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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ESCONDE ESCONDE / James Patterson
ESCONDE ESCONDE / James Patterson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ESCONDE ESCONDE

 

Fiquei deitada, imóvel, no vão estreito sob o alpendre de nossa casa, nas proximidades de West Point, pressionando o rosto contra o chão brutalmente frio e coberto de folhas secas e gravetos que me arranhavam a pele. Eu sabia que iria morrer, assim como minha filha, minha garotinha. As palavras de uma canção de Crosby, Stills e Nash flutuavam em minha mente: ”Nossa casa é muito bonita ”.

 

- Não chore, por favor, não chore - murmurei ao ouvido da criança.

 

Eu não podia fugir dali, pelo menos carregando a menina. Já havia pensado em todos os meios de escapar e concluído que nenhum daria certo.

 

Phillip iria nos matar, quando nos descobrisse. E eu não podia deixar que isso acontecesse, embora não soubesse como o impediria.

 

Mantive a mão sobre a boca de Jennie.

 

- Não faça nenhum barulhinho, meu bem. Eu amo você. Fique quietinha.

 

Acima de nós, dentro de casa, Phillip dava vazão a sua fúria. Nossa casa. Ele percorria os andares, procurando em todos os cômodos, derrubando móveis. Furioso. Implacável. Completamente louco. Mais louco que nunca. Dessa vez, a causa era a cocaína, mas a verdade era que Phillip não sabia lidar com a vida.

 

- Apareçam! Saiam do esconderijo, Maggie e Jennie! E o papai. E papai vai encontrá-las de qualquer maneira - ele gritava, e já estava rouco. - Saia daí, Maggie! A brincadeira acabou. Maggie, ordeno que apareça, sua vaca desobediente!

 

Fiquei deitada, trêmula, sob o piso meio afundado do alpendre. Meus dentes batiam de modo incontrolável. Não, aquilo não podia estar acontecendo. Era absurdo demais. Continuei segurando minha menina, que fizera xixi na calcinha.

 

- Não chore, Jennie, por favor, não chore. Você é uma garota boazinha, que a mamãe ama demais.

 

Jennie moveu a cabeça, concordando, fitando-me nos olhos. Rezei para que aquilo tudo fosse um pesadelo e que acabasse logo. Mas sabia que não era. Tratava-se de uma situação tão real quanto aquela que eu enfrentara aos treze anos de idade, quando minha mãe morrera de um infarto fulminante, estando apenas nós duas em casa. Só que era pior ainda.

 

Continuei a ouvir meu marido, meu marido, subindo e descendo as escadas da casa. Fazia mais de uma hora que ele gritava sem parar, correndo e dando socos nas paredes. Capitão Phillip Bradford. Professor de matemática na academia militar. Um oficial, um homem educado. Era nisso que as pessoas acreditavam, em que queriam acreditar, algo em que eu mesma acreditara.

 

Passaram-se duas horas.

 

Três horas. Eu e Jennie continuamos naquele buraco escuro e frio. No inferno.

 

Jennie acabara por adormecer, felizmente. Mantíve-a abraçada contra meu peito para aquecê-la. Eu também queria dormir, desistir da luta, mas sabia que não podia. Era de madrugada. Que horas seriam? Três? Quatro?

 

Ouvi a porta da frente da casa bater com estrondo, e passos soaram como explosões, no alpendre acima de nós.

 

Jennie despertou.

 

- Quietinha - cochichei. - Quietinha.

 

- Maggie, eu sei que você está aqui, em algum lugar. Sei que não teria para onde fugir. Não sou burro!

 

- Papai! Papai! - Jennie chamou, como fizera tantas vezes, na segurança de seu berço.

 

A luz de uma lanterna iluminou o espaço sob o alpendre. Uma luz brilhante, apavorante, que me cegou. Mil farpas agudas em meus olhos.

 

- Achei! Achei Jennie e Maggie, minhas duas garotas! - Phillip gritou, triunfante.

 

Sua voz estava irreconhecível, de tão rouca. Quase cheguei a acreditar que aquele louco não era meu marido. Como podia ser?

 

Ele apontou o revólver para nós e disparou dois tiros ensurdecedores. Pretendia matar a mim ou a Jennie, talvez as duas.

 

Só que dessa vez eu tinha uma surpresa para Phillip.

 

Apontei a arma e atirei.

 

Às vezes, tenho a impressão de que fui marcada com uma letra escarlate. E essa letra é o A, de Assassina. Sei que nunca me livrarei completamente dessa sensação, o que me parece muito injusto. E injusto. Desumano e indecente.

 

Minhas lembranças são truncadas, caóticas, mas vividas e horripilantes, entalhadas em minha mente. E continuarão comigo para sempre.

Contarei tudo, não poupando ninguém, especialmente a mim. Sei que querem ouvir a ”grande história jornalística”. E também sei o que significa ser notícia. Vocês sabem? Conseguem imaginar-se como uma matéria de jornal, palavras escritas com letras pretas, que todo mundo lê e julga?

 

Os jornais de Newburgh, Cornwall e Middletown chamaram aquele primeiro assassinato de ”a maior tragédia familiar da história de West Point”. Para mim, na época, foi como se houvesse acontecido com outras pessoas. Não comigo e com Jennie, nem mesmo com Phillip, por mais que ele merecesse.

 

No entanto, doze anos depois, quando o tempo já quase apagara aqueles acontecimentos de minha mente, um segundo assassinato forçou-me a recordar West Point com horrível nitidez.

 

Como numa obsessão, comecei a confrontar-me com as perguntas que martelavam meu cérebro: sou uma assassina? Matei não apenas um, mas dois maridos meus?

 

Não sei mais. Não sei! Por muito louco que isso possa parecer, honestamente, não sei.

 

Faz muito frio aqui. Às vezes, o frio parece tão intenso quanto naquela véspera de Natal, quando Phillip morreu. Tudo o que posso fazer é ficar sentada nesta cela de prisão, atormentada, à espera do início do julgamento.

 

Decidi escrever minha história e estou escrevendo para mim mesma, mas também para vocês. Contarei tudo.

 

E vocês me julgarão, depois que tiverem lido. Não é assim que o nosso sistema funciona? Será um júri formado por gente igual a mim.

 

Ah, sim, claro, confio em vocês. Sou uma pessoa confiante. Talvez seja por isso que estou aqui, nessa encrenca horrível.

PERSEGUIDA PELA DESGRAÇA

 

                               Início do inverno, 1984.

Mais neve. Época de Natal outra vez. Fazia quase um ano que Phillip morrera, ou, como algumas pessoas diriam, fora assassinado.

Recostei-me no banco do sacolejante táxi amarelo, que derrapava pelas ruas de Nova York, enlameadas pela neve derretida. Tentava levar a mente para um lugar tranqüilo, mas não conseguia encontrar um pouco de paz. Prometera a mim mesma que não teria medo, mas estava apavorada.

 

Através do vidro molhado da janela do táxi, notei que até os homens do Exército de Salvação, fantasiados de Papai Noel, estavam tristes. Ninguém que tivesse um pouco de sensatez andaria pelas ruas com um tempo daqueles, e os que andavam não se decidiam a tirar as mãos dos bolsos para dar uma esmola. Os guardas de trânsito pareciam bonecos de neve abandonados. Os pombos haviam desaparecido dos parapeitos das janelas e dos telhados.

 

Olhei para o meu próprio reflexo no vidro. Cabelos loiros, compridos, rebeldes, que constituíam meu melhor atributo físico. Sardas que nenhuma camada de maquilagem esconderia. Nariz de tamanho um tanto desproporcional. Olhos castanhos, que haviam recobrado pelo menos um pouco do antigo brilho. Boca pequena, de lábios carnudos, feita para a felação, como Phillip costumava dizer nos dias felizes.

 

Pensar nele me fez estremecer. E pensar em sexo ainda me assustava.

 

Um ano após o assassinato em West Point, minha recuperação, tanto física como mental, não se completara. A perna continuava a doer, e o cérebro não funcionava com a clareza da qual um dia eu me orgulhara. Assustava-me com qualquer ruído. À noite, via ameaças inexistentes nas ruas. Sempre tivera controle sobre as emoções, mas o perdera. Chorava à toa, ficava zangada com a gentileza dos vizinhos, suspeitava dos amigos e tinha medo de estranhos. E havia vezes em que sentia ódio de mim mesma!

 

Houvera uma investigação, naturalmente, mas não um julgamento. Se Jennie não estivesse machucada, se apenas eu aparecesse com os cabelos ensangüentados e uma perna ferida, teriam me mandado para a cadeia. Mas o fato de minha filha de três anos também apresentar ferimentos tornou mais convincente a alegação de autodefesa.

 

Nenhum promotor público quis aceitar o caso, que a academia militar ficou muito satisfeita em ver abafado.

 

Todos sabiam que oficiais não atacavam suas esposas e filhas. Esposas e filhas não existiam, realmente, em West Point. Eram apenas peças decorativas.

 

Mudei-me para Nova York e aluguei um apartamento de dois quartos, no segundo andar de um prédio sem elevador, na rua WestSeventy-fifth. Encontrei uma escola para Jennie, onde ela ficava o dia todo, e entramos num ritmo mais calmo.

 

Mas não encontrei o que mais desejava, o fim do sofrimento, o começo de uma nova vida.

 

Eu tinha vinte e cinco anos e estava marcada com a letra A. Matara uma pessoa, e, mesmo tendo sido em legítima defesa, isso não mudava o fato de que eu era uma assassina.

 

Sem coragem, não há vitória, eu me incentivava. E naquele dia eu estava, sem dúvida alguma, sendo impulsionada por pura coragem. Ia em busca de um sonho que vinha acalentando por mais de doze anos.

 

Talvez, naquele dia, começasse minha vida nova. Mas eu estava fazendo a coisa certa? Estava pronta? Ou iria cometer um erro horrivelmente embaraçoso?

 

Segurei com firmeza a pasta na qual levava as canções que escrevera durante o último ano. Canções, música e letra, onde expunha minha dor e expressava as esperanças para o futuro.

 

Eu compunha desde os dez, onze anos de idade. A maioria ficava em minha cabeça, mas algumas iam para o papel. Minha música era a única coisa que as pessoas pareciam apreciar em mim, a única coisa que eu fazia bem.

 

Aquelas canções que levava na pasta eram boas? Talvez, mas haviam sido ouvidas apenas por Jennie e um esquilo chamado Smooch. Por mais ávida que eu estivesse por elogios, não podia confiar na opinião de uma menina de quatro anos, ou de um animalzinho.

 

Logo, no entanto, outra pessoa ouviria minha música: Barry Kahn, o cantor-compositor que eletrizara o país, uma década atrás, e que agora era um dos mais importantes produtores de discos do mundo.

 

Barry Kahn queria ouvir minhas canções.

 

Pelo menos fora o que ele dissera.

 

Eu estava paralisada. Então, as coisas pioraram.

 

- Está atrasada - ele informou. Foram suas primeiras palavras. - Trabalho num esquema bastante apertado.

 

- Atrasei-me por causa da neve - justifiquei-me. - Levei uma eternidade para conseguir um táxi, que não parava de derrapar. Fiquei nervosa e pedi ao motorista para ir mais depressa, mas ele foi mais devagar, e...

 

Meu Deus, pensei. Pareço um periquito não muito inteligente. Controle-se, Polly. Já!

 

Ele não pareceu comover-se, o miserável.

 

- Por que não saiu de casa mais cedo? Meus dias são cheios, mas planejo tudo com antecedência. Você deveria fazer o mesmo. Quer café?

 

Esse oferecimento, a súbita gentileza, pegaram-me de surpresa.

 

- Quero, sim, por favor.

 

Ele interfonou para a secretária.

 

- Creme e açúcar? - perguntou, olhando para mim. Concordei com um gesto de cabeça.

 

A secretária apareceu.

 

- Lynn, café para a sra. Bradford, com açúcar e creme - ele instruiu com aquela voz gutural que o tornara inconfundível como cantor. - Nada para mim.

 

Dispensou a mulher com um gesto e sentou-se à escrivaninha com os olhos fechados, como se tivesse todo o tempo do mundo.

 

Quem é realmente esse sujeito?, perguntei-me.

 

Tinha pouco mais de quarenta anos, calculei, cabelos castanhos, com entradas altas, nariz comprido, boca estreita e uma sombra de barba no queixo. Não era bonito, e refleti que as fãs que o achavam sensual deviam ser atraídas por sua alma, não pela aparência física. Mas os traços do rosto sugeriam luta e, em repouso, paz.

 

Naquele nosso primeiro encontro, ele estava usando roupas esportivas, calça de lã cinzenta e camisa azul, aberta no pescoço, tudo obviamente caro, mas desgastado por falta de cuidados. Barry Kahn parecia inofensivo e muito meigo.

 

Solteiro, deduzi. E devia morar sozinho. Eu não estava interessada nele como homem, mas notei tudo isso. Sou boa em perceber detalhes. Sempre percebo tudo, principalmente quando se trata de gente.

Lynn voltou com uma xícara de café de porcelana, que peguei da mão dela, derramando um pouco do líquido no pulso. Não conseguira relaxar. Na verdade, estava uma pilha de nervos.

 

Paralisada. Como que feita de pau.

 

Barry levantou-se para oferecer ajuda, mas eu o impedi, erguendo a mão.

 

- Está tudo bem - afirmei.

 

Controle-se, fique fria, ordenei a mim mesma. Não pense no A escarlate. Barry voltou a sentar-se.

 

- Você sabe mesmo escrever cartas - comentou. Tomei aquilo como um elogio.

 

No hospital, enquanto me recuperava, escrevia canções, uma atrás da outra. Então, planejei escrever uma carta a Barry, uma só, dizendo quanto o admirava e pedindo que me concedesse uma audição, um dia. Mas essa carta gerou outra e, em abril, eu escrevia para ele quase todas as semanas, dizendo coisas que saíam do fundo do coração a uma pessoa que nunca vira. Nossa!

 

Esquisito, eu sei, mas foi o que fiz.

 

Barry não respondia as minhas cartas, e eu nem sabia se as lia. Só sabia que elas não eram devolvidas. Continuei a escrever. Na verdade, era isso que me ajudava a ir em frente. Eu estava conversando com alguém, embora a pessoa não dissesse nada em resposta.

 

Acho que escrever aquelas cartas apressou minha recuperação. Fui ficando mais forte e comecei a acreditar que um dia estaria completamente curada. Jennie ficaria bem, pelo menos tão bem quanto era possível, para uma criança que, aos três anos, assistira a um ato de tamanha violência em sua própria casa.

 

Minhas irmãs revezavam-se, indo do interior do Estado de Nova York para West Point, para ficar com ela. Jennie tinha permissão do hospital para me visitar, sempre que as tias pudessem levá-la, e se mostrava fascinada pela minha cadeira de rodas e a cama elétrica. E me deixava emocionada quando me abraçava e pedia:

 

- Cante para mim, mamãe. Não. Invente uma canção nova e cante.

 

E eu cantava. Por mim e por ela. Escrevia uma canção por dia.

 

Então, uma coisa espantosa aconteceu. Um milagre. Ainda no hospital de West Point, recebi uma carta.

 

”Prezada Maggie,

 

Ok, ok, você venceu. Não faço idéia do motivo de estar > escrevendo para você, mas acho que sou mole, embora não goste de admitir. Se você contar isso a alguém, estará tudo acabado entre nós, para sempre.

 

Para dizer a verdade, suas cartas me comoveram. Recebo muitas, mas a minha secretária joga a maioria fora, sem nem sequer me mostrar. E as que ela me entrega, eu mesmo jogo.

 

Mas você... você é diferente. Você me faz lembrar que existe gente de verdade lá fora, não apenas bajuladores que querem introduzir-se no meu estúdio. Sinto que a conheço um pouquinho, e isso mostra o que significou tudo aquilo que você escreveu.

 

Fiquei impressionado com algumas das letras de músicas que você me mandou. Trabalho de amador, pois você ainda tem muito o que aprender sobre a arte de escrever canções, mas forte, mesmo assim, porque diz alguma coisa. Isso não significa que: a) o aprendizado lhe fará algum bem; b) que você poderá ganhar seu sustento compondo. Mas, tudo bem, tudo bem. Eu lhe darei aquela meia hora de meu tempo que você pediu, para, como explicou, descobrir se tem algum talento.

 

Quando sair do hospital, telefone para Lynn Needham, minha secretária, para marcar uma entrevista. Mas, enquanto isso, por favor, não me escreva mais. Você já tomou bastante do meu tempo. Não escreva para mim, escreva mais canções!”

 

No fim da carta ele assinara ”Barry”, e agora lá estava, me olhando, e me senti deslocada, um dos bajuladores dos quais ele reclamara. Eu não me vestira com apuro, esse não era meu estilo. Usava blusa branca, tipo camponesa, colete cor-de-rosa, saia preta, comprida, e sapatos sem saltos.

 

Mas estava lá. Lutando.

 

Tentava com muito empenho não ter pensamentos negativos, mas coisas assim, realmente boas, nunca acontecem para pessoas como eu. Simplesmente não acontecem.

 

- Você canta também, ou simplesmente compõe? - ele perguntou.

 

- Também canto, pelo menos espero que possa chamar aquilo de ”cantar”.

 

Pare de se desculpar, Maggie. Você não tem de se desculpar por coisa alguma.

 

- Já se apresentou profissionalmente?

 

- Cantei acompanhamentos, algumas vezes, em boates, na região de West Point e Newburgh. Mas meu marido não gostava.

 

- Não gostava nem um pouco, não é?

 

- Achava que eu me expunha e não suportava que outros homens olhassem para mim.

 

Por isso, dei três tiros nele.

 

- Mas gostaria de tentar, agora? Seria capaz de cantar em público?

 

Meu coração disparou diante da idéia.

 

- Seria, sim - respondi, achando que dizia a coisa certa.

 

- Boa resposta. - Ele apontou para um brilhante piano preto, um Steinway, no outro lado do escritório. - Mas agora fará um teste, sem público. Trouxe alguma coisa?

 

Peguei minha pasta.

 

- Muita coisa. O que deseja ouvir? Baladas? Blues? Ele fez uma careta.

 

- Não, Maggie. Só uma canção. Isto não é uma sessão de jazz.

 

Uma canção?

 

Senti-me desanimada. Levara duas dúzias, no mínimo.

 

Fiquei nervosa e confusa, como se estivesse nua diante dele.

 

Controle-se. Já cantou essas músicas mais de mil vezes.

 

E ele é um ser humano como você. Apenas se comporta de modo diferente.

 

- Vamos em frente - ele disse, olhando para o relógio. - Por favor, Maggie.

 

Respirei fundo e me sentei ao piano. Sou muito alta, e isso me deixa acanhada, de modo que prefiro me sentar, sempre que possível. Do banquinho, eu podia ver o caos silencioso da Broadway através da janela.

 

Madeira fossilizada. Bem, você está aqui e vai ser ouvida por Barry Kahn. Agora, deixe-o de boca aberta. Você... pode... fazer... isso.

 

- Esta é uma canção chamada Mulher sob a Lua. E sobre... uma mulher que trabalha durante a noite, limpando prédios, numa cidade pequena. Fala de como ela vê a lua de uma certa janela, enquanto trabalha, do que sonha, limpando os escritórios.

 

Olhei para Barry Kahn. Meu Deus, eu estava em seu escritório! A mulher sob a lua era eu. Ele se reclinara na cadeira e pousara os pés na gaveta de baixo da escrivaninha, mãos juntas, os dedos esticados, olhos fechados. Não disse nada.

 

Musicalmente falando, Mulher sob a Lua era igual a uma canção de Barry, Luz de Nossos Tempos. Comecei a tocar e a cantar em voz baixa, indecisa, que de repente me pareceu enfadonha e comum. Enquanto cantava, sentia que perdia a atenção de Barry.

 

Acabei. Silêncio. Por fim, ousei encará-lo. Ele não mudara de posição.

 

- Obrigado - agradeceu. Esperei. Não veio mais nada. Coloquei a partitura de volta na pasta.

 

- Não vai fazer uma avaliação? - perguntei, temerosa da resposta, mas querendo ouvir algo mais do que ”obrigado”.

 

Ele deu de ombros.

 

- Como posso avaliar minha própria criação? Essa música é minha, não sua. Minha voz, imitada pela sua. Não estou interessado.

 

Senti um forte rubor subir-me ao rosto. Estava humilhada, mas também zangada.

 

- Pensei que fosse gostar. Fiz essa canção em sua homenagem.

 

Queria sair correndo da sala, mas me obriguei a ficar.

 

- Ótimo, muito bem. Estou honrado. Mas pensei que veio aqui para tocar suas canções. Se quisesse ecos, cantaria no túnel do metrô. Todas as outras são iguais as minhas?

 

Não, desgraçado. Não são iguais às de ninguém.

 

- Quer saber se tenho algo mais original?

 

- Originalidade é o que estou procurando. Originalidade é um começo.

Comecei a folhear as partituras. Meus dedos estavam amortecidos e desajeitados. Uma banda marcial completa tocava dentro da minha cabeça.

 

- Ouviria mais uma?

 

Ele se levantou, abanando a cabeça numa negativa.

 

- Maggie, na verdade, acho que não...

 

- Tenho muitas que são minhas, não suas - insisti, pois prometera a mim mesma que não me sentiria embaraçada.

 

Ele suspirou, rendendo-se.

 

- Já que está aqui... mostre mais uma. Uma, Maggie. Tirei a partitura de Bhte da Centáurea. Parecia um pouco

 

com um antigo sucesso de Carole King. Talvez não fosse bastante original. Muito rica, muito inteligente, mais besteira. O barulho na minha cabeça tornara-se trovejante, como o de um trem de metrô aproximando-se. Eu me sentia como se fosse ser atropelada.

Guardei Blue da Centáurea e escolhi outra, Perda do Estado de Graça. Sim. Essa era melhor. Eu a escrevera recentemente, depois de me mudar para Nova York.

 

Uma canção.

 

Sentia os olhos de Barry Kahn em mim, sua crescente impaciência. A sala estava quente. Não olhei para ele. Só para a partitura de Perda do Estado de Graça.

 

A canção era sobre meu casamento com Phillip. Profundamente pessoal. O êxtase inicial, o amor que eu sentira, ou que pensara sentir. O terror. O horror daquela primeira vez em que me senti saindo do estado de graça, incapaz de poder retornar.

 

Uma canção.

 

Voltei ao piano, respirei fundo e comecei a tocar.

 

Cantei muito baixinho, em princípio, depois com paixão cada vez maior, quando a música me envolveu e me fez lembrar exatamente o que a inspirara: Phillip, Jennie, eu mesma, nossa casa perto de West Point.

 

Captei uma mudança no ambiente, senti a afinidade, a compreensão pelas quais ansiara em minhas cartas, elos que me ligavam ao homem sentado silenciosamente no outro lado da sala.

 

Terminei e esperei, pelo que me pareceu uma eternidade, que ele dissesse alguma coisa. Por fim, virei-me. Barry estava de olhos fechados e dava a impressão de estar com dor de cabeça. Abriu os olhos.

 

- Não devia rimar ”sofrimento” com ”momento” - disse. - E uma rima pobre e, embora isso seja aceitável numa música country, prejudica quando se está tentando fazer algo mais sério.

 

Comecei a chorar. Não pude evitar. Era a última coisa que eu desejava fazer. Fiquei furiosa comigo mesma.

 

- Ei! - ele chamou.

 

Eu já enfiara a partitura na pasta e caminhava para a porta. Com vontade de correr. Mas não correria.

 

- Ei! - ele repetiu. - Pare de chorar. Espere um minuto.

 

Virei-me.

 

- Lamento ter tomado tanto do seu precioso tempo. Você só soube falar de uma rima pobre, depois que coloquei o meu coração para fora, cantando. De jeito nenhum poderíamos trabalhar juntos.

 

Saí correndo da sala, passei por uma espantada Lynn Needham e peguei o elevador extravagante, em estilo art déco.

 

Que Barry Kahn se danasse.

 

Eu era bastante dura para poder lidar com aquilo. Precisava ser. Tinha uma filhinha para sustentar, para não falar de mim mesma. Fora por isso que escrevera para mais meia dúzia de empresas fonográficas, além da Barry Kahn, enquanto estava no hospital. No dia seguinte, visitaria uma delas. Depois outra. E outra, se fosse necessário.

 

Alguém iria gostar da minha música. Minhas canções eram boas demais, verdadeiras demais para que alguém as ouvisse sem sentir alguma coisa.

Azar seu, Barry Kahn, sr. Mandachuva. Sr. Meu Tempo é PreciosoDemais! “.

 

Você não soube aproveitar!

 

Acho que você já teve vontade de dizer, ou mesmo de gritar bem alto: ei, sou inteligente, boa pessoa, tenho talento!

 

Foi o que gritei em Times Square. Nenhum problema. Ninguém notou. Eu não era diferente dos outros lunáticos que andavam por lá.

 

Vagueei por duas horas, ignorando a neve que caía, depois fui pegar Jennie na escola, na West Seventy-third. Eu me sentia um lixo e só esperava não ter essa aparência. Nossa, que dia!

 

- Vamos comemorar - eu disse. - Amanhã começam as férias de Natal. Dê um grande abraço em sua mãe favorita, e depois iremos a um elegante restaurante nova-iorquino. Só nós duas. Onde quer comer? No Lutèce? No Windows on the World? No Rumpelmayer’s?

 

Jennie analisou a oferta cuidadosamente, franzindo a testa e alisando o queixo, como sempre faz quando tem de tomar uma decisão importante.

 

- Que tal o McDonald’s? Depois podemos ir ver um filme.

 

- É isso aí! Comeremos um ”quarteirão com queijo! - Ri, pegando a mãozinha dela. - Minha doce coelhinha, você é o que existe de mais importante. E gosta das minhas canções.

 

- Eu adoro, mamãe.

 

Começamos a dizer bobagens, como sempre. Em nossa conversa, éramos ”amigas”, ”amigas íntimas”, ”tagarelas”, ”almas gêmeas”, ”dupla esquisita”. Dizíamos que ”nunca estaríamos sozinhas, porque uma sempre teria a outra”.

 

- Como foi o seu dia, meu bem? Caramba, uma pessoa precisa ser durona para viver em Nova York. Ainda bem que nós somos.

 

- Foi divertido. Tenho uma amiga nova chamada Julie Goodyear. Ela é muito engraçada. A sra. Crolius disse que sou inteligente.

 

- Você é. Também é bonita, e uma pessoa muito bacana. Mas é baixinha demais! - vou ser maior do que você, não vou?

 

- Acho que sim. Vai ter mais ou menos dois metros e dez de altura.

 

E íamos falando assim, sem parar.

 

As tagarelas.

 

As amigas íntimas.

 

Estávamos indo muito bem, nos acostumando em Nova York, ou quase, nos recuperando de Phillip o melhor que podíamos.

 

Que Barry Kahn fosse para o inferno!

 

O sr. Mandachuva estragara tudo!

 

Estava tão escuro quanto o coração de Phillip, quando Jennie e eu chegamos em casa. Toda minha atitude desafiadora evaporara-se, e olhei para a fachada do nosso prédio velho e feio com total desânimo.

 

Merda, merda, merda. Acho que teremos de morar aqui por mais um pouco de tempo. Talvez pelo resto da vida.

 

Abri a porta, que bocejou, como sempre. Uma típica reação nova-iorquina.

 

Droga, droga, droga! As luzes estavam apagadas, no vestíbulo e no patamar do primeiro andar.

 

Tudo o que eu podia ver era um pouco de luz do poste em frente, entrando pela janela do primeiro andar.

 

- É horrível - Jennie murmurou. - Dá medo.

 

- Não. Não é horrível. Na Big Apple1, é divertido. - Peguei a mão dela, e começamos a subir a escada ”divertida”.

 

De repente, parei. Meu corpo ficou tenso, e coloquei Jennie atrás de mim para protegê-la.

 

Havia um vulto nas sombras do patamar. Era uma pessoa sentada, imóvel, em silêncio. Alta e corpulenta.

 

Grande Maçã, o apelido de Nova York (N. do E.)

 

Aquilo não era bom. Era horrível. Dava medo. Fui em direção à pessoa, cautelosamente.

 

- Olá. Quem é? Ei, você aí em cima! - chamei, pensando nas histórias de horror sobre Nova York e nos horrores que enfrentara em West Point.

 

A pessoa parecia estar usando algo na cabeça. Uma cartola estranha? Algo esquisito como o diabo.

 

Phillip! Imaginei o inimaginável. Eu sabia que não podia ser, mesmo assim tive o pensamento.

 

Phillip adorava me assustar, saltando de trás de um arbusto ou de uma porta. Sabia que me apavorava e achava muito engraçado fazer isso. Uma vez, num Dia das Bruxas, ele colocou um cocar de índio na cabeça e correu para mim, brandindo um machado. Foi o pior dos sustos que me deu.

 

Mas, no fim, fui eu quem saltei sobre ele, de arma em punho, atirando... atirando...

 

Phillip estava morto, disse a mim mesma, e fantasmas não existiam, nem mesmo em Nova York.

 

Cheguei mais perto. A pessoa não se mexeu. Aproximei-me do patamar.

 

- Olá! - tornei a gritar. - Não tem graça nenhuma! Por favor, fale comigo. Diga ”olá”, pelo menos.

 

O ruído de nossos passos hesitantes nos degraus lembrava-me as passadas de Phillip, quando ele percorria a casa, pisando duro.

 

Sentindo uma ameaça de ataque histérico, provocado por um temor atávico, forcei-me a chegar ao patamar.

 

- Quem é, mamãe? - Jenrie cochichou atrás de mim, contagiada pelo meu medo.

 

Duas vezes, não, pensei. Você não nos machucará duas vezes. De jeito nenhum!

 

Atirei-me sobre o vulto ameaçador, batendo nele com minha pesada pasta. Bati com força.

Vi-o tombar, sem oferecer resistência, e só então descobri o que fizera.

 

- Oh, meu Deus, não acredito! - Comecei a rir, mas o alívio não varreu o pavor totalmente. - Oh, cara!

 

Jennie subiu os últimos degraus, rindo comigo.

 

”Phillip” era uma gigantesca cesta de rosas de hastes longas, que devia ter custado algumas centenas de dólares.

 

Abri o cartão que a acompanhava.

 

           Para Maggie Bradford.

Um brinde ao primeiro dia de seu retorno ao estado de graça. Se você realmente quer trabalhar comigo, é louca, mas está contratada. Fez meu ’precioso tempo’ passar como se não fosse nada. Acredite.

                 Barry.

 

Em retrospecto, foi uma história engraçada. Com um final feliz, certamente. Mas agora, enquanto escrevo, as perguntas voltam e não são nada engraçadas. Para mim, não.

 

Meu primeiro impulso é sempre matar, quando estou sob tensão?

Matei não apenas uma, mas duas vezes?

 

Muita gente acha que sim. Uma delas é o promotor público do distrito da zona sul de Nova York.

Primeiro, foi Phillip Bradford. Depois, Will.

San Diego, Califórnia, julho de 1967.

 

Will Shepherd, de seis anos de idade, estava sonhando com índios. Ferozes e impiedosos, corriam para ele em ondas, os cavalos relinchando, as flechas longas como lanças apontadas para o seu coração. Ele adorava toda aquela excitação, o filme em sua cabeça, o perigo.

 

Ouviu barulho de água se espalhando.

 

Não fazia sentido. Will abriu os olhos, fechou-os quase imediatamente e voltou a dormir.

 

Cowboys e índios outra vez.

 

Nada de barulho de água. Não em seu filme, pelo menos.

 

Will tornou a acordar as quinze para as oito, vestiu-se sem fazer ruído para não perturbar o irmão, Palmer, que ainda dormia, e desceu, atravessando a casa silenciosa.

 

Na cozinha, pegou geléia de uva Welch’s, pasta de amendoim, leite e metade de um pão de fôrma. Café da manhã para uma pessoa. Quem precisava de mãe? Quem precisava de alguém?

 

Will viu o próprio rosto e os cabelos loiros e despenteados na lateral da torradeira brilhante. Tinha de admitir, pensou. Sentia falta da mãe. Sentia horrivelmente. Gostaria de vê-la fazendo pasta de amendoim e geléias novamente.

