas um tremor nos lábios, uma turvação dos olhos. A força desmanchou-se em desespero, até que ela se sentou, baixou o rosto para as mãos e chorou.

Sem dizer nada, Celeste sentou-se a seu lado. A criança não chorava o suficiente, refletiu ela. Havia ocasiões em que as lágrimas ajudavam mais do que palavras de estímulo ou braços confortadores.

- Não sei por que estou fazendo isso.

 - Porque é melhor do que gritar. - Não havia uma única gota de bebida alcoólica na casa, nem mesmo um pouco de conhaque medicinal. - Vou fazer um chá.

Adrianne esfregou os olhos.

- Não precisa. Estou bem. - Ela recostou-se, fazendo um esforço deliberado para relaxar. Ensinara-se a aliviar a tensão dos braços e pernas, da mente, do coração. Era uma questão de sobrevivência. - Acho que não estou me sentindo muito festiva.

- Gostaria de conversar com uma amiga?

Com os olhos fechados, Adrianne pegou a mão de Celeste.

 - O que faríamos sem você?

- Não tenho sido de muita ajuda ultimamente. Nos últimos meses, a peça absorveu a maior parte do meu tempo e energia. Mas estou aqui agora.

- É muito difícil observar. - Adrianne manteve a cabeça baixa. As lágrimas haviam sido uma indulgência que ela não compreendera que precisava. Mas era bom sentir-se vazia. - Conheço os sinais. Ela está vagueando de novo. Bem que tenta. Quase que é pior saber o quanto ela se esforça. Há semanas que vem lutando contra a depressão... e está perdendo a batalha.

- Phoebe ainda procura o Dr. Schroeder?

- Ele quer hospitalizá-la de novo. - Impaciente, Adrianne levantou-se. Não queria mais saber de auto compaixão. - Concordamos em esperar até o início do ano, porque as festas sempre foram muito importantes para mamãe. Mas, desta vez...

A voz definhou. Adrianne olhou para o retrato, antes de acrescentar:

- Vou levá-la depois de amanhã.

- Sinto muito, Addy.

- Mamãe tem falado sobre ele. - Havia tensão na voz de Adrianne, o que fez Celeste compreender que ela se referia ao pai. - Por duas vezes, na semana passada, encontrei-a chorando. Por ele. A enfermeira do dia me contou que mamãe perguntou quando ele viria. Queria arrumar os cabelos para ficar bonita para ele.

Celeste reprimiu uma imprecação.

- Ela está confusa.

Com uma risada, Adrianne olhou para trás.

- Confusa? Isso mesmo, ela está confusa. Há anos que vem tomando drogas para evitar que as emoções caiam muito fundo ou se projetem alto demais. Já foi amarrada e alimentada por tubos. Passou por estágios em que não podia sequer se vestir, enquanto em outros momentos era capaz de dançar pelo teto. Por quê? Por que ela está confusa, Celeste? Por causa dele. Tudo por causa dele. E juro que um dia ele ainda irá pagar pelo que fez com mamãe.

O ódio frio nos olhos de Adrianne deixou Celeste preocupada.

 - Sei como ela se sente. - Como Adrianne sacudisse a cabeça, Celeste insistiu: - Claro que sei. Também a amo, e me angustia pensar no quanto ela sofreu. Mas concentrar-se em Abdu, em algum tipo de vingança, não é bom para você. E não vai ajudá-la.

- Quando o fim é muito importante, mais do que justificam os meios - repetiu Adrianne.

- Você me preocupa quando fala assim. - Embora detestasse tomar o partido de Abdu, Celeste achou que era o mais acertado no momento. - Sei que ele causou a maior parte dos problemas de Phoebe, mas compensou um pouco nos últimos anos, cuidando para que houvesse dinheiro suficiente para seu tratamento e subsistência.

Em silêncio, Adrianne virou-se para o retrato. Ainda não era o momento de contar a Celeste que tudo aquilo era mentira. Sua mentira. Nunca houvera qualquer centavo de Abdu. Mais cedo ou mais tarde teria de dizer, mas, por enquanto, não tinha certeza se Celeste seria capaz de aceitar a verdade sobre a proveniência do dinheiro.

- Há apenas um pagamento que ele pode fazer para me deixar satisfeita. - Adrianne cruzou os braços, para se proteger de um súbito calafrio. - Prometi a ela que um dia teria seu colar de volta. Quando eu tiver O Sol e a Lua, quando ele souber o quanto o detesto, aí eu posso considerar que estamos quites.

 

Nova York, Outubro de 1988

Luvas pretas aderiam à corda cheia de nós, uma mão subindo sobre a outra, os punhos firmes e flexíveis. A corda era fina, mas tão forte quanto aço. Tinha de ser assim. As ruas de Manhattan estavam 50 andares abaixo, cintilando com a chuva da madrugada.

Era tudo uma questão do momento oportuno. O sistema de segurança era bom, muito bom, mas não impenetrável. Nada era impenetrável. O trabalho preliminar já fora realizado, num computador, com um conjunto de cálculos. O alarme fora desligado, o que era sem dúvida a parte mais elementar do trabalho. As câmeras focalizando os corredores é que haviam determinado o método de acesso. A entrada por dentro seria inconveniente, na melhor das hipóteses. Mas havia outros meios. Sempre havia outros meios.

Caía apenas um chuvisco agora, acompanhado pelo frio, mas o vento cessara. Se ainda soprasse com força, a figura pendurada na corda seria jogada contra a parede do prédio. Os lampiões criavam arco-íris oleosos nas poças lá embaixo; as nuvens encobriam as estrelas por cima. Mas a figura de preto não olhava nem para cima nem para baixo. Havia uma tênue camada de suor na testa, por baixo do gorro de tricô; não era de medo, mas da concentração. A figura desceu por mais um metro, focalizando a corda, enquanto pernas fortes dobravam e se comprimiam contra a parede, para apoio e equilíbrio. Até mesmo os tornozelos precisavam estar bem sintonizados, flexíveis como os de um corredor ou dançarino.

O corpo e a mente de um ladrão eram tão importantes - muitas vezes até mais - quanto a bolsa com as ferramentas necessárias para abrir uma tranca ou desativar um alarme.

Havia pouca atividade nas ruas, como um radiotáxi ocasional à procura de um passageiro, ou um bêbado solitário que vagueara de um bairro menos próspero. Até mesmo Nova York podia ser sutil às quatro horas da madrugada. Se houvesse um desfile, com bandas marciais e carros alegóricos, não faria qualquer diferença. Para a figura de preto havia apenas a realidade da corda. A mão segurando o ponto errado, um instante de descuido, muita coisa podia significar uma morte súbita.

Mas o sucesso significaria... tudo.

Palmo a palmo, a estreita varanda, com sua abundância de plantas em vasos, com a grade resistente, foi ficando mais perto. Os poros e rachaduras nos tijolos, os pequenos defeitos na argamassa, tudo podia ser visto com clareza. Se o bêbado olhasse para cima e fosse capaz de focalizar, a figura de preto pareceria um inseto rastejando pela parede do edifício.

Ninguém acreditaria nele. E, na manhã seguinte, de ressaca, o próprio bêbado não acreditaria em si mesmo.

Era tentador se apressar, ceder aos ombros e braços doloridos e cobrir a pouca distância restante com um pulo. Mas a figura, firme, ciente, continuou a pairar no ar, deixando que o instinto guiasse a descida final.

Os tênis pretos roçaram na grade, balançaram ao se afastarem, voltaram para encontrar aderência, mantiveram-se firmes no lugar. Ninguém ouviu a risada, mas aconteceu, rápida e satisfeita.

Teria um tempo, agora que os pés pousavam firmes no chão varanda, para contemplar a cidade de Nova York e refletir sobre as dificuldades superadas. Era uma grande cidade, uma cidade muito apreciada, quase um lar para quem nunca encontrara seu verdadeiro lar. Tinha agitação e esplendor; e o que faltava em compaixão compensava em possibilidades.

O Central Park era uma colcha de retalhos de cores, de uma imponência rural daquela altura e naquela época do ano. As árvores eram douradas, bronzeadas e escarlates, triunfantes em sua explosão final de cores, antes que o frio e o vento se projetassem do Canadá para arrancar-lhes as folhas.

Aquele trecho do Central Park West era sossegado. Era uma rua para porteiros e dogsitters, para médicos e dinheiro antigo. Embora fosse parte da cidade, o verdadeiro frenesi, o ímpeto turbilhonante a realidade, situava-se a uma viagem de táxi de distância, em outro mundo.

Além das árvores, além do reservatório, os edifícios se projetaram para o céu, mais altos e mais estreitos do que aquele velho prédio de apartamentos. Talvez representassem o futuro. E, com certeza, já eram o presente. No escuro, eram como sombras assomando ou talvez prometendo. Qualquer coisa que pudesse ser comprada, vendida, trocada ou desejada podia ser encontrada naqueles edifícios. E os itens mais sórdidos podiam ser encontrados nas ruas. Havia um preço para qualquer objeto de luxo ou desejo. Nova York compreendia isso, e não sentia o menor constrangimento pelo fato.

A cidade cochilava agora, descansando para o dia que começaria dentro de poucas horas. Mas sua energia continuava no ar, pulsando. Podia haver a vitória ali, ou o fracasso infame, ou todas as sensações intermediárias. Algumas pessoas, como aquela figura de preto, empenhada num roubo, haviam experimentado todas.

Afastou-se da grade, atravessou a varanda sem fazer barulho e ajoelhou-se junto da fechadura. Só precisava lidar agora com a fechadura, que, no máximo, proporcionava uma ilusão de segurança. Um pequeno kit de ferramentas saiu de uma bolsa escura.

Era uma boa fechadura, que qualquer ladrão aprovaria. Mas a figura só precisou de dois minutos para abri-la. Havia quem pudesse abri-la em menos tempo, mas eram bem poucos.

Quando ouviu o estalido da fechadura, a figura guardou as ferramentas, com todo o cuidado. Organização, controle e cautela eram os elementos que mantinham os ladrões longe da prisão. E aquela figura não tinha a menor intenção de ir para trás das grades. Ainda precisava fazer muitas coisas.

Mas, naquela noite, o futuro teria de esperar. Era uma noite para diamantes frios como gelo e rubis vermelhos e quentes. Jóias eram o único butim que valia a pena levar. Possuíam vida, magia e história. Também possuíam, e talvez fosse ainda mais importante, uma espécie de honra. Mesmo no escuro, uma pedra preciosa fler­tava e ardia, como um amante. Um quadro, por mais lindo que fos­se, só podia ser contemplado e admirado a distância. Dinheiro era frio, sem vida, pragmático. Jóias eram pessoais.

E, para aquela figura de preto, cada roubo era pessoal.

Os tênis eram silenciosos no assoalho encerado. Havia um ligei­ro cheiro de cera, que perdurava da encerada daquela manhã e com­petia com a fragrância do buquê de flores de outono. Porque era agradável, a figura sorriu, parando por um instante para aspirar. Mas apenas por um instante. Na bolsa grande pendurada no ombro havia uma potente lanterna. Mas não era necessária ali. Cada palmo da sala fora memorizado. Três passos, depois uma volta para a direi­ta. Sete passos para a esquerda. Uma escada que subia para o segun­do andar, com uma balaustrada antiquada, com querubins e folhas douradas. No espaço sob a escada havia um pedestal de mármore com uma escultura em cima, pré-colombiana, de valor inestimável.

A figura de preto ignorou a peça e se encaminhou silenciosamente para a biblioteca.

O cofre estava por trás das obras completas de Shakespeare. A figura estendeu um dedo para Otelo, puxando o livro. Virou-se no instante seguinte, quando as luzes se acenderam.

- Como costumam dizer, você está presa - murmurou uma voz calma e muito bem modulada.

A mulher na porta vestia um negligê rosa faiscante, o rosto páli­do e anguloso coberto pelos cremes noturnos, os cabelos louro­prateados penteados para trás. À primeira vista, parecia uma jovem de 40 anos. Admitia 45 anos, mas ainda faltavam cinco anos para a realidade.

Era do tipo pequeno e estava desarmada, a menos que se pudes­se considerar a banana em sua mão como uma arma. Com a cabeça inclinada para trás, numa atitude dramática, ela apontou a banana para a figura de preto.

-Bam!

A figura de preto soltou um grunhido de repulsa e arriou numa poltrona de couro.

- Mas que droga, Celeste! O que está fazendo acordada?

- Comendo. - Para confirmar a informação, ela deu uma mordida na banana. - E o que você está fazendo aqui, entrando às escondidas na biblioteca?

- Praticando. - A voz era rouca, baixa, mas inconfundivel­mente feminina. Ela começou a tirar as luvas. - Quase a roubei, sem que percebesse qualquer coisa.

- Ainda bem que ataquei a geladeira antes.

Celeste avançou pela sala tal como entrara em muitos palcos.

Fragmentos de seus papéis permaneciam com ela - de Lady Macbeth a Blanche DuBois. Era a firmeza de seu caráter, a antiga nativa de Nova Jersey que conquistara a Broadway, que, permitia a Celeste Michaels dominar a soma de seus papéis mais fortes.

- Adrianne, minha cara, não gosto de criticar, mas não está praticando um assalto quando tem uma chave.

- Não usei a chave. - Com uma expressão contrariada, Adrianne tirou o gorro. Os cabelos, quase tão pretos quanto o gor­ro, caíram além dos ombros. - Desci pelo telhado.

- Você... - Celeste respirou fundo, sabendo que não adianta­ria gritar. Em vez disso, ela se sentou na poltrona na frente de Adri­anne. - Você... ficou louca?

Ela se limitou a dar de ombros. Afinal, era uma pergunta que já ouvira antes.

- Quase deu certo. Se você tivesse alguma força de vontade, teria dado certo.

- Então a culpa é minha.

- Não importa agora, Celeste.

Adrianne inclinou-se para a frente. Pegou as mãos de Celeste, que tinham um anel de safira no dedo anular esquerdo e um de dia­mante no anular direito. Adrianne não usava qualquer anel. Todos os anéis que possuía haviam sido vendidos muito antes de iniciar sua carreira.

- Não pode imaginar a sensação de pairar sobre a cidade dessa maneira. É tão quieto, tão solitário...

- Você é desmiolada!

- Ora, querida, sabe que posso cuidar de mim mesma. - Adrianne tocou com a língua no lábio superior. A boca era larga e generosa, como fora a da mãe. - Não está especulando por que seu alarme não tocou?

Celeste ajustou a bainha do negligê.

- Tenho certeza de que não quero saber.

- Celeste...

- Está bem. Por quê?

- Desliguei-o esta tarde, quando almoçamos.

- Muito obrigada. Deixou-me desprotegida contra o submundo do crime.

- Eu sabia que voltaria.

Como a energia ainda fluía, Adrianne ergueu-se para andar de um lado para outro da sala. Era uma mulher pequena, de corpo delicado, que se movimentava como uma dançarina... ou como uma ladra. Os cabelos despencavam pelas costas, retos como uma flecha, ondulando quando ela se mexia.

- Foi fácil depois que pensei a respeito. Interferi no sistema. Assim, quando você o ligou, houve um curto-circuito na porta da varanda. Entrei no prédio há cerca de duas horas e conversei com o guarda. A artrite da mulher dele está causando problemas de novo.

- Lamento saber disso.

- Disse a ele que você não se sentia muito bem, e deixei flores para que entregassem mais tarde. Enquanto ele atendia a ligação de outro morador, subi pela escada, às escondidas.

Celeste ergueu uma sobrancelha louro-clara, um pequeno gesto que cultivara décadas antes.

- Eu me sentia muito bem até alguns minutos atrás.

- Peguei o elevador do quinto andar até o telhado - continuou Adrianne. - Tinha a corda na bolsa. Eu a prendi lá em cima, desci e entrei pela varanda.

- Cinqüenta andares, Adrianne. – Não era fácil conter o medo, mas Celeste usou a raiva para sufocá-lo. - Como eu poderia explicar que a Princesa Adrianne estava apenas treinando quando caiu do telhado do meu prédio e se esborrachou no Central Park West?

- Não caí - lembrou Adrianne. - E se você não tivesse feito uma incursão à cozinha, eu teria limpado o cofre, subido de volta para o telhado e escapado sem qualquer dificuldade.

- Uma desconsideração da minha parte.

- Não tem importância. - Adrianne afagou a mão de Celeste, antes de sentar-se no braço da poltrona. - Embora eu quisesse ver sua cara quando largasse o colar de rubis em seu colo. Terei de me contentar com isto.

Adrianne pegou uma bolsa de camurça, abriu-a e despejou os diamantes.

-Oh, Deus!

- Deslumbrantes, não é mesmo?

Adrianne suspendeu o colar contra a luz. Era uma única fieira de diamantes, terminando em um diamante enorme, que se aninharia no ponto inicial entre os seios de uma mulher. As pedras pareciam irradiar uma vida fria e arrogante. Adrianne virou o colar, avaliando-o.

- Cerca de 60 quilates, no total, com um mínimo de rosa na cor. Um trabalho excelente, bem equilibrado. Até conseguiu tornar interessante o pescoço da velha megera.

Celeste disse a si mesma que deveria estar acostumada, àquela altura, mas mesmo assim experimentou o súbito desejo de tomar um drinque. Levantou-se, foi até um armário francês rococó e pegou uma garrafa de cristal com conhaque.

- Quem era a velha megera, Addy?

- Dorothea Barnsworth. - Adrianne tirou da bolsa os brincos do conjunto. - Não acha que os brincos também são lindos?

Celeste apenas lançou um olhar rápido para os brincos, que deviam valer vários milhares de dólares.

- É verdade... Dorothea. Bem que achei que o colar me parecia familiar. - Celeste ofereceu um copo de conhaque. - Ela mora numa fortaleza em Long Island.

- Seu sistema de segurança tem alguns defeitos fundamentais.  Adrianne tomou um gole. Depois da descida pelo telhado, o conhaque entrou em seu organismo como um abraço caloroso. ­Gostaria de ver a pulseira?

-Já a vi, na semana passada, no baile de outono.

- Foi uma noite bastante agradável.

Adrianne sacudiu os brincos na mão livre. Calculou que cada um devia ter dez quilates. Havia também uma lupa de joalheiro em sua bolsa, que usara no escritório dos Barnsworth em Long Island. Só para ter certeza de que não sairia de lá com meras imitações.

- Essas pedras devem valer cerca de 200 mil dólares para o receptador.

- Ela tem cães - murmurou Celeste, olhando para seu conhaque. - Dobermans. Cinco.

- Três - corrigiu Adrianne, antes de olhar para o relógio. ­Eles já devem ter acordado a essa altura. Celeste, minha cara, estou morrendo de fome. Tem outra banana?

- Precisamos conversar.

- Você fala e eu como.

Celeste soltou um grunhido de frustração quando Adrianne seguiu da biblioteca para a cozinha.

- Deve ser por causa de todo o ar fresco que respirei esta noite. Fazia frio em Long Island. O vento penetrava até os ossos. Ah, por falar nisso, não me deixe esquecer que larguei meu casaco de pele no telhado do prédio.

Celeste arriou na banqueta de sorveteria, junto da janela da cozinha, cobrindo o rostO com as mãos, enquanto Adrianne vasculhava a geladeira.

- Por quanto tempo mais isso vai continuar, Addy?

- O é isso? Ah, patê forestier! Deve estar uma delícia! - Ela ouviu o suspiro profundo por trás e fez um esforço para reprimir o sorriso. _. Eu amo você, Celeste.

- Também amo você, querida. Mas estou mais velha. Pense em meu coração.

Adrianne arrumou um prato com o patê, uvas verdes e pequenas bolachas salgadas.

- Você tem o coração maior e mais forte entre todas as pessoas que conheço. - Ela roçou um beijo pelo rosto de Celeste e sentiu a fragrância confortadora do creme noturno. - Não se preocupe comigo, Celeste. Sou muito boa no que faço.

- Sei disso.

Quem teria acreditado? Celeste respirou fundo, enquanto estudava a mulher sentada à sua frente. A Princesa Adrianne de Jaquir - filha do Rei Abdu ibn Faisal Rahman al-Jaquir e de Phoebe Spring, estrela do cinema - aos 25 anos era uma socialite, benfeito­ra de numerosas obras de caridade, a predileta de colunistas so­ciais... e uma ladra de jóias.

Quem poderia desconfiar? Celeste confortara-se com esse pensamento ao longo dos anos, embora houvesse alguma coisa de cigana na aparência de Adrianne. A menina fascinante transformara-se numa mulher fascinante. Tinha a pele dourada e os olhos escuros. Os cabelos eram herdados do pai. Possuía a forte estrutura óssea da mãe, embora adaptada para sua pequena estatura. Era uma combinação do delicado e exótico, com o corpo esguio, quase de criança, e as feições marcantes. A boca era a de Phoebe, e sempre provocava uma pontada de saudade em Celeste quando a observava. Os olhos, os olhos ... por mais que Adrianne desejasse não ter nada do pai, os olhos eram de Abdu. Pretos, amendoados e astutos.

Da mãe, herdara o coração, o afeto, o espírito generoso. Do pai, tinha a sede de poder e o gosto pela vingança.

- Adrianne, não há necessidade de você continuar a fazer isso.

- Tenho toda a necessidade.

Adrianne pôs uma bolacha na boca.

- Phoebe morreu, querida. Não podemos trazê-la de volta.

 Por um momento, apenas um momento, a expressão de Adrianne foi jovem e muito vulnerável, a um ponto angustiante. Depois, os olhos endureceram. Em movimentos decididos, ela passou patê em outra bolacha.

- Sei disso, Celeste. Ninguém sabe melhor do que eu.

- Meu amor ... - Celeste pôs a mão sobre a de Adrianne, gentilmente. - Ela era minha maior amiga, a mais querida, como você é agora. Sei que sofreu por ela, que tentou ajudá-la por todos os meios que podia. Mas não há necessidade de correr esses riscos agora. Não havia necessidade antes. Eu sempre estive à disposição.

- É verdade. - Adrianne virou a mão, para que as palmas se encontrassem. - Sempre esteve. E também sei que, se eu permitisse, teria assumido tudo... as contas, os médicos, os remédios. Nunca esquecerei o que você tentou fazer por mamãe... e por mim. Sem você, ela não resistiria por tanto tempo.

- Ela resistiu por você.

- Tem razão. E o que eu fiz, o que eu faço, e o que pretendo fazer, é por ela.

- Addy ... - O medo não vinha das palavras, mas da maneira ria e indiferente com que eram enunciadas. - Você deixou Jaquir lá mais de 16 anos. E já se passaram cinco anos desde que Phoebe morreu.

- E a dívida aumenta a cada dia que passa. Não fique assim, Celeste. - Adrianne sorriu, para atenuar o clima. - O que eu seria sem isso... sem esse meu hobby? Exatamente o que a imprensa descreve, uma borboleta social, rica, com um título de nobreza, que e envolve em obras de caridade e vagueia de uma festa para outra.

Adrianne fez uma careta ao terminar, voltando a se concentrar patê.

- Segundo as colunas sociais, sou apenas outra jet-setter emedia­ta, com pouco para fazer e dinheiro demais. Pois deixe que eles pen­em isso, aqui e em Jaquir. Que ele pense assim. - Celeste precisava apenas fitar os olhos de Adrianne para saber que ela se referia ao pai. - Só serve para tornar mais fácil aliviar os frívolos de suas pedras.

- Você não precisa do dinheiro agora, Addy.

- Não, não preciso. - Ela olhou para o conhaque. – Investi em, e poderia levar uma vida confortável com o que tenho. Mas tão é pelo dinheiro, Celeste. Talvez nunca tenha sido.

Adrianne tornou a se levantar. Estava ali, o calor gelado e quase assustador, como os diamantes que ela roubava.

- Eu tinha oito anos quando desembarquei na América. E sa­lia já naquele tempo que um dia voltaria para tomar o que era de mamãe. O que era meu.

- Ele pode estar arrependido. A essa altura, talvez se arrependa.

- Compareceu ao funeral? - A indagação ressoou pela cozinha, enquanto Adrianne levantava-se de um pulo, passando a andar e um lado para outro. - Reconheceu que ela havia morri do? Durante todos aqueles anos, aqueles anos terríveis, ele nem sequer demitiu que mamãe estava viva.

Com um esforço para se controlar, Adrianne encostou-se no balcão. Quando tornou a falar, a voz saiu calma e decidida.

- Num sentido muito real, mamãe não estava mesmo viva. Ele a matou, Celeste, há muitos anos, quando eu era pequena demais para impedi-la. Em breve, muito em breve, ele pagará por isso.

Celeste sentiu um calafrio percorrer sua coluna. Recordou Adri­anne aos oito anos. Os olhos já possuíam aquele brilho sombrio, atormentado, de alguém com muito mais idade.

- Acha que Phoebe gostaria disso?

- Creio que ela apreciaria a ironia. Vou me apoderar de O Sol e a Lua, Celeste. Como eu prometi a mamãe e prometi a mim mes­ma. E ele pagará caro para ter o colar de volta. - Adrianne se vi­rou, sorriu e levantou o copo de conhaque numa saudação à amiga. - Enquanto espero o momento, não posso ficar enferrujada. Sabia que Lady Fume vai oferecer um baile de gala em Londres no mês que vem?

-Addy ...

- Lorde Fume, o bode velho, pagou mais de 250 mil por suas esmeraldas. Lady Fume não deveria usar esmeraldas. Deixam-na muito pálida. - Com uma risada, Adrianne inclinou-se e deu um beijo no rosto de Celeste. - Trate de concluir seu sono de beleza, querida. Vou embora agora.

- Pela porta da frente?

- Claro. Não se esqueça de que temos um brunch no Palm Court no domingo. O convite é meu.

Adrianne se retirou, lembrando a si mesma de dar uma passada pelo telhado para pegar o casaco de peles.

FORA NOS JOELHOS DA MÃE QUE ADRIANNE APRENDERA A arte da maquilagem. Phoebe sempre fora fascinada pela maneira como uns poucos retoques de pó, alguns traços com lápis de ma­quilagem, podiam acrescentar beleza ou anos ... ou retirar as duas coisas.

Celeste, por ser do teatro, ensinara ainda mais. Mesmo depois de um quarto de século no teatro, Celeste ainda fazia a própria maquilagem, e conhecia todos os segredos. Adrianne combinava as artes de suas duas mestras ao se transformar em Rose Sparrow, a namorada de O Sombra.

O processo demorava 45 minutos, mas Adrianne sempre ficava satisfeita com os resultados. As lentes de contato davam a seus olhos uma cor castanho desbotado, a que acrescentava olheiras de falta de sono. O nariz aumentava um centímetro e meio, as faces se tornavam estufadas. Pan-Cake fazia com que a pele dourada se tornasse pálida. A peruca ruiva era feita à mão, com os cabelos empilhados no alto da cabeça. Bolas de vidro ordinárias pendiam das orelhas. Ela pôs na boca uma barra de Bubble Yum, sabor de morango, enquanto dava um passo para trás e se contemplava no espelho de corpo inteiro, à procura de defeitos.

Bem espalhafatosa, pensou ela, com um sorriso rápido. Não podia estar melhor. Um spandex preto moldava os quadris que ela modelara, enquanto os saltos finos dos sapatos acrescentavam sete centímetros à sua altura. Tinha nos ombros uma imitação ordinária de casaco de peles. Satisfeita, Adrianne pôs os óculos escuros com as pedras brilhantes na armação, para sair em seguida.

Pegou o elevador de serviço. Uma pequena precaução. Ninguém poderia vê-la agora como a Princesa Adrianne. Assim como ninguém que olhasse para a Princesa Adrianne poderia ver O Sombra. Ainda assim, ela não queria que Rase fosse vista deixando o apartamento de cobertura da Princesa Adrianne.

Na rua, ela ignorou o táxi que teria preferido e se encaminhou para a estação do metrô. Levava um punhado de diamantes na bolsa de imitação de couro. Cheirava como se tivesse tomado um banho de perfume barato. O que de fato acontecera.

Gostava daquelas viagens de metrô, mas como Rose. Ninguém que a conhecesse andaria por baixo das ruas. Ali, era apenas um corpo entre outros corpos. Anônima, como nunca fora desde o dia em que nascera. Os saltos ressoavam nos degraus de concreto quando desceu as escadas. Lembrou a primeira vez em que deixara as ruas para andar de metrô. Tinha 16 anos e estava desesperada - com um medo desesperado e um excitamento desesperado.

Naquela ocasião, tinha certeza de que uma mão pesada a seguraria pelo ombro a qualquer momento, e a voz fria e profunda de um policial exigiria que abrisse a bolsa. Levava um colar de pérolas leitosas, japonesas. Os cinco mil dólares pelos quais trocara o colar pagaram os remédios e um mês de terapia de Phoebe no Instituto Richardson.

Agora ela passou pela roleta com a tranqüilidade da longa experiência. Ninguém a observou. Adrianne passara a compreender que quase nunca as pessoas se olhavam ali embaixo. Em Nova York, as pessoas cuidavam de suas vidas com a obstinada esperança - ou defesa - de que todos os outros fariam a mesma coisa.

Houve um fluxo de som e vento de um trem se aproximando. Dava para sentir um cheiro vago, mas um tanto confortador, de bebida antiga e umidade. Adrianne evitou um pedaço de goma de mascar grudado no chão e juntou-se às outras pessoas, esperando o trem que as levaria ao centro.

A seu lado, duas mulheres, encolhidas pelo frio, queixavam-se de seus maridos.

- Eu disse a ele: você tem uma esposa, Harry, não uma criada. Prometi amar, honrar e respeitar, mas não falei nada sobre limpar sua sujeira. E acrescentei que, na próxima vez que encontrasse suas meias fedorentas largadas no tapete, ia metê-las em sua boca.

- Fez muito bem, Lorraine.

Adrianne teve vontade de manifestar seu apoio. Fez muito bem, Lorraine. O desgraçado tem de pegar suas meias. Era isso o que ela adorava nas mulheres americanas. Não se intimidavam e nem se encolhiam quando o homem todo-poderoso passava pela porta. Entregavam-lhe um saco de lixo e mandavam que o jogasse fora.

O trem barulhento parou. Pessoas saíram, pessoas entraram. Ela embarcou atrás das duas mulheres. Um olhar rápido fez Adrian­ne atravessar o vagão para sentar ao lado de um homem que usava correntes no blusão de couro. Sempre achava mais sensato escolher um companheiro de banco que dava a impressão de estar levando uma arma escondida.

O trem partiu, balançando. A velocidade foi aumentando. Adri­anne correu os olhos pelos grafites e anúncios, depois pelas pessoas. m homem de terno e gravata, com uma pasta debaixo do braço, ia o último romance de Ludlum. Uma moça numa saia de camurça olhava sonhadora pelas janelas escuras, enquanto escutava música através dos fones em seus ouvidos. Na extremidade do vagão, um homem estava deitado num banco, ocupando pelo menos três lugares, o casaco por cima do rosto, dormindo como um morto. As duas mulheres ainda conversavam sobre Harry. A seu lado, o homem mudou de posição, as correntes fazendo barulho.

Na estação seguinte, o terno-e-gravata saltou. Embarcaram três garotas, que deveriam estar na escola, rindo sem parar. Adrianne ouviu-as discutirem o filme que assistiriam. Não pôde deixar de invejá-las. Nunca fora tão jovem assim. Nem tão livre.

Em sua estação, ela se levantou, segurou a bolsa com mais firmeza e saltou. Era insensato lamentar pelo que nunca fora.

Lá fora, o vento era forte, passando pelo spandex da calça com a maior facilidade e transformando a imitação de pele numa piada. Mas aquele era o distrito dos diamantes. Havia calor suficiente, irradiando-se dos balcões de vidro, para aquecer o sangue mais frio.

A Princesa Adrianne podia passear por ali de vez em quando, olhando vitrines, fazendo os corações de joalheiros dispararem na esperança de que pudessem tirar algumas pedras de suas mãos. Mas Rose ali estava para tratar de negócios.

E muitos negócios eram realizados nas ruas de 48 a 46, entre a Quinta e a Sexta avenidas. Os espertalhões, tentando parecer despreocupados, ofereciam o butim da noite anterior. Pedras, bastante quentes para queimarem seus bolsos, esperavam para serem vendidas. Logo eram retiradas de seus engastes e vendidas de novo. Grupos de judeus hassídicos, de chapéu e casaco preto comprido, circulavam de loja em loja, com pastas cheias de pedras preciosas. Fortunas eram carregadas pelas calçadas estreitas por homens que tomavam cuidado até com um esbarrão casual de outro pedestre.

Adrianne tinha o mesmo cuidado; nunca, nem mesmo aos 16 anos, negociara na rua. Preferia efetuar a transação entre quatro paredes.

Cada vitrine atraia sua atenção. A Tiffany's ou a Cartier poderiam exibir as mercadorias com mais sutileza e classe, mas sem o clima de carnaval que fascinava todo mundo. Pedras reluzentes contra veludo preto, exércitos de anéis, legiões de colares. Brincos, bro­ches, pulseiras, aos montões, tudo polido e disposto de maneira a refletir o sol e chamar a atenção. Vinte e cinco por cento de desconto. Uma pechincha.

Ela seguiu pela Rua 48 e entrou numa loja.

As luzes ali eram sempre fracas, o ambiente um pouco desleixado. À primeira vista, dava a impressão de ser uma loja à beira da falência. À segunda vista, a impressão continuava a ser a mesma. Jack Cohen sempre acreditara que era um desperdício gastar dinheiro com aparência. Se o cliente não quisesse um pouco de poeira, podia ir à Tiffany's. Mas a Tiffany's não aceitava 20 por cento de entrada e mais cinco prestações mensais. Um vendedor olhou para Adrianne quando ela entrou, mas continuou a fazer seu discurso persuasivo para o cliente de ombros encurvados e uma sugestão de acne no queixo.

- Um anel como este a deixará encantada, e valerá um enorme crédito para você durante os próximos dez anos. É de muito bom gosto, mas também bastante vistoso para que ela queira mostrar às amigas.

Enquanto falava, ele a indicou com os olhos a porta no fundo da loja. Com um aceno de cabeça quase imperceptível, Adrianne atravessou a loja. O zumbido baixo informava que o vendedor sol­tara a tranca. No outro lado da porta havia o que passava por um escritório. Pastas de arquivo estavam empilhadas numa mesa de metal, que era um excedente do exército. Engradados e caixas su­biam pelas paredes. O cheiro de alho e pastrami pairava no ar.

Jack Cohen era baixo, de peito estufado, um homem que usava enorme bigode como defesa contra os cabelos cada vez mais ralos no alto da cabeça. Entrara no ramo de joalheria pela porta da frente de uma empresa que o pai criara. O pai também lhe ensinara cuidar das transações por baixo do balcão. Cohen orgulhava-se de ser capaz de reconhecer um policial apresentando-se como cliente m a mesma facilidade com que distinguia um zircônio apresentado como diamante. Sabia que negócios estavam sob pressão, que operadores estariam interessados num negócio rápido, e como esfriar um punhado de pedras quentes.

Quando Adrianne entrou, ele segurava um briefke, um papel brado para formar bolsos, onde se guardam pedras soltas. Aceno­u com a cabeça para ela, depois despejou na mesa talvez uma dúzia de diamantes pequenos. Com uma pinça, começou a separa-los ­e examiná-los.

- Russos. Boa qualidade. D a F. - Ele pegou uma lupa e examin­ou cada pedra. - Lindas ... muito mesmo. Imperfeições míni­mas. Quanta cintilação ...

Cohen estalou a língua e separou duas pedras.

- Um pacote interessante, em tudo e por tudo.

Satisfeito, ele tornou a guardar as jóias no briefke, que meteu no bolso em seguida, com a mesma descontração com que uma mulher da Avon poderia guardar suas amostras.

 - O que posso fazer por você hoje, Rose?

Como resposta, ela abriu a bolsa e tirou um saco grande de camurça. Virou-o e esvaziou o conteúdo cintilante sobre a mesa. Os olhos azuis de Jack Cohen iluminaram-se como safiras.

- Rose, Rose, Rose, o dia sempre se torna mais brilhante do você aparece.

Ela sorriu, tirou os óculos escuros e acomodou um quadril na beira da mesa.

- Uma beleza, não é? - O sotaque do Bronx soava natural agora. - Quase morri quando as vi. E disse: "Meu bem, essas são coisas mais lindas que já vi!"

Os lábios cheios de Adrianne contraíram-se numa expressão de insatisfação.

- Eu bem que gostaria que ele tivesse me deixado ficar com essas pedras.

- Imagino que são bastante quentes para queimar sua pele, Rose.

Cohen pegou novamente a lupa e começou a examinar o colar, pedra por pedra.

- Há quanto tempo ele está com isto?

- Sabe que ele não me conta essas coisas. Mas não é muito  tempo. São verdadeiras, não é, Sr. Cohen? Juro que essas pedras são tão grandes que nem parecem verdadeiras.

- São verdadeiras, Rose. - Ele poderia tentar enganá-la, mas sabia que era melhor não se meter com o homem que a encarregava de vender as mercadorias. - Quase sem imperfeições, com um ligeiro toque de rosa. Um excelente trabalho de arte.

Gentilmente, Cohen largou o colar e pegou a pulseira.

- É claro que isso não vem ao caso. Só estamos interessados nos diamantes.

Ela espetou o colar com a ponta de uma unha pintada de rosa.

- Gosto de coisas bonitas.

- Todos nós gostamos, não é mesmo? É isso que nos mantém em atividade. - Cohen estudou os brincos, respirando através dos dentes. – Um conjunto magnífico.

Ele empurrou um pequeno arquivo para o lado e pegou uma máquina de calcular. Foi apertando os botões, enquanto murmura­va cifras para si mesmo.

- Dá 125, Rose.

Ela esticou o queixo para a frente.

- Ele disse que eu deveria conseguir 250.

- Rose ... - Cohen cruzou as mãos sobre o peito. Com os olhos azuis serenos e os cabelos ralos, parecia um tio paciente. Ha­via uma automática .38 sob o paletó amarrotado. - Ambos sabe­mos que tenho de sentar sobre estas pedras, guardá-las por algum tempo, antes de poder passá-las adiante.

- Ele disse 250. - A voz era agora esganiçada. - Se eu voltar para casa só com a metade, ele vai ficar muito infeliz.

Cohen voltou para a calculadora. Podia pagar 200 e ainda dar a comissão habitual, mas gostava de brincar com Rose. Se não fosse reputação do homem que ela representava, Cohen teria gosta­do tornar a brincadeira mais pessoal.

- Perco dinheiro cada vez que você entra aqui. Não sei o que há em você, Rose, mas gosto de sua pessoa.

Adrianne se animou no mesmo instante. Era um jogo antigo.

- Devo dizer que também gosto do senhor.

- Que tal 175 e mais duas daquelas pedras que eu examinava quando você entrou? Seria nosso segredo.

Ela permitiu-se dar a impressão de se sentir tentada, mas logo se mostrou arrependida.

- Ele descobriria. Sempre descobre, e não gosta quando eu aceito presentes de outros homens.

- Está bem, Rose. É como se cortasse minha própria garganta, mas darei 200. Diga a ele que um conjunto como este tem um calor extra, o que acarreta custos extras. Terei o dinheiro dentro de duas horas.

- Certo. - Ela levantou-se e puxou o casaco. - Tratarei de acalmá-lo, se ele ficar furioso. Não ficará com raiva por muito tem­po. Posso deixar as pedras aqui, Sr. Cohen? Não gosto de andar pelas ruas com essas coisas.

- Claro que pode.

Ambos sabiam que ele não teria o mau gosto de roubar de seu melhor fornecedor. Com sua letra meticulosa, Cohen escreveu um memorando e lhe entregou. Serviria como recibo em qualquer tran­sação, legal ou não.

- Vá fazer algumas compras, Rose, enquanto cuido de tudo.

TRÊS HORAS DEPOIS, ADRIANNE LARGOU A BOLSA, O CASACO e a peruca na enorme cama de latão em seu quarto. As lentes de contato foram retiradas primeiro. Ela as limpou e guardou, antes de remover as unhas postiças. Em seguida, levantou a mão para soltar os cabelos. Pegou o telefone.

 - Kendal e Kendal.

- George, Junior, por favor. Aqui é a Princesa Adrianne.

- Pois não, alteza. Espere só um instante.

Com um suspiro de alívio, Adrianne tirou os sapatos de Rase, antes de se sentar na cama.

- É um prazer ouvir sua voz de novo, Addy.

- Não vou ocupá-lo por muito tempo, George. Sei como os advogados sempre têm trabalho demais.

- Nunca estou ocupado demais para você.

- É muita gentileza sua.

- E a pura verdade. Para ser franco, esperava que pudéssemos almoçar esta semana. Um encontro social, para variar.

- Verei o que posso fazer.

Como ele era simpático e apenas meio apaixonado por ela, Adrianne falava sério.

- Li em algum lugar que você vai ficar noiva de um barão ale­mão ... Von Weisburg.

- É mesmo? Creio que tivemos apenas uma conversa de cinco minutos, num evento político de levantamento de fundos, no mês passado. Não me lembro de alguém ter falado em casamento.

Ela abriu a bolsa. Pegou um maço de notas de 100 dólares. Não eram novas, e também não tinham números de série consecutivos. As notas eram macias e tinham o cheiro suado de dinheiro muito usado.

 - George, quero fazer uma pequena contribuição para o Mu­lheres em Necessidade.

