Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EM DEFESA DA HONRA / Hannah Howell
EM DEFESA DA HONRA / Hannah Howell

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Gisele DeVeau conhece o lado mais sórdido dos homens, depois de escapar da brutalidade de seu marido. Agora, viúva e com a cabeça a prêmio, ela é perseguida por 1 crime que não cometeu. Sua única esperança é Nigel Murray, o rebelde escocês que a salvou de morrer no campo de batalha e fugiu com ela para a Escócia. O atraente Nigel desafia Gisele com uma sensualidade ardente, destruindo todos os seus receios e temores. Mas para confiar plenamente em Nigel, Gisele precisa deixar o passado para trás e abrir seu coração para o amor eterno!

 

 

 

 

França, Primavera de 1437

Desajeitadamente, Nigel Murray sentou-se. Passando as mãos pelos cabelos imundos, fitou o horizonte, tingido pelas primeiras luzes da manhã. Desgostoso, percebeu que nem sequer entrara na pequena tenda, havendo adormecido ao relento, caído na lama.

— Sorte eu não ter morrido afogado — resmungou, levantando-se.

Aos poucos, deu-se conta do mau cheiro exalado pelo próprio corpo. Cambaleante, rumou para o rio perto do qual o exército acampara. Precisava livrar-se do fedor e clarear as idéias. A água gelada serviria a contento.

As coisas haviam saído de controle, concluiu embrenhando-se no meio das árvores. Quando um homem acorda esparramado na lama, sem se lembrar de como fora parar ali, com certeza era hora de analisar a situação seriamente.

Durante os últimos sete anos passados, lutando ao lado dos franceses, dera este conselho a muitos de seus compatriotas. Agora, devia colocá-lo em prática. Ou mudava seu estilo de vida, ou morria.

Depois de tirar as botas e o cinturão com a espada, mergulhou no rio caudaloso. De olhos fechados, permitiu que a água cristalina afastasse os resquícios da embriaguez e limpasse as roupas manchadas.

Desde que chegara à França, entregara-se à bebida e a uma sucessão de amantes, cujos nomes e rostos não guardavam nenhum significado. Apenas os combates ocasionais com os ingleses, ou com quaisquer outros inimigos dos franceses, o faziam romper esse círculo vicioso. Por obra do acaso continuava vivo após sete anos de tamanha estupidez. Poderia ter morrido afogado numa poça d'água, inconsciente de tanto beber, ou caído no campo de batalha ao enfrentar o adversário, antes de reconhecer seus erros.

E por quê? Eis a pergunta que devia fazer a si mesmo. No início, valera-se do vinho e das mulheres para aliviar a dor da alma, para sufocar o sofrimento que o fizera se afastar de casa, de Donncoill, da Escócia. Agora começava a suspeitar de que a rotina de dissipação tornara-se um hábito. O vinho oferecia um torpor tentador, promovia uma inabilidade de pensar e as amantes proporcionavam alívio temporário para a tensão sexual. Ao partir da Escócia, assegurara aos irmãos não pretender morrer em combate e, com certeza, não desejava morrer num estado de estupor alcoólico.

Sussurros repentinos o trouxeram de volta à realidade, afastando os pensamentos amargos. Saindo da água, Nigel calçou as botas, apanhou a espada e, movido pela curiosidade, seguiu os sons.

Logo alcançava uma clareira, onde duas pessoas conversavam. Escondendo-se atrás de uma árvore, observou-as.

Reconhecia o rapaz, embora precisasse se esforçar para lembrar-se do nome. Todavia, era a outra figura que despertava seu interesse. Por que Guy Lucette estaria conversando atentamente com uma mulher pequenina, metida em trajes masculinos e de cabelos tão curtos? Um olhar rápido para o chão deixou claro que a mudança de corte fora recente. Sobre a relva verde, montes de cachos negros e sedosos brilhavam sob os tênues raios de sol. Apesar de não entender o porquê, incomodava-o saber que algo belo fora assim descartado e perguntava-se o que haveria induzido a linda dama a tomar a atitude drástica. Com certa dificuldade, Nigel acompanhou o diálogo travado rapidamente em francês.

— É loucura, Gisele! — Guy exclamou, ajudando-a a vestir o casaco largo e sujo. — Em breve estaremos enfrentando os ingleses. Aqui não é lugar para mulheres.

— As terras de DeVeau tampouco o são. Em especial para mim — respondeu a jovem, passando os dedos esguios e trêmulos pelos cabelos repicados. — Eu poderia matar aquele homem por me submeter a tal infâmia.

— O maldito já está morto.

— O que não me impede de querer matá-lo.

— Por quê? Não foi ele quem cortou seus cabelos, ou obrigou-a a fazê-lo.

— O canalha, ou melhor, sua família, me arrastou a essa situação extremada. Eu não tinha idéia de que existiam tantos DeVeau. Onde quer que eu vá, parece que um deles está sempre me espreitando.

— Sem dúvida há muitos DeVeau no exército também. Você não levou isso em consideração ao arquitetar seu plano maluco?

— Sim, levei — ela retrucou muito calma, certificando-se de que os seios não ficavam proeminentes sob o tecido grosseiro do casaco. — Também considerei a possibilidade de que algum DeVeau acabe descobrindo que você é meu primo. Os riscos são mínimos. Ninguém pensará em me procurar entre os pajens num campo de batalha.

— É verdade. Mas insisto em que você permaneça no interior da minha barraca a maior parte do tempo, para não chamar muita atenção e levantar suspeitas. Se seus inimigos a localizarem, irão matá-la. Os DeVeau puseram sua cabeça a prêmio e não são poucos os que gostariam de encher os bolsos com o dinheiro da recompensa por sua captura.

Quanto os DeVeau estariam dispostos a pagar pela dama, Nigel se perguntou, dando de ombros em seguida. Não importava. Após anos de completa indiferença por tudo que o cercava, exceto a própria miséria, pela primeira vez, desde que abandonara a Escócia, a curiosidade fazia seu sangue correr mais vigorosamente nas veias e o impelia para além da letargia mental à qual se acostumara.

Guy e a jovem Gisele enterraram as roupas e os cabelos dela numa cova rasa e partiram. Nigel não tardou a acompanhá-los, demorando-se apenas o suficiente para recolher o que fora deixado para trás: xale, vestido e cachos de cabelos.

Aproximar-se da tenda de Guy, sem ser visto, provou-se tarefa fácil, pois ninguém parecia vigiar a retaguarda. Qualquer um que a estivesse caçando não encontraria a menor dificuldade para rastreá-la e prendê-la.

Andando de um lado para o outro defronte da barraca, Nigel pensou no que faria em seguida, ainda sem entender por que deveria se importar com o destino daqueles tolos. Interessar-se por qualquer coisa que o desviasse do caminho da autodestruição, que estivera trilhando nos últimos sete anos, já seria um ganho. Teria a dupla cometido algum crime que merecesse sentença de morte? Talvez tudo não passasse de um grande mal-entendido. Sua própria família sofrerá na pele as conseqüências sombrias de equívocos. Os Murray haviam enfrentado uma rixa sangrenta por causa de um erro. Muitos homens bons e honrados tinham morrido antes que a verdade viesse à tona.

Talvez fosse mais do que simples curiosidade o que o movia. A idéia de uma dama tão linda ser ferida, principalmente devido a um engano, o perturbava sim, mas não bastava para explicar a intensidade de sua inquietação.

— Chega de perder tempo — ele se repreendeu, irritado.

Nenhuma maneira inteligente de se aproximar do casal vinha-lhe à mente. Ou porque não existia uma forma simples de intrometer-se na questão, ou porque, sob os efeitos do álcool, não conseguia raciocinar com clareza. Decidindo-se por uma abordagem direta, entrou na tenda anunciando-se com um sonoro bom-dia. A expressão assombrada dos primos o fez sorrir. Guy custou tanto a reagir à sua presença inesperada, que teria sucumbido a um ataque, caso estivesse lidando com um inimigo. Pondo-se à frente de Gisele, o rapaz, finalmente, desembainhou a espada.

— Não há necessidade disso — disse Nigel, em inglês, rezando para que os dois o compreendessem.

Seu sotaque era tão carregado, ao falar francês, que temia piorar a situação. Também teve o cuidado de estender as mãos vazias, em sinal de paz.

— Não? Então por que você irrompeu em minha tenda sem ser convidado?

Ignorando uma pontada de inveja por não dominar o idioma francês com a perícia demonstrada por Guy em relação ao inglês, Nigel fitou Gisele, cujos olhos, de um verde magnífico, o observavam cautelosos.

— É esquisito seu pajem não desembainhar a espada e postar-se ao seu lado. — Nigel riu baixinho ante o súbito nervosismo de Guy. — Pode-se fazer uma moça parecer um rapaz, pelo menos superficialmente, porém é difícil lembrar-se de tratá-la como tal.

O medo inicial de Gisele transformou-se em perplexidade. Sua primeira impressão fora de que o belo escocês havia sido contratado pelos DeVeau. Contudo, o cavaleiro alto e moreno mostrava-se relaxado e seus olhos cor de âmbar revelaram um misto de curiosidade e diversão. Aliás, aquele olhar começava a incomodá-la, pois não havia nada de divertido em sua situação atual. Pelo contrário, perigava de perder a vida.

Apesar da irritação crescente e da aparência desmazelada do escocês, não conseguia ficar imune àquela presença máscula. As roupas molhadas delineavam cada músculo do corpo poderoso, os cabelos longos, também úmidos, ressaltavam os traços viris.

O estranho parecia exausto e não se barbeava há dias, entretanto era um dos homens mais bonitos que jamais vira. Nariz reto, queixo firme e uma boca que, sem dúvida, enlouquecera muitas mulheres. Mas sinais de uma vida devassa, regada a vinho e prazeres da carne, marcavam o rosto expressivo. Vira essas mesmas linhas no rosto de seu marido. Que problemas levariam esse escocês forte e belo a tragar mulheres e vinho com igual avidez?

Quando os olhares deles se encontraram, Gisele corou. Estivera fitando-o tão fixa e demoradamente que o desconhecido notara. Embaraçada, abaixou a cabeça, precisando de algum tempo para se recompor. Ao tornar a erguê-la, viu-o sorrindo e um calor repentino a invadiu.

— Como adotei esse disfarce poucas horas atrás, você poderia me dizer como o descobriu? — indagou áspera.

— Eu também estava nas proximidades do rio.

— Merde — ela murmurou, fitando-o, ao escutá-lo rir. — Então você é um espião.

— Não. Apenas um homem que, ocasionalmente, gosta de ficar limpo.

Decidindo ignorar a tirada bem-humorada, Gisele deu um passo à frente.

— Se você não está me caçando, por que o interesse no modo como me visto, ou na identidade que desejo assumir?

— Curiosidade é algo sedutor.

— E você é um cavaleiro grande e musculoso. Resista.

— Gisele — Guy a repreendeu em francês, puxando-a pela manga do casaco. —Devemos descobrir o que ele quer, antes de você o agredir com sua língua destemperada.

— Falo francês — informou-os Nigel, nesse mesmo idioma.

— Com um sotaque carregadíssimo, aliás — Gisele respondeu, praguejando quando o primo tornou a cutucá-la.

— Eu o conheço, não? — interrogou-o Guy, franzindo o cenho.

— Somente de vista. Sou sir Nigel Murray.

— Sir Guy Lucette. Minha prima, Gisele DeVeau. Você pretende nos delatar? Ou planeja pedir alguma recompensa para guardar segredo?

— Juro, pela honra de meu clã, que apenas cedi à curiosidade. — A pergunta não o havia ofendido. Suas atitudes, de fato, pareciam suspeitas.

— Obediência tão cega à curiosidade poderia facilmente acabar levando-o à morte. — Guy embainhou a espada. — Receio que, desta vez, será impossível satisfazê-la.

— Verdade?

— Sim — Gisele afirmou seca. — Nosso problema não lhe diz respeito. Não é, absolutamente, da sua conta.

— E vocês não sentem necessidade de auxílio? De mais uma espada protegendo a retaguarda?

Guy deu a impressão de considerar a idéia. Gisele, no entanto, permaneceu inabalável.

— É um assunto de família, sir. Não precisamos de ajuda.

— Não? Vocês mal começaram a farsa e já os descobri.

— Porque estava nos espionando.

— Talvez eu não fosse o único — Nigel insistiu, tentando fazê-la entender a seriedade da situação e a importância de sua oferta para acudi-los.

Os primos se entreolharam, nervosos e inquietos, e o simples bom senso obrigava-os a enxergar o óbvio. Sim, auxílio seria bem-vindo, mas existiam certas dificuldades. Como confiar em alguém que conheciam apenas de vista? Nigel também suspeitava de que aqueles dois, orgulhosos por natureza, custariam a admitir a necessidade de socorro.

— Creio que teríamos notado se a floresta estivesse repleta de espiões — ponderou Gisele.

Guy apressou-se a tomar a palavra.

— Sir Murray, compreendo o que você está se esforçando para nos dizer. Sem dúvida seremos mais cuidadosos, daqui em diante, e vigiaremos nossa retaguarda.

— Então recusam minha ajuda.

— É preciso. Não é problema seu e seria descortês arrastá-lo para o meio das nossas dificuldades.

— Ainda que eu esteja disposto a me intrometer?

— Ainda assim.

— Como queiram, então.

— Nós agradecemos, sinceramente, sua gentil preocupação.

— Nós? — repetiu Gisele, irônica.

— Apesar de sua recusa em aceitar meu auxílio — prosseguiu Nigel, sem se importar com a interrupção indelicada —, asseguro-lhes que minha oferta permanece. Vocês sabem onde me encontrar, se mudarem de idéia.

Com uma breve inclinação de cabeça, o escocês retirou-se. Depois de afastar-se alguns passos, perguntou-se se valeria a pena voltar e espiá-los para escutar o que diriam após sua partida, porém desistiu. Os primos agiriam com mais prudência agora. Só esperava que buscassem sua ajuda antes que fosse tarde demais.

— Talvez tenhamos cometido um erro — Guy murmurou pensativo.

— Não precisamos do estrangeiro — teimou Gisele, sentando-se no catre e cruzando os braços sobre os seios.

— É admirável sua confiança na minha capacidade de mantê-la em segurança. — Guy ajoelhou-se, no chão de terra, e começou a acender uma pequena fogueira.

— Você é um cavaleiro honrado e habilidoso.

— Obrigado pelo voto de confiança. Minha reputação foi construída nos campos de batalha, em combates leais. Isto é bem diferente. Sou a única barreira entre você e uma horda de DeVeau e seus mercenários, e nenhum deles é capaz de agir segundo o código de honra. Outra espada seria de grande ajuda.

— Não sabemos se ele planeja usar aquela espada para nos ajudar, ou nos entregar aos nossos inimigos. O escocês pode ser um dos mercenários dos DeVeau.

— Não, não posso acreditar nisso.

— Você não conhece o homem.

— Verdade. Por outro lado, nunca ouvi nada de mal a respeito dele. Não deveríamos tê-lo descartado completamente.

Gisele passou a mão pelos cabelos curtos. No fundo, não acreditava que sir Murray quisesse prejudicá-los, mas temia que, impressionada pela beleza máscula e envolvente, houvesse perdido a capacidade de raciocinar e julgar com clareza. Fugir e se esconder de seus inimigos levara-a a desconfiar de tudo e de todos. Se muitos de sua própria família acreditavam nas acusações que lhes eram feitas e tinham lhe dado as costas, por que um estranho, vindo de uma terra distante, lhe ofereceria ajuda? E sir Murray continuaria disposto a protegê-la, depois de saber por que os DeVeau a caçavam? E por que haviam posto sua cabeça a prêmio?

— Então não o descartaremos completamente, porém tampouco o aceitaremos cegamente como nosso amigo.

— Às vezes não podemos ser cautelosos demais, prima.

— Sim. Mas não se esqueça por que estou me escondendo. Sir Murray talvez não se mostre tão amigável e pronto para nos auxiliar quando descobrir a razão de nossa farsa. — Gisele sorriu melancólica. — Muitos homens acham difícil perdoar uma mulher que matou o marido.

— Mas você não o matou.

— Os DeVeau acreditam que sim. Como vários de nossos parentes. Por que um estranho acreditaria em mim, e não na versão corrente? Proponho observar o escocês e tomar nossa decisão com cuidado.

— De acordo. Só peço a Deus que os DeVeau não nos localizem antes.

 

A maioria dos pajens não usa jóias tão vistosas. Praguejando baixinho, Gisele recolocou o medalhão cravejado de granadas sob o casaco e lançou um olhar fulminante para o belo escocês, enquanto acomodava a pilha de gravetos sobre o ombro. Esforçando-se para ignorar o sorriso sedutor, embrenhou-se no bosque e rumou para a barraca de Guy. Sir Murray descobrira seu segredo há uma semana e, desde então, parecia vigiar cada um de seus movimentos. Onde quer que fosse, acabava encontrando-o e já não sabia o que a irritava mais, se a persistência do estrangeiro, ou a atração que sentia por ele.

— Você quer alguma ajuda com seu fardo? — indagou Nigel, seguindo-a como uma sombra.

— Non — Gisele respondeu, irritada por não ser capaz de acelerar o passo. — Você não considerou a possibilidade de suas atenções para comigo despertarem suspeitas?

— Sim, porém não creio que desconfiariam de que você é uma moça, não um rapaz.

— Que outra coisa poderiam pensar, além disso?

— Que me cansei das mulheres.

Gisele levou alguns segundos para entender o significado do comentário.

— É nojento — falou, enrubescendo.

— Estamos na França — disse Nigel, dando de ombros.

— Cuidado, meu nobre cavaleiro. Sou francesa.

— Sim, e a coisa mais linda que meus olhos jamais viram em sete anos de andanças por essas terras.

O galanteio rasgado fez com que seu coração batesse mais depressa, e Gisele odiou-se por reagir como uma tola inexperiente.

— Você não tem mais nada com o que se ocupar, além de meus problemas torpes?

— No momento, não.

Logo antes de saírem da floresta, quase que a contragosto, virou-se para contemplá-lo. Por que sir Murray tinha que ser tão bonito? Por que não conseguia permanecer imune ao charme viril? Estivera absolutamente convencida de que a brutalidade de seu marido matara qualquer interesse que pudesse vir a ter por um homem, mas reconhecia os sinais de uma atração perigosa se avolumando no ar. Onde esse cavaleiro sensual estivera um ano atrás, quando ainda era livre para flertar, para permitir que seu sangue fervesse nas veias sem medo? Afogando-se em vinho e amantes pensou, com inegável amargura.

— Não há necessidade de você se envolver com meus problemas.

— Eu sei, mas escolhi me intrometer. — Sorrindo, Nigel cruzou os braços sobre o peito largo, como que se preparando para uma longa conversa. — Por que os DeVeau a estão caçando?

— Merdel Você parece um cão faminto, que não larga o osso.

— Meus irmãos sempre me chamaram de obstinado. Moça sei que você está sendo caçada e por quem. Desde o primeiro momento, seu disfarce nunca foi segredo para mim. Também sei que puseram sua linda cabecinha a prêmio. A única coisa que não sei é o porquê. Por que os DeVeau a querem morta? Acho que a acusam de assassinato. Se for o caso, por que iriam pensar que uma jovem delicada como você mataria alguém?

Sir Murray estava bem perto da verdade, Gisele concluiu, mergulhando nos olhos castanhos. Perto demais. Parte de si desejava, desesperadamente, contar-lhe tudo. E, ainda mais alarmante, parte de si desejava, desesperadamente, que ele acreditasse na sua inocência.

Com extrema dificuldade, desviou o olhar, temendo ceder à tentação de abandonar a cautela e abrir a alma. Confiar naquele estranho sem reservas significaria estar arriscando a própria vida e, talvez, a de Guy. Também receava que o escocês, a exemplo de outras pessoas, não acreditasse na sua história. Ficaria devastada se parecesse uma mentirosa vulgar.

— Como tentei lhe dizer antes… — Gisele começou, calando-se ao notar que ele já não a ouvia, com sua atenção voltada para o acampamento. — Alguma coisa errada?

— Os saxões.

— Quem?

— Os ingleses. — Nigel pôs-se a correr, puxando-a pela mão. — Você deve retornar à barraca de Guy e permanecer lá.

— Mas não estou vendo, nem escutando nada. Não soaram o alarme. Como você pode saber que os ingleses estão próximos? Merde — ela resmungou, tropeçando. — Você consegue farejá-los, ou é apenas doido?

— Oh, sim, consigo farejar os bastardos.

Antes que Gisele pudesse retrucar, um grito ecoou pelo acampamento, quando os homens se armavam às pressas para enfrentar o súbito ataque inimigo. Pasma, ela se deixou empurrar para dentro da tenda e, apanhando uma adaga, ficou de prontidão. Se a batalha chegasse ali, resistiria.

Imóvel, tensa e alerta, Gisele descobriu-se pensando no escocês, algo que vinha lhe acontecendo com perturbadora freqüência. Não era uma boa hora de se preocupar com terceiros, em especial com um homem. Tal distração poderia, facilmente, custar-lhe a vida. Precisava manter-se focada numa única coisa: escapar dos DeVeau. Entretanto, sua mente e seu coração davam a impressão de agir por conta própria. Quanto mais se esforçava para tirar o envolvente estrangeiro da cabeça, mais pensava nele.

Nigel Murray, com sua beleza máscula, sem dúvida impressionara muitas mulheres. Porém, saber-se tão vulnerável ao charme avassalador quanto as outras não a sossegava, ou diminuía sua irritação. Deveria ter superado essas tolices.

Afinal, conhecera o lado negro dos homens. Por trás de um rosto bonito, podia existir uma alma perversa. O escocês parecia não trazer em si essa dicotomia, mas já não confiava em sua própria capacidade de julgar. Embora houvesse se recusado, terminantemente, casar-se com Michael DeVeau, porque acreditara nas histórias escabrosas que ouvira, acabara forçada a aceitá-lo. Para seu horror, constatara que os boatos sobre a natureza violenta e amoral do nobre nem chegavam perto da realidade.

Quase um ano se passara desde que encontrara o corpo mutilado do marido na cama e, certa de que levaria a culpa, fugira. Apesar de terem estado casados por apenas seis meses, a experiência trágica a marcaria para sempre. Assim como jamais poderia se esquecer de como sua própria família a abandonara. Ninguém tomara nenhuma atitude para protegê-la, antes ou depois de seu casamento, e muitos deles pensavam que ela, realmente, matara DeVeau. Levaria algum tempo até ser capaz de perdoá-los.

Gritos repentinos trouxeram-na de volta à precariedade da situação em que se achava. Com os sons horripilantes da batalha cada vez mais distintos, a barraca onde buscara refúgio começava a parecer uma armadilha.

Segurando a adaga firmemente na mão, Gisele se aventurou para fora da tenda. E seu coração, por um breve instante, parou de bater. Engajado numa luta mortal com dois cavaleiros ostentando as cores dos DeVeau, Guy resistia com bravura. Mas ela temia que o destino do primo fosse igual ao do amigo Charles: morrer, tentando defendê-la.

— Fuja! — Guy berrou, escapando dos golpes adversários com perícia.

Antes de Gisele esboçar qualquer reação, um terceiro personagem surgiu, espada em riste, um sorriso vitorioso no rosto grosseiro. O cavaleiro tinha todo direito de parecer arrogante. Apesar da adaga, reconhecia não ser capaz de vencê-lo.

— Largue a faca, prostituta assassina! — rugiu o brutamontes.

— E permitir que você cometa uma injustiça sem resistir? Non creio que não.

— Injustiça? Non, justiça! Você matou seu marido, cortou-lhe fora a virilidade e meteu-a na boca do infeliz. Os DeVeau merecem se vingar.

De súbito ocorreu-lhe que a mutilação sofrida por seu marido a impediria de encontrar um aliado entre aqueles que a caçavam. O modo como o cavaleiro falava deixava claro que a castração fora uma injúria ainda maior do que o assassinato em si. Por um instante ela se perguntou se Nigel Murray ficaria igualmente afrontado, e se retiraria seu apoio caso conhecesse os detalhes da história sórdida.

— Não voltarei para os DeVeau — Gisele afirmou, dando um passo atrás e, buscando, em vão, vislumbrar uma rota de fuga.

— Oh, oui, voltará sim. Viva ou morta.

— Morta? Creio que aqueles cães me preferem viva, para, mais uma vez, me fazer sentir o peso de sua brutalidade.

— Essa perseguição já se estendeu por tanto tempo que os DeVeau, com certeza, não se importarão se lhes entregarmos apenas sua cabeça.

— Ah, mas eu me importo. Prefiro a moça viva — disse uma voz, com carregado sotaque.

Boquiaberta, Gisele viu sir Murray aproximar-se do cavaleiro que a ameaçava. O desfecho da cena ocorreu em poucos segundos. Com absoluta calma, o escocês conteve o avanço do adversário e, numa sucessão de movimentos precisos, matou-o. Trêmula, Gisele apontou para Guy, que continuava resistindo às investidas dos inimigos.

Embora temerosa de acompanhar o embate, pois não suportaria testemunhar a morte do primo ou do escocês, ela não conseguiu desviar o olhar. Como se em transe, acompanhou a coreografia sinistra, pedindo a Deus para poupar seus protetores. Não se perdoaria nunca se o pior lhes acontecesse.

Quando Nigel liquidou um dos cavaleiros, quase gritou de alívio. Entretanto, a alegria durou pouco. Guy acabara de ser atingido no ombro e se esvaía em sangue, caído no chão. Porém, quando o enviado dos DeVeau preparava-se para desferir a estocada fatal, sir Murray se interpôs entre os dois, absorvendo o impacto do golpe e revidando o ataque. Sem dificuldade, venceu-o, proporcionando-lhe uma morte rápida e misericordiosa.

Depois de embainhar a espada, Nigel postou-se ao lado de Gisele, que se ajoelhara junto do primo.

— Desculpe-me, querida — murmurou Guy, rígido de dor.

— Desculpá-lo de quê? — ela falou baixinho, odiando-se por tê-lo arrastado para aquela enrascada.

— Minha primeira tentativa de protegê-la revelou-se um fiasco.

— Non, tolo. Sua atitude foi muito galante.

— Charles está morto?

— Receio que sim.

— Malditos os DeVeau e todos os seus descendentes! Charles era um bom homem, o melhor dos amigos.

— Farei com que seu corpo seja tratado com respeito e honra — Nigel declarou.

— Obrigado, sir. — Guy esboçou um leve sorriso. — A propósito, de onde você surgiu?

— Quando os escutei conversando perto do rio e mencionando o nome DeVeau, resolvi levantar informações sobre a família. Então, no meio da batalha, você e seu amigo rumaram para cá. Tive a impressão de que os cavaleiros de DeVeau os seguiam e concluí que, talvez, minha ajuda seria bem-vinda.

— Meu primo precisa de ajuda agora — interveio Gisele, aflita. — Tudo de que necessito para tratá-lo está na nossa barraca.

Sem esforço, Nigel carregou o francês até a tenda e depositou-o no catre. Enquanto a jovem dama limpava e costurava o ferimento, ele achou um odre de vinho e sorveu um largo gole.

Quando se dera conta de que Gisele corria perigo, fora dominado por uma urgência há muito esquecida. Vê-la enfrentando um sujeito corpulento, armada apenas de uma adaga e coragem, enchera-o de admiração e o impelira a destruir quem a ameaçava. Não se lembrava de quando experimentara emoção tão intensa pela última vez.

Absorto, Nigel contemplou-a debruçada sobre o primo. Pequenina, porte elegante, sensual. Apesar de trajar roupas masculinas, transpirava feminilidade por todos os poros. Impossível resistir aos apelos da beleza clássica. Rosto delicado, nariz reto, lábios carnudos. Sobrancelhas arqueadas, cílios longos, escuros e espessos acentuando o brilho dos imensos olhos verdes. Nenhum desses atributos, contudo, explicava as sensações que Gisele despertava em seu corpo e sua alma. Conhecera muitas mulheres bonitas na vida, algumas até mais do que a francesa. Nenhuma, porém, o incendiara assim.

Intrometer-se nos problemas dela não seria sensato. De acordo com os rumores, a família DeVeau era rica, poderosa e violenta. Qualquer homem, com um pingo de bom senso, faria tudo para se distanciar dessa gente, para não se deixar rotular como um potencial inimigo. Porém, em vez de dar ouvidos à razão, não hesitara em matar três cavaleiros. Ainda existia uma chance de sair ileso, porque todas as testemunhas de seu envolvimento estavam mortas. Mas resolvera ajudar Gisele, quer seu apoio fosse desejado, quer não.

─ Você não pretende retornar à batalha? — ela perguntou, lavando as mãos após terminar o curativo.

—A luta já estava quase no fim quando decidi vir salvar sua linda pele.

— Guy e eu estávamos nos saindo bem, entretanto agradeço seu gentil auxílio. — Gisele praguejou baixinho ao vê-lo sorrir.

A quem esperara enganar? Somente a intervenção do escocês os poupara de uma tragédia maior. Por que relutava em aceitar o óbvio?

— Você acha difícil admitir estar atolada na lama até o pescoço e afundando depressa, não? — Murray perguntou, com o mesmo sorriso divertido nos lábios.

— Tenho cuidado de mim neste último ano, quase sem contar com ninguém. Creio que continuarei sobrevivendo.

— Aquilo do que você está fugindo está a ponto de alcançá-la, moça. O perigo a ronda. Charles perdeu a vida, e seu primo escapou por um triz. Isto já havia acontecido antes?

Sentando-se no chão, diante da fogueira, Gisele apanhou o odre de vinho e bebeu devagar.

—Non, isto nunca aconteceu antes. Lamento muito, muito por Charles. Além de honrado, era amigo de infância de Guy. Quanto a meu primo, sei que o ferimento o enfraqueceu, mas irá se recuperar, se for tratado da maneira adequada.

— De fato. Mas a tarefa será árdua.

— Sou hábil na arte da cura.

— Sem dúvida. Porém, ter que correr de um lado para o outro, escondendo-se de seus inimigos, dificultará a recuperação de Guy. — Observando-a empalidecer, Nigel compadeceu-se. — Você não pode permanecer aqui, moça.

— Mas você matou os homens que estavam me caçando.

— Seriam eles os únicos enviados de DeVeau? Quem nos garante que não existam outros nas redondezas, apertando o cerco? Desnecessário explicar por que você não pode fugir arrastando um ferido consigo. Seu primo não sobreviveria a uma marcha acidentada.

Gisele fechou os olhos e tentou se acalmar. No começo, quando procurara Guy, seu plano parecera perfeito. Quem pensaria em procurá-la no meio de um regimento? Quem a tomaria por uma mulher, vendo-a de cabelos curtos e vestida como um rapaz? Como fora localizada?

Sir Murray tinha razão. Logo DeVeau seria informado de seu paradeiro e, ainda pior, descobriria que Guy a ajudara. Não, não podia permanecer ali, e tampouco deixar o primo para trás. Ele necessitava de sua ajuda e também precisava se pôr fora do alcance da ira da família DeVeau. Devagar, ela abriu os olhos e fitou o homem que se intrometera em seus problemas como se tivesse todo o direito de interferir.

— O que você acha que devo fazer? — indagou ansiosa.

— Fugir.

— Não posso abandonar Guy à mercê de meus inimigos.

— Sim, eu sei. Primeiro devemos levá-lo para um local seguro, onde alguém o abrigue e a você também.

— Nossa prima Maigrat mora a alguns quilômetros daqui.

— Então nós o levaremos para lá.

— Nós?

— Sim, nós. Estou lhe oferecendo proteção, pequena Gisele.

— Por quê?

— Não tenho resposta pronta para isso. — Nigel riu, dando de ombros. — Ofereço-lhe a proteção de que você necessita e, talvez, um porto seguro também. Antes de me meter na sua vida, estive pensando em voltar para casa. Convido-a a me acompanhar.

— Até a Escócia? — O choque inicial não durou muito.

Podia ser um ótimo plano, considerando a situação atual.

— Sim, até a Escócia. Até minha casa. Mesmo se os DeVeau descobrirem que estamos juntos, mesmo se souberem onde nos refugiamos, você ainda estará mais segura na Escócia do que aqui. Lá, serão os DeVeau os estrangeiros. Garanto-lhe que não passarão despercebidos e terão dificuldade para se esconder.

Embora desejasse aceitar a oferta de imediato, Gisele hesitava. Estaria pondo sua vida nas mãos de um homem que mal conhecia. Era loucura, sim. Contudo, que outra escolha lhe restava?

— Entendo você precisar de algum tempo para considerar minha proposta. — Nigel levantou-se. — Vou cuidar do corpo de Charles, conforme prometi ao seu primo, e, quando retornar, retomaremos a conversa. Só existe uma única coisa que desejo de você, em troca de minha ajuda.

— O que é?

— A verdade.

Quando o escocês saiu, Gisele suspirou fundo e cobriu o rosto com as mãos. A verdade. Era este o preço do auxílio de que tanto necessitava. Infelizmente a verdade talvez o fizesse mudar de idéia e retirar a oferta. Sir Nigel, como muitos outros, poderia não acreditar na sua inocência.

Também a perturbava o fato de um desconhecido dispor-se a arriscar a própria pele para protegê-la. Ele se esquivara de uma resposta direta quando lhe perguntara o porquê. E se Nigel Murray ficasse entediado no meio da jornada e desistisse de ajudá-la? E se acabasse sozinha, abandonada no meio do caminho, perdida numa terra estranha? O cavaleiro afirmara desejar apenas a verdade em troca de auxílio. Todavia, passariam semanas, talvez meses, juntos. E se ele resolvesse aumentar o preço? E se o belo escocês estivesse a serviço dos DeVeau? E se houvesse matado aqueles três cavaleiros somente para não dividir a recompensa por sua captura?

Tantos “ses” a estavam enlouquecendo. Devia considerar todas as possibilidades, por mais que lhe doesse a alma. Sir Murray parecia um homem íntegro e digno, capaz de socorrer uma mulher desesperada.

Porém, assim como não possuía provas de que ele era um inimigo, tampouco possuía provas de que fosse um amigo e aliado.

— Simplesmente não sei o que fazer — Gisele murmurou, no auge da angústia.

— Você deve acompanhá-lo.

— Guy! — Surpresa, ela correu para perto do primo e ajudou-o a beber um pouco de água. — Pensei que você ainda não houvesse recobrado os sentidos. Desculpe-me pela dor que lhe causei. Tentei ser gentil ao costurar o ferimento.

— Sua habilidade é inquestionável, e seu toque é leve. Mas a dor é inevitável.

— Graças a Deus não é uma ferida mortal. Sinto muito por Charles.

— Não há razão para se culpar. Você não o matou.

— Atraí os assassinos até aqui.

— Pare de se atormentar, prima. Nada do que aconteceu é responsabilidade sua. Se sua família a houvesse protegido desde o princípio, você não teria sequer se casado com o canalha. Qualquer cavaleiro, merecedor desse título e ciente de seus deveres, se sentiria honrado socorrendo uma dama inocente.

— Você acha que é este o motivo que move sir Murray?

— Creio que sim. Como já lhe disse, jamais ouvi algo que manchasse a honra de Nigel Murray. Ele é um mercenário sim, um escocês que, como muitos outros, luta ao nosso lado contra o inimigo comum, os ingleses. Porém, diferentemente da maioria dos mercenários, só aceita lutar pelas causas nas quais acredita. Dizem que aprecia demais mulheres e vinho. Estive observando-o atentamente na última semana e não vi sinais de dissipação. Pelo visto, trata-se de um homem que sabe quando colocar tais frivolidades de lado para cumprir o dever com mente clara e mão firme.

— Então o melhor a fazer é aceitar a proposta de sir Nigel? Devo deixar você aos cuidados de Maigrat e seguir para a Escócia?

— Sim. Tudo o que o cavaleiro pede em troca é a verdade.

— A verdade poderia convencê-lo a mudar de idéia.

— Talvez. Porém acho que Nigel Murray acreditará na sua história. Lamento prima, mas não vejo outra saída para a situação, exceto acompanhá-lo. Se ele não for o que diz ser, se tentar traí-la tenho certeza de que você o perceberá a tempo.

Antes que Gisele pudesse expressar suas dúvidas sobre a questão, sir Nigel regressou. Alto, forte, seguro de si. Ali estava alguém capaz de inspirar total confiança. Entretanto, continuava incerta sobre qual atitude tomar. Irritava-a profundamente os DeVeau a terem encurralado assim, obrigando-a a confiar na honradez de um quase desconhecido.

— O corpo de Charles será levado para a família — ele anunciou —, e terá um enterro decente.

— Obrigado, sir. Rezo para que você tenha sido realmente, enviado por Deus nesta hora negra, porque minha prima e eu aceitamos seu oferecimento de proteção e auxílio.

— Ainda não concordei. Mas concordo agora — Gisele se apressou a completar, ante a expressão furiosa do primo.

Nigel reprimiu um sorriso.

— E terei o que pedi em troca? A verdade? Creio que mereço sabê-la, se estou pronto a arriscar minha vida.

— Oui. Você será colocado a par de tudo, tão logo Guy esteja instalado na casa de Maigrat.

— Gisele… — Guy protestou.

— Non, será assim. A história que tenho a lhe contar é sórdida, sir Murray, e você poderá mudar de idéia quanto a me ajudar. Quero que Guy esteja em segurança, antes de arriscar perder seu auxílio.

— É justo. Partiremos ao amanhecer. — Depois de uma breve reverência, o escocês retirou-se.

— Sinto que estamos fazendo a coisa certa — Guy falou, após um longo silêncio. — Quisera que você se mostrasse mais confiante.

— Eu adoraria parecer mais confiante. — Gisele obrigou-se a sorrir. — Tudo dará certo.

— Você não parece acreditar nas próprias palavras.

— Non, embora ache que deveria ter mais fé.

— Você me confunde.

— Estou confusa. Não tenho razões para desconfiar de sir Nigel e, no entanto, sinto medo. No momento em que fugi das terras de meu marido, passei a cuidar de mim praticamente sozinha. Mesmo quando cheguei aqui e você se prontificou a me proteger, ainda tinha a impressão de controlar minha vida. Mas bastou aceitar a oferta de sir Murray, para sentir que já não sou dona de meu destino.

— Você está exagerando devido a um nervosismo natural — Guy tentou consolá-la. — Sir Murray é um bom homem.

—No fundo do coração, não duvido. Entretanto, continuo com medo.

— Talvez então devêssemos…

— Non. Não voltaremos atrás na decisão tomada. Você precisa se recuperar e eu, fugir outra vez. São objetivos incompatíveis. Eu deveria estar dando graças a Deus por ter surgido um cavaleiro desejoso de me ajudar. E o que farei a partir de agora e, quem sabe, essa sensação estranha desaparecerá.

 

Irritada, Gisele andava de um lado para o outro da cozinha austera. A jornada até a pequena demanse de Maigrat fora curta, porém Guy padecera. Entretanto, havia sido a palidez extrema do cavaleiro e seu aspecto terrível que lhes possibilitara cruzar os portões, embora sob duas condições: cobrir o rosto com o capuz e correr até a porta dos fundos da propriedade, onde ficava a cozinha que, por ordem da dona da casa, achava-se deserta.

Nenhum desses detalhes escapara a Gisele, como tampouco não lhe passara despercebida a ausência de qualquer gesto hospitaleiro, como o simples oferecimento de um cálice de vinho. Maigrat sempre se orgulhara de seus modos corteses e era óbvio queria livrar-se dos visitantes indesejáveis quanto antes. Mas, teimosamente, Gisele estava decidida a partir só depois de se certificar de que Guy, agora já instalado num quarto, seria bem tratado.

Nigel, sentado numa cadeira, tamborilava os longos dedos sobre a superfície da mesa vazia. Observando-o, Gisele, mais uma vez, envergonhou-se do comportamento da prima. Tamanha grosseria era imperdoável. Ainda que os costumes da Escócia diferissem muito, impossível Nigel não reparar na afronta a que estavam sendo submetidos.

— Creio que sua prima cuidará de Guy — ele falou, percebendo quanto o desdenho da família a magoava.

— Imagino que sim.

— Porém ninguém acolherá você.

—Non. Maigrat não me quer por perto. — Gisele esboçou um sorriso, tentando, sem sucesso, esconder a dor. — Minha prima preferiria que já houvéssemos partido, mas só sairei daqui depois de ouvi-la jurar que cuidará de Guy.

— De acordo. E se você for capaz de sufocar o orgulho, peça-lhe também alguns mantimentos.

— É realmente necessário?

— Ela tem motivos para recusar-lhe até esse pequeno auxílio?

— Nenhum motivo.

— Então lhe peça. Precisamos de toda provisão que pudermos juntar, porque as oportunidades de comprar alimentos serão poucas.

— Você supõe que a jornada será árdua?

— Não posso afirmar com certeza, mas o sensato é estarmos preparados para uma longa cavalgada.

Naquele instante, Maigrat entrou na cozinha. Sem uma palavra, apenas com o olhar, a senhora de meia idade deixou claro quanto à presença do casal a desagradava. Ferida em seu amor próprio, Gisele não queria pedir nada, mas obrigou-se a engolir o orgulho e seguir o conselho de Nigel.

—Você promete cuidar de Guy e o manter em segurança?

— Sim — retrucou a outra, asperamente. — Nós acolhemos o rapaz nesta casa durante muitos anos e o considero um verdadeiro filho. Você nunca deveria tê-lo envolvido em seus problemas.

— Ele está livre de tudo agora.

— Como o pobre Charles — Maigrat falou, sem piedade. — Você parece ter desenvolvido a habilidade de deixar uma fileira de homens mortos atrás de si. E como se não bastasse tal infortúnio, resolveu chafurdar na lama. Olhe-se no espelho. Nenhuma mulher com um mínimo de honra se vestiria dessa maneira escandalosa.

De soslaio, Gisele viu Nigel levantar-se, ameaçador. Num apelo mudo, suplicou-lhe para permanecer calado. O belo cavaleiro não podia protegê-la de tudo e nem seria justo pedir-lhe que o fizesse. Tratava-se de um assunto de família e cabia-lhe lidar com a situação, por mais sofrida que estivesse.

— Talvez, prima, eu tenha chegado à conclusão de que minha vida é mais valiosa do que certos conceitos de honra. Preciso de provisões e então partirei.

— Arrisquei-me dando-lhe permissão para entrar em minhas terras e você ainda quer mais de mim? Não me basta haver acolhido Guy?

— Que importância tem você me dar sobras de comida e um pouco de vinho? Se um espião dos DeVeau descobrir que estive aqui, naturalmente pensará que não me foi recusado um pedaço de pão.

Em silêncio, Gisele observou uma furiosa Maigrat encher um saco de farinha com comida e entregá-lo a Nigel, juntamente com dois odres de vinho. Por um momento, ela quase cedeu ao impulso de atirar tudo no chão e partir. Todavia, o que dissera minutos atrás fora verdade. Se colocava a própria vida acima de um conceito tolo de honra, então deveria considerá-la mais valiosa do que o orgulho cego.

— Este é o novo idiota que você conquistou para ajudá-la a escapar da justiça? — zombou Maigrat.

— Deixe estar, Nigel. Não se dê ao trabalho de interferir. — Altiva Gisele fitou a prima. — Algumas pessoas se dispuseram a ouvir minha história e não me julgar pela versão dos DeVeau. É triste constatar que tão poucos, entre os que acreditam em mim, são membros de minha família. Diga a Guy que lhe mandarei notícias quando estiver num local seguro.

Durante muito tempo, após saírem às pressas das terras de Maigrat, Gisele permaneceu calada, remoendo a dor e o ressentimento. Escurecia quando o escocês deu a cavalgada por encerrada.

— Acamparemos aqui. É um lugar recluso o bastante para não sermos facilmente vistos. Também há um riacho por perto, o que nos garante água fresca.

Sem trocarem uma palavra, os dois alimentaram os cavalos, acenderam uma fogueira e fartaram-se com o pão e o queijo fornecidos por Maigrat. Somente então Gisele começou a sair do torpor emocional no qual caíra.

Erguendo os olhos das chamas, percebeu que sir Murray a fitava, curioso.

— Acho que é hora de você me contar a verdade. — O escocês entregou-lhe um odre de vinho.

— Qual verdade? A minha, ou aquela em que a maioria das pessoas escolheu acreditar? — Gisele sorveu um longo gole, odiando-se por soar tão amarga.

— Apenas conte-me sua versão dos fatos. Acho que possuo bom senso suficiente para chegar às minhas próprias conclusões.

— Casei-me com lorde DeVeau um ano e meio atrás. Oh, tentei de tudo para evitá-lo, lutei para escapar dessa união, resisti até o último instante, mas ninguém me apoiou. Um cavaleiro pertencente a uma família importante, poderosa, rica, não podia ser depravado como os boatos sugeriam.

— E você acreditou nos boatos.

— Eram muitos e insistentes os rumores. Impossível que todas as histórias sobre tanta perversidade fossem mentira.

— Então você acabou obrigada a subir ao altar.

Gisele mal iniciara a narrativa e o peso de seu sofrimento já se fazia notar. Por um momento, Nigel pensou em pôr um ponto final na conversa para poupá-la da provação. Contudo, precisava estar a par dos detalhes da situação em que se metera. Seria duro levá-la em segurança até a Escócia. E mais difícil ainda se não soubesse por que, e de quem, a jovem dama fugia.

— Na minha noite de núpcias, descobri a veracidade de cada um daqueles terríveis boatos. — Ela sorriu melancólica. — Aliás, os rumores não chegavam nem perto de descrever a bestialidade de meu marido. Novamente apelei para minha família. Novamente minhas súplicas foram ignoradas, meu relato considerado fantasia de uma noiva nervosa. Com o passar dos meses, lorde DeVeau, graças a Deus, cansou-se de mim. Claro que insistia em levar-me para a cama de vez em quando, pois queria herdeiros. Porém existiam outras mulheres no mundo a serem conquistadas, enquanto a esposa permanecia trancafiada em casa.

Nigel descobriu-se desejando que DeVeau ainda estivesse vivo para poder matá-lo. Embora Gisele explicasse como fora tratada de maneira velada, era óbvio que o marido a submetera a violências indescritíveis. Num gesto impulsivo, passou um braço ao redor dos ombros delicados. Apesar de tensa, ela não o repeliu.

— Meu casamento entrou numa rotina. DeVeau me espancava, me levava para a cama e então, durante algum tempo, desde que eu não o incomodasse me deixava em paz. Reduzir-me a uma sombra revelou-se uma tarefa difícil para mim.

— Imagino que sim. Você não é o tipo de mulher capaz de se curvar à tirania sem se rebelar.

— Mas passei a desejar ser assim. Continuei tentando obter ajuda de minha família, tentando fazê-los me dar ouvidos. Receio só ter piorado a situação quando um dia, no auge do desespero, disse que queria aquele infame morto e que se ninguém me libertasse de meu tormento, eu o faria com minhas próprias mãos.

Sentindo a pressão do braço de Nigel em seus ombros aumentar, Gisele lutou contra o pânico crescente, pois todo o pavor vivido junto de DeVeau vinha à tona. Inspirando fundo, procurou afastar o medo. O escocês queria apenas confortá-la, não lhe causar mal.

— Ninguém buscou provas de que você falava a verdade? Ninguém viu seus ferimentos e hematomas?

— Eu estava envergonhada demais para expô-los.

— Não havia necessidade de sentir vergonha.

— Talvez. Não fui uma criança dócil e me transformei numa mulher voluntariosa, de língua afiada. Acho que minha família via em DeVeau o homem que, enfim, iria-me disciplinar. Aos seis meses de casada, à beira de um colapso físico e mental, resolvi, então, contar à minha família todos os detalhes sórdidos, mostrar as marcas em meu corpo, revelar os insultos e ofensas de que fui vítima. Mas alguém se adiantou e tirou esse fardo das minhas costas.

— Seu marido foi morto.

— Oui, assassinado. Meu marido sempre agiu como se tivesse o direito de possuir todas as mulheres. Ele estuprou uma jovem donzela, filha de um agricultor local. Depois de brutalizá-la, abandonou-a a morte. Sem conseguir que a justiça fizesse DeVeau pagar por seu crime, o pai da moça e alguns aliados encarregaram-se de executar a sentença. Encontrando meu marido bêbado na cama, cortaram-lhe a garganta e o mutilaram.

— Mutilaram?

— Castraram-no e o forçaram a engolir a própria virilidade. — Enrubescendo, Gisele abaixou o olhar. — Na verdade, acho que primeiro o mutilaram e depois lhe cortaram a garganta. DeVeau teve uma morte dolorosa, à altura do crime que cometeu.

— Sim, uma morte horrível, embora merecida. A família de seu marido e a sua própria a consideram culpada?

— Receio haver dito, várias vezes, que o queria morto e sabia estar sendo vigiada. Quando encontrei o corpo, tive certeza de que levaria a culpa. Sei que não foi uma atitude sensata, mas fugi o mais depressa possível. Nenhum criado me impediu de escapar e, sem dúvida, pagaram o preço por me acobertarem. Corri para a casa de minha família.

— Apenas para descobrir que ninguém moveria um dedo para ajudá-la.

Gisele lutou para sufocar o pranto. Aquela fora a maior de todas as suas dores e ainda não fora capaz de superá-la, mesmo após tantos meses.

— Minha família não quis me estender à mão, não quis me acolher. Temiam o escândalo. Chegaram a dizer que me entregariam aos DeVeau. Não esperei até a ameaça se concretizar. Fugi de casa e assim tenho vivido por quase um ano. — Erguendo o rosto banhado em lágrimas, ela murmurou, com uma intensidade que beirava o desespero: — Juro, por tudo o que há de mais sagrado, juro pela vida de Guy, que não matei aquele homem. Sou inocente do crime de que me acusam. Mas, como quase ninguém acredita em mim, tem sido difícil achar meios de provar minha inocência.

Fitando o rosto desfeito em lágrimas e iluminado pela luz suave das chamas, Nigel pensou que talvez estivesse se deixando influenciar pela beleza magnética de Gisele. Recusava-se a considerá-la uma assassina, mesmo que tal crime fosse justificado.

— Nenhum homem tem direito de tratar uma mulher do modo como o canalha a tratou. — Gentilmente ele enxugou-lhe as lágrimas com a ponta dos dedos, sabendo que Gisele não tivera coragem de lhe contar todas as infâmias sofridas nas mãos do crápula.

— Então você acredita na minha inocência?

— Acredito que DeVeau recebeu exatamente o que merecia.

Mergulhando nos olhos castanhos, absorvendo o calor exalado pelo corpo musculoso tão próximo ao seu, Gisele experimentou uma sensação estranha. E quando Nigel a beijou de leve na face, em vez de afastar-se, permaneceu imóvel, como se prisioneira de algum encantamento.

— Contei-lhe a verdade, conforme você me pediu.

— Sim. — Sem pressa, ele cobriu o rosto delicado de beijos gentis, atento ao primeiro sinal de rejeição. Jamais a forçaria a aceitar suas carícias.

— Esse não era o único preço que eu deveria pagar por sua ajuda?

— Sim.

— Então por que tenho a impressão de que você espera algo mais?

— Porque você é uma mulher inteligente?

Quando os lábios sensuais roçaram os seus, muito de leve, ela estremeceu, num misto de temor e curiosidade. Desde o primeiro instante em que o vira, imaginara como seria beijá-lo e perguntara-se se seria capaz de fazê-lo sem que o medo a paralisasse. Não, não era sensato arriscar-se assim, pois o cavaleiro parecia determinado a seduzi-la. Melhor não encorajá-lo, levando-o a pensar que cederia a avanços sexuais em troca de proteção.

— Preciso de um braço forte para me defender, mas não desempenharei o papel de prostituta para garantir seu auxílio.

— Não é esta minha intenção.

— Você está tentando me beijar!

— Ah, sim, estou. Nunca escondi o fato de que a considero uma bela mulher. Quero apenas experimentar o gosto da boca que venho cobiçando há dias.

— E talvez algo mais?

— Suas suspeitas são infundadas, linda dama. Não mentirei dizendo que vou tratá-la como se fosse uma freira, mas jamais me apossarei do que não quiser me dar. Bem, exceto esse beijo.

— Não sei se você o está roubando…

Apertando-a junto do peito, Nigel beijou-a ternamente, sorvendo a doçura dos lábios rosados. Sem dúvida era desonroso pensar em seduzir uma mulher que lhe pedira proteção, em especial alguém tão sofrida quanto Gisele. Mas como resistir àquela atração? Aos poucos, ele aprofundou o beijo, prometendo a si mesmo fazer tudo em seu poder para mostrar-lhe que nem todos os homens se assemelhavam ao brutal DeVeau.