 

Sabia que ela fora morar em Los Angeles. Não precisava mais suportar as brigas terríveis da mãe com o pai, mas naquele momento teria preferido brigas ao silêncio. Às vezes, ele e Palmer ficavam com tanta saudade da mãe, que choravam nas horas mais idiotas. Mas, geralmente, Will a odiava. Geralmente, mas não naquele momento.

 

De repente, Will lembrou-se. Barulho de água na piscina? Pegou o prato e o copo, colocou-os na pia, depois abriu a porta de tela e saiu correndo para o sol ameno e para o pipilar dos pardais.

 

Virou o canto da casa de madeira, branca com os detalhes pintados de azul, e correu para a borda da piscina.

 

Parou tão de repente que quase caiu, tropeçando nos próprios tênis.

 

Gritou, gritou, gritou tão alto, que acordou o irmãozinho, que apareceu na janela acima dele.

 

Gritou com tanto desespero, que os vizinhos correram em seu socorro. Abraçaram-no, tentando não deixá-lo ver a cena que ele já vira e que nunca mais esqueceria.

 

O que o menino de seis anos viu, boiando na água cintilante, foi o pai, com seu roupão vermelho axadrezado e a calça bege. Um dos pés estava enfiado num chinelo amarelo. O outro chinelo flutuava, livre como uma folha de lírio aquático.

 

Os olhos do pai estavam abertos e fixos nele. Sua culpa, pareciam dizer. Menino mau. Sua culpa, Will.

 

Você sabe o que fez!

 

Você sabe o que fez!

 

As cinco e cinqüenta e dois, Anthony Shepherd saíra de casa e, deliberadamente, afogara-se na piscina.

 

E tudo o que havia em Will Shepherd, que valesse a pena salvar, pareceu afogar-se juntamente com o pai.

 

Alguns dias após o suicídio do pai, Will e Palmer passaram sua última tarde na Califórnia, escolhendo as roupas e brinquedos que levariam. Cada um poderia levar só duas malas. Não mais do que isso.

 

A mãe recusara-se a levá-los para morar com ela. Ninguém disse o motivo a Will e Palmer. A puta idiota, pensou Will, usando um dos palavrões que o pai gritava quando brigava com ela. Os irmãos haviam passado os dias que se seguiram ao suicídio com a babá, que também não aceitara ficar com eles, e agora sabiam que iriam para a Inglaterra, viver com pessoas que os queriam. Iriam começar uma nova vida com as tias, Eleanor e Vannie, que não conheciam, mas que haviam estabelecido a regra de ”duas malas cada um”.

 

No aeroporto internacional de Los Angeles, apinhado, barulhento, caótico, os dois meninos loiros, parecidos um com o outro, sérios e confusos, ficaram sentados com o dr. Engles, um dos poucos amigos do pai, à espera do vôo. O dr. Engles continuava falando de Londres, da estúpida rainha, da estúpida troca da guarda no palácio de Buckingham, como nos poemas que a mãe lera para Will, quando ainda vivia com a família. Will estava se lembrando do pai boiando na piscina, olhando para ele de algum lugar morto.

 

- Senhoras e senhores, queiram embarcar no vôo quatrocentos e onze da Pan American, com destino a Nova York e Londres - Will ouviu.

 

O dr. Engles estendeu a mão para pegar a de Will.

 

- Vamos?

 

De repente, Will mordeu-lhe a mão o mais forte que pôde, arrancando sangue.

 

- Que praga! - exclamou o dr. Engles, dando-lhe um tapa com a mão livre. - Seu merdinha! Seu monstrinho!

 

Will abriu a boca. Os dentes da frente estavam vermelhos.

 

- Não quero ir para a Inglaterra! - berrou. - Não podemos ficar aqui?

 

Por favor, papai,

 

Por favor, mamãe.

 

Por favor, alguém me ajude.

 

Eu não queria matar meu pai. Eu não queria!

 

Papai, pare de olhar para mim desse jeito. Por favor, papai!

 

Will jamais esqueceria suas primeiras horas na Inglaterra. Seria a mesma coisa se ele e o irmão tivessem viajado para a lua.

 

Tia Eleanor esperava-os no portão de desembarque. Era gorda, agitada, tinha um rosto branco como talco, e Will percebeu que estava com mais medo dele do que ele dela. Antipatizou com a mulher no instante em que a viu.

 

Ela não vai me machucar, decidiu. Ninguém me machucará de novo, principalmente ela.

 

Tia Eleanor explicou que tia Vannie ficara em casa para preparar um jantar especial para eles.

 

Vai ter gosto de merda, pensou Will. Não existe lugar pior do que a Inglaterra.

 

No percurso do aeroporto de Heathrow para casa, tia Eleanor não parou de falar, e os meninos tiveram pouca chance de observar o que os cercava. Sempre que desviavam o olhar, ela erguia o dedo e mandava-os prestar-lhe atenção. Will pensou seriamente em arrancar aquele dedo com uma mordida.

 

- Muita gente que trabalha em Londres mora longe do centro, mas perto de uma estação de metrô. Por exemplo, nós moramos em Fulham, desde que sua mãe se mudou para a América, querendo fazer fortuna. E suponho que fez, casando com seu pai, não? Ela herdará todo o dinheiro, sabem, e vocês não ficarão com nada. A menos que ela queira lhes dar alguma coisa. Nós também não receberemos nada, mas nunca esperamos coisa alguma dela. De sua mãe, não.

 

Não. Nunca espere nada de minha mãe, pensou Will.

 

Sabia que tia Eleanor lecionava história em uma escola primária, e isso explicava aquele modo monótono de falar. Mas ela cheirava a suor, e quem pensava que era, para falar mal da mãe dele? Dava para perceber que Palmer também não gostara dela. O espertinho estava fingindo que dormia.

 

Por fim, o táxi parou diante de uma casa de três andares, de tijolos à vista, com janelas muito pequenas e seis degraus que levavam à porta da frente.

 

- Chegamos - anunciou tia Eleanor em tom alegre. Will pensou nas árvores, no espaço, no sol de San Diego, e seu peito apertou-se.

 

As casas amontoadas nos dois lados da rua eram parecidas com a das tias, e a única árvore que ele viu estava encurvada, maltratada pela chuva, e não tinha nenhuma folha.

 

Palmer pegou uma das malas, tia Eleanor outra, e Will carregou suas duas degraus acima, com grande dificuldade.

 

Antes de chegarem ao topo, a porta abriu-se com ímpeto, e uma mulher apareceu. Usava calça preta, justa, e um suéter preto de gola olímpica.

 

Will soltou um gritinho abafado. O coração disparou, e o rosto ficou quente.

 

A mulher era jovem, os cabelos castanhos, meio acinzentados, iam até o meio das costas. Tinha olhos azuis e pele muito clara.

 

É minha mãe, ele pensou.

 

Só que, claro, não era.

 

Era tia Vannie, a irmã mais nova de sua mãe, mas lembrava dolorosamente a mulher que um dia, muito tempo atrás, abraçara-o, pegara-o no colo, dissera-lhe que o amava e depois fora embora. Ele se encheu de uma curiosa mistura de medo e alegria. Queria jogar-se nos braços de Vannie e, ao mesmo tempo, correr desabaladamente rua abaixo, gritando.

 

- Tirem os sapatos antes de entrar - ela instruiu. - Não queremos sujar a casa, não é?

 

A casa. Inglaterra. O novo lar. A nova vida de Will. Sua própria história de horror. E estava apenas começando.

 

A lenda teve início cedo e nunca mudou.

 

”Will é um menino extremamente inteligente e esperto, mas parece ser um incorrigível mestre da Grande Mentira Audaciosa e Encantadora!”

 

Foi isso o que o diretor da escola primária de Fulham escreveu, na primavera de 1970.

 

”Se Will se esforçasse mais, suas notas melhorariam, mas ele só se interessa por esportes, em que se sobressai, e em arrumar brigas com os colegas, que o consideram um campeão. Eu, pessoalmente, tenho minhas dúvidas que ele conheça os aspectos mais elementares do comportamento social, ou a diferença básica entre realidade e fantasia.”

 

Will conhecia a diferença, apenas fizera sua escolha.

 

Nos fins de semana, dava longos passeios pelo bairro, sozinho. Um dia, quando estava com onze anos, ouviu gritos vindo de um estádio que ficava a mais ou menos um quilômetro e meio da casa das tias. Intrigado, foi investigar. Gastou a mesada da semana para comprar o ingresso.

 

Lá, a sua frente, desenrolava-se uma cena deslumbrante: vinte e dois homens, divididos pelos uniformes, porém unidos por um mesmo objetivo, jogavam o que na Inglaterra chamavam de ”futebol”, mas que Will conhecia como soccer. Ele só vira jogarem daquela maneira pela televisão.

 

Jogava bastante futebol, na escola, mas eram jogos desordenados, com um bando de garotos chutando a bola pelo campo de qualquer jeito.

 

Ali, no entanto, havia simetria, geometria, coordenação no ataque, uma beleza tão inevitável quanto a das ondas do mar. Um jogador, controlando a bola com os pés, moveu-se para a frente; outro correu para junto dele; um terceiro, correndo pela lateral, recebeu a bola do segundo, sem parar de correr, e lançou-se para o meio do campo, perseguido por um adversário que deslizou a seus pés e conseguiu tirar-lhe a bola, chutando-a para um dos colegas de time.

 

E, então, subitamente, tudo começou a acontecer de modo inverso, como a maré refluindo. Jogadores da defesa tornaram-se atacantes, atacantes transformaram-se em defensores, uma massa rodopiante. Will pensou em um caleidoscópio que o pai lhe dera quando ele tinha cinco anos.

 

E o barulho! Cada vez que havia uma inversão, cada vez que uma equipe ameaçava o goleiro, a multidão rugia, como se respirasse pela boca dos atletas, e, quando um time fez um gol, o rugido tornou-se tão estrondoso, que Will achou que seus tímpanos se romperiam e seu coração explodiria.

 

Naquela noite, a mãe apareceu-lhe em um sonho e, enquanto Will a observava, horrorizado, ela beijou os olhos abertos do pai morto e depois riu, olhando para ele. Seus dentes estavam vermelhos, gotejando sangue.

 

Você sabe o que fez, Will.

 

Foi tudo culpa sua.

 

Uma manhã, vários dias depois, ele encontrou um cachorro perdido, vagueando pelas ruas de Fulham. Era macho, amarelo-escuro e marrom. Por fim, encontrara um amigo na velha Inglaterra de merda.

 

- Venha, cão. Venha comigo - Will chamou, batendo na coxa várias vezes. - Venha, Lassie.

 

Entrou no parque municipal, e o animal solitário acompanhou-o como se fosse sua sombra. Não sabia por que estava sentindo raiva, mas estava. Essa sensação apoderava-se dele com muita freqüência, desde a mudança da Califórnia para a Inglaterra. Desde que o pai se matara. O suicídio do pai fora um mau negócio para Will, que ainda se sentia responsável. Mas, pior ainda, ele se convencera de que aquele também seria seu fim.

 

Sentou-se junto de um pequeno lago. O cachorro ainda estava com ele. Era seu novo companheiro.

 

- Ficar comigo foi um grande erro, cão. - A má sorte me persegue. Não, não estou brincando.

 

O animal ganiu e estendeu-lhe uma pata. Mas Will estava ficando cada vez mais zangado, por causa de uma porção de coisas. O pai, as tias, Palmer. Sentia-se como se uma faixa apertada lhe envolvesse o peito. A cabeça zunia. Havia uma bruma vermelha diante de seus olhos.

 

Pôs a mão na água fria e rasa e apalpou o fundo, tirando uma pedra do tamanho de um punho. Sem aviso, bateu com a pedra no lado da cabeça do cachorro. Bateu de novo, e o animal caiu, gemendo. Will continuou batendo, até matá-lo.

 

Não sabia por que fizera aquilo. Gostara daquele cão. Fosse como fosse, não estava mais zangado. Sentia-se bem. Na verdade, não sentia quase nada.

 

Fizera uma pequena descoberta a respeito de si mesmo: dentro dele, havia um lado predominante, bom, mas também havia um lado mau.

 

Não era possível existirem dois Wills, era?

 

Desde o começo, Will soube que era grande e não ficou muito impressionado com isso. Mas os outros, com certeza, ficaram.

 

Will Shepherd era o mais jovem de todos os jogadores que já haviam pertencido ao time oficial da escola de Fulham. Com apenas onze anos, persuadiu o treinador a deixá-lo treinar com a equipe. Então, foi imediatamente escolhido e, ignorando as zombarias dos companheiros, cinco ou seis anos mais velhos do que ele, tornou-se o artilheiro do time. O que mais fazia gols!

 

Quando estava com doze anos, Fulham venceu o campeonato estudantil de Londres e nunca mais perdeu outro, até Will deixar a escola. Aos catorze anos, ele marcou nove gols em um jogo que seu time venceu por doze a zero.

 

Era magro e de pernas muito compridas para a idade, mas possuía equilíbrio notável. Extraordinariamente rápido, corria com a velocidade de uma flecha, como dizia o treinador. Corria como os recebedores laterais e do meio, no futebol americano.

 

Treinava todos os dias, em cada momento livre, até a bola assemelhar-se a uma extensão de seus pés, ou, no mínimo, a um satélite preso por um fio invisível. Aos sábados e domingos, chegava a treinar dezesseis horas. O campo era sua casa, não aquele lugar nojento onde Palmer e as tias moravam.

 

Os repórteres dos jornais locais espalharam sua imagem de estudante legendário por toda Londres. Comentavam seu estilo ousado, individual e inusitado, que atribuíam ao fato de ele ser americano.

 

Mas não era essa a razão. Nenhum deles sabia que Will trabalhava secretamente, aperfeiçoando seu estilo individualista. Ele decidira ser diferente, queria ser notado, pois achava essencial sobressair-se, em vez de ser visto como um solitário. Compreendia perfeitamente o que aquele esporte significava para a sua vida: o futebol, naquele estilo inglês, não o deixaria sentir-se sozinho e com medo. Ele nunca mais precisaria pensar na porca da mãe, nem no pai.

 

O futebol era sua única arma e iria salvá-lo. Tinha de salvar!

 

Primavera de 1985.

 

Por um ano e meio, Barry Kahn me fez treinar tanto, tocando piano, que meus dedos quase se gastaram. Ensinou-me também várias teorias da arte de escrever letras de canções: de Bob Dylan, Joni Mitchell, Rodgers & Hart e Johnny Mercer. A teoria básica de Barry era a de que trabalho árduo vencia a mediocridade.

 

Ele me fez escrever e reescrever, obrigando-me a mergulhar cada vez mais fundo no passado, e havia dias em que eu queria implorar para que não me forçasse tanto, que me deixasse descansar. Mas não pedi misericórdia. No íntimo, desejava que ele me forçasse ainda mais.

 

Barry era impiedoso, e eu também.

 

- Você está sonegando - ele dizia. - Está se escondendo atrás de rimas pobres e sentimentos falsos.

 

Certa vez observou:

 

- Não está sentindo nada. Sei disso, porque também não estou. Se me deixa frio, pense numa platéia. Eles a crucificarão, Maggie.

 

- Que platéia?

 

- Você não vê? Não sente uma platéia que tem de ouvir suas canções? Se não, saia daqui. Não gosto de desperdiçar meu tempo.

 

Continuei, até que nós dois ficamos satisfeitos, finalmente, e, então, pude me entregar à arte de compor. Barry não deixou de ser severo e exigente, mas a música chegava a mim com mais facilidade do que as letras. Eu me sentia à vontade. Um dia, ele disse que eu podia soltar ou reter o fluxo da música, como se fosse água de uma torneira. Acho que estava com um pouco de inveja. Gostei daquilo, de competir com ele, em seu nível.

 

Por último vieram as aulas de canto, e nisso Barry revelou-se um verdadeiro mestre. Ele me ensinou expressão, sotaque, dicção, como cantar diante de uma platéia, como usar o microfone em um estúdio de gravação.

 

Eu tinha, ele dizia, uma voz natural, diferente da de qualquer outra cantora, mas que essa era a parte mais difícil de julgar.

 

- Só o público decidirá, Maggie. Quem poderia imaginar que a voz de Bob Dylan conquistaria o coração de uma platéia, antes de isso acontecer? Sua voz é vibrante, sincera, com muitas e repentinas mudanças de entonação, de acordo com as palavras da letra. Você consegue se mostrar carinhosa, fria, enfadada, maternal, amorosa. Adoro a sua voz!

 

Adorava? Finalmente, um elogio. Decorei-o, palavra por palavra.

 

Eu treinava ali perto, no estúdio de gravação Power Station, cantando minhas canções, mas também indo buscar e entregando sanduíches e café, uma tarefa sem-fim. Costumava usar um sobretudo preto que descia até as botas. Usava-o em todos os lugares. Tornei-me a ”Loira alta, de sobretudo, quer buscar sanduíches para nós?”. E também a ”Claro, sem problema. Sanduíches de quê?”.

 

Eu me ressentia por ser tratada daquele jeito, achando que Barry nunca permitiria que fizessem o mesmo com um homem, mas ele insistia em dizer que aquilo fazia parte do trabalho e acrescentando que eu podia procurar outro lugar, se não estivesse satisfeita.

 

Não havia ”outro lugar”, e eu sabia disso.

 

Havia Jennie, naturalmente. As ”tagarelas” estavam vivas e passando bem.

 

Havia também Lynn Needham, que se tornou uma verdadeira amiga, babá ocasional, minha guia de turismo oficial em Nova York, um ombro onde encostar a cabeça.

 

Havia nosso apartamento no West Side, o covil da iniqüidade, que tinha apenas uma característica realmente legal: uma cozinha onde existia uma banheira da virada do século. Eu adorava tomar banhos quentes na cozinha!

 

Havia encontros esporádicos, mas nada que pudesse tornar-se sério. Comecei a me sentir como me sentira antes de conhecer Phillip, achando-me muito alta, muito desajeitada, um tanto tímida, com seios pequenos, cabelos que normalmente não ficavam como eu queria. Mas, claro, tudo isso era porque eu estava com medo de me envolver novamente. Eu não queria ter de contar a outra pessoa o que acontecera com Phillip. Não. O que eu fizera a Phillip. Levava aquele enorme A escarlate no peito e não acreditava que um dia a letra desbotasse ou desaparecesse.

 

Não, não havia ”outro lugar”.

 

Eu era, então, a garota do café e dos sanduíches. Mas fazer o quê? Aquilo era muito melhor do que a vida que eu tivera. De vez em quando era chato. Eu detestava aquelas corridas à lanchonete Famous, detestava ser a ”loira de sobretudo”, mas também adorava. Estava escrevendo, compondo, aprendendo. Fazia parte de uma coisa que, em certas ocasiões, podia ser linda e emocionante.

 

Uma manhã, na ”fábrica de música”, minha amiga Lynn Needham espiou para dentro do meu cubículo que também era depósito de caixas.

 

- E melhor largar tudo, exceto, talvez, esse café quente. O sr. Maravilha está chamando.

 

Barry tentava reservar algum tempo para mim, mas apenas no fim do dia, e nem em todos, de modo que aquele chamado era bem fora do comum. Corri para o escritório dele. Seu tempo ainda era precioso.

 

- Tenho uma boa notícia e, infelizmente, também uma ruim - Barry anunciou, quando entrei na sala onde dera uma audição para depois me tornar garota de recados.

 

Minha pulsação disparara.

 

Diga o que aconteceu! Não fique enrolando.

 

- Mandei uma das suas canções para a Califórnia - ele informou. - Perda do Estado de Graça. A versão revisada, que você me mostrou na semana passada. Alguém de lá gostou e quer gravar.

 

Em um impulso, corri e abracei-o. Acho que nunca fizera aquilo, antes. Sei que não.

 

Ele sorriu e me empurrou gentilmente, olhando-me nos olhos.

 

- Agora, a má notícia. Aquele alguém, uma mulher, quer ela mesma cantar.

 

Era minha canção.

 

- Diga que não - respondi. De repente, fiquei muito desanimada. - Não. Por favor, Barry!

 

- Não quer saber quem é esse alguém? Eu tive de admitir que ela pode cantar a música. Foi o que decidiu o negócio.

 

Tive uma visão de pesadelo, imaginando uma cantora iniciante, de terceira categoria, interpretando minha canção de modo todo errado.

 

- Claro que quero saber quem é. Mas se ela estragar tudo, eu vou matá-la!

 

Eu sei que não fui feliz na escolha das palavras.

 

- Acredito que ela fará tudo certo. - Ele sorriu, tornando-se a pessoa doce que às vezes sabia ser. - É Barbra Streisand. Deseja gravar Perda do Estado de Graça. E quer que você esteja lá, com ela.

 

Abracei Barry novamente. Agarrei-o e beijei-o nas duas faces. Adeus ao vaivém atrás de café e sanduíches de pastrame. Olá, Hollywood!

 

Reservei passagens de avião para mim e Jennie. Nós merecíamos aquilo. Tínhamos lutado para conseguir. Quando chegamos, vi-me dirigindo um Saab Turbo alugado, indo para o Hotel Beverly Hills. Tínhamos a impressão de estar a milhões de quilômetros de West Point.

 

- É cor-de-rosa! -Jennie exclamou, quando subimos pela entrada de carros e paramos diante do hotel. - Minha cor favorita. E todo cor-de-rosa!

 

- Mandei pintar para você - eu disse. - Telefonei e pedi a eles para pensar cor-de-rosa.

 

- Tagarelas! - Jennie gritou, enquanto continuávamos no impressionante abrigo de carros.

 

- Para sempre!

 

Um bonito carregador, garoto de praia, a julgar pelo loiro dos cabelos, levou nossas desgastadas maletas como se fossem da marca Louis Vuitton e guiou-nos até um adorável bangalô aninhado atrás do edifício principal. Bangalô número seis, nosso cantinho particular, tudo arranjado por Barry. ”Para que você e Jennie causem boa impressão.” Ele conhecia essas coisas. Eu, certamente, não.

 

- Chegou, senhora. E a senhorita também. - O carregador sorriu e abriu a porta com um movimento floreado.

 

Não pude impedir de recuar um passo. Dúzias de rosas American Beauty esperavam-me lá dentro.

 

- Cristo... - murmurei.

 

Para onde olhava, via rosas vermelhas.

 

- Há sempre tantas flores assim? - brinquei.

 

Minhas palavras deslizaram por cima dos cabelos loiros e hirsutos do carregador. As luzes estão acesas, pensei, mas não há ninguém em casa neste Hotel Califórnia.

 

- Oh, não, senhora. Foi um presente. Há um cartão.

 

”Bem-vinda à cidade de lantejoulas. Acho que você está prestes a tomá-la de assalto. Mas não se deixe enganar por todo esse ouro brilhante, e muito menos por algumas dúzias de rosas. Amo você e Jennie,

 

Também amo você, Barry. Mas nunca mais lhe levarei outra, xícara de café, por mais tempo que viva.

 

Talvez vocês consigam imaginar o que eu estava sentindo, ou pode ser que ninguém consiga.

 

Aquilo era tudo com o que eu sonhara. Era todo meu estudo de quebrar a cabeça, toda a tirania sem misericórdia de Barry, todas as aulas de canto e todo o trabalho de escrever e reescrever. Agora, lá estava eu, com o estômago dando nós de marinheiro, olhando para o corredor na penumbra que levava à sala de gravação A, no famoso estúdio Devan Sound.

 

Canções que fizeram sucesso foram gravadas aqui. A minha também pode fazer. Oh, cara!

 

Era isso. Ou ia, ou rachava. A grande oportunidade que todo mundo diz querer, mas que tanta gente nunca consegue, e que eu nunca imaginei que teria.

 

Sabia que cada estúdio ganhava uma mística curiosa, às vezes uma reputação supersticiosa, no meio restrito de grandes músicos, de cantores que eram astros e de seus empresários. Durante anos, Elton John gravou apenas em um castelo isolado, no sul da França. Os Rolling Stones tinham gravado em uma rústica casa flutuante, na Jamaica, só para conseguir um certo som. Muitos cantores country preferiam um determinado estúdio de Nashville, e apenas a Chet Atkins podia produzir seus discos.

 

Devan era assim, em Los Angeles. Segurei a mão de Jennie. Assistimos, como que em sonho, à sessão de gravação de Barry Kahn e Barbra Streisand diante de nossos olhos.

 

Não gostei! Na verdade, detestei. Queria gritar com os dois. A voz de Barbra não era a que soara na minha cabeça, quando eu compusera Perda do Estado de Graça. O estilo dela era inconfundível, poderoso demais.

 

- O que você acha? - perguntei a Jennie.

 

Ela me ouvira cantar aquela canção centenas de vezes, na nossa casa. Conhecia meu modo de me exprimir, as grandes mudanças de emoções.

 

- Não tão boa quanto você - ela respondeu, depois de um momento de reflexão. - Mas gosto desse jeito também. E tão bonito!

 

Traidora. Infiel.

 

A música foi ficando mais bonita à medida que a trabalhavam. A cada tomada ficava melhor. Comecei a ouvir coisas em minha própria canção, que nunca ouvira.

 

Era minha, mas se tornou dela também. Percebi que era uma parceria quase perfeita.

 

Fiquei quieta e engoli aquele sapo. Barry iria nos ver entre tomadas. Estava sendo tão gentil comigo e com Jennie, de repente tão solidário e encorajador.

 

Depois de algum tempo, imaginei que Barbra Streisand estava cantando só para mim, como eu cantara para Jenme, e me senti transportada para um lugar onde a música e as minhas emoções se juntavam. Estava de volta a West Point, mas em uma época mais feliz, quando eu costumava cantar para Smooch, o esquilo, e quando raramente me permitia sonhar com um momento como aquele.

 

Comecei a sentir o corpo todo amortecido, porém de um modo agradável.

 

Houve no mínimo cem tomadas, antes de Barry e Barbra se darem por satisfeitos, e a tensão na sala de controle dissolveu-se em piadas tolas e riso contagiante. Experimentei imenso alívio, como se eu própria tivesse cantado, e curvei minha cabeça cansada.

 

Senti alguém pôr a mão no meu ombro. Ergui a cabeça e vi o rosto de Barbra Streisand. Ela se aproximara de mim.

 

Na vida real, se aquilo era vida real, ela era impressionante, mas não convencionalmente bonita. Havia bondade em seus olhos, e o sorriso era simpático. Eu já vira que ela sabia ser dura, e vi que possuía um lado terno também. Não acreditem em tudo o que lêem nos jornais. A respeito de Barbra, acreditem em mim.

 

- Sei como deve estar se sentindo - ela disse. - Um pouco, pelo menos. Lembro-me da minha estréia na Broadway, da minha primeira sessão de gravação. Estômago apertado e tremedeira, certo?

 

- Uma experiência extracorporal - respondi. Ela se sentou perto de mim e de Jennie.

 

- Não esqueça que você trabalhou para isso. Todo o suor, as lágrimas e os problemas de antes de hoje lhe dão o direito de apreciar isso intensamente. Sua canção seria um sucesso, não importa quem a cantasse. Porque sou eu, receberá a atenção que merece. Amei sua música, Maggie, e todo mundo também amará. Escreva mais coisas para mim, por favor.

 

Então, beijou-me no rosto e me deu um abraço.

 

- Obrigada - murmurou. - Sua canção é tão verdadeira, e a verdade dentro de você está hesitante.

 

Por um momento fiquei com a língua presa, então recuperei a compostura.

 

- Estou tentando não dizer algo estúpido demais - cochichei. - Não pode imaginar o que isso significa para mim e para Jennie.

 

- Posso, sim, perfeitamente - ela declarou. - A primeira música é a melhor de todas. - Então, olhou para Jennie. - Sua mamãe é um assombro.

 

Jennie sorriu, concordando com um gesto de cabeça.

 

- Eu sei. Mas, às vezes, ela não sabe.

 

Eu costumava devanear o tempo todo sobre coisas como aquelas que estavam acontecendo. Todo mundo faz isso. Então, tudo aquilo devia ser um devaneio muito maluco, não?

 

Vendi muitas de minhas canções em um curto período de tempo. Estava mesmo com sorte. Todas as manhãs, quando acordava no minúsculo apartamento do qual ainda não me mudara, por insegurança, pensava a mesma coisa: nada disso pode estar acontecendo.

 

Uma noite, Barry me levou a um restaurante muito chique para comemorar ”os grandes sucessos de Maggie”, como dizia. Eu continuava com sorte. Matérias a meu respeito foram publicadas na Rolling Stone, na Spin e na People. Era tudo bizarro, irreal, fora do meu estilo, mas eu não queria que acabasse. Sentia-me alguém, provavelmente pela primeira vez na vida.

 

Anoitecia, quando chegamos ao Lutèce, na Fiftieth Street, em Manhattan. Fomos levados a nossa mesa, no salão-jardim, com uma certa pompa. Barry conhecia o chef, o proprietário, os garçons, os ajudantes.

 

- Este é um encontro romântico? - perguntei, brincando.

 

Acho que estava brincando.

 

- É meu jeito de compensá-la, de uma vez por todas, pelo que aconteceu na nossa primeira entrevista - ele respondeu com um sorriso.

 

Estava bem-humorado. Eu também. Pedimos coquetéis de champanhe, depois foie gras, salmão corn molho ferrugem e suflê de ameixas.

 

Nada disso pode estar acontecendo.

 

- Eu saberia fazer um jantar igual a este - declarei no fim, quando já havíamos pedido conhaque e café.

 

- Acredito. Sabe, nada teria me deixado mais feliz do que fiquei vendo-a...

 

- Voltar à vida?

 

- Desabrochar - ele disse. - É difícil para mim falar desse jeito, mas é a verdade. É como me sinto.

 

De repente, fiquei um pouco nervosa e desconfortável. Imaginei se o nosso seria um encontro romântico, achando que ainda não estava pronta. Além disso, tinha medo de estragar a amizade que nascera entre nós.

 

Barry, então, piscou para mim. Devia ter captado meu desconforto.

 

- As pessoas vão querer ouvi-la cada vez mais, Maggie. Suas letras, suas melodias, sua voz especial, esse seu contralto quente. Nada vai segurá-la, Maggie. Não há limites para você.

 

Comecei a chorar. No salão-jardim do Lutèce. Sem me importar com quem pudesse ver. Estava feliz demais, completamente eufórica.

 

Barry usou seu guardanapo para enxugar meu rosto, e começamos a rir.

 

- Fale-me de você. Quem diabos é você, Maggie? Com certeza, não é mais ”a loira de sobretudo”.

 

Eu mantivera tudo preso dentro de mim, mas naquela noite deixei escapar um pouco. Barry era meu amigo, e eu confiava nele: outro grande passo.

 

- A mais ou menos trinta e cinco quilômetros ao norte de West Point, existe uma pequena cidade chamada Newburgh - comecei.

 

- Já estive lá e não quero voltar - ele declarou, fazendo uma careta. - A rua principal lembra Beirute. E essa Newburgh?

 

- Já foi uma cidade bonita, Barry. Fica junto ao rio Hudson. Cidade pequena dos Estados Unidos, essa sou eu.

 

- Ouvi isso em algumas das suas canções, Maggie. Honestidade, sinceridade, não muito cinismo. Aspereza, mas que diabo! - Ele sorriu de modo maroto.

 

Comecei a me sentir acanhada.

 

- Tem certeza de que quer ouvir?

 

- Pare de se menosprezar, por favor. Agora, vai ser uma grande estrela. Tudo o que disser será interessante. Você já era interessante, naquela primeira vez em que foi ao meu escritório.

 

Dei um soco no braço dele. Com força. Fechei os olhos, tornei a abrir. Era difícil, eu não queria falar sobre o passado, nem mesmo com Barry.

 

Por fim, respirei fundo, preparando-me para começar.

 

- Meus pais bebiam demais. Modo ameno de dizer. Eram alcoólatras. Meu pai era louco, não tinha sossego. Deixou-nos quando eu tinha quatro anos. Meu papai. Adquiri uma gagueira que me fazia chorar de vergonha. Mas eu a venci. Mamãe morreu quando eu cursava a oitava série. Tia Irene ficou comigo e minhas duas irmãs. Saí de casa quando acabei o colegial. Minhas irmãs se casaram e se mudaram para o interior.

 

Fiz uma pausa.