- O abrigo feminino?

- Isso mesmo. Quero que a contribuição seja anônima, através de seu escritório. Vou transferir 175 mil dólares para a minha conta especial hoje. Pode cuidar disso?

- Claro, Addy. Você é muito generosa.

Adrianne passou um dedo pela beira do maço de notas. Lem­brava-se de outras mulheres em necessidade.

- É o mínimo que posso fazer.

 

Por trás dele, um leão rugia, mais por tédio do que por fero­cidade. Philip mastigou um amendoim, sem olhar para trás. Sempre se sentia um pouco deprimido ao ver felinos o cativeiro. Tinha empatia por eles; mais do que isso, por qualquer animal que encontrasse enjaulado. Ainda assim, gostava de passear pelo zoológico de Londres. Talvez lhe fizesse bem ver as grades e gaiolas, para se lembrar de que sempre conseguira evitar, ao longo e sua carreira, a perspectiva de vê-las do lado de dentro.

Não sentia saudades de roubar. Pelo menos não muita. Fora ma profissão boa e regular enquanto durara, e sem dúvida lhe pro­porcionara os meios para viver bem. E essa sempre fora sua ambição principal. O conforto era sempre preferível ao desconforto, mas era lixo que consolava a alma de um homem.

De vez em quando, ele pensava em escrever um livro sobre seus roubos mais audaciosos. Talvez as safiras Trafalgi. Tinha lembranças agradáveis desse trabalho em particular. Seria considerada uma obra de ficção, é claro. A verdade era, com freqüência, mais estranha e mais angustiante do que a ficção. Era uma pena que seu emprega­dor atual não percebesse o humor ou a ironia da situação. Era um projeto que ele poderia guardar para a aposentadoria, quando esti­vesse instalado em conforto em Oxfordshire, criando cães de caça e caçando faisões.

Podia se imaginar como um aristocrata rural, com botas enla­meadas e empregados fiéis ... desde que fosse daqui a 20 anos, no mínimo.

Foi olhar as panteras, pondo outro amendoim na boca. Irre­quietas, furiosas, elas andavam de um lado para outro, por toda a extensão de seu cercado, sempre incapazes de encarar o cativeiro com a mesma atitude filosófica de outros felinos. Philip sentia com­paixão. Apreciava-lhe os contornos esguios e os olhos perigosos. Já fora comparado a uma pantera, por colegas, policiais, mulheres. No corpo e nos movimentos apenas, porque era branco na cor.

Ele continuou a comer amendoins, enquanto dizia a si mesmo que um homem à beira dos 35 anos tinha de pensar em sua saúde. O cigarro era um péssimo hábito, e fizera muito bem em deixar de fumar. Tinha uma certeza positiva a respeito. Era uma pena que gostasse tanto de tabaco.

Sentou num banco. Ficou observando as pessoas que passavam. Como fazia um calor excepcional para outubro, havia incontáveis babás e carrinhos de bebê. Atraiu a atenção de uma morena jovem e bonita, que lhe ofereceu um piscar provocante, e se mostrou mais do que desapontada quando Philip não reagiu.

Bem que poderia ter feito, pensou Philip, se não tivesse um en­contro marcado. As mulheres sempre haviam despertado seu inte­resse, não apenas porque usavam e possuíam a maior parte das jóias, mas também porque eram ... mulheres. Eram mais um dos prazeres da vida, com a pele macia e os cabelos cheirosos. Philip olhou para o relógio no instante em que o ponteiro dos segundos alcançava o 12. Era exatamente uma hora. Ele não se surpreendeu quando um homem calvo e corpulento arriou ao seu lado, no banco.

- Não sei por que não poderíamos nos encontrar no Whites.

Philip ofereceu o saco de amendoins.

- Muito abafado. E você bem que precisa de ar fresco, meu . Está muito pálido.

O Capitão Stuart Spencer soltou um grunhido, mas pegou um amendoim. A dieta que a esposa lhe impunha era criminosa. A verdad­e pura e simples é que ele adoraria ficar longe do escritório, da papelada, do telefone. Havia dias em que sentia saudade do trabalho do campo, embora felizmente fossem poucos e bem distanciados. Era mais do que verdade, embora ele nunca fosse admitir, que o capitão tinha uma certa afeição pelo homem esguio ao seu lado. Apesar do fato - ou talvez por causa disso - de Spencer haver ten­do por quase dez anos pôr Philip atrás das grades. Havia alguma coisa irritante, mas satisfatória ao mesmo tempo, em trabalhar com um homem que conseguira se esquivar à justiça com a maior habili­dade.

Quando Philip tomara a decisão de trabalhar com a lei, em vez e contra a lei, Spencer não se enganara com a noção de que o ladrão subitamente se arrependera de seus crimes. Com Philip, era um negócio, em primeiro e último lugar. Era difícil não admirar um homem que tomava suas decisões com tamanho oportunismo,  sempre com o progresso pessoal como objetivo predominante.

Apesar do calor do sol da tarde, Spencer encolhia-se dentro de seu sobretudo. Tinha uma bolha no calcanhar esquerdo, um princí­pio de  resfriado e se aproximava de seu aniversário de 56 anos. Era difícil não invejar Philip Chamberlain por sua juventude saúde e boa aparência.          '

- Um lugar absurdo para um encontro - resmungou Spen­cer, apenas porque a queixa fazia com que se sentisse melhor.

- Coma Outro amendoim, capitão. - Philip já estava acostu­mado com o mau humor de Spencer para se incomodar. _ Pode olhar ao redor e pensar em todos os criminosos calejados que pôs atrás das grades.

- Temos coisas mais importantes para fazer do que comer amendoim e olhar para os macacos.

Mesmo assim, ele pegou outro amendoim, cujo gosto e cheiro dos animais lembravam-no das visitas dominicais ao zoológico quando era pequeno. Tratou de limpar a garganta para se livrar do sentimentalismo.

- Houve outro roubo na semana passada.

Curioso, Philip recostou-se, imaginando que saboreava um ci­garro.

- Nosso mesmo amigo?

- Ao que tudo indica. Uma propriedade em Long Island, Nova York. Barnsworth ... riqueza, a elite do dinheiro. Possui lojas de departamentos, ou algo parecido.

- Se fala de Frederick e Dorothea Barnsworth, eles possuem uma rede de lojas de departamentos de alta classe nos Estados Unidos. O que levaram?

- Diamantes.

- Sempre minha primeira opção - comentou Philip, remanescente.

- Colar, pulseira. Tudo segurado por meio milhão. Philip cruzou os tornozelos.

- Bom trabalho.

- É uma situação irritante. - Spencer pôs outro amendoim na boca. Bateu com as luvas de couro velhas na palma da mão. ­Se eu não soubesse com certeza onde você esteve na semana passa­da, exigiria que respondesse a algumas perguntas.

- Não precisa recorrer à lisonja, Stuart, depois de tantos anos. Spencer tirou um cachimbo do bolso, mais porque sabia que Philip deixara o vício do que realmente pelo desejo de fumar. Sem pressa, arrumou tudo e acendeu-o. Recostou-se, soprando nuvens de fumaça.

- O sujeito é esperto. Entrou e saiu sem deixar qualquer vestí­gio. Drogou os cachorros. Dobermans ... animais ferozes e traiçoei­ros. Meu irmão já teve um ... eu o detestava. Mesmo com um siste­ma de segurança de alta classe, ele conseguiu passar sem acionar o alarme. Levou apenas o conjunto de diamantes. Deixou diversos títulos, um broche de rubis e um colar de rubis bastante feio.

- O homem não é ganancioso ... - murmurou Philip.

Ele sabia como era tentador - e uma insensatez - ser um ladrão ganancioso. Ao longo dos últimos meses, Philip desenvolvera uma admiração profunda e muito pessoal por aquele ladrão em particular. O homem tinha classe, pensou ele. Classe, estilo e inteli­gência. Philip sorriu. Os dois tinham muita coisa em comum.

- Ele não me interessaria tanto se fosse ganancioso. Há quanto tempo que a Interpol o procura?

- Quase dez anos. -. Spencer não gostava de admiti-lo. Em­bora fosse verdade que nem sempre pegava seu homem, sua folha .e serviço era excelente. - O homem não tem qualquer padrão. Cinco roubos em um mês, depois nada durante meio ano. Mas vamos pegá-lo. Basta um erro, um único erro que ele cometa, e será preso.

Philip removeu um fiapo da lapela do paletó.

 - Era o que costumava dizer a meu respeito?

Spencer soprou a fumaça na direção de Philip, num gesto deliberado.

- Você cometeu um erro ... nós dois sabemos.

- Talvez. - Fora precisamente por isso que ele deixara o antigo ofício enquanto ainda levava vantagem. - Acha então que ele está na América?

Philip refletiu que uma viagem aos Estados Unidos agora seria bastante agradável.

- Acho que não. Sinto-me propenso a pensar que ele vai que­rer se distanciar da pressão policial à sua procura. De qualquer forma, temos um homem em Nova York.

Uma pena.

- O que quer de mim?

- Ele parece preferir os muitos ricos, não se importando de roubar jóias famosas. Na verdade, seu padrão, se o tiver, é o de sua preferência por jóias famosas. As pérolas Stradford, a safira Lady Caroline.

- A Lady Caroline ... - murmurou Philip, suspirando. ­Invejo-o por isso.

- Estamos vigiando as festas mais elegantes da Europa. Ter um agente que é aceito como parte do círculo interno sempre ajuda.

Philip limitou-se a sorrir, examinando as unhas bem-cuidadas.

- Parece que Lady Fume está planejando um baile de gala.

- É verdade. Fui convidado.

- E aceitou?

- Ainda não. Não sei se estarei na cidade na ocasião.

- Claro que estará. - Spencer tornou a sugar o cachimbo. - Haverá muitas jóias na festa. Queremos você lá dentro, de olho nas pedras, mas com as mãos a distância.

- Sabe que pode confiar em mim, capitão. - Philip sorriu. Era um sorriso cativante, que despertava pensamentos maliciosos nas mulheres. - Como vai aquela sua doce filha?

- É outra coisa da qual você deve manter as mãos a distância.

- Posso lhe garantir que é um interesse puramente platônico.

- Você nunca teve um pensamento platônico sobre uma mulher em toda sua vida.

- Touché!- Philip amassou o saco vazio numa bola e o jogou na lata de lixo. - Gostaria que me enviasse o relatório sobre o últi­mo incidente.

Um enganador, pensou Spencer, pondo o cachimbo na boca para esconder um sorriso.

- Vai recebê-lo amanhã.

- Ótimo. Começo a compreender como você deve ter se sentido há alguns anos. É como uma coceira ... - Seus olhos, de um cinza-claro, deslocaram-se para as grades. - Descubro-me pen­sando nele nos momentos mais inesperados, seu próximo movi­mento, onde mora, o que come, quando faz amor. Já fiz o que ele está fazendo agora, mas ...

Philip levantou-se, balançando a cabeça.

- Aguardo ansioso pelo dia em que nos encontrarmos.

- Pode não ser um encontro cordial, Philip. - Spencer também se levantou, tomando o maior cuidado com o calcanhar. ­vez ele seja um homem perigoso.

- Todo mundo pode ser perigoso, nas circunstâncias apropria­s. Boa-tarde, capitão.

ADRIANNE HOSPEDOU-SE NO RITZ, EM LONDRES, VÁRIOS dias antes do baile de gala de Lady Fume. Preferia o Ritz porque era ostensivamente grandioso ... e porque fora a escolha da mãe na única ­viagem feliz que haviam feito à cidade. O Connaught era mais distinto, o Savoy mais imponente, mas havia uma certa extravagância maravilhosa em anjos dourados subindo pelas paredes.

Os empregados conheciam-na muito bem; e como dava gorjeta­s generosas e sempre se mostrava simpática, eles não precisavam fingir que era um prazer servi-la. Adrianne ficou numa suíte com vista para o Green Park. Comentou com o recepcionista, em tom casual, que pretendia passar alguns dias fazendo compras e se distr­aindo.

No instante em que ficou sozinha na suíte, não se refestelou um banho de banheira, com sais e espuma. Também não mudou e roupa, para ver e ser vista no chá. A única coisa que tirou da bagagem foi um vestido prateado de Valentino, com um decote profundo. Dobradas, junto com o papel de seda que protegia o vestido, várias plantas da casa e as especificações do sistema de segurança. Haviam custado mais do que o vestido. Adrianne levou tudo para a sala, abriu sobre a mesa e preparou-se para verificar se gastara seu dinheiro tão bem quanto pensava.

A casa dos Fume em Londres era elegante e  eduardiana, em Grosvenor Square, com uma linda vista do parque. Adrianne  refletiu que era uma pena que os Fume não estivessem oferecendo a festa em sua casa de campo, em Kent. Mas mendigos e ladrões não podiam ser exigentes. Ela passara um fim de semana chatíssimo com os Fume em Kent, e poderia ter preparado as plantas sem a ajuda de ninguém. A casa em Londres era relativamente desconhecida. Por isso, teria de depender das informações que comprara e de suas observações na noite da festa.

As esmeraldas de Lady Fume dariam um bom dinheiro, ela tinha certeza. Os avarentos e esnobes Fume haveriam de contribuir, indiretamente, para fundos de ajuda a viúvas e órfãos em várias cidades. E as esmeraldas eram, sem dúvida, um tremendo desperdício sobre a pele pálida de Lady Fume.

O melhor de tudo era o fato de os Fume serem tão sovinas que só haviam gastado o mínimo em segurança. Não tinham mais do que um sistema comum de fios nas portas e janelas. Ao examinar as especificações, Adrianne concluiu que até mesmo um ladrão médio entraria na casa sem acionar o alarme. E ela era muito acima da média.

A primeira necessidade agora era verificar o bairro, a proximidade de outras casas e os hábitos dos moradores. Adrianne tornou a guardar tudo dentro do papel de seda, depois pegou uma capa preta e saiu para dar uma primeira olhada no local.

Conhecia Londres muito bem, as ruas, o tráfego, os clubes. Se decidisse visitar o Annabel's ou a clandestina La Cage, seria reconhecida e bem recebida. Em outra ocasião até que teria apreciado, pela música, as conversas. Mas aquela viagem a Londres era de trabalho. Seria necessário comparecer a alguns lugares, antes de deixar a cidade. Era o que se esperava da Princesa Adrianne. Assim como também se esperava que ela causasse bastante excitação para ser comentada. Mas aquela noite era de trabalho.

Ela primeiro passou de carro, observando o movimento, tanto de carros quanto de pedestres, a proximidade das outras casas, os detalhes da rua, como os lampiões acesos. Como o vestíbulo era o único lugar com uma lâmpada acesa na casa, Adrianne imaginou que os Fume haviam saído... provavelmente para o teatro. Foi preciso contornar a casa apenas uma vez para saber que o melhor acesso a através do gramado. Depois de estacionar o carro na Bond Street, ela seguiu a pé.

A temporada de calor que Londres vinha aproveitando já se aproximava do fim. O tempo se tornara frio e úmido, como Adrianne preferia. A maioria dos londrinos permanecera em casa ou lotara os clubes. As calçadas estavam vazias. Podia-se ouvir o murmúrio das folhas deslizando pelo chão, o sussurro da brisa noturna soprando entre as árvores, que se tornavam mais e mais desfolhadas.

Havia dedos de nevoeiro em torno de seus pés, tênues e cinzentos. Se tivesse sorte, o nevoeiro estaria mais denso no dia decisivo. Agora, dava para divisar os portões e jardins das casas, e as janelas que ela poderia escalar. O passeio sem pressa demorou três minutos meio. Com pressa, ela poderia percorrer a distância em menos de dois minutos. Ao chegar mais perto, Adrianne manteve-se atenta a elementos incômodos, como cachorros ou vizinhos bisbilhoteiros. Foi nesse instante que ela percebeu o homem que caminhava devagar pela rua, observando-a.

Foram um súbito impulso e o instinto que trouxeram Philip até ali. Não havia qualquer garantia de que a casa dos Fume seria um alvo. Mas, se fosse, se ele próprio estivesse planejando o roubo, trat­aria de circular pela vizinhança, para conhecer os hábitos das pessoas ali, antes de dar o golpe.

De qualquer forma, ele se sentia inquieto, relutante em sair para procurar uma companhia ... e insatisfeito com a própria companhia. Havia ocasiões, como aquela, em que sentia falta do excitamento, da expectativa de planejar um trabalho. A operação propriamente dita era tensa, exigindo uma concentração total, não deixando qualquer margem para um prazer nervoso. Antes e depois, no entanto, eram ocasiões emocionantes. E Philip invejava o homem que estava experimentando essas emoções.

E, no entanto, tomara a decisão de se aposentar de suas aventuras de cabeça fria. Não podia se arrepender. Exceto numa noite fria e úmida, quando quase podia sentir o calor das jóias aninhadas em caixas de veludo, dentro de cofres abafados.

E, de repente, ele avistou a mulher. Era pequena, envolta por um manto preto, que não lhe permitia ver seu rosto ou corpo. Ainda assim, Philip sentiu juventude nos movimentos descontraídos, confiança na maneira casual de como as mãos desapareciam nas dobras da capa. Era uma imagem fascinante, com o nevoeiro circulando em torno de seus pés, as folhas voando para a sarjeta. Mas os sentidos de Philip tornaram-se mais aguçados quando percebeu que a mulher girava a cabeça para a casa na Grosvenor Square. A mesma casa que ele estivera observando.

Ao vê-lo, a hesitação da mulher foi breve, tão breve que ele não teria percebido se não estivesse esperando por isso. Philip ficou parado, os polegares enganchados no blusão de couro de aviador, curioso para ver o que ela faria. A mulher continuou a avançar em sua direção, nem mais depressa nem mais devagar. Ao chegar perto, levantou o rosto para ele.

Suas feições eram exóticas, ligeiramente familiares. Não eram britânicas, pensou Philip.

- Boa-noite - disse ele, querendo ouvir a voz da mulher, em resposta a seu cumprimento.

Os olhos, tão escuros quanto o manto, fitaram-no calmamente.

Olhos deslumbrantes, refletiu Philip, amendoados, com pestanas espessas, escurecidas pela noite. Ela apenas acenou com a cabeça e continuou andando.

Adrianne não olhou para trás, embora a preocupasse o fato de querer fazê-lo. O homem podia estar parado ali por uma dúzia de razões plausíveis, mas ela não podia descartar a tensão em sua nuca. Os olhos do homem eram quase como o nevoeiro, cinzentos e misteriosos. A postura, embora descontraída, parecera-lhe muito alerta, muito preparada para entrar em ação.

Isso é absurdo, disse Adrianne a si mesma, enquanto puxava o manto sobre a garganta. Era apenas um homem fazendo um passeio noturno, ou esperando por uma mulher. Britânico, pelo sotaque, muito atraente, olhos cinzentos e cabelos louros. Não havia razão para que o encontro a deixasse nervosa. Exceto... exceto porque justamente a deixara nervosa.

Ela atribuiu isso ao cansaço da viagem e decidiu encerrar a noite mais cedo.

TALVEZ TIVESSE SIDO UM ERRO IR PARA A CAMA COM APENAS um copo de vinho no estômago. Poderia ser melhor se tivesse ido ao Annabel's, jantando socialmente, antes de ir dormir. Poderia assim preencher a mente com outras lembranças, com rostos antigos e novos, com uma conversa ociosa, flerte, riso. Talvez assim não tivesse sonhado; mas, depois que o sonho começara, já era tarde demais.

As fragrâncias permanecem conosco por mais tempo, um aroma insinuante, trazendo de volta lembranças há muito sepultadas, sentimentos há muito esquecidos. O cheiro era de café temperado com cardamomo, concorrendo com as fragrâncias intensas e opu­lentas dos perfumes. O aroma, até mesmo no sonho, sempre a leva­va de volta àquela noite na véspera de seu quinto aniversário.

Seus próprios soluços despertaram-na. Adrianne sentou-se na cama, comprimiu as bases das mãos contra os olhos e tentou sair do sonho. Quando era muito forte, como naquela noite, tendia a perdurar. A respiração superficial, o suor se acumulando na base da coluna, ela fez um esforço para recuperar a consciência de quem era agora.

Não era mais uma criança, toda encolhida debaixo da cama, rezando para que o pai parasse e deixasse a mãe em paz. Isso acontecera há uma vida inteira.

Ela se levantou, tateando para acender a luz e pegar a camisola. Nunca era capaz de suportar o escuro depois de um sonho assim. No banheiro, molhou o rosto com água fria, sabendo que o tremor tinha de continuar por todo seu curso. Era uma bênção que desta vez não fosse acompanhado pela náusea.

Estivera pendurada em uma corda 50 andares acima de Manhattan, correra pelas vielas mais sinistras de Paris e vadeara por um pântano na Louisiana. Mas nada a assustava mais do que as lembranças que lhe afloravam em sonhos.

Enquanto as mãos continuavam a tremer, ela apoiou-se na pia. Depois que ficaram firmes, levantou a cabeça para estudar seu rosto. Ainda estava pálida, mas já não havia medo nos olhos. Era a primeira coisa que tinha de controlar.

As ruas de Londres estavam quietas. Na sala, ela encostou a testa no vidro da janela, grata porque estava frio. O momento se aproximava, pensou Adrianne, e o conhecimento tanto a emocionava quanto a apavorava. A data fora escolhida, embora ela não tivesse sequer confidenciado a Celeste. Voltaria para Jaquir muito em breve, a fim de se vingar do homem que maltratara e humilhara sua mãe. E tomaria o que lhe pertencia. O Sol e a Lua.

 

Querida... - Adrianne roçou seu rosto no rosto macio como o de um bebê de Lady Fume. - Lamento muito ter me atrasado.

- Não diga bobagem. Você nunca chega atrasada. - Lady Fume usava um vestido verde de seda, com um decote baixo para exibir não apenas as esmeraldas, mas também o corpo cinco quilos mais leve que ela adquirira no mês anterior, num spa na Suíça. ­Mas tenho uma queixa para fazer.

- É mesmo? - indagou Adrianne, enquanto abria o fecho do manto.

- Soube que está em Londres há dias, mas não me telefonou.

- Estava me escondendo. - Adrianne sorriu, enquanto tirava o manto e o entregava para uma criada à espera. - Não seria uma boa companhia.

- Teve uma briga com Roger?

- Roger? -. Adrianne deu o braço à anfitriã e começou a andar pelo vestíbulo de quadrados de mármore preto e branco.

Como a maioria das mulheres, Helen presumia que o ânimo de uma mulher dependia de um homem. - Está atrasada, Helen. Esse é um assunto encerrado há semanas. Sou uma agente livre agora.

- Devemos dar um jeito nisso. Tony Fitzwalter acaba de se separar da esposa.

 

- Pode me poupar. Não há nada pior do que um homem que acaba de se livrar do sagrado matrimônio.

O salão de baile, com o assoalho envernizado e o papel de parede cor de marfim, já estava repleto de pessoas e música. Havia o brilho do vinho em copos de cristal, as fragrâncias de perfumes masculinos e femininos e a cintilação das jóias. Milhões de libras em pedras e metais, pensou Adrianne. Ela só levaria uma mínima porcentagem.

A maioria dos rostos era familiar. Esse era um dos problemas daquelas festas. As mesmas pessoas, as mesmas conversas, o mesmo tédio latente.

Ela avistou um conde, de quem aliviara de um anel de diamantes e rubi seis meses antes. Também viu Madeline Moreau, a ex-­esposa francesa de um artista de cinema, que esperava roubar na próxima primavera. Com um sorriso para os dois, ela pegou uma taça de champanhe na bandeja de um garçom que passava.

- Tudo parece adorável, Helen, como sempre.

- Foi trabalho demais em pouco tempo - queixou-se Lady Fume, embora não tivesse feito nada mais vigoroso do que experimentar o vestido que estava usando. - Mas adoro receber.

- Uma pessoa deve gostar do que faz bem - comentou Adrianne antes de tomar um gole de champanhe. - Por falar nisso, você está deslumbrante. O que andou fazendo?

- Uma pequena viagem à Suíça. - Helen passou a mão pelo quadril reduzido. - Há um maravilhoso spa lá, se você precisar algum dia. Deixam você morrer de fome, esgotam-na com exercícios, até você se sentir agradecida pelas poucas folhas e sementes que jogam em seu prato. Depois, quando você está prestes a desistir, passam a mimá-la com tratamentos faciais e massagens, com o mais, refinado banho romano. Uma experiência que jamais esquecerei minha cara. E pode ter certeza de que me mataria se algum dia precisasse voltar lá.

Adrianne não pôde deixar de rir. A conversa superficial e despropositada de Helen era sempre fascinante. Era uma pena que o marido idolatrasse a libra britânica acima de qualquer coisa.

- Farei o melhor possível para evitar seu spa.

- Já que está aqui, deve dar uma olhada na pulseira da Condessa  Tegari. Era da coleção da Duquesa de Windsor. Ele deu um

Um lance maior do que  o meu.

O brilho de cobiça nos olhos de Helen ajudou a aliviar a pontada d­e culpa que Adrianne sentira

- É mesmo?

- Ela é velha demais para aquela pulseira, mas isso não vem ao caso.Você conhece quase todo mundo, querida. Divirta-se, enquanto eu banco a anfitriã.

- Claro.

Ela só precisaria de 15 minutos para fazer um reconhecimento cofre no quarto principal. Aproximou-se agora de Madeline Moreau, pensando no futuro. Não faria mal nenhum descobrir se a francesa tinha planos para uma viagem na primavera.

Philip viu-a no momento em que ela entrou. Era o tipo de mulher que um homem se sentia compelido a notar. O tipo de mulher que, numa sala povoada com as mais belas e glamourosas, destacava-se entre todas. Contudo, para um homem treinado pela necessidade e desejo de observar, ela parecia um pouco afastada e distante.

Usava uma túnica preta, com gola alta, que se abria nos quadris,  numa saia que deixava as pernas à mostra. Só belas pernas podiam correr esse risco. E Philip concluiu, enquanto tomava um gole de sua bebida, que as pernas daquela mulher podiam enfrentar qualquer desafio.

Os cabelos eram penteados para trás, presos em grampos com diamantes, que combinavam com os brincos. Ele a reconheceu mesmo enquanto a admirava. E não pôde deixar de especular. Por que uma mulher tão bonita andava sozinha pela noite úmida de Londres, longe dos clubes, restaurantes e casas noturnas? E onde vira seu rosto antes?

Pelo menos um enigma podia ser resolvido com facilidade. Philip bateu no braço do homem a seu lado. Acenou com a cabeça na direção de Adrianne.

- Quem é aquela mulher pequena, de pernas espetaculares?

O homem, cuja maior reivindicação para a fama era ser primo em segundo grau da Princesa de Gales, deu uma olhada.

- É a Princesa Adrianne de Jaquir. Deslumbrante da cabeça aos pés e destruidora de corações. Não dá para um homem mais do que a hora do dia, enquanto ele não rasteja por vários anos.

Era isso. As colunas sensacionalistas que a mãe de Philip lia reli­giosamente sempre publicavam alguma história picante a respeito de Adrianne de Jaquir. Era a filha de um tirano árabe com uma artista do cinema americano de alguma reputação. A mãe cometera suicídio? Havia um escândalo no caso, mas Philip não conseguia lembrar. Agora que sabia quem era, achou ainda mais estranho que ela andasse pela noite nas proximidades da casa da anfitriã.

O informante de Philip pegou um brochete na mesa do bufê, que já fora devastada.

- Quer uma apresentação?

Ele fez o oferecimento sem nenhum entusiasmo. Passara uma cantada na esquiva Adrianne, apenas para ser repelido como um mosquito.

- Não precisa. Eu mesmo me apresentarei.

Philip observou-a por mais algum tempo, aumentando sua sus­peita de que ela não era de fato uma personagem daquele cenário. Como ele, parecia mais uma observadora. Intrigado, atravessou o salão até aproximar-se dela.

- Olá outra vez.

Adrianne virou-se. O reconhecimento foi instantâneo. Aquele homem tinha olhos que ela não esqueceria. Em poucos segundos fez uma avaliação, para depois sorrir. Era melhor reconhecer, o instinto lhe dizia, do que rejeitar com um olhar vazio.

- Olá.

Ela tomou o restante do champanhe. Entregou-lhe a taça vazia, com altivez suficiente no gesto para mantê-lo a distância.

- Costuma passear à noite pelas ruas com freqüência?

- Só de vez em quando, e foi por acaso que a vi. - Philip fez sinal para um garçom. Pôs a taça vazia na bandeja e pegou duas cheias. - Veio fazer uma visita?

Adrianne considerou a possibilidade de uma mentira, mas re­jeitou-a no mesmo instante. Se ele quisesse, embora só Deus sabia por que o faria, poderia descobrir.

- Não. Estava apenas dando uma volta. Não procurava por companhia naquela noite.

Philip também não procurava, mas a encontrara.

- Foi uma linda imagem que permaneceu em meus pensa­mentos... toda envolta de preto, com o nevoeiro a seus pés. Muito misteriosa e romântica.

Adrianne deveria estar se divertindo, mas não era o que aconte­cia. Estava intrigada pela maneira como aquele homem a fitava, como se ela tivesse todos os segredos do mundo, mas que ele acabaria por descobri-los, um a um.

- Não há nada de romântico no cansaço de uma viagem de jato. Costumo ficar irrequieta na primeira noite depois de um longo vôo.

-De onde?

Ela o analisou por cima do copo.

 -Nova York.

- Quanto tempo ficará em Londres?

Era apenas uma conversa social, nada de mais. Mas Adrianne desejou saber por que ele a deixava apreensiva.

- Mais alguns dias.

- Ótimo. Então posso começar com uma dança e progredir até um jantar.

Quando ele tirou a taça de sua mão, Adrianne não protestou.

Sabia como controlar os homens. Com um sorriso neutro, ela em­purrou os cabelos para trás.

- Podemos dançar.

Ela permitiu que Philip a levasse através da multidão até a frente da orquestra. Surpreendeu-se com sua mão. Parecia um homem afeito a trajes formais e festas de gala, mas a palma da mão era dura, com linhas de calos por baixo dos dedos e nas pontas.

As mãos de um trabalhador, com um rosto aristocrático e uma atitude gentil. O que somava para virar uma combinação perigosa. Adrianne forçou-se a não se contrair quando ele a puxou para os braços. Alguma coisa aconteceu quando os corpos roçaram, algo que ela não queria sentir nem admitir. A sexualidade era parte de sua imagem, mas ficava apenas na superfície. Nenhum homem jamais a possuíra, e ela decidira alguns anos antes que isso nunca aconteceria.

Mas podia sentir a mão firme de Philip em suas costas, a elevação do músculo em seu ombro quando pôs a mão ali. Já sentira músculos antes, a firmeza de um homem, mas isso não a perturbara. Até agora. A orquestra tocava uma melodia suave e intensa. Apesar do champanhe, Adrianne sentia a boca ressequida. Levantou o rosto para fitá-lo nos olhos.

- É grande amigo de Lorde e Lady Fume?

- Conhecido.

Ela tinha uma fragrância exclusiva. Alguma coisa que despertava imagens de quartos pouco iluminados, silenciosos, recendendo a incenso, impregnado de segredos femininos.

- Fomos apresentados por uma amiga comum, Carlotta Bundy - acrescentou Philip.

- Ah, Carlotta ... - Adrianne acompanhava-lhe os passos. O homem dançava como falava, suave, sem qualquer movimento brusco. Em outra ocasião, outro lugar, ela teria gostado. Mas, como tudo nele, sua maneira de dançar a deixava apreensiva. - Creio que não a vi aqui esta noite.

- Nem poderia. Se não me engano, ela está no Caribe. Em sua mais recente lua-de-mel. - Apenas para testá-la, Philip aproximou-se um ou dois centímetros. Adrianne não recuou, mas ele percebeu  a cautela em seus olhos. - Está livre amanhã?

- Tenho o hábito de ser livre.

- Jante comigo.

-Por quê?

Não era uma pergunta tímida, mas direta. Philip descobriu-se aumentando a aproximação, desta vez sem qualquer outro motivo que não o de apreciar sua fragrância.

- Porque prefiro jantar com uma linda mulher, ainda mais uma mulher que aprecia longos passeios solitários.

Adrianne sentiu que os dedos de Philip se entrelaçavam nas pontas de seus cabelos. Poderia encerrar aquele flerte sutil com um olhar. Mas deixou passar.

- Você é romântico?

O rosto dele denotava isso, poético, esguio, com olhos que podiam ser serenos ou ardentes.

- Acho que sim. E você?

- Não. E não janto com homens que não conheço.

- Chamberlain... Philip Chamberlain. Devo pedir a Helen para fazer uma apresentação mais formal?

O nome significava alguma coisa. Despertou uma lembrança definida no fundo da mente de Adrianne. Mas logo se desvaneceu. Ela decidiu pesquisar a respeito mais tarde. Por enquanto, poderia ser mais interessante entrar no jogo. A canção lenta foi sucedida por outra mais acelerada. Philip ignorou-a e continuou a se movimentar no mesmo ritmo lento. Adrianne não entendeu por que isso fazia com que sua pulsação vibrasse. Curiosa, ela continou a dançar no mesmo ritmo lento.

- O que ela me diria a seu respeito?

- Que sou solteiro e discreto em minhas ligações amorosas, negócios e outras atividades. Que viajo muito e tenho um passado misterioso. Que passo a maior parte do ano em Londres e tenho uma casa de campo em Oxfordshire. Gosto de jogar, e prefiro ga­nhar a perder. E ao me sentir atraído por uma mulher, gosto que ela saiba imediatamente.

Ele levantou as mãos unidas nas dela e roçou os lábios pelas articulações de Adrianne. Não foi fácil para ela ignorar o calor que se irradiou por seu braço.

- Faz isso porque é honesto ou por que tem pressa?

Ele sorriu, e quase persuadiu-a a contrair os lábios em resposta.

- Eu diria que isso depende da mulher.

Era um desafio. E sempre fora difícil para Adrianne recusar o desafio de um homem. Ela tomou a decisão num súbito impulso, sabendo que se arrependeria.

- Estou no Ritz - disse ela, enquanto recuava. - Estarei pronta às oito horas.

Philip descobriu-se estendendo a mão para um cigarro inexis­tente, observando-a se afastar. Se ela deixara seus nervos à flor da pele depois de uma dança, seria mais do que interessante saber o que faria durante uma noite inteira. Ele fez sinal para o garçom, pedindo outra taça de champanhe.

ADRIANNE LEVOU UMA HORA PARA ESCAPULIR. Só ESTIVERA uma vez antes na casa dos Fume em Londres, mas possuía uma excelente memória, que fora revigorada pelas plantas que comprara. O primeiro problema era evitar Lady Fume, a anfitriã sempre ansiosa, e seu bando de criados eficientes. Ao final, ela optou pela ousadia. A experiência lhe ensinara que muitas vezes o subterfúgio era eficaz, sob uma máscara de ação impudente. Ela subiu pela esca­da principal, como se tivesse todo o direito de vaguear pelo segun­do andar da casa.

A música soava abafada lá em cima e os corredores recendiam mais a óleo de limão do que aos crisântemos e rosas de estufa que ornamentavam as mesas nas salas lá embaixo. Todas as portas eram pintadas com o azul Wedgwood contra paredes brancas; e todas estavam fechadas. Adrianne contou quatro, pelo lado direito. Bateu na porta, como uma precaução. Se alguém respondesse, ela tinha a desculpa pronta, uma dor de cabeça terrível, que a levara a procurar uma aspirina. Como ninguém respondesse, ela lançou um olhar rápido para a direita e a esquerda, antes de abrir a porta. Depois que entrou e tornou a fechá-la, tirou uma lanterna fina da bolsa e examinou o quarto pelo facho estreito.

Queria saber a posição de cada móvel. Se entrasse no quarto enquanto os anfitriões estivessem dormindo, seria um desastre se esbarrasse numa mesa Luís XV ou numa cadeira Queen Anne.

Com todo cuidado, fez um registro mental da disposição, en­quanto decidia em particular que Lady Fume precisava de um decorador mais criativo. Por sorte, a segurança também não era imaginativa. O cofre ficava escondido por trás de uma paisagem marinha suave, na parede em frente à cama. O cofre em si era de combinação simples, e ela calculou que não levaria mais do que 20 minutos para abri-lo.

Em movimentos silenciosos, ela verificou as janelas. Eram do mesmo estilo das janelas do térreo e poderiam ser arrombadas com um pé-de-cabra, sem qualquer dificuldade, se fosse necessário. Havia poeira no peitoril. Adrianne estalou a língua. A governanta de Lady Fume deveria ser mais meticulosa.

Satisfeita, ela deu um passo para trás, mas nesse instante ouviu a maçaneta ser girada. Com uma imprecação muda, Adrianne en­trou no closet. Descobriu-se cercada pelos elegantes ternos de par do reino de Lorde Fume.

Prendeu a respiração. Os olhos, acostumados ao escuro, divisa­ram o movimento da porta através das fasquias da porta do closet. Quando esta se abriu, um pouco da claridade difusa do corredor derramou-se pelo quarto. Foi o suficiente para que ela pudesse ver Philip com toda nitidez.

Adrianne apertou os dentes com força, xingando-o, enquanto vasculhava o cérebro à procura de uma explicação para a presença dele ali. Philip apenas parou na porta, enquanto o olhar deslocava-se de um lado para outro do quarto. Alerta, pensou Adrianne de novo. Alerta e preparado para qualquer coisa. E parecia perigoso. Devia ser pela maneira como a luz por trás criava um halo em torno de sua cabeça, ao mesmo tempo em que mantinha o rosto nas sombras.

Um homem perigoso, com toda certeza, pensou Adrianne, en­quanto espiava pelas fasquias. Por mais sofisticado que fosse seu comportamento ou refinada sua fala, era alguém que sabia se defen­der nas ruas.

Adrianne mandou-o para o inferno e de volta quando ele olhou para a porta do closet. O fato de que ele não tinha o que fazer naquele quarto, da mesma forma que ela, não contrabalançaria sua descoberta no closet de Lorde Fume. Ela prendeu a respiração. Um encontro por acaso numa rua deserta, uma coincidência em um milhão, e ele arruinava um trabalho planejado por semanas.

Foi então que ele sorriu, e o sorriso deixou Adrianne ainda mais preocupada. Era como se Philip sorrisse direto para ela, pessoal­mente, através do painel de madeira que os separava. Quase espe­rou que ele falasse, e sentiu que procurava por uma resposta plausí­vel, quando o homem se virou e saiu do quarto, fechando a porta.

Ela esperou dois minutos inteiros antes de sair do closet. Sem­pre cautelosa, ajeitou a saia e alisou os cabelos. Talvez tivesse acerta­do ao concordar em jantar com ele. Alguma coisa lhe dizia que era melhor ficar de olho em Philip em vez de tentar evitá-lo.

Philip Chamberlain a obrigaria a mudar os planos. Ela lançou um último olhar para o quarto escuro. Lady Fume conservaria suas esmeraldas, pelo menos por mais algum tempo. Mas ela não perde­ria a viagem, não desperdiçaria seu tempo. Lançou um olhar pesa­roso para a paisagem marinha.

Manteria Philip Chamberlain ocupado por algumas horas no jantar, voltaria à suíte e vestiria as roupas de trabalho. Madeline Moreau perderia suas esmeraldas um pouco antes do tempo previsto.


 

Preparar os planos para Madeline Moreau manteve Adrian­ne acordada até tarde. Também se levantou cedo para tra­balhar. Refletiu que o fator chamado Philip Chamberlain afetara suas possibilidades em relação aos Fume, mas isso não signi­ficava que O Sombra devia deixar Londres de mãos vazias.

Como uma ladra, Adrianne era muito bem-sucedida. Parte da razão para isso era a cautela. Outra parte, talvez maior, era a flexibi­lidade. As plantas e especificações que trouxera de Nova York pode­riam esperar. O Fundo das Viúvas e Órfãos, não.

Às  8:45h da manhã, Lucile, a empregada de Madeline, que não dormia em casa, abriu a porta para um jovem barbudo, de macacão Cinza.

- O que deseja?

- Sou do controle de pragas. - Adrianne sorriu através da barba loura. Ofereceu para Lucille uma piscadela insinuante. Sob o boné velho, usava uma peruca loura despenteada, um pouco suja, que cobria as orelhas. - Tenho seis apartamentos para dedetizar esta manhã, meu bem, e o seu é o primeiro.

- Pragas? - Lucille hesitou, corando quando o exterminador presenteou-a com uma análise longa e interessada. - Mademoi­selle não me falou nada sobre pragas.

- Foi o superintendente quem mandou. - Adrianne estendeu um papel rosa. Usava luvas de operário, esfiapadas, cobrindo os pulsos. - Recebemos algumas queixas. Camundongos.

- Camundongos? - Com um grito estridente e abafado, Lu­cille retirou a mão. - Mas minha patroa está dormindo!

- Não é problema para mim. Se não quer que Jimmy mate os bichinhos, irei para o próximo apartamento em minha lista. ­Adrianne tornou a estender o papel. - Quer assinar isto? Diz ape­nas que não quis o serviço. Livra a cara do superintendente se os camundongos resolverem subir por sua perna.

- Não ... - Lucille levou a mão à boca, roendo as unhas. Camundongos. Estremecia só de pensar. - Terá de esperar aqui. Vou acordar a patroa.

- Pode demorar o tempo que quiser, querida. Eu ganho por hora.

