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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


E NO FINAL A MORTE / Agatha Christie
E NO FINAL A MORTE / Agatha Christie

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

E NO FINAL A MORTE

 

                       Segundo Mês da Inundação - Vigésimo Dia

 

Renisenb ficou olhando para o Nilo.

Na distância, podia ouvir indistintamente as vozes exaltadas de seus irmãos, Yahmose e Sobek, discutindo se os diques deviam ou não ser reforçados. A voz de Sobek era alta e confiante como sempre. Ele tinha o hábito de afirmar seus pontos de vista com absoluta certeza. A voz de Yahmose era baixa e tinha um tom queixoso, expressava dúvida e ansiedade. Yahmose estava sempre num estado de ansiedade diante de uma coisa ou outra. Era o filho mais velho e, durante a ausência do pai nos estados do norte, a gerência das terras estava mais ou menos em suas mãos. Yahmose era lento, prudente e propenso a procurar dificuldades onde elas não existiam. Era de constituição pesada, movimentos lentos e nada tinha da alegria e confiança de Sobek.

Desde a infância, Renisenb podia se lembrar desses seus irmãos mais velhos discutindo daquela mesma maneira. Isso deu-lhe de repente um sentimento de segurança... Ela estava novamente em casa. Sim, ela tinha voltado para casa...

Porém, quando mais uma vez olhou para o rio, pálido e resplandecente, sua rebeldia e dor assomaram-lhe novamente. Khay, seu jovem marido, estava morto... Khay com sua face risonha e seus ombros fortes. Khay estava com Osíris no reino da morte — e ela, Renisenb, sua querida e amada esposa, arrasada. Oito anos eles viveram juntos — ela fora para ele quando era ainda pouco mais que uma criança — e agora voltava viúva, com a filha de Khay, Teti, para a casa de seu pai.

Nesse momento, sentiu-se como se nunca houvesse partido.

Tal idéia lhe agradou.

Esqueceria aqueles oito anos — tão cheios de uma felicidade inconseqüente, tão dilacerada e desfeita pela perda e a dor.

Sim, esquecê-los, tirá-los de sua cabeça. Voltar a ser Renisenb, a filha de Imhotep, o sacerdote de Ka, aquela menina tola e insensível. Esse amor por um marido e irmão tinha sido uma coisa cruel, enganando-a com sua doçura. Ela se lembrava dos fortes ombros de bronze, da boca risonha — agora Khay estava embalsamado, mumificado, protegido por amuletos na sua via­gem para o outro mundo. Khay não estava mais neste mundo para navegar no Nilo, pescar e rir ao sol, enquanto ela; estendida no barco, com Teti no colo, ria também para ele.

Renisenb refletia:

“Não vou mais pensar nisso. Acabou-se! Aqui, estou em casa. Tudo está como era antes. E eu também logo voltarei a ser como era. Teti já esqueceu. Ela brinca e ri com as outras crianças.”

Renisenb voltou-se, subitamente, e encaminhou-se em direção à casa, passando por alguns jumentos carregados que iam sendo levados para as margens do rio. Passou pelos celeiros de trigo, pelas casas e pelo portão, e chegou até o pátio. O pátio era muito agradável. Havia o lago artificial, cercado por oleandros e jasmins em flor, sombreado pelas figueiras. Teti e as outras crianças estavam ali brincando agora, e suas vozes elevavam-se claras e estridentes. Corriam de um lado para outro, entrando e saindo da pequena tenda ao lado do lago. Renisenb notou que Teti estava brincando com um pequeno leão de madeira, cuja boca abria e fechava ao se puxar uma cordinha, um brinquedo que ela mesma adorara, quando criança. E mais uma vez pensou, agradecida: “Voltei para casa...” Aqui nada havia mudado, tudo estava como sempre fora. Aqui a vida era segura, constante, imutável; era Teti, agora, a criança, e ela uma das muitas mães enclausuradas pelas paredes da casa — mas a estrutura, a essência das coisas, estava intacta.

A bola, com a qual uma das crianças estava brincando, rolou até os seus pés; pegou-a e, rindo, atirou-a de volta.

Renisenb foi andando até a varanda, com suas colunas alegremente coloridas, e entrou na casa, passando pela grande sala central, com seus frisos coloridos e decorados com lótus e papoulas, chegando assim aos fundos, onde ficavam os aposentos das mulheres.

Vozes exaltadas chegaram-lhe aos ouvidos e ela novamente se deteve, saboreando com prazer os velhos ecos familiares. Satipy e Kait — discutindo como sempre! O já bem conhecido tom de voz de Satipy, alto, dominante e insolente! Satipy era a esposa de seu irmão Yahmose, uma mulher alta, enérgica e exaltada, bela na sua maneira dura e dominadora. Eternamente ditando a lei, intimidando os criados, achando falhas em tudo, conseguindo que coisas impossíveis fossem feitas, puramente pela força da vituperação e da personalidade. Todos temiam sua língua e corriam para obedecer suas ordens. O próprio Yahmose tinha uma grande admiração por sua resoluta e geniosa esposa, porém se deixava intimidar por ela de tal maneira que normalmente dei­xava Renisenb furiosa.

Nos intervalos, quando Satipy dava uma pausa em suas frases de tom altíssimo, podia-se ouvir a quieta e obstinada voz de Kait. Kait, mulher corpulenta e de rosto simples, era a esposa do belo e engraçado Sobek. Completamente devotada aos filhos, raramente pensava ou falava a respeito de outra coisa. Nas brigas diárias com sua cunhada, defendia seu ponto de vista de uma maneira muito simples; o que quer que tivesse dito anterior­mente, ela o repetia, com uma quieta e irremovível obstinação. Não manifestava nem cólera nem paixão e jamais considerava outra forma de encarar a questão que não fosse a sua própria. Sobek era extremamente agarrado à sua esposa e conversava com ela abertamente a respeito de todos os seus problemas, certo de que ela aparentaria estar ouvindo e que emitiria sons reconfortantes de assentimento ou discordância, não se lembrando de nada inconveniente, uma vez que sua mente estava, com certeza, remoendo o tempo todo algum problema ligado às crianças.

— É um ultraje, isto sim — gritou Satipy. — Nem que tenha o gênio de um rato, Yahmose não vai aturar isso nem por um momento! Quem está no comando aqui, enquanto Imhotep está ausente? Yahmose! E como esposa de Yahmose, eu é quem deveria ter sido a primeira a escolher as esteiras e almofadas. Aquele hipopótamo daquele escravo negro deveria ser...

A voz firme e profunda de Kait interveio:

— Não, não, meu queridinho, não coma o cabelo da sua boneca. Olhe, aqui está algo melhor... um doce... oh, que bom...

— Quanto a você, Kait, não tem fineza, nem ao menos ouve o que estou dizendo — não responda —; suas maneiras são atrozes.

— A almofada azul sempre foi minha... Oh, veja a pequena Ankh: ela está tentando andar...

— Você é tão estúpida quanto seus filhos, Kait, e isso já é dizer o bastante! Mas você não vai sair dessa, assim. Eu terei os meus direitos, guarde o que estou dizendo.

Renisenb já ia sair quando um ligeiro ruído de passos fez-se ouvir atrás dela. Voltou-se num sobressalto, com a sensação familiar de aversão ao ver atrás de si a mulher Henet.

A face magra de Henet contorceu-se no seu habitual sorriso, que tinha sempre um quê de adulador.

— Você deve estar pensando que as coisas não mudaram muito, Renisenb — disse ela. — Como todos nós suportamos a língua de Satipy, eu não sei! É claro que Kait pode responder. Alguns de nós não têm tanta sorte! Sei reconhecer o meu lugar, espero, e sou grata ao seu pai por me dar casa, comida e o que vestir. Ah, ele é um homem bom, o seu pai. E eu sempre tentei fazer tudo o que posso. Estou sempre trabalhando, dando uma mão aqui e ali, e não espero reconhecimento ou gratidão. Se sua querida mãe estivesse viva, tudo seria diferente. Ela era capaz de me apreciar. Éramos como irmãs! Uma mulher bonita, é o que ela era. Bem, eu cumpri minha obrigação e mantive a promessa que lhe fiz. “Cuide das crianças, Henet”, disse-me quando estava morrendo. E eu me mantive fiel à minha palavra. Escrava de todos vocês eu fui, e nunca desejei agradecimentos. Não os exigi e nem os tive! “É apenas a velha Henet”, é o que dizem, “ela não conta.” Ninguém pensa em mim. E por que deveriam? Apenas tento ser útil, e isso é tudo.

Ela escorregou como uma enguia pelo braço de Renisenb e entrou no quarto.

— A respeito dessas almofadas, você me desculpe, Satipy, mas acontece que eu ouvi Sobek dizer...

Renisenb retirou-se. Sua antiga aversão por Henet ressurgiu. Engraçado como Henet desagradava a todos! Era a sua voz chorosa, sua interminável autocomiseração e seu ocasional prazer malicioso em atiçar o fogo de uma discussão.

“Muito bem”, pensou Renisenb, “por que não?” Era esta a maneira, supunha, que Henet tinha de se divertir. A vida deve ser terrível para ela — e era verdade que tinha trabalhado como um cão e que ninguém jamais lhe foi grato. Era impossível ser grato a Henet; ela chamava a atenção para seus próprios méritos de modo tão persistente que congelava qualquer reação generosa que se pudesse haver sentido.

Henet, pensou Renisenb, era uma dessas pessoas cujo destino é ser devotado aos outros, e nunca ter alguém que lhe seja devotado. Ela era desagradável à vista e também estúpida. Mas sempre sabia o que estava acontecendo. Sua maneira imperceptível de andar, suas orelhas aguçadas e seus olhos sempre esprei­tando, deixavam claro que para ela nada podia ser mantido em segredo por muito tempo. Às vezes guardava as coisas para si — outras vezes ia de uma pessoa a outra, sussurrando, e depois ficava por trás deliciando-se em observar os resultados de suas intrigas.

Numa ou noutra ocasião, todos na casa já haviam pedido a Imhotep para se ver livre de Henet. Mas Imhotep jamais atende­ria a tal coisa. Ele era talvez a única pessoa que gostava de Henet; e ela correspondia a esse amparo com uma completa devoção, que o resto da família achava até nauseante.

Renisenb permaneceu indecisa por um momento, ouvindo a acelerada gritaria de suas cunhadas, atiçadas pela chama da interferência de Henet; então, devagar, ela foi até o pequeno quarto onde sua avó, Esa, estava sentada sozinha, atendida por duas escravas negras. Neste momento ela estava ocupada, inspecionando certas peças de roupas de linho que as escravas lhe exibiam, ao mesmo tempo que as repreendia de uma maneira amigável.

Sim, estava tudo na mesma. Renisenb parou, sem que a percebessem, escutando. A velha Esa tinha encolhido um pouco, era tudo. Mas tanto sua voz quanto as coisas que ela estava dizendo eram as mesmas, palavra por palavra quase, tanto quanto Renisenb podia lembrar-se delas, antes de deixar o lar, oito anos antes...

Renisenb escapuliu de novo. Nem a senhora nem as duas pequenas escravas negras haviam notado sua presença. Por alguns instantes Renisenb deixou-se ficar diante da porta da cozinha. Um cheiro de patos assando, uma mistura de conversas, risos e ralhos, tudo ao mesmo tempo; uma montanha de legumes esperando para serem preparados.

Renisenb ficou assim, bem quieta, os olhos meio fechados. De onde estava, podia ouvir tudo o que estava acontecendo. Os ricos e variados sons da cozinha, o som agudo e penetrante da voz da velha Esa, os sons estridentes de Satipy, e, mais fraco, o profundo e persistente contralto de Kait. Uma babel de vozes femininas — tagarelando, rindo, reclamando, ralhando, exclamando. ..

Então Renisenb sentiu-se subitamente abafada, envolvida por aquela persistente e ruidosa feminilidade. Mulheres — barulhentas, vociferantes mulheres! Uma casa cheia de mulheres — jamais quietas ou tranqüilas — sempre falando, exclamando, dizendo coisas, nunca fazendo!

E Khay — Khay silencioso e atento no seu barco, toda sua mente voltada para o peixe que ia apanhar...

Nada havia desse bater de línguas, dessa atividade, nada desse incessante rebuliço.

Renisenb deixou rapidamente a casa, rumo à quente e clara tranqüilidade. Viu Sobek voltando dos campos e, a distância, Yahmose subindo em direção ao túmulo. Virou-se e tomou o caminho que levava aos penhascos calcários onde estava o túmulo. Era o túmulo do grande Nobre Meriptah, e seu pai era o sacerdote mortuário responsável pela sua manutenção. Todos os bens e as terras faziam parte do dote do túmulo.

Quando seu pai estava fora, as obrigações do sacerdote de Ka recaíam sobre seu irmão Yahmose. Quando Renisenb, que foi andando devagar pelo caminho íngreme, chegou, Yahmose estava deliberando com Hori, o homem que cuidava dos negócios e assuntos de seu pai, num pequeno aposento de pedra, contíguo ao quarto de oferendas ao túmulo.

Hori tinha uma folha de papiro estendida sobre os joelhos e Yahmose e ele estavam inclinados sobre ela.

Yahmose e Hori sorriram para Renisenb quando ela chegou e sentou-se perto deles numa mancha de sombra. Ela sempre havia sentido uma grande ternura por seu irmão Yahmose. Ele era sempre gentil e afetuoso para com ela, e tinha um tempera­mento meigo e suave. Hori, também, tinha sido sempre solene­mente gentil para com a pequena Renisenb e algumas vezes consertara seus brinquedos. Era um jovem grave e silencioso, com dedos hábeis e sensíveis, quando ela se foi. Renisenb pensou que, apesar de parecer mais velho, ele não havia mudado nada. A maneira grave como lhe sorriu era a mesma da qual se lembrava.

Yahmose e Hori murmuravam:

— Setenta e três medidas de cevada com Ipy, o mais jovem...

— O total então é duzentas e trinta de trigo e cento e vinte de cevada.

__ Sim, mas há também o preço da madeira e a colheita que foi paga em óleo em Perhaa...

E a conversa continuou. Renisenb sentou-se, sonolentamente, satisfeita com o murmúrio de vozes masculinas ao fundo. Nesse momento Yahmose levantou-se e foi embora, devolvendo o rolo de papiro a Hori.

Renisenb permaneceu sentada numa silenciosa camaradagem.

Então, tocando o rolo de papiro, perguntou: — É do meu pai?

Hori acenou afirmativamente.

— Que diz ele? — perguntou curiosa.

Ela desenrolou-o e fitou aquelas marcas sem sentido aos seus olhos ignorantes.

Com um ligeiro sorriso, Hori inclinou-se sobre seu ombro e acompanhou com o dedo enquanto lia. A carta havia sido escrita no estilo ornamentado do escriba profissional de Heracleópolis.

— O Servo do Estado, o servidor de Ka, Imhotep, diz: Possa a sua condição ser aquela dos que vivem um milhão de vezes. Que o Deus Herishaf, Senhor de Hera­cleópolis e Todos os Deuses que há possam ajudá-lo. Que o Deus Ptah possa alegrar o seu coração como aquele que vive por muito tempo. O filho fala à sua mãe, o servo de Ka à sua mãe Esa. Como vai a sua vida, segura e saudá­vel? A todos da casa, como vão vocês? Ao meu filho Yahmose, como está a sua vida, segura e saudável? Faça o melhor da minha terra. Empenhe-se ao máximo, dê tudo de si no trabalho. Se você for industrioso eu louvarei a Deus por você...

Renisenb riu.

— Pobre Yahmose! Estou certa de que ele já se esforça o bastante.

As exortações de seu pai trouxeram-no vividamente de volta aos seus olhos — sua maneira pomposa e ligeiramente afetada, suas eternas exortações e instruções.

Hori continuou:

— Tome muito cuidado com meu filho Ipy. Ouvi dizer que ele está descontente. Faça com que Satipy trate Henet bem. Lembre-se disto. Não se esqueça de escrever sobre o linho e o óleo. Cuide da produção do meu cereal — cuide de tudo o que é meu, pois você continuará como respon­sável. Se minha terra inundar, ai de você e de Sobek.

— Meu pai é ainda o mesmo — disse Renisenb alegremente. — Sempre pensando que nada pode ser feito sem a sua presença.

Deixou o rolo de papiro cair e acrescentou suavemente:

— Tudo é exatamente igual...

Hori não respondeu; pegou uma folha de papiro e começou a escrever. Renisenb olhou-o, preguiçosamente, por algum tempo. Sentia-se muito satisfeita para falar.

Depois, sonhadora, disse:

— Seria interessante saber como escrever no papiro. Por que todos não aprendem?

— Não é necessário.

— Necessário, talvez não, mas seria agradável.

— Você acha, Renisenb? Que diferença poderia fazer para você?

Renisenb pensou por alguns instantes. Então disse devagar:

— Você me perguntando assim, realmente não sei, Hori.

Hori disse: — No presente, apenas alguns escribas é tudo de quanto um grande Estado precisa; mas virá o dia, imagino eu, em que haverá batalhões de escribas por todo o Egito.

— Isso vai ser bom — disse Renisenb.

Hori retrucou lentamente: — Não estou certo.

— Mas como você não está certo?

— Porque, Renisenb, é muito fácil e dá muito pouco traba­lho escrever dez medidas de cevada, ou cem cabeças de gado, ou dez campos de trigo; e o que está escrito vai se parecer com a coisa real, e assim o escritor vai começar a desprezar o homem que ara os campos e ceifa a cevada e cria o gado. Mas de qualquer forma os campos e o gado são reais, não são apenas marcas de tinta no papiro. E quando todas as notas e todos os rolos de papiro estiverem destruídos e os escribas dissipados, os homens que trabalham e ceifam continuarão existindo e o Egito ainda estará vivo.

Renisenb olhava para ele atentamente. Disse-lhe então pausadamente: — Sim, entendo o que você quer dizer. Somente as coisas que você pode ver, tocar e comer são reais... Escrever “Tenho duzentas e quarenta medidas de cevada” não quer dizer nada, a menos que você tenha a cevada. Uma pessoa pode escrever mentiras.

Hori sorriu com seu rosto sério. Renisenb disse então:

— Você consertou meu leão para mim, há muito tempo, lembra-se?

— Sim, eu me lembro, Renisenb.

— Teti está brincando com ele agora... É o mesmo leão.

Parou e então disse simplesmente:

— Quando Khay foi para Osíris eu fiquei muito triste. Mas agora voltei para casa e ficarei feliz novamente e esquecerei, pois tudo aqui está no mesmo. Nada mudou.

— Você realmente pensa assim?

Renisenb olhou diretamente para ele.

— Que você está querendo dizer, Hori?

— Eu digo que as coisas sempre mudam. Oito anos são oito anos.

— Aqui nada mudou — disse Renisenb confiante.

— Pois talvez devesse ter mudado.

Renisenb disse abruptamente:

— Não, não; quero tudo exatamente como era antes!

— Mas você própria não é a mesma Renisenb que se foi com Khay.

— Sim, eu sou! E se não sou, então breve o serei.

Hori balançou a cabeça.

— Não se pode voltar, Renisenb. É como eu, aqui, com minhas medidas. Tiro metade e somo um quarto, depois um décimo e então uma vigésima quarta parte; e no final, como você vê, há uma quantidade completamente diferente.

— Mas eu sou a mesma Renisenb.

— Mas Renisenb tem sempre mais alguma coisa, que se vai acrescentando a ela, o tempo todo, e assim ela passa a ser, sempre, uma nova Renisenb!

— Não, não; você é o mesmo Hori.

— Você pode pensar assim, mas não é assim.

— E sim, e Yahmose é o mesmo, tão preocupado e ansioso, e Satipy o irrita da mesma forma, e ela e Kait estavam tendo a costumeira discussão sobre esteiras ou miçangas, e logo quando eu voltar elas estarão rindo juntas, as melhores amigas; e Henet ainda se arrasta, ouve as conversas e choraminga a sua devoção, e minha avó estava às voltas com a empregadinha, discutindo o linho! Era tudo igual, e breve meu pai estará de volta e haverá um grande rebuliço, e ele dirá “por que vocês não fizeram isso?” e “você devia ter feito aquilo”, e Yahmose vai ficar preocupado e Sobek vai rir e ser insolente, e então meu pai vai importunar Ipy, que tem dezesseis anos, da mesma maneira que costumava fazer quando ele tinha oito, e nada será diferente! — Ela parou, sem fôlego.

Hori suspirou e disse, gentilmente:

Você não entende, Renisenb. Existe um mal que vem de fora, que ataca de modo que todos podem ver, mas existe um outro tipo de podridão que brota de dentro; que não mostra nenhum sinal aparente, que cresce devagar, dia a dia, até que, finalmente, todo o fruto está podre, carcomido pela doença.

Renisenb ficou olhando para ele. Hori tinha falado quase que inadvertidamente, como se não estivesse falando com ela, mas como um homem que cisma consigo mesmo.

Ela gritou, impulsiva:

Que você está dizendo, Hori? Você me mete medo.

Eu próprio estou com medo.

Mas o que você quer dizer? Que mal é este de que você fala?

Então ele a olhou e de repente sorriu.

Esqueça o que eu disse, Renisenb. Eu estava só pensando nas doenças que dão nas plantações.

Renisenb respirou aliviada.

Fico contente. Eu pensei... nem sei o que pensei.

 

                       Terceiro Mês da Inundação - Quarto Dia

 

Satipy estava conversando com Yahmose. Sua voz tinha uma nota estridente que raramente variava de tom.

Você tem de se afirmar. É o que eu digo! Você nunca será valorizado, a menos que se afirme. Seu pai diz que isso ou aquilo tem de ser feito e que você ainda não fez aquilo outro. E você escuta humildemente e responde sim, sim, e se desculpa pelas coisas que ele lhe disse que deviam ter sido feitas, as quais os deu­ses sabem, eram de modo geral absolutamente impossível. Seu pai o trata como a uma criança, como a um menino irresponsável! Como se você tivesse a idade de Ipy.

Yahmose disse calmamente:

Meu pai não me trata de modo algum como ao Ipy.

Não mesmo. — Satipy atirou-se sobre o novo assunto com fúria renovada. — Ele parece um bobo com aquele fedelho mimado! Dia a dia Ipy se torna mais impossível. Ele se pavoneia e não faz nada para ajudar, sob o pretexto de que tudo o que se lhe peça é trabalho pesado demais para ele! Uma desgraça. E tudo porque ele sabe que seu pai vai sempre tomar seu partido e perdoá-lo. Você e Sobek deviam tomar uma atitude a esse respeito.

Yahmose sacudiu os ombros.

De que adiantaria?

Você me deixa louca, Yahmose, isso é tão típico de você! Você não tem fibra. É dócil como uma mulher! Concorda imediatamente com tudo o que seu pai diz!

Eu tenho uma grande afeição pelo meu pai.

Sim, e ele se aproveita disso! Você continua aceitando a culpa humildemente e se desculpando como se a falha fosse sua! Você devia gritar e responder assim como faz Sobek. Sobek não tem medo de ninguém!

— Sim, mas lembre-se, Satipy, que é em mim que meu pai confia e não em Sobek. Meu pai não deposita confiança em Sobek. As decisões cabem sempre a mim, não a ele.

— É por isso que você devia ser definitivamente reconhecido como sócio de todos os bens! Você representa seu pai quando ele está fora, assume a posição de sacerdote de Ka na sua ausência, tudo é deixado em suas mãos; e no entanto não tem sua autoridade reconhecida. Deveria haver um acordo apropriado. Você já é um homem próximo à meia-idade. Não é direito que seja tratado ainda como uma criança.

Yahmose disse duvidoso:

— Meu pai gosta de manter as coisas sob suas rédeas.

— Exatamente. Agrada-lhe saber que todos nesta casa dependem diretamente dele e de seus caprichos do momento. Isto vai muito mal e vai ficar pior. Desta vez, quando ele voltar para casa, você tem de ser taxativo: tem que lhe dizer que exige um acordo escrito, que insiste em ter sua situação regularizada.

— Ele nem vai ouvir.

— Então você tem de fazê-lo ouvir. Ah, se eu fosse homem! Se estivesse no seu lugar agora, eu saberia o que fazer! Às vezes penso que me casei com uma lesma.

Yahmose enrubesceu.

— Verei o que posso fazer; sim, talvez eu possa falar com meu pai, pedir-lhe que...

— Pedir não; você tem de exigir! Afinal você é o seu braço direito. Não há mais ninguém aqui para quem ele possa deixar o cargo, só você. Sobek é muito impetuoso, seu pai não confia nele, e Ipy é muito pequeno.

— Há também Hori.

— Hori não é um membro da família. Seu pai confia no seu julgamento, mas ele não legará autoridade a menos que seja nas mãos da sua própria estirpe. Mas eu já percebo; você é tão dócil, tão humilde, é leite que corre nas suas veias, ao invés de sangue! Você não se lembra de mim, nem dos seus filhos. Enquanto seu pai viver, nós jamais teremos a nossa própria posição.

Yahmose disse então pausadamente:

— Você me despreza, não é, Satipy?

— Você me deixa com raiva.

— Escute, eu lhe digo que falarei com meu pai quando ele chegar. É uma promessa.

Satipy murmurou baixinho:

— Sim, mas como você vai falar? Como um homem ou como um rato?

 

Kait estava brincando com sua filha mais moça, a pequena Ankh. O bebê estava só começando a andar e Kait encorajava-o com palavras engraçadas, ajoelhada em frente a ele e esperando de braços abertos que a criança, nos seus precários tropeções e cambaleando nos seus pezinhos incertos chegasse até os braços da mãe.

Kait estava mostrando estas realizações para Sobek, mas de repente deu-se conta de que ele não estava prestando a menor atenção, sentado ali com sua bela fronte franzida numa ruga.

— Oh, Sobek, você não estava olhando. Você não viu. Minha pequena, diga ao seu pai que ele é muito mal-educado e que não viu você.

Sobek disse irritado:

— Tenho outras coisas em que pensar... e com que me preocupar.

Kait agachou-se, penteando seu cabelo para trás, retirando-o de sobre as escuras sobrancelhas, onde os dedos de Ankh haviam se agarrado.

— Por quê? Há algo errado?

Kait falou sem dar muita atenção ao que estava falando. Era uma pergunta mais ou menos automática.

Sobek replicou furioso:

— O problema é que não confiam em mim. Meu pai está velho e tem idéias completamente fora de moda, e insiste em ditar toda e qualquer ação por aqui; ele jamais vai deixar as coisas por minha conta.

Kait balançou a cabeça e murmurou:

— Sim, isso é muito ruim.

— Se pelo menos Yahmose tivesse um pouco mais de fibra e me apoiasse, talvez houvesse alguma esperança de chamar meu pai à razão. Mas Yahmose é tão tímido! Ele acata ao pé da letra toda e qualquer ordem que meu pai lhe dê.

Kait atirou algumas contas à criança e murmurou:

— Isso é verdade.

— Nesse caso da madeira eu terei de dizer a meu pai quando ele chegar que decidi por minha própria conta. Era muito melhor receber em linho do que em óleo.

— É claro que você tinha razão.

— Mas meu pai é tão obstinado em fazer as coisas à sua maneira! Ele fará uma algazarra, vai gritar: “Eu lhe disse para fazer a transação em óleo. Tudo é feito da maneira errada quando não estou aqui. Você é um menino imbecil que não sabe de nada!” Quantos anos ele pensa que tenho? Não percebe que sou um homem na plenitude e que ele já ultrapassou a dele. Suas instruções e sua recusa em sancionar qualquer transação que não seja a habitual só fazem com que nós não façamos tão bons negócios quanto os que poderíamos fazer. Nem de longe. Para se alcançar os lucros é necessário que se corra alguns riscos. Eu tenho visão e coragem. Meu pai não tem nem uma coisa nem outra.

Com os olhos na criança, Kait murmurou com meiguice:

— Você é tão audacioso e tão esperto, Sobek!

— Mas ele há de ouvir algumas verdades desta vez, se ousar encontrar alguma falha e gritar comigo! A menos que ele me dê carta branca, eu partirei. Eu vou-me embora.

Kait, com a mão estendida para a filha, voltou a cabeça repentinamente, o gesto interrompido.

— Ir embora? Para onde você iria?

— Para algum lugar! É insuportável ser intimidado e importunado por um velho impaciente e presunçoso que não me dá a menor liberdade de ação para mostrar de quanto sou capaz.

— Não — disse Kait abruptamente. — Eu digo que não, Sobek.

Ele fitou-a admirado. Lembrara-se da sua presença por causa do tom que ela havia usado. Estava tão acostumado ao fato de ela ser apenas uma companhia de acordo para suas conversas, que normalmente se esquecia da sua existência como um ser vivente, pensante, uma mulher humana.

— O que você quer dizer, Kait?

— Quero dizer que não vou deixar você se fazer de tolo. Todos os bens pertencem ao seu pai: as terras, as plantações, o gado, a madeira, os campos de linho, tudo! Quando seu pai morrer, isto vai ser nosso — seu, de Yahmose e de nossos filhos. Se você se desentender com seu pai e for embora, então ele poderá dividir entre Yahmose e Ipy; ele já ama muito a Ipy. E Ipy sabe disso, e se aproveita. Você não pode cair nas mãos de Ipy. Para ele não haveria nada melhor do que ver você brigado com Imhotep e indo embora. E nós temos de pensar nos nossos filhos.

Sobek fitou-a. Então deu um riso curto e surpreso.

— Uma mulher é sempre imprevisível. Nunca imaginei que você pudesse ser assim, Kait, tão feroz.

Kait falou séria:

— Não discuta com seu pai. Não lhe responda. Seja sensato, por mais algum tempo.

— Talvez você tenha razão, mas isso pode continuar durante anos. O que meu pai devia fazer era juntar-nos a ele numa sociedade.

Kait balançou a cabeça.

— Ele jamais fará isso. Ele adora dizer-nos que estamos todos comendo do seu pão, que todos nós dependemos dele, que se não fosse por ele, todos nós estaríamos sem saber para onde ir.

Sobek olhou para ela curiosamente.

— Você não gosta muito do meu pai, não é, Kait?

Mas Kait havia se voltado para o cambaleante bebê.

— Venha, querida; olhe, aqui está a sua boneca. Venha aqui, venha.

Sobek olhou para a sua negra cabeça abaixada. Então, com uma cara um pouco espantada, retirou-se.

 

Esa mandou chamar seu neto Ipy.

O menino, um belo mancebo de ar desgostoso, estava de pé na sua frente, enquanto ela o censurava com sua voz aguda, espreitando-o através de seus olhos opacos, ainda astutos apesar de já não enxergarem quase nada.

— Que é isso que andei ouvindo? Que você não vai fazer isso e não vai fazer aquilo? Você quer cuidar dos bois, mas não quer acompanhar Yahmose ou tratar das plantações? Aonde é que nós vamos parar se as crianças como você começarem a decidir o que vão ou não fazer?

Ipy retrucou mal-humorado:

— Não sou uma criança. Agora estou crescido; por que então haveria de ser tratado como uma criança? Posto para executar tal ou qual trabalho sem que possa dizer uma só palavra e sem qualquer permissão especial. Yahmose dando-me ordens o tempo todo. O que Yahmose pensa que é?

— Ele é seu irmão mais velho, aquele que dá as ordens por aqui quando meu filho Imhotep está fora.

— Yahmose é estúpido; vagaroso e estúpido. Sou muito mais esperto do que ele. E Sobek é um estúpido também, pelo tanto que se vangloria e fala a respeito de quanto é esperto! Meu pai já escreveu dizendo que eu só devo fazer o trabalho que eu mesmo escolher...

— O que quer dizer absolutamente nenhum — interrompeu a velha Esa.

— E que devem me dar mais de comer e de beber, e que se ele souber que estou descontente e que não fui bem tratado, que ele vai ficar muito zangado.

E ele sorria enquanto falava, um sorriso falso, repuxado para cima.

— Seu fedelho mimado — disse Esa enérgica. — Vou contar a Imhotep.

— Não, minha avó, não vai contar.

Seu sorriso transformou-se, tornando-se afável e ligeiramente descarado.

— Você e eu, vovó, somos o cérebro da família.

— Que descaramento, o seu!

— Meu pai confia no seu julgamento; ele sabe que é sensata.

— Pode ser. Na verdade é isso mesmo, mas não preciso de você para me dizer isso.

Ipy riu-se.

— Você estará melhor ao meu lado, vovó.

Que história é essa de lados?

— Os irmãos mais velhos estão muito desgostosos, não sabe? Claro que sabe. Henet lhe conta tudo. Satipy arenga com Yahmose dia e noite, sempre que pode segurá-lo. E Sobek se fez de bobo com a história da venda da madeira e está morto de medo de meu pai ficar furioso quando descobrir. Como vê, minha avó, em um ou dois anos eu estarei associado a meu pai e ele fará o que eu quiser.

— Você, o caçula da família?

— Que diferença faz a idade? Meu pai é quem detém o poder; e eu sou aquele que sabe como manobrar o meu pai!

— Esta conversa está muito malévola — disse Esa.

Ipy disse afável: — Você não é boba, vovó... Sabe muito bem que meu pai, apesar de toda aquela aparência, na verdade é um homem fraco...

Ele parou abruptamente, ao notar que Esa tinha levantado a cabeça e estava olhando por cima do seu ombro. Virou a cabeça e encontrou Henet atrás de si.

— Quer dizer então que Imhotep é um homem fraco? — disse Henet no seu tom suave e choramingante. — Ele não vai ficar nada contente, acho eu, ao saber que você falou isso dele.

Ipy deu um risinho rápido e sem jeito.

— Mas você não vai contar para ele, Henet... Venha cá, Henet; prometa que não... querida Henet...

Henet deslizou em direção a Esa. Levantou um pouco a voz, que ainda mantinha o tom choroso.

— É claro, eu detesto causar problemas; você sabe o quanto... sou devotada a vocês todos. Jamais contarei nada, a menos que sinta que é minha obrigação...

— Eu estava implicando com a vovó, só isso — disse Ipy. — Eu mesmo vou contar a ele; Imhotep sabe que eu jamais falaria uma coisa dessas a sério.

Ele acenou firme e rapidamente para Henet e saiu do quarto.

Henet olhou para ele e disse a Esa:

— Um bom menino; delicado, bem-criado. E com que bravura ele fala!

Esa disse cortante:

— Sua fala é perigosa. Não gosto das idéias que ele tem na cabeça. Meu filho protege-o demais.

— E quem não o faria? É um rapaz tão belo, tão atraente!

— Belo é aquele que o belo faz — retrucou Esa.

Ela silenciou por alguns instantes e então disse devagar:.

— Henet, eu estou preocupada.

— Preocupada, Esa? O que a poderia preocupar? De qualquer maneira, o senhor logo estará de volta e tudo voltará ao normal.

— Será? Tenho as minhas dúvidas.

Mais uma vez silenciou, e então indagou:

— Meu neto Yahmose está em casa?

— Eu o vi, há alguns instantes, vindo em direção à varanda.

— Vá e diga a ele que quero falar-lhe.

Henet retirou-se. Encontrou Yahmose na varanda fresca com suas colunas alegremente coloridas e deu-lhe o recado de Esa.

Yahmose atendeu ao chamado imediatamente.

Esa foi direta:

— Yahmose, muito breve Imhotep estará aqui.

O rosto gentil de Yahmose iluminou-se.

— Sim, isso vai ser ótimo.

— Está tudo em ordem? Seus negócios prosperaram?

— As instruções de meu pai foram seguidas, na medida em que a situação o permitiu.

— Que você pensa de Ipy?

Yahmose suspirou.

— Meu pai é extremamente tolerante com tudo o que se refere àquele rapaz. Isso não faz bem ao garoto.

— Você tem de deixar isso bem claro a Imhotep.

Yahmose parecia duvidoso.

Esa acrescentou firmemente: — Eu apoiarei você.

— Algumas vezes — disse Yahmose suspirando — parece que não há nada além de dificuldades. Mas tudo estará acertado com a volta de meu pai. Ele poderá tomar suas próprias decisões. É muito difícil, em sua ausência, agir como ele gostaria. Sobre­tudo quando não tenho qualquer autoridade e apenas atuo como seu representante.

Esa disse devagar:

— Você é um bom filho; leal e afeiçoado. Você tem sido também um bom marido, tem obedecido ao provérbio que diz que um homem deve amar a sua mulher e fazer um lar para ela, que ele deve encher a sua barriga e agasalhá-la com roupas, providenciar caros ungüentos para o seu toucador e alegrar seu coração por quanto tempo ela viver. Mas existe um outro provérbio que diz o seguinte: Impeça que ela o domine. Se eu fosse você, meu neto, levaria este preceito muito a sério...

Yahmose olhou-a, enrubesceu profundamente e retirou-se.

 

                 Terceiro Mês da Inundação - Décimo Quarto Dia

 

Por toda parte havia alvoroço e preparativos. Centenas de pãezinhos foram assados na cozinha, patos estavam agora sendo cozinhados; havia um aroma de alho e outros condimentos variados. As mulheres gritavam e davam ordens, serventes corriam de um lado para outro.

Por todo lado murmurava-se:

— O amo, o amo está chegando...

Renisenb, ajudando a tecer guirlandas de papoulas e lótus, sentia uma excitação de felicidade borbulhando em seu coração. Seu pai estava vindo para casa! Nas últimas semanas ela tinha imperceptivelmente escapulido de volta para sua velha vida.. Aquela primeira sensação de estranheza e falta de intimidade, causada, segundo acreditava, pelas palavras de Hori, havia passado. Ela era a mesma Renisenb — Yahmose, Satipy, Sobek e Kait eram todos os mesmos — e agora, como no passado, havia todo aquele barulho e confusão por causa da volta de Imhotep. Já havia chegado a notícia de que estaria com eles antes do anoitecer. Um dos servos fora colocado nas margens do rio para avisar, quando o amo se aproximasse e, de súbito, sua voz fez-se ouvir alta e clara dando o aviso combinado.

Renisenb deixou cair as flores e correu para fora junto com os outros. Todos se precipitaram em direção ao ancoradouro às margens do rio. Yahmose e Sobek já estavam lá, juntamente com uma pequena multidão de aldeões, pescadores e lavradores, todos apontando e gritando excitados.

Sim, lá estava o barco com sua grande vela quadrada, subindo o rio rapidamente, impelido pelo vento norte. Logo atrás vinha o barco de cozinha lotado de homens e mulheres. Em breve Renisenb pôde divisar seu pai sentado, segurando uma flor de lótus; com ele havia alguém que ela pensou ser uma cantora.

A gritaria na margem aumentou, Imhotep acenou com a mão, os marinheiros erguiam e puxavam as cordas. Houve gritos de “Bem-vindo o amo”, aclamações aos deuses e graças pelo seu retorno; alguns momentos depois, Imhotep já estava em terra, saudando sua família e respondendo às saudações que lhe eram dirigidas aos gritos como mandava a etiqueta.

— Graças a Sobek, filho de Neith, que o trouxe são e salvo através da água! Graças a Ptah, sul do muro menfita que o traz a nós! Graças a Ré que ilumina as Duas Terras!

Renisenb afastou-se um pouco, intoxicada pelo excitamen­to geral.

Imhotep ergueu-se com grande pompa e repentinamente Renisenb pensou: “Mas ele é um homem pequeno. Eu pensava que ele fosse muito maior.”

Um sentimento que era quase um desmaio passou por ela.

Teria seu pai encolhido? Ou seria um engano da sua memória? Lembrava-se dele como sendo um ser esplêndido, tirânico, amiúde barulhento, exortando a todos à direita e à esquerda, provocando-lhe às vezes uma risada contida, porém nunca um personagem. Mas esse homem pequeno, robusto e idoso, pare­cendo tão cheio de si e ainda assim, de uma certa maneira, não convencendo — que havia de errado com ela? Que pensamentos desleais eram esses que lhe vinham à cabeça?

Imhotep, tendo acabado com as frases sonoras e cerimoniosas, pôde então fazer saudações mais pessoais. Ele abraçou seus filhos.

— Ah, meu bom Yahmose, todo sorrisos, você foi diligente durante a minha ausência, estou certo... E Sobek, meu belo filho, ainda entregue às alegrias do coração, como vejo. E aqui está Ipy, meu filho mais querido. Deixe-me olhar para você, de longe, assim. Está maior, com cara de homem; como meu coração se alegra em poder abraçá-lo novamente! E Renisenb, minha que­rida filha, mais uma vez em casa. Satipy, Kait, minhas não menos queridas filhas... E Henet, minha fiel Henet...

Henet estava de joelhos, abraçada às suas pernas, enquanto ostensivamente enxugava dos olhos lágrimas de alegria.

— É tão bom ver você, Henet. Você está bem. Feliz? Tão devotada como sempre; isso me alegra o coração...

— E meu excelente Hori, tão esperto nas suas contas e com sua pena! Tudo prosperou? Estou certo que sim.

Então, quando as saudações já haviam terminado e o burburinho já se desvanecia, Imhotep ergueu a mão pedindo silêncio e disse em voz alta e clara:

— Meus filhos e filhas, amigos. Tenho algumas novidades para vocês. Por muitos anos, como todos vocês sabem, eu fui um homem só. Minha mulher (sua mãe, Yahmose e Sobek) e minha irmã (sua mãe, Ipy) foram ambas para Osíris há muitos anos. Para vocês, Satipy e Kait, trago então uma nova irmã para comparti­lhar esta casa. Vejam, esta é minha concubina, Nofret, que vocês deverão amar, em respeito a mim. Ela veio comigo de Mênfis, no norte, e habitará aqui com vocês quando eu me for novamente.

Enquanto falava, trouxe-a pela mão um pouco mais à frente. Ela se colocou ao seu lado, a cabeça jogada para trás, os olhos estreitados, jovem, arrogante e bela.

Renisenb pensou, com um choque de surpresa: “Mas ela é tão nova, provavelmente não tem nem a minha idade!”

Nofret permaneceu praticamente imóvel, com um ligeiro sorriso em seus lábios — havia neles mais desdém do que qualquer vontade de agradar.

Ela tinha as negras sobrancelhas eretas e uma bela pele bronzeada, e seus cílios eram tão longos e espessos que mal se lhe podiam ver os olhos.

A família, tomada de surpresa, fitava perplexa num silêncio mudo. Com um ligeiro toque de irritação na voz, Imhotep disse:

— Venham agora, crianças, dêem as boas-vindas a Nofret. Então não sabem como se deve saudar a concubina de seu pai quando ele a traz para casa?

As saudações foram feitas, de maneira trôpega e vacilante.

Imhotep, afetando uma emoção que escondia certa inquietação, exclamou alegremente:

— Assim está melhor! Nofret, Satipy, Kait e Renisenb a levarão até os aposentos das mulheres. Onde estão as arcas? Já foram trazidas para terra? Suas jóias e suas roupas estão a salvo. Vá e confira.

Então, quando as mulheres se retiraram ele virou-se para os filhos.

— E a respeito da terra? Correu tudo bem?

Os campos baixos que foram arrendados a Nakht — começou Yahmose, mas seu pai o interrompeu.

Nada de detalhes agora, meu bom Yahmose. Eles podem esperar. Esta noite é de festa. Amanhã, você, eu e Hori nos dedicaremos aos negócios. Venha Ipy, meu garoto, vamos para casa. Como você está grande! Sua cabeça já está acima da minha.

Fazendo caretas, Sobek andava atrás de seu pai e de Ipy. No ouvido de Yahmose ele murmurou:

Jóias e roupas, você ouviu? É para onde foram os lucros das terras do norte. Nossos lucros.

— Quieto — sussurrou Yahmose. — Nosso pai pode ouvir.

Pois que ouça. Eu não tenho medo dele como você tem.

Uma vez em casa, Henet foi aos aposentos de Imhotep para preparar-lhe o banho. Era toda sorrisos.

Imhotep abandonou um pouco sua defensiva amabilidade.

Bem, Henet, que achou da minha escolha?

Apesar de já ter resolvido levar as coisas sem se preocupar com o que pudesse acontecer, Imhotep percebera claramente que a chegada de Nofret iria provocar uma tempestade — pelo menos na parte feminina da casa. Henet era diferente. Uma criatura singularmente devotada. Ela não o desapontou.

Ela é uma beleza! Que cabelo, que corpo! Ela está à sua altura, que mais posso dizer além disso? Sua amada mulher que está morta ficará feliz com sua escolha da companheira que alegrará os seus dias.

Você acha, Henet?

Tenho certeza, Imhotep. Depois de ter guardado luto por tantos anos, já é tempo de uma vez mais gozar a vida.

Você a conhecia bem... Também eu pensei que já era tempo de viver como um homem deve viver. Mas... as mulheres dos meus filhos e minha filha... elas ficarão ressentidas, talvez?

Acho melhor que não — respondeu Henet. — Afinal de contas todos dependem de você nesta casa.

Isso é verdade, isso é verdade — disse Imhotep.

Sua generosidade alimenta e veste a todos eles; a prosperidade deles é o resultado de seus esforços.

Sim, realmente — Imhotep suspirou. — Estou sempre ativo para o bem deles. Muitas vezes duvido que eles tenham consciência do quanto me devem.

— Você deve lembrar-lhes isso — disse Henet, balançando a cabeça. — Eu, sua humilde e devotada Henet, nunca me esqueço do quanto lhe devo; mas as crianças são normalmente tolas e egoístas, pensando talvez que são elas que são importantes, quando na verdade apenas seguem as ordens que você dá.

— Isso é mais que verdade — disse Imhotep. — Eu sempre disse que você era uma criatura inteligente, Henet.

Henet suspirou. — Se os outros ao menos pensassem assim...

— Que é isso? Alguém lhe tratou mal?

— Não, não... isto é, eles não fazem por mal. Parece lógico para eles que eu deva trabalhar incessantemente (o que eu faço com todo prazer), mas uma palavra de afeto ou apreço, isso é o que realmente faz diferença.

— Isso de mim você sempre terá — disse Imhotep. — E lembre-se: esta será sempre a sua casa.

— Você é muito gentil, amo. — Ela parou e concluiu: — Os escravos estão prontos com a água quente no banheiro; assim que você tiver tomado banho e trocado de roupa, sua mãe pede-lhe que vá vê-la.

— Ah, minha mãe? Sim, sim, é claro...

Imhotep pareceu de súbito ligeiramente embaraçado. Recobrou-se da confusão dizendo rapidamente:

— Naturalmente. Eu já havia pensado nisso. Diga a Esa que irei.

 

Esa, vestida com seu melhor vestido de linho pregueado, lançou um olhar a seu filho que tinha um quê de sardônico divertimento.