 

- Todos os meus professores queriam que eu fosse para a faculdade - prossegui. - Mas eu não conseguia me ver lá. Arrumei um emprego num restaurante elegante, perto de West Point. Conheci Phillip. Ele me amava. Dizia que me amava, agia como se fosse verdade. Eu precisava ser amada. Realmente precisava.

 

Barry franziu a testa.

 

- Phillip era seu pai de novo, Maggie. Temos a tendência de repetir nossos piores erros, não é?

 

- Acho que sim. Ele era matemático do Exército. Reprimido. Vulnerável. Ainda mais necessitado do que eu. Também bebia. Como papai. Eu queria salvá-lo, naturalmente. Pensei que pudesse.

 

- Ele batia em você? - perguntou Barry, tocando meu rosto de leve.

 

Era a coisa mais certa que poderia fazer. Meu amigo.

 

- Eu não sabia como sair daquela situação. Naquela época, não sabia. Para onde iria? Como criaria Jennie? Costumava me refugiar no sótão da nossa casa e escrever canções, que cantava para Jennie. Nós duas, lá no sótão.

 

- Nunca se apresentou em público?

 

- Nem pensar! Era tímida demais para isso.

 

- Mentiu para mim, quando a entrevistei para o emprego. Está despedida.

 

- Tudo bem. - Afaguei o rosto de Barry. - Agora, posso me sustentar e a Jennie. Obrigada por me ajudar.

 

- Não fiz nada. Só fiquei observando as coisas acontecerem. Você é uma pessoa notável, Maggie. Espero que perceba isso, algum dia.

 

Inclinei-me sobre a mesa e beijei-o suavemente. Éramos bons amigos, e eu o amava. Conseguia pensar isso, mas não conseguia dizer.

 

- Você é o melhor - murmurei.

 

- Não. Estou em segundo lugar. Falo com sinceridade, Maggie. Não se esqueça de onde ouviu isso pela primeira vez.

 

Aquele dois de julho melhorou minha vida em dez mil por cento.

 

Encontrava-me no estádio Meadowlands, na periferia de Nova York, com Barry e Jennie.

 

Nunca esquecerei. Ninguém pode me tirar isso.

 

Alguns minutos depois das oito e meia, Bret Wolfe, o extravagante disc-jockey, subiu no palco do estádio. Estava vestido como um adolescente irreverente que não deveria ter recebido permissão dos pais para sair de casa com aquelas roupas.

 

O primeiro número, o de ”aquecimento”, iria começar logo. A platéia sabia que a atração principal, a banda R.S.V.P., só faria sua grande aparição por volta das dez, provavelmente mais tarde.

 

Mas teria uma grande surpresa.

 

Bret Wolfe mal podia ser ouvido acima do barulho da multidão:

 

- É com prazer que lhes apresento...

 

A orquestra começou a tocar uma melodia muito conhecida. Objetos voadores, de brilho fluorescente, subiram em direção à lua suave, que se mostrava como uma fatia acima do teto do estádio.

 

- Tenho o grande prazer de lhes apresentar... senhoras e senhores... a banda R.S.V.P.!

 

Um silêncio atônito seguiu-se, então houve um rebuliço entre os espectadores que ainda estavam entrando.

 

- Não acredito que sejam eles! Iriam aparecer muito mais tarde!

 

- Droga, o que está acontecendo? Que merda é essa? Dos bastidores, observei serpentinas e fogos de artifício

 

elétricos de cor azul voarem acima do palco. Fumaça e centelhas douradas entraram em erupção e subiram, flutuando para o leste, na direção de Nova York. O vocalista da R.S.V.P., Andrew Tone, esbelto e muito sexy, marchou para o microfone e segurou-o como se fosse uma cobra viva. Correu uma das mãos pelos longos cabelos castanho-claros.

 

- Estamos Vivos e Protestando! - anunciou, erguendo o punho fechado.

 

A banda atacou os compassos que eram sua marca registrada. Os membros do grupo começaram a cantar a música que estava em primeiro lugar nas paradas de sucessos de quase todo o mundo.

 

A seguir, veio Campeão de Mim Mesmo. Depois, a balada Amar uma Mulher de Caráter.

 

A platéia entregara-se a um total frenesi. Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo. Dezenas de milhares de fãs só chegariam por volta de nove e meia, quando, em geral, as bandas locais e os grupos que faziam o ”aquecimento” já estariam terminando de apresentar-se.

 

A música parou, finalmente. Andrew Tone aproximou-se do microfone, erguendo as mãos para pedir silêncio.

 

- Não se preocupem - começou. - Cantaremos tudo de novo, quando todos tiverem chegado. Vocês, pássaros madrugadores, mereciam um presente. São aqueles que realmente gostam de música, não?

 

Aplausos. Risos. Mas o mistério continuava. O que a R.S.V.P. estava fazendo no palco, tão cedo?

 

- Cantamos Vivos, Campeão e Mulher por uma razão especial. Sei que são três das nossas melhores músicas. Vocês também sabem.

 

Um forte aplauso confirmou a opinião que Andrew expressara sobre a platéia.

 

- O negócio é o seguinte: as três foram compostas por uma pessoa que fará o primeiro, e único, número de aquecimento desta noite. O melhor que poderíamos desejar.

 

Alguns assistentes talvez conhecessem meu nome. Poucos deviam saber que eu cantava. Atrás de Andrew Tone, apareceu uma turma de trabalhadores de palco empurrando um piano. As luzes do palco apagaram-se e um spot iluminou o teclado.

 

Um murmúrio elevou-se da multidão expectante, mas desconfiada. A curiosidade de todos estava no ponto máximo.

 

- Ela é uma verdadeira mulher de caráter - Andrew Tone prosseguiu, falando baixinho, longe do foco de luz. - Esta será sua primeira apresentação ao vivo, e foi por isso que aparecemos mais cedo. Queremos apresentá-la. Foi o modo que encontramos de agradecer-lhe por suas canções.

 

Fez uma breve pausa.

 

- Uma coisa eu garanto a vocês! Vai ser a última vez que essa mulher fará a abertura do show de outra pessoa. Escutem. Segurem suas cabeças. Segurem seus corações. AQUI ESTÁ AQUELA QUE EXPLODE CÉREBROS, QUE FAZ OS CORAÇÕES PARAR DE BATER: MAGGIE BRADFORDl

 

Fiquei ouvindo Andrew falar e falar. Ele estava exagerando, pensei. Elevando as expectativas da platéia a um nível alto demais. Falava como se alguma cantora de fama mundial fosse adentrar o palco.

 

Não estava falando de mim. Não podia estar. A tensão, que aumentava sem parar, passou uma faixa de aço em volta do meu peito. E eu, com voz de contralto, tinha dificuldade em alcançar as notas muito altas.

 

Achei que não seria capaz nem de tocar, muito menos de cantar. Não me sentia uma ”mulher de caráter”, mas um ser invertebrado.

 

Mal podia respirar!

 

Obriguei-me a entrar no palco gigantesco. Os aplausos foram sinceros, mas esparsos.

 

Lembrei-me das palavras de Andrew Tone: ”Essa será sua primeira apresentação ao vivo”.

 

Olhei para a suave encosta daquela montanha de rostos, vi a colcha de retalhos formada pelas roupas coloridas, o jorro de luz do spot, que fazia o piano parecer enorme, assustador e cheio de si.

 

Oh, Deus, acho que não vou conseguir. Há uma cidade inteira me olhando!

 

Uma onda de pânico abateu-se sobre mim. Eu me senti exatamente como quando gaguejava na escola.

 

Conhecia muitos dos músicos da orquestra, das sessões de gravação, em Nova York. Eles estavam de pé e batendo palmas.

 

- Cortem essa, caras! - gritei. - Sou eu! Parem, parem, parem!

 

- Mostre a eles, Maggie! - um baterista chamado Frankie Constantini berrou. - Você é a melhor!

 

De alguma forma, cheguei ao piano. Até consegui me sentar, sem desmaiar ou ter um infarto.

 

Com um metro e setenta e dois, sou considerada alta, e Barry dissera que me achara impressionante, naquela noite, mas eu me sentia simplesmente desajeitada, como quando era adolescente. Meus cabelos, muito compridos, cascateavam pelas costas abaixo. Pelo menos, eu gostava dos meus cabelos. Eram bonitos.

 

- Eu morava em West Point, perto da academia militar - fui capaz de começar, falando em voz baixa no brilhante microfone prateado. - Era uma dona de casa e mãe chamada sra. Bradford. Adorava ficar no sótão. Tinha um esquilo de nome Smooch, que já era meu amigo antes de minha filha, Jennie, nascer. Gostava de ficar no sótão porque lá me sentia segura. Lá, não tinha medo de que meu marido chegasse e me batesse. Lá, comecei a escrever minhas canções.

 

Minha mente parecia ter explodido. Phillip estava dentro dela, tão nítido como se estivesse vivo. Eu ouvia os passos dele nas escadas da nossa antiga casa, a ameaça em sua voz: ”Não pode se esconder de mim!”.

 

Minhas mãos tremiam. Forcei os dedos a pressionarem as teclas do piano. Cantei, com todo o coração, tudo o que havia dentro de mim:

 

Eu era uma dona de casa.

 

Uma esposa recente, Uma parideira, Levava uma boa vida No alto das montanhas do rei tempestade. Cortava os cabelos dele, Fatiava carne fria, Remendava punhos de camisas. Meu nome era sra. Bradford, E eu achava que iria morrer. Agressões, Ele me batia!

 

Esta não pode ser eu! - Esta não pode ser eu!

 

Agressões.

 

Eu era uma dona de casa. Uma esposa recente.

 

Uma parideira, Ele me batia!

 

Como pode dizer que me ama, Quando acho que vou morrer?

 

Os aplausos aumentaram, vigorosos, então se tornaram incrivelmente fortes. As pessoas começaram a bater os pés no chão, marcando o ritmo. O barulho era como uma presença física elevando-se para fora do estádio. E me levava para cima, mais alto do que eu jamais estivera em minha vida.

 

O barulho dizia que toda aquela gente acreditava em mim, na minha história.

 

Era algo diferente de tudo o que eu experimentara, que não conhecera nem mesmo em sonhos e, confesso, queria que nunca acabasse.

 

Oh, cara! Oh, cara! Oh, cara!

 

Aquilo foi o passado, e isto é o presente.

 

Eu nunca poderia pensar que um dia estaria onde estou agora. Em uma prisão de Nova York.

 

Inconcebível, impossível. Eu nunca poderia imaginar que um conjunto de circunstâncias me poria aqui.

 

Esta semana, trouxeram uma famosa e respeitada psiquiatra para falar comigo, uma mulher chamada Deborah Green.

 

Acho que não posso culpar aqueles que pensam que sou louca.

 

”A assassina de maridos.” E assim que os jornais se referem a mim.

 

”A viúva-negra de Bedford.”

 

Conversei com a dra. Green em uma pequena sala de reuniões ao lado da capela, um fato que me fez sorrir.

 

Fiquei satisfeita em saber que a dra. Green era mais especializada em casos de agressão física do que em homicídios.

 

Ela facilitou as coisas para mim. Falou de si mesma, disse por que fora escolhida e que iria embora, se eu não a achasse adequada. Tem minha idade, fala baixo e não é pretensiosa.

 

Acho que gostei da doutora. Tenho confiança nela? Bem, isso pode acontecer mais tarde.

 

- Não vou dificultar - eu disse. - Contarei tudo o que tenho na cabeça. Não vejo razão para haver segredos entre nós.

 

Eu estava sentada diante da dra. Green, não deitada na cama portátil que haviam providenciado. Ela concordou, então sorriu. Era boa nisso de convencer as pessoas a falar.

 

Mas, claro, eu não iria ser completamente sincera. Havia um grande segredo que não contaria a ela, nem a ninguém.

 

Por ironia, era o que poderia ter me salvado.

 

- Se deseja jogar fora um monte de tralha, Maggie vá em frente.

 

Eu ri.

 

- É mesmo tralha, não? Sim, eu queria jogar fora.

 

Desse modo, nas primeiras sessões, contei à dra. Green tudo o que os jornais e emissoras de televisão gostariam de saber e não tinham conseguido arrancar de mim por dinheiro algum.

 

Contei a ela o que me deixava ansiosa, envergonhada e, também, furiosa.

 

Falei sobre meu pai, e de como ele abandonara minha mãe, em 1965. Fora embora, simplesmente, como se a nossa casa fosse um motel onde se hospedara durante uma viagem.

 

Sobre minha horrível gagueira, que apareceu quando eu tinha quatro anos e continuou até os quinze. De como as outras crianças me machucavam, zombando de mim, como isso fazia que eu me sentisse inferior e inútil. Como vencera essa deficiência sozinha, sem a ajuda de ninguém.

 

Contei que criava canções na minha mente para fugir das vozes negativas que povoavam o mundo da minha infância. Falei de Phillip, o professor universitário que todos julgavam gentil e tranqüilo, mas que não era nada disso. Ele tinha um Corvette preto, que costumava tirar da entrada de carros da nossa casa em marcha a ré, a sessenta quilômetros por hora. Tinha uma coleção de ar, mas Estabelecera regras às quais eu devia obedecer em todos os momentos em que estivesse acordada e, provavelmente, também quando dormia.

 

Eu falava durante mais ou menos duas horas, sem parar, e a dra. Green raramente me interrompia.

 

Acredito que esgotei o repertório durante a terceira ou quarta sessão.

 

- Acho que você omitiu uma coisa - ela comentou.

 

- O quê?

 

- Bem, o que me diz de Will Shepherd? Lembra-se dele? Claro, Will.

 

Eu fora para a prisão porque o matara.

 

- Estou treinando para chegar em Will - respondi. - Ele se encaixa numa categoria especial.

 

Will aprendeu a fingir que era um bom aluno e a não ser desmascarado. Já estava sendo considerado o melhor jogador juvenil de Londres. E era muito popular, pelo menos entre as garotas. Mas ainda não tinha um amigo de verdade.

 

No início do verão que se seguiu ao seu décimo quarto aniversário, pegou a gripe asiática e foi dominado por arrepios e febre. Chegou a ficar com medo de morrer e ir juntar-se ao pai.

 

Tia Vannie cuidou dele no período mais crítico. Estava sempre à disposição. Algo estranho, porque toda vez que Will ficava doente, era tia Eleanor que lhe levava comida e o confortava. Na verdade, estivesse ele doente ou saudável, tia Vannie não passava de uma figura distante em sua vida. Ela saía quase todas as noites, geralmente para encontrar-se com homens, que lhe davam uns apertos por algum tempo e depois desapareciam, sendo substituídos por outros.

 

No entanto, Will e Vannie costumavam jogar xadrez. Ela era ávida por vitórias, mas ele aprendera depressa, e no fim de uma semana os dois já podiam de fato competir. Will pegou-se esperando ansiosamente pelas partidas.

 

O xadrez permitia-lhe observar a tia de perto. Ele e o irmão, Palmer, haviam tido inúmeras conversas, que juraram manter em segredo, sobre Vannie. Conjeturavam a respeito de seus homens, de suas viagens a Bournemouth ou ao sul da França. E, enquanto ela examinava o tabuleiro, Will podia olhá-la, observar cada um de seus movimentos.

 

Olhava os seios dela. Imaginava-se beijando-os, sugando gentilmente os mamilos, que o tentavam, aparecendo sob cada blusa ou vestido que ela usava. Imaginava-se arrancando cada um dos mamilos com uma mordida.

 

- Você pode enganar todo mundo, Will, mas a mim, não - declarou Vannie, durante uma partida de xadrez particularmente enervante. - Sei que é muito esperto, e que não quer que saibamos disso. Mas eu sei. Sei até o que você está pensando, meu querido menino.

 

No sétimo dia da doença, Will acordou e ficou um pouco aborrecido por estar se sentindo tão melhor. Teria de levantar-se, sabia, e só a perspectiva de jogar futebol novamente animou-o. Os momentos com Vannie, porém, terminariam.

 

Por volta de nove e meia da manhã, bateram na porta. Tia Eleanor levara Palmer ao zoológico do Regenfs Park, e Will decidiu fingir que estava mais doente do que realmente se sentia. Gostava de fazer encenações, de provar que era bom nisso.

 

- Já acordei - disse com uma vozinha fraca, como a de Tiny Tim, em Contos de Natal - Entre, por favor.

 

Vannie abriu a porta. Usava um vestido listrado de algodão, apertado nos seios. Ele notou os seios imediatamente. Sempre notava.

 

- vou fazer ovos mexidos - ela informou. - Comeria isso, senhor Will?

 

- Um pouco - ele respondeu, ainda no papel de Tiny Tim. - Meia porção, talvez.

 

- Não sei se serei capaz de preparar tanto assim - ela brincou, piscando para ele.

 

Aquilo fez Will sorrir.

 

Vannie dizia que ele tinha um sorriso velhaco. Will sabia que ela gostava, então sorria. Encenação.

 

- Fique aí, deitado. Trarei o seu café da manhã, senhor Will.

 

Trêmulo, ele observou-a sair. Ela retornou meia hora depois, trazendo ovos mexidos e purê de batata para os dois, e sentou-se na beirada da cama. Aquilo foi extremamente bom.

 

Will tinha a impressão de que fazia um mês que não comia, mas a proximidade de Vannie acabou com seu apetite por comida.

 

- Ainda não sente fome? - ela perguntou, acabando de comer. - O que acha de uma última partida de xadrez? Pelo campeonato de Fulham? Você me parece recuperado o bastante para poder jogar.

 

- Vamos lá. Pelo campeonato.

 

E pelo que jogaremos, Vannie? O que vale o nosso campeonato? Acho que sei pelo que você quer jogar. Acho que sei.

 

Vannie retirou os pratos depressa e colocou o tabuleiro na cama.

 

- As peças pequenas da frente se chamam peões - arreliou. - Por favor, movimente uma, de modo que eu possa começar a estraçalhar você.

 

Will concentrou-se no jogo. O desafio da tia despertara seu espírito altamente competitivo, e ele estava determinado a vencer. Até esqueceu os seios e todo o resto do corpo da tia.

 

Foi a melhor partida de todas. Os dois perseguiam-se de perto, mais de perto do que Vannie poderia ter esperado, mas no último minuto, com um lance que ele deveria ter previsto, ela tomou sua torre com um cavalo e inclinou-se para trás com maldosa satisfação.

 

- Receio que seja xeque-mate, querido sr. Competitivo.

 

- Saco! - Will gritou e deu um tapa no tabuleiro. As peças espalharam-se na cama, no chão, e algumas foram parar embaixo do criado-mudo.

 

- O derrotado típico. O homem típico - Vannie comentou. - Como você acha que os seus adversários sentem quando perdem no futebol?

 

Os dois riram. Então, começaram a engatinhar pelo quarto, juntando as peças: a rainha estava sob o criadomudo, um cavalo caíra em cima da escrivaninha, e o rei, no tapete de estilo oriental.

 

Eles estenderam as mãos ao mesmo tempo para pegar o rei. O cotovelo de Will roçou o vestido de Vannie, e ele sentiu o calor da pele por baixo do tecido. Ela não recuou. Nem ele.

 

O menor som, o mais leve movimento no quarto, de repente intensificaram-se. Uma onda elétrica subiu pela espinha de Will, que mal podia respirar.

 

Ela me deseja! Eu sabia! Estava certo!

 

Vannie fitou-o nos olhos por um longo instante. Encarou-o. O silêncio dominou o quarto. Will tinha consciência de que seu coração martelava, e ficou com medo de que a tia ouvisse. Queria ouvir o coração dela.

 

Sem dizer uma palavra, Vannie passou os dedos por uma das faces dele. Então, deslizou-os para o pescoço, por cima do pomo-de-adão. Will deixou escapar um pequeno gemido.

 

Ela se esticou para a frente e beijou-o suavemente. Então, mordiscou-lhe os lábios. Abraçou-o, apertando-o contra os seios.

 

Enfiou a língua em sua boca. A língua estava dentro dele, e era dura

 

- Querido menino - ela murmurou. - Você é muito especial, Will.

 

Por fim, ele estendeu as mãos e tocou-a, hesitante em princípio, como se não pudesse acreditar no milagre que estava acontecendo. Então, tornou-se mais agressivo, correndo as mãos pelas costas dela, cujos músculos firmes o surpreenderam, afagando o rosto macio, o pescoço, e, que felicidade, os seios magníficos.

 

Ela me deseja, finalmente, alguém me quer.

 

- Não tão depressa - ela murmurou. - Temos muito tempo, meu senhor Will.

 

- Eu sei. Mas tenho pensado muito nisso.

 

Ela sorriu, e seus olhos alargaram-se, com expressão divertida.

 

- Tem, é?

 

As mãos dele deslizaram pelo lado externo de uma perna dela. O tecido do vestido estalou, como estática no ar.

 

Ela tirou o próprio cinto, então puxou Will para mais perto.

 

Ele não sabia o que esperar. O que poderia acontecer? Era uns quinze centímetros mais alto do que Vannie e muito mais forte, embora ela não fosse fraca. As mãos dela percorreram-lhe o corpo todo, então introduziram-se na calça do pijama. Tirou o vestido, jogando-o no chão. Quantas mãos tinha? Onde aprendera tudo aquilo?

 

Will sentia um calor muito grande no rosto e no pescoço. Estavam em chamas. Os ouvidos zumbiam. O pênis crescera de modo assombroso, e ele esfregou-o na pele nua de Vannie com um grito de profunda alegria. Não tinha certeza do que devia fazer em seguida, mas descobriria. Era muito esperto, como ela suspeitava.

 

Nua, Vannie deitou-se de costas na cama. Com as mãos, segurava as coxas abertas. As faces estavam vermelhas, e ele adorou aquela visão, que nunca mais esqueceria.

 

- Agora nos divertiremos bastante, Will - ela disse, estendendo as mãos para ele.

 

Ela queria que aquilo acontecesse. Desejava-o tanto quanto ele a desejava.

 

Will examinou-lhe o rosto, os lindos olhos azuis, os seios que arfavam, o delicioso V entre as coxas, os pêlos escuros no centro. O pênis estava tão duro que nem parecia ser o dele, dando-lhe uma sensação de força e poder que nunca experimentara. Mais importante, ele sabia o que devia fazer. Sabia, simplesmente.

 

- Não se apresse, Will - ela cochichou. - Vá devagar, meu jovem senhor.

 

- Não se preocupe. Eu também não quero que acabe. Mas acabou, e ficaram deitados lado a lado. Ela afagou

 

os longos e loiros cabelos dele.

 

- Você é tão lindo! Vai ter qualquer pessoa que desejar. - Sorriu carinhosamente. - E irresistível, Will.

 

Isso, ele já sabia. Só não tinha certeza do que significava. Ser irresistível era bom, ou muito, muito ruim?

 

AHan ”Capitão” Thomas aparentava ser um sujeito comum, um comerciante, talvez, mas Will percebeu que o homem era a pessoa mais importante que já conhecera.

 

Thomas tinha pouco mais de quarenta anos e era o técnico dos Hammersmith Rangers. Diziam que treinava tão arduamente quanto seus atletas e que oferecia um prêmio a qualquer jogador que o driblasse e passasse por ele, em uma disputa a dois. Também diziam que nunca precisara dar esse prêmio.

 

Will estava sentado com ele na sala da casa das tias, ambos comportando-se como cavalheiros educados. Eleanor e Vannie, mostrando muito tato, haviam se retirado, deixando-os conversar sobre futebol, uma coisa que os homens adoram fazer.

 

- Vi você jogar, Will - disse Thomas cautelosamente, como Will já esperava.

 

- Isso me deixa honrado, senhor. Sinceramente. Uma ova. Todos os clubes de Londres tinham enviado espiões para vê-lo jogar.

 

- Você tem talento natural, isso ninguém discute. Eu poderia transformá-lo num ótimo jogador, com o tempo.

 

Will observou ”Capitão” Thomas calmamente, do jeito como fazia com tudo.

 

- Já sou um ótimo jogador, senhor. Sabe disso, ou não estaria aqui.

 

- Você só tem quinze anos. Ninguém é jogador nessa idade. Apenas tem potencial.

 

- Eu já sou - afirmou Will.

 

- E modesto também - replicou Thomas com uma gargalhada.

 

- Não, senhor, não sou modesto. Seria falsidade de minha parte. Sou um artilheiro, um grande marcador de gols. Não tenho muito senso de equipe, nem penso nos outros que estão em campo. Sou um solitário, um atacante, pura e simplesmente. Sou feito da mesma argila de Johan Cruyff, Pele, Gerd Müller. A Inglaterra nunca viu um jogador da minha idade melhor do que eu. Sou rápido como qualquer profissional, e mais forte. Todos os jornais comentam isso.

 

Thomas sorriu amplamente, tanto por causa daquela audácia, como porque Will podia estar com a razão.

 

- Os jornais locais, Will.

 

- E The Telegraph. E The Sun. Olhe, sr. Thomas, por que não acaba logo com isso? Quer que eu jogue para o seu clube, e eu quero jogar. Então, vamos direto ao ponto. Quanto está disposto a pagar, senhor?

 

- Vamos, Will, me drible. Passe por mim, se acha que pode. Você é o sucessor de Cruyff, não é?

 

”Capitão” Thomas e Will eram os únicos que ficavam no campo até tão tarde, depois de um treino. Era a mesma coisa, noite após noite, treino após treino. Thomas nunca vira tamanha ânsia maníaca em um jogador, nem mesmo entre os mais jovens. Will era, de fato, um atacante incrível, um artilheiro por natureza.

 

- O que vai me dar, se eu conseguir?

 

- Vinte libras.

 

Will riu e afastou-se. Estava sem camisa, sacudindo os longos cabelos loiros.

 

- Eu não foderia sua mulher por vinte libras.

 

- Muito bem. Cinqüenta. Mas você tem de me driblar e passar por mim.

 

Will voltou, aceitando o desafio. Thomas chutou-lhe a bola. Will segurou-a com os pés. Com displicência. Agindo como um merdinha idiota e convencido.

 

Thomas agachou-se, mas ficou apoiado nos calcanhares.

 

- Avise quando estiver pronto, filho.

 

Will estava pronto, e não era filho de ninguém.

 

Fingiu que ia para a esquerda, rapidamente fingiu que ia para a direita, correu diretamente para o seu treinador e então, erguendo a mão fechada, estendeu o dedo médio, no gesto universal de desprezo. Passou por Thomas sem dificuldade, como se as chuteiras do homem estivessem grudadas no chão.

 

- Fique com o seu dinheiro - disse, rindo dele. - Não vou precisar no lugar para onde vou.

 

Will jogou no Rangers durante dois anos, depois foi comprado pelo Liverpool, eterno campeão da liga inglesa da primeira divisão. Já era o maior astro do futebol inglês, e seu passe foi vendido por um milhão e meio de libras. Logo no primeiro ano, quando estava com dezenove, foi o grande artilheiro da liga. E por muito pouco não foi eleito o Futebolista do Ano.

 

Os jornais comentavam com grande entusiasmo sua ”grande fúria interior”, sua ”fabulosa capacidade de voar pelo campo”. O Guardian publicou: ”Ele desce como uma águia dourada em direção ao gol do adversário”.

 

”Parece uma flecha loira atirada contra o gol.”

 

”Will Shepherd é um perfeito ególatra no campo. Tem a mentalidade de um artilheiro consumado. Joga como se estivesse sozinho.”

 

Aos dezenove anos, o ”Flecha Loira” começou a aparecer também nas colunas sociais. ”Ele foi caçar raposas com amigos em Gloucestershire”, ”estava caçando aves nos pântanos de Lord Dunne. perto de Balmoral, jogando pólo em Swinley Forest, na presença da família real”. ”Flecha Loira chama a atenção onde e com quem esteja.”

 

Quando completou vinte anos, Will levou o Liverpool ao título do campeonato da liga. Era, sem discussão, o maior astro da Europa. Ganhou o prêmio de Melhor Jogador do Mundo, instituído pela Fifa.

 

- Francamente, Scarlett, não ligo para o que dizem de mim como jogador - declarou na entrega do prêmio. - Eu digo se sou o melhor, ou não.

 

Ao mesmo tempo, Will estivera jogando na seleção dos Estados Unidos. Foi uma tentativa obstinada de manter alguma ligação com seu país. Mas rapidamente cansou-se de jogar em uma equipe de burros. Deixou o time, pondo um firn a essa atividade internacional.

 

As histórias da imprensa sobre ele tornaram-se perturbadoras e, assim, muito mais interessantes para o público. Falavam de alcoolismo, de uso de drogas e coisas piores. ”Motivos pessoais” faziam-no perder os treinos, mesmo antes de um jogo. O Liverpool passou-o para um ambicioso clube rival por dois milhões de libras. Will começou a participar de corridas de carros Grand Prix, fora da temporada de futebol, uma atividade que seu contrato proibia.

 

”Não faz diferença para mim, viver ou morrer”, era uma frase dele que repetiam nos bastidores das pistas de corrida.

 

Flecha Loira era pura violência, completamente irresistível.

 

Irresistível.

 

Will dirigiu o potente carro esporte de Melanie Wellsfleet, uma Ferrari vermelha, até a propriedade dela, em Somerset. Fez o veículo correr a mais de cento e setenta quilômetros por hora, em certos trechos da estrada estreita e sinuosa, e raramente dirigiu a menos de cem em todo o percurso.

 

- Não é um maldito carro de corridas! - Melanie gritou, rindo, em um momento de velocidade angustiante, que desafiava o perigo.

 

- Agora é. Comigo no volante, é. Segure-se, Mel. Esta é a corrida da sua vida.

 

A propriedade em Somerset era tudo o que Will imaginara e mais, muito mais.

 

Parecia que cuidavam dos jardins usando pinças, e Ryertton Hall, com seus vinte e seis aposentos, parecia um museu Tudor.

 

- Meu patrão vive muito bem a minha custa - Will comentou, enquanto Melanie levava-o para conhecer os nove quartos.

 

Ela era esposa de s ir Charles Wellsfleet, proprietário do time de futebol de Will, de um haras de cavalos de corridas e de uma conceituada editora. Melanie tinha trinta e um anos, e sir Charles Wellsfleet, sessenta e nove.

 

- Charles já tinha esta casa muito antes de você entrar em cena. - Ela riu e abraçou Will.

 

Fazia quatro semanas que estavam tendo um caso. Melanie não se fartava de Will e tinha certeza de que ele se sentia do mesmo jeito em relação a ela.

 

A ex-modelo de alta costura dizia a si mesma que ele não podia estar fingindo tudo aquilo, e isso a confortava, quando Will se mostrava deprimido e um pouco arredio.

 

- Senti saudade, quero você, preciso de você - ela declarou, quando chegaram à suíte principal, de onde se viam um jardim topiário e o terraço que acabava no lago. - Do que você precisa? O que quer?

 

Ele pareceu confuso. Andou pela espaçosa suíte, procurando coisas nas gavetas da cômoda de Melanie e no enorme closet. Escolheu vários vestidos, trajes de noite, peças de lingerie, meias, sapatos, e espalhou-os na cama e no chão.

 

- Posso saber por que está fazendo isso, Will? - ela perguntou, um pouquinho amuada. - Não sabia que as minhas roupas eram fetiches para você.

 

- Para dizer a verdade, são. Quer desfilar para mim? Nunca vi você usando um desses vestidos lindos. Gostaria de ver.

 

Melanie sorriu. Adorava os joguinhos de Will, sua imaginação, sua necessidade de brincar. Não era outro jogador cabeça-de-vento, como aqueles que ela provara no passado. Will merecia sua reputação de amante sensacional.

 

Ela finalmente compreendera aquele negócio de Flecha Loira. Estava obcecada por ele, e não podia imaginar nenhuma mulher saudável escapando de seu fascínio. Will era danado de bom.

 

Ela vestiu trajes de noite de Karl Lagerfeld, um vestido preto de Jil Sander, calçou sandálias de Chloé. Sentado na cama, gloriosamente nu, Will brincava com o pênis, observando todos os movimentos dela.

 

Ela já sabia que ele podia manter uma ereção durante horas. Se Will tinha um problema, era o de atingir o orgasmo. Ele nunca gozara com ela. Valia a pena esperar, não?

 

Melanie estava usando um vestido vermelho e uma gargantilha de pérolas, quando descobriu que não agüentava mais. Correu para Will e para a sua linda ”flecha”.