Adrianne observou Lucille se afastar, apressada. Largou o dedetizador  no chão e circulou rapidamente pela sala, levantando quadros, mudando livros de posição. Sorriu quando ouviu a voz de Madeline se altear de um quarto no fundo do corredor. Ela parecia infeliz pela interrupção de seu sono de beleza. Quando Lucille voltou, Adrianne estava encostada na porta, assobiando baixinho.

- Por favor, comece pela cozinha. Mademoiselle deseja sair antes que chegue aos quartos.

- Como quiser, querida. - Adrianne levantou o dedetizador. - Não quer me fazer companhia?

Lucille piscou. Era pequena e magricela, mas tinha um rosto bonito.

- Talvez... depois que mademoiselle sair.

- Estarei por aí.

Outra vez assobiando, Adrianne seguiu a orientação de Lucille para chegar à cozinha. Foi para a área de serviço. O sistema de alarme era pouco mais do que um brinquedo, levando-a a suspirar pela falta de desafio. Depressa, um ouvido sintonizado para qualquer ruído, ela desatarraxou a placa. Tirou dos bolsos do macacão um computador de bolso, do tamanho de um cartão de crédito, e dois grampos de mola. Com um esforço para não se apressar, prendeu os grampos nos fios, interrompendo a transmissão de energia.

Ela ouviu o barulho de passos e voltou à cozinha, bombeando para o ar uma nuvem de poeira de rosa orgânica.

- É melhor me dar mais um minuto, querida - disse Adrian­ne, quando Lucille enfiou a cabeça para dentro da cozinha. - Essa coisa precisa assentar. Não vai querer deixar vermelhos esses lindos olhos.

Lucille acenou com a mão diante do rosto, tossindo.

- Mademoiselle quer saber quanto tempo vai demorar.

- Uma hora, no máximo.

Adrianne bombeou mais um pouco, apressando a retirada de Lucille. Depois de contar até cinco, ela voltou à área de serviço. Pegou um alicate. Levou dois minutos para ligar os fios no computador de bolso e mudar o código de segurança. A entrada não seria mais um problema, pensou ela, enquanto repunha a placa. Agora, só precisava descobrir onde ficava o cofre. Com o dedetizador nos ombros, Adrianne procurou Lucille.

-E agora?

- O quarto de hóspedes.

Lucille indicou onde ficava. Foi interrompida por um fluxo de imprecações em francês.

- Lucille, sua desmiolada! Onde você pôs a droga da minha! Onde você pôs a droga da minha bolsa vermelha? Tenho de fazer tudo sozinha?

- Parece que ela é muito simpática - comentou Adrianne. Lucille revirou os olhos antes de se afastar, apressada. Se ela tinha um ataque por causa de uma bolsa, Adrianne imaginou que Madeline teria apoplexia quando ficasse sem a safira. Nunca compensa ser gananciosa, pensou ela, enquanto seguia para o quarto de hospede.

Vinte minutos depois, ela ouviu a porta da frente bater. Preci­sou de menos de dez minutos para localizar o cofre no quarto espa­lhafatoso de Madeline, decorado em vermelho e preto. Ficava por trás do espelho na mesa de maquilagem, coberta de vidros e potes.

Um cofre de combinação simples. Adrianne estalou a língua. Era de pensar que Madeline gastaria tanto com a segurança quanto gastava com o guarda-roupa. Adrianne tornou a levantar o dedeti­zador para colocá-lo nas costas e saiu para encontrar Lucil1e à sua espera.

A criada salpicara-se com seu melhor perfume.

-Já acabou?

- Qualquer camundongo que tentar entrar aqui vai virar carne morta. - Adrianne refletiu que precisaria ter agora muito jogo de cintura, enquanto Lucille lhe sorria. - Mademoisel1e saiu?

- Não voltará pelo menos por uma hora.

O convite era óbvio. Lucille deu um passo à frente. Adrianne sentiu uma risadinha subir pela garganta, mas teve de lembrar a si mesma que aquilo não era uma questão de riso.

- Eu bem que gostaria de ter um tempo livre agora. Mas terei mais tarde. A que horas você sai?

- Ela tem suas manias. - Lucille mexeu na gola do macacão de Adrianne. Nunca fora beijada por um homem de barba. - Às vezes ela me obriga a ficar durante a noite toda.

- Mas ela tem de dormir em algum momento. - Como Adrianne tinha planos para Madeline naquela noite, achou que era melhor também arrumar uma ocupação para Lucille. - Pode sair à meia-noite? Para se encontrar comigo no Bester's, que fica no Soho. Tomaremos um drinque.

- Será apenas um drinque?

- Depende. - Adrianne sorriu. - Moro logo depois da esquina do clube. Você pode ir até lá e me dar ... uma aula de francês. A meia-noite.

Ela passou um dedo pelo rosto de Lucille, antes de se encami­nhar para a porta do apartamento.

-Talvez.

Adrianne virou-se e piscou.

Uma hora depois, de peruca loura e suéter rosa, Adrianne pa­gou em dinheiro por duas dúzias de rosas vermelhas e um elegante jantar com champanhe para duas pessoas, numa sala de jantar pri­vada de uma estalagem rural, a uma hora de carro de Londres.

- Meu chefe só quer o melhor - explicou Adrianne, num sotaque britânico firme, enquanto entregava um punhado de notas de cinco libras ao gerente. - E também discrição, está certo?

- Claro. - O gerente fez uma reverência, tomando cuidado para não deixar transparecer muito entusiasmo. - E o nome?

Adrianne alteou uma sobrancelha, ao estilo de Celeste.

- Sr. Smythe. Providencie para que o champanhe esteja devidamente gelado por volta de meia-noite.

Enquanto falava, ela acrescentou uma nota de 20 libras.

- Pessoalmente.

As costas empertigadas, a cabeça erguida, Adrianne foi para o carro, que alugara para aquela viagem. Não pôde evitar um breve sorriso. Àquela altura, Madeline já teria recebido a primeira entrega de rosas, acompanhada pelo convite romântico e misterioso para um jantar à meia-noite, no campo, com um admirador secreto.

A natureza humana era um instrumento tão importante quanto dedos ágeis. Madeline Moreau era muito francesa... e muito vaido­sa. Adrianne não duvidou por um momento sequer que ela deixaria o apartamento e entraria na limusine à sua espera. O apartamento ficaria vazio. Madeline teria um profundo desapontamento, é claro, quando o admirador secreto não aparecesse. Mas o champanhe Dom Pérignon e sua curiosidade a manteriam ocupada por um bom tempo. Adrianne duvidava de que Madeline voltasse para Londres antes de duas horas da madrugada. A essa altura, Adrianne já teria apanhado a safira e Madeline teria um acesso de raiva ao melhor estilo francês.

Ela precisou de bem pouco tempo, quando voltou à suíte no hotel para repassar suas anotações e conferir os horários. A segunda entrega de rosas, com um poema tolo e apaixonado, junto com outra súplica para um jantar íntimo, chegaria no apartamento de Madeline dentro de uma hora.

Ela não resistiria. Adrianne riscou um fósforo para queimar as anotações. Ficou observando as chamas. Seu instinto estava certo, assegurou a si mesma. A intromissão de Philip Chamberlain pode­ria ter sido mera coincidência, mas O Sombra preferia cálculos meticulosos. Ela sorriu para si mesma. Agora, Philip lhe proporcio­naria a melhor cobertura possível. Jantaria com ele e depois voltaria para o hotel. E cuidaria para que ninguém a visse deixando a suíte à meia-noite.

Adrianne sentia-se no melhor dos ânimos quando se vestiu para o jantar. O preto básico que escolheu era justo, o interesse aumentado por uma explosão de contas coloridas em mosaico ao longo de um ombro. Pôs os brincos de vidro azul-real, que seriam tomados como safiras por qualquer um que não fosse um expert. Roubava as jóias melhores e mais preciosas, mas quase nunca as comprava para si mesma. A única jóia que a interessava mesmo era O Sol e a Lua.

Finalmente, deu um passo para trás, a fim de se contemplar no espelho. Aquela imagem, como a de Rose Sparrow, era importante para ela. Concluiu que estava satisfeita por ter cedido ao impulso de ondular os cabelos. No entanto, mudou de idéia sobre o batom e aplicou uma tonalidade mais escura. Isso mesmo, pensou ela, acrescentava apenas uma insinuação de poder. Philip Chamberlain podia ser perigoso, mas descobriria que ela não era uma presa fácil.

Quando o recepcionista telefonou, ela já estava pronta, até mesmo ansiosa para o jantar. E insistiu em descer para se encontrar com Philip no saguão.

Ele não se vestia tão formal naquela noite. O terno cinza era italiano, apenas um pouco mais claro do que os olhos. Em vez de camisa de colarinho e gravata, usava uma camisa preta de gola rulê, que combinava muito bem com os cabelos. Bem demais, pensou Adrianne, oferecendo-lhe um sorriso frio.

- Você é pontual.

- E você é adorável.

Philip ofereceu-lhe uma única rosa vermelha. Ela conhecia os homens muito bem para não se deixar seduzir por uma flor, mas não pôde evitar que o sorriso abrandasse.

Adrianne tinha um casaco de pele no braço. Ele o pegou. Enquanto a ajudava a vestir, lentamente, deixou que os dedos perdurassem na nuca, para soltar os cabelos da gola. Eram tão sedosos e macios quanto a pele.

O calor espalhou-se inesperadamente. Determinada a ignorá-lo, Adrianne olhou para trás. Seu rosto estava muito próximo, a um ponto provocante. Ela contraiu os lábios quando os olhos se encontraram.

Sabia como enervar um homem com um olhar, um movimento, compreendeu Philip. E se perguntou como aquela mulher podia ter adquirido, com aqueles olhos, a reputação de ser inacessível.

- Há uma estalagem a cerca de 40 quilômetros a leste de Londres. É sossegada, tem um clima agradável e uma comida deliciosa.

Adrianne esperava um restaurante elegante e sofisticado no centro da cidade. Seria possível que fossem jantar no lugar em que Madeline esperaria por seu apaixonado misterioso à meia-noite? Philip percebeu o súbito brilho divertido nos olhos de Adrianne e especulou sobre o motivo.

- Você é mesmo romântico. - Com todo cuidado, ela se afastou dos braços de Philip. - Mas acho que o passeio de carro será ótimo. No caminho, você pode me falar sobre Philip Chamberlain.

Com um sorriso, ele pegou-a pelo braço.

- Precisaremos de mais de 40 quilômetros para isso.

Ao se sentar no Rolls, Adrianne deixou que o casaco escorregasse dos ombros. O ar fresco do outono não podia competir com o calor. No momento em que o motorista deu a partida, Philip tirou uma garrafa de Dom Pérignon do balde de gelo.

Era perfeito demais, pensou Adrianne, batalhando contra outro sorriso. Uma rosa vermelha, champanhe, o carro de luxo, uma estalagem no campo. Pobre Madeline, pensou ela, divertida, enquanto estudava o perfil de Philip.

- Tem se divertido em Londres?

A rolha saiu com um estalo abafado. No interior silencioso do carro, Adrianne podia ouvir o chiado das borbulhas subindo pelo gargalo.

- E muito. Sempre gostei desta cidade.

- E o que tem feito?

- O que tenho feito? - Ela aceitou a taça oferecida.

Compras. Visitas a amigos. Passeios.

Adrianne permitiu que ele passasse caviar numa bolacha para ela.

- O que você faz?

Ele a observou pôr a pequena bolacha na boca, antes de tomar um gole.

- Em que área?

Ela cruzou as pernas, acomodando-se confortavelmente no canto. Era a imagem que queria projetar, peles elegantes, pernas envoltas por seda, jóias reluzentes.

- Trabalho, prazer, qualquer coisa.

- O que mais me atrai no momento.

Adrianne achou estranho que ele não discorresse a respeito. A maioria dos homens que ela conhecia só precisava de uma brechinha para falar de seus negócios, hobbies e egos.

- Mencionou o jogo.

- É mesmo?

Ele a observava, daquela maneira firme e desconcertante que demonstrara antes. Como se soubesse que o Rolls era um palco e estivessem apenas representando papéis.

- É sim. Que tipo de jogo prefere?

Philip sorriu. Era o mesmo sorriso que ela vira atrás das fasquias da porta do closet na casa dos Fume.

- Gosto de apostar nos azarões. Mais caviar?

-Obrigada.

Era um jogo, pensou Adrianne. Não sabia quais eram as regras, ou que forma assumiria o premio no final, mas não tinha a menor dúvida de que entrara num jogo. Aceitou o caviar, beluga, o melhor, assim como o champanhe e o carro, que percorria suavemente as ruas de Londres. Ela passou um dedo pelo encosto de braço que os separava.

- De um modo geral. – Com Adrianne, ele contava com isso. – E o que você faz quando não está passeando por Londres?

- Passeio em outro lugar, faço compras em outro lugar. Quando uma cidade começa a se tornar chata, há sempre outra.

Philip poderia acreditar se não fosse pelos lampejos de paixão nos olhos de Adrianne. Aquela não era uma ex-debutante entediada, com dinheiro e tempo de sobra.

- Pretende voltar para Nova York quando se cansar de Londres?

- Ainda não decidi. - Como a vida seria monótona, refletiu Adrianne, se vivesse como simulava. - Pensei em aproveitar os feriados em algum outro lugar quente.

Havia uma piada ali, pensou Philip. Estava logo atrás dos olhos de Adrianne, insinuando-se em seu tom de voz. Ele especulou se acharia divertido quando ouvisse a conclusão.

- Jaquir é quente.

Não foi uma piada o que viu agora nos olhos de Adrianne, mas a paixão, rápida, vital e logo reprimida.

- É verdade. - A voz era desinteressada. - Mas prefiro os trópicos ao deserto.

Ele sabia que podia sondar mais fundo. Decidira fazer isso quando o telefone o interrompeu.

- Desculpe. - Ele pegou o fone. - Chamberlain.

Houve apenas um breve suspiro.

- Olá, mamãe.

Adrianne alteou uma sobrancelha. Se não fosse pela expressão um pouco encabulada, ela não acreditaria que Philip tinha uma mãe, muito menos uma mãe que ligasse pelo telefone do carro. Divertida, ela serviu mais champanhe nas duas taças.

- Não, não esqueci. É para amanhã. Absolutamente qualquer coisa. Tenho certeza de que ficará maravilhosa. Claro que não estou aborrecido. Estão a caminho de um jantar. - Ele olhou para Adrianne. - Está certo. Não, mamãe, não fez nada de mal...

Uma pausa, acompanhada por outro suspiro.

- Acho que não ... Está bem. - Ele baixou o fone para o joelho. - Minha mãe. Ela quer falar com você.

-Como?

Perplexa, Adrianne olhou para o fone.

- Ela é inofensiva.

Mesmo sentindo-se uma tola, ela pegou o fone.

-Olá.

- Olá, querida. Não acha que é um carro adorável?

A voz não tinha a mesma suavidade de Philip. O sotaque beira­va o cockney. Numa reação automática, Adrianne correu os olhos pelo carro e sorriu.

- É sim.

- Sempre me faz sentir uma rainha. Qual é seu nome, querida?

- Adrianne ... Adrianne Spring.

Ela não notou que abandonara o título e usara o nome de solteira da mãe, o que só acontecia com as pessoas com quem se sentia à vontade. Mas Philip notou.

- Um lindo nome. Espero que se divirta. Meu Phil é um bom menino. E bonito também, não acha?

Os olhos faiscando de humor, Adrianne sorriu para Philip. Era a primeira vez que ela oferecia toda sua simpatia.

- É sim. Muito.

- Não deixe que ele o encante muito depressa, querida. Phil pode ser terrível.

- É mesmo? - Adrianne fitou-o por cima de sua taça. ­Não me esquecerei. A conversa foi um prazer, Sra. Chamberlain.

- Pode me chamar de Mary. É assim que todo mundo me chama. Diga a Phil para trazê-la até aqui um dia desses. Tomaremos um chá e teremos uma boa conversa.

- Obrigada. Boa-noite.

Ainda sorrindo, ela devolveu o fone para Philip.

- Eu a verei amanhã, mamãe. Não, ela não é bonita. É vesga, com lábio leporino e cheia de verrugas. Volte para a televisão, mamãe. Eu também a amo.

Ele desligou. Tomou um longo gole de champanhe.

-Desculpe.

- Não precisa pedir desculpas. - O telefonema mudara os sentimentos de Adrianne por ele. Seria difícil manter-se fria com um homem que tinha tanto amor e afeto pela mãe. - Ela parece encantadora.

- E é mesmo. O grande amor da minha vida.

Ela fez uma pausa, examinando-o.

- Creio que fala sério.

- Pode ter certeza.

- E seu pai? Também é encantador?

-Não sei.

Se Adrianne compreendia qualquer coisa, era a necessidade de fechar a cortina sobre as questões de família.

- Por que disse que eu era vesga?

Com uma risada, ele pegou a mão de Adrianne e levou-a aos lábios.

- Para seu próprio bem, Adrianne. - Os lábios perduraram, enquanto Philip fitava-a nos olhos. - Ela está ansiosa por uma nora.

-Ahn...

- E por netos.

-Ahn ...

Adrianne retirou a mão.

A ESTALAGEM ERA TUDO O QUE ELE PROMETERA. Mas ela também a escolhera para Madeline porque era sossegada, longe dos lugares mais badalados e ostensivamente romântica. O gerente, que ela encontrara naquela tarde, cumprimentou-a com uma reverência, sem o menor Iam pejo de reconhecimento.

Havia uma lareira imensa, bastante grande para assar um boi, em que ardiam achas do tamanho do tronco de um homem por trás de uma tela de beiras douradas. As chamas irradiavam calor e um rugido constante. As janelas continham o vento do outono, que soprava do mar. Os enormes móveis vitorianos, com aparadores rangendo ao peso de prata e cristal, pareciam aconchegantes na vasta sala.

Comeram a especialidade da casa, o bife à Wellington, à luz de velas em castiçais de pewter, a música proporcionada por um velho e seu violino brilhante.

Ela nunca imaginara que poderia se sentir relaxada com Philip. Não daquele jeito, não a ponto de rir, escutar, prolongar o conhaque final. Ele conhecia os filmes antigos, que ainda eram a paixão de Adrianne, embora por enquanto evitasse falar de Phoebe e sua tragédia. Falaram de outra geração, Hepburn, Bacall, Gable e Tracy.

Adrianne surpreendeu-se por ele se lembrar dos diálogos, imitar os artistas espantosamente bem. O inglês e o talento para sotaques vinham da tela, a grande e a pequena. Como herdara de Phoebe um amor pela fantasia, não podia deixar de sentir afinidade por Philip.

Descobriu também que ele tinha interesse por jardinagem, dedicando-se ao hobby em sua casa de campo e na estufa da casa em Londres.

- É difícil imaginá-lo cavando a terra e arrancando o mato. Mas isso explica os calos.

-Calos?

- Nas suas mãos. - Ela arrependeu-se no mesmo instante do deslize. O que deveria ser uma observação casual pareceu-lhe uma observação muito pessoal, muito íntima, com a luz das velas e o violino. - Não combinam com o resto de você.

I.elhor do que pensa. Todos temos nossas ima­~ns e ilusões, não é mesmo?

Ela teve a impressão de que havia um duplo sentido nas palavras, e quase se esquivou, com um comentário sobre os jardins do Palácio de Buckhingham.

Haviam viajado para muitos dos mesmos lugares. Enquanto tomavam o conhaque, descobriram que ambos haviam se hospedado no Excelsior, em Roma, durante a mesma semana, cinco anos antes. Não foi mencionado que Adrianne estivera ali para aliviar uma condessa de um conjunto de diamantes e rubis. Philip tam­, m lá estivera em um dos seus últimos trabalhos, aliviando um magnata do cinema de uma bolsa de pedras soltas. Ambos sorriram, reminiscentes, de suas lembranças separadas.

- Passei um tempo adorável em Roma naquele verão - comentou Adrianne ao se encaminharem para o carro.

Isso mesmo, haviam sido dias espetaculares, equivalentes a 350 milhões de liras.

- E eu também. - O lucro de Philip fora quase a metade, quando negociara as pedras em Zurique. - É uma pena que não tenhamos nos encontrado na ocasião.

Adrianne acomodou-se no banco confortável.

- É verdade.

Ela teria gostado de tomar um vinho tinto encorpado e passear  pelas ruas quentes e úmidas de Roma em companhia de Philip. Ele a teria distraído... como fazia agora, infelizmente. A perna de Philip roçou casualmente a sua, quando o carro começou a andar. Ainda bem que o trabalho no apartamento de Madeline seria bem simples.

- Há um café em Roma com um sorvete extraordinário.

- San Filippo - disse Adrianne, soltando uma risada. - Engordo dois quilos sempre que vou lá.

- Talvez um dia possamos nos sentar juntos no San Filippo. O dedo de Philip roçou o rosto de Adrianne, apenas o suficiente para lembrá-la de que tudo não passava de um jogo. Não compensaria apreciá-lo demais. Com algum pesar, ela recuou o rosto.

-Quem sabe?

Adrianne movera-se apenas ligeiramente, mas ele sentira a distância crescer. Uma estranha mulher, pensou. A aparência exótica, a boca sensual e tentadora, os rápidos lampejos de paixão que se podia perceber de vez em quando em seus olhos. Não era o tipo de mulher para se acomodar nos braços de um homem, confortável e dócil, mas sim do tipo que podia congelar um homem com uma palavra ou um olhar. Philip sempre preferira uma mulher que apreciava o lado físico, um relacionamento sexual fácil. E, no entanto, descobria-se não apenas intrigado, mas também atraído, para os contrastes em Adrianne.

Philip conhecia tão bem quanto ela o valor do momento oportuno. Esperou até entrarem em Londres.

- O que você estava fazendo no quarto dos Fume ontem à noite?

Adrianne quase teve um sobressalto, quase soltou um grito. A noite, a companhia, o calor do conhaque, tudo a deixara bastante relaxada para baixar a guarda. Só os anos de autotreinamento é que lhe permitiram fitá-lo com uma vaga curiosidade.

- O que disse?

- Perguntei o que fazia no quarto dos Fume durante a festa.

Lentamente, ele enrolou as pontas dos cabelos de Adrianne em seu dedo indicador. Um homem podia se perder em cabelos assim, pensou ele. Afogar-se para sempre.

- O que o faz pensar que era eu?

- Não pensar, mas saber. Sua fragrância é muito individual, Adrianne. Inconfundível. Eu a senti no instante em que abri a porta.

- É mesmo? - Ela ajeitou o casaco de pele nos ombros, enquanto procurava pela resposta certa. - E alguém pode perguntar o que você fazia lá em cima.

-Pode sim.

Enquanto o silêncio se aprofundava, Adrianne decidiu que só faria aumentar o mistério se não respondesse.

- Subi para consertar uma bainha solta. Devo me sentir lisonjeada por tê-lo impressionado tanto que foi capaz de reconhecer meu perfume?

- Deve se sentir lisonjeada por eu não chamá-la de mentirosa  disse ele, jovial. - Mas também as mulheres mais lindas são propensas a mentir sobre a maioria das coisas.

Ele tornou a estender a mão para o rosto de Adrianne, não provocante, não em flerte, como acontecera antes, mas possessivo. A palma curvou-se em torno do queixo, os dedos espalharam-se pelas faces, a boca emoldurada entre o polegar e os outros dedos. Uma maciez incrível, desejável ao extremo, foi o primeiro pensamento de Philip. E foi então que ele viu o que o surpreendeu. Não era raiva o que havia nos olhos de Adrianne, nem humor ou indiferença. Era medo, apenas um relance, apenas um instante, mas bastante nítido.

- Escolho minhas mentiras de uma maneira mais discrimina­da, Philip.

Oh, Deus, um mero contato não deveria fazer com que ela se sentisse assim, trêmula, insegura, necessitada. As costas ficaram rígidas contra o encosto. Não podia controlar isso. Mal conseguiu forçar os lábios a se contraírem num sorriso frio.

- Parece que chegamos.

- Por que deveria ter medo de que eu a beijasse, Adrianne?

Por que Philip podia ver tão claramente o que ela conseguira esconder de dezenas de outros?

- Está enganado - murmurou ela, a voz controlada. ­Apenas não quero.

- Agora sim eu a chamarei de mentirosa.

Ela deixou escapar um suspiro, lento, cuidadoso. Ninguém sabia melhor do que ela como seu temperamento podia ser destrutivo.

- Como quiser. Foi um jantar adorável, Philip. Boa-noite.

- Eu a acompanharei até a suíte.

- Não precisa se incomodar.

O motorista já abria a porta para ela. Sem olhar para trás, Adrianne saltou. Entrou apressada no hotel, o casaco de pele esvoaçando a seu redor.

ADRIANNE ESPEROU ATÉ A BATIDA DA MEIA-NOITE ANTES DE se esgueirar pela entrada de serviço do hotel. Ainda se vestia de preto, mas agora era uma blusa de lã de gola rulê, um collante um blu­são de couro. O gorro fora bem puxado para baixo, cobrindo os cabelos. Calçava botas de couro de sola flexíveis, e havia uma bolsa grande pendurada no braço.

A quase um quilômetro do hotel, ela fez sinal para um táxi. Usou três táxis, por caminhos sinuosos, para chegar a um quilômetro e meio do apartamento de Madeline. Sentiu-se grata pelo nevoeiro, agora na altura dos joelhos. Era como vadear por um rio raso, o nevoeiro se abrindo e turbilhonando com seus passos, umedecendo as botas. Os passos na calçada eram silenciosos. Ao se aproximar do prédio, pôde ver os lampiões por um instante, antes de serem tragados pelo nevoeiro.

A rua estava silenciosa; as casas, escuras.

Com um rápido olhar ao redor, Adrianne escalou o muro baixo nos fundos do prédio. Atravessou o gramado mínimo para a fachada oeste. Havia hera ali, escura, recendendo a umidade. Comprimida contra a parede, ela olhou para a esquerda, depois para a direita.

Poderia ser vista se um vizinho com insônia por acaso olhasse em sua direção, mas estaria escondida de qualquer carro que passasse pela rua. Com uma habilidade incrível, quase mecânica, ela desenrolou a corda.

Levou apenas uns poucos minutos para escalar o muro até o segundo andar - a janela do quarto de Madeline. Havia uma luz fraca acesa na cômoda, permitindo que Adrianne visse o quarto com nitidez. Pela desarrumação, parecia que Madeline tivera dificuldade para decidir sobre o vestido apropriado para aquela noite.

Pobre Lucille, pensou ela, enquanto pegava o cortador de vidro. Não havia a menor dúvida de que a empregada arcaria com toda a carga da fúria da patroa pela manhã.

Só precisava de uma pequena abertura. Tinha a mão estreita. Usou o adesivo para retirar o círculo de vidro. Com as luvas como proteção, estendeu a mão por dentro para alcançar a tranca. Oito minutos depois de sua chegada, Adrianne entrou no apartamento, pela janela.

Esperou, escutando atentamente. Ao seu redor, o prédio assentava, murmurando e rangendo, como os prédios antigos costumam fazer à noite. Os pés não fizeram qualquer barulho sobre o antigo tapete persa ao pé da cama.

Ela foi até a mesa de maquilagem. Acionou a mola que controlava a fachada falsa. Adrianne procurou uma posição confortável. Pegou o estetoscópio e começou a trabalhar.

Podia ser um trabalho tedioso, e, como quase todos os aspectos de sua atividade, não podia se precipitar. Na primeira vez em que entrara numa casa e descobrira que estava ocupada, as palmas se tornaram suadas e as mãos tremiam tanto que levara o dobro do tempo que precisaria para abrir o cofre. Agora, tinha as mãos secas e firmes.

A primeira trava recuou, com um estalido.

Ela parou, paciente, cautelosa, quando um carro passou na rua lá embaixo. Deixou escapar a respiração, devagar. Olhou para o relógio. Cinco segundos, dez. Voltou a se concentrar no cofre.

Pensou na safira principal do colar. Em seu atual engaste, ficava um pouco espalhafatosa. Uma pedra daquela qualidade era desperdiçada num extravagante trabalho filigranado. Assim como também era desperdiçada numa pessoa tão egoísta e interesseira quanto Madeline Moreau. Tirada do engaste, seria outra história. Adrianne já calculara que a pedra principal, junto com as outras, valia pelo menos 200 mil libras, talvez 250 mil. Ficaria satisfeita em receber a metade dessa quantia na entrega.

A segunda tranca também soltou, com outro estalido. Adrianne não olhou para o relógio, mas pensou, sentiu, que estava dentro do prazo ... e a comichão nos dedos indicava que estava prestes a terminar. Sentia muito calor com o casaco, mas ignorou o desconforto. Afinal, dentro de poucos momentos estaria com 250 mil libras em safiras nas mãos.

A terceira e última tranca saiu com um estalido.

Ela era eficiente demais para se apressar, mesmo agora. O estetoscópio foi guardado, antes que ela abrisse a porta do cofre. Com a lanterna, examinou o que havia dentro. Ignorou os documentos e envelopes de papel pardo, assim como as três primeiras caixas de jóias que abriu. As ametistas eram fascinantes, e os brincos de péro­las e diamantes elegantes, mas era pela safira que se encontrava ali. Cintilou para ela do manto de veludo amarelado, de um azul intenso, como as melhores pedras siamesas. A pedra principal devia ter 20 quilates, cercada por estrelas menores, diamantes e safiras.

Não era o momento ou o lugar para usar a lupa. Teria de esperar, até voltar para seu quarto. A paciência de Lucille podia ter se esgotado àquela altura. E Adrianne preferia deixar o apartamento antes que a criada voltasse. Se as pedras fossem falsas, ela teria desperdiçado seu tempo. Tornou a levantar o colar contra a luz. Tinha quase certeza de que não eram.

Depois de guardar a caixa na bolsa, ela fechou o cofre e girou o dial. Não queria que Madeline tivesse um choque antes de tomar o café da manhã.

Atravessou o apartamento no escuro, até a área de serviço. Com todo cuidado, retirou os fios de seu computador, deixando-os soltos.

E saiu do apartamento no escuro, até a área de serviço. Com todo cuidado, retirou os fios de seu computador, deixando-os soltos.

Lá fora, respirou fundo o ar frio e úmido. Fez um esforço para não rir. Era bom, muito agradável. O ato, a ação, era tudo. Nunca seria capaz de explicar para Celeste a emoção, em parte sexual, em parte intelectual, que ocorria no momento em que um serviço era concluído com êxito. Só então os músculos tensos podiam relaxar, só então o coração podia bater descompassado. Por aqueles poucos segundos, um minuto no máximo, sentia-se invulnerável. Nenhuma outra coisa em sua vida jamais se comparara.

Adrianne permitiu-se 30 segundos de auto-indulgência; depois atravessou o gramado, escalou o muro e se afastou pelo nevoeiro.

PHILIP NÃO SABIA POR QUE SAÍRA. UM PRESSENTIMENTO, uma ansiedade. Sem conseguir dormir, vagueara para o lugar em que vira Adrianne pela primeira vez. Não por causa dela, assegurou a si mesmo, mas porque tinha um palpite sobre os Fume. E era uma boa noite para roubar.

Isso era verdade, mas não era tudo. Também viera por causa de Adrianne. Sozinho em sua casa, inquieto, insatisfeito, não conseguira parar de pensar em Adrianne. Um passeio pela noite fria, através das ruas que conhecia tão bem, serviria para desanuviar a cabeça. Foi o que ele pensou.

Philip estava com o que sua mãe chamaria de "enamorado". Não era tão excepcional assim. Adrianne era esquiva, exótica, misteriosa. Era também uma mentirosa. Era difícil resistir a essas qualidades numa mulher, pensou ele, com um desejo desesperado por um cigarro.

Talvez fosse por isso que se descobriu caminhando na direção de seu hotel. Avistou-a quando dobrou a esquina. Ela atravessava a rua deserta. Vestia-se de preto outra vez, só que agora sem a aura romântica. Usava um collant preto e um blusão de couro, com os cabelos cobertos por um gorro. Ainda assim, ele só precisava obser­var seus movimentos para saber que era Adrianne. Quase a chamou, mas algum instinto o conteve. Ela entrou pela porra de serviço do hotel e sumiu-lhe de vista.

Philip olhou para as janelas de sua suíte. Era ridículo, pensou ele. Um absurdo. Mas permaneceu parado ali por um longo tempo, balançando-se sobre os calcanhares, imerso em especulações.

 

Adrianne pediu o desjejum na suíte. Enquanto lia as notícias, comia um ovo pochê e tomava uma segunda xícara de café. O único problema de Adrianne com sua vida dupla era o fato de que não era possível partilhar o melhor com ninguém. Não tinha com quem conversar, trocar idéias ao planejar um roubo complicado, ninguém que pudesse compreender a emoção, o fluxo de adrenalina que vinha ao descer por um edifício de rapel, ou de ser mais hábil do que um sofisticado sistema de alarme. Ninguém em seu círculo de amizades sentiria a intensa concentração de pensar depressa quando um guarda mudava de repente seu padrão. Não havia ninguém com quem comemorar, ninguém para partilhar a sensação inebriante de ter uma fortuna em suas mãos e saber que tivera êxito.

Em vez disso, o que havia eram refeições solitárias, em intermináveis quartos de hotel.

Adrianne podia perceber a ironia da situação, até o humor. Afinal, não podia anunciar no almoço, enquanto suas companheiras falavam de novos hobbies ou amantes, que passara um agradável fim e semana em Londres, roubando uma safira do tamanho de um ovo de tordo.

Era como ser Clark Kent, comentara ela uma ocasião para Celeste. Adrianne imaginava que o repórter obstinado experimentava mais do que um pouco de frustração por se sentir contido por trás de óculos e de ter um comportamento sereno.

Vinha dormindo pouco, decidiu Adrianne. Quando começava a se comparar com heróis de histórias em quadrinhos, era tempo de recuperar o controle. Podia ser solitária, mas sentia-se realizada.

De qualquer forma, estava na hora de se vestir. Ela especulou se Madeline já acordara, ou se alguém notara a janela avariada. Adrianne pusera o círculo de vidro no lugar, com todo cuidado, para evitar uma corrente de ar. Se Lucille era negligente em tirar a poeira do peitoril das janelas, era bem possível que o buraco no vidro passasse semanas sem ser percebido.

De qualquer forma, não importava. Rose Sparrow tinha um trabalho para fazer naquela manhã, e a Princesa Adrianne tinha um avião para pegar às seis horas da tarde.

Quando Adrianne, de peruca ruiva, minissaia de couro e collant rosa deixou o Ritz, Philip entrava. Cruzaram-se na porta dupla. Philip até murmurou um pedido de desculpa, por ter esbarrado de leve, quando Adrianne abriu a boca para protestar. Se ele a fitasse, olhasse bem, ela nunca teria escapado. Adrianne até murmurou, com um sotaque cockney, reprimindo uma risada:

- Não foi nada, cara.

O porteiro ofereceu-lhe uma fungadela de desaprovação. Com toda certeza, pensava que era uma jovem trabalhadora que passara a noite divertindo algum empresário rico e totalmente desprovido de bom gosto. Satisfeita, Adrianne tratou de rebolar enquanto seguia para a estação do metrô. Pegaria um trem para o West End, onde um homem chamado Freddie mantinha um entreposto para as pedras mais quentes.


 

Por volta de duas horas da tarde, ela estava de volta à suíte, com um maço enorme de notas de 20 libras. Freddie fora generoso, o que sugerira a Adrianne que ele devia ter um cliente vidrado em safiras. Restava apenas depositar o dinheiro em sua conta na Suíça, depois mandar que seus advogados em Londres providenciassem um do nativo anônimo para o Fundo das Viúvas e Órfãos.

Menos sua comissão, pensou Adrianne, enquanto guardava na mala a peruca de Rose. Dez mil libras parecia ser uma quantia justa. Estava em trajes íntimos, removendo os últimos vestígios de Rose do rosto, quando a campainha tocou. Vestiu o chambre antes de abrir a porta.

- Philip!

Adrianne estava aturdida.

- Eu esperava encontrá-la aqui. - Ele passou pela porta, porque não queria que Adrianne tivesse a oportunidade de fechá-la em sua cara. - Passei antes, mas você havia saído.

- Tive de resolver alguns negócios. O que você queria?

Ele fitou-a atentamente. Era uma pergunta ridícula para uma mulher fazer a um homem quando vestia apenas um chambre fino de seda cor de marfim.

- Pensei que poderia estar livre para almoçar comigo.

- É muita gentileza sua, mas vou embora dentro de poucas horas.

- De volta a Nova York?

- Só por alguns dias. Estou organizando um baile de caridade e tenho dezenas de detalhes para acertar.

- Ahn ... - Ela não usava maquilagem, o que a fazia parece mais jovem, mas não menos atraente. - E depois?

- Depois?

- Disse que seria apenas por alguns dias.

- Tenho de ir para Cozumel, no México. Um desfile de moda beneficente para o Natal. - Adrianne arrependeu-se no instante mesmo em que falou. Não gostava de revelar seus planos para ninguém. - Desculpe, Philip, mas você me pegou no meio da arru­mação das malas.

- Pode continuar. Importa-se se eu tomar um drinque?

- À vontade.

Ela virou-se e foi para o quarto. A peruca já estava escondida numa bolsa no fundo da mala. O dinheiro fora guardado em sua bolsa grande, a de pendurar no ombro. Quando um rápido olhar mostrou que não havia nada incriminador, Adrianne continuou a fazer as malas.

- É uma pena que você tenha de partir tão cedo - comentou Philip, da porta. - Vai perder todo o excitamento.

- É mesmo?

Ela dobrou a suéter, em movimentos rápidos e eficientes, que indicavam a Philip que estava acostumada a fazer essas coisas pessoalmente, com freqüência.

- Talvez você ainda não saiba que houve um roubo ontem à noite.

Adrianne pegou outra suéter, sem qualquer hesitação.

- Um roubo? Onde?

- Madeline Moreau.

-Oh,Deus!

Com a expressão apropriada de choque, Adrianne virou-se. Ele estava encostado no umbral da porta. Tinha um copo na mão, que ela presumiu ser de uísque. E a observava com uma atenção um pouco exagerada.

            - Pobre Madeline     O que roubaram?

            - O colar de safiras apenas o colar.

- Apenas? - Como se estivesse com uma fraqueza nos joelhos, Adrianne arriou na cama. - Mas isso é terrível! E pensar que estivemos todos juntos na casa dos Fume há apenas dois dias! Ela usava o colar na ocasião, não é?

- É sim. - Philip tomou outro gole. Adrianne era boa, pensou ele. Muito boa. - Ela usava o colar.

- Deve estar arrasada. Fico pensando se deveria telefonar. Talvez não. É bem possível que ela não queira falar com ninguém.

- É muita gentileza sua ficar preocupada.

- Precisamos nos manter unidos nessas ocasiões. Tenho certeza de que estavam seguradas, mas as jóias de uma mulher fazem parte de sua intimidade. Acho que também vou tomar um drinque, enquanto você me conta tudo o que aconteceu.

Quando ela foi para a sala, PhiIip sentou-se na cama. Torceu o nariz ao tomar um gole. A criada devia ter um péssimo gosto em água-de-colônia, pensou ele, enquanto sentia o cheiro de Rose. Ele notou a minissaia de couro esperando para ser guardada na mala. Não era exatamente o estilo de Adrianne, refletiu ele, perguntando-se por que tinha a impressão de que já vira aquela minissaia antes.

- A polícia tem alguma pista? - perguntou Adrianne, voltando ao quarto com um copo de vermute gelado.

- Não sei. Ao que parece, alguém entrou pela janela do apartamento, no segundo andar, e abriu o cofre no quarto principal. Parece que Madeline havia saído para o campo. E, por coincidência, esteve na mesma estalagem em que jantamos ontem à noite.

- Está brincando? É estranho que não a tenhamos visto.

- Ela chegou mais tarde. A procura de uma miragem, pode-se dizer assim. Parece que o ladrão foi bastante esperto para fazê-la sair de casa, com a promessa de um jantar romântico, à meia-noite, com um admirador secreto.

- Agora tenho certeza de que está brincando. - Adrianne sorriu. Mas logo seu olhar voltou a ficar sério, quando ele não respondeu. - Terrível para ela.

- E para seu ego.

- Isso também. - Adrianne estremeceu, com toda delicadeza. - Pelo menos ela não estava presente quando o ladrão entrou na casa. Poderia ter sido assassinada!

Philip tomou um gole do uísque. Era suave. Tão suave quanto O Sombra. Não podia deixar de admirar os dois.

- Não creio que isso pudesse acontecer.

Adrianne não gostou da maneira como ele falou. Ou como a fitou ao falar. Largou o copo para continuar arrumando a mala.

- Disse que ele só levou um colar? Não acha isso estranho? Devia haver muitas coisas valiosas no cofre de Madeline.

- Devemos presumir que o colar era a única coisa que despertava seu interesse.

- Um ladrão excêntrico? - Ela sorriu e foi até o armário. ­Lamento muito por Madeline, mas tenho certeza de que a polícia prenderá o ladrão numa questão de dias.

- Mais cedo ou mais tarde, pode acreditar. - Philip tomou o resto do uísque. - Estão à procura de um jovem com barba. Parece que ele entrou no apartamento com uma história de exterminar camundongos. A Scotland Yard acha que o homem preparou o apartamento por dentro, provavelmente interferiu no sistema de alarme, para que ele ou seu cúmplice pudesse entrar ali mais tarde.