Tímida a princípio, Gisele entreabriu os lábios devagar, cedendo à pressão da língua imperiosa. Oh, como queria se entregar ao momento, como queria descobrir as emoções decantadas pelos menestréis. Porém o medo continuava a crescer.

De repente, o pânico a dominou, sufocando as sensações prazerosas. Em poucos instantes seu corpo inteiro ficou rígido, tenso. De olhos fechados, sentiu Nigel afastá-la. Porém, ao tornar a abri-los vários segundos depois, descobriu surpresa, ainda haver vestígios de paixão e calor nos olhos do escocês, não a raiva que fora ensinada a esperar.

— Você não precisa ter medo de mim — ele falou sério.

— E não tenho. O medo que me corrói por dentro tem raízes mais antigas.

— Então é como supus. Você me contou a verdade, os fatos essenciais que eu necessitava saber. Mas guardou os detalhes mais sombrios para si. Entretanto, este beijo serviu para esclarecer muitas coisas, além de aumentar meu desejo de tornar a beijá-la. As cicatrizes que DeVeau deixou em sua alma são tão profundas, que por isto apenas merecia morrer.

— Você pensa que o matei — Gisele murmurou, observando-o estender uma manta no chão, perto da fogueira.

— Sim e não.

— Não se pode acreditar tanto na minha inocência, quanto na minha culpa. São posições contraditórias.

__ Você é inocente. Só não decidi ainda se matou o canalha. O homem merecia morrer. Caso lhe sirva de consolo, não a condeno. Os abusos que sofreu justificam sua atitude. — Nigel deitou-se sobre a manta e chamou-a. — Venha para a cama, lady. Teremos uma longa cavalgada pela frente amanhã e logo os períodos de descanso serão escassos.

Atordoada, Gisele acomodou-se a uma distância segura do corpo sólido. Desejara, ardentemente, que Nigel acreditasse na sua inocência. Contudo, ele somente dera a impressão de considerar sua atitude justificável. Por que, então, não estava furiosa, ou ofendida? Talvez porque o escocês houvesse ouvido sua história sem censurá-la, quando sua família sequer se dispusera a escutá-la. Porém, embora fosse bom saber que Nigel não a culpava, preferia que o cavaleiro acreditasse na sua completa inocência e não pensasse que assassinara o marido para se defender.

— Você me tratou com mais bondade e compreensão do que minha própria família. Isso deveria me bastar.

— Mas não basta.

— Receio que não. Sou mais forte do que você imagina. Talvez pudesse ter encontrado outra maneira de me libertar do jugo de DeVeau. Antes de chegarmos à Escócia, prometo que o terei feito acreditar na minha total inocência.

— Parece-me justo. Pois eu, também, farei uma promessa.

— Será que quero mesmo ouvir o que você vai dizer? — ela indagou insegura.

— Provavelmente não. Creio que o correto é colocá-la a par de minhas intenções. Antes de chegarmos à Escócia, terei provado que nem todos os homens são como seu marido. Pretendo reacender a paixão que ele matou em você.

Dividida entre a excitação e o pavor, Gisele afastou-se e fechou os olhos. Parte de si ansiava, desesperadamente, que Nigel cumprisse a promessa, enquanto outra parte estava simplesmente aterrorizada diante dessa mesma possibilidade. Pedia a Deus forças para enfrentar a provação.

 

A água fria do riacho era um convite a um banho demorado, mas Gisele sabia ter tempo apenas de lavar o rosto e as mãos. Nigel deixara claro que partiriam em poucos minutos. Nos últimos dois dias, não haviam feito outra coisa senão cavalgar, do nascer ao pôr-do-sol. Por sorte, sentia-se tão exausta à noite que adormecia mal encostava o corpo dolorido no chão. Nunca se empenhara tanto para escapar aos seus inimigos.

De pé junto aos cavalos, a alguns metros dali, Nigel parecia alerta e descansado, como se tivesse desfrutado de longas horas de sono numa cama confortável. Tamanha disposição a irritava, embora reconhecesse estar apenas com ciúme. Afinal, cavaleiro experiente, o escocês provavelmente fora posto em cima de uma sela antes mesmo de aprender a andar. Portanto, cavalgar dias a fio não iria incomodá-lo.

Devagar, Gisele massageou a base da espinha. Graças a Deus continuava usando as roupas de pajem, que protegiam melhor sua pele macia do que qualquer vestido. Só gostaria de algo para aliviar a rigidez dos músculos.

— Se você for rápida, poderá se banhar — disse Nigel, surgindo de súbito ao seu lado.

Ele se movia tão silenciosamente que chegava a ser assustador. Invejava essa habilidade e, embora tentasse imitá-lo, não conseguia, apesar de ser muito mais baixa e mais leve.

— Acho que você deveria usar uma sineta para anunciar sua presença, sir.

— Você quer tomar um banho rápido ou não, milady?

— Mas você insiste em partirmos sem demora.

— De fato. Por isso rapidez é imprescindível.

Insegura, Gisele estudou os arredores.

— Não há nenhum lugar onde eu possa desfrutar de alguma privacidade.

— Ficarei de costas. — Percebendo a censura no olhar da jovem dama, o escocês deu de ombros. — É tudo o que posso lhe oferecer. A escolha entre privacidade e segurança é sua. — Colocando a mão sobre o peito, acrescentou, num tom sério e brincalhão: — Juro que manterei os olhos fixos no horizonte, atento a quaisquer sinais de nossos inimigos.

Confiara sua segurança, sua própria vida, nas mãos desse estrangeiro. Seria tolice não confiar o recato.

— De acordo.

— Porém lembre-se do que lhe disse. Seja rápida.

Após breve hesitação, Gisele começou a despir-se. Então, Percebeu o óbvio. Não poderia tornar a vestir as mesmas roupas imundas depois de banhar-se.

— Sir Murray — chamou. — Preciso do meu alforje.

Com acurada pontaria, e sem virar-se, Nigel atirou-lhe a bolsa de couro, de onde Gisele extraiu o último traje limpo que possuía, além de uma barra de sabão já muito fina, que preservara como verdadeira preciosidade ao longo de suas andanças. A água gelada roubou-lhe o fôlego, mas não a desanimou. Talvez demorasse muito até ter outra oportunidade de tomar um banho completo.

Ouvindo-a resmungar, Nigel sorriu. Por um instante quase cedeu ao impulso de usar aqueles ruídos como desculpa para se certificar de que nada sério a ameaçava, mas conteve-se. Prometera-lhe não olhar e seria fiel à sua palavra.

Confiança era algo importante para Gisele, traída covardemente tantas vezes. Teria que se empenhar para mostrar-se merecedor de crédito. Dizer-lhe, sem rodeios, que pretendia tomá-la para amante talvez não houvesse sido um bom começo, contudo preferira ser sincero e honesto, avisando-a de seus planos de antemão. Estava determinado a seduzi-la, a convencê-la de que nem todos os homens eram como o canalha que se julgara no direito de abusar de todas as mulheres com requintes de barbárie.

Suspirando fundo, Murray massageou os músculos rígidos da nuca. Alguns considerariam cruel seduzir uma mulher quando não sabia se a queria para esposa. Porém procurava não enxergar a situação sob este ângulo. Sendo Gisele viúva, não estaria roubando-lhe a inocência. E se ela tivesse matado o marido, sem dúvida era forte e determinada o bastante para aceitar, ou recusar, um amante. Quanto mais pensava no assunto, mais se perguntava se o desejo não estaria obscurecendo o discernimento. Existia a possibilidade de acabar aumentando o sofrimento da pobre dama, em vez de curá-la do trauma que a corroia por dentro.

Também se perguntava se a paixão não estaria sendo fomentada pelo desafio de transformar uma mulher frígida, devido à brutalidade do marido, em amante ardente. Não, seu desejo por Gisele não era fruto de simples vaidade masculina.

— Você pode virar-se agora, sir.

Observando-a secar os cabelos curtos e encaracolados com um pedaço de pano, Nigel suprimiu um sorriso. Nenhum homem a julgaria um rapaz, apesar das roupas masculinas.

— Acho melhor você colocar isto — falou, entregando-lhe um gorro marrom que retirara da bagagem.

— Não está frio para cobrir a cabeça.

— Não, mas creio que o gorro auxiliaria seu disfarce. Confie em mim, lady. Seus cabelos, embora curtos, lhe dão um ar de extrema feminilidade.

— Eu deveria ter imaginado que os fios cresceriam assim, encaracolados e rebeldes. Talvez seja sensato tornar a cortá-los.

— Não. Logo não terá mais importância todos perceberem que você é mulher. O gorro é feio, porém cumprirá a função de protegê-la de olhares indiscretos. Agora, peço-lhe que me conceda alguns minutos de privacidade. — Nigel tirou umas poucas peças de roupas limpas.

— Oh. Você deseja tomar banho?

— Nós, escoceses, costumamos ter esse hábito.

— E, pelo que ouvi a respeito de sua terra, você deve estar acostumado com água fria.

— Sim, temperaturas baixas são comuns na Escócia. Nosso clima não é tão ameno quanto o francês. Bem, vire-se de costas, pois vou começar a me despir. Claro que se quiser dar uma olhada não me importarei — ele completou, com uma piscadela.

Decidida a ignorar a impertinência, Gisele deu-lhe as costas. Se fosse sincera consigo mesma, admitiria estar perigosamente tentada a espiá-lo e só resistia ao impulso por temer que a pequena indiscrição alimentasse uma já crescente atração.

Entretanto, talvez fosse um bom teste para descobrir a extensão de seus temores. Seu marido sempre usara a virilidade como uma arma para feri-la e as coisas degradantes às quais fora submetida a ensinaram a ter medo do contato físico com um homem. Se a simples visão de um corpo masculino nu trouxesse seus medos à tona, então estava muito mais profundamente traumatizada do que supusera. Desde que DeVeau morrera, nunca mais vira um homem nu, mesmo depois de se refugiar no meio dos soldados e dividir a barraca com Guy. Inconscientemente, evitara quaisquer oportunidades para que isto acontecesse. Acabara se transformando numa covarde, incapaz de enfrentar os próprios demônios.

Apesar de uma voz interior insistir que apenas procurava desculpas para ceder à fantasia de espionar um homem que a atraía e intrigava, Gisele caminhou até seu cavalo e, fingindo prender o alforje na sela, arriscou umas olhadelas na direção da água. Naturalmente, durante todo o tempo, procurou se convencer de que queria apenas avaliar a extensão de seus traumas.

De pé na margem do rio, Nigel secava-se, o corpo esguio brilhando sob o sol. Prendendo a respiração, Gisele deslizou o olhar pelos ombros largos, a cintura estreita, as pernas longas e musculosas. Como seria acariciar a pele bronzeada, perguntou-se. Que gosto teria o peito largo e forte? Assustada com o rumo nada inocente dos pensamentos engasgou com o ar e pôs-se a tossir.

— Você está bem? — Nigel vestiu-se apressadamente.

— Oui. — Quase sem fôlego, Gisele correu para a beira do rio e, com as mãos em concha, levou um pouco de água à boca.

Vendo-a livre da tosse, o escocês terminou de calçar as botas com calma.

— Você não está doente, está?

— Non. — Nervosa, ela molhou o rosto, rezando para não parecer tão encalorada e agitada quanto se sentia. — Acho que engasguei ao engolir um besouro.

— Se você está com tanta vontade de comer carne, vou caçar quando pararmos para descansar hoje à noite.

— Quanto senso de humor, sir Murray. Imagino que seus companheiros de bebida rolem de rir com suas indagações espirituosas. — Dando-lhe as costas, Gisele guardou, no alforje, as roupas que lavara e preparou-se para partir.

—Então você escutou histórias a meu respeito?

Por um segundo, ela pensou em negar, polidamente. Porém decidiu-se pela honestidade.

— Guy comentou que você tem uma queda por mulheres e vinho, embora não o tenha visto tocar em nenhuma dessas duas coisas durante os dias em que esteve espionando-o.

— Seu primo andou me vigiando?

— Você conhecia nossos segredos. Seria natural Guy tomar certas precauções.

— De fato. — Gisele não lhe pedia explicações, no entanto sentia-se impelido a oferecê-las. — Não deixei a Escócia apenas por ansiar matar ingleses. Apesar da maioria de meus compatriotas julgarem este um motivo suficiente.

— A maioria de meu povo pensa assim também. Pergunto-me como ainda restam homens vivos para lutar, depois de anos de conflito.

— Estou convencido de que essa disputa atravessará décadas. Mas não foi somente para lutar contra os ingleses que abandonei minha terra, porque na Escócia os conflitos são constantes.

— Você não me deve nenhuma explicação, sir Murray — Gisele afirmou, percebendo-o relutar.

— Creio que lhe devo alguns esclarecimentos sim. Afinal, você e Guy colocaram suas vidas em minhas mãos e não desejo desapontá-los. Sim, eu costumava beber muito quando não havia batalhas a lutar. E, sim, busquei a companhia de mulheres com uma freqüência, e às vezes com uma avidez, que beirava a insanidade. Os combates, a bebida e, envergonho-me de admitir, as mulheres, eram usados com um único propósito.

— Esquecer? — Compreendia-o muito mais do que o cavaleiro imaginava.

— Sim. Essa é a triste verdade. Passei anos, não, desperdicei sete longos anos de minha vida tentando esquecer. Minha única salvação é não haver, jamais, desonrado meu clã no campo de batalha. Posso não ter lutado pelos motivos certos, porém sempre lutei dignamente e escolhi meus combates com sabedoria.

— Isto é mais do que muitos homens podem dizer sobre si, sir Murray. — Desesperadamente Gisele queria perguntar o que ele tanto se esforçava para esquecer, mas não se sentia no direito de pressioná-lo, obrigando-o a confessar algo que, pelo visto, preferia não revelar. — E você esqueceu? — foi tudo o que se atreveu a indagar. — Se achar doloroso, ou perigoso, regressar à Escócia, buscaremos refúgio em outro lugar.

— Não, não há em solo francês um só local onde você estaria segura. E, antes mesmo de escutá-la conversando com Guy junto do rio, eu já tinha decidido voltar para casa. Na manhã daquele dia, acordei caído na lama sem me lembrar de como fora parar ali, e dei-me conta da estupidez de minha vida. Resolvi, então, retornar para meu povo. — Nigel sorriu de leve. — Não tenha medo, milady. Não sou um homem procurado pela justiça. Não estarei levando-a para longe de seus inimigos apenas para conduzi-la ao covil dos meus.

Gisele ensaiou um sorriso, procurando disfarçar a decepção. O escocês parecia haver encerrado a conversa, com a atenção fixa na trilha que seguiam. Ardia de desejo de saber motivo que o impelira a deixar o próprio lar, a afogar o coração e atordoar a mente com batalhas, bebidas e mulheres. Por um instante, irritou-se. Sir Murray fizera-a contar-lhe todos os seus segredos, entretanto, não se mostrava disposto a retribuir o gesto. Não; estava sendo infantil, decidiu, repreendendo-se silenciosamente. Nigel precisara conhecer a natureza de seus problemas para calcular a extensão dos perigos que viriam a enfrentar. No seu caso, não havia necessidade de esmiuçar os mistérios de seu protetor, porque o passado dele em nada afetava a situação atual.

Gisele não conseguia parar de conjeturar. O que poderia induzir um homem a abandonar a terra que amava? Estava convencida de que sir Murray amava tanto o lar quanto a família, pois percebia a ternura em sua voz ao mencionar ambos. Também duvidava de que estivesse fugindo da justiça, ou que inimigos o caçassem. Uma única explicação para tal comportamento vinha-lhe à cabeça com insistência. Somente uma coisa faria até o mais forte e corajoso dos cavaleiros fugir como um covarde. Somente uma coisa levaria um homem íntegro e leal a entregar-se à bebida e à devassidão. Uma mulher. Nigel fora para a França tentar esquecer um grande amor.

Após alguns instantes de intensa agitação interior, Gisele perguntou-se por que a questão a afetava tanto. Sir Murray era um dos homens mais bonitos que jamais vira e a atraía imensamente, porém não deveria se preocupar com sua vida amorosa. Que importância tinha se sofrerá alguma desilusão? Se ficara com o coração partido? Aliás, conforme DeVeau lhe ensinara a esmagadora maioria dos homens nem sequer possuía coração.

Portanto, não importava se o escocês deixara a terra natal por causa de uma mulher inatingível. E se persistia amando-a, isto tampouco lhe dizia respeito. Não tinha tempo, nem vontade, de conquistá-lo. Precisava se concentrar em continuar viva e provar sua inocência.

Suspirando fundo, Gisele contemplou as costas largas do homem que cavalgava à sua frente, abrindo caminho através da trilha estreita. Como gostaria de manter-se indiferente, de erguer uma barreira ao redor do corpo e da alma. No entanto, Nigel obrigara-a a admitir que o fogo da paixão ainda corria em suas veias, apesar do medo que a espreitava. Pensara muito no beijo trocado, nas sensações que a tinham abalado antes do terror incutido por DeVeau vir à tona. Na verdade, queria experimentar o sabor da paixão, queria deixar-se conduzir pelo desejo incontrolável e avassalador. E, instintivamente, reconhecia no estrangeiro aquele que seria capaz de mostrar-lhe tudo o que ansiava descobrir. Porém hesitava.

Temia não se contentar com algumas meras horas de ardor sensual. E sabia que não se conformaria em ser apenas amante do escocês. Somente o amor de sir Nigel Murray satisfaria sua fome. Contudo, se estivesse certa sobre o motivo que o induzira a abandonar o próprio lar, ele já amava outra, a mulher por quem provavelmente sofrera. Assim estaria se entregando, de corpo e alma, a um homem que não poderia retribuir seus sentimentos. Seria glorioso conhece os mistérios da paixão carnal, mas receava não suportar o sofrimento quando tivesse o coração partido.

— Sei que é uma cavalgada rigorosa, milady — disse Nigel, envolvendo-a num olhar especulativo.

Temerosa de que suas emoções fossem facilmente interpretadas, Gisele obrigou-se a sorrir.

— É só um pouco de melancolia, sir — dissimulou. — Não se aflija. Não permitirei que meus ocasionais ataques de autopiedade interfiram na nossa jornada.

— Você tem direito a muitos momentos de melancolia. Suas provações têm sido duras.

— De fato. Mas é inútil ter pena de mim mesma, porque isso de nada serve para aliviar sofrimentos passados, ou resolver dificuldades atuais. É mais produtivo, e prazeroso, sentir raiva.

— Especialmente dos homens.

— Oh, oui, especialmente dos homens. Mas não se preocupe milorde. Não vou cortar sua garganta na calada da noite só porque você é homem. Apenas um motivo sério despertaria tal fúria.

Nigel riu.

— Posso saber que motivo seria esse?

— Você saberá quando a hora chegar.

— Oh, sim, quando eu estiver me afogando em meu próprio sangue.

Embora o diálogo houvesse transcorrido num tom de brincadeira, Gisele ficou subitamente tensa imagens do marido mutilado vinham-lhe à mente com uma nitidez apavorante. Como pudera ser tão insensível, tão estúpida, a ponto de gracejar com um acontecimento macabro, principalmente quando a acusavam de ser a autora daquele assassinato brutal?

— Algo errado? — Nigel indagou apreensivo, notando a palidez repentina da jovem dama.

— Estou bem. Apenas engoli um besouro.

— Outro? É melhor ter cuidado, ou acabará farta demais para comer quando acamparmos.

Ouvindo-a praguejar baixinho, sorriu aliviado. A súbita lividez de Gisele, o pavor estampado nos olhos verdes, quase o fizeram tomá-la nos braços para protegê-la das lembranças sombrias. Ao se dar conta de estar falando levianamente sobre o modo como o marido fora assassinado, ela, sem dúvida, ficara horrorizada.

Contudo, Nigel perguntava-se se seu desejo por Gisele não o estaria impedindo de analisar a situação com clareza. Talvez a bela francesa não parecera angustiada por estar desgostosa consigo mesma, e sim por medo. Medo de haver revelado a própria culpa. Precisaria se esforçar mais para convencê-la de que não a censurava, de que não a julgava. A menos que entendesse isso, Gisele continuaria negando-se a ser completamente sincera, a confiar nele. E necessitava ser merecedor de uma confiança irrestrita, para que ambos tivessem chance de chegar à Escócia vivos.

 

Era um uivo suave, distante, mas nítido o suficiente para fazer o sangue de Gisele gelar nas veias. Nervosa, postou-se diante da fogueira.

Nigel escolhera uma clareira encantadora para pernoitarem. O local lhe parecera perfeito, até ficar sozinha. O escocês saíra para caçar e ainda não retornara, fazendo-a esperar com os nervos à flor da pele. Embora tentasse se controlar, uma inquietude crescente a dominava. E se Nigel houvesse deparado com algum inimigo? E se os lobos o tivessem devorado?

De repente, os cavalos relincharam baixinho, agitados. Algo, ou alguma coisa, aproximava-se. Tensa, Gisele começou a desembainhar a adaga. Segundos depois, Nigel surgia, carregando dois coelhos já limpos e prontos para o espeto. Zonza de alívio, ela não sabia se o repreendia pela longa ausência, ou se o parabenizava pela caça.

— Eu não lhe disse que comeríamos carne hoje? — Sorrindo satisfeito, o cavaleiro ajeitou os espetos sobre o fogo.

— De fato. Aliás, só percebi o quanto estava faminta quando o vi saindo do meio das árvores, trazendo os coelhos.

— Meu silêncio a afligiu, não? — Acomodando-se perto da fogueira, Nigel sorveu um gole de vinho.

— Sim. Você é capaz de se mover sem produzir um único som e isto costuma ser assustador, especialmente no escuro.

— Posso lhe ensinar o truque. Uma vez adquirida à habilidade, não mais consideramos o silêncio ameaçador.

— Eu gostaria de aprender! — Gisele exclamou, animada. — Quando caminhamos juntos, tenho a impressão de fazer mais barulho que os cavalos. Com meus inimigos em nosso encalço, passar despercebida seria muito útil.

— Sim. Não se aflija, logo estaremos livres de seus perseguidores.

— Se Deus quiser — ela murmurou quase melancólica. — Você deveria ser mais cuidadoso e evitar se vangloriar, sir. Alguns crêem que Deus não aprecia demonstrações de vaidade e nós precisamos, mais do que nunca, da ajuda divina.

— Oh, sim, mas não se trata de vaidade, ou presunção. É apenas um juramento sobre minha honra. Em breve você deixará de fugir e não mais será submetida às injustiças dos DeVeau. É hora de enterrar o passado.

Gisele realmente queria acreditar no cavaleiro e sentir-se, depois de tanto tempo, em paz. Contudo, o medo persistia. Nigel podia estar empenhado em cumprir a promessa feita, Porém necessitava de algo mais do que palavras corajosas. No último ano uns poucos amigos e parentes, inclusive Guy, também haviam jurado pôr fim aos seus tormentos, mas continuava fugindo, continuava se escondendo. Nem sequer estava convencida de que a Escócia seria um paraíso. O que a intrigava era ouvi-lo pronunciar tal juramento sem ainda haver se decidido se a considerava a assassina do marido.

— Você não acredita em mim. Percebo a dúvida em seus belos olhos. Sou um homem de palavra, milady.

— Tenho certeza que sim. O motivo de minha hesitação é outro. Pergunto-me como pode estar tão determinado a me proteger, quando questiona minha inocência.

— Já lhe disse que você haver, ou não, empunhado a faca, não importa. DeVeau merecia morrer. Os homens de seu clã deveriam ter sido os executares do canalha, deveriam tê-lo feito pagar caro logo na primeira vez que o maldito a agrediu. Se você foi forçada a assumir a obrigação que lhes pertencia, a culpa não é sua. Sim, seus parentes deveriam estar todos aqui agora, ao seu redor, as espadas em riste, prontos para protegê-la dos carniceiros que os DeVeau puseram em seu encalço. Mas como, covardemente, fugiram à responsabilidade ditada pela honra, estou mais do que disposto a defender sua causa.

Mantendo o olhar fixo nas chamas, Gisele lutou para conter as lágrimas. As palavras veementes do estrangeiro a tinham comovido profundamente. Enquanto tentava se recompor, rezou para não vir a sofrer outra desilusão, ou pior, outra traição. Rezou para que Nigel Murray fosse quem aparentava ser, um cavaleiro íntegro, disposto a defendê-la a qualquer custo.

— Minha família considerava DeVeau um excelente partido. Além de rico, poderoso. Imagino que tais predicados também sejam importantes em acordos matrimoniais na sua terra.

— Sim.

— Com freqüência é difícil fazer as pessoas acreditarem que exista alguma coisa de podre naquilo que consideravam perfeito. E, se formos imparciais, reconheceremos que minha família não é a única a pensar que o marido possui o direito de disciplinar a esposa. Imagino que na Escócia aconteça o mesmo.

— Sim. Mas DeVeau não a submeteu à disciplina e sim à tortura.

— Porém minha família tinha apenas minha palavra sobre o assunto. Será que os coelhos já estão assados?

— Você termina uma discussão sem nenhuma sutileza, milady — disse Nigel, sorrindo.

Melancólica, Gisele retribuiu o sorriso.

— Falar sobre a traição e a falta de confiança de minha família é duro para mim.

— Então se farte com essa carne deliciosa. Dizem que barriga cheia cura muitos males. — Tirando um espeto do fogo, ele entregou-o à linda francesa. — Não deixe cair no chão, ou um de nós ficará com fome.

Nunca Gisele comera algo tão gostoso e com tanta falta de delicadeza. Um misto de tristeza e alegria a invadiu ao olhar para si mesma. No meio de uma floresta, devorando um coelho, como uma selvagem, na companhia de um homem que mal conhecia. Há anos não se sentia tão viva.

Satisfeita, afinal, levantou-se, embrulhou cuidadosamente o resto do coelho num pano limpo e guardou-o no alforje. Depois lavou o rosto, as mãos e voltou para junto da fogueira, repentinamente muito cansada. Com dificuldade, disfarçou um enorme bocejo.

— Sinto-me assim também, lady. — Nigel limpou o rosto e as mãos com um pano úmido. — Talvez seja melhor dormirmos. Ficarei de guarda, se você desejar ir até a mata por um instante.

Corando, Gisele escapuliu para o meio das árvores. Privacidade tornara-se um bem raro desde que fugira das garras do marido. Pensara ter se acostumado à perda desse privilégio, contudo a presença do escocês, de alguma forma, a tornara mais consciente do desconforto.

Retornando ao acampamento, estava decidida a parar de pensar apenas em si mesma e levar em consideração os problemas de sir Murray. Ele tampouco desfrutava de alguma privacidade, embora suspeitasse de que fosse mais fácil para os homens, do que para as mulheres, lidar com a situação. De livre e espontânea vontade, o cavaleiro oferecera-lhe proteção sem analisar, detalhadamente, todas as complicações que acabariam surgindo ao atravessar metade da França na companhia de uma mulher. Portanto, sua obrigação era tornar as coisas mais fáceis para quem se dispusera a defendê-la, não dificultá-las.

Vendo-o regressar, Gisele recolheu seus pertences e preparou sua “cama” do lado oposto da fogueira, sem esperar que sir Murray se encarregasse da tarefa. Estava determinada a mostrar-lhe que não seria um peso morto, que dividiria o trabalho e contribuiria no que fosse necessário para o sucesso da jornada.

Em silêncio, Murray tirou as botas, desafivelou a espada, deitou-se e cobriu-se com o cobertor fino. Durante vários minutos observou Gisele, que se revirava no chão sem parar, incapaz de encontrar uma posição cômoda. Infelizmente não podia fazer nada para ajudá-la a superar o desconforto. Somente o tempo iria lhe conferir resistência.

— Você não está acostumada a longas cavalgadas, não é, milady?

— Non. Se me cansava, parava para repousar. Como não tinha um destino certo, preocupava-me apenas em permanecer escondida.

— Uma boa estratégia.

— Será mesmo? Continuo sendo caçada.

— Sim. Mas também continua viva.

Suspirando fundo, ela murmurou:

— Simples sobrevivência já não me basta. Quero ter paz.

— Entendo. São muitos os seus perseguidores agora. Talvez, no começo, os DeVeau a tenham considerado presa fácil. Porém estão se dando conta de que se enganaram e intensificaram a caçada. Por isso precisamos acelerar o ritmo. Precisamos correr para o mais longe daqui.

— Você acredita que serei perseguida implacavelmente, sem trégua?

— Sim. Não é apenas dos parentes de seu marido que você tem que escapar, mas também dos caçadores de recompensa, cuja ganância desconhece limites.

— É um pensamento aterrador.

— De fato. E embora não seja minha intenção alimentar seus medos, aconselho-a a desconfiar de todos os que cruzarem nosso caminho. Somente a extrema prudência a manterá viva.

Sem dúvida um conselho valioso, Gisele refletiu. Atravessara o último ano num estado de tensão constante. Porém, à medida que os meses transcorreram sem que fosse ferida, ou capturada, o terrível pavor perdera um pouco da agudeza inicial. Contar com a proteção daquele estrangeiro a fazia sentir-se mais segura sim, contudo não era justo esperar que ele a protegesse de tudo o tempo inteiro. Apesar de hábil espadachim, o escocês era apenas um e não merecia ser exposto a perigos e ameaças que ela, infantilmente, ignorava por estar ocupada demais lidando com uma crescente, e incontrolável, atração sexual.

Até os DeVeau convencerem-se de sua inocência, continuaria com a cabeça a prêmio e seria uma idiota, caso se esquecesse disso. Cabia-lhe contribuir para que ambos chegassem à Escócia o mais rápido possível e em segurança.

Antes de fechar os olhos, vencida pela exaustão, Gisele fitou Nigel Murray mais uma vez e decidiu que poderia se perdoar pelos momentos de distração. Tratava-se de um homem cuja proximidade perturbaria qualquer mulher, mesmo a mais fria. Agradava-a ser capaz de pensar novamente num homem sem medo, ou horror.

O bom senso dizia-lhe não ser hora de permitir-se tais frivolidades. Talvez ainda não estivesse certa sobre a profundidade de seus sentimentos por Nigel, mas, não suportaria se algum mal lhe acontecesse. Iria culpar-se pelo resto da vida.

Observando-a adormecer, Nigel sorriu. Fora sincero em cada uma de suas palavras quando explicara as razões pelas quais resolvera protegê-la. Porém existiam outros motivos que guardara para si.

Algo indefinível o levava a contemplar o rosto delicado como se fosse um adolescente apaixonado. Algo indefinível o fazia arder de desejo e tirava-lhe o sono. Algo indefinível o impelia a querer curar aquele coração ferido. Se o marido da bela dama estivesse vivo, iria caçá-lo até os confins do mundo e matá-lo com as mãos nuas.

Pela primeira vez em sete anos sentia-se vibrante, dominado por sensações há muito esquecidas. Com um único olhar, Gisele o havia arrancado do marasmo emocional, do torpor melancólico em que caíra desde o dia em que abandonara a terra natal, fugindo de um amor impossível. Ainda não conseguira decifrar, com exatidão, a natureza de seus sentimentos. Ela se parecia muito com a mulher de cujo fascínio tentara escapar. Mas não, não era apenas a extraordinária semelhança física com a esposa de seu irmão que o atraíra em Gisele.

Precisava ter essa dúvida esclarecida antes de chegarem à Escócia, porque a francesa notaria quanto se parecia com Maldie no instante em que a visse. Se, então, já houvessem se tornado amantes, necessitaria, mais do que nunca, entender o que se passava em seu íntimo, pois teria explicações a dar. E, com certeza, Gisele não se deixaria convencer facilmente após haver sofrido tantas traições amargas.

Fechando os olhos, Nigel preparou-se para dormir, rezando para que, quando Gisele DeVeau o aceitasse como amante, ele, pelo menos, estivesse convicto de que a queria de fato e não a estivesse usando simplesmente para enganar a si mesmo. Usá-la para aplacar a fome que sentia por outra mulher seria insultá-la em sua dignidade, algo que se recusaria a fazer. Precisaria de tempo, de muito tempo, para desvendar seus próprios sentimentos. De repente, a Escócia já não parecia tão distante assim.

Gisele acordou banhada em suor. Tensa, pousou a mão sobre o cabo da adaga, com os ouvidos atentos aos ruídos que vinham da floresta. Um uivo suave, trazido pelo vento, explicou-lhe por que despertara subitamente aterrorizada.

— Odeio lobos — murmurou, e a agitação dos cavalos aumentava seu nervosismo. Porém, era reconfortante saber não ser a única a inquietar-se com os barulhos ameaçadores.

Durante longos minutos permaneceu imóvel, esforçando-se para ignorar os sons. Do outro lado da fogueira, Nigel continuava a dormir imperturbável. Talvez não houvesse motivos para tanta aflição, pensou, saboreando alguns segundos de absoluto silêncio. Mas, quando outros uivos romperam a placidez da noite, sua determinação de conservar a calma ruiu. Tratava-se de um medo antigo, que nunca conseguira superar. Não seria capaz de relaxar no estado em que se achava. E se não descansasse, acabaria atrasando a jornada do dia seguinte.

Cautelosa, sentou-se e fitou o escocês que, mesmo dormindo, mantinha a espada ao alcance da mão. Nervosa, mordeu o lábio inferior, tentando decidir-se. Não queria parecer uma tola covarde, tampouco queria dar a impressão de que buscava algo além de proteção contra terrores noturnos. Se Nigel acordasse, seria difícil explicar-se.

Procurando não fazer barulho, apanhou o cobertor e, apesar de envergonhada, deitou-se pertinho do cavaleiro, pedindo a Deus para sua presença passar despercebida.

Porém, enquanto se ajeitava, bem de mansinho, percebeu que ele estava acordado. Assim não se surpreendeu quando, ao virar-se, descobriu-o fitando-a intensamente.

— Frio? — Nigel perguntou, sem entender a expressão culpada de Gisele. Aparentemente precipitara-se ao achar que a francesa o procurara movida por um surto incontrolável de paixão.

— Oui. — Novos uivos encheram o ar.

Estremecendo, ela refugiou-se um pouco mais perto do corpo másculo.

— Com medo dos lobos?

— Oui, os lobos me assustam.

— Eles não chegarão perto.

— Eu sei.

— A fogueira, apesar de pequena, os manterá distantes.

— Eu sei — Gisele retrucou um tanto ríspida, ao escutá-lo rir. — Não é engraçado.

— Não, não estou rindo do seu medo. Sua raiva é que é engraçada.

— É uma fraqueza.

— Não é nenhuma vergonha, milady. Muita gente tem medo de lobos. Também não considero o som dos uivos reconfortante.

— O que detesto é que esse medo resiste à lógica. Aqueles lobos não representam nenhuma ameaça para mim. Sei muito bem. Fico apavorada cada vez que os ouço uivar. É uma reação irracional. Odeio não ser capaz de me controlar.

— Esses são, de fato, os medos mais difíceis de superar. Todos nós somos afligidos por algum terror insensato com o qual precisamos aprender a lidara

— Não há necessidade de mentir para me consolar. Acho difícil acreditar que você possa sofrer de tal fraqueza.

— Confesso ainda não ter tido que enfrentá-la. Talvez essa fraqueza esteja mascarada pelo orgulho, pela vaidade. Ou talvez eu ainda não tenha enfrentado uma situação que a fizesse vir à tona. Acredito, sinceramente, que cada pessoa é atormentada por algum terror cego, um medo que desafia a razão e a lógica.

— Se o medo resiste à razão e à lógica, como é possível vencê-lo?

— Não é possível. — Murray sorriu ao ouvi-la praguejar. Então ficou muito sério. — Não permita que isto a atormente. Milady, a fraqueza não é o medo em si, mas a maneira como agimos ao enfrentá-lo.

— Então fracassei no teste porque aqui estou me escondendo atrás de você.

— Não. A meu lado, você ainda não enfrentou verdadeiramente seu medo, apenas escutou os uivos à distância. Por tanto não é nenhum crime deixar-se dominar pelo pavor. O teste legítimo de coragem acontece quando temos que enfrentar nosso medo de frente, quando aquilo que decidimos fazer causará, ou não, nossa morte, ou a de outras pessoas.

— Rezo para que este dia não chegue nunca.

— Durma milady. As feras não nos atacarão esta noite. Cedendo ao cansaço, Gisele fechou os olhos. Os lobos não se aquietariam, mas não encontraria dificuldades para dormir. A simples proximidade de Nigel acalmara seus receios. No entanto, estava desapontada consigo mesma. Depois de passar quase um ano sozinha, cuidando de si, pensara ser forte o bastante para enfrentar quaisquer dificuldades, para sobreviver sem a ajuda de ninguém. Perturbava-a descobrir que poderia ter se enganado, que talvez ainda tivesse uma longa luta pela frente e que, provavelmente, Nigel não estivesse o tempo todo a seu lado. Exausta, decidiu deixar as preocupações para o dia seguinte.

Percebendo-a adormecer, Nigel preparou-se para encarar a longa noite. Compreendia o medo de Gisele. Os uivos contínuos tampouco o agradavam, pois o levavam a perguntar-se se a floresta seria mesmo mais segura que a estrada. Não, não havia motivo para se questionar. Tomara a decisão certa. As chances de acabarem feridos por alguma fera eram mínimas, se comparadas à possibilidade de depararem com algum enviado dos DeVeau. Devia manter Gisele longe de olhares alheios o máximo possível. Portanto, deviam conservar-se fora das estradas e povoados.

Quando ela, sonhando, murmurou algo ininteligível e aproximou-se ainda mais, Nigel fechou os olhos e se esforçou para segurar as rédeas do desejo. A dama não o estava convidando a tomá-la nos braços e sim, inconscientemente, buscando calor e conforto. Alarmava-o e surpreendia-o reagir tão prontamente àquele contato inocente. Se Gisele podia excitá-lo tanto quando adormecida, não conseguia nem imaginar como se sentiria se ela estivesse desperta e ardorosa. Ah, se continuasse alimentando esse tipo de pensamento seria mesmo uma noite muito, muito longa.

 

Um calor delicioso envolvia Gisele, fazendo-a sentir-se segura e confortável como quando, ainda criança, refugiava-se na cama da avó. Sua avó sempre estivera pronta para ouvi-la, para acalmar seus medos, para acreditar nas suas histórias. Que bom ter a avó de volta.

À medida que se tornava mais consciente do que a cercava, mais reparava haver algo errado com o sonho agradável. O corpo junto ao seu era rígido, não macio. Os braços ao seu redor eram grandes e musculosos, em nada semelhantes aos de uma senhora idosa. Tampouco percebia no ar a fragrância de rosas. E sua avó nunca acariciara suas costas daquele jeito.

No instante em que se deu conta de estar nos braços de Nigel, Gisele relutou em abrir os olhos. O roçar dos lábios sensuais em seu rosto e pescoço atiçava-lhe o sangue, a pressão das mãos fortes deslizando sobre seu corpo excitava-a de uma maneira perturbadora. Abrir os olhos significaria admitir estar acordada e, portanto, receptiva aos avanços sexuais. Melhor fingir dormir e apegar-se àquele sonho tentador por mais alguns segundos. Quando a boca firme cobriu a sua, retribuiu o beijo, perguntando-se por quanto tempo poderia saboreá-la antes que o medo retornasse.

Nigel esforçou-se para prosseguir devagar. Gisele mostrava-se receptiva, ardente e, com certeza, estava desperta. Não queria fazer nada que a aterrorizasse. O horror ao sexo fora implantado pela brutalidade do marido e apenas a doçura, a gentileza, permitiria que a paixão florescesse.

Ao escutar o ruído pela primeira vez, ele não deu importância. O gosto de Gisele o embriagava e nada iria distraí-lo. Seus instintos, porém, aguçados por anos de batalha, impediram-no de agir como um tolo. As vidas de ambos dependiam de sua capacidade de agir com prontidão. Num exercício supremo de força de vontade, empurrou-a para longe e sentou-se.

Posta de lado abruptamente, Gisele experimentou uma sensação de profundo abandono. O velho pavor ainda não a tinha dominado, portanto não fora isso o que impelira Nigel a abandoná-la. Impossível entender o que se passava. Num momento, um homem a beijava apaixonadamente, no outro, desembainhava a espada. Se era assim que sir Murray pretendia seduzi-la, não se tornariam amantes nunca.

— Levante-se, milady, e prepare-se para partir.

Sem hesitar, Gisele atendeu a ordem. O tom imperativo da voz exigia obediência imediata. Só não compreendia o porquê da atitude repentina.

Enquanto prendia o alforje na sela e montava, Gisele obteve a resposta que procurava. Sons fugidios de tropel de cavalos. Como Nigel escutara a ameaça com tanta antecedência, quando ela não o notara? De fato, não estava sequer convicta de que os cavaleiros que se aproximavam constituíam uma ameaça. Confusa, abriu a boca para fazer algumas perguntas, mas Nigel limitou-se a sorrir e a dar uma tapa no flanco de seu cavalo, instando-o num trote rápido.

Após alguns minutos, Gisele arriscou-se a olhar para trás. Os cavaleiros haviam chegado à clareira e, sem dúvida, ostentavam as cores dos DeVeau. Oh, Deus, fora localizada! Começava a temer não ser possível escapar aos seus perseguidores. E à morte.

O sol já ia alto quando Nigel permitiu-os parar junto a um pequeno riacho. Enquanto o escocês dava de beber aos cavalos, Gisele refugiou-se num lugarzinho recluso para lavar-se. Sentia-se esgotada, física e mentalmente. Talvez Nigel estivesse com a razão. No início, convencidos de que não tardariam a encontrá-la, os DeVeau não haviam se empenhado muito na perseguição. Agora, porém, a verdadeira caçada começara e já não sabia se sobreviveria à jornada até a Escócia.

— Não se aflija — disse Nigel, observando-a se aproximar. — Faremos com que esses miseráveis percam nosso rastro antes que o dia termine.

— Você parece muito seguro de si — Gisele retrucou, tornando a montar. — Esses miseráveis poderiam, facilmente, ter me destroçado.

— Não, você é mais forte do que imagina.

— Será? Antes de retomarmos a cavalgada, você poderia-me dizer como soube que os malditos estavam perto?

— Talvez os tenha farejado!

— Começo a achar que você tem o faro mais apurado que o melhor dos cães perdigueiros.

Murray riu e montou também.

— Não sei como acontece. Às vezes apenas pressinto o perigo. Receio não poder lhe oferecer uma explicação mais sensata.

— Você tem premonições?

— Não, não possuo o dom da visão. É como se uma mão invisível me desse uma sacudida, como se uma voz quase inaudível sussurrasse em meus ouvidos. Nesta manhã, eu não estava prestando atenção em mais nada, exceto em você. Mas algo me alertou sobre o perigo iminente, embora ainda fosse impossível escutar o barulho produzido por nossos inimigos.

— Alguém o protege.

— Parece que sim, apesar de não entender a lealdade desse aliado invisível. Nos últimos anos, não creio ter sido merecedor de salvação.

Comovida com o comentário do estrangeiro, Gisele esforçou-se para não se deixar dominar pela emoção. Afinal, sir Murray era homem feito, responsável por suas escolhas. Respeitava-o por reconhecer os próprios erros, por admitir haver afundado na lama. E compreendia a dor de um coração partido.

— Talvez tenha sido esse aliado invisível quem o impulsionou a sair do fundo do poço.

— Sim, talvez. E, talvez, ao decidir protegê-la de seus inimigos, eu tenha salvado a mim mesmo.

Rindo, Gisele balançou a cabeça.

— Não posso crer que seu aliado tenha conspirado para salvar sua vida apenas para que você pudesse me poupar de meus inimigos.

— Bem, como nós dois parecemos nos julgar pessoas de pouco valor, talvez seja o anjo da misericórdia quem zele por nós.

— Talvez — ela concordou pensativa. — De qualquer maneira, peço a Deus para que você não perca a habilidade de pressentir o perigo. E sim, você tinha razão. Os DeVeau intensificaram a caçada. Se o instinto não o avisasse sobre a aproximação dos cavaleiros, teríamos sido presas fáceis.

Nigel assentiu, admitindo a sombria verdade. Gisele não o censurara por não ser mais cauteloso e não havia necessidade, pois ele não se perdoaria pela falta de prudência. Fora uma tolice permitir-se distrair, confiando, excessivamente, naquele dom estranho que sempre possuíra. Às vezes esse dom falhava, como se para puni-lo de sua arrogância e desatenção. Agora, porém, não estava sozinho, não era somente sua vida que poria em risco. Jurara proteger uma dama em apuros e era sua obrigação cumprir a promessa sem um único momento de descuido.

— Você acha que nós os despistamos? — ela indagou, obrigando-o a interromper o fluxo de auto-recriminações.

— Não. Apenas nos distanciamos. Se formos capazes de aumentar a vantagem, então poderei utilizar alguns minutos preciosos para tentar apagar nosso rastro.

— Peçamos a Deus que nenhum deles possua essa sua habilidade de farejar o inimigo.

Ao pararem durante breves minutos para encobrir as pistas, Gisele ficou de guarda, mais do que nunca preocupada com uma só coisa: escapar aos DeVeau. Embora, durante quase um ano, tivesse conseguido se esquivar de seus perseguidores, a caçada agora, tão implacável, começava a fazê-la sentir-se fragilizada. Saber que precisava de Nigel para continuar viva apenas aumentava a sensação de vulnerabilidade porque a obrigava a reconhecer quão poucas alternativas lhe restavam. Cada quilômetro que avançavam, cada vez que o escocês lhe salvava a vida e a mantinha fora do alcance de mãos truculentas, mais dependente se tornava dele, algo que considerava alarmante. O que lhe aconteceria caso Nigel fosse ferido, ou morto? E se, como tantas outras pessoas, inclusive as de seu próprio sangue, ele a traísse?

A única maneira de acalmar seus medos era aprender tudo o que o estrangeiro pudesse lhe ensinar. Em vez de simplesmente permitir-lhe liderar a marcha, iria acompanhá-lo de perto. Claro que não esperava ser abençoada, num passe de mágica, com aquele dom estranho de pressentir o perigo. Mas poderia desenvolver certas habilidades observando-o atuar. Se o destino fosse cruel e ficasse novamente sozinha, precisaria saber como seguir pistas, como escolher o lugar adequado para se esconder, como destruir os vestígios de sua passagem. Assim teria alguma chance, ainda que remota, de escapar à captura.

Durante horas a fio os dois entregaram-se a um jogo de gato e rato com os homens de DeVeau. Somente uma vez Gisele chegou a avistá-los, muito de longe, mas Nigel agia como se estivessem à beira de ser interceptados pelo inimigo, jamais diminuindo o ritmo da cavalgada.

Uma rápida pausa no meio da tarde para o escocês apagar os rastros e deixar outros falsos. Gisele bem que tentou prestar atenção ao procedimento, porém a extrema fadiga a venceu. Fechando os olhos, acabou cochilando sobre sela. Dali a instantes, Nigel tomou as rédeas dos animais e conduziu-os ao pé de uma colina, onde os amarrou no tronco de uma das árvores frondosas. Então, ajudou a jovem dama a desmontar e praticamente empurrou-a colina acima, até alcançarem um agrupamento de pedras de tamanhos e alturas variadas.

—Eles estão por perto? — Gisele indagou num murmúrio tenso, escondendo-se atrás das pedras.

— Não, ainda não — Murray retrucou, sem tirar os olhos da trilha que haviam abandonado minutos atrás.

— Então por que estamos nos escondendo? Por que não seguimos adiante?

— Preciso descobrir quanto podemos enganá-los.

Gisele até tentou agachar para enxergar melhor, mas desistiu. Fatigada, recostou-se numa pedra e fechou os olhos. A noite tardaria a chegar e ainda teriam longas e exaustivas horas de cavalgada pela frente. Se desejava sobreviver, necessitava descansar para recuperar as forças.

Porém mal mergulhara no sono, ou pelo menos era essa sua impressão, para alguém sacudi-la, enérgico.

— Chega, estou acordada! — resmungou, esfregando os olhos. — Eles já foram?

— Sim. — Segurando-a pelas mãos, Nigel ajudou-a a levantar-se e conduziu-a colina abaixo. — Por um segundo temi que um dos homens tivesse enxergado nossos cavalos. Mas, por sorte, acompanharam os rastros falsos.

— Estamos seguros! — retrucou animada, deixando escapar um gemido de desconforto quando Nigel colocou-a outra vez sobre a sela.

— Sim, por enquanto. Creio que nossos perseguidores levarão algum tempo até perceberem que a trilha não leva a lugar nenhum. Espero recuperar o tempo e a distância perdidos com essa parada.

— Pensei que você estivesse tentando despistá-los.

— De fato. Mas não devemos imaginar que nos livramos dos malditos de vez. Se têm se conservado em nosso encalço é porque são hábeis caçadores.

A notícia não a consolou muito. Queria ouvir palavras animadoras, reconfortantes, como, por exemplo, que seus inimigos tinham desaparecido para sempre e não iriam mais assombrá-los. Será que Nigel já não estava tão cansado dessa perseguição quanto ela?

Quando, enfim, o sol se pôs e o escocês escolheu um local para passarem a noite, Gisele quase gritou de puro alívio. Cansada até a medula dos ossos após um dia inteiro sobre a sela, refugiou-se no meio da vegetação, para alguns instantes de privacidade, e retornou ao centro do acampamento. Notando a pequena fogueira, cercada de pedras, franziu o cenho. Mesmo aquela luz tênue podia ser percebida facilmente à distância, por causa da escuridão. Apreensiva, colocou o cobertor ao lado do de Nigel e, vendo-o sair da mata, interpelou-o: — Tem certeza de que deveríamos manter o fogo aceso? Apesar de aconchegante, não estaríamos reclamando nossa presença?

— Nossos inimigos estão longe demais para enxergarem qualquer luminosidade.

— E quando você concluiu que a distância que nos separa deles é segura?

— Tão logo tomaram a trilha falsa. — Nigel retirou as sobras dos coelhos, pão e queijo do alforje, convencido de que a bela francesa estava irritada, embora não entendesse por quê.

— Então por que você nos fez cavalgar tão rápida e duramente durante horas a fio? — Gisele agarrou sua porção de comida, resistindo ao ímpeto de lhe dar um safanão.

— Porque achei melhor colocar o maior número possível de quilômetros entre nós e nossos perseguidores.

Mastigando o pão seco, Gisele se esforçou para controlar a raiva. Sir Murray tinha razão. O sensato era aumentar a distância que os separava daqueles que queriam matá-la. Na verdade, estava tão cansada de tudo, que, inconscientemente, quisera pôr a culpa em alguém. Porém Nigel não merecia ser culpado de nada. O único merecedor de sua fúria achava-se fora de seu alcance. Teria que comportar-se com mais delicadeza.

— Peço-lhe desculpas, sir — falou baixinho, aceitando o odre de vinho e tomando um pequeno gole. — Estou exausta e mal-humorada.

— É compreensível, milady.

— Talvez. Porém não é justo transformá-lo em alvo da minha língua afiada. Não é culpa sua eu estar sendo obrigada a atravessar metade da França dessa maneira horrível. Apenas descontei em você meu desconforto e frustrações. O homem responsável por meus sofrimentos está morto e, portanto, além do alcance das minhas imprecações.

— Se a justiça foi feita, milady, seu marido está sofrendo terrivelmente, exposto a mais torturas e tormentos que você poderia infringir-lhe.

— Não esteja tão certo disso. Posso ser feroz quando no auge da minha fúria — Gisele murmurou, ensaiando um sorriso.

— Isto tudo logo acabará.

— Será? Ou passarei o resto da minha vida fugindo? — Ela ergueu a mão para o calar. — Não se dê ao trabalho de tentar me consolar. Meu mau humor é fruto do cansaço e da impossibilidade de ter o que quero.

— E o que você quer milady?

— Ir para casa. Sei que pareço uma criança pequena, mas essa é a verdade. Quero ir para casa. Quero dormir em minha própria cama. Quero tomar banho sempre que desejar e comer o que quiser e quando tiver vontade. Quero parar de sentir pena de mim mesma. Sei que você está sofrendo os mesmos desconfortos e quero que isto chegue ao fim também. Você, ainda mais do que eu, merece ficar livre dessa situação.

— Porém, diferentemente de você, estou mais acostumado a tais incômodos. Eu deveria ter isso em mente.

—Non, não mude nada. Continue fazendo o que tem feito até agora para nos conservar vivos — Gisele falou firme. — Porque se trata não apenas de mim agora, mas de nós dois. Os DeVeau estão me caçando, mas não hesitarão em matá-lo porque você ousou me ajudar. Não posso prometer não tornar a reclamar de cansaço, ou não ter momentos em que me entregarei à autopiedade. Peço-lhe para não dar atenção às minhas queixas. Fugir para salvar a pele é exaustivo. Não consigo manter o bom humor quando tão fatigada.