 

- Por favor, por favor, faça a minha vontade! - ela gritou, de maneira teatral, rindo. - Deixe-me cair sobre a sua espada!

 

Will não permitiu que ela tirasse o vestido Carolina

 

Herrera, que valia milhares de dólares, nem os sapatos Ernesto Esposito. Usou as echarpes Hermes e meias de náilon para amarrá-la às colunas da cama. Então, fez amor com ela, durante horas. Levou-a ao orgasmo tantas vezes, que acabou perdendo a conta. Mas ele próprio não chegou ao clímax.

 

Sir Charles Wellsfleet chegou à propriedade por volta de onze da noite. Tivera um dia assustadoramente longo, cheio de reuniões, em Londres. Esperava encontrar Melanie adormecida, como de costume.

 

No entanto, sua esposa estava totalmente desperta. Os olhos pareciam enormes bolas de gude azuis, e era como se ela tivesse chorado durante dias. Amarrada na cama por echarpes e meias de náilon, não usava nada, a não ser a gargantilha. O rosto inchado estava da cor das pérolas, de tão pálido. As peças caras de lingerie italiana encontravam-se espalhadas na cama, assim como os sapatos e o vestido Carolina Herrera, rasgado.

 

Naquele verão, Will saiu do time de sir Charles, transferido para outro. A imprensa suspeitou de tudo, menos da verdade: Will cansara-se de Melanie. O Flecha Loira precisava lançar-se em um espaço mais amplo.

 

Uma tarde, antes de a temporada de futebol começar, Will convidou Palmer para ir ao seu apartamento, em Chelsea. Embora luxuosamente mobiliado, o lugar parecia árido, como se ninguém morasse lá. Um disco de Maggie Bradford tocava baixinho.

 

- Preciso da sua ajuda - disse Will, tomando um gole do conhaque caro que servira para os dois.

 

Na verdade, era sua quarta ou quinta dose, e o mesmo disco estava tocando pela terceira vez.

 

Palmer olhou para o irmão, surpreso. Will parecia nunca precisar de nada, de ninguém.

 

- E como eu poderia ajudá-lo? - perguntou.

 

- Estou precisando de um empresário e acho que você seria perfeito. Tenho pensado muito nisso.

 

- Um empresário! Pensei que Jacob Golding fizesse esse trabalho.

 

- Ele cuida dos meus negócios. Falo de um empresário pessoal, alguém que cuide de mim, que me mantenha longe de encrencas.

 

Estou começando a assustar a mim mesmo, meu irmão. Se você não me ajudar, quem o fará?

 

- Uma babá, Will? - Palmer abanou a cabeça e riu. Will deu de ombros.

 

- Se quer dar esse nome... Aceita? Pago muitíssimo bem. Palmer engoliu o conhaque e levantou-se.

 

- De jeito nenhum, irmão.

 

- Por quê? O que você está fazendo, que é tão importante?

 

- Consegui um bom emprego no departamento de marketing da Cadbury’s. Mas, mesmo que estivesse desempregado, não aceitaria.

 

Will sorriu.

 

- Por quê? Porque me odeia?

 

Palmer moveu a cabeça, negando. Tinha cabelos loiros como os do irmão, mas curtos.

 

- Não odeio você, Will. Ninguém consegue odiá-lo. Mas odeio viver a sua sombra.

 

- Não vai me ajudar, então? Nem se eu disser que me sinto desesperadamente infeliz? Que estou correndo no vazio? Que todas as noites penso em me suicidar?

 

Palmer não pôde desviar o olhar de seu fabulosamente bonito e bem-sucedido irmão. Voltou a sentar-se.

 

- Está falando sério, Will? Ou é outra encenação? Outro dos seus joguinhos?

 

- Muito sério. Agora mesmo, estou querendo me matar, aqui, enquanto conversamos. Parece que estou fazendo uma brincadeira?

 

- Meu Deus! - exclamou Palmer. - Acho que está sendo sincero. Ou ficou louco. Ou as duas coisas.

 

- Eu não presto - declarou Will. - Nunca prestei. Só você pode me ajudar, Palmer. Temos de nos unir.

 

O irmão levantou-se com um leve sorriso, estranho e triste.

 

- Lamento, mas não posso ajudá-lo, Will. Terá de procurar outra pessoa.

 

Will observou-o sair do apartamento. Pôs mais conhaque no copo e tomou-o de uma vez só.

 

- Quem eu poderia encontrar? - murmurou. - Quem poderia me amar de verdade?

 

Encare a realidade, Maggie. É hora de chegar à parte de Will, de falar de Will, de se livrar disso de uma vez por todas. Foi para ouvir você falar dele que vieram aqui.

 

As pessoas, principalmente os repórteres, perguntam como pude me apaixonar por Will. Sempre quero responder: ”Vocês também teriam se apaixonado, numa fração de segundo. Não duvidem”. Não foi assim que aconteceu, porém. Não comigo.

 

Mas Will sabia ser extremamente charmoso. Vocês nem fazem idéia! E eu era extremamente carente. Queria ser amada, mais que tudo no mundo. Sempre quis. Quem não quer? Vocês não querem?

 

Aconteceu assim, mais ou menos. Essa é a verdade, toda a verdade, então, me ajudem.

 

Comecei minha primeira turnê européia apresentando-me em Londres. Apesar da tensão e de toda a loucura, foi maravilhoso. Jennie e eu ficamos no Claridge’s. Fomos ver a troca da guarda no palácio de Buckingham, e vimos A Ratoeira, a abadia de Westminster, o Big Ben. Juntas, fomos turistas fantásticas e grandes amigas. Nunca calávamos a boca.

 

Eu iria fazer dois shows em Londres. E fui a convidada de honra em um baile à fantasia, em Mayfair, cujos ingressos custavam mil libras. A renda era destinada à luta contra o câncer infantil.

 

Na noite dessa festa de caridade, fiz uma gran entrance na sala de estar de nossa suíte no hotel.

 

- Mamãe, não! Você não vai aparecer em público desse jeito! - exclamou Jennie, e fez uma careta, como se ela houvesse acabado de tomar um gole de cerveja, das bem fortes.

 

Segurei a máscara de lamé dourado diante do rosto e olhei-me no espelho. Dobrei-me de tanto rir. Jennie estava certa. As costuras da minha fantasia de dama antiga ameaçavam estourar, e os meus seios estavam muito mais expostos do que eu imaginara. Nossa!

 

- Claro que vou aparecer assim. O traje está perfeito. Barbara Cartland também acharia.

 

- Quem é Barbara Cartland? A costureira que fez a sua fantasia? A estilista de Drácula?

 

- Não sabe quem é Barbara Cartland? Bem, isso prova que não sabe nada sobre bailes de máscaras. Portanto, não pode dar palpites.

 

Jennie revirou os olhos e enterrou as duas mãos nos longos cabelos.

 

- Quem você está fingindo ser? Não me deixe num suspense tão terrível.

 

- Uma rainha na corte do rei Luís XIV. Quem mais? Jennie começou a rir. Caiu no carpete felpudo e rolou várias vezes.

 

- Parece mais uma dançarina de strip-tease. Desculpe! Estou brincando, mamãe. Desculpe.

 

- Acho bom que esteja mesmo.

 

De qualquer modo, com quem eu pudesse parecer não fazia diferença. Era tudo um sonho, não era? Nada daquilo podia ser real. Era bom demais, eu estava feliz demais.

 

Tudo era tão não eul Por isso era perfeito. O grande baile aconteceu na casa de lorde Trevelyan, uma mansão georgiana de quatro andares, que naquela noite estava iluminada por enormes refletores colocados nos telhados das casas no lado oposto da rua.

 

Quando meu carro parou, chegou também um táxi preto, de onde desceu um grupo barulhento, personificando tipos literários de Bloomsbury. Usavam tênis, camisetas de sufragistas1, longas saias armadas, carregavam livros empoeirados e cestas de flores. Jennie teria aprovado.

 

Entrei com os personagens de Bloomsbury e vi que pelo menos duzentos convidados já haviam chegado, todos fantasiados, representando vários séculos e estilos de vida. Tomavam champanhe, do qual logo me deram uma taça, e conversavam animadamente.

 

l Sufragistas ou sufragettes, nome dado às mulheres inglesas que reivindicavam a instituição do sufrágio universal, cujo primeiro movimento foi fundado em 1865 por Pankhurst. (N. do E.)

 

Uma trombeta soou, e os presentes ficaram em silêncio. Então, a rainha Elizabeth II começou a descer a escada para o salão principal, onde a maioria de nós se encontrava. A coroa de rubis e safiras cintilava à luz, e o vestido, bordado com pérolas, era tão majestoso quanto quem o usava.

um sonho, certo? Um sonho muito bonito.

 

A ”rainha”, naturalmente, era laãy Trevelyan, nossa anfitriã.

 

- A ceia está servida! - um mordomo anunciou. Então, fomos encaminhados para um magnífico salão, onde nos deliciamos com salmão, saladas, queijos, frutas frescas e petit fours. Depois de uma hora mais ou menos, lady Trevelyan levantou-se e fez sinal para dois criados, que abriram as portas do salão de baile.

 

A música começou, uma série de valsas e fox-trots.

 

Um homem aproximou-se de mim. Eu devia ter me afastado, mas o lugar estava lotado, e não havia para onde ir. Ele estava todo vestido de preto e usava capuz e máscara, de modo que apenas seus olhos eram visíveis. Lindos olhos, fui obrigada a notar. Algo agitou-se dentro de mim. Estranho.

 

- Você é Maggie Bradford - ele disse. - Por favor, dê-me suas jóias, ou serei forçado a roubá-las.

 

- Você tem uma vantagem - comentei. - Sabe o meu nome, e eu não sei o seu.

 

Ele se curvou, pegou minha mão e beijou-a.

 

- Raffles, o salteador infame, a seu serviço. E prefiro roubar seu coração a roubar suas jóias.

 

Não desviei o olhar dos olhos dele.

 

- Então, mostre-me o seu rosto. Não costumo deixar que qualquer um roube o meu coração.

 

Eu não sabia o que fazer com ele. Muitos homens tinham tentado me conquistar, depois que eu me tornara alguém, mas aquela abordagem era nova: oi, eu gostaria de roubar as suas jóias, ou talvez o seu coração.

 

Ele tornou a se curvar e, com um simples gesto, tirou o capuz e a máscara.

 

Diante de mim, sem nenhum exagero, estava o homem mais lindo que eu já vira. Os cabelos loiros caíam-lhe nos ombros, e os olhos verdes brilhavam com uma luz que parecia queimar. Uma música esboçou-se em minha mente.

 

A pele bronzeada do homem deixava óbvio que ele passava muito tempo ao ar livre, e seu rosto não apresentava nenhuma ruga. Ele era jovem. O sorriso revelava dentes perfeitos e brancos, e a pele ao redor do queixo era lisa e firme.

 

- Raffles, é? E como o chamam à luz do dia? - perguntei.

 

- Will - ele respondeu. - Will Shepherd.

 

Deu um passo para trás, como que para ver o efeito que seu nome produzia.

 

Não produziu nenhum. Eu nunca ouvira falar dele.

 

- Bonito nome - afirmei, e, então, porque notara o sotaque, perguntei: - É americano?

 

- De nascimento. Passei a maior parte da minha vida na Inglaterra. Mas eu me recusei a falar como eles. Sou teimoso às vezes. Na verdade, quase sempre.

 

- O que faz, sr. Shepherd? Além de assaltar viajantes nas estradas?

 

Se aquilo era possível, o sorriso dele tornou-se ainda mais brilhante.

 

- Jogo futebol, ou soccer, como dizem os americanos. Poderia ir me ver jogar, um dia.

 

- Acho que gostaria muito, apesar de não ser grande fã de esportes.

 

- Mas eu, por outro lado, sou seu fã ardoroso – Will declarou. - Adoro as suas músicas. Principalmente as letras. Parece que você compreende. De repente, pegou-me pelo braço.

 

- Toco os seus discos o tempo todo, Maggie Bradford. E quero levá-la para casa comigo, esta noite. Estou dizendo a verdade. Quero fazer amor com você. Vamos sair daqui. Você sabe que também quer.

 

Como ele ousava falar comigo daquela maneira? Como?! ”Você sabe que também quer!”

 

- Como ousa falar comigo dessa maneira? - gritei, mais alto que a música.

 

Dei-lhe um tapa no rosto, e ele recuou, surpreso. Minha voz devia ter chegado até os músicos, porque eles pararam de tocar abruptamente. Todo mundo estava olhando para nós. Não me importei. O toque da mão de Will em meu braço era o toque de Phillip. Suas palavras eram as palavras de Phillip.

 

- Se você realmente ouvisse as minhas canções, saberia o que penso de cantadas nojentas - eu disse. Minha voz tremia, assim como o meu corpo. - Para mim, a festa acabou, está arruinada. Você pode ser até o melhor jogador de futebol do mundo, mas isso não faz diferença. Na minha opinião, não passa de uma porcaria. E se ousar falar comigo novamente, eu... eu...

 

Calei-me, antes de dizer: eu o matarei.

 

Não disse, apenas porque ele já se afastara. Fiquei observando-o atravessar o salão em direção à porta, cabeça erguida, os cabelos esvoaçando, os passos firmes, todo másculos, mas, para mim, completamente odioso.

 

Fiquei parada, lutando contra o embaraço e a raiva. A música recomeçou, as pessoas voltaram a dançar. Lady Trevelyan foi até mim e pegou a minha mão.

 

- Desculpe - pedi, sentindo-me à beira das lágrimas. - Lamento muito. Não queria fazer uma cena.

 

- Não lamente - a anfitriã respondeu com riso na voz. - Deu a Will Shepherd exatamente o que ele merecia, e não existe uma só mulher neste salão que não esteja aplaudindo você por isso.

 

Riu.

 

- Claro que iriam para a cama com ele, se tivessem essa chance, mas bravo para você, de qualquer maneira.

 

                                        A CALMARIA ANTES DA TEMPESTADE

 

Foi em uma da primeiras audiências no tribunal, não lembro qual. Tudo o que sei é que estava muito feliz por sair da prisão, nem que fosse apenas para ir ao tribunal e voltar. Sentia que usava meu A escarlate, naturalmente. Sou inocente, até prova em contrário, mas não na mente de um número muito grande de pessoas. Gente que não me conhece, que já me julgou e condenou.

 

Para alguns, sou culpada de homicídio. Para outros, andei dormindo com todo mundo, embora Deus saiba que nada poderia estar mais longe da verdade. Os que mais machucam, porém, que mais profundamente me ferem, são aqueles que me julgam uma péssima mãe. Se, durante dez minutos, me vissem com os meus filhos, se perguntassem a eles que tipo de mãe eu sou, veriam como estão errados.

 

Mulheres, eu acho, são culpadas até que sua inocência seja provada. E as piores acusadoras são as outras mulheres. Por quê?

 

Assim, levei meu A escarlate para a audiência, naquela manhã de verão. Eu estava tão contente por me ver do lado de fora! O nível de pólen no ar devia ser alto, porque diversas pessoas pelas quais passamos nas ruas estavam espirrando, e os carros estacionados mostravam uma camada fina de pó verde.

 

Os guardas da prisão me conheciam, gostavam de mim e tentavam me proteger da inevitável multidão diante do tribunal. Alguns dos ”fiéis” manifestantes haviam levado seus cartazes agressivos. ”Maggie é uma assassina!” ”Assassina de maridos!” ”Ofereçam uma CADEIRA a Maggie. Ela parece cansada, depois de toda aquela matança.”

 

- Mantenha a cabeça baixa, Maggie, e vá direto para dentro - um dos guardas aconselhou.

 

Eu ficara tanto tempo presa, desligada do mundo, que queria olhar em volta, mas o guarda tinha razão. Baixei a cabeça, mesmo que aquilo me fizesse parecer culpada.

 

Os representantes da imprensa eram espertos. Sabiam exatamente onde esconder-se para ficar à espera. Caíram sobre nós, na entrada, e atacaram.

 

Como sempre, houve uma enxurrada de perguntas insensíveis. Apresentavam-me microfones. Queriam que eu cantasse? As câmeras de televisão me fitavam com seus grandes olhos fixos.

 

Vi uma repórter de cabelos loiros e frisados inclinar-se sobre a corda de isolamento.

 

- Maggie! Aqui, Maggie! Por favor! - ela implorou. Olhei-a involuntariamente.

 

- O que aconteceu com Patrick, Maggie? - a mulher perguntou, o olho de uma câmera de televisão encarando-me sem piedade. - Você matou Patrick também? Matou, Maggie?

 

Eu nunca havia cuspido em um ser humano. Não tenho o costume de cuspir. Mas, naquela manhã, cuspi na repórter. Não sei o que me deu.

 

A câmera captou a cena, que foi mostrada em todos os noticiários, vezes sem conta.

 

Um temperamento incontrolável. A verdadeira Maggie Bradford?

 

O que aconteceu com Patrick?

 

Você matou três homens, Maggie?

 

Alguém se surpreenderá, no caso de você ter matado?

 

- Contadores não sabem merda nenhuma! Não sei por que gastamos dinheiro com eles. Por falar nisso, não seria má idéia conter os gastos.

 

Quem disse isso foi Patrick O’Malley, de pé no banheiro da suíte Tower, não mobiliada, em seu hotel não acabado e ainda sem nome, na esquina da Sixty-fifth Street com a Park Avenue.

 

Olhava furioso para Maurice Freund, o contador, que também era chefe de seu departamento financeiro. Freund já ouvira antes a opinião do patrão sobre contadores.

 

- Sabemos disso - afirmou calmamente. - Mas você está custando uma fortuna a si mesmo, sem necessidade.

 

- Sabonetes Pears são necessários - gritou O’Malley. - Toalhas Porthault são necessárias. Uma banheira de hidromassagem na suíte Tower é essencial.

 

Freund suspirou e deu de ombros.

 

- A boa notícia é que todos os quartos já foram reservados. A má é que estamos perdendo dinheiro a cada reserva.

 

- Vamos calcular novamente o maldito preço das diárias. Quando se promete o melhor, tem que se dar o melhor, e este hotel vai ser o melhor de todos, raios, ou eu enfio este sabonete no seu rabo!

 

- Se for Pears... - replicou Freund, sorrindo. O’Malley grunhiu.

 

- A construção está seguindo dentro do prazo?

 

- Dentro do prazo deles. Oito meses de atraso, um excesso de custos de vinte por cento.

 

- Menos do que você calculou no começo?

 

- Dez por cento menos.

 

- Então, tire os sabonetes e toalhas desses dez.

 

- De jeito nenhum! - Freund pegou O’Malley pelo braço e levou-o para fora da suíte, em direção ao elevador provisório. - Conhecendo você, haverá excessos por todos os lados. E os preços das diárias sobem.

 

Se O’Malley tinha uma opinião sobre isso, não a expressou.

 

- Já sei que nome vou dar ao hotel - disse. Boa notícia, pensou Freund. Até que enfim!

 

- Qual?

 

- Cornélia.

 

- Cornélia. Esplêndido! - Freund sabia que o patrão o observava para ver sua reação, mas seu prazer era genuíno, e seu sorriso, sincero. - Muito bom. Escolha perfeita, Patrick.

 

- Não creio que algum hotel de classe internacional tenha recebido o nome em homenagem a uma mulher - comentou O’Malley, quase timidamente.

 

- Um nome extraordinário para um hotel extraordinário, Patrick. - Além disso, é o momento certo.

 

- Ela era uma mulher extraordinária. Finalmente, concordamos em alguma coisa, Maurice.

 

Freund tomou a mão do patrão e apertou-a com ar grave. Parecia realmente ter sentido alguma coisa.

 

- O hotel será um monumento, Patrick. Seu tributo à única mulher a quem amou.

 

Durante vinte anos, Cornélia e Patrick O’Malley foram um dos mais cortejados e populares casais de Nova York. Aparentemente, não poderiam ser mais opostos. Ele era o rude empresário que saíra do nada, que com seu talento fizera surgir, de uma cadeia de motéis, uma rede de hotéis de luxo nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Ela era uma beldade da alta sociedade, que ultrajara a família, os Whiting, apaixonando-se por Patrick e casando-se com ele, uma católica que não estudara em Princeton. No entanto, combinavam perfeitamente. A frieza de Cornélia temperava o ardor de Patrick. A paixão dele despertava a dela. E, no mais rico dos céus ricos, eles orbitavam como luas, e nunca escândalo algum os atingira. A despeito das incontáveis tentações, ele permanecera fiel a ela, e seu apoio a fortalecia. Por baixo de sua altivez, ela se tornara maleável e confiante, mas apenas para ele, sempre para ele.

 

Até que o ”sempre” acabara, aniquilado por um glioblastoma que a matara em um ano e meio, e que, muito antes de tirar-lhe a vida, tirara-lhe a alma. Patrick, aos cinqüenta e quatro anos, ficara sem nada, a não ser sua riqueza, o filho rebelde, Peter, e a infinita solidariedade dos amigos.

 

Agora, ele estava construindo seu hotel mais magnífico, ao redor da estrutura de uma mansão antiga, de um modo muito parecido com aquele que Helmsley fizera com o Palace. Teria quatrocentos aposentos, incluindo as setenta suítes, algumas com o mármore da casa Witherspoon. Os hóspedes poderiam escolher o estilo de sua preferência: italiano da Renascença, francês do século dezoito, americano ultramoderno.

 

E em todos os quartos do Cornélia - O’Malley não sabia por que não se decidira por esse nome desde o começo - haveria sabonetes Pears e toalhas Porthault. Iria ser um verdadeiro hotel de luxo, igual aos que eram construídos em épocas muito melhores, antes que houvessem inventado os contadores.

 

Ele passou o dia inteiro no hotel, falando com Freund pela manhã, dirigindo pessoalmente o minucioso trabalho de polimento das colunas de mármore do vestíbulo, examinando as banquetas e a iluminação do Gold Bar e, então, ao meio-dia, reunindo-se com o arquiteto-chefe, Michael Hart.

 

A conversa dos dois durou o almoço todo. Hart abordou vários assuntos de crucial importância, principalmente a douração dos ornamentos renascentistas do vestíbulo principal e as filigranas acima das janelas, na entrada.

 

Sozinho novamente, O’Malley foi para a cozinha, por fim ouvindo o doce e animador barulho de marteladas e de furadeiras em ação. Os fogões de aço inoxidável, fornos e balcões finalmente estavam chegando, depois de uma espera de três meses e meio. Já havia utensílios de cobre, ele notou com satisfação, suficientes para abrir uma loja em Manhattan.

 

Às sete e meia da noite, viu-se novamente sozinho, sob o antigo relógio na parede do vestíbulo, uma peça que adornara o Palácio de Inverno de Catarina, a Grande1.

 

1 Catarina II (1729-1796), imperatriz russa que se notabilizou por propor reformas radicais que deveriam levar à europezação e liberalização do império. (N. do E.)

 

No centro do átrio ajardinado do hotel, aos fundos do vestíbulo, erguia-se uma fonte original de Bernini1, importada de Roma, e que fora restaurada, readquirindo seu incomparável esplendor. Naquela tarde, o encanamento ficara pronto, e Timothy Sullivan, da Bronx Local, que cuidara desse serviço, telefonara a CXMalley para anunciar que todos os sistemas estavam funcionando.

 

- Tudo pronto para a decolagem - resmungou O’Malley, acionando o interruptor que comandava os registros e o jorro.

 

A água subiu em suaves ondulações e arcos. O rosto dele iluminou-se como o de uma criança no dia de Natal.

 

- Raios, é mesmo bonito! - exclamou no jardim deserto.

 

Mas o jorro precisava subir ainda mais alto, ele decidiu, observando a fonte. Girou o registro. A água permaneceu no mesmo nível.

 

Assim, nunca vai pegar a luz da tarde, ele pensou.

 

Parecia a ejaculação de um velho de noventa anos de idade.

 

Aquele idiota do Sullivan! ”Todos os sistemas”, uma merda. vou dar um jeito para ele nunca mais ejacular.

 

Patrick O’Malley já fizera sua primeira anotação mental para o dia seguinte.

 

Passou novamente sob o relógio do vestíbulo, então parou, olhando para o que tinha no pulso. Oito e dezesseis! O relógio do vestíbulo estava três minutos adiantado!

 

Sentiu vontade de matar alguém.

 

”Calma, Pat”, a voz de Nellie pediu, em sua imaginação. ”Cuidado, cuidado.”

 

l Giovanm Lorenzo Berrura (1589-1680), escultor e arquiteto italiano uma das maiores expressões da arte barroca (N do E.)

 

O ”cuidado” que se danasse. Com uns burros incompetentes a sua volta, e sem Nellie, de que adiantava viver?

 

Quando Jennie estava com treze anos e quase indo para o colegial, comprei uma bonita casa na Greenbriar Road, em Bedford, Nova York. Já era hora de termos um verdadeiro lar e, mais importante, eu queria que ela se fixasse em uma boa escola.

 

Queria estabilidade e uma vizinhança tranqüila, tanto por Jennie quanto por mim. Nós duas escolhemos a casa, construída em um extenso terreno, e a adoramos. Também gostamos muito de Bedford. Tínhamos um lar outra vez, finalmente.

 

Minha fama como artista não era das melhores, por eu ser muito exigente na escolha dos shows em que me apresentava e por não gostar de ficar viajando em turnês. Acho que estabeleci prioridades com exatidão, e minha cabeça fixou-se nelas. Nunca pretendi viver como uma grande estrela. Jurei que não criaria Jennie assim.

 

Os anos com Phillip deixaram-me com medo de ter muitas esperanças, além daquela de poder viver em paz e com alegria. Isso não era tão ruim, eu vivia dizendo a mim mesma.

 

Jennie e eu encontramos uma ótima escola para ela, em Bedford. Morávamos a menos de uma hora de viagem de Nova York, de modo que eu podia ter privacidade quando queria, e atividades sociais quando estava com vontade. Bedford parecia o lugar ideal para nós, tranqüilo, capaz de nos ajudar a apagar os últimos vestígios de uma história ainda dolorosa.

 

Jennie apelidou nossa casa de Shangri-lá-lá-lá, um nome para ser cantado, não falado. Ela possuía uma bela voz e um grande senso de humor.

 

Quase todas as noites eram calmas em nossa casa. Os sons que ouvíamos eram os piados de algumas aves, os latidos ocasionais de um cão e, às vezes, música de um rádio de carro, quando algum grupo de jovens passava pela estrada. Os veículos em trânsito faziam-me lembrar que eu crescera em Newburgh, a apenas quarenta e cinco quilômetros ao norte.

 

Uma noite, em abril, surpreendi-me ao ouvir batidas fortes na porta. Não estava esperando ninguém. E, pelo que sabia, não tinha nenhum problema com a polícia. Jennie estava no quarto, fazendo a lição de casa, e eu a achava jovem demais para ter um namorado.

 

Eu tivera o cuidado de não deixar que revelassem meu endereço, de modo que o intruso não podia ser um fã, nem alguém que não gostava de mim. A pessoa batera na porta errada? Provavelmente.

 

Curiosa e um pouco nervosa, fui até a porta. Pelo olhomágico, vi um homem, as feições e o corpo um pouco distorcidos pela lente. Estava bem-vestido, apesar de parecer um tanto amarrotado, com a gravata torta, os cabelos revoltos, o rosto vermelho. Achei-o bastante inofensivo, então abri a porta.

 

- Sra. Bradford? - ele perguntou, dando a impressão de que se esforçava para parecer exasperado.

 

- Sim. Posso ajudá-lo em alguma coisa? Como sabe meu nome?

 

- Fácil dedução. Está escrito na caixa de correio.

 

- Existe uma campainha. Por que bateu na porta daquele jeito?

 

- Existe? - Ele parecia genuinamente surpreso.

 

- Acho que estava com tanta raiva que nem percebi. Desculpe.

 

Era óbvio que sua raiva se evaporara. Não, ele não oferecia nenhum perigo. Convidei-o para entrar.

 

- O que aconteceu? - perguntei.

 

Ele me seguiu pelo vestíbulo até a sala de estar.

 

- Se eu construísse hotéis como os caras da GM constróem carros, seria apedrejado. No entanto, aqueles merdas...

 

Ah, estava explicado.

 

- Problemas com o carro, então?

 

- Um conversível novo em folha. A maldita carroça ainda não rodou nem mil e quinhentos quilômetros. E lá estava eu, exausto, satisfeito por ter saído da rodovia, quando o filho da puta morre. Morreu! Sem aviso, sem ao menos um estertor de agonia. E tenho um telefone no carro? Não. Se tivesse, usaria, e, enquanto me levassem para casa, eu ficaria em paz para poder pensar. Um telefone no carro só é útil num caso desses, mas um automóvel novo, de oitenta mil dólares, quebra assim, à toa? De jeito nenhum. Ah!

 

De repente, ele parou de falar e sorriu. O sorriso lembrava o de Paul Newman. Muito.

 

- Posso usar o seu telefone? Devo ser o único irlandês católico que é membro da Associação Americana de Automóveis, e não dos Alcoólicos Anônimos.

 

- Claro que pode - respondi, ocultando um sorriso.

 

- O telefone fica no escritório. - O que estava fazendo na Greenbriar a esta hora da noite?

 

- Eu moro na Greenbriar. A mais ou menos cinco quilômetros daqui. A senhora deve ter passado milhares de vezes pela minha casa, indo para Bedford. Meu nome é O’Malley. A casa é aquela em estilo georgiano, de tamanho exagerado. Vivo lá para impressionar os amigos. Eu conhecia a casa, ou, para ser mais exata, a vasta propriedade. Era uma das maiores na Greenbriar Road.

 

- Falou em hotéis - comentei. - Então, deve ser...

 

- Patrick CXMalley - ele completou. - Estou construindo um na Park Avenue. O Cornélia. Gosta do nome? Diga que sim, e será a primeira hóspede, como minha convidada.

 

Daquela vez não pude conter uma risada.

 

- Cuidado, que posso cobrar a promessa. Aceita uma bebida, sr. O’Malley?

 

Ele me fez uma reverência.

 

- É muito gentil e compreensiva. Uísque, se tiver. Puro.

 

Levei-o ao escritório, então fui à cozinha buscar o drinque. Havia alguma coisa naquele pobre-rico homem agitado que me dava vontade de rir. A expressão de seu rosto era digna de uma comédia clássica do cinema mudo. Ele poderia ser um ator de primeira linha.

 

Eu não recebia muitas visitas em meu mundo seguro e confortável, a não ser o pessoal ligado à música. Estava ficando boa naquele negócio de fingir que gostava do isolamento. Não, eu não gostava nem um pouquinho.

 

Voltei para o escritório com a bebida e bati na porta. Então, entrei, e estaquei, começando a rir. Não pude evitar.

 

Patrick 0’Malley despira o paletó amassado e pendurara-o nas costas de uma cadeira. Tirara os sapatos pretos de pelica, deitara-se no meu velho sofá com estampa floral e estava profundamente adormecido.

 

Levantei-me cedo, Patrick já fora embora, quando desci. Jen e eu demos uma corrida de cinco quilômetros, tomamos um suco reforçado, e ela foi para a escola. Comecei a trabalhar, mergulhando na letra de Uma Mulher Difícil Como o Amor.

 

Por volta de dez e meia, dirigi-me ao estábulo, notando que o dia assumira a mesma aparência diáfana da vida vista através da lente de uma teleobjetiva. Eu me sentia contente. Não muito, mas também não pouco. Faltava alguma coisa em minha vida, mas eu certamente tinha muito e não podia me queixar.

 

Vi um furgão de floricultura entrar sacolejante na minha alameda. Um garoto, com cabelos alaranjados e eriçados, óculos que pareciam o fundo de uma garrafa de Coca-Cola, correu em minha direção, carregando um arranjo de frésias e fitas coloridas.

 

Havia um cartão. O’Malley, pensei, satisfeita, sem saber bem por quê.

 

”Querida Margaret Bradforá,

 

Perdoe-me por não ter reconhecido seu nome imediatamente, mas os únicos cantores de que já ouvi falar são os Clancy Brothers.

 

Não tenho certeza de que poderei encará-la outra vez. Não, depois do que fiz ontem à noite. Mas vou tentar. Farei o melhor que puder.