— Bem-vindo, Imhotep. Então você voltou para nós... e não voltou só, segundo soube.

Imhotep, erguendo-se, respondeu ligeiramente embaraçado:

— Oh, então você soube?

— Naturalmente, a casa está em polvorosa com a novidade. A moça é bonita, dizem eles, e bastante jovem.

— Ela tem dezenove anos e... bem, não parece doente.

Esa riu; uma risada malévola de velha.

— Ah, bem — disse ela —, não existe bobo pior que um bobo velho.

— Minha querida mãe; eu realmente não posso compreen­der o que você está dizendo.

Esa respondeu calmamente:

— Você sempre foi um bobo, Imhotep.

Imhotep levantou-se e explodiu de raiva. Apesar de se sentir a maior parte do tempo confortavelmente consciente de sua própria importância, sua mãe sempre conseguia ferir o âmago de seu egotismo. Em sua presença ele se sentia desvanecer. Um ligeiro brilho sarcástico nos seus olhos quase cegos nunca deixavam de desconcertá-lo. Sua mãe, não havia dúvidas, jamais tivera opiniões exageradas a respeito de sua capacidade. E apesar de saber que a estimativa que ele fazia de si mesmo é que era a verdadeira, e que a de sua mãe era uma mera idiossincrasia sem qualquer importância — mesmo assim sua atitude nunca deixava de afetar o agradável conceito que tinha de si próprio.

— Será que é tão fora do comum um homem trazer para casa a sua concubina?

— De maneira nenhuma é fora do comum. Os homens são normalmente tolos.

— Não consigo perceber onde é que a tolice entra neste caso.

— Por acaso você imagina que a presença dessa moça vai trazer a harmonia a esta casa? Satipy e Kait ficarão lado a lado e instigarão seus maridos.

— O que elas têm a ver com isso? Que direito têm elas de fazer objeções?

— Nenhum.

Imhotep, furioso, começou a andar de um lado para o outro.

— Será que não posso fazer o que bem entendo dentro da minha própria casa? Acaso não sustento meus filhos e suas esposas? Não me devem eles o próprio pão que comem? Será que não lhes repito isso o bastante?

— Você fala até demais, Imhotep.

— Mas é a verdade. Todos eles dependem de mim. Todos eles!

— E você tem certeza que isso está certo?

— Você está querendo dizer que não está certo que um homem mantenha a sua família?

Esa suspirou.

— Lembre-se que eles trabalham para você.

— Você quer que eu lhes encoraje a indolência? É claro que eles trabalham.

— Eles já estão crescidos... pelo menos Yahmose e Sobek; eu diria mais que crescidos.

— Sobek não tem juízo. Faz tudo errado. Além disso é impertinente, o que eu não suporto. Yahmose é um menino obediente e bom...

— Bem mais que um menino!

— Mas mesmo assim eu tenho às vezes que repetir a mesma coisa duas ou três vezes até que ele compreenda. Tenho que pensar em tudo... estar em todos os lugares! Sempre que estou fora tenho que ficar ditando aos escribas... escrevendo instruções completas para que meus filhos as cumpram... mal descanso, mal durmo! E agora que volto para casa, tendo conseguido um pouco de paz, tinha que aparecer mais confusão! Mesmo você, minha própria mãe, nega-me o direito de ter uma concubina como todos os outros. Vocês ficam zangados...

Esa o interrompeu.

— Não estou zangada. Estou divertida. Vai ser muito engraçado ficar olhando para ver o que vai acontecer dentro desta casa; mas assim mesmo devo dizer que o melhor que você tem a fazer é levá-la consigo quando for para o norte novamente.

— O lugar dela é aqui, na minha casa! E ai de quem ousar maltratá-la!

— Não se trata disso. Mas lembre-se; é muito fácil atear fogo em palha seca. Já foi dito acerca das mulheres que “o lugar em que elas estão não é bom...”

Esa parou e depois disse devagar:

— Nofret é bela. Mas lembre-se disso: Os homens são feitos de tolos pelas belas formas de uma mulher; então, de um momen­to para outro, elas se transformam em pálidas cornalinas...

Sua voz se tornou mais profunda quando completou:

— Uma ninharia, um pouquinho, a aparência de um sonho, e no final a morte...

 

                   Terceiro Mês da Inundação - Décimo Quinto Dia

 

Imhotep escutou a explicação de Sobek sobre a venda da madeira num silêncio agourento. Seu rosto ficou tremendamente vermelho e sua pulsação podia ser vista nas têmporas.

O ar de indiferença de Sobek havia esmaecido. Sua intenção era passar por tudo com a cabeça erguida, mas em vista das rugas que se iam formando na face do pai, ele se sentiu balbuciante e hesitando.

Imhotep interrompeu-o impacientemente.

Sim, sim, sim; você pensou que sabia mais do que eu... você se afastou das minhas instruções; é sempre a mesma coisa... a menos que eu esteja aqui para tomar conta de tudo... — Ele suspirou. — Não quero nem pensar no que aconteceria com vocês, meninos, se não fosse por mim!

Sobek prosseguiu com teimosia:

Havia uma chance de se ter um lucro muito maior; eu corri o risco. Não se pode ser sempre mesquinho e cauteloso!

Não há nada de cauteloso em você, Sobek! Você é atrevido e audacioso, e seu julgamento está sempre errado.

Por acaso tive alguma vez a chance de exercitar o meu poder de julgamento?

Imhotep retrucou secamente:

Assim você fez dessa vez; e contra as minhas ordens expressas...

Ordens? Será que eu sempre terei que obedecer ordens? Eu já sou um homem.

Perdendo o controle, Imhotep gritou:

Quem é que lhe veste e alimenta? Quem pensa no futuro? Quem pensa no seu bem-estar... no bem-estar de todos vocês? Quando o rio estava quase seco e nos vimos ameaçados pela fome, por acaso não arranjei comida para mandar para vocês no sul? Vocês têm muita sorte de ter um pai como eu... que pensa em tudo! E o que peço eu em troca? Apenas que vocês trabalhem com afinco e obedeçam às instruções que lhes mando...

— Sim — gritou Sobek. — Nós temos que trabalhar para você como se fôssemos escravos... para que assim você possa comprar ouro e jóias para sua concubina!

Imhotep avançou contra ele retesado de cólera.

— Menino insolente... falar assim com seu pai! Tenha cuidado ou eu lhe direi que esta não é mais a sua casa, e você não terá para onde ir!

— E se você não tomar cuidado eu irei mesmo! Eu tenho idéias, estou lhe dizendo; boas idéias que trariam boa fortuna se eu não estivesse atado por uma cautela mesquinha e nunca podendo agir como quero.

— Já acabou?

O tom de Imhotep era imperioso. Sobek, um pouco diminuído, balbuciou furioso:

— Sim, sim. Não tenho mais nada a dizer... agora.

— Pois então vá cuidar do gado. Não é hora para indolên­cia.

Sobek virou-se e foi embora furioso. Nofret encontrava-se não muito longe dali e, quando ele passou por ela, olhou-o de lado e riu. À sua risada, o sangue subiu à cabeça de Sobek, que ameaçou avançar sobre ela. Nofret permaneceu imóvel, olhando para ele com seus olhos meio fechados de contentamento.

Sobek resmungou alguma coisa e retomou seu caminho. Nofret riu novamente e então encaminhou-se devagar para onde estava Imhotep, agora com sua atenção voltada para Yahmose.

— O que o levou a deixar Sobek agir daquela maneira estúpida? — perguntava irritado. — Você devia ter-se prevenido contra uma coisa dessas! Já era tempo de você saber que ele não tem critério para comprar ou vender. Ele pensa que as coisas vão acontecer exatamente da maneira que ele quer que elas aconteçam.

Yahmose tentava se desculpar:

— Você não pode imaginar as- minhas dificuldades, pai. Você me disse para deixar o negócio da madeira por conta de Sobek, Pareceu-me, então, que deveria ficar a seu critério a decisão.

— Critério? Critério? Ele não tem critério! Ele deve fazer exatamente aquilo que eu mandar... e está a seu cargo verificar que ele faça exatamente isto.

Yahmose enrubesceu.

— Eu? Mas que autoridade tenho eu?

— Que autoridade? A autoridade que eu lhe dou.

— Mas eu não tenho uma posição real. Se eu estivesse legalmente associado a você...

Yahmose calou-se com a entrada de Noiret. Ela estava bocejando e brincava com uma papoula vermelha nas mãos.

— Você não quer vir para o caramanchão perto do lago, Imhotep? Está fresco lá, algumas frutas esperando por você e cerveja Keda. Você provavelmente já terminou de dar suas or­dens.

— Num minuto, Nofret... num minuto.

Nofret disse numa voz macia e profunda:

— Venha agora. Quero que você venha agora...

Imhotep parecia satisfeito, talvez como uma ovelha. Yahmo­se falou rapidamente, antes que seu pai pudesse responder.

— Mas antes vamos falar sobre isso. É importante. Eu queria lhe pedir...

Nofret falou diretamente a Imhotep, virando-se de lado para Yahmose:

— Será que você não pode fazer o que quer na sua própria casa?

Imhotep disse rispidamente para Yahmose:

— Outra hora, filho. Outra hora.

Ele acompanhou Nofret, e Yahmose permaneceu na varanda fitando-os.

Satipy veio de dentro da casa e juntou-se a ele.

— Bem — inquiriu ela avidamente —, você falou com ele? O que ele disse?

Yahmose suspirou.

— Não seja impaciente, Satipy. A ocasião não era... propí­cia.

Satipy teve uma exclamação furiosa.

— Oh, sim... isso é exatamente o que você diria! Isso é o que você dirá sempre. A verdade é que você está com medo do seu pai. Você é tão tímido quanto uma ovelha... você bale para ele. Nunca vai se colocar diante dele como um homem! Então não se lembra mais das coisas que me prometeu? Eu estou lhe dizendo, entre nós dois eu sou mais homem do que você! Você promete... você diz: “vou pedir a meu pai; logo; no primeiro dia.” E então o que acontece?

Satipy parou para tomar fôlego e não porque tivesse acabado. Mas Yahmose interrompeu-a timidamente:

— Você está errada, Satipy. Eu comecei a falar com meu pai... mas fomos interrompidos.

— Interrompidos? Por quem?

— Por Nofret.

— Nofret! Aquela mulher! Seu pai não devia deixar que sua concubina o interrompesse quando está falando de negócios com seu filho mais velho. As mulheres não se devem intrometer nos negócios.

Yahmose provavelmente desejou que Satipy seguisse um pouco mais à risca a máxima que ela agora enunciava tão fluentemente, mas não lhe foi dada oportunidade para falar. Sua mulher prosseguiu:

— Seu pai devia ter deixado isto bem claro de uma vez.

— Meu pai — disse Yahmose secamente — não demonstrou nenhum sinal de descontentamento.

— É uma desgraça — declarou Satipy. — Seu pai foi completamente enfeitiçado por ela. Ele a deixa falar e agir como bem entende.

Yahmose disse pensativamente:

— Ela é muito bonita...

Satipy bufou.

— Oh, ela parece uma coisa. Mas não tem modos! Não tem berço! Ela nem se preocupa com o mal que está fazendo a todos nós.

— Provavelmente você é rude com ela.

— Eu tenho sido a própria imagem da polidez. Kait e eu tratamo-la com toda cortesia. Oh, ela nunca terá nada de que se queixar para o seu pai. Nós podemos esperar pela hora certa, Kait e eu.

Yahmose lançou-lhe um olhar inquisitivo.

— Que você quer dizer com... esperar a hora?

Satipy riu significativamente enquanto se retirava.

— O que quero dizer é uma coisa que só as mulheres entendem; você jamais entenderia. Temos nossos meios... e nossas armas! Nofret fará bem se moderar a sua insolência. Afinal, no que se resume a vida de uma mulher? Passamos a vida na ala das mulheres, atrás da casa, junto a outras mulheres.

Havia um significado peculiar no tom usado por Satipy. Ela concluiu:

— Seu pai não estará sempre aqui... Ele irá novamente para as terras do norte. E então... veremos.

— Satipy...

Satipy riu — um riso alto e forte, e voltou para dentro da casa.

 

As crianças corriam e brincavam junto ao lago. Os dois garotos de Yahmose eram crianças delicadas e bonitas, que se pareciam mais com Satipy do que com o pai. Ali estavam também os três de Sobek — o menor deles apenas engatinhava. E Teti, uma criança de quatro anos, séria e linda.

Elas riam e gritavam, jogavam bola — por vezes brigavam e os gritos de raiva eram altos e penetrantes.

Sentado, degustando sua cerveja com Nofret a seu lado, Imhotep murmurou: — Como as crianças gostam de brincar junto à água. Lembro-me de ter sido sempre assim. Mas, por Hathor, como são barulhentas!

Nofret respondeu rapidamente:

— Sim... e isto poderia ser tão calmo... Por que você não lhes pede que saiam enquanto está aqui? Afinal, quando o dono da casa quer descansar, um certo respeito deve ser demonstrado. Você não concorda?

— Eu... bem — Imhotep hesitou. A idéia era-lhe nova, mas agradável. — Elas realmente não me incomodam — afirmou sem muita convicção.

E acrescentou debilmente:

— Elas estão acostumadas a brincar aqui sempre que lhes apraz.

— Quando você está fora, sim — apressou-se Nofret em dizer. — Mas creio, Imhotep, levando em consideração tudo o que você faz por sua família, que eles deveriam mostrar mais respeito pela sua dignidade, pela sua importância. Você é dema­siado gentil e complacente.

Imhotep observou placidamente:

— Esta tem sido sempre a minha falha. Nunca faço questão de formalidades.

— Portanto essas mulheres, as esposas de seus filhos, tiram vantagem de sua bondade. É preciso que fique bem claro que, quando você vem aqui para repousar, deve haver silêncio e tranqüilidade. Vou dizer a Kait que leve seus filhos daqui... e as outras crianças também. Assim, você terá paz e alegria.

— Você é uma moça atenciosa, Nofret; sim, uma boa moça. Você está sempre pensando no meu conforto.

Nofret murmurou: — Seu prazer é também o meu.

Levantou-se e foi ter com Kait, que estava ajoelhada junto à água, brincando com um barquinho que seu segundo filho, um menino de ares mimados, estava tentando fazer flutuar.

Nofret disse simplesmente:

— Quer tirar as crianças daqui, Kait?

Kait olhou-a sem compreender.

— Tirá-las daqui? Como assim? Este é o lugar onde elas sempre brincam.

— Não hoje. Imhotep quer tranqüilidade. Suas crianças são barulhentas.

O sangue subiu à face de Kait:

— Você deveria tomar cuidado com o que diz, Nofret! Imhotep gosta de ver os filhos de seus filhos brincar aqui. Ele o disse.

— Não hoje — retrucou Nofret. — Imhotep mandou dizer-lhe que leve daqui toda essa ninhada barulhenta para que ele possa ficar em paz... comigo.

— Com você... — Kait interrompeu bruscamente a frase que quase lhe escapava dos lábios. Levantou-se e dirigiu-se para o lugar onde Imhotep estava reclinado. Nofret a seguiu.

Kait falou sem rodeios:

— Sua concubina disse que devo levar as crianças daqui. Por quê? Que estão fazendo elas de errado? Por que razão devem ser retiradas?

— Pensei que a vontade do senhor da casa fosse razão suficiente — disse Nofret suavemente.

— Exato, exato — confirmou Imhotep irritado. — Por que deveria eu dar razões? De quem é esta casa?

— Imagino ser ela quem deseja as crianças fora daqui — Kait voltou-se, e olhou Nofret de cima a baixo.

— Nofret pensa no meu conforto, no meu prazer — retrucou Imhotep. — Ninguém mais nesta casa leva isso em conside­ração... exceto, talvez, a pobre Henet.

— Então as crianças nunca mais deverão brincar aqui?

— Não quando eu aqui vier para descansar.

A raiva de Kait explodiu de repente:

— Por que você permite que esta mulher o faça voltar-se contra seu próprio sangue? Por que deve ela chegar e interferir nos hábitos da casa, naquilo que sempre foi feito?

Imhotep começou a gritar. Sentiu necessidade de se defender.

— Sou eu que digo o que deve ser feito aqui, não você! Vocês formam uma aliança para fazer exatamente o que querem, de maneira que tudo lhes convenha. E quando eu, o dono da casa, aqui me encontro, nenhuma consideração é dada aos meus desejos. Mas eu sou senhor aqui, saiba disto. Estou constantemente planejando e trabalhando para o seu bem-estar, mas acaso recebo gratidão, são meus desejos respeitados? Não. Primeiro é Sobek, insolente e desrespeitoso, e agora você, Kait, com sua arrogância. Eu os amparo para quê? Cuidado, ou deixo de sustentá-los. Sobek fala em partir; pois que vá, mas levando você e as crianças com ele.

Por um momento Kait ficou imóvel. Não havia expressão alguma no seu rosto. Então, numa voz desprovida de qualquer emoção, disse:

— Vou levar as crianças para dentro de casa...

Deu um ou dois passos, parando perto de Nofret. Disse então em voz baixa:

— Isso é coisa sua, Nofret. Não esquecerei. Não, não esquecerei.

 

                             Quarto Mês da Inundação - Quinto Dia

 

Imhotep respirou satisfeito ao terminar suas obrigações cerimoniais como Sacerdote Mortuário. O ritual fora observado nos mínimos detalhes — pois que Imhotep era, em todos os sentidos, um homem extremamente consciente. Efetuou a libação, quei­mou incenso e fez as oferendas comuns de comida e bebida.

Agora, na aconchegante sombra da câmara do rochedo adjacente, onde Hori esperava por ele, Imhotep voltava a ser o proprietário de terras e o homem de negócios. Juntos, os dois homens discutiam negócios, preços predominantes e os lucros provenientes da colheita, do gado e da madeira.

Durante meia hora Imhotep balançou a cabeça com satisfação.

— Você tem uma excelente cabeça para negócios, Hori — disse.

O outro sorriu.

— Devo ter, Imhotep, pois tenho sido seu homem de negócios por muitos anos.

— E muito fiel. Agora, tenho algo a discutir com você. Trata-se de Ipy. Ele se queixa de estar em posição secundária.

— Ele ainda é muito jovem.

— Mas demonstra grande habilidade. Ipy sente que seus irmãos nem sempre são justos para com ele. Sobek, ao que parece, é rude e arrogante; e a contínua precaução e timidez de Yahmose o aborrecem. Ipy é um espírito altivo. Não gosta de receber ordens. Ainda mais porque acredita que somente eu, seu pai, tem o direito de comandar.

— Isso é verdade — disse Hori. — E me surpreende que seja esse o ponto fraco da propriedade. Posso falar livremente?

Claro, meu caro Hori, suas palavras são sempre gentis e ponderadas.

Pois bem. Quando você está fora, Imhotep, deveria ficar alguém aqui com autoridade real.

Confio meus negócios a você e a Yahmose.

Sei que atuamos por você em sua ausência, mas isso não basta. Por que não designar um de seus filhos como sócio... associá-lo a você através de um acordo legal?

Imhotep franziu a testa enquanto passeava de um lado para outro.

Qual de meus filhos você sugere? Sobek tem modos autoritários, mas é insubordinado; não poderia confiar nele. Seu temperamento não é bom.

Estava pensando em Yahmose. É seu filho mais velho. Seu temperamento é afetuoso e gentil. É devotado a você.

Sim, ele tem bom temperamento, mas é muito tímido, muito submisso. Ele se dá a todos. Agora, se Ipy fosse apenas um pouco mais velho...

Hori disse prontamente:

É muito perigoso dar poderes a alguém tão jovem.

Claro, claro... bem, Hori, vou pensar no que me disse. Yahmose, sem dúvida, é um bom filho... obediente...

Ao que Hori retrucou calma mas animadoramente:

Sua decisão, creio, será sábia.

Imhotep fitou-o curiosamente.

Que está passando pela sua cabeça, Hori?

Hori disse lentamente:

Acabei de dizer que é perigoso dar poderes a um homem quando ele é muito jovem. Mas também é perigoso dá-los tarde demais.

Você quer dizer que ele está demasiado acostumado a obedecer ordens ao invés de dá-las Bem, isso deve ser considerado.

Imhotep suspirou:

É tarefa difícil governar uma família. As mulheres, em particular, são difíceis de se lidar. Satipy tem um temperamento indisciplinável, Kait está sempre mal-humorada. Mas deixei bem claro que Nofret tem de ser tratada de forma adequada. Creio que...

Calou-se. Um escravo subia com dificuldade a estreita passagem.

— O que há?

— Senhor, chegou uma barca. Um escriba de nome Kameni traz uma mensagem de Mênfis.

Imhotep levantou-se agitado.

— Mais problemas! — exclamou. — Tão certo quanto Rá está no céu, vêm aí mais problemas! A não ser que eu esteja por perto para cuidar das coisas, tudo vai mal.

Imhotep desceu o caminho com passos firmes e Hori sentou-se quieto, observando-o.

Havia sinais de perturbação em sua face.

 

Renisenb vagava sem rumo ao longo da margem do Nilo, quando ouviu gritos e agitação e viu pessoas correndo em direção ao atracadouro.

Correu e juntou-se a elas. No barco que se aproximava havia um jovem e, por um instante, quando o viu delineado contra a forte claridade, seu coração parou.

Um pensamento louco e fantástico passou-lhe pela mente.

“É Khay”, pensou. “Khay voltou do Mundo dos Mortos.”

Renisenb riu dessa idéia supersticiosa. Porquanto em sua própria imaginação, ela sempre vira Khay navegando pelo Nilo e este era, realmente, um homem da mesma compleição de Khay — fora apenas uma fantasia. Ele era mais jovem do que Khay, de uma elegância sóbria e simples, possuidor de uma expressão alegre e risonha.

Vinha, explicou-lhes, das propriedades de Imhotep situadas ao norte. Era um escriba e chamava-se Kameni.

Um escravo foi avisar o pai, enquanto Kameni era conduzido até a casa, onde lhe serviram comida e bebida. Em breve Imhotep chegou e iniciaram-se os diálogos e as consultas.

O essencial da conversa foi levado aos aposentos das mulheres por Henet, como sempre, a fornecedora de novidades. Reni­senb às vezes se perguntava como Henet conseguia saber de tudo.

Kameni, ao que parece, era um jovem escriba a serviço de Imhotep — filho de um dos primos deste. Kameni havia desco­berto certas disposições fraudulentas — uma falsificação nos cálculos — e, já que o assunto se ramificava e envolvia o administrador da propriedade, achara por bem vir pessoalmente ao sul para o relato.

Renisenb não estava muito interessada. Kameni fora hábil em ter descoberto tudo, pensou. Seu pai ficaria satisfeito com ele.

O resultado imediato do assunto foi que Imhotep ultimou os preparativos para sua partida. Ele não tinha intenções de sair por uns dois meses; agora, porém, quanto mais rápido estivesse no local, melhor.

Todas as pessoas da casa foram reunidas e ouviram inumerá­veis recomendações e exortações. Deveriam cumprir esta ou aque­la ordem. Yahmose não deveria, sob hipótese alguma, fazer isto ou aquilo. Sobek deveria ser o mais prudente possível com relação a determinada coisa. Era tudo muito familiar, pensou Renisenb; Yahmose prestava atenção, Sobek estava mal-humorado. Hori, como sempre, calmo e eficiente. As solicitações e impertinências de Ipy foram deixadas de lado de forma mais brusca do que o usual.

— Você é jovem demais para ter uma mesada separada. Obedeça a Yahmose. Ele sabe de meus desejos e ordens. — Imhotep colocou a mão no ombro de seu filho mais velho. — Confio em você, Yahmose. Quando voltar, falaremos novamente sobre uma sociedade.

Yahmose corou de prazer e empertigou-se mais um pouco.

Imhotep continuou:

— Cuide para que tudo corra bem durante a minha ausência. Cuide para que minha concubina seja bem tratada... com a devida honra e respeito. Ela ficará sob seus cuidados. Você deve controlar a conduta das mulheres da casa. Cuide para que Satipy refreie sua língua. Cuide, também, para que Sobek instrua Kait devidamente. Renisenb, também, deve agir cortesmente com relação a Nofret. E nenhuma grosseria deve ser feita para nossa boa Henet. Bem sei que as mulheres a julgam, por vezes, cansativa. Ela está conosco há muito tempo e se acha no direito de dizer muitas coisas, nem sempre bem-vindas. Ela não possui, eu sei, nem beleza nem saber, mas é fiel, lembrem-se, e sempre foi devotada aos meus interesses. Não a quero desprezada ou maltratada.

Tudo será feito segundo a sua vontade, pai — disse Yahmose. — Mas Henet, por vezes, cria problemas por causa de sua língua.

Ora, bobagem! Todas as mulheres são assim. E Henet não é pior do que as outras. Agora, com relação a Kameni, ele permanecerá aqui. Nós conseguiremos outro escriba e ele poderá ajudar Hori, com relação à terra que alugamos a Yaii...

Imhotep prosseguiu com meticulosos detalhes.

Quando, finalmente, tudo estava pronto para a partida, Imhotep sentiu um súbito temor. Afastou-se com Nofret e disse com insegurança:

Nofret, você está contente em ficar? Não seria, talvez, preferível que viesse comigo?

Nofret balançou a cabeça e sorriu.

Você não ficará ausente por muito tempo — disse.

Três meses, talvez quatro. Quem sabe?

Como vê, não será muito. Eu estarei bem aqui.

Imhotep falou agitado:

Ordenei a Yahmose, bem como a todos os meus filhos, que você deve receber toda consideração. Ai deles se você tiver algo de que se lamentar!

Eles farão o que você diz, estou certa, Imhotep — Nofret calou-se. E então disse: — Existe aqui alguém de inteira confiança? Alguém verdadeiramente devotado aos seus interesses? Alguém que não seja da família?

Hori... meu bom Hori. Ele é, de certo modo, meu braço direito e também um homem de bom senso e discernimento.

Nofret disse calmamente:

Ele e Yahmose são como irmãos. Talvez...

Há Kameni. Ele também é um escriba. Ordenarei a ele que se ponha a seu serviço. Se você tiver do que se queixar, ele escreverá suas palavras e as enviará a mim.

Nofret assentiu com prazer.

Bem pensado. Kameni vem do Norte. Conhece meu pai. Não se deixará influenciar por considerações familiares.

E Henet — acrescentou Imhotep. — Há Henet.

Sim — disse Nofret pensativa. — Há Henet. E que tal se você falar com ela agora, na minha frente?

Excelente idéia.

Henet foi chamada e veio com sua costumeira ansiedade bajuladora. Não parava de se lamentar pela partida de Imhotep. Ele a interrompeu abruptamente.

Sim, sim, minha boa Henet, mas deve ser assim. Sou um homem que raramente pode contar com um pouco de paz e descanso. Devo trabalhar incessantemente pela minha família, embora eles pouco apreciem isso. Mas agora desejo falar com você muito seriamente. Sei que você me ama fiel e devotada mente, e quero lhe deixar num posto de confiança. Cuide de Nofret; ela me é muito cara.

O que quer que lhe seja caro, meu amo, também me é caro — replicou Henet fervorosamente.

Muito bem. Você então irá se dedicar aos interesses de Nofret?

Henet se voltou para Nofret que a olhava de olhos baixos.

Nofret é muito bonita — disse. — Este é o problema. É por isso que as outras estão com ciúme; mas vou tomar conta dela. Tratarei de preveni-la de tudo quanto elas disserem ou fizerem. Pode contar comigo.

Houve uma pausa enquanto os olhos das duas mulheres se encontraram.

Pode contar comigo, Nofret — repetiu Henet.

Um ligeiro sorriso aflorou nos lábios de Nofret — um curioso sorriso.

Sim, eu compreendo, Henet — disse. — Creio que posso confiar em você.

Imhotep pigarreou alto.

Creio, então, estar tudo arranjado; sim, tudo satisfatório. Organização: esse tem sido sempre meu ponto forte.

Ouviu-se uma risada seca, Imhotep voltou-se bruscamente e deu com sua mãe parada na entrada do aposento. Ela se apoiava num bastão e parecia mais árida e malevolente do que nunca.

Que filho maravilhoso eu tenho — observou.

— Não devo me atrasar; tenho que dar algumas instruções a Hori... — E murmurando consigo mesmo, Imhotep deixou rapidamente o recinto. Conseguiu evitar os olhos de sua mãe.

Esa dirigiu um imperioso aceno de cabeça a Henet — e Henet deslizou obedientemente para fora.

Nofret havia se levantado. Ela e Esa se olhavam. Esa disse: — Então meu filho está lhe deixando? Seria melhor que você fosse com ele, Nofret.

— Ele quer que eu fique.

A voz de Nofret era suave e submissa. Esa soltou uma gargalhada penetrante. — De pouco adiantaria se você quisesse ir. E por que você não quer ir? Eu não compreendo. O que há para você aqui? Você é uma moça que viveu em cidades, que viajou, talvez. Por que escolher esta monotonia do dia após dia entre aqueles que, para ser franca, não gostam de você... sim, que lhe têm aversão?

— Então você tem aversão a mim?

Esa balançou a cabeça.

— Não, eu não tenho aversão a você. Eu sou velha e, mesmo que não enxergue tão bem, posso ver a beleza e gostar dela. Você é bonita, Nofret, e sua visão agrada a meus velhos olhos. Pela sua beleza desejo-lhe o bem. Estou lhe prevenindo. Vá com meu filho pára o norte.

Nofret tornou a dizer: — Ele quer que eu fique.

O tom submisso era, agora, totalmente impregnado de zombaria. Esa disse rispidamente:

— Você tem algum propósito em permanecer aqui. Qual será? Gostaria de saber. Muito bem, fique com ele. Mas seja cuidadosa. Aja discretamente. E não confie em ninguém.

Virou-se rapidamente e saiu. Nofret ficou imóvel. Muito lentamente seus lábios se curvaram para cima, num largo sorriso felino.

 

                             Primeiro Mês de Inverno - Quarto Dia

 

Renisenb havia se habituado a subir para o Túmulo quase todos os dias. Às vezes Yahmose e Hori lá estavam, às vezes só Hori e às vezes não havia ninguém; mas Renisenb estava sempre cônscia de um curioso sentimento de alívio e paz, um sentimento que era quase de libertação. Ela preferia quando Hori estava lá sozinho. Havia algo em sua gravidade, no modo como aceitava a sua vinda sem nada perguntar, que lhe dava uma estranha sensação de contentamento. Ela se sentava na sombra da entrada da câmara de pedra, com as mãos em torno do joelho, e olhava para o cinturão verde das plantações, onde o Nilo mostrava um pálido reflexo azulado e, mais além, para uma extensão de pálidos e difusos tons castanhos, cremes e rosas que se misturavam difusamente.

Viera até ali, pela primeira vez, já fazia alguns meses, num momentâneo desejo de escapar a um mundo de intensa femini­lidade. Desejava calma e companheirismo — e ali os encontrava. A ânsia de escapar ainda a possuía, mas não era mais uma mera reação à agitação e pressão da domesticidade. Era algo mais definido, mais alarmante.

Certo dia disse a Hori: — Estou com medo...

— Por que você tem medo, Renisenb? — Ele a estudava gravemente.

Renisenb levou um minuto ou dois pensando. Disse então devagar:

— Você se lembra de ter-me dito uma vez que havia dois tipos de mal, um que vinha de fora e outro que vinha de dentro?

— Sim, lembro-me.

— Você estava falando, como disse depois, sobre as pragas que atacam as frutas e as plantações, mas eu estive pensando; é a mesma coisa com as pessoas.

Hori assentiu devagar com a cabeça.

— Então você o descobriu... Sim, você está certa, Renisenb.

Renisenb disse abruptamente:

— Está acontecendo agora... lá embaixo, na casa. O mal veio... de fora... de fora. E eu sei quem o trouxe. É Nofret.

Hori disse lentamente:

— Você pensa assim?

Renisenb acenou vigorosamente.

— Sim, sim, sei o que estou falando. Escute, Hori, quando eu subi aqui uma vez e lhe disse que tudo estava igual, mesmo quanto às brigas de Satipy e Kait... aquilo era verdade. Mas aquelas brigas, Hori, não eram brigas de verdade. Quero dizer que Satipy e Kait gostam delas... são como passatempos; ne­nhuma das mulheres sentia verdadeiramente raiva uma da outra. Mas agora é diferente. Agora elas não apenas dizem coisas que são rudes e desagradáveis; elas dizem coisas que elas querem que machuquem. E quando vêem que uma coisa machuca, então elas se alegram! É horrível, Hori, horrível! Ontem Satipy estava com tanta raiva que espetou um longo alfinete de ouro no braço de Kait. E há dois ou três dias Kait deixou cair uma pesada panela de cobre cheia de gordura fervendo no pé de Satipy. E é a mesma coisa por toda parte: Satipy insulta Yahmose até tarde da noite, todos nós podemos ouvi-la. Yahmose parece doente, exausto e acossado. E Sobek vai para a aldeia e fica lá com mulheres, e depois volta para casa bêbedo e grita e se gaba do quanto ele é esperto!

— Algumas dessas coisas são verdade, eu sei — disse Hori lentamente. — Mas por que haveria você de culpar Nofret?

— Porque é culpa dela! São sempre as coisas que ela diz, pequenas coisas, que começam tudo. Ela é como a vara com que se aguilhoa os touros. Ela é esperta, também, sabe exatamente o que dizer. Às vezes acho que é Henet que conta para ela...

— Sim — disse Hori pensativamente. — Pode ser.

Renisenb estremeceu.

— Eu não gosto de Henet. Detesto a maneira como ela se arrasta. Ela é tão devotada a nós todos, e mesmo assim ninguém quer sua devoção. Como pôde minha mãe tê-la trazido para cá e ter gostado tanto dela?

Quanto a isso temos somente a palavra de Henet — retrucou Hori secamente.

Por que deveria Henet gostar tanto de Nofret e atendê-la, cochichando e bajulando-a? Oh, Hori, estou amedrontada! Odeio Nofret! Gostaria que ela se fosse. Ela é bela, cruel e má!

Você é uma criança, Renisenb.

E Hori acrescentou calmamente:

Nofret está vindo para cá.

Renisenb voltou a cabeça. Ambos viram Nofret subindo o caminho íngreme que levava ao penhasco. Ela sorria consigo mesma e cantarolava uma pequena canção.

Quando ela alcançou o lugar onde eles estavam, olhou em torno e sorriu. Era um sorriso de divertida curiosidade. — Então é para aqui que você foge todos os dias, Renisenb?

Renisenb não respondeu. Tinha o sentimento de raiva e derrota de uma criança cujo esconderijo fora descoberto.

Nofret olhou em torno de si novamente.

Então é este o famoso Túmulo?

Sim, Nofret — respondeu Hori.

Nofret encarou-o, sua boca felina Curvando-se num sorriso.

Não tenho dúvidas de que você o acha lucrativo, Hori. Você é um bom homem de negócios, segundo ouvi dizer.

Havia um sinal de malícia na sua voz, mas Hori permaneceu impassível, sorrindo quieta e gravemente.

É lucrativo para todos nós. A Morte é sempre lucrativa...

Nofret teve um pequeno estremecimento enquanto olhava em torno, seus olhos correndo por sobre as mesas de oferenda, a entrada para o santuário e a porta falsa.

Ela deu um grito agudo:

Odeio a Morte!

Pois não devia. — O tom de Hori era calmo: — A Morte é a principal fonte de riqueza aqui no Egito. A Morte trouxe as jóias que você está usando, Nofret. A Morte alimenta e veste você.

Nofret o encarou:

O que você quer dizer?

Quero dizer que Imhotep é o sacerdote de Ka; um sacerdote mortuário. Todas as suas terras, seu gado, sua madei­ra, o linho, a cevada são o dote do Túmulo.

Fez uma pausa e continuou pensativamente:

— Somos um povo estranho, nós, os egípcios. Amamos a vida... e mesmo assim começamos bem cedo a planejar a morte. Para ela é que vai a riqueza do Egito; para as pirâmides, para os túmulos e para os dotes dos túmulos.

Nofret retrucou violentamente:

— Você quer parar de falar sobre a morte, Hori? Eu não gosto!

— Porque você é uma verdadeira egípcia... porque você ama a vida, porque, às vezes, você sente a sombra da morte muito próxima...

— Pare!

Nofret voltou-se para ele abruptamente. Depois, sacudindo os ombros, virou-se e começou a descer pelo caminho.

Renisenb deu um suspiro de alívio e satisfação.

— Estou contente que ela tenha ido — disse singelamente. — Você assustou-a, Hori.

— Sim. Assustei você, Renisenb?

— Não. — Renisenb parecia um pouco incerta. — O que você disse é verdade, apenas eu nunca havia pensado nisso dessa maneira. Meu Pai é um sacerdote mortuário.

Hori disse com repentina amargura:

— Todo o Egito é obcecado pela morte! E você sabe por que, Renisenb? Porque temos os olhos nos nossos corpos, mas não os temos nas nossas mentes. Não podemos conceber uma vida diferente desta... uma vida após a morte. Só podemos visualizar uma continuação daquilo que conhecemos. Não temos uma verdadeira fé em Deus.

Renisenb olhava para ele espantada.

— Como você pode dizer isso, Hori? Pois se temos tantos, tantos Deuses... tantos que não posso enumerá-los a todos. Ontem mesmo, à noite, falávamos ã respeito dos Deuses que eram os nossos preferidos. Sobek era todo por Sakhmet e Kait reza sempre para Meskhant. Kameni jura por Thoth, como é natural, sendo um escriba. Satipy está com Hórus, com sua cabeça de falcão, e também com o nosso Mereseer. Yahmose diz que Ptah deve ser adorado porque ele faz todas as coisas. Eu mesma amo Isis. A Henet é toda pelo nosso Deus local Amon. Ela afirma que existem profecias entre os sacerdotes que dizem que algum dia Amon há de ser o maior Deus em todo o Egito... por isso ela lhe traz oferendas agora, enquanto ele ainda é um pequeno Deus. E há também Rê, o Deus-Sol, e Osíris, diante de quem o coração dos mortos é pesado.

Renisenb fez uma pausa, sem fôlego. Hori estava sorrindo para ela.

— E qual é a diferença, Renisenb, entre um Deus e um homem?

Ela olhou para ele.

— Os Deuses são... eles são mágicos!

Isso é tudo?

— Não entendo o que você está querendo dizer, Hori.

— Quero dizer que, para você, um Deus é apenas um homem ou uma mulher que pode fazer certas coisas que homens e mulheres não podem fazer.

— Você diz coisas tão estranhas! Não consigo entendê-lo.

Ela olhava para ele perplexa — então, olhando de relance para baixo, em direção ao vale, sua atenção ficou presa em outra coisa.

— Veja! — exclamou. — Nofret está falando com Sobek. Ela está rindo. Oh!... — ela deu um suspiro repentino. — Não é nada. Pensei que ele fosse atacá-la. Ela está voltando para casa e ele está vindo cá para cima.

Sobek chegou parecendo uma nuvem carregada.

— Que um crocodilo devore aquela mulher! — gritou ele. — Meu pai foi mais estúpido do que de costume, quando a escolheu como concubina!

— O que ela disse para você? — perguntou Hori curiosamente.

— Ela me insultou, como de costume! Perguntou se meu pai tinha me incumbido de mais alguma venda de madeira. Sua língua é viperina. Gostaria de matá-la.

Ele continuou pela plataforma e, pegando uma pedra, atirou-a em direção ao vale. O som que a mesma fazia batendo no penhasco parecia agradá-lo. Apanhou uma pedra maior e saltou para trás, quando uma cobra que se enrolara embaixo dela levantou a cabeça. A cobra empinou-se, sibilando, e Renisenb pôde ver que era uma naja.

Pegando um pesado pedaço de pau, Sobek atacou-a furiosamente. Um golpe certeiro quebrou-lhe o dorso, mas Sobek conti­nuou retalhando-a, a cabeça jogada para trás, os olhos faiscando, e, em voz baixa, resmungou alguma coisa que Renisenb não compreendeu.

Ela gritou: — Pare, Sobek, pare... está morta!

Sobek parou, jogou o pedaço de pau fora e riu.

Menos uma cobra venenosa no mundo.

Ele riu de novo, seu bom humor restaurado, e desceu num tropel pelo caminho abaixo.

Renisenb disse em voz baixa: — Acho que Sobek... gosta de matar coisas!

Sim.

Não havia surpresa na resposta. Hori estava apenas reconhe­cendo um fato que ele evidentemente já conhecia bem. Renisenb virou-se para olhar para ele. Disse vagarosamente:

Cobras são perigosas... mas como aquela naja parecia bela...

Olhou para baixo, para o seu corpo quebrado e retorcido. Por alguma razão desconhecida, sentiu uma pontada no coração.

Hori disse como que sonhando:

Lembro-me de quando éramos todos crianças... e Sobek atacou Yahmose. Yahmose era um ano mais velho, mas Sobek era maior e mais forte. Ele tinha uma pedra e batia com ela na cabeça de Yahmose. Sua mãe veio correndo e os separou. Lem­bro-me de como ela permaneceu olhando para Yahmose... e de co­mo ela gritou: “Você não pode fazer uma coisa dessas, Sobek... é perigoso! Eu lhe digo, é perigoso!” — Ele calou-se e então conti­nuou: — Sobek era muito bonito... Eu pensava assim quando criança. Você é como ele, Renisenb.

Sou? — Renisenb sentiu-se satisfeita, aconchegada. Ela então perguntou:

Yahmose ficou muito machucado?

Não, não era tão grave quando parecia. Sobek ficou muito doente no dia seguinte. Pode ter sido alguma coisa que ele tenha comido, mas sua mãe disse que tinha sido sua violência e o sol forte; estávamos no meio do verão.

Sobek tem um temperamento terrível — disse Renisenb pensativamente.

Ela olhou novamente para os restos da naja e voltou-se com um arrepio.

 

Quando Renisenb voltou para casa, Kameni encontrava-se sentado na varanda da frente com um rolo de papiro. Ele estava cantando e ela parou por um momento para ouvir suas palavras.

Irei a Mênfis — cantou Kameni. — Irei a Ptah, o Senhor da Verdade. E direi a Ptah: Dê-me minha irmã esta noite. A correnteza é vinho, Ptah é o seu vermelho, Sekhmet seu lótus, Earit seu botão, Nerertum sua flor. Eu direi a Ptah: Dê-me minha irmã esta noite. A aurora surge através de sua beleza. Mênfis é um prato de maçãs do amor colocado diante de sua face...

Ele olhou sorrindo para Renisenb.

Gosta de minha canção, Renisenb?

O que é isso?

É uma canção de amor, de Mênfis.

Ele conservou seus olhos nos dela, cantando suavemente:

Seus braços estão repletos de ramos de louro, seus ca­belos pesados de ungüento. Ela é como a Princesa do Senhor dos dois Mundos.

Um rubor subiu às faces de Renisenb. Dirigiu-se rapidamente à casa, quase colidindo com Nofret.

Por que tanta pressa, Renisenb?

A voz de Nofret tinha algo de ferino. Renisenb timidamente a olhou, surpresa. Nofret não sorria. Seu rosto era severo e tenso, e Renisenb notou que suas mãos estavam cerradas.

Desculpe, Nofret, eu não a vi. É muito escuro aqui quando se vem da claridade de fora.

Sim, é escuro aqui... — Nofret fez uma pausa. — Seria mais agradável lá fora, na varanda, ouvindo-se a música de Kameni. Ele canta bem, não acha?

Sim, sim, ele canta muito bem.

E no entanto, você não ficou escutando. Kameni ficará desapontado.

Um calor subiu novamente às faces de Renisenb. O olhar zombeteiro e frio de Nofret fê-la sentir-se desconfortável.

Não gosta de canções de amor, Renisenb?

Faz alguma diferença para você, Nofret, aquilo de que gosto ou deixo de gostar?

— Como que, então, o gatinho tem unhas afiadas.

— Que você quer dizer com isso?

Nofret riu. — Você não é tão boba como parece, Renisenb. Quero dizer que você acha Kameni bonito. Isso irá agradá-lo, sem dúvida.

Você é realmente detestável — retrucou Renisenb impetuosamente.

Ela passou por Nofret e se dirigiu para os fundos da casa. Escutou a gargalhada zombeteira da moça. Mas, além do riso, soando claro em sua mente, havia o eco da voz de Kameni e a melodia que havia cantado com os olhos postos em sua face.

 

Durante a noite, Renisenb teve um sonho.

Ela estava com Khay, navegando na Barca dos Mortos, no Outro Mundo. Khay estava em pé na proa do barco; ela via apenas sua cabeça. Então, a caminho da aurora, Khay voltou-se e Renisenb viu que não era ele, mas Kameni. No mesmo instante, na proa do barco, uma cabeça de serpente, começou a se con­trair. Era uma serpente viva, uma cobra, e Renisenb pensou: “É a serpente que sai dos túmulos para comer as almas dos mortos.” Ficou paralisada de medo. Viu então que o rosto da serpente era o rosto de Nofret, e acordou gritando: — Nofret, Nofret!....

Ela não havia, de fato, gritado; era tudo sonho. Permaneceu quieta, o coração batendo forte, dizendo a si própria que nada do que havia ocorrido era real. De repente, pensou: “Era isso que Sobek dizia enquanto matava a cobra, ontem. Ele dizia: ‘Nofret’...”

 

                           Primeiro Mês de Inverno - Quinto Dia

 

O sonho de Renisenb fê-la perder o sono. Apenas cochilou um pouco durante a noite e, quando o dia raiou, não dormiu mais. Estava obcecada por um sentimento obscuro de perigo iminente.

Levantou-se bem cedo e saiu de casa. Seus passos a levaram, como de costume, ao Nilo. Lá já havia pescadores e um grande barco, que através de vigorosas remadas seguia em direção a Tebas. Havia outros barcos que tinham suas velas desfraldadas pelas ligeiras lufadas de vento.

Alguma coisa se modificou no coração de Renisenb; a excitação de um desejo por algo que ela não conseguia explicar. Pensou: “Eu sinto... sinto...” Mas não sabia o que sentia! Melhor dizendo, ela não conhecia palavras que pudessem se aplicar àquela sensação. Pensou: “Eu quero... mas o que é que eu quero?”

Era Khay que ela queria? Khay estava morto; não voltaria mais. Disse para si mesma: “Não pensarei mais em Khay. De que serve? Está acabado, tudo aquilo.”

Notou então uma outra figura de pé, olhando na direção do barco que se dirigia a Tebas; e alguma coisa a respeito daquela figura, alguma emoção que ela expressava pela sua completa impassividade, comoveu Renisenb, mesmo quando reconheceu Nofret.

