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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EFEITOS SECUNDÁRIOS / Michael Palmer
EFEITOS SECUNDÁRIOS / Michael Palmer

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

EFEITOS SECUNDÁRIOS

 

Willi Becker encostou-se na parede áspera de madeira do clube dos oficiais e, semicerrando os olhos, observou o Sol da tarde, nada mais do que um disco pálido, de luminosidade quase imperceptível, devido à poeira levantada pelas centenas de bombardeios dos Aliados, cuja mira eram os alvos industriais próximos do campo de concentração de mulheres em Ravensbrück.

- O momento não podia ser mais oportuno, doutor Becker - murmurou para si próprio. - Vai deixar este buraco infernal definitivamente no momento mais oportuno.

Verificou o cronômetro que o seu irmão, Edwin, lhe enviara, proveniente de um "doente agradecido" do campo de Dachau. Quase quinze e trinta. Após longos meses de uma preparação verdadeiramente meticulosa, restavam apenas poucas horas antes de partir. Um entusiasmo contido mas inebriante apoderava-se de Becker.

Ao longo do pátio imundo, vários grupos de prisioneiras, nas quais se destacava o brilho das cabeças rapadas, trabalhavam nos abrigos antiaéreos, enquanto os guardas das SS disputavam animadamente a reduzida sombra por baixo dos telhados dos barracões. Becker reconheceu duas das mulheres: uma garota alta e desengonçada chamada Eva e uma russa desavergonhada, que o encorajara a chamar-lhe Bunny. Pertenciam às três dúzias ou mais de mulheres, cujos resultados dos exames médicos ele fora obrigado a omitir no interesse da fuga.

Após breves segundos, Becker dominou a súbita vontade de chamar as duas patéticas criaturas e lhes contar como o destino fora padrasto, negando-lhes a possibilidade de participar na magnífica obra, que tanto os acadêmicos como as gerações vindouras celebrariam como o início do controlo demográfico beckeriano. Beckeriano. Aquela palavra, por muito que fosse mencionada diariamente, continuava a provocar-lhe vibrantes arrepios. A física newtoniana, o teatro shakespeariano, a filosofia malthusiana... eram tão poucos os notáveis a que a história humana havia dado a honra de formarem um adjetivo. Becker sabia que, com o tempo, também ele seria bafejado pela imortalidade. Realmente, embora faltassem ainda seis semanas para completar trinta anos, a sua genialidade em fisiologia reprodutiva já era devidamente reconhecida.

Depois de ajustar o colarinho do uniforme cinzento e verde das SS que pela última vez vestiria, o jovem médico, de elevada estatura e traços tipicamente nórdicos, atravessou o pátio, dirigindo-se para as unidades de investigação, situadas na ala norte do campo.

A equipe médica de Ravensbrück, que outrora integrara acima de cinqüenta pessoas, fora reduzida a não mais de uma dúzia. Himmler, obrigado a ceder à premente necessidade de médicos nos hospitais militares, mandara suspender as experiências relativas ao efeito dos gases sobre as gangrenas e aos enxertos de tecidos ósseos, assim como as que se relacionavam com a cauterização de feridas contraídas no campo de batalha através do uso de carvão e ácido. Os médicos responsáveis por esses programas haviam sido transferidos. Apenas subsistiam as unidades de esterilização, em um total de três, todas elas dedicadas à eliminação da capacidade reprodutora, sem, todavia, pôr em risco a possibilidade de executar trabalho escravo.

Becker percorreu rapidamente os vários laboratórios vazios - outro sinal do inevitável - e virou para a Grünestrasse, o caminho alcatroado onde se encontravam instalados tanto os oficiais como o centro de investigação da sua Unidade Verde. Mais a leste conseguia avistar o topo das chaminés do crematório, pintadas de modo a servir de camuflagem.

Uma suave brisa de oeste varria para longe do campo a fumaça fétida e as cinzas. Becker esboçou um sorriso tênue e acenou com a cabeça. A baía de Meclemburgo, uma extensão revolta do mar Báltico com cinqüenta quilômetros, localizada entre Rostock e a ilha dinamarquesa da aldeia de pesca de Gedser, deveria estar calma. Menos uma questão com a qual se preocupar. Encontrava-se Becker a verificar mentalmente todos os outros imponderáveis, quando espiou de relance pelas janelas do seu gabinete. O Dr. Franz Müller, de costas voltadas, inspecionava os livros da biblioteca de Becker. Os músculos de Becker contraíram-se. Uma visita de Müller, o chefe da Unidade Azul e diretor dos estudos reprodutivos, não era algo incomum; porém, o homem, conhecido pela sua extrema educação, telefonava quase sempre avisando.

Seria a visita de Müller, naquele dia entre tantos outros, uma mera coincidência? Becker parou junto à entrada do gabinete e preparou-se para a esgrima cerebral em que o homem mais velho era mestre. Congratulou-se ainda por ter escondido a documentação que, apesar de escassa, atestava a fraude da Unidade Azul. Até era possível que a lâmina de Müller fosse tão rápida como a dele, contudo a sua trazia veneno na ponta. Müller, disso estava certo, era um impostor.

O trabalho da Unidade Azul, referente aos efeitos da irradiação dos ovários na fertilidade, parecia promissor, pelo menos no papel. Contudo, Becker tinha boas razões para acreditar que nem uma só prisioneira fora na verdade submetida a um tratamento com radiação. Os dados iam sendo constantemente falsificados por Müller e pelo seu colega, Josef Rendl. Becker não podia confirmar se eles teriam ido tão longe ao ponto de ajudar algumas prisioneiras a fugir, mas desconfiava disso. As provas que tinha em seu poder, apesar de deficientes, chegariam para pelo menos desacreditar, se não mesmo destruir, ambos os homens. Todavia, muito mais importante que a destruição destes era a possibilidade de dominá-los.

Num último esforço para ganhar uma vantagem mínima, Becker abriu silenciosamente a porta exterior e subiu silenciosamente os três degraus que conduziam à porta do gabinete. Nem um só ruído. Nem mesmo o estalar de uma tábua do chão. Becker abriu a porta de súbito. Müller encontrava-se empoleirado sobre o canto da mesa, olhando-o de frente.

- Ah, Willi, meu amigo. Por favor, desculpe o atrevimento da minha invasão. Ia eu casualmente passando por aqui quando me lembrei que uma vez mencionou possuir o livro Fisiologia Reprodutora do Fruhopf. - Primeira vitória para o mestre.

- Prazer em vê-lo, Franz. A minha biblioteca e o meu laboratório estão sempre ao seu dispor, como já lhe repeti inúmeras vezes. - Após um aperto de mãos indiferente, Becker dirigiu-se para a sua cadeira, atrás da mesa. - Encontrou-o?

- Perdão?

- O Fruhopf. Encontrou-o?

- Ah, sim, sim. Tenho-o aqui.

- Ótimo. Pode ficar com ele quanto tempo achar necessário.

- Muito obrigado.

Müller não fez qualquer movimento com a intenção de sair. Pelo contrário, sentou-se na cadeira em frente de Becker e começou a preparar o cachimbo, utilizando uma bolsa de cabedal já usada. Nem sequer um pedido formal para ficar. A precaução de Becker ia aumentando. Escondidos atrás da mesa, os seus dedos, longos e bem tratados, moviam-se nervosamente.

- Um doce? - perguntou, fazendo deslizar um prato com bombons de hortelã-pimenta sobre a mesa. Era Müller quem dirigia o espetáculo, por isso cabia a ele dar o primeiro passo.

- Não, muito obrigado. - Müller sorriu, dando uma ligeira palmada na barriga. - Já soube de Paris?

Becker fez sinal afirmativo com a cabeça.

- Nada de surpreendente. Exceto, talvez, a rapidez com que Patton despachou a coisa.

- Concordo. O homem é o diabo. - Müller passou os dedos pelo espesso e baço cabelo louro. Tinha a mesma estatura de Becker, era talvez um centímetro ou dois mais alto, mas a sua constituição assemelhava-se à de um urso-polar. - E, a leste, os Russos não param de chegar. Limpamos uma divisão e aparecem logo duas para substituí-la. Soube que estão aproximando-se do campo de petróleo de Ploesti.

- São uns bárbaros. Durante décadas, não fizeram mais do que arrastarem-se pelos cantos e multiplicarem-se. O que o nosso exército não consegue fazer-lhes, a própria população em crescimento vai mais tarde ou mais cedo encarregar-se.

- Ah, sim - disse Müller. - As teorias do seu santificado Thomas Malthus. Manter os nossos blindados em suspensão e deixar que os inimigos se procriem na submissão.

Becker começava a sentir-se nervoso. O cinismo era um dos trunfos mais bem desenvolvidos nas jogadas de Müller. Um opositor irritado ou zangado abriria o jogo e cometeria erros. "Tem calma", advertiu-se. "Tem calma e espere até que o homem diga o que tem a dizer." Poderia ele ter conhecimento da fuga? Apenas esse pensamento foi suficiente para fazer o chefe da Unidade Verde sentir-se indisposto.

- Então, Franz - prosseguiu Becker tranquilamente -, sabe como eu gosto de discutir filosofia consigo, especialmente a filosofia do Malthus, mas neste momento temos uma guerra para ganhar, não é verdade?

Müller semicerrou os olhos.

- Quatsch!

- O quê?

- Eu disse Quatsch, Willi. Disparate completo. Em primeiro lugar, não vamos ganhar guerra nenhuma. Sabe isso tão bem como eu. Em segundo lugar, nem sequer acredito que se preocupe com o fato de ganharmos ou não.

Becker permaneceu hirto como uma estátua. O canalha descobrira tudo. Como conseguira era um mistério, mas tinha com certeza descoberto tudo. Desviou ligeiramente a mão direita de cima do joelho e mediu a distância a que se encontrava da pistola Walther, na gaveta de cima, à esquerda da mesa.

- Como se atreve a afrontar-me dessa forma?

Müller limitou-se a sorrir, recostando-se ainda mais na cadeira.

- Não me compreendeu, Willi. Esta minha afirmação constitui um elogio que lhe dirijo como cientista e filósofo. Surtout le travaille. Acima de tudo, o trabalho. Não é exatamente assim que pensa? Afinal, vou aceitar o doce, se não se importar.

Becker fez deslizar o prato. Ali estava ele, entre a loucura e o receio, a sentir-se acima de tudo como se estivesse perdendo o equilíbrio... E continuava sem uma única pista do motivo que provocara a visita de Müller. Sorriu para dentro. O homem era matreiro. Um grande canalha, mas matreiro.

- Acredito nas minhas pesquisas, se é a isso que se refere.

- Precisamente.

- E a sua pesquisa, Franz, como está correndo? - Era o momento certo para um contra-ataque.

- Avança, pára, depois volta a avançar. Sabe como estas coisas funcionam.

"Claro, claro que sei, mas essencialmente não existe", teve Becker vontade de dizer. Contendo os seus pensamentos, limitou-se a acenar afirmativamente.

- Willi, meu amigo, receio que a guerra vá terminar em breve. Semanas, dias, horas; ninguém sabe ao certo. Não faço a menor idéia do que irá nos acontecer depois disso... a nós e ao pessoal dos nossos laboratórios. Talvez tornem públicas as nossas investigações, ou talvez não. Penso que é crucial que cada uma das unidades, a Azul, a Verde e a Castanha, saiba com precisão qual a natureza de todas as pesquisas e o seu estado atual de desenvolvimento. Dessa maneira, estaremos preparados da melhor forma possível para aguardar o que o futuro nos trará.

Becker arregalou os olhos.

- Decidi começar pela sua Unidade Verde - prosseguiu Müller. - Marcamos uma reunião para as vinte e uma horas desta noite na sala de conferências da Unidade Azul. Por favor, esteja preparado para apresentar as suas pesquisas pormenorizadamente a essa hora.

- Como?

- Já agora, Willi, gostaria de ter algum tempo para estudar os dados antes da apresentação. Por favor, deixe-os sobre a minha mesa pelas dezenove horas. - Os olhos de Müller nem sequer pestanejavam.

Becker ficou paralisado. Os seus dados, incluindo as propriedades sintéticas e biológicas do Estronate 250, encontravam-se dispersos por uma dúzia de blocos de notas, meticulosamente escondidos dentro do casco de certo barco de pescadores de Rostock. Os seus pensamentos precipitavam-se.

- O meu... o meu trabalho está muito fragmentado, Franz. Preciso... preciso de pelo menos um dia, se não dois, para organizar os meus dados. - "Isto não pode estar acontecendo", pensava para si próprio. "Às dezenove é muito cedo. Até mesmo às vinte e uma..." - Deixe-me mostrar-lhe o que já tenho preparado - prosseguiu Becker, inclinando-se em direção à gaveta onde estava a Walther.

Nesse mesmo instante, o Dr. Josef Rendl entrou no gabinete. O seu assistente, um brutamontes que Becker conhecia apenas por Stossel, permanecia lá fora, no átrio. Haviam estado todo o tempo em algum lugar por ali. Becker tinha certeza. Rendl, um antigo pediatra, era um homem baixo e forte, de feições lívidas e gargalhada estridente, duas características que Becker considerava verdadeiramente incomodas. Pelas informações que lhe haviam chegado, Becker estava certo que a mãe de Rendl era judia, fato que fora cuidadosamente ocultado.

Durante um segundo, talvez dois, Becker avaliou a situação. Müller não se encontrava a mais de dois metros de distância, Rendl a três e o animal, Stossel, no máximo a cinco. Matar os três era completamente impossível, mesmo tendo a sorte do seu lado, o que, nesse preciso momento, não parecia ser o caso. A batalha teria de ser verbal... pelo menos por enquanto.

Becker cumprimentou o recém-chegado.

- Bem-vindo, Josef. Meu Deus! Os cérebros de toda a Unidade Azul reunidos! Que honra!

- Willi - Rendl sorriu, devolvendo o cumprimento. - O tenente Stossel e eu estávamos passando por aqui, quando demos conta da sua presença. O que acha da reunião? Uma boa idéia para darmos a conhecer os nossos trabalhos, não? - "Maldito filho de uma rameira judia", pensou Becker. - Sim. Sim. Uma idéia excelente - afirmou.

- E esta noite vai nos dar a honra de apresentar os estudos bioquímicos da Unidade Verde? - Rendl, apesar de ser Oberst, de patente idêntica à de Willi, falava muitas vezes com a mesma autoridade de Müller, que lhe sustentava as palavras.

Becker, fazendo um esforço para manter a compostura, inspirou profundamente.

- Hoje à noite é aceitável. - Os outros homens fizeram um sinal de concordância. - Mas - acrescentou -, amanhã à noite seria muito melhor. - "Porque", pensou para si próprio, "nessa altura planejo estar no mínimo a mil quilômetros de distância daqui."

- Peço desculpas? - Franz Müller apoiou o queixo sobre a mão.

- Sim. Tenho de executar uns testes químicos finais no Estronate 250. Algumas pontas que ficaram soltas na primeira série de experiências. - À medida que Becker lutava para encontrar as palavras certas, buscando incessantemente qualquer tipo de apoio, uma idéia começou a despontar. - Trata-se de uma extração com éter, que foi impossível de levar a cabo, dado que esgotei todas as provisões. No final do dia de ontem, chegaram vários contentores de vinte litros. Creio que foi você que assinou a guia de entrega. - Müller acenou afirmativamente. As palavras de Becker iam-se tornando mais confiantes. - Pois bem, se me permitir que complete esta fase do meu trabalho hoje à noite, terei todo o prazer em apresentar as minhas conclusões amanhã. Não se esqueça de que aquilo que tenho ainda não é muito. O Estronate 250 é muito mais teoria do que fatos concretos. Na verdade, trata-se de uma série de noções promissoras, não haja dúvida, mas o trabalho preliminar sobre os humanos está ainda em estado bruto.

Müller endireitou-se na cadeira e olhou Becker fixamente.

- Se quer saber a verdade, Willi, não acredito em nada do que está dizendo. - As palavras, pesadas como chumbo, saíam-lhe com uma calma atemorizante.

- Está... está falando do quê? - A pergunta na mente de Becker já não era se Müller tinha algum conhecimento sobre os seus planos, mas antes até que ponto é que sabia. O seu último trunfo, os dados falsificados da Unidade Azul, teria de ser jogado. Agora a única questão a ponderar era determinar o momento mais adequado.

- O que estou dizendo é que me informaram que o seu trabalho no Estronate 250 está bastante avançado.

- Isso é um disparate - respondeu Becker.

- Mais, sei que apenas lhe faltam alguns estudos de estabilidade e a eliminação de um efeito secundário problemático - uma tendência hemorrágica, qualquer não é? - antes de se poder avançar com testes clínicos a um nível mais extenso. Você possui aqui talvez a descoberta mais impressionante, se não mesmo a arma mais impressionante dos nossos tempos; no entanto, insiste em dizer que não sabe de nada.

- Ridículo.

- Não, Willi. Não é ridículo. Trata-se de informação vinda diretamente de uma fonte no seu laboratório. Por isso, ou nos revela totalmente o estado atual do seu projeto ou farei com que as informações que possuímos cheguem aos ouvidos de Mengele, ou até mesmo de Himmler.

- As suas acusações são completamente absurdas.

- Deixemos esse julgamento para depois da apresentação do seu trabalho. Então, estamos combinados para hoje à noite?

- Não. Hoje à noite, não. - O momento certo chegara. - O meu trabalho não está preparado para uma apresentação. - Becker fez uma pausa dramática, batendo com as pontas dos dedos no tampo da mesa para logo em seguida os cruzar uns sobre os outros. - O seu... está?

- O quê?

Becker sentiu Müller contrair-se, algo que não era visível aos olhos.

- O seu trabalho. Os estudos de radiação da Unidade Azul. Como vê, vocês dois não são os únicos com... Qual foi a palavra que usou? Ah sim, fontes, era isso. Fontes.

Müller e Rendl entreolharam-se por uma fração de segundos. O suficiente para afastar quaisquer dúvidas quanto à validade das informações de Becker.

- Willi, Willi - prosseguiu Müller, abanando a cabeça -, está abusando da minha paciência. Muito bem, dou-lhe até amanhã à noite. Entretanto, iremos organizar os nossos dados de modo a poder apresentá-los simultaneamente.

- Excelente - respondeu Becker, mostrando por fim estar no lado ofensivo. - E, por favor, veja se consegue ter alguns humanos disponíveis para exames. Seria tão importante para a compreensão do seu trabalho.

Desta vez Müller e Rendl trocaram um olhar mais pronunciado.

- Nada o preocupa, Willi, não é? - inquiriu de súbito Müller.

- Eu... eu lamento, mas não compreendo o que quer dizer, Franz.

- Só se preocupa consigo próprio. Com o seu lugar na história. O aqui e agora nada significam para você. A Alemanha, o Reich, os Judeus, os Americanos, os prisioneiros, os seus colegas... para você é tudo a mesma coisa. Nada significam.

- Cada um de nós tem as suas amantes - respondeu Becker com simplicidade. - Será a imortalidade uma coisa tão aberrante que deva jogá-la pela janela? Tem razão, Franz. As pequenas questões do quotidiano não me interessam. Já atingi níveis de teoria e de pesquisa com que poucos ousaram sequer sonhar. Deverei me preocupar com o preço dos ovos ou se as hemorróidas do Führer estão inflamadas, ou ainda se os prisioneiros daqui, de Ravensbrück, são mais patéticos dentro ou fora de muros, mortos ou vivos?

- Willi, Willi, Willi... - A voz e os olhos de Müller mostravam pena e não censura.

Becker virou-se para Rendl e também nele leu condescendência e não ira. "Não se atrevam a ter pena de mim", queria gritar. "Venerem-me. Os filhos dos seus filhos irão prosperar por minha causa. O Lebensraum pelo qual tantos lutaram e morreram não será alcançado com balas, mas sim com as minhas equações, com a minha solução. Minha!"

Müller interrompeu o silêncio.

- Estamos todos trabalhando no mesmo laboratório. Qualquer um de nós tem o mesmo a perder, caso caiamos em desgraça, seja do Reich ou mais tarde dos Aliados. Fico aguardando uma apresentação completa do seu trabalho relativo ao Estronate 250, doutor Becker.

Becker fez um sinal de assentimento com a cabeça e em silêncio rezou para que a sua representação de um homem vencido tivesse sido convincente.

Poucos minutos mais tarde, os três homens da Unidade Azul saíram. Becker fechou os olhos e massageou a nuca contraída. Depois encheu um copo com três dedos de uma vodca polaca que Edwin lhe mandara, bebendo de um só gole. O encontro com Müller e Rendl, apesar de vitorioso, tinha exaurido as suas forças. Agarrou o cronômetro. Teria tempo para uma sesta? Decidiu que não. Não dormiria até que aquele campo repugnante, com as suas pessoas miseráveis e os prisioneiros de carne e osso, fosse uma coisa do passado.

Caminhou rapidamente do escritório para um edifício baixo, de estrutura idêntica aos barracões, que albergava a seção de pesquisas bioquímicas da Unidade Verde. Olhando rapidamente para ambos os lados, entrou pela porta dos fundos, fechando-a à chave por dentro após a sua passagem. As persianas de madeira estavam fechadas e trancadas, criando uma escuridão quase tangível no interior.

A lanterna encontrava-se junto à porta - local onde a pendurara nessa mesma manhã. Apontando um feixe de luz limitado, Becker contou os quadrados de lousa que compunham o topo da longa bancada principal de trabalho. Quando atingiu o quinto, puxou-o para fora. O móvel que suportava a lousa destacou-se. Por baixo dele, invisível até para uma busca mais minuciosa, via-se o início circular de um túnel.

 

- And the rockets red glare, the bombs bursting in air... Alfi Runstedt soletrava cada palavra, apesar de não entender o seu significado, ao mesmo tempo que ia cavando. A canção, isso sabia, era o hino americano e naquele preciso momento, pelo menos, nada mais interessava. Quando criança, em Leipzig, passara horas junto à nova vitrola da família, memorizando as seleções de um volumoso álbum contendo hinos de todo o mundo. Já desde essa altura, o hino americano Star Spangled Banner tornara-se o seu favorito.

Agora teria oportunidade de ver o próprio país e, ainda mais maravilhoso, tornar-se americano.

- Oh say does that star spangled ba-a-ner-er ye-et wa-ave...

Ao pronunciar uma sílaba, enterrava a pá na terra arenosa. Ao som da sílaba seguinte, atirava a terra para perto da cova. A trincheira, com mais ou menos um metro de profundidade, já ia quase a meio. Deitados na relva, a dois metros para a esquerda de Alfi encontravam-se os cadáveres de uma camponesa e do filho, que iriam ser enterrados naquele local, mal tivesse sido atingida a profundidade suficiente. Alfi Runstedt não lhes prestava qualquer atenção.

Estava despido até à ampla cintura. A terra, misturada com o suor, ia-lhe transformando os braços e o tronco forte em um mar de lama. Os pêlos espessos e ruivos do peito pareciam cobertos por algo que se assemelhava a um manto de excrementos. As calças do uniforme SS estavam encharcadas e imundas.

- ... and the Nome of the brave. O-oh say can you see... - Alfi, se achar que é preciso, faça um intervalo. Seja como for, não podemos ir para a frente com o plano antes da noite se pôr. Já tinha dito isso.

De pé, em cima de um penedo amplo, Willi Becker mirou a cripta estreita, que se encontrava em baixo. Alfi parou de cavar e passou o pulso enlameado pela testa também enlameada.

- Não me custa nada, Herr Oberst. Acredite, não me custa mesmo nada. Não me importo de cavar milhares de buracos no chão como este pela honra que me concedeu e pela recompensa que me prometeu. Diga-me, sabe se as mulheres americanas são todas magras como a Betty Grable? Vi a fotografia dela pendurada em um cacifo de um dos homens dos barracões de Friedrichshafen.

- Não sei, Alfi - respondeu Becker, soltando uma gargalhada. - Em breve verá pelos seus próprios olhos. Se apanharmos o barco na Dinamarca e se o meu primo tiver tratado de todos os preparativos, estaremos na América do Norte com documentos legais dentro de poucas semanas.

- Muitos "ses", não é?

- Nem tanto. O mais importante de todos, seja onde for, é o dinheiro e esse temos em quantidade suficiente. Iremos precisar de alguma sorte, mas as chances de sermos bem sucedidos, sem darem pela nossa falta, são verdadeiramente boas.

- E não acha que eu sou um traidor e um covarde por querer ir embora com você?

- E eu... sou?

- O senhor é diferente, Herr Oberst. Tem investigações para acabar. Eu sou apenas um oficial de baixa patente em um exército que está perdendo a guerra.

- Mas é também o meu assistente. O meu inestimável assistente. Não foi você que me informou sobre o antigo sistema de esgoto que corre sob Ravensbrück?

- Bem, apenas tive a sorte de ter trabalhado no departamento sanitário quando era mais novo e...

- E não foi você que decidiu manter essa informação como um segredo só nosso e ajudar-me no túnel de ligação?

- Sim, suponho que...

- Então, não diga que não merece, Unteroffizier Runstedt. Não volte a repetir isso.

- Muito obrigado, Oberst. Muito obrigado. - E naquele preciso momento, Alfred Runstedt, o homem que participara, quando não assumira a seu cargo, no extermínio de alguns milhares de prisioneiras em Ravensbrück, o homem que pacientemente estrangulara, há menos de uma hora, uma mulher até à morte, o seu filho, marido e pai, chorou de alegria.

Hollywood, Nova Iorque, basebol, Chicago - por ora apenas palavras, que em breve significariam a sua vida. Desde a invasão da Normandia em Junho e a partir da tentativa frustrada de assassinar o Führer em Rastenburgo, na Prússia Oriental, com cada vez mais freqüência Alfi fora forçado a suportar o recorrente pesadelo da sua própria captura e morte. Em uma das versões do sonho, era vítima de execução por enforcamento; em outra, por fuzilamento. Em uma última versão, via prisioneiros fantasmagóricos, completamente despidos, a espancá-lo até à morte com paus.

Em breve os pesadelos terminariam.

A trincheira já quase atingira a profundidade necessária. O pequeno bosque com árvores, que naquele momento funcionava como cemitério improvisado, acolhia a noite mais depressa que o campo adjacente. Estava quase escuro, quando Becker saltou do rochedo.

- Então só faltam mais umas pazadas, não é? - perguntou.

- Acho que sim - respondeu Alfi. Tinha vestido um casaco leve para se proteger do frio do anoitecer. A camisa do uniforme, pendurada em um ramo, iria manter-se limpa para a sua última aparição.

- Quer um charuto?

- Muito obrigado, Herr Oberst. - Alfi fez uma pausa para conseguir acender o fino charuto, mais um oriundo daquele fornecimento infindável que Becker possuía.

- Acho que já está suficientemente fundo - declarou Becker, após meia dúzia de passas. - Deixe-me ajudá-lo.

Alfi trepou para fora da cova. Um segurando os braços e o outro as pernas, os dois homens atiraram sem cerimônias os corpos da mulher e da criança para dentro do buraco. Alfi acabou de encher a cova com a pá. Becker ajudava, utilizando o pé.

- Peço desculpas se estou abusando, Herr Oberst - arriscou Alfi, à medida que cavava -, mas acha que há alguma possibilidade de avisar a minha irmã na zona de munições de Schwartzheide que, ao contrário do que dirão os telegramas que irá receber, eu estou vivo e bem de saúde?

Becker esboçou um pequeno sorriso e abanou a cabeça.

- Alfi, Alfi, já expliquei a necessidade de manter isto em segredo. Por que razão você acha que eu esperei até bem poucas horas para te falar do meu plano de fuga? Eu próprio tenho medido cautelosamente cada palavra que digo, com medo de me denunciar. Por hora, e durante o futuro próximo, ambos teremos de figurar nas lamentáveis casualidades da guerra. Até mesmo o meu irmão, Edwin, que se encontra no campo de Dachau, não terá conhecimento.

- Compreendo - respondeu Alfi, tomando consciência de que não compreendia, pelo menos na totalidade.

- Pela manhã, eu e você estaremos livres e mortos. - Becker bateu com o pé na camada superior da sepultura e começou a atirar mãos-cheias de areia poeirenta e de agulhas de pinheiro para cima da terra.

A idéia de utilizar os corpos do camponês e do seu genro era de uma genialidade absoluta, Becker tinha de admitir. Ao princípio, o plano original era serem esses dois camponeses a fornecer-lhes um meio de transporte até Rostock. O caminhão não ia deixar de ser conduzido, todavia desta vez estaria ele atrás do volante. Todos os outros detalhes incluídos no plano original eram fascinantes. Quando tudo tivesse terminado, Müller e Rendl seriam obrigados a enfrentar as conseqüências, sem fazerem a mínima idéia de que ele ainda se encontrava vivo.

- ... and the honre of the brave. - Na última frase, Becker juntou a sua voz à de Runstedt, que o olhou espantado.

Repetidos brados de esforço fizeram-se ouvir, enquanto Runstedt e Becker arrastaram primeiro um e depois o segundo corpo através das condutas dos esgotos, que levavam ao falso gabinete do centro de investigação química. A acompanhar os sons das suas diligências, escutava-se o ruído de milhares de ratos arranhando com as unhas, correndo desesperadamente na total escuridão circundante.

O jovem lavrador era, tanto em altura como em compleição, um gêmeo virtual de Becker. O mais velho, tal como Runstedt, era pesado, mas vários centímetros mais alto que o Unteroffizier.

- Não se preocupes com a diferença de altura, Alfi - havia-o tranquilizado Becker. - Quando a explosão e o incêndio terminarem, estes corpos estarão de tal forma destruídos, que ninguém ousará aproximar-se mais do que o necessário para retirar os nossos relógios, anéis, medalhões de identificação e carteiras.

Enquanto Becker empurrava a partir de baixo, Runstedt puxava os corpos através do buraco no chão do gabinete, estendendo-os em seguida sobre o soalho de madeira.

- Perfeito. Perfeito - declarou Becker, à medida que se esgueirava pelo buraco. - Estamos mesmo na hora.

- Oberst - chamou Alfi. - Gostaria de fazer uma pergunta, se não se importar.

- Claro que não.

- Como vamos impedir que descubram o túnel depois do incêndio e da explosão?

- Ah! Um ponto importantíssimo - explicou Becker. - Devo acrescentar que não me surpreende de forma alguma que tenhas colocado essa questão. Guardei a placa de aço que retirou, quando fez a abertura do cano. Encaixa perfeitamente e soldei pequenos ganchos para que não saia do seu lugar. Duvido que descubram o cano, ainda por cima se estiver coberto por cinzas e entulho.

- Genial, Herr Oberst. É verdadeiramente um homem genial.

- Muito obrigado, Unteroffizier. E agora temos de controlar tudo cuidadosamente. Disse alguma coisa seja a quem for que possa sugerir que planeja partir hoje à noite?

- Não, senhor.

- Bom. E disse aos homens do barracão que iria trabalhar comigo até tarde?

- Sim, Oberst.

- Ótimo. Estamos prontos para preparar o éter, montar o explosivo e o cronômetro e trocar de roupas com estes nossos amigos.

- E lá vamos nós encontrar os cachorros-quentes e Betty Grable - acrescentou Alfi.

- Cachorros-quentes e Betty Grable - repetiu Becker. - Mas primeiro um brinde ao sucesso até agora alcançado. Um Amaretto?

- Excelente! Amaretto! Meu Deus, Herr Oberst, como é que arranja estas coisas? - Alfi pegou o copo oferecido, inalou o delicioso cheiro de amêndoa e depois bebeu o líquido em um só trago. O cianeto, com o seu aroma e sabor mortíferos disfarçados, não demorou mais do que breves segundos para surtir efeito.

Becker retirava o uniforme e os seus haveres pessoais ao mesmo tempo que Runstedt, retorcendo-se e vomitando no chão, dava o último suspiro.

Com algum esforço, Becker vestiu o jovem lavrador com o seu próprio uniforme, acrescentando um anel, um porta-moedas, o fio de identificação e, por fim, o relógio de Edwin, um objeto elegante, que muitos no campo associavam à sua figura. Em seguida deu um pequeno passo atrás e, com a ajuda da lanterna resguardada, percorreu com o olhar todo o local. Todas as coisas e pessoas teriam de estar nas posições predeterminadas.

Despiu o lavrador, que iria supostamente servir como duplo de Alfi, lançou as roupas para um lado e depois atirou o corpo despido pelo túnel.

- Agora, Alfi, meu mais fiel servidor, temos de encontrar um lugar para você. - Com um feixe de luz iluminou o rosto roxo e contorcido, que jazia a seus pés.

Em poucos minutos, o cenário estava preparado. O corpo do jovem lavrador encontrava-se no centro do laboratório, com a cabeça pousada junto a um cronômetro e a um contentor de vinte litros de éter. Vários outros recipientes haviam sido espalhados ao longo daquele espaço seco e de madeira. O corpo de Alfi estava perto da porta, o mais longe possível dos vapores explosivos. A expressão facial de Runstedt asseguraria que a morte de Becker fosse aceita.

A elegância e simplicidade de todo o plano dava tanto prazer como qualquer grande investigação de sucesso, e Becker regozijou-se com orgulho, quando pela última vez deu uma vista de olhos à sua volta.

Verificou a pequena ignição do explosivo e acertou o cronômetro para dez minutos mais tarde.

Um sorriso cobria todo o rosto de Willi Becker, à medida que este deslizava o corpo pelo túnel e puxava o móvel da bancada de trabalho para o seu lugar original. Selou a abertura do cano de esgoto e, sem olhar uma única vez para o corpo do lavrador, rastejou em direção à saída, que estava além do arame eletrificado do campo.

Encontrava-se ao volante do caminhão, a quinhentos metros do campo, quando o tranqüilo céu da noite se tornou vermelho e dourado. Alguns segundos mais tarde, ouviu uma série de explosões abafadas.

- Adeus, Josef Rendl - afirmou. – Me dará imenso prazer ler no New York Times a notícia do seu julgamento e execução. E quanto a você, doutor Müller, estamos empatados, não? Uma pena que nunca venha a saber quem verdadeiramente ganhou. Talvez um dia, se por acaso você sobreviver, eu lhe mande um postal.

A mulher e o filho estavam à sua espera em Rostock. À medida que Becker avançava estrada fora, começou a trautear o Star Spangled Banner.

 

Era uma típica manhã de Dezembro em Massachusetts. Um céu cor de alumínio polido misturava-se com a neve de três dias que cobria os campos de milho ao longo da Estrada 127. Apesar de manchado do sal da estrada, o conversível vermelho MGTD de Jared Samuel continuava a reluzir como um clarão, em contraste com a paisagem.

Sentada ao lado do condutor, Kate Bennett observava o marido percorrendo a estrada regional, utilizando apenas o polegar e os dois primeiros dedos da mão esquerda. Os seus olhos castanho-escuros, apesar de olharem fixamente a estrada, transmitiam descontração e ele parecia até cantar para si próprio. Kate riu.

- Ei - perguntou Jared olhando de relance para o lado -, de que está rindo?

- De você.

- Bem, que alívio. Por momentos pensei que estaria rindo de mim... Explique o que eu estava fazendo que tivesse tanta graça... Talvez valha a pena tomar nota...

- Não era uma piada - respondeu Kate. - Apenas uma sensação agradável. Fico feliz ao vê-lo feliz. Nota-se uma tranqüilidade em você que eu não via desde que a campanha começou.

- Então devia ter acendido a luz do quarto ontem à noite, eram onze e meia, não?

- Não adormeceu depois?

- Não. Cinco minutos de um nirvana total... depois adormeci. - Esboçou aquele sorriso que desde sempre estivera reservado apenas para ela.

- Eu te amo, sabia?... - afirmou Kate.

Jared voltou a olhar para ela. Há já algum tempo que nenhum deles pronunciava aquelas palavras fora do quarto.

- Mesmo sabendo que eu não vou ser o "Honorável Congressista do Sexto Distrito"?

- Especialmente porque não vai ser o "Honorável Congressista do Sexto Distrito". - Kate verificou as horas. - Jared, ainda são nove e trinta. Acha que poderíamos parar no lago só um pouquinho? Há tanto tempo que não vamos lá, Até trouxe um saco com pão para o caso de...

Jared abrandou.

- Só se prometer não subir à rede quando o maldito Carlisle começar a mandar a bola para a minha esquerda.

- Foi só uma vez. Só consegui ganhar um ponto, em quase dois anos que jogamos juntos, e nunca mais me deixou esquecer esse fato.

- Promete que não sobe à rede?

Estaria ele falando sério? Incomodava-a que, após quase cinco anos de casamento, nem sempre conseguisse discernir esse fato.

- Não subo à rede - prometeu por fim, tomando cuidado para não formular uma resposta que pudesse mudar por completo a boa disposição da manhã. Ultimamente parecia que os seus momentos de alegria iam se tornando cada vez menos frequentes e mais frágeis.

- Que os patos te abençoem - acrescentou Jared, em um tom de voz que em nada contribuiu para diminuir as incertezas dela.

O lago, que mais parecia um charco gigante, distava pouca mais de um quilômetro da Estrada 127, em direção ao Oceanside Racquet Club. Em seu redor via-se um denso bosque de pinheiros e carvalhos, separados apenas pelos quintais de aproximadamente uma dúzia de casas - moradias que se distinguiriam pela sua opulência em qualquer outra comunidade, mas que ali, no complexo das Beverly Farms da North Shore, eram apenas medianas. Na extremidade da superfície gelada, com tacos de hóquei na mão, três rapazes perseguiam um disco de borracha de um lado para outro, em um ringue improvisado, munidos de capacetes e joelheiras brilhantes, que reluziam no meio da luz matinal cinzento-pérola. Mais próximo da estrada, um vazadouro impedia a superfície de enregelar. Saltitando na meia-lua criada por esta estrutura, avistava-se um bando de patos. Muitos outros descansavam no gelo circundante. O casal permaneceu sem se mover junto ao carro, inebriados pelo cenário que os rodeava.

- Carrier e Ives - disse Kate pensativamente.

- Bonnie e Clyde - respondeu Jared no mesmo tom de voz.

- É tão romântico, senhor doutor. - Kate conseguiu fazer um ligeiro olhar de reprovação antes de sorrir. O habitual humor negro de Jared era tiro e queda, "humor kamikaze", como ela lhe chamou. - Ande, vamos brincar com os patos - chamou Kate.

Movendo-se sobre as esguias pernas de corredora, objeto das mais variadas fantasias por parte dos seus colegas médicos no Metropolitan Hospital de Boston, Kate desceu facilmente para a margem coberta de neve. O cabelo castanho-avermelhado ondulava dentro do capuz da camisa.

Quando se aproximou da água, um ganso volumoso, de grasnar arrogante, avançou avidamente à procura de recompensa. Kate olhou a ave de frente e depois atirou uma mão-cheia de pão por cima da cabeça do animal em direção a um grupo de pequenos patos selvagens. Um instante mais tarde apareceu Jared, em cima da duna, desfazendo um pão inteiro que atirou com precisão para as patas do ganso. Este abocanhou as migalhas em um ápice e afastou-se.

Kate voltou-se para o marido, colocando as mãos sobre as ancas.

- Está tentando contestar a minha autoridade?

- Sempre do lado dos mais fortes. É esse o meu lema - respondeu de forma alegre. - Eu até votei no Mattingly na sexta eleição para o Congresso. Quer dizer, quem no seu perfeito juízo iria gastar um voto em um perdedor nato como o outro galo?

- Está falando de uma derrota por dois pontos quando começou com vinte e dois pontos de atraso? Grande derrota. Deslize até aqui, rapaz, e prometo dar-lhe o nosso tradicional beijo das manhãs de domingo.

- Temos um beijo tradicional das manhãs de domingo?

- Ainda não.

Jared percorreu com o olhar a margem, optando, por fim, por um caminho mais seguro, apesar de mais longo, do que o percorrido por Kate.

Ela reprimiu um sorriso. "Nunca levante o pé esquerdo enquanto o direito não estiver firmemente colocado", era um dos provérbios favoritos do pai de Jared. E aqui estava o herdeiro, o discípulo, a pôr em pratica no seu sentido mais literal esta filosofia. "Um dia destes, Jared", pensou ela, "vai erguer ambos os pés e descobrir que consegue voar."

O beijo dele foi firme e profundo, com a língua a acariciar-lhe o céu da boca e a parte interior das bochechas. Kate respondeu com candura, fazendo deslizar ambas as mãos até às nádegas e apertando-o de encontro ao seu corpo com firmeza.

- Você beija bem - disse ele. - Muito bem, poderei acrescentar.

- Acha que os patos se importariam se nos rebolássemos na neve? - sussurrou ela, aquecendo-lhe o ouvido com os lábios.

- Acho que não, mas os Carlisle decerto que sim. - Jared libertou-se. - Temos de ir andando. Não compreendo por que razão eles insistem em nos convidar para jogar quando, em dois anos, nunca ganhamos.

- Calculo que devem pura e simplesmente adorar a idéia de um desafio - respondeu Kate, encolhendo os ombros. Depois livrou-se dos restos de pão e seguiu Jared pelo caminho mais seguro até à estrada.

- Telefonou alguém esta manhã? - perguntou Jared, olhando por cima do ombro.    

- Desculpe?

- Enquanto eu estava no banho. - Jared virou-se para Kate à medida que alcançava o MG e se inclinava em direção à capota de lona, que permanecia perfeitamente esticada. - Pareceu-me ouvir o telefone tocar.

- Ah, sim, tocou. - A tensão a fez engolir em seco. Afinal, Jared sempre ouvira o telefone tocar. - Na verdade... não era nada. Era apenas o doutor Willoughby.

Kate sentou-se no seu lugar no carro. Queria ter escolhido um momento mais oportuno para conversar sobre o telefonema do chefe do serviço de patologia.

- Como está o Yoda? - inquiriu ele, sentando-se ao volante.

- Está ótimo. Gostaria que não o chamasse assim, Jared. Ele tem sido muito bom para mim... e parece depreciativo.

- Não é depreciativo. Sinceramente. - Deu a volta à chave de ignição e o motor começou a rugir baixinho. - Sabe que, sem o Yoda, Luke Skywalker nunca teria sobrevivido na primeira série de A Guerra das Estrelas. Que outro nome posso eu dar a uma pessoa que tem dois metros de altura, e careca com sobrancelhas fartas e vive em um pântano? Mas afinal o que ele queria?

Kate percebeu a tensão aumentando e lutou contra essa sensação.

- Queria apenas discutir algumas questões relacionadas com a política do hospital - respondeu tranquilamente. - Mais tarde conto-lhe tudo. E que tal se utilizássemos o tempo que nos resta para planejar uma jogada estratégica contra os Carlisle?

- Não suba à rede. É toda a estratégia de que precisamos. Agora... que coisa era assim tão importante para fazer com que o velho Yoda te ligasse às oito e trinta de uma manhã de domingo?

Apesar das palavras terem sido pronunciadas com ligeireza, Kate reparou que Jared não engatara ainda a marcha. Desde o início do seu relacionamento, ele sentia-se de alguma forma ameaçado tanto pela carreira dela como pela amizade única que Kate estabelecera com o idoso chefe do seu departamento. Nada que ele chegasse alguma vez a confessar, mas a ameaça mantinha-se presente. Ela estava certa disso.

- Mais tarde... está bem? - tentou uma última vez.

Jared desligou o carro.

A boa disposição da manhã dissipara-se bruscamente. Kate tentou estabelecer contato e manter os olhos fixos nos dele.

- Informou-me que amanhã de manhã irá mandar cartas para a faculdade de Medicina e ao Norton Reese anunciando sua aposentadoria em Junho ou mal se arranje um sucessor para chefe do departamento.

- E?...

- E penso que já sabe o que vem a seguir.

Nas profundezas da sua alma, Kate sentiu que pequenas faíscas de raiva iam gradualmente substituindo a tensão. Aquela troca, aquela notícia, a possibilidade de ela se tornar aos trinta e cinco anos a mais nova chefe de departamento, para não falar de ser a única mulher com um cargo de chefia em um departamento naquele hospital, tudo isso deveria ser encarado no casamento com a mesma alegria como outrora fora a eleição de Jared para o Congresso.

- Experimente - disse Jared, perscrutando o lago com um olhar vago.

Kate suspirou.

- Pediu-me autorização para propor o meu nome ao comitê de investigação da faculdade com a sua recomendação pessoal.

- E você agradeceu-lhe muito, porém teve de recusar porque você e o seu marido concordaram, há dois anos, constituir família, quando acabassem as eleições. E você simplesmente não podia arcar com a responsabilidade e o tempo que a chefia de um departamento exige, especialmente um departamento sem dinheiro, com falta de pessoal e que serve de joguete político, como esse do qual o Yoda está fugindo a sete pés, não é verdade?

- Não! - A impertinência da sua voz saiu como um ato reflexo. Amaldiçoou-se por perder tão rapidamente o controle e precisou de alguns segundos para se acalmar antes de prosseguir. - Disse-lhe que iria pensar e discutir o assunto com o meu marido e com alguns dos meus amigos do hospital. Pedi-lhe para não colocar o meu nome na carta, ou então para esperar uma semana antes de enviá-la.

- Já pensou o que esse trabalho irá exigir? Quer dizer, o Yoda teve problemas nas coronárias por duas vezes nos últimos anos e é, sem dúvida alguma, muito mais calmo do que você.

- Raios partam, Jared. Pare de lhe chamar assim. E não teve nada a ver com as coronárias. Apenas uma angina.

- Está bem, uma angina.

- Não acha que poderíamos falar disto depois do jogo?` Não era você que estava preocupado por chegarmos atrasados?...

Jared olhou para o relógio e depois pôs o motor para trabalhar. Voltou-se para ela. As suas feições permaneciam calmas; porém, algo de intenso, talvez até medo, lia-se nos seus olhos. Era o mesmo olhar que Kate observara quando, antes das eleições, ele lhe dissera que a derrota "não era o fim do mundo".

- Claro - respondeu. - Responda-me só uma única pergunta. Tem noção do que vai acontecer a você... a nós... se decidir dirigir aquele departamento?

- Sei... sei que não será fácil. Mas não é exatamente isso o que está perguntando, não é?

Jared abanou a cabeça e desceu o olhar para as mãos entrelaçadas.

Kate sabia perfeitamente ao que ele se referia. Jared tinha trinta e nove anos e era filho único. O fim do primeiro casamento assemelhara-se a um pesadelo, com a mulher fugindo para a Califórnia, carregando nos braços a filha recém-nascida. Até mesmo o pai de Jared, sócio majoritário de uma das mais prestigiadas firmas de advogados em Boston, com toda as mordomias e súditos ao dispor, não conseguira encontrá-los. Jared queria ter filhos. Tanto por si como pelo pai. Haviam concordado esperar pelas eleições, por deferência às pressões de uma campanha política e pela novidade do casamento. Agora nenhum desses fatores era válido. Sim, ela sabia perfeitamente ao que ele se referia.

- A resposta é que - disse por fim Kate -, caso eu aceite a nomeação e seja escolhida, irei precisar de algum tempo até conseguir desempenhar bem o trabalho. Porém, no momento, tudo o que estamos dizendo é pura especulação. Norton Reese não é definitivamente o meu maior apoio desde que divulguei a forma como ele usou o dinheiro destinado à unidade de patologia forense para financiar o novo equipamento de cirurgia cardíaca. Acho que ele preferia cortar um braço a deixar-me ser chefe de um departamento no hospital administrado por ele.

- Quanto tempo? - O tom de voz de Jared era gélido.

- Por favor, querido. Estou implorando. Vamos falar disto quando estivermos sentados na nossa sala de estar e pudermos discutir todas as possibilidades.

- Quanto?

- Não... não sei. Um ano? Dois?

Jared colocou a alavanca das mudanças em primeira, projetando um jato de gelo e neve no ar antes dos pneus imprimirem movimento à viatura.

- A discussão continua nos próximos episódios - afirmou, tanto para ele como para ela.

- Ótimo - concluiu ela.

Sem dizer palavra, Kate afundou no assento. Olhava sem ver através da janela. Por instantes sentiu os pensamentos vaguearem. Em breve começaram a visualizar um único rosto. Kate fechou os olhos em uma tentativa de afastar os pensamentos, em especial aquele rosto. Contudo, por momentos, ela conseguiu ver na perfeição os olhos de Art, vítreos e injetados, de forma tão nítida como naquela tarde, doze anos antes, em que ele a violara. Conseguia ainda cheirar o seu hálito de uísque, sentir o peso de todo o seu tronco sobre si. Apesar de enfiada em uma camisa até aos pés e ainda com uma camisola térmica vestida, Kate começou a tremer.

Jared virou para o estreito caminho de acesso ao clube, À direita de Kate, a superfície metálica do Atlântico luzia por entre uma floresta densa de árvores sem folhas. Porém, ela não prestou atenção.

"Por favor, Art, pare", implorava a sua mente. "Está me machucando. Deixe-me levantar. Eu apenas fiz o exame. Isso não significa que vá candidatar-me."

- Olha, os Carlisle estão à nossa frente. Afinal não estamos atrasados.

A voz de Jared interrompeu o pesadelo. Inundada de suores frios, ela recompôs-se. O ataque que acabava de recordar, ocorrera um dia após o segundo aniversário do seu casamento anterior, uma hora depois de o marido - um homem que falhara primeiro ao tentar tornar-se jogador de futebol profissional, depois na universidade e por fim nos negócios - ter tido conhecimento de que ela fizera o exame de admissão para a faculdade de Medicina. E pior, que ficara classificada entre os cinco primeiros. A necessidade sempre desagradável que ele tinha de a controlar tornara-se repulsiva. Na noite desse mesmo dia, ela saíra de casa.

- Jared - implorou em voz baixa -, depois falamos. Está bem?

- Sim, claro - respondeu. - Depois falamos.

- Fique calma. Como se não soubéssemos que pela primeira vez vamos ganhar.

Do outro lado da rede, Patsy Carlisle fez uma investida infrutífera, que a lançou aos tombos para fora do campo.

Kate observava o pequeno drama pelo qual a mulher estava passando, ainda sentada na quadra, olhando para o marido ao mesmo tempo que ele se afastava, sem ao menos se oferecer para a levantar. Maridos e mulheres jogando em pares, pensou: "Um jogo dentro de um jogo."

- Três match points - disse. - Talvez devêssemos discutir mais vezes antes de jogar.

Bastou um olhar de relance em direção a Jared para perceber que não deveria ter feito referência ao assunto.

- Acabe com eles aplicando aquele velho serviço em força que faz tão bem - incitou, enquanto ele caminhava para a linha de serviço. Tinha certeza de que agora o seu entusiasmo parecia forçado, uma tentativa de expiação.

Jared fez sinal afirmativo com a cabeça e piscou-lhe o olho. Kate abaixou-se junto à rede. À sua frente, a mais de cinco metros, Jim Carlisle passava o peso do seu corpo maciço, perfeitamente desenvolvido, de um pé para o outro. Sendo um investidor imobiliário bem sucedido, um praticante de yachting e campeão do clube já por diversos anos, nunca fora o tipo de pessoa que encara uma derrota de ânimo leve.

- Sabe... - insinuara na única tentativa que alguma vez esboçara para ter um caso com ela. - Há aqueles, como você sabe quem, que se contentam em seguir as pegadas do papai e aqueles que agarram a vida pelos cornos e fazem dela o que querem. Eu pertenço aos últimos.

A referência a Jared, apesar de suspeita, devido a um excesso nítido de martinis, deixara-lhe um sabor amargo de raiva, que Kate estava certa nunca ir desaparecer totalmente. Quando os Carlisle enviaram aos Samuels um cheque para o Comitê do Congresso no valor de quinhentos dólares, Kate esteve prestes a devolvê-lo, juntando um bilhete onde se leria que ele fosse agarrar a vida de outros pelos cornos. Em vez disso e em deferência pelo marido, convidara os Carlisle para jantar. A sua hipocrisia, por muito honroso que fosse o propósito, continuava a exasperá-la de tempos em tempos, especialmente quando Carlisle, encharcado no seu after-shave pretensioso, quase infligia mais uma derrota na equipe Samuels-Bennett.

A bola desenhou um arco a partir da raquete de Jared com uma velocidade enganosa. Uma bola alta perfeita.

Do lugar onde se encontrava, junto à rede, Kate observava Jim e Patsy Carlisle derrapando em paragens simultâneas e, por entre uma agitação de braços, pernas e raquetes, recuar até à linha de fundo do campo.

A bola bateu quinze centímetros dentro do campo e depois ganhou velocidade até à rede, obrigando os Carlisle a uma perseguição frenética.

- Sua raposa - murmurou Kate, à medida que Jared avançava para a pancada mortal que ambos sabiam ser desnecessária. - Isso foi absolutamente maravilhoso.

Finalmente ela estava vencendo o homem. Nem mesmo uma desavença com o marido poderia afastar o prazer que aquele momento lhe proporcionava.

Usando como espelho o grau de preparação para devolver o serviço, representado pelos movimentos de Jim Carlisle, Kate imaginou a forma como Jared se movia atrás dela. Pés bem apoiados, Jared colocara-se na linha. Debruçado, com os joelhos dobrados: Jared batia a bola de encontro à raquete, criando a seu próprio ritmo. Pouco antes de Carlisle começar o ligeiro balançar que indicaria o serviço, ela ouviu a voz de Jared.

- O serviço em força! - exclamou.

Kate contraiu-se, aguardando o poc penetrante e familiar do serviço de Jared e o movimento quase simultâneo de Carlisle para devolver a bola. Porém não ouviu virtualmente nada e com horror pôs-se a observar à medida que Carlisle, com o júbilo de um gato que descobre um pardal ferido, avançava para responder a um serviço muito suave. A jogada fora intencional: à boa maneira de Jared Samuels, a sua forma de afirmar que de modo algum esquecera a discussão anterior.

- Jared, maldito seja - gritou Kate, no momento exato em que Carlisle bateu a bola diretamente no seu peito a menos de quatro metros de distância.

Alguns instantes depois da bola sair da raquete de Carlisle, tocava na de Kate, ricocheteando em direção a um canto da quadra completamente desprotegida. A pancada fora puro reflexo, pura sorte, contudo resultara na perfeição.

- Match - proferiu Kate com simplicidade. Cumprimentou cada um dos adversários, apertando com mais força a mão de Jim. Depois, sem olhar para trás, saiu da quadra em direção aos vestiários.

O Oceanside Racquet Club, uma estrutura de alumínio ondulado compreendendo trezentos metros quadrados, ocupa com pouca graciosidade um pequeno monte com vista para o Atlântico. "Voltado para Wimbledom”, era a forma como o empertigado diretor do clube gostava de descrevê-lo. Deixando o cabelo por lavar e agindo suficientemente rápido para obrigar Jared a apressar-se para apanhá-la, Kate tomou um banho e saiu do edifício. As regras do jogo deles exigiam uma reação ao comportamento de Jared, e ela decidira arrancar no MG para depois parar um ou dois quilômetros mais à frente na estrada. À medida que atravessava o estacionamento, começou à procura das suas chaves nos bolsos da camisa. Quase de imediato recordou-se de as ver sobre a mesa da cozinha.

- Raios!

A sensação era muito familiar. Já no passado ela havia adormecido em dias de exame, requerido a assistência da Polícia para encontrar o carro no estacionamento do aeroporto, ou até mesmo esquecido onde colocara o anel de noivado que Art lhe oferecera. Apesar de, com o passar do tempo, ter vindo a aceitar essa característica como uma preocupação mais ou menos inofensiva, houve uma época em que a visão de pinças deixadas ao acaso no abdômen a impressionara o bastante para influenciá-la na escolha de patologia em detrimento de clínica geral. Nesse dia em particular, ela não sentia qualquer compaixão pelo seu defeito.

De mau humor, caminhou a passos largos, passando ao lado do carro, em direção à estrada. Aquele movimento era um blefe e Jared sabia disso tão bem como ela. Era uma caminhada de mais de uma dúzia de quilômetros até a casa e a temperatura descera até quase enregelar. No entanto, tornava-se necessário manifestar alguma irritação. Depressa percebeu que não podia ser dessa forma. No exato momento em que se deu conta do absurdo da sua atitude, decidindo voltar para trás, ouviu o som distinto da MG trabalhando, atrás de si. Tarde de mais para uma retirada.

Era um jogo entre eles, todavia não exatamente um jogo. O espetáculo era na maior parte das vezes cuidadosamente encenado, mas não deixava de pertencer à vida; ações e reações, espontâneas ou não, que forneciam uma dinâmica única ao seu relacionamento. Não existira qualquer tensão semelhante no seu primeiro casamento. Grosso modo, Arthur Everett decretava e a sua belíssima esposa Kathryn obedecia. Durante dois anos destruidores fora assim. A educação que formara a sua personalidade na infância, não oferecia qualquer alternativa, e ela estava muito assustada e insegura para sequer questionar o sistema. Mesmo agora, havia ocasiões, apesar de menos freqüentes e mais espaçadas, em que os seus pensamentos eram preenchidos por imagens da casa e das crianças, da cozinha bem equipada cheia de luz, do fumo do cachimbo escapando-se do escritório. Tratava-se, estava certa disso, de nada mais da que vestígios, reencarnações dessa sua educação na infância.

Infelizmente, grande parte da educação de Jared era continuamente reforçada, muito graças a um pai que permanecia convencido de que os desígnios de Deus para a mulher eram notoriamente diferentes dos destinados para o homem.

- Tem um traseiro maravilhoso, sabia? - A voz de Jared a fez estremecer. Conduzia a seu lado, estudando-lhe a anatomia através de um par de binóculos.

- Sim, eu sei. - Contraiu as nádegas de forma a que ele pudesse notar e prosseguiu a caminhada. "Por favor, não se magoe", pensou. "Tire esses binóculos estúpidos e olhe para onde vai."

- E o seu rosto? Tenho falado, nos últimos dias, do seu rosto?

- Não, mas, se acha mesmo necessário, fique à vontade.

- É o rosto ouro sobre azul, medalha de ouro, a cara da década, é isso.

- Quase que me matou lá dentro - disse Kate, ao mesmo tempo em que abrandava sem, no entanto, parar.

- Foi infantil.

- E?...

- E foi estúpido.

- E?...

- E não funcionou. Jared!

- E peço desculpas. Sério. O diabo obrigou-me a fazê-lo e eu permiti.

Jared abriu-lhe a porta. Ela parou, hesitou durante os dois segundos obrigatórios e depois entrou. O espetáculo terminara. Enquanto a representação havia decorrido, uma gota de pus fora retirada do seu casamento antes que pudesse infectar. A energia introduzida na sua raiva seria agora canalizada, talvez em uma investida conjunta, para o monte de lenha por cortar que os esperava no pátio e mais tarde em uma batalha com as palavras-cruzadas do Times. Muito provavelmente, antes da tarde terminar, fariam amor.

De olhos fechados, Kate recostou-se no assento, saboreando o que acabara de ouvir. "Peço desculpas." Ele tinha realmente dito isso.

"Os homens da família Samuels foram educados a nunca, pedirem desculpas", era mais um dos ensinamentos da filosofia de J. Winfield Samuels. Kate sofrera dolorosamente por conta desse princípio, mais do que uma vez. Recordou a reação veemente de Jared à possibilidade de ela assumir a chefia do departamento. Já decidira: a manhã resultara em um empate: Pai 1 - Mulher 1.

 

- Bem, doutor Engleson, pode continuar com o seu relatório.

O gemido de Tom Engleson não soou tão inaudível como ele desejara.

- A sua doente continua a sangrar, senhor. É esse o meu relatório.

Durante o ano e meio de médico assistente no Serviço de Ashburton do Metropolitan Hospital de Boston, Engleson lidara já o suficiente com D. K. Bartholomew para saber que teria muita sorte se escapasse com uma conversa de quinze minutos.

O Dr. Donald K. Bartholomew segurou o auscultador com a mão esquerda, ajustou o bloco de notas que se encontrava à sua frente e endireitou-se na cadeira.

- E qual é o hemograma dela?

- Vinte e cinco. Os glóbulos vermelhos desceram de vinte e oito para vinte e cinco. - Engleson imaginou os números sendo cautelosamente reproduzidos com uma caneta preta de feltro. - No total, ela recebeu a transfusão de cinco unidades nas últimas vinte e quatro horas, duas de sangue completo, uma de glóbulos vermelhos e duas de plasma fresco.

Fechou os olhos e aguardou a seqüência interminável de perguntas. Durante alguns segundos reinou o silêncio.

- Quantas unidades de plasma mencionou?

- Duas. O pessoal da hematologia foi vê-la outra vez. O sangue dela não está coagulando corretamente.

Decidira manter a complexa explicação relativa ao problema hemorrágico de Beverly Vitale fora da conversa, se fosse possível. Um simples pedido de Bartholomew para questões específicas iria significar que o telefonema se arrastaria por mais uma meia hora. De fato, nem sequer tinha ao seu dispor uma boa explicação. Os hematologistas sabiam o quê - dois dos fatores de coagulação mais importantes da mulher estavam a níveis críticos - mas não o porquê. Era um problema que o cirurgião devia ao menos ter identificado antes de proceder à curetagem do útero.

- Ainda há testes por fazer?

- Não, senhor. Hoje, pelo menos, não. - Fazer com que D. K. Bartholomew viesse ao hospital em uma manhã de domingo era tão difícil como convencer um gato a saltar para a banheira. - Sugeriram administrar-lhe em grandes quantidades fatores de coagulação e talvez proceder a outra curetagem. Receiam que de outra forma ela se esvaia em sangue.

- Quanto tempo demorará até os administrarem?

- Já começamos, senhor.

Mais uma pausa.

- Bem, então - afirmou, por fim, Bartholomew -, suponho que eu e a doente temos encontro marcado na sala de operações.

- Quer que eu o assista? - Engleson fechou os olhos na esperança de uma resposta positiva.

- Para uma curetagem? Não, muito obrigado, doutor. É um procedimento para um homem só e eu sou suficiente. Estarei aí por volta do meio-dia. Por favor, avise a equipe do bloco operatório.

- Ótimo - respondeu Engleson, exausto. Já antes ele marcara a sala de operações para Beverly Vitale. Desligou o telefone e verificou as horas no relógio de parede, colocado sobre a porta do desarrumado escritório de assistente hospitalar. Apenas oito minutos. - Um recorde - anunciou sardonicamente para a sala vazia. .- Acabei de estabelecer um recorde.

Alguns instantes depois, ligou para o bloco operatório.

- Denise, aqui fala Tom Engleson. Lembra-se daquela curetagem do útero que eu marquei para o doutor Bartholomew? ... Vitale. Certo. Pois, estava aqui pensando se seria possível mudar para a sala de operações com observatório. Gostaria de observar... Sei que não é costume utilizar essa sala no fim-de-semana. É por essa razão que estou pedindo em um tom de voz tão submisso... Bartholomew não quer que ninguém o assista, mas assim não pode impedir-me de ver através do vidro... Fico devendo uma, Denise. Obrigado.

Olhando para a sala de operações, através do grosso vidro da janela de observação, Tom Engleson trocava olhares de preocupação com a enfermeira enfezada que assistia o Dr. Donald K. Bartholomew. A dilatação do colo do útero de Beverly Vitale e a subseqüente curetagem, aliás raspagem, da superfície interna do útero não estava correndo bem. Ela dera entrada no serviço de urgência três dias antes devido a uma hemorragia vaginal, que começara com a menstruação, contudo, não teria mais fim. Durante anos, recebera os cuidados ginecológicos de rotina através do Omnicenter - as instalações ambulatórias do Serviço Ashburton de Saúde das Mulheres do Metropolitan Hospital. Sendo o médico que a seguia no Omnicenter, o Dr. K. Bartholomew fora chamado imediatamente.

No exame físico de admissão, Bartholomew reparara em um número elevado de equimoses nos braços e pernas da mulher; porém, decidira, apesar de tudo, proceder a uma curetagem do útero, executada geralmente no caso de hemorragias excessivas. Apenas mandara fazer estudos relativos à coagulação do sangue depois da doente piorar consideravelmente no pós-operatório. Agora que a mulher estava sob o efeito de grande quantidade de fatores de coagulação, Bartholomew resolvera repetir a curetagem.

Beverly Vitale, uma violoncelista magra e frágil, de cabelo liso negro como azeviche e delicadas mãos de artista, encontrava-se inerte sobre a mesa de operações com os olhos tapados e a cabeça caída para o lado, perfazendo um ângulo de noventa graus. Um tubo de poliestireno, que através da boca atingia a traquéia, ligava-a ao equipamento de anestesia. As pernas, envolvidas em lençóis esterilizados, mantinham-se suspensas com estribos de tecido, presos a cada um dos calcanhares. Acima dela, na zona de observação, Tom Engleson via e esperava. Vestia uma das batas indicadas para a sala de operações, com touca para o cabelo e sapatilhas para os pés, todavia sem máscara.

Quando observou o aumento do nível de sangue aspirado, no recipiente de vácuo colocado na parede, Engleson interrogou-se sobre a possibilidade do Dr. K. Bartholomew considerar a hipótese de retirar totalmente o útero da mulher. Amaldiçoou-se por não conseguir desprezar o protocolo e fazer-se convidado na sala de operações.

A perspectiva de o velho cirurgião avançar para uma histerectomia fez crescer um nó de raiva na garganta do médico assistente. Grande parte da sua reação, ele sabia disso, tinha diretamente a ver com Beverly Vitale. Apesar de lhe ter dirigido poucas vezes a palavra, Engleson começara a conceber fantasias com ela e estava determinado a vê-la quando lhe fosse dada alta. Agora os seus pensamentos acrescentavam: se lhe fosse dada alta. Olhou mais uma vez para o recipiente e depois para Bartholomew. Nos olhos do homem lia-se nitidamente um misto de confusão e incerteza.

- A pressão arterial dela está descendo um pouquinho.

Engleson assustou-se com o som da voz esganiçada do anestesista que entrou por um velho alto falante colocado atrás dele.

- Menina, traga-me a unidade de sangue mais recente que tiver e veja se o banco de sangue pode nos enviar até dez unidades de plaquetas.

- Sim, senhor - retorquiu a enfermeira. - Doutor Bartholomew, a perda de sangue até agora atingiu os quatrocentos e cinqüenta centímetros cúbicos.

Bartholomew não respondeu de imediato. Permaneceu sem se mexer, olhando para o contínuo fluxo rubro que vinha do colo do útero de Beverly Vitale.

- Vamos tentar com Pitocin. Talvez o útero se contraia - disse por fim.

- Doutor Bartholomew - interveio o anestesista, em um tom de voz ainda mais tenso -, já pediu Pitocin. Tem sido dado. Doses máximas.

Engleson esforçou-se por ver o rosto do velho cirurgião. Se ele se apressasse a chegar à sala de operações e o homem não precisasse de ajuda, decerto que não escaparia de uma queixa formal... Antes que pudesse completar o pensamento, o bip pendurado à cintura emitiu o som abrasivo que assinala uma transmissão.

- Doutor Engleson, ligue dois oito três stat. Doutor Engleson, dois oito três stat, por favor.

Ansiosamente, verificou mais uma vez a cena lá em baixo. Em seguida, o assistente correu até ao telefone mais próximo. Uma das regras do Serviço Ashburton determinava que todas as transmissões de bip teriam de ser respondidas dentro dos sessenta segundos seguintes. Haviam mesmo chegado a instalar telefones dentro dos banheiros dos assistentes com esse propósito.

A chamada relacionava-se com um doente de pós-operatório, cuja temperatura subira até aos 39,4 graus centígrados, não era uma situação de vida ou morte. Quando Engleson acabou de ouvir o relatório da enfermeira, dando ordens para avaliar a febre do doente, e regressou para a janela de observação, Bartholomew já começara a pincelar com anti-séptico a zona inferior do abdômen de Beverly Vitale.

Engleson ligou com a mão direita o microfone.

- O que está acontecendo? - Em baixo, ninguém reagiu à sua voz. - Conseguem ouvir-me?

Outra vez o silêncio.

Através da porta da área de desinfecção, Engleson viu Carol Nixon, uma interna de cirurgia que estava passando pelo Serviço Ashburton, começar a desinfetar-se. Pelo visto Bartholomew chamara-a para assistir, talvez por não terem encontrado Engleson.

- Só por cima do meu cadáver - balbuciou Engleson, à medida que descia à pressa as escadas. - Nem por sombra abre essa mulher sem a minha presença.

Em menos de um minuto, Engleson encontrava-se junto a Carol na área de desinfecção.

- As enfermeiras disseram-me que o Mãos de Pedra estava à sua procura - disse-lhe a mulher. - Estava terminando um caso no fundo do corredor, quando a Denise me achou. É preciso eu ficar?

-Talvez queira aprender com o mestre que está lá dentro - respondeu com azedume Engleson, limpando as unhas com um palito de laranjeira. A interna sorriu, recusou agradecidamente e deixou-o a acabar a desinfecção.

- Manda-se vir um pêssego e recebe-se uma pêra. - Foi o único comentário de Bartholomew acerca da troca de ajudantes. Riu alegremente da sua própria piada, nem parecendo reparar na ausência de resposta do outro lado da sala.

Enquanto Engleson se encarregava das compressas e das pinças hemostáticas, Bartholomew fez com o bisturi elétrico uma incisão um pouco abaixo do umbigo de Beverly Vitale até à região da púbis. O bisturi, zunindo e estalando como gordura de bacon quente, retalhou simultaneamente a pele e cauterizou vasos sanguíneos. Em seguida, com a voltagem ao máximo, cortou através de uma fina camada de gordura cor de açafrão até atingir o peritoneu, a membrana opaca que cobria a cavidade abdominal. Alguns golpes com uma tesoura Metzenbaum e o Peritoneu separou-se, revelando os seus intestinos, bexiga e, sob esses, o útero.

De modo mecânico, muito mecânico para o gosto de Engleson, o cirurgião mais velho explorou a cavidade abdominal com uma das mãos.

- Tudo parece estar em ordem - anunciou para a sala. Acho que podemos prosseguir com uma histerectomia.

- Não! - disse em um repente Engleson.

Um frio gélido invadiu a sala.

- Quero dizer, não acham que poderíamos pelo menos considerar a possibilidade de interromper o fluxo da artéria hipogástrica?

Desejava acrescentar ainda os seus sentimentos relativos à execução apressada de uma histerectomia em uma mulher de trinta anos sem filhos; todavia, controlou-se. Também não fez referência, pelo menos nesse instante, ao fato de a interrupção da hipogástrica, apesar de nem sempre estancar eficazmente hemorragias, ser uma prática comum em um caso deste gênero. Bartholomew seguia ainda a velha escola - a escola na qual se retirava um útero com a naturalidade de um dermatologista ao extrair uma verruga.

Os olhos azul-pálidos do Dr. K. Bartholomew levantaram-se e focaram a sua atenção em Engleson. Durante cinco segundos, talvez dez, um silêncio mórbido instalou-se, apenas violado pelo sibilar do ar no aparelho de vácuo. O esguio assistente sustinha o seu argumento e ao mesmo tempo a respiração. Um acesso de raiva do velho cirurgião resultaria em uma confrontação que colocaria a vida de Beverly Vitale ainda mais em risco. Por fim, com o passar do tempo, Engleson observou o olhar gélido de Bartholomew suavizar-se.

- Obrigado pela sugestão, doutor - afirmou com frieza o cirurgião. - Acho que talvez devêssemos experimentar.

As máscaras camuflaram os sinais de alívio de todos os presentes na sala.

- Você ou eu? - perguntou Engleson.

- Eu... eu há muito tempo não utilizo esse procedimento - desculpou-se Bartholomew.

- Não se preocupe, fazemos em conjunto.

Em poucos minutos, a interrupção arterial estava terminada Quase de imediato, a hemorragia oriunda do interior do útero começou a diminuir.

- Enquanto esperamos para ver se funciona - interveio Engleson -, importa-se que eu observasse melhor as trompas e os ovários?

Bartholomew encolheu os ombros e acenou afirmativamente com a cabeça.

Engleson examinou a trompa de Falópio, primeiro em um ovário, depois no outro. Qualquer coisa parecia não estar bem. Cuidadosamente retirou o ovário esquerdo através da incisão. Possuía metade do tamanho normal, com manchas cinzentas, e estava bastante rijo. Foi a vez dos olhos de Engleson se arregalarem. "Disse que estava tudo em ordem." Bartholomew ficou atônito. O homem exibia um aspecto ao mesmo tempo transtornado e apático, como se tivesse aberto os olhos diante de um espelho e dado de cara com a dolorosa verdade. O ovário direito da mulher era idêntico ao esquerdo.

- Acho que nunca vi nada como isto - afirmou Engleson. - Você já?

- Não, bem, não exatamente assim.

- Desculpe?

- Eu disse que também não.

Percebia-se um tom de incerteza, de indecisão nas palavras do homem mais velho. Aproximou-se e estendeu a mão até tocar no ovário.

- Tem certeza? - insistiu Engleson.

- Eu... é possível que já tenha tocado em um neste estado. Estou tentando me lembrar. Sugere fazer uma biópsia?

Engleson acenou de modo afirmativo.

- Um fragmento cuneiforme?

Mais um aceno do médico assistente.

A confiança do velho cirurgião estava indubitavelmente abalada.

Quando procederam à biópsia seccional, a hemorragia abrandara em grande escala. À medida que Engleson se preparava para fechar a incisão abdominal sobre o útero que acabara de preservar, sentiu que a ironia dos últimos acontecimentos lhe provocava um mal-estar nas entranhas. Era certo que tinham salvo o útero. Uma bela obra de cirurgia. Porém, se a patologia dos ovários de Beverly Vitale era tão extensa como aparentava, a mulher nunca na vida teria a capacidade de conceber uma criança.

- Denise - pediu -, pode descobrir quem está encarregado da anatomia patológica este mês? Tanto o médico assistente como o resto do pessoal, okay?

- Imediatamente.

Engleson observou de soslaio o rosto tranqüilo e o cabelo desgrenhado da jovem violoncelista. "Algumas mulheres passam anos tentando engravidar, nunca sabendo se conseguem ou não", pensou. "Pelo menos, você já sabe." Taciturnamente começou a fechar a incisão.

Vinte minutos depois, os dois cirurgiões arrastaram-se até ao vestiário dos médicos.

- Doutor Bartholomew, já conseguiu lembrar-se onde foi que encontrou uma patologia uvária semelhante à desta mulher?

- Ah, sim... Bem... não. Eu... o que eu quero dizer é que acho que nunca vi nada parecido.

- Parece querer dizer mais qualquer coisa.

- É possível que tenha uma vez tocado em algo semelhante. Só isso.

- Quando? De quem?

Sentia-se alguma excitação na voz de Engleson.

O Dr. K. Bartholomew, membro da Universidade Americana de Cirurgiões e diplomado pela Universidade Americana de Obstetrícia e Ginecologia, abanou a cabeça.

- Lamento, mas não me lembro - declarou.

- Está falando de quê?

- Tratava-se de outro tipo qualquer de cirurgia. Talvez a remoção de um fibroma. Os ovários apresentavam-se em um estado semelhante aos desta mulher. Mas não havia ninguém à volta para consultar e penso que tinha ainda um ou dois casos para resolver e...

- Por isso limitou-se a ignorar o fato e a fechar?

- Pensei que provavelmente seria uma variante normal.

- Estou vendo, claro... Fez qualquer referência aos ovários no relatório da operação?

- Eu... não me lembro. É capaz de ter ocorrido há vários anos.

O telefone de parede começou a tocar.

- Doutor Bartholomew - prosseguiu Engleson, ignorando o som estrépito do telefone -, acho que não deve continuar a operar.

Após esta afirmação, voltou-se para a parede e pegou o telefone.

- Doutor Engleson. Sim?

- É a Denise. Liguei para a patologia

- Não consegui descobrir quem é o assistente em cirurgia, mas o responsável do hospital é a doutora Bennett.

- Ótimo.

- Perdão?

- Só disse ótimo. Obrigado, Denise.

- Obrigada pelo que fez lá dentro, doutor. Salvou-me o dia.

 

Deitada de barriga para baixo, Kate arqueava as costas, com as ancas erguidas sobre uma almofada, enquanto Jared se ajoelhava entre as pernas dela, segurando-se ás suas nádegas para entrar ainda mais fundo. em um movimento contínuo, enviava jorros de prazer e de dor que lhe desciam pelas entranhas e subiam pela garganta. O clímax de Kate crescia qual um trem que se avista ao longe - primeiro um tinido, uma vibração, depois um zumbido, por fim um ronco surdo. Com a ajuda de Jared, o seu corpo elevou-se do chão até ficar apenas com os calcanhares e a nuca tocando no tapete. Os músculos de Kate contraíam-se sobre o corpo dele, parecendo empurrá-lo ainda mais para o fundo. Ele enterrou os dedos nas costas dela e gemeu em uma voz suave e infantil. Depois ejaculou, com a ereção a pulsar como contraponto das contrações dela.

- Eu te amo - sussurrou. - Oh, Katey, eu te amo tanto.

Carinhosamente envolveu-lhe a cintura com os braços e arrastou-a para o lado dele, tentando permanecer dentro dela o máximo tempo possível. Durante meia hora ficaram deitados sobre o suave tapete da sala de estar, deixando o suor do amor secar com o calor proveniente do fogão de lenha. Vindo da cozinha, o aroma do café filtrado, esquecido há mais de uma hora, abria caminho por entre a doçura da madeira queimada.

Um cobertor de casimira, mais um dos objetos pertencentes ao opulento enxoval oferecido pelo pai de Jared, jazia ao lado deles. Kate usou-o para tapar o marido adormecido e cuidadosamente deslizou sob o corpo dele. Durante algum tempo ficou ajoelhada estudando o rosto daquele homem que, cinco anos antes, arranjara forma de se introduzir, juntamente com uma dúzia de rosas, debaixo dos lençóis de uma maca para ser transportado para a sala de autópsia, apenas com o objetivo de convencê-la a reconsiderar um convite outrora recusado para jantar. Cinco anos. Anos repletos de tantas mudanças, tanto crescimento para ambos. Nessa altura ela ainda era uma jovem nervosa em início de carreira e com excesso de trabalho, e ele era um jovem e promissor advogado, contratado pela Minto-Samuels para lidar com o melindroso Metropolitan Hospital. A recordação de Jared nesses dias - tão ávido e intenso trouxe-lhe ao rosto um sorriso débil.

Kate esticou o braço e tocou nas finas rugas que, como do dia para noite, tinham se materializado junto aos cantos dos olhos do marido.

- Um ano, Jared? - perguntou em silêncio. - Um ano faria assim tanta diferença? Você que percebe tão bem as suas próprias necessidades... Consegue compreender as minhas? Quase instantaneamente outra pergunta, muito mais perturbadora, penetrou nos seus pensamentos: conseguiria ela, compreender as suas próprias necessidades?

Em silêncio levantou-se e caminhou até à janela, que dava para o jardim arborizado dos fundos. Sobreposto às cores suaves da neve varrida, via-se o reflexo do seu corpo nu, que se mantinha esguio e bronzeado graças às constantes dietas e ao quase obsessivo exercício físico. em um impulso, voltou-se de lado e esticou o abdômen para a frente tanto quanto lhe era possível. "Seis meses", pensou, "talvez sete". Não está mal para uma senhora grávida."

Quinze minutos mais tarde, quando o telefone tocou, Kate apressava-se de um lado para o outro na cozinha para preparar uma refeição leve. A ponta do seu robe de flanela por pouco não deitou ao chão uma frigideira com salsichas enquanto corria para agarrar o auscultador, atendendo antes de terminar o primeiro toque. Mesmo assim pôde ver, através da porta que dava para a sala de estar, Jared saindo da posição fetal, na qual estivera dormindo, e começar a espreguiçar-se.

- Alô - respondeu, pondo mentalmente de lado planos exóticos que fizera para acordar o marido.

- Doutora Bennett, daqui fala Tom Engleson. Sou assistente hospitalar graduado do Serviço Ashburton. Lembra-se de mim?

- Claro que sim, Tom. Vimo-nos uma vez no Omnicenter. Salvou-me a vida quando o doutor Zimmermann não estava.

- Salvei? - Notava-se um ligeiro embaraço na sua voz - O que se tinha passado?

