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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EMA / Jane Austen
EMA / Jane Austen

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

EMA

Primeira Parte

 

Emma WOODHOUSE, bela, inteligente e rica, com uma família acomodada e um bom caráter, parecia reunir em sua pessoa os melhores dons da existência; e tinha vivido perto de vinte e um anos sem que quase nada a afligisse ou a zangasse.

Era a menor das duas filhas de um pai muito carinhoso e indulgente e, como conseqüência das bodas de sua irmã, desde muito jovem tinha tido que fazer de ama de casa. Fazia já muito tempo que sua mãe tinha morrido para que ela conservasse algo mais que uma confusa lembrança de suas carícias, e tinha ocupado seu lugar uma institutriz, mulher de grande coração, que se tinha feito querer quase como uma mãe.

A senhorita Taylor tinha estado dezesseis anos com a família do senhor Woodhouse, mais como amiga que como institutriz, e muito afeiçoada com as duas filhas, mas sobre tudo com a Emma. A intimidade que havia entre elas era mais de irmãs que de outra coisa. Até antes de que a senhorita Taylor cessasse em suas funções nominais de institutriz, a brandura de seu caráter poucas vezes lhe permitia impor uma proibição; e então, que fazia já tempo que tinha desaparecido a sombra de sua autoridade, tinham seguido vivendo juntas como amigas, muito unidas a uma à outra, e Emma fazendo sempre o que queria; tendo em grande estima o critério da senhorita Taylor, mas regendo-se fundamentalmente pelo seu próprio.

O certo era que os verdadeiros perigos da situação da Emma eram, de uma parte, que em tudo podia fazer sua vontade, e de outra, que era propensa a ter uma idéia muito boa de si mesmo; estas eram as desvantagens que ameaçavam mesclar-se com suas muitas qualidades. Entretanto, no momento o perigo era tão imperceptível que em modo algum podiam considerar-se como inconvenientes deles.

Chegou a contrariedade -uma pequena contrariedade-, sem que isso a turvasse absolutamente de um modo muito visível: a senhorita Taylor se casou. Perder à senhorita Taylor foi o primeira de suas insipidezes. E foi o dia das bodas de sua querida amiga quando Emma começou a alimentar sombrios pensamentos de certa importância. Terminada as bodas e quando já se foram os convidados, seu pai e ela se sentaram para jantar, sozinhos, sem um terceiro que alegrasse a larga velada. depois do jantar, seu pai se dispôs a dormir, como de costume, e a Emma não ficou mais que ficar a pensar no que havia perdido.

As bodas parecia prometer toda sorte de sortes a seu amiga. O senhor Weston era um homem de reputação irrepreensível, posição desafogada, idade conveniente e agradáveis maneiras; e havia um pouco de satisfação no pensar com que desinteresse, com que generosa amizade ela havia sempre desejado e animado esta união. Mas a manhã seguinte foi triste. A ausência da senhorita Taylor ia sentir se a todas as horas e em todos os dias.

Recordava o carinho que lhe tinha professado -o carinho, o afeto de dezesseis anos-, como tinha-a educado e como tinha jogado com ela desde que tinha cinco anos... como não tinha regulado esforços para atrair-lhe e distrai-la quando estava sã, e como a tinha cuidado quando tinham chegado as diversas enfermidades da infância. Tinha com ela uma grande dívida de gratidão; mas o período dos últimos sete anos, a igualdade de condições e a total intimidade que tinham seguido à bodas da Isabella, quando ambas ficaram sozinhas com seu pai, tinha lembranças ainda mais queridas, mais íntimos. Havia sido uma amiga e uma companheira como poucas existem: inteligente, instruída, serviçal, afetuosa, conhecendo tudo os costumes da família, compenetrada com todas suas inquietações, e sobre tudo preocupada com ela, por todas suas ilusões e por todos seus projetos; alguém a quem podia revelar seus pensamentos logo que nasciam em sua mente, e que lhe professava tal afeto que nunca podia decepcioná-la.

Como ia suportar aquela mudança? Claro que seu amiga tinha ido viver a só medeia milha de distância de sua casa; mas Emma se dava conta de que devia haver uma grande diferencia entre uma senhora Weston que vivia só a meia milha de distância e uma senhorita Taylor que vivia na casa; e apesar de todas suas qualidades naturais e domésticas corria o grande perigo de sentir-se moralmente sozinha. Amava meigamente a seu pai, mas para ela não era esta a melhor companhia; os dois não podiam sustentar nem conversações sérias nem em graça.

O mal da disparidade de suas idades (e o senhor Woodhouse não se casou muito jovem) via-se grandemente aumentado por sua estado de saúde e seus costumes; pois, como tinha estado doentio durante toda sua vida, sem desenvolver a menor atividade, nem física nem intelectual, seus costumes eram as de um homem muito major de o que correspondia a seus anos; e embora era querido por todos pela bondade de seu coração e o afável de seu caráter, o talento não era precisamente o mais destacado de seu pessoa.

Sua irmã, embora o matrimônio não a tinha afastado muito deles, já que se havia instalado em Londres, a só dezesseis milhas do lugar, estava o suficientemente longe como para não poder estar a seu lado cada dia; e no Hartfield tinham que fazer frente a muitas largas veladas de outubro e de novembro, antes de que o Natal significasse a nova visita da Isabella, de seu marido e de seus pequenos, que enchiam a casa lhe proporcionando de novo o prazer de sua companhia.

No Highbury, a grande e populosa vila, quase uma cidade, a que em realidade Hartfield pertencia, apesar de seus prados independentes, e de seus plantios e de sua fama, não vivia ninguém de seu mesma desse. E portanto os Woodhouse eram a primeira família do lugar.

Todos lhes consideravam como superiores. Emma tinha muitas amizades no povo, pois seu pai era amável com todo mundo, mas ninguém que pudesse aceitar-se em lugar da senhorita Taylor, nem sequer por meio-dia. Era uma triste mudança; e ao pensar nisso, Emma não podia por menos de suspirar e desejar impossíveis, até que seu pai despertava e era necessário lhe pôr boa cara. Necessitava que lhe levantassem o ânimo. Era um homem nervoso, propenso ao abatimento; queria a qualquer a quem estivesse acostumado, e detestava separar-se dele; odiava as mudanças de qualquer espécie. O matrimônio, como origem de mudanças, sempre lhe era desagradável; e ainda não tinha assimilado nem muito menos o matrimônio de sua filha, e sempre falava dela de um modo compassivo, a pesar de que tinha sido por completo um matrimônio por amor, quando se viu obrigado a separar-se também da senhorita Taylor; e seus costumes de plácido egoísmo e seu total incapacidade para supor que outros podiam pensar de modo distinto a ele, predispuseram-lhe não pouco a imaginar que a senhorita Taylor tinha cometido um engano tão grave para eles como para ela mesma, e que tivesse sido muito mais feliz de haver ficado todo o resto de sua vida no Hartfield. Emma sorria e se esforçava por que seu bate-papo fora o mais animada possível, para lhe apartar destes pensamentos; mas à hora do chá, ao senhor Woodhouse lhe era impossível não repetir exatamente o que já havia dito ao meio dia:

-Pobre senhorita Taylor! Eu gostaria que pudesse voltar conosco. O que machuca que ao senhor Weston lhe ocorresse pensar nela!

-Nisto não posso estar de acordo contigo, papai; já sabe que não. O senhor Weston é um homem excelente, de muito bom caráter e muito agradável, e portanto merece uma boa esposa; e suponho que não tivesse preferido que a senhorita Taylor vivesse com nós para sempre e suportasse todas minhas manias, quando podia ter uma casa própria...

-Uma casa própria! Mas o que sai ganhando tendo uma casa própria? Esta é três vezes maior. E você nunca tiveste manias, querida.

-Iremos ver lhes freqüentemente e eles virão a nos ver... Sempre estaremos juntos!

Somos nós os que temos que começar, temos que lhes fazer a primeira visita, e muito em breve.

-Querida, como vou tão longe? Randalls está muito longe. Não poderia andar nem a metade do caminho.

-Não, papai, ninguém diz que tenha que ir andando. Certamente que temos que ir em carro.

-Em carro? Mas ao James não gosta de tirar os cavalos por uma viagem tão curta; e onde vamos deixar aos pobres cavalos enquanto estão de visita?

-Papai, pois nas quadras do senhor Weston. Já sabe que estava tudo previsto. Ontem de noite falamos de tudo isto com o senhor Weston. E quanto ao James, pode estar completamente seguro de que sempre quererá ir ao Randalls, porque sua filha está servindo ali como donzela. O único de que duvido é de que queira nos levar a algum outro sítio. Foi tua obra, papai. Foi você quem conseguiu a Hannah o emprego. Ninguém pensava na Hannah até que você a mencionou... James te está muito agradecido!

-Estou muito contente de ter pensado nela. Foi uma grande sorte, porque por nada do mundo tivesse querido que o pobre James se acreditasse desprezado; e estou seguro de que será uma magnífica faxineira; é uma moça bem educada e que sabe falar; tenho muito boa opinião dela. Quando a encontro sempre me faz uma reverência e me pergunta como estou com maneiras muito corteses; e quando a tem aqui fazendo costura, fixo-me em que sempre sabe fazer girar muito bem a chave na fechadura, e nunca a fecha de uma portada. Estou seguro de que será uma excelente criada; e será um grande consolo para a pobre senhorita Taylor ter a seu lado a alguém a quem está acostumada a ver. Sempre que James vai ver sua filha, já pode supor que terá nossas notícias. Ele pode lhe dizer como vamos.

Emma não regateou esforços para conseguir que seu pai se mantivera neste estado de ânimo, e confiava, com a ajuda do chaquete, obter que passasse tolerablemente bem a velada, sem que lhe assaltassem mais pesar que os seus próprios. ficou a tabela do chaquete; mas imediatamente entrou uma visita que o fez desnecessário.

O senhor Knightley, homem de muito bom critério, de uns trinta e sete ou trinta e oito anos, não só era um velho e íntimo amigo da família, mas sim também se achava particularmente relacionado com ela por ser irmão maior do marido da Isabella. Vivia aproximadamente a uma milha de distância do Highbury, visitava-lhes com freqüência e era sempre bem recebido, e esta vez melhor recebido que de costume, já que trazia novas recentes de seus mútuos parentes de Londres. depois de vários dias de ausência, havia voltado pouco depois da hora de jantar, e tinha ido ao Hartfield para lhes dizer que tudo partia bem na praça de Brunswick. Esta foi uma feliz circunstância que animou ao senhor Woodhouse por certo tempo. O senhor Knightley era um homem alegre, que sempre levantava-lhe os ânimos; e suas numerosas perguntas a respeito «da pobre Isabella» e seus filhos foram respondidas a plena satisfação. Quando teve terminado, o senhor Woodhouse, agradecido, comentou:

-Senhor Knightley, foi você muito amável ao sair de sua casa tão tarde e vir a nos visitar. Não lhe terá sentado mal sair a esta hora?

-Não, não, absolutamente. Faz uma noite esplêndida, e com uma formosa lua; e tão temperada que inclusive tenho que me apartar do fogo da chaminé.

-Mas deve havê-la encontrado muito úmida e com muito gradeio no caminho. Confio em que não se resfriou.

-Barro? Olhe meus sapatos. Nenhuma bolinha de pó.

-Vá! Pois me deixa muito surpreso, porque por aqui tivemos muitas chuvas.

Enquanto tomávamos o café da manhã esteve chovendo de um modo terrível durante meia hora. Eu queria que postergassem as bodas.

-A propósito... Ainda não lhe dei a parabéns. Acredito que me dou conta da classe de alegria que os dois devem sentir, e por isso não tive pressa em lhes felicitar; mas espero que tudo tenha passado sem mais complicações. Que tal se encontram? Quem chorou mais?

-Ai! Pobre senhorita Taylor! Que pena!

-Se me permitir, seria melhor dizer pobre senhor e senhorita Woodhouse; mas o que não me é possível dizer é «pobre senhorita Taylor». Eu os avaliação muito a você e a Emma; mas quando se trata de uma questão de dependência ou independência... Sem dúvida nenhuma, tem que ser preferível não ter que agradar mais que a uma só pessoa em vez de dois.

-Sobre tudo quando uma dessas duas pessoas é muito caprichosa e fastidiosa -disse Emma brincando-; já sei que isto é o que está pensando... e que sem dúvida é o que diria se não estivesse diante meu pai.

-O certo, querida, é que acredito que isto é a pura verdade -disse o senhor Woodhouse suspirando-; temo que às vezes sou muito caprichoso e fastidioso.

-Papai querido! Não vais pensar que referia a ti, ou que o senhor Knightley te aludia!

A quem lhe ocorre semelhante coisa! OH, não! Eu me referia mesma. Já sabe que ao senhor Knightley gosta de tirar reluzir meus defeitos... em brincadeira... tudo é em brincadeira.

Sempre nos dizemos mutuamente tudo o que queremos.

Efetivamente, o senhor Knightley era uma das poucas pessoas que podia ver defeitos na Emma Woodhouse, e a única que lhe falava deles; e embora isso a Emma não era muito grato, sabia que a seu pai ainda o era muito menos, e que lhe custava muito chegar a suspeitar que houvesse alguém que não a considerasse perfeita.

-Emma sabe que eu nunca a adulo -disse o senhor Knightley-, mas não referia a ninguém em concreto. A senhorita Taylor estava acostumada a ter que agradar a dois pessoas; agora não terá que agradar mais que a uma. portanto há mais possibilidades de que saia ganhando com a mudança.

-Bom -disse Emma, desejosa de trocar de conversação-, você quer que o falemos das bodas, e eu o farei com muito prazer, porque todos nos levamos admiravelmente. Todo mundo foi pontual, todo mundo luzia os melhores ornamentos... Não viu-se nenhuma só lágrima, e apenas alguma cara larga. OH, não! Todos sabíamos que íamos viver só a meia milha de distância, e estávamos seguros de nos ver todos os dias.

-Minha querida Emma o agüenta tudo muito bem -disse seu pai-; mas, senhor Knightley, a verdade é que há sentido muito perder a pobre senhorita Taylor, e estou seguro de que a sentirá falta de mais do que se crie.

Emma voltou a cabeça dividida entre lágrimas e sorrisos.

-É impossível que Emma não sinta falta da uma companheira assim -disse o senhor Knightley-. Não a apreciaríamos como a apreciamos se supuséramos uma coisa semelhante.

Mas ela sabe quão benéfica é estas bodas para a senhorita Taylor; sabe o importante que tem que ser para a senhorita Taylor, a sua idade, ver-se em uma casa própria e ter assegurada uma vida desafogada, e portanto não pode por menos de sentir tanta alegria como pena. Todos os amigos da senhorita Taylor devem alegrar-se de que se casou tão bem.

-E esquece você -disse Emma- outro motivo de alegria para mim, e não pequeno: que fui eu quem fez as bodas. Eu fui quem fez as bodas, sabe você?, faz quatro anos; e ver que agora se realiza e que se demonstre que acertei quando eram tantos os que diziam que o senhor Weston não voltaria a casar-se, me compensa de todo o resto.

O senhor Knightley inclinou a cabeça ante ela. Seu pai se apressou a replicar:

-OH, querida! Espero que não vais fazer mais bodas nem mais predições, porque tudo o que você diz sempre termina ocorrendo. Por favor, não faça nenhuma bodas mais.

-Papai, prometo-te que para mim não vou fazer nenhuma; mas me parece que devo fazê-lo por outros. É a coisa mais divertida do mundo! Imagine, depois deste êxito! Todo mundo dizia que o senhor Weston não se voltaria a casar. OH, não! O senhor Weston, que fazia tanto tempo que era viúvo e que parecia encontrar-se tão a gosto sem uma esposa, sempre tão ocupado com seus negócios da cidade, ou aqui com seus amigos, sempre tão bem recebido em todas partes, sempre tão alegre... O senhor Weston, que não precisava passar nenhuma só velada só se não queria. OH, não! Seguro que o senhor Weston nunca mais se voltaria a casar. Havia inclusive quem falava de uma promessa que fazia a sua esposa no leito de morte, e outros diziam que o filho e o tio não o deixariam. Sobre este assunto se disseram as mais solenes tolices, mas eu não acreditei nenhuma. Sempre, desde dia (faz já uns quatro anos) que a senhorita Taylor e eu o conhecemos na Broadway-Lane, quando começava a garoar e se precipitou tão galantemente a pedir emprestados na loja do Farmer Mitchell dois guarda-chuva para nós, não deixei de pensar nisso. Após já planejei as bodas; e depois de ver o êxito que tive neste caso, papai querido, não vais supor que vou deixar de fazer de casamenteira.

-Não entendo o que quer você dizer com isso de «êxito» -disse o senhor Knightley-.

Êxito supõe um esforço. Houvesse você empregado seu tempo de um modo muito adequado e muito digno se durante estes quatro últimos anos tivesse estado fazendo o possível para que se realizasse estas bodas. Uma ocupação admirável para uma jovem! Mas se for como eu imagino, e suas funções de casamenteira, como você diz, reduzem-se a planejar as bodas, dizendo-se a si mesmo um dia em que não tem nada que pensar: «Acredito que seria muito conveniente para a senhorita Taylor que se casasse com o senhor Weston», repetindo-lhe a si mesmo de vez em quando, como pode falar de êxito?, onde está o mérito? De o que está você orgulhosa? Teve uma intuição afortunada, isso é tudo.

-E alguma vez conheceu você o prazer e o triunfo de uma intuição afortunada? O compadeço. Acreditava-lhe mais inteligente. Porque pode estar seguro de uma coisa: uma intuição afortunada nunca é tão somente questão de sorte. Sempre há um pouco de talento em isso. E quanto a minha modesta palavra de «êxito», que você me reprova, não vejo que esteja tão longe de me poder atribuir isso Você expôs duas possibilidades extremas, mas eu acredito que pode haver uma terceira: algo que esteja entre não fazer nada e fazê-lo tudo. Se eu não tivesse feito que o senhor Weston nos visitasse e não lhe tivesse atentado em mil pequenas coisas, e não tivesse aplainado muitas pequenas dificuldades, a fim de contas possivelmente não tivéssemos chegado a este final. Acredito que você conhece Hartfield o suficientemente bem para compreender isto.

-Um homem franco e sincero como Weston e uma mulher sensata e sem melindres como a senhorita Taylor, podem muito bem deixar que seus assuntos se arrumem por si mesmos.

mesclandose expor você a fazer-se mais machuco a si mesmo que bem a eles.

-Emma nunca pensa em si mesmo se pode fazer algum bem a outros -interveio o senhor Woodhouse, que só em parte compreendia o que estavam falando-; mas, por favor, querida, rogo-te que não faça mais bodas, são disparates que rompem de um modo terrível a unidade da família.

-Só uma mais, papai; só para o senhor Elton. Pobre senhor Elton! Você aprecia ao senhor Elton, papai... Tenho que lhe buscar algema. Não há ninguém no Highbury que lhe mereça... e já leva aqui todo um ano, e arrumou sua casa de um modo tão confortável que seria uma lástima que seguisse solteiro por mais tempo... e hoje me pareceu que quando os juntava as mãos punha cara de que lhe tivesse gostado de muito que alguém fizesse o mesmo com ele. Eu aprecio muito ao senhor Elton, e esse é o único meio que tenho de lhe fazer um favor.

-Certamente, o senhor Elton é um jovem muito bonito e um homem excelente, e eu o tenho em grande avaliação. Mas, querida, se quer ter uma deferência para com ele é melhor que lhe peça que deva jantar conosco qualquer dia. Isso será muito melhor. E confio que o senhor Knightley será tão amável para nos acompanhar.

-Com muitíssimo gosto, sempre que você o deseje - disse rendo o senhor Knightley-; e estou totalmente de acordo com você em que isso será muito melhor. lhe convide para jantar, Emma, e lhe mostre todo seu afeto com o pescado e o frango, mas deixe que ele seja mesmo quem se escolha esposa. me crie, um homem de vinte e seis ou vinte e sete anos já sabe cuidar de si mesmo.

 

O senhor Weston era natural do Highbury, e tinha nascido no seio de uma família honorável que no curso das duas ou três últimas gerações tinha ido acrescentando sua nobreza e sua fortuna. Tinha recebido uma boa educação, mas ao ter já de uma idade muito temprana uma certa independência, encontrou-se incapaz de desempenhar nenhuma das ocupações da casa às que se dedicavam seus irmãos; e seu espírito ativo e inquieto e seu temperamento sociável lhe tinha levado a ingressar na tropa do condado que então se formou.

O capitão Weston era apreciado por todos; e quando as circunstâncias da vida militar lhe tinham feito conhecer a senhorita Churchill, de uma grande família do Yorkshire, e a senhorita Churchill se apaixonou por ele, ninguém se surpreendeu, exceto o irmão dela e sua esposa, que nunca lhe tinham visto, que estavam cheios de orgulho e de pretensões, e que se sentiam ofendidos por este enlace.

Entretanto, a senhorita Churchill, como já era major de idade e se achava em plena posse de sua fortuna -embora sua fortuna não fosse proporcionada aos bens da família- não se deixou dissuadir e as bodas teve lugar com infinita mortificação por parte do senhor e a senhora Churchill, quem a tirou de cima com o devido decoro. Este foi um enlace desafortunado e não foi motivo de muita felicidade. A senhora Weston tivesse devido ser mais ditosa, pois tinha um marido cujo afeto e doçura de caráter o faziam considerar-se seu devedor em pagamento da grande felicidade de estar apaixonada por ele; mas embora era uma mulher de caráter não tinha o melhor. Tinha têmpera suficiente como para fazer sua própria vontade contrariando a seu irmão, mas não o suficiente como para deixar de fazer recriminações excessivas à cólera também excessiva de seu irmão, nem para não sentir falta dos luxos de sua antiga casa. Viveram por cima de suas possibilidades, mas inclusive isso não era nada em comparação com o Enscombe: ela nunca deixou de amar a seu marido mas quis ser de uma vez a esposa do capitão Weston e a senhora Churchill de Enscombe.

O capitão Weston, de quem se considerou, sobre tudo pelos Churchill, que fazia umas bodas tão vantajosa, resultou que tinha levado com muito a pior parte; pois quando morreu sua esposa depois de três anos de matrimônio, tinha menos dinheiro que ao princípio, e devia manter a um filho. Entretanto, logo lhe liberou da carga de este filho. O menino, havendo além outro argumento de conciliação devido à enfermidade de sua mãe, tinha sido o meio de uma sorte de reconciliação e o senhor e a senhora Churchill, que não tinham filhos próprios, nem nenhum outro menino de parentes tão próximos de que cuidar-se, ofereceram-se a fazer-se carrego do pequeno Frank pouco depois da morte de sua mãe. Já pode supor-se que o viúvo sentiu certos escrúpulos e não cedeu com muito gosto; mas como estava afligido por outras preocupações, o menino foi crédulo aos cuidados e à riqueza dos Churchill, e ele não teve que ocupar-se mais que de seu próprio bem-estar e de melhorar tudo o que pôde sua situação, impunha-se uma mudança completa de vida. Abandonou a tropa e se dedicou ao comércio, pois tinha irmãos que já estavam bem estabelecidos em Londres e que lhe facilitaram os começos. Foi um negócio que não lhe proporcionou mais que certo desafogo. Conservava ainda uma casita no Highbury aonde passava a maior parte de seus dias livres; e entre sua proveitosa ocupação e os prazeres da sociedade, passaram alegremente dezoito ou vinte anos mais de sua vida. Para então havia já conseguido uma situação mais desafogada que lhe permitiu comprar uma pequena propriedade próxima ao Highbury pela que sempre tinha suspirado, assim como casar-se com uma mulher incluso com tão pouca dote como a senhorita Taylor, e viver de acordo com os impulsos de seu temperamento cordial e sociável.

Fazia já algum tempo que a senhorita Taylor tinha começado a influir em seus planos, mas como não era a tirânica influência que a juventude exerce sobre a juventude, não havia feito vacilar sua decisão de não assentar-se até que pudesse comprar Randalls, e a venda do Randalls era algo no que pensava fazia já muito tempo; mas tinha seguido o caminho que se riscou tendo à vista estes objetivos até que obteve seus propósitos.

Tinha reunido uma fortuna, comprado uma casa e conseguido uma esposa; e estava começando um novo período de sua vida que segundo todas as probabilidades seria mais feliz que nenhum outro dos que tinha vivido. Ele nunca tinha sido um homem desventurado; seu temperamento lhe tinha impedido de sê-lo, inclusive em seu primeiro matrimônio; mas o segundo devia lhe demonstrar quão encantadora, judiciosa e realmente afetuosa pode chegar a ser uma mulher, e lhe dar a mais grata das provas de que é muito melhor escolher que ser eleito, despertar gratidão que senti-la.

Só podia felicitar-se de sua eleição; de sua fortuna podia dispor livremente; pois por o que se refere ao Frank, tinha sido manifiestamente educado como o herdeiro de seu tio, quem o tinha adotado até o ponto de que tomou o nome do Churchill ao chegar à maioria de idade. portanto era mais que improvável que algum dia necessitasse a ajuda de seu pai. Este não tinha nenhum temor disso. A tia era uma mulher caprichosa e governava por completo a seu marido; mas o senhor Weston não podia chegar a imaginar que nenhum de seus caprichos fosse o suficientemente forte para afetar a alguém tão querido, e, segundo ele acreditava, tão merecidamente querido. Cada ano via seu filho em Londres e estava orgulhoso dele; e seus apaixonados comentários sobre ele lhe apresentando como um arrumado jovem tinham feito que Highbury sentisse por ele como uma espécie de orgulho. Lhe considerava pertencente a aquele lugar até o ponto de fazer que seus méritos e suas possibilidades fossem um pouco de interesse geral.

O senhor Frank Churchill era um dos orgulhos do Highbury e existia uma grande curiosidade por lhe ver, embora esta admiração era tão pouco correspondida que ele nunca tinha estado ali. Freqüentemente se tinha falado de fazer uma visita a seu pai, mas esta visita nunca se efetuou.

Agora, ao casar-se seu pai, falou-se muito de que era uma excelente ocasião para que realizasse a visita. Ao falar deste tema não houve nenhuma só voz que dissentisse, nem quando a senhora Perry foi tomar o chá com a senhora e a senhorita Bate, nem quando a senhorita Bate devolveu a visita. Aquela era a oportunidade para que o senhor Frank Churchill conhecesse o lugar; e as esperanças aumentaram quando se soube que havia escrito a sua nova mãe sobre a questão. Durante uns quantos dias em todas as visitas matinais que se faziam no Highbury se mencionava de um modo ou outro a formosa carta que tinha recebido a senhora Weston.

-Suponho que ouviu você falar da preciosa carta que o senhor Frank Churchill há escrito à senhora Weston. Hão-me dito que é uma carta muito bonita. Há-me isso dito o senhor Woodhouse. O senhor Woodhouse viu a carta e diz que em toda sua vida não há lido uma carta tão formosa.

A verdade é que era uma carta admirável. É obvio, a senhora Weston se havia formado uma idéia muito favorável do jovem; e uma deferência tão agradável era uma irrefutável prova de sua grande sensatez, e algo que vinha a somar-se gratamente a todas as felicitações que tinha recebido por suas bodas. sentiu-se uma mulher muito afortunada; e tinha vivido o suficiente para saber quão afortunada podia considerar-se, quando o único que lamentava era uma separação parcial de seus amigos, cuja amizade com ela nunca se tinha esfriado, e a quem tanto custou separar-se dela.

Sabia que às vezes a sentiria falta de; e não podia pensar sem dor em que Emma perdesse um só prazer ou sofresse uma só hora de tédio ao lhe faltar sua companhia; mas seu querida Emma não era uma pessoa débil de caráter; sabia estar à altura de sua situação melhor que a maioria das moças, e tinha sensatez e energia e ânimos que era de esperar que lhe fizessem agüentar felizmente suas pequenas dificuldades e contrariedades.

E além disso era tão consolador o que fosse tão curta a distância entre o Randalb e Hartfield, tão fácil de percorrer, o caminho incluso para uma mulher só e no caso e nas circunstâncias da senhora Weston que na estação que já se aproximava não poria obstáculos em que passassem a metade das tardes de cada semana juntas.

Sua situação era a um tempo motivo de horas de gratidão para a senhora Weston e só de momentos de pesar; e sua satisfação -mais que satisfação-, sua extraordinária alegria era tão justa e tão visível que Emma, apesar de que conhecia tão bem a seu pai, às vezes ficava surpreendida ao ver que ainda era capaz de compadecer a pobre senhorita Taylor», quando a deixaram no Randalls em meio das maiores comodidades, ou a viram afastar-se ao entardecer junto a seu atento marido em um carro próprio. Mas nunca se ia sem que o senhor Woodhouse deixasse escapar um leve suspiro e dissesse:

-Ah, pobre senhorita Taylor! Tanto como gostaria de ficar!

Não havia modo de recuperar à senhorita Taylor... Nem tampouco era provável que deixasse de compadecê-la; mas umas poucas semanas trouxeram algum consolo ao senhor Woodhouse.

As felicitações de seus vizinhos habian terminado; já ninguém voltava a pinçar em sua ferida lhe felicitando por um acontecimento tão penoso; e o bolo de bodas, que tanta pesadumbre tinha-lhe causado, já tinha sido comido por completo. Seu estômago não suportava nada substancioso e resistia a acreditar que outros não fossem como ele. O que lhe sentava mau considerava que devia sentar mal a todo mundo; e portanto tinha feito todo o possível para lhes dissuadir de que fizessem bolo de bodas, e quando viu que seus esforços eram em vão fez todo o possível para evitar que outros comessem dele. havia-se tomado a moléstia de consultar o assunto com o senhor Perry, o farmacêutico. O senhor Perry era um homem inteligente e de muito mundo cujas freqüentes visitas eram um dos consolos da vida do senhor Woodhouse; e ao ser consultado não pôde por menos de reconhecer (embora pareça ser que mas bem a pesar dele) que o certo era que o bolo de bodas podia prejudicar a muitos, possivelmente à maioria, a menos que se comesse com moderação. Com esta opinião que confirmava a sua própria, o senhor Woodhouse tentou influir em todos os visitantes dos recém casados; mas apesar de tudo, o bolo terminou-se; e seus benevolentes nervos não tiveram descanso até que não ficou nenhuma migalha.

Pelo Highbury correu um estranho rumor a respeito de que os filhos do senhor Perry haviam sido vistos com um pedaço do bolo de bodas da senhora Weston na mão; mas o senhor Woodhouse nunca o tivesse acreditado.

 

A sua maneira, ao senhor Woodhouse gostava da companhia. Gostava muitíssimo que suas amizades fossem ver lhe; e se somavam uma série de fatores, sua larga residência em Hartfield e seu bom caráter, sua fortuna, sua casa e sua filha, fazendo que pudesse escolher as visitas de seu pequeno círculo, em grande parte segundo seus gostos. Fora deste círculo tinha pouco trato com outras famílias; seu horror a tresnoitar e aos jantares muito concorridos impediam que tivesse mais amizades que as que estavam dispostas a lhe visitar segundo seus conveniências. Felizmente para ele, Highbury, que incluía o Randalls em seu paróquia, e Donwell Abbey na paróquia vizinha -onde vivia o senhor Knightley- compreendia a muitas de tais pessoas. Não poucas vezes se deixava convencer pela Emma, e convidava para jantar a alguns dos melhores e mais escolhidos, mas o que ele preferia eram as reuniões da tarde, e a menos que em alguma ocasião lhe desejasse muito que algum deles não estava à altura da casa, logo que havia alguma tarde da semana em que Emma não pudesse reunir a suas redor pessoas suficientes para jogar às cartas.

Uma verdadeira avaliação, já antigo, deu entrada a sua casa aos Weston e ao senhor Knightley; e quanto ao senhor Elton, um jovem que vivia sozinho contra sua vontade, tinha o privilegio de poder fugir todas as tardes livres de sua negra solidão, e trocá-la pelos refinamentos e a companhia do salão do senhor Woodhouse e pelos sorrisos de seu encantadora filha, sem nenhum perigo de que lhe expulsasse dali.

Depois destes vinha um segundo grupo; do qual, entre os mais assíduos figuravam a senhora e a senhorita Bate, e a senhora Goddard, três damas que estavam quase sempre a ponto de aceitar um convite procedente do Hartfield, e a quem ia se recolher e se devolvia a sua casa tão freqüentemente, que o senhor Woodhouse não considerava que isso fosse pesado nem para o James nem para os cavalos. Se só tivesse sido uma vez ao ano, houvesse-o considerado como uma grande moléstia.

A senhora Bate, viúva de um antigo vigário do Highbury, era uma senhora muito anciã, incapaz já de quase toda atividade, excetuando o chá e em cuatrillo.1 Vivia muito modestamente com sua única filha, e lhe tinham todas as considerações e todo o respeito que uma anciã inofensiva em tão incômodas circunstâncias pode suscitar. Sua filha gozava de uma popularidade muito pouco comum em uma mulher que não era nem jovem, nem formosa, nem rica, nem casada. A posição social da senhorita Bate era das piores para que gozasse de tantas simpatias; não tinha nenhuma superioridade intelectual para compensar o resto ou para intimidar aos que tivessem podido detestá-la e fazer que lhe demonstrassem um aparente respeito. Nunca tinha presumido nem de beleza nem de inteligência. Sua juventude tinha passado sem chamar a atenção, e já de idade amadurecida se dedicou a cuidar de seu decrépita mãe, e à empresa de fazer com seus exíguos ganhos o maior número possível de coisas. Entretanto era uma mulher feliz, e uma mulher a quem ninguém nomeava sem benevolência. Era sua grande boa vontade e o contentadizo de seu caráter o que obrava estas maravilhas. Queria a todo mundo, procurava a felicidade de todo o mundo, ponderava em seguida os méritos de todo o mundo; considerava-se a si mesmo um ser muito afortunado, a quem se dotou de um pouco tão valioso como uma mãe excelente, bons vizinhos e amigos, e um lar no que nada faltava. A simplicidade e a alegria de seu caráter, seu temperamento contentadizo e agradecido, agradavam a todos e eram uma fonte de felicidade para ela ' mesma. Gostava de muito conversar de assuntos corriqueiros, o qual encaixava perfeitamente com os gostos do senhor Woodhouse, sempre atento às pequenas notícias e às intrigas inofensivas.

A senhora Goddard era professora de escola, não de um colégio nem de um pensionato, nem de qualquer outra costure pelo estilo aonde se pretende com largas frases de refinada tolice combinar a liberdade da ciência com uma elegante moral a respeito de novos princípios e novos sistemas, e aonde as jovens em troca de pagar enormes somas perdem saúde e adquirem vaidade, a não ser uma verdadeira, honrada escola de internas à antiga, aonde se vendia a um preço razoável uma razoável quantidade de conhecimentos, e aonde podia mandar-se às moças para que não estorvassem em casa, e podiam fazer um pequena educação sem nenhum perigo de que saíssem dali convertidas em prodígios. A escola da senhora Goddard tinha muito boa reputação, e bem merecida, pois Highbury estava considerado como um lugar particularmente saudável: tinha uma casa espaçosa, um jardim, dava às meninas comida sã e abundante, no verão deixava que brincassem de correr a seu gosto, e no inverno ela mesma lhes curava os frieiras. Não era, pois, de sentir saudades que uma fileira da dois de umas quarenta jovens a seguissem quando ia à igreja. Era uma mulher singela e maternal, que tinha trabalhado muito em sua juventude, e que agora se considerava com direito a permitir o ocasional pulverização de uma visita para tomar o chá; e como tempo atrás devia muito à amabilidade do senhor Woodhouse, sentia-se particularmente obrigada a não desatender seus convites e a abandonar sua pulcra salita, e passar sempre que podia umas horas de ócio perdendo ou ganhando umas quantas moedas de seis peniques junto à chaminé de seu anfitrião.

1 Cuatrillo: jogo de naipes de quatro pessoas, semelhante ao conjunto de sofá e poltronas.

Estas eram as senhoras que Emma podia reunir com muita freqüência; e estava não pouco contente de consegui-lo, por seu pai; embora, por isso a ela se referia, não havia remedeio para a ausência da senhora Weston. Estava encantada de ver que seu pai parecia sentir-se a gosto e muito contente com ela por saber arrumar as coisas tão bem; mas o aprazível e monótono bate-papo daquelas três mulheres o fazia dar-se conta que cada velada que passava deste modo era uma das largas veladas que com tanto temor havia previsto.

Uma manhã, quando acreditava poder assegurar que o dia ia terminar deste modo, trouxeram um bilhete de parte da senhora Goddard que solicitava nos términos mais respeitosos que lhe permitisse vir acompanhada da senhorita Smith; uma petição que foi muito bem acolhida; porque a senhorita Smith era uma moça de dezessete anos a quem Emma conhecia muito bem de vista e por -quem fazia tempo que sentia interesse devido a sua beleza. Respondeu com um amável convite, e a gentil proprietária da casa já não temeu a chegada da tarde.

Harriet Smith era filha natural de alguém. Fazia já vários anos alguém a tinha feito ingressar na escola da senhora Goddard, e recentemente alguém a tinha elevado desde sua situação de colegiala a de hóspede. Em geral, isto era tudo o que se sabia de sua história. Na aparência não tinha mais amigos que os que se feito em Highbury, e agora acabava de voltar de uma larga visita que tinha feito a umas jovens que viviam no campo e que tinham sido suas companheiras de escola.

Era uma moça muito linda, e sua beleza resultou ser de uma classe que Emma admirava particularmente. Era baixa, gordinha e loira, cheia de viço, de olhos azuis, cabelo reluzente, rasgos regulares e um ar de grande doçura; e antes do fim da velada Emma estava tão agradada com suas maneiras como com sua pessoa, e completamente decidida a seguir tratando-a.

Não lhe chamou a atenção nada particularmente inteligente no trato da senhorita Smith, mas em conjunto a encontrou muito simpática -sem nenhum acanhamento desconjurado e sem reparos para falar- e com tudo sem ser por isso absolutamente inoportuna, sabendo estar tão bem em seu lugar e mostrando-se tão diferente, dando amostras de estar tão agradavelmente agradecida por ter sido admitida no Hartfield, e tão sinceramente impressionada pelo aspecto de todas as coisas, tão superior em qualidade ao que ela estava acostumada, que devia ter muito bom julgamento e merecia fôlego. E lhe daria fôlego. Aqueles olhos azuis e mansos e todos aqueles dons naturais não foram desperdiçar se na sociedade inferior do Highbury e suas relações. As amizades que já se feito eram indignas dela. As amigas de quem acabava de separar-se, embora fossem muito boa gente, deviam estar prejudicando-a. Eram uma família cujo sobrenome era Martin, e a que Emma conhecia muito de ouvidas, já que tinham uma grande granja do senhor Knightley arrendada, e viviam na paróquia do Donwell, tinham muito boa reputação conforme acreditava -sabia que o senhor Knightley lhes estimava muito- mas deviam ser gente vulgar e pouco educada, em modo algum própria de ter intimidade com uma moça que só necessitava um pouco mais de conhecimentos e de elegância para ser completamente perfeita. Ela a aconselharia; faria-a melhorar; faria que abandonasse suas más amizades e a introduziria na boa sociedade; formaria suas opiniões e suas maneiras. Seria uma empresa interessante e sem dúvida também uma boa obra; algo muito adequado a sua situação na vida; a seu tempo livre e a suas possibilidades.

Estava tão absorta admirando aqueles olhos azuis e mansos, falando e escutando, e riscando todos estes planos nas pausas da conversação, que a tarde passou muitíssimo mais às pressas que de costume; e o jantar com a que sempre terminavam essas reuniões, e para a que Emma estava acostumada preparar a mesa com calma, esperando a que chegasse o momento oportuno, aquela vez se dispôs em um abrir e fechar de olhos, e se aproximou do fogo, quase sem que ela mesma se desse conta. Com uma presteza que não era habitual em um caráter como o seu que, contudo, nunca tinha sido indiferente ao prestígio de fazê-lo tudo muito bem e pondo nisso os cinco sentidos, com o autêntico entusiasmo de um espírito que sentia prazer em suas próprias idéias, aquela vez fez as honras da mesa, e serve e recomendou o picadinho de frango e as ostras assadas com uma insistência que sabia necessária naquela hora algo temprana e adequada aos corteses cumpridos de seus convidados.

Em ocasiões como esta, no ânimo do bom do senhor Woodhouse se livrava um penoso combate. Gostava de ver servida a mesa, pois tais convites tinham sido a moda elegante de sua juventude; mas como estava convencido de que os jantares eram prejudiciais para a saúde, mas bem lhe entristecia ver servir os pratos; e enquanto que seu sentido da hospitalidade lhe levava a respirar a seus convidados a que comessem de tudo, os cuidados que lhe inspirava sua saúde fazia que se causar pena de ver que comiam.

Quão único em consciência podia recomendar era um pequeno tigela de te advenha claro 2como o que ele tomava, mas, enquanto as senhoras não tinham nenhum reparo em atacar bocados mais saborosos, devia contentar-se dizendo:

-Senhora Bate, me permita lhe aconselhar que prove um destes ovos. Um ovo duro pouco cozido não pode prejudicar. lhe ser sabe fazer ovos duros melhor que ninguém. Eu não recomendaria um ovo duro a ninguém mais, mas não você tema, já vê que são muito pequenos, um desses ovos tão pequenos não podem lhe fazer danifico. Senhorita Bate, que Emma lhe sirva um pedacinho de bolo, um pedacinho pequenino. Nossos bolos são só de maçã. Nesta casa não lhe daremos nenhum doce que possa lhe prejudicar. O que não o aconselho são as mingau. Senhora Goddard, o que lhe pareceria meio vasito de vinho?

Meio vasito pequeno, misturado com água? Não acredito que isso possa lhe sentar mau.

Emma deixava falar com seu pai, mas servia a seus convidados manjares mais consistentes; e aquela noite tinha um interesse especial em que ficassem contentes. proposto-se atrair-se à senhorita Smith e o tinha conseguido. A senhorita Wodhouse era um personagem tão importante no Highbury que a notícia de que foram ser apresentadas lhe havia produzido tanto medo como alegria... Mas a modesta e agradecida jovem saiu da casa cheia de gratidão, muito contente da afabilidade com a que a senhorita Woodhouse a havia tratado durante toda a velada; inclusive lhe tinha estreitado a mão ao despedir-se!

 

A intimidade do Harriet Smith no Hartfield logo foi um fato. Rápida e decidida em seus meios, Emma não perdeu o tempo e a convidou repetidamente, lhe dizendo que fosse a sua casa muito freqüentemente; e à medida que sua amizade aumentava, aumentava também o prazer que ambas sentiam de estar juntas. Desde os primeiros momentos Emma já havia pensado em quão útil podia lhe ser como companheira de seus passeios. Neste aspecto, a perda da senhora Weston tinha sido importante. Seu pai nunca ia mais à frente do plantio, aonde duas divisões dos terrenos assinalavam o final de seu passeio, comprido ou curto, segundo a época do ano; e das bodas da senhora Weston os passeios da Emma reduziram-se muito. Uma só vez se atreveu a ir sozinha até o Randalls, mas não foi uma experiência agradável; e portanto uma Harriet Smíth, alguém a quem podia chamar em qualquer momento para que lhe acompanhasse a dar um passeio, seria uma valiosa aquisição que ampliaria suas possibilidades. E em todos os aspectos, quanto mais a tratava, mais a satisfazia, e se reafirmou em todos seus afetuosos propósitos.

2 Te advenha: bebida feita de aveia podada e cozida em água.

Evidentemente, Harriet não era inteligente, mas tinha um caráter doce e era dócil e agradecida; carecia de todo presunção, e só desejava ser guiada —por alguém a quem pudesse considerar como superior. O espontâneo de sua inclinação pela Emma mostrava um temperamento muito afetuoso; e sua afeição ao trato de pessoas seletas, e seu capacidade de apreciar o que era elegante e inteligente, demonstrava que não estava isenta de bom gosto, embora não podia pedir-se o um grande talento. Em resumo, estava completamente convencida de que Harriet Smith era exatamente quão amiga necessitava, exatamente o que se necessitava em sua casa.

Em uma amiga como a senhora Weston não havia nem que pensar. Nunca houvesse encontrado outra igual, e tampouco a necessitava. Era algo completamente distinto, um sentimento diferente e que não tinha nada que ver com o outro. Pela senhora Weston sentia um afeto apoiado na gratidão e na estimativa. Ao Harriet a apreciava como a alguém a quem podia ser útil. Porque pela senhora Weston não podia fazer nada; pelo Harriet podia fazê-lo tudo.

Seu primeiro intento para lhe ser útil consistiu em tentar saber quem eram seus pais; mas Harriet não o disse. Estava disposta a lhe dizer tudo o que soubesse, mas as pergunta a respeito desta questão foram em vão. Emma se viu obrigada a imaginar o que quis, mas nunca pôde convencer-se de que, de encontrar-se na mesma situação, ela não tivesse revelado a verdade. Harriet carecia de curiosidade. contentou-se com ouvir e acreditar o que a senhora Goddard tinha querido lhe contar, e não se preocupou com averiguar nada mais.

A senhora Goddard, os professores, as alunas, e em geral todos Ios assuntos da escola formavam como era lógico uma grande parte da conversação, e a não ser por seu amizade com os Martin do Abbey-Mill-Farm, não tivesse falado de outra coisa. Mas os Martin ocupavam grande parte de seus pensamentos; tinha passado com eles dois meses muito felizes, e agora gostava de falar dos prazeres de sua visita, e descrever os numerosos encantos e delícias do lugar. Emma lhe incitava a conversar, divertida por esta descrição de um gênero de vida distinto ao dele, e gozando da ingenuidade juvenil com a que falava com tanto entusiasmo de que a senhora Martin tinha «dois salões, nada menos que dois magníficos salões»; um deles tão grande como a sala de estar da senhora Goddard; e de que tinha uma faxineira que já levava com ela vinte e cinco anos; e de que tinha oito vacas, duas delas Alderneys, e outra de raça galesa, a verdade é que uma linda vaquita galesa; e de que a senhora Martin dizia, já que a tinha muito carinho, que teria que chamar-se o sua vaca; e de que tinham um precioso pavilhão do verão em seu jardim, aonde o ano passado algum dia tomavam todos o chá: realmente um precioso pavilhão do verão o suficientemente grande para que coubessem uma dúzia de pessoas.

Durante algum isto tempo divertiu a Emma sem que se preocupasse de pensar em nada mais; mas à medida que foi conhecendo melhor à família surgiram outros sentimentos, feito-se uma idéia equivocada ao imaginar-se que se tratava de uma mãe, uma filha e um filho e sua esposa que viviam todos juntos; mas quando compreendeu que o senhor Martin que tanta importância tinha no relato e que sempre se mencionava com elogios por seu grande bondade em fazer tal ou qual coisa, era solteiro; que não havia nenhuma senhora Martin, jovem, nenhuma nora na casa; suspeitou que podia haver algum perigo para seu pobre amiguita atrás de toda aquela hospitalidade e amabilidade; e pensou que sim alguém não velava por ela corria o risco de ir a menos para sempre.

Esta suspeita foi a que fez que suas perguntas aumentassem em número e fossem cada vez mais agudas; e sobre tudo fez que Harriet falasse mais do senhor Martin... e evidentemente isso não desagradava a jovem. Harriet sempre estava a ponto de falar da parte que ele tinha tomado em seus passeios à luz da lua e das alegres veladas que tinham acontecido juntos jogando; e sentia prazer não pouco em referir que era homem de tão bom caráter e tão amável. Um dia tinha dado um rodeio de três milhas para lhe levar umas nozes porque ela havia dito que gostava de muito... e em todas as coisas era sempre tão atento! Uma noite havia trazido para o salão ao filho de seu pastor para que cantasse para ela. Ao Harriet gostava de muito as canções. O senhor Martin também sabia cantar um pouco. Lhe considerava muito inteligente e acreditava que entendia de tudo. Possuía um magnífico rebanho; e enquanto a jovem permaneceu em sua casa tinha visto que vinham a lhe pedir mais lã que a qualquer outro da comarca. Ela acreditava que todo mundo falava bem dele. Sua mãe e suas irmãs lhe queriam muito. Um dia a senhora Martin lhe havia dito ao Harriet (e agora ao repeti-lo-se ruborizava) que era impossível que houvesse um filho melhor que o seu, e que portanto estava segura de que quando se casasse seria um bom marido. Não é que ela queria lhe casar. Não tinha a menor pressa.

-Vá, senhora Martin! -pensou Emma-. Você sabe o que se faz.

-E quando eu já me tive ido, a senhora Martin foi tão amável que enviou à senhora Goddard um magnífico ganso; o ganso mais formoso que a senhora Goddard tinha visto em toda sua vida. A senhora Goddard o guisou um domingo e convidou a suas três professoras, a senhorita Nash, a senhorita Prince e a senhorita Richardson para jantar com ela.

-Suponho que o senhor Martin não será um homem que tenha uma cultura muito superior a a que é normal entre os de sua classe. Gosta de ler?

-OH, sim! Quer dizer, não; bom não sei... mas acredito que tem lido muito... embora certamente são coisas que nós não lemos. Lê as Notícias agrícolas e algum livro que tem em uma estantería junto à janela; mas de todo isso não fala nunca. Embora a vezes, pela tarde, antes de jogar a cartas, lê em voz alta algo do compêndio da elegância, um livro muito divertido. E sei que tem lido O Vigário do Wakefield. Nunca há lido A novela do bosque nem Os filhos da abadia. Nunca tinha ouvido falar destes livros antes de que eu os mencionasse, mas agora está decidido a consegui-lo-lo antes possível.

A seguinte pergunta foi:

-Que aspecto tem o senhor Martin?

-OH! Não é um homem bonito, não, nem muitíssimo menos. Ao princípio me pareceu muito corrente, mas agora já não me parece tão corrente. Ao cabo de um tempo de lhe conhecer já não o parece, sabe? Mas não lhe viu alguma vez? Vem ao Highbury bastante freqüentemente, e pelo menos uma vez por semana é seguro que passa por aqui a cavalo caminho de Kingston. tiveste que te cruzar com ele muitas vezes.

-É possível, e possivelmente lhe tenha visto cinqüenta vezes, mas sem ter a menor ideia de quem era. Um jovem granjeiro, tanto se for a cavalo como a pé é a última pessoa que despertaria minha curiosidade. Esses fazendeiros são precisamente uma desse de gente com a que sinto que não tenho nada que ver. Pessoas que estejam por debaixo de sua classe social, com tal de que seu aspecto inspire confiança, podem me interessar; posso esperar ser útil a suas famílias de um modo ou outro. Mas um granjeiro não necessita nada de mim, portanto em certo sentido está tão por cima de minha atenção como em todos outros está por debaixo.

-Sem dúvida alguma. OH! Sim, não é provável que te tenha fixado nele... mas ele sim que lhe conhece muito bem... quero dizer de vista.

-Não duvido de que seja um jovem muito digno. A verdade é que sei que o é, e como a tal o desejo muita sorte. Que idade crie que pode ter?

-Nos dia oito do passado junho fez vinte e quatro anos, e meu aniversário é o dia vinte e três... exatamente duas semanas e um dia de diferença! Que casual, verdade?

-Só vinte e quatro anos. É muito jovem para casar-se. Sua mãe tem toda a razão ao não ter pressa. Agora parece ser que vivem muito bem, e se ela se preocupasse com lhe casar provavelmente se arrependeria. dentro de seis anos se conhecer uma boa moça de seu mesma classe com um pouco de dinheiro, a coisa poderia ser muito conveniente.

-Dentro de seis anos! Mas, querida Emma, ele então já terá trinta anos!

-Bom, essa é a idade a que a maioria dos homens que não nasceram ricos têm que esperar para casar-se. Suponho que o senhor Martin ainda tem que lavrar um futuro; e antes disso não pode fazer-se nada. Por muito dinheiro que herdasse ao morrer seu pai, por importante que seja sua parte na propriedade da família atreveria a dizer que tudo não está disponível, que está empregado no rebanho; e embora com laboriosidade e boa sorte dentro de um tempo pode fazer-se rico, é quase impossível que agora o seja.

-Certamente tem razão. Mas vivem muito bem. Não têm nenhum criado na casa, mas não os falta nada, e a senhora Martin fala de contratar a uma moço para o ano próximo.

-Harriet, não quisesse que te encontrasse com dificuldades quando ele se case; refiro a suas relações com sua esposa, pois embora suas irmãs tenham recebido uma educação superior e não possa objetar-se os nada, isso não quer dizer que ele não possa casar-se com alguém que não seja digno de alternar contigo. A desgraça de seu nascimento deveria te fazer ainda mais cuidadosa com a gente que tráficos. Não cabe nenhuma dúvida de que é a filha de um cavalheiro e deve te manter nesta categoria por todos os meios a seu alcance, ou do contrário serão muitos os que sentirão prazer em te rebaixar.

-Sim, sim, tem razão, suponho que há gente assim. Mas enquanto EU freqüente Hartfield e você seja tão amável comigo não tenho medo do que outros possam fazer.

-Harriet, compreende muito bem o que influem as amizades; Mas eu queria verte tão solidamente estabelecida na sociedade que fosse independente in luso do Hartfield e de a senhorita Woodhouse. Quero verte bem relacionada e isso de um modo permanente... e para isso seria aconselhável que tivesse tão poucas amizades inferiores como fora possível;

e portanto o que te digo é que se ainda seguir na comarca quando o senhor Martin se case, seria preferível que sua intimidade com suas irmãs não te obrigasse a te relacionar com sua esposa, que provavelmente será a filha de um simples granjeiro, sem nenhuma educação.

-Certamente. Sim. Mas não acredito que o senhor Martin se case com alguém que não tenha um pouco de educação e que não seja de boa família. Entretanto, não quero dizer com isso que te contradiga, eu estou segura de que não sentirei nenhum desejo de conhecer sua esposa.

Sempre terei muito afeto a suas irmãs, sobre tudo a Elizabeth, e sentiria muito deixar das tratar, porque receberam tão boa educação como eu. Mas se ele se casa com uma mulher vulgar e muito ignorante claro está que faria melhor em não visitá-la, se puder evitá-lo.

Emma esteve analisando-a através das flutuações deste raciocínio e não viu nela sintomas alarmantes de amor. O jovem tinha sido seu primeiro admirador, mas ela confiava que as coisas não tinham passado daí, e que não haveriam dificuldades muito grandes por parte do Harriet para opor-se à partida que ela pensava lhe propor.

Ao dia seguinte se encontraram com o senhor Martin enquanto passeavam pelo Donwell Road. Ele ia a pé, e detrás olhar respetuosamente a Emma, olhou a sua companheira com uma satisfação não dissimulada. Emma não lamentou dispor desta oportunidade para estudar suas reações; e se adiantou umas quantas jardas, enquanto eles falavam e sua aguda olhar não demorou para formar uma idéia suficiente sobre o senhor Robert Martin. Seu aspecto era muito pulcro e parecia um jovem judicioso, mas sua pessoa carecia de outros encantos; e quando o comparou mentalmente com outros cavalheiros, pensou que era forçoso que perdesse todo o terreno que tinha ganho no coração do Harriet. Harriet não era insensível às maneiras distinguidas, e lhe tinha chamado a atenção a cortesia do pai da Emma, da que falava com admiração, maravilhada. E parecia que o senhor Martin não soubesse nem o que eram as boas maneiras.

Só estiveram juntos uns poucos minutos, já que não podiam fazer esperar à senhorita Woodhouse; e então Harriet alcançou correndo a seu amiga, tão confusa e com uma sorriso no rosto, que a senhorita Woodhouse não demorou para interpretar devidamente.

-Pensa o casual que foi o lhe encontrar! Que coincidência! Há-me dito que há sido muita casualidade que não tenha ido dar a volta pelo Randalls. Ele não sabia que passeássemos por aqui. Acreditava que a maioria dos dias passeavam em direção ao Randalls.

Ainda não pôde conseguir um exemplar da novela do bosque. A última vez que esteve no Kingston estava tão ocupado que se esqueceu por completo, mas amanhã voltará ali. Que casualidade que lhe tenhamos encontrado! Bom, me diga, é como você acreditava? O que te pareceu? Parece-te muito vulgar?

-Certamente o é, e bastante; mas isso não é nada comparado com sua absoluta falta de «desse»; não tinha por que esperar muito dele, e a verdade é que não me fazia muitas ilusões; mas não supunha que fosse tão grosseiro, de tão pouca categoria. Confesso que o imaginava um pouco mais refinado.

-Certamente -disse Harriet, em um tom de contrariedade-, não tem os maneiras de um verdadeiro cavalheiro.

-Parece-me, Harriet, que desde que tráficos conosco tiveste muitas ocasiões de estar em companhia de verdadeiros cavalheiros, e que deve te chamar a atenção a diferença entre estes e o senhor Martin. No Hartfield conheceste a modelos de homens bem educados e distinguidos. Surpreenderia-me se agora que os conhece pudesse tratar ao senhor Martin sem te dar conta de que é muito inferior, e mas bem te assombrando de que antes tivesse podido considerá-lo como uma pessoa agradável. Não começa a sentir algo assim? Não te chamou isto atenção? Estou segura de que tiveste que reparar em seu aspecto desajeitado, em suas maneiras bruscos e na rudeza de sua voz, que inclusive daqui se advertia que não tinha a menor modulação.

-Certamente não é como o senhor Kníghtley. Não tem um ar tão distinto como ele, nem sabe andar como o senhor Knightley. Vejo muito bem a diferença. Mas o senhor Knightley é um homem tão elegante!

-O senhor Knightley é tão distinto que não me parece bem lhe comparar com o senhor Martin. Entre dêem cavalheiros não encontraria um que merecesse tão bem este nome como o senhor Knightley. Mas não é o único cavalheiro a quem trataste nestes últimos tempos. O que me diz do senhor Weston e do senhor Elton? Compara ao senhor Martin com qualquer dos dois. Compara suas maneiras; seu modo de andar, de falar, de guardar silêncio. Tem que ver a diferença.

-OH, sim! Há uma grande diferencia. Mas o senhor Weston é quase um velho. O senhor Weston deve ter entre quarenta e cinqüenta anos.

-O qual ainda dá mais mérito a suas boas maneiras. Harriet, quanta mais idade tem uma pessoa mais importante é que tenha boas maneiras... e é mais notória e desagradável qualquer falta de tom, grosseria ou estupidez. O que é passível na juventude, é imperdoável na idade amadurecida. Agora o senhor Martin é rude e desajeitado; como será quando tiver a idade do senhor Weston?

-Isso nunca pode dizer-se -replicou Harriet com certa ênfase.

-Mas é bastante fácil de adivinhar. Será um granjeiro tosco e completamente vulgar, que não se preocupará o mais mínimo pelas aparências e que só pensará no que vontade ou deixa de ganhar.

-Se for assim, a verdade é que não será muito atrativo.

-até que ponto, inclusive agora, absorvem-lhe suas ocupações, adverte-se pelo fato de que tenha esquecido procurar o livro que lhe recomendou. Estava tão preocupado por seus negócios no mercado que não pensou em nada mais... que é precisamente o que deve fazer um homem que queira prosperar. O que tem ele que ver com os livros? E eu não duvido de que prosperará e de que com o tempo chegará a ser muito rico... e o que seja um homem pouco refinado e de poucas letras não tem por que nos preocupar.

-Sente saudades que se esquecesse do livro -foi tudo o que respondeu Harriet, e em sua voz havia um matiz de profunda contrariedade em que Emma não quis intervir. Pelo tanto, deixou passar uns minutos em silêncio, e logo recomeçou:

-Em certo aspecto possivelmente as maneiras do senhor Elton são superiores às do senhor Knightley ou o senhor Weston; são mais delicadas. Poderiam considerar-se como mais modélicas que as dos outros. No senhor Weston há uma franqueza, uma vivacidade, quase uma brutalidade, que nele todo mundo encontra bem porque respondem ao expansivo de seu caráter... mas que não deveriam ser imitadas. E o mesmo ocorre com a simplicidade, esse ar resolvido e imperioso do senhor Knightley, embora lhe sente muito bem; seu rosto e seu aspecto físico, e inclusive sua situação na vida, parecem permitir-lhe mas se qualquer jovem ficasse a lhe imitar resultaria insofrível. Pelo contrário, a meu entender, a um jovem poderia recomendar-se o muito bem que tomasse por modelo ao senhor Elton. Tem bom caráter, é alegre, amável e cortês. E me parece que nestes últimos tempos se mostra especialmente amável. Não sei se tiver o propósito de chamar a atenção de alguma das dois, Harriet, redobrando suas amabilidades, mas me surpreende que suas maneiras sejam ainda mais delicadas do que eram antes. Se algo se propõe tem que ser te agradar. Não te disse o que havia dito de ti o outro dia?

E então repetiu uma série de calorosos elogios que o senhor Elton fazia de seu amiga, sem omitir nem inventar nada; e Harriet se ruborizou e sorriu, e disse que sempre tinha acreditado que o senhor Elton era muito agradável.

O senhor Elton era precisamente a pessoa escolhida pela Emma para conseguir que Harriet não pensasse mais no jovem granjeiro. Parecia-lhe que ia formar uma magnífica casal; só que um casal muito evidente, natural e provável para que, para ela, tivesse muito mérito o planejar suas bodas. Temia que não fosse algo que todos os demais deviam pensar e predizer. Entretanto, o que não era provável era que a ninguém mais lhe tivesse ocorrido antes que a ela, já que a idéia a tinha tido a primeira vez que Harriet foi ao Hartfield. quanto mais o pensava, mais oportuna lhe parecia aquela reunião.

A situação do senhor Elton era a mais favorável, já que era um perfeito cavalheiro e não tinha relação com gente inferior, e ao próprio tempo não tinha família que pudesse pôr objeções ao duvidoso nascimento do Harriet. Podia oferecer a sua esposa um lar confortável, e Emma supunha que também uma posição econômica decorosa; pois embora a vicaría do Highbury não era muito grande, sabia-se que possuía alguns bens pessoais; e tinha muito bom conceito dele, considerando-o como um jovem de buen_, caráter, julgamento claro e respeitabilidade, sem nada que turvasse sua compreensão ou conhecimento das coisas do mundo.

Emma estava satisfeita de que ele considerasse atrativa ao Harriet, e confiava que contando com que se encontrassem freqüentemente no Hartfield, naquilo princípio bastava para interessar ao senhor Elton; e quanto ao Harriet, não cabia apenas dúvida de que a idéia de ser admirada por ele teria a influência e a eficácia que tais circunstâncias revistam ter. E é que ele era realmente um jovem muito agradável, um jovem que devia gostar a qualquer mulher que não fora melindrosa. Lhe considerava como muito atrativo; sua pessoa em geral era muito admirada, embora não por ela, já que sentia falta de uma distinção em suas facções que lhe era imperdoável; mas a moça que sentia tanto agradecimento porque um Robert Martin percorresse umas milhas a cavalo para lhe levar umas nozes, bem podia ser conquistada pela admiração do senhor Elton.