— Isto acontece com todos. Descanse tranqüila esta noite. Os malditos não irão nos localizar.

— Como você pode ter tanta certeza assim? Afinal, eles foram capazes de chegar bem perto.

— Questão de sorte. E, talvez, preocupado em ganhar uma boa dianteira sobre nossos inimigos, eu não tenha apagado os rastros como deveria a princípio. De agora em diante, serei mais cuidadoso. Durma milady. Foi um longo dia.

Suprimindo um bocejo, Gisele cobriu-se com o cobertor.

— E teremos muitos dias longos pela frente, não é, sir?

— Alguns. Os mais difíceis serão quando tivermos que entrar no porto e então zarparmos.

— Oh, claro. Os DeVeau estarão vigiando os portos bom de perto.

— Bem de perto.

— Como é?

— Diz-se bem de perto, não bom de perto.

— Inglês não é uma língua fácil, milorde.

— Você a domina com grande habilidade. Aliás, seu inglês é muito melhor do que meu francês. Quem a ensinou a falar inglês?

— Minha grandmére. Ela era natural do País de Gales. — Num gesto cheio de ternura, Gisele tocou o medalhão que trazia numa corrente sobre o peito.

— Isto explica seu sotaque. Foi sua avó quem lhe deu esta jóia? — Nigel observou a peça ricamente ornamentada.

— Oui. Grandmére me explicou que as finas trancas de prata entrelaçadas representam meus bisavós e as sete granadas representam os sete filhos com os quais foram abençoados. Grandmére disse que essa jóia iria me trazer sorte.

— E acredito que sim. Durante quase um ano, você vem escapando da perseguição liderada por um clã rico e poderoso. A sorte tem lhe sorrido.

— Então rezo para que continue a nos sorrir — ela sussurrou, fechando os olhos. — Se você tem mais perguntas a me fazer, sir Murray, receio que será obrigado a esperar até amanhã. Estou tão cansada que não consigo mais raciocinar.

Em silêncio, Nigel viu-a cair no sono quase imediatamente. Gisele era uma mulher pequenina e frágil, que já suportara inúmeras provações e dificuldades. Que mais poderia agüentar? Gostaria de ser capaz de poupá-la das agruras que ainda encontrariam pela frente. Odiava vê-la abatida, inquieta. Mas tampouco desejava vê-a morrer, o que aconteceria caso os DeVeau a capturassem. Solene, Nigel jurou a si mesmo cercá-la de todo o conforto quando chegassem à Escócia. E também jurou fazer aquilo que a família da jovem se recusara: libertá-la da sede de vingança dos DeVeau.

 

— Tem certeza de que é uma idéia sensata? — Gisele perguntou quando, do alto de uma colina, ela e Nigel observavam uma aldeia.

Uma única noite de sono não fora suficiente para ajudá-la a recuperar as forças, após as longas horas fugindo dos mercenários dos DeVeau. Seus inimigos haviam se aproximado demais no dia anterior e não queria lhes dar outra chance de vir a capturá-la. Assim a possibilidade, mesmo remota, de ser reconhecida na aldeia a apavorava.

— Precisamos de suprimentos, milady. Esta época do ano não é propícia para retirarmos alimentos da terra.

— Eu sei. De fato, quase não existe mais o que retirar da terra. Nos últimos anos, os soldados têm devorando tudo o que acham pela frente.

— O exército costuma ser ganancioso — concordou Murray, iniciando a descida da colina. — Já vi tropas se apossarem de colheitas inteiras, sem deixar um único grão para os pobres camponeses que sobrevivem da lavoura. Essa é uma das tristes conseqüências da guerra.

— E este país parece viver constantemente em guerra. É um suplício sem fim. Não entendo por que a matança continua, embora os homens tenham sempre uma resposta pronta para explicar os conflitos: questão de honra, bravura, direito dos reis… Certa vez minha avó falou que os homens se ofendem mais depressa do que qualquer velha solteirona.

Por um instante, Nigel pensou em repreendê-la. Aquela jovem dama não podia dirigir palavras tão insultuosas aos homens, pois acabaria se metendo numa encrenca se desse trela à língua afiada. Os homens não gostavam de ser ridicularizados. Então, pôs-se a rir.

— Ah, milady, às vezes nós homens somos assim mesmo. — Ao entrarem nos limites da aldeia, Murray estancou diante do primeiro estábulo. — É uma vergonha esse ímpeto de matar as pessoas para resolver qualquer disputa. Na Escócia, é comum rixas entre clãs passarem de pai para filho, até se tornarem uma herança sangrenta que atravesse gerações.

— Sua família viveu essa tragédia?

— Quase. Mas a verdade foi revelada e o derramamento de sangue chegou ao fim.

Antes de Gisele ter chance de pedir-lhe detalhes sobre a história, Nigel desmontou e trocou algumas palavras rápidas com o cavalariço. Apesar de nervosa por deixar os cavalos entregues a um estranho, ela desmontou a um sinal do escocês.

— Não se aflija milady. Não posso garantir-lhe que estamos perfeitamente seguros, mas não sinto o perigo nos espreitando em cada esquina.

— Você não está farejando nossos inimigos? — ela indagou baixinho, acompanhando-o pela rua poeirenta.

— Não. Não farejo nada. Ouça, os cavalos precisam descansar. Talvez suportem a jornada até Donncoill, o castelo de minha família na Escócia. Também é possível que comecem a mancar, devido à exaustão.

— Os pobres animais estão assim tão esgotados?

— Sim.

— Então que descansem e comam bem. Passar algumas horas neste povoado pode ser perigoso, mas fugir dos DeVeau montando cavalos mancos será mais perigoso ainda. Parece-me uma aldeia próspera — comentou Gisele, olhando os arredores. — Talvez os efeitos da guerra ainda não a tenham alcançado e possamos encontrar tudo de que necessitamos. — Vendo-o dirigir-se a um empório minúsculo, indagou: — Você quer que eu converse com os mercadores?

— Sei falar sua língua.

— Sim, mas com sotaque carregado e alguma dificuldade para entender quando os outros falam muito depressa.

— De fato. Mas prefiro lidar com a situação sozinho a expô-la a olhares curiosos. Você pode passar por um rapaz, se vista a distância. De perto, ninguém duvidará de que é uma bela mulher. Nós, escoceses, já não somos figuras estranhas na França e não chamarei atenção. Portanto, milady, espere aqui, e não fale com ninguém.

Praguejando baixinho, Gisele obedeceu. Mesmo com o gorro cobrindo os cabelos, tinha que admitir que seu disfarce não era tão bom quanto imaginara. Ocultar-se nas sombras, sem dúvida, seria a coisa mais prudente a fazer. Começava a pensar se haveria, realmente, algum modo de passar despercebida. Como mulher, sempre fora notada e lembrada. Vestida como rapaz, continuava sem sorte. Que outras alternativas lhe restavam? Esconder-se numa caverna até que alguém provasse sua inocência e pusesse fim ao seu tormento? Não, não acreditava que tal coisa fosse acontecer. Não poderia sobreviver numa caverna sem ajuda e os DeVeau eram conhecidos pela memória implacável.

De repente, um rapaz saiu da hospedaria próxima e Gisele sentiu o coração vir à boca, num misto de medo e esperança. Com certeza ali estava seu elegante primo David. Só não sabia se devia abordá-lo. David não correra a defendê-la quando seus problemas tinham começado, mas tampouco quisera entregá-la aos DeVeau. Vendo-o afastar-se, cedeu ao impulso e correu atrás, arrastando-o para um beco escuro.

— Que brincadeira é essa, menino?—David a interpelou, áspero.

— Sou eu, sua prima Gisele. — Ela arrancou o gorro e balançou os cachos negros. — Não se recorda de mim?

Segurando-a pelos ombros, como se não acreditasse nos próprios olhos, o jovem cavaleiro levou vários segundos para se recuperar do choque.

— Você está completamente doida, mulher?

— Pois eu começava a temer que você, sim, havia enlouquecido. A maneira como ficou me olhando…

— O que fez com seus cabelos? E por que está vestida assim?

— Nunca o julguei sem imaginação, primo. — Gisele tornou a vestir o gorro. — Estou tentando parecer um rapaz. Essas roupas pertenciam ao pajem de Guy.

— Não me surpreende que Guy esteja por trás dessa loucura. Aliás, você quase causou a morte do pobre coitado.

— Ah, então você conversou com nossa querida e gentil prima Maigrat.

Inquieto, David passou as mãos pelos cabelos espessos e negros.

— Maigrat não morre de amores por você, é verdade. Ela nunca gostou de pessoas capazes de expressar opiniões com segurança, em especial quando a contradizem.

— Posso ter discordado de Maigrat uma ou duas vezes — disse Gisele, ignorando a risada do primo. — Porém isto não é motivo para me proclamar assassina, ou afirmar que eu seria capaz de fazer algo que ferisse Guy.

Puxando-a para perto de si, David abraçou-a com força.

— Achei difícil crer que você machucaria Guy, que, aliás, a apoiou e defendeu com veemência dos ataques verbais de Maigrat.

— Ele está bem?

— Recuperado o suficiente para atormentar Maigrat, andando de um lado para o outro da propriedade.

— Guy foi uma das poucas pessoas que acreditaram na minha inocência.

Enrubescendo, David deu um passo atrás.

— Quisera poder negar, mas temo que você esteja expressando a mais absoluta e degradante verdade. Em minha defesa digo apenas que você fez tanta questão de espalhar aos quatro ventos o quanto odiava seu marido e ameaçou tantas vezes vingar-se que eu, e muitas outras pessoas, chegamos à conclusão óbvia. Reconheço que erramos e não há perdão para a forma como agimos. Nós nunca deveríamos tê-la permitido se casar com DeVeau. Ficamos cegos pelo poder e riqueza.

— Você insiste em dizer nós. Por acaso fala em nome dos outros?

— Em nome da maioria. Uns poucos, como Maigrat, agarram-se aos seus próprios motivos para se recusar a mudar de idéia e receio que essa recusa tenha mais a ver com despeito do que com o gosto pela verdade. — David a fitou fixamente. — Você pode ser ríspida às vezes, e possui uma língua afiada, o que desagrada muita gente.

— Apenas os mal-humorados. E desses eu não preciso. Minha família vai me ajudar agora? — Tensa, ela aguardou a resposta, sabendo que se permitira, em questão de segundos, alimentar esperanças. Odiaria vê-las despedaçadas.

— Nós já começamos a tentar descobrir a verdade. E também estávamos tentando localizá-la. Será melhor você vir comigo agora. Não a deixarei vagar pela França, sozinha e desprotegida.

— Sozinha? Guy lhe disse que eu estava só?

— Ele mencionou um escocês, um cavaleiro que sobrevive como mercenário. Obviamente o sujeito a desertou. Mas o que esperar de homens dessa laia?

— Não, Nigel não me abandonaria jamais — Gisele apressou-se a retrucar. — Ele está comprando provisões e cuidando dos cavalos.

— Você ainda está com o tal escocês? Não será possível continuar assim, prima. Não permitirei que viaje sozinha com um estrangeiro, um desconhecido qualquer. Vou pagá-lo e mandá-lo seguir seu caminho.

Apesar de querer chamar o primo de idiota, Gisele conteve-se, sabendo não ser hora, nem local, de iniciar uma discussão. Ali estava um problema que não antecipara. Os homens estavam sempre ansiosos para defender as mulheres de suas famílias contra os desejos libidinosos dos outros homens. E como David não movera um dedo para protegê-la dos abusos de DeVeau, a culpa talvez o movesse agora, impelindo-o a tomá-la sob seus cuidados.

Nigel não tardaria a aparecer e duvidava de que seu primo fosse recebê-lo cordialmente. Precisava encontrar um meio de evitar o confronto desagradável entre os dois.

Saindo do empório abafado, Nigel inspirou o ar fresco com força e, no mesmo instante, soube que alguma coisa estava errada. Gisele sumira. Com a mão apoiada no punho da espada, pôs-se a vasculhar a pequena aldeia, esforçando-se para ignorar o pânico crescente. Após breves minutos de busca frenética, avistou-a num beco escuro, não muito longe da hospedaria, na companhia de um rapaz alto, bonito, de cabelos e olhos escuros.

Mesmo a distância, a antipatia pelo cavaleiro foi imediata. Talvez estivesse com ciúme, pensou. Mas o perigo que Gisele corria era real. Sua segurança dependia de manter-se sempre escondida. Ao escutar o francês dizer que iria pagá-lo e mandá-lo embora, dispensando-o como se não passasse de um reles mercenário, Nigel avançou.

— Guarde seu dinheiro, garoto. Não preciso ser pago para proteger uma dama em apuros.

Olhando de um para o outro, Gisele, por um momento, temeu o pior. Ambos estavam tensos, as mãos repousando sobre o cabo da espada. Uma palavra, um passo em falso, e veria seu protetor e seu primo se atracarem. Impossível entender os homens, essas criaturas estranhas. Nenhum dos dois teria algo a ganhar com o confronto. Pelo contrário, todos sairiam perdendo, ela mais do que ninguém.

— Nigel, este é meu primo, sir David Lucette. David, este é sir Nigel Murray, o cavaleiro que, galantemente, ofereceu-se para me proteger de meus inimigos.

— Sim. Tomei para mim o encargo de fazer o que os parentes de milady não ousaram.

— Nossa família pode cuidar dela agora — disse David, num inglês cheio de tropeços.

— Vocês a ignoraram durante quase um ano — Murray respondeu seco. — Abandonaram-na, deixaram-na sozinha para lutar contra os inimigos e tentar provar a própria inocência. E agora você quer acolhê-la sob seus ineptos cuidados? Quer me descartar, impedindo-me de cumprir minha promessa? Não, creio que não.

— Minha prima pertence à aristocracia, tem um nome honrado a zelar. Não posso permitir que vague pela França sozinha, na companhia de um homem com o qual não possui laços de sangue.

Antes que Murray pudesse responder, Gisele interveio furiosa.

— Vocês precisam se comportar feito crianças mimadas disputando um brinquedo?

— Ah, moça! — exclamou Nigel, levando a mão ao peito num gesto teatral. — Você fere meus sentimentos falando assim. Deveria ser mais cuidadosa com o orgulho de um homem.

Gisele simplesmente ignorou a tolice, sabendo que Nigel podia se comportar de maneira quase absurda nas horas mais inesperadas. Porém a expressão de David revelava seu estado de completa confusão. E, sem dúvida, um oponente confuso sempre é mais fácil de derrotar.

— Primo, sir Murray jurou, em nome da honra de cavaleiro, ser meu protetor — ela explicou num tom firme e convincente.

— Admito que nós tenhamos falhado — David reconheceu, tomando as mãos de Gisele entre as suas. — Nós a insultamos com nossas suspeitas e desconfianças. Mas tudo é diferente agora. Permita-nos cuidar de você.

Apesar de encontrar alguma dificuldade para compreender as palavras do rapaz, ditas num francês apressado, Nigel tinha certeza de que este se esforçava para persuadir Gisele a acompanhá-lo. Não haveria muito que pudesse fazer caso ela decidisse retornar para junto da família. Aliás, nem sequer sabia se seus protestos eram fruto da crença de se considerar mais apto a protegê-la, ou do medo de perdê-la.

Olhar nos olhos do primo certa de que responderia “não” revelou-se algo difícil para Gisele, pois, no fundo, ainda não entendia todos os motivos pelos quais pretendia dar as costas à oportunidade de se reunir à família. Traindo-a, eles a tinham magoado profundamente, mas quando a chance de curar as feridas se apresentara, estava a ponto de recusá-la. Por quê? Porque relutava em deixar Nigel. Só esperava não estar cometendo um erro sério, cedendo aos apelos de um desejo inconfessável.

— Non. Ficarei com sir Murray — retrucou em inglês, incluindo Nigel na conversa. Percebera bem a manobra do primo, para deixar o escocês fora da discussão. — Escolhi tomar este caminho e nele permanecerei.

— Juro que você não mais será tratada por nossa família do mesmo modo deplorável e vergonhoso de antes — insistiu David em inglês, apesar da má vontade de se expressar neste idioma.

— Acredito. Mas isto já não importa.

— Tem certeza de que você não está deixando o ressentimento guiar seus passos?

— Não vou negar que existe ressentimento sim. Mas não tomo decisões influenciada pela mágoa. Sei o que é melhor para mim. — Bastou olhar para David para saber o que passava pela cabeça do rapaz. Ela e Nigel eram amantes, fora o que seu primo concluíra. Não iria culpá-lo de pensar assim, visto não ser mais nenhuma virgem ingênua. — Ternos um bom plano. Não há necessidade de se preocupar comigo.

— Não me preocupar? Quantas vezes serei obrigado a repetir? Você está viajando vestida como um pajem na companhia de um homem que não conhecemos. Não percebe como está manchando seu nome?

Gisele riu amarga.

— Manchando meu nome? Há quase um ano minha própria família tem me considerado uma assassina feroz, capaz de não só matar o marido como de mutilá-lo. Duvido que qualquer coisa que eu venha a fazer possa denegrir meu precioso nome ainda mais. Sir Murray está me levando para um lugar seguro. É tudo de que preciso.

— Poderíamos achar um local seguro para escondê-la.

—Non, vocês não podem e ambos o sabemos. Os DeVeau vigiam cada membro de nossa família atentamente. O que aconteceu ao pobre Guy é prova disso. Não há um só lugar entre vocês onde eu estaria em segurança. Quem quer que me acolhesse se exporia ao perigo. Você quer mesmo arrastar toda nossa família para uma guerra com os DeVeau? Uma guerra que poderia acabar envolvendo o rei? Não, acho que não.

— Mas agora que, enfim, recuperamos o bom senso, não nos resta fazer outra coisa senão ajudá-la, ou nos arriscamos a perder a honra.

— Então me ajudem. Descubram a identidade do assassino de meu marido. Este é o momento perfeito para agir. Os olhos de todos os DeVeau estão voltados para mim, todos unidos em torno de um único objetivo: capturar-me. Parece-me o momento ideal de alguém descobrir o que, de fato, aconteceu ao meu marido.

— Não será uma tarefa fácil — David resmungou, coçando o queixo.

— Non, não será fácil, ou eu já teria descoberto a verdade sozinha nestes últimos meses. Tenho tido pouco tempo livre para tentar achar o assassino porque, afinal, preciso lutar pela simples sobrevivência. E agora que os DeVeau puseram minha cabeça a prêmio, não tenho tido tempo de fazer nada, exceto correr e me esconder.

— Não é vida para uma mulher.

— Non, não é. Portanto, descubra quem matou o verme do meu marido e me liberte dessa existência.

Apreensiva, Gisele aguardou David se manifestar. O primo poderia causar-lhe muitos problemas, caso se recusasse a atendê-la. Embora em parte ainda hesitasse em confiar plenamente em Nigel, sabia que não poderia deixá-lo. O instinto mandava-a continuar firme no caminho escolhido, porém não queria repudiar sua família.

— Não gosto disso, prima, mas me curvarei aos seus desejos. Fique com este homem e nossa família se empenhará em inocentá-la.

— Você fez uma escolha sábia — disse Nigel ao francês, puxando Gisele para junto de si.

— Não creio que me foram dadas muitas alternativas, sir. Espero que você não se arrependa, prima. — Depois de breve reverência, o jovem cavaleiro afastou-se.

Subitamente insegura Gisele suspirou fundo, reprimindo o impulso de chamar David de volta. Mas não, não se permitiria vacilar apenas porque sentia saudade da família. Embora estivesse pronta para perdoá-los, nunca se esqueceria de que fora Nigel quem a protegera e amparara quando todos lhe haviam dado as costas. David garantira-lhe que iriam apoiá-la agora, contudo a lembrança da dolorosa traição de que fora vítima a impedia de confiar totalmente nesse súbito gesto de boa vontade. Não se atreveria a arriscar-se mais do que já se arriscara, quando sua vida estava em jogo.

O comentário do primo, sobre manchar sua reputação viajando sozinha com um estranho, não passava de grande tolice. No entanto, David tinha razão numa única coisa. Ninguém realmente conhecia Nigel Murray. Tratava-se de um escocês mercenário, a quem os companheiros de combate respeitavam. E só.

—Você está se arrependendo da decisão tomada, milady? — Nigel perguntou, esforçando-se para disfarçar a inquietude. — Ainda dá tempo de chamar seu primo. — sugeriu, embora as palavras saíssem de sua boca com dificuldade. Odiaria vê-la partir.

— Non. É melhor seguirmos em frente. Apenas hesitei por um instante.

— Não é uma escolha fácil.

— Non, não é. Sinto saudade de minha família e quero muito voltar para casa. Mas não ainda. Não com David.

— Você desconfia de que ele não tenha falado a verdade?

— Oh, meu primo falou a verdade, de acordo com seu ponto de vista. De fato, não duvido de David, e sim dos outros.

— Sua família negou-se a acolhê-la, a estender-lhe a mão quando você mais precisou. Uma traição não pode ser superada apenas porque eles, de repente, dizem lamentar muito.

— Non, não é fácil superar a dor de ser abandonada por aqueles em quem mais confiamos. Eu queria acreditar em David, acreditar na minha família outra vez, porém não fui capaz.

— Eles a traíram e terão que reconquistar sua confiança aos poucos. Meia dúzia de palavras bonitas não apagará um ato covarde.

— Não. Especialmente agora, quando minha vida está por um fio.

Em silêncio, Gisele observou o primo desaparecer no fim do beco escuro e uma vontade súbita de chorar a invadiu. David representava seu lar. Um lar onde não estaria segura e para onde levaria a tragédia, caso retornasse.

Em parte recusara a oferta de David por temer expor seus entes queridos à ira vingativa dos DeVeau. No entanto, estava arrastando Nigel para o perigo. Não se envergonhava de si mesma por colocá-lo nessa situação? Ele se oferecera para protegê-la antes mesmo de saber o tamanho do problema que viria a enfrentar. Portanto, era justo que lhe propiciasse uma escolha agora, antes que fosse tarde demais.

— Eu estava pensando…

— E por que tenho a sensação de que não vou gostar do que irei ouvir milady?

— Falei sobre não desejar expor minha família ao perigo, sobre querer mantê-los em segurança. Pois sua segurança também me preocupa, sir.

— Agora estou convencido de que não vou gostar mesmo.

— Permita-me terminar, sir. Acabei de ser abençoada com a oportunidade de fazer uma escolha, assim é justo que eu lhe ofereça o mesmo. Quando você se dispôs a me proteger, não fazia idéia da tragédia em que se envolveria. Agora tem plena consciência dos problemas que eu posso lhe causar. Compreenderei se quiser partir.

— Dei-lhe minha palavra de honra, milady.

— Dispenso-o de cumpri-la.

— Eu disse que iria levá-la para a Escócia, para um lugar seguro, e é o que farei.

Zonza de alívio, Gisele lutou contra o impulso de jogar-se nos braços do cavaleiro.

— Você é um homem muito teimoso, sir Murray.

— De fato, o sou. Além de prestativo, gentil e generoso — ele brincou, tomando-a pela mão e conduzindo-a para fora do beco.

— E vaidoso.

— Prefiro pensar que reconheço meus pontos fortes.

Rindo, Gisele balançou a cabeça.

— Uma explicação interessante.

— Então espere para ver a pequena surpresa que lhe preparei, milady. Pode me chamar outra vez de vaidoso, porque tenho certeza de que você vai gostar.

 

Gisele quase gemeu alto, de puro prazer, ao relaxar os músculos doloridos na água tépida e perfumada. Tão logo entraram na hospedaria, Nigel trocara umas poucas palavras com o dono do lugar e, surpresa! No quarto pequeno e impecável uma tina, cheia até a borda, a aguardava.

Na sua ansiedade, ela praticamente pusera a esposa do estalajadeiro e Nigel para fora, sem se importar de parecer mal-educada.

— Preciso descobrir o que estou fazendo de errado — murmurou, enquanto enxaguava os cabelos. Ninguém ali, nem por um instante, a confundira com um rapaz. Teria cortado os cabelos a troco de nada? Que desperdício!

Após alguns minutos saboreando o banho luxuriante, Gisele começou a se preocupar com detalhes práticos. Todo aquele conforto devia estar custando caro a Nigel. Um quarto apenas para si, uma tina cheia de água quente e, como se não bastasse, um sabão com perfume de rosas.

Quando mais se debruçava sobre o assunto, mais se afligia. Até então, não pensara em como pagariam por suas despesas. Duvidava de que Guy, ferido e inconsciente quando o tinham deixado na casa de Maigrat, houvesse dado algum dinheiro a Nigel. Tampouco ela o fizera. Portanto sir Murray não apenas estava arriscando a própria vida para protegê-la como também pagando pelo privilégio.

Olhando para o medalhão que colocara sobre o banco, Gisele cogitou na possibilidade de vendê-lo. Com certeza obteria uma soma razoável. Mas não, não teria coragem de se desfazer do único objeto que a avó lhe deixara antes de morrer. Precisaria encontrar outra maneira de ressarcir Nigel, de recompensá-lo pelos gastos. Se sua família realmente a queria de volta, mandaria-lhe algum dinheiro.

Sorrindo da própria tolice, Gisele secou o rosto com uma toalha. A quem pretendera enganar? Relutava em se desfazer da jóia não somente por tratar-se de algo de valor sentimental. Sua avó dissera que o medalhão lhe traria sorte. Começava a acreditar nas previsões da velha dama.

O que sua avó acharia de Nigel, se ainda estivesse viva? Sem dúvida os dois se tornariam grandes amigos. Nana sempre apreciara homens dotados de senso de humor.

De repente, o sorriso se apagou no rosto de Gisele. Haviam passado todo dia anterior fugindo dos mercenários de DeVeau. Seria sensato perder tempo desfrutando de uma cama macia e de um banho quente? Não, não devia alimentar receios infundados. Até o momento, Nigel fizera um bom trabalho e continuaria lhe dedicando completa confiança. Também lhe parecia desleal questionar as decisões do escocês. Resolvida a não se preocupar mais, fechou os olhos e aproveitou o restinho do banho.

Praguejando, Nigel enxugou-se e vestiu-se. Apenas por um segundo ressentira-se do fato de ter se metido num riacho de águas gélidas, enquanto Gisele achava-se refestelada numa tina. A jovem dama merecera o agrado e precisara mais deste pequeno conforto do que ele. Fora uma decisão inesperada pernoitar na hospedaria, contudo não se arrependia. Sentira-se impelido a fazer algo para ajudá-la a superar a tristeza que o encontro com o primo provocara.

Porém, ainda se debatia em incertezas. O instinto dizia-lhe que agira certo ao conservá-la consigo, embora questionasse as razões que o haviam levado a isto. Demoraria algum tempo para entender o que se passava em seu próprio coração.

Quando terminava de lavar as roupas sujas, torcendo para que estivessem secas no dia seguinte, escutou um ruído. Devagar, levantou-se, perguntando-se se o dom de pressentir o perigo finalmente o desertara, ou se somente tentava ensinar-lhe outra lição.

Virando-se, deparou com David. Talvez não tivesse pressentido o perigo porque não existia perigo nenhum.

— Pensei que você houvesse ido embora — comentou muito calmo, sentando-se para amarrar as botas.

— Só partirei amanhã. As ferraduras do meu cavalo estão sendo trocadas.

— Ah, o mesmo motivo pelo qual Gisele e eu também só partiremos amanhã. Então você aproveitou as horas livres Para dar um passeio ao longo do rio?

— Ouvindo-o falar, chego à conclusão de que você não me considera uma ameaça séria.

— Você representa uma ameaça para mim, sir Lucette? — Fitando-o fixamente, Nigel levantou-se.

— Deveria. Uma ameaça mortal. Não o acredito tão confiável quanto minha prima pensa. Às vezes ela pode ser muito ingênua.

— Gisele é viúva, não uma virgem sem conhecimento algum dos homens.

— E você a considera uma fruta madura, pronta para ser colhida?

— Quando você, enfim, decidiu se preocupar com o bem-estar de sua prima adotou uma linha de defesa bastante acalorada, não?

Irritado, David levou alguns segundos para enfrentar o olhar severo do escocês.

— Só agüento seus insultos porque sou inteligente o bastante para reconhecer que os mereço. Mas tenha cuidado, sir. Paciência nunca foi o meu forte. Embora admita meus erros, não suportarei ser insultado indefinidamente. Oui falhei com Gisele, como a esmagadora maioria dos membros de nossa família. Porém isto é algo a ser resolvido entre nós e ela. Você não pertencer a este núcleo não significa que minhas preocupações a seu respeito sejam infundadas.

— Não há necessidade de se preocupar comigo.

— Non? Vai me dizer que não deseja Gisele?

— Não. Não sou mentiroso.

Nigel quase caiu na risada ante a expressão raivosa do outro. Talvez viesse a necessitar da boa vontade dos parentes de Gisele. Entretanto David e os outros, por darem as costas à jovem dama, não eram dignos de muita consideração. Teria alguma dificuldade para perdoá-los, apesar de ainda não entender o porquê de sua indignação.

— Sinceridade é uma virtude, suponho. Se você é mesmo um homem confiável, conte-me quais são, exatamente, seus planos para minha priminha.

— Embora não seja da sua conta, planejo levá-la em segurança para a Escócia, onde a manterei até que as injustiças de que foi vítima cheguem ao fim. — Depois de examinar David de alto a baixo com um olhar crítico, Murray indagou: — Você se acredita capaz de limpar o nome dela e impedir que os DeVeau continuem a perseguindo?

— Já lhe disse que sim.

— Eu o escutei. Apenas perguntava-me por que o faria agora, quando ninguém o conseguiu durante quase um ano. — Vendo o rapaz corar, pressionou-o. — Ninguém realmente tentou, não é? Apenas decidiram que Gisele era culpada e cruzaram os braços. O que os levou a pensar que alguém tão doce mataria um homem sem motivo?

— Você acha que ela matou DeVeau! — David exclamou pasmo.

— Não tenho certeza sobre o que pensar. Só conheço dessa história o que me foi contado por Gisele e ainda não busquei descobrir toda a verdade.

— Mas por que você se esforçaria tanto para proteger uma mulher capaz de matar o marido?

— Porque o canalha merecia morrer.

— Ele era indelicado. Pelo menos isso viemos, a saber, com certeza.

— Indelicado? Então vocês não sabem muito.

Numa narrativa sucinta, o escocês colocou-o a par do que Gisele lhe contara. Agradou-o reparar na palidez do cavaleiro francês, no horror e fúria crescentes. Como se atingido por um soco, David desabou sobre a grama e cobriu o rosto com as mãos.

— Nós deveríamos ter percebido — ele murmurou, desolado.

— Alguém deveria ter desconfiado do que estava acontecendo. Gisele pode não ter sido muito clara em suas explicações, ou muito explícita nos detalhes, porém as cicatrizes estavam lá, em seu corpo, para quem as quisesse enxergar. Eu as vi e não entendo por que a família dela se recusou a perceber o óbvio.

— Embora Gisele não tenha se queixado a mim, lamento minha própria cegueira. Não sei se a trataríamos de modo muito diferente caso conhecêssemos a verdade. Oui, admito que alguns de nós até soariam o alarme, passando a observá-la, e ao marido, mais atentamente. Mas receio que ninguém tentaria levá-la para casa. Canalha como era DeVeau continuava sendo o marido de minha prima e certos laços são difíceis de romper. De fato, matá-lo foi uma das poucas saídas para uma situação insustentável. Mas veja o resultado.

— Melhor assim do que a violência a que ela estava sendo submetida.

— Talvez. Contudo, se a brutalidade de DeVeau fosse de conhecimento geral, é possível que houvéssemos acreditado ainda menos na inocência de Gisele.

— Não entendo como vocês agiram dessa forma. Sim, a dama tem uma língua ferina e opiniões próprias, o que pode desagradar a alguns. Assassina? Não, eu jamais a julgaria capaz de matar um ser humano, exceto para defender-se. Quando um homem abusa de uma mulher, ou ela torna-se submissa, aterrorizada demais para tomar qualquer atitude, ou supera o medo e foge. E se não pode contar com quem a defenda, ou acolha, acabará sendo obrigada a matar para não morrer. Ninguém pode culpá-la de chegar a esse extremo.

— Concordo. Só impediremos os DeVeau de consumarem a vingança se encontrarmos o verdadeiro criminoso. Até então, minha prima continuará correndo perigo.

— Então é melhor começar a investigar já. Gisele estará segura em minha companhia.

— Será mesmo? Ambos sabemos que você, provavelmente, tentará seduzi-la.

— Provavelmente?

Ignorando a provocação, David prosseguiu.

— São poucos os locais onde ela poderá se refugiar, em especial agora, quando os DeVeau puseram sua cabeça a prêmio. Acho até que muitos de seus compatriotas se sentirão tentados a caçá-la. E não pense que seu plano de levá-la para a Escócia permanecerá oculto. Já é sabido que Gisele está viajando com um escocês.

— Não é uma boa notícia. — Murray esperara que esse detalhe só viesse à tona mais tarde.

— Não. Portanto, se não puderem localizá-la na França, irão procurá-la em outros lugares. Os caçadores de recompensa não lhes darão sossego e a perseguição se tornará cada dia mais feroz.

— O prêmio é assim tão tentador?

— Oui. Os DeVeau são mais ricos que o rei.

— Então comece a trabalhar para provar a inocência de sua prima, rapaz. Vou voltar para a hospedaria. Não é boa idéia deixá-la sozinha por muito tempo.

— Você pretende dividir o quarto com ela?

— Sim.

— Um cavalheiro dormiria num outro cômodo.

— Apenas se tivesse escolha, sir. Seria muito difícil proteger Gisele se eu e minha espada não estivéssemos por perto. —Nigel deu um tapinha amigável no ombro do rapaz. — E sua prima é plenamente capaz de gritar “não” se o desejar. Durma bem, monsieur.

Gisele mal teve forças para abrir os olhos quando Nigel entrou no quarto. Tentara esperá-lo, mas sentira-se tão cansada depois do banho que conseguira apenas tomar uma caneca de leite antes de cair na cama e macia.

— Você demorou muito — murmurou ainda sonolenta.

— Bem, eu precisava de um banho e acabei encontrando seu primo outra vez.

— Vocês não brigaram, brigaram?

— Não, lady, embora ele tivesse desejado me bater uma ou duas vezes.

— Você o provocou.

— Um pouco. E David confessou merecê-lo. Eles deveriam ter estado a seu lado desde o começo.

— Eu sei. A deserção de minha família dói terrivelmente, apesar de compreender a razão de terem agido assim. Os DeVeau são quase tão poderosos quanto o rei. São temidos por todos. Portanto, desafiá-los é assinar a própria sentença de morte.

Sentando-se num banco, Nigel começou a tirar as botas, preparando-se para dormir. Como Gisele não o questionasse sobre suas intenções, limitando-se a fechar os olhos, supôs que não haveria problemas em partilharem a cama. Em deferência à honra da dama, conservou a calça. Ao deitar-se, sentiu-a ficar rígida.

— Não vou machucá-la, milady — sussurrou, lutando contra a urgência de tomá-la nos braços.

— Eu sei. Não é você quem me amedronta. Em toda minha vida, dividi a cama com um único homem e odiei cada momento. Muito tempo já se passou desde que fui tocada pela última vez, porém receio que o pavor continua entranhado em mim.

— É que você ainda não tomou nenhuma atitude para bani-lo.

Sir Murray tinha razão, Gisele concluiu pensativa. Mas Por que o escocês se preocuparia com a natureza e a profundidade de seus medos? Sinceramente esperava que não tentasse seduzi-la com a desculpa de que iria curá-la do trauma. Embora, bem no fundo, soubesse que Nigel seria capaz de fazê-lo, queria que isto acontecesse porque ele a desejava, não porque a vaidade masculina o levava a buscar reparar aquilo que outro homem se esforçara, tão brutalmente, para destruir.

— Milady, você precisa parar de pensar tão mal de mim. Agindo assim, fere minha vaidade.

Apesar de sorrir, ela sentiu-se desconfortável ante a facilidade com que um estranho parecia enxergar seu íntimo.

— Eu estava apenas torcendo para que você não se proclamasse capaz de me curar.

— Ah, então você ficaria desapontada se eu tentasse seduzi-la usando esse argumento?

— Talvez, pois você revelaria não ser inteligente como o julguei.

— Ah, sou muito inteligente. Afinal, não consegui arrastá-la para um quarto?

— Agora você está tentando despertar minhas suspeitas. Pode soar estranho, porém, desde o princípio, imaginei que pretendia dormir aqui. Afinal, este quarto deve ter custado caro e seria injusto impedi-lo de desfrutar de algum conforto. A propósito, tem um assunto que precisamos discutir.

— Você está para me dizer algo de que não vou gostar.

— Sendo um cavaleiro alto e forte, sem dúvida agüentará o que vou dizer. Você está pagando minhas despesas com seu próprio dinheiro, não é?

— Não sou um homem pobre, milady.

— Não teria importância se o fosse. Eu apenas não acho certo você, além de arriscar a vida para me proteger, deva arcar com todos os gastos. Também não sou pobre, sir. Mas, infelizmente, não posso dispor de meu dinheiro agora. Porém, vou reembolsá-lo assim que possível.

— Não é necessário.

— É sim. Reconheço que talvez seja uma questão de orgulho. Incomoda-me um pouco não estar sendo capaz de arcar com minhas despesas, de estar dependendo da força e dos recursos de outra pessoa para continuar viva.

— Você já superou obstáculos muito difíceis sozinha. Não é nenhuma vergonha admitir haver chegado num ponto em que precisa de auxílio.

— Entendo, mas o orgulho costuma cegar a razão. Permita-me conservar um resto de dignidade. Irei reembolsá-lo por cada centavo gasto nesta jornada até a Escócia.

— Como quiser.

Nigel decidiu não ser aquele um bom momento de insistir no assunto. Compreendia os sentimentos de Gisele. Era mesmo difícil depender da boa vontade de terceiros, em especial depois de passar tanto tempo só.

— Por que tenho a sensação de que você não concordou realmente? — ela indagou num murmúrio, fechando os olhos.

— Você se preocupa demais, senhora. Descanse agora. Desfrute dessas horas de tranqüilidade e conforto. Esqueça seus problemas.

—Não sei se posso esquecê-los.

— Se você alimentar pensamentos sombrios, não conseguirá repousar.

— E você quer que eu pare de falar para que também possa dormir.

— De fato.

— Pois durma em paz, sir Murray.

Dormir em paz… Nos últimos dias, começara a se dar conta de quão cansado estava da guerra, da luta pela sobrevivência. Seria bom voltar para Donncoill, para junto daqueles que o amavam e iriam zelar por sua segurança enquanto descansasse.

Seria bom para Gisele também, pensou, observando-a dormir. Guy tinha razão. Ela não estaria verdadeiramente segura em lugar nenhum, até o culpado pela morte de DeVeau ser identificado. Mas, na Escócia, dormiria tranqüila. Por um instante, Nigel perguntou-se se não estaria cometendo um erro ao envolver seu clã num problema tão grave. Mas sabia que nenhum deles se negaria a ajudar uma dama em situação desesperadora.

Novamente Murray se recriminou por perder mais uma oportunidade de falar sobre seu lar, de contar a Gisele a razão pela qual abandonara a terra natal. Reconhecia estar cortejando o perigo e agindo como um covarde, mas a vaidade o continha. Embaraçava-o admitir que partira porque desejara a esposa do irmão e temera não ser capaz de se comportar dignamente quando a tivesse por perto.

Outro motivo pelo qual preferia o silêncio era a certeza de que Gisele lhe faria perguntas para as quais não possuía respostas. Pelo menos não as respostas capazes de sossegá-la. Quando descobrisse que ele saíra da Escócia porque se apaixonara pela cunhada, coincidentemente muito parecida com a própria Gisele, preferia poder fitá-la nos olhos e jurar que a queria apenas, porque Maldie se tornara parte do passado. Este momento ainda não chegara. E preocupava-o a possibilidade de vir a cruzar os portões de Donncoill inseguro quanto aos seus sentimentos.

Murmurando palavras inteligíveis, Gisele se aconchegou junto ao seu peito, em busca de calor. Quando dormindo, ela permitia-se essas pequenas intimidades. Um bom sinal.

Porém, até ter certeza de haver superado seu amor por Maldie, devia deixar Gisele intocada, embora ardesse de desejo. Gostava de tê-la nos braços, de aspirar seu perfume suave, de sorver o gosto dos lábios carnudos. Queria-a para amante e receava não ter forças para mantê-la distante só porque não compreendia o que se passava em seu coração.

Bem, existia outra solução para o problema que o afligia, apesar de considerá-la desonrosa. Se ainda não houvesse explicado tudo a Gisele quando chegassem a Donncoill, se ainda alimentasse dúvidas sobre qual das duas mulheres realmente amava, mentiria. Olharia Gisele fixamente e diria qualquer coisa que ela precisasse ouvir. Entre conservar a honra e feri-la, talvez fosse melhor poupá-la de outra dura desilusão. Se a tomasse para amante sem sequer saber se poderia vir a amá-la sinceramente, então mereceria pagar o preço, abrindo mão da própria honra.

 

Seu sonho era tão bom, tão doce e excitante, que Gisele não queria acordar. Nigel a estava tocando, as mãos grandes e fortes deslizando lentamente sobre seu corpo e não sentia nenhum medo, apenas paixão. Seria capaz de impedir que as lembranças sombrias destruíssem aquele sonho? Pelo menos uma vez na vida gostaria de experimentar as emoções imortalizadas pelos menestréis em suas canções.

— Lady — o escocês murmurou —, olhe para mim.

— Non. Não posso.

— Olhe para mim. Quero que você saiba quem a está tocando.

A jovem dama apertou os olhos com mais força e balançou a cabeça, veemente.

— Você não pode me deixar continuar sonhando?

— Não, porque seria uma mentira.

— Uma deliciosa mentira.

Escutando-o rir, Gisele abriu os olhos devagar, sentindo-se um pouco desconfortável ao encarar o homem que a estava acariciando de maneira tão íntima. Por que a insistência para que o fitasse? Afinal, não o estava repelindo. Não seria mais sensato fingir que nada de real acontecia?

— Eu sabia que era você. — Nunca sua voz soara tão rouca!

— Não até agora. Antes, de olhos fechados, seus pensamentos vagavam imagens do passado despertando todos os seus medos.

— Abrir os olhos poderia despertar meu senso de recato.

— Pelo menos você estaria rejeitando a mim, e não se curvando aos seus fantasmas.

Não, não queria rejeitá-lo, embora a honra e o pudor o exigissem. Apesar das palavras do cavaleiro fazerem um estranho sentido, teria que se esforçar para manter os olhos abertos. A cada nova sensação, ansiava fechá-los, como se para saborear o momento em toda a plenitude.

Surpresa descobriu-se pressionando o próprio corpo contra o dele, em silêncio pedindo por algo que jurara nunca mais vir a se submeter. Tímida, percorreu as costas largas com a ponta dos dedos, apreciando os contornos dos músculos salientes, a textura da pele bronzeada. Nigel não tirou a calça. Tampouco fez qualquer movimento que indicasse a intenção de consumar o ato.

Quando ele a acariciou no meio das coxas, Gisele deixou escapar um gemido, misto de choque e prazer. Uma vozinha interior dizia-lhe ser ultrajante permitir-se tocar daquele jeito indecente, mas resolveu ignorá-la, principalmente por que lábios vorazes se apossaram dos seus, impedindo-a de raciocinar com clareza. Não entendia muito bem o que se passava, porém estava gostando tanto que não iria se afastar. Atordoada, percebeu que Nigel sugava seus mamilos rígidos, ainda cobertos pela túnica fina, enquanto aumentava a pressão sobre o ponto central de sua feminilidade.

Ela quis argumentar, mesmo correndo o risco de romper o encantamento. De súbito, percebeu-se incapaz de articular sons inteligíveis.

Sensações violentas a percorreram de alto a baixo, provocando tremores incontroláveis. Enlouquecida de prazer, gritou o nome de Nigel para o infinito, a boca sensual calando-a com um beijo sôfrego. Longos minutos transcorreram antes que Gisele começasse a voltar à realidade. Confusa e embaraçada, escondeu o rosto no ombro do escocês.

— O que você acabou de fazer? De fato, você não fez nada. Non, isto é, você não…

Na verdade, mais do que sentir-se embaraçada, detestava não entender alguma coisa. Haviam-lhe dito que sua sede de conhecimento era indecorosa, imprópria, pois uma dama não possuía o direito, ou necessidade, de saber o que os homens sentiam. Seu casamento, contudo, apenas intensificara o horror à ignorância. Sinceramente acreditava que se tivesse tido mais informações sobre o que costumava acontecer entre um homem e uma mulher, sobre o que era certo e errado, poderia ter se protegido um pouco, evitado tantas dores físicas e emocionais.

Insegura, Gisele fitou Nigel. Por que ainda hesitava? Por que não expunha logo suas dúvidas? Talvez porque temesse vê-lo desaprovar sua curiosidade…

No rosto másculo do cavaleiro, marcas de paixão ardente. Aprendera a decifrar esses sinais observando DeVeau, e o resultado sempre fora o pânico, a violência, a degradação. Reconhecer o desejo no olhar de Nigel não a assustava, muito pelo contrário. Mas por que ele não fizera nada para saciar o apetite?

— Não consigo entender — falou baixinho.

— E isto a incomoda, não?

— Oui. Você disse que iria me seduzir e o fez. Mas não consumou o ato, mesmo quando deixei claro estar disposta a ir até o fim. Essa atitude me confunde. É algum tipo de jogo?

— Que mente desconfiada! — Murray beijou-a na ponta do nariz. — Não, não se trata de um jogo. Você nunca se deitou com um homem que não a machucasse durante o sexo?

— Deitei-me com um único homem em toda minha vida, meu marido. E a resposta à sua pergunta, como ambos sabemos, é não. Mas creio que agora estou livre desses medos.

— Talvez. Milady, apenas pensei que o melhor seria, antes de nos tornarmos amantes, você se descobrir capaz de experimentar prazer. Sim, você estava disposta a se entregar. Porém continuaria receptiva quando eu a penetrasse? Não era este o momento em que a dor se tornava insuportável?

Desconfortável, Gisele desviou o olhar. De súbito, uma batida áspera à porta. Praguejando alto, Nigel levantou-se rapidamente e desembainhou a espada.

— Quem é?

— Sou eu, David — retrucou o outro, num tom urgente. — Deixe-me entrar.

— Você escolheu uma má hora para vir bater em nossa porta. Volte mais tarde.

— Se eu voltar mais tarde, será para enterrá-los. — Em segundos, o francês estava dentro do quarto. — Os De Veau não tardarão a aparecer.

— Eles estão aqui? — Nigel começou a vestir-se, com gestos rápidos e precisos.

— Nos arredores da aldeia. Algum idiota local deve ter adivinhado a identidade de vocês e decidiu delatá-los para pôr as mãos no dinheiro. Os gananciosos se provarão seus piores inimigos. A propósito, você está bem, prima?

Gisele sabia o que preocupava David. Uma preocupação tardia e desnecessária. Sua inocência lhe fora roubada, da forma mais vil, tempos atrás. E ninguém escutara seus gritos.

— Estou ótima — respondeu seca, sem esconder a irritação.

— Eu só estava imaginando se…

—Pois pode parar de imaginar. Nada disso é da sua conta. O fato de meus inimigos terem me localizado novamente tem uma importância muito maior.

— Seus cavalos estão selados e prontos para partir — informou-os David, corando levemente.

— Bom rapaz. — Nigel atirou os alforjes sobre o ombro. — Acho que você deveria partir também.

— É o que pretendo. Prefiro não deparar com um dos homens dos DeVeau. — O jovem francês beijou Gisele no rosto. — Tenha cuidado, prima. Juro, pelo pouco da honra que ainda me resta, que encontrarei quem matou seu marido e a livrarei desse horror.

Ela só teve tempo de agradecer-lhe e Nigel já a estava empurrando para fora do quarto. O sol começava a nascer e a luz tênue dificultava o avanço pelas ruelas traiçoeiras. Várias vezes Gisele tropeçou, mas o braço forte do escocês a sustentou até chegarem ao estábulo.

— David não nos seguiu — ela murmurou, deixando-se colocar sobre a sela.

— Rapaz inteligente.

— Inteligente?! Ele não devia estar fugindo desta aldeia tão depressa quanto nós?

— Sim. Porém não na mesma hora, e indo na mesma direção.

Mal haviam percorrido uns poucos metros, um grito ecoou de dentro da mata. Gisele não precisou olhar para trás para saber que seus inimigos avançavam implacavelmente. Podia escutar o tropel ameaçador dos cavalos.

Se não fosse David, estariam numa situação ainda pior, encurralados dentro do quarto da hospedaria. Aterrorizada, limitou-se a seguir Nigel, cuja habilidade em descobrir novas trilhas evitou que acabassem capturados.

Já passara do meio-dia quando, enfim, tiveram chance de parar para dar de beber aos animais. O verão aproximava-se, o calor típico da estação tornando as cavalgadas ainda mais duras. Só esperava que seus perseguidores estivessem sofrendo os mesmos desconfortos. Seria uma pequena, porém bem-vinda, vitória.

—Nós ficaremos livres desses canalhas em breve, milady.

— Será? Os DeVeau e os caçadores de recompensas parecem nos espreitar em cada canto. Vamos precisar de um exército nos escoltando para chegarmos ao porto.

— Não, precisaremos apenas de astúcia.

Estaria o cansaço e o calor afetando o juízo de sir Murray?

— Sei que a astúcia pode, às vezes, vencer a força bruta. Mas, não creio que servirá para abrir caminho no meio de nossos inimigos.

— Ambos reconhecemos não sermos fortes o bastante para enfrentá-los e lutar. São numerosos os que estão em seu encalço. Portanto, resta-nos usar outros recursos para enganá-los. — Nigel entregou-lhe um odre de água e um pedaço de pão, insistindo para que se alimentasse.

— Sei que nossa única alternativa é continuar fugindo. Porém correr cheira a covardia, sir.

— Você tem escutado histórias demais sobre a grandeza da honra, quando um cavaleiro prefere enfrentar hordas de inimigos sozinho, a se refugiar nas colinas.

— Você não acha que agir assim revela extrema bravura?

— Somente quando não há outra escolha. Se o cavaleiro estiver cercado, se não existir nenhuma possibilidade de fuga, então sim, morrer lutando é glorioso e muito mais honroso do que implorar pela própria vida. Se há uma escolha, uma maneira de escapar, apenas um tolo não aproveita a chance de viver para lutar outro dia. Qual o propósito de se sacrificar em vão? Deixar que seus inimigos continuem livres para espalhar o mal? Deixar sua família e amigos desprotegidos? Dar aos menestréis um tema novo para as canções? Gisele caiu na risada.

— Você tem uma habilidade rara de simplificar as coisas, indo direto ao ponto central da questão.

— Nem sempre, senhora. Todavia já enfrentei situação semelhante a essa que acabei de descrever. Aguardei o momento de enfrentar meus inimigos de igual para igual, não me permiti ser caçado. É o que faremos agora.

— Parece-me razoável. Mas estou tão cansada que sinto necessidade de lamentar meu destino.

— É compreensível. Sinto muito, milady, temos que nos pôr a caminho outra vez.

— Dê-me alguns minutos de privacidade. — Pelo menos ela já não corava quando tocava neste assunto.

— Seja rápida. Prefiro não me demorar muito num mesmo lugar, com nossos inimigos à solta.

O lembrete de Nigel era realmente desnecessário. O fato de terem sido obrigados a escapulir da aldeia ao amanhecer e empreender uma cavalgada desenfreada durante horas seguidas, a conscientizara do perigo que enfrentavam. Apesar de toda sua conversa sobre honra e glória, não queria enfrentar os DeVeau, principalmente se o escocês não estivesse a seu lado.

Enquanto ajeitava as roupas e se preparava para voltar, Gisele, de repente, sentiu um calafrio. Tinha certeza de que escutara algo, embora não percebesse nada suspeito. Com o coração aos pulos, virou-se. E descobriu-se frente a frente com um homem enorme, ostentando as cores dos DeVeau nas vestes rotas. Embora soubesse ser tarde demais, tentou correr. Porém, mãos rudes a agarraram pelo braço e jogaram-na no chão, fazendo-a gritar de medo e dor.