- Bem, na realidade, eu apenas precisava de uma nova receita para a pílula anticoncepcional. Mas lembro-me de você. Em que lhe posso ser útil?

A imagem mental que tinha de Engleson era a de um homem desajeitado e informal, com trinta ou trinta e um anos, de feições angulares e um rosto jovial, ligeiramente envelhecido devido a um bigode à Teddy Roosevelt.

- Peço desculpas por lhe telefonar em um domingo.

- Não se preocupe.

- Muito obrigado. A razão por que estou telefonando... é para lhe pedir um conselho relativo à maneira de lidar com uma peça cirúrgica que vai ter oportunidade de ver amanhã: um fragmento do ovário esquerdo de uma doente, retirado durante a interrupção da artéria hipogástrica para estancar uma hemorragia.

- Quantos anos tem a mulher?

Num reflexo imediato, Kate pegou em uma caneta para começar a tirar notas na parte de trás de um envelope. À medida que fazia isso, reparou que Jared estava agora amodorrado junto ao fogão de lenha com Roscoe, um cão quase de raça terrier, de quatro anos de idade, e que era o objeto do carinho e do amor do casal.

- Trinta - respondeu Engleson. - Sem parto, sem gravidez e, de fato, sem ovários.

- O quê?

- Quer dizer, eles estão lá. Mas são completamente diferentes de quaisquer outros ovários que eu alguma vez tenha visto. O doutor Bartholomew estava comigo. Aliás, a mulher é paciente dele, e também ele nunca vira uma patologia como esta.

   Kate retirou um banco alto de debaixo do balcão e enrolou pé à volta de uma das pernas.

- Explique - pediu.

- Bem, seja lá o que isto for, é uniforme e simétrico. Tiramos um fragmento do ovário esquerdo, mas era indiferente se fosse do direito. Encolhido, com a consistência de... de uma bola de squash, mais ou menos duro, mas flexível. A superfície tinha um aspecto bexigoso, encrespado.

- De que cor? - Kate apontara quase todas as palavras.

- Cinzento. Castanho-acinzentado talvez.

- Interessante - afirmou Kate.

- Esta descrição lembra-lhe alguma coisa?

- Não. Pelo menos nada assim de imediato. No entanto, existe um grande número de possibilidades. Tem alguma idéia sobre a razão por que essa mulher tinha uma hemorragia?

- Há duas razões. A primeira é uma contagem de plaquetas de apenas quarenta e cinco mil e a segunda é um nível de fibrinogênio a quinze por cento do normal.

- Um fenômeno auto-imune? - Kate revolveu os pensamentos à procura de uma síndrome clínica que se caracterizasse por aquelas duas anomalias sanguíneas. Um fenômeno auto-imune, o corpo criando anticorpos contra alguns dos seus próprios tecidos, parecia o mais provável.

- Até agora este é o primeiro da lista - disse Engleson, - O pessoal da hematologia começou a administrar-lhe esteróides.

- Ela estava sob alguma medicação?

- Kate! - Era Jared chamando da sala de estar: - sente o cheiro de alguma coisa queimando?

- Nada, exceto vitaminas - respondeu Engleson.

Kate permaneceu calada. Com o auscultador preso debaixo da orelha, aproximou-se do forno, de onde retirou um tabuleiro com quatro montículos esturricados do que seriam ovos no forno, os favoritos de Jared.

- Merda - afirmou.

- O quê? - Jared em simultâneo.

- Ah, desculpe, não estava falando com você. Uma miniatura de uma nuvem escura e densa evadiu-se do forno. - Jared, está tudo bem - gritou para a sala de estar, desta vez tapando o bocal. - Foi apenas... a nossa refeição. Só isso.

- Doutora Bennett, talvez prefira que eu telefone mais tarde...

- Não, Tom, não. Ouça, existe um técnico de histologia pronto para se chamar. O técnico do laboratório de serviço sabe de quem se trata. Peça a essa pessoa que vá aí e comece a analisar a peça através do Technichron. Desta forma, estará pronto para se examinar amanhã e não na terça-feira. Melhor ainda, diga-lhes para irem para o laboratório e me telefonarem para casa. Eu mesma darei as instruções. Combinado?

- Claro. Obrigado.

- De nada - rematou, olhando para os montículos esturricados. - Falo com você mais tarde.

- Ovos no forno? - Jared, enrolado no cobertor de casimira, aproximou-se da porta. Roscoe também a observava, postado entre os joelhos do dono.

Kate acenou envergonhadamente.

- Eu... eu pareceu-me sentir o cheiro de fumaça, mas o meu limitado cérebro estava centrado no que o assistente do hospital dizia e, não sei bem como, parti do princípio que a fumaça vinha do fogão a lenha. Bem... o meu forte nunca foi fazer duas coisas ao mesmo tempo.

- Pena que não tenha decidido deixar o assistente queimar até ficar esturricado e salvado os ovos - disse Jared.

- Fica para a próxima.

- Ótimo. Existe alguma possibilidade de substituição?

- Comermos no Howard Johnson's?

- Obrigado, mas prefiro aventurar-me com um café e seja lá o que for que esteja nessa frigideira. Tem a certeza de que não era o Yoda ao telefone?

- Jared...

Ele ergueu as mãos antes que a ira de Kate se exteriorizasse.

- Estava só verificando, só verificando - respondeu. - Ande, Roscoe. Vamos pôr a mesa.

Kate percebeu a ausência de um pedido de desculpas; concluiu, porém, que duas vezes no mesmo dia seria pedir demais. Mais difícil de aceitar era, no entanto, a aparente falta de interesse de Jared sobre o motivo do telefonema. Evitando falar da carreira dela e da vida fora do casamento, era como se estivesse, de alguma forma, minimizando a sua importância. Todavia, em público, Jared mostrava um orgulho especial no profissionalismo e no escalão que Kate atingira. Em privado, ele aceitava-o desde que não lhe queimasse os ovos. Quase contra a sua vontade, Kate sentiu a frustração a diluir o calor e a intimidade gerados pelo fato de terem feito amor. Entrou na sala de estar e dirigiu-se ao local onde a roupa estava empilhada. Vestiu-se, prometendo silenciosamente evitar qualquer outra perturbação que pudesse estragar o dia.

Alguns minutos mais tarde, o chiar de pneus na entrada de cascalho pôs de novo a sua firme resolução à prova. Roscoe foi o primeiro a perceber a chegada, saltando do seu lugar junto ao fogão para a porta da entrada. Jared, agora vestido com calças jeans e uma despretensiosa camisa de flanela, seguiu-o.

- Kate, é o Sandy - gritou Jared para dentro, à medida que abria a porta interior.

- O Sandy?

Dick Sandler, o colega de quarto de Jared em Dartmouth fora padrinho do casamento deles. Piloto da TWA, vivia em South Shore e há já muitos meses que não entrava em contato com o casal.

- A Ellen está com ele?

- Não. Veio sozinho. - Jared abriu a porta exterior de proteção. - Olá, aviador - saudou com pronúncia espanhola; bem-vindo. Tengo exatamente o que precisa, senor; uma virgem americana de dezesseis anos. Solamente cinquenta pesetas.

Sandler, um homem vigoroso do tipo Marlon Brando, trocou fortes abraços com Jared e beijos platônicos com Kate. Em seguida investigou o que lhes restava da refeição ligeira.    

- O quê, não têm bloodies?

Kate estremeceu perante a imagem dos dois homens, incentivados por alguns Bloody Marys, trocando piadas picantes, a que ela raras vezes achava alguma graça, e cantando "I Wanna Go Back to Dartmouth, to Dartmouth on the Hill". Invariavelmente, acabaria por ter de optar entre sair de casa, tentar fechá-los ou, simplesmente, juntar-se a eles.

Quando Ellen Sandler estava presente, esse tipo de problema não surgia. Alguns anos mais velha do que Kate e esposa de Sandy desde o final do curso, Ellen era uma das mulheres mais sedutoras, interessantes e cheias de vida que Kate alguma vez conhecera. Anfitriã requintada e graciosa, mãe de três garotas maravilhosas e uma mulher de negócios relativamente bem sucedida, criara uma empresa de consultoria em design de interiores, que dirigira durante anos a partir de casa; mais recentemente arranjara um pequeno estúdio na cidade, que transformara em escritório.

Sandy, com todo o brilho e estatuto característicos de um piloto de um 747, para além do seu versátil sentido de humor, era o imã que atraía muitas pessoas fascinantes e bem sucedidas ao círculo social dos Sandler. Ellen, pelo menos assim acreditava Kate, representava o elemento agregador.

- Então, Sandy - disse Kate, deixando cair um talo de aipo na bebida e depois a estendendo ao convidado - o que o traz até ao Norte de Boston? Como estão a Ellen e as meninas?

Foi só nesse preciso momento que Kate se deu conta da tristeza visível nos olhos de Sandler.

- Eu... Bem, na verdade, eu estava apenas andando de um lado para outro de carro quando decidi passar por aqui. Uma espécie de capricho. Eu... eu precisava falar com Jared... e com você.

- Você e a Ellen?

O conhecimento que Jared tinha do seu amigo sugeriu-lhe de imediato a pergunta a fazer.

- Eu... eu vou deixá-la. Vou sair de casa.

Sandler olhava desconfortavelmente para a bebida.

Ao ouvir estas palavras, Kate sentiu uma prostração terrível invadir-lhe a alma. Ellen afirmara em mais de uma ocasião e das mais diferentes maneiras o amor inflexível que alimentava por aquele homem. Há quantos anos estavam eles casados? Dezoito anos? Talvez dezenove?

- Que grande merda - sussurrou Jared, pousando a mão sobre o braço de Sandler. - O que aconteceu?

- Nada. Quero dizer, nada de dramático. Em algum lugar pelo caminho acho que nos perdemos um ao outro.

- Sandy, as pessoas que estão casadas há quase vinte anos não se perdem simplesmente uma da outra - comentou Kate. - Agora conte-nos o que aconteceu.

Notava-se uma irritação na voz de Kate, que a surpreendeu. A expressão de Jared sugeria que também ele ficara espantado com o tom de voz dela.

Sandler encolheu os ombros.

- Entre tomar conta da casa e receber os convidados, levar as meninas a uma aula ou outra, aos escoteiros e ainda os comitês no clube e aquela empresa dela... no meio disso tudo, Ellen simplesmente ficou sem energia para mim. Em alguns casos, como por exemplo nas refeições, ainda consegue dar conta do recado, mas não há... já não há qualquer faísca.

- Como a Ellen está lidando com tudo isso? - perguntou Kate, verificando em seguida o rosto de Jared à procura de algum sinal que indicasse estar fazendo perguntas demais. A mensagem recebida era evasiva.

- Ela ainda não sabe.

- O quê? - Desta vez, a sua exclamação suscitou um olhar que exprimia: "Tenha cuidado."

- Só decidi ontem. Mas ando pensando nisto há semanas. Ou há mais tempo. Estava com esperança de que vocês dois tivessem alguma sugestão sobre a melhor forma de lhe dar a notícia.

- Foi a algum conselheiro, psiquiatra ou qualquer coisa do gênero? - inquiriu Jared.

- É muito tarde.

- O que quer dizer com isso? Acabou de dizer que Ellen nem sequer faz idéia dos seus planos... - Jared parecia desconcertado.

Do outro lado da mesa, Kate fechou os olhos. Ela já sabia o motivo.

- Existe outra pessoa - adiantou Sandler constrangido. - Uma comissária de bordo. Eu... Temos nos encontrado há algum tempo.

Para Kate, as palavras doíam como picadas de agulha. Jared andara pressionando-a para que se comprometesse a fazer alterações à sua vida, o que para Ellen Sandler seria facílimo. No entanto, ali estava Sandy, semelhante a Jared em tantas coisas, " rejeitando a mulher por esta não lhe dedicar suficiente energia. A imagem de Ellen sentada enquanto o marido expunha as suas intenções provocou-lhe primeiro repugnância, para logo em seguida esse sentimento dar lugar ao medo. O medo, como acontecia frequentemente, transformou-se em raiva, antes que pudesse ser expresso.

- A Ellen não merece o que estão fazendo - afirmou Kate, afastando-se da mesa. - "Perdemos um ao outro." Sandy não acha que essa desculpa é um pouco inconsistente para o que está acontecendo? Quantos anos tem essa mulher?

- Vinte e seis. Mas não compreendo o que tem a ver.

- Eu sei que não compreende. Não compreende muitas coisas.

Jared levantou-se.

- Um momento, Kate.

- E você também não compreende uma porção de coisas, raios partam. - Lágrimas desciam-lhe pelo rosto. - Agora, rapazes descubram uma maneira de dizer à Ellen que apesar de ela ter feito tudo o que lhe era possível na vida, decerto mais do que vocês dois juntos, isso não foi suficiente. Ela está despedida. Dispensada. Não foi suficientemente vistosa. Não foi suficientemente brilhante. Os serviços dela já não são necessários. Vão me dar licença mas tenho de ir ao banheiro vomitar. Depois vou para o hospital. Pelo menos as pessoas lá ficam agradecidas e apreciam as coisas que faço bem. Gosto disso. Ajuda-me a ter forças para me levantar de manhã.

De punhos cerrados, Kate virou costas e afastou-se apressadamente da sala. Roscoe, que se deitara sob a mesa, seguiu-a até ao centro da sala e, após um breve olhar para os homens, foi atrás dela.

 

Ginger Rittenhouse, professora primária, acabara de terminar a sua corrida ao longo do rio Charles coberto de gelo, quando começou a morrer. Qual vítima acidental de um atirador furtivo, não ouvira o som nem vira o brilho da arma que a atingira. De fato, a arma não era mais nociva do que o canto da gaveta da mesa; o tiro traduzia-se em uma queda acidental, menos de vinte e quatro horas antes, tiro esse que lhe acertara exatamente acima da orelha direita.

- Que galo monstruoso! - exclamara a sua nova companheira de quarto, colocando-lhe um saco de gelo sobre a protuberância em forma de bola de golfe. A mulher, uma enfermeira licenciada, tinha ainda referido o enorme hematoma sob o joelho direito. Ginger estava muito constrangida para mencionar as equimoses idênticas que possuía na parte inferior das costas, nas nádegas e no braço.

A sua morte começou com uma picada - uma sensação elétrica e perturbadora na zona mais funda, atrás do olho direito. A parede da artéria cerebral média direita fora esticada. Ferida pelo choque da gaveta da mesa, os vasos sanguíneos, finos como um pedaço de cordel, haviam desenvolvido uma anomalia minúscula ao longo da camada interna. As plaquetas e o fibrinogênio necessários para corrigir a anomalia estavam presentes, mas em quantidades insuficientes para concluir positivamente o trabalho. O sangue começara a percorrer o seu caminho entre as camadas das paredes dos vasos.

Piscando os olhos devido às dores, sentou-se em um banco e observou o edifício da General Eletric em Cambridge, na outra margem do rio. O contorno do edifício parecia-lhe pouco nítido. Do rasgão contraído na artéria cerebral média direita, o sangue começara a verter, uma ínfima gota de cada vez, para o espaço situado entre a caixa craniana e o cérebro. As fibras nervosas, de uma extrema sensibilidade, perceberam a intrusão e deram início ao envio das suas mensagens de aviso. Ginger, sem qualquer consciência da monstruosa protuberância que possuía sobre a orelha colocou as mãos sobre ambos os lados da cabeça, tentando aliviar a dor.

Fortalecida pelo bater do seu próprio coração, a hemorragia aumentou. Os seus pensamentos tornaram-se fragmentos desconexos. A baixa linha do horizonte de Cambridge começou a desaparecer. Atrás dela, algumas pessoas faziam jogging. Um casal de namorados passara suficientemente perto para ver as horas pelo relógio dela. Ginger, agora paralisada por uma dor tão violenta que extravasava o conceito de dor, estava além da possibilidade de pedir ajuda.

De repente, uma luz brilhante e branca substituiu a agonia, O calor dessa luz banhou a parte interior dos seus olhos. Os pensamentos furtivos misturavam árvores e um rio. Tratava-se do Dingle, o esconderijo secreto da infância. Ela conhecia cada árvore, cada rocha. Finalmente segura e em casa, Ginger Rittenhouse rendeu-se à luz e suavemente tombou para a frente, caindo sobre a neve coberta de fuligem.

 

                         SEGUNDA-FEIRA, 10 DE DEZEMBRO

Primeiro surgiu aquela luz intensa, entre o amarelo e o branco - a luz do Sol de um outro mundo. Depois, com toda a sutileza, começaram a aparecer cores: vermelhos e rosas, púrpuras e azuis. Kate sentiu que estava afundando cada vez mais, como Alice, cuja curiosidade a fez passar a fronteira e descer à toca do coelho. Quantas vezes teria ela focado o seu microscópio sobre uma lamela? Dez mil vezes... talvez cem mil. Ainda assim, cada viagem através daquela luz amarelo-esbranquiçada começava sempre com a sensação de antecipação idêntica à primeira vez.

As cores escureciam e misturavam-se em um mosaico de células; as células do ovário esquerdo de Beverly Vitale, fixadas quimicamente para prevenir a decomposição, depois encerradas em uma caixa de parafina, cortadas finamente e, por fim, coradas com determinados pigmentos para darem cor a uma ou outra estrutura dentro da célula. Cor-de-rosa para o citoplasma, violeta matizado para o núcleo, vermelho para as paredes da célula.

Após uma profunda inspiração, calculada tanto para se descontrair como para aperfeiçoar a sua concentração, Kate focou as lentes e os pensamentos nas células, agora aumentadas mil vezes. Os seus esforços foram menos bem sucedidos do que habitualmente. Pensamentos sobre Sandy e Ellen, sobre Jared e a discussão que haviam tido quando regressara do hospital na noite anterior, continuavam a invadir a sua mente:

Chegara tarde em casa, quase às onze da noite, depois de se ter encontrado com Tom Engleson, entrevistado Beverly Vitale, examinado o fragmento gelado dos seus ovários e, por último, passado uma hora na biblioteca do hospital. De acordo cone suas expectativas, imaginava encontrar os antigos companheiros de quarto em um canto qualquer, em um estado de quase entorpecimento, com o cheiro de meia caixa de Lowenbrau infestando todo o espaço. Em vez disso, deparou-se apenas com um Jared sombrio e perfeitamente sóbrio.

- Olá - disse ele com simplicidade.

- Olá para você também. - Beijou-o na testa e depois sentou-se no divã junto à cadeira dele. - Quando é que o Sandy partiu?

- Há poucas horas. Conseguiu despachar seja lá o que fosse que tinha para fazer?

Kate acenou afirmativamente. A expressão facial de Jared estava tão impassível e fria como as suas próprias palavras. Nada que a espantasse, percebeu Kate. Primeiro a mulher desaparece de casa sem qualquer explicação; depois é obrigado ouvindo as agonias do final de casamento do melhor amigo.

-Acho que... acho que te devo um pedido de desculpas pela forma como agi hoje à tarde. Ou pelo menos uma explicação.

Jared encolheu os ombros.

- Aceito o pedido de desculpas. A explicação é opcional.

- Lamento ter saído daquela maneira.

- Também lamento que o fizesse. Teria me dado alguma ajuda, nem que fosse só pelo apoio moral.

- Desculpe outra vez. - A curta distância que os separava parecia tomar as proporções de um abismo. - Decidiram alguma coisa?

- Ele foi para casa contar tudo à Ellen e tirar de lá as coisas, acho eu. Isto aqui ficou terrivelmente silencioso depois da sua partida. Nenhum de nós conseguiu abrir-se com o outro, Cada um de nós mais parecia completamente absorto nos seus próprios problemas.

- Peço desculpas pela terceira vez. É o meu limite. - Retirou o gancho, abanou a cabeça para soltar o cabelo e penteou-o com os dedos. Era um gesto bastante natural; todavia, a certa altura, tomou consciência de que o fizera por ser um dos gestos que Jared apreciava. - Depois do que aconteceu esta manhã, quero dizer, no carro, não tinha capacidade para ouvir o Sandy descartando-se da Ellen e do casamento deles da maneira como estava fazendo. É assim, aqui estou eu, dando cabo de mim para conseguir levar a minha carreira e para ser uma amiga e esposa razoavelmente satisfatória para você e depois vejo a Ellen, que consegue fazer as duas coisas tão bem e ainda educar três crianças bonitas e talentosas e...

- Não está certo o que está fazendo, Kate.

- O que quer dizer com isso?

- Você está comparando o seu interior ao exterior da Ellen, é isso. Ela tem bom aspecto. Nisso estamos de acordo. Mas não pode limitar-se a ver o Sandy como o único monstro só porque é ele quem vai sair de casa. Há coisas que não sabemos acerca do relacionamento deles. Talvez coisas demasiado importantes para serem ultrapassadas. Seja como for, o que tem isto a ver com a nossa discussão da manhã?

- Jared, sabe perfeitamente o que tem a ver. Ter filhos é uma grande responsabilidade. Como as coisas estão agora, eu já me sinto durante a maior parte do tempo como uma espécie de malabarista com um só braço. As nossas vidas, os nossos empregos, as coisas que fazemos individualmente ou juntos... Se decidíssemos ter um bebê neste momento, que garantia teria eu de não ser obrigada a abandonar algumas coisas?

- O que está insinuando? Tenho quase quarenta anos. Sou casado. Quero ter filhos. A minha mulher me disse que também queria ter filhos. De repente, de um momento para o outro, ter filhos é uma ameaça para o nosso casamento.

- Pelo amor de Deus, Jared, não era isso o que eu queria dizer... e você sabe. Eu não disse que não iria ter filhos. Nem sequer disse que são uma ameaça para o nosso casamento. A única coisa que eu quero dizer é que há muitos aspectos a levar em consideração, especialmente tendo em conta as oportunidades que surgiram no hospital. Não é com a idéia de ter filhos que estou tendo problemas, mas acima de tudo com a escolha do momento certo. Se, neste caso, errarmos, podemos nos deparar com uma mulher amarga e fracassada ou com uma criança insegura e neurótica ou... ou com uma garota de vinte e seis anos. Consegue compreender o que estou dizendo?

- Compreendo que em algum lugar dentro de você existam determinados assuntos que não consegue enfrentar. Assuntos relacionados comigo, com o ter filhos, ou com ambos.

- E você tem tudo bem planejado, não é verdade? - Kate tentava impedir que as lágrimas provenientes do interior do seu peito brotassem para fora.

- Sei o que quero.

- Pois eu não sei. Okay? E sou eu que terei de abdicar de um cargo importante e passar por uma gravidez... e mudar a minha vida. Não quero cometer os mesmos erros horríveis com os nossos filhos que a minha mãe cometeu conosco. Eu... Jared, estou assustada. - Deu-se conta de que era a primeira vez que tinha verdadeiramente reconhecido o seu medo.

- Olá, dona assustada. Eu sou o senhor perplexo. Como está?

- Sabe que você também poderia ter um pouco mais de sentido de oportunidade.

- Okay, pessoal, lá vamos nós outra vez. Chegou a hora de jogar o "vamos cair em cima de tudo o que o Jared diz", pois bem, antes que entre por aí, não conte comigo, por favor.

- Eu vou me deitar.

- Eu vou daqui a pouco.

- Não me acorde.

O fragmento do ovário esquerdo de Beverly Vitale não apresentava quaisquer elementos patológicos semelhantes aos que Kate alguma vez encontrara. O estroina - as células que forneciam o apoio e, de acordo com a teoria, as hormonas femininas essenciais - parecia perfeitamente normal em termos de aparência. Porém os folículos - as bolsas carregadas de células nutrientes que envolvem o óvulo - estavam seletiva e completamente destruídos, sendo substituídos por células fusiformes de cor rosa-escuro, características da esclerose. Partindo do princípio que o padrão se mantinha verdadeiro em ambos os ovários, e não havia qualquer razão para contestar esse princípio, o potencial reprodutor de Beverly Vitale estava tão próximo do zero como uma estimativa permitiria.

Durante quase uma hora, Kate permaneceu ali sentada, analisando fragmento após fragmento e tirando apontamentos para um bloco amarelo.

Por que razão Jared não conseguia compreender o que tudo aquilo significava para ela? Porque não entendia ele como aquele remédio divino fora enviado para uma vida marcada pela falta de objetivos e uma insegurança que quase roçava o desprezo por si própria?

- Meu Deus, se eu não soubesse, iria jurar que você era um modelo que a Zeiss tinha contratado para anunciar a sua ultima linha de microscópios.

- Ah! - respondeu Kate de maneira melodramática, mantendo o olhar fixo no microscópio. - Um macho porco e chauvinista. Já estava à espera disso, doutor Willoughby.

Voltou a cadeira e, como sempre, sentiu uma onda de afeto invadir a sua alma, ao deparar com o chefe do seu departamento. Com os seus sessenta e poucos anos, Stan Willoughby era completamente careca, excetuando uma coroa branca típica de um monge. O bigode fino, da espessura de um lápis, parcialmente obscurecido pelo nariz abatatado, exibia uma tonalidade semelhante. Os olhos faiscavam debaixo de sobrancelhas grossas e desalinhadas. Em conclusão, a parecença em que Jared tanto insistira com o sábio Yoda, apesar de inapropriada, não era de todo incorreta.

Willoughby preparou o cachimbo e puxou um banco, sentando-se junto de Kate.

- É da garota que está no Ashburton cinco?

Kate acenou afirmativamente.

- Será boa hora para eu dar uma olhada?

Apesar da primordial área de interesse de Willoughby ser a histoquímica, trinta e cinco anos de experiência haviam-no tornado um especialista em quase todos os aspectos de patologia. Quase todos... isto é, exceto a administração de um departamento. Willoughby era pura e simplesmente muito passivo, muito simpático para o mundo competitivo que caracterizava um hospital, em particular a corrida desenfreada para obter uma boa porção dentro do limitado núcleo de fundos.

- Stan, juro que nunca vi ou ouvi falar de qualquer coisa deste tipo.

O chefe espreitou pela ocular de estudante do microscópio de ensino, um dispositivo que permitia a duas pessoas observar a peça simultaneamente.

- Importa-se que eu foque melhor?

Kate fez sinal afirmativo com a cabeça.

De forma ritual ele passou de uma ampliação de fraca potência para uma intermédia, depois para uma mais elevada e, por fim, para um aumento de mil vezes, usando uma imersão de óleo, pontuando cada uma das manobras com um "hum" ou "ah". Através do outro par de oculares, Kate seguia-o. Pareciam tão inocentes aquelas células, tão enganosamente inocentes, separadas da fonte e colocadas à disposição do olhar. Em certo sentido, podiam até ser consideradas uma obra de arte, uma montagem delicada, perfeitamente geométrica, a antítese total daquelas monstruosas e desordenadas esculturas de metal que Kate construíra e expusera durante os complicados anos de Mount Holyoke. Era enorme a ironia desse pensamento. A forma segue-se à função. A lei principal do design estrutural. No entanto, neste caso tratava-se de células de formas perfeitas produzidas por um cataclismo biológico equivalente a um vulcão. Um vírus? Uma toxina? Um anticorpo repentinamente transformado? A arte da patologia exigia que nunca se encarassem as células e os tecidos, apesar de fixos e corados, com entidades estáticas.

- Enviou alguns fragmentos para a unidade de microscopia eletrônica? - perguntou Willoughby.

- Ainda não, mas vou mandar.

- E a moça ainda está sangrando?

- Plaquetas a trinta mil. Fibrinogênio a quinze por cento do normal.

- Caramba!

- Sim, caramba. Ontem à noite, consegui falar com ela. História familiar com pouco significado, nenhuma doença séria, não fumante, bebe apenas socialmente, não toma medicamentos...

- Nada?

- Apenas vitaminas e ferro, nada mais. Nenhuma operação exceto um aborto no Omnicenter há cerca de cinco anos. Os dois continuavam a estudar as células enquanto conversavam. - É violoncelista da Orquestra Pops.

- E viagens?

- Europa, China, Japão. Nunca a nenhum país do Terceiro Mundo. Falei-lhe da inveja que eu sentia das pessoas que sabem tocar um instrumento, e ela limitou-se a sorrir, um sorriso sincero, e explicou-me que cada vez que pegava no violoncelo sentia-se tão rica e preenchida como sempre desejara. Falei com ela não mais de meia hora, Stan, mas, quando me afastei tive a sensação de que éramos... não sei, como se fôssemos amigas.

- "Venha aqui passar um dia, Jared. Venha comigo para o trabalho ver o que eu faço e como o faço."

- O pessoal da hematologia está falando de um fenômeno auto-imune. Acreditam que o problema dos ovários é permanente e que foi obra do acaso termos dado por ele nesta altura.

- Não vale a pena ter em conta duas doenças quando uma coincidência pode explicar as coisas. - Willoughby reafirmou a máxima que há já muito tempo a obrigara a interiorizar. - Suponho então que andam a enchê-la de esteróides.

- Stan, ela está mal. Mal mesmo.

- Ah, sim. Peço desculpas. Às vezes me esqueço que nesta história da medicina não é suficiente chegar ao diagnóstico correto. Obrigado por não deixar passar esse aspecto em branco. Pois bem, doutora, acho que tem aqui realmente qualquer coisa. Também nunca deparei com nada deste tipo.

- O doutor Bartholomew também não.

- Esse fóssil? Provavelmente nem consegue reconhecer os próprios sapatos de manhã. Nós estávamos falando de uma ameaça. Esse, por ele próprio, é uma epidemia.

- Não faço comentários.

- Ótimo, tenho comentários que cheguem por nós dois. Ouça, Kate. Importa-se que eu experimente alguns dos meus novos corantes de prata neste material? A técnica parece-me indicada para este tipo de patologia.

- Ia agora perguntar-lhe se não queria fazer isso.

Willoughby ajustou o intercomunicador do sistema de alto falantes, uma das poucas inovações que ele conseguira introduzir no departamento.

- Sheila, é você?

- Não, doutor, é a Jane Fonda. Claro que sou eu. Não ligou para o meu gabinete?

- Importa-se de chegar ao gabinete da doutora Bennett, por favor? - Não se ouviu qualquer resposta. - Sheila, ainda está aí?

- Não é exatamente como está parecendo, doutor Wildoughby - disse, por fim.

- O que é que não é exatamente como está parecendo?

- Sheila - interrompeu com firmeza Kate -, sou eu. Estamos ligando porque temos uma peça sobre a qual gostaríamos de experimentar o corante de prata.

Durante alguns minutos o silêncio invadiu o espaço.

- Estou... estarei aí dentro de momentos - redargüiu a técnica.

Willoughby voltou-se para Kate, com as sobrancelhas grossas anunciando a pergunta.

- E que número foi esse agora?

- Nada.

- Nada? Kate, aquela mulher trabalha para mim há quinze anos. Ou talvez mais. É cínica, impertinente, de nariz empinado, agressiva e às vezes mais mandona que a minha mulher, mas é também a técnica mais brilhante e profissional que eu alguma vez conheci. Se existe qualquer problema entre vocês duas, talvez seja melhor que eu tome conhecimento. Tem alguma coisa a ver com aquele estudo do departamento que dei a você e ao seu amigo dos computadores, o Sebastian, para fazer?

- Não é nada, Stan. Estou falando a sério. Tal como a maior parte das pessoas que são verdadeiramente boas no que fazem, Sheila é muito orgulhosa. Em especial no que diz respeito ao chefe de quinze anos. Eu sei que não cabe a mim decidir, mas, se não lhe causar problemas, gostaria de ter a oportunidade de resolver as nossas incompatibilidades sem envolvê-lo. Pode ser?

Willoughby hesitou, porém, em seguida, encolheu os ombros.

- Obrigada - agradeceu ela. - Se alguma vez eu tiver de assumir a chefia do departamento, gostaria de ter certeza de que tinha uma relação sólida com a técnica superiora, especialmente no caso de ser uma pessoa tão valiosa como Sheila Pierce.

- Valiosa é a palavra certa. Continuo a dar-lhe aumentos e bônus apesar de ela me irritar cada vez que abre a boca. Espere aí, estou enganado ou acabou de me dar luz verde em relação a propor o seu nome ao Reese?

- Sabe perfeitamente que eu disse "se". - Willoughby esboçou um sorriso maldoso. - A sua voz disse "se", mas os seus olhos...

- Chamaram? - Sheila Pierce evitou que Kate fosse obrigada a dar uma resposta. Quarentona, com um poder de sedução eficiente e saudável, obtivera a licenciatura e o mestrado ao serviço do departamento, e Kate sabia-o. Quando esta iniciara o internato, a única assistente de laboratório tornara-se técnica superior de anatomia patológica.

- Ah, Sheila, entre - disse Willoughby.

- Olá, Sheila. - Kate esperava que a sua voz e a sua expressão facial se mostrassem suficientemente seguras para evitar que a mulher tivesse mais alguma explosão, pelo menos até terem oportunidade de falar em particular.

Os olhares de ambas cruzaram-se durante uma fração de segundo; depois, felizmente, Sheila retribuiu o cumprimento. O problema entre ambas, tal como Stan Willoughby suspeitara, surgira durante o estudo do orçamento e dos gastos do departamento de patologia que Kate fizera, auxiliada pelo especialista em computadores. Relacionava-se em particular com um pagamento de seiscentos e cinqüenta dólares para um curso profissional em Miami, cuja participação Sheila nunca conseguira justificar com documentos. Kate decidira esquecer o assunto, sem sequer envolver o chefe do departamento; porém, a técnica estava nitidamente convencida do contrário.

- Como está a minha nova remessa de corante de prata? perguntou Willoughby.

- É muito, mas muito mais espesso que o antigo - comentou Sheila, sentando-se sobre um banco alto, à mesma distância de ambos os médicos. - Catorze horas é capaz de ser demais para aquecê-lo.

- Creio me lembrar de me ter avisado disso quando pela primeira vez sugeri catorze horas. Está tudo perdido?

- Bem, na verdade, eu retirei mais ou menos metade do total e aqueci essa parte durante apenas sete horas.

- E?...

- E parece estar ótimo... diria mesmo, perfeito.

Willoughby fez um sinal pronunciado de alívio.

- Sabe quanto custa fazer esse corante? Quanto acabou de me poupar por?...

- Claro que sei. Para começar, quem é que julga que o mandou vir? O espírito do Natal passado?

Willoughby lançou um olhar a Kate: "Vê do que eu estava falando?" Em seguida, pegou nas caixas de lamelas e de parafina que continham os tecidos do ovário de Beverly Vitale.

- A doutora Bennett tem aqui um problema interessante, que creio poder adaptar-se ao meu corante de prata. Acha que poderia fazer algumas seções e experimentá-lo?

- As suas ordens são as minhas ordens - respondeu Pierce, fazendo uma vênia. - Dê-me uma hora e terei o corante pronto. - Voltou-se em seguida para Kate. - Doutora Bennett, creio que deveria fazer uma sessão de revisão de matéria com este nosso chefe acerca dos princípios básicos da hipertensão. Sobre a mesa dele, junto aos comprimidos para a tensão arterial, encontrei uma embalagem meia comida de Doritos. Então, adeus.

Sheila Pierce deixou a caixa de parafina no departamento de histologia e depois regressou ao seu gabinete. Sobre a mesa encontrava-se o corante a que Willoughby se referira como "dele". Pierce riu com desprezo. Se não fosse por ela, o corante a que brevemente dariam o nome dele não passaria de um dispendioso monte de merda. Ali estavam eles sentados, pensou, Willoughby e aquela insuportável Bennett, partilhando estúpidas piadas de médicos e exibindo-se com as suas masturbações médicas mentais e dando ordens a uma mulher com um quociente de inteligência, quociente de inteligência provado, superior ao que alguma vez eles poderiam aspirar. Cento e cinquenta. Fora isso que a mãe lhe dissera. Ao nível de um gênio. Cento e cinquenta, porra. Então onde estava o grau acadêmico que a colocaria onde ela merecia estar?

Pierce observou a pequena fotografia emoldurada dos pais, cuidadosamente colocada em um dos lados da mesa. Depois as suas feições suavizaram-se. Não era culpa deles o fato de terem nascido pobres: Apenas o seu destino. Não tinham sido eles os responsáveis pelo ataque ou pelo câncer que obrigara a filha a desistir dos seus sonhos e a encetar uma vida onde recebia ordens de meninos privilegiados que, com mais frequência do que imaginara, nem sequer se aproximavam das suas capacidades intelectuais. Cento e cinquenta. Quanto teria Kate Bennett? Cento e dez? No máximo, cento e vinte. No entanto, lá estava ela, com o elevado grau acadêmico, o poder e o futuro pela frente.

"Ouça, Sheila, você é excelente na sua profissão. Não me parece que tenhamos algo a ganhar ao mencionar esta ocorrência ao doutor Willoughby ou mesmo obrigando-te a reembolsar o hospital. Mas por favor não repita, combinado?"

- Cabra condescendente.

- Quem é a cabra? 

Assustada, Sheila voltou-se. Norton Reese encontrava-se de pé junto à ombreira da porta, olhando-a com curiosidade.

- Ai, meu Deus, você me assustou.

- Quem é a cabra?

Reese perscrutou ambas as direções do corredor com olhar, depois entrou no gabinete, fechando a porta atrás dele.

- A Bennett, claro.

- Ah, sim. Que anda agora a nossa menina bonita a preparar?

- Hum, nada de novo. É o maldito encontro da Sociedade Americana.

- Em Miami?

- Sim. Você me garantiu que não havia como descobrirem que eu não tinha ido.

- Ela é uma vigarista cheia de truques - murmurou Reese. - Isso tenho de admitir.

- O quê?

- Mas ela não disse que iria fazer a sua boa ação de escoteira e esquecer o assunto?

- Isso foi o que ela disse, mas ela e o doutor Willoughby são unha e carne. - Sheila juntou os dedos para demonstrar. - Ou ela já lhe disse ou vai manter isto em suspenso sobre a minha cabeça para sempre. Seja como for... - Abanou, zangada, a cabeça.

- Calma, garota, calma - tranquilizou-a Reese, aproximando-se e colocando as mãos por baixo da bata de laboratório de Sheila.

Sheila deu um sorriso de desdém; todavia, permitiu que ele lhe tocasse. Ficando careca, com algum peso a mais e viciado em ternos de três peças, Reese nunca suscitara qualquer atração sexual em Sheila, pelo menos em um sentido visceral. No entanto, ele era o administrador de todo o complexo hospitalar. O tempo e a experiência tinham-lhe ensinado que a verdadeira atração sexual não se baseava tanto no que um homem podia fazer-lhe a ela, mas antes para ela.

- Você tem os seios mais bonitos que eu conheci em uma mulher - sussurrou Reese. - Querida, sabe há quanto tempo é que não?...

Ela impediu o movimento dele em direção ao seu peito, esticando a mão.

- A culpa não é minha, Norty. Eu sou divorciada. Você é que tem todos os compromissos familiares. Lembra-se?

Reese percebeu a determinação patente nos olhos de Sheila e resolveu adiar a investida.

- Com que então - disse, sentando-se na cadeira junto à mesa -, a supermulher voltou a fazer das suas, hein? Bem, acredite ou não, ela é a razão, ou uma das razões, por que vim aqui.

- Sim?

-Talvez seja melhor você se sentar. - Reese encaminhou-a para a cadeira e aguardou que Sheila completasse o movimento. - Sabia que o velho Willoughby decidiu demitir-se?

- Não, não. Na realidade, não sabia.

Sheila sentiu algum ressentimento pelo fato de Reese ter tido conhecimento da decisão antes dela.

-Deu como desculpa um motivo de saúde, mas eu acho que o bicho velho simplesmente não conseguia lidar mais com isto. Nunca conseguiu, verdade seja dita.

Sheila lançou-lhe um olhar de aviso para evitar qualquer outro comentário depreciativo sobre o homem com quem trabalhava há quinze anos.

- É uma pena - murmurou.

- Sério? Pois, querida, agarre-se bem ao seu lugar. É que não imagina o que vai ser mesmo uma pena. Para o suceder, o seu Willoughby quer recomendar uma tal K. Bennett.

Como que fulminada por um relâmpago, Sheila lutou contra a necessidade urgente de vomitar. Durante anos ela tinha, de fato, dirigido o departamento de patologia, utilizando Willoughby para pouco mais do que assinar as ordens de compra e as decisões relativas ao pessoal. Se Kate Bennett passasse a chefe, já era muita sorte conseguir conservar o emprego, quanto mais o seu poder e influência.

- Disse que quer recomendar - conseguiu proferir - Bennett recusa-se a dar-lhe luz verde enquanto não falar com o marido.

Sheila pegou um pequeno boneco dos Smurfes, que tinha sobre a mesa, e começou inconscientemente a torcer-lhe o braço.

- E o que você pensa sobre tudo isto? - perguntou o Reese.

- Depois do que ela fez o ano passado, escrevendo o que parecia ser uma carta de reclamações sobre mim ao conselho: Que acha que eu penso?

- E então? - O braço azul de borracha soltou-se do corpo do boneco, batendo na mão de Sheila.

- Não vou permitir que essa mulher dirija um departamento do meu hospital e ponto final.

- E que você pode fazer?

O vigor previamente demonstrado na voz de Reese suavizou-se.

- Essa, pelo menos por enquanto, é a questão. Comecei a falar com alguns dos membros do conselho de administração e alguns diretores de departamentos. Percebi que, como as coisas estão, ela não teria qualquer dificuldade em ser aprovada. Parece que são poucos, sem contar comigo - prosseguiu com um riso conspirador -, e neste momento contigo, os que sabem como ela pode transformar-se em uma incrível dor de cabeça.

Sheila atirou o braço do boneco e em seguida o resto do corpo para o caixote do lixo.

- Então, ambos sabemos - concluiu.

- Querida, preciso de algo contra ela. Qualquer coisa com que possa influenciar algumas pessoas. A perspectiva de ter de lidar com as cruzadas da Bennett mês após mês é mais do que consigo agüentar. Mantenha os olhos e os ouvidos bem abertos. Vá investigando. Tem de haver qualquer coisa.

- Se eu conseguir descobrir seja o que for - proferiu Sheila -, espero que fique agradecido.

- Ficarei muito agradecido.

- Ótimo - proferiu Sheila com ternura. - Então, vamos ver. - Levantou-se e beijou-lhe a testa, aproximando o peito dos olhos dele. - Muito agradecido - repetiu. - Agora veja se não se esquece disso. - Deu um passo atrás no momento exato em que Reese ia agarrá-la. - Fica para a próxima, Norty. Tenho trabalho para fazer.

 

O nome pomposo do Edifício Braxton não condizia com a sua estrutura. A dada altura, o obelisco de granito com vinte e oito andares fora a peça central da zona financeira de Boston, na baixa da cidade. Agora, rodeado de gigantes mastodontes de vidro e aço, o edifício parecia estar até certo ponto constrangido. Decerto, nenhum transeunte pouco informado conseguiria prever a partir do exterior do edifício a opulência da entrada e dos escritórios interiores, especialmente a magnitude do vigésimo oitavo andar, o piso mais elegante dos três ocupados pela rima de advogados Minton-Samuels.

  1. Winfield Samuels retirou um charuto feito em Havana da caixa própria de cristal e ofereceu-o ao filho. Jared, sentado em um dos lados da ampla e ornamentada secretária Luís XIV, resmungou.

- Pai, nem sequer são onze horas da manhã. O doutor... não sei como se chama... não estabeleceu um limite da quantidade que pode fumar por dia?

- Eu pago ao Shrigley para me tratar de modo a que eu possa fazer o que tiver vontade e não para me dizer quantos charutos devo fumar. - Arrancou a ponta com uma pequena guilhotina de cabo de osso e acendeu-o na chaminé de uma reluzente réplica em prata do Queen Elizabeth. - Juro que se Castro tivesse arranjado uma maneira de impedir que estas beldades chegassem aos Estados Unidos, eu tinha encontrado decerto uma forma de lhe travar qualquer movimento há alguns anos Pense nisto. Provavelmente a paz mundial que temos neste momento se deva apenas a um charuto. - Inspirou longamente, expirou metade, inalou o resto e ficou observando a paisagem através da janela que ia do chão ao teto e a partir da qual podia ver o porto e, mais atrás, o aeroporto.

Jared deu um gole na caneca de café e arriscou lançar no breve olhar para o relógio. Win Samuels chamara-o e Win Samuels diria porquê, quando Win Samuels estivesse pronto para isso. Era assim que sempre funcionara entre eles e, pelo que fora possível a Jared perceber, esta era a exata forma como Jared Winfield Samuels Sênior se relacionara com Win. Essa tomada de consciência tinha um gosto amargo. Antes do seu avô, haviam conseguido estabelecer a linhagem da família por mais de uma dúzia de gerações, ao longo de três séculos e de três continentes. Não que ele desse muita importância a esse tipo de coisas. Os seus anos de revolta em Vermont tinham-no definitivamente comprovado. Mas agora, tendo em conta a possibilidade de ele próprio representar o final da linhagem, sentia-se, mais consciente.

- Então, como está a Kate? - O velho Samuels ainda olhava através da janela quando deu início à conversa.

- Está bem. Um pouco desassossegada com o trabalho, mas bem.

Não era sensato, Jared aprendera ao longo dos anos, fornecer ao pai mais informações do que as que ele pedira. Aos setenta anos, o homem era ainda tão astuto como qualquer jovem. O que desejasse saber, não se coibiria de perguntar.

- E como estão correndo as negociações com o pessoal do sindicato da Granfield?

- Bem. Penso que estão quase acabando. Vamos nos encontrar com eles hoje à tarde. Se aquele empregadozinho idiota conseguir compreender o pacote de pensões que lhes propomos, toda esta confusão deverá resolver-se sem mais interrupções no trabalho.

- Sabia que iria conseguir. Eu disse ao Toby Granfield que você conseguiria.

- Bem, tal como já disse, ainda não acabou.

- Mas vai acabar. - As palavras, mais do que uma afirmação, pressupunham uma ordem.

- Sim - secundou Jared -, vai acabar.

- Ótimo, ótimo. E que tal se você e a Kate tirassem umas miniférias quando tudo estiver assinado e selado? Deus sabe como vocês merecem. Esses escroques do sindicato são lentos, mas duros. O Bert Hodges disse-me que a casa dele em Aruba está livre daqui a duas semanas. E que tal se a reservássemos para você?

- Não sei se... O que eu quero dizer é que terei de falar com a Kate. Ela anda envolvida em uma série de coisas lá no hospital.

- Eu sei. - Win Samuels oscilou devagar a cadeira até ficar de frente para o filho. Com um metro e oitenta, tinha quase a altura de Jared e pesava apenas dois quilos mais. Os óculos sem aros e o cabelo discretamente escurecido neutralizavam os sinais de envelhecimento visíveis nas rugas nos cantos dos olhos e na tez um pouco amarelada.

- O quê?

- Eu disse que já sabia que ela andava bastante atarefada no hospital. - Samuels fez uma pausa, talvez para reforçar o efeito dramático. - O Norton Reese telefonou-me hoje de manhã.

- Como? - Era uma afirmação perturbadora. Durante cinco anos, Jared tratara de todas as questões legais do Metropolitan Hospital de Boston. Não havia qualquer razão que justificasse a necessidade de Norton Reese lidar diretamente com o pai, mesmo aceitando o fato de ambos se conhecerem há alguns anos.

- Contou-me que o chefe de patologia vai se aposentar - Jared acenou afirmativamente, de forma a sublinhar que essa informação não era novidade. - Disse-me também que o chefe de patologia, Willoughby, quer que a Kate o substitua.

- Ela já me falou disso - anuiu Jared.

- A foi? Ótimo. Fico contente por saber que vocês dois abordam acontecimentos de tão pouca importância. - O humor na voz de Samuels era tudo menos sutil.

Não era a primeira ocasião que a independência de Kate era alvo de discussão entre os dois homens. Em algum lugar na gaveta daquela mesa Luís XIV encontravam-se papéis impressos de computador que indicavam que, apesar de Jared ter obtido 49 por cento da totalidade de votos na corrida ao Congresso apenas 42 por cento dos votos provinham de mulheres. Para Win Samuels os números significavam que, se Mrs. Jared Samuels tivesse andado lutando pelo marido em vez de se emporcalhar até aos cotovelos escarafunchando em um monte de cadáveres, Jared estaria nesse momento fazendo as malas em direção a Washington. Egocêntrica, obstinada, desleal, inconsciente esses adjetivos saíam, de tempos em tempos e sem quaisquer pruridos, da boca do velho homem, mas nunca na presença de Kate. Em relação a ela, sempre fora o mais cordial e encantador que lhe era possível.

- Olhe, pai - interveio Jared -, ainda tenho de tomar algumas providências em relação à sessão em Granfield. Acha que poderia?...

- Donna - chamou Samuels pelo intercomunicador - não se importa de trazer mais um chá para mim e um café para o meu filho, por favor?

Jared afundou-se ainda mais na cadeira e ficou mirando, impotente, a parede do fundo, uma parede coberta de fotografias de políticos, atletas e outras celebridades, de braço dado ou cumprimentando o pai. Depois, viam-se fotos idênticas, integrando todavia o avô. Havia ainda uma última em formato grande, que mostrava Jared e o Presidente, tirada em uma reunião de três minutos que o pai combinara com esse único propósito.

Com um discreto bater de porta, a sensual recepcionista de Samuels entrou na sala, colocando as bebidas e um cesto com croissants em uma mesa de apoio de mogno, junto à mesa. Esboçou um sorriso vago em resposta ao "Muito obrigado" de Samuels, uma mensagem sutil que indicava a sua eterna lealdade ao homem poderoso que se sentava atrás da mesa Luís XIV

- Então - retomou Samuels, recostando-se com a xícara de chá em uma mão e o charuto na outra -, qual é a sua opinião sobre esta história do Metropolitan?

- Ainda não pensei muito nisso - mentiu Jared. - Tanto quanto sei, ainda não existe qualquer ação formal.

- Pois bem, sugiro que comece pensando nisso.

- O quê?

- Norton Reese não quer que a Kate assuma esse lugar e, para ser sincero, eu também não. Ele a considera muito nova e com pouca experiência. Disse-me que se ela for nomeada, o que ainda assim não deixa de ser duvidoso, vai acabar por ter um esgotamento, queimar a sua posição e, por último, ser usada e abusada por parte dos políticos e outros chefes de departamento. A Kate não compreende, de todo, as regras do jogo e não sabe que há calos que não devem ser pisados.

- Como os dele? - interveio eficazmente Jared.

- Jared, você me disse que vocês planejavam ter filhos. A Kate acha que consegue fazer isso e ao mesmo tempo dirigir um departamento? E as obrigações dela em relação a você e à sua carreira? Já é suficientemente mau ela ser casada contigo e não ter o seu nome. Meu Deus, só o seu rosto já renderia milhares de votos se ela se dignasse a aparecer em frente às câmeras algumas vezes. Se, além disso, acrescentarmos um bebê recém-nascido, juro que pode concorrer ao Senado e ganhar.

- O trabalho da Kate é o trabalho da Kate - comentou Jared, sem qualquer entusiasmo ou convicção.

- Leve-a às Caraíbas. Converse com ela - sugeriu por fim Samuels. – Faça que ela veja que o casamento inclui uma série de compromissos... Dar e receber.

- Okay, vou tentar.

- Ótimo. Kate depressa irá perceber a quem deve obrigações e lealdade. Ross Mattingly pode estar na curva descendente, mas mesmo assim conseguiu aguentar-se e ganhar as eleições. Não pense que ele não vai dar luta na próxima vez. Quanto menores forem os nossos riscos, melhor. E, sinceramente, como as coisas estão agora, a Kate é um ponto negativo. Fiz-me entender?

- Sem dúvida. - Jared sentia-se completamente esgotado.

- Muito bem. Avise-me quando o negócio de Granfield estiver terminado e diga-me ainda qual é a data que vocês preferem, para que eu possa alertar o Bert Hodges.

Com um ligeiro aceno de cabeça, Winfield Samuels assinalou o final da reunião.

 

Vestido com um uniforme verde-marinho e um casaco branco até os joelhos, Tom Engleson poderia passar por uma personagem da telenovela da tarde: o jovem e zeloso assistente hospitalar, que ora encanta as enfermeiras, ora combate as doenças. Mas os olhos denunciavam-no. Kate reparou na imensa fadiga que eles mostravam no momento em que entrou no gabinete dos assistentes no quarto andar do edifício renovado pela Fundação Ashburton, desta forma apelidado em memória da falecida Sylvia Ashburton. Era uma fadiga que ia além dos círculos cinzentos que rodeavam os olhos ou os finos raios vermelhos perceptíveis na esclerótica.

- Chegou a dormir um pouco? - perguntou Kate, olhando o relógio ao mesmo tempo em que colocava dois recipientes com salada sobre a mesa. Faltavam vinte minutos para as duas horas.

Engleson limitou-se a abanar a cabeça em sinal negativo e começou a tentar tirar a tampa da sua salada com uma destreza obviamente muito longe daquela com que começara o seu turno, trinta horas e meia antes. Ao mesmo tempo em que observava a cara do homem, Kate perguntou-se como era possível os programas de formação de assistentes justificarem a quantidade ridícula de horas que exigiam, em especial no que dizia respeito aos estagiários de cirurgia. Era como se uma geração de médicos estivesse afirmando: "Nós tivemos de fazer assim e nos safamos bem, não?" E entretanto, ano após ano, surgia um erro na leitura de um cardiograma ou uma operação falhava redondamente, não constituindo nunca uma explosão ininterrupta de problemas, apenas incidentes isolados em um ou outro hospital, em um programa e depois em outro - incidentes sem conseqüências duradouras, exceto, obviamente, para os doentes e para as famílias envolvidas.

- Espero que goste de queijo roquefort - disse Kate. - O Gianetti's serve ainda um excelente molho vinagrete. Arrisquei.

- Está, ótimo, diria mesmo perfeito, doutora Bennett. - respondeu Engleson entre duas dentadas. - Já perdi uma ou duas refeições desde que ontem de manhã começou toda esta história da Vitale.

- Coma à vontade. Se quiser, pode experimentar um pouco da minha salada. Não estou com muita fome. E trate-me por Kate. Nós, os patologistas, temos alguns problemas com as formalidades.

Engleson, de boca cheia com mais uma garfada de salada, assentiu.

- Peço desculpas, mas não o encontrei quando vim aqui ontem à noite. A enfermeira disse-me que estava na sala de partos.

- Dois gêmeos.

- Como está Beverly Vitale?

- Esta manhã a contagem sanguínea baixou. Vinte e cinco. Está marcada uma nova contagem para daqui a uma ou duas horas. Se voltar a baixar, damos-lhe mais sangue.

- No tubo digestivo? - perguntou Kate, especulativamente, tendo em conta a perda de sangue.

- É provável. Temos encontrado sangue em todas as fezes. Ela está tomando esteróides, sabia?

- Sim, já sabia. Se ela retiver os esteróides e os anticorpos se descontrolarem, destruirão os próprios fatores de coagulação, se os usar, corre o risco de desenvolver úlceras. É uma daquelas situações em que eu dou graças por ter optado por patologia. O Stan Willoughby e eu revimos esta manhã todos os fragmentos dos ovários. Segundo ele, o que encontramos é único. Neste momento, ele está experimentando alguns corantes especiais e enviou ainda umas lamelas a um colega dele no John Hopkins, que pelo visto é dos melhores a diagnosticar patologia uvária. Anda ainda telefonando para todo lado para ver se apareceu mais alguém na mesma situação em outros departamentos.

- Etiologia?

- Não temos qualquer pista, Tom. Vírus, toxina, reação aos medicamentos. Tudo combinado ou nenhum destes fatores. A e B, mas não C. Ela lhe disse que não estava tomando nenhum medicamento, não é?

- Nada, exceto vitaminas. As multivitaminas mais ferro que prescrevemos através do Omnicenter.

- Pois eu sou a prova viva que essas não causam qualquer problema. Tomei-as durante alguns anos. Faz com que os patologistas fracos fiquem fortes que nem um touro. - Kate dobrou o braço, mostrando os bíceps.

- Faz ainda com que os patologistas se tornem excelentes professores.

- Oh, muito obrigada. - Os olhos verdes de Kate brilharam. - Muito obrigada, Tom. - Durante curtos segundos, Kate reparou que Tom corara. - E que tal se fôssemos cumprimentar a Beverly? Quero certificar-me de alguns aspectos do histórico dela. Pode enfiar a salada na geladeira para comer mais tarde.

- Desde que aquela bactéria que costuma freqüentar o frigorífico não a coma antes... - rematou.Tom. Caminhavam os dois pelo corredor em direção às escadas quando o alto falante superior despertou para a vida.

- Código noventa e nove, Ashburton quinhentos e dois; código noventa e nove, Ashburton quinhentos e dois.

- Meu Deus! - exclamou Tom, desatando ao mesmo tempo a correr para a saída. Kate teve uma reação mais lenta. Quase atingira a porta que levava às escadas quando percebeu que Ashburton 502 era o quarto de Beverly Vitale.

Passara já um ano, talvez até dois, desde a última vez que Kate assistira a uma parada cardíaca e conseqüente tentativa de reanimação. Obtivera o diploma em "suporte avançado de vida"; porém, tanto os testes como os treinos haviam sido sempre executados sobre a Resusci-Annie, um manequim. Essa experiência prática terminara, tal como o internato, vários anos antes. No entanto, naquele preciso momento, nenhuma dessas considerações tinha qualquer importância. O que importava era a vida de uma mulher jovem que adorava música. Com a rapidez de uma atleta, Kate galgou as escadas atrás de Tom Engleson, de Ashburton Quatro para Ashburton Cinco.

O código atraíra mais participantes do que os necessários, médicos assistentes, enfermeiras, estudantes de Medicina e técnicos abarrotavam o quarto 502, invadindo ainda o corredor. Kate precisou se esforçar para obter um lugar junto à porta, de onde teve oportunidade de observar o pesadelo em que se transformaram os últimos minutos de vida de Beverly Vitale.

Tratava-se de uma hemorragia gástrica, quase com certeza proveniente de uma úlcera que corroera uma artéria. A inexorável hemorragia da jovem complicava-se devido também à aspiração do vômito. Imersa em um estado absoluto de impotência, Kate observou Tom Engleson, com o desespero marcando cada traço do rosto, proferindo ordens em um tom de voz enganosamente controlado; o caos organizado da equipe de bata branca, bombeando, injetando, monitorando, relatando, respirando e a aspirando.

E, por entre a amálgama de corpos, deparou com o rosto sem expressão e manchado de sangue de Beverly Vitale.

A luta prolongou-se por mais uma hora, apesar de nunca terem encontrado uma pulsação ou observado um padrão de eletrocardiograma encorajador. No final, nada mais restava do que uma lição sobre a relativa impotência das pessoas e da medicina quando confrontadas com a voluptuosidade da doença e da morte. Tom Engleson, de olhos sombrios e cabisbaixos, abanou a cabeça em um último lampejo de futilidade.

- Acabou - disse em um tom suave. - Muito obrigado a todos. Acabou.

 

                         TERÇA, 11 DE DEZEMBRO

Ao ouvir as informações do trânsito provenientes do helicóptero da estação de rádio WEEI sobre um terrível engarrafamento junto à Ponte Mystic-Tobin, Kate percebeu que ela própria fazia parte daquela fila compacta de carros. Entrar na cidade vinda de North Shore era uma experiência que deveria classificar-se em termos de prazer entre uma auditoria das finanças e uma desvitalização de um dente. Apesar de terça-feira ser normalmente um dia de maior calmaria, naquela manhã ela já enfrentara chuva, granizo, neve e até mesmo uns bizarros raios de sol durante o seu percurso de cerca de cinquenta quilômetros; uma variedade de meteorologia difícil mesmo para os habitantes de Boston. Depois de um profundo suspiro, Kate resignou-se com o atraso de meia hora, talvez até mais, para o encontro que Stan Willoughby marcara com ela no White Memorial Hospital.

O telefonema do chefe de patologia interrompera mais uma manhã confusa e agridoce com Jared. Parecia que a intensidade e o amor presentes no relacionamento deles ia gradualmente desaparecendo, não apenas de dia para dia, mas de hora para hora e até de minuto para minuto. Ao pronunciar uma frase, ela reconhecia Jared Samuels, o indivíduo divertido, sensível e por vezes ingênuo com quem casara e por quem ainda estava profundamente apaixonada. Na frase seguinte, tornava-se calculista e distante, uma imitação em miniatura do próprio pai, intransigente em determinadas áreas que deveriam encarar como marido e mulher. Por fim, depois de uma hora desgastante de pequenas desavenças e reconciliações, Jared sugerira uma semana ou dez dias juntos em Aruba, longe das pressões e exigências das respectivas carreiras.

- O que acha, Boots? - perguntara-lhe, tratando-a pelo apelido que mais gostava das quatro ou cinco que normalmente utilizava. - Aruba a nossos pés... - A expressão dos olhos dele, talvez urgência, talvez medo, desmentia a ligeireza com que proferia as palavras.

- Está bem. Aruba a nossos pés, Jared - anuiu ela por fim.

- Então quer dizer que vamos?

- Se Stan me dispensar e se a idéia de passear com uma mulher coberta de Coppertone for suportável, vamos.

Naquele preciso minuto, Jared parece renascer.

Centímetro a centímetro, o trânsito de aço e ferro dirige-se em uma fila à velocidade do caracol em direção à ponte, devido a um choque ocorrido na faixa da esquerda.

O programa Olho no Céu não dispensava um só dos seus clichês para descrever a confusão a sul da Estrada 1. Kate conseguiu enfiar o seu Volvo entre dois carros, mas pouco ganhou com a manobra. Por fim, resignada com a situação, recostou-se, aumentou o volume da estação de rádio, exclusivamente dedicada às notícias, e concentrou-se na tentativa de evitar o pretenso galã que lhe acenava e piscava o olho em um caminhão na faixa ao lado.

As notícias, idênticas ao telefonema de Stan Willoughby, focavam a morte súbita do herói dos Red Sox, Bobby Geary, um rapaz nativo de Boston que começara a jogar na zona sul da cidade, a escassos dois quilômetros de distância do luxuoso condomínio, onde fora encontrado pela mãe depois de um aparente ataque cardíaco. O nome de Stan tinha sido mencionado inúmeras vezes como o médico responsável pela autópsia do homem que oferecera milhares de entradas gratuitas e acrescentara um piso inteiro ao Hospital Pediátrico em nome "dos putos de Boston".

- Kate - começara Willoughby -, espero não estar interrompendo nada.

- Não, não. Estou me arrumando para ir trabalhar - respondera, sorrindo para Jared, que se encontrava nu junto à porta da casa do banheiro dançando um hula desengonçado e a fazendo-lhe sinal para lhe escovar as costas no chuveiro.

- Pois bem, não quero que venha trabalhar.

- O quê?

- Quero que vá ao White Memorial. Tem um encontro marcado no departamento de patologia às oito e trinta. Leon Olesky estará à sua espera. Conhece-o?

- Apenas de nome.

- Eu telefonei para todo o lado tentando descobrir se alguém tivera um caso semelhante ao da nossa Miss Vitale. De início não encontrei nada, mas ontem no fim da noite Leon me telefonou. Segundo a descrição dele, os dois casos, tanto o dele como o nosso, parecem idênticos. Disse-lhe que você iria passar por lá para estudar o material dele,

- Que idade tinha a mulher? - perguntara com excitação Kate.

- Não me recordo do que ele disse. Vinte e oito, penso eu.

- E a causa da morte?

- Ah! Achei que nunca perguntaria. Hemorragia cerebral como conseqüência de um ligeiro traumatismo craniano.

- Plaquetas? Fibrinogênio? - A mão crispara-se no auscultador.

- Isso, Leon não sabia. O caso foi tratado por um dos seus subordinados. Ele disse que iria tentar descobrir antes de você chegar lá.

- Não pode vir comigo?

- Nem pensar nisso. Não de Geary?

- O jogador de basebol?

- Teve um ataque cardíaco ontem à noite. Encontraram-no morto na cama. Vou fazer a autópsia às dez e trinta. Aliás, gostaria que voltasse antes que eu terminasse, no caso de precisar da sua ajuda.

- Combinado. Você é um chefe dos diabos, Stanley. Tem certeza de que quer se aposentar?

- Ontem, se tivesse sido possível, Katey. Volte depressa para o hospital depois do encontro com o Olesky, está bem. Nunca se sabe o que este cérebro destrambelhado pode ignorar.

Ouviu as notícias acerca do White Memorial Hospital, um aglomerado arquitetônico composto por vários conjuntos de edifícios, era a nau capitânia da frota dos hospitais associados à Universidade de Medicina de Harvard. Sobranceiro ao rio Charles, perto do North End, o White Memorial possuía mais departamentos de investigação, professores, bolsas e peritos de administração do que qualquer outro hospital da região, se não mesmo do mundo. Em tempos, o Metropolitan Hospital tivera maior preponderância, fornecendo 90 por cento dos professores que lecionavam Medicina por todo o pais, mas esse prestigiado passado fora há muito soterrado pela avalancha de administradores incompetentes, publicidade desfavorável e políticos autárquicos corruptos. Apesar de este último hospital ter de certo modo ressurgido qualitativamente sob a orientação de Norton Reese, era muito pouco provável que alguma vez recuperasse o prestígio, as doações e a incondicional lealdade por parte dos doentes nos dias de glória. Nessa altura houvera um homem que mandara tatuar sobre o peito: "Levem-me para o Metro."

Fora há algum tempo que Kate tivera razões para visitar o Departamento de Patologia do White Memorial e não conseguiu evitar uma sensação de desconforto ao testemunhar as melhorias e desenvolvimentos que tinham desde então ocorrido. Alguns equipamentos, que o seu departamento tanto se orgulhava de ter recentemente adquirido, existiam nessa unidade duplicados ou triplicados. Os corredores e gabinetes exibiam uma iluminação clara, ostentando plantas, quadros e outros pequenos detalhes que tornavam o ambiente de trabalho menos entediante e opressivo. Quase inconscientemente, Kate deu por si a elaborar uma lista mental de todas as coisas que iria tentar conseguir como chefe de patologia no Metropolitan.

Leon Olesky, um homem calmo e de poucas palavras, aceitou as desculpas pelo atraso e, após uma troca de cumprimentos acerca de Stan Willoughby, deixou-a sozinha no gabinete dele com o material proveniente da autópsia de Ginger Rittenhouse. em um pequeno papel cor-de-rosa, junto a um elegante microscópio, encontravam-se os dados relativos ao estudo sanguíneo da mulher. Apenas dois dos parâmetros levados em consideração não eram normais: Fibrinogênio e plaquetas. Os níveis de cada um mostravam-se bastante baixos, constituindo um potencial risco de morte. Com as mãos tremendo de ansiedade, Kate pegou o primeiro fragmento de ovário e colocou-o entre as lamelas do microscópio. Depois de um momento de pausa para descontrair a tensão dos músculos do pescoço, Kate inclinou-se para a frente para dar início a mais uma viagem através da intensa luz amarela e branca.

Quarenta e cinco minutos mais tarde, já não estava sozinha. Leon Olesky apoiava-se a uma das oculares do microscópio de ensino, controlando o foco com a mão direita e movendo a lamela com a esquerda. Em frente deste, no lugar previamente ocupado por Kate, sentava-se Tom Engleson.

- Sabe - disse Olesky -, se Stan não tivesse me falado do seu caso, as descobertas que fizemos acerca da nossa jovem tinham-nos passado completamente despercebidas. Referi esse assunto ontem à noite na conferência semanal do departamento, mas ninguém reagiu. Uma hora mais tarde, o doutor Hickmam apareceu no meu gabinete. O jovem Bruce é talvez o mais brilhante dos nossos assistentes, mas por vezes muito rápido para o seu próprio bem.

Kate suspirou. As observações de Olesky descreviam muitos dos assistentes pretensiosos com que Kate trabalhara ao longo dos anos.

- Troco um gênio por uma pessoa metódica a qualquer hora do dia - afirmou Kate.

- O melhor é ser ambas as coisas - respondeu Olesky - mas não há dúvida de que é uma combinação difícil de encontrar. Posso acrescentar, no entanto, que o seu mentor acredita ter tido a sorte de descobrir em você essa combinação.

- Metódica, talvez - acrescentou Kate -, mas ainda não me mandaram a inscrição para o clube de gênios.

- Ela é apenas a melhor no hospital - interrompeu Tom de um modo algo impetuoso.

- Acabe de nos contar a história relativa ao seu assistente. - Kate evitou reagir ao entusiasmo de Engleson, percebendo que o seu elogio a fizera sentir simultaneamente lisonjeada e envergonhada.

- Bem, parece que o nosso doutor Hickman não tinha certeza sobre qual a patologia que estava observando nos ovários desta mulher. No entanto, em vez de pensar que a sua descoberta poderia ser única, partiu do princípio, apesar de não o dizer, de que o estado observado já deveria ser do conhecimento geral e que iria passar por estúpido se pedisse ajuda. E como a causa da morte não estava relacionada com os ovários, optou por descrever as suas descobertas no relatório da autópsia e deixar tudo por aí.

- Não faz mal - comentou Kate.

- Muito pelo contrário, este acontecimento pode ser o impulso de que o ego do Hickman necessita para que possa atingir o seu pleno potencial como médico. Causará ainda maior impressão se, como o doutor Willoughby e vocês suspeitam, esta patologia se tornar algo nunca antes descrito.

Kate e Tom trocaram um olhar de excitação.

- Como explicaria o fato de surgir em duas mulheres na mesma cidade e mais ou menos na mesma época? - perguntou Kate.

Os olhos do professor, escuros e evidenciando-se pela seriedade que imprimiam ao rosto, encontraram primeiro os de Engleson e só depois os de Kate.

- Tendo em conta o resultado da doença em ambos os indivíduos, sugiro que trabalhemos diligentemente para encontrar uma resposta para essa pergunta. Neste preciso momento, não tenho qualquer resposta.

-Tem de haver uma ligação - comentou Engleson.

- Espero que haja, rapaz. - Olesky ergueu-se do banco. - E espero que vocês dois tenham capacidade para a descobrir. Neste momento tenho de ir dar uma aula na faculdade de Medicina. Parto esta noite para algumas reuniões em San Diego e daí vou diretamente para o casamento do meu filho, no Novo México. O meu gabinete e o nosso departamento estão a seu completo dispor.

- Muito obrigado - agradeceram.

Olesky substituiu o avental de laboratório por um impermeável já gasto. Despediu-se, apertando primeiro a mão de Engleson e depois a de Kate. Deu mais uma vista de olhos pela mesa e arrastou-se para fora do gabinete.

Kate esperou ouvir o clique da porta fechando-se.

- Fico contente que tenha vindo tão rapidamente - disse ela. - Teve alguma dificuldade em convencer os administrativos a deixá-lo trazer o processo da Beverly para fora do hospital?

- Nenhuma. Limitei-me a seguir a regra Engleson número um para o atrevimento. Quanto mais uma pessoa aparentar estar fazendo a coisa certa, menos possibilidade existe de alguém perceber que não está fazendo. Tenho de admitir que os vigaristas que andam com caminhões de mudanças e vestidos de uniforme esvaziando casas inteiras pensaram nesta lei antes de mim, mas eu fui o primeiro que eu conheço a pô-la por palavras. Está bem? Fui à sua procura ontem quando acabou a chamada de urgência, mas você tinha desaparecido. Antes que lhe pudesse telefonar, mandaram-me correndo para a sala de operações para executar uma cesariana de urgência.

- Estava bem - Kate fez uma pausa. - Na realidade, não estava. Doeu-me como o diabo vê-la ali deitada. Não me lembro quando foi a última vez que me senti tão impotente.

Aquele pensamento, o fato de mencionar semelhante palavra, fez surgir o rosto grotesco de Arthur Everett, os olhos avermelhados a saltarem das órbitas com o esforço de se introduzir dentro dela. "Sim, lembro-me", pensou. "Lembro-me bem quando foi."

- E você? - perguntou.

Engleson encolheu os ombros.

- Acho que ainda estou apático. Se me deixar ir abaixo ou se tomar consciência dos meus sentimentos em relação a ela e ao que aconteceu, receio nunca mais ter coragem para voltar a pôr os pés em um hospital.

Kate acenou em sinal de compreensão.

- Sabe, Tom, ao contrário da crença popular, o fato de ser humano não o desqualifica como médico. É casado? - Engleson abanou a cabeça. - Acho que é difícil enfrentar algumas das coisas que nos surgem pela frente sem ter ninguém com quem falar, um ombro para chorar, se for necessário, quando chegamos em casa. - Lembrou-se da manhã difícil que tivera com Jared e sorriu com a ironia das suas próprias palavras. - Conheceu a Beverly fora do hospital?

- Não. Conheci-a quando deu entrada no Metropolitan. Mas pensei em começar qualquer tipo de relação... mal ela... - A voz de Engleson tornara-se gradualmente rouca. Aclarou garganta.

- Compreendo - anuiu Kate. - Olhe, talvez possamos falar do nosso trabalho e das nossas vidas um dia destes. Neste momento, é preciso procurar o que há de comum entre estas duas mulheres. Tenho de voltar para o Metropolitan. - Olhou para o relógio. - Bolas, restam-me apenas vinte minutos.

Tom manuseava o pequeno conjunto de papéis referentes a Ginger Rittenhouse.

- Não deverá demorar muito tempo verificando. Quase não têm informação nenhuma aqui. Ginger Louise Rittenhouse, vinte e oito anos, professora do ensino primário, vivia e trabalhava em Cambridge; encontrava-se correndo junto à margem do rio em Boston quando teve o colapso. Pelo visto, viveu tempo suficiente para fazer uma TAC de urgência, mas não para dar entrada na sala de operações.

- Casada? - perguntou Kate.

- Não, solteira. É a segunda vez que faz essa pergunta acerca de alguém nos últimos dois minutos. - Piscou um dos olhos e acariciou o bigode. - Tem, talvez, uma fixação com o casamento?

Kate sorriu.

- Vamos deixar as minhas fixações de lado. Pelo menos por enquanto, okay? E família? Local de nascimento? Algum parente próximo? Têm alguma documentação relativa a algum histórico médico anterior?

- Ei, vá com calma. Nós, os obstetras, não somos particularmente famosos pelas nossas capacidades de leitura rápida. Histórico médico desconhecido. O parente mais próximo é um irmão em Seattle. Está aqui o endereço. Sabe de uma coisa? Até podem ser o melhor hospital do mundo, mas limitam-se a um histórico muito reduzido.

- Parece que não tiveram tempo para muito mais - proferiu solenemente Kate. "Tem de haver uma ligação", pensava. Os dois casos eram ao mesmo tempo muito invulgares e idênticos. Em algum lugar as vidas da professora de Cambridge e da violoncelista dos subúrbios de Boston haviam se cruzado.

- Espere - interrompeu Engleson. - Ela tinha uma colega de quarto. Consta aqui na folha de descrição do acidente. Sandra Tucker. Deve ter sido através dela que eles descobriram a família.

Kate voltou a verificar o relógio.

- Tom, tenho de ir. Prometi ao doutor Willoughby que o ajudaria no exame de autópsia do Bobby Geary. Acha que consegue entrar em contato com essa Sandra Tucker? Descubra se a nossa mulher foi recentemente ao médico ou se fez análises de sangue. Não são os professores obrigados a ir ao médico todos os anos, ou qualquer coisa do gênero?

- Os meus não. Acho que a média de idades deles era... com os pés para a cova.

- Vai telefonar daqui?

Engleson pensou durante alguns segundos e depois acenou afirmativamente.

- Ótimo, Dê-me um toque quando voltar para o hospital. E ... Tom? Obrigada pelo elogio de há pouco.

Esticou o braço e apertou-lhe a mão com a firmeza de quem fecha um negócio. Após isto, saiu.

 

Ao som estridente da batida da bola de encontro ao bastão, trinta mil cabeças viraram-se horrorizadas em direção à cerca localizada no campo centro direita.

- Meu Deus, Katey, desapareceu - foram as únicas palavras que Jared conseguiu balbuciar.

A bola, uma estrela branca, desenhou um arco no céu azul-escuro daquela noite de Verão. Nos corredores entre as bases, quatro jogadores apressavam-se em direção à casa. Dois estavam fora da jogada. O painel da classificação, localizado na base do muro do campo de Fenway Park, indicava que os Red Sox se mantinham à frente dos Yankee por três pontos; porém, essa pequena margem parecia não durar mais do que alguns segundos.

Kate, enfeitiçada pelas luzes, cores e pelo rigor do seu primeiro jogo de basebol ao vivo, permanecia inerte tal como o resto da multidão, de olhos postos na bola, que agora descrevia uma ligeira descida em direção a um local além da vedação. E, de repente, ele entrou no canto esquerdo do seu campo de visão, correndo com a graciosidade de um antílope, o que dava aos seus movimentos o aspecto de filme em câmara lenta. Ergueu-se do chão a uma distância improvável da vedação, com a mão esquerda enluvada atingindo aparentemente além dos limites possíveis, por cima e para trás da barreira. Durante alguns segundos, tanto a mão como a bola ficaram tapadas pela vedação. No momento seguinte, já se encontravam juntas, aninhadas de encontro ao peito de Bobby Geary, à medida que ele voltava para a terra, enquanto o grito de trinta mil vozes se fazia ouvir. Havia sido um momento que Kate recordaria para o resto da vida.

Este era também um momento desses.

O corpo que outrora reunira a alma e as capacidades de Bobby Geary repousava sobre a maca de ferro à sua frente, despido daquela força indefinível que lhe permitira sentir e reagir de forma tão marcante. Em um lado, dentro de um recipiente baixo de metal, encontrava-se o coração do atleta, cortado cuidadosamente em vários planos, de forma a expor o músculo dos dois ventrículos - as cavidades que bombeiam - e as três principais artérias coronárias: esquerda, direita e circunflexa.

Imagens daquela noite em Fenway, que tivera lugar há mais de quatro anos, invadiam a objetividade de Kate e arrastavam consigo uma melancolia que ela sabia não poder existir naquela faceta particular do seu trabalho.

- Não encontrou nada no coração? - perguntou pela segunda vez.

Stan Willoughby, assemelhando-se a um pequeno duende vestido de bata verde e avental preto de borracha, abanou a cabeça negativamente.

- Pode ter sido qualquer coisa que comeu - respondeu , como se estivesse admitindo que, pelo menos do ponto de vista anatômico, não havia descoberto qualquer explicação para o edema pulmonar, o fluído que enchera os pulmões de Bobby Geary e literalmente o afogara do interior.

Kate, trajada de forma idêntica à do chefe, examinou o coração sob uma luz de alta intensidade.

- Um coração de jovem em um homem de trinta e seis anos. Lembro-me de ter lido em qualquer lugar que ele tencionava jogar até os cinquenta. Este coração demonstra que ele era bem capaz de conseguir.

- Mas o edema diz "nem pensar nisso" - corrigiu Willoughby. - Estou inclinado a concluir arritmia com conseqüente parada cardíaca. As análises sanguíneas preliminares são todas normais; por isso, acho muito possível não virmos nunca a descobrir a causa específica.

Sentia-se alguma frustração no tom de voz.

- Às vezes, simplesmente acontece - afirmou Kate. As Palavras eram de Willoughby, uma lição que ele lhe repetira muitas vez ao longo dos anos. Willoughby observou-a durante alguns momentos; depois deu uma gargalhada estridente.

- Parece um cachorrinho chorão, atirando-me à cara as minhas próprias palavras dessa forma. E que tal se me ensinasse o que devo dizer ao inspetor da Polícia que se encontra neste preciso momento bebendo café e espalhando migalhas de donut no meu gabinete? E ao bando de jornalistas que estão na entrada à espera do veredicto final? Senhoras e senhores, o fabuloso Departamento de patologia, que vocês tão custosamente apóiam com seus impostos, chegou à conclusão de ter absoluta certeza de não fazer a mínima idéia sobre a razão que fez Boby Geary contrair um edema pulmonar e morrer.

Kate não respondeu. Com a ajuda de uma lupa examinava intencionalmente os pés de Geary, dando especial atenção à zona entre os dedos e à face interna do tornozelo.

- Stan, olhe - murmurou -, vê? Aqui... Pequeníssimas marcas de picadas. Deve haver no mínimo uma dúzia delas. Não, espere, há mais.

Willoughby ajustou a luz, tirando-lhe a lupa da mão.