 

-Não sei que opinião terá você, senhora Weston -disse o senhor Knightley- a respeito da grande intimidade que há entre a Emma e Harriet Smith, mas a meu entender não é nada bom.

-Nada bom? você crie realmente que é algo mau? E por que?

-Não acredito que seja benéfico para nenhuma das duas.

-Surpreende-me você! Emma pode fazer muito bem ao Harriet; e ao lhe proporcionar um novo motivo de interesse pode dizer-se que Harriet faz um bem a Emma. Eu vejo seu amizade com uma grande satisfação. Nisso sim que opinamos de um modo distinto! E diz você que nenhuma das duas vai sair beneficiada? Senhor Knightley, sem dúvida este será o começo de uma de nossas discussões a respeito da Emma...

-Talvez pense que vim com o propósito de discutir com você sabendo que Weston estava ausente, e que você deveria defender-se sozinha.

-Sem dúvida alguma o senhor Weston me apoiaria se estivesse aqui, porque sobre este assunto pensa exatamente quão mesmo eu. Ontem mesmo falamos disso, e estivemos de acordo em que Emma tinha tido muita sorte de que houvesse no Highbury uma mu- chacha assim pudesse freqüentar. Senhor Knightley, o que é eu, não lhe admito que seja você bom juiz neste caso. Está você tão acostumado a viver sozinho que não sabe apreciar o que vale a companhia; e possivelmente nenhum homem seria bom juiz quando se trata de valorar a satisfação que proporciona a uma mulher a companhia de alguém de seu mesmo sexo, depois de estar acostumada a isso durante toda sua vida. Já imagino a objeção que vai pôr ao Harriet Smith: não é uma jovem de tanta categoria como deveria sê-lo uma amiga da Emma. Mas por outro lado, como Emma quer ilustrá-la, para ela mesma será um incentivo para ler mais. Lerão juntas; sei que isso é o que se propõe.

-Emma sempre se proposto ler cada vez mais, desde que tinha doze anos. Eu hei visto muitas suas listas de futuras leituras, de épocas diversas, com todos os livros que propunha ir lendo... E eram umas listas excelentes, com livros muito bem escolhidos e classificados com muita ordem, às vezes alfabeticamente, outras segundo algum outro sistema.

Lembrança a lista que confeccionou quando só tinha quatorze anos, que me fez formar uma idéia tão favorável de seu bom critério que a conservei durante algum tempo; e me atreveria a assegurar que agora deve ter alguma lista também excelente. Mas já hei perdido toda esperança de que Emma se atenga a um plano fixo de leituras. Nunca se submeterá a nada que requeira esforço e paciência, uma sujeição do capricho à razão.

Onde nada puderam os estímulos da senhorita Taylor, posso afirmar sem temor a me equivocar que nada poderá Harriet Smith. Você nunca conseguiu convencê-la para que lesse nem sequer a metade do que você queria; já sabe você que não o conseguiu.

-Eu diria -replicou a senhora Weston sonriendo- que então opinava assim; mas desde que me casei não me é possível recordar nem um só desejo meu que Emma tenha deixado de satisfazer.

-Compreendo que não você sinta um grande desejo de evocar lembranças como estes -disse o senhor Knightley vivamente.

Permaneceu em silencio durante uns momentos, e em seguida acrescentou:

-Mas eu, que não sofri o efeito de seus encantos tão diretamente, ainda devo ver, ouvir e recordar. A Emma a prejudicou o ser a mais inteligente de sua família. Aos dez anos tinha a desgraça de saber responder a perguntas que deixavam desconcertada a seu irmana aos dezessete. Sempre foi rápida e esteve segura de si mesmo; Isabella sempre foi lenta e indecisa. E sempre, dos doze anos, Emma foi a proprietária da casa e de todos vocês. Com sua mãe perdeu à única pessoa capaz de lhe fazer frente. herdei o talento de sua mãe e tivesse devido educar-se sob sua autoridade.

-Senhor Knightley, em bonita situação me tivesse visto de ter que depender de uma recomendação dela, em caso de que tivesse tido que deixar a família do senhor Woodhouse e me buscar outro emprego; não acredito que você tivesse feito nenhum elogio de mim a ninguém. Estou segura de que sempre me considerou como alguém pouco adequado para a missão que desempenhava.

-Sim -disse sonriendo-. Seu lugar é este; é você uma esposa admirável, mas não serve em absoluto para institutriz. Mas esteve você preparando-se para ser uma excelente algema durante todo o tempo que esteve no Hartfield. Você não podia dar a Emma uma educação tão completa como sua capacidade parecia prometer; mas estava você recebendo, precisamente dela, uma magnífica educação para a vida matrimonial no que se refere a submeter sua vontade a outra pessoa, fazendo o que lhe mandava; e se Weston à senhorita Taylor.

-Muito obrigado. Tem muito pouco mérito ser uma boa esposa com um homem como o senhor Weston.

-Verá você, para falar a verdade temo que não tenha ocasião de empregar seus dotes, e que estando disposta a suportá-lo tudo, não tenha nada que suportar. Entretanto, não desesperemo-nos. Weston pode chegar a sentir-se molesto por levar uma vida excessivamente dada de presente, ou possivelmente seu filho lhe dê desgostos.

-Espero que não seja assim. Não é provável. Não, senhor Knightley, não você prognostique desgostos por essa parte.

-Não, claro que não. Não faço mais que mencionar possibilidades. Não pretendo ter a intuição da Emma para fazer predições e adivinhar o futuro. Desejo de todo coração que o jovem possa ser um Weston em méritos e um Churchill em fortuna. Mas Harriet Smith... como vê ainda não concluí, nem muito menos, com o Harriet Smith. A meu entender é a pior classe de amiga que Emma podia chegar a ter. Ela não sabe nada de nada, e se acredita que Emma sabe tudo. Não faz mais que adulá-la; e o que ainda é pior, adula-a sem propor-lhe Sua ignorância é uma contínua adulação. Como pode Emma imaginar-se que tem algo que aprender enquanto Harriet ofereça uma inferioridade tão agradável? E quanto ao Harriet, atreveria-me a dizer que não pode sair beneficiada em nada desta amizade. Hartfield só conseguirá que se sinta deslocada em todos os demais ambientes aos que pertence. Adquirirá mais refinamentos, mas só os precisos para que se sinta incômoda com aquelas pessoas com as que tem que viver por seu nascimento e sua posição. Equivocaria-me de médio ao meio se os ensinos da Emma dão-lhe mais personalidade ou conseguem que a moça se adapte de um modo mais racional às diferentes situações de sua vida. Quão único conseguirá será lhe dar um pouco de brilho.

-Eu tenho mais confiança que você no sentido comum da Emma, ou possivelmente me preocupo mais por seu bem-estar de agora; porque eu não lamento esta amizade. Que bom aspecto tinha a noite passada!

-OH! Vejo que fala você de sua pessoa e não de sua vida interior, não? De acordo; não pretendo negar que Emma seja muito bonita.

-Bonita! Seria mais próprio dizer muito formosa. Concebe você algo que se aproxime mais à beleza perfeita que Emma, que seu rosto e sua figura?

-Não sei o que é o que poderia conceber, mas confesso que poucas vezes vi um rosto ou uma figura mais agradados que os dela. Mas eu sou um velho amigo e nisso sou parcial.

-E seus olhos! Olhos de verdadeira cor avelã, e que brilhantes! E as facções regulares, o franco de seu semblante e o proporcionado de seu corpo! Que aspecto mais saudável e que harmoniosa silhueta! Tão erguida e firme. Transborda saúde, não só em seus frescas cores, mas também em todo seu porte, em sua cabeça, em seus olhares. Às vezes se ouça dizer de um menino que é «a viva imagem da saúde»; mas a mim Emma sempre dá a impressão de ser a imagem mais completa do saudável em pleno desenvolvimento. Parece a encarnação do viço. Não lhe parece com você, senhor Knightley?

-Eu não encontro nem um só defeito em sua pessoa -replicou-. Acredito que é exatamente como você a descreve. É um prazer olhá-la. E eu acrescentaria ainda este elogio: que não me parece que seja vaidosa. Tendo em conta quão atrativa é, dá a impressão de que não pensa muito nisso; sua vaidade é por outras coisas. Mas eu, senhora Weston, sigo mantendo que não me agrada sua intimidade com o Harriet Smith, e que temo que uma e outra saiam prejudicadas.

-E eu, senhor Knightley, também sigo sustentando que confio em que isso não será um mal para nenhuma das duas. Apesar de todos seus defectillos, Emma é uma moça excelente. Pode existir uma filha melhor, uma irmã mais afetuosa, uma amiga mais fiel?

Não, não, pode confiar-se em suas virtudes; é incapaz de causar verdadeiro machuco a alguém; não pode cometer um disparate que tenha importância; por cada vez que Emma se equivoca há cem vezes que acerta.

-De acordo; não quero importuná-la mais. Emma será um anjo, e eu me guardarei meus receios até que John e Isabella venham por Natal. John sente pela Emma um afeto razoável, e portanto não o cega o carinho, e Isabella sempre pensa igual a ele; exceto quando seu marido não se alarma suficientemente com alguma coisa dos meninos.

Estou seguro de que estarão de acordo comigo.

-Já sei que todos vocês a querem muito para ser injustos ou muito duros com ela; mas você me desculpará, senhor Knightley, se tomar a liberdade (já sabe que me considero com o direito de expor minha opinião como tivesse podido fazê-lo-a mãe da Emma), se tomar a liberdade de indicar que não acredito que se consiga nenhum bem fazendo que a amizade do Harriet Smith e Emma seja matéria de uma larga discussão entre vocês. Rogo-lhe que não leve a mal; mas caso que encontrássemos algum pequeno inconveniente nesta amizade, não é de esperar que Emma, que não tem que dar contas de seus atos a ninguém mais que a seu pai, quem aprova totalmente essa amizade, pusesse fim a ela enquanto seja algo que a agrade. foram muitos anos nos que minha missão foi a de dar conselhos, ou seja que não pode você sentir saudades, senhor Knightley, de que ainda fique algum ressaibo.

-Absolutamente! -exclamou-; eu o agradeço muito; é um magnífico conselho, e terá mais sorte da que estiveram acostumado a ter seus conselhos; porque este será seguido.

-A senhora do John Knightley se alarma facilmente, e não quisesse que se preocupe com sua irmã.

-você tranqüilize-se -disse ele-, não vou provocar nenhum alvoroço. Guardarei-me o mal humor. Sinto um interesse muito sincero pela Emma. Não considero a minha cunhada Isabella mais irmã que ela; não sinto maior interesse por ela que pela Emma, e possivelmente nem sequer tanto. O que sinto pela Emma é como uma ansiedade, uma curiosidade. Preocupa-me o que possa ser dela.

-Também a mim, e muito -disse a senhora Weston quedamente.

-Emma sempre diz que nunca se casará, o qual, é obvio, não significa absolutamente nada. Mas não acredito que tenha encontrado ainda a um homem que atraia seu atenção. Seria-lhe um grande bem apaixonar-se perdidamente de alguém que a merecesse.

Eu gostaria de ver a Emma apaixonada, sem que estivesse segura de tudo de ser correspondida; faria-lhe muito bem. Mas por estes arredores não há ninguém em quem possa pensar-se, e sai tão pouco de casa.

-O certo é que agora me parece ainda menos decidida que antes a romper esta resolução -disse a senhora Weston-; enquanto seja tão feliz no Hartfield, eu não posso lhe desejar que se forme novas relações que criariam tantos problemas ao pobre senhor Woodhouse. No momento eu não aconselharia a Emma que se casasse, embora lhe asseguro a você que não pretendo absolutamente desdenhar o estado matrimonial.

Em parte, o que ela se propunha com tudo isto era ocultar, dentro do possível, os projetos que ela e o senhor Weston acariciavam a respeito daquela questão. No Randalls existiam planos respeito ao futuro da Emma, mas não era conveniente que ninguém suspeitasse nada deles; e quando o senhor Knightley não demorou para trocar tranqüilamente de conversação, perguntando: «O que pensa Weston do tempo? Acredita que vamos a ter chuva?», convenceu-se de que ele não tinha nada mais que dizer a respeito do Hartfield e que não barruntaba nada de todo aquilo.

 

Emma não tinha a menor duvida de que tinha represado bem a imaginação do Harriet, e de que tinha feito que seu instinto juvenil de vaidade se orientasse para o bom caminho, já que advertia que a moça era muito mais sensível que antes ao feito de que o senhor Elton fosse um homem grandemente atrativo e de maneiras muito agradáveis; e como não desperdiçava nenhuma oportunidade para fazer que Harriet se convencesse da admiração que ele sentia por ela, apresentando-se o de um modo sugestivo, Emma não demorou para estar segura de ter suscitado na moça tanto interesse como era possível; por outra parte estava plenamente convencida de que o senhor Elton estava a ponto de apaixonar-se, se é que já não estava apaixonado. Emma não duvidava dos sentimentos do jovem. Falava-lhe do Harriet e a elogiava com tanto entusiasmo que Emma não podia por menos de pensar que só com que passasse algum tempo mais tudo ia a ser perfeito. que ele se desse conta dos surpreendentes progressos que tinha feito Harriet em suas maneiras desde que freqüentava Hartfield, era uma das mais gratas provas de seu crescente interesse.

-Você deu à senhorita Smith tudo o que ela necessitava -dizia o jovem-; há-lhe dado graça e naturalidade. Quando começaram a tratar-se já era uma moça muito bela, mas em minha opinião quão atrativos você lhe proporcionou são imensamente superiores aos que recebeu que a natureza.

-Alegra-me saber que você acredita que lhe pude ser útil; mas Harriet só necessitava um pouco de orientação, receber umas escassas, muito escassas, indicações. Tinha o dom natural da doçura de caráter e da naturalidade. Eu tenho feito muito pouco.

-Se fosse possível contradizer a uma dama... -disse o senhor Elton, galantemente.

-Eu possivelmente lhe dei um pouco mais de decisão, talvez lhe tenho feito pensar em coisas que antes nunca lhe tinham ocorrido.

-Exatamente, isso; isso é o que mais me assombra. A decisão que adquiriu. Há tido um magnífico professor!

-E eu uma boa aluna, a quem lhe asseguro que foi grato ensinar; nunca havia conhecido a alguém com maiores disposições, com mais docilidade.

-Não o duvido.

E estas palavras foram pronunciadas com uma espécie de viveza ofegante, que parecia já a de um apaixonado. Outro dia não ficou Emma menos agradada ao ver como secundou o jovem seu repentino desejo de pintar um retrato do Harriet.

-Harriet, alguma vez lhe têm feito um retrato? -disse-; alguma vez posaste para um pintor?

Naquele momento Harriet se dispunha a sair da estadia, e só se deteve para dizer com uma ingenuidade um tanto afetada:

-OH, querida! Não, nunca.

Logo que teve saído, Emma exclamou:

-Seria precioso um bom retrato dele! Eu o pagaria a qualquer preço. Quase me dão ganha de pintá-lo eu mesma. Suponho que você o ignorava, mas faz dois ou três anos tive uma grande afeição pela pintura, e provei a fazer o retrato de vários de meus amigos, e em geral me disseram que não o fazia mal de tudo. Mas por uma ou outra razão, cansei-me e deixei-o correr. Mas claro está que poderia provar outra vez se Harriet queria posar para mim.

Seria maravilhoso ter um retrato dele!

-me permita que lhe anime a fazê-lo -exclamou o senhor Elton-, seria precioso. me permita que lhe anime, senhorita Woodhouse, a exercer seus excelentes dotes artísticas em benefício de seu amiga. Eu vi seus desenhos. Como podia supor que ignorava que fosse você uma artista? Não há neste salão abundantes mostra de suas pinturas de paisagens e flores?; não tem a senhora Weston em seu salão do Randalls uns inimitáveis desenhos que são obra dela?

«Sim, homem de Deus -pensou Emma-, mas todo isso o que tem que ver sabendo reproduzir o parecido de uma cara? Sabe muito pouco de desenho. Não fique em êxtase pensando em meus. te guarde os êxtase para quando estiver diante do Harriet.» -Verá você, senhor Elton -disse em voz alta-, se me animar você de um modo tão amável, acredito que tratarei de fazer o que puder. As facções do Harriet são muito delicadas, e por isso são mais difíceis de reproduzir em um retrato; e tem rasgos muito peculiares, como a forma dos olhos ou o traçado da boca, que é preciso reproduzir exatamente.

-Você o há dito... A forma dos olhos e o traçado da boca. Eu não duvido de que você o conseguirá. Por favor, tente-o. Estou seguro de que tal como você o faça será, para usar sua própria expressão, algo precioso.

-Mas eu temo, senhor Elton, que Harriet não queira posar. Concede tão pouco valor a seu beleza. Viu você a maneira em que me respondeu? O que outra coisa queria dizer se não: «Para que fazer meu retrato?» -OH, sim! Asseguro-lhe que já me fixei. Não me passou por cima. Mas não duvido de que poderemos convencê-la.

Harriet não demorou para retornar, e quase imediatamente lhe fez a proposição; e seus reparos não puderam resistir muito ante a insistência de ambos. Emma quis ficar mãos à obra sem mais demora, e portanto foi procurar a pasta aonde guardava seus esboços, já que nenhum deles estava terminado, a fim de que entre todos decidissem qual podia ser a melhor medida para o retrato. Mostrou-lhes seus numerosos esboços.

Miniaturas, retratos do meio corpo, de corpo inteiro, desenhos a lápis e ao carvão, aquarelas, tudo o que tinha ido ensaiando. Emma sempre tinha querido fazê-lo tudo, e tinha sido no desenho e na música onde seus progressos tinham sido maiores, sobre tudo tendo em conta a escassa disciplina no trabalho a que se submeteu. Tocava algum instrumento e cantava; e desenhava em quase todos os estilos; mas sempre o tinha faltado perseverança; e em nada tinha alcançado o grau de perfeição que ela tivesse querido possuir, já que não admitia enganos. Não se fazia muitas ilusões aproxima de suas habilidades musicais ou pictóricas, mas não lhe desgostava deslumbrar a outros, e não lhe importava saber que tinha tina fama freqüentemente maior que a que mereciam seus méritos.

Todos os desenhos tinham seu mérito; e possivelmente os melhores eram os menos acabados; seu estilo estava cheio de vida; mas tanto se tivesse tido muito menos, como se houvesse tido dez vezes mais, a complacência e a admiração de seus dois amigos tivesse sido a mesma. Ambos estavam extasiados. O parecido gosta a todo mundo, e neste aspecto os acertos da senhorita Woodhouse eram muito notáveis.

-Não verá você muita variedade de caras -disse Emma-. Não dispunha de outros modelos que os de minha família. Aqui está meu pai (outra de meu pai), mas a idéia de posar para este quadro lhe pôs tão nervoso que tive que lhe desenhar quando ele não se dava conta; por isso em nenhum destes esboços lhe tirei muito parecido. Outra vez a senhora Weston, e outra e outra, já vê. Ai, minha querida senhora Weston! Sempre meu melhor amiga em todas as ocasiões. Sempre que o pedia estava disposta a posar. Esta é minha irmã; e a verdade é que recorda muito sua silhueta fina e elegante; e as facções são o bastante parecidas. Tivesse podido lhe fazer um bom retrato se tivesse posado mais tempo, mas tinha tanta pressa para que desenhasse a seus quatro pequenos que não havia modo de que se estivesse quieta. E aqui está tudo o que consegui com três de seus quatro filhos; este é Henry, este é John e esta é Bela, os três na mesma folha, e apenas se distinguem o um do outro. Sua mãe pôs tanto interesse em que os desenhasse que não pude me negar; mas já sabe você que não é possível obter que meninos de três ou quatro anos se estejam quietos; e tampouco é muito fácil lhes tirar parecido, além de um vago ar pessoal e da construção da cabeça, a não ser que tenham as facções mais- acusadas do que é normal em uma criatura; este é o esboço que fiz do quarto, que ainda estava em fraldas.

Desenhei-o enquanto dormia no sofá, e lhe asseguro .que esta cabecita rosada se parece à sua tudo o que pode desejar-se. Tinha a cabeça inclinada de um modo muito gracioso. Lhe parece muito. Estou bastante orgulhosa de meu pequeno George. O rincão do sofá está muito bem. E aqui está meu último desenho (e desembrulhou um esboço muito bonito, de pequeno tamanho, que representava a um homem de corpo inteiro), o último e o melhor: meu cunhado, o senhor John Knightley. Faltava-me muito pouco para terminá-lo quando o abandonei em um momento de mau humor e me prometi mesma que não voltaria a fazer mais retratos. Não posso suportar que me provoquem; porque depois de todos meus esforços, e quando tinha conseguido fazer um retrato o que se diz muito bom (a senhora Weston e eu estivemos totalmente de acordo em que lhe parecia muitíssimo), só que possivelmente muito favorecido, muito adulador, mas isso era um defeito muito disculpable, depois disto, chega Isabella e sua opinião foi como um jarro de água fria: «Sim, lhe parece um pouco; mas, certamente, não lhe tiraste muito favorecido.» E além nos custou muitíssimo lhe convencer para que posasse; como se nos fizesse um grande favor; e tudo em conjunto era mais do que eu podia resistir; de modo que não penso terminá-lo, e assim se economizarão desculpar-se ante suas visitas de que o retrato não se pareça-lhe; e como já hei dito então me jurei que nunca mais voltaria a desenhar a ninguém. Mas sendo pelo Harriet, ou melhor dizendo, por mim mesma, pois agora não vai a intervir nenhum matrimônio no assunto, estou decidida a romper minha promessa.

O senhor Elton parecia o que se diz muito emocionado e agradado com a idéia, e repetia:

-Certo, no momento não vai intervir nenhum matrimônio, como você diz. Tem você muita razão. Nenhum matrimônio.

E insistia tanto nisso que Emma começou a pensar se não seria melhor lhes deixar sozinhos. Mas como Harriet queria que lhe fizessem o retrato, decidiu que a declaração podia esperar.

Emma não demorou para concretizar as medidas e a modalidade do retrato. Devia ser um retrato de corpo inteiro, à aquarela, como o do senhor John Knightley, e estava destinado, se é que agradava a artista, a ocupar um lugar de honra sobre a chaminé.

Começou a sessão; e Harriet sonriendo e ruborizando-se, e temerosa de não saber adotar a posição mais conveniente, oferecia à escrutinadora olhar da artista, uma encantadora mescla de expressões juvenis. Mas não podia fazer-se nada com o senhor Elton, que não parava nem um momento, e que detrás da Emma seguia com atenção cada pincelada. Lhe autorizou a ficar onde pudesse vê-lo tudo a plena satisfação sem incomodar; mas terminou vendo-se obrigada a pôr fim a todo aquilo e a lhe pedir que se pusesse em outro sítio. Então lhe ocorreu que podia lhe fazer ler.

-Se fosse você tão amável de nos ler algo, o agradeceríamos muito. Faria mais fácil meu trabalho e distrairia à senhorita Smith.

O senhor Elton não desejava outra coisa. Harriet escutava e Emma desenhava em paz. Teve que permitir ao jovem que se levantasse com freqüência para olhar; era o mínimo que podia pedir-se o a um apaixonado; e a menor interrupção do trabalho do lápis, levantava-se para aproximar-se de ver os progressos da obra e ficar maravilhado. Não havia modo de que contrariasse-se com um crítico tão pouco exigente, já que sua admiração o fazia advertir parecidos quase antes de que fora possível apreciá-los. Emma não fazia muito caso de seu opinião, mas seu amor e sua boa vontade eram indiscutíveis.

Em conjunto a sessão resultou muito satisfatória; os esboços do primeiro dia a deixaram o suficientemente satisfeita para desejar seguir adiante. O parecido era evidente, tinha estado acertada na eleição da postura, e como pensava fazer uns pequenos retoques no corpo, para lhe dar um pouco mais de altura e fazê-lo grandemente mais esbelto e elegante, tinha uma grande confiança em que terminaria sendo, em todos os aspectos, um magnífico desenho, que ia ocupar com honra para ambas o lugar ao que estava destinado; uma lembrança perene da beleza de uma, da habilidade da outra, e de a amizade das duas; sem falar de outras muitas gratas sugestões, que o tão prometedor afeto do senhor Elton era provável que acrescentasse.

Harriet tinha que voltar a posar ao dia seguinte; e o senhor Elton, como era de esperar, pediu permissão para assistir à sessão e lhes servir de novo de leitor.

-Com muito prazer. Estaremos mais que encantadas de que você forme parte de nosso grupo.

Ao dia seguinte houve os mesmos cumpridos e cortesias, o mesmo êxito e a mesma satisfação, e todo isso unido aos rápidos e afortunados progressos que fazia o desenho.

Todo mundo que o via ficava agradado, mas o senhor Elton estava em um êxtase contínuo e o defendia contra toda crítica.

-A senhorita Woodhouse dotou a seu amiga das únicas perfeições que o faltavam -comentava com ele a senhora Weston sem ter a menor suspeita de que estava falando com um apaixonado-. A expressão dos olhos é admirável, mas a senhorita Smith não tem essas sobrancelhas nem essas pestanas. Precisamente não as ter é o defeito de sua cara.

-Você crie? -replicou ele-. Lamento não estar de acordo com você. me parece que há um parecido perfeito em todos os rasgos. Em minha vida vi um parecido semelhante.

Terá que ter em conta os efeitos de sombra, sabe você.

-Pintou-a muito alta, Emma disse o senhor Knightley.

Emma sabia que isto era certo, mas não estava disposta a reconhecê-lo, e o senhor Elton interveio acaloradamente.

-OH, não! Claro está que não é muito alta, nem muitíssimo menos. você tenha em conta que está sentada... o qual naturalmente significa uma perspectiva distinta... e a redução dá exatamente a idéia... e pense que têm que mantê-las proporções.

As proporções, o pinto... OH, não! Dá exatamente a idéia da estatura da senhorita Smith. Certamente, exatamente sua estatura...

-É muito bonito -disse o senhor Woodhouse-; está muito bem feito. Igual a todos vocês desenhos, querida. Não conheço ninguém que desenhe tão bem como você. Quão único não me acaba de gostar de é que a senhorita Smith simule estar ao ar livre e só leva um pequeno xale sobre os ombros... e dá a impressão de que tenha que resfriar-se.

-Mas papai querido, supõe-se que é no verão; um dia caloroso do verão. Olhe ele árvore.

-Sim, querida, mas sempre é exposto permanecer assim ao ar livre.

-Pode você pensar o que quiser -exclamou o senhor Elton-, mas eu devo confessar que parece-me uma idéia acertadísima o situar à senhorita Smith ao ar livre; e a árvore está tratado com uma graça inimitável! Qualquer outra ambientação tivesse tido muito menos caráter. A ingenuidade da postura da senhorita Smith... Enfim, tudo! OH, é algo mais que admirável! Não posso apartar os olhos do desenho. Nunca tinha visto um parecido tão assombroso.

E o imediato foi pensar em emoldurar o quadro; e aqui surgiram algumas dificuldades.

Alguém tinha que cuidar-se disso; e devia fazer-se em Londres; o encargo tinha que confiar-se a uma pessoa inteligente de cujo bom gosto se pudesse estar seguro; e não podia pensar-se na Isabella, que era quem estava acostumado a ocupar-se destas coisas, já que estavam em dezembro, e o senhor Woodhouse não podia suportar a idéia de fazê-la sair de casa com a névoa de dezembro. Mas tudo foi inteirar o senhor Elton do conflito e ficar este resolvido. Sua galanteria estava sempre alerta.

-Se me confiasse este encargo, com que infinito prazer o cumpriria! Em qualquer momento estou disposto a selar o cavalo e ir a Londres. Seria-me impossível descrever a satisfação que me causaria me ocupar deste encargo.

«É muita amabilidade por sua parte!», «Nem pensar em lhe dar tantas moléstias!», «Por nada do mundo consentiria em lhe dar um encargo tão incômodo!»... Cumpridos que suscitaram a esperada repetição de novas insistências e frases amáveis, e em poucos minutos se lembrou que assim se faria.

O senhor Elton levaria o quadro a Londres, escolheria o marco e se encarregaria de todo o necessário; e Emma pensou que podia enrolar o tecido de modo que pudesse levá-la sem perigo e sem que ocasionasse muitas moléstias ao jovem, enquanto que este parecia temeroso de que tais moléstias fossem muito pequenas.

-Que precioso depósito! erijo suspirando meigamente quando lhe entregaram o quadro.

--Quase é muito galante para estar apaixonado -pensou Em MA-. Pelo menos isso é o que me parece, mas suponho que deve haver muitas maneiras distintas de estar apaixonado. É um jovem excelente, e isso é o que lhe convém ao Harriet; «exatamente, isso», como ele diz sempre; mas dá uns suspiros, se enternece de uma maneira e gasta uns cumpridos tão exagerados que é mais do que eu poderia suportar em um homem. me toca uma boa parte dos cumpridos, mas em segundo plano; é sua gratidão pelo que faço pelo Harriet.

 

O mesmo dia da partida do senhor Elton para Londres ofereceu a Emma uma nova ocasião de emprestar um serviço a seu amiga. Como de costume, Harriet tinha ido a Hartfield pouco depois da hora do café da manhã; e ao cabo de um momento tinha voltado para seu casa para retornar ao Hartfield na hora do jantar. Retornou antes do que se havia acordado, e com um ar de nervosismo e de confusão que anunciavam que lhe havia ocorrido algo extraordinário que estava desejando contar. Não demorou nem um minuto em dizê-lo tudo. Logo que voltou para casa da senhora Goddard, disseram-lhe que uma hora antes tinha estado ali o senhor Martin, e que ao não encontrá-la em casa e que possivelmente ia demorar ainda, tinha deixado um paquetito para ela de parte de uma de suas irmãs e se havia ido; e ao abrir o pacote tinha encontrado, junto com as duas canções que havia emprestado a Elizabeth para que as copiasse, uma carta para ela; e esta carta era dele -do senhor Martin- e continha uma proposição de matrimônio em toda regra.

-Quem tivesse podido pensá-lo! Fiquei tão surpreendida que não sabia o que fazer. Sim, sim, toda uma proposição de matrimônio; e uma carta muito atenta, ou ao menos me o parece. Escreve-me como se me amasse muito seriamente... mas eu não sei... e por isso vim o antes possível para te perguntar o que tenho que fazer...

Emma quase se envergonhou de seu amiga ao ver que parecia tão agradada e tão duvidosa.

-Vá! -exclamou-. O jovem está decidido a não deixar-se perder nada por tiimdez. Por em cima de tudo quer relacionar-se bem.

-Quer ler a carta? -perguntou Harriet-. Rogo-lhe isso. Eu gostaria tanto que a lesse...

Emma não se fez rogar muito. Leu a carta e ficou assombrada. A carta estava muito melhor redigida do que esperava. Não só não havia nenhum engano gramatical, mas sim sua redação não tivesse feito desmerecer a nenhum cavalheiro; a linguagem, embora plano, era enérgico e sem artificiosidad, e a expressão dos sentimentos dizia muito em favor de quem a tinha escrito. Era breve, mas revelava bom sentido, um intenso afeto, liberalidade, correção e inclusive delicadeza de sentimentos. atrasou-se lendo-a, enquanto Harriet a olhava ansiosamente esperando sua opinião, e murmurando:

-Vá, vá!

Até que por fim não pôde conter-se e acrescentou:

-É uma carta bonita não? Ou possivelmente te parece muito curta?

-Sim, a verdade é que é uma carta muito bonita -replicou Emma com estudada lentidão-, tão bonita, Harriet, que, tendo em conta todas as circunstâncias, acredito que alguma de seus irmãs teve que lhe ajudar a escrevê-la. Logo que posso conceber que o jovem que vi o outro dia falando contigo se expresse tão bem sem ajuda de ninguém, e entretanto tampouco é o estilo de uma mulher; não, certamente é muito enérgico e conciso; não é suficientemente difuso para ser escrito por uma mulher. Sem dúvida é um homem de sensibilidade, e admito que possa ter um talento natural para... Pensa de um modo enérgico e conciso... e quando agarra a pluma sabe encontrar as palavras adequadas para expressar seus pensamentos. Isso ocorre a certos homens. Sim, já me faço cargo de como é sua maneira de ser. Enérgico, decidido, não sem certa sensibilidade, sem a menor grosseria. Harriet -acrescentou lhe devolvendo a carta- está melhor escrita do que esperava.

-Sim -disse Harriet, que seguia aguardando algo mais-. Sim... Y... o que tenho que fazer?

-O que tem que fazer? O que quer dizer? Refere a esta carta?

-Sim.

-Mas como é possível que duvide? Certamente tem que respondê-la... e além em seguida.

-Sim. Mas o que lhe vou dizer? Querida Emma, me aconselhe!

-OH, não, não! É muito melhor que a carta a escribas você sozinha. Expressará-te com muita mais propriedade, estou segura. Não há nenhum perigo dê-que não te faça entender, e isso é o mais importante. Tem que te expressar com toda claridade, sem vaguedades nem rodeios. E estou segura de que todas essas frases de gratidão, e de sentimento pela dor que o causas, e que exige a urbanidade, ocorrerão a ti mesma. Não necessita que ninguém lhe aconselhe para lhe escrever lamentando a decepção que lhe causa.

-Então você crie que tenho que lhe rechaçar -disse Harriet, baixando os olhos.

-Que se tiver que lhe rechaçar? Querida Harriet!, o que quer dizer com isso? É que tem alguma dúvida? Eu acreditava... mas, enfim, peço-te mil perdões porque talvez estava equivocada. Certamente, se dúvidas a respeito do que tem que responder é que eu lhe tinha compreendido mau. Eu imaginava que só me consultava sobre a maneira de redigir a resposta.

Harriet calava. Emma, adotando uma atitude mais reservada, prosseguiu:

-Conforme vejo pensa lhe dar uma resposta favorável.

-Não, não é isso; quero dizer, eu não quero... O que tenho que fazer? O que me aconselha que faça? Por favor, Emma querida, me diga o que é o que devo fazer...

-Harriet, eu não posso te dar nenhum conselho. Não tenho nada que ver com isso. Esta é uma questão que deve decidir você sozinha, segundo seus sentimentos.

-Eu não tinha nem a menor ideia de que lhe atraísse tanto -disse Harriet, contemplando a carta.

Por uns momentos Emma seguiu guardando silêncio; mas começou a compreender que a adulação sedutora daquela carta podia chegar a ser muito capitalista, e pensou que era preferível intervir:

-Harriet, para mim há uma norma geral que é a seguinte: se uma mulher duvidar se débito aceitar ou não a um homem, o evidente é que deveria lhe rechaçar. Se pode chegar a duvidar de dizer «Sim», deveria dizer «Não», sem pensar-lhe mais. O matrimônio não é um estado em que se possa entrar tranqüilamente com sentimentos vacilantes, sem ter uma plena segurança. Acredito que é meu dever como amiga tua, e também por ter alguns anos mais que você, o te dizer tudo isto. Mas não cria que quero influir em sua decisão.

-OH, não! Estou tão segura de que me quer muito para... Mas, só se pudesse me aconselhar o que é o melhor que poderia fazer... Não, não, não quero dizer isso... Como você diz, deveria estar completamente segura... Não se pode vacilar nestas coisas... É algo muito sério... Possivelmente será mais seguro dizer que não; crie que faço melhor dizendo que não?

-Por nada do mundo -disse Emma sonriendo graciosamente te aconselharia que tomasse uma ou outra decisão. Tem que ser você o melhor juiz de sua própria felicidade. Se preferir ao senhor Martin mais que a qualquer outra pessoa; se te parecer o homem mais agradável de todos os que trataste, por que dúvidas? Ruboriza-te, Harriet. É que neste momento pensa em algum outro a quem conviria melhor esta definição? Harriet, Harriet, não engane a ti mesma; não te deixe levar pela gratidão e a compaixão. Em quem pensa neste momento?

Os indícios eram favoráveis... Em vez de responder, Harriet voltou a cabeça cheia de confusão, e ficou pensativa junto ao fogo; e embora seguia ainda com a carta na mão, ia enrolando maquinalmente, sem olhá-la. Emma esperava o resultado com impaciência, mas não sem grandes esperança. Por fim, com voz vacilante, Harriet disse:

-Emma, já que não quer me dar sua opinião, procurarei expressar a minha o melhor que saiba; estou totalmente decidida, e a verdade é que já quase me tenho feito à idéia... de rechaçar ao senhor Martin. Crie que faço bem?

-Faz muito bem, querida Harriet, asseguro-te que faz muito bem; faz o que deve.

Enquanto estava vacilando, eu me reservava meus sentimentos, mas agora que te vejo tão decidida, não tenho nenhum inconveniente em aprovar sua atitude. Querida Harriet, não sabe quanto me alegro. Tivesse-me causar pena muito perder sua amizade e deixar de te tratar, e esta tivesse sido a conseqüência de que te casasse com o senhor Martin. Enquanto te houvesse visto duvidosa, embora tivesse sido no mais mínimo, não te houvesse dito nada a respeito de esta questão, porque não queria te influir; mas para mim tivesse significado perder a uma amiga. Eu não tivesse podido visitar a senhora do Robert Martin no Abbey-Mill Farm.

Agora já estou segura de não te perder nunca.

Ao Harriet não lhe tinha ocorrido pensar naquele perigo, mas então a só idéia a deixou muito impressionada.

-Que não tivesse podido me visitar? -exclamou horrorizada-. Não, certamente não tivesse podido; mas nunca me tinha ocorrido pensar nisso antes de agora. Houvesse sido muito horrível. E isso ia ser a solução de minha vida? Querida Emma, por nada do mundo renunciaria ao prazer e à honra de sua amizade.

-Sim, Harriet, para mim tivesse sido um golpe terrível te perder; mas tivesse tido que ser assim; você mesma te teria afastado de toda a boa sociedade. Eu tivesse tido que renunciar a ti.

-Querida! Como tivesse podido suportá-lo? Seria minha morte o não voltar nunca mais ao Hartfield!

-Pobre criatura, tão carinhosa! Você, desterrada no Abbey-Mill Farm! Condenada durante toda sua vida a não tratar mais que a gente vulgar e sem cultura! Pergunto-me como esse jovem teve a ousadia de te propor tal coisa. Deve ter o que se diz muito boa opinião de si mesmo.

-Tampouco acredito que seja um presunçoso -disse Harriet, cuja consciência se opunha a esta censura-; seja como for, é uma pessoa de intenções retas, e eu sempre lhe estarei muito agradecida e pensarei dele com afeto... Mas isto é uma coisa, e casar-se com ele... E além disso, embora eu possa lhe atrair, isso não quer dizer que eu vá A... e certamente tenho que confessar que desde que venho aqui conheci a pessoas... e se ponho a fazer comparações, refiro-me à atitude e ao trato, pois certamente não há comparação possível... aqui conheci a cavalheiros tão atrativos e de trato tão agradável...

Entretanto, a verdade é que considero o senhor Martin como um jovem amabilísimo, e tenho muito boa opinião dele; e o que se mostre tão atraído por mim e o que me escreva uma carta como esta... Mas eu não me separaria de ti por nada do mundo.

-Obrigado, muito obrigado, querida amiga; é tão carinhosa! Não nos separaremos. Uma mulher não tem por que casar-se com um homem só porque ele o peça, ou porque lhe haja inspirado um afeto, ou porque ele seja capaz de escrever uma carta aceitável.

-OH, não! E além disso é uma carta muito curta...

Emma se dava conta do mau sabor de boca que lhe tinha ficado a seu amiga, mas quis passá-lo por alto e seguiu:

-Certamente; e de pouco consolo te ia servir o saber que seu marido sabe escrever bem uma carta quando pode estar te pondo em ridículo cada momento do dia, com a ordinarismo de suas maneiras.

-OH, sim! Tem muita razão. O que importa uma carta? O que importa é gozar sempre da companhia de pessoas agradáveis. Estou totalmente decidida a lhe rechaçar.

Mas como vou fazer o? O que vou dizer lhe?

Emma lhe assegurou que não havia nenhuma dificuldade em responder, e lhe aconselhou que o escrevesse imediatamente, ao qual a moça acessou com a esperança de contar com a ajuda de seu amiga; e embora Emma seguia afirmando que não necessitava nenhuma classe de ajuda, o certo foi que colaborou na redação de todas e cada uma das frases de a carta. Ao reler a do senhor Martin para respondê-la Harriet se sentiu mais propensa a abrandar-se, tanto que foi preciso que Emma robustecesse sua decisão com umas poucas mas decisivas frases; Harriet estava tão preocupada com a idéia de lhe fazer desventurado, e pensava tanto no que foram pensar e dizer sua mãe e suas irmãs, e tinha tanto medo de que a considerassem como uma ingrata, que Emma não pôde por menos de convencer-se de que se o jovem tivesse acertado a passar por ali naquele momento, a pesar de tudo tivesse sido aceito.

Entretanto a carta foi escrita, selada e enviada. A questão estava resolvida e Harriet a salvo. Durante toda a noite a moça esteve mas bem deprimida, mas Emma escutou com paciência suas tenras lamentações, e de vez em quando tentava lhe levantar o ânimo lhe falando do afeto que lhe professava, e, às vezes também, reavivando o lembrança do senhor Elton.

-Nunca mais voltarão a me convidar ao Abbey-Mill -disse Harriet em um tom mas bem lastimero.

-E se lhe convidassem, Harriet, eu nunca saberia me separar de ti. É muito necessária em Hartfield para que te deixe perder o tempo no Abbey-Mill.

-E estou segura de que nunca terei desejos de ir ali; porque o único sítio onde eu sou feliz é no Hartfield. E ao cabo de um momento, Harriet prosseguiu:

-Estou pensando que a senhora Goddard ficaria sorprendidísima se soubesse todo o que passou. E estou segura de que a senhorita Nash também... Porque a senhorita Nash acredita que sua irmã tem feito umas grande bodas, e isso que só se casou com um pañero.

-Seria penoso ver que uma professora de escola tem mais orgulho ou uns gostos mais refinados. Atreveria-me a dizer que a senhorita Nash te invejaria uma oportunidade como esta para casar-se. Inclusive esta conquista seria de grande valor a seus olhos. Quanto a algo que para ti fora mais valioso, suponho que ela não é capaz nem de imaginar-lhe Duvido que as cuidados de certa pessoa sejam ainda motivo de intrigas no Highbury. até agora imagino que você e eu somos as únicas para quem seus olhares e seu proceder foram suficientemente explícitos.

Harriet se ruborizou, sorriu e disse algo a respeito de sua estranheza de que houvesse quem pudesse interessar-se tanto por ela. Evidentemente, adulava-lhe pensar no senhor Elton; mas ao cabo de um momento voltava a comover-se pensando na negativa que tinha dado ao senhor Martin.

-A estas horas já teria recebido minha carta -disse quedamente-. Eu gostaria de saber o que estão fazendo todos... se souberem suas irmãs... se ele se sentir desventurado outros o serão também. Confio em que isto não lhe afete muito.

-Pensemos em nossos amigos ausentes que vivem horas mais felizes -exclamou Emma-.

Nestes momentos possivelmente o senhor Elton está ensinando seu retrato a sua mãe e a seus irmãs, e lhes está contando até que ponto é mais formoso o original, e depois de haver-lhe fato rogar cinco ou seis vezes consentirá em lhes revelar seu nome, seu nome tão querido para ele.

-Meu retrato! Mas não o deixou no Bond Street?

-É possível! Se o tiver feito assim é que eu não conheço senhor Elton. Não, minha querida e modesta Harriet, pode estar segura de que não levará o retrato ao Bond Street até um momento antes de montar a cavalo para voltar por volta daqui amanhã. Durante toda esta noite será seu companheiro, seu consolo, seu deleite. Servirá-lhe para mostrar suas intenções a sua família, para que lhe conheçam, para difundir entre os que lhe rodeiam os mais gratos sentimentos da natureza humana, a viva curiosidade e a calidez de uma predisposição favorável. Que alegres, o que animados devem estar! Como devem transbordar de fantasias as imaginações de todos eles!

Harriet voltou a sorrir, e seus sorrisos se foram acentuando.

 

AQUELA noite Harriet dormiu no Hartfield. Nas últimas semanas passava ali quase a metade do dia, e pouco a pouco foi tendo um dormitório fixo para ela; e Emma julgava preferível em todos os aspectos retê-la em sua casa, segura e contente, todo o tempo possível, pelo menos naqueles momentos. À manhã seguinte teve que ir a casa de a senhora Goddard por uma ou duas horas, mas já se conveio que voltaria para Hartfield para ficar ali durante vários dias.

Durante sua ausência chegou o senhor Knightley e esteve conversando com o senhor Woodhouse e Emma, até que o senhor Woodhouse, que aquela manhã se havia proposto sair a dar um passeio, deixou-se convencer por sua filha de que não o postergasse, e a insistência de ambos conseguiu vencer os escrúpulos de sua cortesia, que resistia a deixar ao senhor Knightley por aquele motivo. O senhor Knightley, que não tinha nada de cerimonioso, com suas respostas concisas e rápidas oferecia um divertido contraste com as intermináveis desculpas e corteses vacilações de seu interlocutor.

-Senhor Knightley, me permita que tome esta licença; se você queria me desculpar, se não me considerasse você muito grosseiro, eu seguiria o conselho da Emma e sairia a dar um passeio de um quarto de hora. Como o sol se pôs acredito que seria melhor que desse meu paseíto antes de que refrescasse muito. Já vê que não faço nenhum completo com você, senhor Knightley. Nós os inválidos nos consideramos com certos privilégios.

-Por Deus, não faltava mais, não tem você que me tratar como a um estranho.

-Deixo-lhe com minha filha, que é um excelente substituto. Emma estará muito agradada de lhe atender. Assim volto a lhe pedir mil perdões, e vou dar meu vueltecita... meu passeio de inverno.

-Parece-me muito boa idéia, senhor Woodhouse.

-Eu lhe pediria muito gostoso que tivesse a bem me acompanhar senhor Knightley, mas ando muito devagar, e lhe seria muito pesado acomodar-se a meu passo; e além disso, já tem você que dar outro comprido passeio para voltar para o Donwell Abbey.

-Muito obrigado, é você muito amável; mas eu vou agora mesmo; e acredito que o melhor seria que saísse você quanto antes. Vou lhe buscar a capa larga e lhe abro a porta do jardim.

Por fim o senhor Woodhouse se foi; mas o senhor Knightley, em vez de dispor-se a sair também, voltou a sentar-se como se estivesse desejoso de mais conversação. Começou falando do Harriet e fazendo espontaneamente grandes elogios deles, mais dos que Emma tinha ouvido jamais em seus lábios.

-Eu não poderia elogiar sua beleza tanto como você -disse ele-, mas é uma moça linda, e me inclino a acreditar que não lhe faltam bons objetos. Sua personalidade depende da de os que lhe rodeiam; mas em boas mãos chegará a ser uma mulher de mérito.

-Alegra-me saber que pensa você assim; e confio em que não sinta falta dessas boas mãos.

-Vá! -disse ele-. Vejo que o que está desejando é que lhe faça um completo, de modo que lhe direi que graças a você melhorou muito. Você lhe tem feito perder seu risita boba de colegiala, e isso diz muito em favor de você.

-Muito obrigado. Confesso que me levaria um desgosto se não pudesse acreditar que hei servido para algo; mas não todo mundo nos elogia quando o merecemos. Você, por exemplo, não está acostumado a me afligir com muitas louvores.

-Dizia você que a está esperando esta manhã, não?

-Sim, de um momento a outro. Por isso disse já tivesse devido de estar de volta.

-Algo a deve ter feito atrasar-se; talvez alguma visita. -Que gente mais charlatana a do Highbury! Que fastidiosos som!

-Ao melhor Harriet não encontra a todo mundo tão fastidioso como você.

Emma sabia que isto era uma verdade muito evidente para que pudesse lhe levar a contrária, e portanto guardou silêncio. Ao cabo de um momento o senhor Knightley acrescentou com um sorriso:

-Não pretendo fixar tempo nem lugar, mas devo lhe dizer que tenho boas razões para supor que seu amiguita não demorará muito em inteirar-se de algo que a alegrará.

-De verá? Do que se trata? Que classe de notícia será esta? -OH, uma notícia muito importante, o asseguro! -disse ainda sonriendo.

-Muito importante? Só pode ser uma coisa. Quem está apaixonado por ela? Quem o fez confidências?

Emma estava quase segura de que tinha sido o senhor Elton quem lhe tinha feito alguma insinuação. O senhor Knightley era um pouco o amigo e o conselheiro de todo o mundo, e ela sabia que o senhor Elton lhe considerava muito.

-Tenho razões para supor -replicou- que Harriet Smith não demorará para receber uma proposição de matrimônio procedente de uma pessoa realmente irrepreensível. trata-se de Robert Martin. Parece ser que a visita do Harriet ao Abbey-Mill o verão passado há sortido seus efeitos. Está locamente apaixonado e quer casar-se com ela.

-É muito de agradecer por sua parte -disse Emma-; mas está seguro de que Harriet quererá aceitá-lo?

-Bom, bom, essa já é outra questão; de momento quer propor-lhe Conseguirá o que se propõe? Faz duas noites veio para ver-me à Abadia para consultar o caso comigo. Sabe que tenho uma grande avaliação por ele e por toda sua família, e acredito que me considera como um de seus melhores amigos. Veio a me consultar se me parecia oportuno que se casasse tão jovem; se não a considerava a ela muito menina; em resumidas contas, se aprovava sua decisão; tinha certo medo de que a considerasse (sobre tudo desde que você tem tanto trato com ela) como pertencente a uma classe social superior à sua.

Eu gostei de muito tudo o que disse. Nunca tinha ouvido falar com ninguém com mais sentido comum. Fala sempre de um modo muito oportuno; é franco, não se anda pelos ramos e não tem nada de tolo. Contou-me isso tudo; sua situação e seus projetos, tudo o que se propunham fazer em caso de que ele se casasse. É um jovem excelente, bom filho e bom irmão.

Eu não vacilei em lhe aconselhar que se casasse. Demonstrou-me que estava em situação de poder fazê-lo, e neste caso me convenci de que não podia fazer nada melhor. Fiz-lhe também elogios de sua amada, e se foi de minha casa alegre e feliz. Caso que antes não tivesse tido em muito minha opinião, a partir de então se feito de mim a idéia mais favorável; e me atreveria a dizer que saiu de minha casa me considerando como o melhor amigo e conselheiro que jamais teve homem algum. Isso ocorreu anteontem à noite. Agora bem, como é fácil de supor, não quererá deixar acontecer muito tempo antes de falar com ela, e como parece ser que ontem não lhe falou, não é improvável que hoje se apresentou em casa da senhora Goddard; e portanto Harriet pode haver-se visto retida por uma visita que lhe asseguro que não vai considerar precisamente como fastidiosa.

-Perdoe, senhor Knightley -disse Emma, que não tinha deixado de sorrir enquanto ele falava-, mas como sabe você que o senhor Martin não lhe falou ontem?

-Certo -replicou ele, surpreso-, a verdade é que não sei absolutamente nada disso, mas o tenho suposto. É que ontem Harriet não esteve todo o dia com você?

-Verá -disse ela-, em justa correspondência ao que você me contou, eu vou a lhe contar a minha vez algo que você não sabia. O senhor Martin falou ontem com o Harriet, é dizer, escreveu-lhe, e foi rechaçado.

Emma se viu obrigada a repeti-lo para que seu interlocutor acreditasse; e ao momento o senhor Knightley se ruborizou de surpresa e de contrariedade, e ficou de pé indignado dizendo:

-Então é que esta moça é muito mais boba do que eu acreditava. Mas o que o ocorre a essa infeliz?

-OH, já me faço cargo! -exclamou Emma-. A um homem sempre resulta incompreensível que uma mulher rechace uma proposição de matrimônio. Um homem sempre imagina que uma mulher sempre está disposta a aceitar ao primeiro que peça seu mão.

-Nem muitíssimo menos! A nenhum homem lhe ocorre tal coisa. Mas o que significa tudo isso? Harriet Smith rechaçando ao Robert Martin! Se for verdade é uma loucura! Mas confio em que estará você mal informada.

-Eu mesma vi a resposta a sua carta, não há engano possível.

-De modo que você viu a resposta do Harriet? E a escreveu também, não?

Emma, isto é obra dela. Você a convenceu para que lhe rechaçasse.

-E se o tivesse feito (o qual, entretanto, estou muito longe de reconhecer), não acreditaria fazer nada mau. O senhor Martin é um jovem muito honorável, mas não posso admitir que lhe considere à mesma altura do Harriet; e a verdade é que mas bem me assombra que se atreveu a dirigir-se a ela. Por isso você conta parece haver tido alguns escrúpulos. E é uma lástima que se desembaraçasse deles.

-Que não está à mesma altura do Harriet? -exclamou o senhor Knightley, levantando a voz e acalorando-se; e uns momentos depois acrescentou mais acalmado, mas com aspereza-:

Não, a verdade é que não está a sua altura, porque ele é muito superior em critério e em posição social. Emma, você está cegada pela paixão que sente por essa moça. É que Harriet Smith pode aspirar por seu nascimento, por sua inteligência ou por sua educação a casar-se com alguém melhor que Robert Martin? Harriet é a filha natural de um desconhecido que provavelmente não tinha a menor posição, e sem dúvida nenhuma relação mais ou menos respeitável. Não é mais que uma pensionista de uma escola pública. É uma moça que carece de sensibilidade e de toda instrução. Não lhe ensinaram nada útil, e é muito jovem e muito obtusa para ter aprendido algo por si mesmo.

A sua idade não pode ter nenhuma experiência, e com suas curtas luzes não é fácil que jamais chegue a ter uma experiência que lhe sirva para algo. É agraciada e tem bom caráter, isso é tudo. O único escrúpulo que tive para dar minha opinião favorável a esta bodas foi por ela, porque acredito que o senhor Martin merece algo melhor, e não é muito bom partido para ele. Por isso se refere à questão econômica, também me parece que ele tem todas as probabilidades de fazer um matrimônio muito mais vantajoso; e assim que a ter a seu lado a uma mulher pormenorizada e sensata que lhe ajude, acredito que não podia haver eleito pior. Mas eu não podia raciocinar desse modo com um apaixonado, e me inclinei a confiar em que não havendo nela nada fundamentalmente mau, possuía certas disposições que, em mãos como as suas, podiam represar-se bem com facilidade e dar excelentes resultados. Em minha opinião, quem realmente saía beneficiada neste matrimônio era ela; e não tinha nem a menor duvida (nem agora a tenho) de que a opinião general seria a que Harriet tinha tido muita sorte. Inclusive estava seguro de que você estaria satisfeita. Imediatamente me ocorreu pensar que não lamentaria você separar-se de seu amiga vendo-a tão bem casada. Lembrança que me disse mesmo:

«Inclusive Emma, com toda sua parcialidade pelo Harriet, convirá em que faz uma boa bodas.» -Não posso por menos de sentir saudades de que você conheça tão pouco a Emma como para dizer semelhante coisa. Por Deus! Pensar que um granjeiro (porque, com todo seu sentido comum e todos seus méritos o senhor Martin não é nada mais que isso) poderia ser um bom partido para meu amiga íntima! Que não lamentaria o que se separasse de mim para casar-se com um homem ao que eu nunca poderia admitir entre minhas amizades! Maravilha-me o que acreditasse você possível o que eu pensasse deste modo. Asseguro-lhe que minha atitude não pode ser mais distinta. E devo lhe confessar que sua colocação da questão não me parece nada justo. É você muito severo quando fala das possíveis aspirações de Harriet. Outras pessoas estariam de acordo comigo em ver o caso de um modo muito diferente; o senhor Martin possivelmente seja o mais rico dos dois, mas sem dúvida nenhuma é inferior a ela em qualidade social. Os ambientes em que ela se desembrulha estão muito por em cima dos deste jovem. Estas bodas rebaixaria ao Harriet.

-Mas lhe chama você rebaixar-se a que uma moça que tem orígenes ilegítimos e que é uma ignorante se case com um proprietário rural honorável e inteligente?

-Quanto às circunstâncias de seu nascimento, embora ante a lei poderia considerar-se o como filha de ninguém, esta é uma postura que para uma pessoa com um pouco de sentido comum é inadmissível. Ela não tem por que pagar as culpas de outros, como ocorre se a situamos em um nível inferior ao das pessoas com as que foi educada.

Não cabe dúvida alguma de que seu pai é um cavalheiro... e um cavalheiro de fortuna... A pensão que recebe é muito generosa; nunca se regulou nada para melhorar sua educação ou rodear-se de mais comodidades. Para mim, que seja filha de um cavalheiro é algo indubitável. Que se trata com filhas de cavalheiros suponho que ninguém pode negá-lo. Pelo tanto sua classe social é superior a do senhor Robert Martin.

-Sejam quem seja seus pais -disse o senhor Knightley-, sejam quem seja as pessoas que se ocuparam que ela até agora, não há nada que permita supor que tinham a intenção de introduzi-la no que você chamaria a boa sociedade. depois de lhe haver dado uma educação muito média, confiaram-na à senhora Goddard para que se as compusera como pudesse... Quer dizer, para que vivesse no ambiente da senhora Goddard e se relacionasse com as amizades da senhora Goddard. Evidentemente, seus amigos julgaram que isso lhe bastava; e em realidade lhe bastava. Ela mesma não desejava nada melhor. antes de que você decidisse fazê-la seu amiga não se sentia deslocada em seu ambiente, não ambicionava nada mais. O verão passado com os Martins se sentia completamente feliz. Então não se acreditava superior a eles. E se agora crie isto é porque você a tem feito trocar. Não foi você uma boa amiga para o Harriet Smith, Emma.

Robert Martin nunca tivesse chegado tão longe se não tivesse estado convencido de que não lhe olhava com indiferença. Conheço-lhe bem. É muito realista para declarar-se a uma mulher ao azar de um afeto que não sabe correspondido. E quanto a que seja vaidoso, é a última pessoa que conheço da que pensaria tal coisa. Pode você estar segura de que lhe respirou.

Para a Emma era melhor não responder diretamente a esta afirmação; de modo que preferiu reatar o fio de seu próprio raciocínio.

-É você muito bom amigo do senhor Martin; mas como já disse antes é injusto com Harriet. As aspirações do Harriet a casar-se bem não são tão desdenháveis como você as apresenta. Não é uma moça inteligente, mas tem melhor julgamento do que você supõe, e não merece que se fale tão com a ligeira de seus dotes intelectuais. Mas deixemos essa questão e suponhamos que é tal como você a descreve, tão somente uma boa moça muito agraciada; me permita lhe dizer que o grau em que possui estas qualidades não é uma recomendação de pouca importância para a grande maioria da gente, porque a verdade é que é uma moça muito atrativa, e assim devem considerá-la o noventa e nove por cento dos que a conhecem; e até que não se demonstre que os homens em matéria de beleza são muito mais filosóficos do que em geral se supõe; até que não se apaixonem pelos espíritos cultivados em vez das caras bonitas, uma moça com os atrativos que tem Harriet está segura de ser admirada e pretendida, de poder escolher entre muitos como corresponde a sua beleza. Além disso, seu bom caráter tampouco é uma qualidade tão desdenhável, sobre tudo, como ocorre em seu caso, com um natural doce e aprazível, uma grande modéstia e a virtude de acomodar-se muito facilmente a outras pessoas.

Ou muito me equivoco ou em geral os homens considerariam uma beleza e um caráter como estes como os maiores atrativos que pode possuir uma mulher.

-Emma, dou-lhe minha palavra de que só o ouvir como abusa você do engenho que Deus o deu, quase me basta para lhe dar a razão. É melhor não ter inteligência que empregá-la mau como você faz.

-Claro! exclamou ela em tom de graça-. Já sei que todos vocês pensam igual aproxima disso. Já sei que uma moça como Harriet é exatamente o que todos os homens desejam... a mulher que não só cativa seus sentidos, mas também também satisfaz seu inteligência. OH! Harriet pode escolher a seu capricho. Para você mesmo, se algum dia pensasse em casar-se, esta é a mulher ideal. E aos dezessete anos, quando logo que começa a viver, quando logo que começa a dar-se a conhecer, é de sentir saudades que não aceite a primeira proposta que lhe faça? Não... Deixe-a que tenha tempo para conhecer melhor o mundo que a rodeia.

-Sempre pensei que esta amizade de vocês dois não podia dar nenhum bom resultado - disse em seguida o senhor Knightley-, embora me guardei a opinião; mas agora me dou conta de que terá sido de conseqüências muito funestas para o Harriet. Você faz que se envanezca com essas idéias sobre ' sua beleza e sobre tudo ao que poderia aspirar, e dentro de pouco nenhuma pessoa das que lhe rodeiam lhe parecerá de suficiente categoria para ela.

Quando se tem pouco miolo a vaidade chega a causar toda classe de desgraças. Nada mais fácil para uma damita como ela que pôr muito altas suas aspirações. E possivelmente as propostas de matrimônio não afluam tão às pressas à senhorita Harriet Smith, até sendo uma moça muito linda. Os homens de bom julgamento, apesar do que você se empenha em dizer, não se interessam por algemas bobas. Os homens de boa família resistirão a unir-se a uma mulher de orígenes tão escuros... e os mais prudentes temerão as contrariedades e as desditas em que podem ver-se envoltos quando tirar o chapéu o mistério de seu nascimento. Que se case com o Robert Martin e terá para sempre uma vida segura, respeitável e ditosa; mas se você a empurra a desejar casar-se mais vantajosamente, e o ensina a não contentar-se se não ser com um homem de grande posição e boa fortuna, possivelmente seja pensionista da senhora Goddard durante todo o resto de sua vida... ou pelo menos (porque Harriet Smith é uma moça que terminará casando-se com um ou outro) até que se desespere e se dê por satisfeita pescando ao filho de algum velho professor de escola.

-Senhor Knightley, nesta questão nossos pontos de vista são tão radicalmente distintos que não serviria de nada que seguíssemos discutindo. Só conseguiríamos nos zangar o um com o outro. Mas quanto a que eu faça que se case com o Robert Martin, é impossível; lhe rechaçou, e tão categoricamente que acredito que não deixa lugar a que ele insista mais. Agora tem que atenerse às más conseqüências que possa ter o lhe haver rechaçado, sejam as que sejam; e pelo que se refere à negativa em si, não é que eu pretenda dizer que não tenha podido influir um pouco nela; mas lhe asseguro que nem eu nem ninguém podia fazer grande coisa nesse assunto. O aspecto do senhor Martin o prejudica muito, e suas maneiras são tão Bastos que, se é que alguma vez esteve disposta a lhe emprestar atenção, agora não o está. Compreendo que antes de que ela tivesse conhecido a ninguém de mais categoria pudesse lhe tolerar. Era o irmão de seus amigas, e ele se esforçava para agradá-la; e entre uma coisa e outra, como ela não tinha visto nada melhor (circunstância que foi o melhor aliado dele), enquanto esteve no Abbey-Mili não podia lhe encontrar desagradável. Mas agora a situação trocou. Agora sabe o que é um cavalheiro; e só um cavalheiro, por sua educação e suas maneiras, conta com probabilidades de interessar ao Harriet.