Tenso, Nigel cerrou os punhos, ficando com todos os sentidos alertas. Alguma coisa estava errada. Como não havia sinal de inimigos por perto, devia ser Gisele quem despertara a súbita preocupação. Depois de horas fugindo, talvez estivesse apenas imaginando que o perigo os cercava. Então, ouviu um grito abafado e embrenhou-se dentro da mata, com a espada em riste.

Ao avistar o sujeito de pé, Gisele indefesa, caída no chão, ele precisou se conter para não correr em auxílio da pobre dama. O infame poderia matá-la facilmente, antes que chegasse perto. Estranho o mercenário estar só. Ou tratava-se de um batedor, ou o canalha preferira abandonar os companheiros e agir sozinho para não ter que dividir a recompensa com ninguém. Pois o faria pagar caro pela ganância.

— Você quer me matar, ou me entregar aos outros para que façam o trabalho sujo? — Gisele perguntou, esforçando-se para conservar a coragem. Precisava estar atenta a qualquer possibilidade de escapar de seu algoz.

— Será mais fácil transportá-la se você estiver morta. -— Um sorriso de dentes podres iluminou as feições grosseiras.

— Quanta coragem você demonstra, matando uma mulher indefesa e desarmada.

— Você não passa de uma vagabunda assassina. Não será melhor morrer rapidamente pelo fio da espada, do que lentamente na forca?

— Prefiro não morrer de jeito nenhum — retrucou Gisele, determinada a não deixar transparecer o pavor. — Impressiona-me o número de pessoas dispostas a acreditar em qualquer coisa que os DeVeau falam. Ricos e poderosos eles podem ser, mas é sabido que não possuem honra. A verdade é algo que também não apreciam.

— Que importância isso tem para mim? Essa briga é entre você e eles. E são eles os donos do dinheiro.

— Eu também tenho dinheiro.

O canalha riu debochado.

— Ninguém tem tanto dinheiro quanto os DeVeau, nem o rei.

— Então é a ganância que o faz manchar as mãos com o sangue de uma mulher inocente.

— Inocente ou não, não importa. E minhas mãos já estão muito manchadas. Mais umas gotas de sangue não farão a menor diferença.

Vendo-o mover-se para desferir o golpe fatal, Gisele se esforçou para ficar de pé, desesperada para fugir à ponta da espada. Então o sujeito arregalou os olhos e, com uma expressão aparvalhada, caiu de joelhos. Morto.

— Eu estava procurando convencê-lo a não me matar — murmurou Gisele numa voz entrecortada, observando Nigel limpar o sangue da lâmina na roupa do infame.

—E havia alguma chance de ser bem-sucedida? — Murray ajudou-a a levantar-se, amparando-a por causa dos tremores que a sacudiam, e começou a caminhar para o local onde tinham deixado os cavalos.

— Nenhuma chance. A ganância já o havia cegado, impedindo-o de enxergar a verdade.

— Seu primo a avisou.

— Eu sei. Amargura-me admitir que David estava certo. Bem no fundo, eu acreditava que o fato de ser mulher, frágil e vulnerável, me oferecia alguma proteção. Ledo engano.

— Os homens dos DeVeau não se importariam à mínima se você fosse uma criança. E, pelo visto, a ordem é matá-la e não capturá-la com vida.

— Você acha que o rufião que me atacou agia sozinho?

— Sim. O canalha não queria dividir o dinheiro da recompensa com ninguém. A cobiça acabou despachando-o para a cova mais cedo. — Nigel ajudou-a a montar e os dois retomaram a jornada. — O que não tenho certeza é quanto os outros estão longe daqui.

Gisele estremeceu de pavor. Desta vez, estivera muito próxima de pagar com a vida pelo crime que não cometera. Embora tentasse agarrar-se à esperança, os efeitos daquele encontro com a morte haviam minado suas forças. Precisaria de algum tempo para se recuperar do choque.

O confronto também servira para apontar suas falhas de raciocínio. O que mais temera, desde o início, fora ser capturada e arrastada de volta para o castelo dos DeVeau, onde seria submetida a um julgamento injusto. Nem por um instante acreditara que alguém, além dos DeVeau, se atreveria a matá-la. Imaginara que seus perseguidores honrariam o código dos cavaleiros, se não protegendo, mas pelo menos não ferindo uma criatura mais fraca. Fora uma tolice alimentar tais idéias. O tipo de homem capaz de se associar aos DeVeau desconhecia o significado da palavra integridade. Tinha que aceitar a dura realidade. Não estava apenas tentando escapar da fúria da família do marido, mas de todos os caçadores de recompensa.

— Não fique tão assustada, milady — disse Nigel, jurando a si mesmo redobrar a cautela. Pensar que quase a perdera enlouquecia-o de dor. — Não estamos vendo, nem escutando nada, portanto, nossos inimigos não estão nos espreitando.

— Tampouco vimos, ou escutamos aquele homem.

— Sim, de fato. Mas agora sabemos que a cobiça os impede de agir em conjunto e estaremos preparados para enfrentá-los.

— Precisaríamos de pelo menos mais um par de olhos para uma vigilância contínua.

— Ajudaria se tivéssemos um aliado conosco. Por outro lado, é muito mais fácil duas pessoas se esconderem do que três, ou mais. E como poderíamos estar seguros sobre em quem confiar? Eu confiaria nos membros do meu clã, mas eles não estão aqui.

— E eu não confiaria na minha família — ela emendou tristemente. — Confiei em Guy, e só.

—Você não considera seu primo David digno de confiança?

—Não completamente. Por quase um ano ele esteve entre aqueles que me condenaram. Agora, por afirmar ter mudado subitamente de idéia, devo acreditar? Acho que não. Quando fui acusada de assassinar meu marido, minha família perdeu todos os privilégios, todos os benefícios que gozava junto dos DeVeau. Como posso ter certeza de que não estão tentando remediar a perda se apossando do prêmio oferecido por minha cabeça?

Durante vários minutos, Murray nada respondeu, pois não queria argumentar em favor da família de Gisele. Não conhecia nenhum deles, portanto, como defendê-los? Sua própria família jamais o trairia, porém a dela já se mostrara capaz da mais pérfida deslealdade.

— Você não deve julgar seus parentes de forma tão dura. Sim, eles a traíram recusando-se a acreditar na sua inocência, negando-se a ajudá-la a escapar da sanha dos DeVeau. Mas acusá-los de estar tentando lucrar com a sua morte é ir longe demais.

— Entretanto, você não descarta essa possibilidade, não é mesmo?

— Não. Apenas não permita que a amargura da primeira traição contamine seus julgamentos futuros e a impeça de voltar a confiar na sua família. Admito que eles não sejam perfeitos e foram desleais. Mas lembre-se de que nem todos a desertaram e que muitos cometeram apenas o pecado da omissão. E quando há sincero arrependimento, temos que ser capazes de perdoar.

Gisele sorriu e as palavras de Murray deram-lhe um pouco de paz. Doía-lhe pensar que considerava a esmagadora maioria da própria família indigna de confiança. Mas nem todos eram seus inimigos. Guy arriscara a vida para salvá-la. David dissera-se disposto a provar sua inocência a qualquer custo. Sim, existia esperança. Quem sabe quando tudo estivesse acabado, poderia retornar ao lar?

 

A água fria e límpida fora um bálsamo para seu corpo cansado após um dia inteiro sobre a sela. Sentada à beira do lago, Gisele, já vestida, terminou de secar os cabelos e olhou ao redor. Nigel havia escolhido um lugar maravilhoso para acamparem.

Árvores altas e frondosas cercavam a pequena clareira, protegendo-os de olhares estranhos. As flores, naquele final de primavera, espalhavam-se a perder de vista numa profusão de cores e perfumes. Tudo ali transmitia serenidade e Gisele, pela primeira vez em muito tempo, sentiu a alma leve. Difícil acreditar que algum mal poderia invadir o paraíso. Mas seria tolice permitir-se alimentar uma falsa sensação de segurança. Se Nigel pudera encontrar recanto tão belo, também poderiam os enviados dos DeVeau.

Agitada, levantou-se e pôs-se a reunir gravetos para uma fogueira. Manter-se ocupada ajudava-a a não pensar muito. Pensar demais sempre a enchia de preocupações e medos.

Após acender o fogo, tornou a sentar-se, com os olhos fixos no horizonte. A beleza do pôr-do-sol roubava-lhe o fôlego e a comovia de uma maneira quase assustadora em sua intensidade. Sem que percebesse, seus pensamentos voltaram-se para o que havia acontecido na hospedaria. Ainda não sabia se compreendera bem o que Nigel lhe fizera. Jamais imaginara que tais sensações existiam.

Seriam essas as emoções que os menestréis descreviam em suas canções? O fato de um homem, com o toque dos lábios e das mãos, despertar sentimentos tão ardentes explicava por que algumas mulheres arranjavam amantes. Exposta à brutalidade do marido, nunca entendera por que qualquer mulher procuraria de livre e espontânea vontade, contato físico com um homem. Agora as peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar…

Imaginara que ao ser seduzida por Nigel iria se sentir ofendida, furiosa, apavorada. Pois não experimentara nada disso. O escocês não a forçara a suportá-lo, não se valera de táticas desonrosas, ou cruéis. Apenas a acariciara.

E ela, longe de permanecer indiferente, reagira com impetuosidade, chegando a gritar a plenos pulmões! Mais uma fraqueza entre as muitas que possuía.

Seria obrigada a tomar uma decisão em relação a Nigel. Impossível negar, ou ignorar, a atração mútua. Antes de se acomodarem para a noite, tinha que resolver se pretendia deixá-lo ir até o fim, ou encerrar aquela história.

Gisele levou um susto quando o cavaleiro surgiu a seu lado, trazendo uma perdiz pronta para assar. Na esperança de não deixar transparecer a natureza de seus pensamentos, sorriu alegremente.          

— Então teremos um banquete esta noite.

— Temos que aproveitar as ocasiões de fartura. — Nigel colocou a ave no espeto sobre o fogo e sentou-se ao lado da dama. — Assim fica mais fácil agüentar os períodos de penúria.

— Será? Sempre achei a penúria mais difícil, depois de se conhecer a fartura.

Ele riu com prazer.

— Ah, você é uma daquelas que prefere se preparar para o pior.

De fato. Desde pequena aprendera a esperar o pior, talvez por medo de se decepcionar. O casamento com DeVeau não a inspirara a mudar de atitude.

— Não há nenhum mal em se preparar para o pior, sir.

— Não, não há. No entanto, não se deve viver esperando apenas o pior, a tragédia, a morte. Essas expectativas envolvem a alma na escuridão.

— É o que minha avó costumava dizer.

— Uma senhora sábia.

— Por que ela partilhava da sua opinião?

— Sim — Murray retrucou, ficando repentinamente muito sério. — Há verdade naquilo que sua avó lhe dizia. Quando se enxerga somente o mal, as trevas acaba-se acreditando que não existe bondade no mundo e espera-se sempre o pior das pessoas. Não é uma boa maneira de viver a vida.

— Eu sei. E se estivesse predestinada a me tornar uma mulher amarga, desiludida, meu casamento teria me transformado num poço de fel.

— Tem certeza de que isto não aconteceu?

— Não completamente. Nos últimos meses, não tenho tido muitas oportunidades de conhecer o lado bom das pessoas, de alimentar esperanças. Porém, ainda não perdi a capacidade de apreciar a beleza. Percebi não estar morta por dentro quando chegamos a esse lugar. No fundo do coração, anseio reencontrar a paz, desejo tornar a confiar nos outros. Quando voltar a ser uma mulher livre, não mais serei mórbida.

Enquanto Nigel virava a ave no fogo para que terminasse de assar, Gisele encarregou-se de apanhar dois pratos de metal nos alforjes, além de pão e vinho. Estava com tanta fome que por pouco não se atirou sobre a perdiz. Sua avó ficaria feliz de ver como seu apetite aumentara.

— Por que você está sorrindo, milady? — Com uma faca, Murray dividiu a ave em partes iguais.

— Estava pensando em como nana gostaria de me observar comer assim. Ela sempre se preocupou com minha falta de apetite. Sempre tentava me convencer a me alimentar melhor.

— Uma preocupação típica dos mais velhos. Você é mesmo pequenina, delicada, e inspira esses cuidados.

Gisele limitou-se a balançar a cabeça, ocupada demais em devorar a perdiz. Portanto, não se surpreendeu quando, dali a minutos, descobriu não haver sobrado uma única migalha para a refeição seguinte.

Depois de enterrar os ossos da ave num buraco, para evitar que animais carniceiros rondassem o acampamento durante a madrugada, lavou os pratos no lago, secou-os e guardou-os no alforje, sentindo Nigel acompanhar cada um de seus movimentos, e inquietando-se com a intensidade daquele olhar fixo.

Sorrindo intimamente ante o nervosismo de Gisele, ele caminhou até uma área do lago, protegida por densa folhagem, e banhou-se. Nervosismo era algo que poderia aplacar com palavras ternas e beijos. Já ultraje e raiva seriam sinais de que cometera um sério erro naquele quarto de hospedaria. Ansiava possuí-la. Quando a tivera nos braços preferira não se aproveitar do momento de paixão ardente e consumar o ato. Pelo pouco que soubera acerca do casamento trágico, Gisele nunca fora amada de verdade, apenas repetidamente estuprada. Nunca conhecera o prazer, apenas dor e humilhação. Assim, achara ter chegado a hora de mostrar-lhe que o toque de um homem podia proporcionar-lhe sensações deliciosas, a hora de mostrar-lhe que o corpo de um homem podia lhe dar alegria, sem tomar nada em troca. Reconhecia a necessidade de ser paciente com Gisele, mas estava difícil controlar o desejo.

Ao retornar ao acampamento, Murray notou que ela havia preparado as camas de ambos, se não unidas, pelo menos não muito distantes. Se a linda francesa estivesse decidida a pôr um ponto final no jogo de sedução, sem dúvida teria estendido o cobertor do outro lado da fogueira.

Subitamente tímida Gisele nem sequer conseguiu fitar o cavaleiro quando este se deitou. As coisas só ficariam mais; complicadas se não se portasse com naturalidade. Era adulta! Deveria ser capaz de encará-lo e dizer exatamente o que lhe passava pela cabeça.

Enquanto estivera sozinha, tomara uma decisão. Nigel a fizera experimentar sensações indescritíveis. Agora queria descobrir o que poderiam partilhar juntos. Quanto mais pensava no assunto, mais acreditava que cabia àquele estrangeiro dissipar seus medos. Se, ao menos uma única vez na vida, conhecesse a ternura, a paixão e o prazer nos braços de um homem, talvez pudesse se libertar das lembranças sombrias.

Uma vozinha interior tentara, com insistência, convencê-la a não manchar sua reputação, porém tratara de silenciá-la. Ainda que viesse a ser proclamada inocente do crime de que a acusavam, sua reputação já havia ficado irremediavelmente manchada. Durante quase um ano estivera entregue à própria sorte e agora passava dias e noites na companhia de um estranho. A história de sua fuga com o escocês espalhara-se aos quatro ventos e a conclusão óbvia seria a de que haviam se tornado amantes. Ainda que o negasse veementemente, ninguém lhe daria ouvidos. Como se não bastasse esse escândalo, tivera a audácia de cortar os cabelos e vagar pela França vestida como um rapaz. Considerando que todos a julgavam, além de assassina, pecadora adúltera, por que recusar o prazer?

Mas como fazer sir Murray perceber que estava disposta a continuar o que haviam começado na hospedaria? Nunca fora cortejada, ou seduzida. Não sabia como se comportar. A única coisa que lhe ocorrera fora colocar as camas perto uma da outra na esperança de que sua mensagem fosse compreendida.

Armando-se de coragem, inspirou fundo e fitou Nigel, odiando-se por corar da cabeça aos pés. Se queria convencê-lo de que sabia muito bem o que estava fazendo, se queria deixar claro que não iria cobrar-lhe, nem pedir-lhe nada além de paixão, devia agir como uma mulher madura. Todavia, apesar de se esforçar para falar algo, permaneceu muda.

Sorrindo, Nigel acariciou-a de leve no rosto. Apesar de tudo pelo que passara, Gisele continuava pura, inexperiente na arte do flerte e da sedução. A virgindade lhe fora brutalmente roubada pelo marido, porém não a inocência.

— A maneira mais fácil, milady, é colocar sua cama mais perto da minha.

A facilidade com que ele adivinhava seus pensamentos a perturbava. Certamente aquela era a maneira mais fácil de dizer sim.

— Você tem certeza? — Nigel insistiu, beijando-a na base no pescoço.

— Estou aqui, não estou? — A rouquidão da própria voz não a surpreendia, as incertezas e o embaraço iniciais haviam se transformado num desejo voraz.

— Verdade. Mas por que realmente está em meus braços?

—Não estou tentando saldar uma dívida, ou alguma outra tolice assim, se é o que está pensando.

— Acalme-se, minha bela. Confesso que esse pensamento me ocorreu, mas logo o descartei. Você é orgulhosa demais para se valer de determinados métodos.

— Não sou tão destituída de astúcia — retrucou ela, sem saber se o comentário fora um elogio, ou não.

— Oh, pelo contrário. Você é muito sagaz, muito mais do que alguns homens apreciariam. Quanto a mim, acho uma característica encantadora. Apenas não a julguei capaz de agir contra seus princípios, ainda que por motivos honrosos. E, como falei você é orgulhosa demais.

De repente Gisele se deu conta de estar quase nua. Prestara tanta atenção nas palavras do cavaleiro, abandonara-se tão completamente às carícias insistentes que pouco percebera o que acontecia. Estava para se entregar a um homem com vasta experiência sexual, um homem que já tivera tantas amantes que nem sequer se recordava do rosto e do nome delas.

— Você despe uma mulher com uma habilidade e rapidez admiráveis, sir — murmurou embaraçada.

— Qualidades que você parece não aprovar muito. — Sorrindo, Nigel desfez o laço da túnica fina, a única peça de roupa que ainda a cobria.

— Talvez não.

— Minha pobre e linda dama. — Beijando-a gentilmente nos lábios, ele livrou-a da túnica sem, no entanto, deixar de fitá-la. — Sim, durante os últimos sete anos comportei-me como um bastardo insensível. Para minha completa vergonha, estava bêbado na maior parte do tempo em que me deitei com qualquer mulher.

—Eu só não queria ser mais uma na sua extensa lista de conquistas. Não estou lhe pedindo promessas, ou compromisso. Só não quero ser um nada. Já o fui uma vez e não desejo, jamais, repetir a experiência.

— Você nunca poderia ser um nada, querida.

Quando a boca ávida pousou sobre um de seus mamilos e começou a sugá-lo, Gisele gritou descontrolada, e, agarrando Nigel pelos cabelos, puxou-o ainda para mais perto de si. Sabia estar indo longe demais, sabia que o sensato seria pôr um paradeiro naquela loucura, porém não tinha forças para voltar atrás. Enfim iria descobrir as emoções eternizadas pelos menestréis em suas canções e estava disposta a pagar o preço para se libertar dos fantasmas do passado.

Deixando-se beijar e acariciar, ela deslizou as mãos pelas costas largas de Nigel, sentindo a firmeza dos músculos, a maciez da pele a embriagar. Como gostaria de saber mais sobre como tratar um homem, para poder retribuir o prazer que o escocês estava lhe dando.

Então Nigel tirou a calça e colou seu corpo ao dela, o sexo rígido pressionando-a na coxa. Embora se esforçasse para impedir que as lembranças sombrias destruíssem a magia do momento, temia não ser capaz de mantê-las à distância indefinidamente. Beijos e carícias tinham sido fáceis de aceitar sem medo, porque não lhe pareceram ameaçadores. Mas o membro intumescido era algo que sempre associara à dor e à humilhação. Seria penoso, senão impossível, acreditar que a mesma parte de um homem, que sempre fora usada contra ela como uma arma poderia ser agora fonte de prazer. À beira do pânico, perguntou-se se toda a doçura encontrada nos braços do estrangeiro se transformaria em horror.

Sentindo-a subitamente tensa, Nigel resistiu ao impulso de possuí-la antes que o pavor a levasse a mudar de idéia. Não apenas seria errado agir assim, como acabaria convencendo-a de que todos os homens eram iguais. A possibilidade de vir a ser comparado ao execrável DeVeau permitiu-o manter o próprio desejo em rédeas curtas.

— Olhe para mim, Gisele — ele falou baixinho, beijando-a nos lábios.

— Não sei se quero abrir os olhos.

— Vamos, olhe para mim. Veja quem está a ponto de amá-la. Se você conservar seus belos olhos fechados, receio que as feridas em seu corpo e sua alma nunca cicatrizarão.

Devagar, ela obedeceu, compreendendo a sensatez do argumento. Se não pusesse um rosto, um nome, naquele que iria penetrá-la, os horrores de que fora vítima subverteriam quaisquer sensações prazerosas.

— Pronto. Estou olhando para você — murmurou ainda relutante.

— Você não precisa temer o falo, milady, apenas o homem que o empunha.

— Eu sei. Racionalmente, sei que é assim.

— Então fique com os olhos bem abertos, minha doce rosa francesa, para que sua mente e seu coração não se esqueçam deste abraço e para que as lembranças daquele canalha não destruam o que podemos partilhar juntos.

Trêmula, Gisele o enlaçou pelo pescoço e beijou-o na boca, esforçando-se para relaxar no instante da penetração.

De súbito, uma sensação deliciosa começou a se avolumar, à medida que Nigel acelerava o ritmo das investidas. E o que era delicioso no início, logo se transformou em desesperadora urgência. Enlouquecida de desejo, enterrou as unhas nos ombros fortes e deixou-se arrastar numa torrente de emoções avassaladoras. Gritando o nome dele, atingiu o clímax, sendo sacudida violentamente por tremores incontroláveis. Como se de muito longe, escutou Nigel sussurrar seu nome enquanto a inundava com seu sêmen. Vários minutos se passaram antes que ela voltasse à realidade.

— Você está bem, querida?

Como podia estar tão sonolenta se, instantes atrás, cada nervo de seu corpo parecera em fogo?

— Estou ótima, sir Nigel.

— Você não acha que poderia me chamar simplesmente de Nigel agora?

— Então estou ótima, simplesmente Nigel.

Ele riu e a aconchegou junto do peito, não se surpreendendo ao ver que a bela dama adormecera. Alegrava-o ter sido o homem capaz de ajudá-la a superar os traumas do passado. Porém o que mais o enternecia fora Gisele tê-lo escolhido. O instinto dizia-lhe que não haveria arrependimentos. Ela não era o tipo de sofrer depois de uma decisão tomada.

Provavelmente seria ele quem remoeria dúvidas e incertezas. Já estava começando a sentir-se culpado. Não se lembrava de, alguma vez, experimentar tanto prazer, tanta plenitude, no ato sexual. Não sabia que nome dar a esse sentimento novo. Com certeza não podia prometer nada a Gisele. Pelo menos até entender o que se passava em seu próprio coração. Mas, embora ela não houvesse lhe pedido juras de amor eterno, ou promessas de um compromisso futuro, achava-a merecedora de mais do que lhe oferecia agora.

Antes de entregar-se ao sono, Nigel decidiu que passariam um ou dois dias naquele refúgio, no meio da mata. Afinal, haviam se distanciado o suficiente dos DeVeau para permitirem-se algum repouso. Talvez, com mais tempo para descansar e saborear a paixão mútua fosse capaz de vir a entender sua confusão interior. Devia a Gisele o melhor de si, depois de haverem partilhado aquele momento único.

 

Insidiosos, os ardores da paixão despertaram Gisele e a arrastaram na direção do prazer. Conduzida por Nigel, ela percorreu os caminhos sinuosos do desejo até que toda vergonha, toda insegurança, todo medo se dissolvessem no ar. Apenas quando totalmente saciada é que o embaraço e a incerteza se atreveram a espreitá-la. Não fora o que lhe haviam ensinado sobre como uma dama de alta estirpe devia agir. Estava quebrando tantas regras, da Igreja e da sociedade, que começava a sentir-se culpada. Na primeira vez, tivera a desculpa de que tentava superar os traumas do passado. Agora, porém, não existiam justificativas para se entregar ao sexo. Não estaria parecendo uma meretriz?

— Arrependimentos? — indagou Nigel, apreensivo ao notar sinais de preocupação no rosto delicado.

— Debatia-me em dúvidas.

— Superou-as?

— Estou me esforçando. Quando a curiosidade me impelia a querer conhecer a paixão destituída de medos era mais fácil justificar e desculpar meu comportamento. Agora estou apenas me comportando mal.

— Pois acho que você se comportou muito bem — ele murmurou, fingindo sentir dor ao levar um beliscão no braço.

— Este é um assunto sério e você precisa demonstrar mais respeito. — Gisele não pôde deixar de sorrir ante a expressão subitamente contrita do cavaleiro. — Mas não tema. Não vou tentar culpá-lo de tudo o que aconteceu entre nós.

— Isto jamais me preocupou. Você é uma mulher sensata. E justa.

— Sem dúvida sou como a maioria das mulheres.

Apesar de não concordar inteiramente com o ponto de vista da jovem dama, Nigel preferiu não iniciar uma discussão. Discordar implicaria em contar-lhe sobre as mulheres sem caráter com as quais cruzara.

— Então o que a angustia?

— Comecei a pensar nas regras que estou quebrando.

— Não mais do que muitas outras mulheres já quebraram.

— O que não torna essa situação certa, ou aceitável.

— Não, claro que não. Porém isto não a transforma numa grande pecadora. — Estaria Gisele disposta a pôr um ponto final no relacionamento dos dois, exigindo que não mais a tocasse?

— Sim, eu sei. Mas acho que levarei algum tempo para superar a culpa provocada por meu comportamento irresponsável. Antes de dizer “sim”, procurei analisar todos os aspectos da situação. Depois de quase um ano vivendo sozinha, vagando de um lado para o outro, ninguém acreditaria na minha palavra a respeito de coisa alguma. Assim, já estando previamente condenada, resolvi fazer o que queria. — De repente, ela notou que o sol ia alto no céu. — Vamos começar a jornada mais tarde hoje?

— Não iremos a lugar nenhum hoje. — Nigel levantou-se e vestiu-se depressa.

— Como assim?

— Temos direito a um descanso prolongado.

—Você julga que os DeVeau estejam descansando agora?

— Provavelmente não. Nossos inimigos não estão por perto.

Agitada, Gisele cobriu-se com o cobertor enquanto procurava pelas roupas.

— Detesto questioná-lo, mas você tem certeza de que não seremos cercados de uma hora para outra?

— Milady, estamos próximos do porto. Creia-me, os DeVeau já estão lá, à nossa espera. Estou certo de que não há ninguém nessas matas. Em todo caso, pretendo preparar algumas armadilhas, caso um intruso invada nosso santuário.

Em silêncio, Gisele observou-o sumir no meio da vegetação. Seria bom passar um dia sossegada, um dia sem cavalgar, sem olhar por sobre o ombro a cada segundo. Mas seria sensato?

Não, não devia duvidar de Nigel. Ele sabia o que estava fazendo. Descansar um pouco lhes restauraria as forças para empreender o resto da jornada. Também estava convencida de que o escocês possuía outros planos para ambos, além de descansar.

Quando a culpa ameaçou roubar-lhe a alegria momentânea, Gisele tratou de sufocá-la. Escolhera aquele caminho e nele permaneceria. Existiam crimes piores que poderia haver cometido. Faria penitência depois. Mesmo que passasse meses de joelhos, rezando o terço, a paixão vivida nos braços de Nigel teria valido a pena.

Aproveitando-se da solidão, sentou-se na beira do lago, pensando ainda no escocês. O que aconteceria quando o verdadeiro assassino de DeVeau fosse desmascarado e estivesse livre para partir? Não haveria um futuro para os dois. Doía-lhe tanto imaginar um futuro sem Nigel, que todas suas outras preocupações tornavam-se menores.

— Idiota! — ela xingou-se baixinho.

— Falando sozinha?

A surpresa quase a fez perder o equilíbrio e cair na água.

— Qualquer dia desses você vai me matar de susto.

— Por que você está se chamando de idiota?

— Porque pareço não saber desfrutar de um dia de paz. — Só esperava que sua mentira o convencesse.

— Há tempos você não descansa e desacostumou-se à sensação.

— Talvez, depois de meses fugindo e me escondendo, eu ache errado não fazer nada.

— Então precisamos mantê-la ocupada.

— Manter-me ocupada? — Confusa Gisele aceitou a mão que o cavaleiro lhe estendia para ajudá-la a levantar-se.

— Vamos, milady, confie em mim e pare de questionar meus motivos. — Murray beijou-a ávida e rapidamente nos lábios. — Você não me pediu para ensiná-la a andar sem fazer barulho?

— Confesso que sempre invejei essa sua habilidade, necessária para alguém que, como eu, passará uma eternidade se escondendo.

— Isto logo terminará.

— Como você pode ter tanta certeza?

— Seus parentes agora se empenham em inocentá-la.

— Mas se, como você acredita, eu matei meu marido, como minha família poderá me livrar da acusação? Os De-Veau são ricos e poderosos, possuem ligações com o rei. Poucos me poupariam simplesmente por acharem que meu marido merecia mesmo morrer. Poucos achariam que apenas fiz justiça com minhas próprias mãos.

— Venha comigo.

— Você não me respondeu.

— Você tenta me fazer cair em contradição com questões difíceis de responder e suposições inteligentes, milady.

— Talvez.

— Não há talvez neste caso. Se eu responder de um jeito, você me ouvirá admitir que a considero culpada. Se responder de outro, dirá que a considero inocente. Como ainda não me decidi, é melhor não responder absolutamente nada.

— Oui, estou tentando descobrir se você me julga culpada ou inocente. Nós nos conhecemos há duas semanas e estamos juntos há uma, e você ainda não se decidiu? Realmente me acredita uma sanguinária? Sim, pensei em matar meu marido muitas vezes e, num caso extremo, talvez pudesse chegar a fazê-lo. Porém nunca o haveria mutilado, por mais que odiasse aquela parte de seu corpo. Tampouco o teria torturado antes de matá-lo.

— Sim, acho difícil crer que você desmembraria um homem. — De fato, mesmo se Gisele o houvesse feito, teria sido em autodefesa e não merecia ser acusada de assassinato. — Por que você nunca chama seu marido pelo primeiro nome? Por que é sempre DeVeau?

Gisele sentia-se como se estivesse batendo a cabeça contra uma parede muito dura e decidiu pôr um fim à discussão. Não apenas o ceticismo de Nigel quanto a sua inocência a enfurecia, como a magoava profundamente. Temia insistir na questão e estragar um dia que poderia ser muito especial.

— O nome dele era Michael. Só o chamei assim uma vez, na cerimônia de nosso casamento. Depois da noite de núpcias, passei a chamá-lo somente de DeVeau, e de outras coisas horríveis, quando ninguém podia me escutar. No início, me atrevi a chamá-lo de canalha e covarde em voz alta, mas as surras me ensinaram a ser mais discreta.

Nigel abraçou-a com força, maldizendo DeVeau. Eram essas histórias que o faziam hesitar em acreditar inteiramente na inocência de Gisele. Mulher orgulhosa, de personalidade marcante, seria natural que, após tantas humilhações e violência, se rebelasse, tomando uma atitude drástica no auge da fúria. Também existia a possibilidade de que, horrorizada ante a tragédia, tivesse apagado o acontecimento da memória. Só gostaria que sua demora em chegar a uma conclusão não a incomodasse tanto.

— Você ia me ensinar a andar pela mata como se fosse um fantasma, sem fazer barulho — ela o lembrou, desvencilhando-se do abraço.

— O traque é pisar primeiro com os dedos e então com o calcanhar, evitando colocar todo o peso do corpo nos pés.

— Então devo levitar?

Ele riu e tomou-a pela mão.

— É um pouco difícil de explicar. Observe-me com atenção e procure me imitar.

Aplicada, Gisele tentou, tentou e tentou imitá-lo. Ao tropeçar pela milésima vez, desistiu. Maldizendo a própria falta de jeito, sentou-se na grama e massageou as pernas doloridas.

— Você não se saiu tão mal, milady. — Nigel sentou-se no chão também.

— Ah, não perca tempo me consolando. Fui horrível e minhas pernas doem.

— É natural que doam no começo. Não desanime, você esteve perto de fazer direitinho.

— Perto? Eu avançava tão lentamente que até um coxo poderia me ultrapassar. Não é um truque que se aprenda fácil e rapidamente.

— Não. Ensinaram-me quando eu era rapazinho e embora os jovens costumem aprender as coisas depressa, demorei até conseguir dominar a técnica.

— Por que lhe ensinaram essa habilidade? Afinal, você é um cavaleiro.

— Sim. Contudo sempre existe a possibilidade de vir a perder a montaria, ou o cavalo pode se tornar um estorvo em determinadas situações, como numa ação secreta, por exemplo.

Uma troca de olhares e, não mais que de repente, os dois estavam deitados na grama, beijando-se avidamente. Quando ele começou a despi-la, Gisele perguntou-se se teria coragem de entregar-se às delícias do sexo em plena luz do dia. Porém bastou a boca sensual se apossar de seus seios nus, para toda a hesitação se dissipar.

Louca de desejo deslizou as mãos pelo corpo musculoso do escocês com crescente ousadia. Prendendo a respiração, por medo de estar fazendo algo impróprio, tocou a enorme ereção. Sentindo-o estremecer, quis se afastar, convencida de que o incomodara. Porém dedos fortes a prenderam pelo pulso, incentivando-a a retomar a carícia.

Durante vários segundos ela explorou a textura do membro rígido, maravilhando-se ante a maciez da pele retesada. De súbito, Nigel afastou-se.

— Desculpe-me — Gisele murmurou constrangida, embora não soubesse bem por que estava se desculpando.

— Não, querida, você não fez nada errado. Na verdade, fez tudo certo demais.

— Então por que você me impediu de continuar? Pensei tê-lo machucado de alguma maneira.

— Há um limite para o prazer que um homem consegue agüentar. — Devagar, Nigel cobriu-a de beijos, dos seios até o umbigo. — Se eu a deixasse continuar, perderia o controle de mim e quero prolongar esse momento.

Antes que pudesse responder, Gisele sentiu a língua firme tocá-la no ponto mais secreto de sua feminilidade. Chocada com a intimidade da carícia, tentou empurrá-lo, mas Nigel, segurando-a pelos quadris, impediu-a de mover-se. Logo o choque era substituído por um prazer indescritível. Transtornada de paixão, Gisele entreabriu as coxas, oferecendo-lhe amplo acesso. Um orgasmo devastador deixou-a a inconsciência.

E mal havia se recuperado da emoção arrebatadora, quando Nigel a penetrou, arrastando-a novamente num turbilhão de sensações alucinantes. Os dois atingiram o clímax juntos desta vez, gritando o nome um do outro como se estivessem sozinhos no mundo.

— Você sabe nadar, milady? — ele perguntou quando, enfim, saíram do torpor provocado pela extrema saciedade.

— Oui, minha avó insistiu para que eu aprendesse. — Ao se dar conta do que o cavaleiro planejava, teve tempo apenas de tentar ensaiar um protesto antes de ser atirada no lago. Instantes depois, ele a seguia.

Depois de se banharem, fizeram amor na água, calma e lentamente, saboreando cada segundo como se fosse o último. Então, exaustos, saíram do lago e deitaram-se na grama macia, permitindo que o sol os secasse.

Aconchegada ao peito de Nigel, envolvida pelo silêncio da tarde, Gisele começou a se questionar. Teria ficado doida? Custava a crer que estivesse deitada, nua, junto de um homem que conhecera há duas semanas! Nunca ficara nua na frente de ninguém, nem do marido! De onde tirara tamanha ousadia? Onde fora parar a decência? A moralidade?

No fundo, sabia exatamente por que estava se comportando desse modo indecoroso. Nigel mostrara-lhe os prazeres do sexo e, quando nos braços dele, todo o resto cessava de existir, ou importar. Após um ano sozinha, atormentada pelas lembranças sórdidas, dominada por medos e desconfianças, tendo a alma e o corpo dilacerados por cicatrizes, tivera a chance de renascer para a vida e redescobrir a própria feminilidade.

Tomando Gisele, ainda adormecida, nos braços, Nigel, levou-a para o centro do acampamento e cobriu-a com o cobertor. Rapidamente vestiu-se e, tendo o cuidado de deixar a adaga ao alcance das mãos da jovem dama, embrenhou-se no mato.

Já passara da hora de se certificar de que não corriam perigo. Ficara tão cativado pelo ardor de Gisele, tão mergulhado na paixão que os engolfara, que perdera a noção de tempo e espaço.

O ímpeto da bela francesa fora uma surpresa. Uma surpresa mais do que bem-vinda. Uma vez superadas as lembranças traumáticas, ela se abandonara em suas mãos, confiante e ardorosa. Jamais se esqueceria do que houvera entre os dois.

Gisele acordou com água na boca, ao sentir o cheirinho delicioso de carne assada fazendo o estômago roncar. Com dificuldade, tentou se vestir sob o cobertor, e seus esforços desajeitados pareciam divertir Nigel. O escocês nunca compreenderia por que se sentia embaraçada agora, após passar quase o dia inteiro nua, perambulando para lá e para cá. De fato, nem ela mesma entendia o súbito acesso de timidez.

Enquanto o cavaleiro permanecia junto da fogueira, atento à carne, Gisele buscou alguns segundos de privacidade na mata e retornou ao acampamento, notando que sua pressa divertia Nigel ainda mais. Aliás, tudo dava a impressão de alegrar aquele homem.

— Seu bom humor excessivo está acabando com o meu — ela resmungou, lançando-se sobre sua porção do coelho com indisfarçável entusiasmo.

— É a fome que a deixa mal-humorada, querida — brincou o cavaleiro, satisfeito de vê-la devorar a comida.

A velocidade com que terminaram a refeição fez Gisele sentir-se envergonhada de sua voracidade. Mas cercada pela beleza da paisagem, repleta de comida e sexualmente saciada, quase podia acreditar que tudo daria certo.

— Foi um dia ótimo. — Ela corou receosa de levá-lo a pensar que se referia apenas ao sexo.

Sorrindo, Murray passou um braço ao redor dos ombros frágeis.

— Sim, tem sido um ótimo dia. Descansamos e os cavalos também. Estamos todos bem alimentados.

— E amanhã recomeçaremos nossa fuga.

—Receio que sim, querida. Precisávamos de um repouso, mas não é sensato permanecer num mesmo lugar quando somos perseguidos.

— Talvez Deus tenha misericórdia de nós e os atrase um pouco, permitindo-se alcançar o porto.

— Seria um presente maravilhoso, mas não acho que devamos contar com isso.

— Infelizmente, non. Pelo menos estamos vestindo roupas limpas. Por sorte aquelas que lavamos ontem secaram.

— Sim. É impressionante a falta que essas pequenas coisas nos fazem. Sinto falta de uma cama confortável também.

— Assim como eu.

— Há camas macias em Donncoill — Nigel beijou-a de leve no rosto.

— Estou ansiosa para chegarmos lá.

— Camas macias e muito grandes.

Gisele riu quando ele a deitou sobre o cobertor.

— Será que não deveríamos descansar para a viagem?

— A noite está apenas começando, milady.

— E você, sir Nigel, é insaciável.

— Sim, minha doce rosa francesa, sou mesmo insaciável.

Os dois se amaram quase com desespero, buscando um no outro a paz que o mundo se negava a lhes conceder.

E Gisele, mais do que nunca, entregou-se ao momento com pungente abandono. Talvez aquela fosse à última noite que passaria nos braços de Nigel. Precisava retê-la na lembrança, guardar cada detalhe, pois duvidava de que a felicidade voltaria a lhe sorrir um dia.

 

Alerta, Nigel olhou ao redor. Embora não houvesse sinais de algo suspeito, sentia-se inquieto. Por um instante desejou retornar à clareira e passar mais um dia de simples contentamento ao lado de Gisele.

— Alguma coisa errada? — ela perguntou apreensiva, observando-o pousar a mão sobre o cabo da espada

— Não tenho certeza.

— Mas você pressente o perigo, não?

— Sim, apesar de não ver, nem escutar nada.

— Seus instintos não nos falharam até agora. Creio que seria sensato dar-lhes ouvido.

— Sim. Então rumemos para o oeste. Será mais fácil escaparmos a uma perseguição nas colinas.

Não haviam avançado muito quando seis cavaleiros, dentre os quais dois arqueiros, saíram do meio das árvores. Um novo e apavorante perigo. Fugir de espadachins implicava duras cavalgadas, porém arqueiros significavam uma ameaça mortal à longa distância.

Se chegássemos colinas, teriam chance de encontrar abrigo e, talvez, lutar. Embora Gisele não soubesse manejar uma espada, para um guerreiro experiente como Nigel não seria impossível enfrentar seis oponentes e derrotá-los.

O escocês já não tinha dúvidas de que os DeVeau estavam a par de seu plano de alcançar o porto mais próximo e que se esforçariam, até o último segundo, para impedi-los de sair vivos da França. Os quilômetros que os separavam do porto se provariam intermináveis se não se livrassem dos mercenários.

Antes de iniciarem a escalada, quando os sons de seus perseguidores se tornaram indistintos, Nigel fez sinal para que Gisele desmontasse.

— Nós ainda não nos safamos, não é? — ela indagou num murmúrio nervoso.

— Não. Mas faremos menos barulho se empreendermos a subida a pé.

À distância, as colinas não haviam parecido tão íngremes e, de súbito, Gisele perguntou-se para onde estariam indo. Não reconhecia o terreno, tudo ao redor causava-lhe estranheza. Sentia-se perdida, desorientada.

Ao atingirem o cume, Nigel lançou mão do arco e flecha e tomou posição de ataque. Cautelosa, Gisele arriscou uma olhadela precipício abaixo, horrorizando-se ao ver os bandidos começarem a subir a trilha.

— Você acha que conseguirá matar todos os seis? — Nunca imaginara que sua luta pela liberdade viesse a provocar tantas mortes.

— Não. Porém é possível que quando eu atingir os dois arqueiros, os outros, dando-se conta de que não somos presas assim tão fáceis, se espalhem.

Não era o melhor plano que Gisele jamais ouvira, contudo que alternativas possuíam? Escondendo-se atrás de uma pedra, decidiu-se que aprenderia a lutar. Sua falta de habilidade em manejar a espada não se provara um problema enquanto tinham se limitado a fugir. Mas agora, cercados por seis inimigos, o que fora simples inabilidade se transformara em perigoso estorvo. Deveria ser um confronto de dois contra seis, não de um contra seis. Nigel não tinha ninguém para ajudá-lo.

Um grito ecoou lá de baixo e Gisele fechou os olhos. Logo outra flecha cortava o ar e Nigel, com sua pontaria certeira, derrubava o segundo alvo.

— Somente um covarde deu meia-volta e fugiu — ele anunciou, disparando a terceira flecha. — Agora restam apenas dois.

— Receio que, considerando os berros e as imprecações, você tenha enfurecido esses dois.

Sorrindo, o escocês depositou arco e flecha no chão e desembainhou a espada.

— Pretendo fazer mais do que só enfurecê-los.

— O que planeja?

— Caçá-los.

— Oh, por favor, não!

O cavaleiro beijou-a rápida e ardentemente.

— Fique aqui, milady, e mantenha a adaga à mão. Não creio que irá precisar usá-la, mas prepare-se para uma eventualidade.

Com o coração aos pulos, Gisele viu-o se afastar sem que pudesse dissuadi-lo. Embora confiasse no julgamento de Nigel e o considerasse capaz de vencer quaisquer confrontos, temia que algo desse errado. Aflita, desembainhou a faca e pôs-se a rezar.

Imóvel, Murray aguardou os inimigos. Decidira travar a luta longe de Gisele para poupá-la da cena enervante. Ouvindo os movimentos ruidosos dos mercenários, sorriu satisfeito. Talvez o embate se revelasse mais fácil do que antecipara. A raiva alimentava aqueles homens tornando-os, assim, imprudentes.

Ao deparar com o primeiro, que se sentara numa pedra para limpar o suor do rosto, vacilou. Repugnava-o atacar alguém pelas costas, ainda em se tratando de um crápula. Os breves instantes de hesitação permitiram ao adversário virar-se e encará-lo. O duelo durou poucos minutos e o choque das espadas soava como trovões na quietude das colinas. O infame morreu berrando.

Depressa, Nigel afastou-se do corpo do inimigo, convencido de que o outro rufião não tardaria a aparecer.

Bastou observá-lo vencer os últimos metros que os separavam para ter certeza de que aquele não seria tão fácil de matar. Apesar de corpulento, o sujeito movia-se com graça no terreno acidentado, tendo a espada em riste e revelando fraquejo e prontidão para o ataque.

— Ah, o bastardo estrangeiro, companheiro da vagabunda assassina. Onde está a pequena vadia?

— Num lugar onde você nunca irá encontrá-la — retrucou Murray também em francês, tentando avaliar os pontos fracos do oponente.

— Então você está querendo a recompensa apenas para si.

— Que homem não cobiçaria tanto dinheiro?

Gisele cobriu a boca com a mão para abafar um grito, maldizendo-se por não haver ficado onde Nigel mandara. No momento em que escutara alguém berrar, não fora mais capaz de conter a ansiedade. Precisara descobrir se Nigel havia sido ferido. Agora, em vez de agitar-se pela falta de notícias, escutava-o falar sobre a recompensa que os De-Veau ofereciam por sua captura de uma maneira suspeita. Teria se enganado ao julgá-lo digno de confiança? Não, recusava-se a crer que errara ao aceitá-lo como seu protetor. Não suportaria mais uma amarga traição. Nigel só reagira de forma sarcástica à insinuação do inimigo. Mais nada.

Quando o duelo teve início Gisele desejou, desesperadamente, fechar os olhos e orar, porém obrigou-se a mantê-los abertos. Talvez Nigel viesse a necessitar de ajuda. Ainda que sua confiança houvesse ficado um pouco abalada com o tal comentário sobre o dinheiro da recompensa, não suportaria vê-lo ferido.

Suspirando de alívio, viu-o aniquilar o inimigo após um golpe certeiro. De súbito, como se saído do nada, um vulto surgiu às costas do escocês. Em pânico, Gisele levantou-se e gritou para avisá-lo do perigo iminente.

Nigel mal teve tempo de desviar-se da estocada.

— O covarde retorna à cena — provocou-o, procurando recuperar o equilíbrio e preparar-se para o novo embate.

— Covarde não. Esperto.

— É esperto quem volta para morrer?

— Não para morrer, mas para me apoderar do prêmio. Eu havia imaginado que um daqueles estúpidos conseguiria matá-lo, ou pelo menos feri-lo gravemente. Mas os idiotas revelaram-se espadachins medíocres. Desajeitados e inábeis. Onde está a moça?

— Em algum lugar onde você nunca irá encontrá-la — retrucou Murray, satisfeito ao constatar que o adversário ainda não percebera a presença de Gisele, agachada atrás de uma pedra. Pedia a Deus que a teimosa tivesse o bom senso de fugir e se esconder.

— Não creio que vá ser muito difícil achar a vagabunda assassina. Escutei-a gritar para avisá-lo. Portanto, ela está por perto.

Nigel atacou, na esperança de obrigar o outro a retroceder alguns passos. Este, no entanto, provou-se um adversário mais inteligente que os antecessores, pois não cedeu um milímetro. Tendo a rocha e um cadáver às suas costas e o mercenário à frente, o escocês sabia estar encurralado. Se continuasse preso a um espaço restrito, sem liberdade de movimentação, ficaria mais vulnerável a um golpe fatal. Restava-lhe partir para um confronto enérgico, que decidisse a luta em poucos minutos.

O inimigo, contudo, percebendo a manobra, empregou todas as suas habilidades para impedi-lo de avançar. Então, aconteceu o que Murray temera. Ao desviar-se de uma estocada, tropeçou no cadáver e caiu. Aproveitando-se da vantagem, o francês o atingiu logo abaixo das costelas. Embora sangrando profusamente, Nigel ainda aparou um novo golpe, mas a espada escorregou-lhe das mãos devido ao impacto das lâminas e à posição em que se achava. Rezando para que Gisele não pagasse caro por seu fracasso, preparou-se para aceitar o inevitável.

— Você escolheu uma triste causa pela qual morrer — zombou o rufião, saboreando a vitória.

— Não, foi você quem escolheu errado. — Talvez ainda conseguisse retirar a faca de dentro da bota, pensou, mexendo o braço devagar. — Posso vir a morrer primeiro, mas pelo menos meu espírito não estará manchado pelo crime de matar uma mulher inocente em troca de dinheiro.

Praguejando, o homem ergueu a espada, determinado a enterrá-la no coração do inimigo. Porém o golpe nunca foi completado. Nigel rolou para o lado antes que o canalha caísse, tendo uma adaga enterrada em seu largo pescoço.

— Um ótimo arremesso, milady. — Murray sentou-se devagar, sorrindo para Gisele que tremia incontrolavelmente.

— Eu estava apontando para o braço dele — ela murmurou a voz entrecortada.

— Pobrezinha. Minha intenção, depois de dar cabo desse cretino, era repreendê-la por você não ter ficado no local combinado. Creio que meu coração poderá perdoá-la dessa impertinência.

— Antes um coração capaz de perdoar que um coração transpassado pela espada. A ferida é séria? — Preocupada, Gisele ajoelhou-se junto do cavaleiro.

— Não sei. Talvez seja um pouco mais profunda do que pensei a princípio, porque não pára de jorrar sangue.

A jovem dama obrigou-se a prestar atenção apenas em Nigel, procurando esquecer-se do que acabara de fazer. Ele estava ferido. Tinha que ajudá-lo, tinha que lhe prestar socorro. Esta era sua prioridade agora. Não se permitiria angustiar-se pelo fato de haver tirado a vida de um ser humano.

— Milady, se não estiver além de suas forças, rasgue parte da túnica desse infeliz para improvisarmos um curativo. O sangramento tem que ser estancado, pois não tenho certeza sobre quanto tempo seremos obrigados a nos esconder nas colinas.

Esforçando-se para controlar a náusea, Gisele aproximou-se do mercenário que matara. Com dedos trêmulos, cortou uma tira limpa de pano com a faca e correu de volta para Nigel.

— Esta ferida tem que ser limpa e costurada — decretou, cobrindo a área afetada com o curativo.

Apesar de tentar soar calma, suspeitava haver deixado transparecer o medo que a consumia. Pedia a Deus que Nigel interpretasse sua reação como horror ante o que fora forçada a fazer e não descobrisse a verdade. Se o escocês percebesse como a idéia de perdê-lo a aterrorizava, iria adivinhar a intensidade dos seus sentimentos.

— Não posso cuidar de seu ferimento aqui. Precisamos achar um lugar seguro e escondido.

— Não sobrou nenhum dos enviados dos DeVeau para contar onde estamos.

— De fato — Gisele admitiu relutante. — Este não é nosso maior problema. Você necessita de repouso e abrigo até que a ferida cicatrize. Se tudo correr bem, poderemos retomar a cavalgada em poucos dias. Mas ambos sabemos que, talvez, sua recuperação exija um pouco mais de tempo.

— Fiz um péssimo trabalho hoje, milady.

— Non. Eram seis deles contra você sozinho. Os seis estão mortos e você somente ferido. Não me parece um péssimo trabalho. Você conhece algum lugar onde possamos nos abrigar?

— Sei que há uma caverna nessas colinas. -— Nigel levantou-se com dificuldade. — Vou levá-la até lá.

— E nossos cavalos? — Gisele o enlaçou pela cintura, procurando ampará-lo enquanto iniciavam a lenta caminhada.

— Receio termos que buscá-los depois. E, infelizmente, vejo-me obrigado a incumbi-la de uma tarefa detestável.

— Diz respeito aos homens mortos?

— Sim, milady. Os três cadáveres têm que ser empurrados precipício abaixo, para que não entrem em decomposição perto de nosso esconderijo. Porém, antes de livrar-se dos corpos, você deve tirar-lhes tudo o que nos possa ser de alguma valia. Se os cavalos dos bandidos ainda estiverem nos arredores, conserve um para nós e disperse os outros. Você acha que consegue executar tudo isso?

Seria uma tarefa horripilante, mas Gisele não hesitou um único segundo antes de concordar. Jamais daria conta de enterrar seis corpos sozinha e a única forma de manter os animais carniceiros longe dali era atraindo-os para um local distante. Também reconhecia a importância de obterem suprimentos extras, visto não terem previsão de quando retomariam a jornada. Apesar de repugná-la tirar algo dos mortos, seria uma tola se jogasse fora coisas úteis à sobrevivência.

— A caverna fica logo atrás daquelas rochas.

Os últimos passos pareceram drenar Nigel do resto de suas forças. Lívido, banhado de suor, ele encostou-se numa pedra, enquanto Gisele checava o interior da caverna espaçosa para se certificar de que nenhum animal a transformara em toca.