Nofret com os olhos fixos no Nilo. Nofret... só. Nofret pensando em quê?

Um tanto chocada, Renisenb de repente percebeu quão pouco eles conheciam Nofret. Haviam-na aceito como uma inimiga, uma estranha, sem qualquer interesse ou curiosidade pela sua vida ou pelo ambiente de onde ela provinha.

Deve ser, pensou Renisenb repentinamente, bastante triste para Nofret estar aqui sozinha, sem amigos, rodeada apenas por pessoas que não gostam dela.

Devagar, Renisenb caminhou até se postar ao lado de Nofret. Esta voltou a cabeça por um momento e então virou-a de volta, retomando sua contemplação do Nilo. Seu rosto nada exprimia.

Renisenb disse timidamente:

— Há muitos barcos no rio.

— Sim.

Renisenb continuou, obedecendo a um impulso obscuro para a conciliação:

— É assim como aqui, lá de onde você veio?

Nofret riu, um riso curto e um tanto amargurado.

— Nem um pouco. Meu pai é um mercador em Mênfis. É alegre e divertido, lá em Mênfis. Há música, e as pessoas cantam e dançam. Meu pai viaja bastante. Estive com ele na Síria, em Biblos, além do Focinho da Gazela. Estive com ele num grande navio nos mares imensos.

Ela falou com orgulho e animação.

Renisenb ficou quieta, sua mente trabalhando devagar, mas com interesse e compreensão crescentes.

— Deve ser bastante aborrecido para você estar aqui — disse lentamente.

Nofret sorriu com impaciência.

— Tudo é morto por aqui... morto. Não se faz outra coisa senão arar, semear e colher, cuidar do gado, falar de colheitas e brigar por causa do preço da fibra.

Renisenb continuava a lutar com pensamentos estranhos, ao mesmo tempo que observava Nofret de esguelha.

De súbito, como se fosse algo físico, uma imensa onda de ira, desespero e infelicidade pareceu emanar da moça a seu lado.

Renisenb pensou: “Ela é tão jovem quanto eu... mais jovem, até. E é a concubina daquele velho, daquele velho ranheta, bondoso e um tanto ridículo: meu pai...”

Que sabia ela, Renisenb, a respeito de Nofret? Nada. Que lhe dissera ontem Hori quando ela havia gritado: “Nofret é bela, cruel e má!”?

— Você é uma criança, Renisenb — fora tudo quanto havia dito. Renisenb sabia o que isso significava. Suas palavras não haviam significado nada; não era tão fácil assim ignorar um ser humano. Que tristeza, que amargura, que desespero ficavam por trás do sorriso cruel de Nofret? Que fizera ela, Renisenb, ou qualquer um deles, para tornar Nofret bem-vinda?

Renisenb disse, infantilmente, aos tropeços:

— Você nos odeia a todos... e eu sei por quê; não fomos bondosos... porém agora... agora é tarde demais. Será que nós, você e eu, não poderíamos ser como irmãs? Você está longe de todos os que conhece; está sozinha. Será que eu não poderia ajudar?

Suas palavras morreram em silêncio. Nofret voltou-se lentamente.

Durante um momento seu rosto permaneceu inexpressivo — chegou mesmo a revelar, pensou Renisenb, uma breve suavidade em seu olhar. Na quietude daquela manhã, com sua estranha claridade e paz, foi como se Nofret tivesse hesitado — Como se as palavras de Renisenb houvessem tocado no âmago de sua irresolução.

Foi um momento estranho, que Renisenb tornaria a lembrar mais tarde.

Depois, gradativamente, a expressão de Nofret mudou. Tornou-se pesadamente malévola, ao passo que seus olhos faiscavam. Ante a fúria de ódio e maldade, em seu olhar, Renisenb recuou um passo.

Nofret, em tom baixo e ríspido disse:

— Vá embora. Não quero nada de vocês. São talvez uns estúpidos e idiotas...

Calou-se e, dando meia volta, encaminhou-se em direção à casa com passos vigorosos.

Renisenb a seguiu com calma. Curiosamente, as palavras de Nofret não tinham despertado a sua cólera. Elas haviam desvendado um abismo negro de ódio e miséria — alguma coisa ainda desconhecida de sua própria experiência, e em sua mente havia apenas uma idéia confusa e desordenada no quão terrível deveria ser sentir-se assim.

No momento em que Nofret atravessava o portão e entrava na varanda, um dos filhos de Kait cruzou seu caminho correndo, à procura de uma bola.

Nofret empurrou violentamente a criança e esta caiu, gritando de dor. Renisenb correu e tomou-a nos braços, dizendo indignada:

— Você não deveria ter feito isso, Nofret. Você a machucou. Ela cortou o queixo.

Nofret soltou uma gargalhada estridente.

— Com que então devo ter cuidado para não ferir esses fedelhos mimados? Por quê? Acaso suas mães se preocupam com os meus sentimentos?

Kait havia saído correndo da casa ao escutar o grito da criança. Examinou o ferimento, e então voltou-se para Nofret.

— Demônio e serpente! Má! Espere para ver o que faremos com você!

Kait desferiu uma violenta bofetada em Nofret. Renisenb gritou e segurou-lhe o braço antes que pudesse repetir o golpe.

— Kait, Kait, você não deve fazer isso.

— Quem disse? Deixe Nofret enxergar a si própria. Ela é apenas uma aqui, entre muitas.

Nofret não se mexeu. A marca da mão de Kait estava estampada em sua face, nítida e vermelha. Próximo ao canto dos olhos, onde uma pulseira usada por Kait cortara-lhe a face, um fio de sangue escorria.

Mas foi a expressão de Nofret que intrigou Renisenb — sim, e a amedrontou. Nofret não demonstrava raiva. Ao invés disso, havia em seus olhos um olhar exultante e estranho, e mais uma vez em sua boca apareceu aquele sorriso satisfeito e felino.

— Obrigada, Kait — ela disse.

E então, entrou na casa.

 

Sussurrando baixinho, com as pálpebras baixas, Nofret chamou Henet.

Henet veio correndo, estacou e soltou uma exclamação. Nofret a interrompeu prontamente.

— Traga-me Kameni. Diga-lhe para trazer a caixa de penas, tinta e papiro. Há uma carta a ser escrita para Imhotep.

Os olhos de Henet estavam fixos na face de Nofret.

— Para Imhotep... claro...

Então perguntou: — Quem fez isso?

— Kait — Nofret sorriu calma e remanescente.

Henet balançou a cabeça e estalou a língua.

— Tudo isso é muito mal, muito mal... Certamente o meu amo deve tomar conhecimento disso. — Ela lançou um olhar furtivo para Nofret. — Sim, sem dúvida, Imhotep deve saber.

Nofret falou suavemente: — Você e eu, Henet, pensamos da mesma forma... Achei que deveríamos proceder assim.

Ela retirou uma jóia de ametista e ouro de sua roupa de linho e colocou-a nas mãos da mulher.

— Você e eu, Henet, queremos do fundo do coração o verdadeiro bem-estar de Imhotep.

— Isto é bom demais para mim. Nofret... Você é muito generosa... Que beleza de trabalho!

— Imhotep e eu apreciamos a fidelidade.

Nofret ainda estava sorrindo, seus olhos estreitos e feli­nos.

— Traga Kameni — disse. — E venha com ele. Juntos, você e ele, são testemunhas do ocorrido.

Kameni veio um pouco relutante, a sobrancelha franzida.

Nofret disse imperativamente:

— Está lembrado das instruções de Imhotep antes de partir?

— Sim — respondeu Kameni.

— É chegada a hora — afirmou Nofret. — Sente-se, tome da pena e escreva o que vou ditar. — Como Kameni ainda hesitasse, ela disse com impaciência: — O que você escrever deve ser aquilo que você viu com seus próprios olhos e ouviu com seus próprios ouvidos; e Henet deve confirmar tudo o que eu disser. A carta deve ser enviada com todo sigilo e rapidez.

Kameni disse lentamente: — Eu não gosto...

Nofret atalhou prontamente: — Não tenho queixa contra Renisenb. Renisenb é suave, fraca e idiota, mas não tentou me machucar. Isso lhe satisfaz?

A cor bronzeada da face de Kameni tornou-se ainda mais forte.

— Não estava pensando nisso...

Nofret disse gentilmente:

— Pensei que estivesse... Agora vamos, cumpra as suas instruções; escreva.

— Sim, escreva — disse Henet. — Sinto-me tão aflita com tudo isso... tão terrivelmente aflita. É claro que Imhotep deve ficar sabendo. É justo que ele saiba. Por mais desagradável que possa ser uma coisa, deve-se cumprir com as obrigações. Sempre pensei assim.

Nofret sorriu com suavidade.

Tenho certeza que sim, Henet. Você deve cumprir com seu dever. E Kameni deve fazer o seu trabalho. E eu... bem, eu devo fazer aquilo que me apraz.

Mas Kameni ainda hesitava. Seu rosto estava sombrio e quase bravo.

Não gosto disso — retrucou. — Nofret, talvez fosse melhor você pensar um pouco.

Você diz isso a mim?

Kameni corou diante do tom empregado. Seus olhos evitaram os dela, mas a expressão sombria permaneceu.

Tenha cuidado, Kameni — disse Nofret lentamente. — Tenho grande influência sobre Imhotep. Ele me escuta. Até agora tem estado satisfeito com você... — Fez uma pausa significativa.

Você está me ameaçando, Nofret? — perguntou Kameni furioso.

Talvez.

Ele a olhou com raiva por um instante; então baixou a cabeça.

Farei o que disser, Nofret, mas creio... sim, creio que vai se arrepender.

Está me ameaçando, Kameni?

Estou apenas prevenindo-a...

 

                           Segundo Mês de Inverno - Décimo Dia

 

Os dias passavam e Renisenb, às vezes, sentia como se estivesse vivendo um sonho.

Não havia mais tentado tímidas aberturas com Nofret. Tinha, agora, medo de Nofret. Havia, em Nofret, algo que ela não compreendia.

Depois da cena na varanda, naquele dia, Nofret mudara. Havia nela uma certa complacência, uma exultação insondável para Renisenb. Às vezes, chegava a pensar que sua opinião acerca de Nofret, como uma pessoa profundamente infeliz, estava completamente errada. Nofret parecia contente com a vida, com ela própria e com aquilo que a cercava.

E, no entanto, o que a cercava havia definitivamente mudado para pior. Nos dias que se seguiram à partida de Imhotep, pensou Renisenb, Nofret se esforçou em semear a discórdia entre os vários membros da família de Imhotep.

Agora a família havia cerrado fileiras sólidas contra o invasor. Não havia discórdia entre Satipy e Kait — nem críticas de Satipy contra o infeliz Yahmose. Sobek estava mais calmo e vangloria­va-se menos. Ipy era menos imprudente e descortês para com seus irmãos mais velhos. Parecia haver uma nova harmonia na família, embora essa harmonia não trouxesse paz à mente de Renisenb — pois, junto com a mesma, havia uma curiosa e persistente corren­te de inimizade com relação a Nofret.

As duas mulheres — Satipy e Kait — não mais discutiam com ela. Evitavam-na. Nunca lhe dirigiam a palavra e sempre que ela aparecia, as duas imediatamente reuniam as crianças e iam para outro lugar. Ao mesmo tempo, acidentes estranhos e desagradáveis começaram a acontecer. Um vestido de linho de Nofret ficou estragado por causa de um ferro muito quente — uma tinta corante caiu sobre outro. Por vezes, surgiam espinhos pontiagudos em suas roupas — e um escorpião foi encontrado perto de sua cama. A comida que lhe serviam era excessivamente condimen­tada — ou absolutamente insossa. Certo dia, foi encontrado um rato morto em seu pão.

Era uma perseguição calma, inexorável, mesquinha — não manifesta, nada que se pudesse usar como pretexto —, era essencialmente uma campanha feminina.

Então, um dia, Esa chamou Satipy, Kait e Renisenb. Henet já lá estava, ao fundo, balançando a cabeça e esfregando as mãos.

Ah! — exclamou Esa, observando-as com sua usual expressão irônica. — Cá estão minhas inteligentes netas. Que pensam que estão fazendo, todas vocês? Que é isso de destruir as roupas de Nofret e tornar sua comida intragável?

Satipy e Kait sorriram. E não eram sorrisos simpáticos.

Satipy indagou: — Nofret se queixou?

Não — respondeu Esa. Ela empurrou a peruca que sempre usava, mesmo em casa, um pouco torta, com uma das mãos. — Não; Nofret não se queixou. E isso é o que me preocupa.

Pois não me preocupa — disse Satipy, agitando sua linda cabeça.

Porque você é uma idiota — vociferou Esa. — Nofret tem o dobro da inteligência de vocês três juntas.

E o que vamos ver — disse Satipy. Ela parecia feliz e contente consigo mesma.

O que vocês pensam estar fazendo? — perguntou Esa.

O rosto de Satipy endureceu.

Você é uma mulher velha, Esa. Não vai nisso nenhuma falta de respeito, mas as coisas já não importam tanto a você quanto a nós que temos maridos e filhos pequenos. Decidimos tomar as rédeas da situação; temos meios de tratar com uma mulher de quem não gostamos e que não iremos aceitar.

Belas palavras — disse Esa. — Belas palavras. — Ela gargalhou — Mas um bom discurso pode ser também encontra­do entre as escravas do moinho.

Eis aí um ditado sábio e verdadeiro — afirmou Henet.

Esa voltou-se para ela.

Vamos, Henet, o que diz Nofret de tudo o que está ocorrendo? Você deve saber... está sempre cuidando dela.

— Como me recomendou Imhotep. É-me repugnante, é claro, mas devo fazer aquilo que meu amo ordenou. Vocês não julgam, espero...

Esa interrompeu a voz lamuriosa:

— Sabemos tudo sobre você, Henet. Sempre devotada... e raramente reconhecida como deveria ser. Que diz Nofret de tudo isso? Essa foi a minha pergunta.

Henet balançou a cabeça.

— Ela não diz nada. Apenas... sorri.

— Exatamente — Esa apanhou um doce de uma bandeja no seu colo, examinou-o e colocou-o na boca. Disse então com uma súbita e malevolente aspereza:

— Vocês são todas umas tolas, todas vocês. O poder está com Nofret, não com vocês. Tudo que fazem é apenas um joguete nas mãos dela. Eu ousaria até dizer que tudo quanto fazem agrada a ela.

Satipy disse rispidamente: — Não tem cabimento; Nofret está só, no meio de muitos. Que poder pode ter ela?

Esa continuou inflexível:

— O poder de uma jovem e bela mulher casada com um homem que está envelhecendo. Sei exatamente a respeito do que estou falando. — E com um rápido movimento da cabeça, acrescentou: — Henet sabe do que estou falando!

Henet sobressaltou-se. Suspirou e começou a esfregar as mãos.

— Meu amo pensa muito nela, naturalmente. Sim, é natu­ral.

— Vá para a cozinha — ordenou Esa. — Traga-me algumas tâmaras e vinho sírio... sim, e também mel.

Quando Henet se foi, a velha mulher disse:

— Estão tramando alguma armadilha... posso sentir no ar. Satipy, você é a líder disso tudo, portanto, tenha cuidado; enquanto você se julga muito esperta, Nofret pode estar usando-a como a um boneco.

Ela recostou-se e fechou os olhos.

— Já estão avisadas... agora vão.

— Nós, nas mãos de Nofret, realmente! — exclamou Satipy, jogando a cabeça para trás enquanto seguiam todas em direção ao lago. — Esa é uma velha e põe as idéias mais extraordinárias na cabeça. Somos nós que temos Nofret em nossas mãos! Não faremos nada a ela que possa ser relatado... mas penso, sim, penso que muito breve ela estará arrependida de ter posto os pés aqui.

Você é cruel... cruel! — gritou Renisenb.

Satipy parecia divertida.

Não finja que você gosta de Nofret, Renisenb!

Não é isso. Mas você soa tão... tão vingativa!

Estou pensando nos meus filhos... e em Yahmose! Não sou uma mulher humilde nem sou daquelas que levam desaforo para casa; tenho ambição. Eu torceria o pescoço daquela mulher com o maior prazer. Mas, infelizmente, não é tão simples assim. A fúria de Imhotep não deve ser despertada. Mas acho que afinal... alguma providência deve ser tomada.

 

A carta atingiu-os como um raio.

Aturdidos, mudos, Yahmose, Sobek e Ipy olhavam para Hori enquanto ele lia em voz alta as palavras de um rolo de papiro.

“Acaso não avisei a Yahmose que seria ele o culpado se algum mal fosse feito à minha concubina? Enquanto vivermos, eu estarei contra você e você contra mim! Não mais viverei com você numa mesma casa uma vez que não res­peita minha concubina Nofret! Você não é mais filho da mi­nha carne. Tampouco Sobek e Ipy. Cada um de vocês fez mal à minha concubina. Isso foi atestado por Kameni e Henet. Eu os porei para fora da minha casa; todos vocês! Eu os sustentei; agora, não os sustentarei mais.”

Hori fez uma pausa e continuou:

“O servo de Ka, Imhotep, dirige-se a Hori. A você que tem sido fiel, como vai você na sua vida, são e salvo? Saúde à minha mãe Esa por mim e minha filha Renisenb, e saúde a Henet. Tome conta dos meus negócios cuidadosamente até que eu o encontre e providencie uma escritura pela qual minha concubina terá a metade de todas as minhas propriedades como minha mulher. Nem Yahmose, nem Sobek se associarão comigo, nem eu os sustentarei, e por meio desta eu os denuncio, por terem feito mal à minha concubina! Mantenha tudo a salvo até que eu chegue. Como é horrível quando a família de um homem dá maus tratos à sua concubina. Quanto a Ipy, deixe que ele receba um aviso; caso faça algum mal à minha concubina, também deverá deixar a minha casa!”

Seguiu-se um silêncio profundo; então Sobek levantou-se num acesso de fúria.

Como isso aconteceu? O que meu pai andou ouvindo? Quem contou essas falsidades para ele? Será que temos de aturar isto? Meu pai não pode nos deserdar assim e dar todos os seus bens para sua concubina!

Hori disse timidamente:

Causará comentários desfavoráveis e não será aceito como uma ação legítima... mas legalmente está em seu poder. Ele pode fazer uma escritura determinando o que quer que deseje.

Ela o enfeitiçou... aquela serpente negra e sarcástica lançou um encanto sobre ele!

Yahmose murmurou ainda atordoado:

É inacreditável... não pode ser verdade.

Meu pai está louco... louco! — gritou Ipy. — Ele virou-se até mesmo contra mim, por causa desta mulher!

Hori disse gravemente:

Imhotep voltará brevemente... segundo diz. Nessa altura sua fúria já terá amainado; ele pode não estar realmente planejando fazer o que está dizendo.

Houve uma risada curta e desagradável. Tinha sido Satipy quem rira. Ela permaneceu olhando para eles da porta que dava para os aposentos das mulheres.

Então é isso que devemos fazer, não é, meu excelente Hori? Espere e verá!

Yahmose disse lentamente:

Que mais podemos fazer?

Que mais? — Satipy exaltou-se. Gritou: — Que têm nas veias todos vocês? Leite? Yahmose, eu sei, não é um homem! Mas você, Sobek, não tem um remédio que cure esta doença? Uma facada no coração e essa menina não nos poderá fazer mais nenhum mal.

— Satipy — replicou Yahmose —, meu pai não nos perdoaria nunca!

— É o que você diz. Mas eu lhe digo que uma concubina morta não é a mesma coisa que uma concubina viva! Uma vez que ela esteja morta, seu coração se voltaria para os filhos e os netos. E, por outro lado, como poderia ele saber como ela morreu? Poderíamos dizer que um escorpião a mordeu! Estamos juntos nisso, ou não estamos?

Yahmose disse vagarosamente:

— Meu pai saberia. Henet diria a ele.

Satipy deu uma risada histérica.

— Yahmose é tão prudente! Ô gentil e cauteloso, Yahmose! Era você quem devia tomar conta das crianças e fazer os traba­lhos de mulher nos fundos da casa. Que Sakhmet possa ajudar-me! Casada com um homem que não é um homem. E você, Sobek, com toda a sua bazófia, que espécie de coragem você tem? Que determinação? Juro por Rá que sou mais homem que qualquer um de vocês.

Ela deu meia volta e retirou-se.

Kait, que estava parada atrás dela, deu um passo à frente.

Disse com sua voz profunda e agitada:

— O que Satipy está dizendo é verdade! Ela é de fato mais homem que qualquer um de vocês. Yahmose, Sobek, Ipy... vocês pretendem ficar aqui sentados sem fazer nada? E seus filhos, Sobek? Lançados à fome? Pois muito bem. Se pretendem não fazer nada, eu farei. Nenhum de vocês é homem.

Assim que ela se foi, Sobek pôs-se em pé de um salto.

— Pelos Nove Deuses de Enead, Kait está certa! Há um trabalho de homem a ser feito... e aqui estamos nós sentados ebalançando as cabeças.

Ele se lançou em direção à porta. Hori o chamou.

— Sobek. Sobek, onde você está indo? O que vai fazer?

Sobek, belo e desafiante, gritou da porta:

— Farei alguma coisa, por certo. E, seja lá o que for, hei de fazê-lo com muito prazer.

 

                             Segundo Mês de Inverno - Décimo Dia

 

Renisenb dirigiu-se à varanda, cerrando os olhos diante da súbita claridade.

Sentiu-se mal, abalada e cheia de uma apreensão inominável. Disse de si para si, repetindo e repetindo mecanicamente as palavras:

— Devo avisar Nofret... Devo avisar Nofret...

Atrás de si, na casa, podia ouvir as vozes graves de Hori e Yahmose confundindo-se e, acima das deles, aguda e clara, a voz adolescente de Ipy.

— Satipy e Kait estão certas. Não há homem algum nesta família. Mas eu, sim, sou um homem, senão na idade, ao menos no coração. Nofret tem zombado e rido de mim, tem me tratado como uma criança. Eu irei mostrar-lhe que não sou uma criança. Não tenho medo da ira de meu pai. Conheço meu pai. Ele está enfeitiçado... essa mulher o encantou. Se ela for destruída, seu coração voltará para mim... para mim! Sou o filho de que ele mais gosta. Todos vocês me tratam como criança... mas vocês verão. Sim, vocês verão!

Saindo da casa às carreiras, colidiu com Renisenb e quase a derrubou. Ela se agarrou às suas mangas.

— Ipy, Ipy, onde você vai?

— Procurar Nofret. Ela vai ver se pode rir de mim.

— Espere um pouco. Você deve se acalmar. Não devemos nos precipitar.

— Precipitar? — o rapaz riu com desprezo. — Você é como Yahmose. Prudência! Cautela! Nada deve ser feito às pressas. Yahmose é uma velha. E Sobek é só palavras e orgulho. Largue-me, Renisenb.

Ipy puxou o tecido de sua manga das mãos dela.

— Nofret, onde está Nofret?

Henet, que viera apressada da casa, murmurou:

— Oh, as coisas vão mal... muito mal. Que será de nós? Que dirá a minha querida ama?

— Onde está Nofret, Henet?

Renisenb gritou: — Não lhe diga. — Mas Henet já estava respondendo:

— Saiu pelos fundos. Desceu em direção aos campos de linho.

Ipy correu de volta, passando pela casa, e Renisenb disse com desaprovação: — Você não deveria ter dito, Henet.

— Você não confia na velha Henet. Vocês nunca têm confiança em mim. — O lamento de sua voz tornou-se ainda mais pronunciado. — Mas a pobre e velha Henet sabe o que está fazendo. O rapaz precisa de tempo para se acalmar. Ele não encontrará Nofret no campo de linho. — Ela sorriu. — Nofret está aqui, no pavilhão, com Kameni.

Ela apontou com a cabeça para além da varanda.

E acrescentou com ênfase um tanto exagerada:

— Com Kameni...

Mas Renisenb já havia começado a cruzar o pátio.

Teti, arrastando seu leão de madeira, veio correndo do lago para junto de sua mãe e Renisenb a tomou nos braços. Ela soube, quando se abraçou à criança, a força que estava movendo Satipy e Kait. Essas mulheres estavam lutando por seus filhos.

Teti soltou um gritinho amuado.

— Não me aperte assim, mamãe, não me aperte assim. Você está me machucando.

Renisenb pôs a criança no chão. Cruzou lentamente o pátio. Num canto afastado do pavilhão, Nofret e Kameni estavam juntos, em pé. Voltaram-se quando Renisenb se aproximou.

Renisenb falou rápido e de um só fôlego.

— Nofret, vim para lhe avisar. Você deve tomar cuidado; deve-se guardar.

Um ar desdenhoso de divertimento passou pela face de Nofret.

— Então os cachorros estão uivando?

— Todos estão muito zangados e acabarão lhe fazendo algum mal.

Nofret sacudiu a cabeça.

Ninguém pode me fazer mal — disse com confiança suprema. — Se o fizerem, seu pai tomará conhecimento e exigirá vingança. Eles saberão disso quando pararem para pensar. — Ela riu. — Quão tolos foram eles... com suas perseguições e insultos mesquinhos! Fizeram o meu jogo o tempo todo.

Renisenb disse lentamente:

Então você planejou isso o tempo todo? E eu que senti pena de você... cheguei a pensar que fomos desagradáveis! Já não tenho mais pena... Eu acho, Nofret, que você é má. Quando você for negar os quarenta e dois pecados na hora do julgamento, não será capaz de dizer: “Não fiz mal algum.” Tampouco será capaz de dizer: “Não fui cobiçosa.” E o prato da balança que acolher o seu coração pesará muito mais do que aquele com a pena da verdade.

Nofret retrucou mal-humorada:

Você de repente tornou-se muito devota. Mas eu não fiz mal a você, Renisenb. Não disse nada contra você. Pergunte a Kameni se não é verdade.

Nofret atravessou o pátio e subiu as escadas da varanda. Henet seguiu ao seu encontro e ambas mulheres foram juntas para dentro de casa.

Renisenb virou-se lentamente para Kameni.

Então foi você, Kameni, quem ajudou Nofret a fazer isso conosco.?

Kameni disse ansiosamente:

Você está muito aborrecida comigo, Renisenb? Mas o que poderia eu fazer? Antes de partir, Imhotep encarregou-me solenemente de escrever para Nofret a qualquer momento que ela me ordenasse. Diga que você não me culpa, Renisenb. Que mais poderia eu fazer?

Não posso culpá-lo — disse Renisenb devagar. — Você tinha, suponho, que obedecer às ordens de meu pai.

Não gostei de fazê-lo... e é verdade, Renisenb, não foi dita sequer uma palavra contra você.

Como se eu me importasse com isso!

Mas eu me importo. O que quer que Nofret pudesse ter dito para mim, eu não teria escrito uma palavra que lhe pudesse fazer mal. Renisenb... por favor acredite-me.

Renisenb sacudiu a cabeça, perplexa. Aquilo que Kameni estava fazendo força para deixar claro, parecia-lhe de pouca importância. Sentia-se ferida, como se Kameni, de alguma for­ma, a tivesse decepcionado. Muito embora ele fosse, afinal de contas, um estranho para ela. Apesar de unidos pelo sangue, Kameni era sem dúvida um estranho que seu pai trouxera de uma parte distante do país. Era um aprendiz de escriba que estava cumprindo uma tarefa que lhe fora imposta pelo seu empregador, e que a executara obedientemente.

— Não escrevi nada além da verdade — persistiu Kameni. — Não escrevi nenhuma mentira, isso eu lhe posso jurar.

— Não — observou Renisenb. — Não poderia haver men­tiras; Nofret é muito esperta para isso.

A velha Esa estava certa no final das contas. Aquela perseguição da qual Satipy e Kait tanto se haviam regozijado fora exatamente o que. Nofret queria. Não admira que tenha passado por tudo com aquele seu sorriso felino.

— Ela é má — disse Renisenb, conduzida por seus pensamentos. — Sim!

Kameni assentiu. — Sim — disse. — Ela é uma criatura maldosa.

Renisenb voltou-se e olhou-o curiosamente.

— Você a conheceu antes dela haver chegado aqui, não é verdade? Você a conheceu em Mênfis?

Kameni enrubesceu, parecendo pouco à vontade.

— Eu não a conhecia bem... Apenas tinha ouvido falar dela. Uma moça orgulhosa, segundo diziam, ambiciosa e inflexível... e alguém incapaz de perdoar.

Renisenb jogou sua cabeça para trás com súbita impaciência.

— Não acredito nisso — disse. — Meu pai não fará o que está ameaçando. No momento ele está zangado... mas ele não pode ser tão injusto. Ele perdoará quando voltar.

— Quando ele vier — disse Kameni —, Nofret dará um jeito para que ele não mude de idéia. Você não conhece Nofret, Renisenb. Ela é muito esperta e muito determinada; além disso, como você não poderia deixar de se esquecer, Renisenb, ela é muito bonita.

— Sim — admitiu Renisenb. — Ela é bonita.

Renisenb levantou-se. De alguma forma, a idéia da beleza de Nofret feriu-a...

 

Renisenb passou a tarde brincando com as crianças. Enquanto tomava parte nas suas brincadeiras, a dor vaga em seu coração diminuiu. Somente pouco antes do pôr do sol, enquanto penteava os cabelos e arrumava as pregas da saia que se haviam desarranjado, foi que ela teve a idéia vaga de que tanto Satipy quanto Kait tinham se ausentado de modo pouco habitual.

Kameni já havia deixado há muito o pátio. Renisenb dirigiu-se vagarosamente para dentro de casa. Não havia ninguém na sala de estar e ela continuou em direção à parte dos fundos, até os aposentos das mulheres. Esa estava cochilando num canto de seu quarto e a sua pequena escrava negra fazia pilhas de lençóis de linho. Uma fornada de pãezinhos triangulares estava sendo preparada na cozinha. Não havia mais ninguém por ali.

Uma curiosa sensação de vazio oprimia o espírito de Renisenb. Onde estaria todo mundo?

Hori provavelmente havia subido para o Túmulo. Yahmose poderia estar com ele ou então nos campos. Sobek e Ipy provavelmente estavam com o gado ou então cuidando dos grãos de milho. Mas onde estavam Satipy e Kait, e onde estava... Nofret?

O forte perfume do ungüento de Nofret enchia o seu quarto vazio. Renisenb permaneceu olhando da porta para o pequeno travesseiro de madeira, para a caixa de jóias, para uma porção de braceletes de contas e um anel ornado com um escaravelho esmaltado. Perfumes, ungüentos, roupas, linhos, sandálias — todos falando de sua dona, de Nofret, que vivia no meio deles e que era uma estranha e uma inimiga.

Onde, imaginava Renisenb, poderia estar Nofret?

Dirigiu-se devagar para a entrada posterior da casa e lá encontrou Henet, que estava entrando.

Onde está todo mundo, Henet? A casa está vazia exceto pela minha avó.

Como poderia eu saber? Estive trabalhando, ajudando na fiação, verificando mil e uma coisas; eu não tenho tempo de sair para passear.

Aquilo queria dizer, pensou Renisenb, que alguém havia saído para dar uma volta. Satipy talvez tivesse seguido Yahmose até o Túmulo para continuar enchendo-lhe os ouvidos. Mas onde estaria Kait? Não era costume de Kait passar tanto tempo longe de seus filhos.

E novamente aquela estranha e perturbadora premonição lhe ocorreu:

— Onde está Nofret?

Henet, como se tivesse lido seus pensamentos, deu-lhe a resposta.

— Quanto a Nofret, saiu há bastante tempo e foi até o Túmulo. Bem, Hori é capaz de enfrentá-la. — Ela riu malignamente. — Gostaria que você soubesse, Renisenb, como todo o caso me deixou infeliz. Ela veio até mim, naquele dia, com a marca dos dedos de Kait na face e o fio de sangue que escorria. Então chamou Kameni para escrever e pediu-me para dizer o que tinha visto... e, claro, eu não poderia dizer que não tinha visto! Oh, ela é muito viva. E eu, o tempo todo pensando em sua querida mãe...

Renisenb passou por ela e saiu para a claridade dourada do sol da tarde. Sobre os rochedos havia sombras profundas — o mundo todo parecia fantástico nessa hora do pôr do sol.

Os passos de Renisenb se apressaram quando entrou no caminho do Túmulo. Subiria até o Túmulo... para encontrar Hori. Sim, encontrar Hori. Era o que fazia quando, em criança, seus brinquedos quebravam — quando estava insegura ou amedrontada. Hori era como os próprios rochedos: firme, imóvel, imutável.

Renisenb pensou confusamente: “Tudo estará bem quando eu chegar até Hori...”

Ela apressou o passo; estava quase correndo.

De súbito, avistou Satipy descendo em sua direção. Satipy, também, devia ter estado no Túmulo.

Mas Satipy caminhava de maneira muito estranha, balançando de um lado para outro, cambaleando, como se não pudesse enxergar...

Quando Satipy avistou Renisenb, parou e levou as mãos ao peito. Renisenb, aproximando-se, ficou assustada com o aspecto de Satipy.

— Que houve, Satipy, você está doente?

— Não, não, claro que não.

— Você parece estar doente. Com medo. Que aconteceu?

— Que poderia ter acontecido? Nada, claro.

— Onde você esteve?

— Estive no Túmulo... à procura de Yahmose. Ele não estava lá. Não há ninguém lá.

Renisenb ainda a olhava fixamente. Esta era uma nova Satipy — uma Satipy destituída de todo o espírito e resolução.

— Volte, Renisenb; volte para casa.

Satipy colocou sua mão levemente trêmula sobre o braço de Renisenb, querendo apressá-la em direção ao caminho pelo qual tinha vindo e, a esse toque, Renisenb sentiu uma súbita revolta.

— Não; eu vou subir até o Túmulo.

— Não há ninguém lá, estou lhe dizendo.

— Gosto de ver o rio lá de cima. Gosto de me sentar lá.

— Mas o sol está se pondo... é muito tarde.

Os dedos de Satipy pareciam torniquetes no braço de Renisenb. Esta, com um puxão, libertou-se.

— Deixe-me ir, Satipy.

— Não. Volte. Volte comigo.

Mas Renisenb já se havia soltado, passado por ela e estava à caminho do rochedo.

Havia alguma coisa — seu instinto dizia que havia alguma coisa... Pôs-se a correr...

Viu então um volume escuro que jazia à sombra do rochedo... Correu até chegar perto dele.

Não ficou surpresa com o que viu. Era como se já estivesse esperando por isso...

Nofret jazia com a face voltada para cima, seu corpo esmagado e retorcido. Seus olhos estavam abertos e cegos...

Renisenb inclinou-se e tocou a fria e dura face — então levantou-se novamente, olhando sempre. Mal ouviu Satipy aproximando-se por trás dela.

— Ela deve ter caído — dizia Satipy. — Ela caiu. Estava passeando pelo caminho do rochedo e caiu...

“Sim”, pensou Renisenb, “foi isso o que aconteceu. Nofret havia caído do caminho mais acima; seu corpo deve ter batido violentamente contra as pedras da rocha.”

— Talvez tenha visto uma cobra — disse Satipy — e assustou-se. Há cobras que dormem ao sol, às vezes, no caminho.

Cobras. Sim, cobras. Sobek e a cobra. Uma cobra, com o dorso partido, morta, ao sol. Sobek, seus olhos brilhando... Ela pensou: “Sobek... Nofret...”

Então um repentino alívio a invadiu ao ouvir a voz de Hori.

Que aconteceu?

Voltou-se aliviada. Hori e Yahmose haviam subido juntos. Satipy explicava afobada que Nofret deveria ter caído do caminho acima.

Yahmose disse: — Ela deve ter subido até aqui para nos procurar, mas Hori e eu saímos para dar uma olhada nos canais de irrigação. Estivemos fora pelo menos uma hora. Ao voltarmos, avistamos vocês aqui.

Renisenb perguntou, e sua voz a surpreendeu, tão diferente soava: — Onde está Sobek?

Ela sentiu Hori virar rapidamente a cabeça a esta pergunta. Yahmose pareceu um tanto confuso ao responder:

Sobek? Não o vi durante toda a tarde. Não d vi desde que nos deixou, em casa, tão irritado.

Mas Hori estava olhando Renisenb. Ela levantou os olhos e deparou com os dele. Viu que eles deixaram seu olhar e olharam pensativamente para o corpo de Nofret e ela soube, com absoluta certeza, exatamente no que ele estava pensando.

Ele indagou num murmúrio:

Sobek?

Oh, não — Renisenb ouviu-se dizendo — Oh, não... oh, não...

Satipy voltou a dizer com veemência: — Ela caiu do ca­minho. É estreito lá em cima... e perigoso...

Sobek gostava de matar. “E o que quer que seja, hei de fazê-lo com muito prazer.”

Sobek matando a cobra...

Sobek encontrando Nofret naquela parte estreita do caminho...

Ouviu-se murmurando aos poucos:

Nós não sabemos... nós não sabemos...

Então, num alívio íntimo, com a sensação de que um peso lhe havia sido tirado, ela ouviu a voz grave de Hori dando o devido peso e valor à afirmação de Satipy.

Ela deve ter caído do caminho...

Seus olhos encontraram os de Renisenb. Ela pensou: “Ele e eu sabemos. Nós haveremos de saber sempre...”

Alta, ela ouviu sua voz trêmula dizendo:

— Ela caiu do caminho...

E, como num eco final, a voz suave de Yahmose concordou.

— Ela deve ter caído do caminho.

 

                               Quarto Mês de Inverno - Sexto Dia

 

Imhotep estava sentado em frente a Esa.

— Todos contam a mesma história — disse mal-humorado.

— Isso é, ao menos, conveniente — retrucou Esa.

— Conveniente... conveniente? Que palavras extraordinárias você usa!

Esa deu uma risadinha.

— Sei o que estou dizendo, meu filho.

— Estarão eles falando a verdade? Isso é o que eu tenho de decidir! — disse Imhotep gravemente.

— Ora, você não chega a ser a Deusa Maat. E nem pode, como Anúbis, pesar o coração na balança!

— Que é um acidente? — Imhotep balançou a cabeça, judicioso. — Devo lembrar que a notificação de minhas intenções com relação à minha ingrata família deve ter provocado certos sentimentos passionais.

— Sim, realmente — disse Esa. — Provocaram. Eles gritavam tanto no salão principal que eu podia ouvir, aqui do meu quarto, o que estava sendo dito. Por falar nisso, suas intenções eram realmente aquelas?

Imhotep, enquanto murmurava, parecia pouco à vontade:

— Escrevi com raiva: raiva justificável. Minha família precisava aprender uma severa lição.

— Em outras palavras — disse Esa —, você estava simplesmente lhes dando um susto. É isso?

— Minha querida mãe, que importa isso agora?

— Claro — prosseguiu Esa. — Você não tinha noção do que queria fazer. Pensamentos desordenados novamente...

Imhotep controlou sua irritação com esforço.

— Quero simplesmente dizer que esse aspecto particular já não faz sentido. São os fatos da morte de Nofret que estão em questão. Se eu tivesse de acreditar que alguém da minha família pudesse ser tão irresponsável, tão desequilibrado em sua raiva a ponto de matar a moça tão audaciosamente... eu... eu realmente não sei o que deveria fazer!

— Portanto, é uma sorte — disse Esa — que todos eles contem a mesma história. Ninguém deu a entender nada além disso, não é?

— Claro que não.

— Então, por que não encarar o incidente como terminado? Você deveria ter levado a moça para o norte consigo. Eu lhe disse para fazê-lo.

— Então você realmente acredita...

Esa disse com ênfase:

— Acredito naquilo que me é dito, a não ser que entre em conflito com o que tenha visto com meus próprios olhos (o que é muito pouco, atualmente) ou ouvido com meus próprios ouvidos. Você interrogou Henet, suponho. Que tem ela a dizer sobre o caso?

— Ela está muito angustiada... profundamente angustiada. Por mim.

Esa levantou as sobrancelhas.

— Realmente. Você me surpreende.

— Henet — disse Imhotep com ardor — tem um coração enorme.

— Também acho. Mas ela também abusa da língua mais do que o normal. Se é apenas angústia o que ela sente pela perda que você sofreu, eu certamente daria o caso como encerrado. Exis­tem muitas outras coisas para ocupar a sua atenção.

— Sim, realmente — Imhotep levantou-se, reassumindo suas maneiras irrequietas e importantes. — Yahmose está esperando por mim no salão principal com toda espécie de assuntos que necessitam de minha urgente atenção. Há muitas decisões aguardando minha sanção. Como você diz, tristezas particulares não devem superar as obrigações principais da vida.

Ele saiu rapidamente.

Esa sorriu por um momento, um sorriso um tanto quanto sardônico, é então sua face tornou-se grave novamente. Ficou pensativa e balançou a cabeça.

 

Yahmose estava esperando o pai, tendo Kameni a seu serviço. Hori, explicou Yahmose, estava supervisionando o trabalho dos embalsamadores e agentes funerários, ocupados com as últimas etapas dos preparativos fúnebres.

A viagem de volta ao lar, após ter recebido a notícia da morte de Nofret, demorou alguns dias e os preparativos fúnebres estavam agora quase concluídos. O corpo fora deixado de molho por bastante tempo no banho de salmoura, restaurado para recuperar um pouco da sua aparência normal, azeitado e esfregado com sais, devidamente envolvido em ataduras e posto no caixão.

Yahmose explicou haver indicado uma pequena câmara funerária, próximo ao túmulo posteriormente designado para acolher o corpo do próprio Imhotep. Detalhou aquilo que havia ordenado e Imhotep expressou sua aprovação.

— Você fez tudo muito bem, Yahmose — disse cortes­mente. — Você parece ter demonstrado muito bom discernimento e conservado sua cabeça no lugar.

Yahmose corou um pouco diante do inesperado elogio.

— Ipi e Montu são embalsamadores caros, naturalmente — continuou Imhotep. — Esses canopos, por exemplo, me parecem excessivamente caros. Realmente, não há necessidade de tal extravagância. Seus preços me parecem extremamente altos. É o que há de pior com esses embalsamadores que têm sido empregados pelas famílias dos Governadores. Julgam-se no direito de cobrar preços fantásticos. Ter-nos-ia saído muito mais barato chamar alguém menos conhecido.

— Em sua ausência — disse Yahmose —, tive de decidir sobre isso e quis que toda honra fosse tributada à concubina que o senhor tanto prezava.

Imhotep concordou e bateu no ombro de Yahmose.

— Foi um erro que pendeu para o lado bom, meu filho. Bem sei que, normalmente, você é muito mais prudente em matéria de dinheiro. Aprecio o fato de que, neste caso, mesmo despesas desnecessárias tenham sido feitas para me agradar. No entanto, não sou feito de dinheiro e uma concubina é... bem... apenas uma concubina. Creio que iremos cancelar os amuletos mais caros e... deixe-me ver, parece haver um ou outro meio de diminuir as despesas... Leia os itens do orçamento, Kameni. Kameni abriu o papiro.

Yahmose respirou aliviado.

 

Kait, caminhando lentamente da casa para o lago, deteve-se onde as crianças e suas mães estavam.

— Você estava certa, Satipy — disse. — Uma concubina morta não é o mesmo que uma concubina viva!

Satipy levantou os olhos para a outra, num olhar vago e cego. Renisenb perguntou rapidamente:

— Que quer dizer, Kait?

— Para uma concubina viva, nada era suficientemente bom; roupas, jóias, nem mesmo a herança do próprio sangue e carne de Imhotep! Mas agora Imhotep está ocupado em reduzir o custo das despesas do funeral! Afinal, por que jogar dinheiro fora com uma mulher morta? Sim, Satipy, você estava certa.

Satipy murmurou: — Que foi que eu disse? Esqueci-me.

— Melhor assim — concordou Kait. — Eu também esqueci. Assim como Renisenb.

Renisenb olhou para Kait sem dizer nada. Havia algo na voz de Kait — alguma coisa levemente ameaçadora, que a impressionou de forma desagradável. Acostumara-se a pensar em Kait como uma mulher bastante estúpida — alguém gentil e submissa, mas desprezível. Chocava-a, agora, o fato de aparentemente Kait e Satipy terem mudado de posições. Satipy, a dominante e agressiva, estava subjugada — quase tímida. Era a quieta Kait que parecia agora dominar Satipy.

Mas as pessoas, pensou Renisenb, não mudam realmente de caráter — ou mudam? Sentiu-se confusa. Teriam Kait e Satipy realmente mudado nas últimas semanas, ou seria a mudança de uma o resultado da mudança da outra? Teria sido Kait quem se tornara agressiva? Ou ela simplesmente parecia estar assim devido à súbita prostração de Satipy?

Definitivamente, Satipy estava diferente. Sua voz já não se levantava mais naquele tom rabugento tão familiar. Ela se arrastava pelo pátio e pela casa num passo nervoso e inseguro, completamente diferente do seu jeito autoconfiante. Renisenb acreditou que a mudança devia-se ao choque pela morte de Nofret, mas parecia incrível que isso pudesse durar tanto tempo. Seria muito mais do estilo de Satipy, e Renisenb só podia pensar assim, ter exultado abertamente, de fato, com a morte repentina e precoce da concubina. Ultimamente, porém, ela se encolhia nervosamente toda vez que o nome de Nofret era pronunciado. Até mesmo Yahmose parecia estar a salvo de sua arrelia e opressão e, em conseqüência, começou a assumir um comporta­mento mais resoluto. De forma alguma a mudança de Satipy era toda para o bem — ou pelo menos assim o/supunha Renisenb. No entanto, alguma coisa nesse comportamento deixava-a um pouco inquieta...

De repente, num sobressalto, Renisenb se apercebeu de que Kait estava olhando para ela, as sobrancelhas cerradas. Kait, ela compreendeu, estava esperando por uma palavra que confirmasse o que acabara de dizer.

— Renisenb também — repetiu Kait — esqueceu.

Subitamente, Renisenb sentiu uma onda de revolta inundá-la. Nem Kait, nem Satipy, nem ninguém poderia lhe ditar do que deveria ou não se lembrar. Respondeu ao olhar de Kait com uma clara alusão de desafio.

— As mulheres de uma casa — disse Kait — devem permanecer juntas.

Renisenb ganhou coragem e retrucou clara e desafiadoramente:

— Por quê?

— Porque seus interesses são os mesmos.

Renisenb sacudiu a cabeça violentamente. Pensou, confusamente: “Sou uma pessoa, bem como uma mulher. Sou Reni­senb.”

Disse então em voz alta: — Não é assim tão simples.

— Está querendo criar problemas, Renisenb?

— Não. Mas, em todo caso, o que você quer dizer com problemas?

— Tudo o que foi dito no salão, naquele dia, seria melhor que fosse esquecido.

Renisenb riu.