- Complicado. - Adrianne inclinou a cabeça para o lado. ­Parece saber muita coisa a respeito.

- Tenho ligações. - Ele passou o copo vazio para a outra mão. - Não se pode deixar de admirá-lo.

- Um ladrão? Por quê?

- Habilidade. Classe. O esquema para tirar Madeline de Londres demonstrou criatividade. Talento. O que não posso deixar de admirar. - Ele largou o copo. - Dormiu bem ontem à noite, Adrianne?

Ela olhou para trás. Havia alguma coisa na pergunta... ou, melhor, por trás da pergunta.

- Não deveria?

Philip levantou a minissaia, examinando-a com o rosto franzido.

- Eu não dormi direito. Por mais estranho que possa parecer, resolvi sair para uma caminhada. Acabei passando perto daqui. Devia ser uma hora da madrugada... uma e quinze.

Adrianne sentiu necessidade de tomar outro vermute.

- É mesmo? Talvez tenha sido porque bebeu muito champanhe. Pessoalmente, o champanhe me faz dormir o sono dos mortos.

Os olhos se encontraram e mantiveram o contato.

- Estranhei um pouco. Não é seu estilo habitual, não é mesmo? Ela tirou a minissaia de couro de suas mãos e guardou-a na mala. - Um capricho. Foi muita gentileza sua me trazer a notícia.

- É apenas parte do serviço.

- Detesto apressá-lo, Philip, mas tenho de me organizar. O avião parte às seis horas.

 - Eu a verei de novo.

Ela alteou uma sobrancelha, um gesto que aprendera com Celeste.

- É difícil prever essas coisas.

- Eu a verei de novo - repetiu Philip, enquanto se levantava.

Ele sabia como se mover depressa e sem aviso. Adrianne teve tempo de erguer o queixo quando ele estendeu as mãos em torno de seu pescoço. Mas não teve tempo de se preparar para o momento em que ele a beijou na boca.

Poderia ter feito uma diferença. Ela precisava acreditar que faria uma diferença. Se tivesse pelo menos um instante para se preparar, não teria reagido. Mesmo assim, não poderia prever que a boca de Philip era tão quente e hábil.

Os dedos comprimiram sua nuca. Deveria ser o suficiente para que ela se desvencilhasse. Em vez disso, inclinou-se para Philip. Era apenas uma sugestão de aceitação, embora mais do que jamais oferecera a qualquer outro.

Fora um impulso, sem qualquer planejamento, de conseqüências incalculáveis. Philip quisera apenas experimentá-la, deixá-la com alguma coisa sua. Outras mulheres teriam reagido com mais facilidade, ou recuado em recusa. Adrianne apenas ficou parada, como se atordoada pelo contato mais básico entre homem e mulher. A hesitação que Philip sentiu nela, a confusão profunda contrastavam com o calor de sua boca. Os lábios eram macios. Entreabriram-se quando um gemido baixo e relutante de paixão passou por eles. E Philip ficou mais atordoado do que por qualquer experiência sexual pela qual passara.

Adrianne empalidecera e ele viu outra vez o brilho de medo em seus olhos quando ela recuou. O impulso para tomá-la naquele momento, rolar em paixão vertiginosa sobre as roupas dobradas na cama, foi contido. Os segredos de Adrianne ainda eram segredos, e o desejo que ele sentia de decifrá-los era mais forte do que nunca.

- Quero que você saia.

- Está bem. - Para se certificar, pegou a mão de Adrianne. Tremia um pouco. Não era encenação. Não era jogo ou fingimento. - Mas ainda não acabamos.

Embora ela estivesse com os dedos rígidos, Philip levou-os aos lábios.

- Não, ainda não acabamos. E ambos sabemos disso. Boa viagem, Adrianne.

Ela esperou até ficar sozinha antes de se sentar de novo. Não queria se sentir assim. Não queria experimentar aquela necessidade intensa. Nem agora nem nunca.

- Não está me contando tudo, Adrianne. Posso sentir.

- Tudo sobre o quê?

Adrianne correu os olhos pelo salão de baile do Plaza. A orquestra era afinada, as flores frescas e abundantes. Os criados estavam alinhados ao longo de uma parede, os uniformes impecáveis, ombros empertigados, como fuzileiros, recebendo uma inspeção final do gerente.

As portas seriam abertas dentro de poucos instantes, para a nata da sociedade. Viriam para dançar, beber, posar para fotos. O que era ótimo para Adrianne. Os 1.000 dólares que cada um pagava pelo privilégio ajudariam a construir uma ala pediátrica num hospital no norte do estado.

- Talvez eu devesse ter optado pelas poinsétias - murmurou ela. - São mais festivas, e faltam umas poucas semanas para o Natal.

- Adrianne...

A impaciência na voz de Celeste fê-la sorrir ao se virar.

- Pois não, querida!

- O que exatamente aconteceu em Londres?

-Já contei.

A jovem circulou por entre as mesas. Claro que acertara ao escolher os ásteres. A tonalidade de lavanda ficava muito bem contra o verde-pastel das toalhas. E, festivas ou não, as poinsétias eram encontradas por toda parte naquela época do ano.

- O que deixou em Londres, Addy?

- Não posso me distrair, Celeste, pois disponho de muito pouco tempo.

- Tudo está perfeito, como sempre.

Celeste resolveu esclarecer logo a questão. Pegou o braço de Adrianne e afastou-a da banda, os músicos vestidos de smoking.

- Fez alguma coisa errada?

-Não.

- Tem se mostrado nervosa desde que voltou.

- Tenho me mantido ocupada desde que voltei. - Adrianne roçou os lábios pelo rosto de Celeste. - Sabe como este baile é importante para mim.

- Claro que sei. - Apaziguada, Celeste pegou a mão de Adrianne. - Ninguém organiza essas coisas melhor do que você, e sou capaz de jurar que ninguém mais se importa tanto. Se você se concentrasse nesse tipo de trabalho, Addy, se dedicasse toda a energia e talento que dispensa ao outro, não haveria necessidade ...

- Não esta noite. - A maneira mais fácil de encerrar a conversa era fazer sinal para que as portas fossem abertas. - A cortina está se abrindo, querida.

- Addy, você me contaria se estivesse metida em alguma encrenca?

- Você seria a primeira pessoa a saber.

Com um sorriso radiante, Adrianne adiantou-se para cumprimentar os convidados.

Não era difícil manter os convidados felizes. Era preciso apenas providenciar para que a comida fosse de primeira classe, a música e o vinho abundante. À medida que a noite avançava, Adrianne circulou de mesa em mesa, de grupo em grupo. Vagueava pelas sedas, tafetás e veludos, os YSL, os Dior e os De La Renta.

Embora nunca permanecesse no mesmo lugar por tempo sufiente para comer, dançava quando alguém insistia, flertava e adularva. Notou que Lauren St. John, a deplorável segunda esposa de magnata da hotelaria, usava um conjunto novo de diamantes e rubis. Adrianne esperou uma oportunidade, e quando Lauren foi para o banheiro tratou de segui-la.

Lá dentro, duas atrizes discutiam em voz baixa, furiosas. Por causa de um homem, compreendeu Adrianne, ao se instalar num ervado. Típico. Tinham sorte de a revista People ter enviado um homem para fazer a cobertura da festa, ou seja, a imprensa não podia entrar no banheiro das mulheres para saber das fofocas. É claro que a atendente tinha uma boa memória, e não hesitaria em contar a história se pudesse ganhar 50 dólares extras. Adrianne ouviu Lauren soltar um grunhido no reservado ao lado e concluiu que ela estava com dificuldade para passar a saia justa pelos quadris. Como se fosse um sinal, Adrianne foi para as pias, a fim de esperar ali. Quando Lauren veio se postar a seu lado, as atrizes saíram, batendo  porta, uma depois da outra.

- Elas estavam discutindo pelo homem que eu penso? - per­guntou Lauren, enquanto lavava as mãos.

- Era o que parecia.

- Ele é um filho da puta sensual. Acha que vai se divorciar dela?

Lauren pegou um vidro de perfume, cheirou, e depois pulverizou em excesso.

- Tudo indica que sim. - Adrianne foi até o balcão de maquilagem e tirou da bolsa o estojo compacto. - A questão é só uma: por que ela quer mantê-lo?

- Porque ele é a melhor trepada da cidade... pelo que ouvi dizer. - Lauren sentou-se em um dos bancos de almofada branca e pegou seu batom. - Tivemos uma boa visão de seu... talento... no último filme que ele fez. Eu mesma não me importaria de experimentar.

Ela pegou uma escova, com cabo de prata e monograma, para alisar os cabelos louros.

- Uma mulher pode fazer sexo sem humilhação.

Adrianne falou com uma convicção casual, embora fosse uma coisa da qual não podia ter certeza.

- É verdade, mas também vale a pena com um pouco de humilhação. - Lauren inclinou-se para a frente, a fim de examinar os olhos, e se convenceu de que ainda faltavam alguns anos para a necessidade de uma plástica. - De quem é o coração que você está partindo esta semana, querida?

- Resolvi dar um descanso. - Adrianne usou os dedos para afofar os cabelos em torno do rosto, antes de tirar um vidro de per­fume da bolsa. - Esse colar é deslumbrante, Lauren. É novo?

Ela já sabia quando fora comprado e quanto custara; e quase já calculara o tempo pelo qual Lauren continuaria a possuí-lo.

- É sim. - Ela virou-se, para a esquerda e para a direita, fazendo as pedras cintilarem ao refletirem a luz. - Charlie me deu como presente pelo nosso aniversário de casamento. Um ano na semana passada.

- E disseram que o casamento não duraria - murmurou Adrianne, mudando de posição para admirar melhor o colar. - Setenta quilates em diamantes, 58 em rubis. Birmaneses.

-Claro.

Era assim que a mente de Lauren funcionava. Adrianne ao mesmo tempo desdenhava e apreciava.

- Sem contar os brincos. - Lauren virou a cabeça para ter certeza de que se destacavam. - Por sorte sou bastante alta para usá-los. Nada mais cafona do que ver essas mulheres pequenas tão carregadas de jóias que mal conseguem andar. E quanto mais velhas ficam, mais jóias usam... para que as pessoas não notem a papada. Já você...

Lauren olhou para o colar de Adrianne, com safiras e diamantes, antes de acrescentar:

- Sempre sabe exatamente o que usar e como usar. Seu colar é lindo.

Adrianne limitou-se a sorrir. Se as pedras fossem verdadeiras, valeriam pelo menos 100 mil dólares. Na verdade, as lindas pedras coloridas deviam valer menos de um por cento dessa quantia.

- Obrigada. - Adrianne levantou-se e alisou a saia. Era prateada e larga, o contraste apropriado com o bustiê justo de veludo azul-real. - Tenho de sair agora e cumprir meu dever. Precisamos almoçar em breve, Lauren, para conversar sobre o desfile de moda.

- Vou adorar!

Lauren olhou para o dólar que Adrianne deixara para a atendente. Era o suficiente pelas duas, decidiu ela; e, antes de sair, pôs na bolsa o vidro de perfume deixado ali para as convidadas.

Charles e Lauren St. John, pensou Adrianne. O desfile de moda, com a presença de celebridades, seria realizado em seu novo hotel, em Cozumel. Não era conveniente? Todas as pessoas que eram alguém compareceriam. Ainda mais conveniente. Era sempre uma vantagem roubar no meio de uma multidão. Adrianne sorriu, pensando no presente que Lauren ganhara no aniversário de casamento. Teria de marcar aquele almoço para breve. - Esse sorriso é para mim?

Quando Adrianne descobriu-se envolvida pelos braços de Philip, o sorriso não apenas desapareceu, mas também a boca se entreabriu. Antes que ela pudesse reagir, Philip beijou-a, com um pouco de pressão e por tempo demais para que fosse apenas um cumprimento casual. Depois, ele recuou, mas continuou a segurar-lhe as mãos.

- Sentiu saudade?

-Não.

- Ainda bem que eu sei que é uma mentirosa contumaz. - Ele deixou seu olhar desviar-se para os ombros à mostra, as pedras azuis na garganta, antes de voltar ao rosto. - Está deslumbrante.

Adrianne precisava fazer alguma coisa, e depressa. Já era terrível que várias pessoas os observassem, mas era pior, muito pior, que seu coração estivesse tão disparado.

- Desculpe, Philip, mas esta não é uma festa aberta. E tenho certeza de que você não comprou um convite.

- Mas sou um penetra que trago um presente. - Ele tirou um cheque do bolso do smoking. - Para sua causa tão meritória, Adrianne.

Era o dobro do preço de um convite. Mesmo que o odiasse por atrapalhar sua rotina, ela não podia deixar de admirar a generosidade.

- Obrigada.

Adrianne dobrou o cheque e o guardou na bolsa. Philip sentiu­-se contente por ela ter deixado os cabelos soltos, o que lhe permitia passar os dedos.

- Dance comigo.

-Não.

- Tem medo de que eu a agarre de novo?

Ela contraiu os olhos, irradiando toda sua raiva. Philip ria dela. Era uma coisa que não admitia de ninguém.

-De novo?

Mas a voz dela não saiu tão gelada quanto esperava. Desta vez, Philip soltou uma risada mais alta.

- Você é incrível, Adrianne. Sabia que não consegui tirá-la dos pensamentos?

- É evidente que não tem tarefas suficientes para ocupar seu tempo. Agora, se me dá licença, eu tenho.

- Addy... - Com o oportunismo instintivo de uma veterana, Celeste surgiu a seu lado. - Não me apresentou a seu amigo.

- Philip Chamberlain - murmurou ela, entre os dentes. ­Celeste Michaels.

-. Já vi Celeste Michaels dezenas de vezes. - Philip pegou a mão de Celeste e a beijou. - Há anos que ela parte meu coração.

- Uma pena que eu não soubesse disso antes. - Numa rápida análise, Celeste avaliou Philip e a situação. Se havia um homem que pudesse deixar uma mulher nervosa, era aquele. - Conheceu Addy em Lonúresr

- Isso mesmo. Infelizmente, ela não pôde ficar. - Num movimento suave, ele passou a mão pelo ombro e pela nuca de Adrianne. - E também se recusa a dançar comigo. Talvez você aceite o convite.

- Claro que aceito.

Celeste pegou o braço de Philip. Enquanto se afastavam, ela olhou para trás, com um sorriso malicioso.

 - Deixou-a enfurecida.

- Era o que eu esperava.

Celeste pôs a mão no ombro dele.

- Addy não se abala com facilidade.

- Foi o que percebi. E você gosta dela.

- Eu a amo mais do que qualquer outra pessoa. E é por isso que tenciono ficar de olho em sua presença, Sr. Chamberlain.

- Philip. - Ele virou Celeste, para poder observar Adrianne, que se inclinava para uma grande dame, o rosto todo enrugado como uma ameixa seca. - É uma mulher fascinante, ao mesmo tempo menos e mais do que parece.

Celeste ouviu o tilintar de sinos de advertência, enquanto observava o rosto de Philip.

- Você é muito astuto. Adrianne é uma mulher muito sensível, muito vulnerável. Se eu descobrisse que alguém a magoou, ficaria muito infeliz. E não sou nem um pouco sensível, Philip. Sou apenas má e implacável.

Ele sorriu.

-Já pensou alguma vez em ter um caso com um homem mais jovem?

Ela riu, aceitando o elogio como era oferecido.

- Você é um sedutor. Como me diverte, eu lhe darei um pequeno conselho. O charme não funciona com Addy. A paciência, sim, pode dar certo.

- Agradeço o conselho.

Philip observava Adrianne quando a viu levar a mão à garganta e descobrir que não havia nada ali. Percebeu seu instante de surpresa e confusão, depois sua raiva controlada quando o fitou. Com um sorriso, ele acenou com a cabeça em confirmação. O colar de falsos diamantes e safiras estava em seu bolso.

O DESGRAÇADO. O DESGRAÇADO SÓRDIDO E NOJENTO. ELE a roubara. Tirara o colar de seu pescoço sem que ela sentisse qualquer coisa, a não ser a pulsação mais acelerada. E depois ainda a provocara, fitando-a nos olhos e sorrindo.

Pagaria por isso, pensou Adrianne, enquanto guardava as luvas na bolsa. E pagaria naquela noite.

Ela sabia que seria uma temeridade. Não haveria tempo para elaborar um plano de cabeça fria. Tudo o que ela sabia era que Philip lhe tirara uma coisa, escarnecera dela e a desafiara. Celeste, na maior inocência, passara a informação de que ele estava hospedado no Carlyle. E isso era tudo o que Adrianne precisava.

Tinha uma hora para tirar o vestido e pôr as roupas de trabalho. Rejeitara a idéia de subornar o recepcionista da noite. Os empregados do Carlyle eram conhecidos por sua honestidade. Simplesmente entraria em seu quarto sorrateiramente.

Adrianne entrou no saguão. Havia apenas um recepcionista atrás do balcão. Homem e jovem. Adrianne abençoou sua sorte, e foi até lá, cambaleando.

- Por favor ... - Ela optou por um trêmulo sotaque francês. - Dois homens, lá fora. Eles tentaram...

Adrianne levou a mão à cabeça, estremeceu, balançou de um lado para outro.

- Preciso tomar um táxi. Foi uma tolice pensar que poderia fazer um passeio sozinha. Água, s'íl vous plaít. Pode arrumar um pouco de água, por favor?

O recepcionista já estava contornando o balcão para levá-la a uma poltrona.

- Está machucada?

Ela levantou o rosto, dando um jeito para exibir olhos úmidos, com uma expressão desamparada.

- Não. Apenas assustada. Tentaram me obrigar a entrar num carro, e não havia ninguém, ninguém para...

- Não se preocupe. Está segura agora.

Ele era muito jovem, pensou Adrianne, enquanto se inclinava para o recepcionista. E despertar sua compaixão era muito fácil.

- Obrigada. É muito gentil. Eu agradeceria se me chamasse um táxi. Mas, primeiro, a água... ou talvez um conhaque.

- Claro. Tente relaxar. Volto num minuto.

E um minuto era tudo o que ela precisava. Assim que o recepcionista se retirou, Adrianne levantou-se de um pulo, voltou ao balcão e acionou o computador. Philip estava no vigésimo andar, constatou ela com um sorriso sombrio. Num sono satisfeito, ela tinha certeza, à espera de seu próximo movimento. Duvidava de que ele esperasse que pudesse agir tão cedo.

Quando o recepcionista voltou com o conhaque, ela já retornara à poltrona, os olhos fechados, uma das mãos no coração.

- Muito obrigada. - Ela cuidou para que a mão tremesse um pouco ao beber. - Tenho de voltar para casa.

Adrianne removeu uma lágrima da pestana antes de acrescentar:

- Vou me sentir muito melhor com minha porta trancada.

- Devo chamar a polícia?

- Não - murmurou ela com um bravo sorriso. - Não os vi direito. Estava muito escuro. Graças a Deus que consegui escapar e entrar aqui.

Depois de devolver o copo, ela simulou um esforço para se levantar.

- Nunca esquecerei como foi gentil.

- Não foi nada.

Satisfeito, ele estufou o peito, com orgulho masculino.

- Foi tudo para mim.

Adrianne apoiou-se nele ao passarem pela entrada do hotel. O táxi que ela já pagara, com ordem para esperar a meia quadra de distância, aproximou-se e parou na frente do hotel.

- Merci bien.

Adrianne deu um beijo no rosto do recepcionista antes de entrar no táxi. No momento em que ficaram fora de vista, ela se empertigou no banco.

- Pode me deixar logo depois da esquina.

- Quer que eu a espere de novo?

- Não. - Ela deu uma nota de 20 dólares ao motorista. - Obrigada.

- Quando quiser, dona, pode me chamar.

Quinze minutos depois, Adrianne estava parada na porta do quarto de Philip. A entrada e a subida pelo elevador de serviço haviam sido bem simples. Agora, era apenas o tempo de abrir a fechadura e a corrente de segurança. Ela atribuiu à impaciência e à raiva o tempo que demorou.

O silêncio na suíte era total. Como ele não fechara as cortinas da sala, havia claridade suficiente para orientá-la. Adrianne levou menos de cinco minutos para constatar que ele não deixara nada de valor ali.

O quarto estava escuro. Ela optou pela lanterna pequena, do tamanho de uma caneta. Teve o cuidado de manter o facho longe da cama, embora lhe viesse a idéia de iluminar seu rosto, para deixá-lo apavorado. Haveria satisfação suficiente em recuperar seu colar e pegar as abotoaduras de diamantes que ele usara naquela noite.

Adrianne começou a revistar o quarto, de uma maneira meticulosa e em silêncio. Seria muito azar se ele tivesse guardado tudo no cofre do hotel. Mas ela achava que isso não acontecera. Já era tarde, quase três horas da madrugada, quando ele voltara ao hotel. E devia estar exausto da viagem. Era mais do que provável, concluíra Adrianne, que tivesse largado tudo numa gaveta, para depois arriar na cama.

Por baixo das camisas da Turnbull, dobradas com todo cuidado ela descobriu que acertara em sua previsão. O facho da lanterna iluminou seu colar. Ao lado, havia uma caixa de jóias de homem, em couro de crocodilo, com monograma. Havia mais do que as abotoaduras de diamantes lá dentro. Ela encontrou outras abotoaduras, de ouro, um alfinete de gravata com um topázio de primeira qualidade e outras peças sortidas da vaidade masculina, todas de bom gosto e alto valor.

Na maior satisfação, Adrianne pôs a caixa e o colar em sua bolsa. Pensou ser uma pena não poder ver o rosto de Philip pela manhã. Mas, quando se virou, colidiu com ele.

Mal teve tempo de sugar o ar antes de ser arremessada por cima do ombro de Philip. Mesmo enquanto desferia um chute, sentiu que voava. O ar foi expelido de seus pulmões quando bateu no col­chão. Só pôde soltar um grunhido quando seus braços foram imobilizados nos lados do corpo e o corpo de Philip estendeu-se por cima do seu.

- Bom-dia, querida!

E ele a beijou na boca. Sentiu os braços de Adrianne se contraindo, o corpo se arqueando, embora a boca se entreabrisse, quente e ansiosa. Excitado pelo contraste, Philip tornou o beijo mais profundo do que tencionara.

Então tratou de se controlar, segurou os pulsos de Adrianne com uma das mãos e estendeu a outra para o abajur. No instante em que a luz acendeu, ele concluiu que gostava da aparência de Adrianne na cama.

Ela tinha plena consciência de sua situação. A culpa era sua, pensou Adrianne, em desgosto, oscilando entre a raiva e a amargura. Durante quase dez anos roubara o melhor, sempre de cabeça fria, usando a lógica. Agora, por causa de um colar sem valor - e de seu orgulho -, tinha sido apanhada. A única solução era usar a impudência para se livrar.

- Largue-me!

- Não há a menor possibilidade. - Philip manteve os braços de Adrianne esticados por cima da cabeça, e usou a mão livre para afastar os cabelos de seu rosto. - Deve admitir que foi uma maneira hábil de trazê-la para a cama.

- Vim pelo colar, não para ficar na cama com você!

- Pode fazer as duas coisas.

Ele sorriu. E, por estar despreparado para a súbita violência da luta de Adrianne, ele perdeu o controle. Os 30 segundos seguintes foram uma disputa encarniçada e silenciosa pela supremacia dos sexos. Adrianne era ágil e muito mais forte do que parecia. Foi o que Philip descobriu quando levou um soco no plexo solar. Desta vez ele imobilizou-lhe as mãos entre seus corpos, os rostos separados por poucos centímetros.

- Está bem. Conversaremos a respeito mais tarde.

Não foi a fria Princesa Adrianne quem o fitou em fúria total, mas a mulher que ele desconfiara que havia por trás, ardente, volátil... e confusa.

- Armou tudo para me pegar, seu desgraçado!

- Confesso que sou culpado. Mas estou surpreso por você ter arriscado tanto para recuperar este colar. Vale apenas umas poucas centenas de libras. Valor sentimental, Addy?

Ofegante, ela fez um esforço para ordenar os pensamentos. Ou ele tinha uma vista excelente ou uma lupa de joalheiro.

- Por que o tirou?

- Curiosidade. Por que a Princesa Adrianne usa jóias de fantasia?

- Tenho coisas melhores para gastar meu dinheiro. - Philip não usava camisa, e ela podia sentir-lhe cada batida do coração em seus dedos. - Se me soltar, levarei o colar e poderemos esquecer que isso aconteceu. Não o entregarei à polícia.

- Arrume um argumento melhor.

Ela conseguira recuperar o fôlego e - assim esperava - o controle também.

- O que você quer?

Philip alteou as sobrancelhas. Analisou o rosto de Adrianne por um longo momento, sem pressa.

- Não levarei essa pergunta em consideração. A resposta é fácil demais.

- Não pedirei desculpa por entrar em seu quarto para recuperar o que me pertence.

- E minha caixa de jóias?

- Foi por vingança. - O brilho da paixão, rápido e intenso, aflorou nos olhos de Adrianne. - Acredito na vingança.

- Nada mais justo. Aceita um drinque?

-Aceito.

Ele tornou a sorrir.

- Quero sua palavra de que continuará onde está. - Philip quase que podia ver os pensamentos de Adrianne se alterando e tomando forma. - Pode fugir, Adrianne, e, como não estou vestido para persegui-la, conseguiria escapar. Mas apenas por enquanto. Ainda haveria o amanhã.

- Tem minha palavra. Bem que preciso de um drinque.

Ele se levantou, dando a Adrianne a oportunidade de sair da cama e ir para uma cadeira. Philip não usava camisa, e a calça do pijama pendia dos quadris, num equilíbrio precário. Ela tirou as luvas, fazendo um esforço para se controlar, enquanto ouvia o som da bebida caindo no copo.

- Serve um scotch?

- Está ótimo.

Adrianne pegou o copo e tomou um gole, muito calma, enquanto ele se sentava na beira da cama. - Espero uma explicação.

- Então ficará desapontado. Não lhe devo qualquer explicação.

- Atiçou minha curiosidade. - Ele pegou um maço de cigarros na mesinha-de-cabeceira. - Eu havia parado de fumar, até que a conheci.

- Sinto muito. - Ela sorriu. - Mas, no final das contas, é apenas uma questão de força de vontade.

- E eu tenho muita. - Philip contemplou-a de alto a baixo. - Mas estou usando em outras coisas. Agora, minha pergunta é simples. Por que uma mulher como você rouba?

- Recuperar o que me pertence não é roubar.

- O colar de Madeline Moreau não lhe pertencia.

Se seu controle não fosse tão firme, Adrianne teria engasgado com o uísque.

- O que uma coisa tem a ver com a outra?

Ele soprou a fumaça, pensativo, enquanto a observava. Ela não era uma amadora, refletiu Philip, e estava longe de ser inexperiente.

- Foi mesmo você quem pegou o colar, Addy. Ou sabe quem foi. O nome Rose Sparrow significa alguma coisa para você?

Ela continuou a beber, muito calma, embora estivesse suando nas mãos.

- Deveria significar?

- Foi a minissaia - explicou Philip. - Levei algum tempo para entender. Mas quando visitei Freddie, nosso amigo comum, ele mencionou Rose... e até a descreveu. E me lembrei da minissaia azul de couro que você guardou na mala. A que era tão diferente de seu estilo habitual.

- Se vai continuar com rodeios, prefiro ir embora. Ainda não dormi.

- Sente-se.

Adrianne não tinha a menor disposição de obedecer, mas o tom ríspido advertiu-a de que seria menos complicado se tornasse a se sentar.

- Se entendi direito, você meteu na cabeça que tive algum envolvimento com o roubo do colar de Madeline. - Ela largou o copo e ordenou que os ombros relaxassem. - Só me ocorre uma pergunta. Por que eu faria isso? Não preciso do dinheiro.

- Não é uma questão de necessidade, mas de motivação.

A pulsação na garganta de Adrianne era forte e desconfortável. Ela ignorou, e continuou a fitá-lo com firmeza.

- O que você é? Um investigador da Scotland Yard?

Com uma risada, Philip apagou o cigarro.

- Não exatamente. Conhece o adágio de que é preciso um ladrão para pegar outro ladrão?

Quando a campainha tocou, o som foi alto e claro. Adrianne já falar do lendário ladrão conhecido apenas como P. C. Ele tinha a reputação de ser charmoso, implacável e o mestre dos rou­bos em residências. Especialsta em jóias. Alguns diziam que rouba­ra o diamante Wellingford, uma pedra de 75 quilates. Depois, ele aposentara. Adrianne sempre imaginara um homem mais velho, veterano astuto. Ela tornou a pegar o copo com  scotch.

Era irônico estar finalmente na companhia de um colega de trabalh­o, mas não pudesse conversar a respeito.

_ É sua maneira de me dizer que é um ladrão?

- Fui.

- Fascinante. Suponho então que pegou o colar de Madeline.

_ Há alguns anos, eu não hesitaria em pegá-lo. Seja como for, Addy, você teve uma participação no roubo, e quero saber por quê.

Ela se levantou, balançando o scotch no copo.

- Se, por alguma razão insana, eu tivesse uma participação, Philip, isso não seria da sua conta.

- Seu título não significa nada aqui, entre nós dois, nem seu prestigio  social. Ou você conta para mim, ou conta para meus superiores.

- E quem são eles?

- Trabalho para a Interpol. - Ele a observou levar o scotch aos lábios e tomar um gole. - Eles ligaram vários roubos, ao longo de quase dez anos, a um único homem, um homem muito esquivo. A safira Moreau é apenas a última jóia de uma longa lista.

- Interessante. Mas o que isso tem a ver comigo?

- Podemos marcar um encontro. Talvez eu consiga fazer um acordo para mantê-la em liberdade.

- É muito galante. - Adrianne tornou a largar o copo. – Ou seria se você estivesse certo.

Embora soubesse como a situação era crítica, ela sorriu confiante.

- Pode imaginar como meus amigos achariam divertido se eu contasse que fui acusada de estar envolvida com um ladrão? Seria convidada para jantares semanalmente.

- Será que não percebe que estou tentando ajudá-la? - Philip levantou-se, segurou-a pelos braços, sacudiu-a. - Não há razão para representar comigo. Não há mais ninguém presente. Não precisa dessa farsa. Eu a vi na rua, perto do hotel, toda vestida de preto, na noite do roubo. Entrou pela porta de serviço. E sei que teve participação na venda ao receptador. Está envolvida nisso, Addy. Lembre-se de que esse já foi meu ofício. Sei como funciona.

- Não tem nada de concreto para levar a seus superiores.

- Ainda não. Mas é apenas uma questão de tempo. Ninguém sabe melhor do que eu como as chances aumentam depois de alguns anos. Se você está em dificuldades, se precisa vender algumas pedras para salvar as aparências, não tenho razões para embaraçá-la tornando público. Mas tem de falar comigo, Addy. Quero ajudá-la.

Era absurdo, mas ele dava a impressão de que falava sério. Uma parte de Adrianne, reprimida por anos, queria acreditar nele.

- Por quê?

- Não seja idiota!

Philip tornou a beijá-la. A luta inicial de Adrianne terminou num gemido. A paixão que saboreava não era menos volátil do que a paixão que sentia. As mãos dele subiram-lhe para os cabelos, rudes, possessivas, puxando a cabeça para trás, em busca de mais liberdade. Pela primeira vez, ela deixou que suas mãos vagueassem, procurassem, persistissem na carne de um homem. A necessidade começou como uma quentura no estômago, para depois se espalhar, como um calor mais forte, uma ânsia, um incêndio total.

Ele sabia que era uma loucura desejá-la daquele jeito, esquecer suas prioridades, afundar-se naquela mulher. Mas Adrianne era toda maciez e força, toda tremor e procura. A fragrância que irradiava da pele de seu pescoço deixou-o atordoado, enquanto tropeçavam e caíam na cama.

Philip esqueceu a sutileza e classe na explosão de desejo. Quem quer que ela fosse, quaisquer que fossem seus segredos, ele a desejava agora mais do que em qualquer outro momento anterior. Cobiçara diamantes pelo fogo interior, rubis pela chama arrogante, safiras pelo brilho de calor azul. Em Adrianne encontrava todas as qua­lidades que antes só descobria nas pedras preciosas que roubava.

Ela era pequena e ágil. Seus cabelos o envolviam, com seu perfume e textura, enquanto rolavam pela cama. O gosto de scotch perdurava em sua língua, inebriante. Havia um desespero em sua reação que o despojava do controle camada por camada.

Quando enfiou a mão por baixo da suéter, para encontrar-lhe os seios, cheios e macios, Philip sentiu o coração de Adrianne disparado.

Nunca fora assim. Ano após ano, por vezes incontáveis, Adrian­ne convencera-se de que nunca poderia ser assim. Não para ela. Agora, pela primeira vez, queria totalmente, como uma mulher. Usar e ser usada. Enquanto seu corpo reagia, em busca do prazer, empenhado pela liberação, ela sentiu uma pontada de medo.

Podia ver o rosto da mãe, molhado de lágrimas. E podia ouvir, o som abafado através das mãos infantis, os gemidos de satisfação do pai.

- Não! - A palavra explodiu no instante em que ela empurrou Philip. - Não me toque! Não!

Em reflexo, ele segurou as mãos de Adrianne quando ela tentou golpeá-lo.

- Mas que droga, Adrianne!

A fúria levou Philip a puxá-la, já com acusações amargas na ponta da língua. Mas morreram antes que pudessem ser pronunciadas. As lágrimas tremendo nos olhos de Adrianne eram reais, assim como o terror que havia por trás.

- Calma, calma...

Ele atenuou a pressão, fazendo um esforço para manter a voz baixa. Adrianne era como uma montanha-russa, e ele ainda não tinha certeza se queria embarcar. Como ela continuasse tentando agredi-lo, Philip acrescentou:

- Pare com isso. Não vou machucá-la.

- Então me largue. - Ela sentia a garganta tão apertada que até o menor sussurro era dolo toso. - Mantenha as mãos longe de mim.

A raiva tornou a prevalecer e Philip teve de fazer um esforço para reprimi-la.

- Não ataco mulheres. Pediria desculpas se a tivesse entendido errado, mas ambos sabemos que não foi isso o que aconteceu.

- Já disse que não vim aqui para dormir com você. - Adri­anne desvencilhou uma das mãos, depois a outra. - Se espera que eu caia de costas só porque você deseja se divertir, vai ficar desapon­tado.

Ele recuou, lentamente. Era uma medida de seu controle.

- Alguém a fez passar por maus momentos.

- O fato puro e simples é que não estou interessada.

Antes que Philip pudesse tocá-la de novo, ela saiu da cama e pegou sua bolsa.

- O fato puro e simples é que você tem medo. - Ele também se levantou. Só mais tarde saberia que os lençóis conservariam a fra­grância de Adrianne, o que o atormentaria pelo resto da noite. ­De mim, talvez, ou de si mesma.

As mãos não eram firmes quando Adrianne levantou a alça da bolsa.

- O ego de um homem é de um fascínio interminável. Adeus, Philip.

- Só mais uma pergunta, Adrianne.

Ela já estava na porta, mas parou, inclinando a cabeça.

- Estamos a sós aqui, sem gravadores - acrescentou Philip. - Eu gostaria de saber a verdade, para variar. Só para mim. Está envolvida em tudo isso por causa de um homem?

Adrianne deveria tê-lo ignorado. Deveria oferecer o sorriso mais frio e sair, deixando a indagação sem resposta. No entanto, haveria de se perguntar uma dúzia de vezes por que não fez isso.

- Isso mesmo. - Ela viu o pai, atravessando os corredores largos e ensolarados, ignorando as lágrimas de Phoebe, ignorando os gritos silenciosos de sua filha. - Isso mesmo, é por causa de um homem.

O desapontamento foi profundo e tão intenso quanto a raiva.

- Ele a está ameaçando? Fazendo chantagem?

- É um total de três perguntas. - Adrianne encontrou a força para sorrir. - Mas uma coisa eu lhe direi, que é nada menos do que a verdade. Fiz o que fiz por opção.

E se lembrou de uma coisa. Enfiou a mão na bolsa e tirou a cai­xa de jóias. Num súbito impulso, jogou-a para ele.

- Honra entre ladrões, Philip. Pelo menos por hoje.

 

- Não é glorioso, querida?

            Lauren St. John avançou pela beira da piscina para beijar o rosto de Adrianne. Cuidou para que o cameraman só filmasse seu melhor lado, e usou o corpo de Adrianne para bloquear o fato de que engordara três quilos desde o Dia de Ação de Graças.

- Tudo está correndo bem, não é?

Adrianne levantou a sua marguerita gelada.

- Absolutamente dentro do prazo.

Havia uma centena de pessoas, apenas convidados, confraterni­zando-se no terraço da piscina. Dentro do salão de baile, havia umas 50 pessoas que preferiam o ar condicionado às brisas mari­nhas. Adrianne permitiu-se um olhar rápido e ansioso para a praia, antes de tornar a sorrir para Lauren.

- É um hotel adorável, Lauren, e tenho certeza de que o desfi­le de moda será um tremendo sucesso.

- Já é. Só a presença da imprensa vale pelo menos um milhão. A People veio, é claro. Teremos uma reportagem de três páginas. Tenho certeza de que você já sabe que apareci em Good Morning America na semana passada.

- Estava maravilhosa.

- Você é a simpatia em pessoa. - Lauren virou-se para outra equipe de filmagem. - Tem certeza de que não prefere champa­nhe, querida? Estamos servindo margueritas pelo clima.

Adrianne imaginou que o traje de camponesa mexicana de cin­co mil dólares que Lauren usava também era pelo clima.

- Este drinque está ótimo.

Ela correu os olhos pela multidão. Havia dezenas de pessoas que conhecia, além de outras dezenas que reconhecia. Os ricos, os poderosos, os famosos. Os representantes da imprensa circulavam, documentando cada óculos escuros de grife. As mulheres exibiam seus melhores trajes de férias de verão, de biquínis sumários, com as cangas mais deslumbrantes, a saias de seda rodadas. Ninguém dei­xara suas jóias em casa. Diamantes cintilavam, o ouro faiscava ao sol tropical. Por dois dias, a pequena ilha de Cozumel tornara-se um paraíso dos ladrões. Se estivesse à procura do grande golpe, Adrianne poderia circular entre os convidados recolhendo jóias.

Não chegava a ser a mesma coisa quanto colher flores silvestres numa campina, pensou ela. Mas era próximo, muito próximo, quando a pessoa era aceita como sócia daquele clube exclusivo. A Interpol, com toda certeza, tinha agentes na ilha. Mas ela não avis­tara Philip. Graças a Deus.

- Ouvi dizer que as roupas estão deslumbrantes.

Adrianne, assumindo seu papel, inclinou a cabeça e sorriu para um fotógrafo.

- Não deveria ter ouvido nada. As roupas foram guardadas sob uma segurança mais rigorosa do que as jóias da Coroa. Quanto maior o segredo, maior a expectativa. O que acha da idéia de fazer a passarela por cima da piscina?

- Maravilhosa.

- Espere só até ver o grand filnale - Lauren inclinou-se para sussurrar: - As modelos de maiô vão mergulhar.

- Mal posso esperar para ver.

- Eu queria encher a piscina com champanhe, mas Charlie não permitiu. Mas fiz uma fonte de champanhe no salão de baile. E você deve experimentar a piñata mais tarde. É um exótico costume. Ei, você!

Lauren virou-se para uma garçonete. O sorriso encantador trans­formou-se numa expressão dura.

- Você deve servir os drinques, não passear com a bandeja. ­Lauren tornou a se virar, as feições se desanuviando em outro sorri­so. - Onde é mesmo que eu estava? Ah, sim, a piñata. Quando Charlie e eu estivemos aqui, no ano passado, fomos a uma fiesta. Todos aqueles pivetes de dedos melequentos tentavam bater com uma vara num burro de papier-mâché. Depois que quebra...

- Conheço a brincadeira, Lauren.

- Pois pensei em adaptar o costume mais para o nosso gosto. Mandei fazer um lindo papagaio. Está cheio das mais fascinantes jóias de fantasia. Deve ser notícia em Entertainment Tonight.

Adrianne teve de morder o lábio ao projetar a imagem de cele­bridades se jogando no chão para recolher contas e pedras falsas.

- Parece que vai ser divertido.

- É para isso que estamos aqui. Quero que todos se lembrem desta festa beneficente. Posso recomendar o bufê, embora os criados me dessem muito trabalho. - Ela acenou jovial para um grupo no outro lado da piscina. - Mas também não podemos esquecer que são mexicanos.

Adrianne bebeu devagar, para esfriar a raiva.

- Estamos no México.

- Tem razão. Não consigo entender por que eles não fazem um esforço para aprender nossa língua. Vivem murmurando entre si. E ainda por cima são preguiçosos. Não tem idéia de como é difícil mantê-los na linha. Mas trabalham quase de graça. Avise-me se tiver qualquer problema com o serviço. Christie, querida, você está divina!

Depois que a loura de pernas compridas se afastou, Lauren acrescentou para Adrianne:

- Ah, o que eu poderia lhe contar sobre ela ...

- Tenho certeza de que você tem muitas coisas em que pensar neste momento.

E se eu não escapar de sua companhia, pensou Adrianne, come­çarei a gritar.

- Você não tem idéia, nenhuma idéia. Como invejo sua vida tranqüila. Apesar de tudo, tenho certeza de que esta será a maior e mais espetacular inauguração de hotel do ano.