— Vou atrás de nossos cavalos primeiro — ela decidiu, ajudando-se a entrar na caverna e sentar-se num canto. — Voltarei em instantes com o que preciso para cuidar de sua ferida.

— Leve minha faca.

Somente então Gisele lembrou-se de que sua adaga continuava encravada no pescoço de um dos mercenários. Teria que retirá-la, embora a contragosto.

Não foi difícil localizar os cavalos dos mercenários e conduzi-los à caverna. Por sorte, deparou com um deles no meio do caminho e, sem que o animal oferecesse qualquer resistência, levou-o consigo também.

Ao retornar à caverna, Nigel estava à beira da inconsciência. Trabalhando o mais rapidamente possível, Gisele lavou a ferida, costurou e colocou um curativo limpo. Depois acendeu uma fogueira e cobriu o cavaleiro com um cobertor. Animada, ao constatar que a fumaça não se acumulava no interior da caverna, devido aos muitos buracos existentes nas pedras, tomou um longo gole de vinho e se preparou para executar a parte mais dura da missão que lhe coubera. Deixando Nigel adormecido, foi atrás dos corpos. Extrair a adaga do pescoço do sujeito que matara provou-se quase além de suas forças. Nauseada devido à repugnância e à culpa, só cumpriu aquilo a que se propusera por pura obstinação. Após atirá-los precipício abaixo, recolheu os suprimentos e empreendeu duas viagens até a caverna para levá-los. Dentre os itens coletados, havia dois cobertores, mas preferiu deixá-los ao relento. Nigel poderia vir a precisar de uma fonte extra de calor, e receava usá-los por estarem imundos.

Exausta, física e emocionalmente, Gisele lavou o rosto e as mãos antes de ajudar o escocês a engolir um pouco de água. Sentia-se tão vulnerável, tão indefesa, vendo-o naquele estado. Precisava tê-lo, a seu lado, forte e cheio de energia outra vez. Apenas assim teria coragem de enfrentar o destino que a aguardava. Elevando uma prece aos céus pelo restabelecimento de Nigel, deitou-se e fechou os olhos.

 

— Por que você está aqui?

Gisele acordou tão abruptamente que, por um segundo, o ar fugiu-lhe dos pulmões. Nigel a estava fitando como se enxergasse um fantasma. Tocando-o de leve no rosto, sentiu-o queimar de febre.

— Você não devia estar aqui — ele prosseguiu agarrando-a pelos ombros e sacudindo-a. — Abandonei meu lar e minha terra por sua causa. Você não tem nada melhor a fazer do que me atormentar?

Receosa de que tanta agitação reabrisse a ferida, Gisele desvencilhou-se das mãos fortes e obrigou-o a deitar-se. Depois de fazê-lo beber um pouquinho de água, pôs-se a banhar a testa ardente com um pano úmido, até vê-lo se aquietar e voltar a dormir.

Sufocando as lágrimas, pois sabia que se desse vazão ao pranto não conseguiria mais parar, encarou a verdade. As palavras de Nigel não haviam sido fruto apenas do delírio, provocado pela febre alta, mas um lamento saído do fundo do coração.

Ele continuava torturado pela mulher que deixara para trás, pois certamente não a esquecera. Como uma tola, alimentara esperanças de, um dia, despertar no escocês algo além de simples desejo carnal. Imaginara um futuro para os dois. Estava claro que sonhara um sonho impossível.

Por um breve instante considerou a possibilidade de, dali em diante, pôr um ponto final no sexo. Não queria o papel de mera substituta. Então suspirou fundo, perguntando-se a quem pretendia enganar.

Não conseguiria abrir mão completamente de Nigel Murray, embora temesse descobrir por quê. Não seria justo culpá-lo de tudo.

O cavaleiro nunca lhe prometera nada, nunca lhe mentira sobre suas intenções. Se estava sendo usada, também o estava usando, levando-o a arriscar a própria vida para protegê-la.

Cedo ou tarde, seria forçada a enfrentar a natureza de seus sentimentos. Se acabasse capturada e morta, não faria diferença o que sentia por Nigel.

Mas planejava sobreviver, planejava limpar seu nome e ser livre. Só esperava saber lidar com a rejeição, quando chegasse a hora.

Gisele despertou de súbito, no meio da madrugada. Depois de dois dias velando Nigel, aquela fora a primeira noite que dormira mais de uma hora seguida.

Com os nervos à flor da pele, temerosa de que houvesse ocorrido uma piora, tocou-o na fronte. Uma sensação profunda de alívio a invadiu ao constatar que a febre finalmente cedera.

— Não estive muito bem, não é? — ele indagou num murmúrio rouco, abrindo os olhos de repente.

Naquele momento, com o coração transbordante de alegria ao vê-lo recobrar a consciência, Gisele reconheceu a inegável verdade. Amava-o.

— Oui. — Devagar, ela livrou-o da túnica empapada de suor e ajudou-o a vestir outra limpa. — Creio que você teve febre porque não tratei da ferida tão depressa quanto deveria.

— Você agiu prontamente, milady. — Murray cerrou os dentes quando o curativo foi trocado.

— Talvez não. A demora em lavar e costurar o ferimento permitiu que a infecção se espalhasse. Mas agora você está melhor, não é?

— Sim. No entanto, temos perdido um tempo precioso escondendo-nos aqui. Quantos dias passei inconsciente?

— Dois. Este seria o terceiro. Não vi ninguém nas redondezas, não ouvi barulho nenhum. Creio que estamos seguros.

— Ainda assim, partiremos quanto antes. — Apesar do tom decidido, Nigel mal conseguia sentar-se.

— Não partiremos até que a ferida esteja cicatrizada e você em condições de cavalgar.

— Isso poderá levar dias.

— Não importa. De que adianta nos apressarmos se a febre voltar?

Embora reconhecesse que Gisele tinha razão, a situação não o agradava.

— Se os inimigos descobrirem nosso paradeiro poderemos ser facilmente encurralados dentro dessa caverna.

Procurando aparentar calma, ela lavou-lhe o rosto com um pano úmido, sem saber o que fazer, ou dizer, para sossegá-lo.

— Esta caverna não é fácil de ser encontrada e tive o cuidado de apagar todos os sinais exteriores de nossa presença. Até mesmo os detritos dos cavalos tenho recolhido num dos cobertores imundos daqueles mercenários e atirado num precipício distante daqui. Acredite-me, estamos seguros. Mas, se o aflige permanecer num único lugar por um longo período, trate de repousar para recuperar as forças quanto antes. Então, quando estiver apto a cavalgar, partiremos.

Nigel esboçou um sorriso.

— E você me obrigará a seguir suas instruções à risca, não?

— Tenha certeza disso, sir Murray.

Dali a instantes o cavaleiro tornava a dormir, aparentemente mais relaxado. Durante um longo tempo, Gisele observou-o, atenta ao ritmo da respiração e à temperatura corporal, temendo qualquer alteração repentina que indicasse uma recaída.

Ainda era cedo para concluir que Nigel achava-se em franca recuperação. Porém, recomeçara a alimentar esperanças.

Reprimindo um enorme bocejo, resolveu realizar algumas tarefas antes de um merecido descanso. Depois de alimentar os cavalos e dar.-lhes de beber, juntou gravetos para uma fogueira.

Então, lavou-se e deitou-se. Duvidava de que o escocês fosse aceitar as limitações impostas pela convalescença de boa vontade e precisaria ser firme para impedi-lo de fazer qualquer tolice. Se queria ter disposição e energia para lidar com aquele cavaleiro obstinado, necessitava repor as inúmeras horas de sono perdidas.

Pacientemente, Gisele aguardou Nigel adormecer. Nas últimas quarenta e oito horas, não percebendo sinais de febre, convencera-se de que o pior fora superado. Sempre que o vira desperto, obrigara-o a beber muita água e um pouco de vinho, além de insistir para que se alimentasse.

No início, ele mal conseguira engolir alguns pedacinhos de pão, porém, gradualmente, o apetite voltara. Sem se alimentar bem, Murray demoraria a recuperar as forças. O que acarretara um novo problema. As provisões estavam no fim.

Após muito refletir, Gisele concluíra existir uma única maneira de resolver a questão. Como não sabia caçar, restava-lhe comprar comida numa pequena aldeia, a oeste dali.

Nigel ficaria furioso quando descobrisse, pensou, escapulindo de mansinho e montando em seu relutante cavalo. Infelizmente situações extremas costumam exigir soluções arrojadas.

Desde que haviam se refugiado na caverna, não vira ninguém nas redondezas, contudo, isto não significava que estivessem livres dos inimigos. Se Nigel tivesse sabido de suas intenções, jamais a deixaria levar essa idéia arriscada adiante. Só esperava que ao regressar, com os alforjes repletos de comida, sua loucura fosse perdoada.

Apesar de se esforçar para acreditar que não encontraria nenhuma dificuldade em executar o plano, Gisele estava com o coração apertado ao entrar na aldeia, repentinamente cheia de dúvidas. Sim, poderia ser reconhecida, mas caso se recusasse a correr o risco, se permanecesse escondida na caverna, imobilizada pelo medo, acabariam morrendo de fome.

Com os nervos à flor da pele, entrou no empório abafado, sentindo-se observada com desconfiança.

— Quero dois pães — pediu, numa voz firme e decidida.

— Que brincadeira é essa? — o padeiro a interpelou, áspero.

— Não é brincadeira nenhuma. Estou aqui para comprar pão.

— Não se faça de inocente. Você deve me julgar o maior dos tolos para achar que pode me enganar com um gorro sujo e roupas masculinas. Por que uma moça se vestiria como um rapaz?

Praguejando, por entre os dentes, Gisele tentou parecer muito jovem e chorosa.

— Não estou tentando enganá-lo, senhor. Sou órfã. Meu único parente é um primo, que se alistou no exército. Não havia lugar perto de nossa casa onde eu pudesse me abrigar. Então estou me fazendo passar por pajem de meu primo até encontrar um convento onde seja acolhida pelas boas freiras.

— É uma pena as religiosas não poderem aceitar todas as meninas carentes de cuidados e orientação. — O padeiro entregou-lhe os pães e contou as moedas. — Seu primo não deveria deixá-la vagar por aí sozinha. Naturalmente ele tem sido bondoso, tomando-a sob seus cuidados, mas, ao andar desacompanhada, você está arriscando a vida e a virtude.

— Direi a ele, sir.

— Volte para junto de seu primo quanto antes.

— É o que farei senhor.

Embora o camponês que lhe vendeu queijo e vários outros mercadores deixassem claro que seu disfarce não os enganava, ninguém, a exemplo do padeiro, teceu comentários a respeito.

Com os alforjes cheios, Gisele estava mais do que feliz de voltar para as colinas. Não se surpreendeu quando, ao alcançar a mata, avistou um pequeno grupo de homens armados cavalgando na direção da aldeia. Homens ostentando as cores dos DeVeau.

Ela precisou de todo o autocontrole para não sair em disparada despertando, assim, as suspeitas do bando. Rígida da cabeça aos pés esforçou-se para continuar em frente sem olhar para trás, na esperança de não ser seguida.

O que pareceu uma eternidade depois, como não escutasse nenhum barulho estranho, desmontou e escondeu-se atrás de uma árvore. Ali, oculta pelas folhagens densas, vigiou o acesso às colinas, não se aventurando a retomar o caminho enquanto não tivesse certeza absoluta de que não atrairia o desastre. A última coisa que queria era conduzir os inimigos a caverna, para um indefeso Nigel.

Prudente, silenciosa, percorreu os últimos metros até o abrigo. E a surpresa roubou-lhe a fala.

De pé à entrada da caverna, com a espada na mão, estava Nigel. Porém o cavaleiro desabou no chão ao vê-la.

— Você está completamente louco? — ela o questionou, ajudando-o a entrar na caverna. Assustava-a o modo como o corpo forte tremia devido ao esforço.

— Eu poderia perguntar-lhe a mesma coisa, milady.

Ao acordar, não a achando por perto, não ficara muito preocupado no início, convicto de que Gisele saíra para apanhar gravetos, ou então para procurar alimentos na mata. Mas, ao se dar conta de que o cavalo da jovem dama também havia sumido, a inquietude o dominara. Os minutos foram se arrastando e se transformando em horas, num pesadelo sem fim.

Bastara se levantar para perceber que se Gisele estivesse em perigo, pouco poderia ajudá-la. A espada pesava tanto em sua mão, que se perguntava se seria capaz de usá-la.

Quando, enfim, num esforço sobre-humano arrastara-se para fora da caverna, odiara-se por tremer de maneira incontrolável. Agora, vendo-a testemunhar sua triste condição, abominava mais do que nunca a própria fraqueza.

— Não sou eu quem está tentando se recuperar de uma ferida feia e de uma febre persistente, sir. — Apressadamente, Gisele examinou o ferimento, suspirando aliviada ao constatar que os pontos não haviam cedido. — Onde você pensou que estava indo?

— Encontrá-la.

— Eu não precisava ser encontrada. — Fingindo tranqüilidade, ela puxou o cavalo para o interior da caverna e pôs-se a descarregá-lo.

— Onde você esteve?

— Precisávamos de comida. Não sei caçar e não há nada nos arredores que nos possa servir de alimento, nem frutas, nem raízes. Portanto, tive que dar um jeito de arranjar o que comer.

— Você foi até a aldeia?

Gisele entregou-lhe um odre e obrigou-o a tomar um longo gole de água.

— Há uma pequena aldeia a oeste daqui.

— Você poderia ter sido vista pelos DeVeau.

— E fui, mas somente à distância. Eles não me reconheceram, ou me seguiram.

— Tem certeza?

— Sim. Permaneci vigiando-os até me certificar de que entraram na aldeia e lá permaneceram.

— Um dos aldeões poderia contar-lhes que você andou fazendo compras.

— De fato. Porém ninguém saberia informar-lhes de meu paradeiro. Além do mais, fui vista sozinha, quando todos agora procuram por nós dois. Isto iria confundi-los.

— Precisamos partir.

Vacilante, Nigel quis levantar-se. Segurando-o pelo braço, Gisele impediu-o.

— Não. Você mal se sustenta de pé. Não tente me convencer de que não está enfraquecido, de que é capaz de cavalgar, quando não tem forças para segurar a espada. Precisávamos de comida e tomei as iniciativas adequadas.

— Você não deveria ter se exposto.

— Ah, então eu deveria ter me acovardado, me escondido aqui até que morrêssemos à míngua.

— Ouça…

— Fiz o que tinha que fazer. Infelizmente os DeVeau estavam na região, porém não creio que descobrirão nosso belo refúgio. A comida o ajudará a recuperar as forças para que possamos partir. Aceite a realidade. Em seu atual estado de fraqueza, até eu sou capaz de subjugá-lo sem muito esforço. Você ainda não tem condições de lutar. Portanto, permaneceremos nesta caverna durante mais alguns dias.

Durante vários minutos, Nigel não disse nada, odiando dar o braço a torcer. Por fim, assentiu.

— Seu disfarce não engana ninguém, você sabe.

— Sim. — Gisele fez um breve relato da conversa com o padeiro. — Por favor, entenda, não havia outra escolha.

— Eu sei. Mas isto não significa que a situação me agrade.

Depois de comer pão e queijo e tomar um pouco de vinho, Nigel voltou a dormir. Suas tentativas de encontrá-la haviam-no drenado de suas parcas energias, induzindo-o a um sono profundo.

Gisele aproveitou para banhar-se e se alimentar também. Dali em diante, teria que colocar o cavaleiro a par de cada um de seus movimentos, para evitar atritos desnecessários.

Sir Murray podia não aprovar seus planos, contudo, se soubesse de suas intenções, não arriscaria a saúde fazendo bobagens.

Anoitecia, quando Nigel tornou a acordar. Ela trocou o curativo, satisfeita ao constatar que a ferida cicatrizara perfeitamente. Embora conseguisse convencê-lo a comer algo, suas palavras animadoras de nada serviram para melhorar o humor do escocês, que não se conformava com seu estado debilitado. Conforme imaginara desde o início, um paciente difícil.

Enquanto se preparava para deitar-se, Gisele escutou um uivo longínquo romper o silêncio sepulcral. Lobos. Existia uma boa chance de que os animais estivessem à procura de comida. Durante alguns segundos, ela permaneceu onde estava morta de medo. Então, obrigando-se a agir, construiu uma fogueira na entrada da caverna. Depois, apanhou a espada e ficou de prontidão.

O fogo deveria bastar para manter as feras longe, mas, caso a fome os impelisse a cruzar aquela barreira, não queria ser pega de surpresa.

Era quase madrugada quando os lobos se aproximaram o suficiente para que Gisele enxergasse o brilho dos olhos amarelados. Os uivos sinistros dos seis animais fizeram seu sangue gelar nas veias. Mas, apesar do pavor, empunhou a espada com mãos trêmulas.

— Gisele — Nigel a chamou baixinho.

— Volte a dormir — murmurou, sem desviar o olhar da ameaça.

—Os lobos estão perto?

— Não muito. — Não valia a pena preocupá-lo, quando o cavaleiro ainda não se agüentava de pé.

— O fogo os manterá afastados.

— Sim, eu sei.

— Você não deveria ter que me proteger — Murray comentou desgostoso consigo mesmo.

—Por que não? Desde que nossos caminhos se cruzaram você não tem feito outra coisa a não ser me proteger. Umas poucas noites mal-dormidas não me farão mal. Agora, vamos, volte a dormir. Não há nada que você possa fazer e se continuarmos conversando, receio que chamaremos ainda mais a atenção das feras.

Nigel relaxou, esforçando-se para aceitar a situação. Gisele falara num tom de voz tão tranqüilo que os lobos não podiam estar mesmo muito perto. Feria-lhe o orgulho admitir, porém reconhecia-se um inútil naquele momento. Se os animais atacassem, seria presa fácil e caberia à dama enfrentá-los. Melhor não distraí-la. Contudo, não se permitiria entregar-se sem lutar, pensou, puxando a espada para junto de si.

Gisele suspirou aliviada quando Nigel calou-se. Por sorte, o escocês não percebera quanto à ameaça estava próxima, ou teria se arrastado até a entrada da caverna, disposto a protegê-la. Era apavorante encarar as feras sozinha, mas não havia outra escolha. Sir Murray não tinha a menor condição de empunhar uma espada.

Quando o sol nasceu no horizonte, os lobos se dispersaram. Gisele levantou-se devagar, sentindo todos os músculos do corpo doloridos depois de passar a noite inteira acordada, alimentando a fogueira. Embora houvesse ficado apavorada durante cada segundo em que durara sua provação, orgulhava-se de si mesma. Continuava tendo pavor de lobos, mas aprendera que seu medo não a transformava, necessariamente, numa covarde.

Exausta, apagou o fogo, alimentou os cavalos e deitou-se ao lado de Nigel, que continuava a dormir. Depois daquela noite interminável, mais do que nunca estava determinada a saber lutar. Sir Murray se disporia a ensinar-lhe? perguntou-se, sonolenta. Bem, com ou sem ajuda, aprenderia a defender-se com uma espada. Jamais tornaria a enfrentar um inimigo, de qualquer espécie, ciente de não possuir a menor habilidade para se proteger de um ataque.

 

— O que você está fazendo?

Gisele tropeçou ao ouvir a voz profunda soar às suas costas. Certa de que Nigel ainda dormia, apanhara a espada e saíra da caverna para praticar ao ar livre, tentando reproduzir os movimentos que observara os homens executarem no decorrer de um duelo. Adotara essa rotina desde que haviam sido ameaçados pelos lobos, duas noites atrás. Devagar se virou para fitá-lo, vermelha até a raiz dos cabelos.

— Estava tentando aprender a manejar uma espada — respondeu.

Murray arrancou-lhe a arma das mãos.

— Isto não é algo que uma dama delicada deveria querer fazer.

Gisele tomou-lhe a espada de volta, evidentemente surpreendendo-o com a rapidez do gesto.

— Tem algo mais que esta dama delicada não quer fazer: morrer.

— Estou aqui para protegê-la desse destino medonho.

— Não se ofenda sir, pois não é meu objetivo criticá-lo. Mas você foi seriamente ferido, esteve inconsciente, continua enfraquecido. Passei dias e noites rezando para que não fôssemos atacados até que se recuperasse. Só Deus sabe como me senti vulnerável. Jurei a mim mesma não ser apenas um fardo em seus ombros. Sei que não sou grande e forte para lutar tão bem quanto um homem, mas isso não significa que eu não possa desenvolver alguma habilidade.

— Quando você tomou essa decisão?

— Quando estive na aldeia e avistei os DeVeau. Não fui importunada, entretanto, o que teria acontecido caso um deles houvesse me encurralado? Ou me seguido até aqui?

— Nada aconteceu. — Apesar de detestar a idéia de uma mulher gentil e suave como Gisele envolver-se numa atividade brutal, Murray começava a perceber quanto ela se beneficiaria caso aprendesse os movimentos rudimentares.

— Non, nada disso aconteceu. Deus estava velando por nós. Talvez Ele também estivesse velando por nós quando os lobos apareceram à entrada da caverna e lá permaneceram durante horas a fio. Embora eu empunhasse uma espada, sabia não ter a menor condição de usá-la com sucesso. Se uma daquelas feras houvesse se atirado sobre mim, só me teria restado tentar atingi-la de qualquer maneira estabanada.

— Os lobos estiveram assim tão perto? Por que não me falou?

— Porque não havia nada que você pudesse ter feito a respeito. Na verdade, se houvesse se juntado a mim na vigília, é possível que o cheiro de seu ferimento atiçasse a sanha das feras.

— Sim, os lobos têm um faro apurado para os feridos e enfraquecidos — Murray admitiu, passando a mão pelos cabelos num gesto cansado. — Está bem, quando acamparmos esta noite, começarei a ensiná-la a lutar.

Por um momento, Gisele exultou de alegria, até se dar conta do significado do comentário.

— Como assim, “quando acamparmos esta noite”? Já estamos acampados aqui. Podemos começar as lições já.

— Partiremos agora.

Agitada, ela correu atrás do escocês e segurou-o pelo braço, numa tentativa vã de impedi-lo de começar a selar os cavalos.

— Você ainda não se recuperou totalmente.

— Talvez eu não esteja tão bem quanto gostaria, porém a ferida está cicatrizada e não tornará a abrir.

— De fato. Isto não quer dizer que você esteja em condições de cavalgar por tempo indeterminado.

— Então cavalgaremos durante um tempo limitado.

— Se não vamos empreender uma longa jornada hoje, que mal pode haver em permanecermos aqui um ou dois dias, até você se sentir mais revigorado?

— Sua preocupação com meu estado de saúde é comovente, milady, porém desnecessária. Sim, é possível que não avancemos muito hoje. Mas amanhã serei capaz de ir um pouco mais além e, depois de amanhã, ainda mais longe, mesmo não cavalgando a toda, estaremos nos aproximando porto, e, da Escócia. O que não podemos é continuar aqui parados, esperando que nossos inimigos nos descubram.

— Não vi sinal deles quando estive na aldeia.

— Ótimo. Contudo, isso não garante que estejamos seguros na caverna. Creia-me, milady, é hora de partirmos. Não é bom permanecer durante um longo período num mesmo lugar, quando se está sendo caçado por metade dos franceses.

Apesar de querer contradizê-lo, Gisele reconhecia que Nigel estava com a razão. Não havia garantias de que os mercenários não resolvessem vasculhar a região ao redor da aldeia.

Esconder-se na caverna podia até ser confortável, podia até lhes proporcionar uma falsa sensação de segurança, mas não eliminava o perigo. Apressarem-se a alcançar a Escócia continuava sendo a coisa mais sensata a fazer.

— Se eu achar que você parece exausto e sugerir uma pausa, serei ouvida? — Vendo-o hesitar, ela o pressionou. — Tão logo deixarmos nosso refúgio, estaremos sujeitos a ser localizados e perseguidos. Você ainda não está forte o bastante para se manter sobre a sela um dia inteiro, galopando feito um louco para escapar dos inimigos. O repouso ainda é essencial para a sua total recuperação.

— Então descansaremos se, e quando, você julgar conveniente — ele cedeu relutante.

Sem uma palavra, Gisele pôs-se a reunir seus pertences, adiava abandonar a caverna, odiava recomeçar a jornada. Apesar da angústia provocada pela vulnerabilidade de Nigel, fora bom permanecer num mesmo lugar durante mais que meras horas.

A caverna, apesar dos desconfortos óbvios, começara a se assemelhar a um lar, algo de que não desfrutava há mais de um ano.

Claro que não passara de tolice pensar na caverna como um lar. No momento, não existia um único lugar no solo francês que pudesse lhe servir de lar, apenas de sepultura. Nigel tinha razão. Precisavam reiniciar a jornada quanto antes. Mas iria mantê-lo sob cerrada vigilância.

No começo da tarde, insistiu para que fizessem uma longa parada, ignorando os resmungos e a cara feia do escocês. Educadamente, absteve-se de comentar que ele precisara dormir uma hora antes de retomar a marcha e que, ao anoitecer, estivera tão pálido e encurvado sobre a sela, que não opusera nenhuma resistência à idéia de repousar.

Em primeiro lugar, Gisele estendeu os cobertores no chão e obrigou-o a deitar-se. Depois o incentivou a se alimentar bem, suspirando aliviada ao vê-lo recobrar a cor. Aquela lividez doentia a assustara. Enfim convencida de que a situação estava sob controle, afastou-se para recolher gravetos. Após acender uma fogueira e cuidar dos cavalos, lavou-se rapidamente no riacho próximo, comeu um lanche rápido e, vencida pelo cansaço, deitou-se.

Nigel a tomou nos braços e beijou-a de leve na boca, não tendo, contudo, forças para levar as carícias adiante. Gisele sorriu para si mesma, de puro contentamento. Se um homem pensava em fazer sexo, ainda que sem condições de desempenhar o ato, era porque se encontrava no estágio final da recuperação.

Na terceira noite da jornada, Gisele retirou os pontos do ferimento a contragosto, dobrando-se aos pedidos insistentes do cavaleiro.

Na verdade, temera estar se precipitando. A última coisa que queria era ser obrigada a costurar a pele, ainda tenra e avermelhada, outra vez. Por sorte a cicatrização fora perfeita e não havia sinais de que a ferida viesse a reabrir facilmente.

Talvez agora sir Murray pudesse começar a lhe dar aulas práticas de esgrima. Até então, ele pouco fizera além de explicar-lhe como segurar a espada de modo correto e instruí-la sobre as diferentes maneiras de se mover, de aparar e desferir golpes. No início ficara um pouco embaraçada de se mexer de lá para cá, enquanto o escocês, recostado numa pedra, gritava instruções. Porém acostumara-se à situação inusitada.

Mal podia esperar para treinarem juntos.

— Então estou plenamente restabelecido, milady.

— Quase — ela murmurou a proximidade de seus corpos a incendiava. — A ferida não corre o risco de tornar a abrir, tampouco existe possibilidade de infecção. O que não significa que você esteja livre para cometer excessos. Seu estado ainda requer cuidados.

Acomodando-a sentada sobre seus quadris, Nigel a acariciou na base da espinha.

— Tem algumas coisas que andei querendo fazer desde que recuperei as forças.

— E que coisas seriam essas? — Mergulhando nos olhos castanho-claros, Gisele quase desfaleceu com o simples roçar dos dedos longos em sua pele.

— Bem, talvez eu tenha que ir devagar. Afinal, sou um pobre homem enfraquecido e cheio de cicatrizes. — Sem pressa, ele a puxou para si e beijou-a no pescoço.

Nas últimas três noites, Gisele não fizera outra coisa senão pensar em como ansiava ser possuída por Nigel. Numa tentativa inútil de aplacar o ardor, lembrara-se de que ele, obviamente, continuava apaixonado pela mulher que deixara em sua terra natal. Também não deveria se esquecer de tê-lo ouvido proferir aquele comentário suspeito, sobre como qualquer homem ambicionaria o prêmio oferecido pelos DeVeau. Porém tudo isso perdia a importância quando Nigel a tomava nos braços. Aninhada no peito largo, todas as suas dúvidas, problemas e medos desapareciam como por encanto.

Inclinando-se, provocante, Gisele deslizou a língua sobre o abdômen rijo. Sentindo-o estremecer, perguntou-se o que aconteceria caso se atrevesse a beijá-lo como fora beijada. Nigel mostrara-lhe a beleza da paixão carnal, tendo o cuidado de guiá-la através daquele mundo novo com paciência e delicadeza. Agora que já não era tão ignorante assim sobre as muitas maneiras de despertar o desejo do parceiro, que mal haveria em retribuir o prazer que lhe fora dado?

Mas e se sua ousadia o ofendesse de algum modo? E se o levasse a julgá-la mal? Não, não se permitiria abalar pelas preocupações súbitas. Se Nigel demonstrasse sinais de choque, ou desagrado, interromperia a carícia imediatamente e diria que agira movida pela ignorância. De fato, não estaria mentindo. Ninguém, e certamente não seu marido, a ensinara o que deveria, ou não, fazer com o corpo de um homem. Quando as mãos trêmulas de Gisele o livraram da calça, Nigel prendeu a respiração, vibrante de expectativas. Somente sua acentuada debilidade física o havia impedido de amá-la desde que se recuperara da febre. Teria sido frustrante, e embaraçoso, se, ao tentar possuí-la, os pontos da ferida rompessem e começasse a sangrar.

Pior ainda teria sido lhe faltar capacidade para consumar o ato. Chegara a pensar em instruí-la a desempenhar um papel mais ativo durante as preliminares, contudo desistira, temendo escandalizá-la. Apesar de viúva, Gisele não tivera quem lhe ensinasse as sutilezas do sexo. Agora, à beira de ter seus desejos realizados, decidiu não se mexer, receoso de dizer, ou fazer, algo que a assustasse.

Dedos longos e elegantes tocaram seu membro e o massagearam de leve. Com muita dificuldade, Nigel conseguiu permanecer imóvel, desfrutando da carícia embriagadora. Mas quando os lábios carnudos se fecharam ao redor de sua enorme ereção, ele deixou escapar um grito rouco.

Imediatamente Gisele se retraiu, confundindo a manifestação de satisfação intensa com desaprovação.

O escocês, porém, segurando-a gentilmente pelos cabelos, incentivou-a a retomar o contato, murmurando palavras apaixonadas.

Mesmo ansiando estender aqueles momentos por uma eternidade, Nigel reconhecia estar a um passo de perder o controle. Num movimento rápido, inverteu as posições, pondo-se a amá-la como fora amado.

Enlouquecida de prazer, Gisele perdeu por completo a noção de tempo e espaço. Já não sabia quem era, ou o que fazia. O mundo todo se concentrava naquela língua imperiosa, que sugava o néctar mais íntimo de sua feminilidade com sofreguidão.

No auge do clímax, nem sequer percebeu quando Nigel se moveu e a penetrou numa única investida, inundando-a com seu sêmen.

Muito, muito tempo se passou antes que ela saísse do torpor em que caíra após o violento orgasmo. À medida que as cenas ardentes viam-lhe à mente, mais envergonhada ficava ao lembrar-se do que tivera coragem de fazer. Comportara-se como uma devassa, agira feito uma prostituta barata.

Oh, Deus, morreria se sua moral passasse a ser questionada pelo cavaleiro. E não poderia culpá-lo.

Com dificuldade, ergueu a cabeça para fitá-lo. De olhos fechados, com um sorriso estampado no rosto, sir Murray era a imagem de um homem plenamente saciado.

— Nigel? — chamou-o baixinho, esforçando-se para superar o embaraço.

— Que é querida? — Aconchegando-a junto do peito, ele a beijou na testa.

— Acho que seremos punidos com uma infinidade de penitências.

— Ah, que tolos desavergonhados nós somos! — A voz sensual parecia acariciá-la.

— Bem, creio que essas penitências não serão nada, se comparadas ao que terei que fazer para lavar o sangue das minhas mãos.

— Você pode ser bastante sutil quando o quer, milady.

Não a surpreendia Nigel haver adivinhado sua intenção de levá-lo, por meios tortuosos, a proclamá-la inocente. Todavia, estranhamente, já não se sentia tão incomodada por ele continuar recusando-se a declarar não acreditá-la culpada da morte do marido. Já não considerava tal atitude um insulto, uma ofensa à sua dignidade. Talvez porque o escocês não a julgasse, ou condenasse de forma alguma. E, embora não tivesse praticado assassinato, sem dúvida, no auge do desespero, a idéia lhe passara pela cabeça. Para a Igreja, pensamentos impuros também constituíam pecado. Portanto, cometera uma falta grave.

Entretanto, os DeVeau reconhecerem sua inocência poderia não bastar para limpar seu nome. A caçada seria encerrada, mas e os boatos sobre sua culpa? Imaginar-se para sempre perseguida por rumores odiosos, e mentirosos, causava-lhe uma tristeza infinita. Quando tornaria a experimentar a total liberdade? Quando viveria sem a preocupação de olhar por sobre o ombro a cada instante? Nunca mais. Sua vida não voltaria a ser o que fora. Apesar de compreender que tudo o que estava fazendo para salvar a própria pele acabaria destruindo sua reputação, o pior era saber que jamais se livraria do estigma de “assassina”.

— Eu não me afligiria muito com a opinião da Igreja, milady.

—Como pode falar uma coisa dessas?—ela o interpelou, chocada. — Por acaso não se preocupa com a salvação da sua alma? Deseja ir para o inferno?

— Não. Só não acho que Deus queira povoar o inferno com pessoas como você, quando há tanta gente perversa no mundo merecendo ocupar o espaço. Contudo, caso se sinta melhor, quando chegarmos à Escócia esfolaremos nossos joelhos diante de um altar, pedindo perdão por nossas faltas.

— Nigel! Você pode vir a pagar um preço alto por tamanha impertinência. Não teme perder a chance de absolvição?

— Não. Procuro seguir os mandamentos de Deus. Dou glórias a Ele, respeito-0 e esforço-me para obedecer a suas leis. Creio que não há muito mais que eu possa fazer, dentro das limitações impostas por minha carne fraca.

— Non, suponho que não, embora eu desconfie de que muitos sacerdotes discordariam, veementemente, de seu ponto de vista.

— Sim. Porém nem todos os padres são dignos de consideração. Conheci vários tão pecadores quanto os homens que condenavam ao inferno.

— Mas com certeza você também conheceu sacerdotes admiráveis.

— Sim. Existem aqueles que, realmente, receberam o chamado de Deus e levam a sério a missão de praticar o bem e salvar almas. Outros, no entanto, usam sua posição para exercer o poder e desfrutar de prazeres terrenos.

— Eu sei. Ouvi falar de homens, em geral os filhos caçulas de famílias nobres, que se tornam padres porque não têm outros meios de se sustentar. Afinal, apenas o primogênito herda os títulos e as propriedades do pai.

— Não, querida. Existem opções. Os que não têm verdadeira vocação para servir a Deus, poderiam conquistar riqueza e poder colocando sua espada a serviço do rei.

— De fato. — Fechando os olhos, Gisele recostou a cabeça no peito do másculo. — Rezo para que você esteja certo, pois continuo temendo pela salvação de minha alma.

— Ah, milady, ou iremos para o céu juntos, e passaremos a eternidade cantando com os anjos, ou arderemos juntos no inferno. Agora, que tal encerrarmos essa conversa séria e dormirmos um pouco?

— Boa idéia — ela murmurou sonolenta.

Beijando-a no alto da cabeça, Nigel preparou-se para dormir. Aquela mulher, pequenina e delicada, provavelmente já o conhecia tanto quanto seus irmãos. Quando Gisele lhe perguntava algo, não hesitava em responder com absoluta franqueza e honestidade. Além da sensação de que suas almas se completavam, bastava fitá-la para seu sangue ferver nas veias. Sua família e amigos o julgariam louco por ainda ter dúvidas sobre a natureza de seus sentimentos e iriam aconselhá-lo a desposá-la o quanto antes. Parte de si desejava exatamente isso. Outra parte, contudo, temia precipitar-se, arrastando-os num sofrimento sem fim.

A certeza de que logo chegaria o momento de tomar uma decisão definitiva o angustiava. Gisele merecia um marido que a amasse por inteiro, de corpo e alma. Merecia reinar soberana no coração dele, e não ser mera substituta. Restava-lhe então rezar para agir da maneira certa. Preferia morrer a levá-la a pensar que, como tantos outros, a rejeitara e traíra.

 

— Você precisa segurar o cabo com mais firmeza, querida — explicou sir Murray, apanhando a espada que acabara de arrancar das mãos de Gisele e devolvendo-a.

— Acho que você não perde oportunidade de enfatizar o quanto sou fraca e inábil — ela resmungou, embora aceitasse o conselho sobre como empunhar a arma.

— Não. Apenas tento ajudá-la a superar suas dificuldades.

Praguejando baixinho, Gisele se empenhou em mostrar algum progresso ao retomarem a luta, ouvindo o tinir das lâminas ecoando pela clareira onde haviam acampado. Desde que removera os pontos de Nigel, três dias atrás, este sempre reservava algum tempo para ensiná-la a duelar. Constatar que mal conseguia executar os movimentos básicos a deixava furiosa consigo mesma. De que adiantava ter uma espada, se a soltava com facilidade? Exímio espadachim estava claro que o escocês não usava um décimo de sua perícia ao desferir qualquer golpe com o único objetivo de poupá-la.

— Maldição! — gritou exasperada, vendo a espada voar novamente pelos ares.

— Você leva tudo muito a sério — consolou-a Nigel, beijando-a no rosto e conduzindo-a para perto da fogueira.

— A aula de hoje terminou, não? — Exausta, Gisele aspirou o cheirinho delicioso de coelho assado, dando graças aos céus por sir Murray ser excelente caçador.

— Quando o braço fica cansado, não há razão para continuar. — Com a faca, ele dividiu o assado em partes iguais. — Você precisa apenas segurar o cabo com mais firmeza.

— Ou aprender a aparar o golpe que sempre a arranca da minha mão.

— Ah, isto é importante também.

Tão logo terminaram de comer, Gisele, revigorada, convenceu Nigel a retomar a aula. Cuidadosamente ele lhe mostrou, pela centésima vez, como segurar a espada e revidar os golpes. Esforçando-se para seguir as instruções à risca, ela conseguiu não só evitar ser atingida, como desferir uma estocada rápida, desarmando assim seu oponente. Mesmo suspeitando que o cavaleiro permitira-se desarmar para animá-la, Gisele, sorrindo vitoriosa, encostou a ponta da espada no peito másculo.

— Agora você tem que terminar o que começou e matar o adversário—Murray falou muito sério, observando-a com atenção.

Subitamente muito pálida, ela estremeceu, os olhos verdes estavam arregalados de horror. Naquele instante, Nigel se convenceu de sua total inocência. Gisele nunca havia matado um homem e talvez, ainda que ameaçada, ainda que no auge da fúria, hesitaria antes de apelar para um golpe fatal. Não, ela não estivera mentindo quando, dias atrás, afirmara haver apontado a adaga para o braço daquele mercenário, não para o pescoço.

— Talvez não seja uma boa idéia. — Como pudera ser tão tola esquecendo-se de que esgrimir tinha como objetivo provocar a morte de um dos duelistas? Manejar a espada com destreza não significava somente aprender a proteger-se, mas a matar os outros também.

— Você tem o direito de se defender com unhas e dentes — afirmou Nigel, ajudando-a a sentar-se junto da fogueira. — Sua vida está por um fio e é sensato tentar aprender a manter os caçadores de recompensa a distância.

— Não sei se seria capaz de matar um homem — Gisele murmurou ainda abalada. — E é esta a finalidade de um duelo, não?

— Em geral sim, especialmente quando alguém está tentando matá-la. Porém nem sempre o confronto chega a um desfecho trágico. Às vezes basta ferirmos o oponente e arrancarmos um pouco de sangue, para que a disputa seja encerrada. Creia-me, numa situação de matar ou morrer, o instinto de sobrevivência nos induz a agir em defesa própria.

Em silêncio, ela deitou-se sob o cobertor, suspirando de contentamento quando Nigel a enlaçou pela cintura.

A jornada estava chegando ao fim e precisava aproveitar cada precioso momento de intimidade. Não importava que estivessem cansados demais para fazer sexo naquela noite. Bastava-lhe dormirem abraçados.

Sonolenta, ponderou se sua decisão de aprender a lutar fora mesmo acertada. Metade da França estava em seu encalço e, se não acabasse assassinada por um dos inúmeros caçadores de recompensa, este seria seu destino quando fosse entregue aos DeVeau. Por que ainda vacilava ante a idéia de matar seus inimigos? Não era errado lutar para proteger-se. No dia seguinte, retomaria as aulas com empenho e dedicação, resolveu, caindo num sono profundo e sem sonhos.

— Tem mesmo certeza, milady? — perguntou Nigel, desembainhando a espada.

O escocês se esforçou para conter um sorriso. Bela e pequenina, Gisele o encarava com a espada nas mãos e uma expressão decidida nos magníficos olhos verdes. Aquela mistura de fragilidade e determinação o enlouquecia de desejo e por pouco não cedeu ao impulso de atirá-la no chão e amá-la com selvageria.

— Sim, tenho certeza — ela retrucou, dando um passo à frente.

— Ontem, à noite, você não estava tão convencida assim de que valia a pena continuar com as aulas.

— Foi somente um instante de fraqueza. A lógica e o bom senso acabaram predominando.

— Então a partir de agora será matar ou morrer?

— Se os DeVeau me encurralarem, sim, pois não haverá alternativa.

— Eu tinha mesmo esperanças de que você enxergasse a dura verdade. É admirável uma mulher possuir a virtude da misericórdia. Mas, ao enfrentar predadores, essa mesma qualidade se transforma em fraqueza.

— Por isso decidi pôr uma couraça ao redor de meu coração. As situações que vivi até este momento deixam claro que ninguém me mostrará piedade. Serei morta pelo primeiro que me achar.

— Palavras sensatas. Mas lembre-se de que, neste momento, você não está lutando com nenhum de seus inimigos — o cavaleiro brincou, desferindo o primeiro golpe.

Gisele desviou-se com facilidade e partiu para o ataque. No decorrer da hora, Nigel surpreendeu-se com o progresso de sua, até o dia anterior, relutante aluna. Aliviava-o constatar que a linda dama, enfim, entendera que duelar não significava, necessariamente, destruir o oponente, mas, sobretudo, defender-se quando ameaçado de morte.

Gisele nunca teria força física para ser uma adversária letal numa disputa que exigisse resistência, porém possuía destreza e determinação, qualidades que a tornavam perigosa.

Aos poucos Murray aumentou a pressão, explicando-lhe como aparar os golpes e iniciar o contra-ataque. Embora bem mais forte que a maioria das mulheres, ela nunca derrotaria um homem num combate de longa duração, portanto deveria desenvolver um estilo de luta pautado em certas sutilezas, valendo-se de artifícios como agilidade e rapidez.

— Talvez eu esteja enganada, porém estou chegando à conclusão de que existem coisas que nós mulheres não podemos fazer. — Esgotada, Gisele desistiu de prosseguir quando a espada lhe foi arrancada das mãos pela segunda vez consecutiva.

— Não, milady, você está se saindo muito bem. Melhor do que imaginei possível.

— Ah, ótimo. Detesto fracassar. — Sorrindo, ela se deixou levar de volta para o centro do acampamento e sentou-se sobre um dos cobertores. —É gentil de sua parte me elogiar, mas sempre acabo soltando a espada.

— Devido ao cansaço. Por ser destra, você precisa ganhar força e musculatura no braço direito. Além de aprender certos truques. Rapidez e sagacidade é que farão a balança pender para seu lado.

— Então devo escolher apenas adversários lerdos e estúpidos.

— Não faria mal.

Apesar de não gostar muito de ouvi-lo dizer que jamais seria páreo para um cavaleiro competente, Gisele riu, sabendo que as palavras de Nigel expressavam a pura verdade. Sua baixa estatura e constituição delicada a impediriam de duelar, de maneira eficaz, com qualquer adversário.

— Rapidez e sagacidade podem vencer um combate? — indagou curiosa, aceitando uma porção de pão e queijo. Depois de tanto exercício, estava faminta.

— Claro. Nem todo cavaleiro é um espadachim habilidoso, capaz de manejar a espada com perícia e elegância. Alguns simplesmente se valem da força bruta e avançam sobre os oponentes até os encurralar num canto e matá-los.

— Não me parece um jeito honroso de duelar.

— Talvez não, mas é eficiente e, muitas vezes, garante a vitória. O cavaleiro em questão, reconhecendo suas limitações como espadachim, usa as duas únicas grandes vantagens que julga possuir: tamanho e força. Você nunca poderá contar com ambas, assim deverá aprender a medir, a analisar o inimigo cuidadosamente, a se mover com velocidade e leveza, mantendo-se longe do alcance da espada alheia até o momento de desferir uma estocada certeira. Essa deve ser sua estratégia de sobrevivência.

— Você está tentando me dizer que devo aprender a me esquivar dos golpes até surgir uma chance de matar meu agressor?

— Sim, milady. Embora possa soar insensível, é exatamente o que deve fazer. Aceitar as próprias fraquezas e encontrar um modo de superá-las. Você poderia aprender a se mover com tanta rapidez que seu adversário ficaria zonzo só de observá-la. Além da velocidade, um braço de músculos rijos a ajudaria a não soltar a espada quando atacada.

Fazendo uma careta, Gisele massageou o braço dolorido. Conseguiria torná-lo mais resistente, sem inutilizá-lo? Estava disposta a correr o risco. Se não se esforçasse para vencer suas deficiências, não teria a menor chance de sobreviver.

— Então, milorde, comece logo a me ensinar essas coisas — ela murmurou, não oferecendo resistência quando o escocês a fez deitar-se e pôs-se a despi-la lentamente. — Rezo para nunca ser obrigada a colocar tais habilidades à prova, pois não desejo ferir, ou matar, nenhum ser humano. É horrível sentir-me tão vulnerável! Tão à mercê de meus perseguidores!

— Você não é obrigada a lutar. Poderia apenas fugir e se esconder como tem feito até agora. — Murray começava a recear que, ao incentivá-la a aprender os rudimentos da esgrima, estivesse expondo-a a um perigo maior.

— Sei disso e me esconder será sempre minha primeira escolha. Mas não tema, não pretendo desafiar todos os que cruzarem meu caminho. Posso me sentir menos vulnerável tendo uma arma nas mãos, porém a espada não substitui o bom senso.

De súbito, Gisele descobriu-se inteiramente nua, os olhos penetrantes do cavaleiro marcando-a como ferro em brasa. Langorosa, arqueou as costas, oferecendo os seios túrgidos à boca ávida. Em instantes, a língua ardente percorria cada centímetro de sua pele, do pescoço ao âmago da feminilidade, arrastando-a num turbilhão de sensações alucinantes. A maneira ousada como Nigel a amava já não a chocava. Seu corpo inteiro lhe pertencia. E ainda estremecia de prazer, no auge do êxtase, quando ele se afastou alguns segundos para despir-se. Diante daquela perfeição viril, Gisele sentiu o desejo renascer. Sem hesitar, abraçou-o ansiosa para retribuir a satisfação intensa que lhe fora proporcionada.

Nigel deitou-se de costas, colocou-a sentada sobre os quadris e a penetrou numa única investida. O ritmo inicial, lento e cadenciado, foi se transformando num frenesi até ambos explodirem num orgasmo arrebatador.

— Se melhorarmos o sexo um pouco mais, milady — sussurrou ele, muito, muito tempo depois —, não tenho certeza de que sobreviveremos.

— Sim, temos sido desvairados — Gisele concordou sonolenta.

— Sim, “desvairados” é uma boa palavra. Às vezes penso que, mesmo se o exército inteiro do rei avançasse sobre nós, não iríamos ouvi-los.

— Você está querendo dizer que precisamos começar a nos comportar, a nos restringir por razões de segurança? — Fitando-o, Gisele não teve dúvida de que a paixão carnal que os unia o satisfazia plenamente. Algumas vezes, perguntava-se se conseguia tocar-lhe a alma com igual intensidade.

— Acho que seria sensato. Sim, principalmente porque seus gritos de prazer podem ser ouvidos na Itália.

— Non, meus gritos não são nada perto do rebuliço que você faz. — Rindo, ela empurrou-o, tentando se desvencilhar das mãos que a submetiam a um torturante ataque de cócegas.

— Calma milady. — Nigel beijou-a no rosto, cheio de ternura. — À medida que me sinto revigorado, mais determinado estou a recuperar o tempo e a distância perdidos.

— O que significa voltarmos a cavalgar do nascer ao pôr-do-sol.

— Receio que sim.

— Como quiser. Para onde iremos?

— Já lhe disse. Para o porto, e de lá zarparemos para a Escócia.

— Sim, eu sei — Gisele resmungou. — Mas qual porto? A França possui inúmeros portos.

— De fato ainda não me decidi. Talvez Cherbourg, onde desembarquei há sete anos. Cercado de aldeias e cidades creio que não teremos dificuldade em encontrar alguém que se disponha a nos levar até a Escócia.

— Provavelmente meus inimigos estarão por toda parte.

— Você acha que os DeVeau possuem terras na região?

— Não sei. Estou tão desorientada que mal me lembro onde, exatamente, fica Cherbourg. O que me aflige é que me lembro de haver ouvido meu marido mencionar este porto. Ou talvez eu esteja enganada. Talvez os DeVeau possuam terras nos arredores de Caen.

— Passamos recentemente por Caen. É um milagre não termos marchado direto para o covil de nossos adversários. E, sim, Cherbourg estará fervilhando de caçadores de recompensa.

— Que pensamento animador. — Abatida, Gisele suspirou fundo. — Oh, Deus, tenho andado tão confusa desde que deixamos Guy, que não faço idéia de onde estamos, ou qual direção tomamos. Tampouco me lembro dos lugares onde os DeVeau têm propriedades. Eu deveria ter prestado mais atenção a isso. Desculpe-me.

— Não, querida, não peça desculpas por um erro que não cometeu. Deixe as preocupações comigo e vá dormir agora. Partiremos para Cherbourg ao amanhecer. Estamos perto do porto, mas ainda nos restam um ou dois dias de jornada pela frente. Descanse enquanto é possível.

— Serão apenas um ou dois dias até o porto?

— Se não surgirem problemas, sim. — Nigel reprimiu um bocejo, finalmente vencido pela exaustão. Logo, adormecia.

Pensativa, Gisele apoiou a cabeça no peito largo, esforçando-se, em vão, para conciliar o sono. Um longo percurso os aguardava e devia aproveitar a chance de repousar e repor as energias. Sentia-se inquieta, um medo estranho devorava-a insidiosamente.

A princípio, julgara que seus temores fossem fruto da crescente proximidade com as terras dos DeVeau. Dentro de um, dois dias, estariam entrando num porto movimentado, sem dúvida um antro de caçadores de recompensa. À medida em que analisava os perigos que os aguardavam, mais se convencia não serem esses a verdadeira causa de sua angústia.

Não podia continuar mentindo para si mesma, ignorando o óbvio.

Amava Nigel, de corpo e alma. Apesar de todos os seus esforços para apenas saborear o sexo e não alimentar esperanças vãs, aquele sentimento, ao mesmo tempo maravilhoso e aterrador, florescera e passara a dominar suas emoções. Claro que percebera os sinais do amor nascente, porém preferira fingir não lhes dar importância. Chegara a pensar que seria capaz de superá-lo quando lhe fosse conveniente e prosseguir com sua vida como se nada houvesse mudado.

Como pudera se enganar tanto? Fora uma tola ingênua, digna de piedade.

Entregara o coração a um homem que podia lhe oferecer somente paixão sensual, porque amava outra. A mulher que deixara na Escócia. Embora tivesse dito a ele não desejar outra coisa senão experimentar os prazeres carnais, mentira. Bem no fundo, acalentara o sonho de um futuro a dois.

Compreendia agora que conquistar o coração de Nigel não passara de uma utopia. Como uma adolescente apaixonada, quisera algo que, desde o primeiro instante, estivera fora de seu alcance.

De súbito, Gisele foi invadida pela certeza de que não poderia, jamais, tornar a encarar Nigel. No estado de extrema vulnerabilidade em que se encontrava, acabaria demonstrando o que lhe ia no íntimo e revelando seu sofrimento. Não queria mendigar amor, tampouco mendigar migalhas. Preferia morrer a perder a dignidade, impondo-se a quem nunca poderia amá-la.