— Você é estúpida, Kait. Os criados, os escravos, minha avó... todos devem ter ouvido! Por que fingir que coisas que aconteceram não aconteceram?

— Nós estávamos zangadas — disse Satipy numa voz pesada. — Não falávamos a sério.

E acrescentou com irritação fervorosa:

— Pare de falar nisso. Kait. Se Renisenb quiser criar problemas, deixe-a.

— Não quero criar problemas — retrucou Renisenb indignada. — Mas é estúpido fingir.

Não — disse Kait —, é sábio. Você tem de pensar em Teti.

— Teti está bem.

— Tudo está bem... agora que Nofret está morta — sorriu Kait.

Era um sorriso sereno, calmo, satisfeito — e novamente Renisenb sentiu uma maré de revolta crescer dentro de si.

No entanto, o que Kait disse era verdade. Agora, que Nofret estava morta, tudo estava bem.

Satipy, Kait, ela própria, as crianças... Tudo seguro — tudo em paz — sem apreensões com relação ao futuro. A intrusa, a perturbadora e ameaçadora estranha havia partido — para sempre.

Por que então esse aflorar de uma emoção, que lhe era incompreensível, em favor de Nofret? Por que esse sentimento de vitória para a moça morta, de quem ela própria não gostava? Nofret era má e Nofret estava morta — não poderia encarar isso naturalmente? Por que essa súbita pontada de piedade — ou algo mais que piedade —, algo que quase chegava a ser compreensão?

Renisenb sacudiu perplexa a cabeça. Sentou-se perto da água, depois que as outras se foram, tentando em vão compreender a confusão que ia em sua cabeça.

O sol estava baixo quando Hori, cruzando o pátio, avistou-a e veio sentar-se ao seu lado.

— É tarde, Renisenb. O sol está se pondo. Você deveria entrar — sua voz calma e grave a acalmou, como sempre. Voltou-se com uma pergunta.

— Devem as mulheres de uma casa se conservar unidas?

— Quem lhe disse isso, Renisenb?

— Kait. Ela e Satipy...

Renisenb calou-se.

— E você... quer pensar por si própria?

— Oh, pensar! Não sei como pensar, Hori. Tudo está con­fuso em minha cabeça. As pessoas são confusas. Todos são diferentes daquilo que eu pensei que fossem. Sempre pensei que Satipy fosse corajosa, resoluta, dominante. Mas agora ela está fraca, vacilante, tímida até. Qual é então a verdadeira Satipy? As pessoas não podem mudar assim de repente.

— De repente... não.

— E Kait... ela que sempre foi suave e submissa, deixando todos a intimidarem. Agora, ela nos domina a todos! Até mesmo Sobek parece ter medo dela. Mesmo Yahmose está diferente... ele dá ordens e espera que elas sejam obedecidas!

— E tudo isso lhe confunde, Renisenb?

— Sim, porque eu não entendo. Às vezes sinto que a própria Henet talvez seja bastante diferente daquilo que sempre aparen­tou ser!

Renisenb riu, como que diante de um absurdo. Mas Hori não a acompanhou. Seu rosto se conservou grave e pensativo.

— Você nunca pensou muito sobre as pessoas, não é, Renisenb? Se tivesse pensado, teria compreendido. — Calou-se e continuou: — Você sabia que em todos os túmulos há sempre uma porta falsa?

Renisenb olhou-o fixamente. — Sim, é claro.

— Bem, as pessoas também são assim. Elas criam uma porta falsa... para iludir. Se estão conscientes de sua fraqueza e ineficiência, constroem uma imponente porta de auto-afirmação, de violência, de esmagadora autoridade e, depois de algum tempo, elas próprias passam a acreditar nisso. Elas pensam, e todos pensam, que são assim. Mas por detrás dessa porta, Renisenb, existe apenas um vazio... Então, quando a realidade vem e os toca com a pena da verdade, seu verdadeiro eu ressurge. Pois a gentileza e a submissão de Kait lhe trouxeram tudo o que desejava: marido e filhos. A estupidez tornou sua vida mais fácil, mas quando a realidade em forma de perigo se tornou ameaçadora, sua verdadeira natureza apareceu. Ela não mudou, Reni­senb; essa força e essa crueldade sempre estiveram nela.

Renisenb disse singelamente: — Mas eu não gosto disso, Hori. Dá-me medo. Todos sendo diferentes daquilo que eu pensava. E eu? Eu sou sempre a mesma.

— Tem certeza? — Ele lhe sorriu. — Então por que você ficou aqui sentada todas essas horas, com a testa enrugada, meditando, pensando? A antiga Renisenb... a Renisenb que se foi com Khay... alguma vez fez isso?

— Oh, não. Não era necessário. — Renisenb calou-se.

— Está vendo? Você mesma o disse. Essa é uma palavra real: necessidade. Você não é a criança feliz e despreocupada que sempre aparentou ser, aceitando tudo pelo seu valor aparente. Você não é apenas uma das mulheres da casa. Você é Renisenb, que quer pensar por si própria, que quer saber sobre as outras pessoas...

Renisenb disse lentamente: — Tenho pensado em Nofret...

— O que você tem pensado?

— Tenho pensado no motivo pelo qual não consigo esque­cê-la... Ela era má e cruel, tentou nos fazer mal, e está morta. Por que não posso deixar isso como está?

— Você não pode?

— Não. Eu tento, mas... — Renisenb calou-se. Passou as mãos pelos olhos, perplexa. — Às vezes eu sinto que sei sobre Nofret, Hori.

— Sabe? Que quer dizer?

— Não sei explicar. Mas isso me acontece às vezes; é como se ela estivesse aqui, ao meu lado. Sinto quase como se eu fosse ela... pareço saber o que ela sentia. Ela era muito infeliz, Hori, sei disso agora, embora não o soubesse na época. Ela queria nos ferir exatamente por ser tão infeliz.

— Isso você não pode saber, Renisenb.

— Não, claro que não posso saber, mas é o que sinto. Miséria, amargura, aquela raiva negra... tudo isso eu vi certa vez em sua face e não entendi! Ela deve ter amado alguém e alguma coisa correu errada; talvez ele tenha morrido... ou partido, mas o fato é que a deixou assim, querendo ferir, machucar. Oh, você pode dizer o que quiser, eu sei que estou certa! Ela se tornou a concubina desse homem velho, meu pai; veio para cá e nós não gostávamos dela. E assim pensou em nos fazer tão infelizes quanto ela. Sim, foi isso!

Hori olhou-a curiosamente.

— Você parece tão certa, Renisenb. No entanto, você não conheceu Nofret.

— Mas eu sinto que é verdade, Hori. Eu a sinto... Nofret. Às vezes eu a sinto muito perto de mim...

— Entendo.

Houve um silêncio entre eles. Estava quase escuro, agora.

Então, Hori disse calmamente: — Você acredita que Nofret não morreu acidentalmente, não é isso? Acha que ela foi empurrada lá de cima?

Renisenb sentiu uma violenta repugnância ao ouvir seus sentimentos transformados em palavras.

— Não, não, não diga isso.

— Mas eu creio, Renisenb, que seria melhor se tocássemos no assunto... já que está na sua cabeça. Você pensa assim, não é?

— Eu... sim!

Hori pendeu a cabeça para o lado, pensativamente. E continuou:

— E você pensa que foi Sobek?

— E quem mais poderia ter sido? Você se lembra dele com a cobra? Lembra-se do que ele disse, naquele dia, no dia em que Nofret morreu, antes de sair do salão?

— Lembro-me do que ele disse, sim. Mas nem sempre as pessoas que dizem são as que fazem!

Então não acredita que ela foi morta?

— Sim, Renisenb, acredito... Mas, afinal, é apenas uma opinião. Não tenho provas. E penso que jamais teremos essa prova. Foi por isso que encorajei Imhotep a aceitar o veredicto de acidente. Alguém empurrou Nofret... mas jamais saberemos quem.

— Então você acha que não foi Sobek?

— Acho que não. Mas, como disse, nunca se sabe; portanto é melhor não pensar sobre isso.

— Mas... se não foi Sobek... quem você pensa que foi?

Hori balançou a cabeça.

— Se eu tivesse uma idéia, talvez fosse uma idéia errada. Portanto é melhor não dizer...

— Mas então... nunca saberemos!

Havia fraqueza na voz de Renisenb.

— Talvez — Hori hesitava —, talvez seja melhor assim.

— Não saber?

— Não saber.

Renisenb sentiu um calafrio.

— Mas então... oh, Hori, eu tenho medo!

 

                       Primeiro Mês de Verão - Décimo Primeiro Dia

 

As cerimônias finais haviam sido concluídas e as magias devidamente ditas. Montu, o Divino Pai do Templo de Hathor, pegou a vassoura de folhas de heden e cuidadosamente foi varrendo a câmara, de dentro para fora, enquanto recitava frases mágicas para remover as pegadas de todos os espíritos do mal, antes que a porta fosse lacrada para sempre.

O túmulo foi, então, fechado, e tudo o que sobrou do trabalho dos embalsamadores, potes repletos de sódio, sal e trapos que haviam estado em contato com o corpo, foi colocado numa pequena câmara vizinha e também esta foi lacrada.

Imhotep endireitou os ombros e respirou fundo, relaxando sua expressão fúnebre. Tudo fora feito de maneira adequada. Nofret havia sido enterrada com os devidos rituais e sem econo­mia de despesas (despesas um tanto desnecessárias, na opinião de Imhotep).

Imhotep trocava cortesias com os Sacerdotes que, findos agora os ofícios sagrados, reassumiam seus hábitos de homens do mundo. Desceram todos até a casa onde os esperavam refrescos apropriados. Imhotep discutia com o principal Pai Divino as recentes mudanças políticas. Tebas estava rapidamente se transformando numa cidade muito poderosa. Era possível que em breve o Egito tivesse novamente de se unir sob o comando de um governante. A Idade de Ouro dos construtores de pirâmides talvez voltasse.

Montu falou com reverência e aprovação do Rei Nebhepet-Re. Um soldado de primeira linha e também um homem piedoso. O Norte, corrupto e covarde, dificilmente poderia se opor a ele. Um Egito unificado, isso é que era preciso. E iria significar, sem dúvida, muito para Tebas...

Os homens passearam juntos, discutindo o futuro.

Renisenb olhou para trás, em direção à rocha e à câmara mortuária lacrada.

— Então, isso é o fim — murmurou. Uma sensação de alívio apoderou-se dela. Havia temido não sabia bem o quê! Alguma explosão ou acusação de última hora? Mas tudo correra na mais completa tranqüilidade. Nofret foi devidamente enterrada dentro de todos os rituais da religião.

Era o fim.

Henet disse, suspirando: — Assim o espero, estou certa de que assim o espero, Renisenb.

Renisenb voltou-se para ela.

— Que quer dizer, Henet?

Henet evitou seus olhos.

— Acabei de dizer que espero que seja o final. Às vezes, aquilo que se acredita ser o fim, não passa do começo. Isso não basta, de forma alguma.

Renisenb disse zangada: — Do que está falando, Henet? O que está insinuando?

— Estou certa de que nunca insinuo, Renisenb. Eu não faria tal coisa. Nofret está enterrada e todos estão satisfeitos. Então, tudo está como deveria ser.

Renisenb perguntou: — Meu pai lhe perguntou o que você pensava sobre a morte de Nofret?

— Sim, de fato, Renisenb. Mais especificamente, que eu deveria lhe dizer exatamente o que pensava de todo o caso.

— E o que você lhe disse?

— Bem, claro que eu disse ter sido um acidente. Que mais poderia ter sido? Você não pensou, nem por um instante, eu lhe disse, que alguém de sua família iria querer causar mal à moça, não é? Eles não se atreveriam; respeitam demais a sua pessoa. Talvez resmunguem, mas nada além disso, eu disse. Posso assegurar-lhe que não houve nada desse gênero!

Henet assentiu com a cabeça e seu uma risadinha.

— E meu pai acreditou em você?

Henet assentiu novamente mostrando satisfação.

— Ora, seu pai sabe com sou devotada aos seus interesses. Ele sempre confiará na palavra da velha Henet. Ele me aprecia, ainda que o resto de vocês não o faça. Bem, minha dedicação para com vocês é a própria recompensa. Não espero agradeci­mentos.

— Você também era dedicada a Nofret — observou Renisenb.

— Realmente não sei como é que lhe ocorreu essa idéia, Renisenb. Eu tinha que obedecer as ordens, como todo mundo.

— Ela pensava que você lhe era dedicada.

Henet deu outra risadinha.

— Nofret não era tão inteligente quanto ela própria pensava... Uma moça orgulhosa... que pensava ser dona do mundo. Bem, ela terá agora que agradar os juízes do Outro Mundo... e lá uma carinha bonita não irá ajudá-la. Estamos livres dela. Pelo menos: — acrescentou baixinho e tocou um dos amuletos que usava — assim espero.

 

— Renisenb, quero lhe falar sobre Satipy.

— Claro, Yahmose.

Renisenb olhou com simpatia para a face suave e preocupada de seu irmão.

Yahmose disse lenta e gravemente: — Alguma coisa não anda bem com Satipy. Não consigo entender.

Renisenb balançou a cabeça tristemente. Estava embaraçada por não encontrar nada de reconfortante para dizer.

— Tenho observado essa mudança nela há algum tempo — continuou Yahmose. — Ela se assusta e treme com um mero ruído estranho; não se alimenta bem. Arrasta-se como se... como se tivesse medo de sua própria sombra. Você deve ter percebido, Renisenb.

— Sim, realmente, todos nós notamos.

— Perguntei-lhe se está doente, se devo mandar buscar um médico, mas ela diz que não é nada... que está perfeitamente bem.

— Eu sei.

— Então você também lhe perguntou? E ela não lhe disse nada... nada?

Ele acentuou bastante as palavras. Renisenb condoeu-se de sua preocupação, mas não pôde dizer nada que ajudasse.

— Satipy insiste em dizer que está bem.

Yahmose murmurou: — Ela não dorme bem à noite... chora enquanto dorme. Teria ela alguma tristeza da qual nada sabe­mos?

Renisenb balançou a cabeça.

Não vejo como isso seria possível. Nada há de errado com as crianças. Nada aconteceu aqui... a não ser, é claro, a morte de Nofret; e Satipy dificilmente iria sofrer com isso — acrescentou Secamente.

Yahmose sorriu ligeiramente.

Não, de fato. Muito pelo contrário. Além do mais, isso não é recente. Começou, eu creio, antes da morte de Nofret.

Seu tom era um pouco incerto e Renisenb olhou-o rapidamente. Yahmose disse com persistência suave:

Antes da morte de Nofret, você não acha?

Eu nada percebi senão depois — replicou Renisenb devagar.

E ela não lhe disse nada... você tem certeza?

Renisenb balançou a cabeça. — Mas não creio, Yahmose, que Satipy esteja doente. A mim me parece que ela está antes... amedrontada.

Amedrontada? — indagou Yahmose com grande surpre­sa. — Mas por que deveria Satipy sentir medo? E de quê? Satipy sempre teve a coragem de um leão.

Eu sei — disse Renisenb em desamparo. — Foi assim que sempre pensamos; mas as pessoas mudam... é estranho.

Será que Kait sabe de alguma coisa? Satipy falou com ela?

Se tivesse de falar, ela o faria muito mais com Kait do que comigo, mas não creio. Na verdade estou certa disso.

O que pensa Kait?

Kait? Kait nunca pensa nada.

Tudo o que Kait havia feito, refletiu Renisenb, tinha sido tomar vantagem da incomum fraqueza de Satipy, apoderando-se — para si e as crianças — das melhores fazendas recém-tecidas, algo que jamais teria feito caso estivesse Satipy em plena forma. A casa iria tremer com disputas passionais! O fato de Satipy ter cedido sem a mínima objeção impressionou Renisenb mais do que qualquer outra coisa que pudesse ter acontecido.

Você falou com Esa? — perguntou Renisenb. — Nossa avó é sábia com relação a mulheres e seus hábitos.

Esa — disse Yahmose com certa contrariedade — simplesmente me diz para ser agradecido pela mudança. Diz que é muito esperar que Satipy continue a ser tão docemente razoável.

Renisenb disse com uma leve hesitação: — Você perguntou a Henet?

Henet? — Yahmose franziu a testa. — Não, claro. Eu não falaria de tais coisas com Henet. Seus encargos já vão longe demais. Meu pai a estragou.

Oh, eu sei, ela é cansativa. Mas mesmo assim... bem — Renisenb hesitou — Henet sempre sabe das coisas.

Yahmose disse lentamente: — Você falará com ela, Renisenb? E me contará o que ela disser?

Se você quiser.

Renisenb referiu-se à questão quando se encontrou a sós com Henet. Dirigiam-se ao galpão dos teares. Para surpresa sua, a pergunta pareceu ter incomodado Henet, que não demonstrou aquela sua costumeira avidez de mexericar.

Henet tocou no amuleto que estava usando e olhou por sobre os ombros.

Não tenho nada a ver com isso, estou certa... Não é da minha conta observar se alguém está agindo de acordo consigo próprio ou não. Preocupa-me com as minhas coisas. Se há algum problema, não quero me envolver.

Problema? Que espécie de problema? Henet olhou-a rapidamente de esguelha.

Nenhum, espero. Nenhum que nos diga respeito, pelo menos. Você e eu, Renisenb, não temos nada do que nos repro­var. Isso é um grande consolo para mim.

Você quer dizer que Satipy... o que quer dizer?

Não quero dizer nada, Renisenb. E, por favor, não comece a imaginar que sim. Sou pouco mais do que uma criada nesta casa e não é da minha conta dar opinião sobre coisas que nada têm a ver comigo. Se você me pergunta, mudou para melhor; e se parar por aí, bem, nós todos nos sairemos bem. Agora, por favor, Renisenb, devolver se estão marcando corretamente a data no linho. São todas descuidadas, essas mulheres, sempre falando, rindo e negligenciando seu trabalho...

Insatisfeita, Renisenb viu-a afastar-se em direção ao galpão dos teares. Então, rumou lentamente para casa. Sua entrada no quarto de Satipy não foi ouvida e esta se voltou bruscamente com um grito quando Renisenb tocou-lhe os ombros.

Oh, você me assustou. Pensei...

Satipy — disse Renisenb — o que há? Não vai me dizer? Yahmose está preocupado com você e...

Os dedos de Satipy taparam a boca de Renisenb. Satipy disse então, gaguejando nervosamente, os olhos arregalados e amedrontados: — Yahmose? Que disse ele?

Ele está preocupado. Você tem gritado no sono...

Renisenb! — Satipy segurou-a pelo braço. — Eu disse... O que foi que eu disse?

Seus olhos pareciam dilatados de terror.

Yahmose pensa... que lhe disse ele?

Nós dois pensamos que você está doente... ou infeliz.

Infeliz? — Satipy repetiu a palavra bem baixinho, com uma entonação peculiar.

Você está infeliz, Satipy?

Talvez... não sei. Não, não é isso.

Não. Você está com medo, não está?

Satipy a encarou com súbita hostilidade.

Por que diz isso? Por que devo estar com medo? O que há para me amedrontar?

Não sei — disse Renisenb. — Mas é verdade, não?

Com esforço, Satipy readquiriu sua antiga pose arrogante. Atirou a cabeça para trás.

Não estou com medo de nada... de ninguém! Como se atreve a sugerir tal coisa, Renisenb? E não quero que converse a meu respeito com Yahmose. Yahmose e eu nos entendemos. — Fez uma pausa e disse asperamente: — Nofret está morta... de boa nos livramos. £ isso o que digo. E você pode dizer a todos que é assim que sinto!

Nofret? — Renisenb articulou o nome inquisidoramente.

Satipy foi tomada de uma paixão que fez lembrar a Satipy dos velhos tempos.

Nofret, Nofret, Nofret! Estou cansada do som desse nome. Não mais precisamos ouvi-lo nesta casa... ainda bem.

Sua voz, que havia alcançado o velho tom agudo, baixou de repente à entrada de Yahmose. Disse ele, com austeridade fora do comum:

Fique quieta, Satipy. Se meu pai ouvi-la, teremos mais problemas. Como é que você pode se comportar de maneira tão idiota?

Se o tom austero e contrariado de Yahmose foi incomum, também o foi a humilde prostração de Satipy, que murmurou: — Desculpe, Yahmose... Não pensei...

Bem, tenha mais cuidado no futuro! Você e Kait criaram a maioria dos problemas de antes. Vocês, mulheres, não têm o mínimo senso!

Satipy murmurou novamente: — Desculpe...

Yahmose retirou-se, os ombros erguidos e o passo muito mais resoluto do que o normal, como se o fato de ter afirmado sua autoridade de uma vez por todas lhe tivesse feito bem.

Renisenb dirigiu-se lentamente ao quarto da velha Esa. Sua avó, pensou deveria ter algum conselho útil.

Todavia, Esa, que estava comendo uvas com muito deleite, recusou-se a levar o assunto a sério.

Satipy? Satipy? Por que toda esta confusão por causa de Satipy? Todos gostam tanto de ser maltratados e de receberem ordens a ponto de fazerem toda essa confusão porque ela, pelo menos uma vez, se comporta bem?

Cuspiu as sementes da uva e acentuou:

Em todo o caso, é bom demais para durar... a não ser que Yahmose consiga manter as coisas como estão.

Yahmose?

Sim. Espero que Yahmose tenha tomado juízo, finalmen­te, e dado uma boa surra nela. É disso que Satipy precisa; ela é daquela espécie de mulher que provavelmente vai gostar muito disso. Yahmose, com seus modos dóceis e servis, deve ter sido uma grande provação para ela.

Yahmose é um amor — gritou Renisenb indignada. — Ele é bom para todos e gentil como uma mulher... se é que elas o são — acrescentou, duvidosa.

Esa soltou uma risadinha.

Eis aí uma excelente reflexão, minha neta. Não, não há nada de gentil com relação às mulheres... ou, se houver, que Isis as ajude! E há poucas mulheres que se preocupam com maridos gentis e bons! Elas preferem um bruto bonito e violento como Sobek; ele é do tipo pelo qual as moças se inclinam. Ou então um jovem inteligente como Kameni, hein, Renisenb? As moscas do pátio não pairam sobre ele! Além disso, tem bom gosto para canções de amor, hã? Ah, ah, ah!

Renisenb sentiu suas faces enrubescerem.

Não sei o que está dizendo — retrucou com dignidade.

Vocês todos pensam que Esa não sabe o que se passa! Pois eu sei e muito bem! — Ela encarou Renisenb com seus olhos quase cegos. — Eu sei, talvez, mais do que você, minha criança. Não fique brava. A vida é assim, Renisenb. Khay era um bom irmão para você — mas ele agora navega seu barco no Campo das Oferendas. A irmã encontrará um novo irmão que lance seu peixe em nosso próprio rio; não que Kameni seja suficientemente bom. Uma pena de junco e um rolo de papiro são as suas inclinações. Trata-se de um jovem atraente, mesmo assim, com um bom gosto para músicas. Mas não estou certa de que ele é o homem para você. Não sabemos muita coisa sobre ele... é um nortista. Imhotep gosta dele, mas eu sempre achei que Imhotep era um tolo. Qualquer um pode se acercar dele com bajulação. Veja Henet!

Você está completamente errada — disse Renisenb com dignidade.

Muito bem, então, eu estou errada. Seu pai não é um tolo.

Não quis dizer isso. Eu quis...

Sei o que você quis dizer, minha filha. — Esa sorriu maliciosamente. — Mas você não conhece a verdadeira diversão. Você não sabe como é bom ficar sentada tranqüilamente, como eu, e já não ter mais nada com essas histórias de irmãos e irmãs, e amor e ódio. Comer uma gorda codorniz bem assada ou uma papa-arroz, e depois um bolo com mel, alguns alhos-porós e aipos bem cozidos e regá-los com vinho da Síria, e não ter nenhuma preocupação no mundo. Observar todo o tumulto e preocupação, e saber que nada disso lhe pode afetar. Ver seu filho passar por idiota por causa de uma moça bonita, e vê-la atear fogo em tudo... fique certa de que já ri muito! De certo modo, eu gostava daquela moça! Ela trazia o demônio em si, pela maneira como tocou na ferida de cada um. Sobek, como um faroleiro amedron­tado; Ipy, como uma criança; Yahmose, envergonhado como um marido tiranizado. Ela os fez ver da maneira como se parecem para o mundo. Mas por que ela odiava você, Renisenb? Respon­da-me.

Ela me odiava? — Renisenb retrucou duvidosa. — Eu... certa vez tentei me tornar sua amiga.

E ela não aceitou? Sim, ela odiava você, Renisenb.

Esa fez uma pausa e então perguntou bruscamente;

Seria por causa de Kameni?

A face de Renisenb corou: — Kameni? Não sei o que você quer dizer.

Esa disse pensativamente: — Ela e Kameni vieram ambos do norte, mas era você que Kameni observava atravessar o pátio.

Renisenb disse abruptamente:

Preciso ir ver Teti.

O agudo e divertido riso de Esa acompanhou-a. Com as faces quentes, Renisenb correu pelo pátio em direção ao lago.

Kameni a chamou do pórtico:

Fiz uma nova canção, Renisenb; fique e escute.

Ela balançou a cabeça é continuou correndo. Seu coração batia com fúria. Kameni e Nofret. Nofret e Kameni. Por que permitir que Esa, com sua malícia, pusesse tais idéias em sua cabeça? E por que deveria ela se preocupar?

De qualquer maneira, que importância tinha? Pouco se importava com Kameni. Um jovem impertinente, de voz risonha e ombros que a faziam lembrar de Khay.

Khay... Khay...

Repetiu seu nome insistentemente — mas, pela primeira vez, nenhuma imagem lhe veio aos olhos. Khay estava em outro mundo. Ele estava no Campo das Oferendas...

No pórtico, Kameni cantava suavemente:

Eu direi a Ptah: Dê-me minha irmã esta noite...

 

Renisenb!

Hori havia repetido seu nome duas vezes até que ela o ouviu e deixou de contemplar o Nilo.

Você estava perdida em pensamentos, Renisenb; em que pensava?

Renisenb disse provocadoramente:

Estava pensando em Khay.

Hori olhou-a por uns instantes — e então sorriu:

Sei — disse.

Renisenb teve uma sensação desconfortável de que ele realmente sabia! Disse apressadamente:

Que acontece quando se morre? Alguém sabe realmente? Todos esses textos, todas essas coisas escritas nos caixões, algum­as são tão obscuras que parecem nada significar. Sabemos que Osíris foi morto e que seu corpo foi novamente reconstituí­do, que ele usa a coroa branca e que por causa dele nós não precisamos morrer; mas às vezes, Hori, nada disso parece real e é tudo tão confuso...

Hori assentiu gentilmente.

Mas o que realmente acontece depois que se está morto... isso é o que eu quero saber.

Não sei dizer, Renisenb; você deveria fazer essas perguntas a um sacerdote.

Ele iria me dar apenas as respostas de sempre. Eu quero saber.

Hori disse gentilmente: — Não saberemos até que nós próprios estejamos mortos...

Renisenb estremeceu.

Não, não diga isso!

Alguma coisa a perturbou, Renisenb?

Foi Esa. — Fez uma pausa e então disse: — Diga-me, Hori: Kameni e Nofret já se conheciam antes... antes de virem para cá?

Hori conservou-se imóvel por um momento e então, enquanto caminhava de volta para casa, ao lado de Renisenb, disse: — Sei, então é isso...

Que quer dizer com “então é isso”? Apenas lhe fiz uma pergunta.

Para a qual não sei a resposta. Nofret e Kameni se conheceram no norte; o quanto, não sei.

Ele acrescentou gentilmente: — Isso importa?

Não, claro que não — disse Renisenb. — Não tem importância alguma.

Nofret está morta.

Morta e embalsamada e lacrada no túmulo! E pronto!

Hori continuou calmamente:

E Kameni não parece se preocupar...

Não — disse Renisenb, surpresa com esse aspecto da questão. — Isso é verdade. — Voltou-se para ele impulsivamente. — Oh, Hori, você é tão confortante!

Ele sorriu.

Eu consertava os leões da pequena Renisenb. Agora... ela tem outros brinquedos.

Renisenb ladeou a casa quando ali chegaram.

Não quero entrar, ainda. Sinto que os odeio, a todos. Bem, não realmente, você compreende. Apenas, porque estou mal-humorada e impaciente, todos me parecem estranhos. Não poderíamos subir até o seu Túmulo? É tão bonito lá em cima... é como se estivéssemos acima de tudo.

Disse-o bem, Renisenb. Isso é o que sinto. A casa, a plantação, as terras cultivadas... tudo está abaixo de nós, insignificante. Pode-se olhar mais além, para o rio, e ainda além, para todo o Egito. Pois muito em breve o Egito será um só novamente; forte e grande como foi no passado.

Renisenb murmurou vagamente.

Oh, e isso faz alguma diferença?

Hori sorriu.

Não para a pequena Renisenb. Para ela, apenas o seu pequeno leão importa.

Você está rindo de mim, Hori. Então isso realmente lhe importa?

Hori murmurou: — Por que deveria importar? Sou apenas o homem que trata dos negócios do sacerdote de Ka. Por que deveria eu me importar com o fato de o Egito ser grande ou pequeno?

Veja! — Renisenb chamou-lhe a atenção para o penhasco acima deles. — Yahmose e Satipy estiveram lá em cima no Túmulo. Estão descendo agora.

Sim — disse Hori. — Havia lá algumas coisas a serem arrumadas, alguns rolos de linho que os embalsamadores não usaram. Yahmose disse que pediria a Satipy para subir e ajudá-lo a decidir o que fazer com eles.

Ambos permaneceram olhando para os dois que vinham descendo pelo caminho acima deles.

De súbito ocorreu a Renisenb que eles estavam se aproximando do lugar de onde Nofret deveria ter caído.

Satipy vinha na frente, seguida de Yahmose.

De repente Satipy virou a cabeça para falar com Yahmose. Talvez, pensou Renisenb, esteja dizendo a ele que este é o lugar onde ocorreu o acidente.

Então, Satipy deteve-se bruscamente. Permaneceu como que congelada, olhando para trás, ao longo do caminho. Seus braços ergueram-se como que diante de uma visão horrorosa ou como para se proteger de uma rajada de vento. Satipy exclamou algo, tropeçou, oscilou e, quando Yahmose saltava em sua direção, ela soltou um grito de terror e escorregou da beirada, mergulhando sobre os rochedos lá embaixo....

Renisenb, com a mão na garganta, assistiu incrédula à queda.

Satipy, o corpo disforme, jazia agora bem no lugar onde havia estado o corpo de Nofret.

Levantando-se, Renisenb correu em sua direção. Yahmose estava chamando e corria pelo caminho abaixo.

Renisenb alcançou o corpo de sua cunhada e curvou-se sobre ele. Os olhos de Satipy estavam abertos, as pálpebras agitando-se. Seus lábios se moviam tentando falar. Renisenb curvou-se mais para perto dela. Estava assustada com o terror estampado nos olhos de Satipy.

Ouviu-se então a voz da mulher agonizante: era apenas um murmúrio rouco.

— Nofret...

A cabeça de Satipy caiu para trás. Seu maxilar pendeu.

Hori havia seguido ao encontro de Yahmose. Os dois homens chegaram juntos.

Renisenb dirigiu-se ao seu irmão.

— O que ela gritou, lá em cima, antes de cair?

A respiração de Yahmose tornara-se entrecortada; ele mal podia falar.

— Ela olhou por cima do meu ombro, como se tivesse visto alguém vindo pelo caminho, mas não havia ninguém... não havia ninguém lá.

Hori assentiu:

Não havia ninguém...

A voz de Yahmose transformou-se num murmúrio, aterrorizado:

Então ela gritou...

O que ela disse? — perguntou Renisenb impaciente.

Ela disse... ela disse... — Sua voz tremeu — Nofret..

 

                     Primeiro Mês de Verão - Décimo Segundo Dia

 

— Então é isso que você queria dizer?

Renisenb dirigiu essas palavras a Hori mais como uma afirmação do que como uma pergunta.

E ajuntou baixinho, em crescente compreensão e horror:

Foi Satipy quem matou Nofret...

Com o queixo apoiado nas mãos, sentada na entrada da pequena câmara de pedra de Hori, junto ao Túmulo, Renisenb olhava fixamente o vale abaixo dela.

Pensou, sonhadoramente, quão verdadeiras eram as palavras que ela havia proferido ontem (fazia tão pouco tempo, real­mente?). Lá de cima, a casa e as apressadas e ocupadas pessoas não tinham mais significado ou sentido do que um formigueiro.

Apenas o sol, majestoso, brilhando acima de tudo — apenas a fina faixa prateada que era o Nilo à luz matutina — apenas eles eram eternos e permanentes. Khay havia morrido, bem como Nofret e Satipy — algum dia ela e Hori também partiriam. Mas Rá ainda reinaria no paraíso e viajaria durante a noite em seu barco através do Outro Mundo, até a aurora do dia seguinte. E o rio continuaria a correr, de além de Elephantine até Tebas, e ultrapassaria a cidade e chegaria ao Baixo Egito, onde Nofret vivera e fora alegre, e depois ao oceano, deixando também o Egito.

Satipy e Nofret...

Renisenb continuou a pensar em voz alta, de vez que Hori não lhe respondera.

Eu estava tão certa de que Sobek...

Ela se calou.

Hori disse pensativamente: — Idéia preconcebida.

— No entanto, foi estúpido de minha parte — continuou Renisenb. — Henet me disse, mais ou menos, que Satipy fora dar um passeio nesta direção e que Nofret subira para cá. Era óbvio que eu deveria ter percebido que Satipy havia seguido Nofret; que elas tinham se encontrado no caminho e que Satipy atirou a outra lá de cima. Satipy havia dito, poucos minutos antes, que era muito mais homem do que qualquer um de meus irmãos.

Renisenb parou e estremeceu.

— E quando a encontrei — continuou —, eu deveria saber. Ela estava tão diferente... tão amedrontada. Tentou me persuadir a voltar com ela. Não queria que eu encontrasse o corpo de Nofret. Eu devia estar cega para não me dar conta da verdade. Mas eu estava tão receosa por causa de Sobek...

— Eu sei. Isto porque você o viu matar aquela cobra. Renisenb concordou vivamente.

— Sim, foi isso. E também sonhei... pobre Sobek! Como o julguei mal. Como você disse, ameaçar não é o mesmo que fazer. Sobek sempre foi cheio de orgulho, sempre se vangloriou. Satipy é que sempre foi atrevida e cruel e sem medo de agir. Desde então, a maneira como ela se comportava, parecendo um fantasma, isso nos confundiu a todos. Por que não pensamos na verdadeira explicação?

Ela acrescentou elevando rapidamente o olhar:

— Mas você pensou?

— Por algum tempo — disse Hori. — Eu estava convencido de que a chave para a verdade sobre a morte de Nofret estava na extraordinária mudança de caráter de Satipy. Foi tão notável, que deveria haver alguma coisa que pudesse esclarecê-la.

— Mas você não disse nada?

— E como poderia, Renisenb? O que poderia eu provar?

— Tem razão.

— Provas devem ser fatos construídos de sólidas paredes de tijolo.

— No entanto, você disse uma vez — continuou Renisenb — que as pessoas não mudam realmente. Mas agora você admi­te que Satipy mudou.

Hori sorriu para ela.

— Você deveria argumentar nas cortes nomárquicas. Não, Renisenb, o que eu disse é muito verdadeiro; as pessoas são sempre elas próprias. Satipy, como Sobek, era apenas conversa fiada e bazófia. Ela, realmente, talvez passasse das palavras à ação. Mas creio que era desse tipo de pessoa que não consegue entender uma coisa enquanto ela não acontece. Durante sua vida, até aquele dia, especificamente, Satipy nunca teve nada o que temer. Quando o medo veio, tomou-a desprevenida. E ela aprendeu que a coragem era a solução para enfrentar o imprevisto; e ela não tinha tal coragem.

Renisenb murmurou em voz baixa.

Quando o medo veio... Sim, foi o que passamos a sentir desde que Nofret morreu: medo. Satipy o tinha estampado no rosto para que todos víssemos. Estava lá, impresso nos seus olhos quando morreu... quando disse “Nofret...”. Era como se ela tivesse visto...

Renisenb calou-se. Voltou o rosto para Hori, os grandes olhos indagadores: — Hori, o que ela viu? Lá no caminho. Nós nada vimos! Não havia nada!

Não para nós.

Mas para ela? Foi Nofret que ela viu... Nofret veio para se vingar. Mas Nofret está morta e seu túmulo lacrado. Que foi, então, que ela viu?

O quadro que sua própria mente lhe mostrou.

Você tem certeza? Porque senão...

Sim, Renisenb, senão?

Hori — Renisenb estendeu a mão. — Está acabado, agora? Agora que Satipy morreu? Está verdadeiramente aca­bado?

Hori tomou-lhe a mão e apertou-a dentro das suas.

Sim, sim, Renisenb; claro. E você, ao menos, não precisa ter medo.

Renisenb murmurou baixinho:

Mas Esa disse que Nofret me odiava...

Nofret odiava você?

Foi o que disse Esa.

Nofret sabia odiar muito bem — afirma Hori. — Às vezes, penso que ela odiava todas as pessoas desta casa. Mas você, ao menos, não fez nada contra ela.

Não, não; isso é verdade.

Portanto, Renisenb, não há nada em sua cabeça que Possa ser levantado contra você.

— Quer dizer, Hori, que se eu estivesse descendo por aquele caminho sozinha, no pôr do sol, àquela mesma hora em que Nofret morreu, e se eu virasse a cabeça... eu não iria ver nada? Eu estaria a salvo?

— Você estará a salvo, Renisenb, porque se você caminhar por lá, eu irei com você e nenhum mal irá lhe ocorrer.

Renisenb, porém, vincou a testa e sacudiu a cabeça.

— Não, Hori. Eu vou caminhar sozinha.

— Mas por que, Renisenb? Você não terá medo?

— Sim, creio que terei. Mas, de qualquer jeito, isso tem de ser feito. Lá em casa estão todos tremendo e abalados, correndo aos Templos para comprar amuletos, gritando que é melhor não caminhar por aqui a esta hora do poente. Mas não foi magia o que fez com que Satipy escorregasse e caísse: foi medo. Medo de alguma coisa ruim que ela havia feito. Pois que é mau tirar a vida de alguém que é jovem, forte e gosta de viver. Mas eu não fiz mal algum e, mesmo que Nofret me odiasse, seu ódio não pode me ferir. É nisso que creio. E, de qualquer maneira, se tivéssemos de viver para sempre no medo, melhor seria morrer; portanto, eu irei dominar o medo.

— Bravas palavras, Renisenb!

— Talvez mais fortes do que aquilo que sinto, Hori. — Ela sorriu-lhe e levantou-se. — Mas foi bom dizê-las.

Hori ergueu-se e ficou ao seu lado. — Lembrar-me-ei de suas palavras, Renisenb. Sim; e também da maneira como você meneou a cabeça ao proferi-las. Elas mostraram a coragem e a verdade que sempre senti existirem em seu coração.

Hori tomou-lhe as mãos nas dele.

— Olhe, Renisenb, olhe daqui do alto, através do vale, até o rio e mais além. Isto é o Egito, nossa terra. Enfraquecido por guerras e disputas durante muitos anos, dividido em insignificantes reinos, mas que agora, muito em breve, irá se unir para formar mais uma vez um país unido: Baixo e Alto Egito novamente consolidados em um; espero e acredito na recuperação de sua antiga grandeza! Quando esse dia chegar, o Egito precisará de homens e mulheres de coração e coragem, mulheres como você, Renisenb. Não de homens como Imhotep, eternamente preocupados com seus parcos ganhos e perdas, nem de homem como Sobek, negligentes e faroleiros, nem de rapazes como Ipy que pensam apenas naquilo que podem ganhar para si próprios não, nem mesmo de filhos conscienciosos e honestos, como Yahmose o Egito irá precisar. Aqui, sentado, entre os mortos, calculando perdas e ganhos, lançando a contabilidade, eu me deparei com ganhos que não podem ser avaliados em termos de prosperidade e perdas que causam mais dano do que a perda da colheita... Eu olho o rio e vejo o sangue vital do Egito que existiu antes de nascermos e continuará a existir depois que morrer­mos... Vida e morte, Renisenb, não contam tanto. Eu sou apenas Hori, o homem de negócios de Imhotep, mas quando observo o Egito eu conheço a paz e uma exultação que não trocaria nem mesmo pelo cargo de Governador da Província. Você compreende tudo o que eu disse, Renisenb?

— Acho que sim, Hori... em parte. Você é diferente dos outros lá embaixo; disso eu já sei há algum tempo. E, às vezes, quando estou aqui com você, posso sentir o que você sente, mas francamente, não com muita clareza. Mas eu sei o que você quer dizer. Quando estou aqui, as coisas lá embaixo — acentuou — parecem não ter mais importância. As discussões, os ódios, a constante gritaria e confusão. Aqui se escapa de tudo isso.

Ela fez uma pausa, a sobrancelha franzida, e continuou, balbuciando.

— Às vezes eu... eu fico feliz por ter escapado. E no entanto... não sei... há alguma coisa, lá embaixo, que me chama de volta.

Hori soltou-lhe as mãos e recuou um passo.

Disse gentilmente:

— Sim, claro; Kameni cantando no pátio.

— Que quer dizer, Hori? Não estava pensando em Kameni.

— Talvez não estivesse pensando nele. Mas, de qualquer forma, Renisenb, creio que seja a sua canção que você está ouvindo, sem mesmo o saber.

Renisenb o encarou, a sobrancelha franzida.

— Que coisas incríveis você diz, Hori. Ninguém poderia ouvi-lo cantar daqui de cima. É muito longe.

Hori olhou suavemente e balançou a cabeça. O divertido do seu olhar a intrigou. Sentiu-se um pouco irritada e confusa, pois não pôde entendê-lo.

 

                   Primeiro Mês de Verão - Vigésimo Terceiro Dia

 

— Posso falar com você por um momento, Esa?

Esa sondou Henet, que permanecia na porta de entrada do quarto com um sorriso insinuante no rosto.

Que é? — perguntou a velha, rispidamente.

Não é nada, realmente; pelo menos penso que não... mas estava pensando e só queria perguntar...

Esa interrompeu-a. — Entre, entre, E você... — ela deu uma pancadinha com uma vara nas costas da sua pequenina escrava negra, que estava enfiando contas — vá para a cozinha. Traga-me algumas azeitonas... e faça-me um suco de romã.

A escrava saiu correndo e Esa acenou impaciente para Henet.

É apenas isto, Esa.

Esa lançou uma olhada no objeto que Henet estava lhe entregando. Era uma pequena caixa de jóias com uma tampa que corria, tendo sua parte de cima segura por dois botões.

Que há?

É dela. Encontrei-a agora... no quarto dela.

De quem está falando? Satipy?

Não, não, Esa. A outra.

Nofret, você quer dizer. E o que tem isso?

Todas as suas jóias, potes de maquilagem, frascos de perfume... tudo isso foi enterrado com ela.

Esa torceu a corrente dos botões e abriu a caixa. Lá dentro havia uma corrente de pequenas contas de cornalina e a metade de um amuleto esmaltado em verde, o qual havia sido partido em dois.

Ah! — exclamou Esa. — Quase nada. Deve ter sido esquecido.

Os embalsamadores levaram tudo.

Ora, pode-se confiar em embalsamadores tanto quanto em qualquer outra pessoa. Eles esqueceram disto.

Estou lhe dizendo, Esa; isto não estava no quarto quando o examinei pela última vez.

Esa olhou duramente para Henet.

O que está tentando fazer? Dizer que Nofret voltou do Outro Mundo e está aqui em casa? Você não é tão idiota, Henet, apesar de às vezes fingir que o é. Que prazer sente você em espalhar essas estúpidas fábulas mágicas?

Henet sacudia a cabeça freneticamente.

Todos nós sabemos o que aconteceu a Satipy... e por quê!

Talvez saibamos — disse Esa. — E talvez alguns soubessem até antes, hein, Henet? Sempre me ocorreu a idéia de que você sabia mais do que todos como Nofret havia encontrado a morte.

Oh, Esa, com certeza você não iria pensar, nem por um momento...

Esa interrompeu-a bruscamente.

O que eu não iria pensar? Não tenho medo de pensar, Henet. Vi Satipy arrastar-se pela casa nos últimos dois meses aparentando um medo mortal; e me ocorreu, desde ontem, que alguém a estivesse ameaçando com o que sabia... talvez ameaçando contar a Yahmose, ou ao próprio Imhotep...

Henet explodiu num febril clamor de protestos e exclamações. Esa fechou os olhos e recostou-se na cadeira.

Eu não pretendi, por um momento sequer, que você admitisse ter feito tal coisa. Nem espero que o faça.

E por que deveria? Isso é o que lhe pergunto: por que deveria?

Não tenho a menor idéia — disse Esa. — Você faz muitas coisas, Henet, para as quais nunca fui capaz de encontrar uma razão satisfatória.

Suponho que pense que eu estava tentando extorqui-la em troca do meu silêncio. Juro pelos Nove Deuses do Ennead...

Não perturbe os Deuses. Você é suficientemente honesta, Henet... até onde vai a honestidade. E pode ser que não soubesse nada sobre a morte de Nofret. Mas você sabe a maior parte das coisas que se passam nesta casa. E se eu tivesse que fazer algum juramento, eu juraria que você mesma colocou esta caixa no quarto de Nofret... embora eu não possa imaginar por que motivo. Mas existem algumas razões por trás disso. Você pode enganar Imhotep com seus truques, mas não a mim. Eu não me lamento. Sou uma mulher velha e não suporto ver as pessoas se lamentarem. Vá queixar-se a Imhotep. Ele parece gostar disso, embora apenas Rê saiba por que razão!

— Vou levar a caixa até Imhotep e dizer-lhe...

— Eu mesma entregarei a caixa a Imhotep. Deixe isso, Henet, e pare de espalhar essas estúpidas histórias supersticiosas. A casa é um lugar muito tranqüilo sem Satipy. A morte de Nofret fez muito mais por nós do que a sua vida. Mas agora que a divida está paga, deixe que cada um retorne às suas tarefas diárias.

 

— Que está acontecendo? — perguntou Imhotep ao entrar ruidosamente no quarto de Esa minutos depois. — Henet está profundamente magoada. Veio até mim com lágrimas escorrendo pela face. Por que ninguém nesta casa pode fazer a essa mulher a mínima gentileza...?

Esa, imóvel, soltou uma risada estridente.

Imhotep continuou:

— Você a acusou, me parece, de ter roubado uma caixa; uma caixa de jóias.