Adrianne quase sorriu, sabendo que Lauren não seria capaz de compreender a própria ironia.

- Espero não ter cometido nenhum erro ao planejar o desfile para a tarde, em vez de realizá-la à noite. As tardes são bem mais... informais.

- A vida na ilha é informal.

- Hum ... - Lauren observou um jovem artista de cinema passar, usando uma pequena sunga, com um brilho de óleo de bronzear no corpo. - Há também aspectos bem favoráveis nos tra­jes informais. Ouvi dizer que eles têm uma tremenda resistência.

- Como vai o Charlie?

- Como? - Lauren continuava a admirar o jovem garanhão. - Vai bem, muito bem. Confesso que estou nervosa como uma gata. É muito importante que este evento seja um sucesso.

- E será. Você vai levantar milhares de dólares para a leucemia.

- Hem? Ah, isso também. - Lauren ergueu um ombro delgado. - Mas é claro que as pessoas não estão aqui para pensarem em alguma doença desagradável. Seria deprimente demais. O importante é simplesmente estar aqui. Já comentei que a Duquesa de York mandou uma mensagem pessoal lamentando não poder com­parecer?

- Não.

- É uma pena que ela não possa vir, mas temos você como realeza. - Ela deu um aperto íntimo no braço de Adrianne. - Ah, estou vendo Elizabeth. Tenho de cumprimentá-la. Divirta-se, que­rida.

- Vou me divertir - murmurou Adrianne. - Mais do que você imagina.

As pessoas como os St. John não mudavam. Adrianne foi par trás de um jasmim-da-virgínia, a fim de sentar-se ao sol e apreciar a música. Um hotel como El Grande sem dúvida proporciona... empregos à combalida economia mexicana, assim como o desfile repleto de celebridades levantaria recursos para uma obra de caridade. Para Lauren e outras pessoas iguais a ela, no entanto, esses benefícios eram acidentais. Ou pior, um trampolim para suas próprias ambições.

Os St. John estavam preocupados em primeiro lugar com os St. ­John, ou seja, dinheiro, posição, fama. Adrianne tomou um gole... de seu drinque e observou Lauren esvoaçar à beira da piscina.

Ela teria a atenção da imprensa, com toda certeza. Mais do que pretendia. Adrianne calculava que o roubo das jóias de diamantes ­rubis de Lauren seria uma grande notícia.

- Está bancando a Greta Garbo ou pode suportar uma co­mpanhia?

- Marjorie!

Com um prazer genuíno, Adrianne levantou-se de um pulo. Filha do ator Michael Adams, que fora um grande amigo de Phoebe e dela em Hollywood, Marjorie tornara-se sua amiga depois que as duas haviam se afastado do mundo do cinema.

- Não sabia que você viria.

- Foi um súbito impulso.

A loura esguia, ao estilo da Califórnia, retribuiu o abraço ­Adrianne.

- Michael veio com você? Não o vejo há mais de um ano.

- Papai não pôde vir. Está filmando em locação... em Ontário, entre todos os lugares. - Ela olhou a seu redor e sorriu. – Prefiro palmeiras, em qualquer dia do ano.

- Ele nunca pára, não é? Dê-lhe o meu amor, quando se encontrarem.

- Depois de amanhã. Passarei o Natal com papai. - Marjorie sacudiu os cabelos, enquanto se acomodava numa chaise longue. Cha­mou um garçom que passava. - Quero um suco de fruta. Duplo.

Ela soltou um longo suspiro.

- Um zoológico e tanto, não é?

- Não comece. - Mas Adrianne também sorriu. - O que veio fazer aqui? Nunca se interessou pela haute couture.

- Um desejo ardente pelos trópicos... e por Keith Dixon.

- Keith Dixon?

- Sei que ele é ator. - Marjorie levantou a mão. - É por isso que tenho relutado, mas ...

- É sério?

Ela virou a mão para revelar um diamante.

- Pode-se dizer que sim.

- Noiva? - Quando Marjorie levou um dedo aos lábios,Adrianne elevou uma sobrancelha, mas baixou a voz. - Um segre­do? Michael sabe?

- Sabe e aprova. Os dois se dão tão bem que quase não preci­sam de mim. É estranho.

- Estranho que eles se dêem bem?

- Estranho que eu tenha passado a maior parte de minha vida à procura de amigos e namorados que papai não aprovaria.

Adrianne recostou-se.

- Devia ser cansativo.

- E era mesmo. Com Keith, tem sido a coisa mais fácil que já fiz.

- Então, por que o segredo?

- Para evitar as colunas sociais por mais algum tempo. De qualquer forma, só será um segredo por mais alguns dias. Vamos casar no Natal. Eu adoraria se você pudesse ir. Mas sei como se sente em relação às festas de fim de ano. Pode jantar conosco esta noite, na aldeia?

- Claro que sim. Ele deve fazê-la muito feliz, Marjorie. Você está maravilhosa.

- Sinto-me muito melhor. - Ela tirou um cigarro do bolso da saia de linho. Era o único vício que ainda se permitia. - Às vezes, ao olhar para trás, não posso acreditar no quanto fiz papai sofrer... e eu também. Peso 55 quilos agora.

- Fico feliz por você.

- Guardei uma foto que saiu num jornal no momento em que deixei o hospital há três anos. Pesava 37 quilos. Parecia um cadáver ambulante. - Ela cruzou as pernas compridas e bem-torneadas. ­Lembra-me que tenho sorte por estar viva.

- Sei que Michael se orgulha de você. Na última vez em que nos encontramos, ele não foi capaz de falar em outra coisa.

- Eu não conseguiria sem ele... depois que entrou em minha cabeça que papai não era o inimigo. - Ela pegou o copo de suco e deu ao garçom uma nota de cinco dólares. - Você também ajudou. A segunda geração das crianças de Hollywood.

Ela bateu o copo no de Adrianne.

- Não esqueço sua visita ao hospital naquela ocasião, como falou comigo, embora eu não quisesse escutar, contando como foi difícil observar sua mãe se perder. Nunca poderei expressar, Addy, o que isso representou para mim.

- Não precisa. Michael foi uma das poucas pessoas que real­mente gostaram de mamãe. Não foi capaz de ajudá-la, mas tentou.

- Sempre pensei que ele fosse um pouco apaixonado por Phoebe. Por vocês duas. Juro que eu a odiava quando éramos pe­quenas. - Marjorie riu e apagou o cigarro. - Papai não parava de falar de você, como era uma aluna exemplar, uma menina gentil e bem-educada.

- Que coisa revoltante! - comentou Adrianne, provocando outra risada de Marjorie.

- Por isso eu fumava, bebia, tomava qualquer droga que pu­desse encontrar, casei com um canalha que sabia que ia me bater, criava um escândalo público sempre que possível. De um modo geral, fazia tudo o que podia para tornar a vida de papai miserável.. e isso quase me matou. A anorexia foi o último problema.

- A palavra-chave é último.

- É verdade. - Marjorie sorriu, o mesmo sorriso de auto-ironia que tornara seu pai famoso. - Mas já chega de falar sobre isso. Sabia que Althea está aqui?

- Althea Gray? Não, não sabia.

- Pois está. - Marjorie correu os olhos pelos convidados. - Ali.

Num gesto deliberado, Adrianne levantou os óculos escuros antes de olhar. Era ela mesmo, a atriz, usando uma blusa justa e uma minissaia rosa.

- Aquela roupa estaria mais apropriada em sua filha adoles­cente, se ela tivesse uma.

- Althea sempre gostou de exibir seu talento - comentou Adrianne.

- Seus dois últimos filmes foram bombas... nucleares.

- Foi o que ouvi dizer.

Adrianne não estava interessada. Vingara-se de Althea anos antes. Um conjunto de opalas e diamantes em baguetes transformara-se numa doação anônima ao Fundo dos Atores Aposentados.

- Ela fez uma lipo nas coxas há poucos meses.

- Você já sabe de coisas, hein, Marjorie.

Mas ela não pôde deixar de avaliar melhor as pernas de Althea.

- Renunciei à bebida, drogas e garanhões, Addy. Tinha de me ocupar com outras coisas. Tenho outra novidade da cidade das ilusões.... falando sobre o antigo agente de sua mãe, Larry Curtis.

O sorriso de Adrianne congelou.

- Parece que os rumores sobre sua preferência por garotinhas eram verdadeiros. Ele foi apanhado na semana passada fazendo uma audição com uma nova cliente. Ela tinha 15 anos.

A náusea embrulhou o estômago de Adrianne. Com extremo cuidado, ela largou o copo. Ouviu a própria voz, fria, distante:

- Disse que ele foi apanhado?

- Em flagrante, pelo pai da garota. O desgraçado teve o maxilar fraturado. Uma pena que ninguém tenha cortado aqueles ovos de que ele tanto se orgulha e pendurado em seu pescoço. Mas pare­ce que ele não vai funcionar de novo. Ei! - Alarmada, Marjorie sentou-se na chaise longue. - Você está branca que nem um lençol.

Ela não queria lembrar, e engoliu em seco, fazendo um esforço para aliviar a pressão no estômago.

- Sol demais.

- Vamos para a sombra, antes que o desfile comece. Pode ficar em pé? Detesto usar clichês, mas parece que você viu um fantasma.

- Não se preocupe. Estou bem.

Tinha de estar. Larry Curtis pertencia ao passado. Tudo aquilo pertencia ao passado. Adrianne levantou-se e foi com Marjorie para as cadeiras sob um toldo vermelho.

- Eu não perderia isso por nada neste mundo, Marjorie.

- Parece que será um espetáculo e tanto.

E foi mesmo. Ela observou Lauren subir para um pódio orna­mentado com flores tropicais. No dia seguinte, Adrianne teria sua própria produção.

A suíte de Adrianne no El Grande era toda em tons pastéis.

Portas de vidro davam para uma varanda cheia de flores. Tinha uma geladeira bem abastecida, um banheiro espelhado com banhei­ra de hidromassagem e um cofre com uma chave pessoal. Tinha suas vantagens, mas ela preferia a suíte que reservara no El Pre­sidente, sob o nome de Lara O'Conner.

Com algum pesar, Adrianne aposentara Rose Sparrov.

 

Na segunda suíte, Adrianne guardava suas ferramentas. Poucas horas depois do desfile, ela estava sentada a uma mesinha perto da janela, comendo um kiwi, enquanto estudava as plantas de El Grande. Ainda não decidira qual de dois métodos de acesso usaria. Uma perfeccionista, desenvolveu os detalhes de ambos. O telefone a seu lado tocou.

- Hola. Si.

Adrianne inclinou-se para trás em sua cadeira. O contato estava ansioso. Em sua experiência, os mensageiros tentavam parecer du­ros quando se sentiam nervosos.

- Estarei lá, como o combinado. Se não confia em mim, ami­go, é o momento de cair fora. Há sempre outro comprador.

Ela esperou, tomando um gole de Perrier no copo.

- Conhece a reputação dele. Quando O Sombra faz um acordo, ele entrega. Não gostaria que eu dissesse a ele que você duvida de sua capacidade de consumar a transação, não é mesmo? Eu sabia que não. Mañana.

Adrianne desligou e levantou-se. Massageou os músculos dolo­ridos nas costas e no pescoço. Nervos. Contrariada, ela fechou os olhos. Balançou a cabeça de um lado para outro, lentamente. Não se lembrava de se sentir tão nervosa em anos.

O trabalho era rotineiro... quase simples demais. No entanto...

Philip, pensou ela. Philip lançara-a em confusão e ainda não parara. Preocupava-se porque ele não estava na ilha. E teria se enfu­recido se ele estivesse.

Mas Philip não podia provar coisa alguma, ela assegurou a si mesma, enquanto abria as portas da varanda. E em breve, muito em breve, ela acabaria o que se propusera a fazer.

O sol, de um dourado brilhante, pairava no céu a oeste, pouco acima do mar. Dentro de poucas horas a lua surgiria, fria e branca.

O Sol e a Lua. Adrianne pôs as palmas das mãos na grade da varanda e inclinou-se para fora. Símbolos da noite e do dia, de con­tinuidade, de eternidade. Pegarei o colar muito em breve, mamãe, prometeu ela, silenciosamente. Depois, talvez nós duas possamos ter alguma paz.

A brisa soprou em seu rosto, dedos quentes que a acariciaram. Havia uma fragrância, quente, floral, que se elevava por toda parte, inevitável. Podia ouvir as ondas correndo pela areia, para depois refluírem. Mais alto do que esse murmúrio, as pessoas riam, gritavam enquanto passeavam pela praia ou mergulhavam com snorkel junto dos corais.

Solidão. Adrianne apertou os olhos com força, mas não pôde evitar. A época... podia atribuir o sentimento ao período de festas e às recordações que trazia. Podia até atribuir a culpa ao encontro com Marjorie, pela inveja por seu controle sobre a vida, depois de tantos anos de naufrágio. Mas era mais do que isso, muito mais. Ela não era apenas uma mulher sozinha numa varanda. Por mais pes­soas que conhecesse, por mais que se empenhasse em viver ocupada, era sozinha por toda parte.

Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plena­mente os conflitos e dúvidas que a dominavam. Era princesa de uma terra que não era mais a sua. Era visitante num país que conti­nuava a lhe ser estranho. Era uma mulher que tinha medo de ser uma mulher. Uma ladra que queria justiça.

Naquele momento, com a brisa da tarde soprando em seu ros­to, com a fragrância da maresia e das flores que a cercavam, queria alguém para abraçá-la.

Adrianne virou-se e tornou a entrar na suíte. Podia não ter alguém, mas tinha alguma coisa. Vingança.

 

O trabalho não constava de sua agenda naquela manhã. Adrianne queria se esquentar ao sol tropical, nadar de snorkel pelos recifes, nas águas puras como cristal. Queria dormir sob uma palmeira e pensar o mínimo possível.

Era a Véspera de Natal. Alguns convidados já haviam voltado para casa - Chicago, Los Angeles, Paris, Nova York, Londres. A maioria permanecia em El Grande, para celebrar as festas com pina colada em vez de ponche quente de rum, com palmeiras em vez de pinheiros.

Adrianne nunca passava as festas em Nova York. Não podia su­portar a visão da neve ou das vitrines na Macy's ou Saks. O Natal era um grande acontecimento em Nova York, que a encantara quando era criança.

Ainda podia se lembrar da primeira vez em que vira as elegantes bonecas vitorianas, girando na vitrine da Lord & Taylor, enquanto o vento frio e penetrante soprava em torno do casaco de gola de pele e o cheiro de castanhas assadas a envolvia. Em Nova York, haveria sinos tocando em cada esquina, música saindo de cada loja. A Cartier estaria envolta por um enorme laço colorido. Ao longo da Quinta Avenida, o mar de pessoas seria tão denso que alguém podia ser apanhado pela correnteza humana e arrastado por quarteirões.

Um clima inebriante. Não havia outro lugar no mundo que fosse mais inebriante do que Nova York no Natal. E, para Adrian­ne, não havia lugar mais depressivo.

O Natal era proibido em Jaquir, até mesmo as comemorações públicas de turistas e trabalhadores ocidentais. Não podia haver ornamentos, cantigas de Natal, nem sequer um galho de pinheiro. Nada de bolas de vidro com neve dançando dentro. A lei proibia.

Havia lembranças de Natal, algumas alegres, algumas tristes. Adrianne sabia que tinham de ser confrontadas, mas não em Nova York, onde decorara sua última árvore, com um esforço desespera­do para envolver a mãe nas festividades. Fora em Nova York que ela embrulhara seus últimos presentes em papéis coloridos ... e Phoebe nunca abrira os pacotes.

Fora em Nova York, cinco anos antes, que ela encontrara a mãe morta no chão do banheiro, na madrugada que antecedia a manhã de Natal. Aquele último Natal, em que se sentara com Phoebe e Celeste, bebendo eggnog e ouvindo cantigas de Natal no som. E a mãe fora deitar-se mais cedo.

Adrianne nunca descobrira onde Phoebe conseguira o scotch e as pílulas azuis. De onde quer que viessem, haviam feito o serviço.

Por isso, ela fugia no Natal, embora soubesse que era uma fra­queza. Monte Cado, Aruba, Maui... qualquer lugar em que o sol fosse quente. Às vezes trabalhava quando fugia, às vezes não fazia nada. Naquela viagem, faria as duas coisas; e na manhã seguinte, quando os sinos tocassem pelo Natal, já teria realizado o trabalho.

Não foi o nervosismo que a levou a tomar a decisão de passar o dia longe do hotel dos St. John. Queria apenas ficar sozinha, anôni­ma. Depois de dois dias, já não agüentava mais coquetéis e conver­sas irrelevantes à beira da piscina. Escolheu a praia junto de El Presidente, não como Princesa Adrianne ou Lara O'Conner, mas como Adrianne Spring.

Com sede, as pernas começando a doer, ela voltou à praia. Com a máscara e as nadadeiras nas mãos, atravessou a areia até a cabana de teto de colmo em que deixara o resto de suas coisas. Sem qual­quer dificuldade, ignotou dois homens deitados ao sol ali perto, tomando cerveja Dos Equis, à espera de uma conquista.

-Adrianne!

Ainda esfregando os cabelos, ela virou-se para uma mulher que se aproximava. O corpo era exuberante e dourado, realçado por duas tiras estreitas, que faziam com que o biquíni de Adrianne pare­cesse uma armadura. Os cabelos eram escuros, curtos, balançando na altura do queixo. Por um momento houve apenas irritação por ser incomodada. Depois veio o reconhecimento.

- Duja? - Com uma risada, Adrianne largou a toalha e abriu os braços para a prima. - É mesmo você!

Trocaram beijos nas faces e recuaram, uma analisando a outra.

- Isso é maravilhoso! - A voz baixa e musical de Duja trazia recordações ao mesmo tempo doces e tristes. Tardes longas e quen­tes no harém, um caramanchão no jardim, onde duas meninas es­cutavam histórias contadas por uma velha. - Quanto tempo faz?

- Muitos e muitos anos. O que está fazendo aqui?

- Nada, até agora. Estivemos em Cancún, mas depois J. T. decidiu navegar até aqui, porque acha que o mar é melhor para o mergulho. Não posso acreditar que quase fiquei na piscina do ho­tel. Está sozinha?

-Estou.

- Pois então vou lhe pagar um drinque e pôr a conversa em dia. - Ela passou o braço pelo de Adrianne e se encaminharam para o bar. - Leio a seu respeito durante todo o tempo: a Princesa Adrianne comparece à estréia do balé, a Princesa Adrianne participa do baile da primavera. Imagino que anda ocupada demais para me visitar em Houston.

- Ainda não pude ir. Enquanto mamãe estava viva, não era fácil viajar. Depois... - Ela observou Duja acender uma cigarrilha. - Pensei que não suportaria ver você ou qualquer outra pessoa de Jaquir.

- Lamentei por você. - Duja abordou o assunto da morte de Phoebe tão ligeiramente quanto tocou na mão de Adrianne. - Sua mãe sempre foi gentil comigo. Tenho lembranças afetuosas. Dos margaritas, por favor.

Depois de fazer o pedido ao bartender, ela olhou para Adrianne.

- Está bom para você?

- Claro. Obrigada. Já passou muito tempo. Não parece real.

Duja soprou um jato de fumaça.

- E estamos muito longe do harém.

Mas não o suficiente, pensou Adrianne.

- Sente-se feliz?

-E muito.

Duja cruzou as pernas compridas e morenas. Numa reação automática, flertou com o homem do outro lado do bar circular. Tinha 30 anos, um corpo espetacular, segura de seu poder.

- J. T. é um homem maravilhoso, muito gentil, muito ameri­cano. Tenho meus próprios cartões de crédito.

- E isso é tudo o que se precisa?

- Ajuda. Além disso, ele me ama e eu o amo. Sei que fiquei apavorada quando meu pai concordou em me entregar a ele. Depois de tudo o que nos ensinaram e ouvimos falar sobre os americanos.

Ela virou-se no banco para poder observar as pessoas na beira da piscina.

- Quando penso que poderia estar sentada no harém, grávida da sexta ou sétima criança, e especulando se meu marido ficaria satisfeito ou insatisfeito comigo... - Ela lambeu o sal da borda do copo. - Claro que estou feliz. O mundo é diferente daquele que conhecíamos quando éramos crianças. Os homens americanos não esperam que suas mulheres fiquem sentadas quietas no canto e tenham um filho depois do outro. Amo meu filho, mas também me sinto contente por ter apenas um.

- Onde ele está?

- Com o pai. Johnny é tão fanático por mergulho quanto J. T. E também é muito americano. Beisebol, pizza, jogos eletrônicos. Às vezes olho para trás e me pergunto como seria minha vida se o petróleo não levasse J. T. a Jaquir... e eu para J. T. - Duja deu de ombros, enquanto soprava a fumaça fragrante, que lembrou Adrianne das tardes no harém e do som dos tambores. - Mas não olho para trás com freqüência.

- Fico feliz por você. Quando éramos crianças, eu sentia a maior admiração por você. Sempre foi equilibrada e bem-com­portada, e muito bonita. Pensava que era por você ser alguns anos mais velha. Queria ser igual a você quando crescesse.

- As coisas eram muito mais difíceis para você. Queria agradar seu pai, mas sempre manteve a lealdade à sua mãe. Compreendo agora como ela deve ter se sentido desesperada quando o rei tomou uma segunda esposa.

- Foi o princípio do fim para ela. - A amargura voltou. Adrianne tomou um gole para tentar dissipá-la. - Voltou a Jaquir alguma vez?

- Visito minha mãe uma vez por ano. E levo para ela, às escondidas, filmes em video e lingerie vermelha. - Numa resposta à pergunta tácita de Adrianne, ela acrescentou: - Nada mudou. Quando volto, sou uma filha decorosa e obediente, os cabelos pre­sos e o rosto coberto. Uso minha abaaya e sento-me no harém para tomar chá. E o mais estranho ê que, ao fazer isso, não fIca parecen­do esquisito, mas sim a coisa certa.

-Como?

- É difícil explicar. Quando vou a Jaquir, quando ponho o véu, começo a pensar como uma mulher de Jaquir, a sentir como uma mulher de Jaquir. O que parece certo na América, até mesmo natural, torna-se totalmente estranho. Quando vou embora, quan­do tiro o véu, também me desfaço de todos esses sentimentos, volto a ignorar todas as restrições.

- Não consigo entender. É como se fossem duas pessoas.

- E não é o que acontece? A maneira como fomos criadas e a maneira como vivemos. Você nunca voltou?

- Não. Mas estou pensando nisso.

- Não vamos este ano. J. T. está preocupado com os problemas no Golfo Pérsico. Jaquir teve êxito até hoje em evitar uma con­frontação, mas não vai durar para sempre.

- Abdu sabe como escolher suas brigas e seus amigos.

Duja elevou uma sobrancelha. Mesmo depois de tantos anos, nunca chamaria o rei pelo primeiro nome.

- J. T. disse a mesma coisa há pouco tempo. - Insegura na­quele terreno, Duja mudou de assunto. - Sabia que seu pai se divorciou de Risa? Ela é estéril.

-Eu soube.

Adrianne sentiu uma pontada de compaixão pela última esposa de seu pai.

- Ele tomou outra esposa, há poucos meses.

- Tão depressa? - Adrianne bebeu de novo, um gole maior. - Eu não sabia. Leiha lhe deu sete crianças saudáveis.

- Cinco eram meninas. - Duja deu de ombros de novo. Parecia que Adrianne era bastante calma para conversar sobre as meias-irmãs. - As duas mais velhas já casaram.

- Sei disso. Ouvi a notícia.

- O rei as negociou com a maior habilidade, mandando uma para o Irã e a outra para o Iraque. A terceira tem apenas 14 anos. Dizem que ela irá para o Egito ou talvez para a Arábia Saudita.

- Ele demonstra mais afeição por seus cavalos do que por suas filhas.

- Em Jaquir, os cavalos são mais úteis.

Duja fez um sinal para que o bartender servisse outra rodada.

 DE SUA JANELA, NO QUINTO ANDAR, PHILIP TINHA UMA EXCE­lente vista da piscina, dos jardins e do mar. Observava Adrianne desde que ela saíra da água. Através do binóculo, vira até as gotas de água brilhando, presas em sua pele.

Só podia especular sobre a mulher com quem Adrianne estava. Não era um contato; disso ele tinha certeza. O rosto de Adrianne exi­bira muita surpresa e depois prazer quando haviam se encontrado.

Uma amiga antiga, ou talvez parente. Adrianne não fora à praia para encontrá-la. A menos que Philip errasse por completo em seu palpite, ela fora sozinha, como já fizera uma ou duas vezes antes, quando ele a seguira desde El Grande.

Achava que era uma pena ter perdido as festas ali nos últimos dois dias. Mas fora mais sensato manter a discrição.

Ele soprou a fumaça, lentamente, enquanto esperava que Spencer atendesse.

- Spencer falando.

- Olá, capitão.

- O que está acontecendo, Chamberlain?

- Recebeu o relatório que entreguei ao contato em Nova York?

- Não me disse muita coisa.

- Essas coisas levam tempo. - Philip observou a maneira como os cabelos molhados de Adrianne caíam pelas costas. - Às vezes mais do que gostaríamos.

- Não preciso da droga de sua filosofia. Preciso de informações.

-Claro.

Philip levantou o binóculo e focalizou o rosto de Adrianne. Ela estava rindo. Não havia nada de frio ou indiferente na maneira como seus lábios se contraíam agora. Com relutância, ele desviou o binóculo para a outra mulher. Uma parente, concluiu ele. Um pouco mais velha, muito americanizada. Philip percebeu a cintilação do diamante em seu dedo. Era casada.

-E então?

A impaciência na voz de Spencer era tão clara quanto o som do cachimbo de Philip sendo sugado.

- Não há muito para acrescentar ao meu relatório anterior.

Para seu próprio prazer, ele tornou a desviar o binóculo para Adrianne. Ela tinha a pele mais extraordinária... como a cor de ouro num quadro antigo. Era uma insensatez, mas agora Philip tomaria algumas providências para salvá-la.

- Se nosso homem esteve em Nova York, escapuliu de novo. A única pista que encontrei lá apontava para Paris. Talvez queira pôr seus homens na cidade em alerta.

Desculpe, companheiro, acrescentou Philip, mentalmente, mas preciso ganhar tempo.

- Por que Paris?

- A Condessa Tegari. Ela vai passar as festas lá com a filha. E arrematou algumas peças valiosas da coleção da Duquesa de Wind­soro Se eu ainda estivesse no ofício, acharia a perspectiva muito inte­ressante.

- É o melhor que pode fazer?

- No momento, é sim.

- Onde você está e quando voltará?

- Estou tirando alguns dias de férias, Stuart. Pode me esperar no início do novo ano. Lembranças para sua família. - Ao primei­ro fluxo de protesto, acrescentou ele: - Feliz Natal.

Ela tinha mesmo uma pele excepcional, pensou Philip de novo. Em toda parte que um homem tinha a sorte de contemplar.

COMO NÃO PÔDE ENCONTRAR UMA MANEIRA GENTIL DE recusar o convite da prima para jantar no iate, Adrianne teve de alterar seus planos. Aguardava a noite com alguma ansiedade. Seria uma oportunidade de se recostar e observar, verificar se a mistura de cultura e tradição podia mesmo dar certo. Também seria um áli­bi sólido, se algum dia precisasse.

Adrianne usou seus aposentos em El Presidente para trocar de roupa. Era uma pequena precaução, mas que concluíra que valia a pena. O momento preciso era tudo agora. Uma olhada para o reló­gio indicou que os St. John deveriam estar ocupados naquele momento na Fiesta Room, recebendo a imprensa, com os primeiros coquetéis. Isso lhe daria mais de uma hora antes que Lauren subisse para a suíte presidencial, a fim de trocar de roupa para a festa a rigor na Véspera do Natal.

Adrianne iria até lá mais tarde, depois do jantar com a prima. Se Lauren optasse por usar os rubis naquela noite, seria uma inte­ressante diversão.

Era uma curta viagem de carro para o norte. O final de tarde estava fragrante, faltando ainda uma ou duas horas para o pôr-do-­sol. Quando parou o carro no estacionamento de El Grande, Adri­anne usava enormes óculos escuros e um chapéu mole, com um muumuu havaiano de mangas compridas. Seria tomada, como tencionava, por uma turista americana de gosto duvidoso.

Com a bolsa de palha pendurada no ombro balançando, ela se encaminhou para a entrada principal. Sem olhar para a direita ou a esquerda, foi para os elevadores. Parou o elevador entre um andar e outro. Tirou o vestido e meteu-o na bolsa, junto com o chapéu e os óculos. Tudo foi comprimido dentro de um saco de roupa suja, que ela dobrara e escondera por baixo do corpete do uniforme de criada que usava.

Demorou menos de 30 segundos para que o elevador recomeçasse a subir para o último andar. Ela usava uma peruca preta, com fios brancos, presa por baixo de uma rede. Acrescentara uma cica­triz longa e fina ao rosto. Se fosse vista e alguém fizesse perguntas, as pessoas se lembrariam de uma criada de meia-idade com uma cicatriz.

As roupas de cama e banho ficavam num closet na extremidade de cada corredor. Poderia abrir a fechadura com um grampo de cabelo, se fosse necessário; em vez disso, porém, usou uma ferra­menta que tirou da liga na coxa. Pôs o saco de roupa suja num car­rinho vazio, depois pegou algumas toalhas. Estava saindo com o carrinho do closet quando ouviu o barulho do elevador.

De cabeça baixa, ela começou a empurrar o carrinho pelo corre­dor, lentamente.

- Buenas tardes - murmurou ela, quando um casal passou, recendendo a cloro e óleo de bronzear.

Adrianne partilhara o desjejum com eles naquela manhã. Não se deram ao trabalho de responder ao cumprimento, mas continua­ram a discutir o lugar em que esquiariam na semana seguinte.

Adrianne bateu na porta da suíte presidencial para depois dizer, num inglês estropiado:

- Camareira. Toalhas limpas.

Ela esperou, contando até dez, devagar. Com a mesma ferra­menta, Adrianne abriu a porta. Era lamentável, pensou ela, quanta fé a pessoa comum depositava numa chave. Talvez um dia, depois que se aposentasse, escrevesse uma série de artigos sobre o assunto. Ela entrou na suíte com o carrinho de arrumadeira, que usou para bloquear a porta.

Se alguma coisa saísse errada, o obstáculo lhe proporcionaria uns poucos momentos preciosos.

Suntuosa, pensou ela, enquanto corria os olhos pela suíte. Os St. John não poupavam despesas para o conforto. Haviam escolhi­do tons de pêssego e creme, contrabalançados por um preto lustro­so, com carpetes grossos e um enorme sofá. As flores eram frescas, mostrando a Adrianne que a criada já arrumara a suíte, embora as roupas dos St. John estivessem espalhadas por cadeiras e mesas.

Adrianne preferia o laranja brilhante e o dourado da decoração de El Presidente. Alguém deveria dizer a Charlie que as pessoas visi­tavam a ilha não apenas para relaxar, mas também para sentir que se divertiam ao máximo.

Ela aprendera o necessário sobre o novo hotel através das plan­tas e de sua estada de dois dias. Um almoço com Lauren na Sala de Chá Russa preenchera os poucos detalhes que faltavam. Adrianne pagara a conta, refletindo que era o mínimo que podia fazer.

Como uma precaução, ela deu uma volta rápida pelos aposen­tos. O banheiro era idêntico ao seu, como indicava sua informação. Várias toalhas úmidas no chão e a fragrância persistente de Norell diziam que Lauren tomara um banho antes do encontro com a im­prensa.

Certa de que estava sozinha, ela seguiu sem hesitar para o closet no quarto de vestir. O cofre, o conforto extra que Charlie oferecia em todos os seus hotéis, ficava ali.

Em vez de uma combinação, funcionava com uma chave que o hóspede deveria guardar na bolsa ou no bolso. Não apenas não havia alarme, mas até uma criança, com determinação e uma chave de fenda, poderia abrir o cofre em menos de meia hora. Adrianne levantou sua saia e tirou da liga na coxa uma chave pequena. Era a chave do cofre em seu próprio quarto, um andar abaixo.

A chave entrou na fenda, mas não girou. Depois de escolher uma lima, ela começou a fazer os ajustamentos. Era preciso paciên­cia. Podia limar apenas uma fração de cada vez, inserir a chave e tentar de novo. Agachada como um catcher (o homem que pega as bolas que passam pelo batedor no beisebol), ela trabalhava segundo a segundo, minuto a minuto. De vez em quando, ouvia uma porta se fechar ou o barulho do elevador. Esperava, prendendo a respira­ção, até que os passos se afastassem da suíte.

Como sempre, sentiu o impacto de satisfação quando a fechadu­ra cedeu. Pôs a chave em cima do cofre e tirou uma caixa de jóias. Pérolas, muito bonitas, uma longa fieira. Ela repôs a caixa no cofre e pegou outra. Diamantes, relativamente pequenos, mas perfeitos, engastados num colar. Calculou que Lauren devia considerar que era uma jóia para um traje informal. Também tornou a pôr essa caixa no cofre. E, depois, encontrou o conjunto de diamantes e rubis.

Com a lupa, ela examinou três das pedras no colar. Birmanesas, como revelara Lauren, pedras masculinas, de uma cor profunda, com uma profunda textura acetinada, um mínimo de defeitos. Os diamantes também eram excelentes, com um mínimo de defeitos, apenas com um traço de amarelo. Eram pedras da segunda água, mas bem cortadas. Ela pôs no bolso o colar, junto com a pulseira e os brincos do conjunto, guardou a caixa no cofre e o fechou.

Um olhar para o relógio indicou que havia tempo suficiente para voltar a seu hotel e trocar de roupa para o jantar com a prima.

E foi nesse instante que ela ouviu uma chave girar na fechadura. - Mas que droga! Tire essa coisa do caminho!

Adrianne levantou-se de um pulo para obedecer.

- Desculpe, señora. Eu trouxe toalhas limpas.

- Pois então me dê uma! Que merda! - Lauren pegou uma toalha na pilha do carrinho e começou a esfregar uma mancha do tamanho de um prato de comida na saia. - O filho da puta desa­jeitado derramou ponche em cima de mim!

Adrianne teve de fazer um esforço para reprimir uma risada.

-Señora, quer ... ahn ... água ... água fria?

- Isto é seda, sua idiota! - Lauren lançou um olhar furioso para Adrianne, balançando a cabeça. Viu apenas uma criada, velha e, obviamente, estúpida. - O que você sabe sobre seda? Oh, Deus, não há ninguém nesta droga de ilha para fazer uma lavagem a seco decen­te! Não sei por que o Charlie não construiu o hotel em Cancún!

E levantou a saia de De la Renta.

- Dois mil dólares, e posso muito bem jogar pela janela! ­Lauren puxou o zíper com um grunhido de raiva. - Não tem mais nada para fazer? Pagamos por hora. Saia daqui e faça jus a seus pesos.

- Sí, Señora St. John. Gracias. Buenas tardes.

- E fale em inglês!

Lauren deu um empurrão em Adrianne, fazendo-a sair para o corredor, e depois bateu a porta.

COMO ADRIANNE, PHILIP TINHA MUITA PACIÊNCIA. ENTROU no estacionamento de El Grande e procurou uma vaga de onde podia não apenas observar o jipe de Adrianne, mas também a entra­da do hotel. Fazia calor. O suor escorria pelas costas da camisa de algodão, deixando o banco úmido. Ele tomou um gole de uma gar­rafa de Pepsi e prometeu a si mesmo que não fumaria outro cigarro até que Adrianne saísse. Continuaria a se manter a distância por mais algum tempo. Mais cedo ou mais tarde, ela o levaria ao ho­mem que admirava por sua competência e invejava pela lealdade de Adrianne.

Ele só podia ser bom, muito bom, pensou Philip, se pretendia roubar alguma coisa no hotel em plena luz do dia. Mas Philip já sabia que O Sombra era excepcional. O trabalho Moreau fora o último de uma longa série de roubos perfeitos.

Mas ele ainda não entendia o papel que Adrianne desempenha­va. Uma diversão? Uma informante? Pela posição que ocupava, ela seria perfeita como fornecedora de informações valiosas. Mas por quê?

Ela ria quando saiu do hotel. Contida, como se fosse de uma piada particular. Ele descobriria o motivo, prometeu a si mesmo, e todo o resto que havia para saber sobre Adrianne. Por enquanto, limitou-se a segui-la, a alguma distância.

No El Presidente, Philip espetou que ela saísse de novo. Calcu­lou que Adrianne teria de se apressar se quisesse chegar a tempo para a festa dos St. John. Ele assumiu uma posição no saguão de onde poderia observá-la quer descesse pelo elevador ou pela rampa. O sol já se punha quando Adrianne desceu, parecendo calma e des­contraída, num vestido preto largo, decotado nas costas. Não seguiu para o estacionamento; em vez disso, foi para a praia. Philip observou-a a distância percorrer um píer e entrar num iate branco que tinha por nome The Alamo.

Foi recebida pela mulher com quem ela tomara um drinque antes, junto com um homem calvo, de rosto avermelhado e um garoto magricela. Observou Adrianne estender a mão para o garo­ro, depois rir e abraçá-lo, enquanto os raios do sol poente pareciam atear chamas em seus cabelos.

Se era uma reunião de trabalho, refletiu Philip, então ele não sabia distinguir um sensor de calor de um infravermelho. Reformu­lou seus planos e subiu para o quarto de Adrianne.

Fazia alguns anos que não abria uma fechadura com uma gazua. Mas era uma coisa que sempre voltava, como andar de bicicleta e fazer amor... , e, depois de feita, proporcionava uma imensa satisfação.

Ela era meticulosa, pensou Philip, enquanto circulava pela suí­te. Especulara a respeito, como Adrianne vivia quando estava sozi­nha. Não havia roupas largadas numa cadeira de maneira descuidada, nem sapatos deixados no meio do quarto. Na penteadeira, os vidros, potes e tubos estavam tampados e enfileirados. No closet, as roupas haviam sido penduradas com todo cuidado. Adrianne esco­lhera o informal e largo, constatou ele, como convinha aos dias quentes e noites abafadas. Sua fragrância ainda perdurava no quarto.

Quando percebeu que devaneava, Philip tratou de sacudir a cabeça para recuperar o controle.

Por que uma segunda suíte? Por que um nome suposto? Ele não podia deixar de especular. E agora que se encontrava ali, não sairia enquanto não encontrasse as respostas.

O estojo de maquilagem não deveria interessá-lo, mas nunca vira Adrianne usar mais do que um pouco de sombra nos olhos e batom. Nos três dias no México, ela só se dera ao trabalho de um mínimo de maquilagem para a noite. Então por que uma mulher que era confiante em sua aparência, que quase nunca se preocupava em realçá-la, precisava de um estojo de maquilagem?

Havia o suficiente em lápis de maquilagem e bases para atender a todas as coristas de um show na Broadway. Intrigado, ele levantou a camada de cima. Encontrou cílios postiços, com um adesivo por ­baixo. Parecia que Adrianne gostava de usar disfarces. Por baixo dessa camada estavam as jóias de Lauren St. John.

Bom? Ele pensara que O Sombra era bom? O homem era gênio. De alguma forma, num período mínimo, entrara na s dos St. John, roubara as jóias e as transferira para Adrianne, sem mostrar a cara.

Ela as escondera no fundo de um estojo de maquilagem, no lu­gar destinado às sombras para os olhos. Agora, segurando-as, Philip sentiu uma antiga tentação, o canto da sereia nas pedras. Guerras haviam sido travadas por pedras assim, vidas perdidas, corações par­tidos. Haviam sido tiradas do fundo da terra, separadas da rocha, cortadas, polidas e vendidas para adornar pescoços, pulsos, dedos. Havia culturas que ainda acreditavam que pedras assim podiam afugentar os espíritos do mal e evitar a morte.

Philip podia compreender tudo isso, enquanto os rubis e dia­mantes cintilavam em suas mãos, sussurrando para ele.

Poderia meter as jóias no bolso e deixar a suíte. Ainda tinha contatos que trocariam as jóias por dinheiro, permitindo que ele escapasse impune, livre. Seria gratificante, muito gratificante. E ele sentiu-se tentado, não tanto pelo dinheiro, mas por causa das pe­dras. Pareciam queimar em suas mãos, femininas, provocantes.

Com um suspiro, ele tornou a guardá-las no estojo. Era lamen­tável que tivesse desenvolvido uma certa lealdade por Spencer. Mes­mo assim, sua decisão era mais por causa de Adrianne. Esperaria e observaria, para descobrir o que ela fazia com as jóias e com quem.

Ele fechou o estojo, guardando-o na prateleira no alto do closet. Depois de decidir que era melhor renunciar ao jantar, Philip pegou uma almofada na sala, levou-a para o fundo do segundo closet, vazio, e acomodou-se para esperar.

ELE COCHILOU, MAS TINHA UM SONO LEVE, UMA CARACTERíS­tica de ladrões e heróis. Por isso, acordou quando ouviu a chave girar na fechadura. Levantou-se para observá-la através da fresta entre as portas do closet.