-Que desatinos, em minha vida tinha ouvido coisa mais descabelada! -exclamou o senhor Knightley-. Robert Martin põe sentimento, sinceridade e bom humor em seu trato, todo o qual o faz muito atrativo. E seu espírito é muito mais delicado do que Harriet Smith é capaz de compreender. - Emma não replicou e se esforçou por adotar um ar de alegre despreocupação, mas o certo é que se ia sentindo cada vez mais incômoda, e desejava com toda sua alma que seu interlocutor partisse. Não se arrependia do que tinha feito; seguia considerando-se melhor capacitada para opinar sobre direitos e refinamentos da mulher que ele; mas, a pesar de tudo, o respeito que sempre tinha tido pelas opiniões do senhor Knightley o fazia sentir-se molesta de que esta vez fossem tão contrárias às suas; e lhe ter sentado diante dela, cheio de indignação, era-lhe muito desagradável. Passaram vários minutos em um embaraçoso silêncio, que só rompeu Emma em uma ocasião tentando falar do tempo, mas ele não respondeu. Estava refletindo. Por fim manifestou seus pensamentos com estas palavras:

-Robert Martin não perde grande coisa... oxalá se dê conta; e confio em que não demorará muito tempo em compreendê-lo. Só você sabe os planos que tem respeito ao Harriet; mas como não oculta você a ninguém suas afeições casamenteiras, é fácil adivinhar o que se propõe e os planos e projetos que tem... e como amigo só quero lhe indicar uma coisa: que se seu objetivo é Elton, acredito que tudo o que faça será perder o tempo.

Emma ria e negava com a cabeça. Ele prosseguiu:

-Pode ter a segurança de que Elton não lhe vai servir para seus planos. Elton é uma pessoa excelente e um honorabilisimo vigário do Highbury, mas é muito pouco provável que se arrisque a fazer umas bodas imprudente. Sabe melhor que ninguém o que vale uma boa renda. Elton pode falar segundo seus sentimentos, mas obrará com a cabeça. É tão consciente de quais podem ser suas aspirações como você pode ser o das de Harriet. Sabe que é um jovem de muito bom ver e que vá onde vá lhe considerará como uma grande partida; e pelo modo em que fala quando está em confiança e só há homens pressente, estou convencido de que não tem a intenção de desperdiçar seus atrativos pessoais. Ouvi-lhe falar com grande interesse de umas jovens que são íntimas amigas de suas irmãs e que contam cada uma com vinte mil libras de renda.

-Fico muito agradecida -disse Emma, voltando a tornar-se a rir-. Se eu me houvesse empenhado em que o senhor Elton se casasse com o Harriet me faria você um grande favor ao me abrir os olhos; mas por agora só quero guardar ao Harriet para mim. A verdade é que já estou cansada de arrumar bodas. Não vou imaginar me que conseguiria igualar meus façanhas do Randalls. Prefiro abandonar em plena fama, antes de ter nenhum fracasso.

-Que você o passe bem- disse o senhor Knightley levantando-se bruscamente e saindo da estadia.

sentia-se muito zangado. Lamentava a decepção que se levou seu amigo, e o doía que ele ao aprovar seu projeto fora também um pouco responsável pelo ocorrido; e a intervenção que estava convencido de que Emma tinha tido naquele assunto lhe irritava extraordinariamente.

Emma ficou zangada também; mas os motivos de sua irritação eram mais confusas que os dele. Não se sentia tão satisfeita de si mesmo, tão absolutamente convencida de que tinha razão e de que seu adversário se equivocava, como era o caso do senhor Knightley. Este saiu da casa muito mais convencido que Emma de ter toda a razão. Mas a jovem não ficou tão abatida como para que, ao cabo de pouco, a volta do Harriet não lhe fizesse voltar a estar segura de si mesmo. A larga ausência do Harriet começava a inquietá-la.

A possibilidade de que Robert Martin fora a casa da senhora Goddard aquela manhã e entrevistasse-se com o Harriet e tentasse convencê-la-a alarmou. O horror a experimentar um fracasso terminou sendo o motivo principal de seu desassossego; e quando apareceu Harriet, e de muito bom humor, e sem que sua larga ausência se justificasse por nenhuma daquelas razões, sentiu tal satisfação que a fez reafirmar-se em seu parecer, e a convenceu de que, apesar de tudo o que pudesse pensar ou dizer o senhor Knightley, não tinha feito nada que a amizade e os sentimentos femininos não pudessem justificar.

assustou-se um pouco com o que tinha ouvido sobre o senhor Elton; mas quando refletiu que o senhor Knightley não podia lhe haver observado como ela o tinha feito, nem com o mesmo interesse que ela, nem tampouco (modéstia à parte, devia reconhecê-lo, a pesar das pretensões do senhor Knightley) com a aguda penetração de que ela era capaz em questões como esta, que ele tinha falado precipitadamente e movido pela cólera, inclinava-se a acreditar que o que havia dito era mas bem o que o ressentimento lhe levava a desejar que fora verdade, mais que o que em realidade sabia. Sem dúvida alguma que havia ouvido falar com senhor Elton com mais confiança do que ela tinha podido lhe ouvir, e era muito possível que o senhor Elton não fosse tão temerário e tão despreocupado em questões de dinheiro; era possível que lhes emprestasse mais atenção que a outras; mas é que o senhor Knightley não tinha concedido suficiente importância à influência de uma paixão avassaladora em conflito com todos os interesses deste mundo. O senhor Knightley não via tal paixão e em conseqüência não valorava devidamente seus efeitos; mas ela o tinha visto com seus próprios olhos e não podia pôr em dúvida que venceria todas as vacilações que uma razoável prudência pudesse em um princípio suscitar; e estava muito segura de que o senhor Elton naqueles momentos não era tampouco um homem muito calculador nem excessivamente prudente.

A animação e a alegria do Harriet lhe devolveram a tranqüilidade: voltava não para pensar no senhor Martin a não ser para falar do senhor Elton. A senhorita Nash lhe havia

estado contando algo que ela repetiu imediatamente muito agradada. O senhor Perry tinha ido a casa da senhora Goddard para visitar uma menina doente, e a senhorita Nash tinha-lhe visto e ele tinha contado à senhorita Nash que no dia anterior, quando retornava do Clayton Park, encontrou-se com o senhor Elton, advertindo com grande surpresa que este se dirigia a Londres e que não pensava voltar até o dia seguinte, pela amanhã, apesar de que aquela noite havia a partida de whist, a qual antes de então nunca tinha faltado; e o senhor Perry o tinha reprovado, lhe dizendo que não era justo que se ausentasse precisamente ele, o melhor dos jogadores, e tentou por todos os meios lhe convencer para que postergasse sua viagem para o dia seguinte; mas não o conseguiu; o senhor Elton tinha decidido partir, e disse que lhe reclamava um assunto pelo que tinha um especialísimo interesse e que não podia postergar por nenhuma causa; e acrescentou algo a respeito de que lhe tinham encarregado uma invejável missão, e que era portador de algo extraordinariamente valioso. O senhor Perry não acabou de lhe entender muito bem, mas ficou convencido de que devia haver alguma dama por no meio, e assim o disse; e o senhor Elton se limitou a sorrir muito significativamente e se afastou dali com seu cavalo, dando mostra de achar-se muito satisfeito. A senhorita Nash lhe tinha contado ao Harriet todo isto, e lhe havia dito outras muitas coisas sobre o senhor Elton; e disse, olhando-a com muita intenção, «que ela não pretendia saber do que podia tratar-se aquele assunto, mas que o único que sabia era que qualquer mulher a que o senhor Elton escolhesse-se consideraria a mais afortunada do mundo; pois, sem nenhuma classe de dúvidas, o senhor Elton não tinha rival nem por sua atitude nem pela afabilidade de seu trato.»

 

O senhor Knightley podia brigar com ela, mas Emma não podia brigar consigo mesma. Ele estava tão contrariado que demorou mais do que tinha por costume em voltar para Hartfield; e quando voltaram a ver-se a seriedade de seu rosto demonstrava que Emma ainda não tinha sido perdoada. Isso lhe doía, mas não se arrependia de nada. Ao contrário, seus planos e seus procedimentos cada vez lhe pareciam mais justificados, e a aparência que tomaram as coisas nos dias seguintes lhe fizeram aferrar-se ainda mais a suas idéias.

O retrato, elegantemente emoldurado, chegou são e salvo à casa pouco depois do volta do senhor Elton, e uma vez esteve pendurado sobre a chaminé da sala de estar subiu a vê-lo, e ante a pintura balbuciou entre suspiros as frases de admiração que eram de rigor; e quanto aos sentimentos do Harriet era evidente que se estavam concretizando em uma sólida e intensa inclinação para ele, segundo sua juventude e seu mentalidade o permitiam. E Emma ficou vivamente satisfeita ao ver que já não se acordava do senhor Martin mais que para fazer comparações com o senhor Elton, sempre extremamente favoráveis para este último.

Seus projetos de cultivar o espírito de seu amiguita mediante leituras copiosas e instrutivas e mediante a conversação, não foram além de ler os primeiros capítulos de alguns livros e da intenção de prosseguir ao dia seguinte. Conversar era muito mais fácil que estudar; muito mais agradável deixar voar a imaginação e fazer planos para o futuro do Harriet que esforçar-se por aumentar sua inteligência ou exercitá-la em matérias mais áridas; e o único trabalho literário que no momento empreendeu Harriet, a única provisão intelectual que fez com vistas à maturidade de sua vida, foi o colecionar e copiar tudas as adivinhações das classes mais variadas que pôde encontrar, em uma caderneta de papel lustroso confeccionado por seu amiga e adornado com iniciais pintadas e vinhetas.

Naquela época eram freqüentes livros de grande extensão com recopilações como esta.

A senhorita Nash, a diretora do pensionato da senhora Goddard, tinha copiado pelo menos trezentos dessas adivinhações; e Harriet, que tinha tomado a idéia dela, confiava que com a ajuda da senhorita Woodhouse reuniria muitos mais. Emma colaborava com sua criatividade, sua memória e seu bom gosto; e como Harriet tinha uma letra muito bonita, tudo fazia prever que seria uma coleção de primeira ordem tanto pelo esmero da apresentação como pelo copioso.

O senhor Woodhouse estava quase tão interessado naquele assunto como as moças, e muito freqüentemente tentava lhes procurar algo digno de figurar na coleção.

-Tantas boas adivinhações como havia quando eu era jovem!

E se maravilhava de não recordar nenhum. Mas confiava que com o tempo se iria acordando. E sempre terminava com: «Kitty, uma empregada linda, mas fria... » Tampouco seu grande amigo Perry, a quem tinha falado a respeito daquilo, pôde pelo momento lhe facilitar nenhuma adivinhação; mas lhe tinha pedido ao Perry que estivesse alerta, e como ele visitava tantas casas supunha que algo ia conseguir se por esse lado.

Sua filha não pretendia que todo Highbury se espremesse o cérebro. A única ajuda que solicitou foi do senhor Elton. Lhe convidou a contribuir todos os enigmas, charadas e adivinhações que pudesse recolher; e Emma teve a satisfação de lhe ver interessar-se muito seriamente por este trabalho; e ao mesmo tempo advertiu que punha o maior empenho em que não saísse de seus lábios nada que não fosse um completo, uma galanteria para o sexo débil. Ele foi quem contribuiu os dois ou três quebra-cabeças mais galantes; e a alegria e o entusiasmo com que finalmente recordou e recitou, em um tom mas bem sentimental, aquela charada tão conhecida Meu primeira denota certa pena que meu segunda tem que sentir; para acalmar aquela pena a meu conjunto terá que recurrir.3 converteu-se em desilusão ao advertir que já a tinham umas páginas copiada atrás.

-Senhor Elton, por que não escreve você mesmo uma charada para nós? -disse ela-;

só assim poderemos estar seguras de que é nova; e para você nada mais fácil.

3 «Primeira e «segunda» se referem às sílabas de que se compõe a Palavra que terá que adivinhar.

-OH, não! Em toda minha vida não tenho escrito jamais uma coisa dessas. Para isto sou a mais negada das pessoas. Inclusive temo que nem sequer a senhorita Woodhouse... -fez uma pausa- ou a senhorita Smith possam me inspirar.

Entretanto, ao dia seguinte sua inspiração produziu certos frutos. Fez-lhes uma rapidísima visita, só para lhes deixar uma folha de papel sobre a mesa que continha, depende disse, uma charada que seu amigo tinha dedicado a uma jovem da que estava apaixonado;

mas Emma, por sua maneira de proceder, convenceu-se imediatamente de que seu autor não era outro que ele mesmo.

-Não a ofereço para a coleção da senhorita Smith –disse-. Porque, como é por mim amigo, não tenho direito a fazer que se divulgue nem pouco nem muito, mas pensei que possivelmente lhes gostará de conhecê-la.

Suas palavras foram dirigidas a Emma mais que ao Harriet, o qual Emma compreendia muito bem. Ele estava muito sério e nervoso, e lhe resultava mais fácil olhá-la a ela que a seu amiga. E ao momento se foi. Houve uma pequena pausa, e Emma disse sonriendo e empurrando o papel fazia Harriet:

-Toma, é para ti.

Mas Harriet estava trêmula e não podia nem alargar a mão; e Emma, a quem nunca importava ser a primeira, viu-se obrigada a lê-lo ela mesma.

 

         À senhorita...

         CHARADA

         Oferece meu primeira a pompa dos reis,

         os donos da terra! Seu fasto e seu esplendor.

         Apresenta minha segunda outra visão do homem,

         lhe vejam ali como reina, dos mares senhor!

         Mas ah!, as duas unidas, que visão mais distinta!

         Liberdade e poderio, tudo já se extinguiu;

         senhor de mar e terra, humilha-se qual escravo;

         uma mulher formosa reina em seu coração.

         Descobrirá seu engenho a pronta solução.

         OH, se seus doces olhos brilhassem com amor!

 

Emma leu o que dizia o papel, analisou seu conteúdo, captou seu significado, voltou para lê-lo para estar completamente segura, e tendo desentranhado já o sentido de aqueles versos, passou-o ao Harriet e sorriu beatíficamente, dizendo para si, enquanto Harriet tentava decifrá-lo em meio da confusão que lhe produziam suas esperanças e sua estupidez:

-Muito bem, senhor Elton, muito bem. Piores charadas que esta tenho lido. «Courtship»4... um verdadeiro achado. Felicito-lhe. Isso é saber o que se faz. Isso quer dizer com toda claridade: «O rogo, senhorita Smith, me permita dedicar-lhe Que o brilho de seus olhos passe ao mesmo tempo minha charada e minhas intenções.» 4 Courtship»: esta palavra, que significa «cortejo» ou «galanteio», pode decompor-se nas duas sílabas às que alude a charada: court (corte real) e ship (navio).

OH, se seus doces olhos brilhassem com amor!

Isso só pode referir-se ao Harriet. «Doces» é o adjetivo mais adequado para seus olhos...

o melhor que podia usar.

Descobrirá seu engenho a pronta solução.

Hum! O engenho do Harriet! Tão melhor. Um homem tem que estar o que se diz muito apaixonado para descrevê-la assim. Ah, senhor Knightley! Eu gostaria que pudesse você assistir a todo isso; acredito que se convenceria. Por uma vez em sua vida se veria obrigado a reconhecer que se equivocou. Uma magnífica charada, isso é o que é! E muito oportuna. Os acontecimentos se estão precipitando.

Emma se viu obrigada a interromper suas gratas reflexões, que de outro modo se tivessem prolongado muito mais, porque Harriet lhe estava já acossando a perguntas.

-O que quer dizer todo isso, Emma? O que quererá dizer? Não tenho nem a menor ideia, não sei nem por onde começar. O que pode significar? Tenta encontrar a solução, Emma, me ajude. Nunca vi nada tão difícil. Crie que é a palavra «reino»? Eu gostaria saber quem é o amigo, e quem pode ser a jovem a quem se dirige. Parece-te uma boa charada? Não será «mulher»?

Uma mulher formosa reina em seu coração.

Talvez é «Netuno»:

lhe vejam ali como reina, dos mares senhor!

E «tridente»? E «sereia»? E «tubarão»? OH, não, «tubarão» não pode ser, «shark» só tem uma sílaba!5 Tem que ser mais engenhoso, se não não nos houvesse o trazido. OH, Emma, crie que chegaremos a encontrar a solução?

-Sereias! Tubarões! Que bobagens! Querida Harriet, no que está pensando? Por o que ia trazemos uma charada de seu amigo sobre uma sereia ou um tubarão? me dê o papel e me escute.

Aqui onde põe «À senhorita...» pode ler «senhorita Smith».

Oferece meu primeira a pompa dos reis, os donos da terra! Seu fasto e seu esplendor.

Isto se refere à primeira sílaba, «court», a corte de um rei.

Apresenta minha segunda outra visão do homem, lhe vejam ali como reina, dos mares senhor!

Isto se refere à segunda sílaba, «ship», um navio. Mais fácil não pode ser. E agora vem o bom.

 

5 «Tubarão», shark em inglês.

Mas ah!, as duas unidas («courtship», o vê, não?) que visão mais distinta!

Liberdade e poderio, tudo já se extinguiu;

senhor de mar e terra se humilha qual escravo;

uma mulher formosa reina em seu coração.

É uma galanteria muito fina... E logo segue a conclusão, que suponho, querida Harriet, que não terá muita dificuldade em compreender. Pode estar satisfeita. Não há dúvida de que foi escrita para ti e em tua honra.

Harriet não pôde resistir por muito tempo a deliciosa tentação de deixar-se convencer.

Leu os versos da conclusão e ficou toda ela confusa e feliz. Era incapaz de falar.

Mas tampouco lhe pedia que falasse. Com que sentisse bastava. Emma falava por ela.

-É uma galanteria tão engenhosa -disse- e de um sentido tão concreto que não tenho a menor duvida a respeito das intenções do senhor Elton. Está apaixonado por ti... e não demorará para ter as provas mais evidentes disso. É como eu acreditava. Tivesse-me sentido saudades muito me enganar; mas agora tudo está claro. Suas intenções são tão claras e decididas como o foram sempre meus desejos sobre esta questão desde que te conheci.

Sim, Harriet, após estive esperando que ocorresse precisamente o que agora está ocorrendo. Eu nunca tivesse podido dizer se a mútua atração entre o senhor Elton e você era algo mais desejável que natural ou à inversa. Até tal ponto se igualavam seu probabilidade e sua conveniência. Estou muito contente e te felicito de todo coração, querida Harriet. Despertar um afeto como este é algo que deve fazer sentir orgulhosa a toda mulher. Esta é uma união que só pode trazer boas conseqüências. Que lhe proporcionará tudo o que necessita: respeitabilidade, independência, um lar próprio... que fixará-te no centro de todos seus verdadeiros amigos, perto do Hartfield e de mim, e que confirmará para sempre nossa amizade. Este enlace, Harriet, nunca pode nos fazer ruborizar g nenhuma das duas.

-Querida Emma! Querida Emma! -era tudo o que Harriet podia balbuciar naqueles momentos, entre inumeráveis e afetuosos abraços.

Mas quando conseguiram cercar algo mais parecido a uma conversação, Emma advertiu claramente que seu amiga, antes e agora, ficava no lugar que lhe correspondia.

Não deixava de reconhecer a total superioridade do senhor Elton.

-Você sempre tem razão em tudo o que diz -exclamou Harriet-, e portanto suponho, acredito e confio que agora também a tenha; mas de outro modo nunca houvesse podido imaginar o É algo tão superior a tudo o que mereço! O senhor Elton, que pode escolher entre tantas mulheres! E todo mundo opina o mesmo dele. É um homem tão superior! Pensa tão somente nestes versos tão harmoniosos... «À senhorita...» OH, querida, que bom poeta é! É possível que os tenha escrito para mim?

-Disso não cabe a menor duvida. É seguro. me acredite, tenho a absoluta certeza. É uma espécie de prólogo à obra, o lema do capítulo; e não demorará para chegar a prosa dos feitos.

-É algo que ninguém tivesse podido esperar. Estou segura, faz um mês eu mesma não tinha nem a menor ideia. Ocorrem coisas tão inesperadas!

-Quando uma senhorita Smith se encontra com um senhor Elton ocorrem tais coisas... e realmente é algo pouco freqüente; não está acostumado a ocorrer que uma coisa tão evidente, de uma conveniência tão óbvia que requíriría a intervenção de outras pessoas, concretize-se tão às pressas por si mesmo. Você e o senhor Elton, por sua posição estavam destinados a lhes encontrar; a situação de seus respectivos ambientes lhes empurrava o um para o outro. Suas bodas será igual a dos do Randalls. Parece como se houvesse algo no ar do Hartfield que orienta o amor pelo melhor sentido que tivesse podido tomar, e o represa do melhor modo possível.

O verdadeiro amor não é nunca rio de aprazível curso...6 No Hartfield, uma edição do Shakespeare requereria um comprido comentário sobre este passagem.

-Que o senhor Elton se apaixonou seriamente de mim... de mim... que me tenha eleito entre tantas moças, de mim, que pela Sanmiguelada ainda não lhe conhecia e não havia falado nunca com él!7 E ele, o mais arrumado de todos os homens, e a quem todo o mundo tem tanto respeito como ao próprio senhor Knightley. O, cuja companhia é tão solicitada que todo mundo diz que se comer alguma vez em sua casa é porque quer, pois não lhe faltam convites; que tem mais convites que dias a semana. E é tão interessante na igreja! A senhorita Nash tem copiados todos os sermões que há pregado desde que chegou ao Highbury. Pobre de mim! Quando me lembro da primeira vez que lhe vi! Que longe estava eu de pensar...! As irmãs Abbot e eu corremos à habitação dianteira e olhamos por entre os portinhas, quando ouvimos que se aproximava; a senhorita Nash veio e nos brigou e nos jogou dali... e ficou a olhar ela; mas em seguida chamou-me e me deixou olhar também, o qual foi muito amável por sua parte, não? E o que bonito lhe encontramos! Ia dando o braço ao senhor Penetre.

-Esta é uma união que todos seus amigos, sejam como são, têm que ver com bons olhos com tal de que tenham um pouco de sentido comum; e não vamos amoldar nosso proceder à opinião dos néscios. Se o que querem é que seja feliz em seu matrimônio aqui têm ao homem que pela afabilidade de seu caráter oferece todas as garantias; se seu desejo é que te instale na mesma comarca e freqüentes os mesmos ambientes que eles tivessem desejado para ti, com estas bodas seus sonhos se verão realizados; e se seu único objetivo é o de, como se diz vulgarmente, fazer umas boas bodas, o senhor Elton tem que lhes satisfazer à força por sua respeitável fortuna, a venerabilidade de sua posição e sua brilhante carreira.

-OH, tem razão! Que bem fala!; eu gosto tanto te ouvir falar. Você o compreende tudo. Você e o senhor Elton são igual de inteligentes. Esta charada...! Embora o houvesse tentado durante todo um ano não tivesse sido capaz de tirar algo semelhante.

-Pela maneira em que ontem se negou a nos agradar já supus que tinha a intenção de provar seu engenho.

-Estou segura de que é a melhor charada que tenho lido em minha vida.

-Sim, a verdade é que nunca tinha lido uma mais oportuna.

-É uma das mais largas das que temos copiadas.

-Não acredito que o que seja mais ou menos larga tenha um grande mérito. Em geral não podem ser muito curtas.

6 Entrevista do Shakespeare.

7 A Sanmiguelada, os últimos dias de setembro, próximos à festa de San Miguel Arcanjo (dia 29).

Harriet estava tão absorta na leitura dos versos que não podia ouvi-la. Em sua mente surgiam as comparações mais favoráveis para seu admirador.

-Uma coisa -disse em seguida com as bochechas acesas- é ter um pouco de engenho, como todo mundo, e se terá que dizer alguma coisa sentar-se a escrever uma carta e expressar-se de um modo claro; e outra é escrever versos e charadas como esta.

Emma não tivesse podido desejar um ataque mais direto à prosa do senhor Martin.

-Que versos tão harmoniosos! -continuou Harriet-. Sobre tudo os dois últimos! Mas como vou devolver lhe o papel? Tenho que lhe dizer que tenho descoberto a adivinhação? OH, Emma! O que vamos fazer?

-me deixe a mim. Você não faça nada. Apostaria a que volta esta tarde e então o devolverei o papel e conversaremos de alguma que outra bobagem, e assim você não soltos objeto...

Seus doces olhos devem escolher o momento oportuno para brilhar com amor. Confia em mim.

-OH, Emma, que lástima que não possa copiar esta charada tão preciosa em meu álbum!

Estou segura que não tenho nenhuma que seja nem a metade de bonita.

-Tira os dois últimos versos e não vejo que haja nenhuma razão para que não a copie em seu álbum.

-OH, mas estes dois versos são...!

-... os melhores de todos. De acordo; para desfrutá-los você sozinha; e para desfrutá-los você sozinha guarda-os. Não vão estar pior escritos porque os separe de outros. O emparelhado não desaparece nem troca de sentido. Mas se os separa o que desaparece é toda alusão pessoal, e fica uma charada muito bonita e galante própria para qualquer coleção.

Pode estar segura de que não gostaria de ver que desdenha sua charada, como tampouco que desdenha sua paixão. Um poeta quando está apaixonado necessita que lhe respirem como poeta e como galã. me dê o álbum, eu mesma a copiarei e assim você fica completamente à margem disto.

Harriet se submeteu, mas lhe resultava difícil imaginar separadas as duas partes até o ponto de ter a plena segurança de que seu amiga não ia copiar uma declaração de amor. Parecia-lhe um obséquio muito valioso para expor-se a que se divulgasse.

-Este álbum nunca sairá de minhas mãos -disse.

-Parece-me muito bem -replicou Emma-, é um sentimento muito natural; e quando mais dure em ti mais contente estarei eu. Mas aqui chega meu pai; não terá inconveniente em que lhe leia a charada. Gostará tanto! Entusiasmam-lhe todas essas coisas, e sobre tudo o que representa um completo para as mulheres. É o homem mais delicado e galante que conheço! Tem que me deixar que a leia.

Harriet ficou séria.

-Querida Harriet, não tem que exagerar tanto com esta charada. Delatará vocês sentimentos sem nenhuma necessidade, se estiver muito preocupada ou nervosa e demonstra conceder mais importansia a seus versos, ou inclusive toda a importância que possa conceder-se os Não te deslumbre pelo que não é mais que um pequeno tributo de admiração. Se tivesse tido tanto interesse por manter o segredo não tivesse deixado assim o papel quando eu estava diante; e mas bem o empurrou para mim que para ti. Não lhe dê muita importância ao assunto. Deste-lhe amostras mais que suficientes para que não tenha que desalentar-se, e não temos por que nos passar o dia suspirando por essa charada.

-OH, não! Confio em que não vou pôr me em ridículo. Faz o que te pareça melhor.

Entrou o senhor Woodhouse e não demoraram para falar do assunto graças à pergunta que eles fazia constantemente:

-O que, minhas filhas, como vai o álbum? Têm alguma novidade?

-Sim, papai, temos algo que te ensinar que não pode ser mais novo. Esta manhã havemos encontrado sobre a mesa uma folha de papel (supomos que a terá deixado uma fada)

contendo uma charada preciosa, e nós a copiamos.

A leu a seu pai do modo que lhe gostava que o lessem tudo, devagar e com claridade, e duas ou três vezes, com explicações sobre cada uma das partes a medida que ia lendo... e ficou muito agradado, e, segundo ela já tinha previsto, chamou-lhe muito a atenção o completo do final.

-Esplêndido, o que se diz esplêndido, muito bem expresso! Que grande verdade! «Uma mulher formosa reina em seu coração.» Querida, é uma charada tão preciosa que não me costa muito adivinhar que fada a deixou aqui... Ninguém mais que você é capaz de escrever uma coisa tão bonita, Emma.

Emma se limitou a assentir com a cabeça e sorriu. depois de refletir brevemente, deixou escapar um profundo suspiro e acrescentou:

-Ai, não é difícil saber a quem te parece! Sua querida mãe era tão inteligente para estas coisas! Só com que eu pudesse ter sua memória! Mas já não me lembro de nada;

nem sequer daquela adivinhação que sempre me 'ouve mencionar; só me lembro da primeira estrofe; e havia várias.

 

         Kitty, uma empregada linda mas fria,

         uma chama acendeu que é sofrimento;

         ao menino de olhos cegos chamaria,

         a pesar do temor que agora sinto

         pelo cruel que me fora até esse dia.

 

Não me lembro de nada mais... mas sei que é muito engenhoso. Mas, querida, acredito que me disse que esta adivinhação já o tinha.

-Sim, papai, temo-lo copiado na segunda página. Tiramo-lo das Entrevistas elegantes.

É do Garrick, sabes?8 -Sim, é verdade. Eu gostaria de poder me lembrar de alguma parte mais.

Kitty, uma empregada linda mas fria...

O nome me faz pensar na pobre Isabella; ao batizá-la estivemos a ponto de lhe pôr Catherine, igual a sua avó. Suponho que virá a nos ver a semana próxima.

Querida, já pensaste onde vais pôr a... e que habitação reservará para os meninos?

-OH, sim! Dormirá em seu quarto, é obvio; seu quarto de sempre; e os meninos também têm o seu... o de cada vez que vêm, já sabe. por que vamos trocar nada?

-Não sei, querida... mas é que faz tanto tempo que não vieram! A última vez foi por Páscoa, e só por muito poucos dias... que o senhor John Knightley seja advogado é um grande inconveniente... Pobre Isabella! Que triste é que tenha que estar separada de 8 David Garrick (1717-1779), o mais famoso dos atores ingleses do século xvirr, escreveu uma série de adaptações das obras do Shakespeare, e numerosas obras originais de grande popularidade.

todos nós! E que pena terá quando vier e não encontre aqui à senhorita Taylor!

-Papai, mas não vai ser nenhuma surpresa para ela.

Não sei, querida. O que sim sei é que eu fiquei muito surpreso a primeira vez que ouvi dizer que ia casar se.

-Temos que convidar para jantar conosco aos senhores Weston quando Isabella esteja aqui.

-Sim, querida. Com tal de que haja tempo... Mas -em um tom muito deprimido- só vem por uma semana. Não haverá tempo para nada.

-É uma lástima que não possam ficar mais tempo... mas parece ser que é um caso de força maior. O senhor John Knightley deve estar de retorno na cidade para nos dia 28, e eu acredito, papai, que deveríamos lhes estar agradecidos de que nos dediquem todo o tempo que vão passar fora de Londres e que não nos prevêem de sua companhia durante dois ou três dias para estar na Abadia. O senhor Knightley promete que por este Natal renuncia a seus direitos... apesar de que já sabe o que faz mais tempo que não estiveram em sua casa que na nossa.

-Querida, a verdade é que me resultaria muito duro ver que a pobre Isabella vai a algum outro lugar que não seja Hartfield.

O senhor Woodhouse nunca estava disposto a conceder que o senhor Knightley tivesse direitos com seu irmão, e muitíssimo menos que houvesse alguém, exceto ele mesmo, que os tivesse sobre a Isabella. ficou pensativo durante uns momentos e logo disse:

-Mas o que não compreendo é por que a pobre Isabella tem que estar obrigada a retornar tão logo, embora ele se vá. Parece-me, Emma, que tentarei convencê-la para que fique mais tempo conosco. Não sei por que ela e os meninos não podem ficar.

-Mas, papai, isto é algo que nunca pudeste conseguir, e não acredito que chegue a consegui-lo jamais! Isabella não quer separar-se de seu marido por nada do mundo.

Isto era algo muito evidente para que pudesse discuti-lo. E embora muito a pesar dele, o senhor Woodhouse se limitou a emitir um suspiro de resignação; e quando Emma viu seu pai afetado pela idéia da submissão de sua filha a seu marido, imediatamente trocou de tema e levou a conversação por uns roteiros que sabia tinham que lhe ser gratos.

-Harriet nos fará companhia todo o tempo que possa, enquanto meus irmãos estejam com nós. Estou segura de que gostará dos meninos. Estamos muito orgulhosos dos meninos, verdade, papai? Não sei a qual dos dois vai encontrar mais bonito, se ao Henry ou ao John.

-Não, não sei a qual dos dois preferirá. Pobres pequeñuelos, que contentes estarão de vir! Sabe?, Harriet, sentem-se muito a gosto no Hartfield.

-Isso sim que não o ponho em dúvida. Não sei quem não pode sentir-se muito a gosto em Hartfield.

-Henry é muito bom menino, mas John é igual a sua mamãe. Henry é o major, e o puseram meu nome, não o de seu pai. E ao John, o segundo, puseram-lhe o nome de seu pai. Suponho que há gente que se estranha de que não seja o major quem se chame assim, mas Isabella preferiu que se chamasse Henry, e me pareceu um rasgo muito bonito por sua parte. E é um menino muito inteligente, né? Os dois são muito inteligentes; e têm cada saída... ! Um dia se aproximaram de minha poltrona e me disseram: «Abuelito, quer me dar um parte de corda?», e uma vez Henry me pediu uma navalha, mas eu lhe disse que as navalhas só eram para os abuelitos. Parece-me que seu pai está acostumado a ser muito duro com eles.

-te parece duro erijo Emma- porque você é muito brando; mas se pudesse lhe comparar com outros pais não te pareceria duro. Ele quer que seus filhos sejam trabalhadores e decididos; e quando de vez em quando se desencaminham, tem que lhes parar os pés com alguma palavra enérgica; mas é um pai muito carinhoso... e tanto como é um pai carinhoso o senhor John Knightley! Os dois meninos lhe adoram.

-E logo chega seu tio, e os lança ao ar de um modo que assusta, e quase lhes faz tocar o teto.

-Mas, papai, lhes gosta; é o que gostam mais de tudo. Diverte-lhes tanto que se seu tio não tivesse imposto a norma de que devem alternar-se, quando começa com um nunca quereria ceder seu sítio ao outro.

-Bom, pois isso eu não o entendo.

-Papai, isso ocorre a todos. A metade do mundo é incapaz de entender as diversões da outra metade.

A última hora da manhã, já quando as jovens foram separar se para preparar a habitual comida das quatro, o herói daquela inimitável charada voltou a passar pela casa. Harriet voltou o rosto; mas Emma lhe recebeu com o sorriso de sempre, e seu perspicaz olhar não demorou para advertir que ele era consciente de ter jogado uma vaza importante... de haver-se arriscado a jogar os jogo de dados sobre a mesa; e supôs que vinha a ver se a sorte lhe tinha favorecido. Entretanto, o pretexto de sua visita era o de perguntar se podiam prescindir dele na reunião daquela noite, em casa do senhor Woodhouse, ou se é que era absolutamente necessária sua presença no Hartfield. De ser assim, deixaria de lado todo o resto. Mas em caso contrário, seu amigo Penetre tinha insistido tanto em que jantasse com ele... tinha posto tanto interesse nisso, que lhe tinha prometido, embora condicionalmente, que iria a sua casa.

Emma lhe deu as obrigado, mas não consentiu que desatendesse a seu amigo por causa dela;

sem dúvida seu pai poderia encontrar outro jogador. P-1 insistiu... ela recusou de novo; e quando o jovem se dispunha já a iniciar a reverência para despedir-se, Emma agarrou a folha de papel que estava em cima da mesa e a devolveu.

-Ah! Aqui tem você a charada que teve a amabilidade de nos emprestar; muito obrigado por haver nos deixado isso. Gostou-nos tanto que me tomei a liberdade de copiá-la em o álbum da senhorita Smith. Espero que seu amigo não o vai levar a mal. Certamente só copiei os oito primeiros versos.

via-se claramente que o senhor Elton não sabia muito bem o que dizer. Parecia indeciso, e algo confuso; disse algo a respeito de que «era uma grande honra»; olhou a Emma e ao Harriet, e logo, vendo o álbum aberto sobre a mesa, agarrou-o e o examinou muito atentamente.

Com objeto de sair daquela situação um tanto embaraçosa, Emma disse sonriendo:

-Rogo-lhe que me desculpe diante de seu amigo; mas não era possível que uma charada tão bonita como esta fora conhecida tão somente por uma ou duas pessoas. Enquanto escriba de um modo tão galante, seu amigo pode contar com a admiração de todas as mulheres.

-Não vacilo em declarar -replicou o senhor Elton, embora vacilava não pouco ao pronunciar estas palavras-, não vacilo em declarar... pelo menos se é que meu amigo sente o que eu sinto... não tenho a menor duvida de que se visse sua modesta expansão poética honrada como eu a vejo agora -dirigindo de novo o olhar para o álbum e voltando a deixá-lo sobre a mesa- consideraria este instante como um dos mais ditosos de sua vida.

E detrás dizer isto se foi o antes que pôde. Mas a Emma ainda pareceu que demorava muito; pois, apesar de seus brilhantes dotes, o jovem fazia umas pausas ao falar que lhe provocavam a risada. Saiu, pois, dali para rir a suas largas, deixando que Harriet saboreasse a sós a ternura e a sublimidad da cena.

 

Apesar de estar já em meados de dezembro, o mau tempo ainda não tinha impedido a os jovens realizar seus acostumados passeios; e ao dia seguinte Emma tinha que visitar um doente de uma família pobre, que vivia a certa distância do Highbury.

Para ir a esta cabana, que ficava apartada, devia passar pelo beco da Vicaría, um beco que nascia na larga embora irregular rua maior do povo; e ali, como é de supor por seu nome, achava-se a bem-aventurada mansão do senhor Elton. Primeiro terei que passar frente a uma série de casas mais modestas, e logo, depois de andar ao redor de um quarto de milha, aparecia o edifício da vicaría; uma casa antiga e sem grandes pretensões que não podia estar mais pega ao caminho. Sua situação não era muito boa; mas seu atual proprietário tinha introduzido nela muitas melhoras; e naquelas circunstâncias não era possível que as duas amigas passassem por diante sem moderar o passo e aguçar a vista.

O comentário da Emma foi:

-Aqui a tem. Aqui virá você e seu álbum de charadas um desses dias.

o do Harriet foi:

-OH, que preciosidade de casa! Mas que bonita é! Olhe, as cortinas amarelas que o gostam tanto à senhorita Nash!

-Agora venho poucas vezes por este lado -disse Emma, enquanto seguiam andando-, mas dentro de pouco já terei um estímulo para vir por aqui, e pouco a pouco irão sendo familiares os sebes, cercas, estanque e árvores desta parte do Highbury.

Então se inteirou de que Harriet nunca tinha estado dentro da Vicaría, e seu curiosidade por vê-la por dentro era tão extremada que, tendo em conta o aspecto exterior da casa e sua aparência, Emma só pôde considerá-lo como uma prova de amor, igual a quando o senhor Elton viu «engenho» na moça.

-A ver se nos ocorre algo para entrar -disse-; mas agora não temos nenhum pretexto verossímil; não preciso pedir informe a sua ama de chaves sobre nenhum criado... nem tenho nenhum recado que lhe dar de parte de meu pai...

Esteve refletindo, mas não lhe ocorria nada. depois de que as duas houvessem guardado silêncio durante uns minutos, Harriet exclamou:

-O que sente saudades mais, Emma, é que não te tenha casado ainda, nem vás casar te dentro de pouco! Encantada que é!

Emma se pôs-se a rir e replicou:

-Harriet, que eu seja encantada não basta para me fazer pensar no matrimônio; é preciso que encontre encantadas a outras pessoas... pelo menos a uma. E não só não vou casar me por agora, mas sim tenho pouquíssimas intenções de me casar.

-OH! Isso é o que você diz; mas eu não posso acreditá-lo.

-Para que me tente esta idéia teria que encontrar a alguém muito superior a todos os homens que conheci até agora; certamente, o senhor Elton -disse recordando com quem falava não conta para o caso. Mas é que tampouco tenho nenhum desejo de encontrar a uma pessoa assim. Não acredito que me sentisse tentada a me casar. Melhor que agora não vou estar. E se me casasse, é lógico supor que terminaria me arrependendo de havê-lo feito.

-Querida! É tão estranho que uma mulher fale assim!

-Eu não tenho nenhum dos motivos que revistam empurrar ao matrimônio às mulheres.

Claro que se me apaixonasse a coisa seria muito distinta; mas eu nunca me apaixonei;

não vai com minha maneira de ser ou com meu caráter, e acredito que nunca me apaixonarei. E sem amor estou segura de que seria uma louca se deixasse a situação que tenho agora. Dinheiro não faz-me falta; costure no que me ocupar tampouco; e posição social tampouco; acredito que haverá muito poucas mulheres casadas que sejam tão proprietárias da casa de seu marido como eu sou-o no Hartfield; e sei que nunca, nunca poderia esperar ser tão querida e considerada;

ser sempre a primeira e ter sempre razão para um homem, como agora sou a primeira e tenho sempre razão para meu pai.

-Mas então terminará sendo uma solteirona, como a senhorita Bate!

-Põe-me o mais temível dos exemplos, Harriet; se eu soubesse que terminaria sendo como a senhorita Bate, tão tola, tão acomodaticia, tão cheia de sorrisos, tão pesada, tão vulgar e tão insossa... e sempre tão disposta a contar intrigas de todo o mundo, me casava amanhã. Mas estou convencida de que entre nós nunca haverá o menor parecido, exceto no fato de não nos haver casado.

-Mas apesar de tudo não deixará de ser uma solteirona! E isso é espantoso!

-Não se preocupe, Harriet, nunca serei uma solteirona pobre; e para a mulher que não se casa a pobreza é o único que lhe faz parecer desprezível aos olhos dos que vivem amplamente. Uma mulher solteira com uma renda muito pequena sempre será uma solteirona ridícula e desagradável; objeto de eterna brincadeira para moços e moças; mas uma mulher solteira com boa fortuna sempre é respeitada, e pode ser tão inteligente e de trato tão agradável como qualquer outra pessoa. E não cria que esta distinção atenta tão gravemente, como poderia parecer em um princípio, contra a boa fé e o sentido comum da gente; porque uma renda muito pequena tende a encolher o ânimo e azeda o caráter.

Os que logo que podem viver e se vêem obrigados a tratar a pouca gente, e até esta, pelo comum, de muito baixa condição, adquirem com facilidade uma mentalidade estreita e se voltam mal-humorados. Entretanto, isso não pode aplicar-se à senhorita Bate; só que é muito cândida, muito parva para me servir de exemplo; mas em geral está acostumado a gostar a todo mundo, embora seja solteira e pobre. A verdade é que a pobreza não encolheu-lhe o ânimo. Estou segura de que embora só tivesse um xelim no bolso, não teria nenhum inconveniente em gastar seis peniques; e ninguém lhe tem medo: isto é um grande encanto.

-Mas querida! O que vais fazer? A que vais dedicar te quando envelhecer?

-Harriet, se não me enganar a respeito de mim mesma sou uma pessoa ativa, que não sabe estar ociosa e que conta com muitos recursos próprios; e não sei por que têm que me faltar coisas que fazer aos quarenta ou aos cinqüenta anos, quando agora, aos vinte e um, não faltam-me. As ocupações habituais de uma mulher, por isso se refere aos olhos, às mãos e ao cérebro, igual posso as ter então que as tenho agora; ou pelo menos sem que haja uma grande diferencia. Se desenho menos, lerei mais; se sotaque a música, dedicarei-me a bordar toalhas de mesa. E quanto a seres que reclamem nossa atenção, pessoas em quem pôr nosso afeto, e a verdade é que nesse ponto é aonde há uma maior inferioridade, e cuja ausência é o maior perigo que têm que evitar as que não se casam, por esse lado estou totalmente tranqüila, porque poderei me cuidar de todos os filhos por mim irmã, a quem tanto quero. Segundo todas as probabilidades, seu número bastará para atender toda a necessidade de carinho que possa sentir no declive de minha vida. Eles bastarão para todas minhas esperanças e todos meus temores. E embora o afeto que eu possa lhes dar nunca será igual ao de uma mãe, ajusta-se melhor a minhas idéias de comodidade que se fora mais ardente e mais cego. Meus sobrinhos e sobrinhas! Em minha casa terei freqüentemente a alguma de minhas sobrinhas.

-Conhece a sobrinha da senhorita Bate? Bom, já sei que tiveste que vê-la centenares de vezes... mas, quero dizer se a trataste.

-OH, sim! Sempre temos que ter trato com ela quando vem ao Highbury. A propósito do que falávamos, este é um caso para perder todo o orgulho que se possa sentir por uma sobrinha. Santo Céu! Confio em que eu, com todos os filhos dos Knightley, não chatearei às pessoas nem a metade do que a senhorita Bate chateia a todos com o Jane Fairfax. Estamos fartos inclusive do mesmo nome do Jane Fairfax. Cada carta sua se lê quarenta vezes; as saudações que envia para seus amigos circulam não sei quantas vezes por todo o povo; e só com que envie a sua tia os patrões de um espartilho ou um par de ligas de ponto para sua avó, em todo um mês não se ouça falar de outra coisa. A Jane Fairfax lhe desejo todos os bens imagináveis; mas me tem o que se diz aborrecida.

encontravam-se já perto da cabana, e deixaram aquela conversação ociosa. Emma era muito caridosa e socorria as necessidades dos pobres não só com seu dinheiro, mas também também com sua dedicação pessoal, seu afeto, seus conselhos e sua paciência. Compreendia seu modo de ser, não se escandalizava de sua ignorância e de suas tentações, nem concebia novelescas esperanças de extraordinários atos de virtude naquelas pessoas por cuja educação tão pouco se feito; em seguida se interessava realmente por seus preocupações, e sempre lhes ajudava com tanta inteligência como boa vontade. Em aquela ocasião, a enfermidade e a pobreza se apropriaram de uma vez da família à que ia visitar; e depois de permanecer ali todo o tempo que pôde lhes dar ânimo e conselhos, saiu da cabana tão impressionada pela cena que acabava de presenciar, que disse ao Harriet enquanto retornavam:

-Harriet, esses espetáculos são os que nos fazem melhores. Ao lado disto que corriqueiro parece todo o resto! Agora me sinto como se não pudesse pensar em nada mais que em esses pobres seres durante todo o resto do dia; e entretanto que pouco vai demorar para desaparecer de minha mente!

-Tem razão -disse Harriet-. Pobre gente! Resulta difícil pensar em outra coisa.

-A verdade é que não acredito que esta impressão se desvaneça tão logo -disse Emma, enquanto cruzava um sebe de pouca altura apoiando o pé na vacilante passarela com a que terminava o estreito e escorregadio atalho que atravessava o horta da cabana, e que lhes deixava de novo no beco-. Acredito que não se desvanecerá tão logo -acrescentou, detendo-se para contemplar uma vez mais a miséria exterior daquele lugar, e recordar que ainda era major a que escondia a cabana.

-OH, não, querida! -disse sua companheira.

Seguiram andando. O beco dava uma ligeira volta; e logo que passada a volta, se encontraram frente ao senhor Elton; e tão perto que Emma só teve tempo para acrescentar:

-Ah! Harriet, olhe que logo ficará a prova nossa perseverança nos bons pensamentos. Bom -sonriendo-, pelo menos espero que se a compaixão houver conseguido ajudar e consolar aos que sofrem, já cumpriu sua missão mais importante.

Se nos compadecermos dos desventurados até o ponto de fazer por eles tudo o que podemos, o resto só é uma simpatia inútil que só serve para nos entristecer a nós mesmas.

antes de que o cavalheiro chegasse junto a elas, Harriet logo que teve tempo de responder:

-OH, sim, querida!

Entretanto, as necessidades e as desventuras daquela pobre família foram o primeiro tema da conversação. Ele também se dirigia agora à cabana, embora postergaria a visita; mas sustentaram uma interessante conversa a respeito do que podia fazer-se e do que se faria. O senhor Elton deu meia volta para as acompanhar.

«Encontrar-se em uma ocasião como esta -pensou Emma-, tendo os dois um fim caridoso, aumentará não pouco o amor que sentem o um pelo outro. Não sentiria saudades que isso provocasse a declaração. Estou segura de que lhe declararia se eu não estivesse presente. Como eu gostaria de me poder encontrar agora em qualquer outro lugar."

Desejosa de afastar-se deles tudo o que fora possível, Emma não demorou para tomar um estreito caminito que bordeaba o beco de uma altura um pouco superior, lhes deixando sós no caminho principal. Mas ainda não tinham acontecido dois minutos quando viu que a costume do Harriet de imitá-la em tudo e de segui-la a todas partes, o fazia ir detrás de seus passos, e que, em resumo, dentro de pouco os dois foram caminhar detrás dela. Aquilo não servia; então imediatamente se deteve, e com o pretexto de ter que atá-los cordões dos botas de cano longo, parou-se no meio do caminito, lhes rogando que tivessem a bondade de seguir andando, que ela já lhes alcançaria em menos de um minuto. Ambos fizeram o que lhes pedia; e quando julgou que havia já passado um tempo razoável para ter terminado com suas botas de cano longo, teve a sorte de encontrar um novo pretexto para atrasar-se mais, já que foi alcançada pela menina da cabana, que, de acordo com seus ordens, tinha saído com um jarro para ir procurar caldo ao Hartfield. Andar ao lado da menina, falar com ela e lhe fazer perguntas era a coisa mais natural do mundo, ou houvesse sido a mais natural se tivesse obrado sem segundas intenções; e deste modo os outros puderam seguir lhe levando certa dianteira sem nenhuma obrigação de esperá-la. Sem embargo, involuntariamente ganhava terreno; o passo da menina era rápido e o da casal mas bem lento; e Emma o sentiu mais porque via com toda claridade que ambos estavam muito interessados na conversação que sustentavam. O senhor Elton falava animadamente, Harriet lhe escutava com agradada atenção; e Emma, que havia enviado por diante à menina, começava a pensar em como poderia atrasar-se um pouco mais quando ambos voltassem a cabeça e se visse obrigada a unir-se a eles.

O senhor Elton seguia falando, ainda debatendo algum inteteresante detalhe; e Emma sentiu certa decepção quando se deu conta de que só estava refiriendo a sua linda companheira como se desenvolveu a reunião do dia anterior em casa de seu amigo Penetre, e que lhe informava sobre o queijo do Stilton, o do norte do Wiltshire, a manteiga, o aipo, a beterraba e as sobremesas em geral.

-Bom, espero que isso lhes leve a falar de alguma coisa mais interessante -foi seu consoladora reflexão-; entre duas pessoas que se querem tudo resulta interessante; e tudo serve-lhes para manifestar o que levam dentro do coração. Se pudesse lhes deixar solos durante mais tempo!

Seguiram andando calmosamente os três juntos até chegar à vista da cerca da vicaría, quando a súbita resolução de fazer que pelo menos Harriet entrasse na casa fez que Emma tivesse que deter-se outra vez por culpa de sua bota de cano longo, e atrasar-se para atar-se de novo os cordões; então as engenhou para rompê-los e os jogou em uma sarjeta, vendo-se obrigada a lhes rogar que se detiveram também, e a reconhecer que se via incapaz de chegar até sua casa com relativa comodidade.

-Me tem quebrado o cordão -disse- e não sei como compô-lo. A verdade é que sou uma companheira muito chata para os dois, mas acredito que não sempre vou tão mal equipada.

Senhor Elton, não fica mais remedeio que lhe rogar que me permita entrar um momento em sua casa e lhe pedir a sua ama de chaves uma parte de cinta ou de corda ou algo pelo estilo, só para poder chegar até casa.

O senhor Elton acolheu esta proposição com grande alegria; e se esforçou em cuidados e cuidados para acompanhar às jovens a entrar em sua casa e lhes fazer as honras dela.

O saloncito no que foram recebidas era o que ele estava acostumado a ocupar a maior parte do dia, e dava à fachada da casa; ao lado havia outra estadia que comunicava com o salão por uma porta; esta estava aberta, e Emma passou à outra estadia em companhia do ama de chaves, que se dispunha a ajudá-la do melhor modo possível. A jovem se viu obrigada a deixar a porta entreabierta, tal como a tinha encontrado; peso seu desejo era que o senhor Elton a fechasse. Entretanto não se fechou, mas sim ficou entreabierta; mas ao cercar com o ama de chaves uma larga conversação, confiou que na estadia contigüa ele teria ocasião de dizer tudo o que quisesse. Durante dez minutos não pôde ouvir-se mais que a si mesma. A situação não podia prolongar-se. E se viu obrigada a terminar e a passar à outra estadia.

Os apaixonados estavam de pé, um ao lado do outro, junto a uma das janelas. A coisa apresentava um aspecto mais que favorável; e durante o meio minuto Emma se sentiu orgulhosa do êxito de seus planos. Mas a realidade era algo distinta; ele não tinha chegado ao fundo da questão. Tinha estado muito atento, muito delicado; havia dito ao Harriet que tinha-as visto acontecer e tinha decidido as seguir; e tinha acrescentado algum outro pequeno completo e alguma alusão, mas nada importante.

«Prudente, muito prudente -pensou Emma-; avança polegada a polegada e não quer arriscar-se até saber que pisa em terreno seguro."

Entretanto, embora seu engenhosa estratagema não tinha dado quão resultados ela esperava, não pôde por menos de sentir-se adulada ao pensar que tinha dado ocasião a ambos de gozar daqueles gratos momentos que deviam lhes ajudar a seguir adiante para o grande acontecimento.

 

AGORA a iniciativa devia deixar-se em mãos do senhor Elton. Já não estava em mãos da Emma represar sua felicidade ou fazer que apressasse os acontecimentos. A chegada de a família de sua irmã eram tão iminente que, primeiro na imaginação e logo na realidade, converteu-se no objeto primitivo de seu interesse; e durante os dez dias de seu estadia no Hartfield não era de esperar -ela mesma não o esperava- que pudesse ajudar a os dois apaixonados mais que de um modo ocasional e fortuito. Entretanto, se eles queriam, os progressos podiam ser rápidos; e de todos os modos, tanto se queriam como se não, deviam progredir em suas relações. E Emma agora não lamentava não ter tempo para lhes dedicar. Há pessoas que quanto mais se faz por eles menos fazem eles por si mesmos.

Como a ausência do Surry do senhor e a senhora John Knightley tinha sido mais larga que de costume, lógicamente despertavam um interesse maior que o habitual. Até aquele ano todas as férias largas que se tomaram desde suas bodas as tinham dividido entre o Hartfield e Donwell Abbey; mas todas as festas daquele outono se haviam dedicado a banhos de mar para os meninos, e portanto tinham acontecido muitos meses da última vez em que tinham feito uma visita regular a seus parentes do Surry, e tinham visto o senhor Woodhouse, quem era absolutamente incapaz de deixar-se levar a Londres, nem sequer pela pobre Isabella; e quem portanto se encontrava agora muito nervoso e cheio de uma inquieta felicidade pensando em uma visita que ia ser muito curta.

Pensava muito nos perigos que a viagem podia encerrar para sua filha e não pouco na fadiga que ia produzir a seus próprios cavalos e a seu chofer, que iriam recolher a parte dos viajantes aproximadamente a metade do caminho; mas seus temores eram injustificados;

percorreram-se sem nenhum incidente as dezesseis milhas, e o senhor e a senhora John Knightley, seus, cinco filhos e um número adequado de babás chegaram ao Hartfield sãs e salvos. O alvoroço e a alegria de sua chegada, a presença de tantas pessoas a quem falar, dar a bem-vinda, animar e acomodar na casa, produziram tal barafunda e confusão que os nervos do senhor Woodhouse não tivessem podido resisti-lo por nenhuma outra causa, e inclusive por esta tampouco por muito mais tempo; mas os costumes do Hartfield e a sensibilidade de seu pai eram tão respeitados pela senhora do John Knightley que, apesar de sua solicitude maternal porque seus pequenos se encontrassem a seu gosto o antes possível, e porque tivessem ao momento toda a liberdade e todos os cuidados que requeriam, e porque comessem e bebessem e dormissem e jogassem a suas largas, aos meninos não lhes permitiu que incomodassem por muito tempo ao senhor Woodhouse; nem eles nem o contínuo trabalho que significava lhes cuidar.

A senhora do John Knightley era uma mujercita linda e elegante, de maneiras finas e repousadas, e de caráter extremamente sensível e carinhoso; enamoradísima de seu marido e deslumbrada com seus filhos, sentia um afeto tão vivo por seu pai e sua irmã que nenhum outro amor mais intenso, excetuando o destes vínculos superiores, o tivesse parecido possível. Não sabia ver nem um defeito em nenhum deles. Não era mulher de grande inteligência nem de engenho muito acordado; e não era isso o único no que se parecia com seu pai, já que também tinha herdado dele sua constituição física e seu temperamento;

era de saúde delicada, preocupada com excesso pela de seus filhos, assustava-se por algo, tinha muitos nervos e era tão aficionada a seu senhor Wingfield da cidade como seu pai podia sê-lo a seu senhor Perry. Ambos se pareciam também no bondoso de seu caráter e em uma forte tendência à veneração pelos velhos amigos.

O senhor John Knightley era um homem alto, de aspecto distinto e muito inteligente;

brilhante no exercício de sua profissão, de costumes caseiros e de vida irrepreensível;

mas muito reservado, o qual fazia que não todos lhe encontrassem simpático; e capaz de ter de vez em quando acessos de mau humor. Não era homem de mau caráter, nem suas irritações sem causa justificada eram tão freqüentes para lhe fazer merecedor de tal recriminação; mas seu caráter não era a maior de suas perfeições; e o certo é que, com a adoração que o coletava sua esposa, era difícil que seus defeitos naturais não se acrescentassem. A extremada submissão dela me chocava com seu temperamento. Ele possuía toda a claridade de julgamento e a viveza de inteligência que faltavam a sua esposa, e às vezes não podia evitar fazer ou dizer algo ofensivo ou desagradável. O senhor Knightley não era precisamente o favorito de sua linda cunhada. Nenhum de seus defeitos lhe escapavam. Nunca deixava de advertir as pequenas ofensas a Isabella, das que esta jamais se dava conta. Possivelmente tivesse sido mais benévola em seus julgamentos se ele se mostrou mais diferente para com a irmã da Isabella, mas a atitude do senhor Knightley para com a Emma era a de um irmão e amigo fríamente objetivo e cortês, sem prodigalizar os louvores e sem que lhe cegasse o carinho;

mas por muito que ele tivesse querido adulá-la, dificilmente Emma tivesse podido passar por cima o que a seus olhos era a mais imperdoável das faltas, e em que seu cunhado incorria às vezes: carecer de respeitosa paciência para com seu pai. Não sempre tinha com ele a paciência que tivesse sido necessária. E as raridades e as apreensões do senhor Woodhouse às vezes provocavam nele palavras de sentido comum um tanto bruscas ou réplicas muito duras. Isso não ocorria freqüentemente, pois o certo é que o senhor John Knightley sentia um grande afeto por seu sogro, e em geral era muito consciente do respeito que lhe devia; mas ainda assim era muito freqüentemente para a suscetibilidade de Emma, sobre tudo porque com muita freqüência tinham que estar tuda com a alma em velo, temendo que se produzira uma situação desagradável que por fim não se produzia.

Entretanto, nos primeiros dias de cada sua visita estava acostumada reinar um ambiente muito afetuoso, e como aquela visita devia ser necessariamente tão curta, era de esperar que aqueles dias transcorressem em meio da maior cordialidade.

Apenas se tinham instalado e acomodado na casa, quando o senhor Woodhouse, cabeceando melancolicamente e dando um suspiro, chamou a atenção de sua filha a respeito de as tristes mudanças que se produziram no Hartfield da última vez que ela tinha estado ali.

-Ai, querida! -disse-. Pobre senhorita Taylor! Que lástima!

-OH sim, papai, já me faço cargo! -exclamou ela, adivinhando imediatamente seus sentimentos-. Como deve jogar a de menos! E você também, Emma. Que terrível perda para os dois! Hei-o sentido tanto por vós! Não posso imaginar como lhes podem arrumar isso sem ela... A verdade é que é uma mudança tão lamentável... Mas suponho que ela se encontra muito a gosto, não?

-Sim, muito a gosto, querida... pelo menos isso suponho... Muito a gosto... Quão único sei é que o lugar lhe sinta bem, dentro de tudo...

O senhor John Knightley perguntou em tom aprazível a Emma se havia dúvidas a respeito da salubridade dos ares do Randalls.

-OH, não, absolutamente! Em minha vida tinha visto a senhora Weston encontrar-se tão bem...

nem ter melhor aspecto. Papai fala assim porque lhe dói ter tido que separar-se dela.

-O qual diz muito em favor de ambos -foi a amável resposta.

-E ao menos pode vê-la freqüentemente, papai? -perguntou Isabella em um tom quejumbroso que correspondia exatamente ao de seu pai.

O senhor Woodhouse vacilou antes de responder:

-Querida, não tão freqüentemente como eu desejaria.

-Por Deus, papai! Desde que se casaram só aconteceu um dia sem que não nos hajamos visto. Umas vezes pela manhã e outras pela tarde, todos os dias com uma única exceção, vimos ou ao senhor ou à senhora Weston, e geralmente aos dois, às vezes no Randalls, outras aqui... e já pode supor, Isabella, que o mais freqüente foi nos ver aqui. foram muito complacentes, mas o que se diz muito complacentes, em seus visitas. E o senhor Weston foi tão amável como ela mesma. Papai, se falas deste modo tão lastimero dará a Isabella uma idéia falsa de todos nós. Todo mundo tem que dar-se conta de que a senhorita Taylor tem que tornar-se de menos, mas também todo o mundo deveria ter a segurança de que os senhores Weston fazem todo o possível para que não a sintamos falta de, tal como nós já tínhamos imaginado antes que fariam... e esta é a pura verdade.

-Assim é como deve ser -disse o senhor John Knightley- e como eu supunha que era pelo que diziam suas cartas. Que ela deseje lhes agradar não pode ficar em dúvida, e que ele esteja desocupado e seja um homem sociável o faz tudo mais fácil. Sempre te hei dito, querida, que não podia acreditar que no Hartfield tivesse havido uma mudança tão importante como você supunha; e agora, depois do que há dito Emma, suponho que ficará convencida.

-Sim, certamente -disse o senhor Woodhouse-, sim, a verdade é que não posso negar que a senhora Weston, a pobre senhora Weston, vem a nos ver muito freqüentemente... mas, é que...

sempre tem que voltar a ir-se.

-E o senhor Weston lamentaria muito que não fora assim, papai. Se esquece por completo do pobre senhor Weston.

-A verdade -disse John Knightley com ironia- é que a meu entender o senhor Weston também tem algum pequeno direito. Você e eu, Emma, arriscaremo-nos a tomar a defesa do pobre marido. Eu por estar casado e você por ser solteira, o mais provável é que façamo-nos cargo por igual dos direitos que possa alegar um homem. Quanto a Isabella, leva já casada o tempo suficiente para ver a conveniência de deixar de lado sempre que for possível a todos os senhores Weston.