Assim, restava-lhe uma única atitude a tomar. Precisava afastar-se, distanciar-se do causador de seu tormento. Não era tão inocente a ponto de acreditar que a distância, a ausência, curariam sua dor. Mas pelo menos a impediria de fazer papel de idiota. Se continuasse junto dele, acabaria traindo-se, por palavras ou atos, e inspirando piedade, quanto desejava amor. Segui-lo até a Escócia, ficar num lugar estranho com o homem a quem amava e que não correspondia a esse seu sentimento, seria morrer por dentro, lenta e impiedosamente.

Depois de vestir-se depressa, Gisele selou o cavalo procurando não fazer o menor ruído, temerosa de acordar Nigel.

Parte de si sabia ser loucura fugir daquele jeito, em especial no meio da noite. Porém outra parte insistia que loucura maior seria permanecer. Impossível esquecer o ardor com que ele falara da escocesa quando delirando de febre.

Também não se esquecera do malfadado comentário sobre a cobiça natural que o prêmio por sua captura despertava. Parecia-lhe possuir duas escolhas: sofrer a desilusão de amar um homem que jamais retribuiria esse amor, ou amar um homem que acabaria traindo-a, entregando-a nas mãos dos DeVeau em troca da recompensa. Qualquer uma dessas possibilidades era arrasadora. Temia não ser capaz de superá-las nunca, caso se concretizassem. Não suportaria ser mais uma vez traída e abandonada.

Cautelosa, ela se afastou do acampamento puxando o cavalo pelas rédeas antes de montá-lo. Não tinha idéia sobre qual direção tomar. Até encontrar Nigel, estivera entregue à própria sorte durante quase um ano e conseguira escapar do cerco promovido pelos DeVeau. Poderia reaprender a contar somente consigo mesma.

Quem sabe sua família não estava à beira de provar sua inocência?

Livre das acusações mentirosas regressaria ao lar e buscaria conforto junto dos seus.

Ao entrar no bosque escuro, Gisele, inconscientemente, apoiou a mão no cabo da espada. Estava abandonando o único homem que se dispusera a lhe ensinar os segredos da esgrima. O único homem que fora capaz de despertar sua paixão.

A cada metro percorrido, mais desejava retroceder, mais queria voltar e se atirar nos braços de Nigel, onde se sentia protegida e confortada. Pedia a Deus que lhe desse forças para esquecê-lo. Caso contrário, passaria o resto da vida arrependendo-se de havê-lo deixado.

 

Nigel, ao acordar, estranhou não achar Gisele. Porém, imaginando-a em algum recanto perto do riacho para atender às necessidades pessoais, não deu grande importância à ausência que imaginava temporária. Mas, ao notar que o cavalo dela também sumira, a inquietude o dominou.

Em poucos minutos vasculhou o acampamento, à procura de indícios do que acontecera enquanto estivera dormindo. Duvidava de que os inimigos os tivessem atacado na calada da noite e a raptado. Os DeVeau jamais o deixariam vivo e Gisele não se entregaria sem resistir. Não havia sangue, nem sinais de luta, nem pegadas suspeitas perto do acampamento.

Lentamente, a verdade tomou forma. Gisele partira sozinha, de livre e espontânea vontade. Mas sua mente recusava-se a aceitar o que os olhos constatavam. Por que ela teria fugido?

Como o havia amado de maneira tão apaixonada num momento, para abandoná-lo em seguida? Logo agora, quando estavam prestes a chegar ao porto e zarpar para a Escócia?

Como Gisele, inteligente e sensata, cometia a loucura de vagar sozinha por uma terra onde os caçadores de recompensa proliferavam? Teria dito, ou feito algo, que a houvesse ofendido a ponto de levá-la a abandoná-lo sem dizer uma palavra? Sim, reconhecia não perder uma única oportunidade de possuí-la com uma avidez insana. Reconhecia não haver nunca falado de amor. Por outro lado, ela sempre dissera não estar interessada em juras apaixonadas. Tampouco a percebera infeliz, ou insatisfeita.

Quanto mais tentava compreender o motivo da fuga repentina, menos sentido as coisas faziam. Aos poucos, o medo pelo que pudesse lhe acontecer foi se aliando a uma raiva surda. Prometera a Guy protegê-la, mantê-la segura, e cumprira a palavra empenhada. Gisele devia-lhe alguma explicação, qualquer que fosse. Não podia simplesmente largá-lo, ignorar tudo o que haviam partilhado e arriscar-se a ser capturada e morta depois de tudo o que fizera para conservá-la viva. Recusava-se a crer que o modo desvairado como haviam se amado na noite anterior fora um adeus. Ainda que lhe custasse à última gota de sangue, iria encontrá-la e arrancar-lhe as respostas que buscava. Depois de fazer aquela teimosa recobrar o bom senso.

Do alto da pequena colina, Gisele contemplou os campos que se estendiam até o horizonte. Seria muito difícil atravessá-los sem ser vista, ou interceptada e submetida a um interrogatório. Como Nigel sempre conseguira descobrir trilhas que os haviam permitido viajar longe de olhares indiscretos, perguntou-se pela enésima vez, limpando o suor da testa e pescoço com um pano úmido. Ansiava descansar sob uma sombra, refugiar-se atrás de uma árvore, esconder-se numa caverna. Diferentemente dela, o escocês sempre soubera para onde se dirigiam e qual caminho tomar. Agora, sozinha, vagava a esmo, pedindo a Deus e ao anjo da guarda para conservá-la no rumo certo.

A falta que Nigel lhe fazia chegava a ser opressora. A saudade começara a atormentá-la mal saíra do acampamento, horas atrás. Deixá-lo só aumentara o desejo, a ausência só o tornara mais presente. Precisara lançar mão de todas as forças para não correr de volta ao aconchego dos braços musculosos. Como uma ladainha interminável, repetia para si mesma os motivos pelos quais partira, temendo sucumbir ao ímpeto de retroceder. Sentia-se confusa, insegura.

Fora mesmo uma decisão acertada? O preço a pagar por aquela paixão ardente seria ter, no final da história, o coração partido. Agora, porém, perguntava-se se não deveria correr este risco até o fim. Dera as costas à sua única chance, ainda que temporária, de desfrutar da felicidade. Passaria o resto de seus dias se arrependendo?

— Virgem Maria — ela murmurou, angustiada. — Não sei o que será de mim…

Após vários segundos de intensa aflição, inspirou fundo e ensaiou um sorriso, lutando para encarar a situação com um mínimo de serenidade. Parecia uma doida. Num momento estivera plenamente convencida de que precisara abandonar Nigel, de que não houvera outra escolha. No outro, acreditava não existir problema nenhum em voltar para o escocês. Como seu coração pendia para a segunda alternativa, perdia minutos preciosos debatendo-se em meio às indecisões. Porque vacilava, abria espaço para ser mais facilmente descoberta por seus perseguidores e capturada.

De fato, reconhecia haver perdido parte das habilidades que a tinham permitido sobreviver durante quase um ano sozinha. Acostumara-se a apoiar-se em Nigel, inconscientemente entregando-lhe a responsabilidade de zelar por sua segurança e conservar sua liberdade.

Olhando ao redor pela última vez, Gisele pôs-se a descer a colina, procurando se persuadir de que avançava na direção certa. Planejava abrigar-se na casa da prima Marie, que já a ajudara anteriormente.

Sabia quanto era perigoso atravessar as planícies, transformando-se em alvo de todos os olhares e especulações. Mas como desconhecia as rotas ao longo da floresta, não valia à pena entregar-se a lamúrias. Melhor enfrentar logo o desafio.

Porém, ainda na metade do caminho, não tardou a perceber a gravidade do erro que cometera. Uma dúzia de cavaleiros, ostentando as cores dos DeVeau, surgiu aparentemente do nada, e seus gritos triunfantes deixavam claro terem-na reconhecido. Desesperada, Gisele deu meia-volta e lançou-se num galope quase suicida, almejando alcançar a floresta. Cavalgando às cegas, tinha uma única coisa em mente: não permitir que seus perseguidores a cercassem. Com o coração a ponto de sair pela boca, embrenhou-se na mata densa, não se importando com os galhos das árvores que açoitavam seu rosto e pescoço. Por fim, certa de haver colocado uma boa distância entre si e os inimigos, refugiou-se atrás de um arbusto alto e espesso. Ofegante, desmontou e inspirou fundo repetidas vezes, para recuperar o fôlego. Ainda escutava os berros dos homens, embora muito de longe. Se continuasse escondida, se não fizesse nenhum barulho, existia a chance de não ser localizada.

Quando estava começando a pensar que, por milagre, conseguira escapar, um ruído soou às suas costas. Num átimo, desembainhou a espada e virou-se. Um sujeito alto e forte a encarava com um risinho cínico.

— Depois de passar tanto tempo fingindo ser um rapaz, você agora pensa ter se transformado num? — Devagar, o mercenário desembainhou a espada também.

— Posso ser pequena, mas minha espada não é pesada demais para minhas mãos e tem um corte afiado.

— Oh, estou tremendo de medo.

— Logo você estará morto.

— Ah, sim, você adquiriu o gosto de assassinar homens, não? — Os olhos negros arregalaram-se ao vê-la aparar seu golpe com facilidade.

— Adquiri o gosto de permanecer viva — ela retrucou num tom baixo e calmo, que mascarava o pavor crescente.

— Aproximei-me de você com a espada embainhada. Não planejava matá-la. — Obviamente o desconhecido tentava convencê-la a se render.

— Talvez você não tivesse intenção de me matar com suas próprias mãos. Mas sem dúvida irá me entregar àqueles que se encarregarão de fazê-lo.

— Você matou um DeVeau. Justamente o membro mais importante da família, o mais íntimo do rei. Minha obrigação é entregá-la à justiça.

— Os DeVeau desconhecem o significado da palavra justiça.

Sorrindo cruelmente, o infame partiu para o ataque. Seguindo à risca os ensinamentos de Nigel, Gisele valeu-se da velocidade como tática, evadindo-se das estocadas com uma agilidade impressionante. Pretendia ganhar tempo e vencer o oponente pelo cansaço. Quando estava permitindo-se pensar que havia uma real possibilidade de vitória, algo a atingiu na base do crânio. Gritando de dor, caiu de joelhos no chão, e a espada voou longe. Dedos rudes a seguraram pelos cabelos, forçando sua cabeça para trás.

— Eu estava até gostando do duelo — Gisele escutou seu adversário dizer, como se de muito longe.

— Não pude acreditar em meus olhos quando o avistei lutando com essa vadia — comentou o fulano atarracado, que continuava a segurá-la pelos cabelos.

— Ela revelou-se verdadeiramente hábil no manejo da espada. Alguém a ensinou a duelar bem, Louis.

— Com certeza foi aquele escocês com quem a vagabunda estava se prostituindo. Você deveria tê-la matado e encerrado logo o assunto, George.

— Minhas ordens eram para localizá-la e capturá-la, não executá-la — devolveu o tal George, frio. — Se DeVeau a quer morta, que suje as próprias mãos de sangue.

— DeVeau não será tão misericordioso quanto você. Afinal, essa mulher matou e mutilou um primo dele.

— Vachel odiava seu primo Michael. O que o enfurece é que, sendo o segundo na hierarquia da família, ainda não pôde se apossar de toda a herança e ganhar os favores do rei porque a viúva de sir Michael continua viva.

— Você deveria ter mais cuidado com o que diz George. Vachel DeVeau é inclemente com qualquer um que se atreva a criticá-lo.

— Medirei as palavras quando o vir frente a frente, Louis. Então pegarei a recompensa e partirei dessa terra amaldiçoada. — Uma breve pausa. — Onde está o escocês?

— Ele não está mais comigo — Gisele murmurou, rezando para que deixassem Nigel em paz.

— Você o matou também? — Louis começou a andar, arrastando-a consigo pelos cabelos.

— Nunca matei ninguém — retrucou, lamentando a mentira.

O mercenário que matara para salvar a vida de Nigel, embora só tivesse querido feri-lo no braço, talvez fosse amigo de um desses dois. Guardaria segredo, pelo menos por enquanto.

— Não é a história que os DeVeau contam.

— E você acredita em todas as palavras que saem daqueles lábios sinistros? Então é um tolo maior do que parece se engole tudo o que os DeVeau falam.

De soslaio, Gisele notou a expressão indecisa de George. Era óbvio que o mercenário tinha suas dúvidas. Quem sabe não encontraria nele um aliado? Não, não alimentaria falsas esperanças porque a desilusão seria ainda maior. O sujeito cobiçava a recompensa por sua captura e iria até o fim para obtê-la. Além de tudo, qualquer um que a auxiliasse estaria colocando a própria vida em risco, pois atrairia para si a ira dos DeVeau. Não existiam muitas pessoas no mundo capazes de um gesto tão altruísta… Exceto Nigel Murray.

— Não tente se fazer de inocente comigo — vociferou Louis, tirando um pedaço de corda do alforje para amarrar as mãos dela atrás das costas. — Não me importo se você matou ou não o bastardo. Sir Vachel a quer e planejo entregá-la a ele — completou o brutamonte, atirando-a sobre o cavalo e montando em seguida.

— Sir Vachel evidentemente se cerca de vassalos estúpidos e obedientes.

Um tabefe no rosto quase a fez cair da sela.

— Se você deseja implorar piedade, poupe o fôlego para quando chegar ao castelo.

— Eu jamais daria a qualquer DeVeau o prazer de me ouvir implorar.

— Começo a pensar que você matou seu marido cortando-o em pedacinhos com essa sua língua afiada. Melhor ficar quieta agora, mulher. Sir Vachel pode desejá-la viva, porém não exigiu que a levássemos intacta.

Gisele abriu a boca para dizer algo, percebeu George balançando a cabeça e então se calou. Falar podia aliviar o medo e a raiva que a corroíam por dentro, mas preferia não chegar à fortaleza de sir Vachel inconsciente de tanto apanhar. Espancada, não apenas seria incapaz de tentar elaborar uma defesa, como perderia qualquer chance de escapar, devido à extrema fraqueza. Embora, no fundo da alma, a chama da esperança ainda ardesse, tinha plena convicção de estar caminhando ao encontro da própria morte. Todavia, antes morrer de cabeça erguida do que como um vegetal. Ser arrastada para diante do inimigo surrada, pisoteada e muda apenas aumentaria sua humilhação. Que lhe fosse concedida a graça de conservar a dignidade até o fim.

O grupo atravessou os campos e, depois de cruzar um pequeno bosque, chegou aos portões imponentes do castelo de sir Vachel. Se sobrevivesse a essa tragédia, ela teria que descobrir uma maneira de sair dali. De súbito, uma tristeza imensa a invadiu. Fora uma idiota deixando que suas emoções a afastassem de Nigel. Fora louca ao deixar que os ciúmes de uma desconhecida a guiassem.

— Quando a vimos cavalgar tão ousadamente pelas terras de sir Vachel, pensamos que estivesse vindo se render — observou George.

— E roubar-lhes a chance de pôr as mãos no dinheiro sangrento do prêmio?

George ergueu uma sobrancelha, com verdadeira curiosidade.

— Pareceu-me a única explicação possível para sua atitude, considerando que milady passou quase um ano se escondendo. — Havia sincera admiração na voz do mercenário.

— De fato existe uma outra explicação bem mais prosaica. Apenas me perdi.

— Perdeu-se?

— Sim. — Com o coração aos pedaços, ela contemplou as muralhas ameaçadoras. — Sim, eu me perdi completamente.

Só pedia a Deus que Nigel não a estivesse procurando, que houvesse desistido de tudo e voltado para casa. Sendo um cavaleiro íntegro, fiel à ética, seria natural que tentasse cumprir o juramento de protegê-la. Todavia, tê-lo abandonado no meio da noite, sem uma única palavra de adeus, talvez o houvesse ofendido tanto que o levara a desistir de salvá-la. Se Nigel, impelido pelo dever, fosse arrastado para a armadilha na qual ela mesma caíra, acabaria destruído. Em breve seria enforcada e não queria levar para o túmulo a culpa de ter provocado a morte de um homem valoroso e inocente.

Nigel observou as planícies que se estendiam até o horizonte. Tanto espaço aberto o inquietava. Desmontando, analisou a terra pisoteada e revirada pelos cascos de inúmeros cavalos, sinais evidentes de que algo acontecera ali. O instinto dizia-lhe que Gisele achava-se em grave perigo.

Quando saíra do acampamento, logo identificara os rastros deixados pela jovem francesa. E se não precisara se esforçar para descobrir vestígios de sua passagem, tampouco os inimigos teriam encontrado dificuldade para segui-la.

Levando o cavalo pelas rédeas, acompanhou as pegadas até a mata onde, com certeza, Gisele buscara refúgio. Notando indícios de luta, sentiu o sangue gelar nas veias. Dois homens a haviam cercado e detido. A ausência de sangue acenava com a possibilidade de Gisele ainda estar viva. Portanto, tinha chances de salvá-la, se soubesse para onde a tinham levado. Seguiria a trilha até o fim do mundo, se preciso fosse, mas não a abandonaria.

Imaginá-la morta, vítima dos DeVeau, era um pensamento insuportável, enlouquecedor. Não podia acreditar que Deus permitiria tamanha injustiça. A pobre dama escapara durante quase um ano à perseguição implacável e Deus não iria abandoná-la no último momento, quando prestes a ganhar a liberdade. Rezava para que Ele a conservasse viva por mais algumas horas, dando-lhe, assim, tempo de localizá-la e resgatá-la.

Inspirando fundo para dominar a agitação interior, Nigel tornou a estudar a cena onde, muito provavelmente, o duelo e a captura haviam ocorrido. Ao tentar atravessar os campos, Gisele se expusera como um alvo fácil e os DeVeau a tinham cercado.

Se resolvesse fazer o mesmo trajeto, aventurando-se pelas planícies, corria o risco de vir a sofrer destino semelhante. Os DeVeau sabiam que um escocês a escoltava e certamente o estariam procurando. Melhor evitar a rota mais curta e avançar pelos flancos, onde a vegetação, embora parca, o protegeria de olhares curiosos.

Há horas, pensamentos ambivalentes o atormentavam. Gisele o tinha largado de livre e espontânea vontade, na calada da noite. Qualquer homem sensato interpretaria o gesto como óbvia rejeição. Infelizmente não conseguia ser sensato em relação à Gisele. Tentara se convencer de que fora a promessa de protegê-la que o impelia a procurá-la, que agia movido pela honra. Deixando-o, ela o liberara do juramento feito a Guy e dispensara seus serviços. Ninguém nunca o condenaria se desistisse e retornasse à Escócia.

Porém existiam outros motivos que o impediam de entregá-la à própria sorte. Motivos que iam além da ética, da honra de cavaleiro. Queria-a de volta. Queria-a em segurança. Queria-a perto de si.

Sentia-se tão confuso, com o coração tão perturbado, que sua cabeça latejava. E culpava a bela dama por seu desconforto. Depois de presenteá-lo com a paixão mais doce e selvagem que jamais conhecera, ela desaparecera sem dizer uma única palavra. Não sabia, exatamente, o que sentia por Gisele. Na verdade, receava analisar a natureza desses sentimentos. Um detalhe, todavia, permanecia inquestionável: entrara em pânico quando acordara e não a vira.

Desde o primeiro instante, soubera que a caçaria até os confins da terra. Não desistiria enquanto lhe restasse um sopro de vida.

Cauteloso, Nigel seguiu o rastro deixado pelos DeVeau, dominado por uma sensação de profunda inquietude. O perigo o aguardava. Ao chegar do outro lado do bosque, sua impressão confirmou-se. Ante a visão funesta, reconduziu o cavalo imediatamente para o refúgio proporcionado pela vegetação espessa.

A pobrezinha rumara direto para as garras do inimigo.

Uma fortaleza aparentemente inexpugnável, com suas muralhas altas e portões de ferro, rompiam a placidez da paisagem. Não tinha dúvida de que Gisele encontrava-se aprisionada ali dentro.

Que será que a fizera marchar para a própria perdição? Nos últimos tempos percebera-a agitada. Por mais que tivesse se esforçado para convencê-la do contrário, ela insistia em não se perdoar por havê-lo arrastado para aquela situação temerária. Talvez, cansada de fugir, resolvera se entregar aos DeVeau para pôr fim à perseguição incessante e libertá-lo da obrigação de protegê-la.

Não, Gisele não era nenhuma tola. Uma mulher tão inteligente não entraria em pânico, em especial quando ainda existia esperança de salvação. Afinal, de acordo com David, a família agora se empenhava em inocentá-la. Gisele era por demais vibrantes, por demais corajosa, para simplesmente desistir de viver.

Guerreiro experiente, Nigel tinha perfeita consciência de que enfrentava um desafio de proporções monumentais. Como penetrar naquela fortaleza? Como tirá-la de lá sem que fossem vistos e mortos?

Uma única coisa lhe dava ânimo. A certeza de que, apesar de ser uma fortificação muito bem construída, ela possuía um ponto fraco. Cabia-lhe, portanto, identificá-lo e utilizá-lo a seu favor.

Mas o que faria quando estivesse no interior do castelo? Seu sotaque, caso precisasse falar com alguém, o trairia num instante. Jamais poderia se passar por um dos soldados de DeVeau. Também teria que localizar Gisele, libertá-la e levá-la em segurança para fora das muralhas.

Infelizmente, qualquer esboço de plano que lhe vinha à mente implicava em arriscar a vida de Gisele e a sua própria. Um homem sensato aceitaria a derrota, lamentaria a perda da mulher que se esforçara para salvar e voltaria para casa desolado.

Entretanto, nunca fora o tipo de desistir de uma empreitada. A teimosia, às vezes, revelava-se grande qualidade. Pensaria num meio de arrancar Gisele das mãos de seus algozes. Não a deixaria pagar por um crime que não cometera. Jurava-o em nome de Deus.

 

Louis arrastou Gisele para o centro do salão imenso, e George seguiu-os alguns passos atrás. Ao ser atirada aos pés do homem alto e magro, sentado à cabeceira da mesa, ela protestou baixinho. Então, altiva e serena, ergueu-se para encarar seu inimigo.

Por um segundo Gisele perguntou-se se não estaria ficando louca. Parecia-lhe contemplar o marido, tamanha a semelhança entre Vachel e Michael DeVeau. Esguio e elegante, suas belas feições beiravam à perfeição. Vachel ostentava a mesma pele clara, os mesmos cabelos longos, espessos e negros, os mesmos olhos glaciais de seu falecido marido.

— Enfim nos encontramos prima — disse com voz suave, quase musical. — Posso me atrever a comentar que sua aparência não é das melhores?

— Estou mortificada — ela devolveu irônica, abaixando-se a tempo de evitar outro cascudo de Louis.

— Não a toque! — ordenou Vachel.

As palavras ditas num tom baixo, mas frio e ameaçador, fizeram Louis retroceder, como se atingido por um soco.

Ah, apesar da impressionante semelhança física, existia uma diferença significativa entre Vachel e seu marido, Gisele concluiu, observando-o com redobrada atenção. O instinto dizia-lhe que Vachel possuía a natureza violenta de Michael, porém refinada e, portanto, infinitamente mais perigosa. A crueldade de Michael manifestara-se em acessos repentinos de cólera, quando, cego de ódio, dava vazão à fúria. Vachel, no entanto, demonstrava o autocontrole e a calma típica daqueles que gostam de infligir dor sem pressa para aumentar o prazer.

— Temeroso de que seu lacaio me mate antecipadamente e lhe roube a satisfação? — Não iria fraquejar diante de um DeVeau. Seria inútil, além de doloroso.

— E o que a leva a pensar que desejo matá-la? — Vachel levou o cálice de vinho aos lábios e sorveu um demorado gole.

— Fui condenada à forca no momento em que abandonei a casa de seu primo. Por acaso minha sentença sofreu alguma alteração enquanto estive ausente?

— Sua sentença, sua punição por haver posto um fim à vida miserável de Michael será aquela que eu escolher.

Gisele esforçou-se para disfarçar o medo. Suspeitava de que Vachel poderia fazer a morte lenta por asfixia parecer misericordiosa. Aquela criatura macabra a aterrorizava. Até quando suportaria a pressão sem desmoronar?

— Sir — interveio George, plantando-se ao lado de Gisele —, informaram-me haver uma recompensa pela captura da fugitiva.

— Sim, claro. Negócios devem vir sempre antes dos prazeres. — Vachel murmurou algumas palavras para o homem sentado à sua direita que, imediatamente, retirou-se do salão.

Prazeres? Gisele pensou apavorada, tentando se convencer de que Vachel era apenas uma dessas personalidades doentias, que se divertiria observando uma mulher se debater na forca. Se aquele era o menor dos horrores que lhe estavam reservados, não queria nem imaginar a que outras atrocidades seria submetida antes de morrer.

Dali a instantes o sujeito retornava com um pequeno saco de moedas, entregues a George. Antes de sair, o mercenário lançou um olhar indecifrável para Gisele, misto de culpa e dúvida. Mas já não adiantava inspirar tais sentimentos ao responsável por sua prisão. Impossível voltar no tempo e mudar o destino.

— É melhor se apressar, Louis — Vachel rosnou, transpirando desdém —, ou George acabará se esquecendo de lhe dar a parte da recompensa que lhe cabe. Em sua opinião, quantos sobreviverão à briga pelo dinheiro, Ansel? — indagou ao amigo, que tornara a sentar-se à sua direita.

— Metade deles. — A voz de Ansel, um mero sussurro, parecia não pertencer à figura compacta e musculosa.

Percebendo a surpresa de Gisele, Vachel explicou tranqüilamente:

— Ansel quase perdeu por completo a voz quando meu pai tentou esganá-lo. Ele é absolutamente leal a mim. Arriscou a própria vida impedindo que meu pai me surrasse até a morte por eu haver dormido com sua terceira esposa.

Por um triz a curiosidade não levou Gisele a perguntar que fim levara o pai de Vachel. Porém o bom senso prevaleceu.

— Se você está tentando me chocar com histórias de depravação, não desperdice o fôlego. Lembre-se de que fui casada com um membro de sua família.

— Michael não passava de uma sombra pálida daquilo que eu sou.

— Especialmente agora — ela retrucou, não resistindo ao impulso de tecer um comentário mordaz. Para seu espanto, escutou-o rir.

— Oui. Meu primo foi transformado num eunuco. Você deve ter se aproveitado de uma de suas bebedeiras para amarrá-lo à cama. Qualquer homem sóbrio dominaria uma mulher pequenina como você.

— Eu não matei Michael.

— Segundo rumores, você nunca fez segredo do quanto o odiava.

— Odiar é muito diferente de amarrar alguém na cama, castrá-lo, sufocá-lo com a própria virilidade e então cortar-lhe a garganta.

— Será mesmo? Sempre achei que ódio e assassinato fossem inseparáveis. Aliás, a mutilação sofrida por Michael só poderia ter sido concebida por uma mente feminina. A típica vingança da esposa infeliz.

— Se é o que você pensa. — Gisele sabia não adiantar discutir e resolveu não contradizê-lo.

— Sim, é o que penso. Afinal, castração é bem mais interessante que envenenamento, ou uma punhalada nas costas. — Virando-se para Ansel, ordenou: — Acompanhe milady até um quarto onde ela possa se banhar e trocar-se. Providencie-lhe um vestido.

— Você quer que eu suba os degraus do cadafalso limpa e corretamente trajada?

— Sua aparência é imprópria a uma dama. Você não quer escandalizar as pobres pessoas que comparecerão ao seu enforcamento, não é?

— Oh, não, claro que não.

Seguindo Ansel, Gisele alimentava dúvidas crescentes. Não entendia o que se passava e isso a assustava. Se Vachel pretendia executá-la, que importância tinha estar suja e metida em roupas masculinas? Aquela explicação ridícula sobre não escandalizar os espectadores não passava de uma brincadeira mórbida. Só existia um motivo para o infame desejá-la limpa e vestida como uma dama. Vachel devia possuir o mesmo gosto de Michael pelo estupro.

Ansel a conduziu a um aposento espaçoso onde uma serva os aguardava. Depois de despachar a tímida criada com algumas instruções, o sombrio cavaleiro postou-se à porta, imóvel feito uma estátua.

Ignorando o silencioso cavaleiro, Gisele olhou ao redor. Aquele era o quarto de Vachel, tinha certeza disso. Também tinha certeza dos planos do canalha. Ele pretendia usá-la até se cansar e então mandá-la executar. Uma ótima maneira de desfrutar de uma amante e depois descartá-la, quando o interesse pela novidade acabasse.

Tensa, buscou, em vão, um meio de escapar. Ansel não a ajudaria nunca, considerando sua lealdade canina a Vachel. Estava presa numa armadilha. Apenas um milagre a tiraria dali. Sentindo-se à beira das lágrimas, sufocou o pranto. Não daria aos inimigos o prazer de testemunhar seu medo e aflição.

Quando as criadas trouxeram água quente para encher a tina, observou-as com atenção. Silenciosas, cabisbaixas, abatidas. O pavor inspirado pelo patrão as impediria de auxiliá-la, mesmo se o quisessem. Tão mudas e nervosas quanto entraram, as coitadas se retiraram com os baldes vazios.

— Você podia pelo menos virar-se — Gisele falou áspera a um imperturbável Ansel.

— Non.

— Não vou me despir na sua frente.

— Você o fará, ou eu mesmo cuidarei disso.

Gisele não se mexeu. Mas quando o cavaleiro deu o primeiro passo, sua determinação caiu por terra. Trêmula de embaraço e raiva, deu-lhe as costas e despiu-se. Antes, porém, de entrar na tina, o maldito a agarrou pelo pulso e, imobilizando-a, examinou-a de alto a baixo, como se estivesse inspecionando um pedaço de carne. Vermelha de ódio e indignação suportou a afronta de cabeça erguida. Solta, afinal, entrou na tina e fechou os olhos, esforçando-se para se comportar como se estivesse só.

Terminado o banho, Ansel apontou para as roupas que uma das servas colocara sobre a cama. Vesti-las significaria curvar-se ao inevitável. Infelizmente seus trajes masculinos haviam sido levados embora. Portanto, ou continuava nua, ou se cobria com o que lhe tinham providenciado. Vendo-a vestida, Ansel deu-se por satisfeito e saiu do quarto, trancando a porta pelo lado de fora.

Sozinha, Gisele deu vazão ao desespero. Atirando-se na cama, chorou até não ter mais lágrimas.

Estava prestes a ser violentada. Não adiantava se enganar. Era esse o destino que Vachel lhe reservava. Por isso o banho e as roupas limpas. O canalha a queria em perfeitas condições quando a estuprasse.

Cuidadosamente, Nigel havia a libertado dos traumas, dos medos, mostrando-lhe que a paixão carnal podia ser bela e prazerosa. Ainda não se esquecera de todas as coisas horrendas às quais o marido a submetera e, talvez, nunca viesse a esquecê-las por completo, mas Nigel a ajudara a superar as piores lembranças, transformando-as em imagens apagadas, distantes. Agora outro DeVeau preparava-se para arruinar sua paz interior, tão duramente conquistada. Seria obrigada a suportar novos horrores, novas humilhações. Tudo o que partilhara com Nigel acabaria maculado, os momentos de puro êxtase engolidos por outros de dor e crueldade.

De repente, alguém abriu a porta. Resistindo ao impulso de esconder-se num canto qualquer como uma criança apavorada, Gisele levantou-se e endireitou os ombros para receber Vachel.

Uma mocinha entrou rapidamente, deixou uma bandeja sobre a mesa e tornou a sair tão assustadiça quanto entrara. Do lado de fora, Ansel passou o ferrolho na porta, isolando-a do resto do mundo na companhia de seu pior inimigo.

Difícil fitar aquele rosto tão belo e acreditar tratar-se da face de um monstro. Michael também fora tão bonito quanto perverso.

— Então você cortou os cabelos… Por acaso já adivinhou os planos que tracei para você, milady? — Fitando-a como se analisasse um espécime estranho e fascinante, Vachel cobriu os seios empinados com ambas as mãos.

Enojada com o toque, Gisele obrigou-se a demonstrar total indiferença, engolindo a onda de náuseas.

— É óbvio que você não pretende me cobrir de elogios.

— Poderei até lhe fazer um ou dois elogios. Estou convencido de que meu falecido primo não lhe ensinou nada, porém confesso estar curioso para descobrir o que aquele escocês rude lhe ensinou.

— Ele me ensinou como escapar dos DeVeau e como lutar. Dê-me uma espada e lhe mostrarei.

— Non. Mas manterei sua bravata em mente. Se você estiver falando a verdade sobre ser hábil com a espada, talvez eu pense num jogo interessante.

— Será difícil mostrar-lhe minha habilidade quando estiver morta. Afinal, serei enforcada em breve, não?

— Não. Tenho outros planos. Minha família está sedenta de vingança. Porém creio que não lhes fará mal esperar um pouco mais para saciar essa sede. Ninguém precisa saber que já a capturei. Podemos desfrutar de um prazer mútuo dentro deste quarto, durante algum tempo.

— Você acha que me comportarei como uma prostituta, que me deitarei com você para salvar o pescoço?

— Eu não disse que você poupará seu lindo pescoço. — Devagar, quase sensualmente, ele fechou os dedos longos e muito brancos ao redor do pescoço de Gisele.

— Se você não pretende me salvar da forca, por que, então, o permitiria tocar-me?

— Você fará o que eu quiser, porque não deseja morrer. — Durante intermináveis segundos, Vachel aumentou a pressão, até quase sufocá-la. Então a soltou de súbito, como se cansado da brincadeira.

Arquejante, Gisele massageou a região dolorida.

— Mas você falou que o que eu fizer, ou deixar de fazer, não importa, pois está decidido a me enforcar. É apenas uma questão de tempo.

— Não, milady. É uma questão de quanta dor você está disposta a suportar antes de me dar o que desejo. E sempre existe aquela coisa inútil à qual as pessoas se agarram quando tudo parece perdido: a esperança. Você vai querer manter-se viva porque, no fundo, alimentará a esperança de conseguir escapar. Ou de me matar.

— Estou começando a pensar que farei mais do que simplesmente alimentar a esperança de matá-lo — Gisele murmurou colérica, vendo-o caminhar até a porta. — Vou rezar para isso.

— Ótimo. Tanta veemência devolve um pouco de rubor às suas faces pálidas e você perde um pouco desse ar de fragilidade extrema. Descanse. Voltarei para seus braços após o jantar.

Quando a porta se fechou atrás de Vachel, Gisele sentou-se na beirada da cama, dividida entre a vontade de vomitar e de chorar. Num momento o infame quase a estrangulara, no outro, mandara-a descansar para poder satisfazê-lo sexualmente. Pelo visto, loucura e sadismo corriam soltos na família DeVeau. Acertara ao concluir que Vachel era muito mais perigoso e cruel que o primo.

Olhando a bandeja com pão e vinho, deixada sobre a mesa pela criada, considerou a possibilidade de jejuar até a morte, mas resolveu comer. Vachel tinha razão. Enquanto permanecesse viva, se agarraria à esperança. Sofreria dor e humilhações, porém, no íntimo, conservaria acesa a chama da esperança. Esperança de conseguir fugir, de que sua inocência fosse provada e de que Vachel DeVeau viesse a ter uma morte pavorosa.

Enquanto mordiscava o pão, Gisele serviu-se do segundo cálice de vinho. Desejava estar anestesiada quando Vachel a possuísse ou, ainda melhor, tão bêbada que o bastardo acabaria perdendo o interesse, pelo menos naquela noite. Não tardou a constatar que jamais ficaria embriagada. No jarro, não sobrara vinho para um terceiro cálice. Vachel cuidara até desse pequeno detalhe, antecipando suas ações. Como poderia lutar com um adversário não só desumano, mas também inteligente?

Numa tentativa desesperada para não entregar-se à auto-piedade, levantou-se e começou a vasculhar o quarto meticulosamente. Após minuciosa busca, não encontrou nada que pudesse usar como arma. Parecia-lhe estranho um homem como Vachel, que ao longo da vida arregimentara tantos inimigos, dormir num aposento onde não havia uma única arma para se proteger no caso de um ataque inesperado.

Desconfiada, tornou a inspecionar o ambiente. Então, praguejou baixinho, dando-se conta da verdade. Não, aquele não era o quarto de lorde DeVeau, embora todos acreditassem que fosse. Tratava-se de um cenário. Os aposentos reais do senhor do castelo deviam ficar num lugar oculto, conhecido apenas por Ansel. E Ansel levaria a informação para o túmulo.

Talvez houvesse uma passagem secreta, pensou, deslizando a mão pelas paredes à procura de uma saliência qualquer que, uma vez pressionada, conduziria a um novo ambiente.

— O que você está fazendo? — indagou alguém, friamente, às suas costas.

Disfarçando a surpresa, pois não escutara ruído nenhum, Gisele virou-se para encarar Vachel DeVeau.

— Eu estava procurando pela passagem secreta — respondeu sincera.

— O que você quer dizer com isso?

— Exatamente aquilo que você entendeu.

— Por que eu desejaria escapar de meu próprio quarto?

A frieza e suavidade crescentes daquela voz revelavam quanto a situação o desagradava. Embora soubesse não ser sensato confessar haver adivinhado um dos mais bem guardados segredos de Vachel, Gisele decidiu ir em frente. Talvez conseguisse fazê-lo perder o controle. Preferia ser morta num rompante de cólera, a ser torturada aos poucos, dia após dia.

— Porque você é odiado por dezenas de inimigos ferozes. A última coisa de que gostaria é que seus adversários conhecessem a localização de seus aposentos. O quarto é o lugar onde um homem fica mais vulnerável.

— A inteligência nem sempre é uma qualidade apreciada numa mulher.

— É o que seu primo me dizia, antes ou depois de me espancar.

— Meu primo, obviamente, não a surrou com a freqüência e a força necessária.

— Mas empenhou-se ao máximo.

— Michael sempre foi um frouxo.

Tensa, Gisele caminhou até a mesa e apontou o jarro vazio.

— Você não mandou vinho suficiente — reclamou, procurando conter os tremores que a sacudiam.

— Mandei o bastante. — Vachel tocou-a de leve nos cabelos e nas faces, fitando-a fixamente. Num gesto repentino, agarrou-a pela cintura e atirou-a na cama, imprensando-a contra o colchão. — Você estava esquadrinhando as paredes à procura de uma passagem secreta — murmurou, desfazendo o laço do corpete.

Nauseada, Gisele lutou para permanecer imóvel. A brutalidade do marido a tinha ensinado que resistir apenas aumentava a dor. Não possuía nenhuma pia consigo, para matar ou ferir seu agressor. Vachel era mais alto e mais forte. Se o repelisse, acabaria sofrendo toda sorte de violência e degradação.

— Se eu tivesse um esconderijo, gostaria que o local permanecesse oculto, longe de olhares estranhos. E se você conhecesse meu segredo, não poderia se espantar caso eu resolvesse silenciá-la.

— Você não acha inútil ameaçar me matar? Afinal, já deixou claro que nada do que eu diga, ou faça, salvará minha vida.

— Uma pessoa pode ser silenciada de várias maneiras. — Enfiando a mão por dentro do corpete do vestido, Vachel acariciou-a nos seios. — Você não está resistindo às minhas investidas, milady.

— Seu primo me ensinou que a resistência apenas aumenta a dor.

— Então você pretende ficar imóvel, como um cadáver.

— Se isto o incomoda, sugiro que vá procurar prazer em outro lugar.

DeVeau sorriu confiante.

— Não disse que me incomoda. Apenas a tinha julgado mais corajosa.

— Coragem não é sinônimo de estupidez. Não possuo uma arma, tampouco minha força física se equipara à sua. O estupro de que serei vítima me causará dor e humilhação. Tentar impedi-lo de cometer este crime somente o fará agir com mais violência. Pouparei a coragem para o momento em que eu puder cortar sua garganta.

— Como você fez com meu primo?

— Não matei Michael. Você deveria sentir-se honrado, pois será o primeiro a morrer pelas minhas mãos.

— Talvez você ainda acredite que seu escocês virá correndo salvá-la.

— Non. Eu o deixei. Ele não me seguirá.

— Se é assim, o infeliz tem alguma chance de sobreviver. Estamos vigilantes, atentos à aproximação de qualquer estranho.

— Se Nigel quisesse me tirar desse castelo, você só perceberia a ameaça quando já fosse tarde demais. Ele poderia entrar neste quarto e cortar sua garganta antes mesmo que você ouvisse o barulho da porta sendo aberta.

— Ah, as bravatas ridículas de uma amante apaixonada.

— Vou lembrá-lo de suas palavras quando você estiver se afogando em seu próprio sangue.

— Chega. Não vim aqui para conversar, ou trocar amabilidades.

— Non. Você veio roubar o que nunca lhe seria dado de livre e espontânea vontade.

— De fato. Afinal, não há ninguém aqui para me impedir.

— Engano seu, sir — soou uma voz muito calma, marcada por forte sotaque escocês.

 

Entardecia rapidamente e Nigel, aproveitando-se das sombras crescentes, levantou-se para esticar os membros entorpecidos. Embora estivesse espreitando o castelo há horas, ninguém o avistara, ou fora confrontá-lo. Acertara quanto ao descuido das sentinelas, acomodadas em seu posto e prepotentes em sua certeza de invulnerabilidade. Após cuidadosa observação, não tinha dúvida de que poderia penetrar na fortaleza sem ser visto, mas ainda não sabia o que faria, exatamente, uma vez lá dentro.

Em breve, os pesados portões de ferro seriam fechados restando-lhe, portanto, duas alternativas: entrar antes que tal coisa acontecesse e esperar o melhor, ou continuar sentado onde estava pelo resto da noite, rezando para que Gisele não fosse morta até que elaborasse um bom plano para resgatá-la, um plano com alguma pequena chance de sucesso.

Decidindo-se a entrar, convicto de que pensaria numa estratégia de ação quando do outro lado das muralhas, notou um cavaleiro cruzar os portões, sozinho, e galopar na direção das árvores. O desconhecido tinha uma expressão preocupada e tão distraído estava ruminando os próprios problemas, que acabou revelando-se uma presa fácil. Nigel não teve a menor dificuldade para arrancá-lo da sela e atirá-lo no chão.

Pressionando a ponta da faca contra o pescoço largo, preparou-se para obter as informações desejadas.

Todavia, para seu espanto, o sujeito não pareceu temeroso. Apenas deu a impressão de achar a situação divertida.

— Sou George. Você deve ser o escocês.

— O escocês? — Nigel perguntou em inglês, torcendo para que o estranho não somente entendesse, mas falasse sua língua.

— Oui. — Apesar do sotaque carregado, o inglês de George era perfeitamente compreensível. — Você é o homem que viajava com lady Gisele DeVeau. Fiquei surpreso ao encontrá-la só.

— Quer dizer que você a capturou e a entregou aos canalhas que a querem matar? — Encolerizado, Nigel aumentou a pressão da faca.

— Explicaram-me que ela era uma assassina, que havia matado e mutilado o marido de uma forma brutal.

— E você acredita em tudo o que lhe dizem sem questionar? Ou sua pressa em acreditar que aquela dama frágil e pequenina fosse capaz de cometer um crime bárbaro estaria relacionada ao valor do prêmio?

— Sou um homem pobre, sir. Com seis filhos chorões e uma mulher lamurienta para sustentar. Oui cobicei a recompensa. Porém imaginei estar perseguindo uma assassina. Não existe mal algum em levar um criminoso à Justiça.

Devagar, Nigel afastou-se, embora mantivesse a faca desembainhada. George estava certo. Não era crime tentar ganhar o dinheiro oferecido pela captura de uma assassina. Afinal ele próprio, mesmo conhecendo a história sórdida, levara algum tempo para se convencer de que Gisele não matara o marido. George não sabia a verdade sobre aquele casamento trágico. Por que duvidaria da palavra de membros de uma família rica e poderosa?

— Você a machucou? — perguntou friamente.

— Non. Abordei-a com a espada embainhada. Não cabia a mim castigá-la. Mas travamos um rápido duelo. Poderia tê-la vencido, contudo um dos nossos surgiu e pôs fim à luta.

— Você não riu dos esforços dela, riu? — Nigel permitiu-se esboçar um sorriso ao imaginar Gisele, de espada em riste, enfrentando esse grandalhão.

— Admito que no início achei a situação engraçada, mas não ri. Logo me dei conta de estar enfrentando uma adversária hábil. Você a treinou bem, sir.

— E milady ficará ainda melhor, pois possui um talento natural para a coisa, apesar de lhe faltar força física. Então você não a feriu. E outra pessoa a machucou?

— Um dos homens atingiu-a na cabeça algumas vezes.

— Algumas vezes?

— A primeira para pôr fim ao duelo, um golpe leve na nuca que a fez cair de joelhos. As outras porque milady não parava de provocá-lo.

— Ela deveria aprender quando ficar de boca fechada.

— Lady DeVeau possui uma língua um pouco afiada.

— Um pouco? — Nigel murmurou pensativo. Então, fitou George atentamente. — Você mudou de idéia. — Não se tratava de uma pergunta, e sim de uma afirmação.

— Sim. Quando vi aquela mulher miúda e delicada, não pude acreditar que houvesse feito aquilo de que a acusavam. O que realmente me fez mudar de idéia foi o comportamento de sir Vachel.

— Quem é sir Vachel?

— O lorde do castelo. Primo do falecido sir Michael.

— Você acha que ele tem dúvidas sobre a culpa de Gisele?

— Acho que ele não se importa se milady é culpada ou inocente, porque não tem o menor interesse na morte do primo, ou na identidade do assassino. Sir Vachel é assustador. Estou feliz por estar saindo desse lugar maldito. Ele irá enforcá-la, mas não já. Antes, pretende usá-la até se cansar.

— Tem certeza disso? — Apenas um autocontrole férreo impediu Nigel de dar vazão à cólera. Apavorar George não o ajudaria a obter a ajuda que desejava. Tampouco era aquele camponês o objeto de sua raiva. Primeiro Michael tentara destruir Gisele, violentando-a e surrando-a repetidamente. Agora o primo canalha planejava trilhar o mesmo caminho. Quando pensara que a pobrezinha estava começando a se livrar dos fantasmas do passado, a se esquecer dos horrores de que fora vítima, outro DeVeau surgia para feri-la, para deixá-la com mais cicatrizes na alma e no corpo. Temia que Gisele não fosse capaz de superar uma nova onda de brutalidade e humilhação. Temia que a gloriosa paixão, tão brevemente partilhada pelos dois, acabasse esmagada, sem chance de salvação.

— Você tem que me ajudar a tirá-la dali.

— Ora, sir… — O protesto de George terminou num guincho quando Nigel, agarrando-o pelos ombros, ergueu-o do chão.

— Você vai me ajudar a tirá-la do castelo. — Escute-me com atenção, a forca seria uma bênção para milady, comparada aos abusos aos quais esse Vachel a sujeitaria. Abusos sofridos durante o período em que esteve casada. Gisele não matou Michael DeVeau, embora o crápula merecesse morrer mil vezes por cada estupro, cada surra, cada insulto dirigido à esposa indefesa. Ela não sobreviverá a mais crueldade. Sim, sei que poderá até continuar respirando, andando, falando, comendo, porém, por dentro, estará morta.

— Mas um marido não pode…

— Estuprar a esposa? Claro que sim! Você não pode ser tão tolo e ingênuo a ponto de desconhecer certas realidades. Quando uma mulher não quer se deitar com um homem, simplesmente não quer, e não faz diferença se quem a está obrigando seja o marido ou outro qualquer. Existem muitos modos de machucar o corpo e o coração de uma esposa.

— Era para ser um jeito simples de alguém como eu, que luta pela sobrevivência, conseguir algum dinheiro. Mas as coisas estavam ficando cada vez mais complicadas.

— Você achou justo capturar uma assassina e entregá-la à família da vítima. Ainda que não considere lady DeVeau inocente, o que ela é, não pode condená-la à crueldade de Vachel.

— Non, não posso. Fiquei preocupado ao deixá-la para trás quando soube que aquele homem pretende mantê-la prisioneira, usá-la e, quando se cansar, enforcá-la. É uma perversidade da qual não quero tomar parte. Só não sei se serei capaz de ajudá-lo, milorde. Não sou vassalo de sir Vachel e não costumo freqüentar o castelo.

Praguejando, Nigel passou a mãos pelos cabelos, num gesto cansado e nervoso.

— Preciso ao menos saber onde a prenderam, dentro daquelas muralhas.

— No quarto de sir Vachel. Ele ordenou que a banhassem e a vestissem com roupas femininas. — George deu um passo atrás ante a fúria silenciosa de Nigel. — De fato, creio que a probabilidade de você conseguir entrar ali sem ser visto é grande. Sir Vachel, do alto da sua tirania, pensa que ninguém sabe que aqueles não são seus verdadeiros aposentos. As pessoas que o servem não são todas cegas, ou estúpidas. Algumas enxergam tudo, ouvem tudo o que se passa no castelo. E descobrem os segredos.

Nigel tomou um gole de vinho e ofereceu o odre a George.

— Minha família aprendeu essa dura lição anos atrás, quando fomos traídos por alguém que julgávamos inofensivo.

— Desconfio de que sir Vachel acabará morto, em seu suposto esconderijo, por um de seus incontáveis inimigos.

— Não me importa o destino do bastardo. Aqueles portões serão fechados em breve e preciso tirar lady Gisele de lá.

George sorveu um longo gole de vinho. Então limpou a boca na manga da túnica, revelando uma expressão decidida no olhar.

— Venha comigo, milorde. Vou lhe mostrar como entrar e sair dos aposentos de sir Vachel sem ser visto.

— Se a coisa é assim tão fácil, por que você hesitou tanto em me ajudar?

— Porque não sou o mais corajoso dos homens. Às vezes preciso da ponta de uma faca pressionando minha garganta para fazer o que é certo.

Por um segundo, Nigel vacilou, perguntando-se se devia mesmo seguir o francês. Não só encontrara alguém disposto a ajudá-lo, como existia um meio de entrar e sair dos aposentos do senhor do castelo sem ser visto. Ou Deus respondera às suas preces, ou tratava-se de uma cilada. O tal Vachel, sem dúvida, sabia que Gisele não estivera viajando sozinha, que um estrangeiro dispusera-se a protegê-la. Talvez Vachel houvesse mandado George caçá-lo.

Percebendo suas preocupações, o outro sorriu.

— Você realmente não tem muita escolha, milorde. Sou sua última esperança. Ninguém mais sairá sozinho daquela fortaleza hoje. Ninguém com um mínimo de decência e senso de justiça.

— É que tudo parece tão fácil, tão simples, que as suspeitas são inevitáveis.

— Ainda não sei como vou explicar às sentinelas por que resolvi voltar e por que o estou levando comigo — resmungou George, pensativo. — Terei que sumir daqui depois, pois alguém irá se lembrar de mim na companhia de um estranho.

— Então é melhor você cruzar os portões sozinho e eu darei um jeito de encontrá-lo lá dentro. Quanto ao motivo de seu retorno, diga-lhes que deseja comprar o cavalo de lady DeVeau. — Nigel deu-lhe algumas moedas de prata.

— Se você é capaz de atravessar as muralhas sem auxílio, por que precisaria de mim?

— Porque não conheço o interior do castelo e não sei onde Gisele está presa. Além do mais, embora fale seu idioma, meu sotaque carregado me trairia em questão de segundos.

— Concordo. Seu sotaque é mesmo terrível.

— Vá. Encontro-o lá dentro.

Observando George se afastar, Nigel ponderou novamente a situação. O francês dava a impressão de ser confiável. Um camponês honesto, que julgara estar cumprindo o dever ao entregar uma criminosa à Justiça e que, faltando-lhe a coragem necessária para reparar um erro de avaliação, precisara ser induzido a tomar a atitude certa. Porém, entrando separadamente na fortaleza, ele teria alguma chance de escapar, caso George planejasse traí-lo.

Sem qualquer dificuldade, Nigel se esgueirou para dentro da fortaleza e misturou-se à pequena multidão de artesãos e mercadores reunidos no pátio interno, que aproveitava os últimos vestígios de claridade antes de encerrar os trabalhos do dia.

Pouco a pouco, avançou para o interior do castelo, escondendo-se numa alcova perto da escadaria principal, conforme o combinado.

Quando George, enfim, apareceu, Nigel mal podia conter a tensão. Fora uma longa e arriscada espera.

— Para onde agora? — indagou num sussurro.

— Siga-me. É uma daquelas coisas complicadas. Entrar por uma porta, sair pela outra, subir a escada, tornar a descer, virar a direita, depois…

— Apenas pare de falar e vá em frente. Eu o acompanharei. À medida que os minutos se arrastavam, Nigel se deu conta de que George não exagerara. Tratava-se de um verdadeiro labirinto! Sir Vachel podia estar enganado ao supor que ninguém conhecia seu esconderijo, mas com certeza estava longe de correr grande perigo. A esmagadora maioria das pessoas ficaria completamente desorientada e perdida.