- Céus! - exclamou suavemente. - Seria Bobby Geary um toxicodependente? - Deu um passo atrás, afastando-se da mesa, e olhou para Kate, que se limitou a encolher os ombros

- Se a resposta for positiva, ele era um verdadeiro artista com a seringa.

- Uma agulha vinte e sete ou vinte e nove faz perfurações desse tamanho.

- E uma overdose de narcóticos ou de anfetaminas pode explicar o edema pulmonar. - Kate acenou afirmativamente.

- Céus! - repetiu Willoughby. - Se por acaso for verdade, deve ser possível encontrar provas na casa dele.

- Exceto se aconteceu perto de outras pessoas, que o trouxeram para casa e o puseram na cama. Porque não mandamos algum sangue para ver se encontramos vestígios de drogas e estabelecemos níveis para qualquer substância encontrada?

Willoughby passou uma vista de olhos pela sala de autópsias. O único técnico presente estava muito longe para conseguir ouvir a conversa.

- E que tal se etiquetássemos o tubo com o nome "Smith" ou "Schultz"? Não é que eu seja um adepto do esporte, mas sei o suficiente para entender o que está em jogo aqui. O homem era considerado um herói.

- E em relação ao polícia?

- O nome dele é detetive Finn e é definitivamente um fã. Calculo que prefira uma história qualquer relacionada com ataque de coração, mesmo se a análise de sangue der positiva.

- Schultz parece-me um nome tão bom como outro qualquer - comentou Kate. - São estes os tubos? Ótimo. Mandarei fazer novas etiquetas.

- Vou enviar o Finn para a casa do rapaz e depois digo à corja de jornalistas que terão simplesmente de esperar até terminarem os exames. Pois bem, quando me pode apresentar um relatório sobre o que se passou no White Memorial?

- Bem, além do que já lhe disse, não há muito mais a acrescentar. Temos uma espécie de microesclerose dos ovários em duas mulheres com profundas deficiências tanto das plaquetas como do Fibrinogênio. Por enquanto ainda não encontramos qualquer ligação entre as duas, nem sequer algo que nos garanta que os problemas dos ovários e do sangue estão relacionados.

- Então qual é o próximo passo?

- O próximo passo? Bem, Tom Engleson, o assistente que estava ligado à Beverly Vitale, está tentando obter algumas informações com a colega de quarto da mulher do White Memorial.

- E você?

Kate abriu os braços afastando as mãos para o lado, com as palmas voltadas para cima.

- Não tenho planos. Este mês estou na cirurgia; por isso, tenho alguns destes para analisar com mais uma ou duas peças congeladas provenientes do bloco operatório. Depois disso, pensei em conversar com o meu amigo Marco Sebastian e verificar se o computador dele consegue disponibilizar qualquer informação sobre uma mulher chamada Ginger Rittenhouse.

- Parece-me bem - anuiu Willoughby. - Mantenha-me informado. - Notava-se alguma relutância no médico em sair.

- Há mais alguma coisa? - perguntou por fim Kate.

- Bem, na verdade, há um pequeno assunto.

- Muito bem, diga - Kate já sabia o que seguiria.

- Eu... bem... tenho esta tarde uma reunião marcada com Norton Reese. Creio que estarão presentes vários membros do comitê de investigação e eu... eu pensei se por acaso teria tempo de... - Willoughby permitiu que o resto da frase permanecesse silenciosa.

Kate semicerrou os olhos. Ele prometera-lhe uma semana e haviam passado apenas alguns dias. Ela não estava de maneira alguma pronta para dar uma resposta. Havia outros fatores a levar em consideração, além de um mero "quero",ou "não quero". Willoughby tinha de compreender esse fato.

- Decidi que, se realmente acredita que eu tenho capacidades e se lhe fôr possível convencer todas as pessoas necessárias disso, então aceito o cargo - ouviu a sua voz pronunciar.

 

A garota chamava-se Robyn Smithers. Era aluna do décimo primeiro ano, contratada pelo Roxbury Vocational para trabalhar como externa no Departamento de Patologia do Metropolitan Hospital, durante quatro horas por semana. As suas funções definiam-se de uma forma simples: executar o que lhe ordenavam e fazer perguntas apenas quando tinha certeza absoluta de que não iria incomodar ninguém. Pertencia ao grupo de doze alunas contratado por Norton Reese e pago pelo Departamento Escolar de Boston. Que estas garotas aprendessem muito pouco, além de correrem de um lado para o outro, não preocupava Norton Reese, que já adquirira um novo processador de texto com as receitas provenientes da manutenção dessas alunas.

Robyn já passara várias vezes à frente da porta aberta do gabinete de Sheila Pierce antes de decidir parar e bater levemente.

- Sim, Robyn, em que posso ajudá-lo?

- Miss Pierce, peço desculpas por incomodar. Realmente lamento.

- Não há problema, Robyn. Começava a imaginar o que você andaria tramando, andando aí de um lado para o outro.

- Minha senhora, é este sangue. A doutora Bennett, sabe, a médica?

- Sim, sei. O que tem ela?

- A doutora Bennett me deu este sangue para levar para a... - Fez uma pausa para consultar um pedaço de papel. - Para a seção de bioquímica. Só que não consigo achar com esse lugar. Peço desculpas por interromper o seu trabalho. Não queria incomodar.

- Que besteira, menina. Vá, deixa-me ver o que tem aí, De forma casual, Sheila deu uma vista de olhos na ordem de requisição azul-pálido. O nome do doente, John Schultz, não tinha qualquer significado para ela. Só esse fato era já por si incomum. Por norma, fazia questão de saber sempre o nome de todos os indivíduos a serem autopsiados no departamento. Recordava-se, no entanto, que por vezes eram marcadas sem que ela fosse notificada. No espaço designado por “Número Hospitalar do Doente” lia-se o número de faturação do departamento. Tratava-se de um pedido para uma análise relativa ao uso de drogas. Inscrito ao longo da margem da requisição encontrava-se a seguinte ordem: “Transmitir os resultados por telefone à doutora K. Bennett o mais rápido possível.”

- Cada vez mais intrigante... - murmurou Sheila.

- Perdão, minha senhora?

- Nada, querida. Ouça, virou para o lado errado, naquele corredor ali atrás. Venha, eu lhe mostro. - Devolveu os frascos e a requisição, encaminhando em seguida a garota para a porta do seu gabinete. - Ali - indicou em um tom meigo. - Basta virar à direita e depois seguir o corredor até o fundo onde verá uma porta de vidro fosco, assim como a minha, com a inscrição “Bioquímica”. Entendeu?

- Sim. Muito obrigada, minha senhora.

Robyn Smithers desatou a correr pelo corredor fora.

- É um prazer poder ajudar, sua retardada.

Sheila ficou de ouvidos atentos até reconhecer o som da porta da seção de bioquímica ao abrir-se e fechar-se; depois pegou o telefone e começou a ligar para o cubículo de Marvin Grimes. Este era o empregado da morgue do departamento, cuja função era preparar os corpos para a autópsia. Era um cargo que lhe pertencia desde sempre.

- Marvin - pediu Sheila -, pode adiantar-me os nomes dos casos autopsiados hoje?

- Sim, foram dois, Miss Pierce. A velha Partridge e o jogador de basebol.

- Ninguém chamado Schultz? - Sheila visualizou a garrafa de uísque que Grimes guardava na gaveta de baixo, no lado direito da mesa; imaginou se no final do dia o homem conseguiria ao menos recordar-se de ter falado com ela.

- Não, senhor. Nenhum Schultz hoje.

- Ontem?

- Espere um pouco. Deixe-me ver. Apenas McDonald, Lacey, Briggs, e Ca... Capez... Capezio. Ninguém com o nome... Que nome foi que disse?

- Esqueça, Marvin. Não te preocupes mais com isso.

À medida que pousava o auscultador, Sheila fazia uma estimativa do tempo que demoraria aos técnicos de bioquímica completar a análise do uso de drogas.

- Ainda mais intrigante... - disse para si própria.

A dúzia de edifícios que constituíam o Metropolitan Hospital encontrava-se ligada por uma série de túneis, tão sinuosos e mal iluminados que o hospital recomendara que os empregados os evitassem quando sozinhos. Uma série de assaltos e a queda de um carrinho de roupa sobre a maca de um doente apenas haviam aumentado a reputação sórdida do túnel, tal como agora o espetáculo dos finalistas da Universidade de Medicina de Harvard, Rats. Kate, ignorando as lendas e as fantasias, utilizava sem quaisquer pruridos os túneis desde os dias de estudante e, excetuando a vez que dera de cara com o cadáver recente de um bêbado, tranquilamente aninhado em uma pequena alcova de cimento junto a uma garrafa de Thunderbird, pouco havia encontrado que acrescentasse alguma coisa às histórias fantasmagóricas. A única ameaça maior que enfrentava, cada vez que percorria os subterrâneos de um edifício para outro, era o risco de se perder, caso se esquecesse de uma curva ou desvio ou não visse a racha em forma de Itália que assinalava o caminho para o edifício da administração. Várias vezes ao longo dos anos acontecera ela dirigir-se para o edifício de cirurgia e acabar na ampla sala das caldeiras ou, determinada a ir para a sala de conferências no anfiteatro, dar por si junto às máquinas a vapor da lavanderia.

Prestando especial atenção a todas as marcas territoriais e aos sinais sujos de fuligem, Kate percorreu o caminho por entre o labirinto pintado de bege em direção à área dos computadores, onde trabalhava Marco Sebastian. Enfermeiras, em grupos de duas ou três, passavam por ela, excitadas pela proximidade das três horas da tarde, hora da mudança de turnos. Kate ficou a imaginar quantos milhares de enfermeiras haviam percorrido ao longo dos anos aqueles túneis em direção às suas atividades. A tradição do Metropolitan: enfermeiras, cirurgiões, médicos de província, reitores de faculdades de Medicina, até mesmo laureados com o Prêmio Nobel. Agora, à sua maneira e graças às suas próprias capacidades, ela ia se tornando parte dessa mesma tradição. Jared tinha de entender quão importante isso era para ela. Partilhara com ele os abomináveis segredos do casamento anterior e da conseqüente vida doentia, e muitas vezes fútil. Decerto que ele compreendia tudo que isso significava.

De acordo com os princípios tipicamente eficientes do hospital, a zona dos computadores estava instalada no último andar do edifício de pediatria, o mais longe possível dos gabinetes administrativos, que mais os usavam. Kate fez uma pausa junto ao elevador e pensou em subir os seis lances de escadas a pé. O dia, ainda longe de ter chegado ao fim, fizera com que se sentisse simultaneamente exausta e entusiasmada.

Três difíceis casos cirúrgicos haviam-se seguido à autópsia de Geary. Quando estava prestes a terminar o último, um técnico de bioquímica entregara-lhe o resultado das análises de sangue de Geary. Os níveis sanguíneos de anfetaminas no corpo era enorme, quase suficiente para provocar o edema pulmonar. Antes que pudesse telefonar a Stan Willoughby para lhe comunicar os resultados, fora chamada ao seu gabinete. Ali, a reunião com Willoughby e o detetive, Martin Finn, fora breve. As provas encontradas em uma busca minuciosa ao condomínio de Bobby Geary tinham fornecido um testemunho irrefutável de que o homem era um assíduo consumidor de anfetaminas. Apenas os três detinham essa informação. Finn parecia inflexível: defendia a exclusão de todas as descobertas que sugerissem que a morte de Geary não passava de uma overdose acidental; aparentemente nada havia a ganhar e muito a perder, caso se tornasse a revelação pública. A história oficial seria a de um ataque cardíaco, conseqüência de uma anomalia em uma das artérias coronárias.

O elevador chegou no exato momento em que Kate se decidira pelas escadas. Mudou de idéia a tempo de se esgueirar por entre as portas que se fechavam. Marco Sebastian, vistoso na sua bata branca e de sorriso jovial, recebeu-a com um abraço apertado. Ela tornara-se uma das suas médicas favoritas desde o primeiro encontro, quase sete anos antes. Na verdade, ele e a respectiva esposa haviam outrora concentrado alguns esforços na tentativa de a juntar com o cunhado, um fornecedor da zona leste de Boston. Depois de uma série ininterrupta de perguntas para se atualizar no que dizia respeito a Jared, ao trabalho, a Willoughby e ao resultado da colaboração em determinados estudos, o especialista de informática levou-a para o seu gabinete e sentou-a perto dele, virada de frente para o monitor colocado sobre a mesa.

- Então e agora, doutora Bennett - pronunciou em um tom de voz de uma suavidade profunda semelhante a um barítono de ópera -, que iguarias posso eu desta vez trazer à vida para você das profundezas da nossa selva eletrônica? Quer saber as dimensões do chapéu do nosso primeiro chefe de medicina? Temos à disposição. O número de seringas utilizadas no ano passado? Posso arranjar. O número de verrugas do traseiro do nosso estimado administrador? É só pedir.

- Na verdade, Marco, não estou à procura de nada tão exótico. Apenas de um nome.

- O primeiro bebê que aqui nasceu chamava-se... - Fez deslizar os dedos sobre uma série de teclas e depois apoiou mais uma. - Jessica Peerless, Fevereiro, mil oitocentos e quarenta e três.

- Marco, não era exatamente esse nome a que eu estava me referindo.

- E que tal as duas centenas de apendicectomias?

- Não.

- Os últimos vinte e oito diretores da enfermaria?

- Nem pensar. Lamento, Marco.

- Tanta informação e ninguém têm qualquer interesse nela - o homem estava genuinamente de rastos. - Continuo a insistir junto ao nosso estimado administrador que estamos sendo utilizados abaixo das nossas capacidades, mas não creio que ele tenha suficiente imaginação para saber que perguntas fazer. Periodicamente vou-lhe enviando gráficos demonstrando que o refeitório está gastando demais em espaguete ou que dez por cento dos nossos doentes possuem noventa por cento das doenças mais sérias, só para lhe despertar o interesse... Lembrar-lhe que ainda estamos aqui.

- E o meu nome?

- Ah, sim. Desculpe. Não tem havido muito movimento por estas bandas. Como se chama.

- O nome é Rittenhouse. Ginger Rittenhouse. Tenho aqui o endereço, o local e a data de nascimento. É tudo o que tenho, Gostaria de saber se ela alguma vez deu entrada neste hospital.

- É só olhar a tela - ordenou Sebastian em um tom dramático. Trinta segundos mais tarde, abanou a cabeça. - Uma tal Shirley Rittenhouse em mil novecentos e cinquenta e seis e mais nada.

- Tem certeza?

Sebastian lançou-lhe um olhar que mais lembrava a expressão automática de um juiz a quem se perguntou: “Acha que a sua decisão é justa?”

- Desculpe - disse Kate.

- Mas claro, ela pode ter sido doente do Omnicenter.

Kate permaneceu impávida.

- O que quer dizer com isso?

- Bem, o Omnicenter é uma espécie de entidade distinta do resto do hospital. Aqui este sistema lida com dados e faturas do serviço de doentes internos de Ashburton; porém, o Omnicenter é completamente auto-suficiente. É assim desde que instalaram as unidades há... quanto tempo foi?... há nove ou dez anos.

- Isso não é esquisito?

- Nesta casa o esquisito é normal - respondeu Sebastian, peremptório.

- Não é sequer possível ligar este sistema ao de lá?

- Não... Desconheço o código de acesso. Carl Horner, o engenheiro que dirige o setor eletrônico do Omnicenter, tranca as informações a sete chaves. Conhece Horner?

- Não, acho que não... - Kate tentava recordar-se se, durante uma das suas consultas ao Omnicenter como doente, alguma vez vira esse homem. - Na sua opinião, qual o motivo que os leva a serem tão reservados?

- Não é tanto reservados, mas antes cuidadosos. Aqui eu brinco essencialmente com os números; Horner e o pessoal do Omnicenter vivem e morrem por eles. Cada centímetro daquele lugar é computorizado: registros, marcações, faturas, até mesmo receitas.

- Eu sei. Eu própria me consulto lá.

- Então consegue imaginar o que aconteceria se um grão de areia, por menor que fosse, bloqueasse toda a engrenagem. Horner é um gênio, deixe que lhe diga, mas um pouco excêntrico. Estava concebendo programas avançados quando a maior parte de nós ainda tentava pronunciar IBM. Pelo que me contaram, umas das primeiras condições que ele exigiu, antes de aceitar o trabalho no Omnicenter, foi a independência completa do resto do sistema.

- Então como posso, descobrir se a Ginger Rittenhouse foi alguma vez paciente de lá? É importante, Marco. Talvez até muito importante.

- Bem, por muito paleolítico que pareça, normalmente telefonamos e perguntamos.

- Pelo telefone?

Marco Sebastian encolheu de forma cordata os ombros e acenou em concordância.

 

                         BECO SEM SAÍDA

 

Sozinha no gabinete, Kate rabiscava estas palavras em um bloco de folhas amarelas, primeiro em letra de imprensa, depois em minúsculas e finalmente em uma infinidade de caligrafias, aprendidas durante um dos muitos cursos de “autodesenvolvimento” que tirara durante os dois anos vividos com Art. Segundo Carl Horner, o correspondente a Marco Sebastian no Omnicenter, Ginger Rittenhouse nunca fora admitida como doente naquele centro. Tom Engleson conseguira contactar a colega de quarto da mulher; todavia, o conhecimento e a divisão do quarto com Ginger eram recentes. Além de um endereço anterior, Engleson não recolhera quaisquer outras novas informações. Ligações até agora estabelecidas entre a mulher e Beverly Vitale: zero.

Lá fora, a poeira de neve que acompanhara todo o dia dera lugar a flocos espessos e úmidos, que começavam lentamente a cobrir tudo. A viagem de regresso a casa iria ser um cansaço. Kate procurou ignorar essa perspectiva, refletindo antes no próximo passo a dar na avaliação dos casos de microesclerose - talvez uma tentativa de encontrar um amigo ou alguém da família que conhecesse Ginger Rittenhouse melhor do que a última companheira de quarto. Podia ainda apresentar as patologias das duas mulheres em uma conferência regional qualquer, na esperança de, com sorte, lhe surgir um terceiro caso. Olhou para o trabalho caligráfico incompleto que cobria toda a mesa. “Encare a realidade”, disse para si própria. “Com a quantidade de tempo livre que tem para andar brincando com os epidemiologistas, o mistério da microesclerose dos ovários parece destinado a permanecer exatamente assim, um mistério”.

Durante algum tempo, o horror que sentia perante a viagem de regresso a casa conseguia ser ultrapassado pela necessidade de chegar a tempo de ir à mercearia e preparar uma espécie de jantar para ambos. Ao princípio, haviam tentado inverter os papéis tradicionais na preparação e manutenção da casa; no entanto, rapidamente perceberam que a educação conservadora de ambos tornara esse acordo impraticável, se não mesmo impossível. As compras e a preparação das refeições passaram a ser função dela, a manutenção da estrutura física era da responsabilidade de Jared. O controle das finanças diárias, ambos concordaram, estava além das suas capacidades e, por conseguinte, seria uma tarefa a partilhar. Olhou mais uma vez pela janela. Depois, após uma hesitação final, um último pensamento quanto a telefonar para casa a deixar uma mensagem no atendedor de chamadas, informando de que iria trabalhar até tarde, pôs de parte todas essas considerações e afastou-se da mesa.

À medida que se levantava, tomou uma decisão: se era para fazer o jantar, então, raios partam, iria ser um jantar especial. Tanto na faculdade de Medicina como no internato, conseguira com frequência arranjar uma força extra, uma reserva de energia, sempre que dela necessitava. Talvez nessa noite o casamento precisasse mais de um jantar romântico e requintado do que dos queixumes habituais acerca do dia esgotante pelo qual passara.

Salada de espinafres, caril de gambas, velas, Grgich Hills Chardonnay, talvez até um soufflé de chocolate. Alinhou assim uma lista mental de compras ao mesmo tempo que enfiava algumas revistas científicas dentro da pasta, agasalhou-se bem para enfrentar a neve que caía e saiu depressa do gabinete, feliz por estar de novo sentindo o início de uma onda de energia. Era bom saber que ainda tinha essa capacidade.

 

No silêncio do seu escritório sem janelas, Carl Horner comunicava com as pontas dos dedos para o sistema de recolha e de arquivo de informação, situado na sala adjacente. Depositava uma fé implícita nas suas máquinas, na perfeição que podiam atingir. Se existisse um problema, como parecia naquele momento, tinha certeza de que a origem era humana - ou ele ou alguém da empresa. Uma vez mais os dedos colocaram a questão. Uma vez mais as respostas foram idênticas. Por fim, abandonou o teclado e voltou-se para um dos telefones pretos existentes sobre a mesa. Uma série de sete números estabelecia a ligação com Buffalo, Nova Iorque; acrescentando quatro números ativava-se uma linha que passava por Atlanta; e três números finais completavam uma ligação não identificável com Darlington, Kentucky.

Cyrus Redding respondeu ao primeiro toque.

- Carl?

- Laranja vermelho, Cyrus.

Caso a ordem das cores fosse invertida, Redding teria sido avisado de que alguém estaria monitorando a chamada de Horner ou que existia a possibilidade do telefone estar sob escuta.

- Posso falar - respondeu Redding.

- Cyrus, uma mulher chamada Kate Bennett, uma patologista do Metropolitan, acabou de telefonar pedindo informações acerca de duas mulheres que morreram de uma mesma doença sanguínea incomum.

- Doentes nossas?

- Isso é afirmativo, apesar da doutora Bennett apenas saber da existência de uma. Em ambas as mulheres a autópsia mostrou, em complemento aos problemas sanguíneos, um estado pouco habitual dos ovários.

- Perguntou aos Macacos sobre delas?

- Afirmativo. Os Macacos dizem que não existe qualquer ligação.

- Isso faz algum sentido para você, Carl?

- Negativo.

- Continue a investigar o assunto. E quero um relatório acerca dessa  doutora Bennett.

- Vou ver o que posso fazer e lhe transmito amanhã.

- Hoje à noite.

- Hoje à noite, então.

-Fica bem, velho amigo.

- Você também, Cyrus. Terá notícias minhas mais tarde.

 

                     QUARTA-FEIRA, 12 DE DEZEMBRO

“Coronária põe Bobby fora de jogo.”

O título do Boston Herald, que se encontrava sobre a mesa, despertou a atenção de Kate. Aquela história constituía um dos raros acontecimentos que conseguia estar na primeira página daquele jornal e, ao mesmo tempo, na do Boston Globe. Apesar do tratamento dado pelo Globe ser mais detalhado, a entrada e os diversos artigos de ambos os jornais relatavam essencialmente a mesma coisa. Bobby Geary, filho querido de Albert e Maureen Geary e da própria cidade, fora levado sem aviso prévio por um coágulo de sangue tão fino como um ponto de costura em uma bola de basebol. As histórias, muitas delas escritas por jornalistas esportivos, usavam aquele estilo piegas com que se obtêm os prêmios Pulitzer, tendo como único defeito não serem verdadeiras.

A tempestade, que começara na noite anterior, tinha rapidamente coberto a cidade com vinte centímetros de neve, antes de desaparecer para o Atlântico Norte. No entanto, nem as infindas colunas de meias verdades descritas pelos jornalistas, nem a cansativa condução para a cidade conseguiam apagar o calor deixado pela conversa e pelos momentos partilhados que se seguiram à refeição à luz de velas, preparada por Kate para o marido. Pela primeira vez em vários anos, Jared falara acerca do seu desastroso primeiro casamento e da filha que ele provavelmente nunca mais voltaria a ver. “Fui embora à procura de algo melhor”, fora tudo o que a mulher escrevera no bilhete que havia deixado. O rastro da mulher e da filha apagara-se em Nova Iorque para, por fim, desaparecer por completo em um emaranhado de imperceptíveis cultos religiosos, disseminados pela Califórnia Central e do Sul. “Fui embora à procura de algo melhor.”

Jared chegara mesmo a chorar ao falar dos anos passados; em Vermont, da sua necessidade de se libertar das expectativas do pai e de construir uma vida independente. Kate secou-lhe as lágrimas com os lábios e escutou com atenção relatos sobre a confusão e a dor de um casamento que se realizara muito mais por um ato de rebeldia do que de amor.

Kate estava acabando de ler o último artigo do Globe quando, com uma batida suave, uma mulher forte entrou; carregando um saco de papel. Trazia o sobretudo desabotoado, expondo um uniforme de enfermeira e um crachá com o nome, Kate leu o nome ao mesmo tempo que a mulher o pronunciava,

- Doutora Bennett, chamo-me Sandra Tucker. A Ginger Rittenhouse era a minha companheira de quarto.

- Claro. Sente-se por favor. Café?

- Não, muito obrigada. Estou ao serviço de particulares e estão à minha espera em Weston, na casa da doente, dentro de meia hora. O doutor Engleson disse que, se eu me lembrasse ou descobrisse alguma coisa que pudesse ajudar a entender a morte da Ginger, deveria lhe comunicar.

- Sim, é verdade. As minhas condolências pela Ginger.

- A senhora a conhecia?

- Não. Não tive a oportunidade.

- Nós dividimos o quarto apenas durante alguns meses.

- Eu sei.

- Uma semana depois de se mudar, no dia do meu aniversário, Ginger fez um bolo e cozinhou uma lasanha.

- Foi muito simpático da parte dela - concordou Kate, arrependendo-se de não ter pensado duas vezes antes de permitir que a mulher entrasse em conversas particulares. Havia uma aura de tristeza à volta daquela figura; uma solidão que fez Kate suspeitar que iria falar incontrolavelmente se lhe dessem oportunidade, com ou sem doente à espera.

- Fomos duas vezes juntas ao cinema e a um concerto do Pops, mas estávamos apenas começando a ser amigas e...

- Foi muito bondoso da sua parte ter percorrido todo este caminho pela neve até chegar aqui - agradeceu Kate, fazendo uma interrupção o mais suave que lhe era possível.

- Oh, bem, é o mínimo que posso fazer. A Ginger era uma pessoa muito boa. Muito calma e simpática. Estava tentando entrar na maratona da próxima Primavera.

- O que traz no saco? É algum objeto que pertencesse à Ginger? - Um ataque frontal parecia a única forma possível de ir direito ao assunto.

- No saco? Oh, sim. Desculpe. O doutor Engleson, que homem simpático!, pediu-me que procurasse no meio das coisas dela algum medicamento, receitas, marcações de consultas ou qualquer coisa que pudesse dar uma pista sobre o motivo por que ela... por que ela...

- Sei como isso foi difícil para você, Miss Tucker, e estou muito grata pela ajuda.

- Senhora Tucker. Sou divorciada.

Kate assentiu.

- E o saco?

- Meu Deus, desculpe de novo. - Colocou o embrulho em cima da mesa. - Às vezes falo demais.

- Também me acontece às vezes. - A voz de Kate desvaneceu-se enquanto observava o conteúdo do saco.

- Encontrei-os na parte de cima da mesa da Ginger. É a forma mais estranha que alguma vez vi de organizar medicamentos. Nessa folha, estão medicamentos para cerca de dois meses, embalados individualmente e etiquetados pelo dia e data de quando devem ser tomados. Parece até que foram organizados por um computador.

- E foram - balbuciou Kate, com as idéias em turbilhão. - Desculpe?

- Eu disse que isto foi organizado por um computador. - Lentamente levantou a cabeça, virando-se em direção à janela. Do outro lado da rua, com a sua reluzente fachada de aço e vidro, erguia-se o orgulho do Metropolitan Hospital de Boston. - O computador da farmácia do Omnicenter. O Omnicenter onde a Ginger Rittenhouse nunca entrou.

- Não estou compreendendo.

Kate levantou-se.

- Senhora Tucker, agradeço-lhe a sua ajuda preciosa. Não me esquecerei de lhe telefonar caso seja necessária mais alguma informação ou se soubermos de qualquer coisa que possa ajudar a explicar a morte da sua amiga. Agora, vou lhe pedir desculpas, mas tenho de fazer alguns telefonemas.

A mulher pegou na mão de Kate.

- Não se preocupe com isso - disse. - Claro... no inicio senti-me pouco à vontade, vasculhando assim as gavetas dela, mas depois disse para mim mesma: “Se não for você a fazer isto, então quem...”

- Senhora Tucker, muito obrigada. - Com uma das mãos ainda presa na de Sandra Tucker, Kate aproveitou a outra para agarrar a mulher pelo cotovelo e conduzi-la até à porta.

Os comprimidos eram uma combinação de estrogênio e progesterona de média potência, uma pílula anticoncepcional comum. Kate questionou-se sobre se Ginger Rittenhouse teria sido muito tímida para mencionar à sua companheira de quarto que as tomava. Impresso a computador, ao longo da margem superior da folha, lia-se o nome de Ginger, a data - seis semanas antes, quando a receita fora aviada - e as instruções para tomar um comprimido por dia. Ainda impresso encontravam-se conselhos acerca do que fazer para o caso de falhar por esquecimento uma ou duas doses. Os efeitos secundários mais comuns estavam listados, com um asterisco ao lado daqueles que deveriam ser comunicados de imediato ao médico que seguia Ginger no Omnicenter. Linhas picotadas, na vertical e na horizontal, facilitavam ao doente retirar apenas os comprimidos necessários para uma dada ausência. Toda a concepção, tal como tudo no Omnicenter, era engenhosa - inteligentemente concebida, articulada e prática - sendo o exemplo vivo da razão por que existia uma longa lista de mulheres de todos os níveis econômicos à espera de serem atendidas naquele estabelecimento médico.

Kate encarou meia dúzia de possíveis explicações para justificar o fato de lhe terem dito que Ginger Rittenhouse nunca frequentara o Omnicenter e percebeu que só havia uma maneira de descobrir. Quando a telefonista do Omnicenter lhe perguntou quem deveria anunciar, ela respondeu: “A doutora Bennett”, dando uma ligeira ênfase ao seu título. A sua chamada foi imediatamente encaminhada para o Dr. William Zimmermann, o diretor.

- Kate, que coincidência! Ia agora mesmo telefonar-lhe. Como está? - Era típico dele, essa força da natureza a quem às vezes chamavam Rocket Bill, ultrapassar a banalidade de cumprimentar com um simples “olá”.

- Estou bem, Bill, obrigada. O que quer dizer com “coincidência”?

- Bem, tenho aqui um recado do nosso técnico de estatística, o Carl Horner, juntamente com o processo de uma tal Rittenhouse. Carl contou-me que lhe foi dada a informação de que essa mulher nunca havia freqüentado o Omnicenter.

- É verdade.

- Bem, afinal não é bem assim. Aparentemente, houve um engano com o código ou com o nome ou qualquer coisa do tipo.

- Ele explicou-lhe porque queria eu saber?

- Disse-me apenas que essa mulher morreu.

- Também é verdade. O seu Carl Horner costuma enganar-se com muita frequência? - A idéia de um erro não condizia com a descrição que Marco Sebastian fizera do homem.

- Uma vez por século, tanto quanto posso perceber. Estou aqui há quatro anos e esta foi a primeira vez que deparei com um engano nas máquinas dele. Quer que lhe envie este processo?

- Posso ir buscá-lo pessoalmente, Bill? Há outras coisas que gostaria de falar com você.

- À uma hora está bem?

- Ótimo. E, Bill, poderia arranjar-me uma cópia do registro da Beverly Vitale?

- A tal mulher que se esvaiu em sangue no serviço de internos?

- Exatamente.

- Já o li. Tenho uma cópia aqui mesmo sobre a minha mesa.

- Excelente. Uma última coisa.

- Sim?

- Gostaria de conhecer Carl Horner. É possível?

- O velho Carl é um pouco mal humorado, mas penso que não vai haver problema.

- À uma hora, então?

- À uma.

 

Ellen Sandler pôs o roupão sobre os ombros e sentou-se na ponta da cama. Através da janela, fixou o olhar em um melro atrevido que procurava comida na neve. Esperavam-na no escritório em menos de uma hora. A casa estava com as provisões completamente em baixo. Tinha uma reunião marcada para o meio-dia com o professor de Matemática de Betsy, para analisar a nota e o seu interesse decrescente na disciplina. Eve precisava de ajuda para comprar um vestido para o recital de piano. Darcy chegara em casa uma hora depois do recolher obrigatório dos dias de semana, com as roupas impregnadas de um odor bafiento que Ellen suspeitava ser de maconha. Tantas coisas para fazer. Tudo mudara e, no entanto, tão pouco.

O silêncio na casa era sufocante. Gradualmente, foi prestando atenção a alguns sons permanentes: o murmúrio do frigorífico, o zunido da ventoinha do sistema de aquecimento e de ar condicionado, este último instalado por Sandy para comemorar o último aniversário deles, o suspiro da sua própria respiração.

- Levante-se - falou para si própria. - Raios partam, levante-se e faça o que tem de fazer! - Ainda assim, não se mexeu.

A dor, aquele opressivo e apertado incômodo no peito, parecia tornar qualquer movimento impossível. Não era a solidão que tanto a magoava, embora também isso fizesse parte da tortura. Não era a cama vazia, ou o telefone silencioso, ou os olhos sem vida que a miravam no espelho. Nem sequer era aquela outra mulher, quem quer que ela fosse. Eram as mentiras; as dezenas e dezenas de mentiras da pessoa em que ela mais precisava confiar no mundo. Era o fato de se compreender que, enquanto a angústia e a dor de um casamento destruído podiam, com o tempo, abrandar, a incapacidade de confiar nunca mais a abandonaria.

- Levante-se, bolas! Levante-se, vista-se e ponha-se a andar! Com o que aparentava ser um grande esforço físico, levantou-se, quebrando a inércia do espírito e a rigidez dolorosa dos membros. A sala, a casa, o emprego, as filhas - tudo mudara e no entanto tão pouco. Aproximou-se do roupeiro, imaginando que talvez a escolha de algo mais sedutor e feminino do que a indumentária que habitualmente usava no escritório pudesse animá-la. O vestido cor de vinho que comprara para ir a Londres cativou-lhe o olhar. Dois homens haviam se insinuado da primeira vez que o vestira e era uma peça de roupa que sempre suscitara elogios.

Enquanto atravessava o quarto, Ellen percebeu que o desconforto matinal nas suas articulações ia diminuindo - exceto uma dor na coxa esquerda que parecia piorar a cada passo. Despiu o roupão, pendurou-o e retirou a camisa de noite de flanela pela cabeça. Ocupando grande parte da coxa, via-se a maior nódoa negra que alguma vez tivera. Suavemente, explorou-a com os dedos. Estava um pouco dolorida, mas não era algo insuportável. Não tinha a mínima idéia de como a fizera. Não se recordava de ter tido qualquer tipo de queda ou acidente. Concluiu que provavelmente teria sido provocada pela posição em que dormira.

Optou por uma roupa azul de lã fina em vez do vestido, cujo tamanho parecia não cobrir a nódoa negra em todas as situações. Vestiu-se, incapaz de tirar o olhar daquela coloração grotesca. As pernas sempre haviam sido uma das suas melhores caraterísticas físicas. Mesmo após três filhos, orgulhava-se de só ter algumas varizes finas atrás dos joelhos. E agora aquilo. Por um momento, pensou em telefonar a Kate para se aconselhar sobre se devia ou não pedir a um médico que desse uma olhada, mas decidiu por fim concluir que uma nódoa negra não passava de uma nódoa negra. Além de que tinha muitas coisas para fazer.

Bastou um pouco de maquiagem e alguns minutos dando um jeito no cabelo e Ellen sentiu-se pronta como sempre tinha estado para enfrentar o dia. Até era possível que o rosto no espelho, magro e de traços finos, despertasse a atenção de algumas pessoas. Todavia os olhos permaneciam sem vida.

Estava prestes a sair do quarto quando reparou no bilhete colado na ombreira da porta. Todos os dias acontecia aquilo e todos os dias era como se visse o bilhete pela primeira vez, apesar de estar ali há mais de um ano.

“Tomar vit”, era tudo o que se podia ver.

Ellen foi ao armário dos medicamentos, retirou a embalagem de multivitaminas com ferro da prateleira, extraiu um comprimido e engoliu-o sem água. Meio inconsciente, reparou que lhe restava apenas a quantidade suficiente para quatro semanas e anotou mentalmente a necessidade de marcar uma consulta com o seu médico do Omnicenter.

Embora coxeasse ligeiramente ao sair de casa, Ellen sentiu que a dor na coxa era suportável. De fato, comparada com muitas das agonias que a sua vida atravessava naquele momento, a sensação era quase agradável.

 

Na tabuleta, uma discreta placa de bronze ao lado das portas eletrônicas de vidro, lia-se: “Metropolitan Hospital de Boston - Omnicenter - Serviço Ashburton de Saúde de Mulheres, 1975.” Kate fora uma das primeiras a inscrever-se e nunca havia se arrependido dessa decisão. Os cuidados ginecológicos, nunca uma experiência agradável, tornaram-se no mínimo toleráveis, tal como acontecera com os vários milhares de mulheres que haviam sido aceitas antes da introdução de uma lista de espera. A inscrição sobre a mesa da recepcionista dizia tudo: “Cuidar de Doentes com Todo o Cuidado.”

Kate parou junto a um pequeno bengaleiro da entrada brilhantemente iluminada e deixou a camisa com uma voluntária de bata azul. Poderia ter usado o túnel a partir do hospital principal porém, sentira-se atraída pela perspectiva de apanhar ar e de comer uma daquelas fofas omeletes, spécialité de la maison, no Maury's Diner.

A recepcionista assinalou a chegada de Kate com um telefonema, dirigindo-a de seguida para o gabinete do Dr. Zimmermann, no terceiro andar. Não era necessária qualquer indicação, Zimmermann era o médico de Kate no Omnicenter desde há quatro anos, desde a morte acidental por afogamento do. Dr. Harold French, o seu antecessor e primeiro diretor do Omnicenter. Apesar de ver Zimmermann com pouca frequência - as mulheres que tomavam a pílula anticoncepcional eram obrigadas a fazer três visitas por ano - Kate desenvolvera uma relação doente/médico bastante confortável, talvez mesmo uma amizade incipiente.

Quando saiu do elevador, já ele a aguardava junto à porta do gabinete. Mesmo passados quatro anos, a visão do homem suscitou-lhe sensações idênticas às do primeiro encontro. Ele era um “espanto”. Por muito estranha que parecesse a palavra, Kate não conseguia lembrar-se de outra que lhe assentasse melhor. Com trinta e muitos ou quarenta e poucos anos, Zimmermann possuía uma beleza clássica e bem definida, aliada a uma grande cortesia e elegância de movimentos, características que Kate inicialmente julgara perigosas em um médico da sua especialidade. O tempo e o próprio homem haviam provado que estava enganada. Era educado e de um profissionalismo a toda a prova. Em um hospital onde as fofocas eram o prato do dia, poucas circulavam a seu respeito. As únicas que ouvira relacionavam-se com as habituais especulações sobre um homem atraente e da sua idade que não era ainda casado. Ativo, tanto no hospital como nas reuniões cívicas, distribuindo todo o seu tempo pelos doentes e os conhecimentos pelos estudantes, William Zimmermann era merecidamente uma estrela a despontar.

- Doutora Kate. - Zimmermann pegou nas mãos dela carinhosamente. - Entre, entre. Tenho café fresco e... Já almoçou? Posso mandar vir alguma coisa.

- Parei no Maury's no caminho para cá. Talvez eu é que devia ter-lhe trazido qualquer coisa para comer.

- Que disparate. Estava apenas pensando em você quando perguntei acerca do almoço. Eu quase sempre salto essa refeição, em parte devido a uma aposta que fiz com a minha secretária em como conseguiria perder peso.

Mesmo se a aposta fosse invenção de momento, e tal era possível tendo em conta a elegante fisionomia do homem, as palavras dele funcionaram como uma afável brisa, dissipando a vergonha de Kate.

O gabinete de Zimmermann assemelhava-se ao covil de um estudante. Livros e jornais encadernados enchiam as três paredes, distribuídos por estantes que iam do chão até ao teto. Via-se uma mesa de leitura ao fundo da sala, cujo tampo se escondia debaixo das pilhas de livros abertos ou marcados. Na parede atrás da mesa, fotografias emolduradas de castelos europeus repartiam o espaço com elegantes quadros de tecido onde se liam dizeres, citações e ditados. “A desgraça de qualquer mágico e a crença na sua própria magia.” “A vida encerra duas tragédias: uma é não satisfazer os desejos do coração, a outra é satisfazê-los.” E, claro está: “Omnicenter: Cuidar de Doentes com Todo o Cuidado.” Existiam vários outros que, na sua maior parte, Kate já lera ou ouvira. Deparou, todavia, com uma frase que não se recordava de alguma vez ter visto. Redigida a preto em uma caligrafia beneditina, com um rebordo maravilhosamente ornado de arabescos, dizia: “Trabalho de Macaco para os Macacos.”

Zimmermann seguiu o olhar dela até ficar suspenso na última frase.

- Foi uma prenda do Carl - explicou. - Ele acredita que a energia das enfermeiras e dos médicos deveria ser, na medida do possível, canalizada para as áreas em que se dá acima de tudo uso aos cinco sentidos e às qualidades exclusivas do ser humano: empatia, preocupação e capacidade intuitiva. Os mecanismos do nosso trabalho, a burocracia, a marcação de consultas, a prescrição de receitas, entre outros, é o que ele chama “trabalho de macaco”. As máquinas dele conseguem fazer esse tipo de tarefas mais depressa e com mais precisão do que nos será alguma vez possível. E parece que a cada dia que passa Carl lhes ensina cada vez mais coisas.

- Então - concluiu Kate -, ele resolveu dar aos computadores o nome de Macacos.

Zimmermann pronunciou estas duas últimas palavras em uníssono com ela. Kate sentiu dissipar-se a desconfiança que desenvolvera em relação a Carl Horner e começou a entusiasmar-se com a idéia de conhecê-lo.

- Agora - pediu Zimmermann -, consegue me fazer um breve resumo de tudo o que descobriu sobre essas duas doentes? Dei uma olhada pelos processos delas e pouco encontrei que possa ajudá-la.

Utilizando o método conciso e estilizado de exposição de casos, ensinado aos médicos durante os primeiros tempos da faculdade de Medicina, Kate apresentou uma síntese de um minuto acerca do histórico de cada uma das mulheres, exame físico, dados de laboratório e percurso hospitalar.

- Trouxe fragmentos dos ovários de ambas as doentes. Acho que existe um microscópio minimamente decente no laboratório lá de baixo - concluiu.

Zimmermann assobiou de leve.

- E a única ligação até agora é o fato de ambas terem tido consultas aqui?

Kate acenou afirmativamente.

- Pois bem, não há grande coisa que eu possa acrescentar. Miss Rittenhouse tornou-se doente do Omnicenter em mil novecentos e setenta e nove. Desde a primeira vez que veio, nunca fez nada além dos exames de rotina, exceto que, se faltasse a mais uma consulta, teria sido pedido para procurar um outro estabelecimento. O contrato que assinamos com os nossos doentes dá-nos essa opção.

- Eu sei, também assinei - informou Kate. O contrato era mais um dos exemplos de como os princípios do Omnicenter estavam sobretudo orientados em proveito do doente. As taxas eram pagas anualmente, de acordo com os rendimentos do doente. Assim não tiravam qualquer beneficio quando insistiam com os doentes para que cumprissem as visitas regulares.

- E em relação à Beverly Vitale?

Zimmermann encolheu os ombros.

- Era doente há seis anos. Fez um aborto por sucção há cinco anos. Usava diafragma. Nunca tomou pílulas anticoncepcionais ou qualquer tipo de hormônios. Sempre um pouco anêmica, com hematócritos entre trinta e quatro e trinta e seis.

- Tomava ferro.

- Sim. O doutor Bartholomew prescreveu-lhe suplementos diários desde que procedeu ao primeiro exame.

-Quem era o médico da Ginger Rittenhouse? - Kate procurava de forma incessante qualquer tipo de ligação, por muito remota que fosse.

- Na verdade, ela foi quase sempre tratada por médicos assistentes, com a ajuda de um conselheiro da faculdade. No caso desta mulher, era eu. No entanto, nunca houve qualquer necessidade de virem me consultar. Ela começou a ser seguida por nós pouco depois da minha chegada aqui. Estive com ela apenas uma vez e nunca me suscitou quaisquer problemas... - Sorriu envergonhado a anunciar uma intervenção menos apropriada. - Exceto os óbvios - acrescentou.

 

                   BECO SEM SAIDA

 

Voltaram a projetar-se no cérebro de Kate aquelas mesmas palavras que antes escrevera. Olhou para o relógio. Havia uma peça cirúrgica de um fragmento congelado para diagnosticar dentro de meia hora. A sua análise determinaria se o doente havia sido submetido a um procedimento limitado ou extenso. Apesar disso, sentiu-se relutante em abandonar o único fator comum que até então encontrara.

- Tenho de regressar em breve por causa de um fragmento congelado, Bill. Acha que pode levar-me para conhecer Carl Horner e os seus Macacos amestrados?

- Com certeza - prontificou-se Zimmermann. - Ele está à nossa espera. É verdade, constou-me que está de parabéns.

- Porquê?

- Bem, corre por aí que vai ser a nova chefe de patologia.

Kate soltou uma gargalhada.

- Bem-vindo ao nosso espetáculo. “Eu não tenho quaisquer segredos.” De fato, acho que o meu nome ainda nem sequer foi formalmente apresentado, por isso pode guardar as felicitações. Além do mais, tendo em conta a delicada situação financeira em que o departamento está envolvido, não estou muito certa se as condolências não seriam mais adequadas. Acha que há qualquer chance dessa sua Fundação Ashburton ter umas centenas de milhares de dólares a mais para nós?

- Não faço a menor idéia, Kate. É o Norton Reese que está encarregado dessa parte. Eu apenas cavo a terra e lanço as sementes. Mas talvez possa falar com ele. Nós, decididamente, não podemos nos queixar da fundação... Temos sido muito bem tratados por ela.

Kate deu um passo em direção ao corredor bem iluminado, totalmente coberto por alcatifa.

- Assim farei - respondeu Kate. A hipótese de Norton Reese fazer qualquer esforço em nome do departamento dela era praticamente nula.

“Trabalho de Macaco para os Macacos.” A mensagem estava espalhada ao longo de todo o espaço ocupado pelas instalações informáticas de Carl Horner, situadas em uma área da zona posterior do primeiro andar, várias vezes maior que a pequena unidade de Marco Sebastian.

Embrenhado no meio dos mais sofisticados equipamentos eletrônicos, avaliados em milhões de dólares, a figura de Carl Horner destacava-se pela sua anacronia. Por baixo da bata de laboratório que o cobria até aos joelhos, usava uma camisa xadrez e jardineiras. As suas botas de trabalho já gastas tanto poderiam ter sido estragadas escalando um monte como naquele espaço ultra moderno e climatizado.

Horner cumprimentou Kate com um enérgico aperto de mão, apesar de ela conseguir sentir os nódulos móveis da artrite em cada uma das suas articulações. Todavia, o homem, com as costas curvadas e de cabelo grisalho, conservava um aspecto a que era difícil atribuir uma idade específica. Essa impressão emanava, segundo a sua opinião, não apenas da roupa, mas também dos seus olhos, de um azul incrivelmente brilhante.

- Doutora Bennett, devo-lhe as mais sinceras desculpas. O erro relativo ao processo da Rittenhouse deveu-se, nada mais nada menos, a uma lamentável falha da minha parte ao escrever o nome dela.

Kate sorriu.

- Desculpas aceitas. Já esqueci o incidente.

- Já encontrou as explicações que andava procurando?

- Não, ainda não. Mister Horner, se importaria de me mostrar as suas máquinas? Estou especialmente interessada em entender como funcionam os aparelhos no que diz respeito à farmácia.

- Carl - interveio Zimmermann -, se você e a doutora Bennett não se incomodarem, vou voltar ao trabalho. Kate, pretendo rever aquelas lamelas ainda hoje, mais ao fim da tarde, e fazer algumas pesquisas. Prometo que juntos levaremos esta história até ao fim. Entretanto, desejo-lhe uma boa visita. Nós estamos, sem dúvida alguma, orgulhosos do Carl e dos seus Macacos.

Pacientemente, o velho senhor mostrou a Kate como se aviava uma receita.

- Nestes cartões encontram-se registrados o nome e número de código e são incluídos com o processo da doente, na altura da consulta. Os médicos rasgam-nos quando deixam de ser necessários. Como pode observar, já se encontram aqui discriminadas vinte e cinco medicações diferentes, incluindo as dosagens, a quantidade e as instruções. As máquinas fornecem apenas estes medicamentos e sempre sobre a forma genérica, ao mesmo nível de qualquer produto farmacêutico de marca, mas a uma fração do custo. Os aparelhos revêem automaticamente o processo da doente relativamente a possíveis alergias aos medicamentos prescritos, como ainda a qualquer probabilidade de uma má interação com alguns dos medicamentos que esteja tomando no momento. - A apresentação de Horner comportava o orgulho idêntico ao de uma avô que preside a uma festa de bridge. - Se surgir qualquer tipo de problema, a receita não é aviada e essa ocorrência é mencionada ao nosso farmacêutico, que resolve pessoalmente o assunto com o doente.

- E se um médico desejar prescrever um medicamento que ultrapasse os vinte e cinco registrados no cartão? - perguntou Kate.

- A nossa farmácia está bem aparelhada. No entanto, devido aos Macacos, necessitamos de apenas um farmacêutico de serviço, tendo ele ou ela, conforme o caso, mais tempo para se dedicar a outros problemas, como a interação de drogas ou os efeitos secundários.

- Espantoso - foi o comentário de Kate. - E os Macacos alguma vez cometeram um erro?

Kate sentiu transparecer no sorriso de Horner, pela primeira vez, uma certa condescendência.

- Os computadores não cometem erros. Existem vários programas apoiando o programa principal que nos garantem isso. E claro que quando falamos do ser humano, a história é outra.

- Já ouvi dizer.

Condicionada pelo decorrer da conversa, Kate sentiu que estava sendo ligeiramente maliciosa. Havia qualquer coisa de desconcertante na confiança ilimitada de Horner nos seus cabos, chips e toda aquela parafernália circundante que inquietava Kate.

- Diga-me uma coisa, de onde vêm os produtos genéricos fornecidos pela máquina? - perguntou.

- De uma das empresas farmacêuticas. Abrimos concorrência uma vez por ano e a oferta mais baixa obtém a concessão.

- Quem é que a detém neste momento?

A resposta de Horner fora de certa forma evasiva, dificilmente compatível com o caráter do homem. Observou os seus olhos. Poderia ler neles a faísca de uma emoção escondida? Não sabia responder.

- Agora? É a Redding. Os Produtos Farmacêuticos Redding.

- Ah, os melhores e mais geniais.

Kate não estava sendo hipócrita. Em uma indústria com um passado tão duvidoso, incluindo talidomida e muitas outras substâncias fatais à vida humana, a Redding permanecia sozinha pela sua boa reputação na segurança de produtos e no desenvolvimento de drogas órfãs para estados muito raros para poder tornar os medicamentos lucrativos.

- Muito bem, Mister Horner, agradeço-lhe muito. Os seus Macacos são realmente incríveis.

- O prazer foi todo meu. Se houver mais alguma coisa em que eu possa ajudar, não hesite em pedir.

Kate deu meia volta para sair; no último instante virou-se para trás.

- Possui uma lista de todas as empresas que têm obtido a concessão nos últimos anos?

- Desde que o Omnicenter abriu?

- Sim.

Pela segunda vez, Kate notou uma alteração no olhar do homem.

- Bem, não se tratará exatamente de uma lista. A Redding é a única.

- Oito concorrências, oito vezes a Redding, é isso?

-Nunca houve sequer qualquer oferta que se aproximasse da deles.

- Bom, obrigada pela ajuda. -De nada.

O aperto de mão e o sorriso que Horner fez à despedida parecia mais forçado do que o do momento da apresentação. Kate ficou a observá-lo enquanto se afastava, sentindo-se ligeiramente pouco à vontade em relação ao homem, apesar de não saber o motivo. Olhou para o relógio. A análise da seção congelada começaria dentro de dez minutos e iria manter a doente sob anestesia até Kate completar o diagnóstico.

Além de ter alertado Zimmermann acerca dos últimos acontecimentos, a sua visita ao Omnicenter redundara em nada. Mesmo assim, a clínica permanecia o único fator comum às duas mulheres mortas. Enquanto atravessava a entrada para ir buscar o casaco, Kate discorreu mentalmente sobre todas as origens possíveis, a partir das quais poderia desencadear-se uma doença do sangue ou dos ovários. Por fim, com o tempo acabando, dirigiu-se ao balcão principal, onde parou para escrever um bilhete a Zimmermann.

“Querido Bill, obrigada pela conversa e pela visita. Ainda sem respostas, mas juntos talvez possamos encontrar algumas. Entretanto, vou pedir às pessoas da microbiologia para analisarem culturas, virais e bacterianas, se não se importar. Vão ainda experimentar técnicas relacionadas com esterilização instrumental - talvez uma toxina tenha sido introduzida dessa forma.

Avise-me se conseguir lembrar de qualquer coisa. Veja também na sua agenda se consegue arranjar uma noite para vir aqui no norte jantar comigo e com o meu marido. Gostaria de ter uma oportunidade para conhecê-lo melhor.

Kate”

Enfiou a folha dentro do envelope que, depois de fechado, entregou à recepcionista.

- Não se importa de fazer chegar este envelope ao doutor Zimmermann?

A mulher sorriu e fez que sim com a cabeça. Kate estava a meio caminho da entrada do túnel quando de repente parou e ficou pensando durante alguns segundos, regressando em seguida. Pediu o bilhete de volta, rasgou o envelope e acrescentou um post scriptum.

“Bill... poderia arranjar-me por favor dez comprimidos de cada um dos medicamentos fornecidos pelos Macacos? Obrigada.

K.”

 

- Muito bem. O que me diz, Clyde? Posso contar com você ou não?

Norton Reese pôs de lado o clipe de papel que ia lentamente destruindo e olhou por cima da mesa para o chefe de cirurgia cardíaca. Clyde Breslow era o quarto chefe de departamento com quem se reunira nessa manhã. Os três anteriores nada haviam prometido no sentido de ajudar Reese a impedir que Kate Bennett fosse nomeada, não obstante as inúmeras garantias minuciosamente apresentadas de que os seus departamentos iriam se beneficiar de equipamentos novos e indispensáveis, mal a nomeação dela saísse derrotada. De fato, dois dos homens, Milner, de medicina interna, e Hoyt, pediatria, haviam mesmo acrescentado que muito lhes agradaria a perspectiva de tâ-la no comitê executivo.

- Sangue novo - fora assim que Milner se justificara. Breslow, um pequeno Napoleão tanto no tamanho como no temperamento, observou o desconforto de Reese com algum divertimento.

- Então explique o que a garota tem de tão especial que tanto o chateia, Norton? - perguntou em uma voz pachorrenta que quase sempre se transformava quando gritava com as enfermeiras e atirava instrumentos pelo ar no bloco operatório, ou quando bradava com os estudantes de Medicina, fazendo a mesma figura nos laboratórios. - Recusou-se a abrir aquelas nádegas jeitosas para você ou quê?

- A peste fez com que eu ficasse mal visto em frente ao conselho de administração, Clyde. Não se esqueça disso. Foi a porcaria do seu microscópio que causou todo o problema. Raios me partam se vou permitir que ela vá para o meu comitê executivo.

- Calma aí, Norton. O seu comitê executivo? Desculpe, mas não estará ficando ligeiramente possessivo em relação a um grupo onde nem sequer tem voto?

- Olhe, Clyde, tive um dia horrível. Vai apoiar-me nisto e falar com o pessoal da cirurgia, ou não?

- Bem, isso depende, não é?

- A vaga para assistente? Clyde, não posso fazer isso. Já tinha dito.

        - Então talvez seja melhor que vá se habituando à idéia de encontrar em todas as reuniões de terça a carinha da Katey B.

Reese partiu subitamente um lápis ao meio.

- Está bem, vou tentar - disse, amaldiçoando em silêncio Kate Bennett por colocá-lo em uma posição susceptível de ser manipulado por uma pessoa como Breslow.

- Então, faça isso. Sabe o que eu acho, Norton? Acho que você tem medo dessa mulher. É isso que eu acho. Uma mulher bonita com miolos é muita areia para a sua camioneta.

Sem qualquer aviso prévio, Reese explodiu.

- Olhe, Clyde - afirmou, atirando a cadeira da mesa de encontro à parede enquanto se levantava -, já deve ter bastante dificuldades em lembrar-se que o coração fica acima do umbigo; não preciso que venha com essa psicologia barata. Agora saia daqui e veja se consegue me arranjar algum apoio. Vou fazer tudo o que é possível no que diz respeito ao seu maldito assistente.

Com um sorriso hipócrita, Clyde Breslow saiu do gabinete.

Reese afundou na sua cadeira. Com medo de Kate Bennett? O diabo é que estava. Apenas não conseguia suportar uma garota metida e com mania de boa samaritana andando de um lado para o outro bancando a adulta. Deveria antes ficar tomando conta da casa e a dar umas com o maridinho advogado.

- Mister Reese, tem uma chamada para o senhor na linha dois.

Aturdido pela voz da secretária, entornou as borras de uma xícara de café quando tentava ligar o botão do intercomunicador.

- Raios a partam, Betty, avisei-a de que não queria receber qualquer telefonema.

- Sei perfeitamente disso, senhor. Peço desculpas. É Mister Horner, do Omnicenter. Diz que é muito importante.

Reese suspirou.

- Está bem. Diga-lhe para me ligar para o três, sete, quatro, quatro.

Ergueu de novo a xícara de café e esperou que a sua linha privada tocasse. Era pouco habitual receber telefonemas de Carl Horner. As questões do Omnicenter eram geralmente resolvidas por Arlen Paquette, o diretor de segurança de produtos da Redding. Nos breves instantes que antecederam o toque do 3744, especulou acerca da natureza do problema, o que poderia preocupar Horner para levá-lo a telefonar. Nenhuma das suas especulações o prepararam para a dura realidade.

- Mister Reese - iniciou Horner -, estou telefonando da parte de um amigo comum.

Horner jamais mencionaria ao telefone o nome de Cyrus Redding, porém, Reese não teve quaisquer dúvidas relativas à pessoa em questão.

- Como está o nosso amigo?

- Um pouco aborrecido, Mister Reese. Uma das médicas daí anda metendo o nariz no Omnicenter, fazendo perguntas sobre a farmácia, além de ter pedido ao doutor Zimmermann que lhe envie amostras dos medicamentos que fornecemos.

A referência a uma pessoa do sexo feminino o fez engolir em seco.

- Quem é ela? - perguntou, apesar de já saber a resposta.

- É a patologista, a doutora Bennett. Está investigando a morte de duas mulheres que eram nossas pacientes.

- Raios a partam - pronunciou Reese tão discretamente, que mal se conseguiu ouvir. - Horner, você é... quero dizer, o Omnicenter é responsável por essas mortes?

- Parece-me que a resposta a essa pergunta é negativa.

- O que quer dizer com “parece-me”? Tem noção de tudo o que está em jogo? O Paquette prometeu-me que nada disto aconteceria.

Reese começou a sentir um aperto no peito, obrigando-o a pôr um comprimido de nitroglicerina debaixo da língua, e jurou a si próprio que, se esse desconforto significasse o prenúncio de um ainda maior, o seu último ato antes de morrer seria dar um tiro em Kate Bennett bem no meio dos olhos.

- O nosso amigo aconselha-o a manter a calma e a não se preocupar. Todavia, gostaria que arranjasse alguma maneira eficaz de... de afastar o interesse da doutora Bennett pelo Omnicenter, enquanto tratamos de algumas coisas e procedemos a mais algumas investigações relacionadas com as duas mortes em questão.

- O que preciso fazer?

- Isso, Mister Reese, não sei. O nosso amigo sugeriu que despedisse a mulher.

- Não posso fazer isso. Por amor de Deus, eu não contrato e despeço médicos.

- O nosso amigo agradecia que tomasse alguma medida o mais breve possível. Ele pediu-me que lhe recordasse que alguns dos contratos estão prestes a ser renovados em menos de um mês.

- Que se foda.

- Desculpe?

- Eu disse, tudo bem. Vou pensar em qualquer coisa. - De repente, uma idéia iluminou-lhe o rosto. - Aliás - acrescentou, enquanto abria a gaveta da mesa - acho que já sei o que fazer.

- Ótimo - respondeu Carl Horner. - Todas as pessoas envolvidas apreciam os seus esforços. Tenho certeza de que o nosso amigo ficará extremamente devedor quando for bem sucedido.

Reese reparou que Horner havia utilizado a palavra «quando» e não «se», mas isso já pouco importava.

- Irei manter-me em contato - concluiu.

Depois de colocar o auscultador no lugar, retirou um processo etiquetado com os nomes “Schultz-Geary”. Lá dentro, encontrava-se um grande número de artigos de jornais, o relatório oficial da autópsia, assinado por Stanley Willoughby e Kathryn Bennett e uma nota explicativa de Sheila Pierce. Ainda na mesma pasta, via-se uma série de exames laboratoriais de um homem denominado John Schultz, correspondente a um doente que, segundo ele e Sheila, nunca existira no Metropolitan Hospital. Apesar da hipótese deste nome estar sendo utilizado como disfarce não ser cem por cento segura, não parecia no entanto muito longe disso.

“Sheila”, pensou, ao mesmo tempo que enfiava uma folha de papel na máquina de escrever, “se isto der certo, eu mesmo garantirei que receba no mínimo mais uma ou duas noites por mês”. “Para Charles C. Estep, editor, The Boston Globe”. Reese ia murmurando as palavras enquanto as datilografava. Fez um intervalo e viu que horas eram. Quando tivesse terminado o primeiro rascunho, o departamento de patologia estaria decerto vazio. Uma folha do papel de carta de Kate Bennett e uma imitação da sua assinatura seriam a única coisa de que necessitava para resolver uma série de problemas. Eliminaria por completo a mulher da sua vida e Cyrus Redding ficaria - como fora que Horner dissera? - extremamente devedor.

Caro Mister Estep...”

À medida que escrevia as palavras, Reese ia entoando a canção There's Nothing Like a Dame.

 

                       QUINTA-FEIRA, 13 DE DEZEMBRO

- Papai, acha que Deus é homem ou mulher?

Suzy Paquette encontrava-se sentada de pernas cruzadas ao lado do condutor do novo Mercedes 450 SL, estacionado junto à bomba de gasolina da Texaco de Bowen.

Atrás do volante, Arlen Paquette observava o trânsito que naquela manhã deslizava pela Main Street, com os pensamentos longe do trânsito e da questão que a filha lhe havia colocado.

- Então, papai?

- Então o quê, amor? - O empregado bateu duas vezes no teto de forma a assinalar que já terminara. - Põe na conta da companhia, Harley - gritou Paquette pela janela, enquanto punha o carro em movimento.

- É o quê? Homem ou mulher?

- Quem é o quê, querida?

- Deus! Papai, não está ouvindo nada do que eu digo.

Com apenas sete anos de idade, Suzy tinha o cabelo cor de canela penteado para trás com dois rabos-de-cavalo e um rosto de boneca de porcelana que, nesse exato momento, começava a fazer beicinho.

Paquette estacionou o carro em um lugar em frente à representação do Exército/Marinha de Darlington e parou. Apesar de nunca estar totalmente calmo, sabia que nessa manhã se sentia particularmente tenso e distraído. Contudo, era a segunda quinta-feira do mês, o que lhe dava o direito de estar desatento e irritado, como acontecera ainda há pouco com a mulher. Voltou-se para a filha. Esta conseguira fazer a expressão facial desejada, mostrando agora toda a sua indignação, sentada de encontro à porta do carro com os braços cruzados junto ao peito. Naquele mesmo instante, Paquette percebeu que ela era a criança mais bonita de todo o planeta. Dirigiu-se a ela e pegou-lhe ao colo. Por breves momentos, a menina manteve o corpo inerte, para logo em seguida descontrair os músculos e devolver o abraço.

- Desculpe, amor - disse baixinho Paquette. - Não estava prestando atenção. Peço desculpas eu te amo muito e acho que Deus é uma mulher quando como você é uma mulher. E se você for um homem ele é homem, se você for um cãozinho ele é um cãozinho.

- Também te amo muito, papai. E ainda não percebi porque tenho de rezar ao Pai Nosso se Deus pode ser uma mulher.

- Sabe de uma coisa? Tem razão. Acho que a partir deste momento deveríamos dizer: “Ao Amigo Nosso que está no Céu.”

- Oh, papai.

Paquette verificou que horas eram.

- Ouça, querida, a minha reunião é daqui a meia hora. Tenho de ir andando. Vai ser uma menina bonita, está bem?

Ela esboçou um sorriso enternecedor.

- Não preciso ser uma menina bonita, papai. É apenas uma limpeza dos dentes.

- Então... seja uma menina... limpa. Sua mãe vem daqui a um pouquinho. E não se esqueça de esperar, caso ela ainda não tenha chegado depois de terminar.

Paquette ficou a observá-la à medida que a filha se esgueirava escada acima, ao lado da representação do Exército/Marinha, e esperou até ela aparecer a acenar atrás da janela onde se lia Dr. Richard Philips, Dentista. Depois afastou o Mercedes da calçada e dirigiu-se para a zona sul da cidade, onde iria participar, às onze em ponto, na reunião da segunda quinta-feira do mês com Cyrus Redding, diretor e presidente do conselho administrativo daquela que era talvez a maior empresa farmacêutica do mundo. A reunião começaria pontualmente às onze horas e terminaria sem falta cinquenta minutos depois. Durante sete anos, desde que Paquette começara a trabalhar na empresa, sempre havia corrido daquela forma. E assim se manteria enquanto Cyrus Redding fosse vivo e estivesse no comando. Nove horas, relações laborais; dez horas, relações públicas; onze horas, segurança dos produtos; uma hora e dez minutos para almoço, em seguida, investigação e desenvolvimento, vendas e produção e, por fim, entre as quinze e as quinze e cinquenta, questões jurídicas: assim se desenrolavam-nas reuniões dos diretores de departamentos com Cyrus Redding, um a um, na segunda quinta-feira do mês. Tanto o horário como a ordem das reuniões da segunda quinta-feira do mês eram imutáveis. As férias nunca deveriam recair naquele dia, as doenças seriam tratadas e suportadas, exceto se fosse necessária a hospitalização. E, nesse caso, acontecera em mais de uma ocasião, Redding transferiria a reunião para um quarto de hospital. Segunda quinta-feira do mês: aumentos, novos projetos, críticas, suspensões, tudo, sempre que possível, no mesmo dia.

O complexo fabril estendia-se por uma área de 12 quilômetros quadrados, fazendo fronteira tanto a sul como a oeste com umas colinas cobertas de pinheiros, e a leste com o ribeiro de Pinkham. Vedações duplas com dois metros de altura, encimadas por arame farpado, circundavam as instalações. A área compreendida entre as duas barreiras estava eletrificada - voltagem média durante o dia, voltagem letal à noite e nos fins-de-semana. A única entrada, paralela à nova linha do trem para quem vinha do Norte, encontrava-se ladeada por árvores e imaculadamente conservada. A duzentos metros da vedação exterior, uma bifurcação na estrada indicava que os empregados e fornecedores deveriam dirigir-se para a direita e todos os outros para a esquerda. em um sinal multicolor, que assinalava a proximidade da empresa, lia-se:

 

               PRODUTOS FARMACÊUTICOS REDDING,

               LIMITADA DARLINGTON, KENTUCKY - 1899

               “OS BENEFÍCIOS MÁXIMOS PARA

               O MÁXIMO DE PESSOAS AO CUSTO MÍNIMO.”

 

Paquette virou para a direita ao passar o sinal e parou junto a uma casa de guarda pintada de cor clara, que representava a primeira de uma série de medidas de segurança. Deu por si a pensar, como fazia em quase todas as segundas quintas-feiras do mês, se, sabendo o que sabia então, teria abandonado o lugar de investigação na universidade em Connecticut para se tornar diretor de segurança de produtos. A pergunta era meramente hipotética.       Ele assumira a função. Concordara entrar no jogo de Cyrus Redding segundo as regras de Cyrus Redding, Agora, a contragosto ou não, fazia parte dos homens de Cyrus Redding. Claro que o salário anual que, incluindo os benefícios, excedia os quatrocentos mil dólares fazia milagres na sua tentativa de aliviar a consciência. Suzy era a mais nova de três filhos, e um dia todos eles freqüentariam a universidade. Parou junto a um último portão, passou a chave do porta-malas ao guarda, batendo de forma nervosa com os dedos no volante, ao mesmo tempo em que o homem completava a inspeção. Não valia mesmo a pena chegar atrasado à reunião da segunda quinta-feira do mês.

 

Durante cerca de cento e oitenta anos, desde que Gault Darling liderara um grupo de renegados, contrabandistas e outros excluídos sociais e os levara até um local verdejante no sopé das Cumberlands, matando ainda dois homens para conservar o direito de nomear a cidade segundo o seu próprio nome, Darlington, Kentucky, a cidade passara por uma série de mortes e consequentes ressurreições. Doenças, soldados, índios cheroquis, inundações, fogos e até mesmo um tornado haviam deixado, uma vez por outra, a cidade completamente quebrada. Porém um resquício conseguia sobreviver e Darlington renascia.

Em 1858, as linhas de trem de Lexington-Knoxville passavam suficientemente perto de Darlington para estabelecer uma ligação, cujo propósito primordial era o transporte de carvão das ricas minas de Juniper. No entanto, no final desse mesmo século, os rendimentos da mina haviam descido drasticamente e a linha ferroviária foi abandonada. Darlington corria de novo o risco de se tornar uma cidade fantasma. As lojas fecharam. A escola e a igreja batista arderam e não voltaram a ser reconstruídas. As autoridades da cidade foram diminuindo até desaparecerem por completo. Por fim, onde já tinham habitado mais de mil pessoas, só restava meia dúzia de indivíduos. Felizmente para a cidade, um dos sobreviventes era Elton Darling, que se autoproclamava descendente de Gault.

Em 1897, Darling engendrou uma vigarice de todo o tamanho, utilizando três onças de ouro de nível inferior, dois cúmplices e a capacidade notória de parecer verdadeiramente ébrio quando estava sóbrio até à medula. Rumores acerca do “Filão de Darlington” espalharam-se rapidamente por todas as cidades, de Chicago a Atlanta, e Darlington de novo acolheu cidadãos, que aí permaneceram por amor à beleza da zona ou por falta de meios para se deslocarem para outros lugares.

Depois de voltar a povoar a sua cidade, Elton Darling decidiu criar nela uma indústria, fazendo uso do único recurso que a zona tinha pronto a explorar, a água rica em enxofre do ribeiro de Pinkham, uma dádiva do rio Cumberland.

Em menos de um ano, através da utilização de alguns corantes de alimentos, garrafas de vidro, uma etiqueta atraente e uma estratégia de vendas agressiva, a água insalubre do ribeiro de Pinkham, imprópria até mesmo para o peixe menos exigente, tornara-se o “Maravilhoso Rejuvenescedor e Purgativo de Darling”, um elixir alegadamente eficaz contra todo o tipo de situações, da hidropisia à calvície.

Ao longo dos anos, antes da sua morte em 1939, Elton Darling foi procedendo a alterações no produto à medida das exigências do mercado e dos novos tempos. Juntou ainda uma pequena fortuna. Na época em que o seu filho, Tyrone, tomou posse dos investimentos da família, o rejuvenescedor já havia sido substituído por uma variedade de suplementos minerais e vitamínicos, e os produtos farmacêuticos de Darling estavam sendo negociados, ainda que em pequena escala, na Bolsa de Valores Americana.

Longe de ser o visionário e o homem de negócios semelhante ao seu pai, Tyrone Darling gastava a maior parte do seu tempo, e ainda a maior parte do dinheiro, em uma sucessão de cavalos puros-sangues sem préstimo e de mulheres da cidade, sendo cada uma mais rápida em gastar o dinheiro do que ele a juntá-lo. A solução de Darling para as pequenas reservas de dinheiro era emitir mais ações e vender parte das suas. Foi no Outono de 1947, na reunião anual de acionistas, que a bomba explodiu. Intermediários de um homem a quem chamavam apenas como Mr. Redding apresentaram provas que mostravam que ele era proprietário de mais de 50 por cento dos Produtos Farmacêuticos de Darlinglon e, em menos de um dia, apoderaram-se da empresa em nome de Mr. Cyrus Redding, de Nova Iorque. Desprovido de qualquer influência, como também de uma fonte de rendimento, Darling tentou ainda negociar. Pelo que veio a saber-se, nem uma reunião havia conseguido marcar com o homem que o substituíra quando, na véspera do Ano Novo, foi encontrado morto junto a uma mulher chamada Densmore, baleado pelo marido dela. Foi assim que a fortuna de Darlington, Kentucky, passou a estar intimamente ligada a um gênio solitário chamado Cyrus Redding e a uma empresa farmacêutica a que ele dava o nome.

Nos anos que se seguiram, ocorreu uma série de sucessos menores: Terranyd, uma tetraciclina; Rebac, um antiácido gástricos, e ainda várias outras preparações. A empresa dos Produtos Farmacêuticos Redding duplicou em tamanho, e a população de Darlington crescia em proporção. Depois, nos primeiros anos da década de 60, Redding obteve a patente exclusiva para os Estados Unidos de diversos produtos europeus bem sucedidos, incluindo o tranqüilizante que viria a ser, após uma campanha promocional relâmpago, um dos produtos farmacêuticos mais receitados em todo o mundo. Um ano após a saída deste novo medicamento, Darlington foi selecionada como uma cidade All-American e, pouco depois disso, foi estabelecida a Liga Júnior de Basebol dos Darlington Dukes.

Marilyn Wyman deu um gole na xícara de chá e arriscou um olhar fugaz ao seu Rolex de ouro. Bastavam apenas dez minutos para que a diretora de relações públicas pudesse dar por terminada mais uma segunda quinta-feira do mês. Do outro lado da sua imponente mesa, Cyrus Redding avaliou-a através dos óculos tipo fundo de garrafa.

- Faltam exatamente oito minutos e trinta segundos para acabar, Marilyn - avisou. - Saber isso a ajuda?

- Peço desculpas, senhor.

Wyman, na casa dos cinquenta, trabalhava com a empresa há mais tempo do que qualquer outro diretor de departamento, No entanto, nunca ninguém a ouvira referir-se ao patrão de outra forma que não Mr. Redding ou, quando em presença, tratando-o por senhor. Usava o cabelo curto, castanho-acinzentado, e tinha uma sensualidade sofisticada, que utilizava com perícia ao lidar com representantes dos meios de comunicação social de ambos os sexos.

-Temos ainda um último assunto para resolver. E não é coisa pequena. Trata-se do Synogard.

- Pensei que havia sido retirado do mercado.

- Na Inglaterra já foi, mas aqui ainda não. Só o lançamos há oito semanas e mesmo assim já entrou no top quarenta em termos de volume de vendas e no top vinte e cinco em lucro real.

- É uma pena. As opiniões que tenho ouvido, tanto dos farmacêuticos como dos doentes, são excelentes. Mesmo assim, os Ingleses provaram que é responsável por... quantas mortes até agora? Sessenta?

- Na realidade são oitenta e cinco.

- Oitenta e cinco.

Ato reflexo, Wyman estremeceu. O Synogard fora lançado no mercado americano quase imediatamente após a patente ter sido adquirida por Redding. Apesar de ela não possuir qualquer forma de descobrir como o haviam conseguido, os períodos de testes, tanto laboratoriais como clínicos, exigidos pela FDA, parecia não terem sido cumpridos. Não cabia a ela fazer perguntas acerca dessas coisas. Os testes pertenciam ao setor de Arlen Paquette e a troca de informações entre diretores de departamentos não era apenas desaprovada por Redding como, na maioria dos casos, proibida.

- Bem, temos ainda o Lapsol e o Carmalon - afirmou Wyman. - De acordo com os números a que tive acesso ontem, ambos estão no top dez em termos de fármacos contra as artroses. Vou escrever um comunicado à imprensa, anunciando a suspensão da nossa produção do Synogard e depois vejo o que posso fazer para relembrar ao público a existência desses outros dois produtos.

- Não vai fazer nada disso, Marilyn.

- Desculpe?

Redding tirou umas folhas impressas por computador de um dossiê pousado na mesa.

- Faz alguma idéia dos milhões que nos custou comprar a patente do Synogard, testar o produto, entrar em produção, fazer publicidade, enviar amostras aos médicos e, por fim, distribuir o produto nas farmácias e nos hospitais? Perdão, Miss Wyman, devo corrigir: não quantos milhões, mas quantas dezenas de milhões?

Marilyn Wyman abanou a cabeça. Redding prosseguiu.

- As projeções que tenho aqui comigo indicam que, ao nível atual de crescimento das vendas, o produto terá de ficar no mercado pelo menos mais dez semanas apenas para compensar os gastos. E é nisso que irá concentrar os seus esforços.

- Mas... - O olhar gélido de Redding tornou bastante clara a total impossibilidade de diálogo sobre o assunto. Marilyn baixou a cabeça e focou a sua atenção nos seus sapatos Ferragamo de duzentos dólares. - Sim, senhor.

- Tenho alguns dados preliminares daquela empresa de vistoria que você contratou, indicando que apenas menos de quarenta por cento dos médicos e menos de dez por cento dos consumidores têm algum conhecimento do que está acontecendo na Inglaterra. Quero que estes números não se alterem durante as próximas dez semanas.

- Mas...

- Raios! Não ando à procura de “mas”. Estou à procura de dez semanas de vendas de modo a que possamos abandonar este produto sem o deitar completamente no lixo. O nosso departamento jurídico tratará de tudo relativo à FDA. Por isso, se continuar com esses “mas”, eu facilmente encontro outra pessoa de relações públicas para cumprir as suas funções. E devo lembrar-lhe que a primeira tarefa dessa nova funcionária será fazer algo de criativo com aquele arquivo acerca de M. Wyman, que há muito tempo coloquei de lado.

Wyman mordeu o lábio inferior e acenou em concordância, Há muitos anos que Redding não mencionava a coleção de fotografias, conversas telefônicas e filmagens da suite do hotel da empresa, onde ficara férias em Acapulco. Por baixo da maquiagem magistralmente aplicada, o rosto de Marilyn empalideceu. Redding, observando a capitulação nos seus olhos, suavizou a expressão.

- Marilyn, ouça. Basta-lhe fazer a sua parte. Prometo-lhe que, se houver qualquer tipo de problema neste lado do Atlântico com o Synogard, imediatamente o retiramos. Okay? Ótimo. Agora diga-me, como anda a sua campanha?

- O Alpha? Muito bem, obrigada. Precisa apenas de uma afinação. Só isso.

- Então, não se preocupe. Porque não o leva até ao Buddy Michaels no Darlington Sport? Ele tem um novo Lotus, rapidíssimo, que acabou de chegar, e aposto que está morto para que lhe mostre a beleza da paisagem do Kentucky. - Verificou o esguio relógio digital incrustado na mesa. - Faltam oito minutos para as onze. Foi uma boa reunião, Marilyn. Como sempre, está desempenhando de forma excelente as suas funções. Porque não passa por aqui na semana que vem e me traz um relatório de desenvolvimento? Também quero saber como lida o seu novo Lotus com a zona de maior declive da montanha. - Com um sorriso, um aceno e um gesto mínimo da mão, Marilyn Wyman estava dispensada.

Arlen Paquette encontrava-se bebendo café na suntuosa sala de espera à porta do gabinete de Redding, quando Wyman apareceu. Apesar de trabalharem para a mesma empresa há vários anos, raramente tinham se encontrado à exceção da segunda quinta-feira do mês. Todavia, o cumprimento entre os dois era caloroso, ambos pressentindo que em outro espaço e em outro tempo seria bem possível que se tornassem amigos.

Às onze horas em ponto, Marilyn Wyman saiu para a recepção e Paquette aproximou-se da porta de Redding, onde, depois de bater uma vez, entrou. Iniciava-se a terceira hora da segunda quinta-feira do mês.