-Eu, querido? -exclamou sua esposa, que só escutava e compreendia parte do que estavam falando-. Está falando de mim? Estou segura de que não há ninguém que possa ser partidária tão acérrima do matrimônio como eu; e de não ser pela desgraça de que tivesse que deixar Hartfield, nunca tivesse pensado na senhorita Taylor mais que como na mulher mais afortunada do mundo; quanto ao de deixar de lado ao senhor Weston, que é uma pessoa excelente, acredito que se merece o melhor. Em minha opinião é um dos homens de melhor caráter que jamais existiram. te excetuando a ti e a seu irmão, não conheço ninguém que possa igualar-se o Sempre me lembrarei do dia aquele que fazia tanto vento, na última Páscoa, quando levantou a cometa ao Henry... e desde que teve uma delicadeza tão bonita, em setembro fez um ano, ao me escrever aquela nota, às doze da noite, para me assegurar de que não havia escarlatina no Cobham, sempre estive convencida de que não podia existir no mundo coração mais sensível nem homem melhor; se alguém pode lhe merecer é a senhorita Taylor.

-E o menino? -perguntou o senhor Knightley-. veio para as bodas ou não?

-Ainda não veio -replicou Emma-. Lhe esperava com grande espera pouco depois das bodas, mas tudo ficou em nada; e ultimamente não tornei a ouvir falar dele.

-Mas o conte o da carta, querida -disse seu pai-. Escreveu-lhe uma carta a pobre senhora Weston lhe dando o parabéns, e era uma carta muito fina e muito bem escrita. Ela ensinou-me isso. A verdade é que me pareceu um detalhe muito bonito nele. Agora se foi idéia dela ou não, isso já não saberia dizê-lo. É muito jovem ainda, e possivelmente seu tio...

-Mas papai querido, se já tiver vinte e três anos. Se esquece de que passa o tempo.

-Vinte e três anos? É possível? Pois... nunca o tivesse acreditado... Se só tinha dois anos quando morreu sua pobre mãe! Sim, sim, a verdade é que o tempo passa voando... e eu tenho tão má memória. Seja como for era uma carta preciosa, o que se diz preciosa, e ao senhor e a senhora Weston lhes fez muita ilusão. Lembro-me que estava escrita em Weymouth e datada em 28 de setembro... e começava: «Apreciada senhora», mas já hei esquecido como seguia; e assinava «F. C. Weston Churchill»... Isso o recordo perfeitamente.

-Que amável e o que educado! -exclamou a bondosa senhora Knightley-. Não tenho a menor duvida de que é um jovem de grandes objetos. Mas é uma lástima que não viva em casa de seu pai! Produz tão má impressão ver um menino longe de seus pais e de seu verdadeiro lar! Nunca pude compreender como o senhor Weston consentiu em separar-se dele. Abandonar a seu próprio filho! Nunca poderia ter boa opinião de alguém que propor semelhante coisa a outra pessoa.

-Malicio-me que nunca ninguém teve muito boa opinião dos Churchill -observou fríamente o senhor John Knightley-. Mas não cria que o senhor Weston sentiu o que você poderia sentir ao abandonar ao Henry ou ao John. Mais que um homem de sentimentos muito arraigados, o senhor Weston é uma pessoa acomodaticia e um tanto despreocupada; se toma as coisas tal como vêm, e de um modo ou outro se aproveita das circunstâncias; e eu suspeito que para ele isso que chamamos sociedade tem mais importância do ponto de vista de suas comodidades, quer dizer, o poder comer e beber e jogar whist com seus vizinhos cinco vezes à semana, que do ponto de vista do afeto familiar ou de qualquer outra coisa das que proporciona um lar.

A Emma contrariava tudo o que significasse insinuar uma crítica do senhor Weston, e estava quase decidida a intervir em sua defesa; mas se dominou e não disse nada. Se era possível preferia que não se turvasse a paz; e havia algo digno e estimável na intensidade dos afetos caseiros, na idéia da auto-suficiência de um lar, que predispunha a seu irmão a desdenhar o trato social da maioria da gente e às pessoas para as que este trato resultava importante... E Emma se dava conta de que seus argumentos eram poderosos e que terei que ser tolerante com seu interlocutor.

 

O senhor Knightley jantou com eles... o qual mas bem contrariou ao senhor Woodhouse, quem preferia não ter o primeiro dia convidados da estadia da Isabella. Mas o bom sentido do Emmalo tinha decidido assim; e além da consideração que se devia aos dois irmãos, tinha especial interesse em lhe convidar devido à recente disputa que havia havido entre o senhor Knightley e ela.

Confiava em que poderiam voltar a ser bons amigos. Parecia-lhe que já era hora de fazer as pazes. Mas a verdade é que não foram fazer as pazes. Certamente ela tinha razão, e ele jamais reconheceria que não a tinha tido. Ou seja que era indubitável que nenhum dos dois cederia; mas era a ocasião de aparentar que tinham esquecido seu disputa; e quando ele entrou na estadia, Emma, que estava com um dos pequenos, pensou que aquela era uma boa oportunidade que podia contribuir a reatar sua amizade;

a garotinha era a menor dos irmãos e tinha uns oito meses; era sua primeira visita a Hartfield, e parecia muito satisfeita de sentir-se balançada pelos braços de sua tia. E efetivamente a oportunidade foi favorável; pois embora ele começou pondo cara muito séria e fazendo perguntas bruscas, não demorou para falar dos pequenos no tom ordinário, e em lhe tirar a menina dos braços com toda a falta de cerimônia de uma perfeita amizade. Emma se deu conta de que voltavam a ser amigos; ao princípio isso o produziu uma grande satisfação, e logo lhe inspirou uma certa insolência, e não pôde por menos de lhe dizer enquanto ele admirava à menina:

-É um consolo que pelo menos estejamos de acordo respeito a nossos sobrinhos e sobrinhas. Porque às vezes sobre as pessoas maiores têm opiniões muito distintas;

mas respeito a estes meninos observo que sempre estamos de acordo.

-Se ao julgar às pessoas maiores, em vez de deixar-se arrastar por sua imaginação e seus caprichos se deixasse guiar pelos sentimentos naturais, como faz você quando se tráfico destes meninos, sempre poderíamos estar de acordo.

-Certamente, nossas diferenças sempre se devem a que eu estou equivocada, não é assim?

-Sim -disse ele, sonriendo- e há uma boa razão para isso: quando você nasceu eu tinha já dezesseis anos.

-Certo, é uma diferença de idade -replicou Emma-, e não duvido de que naquela época tinha você muito mais critério que eu; mas, não acredita que os vinte e um anos que hão transcorrido após podem ter contribuído a igualar bastante nossas inteligências?

-Sim... bastante.

-Apesar de tudo, não o suficiente para me conceder a possibilidade de que eu seja a que tenha razão se dissentirmos em algo.

-Ainda lhe levo a vantagem de ter dezesseis anos mais de experiência e de não ser uma linda moça e uma menina mimada. Vamos, minha querida Emma, sejamos amigos e não falemos mais do assunto. E você, Emmita, lhe diga a sua tia que não te dê o mau exemplo de remover antigas ofensas, e que se antes tinha razão agora não a tem.

-É verdade -exclamou-, é a pura verdade. Emmita, tem que chegar a ser uma mulher melhor que sua tia. Sei muitíssimo mais preparada, e não seja nem a metade de vaidosa que ela.

Agora, senhor Knightley, me permita duas palavras mais e termino. Acredito que os dois tínhamos as melhores intenções, e devo lhe dizer que ainda não se demonstrou que nenhum de meus argumentos seja falso. Só quero saber se o senhor Martin não sofreu uma decepção muito grande.

-Não podia sofrê-la maior -foi a breve e terminante resposta.

-Ah! Seriamente que o sinto muito... Vá, nos demos as mãos!

Logo que tinham acabado de estreitá-las mãos, e com grande cordialidade, quando fez sua aparição John Knightley e os «Tudo bem, George?», «Olá, John, tudo bem?», se aconteceram no tom mais caracteristicamente inglês, ocultando sob uma impassibilidade que o parecia tudo menos indiferença, o grande afeto que lhes unia, e que de ser necessário tivesse levado a qualquer dos dois a fazer qualquer sacrifício pelo outro.

A velada era aprazível e convidava à conversação, e o senhor Woodhouse renunciou totalmente aos naipes com objeto de poder conversar a suas largas com sua querida Isabella, e na pequena reunião não demoraram para formar-se dois grupos: de uma parte ele e sua filha; de outra os dois senhores Knightley; em ambos os grupos se falava de coisas totalmente distintas, e muito poucas vezes se mesclavam as conversações... e Emma tão logo se unia a uns como a outros.

Os dois irmãos falavam de seus assuntos e ocupações, mas sobre tudo dos do maior, quem era com muito o mais comunicativo de ambos e que sempre tinha sido o mais falador. Como magistrado estava acostumado a ter alguma questão de leis que consultar a John, ou pela menos alguma anedota curiosa que referir; e como fazendeiro e administrador da herdade familiar do Donwell, gostava de falar do que se semearia ao ano seguinte em cada campo e dar uma série de notícias locais que não podiam deixar de interessar a um homem que como seu irmão tinha vivido ali a maior parte de sua vida e que sentia um grande apego por aqueles lugares. O projeto de construção de uma canal de irrigação, a mudança de uma perto, o corte de uma árvore e o destino que ia dar-se a cada acre de terra -trigo, nabos ou grão da primavera- era discutido pelo John com tanto paixão como o permitia a frieza de seu caráter; e se a previsão de seu irmão deixava alguma questão pela que perguntar, suas perguntas chegavam inclusive a tomar um ar de certo interesse.

Enquanto eles se achavam assim gratamente ocupados, o senhor Woodhouse sentia prazer abandonando-se com sua filha a felizes saudades e apreensivas amostras de afeto.

-Meu pobre Isabella -disse lhe agarrando carinhosamente a mão e interrompendo por breves momentos o trabalho que fazia para algum de seus cinco filhos-; quanto tempo passou da última vez que esteve aqui! E que comprido me tem feito! E o que cansada deve estar depois desta viagem! Tem que te deitar logo, querida... mas antes de ir à cama recomendo que tome um pouco de te advenha. Os dois tomaremos um bom bol de te advenha, né? Querida Emma, suponho que todos tomaremos um pouco de te advenha.

Emma não podia supor tal coisa porque sabia que os irmãos Knightley eram tão resistentes a aquela bebida como ela mesma... e só se pediram dois boles. depois de pronunciar umas frases mais em elogio do te advenha, sentindo saudades de que não todo mundo tomasse cada noite, disse em um tom gravemente reflexivo:

-Querida, não acredito que fizessem bem em ir passar o outono ao South End9 em vez de vir aqui. Nunca tive muita confiança no ar de mar.

-Pois o senhor Wingfield nos recomendou isso com muita insistência, papai... do contrário não tivéssemos ido. Recomendou-nos isso para todos os meninos, mas sobre tudo para Bela, que sempre tem a garganta tão delicada... ar de mar e banhos.

-Não sei, querida, mas Perry tem muitas dúvidas de que o mar possa lhe fazer algum bem;

e quanto a mim, faz tempo que estou totalmente convencido, embora talvez nunca lhe havia-o dito antes de agora, de que o mar quase nunca beneficia a ninguém. Estou seguro de que em uma ocasião quase me matou.

-Vamos, vamos -exclamou Emma, dando-se conta de que aquele era um tema perigoso-.

Por favor, não fale do mar. Sinto tanta inveja que me ponho de mau humor; eu que nunca o vi! De modo que fica proibido falar do South End, de acordo, papai? Querida Isabella, vejo que ainda não perguntaste pelo senhor Perry; e ele nunca se esquece de ti.

-OH, sim! O bom do senhor Perry! Como vai, papai?

-Pois bastante bem; mas assim que de tudo. O pobre Perry sofre da bílis e não tem tempo para cuidar-se... diz-me que não tem tempo para cuidar-se... o qual é muito triste...

mas sempre lhe estão chamando de toda a comarca. Suponho que não há ninguém mais de seu profissão por estes arredores. Mas além disso é que não há ninguém tão inteligente como ele.

-E a senhora Perry e seus meninos, como estão? Os meninos devem estar já muito crescidos... Sinto um grande afeto pelo senhor Perry. Espero que logo venha a nos visitar.

Gostará de ver meus pequenos.

-Acredito que virá amanhã porque tenho que lhe fazer duas ou três consultas de certa importância. E quando vier, querida, seria melhor que desse uma olhada à garganta de 9 South End on Seja: povo costeiro na embocadura do Támesis, no condado do Essex.

Bela.

-OH, papai! Está tão melhorada da garganta que já quase não me preocupa. Não sei se houverem sido os banhos ou se a melhoria tiver que atribuir-se a um excelente cataplasma que nos recomendou o senhor Wingfield e que estivemos lhe pondo uma série de vezes do mês de agosto.

-Querida, não é muito provável que tenham sido os banhos os que lhe tenham sentado bem...

e se eu tivesse sabido que o que precisavam era um cataplasma tivesse falado com...

-Parece-me que lhes esquecestes que a senhora e a senhorita Bate -disse Emma-; não vos ouvi perguntar por elas nenhuma só vez.

-OH, sim, as Tacos de beisebol, pobres! Estou totalmente envergonhada de mim mesma... mas as mencionava na maioria de suas cartas. Suponho que estão bem, não? Pobre senhora Tacos de beisebol, boa que é! Amanhã irei visitar a e me levarei aos meninos... Estão sempre tão contentes de ver meus meninos! E a senhorita Bate também é tão boa pessoa! O que se diz gente boa seriamente... Como estão, papai?

-Pois em conjunto bastante bem, querida. Mas a pobre senhora Bate recentemente mais ou menos um mês teve um resfriado muito maligno.

-Quanto o sinto! Eu nunca tinha visto tantos resfriados como neste outono. O senhor Wingfield me dizia que ele nunca tinha visto tantos nem tão fortes... exceto quando há uma epidemia de gripe.

-Sim, querida, certamente houve muitos; mas não tantos como pensa. Perry diz que este ano houve muitos resfriados, mas não tão fortes como ele os viu muitas vezes no mês de novembro. Perry não considera que nesta conjunto tenha sido uma temporada das piores.

. -Não, não acredito que o senhor Wingfield considere esta temporada das piores, mas...

-Ai, pobre minha filha! A verdade é que em Londres todas as temporadas são más.

Ninguém está são em Londres nem ninguém pode está-lo. É horrível que te veja obrigada a viver ali! Tão longe! E em uma atmosfera tão insalubre!

-Não, a verdade é que onde vivemos não há uma atmosfera insalubre absolutamente.

Nosso bairro fica muito mais alto que a maioria de outros. Papai, não pode dizer que é igual viver onde vivemos nós que em qualquer outra parte de Londres. A parte de Brunswick Square é muito distinta de quase todo o resto. Ali o ar é muito mais puro. Reconheço que me custaria me acostumar a viver em qualquer outro bairro da cidade; eu não gostaria que meus filhos vivessem em nenhum outro... mas aqui é um lugar tão arejado! O senhor Wingfield opina que para ar puro não há nada melhor que os arredores de Brunswick Square.

-Ai, sim, querida, mas não é como Hartfield! Você dirá o que queira, mas quando faz uma semana que estão no Hartfield todos parecem outros; você não parece a mesma. Agora, por exemplo, eu não diria que nenhum de vós têm muito bom aspecto.

-Como sinto te ouvir dizer isso, papai; mas te asseguro que, excetuando aquelas enxaquecas nervosas e as palpitações que tenho em todas partes, encontro-me perfeitamente bem;

e se os meninos estavam um pouco pálidos antes de deitar-se era só porque estavam mais cansados que de costume, devido à viagem e às emoções de chegar ao Hartfield.

Confio em que manhã lhes verá com melhor aspecto; porque te asseguro que o senhor Wingfield me há dito que nunca nos tinha mandado ao campo com melhor saúde. Pelo menos espero que não tenha a impressão de que meu marido parece doente -disse voltando o olhar com afetuosa ansiedade para o senhor Knightley.

-Pois assim assim, querida; contigo não vou fazer cumpridos. Em minha opinião, o senhor John Knightley está longe de ter um aspecto saudável.

-O que ocorre? Falavam de mim? -perguntou o senhor John Knightley para ouvir pronunciar seu nome.

-Querido, sinto te dizer que meu pai não te encontra um aspecto saudável... mas espero que só seja porque está um pouco cansado. Apesar de tudo já sabe que te disse que me tivesse gostado que o senhor Wingfield te visitasse antes de sair de Londres.

-Querida Isabella -exclamou ele com impaciência-, rogo-te que não se preocupe por meu aspecto. te conforme mimando e medicar aos meninos e a ti mesma e me deixe ter o aspecto que queira.

-Não entendi bem o que estava contando a seu irmão -exclamou Emma -sobre você amigo o senhor Graham, que queria tomar um mordomo escocês para que cuidasse de seus novas propriedades. Crie que dará resultado? Não são muito fortes os velhos prejuízos?

E assim seguiu falando durante tanto momento e com tão boa fortuna que quando voltou para ver-se obrigada a emprestar atenção de novo a seu pai e a sua irmã, o mais grave que ouviu foi que Isabella se interessava amavelmente pelo Jane Fairfax... e embora Jane Fairfax não era precisamente uma de seus favoritas, naqueles momentos sentiu um grande alívio ao escutar elogios deles.

-OH, Jane Fairfax! É tão carinhosa e tão amável! -disse a senhora John Knightley-.

Faz tanto tempo que não a vi...! Exceto umas quantas vezes que nos havemos encontrado por acaso em Londres e falamos só uns momentos... O que contentes devem estar sua anciã avó e sua tia, que são tão boas pessoas, quando vem às visitar! Sempre que penso nela, sinto-o tanto pela Emma, que não possa passar mais tempo no Highbury... Mas agora que sua filha se casou, suponho que o coronel e a senhora Campbell não consentirão em separar-se dela. Tivesse sido uma companheira tão agradável para a Emma... ! O senhor Woodhouse esteve de acordo contudo isto, mas acrescentou:

-Entretanto, nosso jovem amiga, Harriet Smith, também é outra moça excelente.

Você gostará, Harriet. Emma não podia ter melhor companheira que Harriet.

-Não sabe que me alegra ouvir isto... só que Jane Fairfax é tão fina, tão distinguida...

E além disso tem exatamente a mesma idade que Emma.

A questão foi discutida com toda cordialidade, e ao cabo de um momento aconteceu com outro de similar importância que também se debateu em meio da maior harmonia; mas a velada não concluiu sem que um novo incidente voltasse a turvar um pouco aquela calma. Chegou o te advenha proporcionando nova matéria de conversação... grandes elogios e muitos comentários... a irrefutável afirmação de que era saudável para toda classe de pessoas, e o que se diz severos sermões contra as numerosas casas nas que não se podia tomar um te advenha medianamente passível... mas, por desgraça, entre os lamentáveis casos que sua filha citou como exemplos para corroborar o que dizia o senhor Woodhouse, o mais recente e portanto o mais importante tinha ocorrido em seu próprio lar, no South End, aonde uma moça que tinham contratado para a temporada nunca tinha sido capaz de compreender o que ela queria dizer quando falava de um bol de bom te advenha que não fora espesso, mas sim mas bem claro, embora tampouco muito claro. Nenhuma sozinha vez das que tinha querido tomar te advenha e o tinha pedido tinha sido capaz de lhe fazer algo que pudesse beber-se. Este era um princípio perigoso.

-Ai! -disse o senhor Woodhouse meneando a cabeça e contemplando a sua filha com uma olhar de afetuosa preocupação.

A exclamação para a Emma queria dizer: «Ai! Não têm fim as tristes conseqüências de sua estadia no South End; mas disso não se pode falar.» E durante uns minutos Emma confiou em que não ia falar disso e que suas silenciosas reflexões bastariam para lhe devolver ao prazer de saborear seu te advenha claro, como devia ser. Mas ao cabo de uns minutos acrescentou:

-Sempre lamentarei que este outono tenham ido ao mar em vez de vir aqui.

-Mas por que tem que lamentá-lo, papai? Asseguro-te que aos meninos foi muito benéfico.

-Além disso, se tinham que ir ao mar tivesse sido melhor não ir ao South End. South End é um lugar pouco saudável. Perry ficou muito surpreso ao saber que tinham eleito South End.

-Já sei que há muita gente que opina assim, mas a verdade, papai, é que se equivocam de tudo... Ali nos encontramos perfeitamente bem de saúde, e o limo não nos incomodou o mais mínimo; e o senhor Wingfield diz que é um grande engano supor que é um lugar insalubre; e estou segura de que pode confiar-se em seu critério, porque ele sabe perfeitamente do que se compõe o ar, e seu próprio irmão esteve ali com seu família várias vezes.

-Sim, querida, mas se queriam tomar banhos podiam ter ido ao Cromer; Perry faz tempo que passou uma semana no Cromer e considera o lugar como o melhor de todos para os banhos de mar. Tem uma praia grande e formosa, e diz que ali o ar é muito puro.

E pelo que ouvi dizer, ali poderiam lhes alojar bastante longe do mar, a um quarto de milha de distância... e com todas as comodidades. Deveriam consultá-lo com o Perry.

-Mas, papai querido, pensa que isso está muito mais longe; teríamos que fazer um viaje larguísimo... Cem milhas pelo menos, em vez de quarenta.

-Ai, querida! Como diz Perry, quando se trata da saúde, não deve se ter em conta nada mais; e se terá que viajar, tanto dá percorrer quarenta milhas como cem... É melhor não mover-se de casa, é melhor ficar em Londres que percorrer quarenta milhas para ir a procurar um ar que é pior que o da cidade. Isso foi exatamente o que disse Perry. A seu entender sua decisão não podia ser mais equivocada.

Os esforços da Emma por fazer calar a seu pai foram em vão; e quando as coisas chegavam a este ponto a Emma já não sentia saudades que seu cunhado interviesse.

-O senhor Perry disse em um tom de voz que revelava uma profunda contrariedade- faria melhor em guardar-se suas opiniões para quem as pedisse. Ele o que tem que ver com isso e por que se mete no que faço? por que tem que opinar sobre se levar minha família a um povo da costa ou a outro? Espero que me permitirá dar minha opinião igual a ao senhor Perry... Não necessito nem seus conselhos nem seus remédios. -Fez uma pausa, E acalmando-se rapidamente adicionou com sarcástica secura-: Se o senhor Perry pode me dizer como transladar à esposa e a cinco filhos a uma distância de cento e trinta milhas sem mais gastos nem moléstias que a uma distância de quarenta, estarei de acordo com ele em que é preferível ir ao Cromer em vez da o South End.

-Sim, sim, isso é verdade -exclamou seu irmão, intervindo apressadamente na conversação-, é a pura verdade. Isso é algo muito importante. Mas, John, sobre o que lhe dizia a respeito de meu projeto de desviar o caminho do Langham, de fazê-lo passar um pouco mais para a direita para que não atravesse os prados do imóvel, eu não vejo que haja nenhuma dificuldade. Se tivesse que representar moléstias para os habitantes do Highbury não seguiria adiante, mas se te lembra bem do traçado que tem o caminho... Mas o único modo de demonstrar lhe é consultar isso nossos planos. Suponho que te verei amanhã pela manhã na Abadia, não?, e então poderemos voltá-los para estudar e me dará você opinião.

O senhor Woodhouse se sentia um pouco turbado pelos duros comentários que se haviam feito sobre seu amigo Perry, a quem em realidade, embora inconscientemente, havia atribuído muitas de suas próprias idéias e de suas próprias expressões; mas os apaziguadores cuidados de suas filhas conseguiram que pouco a pouco se fora desvanecendo seu inquietação, e a imediata intervenção de um dos dois irmãos e as melhores disposições do outro evitaram que se renovasse a violência daquela situação.

 

NINGUÉM mais feliz que a senhora John Knightley durante sua breve estadia no Hartfield, visitando cada manhã a suas antigas amizades em companhia de seus cinco filhos, e pela noite contando a seu pai e a sua irmã tudo o que tinha feito durante o dia. Não podia desejar nada melhor... exceto os dias não passassem tão às pressas. Eram umas férias maravilhosas, perfeitas apesar de ser muito curtas.

Em geral, pelas tardes estava menos ocupada com seus amigos que pelas manhãs;

mas o compromisso de reunir-se tudo em um jantar, fora de casa, não havia maneira de evitá-lo, apesar de ser Natal. O senhor Weston não tivesse aceito uma negativa;

deviam jantar todos juntos no Randalls; e inclusive o senhor Woodhouse se deixou convencer de que esta idéia era possível e que era melhor fazê-lo assim dividir o grupo.

De ter podido, o senhor Woodhouse tivesse posto reparos ao modo em que ia a transladar-se a todos ao Randalls, mas como o carro e os cavalos de seu genro se encontravam no Hartfield naqueles dias, teve que limitar-se a fazer uma simples pergunta sobre aquela questão; de modo que não pôde fazer disso um conflito; e a Emma não o custou muito lhe convencer de que em um dos carros também poderiam acomodar a Harriet.

Harriet, o senhor Elton e o senhor Knightley, os habituais da casa, foram os únicos convidados; o jantar ia ser a uma hora temprana, e os comensais poucos e escolhidos; e em todos os detalhes se tiveram em conta os costumes e preferências do senhor Woodhouse.

A véspera deste grande acontecimento (pois era um grande acontecimento que o senhor Woodhouse jantasse fora de casa em 24 de dezembro), Harriet passou toda a tarde em Hartfield, e tinha voltado para sua casa tão destemperada por um forte resfriado que, a não ser por sua insistência em querer que a cuidasse a senhora Goddard, Emma não lhe houvesse permitido sair da casa. Ao dia seguinte Emma a visitou, e compreendeu que terei que renunciar a sua companhia no jantar daquela noite. Tinha muita febre e um forte dor de garganta. A senhora Goddard lhe prodigalizava os cuidados mais afetuosos, falou-se do senhor Perry, e a própria Harriet se encontrava muito doente e abatida para resistir à autoridade que a excluía da grata reunião daquela noite, embora não podia falar disso sem derramar abundantes lágrimas.

Emma lhe fez companhia todo o tempo que pôde para atendê-la durante as obrigadas ausências da senhora Goddard, e lhe levantar o ânimo lhe descrevendo qual seria o abatimento do senhor Elton quando soubesse seu estado; e por fim a deixou o bastante resignada, com a grata confiança de que ele ia passar uma má velada e de que todos a jogariam muitíssimo de menos. Apenas Emma tinha andado umas poucas jardas da porta da casa da senhora Goddard, quando se encontrou com o próprio senhor Elton, que evidentemente se dirigia para ali, e como seguiram andando juntos pouco a pouco, conversando a respeito da doente (tinham chegado até ele rumores de que se tratava de uma enfermidade grave e tinha ido inteirar se a fim de poder ir informar logo aos de Hartfield), foram alcançados pelo senhor John Knightley, que voltava de sua cotidiana visita o Donwell em companhia de seus dois filhos maiores, cujas caras acesas e saudáveis mostravam todos os benefícios de um passeio pelo campo, e pareciam augurar o rápido desaparecimento do cordeiro assado e do pudding de arroz pelos que se apressavam a voltar para casa. uniram-se a eles e seguiram andando todos juntos. Em aqueles momentos Emma estava descrevendo os sintomas da enfermidade de seu amiga:

-... uma garganta inflamadísima, com muita febre e com um pulso rápido e débil...

etcétera.

E contou que a senhora Goddard lhe havia dito que Harriet era propensa às inflamações de garganta e que muitas vezes lhe tinha dado sustos como aquele. O senhor Elton pareceu alarmadísimo para ouvir isto, e exclamou:

-Inflamações de garganta! Confio em que não haverá infecção. Não será uma infecção maligna, verdade? Viu-a Perry? A verdade é que deveria cuidar-se tanto de você mesma como de seu amiga. me permita lhe aconselhar que não se exponha muito. por que não a visita Perry?

Emma, que a verdade é que não estava alarmada absolutamente, acalmou esses temores exagerados lhe assegurando que a senhora Goddard tinha muita experiência e lhe emprestava os cuidados mais solícitos; mas como ainda devia ficar uma certa inquietação, que ela não desejava fazer desaparecer, mas sim mas bem preferia atiçar para que aumentasse, não demorou em acrescentar como se falasse de um pouco totalmente distinto:

-OH, faz tão frio, tantísimo frio, e dá tanto a impressão de que vai nevar que se se tratasse de qualquer outro lugar ou de qualquer outra reunião, a verdade é que faria o possível para não sair de casa esta noite... e para dissuadir a meu pai de aventurar-se a jantar fora de casa; mas como ele já se feito à idéia e inclusive parece que não sente tanto o frio, prefiro não pôr obstáculos, porque sei que seria uma grande decepção para o senhor e a senhora Weston. Mas lhe dou minha palavra, senhor Elton, de que eu, se estivesse em seu lugar, daria uma desculpa para não assistir. Parece-me que já está você um pouco rouco, e tendo em conta o muito que terá que falar amanhã e quão cansado vai ser para você esse dia, acredito que a mais elementar prudência aconselha que fique em casa e que esta noite se cuide o melhor que possa.

O senhor Elton dava a impressão de que não sabia muito bem o que responder; e em realidade isso era o que lhe ocorria; pois embora muito adulado pelo grande interesse que se tomava por ele uma dama tão bela, e sem querer negar-se a seguir nenhum de seus conselhos, o certo é que não sentia a menor inclinação por deixar de assistir ao jantar; mas Emma, muito confiada na idéia que se feito da situação para lhe ouvir imparcialmente e dar-se conta de seu estado de ânimo naquele momento, ficou plenamente satisfeita lhe ouvindo murmurar aprobadoramente que fazia «muito frio, verdadeiramente muito frio», e seguiu andando contente de lhe haver afastado do Randalls lhe permitindo assim interessar-se cada hora pela saúde do Harriet.

-Faz você muito bem -disse-; nós já lhe desculparemos com os senhores Weston.

Mas logo que acabava de pronunciar estas palavras, quando seu cunhado lhe oferecia cortesmente um lugar em seu carro, se é que o tempo era o único obstáculo para o senhor Elton, e este aceitou imediatamente o oferecimento com uma grande satisfação. Não demorou em ser coisa feita; e nunca suas grandes e corretas facções expressaram mais contente que naqueles instantes; nunca tinha sido mais amplo seu sorriso nem mais brilhantes de alegria seus olhos que quando voltou o rosto para a Emma.

«Vá! -disse-se Emma para seus adentros- Isso sim que é curioso! Eu lhe encontro uma desculpa para não vir, e agora prefere nos acompanhar e deixar ao Harriet doente em seu casa... Parece-me mas que muito estranho... Embora tenha a impressão de que há muitos homens, sobre tudo os solteiros, que sentem tanta afeição, que lhes entusiasma tanto jantar fora de casa, que um convite assim é uma das coisas que mais lhes ilude, o consideram como um dos maiores gostos que podem dar-se, quase como um dever de seu posição social e de sua profissão, e todo o resto passa a segundo término... e esse débito ser o caso do senhor Elton; sem dúvida alguma, um jovem de grandes objetos, muito correto e agradável, e enamoradísimo do Harriet; mas, apesar de tudo, não é capaz de rechaçar um convite e tem que jantar fora de casa seja onde seja que lhe convidem. Que coisa mais estranha é o amor! É capaz de ver engenho no Harriet, mas por ela não é capaz de jantar sozinho."

Ao cabo de pouco o senhor Elton se despediu deles, e Emma não pôde por menos de lhe fazer justiça apreciando o sentimento que pôs ao nomear ao Harriet quando se ia; o tom de sua voz ao lhe assegurar que a última coisa que faria antes de preparar-se para o agradar de voltar a ver a Emma seria ir a casa da senhora Goddard a pedir notícias de seu linda amiga, e que esperava que poderia dar melhore novas, era muito significativo; e suspirando esboçou um triste sorriso que inclinou definitivamente a balança da aprovação em favor dele.

depois de uns minutos que passaram em completo silêncio, John Knightley disse:

-Em minha vida vi a um homem mais empenhado em ser agradável que o senhor Eton.

Quando trata com senhoras lhe vê muito laborioso pelas agradar. Com os homens é mais sensato e mais natural, mas quando tem uma dama a quem agradar qualquer ridicularia parece-lhe bem.

-As maneiras do senhor Elton não são o que se chama perfeitas -replicou Emma-; mas quando se vê que se esforça por agradar, terá que passar por cima muitas coisas. Quando um homem faz o que pode, embora seja com dotes limitados, sempre será preferível ao que seja superior mas não tenha vontade. O senhor Elton tem tão bom caráter e tão boa vontade que não é possível deixar de apreciar esses méritos.

-Sim -disse rapidamente o senhor John Knightley com certa dissimulação-, parece ter muito boa vontade... sobre tudo pelo que se refere a ti.

-A mim? -exclamou Emma com um sorriso de assombro-; imagina que o senhor Elton está interessado por mim?

-Confesso, Emma, que esta idéia me passou pela imaginação; e se antes de agora nunca tinha pensado nisso já tem motivo para fazê-lo.

-O senhor Elton apaixonado por mim! Mas a quem lhe ocorre!

-Eu não digo que seja assim; mas não estaria de mais que pensasse em se for ou não é verdade, para amoldar sua conduta ao que ditas. Eu acredito que lhe dá asas sendo tão amável com ele. Falo-te como um amigo, Emma. Seria melhor que abrisse bem os olhos e te assegurasse pelo que faz e do que quer fazer.

-Agradeço-te o interesse; mas te asseguro que te equivoca por completo. O senhor Elton e eu somos muito bons amigos, nada mais.

E seguiu andando, rendo-se para seus adentros dos desatinos que freqüentemente se o ocorrem às pessoas que só conhece uma parte dos fatos, e dos enganos em que incorrem certas pessoas que pretendem ter um critério infalível; e não muito agradada com seu cunhado que acreditava tão cega e ignorante, e tão necessitada de conselhos. Ele não disse nada mais.

O senhor Woodhouse se feito tanto à idéia de sair aquela noite que apesar de que o frio era cada vez mais intenso não parecia absolutamente disposto a assustar-se dele, e ao final esteve preparado para a marcha com toda pontualidade, e se instalou em seu carro junto com sua filha maior, na aparência emprestando menos atenção ao tempo que nenhum dos demais; muito maravilhado por sua própria façanha e pensando muito na ilusão que ia proporcionar aos do Randalls para dar-se conta de que fazia frio... além de que ia muito bem abrigado para senti-lo. Entretanto o frio era muito intenso; e quando o segundo carro ficou em movimento começaram a cair uns flocos de neve, e o céu parecia tão carregado para necessitar tão somente um sopro de ar mais morno para deixá-lo todo blanquísimo ao cabo de muito pouco tempo.

Emma não demorou para advertir que seu companheiro não estava do melhor dos humores. Os preparativos para sair e a saída mesma com aquele tempo, unido ao feito de ter que renunciar à companhia de seus filhos depois da comida, eram inconvenientes o suficientemente desagradáveis para desgostar ao senhor John Knightley; a visita não parecia-lhe oferecer compensações dignas daquelas contrariedades; e durante todo o trajeto até a Vicaría não deixou de expressar seu descontente.

-precisa-se ter muito boa opinião da gente mesmo –disse- para pedir às pessoas que abandone sua chaminé e vá ver lhe em um dia como este, sem mais objeto que lhe fazer uma visita. Deve considerar-se alguém muito agradável; eu não seria capaz de fazer uma coisa assim. É o major dos absurdos... E agora fica a nevar! É uma loucura não permitir que a gente fique comodamente em sua casa... e o é o não ficar comodamente em casa quando a gente pode fazê-lo. Se nos obrigassem a sair em uma noite assim para cumprir algum dever ou para algum negócio, como nos queixaríamos de nossa má sorte; e aqui estamos provavelmente com roupas mais ligeiras que de costume, seguindo adiante por nossa própria vontade, sem nenhum motivo justificado e desafiando a voz da natureza que diz ao homem por todos os meios que tem a seu alcance que fique em casa e que se resguarde o melhor que possa; aqui estamos em caminho para passar cinco horas aborrecidas em uma casa alheia, sem nada que dizer ou ouvir que não se dissesse ou ouvisse ontem e que não possa dizer-se ou ouvir-se de novo amanhã. Saindo com mau tempo para voltar provavelmente com um tempo pior; obrigando a sair a quatro cavalos e a quatro criados só para levar a cinco pessoas ociosas tiritando de frio a umas habitações mais frite e entre piores companheiros do que se pôde ter em casa.

Emma não estava disposta a assentir agradada a estes comentários ao qual sem dúvida ele estava acostumado, para emular o «Tem toda a razão, querido», frase com a que estava acostumado a lhe obsequiar sua habitual companheira de viagem; mas teve a força de vontade suficiente para conter-se e não lhe responder nada. Não podia estar de acordo com ele e temia que uma discussão degenerasse em disputa; seu heroísmo só chegava ao silêncio. O deixou seguir falando e arrumou os cristais e se amassou bem em suas roupas sem separar os lábios.

Chegaram, o carro deu a volta, baixou-se o estribo e o senhor Elton, bem polido, sonriendo e com seu traje negro, reuniu-se com eles imediatamente. Emma tinha a esperança de que se trocasse o tema da conversação. O senhor Elton se desfazia em amabilidades e parecia de muito bom humor; a verdade é que de tão bom humor que Emma pensou que devia ter recebido notícias distintas sobre o estado do Harriet de as que tinham chegado até ela. Enquanto se vestia tinha enviado a alguém a perguntar, e a resposta tinha sido: «Segue o mesmo, não há melhoria."

-As notícias que recebi que a casa da senhora Goddard -disse ao cabo de um momento- não são tão boas como eu esperava. Hão-me dito que não há nenhuma melhoria.

Seu rosto se escureceu imediatamente; e quando respondeu o fez com uma voz enche de sentimento:

-OH, não! Senti-o tanto ao me inteirar... estava a ponto de lhe dizer que quando fui a casa da senhora Goddard, que foi a última coisa que fiz antes de voltar para a Vicaría para me vestir, disseram-me que a senhorita Smith não tinha melhorado nada, o que se diz nada, mas sim mas bem estava pior. Senti-o tanto e fiquei muito preocupado... eu tinha esperanças de que ia melhorar depois do cordial que lhe deram esta manhã.

Emma sorriu e respondeu:

-Confio em que minha visita lhe tenha sido benéfica para a parte nervosa de seu enfermidade; mas minha presença ainda não tem poder suficiente para fazer desaparecer uma inflamação de garganta; é um resfriado verdadeiramente forte. O senhor Perry a há visitado, como certamente já lhe hão dito a você.

-Sim... eu supunha... quer dizer... não me haviam isso dito...

-Ele já a tinha tratado de coisas parecidas, e confio que manhã pela manhã poderá nos dar aos duas melhores notícias. Mas é impossível não sentir-se inquieto. É uma ausência tão lamentável para nossa reunião de esta noite!

-Sim, muito lamentável... Você o há dito, esta é a palavra... a sentiremos falta da cada momento.

Isso já era ficar mais em caráter; o suspiro que acompanhou estas palavras era muito digno de se ter em conta; mas tivesse tido que durar mais. Emma não pôde por menos de desalentar-se quando só ao cabo do meio minuto o senhor Elton começou a falar de outras coisas; e em um tom de voz totalmente despreocupado e alegre.

-É uma idéia excelente -disse- usar as peles de cordeiro nos carros. Assim se vai muito cômodo; é impossível ter frio tomando estas precauções. Essas inovações modernas a verdade é que convertem o carro de um cavalheiro em algo perfeitamente completo. está-se tão protegido e defendido do tempo que não há corrente de ar que possa penetrar. Deste modo o tempo deixa de ter importância. Hoje faz uma noite muito fria... mas neste carro nós nem nos inteiramos... Ah! vejo que neva um pouco.

-Sim -disse o senhor John Knightley-, e me parece que vamos ter muita neve.

-Tempo natalino -comentou o senhor Elton-. É o próprio da estação; e podemos nos considerar como muito afortunados de que não começasse a nevar ontem e tivesse havido que postergar a reunião de hoje, o qual tivesse podido ocorrer muito facilmente, porque o senhor Woodhouse não se atreveu a sair se tivesse nevado muito; mas agora já não tem importância. A verdade é que esta é a estação do ano mais adequada para as reuniões amistosas. Por Natal todo mundo convida a seus amigos e a gente não se preocupa muito pelo tempo que faça, embora seja muito mau. Uma vez fiquei sitiado uma semana em casa de um amigo. Nada podia me ser mais agradável. Fui ali para passar só uma noite e não pude ir até ao cabo de sete dias justos.

O senhor John Knightley não parecia muito propício a compreender este prazer, mas só disse fríamente:

-Eu não gostaria de nada lombriga sitiado pela neve no Randalls durante uma semana.

Em outra ocasião Emma tivesse encontrado divertido todo aquilo, mas naqueles momento estava muito assombrada ao ver o interesse que o senhor Elton emprestava a outras questões. Harriet parecia ter sido esquecida totalmente ante a perspectiva de uma grata velada.

-Podemos ter a segurança de contar com um bom fogo na chaminé -seguiu dizendo-, e sem dúvida tudo estará disposto para nos oferecer as maiores comodidades. O senhor e a senhora Weston são encantadores; a senhora Weston merece todos os elogios, e ele por sua parte é uma pessoa admirável, tão hospitalar e tão sociável; certamente seremos poucos, mas as reuniões nas que há pouca gente mas escolhida são possivelmente as mais agradáveis de todas. O comilão da senhora Weston tampouco é capaz de acomodar devidamente a mais de dez pessoas; e por minha parte nestas circunstância eu revisto preferir que sobre espaço para dois a que falte espaço para dois. Certamente estará você de acordo comigo -disse voltando-se para a Emma com ar meloso-, estou seguro de que contarei com sua aprovação embora talvez o senhor Knightley que está acostumado às grandes reuniões de Londres não esteja totalmente de acordo conosco.

-Eu não sei nada das grandes reuniões de Londres, nunca janto fora de casa.

-Seriamente? -em um tom entre assombrado e compassivo-. Não tinha nem a menor ideia de que as leis significassem uma escravidão tão grande. Mas não me você desespere, já chegará o tempo em que encontre a recompensa, quando tiver que trabalhar pouco e possa desfrutar muito.

-Quando mais desfrutarei -replicou o senhor John Knightley quando cruzavam já a grade de a casa- será quando voltar a estar são e salvo no Hartfield.

 

AO entrar no salão da senhora Weston ambos tiveram que compor sua atitude; o senhor Elton refrear um pouco seu entusiasmo e o senhor John Knightley afugentar seu mau humor. Para acomodar-se às circunstâncias e ao lugar, o senhor Elton teve que sorrir menos, e o senhor John Knightley que sorrir mais. Emma foi quão única pôde ser espontânea, e mostrar-se tão contente como estava em realidade. Era uma grande alegria para ela o estar com os Weston. O senhor Weston era um de seus amigos favoritos, e não havia ninguém no mundo com quem pudesse falar com tanta franqueza como com sua esposa;

ninguém em quem confiasse com tanta segurança de ser escutada e compreendida, despertando sempre o mesmo interesse e a mesma compreensão, ninguém que se fizesse tanto cargo dos pequenos conflitos, projetos, dúvidas e ilusões, seu e de seu pai. Não podia falar de nada do Hartfield pelo que a senhora Weston não sentisse um vivo interesse; e meia hora de ininterruptas confidências a respeito de todas essas questões miúdas das que dependem a felicidade cotidiana da vida íntima de cada qual, era um dos majores prazeres que ambas podiam conceder-se.

Este era um agradar do que possivelmente não poderiam desfrutar durante toda aquela visita, na que seria difícil encontrar meia hora para suas expansões; mas só a presença da senhora Weston, seu sorriso, seu contato, sua voz, era já reconfortante para a Emma e decidiu pensar o menos possível nas raridades do senhor Elton, ou em qualquer outra coisa desagradável, e desfrutar até o máximo de tudo quão grato pudesse oferecer a velada.

antes de sua chegada já se falou muito da má sorte que tinha tido Harriet ao resfriar-se. Fazia momento que o senhor Woodhouse se achava comodamente instalado em uma poltrona contando toda a história, além de toda a história dos incidentes do trajeto até ali que tinha feito com a Isabella; então se anunciou a chegada da Emma, e logo que tinha terminado umas frases nas que se congratulava de que James ao ir com eles tivesse ocasião de ver sua filha, quando apareceram outros, e a senhora Weston, que até então tinha dedicado quase toda sua atenção ao senhor Woodhouse, pôde lhe deixar e dar a bem-vinda a sua querida Emma.

Emma encontrou certas dificuldades para pôr em prática sua decisão de esquecer do senhor Elton por um momento, já que quando todos se sentaram resultou que o jovem estava a seu lado. Era muito difícil se separar de sua mente a idéia de sua surpreendente insensibilidade respeito ao Harriet, enquanto não só lhe tinha pego a ela, mas também além lhe dedicava de contínuo os mais atentos sorrisos e lhe dirigia a palavra com a maior deferência sempre que tinha ocasião. Em vez de lhe esquecer, seu proceder era tal que não pôde evitar o dizer-se para seus adentros:

-É possível que tenha razão meu cunhado? É possível que comece a esquecer-se de Harriet e a pôr seu afeto em mim? Seria absurdo, não pode ser!

Entretanto, o senhor Elton se esforçava de tal modo porque Emma não sentisse frio, se mostrava tão atento com seu pai e tão amável para com a senhora Weston, e por fim demonstrou tanto entusiasmo e tanta falta de critério ante seus desenhos, que não podia por menos de pensar-se que parecia apaixonado, e ela teve que fazer um esforço por conservar a calma e a naturalidade. Não queria mostrar-se descortês, em primeiro lugar por ela mesma e logo pelo Harriet, confiando em que tudo poderia voltar a represar-se bem, como ao princípio; de modo que foi muito amável com ele; mas lhe custava um esforço sobre tudo quando outros falavam de coisas pelas que ela estava interessada, enquanto que o senhor Elton a aturdia com sua insípida loquacidade. Por algumas palavras soltas que pôde ouvir compreendeu que o senhor Weston estava falando de seu filho; ouviu as palavras «meu filho» e «Frank», e que repetia «meu filho» várias vezes mais; e por alguma outra coisa que chegou até seus ouvidos, supôs que estava anunciando a próxima visita de seu filho; mas antes de que pudesse desfazer do senhor Elton a conversação tinha trocado por completo, até o ponto de que qualquer pergunta dela que tivesse ressuscitado o tema tivesse parecido desconjurado e impertinente.

O que ocorria era que, apesar da decisão que tinha tomado Emma de não casar-se nunca, havia algo no nome, na idéia do senhor Frank Churchill que sempre a havia atraído. Com freqüência tinha pensado -sobre tudo desde que o pai do jovem havia contraído matrimônio com a senhorita Taylor- que se ela tivesse que casar-se Frank Churchill seria a pessoa mais indicada, tanto por sua idade como por seu caráter e seu posição social. Pela relação que existia entre ambas as famílias parecia uma união perfeitamente natural. E Emma não podia por menos de supor que era umas bodas em que deveria pensar todo mundo que lhes conhecia. Estava totalmente persuadida de que os Weston pensavam nisso; e embora não estava disposta a que nem ele nem nenhum outro homem fizesse-lhe abandonar sua atual situação que considerava mais pletórica de bem-estar que nenhuma outra nova que pudesse substitui-la, sentia uma grande curiosidade por lhe ver, uma decidida intenção a lhe encontrar agradável, a que ele se sentisse atraído até certo ponto, e uma espécie de agradar ante a idéia de que na imaginação de seus amigos ambos aparecessem unidos.

Sob o influxo destas sensações, as cortesias do senhor Elton não podiam ser mais inoportunas; mas ela se consolava pensando que na aparência era muito atenta, quando em realidade não podia contrariá-la mais aquela situação... e caso que durante o resto da velada forzosamente se voltaria a falar do mesmo tema que ao princípio, ou que pelo menos se aludiria ao essencial do assunto, tratando-se de uma pessoa tão comunicativa como o senhor Weston; e assim resultou ser; e quando por fim se desembaraçou do senhor Elton e se- sentou à mesa junto ao senhor Weston, este aproveitou a primeira trégua que pôde fazer em seus deveres como anfitrião, a primeira pausa que houve desde que se serve o lombo de carneiro, para dizer a Emma:

-Só nos faltam duas pessoas mais para ser o número exato. Queria poder ter com nós a dois convidados mais... a amiguita de você, a senhorita Smith, e meu filho... só então poderia dizer que a reunião é completa de tudo. Não sei se me ouviu você dizer a outros quando estavam no salão que esperávamos ao Frank. Esta manhã tive carta dela, e me diz que estará conosco dentro de duas semanas.

Emma não teve que esforçar-se muito por manifestar sua alegria; e se mostrou totalmente de acordo com a idéia de que o senhor Frank Churchill e a senhorita Smith eram os dois comensais que faltavam para completar a reunião.

-Desde mês de setembro -seguiu dizendo o senhor Weston- estava desejando vir a nos ver; em todas suas cartas falava do mesmo; mas não pode dispor de seu tempo; se vê forçado a agradar a certas pessoas, e agradar a estas pessoas (e que isso fique entre nós) às vezes custa muitos sacrifícios. Mas agora não tenho a menor duvida de que o teremos conosco por volta da segunda semana de janeiro.

-Que alegria vai ter você! E a senhora Weston está tão ansiosa por lhe conhecer bem que deve estar quase tão iludida como você.

-Sim, teria uma grande alegria, mas ela é da opinião de que esta viagem voltará para postergar-se uma vez mais. Não está tão segura como eu de que venha. Mas eu conheço melhor que ela a sacanagem desse assunto. Verá você, o caso é que... (mas sobre tudo que isso fique entre nós; na sala de estar eu disso não hei dito nenhuma palavra. Já sabe você que em todas as famílias há segredos...). Dizia-lhe que o caso é que há um grupo de amigos que foram convidados a passar uns dias no Enscombe, no mês de janeiro; e para que Frank venha é preciso que este convite se postergue. Se não se postergar, ele não pode mover-se dali. Mas eu sei que se postergará, porque se trata de uma família pela que certa senhora, que tem bastante importância no Enscombe, sente uma particular aversão; e embora se considera necessário lhes convidar uma vez cada dois ou três anos, quando chega o momento sempre terminam postergando a visita. Não tenho a menor duvida de que vai ocorrer assim. Estou tão seguro de que Frank vai estar aqui antes de meios de janeiro, como de estar aqui eu mesmo. Mas sua querida amiga -e indicou com a cabeça o outro extremo da mesa- tem tão poucos caprichos, e no Hartfield estava tão pouco acostumada a eles, que não prevê os efeitos que podem ter, enquanto que eu tenho já uma prática de muitos anos nessas coisas.

-Lamento que ainda hajam dúvidas neste caso -replicou Emma-; mas estou disposta a me pôr a seu lado, senhor Weston. Se você opinar que virá, eu serei de seu mesma opinião; porque você conhece Enscombe.

-Sim... bem posso dizer que o conheço; embora em minha vida tenha estado ali... É uma mulher estranha! Mas eu nunca me permito falar mal dela por consideração ao Frank;

porque sei que lhe quer seriamente. Eu estava acostumado a pensar que não era capaz de querer a ninguém exceto a si mesmo; mas sempre foi muito afetuosa com ele (a seu modo...

lhe consentindo pequenos desejos e caprichos, e querendo que tudo saia de acordo com sua vontade). E a meu entender diz muito em favor dele ter despertado um afeto assim;

porque, embora isso eu não o diria a ninguém mais, a verdade é que para o resto da gente essa mulher tem um coração mais duro que a pedra; e um caráter endiabrado.

Emma estava tão interessada por aquele tema que voltou a abordá-lo, esta vez com a senhora Weston, quando ao cabo de pouco voltaram a transladar-se à sala de estar; desejou-lhe que pudesse ter esta ilusão... até reconhecendo que compreendia que a primeira entrevista deveria ser mas bem violenta... A senhora Weston esteve de acordo com ela;

mas acrescentou que aceitaria com gosto a violência que pudesse haver nesta primeira entrevista com tal de poder ter a segurança de que seria quando se anunciou...

-...porque eu não confio que venha. Não posso ser tão entusiasta como o senhor Weston.

Muito me temo que tudo isto terminará em nada. Suponho que o senhor Weston te há contado já exatamente como estão as coisas.

-Sim... parece ser que tudo depende exclusivamente do mau humor da senhora Churchill, que imagino que é a coisa mais segura do mundo.

-Querida Emma -replicou a senhora Weston, sonriendo-, que segurança pode haver em um capricho?

E voltando-se para a Isabella, que antes não tinha estado atendendo à conversação, acrescentou:

-Deve você saber, minha querida senhora Knightley, que em minha opinião não podemos estar tão seguros nem muitíssimo menos de poder ter conosco ao senhor Frank Churchill, como pensa seu pai. Depende exclusivamente do bom ou mau humor e do capricho de sua tia; em resumo, de se ela quiser ou não. Entre nós, porque estamos como entre irmãs e pode dizê-la verdade: a senhora Churchill manda no Enscombe, e é uma mulher de um caráter muito caprichoso; e o que seu sobrinho venha aqui depende de que esteja disposta a prescindir dele por uns dias.

-OH, a senhora Churchill! Todo mundo conhece a senhora Churchill -replicou Isabella-; e eu por minha parte sempre que penso nesse pobre moço me inspira uma grande compaixão. Viver constantemente com uma pessoa de mau caráter deve ser horrível.

Isso é algo que felizmente nenhum de nós conhece por experiência; mas tem que ser uma vida espantosa. Que sorte que essa mulher nunca tenha tido filhos!

Pobres criaturas, o que desgraçados os tivesse feito!

Emma tivesse querido estar a sós com a senhora Weston. Deste modo se houvesse informado de mais costure; a senhora Weston lhe tivesse falado com uma franqueza que nunca atreveria-se a empregar diante da Isabella; e estava segura de que não lhe tivesse oculto quase nada referente aos Churchill, excetuando seus projetos sobre o jovem dos que instintivamente presumia já algo graças a sua imaginação. Mas ali não podia dizer-se nada mais. O senhor Woodhouse não demorou para ir reunir se com elas na sala de estar.

Permanecer durante muito momento sentado à mesa depois de comer era uma penitência que não podia suportar. Nem o vinho nem a conversação conseguiram lhe reter; e se dispôs alegremente a reunir-se com as pessoas com as que sempre se encontrava a gosto.

E enquanto ele falava com a Isabella, Emma teve oportunidade de dizer a seu amiga:

-De modo que não crie que esta visita de seu filho seja segura nem muito menos. Sinto muito.

Seja quando for, a apresentação tem que ser um pouco violenta. E quanto antes se termine com isso melhor.

-Sim; e cada adiamento faz temer que venham outros. Inclusive se essa família, os Braithwaites, postergam outra vez sua visita, ainda temo que possam encontrar alguma outra desculpa e tenhamos uma nova decepção. Não posso imaginar que haja nenhum obstáculo por parte dele; mas estou segura de que os Churchill têm um grande interesse em lhe reter a seu lado. Têm ciúmes. Está ciumentos inclusive do afeto que sente por seu pai.

Em resumo, que não tenho nenhuma segurança de que venha, e preferiria que o senhor Weston não se entusiasmasse tanto com esta idéia.

-Deveria vir -disse Emma-. Embora só pudesse estar com vós um par de dias, deveria vir; quase é difícil imaginar um jovem de sua idade que não possa nem sequer fazer isso. Uma jovem, se cair em más mãos, pode ser apartada e afastada daquelas pessoas com as que ela desejaria estar; mas é inconcebível que um homem esteja tão sujeito a seus parentes como para não poder acontecer uma semana com seu pai se o desejar.

-Para saber o que ele pode ou não pode fazer -replicou a senhora Weston- deveríamos estar no Enscombe e conhecer a vida da família. Possivelmente isso fora o que deveríamos fazer sempre antes de julgar o proceder de qualquer pessoa de qualquer família; mas estou segura de que o que ocorre no Enscombe não pode julgar-se de acordo com normas generais... É uma mulher tão caprichosa! E tudo depende dela...

-Mas quer muito a seu sobrinho: é seu preferido, não? Agora bem, de acordo com a idéia que eu tenho da senhora Churchill, seria mais natural que enquanto ela não faz nenhum sacrifício pelo bem-estar de seu marido, a quem o deve todo, deixasse-se governar com freqüência por seu sobrinho, a quem não deve nada absolutamente, até sem deixar de lhe fazer vítima de seus constantes caprichos.

-Minha querida Emma, tem um caráter muito doce para compreender a alguém que deixa-o muito mau, e poder fixar as leis de sua conduta; deixa-a que seja como quero. De o que eu não duvido é de que em ocasiões seu sobrinho exerce sobre ela uma considerável influência; mas pode ocorrer que lhe seja totalmente impossível saber de antemão quando poderá exercê-la.

Emma escutava, e logo disse fríamente:

-Não convencerei a menos que venha.

-Em certas questões pode ter muita influência -seguiu dizendo a senhora Weston - e em outras muito pouca; e entre estas últimas que estão fora de seu alcance, é mais que provável que figure isso de agora de poder separar-se deles para vir a nos visitar.

 

O senhor Woodhouse não demorou para reclamar seu chá; e quando o teve bebido se mostrou disposto a retornar a sua casa; e o único que conseguiram as três mulheres que estavam com ele foi lhe distrair, lhe fazendo esquecer que era já tarde, até que fizeram sua aparição outros homens. O senhor Weston era uma pessoa faladora e jovial, e muito pouco amiga de deixar ir a seus convidados a uma hora muito temprana; mas por fim todos foram passando à sala de estar. O senhor Elton, que parecia de muito bom humor, foi um dos primeiros que deixou o comilão pelo salão. A senhora Weston e Emma estavam sentadas no sofá, uma ao lado da outra. Ele imediatamente lhes aproximou e quase sem lhes pedir permissão se sentou entre ambas.

Emma, que estava também de bom humor pela notícia da iminente chegada do senhor Frank Churchill, estava disposta a esquecer o enojosamente inoportuno que havia sido o senhor Elton e a mostrar-se com ele tão atenta como ao princípio, e quando Harriet se converteu no primeiro tema de conversação, se dipuso a lhe escutar com a mais cordial de seus sorrisos.

O senhor Elton se mostrou muito inquieto sobre o estado de sua linda amiga... sua linda, adorável, simpática amiga.

-Sabe você algo novo? teve alguma notícia dela desde que estamos em Randalls? Estou muito intranqüilo... tenho que confessar que esta enfermidade sua me alarme muitíssimo...

E neste tom seguiu falando durante um bom momento, muito em seu ponto, sem esperar que respondessem-lhe, realmente preocupado por aquela dor de garganta tão maligno; e assim chegou a captar-se de novo todas as simpatias da Emma.

Mas pouco a pouco a coisa degenerou em algo distinto; de repente deu a impressão de que se estava tão preocupado pela malignidad daquela dor de garganta era mais pela Emma que pelo Harriet... que mais que o que a doente se recuperasse de seu mau, inquietava-lhe o que este não fora contagioso. Rogou encarecidamente a Emma que se abstivera de visitar a seu amiga, pelo menos por agora... insistindo em que prometesse a ele que não se expor a aquele perigo até que ele tivesse falado com o senhor Perry e conhecesse a opinião do médico; e embora Emma tentou tomar-lhe a brincadeira, e fazer que a questão voltasse para seus leitos normais, não houve modo de pôr fim a sua extremada solicitude por ela. sentia-se molesta. Era manifesto -e ele não fazia nenhum esforço por ocultá-lo- que fazia como se estivesse apaixonado por ela, em vez de estar o do Harriet; uma amostra de inconstância, que de ser verdade, resultava a coisa mais desprezível e abominável do mundo. E a Emma custava esforços conservar a calma. O senhor Elton se voltou para a senhora Weston para implorar sua ajuda.

-me ajude, o suplico; ajudará-me você a convencer à senhorita Woodhouse de que não vá a casa da senhora Goddard até que tenhamos a segurança de que a enfermidade da senhorita Smith não é contagiosa? Não estarei tranqüilo até que não me prometa que não vai ali... Não quer você usar de sua influência para conseguir lhe arrancar à senhorita Woodhouse esta promessa? Tanto como se preocupa com os demais -seguiu dizendo- e tão pouco que se cuida de si mesmo! Queria que esta noite me ficasse em casa para me cuidar um resfriado, e agora não quer me prometer que não se expor a contagiar uma perigosa inflamação de garganta... Parece-lhe razoável esse proceder, senhora Weston? você julgue mesma. Não tenho certo direito a me queixar?

Estou seguro de que é você muito pormenorizada para não me ajudar nesta empresa.

Emma viu a surpresa da senhora Weston e compreendeu que esta devia ser maiúscula ante aquelas frases, que por seu sentido e pela maneira em que se haviam dito faziam supor que o senhor Elton se atribuía mais direito que ninguém a interessar-se por ela; e quanto a ela mesma estava muito encolerizada e ofendida para poder dizer algo sobre a questão. Quão único fez foi lhe olhar fixamente; um olhar que acreditou bastaria para lhe devolver o bom julgamento; e logo, levantando do sofá foi sentar se em uma cadeira ao lado de sua irmã, dedicando a esta toda sua atenção.

Mas Emma não teve ocasião de observar o efeito que produzia no senhor aquele Elton desprezo, já que imediatamente a atenção de todos se concentrou em outro assunto; já que o senhor John Knightley entrou na estadia, depois de ter estado observando o tempo que fazia, e lhes espetou a notícia de que tudo estava talher de neve e de que ainda seguia nevando copiosamente entre violentas rajadas de vento; e concluiu com estas palavras dirigidas ao senhor Woodhouse:

-Será um começo muito animado para a primeira de suas visitas deste inverno. Algo novo para seu chofer e os cavalos ter que abrir-se passo em meio de uma tormenta de neve.

A consternação havia tornado silencioso ao pobre senhor Woodhouse; mas todos os demais tinham algo que dizer. Uns estavam assustados, outros não, mas todos tinham alguma pergunta que fazer ou algum consolo que oferecer. A senhora Weston e Emma tentaram lhe animar por todos os meios, distraindo sua atenção das palavras de seu genro, que seguia implacável em são de triunfo:

-Eu estava admirado de sua valentia -disse- ao arriscar-se a sair com um tempo assim, porque é obvio que já via você que não ia demorar muito em nevar. Todo o mundo via que estava a ponto de desatar um temporal de neve. Seu valor foi admirável;

e confio em que poderemos voltar para casa sãs e salvos. Embora neve durante uma ou duas horas mais, não acredito que os caminhos fiquem intransitáveis; e temos dois carros;

se um tomba no descampado do prado comunal, sempre podemos recorrer ao outro.

Confio em que antes de meia-noite todos estaremos de retorno no Hartfield sãs e salvos.