— Foi isso o que ela lhe disse? Não fiz nada disso. Aqui está a caixa. Parece que foi encontrada no quarto de Nofret.

Imhotep tomou a caixa de Esa.

— Sim, foi um presente que lhe dei. — Ele a abriu. — Hum, pouca coisa. Foi bastante descuido da parte dos embalsamadores não a terem incluído com o resto de seus pertences. Levando-se em consideração o preço cobrado por Montu e Ipi, não era de se esperar nenhum descuido, no mínimo. Bem, tudo isso me parece uma grande confusão por nada...

— Concordo.

— Darei a caixa a Kait... não; a Renisenb. Ela sempre se comportou de maneira cortês para com Nofret.

Ele suspirou.

— Como parece impossível, para um homem, ter um pouco de paz! Essas mulheres, sempre em lágrimas, quando não são as discussões e brigas.

— Bem Imhotep, pelo menos agora há uma mulher de menos!

— Sim, realmente. Meu pobre Yahmose! De qualquer for­ma, Esa, eu... eu sinto que... foi melhor assim. Satipy gerou crianças saudáveis, é verdade, mas sob vários aspectos ela era uma esposa extremamente desagradável. É claro que Yahmose cedeu demais. Bem, bem, está tudo acabado agora. Devo dizer que tem me agradado muito o comportamento de Yahmose nos últimos tempos. Parece muito mais confiante, menos tímido e seu julgamento sobre várias coisas tem sido excelente... excelente...

— Ele sempre foi um rapaz bom e obediente.

— Sim, sim, mas com tendências à lentidão e, de certa forma, com medo de responsabilidade.

Esa disse secamente: — Responsabilidade é uma coisa que você nunca lhe permitiu ter!

— Bem, tudo isso irá mudar agora. Estou providenciando uma escrita de associação e sociedade. Deverá ser assinada em poucos dias. Irei me associar com meus três filhos.

— Não com Ipy, por certo?

— Ele iria se magoar se eu o deixasse fora. Bom e afetuoso rapaz!

— Com efeito, não há nada de lento com ele — observou Esa.

— É isso. E Sobek também; ele me desagradava no passado, mas parece ter virado uma nova página em sua vida, ultima­mente. Ele já não mais desperdiça o tempo e acata melhor as minhas disposições e de Yahmose.

— Isso realmente é um hino de louvor — disse Esa. — Bem, Imhotep, devo dizer que você está fazendo a coisa certa. Era má política deixar seus filhos descontentes. Mas ainda acho que Ipy é jovem demais para aquilo que você propõe. É ridículo dar a um rapaz dessa idade uma posição definitiva. Que controle você terá sobre ele?

— Há alguma razão no que você diz, claro — Imhotep olhou Pensativo.

Então, levantou-se.

— Devo ir. Há mil coisas a serem providenciadas. Os embalsamadores estão aqui; precisamos tomar todas as providências para o enterro de Satipy. As mortes são caras, muito caras. E uma seguida da outra tão depressa!

— Oh, bem — consolou Esa —, esperemos que esta seja a última delas... enquanto não chega a minha vez!

— Você viverá por muitos anos ainda, espero, minha que­rida mãe.

— Estou certa de que o espera — disse Esa num muxoxo. — Nada de economias comigo, por favor! Não ficaria bem! Vou querer um bocado de coisas com que me divertir no outro mundo. Muita comida, bebida, escravos... uma mesa de jogo ricamente ornamentada, jogos de perfumes e cosméticos, e faço questão dos canopos mais caros: os de alabastro.

— Sim, sim, claro — Imhotep mudava de posição nervosamente, apoiando-se ora num pé, ora noutro. — Naturalmente, todo o respeito lhe será devido quando o triste dia vier. Devo confessar que me sinto bastante diferente com relação a Satipy. A gente não quer um escândalo, mas realmente, dadas as circuns­tâncias. ..

Imhotep não terminou sua frase e apressou-se em sair.

Esa sorriu sardonicamente ao perceber que aquela frase “dadas as circunstâncias” seria o mais próximo que Imhotep chegaria no sentido de admitir que um acidente não correspondia exatamente à maneira pela qual sua valiosa concubina encontrara a morte.

 

                 Primeiro Mês de Verão - Vigésimo Quinto Dia

 

Com o retorno dos membros da família da corte nomárquica, os termos da associação devidamente ratificados, um sentimento geral de alegria apoderou-se deles. A única exceção era Ipy, que no último momento foi excluído de participação sob a alegação de sua extrema juventude. Ele estava mal-humorado e se ausentou propositadamente da casa.

Imhotep, entusiasmado, pediu que um tonel de vinho fosse trazido para a varanda, e o mesmo foi colocado no grande suporte para vinho.

Bebamos, meu filho — declarou ele, batendo no ombro de Yahmose. — Esqueça por um momento a dor da sua perda. Vamos pensar apenas nos belos dias que estão por vir.

Imhotep, Yahmose, Sobek e Hori trocaram brindes. Então veio a notícia de que uma cabeça de gado havia sido roubada, e todos os quatro homens saíram apressadamente para investigar o problema.

Quando Yahmose voltou ao pátio, uma hora mais tarde, estava cansado e calorento. Foi até onde estava ainda a. jarra de vinho no seu suporte. Afundou dentro da mesma um copo de bronze e sentou-se na varanda, sorvendo a bebida deliciosamente. Pouco depois, chegou Sobek, andando a passos largos e exclamando com prazer:

Ah! Agora teremos mais vinho! Bebamos ao nosso futuro, finalmente assegurado. Este é sem dúvida um grande dia para nós, Yahmose!

Yahmose concordou.

Sim, realmente. Tornará a vida mais fácil em todos os sentidos.

— Você é sempre tão moderado nos seus sentimentos, Yahmose.

Sobek riu enquanto falava e, mergulhando o copo no vinho, sorveu-o todo em uma só talagada. Estalando os lábios, pousou o copo.

— Veremos agora se meu pai continuará a ser esta mula empacada que sempre foi ou se agora vou conseguir convertê-lo a métodos mais modernos.

— Eu iria devagar, se fosse você — aconselhou Yahmose. — Você está sempre de cabeça quente.

Sobek sorriu afeiçoadamente para seu irmão. Estava com excelente humor.

— O velho devagar-e-sempre — zombou.

Yahmose sorriu, nem um pouco ofendido.

— Essa ainda é a melhor forma. Por outro lado, meu pai tem sido muito bom para nós. Não devemos fazer nada que possa aborrecê-lo.

Sobek olhou-o curiosamente.

— Você gosta mesmo de nosso pai? Você é uma criatura afetuosa, Yahmose. Já eu... eu não ligo para ninguém; só ligo para Sobek; salve Sobek!

Sorveu outro gole de vinho.

— Tenha cuidado — preveniu Yahmose. — Você comeu muito pouco hoje. Algumas vezes, bem, quando se bebe vinho...

Calou-se com uma contorção dos lábios.

— Qual é o problema, Yahmose?

— Nada; uma dor repentina... não é nada...

Levantou porém a mão para enxugar sua testa que de súbito ficara molhada de suor.

— Você não parece bem.

— Eu estava perfeitamente bem ainda há pouco.

— Desde que ninguém tenha envenenado o vinho... — Sobek riu de suas próprias palavras e esticou o braço na direção da jarra. Então, neste exato momento, seu braço enrijeceu e seu corpo curvou-se para frente num repentino espasmo de agonia...

— Yahmose — disse ofegante. — Yahmose... eu também...

Yahmose, escorregando para a frente, ficara completamente curvado. Veio dele um grito abafado.

Sobek estava agora contorcendo-se de dor. Ergueu a voz:

— Socorro! Mandem buscar um médico... um médico...

Henet veio correndo de dentro da casa.

— Vocês chamaram? Que foi que disseram? Que há?

Seus gritos alarmados atraíram os outros.

Os dois irmãos gemiam de dor.

Yahmose disse fracamente:

— O vinho... veneno... mande buscar um médico...

Henet soltou um grita estridente:

— Mais desgraça! Na verdade esta casa está amaldiçoada. Rápido! Urgente! Vá até o Templo e mande chamar o Divino Pai Mersu, que é um médico hábil e de grande experiência.

 

Imhotep andava de um lado para outro na sala central da casa. Seu fino robe de linho estava manchado e amassado, ele não se banhara nem se trocara. Seu rosto estava marcado pela preocupação e pelo medo.

Do fundo da casa vinha um som baixo de lamentações e choro — a contribuição das mulheres para a catástrofe que se abatera sobre a casa. A voz de Henet comandava as carpideiras.

De um quarto ao lado, ouvia-se a voz do médico e sacerdote Mersu, que se empenhava sobre o corpo inerte de Yahmose. Renisenb, escapulindo cuidadosamente dos aposentos das mulheres para a ala central, foi acolhida pelo som. Seus pés a levaram até a porta aberta, onde estacou, sentindo o bálsamo curativo que eram as palavras que o sacerdote estava recitando.

— Ó Isis, a maior em mágica, desate-me, liberte-me de todas as coisas más, de todo o pecado, do golpe de Deus, do golpe da Deusa, dos homens mortos e das mulheres mortas, do inimigo e da inimiga que possa se opor contra mim...

Um ligeiro murmúrio saiu tremido dos lábios de Yahmose.

Em seu coração, Renisenb reuniu-se à prece.

— Ó Isis, ó grande Isis, salve-o... salve meu irmão Yahmo­se. Tu que és capaz de operar mágicas...

Pensamentos confusos passavam pela sua cabeça, suscitados pelas palavras e encantamento.

“De todas as coisas más, de todo o pecado. Este é que havia sido o problema aqui nesta casa; sim, pensamentos maus e raivosos, o ódio de uma mulher morta.”

Falou do íntimo de seus pensamentos, endereçando-se diretamente à pessoa em sua mente.

“Não foi Yahmose quem lhe fez mal, Nofret; e embora Satipy fosse sua mulher, você não pode considerá-lo responsável pelas ações dela. Ele nunca teve nenhum controle sobre ela... ninguém tinha. Satipy, que maltratou você, está morta. Não é o bastante? Sobek está morto... Sobek, que apenas ameaçava você, sem jamais ter-lhe feito mal algum. Ó Isis, não deixe que Yahmose morra também; salve-o do ódio vingativo de Nofret!”

— Venha cá, Renisenb, querida filha.

Ela correu para Imhotep, que a envolveu nos braços.

— Oh, pai, o que dizem eles?

Imhotep disse profundamente: — Dizem que no caso de Yahmose ainda existe esperança. Sobek... você sabe?

— Sim, sim. Não ouviu os nossos lamentos?

— Ele morreu ao amanhecer — disse Imhotep. — Sobek, meu forte e belo filho. — Sua voz falseou e calou-se.

— Oh, é horrível... nada pode ser feito?

— Tudo que podia ser feito foi feito. Poções que o fizeram vomitar. Administraram-lhe suco de ervas potentes. Amuletos sagrados foram aplicados e poderosos encantamentos foram proferidos. Nada teve qualquer valia. Mersu é um médico experimentado. Se ele não pôde salvar meu filho, então era o desejo dos Deuses que ele não fosse salvo.

A voz do médico e sacerdote elevou-se num canto alto e final, e ele veio para fora do quarto, limpando o suor da testa.

— Bem? — Imhotep abordou-o ansiosamente.

O médico disse gravemente: — Graças a Isis seu filho viverá. Ele está fraco, mas a crise do veneno passou. As influências malignas estão em declínio.

Ele continuou, mudando ligeiramente seu tom para uma entonação mais cotidiana.

— É uma sorte que Yahmose tenha bebido muito menos do vinho envenenado. Ele bebericava seu vinho ao passo que seu filho Sobek parece que o bebeu todo de um só gole.

Imhotep gemeu.

— Aí estava a diferença entre os dois. Yahmose é tímido, cauteloso e vagaroso quando lida com qualquer coisa. Mesmo quando come ou bebe. Sobek, sempre dado a excessos, generoso, mão-aberta, oh, imprudente!

Concluiu então rispidamente:

— E o vinho estava mesmo envenenado?

— Não existe dúvida a respeito disso, Imhotep. O resíduo foi testado pelos meus jovens assistentes; todos os animais que o ingeriram morreram mais ou menos instantaneamente.

— No entanto eu, que tinha bebido do mesmo vinho há pouco menos de uma hora, não senti nenhum efeito.

— Não estava positivamente envenenado então; o veneno foi colocado mais tarde.

Imhotep bateu com a palma de uma mão na outra, cerrando os punhos.

— Ninguém — declarou —, nenhum ser vivente ousaria envenenar meus filhos debaixo do meu próprio teto! Tal coisa é impossível. Nenhum ser vivente, é o que estou dizendo!

Mersu inclinou ligeiramente a cabeça. Sua face tornou-se imperscrutável.

— Quanto a isso, Imhotep, você é o melhor juiz.

Imhotep permaneceu coçando a orelha nervosamente.

— Há uma história que anda correndo por aí que eu gostaria que você ouvisse — disse abruptamente.

Imhotep bateu palmas e, quando um servo entrou, ele pediu:

— Traga aqui o pastor.

Voltou-se para Mersu, dizendo:

— É um rapaz cuja capacidade mental não é das melhores. Ele assimila com dificuldade o que lhe é dito e não tem completo domínio de suas faculdades. No entanto, tem olhos e sua visão é boa e, mais do que tudo, é muito devotado a meu filho Yahmose, que tem sido sempre gentil e compreensivo com sua deficiência.

O criado voltou, trazendo pela mão um rapazinho magro, de pele quase negra, usando tanga, de olhos ligeiramente estrábicos e rosto amedrontado e estúpido.

— Fale — ordenou Imhotep. — Repita o que acabou de me contar.

O rapaz baixou a cabeça, e seus dedos começaram a agarrar a roupa em volta da cintura.

— Fale! — gritou Imhotep.

Esa entrou, mancando, apoiada em seu bastão e observando atentamente com seus olhos turvos.

Você está aterrorizando a criança. Renisenb, dê-lhe este doce. Vamos, menino, diga-nos o que viu.

O rapaz corria os olhos de um para o outro.

Esa o incitou.

Foi ontem, quando passava pela porta do pátio, que você viu... — o que você viu?

O rapaz sacudiu a cabeça, olhando de lado. Murmurou então:

Onde está meu amo Yahmose?

O sacerdote falou com bondade e firmeza:

É vontade de seu amo Yahmose que você nos conte o fato. Não tenha medo. Ninguém lhe fará mal.

Um raio de luz passou pelo rosto do rapazinho. — Meu amo Yahmose tem sido bom comigo. Farei o que ele deseja.

Calou-se. Imhotep parecia estar a ponto de explodir, mas um olhar do médico o deteve.

De súbito o rapaz pôs-se a falar, nervoso, despejando as palavras, olhando para os lados, como se tivesse medo de que alguma presença invisível pudesse ouvi-lo.

Foi aquele burrinho, protegido de Seth e sempre dado a travessuras. Corri atrás dele com meu bastão. Ele cruzou a grande porta do pátio e eu espiei através da porta da casa. Não havia ninguém na varanda, mas vi um suporte para vinho. Então uma mulher, uma dama da casa, saiu e veio para a varanda. Ela caminhou até o jarro de vinho, colocou as mãos sobre ele e então... e então ela voltou para casa, eu acho.. Não sei. Pois eu ouvi passos, virei-me e vi na distância meu amo Yahmose voltan­do dos campos. Então continuei à procura do burrinho e meu amo Yahmose entrou no pátio.

E você não o avisou — gritou Imhotep raivosamente. — Você não disse nada.

O rapaz gritou: — Eu não sabia que havia alguma coisa de errado. Eu nada vi a não ser a mulher ali parada, rindo enquanto punha as mãos sobre a jarra de vinho... eu não vi nada...

Quem era essa mulher, rapazinho?

Com uma vaga expressão, o rapaz balançou a cabeça.

— Não sei. Deve ser uma das damas da casa. Eu não as conheço. Só conheço o pessoal lá do campo. Ela estava com um vestido de linho tingido.

Renisenb ficou pasma.

— Uma criada, talvez? — sugeriu o sacerdote, olhando o rapazinho.

O rapaz balançou a cabeça com firmeza.

— Ela não era uma criada... Ela tinha uma peruca na cabeça e levava jóias; uma criada não usa jóias.

— Jóias? — perguntou Imhotep. — Que jóias?

O rapaz respondeu num tom confiante e firme, como se finalmente tivesse superado o medo e estivesse bem certo do que estava dizendo.

— Três correntes de contas, com leões dourados pendu­rados na frente.

O bastão de Esa caiu no chão, ruidosamente. Imhotep soltou um grito abafado.

Mersu disse ameaçadoramente: — Se você estiver mentindo, menino...

— É verdade. Juro que é verdade. — A voz do rapaz ergueu-se clara e aguda.

Do quarto ao lado, onde o enfermo estava, Yahmose falou debilmente: — Que há?

O rapaz passou rapidamente pela porta aberta e agachou-se ao lado da cama em que estava Yahmose.

— Amo, eles irão me torturar.

— Não, não — Yahmose virou a cabeça com dificuldade no travesseiro curvo de madeira. — Não deixem que a criança seja maltratada. Ele é simples, mas honesto. Prometam-me.

— Claro, claro — disse Imhotep. — Não há necessidade. É evidente que o rapaz nos contou tudo o que sabia; e não creio que esteja inventando. Pode sair, criança, mas não volte aos longínquos rebanhos. Fique perto da casa para que possamos chamá-lo se precisarmos.

O rapazinho se levantou. Lançou uma olhada relutante em Yahmose.

— O senhor está doente, amo Yahmose?

Yahmose sorriu palidamente.

— Não tenha medo. Não irei morrer. Vá agora... e faça aquilo que lhe foi dito.

Então, sorrindo feliz, o rapaz saiu. O sacerdote examinou o olhos de Yahmose e sentiu a velocidade com que o sangue circulava sob a pele. Então, recomendando-lhe que dormisse retirou-se com os outros novamente para o salão central.

Disse a Imhotep:

— Você reconhece a descrição feita pelo menino?

Imhotep assentiu. Suas faces de um bronzeado escuro tinham um aspecto doentio de tonalidade ameixa.

Renisenb disse: — Ninguém senão Nofret usava vestido de linho tinto. Foi uma nova moda que ela trouxe das cidades do norte. Mas esses vestidos foram enterrados com ela.

Imhotep ajuntou:

— E as três correntes de contas com as cabeças de leão em ouro foram dadas a ela por mim. Não há outra peça igual na casa. Custou caro e era incomum. Todas as suas jóias, com ex­ceção de uma corrente de contas de cornalina, foram enterradas com ela e lacradas no túmulo.

Ele estendeu os braços.

— Que perseguição... que ímpeto de vingança! Minha concubina, a quem tratei bem, a quem fiz todas as honras, a quem enterrei com os rituais apropriados, sem poupar economias! Comi e bebi com ela em comunhão... quanto a isso, todos são testemunhas. Ela não tinha nada de que se queixar; na realidade, fiz mais por ela do que seria considerado certo e justo. Estava preparado para lhe favorecer em detrimento de meus filhos, que nasceram de mim. Por que, então, ela iria voltar dos mortos para perseguir a mim e minha família?

Mersu disse gravemente:

— Parece não ser contra você, pessoalmente, que a mulher morta deseja fazer mal. O vinho, quando, você o bebeu, era inofensivo. Quem, em sua família, ofendeu a concubina morta?

— Uma mulher que está morta — Imhotep respondeu rapidamente.

— Sei. Você quer dizer a mulher de seu filho Yahmose?

— Sim — Imhotep fez uma pausa e então explodiu: — Mas o que pode ser feito, Reverendo Pai? Como podemos combater essa maldade? Oh, maldito o dia em que eu trouxe essa mulher para dentro de casa!

— Um dia maldito, realmente — disse Kait com voz profunda, vindo da entrada dos aposentos das mulheres.

Seus olhos estavam inchados de chorar e seu rosto vinha carregado de uma força e expressão notáveis. Sua voz, profunda e rouca, tremia de raiva.

Foi um dia maldito aquele em que você trouxe Nofret para cá, Imhotep, para destruir o mais inteligente e bonito dos seus filhos! Ela trouxe a morte para Satipy e para o meu Sobek, e Yahmose escapou por pouco. Quem será o próximo? Irá ela poupar as crianças... ela que bateu na minha pequena Ankh? Alguma coisa tem de ser feita, Imhotep!

Alguma coisa deve ser feita — ecoou Imhotep, imploran­do ao sacerdote com os olhos.

Este assentiu com a cabeça, em calma presunção.

Dispomos de meios para isso, Imhotep. Assim que estivermos certos dos fatos, iremos adiante. Estou pensando em sua finada esposa, Ashayet. Era uma mulher de família influente. Ela poderá invocar interesses poderosos na Terra dos Mortos, que poderão intervir em seu favor e contra os quais essa mulher Nofret não tem poder. Devemos nos reunir.

Kait deu um riso curto.

Não esperem demais. Os homens são sempre iguais; sim, mesmo os sacerdotes! Tudo deve ser feito de acordo com a lei e com antecedentes. Mas digo-lhes que ajam rapidamente... ou haverá mais mortes sob este teto.

Voltou-se e saiu.

Mulher excelente — murmurou Imhotep. — Mãe devo­tada aos filhos, esposa exemplar... mas seus medos, às vezes, fogem muito daquilo que deveriam ser... para com o chefe da casa. Naturalmente, numa ocasião como esta, eu a perdôo. Estamos todos perturbados. Mal sabemos o que estamos fazendo.

Ele apertou as mãos contra a cabeça.

Alguns de nós raramente sabem o que fazem — subli­nhou Esa.

Imhotep dirigiu-lhe um olhar pouco satisfeito. O médico se preparava para sair e Imhotep o acompanhou até a varanda, recebendo instruções de como cuidar do homem doente.

Renisenb, deixada para trás, olhava inquisidoramente para a avó.

Esa estava sentada muito quieta. Tinha a testa franzida e sua expressão era tão curiosa que Renisenb perguntou timidamente:

— No que está pensando, avó?

Pensando é a palavra, Renisenb. Coisas tão curiosas estão acontecendo nesta casa que é bastante necessário que alguém pense.

Elas são terríveis — disse Renisenb num arrepio. — Elas me assustam.

Elas assustam a mim — replicou Esa. — Mas não, talvez, pela mesma razão.

Com o velho gesto familiar, ela empurrou a peruca na cabeça, deixando-a torta.

Mas agora Yahmose não irá morrer — disse Renisenb. — Ele viverá.

Esa concordou.

Sim, um Médico Professor o atendeu a tempo. Mas numa outra ocasião, entretanto, ele talvez não venha a ser tão afortunado.

Você acha... que irão ocorrer outros acontecimentos como este?

Acho que Yahmose, você e Ipy... e talvez até Kait, devem tomar muito cuidado com o que comem e bebem. Cuidem para que um escravo prove tudo antes.

E você, avó?

Eu, Renisenb, sou uma velha mulher, e amo a vida como apenas os velhos sabem fazê-lo, saboreando cada hora, cada minuto que nos é dado. De todos vocês, quem tem a maior chance de vida sou eu, pois serei muito mais cuidadosa do que qualquer um.

E meu pai? Com toda certeza, Nofret não desejaria nada de mal a meu pai.

Seu pai? Não sei... Não sei. Ainda não consigo ver claramente. Amanhã, quando terei pensado sobre tudo, falarei mais uma vez com esse pastorzinho. Havia alguma coisa em sua história...

Calou-se, franzindo a testa. Então, com um suspiro, levantou-se e, ajudando-se com o bastão, seguiu mancando para seus próprios aposentos.

Renisenb foi para o quarto de seu irmão. Yahmose dormia e ela saiu suavemente. Após um momento de hesitação, dirigiu-se aos aposentos de Kait. Ficou na porta sem ser notada, observando Kait cantar uma canção de ninar para uma das crianças. Seu rosto era calmo e plácido novamente; parecia tão normal que, por um momento, Renisenb pensou que os trágicos acontecimentos das últimas vinte e quatro horas não passavam de um sonho.

Virou-se lentamente e voltou ao seu quarto. Sobre uma mesa, entre suas próprias caixas de cosméticos e seus jarros, estava a pequena caixa de jóias que pertencera a Nofret.

Renisenb colocou-a na palma da mão e ficou olhando para ela. Nofret a havia tocado, segurado... pertencera a ela.

E, novamente, uma onda de piedade invadiu Renisenb, aliada àquele estranho sentimento de compreensão. Nofret tinha sido infeliz. Ao ter essa pequena caixa entre as mãos, ela talvez tivesse deliberadamente transformado essa infelicidade em maldade e ódio... e mesmo agora que o ódio não diminuía... ainda buscava vingança... Oh, não, certamente não!

Quase que mecanicamente, Renisenb virou os dois botões e puxou a tampa. As contas de cornalina lá estavam, assim como o amuleto quebrado e algo mais...

Com o coração batendo violentamente, Renisenb retirou um colar de contas de ouro com leões de ouro na frente...

 

                         Primeiro Mês de Verão - Trigésimo Dia

 

A descoberta do colar amedrontou terrivelmente Renisenb.

No impulso do momento, ela o recolocou rapidamente na caixa de jóias, encaixou a tampa e tornou a apertar a corrente em volta dos botões. Seu instinto a levou a esconder o que havia descoberto. Chegou mesmo a olhar de maneira temerosa para trás, de modo a ter certeza de que ninguém a tinha visto.

Passou a noite sem dormir, virando-se de um lado para o outro sem achar posição, apoiando e ajustando a cabeça no suporte de madeira curvo de seu leito.

Pela manhã havia decidido que tinha de confiar em alguém. Não podia suportar sozinha o peso daquela descoberta. Duas vezes durante a noite ela havia se levantado imaginando que talvez pudesse perceber a figura ameaçadora de Nofret, de pé, a seu lado. Mas não havia nada para ser visto.

Tirando o colar de leões de dentro da caixa de jóias, escondeu-o nas dobras de seu vestido de linho. Mal acabara de fazer isso quando apareceu Henet. Seus olhos estavam brilhantes e agudos como se tivesse notícias frescas para participar.

— Imagine, Renisenb, não é mesmo terrível? Aquele menino... o pastor, você sabe... estava dormindo profundamente no celeiro esta manhã e todos sacudindo-o e gritando em seus ouvidos... e agora parece que não voltará a acordar jamais. Até parece que bebeu o suco de papoula... e de fato talvez o tenha feito; mas se o fez, quem lhe terá dado? Ninguém por aqui, disso estou certa. E não parece que ele o tenha tomado por livre e espontânea vontade. Oh, bem que poderíamos ter imaginado isso ontem. — A mão de Henet encaminhou-se para um dos amuletos que ela usava. — Amon nos proteja dos maus espíritos da morte. O menino disse o que viu. Disse como a viu. Então ela voltou e deu-lhe o suco da papoula para fechar-lhe os olhos para sempre. Oh! Ela é poderosa, aquela Nofret! Ela esteve fora do país, você sabe, fora do Egito. Eu ousaria até dizer que ela conhece toda sorte de magia primitiva estrangeira. Não estamos a salvo nesta casa... nenhum de nós está a salvo. Seu pai deveria oferecer vários bois para Amon... todo o rebanho se necessário; não é hora de se fazer economia. Temos de nos proteger. Temos de atrair a simpatia da sua mãe; isso é o que Imhotep está planejando. É o que o sacerdote Mersu diz. Uma Carta solene para a Morte. Hori está agora ocupado preparando os termos da mesma. Seu pai estava inclinado a endereçar a carta para Nofret, tentando con­quistar-lhe a simpatia. Você sabe: “Muito querida Nofret, que espécie de mal lhe fiz eu...” etc. Mas, como o Divino Pai Mersu apontou, são necessárias medidas mais poderosas do que esta. Já sua mãe, Ashayet, foi uma grande dama. O irmão da mãe de sua mãe era o monarca e seu irmão o chefe dos mordomos do Vizir de Tebas. Uma vez que isto seja levado ao seu conhecimento, ela tomará as devidas providências para que uma mera concubina não tenha permissão para destruir seus próprios filhos! Oh, sim, a justiça será feita. Como já disse, Hori está agora preparando o pedido.

Era intenção de Renisenb procurar Hori e contar-lhe a respeito da descoberta do colar de leões. Mas se Hori estava ocupado com os sacerdotes no Templo de Isis, seria vão tentar encontrar-se com ele a sós.

Deveria ela procurar seu pai? Insatisfeita, Renisenb balançou a cabeça. Sua velha crença infantil na onipotência do pai havia praticamente desaparecido. Ela percebia agora como, em tempo de crise, ele rapidamente caía em pedaços... uma pompa excessiva tomava o lugar da verdadeira força. Se Yahmose não estivesse doente, poderia contar-lhe, apesar de duvidar que ele pudesse oferecer-lhe algum conselho prático. Provavelmente insistira em que o problema fosse deixado a cargo de Imhotep.

E isto, Renisenb sentia com uma urgência crescente, devia ser evitado a todo custo. A primeira reação de Imhotep seria proclamar o fato e Renisenb tinha uma forte premonição que aquilo deveria ser mantido em segredo... apesar de que achar urna boa razão para este comportamento seria muito difícil.

Não; era o conselho de Hori que ela queria. Hori saberia, como sempre, qual era a coisa certa a ser feita. Ele tiraria o colar de seu poder, livrando-a assim de todo temor e perplexidade. Ele a olharia com aqueles seus olhos graves e gentis, e instantaneamente ele sentiria que tudo estava bem...

Por um momento, Renisenb ficou tentada a confidenciar com Kait; mas Kait era insatisfatória, nunca escutava da maneira apropriada. Talvez, se fosse possível separá-la das crianças... não, não daria certo. Kait era boazinha, mas estúpida.

Renisenb pensou: — Há Kameni... e minha avó.

Kameni...? Havia alguma coisa na idéia de contar a Kameni que lhe dava prazer. Podia ver sua face claramente em seus pensamentos... sua expressão transformando-se de um alegre desafio em interesse e apreensão em seu favor... Ou não seria a seu favor?

Por que essa suspeita insidiosa de que Nofret e Kameni haviam sido amigos muito mais chegados do que parecia à primeira vista? Por que Kameni havia ajudado Nofret em sua campanha de afastar Imhotep de sua família? Ele protestou dizendo que não tinha alternativa. Mas será que isto era Verdade? Era a coisa mais fácil de se dizer. Tudo que Kameni dizia soava fácil, natural e certo. Seu riso era tão alegre que dava vontade de rir também. O balanço de seu corpo era tão gracioso enquanto andava... a maneira como virava a cabeça por sobre aqueles suaves ombros bronzeados... aqueles olhos que olhavam para você... que olhavam para você... os pensamentos de Renisenb estancaram confusos. Os olhos de Kameni não eram como os olhos de Hori, gentis e seguros. Eles exigiam e desafiavam.

Os pensamentos de Renisenb fizeram sua face corar e seus olhos faiscarem. Mas decidiu que não contaria nada a Kameni a respeito do colar de Nofret. Não; ela iria até Esa. Esa a havia impressionado no dia anterior. Velha como era, aquela mulher tinha uma compreensão das coisas e um senso prático tão astuto que não era compartilhado por mais ninguém da família.

Renisenb pensou: “Ela é velha. Mas ela saberá.”

 

À primeira menção do colar, Esa olhou rapidamente em torno, colocou um dedo sobre os lábios e estendeu a mão. Renisenb tateou o vestido e, retirando-o, entregou-o nas mãos de Esa. Esa colocou-o por um momento bem perto de seus olhos opacos e depois escondeu-o em seu vestido. Disse numa voz baixa e autoritária:

— Basta por agora. Falar nesta casa é falar para centenas de ouvidos. Estive a noite toda pensando sem poder dormir, e há muita coisa para ser feita.

— Meu pai e Hori foram ao Templo de Isis conferenciar com o sacerdote Mersu para a formulação de uma petição à minha mãe para que ela interfira em nosso favor.

— Eu sei. Bem, deixe que seu pai trate dos espíritos da morte. Meus pensamentos dizem respeito a coisas deste mundo. Quando Hori retornar, traga-o aqui para me ver. Há coisas que precisam ser ditas e discutidas... e em Hori eu posso confiar.

— Hori saberá o que fazer — disse Renisenb alegremente.

Esa olhou-a curiosamente.

— Você vai freqüentemente ao Túmulo para vê-lo, não é verdade? A respeito de que vocês conversam, você e Hori?

Renisenb balançou a cabeça vagamente.

— Oh, sobre o rio... o Egito... a maneira como a luz se transforma... as cores da areia lá embaixo e os rochedos... Mas muitas vezes não conversamos de todo. Apenas sento-me lá e sinto paz, não tendo o vozerio dos ralhos, nem a gritaria das crianças, nem toda a confusão deste eterno vaivém. Posso ter meus próprios pensamentos e Hori não os interrompe. Então, algumas vezes, olho para ele e encontro-o olhando para mim, e ambos sorrimos... posso ser feliz lá em cima.

Esa disse vagarosamente:

— Você tem sorte, Renisenb. Você encontrou a felicidade que existe dentro do coração de cada um. Para a maioria das mulheres, a felicidade quer dizer vaivém e ocupação com pequenos proble­mas; apenas cuidar dos filhos e gargalhadas e conversas e brigas com outras mulheres, e uma alternância de amor e ódio por um homem. É feita de pequenas coisas colocadas juntas como as contas num cordão.

— Sua vida foi assim também, avó?

— A maior parte dela. Mas agora que estou velha e passo a maior parte do tempo sentada e sozinha, que minha vista está opa­ca e ando com dificuldade... cheguei à conclusão de que há tanta vida dentro quanto fora de nós. Mas estou muito velha agora para apreender o verdadeiro sentido disto... então eu ralho com a minha pequena empregada e aprecio a boa comida vinda ainda quente da cozinha e saboreio todos os diferentes tipos de pão que assamos e aprecio as uvas maduras e o suco das romãs. Essas coisas permanecem quando as outras se vão. Os filhos que mais amei estão todos mortos agora. Seu pai, Rê que o ajude, sempre foi um tolo. Eu o amei quando ele era um pequeno menino titubeante, mas agora ele me irrita com seus ares de importância. Dos meus netos, eu amo você, Renisenb... e falando de netos, onde está Ipy? Não o vi nem hoje nem ontem.

— Ele está muito ocupado superintendendo a estocagem do cereal. Meu pai o encarregou disso.

Esa sorriu arreganhando os dentes.

— Isso agradará o nosso jovem macho. Ele ficará cheio de si. Quando ele vier para comer, diga-lhe que venha até mim.

— Sim, Esa.

— Quanto ao resto, Renisenb, silêncio...

 

— Queria me ver, avó?

Ipy permaneceu sorridente e arrogante, a cabeça pendendo um pouco para um lado, uma flor entre os dentes brancos. Parecia muito satisfeito consigo mesmo e com a vida em geral.

— Se você puder perder um pouco do seu valioso tempo — disse Esa, apertando os olhos para ver melhor e fitando-o de alto a baixo.

O azedume de seu tom não causou em Ipy a menor impressão.

— De fato, estou muito ocupado hoje. Tenho de tomar conta de tudo, uma vez que meu pai foi para o Templo.

— Jovens chacais latem alto — disse Esa.

Ipy permaneceu impassível.

— Vamos, minha avó, você deve ter algo mais para dizer-me além disso.

— Decerto que tenho mais para dizer. E para começar, está é uma casa enlutada. O corpo de seu irmão Sobek está ainda nas mãos dos embalsamadores. Mesmo assim seu rosto está tão esfuziante como se hoje fosse um dia de grandes festividades.

Ipy fez um muxoxo.

— Você não é hipócrita, Esa. Acaso gostaria que eu fosse? Você sempre soube que não havia nenhuma grande amizade entre mim e Sobek. Ele fazia tudo que podia para me contrariar e aborrecer. Tratava-me como uma criança. Dava-me as mais humilhantes e infantis tarefas nos campos. Freqüentemente zombava e ria de mim. E quando meu pai pretendeu unir-me com meus irmãos mais velhos na sociedade, foi Sobek quem o persuadiu a não fazê-lo.

— Que o fez pensar que foi Sobek quem o persuadiu? — perguntou Esa rispidamente.

— Foi Kameni quem me contou.

— Kameni? — Esa levantou as sobrancelhas, empurrou sua peruca de um lado e coçou a cabeça. — Kameni, por certo. Agora eu começo a achar isto interessante.

— Kameni disse que tinha ficado sabendo através de Henet... e todos nós concordamos que Henet sempre sabe de tudo que se passa.

— Mesmo assim — disse Esa secamente —, esta foi uma ocasião em que Henet estava errada. Sem dúvida, tanto Sobek como Yahmose eram de opinião que você era muito jovem para negócios; mas fui eu... sim, fui eu quem dissuadi seu pai de incluí-lo.

— Você, avó? — O rapaz fitava-a com franca surpresa. Então, uma escura carranca alterou-lhe a expressão do rosto, a flor caiu-lhe dos lábios. — Por que você fez isso? O que você tinha a ver com isso?

— O que interessa à minha família, interessa a mim.

— E o meu pai escutou-a?

— Não naquele momento — disse Esa secamente. — Mas vou-lhe ensinar uma lição, minha bela criança. As mulheres trabalham através de circunlóquios... e aprendem (se já não nascem sabendo) a jogar com as fraquezas dos homens. Talvez você se lembre que eu mandei Henet com o tabuleiro de jogos para a varanda no frescor do entardecer.

Eu me lembro. Meu pai e eu jogamos juntos. E daí?

Isso. Vocês jogaram três vezes. E a cada vez, sendo um jogador muito mais esperto, você venceu seu pai.

Sim.

Isso é tudo — disse Esa fechando os olhos. — Seu pai, como todos os jogadores medíocres, não gostou de ser batido... especialmente por um pirralho. Então lembrou-se das minhas palavras e decidiu que você era certamente muito jovem para tomar parte na sociedade.

Ipy olhou para ela por um momento. Então ele riu — um riso não muito agradável.

Você é esperta, Esa — disse. — Sim, você pode estar velha, mas é esperta. Decididamente você e eu temos os miolos da família. Você venceu a primeira partida do nosso tabuleiro. Mas hei de vencer a segunda. Portanto cuide-se, avó.

É o que pretendo fazer — disse Esa. — E em retribuição às suas palavras, deixe-me avisá-lo que cuide de si mesmo. Um de seus irmãos está morto, o outro esteve perto da morte. Você também é filho de seu pai... e você também pode seguir o mesmo caminho.

Ipy riu escarnecedoramente.

Há pouco perigo disso acontecer.

Por quê? Você também ameaçou e insultou Nofret.

Nofret! — O desprezo de Ipy era manifesto.

Em que está pensando? — perguntou Esa rispidamente.

Tenho minhas próprias idéias, avó. E posso assegurar-lhe que Nofret e seus truques com espíritos não vão me perturbar. Deixe-a fazer o que ela souber de pior.

Ouviu-se um choro estridente atrás dele e Henet entrou correndo, aos gritos:

Menino idiota... criança imprudente! Desafiando a mor­te! Depois de tudo o que passamos! E nada mais do que um amuleto para sua proteção.

Proteção? Eu irei me proteger. Saia do meu caminho, Henet; tenho de trabalhar. Esses camponeses preguiçosos vão saber o que é ter um senhor de verdade em cima deles.

Empurrando Henet para o lado, Ipy saiu bruscamente do quarto.

Esa interrompeu rapidamente o choro e as lamentações de Henet.

— Escute-me, Henet, e pare de falar de Ipy. Talvez ele saiba o que está fazendo, talvez não. Seus modos são muito estranhos. Mas, responda-me, você disse a Kameni que foi Sobek quem persuadiu Imhotep a não incluir Ipy na sociedade?

A voz de Henet retomou o tom queixoso normal.

— Tenho certeza de que ando por demais ocupada com a casa para perder meu tempo por aí contando coisas às pessoas... e falando dos outros a Kameni. Tenho certeza de que jamais lhe dirigiria a palavra se ele não viesse falar comigo. Ele tem manei­ras agradáveis, como você mesma deve admitir, Esa... e eu não sou a única que pensa assim, oh, não! E se uma jovem viúva quiser lazer um novo contrato de casamento, bem, normalmente se inclinará para um jovem bonito... embora tenho certeza de que não sei o que diria Imhotep. Ao fim e ao cabo, Kameni é apenas um escriba de escalão inferior.

— Não importa o que Kameni seja ou deixe de ser! Você lhe disse ter sido Sobek quem se opôs ao fato de Ipy se tornar membro da sociedade?

— Bem, Esa, não me lembro do que possa ter dito ou não. Normalmente não saio por aí contando coisas para quem quer que seja, isso é certo. Mas uma palavra escapa aqui e acolá, e você mesma sabe que Sobek andava dizendo... e também Yahmose, embora não tão alto nem tão freqüentemente, que Ipy não passava de um menino e que não daria certo nunca; portanto Kameni deve ter ouvido isso do próprio Sobek, não de mim. Nunca faço mexericos, mas afinal de contas, a língua serve para se falar e eu não sou uma surda-muda.

— Realmente não — disse Esa. — Uma língua, às vezes, Henet, pode ser uma arma. Uma língua pode causar uma morte... ou mais do que uma morte. Espero que sua língua não tenha causado uma morte.

— Ora, Esa, que coisas você diz! Que se passa em sua cabeça? Tenho certeza de que nunca digo uma palavra a alguém que não tenha vontade de dizer para o mundo todo ouvir. Sou tão dedicada à família... que morreria por qualquer um de vocês. Oh, a devoção de Henet é subestimada. Prometi à querida mãe deles...

— Ora — disse Esa interrompendo-a —, lá vem o meu roliço papa-arroz, cozido com alho-poró e aipo. Tem um cheiro delicioso... e foi viradinho no espeto. Uma vez que é tão devota, Henet, você pode dar uma mordida num dos lados... no caso de estar envenenado!

— Esa! — Henet gritou. — Envenenado! Como você pode dizer tal coisa! Foi assado em nossa própria cozinha!

— Bem — disse Esa —, alguém tem que prová-lo... a título de precaução. E o melhor é que seja você, Henet, já que está tão disposta a morrer por qualquer membro da família. Não creio que seria uma morte muito dolorosa. Vamos, Henet. Veja como está roliço, suculento e saboroso. Não, obrigada, não quero perder minha escrava. Ela é jovem e alegre. Você já passou os seus melhores dias, Henet, e pouco importaria o que acontecesse com você. Agora vamos, abra a boca... Delicioso, não é? Ouça, seu rosto está com um aspecto esverdeado. Não gostou da minha brincadeira? Creio que não. Ah, ah, ah!

Esa desatou a rir e então, recompondo-se, sentou-se ansiosa­mente e se pôs a comer seu prato favorito.

 

                           Segundo Mês de Verão - Primeiro Dia

 

A conferência no Templo estava terminada. A forma exata da petição havia sido elaborada e aperfeiçoada. Hori e dois escribas do Templo foram bastante requisitados. Agora, finalmente, o primeiro passo tinha sido dado.

O sacerdote fez um sinal para que o rascunho da petição fosse lido em voz alta:

“Ao mais Excelso Espírito Ashayet. De seu irmão e marido. Teria a irmã esquecido do irmão? Teria a mãe esquecido dos filhos nascidos dela? A mais Excelsa Ashayet não sabe que um espírito maligno ameaça os seus filhos? Sobek, seu filho, já se foi para Osíris, por envenenamento. Tratei-a em vida, com toda a honra. Dei-lhe jóias e vestidos, ungüentos e perfumes e óleos para seus membros. Juntos comemos boas comidas, sentados em paz e amizade em frente a mesas fartas. Quando você adoeceu, não poupei gastos. Procurei um Médico Professor. Você foi enterrada com toda honra e com as devidas cerimônias, e todas as coisas necessárias para sua vida no Além foram providen­ciadas: servos, bois, comida, bebida, jóias e vestimentas. Fiquei de luto por muito tempo. E só depois de muitos e muitos anos tomei uma concubina para que pudesse viver como convém a um homem que ainda não está velho.

É essa concubina que agora traz o mal a seus filhos. Você sabe disso? Talvez o ignore. Pois certamente se Ashayet souber, ela virá prontamente em socorro dos filhos nasci­dos dela.

Será que Ashayet sabe, mas a maldade continua sendo feita porque a concubina é poderosa em mágicas demoníacas? No entanto, será certamente contra a sua vontade, excelsa Ashayet. Portanto, pense que no Campo das Ofe­rendas você tem grandes parentes e poderosos ajudantes. O grande e nobre Ipi, Mordomo Chefe do Vizir. Invoque sua ajuda! Também o irmão de sua mãe, o grande e po­roso Meriptah, o Nomarca da Província. Faça-o conhecer a vergonhosa verdade. Leve-a diante de sua corte. Providen­cie testemunhas. Deixe-as depor contra Nofret para provar que ela cometeu maldades. Deixe que haja um julgamento e que se condene Nofret, e que se decrete que ela não faça mais maldades nesta casa.

Oh, excelsa Ashayet, se você está brava com seu irmão Imhotep por ter ele dado ouvidos às persuasões demonía­cas dessa mulher e ameaçado fazer injustiça a seus filhos, nascidos de você, então pense que não é apenas ele que sofre, mas também seus filhos. Perdoe seu irmão Imhotep por qualquer coisa que ele tenha feito, por amor a seus filhos.”

O Escriba Chefe parou de ler. Mersu assentiu aprovadoramente. — Está bem redigido. Nada, eu creio, foi deixado de lado.

Imhotep levantou-se.

— Agradeço-lhe, Reverendo Padre. Minhas oferendas irão ao seu encontro amanhã, antes do pôr do sol: gado, óleo e linho. Podemos fixar o dia seguinte para a Cerimônia, a colocação do vaso com as inscrições na câmara de oferendas do Túmulo?

— Que seja realizada daqui a três dias. O vaso deve receber as inscrições e devem-se fazer as preparações para os rituais necessários.

— Como desejar. Estou ansioso para que mais nenhum mal aconteça.

— Posso bem compreender sua ansiedade, Imhotep. Mas nada receie. O bom espírito de Ashayet irá certamente responder a este apelo; seus parentes têm autoridade e poder, e podem fazer justiça onde ela é tão merecida.

— Que Isis permita que assim seja! Agradeço-lhe, Mersu, e também por seus cuidados e pela cura de meu filho Yahmose. Venha, Hori, temos muito que fazer. Vamos retornar à casa. Ah, esta petição realmente me tirou um peso da cabeça! A excelsa Ashayet não irá abandonar seu perturbado irmão.