 

Jantaria comigo, qualquer dia desta semana? Dê-me uma chance de tentar me desculpar.

 

Você tem os olhos azuis mais lindos que já vi. Passarei o tempo, de agora até o nosso jantar, ouvindo os discos de Maggie Bradford, ate’ decorar as suas canções.

 

O dorminhoco mortificado, seu vizinho,

 

Patrick.”

 

Meus olhos são castanhos, e tenho a impressão de que Patrick O’Malley sabia disso, e que sabia que eu sabia que ele sabia.

 

Um jantar? Por que, não? Eu precisava fazer amizades em Bedford. Deixei um recado em sua secretária eletrônica, marcando um encontro para a noite de quinta-feira.

 

Olhos azuis... Esse é o Sinatra, não eu.

 

A noite de quinta-feira foi um inesperado e grande sucesso. Patrick me fez rir, e muito. Contou histórias, uma atrás da outra, tinha um sorriso cálido e natureza generosa. Eu soube que fizera meu primeiro amigo em Bedford e me senti bem com isso.

 

Nas semanas seguintes, saí com ele várias vezes. Gostava de seu estranho, mas honesto senso de humor, de seu ímpar e cômico senso de oportunidade, das histórias ultra-sentimentais, mas comoventes, que contava sobre sua família irlandesa, composta de dez pessoas. Uma delas, por exemplo, era a respeito do prazer que ele sentira ao instalar os pais na suíte nupcial do primeiro hotel de luxo que construíra.

 

Em deferência a suas andanças pelo mundo, comecei a chamá-lo por nomes que o divertiam: Padriac, Patrice e Patrizio. Mas Patrick não me deu nenhum apelido. Às vezes, chamava-me de Margaret, a primeira pessoa a fazer isso desde minha mãe.

 

- Meu primeiro amor foi o mar - ele me contou. - E a única imagem vívida que ainda tenho da Irlanda.

 

Era dono de um veleiro modesto, e, uma manhã, em um dia de semana, saímos para velejar no braço de mar.

 

Patrick cabulou o trabalho no hotel, e eu podia muito bem passar uma manhã longe do piano e da rotina.

 

Descobri que adorava navegar. Como era cedo, e dia útil, não havia muitos outros barcos na água, embora a temperatura estivesse amena e o céu, azul, sem nuvens. Enquanto deslizávamos para longe da praia, vi o tráfego pesado e, observando os carros que levavam as pessoas para o trabalho, pensei em como era afortunada.

 

- Trouxas! - Patrick exclamou, saudando os que passavam.

 

Não estava sendo mesquinho, apenas brincava.

 

Ele e Jennie tinham obviamente conspirado, porque ele levou para bordo minha bebida vitaminada e meu café da manhã habitual. Até me acompanhou, ingerindo um pouco daquela mistura de diversas frutas e vitaminas.

 

- Então, você finalmente superou o que sofreu por causa do canalha, Maggie? - ele perguntou enquanto bebericávamos suco.

 

Como sempre, estava sendo espontâneo, sendo ele mesmo. Eu sabia que se referia a Phillip, a respeito de quem já havíamos conversado, mas não muito.

 

- Sim e não - respondi com sinceridade.

 

- Acho que sei o que quer dizer. - Ele me enlaçou com um braço, enquanto observávamos a arrebentação. - Lamento não ter nenhum conselho para lhe dar. Nunca atirei num canalha, embora conheça muitos que mereciam levar um tiro. Desculpe se brinco com isso. É meu jeito, você sabe.

 

- Sei.

 

Era o estilo dele, brincar quando as coisas ficavam pretas. Sempre me fazia rir, e isso era bom.

 

- Meu marido era um canalha, e lamento ter me casado com ele.

Patrick gesticulou raivosamente com o braço livre.

 

- Ele se aproveitou de você, que era muito jovem e mal tinha acabado de sair da casa de sua tia. Desempenhou o papel de homem decente, fez grandes promessas, mentiu. Já sei! Vamos velejar até West Point, para desenterrar o miserável e pulverizar os ossos dele.

 

- Você sempre me faz rir - comentei, sorrindo.

 

- E nisso que sou bom. Olhei-o.

 

- No que acha que sou boa?

 

Ele fez um gesto amplo com as mãos.

 

- Em tudo. Em tudo o que vi, pelo menos. Só que está se fechando um pouco. E o único campo onde penso que deve melhorar.

Você é engraçado. E encantador.

 

- Acha?

 

- Acho. Sei que é. Tenho certeza.

 

- Bem, isso é discutível, porque não tenho nem dez por cento do seu encanto. O jeito como você fala, como pensa, como cria sua linda filha... Tudo aparece nas suas canções, e é por isso que elas fazem tanto sucesso, sabe?

 

- Eu...

 

- Não sabe, mas eu sei. Quero lhe pedir um favor, bem grande.

 

Fiquei um pouco tensa, e ele franziu a testa com desgosto.

 

- Veja o que ele fez com você, querida Maggie. Detesto quando percebo que fica com medo. É algo reflexo. Suas costas ficam duras como uma tábua.

 

- Estou melhorando - afirmei.

 

- Sei que está. Agora, não se contraia toda. O favor que vou lhe pedir significa, para mim, a coisa mais maravilhosa que posso imaginar.

 

Eu não podia pensar em nada que pudesse ser tão maravilhoso, nem fazia idéia aonde Patrick queria chegar, mas não estava mais tensa. Ele me deixara à vontade.

 

- Tudo bem - concordei. - Farei qualquer coisa que me pedir, porque confio em você.

 

- Ótimo. São as palavras mais bonitas que a ouvi dizer até agora. Sabe do que eu gostaria, Maggie? Eu adoraria que você cantasse para mim. Pode escolher a canção, mas cante aqui, agora, bem baixinho, só para mim.

 

Era um lindo pedido. Cantei para Patrick.

 

Uma noite, mais ou menos uma semana depois, fiz uma refeição leve com Jennie e levei-a à casa de sua amiga Millie, onde ela iria dormir. Então, fui à casa de Patrick, para jantar com ele.

 

Patrick dera folga ao cozinheiro e seu ajudante, porque, como explicou, queria fazer-me as honras, pessoalmente. Preparou lagosta assada com pasta de alho, batatas fritas, crocantes e cortadas em fatias grossas, e milho cozido. Um ”banquete” simples e muito gostoso.

 

Depois do jantar, fomos andar e chegamos a um grupo de macieiras na extremidade mais distante da propriedade. Patrick passou um braço em volta de mim e beijou-me no alto da cabeça.

 

- Você cheira a flores de laranjeira. Como consegue?

 

- Acho que é o perfume do xampu Chega de Lágrimas, da Johnson e Johnson.

 

- Seja o que for, é delicioso.

 

Ele beijou minhas duas faces, o nariz, a ponta do queixo. Beijou-me na boca, e senti sua língua tocando a minha.

 

Recuei. Já havíamos nos beijado antes, mas eu nunca realmente sentira seu desejo, porque sempre recuara. Naquela noite, porém, foi diferente.

 

Ele beija muito bem. Senti seu coração e gostei da sensação.

 

Estava segura com Patrick. A brisa noturna murmurava nas folhas das árvores. Ele tornou a me beijar, e, então, peguei-me correspondendo.

 

Não posso continuar me fechando. Não posso passar a vida sentindo medo, embora ainda sinta.

 

- Vamos entrar - ele propôs. - Dormi na sua casa, no escritório, sem a sua permissão, como você não se cansa de me lembrar. Quer dormir na minha, esta noite?

 

Virei-me para ele, sorrindo. Pela primeira vez, estava contente por Jennie estar dormindo na casa de uma amiga.

 

- Não no escritório, espero. Senti sua ereção.

 

- Não, Maggie. Venha comigo, por favor. Confie em mim.

 

Minha relutância devia ser maior do que eu imaginava, para ele a ter captado. Confiar nele. Ah, como eu queria! No entanto, quando nos viramos na direção da casa, vi o rosto de Phillip, senti a ameaça que ele representava. Estremeci. Amaldiçoado! Devíamos ter-lhe pulverizado os ossos.

 

- Não precisamos fazer nada - Patrick disse, percebendo meu medo. - Não sei tudo o que lhe aconteceu no passado, mas podemos esperar. Você foi a primeira mulher por quem me interessei de verdade, em muito tempo. Mas quero que isso seja bom para nós dois.

 

Era um homem extremamente atencioso e amoroso. Eu confiava nele.

 

- Quero - murmurei, consciente de que estava gelada e com a garganta apertada. - Eu quero, Patrick. Vamos entrar.

 

Ficamos estranhamente calados, enquanto nos despíamos no quarto de Patrick, um amplo aposento banhado pelo luar, no andar superior. No silêncio que se prolongava, as batidas do meu coração pareciam elétricas, amplificadas. Todos os tipos de perguntas e dúvidas começaram a cirandar em minha mente.

 

Sou muito alta para ele. Patrick não vai gostar de mim-, quando de fato me conhecer. O que sei sobre ele? Relaxe, Maggie. Por favor, relaxe.

 

Ele era magnífico à luz da lua. Ventre firme, de trabalhador braçal. Pernas musculosas. Peito largo, levemente cobertos por pêlos prateados e castanho-claros. Sensual. E eu gostava do que estava sentindo.

 

Abra-se para ele, Maggie. Não tenha medo. É a hora certa.

 

Patrick tomou-me nos braços, por um longo momento silencioso, beijando meus cabelos e o pescoço. Abraçamo-nos, de pé junto à janela, ao luar, e ele esperou que eu relaxasse. Senti que estava disposto a esperar pelo tempo que fosse necessário.

 

Tornou a me beijar, e tive a sensação de que estávamos caindo um na direção do outro. Ele beijou-me nas faces, na testa, no nariz, nos olhos. Beijos suaves, demorados. Por fim, comecei a beijá-lo também, na testa, nas faces, nos olhos, continuando a cair para a frente, para ele, ou pelo menos com essa impressão.

 

- Querida, doce Maggie - Patrick murmurou.

 

Ele sabia que eu continuava com um pouco de medo. Sempre captava meus sentimentos. Era sábio, inteligente, mas nunca se exibia, nunca parecia impressionado consigo mesmo.

 

- Você é uma mulher adorável e muito especial. Eu te adoro, Maggie.

 

Era a voz de Patrick, os braços de Patrick, e, quando ele me ergueu e carregou-me para a cama enorme, senti-me livre. Era como se ele tivesse quebrado as cadeias invisíveis que me haviam mantido cativa. Era uma dança lenta e deliciosa. Nova para mim, ou esquecida, ou nunca experimentada. Ele prolongou o momento, então penetrou-me com gentileza, cuidadosamente.

 

Emergindo de um recanto frágil em meu íntimo, um lugar esquecido, o prazer ondulou em meu corpo, e estremeci. Experimentei uma sensação profunda, quente, que jorrava, espalhava-se impetuosamente. Uma sensação da qual sentira falta por tanto tempo. E continuou pela noite adentro.

 

- Meu gentil Patrick - eu disse por fim, achando que nunca mais conseguiria parar de sorrir. Toquei-lhe o rosto. Ele também sorria. - Você me faz tanto bem! Você me faz bem, ponto final.

 

- Tudo ficará cada vez melhor, Maggie. Confie em mim. Confie em nós.

 

Eu confiava. Confiava outra vez em alguém.

 

Will Shepherd deveria sentir-se no topo do mundo, mas por alguma razão não se sentia. Era famoso, podre de rico, mas odiava tudo aquilo. Naquela noite, o ódio chegara a um nível perigosamente alto.

 

O lobisomem de Londres. Cuidem-se.

 

A cocaína que tomara quando o show havia começado, e novamente, um pouco antes da entrada de Maggie Bradford no palco, fazia com que ele se sentisse todopoderoso. E por que não se sentiria, diabo? Era um astro, não só nos campos de futebol, mas também na elite ali reunida para assistir ao espetáculo especial, no Albert Hall.

 

Will olhava em volta, sorrindo, acenando. Pete Townsend se encontrava lá, e Sting, e Mick Jagger, um novo conjunto de rock, o Hasbeens, assim como Rupert Murdoch e Margaret Thatcher, as duas pessoas que no momento estavam destruindo a Inglaterra.

 

Eles tinham ido ouvir Maggie Bradford para que ela acalmasse suas almas atormentadas, porque suas baladas tinham esse poder. As canções eram extraordinárias, um milagre. Melodia forte, lírica, hipnótica. Nenhum cantor ou cantora punha tantas emoções diferentes em uma canção. Tudo o que ela cantava retratava a estonteante complexidade da vida moderna, ou assim parecia a Will.

 

Ela entrou no palco sob intenso aplauso, carregado de adoração, mas mesmo assim mostrou-se tímida. As entradas haviam se esgotado meses antes. Ela se sentou ao piano, e simplesmente começou a cantar.

 

Will não se lembrava da cena na casa de laáy Trevelyan, de modo que olhava para Maggie sem nenhuma prevenção. Via os longos cabelos loiros, esvoaçantes, e a simples beleza de seu rosto.

 

Naquela noite ela parecia brilhar, e Will conjeturou sobre o motivo. Qual era o segredo de Maggie? O que aquela mulher aprendera, que ele desconhecia?

 

A voz dela não era muito forte, nem particularmente dramática. Não existia nenhum traço de melodrama em seu estilo. Ela cantava com uma pureza que perfurava o coração como uma espada, e ele podia realmente sentir a dor, assim como a singela beleza da música.

 

Ela estava cantando uma canção que falava da tristeza dos sonhos perdidos, do que significava sair do estado de graça.

 

Will teve a impressão de que as palavras eram sobre ele. Lágrimas rolavam por seu rosto. Comovia-se com a música, de um modo que não conseguia compreender, mas era como se uma luz poderosa viesse do palco e o abraçasse, transportando-o para um lugar onde só existiam ele e ela.

 

Que estou pensando, diabo?

 

Ficou tentado a rir de si mesmo, sentindo-se um idiota completo.

 

Só Deus sabia, porém, como ele adorava a voz dela. Poderia ouvi-la sem parar pelo resto da vida.

 

Teve a estranha, premente sensação de que Maggie Bradford poderia salvá-lo de si mesmo.

 

- Esqueceu que eu estava lá com você, Will? Esqueceu, seu desgraçado?

 

Will olhou para a mulher de cabelos escuros, que saía do local do show com ele, pendurada em seu braço. Esquecera-se dela. Nem sabia quem era a linda mulher que o olhava por trás dos óculos escuros. Ah, o lobisomem atacava novamente!

 

Ela era deslumbrante. Mas não eram todas? Modelo? Atriz? Aspirante a atriz? Balconista? Onde, por todos os diabos, ele a conhecera? Cristo, que situação embaraçosa! Até mesmo para ele, aquilo era um novo tormento.

 

- Há quanto tempo vem usando cocaína? Você usa, não é? Como consegue jogar?

 

Will suspirou, aliviado, lembrando quem era a mulher.

 

Repórter! Do Times. Queria escrever uma matéria sobre ele. Ele queria um pedaço dela. Uma troca justa.

 

Recuperando a pose, Will deu início a um de seus melhores desempenhos, encarnando o Príncipe Encantado. Sabia que podia arrancar a calcinha de qualquer mulher. Até de uma repórter do Times.

 

- Eu não estava drogado, Cynthia - mentiu. Cynthia Miller! Esse era o nome dela, lembrou, orgulhoso de si mesmo. - É que adoro as canções de Maggie Bradford. Adoro mesmo.

 

- Foi o que você disse no caminho para cá. Seu carro está cheio de fitas dela.

 

- O que Maggie escreve é tão real! Sai da vida dela - Will continuou. - Você também gosta?

 

- Como eu disse, no caminho para cá, também gosto das músicas dela. Gostei do show, mas acho que não tanto quanto você.

 

Will beijou-a no rosto. De leve, castamente.

 

- O que faremos agora? Cuidado, Will. Ela é repórter.

 

Cynthia Miller olhou-o com um sorriso malicioso.

 

- Gostaria de ouvir mais alguma coisa sobre Flecha Loira - respondeu.

 

Era a típica jornalista, incrivelmente cínica, uma romântica que apodrecera.

 

- Gostaria de vê-la também? - Will provocou-a, sorrindo.

 

Sabia que ela queria. Todas as mulheres queriam, exceto, talvez, uma.

 

Maggie Bradford! Era ela que ele queria, era dela que precisava. Uma pessoa de verdade, para compreendê-lo e desafiá-lo.

 

A campainha tocou, e Will parou de ler o jornal matutino. Olhou pela janela. Um vistoso Rolls-Royce azulprateado estava estacionado na alameda de entrada. Ele ouviu a empregada receber o visitante, depois passos aproximando-se da sala de estar.

 

- Sr. Shepherd, o sr. Lawrence.

 

O homem parado à porta sorria. Era, talvez, uns dez anos mais velho do que Will e tinha cabelos cor de areia. Will sabia quem era Winifred ”Winnie” Lawrence. Era o grande poder que apoiava o desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos, um homem determinado a levar a graça e a beleza do refinado esporte para uma nação que tomara uma overdose de futebol desfigurado. Lawrence era advogado, um administrador, mas, acima de tudo, um batalhador incansável.

 

Will esperou sentado, até que ele entrasse, então levantou-se lentamente, desdobrando-se, como se acabasse de acordar, e apertou a mão do americano. Como tantas pessoas do país dele, ou melhor, deles, Lawrence deixou de lado os preâmbulos, indo direto ao ponto, iniciando a caçada.

 

- Diga-me, Will, por que você acha que os alemães são uma ameaça tão forte aos outros participantes da Copa? - perguntou com um sorriso que parecia colado no rosto. - Ano após ano, mesmo que os jogadores não sejam os mesmos, eles sempre têm um time poderoso.

 

Era uma pergunta que Will fizera-se muitas vezes.

 

- Disciplina, suponho - respondeu. - O estilo deles é mais de equipe do que individual, e isso os torna fortes.

 

Lawrence ampliou o sorriso, divertindo-se com o óbvio, como os americanos costumam fazer.

 

- E um estilo que incorporamos ao time americano. Mas também precisamos de jogadores com talento individual, de grande categoria. Precisamos de um artilheiro, não de um simples atacante.

 

- Imagino que foi por isso que veio aqui.

 

- Foi. Vim para persuadi-lo a jogar pelos Estados Unidos, e não sairei daqui até que aceite.

 

Will riu da idéia e da desfaçatez de Lawrence.

 

- Vai ter um bocado de trabalho - respondeu. - Comigo, ou sem mim, os Estados Unidos não terão nenhuma chance de vencer. Por que eu me sujeitaria a todos aqueles treinos, se o time nem vai ser classificado? Existe alguma coisa que sou imbecil demais para ver?

 

Lawrence retirou um formulário de computador de uma pasta gorda e o abriu sobre a mesa de centro. Os dois inclinaram-se sobre o papel.

 

- Veja isso, Will. Deixe a descrença de lado, só por alguns instantes. Olhe. Concacaf. Chave da América do Norte. Chave da América Central. Chave do Caribe. A tabela oficial dos jogos do time americano para as eliminatórias.

 

- E daí?

 

- Não entende? vou ajudá-lo. Os americanos não vão enfrentar nenhuma seleção que preste. Não, até que estejam entre as vinte e quatro classificadas.

 

Will tornou a rir. Apreciava o desempenho de primeira classe de Lawrence, mas o homem estava exagerando.

 

- Talvez não saiba, Winme, mas o time americano é considerado um nada. A seleção de qualquer país ficaria extasiada em pegar os americanos pela frente. Não poderia existir vitória mais fácil.

 

- Isso será uma vantagem para nós! - Lawrence passou um braço pelos ombros de Will. Era mesmo um vendedor danado de bom, o grande camelô americano. - Teremos o benefício da surpresa. E se eu lhe disser que Wolf Obermeier concordou em ser o técnico do time?

 

Obermeier treinara equipes campeãs, tanto em sua terra natal, a Alemanha, como na Argentina. Tinha fama de possuir uma das mais brilhantes inteligências no mundo do futebol e uma língua ferina que não poupava ninguém.

 

- Isso me impressionou - Will admitiu. - Agora você conseguiu atrair a minha atenção. Fale mais, sr. Lawrence. Talvez eu esteja precisando de um desafio.

 

- Ou de uma vitória que o consagrará - o americano sugeriu, sorrindo.

 

”Tentem imaginar o World Series, o Super Bowl, o Kentucky Derby e as convenções dos partidos Democrata e Republicano reunidos em um único e grandioso evento”, escreveu Mickey Trevor Jr. na popular revista americana Sports Illustrated.

 

”Aí, vocês terão uma pequena idéia do poder e da glória da Copa do Mundo. Em seguida, imaginem o Rio de Janeiro, onde o futebol pode ser mais importante do que sexo ou samba, e onde a Copa do Mundo faz o Marái Gras1 parecer um congresso de escoteiras. É lá que a final da Copa do Mundo será disputada.

 

l Tradicional festa carnavalesca de Nova Orleans. (N. do E.)

 

”Agora, pensem nas duas seleções finalistas: a do Brasil, a grande favorita, tetracampeã, cuja linhagem é tão impressionante quanto a do New York Yankees, e a dos Estados Unidos, nova, sem história e sem importância, dos mágicos jogadores de uniforme vermelho, branco e azul, cuja façanha de sair do anonimato, aparecendo como heróicos desafiadores, tem todos os elementos de um clássico conto de fadas. Com uma diferença: milagrosamente, inacreditavelmente, é real.

 

”Gente, essa é uma história para competir com O Rei Leão! Talvez vocês não tenham prestado muita atenção, quando a equipe americana se classificou. Talvez sua pulsação tenha ficado mais rápida, quando nossos rapazes passaram pelas eliminatórias, com a ficha maculada apenas pela derrota diante da equipe da Alemanha. Vocês, provavelmente, pensaram: isso foi bom para nós, bom para nossos filhos, que jogam futebol na escola, mas foi o fim, acabou. Então, voltaram sua atenção para as corridas de barcos e para a maravilhosa temporada de beisebol de Barry Bonds, ainda um pouco confusos, querendo saber por que o resto do mundo leva o futebol tão a sério. E, enquanto isso, nosso time passava pelo da Nigéria, entrando na oitavas-de-final.

 

Mas quando os Estados Unidos derrotaram a Itália - a Itália! - nas quartas-de-final, por 3 a 2, com gols marcados pelo astro dos astros americanos, Will Shepherd, e depois tirou a Alemanha da jogada por 2 a l, nas semifinais, certamente vocês voltaram a prestar atenção. E, agora, se sua temperatura não estiver em ponto de ebulição, se seus corações não estão martelando loucamente, se vocês não cancelaram todos os planos para o domingo à noite, para ficarem, em casa, assistindo à final, então vocês não são americanos, não gostam de esporte, ou estão mortos.

 

A equipe americana conta com Will Shepherd e dez outros rapazes que provavelmente não teriam condição de estar em nenhum dos grandes times envolvidos nessa competição.

 

Mas Shepherd... Ah, Shepherd!

 

Futebol é um esporte de equipe, mas até mesmo Wolf Obermeier, o técnico dos Estados Unidos, admite que, neste caso, Will Shepherd é o time. Ele disse que, sem Will, nós não nos classificaríamos, e mandou que olhássemos onde estávamos agora, com ele. E eu digo: vejam onde estamos agora!”

 

- Bravo! Parabéns à Sports Illustratedl Finalmente publicou algo que preste.

 

Will acabou de ler a matéria e exultou.

 

- ”Shepherd é o time”, ele disse. - Soa bem. Opinião correta, para variar. Bravo!

 

- Eu li, enquanto você estava dormindo - informou Victoria Lansdowne.

 

A atriz inglesa de pernas compridas estava espalhada na cama luxuriosamente, por cima das cobertas. Os olhos fabulosos, azul-cobalto, examinavam com admiração o físico do homem que conhecera na noite anterior: Flecha Loira. No momento, o atleta mais famoso do mundo.

 

A despeito do ar-condicionado do Rio Hilton, o calor era intenso, e nenhum dos dois se vestira, depois da longa sessão de sexo. Os dois eram tão bonitos quanto sua fama de grandes astros sugeria. Os corpos perfeitos brilhavam com a película de suor que os cobria.

 

- O que você acha disso? Que é pura conversa mole? - perguntou Will.

 

- Acho que, se você joga futebol tão bem quanto faz outras coisas, vai arrancar a pele do Brasil, amanhã.

 

Ele sorriu.

 

- Está satisfeita, imagino.

 

- De jeito nenhum, benzinho. Nem cheguei perto. Sou insaciável. Não lê os jornais? Não sabe da minha ”fila de amantes”?

 

Ele olhou para os seios redondos e cheios, para as pernas esbeltas e bronzeadas, que haviam se aberto tão ansiosamente para ele. Ela lembrava Vannie. Muitas mulheres lembravam. Talvez fosse por isso que ele estivesse começando a ficar com raiva da presunçosa Victoria.

 

- Quer outra corrida para... o gol? - ela perguntou, notando o olhar dele sobre seu corpo.

 

Tinha o maior prazer em ver o poder que exercia sobre homens supostamente fortes. Aquele, porém, era diferente. Era mais inteligente do que ela imaginara.

 

- Acho que não. Talvez sua ”fila” termine aqui - ele respondeu, retribuindo o brilhante sorriso dela.

 

- O que é? Não temos mais flechas na aljava? Ficamos sem o suco da alegria?

 

Will controlou a raiva, forçando-se a rir.

 

- Um jogo muito importante me espera. Ou você não sabe? Não disse que lê os jornais, querida Vic?

 

- E o doce cordeirinho quer se levantar para o jogo, mas não para mim?

 

- Não faça isso - ele alertou. Pelo menos, avisara.

 

- Não devo fazer o quê? - ela zombou. - Tentá-lo?

 

- Umedeceu um dedo com a língua e colocou-o no meio das pernas. - Se não consegue mais fazer, suponho que terei de me virar sozinha. Que suculenta notícia para os jornalecos! Victona teve de se masturbar. Will não agüentou. Com um urro, Will jogou-se sobre ela, pesadamente, tirando-lhe o ar.

 

- Ai! Está me machucando! - ela ofegou. Tentou empurrá-lo, mas ele segurou-lhe os pulsos contra a cama.

 

- Por favor, pare! Por favor, por favor! Eu imploro, Will! Pare! Não estou brincando!

 

Mas não havia nada que pudesse impedir Flecha Loira de prosseguir.

 

À tarde, no dia da final da Copa do Mundo, a temperatura subiu a quase quarenta graus, na areia branca como açúcar das praias de Copacabana e Ipanema. Por algum tempo, o dia foi tranqüilo, um feriado nacional em comemoração à final da Copa. Ricos e pobres descansavam, economizando energias para o evento esportivo mais popular do mundo.

 

Então, de repente, o dia transformou-se em um redemoinho de movimento fervilhante e calor de selva tropical. Toda a cidade do Rio de Janeiro parecia estar nas ruas, para testemunhar, para participar do futebol, o esporte nacional.

 

As largas avenidas da metrópole sul-americana tornaram-se o palco de um carnaval barulhento e perigoso. Buzinas de carros tocavam em um ritmo que dizia: Brasil! Bra-sil! Ao longo das avenidas Brasil e Rio Branco, universitários brincavam, desafiadoramente enrolados em bandeiras brasileiras. Todos os ônibus e táxis estavam decorados com fitas verdes e amarelas. Mulheres dançavam pelas ruas, as camisetas grudadas nos seios, as saias girando como bambolês.

 

Às dezenove horas, a multidão convergira para o lendário estádio do Maracanã, a polícia a postos, para não deixar ninguém entrar sem ingresso, embora centenas burlassem sua vigilância e entrassem, procurando encontrar um lugar com boa visão do campo.

 

Lá dentro, mais de cem mil cariocas frenéticos agitavam bandeiras e cartazes que proclamavam tanto a vitória no esporte, como a revolução social, gritando na cadência do samba, marcada por dez mil tambores e o dobro de cuícas.

 

De pé, em uma das entradas para o campo, Will aguardava, junto com os companheiros de time. No barulho ensurdecedor, ele podia ouvir as batidas do próprio coração, martelando no peito. Ouvia...

 

- Número nove... dos Estados Unidos... Will... Shepherd! - um locutor anunciou pelos alto-falantes.

 

Vaias. ”Palhaço!”, o povo gritava. Mas, mesmo ali no Rio, havia aqueles que admiravam Will, e o aplaudiram. Alguns espectadores davam mais valor à arte do futebol do que ao patriotismo, e Will era um grande artista. Quatro homens sem camisa entraram correndo no campo, cada um com o número nove pintado no peito.

 

Os aplausos continuaram quando Will apareceu, erguendo um braço, a mão fechada, bem acima dos cachos loiros. Tinha a mente cheia de sons e imagens, fantasias e sonhos. Mal conseguia respirar.

 

Sentiu ”A Excitação” percorrer todas as partes de seu corpo.

 

Ninguém o deteria naquele jogo.

 

Iria fazer história no esporte, diante de metade do mundo. Ninguém jamais o esqueceria, depois daquela noite no Rio.

 

Às 8:32, o árbitro colombiano assentou a bola em um tufo de grama amassado.

 

Brasil versus Estados Unidos! Impensável, impopular, impossível. No entanto, estava acontecendo!

 

A final da Copa do Mundo começara!

 

Artur Ribeiro, o elétrico astro brasileiro de dezenove anos, chutou a bola, mandando-a para um companheiro, um lance ensaiado durante horas nos meses anteriores, então correu para a frente, em uma dança sinuosa e inteligente. A bola foi chutada de volta para ele. De costas para o gol, ele executou uma ”bicicleta” e mandou a bola para as redes norte-americanas.

 

Os torcedores explodiram.

 

- Gooooooool do Brasil! - O locutor berrou. - Gooooool de Artur Ribeiro!

 

Tempo decorrido: trinta e três segundos.

 

Menos de seis minutos mais tarde, o Brasil fez outro gol. Facilmente, sem esforço.

 

O povo dançava nas arquibancadas. Rojões explodiam no céu noturno. Fora do estádio, armas de fogo disparavam tiros no ar. Sirenes de viaturas policiais uivavam, e parecia que a revolução, tão longamente esperada, começara.

 

Alguém poderia pensar que um júbilo maior seria impossível. Mas a comemoração do segundo gol do Brasil não foi nada perto do que aconteceu quando Ribeiro marcou outro, aos trinta e três minutos do primeiro tempo.

 

Brasil 3 a zero!

 

O jogo estava parecendo uma chacina. Não. Era um massacre total.

 

Escutem só esse burro convencido, Will pensou, cabisbaixo, na saída no vestiário.

 

- Você está jogando como se estivesse drogado - dizia Wolf Obermeier.

 

Já repreendera severamente os outros assim denominados jogadores, e agora falava baixo com Will, que chamara para um lado, enquanto o time se dirigia de volta ao campo para o segundo tempo.

 

- Alguma coisa o incomoda? Você está drogado?

 

- Talvez. - Will sorriu da consternação carrancuda do alemão.

 

Na verdade, não sabia o que havia de errado com ele. Sentia-se revigorado, depois da noite anterior, embora a lembrança do que acontecera já estivesse borrada em sua mente. Era outra coisa que o estava segurando. Deu de ombros, olhando para o técnico. Fosse por que fosse, ”A Excitação” passara por ele com a rapidez de um relâmpago, e ele não pudera recapturá-la. Estava mal-humorado e sentindo-se pesado.

 

- Precisamos que você comece a se comportar como um louco - Obermeier continuou. - Três gols. Impossível empatar. Mas já vi você fazer o impossível. Não é hora de jogar o pior futebol da sua vida, filho. Você tem de ser o astro principal, não o palhaço. - Deu um tapinha paternal na cabeça de Will. - Vá lá e mostre a eles que é homem!

 

Homem. Will entrou no campo em estado de choque.

 

Você está na Copa do Mundo e jogando como se ainda estivesse no time de Fulham. Esses são os brasileiros. Os melhores do mundo. Se os derrotar, ficará famoso para sempre. Obermeier tem razão. Seja homem, Will.

 

Respirou fundo e correu para o gramado. Ouviu o rugido da multidão, mas sabia que os aplausos não eram para ele. Eram para o time brasileiro, que emergia do túnel. Olhou para as arquibancadas. Um oceano de gente morena agitava-se, torcendo contra ele.