Adrianne parecia relaxada. Era outro fator que ele passara a observar, a oscilação de seus ânimos. A luz acesa incidia em suas costas quando se encaminhou para o quarto. Philip ouviu o baru­lho das roupas e imaginou-a tirando-as, embora isso lhe fizesse mais mal do que bem. Os cabides deslizaram pelo suporte, com um som metálico, quando ela pendurou tudo. Ao passar pela porta entre os dois cômodos, que deixara aberta, Adrianne usava uma camisola curta, aberta na frente. Philip pôde divisar a linha estreita de sua carne, do vale dos seios para baixo.

Ela se movimentava apressada, mas não como uma mulher que se prepara para dormir. Philip lamentou a parede que os separava quando ouviu o barulho de vidros na penteadeira.

Havia longos silêncios, o som de algum recipiente sendo aberto ou fechado, o ruído de água correndo. Depois, ele ouviu a porta da suíte ser aberta, devagar, e passos rápidos no corredor.

Philip esperou, cinco segundos, dez, antes de sair do closet. Na rampa, teve de fazer um esforço para se controlar, sem correr no encalço de Adrianne. Ao chegar lá embaixo, teve certeza de que a perdera. A única mulher que podia avistar ali tinha ombros largos, quadris saltados, cabelos louros frisados. Ele continuou a olhar ao redor, à procura de Adrianne. Abruptamente, seus olhos voltaram para a loura. Tudo tinha a ver com a maneira pela qual se movi­mentava, pensou Philip; e quase sorriu, enquanto a mulher atraves­sava o estacionamento.

Era mesmo Adrianne, mas ele duvidava de que estivesse a cami­nho de um baile à fantasia.

Enquanto ela seguia em seu carro para San Miguel, Philip man­teve-se a pouco mais de meio quilômetro atrás. Havia pouco tráfe­go, com um ou outro táxi vindo da cidade para o distrito dos ho­téis. À esquerda, o mar era escuro e calmo, as luzes coloridas de um navio de passageiros ornamentando a noite, como pedras preciosas. Muito em breve a meia-noite traria o Natal. As crianças já dor­miam, sonhando com a manhã seguinte. Os turistas prolongavam suas festas. Embora as lojas estivessem fechadas, ainda havia música nos bares e restaurantes.

Adrianne estacionou no outro lado da praça. A negociação deve­ria ser rápida. Queria acabar logo. Naquela noite, sentada no iate da prima, observando Duja com sua família, partilhando recordações da vida em Jaquir, ela decidira que os rubis seriam seu último traba­lho. Depois que transferisse o dinheiro e assentasse a poeira, partiria para o leste, ao encontro do lar de sua infância. E de O Sol e a Lua.

Havia uma festa na praça. Os embrulhos em papel colorido ainda não haviam sido arrebatados, assim como os brinquedos de ástico que caíram de uma pinata e se espalharam pelo chão. A cidade cheirava ao mar que a cercava. A lua era clara e branca, as estrelas tinham bastante fogo para faiscarem vermelhas ao redor. Por cima dela, as palmeiras sussurravam no ar quente e úmido, típi­co das ilhas.

Adrianne passou por uma viela. A música na praça tornou-se abafada. Outra volta e ele estava entre os estandes em que, durante dia, os comerciantes ofereciam suas mercadorias, tentando, a qualquer custo, vendê-las aos turistas. Quando os estandes estavam abertos, havia por toda parte objetos de couro elegantes, cintos, bolsas, sandálias. Caixas de jóias, com passarinhos esculpidos como alças, podiam ser vendidas por uns poucos milhares de pesos ou alguns dólares americanos. O coral negro, pelo qual a ilha era famosa­, poderia ser visto em incontáveis mostruários. Haveria peças de prata e conchas, vestidos de algodão cheios de bordados.

Agora, o local estava vazio, as mercadorias retiradas dos corredores estreitos e guardadas por trás de portas de garagem trancadas. Não haveria transações no Natal. Pelo menos não para os turistas.

Adrianne parou e esperou.

- Chegou na hora, senorita.

O homem saiu das sombras, baixo e magro, com marcas profundas no rosto, de acne ou catapora. Seu isqueiro, com incrustações de turquesa, brilhou quando ele acendeu um cigarro, mostran­do o franzido de uma cicatriz antiga no dorso da mão.

- Sempre chego na hora para tratar de negócios. - A voz tinha agora um sotaque do Texas. - Trouxe a quantia que combinamos?

- E você trouxe a mercadoria?

Adrianne sabia com qual tipo de homem estava lidando.

- Quero ver o dinheiro primeiro.

- Não há problema.

Ele tirou uma chave do bolso e levantou a porta de um estande, que subiu aos solavancos, com bastante barulho. Lá dentro havia uma porção de jóias de prata ordinárias, penduradas nas paredes e em balcões de vidro empoeirados. Recendia a fruta madura demais e tabaco antigo. O homem pegou uma mochila.

- Aqui tem 150 mil d6lares americanos. Meu patrocinador só queria pagar 100 mil, mas consegui persuadi-lo.

- Sorte dos dois. - Adrianne pôs uma luva cirúrgica, depois pegou uma bolsa na sacola pendurada no ombro. - Vai querer examinar as pedras, embora eu possa assegurar que são genuínas. - Claro que quero verificar. E você vai querer contar o dinhei­ro, embora eu possa lhe assegurar que está tudo aí.

- Tem toda razão.

Com a maior cautela, fitando-se nos olhos, eles trocaram a mo­chila e o saco. Adrianne folheou as notas. Pegou um pequeno apa­relho e passou por cima de uma nota de 50.

- As notas também são genuínas. Foi um prazer fechar negócio com você.

- O prazer foi todo meu. - O homem guardou a lupa e a bolsa com as jóias no bolso. De repente uma faca surgiu em sua mão e faiscou no escuro. - Quero o dinheiro de volta, señorita.

Adrianne olhou a faca. Depois, fitou o homem. Era sempre melhor observar seus olhos.

- É assim que seu patrocinador faz negócios?

- É assim que eu faço. Ele fica com o colar, eu fico com o dinheiro, e você, minha linda dama, fica com sua vida.

- E se eu não quiser entregar o dinheiro?

- Nesse caso, você perde sua vida, e ainda fico com o dinheiro. - Ele deu um passo à frente, a faca entre os dois. - Seria uma pena morrer sozinha no escuro, na Véspera de Natal.

Talvez fosse simples reflexo, seu instinto de sobrevivência. Ou talvez fossem as palavras do homem, trazendo de volta o horror da morte da mãe. Mas quando ele estendeu a mão para a mochila com o dinheiro, Adrianne ignorou a faca e levantou o pé, acertando um golpe entre suas pernas, com toda força. A faca caiu no chão, com o maior estardalhaço, segundos antes de o homem tombar.

- Desgraçado ... - murmurou ela, enquanto chutava a faca para longe. - Agora seu orgulho é tão pequeno quanto seu cére­bro, e igualmente inútil.

- Muito bem dito - comentou Philip, aproximando-se por trás.

Ele levantou uma das mãos quando Adrianne se virou. A outra mão empunhava um 38 de cano curto. Duvidava que fosse preci­sar, pois no momento o mensageiro vomitava em convulsões no concreto.

- Lembre-me de usar uma cueca reforçada quando me encon­trar de novo com você, querida. Agora, pegue a bolsa com as jóias e vamos embora.

- O que está fazendo aqui?

- Eu pretendia salvar sua vida, mas você mesma cuidou disso. As jóias, Addy. Prefiro não passar o Natal numa cadeia mexicana.

Ela pegou a bolsa e passou por ele.

- E eu prefiro que você vá para o inferno!

Philip puxou a trava de segurança antes de guardar o revólver no bolso.

- Neste ritmo, tenho certeza de que nos encontraremos lá, mais cedo ou mais tarde. Pessoalmente, eu gostaria de adiar esse momento. - Ele adiantou-se, segurou-a pelo braço e fez com que se virasse. - Perdeu o juízo ao vir até aqui sozinha, para se encon­trar com um homem assim?

- Sei exatamente o que faço, e como faço. Pode tentar me prender aqui e agora, mas farei com que pareça um idiota.

Ele avaliou-a por um momento. Mesmo por baixo da maquilagem, podia ver a mulher que conhecia.

- Creio que poderia mesmo. Vamos no meu carro.

- Prefiro ir no meu.

- Não pressione além da medida.

- Para onde vamos?

- Primeiro, voltaremos ao hotel, para que você possa se livrar dessa peruca ridícula. Faz com que pareça uma vagabunda.

- Muito obrigada.

- Depois, levaremos essas lindas pedras de volta ao lugar de onde saíram.

Já atravessavam o meio da praça quando Adrianne parou, des­vencilhou o braço com um movimento brusco e fitou-o, aturdida.

- Agora é você quem perdeu o juízo!

- Discutiremos isso mais tarde. Se não se incomoda, eu gostaria de estar a vários quilômetros de distância daqui antes de seu amigo se recuperar.

No instante em que ele a empurrou na direção de seu carro, o relógio na praça bateu meia-noite.

 

A viagem de volta a El Presidente não foi capaz de acalmá-la. Se possível, Adrianne sentia-se ainda mais furiosa quando entrou em seu quarto. Perder o controle era um fato ex­cepcional para uma mulher acostumada a conter qualquer sinal de seus verdadeiros sentimentos. Mas havia ocasiões - e havia pessoas - que exigiam exceções.

- Você é insuportável, Philip. Só me criou problemas desde a primeira vez em que o vi. Bisbilhotando, interferindo e me seguindo.

Ela arrancou a peruca e jogou-a na direção do sofá. Caiu no carpete, espalhafatosa como a tanga de uma dançarina de striptease.

- E esse é o agradecimento que recebo.

- Se está tentando, à sua maneira limitada, bancar o herói, devo dizer que detesto heróis.

- Levarei isso em consideração.

Ele fechou a porta da suíte, gentilmente. Sempre achara que havia poucas coisas mais fascinantes para observar do que uma mu­lher num acesso de raiva.

Depois de tirar das orelhas as argolas de ouro ordinárias, ela jogou-as contra a parede.

- E odeio os homens!

- Está certo.

Ainda fervendo de raiva, Adrianne começou a tirar as unhas postiças, largando-as no chão, em seu esplendor de loja de miudezas.

- E a você em particular!

- Sempre prefiro ser distinguido pelas mulheres bonitas.

- Não pode encontrar alguma coisa mais interessante para fazer do que se meter em meu trabalho?

- Não no momento. - Ele a observou soltar os cabelos. A marca de beleza que ela pintara no canto da boca não combinava com seu rosto, muito menos a sombra lavanda nos olhos. - Adri­anne, querida, o que fez com seu rosto?

Com um grunhido de frustração, ela foi para o quarto.

- Quer fazer o favor de ir embora? - pediu quando Philip foi atrás. - Tive um longo dia.

- Foi o que notei.

Farejou-a. O perfume de Rose - ou, agora, de Lara - tinha de desaparecer. Limitou-se a sorrir, quando ela o empurrou como se fosse uma mosca incômoda.

- Era sua prima a mulher com quem tomou drinques esta tarde?

Com os dentes rangendo, Adrianne começou a lavar a maquila­gem do rosto.

- Esteve me espionando. Não posso imaginar nada mais baixo.

- Então sua imaginação precisa de algum estímulo. Prefiro o biquíni vermelho, mas não se pode deixar de reconhecer que o azul, com aquelas pequenas estrelas, fica muito bem em você.

- Você é mesmo nojento. - Ela encostou os dedos no creme e começou a remover os vestígios de massa e cola de maquilagem. - Mas isso não me surpreende. O que você fez? Ficou sentado jun­to da janela com um binóculo?

Quando ele se limitou a sorrir, Adrianne passou a retirar os len­ços de papel, um a um.

- Você deve adorar seu trabalho.

- Teve seus momentos, ultimamente. Você é muito eficiente nisso.

O comentário foi feito quando ela removia os últimos vestígios de Lara do rosto.

- Fico contente que pense assim.

Com extrema habilidade, ela removeu as lentes de contato azuis. Philip surpreendeu-se pelo fato de não terem derretido pela fúria nos olhos.

- Agora, se me dá licença, eu gostaria de trocar de roupa.

- Querida, enquanto as jóias dos St. John estiverem em jogo, você não vai sair de minha vista. - Ele se acomodou no braço de uma poltrona. - Sugiro uma roupa preta. Pôr as jóias de volta no lugar exige as mesmas precauções tomadas para tirá-las.

- Não vou pôr jóia nenhuma de volta no lugar.

- Não, não vai. Eu farei isso, mas você terá de me acompanhar.

Adrianne arriou numa cadeira. Estava próxima do mau humor, um luxo que raramente se permitia.

- Por que deveria concordar?

- Por dois motivos. - Havia um buquê de flores laranja e vermelhas, já um pouco murchas, em cima de uma mesa. Philip pegou uma e aproximou-a do nariz. Preferia esse cheiro à água-de­colônia ordinária com que ela se encharcara. - O primeiro é que posso tornar as coisas muito desagradáveis para você se se recusar a cooperar.

Com um grunhido desdenhoso, ela arriou ainda mais na cadeira.

 - Estou morrendo de medo.

Philip lançou-lhe um olhar frio, que a fez ter vontade de se em­pertigar na cadeira. Em desafio, estendeu as pernas.

- O segundo - acrescentou ele - é que, se houver um gran­de roubo desse tipo aqui, não apenas não poderei protegê-la das conseqüências, mas também arruinaria a pista que inventei para afastar as investigações de você.

- Sobre o que está falando?

- Esta tarde, avisei a meus superiores que deveriam se preparar para um trabalho do Sombra em Paris.

Agora ela se inclinou para a frente.

- Por quê?

Philip cansara de ouvi-la fazer essa pergunta, assim como tam­bém cansara de fazê-la a si mesmo.

- Eu queria lhe dar uma oportunidade de explicar ... para mim.

Ela fitou-o em silêncio por mais tempo do que era confortável para qualquer dos dois. Depois, baixou os olhos para suas mãos.

- Não consigo entendê-lo.

Não era de admirar. Ele próprio não se entendia. Impaciente, Philip jogou a flor para o lado.

- Há tempo para isso mais tarde. Agora, eu agradeceria se você se apressasse. Quero resolver logo esse problema.

Adrianne continuou sentada por mais um momento. Teria sido mais fácil se ele gritasse, lançasse insultos e acusações. Em vez disso, calmamente, com lógica, Philip delineava o que precisava ser feito. E, de alguma forma, conseguira fazer com que ela sentisse que tinha uma obrigação.

- Não sabia que você estava na ilha.

- Não me conhece muito bem. Por enquanto. Mas eu a conheço melhor do que pode imaginar. Este hotel é sua escolha habi­tual quando vem para cá. - Ele ignorou o brilho súbito nos olhos de Adrianne. - As pessoas em nosso ofício são muito boas em pesquisa, Addy.

Sem deixar de observá-la, ele pegou outra flor e bateu-a na pal­ma de sua mão.

- Achei que era melhor, nas circunstâncias presentes, não par­ticipar das festas dos St. John, mas apenas me manter de olho em você, a distância. Imagine minha satisfação quando descobri que você também ocupava uma suíte aqui.

Philip descobrira muito mais. Ela podia aprender logo a de­testá-lo por isso.

- Sempre considerei os espiões como uma forma de vida inferior. Como cobras e vermes.

- Que jeito de falar ... depois de minha tentativa de bancar Sir Galahad.

- Não pedi que me prestasse favor nenhum.

- É verdade, não pediu.

- E tenho certeza de que não vou lhe agradecer por isso.

- Estou arrasado.

Deliberadamente, ela cruzou as pernas.

- É você quem fica metendo o nariz onde não é chamado, nem e necessário, ou apreciado. Tenho me dado muito bem sem você.

 - Quando está certa, alteza, está mesmo certa. O plebeu não merece mais do que a poeira soprada em seu rosto.

- Isso não tem nada a ver com posição social, e você não vai fazer com que eu me sinta culpada.

Mas isso já acontecia, pensou Philip ... e limitou-se a sorrir. Ela tamborilou com os dedos no braço da cadeira.

- Imagino que se eu não devolver as jóias, sua situação pode se tornar complicada.

- Por que pensa assim? É só porque fui ladrão durante quase 15 anos, depois mandei a Interpol voar para Paris, enquanto meio milhão de dólares em pedras eram roubados aqui durante minha permanência?

- Entendi seu argumento.

Adrianne levantou-se e foi pegar uma blusa e uma calça com­prida pretas na cômoda. Philip tirou um cigarro do maço.

- Se é tímida, pode trocar de roupa no closet.

- Um cavalheiro até o fim - murmurou ela, enquanto se encaminhava para o closet.

- Enquanto esperamos, você pode me dar a disposição.

Cabides faziam barulho, enquanto ela se livrara das roupas de Lara.

- Não tenho de lhe dar coisa nenhuma.

- Talvez eu devesse entrar e lhe dar uma ajuda, enquanto con­versamos a respeito.

Adrianne partiu ao meio um cabide de plástico.

- Eles têm uma suíte no último andar. Quatro cômodos, dois banheiros. Há um cofre no closet do quarto de vestir. Abre com uma chave.

- Que você tem.

-Claro.

- Muito conveniente. E a entrada?

No closet, Adrianne tirou os cabelos da gola da blusa. Não eram as jóias que importavam, ela lembrou a si mesma. Era o dinheiro. E como já tinha o dinheiro, podia cooperar.

- Usei o plano B esta tarde porque queria jantar com minha prima e sua família. Uniforme de criada, carrinho com roupa de cama e banho. Os St. John recebiam a imprensa num coquetel.

Ela mesma roubara as jóias. Intrigado, Philip largou a flor e começou a andar de um lado para outro.

- Algum problema?

- Nada que eu não pudesse controlar. Lauren apareceu no momento em que eu terminava, mas ela nunca olha duas vezes para uma criada.

- Você é mesmo incrível.

- Isso é um elogio?

Adrianne saiu do closet.

- Uma observação. Como as criadas não arrumam os quartos a essa hora da noite, seu plano B seria um pouco difícil. Qual é o plano A?

Com alguns movimentos rápidos das mãos, ela prendeu os cabelos numa faixa.

- Através dos tubos de ventilação. São estreitos, mas adequa­dos. Há aberturas no teto dos banheiros. - Ela fez um estudo rápi­do e desinteressado do corpo de Philip. - Um pouco apertado para você.

- Sempre preferi assim.

Ele tirou o revólver do bolso.

- O que está fazendo?

Philip notou que não havia medo na voz de Adrianne, embora considerasse que um 38 de cano curto era, sem dúvida, uma visão desagradável. Também não havia a repulsa que muitas mulheres demonstravam ao verem uma arma fabricada basicamente para matar.

- Não vou armado para um trabalho.

Philip abriu a gaveta de uma mesa e largou a arma lá dentro.

- Muito esperto. - Adrianne deu de ombros. - O assalto à mão armada tem uma pena mais rigorosa.

- Mais rigorosa? Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de ir para a prisão. Apenas não queria ter sangue em minhas pedras.

Adrianne tornou a analisá-lo, com mais interesse. Não era arro­gância, concluiu ela. Philip falava sério.

- Se vamos fazer isso, eu gostaria que fosse o mais depressa possível.

Philip sabia exatamente como ela se sentia. Pegou o colar, dei­xando as pedras cintilarem em suas mãos.

- Não são lindas? Sempre dei preferência a diamantes, mas não se pode negar que há uma certa elegância nas pedras coloridas. Imagino que examinou estas pedras.

- Claro. - Adrianne hesitou por um instante, mas depois acrescentou, porque sabia como era ter fortunas e sonhos nas mãos: - Gostaria de dar uma olhada? Pode usar minha lupa.

Era tentador. Tentador demais.

- Não vale a pena neste caso. - Com algum pesar, Philip tor­nou a guardar as jóias na bolsa, passando a tratar dos aspectos práti­cos da operação. - Precisaremos de uma lanterna, luvas extras ... e a chave, é claro.

Adrianne pegou os equipamentos.

- Não era assim que eu tencionava passar a noite.

- Pense como um presente de Natal para os St. John.

- Eles não merecem. O homem é um idiota e a mulher uma oportunista mercenária.

Philip guardou a chave no bolso fundo da calça.

- Pessoas com telhado de vidro.

Ele pegou o braço de Adrianne e deixaram a suíte.

Havia uma entrada lateral em EI Grande. Era mais uma entrada de serviço, descendo-se por alguns degraus de concreto. Dessa maneira, os empregados e técnicos de manutenção podiam entrar no hotel sem passarem pelo elegante saguão.

A caçamba de metal para o lixo ficava a poucos passos de dis­tância. Era fechada, o que não continha o mau cheiro, agravado pelo calor, o qual era espalhado pela brisa com bastante intensidade para deixar os olhos lacrimejando.

- Quase tão sedutor quanto o perfume de Rose - comentou Philip. - Você tem um quarto aqui. Por que não seguir as tubula­ções de lá?

- Escolhi este caminho porque há muitas oportunidades em El Grande neste momento. É bem possível que ocorram outros roubos. Se e quando houver uma investigação, prefiro que come­cem daqui, não lá de dentro.

- Uma medida de prevenção?

Ele examinou os instrumentos que Adrianne lhe entregou.

- Muito bom. Aço cirúrgico?

-Claro.

- Com licença.

Ele escolheu uma gazua e pôs-se a trabalhar na fechadura. Adrianne olhava por cima de seu ombro. Ele quase que sentiu a fechadura abrir, o ouvido inclinado, os dedos se movimentando com a delicadeza de um virtuose no violino. Ela sempre se conside­rara uma excelente serralheira, mas tinha de admitir, pelo menos para si mesma, que Philip era melhor.

- Há quanto tempo você está fora da atividade?

- Cinco anos. Quase isso.

Ele devolveu a gazua, antes de empurrar a porta aberta.

- Não perdeu o toque.

-Obrigado.

Juntos, eles entraram nas profundezas do hotel. O lugar era úmido e fedia, mas ainda assim constituía um alívio depois do lixo lá fora. Adrianne iluminou com a lanterna o chão e as paredes de concreto. Alguém pusera numa parede um cartaz que ela presumiu ser de uma artista popular mexicana. Havia umas poucas cadeiras espalhadas aqui e ali, mas davam a impressão de que não proporcio­navam muito conforto. As lâmpadas por cima não tinham qualquer proteção.

- Era de pensar que ele poderia canalizar um pouco de seus lucros para levar as condições de trabalho ao século XX - comen­tou Adrianne, enquanto observava um lagarto correndo por uma parede.

- Conversaremos mais tarde sobre a dívida dos St. John com a sociedade. Qual é o caminho?

Quando ela apontou, Philip atravessou a sala. Percorreu um pequeno corredor para uma vasta área de serviço. Ali, os boilers zumbiam sem parar, esquentando a água. O imenso sistema de ar condicionado central fez com que Philip pensasse em geada nas janelas de sua casa em Oxfordshire, onde o Natal proporcionava toda a sensação de Natal. O rosto franzido, ele analisou os dutos. Adrianne acertara ao dizer que eram apertados.

- Você me dá um calço. Eu seguirei na frente.

Ele estendeu a mão para a lanterna. Adrianne pensava nas pre­cárias condições de trabalho na sala ao lado. A economia mexicana estava em desordem, e seu povo lutava com dificuldades. Ela podia revender as jóias dos St. John e canalizar os lucros através das obras de caridade católicas.

- Seria ótimo se você reconsiderasse. Eu poderia encontrar usos muito melhores para as pedras do que adornar o pescoço de Lauren. Dividiríamos sessenta-quarenta.

- Sessenta-quarenta?

- Fiz todo o trabalho, Philip. É uma divisão mais do que justa.

Ele gostaria que Adrianne não tivesse feito a sugestão ... e gosta­ria muito. Tornava a situação ainda mais difícil para um homem que nascera para tomar, não para devolver. Não era tanto pelo dinheiro, mas sim por uma questão de princípio. Infelizmente, de­senvolvera outros princípios, ao longo dos últimos anos. Um reco­nhecimento que serviu para esfriá-lo. Pensou em Spencer, sentado por trás de sua escrivaninha, fumando o cachimbo.

- A lanterna - repetiu Philip.

 Ela a entregou, dando de ombros.

- Minha proposta é muito melhor, mas vamos fazer como você quer.

- Disse que a suíte é no último andar. E a posição do quarto?

- O último no lado oeste. No canto do prédio.

- Tem uma bússola?

- Não. - Adrianne sorriu. - Não sabe para que lado é oeste?

Era preciso dizer alguma coisa para salvar a dignidade britânica.

- Sempre usei uma bússola.

Ainda sorrindo, Adrianne juntou as mãos, entrelaçando os dedos.

- Vamos embora, querido. Eu o levarei até lá.

Ele ignorou a zombaria e pôs o pé nas mãos entrelaçadas. Qua­se antes mesmo que ela pudesse sentir o peso, Philip já estava no ar, entrando no duto com a maior agilidade. Depois de algumas im­precações, ele conseguiu se virar e estendeu as mãos para Adrianne. Ela as pegou. Os dedos se entrelaçaram, firmes. Por um momento, os olhos se encontraram. Depois, ela foi suspensa para o duto.

De quatro, Philip deslocou o facho da lanterna de um lado para outro. Era como estar dentro de um caixão de metal.

- A julgar pela aparência, é uma sorte eu não ter feito a ceia de Natal.

- É bem estreito nas voltas - comentou Adrianne, com algu­ma satisfação. - Talvez devêssemos ter trazido um pouco de sebo para ajudar na sua passagem.

Não havia espaço para girar e fitá-la de cara amarrada.

- Com um pouco de tempo, eu poderia bolar um plano muito mais sofisticado.

- Tenho todo o tempo do mundo.

Philip limitou-se a respirar fundo.

- Fique perto de mim. Temos um longo caminho a percorrer. Foi uma viagem longa e desconfortável. Mais de uma vez, o túnel de folhas de metal estreitava-se tanto que Philip tinha de se espremer e se contorcer, como uma cobra se entocando sob uma pedra. Metro a metro, eles foram deslizando, de barriga para baixo, distribuindo o peso. A jornada tinha de ser realizada em silêncio quase total. Quando passavam por aberturas, ouviam vozes, risos, de vez em quando o barulho de água correndo, numa torneira ou chuveiro.

Houve uma ocasião em que Adrianne teve de ficar deitada de bruços em total imobilidade, quando um hóspede do quarto andar entrou no banheiro para gargarejar. Se o número 442 abrisse os olhos ao inclinar a cabeça para trás, gargarejando com o desinfetan­te bucal, sabor de menta, teria uma surpresa e tanto.

Ela teve de reprimir o riso quando subiram para o andar seguin­te. Sempre que os dutos se bifurcavam, ela puxava um pé de Philip, para orientá-lo. Em sua mente, ela realizara aquela viagem uma dúzia de vezes. Trinta extenuantes minutos mais tarde, eles olhavam para o banheiro cor-de-rosa dos St. Johns.

- Tem certeza? - sussurrou Philip.

- Claro que tenho.

- Seria antiprofissional pôr as jóias no cofre de outra pessoa.

- Já disse que tenho certeza - insistiu Adrianne. - Está vendo aquele roupão horrível, com desenhos de pavão, pendurado atrás da porta?

Ele teve de dobrar os joelhos contra o peito para dar uma olhada.

 -E daí?

- Dei a Lauren como presente de aniversário.

Philip observou o roupão.

- Não gosta nem um pouco dela, não é?

- Ela intimida os criados, manda embora por qualquer capri­cho, e nos três anos em que a conheço nunca deixou uma gorjeta num restaurante. - Adrianne entregou-lhe uma pequena chave de fenda. - Quer fazer isso?

Por um momento, ele apenas se sentou. Depois, como se fosse uma súbita idéia, limpou um pouco da poeira que se acumulara no rosto de Adrianne.

- Por que você não vai na frente?

Ela deu de ombros. Desatarraxou os parafusos num instante, sem fazer qualquer barulho. Depois que os parafusos e a chave de fenda estavam guardados em seu bolso, Philip removeu a grade. Ainda remoía o que ela dissera. Que diferença podia fazer para Adrianne o modo como Lauren St. John tratava os criados? Mas aquele não era o momento para pensar sobre isso, decidiu ele, en­quanto punha a grade de lado.

- Espere aqui - murmurou Philip.

- Vou com você.

- Não há necessidade.

Adrianne pôs a mão no braço de Philip.

- Como poderei ter certeza de que você devolveu as jóias?

- Ora, pelo amor de Deus!

Irritado, ele passou pela abertura. Adrianne seguiu-o segundos depois, também sem fazer qualquer barulho. Ele ergueu os braços, num gesto automático, para segurá-la pela cintura, a fim de amor­tecer a descida final. Quando suas mãos a seguraram, Philip teve um momento para pensar que havia outras maneiras preferíveis para passar a noite.

Os dois deram um passo à frente... quando um som inesperado fez com que recuassem. Levaram apenas um instante para registra­rem o que era. Adrianne teve de cobrir o rosto com as mãos e rezar para não desatar a rir.

Ao que parecia, os St. John aproveitavam as primeiras horas da manhã de Natal para se entregarem à paixão. As molas da cama ran­giam. Lauren gemia. Charlie ofegava.

- Não vamos incomodá-los - sussurrou Philip, enquanto se fundia no corredor como uma sombra.

Os sons no quarto adjacente subiam e desciam quando eles se ajoelharam ao lado do cofre. Pela intensidade, Philip imaginou que poderiam invadir a suíte como fuzileiros, explodir o cofre com pias­tique e sair correndo, sem interromper o ritmo do casal. Era difícil não admirar o vigor de Charlie ao ouvir algumas das exigências estridentes de Lauren.

Dentro das luvas cirúrgicas finas, as palmas de Philip começa­ram a suar, não por nervosismo, mas por inveja, enquanto Lauren gritava e gemia, os movimentos arrebatados sempre intensos. Ele pegou a lanterna quando o facho começou a balançar, pela risada silenciosa de Adrianne sacudindo todo o corpo.

- Trate de se controlar - sussurrou ele, irritado.

- Desculpe. Mas não pude deixar de imaginar Charlie nu.

- Por favor, não de barriga vazia.

Ele encontrou a caixa das jóias que Adrianne deixara no cofre.

Ajeitou os rubis e diamantes cintilantes lá dentro. Devolver as jóias doía mais do que apenas um pouco, pensou ele. No instante se­guinte, teve de fazer o maior esforço para não suspirar, quando o gemido de Lauren elevou-se para um ganido, e Adrianne compri­miu a coxa contra a sua. Philip ergueu-se, empurrando-a para o corredor e o banheiro.

- Vamos subir.

O tom era bastante brusco para fazê-la erguer o queixo.

- Você sabe como acabar com a diversão.

Ela subiu no assento do vaso e passou pelo buraco. Philip estava com metade do corpo na abertura quando soaram passos no corre­dor. Com um novo impulso, ele de projetou para o duto, no ins­tante em que a porta foi aberta.

- Santo Deus!

Era a voz de Charlie, exausto, enquanto se apoiava na pia e afas­tava os cabelos ralos do rosto. Lá em cima, Adrianne e Philip fica­ram imóveis, como estátuas de pedra. Ele serviu-se de água e bebeu como um homem agonizante. Philip apenas observou, enquanto ele apoiava uma das mãos na parede e esvaziava a bexiga. Os cheiros de sexo e urina subiram para o duto. A voz de Lauren veio do quar­to, queixosa:

- Volte para a cama, Charlie. Tenho outro presente para você.

 Nu, barrigudo, muito além da mocidade, ele balançou a cabeça.

- Em nome de Deus, mulher, não sou um coelho!

Mas ele falou baixinho, antes de apagar a luz e voltar para o quarto, a fim de fazer o melhor que pudesse.

Com os braços apertando a própria cintura, Adrianne balançava para a frente e para trás. Valia a pena a perda das jóias ... ou quase.

- Tente manter a dignidade, alteza - murmurou Philip, en­quanto ajeitava a grade no lugar. - Vamos sair daqui.

 

NÃO ERA A MESMA EXULTAÇÃO QUE DERNAVA DE TlRAR ALGU­ma coisa de um cofre, mas era próxima disso. Pela primeira vez, Adrianne usara os movimentos, os pensamentos e as habilidades com um parceiro. O riso que fora obrigada a reprimir, durante a longa viagem de volta através dos dutos, aflorou agora, durante o percurso para EI Presidente. Não parou nem mesmo quando Philip seguiu-a para a suíte.

- Incrível, simplesmente incrível... - Ela arriou numa cadei­ra, esparramada, relaxada, o rosto radiante. Era um lado seu que Philip ainda não vira. Depois de tirar os sapatos, ela sorriu. - Foi tão incrível que quase não estou mais furiosa com você.

- Nesse caso, posso dormir aqui esta noite.

- Você fica sempre maluco depois de um trabalho?

Ele estava mesmo excitado. Fora um erro deixar que ela seguisse na frente na saída dos duros. Rastejara atrás, fascinado pela visão de uma bunda espetacular, ressaltada pela calça justa. Incapaz de se sentar, Philip foi até a janela e voltou.

- Perdi o jantar, esperando para ver o que você fazia.

- Ahn ... - Não havia muita simpatia no murmúrio. - Não há serviço de quarto a esta hora. Só tenho uma barra de chocolate.

- Pode me dar.

Por se sentir muito bem para ser descortês, Adrianne pegou a barra de chocolate em uma de suas malas e jogou-a para ele.

- Ainda tenho um pouco de vinho.

Philip rasgou o invólucro da barra de chocolate Hershey, muito fina.

- Não tem nozes.

- Não gosto de nozes.

- Provou isso quando acertou com o pé entre as pernas de seu amigo esta noite.

Era um jogo de palavras, pois nuts em inglês, que significa nozes, também era a gíria para testículos.

- Um trocadilho de mau gosto. - Ela serviu o vinho em dois copos e levou um para Philip. - No fundo, não devo sentir tanta raiva. Ainda estou com o dinheiro.

Philip segurou-a pelo pulso, antes que ela pudesse se sentar de novo.

- O dinheiro é tão importante?

Adrianne pensou no centro para vítimas de abuso que escolhera para sua doação.

-É sim.

Ele largou-a e recomeçou a andar de um lado para outro.

- O que você ganha com isso, Addy? Ele lhe dá alguns milha­res de dólares de vez em quando? Tem alguma dívida com ele? Está apaixonada? A dívida ou o amor devem ser imensos, pois até onde posso saber ele não corre nenhum risco, e já você se expõe ao perigo em cada trabalho.

Ela tomou um gole do vinho, enquanto observava Philip andar pelo quarto. Como uma pantera, comparou ela. Sempre andando de um lado para outro de sua jaula, irrequieto.

- Quem é “ele”.

- Você é que tem de dizer.

Philip virou-se para ela, num movimento brusco. Nenhum dos dois percebera como a paciência e o controle dele estavam na imi­nência de se esgotar. Era fácil demais reconhecer o ciúme que Philip sentia, profundo e assustador. E não tinha condições de espera.: mais uma hora para descobrir de quem tinha ciúme.

- Quero saber quem é ele, por que você se apaixonou por ele e por que o ajuda a roubar.

Ela o observou pegar um cigarro e jogar o maço em cima de uma mesa, antes de dizer:

- Não ajudo ninguém a roubar.

-Já cansei de jogos por uma noite.

-Já disse antes que faço isso por opção minha.

- Também disse que faz por causa de um homem.

- E é verdade, mas não da maneira como você está pensando. Não há nenhum homem me chantageando, pagando ou dormindo comigo. - Adrianne tornou a se sentar. Recostou-se. - Trabalho sozinha, por mim mesma. Não tenho parceiro, e não tenho nenhu­ma dívida para pagar.

Ele soprou a fumaça, lentamente. Deu de ombros, como se "­impaciência fosse uma mão incômoda em seu ombro e da qual pre­cisava se livrar. Em seu lugar, afloraram o interesse e a curiosidade.

 - Está tentando me fazer acreditar que você, você sozinha, é a única responsável pelo roubo de milhões de libras em pedras pre­ciosas, ao longo dos últimos nove ou dez anos?

- Não estou tentando fazer você acreditar em coisa alguma. Pediu a verdade e decidi oferecê-la. - Ela franziu o rosto, contem­plando o vinho, pensativa. - No fundo, não importa, porque você não tem qualquer prova. Além do mais, seus superiores pensariam que é louco. De qualquer forma, eu já havia decidido que este tra­balho seria o último nesta fase da minha carreira.

- Tudo isso é um absurdo. Você teria de ser uma criança quan­do começou.

- Tinha 16 anos quando comecei. - Quando Philip fitou-a aturdido, ela acrescentou: - Era muito inexperiente, mas aprendi depressa.

- Por que começou?

O sorriso de Adrianne desapareceu. Ela largou o copo com vinho, o vidro retinindo na mesa.

- Isso não é da sua conta.

- Já passamos desse ponto, Adrianne.

- Essa é minha vida particular.

- Não tem mais uma vida particular que não me inclua.

- Uma suposição muito grande, Philip. - Adrianne levantou-se, fitando-o. Quando havia necessidade, podia ser tão altiva e real quanto seu título. - Não que não tenha sido uma noite diver­tida, mas preciso dizer boa noite. Estou exausta.

- Durma até tarde amanhã. Ainda não acabamos. - Ele olhou para o relógio. - Preciso dar um telefonema antes de continuarmos. Tenho um amigo em Paris que pode criar o espetáculo necessário para manter a Interpol ocupada por um ou dois dias.

Sem pedir permissão, Philip passou pela porta, para usar o tele­fone no quarto. Quando voltou, Adrianne estava dormindo.

Ele contemplou-a, enroscada no sofá, uma das mãos sob a cabe­ça, como travesseiro, a outra aberta ao seu lado. Os cabelos cobriam seu rosto. Quando Philip os empurrou para trás, a respiração de Adrianne permaneceu lenta e regular. Ela não parecia fria ou altiva agora, mas sim jovem e vulnerável. Ele sabia que deveria acordá-la, sabia que deveria interrogá-la agora, enquanto suas defesas estavam arriadas. Em vez disso, apagou a luz e deixou-a dormir.

o DIA ESTAVA QUASE AMANHECENDO QUANDO ELE A OUVIU. A claridade era suave, e o cinza que antecedia o amanhecer seria transformado em breve, pela força do sol, em branco e brilhante. Philip estava estendido na cama, os sapatos e a camisa largados no chão, em desleixo. Ele acordou no mesmo instante, orientado, mas sentou-se na cama antes de compreender que não fora a claridade que o despertara, mas os soluços.

Foi para a sala e viu-a no sofá, toda encolhida, como se fosse uma defesa contra um ataque ou em dor intensa. Foi só quando se agachou a seu lado, erguendo a mão para o rosto molhado, que ele percebeu que Adrianne ainda dormia.

- Addy ... - Ele sacudiu-a, gentilmente a princípio, depois com mais vigor quando ela tentou repeli-lo. - Acorde, Addy.

Ela estremeceu violentamente, como se tivesse levado um tapa, comprimindo-se contra a almofada, os olhos arregalados e apavora­dos. Philip continuou a murmurar, embora algum instinto o adver­tisse que era melhor não abraçá-la. Pouco a pouco, o olhar vidrado foi se desvanecendo e ele viu-lhe a angústia.

- Um pesadelo ... - murmurou ele ao pegar-lhe a mão.

A mão dela tremeu, e só por um momento, apenas por um momento, Adrianne apertou seus dedos.

- Vou buscar água - acrescentou Philip.

Havia uma garrafa de água ainda fechada no balcão do banhei­ro. Ele a observou enquanto abria a garrafa e a despejava num copo. Sem fazer barulho, ela levantou os joelhos para o peito e encostou a testa. A náusea agitou seu estômago, enquanto respirava fundo, várias vezes, lutando para manter o equilíbrio.

-Obrigada.

Adrianne pegou o copo, firmando-o com as duas mãos. A humilhação se tornou mais intensa, à medida que a angústia arrefe­cia. Ela não disse nada, apenas desejou que ele fosse embora, e a deixasse recolher os farrapos de seu orgulho.

Mas quando Philip se sentou a seu lado, teve de fazer um esfor­ço para reprimir o impulso de virar-se para ele, encostar a cabeça em seu ombro e se deixar confortar.

- Fale comigo.

- Foi apenas um pesadelo, como você disse.

- Está sofrendo. - Philip tocou em seu rosto. Desta vez ela não se afastou, apenas fechou os olhos. - Você fala, eu escuto. - Não preciso de ninguém.

- Não vou embora enquanto não falar comigo.

Adrianne olhou para a água em seu copo. Não era gelada, não tinha gosto, não proporcionava qualquer conforto ao estômago em­brulhado.

- Minha mãe morreu no dia de Natal. Agora, por favor, deixe­-me sozinha.

Sem dizer nada, Philip tirou o copo de sua mão e pôs na mesi­nha. Abraçou-a. Adrianne se contraiu, tentou se desvencilhar, mas ele ignorou sua reação. Em vez de oferecer palavras de compaixão, que ela teria odiado, Philip apenas afagou seus cabelos. A respiração saiu em meio soluço, meio suspiro, enquanto o corpo relaxava con­tra ele.

- Por que está fazendo isso?

- Minha boa ação do dia. Conte-me tudo.

Adrianne nunca falara a respeito. Era difícil demais. Mas agora, com os olhos fechados e o ombro de Philip acomodando sua cabe­ça, as palavras saíram.

- Encontrei-a pouco antes do amanhecer. Não havia caído. Era como se estivesse fraca demais para ficar em pé e simplesmente arriou no chão. A impressão era a de que podia ter rastejado em busca de ajuda. Talvez tenha me chamado, mas não ouvi.