 

Quando Hori entrou no pátio, carregando seus rolos de papiro, Renisenb estava procurando por ele. Ela veio correndo do lago.

Hori!

Sim, Renisenb.

Quer vir comigo até Esa? Ela está esperando e precisa de você.

Claro. Deixe-me apenas ver se Imhotep...

Mas Imhotep estava envolvido com Ipy, e pai e filho estavam entretidos na conversação.

Deixe-me guardar estes rolos de papel e estas outras coisas e irei com você, Renisenb.

Esa parecia contente quando Hori e Renisenb foram vê-la.

Aqui está Hori, avó. Eu o trouxe imediatamente.

Bom. O ar está agradável lá fora?

Penso que sim — Renisenb mostrou-se um pouco surpresa.

Então dê-me o meu bastão. Vou caminhar um pouco pelo pátio.

Esa raramente deixava a casa e Renisenb se surpreendeu. Ela guiou a velha senhora com uma das mãos sob o seu cotovelo. Atravessaram o salão central e saíram para o pórtico.

Quer sentar aqui, avó?

Não, minha filha, caminharei até o lago.

Esa progredia lentamente mas, apesar de mancar, tinha os pés firmes e não mostrava sinal de cansaço. Olhando em volta, escolheu um canto onde as flores haviam sido plantadas num canteiro próximo ao lago, cuja sombra bem-vinda era fornecida por uma figueira.

Então, uma vez acomodada, disse com soturna satisfação:

Pronto! Agora podemos conversar e ninguém poderá ouvir-nos.

Você é sábia, Esa — disse Hori aprovadoramente.

As coisas a serem ditas deverão ser do conhecimento de apenas nós três. Confio em você, Hori. Você está conosco desde menino. Tem sido sempre fiel, discreto e sábio. Renisenb me é a mais querida de todos os filhos de meu filho. Nenhum mal deve acontecer-lhe, Hori.

— Nenhum mal irá acontecer a ela, Esa.

Hori não levantou a voz, mas seu tom e a expressão de seus olhos quando encontraram os da velha mulher a satisfizeram profundamente.

— Disse-o bem, Hori: com calma e sem exasperação, mas como alguém que sabe o que diz. Agora, diga-me o que foi feito hoje.

Hori contou sobre a elaboração da petição e sua essência. Esa escutou atenciosamente.

— Agora escute-me, Hori, e veja isto. — Ela tirou o colar de leões de seu vestido e entregou-lhe. Acrescentou: — Diga-lhe, Renisenb, onde você o encontrou.

Renisenb contou. Então Esa disse: — Bem, Hori, o que acha?

Hori conservou-se quieto por um instante e depois perguntou: — Você é velha e sábia, Esa. Que acha você?

Esa respondeu: — Você é desses, Hori, que não gostam de dizer palavras impensadas que não estejam acompanhadas de fatos. Você soube, desde o princípio, como Nofret encontrou a morte, não?

— Eu suspeitava da verdade, Esa. Era apenas uma suspeita.

— Exatamente. E agora só temos suspeitas. No entanto, aqui, perto do lago, entre nós três, suspeitas podem ser ditas... para não mais serem pronunciadas posteriormente. Bem, parece-me haver três explicações para as tragédias ocorridas. A primeira, é que o pastorzinho falou a verdade e que o que viu era realmente o fantasma de Nofret que voltou dos mortos, e que ela tinha uma determinação demoníaca de se vingar ainda mais, causando constante tristeza e amargura à nossa família. Talvez seja isso: sacerdotes e outras pessoas dizem ser possível e nós sabemos que as doenças são causadas por espíritos do mal. Mas me parece, eu que sou velha e não estou muito inclinada a acreditar em tudo o que os sacerdotes e outras pessoas dizem, que existem outras possibilidades.

— Tais como? — perguntou Hori.

— Admitamos que Nofret tenha sido morta por Satipy, que algum tempo depois, no mesmo lugar, teve uma visão de Nofret e que, cheia de medo e culpa, caiu e morreu. Isso é bastante claro. Passemos agora a outra suposição, que é o fato de que, depois disso, alguém, por uma razão que ainda não descobrimos, desejasse causar a morte dos dois filhos de Imhotep. Que alguém contou com o temor pela superstição imputada às façanhas do espírito de Nofret... uma hipótese singularmente conveniente.

Quem desejaria matar Yahmose ou Sobek? — gritou Renisenb

Não seria um criado — disse Esa —, eles não se atreveriam. Isso nos deixa com poucas pessoas para escolher.

Um de nós? Mas, avó, isso não pode ser!

Pergunte a Hori — disse Esa secamente. — Você vê que ele não protesta.

Renisenb voltou-se para ele. — Hori... certamente...

Hori balançou a cabeça gravemente.

Renisenb, você é jovem e confiante. Pensa que todos aqueles a quem conhece e ama são exatamente o que aparentam ser para você. Você não conhece a alma humana nem a amargura... e nem a maldade que ela pode conter.

Mas quem... qual...

Esa interrompeu-a bruscamente:

Voltemos a esta história contada pelo pastor. Ele viu uma mulher usando um vestido de linho tingido e também o colar de Nofret. Se não se tratava de um espírito, então ele viu exatamente o que disse ter visto... o que significa que viu uma mulher que estava deliberadamente tentando parecer com Nofret. Poderia ter sido Kait... poderia ter sido Henet... poderia ter sido você, Renisenb! Daquela distância poderia ter sido qualquer um, usando um vestido de mulher e uma peruca. Silêncio: deixe-me conti­nuar. A outra possibilidade é que o menino estivesse mentindo. Ele contou uma mentira que lhe tinham ensinado a contar. Estava obedecendo a alguém que tinha o direito de comandá-lo e pode ser que tenha sido suficientemente estúpido a ponto de não perceber o intuito da história a que foi obrigado a contar. Agora jamais poderemos saber, pois o menino está morto, o que por si só é bastante sugestivo. Estou propensa a crer que o menino contou uma história que lhe foi ensinada. Interrogado rigorosa­mente, como ele teria sido hoje, aquela história poderia ter sido desmascarada... é fácil saber, desde que se tenha uma certa paciência, quando uma criança está mentindo.

Então você acredita que temos um envenenador entre nós? — perguntou Hori.

Acredito — disse Esa. — E você?

Também penso assim — respondeu Hori.

Renisenb, consternada, olhava para um e para outro.

Hori continuou:

Mas o motivo parece-me ainda longe de estar esclarecido.

Concordo — disse Esa. — É isso que me deixa preocupada. Não sei qual será o próximo a correr perigo.

Renisenb atalhou: — Mas... um de nós? — Seu tom era ainda incrédulo.

Esa disse firmemente: — Sim, Renisenb; um de nós. Henet ou Kait ou Ipy, ou Kameni, ou o próprio Imhotep... sim, ou Esa ou Hori ou mesmo... — ela sorriu — Renisenb.

Você tem razão, Esa — disse Hori. — Temos que nos incluir.

Mas por quê? — Na voz de Renisenb havia um misto de horror e surpresa. — Por quê?

Se o soubéssemos, chegaríamos a conhecer, também, quase tudo o que queremos saber — disse Esa. — Podemos começar por quem foi atacado. Sobek, lembrem-se, juntou-se a Yahmose inesperadamente, depois que este havia começado a beber. Portanto é certo que a pessoa que colocou veneno no vinho queria matar Yahmose, mas não podemos ter certeza de que queria matar Sobek também.

Mas quem poderia querer matar Yahmose? — Renisenb indagou com incredulidade. — Yahmose, certamente, de todos nós é o que menos probabilidades tem de possuir inimigos. Ele é sempre tão sereno e gentil.

Portanto, é óbvio que não se trata de um ódio pessoal — disse Hori. — Como Renisenb está dizendo, Yahmose não é o tipo de homem que faz inimigos.

Não — disse Esa. — O motivo é mais obscuro que este. Temos aqui uma inimizade contra a família como um todo, ou então o que está por trás de tudo isso é aquela cobiça contra a qual as Máximas de Ptahotep nos advertem. Trata-se, diz ele, de uma trouxa com todos os tipos de males e um saco que contém tudo que é culpável!

Percebo a direção que sua mente está tomando, Esa — disse Hori. — Mas, para chegarmos a qualquer conclusão, temos de fazer um prognóstico do futuro.

Esa acenou com a cabeça vigorosamente e sua grande peruca caiu sobre uma das orelhas. Apesar do grotesco de sua aparência, ninguém se sentia inclinado a rir.

Faça esse prognóstico, Hori — disse ela.

Hori permaneceu silencioso por um ou dois minutos, os olhos pensativos. As duas mulheres esperaram. Então, afinal, ele falou.

Se Yahmose tivesse morrido como havia sido planejado, então os principais beneficiados teriam sido os restantes filhos de Imhotep: Sobek e Ipy. Sem dúvida, parte dos bens seria separada para os filhos de Yahmose, mas a administração deles estaria em suas mãos... particularmente nas mãos de Sobek. Sobek teria sido sem dúvida o grande vencedor. Ele funcionaria presumivel­mente como sacerdote de Ka durante as ausências de Imhotep e o sucederia depois de sua morte. Mas, apesar de Sobek ser o beneficiado, Sobek não pode ter sido o culpado uma vez que ele próprio bebeu do vinho envenenado e tão confiantemente que morreu. Assim, tanto quanto posso entender, a morte dessas duas pessoas pode beneficiar apenas uma pessoa (pelo menos é o que parece até o momento), e essa pessoa é Ipy.

Concordo — disse Esa. — Você é perspicaz, Hori, e apreciei suas palavras. Mas vamos considerar Ipy. Ele é jovem e impaciente, está quase sempre emburrado, encontra-se numa idade em que a realização daquilo que deseja parece ser para ele a coisa mais importante na vida. Ele sentia raiva e ressentimento contra seus irmãos mais velhos e acreditava ter sido injustamente excluído da participação na sociedade familiar. Parece, também, que coisas insensatas foram ditas a ele por Kameni...

Kameni?

Foi Renisenb quem interrompeu. E, imediatamente após fazê-lo, enrubesceu e mordeu os lábios. Hori virou a cabeça para mirá-la. O olhar longo, gentil e penetrante que ele lhe dirigiu feriu-a de alguma maneira indefinível. Esa espichou seu pescoço para frente e encarou a menina.

Sim — disse ela. — Por Kameni. Se ele foi ou não inspirado por Henet, isso é outro problema. O fato é que Ipy é ambicioso e arrogante, estava ressentido da autoridade superior de seus irmãos e definitivamente se considera, como ele me disse há muito tempo, a inteligência superior e predominante da famí­lia.

O tom de Esa era seco.

Hori perguntou: — Ele disse isso a você?

— Foi educado o bastante para associar-me a ele como possuidora de uma certa quantidade de inteligência.

Renisenb perguntou incrédula:

— Você acha que Ipy envenenou Yahmose e Sobek?

— Considero isto com uma possibilidade, nada mais. Nós, por enquanto, estamos conversando acerca de suspeitas; ainda não dispomos de provas. Os homens vêm matando seus irmãos desde o princípio dos tempos, mesmo sabendo que os Deuses abominam esse crime, instigados pelo pecado do ódio e da cobiça. E se Ipy fez tal coisa, não nos será fácil encontrar provas, pois Ipy, eu admito abertamente, é esperto.

Hori assentiu.

— Mas, como eu já disse, é de suspeitas que falamos aqui sob a figueira. E agora colocaremos cada membro da casa sob suspeita. Como disse, excluo os servos porque não acredito nem por um momento que algum deles ousaria fazer tal coisa. Mas não excluo Henet.

— Henet? — gritou Renisenb. — Mas Henet é devotada a todos nós. Ela nunca se cansa de dizer isso.

— É fácil dizer mentiras por verdades. Conheço Henet há muitos anos. Conheci-a quando aqui chegou, ainda jovem, acompanhada de sua mãe, Renisenb. Era uma parenta dela... pobre e desafortunada. Seu marido a havia deixado... realmente Henet sempre foi comum e sem atrativos. A única criança que teve morreu na infância. Ela veio para cá dizendo-se dedicada à sua mãe, mas costumava espreitá-la quando andava pela casa e pelo pátio... e digo-lhe, Renisenb, não havia amor em seus olhos, mas uma inveja azeda. Quanto às suas declarações de amor a vocês todos, eu desconfio delas.

— Diga-me, Renisenb — disse Hori. — Você mesma sente alguma afeição com relação a Henet?

— Não — respondeu Renisenb sem vontade. — Não consigo. Sempre me reprovei por não gostar dela.

— Não acha que isso é porque, instintivamente, você sabia que suas palavras eram falsas? Ela demonstrou alguma vez o seu reputado amor por você através de algum préstimo real? Ela não sempre fomentou a discórdia entre vocês todos, cochichando e repetindo coisas que tinham a intenção de ferir e causar raiva?

— Sim... sim, isso é bem verdade.

Esa deu uma risada seca.

— Você tem bons olhos e ouvidos, meu excelente Hori.

Renisenb contestou:

— Mas meu pai acredita nela e gosta dela.

— Meu filho é um tolo e sempre o foi — disse Esa. — Todos os homens gostam de lisonjas... e Henet aplica a lisonja tão profusamente como ungüentos num banquete! Ela pode ser devotada a ele, algumas vezes eu acredito que seja, mas com certeza não é devotada a mais ninguém nesta casa.

— Mas certamente ela não iria... ela não iria matar — protestou Renisenb. — Por que razão quereria ela envenenar qualquer um de nós? Que proveito teria ela?

— Nenhum. Nenhum. Com relação ao porquê... eu não sei nada a respeito do que se passa na cabeça de Henet. O que ela pensa, o que ela sente, isso eu não sei. Mas às vezes fico imaginando que coisas estranhas estão borbulhando por trás daquelas maneiras bajuladoras e servis. E, se assim for, suas razões são razões que nós, você, eu e Hori, não entendería­mos.

Hori assentiu. — Há uma podridão que começa de dentro. Certa vez falei a esse respeito com Renisenb.

— E eu não consegui entendê-lo — disse Renisenb. — Mas começo a entender melhor agora. Começou com a chegada de Nofret... vi então que nenhum de nós era o que eu acreditava ser. Isso me meteu medo... E agora... — fez um gesto de desamparo com as mãos — tenho medo de tudo...

— Medo é apenas o conhecimento incompleto — disse Hori. — Quando nós soubermos, Renisenb, então não haverá mais o que temer.

— E, é claro, também há Kait — prosseguiu Esa.

— Kait não — protestou Renisenb. — Kait não tentaria matar Sobek. É inacreditável.

— Nada é inacreditável — disse Esa. — Pelo menos isso aprendi ao longo da minha vida. Kait é realmente uma mulher estúpida e eu sempre desconfiei de mulheres estúpidas. São perigosas. Só enxergam aquilo que está mais próximo a elas e apenas uma coisa de cada vez. Kait vive no centro de um pequeno mundo que se resume nela, seus filhos e Sobek, por ser este o pai de seus filhos. Poderia simplesmente ter-lhe ocorrido que, eliminando Yahmose, estaria enriquecendo seus filhos. Sobek sempre agiu de forma insatisfatória aos olhos de Yahmose: era rude, incontrolável e desobediente. Yahmose era o filho no qual Imhotep confiava. Mas, sem Yahmose, Imhotep teria de confiar em Sobek. Ela seria capaz, creio eu, de pensar de maneira tão primária.

Renisenb estremeceu. Mas, apesar do que sentia, reconheceu naquelas palavras uma descrição verdadeira da atitude de Kait diante da vida. Sua gentileza, sua ternura, seu jeito amoroso eram todos voltados para seus próprios filhos. Afora ela mesma, seus filhos e Sobek, o mundo não existia para ela; encarava-o sem curiosidade ou interesse.

Renisenb disse lentamente: — Mas ela deveria ter imaginado que Sobek poderia voltar, como de fato aconteceu, sedento e que também beberia o vinho.

— Não — retrucou Esa —, não creio, Kait, como já disse, é estúpida. Ela veria apenas o que gostaria de ver: Yahmose bebendo e morrendo e todo o caso sendo imputado à intervenção mágica de nossa diabólica e bela Nofret. Ela veria apenas uma única coisa; e não várias possibilidades e probabilidades. E uma vez que não desejava a morte de Sobek, jamais iria ocorrer-lhe que ele pudesse voltar inesperadamente.

— E agora Sobek está morto e Yahmose vivo! Quão terrível isto deve ser para ela, se o que você está sugerindo for verdade.

— É o tipo de coisa que acontece quando se é estúpido — disse Esa. — Tudo acontece de forma diferente da que foi planejada.

Fez uma pausa e, então, continuou:

— E agora chegamos a Kameni.

— Kameni? — Renisenb sentiu necessidade de dizer o nome tranqüilamente e sem protesto. Mais uma vez sentiu sobre si os olhos de Hori, causando-lhe uma sensação desconfortável.

— Sim, não podemos excluir Kameni. Ele não tem nenhum motivo aparente para nos prejudicar, mas afinal, o que sabemos dele realmente? Ele vem do norte, da mesma parte do Egito que Nofret. Ele a ajudou, espontaneamente ou não, quem pode dizer?... a virar o coração de Imhotep contra os filhos nascidos dele. Eu o tenho observado, por vezes, e na verdade não consigo chegar a conclusão alguma. Parece-me, no todo, um jovem normal e perspicaz que, além de ser bonito, tem um certo quê que atrai sobre si os olhos femininos. Sim, as mulheres irão sempre gostar de Kameni, mas eu penso, talvez esteja errada, que ele não é do tipo que controla seus corações e suas mentes. Ele parece estar sempre feliz e despreocupado, e não mostrou grande pesar quando da morte de Nofret.

— Mas isso tudo é apenas aparência. Quem pode dizer o que vai dentro do coração humano? Um homem decidido poderia facilmente tomar parte... Teria, de fato, Kameni sentido profundamente a morte de Nofret a ponto de buscar vingança? Já que Satipy matou Nofret, deve seu marido, Yahmose, morrer também? Sim, e também Sobek que a ameaçou — e talvez Kait que a perseguiu de maneira mesquinha, e também Ipy que a odiava? Parece fantástico, mas quem pode dizer?

Esa calou-se e olhou para Hori.

— Quem pode dizer, Esa?

Esa mirou-o astutamente.

— Talvez você possa nos dizer, Hori. Você acha que pode, não?

Hori conservou-se quieto por um instante, e então disse:

— Tenho uma idéia, sim, de quem envenenou o vinho e por quê; mas ainda não está muito clara e realmente não vejo... — Ele parou um minuto, franzindo a testa, e balançou a cabeça. — Não, eu não poderia fazer uma acusação definitiva.

— Estamos falando apenas de suspeitas, aqui. Continue, Hori, fale.

Hori sacudiu a cabeça.

— Não, Esa, é apenas um pensamento nebuloso... E se for verdade, então é melhor que você não saiba. A verdade pode ser perigosa. O mesmo se aplica a Renisenb.

— Acaso a verdade também é perigosa para você, Hori?

— Sim, é perigosa... Eu penso, Esa, que todos corremos perigo... embora Renisenb, talvez, menos do que os outros.

Esa olhou-o por algum tempo sem falar.

— Eu daria muita coisa — disse finalmente Esa — para saber o que vai pela sua cabeça.

Hori não respondeu diretamente. Após algum tempo em que pareceu estar refletindo, afirmou:

— A única chave para aquilo que nos vai na mente está em nosso comportamento. Se um homem se comporta de maneira estranha, diferente, ele não é ele próprio...

— Então você suspeita que ele? — perguntou Renisenb.

— Não — respondeu Hori. — Apenas quero dizer que um homem cuja mente é diabólica, e cujas intenções são diabólicas, está consciente desse fato e sabe que deve ocultá-lo a todo custo. Ele não se pode permitir, portanto, nenhum comportamento inusitado...

— Um homem? — perguntou Esa.

— Homem ou mulher; é a mesma coisa.

— Sei — disse Esa, dirigindo-lhe um olhar penetrante. Então acrescentou: — E sobre nós? Em que suspeitas nós três nos incluiríamos?

— Isso, também, deve ser encarado — disse Hori. — Sem­pre confiaram muito em mim. A feitura de contratos e a distri­buição da colheita sempre estiveram em minhas mãos. Como escriba, cuidei de toda a contabilidade. Pode ser que eu as tenha falsificado, da mesma forma que Kameni descobriu ter sido feito no norte. Talvez Yahmose tenha ficado confuso e começou a suspeitar. Portanto, seria necessário que eu o silenciasse. — Ele sorriu levemente de suas próprias palavras.

— Oh, Hori — disse Renisenb —, como é que você pode dizer tais coisas? Ninguém que o conhecesse iria acreditar nisso.

— Ninguém, Renisenb, conhece ninguém. Deixe que eu lhe diga ainda uma vez mais.

— E eu? — indagou Esa. — Onde é que recai a suspeita, no meu caso? Bem, eu sou velha. Quando um cérebro envelhece, torna-se doentio, às vezes. Ele passa a odiar ao invés de amar. Eu posso estar aborrecida com os filhos de meu filho e procuro destruir meu próprio sangue. É uma desgraça de um espírito do mal, que às vezes atinge os velhos.

— E eu? — perguntou Renisenb. — Por que tentaria matar meus irmãos, a quem amo?

Hori disse:

— Se Yahmose, Sobek e Ipy morressem, então você seria o último dos filhos de Imhotep. Ele iria lhe arranjar um marido e tudo seria seu; e você e seu marido seriam guardiães dos filhos de Yahmose e Sobek.

Ele então sorriu.

— Mas, aqui, sob esta figueira não suspeitamos de você, Renisenb.

— Sob esta figueira, ou fora dela, nós a amamos, Renisenb — disse Esa.

 

                       Segundo Mês de Verão - Primeiro Dia

 

— Então você esteve fora de casa? — perguntou Henet, enquan­to Esa entrava mancando no quarto. — Uma coisa que você não fazia há quase um ano!

Seus olhos olhavam inquisidoramente para Esa.

Gente velha — disse Esa — tem seus caprichos.

Eu a vi sentada no lago... com Hori e Renisenb.

Companhias agradáveis, aqueles dois. Será que alguma vez você deixou de ver alguma coisa, Henet?

Realmente, Esa, não percebo o que você está dizendo! Você esteve lá sentada à vista de todos.

Mas não perto o bastante para todos me ouvirem!

Esa sorriu maliciosamente e Henet empertigou-se furiosa.

Não sei por que você é tão indelicada comigo, Esa! Você está sempre sugerindo coisas. Estou demasiado ocupada nesta casa, cuidando para que as coisas sejam feitas como devem ser, para ouvir as conversas das outras pessoas. Além disso, não ligo a mínima para o que as outras pessoas dizem!

Eu sempre imaginei.

Se não fosse por Imhotep, que realmente me aprecia...

Esa interrompeu-a rispidamente:

Sim, se não fosse por Imhotep! É de Imhotep que você depende, não é? Se alguma coisa acontecesse a Imhotep...

Foi a vez de Henet interrompê-la.

Nada irá acontecer a Imhotep!

Como é que você sabe, Henet? Existe tal segurança nesta casa? Pois aconteceu com Yahmose e Sobek.

Isso é verdade; Sobek está morto... e Yahmose quase morreu...

— Henet! — Esa inclinou-se para a frente. — Por que você sorriu quando disse isso?

— Eu? Sorri? — Henet foi tomada de surpresa. — Você está sonhando, Esa! E você acha que eu iria sorrir em tal ocasião, falando de coisas tão terríveis?

— É verdade que estou quase cega — disse Esa. — Mas não completamente. Às vezes, por um clarão de luz, apertando bem as pálpebras, consigo ver muito bem. Pode acontecer que alguém, falando com uma pessoa que não enxerga bem, não tome muito cuidado e assuma uma expressão facial que em outras ocasiões não revelariam. Então volto a lhe perguntar: Por que você sorriu com tal satisfação?

— O que você diz é um ultraje... um ultraje!

— Agora você está amedrontada.

— E quem não ficaria, com as coisas do jeito que vão nesta casa? — gritou estridentemente Henet. — Estamos todos com medo, claro, dos espíritos do mal que retornam dentre os mortos para nos atormentar! Mas eu já sei o que é: você tem escutado Hori. Que lhe disse ele sobre mim?

— O que Hori sabe sobre você, Henet?

— Nada; nada absolutamente. Melhor seria se você perguntasse o que eu sei sobre ele.

Os olhos de Esa se dilataram.

— Bem, que sabe você?

Henet balançou a cabeça.

— Ah, vocês todos desprezam a pobre Henet! Acham que ela é feia e estúpida. Mas eu sei o que se passa! Há uma série de coisas que eu sei... na verdade, não há muita coisa que eu não saiba nesta casa. Posso ser estúpida, mas posso contar quantos feijões estão plantados numa fila. Talvez eu Veja mais do que as pessoas inteligentes como Hori. Quando Hori me encontra, onde quer que seja, ele me lança um olhar como se eu não existisse, como se enxergasse alguma coisa atrás de mim, alguma coisa que não está lá. Seria melhor que olhasse para mim, é o que digo! Ele pode me considerar desprezível e estúpida, mas nem sempre são os mais sábios aqueles que sabem de tudo. Satipy pensou que era inteligente; e onde está ela agora, gostaria de saber?

Henet calou-se triunfante; sentiu então uma espécie de tontura e servilmente encolheu-se, olhando nervosa para Esa.

Mas Esa parecia perdida na corrente de seus próprios pensa mentos. Tinha uma expressão chocada, um olhar amedrontado de espanto. Disse devagar e pensativamente:

— Satipy...

Henet disse com aquele velho tom choroso:

— Desculpe-me, Esa, por perder a calma. Realmente não sei o que aconteceu comigo. Eu não queria dizer nada daquilo que disse...

Levantando os olhos, Esa atalhou:

— Saia, Henet. Se você queria ou não dizer o que disse, não interessa. Mas você disse uma frase que despertou novos pensamentos em minha cabeça... Vá, Henet, e eu lhe previno: tenha cuidado com suas palavras e ações. Não queremos mais mortes nesta casa. Espero que me entenda.

 

Tudo é medo...

Renisenb sentira essas palavras saírem automaticamente de seus lábios durante a conversa junto ao lago. Somente depois começou a perceber o quanto eram verdadeiras.

Dirigiu-se mecanicamente em direção a Kait e às crianças que estavam aglomeradas perto do pequeno pavilhão, mas sen­tiu que suas pegadas se retardavam e então cessavam como que por vontade própria.

Estava com medo, pensou, de encontrar Kait, de olhar sua face clara e plácida, e nela ver a face de uma envenenadora. Observou Henet sair até o pórtico e voltar novamente, e a costumeira sensação de repulsa aumentou. Desesperadamente, voltou-se para a porta do pátio e, em seguida, encontrou Ipy transpondo-a com passos largos, a cabeça altiva e um sorriso alegre no rosto arrogante.

Renisenb fitou-o admirada. Ipy, a criança mimada da família, o belo e voluntarioso menino do qual se lembrava quando partiu com Khay...

— Por que Renisenb, o que Houve? Por que você me olha de maneira tão estranha?

— Eu?

Ipy riu.

— Você está me olhando com uma cara estúpida como a de Henet.

Renisenb balançou a cabeça.

— Henet não é estúpida. É muito astuta.

— Ela está cheia de maldade, isso eu sei. Na realidade, ela é um estorvo na casa. Gostaria de me ver livre dela.

Os lábios de Renisenb abriram-se e fecharam-se. Ela sussurrou: — Livrar-se dela?

— Minha querida irmã: que há com você? Também tem visto espíritos do mal como aquela criança negra e estúpida?

— Você acha que todo mundo é estúpido?

— Aquela criança certamente o era. Bem, é verdade que tenho uma tendência a ser impaciente com relação à estupidez. Já estou farto disso. Não é nada agradável, posso lhe dizer, ser importunado por dois irmãos mais velhos e molengas que não podem ver além de seus próprios narizes! Agora que eles estão fora do caminho e há apenas meu pai com quem lidar, você verá em breve a diferença. Meu pai fará o que eu disser.

Renisenb levantou o olhar. Ele parecia mais belo e arrogante do que nunca. Havia nele uma vitalidade, um quê de vida e vigor triunfantes, que a impressionaram além do normal. Alguma consciência íntima parecia proporcionar-lhe esse senso vital de bem-estar.

Renisenb disse bruscamente.

— Meus irmãos não estão ambos fora do caminho, como você disse. Yahmose está vivo.

Ipy a olhou com um ar de troça:

— E eu suponho que você acredita que ele voltará a ficar completamente bom?

— Por que não?

Ipy riu.

— Por que não? Bem, digamos que eu simplesmente discordo de você. Yahmose está acabado, terminado: ele pode rastejar Por aí, sentar-se e comer ao sol. Mas já não é um homem. Ele se recuperou dos primeiro efeitos do veneno, mas você própria pode ver que ele não faz nenhum progresso.

— Mas por que não? — perguntou Renisenb. — O médico disse que levaria pouco tempo até que ele se sentisse bem e forte novamente.

Ipy encolheu os ombros.

— Os médicos não sabem tudo. Eles falam com sabedoria e utilizam-se de grandes palavras. Ponha a culpa na malvada Nofret, se quiser, mas Yahmose, seu querido irmão Yahmose, está condenado.

— E você, não teme por si próprio, Ipy?

— Temer? Eu? — O rapaz riu e jogou para trás sua bonita cabeça.

— Nofret não morria de amores por você, Ipy.

— Nada pode me prejudicar, Renisenb, a não ser que eu mesmo queira! Ainda sou jovem, mas sou dessas pessoas que nasceram para vencer. Com relação a você, Renisenb, seria melhor se ficasse do meu lado, ouviu? Você freqüentemente me trata como um menino irresponsável. Mas sou mais do que isso agora. Cada mês será diferente. Logo não haverá outra vontade nesta casa a não ser a minha. Meu pai poderá dar as ordens, mas atrás de suas palavras estará o meu cérebro!

Deu alguns passos, parou e disse por sobre os ombros: — Portanto, tenha cuidado, Renisenb, para que eu não fique descontente com você.

Renisenb olhava-o ainda quando ouviu passos, virou-se e viu Kait ao seu lado.

— O que Ipy estava dizendo, Renisenb?

Renisenb respondeu lentamente:

— Ele disse que em breve será o senhor aqui.

— Disse? — falou Kait. — Pois penso diferente.

 

Ipy subiu lépido as escadas do pórtico e entrou na casa. A visão de Yahmose deitado no catre pareceu agradar-lhe. Disse jovialmente:

Bem, e como vai isso, irmão? Será que não mais o viremos de volta às plantações? Não posso entender como as coisas não deram para trás sem você!

Yahmose, de mau-humor, disse com voz fraca:

Não consigo entender. O veneno já foi eliminado. Por que não readquiro as forças? Tentei caminhar esta manhã, mas minhas pernas não me agüentam. Estou fraco... e, o que é pior, pareço enfraquecer mais a cada dia.

Ipy balançou a cabeça em afável comiseração.

Isso é realmente mau. E os médicos não ajudam?

O assistente de Mersu vem aqui todos os dias. Ele não consegue entender meu estado. Tenho tomado fortes infusões de ervas. As feitiçarias diárias são feitas aos deuses. Uma dieta especial me é preparada. Não há razão, diz o médico, para que eu não fique forte rapidamente. No entanto, eu pareço definhar.

Isso é muito- mau — disse Ipy.

Ele se retirou, cantarolando suavemente, e topou com o pai e Hori atarefados com uma folha de contabilidade.

O rosto de Imhotep, ansioso e preocupado, iluminou-se ante a visão de seu amado filho menor.

Cá está o meu Ipy. O que você tem para contar da propriedade?

Tudo vai bem, pai. Estivemos ceifando a cevada. Uma boa colheita.

Sim, graças a Rê, tudo vai bem lá fora. Bom seria se o mesmo se desse aqui dentro. Porém, eu devo ter fé em Ashayet, ele não irá se recusar a nos ajudar em nosso infortúnio. Estou preocupado com Yahmose. Não posso entender essa lassidão... essa inexplicável fraqueza.

Ipy sorriu com escárnio.

Yahmose foi sempre uma pessoa fraca — disse.

Isso não é verdade — retrucou Hori suavemente. — Sua saúde sempre foi boa.

Ipy disse positivamente:

A saúde depende do espírito do homem. Yahmose nunca teve espírito. Sempre teve medo, inclusive, de dar ordens.

Não ultimamente — disse Imhotep. — Yahmose tem-se mostrado cheio de autoridade nos últimos meses. Tenho me surpreendido. Mas essa fraqueza nas pernas me preocupa. Mersu me assegurou que assim que o efeito do veneno tivesse passado, a recuperação seria rápida.

Hori pôs algumas folhas de papiro de lado.

— Há outros venenos — disse suavemente.

— Que quer dizer? — Imhotep voltou-se.

Hori falou com sua voz suave e especulativa.

— Há venenos conhecidos que não agem imediatamente, com violência. São traiçoeiros. Um pouquinho deles, ministrado a cada dia, acumula-se no corpo. Somente depois de longos meses de fraqueza é que vem a morte... Há amplo conhecimento disso entre as mulheres; elas às vezes os empregam para se verem livres de um marido e conseguir uma aparência de morte natural.

Imhotep empalideceu.

— Você sugere que é... isso... que está acontecendo com Yahmose?

— Estou sugerindo que é uma possibilidade. Embora sua comida seja agora provada por um escravo antes de chegar a ele, tal precaução nada significa, já que a quantidade colocada num prato, num dia, não causaria efeitos malignos.

— Loucura! — gritou Ipy. — Absoluta loucura! Não acre­dito que existam tais venenos. Eu nunca ouvi falar deles.

Hori levantou os olhos. — Você é muito jovem, Ipy. Existem coisas que você ainda não sabe.

Imhotep indagou: — Mas o que poderemos fazer? Apelamos para Ashayet. Enviamos oferendas ao Templo; não que eu acre­dite muito em templos. As mulheres é que acreditam em tais coisas. Que mais pode ser feito?

Hori disse pensativamente:

— Deixe que a comida de Yahmose seja feita por uma escrava de confiança e faça com que essa escrava seja vigiada o tempo todo.

— Mas isso significa... que aqui nesta casa...

— Bobagem — gritou Ipy. — Bobagem completa.

Hori levantou as sobrancelhas.

— Que pelo menos seja tentado — disse. — Logo saberemos se é bobagem.

Ipy saiu furioso do quarto. Hori olhou pensativamente para ele, com uma expressão carregada e perplexa.

 

Ipy saiu de casa com tal fúria que quase derrubou Henet.

— Saia de meu caminho, Henet. Você está sempre se arrastando por aí e se metendo no caminho.

— Como você é rude, Ipy, você machucou meu braço!

— Ótimo. Estou farto de seus modos hipócritas. Quanto mais rápido você for desta casa, melhor; e eu farei com que você se vá.

Os olhos de Henet faiscaram maliciosamente.

— Então, você me poria para fora, não é? Depois de todo cuidado e amor que dediquei a todos vocês. Tenho sido devotada a toda a família. Seu pai sabe muito bem disso.

— Ele já ouviu isso o suficiente, estou certo! E nós da mesma forma! Na minha opinião, você não passa de uma velha linguaruda, maldosa, criadora de desordens. Você ajudou Nofret com seus planos; isso eu sei muito bem. Então ela morreu e você voltou a nos adular novamente. Mas você vai ver; no final das contas meu pai ouvirá a mim, e não às suas mentiras.

— Você está muito bravo, Ipy; o que o deixou zangado?

— Não importa.

— Você não está com medo de nada, está, Ipy? Estão acontecendo coisas estranhas por aqui.

— Você não pode me amedrontar, sua raposa velha!

Passou rapidamente por ela e saiu de casa.

Henet voltou-se lentamente para dentro. Um gemido de Yahmose atraiu sua atenção. Ele havia se levantado do catre e tentava caminhar. Mas suas pernas não suportavam o seu peso e, não fosse pela rápida ajuda de Henet, ele teria caído no chão.

— Pronto, Yahmose, pronto. Deite-se novamente.

— Como você é forte, Henet. Olhando para você, ninguém diria. — Ele se deitou de novo, com a cabeça apoiada no encosto de madeira. — Obrigado. Mas o que acontece comigo? Por que essa sensação de que meus músculos se transformaram em água?

— O problema é que esta casa está enfeitiçada. O trabalho de um demônio-mulher que veio até nós do norte. Nenhum bem veio jamais do norte.

Yahmose murmurou em súbito desespero:

— Estou morrendo. Sim, estou morrendo...

— Outros morrerão antes de você — disse Henet inflexível.

— Que quer dizer? — Ele se ergueu num cotovelo e enca­rou-a perplexo.

— Sei o que estou dizendo — Henet balançou a cabeça diversas vezes. — Não será você o próximo a morrer. Espere e verá.

 

— Por que você me evita, Renisenb?

Kameni plantou-se no caminho de Renisenb. Ela corou e achou difícil dar uma resposta conveniente. Na verdade ela havia se desviado deliberadamente ao ver Kameni se aproximar.

— Por que, Renisenb, por quê?

Mas ela não tinha nenhuma resposta pronta; só conseguia sacudir a cabeça, em silêncio.

Renisenb então o olhou, enquanto ele a encarava. Tinha também um pequeno receio de que a face de Kameni pudesse parecer diferente. E foi com estranha alegria que ela observou o contrário: seus olhos a olhavam gravemente e, pela primeira vez, seus lábios não sorriam.

Antes de olhar em seus olhos, os dela baixaram. Kameni sempre a perturbava. Sua proximidade a afetava fisicamente. Seu coração batia mais rapidamente.

— Sei por que você me evita, Renisenb.

Ela conseguiu falar.

— Eu... eu não o estava evitando. Não vi você se apro­ximar.

— É mentira — Kameni agora estava rindo; ela podia ouvir pela sua voz.

— Renisenb, linda Renisenb.

Ela sentiu a mão quente e forte em volta de seu braço e imediatamente, com um puxão, libertou-se.

— Não me toque. Não gosto de ser tocada.

— Por que luta contra mim, Renisenb? Você sabe muito bem o que há entre nós. Você é jovem, forte e bonita. É absurdo que você continue a prantear um marido por toda a vida. Vou tirar você desta casa. Ela está cheia de morte e encantamentos diabólicos. Você virá comigo e estará a salvo.

Suponhamos que eu não queira ir — disse Renisenb com entusiasmo.

Kameni riu. Seus dentes brilharam, brancos e fortes.

Mas você quer vir, apenas não admite isso! A vida é boa, Renisenb, quando um irmão e uma irmã estão juntos. Eu a amarei e farei feliz, e você será um campo glorioso para mim, seu senhor. Não cantarei mais a Ptah “Dê-me minha irmã esta noite”, mas irei até Imhotep e direi “Dê-me minha irmã Renisenb”. Mas não creio que este lugar seja seguro para você; portanto eu a levarei daqui. Sou um bom escriba e posso entrar para a casa de um dos maiores nobres de Tebas, se quiser, apesar de preferir a vida aqui no campo: a plantação, o gado e as canções dos homens que fazem a colheita, e as pequenas embarca­ções de recreio no rio. E levaremos Teti conosco. Ela é uma criança bonita e forte e eu a amarei e serei um bom pai para ela. Então, Renisenb, que me diz?

Renisenb conservou-se em silêncio. Tinha consciência do seu coração que batia forte e sentiu uma espécie de langor se apode­rando de seus sentidos. Porém, junto com essa sensação de suavidade, essa falta de resistência, veio algo mais: um sentimento de antagonismo.

“O toque de sua mão em meu braço e eu sou toda fraqueza...”, ela pensou. “Por causa de sua força... seus ombros largos... sua boca sorrindo:.. Mas nada sei de seus pensamentos, sua mente, seu coração. Não há paz entre nós, nem doçura... Que quero eu? Não sei... Mas não é isso... Não, isso não...”

Ela se ouviu falando e, mesmo a seus próprios ouvidos, as palavras soavam fracas e incertas:

Não quero outro marido... quero ficar só... quero ser eu mesma...

Não, Renisenb, você está errada. Você não foi feita para viver sozinha. Suas mãos o dizem quando tremem entre as minhas... Vê?

Com esforço, Renisenb retirou suas mãos.

Eu não o amo, Kameni. Acho que o odeio.

Ele sorriu.

Não me importo que você me odeie, Renisenb. Seu ódio está muito próximo do amor. Falaremos disso novamente.

Ele a deixou, movendo-se com a suavidade e com o passo leve como de uma gazela. Renisenb dirigiu-se lentamente para junto do lago, onde Kait é as crianças se encontravam brincando.

Kait dirigia-lhe a palavra, mas Renisenb respondia ao acaso.

Kait, entretanto, não pareceu notar, ou então, como sempre, sua mente estava por demais ocupada com as crianças para que pudesse prestar atenção em outras coisas.

Subitamente, quebrando o silêncio, Renisenb disse:

— Você acha que devo arrumar um outro marido? Que me diz, Kait?

Kait respondeu placidamente, sem muito interesse:

— É possível, creio eu. Você é forte e jovem, Renisenb, e pode ter muito mais filhos.

— Nisso se resume a vida de uma mulher, Kait? Ocupar-me no fundo da casa, ter filhos, passar as tardes com eles perto do lago, sob a figueira?

— É tudo o que importa a uma mulher. É claro que você sabe disso. Não fale como se fosse uma escrava; as mulheres têm poder no Egito; as heranças passam através delas para seus filhos. As mulheres são o sangue vital do Egito.

Renisenb olhou pensativamente para Teti, que fazia uma guirlanda de flores para a sua boneca. Teti franzia um pouco a testa, concentrada em sua tarefa. Houve um tempo em que Teti se parecia tanto com Khay, levantando o lábio inferior, movendo a cabeça um pouco para o lado, que o coração de Renisenb se revolvia de dor e amor. Mas agora, não apenas o rosto de Khay estava obscuro na memória de Renisenb, como Teti não mais tinha aquele cacoete de girar a cabeça e levantar os lábios. Houve outros momentos em que Renisenb segurou Teti junto a si, sentindo a criança como se ainda fizesse parte de seu corpo, sua própria carne viva, como um sentimento apaixonado de propriedade. “Ela é minha, toda minha”, disse consigo mesma.

Agora, olhando para ela, Renisenb pensou: “Ela é eu... ela é Khay”.

Então Teti levantou os olhos, e vendo a mãe, sorriu. Era um sorriso grave e amigo, demonstrando confiança e prazer. Reni­senb pensou: “Não, ela não é nem eu nem Khay: ela é ela mesma. Ela é Teti. Ela está só, como eu estou só, como todos estamos sós. Se há amor entre nós, devemos ser amigas por toda a vida; mas se não existir amor, ela crescerá e seremos estranhas. Ela é Teti e eu sou Renisenb.”

Kait a olhava com curiosidade.

— O que você quer, Renisenb? Não compreendo.

Renisenb não respondeu. Como transformar em palavras, as coisas que ela própria mal compreendia? Olhou em volta, para as paredes do pátio, para o colorido pórtico da casa, para as calmas águas do lago e o gracioso pavilhão, os canteiros de flores ali perto e as moitas de papiro. Tudo era seguro, fechado, nada havia a temer, e ela estava rodeada pelo murmúrio familiar dos sons da casa, o balbuciar das vozes das crianças, o rouco e lon­gínquo clamor estridente das mulheres na casa, o mugido distante do gado.

Disse lentamente:

— Não se pode ver o rio daqui...

Kait pareceu surpresa: — E para que querer vê-lo?

Renisenb disse devagar:

— Eu sou idiota. Não sei...

Ante seus olhos, muito nitidamente, ela viu se estender o panorama dos campos verdes, ricos e viçosos, e, mais além, de longe, uma encantadora extensão de rosa-pálido e ametista se desfazendo no horizonte e, separando os dois, o pálido azul-acinzentado do Nilo...

Respirou fundo: pois, com a visão, a paisagem e os sons se esmaecendo, veio-lhe uma calma, uma riqueza, uma infinita satisfação...

Disse consigo mesma: “Se eu virar a cabeça, verei Hori. Ele levantará os olhos do papiro e sorrirá para mim... Agora o sol se esconderá, virá a escuridão e então irei dormir... Isso será morte.”

— O que você disse, Renisenb?

Renisenb se assustou. Não se dera conta de que havia falado alto. Voltou da visão à realidade. Kait a olhava curiosamente.

— Você disse Morte, Renisenb. No que está pensando?

Renisenb sacudiu a cabeça.

— Não sei. Não quis... — Olhou à sua volta novamente. Quão agradável era essa cena familiar, com a água espirrando e as crianças brincando. Respirou profundamente.

— Como isto aqui é cheio de paz! Não se pode imaginar nada de horrível acontecendo aqui.

Mas foi junto ao lago que encontraram Ipy na manhã seguinte. Ele estava esticado de bruços, com o rosto dentro da água, onde uma mão o havia segurado enquanto se afogava.

 

                         Segundo Mês de Verão - Décimo Dia

 

Imhotep estava sentado, enrodilhado sobre si mesmo. Parecia muito mais velho, um velho alquebrado e enrugado. Havia em seu rosto uma expressão de total desnorteamento.

Henet trouxe-lhe comida e persuadiu-o a comer.

— Sim, sim, Imhotep, você tem que manter a sua força.

— Por quê? Que força? Ipy era forte, jovem e belo... e agora está no banho de salmoura... Meu filho, meu filho mais amado. O último dos meus filhos.

— Não, não, Imhotep; você tem Yahmose, seu bom Yahmose.

— Por quanto tempo? Não; também ele está condenado. Todos nós estamos condenados. Que mal é esse que se abateu sobre nós? Como poderia eu saber que tais fatos iriam ocorrer por eu ter trazido uma concubina para dentro de casa? É uma coisa perfeitamente aceitável: é justo e está de acordo com as leis dos homens e as leis dos Deuses. Eu a tratei corretamente. Por que então deveriam essas coisas acontecer comigo? Ou é Ashayet que descarrega sua vingança sobre mim? Será que não me perdoará? Certamente ela não deu nenhuma resposta ao meu pedido. A malvadeza ainda persiste.

— Não, não, Imhotep. Você não deve dizer isso. Pouco tempo se passou desde que o vaso foi colocado no quarto das oferendas. Qualquer pessoa sabe como os casos com a justiça demoram neste mundo... quão infindáveis são as demoras na corte dos monarcas... e mais ainda quando um caso vai para o vizir. Justiça é justiça, neste mundo e no próximo: um negócio que se move lentamente, mas que no final age com precisão.

Imhotep balançou a cabeça duvidoso. Henet continuou:

— Por outro lado, Imhotep, você deve se lembrar que Ipy não era filho de Ashayet; ele nasceu de sua irmã Ankh. Por que então deveria Ashayet interessar-se pela sua sorte? Mas com Yahmose será diferente: Yahmose vai-se recuperar porque Asha­yet tratará disso.