 

Fodam-se todos!

 

Ele era Flecha Loira! Fazia o impossível, como sempre.

 

No princípio, Will deu apenas um show no campo do Maracanã. Dribles espertos, súbitas mudanças de direção, que criavam caminhos onde não existia nenhum, velocidade inacreditável por dentro dos menores espaços. Mas, sem nem meia chance de marcar um gol.

 

Então, aos nove minutos do segundo tempo, ao tentar interceptar um passe destinado ao atacante brasileiro Raimundo Pinheiro, ele se atirou na frente da bola.

 

A esfera branca bateu em seu ombro e caiu como uma pedra na direção de seus calcanhares. Quase com um único movimento, ele ergueu a perna direita para trás. Foi nesse momento que sentiu um músculo da coxa se distender, a dor penetrando na rótula do joelho.

 

Que a dor se danasse. Will mandou a bola para o canto esquerdo do gol do Brasil. O goleiro não teve tempo nem de erguer completamente o braço, muito menos de impedir a bola de passar por ele e entrar.

 

- Gooool dos Estados Unidos! - Will ouviu pelos alto-falantes, tendo a confirmação da verdade. - Gooool de Will Shepherd!

 

”A Excitação” explodiu em seu cérebro. A adrenalina percorreu-lhe o corpo, e a dor na coxa e no joelho desapareceu. Ele se sentiu todo-poderoso, como na noite anterior, quando Victoria o provocara. Todo-poderoso!

 

O artilheiro!

 

O marcador de gols!

 

Ninguém mais estava jogando naquele campo, a não ser ele. O solitário!

 

Faltando apenas três minutos para o final da partida, ele se soltou de novo. Furiosamente, levou a bola pela linha lateral esquerda, fingiu que iria mandá-la para dentro, mas não mandou, ludibriando um jogador brasileiro da defesa, que só pôde ficar olhando para ele, incrédulo. As pernas pararam de repente. Foram para a frente outra vez, pararam, aceleraram.

 

Então, ele chutou, e a bola avançou como uma bala de canhão, um borrão branco que passou pelo goleiro e entrou, quase furando a rede do gol brasileiro.

 

- Goooool dos Estados Unidos! Goooool de Will Shepherd!

 

Dois minutos e quarenta e seis segundos para o final do jogo.

 

Tempo suficiente.

 

A enorme multidão ficara silenciosa e imóvel, a atenção voltada tanto para o relógio do estádio quanto para a luta furiosa no campo. Menos de três minutos para o final do jogo, que se tornara extremamente dramático.

 

Um único jogador não podia derrotar um grande time. Nem mesmo Will Shepherd seria capaz de tal façanha.

 

Era isso o que todo mundo que assistia ao jogo pensava. Entretanto, ninguém podia ter certeza. Ele era um artilheiro fabuloso, talvez o maior de todos, de todos os tempos. Era um mágico, ou, talvez, fizera um trato com o demônio.

 

Will, parecendo uma águia, interceptou a bola de um passe para o lateral-direito do time do Brasil, dominou-a e correu pelo campo a uma velocidade incrível. Em total concentração, repetia movimentos que treinara mil, não, um milhão de vezes. Fez uma finta para a esquerda e foi para a direita, em uma virada de quase noventa graus, passou por um defensor, que ficou estacado, sem ação. Viu o goleiro a sua frente, um retalho da cor inimiga.

 

Nem que ele fosse Deus poderia me impedir, Will pensou.

 

Viu medo nos olhos do goleiro. Passou a bola do pé direito para o esquerdo.

 

Usou o cotovelo para afastar um defensor brasileiro. Virou suavemente para a direita.

 

Os quarenta e cinco minutos do segundo tempo estavam esgotados, mas ainda havia alguns segundos para serem descontados. Bastante tempo para tornar-se imortal, para juntar-se a Pele e Cruyff.

 

Calma. Deixe ”A Excitação” percorrer seu corpo como heroína.

 

O goleiro brasileiro moveu-se para a esquerda, antecipando o chute de Will, deixando aberto o canto direito do gol.

 

O árbitro estava erguendo o apito. Dentro de alguns segundos, apitaria, assinalando o fim do jogo.

 

Aquela modalidade de chute dera fama a Will. Um golpe oblíquo com o pé esquerdo, da esquerda para a direita. Will calculou-o cuidadosamente. A abertura do gol era larga como a porta do inferno!

 

Ele tomou consciência de muitas coisas: do silêncio arrepiante que caíra sobre o estádio, do som de sua própria respiração, da bola na grama, do olhar horrorizado do goleiro, da inútil perseguição do defensor brasileiro.

 

O rosto do pai ergueu-se diante dele. Os olhos. Os olhos abertos, mortos, na superfície da água da piscina.

 

Com a força de um furacão, as fúrias atacaram, os demônios apossaram-se de seus instintos, de suas pernas, de sua alma.

 

Não! Ele não deixaria que o dominassem!

 

Com um estremecimento e um urro, Will chutou, batendo o pé na bola, no ângulo perfeito.

 

Queria rir de todos os que haviam duvidado dele. Queria gritar na cara de todos os que o olhavam, encarapitados nas arquibancadas.

 

A multidão enlouqueceu. Literalmente. Estranhos abraçavam-se e beijavam-se, e uma dança maluca começou, com cem mil pessoas participando. Dentro e fora do estádio, cometas e buzinas berravam, milhares de serpentinas flutuavam no ar, subindo em direção à lua.

 

Assim que chutara, Will caíra, sem forças. Deitado no chão, esperava pelo grito que não vinha: ”Gooool dos Estados Unidos... Gooool de Will Shepherd!”

 

Viu os jogadores correndo para fora do campo, com medo da turba enlouquecida que se dirigia para eles. Confuso, tentou levantar-se. Encheu-se de pavor ao notar que não conseguia.

 

Mas o jogo ainda não foi decidido, pensou. Temos a prorrogação. Não deviam deixar os torcedores entrar no campo. Tirem esses idiotas daqui!

 

Wolf Obermeier, obviamente abalado, correu para ele e tentou ajudá-lo a erguer-se.

 

- Que pena! - exclamou. - Como é que dizem os americanos? Que azar!

 

- O jogo vai ter prorrogação - disse Will, mas a expressão de Obermeier revelou a verdade.

 

Naquele instante, todas as fúrias se soltaram, ainda mais barulhentas e aterrorizantes do que os milhares de torcedores que invadiam o campo.

 

O pai, no meio da multidão, carregava a mãe. Ela estava morta. De sua boca aberta esguichava sangue, e o pai estendia-a para Will, como se ela fosse um troféu.

 

”A Assombração.”

 

Will Shepherd começou a gritar. Por fim, compreendeu.

 

O Brasil vencera a Copa do Mundo.

 

Flecha Loira perdera o gol mais importante de sua vida.

 

Falhara.

 

E tudo culpa sua.

 

Sempre foi culpa sua.

 

Parecia uma noite de carnaval no Rio, e em nenhum outro lugar do mundo poderia haver um acontecimento mais sensual e louco. Pessoas formavam cordões, ao longo de todas as ruas.

 

Will alugara um Corvette vermelho, que estava dirigindo pela cidade como um insano.

 

O jogador bundão. O perdedor. O lobisomem do Rio.

 

- Seu nome é Angelina? - ele perguntou à mulher a seu lado, no carro que paiecia voar.

 

Tinha cabelos escuros, era alta, esbelta e linda. Dissera a ele que queria experimentar Flecha Loira. Queria a ”flecha” dentro dela.

 

- E - ela respondeu. - Não pára de perguntar, como se o meu nome fosse mudar. Mas, do jeito que você dirige, acho que daqui a pouco nós dois nos chamaremos Defuntos Frescos.

 

- Essa foi boa. Você é muito engraçada - Will comentou, engatando a quarta marcha na larga avenida que corria ao longo da praia de Copacabana. - Uma mulher bonita e engraçada pode ser muito perigosa, não é?

 

Ela jogou os cabelos escuros para trás e riu.

 

- Tem medo que eu roube o seu coração?

 

- Não, Angelina. Acho que nem você, nem ninguém, roubará o meu coração. Você me entende?

 

- Nem um pouco, querido.

 

- Perfeito!

 

Will a levou para a sua suíte, no hotel. O lugar estava bem iluminado pelas luzes piscantes da cidade, de modo que ele não se deu ao trabalho de acender nenhuma lâmpada. O som dos tambores, lá na rua, era tão alto, que parecia que a bateria tocava ali dentro.

 

- Enfie a sua flecha dentro de mim agora mesmo, Will Shepherd, número nove. Não posso esperar mais nem um segundo - ela gritou, quando se abraçaram.

 

Isso fora horas e horas antes. Ele enfiara a ”flecha” dentro dela, claro que sim. Ela gemera, depois tentara gritar. Desesperadamente, tentara arrancar a ”flecha” de seu coração.

 

- O que você fez? Oh, meu Deus! O que você fez comigo?

 

- Queria roubar o seu coração - murmurou Will. - Roubei?

 

Ele esquecera novamente o nome dela. Como era mesmo? Oh, sim, Angelina.

 

Agora, Angelina jazia na banheira de sua suíte. Ele olhou para ela, sabendo que, finalmente, fora longe demais. Mesmo sendo quem era, exagerara.

 

Fora longe demais, ficara louco.

 

Se os fãs pudessem me ver agora!, ele pensou. Este é o Will Shepherd verdadeiro. Um lixo. Sob uma aparência bonita, um coração feito de trevas.

 

Conrad, certo? Will lera aquele livro na escola. Compreendera a história perfeitamente da primeira à última página.

 

Ninguém o conhecia, ninguém sabia o que ele era, exceto, talvez, Angelina.

 

Agora ela sabe, não?

 

Os olhos castanhos da mulher estavam vidrados, fixos nele, de modo meio oblíquo. Ele era o deus dela, não era? O salvador que a tirara das perversas ruas do Rio. Ela quisera tanto transar com um ídolo! Bem, transara.

 

Ele segurava um copo cheio de um líquido vermelho. Ergueu um brinde a Angelina. Saudou a mulher com o próprio sangue dela.

 

- Lamento - disse em um murmúrio. - Não, não é verdade, mas eu gostaria de ser capaz de lamentar.

 

Tomou um gole do sangue, sabendo que estava perdido. Cometera um assassinato. Iria a julgamento. Sua culpa seria provada, por fim.

 

Gotas de suor formaram-se em sua testa.

 

Flecha Loira, estilete de prata, vampiro. Não fazia diferença.

 

Ele pegaria prisão perpétua.

 

Eu sabia tudo a respeito de ”sair do estado de graça”, mas ”entrar no estado de amor” era algo que, percebi, nunca soubera o que significava. Mas estava acontecendo, devagar, de um modo lindo, entre mim e Patrick. A cada dia, os sentimentos de um para o outro se tornavam mais profundos. Era algo diferente de paixão, algo que também havíamos experimentado.

 

Deixe-me calcular de quantas maneiras Patrick estava me ensinando a amá-lo.

 

Havia aquela sua maneira de me lembrar, quase todos os dias, de que eu era muito especial, uma pessoa de valor. Comecei a acreditar nisso pela primeira vez em minha vida.

 

Havia a maneira de Patrick querer saber tudo a respeito das músicas que eu escrevia e cantava, e de compreendê-las e apreciá-las mais do que muitos compositores que faziam músicas para os Rolling Stones e o Spin.

 

Havia a maneira como ele e Jennie conseguiam conversar sobre qualquer coisa, e como nós três juntos também fazíamos isso.

 

Havia a maneira de ele me surpreender e deliciar com suas histórias, sua graça, sua percepção.

 

De fato, durante os primeiros seis meses que ficamos juntos, a única causa de aborrecimento foi o filho de Patrick. Peter era um canalha completo, o oposto do pai. Naquele período, tentou assumir a direção da empresa do pai, mas falhou. Patrick lamentou o fracasso, dizendo que ”perdera seu único filho”.

 

O que foi um bom gancho para o que tenho a dizer a ele, pensei uma tarde, quando estava com Patrick em minha sala de estar.

 

Se era que podia haver um gancho para aquilo...

 

Era tão difícil! Eu estava apavorada. Suspirei e preparei-me o melhor que pude.

 

- Vamos ter um filho, Patrick - disse, então.

 

Não demoraria muito para a gravidez ficar evidente. Tínhamos nos protegido, mas de nada adiantara. Eu ficara grávida.

 

Embora eu fosse uma artista, uma compositora e cantora, era muito conservadora, e a gravidez sacudiu-me até as raízes. Contara a Jennie assim que descobrira.

 

- Você ama Patrick e ele a ama. Eu amo os dois. Estou feliz por você estar grávida - ela afirmara, e aquilo ajudara muito.

 

Naquele momento, ali na sala, Patrick me olhava, e seu rosto exibiu várias emoções: espanto, susto, consternação, preocupação, dúvida, mas, por fim, alegria. Inconfundível, fabulosa alegria, mostrando-se no sorriso que eu amava tanto.

 

- Para quando espera o bebê? Meu Deus, Maggie, conte tudo!

 

- Para daqui a cinco meses e doze dias. O dr. Gamache não especificou a hora.

 

Ele estava sorrindo amplamente.

 

- Menino ou menina? - perguntou, segurando minhas duas mãos.

 

- Menino, de acordo com o exame do líquido amniótico. Você gosta do nome Allie?

 

- E lindo. - Ele abanou a cabeça, maravilhado, sorrindo. - Estou muito feliz, Maggie. Não poderia estar mais. Tenho lhe dito, ultimamente, quanto amo você?

 

- Tem - murmurei. - Mas diga de novo. Nunca canso de ouvir.

 

Naquela noite, com uma clareza que pensei que houvesse desaparecido, eu me lembrei dele. Phillip voltou para tentar estragar tudo. Estava bêbado, como sempre. Mal podia andar. Entrou pela porta da frente, gritando por mim, e me escondi na cozinha. Não respondi. Nem mesmo quando ele se encontrava a apenas alguns passos de distância.

 

Ele era muito diferente quando nos conhecemos, em Newburgh. Um oficial do Exército, um cavalheiro, e culto, também. Eu, com dezenove anos, fiquei deslumbrada. Era muito carente, muito solitária. Como podia saber que o papel de professor o deixava frustrado? Que ele entrara para o Exército para lutar, mas que recebera ordens para dar aulas?

 

Phillip tinha de obedecer às ordens, e estava determinado a fazer com que eu obedecesse às dele.

 

- Quando eu chamar você, responda: ”Estou aqui, Phillip” - comandou com um sorriso de superioridade.

 

- Não, quando você estiver desse jeito - retruquei.

 

- Não, nunca mais.

 

Ele deu um tapa em minha boca com as costas da mão.

 

- Quando eu chamar, responda: ”Estou aqui, Phillip” - repetiu.

 

Eu não disse nada. Os óculos de aros de metal que ele usava estavam caídos para o nariz. Parecia o esnobe enfadado que tanto receava ser.

 

- Maggie - ele disse baixinho, soturnamente. Não respondi.

 

Phillip ergueu a mão novamente, mas dessa vez fechou-a. Não era musculoso, mas uns trinta quilos mais pesado do que eu.

 

- Estou aqui, Phillip. Vá se foder - resmunguei. Não costumo usar palavrões como aquele, mas usei.

 

- O quê? O que foi que você disse, mulher? Ouvi direito?

 

- Ouviu.

 

Ele ficou parado, imóvel, olhando-me lascivamente.

 

- Certo. Vamos foder, então.

 

Jogou-se em minha direção, cambaleando. Subi correndo para o sótão, pela escada dos fundos. Entrei e bati a porta na cara dele.

 

Phillip guardava armas no sótão também. Havia armas por todos os lados, na casa do bom soldado. Peguei uma, carreguei-a e fiquei apontando-a para a porta, até que o rosto dele apareceu.

 

- Dê mais um passo e eu atiro - ameacei surpresa com minha voz, que soara calma, apesar do meu nervosismo.

 

Ele me encarou, tentando me olhar com desprezo, mas não saiu do lugar. Então, começou a rir. Era um cacarejo monstruoso.

 

- Oh, querida! Você venceu este round - disse, quando conseguiu se controlar. - Mas vai se arrepender.

 

Eu ainda estava me arrependendo, depois de tantos anos.

 

Em uma promissora manhã de céu azul, Patrick, ansioso e agitado, teve de me levar às pressas para o hospital Northern Westchester, em Mount Kisco, Nova York. Mostrava-se tão descontrolado, tão diferente de como costumava ser, que se tornou mais charmoso e engraçado. Jennie foi conosco, e, dos três, era quem mais calma estava.

 

Enquanto o carro de Patrick corria pelas estradas ladeadas por pinheiros, eu não conseguia afastar os pensamentos sombrios. Pense no bebê, dizia a mim mesma, mas, em vez disso, fiquei me lembrando das notícias publicadas em jornais e revistas, que vinham me atormentando desde que a notícia da gravidez se espalhara.

 

”A melhor canção de amor de Maggie Bradford: a história do domínio não tão secreto que ela conseguiu exercer sobre Patrick.”

 

Como nosso relacionamento tão bonito podia parecer tão sórdido? Quem escrevia aquelas coisas? Quem as lia? Eu dissera a Patrick que não me importava com o que os outros diziam, mas a mídia sabia ser cruel. Eu me sentia ferida, humilhada.

 

E, na época, não tinha idéia de como os jornalistas podiam ser perversos.

 

- Patrick, você não está indo devagar, mas poderia ir mais depressa um pouco, por favor?

 

O dr. Lewis Gamache estava a nossa espera, no hospital.

 

- Olá, mamãe! - ele me cumprimentou, apertando os olhos por trás dos bifocais com armação prateada.

 

Eu o descobrira meses atrás, na cidadezinha de Chappaqua. Era clínico geral e obstetra, e eu confiava mais nele do que em qualquer um dos médicos famosos de Nova York.

 

- Olá, Lewis. Estou me sentindo uma merda. Tentei sorrir, mas achei que iria desmaiar.

 

- Isso é ótimo - ele afirmou. - Significa que está quase na hora.

 

Guiou-me até uma cadeira de rodas, e levaram-me para dentro.

 

Quase na hora? Pois, sim! Foi só às onze da noite que duas enfermeiras de branco me empurraram na maça pelos corredores do hospital, rumo ao centro cirúrgico. Meu corpo estava molhado de suor. Os cabelos, molhados e grudados, pareciam quase castanhos. Eu me sentia pegajosa e gelada. A dor era insuportável, duas vezes pior do que quando tivera Jennie.

 

O dr. Gamache aguardava no centro cirúrgico. Como sempre, alegre.

 

- Olá, Maggie. Por que demorou tanto?

 

- Aaaaai... - Fechei os olhos, quando veio nova contração. - Eu estava me divertindo muito com o trabalho de parto.

 

- Então, vamos ao rock and roll - ele disse. Não ri da piada.

 

Às onze e dezenove da manhã seguinte, o dr. Gamaché informou:

 

- Maggie, você ganhou um menininho.

 

Deitou o bebê perto de mim, para que eu pudesse vê-lo. Ele parecia estar bocejando. Já entediado com o planeta Terra? Mas era uma beleza.

 

Levou o clássico tapa na bunda, e ouvi seu vagido fraco, quase imperceptível.

 

- Acho que ele não tem seus pulmões - o dr. Gama che brincou. - Enfermeira, coloque o bebê no aquecedor, por favor.

 

- O nome dele é Allie - murmurei e, em seguida, desmaiei.

 

Patrick entrou quase voando no quarto do hospital. Sorria, radiante. Aproximou-se da cama, e nos beijamos. Ele era Paul Newman e Spencer Tracy misturados em um só. Realmente maravilhoso: solícito, compassivo, terno, amoroso. Queria casar-se comigo, mas a idéia de casamento, depois de minha experiência com Phillip, não era fácil de aceitar, e pedi a ele que esperasse mais um pouco. Patrick disse que compreendia, e eu esperava que de fato compreendesse. Também esperava que fizesse a proposta novamente, e logo.

 

Alguma coisa amassou no bolso do paletó dele, quando nos abraçamos, e, curiosa, enfiei a mão para descobrir o que era.

 

- Dessa vez você foi longe demais, malandro - comentei com um sorriso, revirando os olhos. - Charutos? E tão antiquado assim?

 

- Sou. Charutos para os amigos, uísque irlandês para o pai solteiro.

 

- Já viu Allie? - perguntei.

 

- Claro. Que testículos! Maiores do que os pés. Fiquei impressionado.

 

Eu ri.

 

- Ficou foi satisfeito

 

- Achei que a mãe também devia ficar, pelo menos um pouquinho.

 

- Por saber que o filho está bem equipado para o mundo?

 

- Exatamente. Disse bem.

 

Patrick abraçou-me, mantendo-me aninhada em seu peito. Ouvi o coração dele bater. Adorava aquilo cada dia mais.

 

Não posso pensar em um pai melhor do que ele, refleti.

 

Então, eu disse isso em voz alta. Nunca me sentira mais feliz em toda a minha vida. Sabia que me casaria com Patrick em breve. Mas já éramos uma família. Uma família mais feliz do que muitas que eu conhecia.

 

Naquela noite, cantei para o pequeno Allie pela primeira vez.

 

Foi assim que aconteceu, caros leitores, o terceiro assassinato sobre o qual vocês ouviram e leram tantos comentários horripilantes, na televisão e nos jornais. Esta é minha confissão, que nunca foi publicada em nenhum outro lugar.

 

Patrick amava seu trabalho, os grandes hotéis que construíra, e tenho certeza de que amava Allie, Jennie e a mim. Amava também o mar e adorava navegar. Seus problemas maiores eram as brigas constantes com o filho, Peter, a direção da empresa e o Hotel Cornélia. Peter, no conflito com o pai, deixara claro que me desprezava. Patrick e eu decidimos que tínhamos de aprender a viver com os ataques dele, pois não havia outro jeito.

 

Nunca esquecerei aquele dia, no começo de maio. Foi quando saímos para o nosso primeiro passeio de barco, na nova primavera. Precisávamos de algum tempo só para nós dois.

 

Às cinco da manhã, já estávamos vestidos e tomando chocolate quente. A sra Leigh, minha maravilhosa empregada, que morava comigo, apareceu e nos desejou um bom-dia e um passeio agradável.

 

- Não se preocupe com nada, sra. Bradford.

 

Com ela em casa, eu não precisava me preocupar. Criara dois filhos lindos e já fazia parte de nossa família.

 

Patrick e eu fomos de carro até Port Washington, em Long Island. Um dia inteiro juntos! Que delícia!

 

Por volta de seis e meia, caminhávamos pelo deque já banhado de sol do orgulhoso Victorian Manhasset Bay Yatch Club. O ar estava frio, mas o dia prometia prazer e descontração. No meio do caminho, não resisti. Parei Patrick, abracei-o e beijei-o.

 

- Eu te amo - murmurei. - Por mais simples e descomplicado que isso possa parecer.

 

- É difícil encontrar o amor. - Ele sorriu. - Mas quando se encontra, é espetacular. Também te amo, Maggie.

 

Chegamos ao Rebeüion um pouco mais tarde. Pretendíamos navegar para o leste. Como Patrick dissera, ”ao encontro do sol, para longe da terra”.

 

- A tempestade da semana passada causou avarias nos barcos, inclusive no nosso - ele comentou, iniciando uma rápida inspeção. - Ainda há água aqui e provavelmente a bateria do motor descarregou. À antena do rádio de comunicação está quebrada. Merda. Nunca me deixe construir um navio de luxo. Seria outro Titanic.

 

O Rebelhon saiu do iate clube por volta de sete e quinze. Estávamos a caminho da alegria e da despreocupação. Por mais que eu adorasse passar quase todos os momentos do dia com Allie, por mais que já estivesse com saudade dele, sabia que precisava de algumas horas de liberdade e de passar algum tempo só com Patrick, algo de que sentira falta.

 

Era um dia de céu azul, daquele tipo que sempre fazia com que eu me sentisse bem. Vi que Patrick relaxara, manejando o leme. No horizonte, um iate de dezesseis metros movia-se lentamente, talvez indo para o Caribe.

 

Ao meio-dia, nosso barco deslizava sobre ondas suaves, a quilômetros de distância da loucura de Nova York. O hotel, Peter, e até mesmo Jennie e Allie foram esquecidos. Patrick e eu estávamos juntos, sozinhos, na privacidade do mar. Imaginei se seria naquele dia que ele me pediria novamente em casamento.

 

De repente, nuvens escuras surgiram a noroeste. Era uma tempestade correndo rapidamente em nossa direção. A temperatura caiu pelo menos dez graus em cinco minutos.

 

- Oh, que merda! - resmunguei. - Não se pode planejar um passeio! Odeio quando essas coisas acontecem.

 

Patrick olhou para as nuvens com ar preocupado. - vou falar com a guarda-costeira, pedindo a previsão do tempo. Talvez possamos esperar a tempestade passar.

 

Começou a andar na direção da cabine, então parou.

 

- Inferno! Não posso me comunicar. A antena está quebrada. Acho que isso significa que temos de voltar. Pegue o leme, Maggie. Segure-o com força.

 

- Certo.

 

Lutei com a roda do leme, enquanto Patrick prendia os rizes da vela principal. A tração ainda era muito forte no lerne. Patrick decidiu trocar a vela por uma bujarrona menor. Como último recurso, baixaria a bujarrona e usaríamos o motor para voltar a Manhasset.

 

Então, a tempestade nos atingiu. Uma neblina gelada envolveu o barco, e a chuva desabou, deixando-nos encharcados. O vento uivava. A água do mar inundou o convés. O apavorante poder da natureza estava evidente em tudo, a nossa volta.

 

Minha mão escorregava no leme, e tive de lutar para manter o curso. Era excitante, mas, por baixo da excitação, como uma serpente enrodilhada, pronta para dar o bote, o medo começou a me ameaçar. A situação deixou de ser divertida.

 

Patrick xingava, correndo e escorregando, tentando chegar ao lugar onde uma vela solta batia ao vento como um lençol molhado pendurado em um varal.

 

Ele pareceu hesitar ao aproximar-se da vela, arrastando a perna esquerda. A impressão que tive foi essa, de que ele arrastava a perna.

 

Parou, então caiu de joelhos, como se alguém houvesse lhe dado uma pancada na nuca.

 

- Patrick! - gritei.

 

Ele tentou se levantar. Vi-o levar a mão ao peito e, então, tombar.

 

- Patrick!

 

Corri pelo convés escorregadio e ajoelhei-me a seu lado. O rosto dele estava branco como a vela principal, e sua respiração era irregular. Como caíra de lado, virei-o de costas, e ele fez uma careta de dor. De repente, fiquei sem poder respirar, com a impressão de que levara um soco na boca do estômago.

 

Fui buscar cobertores1 de lã e cobri Patrick o melhor que pude. Tomei a mão dele entre as minhas.

 

- Por que saiu de perto de mim? - ele murmurou.

 

- Não faça isso de novo. Quero ficar olhando para você, Maggie.

 

Eu tentava segurá-lo, quando as ondas rolavam sobre nós.

 

- Ficarei aqui, Patrick. E você também. Tudo vai dar certo.

 

Eu acreditava realmente naquilo, mas, dentro de mim, a serpente do medo ergueu-se, e precisei virar o rosto para não vê-la. Então, tornei a olhar para Patrick.

 

O rosto dele ficara cinzento. Gotas de suor apareceram em sua testa e acima da boca, embora o vento estivesse gelado.

 

Oh, Deus, por favor. Eu amo Patrick. Por favor, não faça isso!

 

- Só para o caso de eu não estar mais por perto, quero que você seja feliz, Maggie - ele disse baixinho.

 

- E que faça nosso filho feliz, o que sei que fará. Não deixe Jennie casar-se com um irlandês. Prometa.

 

- Prometo - murmurei por fim, lutando contra as lágrimas.

 

- Amo você, meu bem. Amo você, Maggie, a melhor de todas as mulheres.

 

Patrick me olhava com aquele seu jeito particular, meio de lado. Então, os olhos moveram-se, e ele fitou algo atrás de mim.

 

Um som estranho escapou-lhe do peito, e Patrick soltou minha mão. Gritei, olhando dentro dos olhos dele.

 

Por favor, Deus, não o deixe morrer!

 

Abracei-o com força, começando a chorar. Apoiei a cabeça em seu peito imóvel e silencioso.

 

Por favor, por favor, não deixe isso acontecer. Quem quer que esteja no comando, tenha misericórdia!

 

Patrick não podia me ouvir. Ele se fora. Tão rapidamente quanto surgira a tempestade que rugia a nossa volta.

 

Devo ter ficado abraçada a Patrick por mais de uma hora, sem me importar com o que pudesse acontecer comigo ou com o barco.

 

A tempestade fora para o leste, e as águas estavam novamente calmas, embora eu mal notasse o que se passava a minha volta. O sol fraco lançava focos de luz ambarina nas ondas verde-acinzentadas.

 

Fiquei sentada junto de Patrick, no convés solitário e oscilante. Pensava nos bons momentos que havíamos tido, e sempre que me lembrava de alguma coisa, recomeçava a chorar.

 

”Por que saiu de perto de mim? Não faça isso de novo. Quero ficar olhando para você, Maggie.”

 

Não vá embora, Patrick! Não me deixe! Oh, Padriac, oh, Patrizio!

 

Marinheiros da guarda-costeira localizaram o barco, que flutuava à deriva, na margem vermelha do pôr-do-sol. Encontraram-me com Patrick aninhado em meus braços.

 

Agora vocês já sabem como foi que o matei. Esta é a minha confissão.

 

                                                                          WILL

 

Will estremeceu, quando ouviu pancadas fortes e insistentes na porta de sua suíte no hotel Rio Hilton. Arrastou-se para fora da cama e escondeu-se no banheiro.

 

Mal pôde dar aqueles poucos passos sem cair.

 

Vá embora. Seja quem for, suma daqui!

 

Ouviu que abriam a porta. Vozes. Era uma camareira falando com outra pessoa.

 

Cristo, eles não podem entrar aqui! Agora, não!

 

- Obrigado por me deixar entrar - disse um homem.

 

Palmer! Quem o convidou? Ninguém pode entrar aqui, nem mesmo meu irmão! Perdi o controle e não sei se um dia poderei recuperá-lo.

 

Palmer examinou os detalhes do enigma: a porta do banheiro fechada um espelho deitado na mesinha-de-cabeceira, com uma navalha em cima, além de uma nota de cem dólares e restos de cocaína. No chão, uma garrafa de tequila, vazia. Meio copo de um líquido vermelho, na outra mesinha-de-cabeceira. Vinho do Porto? Cinzano?

 

Mas onde estava Will? Onde diabo se metera?

 

Estou aqui, irmãozinho.

 

Nu, soltando um urro de lobisomem, Will caiu sobre Palmer, jogando-o no chão, prendendo-o pelos pulsos. Então, sentou-se em sua barriga, como fazia quando eram pequenos.

 

- Você perdeu. Eu ganhei.

 

Mas, dessa vez, os olhos de Will exibiam uma assustadora expressão de loucura, e seu corpo - Deus, seu corpo! - estava coberto de sangue.

 

Palmer ficou olhando para o irmão com incredulidade e horror.

 

- Por Deus, Will, o que fez? Como se feriu? Will riu alto.

 

- Eu me cortei fazendo a barba.

 

Saiu de cima de Palmer e pareceu dançar ao atravessar o quarto. Pegou o copo com o líquido vermelho.

 

- Quer? - ofereceu. - Cortei ela, também. Sangue é gostoso, com tequila. Experimente.

 

- Você cortou quem? Que diabo aconteceu aqui?

 

- Angelina. O corpo dela está no banheiro. Era uma puta. - Estendeu o copo para Palmer. - Bebi quase tudo. Café da manhã de campeões.

 

- Não, Will, você não fez isso! - o irmão murmurou, levantando-se. Suas pernas estavam bambas. - Não pode ter feito!

 

- Não fiz o quê? Não posso ter feito o quê?

 

- Matado a mulher.

 

- Bem, não sei. - Os olhos de Will estavam do tamanho de dólares de prata. Olhos de louco. - Vamos ver.

 

Ele abriu a porta do banheiro e revelou sua vida secreta ao irmão.