Redding cumprimentou Paquette com um aperto de mão por sobre a mesa. Em algumas ocasiões, especialmente quando a ordem de trabalhos era reduzida, o homem conduziria a sua cadeira de rodas motorizada até à mesa de café, situada em um dos cantos do gigantesco escritório, e convidaria Paquette a sentar-se no sofá Chesterfield em frente dele. Nesse dia, contudo, nada disso aconteceu.

- Mandei vir almoço, Arlen. É possível que ultrapassemos o tempo que temos reservado.

Paquette ficou tenso. Em sete anos, a sua visita das onze horas nunca ultrapassara o tempo estipulado.

- Sou todo seu - declarou, tomando consciência, tal como decerto acontecera com o homem que se encontrava à sua frente, que as palavras significavam mais do que a redundante figura de estilo.

- Há algumas áreas problemáticas que deseje discutir comigo antes de começarmos?

Paquette abanou a cabeça. Sabia que Cyrus Redding abominava aquilo que chamava “surpresas”. Se Paquette se deparasse com problemas maiores no decorrer do seu trabalho, um telefonema e conseqüente discussão imediata tornavam-se necessários.

- Ótimo - afirmou Redding, ajustando a gravata e penteando os escassos cabelos grisalhos da nuca com os dedos. - Tenho duas situações que devemos avaliar em conjunto: A primeira relaciona-se com o Synogard. Tem aí a pasta à mão?

- Trouxe as pastas de todos os assuntos atuais - respondeu Paquette, passando a mão pela sua volumosa mala de boa qualidade.

- E o nosso relatório sobre o Synogard é atual? - O tom de voz de Redding sugeria preparar-se para encarar uma resposta afirmativa como uma “surpresa”.

- Sim e não, senhor. A análise formal ficou completa há vários meses. Recebeu o meu relatório.

- Sim, lembro-me disso.

- No entanto - continuou Paquette -, comecei a ler acerca dos problemas ocorridos no Reino Unido e decidi continuar a fornecer a droga para mais alguns testes no Centro de Saúde de Mulheres em Denver.

- Bem pensado, Arlen. Muito bem. E até agora já se encontraram alguns efeitos secundários?

- Apenas mínimos. Aumento dos seios e dores, perturbações no estômago, diarréia, perda de cabelo em meia dúzia, perda da libido, erupções cutâneas e palpitações. Nada de grave ou com risco de vida.

“Nada de grave ou com risco para a vida”. Mesmo após sete anos, os sentimentos íntimos de Paquette estavam sendo desmentidos pela insensibilidade das suas próprias palavras. Todavia, ele era um homem de Redding, e Redding preocupava-se apenas com os efeitos secundários que poderiam tornar-se suficientemente graves e consistentes, de modo a suscitar problemas à empresa. Apenas estes constituíam um motivo plausível para adiar ou cancelar o lançamento de um novo produto para o mercado em um negócio em que o espaço temporal de uma semana muitas vezes se traduzia em milhões de dólares e qualquer avanço relativamente a concorrência em dezenas de milhões, Redding estabelecera as suas prioridades.

- Quantos indivíduos estiveram envolvidos nos testes do Synogard?

- Contando com as pessoas das instalações de Denver e do Omnicenter, em Boston, quase mil. - Verificou os seus apontamentos. - Precisamente novecentas e setenta.

- E ninguém do Omnicenter está neste momento recebendo Synogard?

- Lá, os testes pararam há vários meses. Havia muitos outros produtos que precisávamos introduzir no sistema. Paquette sabia que o cancelamento do Synogard no Reino Unido iria redundar em um fiasco, se não mesmo em um desastre, para os Produtos Farmacêuticos Redding; uma empresa que, desde o momento em que aquele homem da cadeira de rodas assumira a presidência, nunca sofrera as repercussões do cancelamento de um produto ou mesmo de uma investigação da FDA. Os testes de produtos farmacêuticos na Europa raras vezes cumpriam os padrões da FDA. No entanto, o Reino Unido possuía um histórico minimamente decente em relação à segurança, e as instalações tanto de Boston como de Denver serviam para uma segunda verificação de todos os produtos desenvolvidos no estrangeiro, como ainda dos medicamentos concebidos nos laboratórios de Redding. Os problemas inerentes a diversos produtos - pelo menos segundo a definição de problemas estabelecida por Cyrus Redding - haviam sido sempre identificados, pelo menos antes da empresa fazer um investimento maior... sempre, até agora.

- Diga-me, Arlen - perguntou Redding, enchendo uma xícara de café de uma torneira, embutida na mesa, acrescentando-lhe umas gotas de um pequeno frasco - o que acha que aconteceu? Como foi que deixamos passar isto?

Paquette ouviu com cuidado as palavras do homem, procurando qualquer sinal de tensão ou de lástima. Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão.

- Bem - respondeu -, basicamente reduz-se tudo a uma questão de números. - Fez uma pausa para decidir quão científica deveria ser a sua explicação. Nada sabia acerca do passado de Cyrus Redding, porém, estava convencido, de acordo com as conversas anteriores, que por certo o magnata teria algum conhecimento na área das ciências. Direto ao assunto e sem condescendência, era assim que ele iria jogar. - O efeito secundário do Synogard, neste caso a toxicidade em relação ao coração que tem sido culpada pelas mortes em Inglaterra, parece dever-se em parte à alergia e em parte às doses administradas.

- Em outras palavras - interrompeu Redding -, primeiro o doente tem de ser sensível à droga e depois tem ainda de ingerir uma grande quantidade.

- Exato. E do ponto de vista estatístico, essa combinação não surge tantas vezes como isso. No entanto, o Synogard tem sido tão eficaz e tão bem publicado que milhões de receitas foram literalmente passadas nos últimos seis anos, desde que foi lançado no Reino Unido. Uma morte aqui, uma morte acolá. Semanas ou mesmo meses entre essas ocorrências e muitos quilômetros de distância. Não há maneira de as relacionar com a droga. Por fim, um avultado número de problemas surge mais ou menos na mesma época e no mesmo lugar e um médico de um hospital de uma determinada cidade, na área de Sussex, percebe tudo. Um pouquinho de publicidade e pumba!, de repente aparecem relatórios oriundos de todo o mundo britânico.

-Tem alguma idéia de quantas centenas de milhares de doentes com artrite sentiram o seu sofrimento aliviado graças, ao Synogard?

- Posso calcular. E compreendo o que está me dizendo. No fundo trata-se da relação risco/beneficio. É a partir daí que se movem todas as pessoas da nossa indústria, aliás, de qualquer fornecedor no campo da saúde.

- Decidi manter o Synogard no mercado americano durante mais dez semanas. - Redding lançou a bomba de forma tranqüila e simples, depois recostou-se, ficando a observar a reação de Paquette. Aparentemente, pelo menos, não conseguiu denotar qualquer espécie de resistência.

- Ótimo - afirmou Paquette. - Deseja que eu continue os testes em Denver? Temos, de modo aproximado, um avanço de dezoito meses em relação ao mercado.

- Por favor, Arlen.

Paquette anuiu, rabiscou um breve apontamento na pasta do Synogard e voltou a colocá-la dentro da mala, fazendo um esforço violento para manter a compostura. Não tinha quase nada a ganhar se revelasse os seus verdadeiros sentimentos acerca do que Redding decidira fazer... e tanto, realmente tanto a perder. Bastava o seu envolvimento nos centros de testes, envolvimento do qual Redding possuía documentação detalhada, para mandá-lo para a prisão. De fato, suspeitava que Redding poderia alegar não ter qualquer conhecimento de ambos os centros e atestar essa alegação de credibilidade. Mesmo? Se não ocorresse nenhuma confrontação, as hipóteses eram de ser despedido ou rebaixado... se não mesmo pior. Vários anos antes, um diretor de departamento criticara abertamente Redding e os seus métodos, expondo os seus sentimentos mais íntimos ao editor do Clarion Journal de Darlington. Nem uma semana mais tarde, o homem, um soberbo cavaleiro, partira o pescoço em um acidente de cavalo e morrera horas antes de chegar ao Hospital Regional de Darlington.

-Tem consigo os relatórios dos testes relativos a este mês?

- Sim, senhor. Tirei-os do computador ontem à noite.

Enquanto Paquette procurava dentro da mala os relatórios de desenvolvimento sobre os catorze medicamentos a serem atualmente investigados, ouviu o suave som da cadeira de rodas de Redding.

- Deixe os relatórios sobre a minha mesa, Arlen - pediu Redding, deslizando até ao centro da sala. - Revejo-os mais tarde. Importa-se de trazer o meu café até à mesa, por favor? Queria falar com você de um problema potencial no Omnicenter e quero uma pausa nas conversas à mesa.

Paquette fez como lhe fora pedido, desviando os seus olhos de Redding o máximo que lhe era possível, a fim de evitar que o homem, um mestre no que dizia respeito à leitura dos pensamentos dos outros, percebesse como a decisão relativa ao Synogard era contra a sua vontade. No dia da sua primeira entrevista, mais de oito anos antes, ele pressentira essa misteriosa capacidade naquele inválido envelhecido. Era como se todas as forças que deveriam ter sido canalizadas para a locomoção houvessem sido transferidas para uma outra função.

- Arlen, o Omnicenter já estava operacional quando veio trabalhar conosco, não estava?

- Mais ou menos, senhor. - Paquette instalou-se no sofá Chesterfield e deu um gole forte no café que sub-repticiamente perfumara com conhaque, enquanto Redding se movia pela sala. - Os computadores já se encontravam lá, o nosso pessoal estava no lugar e começavam a planejar as questões financeiras, mas ainda não tinham começado quaisquer testes formais.

- Sim, claro. Agora me recordo. Deveria ir com calma com esse conhaque tão cedo pela manhã, amigo. Faz terrivelmente mal à digestão. No decorrer dos seus contatos com o Omnicenter, alguma vez, por mero acaso, viu uma médica patologista chamada Bennett, cujo primeiro nome é Kathryn ou Kate?

Paquette abanou a cabeça em sinal de negação. Pôs de lado o café, visto aqueles goles quentes, quase de veludo, já não lhe transmitirem qualquer segurança.

- Reese me mantém afastado o máximo possível das pessoas. - Sorriu e sussurrou em seguida: - Acho que ele tem vergonha de mim.

Redding sentiu-se agradado com o sentido de humor.

- Uma reação desse gênero é típica do homem, não faltam-lhe as capacidades superiores de apreciar e respeitar. Para ele, uma pessoa ou deve ser controlada ou receada, não dando espaço para qualquer sutileza entre estas duas opções.

- Exatamente. - Paquette estava impressionado, mas não surpreso, com a perspicácia do homem. De acordo com os seus conhecimentos, Redding tivera apenas um único contato direto com o administrador do Metropolitan Hospital; porém, para aquele “feiticeiro”, um contato era geralmente suficiente. - E o que se passa com esta doutora Bennett?

- Começou a investigar o Omnicenter em relação a duas mortes estranhas que ela autopsiou. As mulheres em questão apresentavam uma doença sanguínea e os órgãos reprodutores em estado idêntico. Ambas tinham consultas no Omnicenter.

- Como uma grande percentagem de todas as mulheres de Boston - afirmou Paquette. - Falou com o nosso pessoal?

- Carl me telefonou. Ambas as mulheres participaram, várias vezes no nosso trabalho, mas nunca com o mesmo produto. A ligação ao Omnicenter parece ser uma pista falsa.

- Infelizmente temos outras pistas nesse local que parecem ter mais substância.

- É essa a minha preocupação - explicou Redding -, e agora também a sua. Dei instruções ao Reese para que ele, de alguma forma, arranjasse uma manobra de diversão para afastar o interesse dessa jovem doutora Bennett das nossas instalações. Ele acredita que conseguirá fazê-lo. No entanto, utilizei as minhas fontes para levar a cabo algumas investigações sobre essa mulher e, digo-lhe com toda a franqueza, Norton Reese não está no nível dela, tanto intelectualmente como em termos de força de caráter.

- Ele seria o último a admitir isso.

- Concordo - Redding abriu um arquivador de papel-manilha que, segundo parecia, colocara sobre a mesa de café antes da chegada de Paquette. - Tenho aqui cópias de todas as informações que até agora obtivemos acerca dessa mulher. Quero que vá para Boston e que se mantenha atento aos acontecimentos. Não se exponha, seja de que forma for, antes de falar comigo. Encontre-se com o nosso pessoal do Omnicenter apenas se absolutamente necessário.

- Sim, senhor.

- Há uma pequena alínea nesse relatório que poderá ser útil. O sogro da Bennett dirige a firma de advogados que lida com a pasta do Metropolitan Hospital, além dos negócios do Nordeste da linha de cereais para o café da manhã Tiny Tummies. Apesar da ligação não ser do conhecimento público, a Tiny Foods é nossa subsidiária. O nome do homem é Winfield Samuels. Pelo que me foi dado saber, é um homem de negócios.

Paquette acenou. Vindo de Cyrus Redding, a denominação “homem de negócios” era um dos maiores elogios. Significava que o homem era, tal como o próprio Redding, um pragmático que nunca permitiria que as emoções perturbassem decisões relativas a um tema específico.

- Faz alguma idéia de como Reese vai lidar com essa doutora?

- Não, exceto que Carl acha que ele está muito confiante de si.

- Se é esse o caso - admitiu Paquette - devo estar de volta em apenas alguns dias.

Redding sorriu benignamente.

- Já lhe expliquei o meu ponto de vista acerca da relação Bennett/Reese, Arlen - concluiu. - Fiz uma reserva em seu nome no Ritz. Com a saída em aberto.

 

                MÉDICA DO METROPOLITAN

                 AFIRMA QUE BOBBY ERA DROGADO

 

Os responsáveis pelo grafismo do Herald tinham, pelos vistos, decidido recuperar um tipo de letra não utilizado desde a Segunda Guerra Mundial. O jornal encontrava-se no chão da sala de estar, juntamente com o Globe e perto de Roscoe, que mantinha a mesma distância entre ele próprio e ambos os donos. A tarde ainda ia no princípio, mas o ambiente geral e o nublado do céu lá fora transmitiam a sensação de ser muito mais tarde.

Os telefonemas haviam começado às duas da madrugada para nunca mais pararem, até que Jared, às quatro e trinta da manhã, desligara os telefones. Cartas redigidas no papel timbrado de Kathryn Bennett, e assinadas pela própria, haviam sido deixadas em ambos os diários de Boston e nas três maiores cadeias de televisão, durante a noite anterior. Na essência, as cartas afirmavam que, movida pela sua própria consciência e pelo sentido de obrigação perante os habitantes de Boston, Kate decidira contar toda a verdade acerca de Bobby Geary.

Stan Willoughby, que fora mencionado na carta, e Norton Reese, como administrador do hospital, tinham recebido nesse mesmo instante telefonemas dos jornalistas. O chefe de patologia, não tão perspicaz como seria de esperar se não tivesse sido brutalmente acordado de um sono profundo, confirmou a história acrescentando que Kate era uma patologista honesta e altamente competente e que, decerto, teria uma boa razão para justificar o que fizera. Foi apenas uma hora depois de ter falado com o primeiro jornalista que Willoughby se lembrou de lhe telefonar. Nessa altura, o telefone de Kate estava de tal forma concorrido que precisou de mais de uma hora até conseguir falar com ela. Entretanto, Norton Reese, ajudado por Marco Sebastian e uma sessão de urgência junto aos computadores do hospital, confirmara que, de fato, nenhum doente denominado John Schultz fora alguma vez tratado ou testado no Metropolitan Hospital. Reese tivera o cuidado de acrescentar que nada sabia acerca das alegações proferidas pela Dra. Bennett. Descreveu-a ainda como uma mulher brilhante, apenas com a tendência de, por vezes, se revoltar contra as formas de comportamento tradicionais. Inquirido no que dizia respeito a mais detalhes, Reese recusou quaisquer outros comentários.

A casa mais parecia um mausoléu. Tanto Kate como Jared tentaram ir trabalhar como de costume; porém, ambos haviam sido forçados a regressar a casa devido à pressão dos jornalistas mais assanhados. Durante as horas que se seguiram, permaneceram sentados, com as cortinas fechadas, ignorando o toque periódico da campainha da frente. Os telefones continuavam desligados. O silêncio havia-se instalado entre os dois, incapaz de se sobrepor ao calor proveniente do fogão a lenha.

- Jared, quer uma xícara de café?

- Obrigado, mas não. Três em uma hora e meia é um pouco acima do meu limite. - Mantendo-se sentado na cadeira, inclinou-se para a frente e arrancou com brusquidão o Herald debaixo do nariz de Roscoe. Logo por baixo do título, viam-se fotografias dos pais de Bobby Geary, juntamente com uma citação de cada um deles relativa a Kate, tudo menos elogiosa. - Malditos jornais... Só sabem dizer besteiras... - comentou, incapaz de disfarçar a irritação na voz.

- Querido, acredita mesmo que eu não sabia nada acerca dessas cartas, não acredita?

- Claro que acredito em você. O que te leva a pensar o contrário?

- Calculo que nada. - A raiva que sentira no início daquele dia tinha gradualmente dado lugar à frustração e à crescente noção de que, além da negação total e de um pedido para analisar a caligrafia da sua suposta assinatura, não possuía qualquer trunfos para jogar. Até mesmo a questão da assinatura seria uma ajuda duvidosa na tentativa de provar a sua inocência. Ninguém tinha ainda aparecido com a carta original e, pela cópia que lhe fora permitido ver, a assinatura parecia bastante idêntica à sua.

- O que levaria alguém a fazer isto? O quê? - Jared parecia estar falando tanto para si próprio como para Kate; no entanto, era claro que na sua cabeça a confusão e a dúvida permaneciam. - Disse-me que apenas Yoda e esse detetive Finn tinham conhecimento das anfetaminas?

- O que eu disse foi que, pelo que me foi dado saber, apenas eles tinham conhecimento. O Reese tem qualquer coisa contra mim e mete o bedelho em todos os assuntos do hospital. Pode ter descoberto de alguma maneira e... - Encolheu os ombros e abanou a cabeça. - Eu não tenho o homem em grande consideração, mas não consigo imaginá-lo fazendo uma coisa deste gênero.

- Sabe, Kate, podia ter me contado que ia mudar o relatório da autópsia do Geary. Afinal de contas, sou seu marido.

Kate ficou olhando para ele.

- Jared, nós três decidimos que mais ninguém deveria saber. Telefone a Senhora Willoughby ou a Senhora Finn e pergunte-lhes se os maridos delas lhes contaram alguma coisa. Partilha todos os segredos íntimos do seu trabalho comigo? ,

- Você nunca pergunta.

- Deixe-me em paz, está bem? Ouça, eu sei que está irritado. É uma figura pública e, direta ou indiretamente, está recebendo publicidade negativa. Mas não venha me culpar, Jared. Eu não fiz nada.

Jared ergueu-se, dirigiu-se até ao fogão de sala e começou a atiçar inutilmente algumas brasas, pois já estavam ardendo na perfeição.

- Falei esta manhã com o meu pai - disse, olhando por cima do ombro.

- Meu Deus. Winfield deve estar em fúria total com o que está acontecendo. Acha que a coisa melhoraria se eu lhe telefonasse?

- Segundo a opinião dele, deveria convocar uma conferência de imprensa e admitir ter escrito as tais cartas.

- O quê?

- Pela maneira como as coisas estão, ele acha que parece que teve uma tomada de consciência e que depois eu te dissuadi de confessar abertamente.

- Então o meu sogro quer que eu minta em público para evitar que o seu protegido perca nem que seja um voto.

Jared lançou o atiçador das brasas de encontro à porta do fogão.

- Raios te partam, você já mentiu. Foi por esse motivo que toda esta questão começou.

Kate sentiu que as lágrimas estavam prestes a surgir.

- Eu fiz o que julguei ser o mais justo e benéfico para o rapaz e para a família.

- Pois... e agora vai ter de pensar no que é justo e benéfico para este rapaz e para a sua família.

- Então também concorda? Acha que isso é o que eu deveria fazer?

Uma forte batida na porta da frente impossibilitou Jared de dar uma resposta.

- Polícia. Abram a porta.

Kate abriu uma fresta da porta e olhou lá para fora, na expectativa de encontrar mais um dos jornalistas. Em vez disso deu de caras com o detetive Martin Finn. Se ainda tinham qualquer dúvida no que dizia respeito à possibilidade do policial ser responsável pelas cartas, essa evaporou-se ao som das primeiras palavras do homem.

- Estou na merda por sua causa, doutora Bennett. Sabia disso?

- Peço desculpas, mas eu não mandei aquelas cartas - pronunciou em um tom de voz exageradamente calmo. - Não quer sentar? Posso trazer-lhe um café?

Finn ignorou totalmente as perguntas, permanecendo no centro da sala, onde com pequenos passos ia desenhando um círculo em miniatura no tapete.

- Eu concordei com esta história porque sou irlandês e um grande adepto do esporte e veja agora a situação em que isto me meteu. Eu estava à espera de uma promoção. Talvez até para capitão. Agora, graças a você e à merda do seu exibicionismo, terei muita sorte se não me mandarem para o serviço de apanhar cães na rua.

- Concordou com esta história? - A incredulidade estava estampada no rosto de Kate. - Tenente Finn, para começar a sugestão foi sua. Em nome dos garotos de Boston. Não se lembra de ter dito isso? - Sentiu a voz falhar. O dia já fora punitivo demais sem aquele encontro.

De repente, Jared passou em frente dela e enfrentou o homem. Apesar de ser mais alto do que Finn, o policial era de longe mais forte.

- Finn, se já disse o que tinha a dizer, quero que desapareça daqui para fora. Se não disse tudo, faça o favor. E depois saia.

- Saio quando me der vontade.

- Saia!

Jared avançou um passo, mostrando os punhos cerrados ao policial. Foi só nessa altura que Kate percebeu que Finn estava completamente bêbado. Apressou-se na direção de ambos os homens, mas não com a rapidez necessária. Sem qualquer aviso ou aquecimento, Finn espetou um murro brutal no plexo solar de Jared. Um rugido gutural acompanhou a explosão de ar proveniente dos pulmões, à medida que Jared dobrava o corpo e caía sobre os joelhos. Kate ajoelhou-se junto ao marido.

- Seu animal - berrou para Finn.

- Quem me dera que tivesse sido a senhora - respondeu Finn, à medida que, cambaleando, se afastava em direção à saída. O vaso antigo que Kate atirou estilhaçou-se de encontro à porta que se fechou atrás dele.

Jared permanecia dobrado sobre si próprio, mas a respiração ia se tornando mais calma.

- Está bem? - perguntou suavemente Kate.

- Nunca tinham sequer me encostado um dedo - respondeu com algum esforço. - Pode me trazer o cesto dos papéis, por favor? Nunca se sabe...

- Meu amor. Posso fazer mais alguma coisa? Ir buscar alguma coisa?

Devagar, Jared sentou-se e endireitou o corpo. Os olhos mantinham-se arregalados.

- Lembre-me só mais uma vez o que eu disse àquele padre...

- Para o melhor e para o pior. Foi isso o que lhe disse. Jared, não quero parecer piegas, mas o que acabou de fazer foi uma coisa verdadeiramente maravilhosa. Enfrentar assim aquela besta...

- Para o melhor e para o pior. Tem certeza de que era isso?

- Sim, sim.

- Katey, não sei bem como dizer isto, até pode parecer perverso, mas... levar porrada da forma coma levei....

- Não compreendo.

- Pouco antes do Finn entrar, eu estava prestes a dizer que concordava com o meu pai ao pensar que tudo seria mais simples e cairia melhor para todos nós se você admitisses ter escrito aquelas cartas. Depois, aquele idiota entrou por aqui de um momento para o outro, percebi como estava errado... e peço desculpas por isso. Não consegui suportar ouvi-lo falar daquela maneira. Katey, por favor, tente compreender que há muitas coisas acontecendo que me confundem. Às vezes, acho que viver com você é como tentar domar um ciclone. Outras vezes, sinto-me como um pedaço de carne entre uma fatia de Winfield e uma fatia de Kate. Às vezes, eu... - Gatinhou até ao cesto de papéis e vomitou.

 

Desviando o olhar da testa suada de Norton Reese, Sheila Pierce centrou a sua atenção no teto de estuque do quarto onde se encontravam no Motel Mid City. Em seguida, decidiu continuar fazendo aqueles gemidos que o homem considerava tão excitantes. Cuidadosamente, para não interromper o ritmo, levou a mão até ao pescoço para se certificar de que o seu novo colar de diamantes não tinha saído do lugar.

- Querido, sim, sim - murmurou. - Ai, amor, você é maravilhoso.

Quem lhe dera ter tido a oportunidade de observar o rosto de Kate Bennett quando os jornalistas começaram a telefonar. Reese era tudo menos um Valentino para ela; porém, tinha de dar a mão à palmatória, e Reese merecia o que ela estava oferecendo-lhe pelo muito que ele tinha feito a Kate.

- Venha, querido, venha, dê-me tudo - gemeu.

Era um acontecimento muito excitante: Kathryn Bennett, médica, a mulher perfeita, confusa e irritável, deixara de repente de ter tudo sob controle. Como era bom ser finalmente a pessoa que puxava os cordões. Só lamentava não existir maneira de Kate Bennett descobrir tal fato.

- Não pare, Norty. Oh, sim, querido, sim. Não pare.

 

                         SEXTA-FEIRA, 14 DE DEZEMBRO

Comparada com qualquer sala de conferências dos outros departamentos do Metropolitan Hospital, o espaço pertencente à patologia era relativamente pequeno. Cartazes com reproduções de quadros dos impressionistas franceses encontravam-se pendurados nas ásperas paredes beges. Por baixo destes, estantes de metal, do estilo das repartições públicas, expunham textos e jornais velhos com as pontas dobradas. A escassa decoração, que incluía ainda uma ampla mesa de carvalho riscada e duas dúzias de diferentes cadeiras de abrir, em pouco contribuía para esconder o fato de que, anterior à modesta renovação do departamento em 1965, a sala fora o necrotério do hospital. Entre as vinte e nove pessoas convocadas às pressas para a reunião, algumas ainda se ressentiam da aura criada pelos milhares de corpos que tinham temporariamente descansado naquele local.

Kate, com Stan Willoughby sentado à sua direita, encontrava-se de pé junto a uma das pontas da mesa e inspecionava a sala. Além deles, viam-se mais seis patologistas, alguns assistentes e um grande número de técnicos de laboratório. Incomodava-a de uma forma terrível o simples pensamento de que um deles, ou até mais do que um, tivesse sido capaz de um ato tão maldoso como a carta sobre Bobby Geary. As pessoas presentes na sala eram, de uma certa forma, a sua família - gente com quem ela passava tantas horas acordada por semana como com o marido. Fora sempre essa a maneira que ela escolhera para lidar com eles: diretamente, com respeito e sem segundas intenções. E todos eles sabiam que havia apenas dois defeitos que Kate não tolerava: a preguiça e a desonestidade. No entanto, pelo que lhe era dado saber, nenhuma das pessoas presentes naquela sala poderia ser acusada de semelhantes características. A única situação mais próxima desses parâmetros relacionava-se com Sheila Pierce, quando esta jurara de pés juntos ter perdido os comprovantes e as faturas de despesa relativos à sua viagem a Miami; porém, mesmo então, Kate não encontrara provas que confirmassem a sua suspeita. Além disso, o assunto fora resolvido entre elas sem grandes discussões.

John Gilson, o técnico de microscopia eletrônica do departamento; Liu Huang, um patologista meticuloso, a quem Kate dava aulas de Inglês; Marvin Grimes, o empregado do necrotério sempre ligeiramente embriagado, Sheila, a própria, tão inteligente, tão dedicada ao departamento; por um momento, os olhos de Kate cruzaram-se com os das outras pessoas.

- Quero agradecer a todos por terem dispensado algum tempo dos seus horários apertados para me ouvir - começou. - Sei que o último dia e meio tem sido... como deverei dizê-lo... um pouco confuso por estes lados. - A frase de Kate foi seguida por um sutil sussurro de risos. - Pois bem, queria dizer que, em comparação com tudo aquilo por que vocês têm passado, a minha vida tem sido um desastre completo. Hoje, às três da manhã, eu e o meu marido pegamos um jornalista tentar sair do nosso quarto a tempo da edição matutina. Disfarçara-se do nosso bengaleiro de bronze antigo. - Desta vez as gargalhadas foram mais espontâneas e animadas. Kate sorriu. - Norton Reese marcou uma conferência de imprensa para mim dentro de uma hora. Ele quer que eu assuma a minha posição sobre o assunto Bobby Geary de uma vez por todas. Pois bem, antes de comunicar a esses abutres, quero que vocês sejam os primeiros a saber.

“O que a imprensa tem dito sobre o Bobby Geary é verdade. Pelo que nos foi possível concluir no exame post mortem, há algum tempo que ele era um consumidor de anfetaminas por via intravenosa. Como lhe era possível tratar o corpo daquela forma e ao mesmo tempo jogar basebol permanece para mim um mistério, mas as antigas cicatrizes que encontramos junto a determinadas veias não conseguem esconder a verdade. Tudo isto é muito triste tanto para a família do Bobby como ainda para os adeptos de basebol e para as crianças. E acredito que tenha sido um pesadelo para o próprio Bobby. A decisão de não revelar as nossas descobertas à imprensa foi tanto minha como do doutor Willoughby e do detetive Finn. - Sentiu um jato de acidez percorrer-lhe a garganta ao mencionar o nome deste último. - A mentira é uma coisa que me incomoda, seja sob que forma for, mas todas as noções que tenho sobre decência me dizem que a nossa decisão foi a mais correta. Agora, alguém anda tentando me fazer pagar por essa decisão. Eu não escrevi aquela carta e não faço a menor idéia de quem o fez, por que razão o fez, como obtiveram a informação acerca do Bobby Geary, ou como conseguiram o meu papel de carta. Existe a possibilidade de ter sido alguém deste departamento. Espero que não: todos vocês são muito importantes para mim. Sinto que nós formamos uma equipe e isso me ajuda a vir trabalhar todos os dias, pronta a dar o meu melhor por uma patologia decente no dinossauro que é este hospital.”

“Mas o que aconteceu, aconteceu. Já sofri tudo o que tinha a sofrer e, depois da pequena sessão de perguntas e respostas no gabinete do Reese, tenciono enfiar este assunto no caixote que geralmente utilizo para me livrar do lixo na minha vida. Se algum de vocês tiver alguma pergunta, terei muito prazer em responder da melhor forma que me for possível.”

Stan Willoughby ergueu-se e pôs o braço à volta dos ombros de Kate.

- Eu não tenho nenhuma pergunta, Kate. Apenas uma declaração para todos. Submeti o nome desta mulher ao comitê de investigação com a minha recomendação pessoal para me suceder como chefe do departamento. É possível que toda esta história tenha sido maquinada por alguém que deseja sabotar a decisão. Quero que todos saibam que neste momento estou mais empenhado do que nunca em que ela obtenha o lugar.

Durante um momento reinou o silêncio. Depois, o pequeno Liu Huang levantou-se e começou a aplaudir. Uma pessoa juntou-se a ele e depois ainda mais outra. De repente, todos, exceto uma pessoa, estavam de pé, demonstrando seu apoio.

- Estamos com você, doutora - ouviu-se um técnico gritar.

A reação era tão entusiasmada e verdadeira como espontânea. Nos fundos da sala, o reticente solitário sorriu de dentes cerrados para, por fim, se juntar relutantemente ao aplauso.

- Isto foi bastante especial, não foi? - perguntou Willoughby a Kate, à medida que a sala se esvaziava. - O pequeno Liu Huang ali de pé, na sua postura formal e indecifrável, liderando os aplausos. Acho-o simplesmente adorável. E você está bem?

- Se está perguntando se estou prestes a cair para o lado e a chorar como um bebê, a resposta é sim.

- Então, chore - incitou-a Willoughby, levando-a pelo braço enquanto seguiam o último participante da reunião à saída da sala.

- Sabe, Stan. Não consigo compreender. Acho que nunca vou conseguir entender.

- O que quer dizer com isso? - Willoughby dobrou-se junto ao repuxo, que há anos ele tentava substituir, e engoliu vigorosamente um jato de água tépida.

- Quero dizer, as pessoas... - Encolheu os ombros. - Sabe, acorda-se de manhã, veste-se a roupa, sai-se de casa para mais um encontro na batalha que é a vida; a única coisa que se quer fazer é crescer um pouquinho, dar o seu melhor e pelo caminho agarrar uma pequena parcela de paz e felicidade. Nada de especial. Todos os dias se faz isso e todos os dias se pensa que toda as pessoas estão fazendo o mesmo, tentando alcançar aquele famigerado pedacinho de felicidade. Só assim é que faz sentido.

- Pois é, minha filha., mas é aí que a porca torce o rabo. Sabe, o que faz sentido e o que se passa na realidade raramente são a mesma coisa. O guisado que se propõe cozinhar até iria saber bastante bem, mas falta-lhe alguns dos condimentos da realidade: ganância, inveja, intolerância, insegurança, para não falar daquela velha presença, a loucura pura e simples. Seja lá quem você for, por muito que queira dedicar-se apenas ao seu cantinho, por muito que seja amiga do próximo, vai sempre haver alguém em qualquer lugar tentando estragar-lhe a vida. Pode contar com isso.

- Terrível.

- Resume-se tudo a uma questão de prioridades.

- O que quer dizer com isso?

- Bem, sabe que por estas bandas tenho a reputação de ser muito passivo. A minha porta está sempre aberta. Podem me trazer os seus problemas e preocupações sempre que quiserem... desde que tragam também as soluções para eles. Eu não fui sempre assim, Kate. Houve uma época em que eu iria à luta até com o mais forte deles. E assim o fiz. Nos tempos idos até mesmo muitas vezes, antes de você ter entrado. Depois comecei a sentir dores por baixo do esterno e iniciei as visitas regulares a todos aqueles jovens e ambiciosos cardiologistas. Gradualmente, as minhas prioridades começaram a afastar-se dos joguinhos com os fanáticos do “aqui se faz aqui se paga”. Voltei a ter interesse pelas coisas básicas. A minha mulher, os meus filhos, netos, a minha saúde, tanto fisica como mental. Não conseguia entender em que aspecto se poderia comparar um novo microscópio, um técnico suplente ou uma sala remodelada com qualquer uma dessas coisas.

- Mas, Stan, o seu trabalho é importante. Faz parte das suas funções lutar pelo desenvolvimento do departamento. Não concorda?

- Sim.

- Pois bem, então como vai conseguir lidar com esse aspecto, tendo em conta o que acabou de dizer?

Stanley Willoughby inclinou-se para a frente e beijou-a na testa.

- Não consigo, Kate. Não está entendendo? É por essa razão que vou me aposentar. Nos vemos na conferência.

Com um sorriso que sugeria mais melancolia e tristeza do que júbilo, virou as costas e entrou no gabinete que, se tudo corresse conforme os seus desejos, seria ocupado por Kate dentro de poucos meses.

O gabinete de Kate, com metade do tamanho do seu chefe, situava-se em um corredor lateral, perto da sala de autópsias. O espaço era suficiente apenas para uma mesa e uma cadeira, um arquivo, uma pequena bancada para o microscópio e dois bancos altos. Sentado sobre um dos bancos, encontrava-se Jared.

- Olá - cumprimentou Kate, aproximando-se dele para beijá-lo.

- Olá para você também.

A resposta de Jared fora fria, quase mecânica.

- Como está a sua barriga?

- Se eu não tentar me sentar, levantar ou andar, só dói como o diabo - respondeu. - Mas não dói tanto como isto. - Passou-lhe para a mão um folheto. - Têm circulado cópias destas por toda a zona sul de Boston e começam a movimentar-se em direção à cidade.

- Merda - suspirou Kate, olhando, incrédula, para o papel. - Jared, lamento muito. Sério.

O folheto, impresso em um papel de uma cor laranja suficientemente viva para ofender até mesmo o menos político dos católicos irlandeses, tinha como título PARCEIROS EM COMPAIXÃO. Sob essas palavras, via-se uma fotografia de Kate e Jared, de braço dado, fotografia essa para a qual ela nem se lembrava de ter posado. A seguir aparecia “Advogado J. Samuels e Doutora K. Bennett.” No final da folha, encontrava-se uma fotografia de Bobby Geary fazendo um dos seus maravilhosos lançamentos. Como única legenda ditava: “Bobby, Jaz em Paz.”

-Terá sido o Fine? - arriscou Kate.

- Talvez sim, talvez não. Não deve ser o único católico irlandês por estas bandas que quer nos bombardear. O nome de Bobby Geary parece ter encontrado o seu lugar juntamente com o de Chappaquiddick ou Watergate na lista de mortes políticas anunciadas. Tanto quanto sei, o Mattingly ou o nojento do seu diretor de campanha decidiram me eliminar como possível problema nas próximas eleições.

- Lamento muito.

- Já disse isso.

Kate suspirou ao mesmo tempo em que se afundava na cadeira.

- Jared, neste momento as coisas não estão correndo muito bem para mim. Tem mesmo de tornar tudo mais difícil?

- As coisas não estão correndo bem para você? É só nisso que consegue pensar?

- Por favor, querido. Tenho a porcaria da conferência de imprensa daqui a meia hora, tenho uma biopsia à minha espera na sala de operações. Lembra que me disse ontem que ia tentar ser mais compreensivo? - Cerrou os dentes com força na tentativa de conter outro acesso de raiva.

- Lembro-me de ter levado porrada de um policial que nunca tinha visto antes. Lembro-me disso. O meu pai me contou que Martin Finn é o número um em termos de poder e influência em certas áreas do Departamento de Polícia de Boston. Com ele como inimigo, até é possível que o meu carro seja rebocado quando estiver parado em um sinal vermelho.

Kate semicerrou os olhos. De repente, a aparição de Jared no seu gabinete fazia todo o sentido. Win Samuels. Um dos incontáveis capangas do homem, depois de uma investigação por toda a cidade e junto aos meios de comunicação social, devia ter-lhe transmitido que a sua estimada nora tinha uma reunião marcada com a imprensa.

- Jared, seu pai mandou você vir aqui hoje de manhã para assegurar que eu não desgraço ninguém na conferência de imprensa?

- Estamos apenas tentando evitar mais coisas destas.

Apontou para o folheto cor de laranja. Kate observou o marido durante breves instantes; depois, a expressão do rosto se suavizou.

- Sabe... Quando você age por si próprio, é o homem mais divertido, simpático, terno e bonito que eu alguma vez conheci. Juro que é. Se me tivessem oferecido um marido “faça você mesmo”, tenho certeza de que não teria arranjado melhor. Mas quando começa a funcionar como o homem do Edifício Braxton, juro que...

- Olha, vamos deixar o meu pai fora disto, está bem? Sou eu que estou vendo uma carreira política a ir por água abaixo, não ele.

- Não tenho tanta certeza.

- O quê?

- Nada, Jared. Olhe, tenho algum trabalho para acabar e a qualquer momento irei analisar a biópsia da tiróide de uma mulher com a qual um dos outros patologistas está tendo dificuldades. Neste momento, não posso falar mais sobre isso.

- E que tal se apenas...

O acesso de raiva de Jared foi abreviado pela chegada de uma técnica que trazia consigo uma peça em um tabuleiro de aço inoxidável e um dispositivo de cartão para segurar a lamela, colocando ambos sobre a bancada do microscópio.

- Por favor, diga ao doutor Huang que lhe telefono dentro de minutos com o diagnóstico - disse Kate.

Jared ficou vendo a jovem enquanto saía e depois olhou para o relógio.

- Olhe - anunciou friamente -, vou embora. Tenho uma reunião com o Norton Reese dentro de dois minutos.

- Para quê?

- Pelo visto, ele foi contatado por um advogado amigo da família Geary. Estão pensando em acionar o hospital baseados na invasão de propriedade.

- Meu Deus - afirmou Kate, pressionando as pontas dos dedos contra a fadiga que lhe ardia nos olhos.

Jared levantou-se.

- Não se esqueça do coquetel dado pelos Carlisle hoje à noite. - Kate suspirou. - Pelo visto, já tinha esquecido, não?

- Desculpe. A que horas?

- Sete e meia.

- Okay, Jared, eu...

- Sim?

Ela abanou a cabeça.

- Esquece.

Não era ainda, acabara de decidir, a hora certa para lhe dizer que estava ficando louca. “Por favor, me abraça, Jared”, era isso que queria pedir. “Abrace-me e diga-me que tudo vai correr bem”. Em vez disso, acenou com as poucas forças que lhe restavam e dirigiu a sua atenção para a lamela e o tecido que ali se encontrava. Antes que Jared pudesse ter transposto a porta, o telefone começou a tocar. Como reflexo, ele virou-se para trás.

- Alô? Ah, olá - pronunciou Kate. - Como é que está se agüentando?... Há quanto tempo?... Já mediu a tensão arterial?... Gelo?... Ellen, por favor. Tem de se acalmar e se recompor. Alguma vez teve um problema deste tipo?... Alguma contusão que não saiba explicar?... Em toda a coxa?... Porque não me telefonou antes?... Ellen, há alguns anos, eu a ajudei a ser aceita no Omnicenter. Continua indo lá?... Está bem. Agora ouça com atenção. Quero que venha me encontrar na Emergência, mas não quero que dirija. Consegue arranjar alguém que a traga?... Ótimo. Faça uma pequena mala com roupa para um dia e peça à sua irmã ou a outra pessoa que tome conta das crianças, só em caso de... Ellen, Fique calma. Estou falando sério. Se você perder o controle, as coisas só tendem a piorar. Além disso, só vai estragar o rimel... Assim está melhor. Agora, continue fazendo pressão e venha para cá. Terei as melhores pessoas à sua espera. Provavelmente estará de volta em poucas horas... Bom. Já agora, Ellen, traga também os seus medicamentos. Eu sei que são apenas vitaminas. Mas traga assim mesmo.

- Ellen Sandler? - perguntou Jared mal Kate desligou o telefone.

Kate acenou afirmativamente. O seu rosto estava pálido.

- O nariz dela está sangrando ininterruptamente há mais de duas horas. Tem alguma idéia de onde Sandy está?

- Na Europa, acho eu.

Kate olhou para baixo em direção ao tabuleiro com a peça cirúrgica e pensou na mulher que se encontrava sobre a mesa de operações, à espera que lhe dissessem se o caroço no pescoço era canceroso ou não. O mais provável era que a biópsia original tivesse sido feita com anestesia local, por isso a mulher estaria completamente desperta e assustada.

- Jared, há uma coisa que pode dizer ao Norton Reese da minha parte. Diga-lhe que não vou conseguir ir à conferência de imprensa. Diga-lhe que não fiz nada e que não escrevi nada, por isso não tenho mesmo nada a dizer.

- Mas...

- Diga-lhe que, como meu marido há quase cinco anos, sabe que tudo o que eu digo é verdade e que, se alguém quiser me apanhar, tem de passar por cima de você. Exatamente como ontem à noite, está bem? - Colocou a lamela sob o microscópio e preparou-se para mais um encontro com a luz branca e amarela.

Jared fez tenção de responder; porém, conteve-se a tempo, encaminhou-se para a porta e, por fim, voltou-se para trás.

- Espero que a Ellen esteja bem - disse suavemente.

Kate olhou para cima. Cada músculo do seu corpo parecia ter-se contraído com a perspectiva do que as análises de sangue da sua amiga poderiam revelar.

- Eu também, Jared. Eu também.

“Relaxe. Concentre-se. Focalize. Foque a tua atenção. Foque-a.” Apesar de ter demorado mais um ou dois minutos do que o habitual, finalmente o processo estava funcionando. Era sempre assim. Os pensamentos exteriores ou as preocupações desapareciam da sua mente, como o nevoeiro que se levanta, até que, por fim, as células eram a única coisa que subsistia no seu mundo.

 

Arlen Paquette encontrava-se sentado junto à janela da sua suíte do Ritz, observando o lento caminhar dos transeuntes ao longo dos passeios cobertos de neve dos Jardins Públicos. Completara os seus estudos em Harvard e no MIT e, apesar de viver em Kentucky há vários anos, a chegada a Boston trazia-lhe sempre a sensação de um regresso a casa. Enquanto observava os estudantes e os casais de namorados, os vagabundos e os executivos, Paquette deu por si a sentir saudades da sua vida de estudante universitário, uma vida mais protegida se bem que mais pobre. Ganhara bastante ao longo dos sete anos junto de Redding. O terreno, a casa, a quadra de tênis e a piscina, para não falar das oportunidades criadas para os filhos e da segurança garantida para ele e para a mulher até ao fim dos seus dias. Só agora começava a compreender o preço que teria de pagar por tudo isso. Cada vez mais, especialmente desde o caso Synogard, evitava ver a sua imagem refletida nos espelhos. Também cada vez mais, à medida que a sua auto-estima diminuía, a sua eficácia como amante declinava. E agora, a quilômetros de distância da sua relva meticulosamente cortada e do clube de campo que iria dirigir, duas mulheres haviam sangrado até à morte. Enquanto olhava lá para fora, para aquela tarde cinzenta da Nova Inglaterra, Paquette rezava para que a ligação entre essas duas mulheres do Omnicenter fosse uma mera coincidência.

Às três horas em ponto, um mensageiro chegou trazendo consigo o grande envelope em papel-manilha que ele aguardava. Depois de dar a gorjeta, pegou o conteúdo do envelope e espalhou-o sobre a mesa de café, perto da pasta que trouxera consigo de Darlington. A meticulosidade com que Cyrus Redding abordava um potencial adversário não o surpreendia de todo. O Feiticeiro mantinha-se atento, corroborando a sua notável intuição através de fatos: recortes incontáveis de dados que, analisados individualmente, poderiam parecer irrelevantes, mas que, unidos, tal como as peças de um quebra-cabeças, ajudavam a reconstituir a verdade; neste caso, a verdade sobre quem era Kathryn Bennett Samuels, médica.

Paquette considerou o volume de informação, recolhida em apenas poucos dias, impressionante e ao mesmo tempo assustador. Dados biográficos, publicações acadêmicas, histórico médico proveniente de uma adesão a um seguro de vida, até mesmo as classificações e uma fotografia do livro de curso de Mount Holyoke. Existia ainda, em complemento das fotocópias e das páginas impressas de computador, uma dúzia de fotografias em preto e branco - ampliações de médio formato de fotos tiradas com certeza com uma teleobjetiva. Instintivamente, o químico olhou para fora da janela da sua suíte do oitavo andar, imaginando se existiria algum local de onde pudessem estar a fotografá-lo.

Paquette estudou cuidadosamente as fotografias etiquetadas uma a uma. K. B. e o marido, Jared Samuels. K. B. e o patologista Stanley Willoughby (ver pág. 4B). Residência de Bennett/Samuels, Estrada Salt Marsh, Essex. K. B. correndo perto de casa. A mulher tinha um rosto notável, vibrante e expressivo, repleto daqueles traços fisionômicos bem delineados característicos de uma pessoa fotogênica. A beleza dela era discreta e inquestionável e, à medida que analisava as fotografias, Arlen Paquette sentiu os primeiros apertos de solidão pelas saudades que tinha da mulher.

“Dê especial atenção ao relatório do doutor Stein” haviam sido as instruções de Redding. “Já não é a primeira vez que o homem faz este tipo de trabalho para mim, por vezes até com menos tempo e menos dados do que aqueles que possui neste caso. Se tiver algumas dúvidas, avise-me e logo tratarei de pôr o Stein em contato com você.”

O relatório estava datilografado em um papel timbrado com a seguinte indicação: “Stephen Stein, Médico, Psicólogo Clínico.” Não se via qualquer endereço ou número de telefone. Paquette preparou um uísque Dewar's com água e sentou-se confortavelmente no sofá, com as três páginas, escritas a um espaço, na mão.

A maior parte do relatório era uma condensação dos dados existentes no resto da pasta. Paquette leu toda essa parte, sublinhando os poucos fatos que ainda lhe eram desconhecidos. Aliás, ele estava familiarizado com o trabalho de Stein. Quase sete anos antes, analisara um documento idêntico, dessa vez relativo a Norton Reese. Naquela altura questionara-se, como agora voltava a fazer, se, em algum lugar entre as centenas de pastas de papel-manilha encerradas nos arquivos de Cyrus Redding, existiria uma investigação de Stein referente a Arlen Paquette,

Dois irmãos mais velhos... chefe de claque na escola secundária... cavaleira vencedora de prêmios... premiada em escultura, pelo seu departamento de arte, Faculdade de Mount Holyoke uma das peças, ainda em exposição nos terrenos da faculdade... catorze dias de hospitalização devido a esgotamento, terceiro ano de faculdade... Paquette ia acrescentando as novas informações ao que ele já sabia sobre a mulher.

Em conclusão - escrevera Stein - aparentemente a doutora Bennett é uma mulher de alguma disciplina e de uma tenacidade fora do comum, qualidades que a tornam uma valiosa aliada ou um adversário perigoso, sejam quais forem as circunstâncias. Os seus princípios parecem ser solidamente fundamentados e duvido muito que ela permita ser afastada de uma causa em que acredita. Intelectualmente não tenho quaisquer razões para acreditar que as suas capacidades tenham declinado desde os dias em que obteve notas bastante elevadas no Teste de Admissão à Faculdade de Medicina (ver pág. I C) e aos Quadros Médicos Nacionais (ver também 1C). Os seus amigos, pelo que pudemos determinar, são leais e confiam na sua lealdade (declarações resumidas nas páginas 2C e 3C).

Possui, no entanto, algumas áreas problemáticas que iremos continuar a explorar e que poderão fornecer pistas com o objetivo de controlar os seus movimentos. Conserva uma profunda insegurança e confusão relativamente ao seu papel como esposa e profissional. Para manipular as suas ações, uma ameaça contra o seu marido pode provar ser mais eficaz do que uma ameaça contra ela própria. Se tiver de enfrentar um desafio, é mais provável que vá à luta do que saia em retirada ou procure ajuda.

A possibilidade de exercer influência através de chantagem (área sobre a qual decorre uma investigação) ou extorsão parece a esta altura remota.

O próximo relatório estará pronto na semana que vem ou antes, no caso de se obter informação significante. A estimativa de potencial para controle segundo a escala de Redding é de dois ou três.

Paquette colocou o relatório de lado e tentou lembrar-se da classificação de Norton Reese na escala de Redding. Seria um oito? E quanto a si próprio?

- Um dez - murmurou. - Chego a passar à frente da Bo Derek. Abram alas para Arlen Paquette, um dez completo. - Encheu um segundo copo, desta vez puro Dewar's, que engoliu de uma só vez.

Em poucos minutos, a suavidade do néctar acalmara-o o suficiente, dando-lhe a possibilidade de estudar a situação. Bennett mandara especialistas ao Omnicenter para recolher culturas. Não era problemático. Se o resultado fosse negativo, como ele suspeitava, a clínica teria ganho um controle microbiológico gratuito e extenso. Se, por outro lado, desse positivo, a investigação não deixaria de se afastar da farmácia. Ela havia pedido e recebera amostras dos produtos farmacêuticos fornecidos pelos Macacos de Horner. Também não era problemático. As amostras estavam limpas. Horner encarregara-se disso.

Iria ela mais longe com a investigação? O relatório de Stein e o conhecimento que tinha da mulher indicavam que sim. No entanto, isso seria antes de se ter afundado completamente naquela confusão do jogador de basebol. Quanto mais pensava sobre o assunto, mais convencido ficava de que não existia qualquer caminho por onde Kate Bennett pudesse penetrar no segredo do Omnicenter, especialmente tendo em conta que todos os testes de produtos haviam sido suspensos. Por muita tenacidade que tivesse, a mulher não conseguiria afastá-lo de casa por mais do que alguns dias.

À medida que servia outra bebida, Paquette percebeu que, de fato, existia um caminho. Era uma pequena vereda sinuosa e não uma avenida larga, mas não deixava de ser um caminho. Após um momento de hesitação, pediu um telefonema para a área 202.

- Boa tarde. Fundação Ashburton.

- Estelle?

- Sim.

- Daqui fala o doutor Thompson.

- Oh! Olá, doutor. Há muito tempo que não o ouvia.

- Apenas uma semana, Estelle. Está tudo bem?

- Ótimo.

- Alguns telefonemas?

- Apenas este. Quase saltei da cadeira quando o telefone tocou. Quero dizer, estou aqui há dias sem nada para fazer exceto arrumar as unhas...

- Algum correio?

- Apenas aquelas duas mandei entregar há pouco.

- Já as recebi. Ouça, se houver algum telefonema, não quero que espere até que eu lhe pergunte. Ligue-me através dos números que estão na folha sobre a mesa. Receberei a mensagem e ligo-lhe imediatamente.

- Certo, mas...

- Obrigado, Estelle. Tenha um bom dia.

- Adeus, doutor Thompson.

 

Para Kate Bennett, a cena no quarto 6 do Serviço de Urgências do Metropolitan Hospital era irreal. em um dos lados, viam-se dois honestos rapazes de hematologia fazendo esfregaços sanguíneos ao mesmo tempo que conversavam em um tom de voz despropositadamente alto. Do outro lado, encontrava-se Tom Engleson, apoiado na parede em um silêncio de morte, ladeado por uma enfermeira e um jovem médico. Kate permanecia sozinha junto à porta, alternando o seu olhar entre a garrafa de sucção na parede, salpicada de vermelho, e a intensa atividade no centro do quarto sob aquela luz brilhante vinda de cima.

Pete Colangelo, chefe de otorrinolaringologia, curvado sobre Ellen Sandler, espiava através do buraco central do seu espelho de cabeça para um lugar qualquer bem iluminado ao fundo da narina esquerda.

- Está longe. Está definitivamente longe - murmurava para si próprio à medida que se empenhava em cauterizar o vaso hemorrágico, cuja localização fazia com que o sangue do nariz de Ellen pingasse em direção à parte de trás da garganta.

Kate olhou para as pernas da amiga, cobertas por um lençol, e lembrou-se do hematoma, o enorme hematoma que estava na origem dos problemas que viriam a seguir. “Deus queira que não seja sério. Por favor, se existe um Deus, não permita que os resultados dos testes sejam fora do normal.”

Ellen jazia sentada na cadeira destinada a cirurgia, imóvel como uma pedra, as mãos, porém, Kate observara, estavam brancas devido à força exercida de encontro ao braço da cadeira. “Por favor...”

- Pode verificar a pressão arterial? - perguntou Colangelo. Era um homem magro e pequeno, mas de mãos notáveis, em especial quando se dedicava àquele trabalho minucioso, base de onde nascem as lendas cirúrgicas. Kate não tinha palavras para agradecer a disponibilidade com que o encontrara. No entanto, ela sabia que o verdadeiro perigo residia não no que estava acontecendo, mas no motivo. Imagens aterrorizadoras de Beverly Vitale e de Ginger Rittenhouse invadiam-lhe os pensamentos. Naquele momento, no laboratório de hematologia, máquinas e técnicos mediam os fatores de coagulação de uma mulher que para eles não era mais do que um nome e um número hospitalar. “Por favor...”

O ajudante de Colangelo confirmou que a pressão arterial de Ellen era de cento e quarenta/sessenta. Nada de perigoso. Os jatos de sangue que entravam na garrafa de sucção pareciam estar diminuindo pela primeira vez Kate sentiu um ligeiro alívio da tensão que se apoderara do quarto.

-Vem pro papai - murmurou Colangelo para a artéria ensangüentada. - Lá está o pequenote. Agora vem pro papai.

- O que acha de tudo isto?

Kate voltou-se repentinamente para a esquerda. Tom Engleson aproximara-se dela.

- Desculpe - sussurrou. - Não queria assustá-la.

A preocupação que Kate sentia espelhava-se no rosto de Engleson. Os olhos castanhos do médico, um pouco baços devido às contínuas pressões do trabalho, não deixavam de ser maravilhosamente expressivos.

- Acho que Pete está ganhando - respondeu Kate -, se é isso que está perguntando.

- Não é isso.

- Nesse caso, não tenho resposta a dar. Pelo menos por enquanto. Até receber o relatório de hematologia. - Continuou a falar, voltando todavia a prestar atenção aos acontecimentos no centro da sala. - Se a contagem dela for normal e caso tenha tempo, temos motivos para celebrar. Pago-lhe um café. Se for baixa, eu gostaria... aliás, tenho mesmo necessidade de falar com você. Além do Stan Willoughby, você é a única pessoa que sabe tanto quanto eu, e creio que nestes últimos dias o Stan sofreu por estar associado a mim.

- Estou livre o resto do dia - respondeu Tom. - Se quiser, podemos jantar juntos. - Mal acabara de pronunciar tais palavras, arrependeu-se de as ter dito. Impetuoso, inapropriado, sem tato, burro.

Kate respondeu com um olhar de relance - muito rápido para ele conseguir fixar.

- Acho que Pete já acabou - afirmou Kate, não fazendo qualquer referência ao convite.

Alguns segundos mais tarde, Colangelo confirmou essa suposição.

- Já o apanhamos, Senhora Sandler. Mantenha-se descontraída como tem feito até agora e tudo correrá bem. É uma paciente maravilhosa, acredite que é. Adoro tratar de pessoas que me ajudam a fazer bem o meu trabalho. - Deu um passo atrás e esperou, utilizando a luz refletida do seu espelho de cabeça para iluminar a parte inferior do rosto manchado de sangue de Ellen Sandler. Depois voltou-se para Kate, esboçando com os lábios um meio sorriso esperançoso.

- Bom trabalho, Pete - sussurrou ela. - Excelente, mesmo.

Colangelo agradeceu com um gesto e depois virou-se de novo para a paciente.

- Senhora Sandler, acho que deveria passar a noite aqui. Estamos ainda à espera de alguns testes do laboratório e eu gostaria também de assegurar que os vasos se mantêm cauterizados.

- Não - respondeu Ellen. - Quero dizer, não posso. Quero dizer, se fosse possível, gostaria de não ficar. Kate, explique ao doutor Colangelo todas as coisas que tenho de fazer e diga-lhe que sou responsável e que farei tudo o que ele quiser, se me deixar ir para casa. Por favor, Kate. Peço desculpas, mas é que detesto hospitais. Odeio-os. Quase que ia tendo a Betsy em um estacionamento porque queria esperar até ao último minuto.

Kate atravessou o quarto e aproximou-se da amiga, limpando-lhe o sangue seco do rosto com uma compressa úmida.

- Vamos ver - falou por fim. - Se estou entendendo bem, quer que eu funcione de árbitro em um conflito sobre filosofia médica entre o chefe de cirurgia de otorrinolaringologia, que por acaso também é professor em Harvard, e a diretora da E. Sandler Design de Interiores, Limitada.

- Kate, por favor.

A forma como Ellen agarrou a mão de Kate e a aflição na sua voz refletiam um medo muito mais primitivo do que Kate imaginara. Esta última voltou-se para o cirurgião.

- Pete?

Colangelo encolheu os ombros.

- A mim pagam para fazer cirurgias e dar conselhos - respondeu. - Se está perguntando se considero que a permanência é cem por cento necessária, a resposta é não. No entanto, como já disse, sou pago para aconselhar e neste caso o meu conselho é ficar sob observação no hospital.

Antes que Kate pudesse pronunciar qualquer som, um técnico de capa branca do serviço de hematologia entrou, entregando-lhe três documentos do laboratório, dois cor-de-rosa e um verde-pálido. Ao estudar os números, Kate sentiu uma mistura de medo e raiva apertar-lhe o peito.

- Minha querida senhora - proferiu Kate, tentando disfarçar a tensão na voz -, vou ter de apoiar o doutor Colangelo. Acho que deve ficar.

A mão de Ellen contraiu-se mais.

- Kate, o que mostram os testes? É mau?

- Não. Alguns dos números estão um pouco acima do normal e precisam ser verificados novamente, mas por enquanto não é mau nem perigoso.

Silenciosamente, Kate rezou para que o seu julgamento acerca das forças daquela mulher tivesse sido o mais correto e que houvesse procedido bem ao não mentir. Ellen estudou-lhe o olhar.

- Não é mau nem perigoso por enquanto, mas pode vir a ser. É isso que está dizendo? - Kate hesitou, para em seguida acenar afirmativamente. Ellen suspirou. - Então, pelos vistos, fico aqui - concluiu por fim.

- Em princípio não vais ficar muito tempo e terá as melhores pessoas cuidando de você. Posso ajudá-la a tratar das coisas com as suas filhas e aviso-as também do que está acontecendo.

- Muito obrigada.

- Eu sei que parece ridículo dizer para não se preocupar, mas ainda assim faça um esforço. Vamos ficar atentos ao seu nariz e amanhã voltamos a verificar as análises sanguíneas, Muito provavelmente estará em casa antes de acabar o fim-de-semana.

Kate esforçava-se por conseguir manter o contato visual, por pequeno que fosse, todavia, no fundo do coração, sabia que a sua amiga acreditava tanto naquela afirmação repleta de esperança como ela própria.

- É o Omnicenter. Algo me diz que parte tudo do Omnicenter.

Kate fez uma careta ao café que acabara de preparar, aclarando-o com natas, encontradas entre os químicos guardados na geladeira do gabinete.

- O Omnicenter é apenas aquele amontoado de vidro e pedra do outro lado da estrada. Todos estes relatórios são negativos. Bacteriologia, química, epidemiologia. Tudo negativo. Onde está a ligação? - Tom Engleson folheava uma série de relatórios dos estudos que Kate encomendara. Não havia nada em nenhum deles que indicasse o centro de saúde de mulheres.

- Não sei - respondeu Kate, acomodando-se do outro lado da mesa. Ele estava vestido com calças jeans e uma camisa grossa de pescador. Era a primeira vez que ela o via usar alguma roupa que não fosse a bata branca de assistente. A mudança era positiva. A sua espessa camisa irlandesa adicionava um encanto rústico à sua beleza frágil.

- Acho que é um vírus ou uma espécie de toxina... ou qualquer substância que esteja contaminando a farmácia. Seja o que for, é ali que está! - Apontou o dedo polegar na direção do Omnicenter.

- Na farmácia? Estes relatórios dizem que as análises da Ginger Rittenhouse e aquelas que o Zimmermann lhe mandou estão todas perfeitamente normais. Não se encontra nem uma maçã podre na árvore.

- Eu sei.

- E então?...

- Então, não sei. Olhe, a minha amiga tem a mesma coisa que matou duas mulheres. Plaquetas, setenta mil, Fibrinogênio setenta e cinco por cento do normal. Você próprio já viu o relatório. Não está tão mau como o das outras duas, pelo menos por enquanto, mas vai decerto na direção errada. - As suas palavras saíam cada vez mais rápido e a voz tornava-se estridente. - Não preciso que venha aqui me mostrar o óbvio. Para isso posso chamar o Gus ali do quiosque dos jornais. O que é necessário é centrarmos a nossa atenção no que poderá ser a explicação e não no que não poderá ser. - De repente, parou. - Meu Deus, peço desculpas, Tom. A sério. Entre as politiquices sem nexo aqui do hospital, a confusão com o Bobby Geary e a sua maldita dependência das anfetaminas, as duas mulheres que nos morreram nas mãos, a tensão diária subjacente a quem quer fazer um trabalho bem feito e agora a Ellen, sinto-me como se alguém me tivesse atirado para dentro do tambor da máquina de lavar e ligado no botão. Mas você não merece todo este arrazoado.

- Está tudo bem. Lamento não poder ajudar mais. - Foi-lhe impossível eliminar toda a mágoa que sentia na voz, e Kate lembrou-se que, apesar dos cinco anos de diferença de idade pouco significarem na maior parte das áreas, talvez a hipersensibilidade não fosse uma delas. - Se acha que é a farmácia - acrescentou Tom -, talvez devesse telefonar para a MA.

- Se tivesse nem que fosse uma prova, seria isso que faria. Ainda por cima fui eu que indiquei o Omnicenter à Ellen. - Inconscientemente enfiou as mãos nos bolsos do casaco do laboratório. No direito, dobrado em quatro partes, encontrava-se o cartão e a embalagem de medicamentos que continha o que sobrava das vitaminas com ferro que Ellen tomara receitadas pelo Omnicenter. Colocou-as sobre a mesa. - Soube alguma coisa sobre as vitaminas da Beverly Vitale? - perguntou.

- Nada.

Kate aproximou-se da mesa, regressando com um cartão semelhante ao de Ellen, que colocou junto ao da amiga.

- Acho que devíamos tentar uma última vez com os nossos amigos do laboratório de toxicologia e o seu mágico espectrofotômetro. As vitaminas da Ellen e estas. Se os relatórios derem negativo, ponho todas as minhas suspeitas no caixote do lixo e volto a minha atenção para outras causas, como por exemplo tentar recuperar algum do respeito que perdi no caso do Bobby Geary.

- Não se preocupe - acalmou-a Tom. - Ainda não perdeu o respeito, a consideração e o carinho em muitos lugares, especialmente aqui. - Apontou um dedo para si mesmo.

- Obrigada por dizer isso.

- E de quem são aqueles comprimidos ali?

- Quais?

- Aquela outra embalagem, de quem é?

- Ah, são meus.

 

                     SEXTA-FEIRA, 14 DE DEZEMBRO

Uma atmosfera de entusiasmo e antecipação invadira o consultório geralmente tranqüilo do médico Vernon Drexler. A recepcionista com ar de matrona percorria a sala de espera vazia de uma ponta à outra, endireitando as revistas e fazendo diversas tentativas para garantir que a edição de seis meses da revista Pratical Medical Science, de onde se destacava a fotografia de Drexler na capa, ficasse de tal forma à vista que se tornasse impossível a Cyrus Redding não reparar nela à entrada, mesmo que fosse diretamente para o gabinete do médico.

No pequeno laboratório, a jovem técnica substituíra o rolo de papel do eletrocardiógrafo e ajustara os tubos, as agulhas e as luvas de plástico, ferramentas que utilizaria para retirar sangue do braço do homem que, segundo a descrição de Drexler, seria uma das pessoas mais influentes, se não mesmo das mais ricas, do país.

Atrás da sua mesa, Lurleen Fiske, a austera administradora do consultório, telefonava ao último dos doentes, adiando a consulta para outro dia. Trabalhava com Drexler desde 1967, data da primeira viagem de Cyrus Redding, oriundo do Kentucky.

- Mil novecentos e sessenta e sete.

Fiske sorriu sapientemente. Nessa altura, o consultório, com sede na zona de Back Bay em Boston, não passava de dois grandes armários, um para o médico e outro para ela. Agora Drexler era proprietário de todo o edifício.

Era meio-dia e trinta. O 727 particular de Redding provavelmente já aterrara em Logan. Dentro de precisamente uma hora, estava certa disso, a limusine de Redding terminava a sua viagem, parando em frente ao edifício de arenito. Redding, de pé se lhe fosse possível, na cadeira de rodas se não conseguisse, seria ajudado a subir o passeio e, antes de entrar no edifício, olharia em direção à janela do consultório, sorriria e faria um ligeiro aceno. O seu assistente dos últimos cinco ou seis anos, um homem de feições austeras chamado Nunes, traria consigo uma mala de cabedal contendo os medicamentos de Redding e, invariavelmente, um presente especial e personalizado para cada um dos empregados que trabalhavam no consultório.

Na última visita de Redding, quase um ano antes, Fiske recebera um pendente de diamante, de quase meio quilate, que usava orgulhosamente sobre o peito. “Claro está que este dia pode ser uma exceção”, pensou para consigo. Surgira uma espécie de situação de emergência, obrigando Redding a voar para Boston. Daí, ele telefonara para o consultório no final da tarde anterior perguntando se haveria possibilidade de adiantar o check-up anual, tendo em conta que necessitava estar na cidade.

- Senhora Fiske - chamou Drexler do seu gabinete -, não consigo lembrar-me. Disse-me que o doutor Ferguson vinha ou não vinha com Mister Redding?

- Eu disse que talvez viesse. Mister Redding não tinha a certeza.

A mulher sorriu maternalmente e abanou a cabeça. Vernon Drexler poderia ser um endocrinologista conceituado e um dos melhores especialistas na doença neuromuscular denominada miastenia grave; porém, no que dizia respeito a assuntos alheios à medicina, o seu cérebro era uma peneira. Ela e a mulher de Drexler haviam passado ao longo dos anos vários serões divertidos, imaginando a comédia que se estabeleceria se elas não estivessem disponíveis para orquestrar os seus movimentos, de consulta em consulta, de conferência em conferência.

A idéia da presença do Dr. Ferguson fez com que a administradora do consultório se apressasse a entrar na pequena despensa à prova de fogo, onde guardavam os registros médicos; regressou de seguida à sua secretária com o processo do homem. John Ferguson, médico, vítima de miastenia, tal como Cyrus Redding, era amigo íntimo do magnata. Por norma, os dois homens marcavam os check-ups para o mesmo dia e, assim, durante uma ou duas horas, encontrar-se-iam com o Dr. Drexler. Lurleen Fiske suspeitava, apesar de Drexler nunca lho ter confidenciado, que ambos os homens estavam de alguma forma a apoiar o seu laboratório da escola médica, que levava a cabo investigações sobre a miastenia.

- Senhora Fiske - voltou Drexler a chamar -, talvez seja melhor ter o processo do doutor Ferguson à mão. Nunca se sabe.

- Sim, senhor doutor. Vou buscá-lo imediatamente - respondeu, folheando o volumoso dossiê para se assegurar de que os relatórios do laboratório e os apontamentos relativos à última visita já se encontravam no lugar. Drexler estava nervoso. Ela percebia pelo tom de voz. Embora ele se comportasse com a decência e o distanciamento profissionais próprios da ocasião, não conseguia disfarçar dela esse nervosismo subjacente. Uma vez, alguns anos antes, fora transportado por helicóptero até ao iate de Onassis para uma consulta na já perdida batalha do milionário contra a miastenia. Nessa manhã, depois de tranquilamente ter se despedido e desejado um bom dia ao pessoal médico, saíra do edifício sem a mala médica, os artigos de jornal e o casaco.

A limusine de Redding, atrasada devido à neve que cobria as ruas, chegou cinco minutos mais tarde do que a hora prevista. Lurleen Fiske juntou-se aos outros dois empregados que se encontravam à janela. Do outro lado da sala, Drexler, um homem alto e esguio com cerca de cinquenta anos, olhava com orgulho para o seu pessoal.

- Olhe. Olhe. Lá está ele - balbuciou a recepcionista. - Está andando? - Drexler queria ver pelos seus próprios olhos; porém, conteve-se relutantemente, não querendo interromper um ritual já desenvolvido ao longo dos anos.

Lurleen Fiske esticou o pescoço.

- A cadeira de rodas está fora - relatou -, sim..., ele está dando alguns passos por si próprio. Mais um ano, doutor Drexler. Conseguiu mais uma vez!

Era impossível esconder a reverência presente na sua voz. Apesar de ser o principal responsável de tudo aquilo, o próprio Drexler estava impressionado. Em 67, ele previra três anos de vida para Redding, no máximo quatro. Agora, após mais de quinze, o homem parecia tão vigoroso como no início, se não mesmo mais. “Conseguiu mais uma vez.” O elogio de Mrs. Fiske ecoava dolorosamente nos seus pensamentos. Miastenia gravis, uma deterioração progressiva do sistema neuromuscular.

Causa: desconhecida. Prognóstico: enfraquecimento progressivo, em especial com o exercício, fadiga, dificuldade em mastigar, dificuldade em respirar e, eventualmente, morte provocada por infecção ou insuficiência respiratória. Tratamento: soluções meramente transitórias mesmo nos casos mais simples. No entanto, ali estavam dois homens, Redding e John Ferguson, que tinham conseguido estancar, ou pelo menos abrandar, a progressão da doença. E haviam obtido os seus milagres à sua própria custa. Apesar de o seu pessoal pensar de forma diferente, e nunca nenhum dos dois doentes ousaria sequer sugerir tal coisa, ambos haviam recebido da parte dele apenas uma ajuda periférica. Eles constituíam decerto um par representativo do triunfo, porém de um triunfo que constantemente sublinhava a futilidade do trabalho de uma vida inteira.

Um som oriundo da entrada fez Drexler perceber que a porta do elevador se abrira. Durante anos, os seus dois doentes mais importantes tinham-se automedicado com a ingestão de mais de uma dúzia de medicamentos em simultâneo, a maioria ainda não testada fora do laboratório. Durante anos, Drexler dedicara o seu trabalho à tentativa de descobrir qual das drogas ou combinação de drogas seria responsável por tais resultados notáveis. A resposta se traduziria provavelmente em uma revolução de proporções históricas. Talvez fosse aquele o seu ano de triunfo.

Redding, sentado em uma cadeira de rodas sem motor, mandou o assistente entrar à frente e depois se empurrou a si próprio até à porta. Utilizando o braço do homem como ponto de apoio, fez força até conseguir manter-se ereto e deu de seguida vários passos frouxos até o gabinete.

- Obrigado por me receber com tão pouca antecedência, Vernon - agradeceu, esticando a mão para cumprimentar vigorosamente Drexler. - Mister Nunes?

O assistente, um homem carrancudo de tez escura, cuja fisionomia mais lembrava a de um remador olímpico, colocou a cadeira de rodas no lugar apropriado, de forma que Redding pudesse voltar a sentar-se. Do outro lado da sala de espera, Lurleen Fiske e as outras duas mulheres sorriam como avós babadas.

- Está com ótimo aspecto, Cyrus - cumprimentou Drexler. - Verdadeiramente maravilhoso. Venha até meu gabinete.

- Só um momento. Gostaria de desejar ao seu pessoal votos antecipados de feliz Natal. Mister Nunes?

Nunes, sem qualquer expressão no rosto, retirou três presentes de diferentes tamanhos do saco de cabedal, que tinha pendurado ao ombro, para em seguida Redding os oferecer, um de cada vez, às três mulheres, que recatadamente lhe apertaram a mão. Lurleen Fiske fez-lhe uma festa nos ombros e deu-lhe um beijo no rosto.

- A minha limusine, vai agora buscar o doutor Ferguson - afirmou Redding, ao mesmo tempo que era empurrado para dentro do gabinete de Drexler. - Ele estará aqui para uma pequena troca de impressões conosco, mas não para ser examinado. Prefere manter a consulta marcada para o mês que vem, se não vir inconveniente.

- Ótimo, ótimo - respondeu Drexler.

Os dois homens, Ferguson e Redding, haviam-se conhecido há cerca de doze anos na sala de espera de Drexler e de imediato iriam estabelecer uma amizade. Na consulta seguinte, Redding pedira que Drexler reservasse meio dia só para atender os dois homens. O pedido, materializado pela promessa de fundos substanciais para investigação, fora, claro está, satisfeito.

O guarda-costas de Redding empurrou-o para o gabinete de Drexler, colocou o saco com os medicamentos sobre a MESA e saiu para acompanhar a limusine até à casa de John Ferguson. Cuidadosamente, Redding organizou os frascos e os recipientes de plástico à frente de Drexler. Podiam contar-se, no total, treze preparações diferentes.

- Muito bem, doutor - disse. - Aqui estão eles. A maior parte já conhece e sabe que nós estamos tomando-os. Existe um ou dois que não conhece.

- E o doutor Ferguson continua a seguir exatamente o mesmo regime?

- Tanto quanto sei, sim.

O endocrinologista tirou alguns apontamentos relativos a cada um dos medicamentos. Havia duas drogas altamente experimentais, ainda longe de serem testadas sobre humanos, de que ele próprio só tivera conhecimento nos últimos seis ou sete meses. Mais uma vez, conteve a vontade de alertar sobre os perigos de tomar produtos farmacêuticos antes de serem devidamente investigados, limitou-se, porém, a apontar os nomes químicos e as dosagens de uma certa forma, aqueles dois homens estavam testando as drogas para encontrar efeitos colaterais. Era apenas isso o que lhe tinham permitido saber. No que dizia respeito ao médico Vernon Drexler, mesmo tendo em conta que se encontrava em jogo uma boa parte das suas próprias pesquisas, não fazia qualquer sentido tentar aprofundar o assunto.

- E este? - Drexler ergueu um frasco meio cheio de cápsulas de gelatina repletas de um pó transparente.

- Do Podgorny, do Instituto de Investigação Metabólica em Leningrado - respondeu com simplicidade Redding. - Ele acha que a teoria que justifica a criação do composto químico é bastante sólida.

- Espantoso - murmurou Drexler -, verdadeiramente espantoso.

Rudy Podgorny era um gigante nessa área, porém de tal forma inacessível que demorara dois anos até que Drexler tivesse o privilégio de conhecê-lo frente a frente. Os muitos recursos de Redding e o poder do seu dinheiro eram na verdade extraordinários.

- Bem - afirmou Drexler, após terminar as suas classificações -, estas duas preparações proporcionaram finalmente evoluções clínicas. Ambas demonstraram não ter qualquer efeito significativo. Podemos discutira minha opinião quando chegar o doutor Ferguson, mas acredito que neste momento os dados que possuímos são bastante fortes para me levarem a recomendar uma interrupção do tratamento.

Redding pôs os dedos à volta do frasco.

- Uma destas era o seu bebê, não era?

O médico encolheu os ombros, derrotado, e acenou afirmativamente.

- Sim - respondeu. - Parece-me que andei construindo castelos nas nuvens. - Não conseguiu manter um tom de voz otimista, por muito que tentasse. Quatro anos de trabalho tinham, na sua essência, ido por água abaixo.

- Então vai ter de centrar a sua atenção em outros caminhos, não é?

“Diga-me só uma coisa”, pensou Drexler, “diga-me como diabo sabe que os medicamentos que está tomando não vão matá-lo de um momento para o outro?”

- Sim - respondeu, esboçando um sorriso tímido - que terei de fazer.

 

A limusine esguia e brilhante deslizava como uma serpente por entre o escasso trânsito do meio da tarde da Southeast Expressway. No banco da frente, o corpulento motorista de Redding conversava com o taciturno Nunes, cuja contribuição para a conversa se limitava a um aceno ocasional ou a uma palavra monossilábica. Na parte de trás, sentados um em frente ao outro, rodeados por todas as direções por vidro escuro, Redding e John Ferguson bebericavam e reviam a consulta que acabavam de ter com Vernon Drexler.

- Lamento muito que as coisas não andem correndo muito bem, John - proferiu Redding. - Talvez devíamos ter ficado mais tempo para que Drexler o examinasse.

- Besteira. Tenho consulta marcada para o mês que vem penso que nessa altura será mais do que suficiente.

- Sim, calculo que sim.

Não havia qualquer dúvida na mente de Redding de que Ferguson, talvez oito anos mais velho do que ele, estava deteriorando-se. O homem, apesar de nunca ter sido robusto, perdera força e peso. Conseguia caminhar apenas uma dúzia de passos para logo ficar completamente exausto, O seu rosto tinha a pele esticada e uma cor amarelada, onde sobressaía uma boca cheia de dentes perfeitos, que adicionavam à sua expressão facial um ar cadavérico. Apenas os olhos, brilhando no meio das olheiras profundas como fragmentos de azul-marinho, refletiam o imenso vigor e poder intelectual que haviam marcado a vida do homem.

A colaboração entre eles, pois fora nisso que rapidamente se transformara o seu relacionamento, começara no primeiro dia em que se conheceram no gabinete de Drexler. Ferguson, apesar de nesses tempos ainda caminhar mediante a ajuda de uma bengala, era o que protagonizava um estado mais avançado da doença. Encontrava-se nessa época trabalhando como diretor médico de um hospital do Estado, fora da cidade, e já andava tomando dois medicamentos experimentais, depois de tê-los testado durante algum tempo nos seus doentes.

Em pouco menos de um ano, Redding começara a localizar novas preparações, ao mesmo tempo em que Ferguson ampliava os seus programas de testes, de forma a poder incluí-las. Todavia, rapidamente ambos os homens tomaram consciência da necessidade de um maior número de indivíduos sujeitando-se aos testes, não sendo suficientes as pessoas fornecidas pelo hospital de Ferguson. O estabelecimento do Centro de Saúde para Mulheres em Denver e, mais tarde, do Omnicenter em Boston, fora a forma encontrada para atender essa necessidade. Vernon Drexler continuou sendo o médico deles, analisando os seus desenvolvimentos e zelando pelo estado geral de saúde de ambos os homens.