— Como você descobriu esse caminho tortuoso?

— Já lhe disse que não sou o mais corajoso dos homens — George murmurou. — Preciso sempre descobrir lugares onde me esconder quando vou a algum castelo. Não há razão para morrer por um lorde de quem não sou vassalo. E se eu não me preocupar com minha segurança, ninguém se preocupará.

Nigel nada respondeu, porque entendia a posição de George.

Sendo um homem livre, devia lealdade em primeiro lugar a si mesmo e à numerosa família.

— Chegamos? — ele perguntou, quando o francês parou no meio de um corredor estreito e escuro.

— Sim. Apenas tenho que localizar o trinco oculto.

— Permita-me.

Nigel deslizou a mão pela madeira maciça, a respiração suspensa.

Sentindo uma saliência quase imperceptível, pressionou-a. A porta se abriu. George deu um passo à frente, pretendendo segui-lo, mas Nigel fez sinal para permanecer onde estava.

No instante em que entrou no quarto, o escocês avistou o casal na cama e foi necessário valer-se de todo o autocontrole para não urrar de ódio e atacar imediatamente o canalha que ousava tocar Gisele. A pobrezinha estava rígida, as mãos lívidas e crispadas sobre o lençol denunciando o pavor que a consumia. Silencioso, avançou.

— Afinal, não há ninguém aqui para me impedir — declarou Vachel DeVeau, cheio de empáfia.

— Engano seu, sir. — Nigel pousou a ponta da espada no meio das costas estreitas do covarde.

Então, agarrando-o pelos cabelos, o pôs de pé e o nocauteou com um potente soco no queixo. Ao ver o corpete do vestido de Gisele aberto, os seios muito brancos expostos, uma fúria cega o dominou. Tirando a faca de dentro da bota, debruçou sobre o inimigo inconsciente.

Compreendendo que o escocês estava à beira de cortar a garganta de Vachel, Gisele saiu do estado de choque em que havia caído.

— Você não pode matá-lo! — Segurando-o pela manga da túnica, impediu-o de completar o gesto.

— Não acredito que você ainda tenha uma gota de misericórdia por esse canalha.

—Não, mas preocupo-me demais com você. Pense Nigel. Livre-se da raiva e raciocine com clareza. Perdi quase um ano de minha vida fugindo do ódio e do desejo de vingança dos DeVeau, caçada como uma assassina por causa de um crime que não cometi. Agora, finalmente, começo a ter esperanças de vir a me libertar de tudo isso. Você sempre pôde seguir adiante com sua vida, sempre foi dono de seu destino. Porém, no momento em que cortar a garganta desse verme, perderá a liberdade e passará a sofrer tudo o que tenho sofrido. Então nós dois passaremos a ser perseguidos, teremos nossas cabeças a prêmio. Se você matar Vachel, eu também carregarei o peso da culpa e, desta vez, não poderei negar minha responsabilidade.

—Ela tem razão — sussurrou George, entrando no quarto.

— Você?! — Assombrada, Gisele arregalou os olhos.

— Mudei de idéia, milady. — George ajudou Nigel a amarrar e amordaçar Vachel, permitindo a Gisele alguns segundos para se recompor.

— Entendo. Você me deixaria ser enforcada, mas não violentada covardemente. Bem, senhores, coisas mais importantes exigem minha atenção agora. Embora esteja curiosa sobre como ambos entraram, estou ainda mais curiosa em saber como sairemos daqui.

Nigel puxou-a para junto do peito e abraçou-a com força, como se quisesse se convencer de que a tinha nos braços.

— Também estou curioso a respeito de algumas coisas, milady. Por que uma dama tão inteligente se entregaria aos inimigos?

— Não me entreguei a ninguém — ela retrucou, acompanhando-o pelo corredor abafado. George deu alguns passos à frente.

— Você praticamente cavalgou até os portões da fortaleza.

— Eu me perdi.

Gisele calou-se sentindo sobre si, apesar da escuridão, o olhar cheio de censura de Nigel. E o merecia. Não deveria tê-lo desertado. Não ficara assim tão espantada quando o vira surgir do meio do nada, para salvá-la de seu algoz.

— Chegamos — disse George, parando de repente.

— Chegamos onde?

— Nos verdadeiros aposentos de DeVeau — Nigel explicou a Gisele, abrindo uma porta. — Seria mais fácil tirá-la do castelo se eles não houvessem sumido com suas roupas masculinas.

— Fiquem aqui. — Sem esperar resposta, George entrou no cômodo deserto.

— Tem certeza de que pode confiar neste homem? — Gisele indagou baixinho num sussurro nervoso, quando os dois ficaram sozinhos.

— Agora sim. No início, tive receio. George pode não ser muito corajoso e honrado, mas ao perceber quais planos sir Vachel traçava para você, a consciência começou a pesar-lhe. Acho até que as dúvidas quanto à sua culpa surgiram enquanto vocês duelavam.

— Nem sei como me saí naquele confronto. Fomos interrompidos antes que eu pudesse realmente testar minhas habilidades.

—Ele parece tê-la achado eficiente. Ah, George —, Nigel saudou o outro, que retornava trazendo uma capa negra. — Que idéia brilhante!

Coberta da cabeça aos pés, Gisele seguiu os dois homens no mais absoluto silêncio. Findo o labirinto, o pequeno grupo cruzou o pátio movimentado e atravessou os portões da fortaleza sem que fosse importunado.

Ao chegarem ao bosque, ela simplesmente desabou no chão, pois as pernas recusavam-se a sustentá-la. A tensão acumulada, enfim, a vencera.

— Creio que essa será minha última façanha honrosa durante um longo tempo — comentou George, limpando o suor da testa com as costas da mão.

— Você se saiu muito bem, George — Nigel o cumprimentou, tomando as rédeas do cavalo de Gisele. — Fico feliz que tenha se lembrado de trazer o animal.

— Não foi difícil convencer o cavalariço a dispor do cavalo de milady. O dinheiro é sempre um bom argumento.

— Se, de alguma maneira, descobrirem que você ajudou na fuga de lady Gisele e passarem a persegui-lo, saiba que será bem-vindo em minhas terras. Pertenço ao clã dos Murray, de Donncoill. No porto de Perth, qualquer um lhe dará instruções sobre como nos localizar.

Depois de expressar gratidão diante da generosa oferta, George despediu-se de Gisele e galopou para o interior da floresta. Ainda muita enfraquecida, ela precisou que Nigel a ajudasse a montar. Tudo o que queria era descansar, dormir e esquecer o horror das horas passadas no castelo de Vachel DeVeau. Quando aquele canalha recuperasse a consciência, a sede de vingança o faria empreender uma caçada implacável.

 

— Acamparemos aqui esta noite, milady.

As palavras ditas num tom suave foram o bastante para arrancar Gisele do torpor em que havia caído. Sem uma palavra, desmontou, retirou a toalha e o sabão do alforje e caminhou para o riacho. Ainda em silêncio, despiu-se, entrou na água fria e começou a lavar-se energicamente.

Durante a fuga pela floresta, enquanto procuravam se afastar o máximo possível das terras de Vachel, ela não conseguira parar de pensar no que lhe acontecera. Embora Nigel lhe tivesse feito algumas perguntas, não fora capaz de lhe responder com um mínimo de coerência. As lembranças a devoravam por dentro.

No instante em que Vachel a tocara, sentira-se imunda e ansiara por um banho. Assim fora durante o breve casamento com Michael. Seu marido também tivera o poder de fazê-la passar horas lavando-se, esfregando-se até a pele ficar vermelha e enrugada.

Encostado numa árvore, Nigel a observava. Gisele permanecera muda desde que haviam saído da fortaleza De-Veau. Temendo que a pobrezinha cochilasse e caísse da sela, esforçara-se para interessá-la numa conversa qualquer. Em vão.

Quando a resgatara, ela se mostrara um pouco abalada, porém bem. Agora já não tinha certeza.

Não era preciso ser muito inteligente para perceber que algo a perturbava terrivelmente. Os olhos verdes estavam sem vida, o rosto belo destituído de expressão. Mas seria sensato obrigá-la a falar sobre o que ocorrera no interior do castelo? A reviver a experiência degradante?

Não suportando mais a inquietude, Nigel marchou para o riacho decidido a pôr um fim àquela esfregação incessante. Se Gisele persistisse, ficaria em carne viva.

— Gisele — chamou, tocando-a de leve no ombro. — Gisele!

— Eu o escutei da primeira vez — ela murmurou, mantendo os olhos fixos nas mãos vazias. — Meu sabão acabou.

— Você já está limpa.

— Será?

Embora ainda se sentisse impelida a continuar se lavando, Gisele deixou-se conduzir para fora da água. Em silêncio, permitiu que Nigel a secasse com movimentos vigorosos para ativar a circulação, e a vestisse com uma túnica antes de carregá-la para perto da fogueira e depositá-la sobre o cobertor.

Após preparar uma refeição frugal, composta de pão, queijo e vinho, o escocês sentou-se e a forçou a se alimentar. A apatia da jovem preocupava-o seriamente. Tinha vontade de sacudi-la, de arrancá-la daquele estupor.

— O infame a violentou? — indagou afinal, não suportando mais a aflição.

— Non.

— Graças a Deus. Angustiei-me com o que poderia ter lhe acontecido enquanto eu estava na floresta, tentando elaborar um plano para resgatá-la. Não me perdoaria jamais se devido à minha demora você fosse submetida à dor e degradação.

— Você chegou a tempo. Vachel apenas me tocou. Na verdade, reconheço que minha reação é exagerada, mas não consigo me livrar da sensação de asco. Ainda que o pior houvesse acontecido, você teria me salvado da forca, o que já seria um grande feito. Confesso que não esperava ajuda sua.

— Por quê? Por que você fugiu de mim no meio da noite, como uma ladra? — Notando os olhos verdes faiscarem, num misto de embaraço e irritação, sorriu satisfeito. Ela estava começando a se recuperar.

— Tive meus motivos para partir. — Gisele esperara que sua resposta seca pusesse fim à discussão. Entretanto, a expressão determinada do cavaleiro logo a desanimou. A conversa seria longa.

— Pois eu gostaria de saber quais motivos são esses.

— De súbito dei-me conta de que essa caçada havia se tornado muito mais implacável do que eu supunha. Já não me sentia capaz de expô-lo ao perigo, de arriscar sua vida, de usá-lo como um escudo contra meus inimigos.

— Então você quer me convencer que depois de passarmos semanas juntos escapando à perseguição promovida pelos DeVeau, acordou no meio da noite achando, de súbito, que a situação estava ficando perigosa demais? E que fugir sem saber para onde ia, e me deixar sozinho, ainda enfraquecido, seria a melhor solução para nós dois?

Ouvindo-o falar, Gisele reconheceu como sua explicação soara ridícula. Mas não tinha a menor intenção de admiti-lo. Também não o permitiria fazê-la sentir-se culpada com aquela história de ainda enfraquecido. Nigel lidara com Vachel como se este não passasse de um boneco de papel. Um homem enfraquecido nunca se livraria de um adversário com tamanha facilidade.

— Como horas antes de minha partida você havia me explicado que, muito provavelmente, estávamos perto das terras dos DeVeau e que o porto mais próximo fervilharia de inimigos, tudo começou a me parecer muito complicado. Mesmo nos momentos mais negros, sempre acreditei na possibilidade de alcançarmos o porto e zarparmos para a Escócia em segurança, deixando os problemas para trás. Porém, de repente, passei a achar impossível escapar ao meu destino.

— Você pode ter sido assaltada por dúvidas, milady, porém duvido de que esta seja a explicação para sua atitude. — Percebendo que Gisele não lhe diria uma única palavra sobre o verdadeiro motivo de sua fuga, pelo menos naquele instante, Nigel resolveu não pressioná-la. Abraçando-a, murmurou: — Você cavalgou direto para as garras dos malditos, querida.

— Sim. —Ela apoiou a cabeça no peito largo, suspirando. — Minha intenção era chegar à propriedade de minha prima Marie. Agora está claro que não sabia o caminho. Marie não mora perto de nenhum DeVeau.

Nigel tocou o medalhão que Gisele trazia na corrente.

— Você tem sorte por nenhum dos mercenários o haverem roubado. É uma bela peça que lhes renderia algum dinheiro.

— Não creio que qualquer um dos bandidos o tivesse visto. Sempre o conservo escondido sob a túnica. Apenas Vachel e seu homem de confiança, Ansel, chegaram a notá-lo e não lhe deram qualquer valor. Acho que o medalhão de minha avó continua me dando sorte.

— Com certeza. — Uma breve pausa. — Entenda não a estou chamando de mentirosa, mas tem uma coisa que realmente me intriga.

— O que é?

— Você disse que Vachel não a estuprou, que somente a tocou.

— Sim, é verdade.

— Então por que você estava tentando arrancar a pele dos ossos de tanto esfregá-la? Não faz sentido para mim.

Quando Nigel a deitou sobre o cobertor e cobriu-a com o próprio corpo, Gisele esboçou um leve sorriso, elevando uma prece de agradecimento aos céus. A arrogância perversa de Vachel poderia, facilmente, haver destruído toda a pureza daquilo que desfrutara nos braços do escocês, transformando-a na mulher aterrorizada e assustadiça do passado. Teria sido um preço alto demais a pagar por sua covardia e estupidez.

Sim, fora uma covarde ao tentar escapar de seus sentimentos. E também uma tola. Impossível fugir do amor. Sua atitude impetuosa e idiota apenas a privara da presença de quem amava com todas as suas forças. Ainda que ele viesse a rejeitá-la quando chegassem à Escócia, para sempre guardaria na memória as lembranças dos dias vividos juntos, quando provara o gosto da felicidade.

Vendo-o fitá-la fixamente, à espera de uma resposta, Gisele inspirou fundo, conformada.

— Não sei se meu comportamento faz muito sentido para mim também — murmurou conformada. — Vachel se parece muito com meu falecido marido. Tanto que, por alguns segundos, temi estar diante de um fantasma.

A observação inquietou Nigel. Embora seu contato com Vachel DeVeau houvesse sido breve, notara a extraordinária beleza do canalha. Reconhecendo estar enciumado, tratou de expulsar a idéia da cabeça. Os DeVeau podiam ser bonitos por fora, mas por dentro não passavam de monstros, capazes de infligir à Gisele apenas sofrimento e humilhação. Não, a beleza de um homem não bastaria para atraí-la.

— Tal semelhança deve tê-la realmente perturbado, tornando a situação ainda pior.

— De fato. Foram horas terríveis. A semelhança entre Vachel e Michael limita-se ao exterior. A crueldade de meu marido revelava-se em acessos súbitos de fúria e descontrole mental. Vachel é frio, calculista. O tipo que sente prazer em torturar sua vítima bem devagar. Eu seria usada de maneira degradante e depois enforcada.

Praguejando, Nigel novamente arrependeu-se de não haver matado o infame.

— Agora está tudo acabado, minha linda rosa francesa. Esqueça-se do que passou. Aquele animal não merece um só de seus pensamentos. Esqueça-se do que passou.

— Eu gostaria, porém Vachel DeVeau não é alguém que se possa esquecer com facilidade. É o mal encarnado. Apesar de parecer são, tem a alma negra e distorcida.

— Então você receia não ter se livrado do toque dele.

Gisele sorriu melancólica.

— Oui. Eu estava tentando lavar os vestígios do toque de Vachel. Quando era casada, costumava fazer o mesmo sempre que meu marido encostava as mãos asquerosas em mim. Para remover aquela sujeira invisível da pele, esfregava-me incontrolavelmente. As criadas interferiam antes que eu arrancasse sangue. Receio que desta vez a triste tarefa lhe foi imposta. Peço-lhe perdão.

— Não há razão para se desculpar.

— Há sim. O que me aflige é que nada disso é culpa sua. Você não deveria ser obrigado a lidar com as conseqüências dos crimes que outros cometeram contra mim.

Sem saber o que dizer para tranqüilizá-la, Nigel beijou-a na boca com toda a ternura de que era capaz. Infelizmente não podia curar as mágoas de Gisele, apenas compreendê-las e oferecer-lhe consolo.

Naquele momento, mais do que tudo, queria amá-la e destruir, assim, qualquer lembrança do toque de Vachel. Como um macho, ansiava marcá-la como sua fêmea, impregná-la com seu cheiro. Mas precisava mostrar-lhe que nem todos os homens eram bestiais como os DeVeau. A jovem dama merecia delicadeza, doçura.

Cauteloso, deslizou a mão sob a túnica e a acariciou de leve nos seios, ouvindo-a suspirar de prazer. Temera que Vachel houvesse matado em Gisele a capacidade de sentir paixão e desejo. A pobrezinha já trazia no coração as marcas deixadas pela crueldade do marido e não suportaria dores adicionais.

— Não consigo entender por que seus pais a entregaram aos DeVeau. É difícil imaginar que ninguém percebesse quão insanos eram os membros daquela família.

— Meus pais, que Deus lhes dê o descanso eterno, estavam mortos. Foram meus tutores, um tio idoso e uma prima distante, que me obrigaram a me casar com Michael. Minha grandmére também já havia falecido antes que essa catástrofe caísse sobre mim. Gosto de pensar que meus pais e minha avó, se vivos, jamais haveriam concordado. Ou que pelo menos teriam me ajudado, quando Michael mostrou sua verdadeira face.

— De fato, estou começando a achar que esse meu destino estava traçado desde o dia em que saí do útero de minha mãe. — Gisele não se perturbou ante o olhar incrédulo de Nigel. — O rapaz com quem meus pais desejavam me ver casada morreu muito jovem. E meus pais faleceram logo em seguida, sem ter tempo de cuidar de meu futuro. Meus tutores me arranjaram, então, um noivo que acabou assassinado por um marido ciumento. Quando Michael me viu na corte do rei, imediatamente entrou num acordo com meus tutores. Fui vendida antes de perceber o que estava acontecendo.

— O mal que lhe foi feito nunca poderá ser desfeito. Porém agora seus parentes reconhecem o erro e estão dispostos a ajudá-la.

— Espero que sim. — Sedutora Gisele o enlaçou pelo pescoço. — Meu galante escocês, você realmente quer continuar conversando sobre minha família e meus problemas?

Surpreendia-a descobrir-se tão ansiosa para se entregar a Nigel. Depois da experiência com Vachel, imaginara que levaria algum tempo para recuperar o desejo. Enganara-se. Nos braços de Nigel, as trevas se transformavam em luz e renascia para a vida.

Os dois se amaram num misto de avidez e desespero, revelados em cada beijo, trocando carícias em meio à escuridão. Juntos, alcançaram o clímax, ficando os corpos tão unidos quanto às almas.

— Isto ajudou você? — Nigel indagou baixinho, cobrindo ambos com o cobertor.

— Oui. — Impressionava-a como aquele homem parecia adivinhar seus pensamentos, como compreendia o que se passava em seu íntimo, ainda que ela não o expressasse com palavras. — Desculpe-me, não era minha intenção fazê-lo se sentir usado.

— Sinta-se à vontade para me usar quando quiser, milady. — Ele riu, ficando muito sério de repente. — Devo confessar que, de certa maneira, também a estava usando pelos mesmos motivos. Eu queria eliminar as lembranças daquele canalha, livrá-la do cheiro dele, substituir as marcas que aquelas mãos grotescas deixaram em seu corpo pelas marcas das minhas mãos.

Tenso, Nigel aguardou a reação à sua confissão. Quando ela apenas sorriu e o beijou no rosto, exultou aliviado.

Então o escocês estava com ciúme, Gisele concluiu radiante. Apesar de saber que não valia a pena alimentar esperanças, ciúme podia ser indício da existência de um sentimento mais forte. Ansiava pelo amor de Nigel, mas se contentaria com qualquer demonstração de afeto.

— Trilhamos o mesmo caminho, mon Cher. Você fez exatamente o que eu desejava que fizesse: destruir as lembranças de Vachel, livrar-me do cheiro e das marcas dele em minha pele. E também descobri uma coisa desde que nos tornamos amantes.

— Oh, o quê?

— Que nos deitarmos juntos é um ótimo jeito de me livrar dos medos e preocupações.

— Fico feliz em poder servi-la, milady.

— Bem, como você insiste em ficar por perto, suponho que devo encarregá-lo de alguma função.

Gisele quase perdeu o fôlego de tanto rir quando Nigel a submeteu a uma sessão de cócegas. Terminado o tormento, estava exausta.

— Durma querida. Você teve um dia duro, cansativo. Descanse. Amanhã uma longa jornada nos espera.

Uma jornada que só tornei ainda mais longa, ela pensou, fechando os olhos. Embora Nigel não houvesse dito nada, ou a culpado de coisa alguma, a verdade era que sua atitude inconseqüente, provocada pela insegurança, quase custara a vida dos dois. Pedia a Deus que conseguissem recuperar o tempo perdido.

Nigel acordou com um soco na mandíbula. Ágil, segurou Gisele pelo pulso antes que o próximo golpe fosse desferido. De olhos fechados, a jovem debatia-se, prisioneira de um pesadelo interminável.

— Gisele! Acorde, querida. Sou eu, Nigel!

Lentamente Gisele despertou, desvencilhando-se do horror provocado pelas imagens tenebrosas. Imagens de Vachel preparando-se para consumar a ameaça de estupro e degradação. O pior era que as ações de Vachel haviam trazido à tona lembranças de Michael. O medo, a vergonha, as humilhações que lhe tinham sido impostas pelo marido nunca lhe haviam parecido tão vividas quanto naquele momento. Em seu sonho, Michael se fundira a Vachel e, numa tentativa inútil de defender-se, atacara o monstro com as mãos nuas. Embaraçada, tocou o queixo de Nigel.

— Perdoe-me — murmurou. — Eu o ataquei, não?

— Sim, e, creia-me, com um golpe potente. — Carinhoso, ele a beijou na ponta do nariz. — Não há necessidade de se desculpar. Foi apenas um sonho. Você não estava realmente me agredindo. Procurava se proteger de seus fantasmas.

— Oui, acho que ainda não consegui me livrar por completo do maldito Vachel. Meus fantasmas continuam me assombrando. — Gisele se esforçou para conter as lágrimas, perguntando-se se um dia teria paz interior, se a passagem do tempo dissolveria o pavor e as recordações amargas.

— Pois continuo insistindo em ficar por perto.

Gisele precisou de alguns segundos para se lembrar da conversa que haviam tido logo antes de adormecer. Sorrindo, buscou refúgio entre os braços musculosos enquanto dizia, numa voz sedutora:

— É óbvio que seu trabalho ainda não está terminado. Você terá que se empenhar mais para expulsar todos os demônios de minha pobre mente atormentada.

— Não sei se poderei me empenhar ainda mais e continuar vivo amanhã de manhã.

Talvez não fosse certo usar a paixão mútua para afastar as lembranças sombrias que a perseguiam, mas era impossível resistir ao apelo. Quem sabe depois de se amarem não cairia num sono profundo e sem sonhos até o dia seguinte, quando tornaria a montar seu cavalo e recomeçaria a fugir de seus demônios.

 

— De onde saíram todas essas pessoas? — Gisele perguntou agitada, espiando a multidão a distância. Nigel puxou-a para as sombras do beco estreito. — Deve ser dia de feira. Infelizmente, creio que sir Vachel já recuperou os sentidos e encontra-se de péssimo humor, disposto a vingar-se. Muitos dos homens que perambulam pela feira estão armados. É óbvio que procuram alguém.

— Procuram a mim.

Apesar do atraso provocado por sua desastrosa tentativa de fuga e dos problemas adicionais que causara a Nigel, haviam alcançado o porto em dois dias sem grandes atropelos. Agora, porém, começava a entender por que não tinham cruzado com nenhum inimigo nas últimas quarenta e oito horas. Os DeVeau e seus aliados os aguardavam no porto!

— Como sabiam que pretendíamos zarpar para a Escócia? — Desanimada, Gisele abaixou a cabeça. — Contamos nossos planos apenas a Guy e David. Não quero nem pensar que um dos dois seria capaz de nos trair!

Calma milady. Seus primos não fariam isso. Quando os DeVeau descobriram que você viajava comigo, não foi difícil concluírem para onde eu iria levá-la. Sendo Vachel um bastardo inteligente, e o líder dessa caçada, é natural que tenha concentrado sua gente no porto mais próximo ao castelo.

— Você acha que existe alguma chance de conseguirmos partir para a Escócia?

— Uma chance mínima. A não ser que eu descubra alguém disposto a nos receber a bordo de um barco pronto para zarpar. E tal informação só estará disponível nos cais, ou nas estalagens perto das docas.

— Locais vigiados com redobrada atenção.

— Sim.

— Será que não devemos procurar outro porto?

— A situação seria a mesma. Apenas tornaríamos a jornada mais longa e aumentaríamos os riscos.

Notando a apreensão de Nigel, Gisele decidiu não importuná-lo com mais perguntas. O cavaleiro precisava pensar e planejar o que fariam em seguida. Estava tão cansada de cavalgar e se esconder, que preferia tentar abordar um navio ali, mesmo considerando a enorme possibilidade de fracasso. Só lamentava haver arrastado Nigel para aquela situação crítica. Não se perdoaria nunca se houvesse lhe roubado a possibilidade de rever a família após sete longos anos de ausência.

Nervosa, apertou o casaco contra o corpo, surpreendendo-se ao constatar que preferia estar trajando o vestido que Vachel a obrigara a usar. A verdade era que se fartara de se fazer passar por rapaz e gostaria que, pelo menos uma vez, Nigel a visse elegantemente trajada.

Sim, reconhecia ser pura vaidade, em especial porque o escocês sempre a enxergara como uma mulher desejável, apesar de suas roupas masculinas. Todavia, perguntava-se se a mulher por quem ele se apaixonara possuía vestidos bonitos e chiques.

Procurando tirar essas bobagens da cabeça, Gisele virou-se para o lado oposto, empalidecendo de susto. Dois homens haviam entrado no beco e, com a espada em riste, avançavam, determinados a atacar um incauto Nigel. Imediatamente ela soou o alarme e desembainhou a adaga.

Nigel livrou-se do primeiro adversário em questão de segundos, sem dúvida um péssimo espadachim. Então aguardou que o segundo, um sujeito alto e ruivo, iniciasse a ofensiva. Como o desconhecido hesitasse, teve tempo de observá-lo cuidadosamente, e um detalhe chamou-lhe a atenção, fazendo nascer uma tênue esperança. No peito, o estranho ostentava as cores de um clã. Sim, estava diante de um escocês. Mas de um compatriota armado e, talvez, perigoso. Precisava conservar a calma e agir com prudência. A segurança de Gisele estava acima da sua própria.

— Você é escocês — falou ainda em posição de ataque.

— Sim.

— Embora reconheça o emblema, não estou certo sobre qual seria seu clã.

— Macgregor.

— Ah, claro. Sou sir Nigel Murray, de Donncoill.

— Sim, eu sei. — O ruivo sorriu. — Você é bem conhecido nesta região. Meu nome é Duncan. E não sou nem um pouco conhecido.

Lentamente, Nigel começou a relaxar, apesar de manter-se em guarda. O sujeito parecia amigável, demonstrava até possuir algum senso de humor, mas isto não significava que pudesse considerá-lo um possível aliado. Afinal, não eram somente os franceses que corriam atrás do prêmio oferecido pela captura de Gisele.

— Você veio aqui com a intenção de levar a dama para os DeVeau?

— De fato, sim. Por isso estava na companhia desse idiota. — Com a ponta do pé, Duncan mostrou o francês morto. — A recompensa é vultosa e nós, os MacGregor, estamos extremamente necessitados de fundos.

— É o que ouvi dizer. Porém, não o deixarei levá-la.

— Não, suponho que não. O que ela fez com os cabelos? — Pasma, Gisele olhou de um para o outro. Seriam todos os escoceses malucos? Aqueles dois, de espada em riste, com um morto os separando e o porto fervilhando de inimigos, conversavam calmamente, como se estivessem sozinhos no mundo.

Agora o tal MacGregor queria saber por que ela cortara os cabelos! E ainda mais estranho era Nigel não revelar-se nem surpreso, nem ofendido com a pergunta. Pelo contrário, dava a impressão de achá-la divertida.

— Lady DeVeau estava tentando parecer um rapaz.

— Pois não parece. Aliás, creio que não passaria por um homem mesmo se raspasse os cabelos.

— Concordo. Você vai tentar receber a recompensa? — Nigel tornou a indagar.

Após breve hesitação, Duncan suspirou e embainhou a espada.

— Não. Ganhei dinheiro honesto em batalhas durante os três anos que passei nesta terra e não preciso misturá-lo a um prêmio sangrento. Principalmente quando esse prêmio está sendo oferecido em troca da vida de uma linda dama e de um compatriota.

Devagar, Nigel embainhou a espada também.

— Aquela égua cinzenta é um belo animal.

Duncan MacGregor não pretendia sair daquela empreitada de mãos abanando, Nigel pensou, sorrindo. Como pretendia convencê-lo a ajudá-los a abordar um navio, resolveu levar a conversa adiante.

— Sim. Você acha que a égua compraria a passagem de duas pessoas para a Escócia?

— Possivelmente.

— Tenho que tirar lady DeVeau da França. Também desejo voltar à minha terra natal. Estou longe de casa há sete anos.

— É uma ausência longa demais. Longa demais.

— Concordo.

— Um navio zarpará dentro de poucas horas. Seremos doze a bordo. Creio que meus companheiros se disporão a ajudar um compatriota e uma dama em perigo.

— Mesmo estando essa dama com a cabeça a prêmio?

Nigel preferia que poucos soubessem da verdadeira identidade de Gisele, porque conhecia o poder da ganância sobre o coração humano.

— Não se preocupe sir. Meus amigos não costumam sujar as mãos com o sangue de mulheres pequeninas, delicadas e carecas.

— Eu tenho cabelos! — Gisele objetou, sem que nenhum dos dois lhe desse atenção.

— Esperem-me aqui — instruiu-os Duncan, começando a se afastar.

— Não sei se este é um lugar seguro para nós agora — argumentou Nigel, preocupado.

— Bem mais seguro do que você imagina, acredite-me. Só notei a presença de ambos porque estava interessado nos cavalos. Como disse, a princípio fiquei até animado com a possibilidade de embolsar o prêmio e aceitei ajudar o francês. Mas mudei de idéia ao entrarmos neste beco.

— Então esperaremos aqui.

Mal Duncan deu-lhes as costas, Gisele interpelou Nigel.

— Você não conhece esse homem, conhece?

— Não. É a primeira vez que o vejo.

— Entendo. E mesmo sob a ponta da espada decidiu não considerá-lo uma ameaça?

Apesar de soar irritadiça, quase insultuosa, Gisele não conseguia se conter. Duncan MacGregor não lhes dera nenhuma razão para julgarem-no digno de confiança. Simplesmente partilhava a mesma nacionalidade de Nigel.

— Queria poder dizer-lhe, com absoluta certeza, por que o considero merecedor de crédito, querida, porém não posso. Talvez porque ele não tenha desferido um único golpe contra nós, talvez porque tenha se mostrado relutante desde o início.

— Duncan admitiu ter sido tentado pelo dinheiro da recompensa. Quem nos garante que não contará aos companheiros sobre mim? A cobiça destrói a integridade dos homens.

— É possível. — Tomando-a nos braços, Nigel a beijou nos lábios com urgência e paixão. — Estamos encurralados, querida. Ainda que tentássemos zarpar de outro porto, a situação seria a mesma. Estamos aqui. Um navio parte para a Escócia dentro de poucas horas. Creio que MacGregor esteja disposto a nos ajudar e não podemos correr o risco de perder a única chance de escaparmos dessa terra.

— Non, não podemos. Mas e se ele voltar com amigos gananciosos?

— É um risco que temos que correr.

Abatida, Gisele encostou-se na parede, praguejando baixinho. Seria maravilhoso acreditar que haviam realmente deparado com alguém disposto a ajudá-los, alguém em quem confiar. Nigel não errara ao dizer que não lhes restava escolha. Qualquer outro porto fervilharia de mercenários. Na verdade, sentia mais medo por Nigel do que por si mesma. Se Duncan os traísse e os levasse para Vachel, Nigel acabaria morto sem o merecer.

— Meus problemas acabaram o arrastando para essa situação. Como não me sentir arrasada sabendo que serei responsável por sua morte? Não é justo que seu destino seja igual ao meu.

— Você não é responsável por nada. É uma mulher inocente, perseguida por um bando de criminosos. Pare de se culpar por todas as nossas dificuldades.

— Talvez seja verdade em parte, contudo não consigo deixar de me sentir culpada por havê-lo metido nesta confusão, envolvendo-o numa briga que não é sua.

— Porque você é teimosa e não ouve a voz da razão.

— Teimosa? Tal acusação vinda do rei da teimosia me dá vontade de rir.

— Ah, milady, que língua afiada! — ele brincou, tornando a abraçá-la.

— Se vocês dois pararem de se beijar, talvez possamos ir embora.

A súbita aparição de Duncan sobressaltou-os. Pelo visto, o ruivo possuía dom semelhante ao de Nigel, o de se movimentar sem produzir qualquer som. Um sujeito magríssimo o acompanhava.

— Você não deveria abordar as pessoas desse modo, como se tivesse saído do nada — disse Nigel.

—Velhos hábitos são difíceis de mudar. —Duncan apontou o amigo. — Este é Colin, meu primo. Achei que precisaria de auxílio para fazê-los atravessar a multidão de abutres que os caçam.

— Eu havia mesmo concluído que parte dessa gente que infesta o porto esteja a serviço dos DeVeau.

— Será que a dama consegue ter uma aparência mais feminina?

— Sim. Mas por quê? — Nigel o interrogou, entre curioso e prudente.

— Se vamos nos passar por marinheiros bêbados levando uma prostituta para o navio, é melhor sermos convincentes se não quisermos parar no meio do caminho para dar explicações aos franceses.

— Talvez dê certo. — Apreensivo Nigel fitou Gisele.

Não havia ali um local seguro onde ela pudesse se trocar.

— Não há ninguém nas redondezas. Todos estão na feira — acalmou-os Duncan. — Milady, parece-me não haver muita escolha. Ou você se preocupa com sua modéstia, ou em salvar sua vida.

Indecisa, Gisele olhou para Nigel. Era óbvio que a idéia de vê-la trocar-se na frente de estranhos o incomodava terrivelmente. No entanto, o plano de Duncan podia ser bem-sucedido. E não tinham tempo a perder.

— Se um de vocês puder formar uma barreira com um cobertor, creio que me sentirei mais à vontade.

Em silêncio, o grupo caminhou até o fim do beco, onde estavam os três cavalos. Quando Gisele abriu o alforje para apanhar o vestido que Vachel lhe dera, Nigel segurou-a pelo pulso, impedindo-a de completar o gesto. Sem uma palavra, o escocês retirou um embrulho do próprio alforje: o vestido que ele e Guy haviam enterrado na beira do rio.

— O que você está fazendo com isto?

— Não vi nenhum motivo para jogar fora uma peça de roupa em perfeito estado.

— Só está um pouco amassado… — Gisele murmurou, deslizando a ponta dos dedos pelo tecido macio.

— É melhor usá-lo do que atravessar o porto trajando o vestido que Vachel DeVeau lhe deu. Provavelmente o crápula o descreveu em detalhes para facilitar sua captura.

— Sim, e é um vestido bonito o suficiente para uma prostituta usar — observou Duncan, sendo fulminado pelo olhar de Gisele. — Pensando bem — apressou-se a corrigir o laivo —, é elegante demais para qualquer prostituta.

— Se essa é uma tentativa de retirar o insulto, saiba que não surtiu efeito.

— Milady, no início achei um pouco estranho a expressão “língua afiada” ser usada com freqüência para descrevê-la. Agora começo a entender o porquê.

— Eles falaram que eu tinha língua afiada?

— Sim. Você foi descrita como uma “mulher pequenina, magra, bonita, de cabelos negros e encaracolados e língua afiada”. Ah, e também “metida em desajeitadas roupas masculinas”. E você, lorde Murray, é descrito como um “escocês bonito e alto, de cabelos ruivos”.

— Os cabelos dele têm apenas alguns fios vermelhos — protestou Gisele. — São mais castanho-dourados.

—Tudo isso é muito interessante, mas creio que é melhor sairmos daqui quanto antes. — Nigel ergueu o cobertor, proporcionando a Gisele o máximo de privacidade possível considerando as circunstâncias. Depois de vê-la vestida, entregou-lhe a capa que George surrupiara do castelo e tomou-a pelo braço.

— O mais sensato é a dama ir de braço dado comigo ou com Colin, sir — interveio Duncan.

— Por quê?

— Porque vocês dois juntos poderão despertar curiosidade. É melhor se dirigirem ao navio separadamente.

— Então Colin é o mais indicado, por causa dos cabelos escuros — concedeu Nigel, afastando-se de Gisele. — Uma mulher e um escocês ruivo ainda atrairiam atenções indesejáveis.

— E quanto aos cavalos? — indagou Gisele, deixando Colin enlaçá-la pela cintura enquanto marchavam para o porto.

— Mandarei alguns companheiros buscá-los depois — Duncan explicou. — Agora, milady, tente agir como se estivesse embriagada e pronta para ganhar uns trocados.

Ao se misturarem à multidão, Gisele quase cedeu ao impulso de sair correndo, apavorada ante a possibilidade de acabar descoberta e presa. Apenas o braço ossudo de Colin, firmemente plantado em sua cintura, manteve-a firme, impedindo-a de perder por completo a cabeça. Demonstrando pleno domínio da situação, o marinheiro pôs-se a falar baixinho em seu ouvido, numa língua que não conseguia entender.

— O que é isso? Inglês? Francês?

— Não. Gaélico. Sorria milady. Você é uma prostituta feliz, animada com a perspectiva de ganhar algumas moedas.

Embora não soubesse bem como uma meretriz costumava agir, Gisele fingiu-se de bêbada, mostrando-se ansiosa para agradar seu freguês. Muitos passos atrás, Duncan e Nigel também se comportavam como se estivessem embriagados, tropeçando e cantando a plenos pulmões.

Uma única vez alguém tentou pará-los. Duncan, aparentemente perdendo o equilíbrio, derrubou Nigel no chão enquanto tentava explicar ao francês que o navio de ambos estava prestes a zarpar e que perderiam o emprego se não chegasse a tempo. Colin, puxando Gisele ainda para mais perto de si, seguiu em frente, apesar de não perder um detalhe do que se passava com Nigel e Duncan, pronto a interferir quando julgasse necessário.

O resto do trajeto até o cais foi percorrido sem surpresa.

Subindo a bordo do navio, Gisele afastou-se imediatamente de Colin. Agachando-se num canto, passou os braços ao redor do corpo, rígida.

— Você está bem, querida? — Nigel perguntou suavemente.

— Sim. Só vou ficar aqui um pouquinho, até me livrar do horror que aquela longa caminhada causou em mim.

— Não fui descortês com milady — apressou-se a dizer Colin. — Ou pelo menos, tentei não sê-lo. Mas ela precisava parecer uma prostituta.

— Você não fez nada errado. Lady DeVeau sofreu maus-tratos nas mãos do marido e do primo deste, por isso o toque de qualquer estranho a assusta. Para completar, sabe-se cercada de inimigos. Se os DeVeau a pegarem, é uma mulher morta.

— Sim — concordou Duncan, com os olhos fixos num rapaz esquelético que se aproximava sorrateiramente da amurada com a óbvia intenção de escapar sem ser visto. — Você também está com a cabeça a prêmio, sir. Um tal lorde Vachel o quer morto. — De súbito, Duncan tirou a faca da bainha e a arremessou, acertando o magricela de raspão, no braço. — Aonde você pretendia ir?

— Ajudar Ian e Thomas a trazer os cavalos para bordo? — indagou uma voz insegura.

— Não, creio que não. Concordamos que nenhum de nós venderia um compatriota aos franceses. Mas estou com a impressão de que você queria se apossar da recompensa sozinho.

— Não!

— Você é péssimo mentiroso, William. Robert! — Duncan chamou o imediato. — Leve esse ganancioso para baixo e vige-o até estarmos em alto mar. Então decidirei se o atirarei aos peixes, ou não.

— Muitos homens foram tentados a ganhar esse dinheiro — ponderou Nigel.

— Sim, inclusive eu. Não se preocupe, não vou machucar o rapaz. Apenas lhe dar um susto.

Sorrindo, Nigel voltou para junto de Gisele e sentou-se, tomando as mãos pequeninas e frias entre as suas.

— Você está mais calma, querida?

— Sim. Será que conseguiremos escapar?

— Estou começando a acreditar que sim. Logo içaremos vela e teremos três dias de paz.

O entusiasmo de Gisele ante a possibilidade de passar três dias descansando, sem que fossem perseguidos por inimigos, se dissolveu no instante em que o navio deixou o porto. Ainda não haviam perdido a costa da França de vista quando constatou ser péssima marinheira.

Depois de vomitar até esvaziar completamente o estômago, vítima de um mal-estar como jamais experimentara, deixou que Nigel limpasse seu rosto com um pano úmido e a consolasse.

— Pobrezinha você está mareada. Não se inquiete, assim que estivermos em terra firme, tudo passará.

 

Gemendo, Gisele sentou-se numa pedra grande e úmida. Embora soubesse estar arruinando o vestido, já não se importava. Afinal, nada poderia piorar sua aparência. As pernas continuavam tão instáveis quanto o estômago, o que a impedia de mover-se com alguma agilidade. Haviam velejado por três dias, que pareceram uma eternidade. A viagem fora um verdadeiro pesadelo, e só de imaginar fazendo o percurso de volta tinha vontade de morrer.

— Você vai ficar imunda se continuar sentada aí — disse Nigel, esforçando-se para animá-la.

Prostrada, Gisele fitou-o e aos seus dois novos amigos, Duncan e Colin. Durante toda a travessia, os três haviam lhe garantido que seu mal-estar desapareceria como por encanto quando tornasse a pisar terra firme. Pois se enganaram.

Sentia-se péssima.

— Preciso ficar mais um pouco sentada — reclamou, resistindo quando Nigel a ajudou a se levantar.

— Suas pernas logo estarão menos trêmulas, milady — observou Duncan, solícito.

— Que ótimo. E quanto ao meu estômago? Acho que foi levado pela maré e nunca mais o recuperarei intacto.

Enquanto Nigel agradecia aos homens pela ajuda e dava a Duncan a égua cinzenta que o ruivo cobiçara, Gisele procurou superar a onda de náuseas e manter-se ereta. Bastava olhar os cavalos selados, prontos para a jornada, para querer chorar de puro desalento. Reconhecia ser imprescindível saírem do porto quanto antes. Se os DeVeau os estavam perseguindo, ou se possuíam aliados na Escócia, aquele seria o primeiro lugar onde iriam procurá-los. Só pedia a Deus para não cavalgarem muitas horas seguidas, porque realmente necessitava passar algumas horas sossegada, sem se movimentar.

Notando que Duncan e Colin se preparavam para partir, a boa educação lhe deu forças para aproximar-se de ambos, mesmo trôpega. Murmurando palavras sinceras de agradecimento, abraçou-os e os beijou no rosto, sorrindo ao vê-los enrubescer. Nunca se esqueceria de que aqueles homens haviam arriscado a própria vida ajudando-a, e a Nigel, a atravessar um porto repleto de inimigos. Sem a intervenção dos MacGregor, talvez ainda estivessem em solo francês.

Assim que os primos se afastaram, Nigel a colocou gentilmente sobre a sela e montou também.

— Não será uma longa cavalgada, querida.

— Não se preocupe. Entendo que o sensato é nos pormos a caminho já. Se os DeVeau nos procuravam num porto da França, é porque sabiam de nossos planos.

— E podem estar vigiando alguns portos escoceses. Quando você não suportar mais cavalgar fale-me, para que eu possa encontrar um lugar onde acamparmos — ele a instruiu, inquieto com a extrema palidez de Gisele.

— Agora que desembarquei, creio que começarei a me recuperar.

De fato o ar fresco e pungente, além do ritmo cadenciado do cavalo, logo surtia efeito sobre seu estado. Aos poucos, encantada com a beleza do cenário, passou a se interessar por tudo o que a cercava.

A aldeia e o povo eram um misto de riqueza e pobreza, disparidade comum também na França. A paisagem, porém, poucas semelhanças guardavam com sua terra natal. Ali, predominavam montanhas altas, vegetação densa, clima úmido. Inspirando fundo, absorveu o perfume agreste com prazer, pensando que, com certeza, poderia vir a amar a Escócia, assim como amava um de seus filhos.

Cada vez mais percebia a ansiedade de Nigel em reencontrar-se com a família. Queria ser capaz de partilhar desse entusiasmo, mas dúvidas insistentes a atormentavam. Fora acusada de matar o marido e nem sequer sabia se Nigel acreditava na sua inocência. Portanto, como a família dele poderia recebê-la como uma hóspede digna de consideração? Ainda que lhe oferecessem abrigo de boa vontade, estaria expondo-os ao perigo. Não se perdoaria se os DeVeau chegassem aos portões de Donncoill. Discutiria o assunto com Nigel quando acampassem.

— Grosseira? — Nigel repetiu incrédulo, retirando a comida e o vinho dos alforjes. — Você está preocupada com a possibilidade de parecer grosseira?

— Bem, não estou preocupada só com isso! — O modo como ele a olhava, como se estivesse maluca, deixou-a na defensiva. — Não é algo sem importância pedir à sua família para acolher uma mulher caçada na França. Uma mulher que, aliás, você ainda não está seguro de que seja inocente.

— Eu me responsabilizarei por você, e isso bastará à minha família.

Gisele sufocou a esperança nascente. Nigel não estava afirmando, exatamente, acreditar na sua inocência. Apenas se dispunha a assegurar aos membros do clã que ela não representava nenhuma ameaça, que não iria roubá-los, ou matá-los, na calada da noite e então fugir.

Debatendo-se em inseguranças, Gisele escapuliu para uma das margens do riacho e banhou-se. Nigel precisava acreditar na sua inocência, ou morreria de desgosto. Amava-o tanto que não suportaria a decepção.

Quando se julgou fortalecida o suficiente para tornar a encará-lo, retornou para diante da fogueira e sentou-se. Apesar do pouco apetite, aceitou uma fatia de pão e um pedaço do coelho assado.

— É necessário alimentar-se para se recuperar — estimulou-a Nigel.

— Sim, eu sei. Sinto-me melhor agora.

— Eu me perguntava por que você parecia tão pensativa.

— Apenas sentia pena de mim mesma. Não me entenda mal. Você tem suprido todas as nossas necessidades, porém há meses não me sento à uma mesa e desfruto de uma verdadeira refeição.

Sorrindo, Nigel passou um braço ao redor dos ombros delicados.

— Sim, faz muito tempo. E não é apenas uma questão de sentar-se à mesa, mas também de poder escolher o que comer.

— Oui. Mas o coelho que você preparou hoje está ótimo — ela acrescentou depressa, receosa de tê-lo ofendido.

— Sim, eu sei. Contudo, nem sempre tenho tempo de caçar. Anime-se, milady, a mesa do castelo de meu irmão é farta. Se não nos atrasarmos, você estará comendo deliciosas iguarias em menos de uma semana.

Embora Nigel tivesse afastado seus piores temores, sobre como os Murray a receberiam, certas inquietações permaneciam. Os DeVeau, e sir Vachel, só desistiriam de persegui-la quando sua inocência fosse provada. Até lá, continuaria sendo um fardo nas costas de pessoas que nem sequer a conheciam.

— E além de consumir deliciosas iguarias, estarei arrastando seu clã para o perigo certo.

— Você se preocupa demais com isso, milady.

— Um de nós tem que se preocupar. Você está para envolver sua família numa briga que não lhes diz respeito a troco de nada.

— Sua vida não é “nada”. Querida, meu clã vai querer se envolver nessa rixa e não apenas porque jurei, por minha honra de cavaleiro, protegê-la. Eles a ajudarão porque é a coisa certa a fazer. Está errado os DeVeau a caçarem, exigindo seu sangue em memória do canalha com quem você foi obrigada a se casar. Qualquer tolo enxerga isso e não existem tolos na minha família. Pelo menos neste momento.

— Você tem que lhes dar chance de escolher. Tem que lhes contar a verdade sobre mim e o motivo pelo qual estou sendo perseguida.

— É o que pretendo. Mas não fará nenhuma diferença. Todos verão por que a honra…

— Non — Gisele o interrompeu severa. — Não lhes conte sobre seu juramento e não fale sobre honra, a sua ou a deles. Não lhes diga que você prometeu me proteger, pois estaria os obrigando a apoiá-lo. Deixe-os livres para agir como quiserem.

— Eles vão acolhê-la.

— Por favor, nenhuma palavra sobre juramentos. De acordo?

— Sim. Mas saiba, desde já, que minha família não estará preocupada em me apoiar, e sim em salvá-la. E assim termina nossa discussão.

Num movimento rápido, Nigel deitou-a sobre o cobertor e começou a despi-la.

— Só mais uma coisinha. Se sua família achar que sou um fardo maior do que desejam carregar, será que poderei fazer uma refeição completa antes de partir?

Rindo, os dois se beijaram avidamente, Gisele já esquecida do padecimento a bordo do navio. O toque de Nigel tinha o poder de curá-la, de corpo e alma.

Sem palavras, apenas com beijos e carícias, ela confessou quanto o amava. Se não podia fazê-lo verbalmente, por medo de ser rejeitada, que seus gestos expressassem seus sentimentos.

Depois do clímax, aconchegou-se ao peito forte e fechou os olhos, lânguida e exausta. Se o ardor da paixão revelasse o que uma pessoa sentia, então Nigel tinha que amá-la também. Mas não, não devia confundir desejo com amor. Estaria enganando a si mesma ao alimentar falsas esperanças. O fato de Nigel desejá-la não significa que estivesse disposto a entregar-lhe o coração.

Absorto, Nigel contemplou a mulher pequenina, adormecida em seus braços. Em breve chegariam aos portões de Donncoill e Gisele estaria face a face com Maldie. Era hora de contar-lhe sobre a cunhada, porém faltava-lhe coragem de abordar essa questão embaraçosa. No fundo, sentia-se como se tivesse traído o irmão apesar de, jamais, haver tocado Maldie.

Durante algum tempo iludira-se pensando que não existiam muitas semelhanças entre as duas mulheres. Porém, no instante em que pusera os pés na Escócia, a realidade se impusera. Impossível negar o óbvio. Ambas eram pequeninas, de cabelos negros, olhos verdes, e donas de um espírito indômito.

Teria que explicar a situação a Gisele antes de alcançarem Donncoill, ou essa amante fogosa se transformaria numa estátua de gelo. Por outro lado, contar-lhe a verdade já poderia provocar resultado similar, o que o privaria de tê-la em seus braços por mais algumas noites. Simplesmente não sabia que atitude tomar.

— Que florzinhas são essas? — Gisele perguntou, sentando-se na grama macia e deslizando os dedos sobre as delicadas pétalas brancas.

— Urzes.

— Ah, este é o perfume que você e Duncan estavam tão ansiosos para aspirar.

— Sim. — Quase reverente Nigel acariciou as flores miúdas. — Mas o que estávamos mesmo desejando era aspirar o cheiro da Escócia. As urzes, belas quando se espalham e cobrem as montanhas como um manto, são uma parte ínfima do que a Escócia verdadeiramente é.

Beijando-o no rosto, ela sorriu.

— Compreendo. Existe algo de selvagem no ar, um desafio para as pessoas que andam por essas colinas.

Feliz ao perceber que Gisele entendia, e partilhava seus sentimentos, Nigel a deitou sobre a relva. Estavam a poucas horas de Donncoill e, embora impaciente para chegar ao fim da jornada, sugerira um descanso. Sabendo que não tardaria a ser rejeitado, quisera uma última oportunidade de tê-la em seus braços.

Mas existia algo que podia fazer algo para evitar que Gisele pensasse o pior a seu respeito. Podia dizer que a amava e pedi-la em casamento. Ela ainda ficaria magoada quando visse Maldie, ainda questionaria seus sentimentos, porém lhe daria uma chance de explicar-se. Contudo, hesitava. Sentia-se confuso, inquieto. Nenhuma mulher o havia perturbado tanto quanto Gisele. Nenhuma mulher, com um simples sorriso, fora capaz de despertar seu desejo de maneira tão violenta. Nenhuma, exceto Maldie. Não queria prometer casamento, amor, fidelidade e devoção a Gisele para então, olhar Maldie nos olhos e descobrir ter feito promessas mentirosas. Não podia feri-la, oferecendo-lhe um coração ocupado por outra.