 

- Qual é o veredicto, irmãozinho? Matei ou não? Vai me ajudar, agora?

 

Pelo menos uma vez, quase todas as histórias publicadas nas revistas de mexericos foram verdadeiras, e, talvez, até complacentes. Will sabia disso, assim como o irmão.

 

Will era perigoso, mais ainda do que suspeitavam os que escreviam as matérias. Passara um mês e meio em um hospital particular de Nova York, recuperando-se de um ”colapso nervoso”, pois tivera um ”grande problema” no Rio de Janeiro.

 

Fizera coisas muito piores do que usar cocaína, mas saíra impune. Isso estava lhe custando um substancial suborno semanal, que pagava a seu bem-amado irmão, mas o que importava era que continuava livre. Não ficaria na cadeia pelo resto da vida.

 

Juntamente com Palmer, decidira que não deveria morar em Londres por algum tempo. Na verdade, o desgraçado do irmão insistira nisso. Fora parte de seu ”trato”. Will escolhera Nova York porque, por algum motivo, era atraído por aquela cidade.

 

Alugou um apartamento no East Side e gostou tanto do lugar, que começou a procurar uma casa. Lera no Times que Maggie Bradford tinha uma propriedade em Westchester, assim como Winnie Lawrence. Por isso, decidiu ver se encontrava algo por lá.

 

Ainda era fã incondicional de Maggie. Estava convencido de que a música dela tinha o dom de curar. Até falara das canções com seu impecável psiquiatra da Fifth Avenue, especialmente das letras. O médico também era fã de Maggie Bradford, de modo que compreende o que Will queria dizer, ou, pelo menos, achou que compreendera.

 

Will fantasiava que um dia se encontraria com Maggie em Westchester. Estava certo de que esse encontro poderia ser arranjado. Era bastante esperto para isso, não era?

 

Essa é a parte que não faz muito sentido. Talvez seja por isso que fascina tanta gente, que prende sua atenção por semanas e até meses, à medida que o dia do julgamento se aproxima. E um mistério, até para mim, o tempo que passei com Will Shepherd, a noite escura de minha alma. Como pôde acontecer? Como aconteceu?

 

Depois que Patrick morreu, de infarto, fiquei isolada, só com Jennie e Allie, a quilômetros de distância da mídia, que eu aprendera a temer e desprezar durante a gravidez. Em uma maravilhosa manhã de primavera, quase um ano após a morte de Patrick, eu estava trabalhando no jardim, com Allie brincando a meu lado. Fui interrompida pelo segurança que eu contratara para manter afastadas as visitas indesejáveis, isto é, quase todo mundo.

 

- Um senhor chamado Nathan Bailford deseja vêla. Eu falei que a senhora não quer receber ninguém, mas ele insistiu. Disse que se trata de algo muito importante.

 

Nathan era um vizinho que eu não conhecia muito bem. Mas sabia que era um advogado famoso, que tivera a incumbência de impedir que Peter O’Malley interferisse na construção do Hotel Cornélia. O que ele poderia querer de mim? Peter estaria causando mais problemas?

 

- Deixe o sr. Bailford entrar - concedi, relutante. Então, virei-me para Allie. - Temos visita. Vamos ficar bonitos.

 

O advogado beirava os sessenta anos, mas aparentava quarenta e cinco. Ele sorriu ao me ver, porém o sorriso não diminuiu a seriedade do traje formado pelo terno grafite, a camisa branca e a gravata bordo e amarela. Notei que nenhum fio do cabelo grisalho estava fora do lugar.

 

Nathan Bailford tomou entre as suas a mão que lhe estendi.

 

- Não sei quantas vezes passei por aqui, desde que Patrick morreu. Pensava em lhe fazer uma visita, mas não sabia se devia parar e entrar, ou deixá-la em paz.

 

- Estou contente por ter decidido vir.

 

Um amigo de Patrick era meu amigo também, de modo que tentei mostrar-me hospitaleira.

 

- Você está bem? - ele perguntou.

 

- Às vezes estou, outras não. O pior é quando chega a noite. Minha vida não tem sido fácil nos últimos dez anos.

 

Nathan não soube o que responder. Por fim, apenas sorriu. Uma boa escolha. Gostei dele por isso.

 

- Vim aqui a negócios - informou, quando estávamos tomando café no pátio. - E sobre... bem, trata-se de algo que não podia esperar mais. Como sabe, faz quase um ano que Patrick morreu. Eu tinha de vir vê-la hoje.

 

Tomou um gole de café, e notei que sua mão tremia. Ele afrouxou o nó da gravata.

 

- A data da leitura do testamento de Patrick finalmente foi marcada. Nunca vi coisa igual. Meus assistentes e eu tivemos um trabalho incrível para fazer tudo de acordo com os desejos explícitos e tipicamente complicados de Patrick. Mas fizemos. Maggie, tenho de avisá-la.

 

Vai ser uma guerra. Peter não está nada satisfeito. Patrick tinha razão quando dizia que o filho era um safado.

 

Eu não estava preparada para aquilo. Nem pensara nos bens de Patrick, e o desconforto evidente de Nathan me assustou. A idéia de entrar em uma disputa com Peter me perturbava, mas pensar que a mídia poderia tomar conhecimento do caso era muito pior.

 

- O que tudo isso tem a ver comigo? - perguntei. - Nathan, não quero me envolver.

 

Ele fixou o olhar em meus olhos.

 

- Você, Jennie e Allen terão o controle da empresa, com a parte que Patrick deixou aos três. A Peter ele legou uma imensa soma de dinheiro, uma tremenda soma, mas vinte e sete por cento dos negócios são seus e de seus filhos.

 

Eu não podia acreditar no que acabara de ouvir. Não podia!

 

- Quan-quanto vale o que ele nos deixou? - gaguejei.

 

- Mais de duzentos milhões de dólares, em dinheiro, ações e imóveis. Um bocado, Maggie.

 

Experimentei uma raiva louca.

 

- Não preciso de vinte e sete por cento, nem de coisa nenhuma! Já tenho dinheiro mais do que suficiente. Não quero nada. Nada. É verdade.

 

De repente, peguei-me rindo, o que fez Nathan Bailford recuar na cadeira.

 

Meu Deus, como era engraçado! Eu acabara de herdar duzentos milhões de dólares e me sentia como se tivesse sido jogada em uma prisão.

 

Ele estava carregando Jennie no colo! Não podia ser! Eu não podia acreditar no que via, mas estava vendo!

 

Will Shepherd, o jogador de futebol que me passara uma cantada na casa dos Trevelyan, em Londres, estava à porta, com minha filha no colo! Era ele, com certeza. Eu não podia estar enganada. Jamais esqueceria aqueles longos cabelos loiros, o rosto e outras coisas mais.

 

O guarda interfonara do portão, dizendo que Jennie se machucara e que um vizinho estava entrando com ela. Quando vi quem era o vizinho, fiquei estarrecida.

 

Aquilo era loucura.

 

Não perguntei a Jennie o que acontecera. Usando um conjunto de moletom, com as pernas balançando, ela parecia muito à vontade nos braços dele.

 

- Largue-a - ordenei, quase gritando. - Largue minha filha!

 

- Onde, senhora? - Will Shepherd perguntou em tom calmo.

 

Notei que ele sustentava Jennie no colo com a mesma facilidade com que carregaria um travesseiro.

 

- Lá no sofá da sala. Por favor, solte-a. Ele me olhou com expressão perturbada.

 

- Ei, a menina está ferida! Quase a atropelei com o meu carro. Por sorte, ela saltou para o lado e só torceu o tornozelo. Aconteceu bem na frente da casa dos Lawrence, onde estou hospedado. Eu ia saindo e não a vi.

 

- Foi gentileza sua trazê-la. Obrigada - consegui engrolar, mas a minha voz era fria. - Agradeço muito. Agora, vá embora, por favor.

 

Jennie ajeitou-se no sofá onde ele a pusera.

 

- Podia pelo menos oferecer um café a ele - comentou.

 

- O sr Shepherd foi muito gentil, mas com certeza precisa ir. Deve ter outras coisas para fazer.

 

- Sabe o meu nome? - ele perguntou, parecendo espantado. .

 

Canalha.

 

- Já nos vimos antes - expliquei laconicamente.

 

- Onde? Não costumo ir aos bastidores falar com artistas, mas já assisti a um dos seus shows, no Albert Hall. A rainha estava lá.

 

- Não foi num show, mas numa festa.

 

- Não me lembro. E tenho certeza de que me lembraria, se a tivesse visto.

 

Ele se ajoelhou para examinar o tornozelo de Jennie.

 

- Parece que não há nada quebrado. Já quebrei muitos ossos, por isso posso dizer. Mas acho que deveria chamar um médico.

 

- vou chamar, assim que o senhor for embora - afirmei. - Obrigada pelo conselho.

 

Ele se ergueu lentamente.

 

- Foi um prazer conhecê-la, Jennie. Espero que fique boa logo.

 

Virou-se na direção da porta.

 

- Até logo, sr. Shepherd - Jennie murmurou.

 

De súbito, suspeitei que aquilo tudo podia ser uma armação da parte dela. De vez em quando, Jennie e as amigas ”perseguiam” cantores de rock. Podiam fazer a mesma coisa com celebridades do esporte, não podiam?

 

- Não quero que você fale com ele - declarei, quando Will Shepherd saiu e fechou a porta.

 

Ela olhou para mim, muito vermelha. Eu nunca a vira com raiva.

 

- Mãe! Como pode fazer isso? - ela gritou. - Meu Deus!

 

Saltou do sofá, deixou escapar um gritinho e caiu. Estava machucada.

 

Will Shepherd agira corretamente, levando-a para casa. Podia ser que, daquela vez, eu houvesse me enganado a respeito de suas intenções.

 

Minha casa fica ao lado de um dos melhores clubes de campo de Westchester, o Lake Club de Bedford. Os sócios pagam mensalidades astronômicas para que apenas excelentes cozinheiros e jardineiros sejam contratados. Os gramados perfeitos e graciosos jardins lembravam-me Gstaad, Lake Forest e Saint-Tropez, lugares que eu conhecera em minhas turnês pela Europa.

 

Fui a uma festa no clube, no final de setembro. Era uma de minhas primeiras incursões no mundo real, de que me afastara.

 

Tive de parar para recuperar o fôlego, no topo da íngreme escada que levava da entrada de carros ao prédio principal. A última grande festa a que eu comparecera fora a inauguração do Cornélia, e lembrei-me de Patrick com tanta clareza, que meus olhos encheram-se de lágrimas.

 

- Droga! - exclamei baixinho.

 

Controle-se, Maggie.

 

Uma verdadeira multidão espalhava-se pelo maravilhoso gramado. Notei que haviam montado um bar, perto do qual um conjunto de jazz estava tocando baixinho. Cumprimentei vários moradores de Bedford e sorri para outros, cujos nomes deveria saber, mas não sabia. Um produtor da Broadway puxou-me para um lado e disse que pagaria o que eu pedisse por um show. Acrescentou que eu poderia escolher os artistas que quisesse, para me acompanhar. Respondi que a oferta era tentadora, mas prematura, e que telefonaria quando me sentisse pronta para me apresentar.

 

Ele continuou a me pressionar, e comecei a sentir a velha ansiedade crescendo dentro de mim.

 

A reclusa de Greenbriar Road ataca novamente!

 

Mas eram coisas demais, depressa demais. Não, eu não deveria ter ido à festa.

 

Droga! Droga!

 

Pedi licença e fui procurar solidão no jardim que circundava a pista de hipismo. Estava me sentindo uma tola, uma fracassada, uma estranha naquele meio, uma aberração. Lembrei-me de que era assim que me sentia o tempo todo, na adolescência. Alta demais para a maioria dos garotos e, ainda por cima, gagá.

 

Não havia ninguém naquele jardim, e aspirei o ar perfumado, relaxando, sentindo uma nebulosa satisfação. Bem melhor.

 

- ”Sair do estado de graça é a mais triste das viagens.” Mas é um estado que pode ser recuperado, Maggie.

 

Uma frase da minha música, sussurrada atrás de mim! Girei nos calcanhares para encarar o homem que a recitara. Vi Will Shepherd. Dei um pulo para trás.

 

Saltei para trás, mas não me afastei muito. Ele não parecia tão ameaçador naquele jardim colorido, em plena luz do dia.

 

- Procurei você para tentar descobrir por que me tratou tão friamente, quando levei sua filha para casa.

 

Revirei os olhos, antes que pudesse me conter. Mas, afinal, ele não podia ser tão dissimulado.

 

- Não se lembra mesmo?

 

Ele abanou a cabeça, e o sol arrancou reflexos de seus cachos loiros.

 

- Do que está falando? Por favor, diga.

 

- Estou falando do baile à fantasia na casa dos Trevelyan. Você me convidou para ir a sua casa. Para dormir com você. Foi muito grosseiro. Mais do que grosseiro, na verdade.

 

- Eu não me lem... - Ele interrompeu-se, dando um tapa na testa. E corou. - Oh, meu Deus! Você precisa me perdoar, Maggie. Eu estava bêbado, talvez drogado, completamente louco.

 

- Estava nojento - acrescentei. - Não esqueça isso. Bem, gostei de vê-lo novamente. Até logo.

 

Virei-me e comecei a caminhar de volta para o local da festa.

 

Ele me alcançou.

 

- Hoje não estou bêbado, nem drogado, só um pouco louco. Por favor, fale comigo. É importante para mim. Por favor! Acho que posso explicar o meu comportamento.

 

- Sabe se eu quero ouvir a explicação?

 

- Mereço isso. O fato é que não me lembro do que fiz naquela noite.

 

Olhei-o por alguns segundos. Usava um amassado terno de Unho branco, e os cabelos loiros pareciam feitos de ouro. Era bronzeado, lindo, eu tinha de admitir.

 

- Só quero lhe dizer uma coisa - ele prosseguiu, afetando uma sinceridade em que não acreditei. - Você é uma inspiração para mim, para muita gente. Ouvi-a cantar no show para a rainha e achei que estava cantando para mim. Sei que não estava, mas foi o que senti. Você me comoveu, e lhe agradeço.

 

Apesar de não querer fazer isso, encarei-o. Vi sofrimento em seus olhos.

 

- Está falando de Perda do Estado de Graça? - perguntei.

 

- Dessa canção, sim, mais do que de qualquer outra, embora eu goste de todas. Bem, de quase todas. Eu estava atravessando um período muito difícil, e você me fez acreditar que podemos recuperar o estado de graça.

 

- Entendo. Você recuperou?

 

Os olhos dele tornaram-se ainda mais tristes. De repente, Will pareceu autêntico, quase humano.

 

- Não. Isso não acontecerá, pelo menos nesta vida. Não, depois do que aconteceu no Rio.

 

Fiquei sem compreender.

 

- No Rio?

 

Ele sorriu. Seu sorriso era fabuloso, digno de ser visto.

 

- Quer dizer que não sabe?

 

- Acho que não. Se me lembro bem, quando conversamos pela primeira vez, eu lhe disse que não me interesso por esportes. Desculpe, mas não coleciono recortes sobre Will Shepherd. Temos uma caneca de Michael Jordan, que ganhamos no McDonald’s. Nossa coleção de lembranças esportivas acaba aí.

 

- Graças a Deus por isso! - ele exclamou, o sorriso um pouco apagado, mas ainda presente.

 

Ficamos em silêncio por um momento. Ele fica tímido perto de mim, pensei. Não sabe o que vai dizer em seguida.

 

Oh, Maggie, não comecei Nem pense nisso!

 

- Preciso voltar para a festa - falei. - Meu acompanhante...

 

- Ele pode esperar mais alguns minutos, não pode? Você não quer dar um passeio com um velho cavalheiro aposentado?

 

Hesitei.

 

- Mas eu já ia voltar...

 

Não vá ainda, por favor. Estivemos falando sobre você, ontem ao jantar. Winnie Lawrence, June e eu.

 

- É mesmo?

 

- Eles me contaram o que aconteceu com Patrick O’Malley. Sinto muito.

 

- Foi terrível - concordei, mas não havia mais nada que pudesse acrescentar.

 

Caminhamos por um túnel formado pelos galhos pendentes de pinheiros enfileirados, uma cena que parecia uma aquarela iluminada por focos de luz. Começamos a conversar sobre as coisas mais inesperadas. Falamos da velha ferrovia Harlem River - Will era louco por estradas de ferro -, comparamos a campestre Westchester com a zona rural da Inglaterra, comentamos o último livro de Jeffrey Archer, que ambos havíamos lido.

 

Ele foi tão correto comigo como um garoto de escola primária, e senti minha velha timidez me dominar. Receei estar sendo bajulada, mas era óbvio que ele se esforçava para me agradar, com muita gentileza. E devo admitir, para ser honesta, que era bom olhar para um homem tão lindo.

 

Risos e aplausos chegaram até nós através da vegetação espessa. Olhei para o meu relógio.

 

- Não acredito! Faz mais de uma hora que estamos conversando. Tenho de ir para casa. É minha vez de preparar o jantar. Sinto muito.

 

- Eu também gostaria de ir para casa, mas sou uma espécie de convidado de honra. Esta poderia ser a minha festa de despedida do futebol.

 

Quando voltávamos para o gramado, ele pegou meu braço por um momento, em um toque leve, então soltou-o.

 

- Eu estava precisando conversar - confidenciou. - Fazia muito tempo que não falava tanto com alguém.

 

- Eu também - admiti, sorrindo. - Nesse ponto, compartilhamos alguma coisa.

 

- Poderíamos nos ver outra vez? Não sou o que você pensa, pode crer.

 

Eu já adivinhara que ele pediria isso e sabia o que responder.

 

- Acho que não. Ainda é muito cedo para mim.

 

- Tem razão. Além disso, você poderia escolher entre muitos homens melhores do que um jogador de futebol aposentado.

 

Gostei daquela humildade, mas suspeitei que fizesse parte de seu ritual de sedução. Devia ser horrível para um atleta tão jovem retirar-se do esporte, ver a carreira terminada. Como eu me sentiria, se precisasse parar de cantar?

 

- Também há muitas mulheres mais jovens e bonitas - repliquei.

 

- Estou procurando algo mais profundo do que isso - ele declarou. - Mas você é linda, Maggie. Não sabe disso? Não, não sabe.

 

- Preciso mesmo ir - insisti.

 

Mas já percebera que ele era diferente do que eu o julgara. Não era fútil. E parecia muito complexo. Interessante.

 

Maggie Bradford era tudo o que suas canções prometiam e, talvez, mais ainda, Will pensou. E muito atraente, embora ela não percebesse.

 

Era a única que poderia salvá-lo. Ele estava convencido disso e começou a ficar obcecado por ela. Precisava ver Maggie outra vez. Ouvia as músicas dela constantemente, tanto em casa como no carro.

 

Planejou tudo com o maior cuidado, iniciando por uma longa carta, onde pedia, não um encontro, mas sua compreensão. Escreveu outra, contando sobre a deserção da mãe, quando ele era pequeno, e sobre o suicídio do pai. Contou como as canções de Maggie tinham o poder de acalmá-lo e ajudá-lo, e pediu-lhe apenas que respondesse de alguma maneira.

 

Não recebeu nenhuma resposta, e, então, voltou-se para outras mulheres. Agrediu uma delas. Nada tão grave quanto o que acontecera no Rio, mas, de qualquer maneira, assustador. O lobisomem de Nova York.

 

Um dia, inesperadamente, recebeu uma carta de Maggie. Ela dizia que o primeiro passo era encarar a própria dor, como ele obviamente já fizera. Por fim, Will telefonou e pediu um encontro, apenas um, e somente para almoçarem juntos, em Nova York.

 

Encontraram-se à uma hora da tarde, no dia doze de novembro, no Salão de Carvalho do Hotel Plaza. O local era o menos ameaçador possível. Ele tinha tudo planejado. Iria conquistar Maggie. Não suportaria ser derrotado novamente.

 

Planejara seduzi-la.

 

Planejara vencer.

 

E não tinha nenhuma dúvida de que conseguiria.

 

Foi só depois de um mês e meio que tornei a ver Will novamente. Mas ele me escreveu uma porção de vezes, e as cartas revelaram muito mais do que nossa conversa no clube. Ele tinha profundidade e era sensível. Quando telefonou, por fim, eu me sentia preparada para vê-lo. Apenas um almoço. Algo bastante inofensivo. Foi isso que pensei.

 

Um almoço com Will Shepherd! Mesmo sendo no discreto e sombrio Salão de Carvalho, muitas mulheres teriam dado a vida por tal oportunidade. E havia algumas, nas mesas adjacentes, que nos observavam atentamente.

 

Devo admitir que gostei de estar com Will. Ele era bonito, atencioso, falava bem e continuava sensível. No entanto, quando recordo aquele encontro, agora, tenho a suspeita de que ele ensaiara tudo aquilo.

 

- Gosto de conversar com outras pessoas que conheceram a fama - Will admitiu. - Desde que tenham mantido a cabeça no lugar. Segurei meu pescoço. É? Mantive a minha?

 

Ele riu. Eu também. Sabia exatamente o que ele queria dizer com ”conversar com outras pessoas que conheceram a fama”. Havia realmente a possibilidade de existir um elo entre os famosos.

 

- Conte o que aconteceu no Rio de Janeiro - pedi, quando o almoço ia em meio. - Não, primeiro, fale de coisas boas.

 

- Não quero falar de mim - ele declarou.

 

Aquilo era novo e agradável. Uma coisa que me aborrecia, quando conversava com pessoas famosas, era que elas só queriam falar de si mesmas. Eu apostara que Will era assim. Então, vi que me enganara.

 

- Vamos colocar as coisas assim: estou mudando. - Ele tomou um gole de vinho, olhando para o vazio. - Estou procurando recuperar o estado de graça, como na sua canção.

 

- Vai conseguir - afirmei com gentileza.

 

Will me comovera um pouquinho. Era carente, vulnerável. E eu, secretamente, gostava do fato de ele apreciar tanto minhas músicas. E suponho que desejava participar do processo da sua conversão.

 

- Preciso da sua ajuda, Maggie - ele murmurou.

 

- Como eu poderia ajudá-lo, Will? , Ele me olhou tão intensamente, que senti as faces arderem.

 

- Inclua-me nas suas canções - ele respondeu.

 

Fiz mais do que isso. Inclui-o na minha vida. Fiquei como que indefesa, sem poder evitar, como se os astros houvessem conspirado para fazer isso comigo.

 

Ele me convidou para sair, e achei o convite não só encantador como irresistível. Ele tinha um jeito de me tratar que passava a mensagem de que eu, eu apenas, tinha importância. Tudo o mais ficava de fora, quando conversávamos. Ele olhava apenas para mim, ouvia apenas a mim, fazia-me acreditar que eu tinha valor, que era sábia e muito especial.

 

Por isso tudo, saí novamente com Will.

 

Foi muito romântico, no começo. As coisas desenrolaram-se devagar, de modo correto.

 

Não nos beijamos até o quarto encontro. O beijo aconteceu naturalmente, à porta da minha casa, na hora da despedida. Will beijou-me com paixão, e me peguei correspondendo. Empurrei-o suavemente.

 

- Isso vai levar tempo.

 

O beijo que trocamos a seguir foi mais longo e incrivelmente terno. Para mim, representou prazer e dor. Eu desejava Will e tinha medo desse desejo. Ouvira certas histórias sobre ele e não acreditava que pudesse mudar. Will, entretanto, queria desesperadamente modificar-se.

 

Foi ele quem interrompeu o beijo. Abriu a porta para mim e foi embora.

 

A alameda de entrada de minha casa era bem iluminada, e fiquei parada, observando-o caminhar para o seu carro esporte. Muito tempo depois de o veículo ter desaparecido na escuridão da estrada, eu ainda continuava no mesmo lugar, as emoções confusas, mas inegavelmente intensificadas.

 

Naquela noite, Will foi direto para Manhattan, dirigindo o carro esporte a mais de cento e cinqüenta quilômetros por hora, na Saw Mill River Parkway. Cristo, ele era bom! Mas estava se sentindo frustrado, incrivelmente, dolorosamente excitado, como um bode. Não sabia por quanto tempo mais poderia prolongar aquela dança lenta que era cortejar Maggie. Não estava acostumado com isso.

 

Ela era tão direta e honesta quanto suas canções, mas ele começava a se perguntar se aquele desafio valia a pena. Não estava sendo fácil mostrar-se tão delicado o tempo todo. Às vezes, ele tinha a impressão de que nunca poderia conquistá-la.

 

Gato e rato, ele pensou, cruzando o limite entre Westchester e Nova York. O jogo era aquele, no que dizia respeito a mulheres. Ele quase sempre as pegava. Umas apenas davam mais trabalho do que as outras. Era um novo jogo, um substituto para o futebol, que, por sua vez, fora substituto de alguma outra coisa.

 

Rebecca Post comprava e vendia obras de arte e tinha um grande apartamento na East Sixty-first Street, com vista para a ponte.

 

Rebecca é um ratinho tão fácil de pegar!, pensou Will

 

Talvez fácil demais. Mas ele pensaria em alguma coisa para melhorar o jogo. Claro que sim.

 

Will usou a chave que ela lhe dera, para abrir a porta do luxuoso apartamento. Não fora difícil conseguir aquela chave. Bastara pedir uma vez.

 

Quando se viu no interior escuro, começou a andar na ponta dos pés. Sentia-se um intruso. Um relógio digital, na sala de estar, marcava a hora: uma e vinte da madrugada.

 

Um intruso. Uma sensação boa. Mas ele era mesmo um intruso, não era? Forçara a entrada na vida de muitas mulheres, e elas todas pareceram haver gostado muito.

 

O lobisomem de Londres, Paris, Frankfurt, Roma, Rio e, agora, de Nova York.

 

Espiou para dentro do quarto principal e viu Rebecca. Ela dormia, nua, em uma pose descontraída e sensual, por cima das cobertas. Os longos cabelos castanhos espalhavam-se pelo travesseiro. Linda. Desejável.

 

Will sabia exatamente o que desejava fazer: estuprá-la, sem dizer uma única palavra, e depois sair do apartamento.

 

Era isso o que Flecha Loira fazia, o que gostava de fazer.

 

Era sempre a mesma coisa. O amor não passava de um jogo, que tanto podia acabar em vitória como em derrota.

 

Will teve de ir a Los Angeles para uns testes cinematográficos, no início de janeiro. Descobri que sentia mais a falta dele do que pensara, ou do que desejara admitir. Às vezes, achava que ele era um bruxo, um prestidigitador, um artista da sedução como não havia outro igual. Barry me aconselhou a ter cautela, dizendo que Will era exatamente aquilo.

 

- Comigo ele não é assim - assegurei. E não estava mentindo.

 

Will retornou em uma quinta-feira e levou-me para jantar em Bedford. Usei sapatos de salto alto e um vestido preto, bordado com miçangas. Um pouco glamouroso demais para mim, mas compensou, porque fiquei contente quando Will notou.

 

- Adorei - ele disse.

 

Um elogio simples, mas que muito me agradou. Ele estava de bom humor, maravilhosamente expansivo, e gostei de vê-lo assim.

 

- A boa notícia, Maggie, é que as câmeras me adoram. A má, é que não sei representar.

 

Foi um jeito engraçado de falar, e nós dois rimos.

 

Ele falou em parar. Parecia genuinamente admirado com o modo como fora recebido em Hollywood. Fiquei feliz por ele.

 

Rimos muito durante o jantar. Eu já me sentia completamente à vontade com Will. As pessoas ficavam apontando para nós, mas foram bastante educadas para não se aproximar. Talvez pensassem que estávamos apaixonados.

 

Nevava, quando saímos do restaurante. O vento açoitava as árvores, fazendo-as contorcer-se como dançarinas exóticas. Os flocos de neve batiam em nossos olhos, enquanto corríamos para o carro. No caminho para casa, não parei de sentir o desejo de abraçar Will.

 

Ele dirigiu com cuidado e, quando chegamos, acompanhou-me até a porta. Eu ainda queria abraçá-lo. Ele usava uma colônia discreta, muito agradável. Vestia um casaco esportivo e estava maravilhoso, com as faces rosadas e aquele sorriso lindo.

 

- Boa noite, Maggie. Obrigado por ir jantar comigo e por me ouvir falar tanto sobre a minha nova carreira.

 

Eu não queria que ele fosse embora. Bruxo.

 

- Não vá, Will. O tempo está horrível. Não quero que você dirija nessa nevasca.

 

Já houvera tragédias demais em minha vida. Vi uma luz suave e estranha em seus olhos. Ele sorriu com suavidade.

 

- São só mais alguns quilômetros, Maggie. Acho que não terei problemas.

 

- Por favor - pedi. - Entre, fique um pouco.

 

Ele concordou e me seguiu para dentro, mas parecia relutante.

 

Disse que precisava dar um telefonema rápido, porque prometera tomar um drinque com os Lawrence e devia avisá-los de que não iria.

 

Quando saiu do escritório, nos acomodamos no sofá da sala. Eu fora ver Jennie e Allie, e os dois estavam dormindo profundamente. A menos que disparassem um canhão no quarto deles, meus filhos estariam mortos para o mundo até a manhã seguinte. E, de fato, às vezes eu achava que precisava de um canhão para tirar Jennie da cama e obrigá-la a arrumar-se para ir à escola.

 

Sou uma mulher livre, de trinta e oito anos de idade, pensei. Sou capaz de controlar a situação e não estou fazendo nada de errado. Gosto do homem que está comigo. Gosto muito. É óbvio que ele me lançou um feitiço!

 

- Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer - comentei, enquanto olhávamos a queda dos flocos brancos. - Você e eu, aqui, vendo a neve cair.

 

- Para ser franco, nem eu. Achava que você não me daria a chance de provar que criei juízo, que fiquei adulto e que posso mudar para melhor. Como estou me saindo? Vê algum progresso?

 

- Está indo bem, mas não force a barra - respondi, e nós dois rimos.

 

Encostei a cabeça no ombro dele, apreciando o momento. Meu desejo era apalpar sensualmente os músculos de suas costas. Nunca me imaginara daquele jeito com Will, mas estava me sentindo muito à vontade. Até me permiti admitir que o achava incrivelmente atraente, que adorava seu cheiro limpo e fresco, seus lindos cabelos espessos. Tentei adivinhar o que era que ele apreciava em mim.

 

Will virou a cabeça e me beijou.

 

- Não adulto demais - murmurou. O beijo deixou-me um pouco tonta.

 

Foi decisão minha, escolha minha. Tomei Will pela mão e levei-o ao quarto de hóspedes perto da piscina. Tinha aguda consciência dos dedos dele apertando os meus.

 

Eu arrumara o quarto naquela manhã, pusera roupa limpa na cama, arejara o ambiente. Só por precaução.

 

Acho que fazia tempo que queria que aquilo acontecesse. Não. Eu sei que queria. naquela noite, mais do que nunca.

 

Um trem atravessando uma montanha, correndo por um túnel pitoresco.

 

Outra vez, outra vez, outra vez.

 

Lembranças especiais, que agora me deixam confusa.

 

Como fotografias que não querem revelar toda a verdade, como fotos que sabem mentir.

 

O Land Rover listrado de branco e azul voava pela encosta rochosa, na famosa estância de turismo, em Lãs Veides, onde Will e eu tivemos três dias inacreditáveis, só para nós dois.

 

Nosso motorista mexicano fez uma curva em velocidade tão alta que o Rover quase saiu da estrada estreita. E uma queda nos levaria à baía de Acapulco, trezentos metros abaixo.

 

Eu me agarrava com força a Will, querendo ficar perto dele o mais que pudesse. Percebia os menores detalhes, o modo como eu me encaixava nos contornos de seu corpo, cada pequena cicatriz, imaginando o que a causara, e como a barba loira crescia depressa. Queria saber toda a verdade a respeito da vida de Will, não as histórias exageradas publicadas pela imprensa.

 

- O que acha de irmos nadar, Maggie? - ele perguntou, quando já estávamos em nosso chalé. Havia um pouco de timidez em sua voz, algo que achei adorável. - Vamos explorar o profundo mar azul.

 

Abraçados, nos balançávamos devagarinho, para a frente e para trás, sob o ventilador de teto.

 

- Mais tarde - murmurei. - Estamos sozinhos, e quero aproveitar o momento. Não podemos... simplesmente... não fazer nada?