O motorista de Redding, persistindo na sua tentativa de trocar dois dedos de conversa com Nunes, virou para a 95 Norte, Apesar de a viagem ir terminar em frente da casa de John Ferguson, a única outra instrução que recebera fora a de conduzir sem pressa durante cerca de uma hora.

- John - começou Redding, colocando o cálice meio cheio em um suporte do bar -, há quanto tempo não vai ao Omnicenter?

Ferguson soltou uma gargalhada rouca.

- Há quanto tempo é que eu não vou a qualquer lugar, seria a pergunta mais apropriada. Há dois anos, talvez há mais tempo. É simplesmente muito penoso para mim andar de um lado para o outro.

- Compreendo.

- Depreendo pela conversa que tivemos ontem à noite que surgiu algum tipo de problema. Alguma coisa relacionada com o Zimmermann?

Desta vez foi Redding que soltou uma gargalhada estridente.

- Não, não - respondeu. - Pelo que entendi, o Zimmermann foi a melhor escolha para aquela função. Tinha toda a razão quando o recomendou. Ele é um idiota inofensivo com inteligência suficiente para implementar e vigiar os nossos programas de testes, sem se meter no caminho. Não, não é o Zimmermann.

- Então, o que está acontecendo?

- Na realidade, pode nem sequer existir qualquer problema. Quando esteve montando o Omnicenter com o doutor French, conheceu uma tal doutora Kathryn Bennett?

Ferguson pensou durante alguns minutos e depois fez um sinal negativo com a cabeça.

- Calculo que não - observou Redding.

Foram necessários apenas uns escassos minutos para Redding relatar os acontecimentos que haviam levado Kate Bennett a inspecionar o Omnicenter.

Ferguson ouviu com a impassibilidade de um cientista, interrompendo o silêncio apenas para exibir gestos ocasionais que indicavam estar prestando atenção.

- Carl Horner garantiu-me - concluiu Redding, - que nenhum dos produtos farmacêuticos que estamos estudando poderia ter sido responsável pelos problemas que a jovem doutora Bennett anda investigando.

- Mas você não está tão certo disso.

- John, você já trabalhou com Carl. Sabe que enganar-se não é propriamente uma coisa que lhe aconteça muitas vezes. O cérebro do homem funciona tanto como um computador, como qualquer uma daquelas máquinas.

- Mas crê que, sendo dois casos tão distintos, e agora talvez um terceiro, a coincidência é uma explicação muito simples?

Redding olhou para fora da janela, retirou os óculos e limpou-os cuidadosamente com um pano do bar.

- Para ser sincero, John, não sei bem o que pensar. Os fatos apontam em uma direção, o meu instinto aponta para outra. Você conhece o Omnicenter melhor do que eu. Acha possível alguém andar brincando com uma droga ou outro tipo de agente nas nossas costas?

- Espero que não.

- John, pense sobre o que eu te disse. Veja se consegue desencantar algumas teorias que possam explicar por que razão estas três mulheres com problemas de hemorragia, e duas delas com a mesma doença nos ovários, eram todas pacientes do Omnicenter. - Acionou em seguida o botão do intercomunicador. - Mister Crossup, pode nos levar para a casa do doutor Ferguson - ordenou.

- Vou pensar no assunto - respondeu Ferguson -, mas a minha impressão é que, pelo menos por esta vez, deveria talvez cingir-se aos fatos.

- Uma semana. Desculpe?

- Uma semana, John - proferiu Redding. - Gostaria de obter qualquer informação da sua parte acerca deste assunto dentro de uma semana.

Ferguson perscrutou os olhos do homem mais novo.

- Parece que está sugerindo que eu possa estar retendo alguma informação.

- Não estou sugerindo nada. - Sorriu enigmaticamente. - Peço apenas a sua ajuda.

A limusine entrou no caminho coberto de neve que levava à casa de John Ferguson, uma vivenda branca de estilo colonial no meio de um terreno de pequenas dimensões. Redding dirigiu-se ao intercomunicador.

- Mister Nunes - informou -, terminamos nosso assunto. Faça o favor de ajudar o nosso convidado a ir para casa.

Deram um aperto de mão e Redding ficou observando, à medida que Nunes ajudava John Ferguson, obviamente exausto, a subir os degraus até à porta principal. O velho homem era muitas coisas, Redding informara-se, desde um médico e administrador brilhante a um juiz excepcional da natureza e do comportamento humano, até mesmo um filósofo dotado. Todavia, definitivamente não era, e Redding sabia desde os primeiros tempos da sua colaboração, John Ferguson. Os investigadores de Redding haviam conseguido obter essa informação, mas nada mais. Existira um John Ferguson com um passado acadêmico idêntico ao daquele homem; porém, esse John Ferguson morrera no bombardeamento de um hospital de campanha em Bataan. À princípio, os instintos de Redding tinham-no levado a evitar uma confrontação direta com o seu novo associado no que dizia respeito aos segredos que estaria escondendo. Essa decisão provara ter sido prudente, pelo menos até então.

Ferguson despediu-se mais uma vez com um breve aceno e entrou em casa. Por trás do vidro escuro da limusine, Cyrus Redding pediu o estabelecimento de uma ligação telefônica através do operador móvel.

- O doutor Stein, por favor - ordenou Redding. - Olá, doutor, daqui fala o seu amigo de Darlington. Aquele homem o John Ferguson, de quem lhe falei ontem à noite: gostaria de voltar a retomar a investigação e de instalar uma vigilância cerrada, a partir de agora. Mantenha-me informado pessoalmente dos desenvolvimentos. Parece que ele se materializou pouco depois da Segunda Guerra Mundial por isso, talvez seja esse o período a que deviam dar prioridade na investigação. Muito., obrigado.

- Muito bem, meu amigo, - pensou. - Durante quinze anos, tenho permitido que me engane. Esperemos que a minha cortesia não tenha sido desperdiçada.

 

Kate Bennett colocou os auscultadores do gravador no seu lugar e olhou lá para fora, para o outro lado da estrada, onde se erguia, de forma imponente, o Omnicenter. Os reflexos dos faróis dos carros que passavam iluminavam as amplas janelas de quase dois metros de altura, dando à estrutura uma animação estranha e fazendo-a sobressair como uma nave espacial no meio dos edifícios de tijolo escuro circundantes. Kate sabia que tudo se devia apenas à sua profícua imaginação, sabia que se relacionava com o telefonema pelo qual ansiava, no entanto, mesmo assim, não conseguia afastar racionalmente a sensação de que aquele edifício possuía algo de monstruoso, algo de virulento.

Encontrara a mensagem sobre a mesa após o regresso da reunião de sexta do Comitê de Controle de Infecções do hospital, a que presidia há mais de um ano.

“Ian Toole do Laboratório Nacional de Toxicologia telefonou”, podia-se ler na nota redigida pela secretária do departamento. “Uma das amostras que enviou é normal, a outra está contaminada. Por favor, aguarde um telefonema mais pormenorizado entre as seis e as sete horas desta tarde”.

“Contaminada.”

- É você. Eu sei que é. - O seu cérebro dirigia as palavras para aqueles reluzentes cinco andares. - Qualquer coisa dentro de você, dentro dos seus preciosos Macacos, ficou descontrolada. Algo dentro de você está matando pessoas e nem sequer faz a mínima idéia disso.

O toque do telefone assustou-a.

- Kate Bennett - respondeu em um tom de voz preocupado.

- Aqui fala o marido da Kate Bennett - respondeu Jared rispidamente.

- Ah, olá. Apanhou-me de surpresa. Estava à espera de uma chamada de Ian Toole, do Laboratório Nacional de Toxicologia e... Esquece isso. Onde está? Tudo bem?

- Em casa, onde era suposto você estar. E não, não está tudo bem.

Kate olhou de relance para o relógio sobre a mesa e soltou u um gemido.

- Raios, Jared. Me esqueci dos Carlisle. Desculpe.

- Pedido de desculpas não aceito - respondeu Jared sem o mínimo sinal de humor.

Kate afundou-se na cadeira, resignada com a descompostura que ela sabia estar prestes a ouvir e que se justificava.

- Peço desculpa à mesma - disse em um tom de voz doce, - Está sempre pedindo desculpas, não está? - observou Jared. - Está tão enclausurada no emprego da Kate, no mundo da Kate e nos problemas da Kate, que parece que se esquece que existem outros empregos, outros mundos e outros problemas. Tanto o meu pai como muitas outras pessoas importantes vão estar na festa de hoje à noite. Com que imagem pensa que ficarão de mim, se eu aparecer sem a minha mulher?

- Jared, não estás compreendendo. Algo de estranho se está passando por aqui. Há pessoas morrendo.

- Pessoas como o Bobby Geary?

Kate voltou a olhar para o relógio. Faltavam cinco minutos para as sete.

- Olha, estou à espera de um telefonema que poderá ajudar a resolver todo este mistério. Posso voltar a ligar ou então ir para casa mal termine, mudar de roupa e chegar a casa dos Carlisle entre as oito e meia e nove horas.

- Não se incomode.

- Jared, que quer que eu faça?

Mesmo através do telefone foi possível ouvir o suspiro de Jared.

- Quero que faça o que achar por bem fazer - respondeu. - Eu vou para a casa dos Carlisle fazer a minha parte. Podemos falar mais tarde, ainda hoje à noite ou então amanhã. Okay?

- Tudo bem - respondeu Kate, de alguma forma surpresa com a sensatez do marido.

- Como está a Ellen?

- Como?

Faltava um minuto para as sete horas.

- A Ellen. Sabe quem é? A nossa amiga, a Ellen. Como está ela?

- Está no hospital, Jared. Ouça, Jared, sério que peço desculpas e também é sério quando digo que estou no meio, ou pelo menos no limiar, de qualquer coisa estranha. E a vida da Ellen poderá estar em jogo.

- Aos meus ouvidos, parece-me um pouco melodramático - respondeu Jared. - Mas, por outro lado, eu não passo de um advogadozinho de província. Falamos mais tarde.

- Obrigado, Jared. Te amo muito.

- Até logo, Kate.

 

O telefonema de Ian Toole surgiu precisamente às sete e um quinze.

- Tenho aqui alguns dos comprimidos que me mandou, doutora Bennett - afirmou. - A minha assistente, a Millicent, e eu estivemos analisando-os durante toda a tarde e mesmo assim ainda não podemos transmitir-lhe uma opinião definitiva.

- Mas disse que os comprimidos da Ellen estavam contaminados.

- Da Ellen Sandler? Pouco provável. Acho que a sua secretária confundiu o meu recado. Provavelmente andou na mesma escola que nós.

- O que quer dizer com isso?

- As vitaminas da Ellen Sandler são uma preparação comum e de baixa potência. Complexo B, um pouco de C, um pouco de ferro e uma pitada de zinco. Os esquisitos são os seus.

- Os meus? - Kate sentiu um nó apertando-lhe a garganta.

- Sim, sim. Você não anda apenas tomando as mesmas vitaminas que a Ellen Sandler. A verdade é que engole todos os dias uma quantidade não muito modesta de um tipo qualquer de ácido antranílico.

- Ácido antranílico?

- Eu e Millicent estamos ainda tentando descobrir as cadeias laterais, mas é definitivamente essa a molécula principal.

Kate começou a sentir-se enjoada.

- Mister Toole, do que estamos falando?

- Sou um químico, não um médico, mas até onde me foi possível determinar, anda tomando um tipo qualquer de analgésico. Não narcótico. Uma espécie de droga anti-inflamatória, não esteróide. A molécula primária está listada nos nossos manuais, mas não acredito que iremos encontrar as exatas cadeias laterais. Seja lá o que for, não é com certeza uma droga disponível em termos comerciais neste país. Se fosse, estaria no livro. Mal conheça a estrutura completa vou dar uma olhada nos manuais europeus.

- Diga-me qualquer coisa depois? - Kate apontara em um papel a palavra “antranílico” e começava a escrevê-la de várias formas diferentes.

- Claro. Mas provavelmente não será antes da semana que vem. Tive de prometer à Millicent uma garrafa de vinho para convencê-la a adiar o encontro que tinha marcado com o namorado.

- Mister Toole, é perigoso?

- O quê?

- O ácido antranílico.

- Como já lhe disse, não sou médico. Não é venenoso, se é isso que quer saber, mas também não são vitaminas. Qualquer droga pode ser prejudicial, caso seja muito sensível ou alérgica à substância.

- Obrigada - agradeceu Kate apaticamente. - E obrigada também à Millicent.

- Não tem de quê - respondeu Iam Toole.

 

Estava um dia quente e abafado no Parque Fenway quando Kate, sentada em um banco junto a Jared, começou a sangrar até à morte. Silenciosamente e sem dor, espessas gotas carmesins pingaram do seu nariz, aterrando como pequenas munições de artilharia sobre a superfície do copo de cerveja que ela segurava, cuja cor dourada ia lentamente dando lugar a um tom rosado.

Apertou o nariz com um guardanapo; porém, quase em seguida, sentiu a doçura pegajosa escorregando ao longo da parte de trás da garganta. Jared, sem qualquer noção do que estava acontecendo, deu mais um gole na cerveja, concentrando-se no campo que se estendia à frente dos seus olhos.

“Ajude-me. Por favor, Jared, ajude-me, estou morrendo.” As palavras perambulavam pelo seu cérebro, tornando-se no entanto inacessíveis à voz. “Ajude-me, por favor.” De repente, sentiu uma umidade quente por dentro das calças jeans e percebeu que também estava sangrando ali. “Ajude-me.”

No lugar à direita, Winfield Samuels olhava em direção a ela e sorria de uma forma vazia como se ela não estivesse lá, voltando depois a centrar a sua atenção no campo para aplaudir animadamente uma jogada por parte do jogador da segunda base. Os jogadores e a relva, os espectadores e a majestosa parede verde do campo esquerdo - tudo isso aparentava possuir uma tonalidade avermelhada. Kate esfregou o olho com a mão e percebeu que também aí estava sangrando.

Eufórica devido ao medo, levantou-se e ameaçou correr. Sentado na fila atrás dela, conversando animadamente e sorrindo de forma tão branda como antes o pai de Jared fizera, encontrava-se Norton Reese e um homem com as jardineiras e o cabelo grisalho de Carl Horner, mas com o grotesco rosto de um macaco.

- Reparo que está sangrando até à morte - disse amigavelmente Reese. - Lamento muito. Carl, não lamenta? “Jared, por favor, ajude-me. Ajude-me. Ajude-me.”

As palavras desvaneceram-se como um eco na eternidade. Kate tomou consciência da presença de uma mão carinhosa sobre o seu ombro.

- Doutora Bennett, está bem?

Kate ergueu a cabeça e mal conseguiu ver os olhos do vigilante noturno, Walter MacFarlane. Encontrava-se sentada a uma mesa, sozinha na biblioteca do hospital, rodeada de uma dúzia de livros e de jornais relacionados com doenças sanguíneas, doenças dos ovários e farmacologia.

- Ah, sim, Walter - respondeu. - Estou bem, obrigada. - Sentia a blusa desconfortavelmente úmida e na boca um sabor desagradável.

- Só estou verificando - comentou o homem. - Está ficando muito tarde. Ou talvez devesse dizer antes muito cedo. - Bateu com um dos dedos no mostrador do grande relógio dourado de bolso, retirando-o em seguida para que Kate pudesse ver pelos seus próprios olhos.

Duas horas e vinte minutos.

Kate esboçou um sorriso fraco e começou a juntar todos as notas.

- Se quiser, posso acompanhá-la até seu carro, doutora.

- Obrigada, Walter. Encontro-me com você junto à entrada principal dentro de cinco minutos.

Ficou observando o homem enquanto este se afastava da biblioteca. Depois reconsiderou a hipótese de telefonar a Jared, sabendo que se o acordasse iria apenas pôr mais lenha na fogueira. Acabou de arrumar a pasta. À medida que se ia aproximando da entrada, espreitou para fora da janela. Do outro lado da rua, com a noite invernosa refletindo-se obscenamente no vidro escuro, erguia-se o Omnicenter.

 

                           DOMINGO, 16 DE DEZEMBRO

A noite estava sombria e úmida. Avançando sobre a neve suja que começara a gelar e protegendo o rosto das afiadas farpas de saraiva, Kate atravessou a zona comercial e atalhou por Hanôver em direção ao North End. O trânsito e as intempéries provocaram-lhe um atraso de vinte minutos; porém, tendo em conta que Bill Zimmermann não era do tipo irritável e impaciente, previu uma rápida absolvição. Demarsco's, o restaurante onde haviam combinado encontrarem-se, era um local pequeno e de gestão familiar, onde arranjar lugar para estacionar o carro se tornava tão difícil como descobrir um prato menos excepcional no cardápio.

De início, quando Kate lhe telefonara na tentativa de marcar um encontro, Zimmermann propusera o seu gabinete no Omnicenter. Naquela noite específica, esse local era capaz de ser, entre todos os edifícios da Terra, o último lugar onde ela gostaria de entrar. Infelizmente, se Kate fosse obrigada a escrever uma lista de todos os locais que lhe pareciam ruins, o Demarsco's, a segunda sugestão de Zimmermann, provavelmente também aí figuraria. O Demarsco's era um dos restaurantes favoritos de Kate e Jared.

E agora Jared desaparecera.

“Uma espécie de separação, mas não uma separação de fato”, escrevera ele no bilhete que lhe deixara e que a aguardara sábado às três da manhã. Jared juntara algumas das suas coisas e mudara-se para casa do pai, onde ficaria até partir em viagem de negócios, na segunda-feira seguinte, para San Diego.

“Uma espécie de separação, mas não uma separação de fato.”

Não havia qualquer explicação. Nem um pedido de desculpas. Nem sequer qualquer sinal de raiva. Mas a dor e a confusão estavam impressas em cada uma das palavras. Era como se ele acabasse de descobrir que a mulher estava tendo um caso, uma relação de altos e baixos, emocional, intensa e esgotante não com outro homem, mas com o emprego, com a carreira. “Espaço para ambos resolvermos as tensões e as pressões nas nossas vidas, sem acrescentarmos outras por cima”, escrevera ainda no papel. “Espaço para que ambos possamos tomar consciência das nossas prioridades.”

Kate começou a imaginar se Winfield Samuels Júnior, de pé no centro do seu estúdio requintado e luxuosamente adornado com uma esbelta amante aguardando sob os lençóis de cetim preto, erguera um copo para brindar à sua vitória sobre Kate e ao regresso do seu estimado filho, planejando qual a melhor forma de transformar essa situação temporária em permanente. Era uma imagem perversa e provavelmente não tão afastada da realidade como isso.

No entanto, por muito perversa que parecesse a imagem de regozijo de Winfield Samuels, pior era a certeza de que a emoção incongruente que a dominava, pelo menos naquele momento durante a hora que se seguira até ao sono se apoderar de todos e os seus sentidos, era o alívio. Alívio por ser poupada de uma confrontação. Alívio por poder estar sozinha a pensar.

Alguém tentava destruir a sua reputação e talvez até a sua carreira. A sua melhor amiga repousava no hospital sangrando devido a um mal qualquer que matara pelo menos mais duas mulheres - mal esse que não possuía uma causa definida, muito menos uma cura. E agora dava-se a descoberta de que ela própria estivera exposta a vitaminas contaminadas, o seu corpo podia ter se transformado em uma bomba-relógio, à espera ide explodir - talvez para sangrar, talvez para morrer.

Prioridades. Por que razão Jared não conseguia encarar o casamento deles como uma enorme infra-estrutura sobre a qual todas as prioridades da vida de ambos poderiam ser erigidas e resolvidas? Porque não compreendia ele que o seu relacionamento não necessitava de ser uma série interminável de “ou isto ou aquilo”? Porque não percebia ele que ela era capaz de amá-lo e ao mesmo tempo ter vida própria?

O Demarsco's localizava-se no primeiro andar de um edifício estreito de pedra de arenito. Via-se cerca de uma dúzia de mesas cobertas com toalhas de quadrados vermelhos e brancos e enfeitadas com garrafas de chianti, que funcionavam como candelabros para velas - uma decoração que até podia parecer de mau gosto, todavia, no Demarsco's, não o era. Bill Zimmermann, sentado a uma pequena mesa na parte de trás, ergueu-se e fez um ligeiro aceno quando Kate entrou. Usava um blusão esportivo escuro sobre uma camiseta de gola alta cinzenta, e o seu aspecto físico parecia resultar de uma combinação entre o melhor de Gary Cooper e de Montgomery Clift. Uma garçonete de aspecto maternal, talvez a matriarca do Demarsco, pegou o casaco de Kate e encaminhou-a para junto de Zimmermann, ao mesmo tempo que a mirava com um olhar que transmitia a sua aprovação no que dizia respeito à mulher por quem o homem alto e deslumbrante da mesa do canto aguardava.

- Eles têm um vinho maravilhoso - observou Kate, sentando-se na cadeira -, mas terá de beber a maior parte sozinho. Ultimamente tenho dormido pouco e, quando estou cansada, mais do que um copo de vinho é suficiente para me pôr a nocaute.

- Infelizmente não tenho esse tipo de problemas - respondeu ele, fazendo um sinal à robusta empregada para satisfazer o pedido antes proposto. - Às vezes, penso que o meu fígado vai abandonar-me ainda antes do meu cérebro perceber que estive bebendo. É uma das maldições de ter estado na Europa. Parei há pouco no hospital para ver a sua amiga Senhora Sanders.

- Já sei. Estive com ela antes de vir para cá. Ficou muito agradecida pela sua visita. Não sei exatamente o que disse, mas surtiu um ótimo efeito. Ela está mais calma.

Kate sorriu interiormente, recordando a juvenil troca de impressões que acabara de ter com a sua amiga Ellen acerca da invulgar beleza e estado civil do diretor do Omnicenter.

- Talvez eu possa alugá-lo por uma noite, - comentara Ellen - apenas para exibi-lo uma ou duas vezes à frente do Sandy.

Zimmermann enlaçou as mãos.

- O relatório do laboratório mostra poucas alterações.

- Eu sei - confirmou Kate. - E se surgirem, a tendência é para pior. Não creio que o hematologista dela vá mandá-la para casa. Exceto se ocorrer uma melhoria durante vários dias seguidos, ou pelo menos uma estabilização.

Sentiu um aperto no peito à medida que o seu cérebro a confrontava com a cena horrenda passada no Ashburton Cinco, retratando os últimos minutos de vida de Beverly Vitale. A contagem de Ellen ainda não atingira os níveis críticos, mas havia tantos imponderáveis. Uma queda repentina e precipitada parecia bastante possível. A corrente de pensamentos que a assolava precipitou-a para uma nova questão. Tendo em conta as descobertas de Ian Toole, não deveria ela própria fazer uma avaliação da coagulação... Com a mesma rapidez com que surgiu a possibilidade, Kate pôs de parte essa idéia.

- Espero, tal como você, que se registrem melhorias - afirmou Zimmermann. Fez uma pausa e depois deu uma olhada no menu. - O que vai querer? - perguntou por fim.

- Não estou com muita fome. E que tal um antepasto, talvez um pão de alho... e uma dose reforçada de paz de espírito?

Os olhos azul-acinzentados de Zimmermann, ainda fixos na ementa, ficaram ligeiramente menores.

- Sente-se assim tão mal?

Kate mordeu o lábio inferior e fez sinal afirmativo com a cabeça, sentindo-se nesse instante verdadeiramente contente por ter optado por lhe telefonar. Se, como parecia possível, uma confrontação com os Produtos Farmacêuticos Redding estava na ordem do dia, seria vantajoso ter um aliado com a tranqüilidade e a segurança características de Bill Zimmermann, especialmente tendo em conta a fragilidade da sua própria autoconfiança.

- Nesse caso, talvez seja melhor eu também comer qualquer coisa leve.

Zimmermann chamou a empregada com um aceno discreto e pediu pratos idênticos.

- Gostaria de lhe agradecer ter decidido encontrar-se comigo em uma noite tão desagradável - começou Kate. – Surgiram novos desenvolvimentos nos meus esforços para dar algum sentido a estes três casos de hemorragia e gostaria de os partilhar com você.

- Sim?

A expressão de Zimmermann mostrava um aumento de emoção.

- Sabe que mandei analisar várias amostras de medicamentos do Omnicenter no Laboratório Nacional de Toxicologia?...

- Sim, claro que sei. Mas pensava que os resultados não tinham dado em nada.

- É verdade... até sexta-feira no final da tarde. Uma das vitaminas que mandei analisar continha um analgésico denominado ácido antranílico. A estrutura química básica desta droga está inserida em diversos produtos comerciais, como o Bymid, dos Produtos Farmacêuticos Sampson, ou o Levonide, do Freemann-Gannett, só para mencionar dois. No entanto, a fórmula que está contaminando as vitaminas é de certa maneira nova, pelo menos neste país. Ian Toole do laboratório vai verificar os manuais europeus e vai me telefonar amanhã.

- Ele está seguro dos resultados?

- Parece estar. Eu não o conheço pessoalmente, mas sei que é famoso pela sua meticulosidade.

- Na sua opinião, o que poderá ter acontecido?

- Contaminação. - Kate encolheu os ombros em um gesto que transmitia não haver, segundo a sua opinião, qualquer outra explicação que fizesse sentido. - Ou nos Produtos Farmacêuticos Redding ou talvez em um dos outros fornecedores dos componentes das vitaminas, apesar de eu suspeitar que uma empresa tão grande como a Redding deve ter capacidade para se encarregar de toda a manufatura.

- Sim. Concordo. E acha que esse tal ácido antranílico poderá ter causado as hemorragias nas nossas três mulheres?

- Hemorragias e perturbações nos ovários - acrescentou Kate -, pelo menos nos ovários de duas das mulheres. Em relação à Ellen, ainda não temos qualquer conhecimento A resposta à sua pergunta é: “Não sei, espero que não.”

- Porquê?

- Porque, Bill, as únicas vitaminas que deram finalmente algo de positivo foram as minhas. Aquelas que me receitou.

Zimmermann empalideceu. A empregada chegou trazendo o antepasto; ele, porém, nem sequer foi capaz de levantar o olhar para ela.

- Meu Deus - balbuciou suavemente.

Era a primeira vez que Kate o ouvia pronunciar qualquer tipo de comentário.

- Tem certeza de que esse Toole não terá cometido um erro? Você mesma disse que uma grande quantidade de amostras deram negativo.

- Tudo é possível - respondeu Kate. - Calculo que Ian Toole e o seu espectrofotômetro estão tão isentos de erro como... como os Produtos Farmacêuticos Redding.

- Tem mais do que uma amostra? Podemos pedir para voltar a verificar as descobertas em um outro laboratório?

Kate abanou a cabeça.

- Era uma receita antiga. Só me restavam meia dúzia. Acho que ele os usou todos.

Zimmermann tentou dar uma garfada na comida, mas rapidamente desistiu.

- Não quero que pense que estou pondo em dúvida o que está me dizendo, Kate. Mas percebe tudo o que está em jogo aqui, não percebe?

- Claro que sim. E compreendo o seu ceticismo. Se eu estivesse na sua posição e o Omnicenter fosse a menina dos meus olhos, também desejaria ter certeza. Mas, Bill, a situação é mesmo desesperadora. Já morreram duas mulheres. A minha amiga está ali deitada sangrando e eu ando tomando sem qualquer conhecimento um medicamento que nunca foi prescrito para mim. Alguém do departamento dos genéricos da Reding ou próximo dele cometeu um erro e acho que devíamos apresentar um relatório à FDA o mais rápido possível. Já falei com o chefe do departamento de farmácia do hospital para saber como se procede quando se quer denunciar um problema referente a uma droga.

- Fez referência direta ao Omnicenter? - perguntou Zimmermann.

- Posso estar nervosa e assustada com tudo isto Bill, no entanto, isso não me torna nem burra nem insensível. Claro que não. Tudo o que lhe perguntei foi em uma base hipotética.

- Muito obrigado.

- Besteira. Os jogos de intimidação não fazem propriamente o meu estilo. - Sorriu. - Apesar do que dizem e pensam todos os jornais e adeptos dos Red Sox. Todas as decisões relativas ao Omnicenter temos de tomá-las em conjunto.

Kate mordiscou um pedacinho do pão de alho e depressa percebeu que sentia fome pela primeira vez desde que regressara a casa para dar de cara com o bilhete de Jared. Talvez após a série de inacreditáveis frustrações da semana anterior, estivesse finalmente vivendo os efeitos de levar qualquer coisa à prática. Passou o cesto a Zimmermann.

- Tome - ofereceu. - Coma um pouco disto antes que esfrie.

Zimmermann aceitou a oferta, porém uma preocupação profunda continuava a ensombrar-lhe o rosto.

- E que lhe disse o farmacêutico?

- Existe uma agência chamada US Pharmacopeia, independente tanto da FDA como da indústria de produtos farmacêuticos, mas em contato direto com ambas. Eles têm um programa que estuda problemas relacionados com medicamentos. Preenche-se um formulário e manda-se para eles. Depois, enviam uma cópia para a FDA e outra para a empresa envolvida.

- E sabe o que acontece em seguida?

- Na verdade, não. Calculo que designam uma investigação da FDA para tomar conta da ocorrência.

- E o grande dragão burocrático abana a sua monstruosa cabeça.

- O quê?

- Já esteve alguma vez em contato com a FDA? Rapidez e eficiência não são decerto as suas melhores qualidades. Na verdade, não se pode culpar ninguém. A FDA está cheia de pessoas bastante qualificadas, mas infelizmente não são suficientes.

- Que mais poderemos fazer? - Inconscientemente, Kate tirou uma azeitona preta de cima do pequeno monte de alface, ingerindo-a juntamente com várias fatias finas de presunto. - Preciso de ajuda. A esta altura do campeonato, já ando passando todos os momentos livres na biblioteca. Cheguei mesmo a pedir à biblioteca dos Institutos Nacionais de Saúde para fazerem uma pesquisa por computador sobre todo o tipo de perturbações sanguíneas e dos ovários. Devem mandar-me uma bibliografia amanhã. Enviei as nossas lamelas a quatro outros patologistas para ver se alguém consegue estabelecer qualquer tipo de ligação. A FDA parece-me o último passo que nos resta dar.

- A FDA pode ser um passo necessário, mas nem por isso é o único. Para começar, quero falar tanto com o Carl Horner como com nosso farmacêutico, no sentido de garantir que a utilização de qualquer produto da Redding seja suspensa até obtermos algumas respostas.

- Excelente. Vai ser necessário requisitar outros farmacêuticos?

- Sim, porém temos alguns planos de emergência preparados, no caso de surgir qualquer tipo de anomalia do computador desde... olhe, ainda antes de eu ser diretor. Acho que nos podemos agüentar, enquanto for necessário.

- Esperemos que não demore muito tempo - declarou Kate, recordando mais uma vez o rosto sem vida de Beverly Vitale.

- Se formos diretos à FDA, existem fortes probabilidades disso.

- Desculpe?

- Kate, penso que o nosso primeiro passo devia ser contactar diretamente os Produtos Farmacêuticos Redding. Acho que a empresa merece esse tipo de consideração pela forma como se prontificou com as drogas órfãs e ainda por todas as outras coisas que fizeram na tentativa de ajudar a comunidade médica e até mesmo a sociedade em geral. Além disso, se em uma competição tiver de escolher entre o dragão burocrático e a indústria privada, nem sequer penso duas vezes em apostar o meu dinheiro na indústria. Acho que é justo, tanto para o Omnicenter como para os nossos pacientes, ir ao fundo da questão.

Pensativamente Kate bebericou o vinho.

- Acho que entendo o que está dizendo. Mais ou menos... - afirmou. - E não podemos fazer ambas as coisas? Isto é, contactar a Redding e avisar a FDA?

- Podemos, mas nesse caso vamos perder a nossa arma, o nosso trunfo, se quiser. O pessoal da Redding fará provavelmente o possível e o impossível para evitar a publicidade negativa, que um exame da FDA traria. Tenho certeza disso. Já tive experiências deste tipo com outras empresas farmacêuticas, empresas essas não tão responsáveis e responsabilizáveis como a Redding. Sei que eles darão tudo por tudo para conseguir identificar e corrigir os eventuais problemas que envolvem a empresa, evitando a intervenção do exterior.

- Isso faz algum sentido, parece-me - respondeu ela.

- Não demonstra estar muito confiante, Kate. Ouça, seja qual for a nossa decisão, devemos trabalhar em conjunto. Foi você mesma que disse isso. Dei-lhe argumentos para justificar o meu ponto de vista, mas é claro que não sou inflexível - Zimmermann bebeu o que restava do copo e voltou a enchê-lo.

Kate hesitou, para em seguida dizer:

- Tenho este... este problema com a indústria farmacêutica. É uma questão de confiança. Eles gastam milhões de dólares em ofertas para os estudantes de Medicina e para os médicos. Patrocinam dúzias e dúzias de revistas e jornais que jogamos fora com a publicidade. Recebo todos os meses cinquenta publicações que nunca na vida assinei. E eu nem sequer passo receitas. Imagino a quantidade que deve receber. - Zimmermann fez um sinal de concordância com a cabeça. - Além disso, tenho sérias dúvidas em relação às prioridades deles. Entende?... Se tiverem de optar entre o lucro e as pessoas, o que vem primeiro?

- O que quer dizer com isso?

- Olhe, lembra-se do Yalium? A Roche, ao lançar o produto, publicitou-o da melhor forma possível e o público literalmente devorou-o. É um tranqüilizante, um ansiolítico, e, de repente, de um momento para o outro, transforma-se na droga mais receitada e ingerida por todo o país. Infelizmente, descobre-se que afinal esse medicamento provoca mais dependência do que aquela que, no início, a maior parte dos médicos julgava. E aí entra a destruição de vidas. Entretanto, uma dúzia ou mais de, outras firmas farmacêuticas criam uma dúzia ou mais de versões do Yalium, cada uma com o seu próprio nome e especificidade. Efeitos mais lentos. Efeitos mais rápidos. Dura toda a noite. Desaparece mais rapidamente. Alguns médicos atarefados ficam tão perdidos no meio de tanta publicidade e promessas que acabam na verdade por prescrever duas destas variantes ao mesmo doente e na mesma ocasião. Outros julgam que estão fazendo um grande favor ao doente ao mudar de medicamento, Grande favor...

- Desculpe por dizer isto, Kate, mas não me parece que esteja sendo objetiva.

- Lamento, mas é essa a verdade - respondeu Kate. - Sofri algumas perturbações emocionais na época da faculdade e o velho médico de aldeia que dava assistência na escola mandou-me tomar Yalium. Foi preciso uma equipe inteira de especialistas para tomar consciência de como a minha vida girava à volta daqueles pequenos comprimidos amarelos. Por fim, tive de ser hospitalizada e desintoxicada. Daí vem este sentimento infantil de que não se pode confiar nas empresas farmacêuticas, Apenas isso.

Zimmermann encostou-se para trás, passou a mão pelo queixo e suspirou.

- Não sei que dizer. Se a rapidez é um ponto crucial para resolver este problema, como ambos achamos, então o caminho a seguir é falar com a empresa. Estou certo disso. - Fez uma pausa. - Já sei. Vamos dar-lhes esta semana para resolverem o assunto de maneira que nos satisfaça. Se eles não o fizerem até sexta-feira, telefonamos à FDA. Parece-lhe justo?

Kate hesitou, porém, de seguida fez um sinal afirmativo.

- Sim - disse por fim. - Parece-me justo e acertado. Quer telefonar-lhes?

Zimmermann encolheu os ombros.

- Claro - respondeu. - Será a primeira coisa que farei amanhã de manhã. É provável que eles a constatem no final do dia.

- Quanto mais cedo, melhor. Entretanto, acha que conseguiria falar com as suas pacientes do Omnicenter e arranjar-me uma lista das mulheres que estariam dispostas a ser contatadas por mim no sentido de mandar analisar as respectivas medicações?

- Posso, decerto, tentar.

- Excelente. Já não era sem tempo que as coisas começassem a entrar no bom caminho. Sabe, não há grande coisa de positivo que eu possa dizer sobre os mais recentes acontecimentos, exceto que fico feliz por a nossa relação não ter se limitado a uma relação paciente/médico ou de um cubículo de médico para outro, mas que tenha evoluído para uma relação de ser humano com outro ser humano. Neste momento, sou eu que estou precisando de ajuda, mas espero que compreenda que, se alguma vez as situações se inverterem, pode contar comigo como amiga.

Zimmermann esboçou um sorriso estilo Cary Grant.

- Esse tipo de amizade não é fácil de arranjar - agradeceu. - Muito obrigado.

- Eu que agradeço. Sem contar com o Tom Engleson, tenho me sentido bastante sozinha no meio disto tudo. Agora somos uma equipe.

Kate fez sinal à empregada.

- Café? - perguntou a mulher.

- Para mim não, obrigada. Bill?

Zimmermann disse que não com a cabeça.

- Nesse caso, podia trazer a conta, por favor?

- Que disparate - interveio Zimmermann. - Não vou permitir... - O olhar reprovador de Kate obrigou-o a interromper a frase a meio - ... Não vou permitir que faça isto muitas vezes se não me deixar fazer o mesmo.

Kate sorriu da maneira airosa como ele resolvera a situação.

- Combinado - afirmou, sorrindo abertamente.

Despediram-se apertando as mãos um do outro com afabilidade e, depois de Kate ter pago a conta, enfrentaram juntos a noite de inverno.

 

Dormente de cansaço, John Ferguson esforçou os olhos para se concentrar nas letras verdes fluorescentes da tela do seu processador de texto. Doíam-lhe as costas por ter passado grande parte dos últimos dois dias inclinado sobre o teclado. As mãos, onde os efeitos da doença se sentiam de uma forma mais penetrante como não acontecia há muito tempo, formavam palavras juntando cuidadosamente letra com letra. Fora um esforço agonizante, condensar quarenta anos de complexas investigações em trinta e tantas páginas de dissertação acadêmica, porém, de frase em frase, de palavra em palavra, ia fazendo lentos progressos.

A um dos lados da sua mesa encontrava-se uma dúzia de jornais médicos de renome internacional. Ferguson pensara primeiro em submeter o seu manuscrito completo a todos eles, todavia reconsiderara. A honra de publicar o seu trabalho seria apenas concedida ao The New England Journal of Medicine, o mais prestigiado e lido de todos eles.

The New England Journal of Medicine. Ferguson tocou em duas teclas e, em breves segundos, a primeira página do seu artigo apareceu exposta na tela.

 

               ESTUDOS SOBRE O ESTRONATE 250

 

Um congênere de estrogênio sintético e uma hormona antifertilidade

             John N. Ferguson, Médico

 

Era por certo a primeira vez desde o início da longa e distinta carreira deste jornal que toda a edição seria dedicada a apenas um artigo. Porém, se eles não concordassem em fazer isso, se sujeitariam a encontrar esse estudo histórico e comentários no Lancet ou em The American Journal of Medicine, Ferguson sorriu. Mal os editores de The New England Journal of Medicine pusessem os olhos sobre os seus dados e respectivos acetatos, encarava com bastantes dúvidas a possibilidade de resistência a honrar o seu pedido. Durante algum tempo ficou observando cuidadosamente aquela página. Depois, auxiliado por meios eletrônicos, apagou o nome do autor. Era possível que surgissem alguns problemas pelo caminho que tornassem um risco o que pretendia fazer, mas suspeitava que não. Estava muito velho e doente para poder ser incomodado até pelo fanático Simon Weisenthal.

Com uma intencionalidade que ainda mais o ajudava a saborear o ato, Ferguson datilografou Wilhelm W. Becker, médico, doutorado, no lugar onde outrora se lera o nome Ferguson. Talvez, pensou com um sorriso aflorando-lhe aos lábios, impunha-se uma espécie de funeral ao Ferguson. No fim de contas, ele morrera duas vezes, uma vez em Bataan, quarenta anos antes, e pela segunda vez naquela noite.

Com a disciplina que marcara toda a sua vida, Willi Becker passou à frente do agradável prelúdio e avançou no texto até ao lugar onde previamente o abandonara. Devido a uma patologista de nome Bennett, Cyrus Redding descobrira a essência do seu trabalho no Omnicenter. Conhecendo o homem tão bem como Becker o conhecia, estava certo de que o magnata iria agora levar aquela história até às últimas instâncias. Sabia que ainda havia tempo para passar o trabalho ao papel e enviá-lo por correio, mas não exatamente quanto. Teria de se esforçar. Teria de lutar contra a fadiga e as dores musculares e esforçar-se, pelo menos durante mais uma ou duas horas. A projeção da sua imortalidade científica estava em jogo.

Furtivamente, olhou de relance para o frasco de anfetaminas que se encontrava sobre a mesa. “Só se passaram três horas.” Era muito cedo, especialmente tendo em conta as batidas irregulares do coração que sentia. Mesmo assim, teria de se esforçar. Bastavam-lhe mais alguns dias, talvez até menos. Quase incapaz de agarrar a parte de cima do pequeno frasco, Becker colocou um dos diminutos comprimidos pretos na língua, engolindo-o sem sequer tomar um gole de água. Em poucos minutos, sentiria aquele fluxo quente que lhe daria o impulso, por muito artificial e curto que fosse, para ultrapassar a inércia da sua miastenia.

- Sabe que não devia tomar esses comprimidos, pai. Especialmente tendo em conta os seus problemas cardíacos.

Becker virou-se instantaneamente, dando de caras com filho, ao mesmo tempo que amaldiçoava a sua reduzida audição que possibilitava a ocorrência daquele tipo de surpresas.

- Eu os tomo porque preciso deles - respondeu de forma acutilante. - Por que diabo resolveu entrar aqui às escondidas? Para que servem as campainhas?

- Que maneira agradável de receber uma pessoa. É que eu que dei uma volta maior só para ter certeza de que estava tudo bem com você.

“Três quarteirões”, - pensou Becker. “Que grande desvio.”

- Você me assustou. É só isso. Desculpe por ter reagido desta maneira.

- Nesse caso, pai, cabe a mim pedir desculpas.

Seria sarcasmo o que se podia distinguir na voz do filho? Becker sentia-se incomodado por nunca lhe ter sido possível compreender aquele homem. A relação deles baseava-se única e exclusivamente na obrigação filial e no respeito, porém, pouco ou nenhum amor. Durante a maior parte da vida do filho, haviam vivido separados um do outro: Becker em uma pequena casa de campo nas instalações do hospital onde trabalhara e a mulher e filho em um apartamento a trinta quilômetros de distância. Fora uma decisão tão necessária como dolorosa. Becker e a mulher tinham tentado durante anos, mas em vão, fazer com que o filho compreendesse. Existiam pessoas, era essa a explicação, que prenderiam Becker de um momento para o outro com base em uma série de acusações injustas, o mandariam para a prisão e era até provável que o condenassem à morte. Na história do pós-guerra, fora considerado culpado apenas por ser alemão, nada mais do que isso. Em nome da segurança de todos, era necessário que tanto o rapaz como a mãe mantivessem uma residência e até mesmo um nome distintos dos dele. Apesar de Becker os sustentar e visitar todas as vezes que lhe era possível, nunca ninguém viria a saber qual a verdadeira relação que mantinha com a mulher, Anna Zimmermann, e o filho, William.

- Então - convidou Becker -, agora que já pedimos encarecidas desculpas um ao outro, entre, sente-se e sirva-se de uma bebida.

William Zimmermann fez um ligeiro aceno com a cabeça como forma de agradecimento, deitou dois dedos de Wild Turkey em um copo pesado e acomodou-se em uma cadeira à frente do pai.

- Vejo que começou a organizar os seus dados - afirmou. - Porquê só agora?

- Bem, eu... na verdade, por nenhuma razão especial. Parece-me que as modificações que encetei eliminaram grandemente, se não por completo, os problemas de hemorragias que vemos com o Estronate. Por isso, por que razão esperar mais?

- Qual o jornal que lhe interessa?

- Acho que The New England Journal of Medicine. Planejo submeter os dados a discussão, mas reter ainda alguns passos essenciais na síntese até que uma comissão à escolha do jornal possa responsabilizar-se pelas minhas fórmulas e decidir qual a melhor forma da sociedade se beneficiar com elas.

- Parece-me bom - respondeu Zimmermann. - Com tudo o que andou acontecendo na última semana, quanto mais depressa vir terminado o caso Estronate 250, melhor.

- Apareceram mais alguns casos de hemorragias?

Zimmermann abanou a cabeça.

- Só a tal mulher, a Sandler, a tal de que já tinha falado. Aquela que é amiga da doutora Bennett. Foi tratada há mais de dezoito meses, no grupo de Julho/Agosto, o último grupo a receber o Estronate não modificado.

- E como está ela?

- Acho que vai acabar como as outras duas.

- Não consegue encontrar uma maneira qualquer de lhes sugerir tentarem um tratamento com uma dose maciça de Ácido Delta-aminocapróico e Ácido Nicotínico?

- Não, sem correr o risco de me fazerem perguntas a que prefiro não responder. Quero dizer, eu sou um ginecologista, não um hematologista. Além disso, lembro-me de você ter dito que, em um estado tão avançado, o tratamento só teria sessenta por cento de chances de dar certo.

Becker encolheu os ombros.

- Sessenta por cento não deixam de ser sessenta por cento.

- E a minha carreira é a minha carreira. Não, pai, tenho muita coisa a perder. Lamento muito, mas Senhora Sandler vai ter de se safar sozinha.

- Talvez tenha razão - afirmou Becker.

Apertaram as mãos formalmente e William Zimmermann saiu.

 

A menos de vinte quilômetros de distância, no quarto andar do Edifício Berenson do Metropolitan Hospital de Boston, no quarto 421, o nariz de Ellen Sandler começara de novo a sangrar.

- Vamos, Suzy, prometa ao papai que vai prestar atenção ao que a mamãe te diz e que nunca mais vai fazer isso ao gato... Isso mesmo... Agora tenho de ir, querida. É melhor começar a preparar-se para a sua lição de piano... Eu sei o que disse, mas o meu trabalho aqui ainda não está pronto e eu tenho de ficar até terminar... Não sei. Mais dois dias, talvez três... Suzy, pare com isso. Não é nenhum bebê. Eu te amo muito e vou te ver dentro de muito pouco tempo. Vá, diga ao papai que o ama e depois vai estudar a sua nova peça... Suzy?... - Silêncio. - Merda! - Arlen Paquette pousou bruscamente o auscultador.

Havia protestado junto de Redding por causa da inutilidade de permanecer em Boston no fim-de-semana, mas o homem insistira para que ficasse atento à situação e consequentemente ao Omnicenter. Como sempre, os acontecimentos provaram que Redding estava certo. Paquette enfiou umas notas na pasta e vestiu o casaco. Certo no que dizia respeito aos Produtos Farmacêuticos Redding, mas não em relação a Suzy Paquette, que justificadamente estava ressentida da ausência do pai no torneio escolar de atletismo, que ocorrera nessa mesma manhã. Como podia ele explicar a uma criança de sete anos que o que o obrigava a estar longe de casa era a mesma coisa que permitia a ela freqüentar uma escola como a Academia Hightower? Endireitou a gravata e penteou o cabelo com os dedos. Como podia ele explicar-lhe isso quando até para si próprio encontrava dificuldades em se justificar? Mesmo assim, pensando no que ele e a sua família estavam lucrando com a sua parceria com Redding, o esforço não era excessivo.

Deu uma olhadela nas fotografias de Kate Bennett empilhadas na mesinha de café.

“Pelo menos”, pensou, “por enquanto.”

 

                 SEGUNDA-FEIRA, 17 DE DEZEMBRO

A viagem de táxi do Ritz ao Metropolitan Hospital demorou quinze minutos. Paquette entrou no corredor principal por uma porta automática recentemente instalada e dirigiu-se de imediato ao gabinete de Norton Reese, com a vaga idéia de que a mulher, cuja vida e rosto ele estudara tão detalhadamente, poderia a qualquer momento sair de um corredor secundário e aparecer-lhe à frente.

- Arlen, prazer em vê-lo. Está com bom aspecto. - Norton levantou-se da sua cadeira e cumprimentou Paquette a meio caminho com um aperto de mãos mal definido. Entre eles existia mais uma trégua tácita do que propriamente uma relação por muito tempo que passasse, nunca seria o suficiente para compensar a falta de confiança e de respeito que nutriam um pelo outro. Contudo, Paquette era o enviado de Cyrus Redding e das suas largas centenas de milhões de dólares, e a ele se devia a ascensão de Reese até o seu atual lugar de proeminência. Apesar de estarem na quadra de Reese, o serviço pertencia ao homem mais novo.

- Você também parece em forma, Norton - respondeu Paquette. - O nosso amigo comum manda cumprimentos. - Falou-lhe a respeito do nosso jogador agarrado aos speeds e das cartas para a imprensa e para a televisão?

- Falei Cheguei mesmo a enviar-lhe uma encomenda com os artigos e os editoriais por mensageiro. Ele louva a sua destreza. E, a propósito, eu também. - Por muito que tentasse, não conseguia consubstanciar aquele elogio com qualquer tipo de emoção.

Contudo, o rosto oval de Reese abriu-se em um largo sorriso.

- Tem sido maravilhoso, Arlen - observou com agrado. - Simplesmente maravilhoso. Digo-lhe, desde que essa história arrebentou a médica, a Kathryn Bennett, anda desvairada de um lado para o outro tentando tapar os buracos que se abriram na sua reputação. Neste momento, não deve sequer saber a quantas anda.

- Fez tudo muito bem, Norton. Muito bem mesmo. Mas, de acordo com os nossos interesses, ainda não foi o suficiente.

- O quê? - Reese começou a mover-se de forma apreensiva. - Uma manobra de distração. Foi o que Horner me pediu e, por amor de Deus, foi isso o que eu fiz àquela mulher. Uma maldita e gigantesca manobra de distração.

- Fez tudo muito bem, Norton. Já lhe disse.

- Aliás, ela tem tido tanta publicidade negativa, que é de admirar como é que ainda não se demitiu ou não foi despedida pela faculdade. - Reese continuou a falar como se não tivesse ouvido nada. - Na realidade, ouvi dizer que o Comitê de Ética da Faculdade de Medicina está planejando uma espécie de inquérito.

Paquette silenciou-o, levantando as mãos.

- Calma, Norton, por favor - pediu serenamente. - Vou dizer mais uma vez. O que fez, a carta e tudo isso, foi exatamente o que nós lhe pedimos. O nosso amigo comum está satisfeito. Ele pediu ainda que eu lhe comunicasse que a Fundação Ashburton pretende financiar a vaga para especialização em cirurgia cardíaca, a tal sobre a qual lhe escrevera.

- Então por que razão o que eu fiz não é suficiente? - Reese tomou consciência de que, na sua pressa em se defender, se esquecera de reconhecer a generosidade de Redding. Antes que pudesse remediar o sucedido, Paquette falou.

- Comunicarei os seus agradecimentos quando regressar a Darlington - afirmou em um tom de voz onde se podia depreender uma nota de irritação. - Norton, sabe o que anda acontecendo por aqui?

- Não... não exatamente - respondeu, perplexo.

Paquette abanou a cabeça de modo indulgente.

- A doutora Bennett, na investigação que está fazendo para identificar o motivo da ocorrência de hemorragias incomuns em várias mulheres, centrou as suas atenções no Omnicenter. Não vemos outra ligação entre essas mulheres a não ser terem sido todas acompanhadas pelo Omnicenter.

- O... o trabalho que estão fazendo... quer dizer, nenhuma das mulheres ficou... - Depois de tantos anos tentando escrupulosamente evitar o Omnicenter e as pessoas envolvidas no seu funcionamento, Reese nem sabia como abordar qualquer tema relacionado com o lugar em questão.

Paquette poupou-o a mais hesitações.

- Às vezes, cada uma das mulheres participava na avaliação de um ou mais produtos - explicou. - Contudo, Carl Horner me garantiu que não houve produtos comuns a estas três mulheres. Seja qual for, a causa deste problema não tem origem no Omnicenter.

- Isso é um alívio - suspirou Reese.

- Nem por isso - acrescentou Paquette, com uma expressão que desmentia a sua impaciência. - A doutora Bennett tem sido da maior persistência, apesar das pressões que a sua carta lhe trouxe.

- O que ela é... é uma grande chata, isso posso eu garantir-lhe - resmungou Reese.

- Ela testou vários produtos do Omnicenter no Laboratório Nacional de Toxicologia. Devo ainda acrescentar que a cobrança destas análises ficou a cargo do seu hospital.

- Raios a partam. Não encontrou nada, não é? Horner me assegurou que não havia nada com que me preocupar.

A paciência de Paquette continuou a diminuir.

- É claro que encontrou, Norton. Por isso que estou aqui. Até conseguiu convencer o doutor Zimmermann a telefonar para a empresa para nos comunicar esse fato.

- Ah, desculpe.

- O nosso amigo no Kentucky pediu-nos que fizéssemos um esforço no sentido de desacreditar a doutora Bennett e referiu ainda que deveríamos acrescentar... Qual foi mesmo a palavra que ele usou?... Distração?... Não, diversão, é isso mesmo, acrescentar diversão à vida dela. Tomamos algumas medidas para conseguir ocultar, posso até dizer... neutralizar, as suas descobertas até agora, mas há provas do que temos feito em dezenas de armários de medicamentos por aí espalhados. Se a doutora Bennett, for suficientemente persistente, decerto irá descobrir. Estou convencido disso e o nosso amigo também. A doutora Bennett deu-nos o prazo de uma semana para esclarecermos o fato de um certo analgésico experimental aparecer em um grupo de vitaminas fornecidas pelo Omnicenter. Se, depois desse prazo, não lhe fornecermos uma explicação satisfatória, ela pretende apresentar um relatório à US Pharmacopeia e à FDA.

- Raios a partam - repetiu Norton Reese. - O que nós vamos fazer?

- Nós não, você. A credibilidade da doutora Bennett tem de ser reduzida até o ponto em que nenhum número de provas possa ser suficiente para as autoridades aceitarem a palavra dela contra a nossa. A carta que escreveu foi um principio, mas, como já disse, ainda não suficiente.

Mais uma vez, Reese começou a sentir-se pouco à vontade Paquette não estava formulando um perdido, mas antes proferindo uma ordem - uma ordem proveniente de um homem que, Reese tinha plena consciência, poderia esmagá-lo com a ponta do dedo, desapertou o colete para evitar a umidade desconfortável da pele.

- Olhe - suplicou -, não sei mesmo o que posso fazer. Vou tentar, mas... mas não tenho nenhuma idéia. Tem de entender, Arlen, tem de fazê-lo compreender. Bennett trabalha no meu hospital, mas não para mim. - Existia compreensão no rosto de Paquette, mas não compaixão. Reese continuou a sua divagação, cada vez mais nervoso. - Além disso, a mulher tem amigos por aqui. Não entendo como nem porquê, mas a verdade é que tem. Mesmo depois da carta, consegui apoio. Merda, eu até matava para ter certeza de que ela não... - A sua voz definhou, atingindo um tom inaudível. Semicerrou os olhos.

Paquette seguiu a linha de pensamentos do homem.

- A resposta é não, Norton - declarou peremptoriamente - De maneira nenhuma. Nós a queremos desprestigiada, mas nunca eliminada, pelo amor de Deus. Queremos que as pessoas percam o interesse nela, não que a canonizem. Ela já envolveu o doutor Zimmermann, um químico do Laboratório Nacional de Toxicologia e um assistente hospitalar daqui, chamado Egleson. Devem existir outros, mas, tanto quanto sabemos, a situação ainda não está fora de controle. Estamos fazendo tudo que nos é possível para garantir que tal assim permaneça. O sogro da doutora Bennett tem alguns negócios com a nossa empresa. Acredito que o nosso amigo já lhe tenha telefonado no sentido de angariar a sua ajuda. Há outros passos que também estão sendo tomados. - Levantou-se e inclinou-se por cima da mesa para apertar a mão de Reese. - Sei que podemos contar com você. Se precisar de conselhos ou de um ouvido atento, pode encontrar-me no Ritz.

- Obrigado - respondeu Reese em um tom de voz entorpecido. Todo o seu corpo parecia ter-se fundido com a cadeira. Paquette caminhou devagar até à porta, depois virou-se para trás.

- O nosso amigo sugere que alguma coisa seja feita até quinta-feira.

- Quinta? - grasnou Reese.

Paquette abanou a cabeça afirmativamente, fez um sorriso amarelo e foi embora.

Meia hora mais tarde, de camisa trocada e quase totalmente refeito, Reese sentou-se em frente de Sheila Pierce, torcendo clipe atrás de clipe, enquanto centrava os seus pensamentos, bem mais do que queria naquele preciso momento, nos seios da técnica superior.

- Como estão correndo as coisas lá embaixo na patologia? - perguntou, imaginando se ela iria tirar ou não a bata para logo em seguida se recordar que tinha de se concentrar no assunto em questão. Aquela mulher requeria ser tratada com delicadeza, tendo em conta a possibilidade de lhe ser necessário arriscar o seu próprio pescoço para salvar a pele do administrador do hospital.

- Refere-se à Bennett? - perguntou Sheila, encolhendo os ombros. - Continua a receber algumas cartas e alguns telefonemas estranhos por dia, mas, fora isso, as coisas parecem ter voltado ao normal. Tem sido... divertido.

- Bem - disse Reese -, tenho certeza de que o caso Bobby Geary está longe de ser um assunto encerrado.

- Sim?

- Ouvi dizer que o caso vai para o Comitê de Ética da Faculdade de Medicina.

- Boa - foi o comentário de Sheila. - É bem feito, depois de ter ido diretamente para os jornais com a história do rapaz da maneira como foi. - Ambos riram. - Acha que o - continuou -, e suficiente para evitar que ela chegue a chefe do nosso departamento?

Reese sorriu interiormente. Aquela pergunta era a deixa perfeita.

- É duvidoso - disse, carrancudo. - É muito duvidoso.

- É pena.

- E você não sabe da missa a metade.

- O que quer dizer com isso?

- Bem... - Batia com o lápis sobre a mesa. Fechou os olhos e massageou a cana do nariz. Em seguida mordeu o lábio inferior. - Recebi hoje de manhã uma chamada do doutor Willoughby. Ele solicitou uma reunião com o Comitê Financeiro e Orçamental, na qual ele e a Kate Bennett pretendem apresentar os resultados de um estudo de computador, que ela terminou agora de fazer. Planejam pedir um fundo de emergência de seis meses até ser possível completar uma reorganização radical do departamento.

Sheila Pierce empalideceu.

- Uma reorganização radical do departamento?

- Foi o que o homem disse.

- Ele disse alguma coisa sobre... você sabe.

Reese suspirou.

- Por acaso, querida, até disse. Contou-me que para a semana, por altura da reunião, Bennett já deve ter-lhe apresentado uma lista completa de rendimentos perdidos, incluindo a apropriação indevida de fundos por parte de vários membros do departamento.

- Mas ela prometeu...

- Calculo que uns créditos a mais junto do chefe e do conselho de administração a fizeram esquecer da promessa a uma pobre técnica.

- Técnica superior - corrigiu. - Raios a partam! Pareceu-te que ela já tinha contado alguma coisa sobre mim ao Willoughby?

Agora que a isca fora mordida, bastava a Reese puxar o anzol.

- De maneira nenhuma. Eu sondei o Willoughby o melhor que me foi possível sobre esse assunto sem levantar suspeitas. Ela não lhe disse nada de específico... pelo menos por enquanto.

- Norty, temos de fazê-la parar. Não posso me dar ao luxo de perder o emprego. Bolas, estou trabalhando aqui há mais tempo que ela. Há bastante mais tempo. - Cerrara as mãos pálidas uma na outra e a posição dos maxilares sugeria raiva e frustração.

- Bem - prosseguiu Reese com algum dramatismo -, temos dois dias, três no máximo. Alguma idéia?

- Idéia?

- Sim, não sou eu que trabalho com a mulher, querida, é você. Ela nunca faz merda? Nunca se enganou em nenhum caso? Porra, acontece a todos os médicos neste lugar, ela não deve ser exceção.

- Ela é patologista. Os casos dela já estão mortos à partida. Não há muito por onde se enganar exceto... - Parou no meio da frase e tirou uma folha impressa do bolso da bata.

- O que é isso?

- É a escala cirúrgica para amanhã. Bennett e o doutor E Huang vão analisar fragmentos congelados durante este mês. - Examinou cuidadosamente todas as entradas na folha.

- E então?

Sheila hesitou, mostrando incerteza nos olhos sombrios.

- Tem certeza de que ela vai apresentar queixa de mim ao Willoughby?

- Querida, tudo o que eu posso dizer é que o doutor Willoughby me pediu uma cópia do modelo contratual do sindicato, especialmente a parte que se refere às causas justas para demissão.

- Ela não tem o direito de me fazer isso, depois de me prometer...

- Sabe bem como funcionam estas pessoas com graus elevados em medicina, Sheila. Pensam que são melhores e mais espertas que os outros. Pensam que podem passar por cima das pessoas.

O olhar de Sheila indicou-lhe que a guerra, ou pelo menos aquela batalha, custasse o que custasse, estava ganha.

- Vamos ver quem é mais esperta - murmurou, percorrendo a folha com os dedos enquanto pensava. - Talvez seja hora da Bennett perceber que há por aí muita gente com cérebro que infelizmente não conseguiu ir para a faculdade de Medicina.

- Mostre-lhe como é, querida - encorajou Reese -, porque se ela entrar, você sai.

- Nem pensar - declarou secamente Sheila. - Eu não vou permitir que isso aconteça. Tome, olha para isto.

- O que tem?

- Bem, como pode ver, é uma escala bastante preenchida. Há uma biópsia pulmonar, uma biópsia da tiróide, outra de cólon e duas biópsias mamárias. Bennett vai estar trabalhando quase todo o dia no pequeno laboratório do criostato, junto à sala de operações. Geralmente ela entra no bloco operatório, recolhe uma peça, congela-a no criostato, corta-a por seções, cora-a e analisa-a, tudo isto dentro da zona cirúrgica.

- E?

- Bem, há muitas possibilidades - cantarolou Sheila em um tom de voz irônico -, mas... se pudermos pôr fora de ação o criostato cirúrgico... e forçar Bennett a usar a unidade de apoio do laboratório de histologia, talvez me fosse possível, de alguma maneira, trocar uma peça cirúrgica. Tudo o que vou precisar é de cerca de três ou quatro minutos.

- E que vai ganhar com isso?

Sheila esboçou um sorriso infantil.

- Bem, com alguma sorte, dependendo da patologia em questão, pode ser que a maravilhosa doutora Bennett confunda um estado benigno com um maligno. Depois, quando toda a peça for revista e examinada no dia seguinte, o erro dela virá à tona.

- Acha possível a um patologista cometer um erro desses? - perguntou Reese.

Sheila sorriu de novo.

- Apenas uma vez - murmurou serenamente -, apenas uma vez.

 

A Praça Louisburg, um conjunto de pequenas casas de tijolo em torno de um jardim irregular, rodeado por uma cerca de ferro forjado, na parte oeste de Beacon Hill, fora a morada, por excelência, de muitas gerações de Boston. Levi Morton habitara nesse local, depois de ser vice-presidente durante quatro anos sob a direção de Benjamim Harrisson. Jennie Lind aí se casara em 1852. As famílias Cabot e Saltonstall, Lodge e Alcot - todas se relacionavam, dando-lhe caráter histórico, com a Praça Louisburg.

O táxi deixou Kate ao fundo da Mount Vernon Street, resolveu então aproveitar a íngreme caminhada de dois quarteirões até à Praça Louisburg para esticar as pernas e arejar as idéias sobre o longo e árduo dia que tivera no hospital. Duas reuniões do comitê, duas peças cirúrgicas e uma conferência na faculdade de Medicina, além de meia dúzia de telefonemas maliciosos e outras tantas cartas de desprezo, tudo relacionado com o modo insensível como tratara Bobby Geary e a sua família.

Ellen começara de novo a sangrar do nariz - só um lento gotejar, mas o suficiente para requerer que Pete Colangelo voltasse a cauterizá-lo. Os seus parâmetros de coagulação continuavam a diminuir significativamente de dia para dia, e essa notícia desencorajadora exigia algum envolvimento do seu cérebro. Ao fim da tarde, chegara a pesquisa por computador da biblioteca dos Institutos Nacionais de Saúde. Na extensa lista de bibliografia havia muitos artigos relacionados com as doenças que provocavam esclerose dos ovários e um número considerável relativo a perturbações da coagulação idênticas aos casos de Boston. Contudo, não havia nenhum que descrevesse a coexistência de ambos os sintomas em um só doente. Com poucas esperanças, Kate deu início ao enfadonho processo de localizar cada artigo, depois fotocopiar para, por fim, poder estudá-lo. Essa tarefa levaria dias, se não mesmo semanas, terminando porém, era inegável a chance de aparecer alguma coisa, qualquer coisa que pudesse ajudar Ellen.

Ao sair da Mount Vernon, Kate encostou-se a um poste de eletricidade e, através da névoa criada pela sua própria respiração, refletiu sobre o belo postal de Natal que a Praça Louisburg sugeria. Uma vela de luz laranja brilhava em cada uma das janelas das casas circundantes. As portas exibiam elegantes grinaldas. Algumas árvores de Natal haviam sido colocadas cuidadosamente, de forma a realçar a atmosfera sem, no entanto, a sobrecarregar demasiado.

Tendo observado, estação após estação, a elegância impassível da Praça Louisburg, Kate não sentiu dificuldades em compreender a razão por que, pouco tempo depois da morte da mulher, Winfield Samuels vendera a casa senhorial e os estábulos, que possuíam em Sudbury, e comprara uma casa naquele local. Os dois - o local e o homem - pareciam ter sido feitos um para o outro. De modo um pouco relutante, subiu os degraus de granito que conduziam à casa do sogro, evitou o enorme batente de bronze e tocou à campainha.

Segundos depois, a porta era aberta por uma morena elegante e muito atraente, apenas dois ou três anos mais velha que Kate. Vestindo uma blusa de tecido dourado e uma saia escura e justa, Jocelyn lembrava, acima de tudo, a secretária executiva, que, de fato, outrora fora.

- Bem-vinda, Kate - cumprimentou calorosamente. - Entre. Deixe-me pendurar-lhe o casaco.

- Eu faço isso, obrigada. Está estupenda, Jocelyn. Esse corte de cabelo é novo?

- Já tem alguns meses. Obrigada por ter reparado. Você também está com ótimo aspecto.

Kate pensou que talvez ela e Jocelyn Trent pudessem colaborar em um capítulo para Amy Vanderbilt ou para Emily Post intitulado: “Manual de Conversação Entre Uma Nora e a Amante do Respectivo Sogro quando Este Se Recusa a Reconhecer a Mulher em questão como Qualquer Outra Coisa Que não Seja Empregada Doméstica.”

- Mister Samuels desce dentro de poucos minutos - anunciou Jocelyn. - A lareira do escritório já está acesa. Pode esperar lá. O jantar estará pronto dentro de meia hora. Posso arranjar-lhe uma bebida?

“Mister Samuels.” A formalidade descabida fez com que Kate se sentisse incomodada. Às sete em ponto, a mulher serviria o jantar, preparado com todos os requintes para o anfitrião e seus convidados, depois se retiraria para ir jantar na cozinha. Às onze ou à meia-noite, quando a casa estivesse escura e silenciosa, escaparia para o quarto dele, aí permanecendo o tempo que ele lhe pedisse para ficar, tendo sempre o cuidado de regressar aos seus aposentos antes de qualquer convidado se levantar.

- Claro - respondeu Kate, seguindo a mulher até ao escritório. - É melhor preparar qualquer coisa forte. Como pode ver pelo convidado que tem estado nesta casa nos últimos dias, as coisas não andam correndo nada bem no meu mundo.

Jocelyn sorriu compreensivamente.

- Se lhe interessa a minha opinião - arriscou dizer -, também não me parece que Jared esteja muito contente com a situação.

- Fico feliz em saber, Jocelyn. Obrigada. Digo-lhe uma coisa: não importa qual o campeonato ou a divisão, o casamento derrotará sempre a equipe da casa. - Quando lhe era possível separar a jovem mulher do seu papel naquela casa, Kate gostava muito de Jocelyn e apreciava vivamente as conversas íntimas que, por vezes, conseguiam manter.

- Eu sei - afirmou Jocelyn. - Também eu já tentei uma vez. Mas, para mim, foram só responsabilidades e nenhum prazer.

As palavras foram ditas com ligeireza, Kate, porém, notou nelas talvez uma espécie de explicação, uma súplica pedindo compreensão e aceitação. É melhor ter dono do que ser-se usada.

Kate pegou o bourbon com água e observou Jocelyn Trent enquanto esta regressava à cozinha. Aquela mulher possuía, Kate sabia, um guarda-roupa muitas vezes maior do que o dela, um deslumbrante casaco de pele de raposa, e um elegante Alfa Coupé. “Se isto é escravidão”, pensou, esboçando um leve sorriso, “então eu quero ser escrava.”

Como prometido, Winfield Samuels demorou alguns minutos antes de fazer a sua entrada. Kate esperou junto da lareira, que, pelo seu aspecto escurecido denunciava uma utilização regular, ajeitando a franja do tapete persa com a ponta do sapato e tentando evitar uma troca de olhares com qualquer uma das cabeças de animais penduradas na parede. Samuels mandara Jared para fora em serviço - de propósito, assim quisera dar a entender - para que ele e Kate pudessem passar algum tempo juntos e falar sobre “assuntos de interesse comum”. Antes do casamento, encontraram-se em diversas ocasiões para conversas desse tipo, todavia, a partir dessa época, o tempo passado juntos incluía sempre Jared. Samuels não fizera qualquer insinuação ao telefone sobre o tema que discutiriam, ou os ditos “assuntos”, mas a separação - causas e curas - teria seguramente um lugar no topo da lista. Kate encontrava-se lendo uma carta de louvor e agradecimento do governador, quando o dono da casa entrou na sala.

- Kate, bem-vinda - proferiu calorosamente Win Samuels. - Estou contente por ter conseguido vir, tendo em conta o meu recado com tão pouco tempo de antecedência. - Cumprimentaram-se com as mãos nos ombros e beijos que não chegavam a tocar o rosto. - Sente-se, por favor. Temos... - consultou o relógio - temos vinte e três minutos até ao jantar.

Vinte e três minutos. Kate tinha de dar a mão à palmatória. Jantar às sete não significava o mesmo que jantar às sete e três. Esperava-se que a exímia cozinheira/empregada/amante fosse sempre pontual.

- Obrigada - respondeu Kate. - Está com bom aspecto. - O elogio não era exagerado. Com um blazer de sarja e com um lenço de seda branco ao pescoço, Samuels exibia uma aparência com que nenhum homem de setenta anos se atreveria a sonhar.

- Quer que a sirva novamente? - perguntou Samuels, encaminhando-a para um dos confortáveis cadeirões de pele que e encontravam junto à lareira.

- Só se estiver preparado para me ressuscitar.

Samuels riu e preparou para si próprio um bourbon com soda.

- É uma mulher e tanto, Kate - elogiou, instalando-se à sua frente. - Jared teve muita sorte em tê-la agarrado.

- Na verdade, fui eu que o agarrei.

- Este... este pequeno desentendimento que vocês estão vivendo vai desaparecer antes que dêem por isso. Provavelmente já desapareceu.

- A metade vazia da minha cama não confirmaria isso - comentou Kate.

Samuels tirou um charuto da caixa que se encontrava junto do seu cadeirão, olhou-o por um momento, e depois voltou a colocá-lo no seu local.

- Charutos tão perto do jantar estragam o paladar, especialmente quando o menu inclui o pato com laranja da Jocelyn.

- É uma mulher muito simpática - arriscou Kate.

Samuels assentiu com a cabeça.

- Faz um bom trabalho por aqui - afirmou em um tom algo absurdo, como se estivesse falando de negócios. - Verdadeiramente bom. - Fez uma pausa. - Sou um homem direto, Kate. Algumas pessoas dizem que sou até direto demais, mas isso não é coisa que me aborreça. E que tal se eu fosse direito ao assunto que temos em mãos?...

- Quer dizer que isto não foi apenas um convite social?

Samuels estava quase se deixando enganar quando viu o sorriso nos olhos e a forma como os cantos da boca de Kate se erguiam.

- Também faz isto com Jared? - perguntou.

Ela sorriu com orgulho e confirmou com a cabeça. Ambos riram, mas Kate não sentiu que esse fato tivesse de alguma forma aliviado a tensão existente entre eles.

- Kate - prosseguiu Samuels -, eu fiz as coisas que fiz, alcancei as coisas que alcancei, porque fui educado para acreditar que nós nunca temos um desejo ou um sonho sem termos também a possibilidade de tornar esse sonho, esse desejo, uma realidade. Partilha comigo essa crença?

Kate encolheu os ombros.

- Acredito também que há momentos em que não faz mal desejar, tentar e falhar.

- Talvez - observou Samuels pensativamente -, talvez haja. De qualquer modo, nesta altura da minha vida, eu tenho dois sonhos que são, para mim, mais importantes do que tudo o resto. Ambos envolvem o meu filho e, consequentemente, também a envolvem a você.

- Continue.

- Kate, eu quero um neto, mais do que um, espero eu, e quero que o meu filho sirva o nosso Congresso. São esses os meus mais profundos desejos e estou pronto a fazer tudo o que estiver ao meu alcance para torná-los realidade.

- Por quê? - perguntou Kate.

- Por quê?

- Sim. Eu compreendo o desejo de ter um neto. Continuação da família, estabilidade na vida pessoal do Jared, novo sangue e nova energia, esse tipo de coisas, mas porquê o outro sonho?

- Porque acredito que o Jared seria útil a si mesmo, ao Estado e ao país.

- Eu também.

- E acho que seria uma experiência gratificante para ele. Talvez.

Samuels hesitou antes de acrescentar:

- E, por fim, porque é um objetivo que eu próprio tinha, mas nunca consegui alcançar. Acha horrível eu desejar que o meu filho faça o que eu não consegui fazer?

- Não - respondeu Kate. - Desde que seja uma coisa que o Jared também deseje, por razões independentes das suas.

- A ocasião exata da vida em que um pai deixa de saber o que é bom para o seu filho é seguramente discutível, não concorda?

- Win, o que você deseja para o Jared, o que deseja para mim também, há sempre de contar. Mas a parte mais difícil de amar uma pessoa é deixá-la descobrir por si própria o que é melhor para ela, especialmente quando nós já sabemos o que é, ou quando pensamos que sabemos.

- E acha que estou forçando o Jared?

- Você tem uma enorme influência sobre ele - respondeu. - Acho que isso não é segredo para ninguém.

Samuels, com um ar pensativo, anuiu com a cabeça.

- Kate - pediu por fim -, perdoe este velho e deixe-me mudar um pouco de assunto, está bem?

Velho... “Vai enganar outro, advogado”, teve vontade de interromper. Em vez disso, ajeitou-se mais para frente, sorriu e disse com simplicidade:

- Claro.

- Porque quer ser chefe de patologia no hospital?

Kate enfrentou o olhar fixo de Samuels com frontalidade e, silenciosamente, deu graças às horas que havia passado respondendo a essa pergunta para si mesma.

- Porque seria uma experiência fascinante. Porque penso que posso fazer um bom trabalho. Porque o meu trabalho e o meu departamento significam muito para mim. Porque penso que uma pessoa ou cresce ou morre.

- Jared me informou que, no caso de aceitar, isso iria adiar, pelo menos por dois anos, a possibilidade de terem filhos.

- Na verdade, eu falei de um ou dois anos, mas dois anos parece-me uma hipótese razoável.

Samuels levantou-se devagar, caminhou até à janela e depois outra vez em direção à lareira. Kate reconheceu que, se aquele movimento significava a introdução a qualquer discurso dramático, estava com efeito fazendo um excelente trabalho.

- Kate - prosseguiu, continuando a olhar fixamente para a lareira -, quando lhe telefonei, convidei-a para passar a noite aqui, se lhe fosse possível. Pode ficar?

- Tinha planejado ficar, sim. - Na verdade, o convite fora apresentado de tal forma que teria sido quase impossível recusar.

- Ainda bem. Gostaria de dar uma volta de carro com você depois do jantar. Uma volta e uma visita. Eu... eu sei que isto pode parecer um pouco misterioso, mas por hora vai ter de me desculpar. É uma coisa que nunca pensei vir a fazer.

Havia uma rouquidão, uma emoção na voz do homem que Kate até então nunca ouvira. Estaria ele quase chorando? Durante meio minuto reinou o silêncio, apenas interrompido pelo baixo sibilar do fogo. Quando por fim o sogro se voltou para ela, já havia recuperado toda a compostura.

- Kate - prosseguiu, como se aquele momento à lareira nunca tivesse acontecido -, sente-se preparada para assumir as responsabilidades de um departamento inteiro?

Ela pensou por um momento.

- Isto pode parecer estranho, mas de certa maneira a minha opinião não interessa. Sabe, o doutor Willoughby, a única pessoa que conhece as duas coisas, eu e o trabalho, acha que sou capaz. E como quando nos tornamos médicos ou, no seu caso, advogado. Nós apenas decidimos que queremos fazer determinada coisa. Cabe a eles, os examinadores médicos, decidir se nós podemos ou se devemos fazer. A partir desse momento a nossa única obrigação é dar o nosso melhor. - Fez uma pausa. - Acha que isto parece presunção?

- Não por isso.

- Eu espero que não, Win. Porque, na verdade, tenho imenso medo de uma série de coisas. Tenho medo de aceitar a promoção e tenho medo de não a aceitar. Tenho medo de ter filhos e tenho medo de não os ter. E acima de tudo, tenho medo de precisar enfrentar o dilema de ou perder o meu marido ou de perder a mim mesma.

- Há outras possibilidades - notou Samuels.

- Eu sei disso, mas não tenho certeza de que Jared saiba e, para ser franca, também não tinha certeza acerca de você.

- Há sempre outras possibilidades - repetiu com uma entoação que dava a entender que sublinhava o fato de já ter dito aquilo anteriormente. - Kate, sabe que a política nos hospitais não é muito diferente dos outros tipos de política. Há poder envolvido, há dinheiro envolvido e isso tudo significa que há folhetos como este envolvidos.

Tirou um vistoso papel cor de laranja da gaveta da sua mesa e ergueu-o para que ela o visse. Kate estremeceu ao dar de caras com aquele papel.

- Acha que esta brilhante tentativa foi para atingir o Jared ou a mim? - perguntou ela.

- A verdade é que é indiferente. Política é política. A partir do momento em que se entra no jogo, ganham-se inimigos. Se, por acaso, eles jogarem melhor que nós, somos literalmente enterrados. É tão simples como isso. - Ergueu de novo o folheto. - O que toda esta história está me parecendo, partindo, como é óbvio, do princípio de que não mandou a autópsia do Bobby Geary para os jornais, é que há alguém que está determinado a fazer com que não fique à frente do departamento. Se eles tiverem qualquer tipo de poder, ou acesso a ele, o seu departamento pode sofrer consideravelmente.

- O meu departamento?

- Claro. A sua gente fica com excesso de trabalho por causa das reduções de pessoal e do equipamento desatualizado. O transtorno é grande, o moral é baixo. A qualidade do trabalho desce. Mais cedo ou mais tarde comete-se um erro. Pode ser a melhor patologista no mundo, Kate, e a administradora mais bem intencionada, mas se não entrar no jogo da política e ganhar à concorrência, quando lida com gente como a Fundação Ashburton, vai acabar sentindo-se falhada, infeliz, oprimida e insatisfeita. E, vá por mim, ganhar o jogo implica muitos sacrifícios. Significa, por exemplo, que, se a concorrência acorda às seis da manhã, é melhor que esteja pronta para sair de casa às cinco e meia.

- Agradeço os seus conselhos - declarou. - Sério, A única coisa que posso dizer é que a decisão final ainda não foi tomada e que contava resolver tudo isto com o Jared.

- Mas já permitiu que sugerissem o seu nome.

- Sim - anuiu, desviando pela primeira vez o olhar -, sim, permiti. - Samuels virou-se de costas, caminhando de novo até à janela. Por um tempo, só o fogo existia. - Diga-me, Win - interveio, pretendendo desta forma mudar um pouco o tópico da conversa -, o que sabe sobre a Fundação Ashburton?

Ele voltou-se para ela.