O senhor Weston, também triunfalmente, mas por outros motivos, confessava que já fazia momento que se deu conta de que estava nevando, mas que se não havia dito nada tinha sido para não intranqüilizar ao senhor Woodhouse, que assim tivesse tido uma desculpa para ir-se em seguida. Quanto ao de que tivesse cansado ou estivesse a ponto de cair tanta neve que impedisse sua volta, não era mais que uma brincadeira; o que temia era que não encontrassem dificuldades para retornar. O que ele desejava era que os caminhos fossem impraticáveis para poder retê-los a todos no Randalls; e com boa vontade estava seguro de que se encontraria emprego para todo mundo; e disse a sua esposa que supunha que estava de acordo com ele em que, com um pouco de engenho, podia alojar-se a todo mundo, o qual ela o certo é que não sabia como ia conseguir se, já que sabia que na casa não havia mais que duas habitações restantes.

-O que vamos fazer, querida Emma... o que vamos fazer? -foi a primeira exclamação do senhor Woodhouse, e tudo o que pôde dizer por um bom momento.

Olhou a sua filha, como em demanda de auxílio; e quando esta lhe tranqüilizou lhe recordando quão bons eram os cavalos, a perícia do James e a confiança que devia lhe inspirar ter a tantos amigos a seu redor, reanimaram-lhe um pouco.

O susto de sua filha maior foi semelhante ao dele. O horror de ficar bloqueados em Randalls enquanto seus filhos estavam no Hartfield dominou sua imaginação; e pensando que os caminhos seriam só transitáveis para gente muito decidida, mas em um estado que não admitia mais demora, propôs rapidamente que seu pai e Emma ficassem em Randalls, enquanto ela e seu marido ficassem em marcha imediatamente desafiando todas as possíveis acumulações de neve e temporárias que pudessem lhes sair ao passo.

-Parece-me, querido, que o melhor que poderíamos fazer é que guiasse você mesmo o carro -disse-; estou segura de que esse modo conseguiremos chegar a casa se sairmos agora mesmo; e se tropeçarmos com algum obstáculo insuperável, eu posso baixar e seguir andando. Não tenho nenhum medo. Não me importaria ir andando a metade do caminho.

Quando chegássemos a casa trocaria os sapatos; já sabe que isso é uma coisa que não dá-me frio.

-Seriamente? -replicou seu marido-. Então, minha querida Isabella, isso é o mais extraordinário do mundo, porque em geral todo te dá frio. Ir andando até casa...!

Pois me parece que leva bom calçado para voltar andando. Nem os cavalos acredito que possam chegar.

Isabella se voltou para a senhora Weston com a esperança que aprovasse seu plano. A senhora Weston não podia por menos de aprová-lo. Isabella então se voltou para Emma; mas Emma não se resignava de tudo a abandonar a esperança de que todos pudessem ir-se; e estavam ainda discutindo a questão quando o senhor Knightley, que havia saído da estadia imediatamente depois de que seu irmão tivesse dado as primeiras notícias a respeito da neve, retornou e lhes disse que tinha saído para examinar de perto a situação e que podia lhes assegurar que não havia a menor dificuldade de que retornassem a suas casas quando quisessem, então ou ao cabo de uma hora. Tinha ido até além da grade e tinham andado um trecho do caminho em direção ao Highbury... em os lugares de maior espessura a neve não passava de meia polegada de grossura... em muitos lugares logo que havia neve suficiente para branquear a terra; naqueles momentos caíam uns quantos flocos, mas as nuvens se estavam dispersando e tudo parecia anunciar que a tormenta não demoraria para cessar. Tinha estado falando com os choferes e ambos estiveram de acordo com ele em que não havia nada que temer.

Estas notícias foram um grande alívio para a Isabella, como o foram também para a Emma, principalmente por causa de seu pai, quem imediatamente se tranqüilizou tudo o que se o permitiram seus nervos; mas o alarme que se produziu não lhe permitia seguir sentindo-se a gosto enquanto continuasse no Randalls. Estava convencido de que pelo momento não havia nenhum perigo em retornar a sua casa, mas ninguém podia lhe convencer de que não havia nenhum perigo em seguir ali; e enquanto uns e outros seguiam discutindo suas respectivas opiniões, o senhor Knightley e Emma resolveram o caso em umas poucas frases diretas:

-Seu pai não estará tranqüilo; por que não se vão vocês?

-Eu estou disposta se os outros me seguirem.

-Quer que chame os criados?

-Sim, por favor.

Soou a campainha e se deram ordens para que se dispor os carros. Ao cabo de uns minutos Emma pensou com alívio que não demorariam para deixar em sua casa ao fastidioso acompanhante que tinha tido aquela noite -talvez ali recuperaria a sensatez e a serenidade-, enquanto que seu cunhado voltaria para seu estado normal de calma e equilíbrio uma vez terminada aquela árdua visita.

Chegaram os carros; e o senhor Woodhouse, sempre a pessoa mais solícitamente cuidada em tais ocasiões, foi acompanhado até o seu pelo senhor Knightley e o senhor Weston; mas nada do que um e outro lhe disseram pôde evitar que voltasse para assustar-se um pouco ao ver a neve que tinha cansado e ao dar-se conta de que a noite era muito mais escura do que ele tinha suposto.

-Temo-me que vamos ter uma má viagem de volta. Não quisesse que a pobre Isabella assustasse-se. E a pobre Emma, que virá no carro de atrás. Não sei o que é o melhor que poderíamos fazer. Os dois carros teriam que ir tão perto um do outro como fora possível.

Falaram com o James e lhe ordenaram que fora muito devagar e que esperasse ao outro carro.

Isabella subiu detrás de seu pai; John Knightley, esquecendo que ele não pertencia a aquele grupo, subiu com toda naturalidade detrás de sua esposa; de modo que Emma se encontrou escoltada e seguida até o segundo carro pelo senhor Elton, dando-se conta de que a porta ia fechar se atrás deles e de que foram fazer a viagem sozinhas. antes de que despertassem as suspeitas daquela noite com o fastidioso incidente de pouco antes, a Emma a viagem lhe tivesse resultado agradável; lhe tivesse falado do Harriet, e os três quartos de milha lhe tivessem parecido apenas um quarto. Mas agora tivesse preferido que a situação tivesse sido outra. Tinha a impressão de que seu acompanhante havia abusado do excelente vinho do senhor Weston, e tinha a segurança de que não deixaria de dizer necedades impertinentes.

Para lhe impor o máximo respeito possível com a frieza de suas maneiras, dispôs-se imediatamente a lhe falar com extremada calma e seriedade do tempo e da noite; mas logo que tinha começado, logo que haviam transposto a grade em detrás do outro carro, quando o senhor Elton lhe tirou a palavra da boca, agarrou-lhe a mão, solicitou sua atenção e começou a lhe declarar seu apaixonado amor; aproveitando aquela oportunidade inmejorable, manifestou-lhe «sentimentos que deviam ser já bem conhecidos dela», sua esperança, seu temor, sua adoração... Estava disposto a morrer se lhe rechaçava...; mas confiava em que o profundo de seu afeto, o insuperado de seu amor, o ardente de sua paixão, tinham que encontrar certa correspondência nela, e, em resumo, propunha-lhe que lhe aceitasse formalmente logo que fora possível. Assim estavam as coisas. Sem nenhum escrúpulo, sem nenhuma desculpa, sem que ao parecer se sentisse responsável pela menor infidelidade, o senhor Elton, o apaixonado pelo Harriet, estava declarando-se a Emma. Esta tentou lhe parar os pés; mas foi em vão; ele estava disposto a seguir adiante e a dizê-lo tudo. A pesar do zangada que estava, ao pensar na situação em que se via lhe fez conter-se ao lhe responder. Pensava que pelo menos a metade daquela loucura devia atribuir-se à embriaguez, e que portanto era de esperar que fosse algo passageiro. Assim, em um tom entre grave e zombador que confiava seria mais adequado para seu turvo estado mental, replicou:

-Assombra-me você, senhor Elton. É para mim a quem se dirige você? está-se você confundindo... está-me tomando por meu amiga... se tiver algum recado para a senhorita Smith, o transmitirei muito gostosa; mas, por favor, recorde que eu não sou ela.

-A senhorita Smith? Um recado para a senhorita Smith? O que quer você dizer?

E repetia as palavras dela com tal convicção, dando amostras de tal estupor, que Emma não pôde por menos que replicar com viveza:

-Senhor Elton, seu proceder é totalmente inexplicável. E só posso justificar o de um modo: não está você em seu são julgamento; do contrário não me falaria desta maneira, nem aludiria ao Harriet como acaba de fazê-lo. Domine-se e não diga nada mais, e eu tentarei esquecer suas palavras.

Mas o vinho que tinha bebido o senhor Elton lhe tinha dado ânimos, mas não lhe havia turvado a cabeça. Sabia perfeitamente o que estava dizendo; e depois de protestar com veemência, considerando como altamente ofensivas as suspeitas da Emma, e de aludir embora muito de passada ao respeito que lhe merecia a senhorita Smith... embora afirmando que não podia por menos de assombrar-se de que a mencionasse naqueles momentos, voltou a insistir sobre seu grande amor, apressando a jovem para que lhe desse uma resposta favorável.

Emma se ia dando conta de que as palavras de seu interlocutor mais que à embriaguez eram devidas à inconstância e à presunção; e fazendo já menos esforços para ser cortês, replicou:

-Já me é impossível seguir duvidando. manifestou-se você tal qual é. Senhor Elton, não encontro palavras para expressar meu assombro. depois de seu proceder, do que eu hei sido testemunha, durante este último mês, em relação à senhorita Smith... depois das cuidados que eu vi dia a dia, como você lhe prodigalizava... dirigir-se a mim com estas pretensões, asseguro-lhe que me parece uma falta de formalidade que nunca tivesse acreditado possível em você. me crie que não posso estar mais longe de me congratular de ser o objeto de seu interesse.

-Santo Céu! -exclamou o senhor Elton-. Mas o que quer você dizer com isto? A senhorita Smith! Em nenhum momento de minha vida pensei na senhorita Smith... jamais emprestei-lhe a menor atenção... a não ser como amiga de você; nunca manifestei o menor interesse por ela exceto pelo fato de ser amiga de você. Se ela acreditou outra coisa, foram suas próprias ilusões as que a enganaram, e eu o lamento muito...

muitíssimo. Mas a verdade é que a senhorita Smith... OH, senhorita Woodhouse! Quem pode pensar na senhorita Smith quando se tem perto à senhorita Woodhouse? Não, o dou minha palavra de honra de que não se trata de uma falta de formalidade. Eu só hei pensado em você. Asseguro-lhe que nunca emprestei a menor atenção a ninguém mais. Desde faz já muitas semanas, tudo o que eu fazia ou dizia não tinha outro objeto que manifestar minha adoração por você. Não pode você pô-lo em dúvida! Não!... -em um tom que pretendia ser insinuante- e estou seguro de que você se deu conta disso e me compreendeu...

Seria impossível descrever quais eram os sentimentos da Emma ao escutar tudo isto...

que lhe produzia uma irritante sensação de desgosto e contrariedade. Ficou muito afligida para poder lhe dar uma resposta imediata, e a breve pausa de silêncio que seguiu deu novos ânimos ao exaltado senhor Elton, quem tentou voltar a lhe agarrar a mão enquanto exclamava jubilosamente:

-Encantadora senhorita Woodhouse! me permita que interprete este significativo silêncio, com o que você reconhece que faz já muito tempo que me havia compreendido.

-Não! -exclamou Emma-. Este silêncio não reconhece semelhante coisa. Não só não hei podido estar mais longe de lhe compreender a você, mas sim até este mesmo momento tinha estado completamente equivocava respeito a suas intenções. E pelo que se refere, lamento muitíssimo que tenha estado alimentando essas esperanças... Porque nada podia ser mais contrário a meus desejos... O afeto que demonstrava ter a meu amiga Harriet... o modo em que o fazia a corte (pelo menos assim o parecia), causavam-me um grande prazer, e lhe desejava de todo coração o maior êxito; mas se tivesse suposto que o que lhe atraía no Hartfield não era ela, imediatamente tivesse pensado que se equivocava você ao nos visitar com tanta freqüência. Tenho que acreditar que jamais sentou você nenhum interesse particular pela senhorita Smith? Que nunca pensou seriamente em ela?

-Nunca! -exclamou ele, sentindo-se ofendido a sua vez-; nunca, o asseguro. Eu, pensar seriamente na senhorita Smith! A senhorita Smith é uma jovem excelente; e me alegraria muito vê-la bem casada. Eu lhe desejo toda classe de venturas; e sem dúvida há homens que não teriam nada que objetar A... Mas não acredito que esteja a minha altura; parece-me que posso aspirar a algo melhor. Não tenho porquê pensar que não vou poder me casar com alguém de minha mesma posição para ter que me dirigir à senhorita Smith! Não... minhas visitas a Hartfield não tinham outro objetivo que você; e como ali me respirava...

-Que lhe respirava? Que eu lhe respirava? Temo-me que se você haja equivocado por completo ao supor semelhante coisa. Eu só lhe considerava como um admirador por mim amiga. Sob qualquer outro ponto de vista, não tivesse podido ser você mais que um conhecido como qualquer outro. Lamento-o muito seriamente; mas é melhor que se esclareceu este engano. De ter contínuo como até agora a senhorita Smith tivesse podido chegar a interpretar mal suas intenções; provavelmente sem advertir, como tampouco o tinha advertido eu, a grande desigualdade a que você dá tanta importância. Mas, uma vez esclarecido o assunto, tudo se reduz a uma decepção por parte de você, que, confio, não durará muito. No momento não tenho a menor intenção de me casar.

Ele estava muito zangado para responder; e o tom da Emma tinha sido muito cortante para convidar a novas súplicas; e ambos irritados e ofendidos, e profundamente molestos o um com o outro, tiveram que seguir juntos durante uns minutos mais, já que os temores do senhor Woodhouse lhes obrigavam a ir a um passo muito lento. Desde não haver estado tão encolerizados, a situação tivesse sido muito embaraçosa, mas a intensidade de suas emoções não dava lugar aos pequenos zigs-zags deste estado de ânimo. O carro enfiou o beco da Vicaría e se deteve, e eles inesperadamente se encontraram diante da porta da casa do senhor Elton, quem baixou sem pronunciar nenhuma palavra...

A Emma pareceu indispensável lhe desejar boa noite; e ele se limitou a corresponder a a cortesia fria e orgulhosamente; e a jovem, presa de uma indescritível confusão, seguiu seu caminho até o Hartfield.

Ali foi acolhida com grandes mostra de alegria por seu pai, quem tremia de medo ao pensar nos perigos que podia representar o que viesse sozinha do beco da Vicaría... e o dobrar aquela esquina cuja só idéia lhe horrorizava... e todo isso com o carro conduzido por mãos estranhas... por um chofer qualquer... não pelo James; e pareceu como se todos esperassem sua volta para que tudo começasse a partir perfeitamente; já que o senhor John Knightley, envergonhado de seu mau humor de antes, agora se desfazia em amabilidades e cuidados; mostrando-se particularmente solícito com seu sogro, até o ponto de parecer -já que não disposto a tomar com ele um bol de te advenha- pelo menos totalmente pormenorizado em relação às grandes virtudes desta bebida; e assim foi como o dia concluiu em paz e quietude para toda a família, exceto para Emma... que se achava tão turvada e nervosa que teve que fazer um grande esforço por mostrar-se alegre e fingir que emprestava atenção ao que se dizia; até que ao chegar a hora em que como de costume todos se retiraram a descansar, pôde permitir o alívio de refletir com calma.

 

UMA VEZ encaracolado o cabelo e despedida a criada, Emma ficou a meditar em seus desventuras... A verdade é que tudo tinha saído mau! Todos seus planos desfeitos, todas suas esperanças frustradas e de que modo! Que golpe para o Harriet! Isso era o pior de tudo. Todas as circunstâncias daquela questão eram penosas e humilhantes por um motivo ou outro; mas comparando-o mal que se feito ao Harriet, o resto carecia de importância; e Emma tivesse aceito gostosa haver-se equivocado ainda mais - haver-se fundo ainda mais no engano-, se ter que reprovar uma falta de critério ainda maior, com tal de que ela fora quão única pagasse por suas estupidezes.

-Se eu não tivesse convencido ao Harriet para que se inclinasse para ele, agora me seria mais fácil agüentá-lo tudo. Ele possivelmente tivesse redobrado suas pretensões respeito para mim...

mas pobre Harriet!

Como podia ter estado tão cega! E ele assegurava que nunca tinha pensado seriamente no Harriet... nunca! Tentou recapitular o ocorrido naquelas semanas; mas tudo o via confuso. Supôs que tinha uma idéia fixa e que tinha feito que todo o resto acomodasse-se a seu prejuízo. Entretanto, o modo de comportar do senhor Elton forzosamente tinha que ter sido ambíguo, incerto, pouco claro, ou do contrário ela não tivesse podido equivocar-se tanto.

O quadro! Como se tinha interessado por aquele quadro! E a charada! E cem detalhes mais...; todos pareciam apontar tão claramente ao Harriet...! Certamente que a charada com aquilo do «engenho»... embora por outra parte o dos «doces olhos»... O fato era que aquilo podia dizer-se de qualquer; era um embrulho de mau gosto e desgracioso.

Quem tivesse podido tirar algo em claro daquela tolice tão insípida?

Claro está que freqüentemente, sobre tudo ultimamente, Emma tinha notado que suas maneiras para com ela eram innecesariamente galantes; mas o tinha considerado como uma raridade dela, como um de seus exageros, uma amostra mais de sua falta de tato, de bom gosto, uma prova mais de que não sempre tinha alternado com a melhor sociedade; que a pesar do cortês de seu trato às vezes ignorava o que era a verdadeira distinção; mas até aquele mesmo dia, nunca nem por um momento tinha imaginado que todo aquilo significava algo mais que um respeito agradecido como amiga do Harriet.

Devia ao senhor John Knightley o primeiro vislumbre da verdadeira situação, a primeira notícia de que aquilo era possível. Era inegável que ambos os irmãos tinham o julgamento muito dado. Recordava o que o senhor Knightley lhe havia dito em certa ocasião sobre o senhor Elton, a prudência que lhe tinha aconselhado, a segurança que tinha de que o senhor Elton não renunciaria a umas bodas vantajosa; e Emma se ruborizava ao pensar que aquelas opiniões demonstravam um conhecimento muito major do caráter daquela pessoa que ao que ela tinha chegado. Era algo terrivelmente mortificante; mas o senhor Elton em muitos aspectos demonstrava ser justamente o contrário do que ela tinha acreditado;

orgulhoso, arrogante, cheio de vaidade; muito convencido de suas próprias excelências, e muito pouco preocupado pelos sentimentos de outros.

Contrariamente ao que está acostumado a ocorrer, o senhor Elton ao querer render comemoração a Emma tinha perdido toda estimativa ante os olhos da jovem. Sua declaração de amor e seus proposições não lhe serviram de nada. Ela não se sentiu adulada por esta predileção, e suas pretensões lhe ofenderam. O senhor Elton queria fazer umas bodas vantajosa e tinha o atrevimento de pôr os olhos nela, de fingir que estava apaixonado; mas do que estava totalmente segura é de que sua decepção não seria muito profunda, nem havia por que preocupar-se com ela. Nem em suas palavras nem em sua maneira de atuar havia verdadeiro afeto.

Grande abundância de suspiros e de palavras bonitas; mas Emma logo que podia conceber expressões, um tom de voz que tivessem menos que ver com o amor verdadeiro. Não tinha por que preocupar-se com lhe compadecer. Quão único ele queria era crescer e enriquecer-se;

e se a senhorita Woodhouse do Hartfield, a herdeira de trinta mil libras anuais de renda, não era tão fácil de conseguir como ele tinha imaginado, não demoraria para provar fortuna com outra jovem que só tivesse vinte mil, ou dez mil.

Mas... que ele falasse de que Emma lhe tinha «animado», que lhe supusera inteirada de suas intenções, aceitando suas deferências, em resumo, consentindo em casar-se com ele...

Isso significava que acreditava que ambos eram iguais em posição social e em inteligência!

Que olhava por cima do ombro a seu amiga, distinguindo cuidadosamente entre as categorias sociais que estavam por debaixo da sua, e que era tão cego para tudo o que estava por cima dele para imaginar-se que pôr os olhos nela não era nenhum atrevimento excessivo... Enfim, era algo revoltante!

Talvez não tinha direito a esperar que ele compreendesse o abismo que lhes separava em talento natural e em delicadezas de espírito. A simples ausência desta igualdade impedia que se desse conta disso; mas o que sim devia saber era que em fortuna e em posição social ela estava muito por cima. Devia saber que os Woodhouse, que procediam da ramo segundona de uma antiquísima família, achavam-se instalados no Hartfield desde fazia várias gerações... e que os Elton não eram ninguém. Certamente que as terras que dependiam do Hartfield não eram de uma grande extensão, já que constituíam só como uma espécie de racho da herdade do Donwell Abbey, a que pertencia todo o resto de Highbury; mas sua fortuna, que procedia de outras fontes, situava-lhes em uma posição que só cedia em importância a dos proprietários da mesma Donwell Abbey; e os Woodhouse fazia já tempo que eram considerados como uma das famílias mais distinguidas e estimadas daqueles contornos, aos que o senhor Elton tinha chegado fazia menos de dois anos para abrir-se caminho como pudesse, sem contar com outras amizades que comerciantes, e sem outra recomendação que seu cargo e suas maneiras corteses.

Mas tinha chegado a imaginar que Emma estava apaixonada por ele; evidentemente isso tinha sido o que lhe deu confiança; e detrás ter fantasiado um pouco pensando na pouca adequação que às vezes existia entre uns maneiras corteses e uma mente vaidosa, Emma, com toda honradez se viu obrigada a fazer alto e a admitir que se mostrou com ele tão complacente e tão amável, tão cheia de cortesias e de cuidados (caso que ele não se tivesse dado conta de qual era o verdadeiro móvel que a guiava) que podia autorizar a um homem cujas dotes de observação e bom critério não eram excessivos, como era o caso do senhor Elton, a imaginar-se que lhe distinguia com suas preferências. Se Emma se tinha enganado de tal modo a respeito dos sentimentos do jovem, não tinha muito direito a sentir saudades de que ele, cegado pelo interesse, também tivesse interpretado mau as intenções dela.

O primeiro engano e o mais grave de todos o tinha cometido ela. Era um disparate, uma grande equívoco empenhar-se em casar a duas pessoas. Era ir muito longe, fazer algo que não lhe incumbia, converter em frívolo algo que deveria ser sério, em artificioso o que deveria ser natural. Estava muito preocupada com todo aquilo e sentia vergonha de si mesma, e decidiu não voltar nunca mais a fazer nada parecido.

«fui eu -dizia-se a si mesmo- quem convenceu a pobre Harriet para que se sentisse atraída por esse homem. Se não tivesse sido por mim, nunca tivesse pensado nele; e certamente nunca tivesse pensado nele alimentando esperanças se eu não lhe houvesse assegurado que o senhor Elton se interessava por ela, porque Harriet é tão modesta e humilde como eu acreditava que era ele. OH! Se me tivesse contentado convencendo a de que não aceitasse ao jovem Martin! Nisso sim que não me equivoquei. Fiz bem; mas teria que me haver conformado com isso e deixar que o tempo e a sorte fizessem o resto. Eu estava-a introduzindo na boa sociedade e lhe dando ocasião de que alguém de mais categoria se sentisse atraído por ela; não deveria ter tentado nada mais. Mas agora, pobre moça, lhe acabou a quietude durante algum tempo. Só fui boa amiga a media; mas é que além da decepção que agora possa ter, não me ocorre ninguém mais que possa lhe convir de tudo... William Cox...? OH, não! Ao William Cox não posso lhe suportar... um abogadillo presunçoso..."

deteve-se para ruborizar-se e pôs-se a rir ao ver como reincidia; mas em seguida se pôs a refletir mais seriamente, embora com menos otimismo, a respeito do que havia ocorrido e o que podia e devia ocorrer. A penosa explicação que tinha que dar ao Harriet e tudo o que ia sofrer a pobre Harriet, além do violentas que foram ser para as duas as futuras entrevistas, as dificuldades de seguir com aquela amizade ou de romper, de dominar sua pena, dissimular seu ressentimento e evitar que se soubesse todo aquilo, bastaram para ocupá-la em melancólicas reflexões durante algum tempo mais, e por fim se deitou sem ter decidido nada, mas convencida de ter cometido uma terrível equívoco.

Emma, com seu temperamento juvenil e espontaneamente alegre, com a chegada do novo dia não podia deixar de sentir-se corajosa de novo, apesar dos sombrios pensamentos que a tinham dominado a noite anterior. A juventude e alegria da amanhã pareciam corresponder às de seu espírito, e exerciam sobre ele uma capitalista influência; e se suas penas não tinham sido o suficientemente graves para lhe impedir fechar os olhos, estes ao abrir-se acharam sem dúvida as penas mais aliviadas e as esperanças mais luminosas.

Pela manhã Emma se levantou melhor disposta para encontrar soluções do que se tinha deitado, mais resolvida a ver com bom ânimo os problemas que tinha que confrontar, e com mais confiança para sair graciosa deles.

Era um grande alívio que o senhor Elton não estivesse realmente apaixonado por ela e que não fora uma pessoa de extremada delicadeza a quem sentia ter que causar uma decepção... que Harriet não tivesse tampouco uma dessas sensibilidades superiores nas que os sentimentos são mais intensos e duradouros... e que não houvesse necessidade de que ninguém mais se inteirasse do que tinha passado, que tudo ficasse entre eles três, e sobre todo que seu pai não tivesse nem um momento de preocupação por tudo aquilo.

Estes eram pensamentos muito alentadores; e a espessa capa de neve que cobria a terra veio também em sua ajuda, já que naqueles momentos algo que pudesse justificar o que os três se mantiveram totalmente afastados os uns dos outros devia ser bem acolhida.

assim, o tempo lhe era francamente favorável; apesar de ser dia de Natal não podia ir à igreja. O senhor Woodhouse se preocupou muito se sua filha o tivesse tentado, e portanto Emma se evitava assim o suscitar ou reviver idéias desagradáveis e deprimentes. Como a neve o cobria tudo e a atmosfera se achava em este estado instável entre a geada e o degelo, que é o que menos convida a estar ao ar livre, e como cada manhã começava com chuva ou neve e ao entardecer voltava a gelar, durante muitos dias Emma teve o melhor pretexto para considerar-se como prisioneira em sua casa. Não podia comunicar-se com o Harriet mais que por escrito; não podia ir à igreja nenhum domingo, igual ao dia de Natal; e não precisava dar nenhuma desculpa para justificar a ausência do senhor Elton.

O tempo que fazia explicava perfeitamente que todo mundo se encerrasse em seu casa; e embora Emma confiava, e quase estava segura disso, que o senhor Elton se consolaria com o trato de alguma outra pessoa, era muito tranqüilizador ver que seu pai se achava tão convencido de que o vigário não se movia de sua casa, e de que era muito prudente para expor-se a sair; e lhe ouvir dizer ao senhor Knightley, a quem nenhum tempo podia impedir que lhes visitasse:

-Ah, senhor Knightley! por que não fica você em sua casa como o pobre senhor Elton?

Aqueles dias de reclusão foram muito gratos para todos -exceto para a Emma, que seguia com suas íntimas vacilações- já que este tipo de vida era muito do agrado de seu cunhado, cujo estado de ânimo era sempre de grande importância para os que lhe rodeavam;

o senhor Knightley, além de ter deixado todo seu mau humor no Randalls, durante o resto de sua estadia no Hartfield não tinha deixado de mostrar-se amável e contente. Estava sempre cheio de cordialidade e de deferências, e falava bem de todo o mundo. Mas a pesar de suas esperanças otimistas e do alívio que lhe proporcionava aquela trégua, Emma se sentia ameaçada pela idéia de que cedo ou tarde teria que dar uma explicação ao Harriet, e isso fazia impossível que a jovem se sentia totalmente tranqüila.

 

O senhor e a senhora John Knightley não ficaram no Hartfield por muito tempo mais. O tempo não demorou para melhorar o suficiente para que pudessem i-los que tinham que fazê-lo; e o senhor Woodhouse, como de costume, depois de ter tentado convencer a sua filha para que ficasse com todos os meninos, teve que ver partir para toda a família e voltar para suas lamentações sobre o destino da pobre Isabella... a pobre Isabella que passava-se a vida rodeada de pessoas a quem adorava, elogiando suas virtudes e sem ver nenhum de seus defeitos, e sempre inocentemente atarefada, podia considerar-se como um verdadeiro modelo de felicidade feminina.

Ao entardecer do mesmo dia em que eles se foram, chegou uma nota do senhor Elton para o senhor Woodhouse, uma larga, cortês e cerimoniosa nota, na qual, em meio dos maiores cumpridos, o senhor Elton anunciava «que ao dia seguinte pela manhã se propunha sair do Highbury para dirigir-se ao Bath, aonde, correspondendo às reiterados convites de uns amigos, comprometeu-se a passar umas quantas semanas, e lamentava imensamente que, devido a uma série de circunstâncias derivadas do mau tempo e de suas ocupações, o fora impossível despedir-se pessoalmente do senhor Woodhouse, de cujas amáveis cuidados guardaria sempre uma grata lembrança... e em caso de que o senhor Woodhouse tivesse algum encargo que lhe dar, cumpriria-o com muito prazer..."

Emma teve uma agradabilísima surpresa... A ausência do senhor Elton precisamente em aqueles dias era o melhor que tivesse podido desejar. Ficou agradecida por haver-se o ocorrido a idéia de partir, mas o que já não lhe parecia tão bem era o modo em que anunciava sua partida. Não podia ter mostrado seu ressentimento de um modo mais claro que limitando-se a ser cortês para com seu pai, sem citá-la a ela para nada. Nem sequer a mencionava nos cumpridos com que começava a carta... Seu nome não aparecia por nenhuma parte... E todo isso implicava uma mudança de atitude tão acusado, e a despedida, cheia de amáveis frases de gratidão, respirava tal ênfase que ao princípio Emma pensou que não deixaria de despertar suspeitas em seu pai.

E entretanto não foi assim... Seu pai estava muito absorto pela surpresa que o produziu uma viagem tão inesperada, e por seus temores de que o senhor Elton não pudesse chegar são e salvo, e não encontrou estranho o tom da carta; que por outra parte foi muito útil, já que lhes proporcionou um novo tema de reflexão e conversação durante todo o resto daquela solitária velada. O senhor Woodhouse falava de seus temores, enquanto que Emma, com sua habitual solicitude, fazia todo o possível por desvanecê-los.

Emma decidiu por fim informar ao Harriet do ocorrido. Segundo sua notícias já quase se tinha recuperado de tudo de seu resfriado, e era preferível que tivesse o maior tempo possível para refazer-se de seu outro mal antes de que retornasse o senhor Elton. assim, ao dia seguinte se dirigiu a casa da senhora Goddard para ter aquela penosa e necessária explicação; era forçoso que fora um momento difícil... Tinha que destruir todas as esperanças que ela mesma tinha estado alimentando com tanto afã... mostrar-se no ingrato papel da que tinha sido preferida... e reconhecer que se equivocou totalmente e que todas suas idéias sobre aquela questão tinham sido errôneas, como todas suas observações, todas suas convicções, todos os augúrios que ela tinha feito durante as últimas seis semanas.

A confissão renovou por completo na Emma o rubor de uns dias atrás... e ao ver as lágrimas do Harriet pensou que aquilo nunca poderia perdoar-lhe demostrando en todos los detalles un candor y una modestia que en aquellos momentos Harriet aceitou a realidade com muita têmpera... sem fazer nenhuma recriminação a ninguém... e demonstrando em todos os detalhes uma candura e uma modéstia que naqueles momentos tinham um grande valor ante os olhos de seu amiga.

Emma estava em uma boa disposição de ânimo para apreciar até o máximo a simplicidade e a modéstia; e tudo o que era afeto e compreensão, tudo o que deveria resultar tão atrativo, parecia-lhe estar de parte do Harriet, não da sua. Harriet não se acreditava com direito a queixar-se de nada. Ganhar o afeto de um homem como o senhor Elton lhe parecia uma distinção muito grande para ela... Nunca tivesse podido ser digna dele... E ninguém, exceto uma amiga tão parcial e tão carinhosa como a senhorita Woodhouse tivesse pensado que tal coisa fora possível.

Derramou abundantes lágrimas... mas sua aflição era tão autêntica, tão pouco afetada, que nenhuma outra atitude tivesse podido impressionar mais a Emma... e a escutava e tentava consolá-la recorrendo a todo seu afeto e a toda sua inteligência... aquela vez realmente convencida de que Harriet era muito superior a ela... e que de parecer-se mais a seu amiga conseguiria mais bem-estar e felicidade do que poderiam lhe proporcionar todo seu talento e toda sua sensibilidade.

Possivelmente já era muito tarde para propor-se ser ingênua e cândida; mas Emma se separou de seu amiga reafirmando-se em seu anterior propósito de ser humilde e discreta, e de refrear sua imaginação durante todo o resto de sua vida. Agora seu segundo dever, inferior tão somente às obrigações que tinha para com seu pai, era o de procurar o bem-estar de Harriet e lhe demonstrar seu afeto por algum outro meio melhor que o de lhe preparar umas bodas.

A levou ao Hartfield, lhe dando continua provas de seu carinho e esforçando-se por distrai-la e fazer que se divertisse, e valendo-se da conversação e da leitura para separar-se de seus pensamentos ao senhor Elton.

Já sabia que era preciso que transcorresse tempo para obter o que se propunha; e Emma se dava conta de que não era a mais indicada para opinar sobre essas questões em general nem para compenetrar-se muito com alguém que se sentisse atraída pelo senhor Elton em concreto; mas lhe parecia lógico pensar que à idade do Harriet, e uma vez extinta toda esperança, para quando retornasse o senhor Elton podia haver-se chegado já a um certo estado de serenidade que permitisse a ambos voltar a encontrar-se na comum rotina da amizade sem nenhum perigo de delatar seus sentimentos nem de acrescentá-los.

Harriet o consideraba_ como um homem totalmente perfeito, e seguia sustentando que não podia existir ninguém que pudesse comparar-se o nem física nem moralmente... e a verdade é que demonstrava estar muito mais apaixonada pelo que Emma tinha previsto; mas, a pesar de tudo, parecia-lhe uma coisa tão natural, tão inevitável ter que lutar contra uma inclinação não correspondida daquela classe, que não supunha que pudesse seguir sendo tão intensa durante muito mais tempo.

Se o senhor Elton a sua volta manifestava sua indiferença de um modo evidente e inequívoco, como Emma não duvidava que teria interesse em fazer, não acreditava que Harriet seguisse- empenhada em cifrar sua felicidade em lhe ver ou lhe recordar.

O fato de que os três estivessem tão arraigados, tão profundamente arraigados no mesmo lugar, era um mal para todos e cada um deles. Nenhum dos três podia trocar de residência nem cabia outra possibilidade de eleição no trato social. Era inevitável que se encontrassem uns com outros, e tinham que compor-lhe como pudessem.

Harriet além disso tinha pouca sorte pelo ambiente que havia entre suas companheiras do pensionato da senhora Goddard, já que o senhor Elton era objeto de adoração por parte de todas as professoras e alunas maiores da escola; e Hartfield era o único lugar em onde podia ter ocasião de ouvir falar dele com fria serenidade ou com cru realismo.

Onde se tinha produzido a ferida ali devia ser curada, se é que era possível; e Emma se dava conta de que até que não visse seu amiga em vias de cura não poderia recuperar a verdadeira paz.

 

O senhor Frank Churchill não se apresentou. Quando o tempo famoso se foi aproximando, os temores da senhora Weston se viram justificados com a chegada de uma carta de desculpa. No momento, «com grande pesar e contrariedade por sua parte», era-lhe impossível lhes visitar; mas «confiava em que mais adiante, ao cabo de não muito tempo, pudesse ir a Randalls».

A senhora Weston teve um grande desgosto... de fato um desgosto muito maior que o de seu marido, apesar de que sempre jovem; mas os temperamentos muito veementes, até quando sempre põem muitas esperanças no futuro, não sempre ao sentir-se defraudados experimentam uma depressão de ânimo proporcionada a suas ilusões faltadas.

Logo se esquecem de sua decepção, tinha tido muita menos confiança. que ele em chegar a ver o e voltam a alimentar novas esperanças. O senhor Weston permaneceu desconcertado e causar pena durante meia hora; mas logo começou a pensar que se Frank visitava-lhes ao cabo de dois ou três meses todo seria melhor; a estação do ano seria melhor e o tempo também; e que, sem nenhuma classe de dúvidas, então poderia ficar com eles muito mais tempo que se tivesse vindo por janeiro.

Tais pensamentos lhe devolveram rapidamente o bom humor, enquanto que a senhora Weston, que tendia mais à desconfiança, só previa novas desculpas e novos adiamentos; e além da preocupação que sentia pelo que seu marido ia sofrer, sofria também muito mais por ela mesma.

Naqueles dias Emma não estava em disposição de preocupar-se muito porque o senhor Frank Churchill postergasse sua visita, a não ser pela contrariedade que isso causava em Randalls. Agora não tinha nenhum interesse especial em lhe conhecer. Preferia estar tranqüila e afastar-se da tentação; mas, apesar disto, como preferia mostrar-se diante de todos como se nada tivesse ocorrido, não deixou de manifestar tanto interesse pelo fato, e de tentar aliviar a decepção dos Weston, como devia corresponder à amizade que os unia.

Ela foi primeira em anunciá-lo ao senhor Knightley; e se lamentou tudo o que era de esperar (ou talvez, por estar fingindo, algo mais do que era de esperar) o proceder de os Churchill, ao reter o jovem com eles. Logo fez uma série de comentários nos que pôs mais interesse do que em realidade sentia a respeito de quão benéfico seria a incorporação de um jovem como ele a uma sociedade tão limitada como a do condado de Surrey; a ilusão que produziria o ver uma cara nova; a festa que seria para tudo Highbury sua só presença; e terminou fazendo novas reflexões sobre os Churchill, o qual lhe levou a dissentir abertamente da opinião do senhor Knightley; e com íntimo regozijo por sua parte se deu conta de que estava defendendo justamente o contrário de seu verdadeira opinião, e utilizando contra si mesmo os argumentos da senhora Weston.

-É muito provável que os Churchill tenham parte de culpa -disse o senhor Knightley fríamente-; mas estou quase seguro de que ele tivesse podido vir se tivesse querido.

-Não sei por que supõe você isso. £1 sente grandes desejos de vir; são seu tio e sua tia os que não lhe deixam.

-Eu não posso acreditar que se ele se empenhar não lhe seja possível vir. É muito inverossímil acreditar uma coisa assim sem ter nenhuma prova.

-Que estranho é você! O que tem feito o senhor Frank Churchill para lhe fazer supor que é um filho desnaturado?

-Eu não suponho que seja um filho desnaturado, nem muitíssimo menos; o único que digo é que suspeito que lhe ensinaram a acreditar-se que está por cima de seus parentes e a preocupar-se muito pouco de tudo o que não lhe represente um prazer, por ter vivido com umas pessoas que sempre lhe deram exemplo disto. É muito mais natural do que fora de desejar que um jovem criado entre pessoas que são orgulhosas, amantes da vida dada de presente e egoístas, seja também orgulhoso, amante da vida dada de presente e egoísta. Se Frank Churchill tivesse querido ver seu pai as tivesse engenhado para vir entre setembro e janeiro. Um homem a sua idade... Que idade tem? Vinte e três ou vinte e quatro anos?... A essa idade não pode deixar de contar com recursos para fazer uma coisa assim. Não é possível.

-Isso é fácil de dizer, e você que nunca dependeu que ninguém o encontra muito natural. Você, senhor Knightley, é quem menos pode opinar sobre as dificuldades que surgem quando dependemos de alguém. Não sabe o que é ter que haver-lhe com certos caracteres.

-É inconcebível que um homem de vinte e três ou vinte e quatro anos careça de liberdade moral ou física para fazer uma coisa assim. Dinheiro não lhe falta... e tempo livre tampouco. Pelo contrário, sabemos que dispõe em abundância de ambas as coisas e que as esbanja alegremente como um dos maiores folgazões do reino. Continuamente ouvimos dizer dele que está em tal ou qual balneário. Recentemente estava no Weymouth. Isso demonstra que pode separar-se dos Churchill quando quer.

-Sim, há ocasiões em que pode.

-E estas ocasiões são sempre que criar que vale a pena; sempre que se sente atraído por alguma diversão.

-Não podemos julgar a conduta de ninguém sem conhecer intimamente sua situação. Ninguém que não tenha vivido no seio de uma família pode dizer quais são as dificuldades com que pode encontrar-se qualquer dos membros desta família. Teríamos que conhecer Enscombe, e além disso o caráter da senhora Churchill, antes de decidir aproxima pelo que pode fazer seu sobrinho. Provavelmente haverá ocasiões nas que poderá fazer muitas mais costure que em outras.

-Emma, há algo que um homem sempre pode fazer se quiser: cumprir com seu dever;

não valendo-se de artimanhas e de astúcia, a não ser só com energia e decisão. O dever de Frank Churchill é dar esta satisfação a seu pai. Ele sabe que é assim, como o demonstram suas promessas e suas cartas; e se tivesse verdadeiros desejos, poderia fazê-lo. Um homem de sentimentos retos diria imediatamente à senhora Churchill, de um modo singelo e resolvido: «Em benefício seu me encontrarão sempre disposto a sacrificar um gosto ou um prazer; mas tenho que ir ver meu pai imediatamente. Sei que agora ia a lhe doer muito uma falta de consideração como esta. portanto, amanhã mesmo sairei para o Randalls...» Se lhe houvesse dito isto no tom decidido que corresponde a um homem, não se houvessem oposto a que se fora.

-Não -disse Emma, rendo-; mas talvez se houvessem oposto a que voltasse. Não podemos falar assim de um jovem que depende completamente de outros... Ninguém exceto você, senhor Knightley, consideraria possível uma coisa assim. Mas não tem você ideia do que é preciso fazer em situações nas que você nunca se encontrou. O senhor Frank Churchill soltando um discurso como esse a seu tio e a sua tia que lhe criaram e que lhe mantêm... !

De pé em meio da habitação, suponho, e elevando a voz tudo o que pudesse! Como pode imaginar que seja possível obrar assim?

-me crie, Emma, a um homem de coração não lhe pareceria muito difícil. daria-se conta de que estava em seu direito; e o lhes falar deste modo (certamente, como débito falar um homem de critério, de uma maneira adequada) seria-lhe mais benéfico, o elevaria mais em sua consideração, reafirmaria melhor seus interesses ante as pessoas de quem depende, que toda uma série de subterfúgios oportunistas. Sentiriam por ele não só afeto, mas também respeito. dariam-se conta de que podiam confiar nele; que o sobrinho que cumpria seu dever para com seu pai, também o cumpriria para com eles; porque eles sabem, como sabe ele e como todo mundo deve sabê-lo, que tem o dever de fazer esta visita seu pai; e enquanto se valem dos meios mais baixos para i-la postergando, em o fundo não podem ter a melhor opinião dele por submeter-se a seus caprichos. Um proceder reto inspira respeito a todo mundo. E se ele obrasse deste modo, de acordo com os bons princípios, com firmeza e com perseverança, seus mesquinhos espíritos se inclinariam ante sua vontade.

-Duvido-o. lhe parece muito fácil fazer que se inclinem os espíritos mesquinhos;

mas quando se trata de gente rica e autoritária, essa mesquinharia se torcedor de tal modo que se converte em tão pouco manejável como se não o fora. Imagino que se você, senhor Knightley, tal como é agora, pudesse de repente encontrar-se na situação do senhor Frank Churchill, seria capaz de dizer e fazer o que lhe recomenda; e é muito possível que conseguisse o que se propõe. Possivelmente os Churchill não soubessem o que lhe responder; mas é que você não teria que romper com uns arraigados hábitos de obediência e de sujeição; para quem os tem não pode ser tão fácil converter-se de logo em uma pessoa totalmente independente e não fazer nenhum caso dos direitos que eles podem reclamar para ter sua gratidão e seu afeto. É possível que ele se dê tanta conta como você de qual é seu dever, mas que nas circunstâncias concretas em que se acha não possa obrar como você o faria.

-Então é que não se dá tanta conta. Se não se vir com ânimos para pôr os meios, é que não está tão convencido como eu de que deve fazer este esforço.

-OH, não! Pense na diferença de situação e de costumes. Queria que tentasse você compreender o que pode chegar a sentir um jovem de sensibilidade ao opor-se abertamente às pessoas que durante sua infância e sua adolescência sempre considerou como seus superiores.

-Não será um jovem de sensibilidade, a não ser um jovem fraco, se esta for a primeira ocasião em que tem que chegar até o fim com uma decisão com a que cumpre com seu dever contra a vontade de outros. À idade que tem deveria ser já um costume nele o cumprir com seu dever, em vez de preocupar-se tão se por acaso é ou não oportuno fazê-lo. Posso admitir os temores de um menino, não os de um homem. À medida que ia adquirindo uso de razão, tivesse devido avivar-se e liberar-se de tudo o que fora indigno na autoridade que tinham sobre ele. Tivesse devido opor-se à primeira tentativa de seus tios para que desprezasse a seu pai. Se tivesse começado cumprindo com seu dever, agora não tropeçaria com nenhuma dificuldade.

-Nunca nos poremos de acordo sobre esta questão -exclamou Emma- e não tem nada de estranho. Eu não tenho absolutamente a impressão de que seja um jovem fraco; estou segura de que não o é. O senhor Weston não poderia estar tão cego, até tratando-se de seu próprio filho; só que é muito provável que esse jovem tenha um caráter mais dócil, mais condescendente, mais complacente do que você considera próprio de um homem perfeito. Estou quase segura de que é assim; e embora isso possa lhe privar de algumas vantagens, assegura-lhe em troca outras muitas.

-Sim; todas as vantagens de ficar muito tranqüilo em sua casa quando deveria estar em outro sítio, todas as vantagens de levar uma vida de diversões e de ociosidade, e de imaginar-se extraordinariamente hábil para encontrar desculpas para isso; assim pode sentar-se a escrever uma carta preciosa e cheia de floreios que contenha tantos protestos de afeto como falsidades, e convencer-se a si mesmo de que encontrou o melhor sistema do mundo para conservar a paz dentro de casa e evitar que seu pai tenha nenhum direito a queixar-se. Suas cartas eu não gosto absolutamente.

-Pois tem você gostos muito particulares. Ao parecer todo mundo as encontra bem.

-Suspeito que à senhora Weston não parecem tão bem. Não acredito que possam ser do agrado de uma mulher que tem tão bom julgamento e uma inteligência tão acordada como ela;

que ocupa o lugar de uma mãe, mas que não está cega pelo carinho das mães. Por ela sua visita ao Randalls é duplamente necessária, e deve sentir duplamente essa desatenção. Se ela tivesse sido uma pessoa de posição, estou seguro de que o senhor Frank Churchill já tivesse vindo ao Randalls; e então pouco valor tivesse tido o que viesse ou não. você crie que seu amiga não se feito ainda essas reflexões? Supõe você que freqüentemente não se diz todo isso para seus adentros? Não, Emma, esse jovem que você crie tão «amável»10 só o é em francês, não em inglês. Pode ser muito «aimable», ter muito bons maneiras, ser de trato muito agradável; mas carece do que em inglês entendemos por delicadeza para os sentimentos de outros; nele não há nada verdadeiramente «amiable».

-Está você empenhado em ter muito mau conceito dele.

-Eu? Absolutamente -replicou o senhor Knightley um pouco contrariado-; não tenho nenhum interesse em pensar mal dele. Estou tão disposto a reconhecer seus méritos como os de qualquer outro; mas os únicos dos que ouvi falar se referem somente a seu pessoa; que é alto e arrumado, e de maneiras finos e de trato agradável.

-Pois embora só pudesse elogiar-se o por isso, no Highbury seria inapreciável. Aqui não temos muitas ocasiões de encontrar a jovens de bom ver, bem educados e de trato agradável. Não podemos ser tão exigentes e pedir que o tenha tudo. imagina você, senhor Knightley, a sensação que produzirá sua chegada? Não se falará de outra costure nas paróquias do Donwell e Highbury; não se emprestará atenção a ninguém mais... não haverá outro objeto de curiosidade; todo mundo terá os olhos postos no senhor Frank Churchill;

não pensaremos em nada mais nem falaremos de nenhuma outra pessoa.

-Já me desculparão porque não me deslumbre tanto como vocês. Se me parecer que pode trocar, alegrarei-me de lhe conhecer; mas se só é um mequetrefe presunçoso e falador, pouco tempo e poucas reflexões vou dedicar lhe.

-A idéia que tenho dele é a de que sabe adaptar sua conversação ao gosto de cada pessoa, e que tem o dom e o desejo de resultar agradável a todo mundo. o falará de questões de agricultura; a mim de desenho ou de música; e assim fará com todos, já que tem conhecimentos gerais sobre todos os temas que lhe permitem seguir uma conversação ou iniciá-la, conforme requeiram as circunstâncias, e ter sempre algo interessante que dizer sobre todas as coisas; esta é a idéia que eu me faço dele.

-Pois a minha -disse vivamente o senhor Knightley- é que se resulta ser como você diz, será o sujeito mais insuportável que há sob a capa do céu... Vá...! Aos vinte e três anos pretendendo ser o primeiro de todos, o grande homem, que tem mais experiência do mundo, que sabe adivinhar o caráter de cada qual e aproveita o tema de conversação que interessa a cada um para exibir sua própria superioridade... Que prodigaliza adulações a mão direita e sinistra para que todos os que lhe rodeiam pareçam néscios comparados com ele... Minha querida Emma, quando chegar o momento, seu sentido comum não permitirá-lhe suportar a semelhante fantoche.

-Não vou dizer lhe nada mais dele -exclamou Emma-; porque você todo leva a mal.

Os dois temos prejuízos; você em contra e eu a favor; e não haverá modo de que nos ponhamos de acordo até que o tenhamos aqui.

-Prejuízos? Eu não tenho prejuízos.

-Pois eu sim, e muitos, e não me envergonho absolutamente dos ter. O afeto que tenho aos senhores Weston faz ter um forte prejuízo em favor dele.

-Esta é uma pessoa em que logo que penso uma vez ao mês -disse o senhor Knightley com um ar tão molesto que moveu a Emma a trocar imediatamente de conversação, a 10 Trocadilho intraduzível: «amiable», em inglês, significa «afetuoso», «atento», «carinhoso»;

«aimable», em francês, «amável», «cortês».

pesar de que não podia compreender por que se zangava tanto.

Mostrar tanta aversão por um jovem só porque parecia ser de caráter distinto ao dele era impróprio da grande amplitude de miras que Emma estava acostumada a reconhecer em ele; porque apesar da elevada opinião que ele tinha de si mesmo -defeito que Emma o reprovava freqüentemente-, antes de então ela nunca tivesse suposto nem por um momento que tal coisa lhe fizesse ser injusto para com os méritos de outra pessoa.

 

AQUELA manhã Emma e Harriet tinham saído a passear juntas, e a julgamento da Emma por aquele dia já tinham falado bastante do senhor Elton. Considerou que para o consolo do Harriet e a expiação de suas próprias faltas não havia por que falar mais daquele assunto; de modo que enquanto retornavam fazia todo o possível para trocar de conversação...; mas quando Emma acreditava ter obtido já seu propósito, voltou a falar-se do mesmo, e depois de falar durante um momento do que os pobres deviam padecer no inverno, e de receber por toda resposta um murmúrio quejumbroso -«O senhor Elton é tão bom com os pobres!»-, Emma acreditou que devia buscar-se outro meio de trocar de tema.

Precisamente estavam muito perto da casa em que viviam a senhora e a senhorita Bate, e decidiu-se às visitar para ver se a companhia de outras pessoas distraía ao Harriet.

Sempre havia uma boa razão para fazer esta visita: a senhora e a senhorita Bate eram muito aficionadas a receber gente; e Emma sabia que as escassas pessoas que pretendiam ver imperfeições nela a consideravam como negligente nesse aspecto, opinando que não contribuía tudo o que devesse aos limitados prazeres que podiam oferecer-se no povo.

O senhor Knightley lhe tinha feito muitas observações a respeito disso, e a própria Emma se dava conta também de que esta era uma de suas deficiências... mas nada podia impor-se à impressão de que era uma visita muito pouco grata... de que eram umas senhoras aburridísimas... e sobre tudo ao horror do perigo que corria de encontrar-se ali com a gente do meio cabelo do Highbury, que sempre estavam as visitando e portanto estranhas vezes se aproximava por aquela casa. Mas agora adotou a súbita decisão de não passar por diante de sua porta sem entrar... observando, quando o propôs ao Harriet, que segundo seus cálculos, naqueles dias estavam completamente a salvo de uma carta do Jane Fairfax.

A casa pertencia a uma família de comerciantes. A senhora e a senhorita Bate ocupavam a planta da sala de estar; e ali, na reduzida habitação que lhes servia de tudo, os visitantes eram recebidos com grande cordialidade e inclusive com gratidão; a pulcra e plácida anciã que se achava sentada no rincão mais quente com seu trabalho, queria inclusive levantar-se para ceder seu sítio à senhorita Woodhouse, e sua filha, mais ativa e faladora, seguia como sempre lhes afligindo com cuidados e amabilidades, lhes agradecendo a visita, preocupando-se com seus sapatos, interessando-se vivamente pela saúde do senhor Woodhouse, lhes dando boas notícias a respeito da de sua mãe, e lhes oferecendo o bolo que havia sobre o aparador.

-A senhora Penetre acaba de ir-se, veio só por dez minutos e foi tão boa que se há ficado uma hora conosco, e comeu um pedaço de bolo e foi tão amável que nos há dito que lhe tinha gostado muitíssimo; espero que a senhorita Woodhouse e a senhorita Smith quererão nos agradar e também o provarão.

Tendo renomado aos Penetre, era inevitável que não demorassem para mencionar ao senhor Elton; havia muita amizade entre eles, e o senhor Penetre tinha tido notícias do senhor Elton depois da marcha de este. Emma sabia o que ia vir; releriam-lhes a carta, falaria-se do tempo que fazia que estava ausente, de como freqüentava a vida de sociedade, de que aonde ele estava era sempre o preferido e de quão concorrido havia estado o baile do Mestre de cerimônias; e passou por tudo isso com muito tato, mostrando todo o interesse e fazendo todos os elogios que eram de rigor, e sempre adiantando-se a falar para evitar que Harriet se visse obrigada a dizer algo.

Emma já estava disposta a passar por tudo isto quando entrou na casa; mas supunha que uma vez tivessem terminado de fazer grandes elogios dele, não as importunariam com nenhum outro tema de conversação irritante, e que ficariam a divagar extensamente a respeito de todas as senhoras e senhoritas do Highbury e de suas partidas de cartas. O que não esperava era que Jane Fairfax acontecesse ao senhor Elton; mas a senhorita Bate inesperadamente iniciou esta conversação; abandonou bruscamente o tema do senhor Elton para passar aos Penetre, e por fim acabar falando de uma carta de sua sobrinha.

-OH, sim, senhor Elton!; hão-me dito que como dançar... A senhora Penetre dizia que há dançado muito nos salões do Bath... A senhora Penetre foi tão amável que se há ficado um momento conosco conversando do Jane; porque logo que chegar já perguntou por ela... já sabe você, Jane é sua preferida... Sempre que a temos conosco, a senhora Penetre não sabe mais que encher a de cuidados; claro que terá que dizer que Jane se merece isso e muito mais; de modo que logo que chegar, perguntou já por ela; e diz:

«Já sei que ultimamente não podem ter tido notícias do Jane, porque não são os dias em que ela escreve»; e então eu lhe respondi: «Pois olhe, sim que temos, esta mesma manhã recebemos carta dela.» Acredito que em minha vida vi a ninguém mais surpreso. «Mas o diz você seriamente?», há-me dito ela. «Vá, pois isto sim que não o esperava. me conte, me conte o que diz."

Emma teve que demonstrar sua cortesia dizendo com um sorriso de interesse:

-Faz tão pouco que tiveram notícias da senhorita Fairfax? Não sabe quanto me alegro. Suponho que estará bem.

-Muito obrigado. É você tão amável! -replicou a tia, feliz e enganada, enquanto se dedicava afanosamente a procurar a carta OH! Aqui está. Estava segura de que não podia andar muito longe; mas já vê, tinha posto em cima sem me dar conta a cesta da costura e tinha ficado completamente escondida, mas fazia tão pouco que a tinha tido nas mãos que estava quase segura de que tinha que estar sobre a mesa. Estava-a lendo à senhora Penetre, e quando ela se foi a tornei a ler a minha mãe... Faz-lhe tanta ilusão uma carta do Jane que nunca se cansa de ouvi-la ler; ou seja que eu já sabia que não podia andar muito longe, e aqui está, só que tinha ficado debaixo do cesto da costura... e já que é você tão amável que deseja ouvir o que diz... Mas, antes que nada, para que não se você forme uma má opinião do Jane tenho que desculpá-la por ter escrito uma carta tão curta... só duas páginas, já vê você, apenas duas páginas... e geralmente enche toda a folha e logo escreve cruzado por cima até a metade. Minha mãe sempre se estranha de que eu saiba decifrar tão bem sua letra. Quando abrimos uma carta, ela está acostumada dizer:

«Bom, Hetty, a ver se sacas algo em claro deste tabuleiro de damas»... verdade, mamãe?

E então eu lhe digo que se não tivesse a ninguém que o fizesse em seu lugar, ela sozinha conseguiria decifrar toda a carta até a última sílaba. E a verdade é que, embora a vista de minha mãe já não é tão boa como o era antes, com seus óculos ainda vê magnificamente bem, graças a Deus. E isso é uma grande coisa né? A verdade é que meu mãe tem uma vista excelente. Jane, quando está aqui, está acostumado a dizer: «Abuelita, estou segura de que para ver o que você vê agora, tem que ter tido uma vista prodigiosa... Os trabalhos tão delicados que tem feito você! Eu só desejo que quando tenha sua idade possa ver como você agora.» Como todo isso se disse extraordinariamente às pressas, a senhorita Bate se viu obrigada a fazer uma pausa para tomar fôlego; e Emma disse uma frase cortês a respeito das excelências da escritura da senhorita Fairfax.

-É você extremamente amável -replicou a senhorita Bate, muito agradecida-; e que o diga quem pode julgar tão bem como você, que tem uma letra tão preciosa! me crie, senhorita Woodhouse, que nenhum elogio pode nos deixar tão satisfeitas como o seu. Meu mãe não a ouviu; é um pouco surda, já sabe você. Mamãe -dirigindo-se a ela-, há ouvido o que a senhorita Woodhouse teve a amabilidade de dizer sobre a letra de Jane?

E Emma teve o prazer de ouvir repetir duas vezes mais seus insustanciales elogios antes de que a boa anciã pudesse entendê-lo. Enquanto, estudava a possibilidade de fugir da carta do Jane Fairfax sem parecer muito descortês, e já quase estava resolvida a escapar dali imediatamente dando qualquer desculpa corriqueira, quando a senhorita Bate se voltou de novo para ela e reclamou sua atenção.

-A surdez de minha mãe é algo que carece de importância, sabe você, não é quase nada.

Só levantando um pouco a voz e repetir o que for duas ou três vezes o ouça perfeitamente; mas o que ocorre é que está acostumada a minha voz. Mas é muito notável que sempre ouça melhor ao Jane que a mim. Jane fala de um modo tão claro! A pesar de tudo não vai encontrar a seu abuelita mais surda do que estava faz dois anos; que já quer dizer muito à idade de minha mãe... E aconteceram já dois anos inteiros, sabe você, da última vez que Jane nos visitou. É a primeira vez que passa tanto tempo sem que venha a nos ver, e como lhe dizia à senhora Penetre, agora sim que tudo o que façamos para nos obsequiá-la parecerá pouco.

-Esperam vocês à senhorita Fairfax para dentro de pouco? -OH, sim! Para a semana próxima.

-Seriamente? Não sabe quanto me alegro.

-Muito obrigado. É você muito amável. Sim, a semana próxima. Todo mundo se fica tão surpreso ao sabê-lo; e todo mundo demonstra tanto interesse por ela; estou segura de que se alegrará tanto de voltar a ver seus amigos do Highbury como eles de voltar a vê-la. Sim, na sexta-feira ou na sábado; não pode precisar a data porque o coronel Campbell necessitará o carro um desses dias. São tão bons que a acompanham até aqui mesmo! Mas sempre o fazem, sabe você? OH, sim, na próxima sexta-feira ou sábado.

Isto é o que diz na carta. Esta é a razão de que tenha escrito fora de tempo, como dizemos nós; porque se tudo tivesse sido normal, não tivéssemos tido notícias suas até na próxima terça-feira ou quarta-feira.

-Sim, isso era o que eu imaginava. Temia que hoje tivesse poucas possibilidades de saber algo novo da senhorita Fairfax.

-OH, é você tão amável! Não, não tivéssemos tido sua carta de não ser por esta circunstância especial de que vai vir dentro de tão pouco. Minha mãe está tão contente!

Porque esta vez ficará conosco pelo menos durante três meses. Três meses, isso é o que diz com toda segurança, e o que vou ter o gosto de lhe ler a você. Verá você, o que ocorre é que os Campbell se vão a Irlanda. A senhora Dixon convenceu a seus pais para que vão ver a agora. Eles não tinham intenção de ir a Irlanda até o verão, mas sua filha está tão impaciente por lhes voltar para ver... porque antes de casar-se, em outubro passado, nunca se tinha separado deles mais de uma semana, o qual faz que resulte-lhe muito penoso viver se não em outro reino, como ia dizer, pelo menos sim em um país diferente, de modo que lhe escreveu uma carta muito urgente a sua mãe... ou a seu pai, confesso que não sei a qual dos dois, mas agora o veremos pela carta do Jane... o escreveu pois em nome do senhor Dixon e no seu próprio lhes rogando que fossem a lhes ver o antes possível e lhes dizendo que iriam procurar ao Dublín e que de ali os levariam a sua casa de campo, Baly-craig, um lugar precioso, imagino eu. Jane ouviu falar muito de quão bonito é; o senhor Dixon é quem o há dito... não sei se alguém mais lhe tem feito elogios do lugar; mas é muito natural, sabe você?, que o gostasse de falar de sua casa quando cortejava a sua prometida... e como Jane saía muito a miúdo a passear com eles... porque o coronel e a senhora Campbell eram muito rigorosos em que sua filha não saísse a passear freqüentemente só com o senhor Dixon, e eu não lhes censuro absolutamente por pensar assim; e claro, ela ouvia tudo o que lhe contava à senhorita Campbell sobre sua casa da Irlanda; e me parece que Jane nos escreveu nos dizendo que os tinha ensinado uns desenhos do lugar, umas vistas que ele mesmo tinha desenhado. Acredito que é um jovem tão atento, o que se diz encantador. depois de lhe ouvir falar de seu país, Jane tinha muitas vontades de ir a Irlanda.