Inconscientemente, ela pusera a mão no ombro de Philip. Os dedos abriam e fechavam, abriam e fechavam...

- Talvez você tenha ouvido as histórias. Suicídio. - Havia uma certa vibração na palavra, como se pronunciá-la fizesse sua boca doer. - Mas sei que não foi. Ela estava doente há bastante tempo. Sentia muita dor. Apenas procurava um pouco de paz, uma noite tranqüila. Nunca teria se matado daquela maneira, sabendo que eu... sabendo que eu a encontraria.

Philip continuou a afagar seus cabelos. Conhecia a história, o escândalo. Ainda aflorava de vez em quando, assumindo qualidades misteriosas.

- Você a conhecia melhor do que ninguém.

Adrianne recuou para contemplá-lo nesse momento, para exa­minar seu rosto, antes de deixar a cabeça pender-lhe de novo para o ombro. Nunca alguém fizera um comentário que a acalmasse tanto.

- É verdade, eu a conhecia. Ela era gentil e afetuosa. E simples. Ninguém realmente compreendia que o glamour pertencia à atriz, mas não à mulher. E confiava nas pessoas... nas pessoas erra­das. Foi o que a matou, no final.

- Seu pai?

Ele ia fundo, com um corte tão cirúrgico que Adrianne só sen­tiu a dor depois que sangrou.

- Ele a destruiu. - Adrianne levantou-se, passou os braços em torno do corpo, começou a andar de um lado para outro. ­Pouco a pouco, dia a dia. E gostava.

Não havia fraqueza agora. A voz soava tão firme quanto os sinos na praça anunciando o Natal, mas sem a alegria natalina.

- Ele casou com a mulher que era considerada a mais linda de seu tempo. Uma ocidental. Uma atriz que os homens consideravam uma deusa. Mamãe apaixonou-se por ele. Renunciou à carreira, a seu país, sua cultura. E meu pai tratou de destruí-la, porque mamãe era tudo o que ele queria e tudo o que ele desprezava.

Adrianne foi até a janela. O sol firmava-se cada vez mais, proje­tando diamantes sobre as águas claras. Não havia ninguém na praia.

- Ela não compreendia a crueldade. Não tinha nenhuma. Houve muitas coisas que só entendi anos depois, quando ela come­çou a falar, em desespero e confusão. Em Jaquir, ela falava sempre comigo, porque não havia mais ninguém com quem pudesse con­versar.

- Por que ela não o deixou mais cedo?

- Você teria de compreender Jaquir e minha mãe. Ela o amava. Mesmo depois que ele tomou outra esposa, porque mamãe o desagradara ao dar à luz uma menina, ela continuou amando-a. Meu pai a insultou e humilhou, mas mesmo assim continuou a amá-la. Passava os dias enclausurada no harém, enquanto a segunda esposa estufava com um menino. Ainda assim, ela o amava. Me pai a espancava, e ela aceitava. Não podia ter mais filhos, e se culpa­va por isso. Durante quase dez anos, ela permaneceu ali, de véu maltratada, enquanto meu pai destruía sua confiança, seu ego, se" auto-respeito. Os danos eram profundos, mas ela resistia. Por mim. Poderia ir embora, escapar, mas pensava primeiro em mim.

Adrianne respirou fundo. Olhou sem ver para a areia banhada do sol.

- Tudo o que ela fez e tudo o que não fez foi pelo meu bem­-estar.

- Ela a amava.

- Talvez mais do que deveria, mais do que era bom para ela. Permaneceu com ele ano após ano porque não queria me deixar. E meu pai a espancava. Humilhava. Estuprava. Só Deus sabe quantas vezes ele a estuprou. Em uma ocasião eu estava presente, encolhida debaixo da cama, com as mãos nos ouvidos, tentando bloquear os sons. E odiando-o.

Os olhos de Philip faiscaram ao ouvir isso. A compaixão sentida até aquele momento transformou-se numa raiva intensa. Adrianne era apenas uma criança. Ele fez menção de falar, mas depois se conteve. Não havia nada que pudesse dizer para atenuar aquela dor.

- Não sei se ela conseguiria ter coragem para ir embora. Até o dia em que, quando eu tinha oito anos, Abdu anunciou que me mandaria para uma escola na Alemanha. E que eu ficaria noiva do lho de um aliado.

- Aos oito anos?

- O casamento só ocorreria quando eu fizesse 15 anos. Mas o noivado era uma boa manobra política, ainda devia ter alguma coisa da atriz. Mamãe aceitou a decisão, até parecia satisfeita. E persuadiu-o a deixar que eu os acompanhasse numa viagem a Paris, para me mostrar um pouco do mundo. Para eu ser uma boa esposa, precisava saber como as pessoas se comportavam fora de Jaquir. Ela o convenceu de que estava muito satisfeita com seu interesse pelo meu bem-estar, que aprovava o casamento contratado. Não é inco­mum para uma mulher de meu país casar aos 15 anos.

- Quer queiram ou não?

Adrianne não pôde deixar de sorrir. Ele falava como um britâ­nico.

- Os casamentos ainda são arranjados em Jaquir, desde a filha do camponês à filha do rei. O propósito é fortalecer a tribo e legiti­mar o sexo. Amor e escolha não têm nada a ver com isso.

A luz começava a mudar. Ela viu um rapaz, coberto de areia, cambalear pela beira da praia.

- Quando estávamos em Paris, mamãe conseguiu fazer conta­to com Celeste. E Celeste providenciou as passagens para Nova York. Abdu cultivava uma imagem de progressista fora de Jaquir. Por isso, tivemos permissão para fazer compras e ir a museus. Ma­mãe podia sair na rua com os cabelos soltos, sem usar o véu. Des­pistamos os seguranças no Louvre e fugimos.

Adrianne comprimiu as palmas das mãos contra os olhos. Esta­vam inchados e doloridos. A intensa claridade do sol fazia com que doessem ainda mais.

- Ela nunca mais voltou a ficar bem ... e nunca deixou de amá­-lo . - Adrianne baixou as mãos para os lados do corpo, antes de se virar. - Ensinou-me que uma mulher sempre perde quando se permite amar. Ensinou-me que, para sobreviver, a pessoa tem de contar com ela própria, em primeiro e último lugar.

- Deveria ter lhe ensinado também que às vezes o amor não tem um limite.

Adrianne sentiu um súbito calafrio subir pelos braços. Os olhos de Philip eram calmos, firmes. Havia alguma coisa naqueles olhos que ela não queria ver, assim como não queria analisar por que con­tara a Philip mais do que jamais revelara a qualquer outra pessoa.

- Quero tomar um banho - declarou ela, em tom brusco. Levantou-se e passou por ele. Alguma coisa a fez hesitar antes de fechar a porta do quarto.

 

Ela pensou que Philip havia ido embora. Demorou no chu­veiro, deixando que a água quente escorresse por seu corpo. A dor de cabeça lancinante que sentira antes diminuiu para uma pulsação, que ela sabia que poderia ser eliminada com duas aspirinas. Porque a acalmava, passou um creme perfumado no cor­po. Vestiu um roupão largo, com a intenção de deitar numa chaise longue na varanda e deixar os cabelos secarem ao sol.

A praia esperaria. Naquela manhã seria melhor ficar sozinha, sem os garçons solícitos para cuidar de sua sede, e sem os turistas mergulhando, gritando ou tostando nas proximidades. Sempre pas­sava a manhã de Natal sozinha, evitando os amigos bem-inten­cionados e as obrigações sociais. As lembranças do último Natal da mãe já não eram tão angustiantes, mas ela ainda não podia suportar a visão de azevinho e bolas coloridas.

Todos os anos, desde o primeiro Natal na América. Phoebe sempre punha um anjo branco no alto da árvore, com exceção do último, quando se descobrira no fundo do túnel escuro para o qual fora sugada.

Adrianne considerava a doença da mãe dessa maneira: um tú­nel, escuro e profundo, com centenas de esquinas falsas e becos sem saída. Era melhor ter essa visão tangível do que o frio conforto de todos os termos técnicos nas dezenas de livros sobre comportamen­to anormal em que estudara. Melhor ainda do que todos os diag­nósticos e prognósticos que recebera, em salas recendendo a couro, de médicos proeminentes.

Fora o túnel que atraíra a mãe mais para o fundo, à medida que o tempo passava. Ao longo dos anos, Phoebe sempre fora capaz de encontrar a saída. Até que se sentira cansada demais, ou até que a escuridão parecia mais fácil do que a luz.

Talvez o tempo a curasse, mas não a fazia esquecer.

Adrianne sentia-se melhor por ter traduzido seus sentimentos em palavras, embora já lamentasse ter revelado tanta coisa a Philip. Disse a si mesma que não importava, que em breve seguiriam por caminhos separados. Tudo o que ela dissera, tudo o que partilhara, significaria bem pouco à medida que o tempo passasse. Se ele fosse gentil onde não se esperava a gentileza, não podia ter importância. Se ela desejasse onde o desejo nunca podia existir, daria um jeito de superar. Cuidara de si mesma por muito tempo, guardara suas emo­ções com todo cuidado, para permitir que Philip fizesse uma dife­rença agora.

Dali por diante, cada pensamento, cada sentimento, tudo tinha de se concentrar em Jaquir... e na sua vingança.

Mas quando ela abriu a porta para a sala, descobriu que Philip continuava ali, sem camisa, descalço, falando num espanhol sur­preendentemente fluente com um garçom de uniforme branco e rosto liso. Observou Philip entregar algumas notas... o suficiente, ao que parecia, para deixar o jovem contente por estar trabalhando, mesmo sendo um feriado.

- Buenos dias, senora. Feliz Natal.

Adrianne não se deu ao trabalho de corrigir a suposição sobre seu relacionamento com Philip ou o fato de que o Natal não era feliz para ela há muito tempo. Em vez disso, ela sorriu, agradando o garçom quase tanto quanto os pesos que ele já tinha no bolso.

- Buenos dias. Pelices Navidad.

Adrianne cruzou as mãos, esperando pelo barulho da porta batendo, e perguntou, assim que ficaram a sós:

- Por que você ainda está aqui?

- Porque tenho fome.

Philip saiu para a varanda e sentou-se. Obviamente à vontade, serviu-se de café. Havia meios e meios de se conquistar a confiança, pensou ele. Com uma ave com a asa quebrada era preciso paciência, cuidado e um toque gentil. Com um cavalo arisco, chicoteado por alguém, era preciso diligência e o risco de levar um coice. Já como uma mulher, era preciso um certo grau de charme. Ele estava dis­posto a combinar os três comportamentos. Adrianne saiu para a varanda, de rosto franzido.

- Talvez eu não quisesse um desjejum.

- Não tem problema. Posso comer o seu também.

- Nem quisesse companhia.

- Sempre pode descer para a praia. Creme?

Ela poderia ter resistido ao aroma do café, ou à luz dourada do sol. Disse a si mesma que também poderia resistir a Philip, com toda certeza. Mas não podia e não resistiria ao cheiro de comida quente.

-Quero sim.

Ela sentou-se como se estivesse concedendo uma audiência. A boca de Philip se contraiu.

- Açúcar ... alteza?

Os olhos de Adrianne estreitaram-se, em fúria. Uma tempesta­de se aproximando. E depois, também depressa, se desanuviaram com um sorriso.

- Uso meu titulo apenas em ocasiões formais, ou com idiotas.

- Sinto-me lisonjeado.

- Não fique. Ainda estou decidindo se você é ou não um idiota.

- Eu gostaria de lhe oferecer um grande dia para ajudá-la a tomar sua decisão.

Philip cortou seu omelete. O aroma dos temperos se elevou. Ele tinha a impressão de que Adrianne era assim, suave e elegante por fora, mas cheia de calor e surpresas depois que se abria.

- Como me mantive ocupado em vigiá-la, não me sobrou tempo para aproveitar o mar e o sol.

-Uma pena.

- Exatamente. O mínimo que você pode fazer agora é aproveitar comigo. - Ele passou geléia de morango numa torrada e a estendeu para Adrianne. - A menos que tenha medo de passar o dia comigo.

- Por que eu deveria ter?

- Porque sabe que quero fazer amor com você e se preocupa com a possibilidade de gostar.

Ela mordeu a torrada, fazendo um esforço para manter os olhos firmes.

- Já disse que não tenho a menor intenção de ir para a cama com você.

- Nesse caso, umas poucas horas ao sol não farão qualquer diferença. - Como se o assunto estivesse resolvido, Philip conti­nuou a comer. - Era sério o que disse ontem à noite?

O omelete começava a deixá-la mais descontraída, enquanto o sol removia as últimas dores do corpo.

- Sobre o quê?

- Sobre este ser seu último trabalho.

Adrianne espetou um pedaço do omelete com o garfo. Quase nunca tinha um problema para mentir, e não gostou de descobrir que isso era difícil com Philip.

- Eu disse que era o último trabalho nesta fase da minha carreira.

- E o que isso significa?

- Apenas isso.

- Adrianne ... - Aquele era um momento para paciência e mão firme, pensou Philip. - Tenho uma obrigação com meus superiores. Também tenho uma necessidade de ajudá-la.

Ele percebeu-lhe a cautela nos olhos, mas ela não se esquivou quando ele pegou sua mão.

- Se for honesta comigo, posso encontrar uma maneira de cumprir as duas coisas. Se não for, posso estar me metendo numa encrenca tão grande quanto a sua.

- Não estará numa encrenca se me deixar. Posso lhe garantir que é um problema particular, Philip. Não tem nada a ver com a Interpol ou você.

- Tem muito a ver comigo.

- Porquê?

- Porque eu me importo com você. - E aumentou-lhe o aperto de mão, que se mexeu sob a sua, irrequieta. - E muito.

Ela teria preferido se Philip usasse uma daquelas frases-padrão que os homens costumam oferecer quando se sentem atraídos por uma mulher. Aquela era muito simples, muito direta e muito sincera.

- Eu gostaria que não o fizesse.

- Eu também, mas estamos ambos com esse problema. - Ele largou a mão de Adrianne. Recomeçou a comer, tão calmamente quanto podia. - Tornarei as coisas mais fáceis para você. Comece por me contar por que começou a roubar jóias.

- Não vai me dar sossego enquanto eu não contar, não é?

- Não. Mais café?

Adrianne aceitou, com um aceno de cabeça. Não tinha muita importância agora, decidiu ela. Além do mais, tinham aquilo em comum, conheciam as mesmas sensações, as mesmas emoções, os mesmos triunfos.

- Já disse que minha mãe passou algum tempo doente.

- Não esqueci.

- Havia médicos, remédios e tratamentos. Muitas vezes ela tem de ser hospitalizada por longos períodos.

Philip já sabia disso, é claro. Qualquer pessoa que lera uma das revistas ou algum jornal na década passada conhecia a tragédia de Phoebe Spring. Ainda assim, ele refletiu que era melhor ouvi-Ia nas palavras de Adrianne, com seus próprios sentimentos.

- o que havia de errado com ela?

Essa era a parte mais difícil, Adrianne sabia. Se falasse depressa acabaria logo.

- Ela foi diagnosticada como maníaco-depressiva. Havia oca­siões em que falava sem parar, formulava os planos mais absurdos Não era capaz de se sentar, dormir ou comer de tanta energia. Era quase como um veneno, queimando em seu organismo. Depois, oscilava tão para baixo que não falava coisa alguma. Passava o tem­po todo sentada, com o olhar fixo. Não reconhecia ninguém, nem mesmo a mim.

Adrianne limpou a garganta. Tomou um gole de café. Essa era mais terrível de todas as lembranças, a da sensação de segurar a mãe de Phoebe, falar com ela, até mesmo suplicar, e no final recebe: apenas um olhar vazio em resposta. Nessas ocasiões, Phoebe esta, perdida no túnel, tentada pelo escuro e pelo silêncio.

- Deve ter sido um inferno para você.

Ela não o fitou. Não podia. Em vez disso, olhou para o mar sereno, de um azul extraordinário, sob um céu claro.

- Foi um inferno para ela. Ao longo dos anos, desenvolveu um problema de álcool e drogas. Começara em Jaquir ... embora s Deus saiba como ela conseguia obter ... e escapou do controle quan­do tentou retomar seu lugar em Hollywood. Com toda sinceridade não sei se a doença mental alimentou o alcoolismo, ou se o alcoolis­mo alimentou a doença. Sei apenas que ela lutou contra as duas coisas por tanto tempo quanto pôde. Mas quando chegamos à Cali­fórnia não havia os roteiros com os papéis que ela estava acostuma­da a representar. E não pôde suportar o fracasso. Recebeu maus conselhos, que engoliu como uma mulher faminta. Seu agente era um canalha.

A voz ficou tensa, um pouco estridente, embora não tremesse. Mas houve variação suficiente, apesar de sutil, para fazê-lo contrair os olhos e analisá-la atentamente.

- O que ele fez ... com você?

Adrianne levantou a cabeça, num movimento brusco. Por um instante, seus olhos ficaram tão claros quanto vidro. No instante seguinte, porém, a cortina fechou.

- Que idade você tinha? - perguntou Philip, cauteloso, os dedos apertando o garfo com toda força.

- Quatorze anos. Não foi tão terrível quanto você está pensan­do. Mamãe chegou antes que ele pudesse... enquanto eu ainda re­sistia. Nunca a vi daquele jeito. Foi incrível, como o clichê da tigresa defendendo o filhote.

Por deixá-la angustiada, ela tratou de pôr de lado o assunto e a lembrança.

- O que importa foi a maneira como ele a levou para o fundo do poço, usando-a, explorando-a. Ela estava abalada demais pelos anos em Jaquir para reagir.

Ele deixou passar, apenas porque não se podia pressionar muito depressa quando se estava tentando conquistar a confiança.

- Não continuaram na Califórnia?

- Voltamos para Nova York logo depois do incidente com o agente. Ela parecia melhor, muito melhor. Falou em tentar o teatro de novo. O palco. Emocionada, não parava de discorrer sobre as ofertas que recebia. Só que não havia nenhuma, ou pelo menos nenhuma importante. Mas eu não sabia disso na ocasião, porque acreditava, queria acreditar, que estava tudo bem. Um dia, logo de­pois que completei 16 anos, cheguei da escola para encontrá-la sen­tada no escuro. Ela não me respondeu quando falei. Eu a sacudi e gritei. Nada. Não dá para descrever como era... parecia que ela esta­va morta por dentro.

Philip não disse nada, apenas entrelaçou os dedos nos dela. Adrianne olhou para as mãos unidas. Uma coisa tão simples, pensou ela, uma das formas mais básicas de contato humano. Nunca imaginara que o gesto pudesse ser tão confortador.

- Tive de interná-la num sanatório. Essa foi a primeira vez. Um mês ali e não havia mais dinheiro. Mas ela melhorou por algum tempo. Deixei a escola e arrumei um emprego. Mamãe nunca soube.

- Não havia ninguém a quem pudesse recorrer? E a família?

- Os pais de mamãe estavam mortos. Ela fora criada pelos avós, que também haviam morrido, quando eu ainda era um bebê. Havia algum dinheiro do seguro, mas fora remetido para Jaquir, e não saíra mais de lá. - Adrianne sacudiu a mão para descartar esse assunto, como se não tivesse a menor importância. - Não me im­portava de trabalhar. Na verdade, gostava muito mais do que da escola. Mas o pouco que eu podia ganhar não era suficiente para o aluguel e a comida, muito menos para os remédios e os cuidados de uma enfermeira. Por isso, comecei a roubar. E era boa nisso.

- Ela nunca perguntou de onde vinha o dinheiro?

- Não. Nos últimos anos, passava a metade do tempo em sonho. Pensava com freqüência que ainda estava fazendo filmes. ­Um sorriso começou a se formar. Ela observou uma gaivota mergu­lhar no estreito, para sair do mar um instante depois, gritando. ­Acabei contando a Celeste. Ela ficou furiosa. Teria pago tudo, mas eu não podia permitir. Mamãe era responsabilidade minha. De qualquer forma, nunca roubei de ninguém que não merecesse.

- Como assim?

- Sempre fui seletiva em meus alvos. Roubava apenas dos muito ricos.

- O que é sempre mais sensato - comentou Philip, irônico.

- E dos mais avarentos. Como Lady Caroline.

- Ah, sim, o diamante ... - Philip inclinou a cadeira para trás pegando um cigarro. - Vinte e dois quilates, quase sem defeitos Sempre a invejei por esse roubo.

- Foi um trabalho fabuloso. - Ela apoiou os cotovelos na  mesa e escorou o queixo nas mãos abertas. - Ela o guardava num cofre, com segurança máxima. Sensores de calor. Detectores movimentos. Raios infravermelhos. Levei seis meses para planejar.

- Como conseguiu?

- Fui convidada para o fim de semana. Assim, não precisava me preocupar com a segurança externa. Usei ímãs e um minicomputador. Havia raios sensores no primeiro andar, mas foi muito simples rastejar por baixo. O cofre-forte tinha uma tranca de tem­po, mas enganei o computador para que pensasse que eram seis horas depois. Dentro do cofre-forte, tive de contornar dois alarmes secundários e interromper o funcionamento das câmeras antes de pegar o diamante. De volta a meu quarto, tornei a ligar os alarmes, com um controle remoto.

- Religou os alarmes quando ainda estava na casa?

- Que melhor maneira podia haver? - O apetite voltou e Adrianne passou geléia numa torrada. - Escondi o diamante no meio de meu creme facial, mas nunca revistaram minhas coisas, é claro.

- Era de esperar.

- Fui acordada às quatro horas da madrugada pelos alarmes, com os gritos horrorizados de Lady Caroline.

Philip observou-a dar uma mordida na torrada com geléia.

- Pode-se dizer que foi muita frieza.

- Ela não merecia minha simpatia. Tem 40 milhões de libras em investimentos, e dá menos de meio por cento para obras de caridade.

Philip inclinou a cabeça para examiná-la.

- É sua medida para um alvo?

- É sim. Sei o que é ser pobre, passar necessidade, e detestar precisar. Prometi a mim mesma que nunca esqueceria. - Ela flexionou os ombros, como se aliviasse uma dor antiga. - Depois que mamãe morreu, continuei a roubar.

-Porquê?

- Dois motivos. O primeiro é que me proporcionava a oportunidade de distribuir a riqueza de pessoas que a manteriam em suas mãos fechadas ou no fundo dos cofres. A safira de Madeline Moreau transformou-se numa generosa contribuição para o Fundo das Viúvas e Órfãos.

Philip jogou o cigarro por cima da grade da varanda. Tomou um gole do café já esfriando.

- Está tentando me dizer que vem bancando a Robin Hood?

Adrianne pensou a respeito por um instante. Era uma compara­ção interessante e atraente.

- De certa forma, é isso mesmo. Mas é mais honesto dizer que é um negócio. Sempre tiro uma comissão. Não apenas roubar é dis­pendioso, quando se considera as despesas de equipamento e tem­po, mas também sai caro manter as aparências. Além do mais, não gosto de ser pobre.

- Também jamais gostei. - Ele tirou uma flor do arranjo no centro da mesa. - Qual é a comissão?

- Varia, mas em geral fica entre 15 e 20 por cento, dependendo do desembolso inicial para o trabalho. Por exemplo, as jóias dos St. John. - Adrianne passou a contar nas pontas dos dedos. ­Tive a passagem de avião, a conta do hotel... e este. Eu não incluiria a conta no El Grande.

- Era de esperar.

- Há também a comida, o uniforme de criada e a ... e algumas ligações internacionais. Os passeios e compras são por minha conta.

-É claro.

Ela o fitou nos olhos, muito calma.

- Você está numa posição difícil para julgar, Philip, já que pas­sou a maior parte do tempo roubando também.

- Não a estou julgando. Apenas me sinto espantado. Primeiro, você me diz que fez todos esses trabalhos, durante tantos anos, sozinha.

- Isso mesmo. Não era assim também que você trabalhava?

- Era, mas ... - Philip levantou a mão. - Está certo. Agora, você me diz que durante os últimos anos doou todo o dinheiro, ficando apenas com uma comissão de 15 a 20 por cento. É isso?

- Mais ou menos.

- Ou seja, uma contribuição de 80 por cento para obras de caridade.

- Pela minha maneira de ver, sou uma filantropa. - Adrianne sorriu. - E gosto do meu trabalho. Você sabe qual é a sensação de ter milhões nas mãos. Ver diamantes faiscando em suas mãos e saber que são seus porque é mais esperta.

- É verdade. - Ele compreendia muito bem. - Sei qual é a sensação.

- E sabe como é o frio da noite e o vento em seu rosto quando escala um prédio. Tem as mãos firmes como rocha e a mente tão aguça da quanto uma navalha. A expectativa é intensa ... assim como o instante antes de você abrir uma garrafa de Dom Pérignon, aque­le momento que antecede a saída da rolha, quando todo o excita­mento sai em forma de borbulhas.

Philip tirou outro cigarro do maço. Era mais do que isso, pen­sou ele. Era um pouco como o instante antes do sêmen e paixão saí­rem de um homem para uma mulher.

- Sei como pode se tornar um vício. Também sei que chega um momento para largar tudo, quando você ainda está por cima. - Como você fez?

- Isso mesmo. Um jogador competente sabe quando as chances contrárias são muito altas e é chegado o momento de mudar de jogo. - Ele soprou a fumaça. - Você me deu uma razão, Addy. Qual é a outra?

Ela não respondeu de imediato. Levantou-se e foi até a grade da varanda. Ficou olhando para o mar. Não podia dizer que confiava em Philip. Na verdade, por que deveria confiar? Mas os iguais se reconheciam. Ele fora um ladrão, e talvez ainda restasse um pouco de seu espírito anterior para apreciar o que ela planejava fazer, mes­mo sem compreender sua profunda necessidade de fazê-lo.

- Precisarei de uma garantia primeiro.

Adrianne virou-se. A brisa quente soprou para longe do rosto seus cabelos pretos, sedosos e abundantes.

- De que tipo?

No mesmo instante em que perguntava, Philip viu alguma coi­sa nos olhos de Adrianne, alguma coisa na maneira como ela se postava, que o fez compreender que lhe prometeria qualquer coisa. Uma compreensão que deixava um homem atordoado.

- De que permanecerá entre nós o que eu lhe disser. De que não vai contar a seus superiores.

Os olhos de Philip estavam quase fechados contra o sol.

-Já não passamos desse ponto?

-Não sei.

Adrianne hesitou por mais um momento, tentando avaliá-lo. Poderia oferecer uma mentira, ou pelo menos tentar, mas especulou se a verdade não seria mais segura. Enquanto Philip estivesse em seus calcanhares, ela nunca chegaria a Jaquir para recuperar o que lhe pertencia.

- Sei o que você foi, Philip, e não pedi suas razões.

- Gostaria de conhecê-las?

A surpresa aflorou antes que ela virasse a cabeça. Não esperava encontrá-lo tão disposto a falar.

- Talvez algum dia. Já lhe contei mais esta manhã do que a qualquer outra pessoa que sabe. Até mesmo Celeste ouviu apenas fragmentos. Não gosto de ninguém envolvido em minha vida parti­cular.

- É tarde demais para retirar o que foi dito, e uma perda de tempo se arrepender.

- Tem razão. - Ela tornou a se virar. - Gosto disso em você. Romântico ou não, é um homem prático. Os melhores ladrões são uma combinação de prático e visionário. Quanta visão você tem?

Philip também se levantou. Embora se encostasse na grade, continuaram separados pela largura da mesa.

- O suficiente para ver nossos caminhos se cruzando muitas e muitas vezes ... por mais constrangedor que possa ser para os dois.

Adrianne sentiu um calafrio, mesmo sob o sol forte. O destino era a única coisa que ela sabia que não se podia roubar.

- É possível, mas não é esse o problema. Você perguntou por que continuei trabalhando, e vou explicar. Foi pela prática, o trei­namento, pode-se dizer assim. Para realizar o maior trabalho de minha vida. Talvez da vida de qualquer um.

Philip sentiu os músculos do estômago se contraírem. Por medo, compreendeu, por medo profundo e intenso. Por ela.

- Que trabalho?

-Já ouviu falar de O Sol e a Lua?

O medo subiu agora pela garganta, com um gosto horrível.

- Você deve ter perdido o juízo.

Adrianne limitou-se a sorrir.

- Então já ouviu falar.

- Não há ninguém no ramo que não tenha ouvido falar desse colar. Ou do que aconteceu em 1935, quando alguém teve a péssima idéia de tentar roubá-lo. A garganta do ladrão foi cortada, de­pois que deceparam suas mãos.

- E seu sangue espalhado sobre O Sol e a Lua. - Ela deu de ombros. - É assim que nascem os mitos.

- Não é um jogo. - Philip adiantou-se. Segurou-a pelos om­bros e puxou-a, de uma forma tão brusca que ela quase perdeu o equilíbrio. - Os ladrões não vão para a prisão naquele país. Pelo amor de Deus, Adrianne, você deve saber melhor do que ninguém como a justiça de seu pai pode ser brutal!

- É justiça que eu quero, e a terei de qualquer maneira. - Ela se desvencilhou das mãos de Philip. - Desde a primeira vez em que roubei, para manter mamãe fora de uma enfermaria para indi­gentes, jurei que teria justiça. O colar lhe pertencia. Foi dado como presente de casamento. O preço da noiva. Pelas leis de Jaquir, o que uma mulher recebe no casamento, mantém depois da morte ou do divórcio. O que uma mulher possui passa a ser do marido, para ele fazer o que quiser. Mas o preço da noiva pertence à mulher. Portan­to, O Sol e a Lua era de minha mãe. Ele se recusou a entregar o que pertencia a mamãe. Por isso, pegarei o colar.

- De que isso adiantaria para ela agora? - Philip sabia que estava sendo rude, muito rude, mas não podia falar outra coisa. ­Por mais que isso doa, o fato é que ela morreu.

- Pensa que eu não sei que ela morreu? - Não foi a dor que aflorou agora nos olhos de Adrianne, mas a raiva impulsionada pela paixão. - Só uma fração do calor do colar a teria sustentado por anos, com os melhores médicos, o melhor tratamento. Ele sabia como nossa situação era desesperadora. Sabia porque reprimi meu orgulho e lhe escrevi, suplicando ajuda. Ele respondeu, dizendo que o casamento acabara, e com isso cessara sua responsabilidade. Por­que ela estava doente, e eu era uma criança, não havia como voltar a Jaquir e exigir, através da lei, que o colar fosse devolvido.

- Independentemente do que ele fez com você, com sua mãe, já acabou. É tarde demais para que o colar faça qualquer diferença agora.

- Está enganado, Philip. - A voz de Adrianne mudou. A pai­xão não desaparecera, mas agora era muito fria e ainda mais perigo­sa por isso. - Para a vingança, nunca é tarde demais. Quando eu pegar o colar, o orgulho de Jaquir, meu pai vai sofrer. E quando ele souber quem roubou o colar, a vingança será ainda mais doce.

Philip não compreendia o verdadeiro ódio. Nunca roubara por qualquer outro propósito que não o de sobreviver, ou sobreviver com mais conforto. Mas reconhecia o verdadeiro ódio e achava que era o mais inflamável dos combustíveis humanos.

- Tem alguma idéia do que lhe acontecerá se for apanhada? Os olhos de Adrianne eram firmes e escuros quando se encontraram com os dele.

- Melhor do que você. Sei que meu título e minha cidadania americana não vão me proteger. Se eu tiver de pagar, então pagarei. Alguns jogos valem o risco.

Ele fitou-a, fascinado pela maneira como sua pele tinha um brilho dourado à luz do sol.

- Tem razão. Alguns valem.

- E sei como fazer, Philip. Venho planejando há dez anos.

E ele tinha semanas, talvez apenas dias, para fazê-la mudar de idéia.

- Eu gostaria de ouvi-la.

- Talvez em outra ocasião.

Numa súbita mudança de ânimo, Philip sorriu.

- Que seja em breve. Mas já chega de falar de trabalho. Que tal um mergulho no mar?

Adrianne pensou de novo que não confiava nele. Aquele sorriso era encantador demais. Poderia ser melhor se, enquanto Philip a vigiava, ela também o vigiasse.

- Grande idéia. Vamos nos encontrar na praia dentro de 15 minutos.

Adrianne viajara sozinha por tanto tempo que esquecera como era ter alguém para partilhar os pequenos prazeres. A água estava fresca e clara, dava para nadar devagar e observar a vida ao redor. Como uma floresta no outono, os corais faiscavam dourados, em laranja, escarlate, com púrpuras rendadas balançando na corrente­za. Peixes disparavam de um lado para outro, as cores gloriosas se destacando, enquanto mordiscavam esponjas.

Apenas de máscara e snorkel, ela pôde mergulhar para levar um beliscão de uma maria-mole, ou ser observada pelos sargentos, à espera de alguma oferta de comida. Os dois nadavam juntos, de um recife para outro, com uma visibilidade que chegava a 15 metros de profundidade. Os sinais entre os dois eram um toque da mão no braço ou outros gestos. Parecia suficiente que pudessem se com­preender, e a tarde lhes pertencesse.

Adrianne não queria questionar por que se sentia tão à vontade com ele, relaxada como acontecera na noite que haviam passado numa estalagem rural nos arredores de Londres. Não era uma mu­lher que tivesse legiões de amigos; em vez disso, tinha conhecidos, pessoas que entravam e saíam de sua vida. Quando oferecia amiza­de, entregava-se por completo; por isso, tinha o maior cuidado. Embora a confiança não fosse total, ela sentia amizade por Philip; e apesar de suas restrições, sentia-se satisfeita na sua companhia.

Não era uma princesa agora, nem uma ladra magistral, mas uma mulher desfrutando o sol e a magia do mar.

Aflorou à superfície, rindo, e apoiou uma nadadeira num coto de coral. A água escorria dos cabelos e da pele, faiscando como pedras preciosas. Ela empurrou a máscara para trás, enquanto Philip subia a seu lado.

- O que é tão engraçado?

Ele sacudiu os cabelos para trás, antes de também levantar a máscara.

- Aquele peixe com os olhos esbugalhados. Não pude deixar de pensar em Lorde Fume.

Philip alteou uma sobrancelha, enquanto se firmava.

- Sempre ri de suas vítimas?

- Só quando é apropriado. Ah, o sol está maravilhoso... - Com os olhos fechados, ela ergueu o rosto para o sol, fazendo-o pensar em sereias. - Mas você não deveria permanecer tanto tem­po ao sol com essa pele britânica muito clara.

- Preocupada comigo?

Quando ela abriu os olhos, o brilho era divertido, em vez de cauteloso. Era um progresso, pensou Philip. Por menor que fosse.

- Detestaria ser responsável por suas queimaduras.

- Imagino que está nevando em Londres neste momento, e as famílias sentando-se em torno da mesa para comer o ganso do Natal.

- E em Nova York o ganso ainda não foi cozinhado. -. Adri­anne levantou um pouco de água na mão em concha e depois dei­xou-a escorrer entre os dedos. - Sempre comíamos peru. Mamãe adorava o cheiro do peru assando no forno.

Ela controlou o sentimento e conseguiu dar um sorriso.

- Um ano ela decidiu cozinhar o peru pessoalmente, da ma­neira como sua avó fazia em Nebraska. Pôs tanto recheio que a ave estourou quando se expandiu com o calor. O pobre peru se desfez em pedaços.

Adrianne protegeu os olhos e contemplou o horizonte.

- Olhe ali. Um navio está chegando.

Ela mudou de posição, para se firmar melhor, e escorregou do recife para os braços de Philip. A água escorreu por seus ombros,

depois pelos seios, quando ele a ergueu e puxou contra seu peito. Adrianne tentou recuar, mas ele segurou-a firme. Ela não tinha co­mo se esquivar, com os pés incapazes de alcançar a areia no fundo e as mãos nos ombros de Philip, pelo apoio.

Viu os olhos dele escurecerem, como o nevoeiro em que a lua se esconde por trás de uma nuvem. A respiração de Philip soprava em seus lábios, enquanto as mãos deslizavam por seu corpo. Quando ele se inclinou, Adrianne virou o rosto. Os lábios apenas roçaram em seu rosto, num movimento gentil, paciente. A necessidade fer­vilhava dentro dela, com uma intensidade que vinha tanto do medo quanto do desejo.

- Você tem o gosto do mar... serena e inconquistada.

Ele deslizou os lábios para a orelha de Adrianne, enquanto ela tamborilava com os dedos em seus músculos. Philip ouviu-a pren­der a respiração, sentiu-lhe o corpo estremecer.

- Adrianne ...

Ela obrigou-se a fitá-lo. Confrontar o que não podia evitar sem­pre fora seu estilo. O sol brilhava nos cabelos de Philip, quase a ofus­cava ao se refletir na água. Em algum lugar, por trás deles, uma mu­lher repreendia uma criança. Mas o som era abafado pelas batidas fortes do coração ressoando nos ouvidos de Adrianne. E ele sorria.

- Relaxe ... - murmurou Philip, subindo os dedos pela colu­na de Adrianne. - Não vou deixá-la afundar.

Mas ele deixou. Quando os lábios se encontraram mais fundo e mais depressa do que a segurança aconselhava. Embora a cabeça permanecesse acima da superfície, ao sol, ela tinha a sensação de que caíra a metros de profundidade, o coração disparado, a respira­ção difícil. Podia sentir o gosto de sol e sal quando os lábios de Philip persuadiram os seus. Isso mesmo, persuadiram. Devia haver um conforto nesse fato, na ausência de demanda, na falta de pres­são. Em vez disso, ela tremeu com as necessidades que havia em seu próprio corpo.

Philip tratou de controlar suas necessidades. Se havia correntes em torno de suas paixões naquele momento, ele prometeu a si mesmo que haveria de chegar o momento em que as removeria. Preci­sava de algo mais do que o desejo. Precisava dar algo mais. Como um teste, deu-lhe uma mordida de leve no lábio inferior e ouviu-a gemer em resposta. Por saber que só podia se controlar até esse pon­to, ele recuou. Adrianne tinha os olhos turvos. Os lábios entreaber­tos. E os nervos à flor da pele.

- Que tal um drinque?

Ela piscou, aturdida.

-Como?

Philip beijou-a na ponta do nariz, com um esforço para manter as mãos leves.

- Sugeri um drinque, para que eu possa tirar do sol minha pele britânica tão branca.

- Ahn ... - Era como ser libertada do efeito de uma droga, pensou Adrianne. Uma droga viciante. - Claro.

- Ótimo. O último a chegar no bar paga a conta.

Dizendo isso, largou-a. Despreparada, Adrianne afundou. Quan­do voltou à tona, Philip já se encontrava na metade do caminho para a praia. Ela começou a rir enquanto ajeitava a máscara para nadar em seu encalço.

Beberam margueritas geladas, enquanto escutavam o trio de tocadores de marimba apresentarem cantigas de Natal. Com o ape­tite aumentado pelo sol e o mar, comeram enchiladas com queijo e molhos picantes. Depois, com o sol da tarde descendo indolente pelo céu, circularam de carro pela ilha. Pegaram uma estreita estra­da de terra num súbito impulso. Passaram por pequenos monu­mentos de pedra, que fizeram Adrianne pensar em cultos antigos e deuses ainda mais antigos.

Ele estava determinado a preencher o dia de Adrianne, a fazê-la esquecer a angústia que surgira ao amanhecer. Não mais questionava a necessidade de proteger e confortar. Quando um homem passava a maior parte de sua vida com mulheres, sabia reconhecer a certa.

Num gesto deliberado, ele passou com o jipe por um buraco, de tal maneira que houve um tremendo solavanco. Adrianne apenas riu e apontou outro buraco. A estrada os levou até um farol na pon­ta norte da ilha. Uma família vivia ali, com cercados contendo gali­nhas raquíticas. Um gato magricela estendia-se na terra, ao lado de um isopor com gelo, que a família enchera de bebidas, para vender aos turistas pelo dobro do preço que pagariam na aldeia. Com duas garrafas, ele se sentaram numa elevação de relva seca para contem­plar as ondas. O mar era agitado ali, com as ondas quebrando na praia e se elevando em espuma, onde o tempo e a maré haviam aberto canais.

- Fale-me sobre sua casa.

- Em Londres?

- Não. - Adrianne tirou as sandálias. - A casa de campo.

- Você diria que é muito britânica. - Outra indicação do progresso entre os dois foi o fato de Adrianne não se esquivar quando ele tocou em seus cabelos. - A casa é edwardiana, de alvenaria, com três andares. Há uma galeria de retratos. Como não tenho muito conhecimento de meus ancestrais, tomei alguns emprestados.

-De onde?

- Lojas de antiguidades. Como tio Sylvester ... um vitoriano sisudo, com sua esposa, tia Agatha, com cara de pudim.

Cara de pudim ... - Adrianne inclinou-se para trás, rindo. ­Isso é britânico.

- Somos o que somos. Há vários tipos de outros primos, alguns solenes e altivos, outros caindo mais para o sinistro. E há também minha bisavó, uma prostituta que entrou na família pelo casamento, apesar de objeções vigorosas, e que depois tratou de controlar todo mundo com mão de ferro.

- Você sente falta de ter uma família grande.

- Talvez eu sinta mesmo. Seja como for, eles ocupam o espaço da galeria muito bem. A sala dá para o jardim. Como convinha à casa, mantive um jardim formal, com rosas, rododendros, lilazes, lírios. Há sebes de teixos e um bosque de freixos a oeste, por onde passa um pequeno córrego. Pode-se encontrar o tomilho silvestre aqui e ali, assim como violetas do tamanho do meu polegar.