- Não sei absolutamente nada. Nos primeiros tempos, a minha firma tratou de parte da correspondência deles com o hospital. Mas já não trabalho com eles há anos. Porquê?

- É só uma investigação que estou fazendo no trabalho. Nada de especial. Por acaso não tem o endereço deles?

- Não sei - respondeu Samuels, de modo distraído. - Talvez no Rolodez ali, sobre a minha mesa. Não faço idéia. Kate, sabe que faz mais parte do meu estilo tentar convencer com argumentos racionais do que pedir ou implorar. Mas, em nome do meu filho e no meu próprio, e no fundo também por você, peço que abdique desse cargo e se dedique à família, por uns anos, e a ajudar o Jared a abrir as portas para uma carreira política.

Nesse instante, soou uma campainha na cozinha. Kate olhou instintivamente para o relógio, contudo, já sabia que eram sete horas em ponto. Levantou-se.

- Quando é que Jared deve chegar? - perguntou.

- Quarta ou quinta, acho eu.

- Win, eu não tenho resposta para o que me pediu, sabe disso, não sabe?

- Talvez já o sabia muito antes do que você. Vamos comer. Depois da nossa refeição temos de fazer uma pequena viagem.

Com um sorriso tênue, Samuels acenou com a cabeça em direção à sala de jantar, pegando em seguida no braço de Kate e conduzindo-a até lá.

 

A enfermeira, uma mulher de ombros quadrados e, no mínimo, com mais quinze quilos de peso do que o normal, passou álcool nas costas da mão esquerda de Ellen Sandler, deu uma dúzia de palmadinhas e depois voltou a esfregá-la.

- Vamos, Ellen - pediu, em um tom submisso e condescendente que Ellen veio a denominar de hospitalês -, tem de relaxar. As suas veias estão contraídas. Se não se acalmar, vou levar a noite toda até conseguir enfiar esta agulha intravenosa.

“Relaxar?” Ellen olhou, enraivecida, para a mulher que estava curvada sobre a sua mão. “Não vê que estou assustada? Não vê que estou com medo de perder o juízo por causa disto tudo? Pare um minuto, só um minuto e fale comigo. Pergunte-me e eu tentarei explicar-lhe. Eu digo-lhe o que é ter-se sete anos e perceber que o pai, que havia ido para o hospital para uma pequena operação, fora levado para uma casa mortuária em uma caixa comprida com pegas. Relaxar? Porque não me pede para eu levitar? Ou melhor ainda, exija que eu faça com que o sangue no meu corpo comece a coagular, assim se livraria da inconveniência de ter de espetar essa agulha nas costas da minha mão. Relaxar?”

- Eu... eu estou tentando - confessou humildemente.

- Ótimo. Agora vai sentir uma leve picada.

Ellen agarrou-se à borda da cama com a mão que permanecia livre, enquanto a enervante dor da “pequena picada” lhe subia pelo braço.

- Pronto - proferiu a enfermeira com satisfação. - Agora não se mexa. Não se mexa até eu ter posto o adesivo, está bem? Sabe - continuou enquanto ajeitava o cateter no seu lugar -, há muito tempo que não via veias tão duras como as suas.

Ellen não respondeu. Em vez disso, começou a olhar fixamente para o teto, provando o sal das lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e entravam nos cantos da boca, enquanto perguntava a si própria como é que toda aquela experiência acabaria. Aparentemente, começara a aparecer sangue nas fezes. O tubo intravenoso era, de acordo com o assistente que a avisara da sua aplicação, uma medida preventiva. Porém, não lhe explicara em relação ao que é que prevenia.

- Okay, Ellen, está tudo pronto - anunciou a enfermeira, recuando para admirar o seu trabalho. - Agora não use muito essa mão, está bem?

Ellen limpou as lágrimas do rosto com as costas da mão direita.

- Claro - respondeu.

A mulher fez um sorriso desconfortável e retirou-se do quarto.

“Não é justo.” Com algum nojo, Ellen ficou observando a forma como o soro fisiológico corria para a mão. Depois apagou a luz por cima da cabeça e deixou-se ficar na semiescuridão, ouvindo o seu próprio respirar e os sons, que ainda lhe eram estranhos, do hospital à noite. “Não é justo.” Este protesto impotente repetia-se vezes sem conta na sua cabeça até que não conseguiu evitar o riso.

Betsy, Eve, Darcy, Sandy, o trabalho, a sua saúde. Porque nunca havia avaliado a fragilidade de tudo isso? Será que concebera tudo como dados adquiridos? Teria colocado poucas questões? Porra, também, de qualquer maneira, não havia respostas. O que poderia fazer? O que poderia alguém fazer? Ali estava ela, perto dos quarenta anos, deitada em uma cama de hospital, quem sabe sangrando até à morte, sem nunca ter sabido realmente porque estivera viva, quanto mais por que razão fora escolhida para morrer. Não era justo.

Uma pancada suave na porta interrompeu o seu doloroso devaneio. Reconheceu a silhueta recortada pela luz vinda do corredor: era Sandy. Segurava o chapéu da farda em uma mão e na outra tinha um enorme ramo de flores.

- Peço permissão para embarcar - pediu.

Ellen conseguia sentir, mais do que ver ou ouvir, o embaraço dele.

- Entre - respondeu.

- Quer que acenda a luz?

- Não se incomode. Pensando bem, quero. Gostaria de ver as flores.

Sandy acendeu a luz e levou-as até ela. Depois curvou-se e deu-lhe um beijo na testa. Ellen ficou por um instante totalmente contraída, relaxando logo depois devido à carícia delicada.

- Como se sente? - perguntou ele.

- A que nível?

- Em todos.

- As flores são lindas. Obrigada. Se as puser ali no lavatório, peço à enfermeira para trazer mais tarde uma jarra onde as colocar.

- Não se sente lá muito bem. - Fez o que ela lhe pediu, depois puxou uma cadeira verde de plástico e sentou-se junto à cama.

Ellen apagou a luz.

- O uniforme te veste bem. Já foi para casa?

- Fui só deixar as minhas coisas e ver as meninas.

- Como achas que elas estão?

- Preocupadas, confusas, talvez um pouquinho assustadas, mas estão bem. Acho que a sua irmã fez bem em trazê-las aqui ontem para te ver. Vou ficar lá em casa até você se sentir melhor.

- Talvez tenha de ficar lá por muito tempo.

- Isso está assim tão mau?...

- Kate diz que não, mas os olhos dela e agora isto - levantou a mão esquerda - dizem outra coisa.

- Mas ninguém sabe ao certo, não é?

-Não. Não, acho que não.

- Bem, então, vai ter de viver um dia, uma hora ou, se necessário, um minuto de cada vez e acreditar que tudo vai acabar bem. Tirei uma licença sem vencimento da companhia para ficar com as meninas, por isso, não tem nada com que se preocupar a esse respeito. Vou ver se consigo que elas venham aqui todos os dias.

- Obrigada. Eu... eu agradeço por ter vindo.

- Besteira. Temos passado por muito nestes dezenove anos. Também havemos de sobreviver a isto.

Brandamente, Ellen começou a chorar.

- Sandy, sinto-me tão imbecil, tão estúpida. Eu sei que é uma idiotice, mas é como eu me sinto. Não me sinto zangada, nem sequer doente, só impotente e desajeitada.

- Olha, não é nem uma coisa nem outra e ninguém sabe isso melhor do que eu. Bem, já é a segunda vez, desde que aqui cheguei, que te vejo bocejar. Está cansada ou apenas aborrecida?

Ela esboçou um sorriso fraco.

- Não estou aborrecida. Talvez um pouco cansada, acho eu. Ficar deitada todo o dia, sem fazer nada, acaba por ser cansativo.

- Então que tal esquecer de mim e tentar adormecer?... Se não se importar, eu fico aqui mais um pouco.

- Obrigada, Sandy.

- Vai correr tudo bem, sabe disso, não sabe?

- Sei.

Pegou na mão dela.

- Kate está tomando conta de você, não está?

- Vem aqui duas vezes por dia e está fazendo tudo o que pode para descobrir a razão por que estou sangrando. - A sua voz desvaneceu-se. Os olhos fecharam-se devagar. - Não tenha medo.

- Eu não tenho - respondeu Sandy. - Não tenho medo... Vai correr tudo bem.

 

A viagem no Seville cinzento de Win Samuels prolongou-se por quase uma hora, ao longo de estradas secundárias mal iluminadas que os levavam na direção sul e este da cidade. Fizeram toda a viagem praticamente em silêncio. Samuels parecia necessitar de total concentração para ultrapassar as curvas apertadas e Kate olhava pela janela para os escuros descampados e para os bosques ainda mais escuros, ora questionando-se sobre o objetivo daquela viagem, ora permitindo que os pensamentos perambulassem pelo cérebro sem qualquer sucessão lógica. Jared... Stan Willoughby... Bobby Geary... Roscoe... Ellen.,. Tom... até Rosa Beekes, a diretora da escola primária - cada um aparecia e desaparecia rapidamente para depressa ser substituído pela imagem do próximo.

- Já chegamos - anunciou por fim Samuels, virando para uma estrada de cascalho.

- Escola Stonefield. - Kate leu o nome em uma placa discreta, iluminada só pelos faróis do carro. - Que cidade é esta?

- Não é bem uma cidade. Nós estamos tanto no Sul de Massachusetts como no Noroeste de Rhode Island, depende da perspectiva. A escola encontra-se aqui há quase cinquenta anos, mas foi reconstruída há cerca de vinte e cinco, com o dinheiro de um fundo que a minha firma estabeleceu.

A escola era um edifício baixo e simples, feito de tijolo. Ao lado, via-se um relvado bem cuidado e um recreio circundado por uma cerca. No outro, havia uma ala revestida de tijolo vermelho sem mais adornos, que se estendia em direção aos bosques. Entraram no corredor pouco mobiliado e encontraram logo uma mulher forte e maternal, que usava uma saia azul escura, um blusão banal e um número excessivo de pulseiras de ouro.

- Mister Samuels - cumprimentou -, é um prazer vê-lo de novo. Obrigada por ter telefonado antes. - Virou-se para Kate. - Doutora Bennett, eu sou Sally Bicknell, chefe do turno da noite. Bem-vinda a Stonefield.

- Obrigada - agradeceu Kate com a incerteza estampada no rosto. - Não sei bem onde estou ou porque estou aqui, mas obrigada da mesma forma.

Sally Bicknell sorriu compreensivamente, pegou no braço de Kate e levou-a pelo corredor até uma grande cortina de veludo azul.

- Isto é a nossa sala de recreio - indicou, abrindo as cortinas com algum gosto para revelar um vidro escuro, espelhado de um lado só. Para lá do vidro, via-se uma sala grande, bem iluminada e com uma alcatifa cobrindo todo o chão. Lá dentro, encontravam-se dois colchões pneumáticos, alguns bonecos de plástico para esmurrar e um monte de blocos de construção. em um dos cantos, de costas para eles, estava uma garota encorpada, de cabelo ruivo quase rapado, curvada sobre uma fila de grandes bonecas de trapo.

- Ela nunca vai para a cama antes das duas ou das três da manhã - explicou Sally Bicknell.

- Kate - chamou Samuels. - Eu a trouxe aqui porque pensei que isto talvez a ajudasse a compreender a minha urgência no que diz respeito à Kate se dedicar à... à maternidade... dar início a uma família. Senhora Bicknell, por favor.

A chefe do turno da noite deu três pancadas fortes e secas no vidro, depois logo mais três. A menina que estava na sala inclinou a cabeça para um lado e depois virou-se lentamente.

- Kate, apresento-lhe a sua cunhada, Lindsey.

A garota era fisicamente um monstro. Os olhos tortos e descaídos, os contornos do rosto pesados e grosseiros, de lábios grossos e dentes tortos e amarelos. O curto pescoço forçava a cabeça para a direita em um ângulo esquisito. O peito redondo e grande fundia-se com o abdômen, as pernas eram impressionantemente arqueadas.

- Não pode ser - balbuciou Kate suavemente, com a sua atenção presa naquela imagem grotesca. - A irmã do Jared... -... morreu quando era criança.

Samuels acabou a frase por ela.

- Eu e a mãe dele preferimos nunca lhe contar a verdade. Na época, pareceu-nos a melhor opção, tendo em conta que nos garantiram que ela só iria viver alguns anos. Ela tem a síndrome de Hunter. Está familiarizada com isso, não está? - Kate acenou afirmativamente. - Profundo atraso mental e mais umas tantas deficiências. A mãe dela, a minha mulher, tinha quase quarenta anos quando deu à luz.

Kate continuou olhando fixamente pelo vidro, enquanto a criança - não, a mulher, pois devia estar nos seus trinta anos - que mais se assemelhava a uma gárgula, errava com dificuldade pela sala. Refletidos no vidro, Kate via os rostos de Sally Bicknell e do sogro, medindo atentamente a sua reação. “Você é que é o monstro, Win Samuels, não esta pobre criatura” gritava em pensamento. “Quem pensa que eu sou?... Pensas que sou um operário em uma linha de montagem?... Pensa... pensa que esta demonstração iria me assustar? Acha que eu não sei nada sobre a amniocentese e diagnóstico e aconselhamento pré-natal? Acha que eu ia pura e simplesmente ignorar a mentira monstruosa que tem contado ao meu marido nos últimos trinta anos? Porquê? Porque me trouxe aqui? Porque não trouxe também o Jared?”

- Leve-me para casa - pediu com delicadeza. - Leve-me para casa agora.

O relógio antigo que se encontrava sobre a enorme mesa de Win Samuels marcava duas e cinquenta. Já haviam decorrido duas horas desde que Kate desistira de tentar adormecer e entrara no escritório à procura de uma leitura suficientemente absorvente que lhe permitisse fechar as portas aos malditos pensamentos relacionados com o que se passara naquela noite. Havia algo de errado. Alguma coisa que não encaixava bem no meio daquela história bizarra à qual o seu sogro a submetera. Mas o quê?

Na viagem de volta, com calma, Samuels a tinha confrontado com estatísticas relativas à idade da mãe com a infertilidade, morte fetal, anomalias cromossomáticas, mutações genéticas, abortos espontâneos e atraso mental. O trabalho de casa fora bem feito, aparentemente ao longo de muitos anos. Os poucos argumentos que ela havia apresentado sobre a precisão do diagnóstico infra-uterino foram contrariados com mais dados de estatística. Mesmo assim, nada do que ele dissera conseguia dissipar aquela sensação de que alguma coisa estava errada. A certa altura, durante aquela dissertação - porque foi isso mesmo que acontecera, uma dissertação -, ela esteve perto de desabafar que aquela discussão toda era simplesmente capaz de redundar em um exercício fútil, porque um erro de produção nos Produtos Farmacêuticos Redding já lhe podia ter impossibilitado a oportunidade de chegar aos quarenta, quanto mais a capacidade de procriar.

Vinda da direção do quarto de Samuels, no segundo andar, ouviu uma porta abrindo-se e depois fechar-se devagarzinho. Uns segundos mais tarde, ouviu o mesmo barulho proveniente de um local perto do vestíbulo. Jocelyn Trent regressara ao seu quarto.

O escritório, agora sem fogo, estava frio e úmido. Kate estremeceu e aconchegou ao corpo o roupão que Jocelyn lhe emprestara. Era cerca de meia-noite em San Diego. Pensou que Jared não se importaria de receber um telefonema, porém, rapidamente percebeu que esquecera de perguntar a Win em que hotel ele se encontrava hospedado. Ao tirar um papel e uma caneta para escrever um bilhete para se lembrar de fazer essa pergunta na manhã seguinte, Kate reparou no arquivo Rolodex de Samuels. Abriu-o na letra «A». Confirmava que ele estava certo quando mencionara ter um cartão da Fundação Ashburton. Lá podia-se ler um endereço e um número de telefone riscados. em um segundo cartão, aparentemente mais recente, via-se outro endereço e outro número de telefone.

Kate copiou o novo endereço e acrescentou uma indicação para se lembrar de perguntar o nome do hotel de Jared. Olhou para o relógio. Três e quinze. Quantas cirurgias estariam marcadas para o dia seguinte? Cinco? Seis? Muitas. Desesperada por dormir, pegou seu bilhete e em uma antologia de Emily Dickinson e subiu os dois lances de escadas em direção ao seu quarto.

Foram necessários quarenta minutos de leitura para que Kate confiasse suficientemente no peso das suas pálpebras e na sua incapacidade de concentração, levando-a a apagar a luz. A verificação de que o seu estado de sonolência continuava a aumentar trouxe-lhe um sorriso de alívio e de satisfação. Depois, nos últimos momentos de consciência, deparou-se com uma sensação incomoda. Aparecia para em seguida desaparecer, depois voltava a aparecer como a luz fraca de um néon avariado. Não era a viagem à escola, nem sequer a moça. Não, era o endereço – o endereço da Fundação Ashburton, não o novo endereço de Washington, mas a que estava riscada. Em cada flash, o néon começou a ficar mais fraco e os pensamentos menos definidos. “Há qualquer coisa”, pensou já no momento de total escuridão, “qualquer coisa de especial sobre Darlington, Kentucky. Qualquer coisa.”

 

                           TERÇA-FEIRA, 18 DE DEZEMBRO

Sem fazer qualquer ruído, Kate destrancou a pesada porta de carvalho da entrada de casa do sogro e deixou-se invadir pela cinzenta luz matinal. As ruas desertas, os passeios e os degraus de pedra estavam cobertos por uma imaculada camada branca. Durante os últimos três dias, uma tempestade de neve assolara os estados centrais, movendo-se inexoravelmente em direção ao Atlântico. Descendo com cuidado o Beacon Hill em direção à Charles Street, Kate dedicou parte do seu tempo pensando se aquela neve em forma de plumas funcionaria talvez como prenúncio dessa tempestade.

Dormira decididamente pouco. Sentia os olhos secos e irritados, as têmporas comprimidas pelas dores provocadas pelo cansaço - uma dor que não sentia de forma tão pertinente desde os dias de estudante ou do internato. Lembrou-se das cirurgias que estavam marcadas para começar às dez horas e que se prolongariam pelo dia fora. Devido às constantes tensões que invadiam a sua vida, oriundas das mais diferentes direções, tal como as lanças afiadas de uma tortura medieval, Kate pôs a hipótese de pedir a um dos seus colegas para substituí-la. “Nem pensar”, decidiu rapidamente. Como as coisas estavam naquele momento, os membros do seu departamento encontravam-se já ultrapassando em larga medida as limitações inerentes ao fato de serem humanos. O insistente pedido de Stan Willoughby de mais um patologista fora recebido sempre com gargalhadas. Não, contavam com ela para se responsabilizar pela sua parte e haveria de conseguir reunir toda a concentração necessária para fazer o trabalho da melhor forma possível.

À medida que abria caminho em direção à praça de táxis perto do White Memorial, Kate deu início ao ritual matutino de enumerar mentalmente os acontecimentos e tarefas desse dia. O táxi encontrava-se a meio caminho do hospital quando deu por terminado o seu ritual e, como sempre fazia nesse momento, revolveu a mala à procura da sua agenda diária, certa de que se esquecera de algo crucial. A agenda não estava muito preenchida, dado que ocupara várias horas apenas com a palavra “cirurgias”. Escrito a lápis na parte de baixo, encontrava-se a única coisa de que não se lembrara: “Copos com Tom.” As três palavras acionaram uma surpreendente diversidade de sentimentos, começando com o impulso instantâneo de telefonar a desmarcar e terminando com a sensação do que seria regressar a uma casa vazia. Por entre estes sentimentos apareciam difusas as imagens da forte presença daquele assistente hospitalar, que se tornara o seu mais caloroso apoio desde os dias difíceis que se haviam seguido à biópsia de Beverly Vitale. Tom Engleson era simultaneamente homem e rapaz, por vezes entusiasta até à exuberância absoluta, no entanto sensível em relação às pessoas, à medicina e, em particular, ao significado que a carreira tinha para Kate. A perspectiva de estarem uma ou duas horas juntos, no canto de um bar escuro e acolhedor, poderia traduzir-se no estímulo que ela necessitava para sobreviver àquele dia.

- Maldito seja, Jared - murmurou, enquanto o táxi se aproximava da calçada junto ao hospital. - Preciso de você.

Começou o dia de forma idêntica à dos últimos dias úteis, com uma visita ao quarto 421 do Edifício Berenson.

Ellen encontrava-se deitada de barriga para cima, de olhos postos na parede. Ao lado da cama, via-se um tabuleiro de fórmica com o café da manhã, em que não tocara. Suspenso de um gancho pregado ao teto, um saco de plástico fazia correr soro fisiológico para o seu braço.

- Olá - cumprimentou Kate.

- Olá - Tinha os olhos sombrios. À pele parecia faltar tanto a cor como a consistência. Equimoses, pequenas e grandes, cobriam ambos os braços. De um dos lados do nariz, via-se um tampão fechando a narina.

Kate colocou a Cosmopolitan e o Globe matutino, que acabara de comprar no quiosque, perto do tabuleiro do café.

- Já vi que puseram uma coisa nova... - Indicou o tubo intravenoso.

- Ontem à noite. Pouco depois de você ter saído.

Kate ergueu o corpo de Ellen até ficar sentada e depois acomodou-se na cama junto aos joelhos da doente.

- Explicaram por quê?

- Limitaram-se a dizer que se tratava de uma medida de precaução.

- Voltou a sangrar?

-Nas fezes e calculo que também na urina.

Retirou o copo de suco de laranja do tabuleiro e inconscientemente começou a dar pequenos goles.

- Daí a razão de terem feito isso - explicou Kate. - Para o caso de precisarem injetar algum contraste radiológico ou de administrar algum sangue. O que você quer saber, El? “Faça-me um sinal. Quer saber tudo sobre hemorragias repentinas e de extrema intensidade? Sobre colapsos circulatórios tão instantâneos e graves que tornam a inserção de uma linha intravenosa de emergência extremamente difícil? Quer conhecer a história da Beverly Vitale?”

- Ouça, Kate, desde que você saiba o que se passa, para mim está bom.

- Ótimo. – “Obrigada, amiga, obrigada por facilitares um pouquinho as coisas.”

- Sandy voltou. Chegou ontem à noite de avião. Mudou-se para casa para tomar conta das meninas.

Kate dirigiu-se até junto de uma jarra de flores à janela.

- São dele?

- São.

- E então?

Ellen encolheu os ombros.

- Não têm qualquer significado. Parece-me que continua de saída.

- Espero que não. E eu... estou?

- Está o quê?

- De saída.

- Por amor de Deus, Ellen Sandler, claro que não.

Ellen pegou na mão de Kate.

- Não deixe que eu morra, Katey, está bem?

- Pode ficar tranqüila - respondeu Kate, lutando com todas as suas forças para não mostrar qualquer sinal de fraqueza à frente da amiga. Silenciosamente, jurou para si própria centrar todos os seus esforços em nome de Ellen, relegando as outras tarefas e pressões da vida para segundo plano. Em algum lugar haveria uma resposta e, desse por onde desse, ela iria encontrá-la.

- Olha, tenho de ir embora me preparar para algumas biópsias. Vou dar uma olhada nas suas análises laboratoriais e passo por aqui à tarde. Okay?

- Okay. - A palavra parecia vazia.

- Quer que te traga alguma coisa?

- A cura?

Kate fez um ligeiro sorriso.

- Está saindo - respondeu.

As flores, dispostas em um recipiente cinzento de metal e rodeadas por um laço vermelho, encontravam-se sobre a sua mesa, quando Kate regressou do Edifício Berenson. Primeiro fora aquele enorme ramalhete de Sandy para Ellen, agora flores de Jared. Os antigos companheiros de quarto de Dartmouth tinham dado a mão à palmatória.

- Sabia que estes rapazes haviam de aprender mais qualquer coisa na escola do que simplesmente mudar um barril de cerveja - disse para si própria, tirando o laço com entusiasmo.

Eram rosas de caule comprido, onze vermelhas e uma amarela - vermelho para amor e amarelo para amizade, como uma vez lhe explicaram. Começou a percorrer o gabinete de um lado para o outro, abrindo e fechando gavetas e armários até encontrar uma jarra pesada, de vidro verde. Só depois de ter arrumado e colocado as rosas no canto da mesa, escolhendo a melhor posição, é que se lembrou do cartão que viera colado ao embrulho. Diria provavelmente algo divertido e carinhoso. Era esse o estilo de Jared, a sua maneira de estar na vida.

“Para uma patologista muito especial, de um admirador não muito secreto, Tom.”

Kate expirou ruidosamente e afundou-se na cadeira, se sentido ao mesmo tempo zangada e um pouco ridícula. Por muito que tentasse, não conseguia afastar a nítida sensação de que Jared a tinha de certa forma abandonado.

“Telefonar ao Tom”, escreveu em um papel, que colou num local de grande visibilidade na parte de cima da sua luminária na mesa. Todavia, sabia por experiência que a colocação de um papel até mesmo em um local a poucos centímetros dos seus olhos oferecia-lhe, no melhor dos casos, apenas cinquenta por cento de chances de se lembrar. Talvez fosse agora a melhor hora para telefonar. Eram quase nove horas. Se Tom não se encontrasse na sala de operações, um bip conseguiria decerto apanhá-lo. As coisas começavam a sair do seu controle e, naquele momento, encontrar-se com Tom para beber um copo parecia tudo menos justo.

Antes que Kate pudesse pegar no telefone, este tocou.

- Olá, daqui Kate Bennett - apresentou-se.

- Doutora Bennett, como está? O meu nome é Arlen Paquette, doutor Arlen Paquette, se tiver em conta um doutoramento em Química. Sou o diretor de segurança dos Produtos Farmacêuticos Redding. Se achar que esta ocasião não é a mais conveniente para si, faça o favor de me dizer. Se não for dessa opinião, gostaria de falar consigo durante alguns minutos em relação ao relatório que o doutor William Zimmermann nos apresentou ontem por telefone.

- Tenho alguns minutos - respondeu Kate, voltando a colar o papel referente a Tom no candeeiro.

- Ótimo. Muito obrigado. Doutora Bennett, dediquei algum tempo obtendo informações junto ao doutor Zimmermann. No entanto, tendo em conta que a maior parte das pesquisas foram feitas pela senhora, espero que possa explicar-me exatamente o que a fez chegar à conclusão de que existia um problema com um dos nossos medicamentos da Redding.

- Terei todo o prazer, doutor Paquette.

Era óbvio, pelas escassas perguntas feitas por Paquette durante o diálogo de três minutos, que a descrição de Zimmermann fora o mais completa possível e que, além disso, o diretor de segurança de produtos estudara razoavelmente bem os dados.

- Então - arriscou o homem depois de ela ter terminado -, a meus olhos, as suas suspeitas iniciais relativas a problemas no Omnicenter foram baseadas em uma coincidência de sintomas em três pacientes das milhares que lá são tratadas. Correto?

- Não exatamente - respondeu Kate, sentindo-se de repente perturbada pelo tom de voz dele.

- Por favor - insistiu Paquette -, agradeceria que me desse atenção durante mais alguns momentos. Então, depois decidiu centrar a sua investigação nos produtos farmacêuticos fornecidos ao Omnicenter pela minha empresa e...

- Doutor Paquette, não me parece justa á sua sugestão de que eu concluí, de uma forma negligente, que o problema é provocado pelas drogas. Mesmo agora ainda não tenho a certeza que seja esse o caso. No entanto, de todos os fatores que verifiquei, técnicas de esterilização, microbiologia, e todos os outros comuns às minhas três pacientes, as vitaminas contaminadas foram a única descoberta fora do comum.

- Ah, sim - interveio Paquette. - As vitaminas. Várias dúzias de amostras analisadas, no entanto só uma continha um analgésico. Correto?

- Doutor Paquette - interrompeu Kate, um pouco zangada -, tenho um dia bastante cheio hoje e penso que já lhe disse tudo o que era necessário. Cada vez mais o senhor parece um advogado... e cada vez menos um homem preocupado em corrigir um problema em um dos produtos da sua empresa. Agora, não sei se o doutor Zimmermann lhe disse ou não, mas sinto que é necessário, se não mesmo urgente, ir até ao fundo desta questão. Acontece que, neste momento, está no hospital uma mulher, que por acaso é uma grande amiga minha, cuja vida corre grandes riscos e, tanto quanto sei, podem existir outras. Dou-lhe mais dois dias para me apresentar uma explicação satisfatória. Se não tiver nenhuma, irei buscar o químico do Laboratório Nacional de Toxicologia, e juntos iremos diretamente à FDA.

- Quando me fala em um químico, suponho que se refere ao doutor Ian Toole?

- Sim, é exatamente a ele que me refiro.

- Bem, doutora, tenho de admitir que estou um pouco confuso. Tenho aqui à minha frente cartas reconhecidas pelo notário, das quais acabei de enviar cópias pelo correio para a senhora e para o doutor Zimmermann... É uma carta de Mister Ian Toole afirmando categoricamente que em nenhuma das investigações feitas em seu nome encontrou alguma vez uma contaminação em qualquer produto fornecido pelo Omnicenter.

- O quê? - A incredulidade de Kate foi quase instantaneamente substituída por um receio mudo. - Isso não é verdade - afirmou com a voz fraca.

- Deseja que leia a carta?

- Foi subornado.

- Como?

- Dei-lhes permissão de relatarem isto à sua empresa em vez de ir diretamente para a FDA, e vocês subornaram o meu químico.

- Doutora Bennett, é meu dever preveni-la em relação a acusações infundadas - declarou Paquette. - A declaração que se encontra à minha frente está, como já lhe disse, reconhecida pelo notário.

- Veremos - respondeu Kate, com a voz enfraquecida. As vitaminas que enviara a Toole eram as únicas que lhe sobravam. Em um beco escuro e recôndido da sua mente, pensou se Paquette teria conhecimento desse fato.

- Gostaria ainda de reafirmar o sincero desejo da minha empresa de corrigir quaisquer deficiências nos seus produtos e de lhe agradecer por nos ter permitido investigar a situação no seu hospital. - A voz de Paquette soava como se estivesse lendo a declaração de um manual.

- Pode pensar que o assunto está encerrado, doutor Paquette - anunciou por fim Kate -, porém, não sabe quem eu sou. Por favor, prepare-se para ter notícias da FDA.

- Cada um sabe do seu trabalho, doutora.

Kate estava mais agitada do que nunca.

- Além disso, espero que tenham pago o suficiente ao Ian Toole, pois o homem vai ser obrigado a visitar uma cama de hospital para ver, em primeira mão, a mulher que ele poderá estar ajudando a matar. - E desligou-lhe o telefone na cara.

 

Sentado na suíte do Ritz, Arlen Paquette pousou o auscultador suavemente. Ainda estava tremendo.

“Não sabe quem eu sou.”

Paquette sorriu com a ironia das palavras de Kate Bennett, colocou algum uísque sobre dois cubos de gelo, bebeu-o de um trago, antes que tivesse tempo de esfriar e pousou o copo sobre as fotografias daquela mulher, cuja fama de incompetente, desequilibrada mental e desonesta ele estava ajudando a estabelecer. Cyrus Redding ordenara que a mulher fosse desacreditada. Desacreditada seria. Kate Bennett dispunha apenas de si própria e de alguns, poucos, aliados vacilantes. Cyrus Redding, por seu lado, tinha um fornecimento ilimitado de Norton Reeses, Winfield Samuels, Ian Tooles e, claro, Arlen Paquettes. Deu uma olhada pelo bloco de notas onde escrevera as palavras que primeiro ensaiara e depois usara ao conversar com a mulher e pensou se teria sido capaz de parecer tão seguro de si em uma confrontação cara a cara. Duvidoso, concluiu. Extremamente duvidoso. A conversa durara apenas alguns minutos e fora ele o possuidor de várias surpresas reservadas. No entanto, ali se encontrava ele, ensopado em suor e ainda tremendo. Preferia de longe doze encontros com Norton Reese em troca daquele único telefonema que acabara de fazer. Água. Era isso, precisava de água. Já chegava de uísque.

Agarrou bruscamente o copo vazio que se encontrava sobre a mesa de café. Por baixo dele, via-se uma fotografia ampliada de Kate Bennett, em que ela surgia enfiada dentro de um agasalho de treino, de cachecol e boné, fazendo jogging com o cão ao longo de uma estrada sulcada de neve. Paquette voltou-se e, em passo desengonçado, abriu caminho até o banheiro.

- Cabrão - disse para o rosto macilento que o olhava do espelho. - Seu cabrãozinho de merda.

Lançou o copo com toda a força de encontro ao espelho. Depois, deixou-se cair sobre os joelhos entre os cacos de vidro e, agarrando-se ao elegante sanitário, puxou o vômito até sentir as entranhas dividirem-se ao meio.

 

- Não está compreendendo, Bill? Alguém dos Produtos Farmacêuticos Redding, talvez este... este Paquette, subornou Ian Toole. Merda, sabia que não devia ter confiado neles. Eu sabia. Eu sabia.

Kate, ainda sem fôlego devido à corrida que fizera para atravessar a rua coberta de neve, acrescida dos três lanços de escadas, gritava consigo própria para se acalmar.

William Zimmermann, tão descontraído como Kate estava agitada, ergueu-se por trás da secretária e atravessou o gabinete até à máquina de café automática, que se situava em uma mesa baixa junto à porta de entrada. A bata branca, que lhe chegava até o joelho, encontrava-se impecavelmente passada a ferro e sem qualquer nódoa, o seu comportamento tão imaculado como a indumentária.

- E que tal se respirasse fundo e bebesse um café?

- Um café parece-me a última coisa de que preciso no estado em que estou, mas obrigada. Vou antes tentar respirar fundo. Férias! Consegue acreditar nisto? Em um dia o homem está junto ao seu pequeno espectrofotômetro fazendo análises, no dia seguinte partiu para férias e ninguém sabe quando voltará. Pois bem, se isto não é um suborno, não faço a mínima idéia do que será. Agora só falta mesmo o nome do Ian Toole estar pespegado na porta de um qualquer laboratório dos Produtos Farmacêuticos Redding.

- Tente respirar fundo? - repetiu Zimmermann, regressando à sua mesa.

- Ah, sim, desculpe, Bill. Mas não acha que a culpa é minha, não é?

- Não, não acho que a culpa seja sua. - Fez uma pausa, nitidamente à procura de palavras.

- Kate - proferiu por fim -, desejo ser o mais delicado possível na pergunta que vou fazer e, se não for, peço que me perdoe...

- Diga lá.

- Pois bem, como puxou o assunto no outro dia ao jantar, sinto que devo perguntar. A que ponto chega a sua aversão à indústria farmacêutica?

A pergunta inquietou-a. Depois compreendeu.

- O que está dizendo é que, sem Ian Toole, tudo se resume à minha palavra contra a deles. É isso?

- Se estiver indo longe demais, Kate, peço-lhe sinceramente desculpas. Mas lembre-se que temos muita coisa em jogo, para mim e para a minha clínica e, pelo que sei, todo este assunto desenrolou-se entre você e o Mister Toole. Quer dizer, eu enviei-lhes o relatório porque tudo se passou nas nossas instalações, mas os dados são estritamente...

- Espere - interrompeu, excitada, Kate -, existe outra pessoa. Acabei de me lembrar.

- Quem?

- O nome dela é Millicent. É a assistente do Toole e lembro-me de ele ter dito que ela ficara furiosa por ter de trabalhar até tarde nas coisas que eu lhe enviei.

- Sabe o sobrenome dela?

- Não, mas quantas Millicents poderão existir no Laboratório Nacional de Toxicologia? - inquiriu, ao mesmo tempo em que pegava sua agenda e o telefone. - Você não sabe quem eu sou, doutor Paquette - murmurou à medida que discava. - Não, não faz mesmo a mínima idéia de quem eu sou.

O telefonema não durou mais do que um minuto.

- Millicent Hall não está a serviço do laboratório - afirmou Kate, enquanto desligava. Na sua expressão facial e no tom de voz, observava-se uma mistura simultânea de vergonha, tristeza e raiva. - Não me deram mais nenhuma informação.

Desta vez foi Zimmermann quem respirou profundamente.

- Primeiro o jogador de basebol, agora isto - afirmou. - Realmente as coisas não andam nada fáceis para você.

Kate semicerrou os olhos. Uma sensação de vazio começou a invadir-lhe a alma.

- Está tendo algumas dificuldades em acreditar em mim, não está?

Os olhares de ambos cruzaram-se, e Zimmermann não hesitou.

- Kate, a única coisa que posso dizer-lhe, com toda a honestidade, é que, neste momento, acredito que você acredita. - Reparou que ela ia começar a protestar e ergueu as mãos. - E, neste momento - acrescentou para a tranqüilizar -, isso basta. Há muitas coisas em jogo para que eu me arrisque a dar um passo em falso. Vou aguardar a resposta formal da Redding ao meu relatório, mantendo ao mesmo tempo a minha farmácia de sobreaviso. Nada de produtos da Redding até lá. Todavia, se não surgirem mais casos ou desenvolvimentos dentro de... vamos lá, uma semana, tenciono restabelecer o nosso sistema automático.

- Com os produtos da Redding?

- Temos um contrato.

- Mas eles...

- Fatos, Kate. Precisamos de fatos substanciais.

Kate suspirou e voltou a afundar-se na cadeira, derrotada. Já eram quase dez horas e ainda nada fizera no sentido de preparar as cirurgias do dia.

- Já começou a trabalhar naquela lista de pacientes que estarão de acordo em me dar autorização para analisar a sua medicação?

Zimmermann sorriu pacientemente.

- Consegue compreender que isso pode ser um pouco complicado de explicar a uma paciente, não acha? - Estendeu-lhe uma lista reduzida e cinco cartões de medicação do Omnicenter. - Estes pertencem a algumas antigas paciente minhas, que concordaram com as análises, em parte porque lhes disse que era uma verificação rotineira de controle de qualidade.

- E é - proferiu Kate. - Obrigada, Bill. Sei que isto não é nada fácil para você e estou verdadeiramente agradecida.

- Hoje vou tentar arranjar-lhe mais algumas.

- Obrigada. Está sendo mais do que justo. Estou certa de que tenho razão e, mais cedo ou mais tarde, vou conseguir prová-lo.

Levantou-se e fez menção de sair.

- Sabe - explicou Zimmermann -, mesmo que descubra um erro de fabricação da Redding, não existe qualquer possibilidade de relacioná-lo com os três casos.

Os rostos das três mulheres - duas mortas e o da amiga - invadiram de súbito os pensamentos de Kate.

- Eu sei - afirmou soturnamente. - Mas neste momento é tudo o que eu... o que nós temos. É verdade, antes que me esqueça. Tem as faturas que lhe pedi referentes às aquisições dos produtos da Redding?

Zimmermann abriu o arquivo.

- É Carl Horner quem geralmente trata dos pedidos. Ele me deu isto e me pediu que lhe transmitisse o seu desejo de cooperar na medida do possível. Pediu ainda que devolvesse estas faturas quando não precisar mais delas.

- Claro - respondeu Kate, observando a pilha amontoada de cópias de recibos. “Produtos Farmacêuticos Redding, Lda., Darlington, Kentucky.”. As palavras crepitaram e faiscaram no seu cérebro. E de repente explodiram.

- Kate, você está bem? - perguntou Zimmermann.

- Hum? Ah, sim, estou ótima. Bill, anda acontecendo aqui qualquer coisa de muito estranho. Mas, muito estranho mesmo. Zimmermann olhou de forma enigmática para a mulher. - Não sei exatamente há quanto tempo se mudaram, mas estou certa de que em tempos a Fundação Ashburton se situava em Darlington, Kentucky.

- Como sabe?

- Encontrei o antigo endereço deles na agenda do meu sogro.

- E então?

Kate ergueu um recibo até ao nível dos olhos para que Zimmermann pudesse ver.

- Darlington! É aí que fica o quartel-general dos Produtos Farmacêuticos Redding.

Pela primeira vez, William Zimmermann pareceu ficar perturbado.

- Continuo a não entender onde quer chegar.

Kate notou a irritação na voz do homem e, recordando a referência dúbia que fizera à carta de Bobby Geary, acautelou-se para prosseguir com calma. Os seus auxiliares, mesmo os mais céticos, eram poucos e bastante afastados uns dos outros.

- Acho... acho que me precipitei um pouco - proferiu com uma timidez que na verdade não sentia. - Com a história da Ellen no meio disto tudo, sinto-me um pouco às apalpadelas. - Olhou de soslaio para o relógio. - Olhe, tenho de ir andando para a sala de operações. Obrigada por ter me arranjado as faturas. Se conseguir recolher alguns fatos - corrigiu-se, erguendo o dedo -, aliás, fatos substanciais, lhe aviso.

- Ótimo - respondeu Zimmermann. - Se houver mais alguma forma de eu ajudar, avise-me.

Kate apressou-se a sair do edifício e a atravessar a rua, sem se importar com o vento ou a neve.

Ashburton e Redding - primeiro ambos em Darlington, agora ambos no Omnicenter, Uma coincidência? Pouco provável, pensou. Muito pouco provável mesmo. O relógio da entrada marcava dois minutos para as dez quando passou a correr em direção à área cirúrgica e ao pequeno laboratório de fragmentos congelados. A sala estava escura. Colado à porta, via-se um papel cuidadosamente impresso.

 

                 CRIOSTATO DA SALA DE OPERAÇÕES AVARIADO

                 TRAZER AS PEÇAS DAS BIOPSIAS

                 PARA O CRIOSTATO DO DEPARTAMENTO

                 DE PATOLOGIA PARA PROCESSAR

 

- Dez segundos para a ignição. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Ignição. - Tom Engleson acendeu o fósforo na extremidade do tabuleiro de ferro, usando-o para pegar fogo à pequena colina de gelado de baunilha francês, ensopada de brande. - Voilà! - gritou.

- Bravo! - aplaudiu Kate.

Tom serviu dois pratos de sobremesa e colocou com toda a elegância o de Kate à sua frente.

A noite fora tranqüila e aprazível: bebidas no Bar Hole in the Wall, jantar no Moon Villa, em Chinatown e, por fim, sobremesa na casa de Tom, vinte andares acima do porto de Boston. Esquecera-se completamente de desmarcar o encontro e, pela primeira vez, a sua falta de memória resultara em uma vantagem. Bastou vinte minutos de conversa trocada no Hole in the Wall para Kate desistir de tentar descobrir o que desejava daquela noite e daquele homem, resolvendo antes descontrair-se e fazer o possível para se divertir. Todavia, tinha consciência de que os pensamentos relacionados com Jared não estavam muito longe do seu cérebro, como ainda outros relativos aos Produtos Farmacêuticos Redding e à Fundação Ashburton.

- Okay - afirmou Tom, à medida que servia duas xícaras de café e se sentava na cadeira junto a Kate -, agora que o meu cérebro já saciou a sua necessidade de beber, comer e esse tipo de coisas, acho que já está preparado para compreender. A Fundação Ashburton não existe?

- Não, existe qualquer coisa chamada Fundação Ashburton, mas não tenho bem certeza se não é apenas um lugar de lavagem de dinheiro.

- Dinheiro de empresas farmacêuticas.

-Exato. Liguei para o número que tirei da agenda do meu sogro e falei com uma espécie de recepcionista. Ela remeteu todas as perguntas, mesmo a que dizia respeito à rua onde se situava a Fundação em Washington, para alguém chamado doutor Thompson, pelo visto o diretor da tal fundação.

- Mas o doutor Thompson não estava no escritório e nem retribuiu o seu telefonema.

- Exatamente. Tentei ligar de novo à recepcionista, porém desta vez ela informou-me de que o Thompson estaria fora todo o dia e entraria em contato comigo na manhã seguinte. Foi muito esquisito, acredite. A mulher, que a princípio deve estar trabalhando para esta fundação, não fazia a mais vaga idéia de como lidar com o meu telefonema.

- Falou com o Reese acerca disso?

- Quando lhe telefonei, ele já tinha saído. Mas amanhã, depois de visitar a Ellen, pretendo acampar junto à porta dele.

- Mas porquê? O que têm os Produtos Farmacêuticos Redding a ganhar com a introdução de todo este dinheiro no hospital?

Kate encolheu os ombros.

- Isso, meu caro Thomas, é a pergunta do ano. Neste exato momento, toda a intuição feminina que percorre o meu corpo grita em alto e bom som que a ligação tem qualquer coisa a ver com as vitaminas contaminadas que o nosso amigo doutor Paquette tentou tão arduamente encobrir.

- Incrível.

- Incrível, talvez. E impossível? - Retirou da mala uma cópia dobrada de um artigo e passou-o a Tom. - Encontrei ontem isto durante uma das minhas inúmeras sessões na biblioteca. Faz parte de um livro inteiro relacionado com uma droga chamada MER129, originariamente desenvolvida e comercializada pelos Produtos Farmacêuticos Merrell.

- É uma empresa grande - comentou Tom, folheando as páginas.

- Não tão grande como a Redding, mas suficientemente grande. Esta MER129 deveria em princípio baixar o colesterol e, por conseguinte, prevenir as doenças cardíacas. O único problema é que as outras empresas também estavam na corrida para desenvolver produtos idênticos com o mesmo objetivo. O pessoal da Merrell fez uma estimativa de um potencial lucro anual de bilhões, a partir apenas da venda de uma cápsula de vinte centavos a cada pessoa com mais de trinta e cinco anos. No entanto, eles sabiam ainda que a maior parte desse lucro iria para a empresa que fosse a primeira a ter o produto aprovado pela FDA e a lançá-lo no mercado.

- Acho que não vou querer ouvir o resto da história, não é? - perguntou Tom.

- Não, se tiver muita confiança na indústria farmacêutica. Lembre-se de uma coisa: a FDA não avalia produtos, quem o faz são as empresas farmacêuticas. A FDA apenas avalia as avaliações. Na sua urgência de apresentar o MER129 perante o público comprador de produtos farmacêuticos, a Merrell foi atalhando e cortando caminho nas análises laboratoriais e clínicas. Porém, como nenhum dos atalhos ficou suficientemente visível nos relatórios submetidos à FDA, em 1961, o MER129 foi aprovado e lançado no mercado. Dois anos mais tarde, quase por acidente, a FDA descobre o que a empresa havia feito e manda retirar a droga. Nessa altura, muitas pessoas ficaram cegas ou com a pele cheia de lesões terríveis e irreversíveis ou ainda perderam todo o cabelo.

Tom assobiou.

- Crianças sem braços porque as mães tomavam um comprimido para dormir contendo talidomida. Crianças com dentes irrecuperavelmente amarelos porque a tetraciclina foi introduzida no mercado antes que se tivesse conhecimento dos seus efeitos secundários. A lista nunca mais acaba.

- Parece um pouco zangada - proferiu Tom, pegando-lhe na mão e guiando-a até ao sofá do outro lado da sala. - Eles subornaram o meu químico, Tom. Eles me fizeram de idiota ou, pior ainda, por mentirosa. Pode ter certeza de que estou zangada. - Suspirou e reclinou-se para trás, ainda de mão dada. - Desculpe... desculpe ter explodido desta maneira, mas acho que estava precisando.

Tom passou o braço que permanecera livre em torno dos ombros de Kate e aproximou-a dele. Ficaram sentados um ao lado do outro, observando os espessos flocos de neve, fustigados pelo vento, caindo sobre o porto e derretendo-se de encontro à enorme janela.

- Obrigada - sussurrou Kate. - Obrigada pela sua compreensão.

Beijaram-se insistentemente. A blusa dela, depois o soutien, em seguida a camisa de Tom, as peças de roupa foram caindo sobre o tapete, à medida que ele a deitava suavemente sobre o sofá. Os lábios dele, percorrendo devagar o vale do pescoço e a ponta dos seios, possuíam um sabor maravilhoso. A sua mão, carinhosamente acariciando a parte interior das coxas de Kate, era quente, conhecedora e paciente. Ela sentia-se tão assustada e excitada como quando dos seus primeiros encontros amorosos em adolescente. Todavia, apesar de sentir o corpo responder ao ímpeto avassalador, os mamilos tornando-se rijos devido à insistência da língua dele, Kate deu-se conta de que a sua mente começava a retrair-se.

- Kate. Oh, Kate - murmurou Tom, as palavras vibrando suavemente de encontro à pele do peito dela.

- Tom! - A sua voz traduzia um pedido dócil, quase uma súplica.

- Agarre-me, Kate. Por favor, não pare.

Ela segurou o rosto dele com ambas as mãos.

- Tom! - exclamou, tensa. - Eu... eu não posso.

 

Com as emoções rodopiando como a neve sobre a auto-estrada, Kate demorou quase uma hora e meia para dirigir de Boston até Essex. Tom ficara magoado e frustrado com a sua repentina mudança de atitude. Contudo, no final fizera o melhor que lhe fora possível para compreender e aceitar.

- Espero apenas que Jared saiba a sorte que tem - declarara enquanto ela se vestia. Mais tarde, insistira em conduzi-la até ao carro junto do hospital, onde partilharam um beijo quase platônico de despedida.

O telefone estava tocando quando Kate abriu a porta de casa pelo acesso da garagem. Roscoe, que passara a maior parte dos últimos dois dias a dormir com os vizinhos e o seu cão golden retriever, veio correndo desde a entrada, aceitou uma saudação rápida e depois seguiu-a até à sala de estar.

Era Jared.

- Olá - cumprimentou. - Telefonei para casa por volta das três da manhã, mas não encontrei ninguém. Você está bem?

- Estou ótima, Jared. Passei a noite na casa do seu pai. Ele não te contou que tinha me convidado?

- Não. - Era impossível esconder a curiosidade que se sentia na voz de Jared. - Recebeu a minha carta?

Kate vasculhou por entre o monte de contas e jornais para jogar fora que trouxera com ela. A carta de Jared encontrava-se entre a revista Dores e Lesões e Patologistas Hoje.

- Acabei de traze-la para dentro - respondeu. - Se quiser esperar, posso lê-la agora.

- Não é preciso, Kate. Sei-a de cor.

Kate abriu a carta e foi lendo à medida que ele pronunciava cada palavra.

- Diz: “ Te amo, sinto a tua falta e não quero mais viver longe de você. Jared.”

O coração de Kate batia tão velozmente que ela mal conseguia dizer uma palavra.

- Eu também te amo, Jared. Muito, muito, muito. Quando volta para casa?

- Depois de amanhã, exceto se quiser que eu peça carona para casa.

- Quinta-feira está ótimo, amor. Ótimo. Vou buscá-lo no aeroporto.

- Às sete da tarde, no vôo da United.

- Perfeito. Tenho muitas coisas para contar. Talvez possamos dar um passeio pelo campo. Há uma pessoa que gostaria que visitasse.

- Quem?

- Logo verá. Deixemos tudo para quinta-feira, está bem?

- Está bem, mas...

- Te amo.

- Te amo, Boots. As vezes não sei quem diabo você é e que posição tem Jared Samuels na sua lista de prioridades, mas te amo e quero te acompanhar até onde conseguir me agüentar.

- Vai correr tudo bem, querido. Tudo vai ficar bem.

À medida que desligava, Kate percebeu que, pela primeira vez há semanas, ela acreditava nas suas próprias palavras.

 

                             QUARTA-FEIRA, 19 DE DEZEMBRO

Arlen Paquette, exausto e irritado devido às poucas horas dormidas, começou a percorrer a via rápida de três faixas, que conduzia aos Produtos Farmacêuticos Redding. Ao longo da estrada coberta de gelo, encontravam-se vestígios do primeiro nevão de Dezembro em Darlington, o que já não acontecia há onze anos. O regresso a casa na véspera redundara em um completo fiasco, marcado por diversas discussões com os filhos, muitos copos antes, durante e depois do jantar e, por fim, impotência e discórdia na cama - problemas que. ele e a mulher nunca antes haviam enfrentado.

Ajeitou o espelho retrovisor de modo a poder examinar o rosto, retirando em seguida a meia dúzia de restos de lenço de papel que cobriam os cortes da lâmina, provocados pela sua mão insegura. Mesmo sem os pedaços de papel continuava com um aspecto horrível. Era aquele maldito emprego. Aquele trabalho que não lhe permitia demitir-se. Subornos, chantagens, fraudes, ameaças, vidas arruinadas. De um momento para o outro, deixara de ser um químico. De um momento para o outro, deixara até de ser um administrador. Era um militar, um chefe de pelotão no exército de Cyrus Redding: Tratava-se de um exercito de especialistas, cuja união era mantida por coação, chantagem e volumosas quantias de dinheiro, pronto a abater qualquer coisa ou pessoa que ousasse ameaçar Cyrus Redding ou a corporação que ele erguera.

O guarda cumprimentou-o de forma afável e revistou mecanicamente o Mercedes. Uma vez, Paquette perguntara-lhe que espécie de coisa estava ele exatamente à procura. A resposta, apesar de educada, fora desconcertante:

- Qualquer coisa que Mister Redding não deseje que esteja aqui.

Os escritórios administrativos, incluindo o de Cyrus Redding, situavam-se na zona central do círculo formado por seis estruturas baixas e compridas, que constituíam as instalações para o fabrico e empacotamento. As áreas de investigação e os outros laboratórios ocupavam um anexo subterrâneo, ligado à estrutura principal através de túneis, escadarias e passadeiras rolantes. Paquette estacionou no lugar assinalado com o seu nome, passou pelo gabinete para deixar ficar o casaco e depois se encaminhou diretamente para o escritório de Redding. Foi recebido de imediato.

- Arlen, Arlen - cumprimentou Redding calorosamente - bem-vindo de volta a casa.

Encontrava-se sentado na sua cadeira de rodas, por trás da mesa, e vestia a única roupa que Paquette se recordava de lhe ver no trabalho, um terno de tecido leve, azul-acinzentado, camisa branca e um colarinho ao estilo do Sul, como ornamento um anel de turquesa, em forma de pássaro.

- Então... - saudou Redding, depois de se acomodarem na sala de estar, onde sobre a mesa se encontravam café e bolos. - Parece-me um pouco fora de forma. A questão de Boston não tem sido tão fácil como isso, não é?

- Tinha-me avisado que isto poderia acontecer - confirmou Paquette. - Lembra-se quando decidimos mudar o endereço para correspondência da Fundação Ashburton?

- Perfeitamente. Foi poucos meses depois de ter começado a trabalhar aqui. Há seis... não, há sete anos, não é verdade?

Paquette anuiu com a cabeça.

- Foi uma excelente sugestão... e a primeira vez que tomei consciência, com grande agrado, da aposta ganha que constituía sua contratação. - Paquette fez transparecer um débil sinal de agradecimento.

- Pois - afirmou -, nessa altura a minha idéia era que, com a fundação registrada como organização filantrópica, isenta de impostos e localizada em Washington, não existia qualquer maneira de alguma vez a relacionarem com os Produtos Farmacêuticos Redding.

- No entanto, a nossa diligente amiga doutora Bennett o fez.

- Sim, apesar de eu ainda não ter certeza, como afirmei ontem à noite, de que ela já tenha juntado todas as peças do quebra cabeças.

- Mas vai juntar - afirmou o Feiticeiro com a segurança de quem sabe.

- Ontem telefonou duas vezes à minha procura, aliás, à procura do doutor Thompson, o diretor da fundação. Não pude sequer retribuir-lhe o telefonema, pois receava que ela reconhecesse a minha voz.

-Não telefonar-lhe foi a decisão mais acertada.

- Mas mais cedo ou mais tarde alguém terá de falar com ela.

- E assim acontecerá - anunciou Redding. Deu uma olhada no relógio. - Neste preciso momento, o nosso persuasivo encarregado das questões jurídicas, Charlie Wilson, encontra-se a caminho do escritório da fundação para encarnar o doutor James Thompson.

- Escritório?...

- Com certeza. Não era muito conveniente que a doutora, Bennett tentasse localizar a Fundação Ashburton e desse de cara apenas com uma secretária, um telefone e uma recepcionista, não é?

Paquette abanou a cabeça. O homem era realmente incrível e de uma eficiência tal que chegava a assustá-lo.

- Hoje, por volta das onze horas, o escritório, o pessoal, as reportagens fotográficas que atestam a qualidade do trabalho, as cartas de testemunho e mais de uma dezena de anos de documentação, comprovando os serviços executados: tudo estará a postos, juntamente com Charlie Wilson, que é, penso que concordará comigo, a pessoa certa para esta função, tanto pela descrição como pela autoconfiança.

- Espantoso - balbuciou Paquette.

- Já se sente um pouco mais descontraído em relação a toda esta história?

- Sim, Mister Redding. Agora estou.

- Muito bem. Creio que ficará feliz em saber que a empresa vai encarregar-se do problema daquele espelho do Ritz.

Paquette ficou paralisado. Passara por grandes dificuldades com o objetivo de ser ele próprio a pagar os estragos, de modo a garantir que Redding nunca descobrisse o que acontecera A instabilidade debaixo de fogo era o tipo de comportamento que o homem menos apreciava e, por conseguinte, menos compensava, nos seus chefes de pelotão.

- Lamento muito o que aconteceu, senhor. Realmente lamento.

Redding apontou para a mesa do café. Inscrito sob o grosso vidro, via-se o emblema dos Produtos Farmacêuticos Redding um fundo azul-celeste com duas mãos brancas abrindo-se, onde partia uma pomba pura e branca. Por baixo da pomba, lia-se o nome da empresa, sobre a pomba, em forma de arco-íris constava o lema: Beneficio máximo para o máximo de pessoas ao mínimo custo.

- Arlen, desde o dia que esta empresa veio parar em minhas mãos, tenho tentado seguir uma estratégia que se dirija exatamente à concretização deste lema. Neste negócio, aliás em qualquer negócio, existem sempre opções a tomar, decisões que não podem ser evitadas. Nos trinta e cinco anos desde que vim para Darlington, as decisões tomadas que me provocaram um nó na garganta ou os espelhos que parti provocados pela angústia são mais do que alguma vez me atreveria a contar. Porém, sempre que precisava de uma orientação, de um conselho ou sugestão, encontrava-se exatamente à frente dos meus olhos. - Bateu com os dedos sobre o lema. - Os legisladores, estatais ou federais, a concorrência e especialmente o raio da FDA vão todos fazer o possível para ofuscar o assunto, mas, no fim, resume-se tudo a isto. - Voltou a bater com os dedos no vidro.

Se o objetivo daquele discurso era levantar o moral de Paquette, estava longe de surtir qualquer efeito. O beneficio máximo para o máximo das pessoas com o maior lucro possível era o único pensamento que lhe ocorria. Os atalhos e os testes em humanos, as clínicas em Denver e Boston, o suborno e a extorsão, aos membros da FDA - todas essas questões haviam sido fáceis de tolerar pois não passavam de abstrações. Kate Bennett era de carne e osso, uma voz, um rosto, uma realidade e, mais do que isso, uma realidade que ele aos poucos ia aprendendo a admirar. Paquette despertou repentinamente do seu sonho acordado, especulando sobre quanto tempo teria durado. Um segundo? Um minuto? Até que percebeu que o olhar de Redding estava fixo no dele.

- Eu compreendo, senhor - afirmou, pigarreando -, e garanto-lhe que não existe qualquer motivos para se preocupar. - Como fora que o homem descobrira acerca do maldito espelho? Espiões em Boston? Um microfone no quarto? Raios o partam, - pensou Paquette maldosamente. - Que o diabo o leve para o inferno.

- Ótimo, Arlen - concluiu Redding. - Calculo então que tem um vôo marcado para Boston ainda hoje?

- Às duas da tarde.

- Parece-me que a nossa patologista intrometida está ficando desesperada. Todavia, o sogro garantiu-me que ela ainda não atingiu o limite das suas capacidades. As descobertas que ela fez relacionadas com a Fundação Ashburton confirmam as nossas suspeitas.

- Acho que Norton Reese está lhe preparando uma surpresa que poderá nos ajudar - acrescentou Paquette, recordando vivamente a alegria no tom de voz de Reese ao informá-lo de que havia algo em preparação contra ela.

- Excelente - declarou Redding. - O sogro dela também prometeu ajudar-nos na medida do possível. Só mais uma coisa.

- Sim?

- Já se tem mais algum conhecimento em relação à causa dos problemas de ovários e das hemorragias das três mulheres? - Paquette abanou a cabeça em sinal de negação. - Estranho - observou Redding, mais para si mesmo do que para o interlocutor. - Muito estranho... - Durante alguns instantes permaneceu embrenhado nos seus pensamentos, de olhos fechados, virando a cabeça para um lado e para o outro, como se estivesse mentalmente lendo uma página na diagonal. - Bem, Arlen - prosseguiu de súbito, abrindo os olhos -, obrigado pelo excelente trabalho que está fazendo. Sei que por vezes estas tarefas não são fáceis, mas, se continuar a executá-las como até agora, desfrutará de enormes recompensas.

- Sim, senhor - agradeceu Paquette. Permaneceu sentado durante quase trinta segundos até tomar consciência de que o Feiticeiro já não iria dizer mais nada. Levantou-se com ar envergonhado e saiu da sala.

Cyrus Redding observou o homem enquanto este saía. A história de Boston parecia estar provocando alguns efeitos desagradáveis, especialmente no que dizia respeito à sua relação com a bebida. À medida que se dirigia da sala de estar para a mesa, Redding apontou mentalmente a necessidade de arranjar uma espécie de férias para Paquette e respectiva mulher, mal a história de Boston se resolvesse. Depois disso, afastou dos pensamentos aquele homem e respectivo assunto. Havia questões mais importantes requerendo a sua atenção.

Stephen Stein, o enigmático investigador com inacreditáveis recursos, fizera uma descoberta que, de acordo com as suas suspeitas, iria desvendar o mistério de John Ferguson.

- Mister Nunes - chamou Redding através do intercomunicador localizado sobre a secretária -, pode trazer-me esse embrulho, por favor?

Do lado oposto do escritório, um painel perfeitamente camuflado por um espelho deslizou para o lado. Nunes emergiu da pequena sala à prova de som, de revólver na mão, a partir da qual exercia a sua vigilância, sempre que Redding não se encontrava sozinho no escritório. O embrulho, que continha um livro, várias páginas datilografadas e uma carta explicativa de Stein, chegara poucos minutos antes de Arlen Paquette.

- Se tiver assuntos para tratar, Mister Nunes, este será o momento ideal. Quando voltar, digamos dentro de aproximadamente uma hora, poderíamos fazer mais uma visitinha ao nosso amigo doutor Ferguson. - Sorriu perante tal perspectiva. - Acho que a ocasião é propícia para uma daquelas caixas de sorvete com pedaços de menta que o proibi de me convencer a comprar.

O taciturno guarda-costas anuiu com a cabeça.

- Não posso permitir que me convença - respondeu - mas talvez eu possa comprar para meu próprio proveito. Redding aguardou até ouvir a porta fechar-s,; depois, trancou-se eletronicamente, espalhando o conteúdo do embrulho sobre a mesa.

“As minhas desculpas”, escrevera Stein, “por não ter prestado atenção a este volume no decurso dos meus esforços anteriores para relacionar o passado do nosso misterioso doutor Ferguson com a guerra. Trouxe o livro emprestado da Biblioteca do Holocausto daqui da universidade, com a garantia da sua devolução, juntamente com algum sinal de reconhecimento da nossa gratidão. O título, de acordo com o professor de Alemão que procedeu à tradução incluída, é Doutores do Reich, A História dos Monstruosos Médicos de Hitler. Este trabalho é o resultado final de uma cuidadosa investigação e de inúmeras entrevistas feitas por um jornalista judeu chamado Sachs, ele próprio um sobrevivente dos campos da morte, e a minha fonte crê ser o mais objetivo possível dentro dos limites impostos pelos preconceitos do autor. Apenas foram traduzidos os capítulos relativos às experiências executadas no campo de concentração para mulheres de Ravensbrück. Creio que as fotografias das páginas trezentos e sessenta e sete e trezentos e sessenta e oito serão de especial interesse.”

Durante grande parte da hora seguinte, Cyrus Redding manteve-se sentado sem esboçar qualquer gesto, movendo-se apenas para virar as páginas da tradução ou para localizar determinadas fotografias do texto velho e já amarelado. John Ferguson era um médico e cientista chamado Wilhelm Becker. As fotografias, apesar de estarem ligeiramente manchadas e datarem de há quase quarenta anos, não deixavam margem para dúvidas.

- Espantoso - murmurava Redding, à medida que lia e relia a biografia do seu sócio -, absolutamente espantoso. Viam-se duas fotografias de Wilhelm Becker, um close, apenas do rosto, e uma de um grupo com outros médicos do campo de Ravensbrück. Além destas duas, existia ainda outra imagem retratando o que restava do laboratório em que se pensava que Becker havia morrido, fotografia essa onde se destacavam os corpos do homem e do seu sargento, contorcidos no chão no meio dos escombros. Redding retirou uma volumosa lupa com cabo de marfim da mesa e durante alguns minutos estudou a cena. O corpo identificado como o de Willhelm Becker não passava de uma massa negra e mal definida.

- Bom trabalho, meu amigo - comentou, suavemente, Redding -, bom trabalho.

Já familiarizado com o homem e a sua morte forjada, Redding centrou a sua atenção na página e meia que dizia respeito às investigações de Becker, nomeadamente com as suas investigações relativas a uma substância chamada Estronate 250. Grande parte da informação apresentada fora retirada das transcrições do julgamento de crimes de guerra de um médico chamado Müller e outro de nome Rendl, tendo ambos sido condenados a permanecer na prisão de Nuremberg, em grande parte devido à sua associação com o supostamente falecido Becker. Redding encontrou os homens na fotografia de grupo de Ravensbrück. Müller sujeitara-se durante cinco anos a trabalhos forçados, até que fora possível a alguns dos sobreviventes de Ravensbrück comprovar os atos de heroísmo que levara a cabo e comutar a pena. Para Rendl, as revelações acerca do seu humanismo haviam chegado muito tarde. Três anos depois de ter sido encarcerado, enforcara-se na cela.

Redding leu com atenção o material relacionado com o Estronate, tirando com cuidado algumas notas. Quando deu por terminado o trabalho, estava convencido que nem Wilhelm Becker nem as notas onde se encontrava a investigação referente à hormona haviam perecido no incêndio de Ravensbrück.

“Uma substância que, apesar de benigna sob todas as outras formas, pode tornar uma mulher estéril sem o conhecimento dela.” Redding ficou surpreendido com o potencial de uma droga daquele gênero. China, Índia, as nações africanas, os Árabes. Quanto estariam os governos dispostos a pagar por um segredo que poderia seletivamente diminuir a sua população e, por conseguinte, resolver tantos dos seus problemas econômicos e políticos? Quanto pagariam determinados governos por uma arma que, se utilizada de forma apropriada, poderia dizimar uma geração inteira de inimigos sem a dramática perda de uma única vida que fosse?

Os pensamentos de Redding perambulavam por entre as numerosas possibilidades abertas pelo Estronate 250 quando, com uma batida suave, Nunes entrou no escritório, colocou um saco sobre a mesa e se retirou para a sua sala de observação. Durante mais uma hora, Redding permaneceu sozinho, saboreando o sorvete de menta e especulando sobre qual a melhor maneira de dar a novidade ao Dr. Ferguson, como lhe dizer que a sua colaboração de quinze anos estava prestes a entrar em uma nova dimensão.

 

“ Te amo-te, sinto a sua falta e não quero mais viver longe de você.”

Kate releu o bilhete de Jared, adquirindo força e confiança cada vez que aquelas palavras soavam no seu cérebro. Regressara ao gabinete após duas visitas infelizes e assustadoras. A primeira fora a Ellen que, pela primeira vez, se sujeitara a receber a transfusão de uma unidade de glóbulos vermelhos. A segunda visita fora a Norton Reese. Se a ligação entre o Metropolitan Hospital de Boston, a Fundação Ashburton e os Produtos Farmacêuticos Redding era tão próxima como as atabalhoadas evasivas de Reese a levavam a crer, ela necessitaria de toda a força e confiança que conseguisse granjear. “Obrigada, Jared”, pensou. “Obrigada por me ter livrado da maior pressão de todas.”

O encontro com Reese começara de forma muito cordial. De fato, o homem até parecia às vezes estranhamente jovial e à vontade. Desde o conflito que haviam tido perante o conselho de administração, relacionado com o desvio de fundos destinados ao departamento de patologia para o programa de cirurgias cardíacas, Reese dirigia-lhe a palavra com o mesmo cuidado que um aprendiz tem ao lidar com explosivos. Agora, de repente, era todo sorrisos. A sua bizarra simpatia arrastara-se durante vários minutos de conversa acerca do departamento dela e da recomendação de Stan Willoughby para que ela lhe sucedesse como chefe, terminando abruptamente quando Kate mencionara a Fundação Ashburton. Nesse preciso momento, Kate percebeu que, por muitas qualidades que o homem tivesse, elas decerto não incluíam a dissimulação. Semicerrou parcialmente as pálpebras, o suficiente para marcar bem fundo as rugas dos cantos dos olhos. Tanto os lábios como as pontas dos dedos, embrenhados em um movimento nervoso, empalideceram.

- Receio não ser possível explicar-lhe os processos relacionados com a Fundação Ashburton - explicara, fazendo um esforço inútil para manter contato visual com ela. - Todavia, terei todo o prazer em responder a quaisquer perguntas que deseje fazer.

- Okay - afirmou Kate, encolhendo os ombros. - A minha primeira pergunta é por que razão não lhe é possível explicar-me os processos relacionados com a Fundação Ashburton?

- Faz parte... faz parte do acordo que assinamos quando resolvemos aceitar o subsídio deles.

Era sem dúvida bizarro, em um sentido verdadeiramente literal, o homem contorcia-se na cadeira.

- Pois bem, suponhamos que eu queria candidatar-me a um subsídio para o meu departamento. De que forma poderia constatá-los?

- Peço à Gina que lhe dê o endereço quando sair. Pode escrever-lhes pessoalmente.

- Já tenho em meu poder o endereço de uma caixa postal em Washington. É isso?

- Sim... Quero dizer, é possível.

- Então suponhamos que eu gostaria de visitar o escritório deles pessoalmente. Pode pedir à Gina que me dê também esse endereço?

Reese continuava irrequieto.

- Olhe - prosseguiu -, dou-lhe o endereço para a correspondência e o número de telefone. Lamento, mas é tudo o que posso fazer. De qualquer modo, por que raio quer conhecer a Fundação Ashburton? - conseguiu perguntar.

- Mister Reese - pronunciou Kate com toda a calma -, se eu responder a essa pergunta, deixa-me ver os processos deles?

- Não, sem ter uma permissão escrita por parte da Fundação Ashburton.

- Pois bem, parece-me que temos um empate técnico, não concorda? Posso adiantar-lhe o seguinte... - A voz ia se tornando gradualmente mais fria. - Duas mulheres estão mortas e uma terceira pode estar morrendo. Se eu descobrir que a Fundação Ashburton está de alguma forma relacionada com estas ocorrências e que está me escondendo informações importantes, prometo não descansar enquanto todas as pessoas que estão ligadas a este problema não tenham conhecimento do que fez. Fui suficientemente clara? - Sabia que a raiva incaracterística que pautava a sua voz devia-se em grande parte à visão que tivera de Ellen Sandler, olhando, muda, para o saco de plástico de onde pingava sangue para o próprio braço e pela certeza de que esta era, muito provavelmente, a primeira de muitas transfusões que estavam para vir.

Reese olhou para o relógio, em uma atitude grosseira e pouco sutil. Era como se tivesse deixado recado para lhe ligarem precisamente às nove e doze e estivesse pensando na razão por que o telefone ainda não tocara.

- Mister Reese?

O administrador voltou a olhar para ela. O rosto tenso manifestava uma espécie de raiva... Não, percebeu Kate, não era raiva, era algo mais profundo. Ódio? Seria possível que aquele pobre diabo realmente a odiasse?

- Acha mesmo que é muito especial, não acha? - arremeteu de súbito, em uma voz sombria e cavernosa.

- Perdão?...

- Quem a proclamou missionária? Pensa que, só por ter um diploma em medicina e uma família cheia de dinheiro, pode passar por cima de todo mundo?

- O quê? Mister Reese, eu nunca...

- Pois bem, deixe-me lhe dizer uma coisa. Não pense que consegue me intimidar como faz aos outros por aqui. Não, senhora, nem um pouquinho. Por isso, desça do seu pedestal e caia fora, e deixe que eu e os outros chefes de departamento, os chefes de departamento oficiais, nos preocupemos com subsídios, fundações e esse tipo de coisas.

Kate ficou olhando para o homem que estava ali sentado, ofegante após o cansativo exercício verbal. Durante cinco segundos, dez, os olhos verdes mantiveram-se fixos nele. Depois se ergueu da cadeira e saiu, sem qualquer vontade de corresponder à explosão de Reese com uma resposta.

Agora, sozinha no seu gabinete, Kate tentava ordenando os pensamentos, ao mesmo tempo em que rabiscava uma montagem caligráfica com as palavras “Reese” e “idiota”. Depois de finalizar a quarta versão, começou a acrescentar as palavras “Ashburton” e “Paquette”. Primeiro fora o suborno de Ian Toole, um ato que em sua opinião era equivalente a matar um esquilo com uma espingarda para elefantes. Ela teria ficado suficientemente satisfeita se os Produtos Farmacêuticos Redding assumissem ter de alguma forma permitido que uma remessa de vitaminas para uso geral ficasse contaminada. E mais, que teriam todo o prazer de suspendê-la e substituir. A resposta, ilogicamente excessiva, só poderia dever-se ou à arrogância ou ao medo. Mas medo de quê? O Omnicenter apareceu pela primeira vez na montagem de palavras.

A Fundação Ashburton fornecia na totalidade um departamento de obstetrícia e ginecologia e subsidiava ainda um moderno e gigantesco centro de saúde para mulheres. Atos filantrópicos? Talvez, pensou. Mas os dois telefonemas que fizera para a fundação haviam permanecido sem resposta por parte do Dr. Thompson, o diretor, e os seus esforços, apesar de modestos, para obter um endereço da fundação tinham falhado redondamente. Depois havia a peremptória recusa de Reese em discutir a fundação que fora, pelo menos parcialmente, responsável pela ressurreição do seu hospital. Nesse preciso momento, quase inconscientemente, Kate acrescentou outro nome à folha. Escreveu-o vezes e vezes seguidas, primeiro em letra de imprensa, depois em diversas caligrafias que ia inventando. “Horner.” O excêntrico e impertinente gênio dos computadores estava de alguma forma envolvido em tudo o que acontecera. Essa idéia ajustava-se perfeitamente, fazia todo sentido. Mas como? Só lhe restava uma pessoa que poderia ajudá-la a descobrir. Após mais um minuto de especulação, Kate telefonou a William Zimmermann.

Quinze minutos mais tarde, atravessava o túnel em direção ao Omnicenter quando deu de cara com Tom Engleson saindo do atalho que levava ao edifício de cirurgia.

- Olá - cumprimentou Kate, procurando no rosto do médico uma pista que lhe indicasse como ele estaria lidando com o fim antecipado da noite anterior.

- Olá. - O tom de voz era imparcial.

Ela abrandou o passo, continuando contudo a caminhar.

- Vai para o Omnicenter?

Tom assentiu com a cabeça.

- Tenho uma consulta dentro de vinte minutos.

- Está bem?

- Sim, claro. Ótimo.

- Tom, eu...

- Olhe, Kate, o problema sou eu, não você.

- Doutor Engleson, não esteve propriamente sozinho naquele sofá ontem à noite - sussurrou-lhe ao ouvido, olhando para ambos os lados para certificar-se de que ninguém dos transeuntes do túnel se encontrava nas proximidades. - Sinto-me muito mal por emitir mensagens tão contraditórias. Mas você é um homem incrivelmente compreensivo e simpático. Com todos os problemas do hospital, receio que tenha permitido esconder-me nos seus braços. Foi errado e injusto, ainda mais porque gosto verdadeiramente de você. Lamento muito, Tom.

Chegaram às escadarias que conduziam ao Omnicenter.

- Espere - pediu Tom -, por favor.

Guiou-a para um pequeno recanto escondido, do lado oposto às escadas.

- Sabe que, tendo em conta o grau de fofocas do hospital, vamos provavelmente tornar-nos tema de... - Duas enfermeiras passaram por eles conversando e continuaram em direção às escadas. - Raios - afirmou Kate, seguindo-as com o olhar -, provavelmente já somos.

- É mesmo verdade aquilo que disseste, que gosta de mim?

- Tom, eu amo muito o meu marido. Tivemos algumas dificuldades, depois das eleições, para sintonizar as nossas vidas, mas os meus sentimentos em relação a ele não mudaram. Todavia, você é muito especial para mim. Acredite que, se a minha situação familiar, se o meu casamento fosse diferente, ontem à noite teríamos sido amantes.

- Sério? - Os músculos do seu rosto descontraíram-se e sentiu-se alguma energia a regressar à sua voz.

- Sim - respondeu Kate. Tom Engleson poderia ser nove anos mais novo que Jared, porém continuavam a ter muito em comum, incluindo, pelo que poderia depreender daquele momento, a necessidade de confirmação desse tipo de coisas.

- Eu disse ontem à noite e volto a repetir. Jared é um homem de muita sorte. - No tom de voz de Tom, o constrangimento dera lugar à compreensão.

- Eu sei - comentou Kate. - Tom, sério, obrigada por não tornar as coisas mais difíceis para mim. Entre a maldita história do Bobby Geary, o desaparecimento do meu químico e uns disparates inacreditáveis do Norton Reese, sinto que preciso de todos os amigos e de toda a ajuda que puder ter. - Olhou para o relógio. - Olha, tem alguns minutos?

- Claro. Porquê?

- Vou encontrar-me com o Bill Zimmermann para conversar sobre a Fundação Ashburton. Adoraria que viesse se fosse possível.

- O Rocket Bill? Por acaso tenho algum tempo, se acha que ele não irá se importar.

- Duvido que se importe - declarou Kate. - Ele sabe o muito que você tem ajudado ao longo de toda esta história. Está combinado?

Durante a subida dos quatro lanços de escadas, Tom recordou-lhe os protocolos estabelecidos para o cuidado de pacientes no Omnicenter. Quando davam entrada, tanto as pacientes novas como as que já tinham ficha, eram recebidas por uma funcionária feminina especialmente treinada para isso. Esta preenchia os espaços devidos em um formulário computorizado, destinado a arquivar as histórias pessoais. As medicações, a história menstrual, as novas queixas e os efeitos secundários de determinados medicamentos eram criteriosamente apontados. A funcionária enfiava em seguida esse formulário em um terminal de computador existente sobre a mesa e, decorridos trinta segundos, surgiam instruções relativas ao local para onde a doente deveria dirigir-se juntamente com, caso fosse necessário, as análises laboratoriais a serem feitas.

- Não acha que o sistema é um pouco impessoal? - perguntou Kate.

- Você se consulta aqui. Acha isso?

- Não, na verdade acho que não - respondeu. - Lembro-me de quando uma visita ao ginecologista consistia em ficar sentada à espera durante uma hora em uma sala mínima com mais uma dúzia de mulheres, ouvir chamar o meu nome, despir-me em um consultório minúsculo e, por fim, ver o médico entrando, percorrer o processo à procura do meu nome e nem sequer me perguntar por que razão eu estava lá antes de me mandar abrir as pernas.

- Vê - riu Tom -, nenhum sistema é perfeito. Mas, agora a sério, o sistema aqui é muito bom. Me dá liberdade para fazer um exame cuidadoso e para responder a quantas perguntas as minhas pacientes tiverem para fazer.

“O sistema pode ser excelente”, pensou Kate, “mas qualquer coisa, em algum lugar no seu interior, está podre. Alguma coisa anda matando pessoas.”

Números grandes e coloridos marcavam cada um dos pisos. O terceiro, que ocupava meia parede do átrio do terceiro andar, era cor de laranja irisado. Kate colocou a mão na maçaneta da porta que dava para o corredor, estancou o movimento, virou-se para Tom e deu-lhe um beijo suave na face.

- Obrigada por ontem à noite, amigo - confessou.

Tom aceitou o beijo, apertando-lhe a mão e sorrindo.

- Se precisar seja do que for que esteja ao meu alcance, pode contar comigo - afirmou.

William Zimmermann cumprimentou Kate amigavelmente e Tom com alguma surpresa. Era evidente, pela sua expressão facial e pelo modo como os recebia, que se preocupava com a perspectiva de alguma coisa afetar a reputação do Omnicenter, incluindo o envolvimento de um dos assistentes hospitalares do Serviço Ashburton.