Naquele momento, no cérebro da Emma surgiu uma engenhosa e divertida suspeita referente ao Jane Fairfax, ao encantador senhor Dixon e ao feito de que ela não fora a Irlanda, e disse com a insidiosa intenção de descobrir algo mais:

-Devem estar vocês muito satisfeitas de que a senhorita Fairfax possa vir a lhes visitar nesta ocasião. Tendo em conta a íntima amizade que tem com a senhora Dixon, era lógico que vocês acreditassem que não poderia desculpar-se de acompanhar ao coronel e à senhora Campbell.

-Certo, muito certo; isso era o que sempre tínhamos temido; porque não nos houvesse gostado de tê-la tão longe de nós durante meses e meses... sem que tivesse podido vir se tivesse ocorrido algo. Mas já vê você que todo se resolveu da melhor maneira. Eles (refiro aos senhores Dixon) estavam empenhados em que acompanhasse ao coronel e à senhora Campbell; pode você ter a segurança; e Jane diz, como agora mesmo ouvirá você, que insistiram muitíssimo em que fizesse também esta viagem; o senhor Dixon não parece ser uma pessoa descuidada ou desatenta nestas coisas. É um jovem realmente encantador. Desde que salvou a vida ao Jane no Weymouth quando estavam passeando em barco e de repente uma das velas deu a volta bruscamente e ela houvesse cansado ao mar, e estava irremisiblemente perdida a não ser que ele, com uma grande presencia de ânimo, tivesse-a pego pelo vestido... (cada vez que o penso me dão tremores)...

Pois desde que nos inteiramos do que tinha ocorrido aquele dia sentimos um grande aprecio pelo senhor Dixon.

-E apesar da insistência de todos seus amigos e dos desejos que tinha de ver a Irlanda, a senhorita Fairfax prefere dedicar seu tempo a você e à senhora Bate, não?

-Sim... foi ela quem o decidiu, segundo sua livre vontade; e o coronel e a senhora Campbell opinam que faz muito bem, que isso é exatamente o que eles lhe houvessem aconselhado; e a verdade é que eles têm um especial interesse porque passe uma temporada respirando o ar de sua terra natal, porque ultimamente esteve um pouco delicada, e não tão bem de saúde como de costume.

-Não sabe quanto o sinto. Parece-me que é um critério muito acertado. Mas a senhora Dixon deve ter tido uma grande decepção. Conforme acredito a senhora Dixon não é uma beleza muito chamativa, verdade?; refiro-me a que não pode comparar-se em modo algum com a senhorita Fairfax, não?

-OH, não! É você muito amável ao dizer estas coisas... mas a verdade é que não. Não há comparação possível entre elas. A senhorita Campbell sempre foi uma jovem que não chamou absolutamente a atenção... mas, isso sim, muito elegante e de trato muito agradável.

Sim, isso é obvio.

-Jane pilhou um resfriado bastante forte, a pobrecilla, nos dia sete de novembro (já se o lerei a você), e ainda não se repôs. Verdade que é muito tempo para que siga ainda resfriada? até agora não nos havia dito nada porque não queria nos alarmar.

Sempre a mesma! Tão considerada! Mas pelo visto demora tanto em restabelecer-se que uns amigos que a querem tanto como os Campbell opinam que o melhor que pode fazer é vir aqui a respirar este ar que sempre lhe sinta tão bem; e não têm a menor dúvida de que passando três ou quatro meses no Highbury se reporá por completo... e não encontrando-se bem de tudo, certamente é muito melhor que venha aqui que vá a Irlanda... Ninguém vai cuidar quão melhor nós.

-Sim, parece-me que é a melhor decisão que tivessem podido tomar.

-De modo que ela virá na próxima sexta-feira ou na sábado, e os Campbell sairão da cidade caminho do Holyhead na segunda-feira seguinte... como já verá você pela carta do Jane.

Tudo foi tão precipitado! Já pode supor, querida senhorita Woodhouse, o preocupada que me tem todo isso. Se não fora pelas conseqüências de sua enfermidade...

mas me temo que vamos ver a muito piorada e com muito mau aspecto. A propósito, tenho que lhe contar algo que me ocorreu esta manhã e que hei sentido tanto... Eu sempre tenho o costume de ler primeiro para mim as cartas do Jane, antes das ler em voz alta para minha mãe, sabe você?, por medo de que digam algo que possa preocupar a mamãe. Jane prefere que o faça assim, e eu assim o faço sempre; e hoje começo a ler a carta com as precauções de costume; mas logo que leio que não se encontra bem, hei-me assustado tanto que não pude me conter e exclamei «meu Deus! A pobre Jane está doente!» E minha mãe, que estava emprestando atenção, ouviu-o claramente e se há alarmado muito. Entretanto, quando segui lendo já vi que não era uma coisa tão grave como me tinha imaginado ao princípio; e agora ao tentar tranqüilizar a minha mãe, tirei-lhe tanta importância que não me acreditou muito. Mas não sei como pôde me agarrar tão despreparada! Se Jane não melhorar logo chamaremos o senhor Perry. Não podemos reparar em gastos; e embora ele seja tão generoso e queira tanto ao Jane que me atreveria a assegurar que não quererá cobrar nada por suas visitas, nós tampouco podemos consenti-lo, sabe você. Tem uma esposa e uma família que manter e não pode perder seu tempo. Bom, agora que já lhe dei uma idéia do que nos diz Jane, passemos à carta, e estou convencida de que lhe contará muito melhor sua história de o que eu posso contar-lhe tenía intención ni podía quedarme más de cinco minutos. Sólo que hemos decidido -Sinto-o muitíssimo, mas teríamos que ir -disse Emma, voltando-se para Harriet e começando a levantar-se-. Meu pai nos estará esperando. Quando entramos não tinha intenção nem podia ficar mais de cinco minutos. Só que decidimos lhes visitar para não passar por diante da casa sem perguntar pela senhora Bate; mas há sido uma conversação tão agradável que o tempo me aconteceu voando. Mas agora temos que nos despedir de você e da senhora Bate.

E tudo o que tentaram para as reter mais tempo foi em vão. Emma saiu à rua... satisfeita, porque apesar de que se viu obrigada para ouvir muitas coisas que não lhe interessavam absolutamente, apesar de que tinha tido que inteirar-se de tudo o que em substância dizia a carta do Jane Fairfax, tinha conseguido evitar que lhe lessem a ditosa carta.

 

JANE Fairfax era órfã, o único fruto do matrimônio da filha menor da senhora Bate.

As bodas do tenente Fairfax, do... regimento de Infantaria, e a senhorita Jane Bate, tinha tido sua época de esplendor e de ilusões, de esperanças e de atrativos; mas agora nada ficava dele, exceto a melancólica lembrança da morte do marido em ação de guerra no estrangeiro... de sua viúva, consumida pela tísica e a tristeza poucos anos mais tarde... e aquela filha.

Por seu nascimento Jane pertencia ao Highbury; e quando aos três anos, ao perder a seu mãe se converteu na propriedade, a carga, o consolo e a menina mimada de sua avó e de sua tia, tudo parecia indicar que ia viver ali o resto de sua vida; que ia receber uma educação proporcionada aos escassos meios de sua família, e que ia crescer sem freqüentar a boa sociedade e sem poder aperfeiçoar os dotes que a natureza lhe havia proporcionado: encanto pessoal, viveza de engenho, um coração sensível e um trato agradável.

Mas os compassivos sentimentos de um amigo de seu pai lhe deram a oportunidade de trocar seu destino. Esse amigo era o coronel Campbell, que tinha tido em grande estima à tenente Fairfax, considerando-o como um excelente oficial e como um jovem de grandes méritos; e além lhe devia tais cuidados, durante uma terrível febre que se declarou em um acampamento, que acreditava lhe dever a vida. Estas eram coisas que não podia esquecer, a pesar de que passaram uma série de anos, depois da morte do pobre Fairfax, nos que ele se achava no estrangeiro, mas sua volta a Inglaterra permitiu levar a seu cabo propósitos. Quando retornou averiguou o paradeiro da menina e se informou a respeito dela. O coronel estava casado e só tinha um filho, uma menina que devia ter a mesma idade que Jane; e Jane se converteu em hóspede habitual de sua casa, em que passava largas temporadas, sendo muito querida por todos; e antes de que cumprisse os nove anos, o grande carinho que sua filha sentia por, ela e seu próprio desejo de lhe dispensar seu amparo, moveram ao coronel Campbell a oferecer-se para correr com todos os gastos de seu educação. A oferta foi aceita; e após o Jane tinha pertencido à família do coronel Campbell e tinha vivido sempre com eles, sem visitar sua avó mais que de vez em quando.

decidiu-se que Jane se preparasse para o ensino, já que os escassos centenares de libras que tinha herdado de seu pai faziam impossível toda posição independente. E o coronel Campbell carecia de médios para assegurar seu futuro de outro modo; pois a pesar de que seus ganhos, procedentes de seu pagamento e suas atribuições, não eram nada desprezíveis, sua fortuna não era muito grande, e devia ser íntegra para sua filha; mas lhe dando uma boa educação, confiava lhe proporcionar para mais adiante os meios para viver decorosamente.

Esta era a história do Jane Fairfax. Tinha cansado em boas mãos, os Campbell não tinham tido mais que bondades para com ela e lhe tinha dado uma excelente educação. Vivendo constantemente com pessoas de reto critério e cultivadas, seu coração e seu entendimento se beneficiaram de todas as vantagens da disciplina e da cultura; e como o coronel Campbell residia em Londres, suas aptidões mais descollantes tinham podido ser plenamente cultivadas graças ao concurso dos melhores professores. Suas faculdades e sua capacidade eram também dignos de tudo o que aquela amizade pudesse lhe oferecer; e aos dezoito ou dezenove anos era já, dentro do que a uma idade tão temprana se pode estar capacitado para ensinar aos meninos, muito competente em questões de ensino; mas a queriam muito para que permitissem que se separasse deles. Nem o pai nem a mãe tiveram valor para propô-lo, e a filha não houvesse podido suportar uma separação. O dia funesto foi, pois, atrasado. Foi fácil encontrar a desculpa de que era ainda muito jovem; e Jane seguiu vivendo com eles, participando como uma filha mais nos honestos recreios da sociedade elegante, e desfrutando de uma judiciosa mescla de vida caseira e de diversões, sem mais preocupação que a de seu futuro, já que seu bom sentido não podia por menos de lhe recordar prudentemente que todo aquilo não demoraria para terminar-se.

O afeto que lhe professava toda a família, e sobre tudo o grande carinho que sentia por ela a senhorita Campbell, dizia muito em favor deles, já que o fato era que Jane era claramente superior tanto em beleza como em conhecimentos. Os encantos de que o tinha dotado a natureza não podiam acontecer inadvertidos para seu jovem amiga, e os pais tinham também que dar-se conta da superioridade de sua inteligência. Entretanto, seguiram vivendo juntos unidos por um quente afeto, até as bodas da senhorita Campbell, quem teve a fortuna, esta boa sorte que tão freqüentemente desbarata todas as previsões em questões matrimoniais, fazendo que tenha preferência a mediania ao que é superior, de conquistar o coração do senhor Dixon, um jovem rico e agradável, quase do mesmo momento em que se conheceram; e não demorou para ver-se casada e feliz, enquanto que Jane Fairfax tinha ainda que começar a pensar em ganhar o pão cotidiano.

As bodas se celebrou fazia muito pouco tempo; muito pouco para que a menos afortunada das duas amigas tivesse podido empreender já o caminho do dever; embora tinha chegado à idade que ela mesma se fixou para este começo. Fazia tempo que tinha decidido que aos vinte e um anos começaria sua nova vida. Com a fortaleza de uma noviça devota havia resolvido completar o sacrifício aos vinte e um anos, e renunciar a todos os prazeres do mundo, a tudo honesto trato com outros, a toda sociedade, à paz e à esperança, para seguir para sempre o caminho da penitência e da mortificação.

O bom julgamento do coronel e da senhora Campbell lhes impediu de opor-se a esta decisão, embora seus sentimentos impulsionassem a isso. Enquanto ambos vivessem, não era necessário que Jane o pedisse: sua casa estaria sempre aberta para ela; por seu gosto, não houvessem mimado que se fora dali; mas isso tivesse sido egoísmo: o que por fim tinha que chegar era melhor fazê-lo logo. Talvez então começaram a compreender que houvesse sido mais sensato e melhor para ela ter resistido à tentação de ir postergando aquele momento e evitar que Jane conhecesse e desfrutasse das vantagens do ócio de uma vida desafogada que agora se via obrigada a abandonar. Entretanto, ainda o afeto se esforçava por aferrar-se a qualquer pretexto razoável para demorar no possível aquele triste momento. Jane não se tornou a encontrar completamente bem das bodas de a filha da casa; e até que não se recuperou de tudo acreditaram necessário lhe proibir que empreendesse nenhum trabalho, coisa que não só era incompatível com uma saúde delicada e um ânimo decaído, mas sim, até nas circunstâncias mais favoráveis, parecia exigir algo mais que a perfeição humana de corpo e de espírito, para poder levá-lo a cabo de um modo folgado.

Respeito ao de não lhes acompanhar a Irlanda, no relato que fez a sua tia não dizia mais que a verdade, embora talvez houvesse algumas verdades que se calava. Foi ela quem decidiu consagrar aos do Highbury o tempo que durasse a ausência dos Campbell;

possivelmente para passar os últimos meses de liberdade total rodeada de afetuosos parentes que tanto a queriam; e os Campbell, pelo motivo ou motivos que fossem, tanto se era um como dois ou três, apressaram-se a aprovar esse projeto e disseram que tinham mais confiança em uns poucos meses que passasse em sua terra natal para recuperar a saúde, que em qualquer outro remédio. Era, pois, seguro que voltaria para o Highbury; e que ali, em vez de dar a bem-vinda a uma novidade absoluta que fazia tanto tempo que lhes prometia --o senhor Frank Churchill- deveriam conformar-se por agora com o Jane Fairfax, que só era uma novidade por seus dois anos de ausência.

Emma não estava contente... Ter que ser amável durante três largos meses com uma pessoa que lhe desagradava! Ter que estar sempre fazendo mais do que desejava e menos do que devia! Seria difícil explicar por que Jane Fairfax não era pessoa de seu gosto; em certa ocasião o senhor Knightley lhe havia dito que era porque via nela à jovem perfeita, como Emma tivesse querido que a considerasse; e embora então a acusação tinha sido vivamente refutada, haviam momentos de reflexão em que seu consciência não se sentia totalmente poda daquilo. Mas nunca tinha podido travar amizade com ela; não sabia por que, mas via no Jane uma frieza e uma reserva... uma aparente indiferença por gostar ou não gostar... e além sua tia era uma charlatana tão terrível!

E todo mundo armava tal alvoroço quando se tratava dela... E sempre imaginavam que as duas tinham que chegar a ser íntimas amigas... porque tinham a mesma idade todo mundo tinha suposto que era forçoso que combinassem... Estas eram seus razões... não tinha melhores.

Seus motivos eram tão pouco justificados... todos e cada um dos defeitos que o imputava estavam tão aumentados por sua imaginação, que sempre que via por primeira vez ao Jane Fairfax depois de uma ausência considerável tinha a sensação de ter sido injusta com ela; e agora, quando efetuou a anunciada visita, a sua chegada, depois de um intervalo de dois anos, Emma ficou extraordinariamente surpreendida ao ver os maneiras daquela moça a que tinha estado menosprezando durante dois anos inteiros.

Jane Fairfax era muito elegante, notavelmente elegante. Sua estatura era proporcionada, como para que quase todo mundo a considerasse alta, e ninguém pudesse pensar que o era muito; sua figura era particularmente agraciada; um justo término médio, nem muito grosa nem muito magra, embora uma leve aparência de saúde um tanto frágil parecia descartar a possibilidade do mais provável desses dois perigos. Emma não pôde por menos de dar-se conta de tudo isto; e além em seu rosto, em suas facções, havia muita mais beleza do que ela acreditava recordar; suas facções não eram muito regulares, mas sim de uma beleza muito agradável. Nunca tinha regateado sua admiração por aqueles olhos de um cinza escuro e aquelas pestanas e sobrancelhas negras; mas a tez, à que sempre tinha estado acostumado a pôr reparos por descolorida, tinha uma luminosidade e uma delicadeza que certamente não necessitava maior viço. Era um tipo de beleza no que o rasgo predominante era a elegância, e portanto, em consciência e de acordo com seu critério, não podia por menos de admirá-la... elegância que, tanto no exterior como no espiritual tinha muito poucas ocasiões de encontrar no Highbury. Ali não ser vulgar era uma distinção e um mérito.

Em resumo, durante a primeira visita, Emma contemplava ao Jane Fairfax com redobrada complacência; ao prazer que experimentava ao vê-la-se unia a necessidade que sentia de lhe fazer justiça, e decidiu abandonar sua atitude hostil a jovem. E quando pensava em seu história, sua situação lhe impressionava tanto como sua beleza; quando refletia sobre o destino que ia ter esta elegância, sobre como teria que rebaixar-se, sobre como ia a viver, parecia-lhe impossível que pudesse sentir-se algo que não fora compaixão e respeito por ela; sobre tudo, se às circunstâncias bem conhecidas de sua vida que a faziam merecedora de tanto interesse, unia-se o fato mais que provável de que se houvesse sentido atraída pelo senhor Dixon, suspeita que tão espontaneamente tinha surto na imaginação da Emma. De ser assim, nada mais digno de compaixão nem mais nobre que os sacrifícios que se achava disposta a aceitar. Agora Emma não podia ser mais contrária a acreditar que a jovem tivesse tentado atrair-se ao senhor Dixon rivalizando com seu amiga, ou que tivesse sido capaz de qualquer outra intenção malévola, como em um princípio havia chegado a supor. Se tinha existido amor, devia ter sido um sentimento puro e singelo, só experiente por ela, não correspondido. Inconscientemente devia ter ido sorvendo aquele triste veneno enquanto atendia ao lado de seu amiga às palavras dele; e agora devia ser o mais limpo, o mais puro dos motivos o que o fizesse negar-se a efetuar esta visita a Irlanda e decidir-se a separar-se definitivamente de ele e de sua família para iniciar sua vida de trabalho.

Em conjunto, pois, Emma se separou do Jane sentindo por ela tanta simpatia e tanto afeto que ao retornar a sua casa se viu forçada a pensar na possibilidade de lhe encontrar um boa partida, e a lamentar que Highbury não contasse com nenhum jovem que pudesse lhe proporcionar uma situação independente; não encontrava quem pudesse convir ao Jane.

Sentimentos admiráveis os da Emma... mas que duraram pouco. antes de que se comprometesse com alguma profissão pública de eterna amizade com o Jane Fairfax, antes de que tivesse feito algo mais por emendar seus passados prejuízos e enganos, que dizer ao senhor Knightley: «A verdade é que é muito linda, mais que linda», Jane passou uma velada no Hartfield com sua avó e sua tia, e tudo voltou para estado de coisas anterior.

Reapareceram os mesmos motivos de inimizade de antes. A tia era tão pesada como sempre; mais pesada ainda, porque agora além de admirar as qualidades de sua sobrinha, sentia-se inquieta por sua saúde; e tiveram que ouvir a descrição exata do pouco pão e manteiga que comia no café da manhã e de quão pequena era a fatia de cordeiro da comida, além da exibição dos novos gorros e das novas bolsas para o trabalho que tinha confeccionado para sua avó e para ela; e Emma voltou a sentir-se irritada com Jane. Tiveram um pouco de música; Emma se viu obrigada a tocar; e as obrigado e os elogios que obligadamente seguiram a sua execução pareceram com a Emma de uma ingenuidade afetada, de um ar de superioridade destinado tão somente a demonstrar a todos que ela, Jane, seguia estando muito por cima. O pior de tudo era que além disso era tão fria, tão cautelosa... Não havia maneira de saber o que é o que realmente pensava. Envolta em uma capa de cortesia, parecia decidida a não arriscar-se em nada. Resultava molesta seu atitude de suspicacia e de reserva.

E se ainda era possível sê-lo mais, mostrou-se ainda mais reservada no referente a Weymouth e aos Dixon. Parecia interessada em não querer falar do caráter do senhor Dixon, nem em opinar a respeito de seu trato, nem em fazer nenhum comentário sobre o conveniente que tinha sido aquelas bodas. Tudo o aprovava por igual; em suas palavras não havia nada de concreto nem destacado. Entretanto de pouco lhe serve. Para esta Emma cautela era artificiosidad, dissimulação, e a jovem voltou para suas suspeitas de antes. Provavelmente ali havia algo mais que ocultar que suas simples preferências. Talvez o senhor Dixon tinha estado a ponto de deixar uma amiga por outra, ou só se decidiu pela senhorita Campbell pensando em suas futuras doze mil libras.

A mesma reserva prevaleceu tratando-se de outros temas. Ela e o senhor Frank Churchill tinham coincidido no Weymouth. Era sabido que tinham tido certo trato; mas Emma não pôde lhe arrancar nenhuma sílaba que pudesse orientá-la a respeito da verdadeira personalidade do jovem. «É arrumado?» «Acredito que lhe considera como um jovem muito atrativo.» «É agradável de trato?» «Lhe está acostumado a considerar como muito agradável.» «Dá a impressão de ser um jovem de inteligência acordada e cultivado?» «Em um balneário ou em casa de um amigo comum em Londres é muito difícil formar uma opinião sobre essas coisas. Os maneiras são sempre o primeiro que pode apreciar-se, mas apesar de todo se requer conhecer melhor à pessoa do que eu pude conhecer senhor Frank Churchill. Tenho a impressão de que todo mundo lhe encontra muito amável e cultivado.» Emma não podia lhe perdoar.

 

Emma não podia lhe perdoar... Mas como o senhor Knightley, que tinha estado também na reunião, não tinha advertido nenhum motivo de provocação nem nenhum ressentimento, e só tinha visto as maiores amabilidades e cortesias por ambas as partes, ao dia seguinte pela manhã, quando voltou para o Hartfield para tratar de uns assuntos com o senhor Woodhouse, expressou sua satisfação pela velada da noite anterior; não de um modo tão claro como o tivesse feito de não encontrar-se presente o pai da Emma, mas sendo o suficientemente explícito para que esta lhe compreendesse à perfeição. Havia estado acostumado a reprovar a Emma o ser injusta para com o Jane, e agora se alegrava muitíssimo de ver que a situação tinha melhorado.

-Uma velada agradabilísima começou dizendo, depois de ter falado de todo o necessário com o senhor Woodhouse, de que este lhe houvesse dito que tinha compreendido e de que guardassem os papéis-; muito agradável. Você e a senhorita Fairfax nos obsequiaram com uma música deliciosa. Senhor Woodhouse, não conheço maior prazer que estar comodamente instalado em uma poltrona enquanto dois jovens como estas nos dão de presente os ouvidos durante toda uma velada; às vezes com música, às vezes com sua conversação. Estou seguro, Emma, de que à senhorita Fairfax tem que lhe haver parecido agradável a velada. Em qualquer caso, por você não ficaria. Alegrei-me de ver que lhe deixava tocar tanto, porque como em casa de sua avó não têm nenhum instrumento, ela deve havê-lo agradecido muito.

-Alegra-me saber que lhe pareceu acertado -disse Emma sonriendo-; mas não acredito que acostume a ser descortês com as pessoas que convidamos ao Hartfield.

-OH, não, querida! -disse seu pai ao momento-, disso sim que não tenho a menor duvida.

Não há ninguém que seja nem a metade de atenta e de cortês que você. Se acaso for muito atenta. Ontem noite os pãozinhos... acredito que com que tivesse devotado uma só vez tivesse bastado.

-Não -disse o senhor John Knightley quase ao mesmo tempo-; não está acostumado a ser você descortês;

nem em maneiras nem em compreensão; enfim, acredito que você já me entende.

O malicioso olhar da Emma significava: «Entendo-lhe perfeitamente»; mas só disse:

-A senhorita Fairfax é muito reservada.

-Sempre lhe hei dito que o era... um pouco; mas não demorará você em desculpar a parte de sua reserva que deve ser desculpada, a que tem sua origem no acanhamento. O que é discrição tem que respeitar-se.

-Parece-lhe tímida? A mim não.

-Minha querida Emma -disse transladando-se a uma cadeira que estava mais perto dela-, suponho que não irá dizer me que não lhe pareceu agradável a velada de ontem.

-OH, não! Me, divertiu muito minha perseverança em fazer perguntas e o pensar que obtinha tão pouca informação. -Lamento-o -foi sua única resposta.

-Eu suponho que todo mundo o passou bem -disse o senhor Woodhouse, com seu habitual placidez-. Pelo menos eu sim. Ao princípio estava muito perto do fogo; mas logo retirei um pouco a cadeira, muito poquito, e já deixou de me incomodar. A senhorita Bate estava muito loquaz e de bom humor, como sempre, embora para meu gosto fala muito às pressas. Mas é muito agradável, e a senhora Bate também, embora de um modo distinto.

Eu gosto das antigas amizades; e a senhorita Jane Fairfax é uma jovencita muito linda, muito linda e muito bem educada. Estou seguro, senhor Knightley, de que passou uma velada muito agradável, graças a Emma.

-Sem dúvida; e Emma graças à senhorita Fairfax.

Emma advertiu o tom de inquietação do senhor Knightley, e desejando lhe tranqüilizar, ao menos por então, disse com uma sinceridade da que ninguém se atreveu a duvidar.

-É uma moça muito elegante, da que uma quase não pode apartar os olhos. Eu não me cansava de contemplá-la com verdadeira admiração; e também compadecendo-a com toda minha alma.

O senhor Knightley deu a impressão de sentir mais gratidão da que queria aparentar; e antes de que pudesse responder, o senhor Woodhouse, que seguia pensando nas Tacos de beisebol, disse:

-Que lástima que seus meios sejam tão escassos! A verdade é que me dão muita pena!

E muitas vezes quis lhes fazer algum presente, algo pequeno, sem grande importância, mas do que não há corrientemente... mas é tão pouco o que alguém pode arriscar-se a fazer! Agora matamos um porco, e Emma pensa lhes enviar lombo ou um presunto... É um presente de pouco valor, mas delicioso... Os porcos do Hartfield não podem comparar-se com nenhum outro... mas, apesar de tudo é porco... e, minha querida Emma, se não podermos estar seguros de que vão cortar o em talhadas, bem fritas, como as fritamos nós, tirando toda a graxa, e sem assá-lo, porque não há estômago que resista o porco assado... parece-me que seria melhor que lhes enviássemos o presunto, não crie, querida?

-Meu querido papai, enviei-lhes todo um quarto traseiro. Já sabia que este era seu desejo.

O presunto terão que salgá-lo, já sabe, e é riquíssimo, e o lombo podem comer-lhe como quieran.

como querem.

-Fez muito bem, querida... muito bem. Eu não sabia nada disto, mas era o melhor que podia fazer-se. Mas o presunto que não o saem muito; e se não estar muito salgado e fica bem cozido, como lhe Ser nos ferve os nossos, se se comer com muita moderação acompanhando o de nabos fervidos e um pouco de cenoura ou de chirivía, não acredito que possa lhes fazer danifico.

-Emma -disse bruscamente o senhor Knightley-, tenho uma notícia para você. o gostam das notícias... e quando vinha ouvi algo que acredito que lhe interessará.

-Notícias? OH, sim, sempre eu gosto de saber o que ocorre! Do que se trata? por que sorri você desse modo? Onde o ouviu você? No Randalls?

Ele só teve tempo para dizer:

-Não, não, não foi no Randalls; não me aproximei por ali.

Quando a porta se abriu de repente e a senhorita Bate e a senhorita Fairfax entraram na estadia. A senhorita Bate, transbordando agradecimento e notícias, não sabia a qual de as duas coisas dar livre curso antes que a outra. O senhor Knightley em seguida compreendeu que tinha perdido a oportunidade e que já não lhe foram deixar dizer nenhuma sílaba mais.

-Querido senhor Woodhouse! Como se encontra esta manhã? Minha querida senhorita Woodhouse... Estou verdadeiramente afligida! Que magnífico quarto de porco! São vocês muito bons! Conhecem já a notícia? O senhor Elton vai casar se.

Naqueles momentos em quem menos pensava Emma era no senhor Elton, e ficou tão extraordinariamente surpreendida que não pôde evitar um pequeno sobressalto e um ligeiro rubor para ouvir aquelas palavras.

-Estas eram minha notícias... Supus que lhe interessariam -disse o senhor Knightley com uma sorriso que parecia aludir ao que tinha passado entre eles.

-Mas onde pôde você inteirar-se? -exclamou a senhorita Bate-; onde é possível que o você haja ouvido, senhor Knightley? Porque ainda não faz cinco minutos que hei recebido uma nota da senhora Penetre... não, não pode fazer mais de cinco minutos... ou, em fim, como máximo, dez... porque já me tinha posto o chapéu e o xale, e estava a ponto de sair... baixei só um momento para voltar a falar com o Patty sobre o porco...

Jane estava esperando no corredor... verdade, Jane?... porque minha mãe tinha medo de que não tivéssemos um recipiente o suficientemente grande para salgá-lo. E eu me disse, baixarei a vê-lo, e Jane disse: «Quer que eu vá? Porque me parece que está um pouco resfriada, e Patty esteve esfregando a cozinha.» «OH, querida...», disse eu... Bom, pois precisamente naquele momento chegou a nota. Uma tal senhorita Hawkins, isso é todo o que eu sei. Uma tal senhorita Hawkins do Bath. Mas, senhor Knightley, como é possível que se tenha informado você? Porque no mesmo momento em que o senhor Penetre o disse à senhora Penetre, ela me escreveu. Uma tal senhorita Hawkins...

-Faz uma hora e meia estive falando de negócios com o senhor Penetre. Quando eu cheguei acabava de ler a carta do senhor Elton, e me ensinou isso em seguida.

-Vá! Isso sim que... Parece-me que nunca houve uma notícia que interesse a mais gente. Querido senhor Woodhouse, é você muito bom. Minha mãe me encarregou que lhe dê suas saudações mais afetuosas e um milhar de obrigado, e diz que você nos está verdadeiramente afligindo com suas amabilidades.

-A verdade -replicou o senhor Woodhouse- é que consideramos (e em realidade assim é)

nossos porcos do Hartfield tão superiores a qualquer outro porco, que Emma e eu não podíamos ter maior prazer que...

-OH, meu prezado senhor Woodhouse! Como diz sempre minha mãe, nossos amigos são muito bons para conosco. Se houver alguém que sem ter grandes meios de fortuna dispõe de tudo o que pode chegar a desejar, estou segura de que somos nós.

Nós sim que podemos dizer que nos há meio doido a melhor parte. Bom, senhor Knightley, de modo que você chegou inclusive a ler a carta; vá, vá...

-Era muito curta... só para anunciar as bodas... mas certamente, alegre e exultante... -e ao dizer isto olhou significativamente a Emma-. Dizia que tinha tido a sorte de... Em fim, não me lembro exatamente do que dizia... tampouco me interessava tanto como para recordá-lo. Em resumo, o que dizia é o que você há dito já, que ia casar se com uma tal senhorita Hawkins. Pelo tom da carta imagino que as bodas acabava de consertar-se.

-O senhor Elton vai se casar! -disse Emma logo que pôde falar-. Todo mundo fará votos por sua felicidade.

-É muito jovem para casar-se -foi o comentário do senhor Woodhouse-. Fizesse melhor não tendo tanta pressa. me parecia que vivia muito bem tal como estava.

Sempre nos alegrava lhe ver no Hartfield.

-Uma nova vizinha para todos, senhorita Woodhouse! -disse a senhorita Bate, jubilosamente-. Minha mãe está encantada... Diz que lhe parecia mal que nesta pobre e velha Vicaría não houvesse um dona-de-casa. Isso sim que são grandes notícias. Jane, você não conhece ao senhor Elton... não sente saudades que tenha tanta curiosidade por lhe ver.

A curiosidade do Jane não parecia ser o suficientemente intensa para absorver seu atenção.

-Não, não conheço senhor Elton -replicou ao ser interpelada-. É... é alto?

-Quem pode responder a esta pergunta? --exclamou Emma-. Meu pai diria que sim, o senhor Knightley que não; e a senhorita Bate e eu que é o justo término médio. Quando você leve mais tempo aqui, senhorita Fairfax, já se irá dando conta de que o senhor Elton é o modelo de perfeição no Highbury, tanto no físico como no moral.

-Tem você muita razão, senhorita Woodhouse, já se irá dando conta. É um jovem de grandes objetos... Mas querida Jane, recorda que ontem te dizia que era precisamente de a mesma talha que o senhor Perry. A senhorita Hawkins... estou convencida de que é uma jovem excelente. foi sempre tão atento com minha mãe! Fazia que se sentasse nos primeiros bancos para que pudesse ouvir melhor, porque minha mãe é um pouco surda, sabe você? Não muito, mas um pouco dura de ouvido. Jane diz que o coronel Campbell é um pouco surdo. Ele tem a impressão de que os banhos lhe sintam bem... banhos de água quente... mas Jane diz que a melhoria não lhe dura muito. O coronel Campbell, sabe você?, é o que se diz um anjo. E o senhor Dixon parece ser um jovem de grandes objetos, digno dele. É uma sorte tão grande que a gente boa se encontre...! E sempre termina encontrando-se! Agora por exemplo, o senhor Elton e a senhorita Hawkins;

e aqui estão os Penetre, que são pessoas tão boas; e os Perry... Eu acredito que nunca há havido um matrimônio mais feliz que os Perry. O que eu digo, senhor Woodhouse -disse voltando-se para ele-, é que acredito que há muito poucos lugares em que haja tão boas pessoas como no Highbury. Eu sempre digo que temos muita sorte de ter vizinhos como estes... Mim prezado senhor Woodhouse, se houver algo no mundo que gosta a meu mãe é o porco... lombo de porco bem assado...

-Quanto a quem é a senhorita Hawkins ou o que faz ou quanto tempo faz que o senhor Elton a conhece -disse Emma-, suponho que nada pode saber-se. Eu não acredito que se hajam conhecido faz muito. Faz só quatro semanas que se foi.

Ninguém conhecia nenhum detalhe; e depois de que se formulassem várias perguntas mais, Emma disse:

-Está você muito calada, senhorita Fairfax... mas confio em que chegará a interessar-se por estas notícias. Você que ultimamente teve ocasião de ver e ouvir tantas coisas referentes a essas questões e que conheceu tão de perto um destes processos, com a bodas da senhorita Campbell... não podemos lhe desculpar o que se mostre indiferente com o senhor Elton e a senhorita Hawkins.

-Quando conhecer ao senhor Elton -replicou Jane- estou convencida de que me interessarei por seu caso... mas me parece que para isso é indispensável que antes lhe conheça. E como faz já vários meses que a senhorita Campbell se casou, talvez as impressões de então se apagaram o bastante.

-Sim, faz exatamente quatro semanas que se foi, como você muito bem diz, senhorita Woodhouse -disse a senhorita Bate-, ontem fez quatro semanas... Uma tal senhorita Hawkins... Não sei, eu sempre me tinha imaginado que se casaria com alguma jovem de estes arredores... Não é que eu nunca... Mas uma vez a senhora Penetre confessou em secreto... Mas eu imediatamente lhe disse: «Não, o senhor Elton é um jovem que merece algo mais...» Mas... Em resumidas contas, eu não me acredito excessivamente lista para descobrir essas coisas. Tampouco pretendo sê-lo. Vejo o que tenho diante dos olhos. Por outra parte ninguém tivesse podido sentir saudades de que o senhor Elton aspirasse A... A senhorita Woodhouse me deixa conversar, não se zanga, verdade? Já sabe que por nada do mundo queria ofender a ninguém. Como está a senhorita Smith? Parece que já se encontra bem de tudo, não? tiveram notícias recentes da senhora do John Knightley? OH, tem uns meninos tão preciosos! Jane, sabe que sempre imagino ao senhor Dixon como ao senhor John Knightley? Refiro-me ao aspecto físico... alto, e com aquela maneira de olhar... e não muito falador.

-Pois te equivoca de tudo, querida tia; não se parecem em nada.

-Ah, não? Que coisa mais singular! Claro que uma nunca pode formar uma idéia exata de ninguém antes de lhe conhecer. Imaginamos uma coisa e logo não há quem nos tire isso da cabeça. Você dizia que o senhor Dixon não é precisamente muito bonito.

-Bonito? OH, não...! Nem muitíssimo menos... Já te disse que era um homem mas bem corrente.

-Querida, você disse que a senhorita Campbell não queria admitir que fosse um homem mas bem corrente, e que foi você...

-OH! Quanto a mim, minha opinião não tem nenhum valor. Quando sinto avaliação por uma pessoa sempre acredito que é de aparência agradável. Quando disse que não era excessivamente arrumado, não fazia mais que repetir o que suponho que pensa a maioria.

-Bom, minha querida Jane. Parece-me que temos que ir. O tempo está inseguro, e a abuelita estará intranqüila. É você muito amável, minha querida senhorita Woodhouse; mas seriamente que temos que ir já. Vá, isso sim que foram notícias agradáveis. Passarei um momento por casa da senhora Penetre; para estar só dois ou três minutos; e você, Jane, seria melhor que fosse diretamente a casa... não quisesse que te pilhasse um toró... Sim, será uma grande coisa para o Highbury... Muito obrigado, muito agradecidas. Não, não acredito que avise à senhora Goddard, ela só se interessa pelo porco cozido; quando prepararmos o presunto já será outra coisa. Bom, adeus, meu prezado senhor Woodhouse. OH, o senhor Knightley também vem! OH, é você tão amável...! Se Jane está cansada, quererá você lhe oferecer seu braço? O senhor Elton e a senhorita Hawkins... Adeus, adeus a todos.

Quando Emma ficou a sós com seu pai, a metade de sua atenção a reclamou o senhor Woodhouse, quem se lamentava de que os jovens tivessem tanta pressa por casar-se... e de que além se casassem com desconhecidos... e a outra metade pôde dedicá-la a refletir sobre o que acabava de ouvir. Para ela era uma notícia divertida, francamente uma boa notícia, já que provava que o senhor Elton não tinha sofrido muito por seu desprezo; mas o sentia pelo Harriet. Harriet ia sentir o... e o único que podia fazer era ser ela mesma a primeira em inteirá-la e lhe evitar assim que outros lhe dessem a notícia com menos delicadeza. Era precisamente a hora em que ela estava acostumada ir ao Hartfield. Se se encontrasse pelo caminho com a senhorita Bate! E quando começou a chover, Emma se viu obrigada a resignar-se a esperar que o mau tempo a reteria em casa da senhora Goddard; sem dúvida alguma ia a inteirar-se de tudo antes de que ela tivesse ocasião de acautelá-la.

O aguaceiro foi intenso, mas não durou muito; e apenas fazia cinco minutos que havia terminado quando chegou Harriet inquieta e acalorada por vir correndo com o coração angustiado. E a primeira frase que brotou de seus lábios mostrava com toda evidência a confusão de seu ânimo:

-OH, Emma! Imagina o que ocorreu?

Emma se deu conta de que o mal já parecia, e de que o melhor que podia fazer por sua amiga era escutá-la; e assim Harriet pôde contar sem obstáculos tudo o que levava dentro.

-Faz uma meia hora que saí que casa da senhora Goddard. Tinha medo de que chovesse, e parecia que ia começar a chover de um momento a outro... mas pensei que ainda me daria tempo de chegar ao Hartfield... e vim todo o depressa que hei podido; mas ao passar perto da casa de uma moça que me está fazendo um vestido, pensei que podia entrar um momento para ver como o tinha, e embora só estive ali um momento, logo que sair começou a chover, e eu não sabia o que fazer; e então segui andando muito às pressas e fui a me refugiar na loja da Ford -Ford era o proprietário da melhor loja de pañería e armarinho, a primeira em importância de Highbury por suas dimensões e seu bom gosto-. E ali estive sentada mais de dez minutos, sem imaginar nem muitíssimo menos o que ia passar... Quando de repente vejo que entram duas pessoas... Certamente foi uma grande casualidade! Embora claro que eles são clientes da Ford... Pois entraram nada menos que Elizabeth Martin e seu irmão!

Querida Emma!, você imagina? Eu acreditei que me ia deprimir. Não sabia o que fazer. Estava sentada perto da porta... Elizabeth me viu em seguida; mas ele não; estava distraído com o guarda-chuva. Estou segura de que ela me viu, mas desviou o olhar e fez como se não me tivesse conhecido; e os dois se foram para o outro extremo da loja; e eu fiquei sentada perto da porta... OH, querida, passei tão mau momento...! Estou segura de que devia estar tão branca como meu vestido. Mas não podia ir, claro, porque estava chovendo; mas tivesse querido estar em qualquer parte do mundo, menos ali. OH, meu querida Emma...! Bom, por fim, suponho que ele voltou a cabeça e me viu; porque em vez de seguir emprestando atenção ao que compravam, começaram a cochichar os dois. E estou segura de que falavam de mim; e eu não podia por menos de pensar que ele a estava convencendo para que me falasse (crie que me equivocava, Emma?)... porque em seguida ela veio para mim... me aproximou... e me perguntou como estava, e parecia disposta a me dar a mão se eu queria. Não parecia a mesma de sempre; eu me dava conta de que estava nervosa; mas parecia querer me falar de um modo amistoso, e nos demos a mão, e estivemos conversando durante um momento; mas já não me lembro de nada de o que pinjente... eu estava tremendo! Lembrança que ela disse que sentia muito que agora não nos víssemos nunca, o qual quase me pareceu muito amável por sua parte.

Querida Emma, sentia-me tão mal! E então começou a esclarecer o tempo... e eu pensei que nada me impedia o ir... mas então... imagine !...vi que ele se dirigia para nós... muito devagarzinho, -sabe? como se não soubesse muito bem o que tinha que fazer; e nos aproximou, e me falou, e eu lhe respondi... e assim estivemos um minuto, pouco mais ou menos, e eu me sentia tão apurada... OH, não pode te fazer ideia!; e então me armei de valor e pinjente que já não chovia e que tinha que ir; e fui, e quando estava na rua e ainda não tinha andado nem três jardas da porta, quando ele veio detrás de mim só para me dizer que se ia ao Hartfield, ele acreditava que iria muito melhor dando a volta pelas quadras do senhor Penetre, porque se seguia o caminho mais direto o encontraria tudo encharcado. OH, querida, eu acreditei que morria! De modo que lhe disse que lhe agradecia muito o interesse; já vê, não podia lhe dizer menos; e então ele voltou com a Elizabeth, e eu dava a volta pelas quadras... bom, parece-me que sim que fui por ali, mas agora lhe asseguro que já quase não sei por onde ia nem o que fazia. OH, Emma! Tivesse dado algo para que isso não me ocorresse; e apesar de tudo, sabe?, deu-me alegria ver que se comportava de um modo tão cortês e tão atento. E Elizabeth também. OH, Emma, me diga algo, rogo-lhe isso, me tranqüilize um pouco!

Emma não tivesse desejado outra coisa; mas naqueles momentos não estava em seus mãos o consegui-lo. viu-se obrigada a fazer uma pausa e a refletir. Ela também se sentia desanimada. O proceder do jovem e de sua irmã pareciam responder a uns sentimentos sinceros, e Emma não podia a não ser lhes compadecer. Tal como o descrevia Harriet, em seu modo de atuar tinha havido uma curiosa mescla de afeto ferido e de autêntica delicadeza. Mas é que antes de então ela sempre lhes tinha considerado como pessoas dignas e de bom coração; mas isso não tinha nada que ver com o que emparentar com eles não fosse o mais recomendável. Era uma tolice preocupar-se com aquelas coisas. É obvio, ele devia sentir havê-la perdido... todos deviam senti-lo.

Provavelmente para eles era um dobro fracasso da ambição e do amor. Todos deviam de ter crédulo em elevar-se de fila social graças às amizades do Harriet. E por outra parte, que valor podia dar-se à descrição do Harriet? Ela que era tão fácil de agradar... de tão pouco critério... que valor podia ter um elogio dele?

Emma fez um esforço por dominar-se e tentou consolá-la, lhe fazendo ver que todo o que tinha passado não tinha nenhuma importância, e que não valia a pena que se preocupasse por isso.

-tiveram que ser uns momentos desagradáveis -disse-; mas parece que você te há levado muito bem; agora tudo terminou; e como um primeiro encontro não pode voltar a repetir-se, não tem por que pensar mais nisso.

Harriet disse que Emma tinha razão, e que não voltaria a pensar naquilo... mas seguiu falando do mesmo... não podia falar de outra coisa; e por fim Emma, com objeto de lhe tirar os Martin da cabeça, viu-se obrigada a recorrer às notícias que antes se tinha proposto lhe comunicar com tantas precauções e tanta delicadeza; quase sem saber se tinha que alegrar-se ou indignar-se, se envergonhar-se ou tomar-lhe a brincadeira, visto o estado de ânimo da pobre Harriet... para quem o senhor Elton parecia ter perdido já tudo interesse...

Entretanto, pouco a pouco o senhor Elton voltou a adquirir importância. Possivelmente não tanta como lhe concedia no dia anterior ou tão somente uma hora antes, mas voltava a interessar-se por ele; e antes de que terminasse aquela conversação, Harriet tinha expresso todas as sensações de curiosidade, de assombro, de pesar, de pena e de ilusão a respeito daquela afortunada senhorita Hawkins, que em sua imaginação havia tornado a relegar a um lugar secundário aos Martin.

Emma chegou a sentir-se quase satisfeita de que se produziu aquele encontro, já que tinha servido para amortecer o primeiro golpe sem produzir nenhuma influência alarmante. Com o gênero de vida que levava agora Harriet, os Martin não podiam chegar até ela de não ser que fossem procurar a exprofeso aonde não quereriam ir por falta de valor e de condescendência; porque desde que ela tinha rechaçado ao senhor Martin, seus irmãs não haviam tornado a pôr os pés em casa da senhora Goddard; e assim era possível que passasse todo um ano sem que voltassem a coincidir em algum sítio, carecendo pois da necessidade e da possibilidade incluso de falar-se.

 

A natureza humana está tão predisposta em favor dos que se encontram em uma situação excepcional, que a jovem que se casa ou morre pode ter a segurança de que a gente fala bem dela.

Ainda não tinha passado uma semana desde que no Highbury se mencionou por primeira vez o nome da senhorita Hawkins, quando de um modo ou outro lhe descobriam toda a classe de excelências físicas e intelectuais; era formosa, elegante, muito bem educada e de trato muito agradável. E quando o próprio senhor Elton chegou para gozar do triunfo de tão fausta nova e para difundir a fama de seus méritos, logo que teve outra coisa que fazer que dizer qual era seu nome de pilha e explicar por que classe de música tinha preferência.

O senhor Elton retornou transbordando felicidade. foi-se rechaçado e ferido em seu amor próprio... vendo frustradas suas majores esperança, depois de uma série de feitos que ele tinha interpretado como favoráveis sintomas de fôlego; e não só não tinha conseguido o partido que lhe interessava, mas sim se tinha visto rebaixado ao mesmo nível de outro pelo que não sentia o menor interesse. foi-se profundamente ofendido... retornou prometido com outra jovem... e com outra que era, é obvio, tão superior à primeira como nessas circunstâncias está acostumadas sê-lo sempre quando se compara o que se conseguiu com o que acaba-se de perder. Retornou contente e satisfeito de si mesmo, ativo e cheio de projetos, sem preocupá-lo mais mínimo pela senhorita Woodhouse e desafiando à senhorita Smith.

A encantada Augusta Hawkins acrescentava a todas as vantagens inerentes a uma perfeita beleza e a seus grandes méritos, a do fato de estar em posse de uma fortuna pessoal de uns milhares de libras que sempre se cifravam em dez mil; questão que afetava tanto a sua dignidade como a seus interesses; os fatos demonstravam perfeitamente que não tinha malogrado suas possibilidades... tinha conseguido uma esposa de dez mil libras, pouco mais ou menos... e a tinha conseguido com uma rapidez tão assombrosa... a primeira hora que seguiu a seu primeiro encontro tinha sido tão pródiga em grandes acontecimentos; o relato que tinha feito à senhora Penetre sobre o origem e do desenvolvimento do idílio o apresentava sob um aspecto tão favorável... tudo tinha ido tão às pressas, desde seu encontro casual até o jantar em casa do senhor Green e a festa em casa da senhora Brown...

sorrisos e rubores crescendo em importância... reflexões e inquietações florescendo profusamente em qualquer parte... ela tinha ficado impressionada em seguida... havia-se mostrado tão favoravelmente disposta para com ele... em resumo, e para dizê-lo com palavras mais claras, demonstrou tão boas disposições para lhe aceitar que a vaidade e a prudência ficaram satisfeitas por igual.

Tinha-o conseguido tudo, fortuna e afeto, e era exatamente o homem feliz que sempre tinha sonhado ser; falando tão somente de si mesmo e de suas coisas... esperando ser felicitado... disposto em todo momento a rir... e agora, com amáveis sorrisos livres de todo temor, dirigindo a palavra às jovens do lugar, a quem tão somente umas poucas semanas antes tivesse falado de um modo muito mais circunspeto e cauteloso.

As bodas era um acontecimento que não podia estar muito longe, já que ambos não haviam tido outro trabalho que o de gostar de-se, e só tinham que esperar os preparativos necessários; e quando ele voltou de novo para o Bath, todo mundo supôs, e o ar que adotou a senhora Penetre não parecia contradizer essas hipóteses, que quando retornasse a Highbury seria já acompanhado de sua esposa.

Durante esta breve estadia dela, Emma apenas lhe tinha visto; o justo para ter a sensação de que se quebrado o gelo, e para que ela pensasse que a presunçosa jactância de que agora fazia ornamento o senhor Elton não lhe favorecia em nada; o certo é que Emma começava a perguntar-se como tinha sido possível que tivesse chegado a lhe considerar como um homem atrativo; e sua pessoa ia tão indisolublemente unida a lembranças tão desagradáveis, que, exceto com um fim moral, como penitência, como lição, como fonte de uma proveitosa humilhação para seu espírito, houvesse sentido um grande alívio de ter a segurança de não lhe voltar para ver nunca mais. Desejava-lhe todas as venturas; mas sua presença a turvava, e tivesse ficado muito mais satisfeita de lhe saber feliz a vinte milhas de distância.

Entretanto, a confusão que lhe proporcionava o fato de que seguisse residindo em Highbury, sem dúvida ia diminuir se com suas bodas. foram evitar se muitos cumpridos inúteis e muitas situações embaraçosas se suavizariam. A existência de uma senhora Elton seria um bom pretexto para tudas as mudanças que houvessem em suas relações; seu intimidade de antes podia desaparecer sem que a ninguém parecesse estranho. Ambos poderiam quase reemprender de novo sua vida social.

Sobre ela pessoalmente Emma não tivesse sabido o que dizer. Sem dúvida era digna do senhor Elton; com uma educação suficiente para o Highbury... o suficientemente atrativa também... embora o mais provável é que desmerecesse ao lado do Harriet. Quanto a posição social, Emma sabia muito bem a que atenerse; estava convencida de que a pesar de todos seus presunçosos alardes e de seu desdém pelo Harriet, a realidade tinha sido muito distinta. Sobre esta questão a verdade parecia estar muito clara. Não se sabia exatamente o que era; mas quem era fácil sabê-lo; e deixando à parte as dez mil libras, em nada parecia ser superior ao Harriet. Não contribuía nem um sobrenome ilustre, nem sangue nobre, nem sequer relações distinguidas. A senhorita Hawkins era a menor das duas filhas de um...

comerciante -certamente, terá que lhe chamar assim- do Bristol; mas como, a fim de contas, os benefícios de seu comércio não pareciam ter sido muito elevados, era lógico supor que os negócios a que se dedicou não tinham sido tampouco de muita importância.

Cada inverno estava acostumado a passar uma temporada no Bath; mas sua casa estava no Bristol, no mesmo centro do Bristol; pois embora seus pais tinham morrido fazia já vários anos, o ficava um tio... que trabalhava com um advogado... tudo o que se atreveram a dizer dele foi que «trabalhava com um advogado»...; e a jovem vivia em sua casa. Emma supunha que se tratava do empleadillo de algum procurador e que era muito obtuso para subir de categoria. E todo o brilho da família parecia depender da irmã maior, que estava «muito bem casada» com um cavalheiro que vivia «muito bem» perto do Bristol, e que tinha nada menos que dois carros! Este era o ponto culminante de toda a história;

este era o máximo motivo de orgulho da senhorita Hawkins.

Ah, se Emma pudesse obter que Harriet pensasse como ela a respeito de todo aquele assunto! Ela tinha introduzido ao Harriet no amor; mas ai!, agora não era tão fácil arrancar o de seu coração. Não era possível desvanecer o feitiço de algo que ocupava tantas horas vazias como tinha Harriet. Só podia ser desvirtuado por outro; e sem dúvida chegaria este momento; nada podia estar mais claro; mas Emma temia que isto era o único que podia curá-la. Harriet era uma dessas pessoas que uma vez conheceram o amor, durante todo o resto de sua vida têm que estar apaixonadas. E agora, pobre moça!, passava-o muito pior desde que o senhor Elton tinha retornado. Em todas partes acreditava descobrir sua silhueta. Emma só lhe tinha visto uma vez; mas Harriet dois ou três vezes cada dia estava segura de estar a ponto de encontrar-se com ele, ou a ponto de ouvir seu voz, ou a ponto de divisar seus ombros, a ponto de que ocorresse algo que mantivera vivo a lembrança dele em sua imaginação, com toda a favorável calidez da surpresa e da conjetura. Além disso, continuamente estava ouvindo falar dele; pois, exceto quando estava no Hartfield, achava-se sempre entre pessoas que não viam nenhum defeito no senhor Elton, e que consideravam que não havia nada tão interessante como discutir aproxima de seus assuntos; e portanto todas as notícias, todas as hipóteses... tudo o que já tinha ocorrido, tudo o que podia lhe chegar a ocorrer no desenvolvimento de seus assuntos, incluindo sua renda anual, seus criados e seus móveis, eram temas que se debatiam sem cessar em torno dela. Seus sentimentos se robusteciam ao não ouvir mais que elogios do senhor Elton, seu pesar se avivava, e se sentia ferida ante as incessantes ponderações da felicidade de a senhorita Hawkins e pelos contínuos comentários a respeito da intensidade do afeto que o vigário lhe professava... o ar que tinha quando andava pela casa... inclusive o modo em que ficava o chapéu... tudo eram provas de quão apaixonado chegava a estar...

De ter sido possível tomá-lo a brincadeira, de não ser algo tão penoso para seu amiga e que implicava tantas recriminações para si mesmo, tudo aqueles desgostos do estado de ânimo do Harriet tivessem constituído um motivo de diversão para a Emma. Às vezes era o senhor Elton quem preponderava, outras os Martin; e um servia para rebater os efeitos do outro. A notícia do próximo matrimônio do senhor Elton tinha sido o melhor remédio para o desgosto que lhe produziu o encontro com o senhor Martin. A tristeza que lhe produziu esta notícia tinha sido superada em grande parte pela visita que poucos dias depois Elizabeth Martin efetuou à senhora Goddard. Harriet não estava em casa; mas lhe havia escrito e deixado uma nota redigida de um modo que não pôde por menos de comovê-la;

uma mescla de um pouco de recriminação e um muito de afeição; e até que reapareceu o senhor Elton esteve muito ocupada refletindo sobre aquilo, refletindo a respeito do que devia fazer para corresponder, e desejando fazer mais do que se atrevia a confessar-se.

Mas o senhor Elton em pessoa tinha afastado todas aquelas preocupações. Enquanto ele esteve no Highbury os Martin foram esquecidos; e na mesma manhã em que saiu de novo para o Bath, Emma, para dissipar a penosa impressão que aquilo produzia em seu amiga, opinou que o melhor que podia fazer era devolver a visita a Elizabeth Martin.

O que devia pensar-se daquela visita... o que é o que era necessário fazer... e o que era o mais seguro, tinham sido questões sobre as que era muito difícil tomar uma determinação. Não fazer nenhum caso da mãe e das irmãs, quando se a convidava, tivesse sido uma ingratidão. Não era possível; e entretanto e o perigo de que reatasse-se aquela amizade?

depois de muito pensar decidiu, a falta de uma idéia melhor, que Harriet devolvesse a visita; mas de um modo que, se eles eram um pouco acordados se convencessem de que aquilo não aspirava a ser mais que uma relação formularia. Emma decidiu que acompanharia ao Harriet em seu carro, que a deixaria no Abbey Hill, e que ela seguiria adiante durante um curto trecho, e que voltaria a recolhê-la ao cabo de pouco momento, para evitar ocasião de que houvessem muitas evocações intencionadas e perigosas do passado, dando também assim a prova mais concludente de que grau de intimidade tinha que haver entre eles no futuro.

Não lhe ocorreu nada melhor; e embora havia algo em todo aquele plano que no fundo não podia passar... como uma sombra de ingratidão logo que dissimulada... devia fazer-se assim, de o contrário, o que ia ser do Harriet?

 

Poucos ânimos tinha Harriet para ir de visita. Tão somente meia hora antes de que seu amiga passasse a recolhê-la por casa da senhora Goddard, sua má estrela a conduziu precisamente ao lugar aonde naquele momento um baú dirigido ao «Reverendo Philip Elton, White-Hart, Bath», era carregado no carro do açougueiro que devia levá-lo até onde passava a diligência; e para o Harriet todo o resto do universo, exceto aquele baú e seu rótulo, deixaram de existir.

Não obstante ficou em caminho; e quando chegaram à granja e descendeu do carro ao final do largo e limpo atalho engravillado que entre macieiras dispostas a espaldera conduzia até a porta principal, o ver todas aquelas coisas que o outono anterior lhe haviam proporcionado tanto prazer, começou a lhe produzir um certo desgosto; e quando se separaram Emma advertiu que olhava a sua redor com uma espécie de curiosidade temerosa que a decidiu a não permitir que a visita se prolongasse mais à frente do quarto de hora que se proposto. Emma seguiu adiante para dedicar aquele momento a um antigo criado que se casou e que vivia no Donwell.

Ao cabo de um quarto de hora, pontualmente, voltava a estar de novo ante a branca entrada; e a senhorita Smith, obedecendo a suas chamadas, não demorou para reunir-se com ela sem a companhia de nenhum perigoso jovem. aproximou-se sozinha pelo atalho de cascalho... só uma senhorita Martin apareceu na porta, despedindo-a ao parecer com cerimoniosa cortesia.

Harriet demorou um pouco em poder dar uma explicação medianamente inteligível do que tinha ocorrido. Seus sentimentos eram muito intensos; mas por fim Emma obteve inteirar-se do suficiente para fazer-se carrego de como se desenvolveu aquela entrevista e de que classe de feridas tinha deixado em seu amiga. Só tinha visto a senhora Martin e a suas duas filhas. Tinham-na acolhido de um modo receoso, por não dizer frio; e quase durante todo o tempo não se falou mais que de simples lugares comuns... até o último momento, quando inesperadamente a senhora Martin havia dito que tinha a impressão de que a senhorita Smith tinha crescido, levando assim a conversação para um tema mais interessante e mostrando-se mais efusiva. Em mês passado de setembro, em aquela mesma habitação Harriet tinha comparado sua estatura com a de seus dois amigas.

Ali estavam ainda os sinais de lápis e as inscrições no marco da janela. O fazia ele. Todos pareceram recordar o dia, a hora, a festa, a ocasião... sentir a mesma inquietação, o mesmo pesar... estar dispostos a voltar a ser os mesmos de antes; e já foram fazendo-se à idéia de que tudo voltasse a ser igual a uns meses atrás (Harriet, como Emma devia suspeitar, estava tão disposta como qualquer delas a mostrar-se de novo tão afetuosa e tão contente como antes), quando reapareceu o carro e todo se esfumou. Então o caráter da visita e sua brevidade se sentiram mais intensamente. Conceder quatorze minutos às pessoas a quem fazia menos de seis meses devia agradecer uma feliz estadia de seis semanas! Emma não podia por menos de imaginá-la situação e de dar-se conta da razão que tinham de sentir-se ofendidos, e do natural que era que Harriet sofresse por tudo isso. Era um mau assunto. Ela houvesse estado disposta a fazer algo, tivesse tolerado algo para conseguir que os Martín estivessem em um nível social mais elevado. Tinham tão boa vontade que só um pouco mais de altura já tivesse podido bastar; mas, tal como estavam as coisas, de o que outra maneira podia obrar? Impossível... Não podia arrepender-se. Tinham que separar-se;

mas aquela era uma operação muito dolorosa... para ela tanto naquela ocasião que em seguida sentiu a necessidade de procurar um pouco de consolo, e decidiu retornar a sua casa passando pelo Randalls para procurar-lhe Estava já farta do senhor Elton e dos Martin.

O refrigério do Randalls era absolutamente necessário.

Tinha sido uma boa idéia. Mas ao aproximar-se da porta lhes disseram que «nem o senhor nem a senhora estavam em casa»; os dois tinham saído fazia já bastante momento; o criado supunha que tinham ido ao Hartfield.

-Que má sorte! -exclamou Emma enquanto voltavam para carro-. E agora quando cheguemos ali eles se acabaram de ir; isto já é muito! Fazia tempo que não chateava-me tanto uma coisa assim.

E se recostou em um rincão do carro para desafogar seu mau humor ou para dissipá-lo a força de raciocínios; provavelmente um pouco ambas as coisas... como está acostumado a ocorrer com as pessoas de bom natural. de repente o carro se deteve; levantou o olhar; haviam-no detido o senhor e a senhora Weston, que estavam ante ela dispondo-se a lhe falar.

Sentiu uma grande alegria ao lhes ver, alegria que foi ainda major quando ouviu o som de seus vozes... porque o senhor Weston a abordou imediatamente.

-Tudo bem, como vai? Tudo bem? visitamos seu pai... e nos alegrou muito lhe ver com tão bom aspecto. Frank chega amanhã... esta mesma manhã tive carta dela... amanhã na hora de comer já o teremos em casa, esta vez é seguro... hoje está em Oxford, e vem para passar duas semanas completas; já sabia eu que tinha que ser assim.

Se tivesse vindo por Natal não tivesse podido ficar conosco mais que três dias; eu do primeiro momento me alegrei de que não viesse por Natal; agora desfrutaremos de um tempo muito melhor, faz uns dias claros, secos, o tempo está estável.

Deste modo desfrutaremos muito mais de sua companhia; tudo saiu melhor do que tivéssemos podido desejá-lo.

Não havia modo de resistir a estas notícias, nem possibilidade de evitar a influência de um rosto tão feliz como o do senhor Weston, confirmando-o todo as palavras e a atitude de sua esposa, menos loquaz e mais reservada, mas não menos alegre pelo ocorrido. Saber que ela considerasse segura a chegada de seu enteado era suficiente para que Emma o acreditasse também assim, e participou sinceramente de seu júbilo. Era a mais grata recuperação de uns ânimos abatidos. Passado-o se esquecia ante as felizes perspectivas do que ia a ocorrer; e naquele momento Emma teve a esperança de que não voltaria a falar-se mais do senhor Elton.