— Devo admitir, Henet, que suas palavras me confortam... Há muito de verdade no que você diz. Yahmose, é verdade, recobra suas forças a cada dia. Ele é um filho bom e leal... mas quanto ao meu Ipy... tão inteligente... tão belo — Imhotep gemeu mais uma vez.

— Oh, oh! — lamentou-se Henet em solidariedade.

— Aquela maldita menina e sua beleza. Gostaria de nunca ter posto os olhos em cima dela.

— Sim, realmente, meu caro amo. Uma filha de Seth como nunca vi outra igual. Versada em magia e encantos malignos, não se pode ter dúvidas a respeito.

Ouviu-se a batida de uma bengala no chão e Esa entrou na sala capengando. Ela bufou ridiculamente.

— Será que ninguém nesta casa tem qualquer senso? Vocês não têm nada melhor para fazer do que imprecar contra essa desafortunada menina por quem Imhotep se enamorou e que se deixou levar por um ligeiro rancor e malícia femininos, provocados pelo comportamento estúpido das esposas de seus estúpidos filhos?

— Ligeiro rancor e malícia... é assim que você chama a isto, Esa? Quando dos meus três filhos dois estão mortos e um está morrendo! Oh! Como minha própria mãe é capaz de me dizer tais coisas?

— Parece-me que alguém deva dize-las, uma vez que você não consegue ver os fatos como são. Tire da mente essa idéia estúpida e supersticiosa de que o espírito de uma moça morta é que está operando todo o mal. Foi uma mão viva que segurou a cabeça de Ipy dentro do lago e fê-lo afogar-se; e uma mão viva que derramou veneno no vinho que Yahmose e Sobek beberam. Você tem um inimigo, sim, um inimigo aqui nesta casa. E a prova é que desde que o conselho de Hori foi ouvido e a própria Renisenb prepara a comida de Yahmose, ou um escravo a prepara enquanto ela vigia e suas mãos a levam até ele, desde então, eu lhe digo, Yahmose esta ganhando saúde e força a cada dia. Procure deixar de ser tolo, Imhotep, afligindo-se e arrancando os cabelos, coisas essas que Henet adora fazer.

— Oh, Esa, como você me julga mal!

— Coisas essas, dizia eu, que Henet adora fazer... ou porque é uma tola também ou por alguma outra razão...

— Que Rê possa perdoá-la, Esa, por sua indelicadeza para com uma pobre mulher solitária!

Esa deu uma volta sobre si mesma, balançando sua bengala num gesto impressionante.

— Contenha-se, Imhotep, e pense. Sua finada esposa Ashayet, que era uma mulher adorável e não uma tola, diga-se de passagem, pode exercer a sua influência por você no outro mundo, mas dificilmente poderá pensar por você neste! Nós temos de agir Imhotep, porque se não o fizermos, então haverá mais mortes.

— Um inimigo vivo? Um inimigo nesta casa? Você realmente acredita nisto, Esa?

— É claro que acredito, porque é a única coisa que faz sentido.

— Então estamos todos correndo perigo?

— Certamente que estamos. Perigo que não vem das mãos dos espíritos, mas que vem de um agente humano... de dedos vivos que derramam veneno na comida e na bebida, de uma figura humana que anda furtivamente atrás de um rapaz que volta da aldeia e mergulha sua cabeça dentro das águas do lago!

Imhotep disse pensativo: — Seria preciso muita força para isso.

— A julgar-se pelas aparências, sim, mas não estou bem certa. Ipy tinha bebido muita cerveja na aldeia. Estava num ânimo de rebelde e orgulhoso. Pode ser que tenha voltado para casa com o andar um tanto trôpego e, não tendo medo da pessoa que se aproximou dele, curvou-se pela própria vontade para banhar o rosto no lago. Pouca força seria preciso então.

— Que está querendo dizer, Esa? Que uma mulher fez isso? Mas é impossível... toda a coisa é impossível; não pode haver um inimigo nesta casa, ou então nós saberíamos... eu saberia!

— Existe o mal do coração, Imhotep, que não aparece no rosto.

— Você quer dizer que um dos criados ou um escravo...

— Nem criado nem escravo, Imhotep.

— Um de nós? Ou então... você quer dizer Hori ou Kameni? Mas Hori é como um membro da família, ele provou sua fidelidade e é digno de confiança. E Kameni... ele é um estranho, de certo, mas tem o nosso sangue e provou sua devoção pelo zelo com que me serviu. Além disso, ele veio até mim hoje de manhã e solicitou o meu consentimento para casar-se com Renisenb.

Então ele fez isso, hã? — Esa demonstrou interesse. — E o que disse você?

O que eu podia dizer? — Imhotep estava irascível. — E isso é hora de se falar em casamento? Foi exatamente o que lhe disse.

E o que ele respondeu?

Que na sua opinião essa era a hora de se falar em casamento. Disse que Renisenb não estava a salvo nesta casa.

Imagino — volveu Esa. — Gostaria de saber... Será que ela? Pensei que ela... e Hori pensou também... mas agora...

Imhotep continuou:

Será que alguém pode ter cerimônias de funeral e de casamento acontecendo ao mesmo tempo? Não é decente. Todo o nomo falaria a respeito.

Não é hora para convencionalismos — disse Esa. — Sobretudo quando, pelo visto, os embalsamadores viverão conosco permanentemente. Tudo isso deve ser como que uma bênção para Ipi e Montu... a firma deve estar indo excepcionalmente bem.

Eles aumentaram seus preços em dez por cento! — Imhotep estava momentaneamente divertido. — Iníquos! Dizem que o trabalho é mais caro.

Eles deviam nos dar um desconto pela quantidade! — Esa sorriu sarcasticamente de seu próprio gracejo.

Minha querida mãe — Imhotep olhou para ela horrorizado. — Isso não é uma brincadeira!

A vida é uma brincadeira, Imhotep; e é a morte quem ri por último. Você não ouve isso em todas as festas? Coma, beba e seja feliz porque amanhã você morrerá? Bem, isso é bem verdade para nós... a única dúvida é saber quem morrerá amanhã.

O que você está dizendo é terrível... terrível! Que podemos fazer?

Não confie em ninguém — disse Esa. — Isto é o principal, a coisa mais vital que se tem a fazer. — Repetiu com ênfase: — Não confie em ninguém.

Henet começou a soluçar.

— Por que olha para mim ? Estou certa de que se ninguém mais é digno de confiança, eu sou. Eu o provei ao longo de todos esses anos. Não preste atenção ao que ela diz, Imhotep.

— Calma, calma, minha boa Henet; decerto que eu confio em você. Conheço bastante bem seu coração devotado e verdadeiro.

— Você não sabe de nada — disse Esa. — Nenhum de nós sabe de nada. É por isso que corremos perigo.

— Você me acusou — choramingou Henet.

— Não posso acusar. Não tenho nem conhecimento nem provas... apenas suspeitas.

Imhotep olhou-a aguçadamente.

— Você tem suspeitas... de quem?

Esa disse devagar: — Suspeitei uma vez... duas vezes... e uma terceira vez. Serei honesta. Primeiro eu suspeitei de Ipy; mas Ipy está morto, logo minha suspeita era falsa. Então eu suspeitei de outra pessoa; mas, exatamente no dia da morte de Ipy uma terceira idéia me ocorreu...

Ela fez uma pausa.

— Hori e Kameni estão em casa? Mande-os vir até aqui... e também Renisenb, sim, mande-a vir da cozinha. E Kait e Yahmose. Tenho algo a dizer e todos na casa devem ouvi-lo.

 

Esa olhou para a família reunida. Encontrou o olhar grave e gentil de Yahmose, o sorriso pronto de Kameni, o assustado olhar inquiridor de Renisenb, o olhar plácido e indiferente de Kait, a quieta inescrutabilidade do olhar pensativo de Hori, o irritante receio na face Contorcida de Imhotep e a ávida curiosidade e — sim — o prazer nos olhos de Henet.

Ela pensou: “Seus olhos nada me dizem. Mostram apenas a emoção exterior. No entanto, e com toda certeza, deve haver alguma traição”.

Em voz alta, disse: — Tenho algo a dizer a todos vocês; mas, em primeiro lugar, falarei apenas a Henet: perante todos.

A expressão de Henet mudou — a avidez e o prazer se foram. Ela parecia amedrontada. Sua voz elevou-se num agudo protesto.

— Você suspeita de mim, Esa. Eu sabia disso! Você vai levantar hipóteses contra mim e como poderei eu, uma pobre mulher de pouca inteligência, me defender? Eu serei condenada — condenada sem ser ouvida.

— Não sem ser ouvida — disse Esa ironicamente, vendo o sorriso de Hori.

Henet continuou, sua voz tornando-se cada vez mais e mais histérica.

— Não fiz nada... sou inocente.. Imhotep, meu senhor querido, salve-me... — Ela atirou-se no chão e o agarrou pelos joelhos. Imhotep, indignado, começou a falar precipitadamente, enquanto afagava a cabeça de Henet.

— Realmente, Esa, eu protesto: isso é vergonhoso...

Esa interrompeu-o bruscamente.

— Não fiz acusação alguma; não acuso sem provas. Peço apenas que Henet nos explique o significado de certas coisas que disse.

— Eu não disse nada, nada mesmo...

— Oh, sim, você disse — volveu Esa. — Há palavras que ouvi com meus próprios ouvidos; e meus ouvidos são aguçados, embora minha vista seja fraca. Você devia saber alguma coisa sobre Hori. Bem, o que é que você sabe sobre Hori?

Hori mostrou-se levemente surpreso.

— Sim, Henet — disse ele. — Que sabe você sobre mim? Vamos ver.

Henet sentou-se e enxugou os olhos. Parecia zangada e desafiadora.

— Não sei de nada — disse. — O que deveria eu saber?

— É o que estamos esperando que nos diga — replicou Hori. Henet sacudiu os ombros.

— Eu estava apenas falando. Não quis dizer nada.

Esa disse: — Eu irei repetir para você suas próprias palavras. Você disse que nós todos a desprezamos, mas que você sabia de muitas coisas que estavam acontecendo nesta casa... e que você podia ver melhor do que o fariam pessoas inteligentes.

— Depois disse que quando Hori a encontrava, ele a olhava como se você não existisse, como se visse algo atrás de você, algo que não estava lá.

— Ele sempre olha assim — disse Henet mal-humorada. — É como se eu fosse um inseto, pela forma como ele me olha; uma coisa sem a menor importância.

Esa disse lentamente.

Essa frase ficou na minha cabeça: alguma coisa atrás, algo que não estava lá. Henet disse “Ele deveria olhar para mim”. E continuou, falando de Satipy; sim, de Satipy e de como Satipy era inteligente, mas onde estava Satipy agora...

Esa olhou em volta.

— Isso não significa nada para vocês? Pensem em Satipy: Satipy que está morta. E lembrem-se que se deve olhar para uma pessoa e não para algo que não está lá...

Houve um momento de silêncio mortal e então Henet gritou. Foi um grito alto e agudo; um grito que parecia ser de puro terror. Ela gritava incoerentemente:

— Eu não... salve-me, senhor, não a deixe... Eu não disse nada... nada.

A raiva contida de Imhotep explodiu.

— Isso é imperdoável — berrou. — Não quero ver esta pobre mulher apavorada e nem acusada. O que você tem contra ela? Pelas suas próprias palavras, absolutamente nada.

Yahmose juntou-se a ele sem sua timidez usual.

— Meu pai está certo. Se você tem uma acusação precisa contra Henet, traga-a à tona.

— Eu não a estou acusando — disse Esa devagar.

Ela se apoiou no bastão. Sua figura parecia ter encolhido. Sua voz soava lenta e pesadamente.

Yahmose voltou-se autoritário para Henet.

— Esa não está lhe acusando de ter causado os males que nos têm ocorrido, mas, se a entendi bem, ela acredita que você conhece coisas que nos está ocultando. Portanto, Henet, se existe alguma coisa que você saiba, sobre Hori ou outra pessoa, chegou a hora de falar. Aqui, diante de todos. Que informações você tem?

Henet balançou a cabeça.

— Nenhuma.

— Esteja bem certa do que está dizendo, Henet. Informações podem ser perigosas.

— Eu não sei nada. Eu juro. Juro pelos Nove Deuses do Ennead, pela Deusa Maat, pelo próprio Rê.

Henet estava tremendo. Sua voz nada tinha daquela afetada maneira chorosa. Soava respeitosa e sincera.

Esa suspirou. Sua figura curvou-se para a frente. Ela murmurou:

— Ajudem-me a voltar para o meu quarto.

Hori e Renisenb vieram rapidamente até ela.

Esa disse: — Você não, Renisenb. Eu quero Hori.

Ela se apoiou em Hori, que a conduziu da sala em direção a seus próprios aposentos. Olhando para ele, observou que seu rosto parecia austero e infeliz.

Ela murmurou: — Bem, Hori?

— Você foi imprudente, Esa, muito imprudente.

— Eu tinha de saber.

— Sim, mas o risco foi terrível.

— Sei. Então, você também pensa da mesma forma?

— Tenho pensado assim por algum tempo, mas não existem provas, nem uma sombra de prova. E mesmo agora, Esa, você não tem provas. Está tudo na sua cabeça.

— É suficiente que eu saiba.

— Talvez seja demais.

— Como assim? Ah, sim, claro.

— Cuide-se, Esa. De agora em diante você corre perigo.

— Devemos tentar agir rapidamente.

— Claro que sim, mas o que podemos fazer? Deve haver provas.

— Eu sei.

Nada mais puderam dizer. A pequena criada de Esa veio correndo para sua ama. Hori a entregou aos cuidados da menina e se foi. Seu rosto estava grave e perplexo.

A pequena criada falava, mexia e remexia em volta de Esa, mas esta praticamente não a notava. Sentia-se velha, doente, com frio... Mais uma vez ela viu o atento círculo de faces olhando-a enquanto falava.

Apenas um olhar — um faiscar momentâneo de medo e entendimento — estaria ela errada? Poderia estar tão certa do que tinha visto? Afinal, seus olhos eram fracos...

Sim, ela estava certa. Fora menos uma expressão do que a súbita tensão de todo um corpo — um endurecimento — uma rigidez. Para uma pessoa, e apenas uma, suas desconexas palavras tinham feito sentido. Esse sentido mortal e infalível que é verdadeiro...

 

                       Segundo Mês de Verão - Décimo Quinto Dia

 

— Agora que o problema está colocado diante de você, Renisenb, o que você tem a dizer?

Renisenb olhava incerta de seu pai para Yahmose. Sua cabeça estava pesada e confusa.

— Não sei. — As palavras saíram de seus lábios sem qualquer expressão.

— Em condições normais — continuou Imhotep —, haveria tempo suficiente para discussões. Tenho outros parentes e poderíamos escolher e rejeitar, até encontrarmos o marido mais conve­niente para você. Mas como é incerto... sim, a vida é incerta.

Sua voz vacilou. Ele continuou.

— É assim que estão as coisas, Renisenb. A morte nos espreita hoje, aos três. Yahmose, você e eu. Qual de nós será o próximo a ser atingido pelo perigo? Portanto, é conveniente que eu ponha meus negócios em ordem. Se alguma coisa acontecer a Yahmose, você, minha única filha, precisará de um homem para ficar ao seu lado, compartilhar de sua herança, realizar tarefas na minha propriedade que não podem ser efetuadas por uma mulher. Pois quem pode dizer quando eu serei afastado de vocês? Estabeleci em meu testamento que a tutela e guarda das crianças de Sobek ficarão a cargo de Hori, caso Yahmose não esteja mais vivo, assim como a tutela dos filhos de Yahmose, já que essa é a sua vontade, não é Yahmose?

Yahmose assentiu.

— Hori tem sempre estado muito próximo a mim. É como se pertencesse à minha própria família.

— Exato, exato — disse Imhotep. Porém o fato é que ele não é da família. Mas Kameni, sim. Portanto, considerando todos os fatos, ele é o melhor marido disponível para Renisenb, no momento. Então, o que diz, Renisenb?

— Não sei — Renisenb repetiu novamente.

Ela sentiu um terrível cansaço.

— Ele é bonito e agradável, você concorda?

— Oh, sim.

— Mas você não quer se casar com ele? — perguntou Yahmose gentilmente.

Renisenb lançou um olhar agradecido a seu irmão. Ele estava tão resoluto que ela não precisaria se apressar ou se aborrecer em fazer o que não queria.

— Eu realmente não sei o que quero fazer. — E continuou apressada. — É estúpido, eu sei, mas sinto-me estúpida hoje. Deve ser a pressão sob a qual estamos vivendo.

— Com Kameni ao seu lado você se sentirá protegida — disse Imhotep.

Yahmose perguntou ao pai: — Você já pensou em Hori como um possível marido para Renisenb?

— Bem, sim, é uma possibilidade...

— Sua mulher morreu quando ele ainda era jovem. Renisenb o conhece bem e gosta dele.

Para Renisenb aquilo não fazia sentido. Era o seu casamento que estavam discutindo e Yahmose estava tentando ajudá-la a escolher o que ela própria queria, mas ela se sentiu tão sem vida como a boneca de madeira de Teti.

Disse então abruptamente, interrompendo-os sem mesmo ouvir o que estavam dizendo:

— Eu me casarei com Kameni, já que vocês acreditam ser uma boa coisa.

Imhotep soltou uma exclamação de contentamento e saiu às pressas do salão. Yahmose aproximou-se da irmã e colocou-lhe a mão no ombro.

— Você quer esse casamento, Renisenb? Você será feliz?

— Por que não seria feliz? Kameni é bonito, alegre e gentil.

— Eu sei. — Yahmose ainda parecia insatisfeito e em dúvida. — Mas a sua felicidade é importante, Renisenb. Você não deve permitir que meu pai imponha algo que você não deseja. Você sabe como ele é.

— Oh, sim, quando ele põe alguma coisa na cabeça, todos temos de nos curvar.

— Não necessariamente. — Yahmose falou com firmeza. — Neste caso, eu não irei me curvar a não ser que você o queira.

— Oh, Yahmose, você nunca se põe contra o nosso pai.

— Mas o farei neste caso. Ele não pode me forçar a concordar com ele, e eu não o farei.

Renisenb elevou o olhar até ele. Quão resoluto e determinado estava seu rosto sempre tão indeciso!

— Você é bom para mim, Yahmose — ela disse agradecida. — Mas realmente eu não estou me rendendo à coação. A antiga vida daqui, a vida que eu estava tão encantada de poder voltar a viver, já não existe. Kameni e eu construiremos uma nova vida juntos e viveremos como bons irmão e irmã.

— Se você tem certeza...

— Tenho certeza — disse Renisenb e, sorrindo-lhe afetuosamente, saiu do salão em direção ao pórtico.

De lá, cruzou o pátio. Próximo à extremidade do lago, Kameni estava brincando com Teti. Renisenb aproximou-se suavemente e os olhou enquanto ainda não se haviam dado conta de sua presença. Kameni, alegre como sempre, parecia gostar do jogo tanto quanto a criança. Seu coração bateu forte por ele. Pensou: “Ele será um bom pai para Teti.”

Então Kameni virou a cabeça, viu Renisenb e levantou-se com uma risada.

— Transformamos a boneca de Teti num sacerdote de Ka — disse. — E ele está fazendo as oferendas e participando das cerimônias no Túmulo.

— Seu nome é Meriptah — disse Teti, que estava muito séria.

— Ele tem dois filhos e um escriba, como Hori.

Kameni riu. — Teti é muito inteligente — disse. — E ela é forte e bonita também.

Seus olhos foram da criança para Renisenb e, nesse olhar carinhoso, Renisenb leu o pensamento que lhe ia na mente: o filho que ela um dia daria a ele.

Isso lhe provocou uma leve excitação, mas ao mesmo tempo um repentino e intenso remorso. Gostaria de ter visto, nos seus olhos, naquele momento, apenas sua própria imagem. Ela pensou: “Por que não pode ser apenas Renisenb o que ele vê?”

Então o sentimento passou e ela lhe sorriu gentilmente.

— Meu pai falou comigo — disse ela.

— E você consentiu?

Hesitou por um momento antes de responder:

Eu consinto.

A última palavra havia sido dita, aquilo era o fim. Estava tudo acertado. Ela gostaria de não estar se sentindo tão cansada e entorpecida.

Renisenb?

Sim, Kameni.

Você vai velejar comigo no rio, num barco de passeio? Isso é uma coisa que eu sempre quis fazer com você.

Era curioso que ele dissesse isso. No momento exato em que ela o vira pela primeira vez, havia pensado numa vela quadrada e no rio, e no rosto risonho de Khay. E agora ela havia se esquecido do rosto de Khay e no lugar dele, contra a vela e o rio, estaria Kameni sentado e rindo para os seus olhos.

Aquilo era a morte. Isso era o que a morte fazia com você. “Eu sentia isto”, você diz, “Eu sentia aquilo” — mas você apenas diz isso, você agora não sente nada. O morto estava morto. Não existia tal coisa como recordação.

Sim, mas havia Teti. Havia a vida e a renovação da vida, assim como as águas das inundações anuais varriam o que era velho e preparavam o solo para o novo plantio.

Kait havia dito: “As mulheres de uma casa devem permanecer unidas.” O que era ela, afinal, senão uma das mulheres da casa? Se era Renisenb ou uma outra, que diferença?

Então ouviu a voz de Kameni, ansiosa, um pouco confusa.

— Em que está pensando, Renisenb? Você às vezes fica tão distante... Você irá comigo ao rio?

Sim, Kameni, eu irei com você.

Nós levaremos Teti também.

 

Era como um sonho, pensou Renisenb — o barco, a vela, Kameni, ela mesma e Teti. Eles haviam escapado da morte e do medo da morte. Esse era o começo de uma nova vida.

Kameni falava e ela respondia como se em transe...

“Essa é a minha vida,” pensou ela, “não há como fugir...”

Então perplexa: “Mas por que eu digo para mim mesma fugir? Que lugar é esse para onde eu posso fugir?”

E novamente apareceu diante de seus olhos o pequeno quarto de pedra ao lado do Túmulo, e ela sentada com o joelho levantado e o queixo repousando na mão...

Pensou: “Mas aquilo era algo à parte da vida — isso é vida — e agora não havia mais meio de fugir até a morte...”

Kameni ancorou o barco e ela pisou na praia. Ele trouxe Teti para fora. A criança agarrou-se ao pescoço de Kameni e arrebentou a corda do amuleto que ele usava. Este veio cair aos pés de Renisenb. Ela o apanhou. Era um símbolo de Ankh feito de eletro e ouro.

Deu um gritinho de pesar. — Está amassado, lamento. Tenha cuidado... — Kameni tomou-o de suas mãos. — Pode quebrar — ela disse.

Mas seus dedos fortes, curvando-o ainda mais, fizeram-no deliberadamente partir-se em dois.

— Oh, o que você fez?

— Tome esta metade, Renisenb, e eu ficarei com a outra. Será um símbolo entre nós: de que nós somos as duas metades de um todo.

Justo quando esticava sua mão para pegá-lo, alguma coisa estalou no seu cérebro e ela tomou fôlego repentinamente.

— Que foi, Renisenb?

— Nofret.

— O que você quer dizer com... — Nofret?

Renisenb falou com uma certeza imediata.

— O amuleto quebrado na caixa de jóias de Nofret. Foi você quem o deu a ela... Você e Nofret... Vejo tudo claramente, agora. Por que ela era tão infeliz. Sei quem pôs a caixa de jóias no meu quarto. Sei de tudo... Não minta para mim, Kameni. Estou-lhe dizendo que sei.

Kameni não protestou. Permaneceu olhando para ela fixamente e seu olhar não vacilou. Quando falou, sua voz era grave e, desta vez, não havia um sorriso em seu rosto.

— Não mentirei para você, Renisenb.

Ele esperou por um momento, franzindo as sobrancelhas, como que tentando ordenar seus pensamentos.

— De certo modo, Renisenb, estou feliz por você saber. Embora não seja exatamente como você está pensando.

— Você deu o amuleto quebrado para ela... como teria dado para mim, como um símbolo de que vocês eram metades de um mesmo todo. Essas foram suas palavras.

— Você está com raiva, Renisenb. Fico contente porque isto demonstra que você me ama. Mas, em todo caso, tenho que fazê-la entender. Eu não dei o amuleto a Nofret. Ela o deu a mim...

Ele fez uma pausa. — Talvez você não me acredite, mas é verdade, Eu juro que é verdade.

Renisenb disse vagarosamente: — Não vou dizer que não acredito em você... Isso pode perfeitamente ser verdade.

A face escura e triste de Nofret apareceu diante de seus olhos.

Kameni continuava, impulsiva e singelamente...

— Tente compreender, Renisenb. Nofret era muito bonita. Eu me senti lisonjeado e satisfeito... quem não ficaria? Mas eu realmente nunca a amei...

Renisenb sentiu uma estranha pontada de compaixão. Não, Kameni não havia amado Nofret; mas Nofret havia amado Ka­meni; amara-o desesperada e amargamente. Fora exatamente nesta parte do Nilo que ela havia falado com Nofret naquela manhã, oferecendo-lhe amizade e afeição. Lembrava-se muito bem da negra corrente de ódio e miséria que emanava da moça naquele dia. A causa disso estava agora bastante clara. Pobre Nofret... a concubina de um velho irrequieto, o coração sendo corroído pelo amor por um alegre, despreocupado e belo jovem que ligava muito pouco ou nada para ela.

Kameni continuava ansiosamente.

— Você não percebe, Renisenb, que logo quando aqui cheguei eu a vi e a amei? Que desde aquele instante eu não pensei em mais ninguém? Nofret percebeu-o claramente.

Sim, pensou Renisenb, Nofret percebeu-o. E desde aquele momento Nofret a odiou; e Renisenb não se sentiu inclinada a condená-la.

— Eu nem mesmo queria escrever aquela carta para o seu pai. Não queria mais me envolver com os esquemas de Nofret. Mas era difícil... você tem que tentar entender que era difícil.

— Sim, sim — Renisenb falou impacientemente. — Nada disso importa. Só Nofret interessa. Ela era muito infeliz. Ela o amou, penso eu, e muito.

— Bem, eu não a amava — retrucou Kameni.

— Você é cruel — afirmou Renisenb.

— Não, eu sou um homem e isso é tudo. Se uma mulher escolhe desgraçar-se por minha causa, isso me incomoda, esta é a pura verdade. Eu não queria Nofret. Eu queria você. Oh, Renisenb, você não pode ficar zangada comigo por causa disso!

Ela sorriu, mesmo sem querer.

— Não deixe Nofret, que está morta, causar problemas entre nós que estamos vivos. Eu amo você, Renisenb, e você me ama; e isso é tudo o que importa.

“Sim”, pensou Renisenb, “isso é tudo que importa...”

Olhou para Kameni, que permanecia em pé, com sua cabeça um pouco caída para o lado e uma expressão suplicante em seu rosto alegre e confiante. Ele parecia muito jovem.

Renisenb pensou: “Ele está certo. Nofret está morta e nós estamos vivos. Compreendo agora o seu ódio por mim... e lamento que ela tenha sofrido, mas não foi minha culpa. E também não se pode culpar Kameni por amar a mim e não a ela. Essas coisas acontecem”.

Teti, que estava brincando nas margens do rio, aproximou-se e puxou a mão de sua mãe.

— Vamos para casa agora? Mamãe, vamos para casa?

Renisenb deu um profundo suspiro.

— Sim — respondeu —, vamos para casa.

Foram andando em direção à casa, Teti correndo um pouco adiante.

Kameni deu um suspiro de satisfação.

— Você é generosa, Renisenb, tanto quanto encantadora. Tudo está como antes entre nós?

— Sim, Kameni. Tudo está como antes.

Ele abaixou a voz. — Lá no rio... eu estava muito feliz. Você também estava feliz, Renisenb?

— Sim, eu estava feliz.

— Você parecia feliz; mas dava a impressão de que estava pensando em algo muito distante. Eu queria que você estivesse pensando em mim.

— Eu estava pensando em você.

Kameni pegou-lhe a mão e ela não a retirou. Ele sussurrou meigamente:

— Minha irmã é como uma árvore...

Sentiu a mão de Renisenb tremer na dele, ouviu-lhe a respiração apressada e ficou finalmente satisfeito...

 

Renisenb chamou Henet ao seu quarto.

Henet entrou apressadamente, estacando abruptamente quando viu Renisenb em pé, junto à caixa de jóias aberta e com o amuleto quebrado na mão. O rosto de Renisenb estava zangado e severo.

Você pôs esta caixa de jóias no meu quarto, não pôs, Henet? Você queria que eu achasse este amuleto; queria que eu um dia...

Descobrisse quem tinha a outra metade? Vejo que descobriu. Bem, é sempre bom saber, não é, Renisenb?

Henet riu encarnecedoramente.

Você queria que eu soubesse para me ferir — disse Renisenb furiosa. — Você gosta de magoar as pessoas, não é, Henet? Você nunca fala por falar; espera até que chegue o momento certo. Você nos odeia a todos, não é? Sempre odiou.

O que está dizendo, Renisenb? Estou certa de que você falou sem pensar!

Não havia agora lamento na voz de Henet, apenas um triunfo dissimulado.

Você queria causar problemas entre mim e Kameni. Bem, não há problemas.

Isso foi muito bom e generoso de sua parte, Renisenb, estou certa. Você é bem diferente de Nofret, não?

Não vamos falar de Nofret.

Sim, talvez seja melhor. Kameni tem sorte, além de ser bonito, não? Ele teve sorte de Nofret ter morrido. Ela poderia ter-lhe causado muitos problemas. Com seu pai. Ela não gostaria de vê-lo casado com você... não, ela não gostaria nem um pouco. Na verdade, creio que ela encontraria algum meio de impedi-lo. Estou quase certa disso.

Renisenb olhou para ela com uma repugnância gélida.

— Há sempre veneno em sua língua, Henet. Ela pica como um escorpião. Mas você não pode fazer-me infeliz.

— Bem, isso é esplêndido, não? Você deve estar muito apaixonada. Oh, ele é um belo homem, Kameni; e sabe como cantar uma bela canção de amor. Ele sempre conseguirá o que quer, não tema. Eu o admiro, realmente. Ele sempre parece tão simples e honesto...

— Que está tentando dizer?

— Estou apenas dizendo que admiro Kameni. E tenho quase certeza de que ele é simples e honesto. Não é fingimento. A coisa toda é bem parecida com uma daquelas histórias contadas nos bazares. O pobre e jovem escriba casa-se com a filha do patrão, divide com ela toda a herança e os dois acabam vivendo felizes para sempre. É maravilhosa a sorte que todo belo jovem sempre tem.

— Sei — disse Renisenb. — Você realmente nos odeia.

— Como pode dizer isso, Renisenb, quando sabe que me tornei escrava de todos vocês desde que sua mãe morreu?

Mas ainda havia um triunfo maléfico na voz de Henet, ao invés do costumeiro lamento.

Renisenb olhou para a caixa de jóias e, de súbito, uma outra certeza surgiu em sua mente.

— Foi você quem colocou o colar com os leões de ouro nesta caixa. Não negue, Henet. Sei o que estou dizendo.

O triunfo dissimulado de Henet desapareceu. De repente ela pareceu intimidada.

— Não pude evitar, Renisenb. Eu estava assustada...

— Que quer dizer com assustada?

Henet chegou um passo mais para perto e abaixou a voz.

— Ela o deu para mim... Nofret, quero dizer. Oh, algum tempo antes de morrer. Ela me deu um ou dois presentes. Nofret era generosa, você sabe. Oh, sim, era generosa.

— Eu diria que ela lhe pagava bem.

— Essa não é uma maneira gentil de colocar a coisa, Renisenb, mas estou-lhe contando tudo a respeito. Ela me deu o colar com os leões de ouro, o broche de ametista e mais uma ou duas coisas. E então, quando aquele menino apareceu contando aquela história de que tinha visto uma mulher usando o colar... bem, eu fiquei assustada. Pensei que talvez pensassem que havia sido eu que tinha envenenado o vinho de Yahmose. Então coloquei o colar na caixa.

— Isto é verdade, Henet? Você alguma vez fala a verdade?

— Juro que é verdade, Renisenb. Eu estava assustada...

Renisenb olhou-a curiosamente. — Você está tremendo, Henet. Você parece que está com medo.

— Sim, estou assustada... e tenho boas razões para estar.

— Por quê? Diga-me.

Henet molhou os finos lábios. Olhou para os lados e para trás. Seus olhos eram os de um animal acuado.

— Diga-me — volveu Renisenb.

Henet sacudiu a cabeça. Disse numa voz incerta:

— Não há nada para contar.

— Você sabe demais, Henet. Você sempre soube demais. Você gostava disso, mas agora é perigoso. É isso, não?

Henet sacudiu a cabeça de novo. Riu então maliciosamente.

— Espere, Renisenb. Um dia ainda hei de empunhar o chicote nesta casa... e estalá-lo. Espere e verá.

Renisenb levantou-se. — Você não me fará nenhum mal, Henet. Minha mãe não permitirá que você me faça mal.

O rosto de Henet transformou-se; seus olhos faiscaram.

— Eu odiava sua mãe — disse. — Eu sempre a odiei... E também você, que tem os olhos dela... sua voz, sua beleza e sua arrogância, eu odeio você, Renisenb.

Renisenb riu. — Afinal... eu a fiz falar!

 

                         Segundo Mês de Verão - Décimo Quinto Dia

 

A velha Esa mancava com dificuldade pelo quarto.

Ela estava perplexa e exausta. A idade, chegara a essa conclusão, estava cobrando seus tributos. Há muito tempo que havia tomado conhecimento do cansaço do seu corpo. Mas estava consciente de que não havia cansaço da mente. Agora, porém, tinha de admitir que a força de se manter alerta mentalmente estava sobrecarregando suas reservas corporais.

Muito embora sabendo, como acreditava que sabia, de que quadrante o perigo ameaçava, ainda assim esse conhecimento não lhe permitia um relaxamento mental. Ao invés disso, tinha de estar mais do que nunca em guarda, uma vez que havia atraído a atenção para si mesma. Provas... provas... tinha de encontrar provas; mas como?

Era aí, ela concluiu, que a idade atrapalhava. Estava muito cansada para improvisar... para fazer um esforço mental criativo. Somente era capaz de se defender... permanecer alerta, atenta e precavida.

Quanto ao assassino, não tinha ilusões a esse respeito: ele estaria pronto para matar novamente.

Não tinha a menor intenção de ser a próxima vítima. Veneno, tinha certeza, seria o meio utilizado. Violência não era concebível, uma vez que ela nunca estava sozinha, mas sempre cercada por criados. Portanto seria veneno. Contra isso podia se prevenir. Renisenb cozinharia e traria comida para ela. Mandaria trazer para o seu quarto uma jarra de vinho e, depois que um escravo o provasse, esperaria vinte e quatro horas para poder ficar certa de que nenhum resultado maléfico sucederia. Faria com que Re­nisenb partilhasse de sua comida e de seu vinho — embora nada temesse por Renisenb ainda. Talvez jamais tivesse que temer por Renisenb. Mas quanto a isso, nunca se podia estar certo.

Às vezes, ficava sentada, imóvel, forçando seu fatigado cérebro a planejar uma maneira de provar a verdade, ou observando sua pequena criada engomando e pregueando seus vestidos de linho, e reenfiando colares e braceletes. Esta tarde ela estava muito cansada. Encontrara-se com Imhotep, a pedido dele, para discutir a questão do casamento de Renisenb, antes de ele próprio ter falado com a filha.

Imhotep, encolhido e mal-humorado, era uma sombra do que havia sido. Seus modos tinham perdido a antiga pompa e segurança. Ele agora se apoiava na vontade indomável e na determinação de sua mãe.

Quanto a Esa, ela estava receosa — muito receosa — de dizer a coisa errada. De palavras imprudentes poderiam depender vidas.

Sim, concordara finalmente, a idéia de casamento era sábia. E não havia muito tempo para se ir a campo à procura de um marido entre os membros mais importantes do clã familiar. Afinal, a linha feminina era a mais importante: seu marido seria apenas o administrador da herança que caberia a Renisenb e seus filhos.

A questão era decidir entre Hori, um homem íntegro, cuja amizade fora longamente provada, filho de um pequeno proprietário cujas terras haviam-se juntado às deles; ou o jovem Kameni, com suas reivindicações de primo.

Esa pesou o assunto cuidadosamente antes de falar. Uma palavra em falso... e o resultado poderia ser desastroso.

Conseguiu então chegar a uma solução, que enfatizou com a força de sua indomável personalidade. Kameni, disse ela, era sem dúvida o marido para Renisenb. Os problemas e as respectivas festividades necessárias — muito reduzidas devido às recentes perdas — poderiam ser realizados dali a uma semana. Isto se Renisenb estivesse querendo. Kameni era um jovem saudável... juntos teriam filhos fortes. Além disso, eles se amavam.

Bem, pensou Esa, ela havia jogado com sua morte. Agora a coisa seria decidida no tabuleiro. Estava fora de suas mãos. Ela havia feito o que julgou ser conveniente. Se era arriscado — bem, Esa gostava de uma partida no tabuleiro quase tanto quanto Ipy.

A vida não era uma questão de segurança — era preciso expor-se para poder ganhar o jogo.

Ela olhou suspeitosamente em torno do seu quarto quando voltou para o mesmo. Examinou principalmente a jarra de vinho: estava coberta e lacrada como havia deixado. Ela sempre a lacrava quando deixava o quarto e o selo estava pendurado em segurança no seu pescoço.

Sim — não correria riscos daquele tipo. Esa cacarejou com uma satisfação maliciosa. Não era tão fácil matar uma velha. As velhas conhecem o valor da vida... e quase todos os truques, também. Amanhã... Chamou sua criada.

— Onde está Hori? Você sabe?

A menina respondeu que achava que Hori estava lá em cima no Túmulo, no quarto de pedra.

Esa anuiu satisfeita.

— Vá lá em cima falar com ele. Diga-lhe que amanhã de manhã, quando Imhotep e Yahmose estiverem nas plantações, juntamente com Kameni, para que ele faça a contagem, e quando Kait estiver no lago com as crianças, que ele deverá vir até aqui falar comigo. Você entendeu? Pois então repita.

A criada repetiu e Esa a dispensou.

Sim, seu plano era bastante satisfatório. Sua consulta com Hori seria bastante particular, uma vez que mandaria Henet levar uma mensagem para os galpões de tecelagem. Avisaria a Hori o que estava para acontecer e eles poderiam conversar abertamente.

Quando a criada voltou com a mensagem de Hori, dizendo que ele faria como ela havia dito. Esa deu um suspiro de alívio.

Agora, arranjadas essas coisas, sua exaustão espalhou-se por todo o corpo como se fosse uma onda. Pediu à menina que lhe trouxesse o pote de ungüento de cheiro adocicado e massageasse seus membros.

O movimento ritmado reconfortou-a e o ungüento melhorou a dor de seus ossos.

Finalmente esticou-se, a cabeça apoiada no travesseiro de madeira e dormiu, aliviada por alguns momentos de seus te­mores.

Acordou bem mais tarde com uma estranha sensação de friagem. Seus pés e mãos estavam dormentes e mortos... Era como uma contração que se ia apoderando de todo seu corpo. Pôde senti-la entorpecendo seu cérebro, paralisando sua vontade e diminuindo as batidas de seu coração.

Pensou: “Isso é a Morte...”

Uma morte estranha... uma morte sem arautos, sem aviso prévio.

Era assim, pensou ela, que os velhos morriam...

Veio-lhe então uma convicção fulminante. Isso não era morte natural! Era o Inimigo arremetendo da escuridão.

Veneno...

Mas como? Quando? Tudo que havia comido, tudo que havia bebido — testado, seguro — não podia ter havido engano.

Então como? Quando?

Com suas últimas e frágeis centelhas de inteligência, Esa procurou penetrar o mistério. Tinha de saber — tinha — antes de morrer.

Sentiu a pressão aumentando sobre o seu coração — a friagem mortal — a lenta e dolorosa expiração.

Como é que o inimigo havia feito tal coisa?

De súbito, vinda de algum lugar no passado, uma fugidia lembrança clareou-lhe as idéias. A pele tonsurada de uma ovelha... um bocado de gordura... uma experiência de seu pai para demonstrar que alguns venenos podiam ser absorvidos pela pele. Lanolina, ungüentos feitos de lanolina! Tinha sido assim que o inimigo a alcançara. Seu pote de ungüento de cheiro adocicado, tão necessário para a mulher egípcia. O veneno estava lá...

E amanhã... Hori... ele não saberia, ela não poderia dizer-lhe... Era tarde demais.

Pela manhã, a assustada criada saiu correndo pela casa dizendo que sua senhora havia morrido durante o sono.

 

Imhotep permaneceu olhando para o corpo de Esa. Seu rosto estava pesaroso, mas não desconfiado.

Sua mãe, disse ele, havia morrido naturalmente devido à sua idade avançada.

— Ela era velha — afirmou. — Sim, ela estava velha. Já era tempo, sem dúvida, de ela ir para Osíris e todos os seus problemas e tristezas haviam acelerado seu fim. Mas parecia que este viera bastante pacificamente. Graças a Rê em sua misericórdia, eis aqui uma morte sem a interferência do homem ou dos maus espíritos. Não há violência aqui. Vejam como ela parece tranqüila,

Renisenb chorou e Yahmose confortou-a. Henet andava por ali suspirando e abanando a cabeça, dizendo que era uma grande perda e quão dedicada ela, Henet, tinha sido para Esa. Kameni interrompeu seu canto e mostrou no rosto o luto apropriado.

Hori chegou e ficou olhando para a mulher morta. Era a hora que ela havia combinado para que viesse. Procurava imaginar o que, exatamente, ela queria lhe dizer.

Esa devia ter algo definitivo para lhe dizer.

Agora ele jamais saberia.

Mas pensou que talvez pudesse adivinhar...

 

                         Segundo Mês de Verão - Décimo Sexto Dia

 

— Hori... ela foi assassinada?

Creio que sim, Renisenb.

Como?

Não sei.

Mas ela era tão cuidadosa! — A voz da moça era angustiada e confusa. — Estava sempre atenta; tomava todas as precauções. Tudo que comia ou bebia era provado e exami­nado.

Eu sei, Renisenb, mas, mesmo assim, creio que foi assassinada.

E ela era a mais sábia de todos nós... a mais esperta! Ela estava certa de que nenhum mal poderia ocorrer-lhe. Hori, tem de ser magia! Magia malvada, o encanto de um mau espírito.

— Você acredita nisso porque é a coisa mais fácil de se acreditar. As pessoas são assim. Mas a própria Esa não teria acreditado nisso. Pois se sabia, antes de morrer, e ela não morreu durante o sono, que isso era trabalho de uma pessoa viva!

E ela sabia de quem?

Sim, ela mostrou sua suspeita muito abertamente. Ela se tornou um perigo para o inimigo. O fato de Esa ter morrido prova que suas suspeitas estavam certas.

E ela lhe contou... quem era?

Não — disse Hori. — Ela não me contou; nunca men­cionou um nome. Mesmo assim, seu pensamento e o meu eram, estou convencido, os mesmos.

Então você tem de me contar, Hori, para que eu possa ficar em guarda.

Não, Renisenb, preocupo-me demais com a sua segu­rança para fazer isso.

— Acaso estou assim tão segura?

O rosto de Hori turvou-se. Ele disse: — Não, Renisenb, você não está segura. Ninguém está seguro. Mas você está muito mais segura do que se estivesse sabendo da verdade... pois então você passaria a ser definitivamente uma ameaça a ser eliminada a qualquer preço.

— E quanto a você, Hori? Você sabe.

Ele a corrigiu. — Eu penso que sei. Mas não disse nada nem demonstrei nada. Esa foi imprudente. Ela deixou claro; mostrou a direção que seus pensamentos estavam tomando. Ela não devia ter feito isso.... eu lhe disse mais tarde.

— Mas você, Hori... Se alguma coisa acontecer com você...

Calou-se. Estava consciente dos olhos de Hori que fitavam os seus.

Graves, atentos, olhando diretamente para sua mente e seu coração...

Ele tomou sua mãos suavemente.

— Não tema por mim, pequena Renisenb... Tudo se resolverá.

Sim, pensou ela, tudo se resolverá, se Hori assim o diz. Estranha sensação aquela de contentamento, de paz, uma felicidade clara e esfuziante... Tão encantadora e remota quanto a paisagem vista do Túmulo... uma paisagem na qual não havia o clamor das exigências e restrições humanas.

De súbito, quase rispidamente, ela se ouviu dizendo:

— Vou me casar com Kameni.

Hori largou-lhe as mãos, tranqüila e até naturalmente.

— Eu sei, Renisenb.

— Eles... meu pai... eles pensam que é o melhor que se tem a fazer.

— Eu sei.

Hori se retirou.

Os muros do pátio pareciam se aproximar, as vozes dentro de casa e dos celeiros lá fora soavam altas e barulhentas.

Renisenb tinha apenas um pensamento em sua mente: “Hori está indo embora...”

Chamou-o timidamente:

— Hori, onde você vai?

— Para os campos com Yahmose. Há muito trabalho a ser feito e compilado. A ceifa está quase terminada.

— E Kameni?

— Kameni vem conosco.

Renisenb gritou. — Tenho medo de ficar aqui. Sim, mesmo à luz do dia, com os criados por toda parte e Rê navegando pelos Céus, ainda assim tenho medo!

Hori voltou rapidamente.

— Não tenha medo, Renisenb. Juro-lhe que você não precisa ter medo. Hoje não.

— Mas e depois de hoje?

— Por enquanto, hoje é o bastante... e eu juro que hoje você não corre perigo.

Renisenb olhou para ele e franziu ao sobrancelhas.

— Mas nós estamos em perigo? Yahmose, meu pai, eu mesma? Não serei eu a primeira a ser atacada... é isso que você acha?

— Tente não pensar nisso, Renisenb. Estou fazendo tudo o que posso, ainda que lhe pareça que eu não esteja fazendo nada.

— Percebo... — Renisenb olhou para ele pensativamente. — Sim, percebo. Há de ser Yahmose o primeiro. O inimigo já tentou duas vezes com veneno e falhou. Haverá uma terceira tentativa. É por isso que você estará ao lado dele... para protegê-lo. Depois disso será a vez de meu pai e a minha própria. Quem será que odeia tanto a nossa família a ponto de...

— Silêncio. O melhor que você tem a fazer é não falar a respeito dessas coisas. Confie em mim, Renisenb, tente expulsar o medo de dentro de você.