Kate percebeu isso e decidiu tranqüilizá-lo.

- Bill, como sabe, o doutor Engleson tem me ajudado bastante a resolver todos estes problemas. E ele sabe, tão bem como eu, a importância de ser discreto quando se discute estes assuntos com alguém.

- Não falou com ninguém sobre isto, não é? - perguntou a Tom.

- Não, senhor. Apenas com a K... com a doutora Bennett.

- Ótimo. Pois então, sente-se. Sentem-se ambos.

- Vou tentar não ocupar muito do seu tempo - começou Kate. - Gostaria, porém, de mantê-lo informado acerca dos novos acontecimentos desde a nossa conversa de ontem.

- Lembro-me que estava preocupada com a Fundação Ashburton.

- Exatamente. Sabe como fiquei irritada com os Produtos Farmacêuticos Redding depois de eles terem subornado o meu químico. Então...

Zimmermann impediu-a de continuar, erguendo a mão.

- Kate, por favor - interrompeu, denotando uma ponta de irritação na voz que ela nunca ouvira. - Já lhe disse o que penso acerca dessa situação com o químico. Compreendo que você tenha essa convicção, mas nada além disso. - Voltou-se para Tom. - Conhece pessoalmente este químico, Toole?

Tom pensou durante alguns momentos e depois abanou a cabeça.

- Não.

- Pois bem - concluiu Zimmermann. - Fatos concretos.

Kate inspirou profundamente, anuiu com a cabeça e depois começou a alisar uma prega da saia cinzenta.

- Desculpe, Bill. Muito bem, aqui está um fato concreto. - Estendeu-lhe um papel com um número de telefone. - É o número da Fundação Ashburton em Washington. Outrora, há uns sete ou oito anos, a fundação localizava-se em Darlington, no Kentucky, a mesma cidade dos Produtos Farmacêuticos Redding.. Tentei ligar-lhes várias vezes ontem, porém, a única coisa que consegui foi ser atendida por uma recepcionista, que me prometeu uma resposta de um tal doutor James Thompson, o diretor, mal ele regressasse ao escritório. Ainda não obtive qualquer resposta. Depois, hoje de manhã, fui falar com Norton Reese e disse-lhe que desejava ver os processos da Fundação Asfburton. Mais parecia que lhe tinha pedido para ler o seu próprio diário. Recusou peremptoriamente e depois desatou aos berros comigo.

- E ele apresentou algum motivo para justificar a sua recusa? - perguntou Tom.

Kate abanou a cabeça.

- Não. Parecia estar com medo de mim. Um medo de morte.

- Kate - perguntou Zimmermann, mostrando o papel que ela lhe dera -, está à procura exatamente do quê? - A ponta de irritação ainda estava presente na sua voz.

Mesmo antes de falar, Kate pressentiu que a sua teoria não iria cair bem junto ao diretor do Omnicenter. Todavia, não havia qualquer possibilidade de voltar atrás.

- Bem, eu acho que os Produtos Farmacêuticos Redding podem estar investindo dinheiro nos hospitais, ou pelo menos neste hospital, e utilizam a Fundação Ashburton como fachada, uma espécie de intermediário.

Os pálidos olhos de Zimmermann abriram-se.

- Isso é absurdo - comentou -, completamente absurdo. Que teriam eles a ganhar?

- Não tenho certeza. Tenho uma idéia, mas não estou cem por cento segura. Além disso, acho que o Norton Reese sabe a verdade.

- E então?

Fatos concretos. De repente, Kate desejou ter tido mais tempo, estar meticulosamente preparada. Depois lembrou-se de Ellen. O tempo estava, e disso tinha certeza, chegando ao fim para a sua amiga. Perante essa realidade, nada mais interessava. Encheu-se de forças para enfrentar a resposta de Zimmermann e prosseguiu.

- Não creio que o ácido antranílico que encontraram nas minhas vitaminas tenha sido uma contaminação acidental - arriscou dizer, dando ao seu tom de voz uma tranqüilidade, que contrastava com a maneira como se sentia tremendo no seu íntimo. - Acho que foi testado em mim, como provavelmente também em outras mulheres, não foi testado para ver se funcionava ou não, dado eu não ter quaisquer sintomas, mas sim para ver as reações adversas, os efeitos secundários, se preferir.

Zimmermann continuava incrédulo.

- Doutora Bennett, se algo do gênero estivesse acontecendo no Omnicenter, na minha clinica, não acha que eu teria conhecimento?

- Para ser sincera, não me parece - explicou Kate. - As coisas já começavam a fazer algum sentido na minha cabeça e bastou a descrição feita pelo Tom acerca dos procedimentos para dar entrada no serviço, para que tudo encaixasse. - É Carl Horner, lá embaixo. Horner e os seus Macacos. Tanto vocês como todos os outros médicos limitam-se a receitar as medicações que ele indica e ainda a fornecer material para a sua base de dados. Não há nenhuma razão para que tenha conhecimento, desde que os computadores saibam...

- E acredita que a Fundação Ashburton está custeando o trabalho dele?

Kate abanou a cabeça em sinal de concordância.

- Isto está ficando completamente descontrolado. - Zimmermann voltou-se para Tom. - Compreende o que ela está insinuando?

Tom fez um relutante sinal afirmativo. - E acredita?

- Já... já não sei no que acreditar.

- Bem, acho que chegou a hora de eu verificar algumas destas coisas com os meus próprios olhos - declarou Zimmermann, pegando o telefone ao mesmo tempo que pousava o papel com o número da fundação sobre a mesa. - Doutor William Zimmermann, número de acesso três zero oito três - anunciou à telefonista, enquanto Kate o observava nervosamente. - Queria uma linha de conferência, por favor.

“Apenas mais alguns minutos”, dizia Kate a si própria. “Mais alguns minutos, algumas palavras confusas e repetitivas da recepcionista para que Zimmermann ao menos perceba que existe qualquer coisa de errado na Fundação Ashburton.” Por enquanto, isso seria suficiente. Comparando com os fiascos em que haviam terminado as histórias de Bobby Geary e de Ian Toole, a introdução de nem que fosse uma pequena semente de dúvida no cérebro daquele homem resultaria em uma enorme vitória.

- Estou sim. Bom dia - ouviu Zimmermann pronunciar. - Sou o doutor William Zimmermann, de Boston. Gostaria de falar com o diretor... Sim, exatamente. O doutor Thompson.

Kate virou-se para Tom e esboçou um sorriso conspiratório. De repente, deu-se conta de que Zimmermann fazia um gesto para prender a sua atenção, enquanto apontava para a extensão que se encontrava sobre a mesa de conferências. Ela pegou o telefone ao mesmo tempo que o doutor James Thompson.

- Aqui fala o doutor Thompson - apresentou-se o homem.

- Doutor Thompson, peço desculpas pelo incômodo. O meu nome é Zimmermann. Sou o diretor do Omnicenter, daqui de Boston.

- Ah, sim, doutor Zimmermann. Já ouvi falar do senhor - afirmou Thompson. - Foi substituir o doutor French há... há quanto tempo... quatro, cinco anos?

- Cinco anos.

- Um acidente trágico, recordo-me, verdadeiramente trágico.

- Sim, afogou-se - recordou Zimmermann, olhando agora bem nos olhos de Kate, que começava a sentir-se indisposta.

- Em que posso ajudá-lo, senhor? - Thompson possuía uma voz grave e educada.

- Encontro-me neste momento com a doutora Bennett, uma das nossas médicas.

- Ah, sim. O nome dela encontra-se precisamente à minha frente, sobre a mesa. Telefonou ontem duas vezes e disseram-lhe que eu ligaria mais tarde. No entanto, não havia maneira da minha secretária saber que o meu filho, Craig, caíra na escola e quebrara o pulso e que eu ia ficar fechado na emergência durante horas.

- E ele está bem, não?

Thompson deu uma gargalhada.

- Nunca esteve melhor. O gesso torna-o o centro das atenções. Agora diga-me, em que posso ajudá-los, a você e à doutora Bennett?

- Na verdade, a mim em nada, mas a doutora Bennett tem algumas questões a colocar-lhe. Um momento, por favor.

- Com certeza.

Zimmermann, com uma expressão no rosto que dizia: “Foi você que pediu, aqui está", fez-lhe sinal para avançar.

Kate teve a sensação de estar sendo encostada de encontro a uma parede. Possuíra tantas certezas, tantas certezas, e agora...

- Doutor Thompson - conseguiu pronunciar -, peço desculpas por não ter sido mais paciente. - Olhou para Tom, que encolheu os ombros, demonstrando a sua impotência. - Estava... estava telefonando para saber se existe alguma ligação entre a Fundação Ashburton e os Produtos Farmacêuticos Redding. - Não fazia qualquer sentido experimentar algo diferente que não a abordagem direta. Fora de novo vencida humilhada e tinha perfeita noção disso.

- Ligação?

- Sim, doutor. Não é verdade que a fundação já esteve localizada em Darlington, Kentucky, na mesma cidade que a Redding?

- Por acaso, é verdade. John e Sylvia Ashburton, cujo legado estabeleceu a fundação, eram de Lexington. O filho deles, John Júnior, dirigia uma das suas fazendas de cavalos, os chamados “Estábulos de Darlington”. Durante dois anos após a morte dos pais, John permaneceu na fazenda, desenvolvendo o negócio e lançando as bases da fundação. Eu fui contratado, deixe-me ver, em mil novecentos e setenta e nove, porém, nessa época, o centro das operações já se mudara para Washington. Lamento, mas em relação aos Produtos Farmacêuticos Redding, a ligação geográfica é pura coincidência.

- Muito obrigada - afirmou humildemente Kate. - Isso me ajuda por certo a esclarecer a minha confusão. - Depois de olhar mais uma vez para Tom, arremeteu em uma tentativa final. - Doutor Thompson, eu estava tentando descobrir o endereço do seu escritório, mas na lista telefônica de Washington não aparece qualquer Fundação Ashburton.

- De propósito, doutora Bennett, é mesmo de propósito. Sabe, quando estão envolvidas bolsas e subsídios, esse fato implica sempre... como poderei dizer, o aparecimento de candidatos muito abaixo das qualificações. Assim, preferimos ser nós a fazer as nossas próprias investigações preliminares e depois incentivarmos os institutos e empresas escolhidas a candidatarem-se. Os nossos escritórios localizam-se na Rua Duzentos e Trinta e Oito K, Noroeste, no sétimo andar. Por favor, sinta-se à vontade para nos visitar, sempre que vier a Washington. Talvez o seu departamento de patologia esteja interessado em candidatar-se a um subsídio para aquisição de equipamento.

- Talvez - repetiu Kate distraidamente.

William Zimmermann já ouvira o suficiente.

- Doutor Thompson - interrompeu -, queria agradecer-lhe por ter nos ajudado a esclarecer esta confusão e ainda pelo maravilhoso apoio que a fundação tem dado ao meu Omnicenter.

- O prazer é todo nosso, doutor - respondeu o Dr. James Thompson.

- Então? - perguntou Zimmermann depois de desligar o telefone.

- Há qualquer coisa que não bate - respondeu Kate.

- De que está falando?

- Ele mencionou o meu departamento de patologia. Como poderia ele saber que eu sou patologista?

- Eu lhe disse isso, logo no início do telefonema.

- Não estou tentando tornar as coisas mais difíceis, acredite que não, Bill, mas estou certa que quando fez referência a mim falou em médica e não em patologista. Lembra-se, Tom, não se lembra?

Bastou observar por breves segundos o olhar inseguro de Tom para que ela própria começasse a ter dúvidas.

- E então? - insistiu.

- Não... não tenho certeza - foram as únicas palavras que o assistente conseguiu proferir.

Kate levantou-se.

- Bill, por muito que possa parecer teimosia, ou até mesmo confusão, insisto em dizer que continua havendo qualquer coisa que, na minha opinião, não bate. Tenho a nítida sensação de que este doutor Thompson sabia exatamente quem eu era e o que queria, ainda antes de ter feito o telefonema.

- Tem de admitir, Kate - proferiu Zimmermann em um tom paternalista -, que, tomando em consideração, em primeiro lugar, toda a história com o jogador de basebol, depois a vasta discussão sobre se um determinado químico executou umas análises que ele jura nunca ter feito, e agora aquilo que parece serem preocupações sem qualquer tipo de fundamento da sua parte em relação à Fundação Ashburton e a um técnico informático com bastantes anos de casa... tem de admitir que se torna difícil ficar verdadeiramente entusiasmado com as suas suposições, intuições ou teorias. Por isso, se não tiver mais nada a acrescentar, devo regressar ao trabalho.

- Não - respondeu Kate, sentindo-se ainda incomodada pela reprimenda daquele homem geralmente tão cordial. - Não tenho nada a acrescentar, exceto a promessa de que, por muito que demore, irei descobrir quem ou o quê é responsável pelas hemorragias da Ellen. Obrigada por ter vindo, Tom. Lamento que tenha terminado desta maneira.

Depois de um aceno breve a ambos os homens, Kate saiu, sentindo a dúvida instalar-se no peito. Apertou com força a bata para se proteger do vento e da neve e, cabisbaixa, saiu do Omnicenter para a rua. “E se estou enganada, completamente enganada acerca do Redding e do Horner, acerca do Omnicenter e da hemorragia da Ellen, acerca do Reese?” Apesar da situação crítica existente no Berenson 421, apesar do medo cada vez mais premente em relação ao seu próprio corpo, talvez ela devesse recuar um pouco e deixar que as coisas se acalmassem. Talvez devesse prestar atenção aos conselhos do sogro e reordenar as suas prioridades, longe do Metropolitan Hospital.

Encontravam-se todos à espera no seu gabinete: Stan Willoughby, Liu Huang e Rod Green, o vistoso cirurgião-geral de raça negra, que estava, segundo os rumores, sendo preparado para um eventual cargo de professor universitário em Harvard.

- Kate - disse Willoughby -, acabei agora de lhe escrever um bilhete. - Levantou o pedaço de papel para que ela pudesse ver.

Kate cumprimentou os outros dois homens e depois voltou-se de novo para Willoughby. Parecia tenso. Tanto a sua postura como o constrangimento no sorriso assim o indicavam.

- E então? - perguntou ela.

- Perdão?

- O bilhete, Stan. O que estava escrito?

- Oh, peço desculpas, Kate. Estou de cabeça no ar. - Aclarou a garganta. - Kate, precisamos de falar com você.

- Pois bem, sentem-se. - Sentiu que o coração reagia a um súbito estado de apreensão. - Há algum problema?

Willoughby não se sentia nada à vontade.

- Eu... bem... Kate, você ontem analisou um fragmento congelado de uma biopsia por aspiração de uma das doentes do doutor Green.

- Sim, uma mama. Tratava-se de um adenocarcinoma intraductal. Eu própria comuniquei os resultados ao doutor Green.

Sentiu a pulsação acelerar.

- Teve alguma... alguma dúvida em relação ao...

- O que o doutor Willoughby está tentando dizer - interrompeu Rod Green - é que procedi a uma mastectomia em uma mulher que, aparentemente, tem um tumor benigno na mama. Os brilhantes olhos do homem faiscaram.

- Isso é impossível. - Kate olhou primeiro para Willoughby e em seguida para Liu Huang em busca de apoio, porém, nos lábios cerrados leu apenas a confirmação da acusação do médico. - Liu?

- Examinei a peça no menor detalhe - afirmou cuidadosamente o pequeno homem. - A trajetória da agulha de biopsia fez supor que o adenoma era benigno. Não existia aí qualquer câncer ou em qualquer parte da mama.

- Tem... tem certeza? - Ela mal conseguia pronunciar as palavras.

- Kate - chamou Willoughby -, eu próprio revi as lamelas. Não existe qualquer câncer .

- Mas havia. Juro que havia.

- A minha paciente não tinha câncer - declarou Green. - Nenhum. - A fúria que tinha em relação a ela estava sob o mais rigoroso controle. - Cometeu um erro. Um erro terrível.

Kate fitou de olhos arregalados os três homens. Era um sonho ruim, um grotesco pesadelo do qual iria acordar a qualquer momento. Aqueles rostos empedernidos invadiam e abandonavam o seu cérebro ao mesmo tempo em que este lutava por se lembrar das células. Eram três biopsias mamárias, não, duas, eram duas. A paciente de Green fora a primeira. A patologia havia sido um pouco melindrosa, porém não seria uma coisa onde ela falhasse, nem em um caso entre mil, a não ser que... Recordou o cansaço e a tensão da manhã anterior, o stress pela ausência de Jared, os telefonemas maldosos e o desaparecimento de Ian Toole. “Não”, uma voz interior gritava, “não poderia ter cometido uma erro desses.” Não era a mesma coisa se eles estivessem a acusá-la de lhe ter escapado algum detalhe, apesar de um erro desse tipo também lhe ser difícil admitir; não, eles afirmavam que ela observara um estado que na realidade não existia. Era... impossível. Não encontrava mais nenhuma palavra que pudesse descrever a situação.

- Verificou as lamelas de ontem? - Conseguiu perguntar. - As congeladas?

Willoughby acenou de modo afirmativo.

- Adenoma benigno. Precisamente a mesma patologia que na peça cirúrgica principal. - Passou-lhe para a mão uma caixa de plástico com lamelas.

Green levantou-se, de pulsos cerrados.

- Já ouvi o suficiente. Doutora Bennett, graças a você, retiraram sem qualquer necessidade a mama de uma mulher, que veio me procurar cheia de confiança. Quando ela puser o caso no tribunal, apesar de muito provavelmente eu ser um dos réus, serei também a sua melhor testemunha. - Fez menção de sair, mas voltou a olhar para ela. - Sabe de uma coisa - acusou -, aquela carta que mandou para os jornais acerca do Bobby Geary foi um gesto bem feio.

Bateu com a porta com força suficiente para abanar o jarro com rosas, que ainda se encontrava sobre a mesa.

Kate mal conseguia segurar a lamela enquanto a preparava para colocar no microscópio. Desta vez, a luz amarela e branca não sugeria qualquer excitação, qualquer aventura para ela. Sabia, mesmo antes de terminar a focagem, que a peça seria benigna. Estava bem definido. Cometer o erro de confundir aquele padrão com um câncer era tão provável como um atleta de saltos aquáticos olímpicos saltar da ponta errada da prancha.

- Há qualquer coisa errada - afirmou, com o olhar ainda fixo nas células. As palavras ecoavam no cérebro. “Há qualquer coisa errada.” Dissera a mesma coisa a Bill Zimmermann ainda nem meia hora antes.

- Kate - proferiu suavemente Willoughby. - Lamento muito.

Só quando ergueu a cabeça do microscópio se deu conta de que estava chorando.

- Stan, juro que esta não foi a lamela que eu analisei ontem. Não pode ser.

Todavia, ao mesmo tempo em que pronunciava as palavras, concluiu para mesma que, tal como no caso de Bobby Geary, a sua única defesa era a declaração de inocência.

- Tem andado sob muita pressão ultimamente, Kate. Acha que...

- Não! - Viu-se obrigada a baixar o tom de voz. - Lembro-me perfeitamente da biopsia que analisei. Era câncer. Eu não cometi nenhum erro.

- Olhe - interrompeu Willoughby -, quero que fique alguns dias em casa. Descanse. Depois do fim-de-semana que vem aí, podemos falar.

- Mas...

- Kate, vou suspender as suas funções durante algum tempo. Agora não quero que regresse ao trabalho antes de termos uma oportunidade para discutir as coisas, na semana que vem. De acordo? - Sentia-se uma firmeza pouco comum na voz do homem.

Kate anuiu de forma humilde.

- De acordo, mas...

- Nem mas, nem meio mas. Kate, isto é para o seu próprio bem. Depois telefono para sua casa para saber como está. Agora, vá embora.

Kate ficou observando os colegas sairem: Stan Willoughby, de cabeça baixa, arrastando os pés ligeiramente à frente de Liu Huang, que se voltou para trás e fez um gesto tímido, porém esperançoso, com o polegar para cima. Em seguida desapareceram.

Durante algum tempo permaneceu sentada, sentindo os músculos do corpo contraindo-se devido à incerteza, à solidão e à falta de confiança em si mesma. Aqueles sentimentos eram tão fortes que a impediam até de se mover ou respirar. Com grande esforço, puxou o telefone para junto de si e pegou o auscultador.

- Quero pedir uma chamada de longa distância, por favor- ouviu a sua voz pronunciar. - É pessoal, por isso ponha a conta no meu telefone pessoal... Queria ligar para San Diego.

 

                           QUINTA-FEIRA, 20 DE DEZEMBRO

Fora necessário a ingestão de analgésicos e de anfetaminas, juntamente com a habitual farmacopéia, para que, no final, Becker conseguisse manter-se em pé. Agora ansiava dolorosamente por uma noite de sono. Nem sequer conseguia recordar quando engolira a última refeição. Pequenas sestas à mesa, duchas de água fria de seis em seis ou de sete em sete horas, tabletes de chocolate, xícaras de um espesso café durante quatro dias... ou seriam cinco? Todos estes elementos haviam funcionado como seus únicos ajudantes.

Contudo, conseguira resistir. Nessa mesma manhã, um mensageiro entregaria em mão o seu manuscrito e uma caixa de lamelas ao chefe editor de The New England Journal of Medicine. A carta que acompanhava o manuscrito daria ao homem dez dias para chegar a acordo acerca da publicação dos estudos sobre o Estronate na versão completa, durante os próximos quatro meses, e ainda para se encarregar de reunir uma comissão internacional que pudesse assumir a responsabilidade de dar início ao controle demográfico beckeriano.

No estúdio reinava a confusão, em uma caótica mistura de livros de referência, recortes de jornais, xícaras de café, rascunhos para jogar fora, invólucros de chocolates e copos sujos, cobrindo a maior parte da mobília e do chão. Tal como um pugilista no momento da vitória, Will Becker, mais esqueleto do que homem, levantou-se do meio dos escombros e ergueu o punho no ar. Depois de quarenta anos e passando por dificuldades quase inimagináveis, chegara ao fim. Agora faltava apenas garantir a aceitação.

Era irônico, não conseguia deixar de sentir que décadas da mais meticulosa investigação haviam-se resumido a uns tantos dias frenéticos, no entanto, era assim que as coisas aconteciam.

Com a patologista Bennett bisbilhotando o Omnicenter e com Cyrus Redding de antenas no ar, o tempo transformara-se em um luxo que ele não poderia dar-se.

Estudos sobre o “Estronate 250”. Becker retirou tudo o que estava em cima da poltrona, sentou-se confortavelmente e perdeu-se no emaranhado dos seus pensamentos, imaginando os louvores, as honras e todos os outros tributos à sua genialidade e dedicação, que por certo surgiriam da publicação e implementação do seu trabalho. O seu delírio cerebral aproximava-se da entrega do Prêmio Nobel, quando o telefone começou a tocar. Foi necessário mais de meia dúzia de toques para o fazer despertar daquele sonho acordado e ainda outros quatro para localizar o telefone, situado por baixo de um monte de jornais.

- Alô!

- John? Aqui fala Redding.

A voz provocou a sensação de um vazio doloroso no peito de Becker. Durante alguns segundos, foi incapaz de responder.

- John?

Becker pigarreou.

- Sim, sim, Cyrus, estou aqui.

- Bom. ótimo. Bem, espero não estar interrompendo nada de importante.

- Nada disso. Estava apenas... lendo um pouco antes de adormecer. - Será que a voz soava tão constrangida e estrangulada como lhe parecia? - Que posso fazer por você? – “Por favor”, pensou, “Deus queira que seja um problema relacionado com a miastenia. Que seja qualquer coisa exceto...”

- Pois bem, John, queria falar um pouco com você por causa daquela história do Omnicenter.

Becker sentiu o coração mergulhar nas trevas.

- Sabe - continuou Redding -, aquele caso das mulheres com diversas anomalias nos ovários e que depois sangram até à morte...

- Sim. E então?

- Desde a última vez que falamos, você tem alguma novidade relativa a esta situação?

- Não, ainda não - Becker pressentiu que estava sendo manipulado.

- Bem, John, sabe que toda esta história espicaçou a minha curiosidade, além da óbvia preocupação no que diz respeito à segurança dos nossos programas de testes. São coincidências demais. E muita fumaça para que não exista fogo em algum lugar.

- Talvez - respondeu Becker, agarrando-se à esperança de que o homem, um mestre naquele tipo de manobras, estivesse dando um tiro no escuro.

Durante algum tempo, Redding permaneceu em silêncio, Becker mexia-se na cadeira nervosamente de um lado para o outro.

- Cyrus? - perguntou por fim.

- Estou aqui.

- Há... há mais alguma coisa?

- John, não quero discutir com você. Já passamos por tanta coisa juntos, alcançamos feitos verdadeiramente notáveis, que não me permitem deixar que o humilhe tropeçando vezes sem conta em cada uma das suas próprias mentiras.

- Não... não estou compreendendo.

- Claro que compreende, John. - Fez uma pausa. - Eu sei quem você é. É essa a razão principal por que estou telefonando. Sei tudo sobre Wilhelm Becker e, ainda mais importante, sei tudo sobre o Estronate 250.

Becker olhou de relance para o manuscrito, disposto de modo organizado sobre a impressora, e fez um esforço sobre-humano para se acalmar. Naquela altura do seu percurso, não se lembrava de grande coisa que aquele homem pudesse fazer para prejudicá-lo. No entanto, Cyrus Redding não deixava de ser Cyrus Redding e todos os cuidados eram poucos. “Fique calmo, mas não o subestime.”

- Os seus recursos são realmente impressionantes - afirmou.

- John, diga-me sinceramente, foi o Estronate 250 que desencadeou todos aqueles problemas no Omnicenter, não foi?

- Foi.

- As hemorragias são um efeito secundário indesejável?

Becker ia começar a explicar que o problema fora ultrapassado e que aquela hormona estava, para todos os efeitos, aperfeiçoada. Mas desistiu no último momento.

- Sim - confessou. - Um defeito infeliz que ainda não me foi possível retirar do sistema.

- Devia ter me contado - disse Redding. - Devia ter confiado em mim.

- O que quer?

- John, vamos lá. Já é suficientemente mau não me ter respeitado o suficiente para ser merecedor da sua confiança. Já é suficientemente mau que todas essas suas experiências não autorizadas tenham colocado a minha empresa em uma situação de risco. Não tente humilhar a minha inteligência. Quero estender o âmbito da nossa associação, de forma a incluir essa sua notável hormona. Afinal, ela foi testada nas instalações fundadas por mim.

- O trabalho ainda não está terminado. Existem vários problemas. Problemas graves.

- Iremos ultrapassá-los. Conhece o potencial deste seu Estronate tão bem como eu. Estou preparado para te fazer uma oferta neste mesmo momento de... digamos, meio milhão de dólares agora e quantia idêntica quando tiver terminado o trabalho a ponto de satisfazer os meus bioquímicos. E, claro, receberia uma percentagem de todas as vendas.

“Vendas.” Becker percebeu que o mais terrível cenário corria o risco de se tornar uma realidade. Redding não compreendia apenas a natureza química do Estronate, como ainda o seu valor ilimitado para determinados regimes políticos. Como? Que diabo havia ajudado o homem a entender tudo tão depressa?

- Estava... estava planejando submeter, eventualmente, o meu trabalho a publicação - sugeriu.

Redding deu uma gargalhada estrondosa.

- Isso é mau negócio, John. Muito mau negócio. O valor do nosso produto iria seguramente cair se a sua existência e propriedades únicas se tornassem do conhecimento geral. E que tal se você ficar dirigindo a parte científica e me deixar lidar com as questões legais?...

- Se eu recusar - disse Becker com medo -, vai me matar?

De novo Redding soltou uma gargalhada.

- Talvez. Talvez o faça. Todavia, existem muitas pessoas, disso tenho certeza, que pagariam generosamente por qualquer informação sobre o médico a que os prisioneiros de Ravensbrück davam o nome de Serpente.

Durante algum tempo reinou o silêncio.

- Como foi que descobriu tudo? - perguntou, por fim, Becker.

- Porque não reservamos as explicações, doutor Becker, para depois da consumação do nosso novo contrato de trabalho?

- Preciso de tempo para pensar.

- Leva o tempo que quiser até, digamos, vinte e quatro horas.

- Os problemas intrínsecos à hormona poderão ser intransponíveis.

- É um risco que corro. Deve-me isso. Por causa dos problemas que causou nas instalações de testes, está em dívida comigo. Aliás, deve-me ainda mais uma coisa.

- Sim?

- Quero saber quem é o indivíduo no Omnicenter que te tem ajudado no seu trabalho.

Becker começou a protestar, afirmando veementemente que não existia tal pessoa; porém, decidiu não abusar mais da paciência do homem. Em menos de doze horas, um mensageiro iria entregar a pasta referente ao Estronate e as lamelas correspondentes a The New England Journal of Medicine, tornando a hormona na sua essência do domínio público. Já decidira que a exposição da sua verdadeira identidade e o risco de passar os poucos anos que lhe restavam em uma prisão era um preço baixo a pagar pela imortalidade.

- Quarenta e oito horas - pediu.

Redding hesitou.

- Está bem, então - concedeu por fim. - Darei quarenta e oito horas. Sabe o meu número. Fico à espera de notícias suas dentro de dois dias. Todo o trabalho relativo ao Estronate e o nome do teu sócio. Adeus.

Desligou o telefone.

- Adeus - respondeu Becker, mas do outro lado só se ouvia o sinal de discar. À medida que afastava o telefone do ouvido, escutou um clique breve mas definitivo. Esse som envolveu-o de um medo arrepiante. Alguém, certamente William, encontrava-se na extensão do térreo. Há quanto tempo? Há quanto tempo estaria ali?

Na desarrumada semiobscuridade do estúdio, Willi Becker fez um esforço para prestar atenção aos mais ínfimos sons. Durante algum tempo, apenas o silêncio invadiu o espaço. “Talvez”, pensou, “não houve qualquer clique.” Depois ouviu o som inconfundível de passos nas escadas.

- William? - Mais uma vez o silêncio. - William?

- Sim, pai, sou eu.

Zimmermann apareceu de súbito junto à porta. Aí permaneceu, de braços cruzados, olhando placidamente para o pai.

- Você... .ah... me surpreendeu. Há quanto tempo está em casa?

- Há tempo suficiente.

Zimmermann caminhou até à estante e serviu-se de uma bebida. Estava, como sempre, vestido de modo elegante. À luz proveniente do candeeiro de leitura, sobressaía o pesado anel de diamantes, que trazia no dedo mínimo da mão esquerda, fazendo ainda reluzir os seus elegantes sapatos de design italiano.

- Esteve ouvindo a conversa, não esteve?

- Hum, talvez. - Zimmermann partiu um pequeno palito de madeira em dois e com uma das pontas começou a limpar as unhas.

- Foi indelicado da sua parte ter ouvido a conversa.

- Eu, indelicado? Mas, pai...

- Olhe, se ouviu, ouviu. Na verdade, não tem qualquer importância.

- É mesmo?

- Esteve ouvindo exatamente durante quanto tempo? Zimmermann não respondeu. Em vez disso, aproximou-se da impressora, pegou no manuscrito do Estronate e folheou-o calmamente, virando página após página.

- Meio milhão de dólares, só para começar. Parece que sempre se confirma que as coisas boas vêm em uma embalagem pequena.

- Dê-me isso.

Becker estava muito fraco, muito exausto devido aos medicamentos, para conseguir sequer levantar-se. Zimmermann ignorou o pai.

- Wilhelm W. Becker, médico, doutorado - leu. - Então é este o meu pai.

- Por favor, William.

- Como é bom saber que o homem chamado John Ferguson, que durante tantos anos ignorou e abusou da minha mãe, afinal não era o meu pai. A Serpente de Ravensbrück. Aqui está o meu verdadeiro pai.

- Eu nunca abusei da sua mãe. Fiz o que tinha a fazer.

- Pai, por favor. Ela sempre soube que você poderia ter vindo para casa mais vezes, coisa que nunca fez. Ela sabia tudo acerca das suas mulheres, das suas inúmeras mulheres. Ela sabia que nenhum de nós da família teria alguma importância quando comparados com a sua preciosa investigação. Becker observou o filho de olhos esbugalhados.

- Você me odeia, não é? - Sentia-se incredulidade no tom de voz.

- Não, não o odeio. A verdade é que não sinto nada em relação a você, nem para o mal, nem para o bem.

- Mas eu o ajudei durante toda a sua ascensão. Foi graças ao meu dinheiro que pode freqüentar as melhores escolas. O seu lugar no Omnicenter, como acha que conseguiu? Acha que foi por acaso que Harold French se afogou acidentalmente no exato momento em que estava pronto para assumir o lugar dele? Fui eu! - A voz áspera e roufenha de Becker tornara-se quase inaudível. - Se você se preocupa assim tão pouco comigo, William, por que razão me ajudou no meu trabalho ao longo de tantos anos? Por quê?

Zimmermann fitou impavidamente o pai.

- Por causa das pessoas com quem se relaciona, claro. O seu amigo Redding triplica o que o hospital me paga. Você sugeriu o meu nome e foi ele quem puxou os cordéis para me arranjar um cargo de professor. Sei que foi ele.

- Ele te arranjou o lugar por minha sugestão e pode tirá-lo da mesma forma.

- Será que ainda pode? - Zimmermann ergueu o manuscrito do Estronate. – Você mentiu. Disse-lhe que ainda existiam falhas a corrigir no trabalho. Porquê? Mal descubra que mandou publicar isto, acredita mesmo que irá limitar-se a sair de cena e deixar-nos em paz? Acha que ele não vai descobrir quem eu sou? O que eu tenho feito para te ajudar nas costas dele? Acha mesmo? - Estava gritando. - Pois bem, digo-lhe aqui com todas as letras, pai, isto é meu. Paguei-o ao longo dos anos com as incontáveis humilhações. Cyrus Redding irá obter o seu Estronate e eu a herança que me é devida.

- Não!

Ao mesmo tempo em que gritava essa palavra, Wilhelm Becker sentiu uma dor dilacerante no lado esquerdo do peito. O coração, enfraquecido pela doença e arduamente comprometido pelas anfetaminas, batia sem qualquer cerimônia da forma mais irregular.

- O meu oxigênio! - implorou. - No quarto. Oxigênio e nitroglicerina!

O estúdio rodopiava medonhamente, provocando náuseas. Pela primeira vez, William Zimmermann sorriu.

- Receio que não consiga ouvi-lo, pai - disse com ar benevolente. - Pode, por favor, falar um pouco mais alto?

- Will... iam... por favor... - As últimas palavras de Becker ficaram abafadas pelo gorgolejo de fluído que saía dos pulmões, e pelo vômito oriundo do estômago. Fez um último e penoso esforço em direção ao filho, acabando por cair sobre o tapete, com o rosto afogado nos dejetos que lhe haviam causado a morte.

Depois de contornar cuidadosamente o cadáver do pai, Zimmermann enfiou a pasta do Estronate dentro de um amplo envelope, em seguida, retirou o disquete do processador de texto, juntando-o ao trabalho. Copiou ainda um número de telefone do livro de endereços de cabedal, que encontrou enterrado por baixo de alguns papéis, em um dos cantos da mesa. Por fim, agarrou os três cadernos de apontamentos amarelados, onde estavam todos os dados sobre o Estronate, e colocou-os sob o braço. Iria telefonar a Cyrus Redding da extensão do térreo.

O magnata farmacêutico não demonstrou grande surpresa pelo telefonema de Zimmermann ou pela rápida inversão dos acontecimentos em Newton. Pelo contrário, ouviu pacientemente todos os detalhes da vida de Willi Becker, detalhes de que só o filho tinha conhecimento.

- Doutor Zimmermann - disse, por fim -, vamos parar por aqui para ver se até agora estou compreendendo tudo perfeitamente. Seu pai, quando estava supervisionando a construção do Omnicenter, mandou instalar secretamente na subcave um laboratório só para ele?

- Exato - respondeu Zimmermann. - Na planta está representado por uma espécie de área de armazenamento não utilizada, acho eu.

- E a única forma de entrar nesse laboratório é através de um sistema eletrônico de segurança?

- A fechadura está escondida e tem um código eletrônico. A porta encontra-se camuflada atrás de umas estantes.

- Existe mais alguém, para além de você, que possua a combinação?

- Não. Pelo menos, tanto quanto sei.

- Notável. Doutor Zimmermann, o seu pai é um homem brilhante.

- O meu pai está morto - acrescentou Zimmermann friamente.

- Sim - repetiu Redding. - Sim, é verdade. Diga-me, este problema da hemorragia foi definitivamente eliminado?

- Meu pai modificou a síntese há mais de um ano. Demorava cerca de seis a dezoito meses após o tratamento para que se desenvolvesse esse problema sanguíneo. As três pacientes de que tem conhecimento foram todas tratadas, fez em Julho passado um ano. Não existem, até onde vão os nossos conhecimentos, novos casos desde então. Não se esqueça, contudo, que nunca foram assim tantos os casos. E, na sua maior parte, eram ligeiros.

- Sim, estou compreendendo. Para mim, o mais notável foi como conseguiu inserir o seu programa de testes no sistema informatizado de Carl Horner sem ele ter percebido.

- Como disse, Mister Redding, o meu pai era um homem brilhante.

- Sim. Pois bem, suponho então que nós dois deveríamos explorar a possibilidade de uma nova sociedade.

- Os termos que apresentou ao meu pai são, do meu ponto de vista, perfeitamente aceitáveis. Tenho comigo o manuscrito e os cadernos de apontamentos. Tendo em conta que o trabalho já está finalizado, estou disposto a entregar-lhe tudo isto, sem mais nenhuma pergunta, pela quantia que lhe prometeu.

- É uma grande quantidade de dinheiro, doutor.

- O mais espantoso é que, até ter ouvido hoje a sua conversa com o meu pai, eu ainda não percebera o potencial valor da hormona. - Zimmermann mal conseguia suster a alegria proveniente da sua sorte.

- É bioquímico, doutor?

- Não, não sou.

- Nesse caso, gostaria de reservar a minha oferta final até que o meu próprio bioquímico tenha oportunidade de rever o material, ver o laboratório e proceder à síntese da hormona.

- Quando?

- Porque não amanhã? O doutor Paquette, que julgo que conhece, irá encontrar-se com você no seu gabinete, digamos, às sete da noite. Um dos meus homens, Nunes, irá acompanhá-lo e terá a autoridade e o dinheiro para efetuar o nosso acordo, se o doutor Paquette estiver totalmente satisfeito com o que tiver visto.

- Parece-me bem. Me assegurarei que a porta lateral de acesso ao Omnicenter permaneça aberta.

- Isso não será necessário, doutor Zimmermann. Paquette tem as chaves.

- Muito bem, então, às sete... Mais alguma coisa?

- Por acaso, doutor Zimmermann, até há. É toda esta história com o Omnicenter e aquela patologista.

- Refere-se à Bennett?

- Ela tem se mostrado uma jovem com grande capacidade de recuperação. Acha que ela ficou convencida com a conversa que teve com o nosso homem da Fundação Ashburton?

- Não. Não completamente. Disse-me até que iria continuar a investigar. A mulher que está atualmente aqui hospitalizada devido a complicações provocadas pelo tratamento com Estronate é uma grande amiga dela.

- Estou entendendo. Sabe, doutor, nada disto teria acontecido se tanto o senhor como o seu pai não tivessem conduzido seu trabalho de uma forma tão imprudente e individualista. - O tom de voz era austero. - Não se sente responsável perante esta empresa pelo que fez?

- Responsável?

- Se pretendemos formar uma sociedade, gostaria de ter certeza de que não vou perder os milhões que tenho investido no Omnicenter, só porque não fomos capazes de neutralizar uma mulher.

- Mas ela foi neutralizada. Cometeu um grave erro em uma peça patológica. O chefe do departamento dela suspendeu-a. Não será suficiente para desacreditá-la?

- Não estou falando em desacreditá-la, meu amigo. Estou falando de impedi-la de fazer seja o que for. Sabe como é importante manter o Estronate no maior segredo. É suficientemente mau a doutora Bennett ameaçar, com a sua obstinação, a existência do Omnicenter. Se ela por acaso descobrir o Estronate, temos muito, mas muito a perder.

- Eu próprio me certificarei que isso não acontecerá.

- Excelente. Mas lembre-se de que não lido bem com a decepção. Então até amanhã, doutor.

- Sim, até amanhã.

William Zimmermann verificou pela última vez a casa, limpando com um pano tudo aquilo que pudesse ter tocado. A precaução era, quase com certeza, desnecessária. O rapaz que tomava conta da casa apareceria por volta das oito da manhã, e a morte, com que depararia lá em cima, iria decerto ser atribuida a causas naturais. À medida que se escapulia pela porta dos fundos da casa do pai, carregando uma fortuna em apontamentos e folhas impressas, Zimmermann centrou os seus pensamentos em Kate Bennett.

 

O pesadelo era como um sacrifício religioso, mais penetrante e opressor a cada hora que passava. O cenário mudara da desarrumação do seu gabinete para a opulência requintadamente decorada e confortável do estúdio de Win Samuels, porém, para Kate, a mudança significava apenas mais confusão, mais humilhação, mais dúvidas.

“Sei perfeitamente o que está parecendo. Sei perfeitamente o aspecto que tem. Mas não é verdade... Não sei quem o fez... Não sei... Raios os partam, não sei!”

O regresso de Jared na noite anterior começara de maneira positiva - um abraço emocional e o primeiro beijo há quase uma semana até então. Durante algum tempo, à medida que transpunham a multidão até à área das bagagens, ele parecia incapaz de manter as mãos ou os lábios longe dela. Era como se estivesse dando um grito de liberdade, finalmente assumindo o amor que sentia por ela. “Aceito-a, indiferente às coisas em que está envolvida, indiferente ao impacto que essas mesmas coisas poderão ter na minha vida. Aceito-a porque acredito em você. Aceito-a porque te amo.”

Todavia, à medida que ela partilhava com ele o pesadelo que estava vivendo, Kate começou a sentir que ele se retraia, que o entusiasmo anterior ia desaparecendo devagar. Era visível primeiro nos seus olhos, depois na voz e, por fim, na maneira como lhe tocava. Estava fazendo um esforço, Kate tinha consciência disso, talvez até o maior esforço da sua vida. No entanto, ela também sabia que a confusão e a dúvida não deixavam de desempenhar o seu papel. Por que razão iria uma empresa tão grande como os Produtos Farmacêuticos Redding fazer as coisas que ela os estava acusando? A Fundação Ashburton tinha uma reputação intocável. Que provas existiam de que eles eram uma fraude? Por que razão faria alguém uma coisa tão terrível como mudar as biopsias? E como o haviam feito? Não existia um registro das análises executadas no laboratório de toxicologia? E, no meio disso tudo, onde entrava a, carta de Bobby Geary?

“Sei perfeitamente o que está parecendo. Sei perfeitamente o aspecto que tem. Mas não é verdade.”

A cada “porquê”, a cada “não sei”, Kate sentia que Jared ia se afastando do seu pesadelo. Quando finalmente surgiu em conversa a história relativa ao pai e à irmã, já ela se sentia completamente isolada, tão sufocada como antes, talvez até mais. Estavam a meio caminho de casa, em direção a Essex.

- Isso é absolutamente incrível - comentara Jared, desviando-se para a beira da estrada e parando o carro. - Não... não acredito nisso.

Era a primeira vez desde o seu regresso que pronunciava tais palavras.

- Depois de tantos anos, por que razão não me diria que a minha irmã está viva?

- Não sei. - A frase ecoou no seu cérebro. - Talvez queria poupá-lo de tamanha fealdade.

- Isso não faz qualquer sentido. Você diz então que ele te levou a essa suposta instituição para convencê-la a recusar a posição no hospital e a se concentrar na maternidade?

- Foi isso o que ele me disse.

Jared abanou a cabeça, incrédulo.

- Deixe-me ver se entendi isto bem. O meu pai, que para começar nunca se entendeu muito bem com minha mulher, manda-me para fora de forma a poder levá-la a uma instituição no meio de lugar nenhum e apresentá-la à minha suposta irmã. Irmã essa que ele me convenceu estar morta há mais de trinta anos. Isto faz algum sentido para você?

- Jared - balbuciou, sentindo que a voz começava a tremer -, há muitos dias que nada faz sentido para mim. Posso apenas contar a verdade.

- Bem, se o caso é esse - proferiu, por fim -, acho que gostaria de descobrir em primeira mão por que razão meu pai tem me escondido isso.

- Não podemos ao menos esperar até que...

- Não! Não consigo lembrar-me de uma só coisa que eu possa fazer em relação ao Bobby Geary ou ao Omnicenter ou à Fundação Ashburton ou ao técnico desaparecido ou às malditas biopsias mamárias, mas raios me partam se não posso fazer qualquer coisa em relação ao meu pai.

Sem aguardar resposta, dera meia volta e enfiara-se na auto-estrada, regressando à via rápida que ia para Boston. Agora, no estúdio muito aquecido, tornando-se quase desconfortável, Kate estava sentada junto a uma janela de vitrais com cento e trinta anos, observando as festivas luzes de Natal da Praça Louisburg e ouvindo ao mesmo tempo o marido e o sogro discutindo se ela era apenas mentirosa, uma mulher que precisava urgentemente de ajuda profissional ou ambas as coisas. Jared, é impossível não reconhecer, fazia o seu melhor na tentativa de lhe dar o benefício da dúvida, porém, toda a discussão se reduzira a uma prova de fogo entre a palavra dela e a do pai. Quando a conversa começou a abranger os outros temas, todas as outras confusões com que ela o bombardeara desde o momento em que aterrara em Logan, não foi complicado perceber as dificuldades com que Jared deparou para defender com unhas e dentes a mulher.

- Pela última vez, Jared - afirmou Win Samuels com uma calma autoritária -, jantamos juntos, o pato especial da Jocelyn. Depois do jantar conversamos. Depois fomos dar um passeio de carro pelo campo. Eu não saíra todo o dia de casa e estava precisando esticar as pernas. É verdade que paramos na Escola Stonefield. Faço parte do conselho de administração. Mas garanto-lhe, meu filho, que a nossa visita foi uma pura coincidência. Estávamos apenas a poucos quilômetros da escola quando me lembrei que tinha alguns papéis importantes no banco de trás do carro, que planejava enviar por correio no dia seguinte ao Gus Leggatt, o diretor da escola. É verdade que, enquanto estivemos lá, demos uma olhada em algumas crianças. Em parte devido à nossa visita, no caminho de regresso consegui partilhar os meus medos com a Kate relacionados com a possibilidade dos filhos de mulheres mais velhas nascerem com deficiências. A Kate explicou-me tudo acerca dos desenvolvimentos da amniocentese, fatos que, posso acrescentar, me pareceram bastante reconfortantes. Fiz referência à sua irmã, decerto, mas nunca sugeri que ela estivesse viva. Lamento, Jared. E lamento também por você, Kate. - Olhou para ela de igual para igual. - Sei que tem andado sob grandes pressões. Talvez... descansar, uns dias de férias.

“Dias de férias.” Kate suspirou. Winfield não poderia saber que Stan Willoughby já se encarregara disso. Levantou-se devagar e aproximou-se de Jared.

- A Escola Stonefield deve estar na lista telefônica - pronunciou em um tom de voz cansado. - Broderick, Massachusetts. Se a neve não piorar, podemos chegar lá em quarenta e cinco minutos, no máximo uma hora. E assim arrumamos o assunto de uma vez por todas.

- Quer vir conosco, pai? - perguntou Jared.

- Não tenho qualquer motivo para ir seja onde for - respondeu com simplicidade Win Samuels - Kate, a irmã de Jared nasceu com graves anomalias e morreu exatamente na data que Jared sabe, há trinta anos. Talvez teve uma espécie de pesadelo. Às vezes as ilusões fantásticas quase parecem realidade. É normal acontecer, em especial se uma pessoa está sujeita a uma grande quantidade de stress como você...

- Não é stress! Não é stress, não é um sonho, não é uma mentira desesperada de uma mulher desesperada, não é... demência.

Enfrentou-o diretamente, fixando os olhos nos dele. Samuels não deu o braço a torcer, mantendo uma máscara facial impávida e inexpressiva.

- É a verdade. A verdade! Não faço a mínima idéia porque está fazendo isto, não entendo o que pretende atingir. Mas uma coisa sei. Não vou desistir. Você manipula as pessoas na sua vida como se fossem peças de um enorme tabuleiro de xadrez. A Jocelyn na posição do bispo, Jared avança para a rainha. Não é a sua vez? Não faz mal, basta desembolsar alguns milhares de dólares para rapidamente fazer com que seja.

Samuels fez menção de falar, todavia, Kate impediu-o, erguendo ambas as mãos.

- Ainda não acabei. Quero dizer-lhe uma coisa, Win. Acho que me subestimou. Infelizmente. Passei por uma infância de completa solidão, uma educação sem quaisquer objetivos e por um casamento com um louco alcoólatra, que insistia em escolher até mesmo a minha roupa íntima. Sobrevivi e cresci em uma profissão na qual sou tratada com condescendência e até mesmo discriminada. Lidei com homens que não tinham coragem de deixar de olhar, muito menos deixar de pensar, em outras coisas que não os meus seios. Lidei com eles e fui bem sucedida.

- Tem sido difícil. Às vezes, é muito doloroso enfrentar a realidade. Mas durante os últimos cinco anos, tenho tido uma arma secreta. Está ali mesmo, Win. - Fez um aceno em direção a Jared. - Quando acaso me esqueço de que estou bem, ele me recorda. Quando tenho de enfrentar os Norton Reeses, os Arlen Paquettes e, sim, os Winfield Samuels deste mundo, ele me dá força. Eu o amo e tenho fé nele. Mais cedo ou mais tarde, ele irá perceber da forma como o senhor brinca com as vidas dos que o rodeiam. Mais cedo ou mais tarde, desejará falar com ele e ele não estará lá.

- Já terminou? - inquiriu Samuels.

- Sim, terminei. E não quero ouvir mais nada do que tem para dizer, exceto se for um pedido de desculpas e toda a verdade acerca da outra noite. Como foi que lhe passou pela cabeça que eu não iria contar nada ao Jared? Como é possível que tenha acreditado que eu iria esquecer onde fomos e o que fizemos? Por favor, Jared, vamos andando. Já é tarde e temos uma longa viagem pela frente.

Nesse preciso momento, ouviu-se um ruído, um pigarrear de garganta, vindo da porta. Voltaram-se os três ao mesmo tempo em direção ao lugar de onde vinha o som. Jocelyn Trent encontrava-se de pé, na mão um tabuleiro de prata com café e chá.

- Há quanto tempo está aí? - exigiu saber Samuels.

A mulher não respondeu.

- Então?

Jocelyn hesitou. Depois colocou o tabuleiro sobre a mesa mais próxima e afastou-se a passos largos.

 

- Escola Stonefield - indicou Kate. - Veja, eu disse que conseguiria encontrá-la. Só nos enganamos duas vezes. Fez uma curva em direção à entrada, passou a pequena tabuleta e estacionou o carro junto à porta.

- Chegamos exatamente à mesma hora que na outra noite. Se tivermos alguma sorte, estará a mesma enfermeira de serviço. O nome dela é Bicknell, Sally Bicknell ou qualquer coisa do gênero. Tenho certeza de que consigo reconhecê-la. Ela usava em média oitenta pulseiras de ouro e tinha anéis em três ou quatro dedos de cada mão. Que figura!

Sabia que a maneira como falava deixava transparecer um certo nervosismo. Jared pouco dissera durante toda a viagem.

A sua apreensão era decerto compreensível, mas ela deu por si a desejar que ele recuperasse ao menos alguma da emoção demonstrada no aeroporto. “Não tem importância”, disse a si mesma para se consolar. Bastavam dois minutos em Stonefield para ele perceber que, pelo menos naquele terreno, ela falara a verdade. Que estupidez a de Winfield se alguma vez pensava que as coisas não iriam acontecer daquela forma. Que característica tão imprópria do homem julgar tão mal as ações de uma pessoa, como fizera com ela.

A enfermeira, Bicknell, encontrava-se trabalhando à mesa, em um pequeno escritório junto à entrada. Tinha o cabelo apanhado em um rabo-de-cavalo e usava apenas uma pulseira de ouro no pulso. Longe da mulher excêntrica e extrovertida que Kate descrevera. Essa observação, Kate percebeu com incômodo, não tinha passado despercebida pelo marido.

- Tem certeza de que é a mesma mulher? - sussurrou Jared, enquanto atravessavam a entrada.

- É ela. Olá, Miss Bicknell. Lembra-se de mim?

A mulher não demorou mais do que um segundo para responder.

- Claro. Esteve aqui com Mister Samuels há quatro, não, não, há três noites atrás. Correto?

- Exatamente. Tem uma excelente memória.

- De elefante - respondeu Sally Bicknell, batendo com um dedo de encontro à testa.

- Este é o meu marido, Jared. Miss Bicknell, apresento-lhe o filho de Mister Samuels.

- Prazer em conhecer. - A mulher apertou a mão que Jared lhe ofereceu. - Não é muito costume recebermos visitantes noturnos aqui em Stonefield. De fato, não recebemos muitos visitantes, seja a que hora for. - Olhou à volta. - Uma espécie de terra esquecida, acho eu.

- Miss Bicknell, viemos aqui para ver a irmã do meu marido.

A mulher fez uma expressão de incompreensão.

- Receio... receio não estar entendendo.

Kate sentiu que uma atmosfera de apreensão ia se instalando lentamente.

- Lindsey Samuels - proferiu, com uma certa irritação, se não mesmo medo, na voz -, a menina que vimos na segunda-feira à noite, exatamente ali. - Apontou para a cortina de veludo azul.

Sally Bicknell olhou para ela de forma estranha e depois empurrou-os na direção referida, afastando a cortina.

- Ela?

E lá estava a menina, movendo-se da mesma forma desajeitada que na outra noite.

- Sim, exatamente - disse Kate. - É ela, Jared. É a Lindsey.

- Desculpe, Senhora Samuels, mas está enganada. O nome daquela garota é Rochelle Coombs. Tem dezesseis anos e possui uma doença genética chamada síndrome de Hunter.

Kate controlou-se a tempo, antes de começar a chamar a mulher de mentirosa.

- Posso ver a ficha médica dela, por favor?

A enfermeira voltou a fechar a cortina.

- A ficha médica dela é confidencial. Mas garanto-lhe que o nome dela é Rochelle Coombs e não, como foi que disse?...

- Lindsey - respondeu Jared. - Lindsey Samuels.

Kate percebeu então de que era a primeira vez que o marido dizia uma palavra desde que haviam chegado.

- Não é Lindsey Samuels - declarou Sally Bicknell peremptoriamente.

Nesse preciso momento, Kate tomou consciência do que a tinha incomodado tão fortemente da primeira vez que observara a deficiente. Ela era muito nova para ser irmã de Jared. Muito nova. Os seus traços grosseiros e as outras deformações fisicas acrescentavam alguns anos, mas nunca vinte. As feições grotescas da garota haviam impedido que ela se aproximasse e a visse melhor. Teria Win Samuels contado com isso? Silenciosamente, amaldiçoou a sua própria estupidez. Derrotada e impotente, podia apenas encolher os ombros e abanar a cabeça.

- Desejam mais alguma coisa? - perguntou Sally Bicknell.

Kate olhou para Jared, que fez sinal negativo com a cabeça.

- Não - respondeu com a voz rouca. - Pedimos... pedimos desculpa pela invasão.

- Nesse caso - afirmou a mulher -, tenho coisas a fazer.

Virou-se e, sem sequer os levar até à porta, afastou-se. Kate sentia-se mais indisposta do que zangada. Quando se aproximaram do carro, deu as chaves a Jared.

- Você dirige, por favor. Não estou em condições. Seu pai me disse que era a Lindsey, Jared. Juro que disse. E aquela mulher estava exatamente ao nosso lado, quando ele me disse. Percebeu que não fazia qualquer sentido continuar conversando sobre o assunto. Win Samuels delineara uma estratégia em que jamais poderia perder. Ou ela ficaria impressionada com a visão e, nesse caso, teria concordado em desistir do hospital e, como ele desejava, centrar a sua atenção nos assuntos domésticos, ou ficaria suficientemente zangada para fazer o que acabara de fazer. O seu filho, já com várias dúvidas no que dizia respeito a Kate, iria distanciar-se cada vez mais do casamento e concentrar os seus esforços no futuro político, depois de se desembaraçar de uma esposa, cujas prioridades e estado mental estavam nitidamente desequilibrados. Tudo isso pela módica quantia correspondente a um depósito de gasolina e ao dinheiro necessário para subornar Sally Bicknell. “Bem planejado, Win”, pensou. “Muito bem planejado.”

Afundou-se no assento e ficou olhando sem ver a noite que a rodeava.

 

                         SEXTA-FEIRA, 21 DE DEZEMBRO

- Ela está suspensa, acabada, é carta fora do baralho. Fui eu que consegui - exclamava Norton Reese de forma exultante. - Ontem à tarde. Tentei telefonar-lhe, mas ninguém atendeu.

Ainda deitado sobre a sua cama no Ritz, Arlen Paquette olhou para o relógio, fazendo um esforço quase sobre-humano para conseguir focar os números. Sete e meia? Estaria o relógio certo? Seria possível que o maldito Reese estivesse acordando-o às sete e meia da manhã? Tateou à procura do interruptor do candeeiro, cuja luminosidade lhe feriu os olhos. Em algum lugar, durante as últimas quatro horas, passara do estado de embriaguez para a mais violenta ressaca. Na boca sentia um sabor terrível e os músculos estavam doloridos, como se tivesse andado brigando.

- Norton, espere só um minuto para ver se eu acordo mais um pouco.

Tirou um cigarro de um maço amassado e conseguiu acendê-lo na terceira tentativa. Durante a última semana, passara dos habituais quatro a cinco cigarros por dia para os três maços diários. Ficou por alguns instantes olhando para a garrafa meio vazia de Dewar's que se encontrava sobre a estante.

- Raios me partam, não - murmurou para si próprio. - Pelo menos, por enquanto.

Precisou das duas mãos para conseguir manter o telefone imóvel junto à orelha.

- Muito bem. Então, conte-me como foi que conseguiu conquistar essa magnífica vitória?

Paquette prestou atenção à entusiástica recapitulação dos acontecimentos que tinham originado a suspensão não oficial de Kate Bennett pelo seu chefe, Stan Willoughby. Quando o administrador deu por terminado o relato, Paquette já se dirigira à garrafa de uísque e emborcara mais de meio copo. A história era nojenta. Uma mulher perdera um peito sem qualquer necessidade e outra fora destruída profissionalmente e tanto ele como o idiota do outro lado da linha eram os responsáveis. À medida que escutava Reese vangloriando-se, uma decisão começou a tomar forma nos seus pensamentos. Apanhou uma fotografia de Kate Bennett que se encontrava no chão junto à cama e tentou recordar-se de como ela poderia ter ido parar lá.

- Norton - anunciou alegremente -, fez um trabalho dos diabos. O nosso amigo vai ficar muito satisfeito quando eu lhe contar. Verdadeiramente satisfeito. Olhe, ouça. Ainda vai estar durante algum tempo aí no seu gabinete?... Ótimo. Gostaria de passar por aí e saber alguns dos detalhes pessoalmente. Devo chegar aí por volta das nove e trinta... Ótimo. Então, até já.

Desligou o telefone e estudou a fotografia que tinha na mão. O uísque abrandara os tremores e começara a aliviar o martelar na cabeça.

- Acho que já lhe fizemos merda suficiente, doutora Benett - afirmou. - Chegou a hora de alguém a apoiar no contra-ataque.

Olhou mais uma vez para o relógio e telefonou para Darlington. A esposa atendeu ao segundo toque.

- Querida, as crianças já foram para a escola?... Ótimo. Então não as deixes ir. Quero que faça as malas e as leve para casa da sua mãe... Querida, eu sei onde vive a sua mãe. Se andar rápido, conseguirá chegar lá por volta da hora do jantar. Tive alguns problemas aqui com o velho Cyrus e quero apenas garantir que tanto você como as crianças ficam em um lugar seguro... Talvez alguns dias, talvez uma semana. Não sei. Por favor, amor. Confie em mim só por esta vez. Depois, explico tudo. Escute, te amo muito. Peço desculpas pela última noite. Te amo. Agora não diga nada a ninguém. Faça o que eu disse: deixe a casa e vá pra casa da sua mãe.

Paquette tomou um banho e depois fez a barba, tentando com esforço não se cortar. Vestiu um terno completo que acabara de comprar, preterindo o colete a favor de uma camisa de casimira castanho-clara. Umas gotas de colírio, mais um gole de uísque, alguns rebuçados de mentol e estava pronto. A caminho do hospital, iria adquirir um último objeto indispensável para o seu plano, parando em uma loja de eletrodomésticos para comprar um minigravador.

- Muito bem, doutora - disse, de olhos postos na fotografia de Kate - vamos lá arranjar-lhe umas provas.

Olhou para a sua imagem no espelho. Pela primeira vez, nas últimas duas semanas, gostou do que viu.

 

“Não há nada a fazer. Nenhum lugar para onde ir. Ninguém pode me ajudar.” Os pensamentos, a futilidade dos mesmos continuava a intrometer-se na tentativa de Kate em ganhar mais uma hora, ou pelo menos trinta minutos de sono naquela manhã. Tinham passado a noite - ou o que sobrara dela, depois do regresso de Stonefield - em camas separadas. Ou talvez Jared não tivesse sequer dormido. Ela lhe oferecera comida, depois companhia e, por fim, sexo, porém, o seu único desejo fora ficar sozinho. Depois de estar mais de uma hora observando o teto escuro acima da cama, Kate caminhara em pontas de pés pelo corredor e espreitara a sala de estar. Ele continuava no mesmo lugar onde ela o deixara, sentado no sofá, mordendo o lábio inferior e observando as linhas da palma da mão. O seu impulso imediato fora ir ter com ele, pedir-lhe que acreditasse nela e implorar-lhe a sua fé. Tão depressa como surgira, esse sentimento desaparecera. Se o casamento deles havia caído ao ponto de ser necessário implorar, então estava derrotada. Invadida por pensamentos acerca do que Jared estaria sofrendo por todas as opções que se sentia obrigado a tomar, Kate regressou discretamente para a cama, na esperança de que não demoraria muito até sentir o corpo dele enfiando-se docemente sob os lençóis.

“Não há nada a fazer. Nenhum lugar para onde ir. Ninguém pode me ajudar.” O toque do telefone interrompeu a ladainha. Kate olhou para o relógio. Oito e trinta. Nada mau. A última vez que olhara eram apenas seis horas.

- Alô?

- Kate? - Era Ellen.

- Olá. Como está se sentindo?

- Fiquei preocupada quando não veio hoje de manhã e resolvi telefonar para o seu gabinete. - A voz dela soava bastante rouca e o discurso algo destorcido. - Como não atendeu, liguei para a secretária do departamento. Kate, o que está acontecendo? Está doente?

- Ei, vamos com calma. Não vamos nos esquecer de quem é aqui o paciente e de quem é o médico, está bem?

- Kate, não brinque. Ela me disse que não sabia quando você regressaria. Fiquei... fiquei assustada. Eles estão me dando mais sangue e agora tenho um tubo enfiado no nariz. Acho que comecei a sangrar do interior do estômago.

- Merda - proferiu serenamente Kate.

- O quê?

- Disse “merda”.

- Ah! Então e você, está bem?

Kate evitou mentir no último segundo.

- Na verdade, não - respondeu. - Fisicamente até estou bem, mas tive problemas tanto no trabalho como aqui em casa. Pediram-me que tirasse alguns dias de folga enquanto o chefe do departamento resolve uns problemas relacionados com uma biópsia.

- Oh, Kate. E eu aqui só pensando nos meus próprios problemas. Peço que me desculpe. Sei que parece um pouco ridículo, tendo em conta a minha situação, mas posso fazer alguma coisa por você?

- Não, El. Apenas... mantenha-se forte e fique boa depressa.

- Não é a mim que tem de dizer isso, Katey. Diga antes a estas pequenas plaquetas ou lá como é que se chamam. Elas é que estão estragando tudo. Falou também de problemas em casa. Tem a ver com Jared?

“Pare de fazer perguntas a meu respeito, raios. Está esvaindo-se em sangue.”

- Receio que tanto a mulher do Jared como o seu próprio pai, na sua infindável sabedoria, o tenham colocado em uma posição em que ele terá de escolher entre os dois.

Naquele exato momento, começou a questionar-se sobre onde ele estaria. Talvez lá em cima, no quarto das visitas? Talvez ainda no sofá. Fez um esforço para ouvir qualquer barulho, mas apenas escutou um silêncio de morte.

- Você contra o Win? - perguntou Ellen. - Não tem concorrência. Graças a Deus. Pensei que era qualquer coisa mais séria. - A sua alegria parecia limitada pela fraqueza da voz.

- Ouça, minha amiga - proferiu Kate. - Vou aí para te ver logo à tarde. Posso estar proibida de entrar no departamento de patologia, mas decerto não estou na biblioteca. Estou à espera de dois jornais australianos dos Institutos Nacionais de Saúde. Juntas, vamos dar cabo do seu problema. Prometo.

- Eu acredito em você - afirmou Ellen. - A sério que sim. Então, até logo, senhora doutora.

Kate pousou suavemente o auscultador; depois, enfiou uma camisa de noite de flanela azul, presente de Jared, e dirigiu-se para a sala de estar. Roscoe, que aparecera de repente de debaixo da cama, acompanhou-a. Espreitou em direção à porta e de seguida verificou sistematicamente o resto da casa. Como receara, havia interpretado bem o silêncio. Jared tinha ido embora.

- Bem, bicho velho - proferiu, ao mesmo tempo em que coçava o cão atrás da orelha -, parece que somos só eu e você. Que tal uma corrida juntos e depois uns ovos estrelados para o café da manhã? Mais tarde, quem sabe, podemos fazer amor. A carta, redigida na cuidadosa caligrafia de Jared, encontrava-se sobre a mesa da cozinha. Ele tirara a fotografia do casamento de cima da lareira para servir de peso, impedindo a folha de voar. Kate deslocou a fotografia apenas o suficiente para poder ler as palavras, deixando-a, no entanto, ainda tocando a folha.

“Parece tão fácil, tão óbvio, que eu nem sequer tenho certeza de ter ouvido o padre pronunciar as palavras. “Para o melhor e para o pior.” Parece tudo tão fácil... até que um dia tem de parar e fazer a pergunta: Para o melhor de quem? Para pior de quem? Que faço eu quando o melhor dela parece o meu pior? Raios, Kate, tenho quarenta anos e me sinto como se fosse uma criança. Sabia que, durante toda a sua vida, eu nunca ouvi a minha mãe dizer não ao meu pai? Belo exemplo, não acha? Depois veio a Lisa - inteligente, bonita sem qualquer ambição ou orientação. Pensei que ela daria a esposa perfeita. Fazia a sopa e tomava conta das plantas e eu mantinha o cachimbo dela repleto de boa droga, decidindo quando podíamos nos dar a certos luxos e... assunto encerrado. Ainda não compreendi porque ela fugiu daquela maneira e, se outra Lisa tivesse aparecido, eu provavelmente casaria com ela em um instante. Mas não apareceu outra Lisa. Você apareceu.”

“Antes que eu percebesse, tinha me apaixonado e casado com uma mulher que possuía uma vida tão rica, interessante e complicada fora do casamento como eu. Provavelmente até mais. Depois da mãe e a seguir à Lisa, era como se me tivesse mudado para um país estrangeiro. Novos hábitos. Novas condições. Que quer dizer quando acha errado eu ter partido do princípio de que teríamos o mesmo sobrenome? Que quer dizer quando acha errado eu ter imaginado que iria me acompanhar em três comícios e em um jantar de campanha? Que quer dizer quando afirma que eu deveria ter perguntado primeiro? Que quer dizer quando me explica que se envolveu em problemas no seu trabalho que podem afetar a minha carreira? Eu poderia continuar pela noite fora a fazer uma lista de todas as suposições erradas que fiz do nosso casamento. É como se a minha personalidade não estivesse programada para me adaptar.”

“Pois bem, eu posso não estar programado, mas vontade não me falta. Foi preciso estar aqui sentado grande parte da noite para chegar a essa conclusão. Se tudo o que disse é verdade, quero fazer tudo o que estiver ao meu alcance para te ajudar a resolver as coisas. Se o que me disse não é verdade, ainda assim quero enfrentar essa questão e honrar os meus compromissos com você. Juntos iremos procurar todo o apoio que for necessário. Se não conseguirmos, não é decerto por eu ter virado as costas.”

“Fui falar com o meu pai e depois, quem sabe, ter uma pequena conversa com Norton Reese. Ature-me, Kate. No calendário até se pode marcar cinco anos, mas esta história do casamento é ainda muito nova para mim. Te amo. A sério que sim.

Jared”

Kate releu a carta, rindo e chorando ao mesmo tempo. As palavras de Jared mais não significavam do que um adiamento temporário, uma suspensão do pesadelo. Mesmo assim, ele dera-lhe a coisa de que ela mais precisava, além respostas: tempo. Tempo para lidar com os acontecimentos que andavam oprimindo sua vida.

- Havemos de descobrir, Rosc - anunciou alegremente. - Havemos de descobrir quem e por que.

Ouviu-se um latido agudo vindo da sala de estar, e Kate tomou consciência de que estivera todo o tempo a falar sozinha. Através da porta, conseguiu ver Roscoe empinar-se de modo desconfortável junto à porta dos fundos.

- Ó meu querido - riu. - Desculpe. Concentrando toda a sua atenção em abrir a porta ao cão, Kate não reparou no leve movimento do lado de fora da janela da cozinha nem pressentiu os olhos que a observavam. Abriu as portas e Roscoe depressa mergulhou naquela incrível manhã. A temperatura, de acordo com o termômetro pendurado junto à porta, era glacial. Flocos espessos de neve, caindo de um céu brilhante e prateado, desapareciam em um nevoeiro que emanava do chão, de uma densidade tal como Kate jamais vira. Roscoe correu ao longo da varanda para, por fim, desaparecer por completo pelas escadas que levavam ao jardim.

Kate calculou que a altura do nevoeiro ia para além de um metro. Supôs que a origem desse fenômeno físico era a superfície de Green Pond, um pequeno lago que, devido aos quentes afluentes subterrâneos, tardava sempre a congelar. A neblina de Inverno não era algo fora do normal em North Shore, especialmente na zona de Essex, todavia, a daquele dia primava pela intensidade. Era uma daquelas manhãs que estava mesmo pedindo uma corrida.

Vestiu-se e depois começou a fazer alguns alongamentos, ao mesmo tempo que decidia que caminho percorrer, combinando pequenos declives e montes íngremes ou ainda retas sem curvas ou inclinação, ao longo de oito quilômetros de estradas secundárias. Depois de se equipar com um boné dourado e um agasalho de um vermelho quase fluorescente, saiu cheia de energia pela porta da frente e assobiou para chamar Roscoe. Ele estava praticamente a seus pés, antes que ela pudesse vê-lo.

- Esta manhã vamos fazer dez quilômetros - avisou, ao mesmo tempo que galgavam o caminho de acesso à entrada e se afastavam do nevoeiro. - Acha que é rápido o suficiente para se agüentar?

No final do caminho, Kate virou para a direita. Caso tivesse virado para a esquerda, muito provavelmente teria estranhado a presença daquele BMW, estacionado longe de qualquer casa, e talvez chegasse até a reparar no autocolante azul do Metropolitan Hospital, colado na janela de trás.

O ar estava quase perfeito, ideal para correr, frio e imóvel. para cada um dos lados do estreito caminho, o nevoeiro cobria o chão da floresta como nuvens de algodão.

-Hoje é passo de corrida, Rosc - afirmou. - Cinco minutos ou menos por cada quilômetro. E não vou ficar à sua espera, por isso não se afaste muito.

Na realidade, Kate sabia perfeitamente que Roscoe era capaz de se manter no seu ritmo durante todo o dia e ainda conseguir parar, de quando em quando, para cheirar um arbusto ou fazer uma necessidade. Depois de meio quilômetro, abandonaram a estrada e viraram para um caminho de terra batida. Este ia contornando um pequeno riacho, que nos mapas estava sinalizado como Martha's Brook. Kate adorava atravessar as pitorescas e baixas pontes de pedra que cruzavam o rio, escolhera em parte aquele caminho por causa delas.

Ao final do primeiro quilômetro, os seus pensamentos começaram a ausentar-se da corrida. Durante os próximos três ou quatro quilômetros, sabia que as idéias iriam fluir mais livremente, a imaginação correria com mais nitidez do que em qualquer outra situação. Seguindo um caleidoscópio de conceitos, uma espécie de processo de decisão, o cérebro dela centrou a sua atenção na biópsia da mama. Talvez devido ao stress e aos problemas de saúde de Ellen, já sem contar com todo o caos que permeava a sua vida, ela tivesse cometido realmente um erro. Durante alguns instantes, esse pensamento sombrio dominou todo o seu cérebro, provocando-lhe um desagradável incômodo na garganta. Todavia, a verdade foi gradualmente reaparecendo, emergindo como a fênix das cinzas da sua autoconfiança. Estava convencida de que as células analisadas eram cancerosas. Mas, se assim fora, em algum lugar durante todo o processo ocorrera uma troca e mais tarde outra ainda. Mas como? Quem? Chegou à conclusão de que o criostato avariado fazia parte da charada. Sheila? Era possível. Mas porquê? As imagens foram dando lugar a outros tecidos, outras células - os ovários de Beverly Vitale e de Ginger Rittenhouse. Desde a descoberta do ácido antranílico nas suas próprias vitaminas, Kate procurava ao pormenor, todos os dias, hematomas no corpo, imaginando se as grandes quantidades de tecido afetado nos seus ovários já haviam tornado as discussões sobre ter filhos completamente ridículas. Ela tinha de descobrir. A resposta encontrava-se quase com certeza no Omnicenter, mais especificamente nas bases de dados dos Macacos de Carl Horner.

Dirigia-se à íngreme ladeira que levava à primeira passagem feita de lajes toscas, quando o BMW azul contornou o monte atrás dela e acelerou. Imersa na corrida e nos seus próprios pensamentos, perdeu vários segundos preciosos entre o momento em que ouviu o motor e em que se voltou para o carro. A uma velocidade estonteante, o automóvel desenhou uma curva precisa para a direita e acelerou propositadamente em direção a Kate. Não tinha tempo para pensar. Apenas para reagir. O muro da ponte, que lhe chegava à cintura, encontrava-se a poucos centímetros de distância. Mais um passo e saltou para cima dele. No exato momento do salto, o BMW atingiu-a por baixo do joelho direito. O impacto a fez rodopiar. Bateu na beira do muro com a coxa e depois tropeçou. Ao cair, ouviu o som nítido do metal batendo em pedra e o choro agonizante do seu cão.

A queda, uma altura de quase quatro metros, fora violenta. Caiu de costas sobre uma camada de neve meio derretida, sentiu uma grande lufada de ar sair dos pulmões e um ramo de um tronco podre rasgando a camiseta e todo o seu dorso no lado direito, por baixo das costelas. De um modo desesperado, tentou inspirar. Durante cinco segundos, dez, o corpo não fez qualquer movimento. Por fim, sentiu um sussurro de ar, primeiro na parte de trás da garganta e em seguida no peito. Tentou ir mais longe nos seus esforços, mas uma dor dilacerante de lado impediu-a de continuar. Tocou onde lhe machucava e depois verificou as pontas dos dedos das luvas de lã. Estavam encharcadas em sangue.

Freneticamente, tentou entender o que acontecera. Fora atingida. Roscoe também tinha sido. Possivelmente estava morto. Não fora um acidente. Fosse quem fosse que estivesse guiando, tentara atropelá-los. Com todo o cuidado, tentou mexer as mãos e as pernas. A perna direita estava latejando e o respectivo pé, enfiado dentro da água gelada do ribeiro, parecia estar torcido em um ângulo estranho. “Por favor, Deus, faça com que não esteja quebrado.” Sentia algumas dores, todavia, felizmente, ainda conseguia executar um movimento completo.

Naquele preciso momento, em algum lugar vindo de cima, ouviu uma porta de carro abrindo-se e fechando. Virou-se em direção ao som, mas não conseguiu ver nada. Demorou vários segundos para perceber por que. Estava literalmente enterrada no nevoeiro. de um lugar qualquer em cima e para a esquerda, um ramo partiu-se, depois outro. O condutor do carro abria caminho em direção à margem íngreme, muito provavelmente para verificar se completara o trabalho. Poderia ele ver onde ela se encontrava? Era possível que não. O nevoeiro conseguia escondê-la, pelo menos a uma distância maior do que três metros. Com cuidado, retirou o boné dourado, escondendo-o sob a neve. O rasgão profundo que fizera de lado dificultava a concentração. Deveria tentar fugir de gatas, esgueirando-se pelo meio do nevoeiro? Conseguiriam as suas pernas doloridas sustentar algum peso? Doíam-lhe as costas. Deveria testá-las, virando-se para um dos lados ou curvando-se? Seria capaz?

Atrás de si, para a esquerda, voltou a ouvir mais um estalido, depois um suave barulho de água e um resmungo. O seu perseguidor tinha colocado o pé ou escorregado no ribeiro. Era definitivamente um homem, talvez até dois. Lembrou-se de Roscoe. Ainda estaria vivo? Estaria indefeso? Com dores? Sentiu-se agoniada perante estes pensamentos.

Durante algum tempo, reinou o silêncio. Kate espreitou por entre a bruma, mas nada conseguiu ver. As dores que sentia nas pernas, costas e de lado provocaram a queda de lágrimas frias pelo rosto abaixo. Depois ouviu um rangido suave, ainda muito longe de onde estava, todavia movendo-se, indubitavelmente, na sua direção. Passou com a mão pela neve, à procura de uma pedra ou de qualquer tipo de pau. Os dedos tocaram, agarrando em seguida, um ramo morto, com não mais do que três centímetros de diâmetro. Puxou-o para junto de si. Seria muito longo, muito pesado para usar? Iria conseguir movê-lo uma única vez, não mais. Voltou a sacudir o ramo. Parecia estar preso, mas só teria certeza absoluta quando executasse o movimento.

De repente, reparou em algo movendo-se à sua esquerda, as pernas e as mãos enluvadas de um homem, a não mais de três metros de distância. Presa em uma das mãos, balançando livremente para a frente e para trás, via-se uma chave-inglesa. Kate inspirou fundo, susteve a respiração e contraiu os músculos do corpo. A qualquer momento seria vista. No exato instante em que as pernas se viravam em direção a ela, resolveu dar início à investida, erguendo-se dolorosamente até ficar sobre os joelhos e girando o ramo na mesma direção. A sua arma, com mais de um metro e vários espinhos proeminentes, soltou-se da neve e foi bater na perna de lado, junto ao joelho do homem. A surpresa e a força do toque o fez, cair imediatamente na água.

Ignorando a dor nas pernas e de lado, Kate ergueu-se, preparando o ramo para mais uma investida. Foi nesse momento que viu o rosto do atacante.

- Bill! - gritou, olhando boquiaberta para aquela aparição. A sua hesitação iria custar-lhe caro. Zimmermann atacou violentamente com os pés, fazendo com que perdesse o equilíbrio nas pernas e obrigando-a a cair de encontro às rochas em direção ao ribeiro pouco fundo de água gelada. O ramo ficara sobre a neve, um pouco à direita dele. Zimmermann agarrou-o e, ainda de joelhos no riacho, começou a agitá-lo no ar. Lascas iam saindo de um pequeno penedo, a poucos centímetros da anca de Kate. Quando ele voltou a agitar o pau, Kate girou sobre o seu próprio corpo para a esquerda. O objeto passou a poucos milímetros da coxa. Se voltasse a girar mais uma vez, estaria livre da água, podendo lutar a partir de um lugar firme sobre as rochas cobertas de neve gelada. Zimmermann, ainda agarrado ao ramo, rastejou do riacho e atirou-se aos tornozelos de Kate. Agarrou uma das pernas pelo agasalho, mas ela já encontrara equilíbrio suficiente para poder desembaraçar-se dele. Antes que iniciasse novo ataque, ela já partira, andando aos tropeções ao longo da margem e depois por baixo da ponte de lajes toscas.