O senhor Weston lhes contou a história de tudo o que tinha acontecido no Enscombe, e que tinha permitido a seu filho lhes escrever dizendo que dispunha de duas semanas completas e lhes descrevendo qual seria o caminho que seguiria e o modo em que levaria a cabo o viagem; e a jovem escutava, sorria e se alegrava muito seriamente.

-E em seguida lhe levarei ao Hartfield erijo o senhor Weston, como conclusão.

Ao chegar a este ponto Emma supôs que sua esposa lhe chamava a atenção lhe apertando o braço.

-Teríamos que ir, querido -disse-; estamos as entretendo.

-Sim, sim, quando quiser... -e voltando-se de novo a Emma-: mas agora não cria que é um jovem tão arrumado, né?; você só lhe conhece através do que eu lhe hei dito; me atreveria a dizer que em realidade não é nada tão extraordinário...

Mas o cintilação que tinham seus olhos naquele momento dizia bem às claras que seu opinião não podia ser mais distinta. Emma por sua parte conseguiu aparentar uma total tranqüilidade e inocência, e responder de um modo que não a comprometesse absolutamente.

-Emma, querida, pensa em mim manhã ao redor das quatro -foi o rogo com o que despediu-se a senhora Weston; e em suas palavras, que só foram dirigidas a ela, havia uma certa inquietação.

-Às quatro! Pode estar segura de que às três já o teremos aqui -corrigiu-lhe rapidamente o senhor Weston.

E assim terminou aquele afortunado encontro. Emma tinha cobrado novos ânimos e se sentia completamente feliz; tudo parecia distinto; James e seus cavalos não pareciam nem a metade de lentos que antes. Quando posou o olhar nos sebes pensou que os saúcos pelo menos não demorariam já muito em jogar brotos, e quando se voltou para o Harriet também em seu rosto acreditou ver como um espiono primaveril, algo semelhante a um vago sorriso. Mas a pergunta que fez não era excessivamente prometedora:

-Crie que o senhor Frank Churchill além de passar por Oxford passará pelo Bath?

Mas nem os conhecimentos geográficos nem a tranqüilidade se adquirem em um abrir e fechar de olhos; e naqueles momentos Emma se sentia disposta a conceder que tanto uma coisa como outra já chegariam com o tempo.

Chegou a manhã daquele dia tão esperado, e a fiel discípula da senhora Weston não se esqueceu nem às dez, nem às onze nem às doze, que às quatro tinha que pensar nela.

«Pobre amiga minha! -dizia-se para si enquanto saía de seu quarto e baixava as escadas-.

Sempre preocupando-se tanto pelo bem-estar de todo o mundo e sem pensar no seu!

Agora mesmo te estou vendo atareadísima, entrando e saindo mil vezes de seu habitação para te assegurar de que tudo está em ordem. -O relógio deu as doze enquanto atravessava o saguão-. As doze, dentro de quatro horas não me esquecerei de pensar em ti.

E amanhã a esta hora, pouco mais ou menos, ou possivelmente um pouco mais tarde, pensarei que estarão todos a ponto de vir a nos visitar. Estou segura de que não demorarão muito em lhe trazer aqui."

Abriu a porta do salão e viu seu pai falando com dois cavalheiros: o senhor Weston e seu filho. Fazia poucos minutos que tinham chegado, e o senhor Weston logo que tinha tido tempo de acabar de explicar porquê Frank se antecipou um dia ao previsto, e seu pai se achava ainda lhes dando a bem-vinda e lhes felicitando com suas cerimoniosas frases quando ela apareceu para participar do assombro, das apresentações e da ilusão de aqueles momentos.

Frank Churchill, de quem tanto se falou, que tanta espera tinha suscitado, estava em pessoa ante ela... fizeram-se as apresentações e Emma pensou que os elogios que se tinham feito dele não tinham sido excessivos; era um jovem extraordinariamente arrumado; seu porte, sua elegância, sua desenvoltura não admitiam nenhum reparo, e em conjunto seu aspecto recordava muito da boa têmpera e da vivacidade de seu pai; parecia acordado de inteligência e com talento. Emma advertiu imediatamente que seria de seu agrado; e viu nele uma naturalidade no trato e uma soltura na conversação, próprias de alguém de boa criação, que a convenceram de que ele aspirava a ganhar sua amizade, e de que não demorariam muito em ser bons amigos.

Tinha chegado ao Randalls a noite antes. Emma ficou muito agradada ao ver as pressas por chegar que tinha tido o jovem e que lhe tinha feito trocar de plano, ficar em caminho antes do previsto, fazer jornadas mais largas e mais intensas para poder ganhar meio-dia.

-Já lhe dizia ontem -exclamava o senhor Weston cheio de entusiasmo-, eu já lhes havia dito a todos que lhe teríamos conosco antes do tempo fixado. Lembrava-me do que eu estava acostumado a fazer a sua idade. Não se pode viajar a passo de tartaruga; é inevitável que um vá muito mais às pressas do que tinha planejado; e a ilusão de surpreender a nossos amigos quando não o esperam vale muito mais que as pequenas moléstias que traz consigo uma coisa assim.

-Faz muita ilusão poder dar uma surpresa como esta -disse o jovem-, embora não me atreveria a fazê-lo em muitas casas; mas tratando-se de minha família pensei que podia permitir-me isso tudo.

A expressão «minha família» fez que seu pai lhe dirigisse um olhar de viva complacência. Emma se convenceu plenamente de que o jovem sabia como fazer-se agradável; e esta convicção se robusteceu lhe ouvindo falar mais. Fez muitos elogios de Randalls, considerou-a como uma casa admiravelmente ordenada, logo que quis conceder que era pequena, elogiou sua situação, o caminho do Highbury, o próprio Highbury, Hartfield ainda mais, e assegurou que sempre tinha sentido pela comarca o interesse que só pode despertar a terra própria, e que sempre havia sentido uma enorme curiosidade por visitá-la. Pela mente da Emma cruzou suspicazmente a idéia de que era estranho que tivesse demorado tanto tempo em poder cumprir este desejo; mas inclusive se suas palavras não eram sinceras, resultavam gratas, e eram hábeis e oportunas. Não dava a impressão de uma pessoa afetada ou amaneirada. O certo é que seu entusiasmo parecia totalmente sincero.

Em geral, o tema da conversação foi o normal entre pessoas que acabam de conhecer-se. Lhe perguntou se montava a cavalo, se gostava de passear pelo campo, se tinha muitos amigos por aqueles contornos, se estava satisfeita da vida social que podia lhes proporcionar um povo como Highbury -«Vi que há casas preciosas por estes arredores»-, se havia bailes, se celebravam reuniões de caráter musical...

Mas uma vez satisfeita sua curiosidade a respeito de todos esses pontos, e quando seu conversação se fez já um pouco mais íntima, o jovem as engenhou para encontrar a oportunidade, enquanto seus pais conversavam sozinhos à parte, para falar de sua madrasta e fazer dela os maiores elogios, declarando um grande admirador dele, e dizendo que professava-lhe tanta gratidão pela felicidade que tinha proporcionado a seu pai e pela cálida acolhida que lhe tinha dispensado a ele, que devia constituir uma prova mais de que sabia como agradar... e de que sem dúvida considerava que valia a pena tentar atrair-lhe -La boda de mi padre -dijo- ha sido una de sus decisiones más afortunadas; todos sus Entretanto, seus elogios nunca transbordaram o que Emma sabia que a senhora Weston merecia sobradamente; mas claro está que ele tampouco podia saber muito a respeito de ela. O que sabia era que suas palavras foram ser agradáveis; mas não podia estar seguro de muitas coisas mais.

-As bodas de meu pai -disse- foi uma de suas decisões mais afortunadas; todos seus amigos devem alegrar-se; e a família graças a qual foi possível esta grande sorte para mim sempre será merecedora da maior gratidão.

Quase chegou a agradecer a Emma os méritos da senhorita Taylor, embora sem dar a impressão de que esquecesse completamente, que, em boa lógica, era mais natural supor que tinha sido a senhorita Taylor quem tinha formado o caráter da senhorita Woodhouse que a senhorita Voodhouse o da senhorita Taylor. E por fim, como decidindo-se a justificar seu critério atendendo a todos e cada um dos aspectos da questão, manifestou seu assombro pela juventude e a beleza de sua madrasta.

-Eu supunha -disse- que se tratava de uma dama elegante e de maneiras distinguidas; mas confesso que no melhor dos casos não esperava' que fosse mais que uma mulher de certa idade ainda de bom ver; não sabia que a senhora Weston era uma jovem tão linda.

-A meu entender -disse Emma- exagera você um pouco ao encontrar tantas perfeições em a senhora Weston; se descobrisse você que tem dezoito anos, não deixaria de lhe dar a razão; mas estou segura de que ela se zangaria com você se soubesse que lhe dedica frases como essas. Procure que não se inteire de que fala dela como de uma jovem tão linda.

-Espero que saberei ser discreto -replicou-; não, pode você estar segura (e ao dizer isto fez uma galante reverencia) de que falando com a senhora Weston saberei a quem poder elogiar sem correr o risco de que me considere exagerado ou inoportuno.

Emma se perguntou se as mesmas hipóteses que ela se feito a respeito das conseqüências que podia trazer o que os dois se conhecessem, e que tinham chegado a apropriar-se tão completamente de seu espírito, tinham cruzado alguma vez pela mente de ele; e se seus cumpridos deviam interpretar-se como amostras de aquiescencia ou como uma espécie de desafio. Tinha que lhe conhecer mais a fundo para saber o que é o que se propunha; no momento o único que podia dizer era que suas palavras lhe eram agradáveis.

Não tinha a menor duvida dos projetos que o senhor Weston tinha estado forjando sobre tudo aquilo. Tinha surpreso uma e outra vez seu penetrante olhar fixo neles com expressão agradada; e inclusive quando ele decidia não olhar, Emma estava segura de que freqüentemente devia estar escutando.

que seu pai fora totalmente alheio a qualquer idéia desse tipo, que fosse absolutamente incapaz de fazer tais hipóteses ou de ter tais suspeitas, era já um feito mais tranqüilizador. Por fortuna estava tão longe de aprovar seu matrimônio como de prevê-lo... Embora sempre punha reparos a todas as bodas, nunca sofria de antemão por o temor de que chegasse este momento; parecia como se não fosse capaz de pensar tão mal de duas pessoas, fossem quais fossem, caso que pretendiam casar-se, até que houvessem provas concludentes contra elas. Emma benzia aquela cegueira tão favorável. Naqueles momentos, sem ter que preocupar-se com nenhuma conjetura pouco grata, sem chegar a adivinhar no futuro nenhuma possível traição por parte de sua hóspede, dava livre curso a sua cortesia espontânea e cordial, interessando-se vivamente pelos problemas de alojamento que tinha tido Frank Churchill durante sua viagem -com moléstias tão penosas como o dormir duas noites em caminho-, perguntando ansiosamente sim era certo que não se resfriou... o qual, apesar de tudo, ele não consideraria totalmente seguro até depois de ter acontecido outra noite.

Tinha transcorrido já um tempo razoável para a visita, e o senhor Weston se levantou para ir-se.

-Já é hora de que vá. Tenho que passar pela hospedaria da Coroa para falar de um feno que necessito, e a senhora Weston me tem feito muitíssimos encargos para a loja da Ford; mas não é preciso que me acompanhe ninguém.

Seu filho, muito bem educado para recolher a insinuação, também se levantou imediatamente dizendo:

-Enquanto te ocupa de todos esses assuntos, eu aproveitaria a ocasião para fazer uma visita que tenho que fazer um dia ou outro, e portanto posso ficar bem hoje mesmo.

Tive o gosto de conhecer um vizinho dele -voltando-se para a Emma-, uma senhora que vive no Highbury, ou por aqui perto; uma família cujo nome é Fairfax. Suponho que não terei dificuldade em encontrar a casa; embora acredite que não se apelidam Fairfax propriamente... é algo assim como Barnes ou Tacos de beisebol. Conhece você alguma família que se chame assim?

-É claro que sim! -exclamou seu pai-; a senhora Bate... quando passamos por diante de seu casa vi que a senhorita Bate estava aparecida na janela. Certo, certo que conhece a senhorita Fairfax; lembro-me que a conheceu no Weymouth, e é uma moça excelente. Sobre tudo não deixe de visitá-la.

-Não é necessário que vá visitar lhes esta mesma manhã -disse o jovem-; posso ir qualquer outro dia; mas no Weymouth nos fizemos tão amigos que...

-Nada, nada, não deixe de ir hoje mesmo; não tem por que postergar a visita. Nunca é muito logo para fazer o que se deve. E além disso, Frank, tenho que te fazer uma advertência; aqui teria que pôr muito cuidado em evitar tudo o que pudesse parecer um desprezo para com ela. Quando você a conheceu vivia com os Campbell e estava à mesma altura de todos os que a tratavam, mas aqui está com sua avó, que é uma anciã pobre, que logo que tem a suficiente para viver. Ou seja que se não a visitas logo fará-lhe um desprezo.

Seu filho pareceu ficar convencido. Emma disse:

-Já lhe ouvi falar de sua amizade; é uma jovem muito elegante.

Ele assentiu, mas com um «sim» tão direto que quase fez duvidar a Emma de que esta era seu opinião; e entretanto, no grande mundo se devia ter uma idéia muito distinta da elegância se Jane Fairfax só era considerada como uma jovem corrente.

-Se antes de agora nunca lhe tinham chamado a atenção suas maneiras -disse ela-, acredito que hoje lhe impressionarão. Poderá vê-la em um ambiente que lhe dá mais realce; vê-la e ouvi-la...

bom, embora me temo que não lhe ouvirá dizer nenhuma palavra, porque tem uma tia que não pára de falar nem um momento.

-De modo que conhece você à senhorita Jane Fairfax? -disse o senhor Woodhouse, sempre o último em tomar parte na conversação-; então me permita lhe assegurar que parecerá-lhe uma jovem muito agradável. Está passando uma temporada aqui, em casa de seu avó e de sua tia, gente muito bem; conheço-lhes de toda a vida. Alegrarão-se muitíssimo de lhe ver, estou seguro, e um de meus criados lhe acompanhará para lhe ensinar o caminho.

-Por Deus, senhor Woodhouse, de maneira nenhuma, não faltava mais! Meu pai pode me guiar.

-Mas seu pai não vai tão longe; vai só à Coroa, que está ao outro lado da rua, e por ali há muitas casas e é fácil equivocar-se; pode você desorientar-se, e se vai a pôr perdido de andar por ali se não cruzar pelo melhor passo; mas meu chofer pode lhe indicar o melhor sítio para cruzar a rua.

Frank Churchill seguiu declinando o oferecimento, com toda a seriedade de que era capaz, e seu pai foi em sua ajuda exclamando:

-Meu querido amigo, mas se for completamente desnecessário! Frank não é tão parvo como para meter-se em um atoleiro sem vê-lo, e da Coroa pode chegar a casa da senhora Tacos de beisebol em um instante.

Lhes permitiu que se fossem sozinhos; e com um cordial movimento da cabeça por parte de um e uma graciosa reverência por parte do outro, os dois cavalheiros se despediram.

Emma ficou muito agradada com o começo desta amizade, e a partir de então a qualquer hora do dia que pensasse em todos os membros da família do Randalls, tinha plena confiança em que eram felizes.

 

À manhã seguinte Frank Churchill se apresentou de novo ali. Veio com a senhora Weston, por quem, como pelo próprio Highbury, parecia sentir grande afeto. Ao parecer ambos tinham estado conversando amigablemente em sua casa até a hora em que se estava acostumado a dar um passeio; e quando o jovem teve que decidir a direção que tomariam, imediatamente se pronunciou pelo Highbury.

-Ele já sabe que indo em todas direções podem dar-se passeios muito agradáveis, mas se lhe dá a escolher sempre se decide pelo mesmo. Highbury, esse arejado, alegre e feliz Highbury, exerce sobre ele uma constante atração...

Highbury para a senhora Weston significava Hartfield; e ela confiava em que para seu acompanhante fosse também. E para ali encaminharam diretamente seus passos.

Emma não lhes esperava; porque o senhor Weston, que lhes tinha feito uma rapidísima visita do meio minuto, justo o tempo de ouvir que seu filho era muito boa moço, não sabia nada de seus planos; e portanto para a jovem foi uma agradável surpresa lhes ver aproximar-se à casa juntos, agarrados do braço. Tinha estado desejando voltar a lhe ver, e sobre tudo lhe ver em companhia da senhora Weston, já que de seu proceder com sua madrasta dependia a opinião que ia formar se dele. Se falhava neste ponto, nada do que fizesse poderia lhe justificar a seus olhos. Mas ao lhes ver juntos ficou totalmente satisfeita..

Não era só com boas palavras nem com cumpridos hiperbólicos como cumpria seus deveres; nada podia ser mais adequado nem mais agradável que seu modo de comportar-se com ela... nada podia demonstrar mais agradavelmente seu desejo de considerá-la como uma amiga e de ganhar seu afeto; e Emma teve tempo mais que suficiente de formar um julgamento mais completo, já que sua visita durou todo o resto da manhã. Os três juntos deram um passeio de uma ou duas horas, primeiro pelos plantios de árvores do Hartfield e logo pelo Highbury. O jovem se mostrava encantado contudo; sua admiração por Hartfield tivesse bastado para encher de júbilo ao senhor Woodhouse; e quando decidiram prolongar o passeio, confessou seu desejo de que lhe informassem de todo o relativo ao povo, e achou motivos de elogio e de interesse muito mais freqüentemente do que Emma houvesse podido supor.

Algumas das coisas que despertavam sua curiosidade demonstravam que era um jovem de sentimentos delicados. Pediu que lhe ensinassem a casa em que seu pai tinha vivido durante tanto tempo, e que tinha sido também a casa de seu avô paterno; e ao saber que uma anciã que tinha sido sua babá vivia ainda, percorreu toda a rua de um extremo ao outro em busca de sua cabana; e embora algumas de suas perguntas e de seus comentários, não tinham nenhum mérito especial, em conjunto demonstravam muito boa vontade para com o Highbury em geral, o qual para as pessoas que lhe acompanhavam devia ser algo muito semelhante a um mérito.

Emma, que lhe estudava, decidiu que com sentimentos como aqueles com os que agora mostrava-se, não podia supor-se que por sua própria vontade tivesse permanecido tanto tempo afastado dali; que não tinha estado fingindo nem fazendo ostentação de frases insinceras;

e que sem dúvida o senhor Knightley não tinha sido justo com ele.

Sua primeira visita foi para a Hospedaria da Coroa, uma hospedaria de não muita importância, embora a principal em seu ramo, onde dispunham de dois pares de cavalos de refresco para a posta, embora mais para as necessidades da vizinhança que para o movimento de carruagens que havia pelo caminho; e seus acompanhantes não esperavam que ali o jovem se sentisse particularmente interessado por nada; mas ao entrar lhe contaram a história do grande salão que a simples vista se via que tinha sido acrescentado ao resto do edifício; construiu-se fazia já muitos anos com o fim de servir para sala de baile, e se tinha utilizado como tal enquanto no povo os aficionados a esta diversão haviam sido numerosos; mas tão brilhantes dias ficavam já muito longe, e na atualidade servia como máximo para albergar a um clube de whist que tinham formado os senhores e os meios senhores do lugar. O jovem se interessou imediatamente por aquilo. Chamava-lhe a atenção que aquilo tivesse sido uma sala de baile; e em vez de seguir adiante, deteve-se durante uns minutos ante o marco das duas janelas da parte alta, as abrindo para aparecer e fazer-se carrego da capacidade do local, e logo lamentar que já não se utilizasse para o fim para o que tinha sido construído. Não achou nenhum defeito na sala e não se mostrou disposto a reconhecer nenhum dos que elas lhe sugeriram. Não, era suficientemente larga, suficientemente larga, e também o suficientemente bem decorada. Ali podiam reunir-se comodamente as pessoas necessárias. Deveriam organizar-se bailes pelo menos cada duas semanas durante o inverno. por que a senhorita Woodhouse não fazia que aquele salão conhecesse de novo tempos tão brilhantes como os de antigamente? Ela que o podia tudo no Highbury! Lhe objetou que no povo faltavam famílias de suficiente posição, e que era seguro que ninguém que não fora do povo ou de seus imediatos arredores se sentiria tentado de assistir a esses bailes; mas ele não se dava por vencido. Não podia convencer-se de que com tantas casas formosas como tinha visto no povo, não pudesse reunir um número suficiente de pessoas para uma velada desse tipo; e inclusive quando lhe deram detalhes e se descreveram as famílias, ainda resistia a admitir que o mesclar-se com aquela classe de gente fora um obstáculo, ou que à manhã seguinte haveria dificuldades para que cada qual voltasse para lugar que o correspondia. Argumentava como um jovem entusiasta do baile; e Emma ficou mas bem surpreendida ao dar-se conta de que o caráter dos Weston prevalecia de um modo tão evidente sobre os costumes dos Churchill. Parecia ter toda a vitalidade, a animação, a alegria e as inclinações sociais de seu pai, e nada do orgulho ou da reserva do Enscombe. A verdade é que talvez de orgulho tinha muito pouco; seu indiferença a mesclar-se com pessoas de outra desse confinava quase com a falta de princípios.

Entretanto não podia dar-se ainda plena conta daquele perigo ao que dava tão pouca importância. Aquilo não era mais que uma expansão de sua grande vitalidade.

Por fim lhe convenceram para afastar-se da fachada da Coroa; e ao achar-se agora quase em frente da casa em que viviam as Tacos de beisebol, Emma recordou que no dia anterior queria lhes fazer uma visita, e lhe perguntou se tinha levado a cabo seu propósito.

-Sim, sim, é claro que sim -replicou-; precisamente agora ia falar disso. Uma visita muito agradável... Estavam as três; e foi muito útil o aviso que você me deu; se aquela senhora tão charlatana me tivesse pego totalmente despreparado, tivesse sido meu morte; e apesar de todo me vi obrigado a ficar muito mais tempo de que pensava.

Uma visita de dez minutos era necessária e oportuna... e eu lhe havia dito a meu pai que estaria de volta em casa antes que ele; mas não havia modo de ir-se, não se fez nem a menor pausa; e imagine qual seria meu assombro quando meu pai ao não me encontrar em nenhum outro sitio por fim veio a me buscar, e me dava conta que tinha passado ali quase três quartos de hora; antes de então a boa senhora não me deu a possibilidade de escapar.

-E que impressão lhe produziu a senhorita Fairfax?

-Má, muito má... quer dizer, se não ser muito descortês dizer de uma senhorita que produz má impressão. Mas seu aspecto é realmente inadmissível, não lhe parece, senhora Weston? Uma dama não pode ter esse ar tão doentio. E, francamente, a senhorita Fairfax está tão pálida que quase dá a impressão de que não goza de boa saúde... Uma deplorável falta de vitalidade.

Emma não estava de acordo com ele e começou a defender acaloradamente o saudável aspecto da senhorita Fairfax.

-É certo que nunca dá a sensação de que transborda saúde, mas disso a dizer que tem uma cor quebrada e doentio vai um abismo; e sua pele tem uma suavidade e uma delicadeza que lhe dá uma elegância especial a suas facções.

Ele a escutava com uma cortês deferência; reconhecia que tinha ouvido dizer o mesmo a muita gente... mas, apesar de tudo devia confessar que a seu julgamento nada compensava a ausência de um aspecto saudável. Quando a beleza não era excessiva, a saúde e o viço davam realce e inclusive formosura à pessoa; e quando a beleza e a saúde se davam juntas... neste caso acrescentou com galanteria, não era preciso descrever qual era o efeito que produziam.

-Bom -disse Emma-, sobre gostos não há nada escrito... Mas pelo menos, excetuando a cor da tez, pode dizer-se que lhe produziu boa impressão.

O jovem sacudiu a cabeça e pôs-se a rir:

-Não saberia dar uma opinião sobre a senhorita Fairfax sem ter em conta este fato.

-Via-a você freqüentemente no Weymouth? encontravam-se com freqüência nos mesmos círculos sociais?

Naquele momento se estavam aproximando da loja da Ford, e ele se apressou a exclamar:

-Vá! Esta deve ser a loja a que, conforme diz meu pai, acode todo mundo cada dia sem falta. Diz que de cada semana seis dias vem ao Highbury e sempre tem algo que fazer aqui. Se não terem vocês inconveniente eu gostaria de entrar para me demonstrar a mim mesmo que pertenço ao povo, que sou um verdadeiro cidadão de Highbury. Teria que fazer umas compras. Submeto-me, abdico de minha independência de critério... Suponho que venderão luvas não?

-OH, sim! Luvas e tudo o que você queira. Admiro seu patriotismo. Adorarão-lhe em Highbury. antes de sua chegada já era muito popular por ser o filho do senhor Weston... mas você deixe meia guinea em casa Ford e terá muita mais popularidade da que merece por suas virtudes.

Entraram, e enquanto traziam e desdobravam sobre o mostrador os suaves e bem atados pacotes do Men's Beavers» e «York Tan,11» o jovem disse:

-Rogo-lhe que me desculpe, senhorita Woodhouse, estava-me você falando, o que me dizia no momento de meu estalo de amor patriae? Seria tão amável de me repetir isso las damas. La señorita Fairfax ya debe haber dado su parecer sobre la cuestión. No voy a Asseguro-lhe que por muito que aumentasse meu renome no povo, não me consolaria de a perda de um grama de felicidade em minha vida privada.

-Só lhe perguntava se tinha tratado muito à senhorita Fairfax no Weymouth.

-Agora que entendo sua pergunta, devo lhe confessar que me parece muito delicada. O direito de decidir o grau de amizade que se tem com um cavalheiro sempre se concede a as damas. A senhorita Fairfax já deve ter dado seu parecer sobre a questão. Não vou a ser tão indiscreto para me atrever a me atribuir mais do que ela tenha decidido me conceder.

-Palavra que responde você com tanta discrição como poderia fazê-lo ela mesma. Mas sempre que ela falava de algo o faz de uma maneira tão ambígua, é tão reservada, se resiste tanto a dar a menor informação a respeito de qualquer, que acredito que você pode nos dizer o que lhe agrade a respeito de sua amizade com ela.

-Seriamente? Então lhes direi a verdade, e nada me agrada tanto como poder fazê-lo.

No Weymouth a via com freqüência. Em Londres eu tinha tido certo trato com os Campbell; e no Weymouth freqüentávamos os mesmos círculos. O coronel Campbell é um homem muito agradável, e a senhora Campbell uma dama muito amável e muito cordial.

Eles professo um grande afeto.

-Então suponho que conhecerá você a situação da senhorita Fairfax; a classe de vida que lhe espera.

-Sim respondeu titubeando-, acredito estar informado de todo isso.

-Emma -disse a senhora Weston sonriendo-, essas são questões muito delicadas; recorda que estou eu presente. O senhor Frank Churchill logo que sabe o que dizer quando lhe fala da situação da senhorita Fairfax. Se não te importar, apartarei-me um pouco.

-A verdade é que me esquecimento de pensar em ti erijo Emma-, porque para mim nunca há sido outra coisa que meu amiga, a melhor de meus amigas.

O jovem pareceu compreender todo o sentido das palavras da Emma e render comemoração a seus sentimentos. E uma vez comprados as luvas, de novo na rua, Frank Churchill disse:

-ouviu tocar alguma vez à senhorita da que estávamos falando?

-Se a ouvi tocar? -exclamou Emma-. Esquece você que aconteceu muitas temporadas no Highbury. Ouvi-a todos e cada um dos anos de nossa vida desde que as duas começamos a estudar música. Touca de uma maneira encantadora.

-Seriamente crie assim? Tinha interesse por conhecer a opinião de alguém que pudesse julgar com conhecimento de causa. me parecia que tocava bem, quer dizer, com muito gosto, mas eu não entendo nada nestas questões... Sou muito aficionado à música, mas me considero um profano, e não me acredito com direito a julgar a ninguém... Sempre que 11 Se trata de duas especialidades de guantería: «Men's Beavers» deviam ser luvas de pele de castor para uso masculino; «York Tão» outra classe de luvas de pele curtida.

ouvia-a tocar ficava admirado; e lembrança uma ocasião em que vi que a consideravam como uma boa intérprete: um cavalheiro muito entendido em música, e que estava apaixonado por outra dama... estavam prometidos e faltava pouco para as bodas... pois este senhor sempre preferia que fora a senhorita Fairfax a que se sentasse a tocar em vez de seu prometida... nunca parecia ter interesse em ouvir a uma se podia ouvir a outra. Isso em um homem muito entendido em música, eu considerei que significava algo.

-Pois claro que sim -disse Emma muito divertida-. O senhor Dixon entende muito de música, verdade? vamos inteirar nos de mais coisas de todos eles em meia hora obrigado a você que as que no meio ano a senhorita Fairfax se dignou a nos dizer.

-Sim, o senhor Dixon e a senhorita Campbell eram as pessoas a que aludia; e eu o considerei como uma prova concludente.

-Certamente, acredito que o é; para lhe ser justifica, muito concludente para que, se eu tivesse sido a senhorita Campbell, tivesse-a aceito de bom grau. Não encontraria desculpa para um homem que emprestasse mais atenção à música que ao amor... que tivesse mais ouvido que olhos... uma sensibilidade mais aguçada para os sons harmoniosos que para meus sentimentos. Como reagiu a senhorita Campbell?

-Era íntima amiga dela, sabe você?

-Vá consolo! -disse Emma rendo-. Eu preferiria lombriga preterida por uma estranha que por uma amiga muito íntima... pelo menos com uma estranha há a possibilidade de que a coisa não volte a acontecer... mas o triste é que uma amiga muito íntima sempre está perto de nós, e se resultar que o faz tudo melhor que uma mesma... Pobre senhora Dixon! Bom, me alegro de que tenha decidido ir viver a Irlanda.

-Tem você razão. Não era muito adulador para a senhorita Campbell; mas a verdade é que ela não parecia dar-se conta.

-Tão melhor... ou tão pior... Não sei. Mas, tanto se era por doçura de caráter como por tolice, porque sente intensamente a amizade ou porque é curta de luzes, a meu entender havia uma pessoa que deveria haver-se dado conta disso: a própria senhorita Fairfax. Era ela quem devia advertir o impróprio e o perigoso das distinções de que era objeto.

-Por isso a ela se refere, não acredito que...

-OH, não cria que espero que você ou qualquer outra pessoa me descreva quais são os sentimentos da senhorita Fairfax. Já suponho que ninguém pode conhecê-los, exceto ela mesma. Mas se seguia tocando sempre que o pedia o senhor Dixon, cada qual pode supor o que quiser.

-Na aparência todos pareciam viver em muito boa harmonia -começou a dizer rapidamente, mas em seguida acrescentou como corrigindo-se-: embora me seria impossível dizer exatamente em que términos se achava sua amizade... tudo o que pudesse haver detrás destas aparências. Quão único posso dizer é que exteriormente não parecia haver dificuldades. Mas você que conheceu à senhorita Fairfax desde menina, deve ter mais elementos que eu para julgá-la e para adivinhar como pode chegar a conduzir-se em uma situação crítica.

-Certamente, conheci-a desde menina; juntas fomos meninas e logo mulheres; e é natural o supor que temos intimidade... que tornamos a nos ver freqüentemente sempre que visitava seus amigas. Mas nunca ocorreu assim. E não saberia lhe explicar muito bem por que; possivelmente tenha influenciado um pouco uma certa malignidad minha que me levou a sentir aversão por uma moça tão idolatrada e tão elogiada como sempre foi ela, por sua tia, sua avó e todas as pessoas de seu círculo. Por outra parte está sua reserva...

nunca pude fazer amizade com alguém que fora tão extremamente reservado.

-Certamente -disse ele- é um rasgo de caráter muito pouco agradável. Sem dúvida freqüentemente resulta muito conveniente, mas nunca é grato. A reserva oferece segurança, mas não é atrativa. Não é possível querer a uma pessoa reservada.

-Não, até que não abandone esta reserva para com um; e então a atração pode ser maior. Mas pelo que a mim respeita, tivesse devido ter mais necessidade de uma amiga, de uma companheira agradável, da que tive, para tomar a moléstia de conquistar a reserva de alguém para me atrair isso Uma amizade íntima entre a senhorita Fairfax e eu é totalmente impensável. Eu não tenho motivos para pensar mal dela... nem um sozinho motivo... mas essa perpétua e extremada cautela no falar e no obrar, esse temor a dar uma opinião clara sobre qualquer se emprestam a despertar a suspeita de que tem algo que ocultar.

O jovem esteve totalmente de acordo com ela; e depois de haver-se passeado juntos durante comprido momento e de ter advertido que coincidiam em muitas coisas, Emma se sentiu tão familiarizada com seu acompanhante que logo que podia acreditar que era só a segunda vez que lhe via. Não era exatamente como ela tinha esperado; era menos mundano em algumas de suas idéias, menos menino mimado da fortuna, e portanto melhor do que ela esperava. Suas idéias pareciam mais moderadas, seus sentimentos mais efusivos. O que mais a surpreendeu foi sua atitude ante a casa do senhor Elton, que ao igual à igreja esteve contemplando por todos os lados, sem que lhes desse a razão em lhe encontrar muitos defeitos. Não, ele não estava de acordo em que aquela casa tivesse tantos inconvenientes; não era uma casa para compadecer a seu dono. Se tivesse que ser compartilhada com a mulher amada, em sua opinião nenhum homem podia ser compadecido por viver ali. Forzosamente devia ter habitações grandes que seriam realmente cômodas.

O homem que necessitasse algo mais tinha que ser um néscio.

A senhora Weston pôs-se a rir, e lhe disse que não sabia o que estava dizendo. Que estava acostumado a viver em uma casa grande, e que nunca se parou a pensar em as muitas vantagens e comodidades que representava o dispor de muito espaço, e que portanto não era a pessoa mais indicada para opinar a respeito das limitações próprias de uma casa pequena. Mas Emma em seu foro interno decidiu que o jovem sabia muito bem o que estava dizendo, e que demonstrava uma agradável propensão a casar-se logo, e isso por motivos elevados. Possivelmente não se fazia cargo dos transtornos que forzosamente tinham que ocasionar na paz doméstica o carecer de uma habitação para o ama de chaves ou o fato de que a despensa do mordomo não reunisse as devidas condições, mas sem dúvida se dava perfeitamente conta de que Enscombe não podia lhe fazer feliz, e de que quando se apaixonasse renunciaria gostoso a muitos luxos com tal de poder casar-se logo.

 

A excelente opinião que Emma se formou do Frank Churchill, ao dia seguinte recebeu um duro golpe para ouvir que o jovem se foi a Londres sem mais objeto que o de fazer-se cortar o cabelo. À hora do café da manhã de repente teve esse capricho, havia mandado a por uma cadeira de postas e tinha partido com a intenção de estar de retorno à hora do jantar, mas sem alegar motivo de mais importância que o de fazer-se cortar o cabelo.

Certamente não havia nada mau em que percorresse duas vezes uma distância de dezesseis milhas com este fim; mas era algo de uma afetação tão exagerada e caprichosa que ela não podia aprová-lo. Não concordava com a sensatez de idéias, a moderação em os gastos e inclusive a cordial efusividad alheia a toda presunção, que tinha acreditado observar nele no dia anterior. Aquilo representava vaidade, extravagância, afeição aos mudanças bruscas, instabilidade de caráter, essa inquietação de certas pessoas que sempre têm que estar fazendo algo, bom ou mau; falta de atenção para com seu pai e a senhora Weston, e indiferença para o modo em que seu proceder pudesse ser julgado por outros; se fazia credor a todas estas acusações. Seu pai se limitou a lhe chamar petimetre e a tomar a brincadeira o acontecido; mas a senhora Weston ficou muito contrariada, e isso se viu claramente pelo fato de que procurou trocar de conversação o antes possível e não fez outro comentário que o de «todos os jovens têm suas pequenas manias».

Excetuando esta pequena mancha, Emma considerava que até então só podia julgar muito favoravelmente o comportamento do jovem. A senhora Weston não se cansava de repetir o atento e amável que se mostrava sempre para com ela e as muitas qualidades que em conjunto possuía sua pessoa. Era de caráter muito aberto, alegre e vivaz; não via nada de mau em seus princípios, e sim em troca muito de inequivocamente bom; falava de seu tio em términos de grande afeto, gostava de lhe citar em seu conversação... dizia que seria o homem melhor do mundo se lhe deixassem obrar segundo seu modo de ser; e embora não professava o mesmo carinho a sua tia, não deixava de reconhecer com gratidão as bondades que tinha tido para com ele, e dava a impressão de que se tinha proposto falar sempre dela com respeito. Todo isso obrigava a lhe conceder um margem de confiança; e só pela desventurada fantasia de querer cortar o cabelo não podia considerar-se o indigno da alta estima com que em seu foro interno Emma o distinguia; estima que se não era exatamente um sentimento de amor por ele, estava muito perto de sê-lo, e cujo único obstáculo era sua teima (ainda seguia firme em sua decisão de não casar-se nunca)... estima que, em resumo, traduzia-se no fato de que Emma o considerava por cima de todas as demais pessoas que conhecia.

Por sua parte, o senhor Weston acrescentava às excelências de seu filho uma virtude que tampouco deixava de ter seu peso: tinha deixado entrever a Emma que Frank a admirava extraordinariamente... que a considerava muito atrativa e cheia de encantos; e pelo tanto, com tantos elementos a seu favor Emma acreditava que não devia lhe julgar duramente.

Como tinha comentado a senhora Weston, «todos os jovens têm suas pequenas manias».

Mas não todas suas novas amizades do condado mostravam disposições tão benevolentes. Em geral nas paróquias do Donwell e Highbury lhe julgava sem malícia; não se dava muita importância às pequenas extravagâncias de um jovem tão arrumado... sempre sorridente e sempre amável com todos; mas havia alguém que não se abrandava facilmente, a quem reverências e sorrisos não faziam depor sua atitude crítica:

o senhor Knightley. O fato em questão foi referido no Hartfield; no momento não disse nada; mas quase imediatamente depois Emma lhe ouviu comentar para si mesmo, enquanto se inclinava sobre o periódico que tinha entre as mãos:

-Hum, não me equivocava ao supor que seria um estúpido e um vaidoso.

Emma esteve a ponto de lhe replicar; mas em seguida se deu conta de que aquelas palavras não tinham sido mais que um desafogo, e que não tinham nenhum caráter de provocação; e as deixou sem resposta.

Embora por uma parte eram portadores de más notícias, a visita que aquela manhã fizeram-lhes o senhor e a senhora Weston em outro aspecto não pôde ser mais oportuna.

Enquanto eles se achavam no Hartfield ocorreu algo que fez que Emma necessitasse seu conselho; e se deu a feliz coincidência de que necessitava precisamente o mesmo conselho que eles lhe deram.

As coisas ocorreram do modo seguinte: Fazia já uma série de anos que os Penetre tinham instalado no Highbury, e eram pessoas excelentes... cordiais, generosos e singelos; mas, por outra parte eram de origem muito modesta, de família de comerciantes e não muito refinados em sua educação. Quando chegaram por vez prie mera à comarca, viviam ajustando-se a suas possibilidades econômicas, levando uma vida aprazível, tendo pouco trato social, e dentro desse pouco trato, sem grandes dispêndios; mas nos últimos dois anos seus meios de fortuna tinham aumentado grandemente... seu negócio de Londres lhes tinha dado maiores benefícios e em geral podia dizer-se que a fortuna lhes tinha sorrido. E ao ver-se com mais dinheiro, suas ambições aumentaram;

sentiram a necessidade de possuir uma casa maior e acreditaram oportuno ter mais trato social. Aumentaram a casa, aumentaram o número de criados e em todos seus aspectos gastos se multiplicaram; e naquela época em fortuna e em trem de vida só eram superados pela família do Hartfield; seu afã de alternar e seu comilão novo fizeram supor a todo mundo que não demorariam para ter convidados; e efetivamente havia havido já algumas convites, sobre tudo a homens solteiros. Mas Emma não lhes acreditava tão audazes para atrever-se a convidar às famílias mais antigas e de mais posição, como as do Donwell, Hartfield ou Randalls. Por nada do mundo se decidiu a aceitar um convite dela, embora outros o fizessem; e só lamentava que ao ser conhecidas de todos os costumes de seu pai, isso subtraísse significado a sua negativa. Os Penetre eram muito respeitáveis a sua maneira, mas devia acostumar-se os que não eram eles quem deviam estabelecer as condições nas que as famílias de mais posição lhes visitassem. E Emma temia muito que esta lição só poderiam receber a dela mesma; não podia esperar muito do senhor Knightley, e nada do senhor Weston.

Mas se tinha preparado para enfrentar-se com esta presunção tantas semanas antes de que o caso se expor, que quando por fim chegou a ofensa a afetou de um modo muito diferente. No Donwell e no Randalls tinham recebido um convite, mas não tinha chegado nenhuma para seu pai e para ela; e a explicação que deu a senhora Weston («Suponho que com vós não se tomarão essa liberdade, já sabem que nunca comem fora de casa»), não lhe bastou absolutamente. dava-se conta de que tivesse preferido poder lhes dar uma negativa; e logo, como todas as pessoas que foram reunir se em casa dos Penetre eram precisamente seus amigos mais íntimos, começou a lhe dar voltas e mais voltas à questão, e terminou sem estar já muito segura de que não se viu tentada a aceitar.

Entre os convidados figuraria Harriet, e também as Tacos de beisebol. Estiveram falando disso enquanto passeavam pelo Highbury no dia anterior, e Frank Churchill tinha lamentado vivamente sua ausência. Não era possível que a velada terminasse com um baile?, tinha perguntado o jovem. A mera possibilidade de que fosse assim só contribuiu a irritar mais a Emma; e o fato de que a deixassem em sua orgulhosa solidão, até caso que a omissão devesse interpretar-se como um completo, era um mesquinho consolo para ela.

E foi precisamente a chegada deste convite, enquanto os Weston estavam em Hartfield, o que fez que sua presença fora tão útil; porque embora seu primeiro comentário ao lê-la foi «certamente terá que rechaçá-la», deu-se tanta pressa em lhes perguntar o que lhe aconselhavam eles, que seu conselho de que aceitasse o convite foi mais decisivo.

Emma reconheceu que, tendo em conta todas as circunstâncias, não deixava de sentir certa inclinação por aceitar. As Couves se expressaram com tanta delicadeza, haviam posto tanta deferência no modo de formular o convite, revelava tanta consideração para com seu pai... «Tivéssemos solicitado antes a honra de sua grata companhia, mas esperávamos que nos enviassem um biombo que tínhamos encarregado em Londres e que confiamos protegerá ao senhor Woodhouse das correntes de ar, caso que isso contribuirá a lhe fazer outorgar o consentimento e a nos proporcionar assim o prazer de seu assistência...» Em vista de todo o qual Emma se mostrou muito disposta a deixar-se convencer; e depois de acordar rapidamente entre eles como poderia levar-se a cabo o projeto sem contrariar a seu pai -sem dúvida podia contar-se com a senhora Goddard, se não com a senhora Bate, para que lhe fizessem companhia-, expôs-se ao senhor Woodhouse a questão de que, com a aquiescencia de sua filha, pensavam aceitar um convite para jantar fora de casa um dia que já estava próximo, o qual significaria ver-se privado de seu filha durante uma série de horas. Emma preferia que seu pai não considerasse possível a idéia de que ele também poderia assistir; a reunião terminaria muito tarde e haveria muita gente. O bom senhor se resignou imediatamente.

-Não sou nada aficionado a esses convites para jantar -dijoNunca o fui. E Emma tampouco. O tresnoitar não se feito para nós. Sinto que o senhor e a senhora Penetre tenham tido esta idéia. me parece que tivesse sido muito melhor que houvessem vindo qualquer tarde do próximo verão depois de comer, e tivessem tomado o chá conosco... e logo tivéssemos podido dar um passeio juntos; isso não lhes houvesse flanco nenhum esforço porque nosso horário é muito regular, e todos houvéssemos podido estar de retorno em casa sem ter que nos expor ao relento da noite. A umidade de uma noite do verão é algo ao que eu não queria expor a ninguém. Mas já que têm tantos desejos de que Emma jante com eles, e como vocês dois estarão ali também, e o senhor Knightley igual, já cuidarão dela... eu não posso lhe proibir que vá com tal de que o tempo seja como deve ser, nem úmido, nem frio, nem ventoso.

Logo, voltando-se para a senhora Weston com um olhar de suave recriminação, acrescentou:

-Ah, senhorita Taylor! Se não se casou se pôde ficar em casa comigo.

-Bom -exclamou o senhor Weston-, já que fui eu quem me levei daqui à senhorita Taylor, me corresponde lhe encontrar um substituto, se é que posso; se o parece bem, posso passar agora em um momento a ver a senhora Goddard.

Mas a idéia de fazer algo «em um momento» não só não acalmava mas também aumentava a inquietação do senhor Woodhouse. Elas em troca sabiam qual era a melhor solução. O senhor Weston não se moveria dali, e todo se faria de um modo mais pausado.

Quando desapareceram as pressas, o senhor Woodhouse não demorou para recuperá-lo suficiente para poder voltar a falar com toda normalidade.

-Eu gostaria de conversar com a senhora Goddard; sinto um grande afeto pela senhora Goddard; Emma poderia lhe pôr umas letras e convidá-la. James poderia levar a nota. Mas antes que nada terá que dar uma resposta por escrito à senhora Penetre. Você, querida, já me desculpará todo o cortesmente que seja possível. lhe diga que sou um verdadeiro inválido, que não vou a nenhuma parte e que portanto me vejo forçado a declinar seu amável convite;

começa lhe apresentando meus respeitos, certamente. Mas já sei que você o fará tudo muito bem; não preciso te dizer o que tem que fazer. Temos que nos lembrar de dizer a James que necessitaremos o carro para na terça-feira. Indo com ele não tenho nenhum medo de que te passe nada. Acredito que desde que se construiu o novo caminho não fomos por ali mais que uma vez; mas apesar de tudo estou muito seguro de que conduzindo James não lhe vai ocorrer nada; e quando chegarem ali tem que lhe dizer a que hora quer que volte para te recolher; e seria melhor que não fora muito tarde. Já sabe que você não gosta de tresnoitar.

Quando terminarem de tomar o chá já estará cansadísima.

-Mas, papai, não quererá que vá estar cansada, não?

-OH, claro está que não, pequena minha! Mas se sentirá cansada em seguida. Haverá muita gente que ficará a falar de uma vez. Você não gosta do ruído.

-Mas, querido amigo -exclamou o senhor Weston-, se Emma se for cedo se desfará toda a reunião.

-Pois não vejo que ninguém saia prejudicado porque se desfaça logo -disse o senhor Woodhouse-. Uma velada dessas quanto antes se acabe melhor.

-Mas você pense no mau efeito que isso produziria nos Penetre; que Emma se fosse imediatamente depois do chá poderia parecer como uma ofensa. São gente de bom natural, e não acredito que sejam muito suscetíveis; mas apesar de tudo têm que pensar que o que alguém se vá com tanta pressa não é lhes fazer um grande completo; e se fosse a senhorita Woodhouse a que o fizesse, notaria-se mais que qualquer outra pessoa da reunião. E estou seguro de que você não deseja fazer um desprezo e mortificar aos Penetre; sempre foram boa gente, muito cordiais, e nestes últimos dez anos foram vizinhos deles.

-Não, não, senhor Weston, por nada do mundo consentiria uma coisa assim, estou-lhe muito agradecido por haver-me feito isso ver. Saberia-me muito mal lhes dar um desgosto. Já sei que são gente muito digna. Perry me há dito que o senhor Penetre nunca prova nenhuma classe de cerveja. Ninguém o diria ao lhe ver, mas padece da bílis... O senhor Penetre é muito bilioso.

Não, certamente não posso consentir que por minha culpa tenha um desgosto. Querida Emma, temos que ter nisto conta. Estou decidido: antes que correr o risco de ofender ao senhor e à senhora Penetre é melhor que fique até um pouco mais tarde que o que você tivesse preferido. Procura que não te note o cansaço. Já sabe que estará entre amigos, não tem que preocupar-se por nada.

-Certamente que não, papai. Por mim não tenho nenhum medo; e eu não teria nenhum inconveniente em ficar até que se fora a senhora Weston, se não fora por ti. O único que me preocupa é o que me espere durante muito tempo. Já sei que estará muito a gosto com a senhora Goddard. lhe gosta de jogar aos cientos,12 já sabe; mas quando ela volte para sua casa, tenho medo de que fique levantado me esperando, em vez de te deitar na hora de sempre... e só de pensar nisto eu já não posso estar tranqüila. Tem que me prometer que não me esperará.

E assim o fez, embora pondo como condição que fizesse a sua vez uma série de promessas tais como: que se ao retornar tinha frio não se esquecesse de esquentar-se convenientemente; que se tinha fome, não deixaria de comer algo; que sua donzela se ficasse esperando-a; e que lhe Ser e o mordomo se ocupassem de comprovar que na casa toda estava em ordem, como de costume.

 

12 O «jogo das centenas» -em inglês chamado piquet» ou «picket» em sua forma mais britanizada- é um jogo de naipes para duas pessoas no que intervêm trinta e duas cartas; resulta ganhador o primeiro que consegue apontar-se cem pontos.

 

Frank CHURCHILL retornou; e se fez esperar a seu pai a hora de jantar, em Hartfield não se inteiraram; a senhora Weston tinha muito interesse em que o senhor Woodhouse tivesse um bom conceito do jovem para revelar imperfeições que pudessem ocultar-se.

Retornou com o cabelo talhado, rendo-se de si mesmo com muita graça, mas sem dar a impressão de que se envergonhasse nem o mais mínimo do que tinha feito. Não via nenhum mal em querer levar o cabelo curto, nem considerava reprochable este desejo; não concebia que tivesse podido economizar aquele dinheiro e empregá-lo em algum outro fim mais elevado.

mostrava-se tão impertérrito e animado como de costume; e depois de lhe haver visto, Emma raciocinava para si do modo seguinte:

-Não sei se deveria ser assim, mas o certo é que as tolices deixam de sê-lo quando as comete alguém que tem personalidade e sem envergonhar-se delas. A maldade sempre é maldade, mas a tolice não sempre é tolice... Depende da personalidade de cada qual. O senhor Knightley não é um jovem amalucado e vaidoso. Se o fora tivesse feito isto de um modo muito distinto. Ou se tivesse gabado do que fazia ou se houvesse sentido envergonhado. tratou-se ou da ostentação de um petimetre ou do temor de alguém muito fraco para defender suas próprias vaidades. Não, estou completamente segura de que não é nem um vaidoso nem um amalucado.

na terça-feira lhe trouxe a agradável perspectiva de voltar a lhe ver, e esta vez por mais tempo pelo que lhe tinha sido possível até então; de lhe julgar por sua atitude em geral, e logo depois de deduzir o significado que podia ter sua atitude com respeito a ela; de adivinhar quando lhe seria necessário adotar um ar de frieza; e de imaginar-se quais seriam os comentários que fariam outros ao lhes ver juntos pela primeira vez.

propunha-se passar uma magnífica velada, apesar de que o cenário tivesse que ser a casa do senhor Penetre; e embora não pudesse esquecer que dos defeitos do senhor Elton, inclusive nos tempos em que gozava de seu favor, nenhum lhe tinha inquietado mais que seu propensão para jantar com o senhor Penetre.

A comodidade de seu pai ficava ampliamente assegurada, já que tanto a senhora Tacos de beisebol como a senhora Goddard podiam ir fazer lhe companhia; e antes de sair de casa, seu último e gostoso dever foi ir despedir se quando se achavam de sobremesa; e enquanto seu pai prorrompia em entusiásticos comentários sobre a beleza de seu vestido, se esforçou por atender às duas senhoras o melhor que pôde, lhes servindo grandes partes de bolo e copos cheios de vinho para compensar as possíveis e involuntárias negativas que tivesse podido motivar durante a comida, o habitual interesse que seu pai sentia pela saúde de suas convidadas... Tinha-lhes feito preparar uma abundante janta; mas tinha seus dúvidas de que seu pai tivesse mimado às duas senhoras o desfrutá-la.

Quando Emma chegou à porta da casa do senhor Penetre, seu carro ia precedido de outro; e ficou muito agradada ao ver que se tratava do senhor Knightley; porque o senhor Knightley, que não tinha cavalos e não dispunha de muito dinheiro restante, e sim em troca de uma saúde a toda prova, de grande vigor e de uma inusitada independência de critério, era mais que capaz, segundo a opinião da Emma, de apresentar-se pelos sítios como o pluguiera, e de não utilizar seu carro tão freqüentemente como correspondia ao proprietário de Donwell Abbey. E então teve ocasião de lhe manifestar sua aprovação mais calorosa por ter ido de carro, já que ele lhe aproximou para ajudá-la a baixar.

-Isto é apresentar-se como é devido -disse-lhe-, como um cavalheiro. Me alegro muito de ver que trocou que atitude. Lhe deu as obrigado, e comentou:

-Que feliz casualidade ter chegado no mesmo momento! Porque pelo visto, se nos tivéssemos encontrado no salão, não houvesse você podido advertir se hoje me mostrava mais cavalheiro que de costume... e não tivesse podido dar-se conta por meu aspecto ou meus maneiras.

-OH, não, estou segura de que sim me tivesse dado conta. Quando a gente se apresenta em um sítio de um modo que sabe que é inferior ao que lhe corresponde por sua posição, sempre tem um ar de indiferença afetada, ou de desafio. Deve você de acreditar que o sinta muito bem esta atitude, quase o asseguraria, mas em você é uma espécie de bravata que lhe dá um ar de despreocupação artificial; nesses casos sempre que me encontro com você o noto. Hoje em troca não tem que esforçar-se. Não tem você medo de que o suponham envergonhado. Não tem que tentar parecer mais alto que outros. Hoje me sentirei muito a gosto entrando no salão em sua companhia.

-Que moça mais desatinada! -foi sua resposta, mas sem mostrar a menor sombra de irritação.

Emma teve motivos para ficar tão satisfeita do resto dos convidados como do senhor Knightley. Foi acolhida com uma cordial deferência que não podia por menos de adulá-la, e lhe tiveram todas as cuidados que podia desejar. Quando chegaram os Weston, olhada-las mais afetuosas e a maior admiração foram para ela, tanto por parte do marido como da mulher; seu filho a saudou com uma jovial desenvoltura que parecia distinguir a de entre todas as demais, e ao aproximar-se da mesa se encontrou com que o jovem se sentava a seu lado... e, pelo menos assim acreditou Emma firmemente, Frank Churchill não era alheio a aquela «coincidência».

A reunião era mas bem numerosa, já que se havia convidado também a outra família -uma família muito digna e a que não podia fazer-se nenhuma recriminação, que vivia no campo, e que os Penetre tinham a sorte de contar entre suas amizades- e os membros varões da família do senhor Cox, o advogado do Highbury. O elemento feminino de menos posição social, a senhorita Bate, a senhorita Fairfax e a senhorita Smith, chegariam depois da jantar; mas já durante esta, as damas eram o suficientemente numerosas para que qualquer tema de conversação não demorasse para generalizar-se; e enquanto se falava de politica e do senhor Elton, Emma pôde dedicar toda sua atenção às galanterias de seu vizinho de mesa. Não obstante, para ouvir citar o nome do Jane Fairfax se sentiu obrigada a emprestar atenção. A senhora Penetre parecia estar contando algo referente a ela que ao parecer todos consideravam como muito interessante. ficou a escutar e se deu conta de que era algo digno de ouvir-se. Sua imaginação, tão desenvolvida nela, encontrou ali uma grata matéria sobre a que atuar. A senhora Penetre estava contando que tinha visitado a senhorita Bate e que, logo que entrar na sala, ficou-se assombrada ao ver-se diante de um piano... um magnífico instrumento, muito elegante... quadrado, não muito' grande, mas sim de umas dimensões consideráveis; e a medula da história, o final de todo o diálogo que seguiu a aquela surpresa, e as perguntas, e a enhorabuenta por parte da visitante, e as explicações por parte da senhorita Bate, era que o piano o há- bían mandado da casa Broadwood no dia anterior, com o grande assombro de ambas, tia e sobrinha, ante aquele inesperado presente; que ao princípio, conforme havia dito a senhorita Tacos de beisebol, a própria Jane tampouco sabia o que pensar daquilo, e tampouco tinha a menor ideia de quem tivesse podido enviá-lo... mas que logo ambas se convenceram plenamente de que o piano não podia ter mais que uma origem; tinha que tratar-se forzosamente de um obséquio do coronel Campbell.

-Era a única explicação possível -acrescentava a senhora Penetre-, e só me surpreendeu que tivessem tido dúvidas a respeito disto. Mas parece ser que Jane acabava de ter carta dela, e não lhe diziam nenhuma palavra do piano. Ela conhece melhor sua maneira de ser; mas eu não consideraria seu silêncio como um motivo para descartar a idéia de que foram os Campbell quem lhe tem feito o presente. É possível que tenham querido lhe dar uma surpresa.

Todos os pressente estavam de acordo com a senhora Penetre, e ao dar sua opinião ninguém deixou de mostrar-se igualmente convencido de que o obséquio procedia do coronel Campbell, e de alegrar-se de que tivessem tido uma fineza semelhante; e como foram muitos os que se mostraram dispostos a comentar o ocorrido, Emma teve ocasião de formar um critério pessoal, sem deixar por isso de escutar à senhora Penetre, quem seguia dizendo:

-Asseguro-lhes que faz tempo que não tinha ouvido uma notícia que me alegrasse mais...

Sempre hei sentido muito que Jane Fairfax, que touca tão maravilhosamente, não tivesse um piano. Pareceu-me uma vergonha, sobre tudo tendo em conta que há tantas casas nas que há pianos magníficos que não servem para nada. Eu isto quase o considero como um bofetão para nós, e ontem mesmo lhe dizia ao senhor Penetre que me sentia verdadeiramente envergonhada de olhar nosso grande piano novo do salão e de pensar que eu não distingo uma nota de outra e que nossas filhinhas, que logo que começam agora a estudar música, talvez nunca farão nada deste piano; e aqui está a pobre Jane Fairfax que entende tanto em música e que não tem nada que se pareça com um instrumento nem sequer a espineta mais velha e mais lamentable13 para distrair-se um pouco... Ontem mesmo estava-lhe dizendo todo isso ao senhor Penetre, e ele estava completamente de acordo comigo; mas é tão extraordinariamente aficionado à música que não resistiu a tentação de comprá-lo, confiando que algum de nossos bons vizinhos fora tão amável que viesse de vez em quando a lhe dar um uso mais adequado do que nos é possível lhe dar; e em realidade este é o motivo de que comprasse o piano... de não ser assim estou convencida de que deveríamos envergonhamos do ter... Temos a esperança de que esta noite a senhorita Woodhouse acessará a tocar para nós.

A senhorita Woodhouse deu a devida conformidade; e vendo que não ia inteirar se de nada mais pelas palavras da senhora Penetre voltou para o Frank Churchill.

-por que sorri? erijo ela.

-Eu? E você?

-Eu? Suponho que sorrio pela alegria que me dá o ver que o coronel Campbell é tão rico e tão generoso... É um presente precioso.

-É-o.

-O que sente saudades é que não o tivesse feito antes.

-Talvez a senhorita Fairfax é a primeira vez que passa aqui tanto tempo.

-Ou que não lhe desse de presente seu próprio piano... que agora deve estar em Londres fechado e 13 A espineta, espécie de clavicordio pequeno, um dos antepassados do piano.

sem que ninguém o toque.

-Deve ser um piano muito grande e devia pensar que em casa da senhora Bate não teriam espaço suficiente.

-Pode você dizer o que quiser... mas sua atitude demonstra que sua opinião a respeito de este assunto é muito semelhante à minha.

-Não sei. Mas bem acredito que me considera você mais agudo do que em realidade sou.

Sorrio porque você sorri, e provavelmente suspeitarei sempre que você suspeite;

mas agora não acerto a ver claro em todo isso. Se não ter sido o coronel Campbell, quem terá podido ser?

-Não pensou você na senhora Dixon?

-A senhora Dixon! Certo, tem você muita razão. Não tinha pensado na senhora Dixon. Ela deve saber igual a seu pai a ilusão que lhe faria um presente assim; e talvez o modo de fazê-lo, o mistério, a surpresa, todo isso é mais próprio da mentalidade de uma jovem que a de um ancião. Estou seguro de que foi a senhora Dixon. Já lhe hei dito que seriam suas suspeitas as que guiariam as minhas.

-Se for assim, deve você estender suas suspeitas e fazer que alcancem também ao senhor Dixon.

-O senhor Dixon! Muito bem, de acordo. Agora me dou conta de que teve que ser um presente conjunto do senhor e a senhora Dixon. O outro dia já sabe você que estávamos falando de que ele era um apaixonado admirador de seus dotes musicais.

-Sim, e o que então me disse você a respeito deste caso confirmou uma hipótese que eu tinha-me feito fazia tempo... Não duvido das boas intenções do senhor Dixon ou de a senhorita Fairfax, mas não posso por menos de suspeitar que, ou depois de haver feito proposições matrimoniais a seu amiga teve a desgraça de apaixonar-se por ela, ou bem se deu conta de que Jane sentia por ele algo mais que afeto. Claro está que sempre é possível imaginar vinte coisas sem chegar a acertar a verdade; mas estou segura de que teve que haver um motivo concreto para que prefira vir ao Highbury em vez de acompanhar a Irlanda aos Campbell. Aqui tem que levar uma vida de privações e aborrecimento; ali tudo tivessem sido prazeres. Quanto ao de que lhe convinha voltar para respirar o ar de sua terra natal, considero-o como uma simples desculpa... Se tivesse sido no verão, ainda; mas que importância pode ter para alguém o ar da terra natal nos meses de janeiro, fevereiro e março? Uma boa chaminé e um bom carro são mais indicados na maioria dos casos de uma saúde delicada, e me atreveria a dizer que em o seu também. Eu não lhe peço que me você siga em todas minhas suspeitas, embora seja você tão amável para pretendê-lo; eu só lhe digo honestamente o que penso.

-E eu lhe dou minha palavra de que suas hipóteses me parecem muito prováveis. O que posso lhe assegurar é que a preferência que sente o senhor Dixon pela maneira de tocar da senhorita Fairfax é muito acentuada.

-E além lhe salvou a vida. ouviu você falar alguma vez disso? Um passeio em barco; não sei o que aconteceu ela esteve a ponto de cair à água. E ele a sujeitou a tempo.

-Sim, já sei. Eu estava ali... ia com eles na barco.

-Seriamente? Vá! Mas é obvio então você não advertiu nada, porque ao parecer isso não lhe tinha ocorrido antes de agora... Se eu tivesse estado ali não houvesse deixado de fazer algum descobrimento.