Adrianne quase que podia sentir a fragrância.

- Por que comprou a casa? Não parece ser o tipo de homem que aprecia noites sossegadas junto da lareira ou passeios pelo bosque.

- Há tempo para tudo. Comprei-a para estar preparado quan­do decidisse me fixar e me tornar um pilar da comunidade.

- É esse seu objetivo?

- Meu objetivo sempre foi o conforto. - Ele deu de ombros e esvaziou a garrafa. - Aprendi muito cedo que para encontrar conforto nas ruas de Londres você precisa pegar o que puder ... e pegar mais rápido do que o vizinho.

Philip largou a garrafa na areia, do seu lado.

- Sempre fui mais rápido.

- Você foi lendário. Não, não sorria para mim. Foi mesmo.

Cada vez que alguma coisa espetacular era roubada, começavam os rumores de que fora um trabalho de P. C. O que aconteceu, por exemplo, com a coleção De Marco.

Ele sorriu, observando as ondas subirem por trás dela.

- Está sondando?

- Pegou a coleção? - Ela empertigou-se quando Philip, ainda sorrindo, estendeu a mão para pegar um cigarro. - Foi você?

- A coleção De Marco ... uma das melhores coleções de dia­mantes e outras pedras preciosas de Milão ... do mundo inteiro, diga-se de passagem.

- Sei o que era! Foi você quem a roubou?

Philip recostou-se, tal como um contador de histórias faria ao lado de uma fogueira.

- O museu tinha a melhor segurança disponível naquela expo­sição. Sensores de luz, sensores de calor, um alarme sensível ao peso. Havia alarmes no chão por seis ou sete metros ao redor do mostruá­rio da coleção. A redoma de vidro da coleção era considerada vir­tualmente impenetrável.

- Sei de tudo isso. - Os borrifos das ondas molhavam os cabelos de Adrianne. - Como conseguiu? Ouvi dezenas de relatos contraditórios.

- Alguma vez você assistiu ao filme Casamento Real (Royal Wedding, em que Fred Astaire dança no teto?

- Assisti, mas aquilo era a magia do cinema, através de um tru­que da câmera. Admito que você é esperto, mas não é tanto assim.

- O acesso era apenas uma questão de ter o uniforme certo e falsificar o documento de identidade certo. Depois que entrei, tinha duas horas para agir, antes da ronda do guarda. Levei meia hora só para rastejar pela parede e pelo teto.

- Se não quer me contar como foi, basta dizer.

- Estou contando. Já acabou? - Ele pegou a garrafa de Adrianne e bebeu. - Usei dispositivos de sucção. Claro que não do tipo de desentupidor de pia que se encontra em lojas de ferragens, mas o conceito é o mesmo. Oferece uma noção de como uma mos­ca se sente.

- Ficou grudado no teto?

- Mais ou menos. Os dispositivos não agüentariam meu peso durante todo o trabalho. Por isso, prendi um trapézio no teto com pinos articulados. Fiquei pendurado por cima daquelas pedras incríveis, com os joelhos dobrados. Não podia sequer suar. Tinha uma perfuradora de carbureto, envolta por isopor para abafar o barulho. Depois que abri um buraco no vidro é que começou o tra­balho de verdade. Tinha pedras no bolso com o peso exato das várias peças da coleção. Troquei peça por peça. Era preciso ser rápi­do, as mãos muito firmes. Mais de uma fração de segundo sem o peso certo e o alarme dispararia. Levei quase uma hora, com o san­gue fluindo para a cabeça, os dedos ficando dormentes. Depois, balancei o trapézio e saltei, caindo além da área do alarme. Lembro que tive a sensação de que alguém disparava flechas em minhas per­nas quando caí. Mal podia rastejar. Essa foi a pior parte, e que eu não havia previsto.

Ele podia rir agora, ao recordar o que acontecera.

- Sentei-me e comecei a bater nas pernas, para restabelecer a circulação. Imaginei-me sendo preso, não porque não fosse compe­tente, mas porque tinha as pernas dormentes.

Com a cabeça na relva, Adrianne riu também.

- O que você fez?

- Quando me projetei numa cela, tratei de fazer uma saída rápida, sem qualquer elegância, engatinhando na maior parte do tempo. Quando foi dado o alarme, eu já me encontrava refestelado numa banheira com água quente no hotel.

Quando ele virou o rosto para fitá-la, descobriu que Adrianne sorria.

- Você sente saudade.

- Só em alguns momentos. - Ele jogou o cigarro no mar. - Sou um homem de negócios em primeiro lugar, Addy. Era tempo de mudar de rumo. Spencer, que é meu superior agora, já chegara bem perto em diversas ocasiões.

- Sabiam quem você era, mas mesmo assim o aceitaram.

- Devem ter pensado que era melhor ter o lobo no cercado do que à solta. Mais cedo ou mais tarde, você se torna relaxado. E bas­ta cometer um erro.

Adrianne tornou a olhar para o mar turbulento.

- Só preciso realizar mais um trabalho, e não tenho a menor intenção de ser relaxada.

Philip não disse nada. Com um pouco de tempo e bastante cui­dado, tinha certeza de que poderia persuadi-la a desistir. Se a con­versa não desse resultado, sempre havia obstáculos que poderia erguer.

- O que me diz de uma siesta antes do jantar de Natal?

- Combinado. - Ela se levantou, segurando as sandálias pelas alças. - Mas eu dirijo na volta.

TALVEZ FOSSE UMA TOLICE SER TÃO EXAGERADA, MAS ELA não podia resistir. Era agradável permanecer num banho com sais perfumados e depois passar bastante talco. Eram hábitos peculiares de mulheres, cujas sementes haviam sido semeadas no harém. Gostava de se preparar por um longo tempo, sem pressa, embora sua noite com Philip não pudesse ser considerada romântica. Sabia que boa parte do motivo para que ele se mostrasse tão disponível como seu acompanhante era o fato de que assim podia vigiá-la melhor. Ela poderia lhe dizer que não tinha outros negócios para fazer na ilha, mas não havia razão para que ele acreditasse. De qual­quer forma, a companhia de Philip servia a um propósito de Adrianne. Ou pelo menos foi o que ela disse a si mesma, enquanto escolhia um vestido branco, com metros de saia, mas com as costas nuas. Seria tão generosa com seu tempo com Philip quanto ele se mostrava. Dessa maneira ele não estaria alerta quando ela deixasse o país ... amanhã.

Havia planos para serem finalizados, planos que ela começara a formular há dez anos. Voltaria para Jaquir pouco depois de iniciado o novo ano. Pendurou pedras nas orelhas, tão frias quanto seus pen­samentos e tão falsas quanto a imagem que apresentaria ao pai.

Por aquela noite, no entanto, aproveitaria a luz persistente de um pôr-do-sol tropical e o sussurro do mar.

Já estava pronta quando Philip bateu na porta. Ele também ves­tira branco, e sua camisa uma mancha azul sob o paletó.

- Existe alguma coisa de maravilhoso em passar o inverno num clima quente. - Ele passou as mãos pelos ombros nus de Adrianne. - Descansou?

- Descansei.

Ela não contou que dera um pulo ao El Grande para arrumar suas coisas ali e fechar a conta. Ao seu contato, sentiu a confusão frustrada de um cavalo que é esporeado e puxado ao mesmo tempo. - E, como uma turista, meus pensamentos quase nunca vão além da próxima refeição - acrescentou Adrianne.

- Melhor assim. Antes de sairmos, tenho uma coisa para você. Ele tirou do bolso uma pequena caixa de veludo. Desta vez Adrianne recuou, como se tivesse sido beliscada.

- Não...

A voz saiu mais fria do que ela queria, mas Philip pegou sua mão e pôs a caixa nela.

- Não apenas será uma grosseria recusar um presente de Natal, mas também dá azar.

Ele não informou que tivera de abrir caminho com subornos e gorjetas até encontrar um joalheiro disposto a abrir sua loja no feriado.

- Não era necessário.

- Deveria ser? Vamos, Adrianne, uma mulher como você deve saber como aceitar um presente graciosamente.

Philip tinha razão, é claro, e ela estava bancando a tola. Abriu a caixa e contemplou o broche repousando sobre cetim branco. Não, não repousando, pensou Adrianne, mas irrequieto, como a pantera que era, de um preto reluzente, com olhos de rubis pegando fogo.

- É lindo!

- Fez-me pensar em você. É uma coisa que temos em comum.

Ele pregou o broche no vestido, com a facilidade de um ho­mem acostumado a fazer essas coisas. Adrianne sorriu, porque pre­cisava oferecer uma reação descontraída.

- De um ladrão para outro?

Mas seus dedos subiram para acariciar a jóia.

- De uma alma irrequieta para outra - corrigiu Philip.

Ele guardou a caixa no bolso e pegou a mão de Adrianne. Jan­taram uma lagosta grelhada, com um vinho que dava para sentir o gosto da uva, enquanto mariachis apresentavam canções de amor e desejo. De sua mesa, junto da janela, podiam observar as pessoas pas­seando pelo dique. Muitos meninos, sempre ansiosos por uma moeda esperavam ao lado da fileira de táxis, preparados para abrir a porta.

Enquanto comiam, o sol mergulhou no mar, num esplendor de cores; e a lua, menos apressada, surgia em toda sua imponência.

Adrianne indagou sobre a infância de Philip, e ficou surpresa quando ele não se esquivou nem falou como se fosse uma piada.

- Minha mãe era bilheteira num cinema. O que era uma van­tagem para mim, pois podia entrar e assistir a qualquer filme, às vezes durante a tarde inteira. Afora isso, o dinheiro mal dava para pagar o aluguel de um apartamento miserável de dois cômodos em Chelsea. Meu pai entrara em sua vida apenas pelo tempo suficiente para me gerar. Saiu logo em seguida, assim que soube que eu estava a caminho.

Adrianne sentiu uma pontada de angústia. Teve vontade de pe­gar sua mão, mas ele levantou o copo de vinho. O momento passou. –

 Deve ter sido difícil para ela, vivendo sozinha.

- Tenho certeza de que foi um inferno, mas não se pode saber.

Ela é uma otimista nata, o tipo de mulher que pode se contentar com qualquer coisa que tenha, seja pouco ou muito. É uma grande fã de sua mãe, diga-se de passagem. Quando descobriu que levei a filha de Phoebe Spring para jantar, passou-me um sermão de uma hora por não levá-la para que a conhecesse.

- Mamãe tinha um jeito especial de conquistar as pessoas.

- Nunca pensou em seguir os passos de sua mãe como atriz?

Foi fácil sorrir, enquanto ela levantava o copo.

- Não é o que eu faço?

- Eu me pergunto até que ponto é uma representação.

- Uma representação? - Ela gesticulou com as mãos. -  Qualquer coisa que seja necessária para alcançar um objetivo. Sua mãe sabe sobre sua ... vocação?

- Refere-se ao sexo?

Ele não sabia se Adrianne riria. Mas depois ela inclinou-se para a frente, a luz da vela refletindo em seus olhos.

- Vocação no sentido de ocupação profissional, Philip.

-Ah, sim. Nunca conversamos a respeito. Mas basta dizer que mamãe não é nenhuma tola. Mais vinho?

- Só um pouco. Nunca pensou em voltar à atividade, Philip, para um último e espetacular trabalho? Alguma coisa que o manteria satisfeito na velhice?

- O Sol e a Lua?

-Esse é meu.

- O Sol e a Lua ... - repetiu ele, divertido, enquanto a observava. - Duas pedras fascinantes no mesmo colar. O Sol, um dia­mante de 280 quilates, da primeira água, absolutamente puro, de um branco brilhante. Segundo a lenda, uma pedra com um passado movimentado. Foi encontrada na região de Deccan, na índia, no século XVI. Antes da lapidação, tinha 800 quilates. Dois irmãos a descobriram. Como Caim e Abel, um assassinou o outro para ser o único dono. Em vez de ser banido para a Terra de Node, o irmão sobrevivente encontrou o sofrimento em sua pátria. A esposa e os filhos morreram afogados, deixando-o com o conforto um tanto frio da pedra.

Philip tomou um gole do vinho. Como Adrianne não fizesse qualquer comentário, tornou a encher os copos.

- A lenda diz que ele enlouqueceu e ofereceu a pedra ao demônio. Não se sabe se a oferta foi aceita ou não, mas ele acabou assassinado. Então a pedra iniciou suas viagens. Istambul, Sião, Creta e dezenas de outros lugares exóticos, sempre deixando uma trilha de traição e assassinato em sua esteira. Até que, depois de satisfazer os deuses, foi encontrada numa casa em Jaquir, em 1876.

- Meu trisavô comprou o diamante para sua esposa predileta. - Adrianne começou a passar o dedo pela borda do copo de vinho. - Pelo equivalente a um milhão e meio de dólares americanos. Deveria ter lhe custado mais, se a pedra não tivesse desenvolvido uma reputação de perigosa.

O dedo parou de repente.

- Havia pessoas morrendo de fome em Jaquir nessa ocasião.

- Não seria o primeiro soberano a ignorar essas coisas, nem o último. Philip esperou até que o garçom tirasse os pratos. - O dia­mante foi lapidado por um veneziano, que por nervosismo ou falta de habilidade perdeu mais da pedra bruta do que seria necessário. Suas mãos foram cortadas e penduradas no pescoço, antes que o abandonassem no meio do deserto. Mas a pedra sobreviveu para ser unida a uma pérola, igualmente antiga, tirada do Golfo Pérsico, perfeitamente esférica, com uma iridescência que desafia qualquer descrição. Lustrosa, reluzente, como 250 quilates de luar. Enquanto o diamante cintila, a pérola parece arder. A lenda diz que a magia da pérola luta contra a magia do diamante. Juntas, as duas pedras são como a paz e a guerra, a neve e o fogo.

Philip fez uma pausa. Levantou o copo.

- Ou o sol e a lua.

Adrianne tomou um gole do vinho para aliviar a garganta. Conversar sobre o colar deixava-a excitada e perturbada ao mesmo tempo. Sabia como parecia, pendurado no pescoço da mãe, e podia imaginar, apenas imaginar, qual seria a sensação quando o tivesse em suas mãos. Com ou sem magia, com ou sem lenda, ela teria o colar.

- Fez muito bem seu dever de casa.

- Conheço O Sol e a Lua da mesma maneira como conheço o Kohinoor ou o Pitt, como pedras que posso admirar, até mesmo desejar, mas não como pedras pelas quais arriscaria minha vida.

- Quando o motivo é apenas dinheiro ou aquisição, pode-se resistir até mesmo a diamantes.

Ela fez menção de se levantar, mas Philip segurou-a pela mão. O aperto foi mais firme do que deveria, e não havia mais um brilho divertido em seus olhos.

- Quando o motivo é vingança, também se deve resistir.

A mão de Adrianne foi flexionada uma vez e depois ficou passi­va. O controle pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição, pensou ele.

- A vingança turva a mente, a tal ponto que não se consegue pensar com clareza. Paixões de qualquer tipo levam a erros.

- Só tenho uma paixão. - A luz da vela dançava no rosto de Adrianne, aprofundando as depressões nas faces. - Tive 20 anos para cultivá-la, canalizá-la. Nem todas as paixões são ardentes e perigosas, Philip. Algumas são frias como o gelo.

Quando Adrianne levantou-se, ele não disse nada, mas prome­teu a si mesmo que provaria que ela estava enganada antes de a noi­te terminar.

 

Ele  era um homem difícil de avaliar, pensou Adrianne. Podia ser intenso em um momento e frívolo no seguinte. Enquan­to voltavam para o hotel, ele manteve uma conversa amena, divertida, de meros conhecidos. Era como se não tivesse acontecido aquele instante no restaurante, em que Philip pegara sua mão, fitando-a nos olhos como se pudesse subjugá-la apenas pelo olhar. Agora, só havia o luar e a brisa tropical. Desvanecera-se a conversa sobre o colar e o sangue derramado por sua causa.

Era fácil compreender como Philip infiltrara-se no círculo dos ricos e mimados. Não se via um ladrão de rua sem pai de Chelsea quando se olhava para ele. Também não se via nenhum ladrão cal­culista e confiante. Em vez disso, a imagem era a de um homem refinado, um pouco entediado, encantador, sem objetivos defini­dos. Só que ele não era nenhuma dessas coisas.

Mesmo sabendo disso, ela relaxou. Parte do poder de Philip era a maneira que tinha de fazer uma mulher tremer em um momento para rir e se desarmar no instante seguinte. Adrianne descobriu-se lamentar depois que o carro foi estacionado e se encaminharam para sua suíte, a noite se aproximando do fim.

- Fiquei aborrecida ao encontrá-lo na ilha - comentou ela ao abrir a bolsa para pegar a chave.

- Mais do que isso, ficou furiosa.

Philip pegou a chave e enfiou-a na fechadura.

- Está bem. - Ela sentia-se relaxada e divertida, o que trans­parecia em seu sorriso. - Não costumo mudar de idéia com freqüência, mas foi bom ter sua companhia hoje.

- Estou contente por ouvir isso, pois tenciono continuar com você.

Enquanto falava, ele a pegou pelo cotovelo e os dois passaram pela porta.

- Se pensa que posso voltar para pegar as jóias dos St. John não precisa se preocupar.

Philip jogou a chave em cima da cômoda. Tirou a bolsa da mão de Adrianne e largou-a no mesmo lugar.

- Minha presença aqui no momento não tem nada a ver com jóias.

Antes que Adrianne pudesse recuar, ele pôs as mãos em seus ombros. Desceu com os dedos pelos braços, com uma incrível genti­leza. Com a maior naturalidade, os dedos dos dois se entrelaçaram.

-Não.

Ele levantou uma das mãos de Adrianne, beijou-a, depois le­vantou a outra.

-Não o quê?

Como um foguete, o calor subiu por Adrianne. Uma coisa era ignorar o que nunca se precisava, outra era resistir a uma súbita necessidade.

- Quero que você vá embora.

Ainda lhe segurando uma das mãos, ele afastou os cabelos de seu ombro, as pontas dos dedos mal roçando-lhe a pele nua. Sentiu o tremor do choque, mas não sabia de qual dos dois.

- Eu iria se acreditasse em você. Sabe que a chamam de inacessível?

Ela sabia muito bem.

- É por isso que você me quer? Por que sou inacessível?

- Poderia ser suficiente. - E mexia-lhe os cabelos. - Antes.

- Não estou interessada, Philip. Pensei que tinha deixado isso bem claro.

- Uma das coisas que mais admiro em você é seu talento para mentir.

Ele estava mais perto, muito mais do que deveria.

- Não sei o que mais posso fazer para convencê-lo de que está perdendo seu tempo.

- Não é preciso muito, quando é verdade. Você tem uma ma­neira de olhar para um homem que faz o sangue mais quente se transformar em gelo. Não é assim que me olha agora.

Estendeu a mão para a nuca de Adrianne. Mesmo enquanto ficava rígida, Philip observou os lábios cheios e macios se entreabrirem, tremendo um pouco.

Adrianne sentiu o coração subir pela garganta, descompassado quando os lábios roçaram em sua boca. Começou a levantar a mão para empurrá-lo. Isso era autopreservação. Mas os dedos agarraram a camisa de Philip e o apertaram com força. Isso era necessidade.

Depois, com a necessidade, surpreendentemente veio o remorso.

- Não posso dar o que você quer. Não sou como as outras.

- Não, não é. - Num impulso instintivo, ele passou os dedo pelo pescoço de Adrianne; um gesto tranqüilizador, enquanto o lábios deixavam-na com os nervos à flor da pele. - E não quero mais do que você pode me dar.

Quando Philip aprofundou o beijo, ela gemeu. Havia alguma coisa de desespero e espanto no som. Por um instante, apenas um instante, ela cedeu. Ela pressionou o corpo contra o dele, os lábios se entreabriram, o coração se abriu. Ele teve um vislumbre da bele­za, da generosidade, tão intensas, que isso o deixou abalado. E depois Adrianne recuou, virando-se.

- Sei qual é minha imagem, Philip, mas não passa de uma imagem. Esse tipo de coisa não é para mim.

Ela cruzou as mãos para mantê-las firmes.

- Talvez não fosse mesmo. - Ele tornou a pôr as mãos nos ombros de Adrianne. - Até agora.

Ela tinha orgulho. Alcançara-o através de anos instáveis e con­fusos. Porque o orgulho era firme, Adrianne foi capaz de falar sem qualquer vergonha.

- Nunca estive com um homem. Jamais desejei estar.

- Sei disso.

Adrianne virou-lhe as costas, como ele esperava que aconteceria.

- Compreendi esta manhã, quando me falou de seu pai, quando contou o que viu acontecer entre ele e sua mãe - continuou Philip. - Não há nada que eu possa dizer para apagar ou aliviar seus sentimentos a respeito... exceto que não tem de ser assim, nun­ca deveria ser assim.

Ele a tocou de novo, a mão em seu rosto. Era um teste, para os dois. Adrianne fechou os olhos, permitindo-se absorver a sensação dos dedos em sua pele, o clamor dos nervos e necessidades que des­pertavam. Sempre fora uma mulher que conhecia a própria mente, o próprio destino. Naquela noite, ao que tudo indicava, Philip se tornaria parte das duas coisas.

- Tenho medo.

Philip tirou as travessas de marfim de seus cabelos.

-Eu também.

Ela abriu os olhos ao ouvir isso. - Por que deveria sentir medo?

- Porque você é importante. - Ele largou as travessas e enfiou os dedos pelos cabelos. - Porque isto é importante.

Philip tornou a puxá-la, fazendo um esforço para permanecer gentil, para lembrar da fragilidade de Adrianne, não de sua força. As duas coisas estavam presentes, as duas coisas o atraíam desde o início.

- Podemos analisar isso durante a noite toda, Addy. Ou você pode deixar que eu a ame.

Não havia opção. Nunca houvera. Adrianne acreditava no des­tino. Estava fadada a deixar Jaquir, e também a voltar. E estava fadada a passar aquela noite, se fosse apenas uma noite, com Phi­lip... e descobrir o que fazia com que as mulheres entregassem aos homens seu coração... e sua liberdade.

Esperava a paixão. Podia compreendê-la. Era o frenesi selvagem que levava os homens a procurarem uma forma de liberação. Co­nhecia o sexo, das conversas francas no harém aos diálogos român­ticos e sonhadores nos chás. As mulheres eram tão famintas quanto os homens, embora nem sempre fossem capazes de saciar sua fome. A impressão de sexo que permanecera em sua mente, desde a infân­cia, era uma confusão de braços e pernas, uma torrente de sons e movimentos, que ocorriam melhor no escuro.

Quando os lábios tornaram a se encontrar com os seus, Adrian­ne estava disposta a se entregar.

Mas foi apenas o sussurro de um beijo, um roçar de leve, um recuo, um novo encontro. Ela piscou os olhos, surpresa, para desco­brir que Philip a observava.

Ele percebeu a confusão, o desejo que aumentava a cada momento, enquanto acariciava a boca de Adrianne. Não havia impulso para devorar ou possuir. Não desta vez. Não com ela. Toda a habili­dade que ele possuía, toda a paciência que adquirira, teriam de ser usadas naquela noite. Ele deixou que as mãos se perdessem nos cabelos sedosos, proporcionando a ambos o tempo para se ajusta­rem ao inesperado.

Por isso, quando ele a acariciou, Adrianne não se contraiu. Se corpo parecia preparado para ser acariciado e descoberto. Philip tirou o paletó e ela não hesitou mais em passar as mãos por se ombros, descer por suas costas. Impaciente em conhecer a mesma liberdade que ele experimentava, Adrianne puxou sua camisa, a­ soltá-la, para sentir a carne por baixo.

Adrianne ouviu-o respirar fundo por suas carícias. A boca de Philip na sua tornou-se mais urgente, as batidas do coração já não eram mais tão firmes. Ouviu-o murmurar, mas não compreendeu seu pedido para ir devagar. Não sabia quanto custava a Philip despi­-la com cuidado, manter as mãos contidas, quando queria agarrá-la com toda voracidade. Nua, ela estremeceu uma vez. O som do ves­tido caindo como uma poça em torno de seus pés ressoou como uma trovoada em sua mente.

A pele refulgia ao luar, que prateava as pontas dos cabelos, espa­lhados sobre os seios. Philip sabia o que era o desejo, mas nunca imaginara que pudesse ser tão intenso e atordoante... a tal ponto que suas mãos tremiam quando arrancou a camisa, a tal ponto que a garganta doía quando a estendeu na cama.

Adrianne também conhecia o desejo. Só que seus anseios sem­pre tinham um rumo certo e um fim definido. Segurança, reputação, retaliação. Agora, descobria que alguns desejos tinham um pântano de caminhos, levando a muitos destinos. Ainda tinha me­do, mas não era mais medo de Philip. O medo agora era de si mes­ma, do preço que poderia estar disposta a pagar para continuar a se sentir como naquela noite.

Philip lhe mostrava o que era queimar, lentamente, e continuar a ansiar pelo calor. Ela ouviu o próprio suspiro trêmulo, quando o corpo, por tanto tempo privado daquele único prazer, contraiu-se, estremeceu e aceitou. Ali havia a paixão que dissolvia, a ternura que excitava e o conhecimento que derrubava antigas convicções.

Ele tomou-a, como Adrianne sabia que aconteceria, mas tam­bém se deu ao ato. E não houve dor, não houve angústia. Havia a certeza de que ela sentiria dor e angústia. As mãos de Philip, no entanto, deslocavam-se por seu corpo como água. Mesmo quando sua boca desceu para o seio dela, o corpo arqueando-se em reação, houve apenas prazer. Ondas de prazer.

Adrianne recendia a fumaça, a seda e a segredos. O suficiente para levar um homem à loucura. Ela também acariciava, mas cautelo­sa. Embora sua reação fosse tudo o que um homem podia desejar, ele sentiu que um nó de tensão persistia. Adrianne se encaminhava para um auge, e Philip sabia que ela não poderia compreender. Parte da mente de Adrianne se continha, talvez cautelosa com o preço a pagar depois. Onde havia um prazer intenso, havia também uma vulnera­bilidade intensa. Ele tornou a beijá-la, com um murmúrio. A boca de Adrianne se abriu e as línguas iniciaram uma dança experimental.

Os gostos eram novos para Adrianne... e, no entanto... também eram familiares. A sensação do corpo de Philip, em movimento contra o seu, ajustando-se, deslizando, não era estranha, nem assus­tadora, como ela esperava. Não experimentou a violação para a qual se preparara quando ele tocou onde nenhum homem jamais tocara.

E, depois, houve mais, mais do que sensações agradáveis, mais do que a descoberta fácil. A respiração de Adrianne tornou-se su­perficial e ela teve de fazer um esforço para respirar. A pele, tão sen­sível a cada carícia, foi esquentando cada vez mais, até que nem mesmo a brisa que entrava pelas janelas abertas podia aliviá-la. De­samparo. E desamparo era uma coisa que ela jurara que nunca sen­tiria, não nas mãos de um homem. Adrianne lutou de novo, contra ele, enquanto o calor se acumulava, se concentrava, expandia no centro de seu ser.

Ali estava a dor, mas não tinha nada a ver com qualquer outra dor que ela já conhecera. Adrianne lutou contra, ao mesmo tempo em que lutava a favor. Cravou as unhas nos lençóis, numa tentativa desesperada de encontrar o equilíbrio.

Lentamente, ele passou a mão por sua coxa, sentindo o tremor de cada músculo separado. E encontrou-a, quente e úmida. Houve um instante de resistência, a respiração estrangulada, enquanto a sensação se intensificava. O corpo de Adrianne contraiu-se, para depois relaxar, num gemido de atônita liberação.

Desse momento em diante, ela se descobriu envolvida, ansiosa por qualquer coisa que pudesse sentir, desesperada por tudo o que Philip podia lhe ensinar. O sangue bombeava quente, rápido, pró­ximo da superfície, quando ela o abraçou. Havia confiança. E Adri­anne abriu-se para essa confiança, assim como se abria para ele.

E quando Philip penetrou-a, houve choque, houve prazer, de um para o outro. Ele não poderia dizer naquele momento, com os corpos unidos, que se sentia mais vulnerável do que em qualquer outra oca­sião anterior, mais vulnerável do que jamais se arriscara a ficar.

MAIS TARDE, ADRIANNE FICOU IMÓVEL A SEU LADO. NÃO deveria ter significado tanto. Não podia mudar qualquer coisa. Ela sabia que era insensatez sentir de uma maneira diferente. Em seu país, uma mulher de sua idade há muito que já estaria casada; e se Deus fosse generoso, já teria gerado filhos. O que acontecera naquela noite era apenas uma função natural. Uma mulher nascia para proporcionar a um homem prazer e filhos.

Ela estava pensando como uma mulher de Jaquir! O choque da compreensão deixou um gosto amargo em sua boca, que prevaleceu sobre o gosto persistente do homem a seu lado. Adrianne começou a se afastar, talvez para fugir. E foi nesse instante que o braço de Philip a envolveu.

O corpo soerguido, apoiado num cotovelo, ele estudou o rosto de Adrianne. Ainda havia segredos ali. Por baixo do brilho das pai­xões saciadas havia reservas que ele nem sequer podia imaginar.

- Eu a machuquei?

Não era pensamento, mas sentia que ainda não estava prepara­do para partilhar seus segredos, tanto quanto ela.

- Não ... claro que não.

Philip tocou em seu rosto. Embora ela não se desviasse, tam­bém não retribuiu a carícia. Porque a pele de Adrianne esfriara, ele puxou o lençol, esperando que ela dissesse alguma coisa, que lhe desse algum sinal de como se sentia ou do que precisava. O silêncio foi se prolongando, constrangedor.

- Nunca mais vai me esquecer - murmurou Philip. - Uma mulher nunca esquece o primeiro amante.

Havia azedume suficiente na voz para que Adrianne percebesse que ele fazia um esforço para se controlar, mas não o bastante para que reconhecesse a mágoa.

- Não, não o esquecerei.

Ele a virou. Os cabelos dela cobriam os dois. Os olhos se en­contraram. Havia um desafio, admitido e aceito.

- Vamos ter certeza - murmurou Philip, beijando-a de novo.

 O SOL ESTAVA ALTO E BRANCO QUANDO ELA ACORDOU. Havia alguma dor em seu corpo, indefinida e doce, para lembrá-la da noite. Sua vontade era de sorrir, aconchegar-se na cama, como se tivesse conquistado uma sacola cheia com os melhores diamantes. Mas havia uma parte sua, uma parte profunda, que ainda acreditava que a submissão de uma mulher na cama significava a submissão em tudo.

Philip dormia a seu lado. Não imaginara que ele passaria a noi­te. Também não imaginara como podia ser confortador acordar no escuro e ouvir sua respiração firme. E sabia agora como era bom analisar o rosto de Philip ao sol da manhã.

Ternura. Ela podia sentir, e lutou contra. Ansiava em passar-lhe os dedos pelo rosto e enfiá-los entre os cabelos. Seria satisfatório tocá-lo agora, como se fosse real e importante o que acontecera durante a noite.

Cautelosa, ela esticou os dedos, e começou a estender a mão. As pontas dos dedos mal roçaram-lhe no rosto quando ele piscou e abriu os olhos. Adrianne retirou a mão rapidamente.

Mesmo no sono, seus reflexos eram rápidos. Philip segurou-a pelo pulso e levou a mão a seus lábios.

-Bom-dia.

- Bom-dia. - Contrafeita. Ela sentia-se absurdamente contrafeita. – Dormimos até mais tarde do que eu tencionava.

- As férias são para isso. - Em um movimento suave, Philip rolou para cima dela, beijando seu pescoço. - E para outras coiasas.

­Adrianne fechou os olhos. Era difícil, muito mais difícil do jamais imaginara, resistir à necessidade de ceder. Se possível, desejava-o agora ainda mais do que durante a noite. O amor, como qualquer indulgência, despertava um desejo maior depois que se experimentava pela primeira vez.

- Vamos comer o desjejum? - indagou ela, torcendo para que a voz saísse descontraída.

Depois de mordê-la de leve nos lábios, ele recuou.

- Está com fome?

-Muita.

- Devo pedir que mandem para o quarto?

- Sim ... não. - Adrianne já começava a se odiar pelo embuste. - Prefiro tomar um banho e me vestir. Pensei em depois ir mergulhar em Palancar.

-Já reservou um barco?

-Ainda não.

Quando ele se sentou na cama, Adrianne mudou de posição, apenas ligeiramente, para que os corpos não mais se tocassem.

- Providenciarei tudo. Também vou tomar um banho, e nos encontraremos no restaurante dentro de uma hora. Partiremos depois de comer.

- Combinado. - Ela conseguiu oferecer um sorriso. - Posso demorar um pouco mais, pois preciso ligar para Celeste.

- Mas não por muito tempo.

Philip beijou-a; e porque já começava a se arrepender, ela retribuiu com ardor. Ele apertou-a, com um murmúrio de aprovação.

- Uma pessoa pode passar dias sem comer.

A risada foi apenas um pouco tensa.

- Não esta pessoa.

Adrianne esperou até ficar sozinha para levantar os joelhos e encostar a cabeça. Não devia doer. Fazer o que era necessário não devia doer. Mas doía. Ela jogou o lençol para o lado, levantou-se apressada e começou a se movimentar.

Philip deu-lhe 15 minutos a mais, sentado junto à janela do restaurante, observando os adoradores do sol. Sabia que havia mu­lheres que não davam a menor importância ao tempo. Mas, final­mente, lembrou-se de que Adrianne não era uma delas. Com um esforço para conter a impaciência, ele prolongou uma segunda xíca­ra de café. Um homem ficava de péssimo humor quando começava a contar os minutos. Philip pegou a rosa que pusera ao lado do pra­to de Adrianne. Estava de péssimo humor.

Mais lhe acontecera na noite anterior do que apenas paixão e liberação. Coisas haviam mudado dentro, assentando em posições inalteráveis. Não procurava, nem mesmo queria procurar, alguém que harmonizasse com tanta perfeição. Mas não havia como voltar. E o mesmo acontecia com Adrianne, pensou ele, enquanto acendia um cigarro. Ela podia pensar que poderia continuar sua vida do ponto em que a deixara antes de conhecê-lo, mas ele provaria que estava enganada.

Tomara uma decisão, talvez a primeira em sua vida que não atendia ao interesse pessoal, nem ao lucro. Mas tomara assim mes­mo. E não tinha a menor intenção de desperdiçar o resto da manhã esperando para começar a convencê-Ia de que era a decisão certa.

Ele esmagou o cigarro no cinzeiro. Deixou-o fumegando e o café esfriando, enquanto saía do restaurante. Sentia-se apreensivo quando chegou à suíte de Adrianne. Um idiota apaixonado, disse a si mesmo, irritado. Bateu na porta, com mais força do que era necessário. Experimentou a maçaneta quando ela não atendeu. Estava trancada, mas a chave de sua porta estava no bolso dela, junto com um cartão de crédito e uma moeda fina. Não se deu ao traba­lho de olhar ao redor enquanto trabalhava.

Quando abriu a porta, compreendeu tudo no mesmo instante. Já resmungava quando foi abrir o closet. Estava vazio, a não ser pela fragrância de Adrianne. Havia um pouco de talco no balcão de maquilagem, mas os vidros, potes e tubos haviam desaparecido.

Ele deixou a porta do closet bater. Enfiou as mãos nos bolsos. Por um momento, houve apenas raiva e impotência. Jamais um homem violento, ele descobriu nesse momento como era antecipar um assassinato com satisfação. Mas tratou de controlar as emoções Foi até o telefone e ligou para a recepção.

- Há quanto tempo Lara O'Conner deixou o hotel? - Ele esperou, fantasiando vingança e retaliação. - Quarenta minutos? Obrigado.

Ela podia correr, pensou Philip ao desligar. Mas nunca seria capaz de correr tão depressa.

ENQUANTO PHILIP JURAVA VINGANÇA, ADRIANNE AFIVELAVA o cinto de segurança. Escondera os olhos com óculos escuros. Não estavam injetados, pois não se permitira lágrimas. Mas havia pesar neles. Philip ficaria furioso, pensou ela. Mas depois continuaria em sua vida... como ela faria, como tinha de fazer. As emoções, do tipo que Philip podia provocar, não tinham lugar em sua vida. Até que O Sol e a Lua estivesse em seu poder, não havia espaço para qual­quer outra coisa além da vingança.

 

Nevara em Londres. As ruas estavam cinzentas com a sujeira da neve derretida. Fora acumulada junto do meio-fio, enegrecida, como carvão, igualmente horrível. Mas nos telhados continuava branca, como numa campina imaculada, faiscando ao sol fraco. Um vento forte investia contra os casacos e chapéus dos pedestres que passavam apressados, os corpos inclinados, segu­rando qualquer coisa sob a ameaça de ser arrebatada. Era o tipo de frio que penetrava até os ossos e suplicava por uma bebida quente. Horas antes, Philip desfrutava o ardente sol mexicano.

- Aqui está o chá, querido.

Em movimentos rápidos, do hábito antigo de tentar alcançar todo mundo, Mary Chamberlain entrou em sua sala aconchegante. Philip afastou-se da janela para pegar a bandeja carregada. Todas as iguarias prediletas de sua infância estavam ali. Por mais sombria que fosse sua disposição, não pôde deixar de sorrir. Mary sempre tentara mimá-lo, quando tinha os recursos para isso, e mesmo quando não tinha.

- Fez o suficiente para um exército.

- Deve oferecer alguma coisa a seu convidado, quando ele chegar.

Ela se sentou à mesa de chá. Levantou o bule para servir. Era um excelente jogo de chá de porcelana Meissen, com rosas bem cla­ras e folhas douradas.

- Antes de sua chegada, porém, achei que poderíamos tomar uma xícara e conversar um pouco.

Ela acrescentou um pouco de creme ao chá de Philip, lembrando que ele não usava açúcar desde os 12 anos. O fato de que o filho já passava dos 30 anos ainda a espantava. Sentia que ela própria não tinha muito mais do que isso. Como qualquer mãe, considerava o filho muito magro, e por isso pôs dois pedaços de bolo com glacê num prato para ele.

-Tome aqui.

Satisfeita, ela despejou uma porção considerável de açúcar em seu próprio chá. Não havia nada como um chá bem quente e doce numa tarde de inverno.

- Não é agradável?

-Hem?

- Tome seu chá, querido. É sempre um choque para o organismo viajar de um clima para outro.

Aquilo que o perturbava acabaria saindo, Mary tinha certeza, mais cedo ou mais tarde.

Philip obedeceu, numa reação automática, fitando a mãe por cima da xícara. Ela engordara nos últimos anos. O que lhe era favorável, pensou Philip. A mãe sempre fora muito magra quando ele era criança. Seu rosto era redondo; e se a pele carecia do viço da juventude, tinha o brilho de uma mulher madura. Umas poucas rugas, é verdade, mas procediam mais do riso do que da idade. Mary sempre gostara de rir. Os olhos eram de um azul-claro e ino­cente.

Não herdara a aparência da mãe, mas sim do homem que a seduzira e depois saíra de sua vida. Quando menino, isso o incomodava muito, a tal ponto que observava todo homem, do carteiro ao príncipe, à procura de uma semelhança. Até hoje, porém, ele não tinha certeza do que tencionava fazer se encontrasse alguma.

- Mudou os cabelos, mamãe.

Mary afofou-os. O gesto era coquete e totalmente inato. - Mudei sim. O que você acha?

- Estão lindos.

Ela riu, um som exuberante e satisfeito.

- Tenho um novo cabeleireito, o Sr. Mark. .. pode imaginar? - Mary revitou os olhos e lambeu um pouquinho de glacê da ponta do dedo. - Ele flerta tanto que não se pode deixar de dar uma gorjeta maior. Todas as garotas estão loucas pelo Sr. Mark, mas acho que ele é de outra fé.

- Episcopaliano?

O humor faiscou nos olhos de Mary. Seu Phil sempre fora um demônio.

- Isso mesmo. Agora ... - Ela recostou-se, com a xícara de chá nas mãos, os lábios contraídos num sorriso. - Fale-me tudo sobre suas férias. Espero que não tenha bebido a água de lá. Ouvimos falar as piores coisas a respeito. Divertiu-se bastante?

Ele pensou em engatinhar através de dutos, esconder-se em closets e fazer amor com Adrianne.

- Teve seus momentos.

- Nada como passar férias nos trópicos durante o inverno. Ainda me lembro quando você me levou para a Jamaica em meados de fevereiro. Eu me senti decadente.

Fora um benefício secundário do roubo da coleção De Marco.

- E manteve os nativos inquietos.

- Achei que devia me comportar como uma respeitável matrona britânica. - Ela riu. Estava aí uma coisa que Mary nunca seria, ser matronal. - Estou pensando em fazer um cruzeiro. Talvez pela Bahamas.

Ela avistou Chauncy, o gato gordo e preguiçoso que adotara há alguns anos. Antes que ele pulasse em cima da bandeja, Mary pôl um pouco de creme num pires, que largou no chão.

- o adorável Sr. Paddington me convidou.

- O quê? - Philip voltou aturdido ao presente, com um sobressalto. Ao lado, o gato devorava o creme, voraz. - Pode repetir?

 - Eu disse que estava pensando em viajar para as Bahamas com o Sr. Paddington. Chauncy, você é um porco!

Coração mole, ela pôs um pedaço de bolo no pires. O