Aquela neblina rasa, outrora um escudo protetor, tornara-se sua inimiga. Vezes e vezes seguidas, escorregava em rochas que não conseguia ver ou tropeçava em troncos caídos. Porém os sons guturais e os gritos que se ouviam atrás indicavam-lhe que Zimmermann se encontrava passando pelas mesmas dificuldades. Mesmo assim, o homem não desistia. Ela fora de tal modo estúpida que não levara em consideração o possível envolvimento do homem nos horrores do Omnicenter, tão disparatada ao ponto de acreditar que ele não fazia a mínima idéia do que estava acontecendo.

Olhou por cima do ombro. Zimmermann, visível apenas do peito para cima, movia-se de forma desequilibrada, a menos de trinta metros atrás. A sua estatura ultrapassava o metro e oitenta, e Kate receava que a neve funda se tornasse um obstáculo mais intransponível para ela do que para ele. Além disso, coxeava devido ao aperto e à dor que sentia na perna, no local preciso onde o pára-choques do carro de Zimmermann batera. Possuía apenas duas vantagens: o seu preparo físico e o conhecimento que tinha da área. Se o homem a apanhasse, estava certa de que nenhuma destas vantagens seria um fator importante. Arriscou uma nova olhada para trás. Ele estava mais perto, sem dúvida mais perto. A neve atrasava-a demais. Virou à esquerda em direção ao riacho. Pelo menos aí, as pernas compridas de Zimmermann não o beneficiariam, transformando-se antes em um estorvo. A água gelada, que lhe chegava ao tornozelo, bateu de encontro aos tênis e provocou-lhe dores na parte inferior das pernas. Poderia ela vencê-lo ou, pelo menos, resistir durante mais tempo? Era possível, porém, bastaria uma escorregadela, um ramo mal colocado e tudo estaria terminado. Tinha de voltar à estrada. Ou esconder-se.

Abrandou o passo, procurando qualquer vestígio que lhe fosse familiar. Em algum lugar, não muito longe, existia um cano de esgoto, um tubo de aço, com talvez um metro de diâmetro, que se estendia por cerca de quinze metros e atravessava a colina, sobre a qual a estrada fora construída. Se conseguisse encontrá-lo, e caso não desse com a entrada bloqueada, poderia gatinhar lá para dentro, na esperança de que Zimmermann não a visse. Mesmo que reparasse, ele era muito largo de ombros para poder segui-la.

Olhou para baixo, para a corrente, no momento exato em que o homem caiu. Todavia, em um lapso de poucos segundos, ele de novo se pôs em pé e, movendo os braços para se equilibrar, começou outra vez a aproximar-se dela. Para fazer qualquer coisa, teria de ser de imediato. Nesse preciso momento, avistou aquilo que procurava. Tratava-se de um gigantesco ulmeiro velho, rachado ao meio devido a um trovão. A parte de cima formava uma ponte natural, que atravessava o riacho, Martha's Pond. Cinquenta metros depois da árvore, se a memória não lhe falhava, o leito virava abruptamente para a esquerda e, logo a seguir à curva, mais ou menos à altura do joelho, encontrar-se-ia o tal cano de esgoto, que Roscoe descobrira dois ou três anos antes.

Enfiou-se por baixo do ulmeiro e começou a correr, curvada junto à água, com os olhos ligeiramente acima do nível do nevoeiro. Quando atingiu a curva, deixou-se cair até ficar apoiada nos quatro membros e começou a rastejar ao longo da margem gelada. “Por favor, tem de estar aí. Tem de estar aí.” Grossos pedaços de neve arranhavam-lhe a cara, e as rochas rasgavam as calças de agasalho na zona do joelho. Sentiu algo incomodo na garganta e tossiu, enchendo a neve por baixo dela de sangue, proveniente certamente de um pulmão perfurado.

Continuou a rastejar, fazendo deslizar uma mão ao longo do declive à altura do local onde deveria estar o cano de esgoto. A esperança começava a definhar quando de repente sentiu o toque metálico. O diâmetro era ainda menor do que julgara, sessenta centímetros e não um metro, porém, justamente o seu tamanho. Um ligeiro fio de água sugeria-lhe que o pequeno lago, do outro lado da colina, era mais baixo que a entrada onde se encontrava. Proveniente de qualquer lado no meio do nevoeiro, não muito atrás, ouviu-se um chape na água. Zimmermann estava perto. Kate enfiou a cabeça no cano velho e enferrujado, um centímetro de cada vez, começou a empurrar-se em direção à fraca luz prateada da outra extremidade.

O cano de esgoto, áspero e corroído, era desconfortavelmente frio. Devido à diminuição do esforço físico suscitado pela fuga, Kate sentia-se enregelar. Os pés, em especial os dedos, começavam a latejar, e o som dos dentes, tiritando como castanholas, ressoava ao longo do tubo de metal. Tossiu outra vez, Outra vez cuspiu sangue. Estaria, segundo os seus cálculos, a um terço do percurso, quando ouviu os passos dele avançando sobre a neve. Receando o barulho que os seus gestos poderiam provocar, parou, começando a morder a gola da camiseta para evitar o ruído do tiritar dos dentes.

- Kate, sei que está ferida - gritou. - Quero ajudá-la. Acabou-se a violência. Podemos resolver as coisas.

Saberia Zimmermann onde ela se encontrava? Raios, porque não conseguia parar de tremer?

- Kate, sei que quer saber acerca dos medicamentos, quer saber se é estéril ou não... e ainda como pode acabar com a hemorragia da sua amiga. Posso responder a todas essas perguntas. Posso levá-la para um lugar quente.

Assustada pelo jorro de sangue infindável oriundo do peito e com todo o corpo dormente, exceto as áreas que não padeciam daquela agonia tremenda provocada pela dor, Kate deu por si a levar em consideração a proposta do homem. Quente. Ele prometera-lhe um lugar quente. Calor e respostas. Talvez devesse tentar chegar a acordo com ele. Obrigou o seu cérebro a concentrar-se no sofrimento e mordeu a camisa ainda com mais força.

- Sabe - continuava gritando Zimmermann -, mesmo se conseguir sair daqui, ninguém vai acreditar na sua história. Tenho um álibi perfeito, incluindo pessoas que podem testemunhar o meu paradeiro em outro local. Você é louca e uma mentirosa patológica. Todos sabem disso. É o tema de conversa do hospital. Metade das pessoas pensa que está metida com drogas e a outra metade acha que é pura e simplesmente doente. Eu sou a única pessoa que pode ajudá-la, Kate. A única pessoa que pode salvar a sua amiga. A única pessoa que pode levá-la para um lugar quente. Venha aqui, vamos conversar.

A seis metros de distância de onde Zimmermann estava, Kate afundava o rosto na prega do braço e lutava contra a loucura que no seu cérebro lhe insinuava a possibilidade do homem estar falando sério, quando dizia que a violência terminara.

- Faça como quiser - ouviu-o dizer. - O funeral é seu. Seu e da sua amiga.

Café fumegante. Fogo ardente e dourado. Luz do Sol. Praia branca. Flanela. Cachecol quente. Chinelos de pêlo. Sufocando os soluços na manga da camisa, Kate lutava contra o medo, contra a dor e contra o frio, evocando imagens de coisas quentes. Chocolate. Fogão a lenha. Jacuzzi. Chá. Aquecimento central. Cobertor elétrico. Sopa. Agora, atrás dela, mais não havia do que o silêncio. Teria ido embora? Esforçou-se por tentar ouvir o som do motor do carro. Teria ele encontrado o cano do esgoto e atravessado para o outro lado da estrada, ficando à espera dela no final do túnel? Os braços e as pernas pesavam como chumbo, devido ao frio. E seria ela capaz de sair dali? “Maldito”, pensou, ao mesmo tempo que avançava mais uns centímetros. Ele sabia como salvar Ellen. “Maldito.” Só mais uns centímetros. Ele até sabia se ela própria estava estéril ou não. “Maldito. Maldito. Maldito.” O buraco de saída de luz prateada parecia cada vez menos nítido. Os olhos fecharam-se. Os outros sentidos adormeceram. Alguns segundos mais tarde, a pouca consciência que lhe restava dissipou-se.

 

Era como se tivesse retrocedido dez anos no tempo. Jared enfrentava o pai, como o fizera tantas vezes durante os confusos anos de Lisa e de Vermont, tentando em vão permanecer razoavelmente calmo, sem nunca perder o contato visual.

- Kate está doente, filho. Muito doente - declarou Samuels. - Sugiro que tratemos da internação o mais depressa possível e, mal o assunto esteja resolvido, deverá começar a separar sua carreira da dela. Ela só pode destruí-lo. Garanto isso. Martha Mitchell fez o mesmo com o marido e digo que Kate fará o mesmo com você, se já não o fez. Contatei Sol Creighton do Lauren Hill. Ele tem uma cama à disposição e informou-me que existe justificativa para interná-la, se assim for necessário. Depois de algum tempo, talvez com a ajuda de certos medicamentos, até o pior sociopata pode ser ajudado, assegurou-me.

- Pai, pare de usar essa palavra. Não tem o direito de a diagnosticar.

- Jared, encare os fatos de frente. Kate é uma mulher adorável. Gosto muito dela. Mas é mentirosa e é muito provável que seja daquelas que acredita nas suas próprias mentiras. Sei que ela parece estar ótima e até dizer coisas com lógica, mas, lembre-se, a imagem de marca de um sociopata é precisamente a destreza física e verbal. A única maneira de sabermos com que estamos lidando é apanhá-la dizendo mentiras, uma atrás da outra.

- Mas...

- Acha mesmo que foi outra pessoa, que não Kate, a mandar aquela carta, sobre o Bobby Geary para os jornais?

- Não sei.

- E o químico e a Fundação Ashburton e a enfermeira de Stonefield?... Acha que todos estavam mentindo?

- Não...

- E em relação à biopsia? Você diz que todas as pessoas do departamento da Kate afirmam que ela cometeu um erro. A verdade está ali, nas lamelas. No entanto, lá está Kate, insistindo que não fez nada de mal.

Samuels retirou um charuto da caixa, testou o aroma a todo seu comprimento, depois cortou-o e acendeu-o. Fez sinal a Jared para tirar um, caso quisesse.

Jared consultou o relógio, fez uma expressão contrariada e abanou a cabeça, em sinal de repreensão.

- Que demônios, pai, ainda só são oito e trinta da manhã.

Samuels encolheu os ombros.

- É a minha manhã e é o meu charuto.

Jared olhou por cima da mesa em direção ao pai, aquele homem confiante e em boa forma, que exibia os vestígios do sucesso e do poder de um modo tão confortável como calçava os chinelos. Incapaz de falar, Jared baixou o olhar, enquanto observava os pés trabalhados da mesa de madeira do pai, pousados sobre o requintado tapete oriental. “Uma arma secreta”, era assim que Kate lhe chamara. Uma fonte de força para ela. Ela dirigira tais palavras ao pai, porém, na verdade, era a ele que se destinavam. Com um esforço tremendo, ergueu olhar.

- Estou prestando atenção ao que está dizendo, pai. E compreendo o que quer.

- E?

- Não posso concordar com isso. Kate diz que é inocente de qualquer mentira e eu acredito nela.

- Você o quê?

Jared sentiu-se intimidado perante o olhar do homem.

- Acredito nela. E vou fazer tudo o que for possível para ajudar a ilibá-la. - Havia uma força na maneira como pronunciava as palavras que até ao próprio surpreendia. Levantou-se. - E digo-lhe mais uma coisa, pai. Se descobrir que ela está dizendo a verdade, vai ter muitas explicações para dar.

Samuels ergueu-se da sua cadeira, com a raiva crepitando nos olhos.

- Parece que me recordo de uma conversa semelhante a esta. Estávamos naquele seu escritório, mais parecido com uma caixa de fósforos, em Vermont. Avisei-o para não se casar com aquela hippie sem raízes com quem estava vivendo. Disse-lhe que ela não tinha qualquer valor. Você se ergueu na minha frente, como está fazendo agora, e expulsou-me do seu escritório. Dois anos mais tarde, sua mulher e sua filha tinham desaparecido e veio me implorar ajuda. Por acaso já se esqueceu?

- Pai, isso foi nessa época. Agora...

- Já se esqueceu?

- Não, não esqueci.

- Esqueceu do dinheiro e do tempo que eu perdi à procura dessa mulher, apesar dos sentimentos que eu nutria por ela?

- Olhe, não quero discutir.

- Saia - ordenou, autoritário, Samuels. - Quando recuperar o bom senso, quando mais uma vez descobrir que eu tenho razão, telefone-me.

-Pai, eu...

-Eu disse para sair.

Samuels voltou-lhe as costas e ficou olhando pela janela. No momento em que Jared abriu a porta, quase bateu em Jocelyn Trent. Esta tentava simultaneamente manter-se de pé e afastar-se do caminho. Depressa Jared fechou a porta atrás dele.

- O que estava fazendo aqui? - perguntou.

- Jared, por favor, não me obrigue a explicar. - Agarrou-o pelo braço, levando-o até à entrada e começou a ajudá-lo a vestir o casaco. - Encontre-me daqui a dez minutos - sussurrou-lhe ao ouvido. - Aquela pequena mercearia na esquina da Charles com a Mount Vernon. Tenho uma coisa importante para você, aliás, para a Kate.

A porta do estúdio abriu-se no exato momento em que ela acompanhava Jared à porta. Winfield Samuels permaneceu de pé, com os braços cruzados em frente ao peito, observando a saída do filho.

Mesmo mal vestida, de calças e um simples sobretudo de lã, Jocelyn Trent atraía os olhares. Jared, à espera junto à mercearia, observou diversos motoristas diminuírem a velocidade quando passavam perto de onde ela se encontrava, aguardando para atravessar a Charles. Jared abandonou a porta e foi encontrá-la na esquina. O relacionamento deles, apesar de muito cordial, nunca se aproximara em qualquer sentido de uma amizade. O pai providenciara para que a relação entre os dois se cingisse ao superficial, e nenhum deles alguma vez tentara ir mais longe.

- Obrigada por se encontrar comigo assim tão de repente agradeceu Jocelyn, guiando-o em direção à sombra junto à porta. - Não tenho muito tempo, por isso vou apenas dizer o que tenho a dizer e depois parto.

- Parece-me justo.

- Jared, vou deixar o seu pai. Pretendo dizer-lhe isto hoje à tarde.

- Lamento muito - respondeu Jared. - Sei o quanto ele gosta de você.

- Gosta? Penso que sabe, tão bem quanto eu, que mostrar amor pelas pessoas não é, na verdade, um dos pontos fortes do Win Samuels. Faz realmente pena até porque, por muito estranho que pareça, penso que o amo de verdade.

- Então, porque...

- Por favor, Jared. Não tenho mesmo muito tempo e o que estou fazendo é para mim muito... muito penoso. Basta-lhe saber que tenho as minhas razões, tanto para deixá-lo como para lhe dar isto. - Entregou-lhe um envelope fechado. - Kate é uma mulher maravilhosa. Não merece a forma como está sendo tratada. Até hoje fui completamente leal ao seu pai. Isto é, até agora. Percebo como é difícil tentar enfrentá-lo. Deus sabe o que eu tentei. Na minha opinião, procedeu de forma correta ainda agora com seu pai.

- Jocelyn, sabe se o meu pai está mentindo ou não? É muito importante.

Ela sorriu.

-Tenho noção de como é importante. Eu estava escutando à porta, lembra-se? A resposta é que não sei, pelo menos não tenho certeza. Nesse envelope irá encontrar um número de telefone, Jared. Vá para um lugar sossegado e ligue. Se as minhas suspeitas no que diz respeito a esse número se confirmarem, irá ser-lhe possível decidir qual dos dois, Kate ou seu pai, está dizendo a verdade.

- Não estou entendendo - observou. - Que número é este? Onde foi que o arranjou?

- Por favor, não quero adiantar mais nada, pois existe uma pequena probabilidade de estar enganada. Posso apenas acrescentar que o seu pai liga de vez em quando para esse número, desde os primeiros tempos que o conheço. Eu trato de todas as contas da casa, incluindo a do telefone, essa é a razão por que sei. Há um ano ou mais, ouvi acidentalmente parte de uma conversa. Algumas coisas que ouvi me incomodaram, por isso apontei a hora exata do telefonema. Foi assim que obtive este número. Não quero dizer mais nada, está bem?

- Está bem, mas...

- Desejo-lhe tudo de bom, Jared. A você e à Kate. As coisas que eu ouvi a Kate dizer ontem à noite ajudaram-me verdadeiramente a chegar a uma conclusão. Vou fazer uma coisa que já devia ter tido coragem de fazer há muito mais tempo. Espero que o meu gesto possa ajudá-la.

Pegou-lhe na mão, apertou-a por breves segundos e desapareceu.

Jared ficou observando-la enquanto estugava o passo na Mount Vernon, depois abriu o envelope. O número de telefone, impresso em um pequeno cartão, pertencia à área 213. Los Angeles.

Foi de carro até ao escritório, tentando imaginar a quem corresponderia aquele número. Chegando à sua mesa, permaneceu sentado durante quase um minuto observando o cartão, até que por fim ligou.

Uma mulher, nitidamente acordada pelo telefonema, respondeu ao terceiro toque.

- Alô? - disse ela de modo estremunhado.

Jared conteve a respiração e pressionou o auscultador com tanta força de encontro à orelha que quase lhe doeu.

- Alô? - voltou a mulher a repetir. - Há alguém aí?

Mesmo após tantos anos, ele não esquecera.

- Lisa? - Mal conseguia pronunciar a palavra.

- Sim. Quem fala? Quem fala, por favor?

Devagar, Jared voltou a pousar o auscultador.

 

                   SEXTA-FEIRA, 21 DE DEZEMBRO

Terá sido mais a pressão dolorosa do tubo do que propriamente o frio que obrigou Kate a sair de um estado de dormência mais profundo que o sono. Naquele instante crepuscular, antes de ficar completamente consciente, imaginou-se enterrada viva, vítima de um sórdido e obcecado raptor. Dentro de poucas horas, iria morrer sufocada ou congelada. Jared possuía apenas esse tempo para angariar o resgate e ela sabia que a única pessoa a quem poderia recorrer era ao pai dele. O som das gargalhadas de Win Samuels ecoou no seu túmulo, aumentando cada vez mais, até que um grito a acordou por completo.

Encontrava-se deitada de costas. Os lábios e as faces cobertas por uma pasta de sangue gelado e seco. Uma luz tênue vinda do fundo do tubo mal conseguia definir o metal corroído, tornando-se visível apenas até trinta centímetros a partir do seu rosto. “Fique quieta”, pensou. “Não se mexa. Durma até Jared chegar. Volte a fechar os olhos e durma.”

Os pensamentos eram de tal modo reconfortantes, tão tranqüilizadores, que sentiu necessidade de fazer um esforço para recordar que aqueles delírios cerebrais deviam-se apenas ao frio, frio esse que lhe mentia, que a paralisava a partir de dentro. Durante algum tempo, a única coisa em que conseguia pensar era em dormir, em dormir e no aviso assustador de Zimmermann ameaçando que, mesmo se sobrevivesse, ninguém acreditaria na sua história. Doente, louca, drogada, era nisso que todos acreditavam. Não tinha qualquer chance de fuga. Zimmermann dissera-o com toda a razão. Mais uma vez, em uma voz tão suave como uma canção de ninar, o frio falou com ela acerca do desespero e do sono. Kate flectiu as mãos e os pés, lutando contra o brando conforto das mentiras e da inércia. “Mantenha-se quieta e morrerá. Renda-se ao frio e nunca mais verá Jared, nunca terá chance de lhe dizer o quanto a carta e a decisão dele significam para você.”

Tentou empurrar-se fazendo força com os pés; porém, não conseguiu dobrar suficientemente os joelhos para que estes funcionassem como alavanca. Ela tinha de vê-lo. Tinha de lhe dizer que ela também estava pronta a tomar decisões. Desperta pelas dores nas pernas e por aquele incômodo ainda mais profundo no dorso, torceu-se e rebolou até ficar sobre a barriga. Agira de forma errada quando permitira que Willoughby a nomeasse, sem ao menos ter feito um esforço para compreender as coisas sob o ponto de vista de Jared. Agira de forma errada. Agora lhe restava apenas assumir esse fato e ter esperanças que Jared acreditasse que fora ele, e não os terríveis acontecimentos devastadores, que a ajudara a discernir a verdadeira ordem das suas prioridades.

Estava a menos de metade do final do cano de esgoto. O nevoeiro parecia ter levantado. Podia agora avistar o recorte das árvores no céu branco. Mais alguns centímetros e teria suficiente luz para conseguir ver os números do relógio. Onze e quinze. Encontrava-se naquela tumba há mais de uma hora. “Zimmermann estará ainda lá fora? Será possível que ele tenha permanecido na neve e no frio durante mais de uma hora?”

Impelida pela necessidade de ver Jared de novo, de esclarecer definitivamente todas as questões, rastejou braço ante braço ao longo do metal enregelado. A trinta centímetros da extremidade, parou o movimento e pôs-se à escuta. Além do sibilar da sua própria respiração, nada mais se ouvia. Teria uma hora sido o suficiente? Teria Zimmermann ido embora, preocupado com a curiosidade que o seu carro poderia suscitar? Pôs de parte as constantes tentativas de racionalizar a situação. Se ele estivesse lá fora, à espera, pouco poderia fazer. Caso não estivesse, ultrapassaria a dor e o frio para conseguir chegar em casa. Tinha de tomar decisões.

Com um silencioso grito de dor, agarrou a extremidade do cano de esgoto e puxou-se para fora.

 

- No momento não podemos atender o seu telefonema. Por favor, espere pelo sinal, deixe o seu nome, número de telefone e a hora a que ligou, que Kate ou Jared ligarão o mais rápido possível.

- Kate, sou eu outra vez. Ignore as duas mensagens anteriores. Não vou ficar no escritório e também não vou falar com o Reese. Vou para casa. Por favor, não saia daí. Obrigado. Te amo.

Qualquer coisa estava errada. Em quase cinco anos de casamento, Jared nunca ligara de uma forma tão intensa à mulher. Com a sensibilidade à flor da pele e depois de três telefonemas para casa sem resposta, sentia um pressentimento que lhe pesava no peito como uma bigorna. O sentimento era irracional de todo, disse a si próprio vezes sem conta, sem qualquer fundamento e disparatado. Kate estaria provavelmente na casa de um vizinho ou correndo. Dado que o MG ficara estacionado na garagem do escritório toda a semana, ele levara o Volvo dela, no entanto, existiam ainda inúmeros locais para onde ela poderia ter ido a pé.

Deixou a cidade e atravessou a ponte do rio Mystic, obrigando o seu lado racional a impedi-lo de ultrapassar os 120 quilômetros por hora. Ela estava bem. Havia uma resposta perfeitamente lógica para justificar o fato de não ter atendido o telefone na última hora e meia. Por certo a sua capacidade de concentração e de racionalização não estavam no seu auge. Fora uma manhã dos diabos.

O telefonema para a Califórnia, escutar da voz de Lisa, haviam-no deixado ao mesmo tempo perturbado e entusiasmado. O seu pai tinha mentido. Mentira em relação a Lisa e muito provavelmente também no que dizia respeito a Stonefield. A idéia de que havia estado muito próximo de ficar do lado do pai não o deixava em paz. Em silêncio, agradeceu a si próprio por ter tomado a decisão, por ter confessado por escrito como se sentia comprometido com Kate, antes de descobrir a verdade acerca do pai. O homem andara subornando Lisa ao longo de todos aqueles anos. Essa conclusão tinha tanto de inevitável como de repugnante. Que belo par, a sua ex-mulher e Winfield. Ela, uma mulher sem qualquer interesse, ele, um homem maldoso. Um par dos diabos!

Depois, havia ainda a filha, Stacy. À medida que acelerava ao longo da infindável reta da Estrada 1, ladeada de casas de fast food, grandes armazéns de venda, motéis baratos, restaurantes vistosos e clubes noturnos de qualidade duvidosa, Jared sofria ao pensar nela. Que idéia teria Stacy acerca de quem era o pai? Existiria alguma forma de ele reentrar na sua vida sem destruir o respeito que decerto nutria pela mãe e, por conseguinte, sem destruir a ela própria? Kate saberia decerto a melhor coisa a fazer. Juntos poderiam tomar uma decisão. Raios, ele estivera tão próximo de destruir tudo aquilo em que acreditava.

A casa estava vazia. O equipamento que Kate utilizava habitualmente para correr não se encontrava lá dentro e Roscoe também não. Haviam decorrido várias horas desde o primeiro telefonema - muito tempo. Verificou toda a zona que rodeava a casa e ainda o jardim. Nada. Só lhe restavam duas escolhas: esperar mais um pouco ou telefonar à Polícia. Aquela profunda apreensão que sentia na alma, tão mal definida quando ainda estava em Boston, agravara-se. Não fazia qualquer sentido esperar.

À medida que se dirigia para o telefone da cozinha, olhou para fora através da janela da frente. Três crianças da vizinhança, todas com mais ou menos oito anos de idade, subiam pelo acesso, puxando um trenó. Por cima deste, via-se um caixote de cartão. O acesso da porta da frente, apenas suficientemente largo para caber uma pá, era muito estreito para o trenó. Dois dos rapazes tinham ficado mais atrás, ajoelhando-se junto à caixa, enquanto a menina subia correndo. Jared encontrou-a à porta.

- Mister Samuels, é o Roscoe - choramingou. - Nós o encontramos na neve.

Jared, com uma terrível sensação de aperto no estômago, correu até o trenó. Roscoe, embrulhado em cobertores, olhou para cima e ensaiou uma tentativa inútil para se erguer. A cauda estava livre, por cima do cobertor, e batia excitadamente na caixa de cartão.

- Está com a perna quebrada - disse uma das outras crianças, um rapaz, tentando explicar.

Jared não deixou que o cão se levantasse e puxou o cobertor para trás. A perna direita de Roscoe estava fraturada, com um dos ossos saindo, devido a um golpe ligeiramente acima do joelho.

- Venham, crianças - chamou Jared, pegando na caixa. - Venham para dentro, por favor, para tratarmos do Roscoe. Acham que conseguem levar-me até ao lugar onde o encontraram?

- Sim, eu sei onde foi - disse a menina. - Hoje há reunião de professores, por isso não tivemos aulas. Íamos descendo o monte até à ponte com o trenó e lá estava ele, assim deitado na neve. A minha mãe deu-nos os cobertores e a caixa.

- Parece que foi atropelado por um carro - observou Jared. - Meninos, isto é muito importante. Algum de vocês viu a Kate? Sabem quem é... a minha mulher?

As crianças abanaram a cabeça em sinal negativo. Ele baixou-se e fez uma festa na testa do cão. Via-se um jorro de sangue partindo do canto da boca, onde os dentes haviam rasgado a pele.

- Bem, vamos tentar ajudar o Roscoe; depois regressamos ao local onde vocês o encontraram.

Sentia-se invadido por sentimentos de medo e de pânico, esforçava-se, todavia, por manter a calma, pelo menos no tom de voz. Se as crianças ficassem assustadas ou confusas, em nada poderiam ajudá-lo, a ele ou a Kate.

Alguns minutos mais tarde, Jared e mais dois dos meninos entraram no carro. A terceira criança ficara tomando conta do cão para que ele se mantivesse quieto, enquanto aguardava a chegada do veterinário.

- Muito bem - desafiou Jared -, disseram-me que estavam esquiando junto a uma ponte. Será a ponte de pedra por cima daquele pequeno ribeiro?

Ambos concordaram de maneira entusiasmada.

- Ótimo. Sei muito bem onde é.

O curto percurso ao longo da estreita estrada coberta de neve parecia não ter fim. Jared estacionou o Volvo no alto do monte e depois desceu a encosta, meio correndo, meio escorregando, até ao local onde as crianças juravam de pés juntos terem encontrado Roscoe. Pensara trazer a sua camisa, todavia não mudara nem as calças esportivas nem os sapatos, e todos os caminhos a partir dali até à floresta circundante eram sinuosos e frios. A neve que o rodeava estava, à exceção das suas próprias pegadas, suave e imaculada. Depois de olhar cuidadosamente para todos os lados, Jared regressou ao alto do monte e olhou para baixo. A seu pedido, as crianças seguiram-no, fazendo uma segunda verificação para confirmar que nada lhe passara despercebido.

Parou junto à ponte de pedra. Viam-se marcas de uma colisão na base do muro. Um bocado de granito havia caído, e uma longa estria, talvez com sessenta centímetros de comprimento, marcava o muro a partir do lugar onde o granito fora arrancado. Procurou com os olhos ao longo do caminho e depois do outro lado do muro. O manto de neve de um dos lados do riacho parecia quebrado. Exatamente a meio daquele espaço, reparou na existência de um objeto amarelo brilhante, parcialmente enterrado na neve.

Depois de ordenar às crianças que permanecessem onde estavam, Jared desceu a íngreme ladeira até atingir a água. Era o boné de Kate, enfiado na neve de uma forma quase deliberada. Depois, a apenas alguns centímetros do boné, viu outra cor. Era sangue, sangue seco espalhado ao longo de uma pequena extensão de neve. Parecia ter ocorrido uma luta. As marcas à sua volta davam-lhe essa certeza. Teria Kate sido arrastada para qualquer lugar? Procurou sinais que evidenciassem essa possibilidade, no entanto, apenas reparou em um vestígio de passos paralelos ao riacho, ligeiramente atrás da ponte. Entrando por vezes na água, correu até esse local. Havia sem sombra de dúvida dois tipos de pegadas. Olhou para cima. As crianças, que seguiam atentamente todo o processo, haviam atravessado a estrada e observavam os movimentos dele de cima do muro. Ele sabia que a menina vivia um pouco depois do fim da estrada, a menos de um quilômetro de distância.

- Crystal - chamou. - Sua mãe ainda está em casa?

- Sim.

- Acham que conseguem voltar para a casa a partir daqui?

- Sim.

- Então, vão lá, por favor. Digam-lhe que Kate se perdeu e que talvez esteja ferida. Perguntem-lhe se ela se importa de vir até aqui de carro e ajudar a procurá-la. Está bem?

- Está bem.

- E, Crystal, fez muito bem em trazer Roscoe para casa. Agora, rápido.

Jared permaneceu no mesmo lugar até deixar de ouvir o barulho provocado pelas botas das crianças correndo. Depois fechou os olhos e ficou alguns segundos prestando atenção ao silêncio, à procura de um sinal, qualquer tipo de sinal. Nada ouviu. Cada vez mais consciente do frio que sentia nos pés e nas pernas, seguiu as fundas pegadas, receando o pior e sempre na expectativa, a cada passo dado, de deparar com os seus mais ínfimos medos tornados realidade. A cem metros da ponte, os vestígios viravam abruptamente para a esquerda, desaparecendo no riacho.

- Kate? - Chamou o nome dela vezes sem fim. A sua voz era instantaneamente engolida pela floresta e pela neve. - Kate? Sou eu. Jared.

O ambiente era de tal forma opressivo, que o silêncio parecia quase hipnótico. À medida que avançava, ao longo da margem do ribeiro, à procura de novos sinais, sentiu o silêncio tornar-se mais profundo.

Porém, de repente, entendeu tudo. Estava tão certo disso como do frio que lhe enregelava os ossos. Ela encontrava-se em algum lugar nas proximidades. Estava perto e permanecia quieta. A cada metro galgado, Jared pronunciava o seu nome. Baixou-se para passar sob uma enorme árvore caída e seguiu o leito do ribeiro que curvava abruptamente para a esquerda. De repente parou. Havia qualquer coisa de diferente naquele lugar. Um pouco mais à direita, enfiado no declive que ele calculava levar à estrada, via-se um cano de escoamento. Na base do cano, encontravam-se pegadas.

- Kate? - Fechou os olhos e quase instantaneamente experimentou uma estranha sensação de distanciamento. Ela não se encontrava longe e estava viva. Sentia-o na pele. Era como se as vidas deles, as suas energias, estivessem unidas por um fio ínfimo e invisível de consciência.

- Jared? - Era uma palavra, mas ao mesmo tempo não o era, era um som, mas ao mesmo tempo não o era. De olhos fechados, susteve a respiração e pôs-se à escuta. - Jared, ajude-me. - Parecia que a voz dela vinha mais de dentro dele do que do exterior. Foi tateando o declive, chamando o nome dela. Depois gritou-o vezes sem conta para dentro do comprido cano de esgoto. Por fim, esperando obter melhor perspectiva, subiu até à estrada.

Lá estava ela, de cara voltada para baixo, ainda rastejando debilmente pela neve. Jared esgueirou-se e começou a descer, tropeçando e deslizando em direção a ela. Com cuidado, virou-a, colocando-a sobre o colo. O cabelo dela estava baço e enregelado, o rosto coberto de sangue. O agasalho, rasgado em vários locais, endurecera com o gelo. Os olhos permaneciam fechados.

- Katey, sou eu - sussurrou-lhe. - Estou aqui. Você vai ficar bem.

Retirou o cabelo emaranhado que estava colado ao rosto devido ao frio. A respiração dela era muito tênue, cada expiração acompanhada por um suave gemido de dor.

- Querida, consegue me ouvir?

Os olhos dela abriram-se e, lentamente, tentou focar o rosto do marido.

- Oh, Jared... Por favor... Roscoe...

Jared beijou-a.

- Está ferido, mas não foi nada grave. O doutor Finnerty vem buscá-lo. E você? Quebrou alguma coisa?

- As costelas - conseguiu pronunciar em um tom de voz que era uma mistura de gemido e de tosse. - Os pulmões... podem... estar... perfurados.

- Meu Deus, Kate, vou levantá-la. Vou tentar não te machucar, mas temos de voltar à estrada.

Sentindo as suas forças restabelecidas devido à urgência do momento, não se deparou com qualquer dificuldade em erguê-la. Ultrapassar o declive gelado e escorregadio era, no entanto, outra história. O caminho a pé era traiçoeiro e a cada dois pequenos passos para cima, ele via-se obrigado a pô-la em baixo para recuperar o equilíbrio. Centímetro a centímetro, foram avançando. Quando finalmente atingiu o alto do declive, chegando à estrada, Jared deixou-se cair sobre os joelhos, agarrando-a com toda a força junto ao peito enquanto tentava encher os pulmões de ar.

Completamente imobilizado, deixou-se ficar sentado, aquecendo-lhe o rosto com a sua respiração e observando a lenta mas regular subida e descida do seu peito, sinal de que estava respirando. Em seguida, por entre o suave coro de ambas as respirações, deu-se conta do rugido de um motor de carro, que se aproximava. Poucos minutos mais tarde, uma van castanha dobrava a curva à frente deles. No banco da frente, via-se uma mulher e duas crianças verdadeiramente entusiasmadas.

- Boa, Crystal - sussurrou Jared. Colocou de seguida os seus lábios junto ao ouvido de Kate. - Já chegou ajuda, querida. Aguente-se só mais um pouco. Chegou ajuda.

Os olhos dela abriram-se por breves momentos. Os lábios contraíram-se na tentativa de esboçar um sorriso.

- Foi o Zimmermann - proferiu.

 

Jared não parava de andar para trás e para a frente, repetindo inúmeras vezes o percurso que ia do quarto tranqüilo e bem equipado até ao vestíbulo. O Hospital Mary T. Henderson granjeara a reputação de ser um dos melhores hospitais comunitários daquele estado, porém, não deixava de ser um hospital comunitário, uma ínfima parte do complexo hospitalar de Boston.

Já haviam passado quase três horas desde que Lee Jordan conduzira Kate para a sala de operações. Jordan era, segundo o médico da emergência, a melhor pessoa da cirurgia da equipe do hospital. Jared não conseguira evitar um sorriso de surpresa ao tomar consciência de que o homem distinto e de madeixas grisalhas, a personagem que o seu cérebro imaginara como Lee Jordan, se transformara afinal em uma mulher elegante e extremamente atraente, com cerca de quarenta anos. Seria ele capaz de ultrapassar todos os anos de submissão a preconceitos a que fora sujeito?

A ferida de Kate era grave. O corte, Jordan explicara-lhe, exigia uma desbridação na sala de operações e, muito provavelmente, seria necessário abrir a caixa torácica devido à perfuração dos pulmões.

Haviam permitido a Jared ver Kate por breves instantes, enquanto se aguardava a chegada da equipe do bloco operatório, porém, não tinham surgido verdadeiras oportunidades para discutir a tentativa de homicídio de William Zimmermann. Um funcionário do Departamento de Polícia de Essex aparecera, recolhera a pouca informação que estava disponível e foi embora, deixando a promessa do envolvimento da Polícia mal Kate conseguisse prestar declarações. Entretanto, era duvidoso que a palavra de Jared fosse o suficiente para mandar emitir um mandado de prisão.

Jared encontrava-se estudando a pequena placa onde se lia que o calmo quarto fora uma dádiva de um casal chamado Berman, quando Lee Jordan transpôs as portas envidraçadas que davam para a área de cirurgia. O seu rosto, cuja expressão quatro horas antes manifestara jovialidade e concentração, estava sombrio e cabisbaixo e, durante breves instantes, Jared receou o pior.

- A sua mulher está bem - afirmou Jordan, aproximando-se o suficiente para não ser necessário levantar a voz. Depois, observou-o atentamente. - E você?

- Eu... Sim, estou bem. - Encostou-se de encontro à parede. - Foi só que, durante uns momentos, fiquei com medo de que...

Jordan deu-lhe uma palmadinha no ombro.

- Casou com uma mulher forte, meu amigo - proferiu. - Tem úlceras produzidas pelo frio nas pontas dos dedos dos pés, nas orelhas e no nariz, mas parece que ela saiu do frio a tempo de salvar tudo. A lesão no pulmão não era muito grande. Costurei-a e depois tratei do corte no dorso. Calculo que ainda vá ter alguns dias dolorosos, mas espero que nada mais grave do que isso. Poderá vê-la mais ou menos dentro de meia hora. Pedi à enfermeira para vir buscá-lo quando chegar o momento.

- Obrigado. Muito obrigado.

- Fico contente que ela esteja bem - disse a Dra. Lee Jordan.

Quando Jared chegou em casa já passava das cinco da tarde. Medicada e obviamente afetada pela anestesia, Kate conseguira apenas apertar-lhe a mão e dar-lhe a entender que sabia que ele estava no quarto do hospital. Mesmo assim, a Dra. Jordan avisara-o de que ela, provavelmente, não iria recordar-se de nada nas cinco ou seis horas seguintes à operação.

Roscoe era outra história. Mal Jared chegou ao veterinário, o cão estava de pé e saltando de um lado para o outro dentro de uma jaula, sem qualquer consideração pelo gesso. Também não mostrava ser vítima de quaisquer efeitos residuais da anestesia, que permitira que lhe fosse aparafusada uma placa de metal ao longo da fratura da perna. Depois de ver Kate com mais de meia dúzia de tubos entrando e a sair do corpo, a visão do animal maltratado e ferido foi a última gota. Zimmermann iria pagar. Nem que tivesse de virar o mundo do avesso, jurou para si próprio, o homem iria pagar bem caro.

Exausto devido àquele longo dia, quase trinta e seis horas sem dormir, Jared levou uma garrafa de Lowenbrau Dark para o quarto, deu cabo de metade com dois longos tragos, despiu-se até ficar apenas em roupa interior e estendeu-se sobre a cama. Não fazia grande sentido, haviam-lhe dito as enfermeiras, regressar ao hospital antes da manhã seguinte. Assim fosse. Poderia descansar, ler um pouco e rezar uma dúzia de orações de agradecimento pelas vidas de Kate e de Roscoe, e por Jocelyn Trent, que lhe permitira descobrir a triste verdade a respeito do pai antes que fosse tarde demais.

Após colocar duas almofadas uma sobre a outra e enquanto folheava algumas revistas sobre a mesa-de-cabeceira, lembrou-se do atendedor de chamadas. Estava ligado desde que Kate saíra para correr e existia um grande número de mensagens. As três primeiras eram do próprio Jared, uma outra de Ellen e ainda outra de um dos clientes mais importantes da firma, a quem pelo visto Winfield garantira que o filho não se importaria de receber chamadas em casa. A última mensagem era para Kate de um homem de nome Arlen Paquette.

- Kate Bennett, aqui fala Arlen Paquette da Redding - começava o homem, em um tom de voz apressado e ansioso. - Só vou conseguir estar sozinho durante mais alguns segundos. Tenho respostas para você. Muitas respostas. Venha à subcave do Omnicenter precisamente às oito e trinta desta noite. Traga ajuda. Pode haver problemas. Por favor, confie em mim. Sei o que lhe fizemos, mas por favor confie em mim. Ele vem aí. Tenho de desligar. Adeus.

Jared correu para ir buscar um papel e uma caneta, depois ouviu pela segunda vez a mensagem e apontou-a ipsis verbis. Respostas. Finalmente alguém prometia respostas. Enfiou calças de ganga, uma camisa vulgar branca e uma camiseta. Já passava das sete da noite. Mal teria tempo para chegar ao hospital em tempo, muito menos conseguir ainda pedir ajuda à Polícia pelo caminho. Teria de ir correndo para a subcave do Omnicenter e contar apenas consigo. "O Omnicenter.” Enfiou a camisa e saltou para o Volvo de Kate. Era o lugar de Zimmermann. O homem ia estar lá, estava certo disso.

- Vou dar cabo de você, desgraçado! - Resfolegou ao mesmo tempo que derrapava com o carro na descida que levava a Salt Marsh.

 

                           SEXTA-FEIRA, 21 DE DEZEMBRO

Tal como em tantas obras notórias, a simplicidade das fórmulas concebidas pelo pai de William Zimmermann revestia-se de uma suprema elegância. Mesmo sem a ajuda de Zimmermann para traduzir as notas explanatórias em alemão, Arlen Paquette suspeitava ser capaz de seguir os passos necessários para sintetizar a hormona Estronate 250, especialmente naquele laboratório da subcave do Omnicenter, cujos equipamentos haviam sido escolhidos de propósito para aquele efeito.

O recado para telefonar a Cyrus Redding aguardava-o no balcão principal, quando Paquette regressara ao Ritz após uma gravação sub-reptícia de uma conversa com Norton Reese, durante a qual o presunçoso administrador incriminara-se a si próprio e a uma técnica chamada Pierce uma série de vezes. Com o minúsculo gravador ainda preso ao cinto, Paquette entrou no elevador em direção ao seu andar.

- Estava começando a pensar que tinha fugido - ouviu dizer uma voz masculina, vinda de trás.

Espantado, o químico voltou-se. Tratava-se do guarda-costas de Redding, um homem vigoroso e aparentemente sem emoções, que Paquette nunca ouvira chamar outro nome além de Nunes.

- Ah, olá - cumprimentou Paquette, amaldiçoando-se por não ter permanecido no bar para uma terceira bebida. - Acabei de receber uma mensagem de Mister Redding, mas pede que eu lhe telefone para o número de Darlington. Ele está?...

- Ele está lá - confirmou Nunes, sem fazer qualquer gesto que levasse Paquette a afastar a imagem de um atirador cuja lealdade perante o magnata farmacêutico não tivesse limites. Ele está à espera do seu telefonema.

A partir desse momento, Paquette passou a estar sempre sob o controle de Nunes.

Agora, na fluorescência brilhante do laboratório da subcave, Paquette olhou primeiro para Zimmermann e depois para Nunes e rezou para que os quarenta e cinco minutos que faltavam para as oito e trinta decorressem sem incidentes. Um negócio havia sido fechado entre Redding e Zimmermann - dinheiro em troca de uma série de fórmulas. Era tudo o que Redding lhe adiantara. No entanto, a presença do taciturno guarda-costas dava a entender que Redding antevia problemas ou possivelmente não pretendia honrar sua parte no contrato... Era até possível que ambas as hipóteses estivessem certas.

- Okay, são sete minutos - afirmou Zimmermann, alguns segundos antes do despertador mecânico tocar. - O meu pai utilizou um atalho para esta etapa, mas eu nunca o compreendi na totalidade. Doutor Paquette, sugiro que salte para a página seguinte e prossiga os passos pela ordem indicada. Ele desenvolveu as próximas reações ali naquele canto, verificando ainda a pureza do destilado com aquele espectrofotômetro.

Paquette fez sinal afirmativo com a cabeça e contornou a extensa bancada de ardósia em direção à área indicada por Zimmermann. O diretor do Omnicenter não era nem bioquímico nem um gênio, todavia, observara suficientes vezes o pai trabalhando, de forma a ser capaz de supervisionar cada passo da síntese. E foi assim que se comportou, prestando atenção a cada manobra e a cada minúscula gota adicionada.

O laboratório era verdadeiramente notável. Escondidos por trás de uma porta virtualmente invisível, de controle eletrônico, existiam três sofisticados espectrofotômetros, cada um deles programado para analisar a consistência da hormona durante os vários níveis de síntese e, através de mecanismos de retorno, ajustar automaticamente a reação química quando necessário. A área era pequena, talvez quatro metros e meio por nove, porém, a pessoa que a concebera tivera em consideração um total aproveitamento do espaço.

- Foi o seu pai que pensou em tudo isto? - perguntou Paquette.

- Tenha cuidado, doutor, o seu reagente está começando a aquecer demais - avisou Zimmermann, ignorando a pergunta, como fizera com todas as outras relativas ao pai. - Desculpe, mas está cronometrando uma reação que eu desconheço?

- Não. Por quê?

- Porque é a terceira vez que olha para o relógio nos últimos dez minutos.

- Ah, isso. - Paquette rezou para que o seu riso não parecesse muito nervoso. Pelo canto do olho, reparou que Nunes, sentado em um banco alto junto à outra extremidade da bancada do laboratório, ajustava a sua posição para poder ouvir melhor. - Um hábito que vem desde a escola secundária, se não mesmo antes.

Já tomara uma decisão inabalável: não iria completar a síntese do Estronate e devolver os três cadernos de apontamentos a Nunes. Temia, no entanto, que aquele seu gesto pudesse ser o último da sua vida. Ele e Zimmermann não estavam destinados a sair com vida do laboratório. Quanto mais a noite avançava, mais fundado parecia a Paquette esse receio. Olhou para a placa de metal à direita da entrada. Apesar de não estar indicada, havia ali decerto uma maneira de abrir a porta.

Faltavam menos de trinta minutos. Se Kate Bennett tivesse recebido e levado a sério a mensagem, estaria por certo à espera, com ajuda, na área de armazenamento na zona exterior do laboratório.

O plano de Paquette era relativamente simples. Às oito e trinta e cinco, partindo da hipótese que Kate Bennett pudesse atrasar-se cinco minutos, ele anunciaria a necessidade de usar o banheiro dos homens. Haviam passado por uma, no andar de cima, ao entrar. Com o fator surpresa do seu lado, fosse quem fosse que estivesse com a médica deveria ter uma oportunidade de vencer Nunes. Se não se encontrasse com ninguém na área de armazenamento quando a porta se abrisse, teria de improvisar. de uma coisa estava certo: uma vez fora do laboratório, não voltaria a entrar. Meu Deus, como ele gostaria de ter uma bebida.

 

O trânsito para a cidade estava invulgarmente calmo para uma sexta-feira à noite, o que reconfortava Jared, dado que, à exceção de qualquer atraso imprevisto, conseguiria chegar com tempo de sobra ao hospital. Todavia, esse fato não o impedia de utilizar abusivamente a buzina e os máximos para desimpedir o caminho ao longo da Estrada 1.

“Riscos. Traga ajuda. Pode haver problemas.” A cada quilômetro percorrido, os avisos de Paquette ocupavam mais espaço nos seus pensamentos. Cometera o erro de não telefonar à polícia de Boston antes de sair de Essex. Só agora percebia isso. Mesmo assim, que justificativa poderia ter apresentado? Que argumentos necessitaria para ser verdadeiramente convincente? Sabia que ao pai bastava pegar o telefone para, sem qualquer tipo de justificativa, logo ter meia dúzia de agentes à espera dele, na porta principal do Omnicenter. Respostas. Paquette prometera respostas. Talvez, em nome da segurança de Kate, valia a pena engolir o orgulho e a raiva e telefonar a Winfield. Depois, tomou consciência de que aquela questão ia muito para além do orgulho ou da raiva. Não podia confiar no homem. Nem agora, nem nunca.

“Traga ajuda.” Jared desviou-se da auto-estrada, parando junto a uma zona de cabinas telefônicas públicas. Eram sete e quarenta e cinco. Encontrava-se a vinte, no máximo vinte e cinco minutos de distância do Omnicenter. Sobrava-lhe ainda tempo para fazer qualquer outra coisa, mas o quê? Sem uma idéia clara do que iria dizer, telefonou para o Departamento de Polícia de Boston.

- Eu... eu gostaria de falar com o detetive Finn, por favor. - Ouviu a sua própria voz dizer. - Sim, é isso. Martin Finn. Desculpe, mas não sei qual é o distrito. Talvez o quatro.

Finn. Jared percebia agora que essa idéia havia permanecido todo o tempo na sua cabeça. Duro mas justo: fora daquela forma que o pai descrevera o homem. Se o caso era esse, seria apenas necessário a promessa de algumas respostas para conseguir levá-lo ao Omnicenter.

Finn não se encontrava no seu gabinete.

- Terá ido para casa? - perguntou Jared ao agente, que atendera na extensão de Finn. - E então não há ninguém que possa saber?... Samuels. Jared Samuels. Sou advogado. O detetive Finn me conhece. Como é que você se chama?... Por favor, sargento, isto é muito urgente e não há muito tempo. Será possível deixar uma mensagem para o tenente Finn, para ele se encontrar comigo às oito e quinze na entrada principal do Omnicenter do Metropolitan Hospital?... Exatamente, dentro de meia hora. E, agora, sargento, se não conseguir localizá-lo, poderia o senhor ou outro agente ir lá me encontrar em vez dele?... Não sei se é um assunto de vida ou morte. Ouça, não tenho tempo para explicar. Por favor, tente vir.

Jared entrou depressa no Volvo, ao mesmo tempo em que desejava ter mais informação sobre aquele Arlen Paquette ou pelo menos fazer alguma idéia do que o aguardava no Omnicenter. Eram precisamente oito horas quando chegou ao alto da longa subida e viu, ao lado direito, as resplandecentes luzes de Boston à noite, semelhantes a uma tiara.

 

Talvez tudo se devesse à tensão do momento, talvez porque haviam decorrido seis horas desde a última bebida, fosse qual fosse a razão, Arlen Paquette sentiu que as mãos começavam a tremer e a concentração a diminuir. Retirou um lenço de papel amassado do bolso de trás e empapou o suor frio que lhe encharcava a testa e o lábio superior. Faltavam apenas dez minutos para a hora combinada. A síntese da hormona, que decorrera impecavelmente, estava a meio caminho de estar concluída.

- Sente-se bem? - perguntou Zimmermann.

- Sim, estou bem - respondeu Paquette, agarrando um frasco de laboratório cheio de água gelada com as duas mãos para impedir que o conteúdo entornasse. - Gostaria... gostaria de dar uma palavrinha a Mister Nunes por uns instantes. Em particular.

- Porquê? - perguntou Zimmermann, mostrando uma atitude defensiva no tom de voz. - Até agora o processo tem decorrido sem qualquer problema. Isso eu lhe garanto. A maneira como está seguindo os apontamentos do meu pai é perfeita. Por isso, continue.

- Não é isso. Ouça, volto em um instante. Nunes - chamou baixinho, de costas voltadas para Zimmermann -, preciso de uma bebida.

- Não há copos até terminar o trabalho. São as ordens de Mister Redding.

Enquanto Nunes se inclinava para a frente para responder, o casaco do seu elegantíssimo terno entreabriu-se um pouco, o suficiente para Paquette poder ver o revólver no coldre por baixo do braço esquerdo. Qualquer dúvida que ainda restasse em relação ao seu destino imediatamente se dissipou.

- Nunes, tenha dó.

A única resposta daquele homem assustador foi um sinal de impaciência pelo trabalho incompleto.

- Há algum problema? - perguntou Zimmermann em voz alta.

- Não há qualquer problema - declarou Nunes, ao mesmo tempo que Paquette regressava ao local de trabalho. - Olhe, doutor Zimmermann, onde é o banheiro mais próximo?

Paquette abrandou o passo e prestou atenção. Em menos de vinte minutos, planejava formular exatamente aquela mesma pergunta e esperar que Nunes lhe abrisse a porta. Depois, um empurrão inesperado vindo de trás e o homem se veria nos braços da Polícia. Era perfeito, pressupondo, claro, que Kate Bennett recebera a mensagem.

William Zimmermann apontou para a parede que estava atrás do guarda-costas.

Está vendo aquela alavanca escondida na parede, exatamente por baixo da prateleira? Basta virá-la e puxar.

Nunes seguiu as instruções e uma estante com mais ou menos, a largura de um metro separou-se da parede, revelando um banheiro suficientemente amplo e um pequeno chuveiro.

- O meu pai tinha esta obsessão por portas e entradas escondidas - rematou Zimmermann.

A sua próxima frase, se era suposto existir alguma, foi interrompida pelo barulho do tubo de água gelada que escorregou das mãos de Paquette e se estilhaçou no chão de mosaicos.

 

À exceção da luz de segurança da entrada principal, o Omnicenter encontrava-se completamente às escuras. Jared estacionou do outro lado da rua e, a pé, deu uma olhada em torno do edifício, nesse momento, um carro branco e azul da polícia parou. Martin Finn saiu, assemelhando-se, nas trevas, a um gigantesco bloco de granito com chapéu. Mesmo a alguma distância, Jared conseguia pressentir a irritação e a impaciência do homem.

- Recebi a sua mensagem - declarou Finn, sem cumprimentar Jared de outra forma. - O que está acontecendo?

Atrás dele podia ver-se um agente de uniforme, que permanecia sentado ao volante do carro. O motor ainda estava a trabalhar.

- Obrigado por ter vindo tão depressa - agradeceu Jared. - Não... não sabia a quem telefonar.

- E então?

Jared verificou as horas no relógio. Faltavam treze minutos.

- A minha mulher está no Hospital Henderson. Alguém tentou atropelá-la hoje de manhã enquanto ela fazia jogging.

Finn manteve-se em silêncio.

- Precisou ser operada, mas vai ficar bem.

Ainda o silêncio.

- Ela não conseguia dizer muita coisa, mas contou-me que foi o doutor Zimmermann, o diretor do Omnicenter, que tentou atropelá-la e depois ainda a perseguiu com uma chave-inglesa.

- William Zimmermann?

- Sim. Conhece-o?

Finn lançou-lhe um olhar gélido.

- Fez o parto da minha filha.

Jared resmungou para si próprio.

- Pois bem, ele está envolvido em qualquer coisa de ilegal, possivelmente relacionado com uma das grandes empresas farmacêuticas. Kate descobriu o que estava acontecendo e por isso ele tentou matá-la.

- Mas falhou... - Não havia nem calor nem o mínimo sinal de credulidade no tom de voz do homem.

- Sim, falhou. - Jared engoliu a sua raiva. Muitas coisas estavam em jogo e definitivamente não havia tempo a perder com discussões. - Quando regressei do hospital, há algumas horas, tínhamos em casa uma mensagem no atendedor de chamadas para a Kate de um tal Arlen Paquette. Acho que ele trabalha para uma empresa farmacêutica. Ele pediu que ela se encontrasse com ele aqui, na subcave deste edifício, e que trouxesse ajuda. Foi por isso que lhe telefonei. Suspeito que Zimmermann está envolvido em toda esta tramóia e que está ali dentro neste preciso momento.

- Ali dentro? - Finn apontou para o edifício sombrio. - Ele disse na subcave.

- Mister Samuels, o escritório do doutor Zimmermann é no terceiro andar. Ali em cima, exatamente naquele canto. Já estive lá várias vezes. Agora explique-me, que raio ele estaria fazendo na subcave?

- Não... não sei. - Faltavam onze minutos. - Olhe, tenente, o homem disse precisamente às oito e trinta. Não temos muito tempo.

- Então você quer que eu arrombe a porta de um hospital trancado, e que tente ferrar o obstetra da minha mulher, apenas porque recebeu uma mensagem misteriosa no atendedor de chamadas?

- Se as portas estiverem fechadas, podemos tentar entrar pelos túneis. Não é preciso arrombar. Merda, tenente, quase mataram a minha mulher hoje de manhã. Acha que ela está mentindo sobre os ossos fraturados e da perfuração dos pulmões?

- Não - respondeu Finn. - Apenas nas outras coisas. Mister Samuels, tive oportunidade de fazer algumas investigações acerca da sua mulher. Parece que ela está em guerra aberta com mais ou menos todas as pessoas da cidade. Pelo que me constou, acabou de ser despedida porque também fez merda aqui no hospital. Encare os fatos, advogado, tem uma mulher doente nas mãos. Vocês precisam de ajuda, acredito, mas não da minha.

- Então, não vem comigo? - Jared tomou consciência de que estava perdendo o controle.

- Mister Samuels, por causa da sua mulher ainda tenho vergonha de mostrar a cara em público. Se quiser, posso apresentar queixa e até arranjar um mandado... Tem é de me fornecer provas concretas que o justifiquem. Mas cenas tipo guerrilhas, nem pensar. Agora digo-lhe uma coisa: se eu fosse você, limitava-me a ir para casa e tentava arranjar alguma ajuda profissional para a sua mulher.

Antes que pudesse medir as conseqüências, Jared atacou o homem com um murro rude que atingiu diretamente o rosto de Finn, fazendo com que caísse aos trambolhões sobre um monte de neve. Quase instantaneamente, o agente uniformizado saiu do carro e colocou a mão no cabo do revólver de serviço. Finn, com um pingo de sangue formando-se no canto da boca, fez-lhe sinal para se acalmar.

- Não, Jackie - disse. - Está tudo bem. O senhor advogado achou que tinha umas contas a ajustar comigo e agora resolveu o assunto. - Fez um esforço para se pôr de pé, ainda cambaleando devido aos efeitos do murro. - Agora, senhor advogado, desapareça imediatamente da minha frente. Se eu vier a saber que se envolveu esta noite em qualquer tipo de confusão, irei persegui-lo como se persegue um cão raivoso, nem que tenha de ir até Toledo. Fui claro?

Jared observou o detetive.

- Está enganado, Finn. Em relação à minha mulher, em relação à sua recusa em me ajudar, em relação a tudo. Não faz a menor idéia de como está enganado.

Olhou para o relógio, virou as costas e desatou a correr ao longo do quarteirão em direção à entrada principal do hospital e à escadaria que levava ao túnel do Omnicenter. Faltavam menos de cinco minutos.

A hora de visitas terminara. O hospital estava silencioso. Jared atravessou a entrada o mais depressa que o seu atrevimento permitia sem atrair as atenções e desceu correndo as escadas mais próximas. Apesar de utilizar os sombrios túneis com pouca frequência, lembrava-se com precisão de ter visto um sinal indicando que o Omnicenter havia sido ligado ao sistema subterrâneo. Mas por onde?

O túnel encontrava-se deserto e parecia menos iluminado do que o costume. Uma série de macas estava alinhada de encontro à parede, separada por grandes cestos vazios de roupa suja. Na parede oposta, via-se uma tabuleta de madeira com setas indicando a direção de vários edifícios. Os três últimos nomes, que quase de certo incluiriam o Omnicenter, estavam ilegíveis, quase apagados por uma mistura de fuligem e grafiti. Kate explicara-lhe uma vez que era necessário ter um tipo especial de personalidade para gostar de trabalhar no Metropolitan, dando a entender que o espírito do pessoal do hospital e a lealdade da maioria dos doentes estavam intrinsecamente ligados às limitações físicas do local. Jared percebeu que este pressuposto, como tantos outros na vida da sua mulher, era algo que necessitaria de mais empenho da sua parte para ser totalmente compreendido.

O seu sentido de orientação, muitas vezes pouco digno de confiança, incentivou-o a ir para a direita. Não havia tempo para questionar aquele impulso. Ao som dos seus passos, que ecoavam no chão e nas paredes de cimento, Jared apressou-se naquela direção, procurando qualquer coisa que pudesse usar como arma, enquanto ao mesmo tempo se amaldiçoava pela forma como falhara na tentativa de obter ajuda.

Pelo menos desta vez, o seu sentido de orientação não o enganara. O desvio que levava ao Omnicenter encontrava-se a menos de cinquenta metros de distância.

Eram exatamente oito e trinta. A passagem sombria estava apenas iluminada pelo tênue brilho do túnel principal. Correndo de cabeça inclinada para baixo, Jared só reparou no portão de segurança de metal uns segundos antes de esbarrar nele. O portão, uma versão semelhante aos utilizados para proteger as crianças de caírem das escadas, fechava toda a largura do túnel, aferrolhando na parede oposta. Atordoado, deixou-se cair sobre um dos joelhos e tocou na parte do corpo que mais sofrera o impacto, ligeiramente acima do olho direito. Depois tombou até ficar de gatas. Se era tão imprescindível chegar a horas como Arlen Paquette dera a entender na sua mensagem, tudo estava perdido. O portão, sem qualquer espaço embaixo e em cima para um corpo, era sólido.

Exausto e desesperado, Jared obrigou-se a levantar-se, agarrou as grades de metal e, como um animal enjaulado, abanou-as desenfreadamente. “Desculpe, Kate", era o único pensamento que atravessava o seu cérebro. "Desculpe por ter estragado tudo."

- Não faça grandes movimentos, filho, e vire-se devagar. Jared ficou hirto que nem uma pedra, com as mãos ainda agarradas às grades.

- Tenho uma arma apontada na sua direção, por isso nem pense em bancar o louco ou aventureiro.

Jared obedeceu às ordens. A pouco mais de um metro de distância, encontrava-se um vigilante noturno, cuja silhueta era realçada pela luz vinda de trás.

- Quem é você? O que está fazendo aqui embaixo? - perguntou o homem.

- Por favor, tem de me ajudar!

Jared deu alguns passos para frente.

- Alto, já foi longe demais. Agora como quer que eu o ajude jovem, se nem sequer sei quem diabo é você?

Jared esforçou-se por acalmar.

- O meu nome é Samuels. A minha mulher é médica aqui. Doutora Bennett. A Doutora Kathryn Bennett. Conhece-a?

O segurança baixou o revólver.

- É o advogado?

- Sim, sim, sou eu. Ouça, precisa me ajudar. Aproximou-se do vigilante, que desta vez não fez qualquer tentativa de mantê-lo longe de si.

- Ai sim? - perguntou o homem. O seu uniforme de caqui parecia ser um ou mesmo dois números acima do seu tamanho. Tinha uma madeixa de cabelo grisalho que lhe saía por baixo do boné. Mesmo de revólver na mão, a figura do homem era tudo menos ameaçadora.

- Por favor, Mister...

- MacFarlane. Walter MacFarlane. Há anos que conheço a sua mulher, antes mesmo de se casar com você.

- Pois bem, Mister MacFarlane, a minha mulher está neste preciso momento em um hospital de North Shore. Alguém tentou atropelá-la. Sabemos quem foi, mas não os motivos. Há poucas horas atrás, um homem telefonou-me e prometeu-me algumas respostas, se eu o encontrasse na subcave do Omnicenter, exatamente agora.

- Na subcave?

- Sim. Ele aconselhou-me a trazer ajuda, pois poderia haver problemas, mas não tive tempo de arranjar ninguém.

- Tem a certeza de que é na subcave? Trata-se do piso inferior a este. Não existe nada lá exceto um monte de caixas e alguns cilindros de oxigênio.

- Apenas sei o que ele me disse. Por favor. Já passa da hora combinada.

- Ultimamente, essa doutora Kate tem andado metida em uma série de confusões.

- Eu sei. Por favor, Mister Mac...

- As pessoas gostam muita de falar. Sabe como são estas coisas. Pois bem, digo-lhe uma coisa, senhor. Eles têm lá as idéias deles e eu tenho as minhas. Há dez anos que acompanho aquela mulher ao carro quando fica trabalhando até tarde. Dez anos. E digo-lhe mais uma coisa. Ela tem classe. Muita classe.

- Então, vai me ajudar?

Walter MacFarlane retirou uma chave da ampla argola de ferro que tinha colocada à cintura, e abriu o portão de segurança.

- Se isso ajudar a resolver as coisas para a doutora Bennett, pode contar comigo - respondeu.

 

Arlen Paquette estava aterrorizado. Não existia qualquer forma de sair do laboratório sem passar pelo assassino, Nunes, todavia, a possibilidade de ficar ali fechado a acabar a síntese do Estronate significava, e disso estava totalmente convencido, morrer. Como ainda não ouvira nem o mínimo barulho do outro lado daquela porta controlada eletronicamente, Kate Bennett ou não recebera a mensagem ou não lhe tinha prestado atenção. Fosse como fosse, ele contava apenas consigo próprio.

Em total desespero, tentou analisar friamente a situação e as opções que poderia escolher. Não conseguiria ganhar tempo se anunciasse que o processo não se desenvolvera de modo correto. Zimmermann observava cada etapa da síntese. Poderia recrutar a ajuda de Zimmermann para vencer Nunes? Duvido. Não, pior do que duvidoso: impossível. Nunes já lhe mostrara o dinheiro, arrumado de forma organizada em uma pasta, que naquele momento se encontrava sobre a bancada. A expressão facial de Zimmermann mais lembrava a de um lobo esfomeado que descobrira um coelho preso em uma armadilha.

- Está acontecendo alguma coisa? - perguntou Zimmermann, dando a entender que, pela segunda vez, Paquette parecia absorto do processo.

- Não! - respondeu Paquette. - E quero que me deixe em paz. Cabe a mim verificar estas fórmulas e levo o tempo que achar necessário desempenhando a minha tarefa.

Na extremidade oposta do laboratório, Nunes mudou ligeiramente de posição para conseguir manter os dois sob observação. De repente, fez um sinal para chamar a atenção dos dois homens e colocou o dedo indicador sobre os lábios, pedindo silêncio. Com a outra mão, apontou para a porta. Alguém estava lá fora, Executando os movimentos seguros e desembaraçados de um profissional, retirou o revólver do coldre e espalmou-se de encontro à parede, ao lado da porta.

Paquette decidiu que apenas lhe restava uma opção e mesmo essa não era verdadeiramente apelativa. Praticara luta livre nos primeiros anos da escola secundária, porém nunca se evidenciara e, de fato, ficara agradecido quando uma lesão no pescoço o obrigara a desistir. Desde essa época, nunca mais combatera com ninguém, no sentido físico do termo. Nunes era aproximadamente cinco centímetros mais alto que ele e decerto mais experiente todavia, Paquette tinha a seu favor o fator surpresa e o desespero que sentia.

Com um dos espectrofotômetros e um labirinto de tubagens de vidro para destilação a separá-lo do atirador, Paquette foi-se aproximando, ao longo da bancada de lousa, até estar a menos de três metros do homem. Durante alguns instantes, o silêncio reinou. Depois ouviu o ruído nítido de vozes disfarçadas, pelo menos duas vindo da zona dos armazéns, atrás da porta. Esforçou-se para conseguir entender a conversa, mas só entendeu uma ínfima parte. Nunes, muito mais perto, conseguia decerto ouvir melhor. Paquette lembrou-se da possibilidade das pessoas mencionarem o seu nome atrás da porta. Se Nunes percebesse, enfiaria o último prego no seu caixão.

As vozes tornaram-se menos distintas. "Estão afastando-se ou foram embora", supôs Paquette. Mesmo se chegassem a descobrir a porta, o que era bastante improvável, não teriam qualquer chance de conseguir localizar e ativar o código eletrônico .

Com todo o cuidado, Paquette deslizou os poucos metros que faltavam até à extremidade da bancada. Zimmermann já estaria a cerca de oito metros de distância - suficientemente longe para impedi-lo de interferir. Paquette avaliou a distância que o separava dos dois homens e em seguida concentrou-se nos seus dois objetivos principais: a arma de Nunes e a placa eletrônica à direita da porta. Deu um único passo, e lançou-se sobre o homem, agarrando-lhe o braço que segurava a arma, enquanto, com ambas as mãos, se atirava. em direção à placa de metal.

A porta deslizou ligeiramente, permitindo que Paquette ainda conseguisse ver de relance um homem de uniforme, em desespero, à procura da pistola guardada na cintura. Uma segunda pessoa encontrava-se atrás do homem, que ele identificou como sendo o marido de Kate Bennett. Nesse preciso momento, Nunes libertou a mão e desferiu um golpe violento no rosto de Paquette com o cano do revólver. Paquette deixou-se tombar sobre os joelhos, queixando-se das dores e do sangue, que lhe escorria das faces e das têmporas.

- Muito bem, senhor. Atire a arma para o chão! Já!

Walter MacFarlane estava de pé junto à entrada, com o pesado revólver que usava para fazer as rondas, apontado a Nunes, enquanto a pistola deste se deslocara cerca de trinta centímetros. Nunes imobilizou-se e virou a cabeça de forma indelével em direção ao intruso.

Da sua posição, a pouco mais de um metro à esquerda de MacFarlane, Jared conseguia observar a expressão do guarda-costas com toda a nitidez. Este parecia tranqüilo, preparado e totalmente confiante.

"Fuja! Saia da frente dele!" Antes que Jared pudesse verbalizar o aviso, o atirador entrara em ação. Afastou o revólver apenas o suficiente para prender o olhar de MacFarlane e depois atirou-se para baixo do seu braço, saindo da linha de fogo em segurança. MacFarlane puxou o gatilho de imediato.

A bala estilhaçou vários tubos de vidro, ricocheteou em uma acede e por fim colidiu com um grande frasco de éter que se encontrava na estante atrás de William Zimmermann. O frasco explodiu e fez estilhaçar a maior parte dos objetos de vidro da sala. Jared observou a cena, horrorizado, à medida que o cabelo e a pele da nuca de Zimmermann ficavam de imediato cauterizados pelo fogo e as roupas em chamas.

- Socorro - gritou, cambaleando para longe da parede. - Meu Deus, alguém que me ajude!

De forma inconseqüente, Zimmermann vacilava por entre as chamas, que lhe subiam, incontroláveis, pelas calças, começando também a incendiar-lhe a camisa. Os seus sucessivos movimentos provocaram a queda de uma prateleira repleta de produtos químicos para o chão. Ouviu-se um segundo estouro. O antebraço direito separou-se, pelo cotovelo, do resto do corpo de Zimmermann. Ainda assim, conseguiu permanecer de pé, cambaleando em círculos despropositados, enquanto observava os restos ensangüentados do braço. Gritava vezes sem fim. Uma terceira explosão, ligeiramente à sua esquerda, projetou o seu corpo, agora mais um cadáver do que um ser vivo, fazendo-o sobrevoar a parte de cima da bancada, indo bater nos poucos objetos de vidro que ainda estavam intactos.

Os guinchos de Zimmermann terminaram abruptamente, quando o que restava do seu corpo tombou sobre a mesa, caindo, por fim, em cima de Arlen Paquette. O químico, apesar de ter se protegido do impacto da explosão, estava muito atordoado com as explosões para conseguir reagir.

MacFarlane e Nunes atiraram-se para o chão antes da súbita deflagração de chamas e de vidros partidos. Jared, ainda do lado de fora da porta do laboratório, foi projetado para trás, conseguindo, no entanto, manter-se em pé. Tropeçou em direção à porta, tentando furiosamente tomar controle da situação.

Chamas de cores intensas invadiam todas as bancadas, enchendo o ar de uma fumaça grossa e fétida. À direita, Jared viu MacFarlane e o atirador deitados no meio de estilhaços de vidro. Um dos lados do rosto do segurança parecia que fora atacado por um tigre. Ambos os homens faziam movimentos, todavia sem qualquer propósito. À sua esquerda, também podia observar alguma agitação. O homem que ele julgava ser Arlen Paquette tentava infrutiferamente sair de debaixo do corpo disforme de William Zimmermann.

Rastejando para evitar a fumaça tóxica, Jared avançou até Zimmermann, agarrou o cadáver pelo cinto e pela parte da frente da camisa esfarrapada e deitou-o sobre as costas.

- Paquette? - perguntou em desespero Jared. - É você o Paquette?

O homem acenou debilmente e limpou o sangue - o seu próprio e o de Zimmermann - que lhe obscurecia a visão.

- Os cadernos de apontamentos - disse. - Vá buscar os cadernos de apontamentos.

Jared bateu suavemente nos poucos lugares da roupa de Paquette que ainda estavam em chamas, ergueu-o até ficar sentado e inclinou-o de encontro à parede. Vapores e gases iam circulando em torno dos dois homens. .

- Tenho de tirá-lo daqui. Consegue compreender isso?

A cabeça de Paquette caiu para trás.

- Os apontamentos - repetiu.

Jared deu uma olhada em volta. No chão, por baixo do calcanhar de Zimmermann, estava um caderno preto de folhas soltas. Enfiou-o por baixo do braço e depois começou a arrastar Paquette em direção à porta. Por diversas vezes, sentiu vidros rasgarem-lhe as calças e a cortarem-lhe as pernas. Caiu e fez um golpe profundo, que lhe arrancou parte da pele da mão. Os armários e as prateleiras de madeira haviam começado a arder. O recinto ficara insuportavelmente quente.

Jared tentava retirar Paquette da sala, tarefa que ia sendo cada vez mais difícil, dado o homem começar a agarrar-se a ele com força excessiva, chegando mesmo, em determinada altura, a enfiar a mão ferida no bolso da camisa do seu salvador.

- Pelo amor de Deus, homem! Largue-me, Paquette - disse Jared. - Estou tentando tirá-lo daqui. Consegue entender isso? Estou tentando tirá-lo daqui.

A fumaça começava a obscurecer todo o lugar. Com os olhos repletos de lágrimas e quase fechados, Jared acocorou-se, respirou através da camisa e, com grande esforço, colocou o braço de Paquette por cima do seu próprio ombro, erguendo o homem até aquele ficar de pé. Juntos, afastaram-se do laboratório cambaleando. Estando Jared prestes a largar Paquette junto a uma parede com o objetivo de regressar para ir buscar MacFarlane, lembrou-se do oxigênio. Existiam trinta ou quarenta grandes garrafas verdes, amontoadas no canto mais afastado da zona de armazenamento. Segundo as suas suspeitas, possuíam suficiente potencial explosivo para destruir parte do edifício.

- Paquette! - gritou. - Vou ajudá-lo a subir as escadas. Depois tem de se enfiar no túnel e afastar-se o mais possível daqui. Compreende?

Paquette anuiu.

- Consegue suportar o seu próprio peso?

- Posso tentar.

Paquette, com o rosto desfigurado por uma mancha de sangue, obrigou as palavras a saírem por entre uma tosse violenta.

Tortuosamente avançando um passo de cada vez, ambos conseguiram chegar ao átrio do térreo. Uma fumaça química ,acre, que já invadira a maior parte da zona inferior, circulava escadas acima em torno de ambos.

- Okay, já chegamos - disse em voz alta Jared. - Tenho de voltar lá. Vá por ali, por aquele túnel. Entende? Ótimo. Olhe, leve o livro consigo e vá andando.

Enfiou o caderno de apontamentos nas mãos do homem. Nesse preciso instante, vindo de baixo, deu-se uma súbita explosão. E logo outra a seguir. Jared observava Paquette à medida que se afastava dele e, de repente, viu-o cair pesadamente no chão, com sangue jorrando de um ferimento no pescoço. Jared ajoelhou-se ao lado do homem, simultaneamente surpreso e confuso pelo que estava acontecendo.

- Paquette!

- Caderno de apontamentos... Kate... - foram as únicas palavras que conseguiu pronunciar antes que uma torrente de sangue selasse os seus lábios e lhe fechasse os olhos.

Nesse preciso momento, Jared percebeu que o homem fora baleado e que os últimos estouros que ouvira não vinham do laboratório, mas sim de uma arma. Voltou-se para trás ao mesmo tempo em que Nunes começava a disparar na sua direção, de pé, ao fundo das escadas. A bala atravessou a coxa direita, ricocheteando no chão e na parede traseira. O atirador, escurecido pela fumaça e sangrando de diversos golpes no rosto, posicionou o revólver para mais um tiro. Distraído devido à terrível dor na perna, Jared mal teve tempo para reagir e sair da linha de fogo. Atrás dele, e vindo da boca do túnel, sons de alarmes começaram a ecoar. A pouca distância, o homem iniciara a subida dos degraus, atravessando as vagas de fumaça.

"Caderno de apontamentos... Kate..." Jared retirou o caderno preto de junto do corpo de Paquette, prendeu-o debaixo do braço como uma bola de futebol e, meio saltando, meio correndo, percorreu o túnel em direção ao hospital principal. Zimmermann, Paquette e, muito provavelmente, também Walter MacFarlane, estavam todos mortos, e tudo isso se devia ao fato de ter ido para aquele encontro sem ajuda suficiente. Esse pensamento o fez esquecer momentaneamente a dor, enquanto passava o portão de segurança. Paquette prometera respostas para Kate e nesse momento estava morto. Silenciosamente, Jared amaldiçoou-se.

Uma bala de revólver ecoou ao longo do túnel. Acocorando-se para se tornar um alvo menos visível, Jared continuou o seu percurso. Arrastava as pernas, empurrando-se de um lado para o outro ao longo das paredes do túnel, enquanto pensava se aquela manobra evasiva valeria o terreno que estava perdendo. O túnel principal situava-se a menos de trinta metros de distância. Se ao menos conseguisse chegar ali, encontraria decerto pessoas, ou qualquer espécie de ajuda. Ouviu-se outro tiro, desta vez mais alto. Só agora tomava consciência de que a bala disparada, proveniente do pesado revólver de MacFarlane, lhe atravessara a manga da camisa, acabando por cair no chão de cimento. Tropeçou, quase caindo, e bateu contra a parede mais afastada.

- Socorro! - gritou. - Alguém que me ajude!

O túnel sombrio estava vazio.

Momentos mais tarde, foi de novo baleado. O projétil bateu ligeiramente acima da nádega esquerda, fazendo com que rodopiasse em um ângulo de trezentos e sessenta graus. Sentiu dores lancinantes em todas as zonas do corpo, especialmente ao longo da perna e para cima, até às omoplatas. Caiu até ficar só sobre um joelho, mas logo voltou a levantar-se, agarrando com toda a força o caderno de apontamentos contra o peito e deslizando ao longo da parede do túnel. Em algum lugar ao longe conseguia ouvir uma nova série de alarmes, depois sirenes e por fim, uma explosão abafada.

Encontrava-se, pelo menos por enquanto, fora da mira do assassino, tropeçando na direção oposta ao hospital principal e encaminhando-se para a zona da sala das caldeiras e lavanderia. Apesar da dor que sentia na perna e nas costas, decidira que nada, exceto um tiro mortal, o iria fazer desistir de avançar. Agora que Paquette e Zimmermann estavam mortos, aquele caderno de apontamentos preto, fosse o que fosse, poderia muito bem representar a única chance de que Kate disporia para se salvar.

O guarda-costas, agachando-se e tomando posição para disparar, contornou a esquina do túnel do Omnicenter.ao mesmo tempo que Jared atingia o ramal da lavanderia. Pressentiu que o homem estava prestes a disparar, todavia não ouviu qualquer estouro, qualquer ruído. Teria havido? À medida que se arrastava para dentro da lavanderia sombria, podia jurar que ouvira qualquer espécie de barulho. Finalmente compreendeu. O assassino disparara. O revólver de MacFarlane estava sem munições, provocando um tiro seco. Agora, mesmo ferido, ele tinha uma oportunidade para fugir.

A sala onde acabara de entrar estava repleta de dúzias de cestos industriais com rodas, alguns vazios, outros empilhados até acima com lençóis. Atrás dos cestos, Jared conseguiu distinguir a silhueta de filas inteiras de monstruosas prensas a vapor. Considerou a hipótese de se enfiar em um dos cestos, porém depressa mudou de idéia: por um lado, porque iria ficar em uma situação passiva e indefesa, por outro, porque o seu perseguidor já virara em direção ao túnel e ia encaminhando cuidadosamente para a lavanderia.

Ignorando as dores nas costas