Renisenb atirou sua cabeça para trás; olhou para ele orgulhosamente.

— Eu realmente confio em você, Hori. Você não me deixará morrer... Eu amo muito a vida e não quero perdê-la.

— Você não a perderá, Renisenb.

— Nem você, Hori.

— Nem eu.

Sorriram um para o outro e então Hori seguiu ao encontro de Yahmose.

 

Renisenb sentou-se enquanto fitava Kait.

Kait estava ajudando seus filhos a fazer brinquedos de argila, utilizando a água do lago. Seus dedos estavam ocupados amassando e modelando, e sua voz encorajava os dois pequenos e sérios meninos nas suas tarefas. O rosto de Kait era o mesmo de sempre: afável, comum, sem expressão. A atmosfera de morte violenta e o constante temor que envolvia a todos não pareciam afetá-la de todo...

Hori pedira a Renisenb para não pensar mas, mesmo com a melhor boa vontade do mundo, Renisenb era incapaz de obede­cer. Se Hori sabia quem era o inimigo, se Esa sabia quem era o inimigo, então não havia razão para que também ela não soubesse quem era o inimigo. Podia estar segura não o sabendo, mas nenhuma criatura humana poderia se contentar com isso. Ela queria saber.

E tinha de ser bastante fácil... muito fácil mesmo. Seu pai, é claro, não poderia querer matar seus próprios filhos. Restavam então... quem restava? Restavam, pura e simplesmente, duas pessoas: Kait e Henet.

Mulheres, ambas...

E certamente sem nenhuma razão para matar...

Muito embora Henet os odiasse a todos... Sim, indubitavelmente Henet os odiava. Ela tinha admitido odiar Renisenb. Por que não haveria de odiar também os outros?

Renisenb tentou mergulhar nas obscuras e conturbadas profundezas do cérebro de Henet. Vivendo aqui, todos estes anos, trabalhando, proclamando sua vocação, mentindo, espiando, provocando mal-entendidos... Tendo aqui chegado há muito tempo, como uma pobre parenta de uma grande e bela senhora. Vendo esta adorável senhora feliz com seu marido e filhos. Repudiada pelo próprio marido, seu único filho morto... Sim, talvez tenha sido tudo isso. Como uma ferida provocada por um golpe de lança, que Renisenb vira uma vez. Curou-se rapidamente na superfície, mas, por baixo, o que havia de ruim ulcerou-se e alastrou-se, e o braço inchou, tornando-se duro ao toque. Depois veio o médico e, com os encantamentos apropriados, introduziu uma pequena faca no braço endurecido, inchado e disforme. Foi como se tivessem aberto as comportas de um dique de irrigação. Uma torrente de uma substância mal-cheirosa jorrou para fora...

Aquilo era, talvez, como a mente de Henet. Amarguras e tristezas suavizaram-se depressa demais e continuaram destilando veneno por dentro, numa crescente onda de ódio e peçonha.

Mas será que Henet odiava também Imhotep? Certamente que não. Durante anos ela andou em volta dele, bajulando-o, adulando-o...

Ele confiava nela inteiramente. Certo de que a devoção é algo que não pode ser completamente forjado.

E se ela fosse devotada a ele, será que seria capaz de infligir-lhe deliberadamente tanta dor e perda?

Ah, mas suponhamos que ela o odiasse também; que sempre o tivesse odiado. Que o tivesse bajulado com o intuito de fazer vir à tona sua fraqueza? Suponhamos que Imhotep fosse aquele a quem ela odiasse mais? Então, para uma mente distorcida, perseguida pelos maus espíritos, que prazer maior que este poderia existir? Deixá-lo ver seus próprios filhos morrerem um a um...

— Qual é o problema, Renisenb? — Kait estava olhando para ela. — Você parece esquisita.

Renisenb levantou-se.

— Sinto-me como se estivesse a ponto de vomitar — disse ela.

Num certo sentido, isso era bastante verdadeiro. O quadro que havia imaginado provocou-lhe uma forte sensação de náu­sea.. Kait tomou-lhe as palavras pelo sentido aparente.

— Você comeu muitas tâmaras verdes, ou talvez o peixe lhe tenha embrulhado o estômago.

— Não, não é nada que eu tenha comido. É a terrível fase que estamos atravessando.

— Ah, isso!

A desaprovação de Kait foi tão indiferente que Renisenb olhou-a perplexa.

— Mas Kait, você não está com medo?

— Creio que não — retrucou Kait. — Se acontecer alguma coisa a Imhotep, as crianças terão a proteção de Hori. Hori é honesto. Ele tomará conta da herança delas.

— Yahmose fará isso.

— Yahmose também morrerá.

— Kait, você diz isso com tanta calma! Você não se importa de todo? Quero dizer, que meu pai e Yahmose morram?

Kait refletiu um pouco. Depois, encolheu os ombros.

— Somos duas mulheres, sejamos honestas. Sempre considerei Imhopet tirânico e injusto. Ele se comportou de forma ultrajante com relação à sua concubina, deixando-se persuadir por ela a deserdar seu próprio sangue e carne. Nunca gostei de Imhotep. Com relação a Yahmose, ele não é nada. Satipy o governava de todas as maneiras. Ultimamente, desde que ela se foi, ele assumiu autoridade, passou a dar ordens. Ele sempre dará preferência aos seus filhos e não aos meus, é natural. Então, se ele tem de morrer, melhor para meus filhos que assim seja; é assim que vejo as coisas. Hori não tem filhos e é justo. Todos esses acontecimentos têm sido perturbadores, mas ultimamente tenho pensado que é o melhor que podia ter acontecido.

— E você fala sobre isso, Kait, tão calmamente, tão friamente? Quando foi seu próprio marido, a quem você amava, o primeiro a ser assassinado?

Uma pálida expressão de natureza indefinida passou pela face de Kait. Lançou um olhar a Renisenb que parecia conter uma certa ironia desdenhosa.

— Você se parece muito com Teti, às vezes, Renisenb. Realmente, eu poderia até jurar... nem um pouco mais velha!

— Você não pranteia Sobek — Renisenb pronunciou lentamente as palavras. — Eu já percebi isso.

— Ora, vamos, Renisenb, eu obedeci a todas as convenções. Sei como uma viúva recente deve se comportar.

— Sim, e foi apenas isso o que houve... Então, isso significa que você não amava Sobek?

Kait encolheu os ombros.

— E por que deveria?

— Kait! Ele era seu marido... ele lhe deu filhos.

A expressão de Kait suavizou-se. Ela olhou para os dois meninos atarefados com a argila e depois para Ankh, que rolava pelo chão, cantando para si mesma e balançando as perninhas.

— Sim, ele me deu os meus filhos. Por isso eu lhe sou grata. Mas o que era ele, afinal de contas? Um belo fanfarrão... um homem que estava sempre procurando outras mulheres. Ele não trazia para casa uma irmã, decentemente, uma pessoa modesta, que seria útil para todos nós. Não; ele ia para casas de má reputação, gastava nelas muito cobre e ouro, bebendo e solici­tando as dançarinas mais caras. Foi uma felicidade Imhotep tê-lo conservado com as rédeas curtas, como o fez, e que tivesse de prestar contas minuciosamente das vendas que fazia na propriedade. Que amor e respeito poderia eu encontrar por um homem assim? De qualquer forma, que são os homens? Eles são neces­sários para gerar crianças, é tudo. Mas a força da raça está na mulher. Somos nós, Renisenb, que legamos a nossos filhos tudo o que é nosso. Quanto aos homens, deixem-nos procriar e morrer cedo...

O escárnio e o desdém na voz de Kait atingiram um tom agudo como o de um instrumento musical. Seu rosto forte e feio estava transfigurado.

Renisenb pensou, com assombro:

“Kait é forte. Se é estúpida, é de uma estupidez que se satisfaz por si só. Ela odeia e despreza os homens. Eu devia saber. Certa vez, cheguei a perceber isso por um momento; essa qualidade ameaçadora. Sim, Kait é forte...”

Sem pensar, o olhar de Renisenb recaiu sobre as mãos de Kait. Elas amassavam e misturavam a argila — mãos fortes e musculosas. Ao vê-las pressionar a argila, Renisenb pensou em Ipy e nas fortes mãos pressionando-lhe a cabeça para dentro da água e segurando-a inexoravelmente. Sim, as mãos de Kait poderiam ter feito aquilo...

A pequena Ankh rolou sobre espinhos e soltou um gemido. Kait correu para ela, segurando-a contra o peito, cantando baixinho para ela. Seu rosto, agora, era todo amor e ternura. Henet veio correndo do pórtico.

— Alguma coisa errada? A menina gemeu tão alto! Pensei que talvez...

Calou-se, desapontada. Seu rosto ávido, mesquinho e malvado, ansioso por alguma catástrofe, abateu-se.

Renisenb olhava de uma mulher para a outra.

Ódio num rosto. Amor no outro. Qual deles, perguntava-se, seria o mais terrível?

 

— Yahmose, tenha cuidado; tenha cuidado com Kait.

— Kait? — Yahmose mostrou-se estarrecido. — Minha querida Renisenb...

— É o que lhe digo, ela é perigosa.

— Nossa tranqüila Kait? Ela sempre foi uma mulher meiga, submissa, não muito inteligente...

Renisenb o interrompeu.

— Ela não é nem meiga, nem submissa. Tenho medo dela, Yahmose. Quero que você fique alerta.

— Contra Kait? — Ele ainda estava incrédulo. — Mal posso imaginar Kait espalhando a morte a sua volta. Ela não tem cérebro para isso.

— Não creio que se trate de cérebro. Conhecimento sobre venenos é tudo quanto foi preciso. E você sabe que tal conhecimento se encontra, freqüentemente, entre certas famílias. Ele é transmitido de mãe para filha. Elas próprias fermentam as misturas de poderosas ervas. É uma espécie de saber que Kait facilmente pode ter. Ela prepara remédios para as crianças quando elas adoecem, você sabe.

— Sim, é verdade — Yahmose disse pensativamente.

— Henet, também, é uma mulher diabólica — continuou Renisenb.

— Henet... sim. Nunca gostamos dela. De fato, se não fosse pela proteção de meu pai...

— Meu pai está iludido com ela — disse Renisenb.

— Pode ser — Yahmose concordou. — Ela o lisonjeia.

Renisenb o olhou com surpresa por um instante. Era a primeira vez que ouviu Yahmose proferir uma frase contendo crítica a Imhotep. Ele sempre pareceu intimidado pelo pai.

Mas, agora, ela percebia, Yahmose estava assumindo o comando gradualmente. Imhotep envelhecera anos nas últimas semanas. Ele agora era incapaz de dar ordens, de tomar decisões. Até sua atividade física parecia enfraquecida. Passava horas com o olhar parado, os olhos embaçados e abstratos. Às vezes, parecia não entender o que lhe diziam.

— Você acha que ela... — Renisenb calou-se. Olhou em volta e prosseguiu: — Foi ela que... você acha que...

Yahmose segurou-a pelo braço.

Fique quieta, Renisenb; essas coisas não devem ser ditas, nem sussurradas.

Então você também pensa...

Yahmose disse suave e apressadamente:

Não diga nada agora. Temos planos.

 

                 Segundo Mês de Verão - Décimo Sétimo Dia

 

O dia seguinte era o do festival da lua-nova. Imhopet foi forçado a subir ao Túmulo para fazer as oferendas. Yahmose implorou ao pai que lhe deixasse fazer as obrigações desta vez. Imhotep teimou. Com o que parecia agora uma leve paródia dos seus antigos hábitos, ele murmurou: — A não ser que eu próprio providencie as coisas, como posso saber que serão feitas corre­tamente? Alguma vez fugi às minhas responsabilidades? Acaso não os alimentei a todos, não os sustentei a todos...

Calou-se. — Todos? Todos? Oh, eu esquecia-me... meus dois valentes filhos, meu bonito Sobek, meu inteligente e amado Ipy... deixaram-me. Yahmose e Renisenb... meus queridos filho e filha... vocês ainda estão comigo, mas por quanto tempo, quanto tempo?

Falou bastante alto, como se se dirigisse a um surdo.

Hã? Quê? — Imhotep parecia ter entrado em estado de inconsciência.

Disse de súbito e de forma surpreendente:

Depende de Henet, não é? Sim, depende de Henet.

Yahmose e Renisenb trocaram olhares.

Renisenb disse gentil e claramente:

Não compreendo você, pai.

Imhotep balbuciou algo que eles não conseguiram captar. Então, aumentando um pouco o tom da voz, embora com olhos embaçados e vagos, disse:

Henet me entende. Sempre entendeu. Ela sabe como são grandes as minhas responsabilidades... grandes... Sim, quão grandes... E sempre ingratidão... Portanto, deve haver retri­buição. Essa é, creio eu, uma prática bem fundada. A presunção deve ser punida. Henet sempre foi modesta, humilde e devotada. Ela será recompensada...

Levantou-se e disse com toda a pompa:

— Você compreende, Yahmose. Henet deve ter tudo o que quiser. Suas ordens devem ser obedecidas!

— Mas por que isso, pai?

— Porque eu estou dizendo. Porque se for feito aquilo que Henet quiser, não haverá mais mortes...

Balançou a cabeça sabiamente e retirou-se, deixando Yahmose e Renisenb olhando um para o outro, espantados e alarmados.

— Que significa isso, Yahmose?

— Não sei, Renisenb. Às vezes penso que meu pai já não sabe o que faz ou diz...

— Não, talvez não. Mas creio, Yahmose, que Henet sabe muito bem o que anda dizendo e fazendo. Ela me disse, ainda outro dia, que muito em breve seria ela quem iria estalar o chicote nesta casa.

Olharam-se. Yahmose colocou então a mão nos ombros de Renisenb.

— Não a irrite. Você demonstra os seus sentimentos muito claramente, Renisenb. Você ouviu o que meu pai disse? Se for feito o que Henet quiser, não haverá mais mortes...

 

Henet estava agachada num dos quartos da despensa, contando pilhas de lençóis: Eram lençóis velhos e ela segurava, próximo aos olhos, a marca de um deles.

— Ashayet — murmurou. — O lençol de Ashayet. Marcado com o ano em que veio para cá... ela e eu juntas... Isso foi há muito tempo. Você sabe, eu me pergunto, para que servem agora seus lençóis, Ashayet?

Parou no meio de uma risada e assustou-se com um som que a fez olhar por sobre os ombros.

Era Yahmose.

— Que está fazendo, Henet?

Os embalsamadores precisam de mais lençóis. Eles já usaram pilhas e pilhas de lençóis. Só ontem utilizaram quatrocentos cúbitos. É terrível a maneira com que esses funerais acabam com a roupa de cama. Teremos que usar estes velhos. São de boa qualidade e não estão muito gastos. Os lençóis de sua mãe, Yahmose; sim, os lençóis de sua mãe...

Quem disse que você deve usá-los?

Henet riu.

Imhotep deixou tudo por minha conta. Não tenho que pedir permissão. Ele confia na pobre e velha Henet. Ele sabe que cuidarei de tudo da maneira apropriada. Tenho cuidado da maior parte das coisas nesta casa por muito tempo. Creio que agora terei a minha recompensa!

Parece que sim, Henet. — O tom de Yahmose era suave. — Meu pai disse que — ele fez uma pausa — tudo depende de você.

Ele disse? Bem, isso é bom de se ouvir, mas talvez você não pense assim, Yahmose.

Bem, não tenho certeza. — O tom de Yahmose ainda era suave, mas ele a observava bem de perto.

Creio que será melhor você concordar com seu pai, Yahmose. Não queremos, mais nenhum... problema, não é?

Não estou entendendo bem. Você quer dizer que... não queremos mais mortes?

Haverá mais mortes, Yahmose. Oh, sim...

Quem será o próximo a morrer, Henet?

Por que você acha que eu deveria saber?

Porque penso que você sabe um bocado. No outro dia você sabia, por exemplo, que Ipy iria morrer... Você é muito inteligente, não é, Henet?

Henet empertigou-se.

Então você está começando a se dar conta disso agora? Não sou mais a pobre e estúpida Henet. Sou a que sabe.

Que sabe você, Henet?

A voz de Henet mudou. Tornou-se baixa e ríspida.

Sei que finalmente posso fazer o que quiser nesta casa. Não haverá ninguém para me deter. Imhotep já depende de mim. E você fará o mesmo, não é, Yahmose?

E Renisenb?

Henet riu uma risada feliz e maliciosa.

— Renisenb não estará aqui.

— Você acredita que será Renisenb a próxima a morrer ?

— Que acha você, Yahmose?

— Estou esperando para ouvir o que você diz.

— Talvez eu apenas quisesse dizer que Renisenb irá se casar e partir.

— O que você quer dizer?

Henet deu uma risadinha.

— Certa vez, Esa disse que minha língua era perigosa. Talvez o seja!

Ela riu estridentemente, balançando-se nos calcanhares.

— Bem, Yahmose, que diz você? Posso finalmente fazer o que quiser nesta casa?

Yahmose estudou-a por um instante antes de dizer:

— Sim, Henet. Você é tão inteligente! Você fará o que quiser.

Ele se voltou e encontrou Hori que chegava do salão principal. Hori disse: — Cá está você, Yahmose. Imhotep está esperando-o. É hora de subir até o Túmulo.

Yahmose assentiu.

— Estou indo. — Ele abaixou a voz: — Hori, creio que Henet está louca; ela está definitivamente tomada por demônios. Começo a acreditar que foi ela a responsável por todos esses acontecimentos.

Hori parou por um. momento antes de dizer, com sua voz calma e imparcial:

— Ela é uma estranha mulher... e diabólica, creio.

Yahmose baixou a voz ainda mais:

— Hori, eu acho que Renisenb corre perigo.

— Por parte de Henet?

— Sim. Ela acabou de dar a entender que Renisenb será a próxima a... partir.

A voz de Imhotep chegou-lhes mal-humorada:

— Será que terei de esperar o dia todo? Que comportamento é esse? Ninguém mais me leva em consideração. Ninguém sabe o que sofro. Onde está Henet? Henet compreende.

De dentro da despensa, o riso triunfante de Henet veio estridente.

— Você ouviu isso, Yahmose? Henet! É Henet!

Yahmose disse calmamente:

— Sim, Henet, eu entendi. Você é a poderosa. Você e meu pai e eu... nós três juntos...

Hori saiu para procurar Imhotep. Yahmose dirigiu mais algumas palavras a Henet, que balançava a cabeça, a face radiante de malicioso triunfo.

Em seguida Yahmose juntou-se a Hori e Imhotep, desculpando-se pela demora, e os três homens subiram juntos até o Túmulo.

 

O dia passava lento para Renisenb.

Ela estava inquieta, indo e vindo da casa para o pórtico, e então para o lago e de volta à casa novamente.

Ao meio-dia, Imhotep retornou e, depois de lhe servirem uma refeição, veio até o pórtico, onde Renisenb juntou-se a ele.

Ela se sentou com as mãos agarradas em volta do joelho, olhando ocasionalmente para o rosto do pai. Nele ainda havia aquela expressão ausente e confusa. Imhotep falou pouco. De quando em quando, suspirava profundamente.

A certa altura, levantou-se e perguntou por Henet. Mas justo nesse momento Henet se ausentara para entregar os panos aos embalsamadores.

Renisenb perguntou ao pai onde estavam Hori e Yahmose.

— Hori foi até os campos de linho. Há uma inspeção a ser feita lá. Yahmose está na plantação. Tudo fica por conta dele, agora... Ai de Sobek e Ipy! Meus meninos... meus belos me­ninos...

Renisenb tentou rapidamente distraí-lo.

— Será que Kameni não pode supervisionar os trabalha­dores?

— Kameni? Quem é Kameni? Não tenho nenhum filho com esse nome.

— Kameni é o escriba. Kameni será meu marido.

Ele a olhou incrédulo.

— Você, Renisenb? Mas você deverá se casar com Khay.

Ela suspirou, mas não disse mais nada. Parecia cruel tentar trazê-lo de volta ao presente. Depois de algum tempo, entretanto, ele se levantou e exclamou subitamente:

— Claro, Kameni! Ele foi dar algumas instruções ao supervisor da destilaria. Devo ir ao encontro dele.

Afastou-se a passos largos, balbuciando consigo mesmo, mas reassumindo sua antiga pose e fazendo com que Renisenb se sentisse um pouco mais animada.

Talvez que esse nevoeiro em sua cabeça fosse apenas passageiro.

Olhou em volta. Parecia haver algo de sinistro, hoje, com o silêncio da casa e do pátio. As crianças estavam na parte mais afastada do lago. Kait não estava com elas e Renisenb se perguntava onde ela poderia estar.

Então Henet saiu e veio até o pórtico. Ela olhou à sua volta e veio aproximando-se sorrateiramente de Renisenb; havia reto­mado seus velhos modos chorosos e submissos.

— Fiquei esperando até que pudesse encontrá-la sozinha, Renisenb.

— Por que, Henet?

Henet abaixou a voz.

— Tenho um recado para você... de Hori.

— Que diz ele? — A voz de Renisenb estava ansiosa.

— Ele pede que você suba até o Túmulo.

— Agora?

— Não. Esteja lá uma hora antes do pôr do sol. Esse era o recado. Se ele não estiver lá, espere até que chegue. Ele disse que é importante.

Henet fez uma pausa e acrescentou:

— Eu tinha de esperar que você estivesse só para lhe dizer isso... e ninguém deveria escutar.

E de novo Henet se foi sorrateiramente.

Renisenb sentiu o seu ânimo aumentar. Sentia-se feliz ante a perspectiva de subir para a paz e quietude do Túmulo. Feliz por poder ver Hori e falar com ele livremente. A única coisa que a surpreendia um pouco era o fato de ele ter confiado a mensagem a Henet.

Entretanto, embora fosse maliciosa, ela havia transmitido o recado fielmente.

“E por que deveria eu temer Henet?”, pensou Renisenb. “Sou mais forte do que ela.”

Ergueu-se vaidosamente. Sentia-se jovem, confiante e cheia de vida...

 

Após ter transmitido o recado a Renisenb, Henet voltou mais uma vez à despensa. Ela ria baixinho consigo mesma.

Curvou-se sobre as pilhas de lençóis desarrumados.

— Logo estaremos precisando de mais alguns de vocês — disse-lhes alegremente. — Está ouvindo, Ashayet? Sou a senhora aqui e estou lhe dizendo que sua roupa irá atar ainda um outro corpo. E o corpo de quem você acha que será? Ah, ah! Você não tem sido capaz de fazer muita coisa, tem? Você e o irmão de sua mãe, o Nomarca! Justiça? Que justiça você pode fazer neste mundo? Responda!

Houve um movimento atrás do fardo de roupa. Henet virou um pouco a cabeça.

De súbito, uma quantidade de roupa foi jogada sobre ela, sufocando-lhe a boca e o nariz. Uma mão inexorável começou a enrolar o tecido em volta de seu corpo, enfaixando-a como a um cadáver, até que a luta cessou...

 

                                 Segundo Mês de Verão - Décimo Dia

 

Renisenb estava sentada na entrada do quarto de pedra, admirando o Nilo e imersa num estranho sonho fantástico que ela criara.

Parecia-lhe que muito tempo havia se passado desde a primeira vez que se sentara ali, logo após sua volta à casa do pai. Aquele tinha sido o dia no qual ela tão alegremente havia declarado que tudo estava inalterado, que tudo na casa estava exatamente como havia deixado há oito anos.

Lembrava-se agora de como Hori lhe havia dito que ela própria não era a mesma Renisenb que partira com Khay, e de como ela confiantemente havia respondido que em breve voltaria a sê-lo.

Hori continuara então a falar sobre mudanças que vinham de dentro, de podridões que não deixavam nenhum sinal aparente.

Agora ela sabia alguma coisa a respeito do que lhe ia na mente quando ele falou essas coisas. Ele estava tentando pre­pará-la. Ela estava tão certa, tão cega, aceitando tão facilmente os valores aparentes de sua família...

Foi preciso que Nofret aparecesse para que ela abrisse os olhos...

Sim, a vinda de Nofret: tudo decorrera daí.

Com Nofret veio a Morte...

Fosse Nofret má ou não, ela certamente havia trazido o mal...

E o mal ainda estava no meio deles.

Pela última vez, Renisenb brincava com a crença de que o espírito de Nofret era a causa de tudo...

Nofret maliciosa e morta...

Ou Henet maliciosa e viva... Henet a desprezada, a servil, Henet bajulante...

Renisenb tremia e agitava-se; então, lentamente, levantou-se.

Não podia esperar mais tempo por Hori. O sol estava se pondo. Por que, perguntava-se, ele não tinha vindo?

Ergueu-se, olhou em torno e começou a descer pelo caminho que levava ao vale.

Tudo estava muito quieto a esta hora da tarde. Belo e tranqüilo, pensou ela. O que teria atrasado Hori? Se ele tivesse vindo, pelo menos teriam tido esta hora juntos...

Não haveria muitas outras horas como esta. Num futuro próximo, quando ela fosse mulher de Kameni...

Será que iria mesmo casar-se com Kameni? Com uma espécie de choque, Renisenb libertou-se daquele espírito de estúpida aquiescência que a dominara por tanto tempo. Sentia-se como alguém que estivesse dormindo e que acordasse de um sonho febril. Presa àquele estupor de medo e incerteza, consen­tiria no que quer que lhe propusessem.

Mas agora ela era Renisenb novamente, e se casasse com Kameni seria porque queria casar com ele e não porque sua família havia decidido. Kameni com seu belo e risonho rosto! Ela o amava, não amava? Era por isso que ia casar com ele.

Nesta hora, ao entardecer aqui em cima, havia clareza e verdade. Nada de confusão. Ela era Renisenb, andando aqui, acima do mundo, serena e sem medo, ela mesma, afinal.

Pois não havia dito a Hori que teria de andar por aquele caminho, sozinha, na hora da morte de Nofret? E que, com ou sem medo, ainda assim teria de ir só?

Bem, era o que ela estava fazendo. Aproximou-se a hora em que ela e Satipy haviam-se curvado sobre o corpo de Nofret. E era também mais ou menos essa a hora em que Satipy, por sua vez, havia descido pelo caminho e repentinamente olhado para trás... para encontrar a morte.

E fora também neste mesmo local. Que teria escutado Satipy, para subitamente olhar para trás?

Passos?

Passos... mas Renisenb ouvia agora passos... seguindo-a pelo caminho.

Seu coração disparou. Era verdade então! Nofret estava atrás dela, seguindo-a...

O medo apossou-se dela, mas seus passos não afrouxaram; nem se aceleraram. Tinha de dominar o medo, uma vez que não havia em sua mente qualquer ato mau de que se arrependesse...

Aprumou-se e, juntando toda sua coragem, ainda caminhando, voltou a cabeça.

Sentiu então um grande alívio. Era Yahmose que a seguia. Não era o espírito da morte, mas seu próprio irmão. Provavel­mente ele estava ocupado na sala das oferendas do Túmulo, tendo saído logo depois que ela passou.

Renisenb deteve-se e gritou pelo irmão.

— Oh, Yahmose, fico tão feliz que seja você!

Ele vinha rapidamente em sua direção. Ela já ia começar uma outra frase, um relato de seus medos tolos, quando as palavras congelaram-se nos seus lábios.

Aquele não era o Yahmose que ela conhecia, o irmão gentil e amável. Seus olhos estavam muito brilhantes e ele passava a língua rapidamente pelos lábios secos. Suas mãos, que se mantinham um pouco à frente do corpo, estavam ligeiramente curvas e os dedos pareciam garras.

Ele a estava encarando e seu olhar tinha uma expressão inconfundível. Era o olhar de um homem que já havia matado e estava prestes a matar de novo. Havia um regozijo cruel, uma satisfação diabólica em seu rosto.

Yahmose... O impiedoso inimigo era Yahmose! Atrás da máscara de seu rosto meigo e gentil... aquilo!

Ela pensava que seu irmão a amava, mas não havia amor naquele rosto desumano, cheio de uma satisfação maligna.

Renisenb gritou: um grito esmaecido e desesperado.

Aquilo, sabia, era a morte. Não havia nela força que pudesse fazer frente à força de Yahmose. Ali, onde Nofret havia caído, onde o caminho era estreito, também ela iria cair e morrer...

— Yahmose! — gritou. Era um último apelo; naquele grito estava todo o amor que havia dedicado àquele seu irmão mais velho. Implorou em vão. Ele riu, uma pequena risada, baixa e desumana.

Yahmose então precipitou-se em direção a Renisenb; as mãos dele, cruéis, com os dedos recurvados como garras, pareciam ansiosos por entrangulá-la...

Renisenb apoiou-se na encosta do penhasco, as mãos estendidas para a frente, tentando em vão proteger-se contra ele. Aquilo era terror... morte.

Então ela ouviu um som, um vago e metálico som musical.

Alguma coisa veio zunindo através do ar. Yahmose parou, oscilou e, com um grito agudo, tombou para a frente, caindo a seus pés.

Ela ficou olhando estupefata para a plumagem da haste de uma seta. Olhou então para baixo do rochedo... para onde estava Hori, o arco ainda seguro ao ombro...

 

— Yahmose... Yahmose...

Renisenb, atordoada pelo choque, repetiu o nome novamente, e ainda mais uma vez. Era como se ela não pudesse acreditar...

Encontrava-se do lado de fora do pequeno quarto de pedra, o braço de Hori ainda em torno dela. Mal podia recordar-se de como ele a havia conduzido de volta ao caminho. Apenas era capaz de repetir o nome de seu irmão num tom perturbado de surpresa e horror.

Hori disse gentilmente:

— Sim, Yahmose. Todo o tempo, Yahmose.

— Mas como? Por que poderia ter sido ele? Como, se ele mesmo foi envenenado e quase morreu?

— Não, ele não correu risco de morrer; foi muito cuidadoso com a quantidade de vinho que bebeu. Apenas bebericou o suficiente para ficar doente e então exagerou seus sintomas e suas dores. Era o meio, ele sabia, de evitar suspeitas.

— Mas poderia ele ter matado Ipy? Como, se ele estava tão fraco que não podia sustentar-se nas próprias pernas?

— Também isso foi forjado. Você não se lembra que Mersu disse que uma vez que o veneno fosse eliminado, ele recuperaria as forças rapidamente? Na verdade, foi isso que aconteceu.

— Mas por que, Hori? É isso que não consigo entender... por quê?

— Lembra-se, Renisenb, de que uma vez eu lhe falei de uma podridão que vem de dentro?

— Lembro-me. Na verdade estive pensando nisso esta tarde.

— Certa vez você disse que tinha sido a vinda de Nofret que havia trazido o mal para esta casa. Isso não era verdade. O mal já estava aqui, oculto no coração de todos. Tudo o que a vinda de Nofret fez foi trazê-lo do lugar onde estava escondido para a luz. Sua presença baniu a dissimulação. O delicado amor maternal de Kait havia-se transformado num rude egoísmo para consigo mesma e para seus filhos. Sobek não era mais aquele jovem alegre e encantador, mas um fraco dissipado e exibido. Ipy não era tanto uma criança mimada e simpática quanto um menino egoísta e intrigante. Através da fingida devoção de Henet, o veneno começava a transparecer claramente. Satipy revelava-se mandona e covarde. O próprio Imhotep havia-se degenerado, transformando-se em um tirano mesquinho e pomposo.

— Eu sei... eu sei — Renisenb levou as mãos aos olhos. — Você não precisa me dizer. Fui, por mim mesma, descobrindo pouco a pouco... Por que essas coisas tinham que acontecer? Por que essa podridão teria, como você disse, que surgir de dentro?

Hori sacudiu os ombros.

— Quem pode dizer? Talvez seja preciso que haja sempre algum tipo de crescimento... E que quando alguém não cresce em bondade, em sabedoria e em qualidades, há então um crescimento oposto, estimulando o mal. Ou então pode ser que a vida que todos eles levavam era muito claustrofóbica, muito voltada para si mesma... sem amplitude ou visão. Pode ser ainda como uma pra­ga nas colheitas, que, sendo contagiosa, ataca primeiro uma planta e logo todas ficam doentes.

— Mas Yahmose... Yahmose parecia sempre o mesmo.

— Sim, e esta foi uma das razões, Renisenb, por que eu comecei a suspeitar. Porque os outros, em função de seus temperamentos, podiam obter alívio. Mas Yahmose sempre foi tímido, facilmente dominável, nunca tendo coragem bastante para se rebelar. Ele amava Imhotep e trabalhava duro para agradá-lo, e Imhotep achava-o bem-intencionado, mas estúpido e lento. Ele a desprezava. Satipy, também, tratava-o com todo o escárnio de seu temperamento autoritário. Lentamente sua carga de ressentimento, oculto mas profundo, tornou-se cada vez mais pesada. Quanto mais humilde ele parecia, maior se tornava a sua raiva interior.

— Então, justo quando Yahmose esperava, finalmente, colher a recompensa por seu empenho e diligência, ser reconhecido e associado a seu pai, veio Nofret. Foi Nofret e talvez a beleza de Nofret que acendeu a última fagulha. Ela atacou a hombridade de todos os três irmãos. Ela tocou Sobek no seu ponto fraco, ao desprezá-lo como um tolo; enfureceu Ipy, tratando-o como uma criança truculenta sem um mínimo de maturidade; e mostrou a Yahmose que ele era, a seus olhos, menos que um homem. Foi depois da vinda de Nofret que a língua de Satipy espicaçou Yahmose além dos limites suportáveis. Foram suas chacotas, sua insistência em dizer que era mais homem do que ele, que final­mente solaparam seu autocontrole. Ele encontrou Nofret neste caminho e, levado ao desespero, atirou-a lá embaixo,

— Mas foi Satipy...

— Não, não, Renisenb. É aí que você está completamente enganada. De lá de baixo Satipy viu tudo como aconteceu. Compreende agora?

— Mas Yahmose estava com você nas plantações.

— Sim, nessa última hora. Mas você não percebe, Reni­senb? O corpo de Nofret já estava frio. Você mesma sentiu suas faces. Você pensou que ela tivesse caído há alguns momentos apenas, mas isso era impossível. Estava morta no mínimo há duas horas; de outra forma, naquele sol forte, sua face não poderia jamais estar fria quando você a tocou. Satipy viu o que aconteceu. Satipy ficou por ali, aterrorizada, sem saber o que fazer; então ela viu você chegando e tentou desviá-la.

— Hori, quando você ficou sabendo de tudo isso?

— Eu logo adivinhei. Foi o comportamento de Satipy que me revelou. Era óbvio que ela andava morta de medo de alguém ou de alguma coisa, e eu logo me convenci de que a pessoa a quem ela temia era Yahmose. Ela parou de atormentá-lo e, ao invés disso, mostrava-se ansiosa por obedecê-lo de todas as ma­neiras possíveis. Tinha sido, como você vê, um choque terrível para ela. Yahmose, a quem ela desprezava como o mais humilde dos homens, na verdade tinha sido aquele que matara Nofret. Isso virou o mundo de Satipy de. cabeça para baixo. Como a maioria das mulheres autoritárias, ela era covarde. Esse novo Yahmose a aterrorizava. No seu medo, ela começou a falar enquanto dormia. Yahmose logo percebeu que ela era um perigo para ele...

— E agora, Renisenb, você pode entender a verdade daquilo que viu com seus próprios olhos naquele dia. Não foi um espíri­to que Satipy viu e que a fez cair. Ela viu o que hoje você viu. Viu no rosto de um homem que a seguia, seu próprio marido, a intenção de atirá-la do precipício como o fizera com a outra mulher. No seu medo, ela chegou para trás, afastando-se dele e caiu. E então, num último suspiro, ela pronunciou a palavra Nofret; com o que estava tentando dizer-lhe que Yahmose tinha matado Nofret.

Hori fez uma pausa e então continuou:

— Esa chegou à verdade por causa de um comentário, inteiramente irrelevante, feito por Henet. Henet reclamava que eu não olhava para ela, mas para algo que estava atrás dela, algo que não estava lá. E ela passou a falar de Satipy. Num lampejo, Esa viu como toda a coisa era mais simples do que nós havíamos pensado. Satipy não havia olhado para algo que estava atrás de Yahmose... mas para o próprio Yahmose. Para testar sua idéia, ela introduziu o assunto de modo casual, de modo que não significasse nada para ninguém, a não ser para o próprio Yahmose... e para ele somente, caso suas suspeitas fossem verdadeiras. Suas palavras o surpreenderam e, por um momento, ele reagiu a elas, o que foi o suficiente para que Esa tivesse confirmadas as suas suspeitas. Mas Yahmose percebeu que ela suspeitava. E, uma vez levantada uma suspeita, as coisas se encaixariam perfei­tamente, inclusive a história que o pastorzinho havia contado; um menino devotado a ele, que faria qualquer coisa que seu amo Yahmose mandasse... até mesmo engolir um remédio, naquela noite, que seguramente o faria não acordar mais...

— Oh, Hori, é tão difícil acreditar que Yahmose possa ter feito tais coisas! Nofret, bem, eu posso entender. Mas por que todos estes outros assassinatos?

— É difícil explicá-lo a você, Renisenb, mas uma vez que o coração se abre para o mal, este floresce como papoulas no trigo. Durante toda sua vida, Yahmose talvez tenha tido um anseio por violência que não foi capaz de concretizar. Ele desprezava sua própria humildade, seu papel submisso. Acredito que, tendo matado Nofret, ele alcançou um grande sentimento de poder. Percebeu-o, primeiramente, através de Satipy. Satipy, que o tinha intimidado e insultado, estava agora meiga e aterrorizada. Todas as mágoas que haviam ficado enterradas em seu coração por tanto tempo, empinaram suas cabeças... como aquela cobra, aqui no caminho, naquele dia. Sobek e Ipy eram, o primeiro, mais belo e o outro, mais inteligente do que ele; portanto deviam ser afastados. Ele, Yahmose, ficaria sendo então o rei da casa e o único conforto e apoio para seu pai! A morte de Satipy aumentou-lhe o efetivo prazer de matar. Como resultado, ele se sentiu mais poderoso ainda. Foi a partir daí que sua mente começou a fraquejar... e, depois disso, o mal apoderou-se dele completa­mente.

— Você, Renisenb, não era uma rival. Tanto quanto era ainda capaz, ele amava você. Mas a idéia de que seu marido repartiria com ele todos os bens era-lhe insuportável. Creio que Esa concordou com a idéia de aceitar Kameni tendo em vista duas coisas: a primeira era que, se Yahmose voltasse a atacar, seria mais provavelmente a Kameni e não a você; e, de qualquer modo, ela confiava em mim para que conservasse você a salvo. A segunda, pois Esa era audaciosa, era provocar uma crise. Yahmose, vigiado por mim, pois ele não sabia que eu tinha suspeitas, podia ser pego em flagrante.

— Tal como aconteceu — observou Renisenb. — Oh, Hori, fiquei tão assustada quando olhei para trás e o vi...

— Eu sei, Renisenb. Mas tinha de ser assim. Desde que eu me plantasse ao lado de Yahmose você estaria em segurança; mas isto não poderia continuar para sempre. Eu sabia que se ele tivesse a oportunidade de atirar você do mesmo lugar, ele não a deixaria passar. Isto reavivaria a explicação supersticiosa das mortes.

— Então o recado que Henet me trouxe não vinha de você?

Hori sacudiu a cabeça.

— Não lhe mandei nenhum recado.

— Mas por que Henet... — Renisenb calou-se e balançou a cabeça. — Não consigo entender o papel de Henet dentro disso tudo.

— Creio que Henet sabe a verdade — disse Hori pensativo. — Ela estava transmitindo a você um recado de Yahmose... uma coisa bastante perigosa... Ele a usou para atraí-la até aqui... uma coisa que Henet deveria estar louca para fazer, uma vez que ela a odiava, Renisenb...

— Eu sei.

— Depois de tudo... eu fico pensando. Henet devia acreditar que o seu conhecimento lhe traria poder. Mas não acredito que Yahmose a teria deixado viva por muito tempo. Talvez mesmo agora...

Renisenb estremeceu.

— Yahmose era louco — disse Renisenb. — Ele estava possuído pelos maus espíritos, mas não foi sempre assim.

— Não, mas... Lembra-se, Renisenb, de quando eu lhe contei a história de Sobek e Yahmose quando crianças, e de como Sobek bateu com a cabeça de Yahmose contra o chão, e de como sua mãe veio, pálida e tremendo, e disse: “Isso é perigoso.”? Creio, Renisenb, que ela queria dizer que fazer tais coisas com Yahmose era perigoso. Lembre-se que, no dia seguinte, Sobek ficou doente... comida envenenada, pensou-se então. Creio que sua mãe, Renisenb, sabia alguma coisa a respeito dessa estranha fúria controlada que habitava o coração de seu meigo e humilde filhinho, e temia que algum dia ela fosse provocada...

Renisenb estremeceu.

— Ninguém é o que parece?

Hori sorriu para ela.

— Sim, algumas vezes. Kameni e eu, Renisenb, nós dois, creio, somos o que você acredita que sejamos. Kameni e eu...

Disse as últimas palavras significativamente e, de súbito, Renisenb percebeu que estava diante de uma decisão a ser tomada.

Hori continuou:

— Nós dois amamos você, Renisenb. Você deve saber disso.

— Mas mesmo assim — disse Renisenb lentamente —, você deixou que os preparativos para o meu casamento fossem feitos e não disse nada, nem ao menos uma palavra.

— Isso era para sua proteção. Esa teve a mesma idéia. Eu tinha de me manter desinteressado e indiferente, pois assim poderia manter Yahmose sob constante vigilância e não provocar a sua animosidade. — Hori acrescentou emocionado: — Você tem de entender, Renisenb, que Yahmose foi meu amigo por muitos anos. Eu amava Yahmose. Tentei persuadir seu pai a lhe dar a posição e autoridade que ele desejava. E falhei. Tudo isso veio muito tarde. Mas mesmo que no fundo do meu coração eu estivesse convencido de que Yahmose havia matado Nofret, tentei não acreditar. Encontrei até mesmo desculpas para o seu ato. Yahmose, meu amigo infeliz e atormentado, era muito querido para mim. Então veio a morte de Sobek, de Ipy e finalmente a de Esa... Descobri que o mal finalmente o subjugara de vez. E, depois, Yahmose veio a morrer pelas minhas próprias mãos. Uma morte imediata, quase indolor.

— Morte... sempre morte.

— Não, Renisenb. Não é a morte que está diante de você, hoje, mas a vida. Com quem você vai querer compartilhar esta vida? Com Kameni ou comigo?

Renisenb olhava para a frente, através do vale e para a faixa prateada do Nilo.

Diante dela, claramente, ressurgia a imagem do rosto risonho de Kameni, tal como o tinha visto, naquele dia, no barco.

Belo, forte, alegre... Sentiu novamente o coração palpitar-lhe no peito. Tinha amado Kameni, naquele momento. E ela o amava, agora. Kameni poderia tomar o lugar que um dia perten­cera a Khay.

Pensou: “Seremos felizes juntos... sim, seremos felizes. Viveremos juntos e sentiremos prazer em nos ter um ao outro, e teremos filhos belos e fortes. Haverá dias atarefados e cheios de serviço, e dias de prazer, quando navegarmos pelo rio... A vida será novamente como eu a conheci com Khay... Que posso pedir além disso? Que posso desejar além disso?”

E, devagar, muito lentamente mesmo, voltou seu rosto em direção a Hori. Era como se, mesmo em silêncio, ela lhe estivesse perguntando algo.

E ele, como se a tivesse entendido, respondeu:

— Quando você era criança, eu amava você. Amava o seu rosto grave e a confiança com que você vinha até mim, pedindo para que eu consertasse seus brinquedos quebrados. E então, depois de oito anos de ausência, você voltou e novamente sentou-se aqui, trazendo-me os pensamentos que estavam em sua mente. E sua mente, Renisenb, não é como as do resto de sua família. Não está voltada para si mesma, buscando encerrar-se entre estreitos muros. Sua mente é como a minha; ela olha para além do rio, olha para um mundo em eterna mudança, um mundo de novas idéias; olha para um mundo onde tudo é possível para aqueles que têm coragem e visão...

— Eu sei, Hori, eu sei. Senti essas mesmas coisas com você. Mas não o tempo todo. Haverá momentos em que não poderei acompanhá-lo, quando deverei ficar só...

Calou-se, incapaz de encontrar palavras que pudessem expri­mir seus pensamentos desordenados. O que a vida poderia ser com Hori, ela não sabia. Apesar de sua meiguice, apesar de seu amor por ela, ele permaneceria de alguma forma imprevisível e incompreensível. Compartilhariam juntos momentos de grande beleza e profundidade... mas o que seria da sua vida cotidiana?

Impulsivamente estendeu as mãos para ele.

— Oh, Hori, decida por mim. Diga-me o que fazer!

Ele sorriu para ela; era a criança Renisenb que falava, talvez pela última vez. Mas não tomou-lhe as mãos.

— Eu não posso lhe dizer o que fazer da sua vida, Renisenb... porque é a sua vida, e só você pode decidir.

Ela então percebeu que não encontraria nenhuma ajuda, nenhum apelo aos sentidos, como encontrara em Kameni. Se Hori a tivesse ao menos tocado... mas ele não a tocou.

E, de súbito, a escolha se apresentou sob forma bastante simples: a vida fácil e a difícil. Estava bastante tentada a voltar-se e descer pelo caminho sinuoso, para uma vida normal e feliz que já conhecia... a vida que havia experimentado com Khay. Lá havia segurança... repartindo os prazeres e aflições diários, não tendo nada a temer, exceto a velhice e a morte...

Morte... Partindo de pensamentos de vida, ela dera uma volta completa, chegando novamente à morte. Khay havia morri­do. Kameni talvez morresse também e seu rosto, como o de Khay, aos poucos desapareceria de sua memória...

Olhou então para Hori, que permanecia tranqüilo a seu lado. Era estranho, pensou, que nunca tivesse realmente sabido como era a aparência de Hori... Nunca precisava saber...

Então ela falou, e o tom de sua voz era o mesmo de quando certa vez anunciou que haveria de descer pelo caminho, a sós, durante o pôr do sol.

— Fiz a minha escolha, Hori. Repartirei minha vida com você para o bem e para o mal até que venha a morte...

Com os braços de Hori em torno dela e o doce contato daquele rosto contra o seu, Renisenb sentiu-se invadida por uma exultante alegria de viver.

“Se Hori tiver de morrer”, pensou ela, “eu não esquecerei! Hori é uma canção que estará no meu coração para sempre... O que vale dizer... que não existe mais morte...”

 

                                                                                Agatha Christie  

 

                      

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