-Estou seguro de que os tivesse feito; mas eu, pobre de mim, só vi o fato que a senhorita Fairfax esteve a ponto de cair à água e de que o senhor Dixon a sujeitou a tempo... Tudo ocorreu em um momento e embora a conseguinte surpresa e o susto foram muito grandes e duraram mais tempo (a verdade é que acredito que passou meia hora antes de que nenhum de nós voltasse a tranqüilizar-se) foi uma impressão muito general para que nos fixássemos nos matizes das reações. Entretanto isso não quer dizer que você não tivesse podido descobrir algo mais.

A conversação se interrompeu neste ponto. viram-se obrigados a compartilhar com os demais o tédio de uma pausa muito larga entre prato e prato, e a intercambiar com os outros convidados as frases corriqueiras e corteses de rigor; mas quando a mesa voltou a estar convenientemente coberta de pratos, quando cada fonte ocupou exatamente o lugar que correspondia-lhe e se restabeleceu a calma e a normalidade, Emma disse:

-A chegada deste piano foi algo decisivo para mim. Eu queria saber um pouco mais e isto me revela isso tudo. Pode você estar seguro, não demoraremos para ouvir dizer que foi um presente do senhor e a senhora Dixon.

-E se os Dixon afirmassem que não sabem absolutamente nada disso teremos que concluir que foram os Campbell.

-Não, estou segura de que não foram os Campbell. A senhorita Fairfax sabe que não hão sido os Campbell, ou do contrário o tivesse adivinhado do primeiro momento. Não tivesse tido nenhuma dúvida se se tivesse atrevido a pensar neles. Talvez não lhe hei convencido a você, mas eu estou totalmente convencida de que o senhor Dixon teve o papel principal neste assunto.

-Asseguro-lhe que me ofende você caso que não me convenceu. Seus raciocínios têm feito trocar totalmente meu critério. Ao princípio, quando eu supunha que estava você convencida de que o coronel Campbell tinha sido o doador, o considerava só como uma amostra de afeto paternal e acreditava que era a coisa mais natural do mundo. Mas quando você mencionou à senhora Dixon dei conta de que era muito mais provável que se tratasse de um tributo de cálida amizade entre mulheres.

E agora só posso vê-lo como uma prova de amor.

Não houve ocasião para afundar mais na matéria. O jovem parecia verdadeiramente convencido; dava a impressão de que era sincero. Emma não insistiu mais e aconteceu com outros temas de conversação; e enquanto terminou o jantar; serviram-se as sobremesas, entraram os meninos e foram eles os que atraíram a atenção de todos e motivaram as frases de ritual nesses casos; ouviam-se algumas frases inteligentes, muito poucas, algumas completamente bobas, tampouco muitas, e a grande maioria não era nenhuma coisa nem outra... Nada mais e nada menos que os comentários de sempre, os tópicos anódinos, as velhas notícias que tudo o mundo sabia e as brincadeiras de duvidosa graça.

Fazia pouco que as senhoras se instalaram na sala de estar quando chegaram as outras damas em diversos grupos. Emma emprestou muita atenção à entrada de seu amiga mais íntima; e embora sua elegância e sua distinção não fossem para entusiasmá-la muito, não pôde por menos de admirar seu viço, sua doçura, e a espontaneidade de seus movimentos, e de alegrar-se de todo coração de que possuísse aquele caráter superficial, alegre e pouco dado ao sentimentalismo, que lhe permitiam distrair-se tão facilmente em meio das angústias de um amor contrariado. Gela ali sentada... E quem tivesse podido adivinhar as incontáveis lágrimas que tinha vertido fazia tão pouco tempo? Ver-se rodeada de gente, levando um vestido bonito e vendo que as demais levavam também outros muito lindos, ver-se sentada em um salão sonriendo e sabendo-se atrativa, e não dizer nada, era suficiente para a felicidade daquele momento. Jane Fairfax avantajava-a em beleza e em graça de movimentos; mas Emma suspeitava que se tivesse trocado muito gostosa pelo Harriet, que muito gostosamente tivesse aceito a mortificação de ter amado (sim, de ter amado em vão, inclusive ao senhor Elton) a troco de poder-se privar do perigoso prazer se soubesse amada pelo marido de seu amiga.

Em uma reunião tão concorrida não era indispensável que Emma a abordasse. Não queria falar do piano, sentia-se possuidora do segredo e não lhe parecia honrado demonstrar curiosidade ou interesse, e portanto se manteve longe dela a propósito; mas outros introduziram imediatamente este tema de conversação, e Emma advertiu o rubor com que recebia as felicitações, o rubor de culpa que acompanhava o nome por «mim excelente amigo o coronel Campbell».

A senhora Weston, sempre cordial e além muito aficionada à música, mostrava-se particularmente interessada pelo caso, e Emma não pôde por menos de encontrar divertida sua insistência em tratar da questão; e seus inumeráveis pergunta e comentários aproxima do tom, do teclado e dos pedais, totalmente alheia ao desejo de dizer o menos possível sobre aquilo que podia ler-se claramente no bonito rosto da heroína da reunião.

Não demoraram para unir-se ao grupo vários dos cavalheiros; e o primeiro de todos foi Frank Churchill, o mais arrumado dos convidados; e detrás dedicar umas frases de cortesia à senhorita Bate e a sua sobrinha, dirigiu-se diretamente para o lado oposto do grupo, onde estava a senhorita Woodhouse; e não quis sentar-se até que não encontrou sítio ao lado dela. Emma adivinhava o que todos os pressente deviam estar pensando. Ela era o objeto de suas preferências e todo mundo tinha que dar-se conta. Emma lhe apresentou a seu amiga, a senhorita Smith, e algo mais tarde, quando se apresentou a ocasião, pôde inteirar-se das opiniões respectivas que cada um dos dois se formou do outro.

A do jovem: «Nunca tinha visto uma cara tão atrativa, eu adoro sua ingenuidade.» A dela, que sem dúvida pretendia ser um grande elogio: «Tem algo que me recorda um pouco ao senhor Elton.» Emma conteve sua indignação e se limitou a lhe voltar as costas em silêncio.

A jovem e Frank Churchill trocaram uns sorrisos de inteligência quando ambos divisaram à senhorita Fairfax; mas o mais prudente era evitar todo comentário. Lhe disse que tinha estado impaciente por sair do comilão... que não gostava de prolongar a sobremesa... e que sempre era o primeiro em levantar-se quando podia fazê-lo... que seu pai, o senhor Knightley, o senhor Cox e o senhor Penetre tinham ficado ali discutindo animadamente sobre assuntos da paróquia... mas que, apesar de tudo, o momento que havia estado com eles não se aborreceu, já que tinha visto que em geral eram pessoas distinguidas e de muito bom critério; e começou a fazer tais elogios do Highbury, considerando-o como um lugar no que abundavam extraordinariamente as famílias de trato muito agradável, que Emma esteve tentada de pensar que até então não havia sabido apreciar devidamente o povo em que vivia. Lhe fez perguntas a respeito da vida de sociedade que se levava no condado dos York, a respeito dos vizinhos que tinham no Enscombe e outras coisas pelo estilo; e de suas respostas deduziu que pelo que se referia ao Enscombe, a vida social era muito limitada, que só se tratavam com umas poucas famílias de grande posição, nenhuma das quais vivia muito perto dali; e que inclusive quando se tinha fixado uma data e se aceitou um convite, não era muito estranho que a senhora Churchill, bem por falta de saúde, bem por falta de humor, não se visse com ânimos para sair de sua casa; que tinham a ornamento não fazer visitas a ninguém que não conhecessem de tempo atrás; e que, embora ele tinha suas amizades particulares, via-se obrigado a vencer uma grande resistência e a desdobrar toda sua habilidade para que, só de vez em quando, permitissem-lhe efetuar visitas ele sozinho ou introduzir na casa por uma noite a algum de seus conhecidos de tudo o que se propor com tal de dispor de tempo.

Emma se dava conta de que no Enscombe não se encontrava muito a gosto e que era natural que Highbury, cuidadoso com bons olhos, atraíra mais a um jovem que em sua casa levava uma vida muito mais retirada do que tivesse desejado. A influência de que gozava no Enscombe era mais que evidente. Embora não se gabava disso, por seus palavras se adivinhava que em questões nas que seu tio nada podia fazer, ele conseguia convencer a sua tia, e quando Emma o fez notar sonriendo ele reconheceu que acreditava que (excetuando uma ou duas coisas) podia chegar a convencer a sua tia de tudo o que se propor com tal de dispor de tempo. E então mencionou uma dessas coisas nas que sua influência era nula. O fazia muita ilusão sair ao estrangeiro, e a verdade é que tinha insistido muito para que lhe permitissem empreender alguma viagem, mas sua tia não queria nem ouvir falar disso. Isso tinha ocorrido no ano anterior.

-Embora -acrescentou- agora começo a não desejá-lo tanto como antes.

O outro ponto no que sua tia era irredutível o jovem não o mencionou, embora Emma adivinhava que era comportar-se devidamente com seu pai.

-Acabo de fazer um desagradável descobrimento... -disse ele depois de uma breve pausa-.

Amanhã fará uma semana que estou aqui... A metade de meu tempo disponível. Nunca acreditei que os dias passassem tão às pressas. Pensar que manhã fará uma semana! E logo que hei começado a desfrutar do Highbury. O tempo justo para conhecer a senhora Weston e a algumas outras pessoas... É-me muito penoso pensar nisso...

-Talvez você comece agora a lamentar ter dedicado todo um dia, tendo tão poucos, a fazer-se cortar o cabelo.

-Não -disse ele sonriendo-, isso não o lamento absolutamente. Não me encontro a gosto entre meus amigos se não ter a segurança de que meu aspecto é irreprochável.

Como o resto dos convidados tinha entrado já no salão, Emma se viu obrigada a separar-se dele durante uns breves minutos e a atender ao senhor Penetre. Quando o senhor Penetre teve que separar-se dela e pôde voltar a emprestar atenção ao jovem, viu que Frank Churchill estava olhando fixamente à senhorita Fairfax, que se achava exatamente em frente dele, no lado oposto da estadia.

-Ocorre algo? -perguntou-lhe.

Ele se sobressaltou e respondeu rapidamente:

-Obrigado por me chamar a atenção. Acredito que o que estava fazendo não era muito cortês;

mas é que a senhorita Fairfax se penteou de um modo tão estranho... tão estranho... que não posso apartar os olhos dela. Em minha vida tinha visto algo tão exagerado! Esses cachos...

Essa fantasia tem que haver ocorrido a ela. Não vejo que ninguém mais leve um penteado semelhante. Tenho que ir perguntar lhe se for uma moda irlandesa. O que faço? Sim, irei a perguntar-lhe você note-se como reage; a ver se se ruboriza.

O jovem se dirigiu imediatamente para ela; e Emma não demorou para lhe ver de pé diante da senhorita Fairfax e lhe falando; mas o que respeita a sua reação, Emma não pôde apreciar absolutamente nada, porque sem querer Frank Churchill se colocou entre as duas, exatamente em frente da senhorita Fairfax.

antes de que ele voltasse para sua cadeira, a senhora Weston reclamou sua atenção:

-Uma reunião com tanta gente é deliciosa -disse-; alguém pode aproximar-se de todo mundo e falar de tudo com todos. Minha querida Emma, faz momento que estou desejando falar contigo. estive me inteirando de uma série de coisas e fazendo planos, igual a você, e tenho que falar contigo agora que as idéias ainda estão frescas na cabeça. Já sabe como vieram a senhorita Bate e sua sobrinha?

-Que como vieram? Suponho que as convidaram, não?

-OH, claro que sim! Quero dizer de que modo vieram... quem as trouxe...

-Pois suponho que vieram a pé; do que outro modo foram vir?

-Certo... Mas, verá, faz um momento me ocorreu que poderia ser perigoso que Jane Fairfax voltasse andando a sua casa a uma hora já tão avançada e com o frite que são agora as noites. E enquanto .a contemplava, embora a verdade é que nunca a havia encontrado com um aspecto mais saudável, dava-me conta de que estava um pouco acalorada e que portanto era muito mais fácil que ao sair daqui se resfriasse. Pobre moça!

Não podia suportar a idéia de que se expusera deste modo. De modo que, logo que entrou o senhor Weston no salão, quando pude falar com ele a sós lhe propus que a acompanhássemos em nosso carro. Já pode supor, que imediatamente esteve disposto a me agradar; e contando com sua aprovação, então me dirigi à senhorita Tacos de beisebol para tranqüilizá-la e lhe dizer que o carro estaria ao seu dispor antes de que nos levasse a nós a casa; porque eu acreditava que ao lhe dizer isso lhe tiraria um peso de cima.

Vá Por Deus! Certamente te asseguro que se mostrou muito agradecida (já sabe, «Ninguém pode considerar-se tão afortunada como eu»), mas depois de nos dar as obrigado não sei quantas vezes, disse-me que não havia motivo de que tomássemos nenhuma moléstia porque tinham vindo no carro do senhor Knightley, e o mesmo carro voltaria para as deixar em sua casa. Eu não podia ficar mais surpreendida; e muito contente, desde logo; mas realmente pasmada. Isso é uma atenção amabilísima... e além disso uma atenção meditada de antemão... Algo que lhes tivesse ocorrido a muito poucos homens.

E depois de tudo, conhecendo sua maneira de ser, estou quase segura que foi tão solo para as levar a elas que se decidiu a tirar seu carro. Suspeito-me que para ele sozinho não se tivesse incomodado em procurar um par de cavalos, e que se o fez foi exclusivamente para poder lhes fazer este favor.

-É muito provável -disse Emma-, isso é o mais provável de tudo. Não conheço ninguém mais propenso que o senhor Knightley a fazer esse tipo de coisas... a fazer algo que seja realmente amável, útil, bem intencionada e caridosa. Não é um homem galante, mas sim de muito bons sentimentos, muito humano; deve ter tido em conta a delicada saúde do Jane Fairfax, e deveu que acreditá-lo um caso de humanidade; não há ninguém como o senhor Knightley para fazer uma obra de caridade com menos ostentação. Eu já sabia que hoje tinha vindo com cavalos... porque nos encontramos ao chegar; e eu me ri dele por este motivo, mas não deixou escapar nenhuma palavra a respeito de todo isso.

-Vá! -disse a senhora Weston sonriendo-. Vejo que neste caso lhe concede uma bondade mais desinteressada que eu; porque enquanto a senhorita Bate me estava falando comecei a conceber uma suspeita, e ainda não consegui desprezá-la. quanto mais penso em isso, mais probabilidades lhe vejo. Enfim, para resumir, que estou prevendo umas bodas entre o senhor Knightley e Jane Fairfax. Já vê as conseqüências de te fazer companhia! A ti o que te parece?

-O senhor Knightley e Jane Fairfax? -exclamou Emma-. Querida, como te pôde ocorrer uma coisa semelhante? O senhor Knightley! O senhor Knightley não tem que casar-se! Não quererá que o pequeno Henry não herde Donwell, verdade? OH, não, não, Donwell tem que ser para o Henry! Não posso consentir que o senhor Knightley se case; e além disso estou segura de que não há a menor probabilidade disso.

Deixa-me pasmada que tenha podido pensar em uma coisa assim.

-Minha querida Emma, já te contei o que tem feito que me ocorresse esta idéia. Eu não tenho nenhum interesse por que se faça estas bodas... nem quero prejudicar ao pequeno Henry... mas foram as circunstâncias as que me sugeriram isso; e se o senhor Knightley quisesse realmente casar-se não seria você a que lhe fizesse desistir de seu projeto com o argumento do Henry, um menino de seis anos que não sabe nada de tudo isto.

-Sim que o conseguiria. Não poderia suportar o que alguém suplantasse ao Henry. Casar-se o senhor Knightley! Não, nunca me tinha ocorrido esta idéia e agora não posso aceitá-la.

E além precisamente com o Jane Fairfax!

-Bom, sabe perfeitamente que sempre teve uma grande predileção por ela.

-Mas umas bodas tão inoportuna!

-Eu não digo que seja oportuna; só digo que é provável.

-Eu não vejo que seja nada provável, a não ser que tenha melhores argumentos que os que contaste-me. Sua bondade, seus bons sentimentos, como já te hei dito, bastam para explicar perfeitamente o dos cavalos. Já sabe que sente um grande afeto pelas Tacos de beisebol, independentemente do Jane Fairfax... E sempre está disposto a lhes fazer um favor. Querida, não te coloque agora a casamenteira. Faz-o muito mal. Jane Fairfax a proprietária do Donwell Abbey! OH, não, não!... Não quero nem imaginar o Pelo próprio bem do senhor Knightley não queria lhe ver cometer uma loucura assim.

-Poderia ser uma coisa inoportuna... mas não uma loucura. Excetuando a desigualdade de fortuna e talvez uma pequena diferença de idades, não vejo nada mais que se oponha.

-Mas o senhor Knightley não quer casar-se. Estou segura de que jamais lhe ocorreu esta idéia. Não a meta na cabeça. por que se tem que casar? Ele sozinho é todo o feliz que pode desejar; com sua granja, suas ovelhas, seus livros e toda a paróquia para dirigir; e quer muitíssimo aos filhos de seu irmão. Não tem nenhum motivo para casar-se, não vai a fazê-lo nem para ocupar seu tempo nem seu coração.

-Minha querida Emma, enquanto ele pense assim as coisas serão como você diz; mas se se apaixona seriamente do Jane Fairfax...

-Que bobagem! O não pensa o mais mínimo no Jane Fairfax. Notar-se nela no sentido de apaixonar-se, estou segura de que não o tem feito. A ela ou a sua família faria toda classe de favores; mas...

-Verá -disse rendo a senhora Weston-, talvez o maior favor que poderia lhes fazer seria o de oferecer um nome tão respeitável ao Jane.

-É possível que isto fora um bem para ela, mas estou segura que para ele as conseqüências seriam funestas; seria um enlace pouco digno de sua posição, do que se envergonharia. Como ia aceitar que a senhorita Bate entrasse em sua família? Que cara ia pôr quando a visse rondando pelo Donwell Abbey lhe dando as obrigado durante todo o santo dia pela grande bondade que tinha mostrado ao casar-se com o Jane? «É um cavalheiro tão amável, tão atento!... Claro que sempre tinha sido tão bom vizinho!» E sempre interrompendo-se em metade de uma frase para falar das saias velhas de seu mãe. «Não, no fundo não é que sejam umas saias tão velhas... porque ainda poderiam durar muito tempo e a verdade é que já pode estar contente de que suas saias sejam todas de um gênero tão resistente...» -Emma, Por Deus, não a imite ludibriando-a! Faz-me rir, embora minha consciência reprove-me isso. E por minha parte tenho que te dizer que não acredito que a senhorita Bate causasse muitas moléstias ao senhor Knightley. As coisas pequenas não lhe irritam. Desde logo ela não pára de falar; e para dizer algo não teria outro remédio que falar em voz mais alta e afogar a sua. Mas a questão não está em se este seria um enlace pouco digno dele, a não ser em se o senhor Knightley o desejar; e me parece que assim é. Eu lhe ouvi falar, e suponho que você também, fazendo os maiores elogios do Jane Fairfax. O interesse que se toma por ela... o que se preocupa com sua saúde... o que lamenta que não tenha perspectivas mais aduladoras... Ouvi-lhe falar com tanto paixão aproxima de todo isso...! É um admirador tão entusiasta de sua habilidade como pianista e de sua voz!

Ouvi-lhe dizer que se passaria a vida escutando-a. OH! E ainda me esquecia uma idéia que me ocorreu... esse piano que lhe deu de presente alguém... embora todos nós estejamos tão convencidos de que tenha sido um obséquio dos Campbell, não pode haver o mandado o senhor Knightley? Não posso por menos de suspeitá-lo. Parece-me que é a pessoa mais apropriada para fazer uma coisa assim inclusive sem estar apaixonado.

-Então este não é um argumento que prove que esteja apaixonado. Mas não me parece que seja uma coisa própria dele. O senhor Knightley não faz nada de um modo misterioso.

-Eu lhe ouvi lamentar-se muitas vezes de que Jane não tivesse piano; muitas mais vezes do que tivesse suposto que uma circunstância como esta, se tudo tivesse sido completamente normal, tivesse-lhe preocupado.

-Bem, de acordo; mas se tivesse querido dar de presente um piano o houvesse dito.

-Minha querida Emma, pôde ter certos escrúpulos de delicadeza. observei uma costure nele que me chamou muito a atenção. Estou segura de que quando a senhora Penetre o contou tudo durante o jantar seu silêncio era muito significativo.

-Querida, quando te empenha em uma coisa não há quem te faça trocar de opinião; e conste que isso é algo que faz muito tempo que vem me reprovando. Eu não vejo que nada demonstre este amor do que falas... Do do piano não acredito nada... E precisaria ter provas evidentes para me convencer de que o senhor Knightley há pensado alguma vez em casar-se com o Jane Fairfax.

Seguiram discutindo a questão em términos parecidos durante um momento mais, e era Emma a que parecia ir ganhando terreno em relação à opinião de seu amiga; porque das duas a senhora Weston era a que estava mais acostumada a ceder; até que um pequeno revôo no salão lhes indicou que o chá tinha terminado e que se estava dispondo o piano; imediatamente o senhor Penetre lhes aproximou para rogar à senhorita Woodhouse que lhes fizesse a honra de tocar alguma peça. Frank Churchill, a quem ela tinha perdido de vista no arrebatamento de sua discussão com a senhora Weston, exceto para advertir que se tinha sentado ao lado da senhorita Fairfax, chegou depois do senhor Penetre para terminar de convencê-la com suas insistentes súplicas; e como em todos os aspectos, correspondia a Emma ser a primeira, não teve inconveniente em dar sua conformidade.

A jovem conhecia muito bem suas próprias limitações para atrever-se a tocar algo que não se soubesse capaz de executar com certa brilhantismo; não lhe faltavam nem gosto nem talento para a música, sobre tudo nas composições de pouco empenho que revistam interpretar-se nesses casos, e se acompanhava bem com sua própria voz. Mas esta vez teve a agradável surpresa de ouvir que uma segunda voz acompanhava sua canção... a do Frank Churchill, não muito vigorosa, mas bem entoada. Ao terminar a canção, Emma se desculpou como era de rigor, e se aconteceram os cumpridos de costume. O jovem, por seu parte, foi acusado de ter uma voz muito bonita e um perfeito conhecimento da música;

o qual ele negou como era de esperar, afirmando que era totalmente profano na matéria, e dando toda aula de seguranças de que não tinha nada de voz. Ambos voltaram a cantar juntos uma nova canção; e logo Emma teve que ceder seu lugar à senhorita Fairfax, cuja interpretação, tanto do ponto de vista vocal como instrumental, Emma não pôde por menos de reconhecer em seu foro interno que era imensamente superior à sua.

Presa de sentimentos contraditórios, Emma foi sentar se a certa distância dos convidados que formavam roda de pessoas em torno do piano para escutar melhor. Frank Churchill cantou de novo. Ao parecer ambos tinham cantado juntos uma ou duas vezes no Weymouth.

Mas o fato de ver que o senhor Knightley figurava entre os ouvintes mais atentos, não demorou para distrair a atenção da Emma; e começou a refletir sobre as suspeitas da senhora Weston, e as bem entoadas vozes dos dois cantores só interrompiam momentaneamente suas meditações. Quão inconvenientes via o matrimônio do senhor Knightley seguiam lhe parecendo muito graves. Era algo que só podia trazer más conseqüências. Seria uma grande decepção para o senhor John Knightley; e portanto também para a Isabella. Algo que prejudicaria muitíssimo aos meninos... uma mudança que criaria uma situação muito desagradável, e que significaria uma grande perda material para todos; o próprio senhor Woodhouse seria um dos que mais o sentiriam, já que veria sensivelmente alterado o ritmo habitual de sua vida... e quanto a ela, resultava-lhe inconcebível pensar no Jane Fairfax como na proprietária do Donwell Abbey. Uma senhora Knightley ante a qual todos deveriam inclinar-se! Não, o senhor Knightley não devia casar-se.

O pequeno Henry tinha que seguir sendo o herdeiro do Donwell.

Naquele momento o senhor Knightley voltou a cabeça, e ao vê-la foi sentar se ao lado da jovem. Ao princípio só falaram da música. Certamente o entusiasmo que manifestava pelas dotes da intérprete era considerável; mas Emma pensou que, de não ser pelas palavras da senhora Weston, isso não lhe tivesse surpreso. Entretanto, como procurando uma pedra de toque, Emma tirou reluzir sua amabilidade ao trazer para a reunião a tia e sobrinha; e embora sua resposta foi a de alguém que preferiria trocar de conversação, Emma considerou que isso só indicava que seu interlocutor era muito pouco aficionado a falar dos favores que tinha feito.

-Muitas vezes -disse ela- penso que é uma lástima que nosso carro não seja mais útil a outros nestas ocasiões. E não é que eu não queira; mas já sabe você que é impossível que meu pai se advenha a que James fique ao servido de outras pessoas.

-Certamente, não há nem que pensá-lo, nem que pensá-lo -replicou-; mas estou seguro de que se pudesse você o faria muito freqüentemente.

E lhe sorriu como se estivesse tão satisfeito desta convicção, que deu pé a Emma para tentar um passo mais.

-Esse presente que têm feito os Campbell -disse ela-, este piano, foi algo muito amável por sua parte.

-Sim -replicou, sem deixar de traslucir nem a menor sombra de embaraço-; mas houvessem feito melhor avisando-a de antemão. Estas surpresas são uma tolice. A alegria que proporcionam não é maior, e freqüentemente os inconvenientes revistam ser consideráveis. Eu acreditava que o coronel Campbell era um homem de mais critério.

A partir daquele momento Emma tivesse jurado que o senhor Knightley não tinha nada que ver com o presente do piano. Mas do que ainda tinha certas dúvidas era a respeito de se não sentia nenhum afeto especial pela jovem... de se não tinha por ela uma clara preferência.

Para o final da segunda canção do Jane, sua voz se fez mais grave.

-Basta já -disse ele, quando teve terminado, como pensando em voz alta-. Por esta noite já cantou suficientemente... agora descanse.

Entretanto em seguida lhe rogaram que cantasse outra canção. -Uma mais, por favor. Não o fatigará muito, senhorita Fairfax; e será a última que lhe pediremos.

E se ouviu a voz do Frank Churchill que dizia:

-Acredito que esta canção não lhe requererá um grande esforço; a primeira voz não tem grande importância; é a segunda a que leva todo o peso.

O senhor Knightley se indignou.

-Esse indivíduo -disse encolerizado- não pensa em nada mais que em exibir sua voz. Isto não pode ser.

E abordando à senhorita Bate, que naquele momento passava perto dali, disse-lhe:

-Senhorita Bate, está você louca? Como deixa que sua sobrinha siga cantando com a rouquidão que já tem? Faça algo por impedi-lo. Não têm compaixão dela.

A senhorita Bate, que estava já verdadeiramente preocupada com a garganta do Jane, apenas sem tempo para agradecer esta indicação, dirigiu-se para o grupo e impediu que sua sobrinha seguisse cantando. E aqui terminou, pois, o concerto da velada, já que a senhorita Woodhouse e a senhorita Fairfax eram as únicas jovens pressente que sabiam música; mas muito em breve (ao cabo de uns cinco minutos) alguém -sem que se soubesse exatamente de quem tinha partido a iniciativa- propôs dançar, e o senhor e a senhora Penetre acolheram a idéia com tanto entusiasmo que rapidamente se começou a desembaraçar o salão de estorvos para deixar espaço livre. A senhora Weston, especialista nas contradanças, sentou-se ao piano, e começou a tocar uma irresistível valsa; e Frank Churchill, aproximando-se da Emma com um gesto irreprochablemente galante, tirou-a da mão e ambos iniciaram o baile.

Enquanto aguardavam que outros jovens lhes unissem, Emma, sem deixar de atender aos cumpridos que seu casal lhe dedicava a respeito de sua voz e de seu talento musical, teve ocasião de olhar a seu redor e de fixar-se no que fazia o senhor Knightley. Da atitude que adotasse podia tirar muitas deduções. Em geral não estava acostumado a dançar. Se agora apressava-se a oferecer seu braço ao Jane Fairfax, o fato seria muito significativo. Mas de momento não parecia decidido a tal coisa. Não... estava falando com a senhora Penetre e mostrava um ar indiferente; alguém tirou dançar ao Jane e ele seguiu falando com a senhora Penetre.

Emma deixou de sentir medo pelo futuro do Henry; seus interesses estavam a salvo; e se entregou ao prazer do baile com uma jovial e espontânea alegria. Só chegaram a formar-se cinco casais; mas como tinha sido algo tão inesperado e um baile era uma coisa tão pouco freqüente no Highbury, o acontecimento iludia a todos, e por outra parte Emma estava satisfeita de seu acompanhante. Formavam um casal digno de ser admirada.

Desgraçadamente só puderam permitir-se dois bailes. ia fazendo tarde, e a senhorita Bate tinha pressa por voltar para sua casa, aonde lhe esperava sua mãe. De modo que, depois de vários intentos frustrados para que lhes deixasse começar um novo baile, viram-se obrigados a dar as graças à senhora Weston e, muito a pesar dele, dar por terminada a velada.

-Possivelmente foi melhor assim -dizia Frank Churchill, enquanto acompanhava a Emma até seu carro-. Do contrário tivesse tido que tirar dançar à senhorita Fairfax, e depois de havê-la tido a você por casal não tivesse podido me adaptar a sua maneira lânguida de dançar.

 

Emma não se arrependia da concessão que tinha feito ao aceitar o convite dos Penetre. Ao dia seguinte a velada lhe proporcionou multidão de gratas lembranças; e todo o que tivesse podido perder de digno isolamento o tinha compensado com acréscimo em irradiação de popularidade. Tinha agradado aos Penetre... pessoas excelentes, que também mereciam que lhes fizesse felizes...! E tinha deixado detrás de si uma fama que demoraria para esquecer-se.

Mas a felicidade perfeita, inclusive na lembrança é pouco freqüente; e havia dois pontos que a deixavam intranqüila. Não estava segura de não ter infringido o dever de lealdade que toda mulher sente pelas outras, ter revelado suas suspeitas a respeito dos sentimentos do Jane Fairfax ao Frank Churchill. Era algo difícil de desculpar; mas sua convicção era tão forte que não tinha podido conter-se, e o que ele estivesse de acordo em tudo o que Emma lhe disse tinha sido uma comemoração tal a sua penetração que o fazia difícil persuadir-se a si mesmo por completo de que tivesse sido melhor calá-lo que pensava.

O segundo motivo de inquietação se referia também ao Jane Fairfax; e aqui sim que não cabia nenhuma dúvida. A Emma doía de um modo muito claro e inequívoco sua inferioridade na interpretação e no canto. O que mais lamentava era a preguiça de sua infância... e se sentou ao piano e esteve fazendo práticas durante uma hora e meia.

Interrompeu-lhe a chegada do Harriet; e se o elogio do Harriet tivesse podido satisfazê-la, não tivesse demorado muito em consolar-se.

-OH! Se eu pudesse tocar tão bem como você e a senhorita Fairfax!

-Não nos ponha à mesma altura, Harriet. me comparar com ela é como comparar uma abajur com a luz do sol.

-OH, querida...! me parece que das dois você é a que toucas melhor. Você o faz tão bem como ela. Asseguro-te que eu prefiro te escutar a ti. Ontem de noite todo o mundo dizia que tocava muito bem.

-Os que entendem algo em música têm que ter notado a diferença. A verdade, Harriet, é que eu só toco como para que me façam alguns elogios, mas a execução do Jane Fairfax está muito além de todo isso.

-Pois eu sempre pensarei que toucas tão bem como ela e que se houver alguma diferença ninguém é capaz de notá-lo. O senhor Penetre disse que tinha muito talento; e o senhor Frank Churchill esteve falando um bom momento sobre seu gosto musical, e disse que para ele o gosto era muito mais importante que a execução.

-Ah, mas é que Jane Fairfax tem as duas coisas.

-Está segura? Eu vi que tinha muita prática, mas me pareceu que não tinha nada de gosto. Ninguém disse nada disto. E eu não gosto do canto à italiana. Não se entende nenhuma palavra. Além disso, se touca tão bem, sabe?, só é porque tem que saber muito a a força, porque terá que ensinar música. Ontem de noite os Cox se estavam perguntando se poderia entrar em alguma casa bem. Que impressão lhe produziram os Cox?

-a de sempre... são muito vulgares, não têm classe.

-Disseram-me uma coisa -disse Harriet titubeando-, mas não é nada que tenha muita importância.

Emma se viu obrigada a perguntar o que era o que lhe haviam dito, embora temia que fora algo referente ao senhor Elton.

-Disseram-me que o senhor Martin jantou com eles na sábado passada.

-OH!

-foi ver seu pai para falar de negócios, e lhe convidou a ficar para jantar.

-OH!

-Estiveram-me falando muito dele, sobre tudo Anne Cox. Não sei o que se propunha com isso; mas me perguntou se pensava voltar a passar uma temporada em sua casa o próximo verão.

-propunha-se ser impertinente e intrometida, como sempre está acostumado a sê-lo Anne Cox.

-Disse-me que tinha estado muito amável o dia em que jantou com eles. sentou-se a seu lado durante o jantar. A senhorita Nash opina que qualquer das Cox estaria muito contente de casar-se com ele.

-É muito provável... Acredito que quanto a vulgaridade essas moças não têm rival em todo Highbury.

Harriet tinha que fazer umas compras em casa Ford. Emma considerou mais prudente acompanhá-la. Era possível que se produzira outro encontro casual com os Martin, e no estado de ânimo em que se achava a coisa tivesse podido ser perigosa.

Em uma loja Harriet se encaprichaba de tudo, não acabava de decidir-se por nada, e sempre necessitava muito tempo para fazer suas compras; e enquanto estava ainda comparando umas musselinas e trocando continuamente de opinião, Emma apareceu a a porta para distrair-se. Não podia esperar-se muito do movimento da rua, inclusive nas partes mais centrais do Highbury; o senhor Perry andando apressadamente, o senhor William Cox entrando em seu escritório, o carro do senhor Penetre voltando de um passeio, ou um dos meninos que faziam de carteiro lutando com uma mula rebelde que se obstinaba em lhe levar em outra direção, eram os personagens mais interessantes que podia esperar encontrar; e quando seu olhar tropeçou tão somente com o açougueiro com sua bandeja, uma pulcra anciã que se dirigia a sua casa depois de sair de uma loja com sua cesta enche, dois cães guias de ruas que se disputavam um osso sujo e uma fileira de moços vagabundeando diante da pequena cristaleira do padeiro, como se queriam comer-se com os olhos o pão de gengibre, Emma pensou que não tinha motivos para queixar-se e que não faltava-lhe diversão; a suficiente para ficar junto à porta. Um espírito acordado e equilibrado não precisa contemplar grandes costure, e para tudo o que vê encontra resposta.

Voltou a vista para o caminho do Randalls. A cena se ampliou; apareceram dois pessoas; a senhora Weston e seu enteado; dirigiam-se para o Highbury; foram ao Hartfield, por suposto. Entretanto se detiveram primeiro ante a casa da senhorita Bate; esta casa estava um pouco mais perto do Randalls que o armazém da Ford; e logo que tinham chamado quando viram a Emma... Imediatamente cruzaram a rua e se dirigiram para ela, e a agradável velada do dia anterior pareceu fazer ainda mais grato este encontro. A senhora Weston lhe informou que ia visitar as Tacos de beisebol com objeto de poder ouvir o novo piano.

-Frank -disse ela- recordou-me que ontem de noite prometi formalmente à senhorita Bate que esta manhã iria visitar a. Eu quase nem me dava conta que se o prometia. Já não me lembrava que tinha fixado uma data, mas já que ele o diz agora mesmo ia para ali.

-E enquanto a senhora Weston faz esta visita, espero -disse Frank Churchill- que se me permita me unir a vocês e esperá-la no Hartfield... se é que já voltam para sua casa.

A senhora Weston pareceu contrariada.

-Acreditava que queria vir comigo. As Tacos de beisebol se alegrariam muito de voltar a verte.

-A mim? Acredito que estaria de mais. Mas talvez... talvez estarei de mais aqui. Parece como se a senhorita Woodhouse não desejasse minha companhia. Minha tia nunca quer que a acompanhe quando vai às compras. Diz que a ponho doente dos nervos; e tenho a impressão que a senhorita Woodhouse se se atrevesse me diria algo semelhante. De modo que o que faço?

-Não vim a fazer compras para mim -disse Emma-. Só estou esperando a meu amiga.

Suponho que já não demorará muito em sair, e então iremos a casa. Mas você faria melhor de acompanhar à senhora Weston e ouvir como sonha o piano.

-Bem... Se você me aconselhar isso... mas -com um sorriso- se o coronel Campbell se houvesse valido para escolher o instrumento de um amigo pouco cuidadoso, e se agora resultasse que o piano não soa bastante bem... Eu o que vou dizer? Não vou fazer ficar muito bem à senhora Weston. Ela sozinha poderá sair do passo perfeitamente. Uma verdade desagradável em seus lábios deve resultar inclusive grata, mas eu sou a pessoa mais incapaz do mundo para dizer uma mentira cortês.

-Isso sim que não acredito... -replicou Emma-. Estou convencida de que quando é necessário pode você ser tão insincero como qualquer ser humano; mas não há nenhum motivo para supor que o piano não seja bom. Eu mas bem pensaria justamente o contrário, pelo que lhe ouvi dizer à senhorita Fairfax a noite passada.

-Vêem comigo -insistiu a senhora Weston-, se não ser muita moléstia. Não temos por o que ficar muito tempo. E logo iremos ao Hartfield. Não vamos chegar muito mais tarde que elas. A verdade é que quero que me acompanhe nesta visita. Considerarão-o como uma atenção tão grande! Além disso, eu acreditava que pensava vir.

O jovem não se atreveu a replicar; e com a esperança de ter logo a compensação de ir ao Hartfield, voltou junto com a senhora Weston para a porta da casa das Tacos de beisebol.

Emma viu como entravam e logo foi reunir se com o Harriet, que se achava confusa ante o mostrador... e pondo em jogo toda sua inteligência, tratou de convencer a de que se o que queria era musselina Lisa não tinha nenhum objeto o olhar a rameada; e que uma cinta azul, por muito bonita que fora, nunca ia harmonizar com aquele modelo amarelo. Por fim todos esses problemas ficaram resolvidos, inclusive o lugar ao que deviam levar o pacote.

-Prefere você que o mande a casa da senhora Goddard, senhorita? -perguntou a senhora Ford.

-Sim... Não... Sim, a casa da senhora Goddard. Mas a saia enviem-na ao Hartfield. Não, não, envie-o tudo ao Hartfield, por favor, mas então a senhora Goddard quererá vê-lo... e eu poderia levar a saia a casa qualquer dia. Mas necessitarei em seguida a cinta... ou seja que é melhor que o enviem ao Hartfield... pelo menos a cinta. Poderia você fazer dois pacotes, senhora Ford, não?

-Harriet, não é necessário dar tantas moléstias à senhora Ford e lhe fazer fazer dois pacotes.

-Não, claro.

-Não é nenhuma moléstia, senhorita, não faltava mais -disse a amável senhora Ford.

-OH! Mas é que agora a verdade é que prefiro que só me façam um pacote. Por favor, mande-o tudo a casa da senhora Goddard... mas, não sei... não, acredito, Emma, que o melhor será que o enviem tudo ao Hartfield e que eu me leve isso tudo a casa esta noite. A ti o que te parece?

-Que não dedique nem segundo meio mais a pensar nesta questão. Ao Hartfield, por favor, senhora Ford.

-Sim, isso será muito melhor -disse Harriet completamente satisfeita-; eu não gostaria de nada que o enviassem a casa da senhora Goddard.

ouviram-se umas vozes que se aproximavam da loja... ou melhor dizendo, uma voz e dois senhoras; a senhora Weston e a senhorita Bate se encontraram com elas na porta.

-Minha querida senhorita Woodhouse -disse esta última-, precisamente vinha a procurá-la para lhe pedir o favor de que viesse um momento a nossa casa e nos desse sua opinião sobre o piano novo; você e a senhorita Smith. Como está você senhorita Smith? Muito bem, obrigado... e roguei também à senhora Weston que viesse conosco para contar com outra opinião de peso.

-Espero que a senhora Bate e a senhorita Fairfax estejam...

-Muito bem, não sabe como agradeço seu interesse. Minha mãe está maravilhosamente bem e Jane não se resfriou ontem de noite. Como segue o senhor Woodhouse?... Não sabe o que alegra-me saber que se encontra tão bem de saúde. A senhora Weston me há dito que estavam vocês aqui... OH! E então eu me hei dito, vou em seguida antes de que se vão, estou segura de que à senhorita Woodhouse não importará que a incomode e o peça que venha um ratito a casa; minha mãe se alegrará tanto de vê-la... E agora que somos tantos não poderá negar-se. «Sim, sim, é uma grande ideia», há dito o senhor Frank Churchill, «será muito interessante conhecer a opinião da senhorita Woodhouse sobre o piano..."

Mas, hei-lhes dito eu, é mais provável que a convença para vir se um de vocês me acompanha...» «OH!», há dito ele, «espere meio minuto a que tenha terminado meu trabalho». Porque, não sei se quererá você acreditá-lo, senhorita Woodhouse, mas é um jovem tão amável que estava arrumando a arreios dos óculos de minha mãe... Os cristais se saíram da arreios esta manhã, sabe você? OH, é tão amável...! Porque minha mãe não podia usar os óculos... não podia ficar as E a propósito, todo mundo deveria ter dois pares de óculos; sim, sim, todo mundo. Jane já o disse. Eu esta manhã a primeira coisa que queria fazer era as levar ao John Saunders, mas durante toda a manhã tinha que fazer outras coisas que foram distraindo; primeiro uma coisa, logo outra, não se acaba nunca, já sabe você. Primeiro me veio Patty me dizendo que lhe parecia que terei que limpar a chaminé da cozinha. OH Patty!, disse eu, não me venha agora com essas más notícias. À senhora lhe tem quebrado a arreios dos óculos. Logo chegaram as maçãs assadas que a senhora Wallis me mandava com seu menino; os Wallis sempre são extraordinariamente atentos e amáveis conosco... ouvi dizer a certa gente que a senhora Wallis às vezes é mal educada e responde de um modo muito grosseiro, mas com nós só tiveram cuidados. E não será porque somos clientes muito bons, pelo pão que lhes compramos, sabe você? Só três pãozinhos... e isso que agora temos com nós ao Jane... E é que ela não come virtualmente nada... café da manhã tão pouco que se ficaria você assustada se a visse. Eu não me atrevo a lhe dizer a minha mãe o pouco que come... E, olhe, uma vez digo uma coisa e logo digo outra e assim vai passando. Mas para o meio-dia tem fome e não há nada que goste tanto como essas maçãs assadas, que por certo é uma fruta muito saudável, porque o outro dia tive a ocasião de perguntar-lhe fruta es totalmente recomendable. Sin embargo nosotras hacemos muchas veces tarta de ao senhor Perry; deu a casualidade de que lhe encontrei na rua. Não é que eu duvidasse de que fora uma fruta sã... Muitas vezes lhe ouvi recomendar ao senhor Woodhouse as maçãs assadas. Acredito que é o único modo que o senhor Woodhouse considera que a fruta é totalmente recomendável. Entretanto nós fazemos muitas vezes bolo de maçã. Patty faz um bolo de maçã deliciosa. Bom, senhora Weston, acredito que há conseguido você o que nos propúnhamos, confio em que estas senhoras serão tão amáveis de vir a nossa casa.

Emma estava «realmente encantada de visitar a senhora Bate», etcétera, e por fim saíram da loja sem mais demora que a obrigada por parte da senhorita Bate:

-Como está você, senhora Ford? Rogo-lhe que me perdoe. Não a tinha visto até agora. Hão-me dito que recebeu você de Londres um novo sortido de cintas que é um primor. Ontem Jane chegou a casa encantada com elas. Ah, as luvas são esplêndidos...! Só que um pouco muito compridos; mas Jane já lhes está fazendo um prega.

-O que estava dizendo? -disse começando de novo quando todos tiveram saído à rua.

Emma se perguntou a qual das inumeráveis costure das que tinha falado se estaria refiriendo.

-Pois confesso que não posso me lembrar do que estava dizendo... Ah, sim! Os óculos de minha mãe. foi tão amável o senhor Frank Churchill! «OH!», há dito, «parece-me que posso lhes arrumar a arreios; eu adoro esse tipo de trabalhos». O qual demonstra que é um jovem muito... a verdade, devo lhes dizer que embora antes de lhe conhecer já havia ouvido falar muito dele e lhe tinha em grande estima, a realidade é muito superior a todo o que... Senhora Weston, dou-lhe o parabéns de todo coração. A meu entender possui tudo o que o pai mais exigente poderia... «OH!», há-me dito, «eu posso lhes arrumar a arreios; eu adoro esse tipo de trabalhos». Nunca poderei esquecer sua amabilidade. E quando eu tirei que a despensa as maçãs assadas, confiando que nossos amigos seriam tão amáveis que as provariam, «OH!», há dito ele em seguida, «não há fruta melhor que essa, e além em minha vida fala visto umas maçãs assadas em casa que tivessem tão bom aspecto». Já vê você, isso é ser o que se diz do mais... E pela maneira em que o disse estou segura de que não era um completo. Claro está que são umas maçãs deliciosas, e que a senhora Wallis lhe tira toda a partida possível... Embora só as havemos assado duas vezes e o senhor Woodhouse nos fez prometer que o faríamos três... Mas a senhorita Woodhouse será tão boa que não o contará verdade? Estas maçãs são as melhores que há para assar, isso sem dúvida nenhuma; todas são do Donwell... Uma parte da generosa ajuda que nos empresta o senhor Knightley. Todos os anos nos manda um saco; e certamente não há melhores maçãs para guardar que a das árvores de suas terras...

Acredito que só tem duas macieiras desta classe. Minha mãe diz que o horta já era famoso em sua juventude. Mas o outro dia me levei um verdadeiro desgosto porque o senhor Knightley veio a nos visitar uma manhã e Jane estava comendo essas maçãs, e nos pusemos às elogiar e lhe dissemos que lhe gostavam de muito, e ele nos perguntou se já as tínhamos terminado. «Estou seguro de que têm que haver-se os terminado», disse-nos, «vou mandar lhes outro saco; eu tenho muitas mais das que posso comer. Este ano William Larkins me entregou uma quantidade superior a de costume. Enviarei-lhes umas quantas mais antes de que se Eu danifiquem lhe supliquei que não o fizesse... Mas como era verdade que nos estava terminando a provisão tampouco podia lhe dizer que ficavam muitas... o certo é que só tínhamos meia dúzia;

mas as guardávamos todas para o Jane; e eu não podia tolerar que nos mandasse mais depois do generoso que tinha sido conosco. E Jane disse o mesmo. E quando se teve ido ela quase brigou comigo... Bom, não, não é que brigássemos, porque entre nós nunca há brigas; mas sentiu tanto que eu tivesse reconhecido que as maçãs estavam a ponto de terminar-se; ela queria que eu lhe fizesse acreditar que ainda ficavam muitas. OH, querida!, disse-lhe eu, não podia lhe mentir. Mas aquela mesma tarde se apresentou William Larkins com um enorme cesto de maçãs, a mesma classe de maçãs, pelo menos meia entusiasma, e eu fiquei muito agradecida, e saí a falar com William Larkins, e assim o disse como já podem vocês supor. Faz tantos anos que conhecemos o William Larkins! Sempre me alegra voltar a lhe ver. Mas logo me inteirei pelo Patty que William havia dito que aquelas eram todas as maçãs daquela classe que ficavam a seu amo. havia as trazido todas... E agora a seu amo não tinha ficado nenhuma só para assar ou para fazer fervida. Ao William isto não parecia lhe preocupar o mais mínimo, ele estava muito contente de pensar que seu amo tinha vendido tantas; porque já sabem vocês que William pensa mais nos benefícios de seu amo que em nenhuma outra coisa; mas disse que a senhora Hodges se desgostou muito ao ver que se ficaram sem nenhuma. Não podia tolerar que seu amo não pudesse voltar a comer bolos desta maçãs primavera. Isso é o que William contou ao Patty, mas lhe disse que não se preocupasse com isso e certamente que não nos dissesse nada , porque a senhora Hodges se zanga freqüentemente, e como já se venderam muitos sacos não tinha muita importância quem comesse-se o resto. E Patty me contou isso , e eu tive um verdadeiro desgosto. Por nada do mundo consentiria que o senhor Knightley se inteirasse de nada de tudo isto.

Certamente ficaria... Eu queria evitar que se inteirasse Jane; mas por desgraça, quando me dava conta já o havia dito.

Apenas a senhorita Bate tinha acabado de falar quando Patty abria a porta; e seus visitantes começaram a subir as escadas já sem ter que emprestar atenção a nenhuma história, perseguidos tão somente pelas manifestações desconexas de sua boa vontade.

-Por favor, senhora Weston, tome cuidado, há um degrau ao dar a volta. Por favor, senhorita Woodhouse, a escada é mas bem escura... Mais escura e mais estreita do que seria de desejar. Por favor, senhorita Smith, tome cuidado. Senhorita Woodhouse, sofro por você, estou segura de que está tropeçando. Senhorita Smith, cuidado com o degrau que há ao dar a volta.

 

QUANDO entraram a pequena sala de estar era uma perfeita imagem da quietude; a senhora Bate, privada de seu habitual entretenimento, dormitava junto à chaminé, Frank Churchill, sentado à mesa perto dela, estava totalmente absorvido pela tarefa de compor os óculos, e Jane Fairfax, lhes dando as costas contemplava o piano.

Apesar de achar-se totalmente concentrado no que fazia, o rosto do jovem se iluminou com um sorriso de prazer ao voltar a ver a Emma.

-Não sabem o que me alegro -disse mas bem em voz baixa-; chegam vocês pelo menos dez minutos antes do que tinha calculado. Como vêem estou tratando de ser útil;

me digam se o conseguirei.

-Como! -disse a senhora Weston-. Ainda não terminaste? Ao passo que vai não lhe ganharia muito bem a vida arrumando óculos.

-É que também estive fazendo outras coisas -replicou-; ajudei à senhorita Fairfax a tentar nivelar o piano; uma das patas ficava no ar; suponho que era um desnível do chão. Como vê, pusemos uma cunha de papel debaixo de uma pata. Hão sido vocês muito amáveis ao deixar-se convencer para vir. Eu quase temia que quisessem ir-se em seguida a casa.

Ele as engenhou de modo que Emma se sentasse a seu lado; e se mostrou tão solicito que escolheu para ela a maçã melhor assada, tentando que a jovem lhe ajudasse ou o aconselhasse no trabalho que fazia, até que Jane Fairfax voltou a estar disposta a sentar-se de novo ao piano. Passou um momento antes de fazê-lo, e Emma suspeitou que a pausa era devida a seu nervosismo. Fazia pouco tempo ainda que possuía o instrumento e não podia tocá-lo sem certa emoção; tinha que dominar seus nervos antes de poder tocar normalmente; e Emma não pôde por menos de compadecer-se dela e compreender seus reações, fossem quais fossem seus motivos, e decidiu não voltar a falar mais de seus suspeita a seu jovem amigo.

Por fim, Jane começou a tocar, e embora os primeiros acordes resultaram muito débeis, gradualmente foram ficando de manifesto todas as possibilidades do instrumento. A primeira vez a senhora Weston tinha ficado encantada de sua sonoridade, e agora voltava a está-lo; e os calorosos elogios da Emma se uniram aos seus; e depois de ter matizado devidamente as frases de elogio, o piano foi considerado em conjunto como um magnífico instrumento.

-Seja quem é, a pessoa a quem o coronel Campbell fez este encargo -disse Frank Churchill sonriendo a Emma-, não escolheu mau. Èn Weymouth se falava muito do bom gosto do coronel Campbell; e estou seguro de que a suavidade das notas altas é exatamente o que ele e todos seus amigos dali tivessem apreciado mais. Atreveria-me a dizer, senhorita Fairfax, que ou deu ele mesmo instruções muito precisas a seu amigo ou bem escreveu em pessoa ao Broadwood. Não você crie assim?

Jane não se voltou. Não estava obrigada a escutar o que diziam. A senhora Weston em aquele mesmo momento também estava lhe dirigindo a palavra.

-Isso não está bem -disse Emma em um sussurro-; o que eu lhe disse só foi uma hipótese feita ao azar. Não a ponha em um apuro.

Ele negou com a cabeça enquanto sorria e adotou o ar de alguém que tem muito poucas dúvidas e muito pouca compaixão. Pouco depois começou de novo:

-imagina você, senhorita Fairfax, quão contentes estarão seus amigos da Irlanda pensando na ilusão que terá você ao receber este presente? Atreveria-me a supor que pensam freqüentemente em você e que inclusive calculam o dia, o dia preciso em que o piano terá chegado a suas mãos. você crie que o coronel Campbell sabe que o piano está em seu poder? Supõe você que este presente foi a conseqüência imediata de um encargo dele ou mas bem que só deu instruções gerais, sem concretizar a questão do tempo e fazendo-o depender de certas contingências e conveniências?

Fez uma pausa. Esta vez a jovem tinha que dar-se forzosamente por aludida; não podia evitar o dar uma resposta...

-Até que não tenha carta do coronel Campbell -disse ela com uma voz forçadamente tranqüila- não posso supor nada com segurança. Só podem fazer-se conjeturas.

-Conjeturas... sim, às vezes se fazem conjeturas acertadas, e às vezes conjetura errôneas.

O que eu gostaria de poder conjeturar é o que ainda demorarei para conseguir arrumar a arreios destes óculos. Quantas tolices diz um quando está absorvido por um trabalho e fica a falar! Verdade, senhorita Woodhouse? Os trabalhadores de verdade suponho que estão sempre calados; mas nós os cavalheiros que trabalhamos por afeição, quando ouvimos uma palavra... A senhorita Fairfax disse algo sobre as conjeturas. Por fim, já está. Senhora -dirigindo-se à senhora Bate-, tenho a honra de lhe devolver seus óculos, por agora arrumadas.

Mãe e filha lhe deram as obrigado muito efusivamente; para tratar de escapar a esta última dirigiu-se para o piano e rogou à senhorita Fairfax que ainda estava sentada ante o instrumento que tocasse algo mais.

-Se for você tão amável -disse ele-, você toque uma daquelas valsas que dançamos ontem de noite; eu gostaria tanto voltar a ouvi-los. Você não desfrutou da velada tanto como eu; dava você a impressão de estar cansada todo o tempo. Parece-me que se alegrou de que não dançássemos mais; mas eu tivesse dado todo o do mundo e todos os mundos que tivesse tido, por outra meia hora.

Jane tocou o que lhe tinham pedido.

-Que prazer voltar a ouvir uma melodia que nos tem feito felizes! Se não me equivocar esta peça a dançamos no Weymouth.

A jovem levantou por um momento o olhar para ele, ruborizou-se intensamente, e se pôs a tocar outra coisa. É1 agarrou uns cadernos de música que haviam em uma cadeira perto do plano, e voltando-se para a Emma disse:

-Isto é algo completamente novo para mim. Conhece-o você? Cramer... E esta é uma nova coleção de canções irlandesas. Claro que já era de esperar que houvesse algo irlandês. Todo isso o enviaram com o piano. O coronel Campbell está em tudo, verdade?

Sabia que a senhorita Fairfax aqui não dispunha de música. Eu reconheço minha admiração por estes detalhes tão atentos; vê-se que é um pouco saído do coração. Tudo está feito sem pressas, meditando-o bem, até o último detalhe. vê-se a mão de alguém a quem move um grande afeto.

Emma tivesse desejado que o jovem se mostrasse menos intencionado, mas a situação não deixava de diverti-la; e quando ao olhar de esguelha ao Jane Fairfax se deu conta de que em seus lábios flutuava um vago sorriso, quando advertiu que ao rubor da responsabilidade de pouco antes tinha acontecido um sorriso de oculta complacência, sentiu menos escrúpulos de que todo aquilo lhe divertisse e muita menos compaixão por ela... A encantada, digna, perfeita Jane Fairfax, ao parecer sentia prazer em sentimentos muito repreensíveis.

Frank Churchill entregou a Emma todos os cadernos de música, e ambos os olharam juntos... Emma aproveitou a oportunidade para sussurrar:

-Fala você muito claro. Tem a fora que entendê-lo.

-Assim o espero. O que queria é que me entendesse. Não me envergonho o mais mínimo do que estou dizendo.

-Pois lhe asseguro que eu sim que estou um pouco envergonhada, e preferiria que não se me tivesse ocorrido a idéia.

-Eu me alegro muito de que lhe ocorresse e também de que me comunicasse isso. Agora já sei como interpretar suas raridades e suas extravagâncias. lhe deixe que se envergonhe. Se obra mau deveria dar-se conta do que faz.

-me parece que não deixa de dar-se conta.

-Não me dá a impressão de que esteja muito arrependida. Neste momento está tocando Robing Adair... A canção favorita dele.

Pouco depois a senhorita Bate, ao passar perto da janela, descobriu ao senhor Knightley que passava a cavalo não longe de ali.

-O senhor Knightley! Que surpresa! Tenho que falar com ele em seguida embora só seja para lhe dar as obrigado. Mas não quero abrir esta janela; poderiam resfriar-se todos vocês; mas sabem o que vou fazer? Abrirei a janela do quarto de minha mãe. Estou segura de que entrará quando souber quem há em casa. OH, que alegria lhes ter a todos reunidos aqui! Que honra para nosso humilde casa!

Quando acabou de pronunciar esta frase já estava na estadia do lado, e depois de abrir a janela imediatamente chamou a atenção do senhor Knightley, e até a última sílaba da conversação que sustentaram foi perfeitamente ouvida por outros, como se a cena tivesse lugar naquela mesma habitação.

-Como está você?... Como está você?... Muito bem, obrigado. Agradecidísima porque ontem nos emprestasse o carro. Chegamos a muito boa hora; minha mãe nos estava esperando.

Por favor, entre você, o rogo. Encontrará você aqui a vários amigos.

Assim começou a senhorita Bate; e o senhor Knightley pareceu firmemente resolvido a deixar-se ouvir, porque replicou de um modo decidido e cortante:

-Como está sua sobrinha, senhorita Bate? me diga você como se encontram todos, mas sobre tudo sua sobrinha, como está a senhorita Fairfax? Suponho que ontem de noite não resfriou-se. Como se encontra hoje? me diga como segue a senhorita Fairfax.

E a senhorita Bate se viu obrigada a dar resposta a todas estas perguntas antes de que ele consentisse em ouvi-la falar de algo mais. Os ouvintes sorriam divertidos; e a senhora Weston dirigiu um olhar de inteligência a Emma. Mas esta moveu negativamente a cabeça como reafirmando-se em seu cepticismo.

-Estamo-lhe tão agradecidas! Estamo-lhe tão agradecidas pelo carro...! -prosseguiu a senhorita Bate.

Mas ele a interrompeu bruscamente dizendo:

-Vou ao Kingston. Deseja você algo?

-OH! Seriamente? Seriamente vai você ao Kingston? O outro dia a senhora Penetre dizia que necessitava um pouco do Kingston.

-A senhora Penetre pode enviar a seus criados. Deseja algo para você?

-Não, obrigado. Mas, por favor, entre você um momento. Quem você crie que está aqui?

A senhorita Woodhouse e a senhorita Smith; foram tão amáveis que nos têm feito uma visita para ouvir o novo piano. Por favor, você deixe o cavalo na Coroa e entre um momento.

-De acordo -disse de modo resolvido-, mas só cinco minutos.

-Também estão aqui a senhora Weston e o senhor Frank Churchill! Ai, que alegria!

Ver reunidos a tantos amigos!

-Não, não, obrigado, agora não posso. Não poderia ficar nem dois minutos. Tenho muita pressa por chegar ao Kingston.

-OH, por favor, entre um momento! Alegrarão-se tanto de lhe ver.

-Não, não, já tem você bastante gente em casa. Já lhes visitarei outro dia e ouvirei o piano.

-Bom, como quero, mas o sinto muito... OH, senhor Knightley! Que velada mais deliciosa a de ontem! Que agradável foi! Havia você visto alguma vez um baile como aquele? Não foi verdadeiramente encantador? Que casal formavam a senhorita Woodhouse e o senhor Frank Churchill! Eu nunca tinha visto nada parecido.

-OH, sim, sim, sim, verdadeiramente delicioso! Não posso dizer outra coisa porque suponho que a senhorita Woodhouse e o senhor Frank Churchill estarão ouvindo tudo o que falamos.

E -levantando ainda mais a voz- não sei por que não menciona também à senhorita Fairfax.

Em minha opinião a senhorita Fairfax dança muito bem. E a senhora Weston tocando contradanças não tem rival em toda a Inglaterra. Agora se seus amigos fossem um pouco agradecidos para corresponder teriam que fazer alguns elogios em voz alta sobre você e sobre mim; mas não posso ficar mais tempo para ouvi-los.

-OH, senhor Knightley, espere um momento! É algo importante... Sentimo-lo tanto!

Jane e eu havemos sentido tanto o das maçãs!

-Do que me está você falando agora?

-Pensar que nos enviou você todas as maçãs que ficavam! Você disse que tinha muitas, mas agora se ficou sem nenhuma. Asseguro-lhe que o havemos sentido tanto! A senhora Hodges tem motivos para estar zangada. William Larkins nos contou isso.

Não deveria você havê-lo feito. Não, asseguro-lhe que não deveria havê-lo feito. OH! Já se foi. Não pode sofrer que lhe dêem as obrigado. Mas eu acreditava que ia entrar, e houvesse sido uma lástima não ter mencionado... Bom -voltando a entrar no salão-, não hei tido êxito. O senhor Knightley não podia deter-se. Ia caminho do Kingston. Há-me perguntado se necessitava algo de...

-Sim -disse Jane-, já ouvimos seus amáveis oferecimentos, ouvimo-lo tudo.

-OH, sim, querida, já suponho que pudestes ouvi-lo!; porque, verão vocês o que passava, a porta estava aberta e a janela também, e o senhor Knightley falava em voz muito alta. Certamente, seguro que tiveram que ouvi-lo tudo. «Deseja você algo de Kingston?», há-me dito; e eu, claro, acordei-me... OH!, senhorita Woodhouse, já você tem que partir? Mas se acabar de chegar... foi você tão amável...

Emma considerou que já tinha chegado a hora de voltar para sua casa; a visita tinha durado muito; e ao consultar os relógios viram que tinha passado boa parte da manhã, de modo que a senhora Weston e seu acompanhante também se despediram, sem poder permitir-se mais que acompanhar às duas jovens até a entrada do Hartfield antes de tomar o caminho do Randalls.

 

                                                                                CONTINUA  

 

                      

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