— Para um homem que está prestes a rever a família após sete longos anos, você não me parece muito feliz.

— Acho que estou inseguro se serei bem-vindo.

— Por causa do motivo pelo qual partiu? — Tensa Gisele aguardou-o explicar a razão do exílio voluntário.

— De certo modo, sim. Depois de tanto tempo, sem dúvida as coisas e as pessoas terão mudado. Assim como eu também mudei um pouco.

Tivera a oportunidade perfeita de confessar a verdade e, feito um covarde, fugira do confronto adiando, mais uma vez, a hora de revelar seu segredo. Rezava para que Gisele lhe desse outra chance de explicar-se, antes que o reencontro com sua família se transformasse num pesadelo.

Profundamente decepcionada ante a resistência de Nigel em mencionar a mulher que o fizera abandonar a terra natal, Gisele levou alguns segundos para se recompor e engolir a mágoa. Só esperava não vir a descobrir a verdade por conta própria, através de rumores, ou insinuações veladas. Ainda que a machucasse, preferia escutar a verdade da boca de Nigel. Devia ser um segredo devastador, para ele relutar tanto em abordar o assunto. Não desejando estragar a beleza do momento pressionando-o a falar do passado, obrigou-se a sorrir e ignorar a angústia interior.

— Seu clã ficará feliz quando o vir são e salvo. Se mudanças ocorreram em Donncoill, como é natural, você se adaptará a elas. Lembre-se, sua família nunca deixaria de amá-lo e isto é o que realmente importa.

— Sim, tem razão. Nestes sete anos foi sempre tão difícil obtermos notícias uns dos outros, que comecei a temer estar me transformando num estranho. Uma tolice reconheço.

— Que tal retomarmos a cavalgada?

— Não, não já. — Devagar, Nigel pôs-se a despi-la. — É um dia perfeito, ensolarado. Creio que deveríamos aproveitá-lo um pouco mais.

— Ah, você está querendo aproveitar o “dia”. — Sedutora Gisele arqueou as costas, oferecendo-se.

Cobrindo-a de beijos devoradores, ele pensou em como seria bom se pudesse construir um abrigo para ambos ali mesmo, se pudesse mantê-la apenas para si, longe de tudo e de todos. Estaria perto o bastante de sua família para visitá-la sempre que a saudade apertasse e Gisele nunca poria os olhos em Maldie. Logo afastou a idéia absurda. Ainda que conservasse Gisele distante de seu clã durante um certo período, alguém acabaria fazendo um comentário suspeito, ou Maldie apareceria para visitá-los. As conseqüências, então, seriam trágicas, incontornáveis.

Quando Nigel a penetrou com uma única investida, Gisele percebeu nele uma urgência que beirava o desespero, como se aquela fosse a última vez. Dominada por igual ansiedade, entregou-se com total abandono, fechando os olhos para o mundo e para os medos que a espreitavam.

Após o êxtase quase brutal em sua intensidade, os dois se vestiram em silêncio, cada qual imerso nos próprios pensamentos. De súbito, era como se uma barreira invisível os separasse e isto a aterrorizou.

Retomando a jornada, porém, Gisele tentou se convencer de que não passava de uma tola, de que enxergava problemas onde não existia nenhum. Nigel apenas sentia-se inseguro sobre o que acharia em Donncoill e parecia taciturno por causa de temores e apreensões. Assim como ela também se preocupava com este primeiro encontro com os desconhecidos que a iriam acolher.

Ao alcançarem os portões de Donncoill, quase acreditava haver imaginado tudo. A fortaleza dos Murray revelou-se uma visão impressionante. Apesar de ainda inacabada, pois notava várias obras em andamento, seria difícil deparar com uma construção mais espetacular na França. Nigel não regressava a uma propriedade modesta, mas a um castelo capaz de fazer qualquer homem encher-se de orgulho. Novamente ela percebeu uma profunda relutância no cavaleiro e desejou ter coragem de exigir-lhe explicações.

A calorosa recepção que lhes foi oferecida no pátio interno de nada serviu para atenuar a expressão sombria de Nigel e Gisele começou a sentir que uma surpresa terrível a aguardava.

Quando entraram no salão principal, um homem moreno, muito alto e musculoso, correu para Nigel e o abraçou apertado, saudação amorosa que foi sendo repetida por outro cavaleiro mais velho e por um rapaz bonito e sorridente.

Se Nigel receara vir a constatar que a família se distanciara, ali estava a prova do quanto continuava amado. Todavia, ele permanecia reticente, cauteloso na retribuição do afeto demonstrado.

Educadamente, Gisele cumprimentou os irmãos de Nigel, Balfour e Eric, e o mestre de armas, James, não lhe passando despercebidos os olhares trocados entre os homens, como se partilhassem um segredo.

— Nigel! — chamou uma voz suave.

Todos se voltaram para a mulher que descia a escada apressada, ansiosa para abraçar o cunhado.

Rígida, Gisele escutou Nigel apresentar Maldie, esposa de seu irmão, Balfour.

Impossível ignorar a assustadora semelhança física entre ambas. Era como se houvessem saído da mesma barriga!

Embora um pouco mais velha e num estágio avançado de gravidez, ao fitar Maldie, Gisele tinha a impressão de estar olhando num espelho.

Os mesmos cabelos negros e encaracolados, os mesmos olhos verdes, a mesma estatura. Durante todo o tempo em que havia cruzado metade da França e parte da Escócia, apaixonando-se loucamente por seu protetor, enquanto se entregara à paixão carnal ansiando conquistar o coração do único homem a quem amara, Nigel nem sequer a vira como de fato era. Apenas a usara. Fora uma tola, uma idiota.

Em nenhum momento Nigel Murray fizera amor com Gisele DeVeau, mas fantasiara ter nos braços Maldie Murray, a esposa do irmão.

— Você deveria ter me dito, Nigel — Gisele falou baixinho, querendo gritar de ódio, mas sabendo que não era a hora nem o lugar. — Foi muito descortês da sua parte.

— Gisele…

Isto era muito pior do que havia imaginado. Nunca a vira assim tão abatida, nem quando tentara se esfolar viva para arrancar os vestígios de Vachel DeVeau. Ansiava abraçá-la, devolver o brilho aos belíssimos olhos verdes, porém temia ter perdido o direito de tocá-la. E desejava esse direito de volta. Tardiamente compreendia que a queria e a mais ninguém. Bastara olhar Maldie uma única vez para saber, sem dúvida, que não mais a amava. De fato, deixara de amá-la há anos. Amava Gisele, a mulher que agora o fitava como se ele fosse o mais cruel, o mais vil de todos os homens. Não contar-lhe sobre Maldie fora o maior, o mais grave erro que jamais cometera. Um erro pelo qual pagaria caro.

— Non, é tarde demais. — Ela se retraiu quando o escocês tentou tocá-la.

Sentia-se tão ferida por dentro que se surpreendia por não estar sangrando por todos os poros. A expressão tensa e o desconforto dos presentes a ajudaram a sufocar a dor. Afinal, nenhum deles merecia testemunhar seu sofrimento. Se viesse a discutir a traição de que fora vítima, que o fizesse apenas com Nigel. Agora, mais do que tudo, necessitava ficar sozinha para lidar com a angústia e a desilusão.

— É uma honra conhecê-los — murmurou, conseguindo, a duras penas, parecer calma e controlada. — Se eu não estiver abusando de sua gentileza, gostaria de me recolher. Preciso de um banho para me livrar da poeira da estrada e seria bom descansar um pouco.

— Claro que sim! — exclamou Maldie, lançando um olhar furioso para Nigel enquanto tomava Gisele pelo braço e a conduzia até uma senhora gorducha, parada ao pé da escada. — Margaret, por favor, leve lady Gisele a um dos aposentos destinados aos hóspedes.

Nigel avançou disposto a segui-las, porém Maldie plantou-se à frente do cunhado, bloqueando a passagem com sua imensa barriga.

— Tenho que falar com Gisele.

— Creio que você deveria ter lhe falado tempos atrás. Agora conversará conosco. Venha.

— Desde quando Maldie se tornou chefe de Donncoill? — Nigel perguntou, acompanhando o grupo até a mesa de madeira maciça que dominava o grande salão.

— Desde o momento em que cruzou os portões do castelo pela primeira vez — respondeu James, às gargalhadas. — Só demoramos um pouco para perceber que havíamos perdido o poder. — De súbito, o mestre de armas ficou muito sério. — Acho que você não se portou muito bem em relação à jovem francesa, rapaz.

— Acho que ele se portou como um cretino e, provavelmente, um grande tolo — afirmou Maldie, ignorando os protestos masculinos enquanto sentava-se à direita de Balfour. — Mas antes de discutirmos o assunto, talvez você possa nos contar quem é nossa convidada e por que a pobrezinha empreendeu tão longa viagem.

Depois de considerar, por breves segundos, a idéia de sair correndo dali, Nigel inspirou fundo e relatou a história de Gisele, hesitando apenas ao expor o que sabia sobre o casamento sórdido com Michael DeVeau. Ao terminar, não tinha dúvida de que sua família cerraria fileiras contra os DeVeau, valendo-se, se preciso fosse, de todo o poderio de Donncoill.

— E quando você concluiu que ela não havia matado o marido? — interrogou-o James, com sua habilidade desconcertante de ir direto ao cerne da questão.

— Demorei algum tempo. Nunca, em nenhum momento, a condenei por ter assassinado o canalha, depois de meses a fio submetida à tortura e às piores degradações. Então, quando Gisele insistiu em aprender a esgrimir, constatei que não tinha coragem de matar ninguém. Oh, numa situação em que sua vida, ou a minha, estivessem em perigo, seria provável que o fizesse, como aconteceu no dia em que fui ferido. Porém assassinar e mutilar um homem inconsciente? Não, jamais, mesmo o infame o merecendo. Creio que algum parente de uma moça violentada por DeVeau seja o autor do crime.

— Se a inocência de Gisele for provada, outra pessoa pagará por haver feito justiça com as próprias mãos — disse Balfour.

— Sim. Mas pelo menos será o verdadeiro assassino a enfrentar as conseqüências de seus atos. De certa forma, será uma punição merecida. Lembre-se de que essa pessoa se omitiu, deixando que uma inocente fosse acusada e caçada feito um animal durante um ano.

— Um argumento válido.

— E agora falemos sobre a outra afronta cometida contra lady Gisele — decidiu Maldie.

— Querida, meu irmão salvou a vida da dama — Balfour ponderou.

— Sim, uma atitude digna de louvor. Mas suspeito que seus motivos iniciais não tenham sido os mais puros. Embora ache difícil tocar no assunto, todos nós sabemos por que você partiu sete anos atrás. Agora regressa trazendo consigo alguém que poderia se passar por minha irmã. Só espero que você não… isto é… — Maldie calou-se, desconfortável.

Muito sério Balfour fitou o irmão fixamente.

— Você não usou a linda francesa, não é?

Nigel quase sorriu ante a dificuldade de sua família para expressar exatamente o que os preocupava.

— Não. Gisele nunca foi para mim uma mera substituta da mulher que eu queria.

— Tem mesmo certeza? — pressionou-o Eric. — Se nós conseguimos reparar na extraordinária semelhança entre ambas, seria impossível você não haver notado.

— Oh, sim, notei a semelhança física. E me angustiei. Sempre que me sentia seguro em relação aos meus sentimentos por Gisele, descobria-me alimentando alguma dúvida repentina. Como poderia ser diferente?

— Você deveria ter lhe contado. Confessado sua confusão interior.

— Rapaz, nós sempre admiramos sua sinceridade, sua habilidade em manter a coerência mesmo nas situações mais difíceis. Porém, às vezes, as coisas não são assim tão simples.

— Vocês são amantes. Seu silêncio apenas fez com que lady Gisele se sentisse ainda mais traída ao deparar com a verdade de modo brutal. Creio que ela desconfiava do motivo que o impeliu a abandonar a Escócia, anos atrás. Imagine-a chegar aqui, em busca de paz e segurança, e ver-se frente a frente com os fantasmas do passado. Bastou pôr os olhos em nossa Maldie para a última peça do quebra-cabeça se encaixar e lady Gisele saber, com certeza, quem era a mulher responsável por seu exílio voluntário.

— Eric está certo — concordou Maldie gentilmente. — Você a permitiu empreender uma longa jornada sem uma só palavra de explicação. Mesmo se a pobrezinha houvesse se convencido de que você lhe dedicava algum afeto, essa esperança desabou ao me conhecer. Raciocine, Nigel. Gisele deve amá-lo, ou não o teria aceitado para amante depois de todo o sofrimento e traições de que foi vítima. Pense em como ela está se sentindo agora. A maior das tolas.

— Por que você não se declarou? — questionou-o Balfour. — Por que não disse que a amava durante a viagem?

— Porque só tive certeza absoluta de meus sentimentos quando cheguei aqui. Quando vi Maldie e Gisele juntas.

— Deus! — Maldie exclamou, ultrajada. — Você esperou pela chance de nos comparar uma à outra?

— Não, de maneira alguma. Era o único meio de me livrar da indecisão, de enxergar com clareza meus sentimentos. Temi confessar que a amava antes e então, ao chegar a Donncoill, perceber que mentira. Não me perdoaria jamais se a magoasse assim. Agora, entendo que meu silêncio a feriu ainda mais.

— Você a quer? — James perguntou incisivo.

— Sim, eu a quero.

— Pois terá que cortejá-la.

— Não creio que Gisele me permitirá me aproximar. Como vou cortejá-la à distância?

— Milady permanecerá no castelo porque não tem outro lugar para onde ir, considerando que caçadores de recompensa a perseguem. Apesar das óbvias dificuldades, você precisará dar um jeito de fazê-la ouvi-lo. Conte-lhe toda a verdade, não esconda nada, declare seu amor, diga que a quer e a mais ninguém. Vamos, rapaz, você nunca teve problemas com as mulheres antes. Se empenhar-se, vencerá a resistência de lady Gisele e a conquistará. Levará tempo, mas creio que vale a pena lutar por quem se ama.

— Oh, sim. Só receio que ela já não me julgue digno de seu amor.

Deitada na cama, o olhar fixo no teto, Gisele tentava não ceder ao desespero. Depois de banhar-se, vestir a camisola de linho que Margaret providenciara e tomar o lanche que lhe fora servido, embora sem nenhum apetite, não havia nada com o que se distrair. Estar sozinha com os próprios pensamentos a aterrava.

Vencida finalmente pelo pranto, virou-se de braços e enterrou a cabeça no travesseiro, mas seus soluços de nada serviam para aplacar a dor do coração dilacerado.

Ainda achava difícil acreditar que Nigel a traíra. Mesmo diante da prova incontestável, bem no fundo da alma continuava agarrada à crença de que talvez existisse uma boa explicação para o comportamento do escocês. Ele havia sido o primeiro homem em quem confiara plenamente. Como admitir ter se enganado?

Fora usada, não passara de um objeto, e seria uma idiota ainda maior caso se recusasse a enxergar a verdade. Parecia-se tremendamente com a mulher a quem Nigel amara. As conclusões eram óbvias.

Uma batida suave à porta obrigou-a a sentar-se e secar os olhos depressa. Entre aliviada e desapontada, viu Maldie, e não Nigel, entrar no quarto. Parte de si desejava nunca mais pôr os olhos no traidor, outra parte queria-o rastejando aos seus pés, implorando perdão e oferecendo-lhe uma explicação razoável. Pedia aos céus para o ingrato não ter mandado outra pessoa pedir desculpas em seu lugar.

— Não se inquiete milady — Maldie a tranqüilizou, sentando-se na beirada da cama. — O tolo de meu cunhado não sabe que estou aqui.

— Partirei amanhã de manhã. — As palavras saíram de sua boca sem que se desse conta. Decidira-se quando compreendera quão estúpida havia sido.

— Não, você não pode partir. Não tem para onde ir, corre perigo. Donncoill talvez seja o último lugar onde gostaria de estar agora, porém é o mais seguro.

— Eu poderia voltar para a França.

— E ser enforcada. Sei que seu sofrimento é tão intenso neste momento que a idéia de ser enforcada nem sequer a apavora. Conheço a sensação. Experimentei-a na pele antes de Balfour e eu termos o bom senso de compreender que precisávamos estar juntos. Bem, fui a primeira a percebê-lo. Nós mulheres somos mais espertas que os homens nessas questões.

— Nigel e eu não podemos ficar juntos.

Delicadamente, Maldie tomou a mão de Gisele entre as suas.

— Não represento nenhuma ameaça para você, querida. Nunca amei ninguém exceto Balfour. Nosso terceiro filho está a caminho e, se Deus quiser, geraremos outros três.

— Não a considero uma ameaça, milady. Tampouco a culpo dessa situação. Nada altera o fato de que Nigel a ama. Estou aqui devido apenas à nossa incrível semelhança física. — Gisele calou-se e inspirou fundo, esforçando-se para controlar as emoções.

— Sim, Nigel partiu porque me desejava e eu jamais poderia retribuir seus sentimentos. Receoso de causar problemas entre mim e Balfour, preferiu se afastar. Nunca me convenci de que ele me amava de verdade. E se amou um dia, já me esqueceu, anos atrás.

— Tem mesmo certeza de que seu cunhado não a mandou aqui? — Gisele retraiu-se, temendo alimentar falsas esperanças. Bastava de decepções.

— Certeza absoluta. Sou a mulher que você pensa que ele quer. Achei que nós duas deveríamos falar sobre o assunto. Sou parte do problema e da dor que aquele tonto lhe causou.

— Desculpe-me. Fui rude ao sugerir que talvez você estivesse mentindo. Muito rude.

— Sei que você não quer ouvir nada disso agora, mas guarde minhas palavras e pense bem no que estou lhe dizendo. Apesar de haver agido de maneira aparentemente cruel, Nigel é um homem íntegro. Agiu movido pela ignorância, pela própria confusão interior e covardia.

— Nigel não é covarde! — Gisele o defendeu veemente, fazendo Maldie sorrir.

— Em se tratando de coisas do coração, todo homem é um pouco covarde.

— Ele deveria ter me contado a verdade antes de dormirmos juntos. Eu deveria ter sido avisada de algum modo.

— Sim, sem dúvida e admito que Nigel mereça uma boa punição. Porém, tudo o que lhe peço é para ouvi-lo. Você o ama. Não se precipite, tomando uma decisão impensada da qual se arrependerá depois. Reflita nos próximos dias, livre-se do ressentimento que a consome e veja se ainda é possível perdoá-lo. — Maldie despediu-se com um sorriso e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.

Uma voz profunda e familiar soou às suas costas, assustando-a.

— Você andou se intrometendo outra vez, não é, meu amor?

— Sim, um pouco — ela reconheceu, afastando-se de braços dados com o marido.

— Este é um problema de meu irmão.

— Sim, eu sei. Contudo senti que precisava fazer alguma coisa. Gisele o ama.

— Tem certeza?

— Oh, sim. Nigel a magoou profundamente, mas não destruiu os sentimentos que ela lhe dedica. Se Nigel for sensato e Gisele capaz de perdoar, creio que os dois se entenderão.

Praguejando, Gisele atirou-se na cama. Perdoar, Maldie dissera. Não seria fácil. Nigel mentira-lhe, não com palavras, e sim com seu silêncio. Quanto a ela, expusera-se por inteiro, falara de todos os seus segredos terríveis, mesmo aqueles que não tivera coragem de contar à família. Nigel soubera que estar frente a frente com Maldie iria afetá-la e não fizera nada para suavizar o golpe. Não, não seria fácil perdoá-lo.

Olhando para trás, perguntava-se como sobrevivera a tantas desilusões num espaço de tempo tão curto. Michael ferira seu corpo e seu orgulho, humilhara-a e a transformara numa mulher cheia de temores. Sua família a abandonara. E Nigel lhe despedaçara o coração. Superara as atrocidades às quais fora submetida pelo marido e a traição da família. Mas continuava amando Nigel, a despeito de toda a dor.

Embora tentasse se convencer de que não queria escutá-lo, sabia que não se negaria a ouvi-lo na esperança de ter seu sofrimento aplacado. Preferia correr o risco de ser novamente rejeitada a não tornar a vê-lo uma última vez.

Parado no corredor escuro, Nigel debatia-se em indecisoes. Sentia falta de Gisele, o medo de jamais vir a segurá-la nos braços outra vez o paralisava. Ansiava explicar-se, desnudar a alma. Mas estaria ela disposta a ouvi-lo?

— Não acho que seja boa idéia tentar vê-la esta noite — falou Eric de repente, surgindo do meio do nada e arrastando-o na direção dos aposentos de ambos.

— Não, provavelmente não. Porém temo que Gisele fique ainda mais enfurecida.

— Então cabe-lhe pensar nas palavras corretas para abrandá-la.

— Gisele não é o tipo de mulher que se deixe convencer com facilidade.

— Foi o que percebi durante nosso breve contato. Você será obrigado a se esforçar.

Chegando ao quarto que partilhara com o irmão antes de partir, Nigel esparramou-se na cama.

— Talvez ela nem sequer queira me receber. E considerando como foi maltratada no último ano, é possível que não acredite numa única palavra minha.

— Repita-as até convencê-la.

— A repetição levará à verdade?

— Talvez — retrucou Eric, ignorando o sarcasmo do outro.

— Espero ansioso o dia em que você irá se apaixonar.

— Tendo você e Balfour como exemplos, não será complicado evitar cometer certos erros. — O rapaz riu quando o irmão o acertou com um travesseiro.

— Você pode ser o homem mais inteligente que jamais conheci, mas creia-me, quando uma mulher toca nosso coração, perdemos a cabeça. Apesar de toda minha vasta experiência no assunto, cometi todos os erros possíveis.

— Não se preocupe. Essa história ainda não está acabada.

— Você não viu o olhar de Gisele. Não sei se serei capaz de arrancá-la desse sofrimento, causado por mim.

— Você a ama e esse sentimento é mútuo. Fale com seu coração.

Suspirando, Nigel deitou-se. Eric fazia tudo parecer tão simples. Infelizmente não partilhava dessa confiança. Diria a verdade a Gisele e falaria com o coração. Não iria culpá-la, se ela lhe desse as costas e partisse para sempre.

 

Sentada num banco do jardim, Gisele disfarçou um sorriso ao ver Nigel aproximar-se. Há duas semanas o escocês vinha a cortejando assiduamente, o que lhe causava imensa alegria. Na manhã seguinte à cena devastadora no grande salão de Donncoill, ele a forçara a ouvi-lo. Sem omitir nenhum detalhe, contara-lhe tudo, de como se acreditara apaixonado por Maldie e por que decidira partir, apesar dos protestos veementes da família.

Também explicara suas dúvidas quanto aos próprios sentimentos e pedira-lhe perdão por não ter contado a verdade antes. O fato é que Gisele fora capaz de entender por que Nigel se sentira inseguro até o momento em que estivera frente a frente com Maldie após sete longos anos.

Durante a primeira semana, obrigara-se a permanecer distante, indiferente, não querendo deixá-lo perceber quanto necessitava acreditar em cada uma de suas palavras. Nigel mostrara-se tão gentil e atencioso, tão ansioso para agradá-la que sua resistência começara a ruir. Um homem não se esforçaria tanto para conquistar uma mulher se não lhe dedicasse alguma afeição.

Mas uma certa insegurança toldava sua felicidade. Nigel a cortejava, dizia admirá-la de muitas maneiras, só que nunca falava de amor. Os poucos beijos ternos que haviam trocado mostraram-lhes que o desejo continuava ardente, porém apenas paixão carnal já não lhe bastava. Depois do que sofrerá ao imaginar-se usada, não poderia se contentar com o papel de amante. Precisava de mais. Precisava de amor, casamento, filhos e de todo o resto. Não queria ser simplesmente parceira de cama. Queria ser a vida de Nigel.

— Então você veio para o jardim desfrutar do sol? — Nigel perguntou, sentando-se no banco de pedra.

— Não demorei a constatar que você tinha razão. A Escócia não é uma terra abençoada com muitos dias ensolarados e devemos aproveitá-los quando surgem.

Ternamente ele a beijou no rosto e apontou para o bordado em seu colo.

— Distraindo-se, milady?

— Por que a surpresa? Afinal, nós damas não somos obrigadas a aprender a manejar uma agulha desde cedo?

— Sim. E não fique tão agitada, querida. Não era minha intenção ofendê-la. Creio que me acostumei a vê-la com uma espada na mão.

— Sinto falta de nossas aulas — ela murmurou sonhadora, esboçando um sorriso.

— Pois devíamos retomá-las.

— Ainda não. Seu clã mal me conhece e prefiro não chocá-los adotando um comportamento pouco feminino.

Nigel apenas assentiu. Ansiava falar de casamento, entretanto reconhecia a necessidade de aguardar o momento certo de abordar o assunto. Apesar de não estar sendo repelido, gostaria de algo além de beijos castos. Queria-a de volta em sua cama. Queria-a para sempre a seu lado.

Contudo, existia outra razão para hesitar. No dia seguinte à chegada a Donncoill, enviara um mensageiro à França. Supunha que Gisele ficaria mais animada com a idéia de casamento se sua sentença de morte houvesse sido revogada. Também pedia permissão à família dela para desposá-la. Na verdade planejava tomá-la para esposa com ou sem permissão dos parentes.

Àquela hora no jardim, trocando beijos ternos, provou-se suave agonia e Nigel pensou que acabaria explodindo por causa do desejo reprimido. Esforçava-se para fazê-la compreender que seus sentimentos iam além da paixão carnal, porém havia um limite para seu autocontrole. Com a desculpa de que havia trabalho a fazer, despediu-se e rumou para o poço, onde despejou um balde de água fria na cabeça. De repente, alguém riu às suas costas.

— Cortejar a mulher amada é duro, não? — perguntou Balfour, sem disfarçar uma expressão divertida no olhar.

— Não estou com disposição para brincadeiras. — Rígido Nigel encostou-se na parede de pedra.

— Sei que não. Mas anime-se, sua estratégia para conquistá-la parece estar surtindo efeito.

— Espero que sim. Pelo menos Gisele já não me olha como se me quisesse ver ardendo nas chamas do inferno. Só estou inseguro sobre onde chegamos nessas duas semanas.

— Onde você gostaria de estar agora?

— Num ponto em que não precisasse despejar um balde de água gelada na cabeça para esfriar o calor do sangue.

Passando um braço ao redor dos ombros do irmão, Balfour tornou a rir.

— Talvez esteja na hora de falar de outras coisas, além de elogiar a beleza da dama.

— Creio que sim. O fato é que tenho me sentido inseguro sobre como minhas palavras de amor serão recebidas. Sou um covarde. Temo perder Gisele para sempre se cometer qualquer erro agora. Mas essa espera está me matando. Não sou capaz de dormir, nem de comer direito. Amanhã mudarei de tática.

Gisele sorriu gentilmente para o jovem Eric. Porém, bastou ficar outra vez sozinha no jardim, para um abatimento profundo voltar a dominá-la. Fingir era exaustivo. Estava cansada de tentar parecer agradável, despreocupada, quando as dúvidas e os medos a corroíam por dentro.

Subitamente Nigel se tornara mais ardente, mais impetuoso, os beijos menos castos, as palavras mais carregadas de duplos significados. Tinha a impressão de que o cavaleiro, concluindo já ter lhe dado tempo suficiente para perdoá-lo, resolvera passar para a segunda fase. Até o dia anterior, fora cercada de elogios e delicadezas juvenis. Agora, as carícias revelavam sensualidade e desejo. Percebia que Nigel estava a ponto de falar de casamento. Todavia perguntava-se se falaria também de amor.

Cobrindo o rosto com as mãos, Gisele sufocou as lágrimas. Em certos aspectos, as coisas davam a impressão de conspirar a seu favor. Observara Nigel e Maldie juntos o suficiente para saber que ele não mais queria aquela mulher, que lhe dedicava simples afeto fraternal.

Também estava convencida de que se fosse pedida em casamento, responderia sim, mesmo se Nigel não a amasse e apenas agisse movido pelo dever. Amava-o demais para não tentar conquistá-lo.

Porém existia algo que não podia se permitir esquecer. Os DeVeau. Nesses quinze dias, sua família não lhe enviara nenhuma notícia, sinal de que a caçada continuava. Agora que conhecera os Murray, que desfrutara de sua hospitalidade e de seu carinho, não poderia, jamais, ser responsável por sua queda. Se um deles acabasse morto ou ferido porque levara seus inimigos aos portões da fortaleza, não se perdoaria jamais.

Fora uma egoísta. Aproveitara-se da bondade dos Murray sem pensar no perigo mortal a que os estava expondo. Suspeitava de que todos daquele clã, inclusive Nigel, acreditassem na sua inocência, mas isto não era desculpa para lançá-los numa guerra que não lhes dizia respeito.

Enxergava muito bem o que devia fazer. Precisava partir e levar todos os seus problemas consigo. Também percebia ser responsabilidade sua provar a própria inocência. Não estava certo colocar tal fardo nos ombros de terceiros. Estava na hora de parar de esperar que todo mundo a ajudasse. Pelo menos teria o elemento surpresa a seu favor. Ninguém a imaginaria voltando para a França para enfrentar seus algozes.

A facilidade com que escapuliu de Donncoill no meio da tarde surpreendeu Gisele. E também a fez sentir-se um pouco culpada, pois sabia estar se aproveitando da confiança e amizade dos Murray. O único consolo era a certeza de que agia assim para protegê-los. Cavalgando ligeiro, tomou o caminho que trilhara com Nigel há duas semanas, obrigando-se a não olhar para trás por temer mudar de idéia.

Ao cair da noite, chegando a uma pequena aldeia, alugou um quarto numa hospedaria. Envergonhada de si mesma, pagou ao estalajadeiro com o dinheiro que “tomara emprestado” de Nigel. Ainda que não sobrevivesse à jornada, deixaria instruções para sua família restituir o “empréstimo” e saldar todas as suas dívidas.

Sozinha, deitou-se na cama minúscula sentindo-se encurralada, amedrontada e infeliz, apesar da convicção de haver agido da maneira correta. Os Murray consideravam uma questão de honra protegê-la e ajudá-la, mas isto não lhe dava o direito de abusar dessa bondade.

Gisele fechou os olhos, rezando para conseguir dormir. Necessitava descansar para enfrentar os longos dias que teria pela frente. Pedia aos céus para Nigel não vir ao seu encalço, porque temia não ser capaz de resistir-lhe. Abandoná-lo naquele momento, quando vislumbrara a possibilidade de uma vida a dois, fora a coisa mais dura que jamais fizera.

— Onde está Gisele? — Inquieto Nigel postou-se diante de Balfour e Maldie, ambos sentados à mesa enorme do salão principal.

— Não a vi nas últimas horas. De fato, surpreendi-me quando não se juntou a nos para o jantar — Maldie comentou. — Vou mandar Margaret chamá-la.

— Gisele não está no quarto. Já olhei lá.

— Você acha que ela saiu de Donncoill? — perguntou Balfour, após breves instantes de tenso silêncio.

— Não sei. É a única possibilidade que me ocorre. Por que se esconderia de mim? De qualquer um de nós? — Quando um pajem esbaforido entrou para anunciar que o cavalo da francesa sumira, Nigel deu um murro na mesa. — Gisele fugiu.

— Mas por quê?

— Não sei — ele retrucou áspero, inspirando fundo para acalmar-se. — É óbvio que a teimosa não falou de seus planos com ninguém, embora eu tenha algumas suspeitas sobre os motivos.

— Você acha que os DeVeau conseguiram localizá-la?

— Não. Gisele nunca os teria acompanhado pacificamente e não existe sinal de luta em lugar nenhum. Além do mais, as chances de um estranho haver cruzado nossos portões e passado por nossas sentinelas, sem ser visto, é remota.

— Você vai atrás dela? — Balfour o interrogou apreensivo.

— Oh, sim, mas esperarei amanhecer. Não posso rastreá-la com essa escuridão.

— Nada disso faz sentido para mim, Nigel — disse Maldie. — Gisele estava segura conosco. Por que fugiria sozinha, quando inimigos a perseguem?

— Porque ela sempre se sentiu dividida entre o desejo de aceitar ajuda e a culpa de expor pessoas inocentes a um perigo mortal.

— Ah, entendo. — Quando os dois homens a fitaram como se tivesse perdido a cabeça, Maldie deu de ombros. — No lugar dela, eu provavelmente faria o mesmo. Partiria para poupar aqueles que amo de uma desgraça.

— Porém Gisele deveria ter esperado um pouco mais, ou falado comigo sobre seus medos. Eu poderia haver impedido essa loucura. — Nigel mostrou o papel que estivera segurando nas mãos. — Não há mais perigo. Os verdadeiros assassinos de Michael DeVeau foram encontrados e, infelizmente, punidos. Está tudo acabado.

— Então é melhor você se apressar em encontrá-la. Os DeVeau já não constituem uma ameaça, porém não é seguro uma dama vagar sozinha por aí.

As horas passaram com uma lentidão exasperante, e Nigel não conseguiu dormir. De pé, aguardou o amanhecer, temendo pela vida de Gisele. Com seu péssimo senso de direção, a pobrezinha podia estar perdida, vagando sem rumo por uma terra desconhecida.

Quando caminhava para o estábulo, notou que um sono-lento Eric o seguia disposto a acompanhá-lo.

— Rapaz, volte para a cama. Não será difícil localizá-la.

— Você prefere estar sozinho quando a encontrar?

— Sim. Tem muita coisa que preciso dizer àquela tola e será melhor se estivermos a sós.

Após uma hora de cavalgada, Gisele desmontou para inspecionar uma das patas do cavalo. Percebera-o mancando e preocupara-se. Por sorte não era nada além de um pedregulho encravado na ferradura. Depois de extraí-lo, resolveu andar um pouco para poupar o animal.

Agora que decidira o que fazer, estava ansiosa para ir até o fim, apesar dos medos que a espreitavam. No primeiro porto que encontrasse pela frente, embarcaria para a França. Se sonhava com uma vida ao lado de Nigel, precisava antes se livrar da ameaça representada pelos DeVeau.

De súbito, um ruído às suas costas. Do meio das árvores, surgiram dois homens imundos e maltrapilhos. Rapidamente Gisele desembainhou a espada, odiando vê-los rir diante de seu gesto. Logo o pavor inicial se transformava em raiva. Detestava ser alvo de zombarias.

— Se vocês me seguiram desde a aldeia, pensando em me roubar, sugiro que voltem para o lugar de onde saíram. Não tenho nada de valor comigo.

— Você não é escocesa — falou o mais atarracado dos dois.

— Um ladrão esperto. Estou tremendo de medo.

O modo como os sujeitos se entreolharam a fez pensar que talvez não fosse sensato insultá-los. Não agiria como uma vítima indefesa, deixando-se roubar, estuprar e até matar sem esboçar resistência.

— Talvez você não tenha dinheiro, mas existem outras coisas que nos agradam — ameaçou-a o fulano atarracado.

— Sim — animou-se o magricela. — Seu cavalo, por exemplo. É sua beleza.

— Tem razão, Andrew — Malcolm se apressou a concordar, dando um passo à frente.

— Cheguem mais perto, seus patifes, e se arrependerão. — Gisele ergueu a espada em posição de ataque, percebendo, satisfeita, que os sujeitos pareciam hesitar.

— Você devia ser mais gentil, moça. Assim Andrew e eu poderíamos até poupar sua vida, depois de nos satisfazermos.

— Tanta bondade me emociona. Vocês estão preparados para pagar por sua cobiça com suas vidas miseráveis?

Malcolm atacou primeiro. Sem a menor dificuldade, Gisele aparou o golpe desajeitado, alegrando-se ao constatar que o bandido estava longe de ser um espadachim. O embate durou alguns segundos, até o magricela afastar-se, coberto de suor.

— Acho que agora vocês percebem que não será assim tão fácil me subjugar.

— Não sei se ela tem alguma coisa pela qual valha à pena morrer — resmungou Andrew.

— A moça não agüentará muito tempo, idiota! — devolveu Malcolm, lançando um olhar furioso para o companheiro. — Seria mais rápido se você me ajudasse a vencê-la.

Incerto, Andrew cocou o queixo barbado.

— Não sei se tenho estômago para lutar com uma mulher pequenina.

Gisele sufocou um suspiro de alívio. Embora Andrew não passasse de um bandido, talvez possuísse algum senso vago de justiça, de moralidade.

— Você prefere ficar de lado e me deixar morrer? — berrou Malcolm.

— Mas você mesmo disse que a moça não agüentará muito tempo. Poderíamos conseguir um bom dinheiro vendendo o cavalo.

— Acho que o animal é manco.

— Não. Nós a vimos tirar o pedregulho da ferradura. Acredite-me, não é necessário matá-la para termos o que queremos. Você alguma vez já se deitou com uma mulher tão bonita?

— Não. Nunca.

As coisas não estavam indo bem, Gisele pensou apavorada. O tal Andrew não queria matá-la, porém estava mais do que disposto a roubá-la e violentá-la. Se ambos a confrontassem juntos, não teria a menor chance de escapar. Contudo, preferia morrer pela espada a ser, novamente, vítima de um estupro.

— Venha, dê-me uma ajuda. Juntos podemos desarmá-la e tudo será nosso. O cavalo, o dinheiro e a moça. Nós nos divertiremos como nunca.

— Desculpe-me, moça — disse Andrew, plantando-se ao lado de Malcolm com a espada em riste. — Mas um homem precisa comer.

— Eu não sabia que estupro punha comida na mesa.

— De fato, não. Porém ajuda o homem a apreciar melhor a refeição. Agora, se você for inteligente, ficará quietinha e nos deixará fazer o que quisermos. Sofrerá menos assim.

— Pois eu acho que vocês dois não passam de covardes mentirosos — rugiu uma voz perigosamente fria e controlada.

Gisele fitou Nigel com a mesma expressão atônita dos dois ladrões. Como aquele homem conseguia sempre encontrá-la? Embora a chegada dele fosse uma bênção, sabia que essa alegria duraria pouco. Logo Nigel a estaria crivando de perguntas e, com certeza, suas respostas não iriam agradá-lo. Enfrentá-lo se provaria mais duro do que fora lidar com Malcolm e Andrew.

Os malfeitores nem sequer esboçaram uma reação. Diante da presença intimidante do cavaleiro, puseram o rabo entre as pernas e sumiram no meio da mata.

Nervosa, Gisele embainhou a espada, procurando uma desculpa para evitar encarar Nigel, que não parecia nada feliz.

— Creio que devemos voltar para a aldeia agora — ele falou, tomando o cavalo pelas rédeas e notando-o mancar. — Você se saiu bem da encrenca, não? Porém em menos de vinte e quatro horas sozinha, quase conseguiu ser violentada e morta. Além de haver aleijado esse pobre animal.

— Não o aleijei não! — Gisele retrucou seca — Era um simples pedregulho na ferradura e já o extraí.

Ante a frieza do olhar de Nigel, resolveu permanecer em silêncio durante algum tempo. Sem resistir, permitiu-se ser colocada sobre a sela. Tampouco protestou quando ele montou à sua frente, obrigando-a a enlaçá-lo pela cintura para manter o equilíbrio. Apesar de irritada com os modos arrogantes e as palavras ásperas do escocês, reconhecia merecê-las. Bastara ficar sozinha para se meter em sérias dificuldades. Fora louca pensando que poderia chegar à França por conta própria.

Durante todo o percurso até a aldeia, Gisele se esforçou para elaborar uma série de argumentos que justificassem sua decisão de partir. Mas não estava mais convicta de haver agido certo. Tentara mesmo fugir para a França, ou dos seus sentimentos?

Na mesma estalagem onde pernoitara, no mesmo aposento onde se alojara horas atrás, preparava-se agora para enfrentar a ira do homem a quem amava.

—E onde você pensava que estava indo, milady? — Apesar de falar num tom baixo e pausado, Nigel fervia de raiva, ainda não recuperado do choque de descobri-la ausente do castelo.

Quando a localizara na floresta estivera tão encolerizado, tão preocupado, que quase atacara os bandidos violenta e cegamente. Todavia não custara muito a perceber que os dois covardes, capazes de agredir uma mulher desprotegida, não se arriscariam a medir forças com um cavaleiro. Embora o pavor experimentado ao imaginar Gisele exposta a toda sorte de perigos já não o atormentasse, continuava furioso. Mas precisava se controlar, ou seria impossível manter uma conversa civilizada.

— Eu estava voltando para a França — ela retrucou, fascinada com o misto de emoções estampadas no rosto viril: raiva, angústia, medo.

— Então você está cansada da vida? Sendo suicídio um pecado grave, suponho que entregar-se àqueles que queriam matá-la tenha lhe parecido uma solução perfeita para seus problemas.

— Eu pretendia ir para casa limpar meu nome. Durante tempo demais deixei essa responsabilidade nas mãos de terceiros. Esconder-me atrás dos outros não está certo e achei que devia enfrentar meu destino.

— Você realmente pensou que seria possível falar com os DeVeau como se eles fossem pessoas sensatas, abertas ao diálogo?

Por que Nigel sempre conseguia apontar as falhas de seus planos?

— Os DeVeau não seriam os únicos a quem eu iria apresentar minha defesa.

— Pois agora não há necessidade de defender-se diante de ninguém — disse Nigel, entregando-lhe um pedaço de papel.

Gisele teve que ler a carta três vezes antes de acreditar nas palavras escritas.

— Estou livre?

— Completamente livre. E os DeVeau foram advertidos, pelo próprio rei, para deixá-la, e à sua família, em paz. Seus parentes usaram de toda a influência que possuem para provar sua inocência.

— Mas minha família temia o poderio dos DeVeau.

— Pelo visto, uma vez convencidos de sua inocência, superaram os temores.

— Sinto-me tão agradecida, tão cheia de júbilo… No entanto, minha liberdade custou à vida de'outros. Dois homens foram enforcados.

— Os verdadeiros assassinos, querida—Nigel esclareceu gentilmente. — Seu marido merecia morrer, porém isso não significa que tenha sido morto de acordo com a lei. Os criminosos permitiram que você levasse a culpa e nada fizeram para impedi-la de vir a ser enforcada. Eles mataram DeVeau para lavar a honra de uma parenta estuprada e surrada, mas erraram ao deixar que uma mulher inocente fosse responsabilizada.

— Entendo. Mas é vergonhoso que tenham morrido por haver praticado um ato de justiça.

— Não há razão para você regressar à França. Poderá retornar a Donncoill comigo.

Observando-a atentamente, Nigel notou a súbita agitação de Gisele, que evitava encará-lo. Convencê-la a voltar para Donncoill não seria tão fácil como esperara.

— Como estou livre, não tenho mais necessidade de sua proteção. Você cumpriu seu juramento. Sua honra de cavaleiro está intacta. — Por nada deste mundo o queria a seu lado por piedade.

Nigel aproximou-se e abraçou-a com força, obrigando-a a sentir sua excitação crescente.

— Não estou lhe pedindo para regressar a Donncoill comigo por uma questão de honra.

— Não preciso de um teto sob o qual me abrigar. Sou uma mulher de recursos e possuo uma propriedade confortável onde residir, perto de minha família.

— Tampouco estou lhe pedindo para me acompanhar movido pelo dever.

Incapaz de resistir, Gisele deixou-se deitar na cama, saboreando o peso do corpo musculoso sobre o seu. Continuava martirizada pelas dúvidas, porque ainda não ouvira o que ansiava escutar. Acabaria cedendo aos apelos da paixão enlouquecedora. Ainda que pela última vez…

— Não me tornarei sua amante — falou, estremecendo quando os lábios carnudos deslizaram ao longo de seu pescoço, numa carícia carregada de erotismo.

— Não estou lhe pedindo isso.

Sem lhe dar tempo de responder, Nigel se apossou de sua boca com uma voracidade brutal. Enlaçando-o pela nuca, Gisele retribuiu o beijo com igual ardor, ciente de que seu gesto punha um fim momentâneo à conversa. Mas não se importava. Ao partir de Donncoill, fora atormentada por um terrível arrependimento: o de não fazer amor com Nigel pela última vez. Se, ao fim daquele dia, tivesse mesmo que abandoná-lo, que levasse consigo a lembrança da felicidade que sempre encontrara entre os braços viris. Essa lembrança lhe daria forças para enfrentar um futuro solitário e amargo.

Os dois estavam tão sedentos um do outro que o sexo se transformou num ritual selvagem. Transtornados de desejo, arrancaram-se as roupas mutuamente, movidos pela urgência de tocar, beijar, sugar cada centímetro de pele nua. Num frenesi desesperado, uniram-se numa só carne, entregando-se ao ritmo imemorial até atingirem um clímax devastador. Ofegantes, abraçaram-se, esquecidos de si e do mundo.

Aos poucos, Nigel rompeu o contato carnal, mas a conservou aconchegada junto do peito. Embora tentado pela idéia de fazer amor até que, exaustos, caíssem num sono profundo, sabia que precisavam conversar mesmo ambos não o querendo. Segurando-a pelo queixo, forçou-a a fitá-lo.

— Talvez eu a tenha cortejado muito delicadamente e meu comportamento acabou a confundindo.

Apesar de tensa e temerosa do que estava para escutar, Gisele lutou para se mostrar calma.

— Você demonstrou ser hábil galanteador.

— Obrigado. Porém é óbvio que não fui hábil o bastante, porque não consegui impedi-la de me abandonar.

— Eu pretendia ir à França limpar meu nome, nada mais. Como já lhe disse, durante meses a fio permiti que outros enfrentassem um perigo que cabia a mim enfrentar.

— Tem mesmo certeza de que não estava fugindo daquilo que eu ia lhe propor?

— Eu não estava certa de suas intenções.

— Um homem não corteja uma mulher sem ter intenção de pedi-la em casamento. Você partiu antes que eu pudesse lhe pedir para ser minha esposa.

O coração de Gisele batia tão descompassado que parecia estar a ponto de sair pela boca.

— Por quê?

— Por quê? — Nigel franziu o cenho, assombrado. — Por que o quê?

— Por que você ia me pedir para ser sua esposa?

— Milady, você deveria responder sim ou não, não por quê.

— Preciso saber o porquê antes de responder sim ou não. Até receber essa carta da França, você ainda me julgava capaz de ter estripado um homem.

— Não. Você se lembra de quando a estava ensinando a duelar e a mandei desferir o golpe fatal? A expressão de seu rosto naquele momento foi o bastante para me convencer de que não havia matado seu marido. Sim, você poderia tirar a vida de alguém em autodefesa, ou para me proteger enquanto estive inconsciente. Nunca a sangue-frio e de uma forma brutal.

— Você deveria ter me dito.

— Desculpe-me. É que outras coisas mais urgentes ocupavam meus pensamentos na época.

Sorrindo, Gisele o acariciou de leve na face.

— Entendo. Eu deveria ter me satisfeito com o fato de você me achar digna de auxílio e proteção, pois isso já revelava sua opinião sobre meu caráter. Bem, sir, ainda estou esperando resposta para minha pergunta.

— O que acabamos de partilhar não é uma resposta suficientemente eloqüente? — Vendo-a torcer o nariz, Nigel emendou: — Pedi as bênçãos de sua família para nossa união e saiba que nos foram concedidas. Quanto à minha família, todos estão ansiosos para recebê-la como membro de nosso clã.

Nigel não tinha muita certeza sobre a razão de sua relutância em pronunciar as palavras que Gisele tanto ansiava ouvir. Não passava de um covarde. Depois de magoá-la escondendo a existência de Maldie, devia-lhe a completa verdade. Ninguém o merecia mais. Mas e se fosse rejeitado ao confessar seu amor?

Por um momento, Gisele quase cedeu ao impulso de sacudi-lo vigorosamente, na esperança de forçar as benditas palavras para fora de sua boca. Estava começando a acreditar que Nigel à amava, ou, pelo menos, estava perto de vir a amá-la. Tamanho embaraço e reticência só podiam significar a existência de um sentimento forte.

Portanto, restavam-lhe duas alternativas. Ou aceitava a proposta de casamento, deixando-o pensar que a aprovação das respectivas famílias e a paixão carnal lhe bastavam, ou esperaria até conseguir arrancar-lhe uma declaração de amor. Não tinha paciência para a segunda alternativa, e a primeira só a faria infeliz, insatisfeita. Talvez, caso se declarasse primeiro, o incentivaria a abrir a alma também. É claro que existia a possibilidade de seu sentimento não ser recíproco. Seria melhor acabar logo com aquela angústia do que passar a vida inteira sofrendo. Correria o risco.

— Sinto-me honrada com seu pedido de casamento. E sem dúvida é agradável saber que tanto minha família quanto a sua aprovam nossa união. Não creio que seja necessário dizer quanto prazer sinto em seus braços. Porém, receio que essas coisas não bastem.

— Já não sou apaixonado por Maldie. Você o sabe, não?

— Sim, percebi-o logo nos primeiros dias em Donncoill. — Notando que Nigel pretendia falar algo, ela o tocou nos lábios com a ponta dos dedos, calando-o. — Por favor, deixe-me ir até o fim antes de perder a coragem. Preciso de mais do que a aprovação de nossas famílias. Preciso de mais do que sexo. Preciso ter seu coração, porque há uma eternidade entreguei-lhe o meu.

Com a respiração suspensa, Gisele aguardou, e ficou inquieta com a expressão atônita do cavaleiro. Então, ele a tomou nos braços e a abraçou como se fosse esmagá-la.

— Quando você começou a me amar? — Nigel indagou num murmúrio rouco e emocionado, cobrindo-a de beijos.

— Quando você foi ferido, tive certeza de que o amava há tempos. Lembra-se de quando o abandonei e fui capturada por Vachel? Parti porque esse amor tinha se tornado tão grande, que eu simplesmente não sabia como lidar com a situação. Como uma tola, achei que poderia fugir de meus próprios sentimentos e ignorar a verdade.

— Ninguém pode fugir da verdade, ainda que nossa mente tente nos enganar elaborando explicações e justificativas. Passei tantos anos pensando estar apaixonado por Maldie que fiquei inseguro em relação ao que sentia por você.

Gisele obrigou-se a conter a ansiedade, sufocando a urgência de obrigá-lo a se declarar. Aquele jeito dele, de revelar o íntimo aos poucos, a estava enlouquecendo.

— Entendo. Confesso que seu comportamento me magoou, mas acabei percebendo que você nunca teve intenção de me ferir. Estava apenas confuso. Maldie representava um sonho acalentado durante sete longos anos. Tais sonhos são difíceis de esquecer.

— Mais pesadelo que sonho, acredite-me. Reconheço que agi mal. Eu deveria ter lhe dito algo. Talvez confessado minhas dúvidas. Mas, no instante em que vi Maldie, soube que já não a amava. Apesar da extraordinária semelhança física, você possui uma personalidade marcante e conquistou um lugar em meu coração

— Tenho mesmo um lugar em seu coração? — ela perguntou baixinho.

— Você o preenche completamente, milady.

Eufórico, Nigel tornou a abraçá-la. Sua solidão chegara ao fim.

— Tenho sido um tolo, um covarde. Quase a perdi por medo de abrir o coração. Bem, saiba que nunca mais a deixarei se afastar de mim, minha linda rosa francesa. Eu a amo e faltam-me palavras para expressar a felicidade que sinto por você me amar também.

Atordoados de felicidade, os dois se beijaram cheios de ternura e paixão.

— Teremos muitos anos juntos pela frente para você aprender todas essas palavras. — Surpresa, Gisele viu Nigel inclinar-se e beijar o medalhão preso à corrente. — Por que você fez isso?

— Este medalhão foi presente de sua avó e, segundo a boa senhora, lhe traria sorte.

— Serei para sempre grata a grandmére. Sou uma mulher livre e, ainda mais importante, sou amada.

— Oh, sim, passarei minha vida inteira mostrando-lhe o quanto a amo. Agradeço a sua avó, pois também fui beneficiado pelo medalhão.

— Talvez. Mas não tanto quanto eu — ela retrucou, provocando-o.

— Você está me desafiando, milady?

— Suponho que sim.

— Então se prepare para discutir o assunto vigorosamente. — Nigel imprensou-a contra o colchão, cobrindo-a com o próprio corpo. — Se queremos determinar qual de nós dois ama mais o outro, precisaremos de muito tempo.

— E de muita persuasão, espero.

— Ah, querida, irei persuadi-la de todas as maneiras possíveis de forma a me conceder a vitória.

Gisele tocou o medalhão de leve, erguendo uma prece de agradecimento aos céus antes de se entregar ao amor, que agora sabia lhe pertencer por toda a eternidade.

 

 

                                                                                                    Hannah Howell

 

 

 

             Voltar a Série

 

 

 

                                       

O melhor da literatura para todos os gostos e idades