 

Ele riu.

 

- Tudo bem. Nada de profundo mar azul. O que acha de nadarmos nus, na piscina privativa que o hotel, tão gentilmente, nos oferece?

 

- Essa idéia é melhor. Gostei bastante.

 

Ficamos nos beijando suavemente por um longo tempo, algo que fazíamos sempre.

 

Então, tive um pensamento: estou me perdendo, ou encontrando uma coisa que havia perdido ao longo do caminho?

 

Will fez correr a porta de vidro, que se abria para um terraço espetacular. Tiramos as roupas e ficamos nus, diante da pequena piscina que cintilava, coberta por centenas de estrelas e diamantes feitos de sol. Pintassilgos e papagaios coloridos tagarelavam nas árvores de paubrasil que cresciam por toda a parte. Era o paraíso. Ou parecia ser naquele momento.

 

Através de uma cortina de palmeiras-reais e primaveras, eu via os telhados vermelhos dos outros chalés, mas nenhuma outra piscina privativa. Aquilo me sossegou. Ninguém nos poderia ver também.

 

Com um pulinho, caí na água, puxando Will. Não estávamos sendo tolos, apenas brincávamos como duas crianças.

 

Ele me agarrou pelo braço e puxou-me para si. Já estava com uma ereção. Deslizei as mãos por seu corpo esguio e musculoso, afaguei-lhe as coxas. Ele era sempre carinhoso e gentil, diferente do que eu o julgara.

 

Tornamos a nos beijar.

 

Will ergueu-me nos braços e me guiou até a parede da piscina, de modo que eu pudesse me agarrar à borda. Então, lentamente, lentamente, me penetrou. Fechei os olhos, captando novas sensações, deliciando-me com o calor do sol em meu rosto e com o calor ainda maior que se espalhava dentro de mim.

 

Eu nunca estivera com ninguém igual a Will. Ele me fazia sentir tão especial! Tenho de dizer isso porque é verdade.

 

Há uma imagem muito forte, que não vejo como se encaixa em tudo o que aconteceu, que será sempre um enigma, um lindo, triste e perturbador mistério.

 

Depois que Will e eu retornamos de nossa rápida viagem ao México, passamos um fim de semana prolongado fazendo tudo o que as crianças queriam. Bem, fazendo algumas das coisas que Jennie e Allie queriam fazer. Os dois estavam mais do que entusiasmados, e Will foi maravilhoso com eles.

 

Ficamos um dia em Nova York e brincamos de turistas. Fomos ao World Trade Center, à estátua da Liberdade, a museus e até ao Hard Rock Café. Depois, passamos um dia ainda mais gostoso, em casa, como uma família, vendo se era aquilo que todos nós queríamos.

 

Observei como Jennie e Allie se comportavam com Will, e pude dizer que os dois o adoravam. E estava quase certa de que ele gostava de brincar com as crianças, que tinha capacidade para criá-las do modo certo, como precisava ser, e não do jeito como ele fora criado.

 

Lembro-me de um momento em que o vi com Allie, na tarde daquele dia. A imagem extraordinária não me abandona, ficará para sempre gravada em minha mente.

 

Era um dia lindo, ensolarado, excepcionalmente quente, pois ainda estávamos no início do inverno. Will e Allie montavam um de nossos animais mais mansos, uma égua a quem Jennie dera o nome de Fleas. Cavalgavam através de um campo largo, coberto por capim alto, que parecia verde-mar à luz do sol.

 

Os dois, loiríssimos, usavam as jaquetas abertas, em uma atitude muito máscula. Riam às gargalhadas, porque Fleas andava preguiçosamente, parecendo mover-se em câmera lenta.

 

Will segurava Allie com firmeza, mantendo-o entre os braços, e seu sorriso era radiante. Eu sabia que sua felicidade era genuína e adorei o que vi. Amei o que vi no rosto dos dois. Jennie aproximou-se de mim.

 

- Não são lindos? Parecem pai e filho - comentou. - Oh, mamãe, estou me sentindo tão bem por dentro, tão contente!

 

- Eu também - afirmei, abraçando-a.

 

Will me contava tudo, e eu contava tudo a ele, até que cheguei a acreditar que não havia nenhum segredo entre nós. Uma noite, ele me contou uma história horrível. O pai espancou a mãe, então ela se virou para Will e disse: ”Só a mamãe ama você. Só a mamãe”.

 

Eu nunca me sentira tão próxima dele quanto naquele momento, ouvindo-o falar daquelas coisas. Talvez nunca tenha me sentido tão próxima de ninguém. Tinha certeza de que jamais alguém me revelara tanta dor.

 

- Mas ela me abandonou - disse Will, uma expressão distante no olhar. - Então, não me amava de verdade, não é, Maggie?

 

Era muito meigo, às vezes, e nessas ocasiões eu imaginava como ele fora na infância. Via-o como um menino muito bonito, de grandes olhos verdes.

 

- Você acha que foi culpa sua, ela ter ido embora? - perguntei.

 

- Acho. Mas estou me livrando disso. Não conseguiria sem você, Maggie. Ficar com você, Jennie e Allie me ajudou muito.

 

Peguei a mão dele. Julguei ver com clareza sua dor e seu amor por mim. Era algo muito comovente. Eu me identificava com a triste história de sua família, e talvez, por intermédio de Will, estivesse tentando modificar meu próprio pai violento.

 

- Não vou abandonar você - prometi em um murmúrio. - Nunca.

 

- Quer se casar comigo, Maggie? Prometa que não vai me deixar.

 

Pela manhã, eu disse a Will que me casaria com ele para provar que não o deixaria.

 

Gato e rato, o glorioso jogo do amor.

 

A aspirante a modelo, Cam Matthias, tomou o membro de Will na boca e enrolou a língua a sua volta. Will gemeu e enterrou mais profundamente os dedos nos flutuantes cabelos ruivos.

 

Ele é um animal fabuloso e indomado, pensou Cam. Deve ser o homem mais excitante do mundo. Alguém tem de ser, não tem?

 

- Oh... Cam... que delícia - ele disse em um gemido. - Como você faz gostoso!

 

Estavam naquilo havia horas. Ele era insaciável e a fazia sentir-se igual. Quando ela percebeu, ou pensou que ele iria gozar, soltou-o e deitou-se de costas, pondo seu pênis entre os seios, pressionando-o até que achou que ele não iria mais agüentar. Mas ele agüentou e continuou, como em uma versão distorcida do coelho dos comerciais das pilhas Energizer.

 

A idéia a fez gargalhar, e ele riu com ela.

 

Em seguida, Cam ajoelhou-se de frente para a parede e, pondo as mãos para trás, abriu as nádegas da bunda perfeita.

 

- Não se apresse, querido. Bem, eu nem precisava pedir.

 

Isso foi na véspera do casamento de Will Shepherd.

 

A uma da tarde, três horas antes do ”casamento da década”, vinte e quatro policiais, usando seus uniformes de gala azuis-marinhos e luvas brancas, postaram-se na entrada principal e na de serviço de minha casa, assim como ao longo da Greenbriar. Sua primeira tarefa: tirar da estrada as pessoas de Nova York, Yonkers, até do Tennessee e do Texas, que haviam ido lá na esperança de ver Will e a mim, no dia do nosso casamento.

 

Todas elas ficariam desapontadas. Nenhum de nós dois estava interessado em qualquer tipo de publicidade, no maior dia de nossas vidas. Tampouco depois, na verdade.

 

Por volta de três horas, a Greenbriar já fora fechada ao público pela polícia de Bedford. Ninguém passava por lá, a não ser os que apresentavam um cartão da Cartier, com uma única palavra gravada em prata: ”Convidado”.

 

Eu escolhera um dos cinco quartos voltados para os fundos da propriedade para servir de vestiário, e que também me abrigaria por alguns momentos tranqüilos, antes que a loucura começasse.

 

Jennie, que considerava o dia do meu casamento o mais importante da vida dela, o estilista Oscar Echavarria e dois de seus jovens assistentes estavam todos agitando-se em volta de mim. Allie contentara-se em ficar perto de nossa babá-empregada, a sra. Leigh, e apenas observava o movimento.

 

Eu usava um lindo vestido de cetim cor de creme. Tanto o véu como a cauda eram feitos de renda belga.

 

Um simples fio de pérolas envolvia-me o pescoço. Eu não poderia experimentar felicidade maior. Sentia-me linda, por fora e por dentro. Não apenas Will alcançara a cura, como eu também.

 

- Elegante, adorável, o retrato da perfeição - Echavarria expressou sua aprovação, olhando-me como se ele fosse Leonardo da Vinci, e eu, Mona Lisa.

 

Achei difícil não rir de seu perdoável orgulho.

 

- Você está legal, mamãe - foi o comentário de Jennie.

 

- Deixem-me a sós por alguns minutos - pedi. - Preciso de um pouco de tempo para assimilar tudo isso.

 

- Claro - respondeu Jennie, compenetrada.

 

- C’est ca, todo mundo para fora - ordenou Echavarria, batendo palmas como um professor de balé.

 

Saíram todos, mas eu segurei Jennie, retendo-a por um momento.

 

- Obrigada por me agüentar nessas últimas semanas - agradeci. - Agora, vá ficar bonita. Mas não mais bonita do que a noiva, certo?

 

- Não se preocupe. Isso não seria possível, mesmo que eu quisesse. E não quero.

 

- Amo você - murmurei.

 

- E eu amo você ainda mais, mamãe.

 

- Não poderia.

 

- Mas amo, entendeu? Amo!

 

A lista de convidados parecia um ”quem é quem”. O empresário e amigo de Will, Winnie Lawrence, fora incluído, naturalmente. Assim como Nathan Bailford, Barry, meus amigos de Bedford, minhas irmãs com seus maridos e filhos, músicos, cantores e gente do mundo do futebol. Repórteres e fotógrafos, emissoras de televisão, pessoal da People, da Time... Juro que parecia haver mais estranhos do que conhecidos amigos.

 

Um dos últimos carros a chegar, eu soube depois, foi um cintilante Maserati cor de vinho, dirigido por Peter O’MaIley.

 

De alguma maneira, o filho de Patrick conseguira um convite.

 

A porta do quarto onde eu me encontrava abriu-se de repente, e Will entrou.

 

- Você não devia... - comecei.

 

- Casar tão jovem? - ele completou, sorrindo. Estava lindo, usando um smoking Brioni, preto, e também muito refinado. - Isso é verdade, mas eu não pude resistir a uma mulher bonita como você. Consegue imaginar como senti a sua falta ontem? Acho que posso mostrar.

 

Deu um passo em minha direção.

 

- Não se atreva, Will! Fora! - Comecei a rir. Ele sempre me fazia rir. - Fora, já disse.

 

Ele não se abalou. Tomou-me nos braços e afagou um dos meus seios, gentilmente. Nada muito provocante e, por isso mesmo, excitante.

 

- Você é de encher os olhos - ele murmurou. - E as mãos também.

 

- Will!

 

- Sei que também sou.

 

- Eu te amo. Mas agora, saia.

 

- Chega, chega! Respeito o seu desejo. Deste momento em diante, eu a honrarei e lhe obedecerei.

 

Saiu do quarto cantarolando Always.

 

Sorri, pensando que aquele era o prelúdio perfeito.

 

Um jovem pianista à Juilliard tocou as primeiras notas da Marcha Nupcial, em um crescendo que se espalhou pelo gramado. A música e todo o resto provocaram-me um arrepio na espinha. Eu estava adorando o dia do meu casamento mais do que imaginara.

 

Convidados atrasados eram levados às pressas para seus lugares. Helicópteros de emissoras de rádio e televisão giravam no céu azul, enquanto as câmeras de filmagem trabalhavam sem descanso. Uma multidão de fotógrafos batia fotos dos convidados e do noivo.

 

Por fim, apareci.

 

O buquê de lírios brancos tremia em minhas mãos.

 

Eu estava acostumada a enfrentar multidões, mesmo assim me sentia nervosa. Vi os poucos parentes que me restavam e esbocei um sorriso. Jennie, minha dama-dehonra, esperava com ar solene perto do altar. A sra. Leigh ocupava um lugar na primeira fila, segurando Allie, que tentava escapar de seus braços. Eleanor e Vannie, as tias de Will, também estavam lá. Uma delas parecia uma matrona, e a outra era muito bonita.

 

Will encontrava-se junto das duas, em vez de perto do altar. Não, não era Will, mas Palmer, uma cópia borrada, feita em papel-carbono.

 

Barry levou-me pelo caminho de grama, coberto de pétalas de flores. Seu smoking parecia um pouco amassado, e a flor presa na lapela já pendia, ameaçando cair.

 

- Você está linda. Emana brilho, realmente - cochichou, quando soltou meu braço e virou-se para procurar seu lugar na primeira fila.

 

Ergui os olhos para o altar branco, decorado com rosas brancas e cor-de-rosa. Um pouco exagerado, mas bonito. Will estava ao lado do padrinho, Winnie Lawrence, e sorria para mim.

 

Nem por um segundo pensei em voltar atrás.

 

- E agora, declaro-os marido e mulher - o ministro recitou.

 

Will ergueu meu véu e me beijou delicadamente. Senti-lhe o corpo por baixo do smoking. Eu sempre achava isso muito bom. Os convidados aplaudiram. Flashes espoucaram por todo o gramado, parecendo luminosas margaridas amarelas. Helicópteros sobrevoavam a casa. Que cena inesquecível!

 

Empertigados, comicamente corretos, os garçons do Day Dean emergiram dos fundos da casa com bandejas de prata cheias de taças de champanhe. Outros circulavam, oferecendo mariscos e caviar, canapés de carne de caranguejo, sanduíches minúsculos, queijos, frutas, patês. Uma grande orquestra, regida por Harry Connick Jr., começou a tocar em um palco armado na entrada de uma gigantesca tenda listrada de amarelo e branco, onde mais tarde seria o baile.

 

Talvez o casamento não fosse o acontecimento da década, mas a festa era. Sorri, inundada de carinho e alegria, pronta para participar.

 

A enorme tenda listrada sombreava uma extensa parte da propriedade, indo da casa até o lago. Lá dentro, bandos de crianças corriam entre as mesas de jantar, cobertas por toalhas amarelas de linho com arranjos centrais formados por cestinhos de vime cheios de flores em tons de amarelo.

 

A orquestra tocava valsas de Strauss e músicas variadas, que iam de Carly Simon a Patsy Cline.

 

O jantar foi servido à francesa, com todos os convidados sentados, e, um pouco antes da sobremesa, Barry levantou-se e cantou Luz de Minha Vida, de sua autoria. Foi aplaudido de pé por todos, até por mim e Will.

 

Então, meu amigo Harry Connick pediu a palavra, sua voz alteando-se acima do contínuo murmúrio da multidão.

 

- A noiva, agora, vai cortar o bolo. Maggie, levante o bumbum da cadeira. Venha cá, menina tímida. É hora de tornar-se o centro das atenções novamente.

 

Garçons entraram, carregando três bolos imensos. No topo de cada um deles, havia um boneco e uma boneca de marzipã, ele com uniforme de futebol, ela reclinada em um piano.

 

Will e eu colocamos pedaços de bolo na boca um do outro. Flashes explodiram. Provavelmente, a cena faria a capa da People, da Paris Match e de outras revistas ridículas.

 

Após o jantar, as mesas foram removidas rapidamente. A orquestra voltou a tocar. Will e eu dançamos a primeira valsa, um arranjo de Brilho das Estrelas, uma de minhas músicas. A seguir, os convidados juntaram-se a nós.

 

Eu estava dançando com Barry, quando Peter O’Malley me tirou dele, levando-me para um lado.

 

- Está contente, agora? - perguntou Peter, com a voz arrastada de quem já bebera muito.

 

Seu rosto estava acinzentado, como o do pai na hora da morte. Fisicamente, era uma caricatura de Patrick. Tinha feições parecidas, mas olhos miúdos, e era cerca de vinte quilos mais gordo.

 

- Solte-me - pedi. - Por favor, Peter.

 

Ele segurava meu braço com tanta força, que eu sentia suas unhas enterrando-se em minha carne. Parecia louco.

 

- Sua puta barata! Pense em quanto me magoou. Você teve meu pai, depois ficou com a casa dele, o dinheiro dele e a morte dele em suas mãos. E agora arrumou um novo marido, um bonitão.

 

Tentei livrar-me, mas não consegui. Peter não me soltava.

 

- A morte dele em minhas mãos? - repeti o mais baixo que pude. - O que quer dizer com isso?

 

- Você sabe muito bem o que quero dizer com isso, porra! - ele gritou no meu rosto.

 

- Acha que matei seu pai?

 

- Acho que a morte dele foi muito conveniente para você. Vamos deixar que as pessoas tirem suas próprias conclusões. Eu tirei a minha, que é igual à de muita gente.

 

- Ele teve um infarto, Peter. Por favor, vá embora. Você está bêbado.

 

- Um infarto, mas induzido por quem? O que fez com meu pai, Maggie? Obrigou-o a foder com você até o coração dele arrebentar?

 

Arranquei meu braço da mão dele e esbofeteei-o com toda a força. Um tapa de mão aberta. Um grito de alerta.

 

Os olhos escuros de Peter brilharam selvagemente em suas frestas estreitas.

 

- Cadela! - ele me xingou. - Você não passa de uma puta! Talvez, então, esteja acostumada a levar isto na cara!

 

Ergueu o copo de cristal que segurava, e o vinho tinto atingiu meu rosto, cegando-me momentaneamente.

 

- E Shepherd não passa de um garanhão safado. Todo mundo sabe disso.

 

Ouvi o urro de raiva de Will, mas não vi quando ele se atirou sobre Peter, jogando-o no chão, caindo por cima dele e socando-o sem parar.

 

Winnie Lawrence conseguiu puxá-lo para cima, separando os dois corpos entrelaçados no chão, como um juiz de boxe.

 

- Maggie! Oh, meu Deus! - Will gritou. - Você está bem?

 

Peter levantou-se com dificuldade. Seu rosto estava coberto de sangue, e um olho inchara, fechando-se parcialmente.

 

- Você ficou com o dinheiro de meu pai! Com os hotéis! Com tudo! Ele era meu pai, e você o matou! - acusou aos gritos.

 

Os seguranças levaram-no para fora da tenda, e ele foi sem protestar, fraco demais para reagir.

 

Eu já imaginava as manchetes dos jornais do dia seguinte. Droga!

 

Will abraçou-me e delicadamente limpou meu rosto com seu lenço.

 

- Oh, Maggie, sinto muito! Mas esqueça Peter CJMalley. Estamos começando uma nova vida juntos. Eu te amo.

 

- Também te amo - murmurei. E realmente amava.

 

- Will, é você? O velho casado? O solteirão derrubado?

 

- Ele mesmo, Winnie. Quais são as boas notícias vindas da costa oeste? vou ser ator, ou não?

 

- Você não vai acreditar, mas Michael Caputo disse que sim. Ele adora a sua bunda... e o seu cérebro. Acha que você é um ator nato.

 

”A Excitação” voltou para Will em uma corrida exultante. Ele saltou da poltrona com um grito de alegria, embora não houvesse ninguém em casa para ouvi-lo.

 

- Conte tudo, cara - pediu.

 

- Bem, para começar, você terá o papel principal em Primrose. Isso mesmo, o papel principal. O nome do personagem é North Downing, mas, a despeito disso, o roteiro é legal. Mais importante: o filme será um grande sucesso de bilheteria.

Primrose era o best-seller número um em todo o país e fazia mais de dois anos que ocupava o primeiro lugar da lista do Times. Era a história de um amor apaixonado, que se desenrolava no início do século. Michael Lenox Caputo era o diretor-produtor que comprara os direitos, pagando uma pequena fortuna. Imitando o que Selznick fizera com ... E o Vento Levou, ele instituíra um concurso nacional, em busca de um ator desconhecido para o principal papel masculino.

 

O sucesso de bilheteria já era algo garantido graças à fenomenal popularidade do romance e também à estrela Suzanne Purcell, uma atriz turbulenta, cujo fogo na tela, diziam, era igual ao que ela mostrava na vida real.

 

- Beleza, Winnie! Eu achava que não teríamos chance. Talvez eu seja ator, afinal.

 

- É mesmo! E conseguiu tudo sozinho, Will. Sabe representar, e a sua aparência é espetacular na tela. Caputo viu isso imediatamente. Até o chato do autor do romance gostou de você.

 

- Tudo bem, mas se você não tivesse me incentivado, eu nunca teria tido coragem de fazer um teste com o grande Caputo. Quando começam as filmagens? Onde? Estou pegando fogo de tão entusiasmado.

 

- Na Austrália, e vão começar logo.

 

- Na Austrália? Por quê? A história não se passa nos Estados Unidos?

 

- Quando aqui é verão, na Austrália é inverno - respondeu Winnie, como se aquilo explicasse tudo.

 

- E daí?

 

- Daí... bem-vindo a Hollywood!

 

Eram cinco e meia da manhã nas suaves e ondulantes campinas de Perth. O elenco de Primrose já se encontrava reunido, com exceção de Suzanne Purcell, que não apareceria na primeira cena e faria sua entrada em seu próprio estilo, no momento escolhido por ela. Afinal, era a estrela.

 

Cena um, tomada um. Cameraman, Nestor Keresty. Diretor, Michael Lenox Caputo. Todos nutriam grandes esperanças em relação ao filme que, em um total mundial, deveria render quatrocentos milhões de dólares. O livro continuava em primeiro lugar.

 

Will, Caputo e diversos técnicos estavam amontoados no trailer mal aquecido que era o alojamento de Will e também seu camarim. Esperavam que o gênio temperamental, Nestor Keresty, acertasse a iluminação, ajustando as luzes principais, fronteiras e traseiras, de modo a obter a claridade de um início de manhã em uma fazenda do Texas. Arte pura, de fato.

 

Na primeira cena do filme, North Downing ajudava uma egüinha a nascer, à luz de lampiões, em um celeiro meio arruinado. A cena encantara milhões de leitores do livro. North Downing era o ”último cowboy americano”, marido e amante sensível.

 

- Quero que você me prometa uma coisa - disse Will, puxando Caputo para um lado. - Uma coisa muito séria, Michael, uma promessa que vou cobrar de você.

 

O diretor franziu a testa. Muitos atores já o haviam forçado a fazer promessas, algumas muito esquisitas, mas aquele garoto era apenas um novato. No entanto, um novato alto e forte, cujo temperamento explosivo era bastante comentado.

 

- Pode falar, seja lá o que for, Will.

 

- Quero que você arranque o máximo de mim, quando estivermos filmando. Quando eu carregar a potrinha, quero que seja algo dramático, que eu aparente estar fazendo tanto esforço físico quanto a égua fez, sofrendo também. Resumindo, quero que você me transforme num ator.

 

Caputo sorriu, e então, tentando não dar uma gargalhada, mordeu o lábio com força. Nunca ninguém lhe pedira tal coisa.

 

- Não acha suficiente ser bonito?

 

- Não, de jeito nenhum. Por Deus, torn Cruise também é!

 

- E é só isso que os espectadores vêem, Will. Acredite em mim. Hoje em dia, o que importa é a aparência física.

 

- Estou pouco ligando para os espectadores - declarou Will. - Nunca liguei. No futebol, fui o melhor. Agora, quero ser o melhor no cinema. E serei. Pode contar com isso.

 

Michael Caputo encarou-o, atônito com aquele desejo absurdo e ingênuo.

 

Will Shepherd parece um garoto, não um adulto, pensou.

 

- Farei o que puder para ajudá-lo - afirmou.

 

- E tudo o que peço. O resto, farei sozinho. E você terá de engolir o sorriso condescendente que vi em seu rosto, um minuto atrás.

 

- Engolirei com prazer - Caputo assegurou, tornando a sorrir.

 

Na verdade, gostava de Will e queria que ele se saísse bem.

 

A primeira cena exigia que North Downing ajudasse a égua a parir e depois carregasse a cria através do pátio, levando-a para sua jovem esposa, Ellie. Naquela manhã, filmariam apenas a seqüência do parto e da caminhada de North carregando a potrinha. Mais tarde, fariam a outra, em que o animal era apresentado a Ellie.

 

Fizeram vinte e duas tomadas, antes que a primeira cena fosse considerada satisfatória. Will mostrou-se desajeitado, no começo, apesar dos numerosos ensaios. Concentrava-se mais nas instruções de Caputo do que em aparentar a sutil emoção exigida pela cena, que tinha a possibilidade de tornar-se sentimental demais.

 

Caputo forçava-o sem piedade, tentando extrair um sentimento real, e Will suava tanto que precisava de nova maquilagem após cada tomada. Acertaram na vigésima primeira tentativa. A cena saiu perfeita.

 

- Mais uma vez - ordenou Caputo. - Só para ter certeza.

 

Will abaixou-se junto da égua, puxou a cria para fora com um gemido de satisfação e, sorrindo, ergueu-a nos braços amorosamente. Cambaleante, saiu do celeiro, atravessou o pátio gelado e entrou por uma porta do cenário que simulava a fachada da casa dos Downing.

 

Parou. Sorriu. Então, começou a rir. Aquilo era o máximo! Era a melhor coisa do mundo!

 

Havia uma mulher parada atrás da fachada, fora do alcance das câmeras. Quando Will entrou, carregando a potrinha, ela abriu a blusa bruscamente, mostrando os seios.

 

Ele quase deixou o animalzinho cair. Os olhos da mulher exibiam uma expressão de incrível divertimento, um convite explícito.

 

Maggie nunca me perdoará, ele pensou. Se eu foder essa mulher, estarei fodendo a mim. Isso arruinará minha carreira.

 

Mas não podia parar de olhar para ela. Era linda. De tirar o fôlego. E ele já vira muitas beldades famosas para saber julgar.

 

- Seja bem-vindo a Primrose - disse Suzanne Purcell.

 

Só pude passar uma semana com Will, na Austrália. Barry ficou implorando para que eu terminasse o novo disco, e, por fim, concordei em voltar e trabalhar.

 

Quando meu carro parou diante do número 311 da Broadway, lembrei-me da manhã gelada de anos antes, quando fora ao escritório de Barry pela primeira vez.

 

Veja como você foi longe, disse a mim mesma, sorrindo. Uma cantora-compositora de sucesso, feliz no casamento, e que de vez em quando fica louca por sexo. Nada mau. Não sou mais a Maggie assustada e insegura que veio pedir emprego a Barry.

 

Quando entrei, Barry saiu de sua sala para ir me cumprimentar. E me trouxe café!

 

- Vamos ao estúdio, no outro lado da rua. Fiz alguns arranjos para o disco Apenas Algumas Canções. Vai adorar.

 

- Barry, tenho duas músicas novas que fiz na Austrália.

 

- Depois você me mostra. Primeiro, os arranjos. Está em ótima forma, Maggie. Ainda emana brilho. O casamento continua lhe fazendo bem, isso é óbvio.

 

- Sou feliz, Barry. Realmente feliz - confidenciei. Claro, ele jamais admitiria que se enganara a respeito

 

de Will. Na verdade, nunca admitia um erro em nenhuma questão.

 

No estúdio, nós dois só nos ocupamos com trabalho, como de costume. Nada mudara entre nós. Gostávamos de trabalhar e também da companhia um do outro. O desafio mais forte era fazer com que cada disco, isto é, cada canção de cada disco, ficasse sempre diferente e melhor. Nem sempre conseguíamos, mas tentávamos com toda a nossa energia.

 

No trabalho desenvolveu-se extremamente bem naquele dia. Os arranjos de Barry me agradaram. Isso acontecia quase sempre, mas eu ficara muito mais crítica desde que nos víramos pela primeira vez. Ele amou uma de minhas novas canções e gostou da outra. O disco iria ser muito bom.

 

No meio da tarde demos o trabalho por terminado, e decidi fazer compras. Uma recompensa. Uma extravagância. Depois, iria para casa. Naquela noite, quem faria o jantar seria eu. Então, assistiríamos a Forrest Gump1 em fita de vídeo. Já víramos o filme seis vezes. Talvez eu preparasse camarões à Bubba para o jantar, o que faria Jennie rir.

 

Encontrei um enfeite que eu queria, na Bergdorf Goodman, e saí da loja um pouco depois das três e meia. A Fifth Avenue estava apinhada de táxis, ônibus e pedestres. Não vi meu carro nem meu motorista imediatamente.

 

Então, começou a encrenca.

 

Uma câmera de televisão emergiu da multidão como um periscópio de submarino. Dois jovens gorilas barbados, da Fox News, abriam caminho em minha direção. Feios. Verdadeiros homens de Neanderthal.

 

- Maggie! Maggie Bradford! - um deles gritou. Em uma reação instintiva, fugi, procurando meu carro

 

desesperadamente.

 

- Maggie! Aqui! É verdade que você e Will tiveram problemas na Austrália? Foi por isso que você voltou?

 

Ouvi o ruído da câmera em funcionamento. Pedestres pararam para nos observar.

 

No Brasil, o filme recebeu o titulo de Forrest Gump - O Contador de Historias (N do E)

 

Oh, maldito pessoal da televisão!, pensei. Por que vocês não vivem sua vida e me deixam viver a minha?

 

- Não - respondi secamente.

 

- Parece que ele ficou muito íntimo de Suzanne Purcell. Pelo menos, é o que estão dizendo. Percebeu alguma coisa?

 

Meu estômago contraiu-se.

 

- Não.

 

Will e eu sabíamos que haveria falatórios sobre ele e Suzanne. E que, se isso não acontecesse, o estúdio se encarregaria de provocá-los.

 

- Então, não viu a foto?

 

- Não. Mais nada a comentar. Até logo. Desejo a vocês dois uma boa troca de fofocas.

 

Eu não conseguia abrir caminho no meio da multidão e me afastar deles. Onde estava o carro, pelo amor de Deus?

 

- A fotografia, Maggie. - Um homenzinho calvo, do Channel Five, estava enfiando um microfone em minha cara. - Apareceu em todos os jornais. Will e Suzanne juntinhos. Você não viu?

 

Empurrei-o para o lado, jogando-o em cima do cameraman. Vi meu carro, finalmente, corri, entrei e bati a porta.

 

Foi só quando rodávamos entre os bosques verdes perto de minha casa, que comecei a relaxar. A audácia daqueles miseráveis insensíveis! Não era a primeira vez que eu entrava em atrito com repórteres. Já acontecera em Roma e em Los Angeles.

 

O que aconteceu com o direito à privacidade?, perguntei a mim mesma. Quem esses sujeitos pensam que são?

 

Desejei que Will estivesse comigo, ali no carro.

 

Oh, Will, esqueça isso de ser um astro de cinema. Vamos desaparecer e ser dois anônimos pelo resto de nossas vidas.

 

Will e Suzanne. A foto. Seria verdade? Não, eu não acreditava. E não iria acreditar. Conhecia Will. Tinha certeza disso. A foto não passava de um golpe sensacionalista de algum paparazzo. Não seria o primeiro, nem o último.

 

Afastei esses pensamentos de minha mente. Mas eles voltaram quando me deitei naquela noite. Fiquei acordada até duas ou três horas da madrugada.

 

Will e Suzanne Purcell.

 

Não!

 

Que os paparazzi se danassem!

 

Não havia nenhum paparazzo para testemunhar aquele momento.

 

CENA: Banheiro de Ellie. Linda claridade da manhã em toda parte. Ellie está em uma banheira de latão, coberta por flocos de espuma. De vez em quando afasta-os, a fim de olhar para a barriga. North entra, parecendo preocupado.

 

CORTE PARA: Reação de Ellie. Ela olha para o marido, acanhada. North ajoelha-se ao lado da banheira. Não é como a maioria dos homens. Compreende o modo de pensar de sua esposa.

 

North: Por que está me evitando, Ellie? Desde que o bebê nasceu, você nem me deixa chegar perto. Não foi isso que planejamos.

 

Em italiano fotorreporter àesoeiahte (N do E.)

 

Ellie: Porque não estou bonita. (Começa a chorar.) Nunca mais vou ser bonita. O bebê estragou o meu corpo. Me transformou numa velha.

 

North: Uma mulher de dezenove anos não é velha. E você está bonita como sempre foi. Continua sendo minha linda esposa. (Começa a afastar os flocos de espuma.) Você é Ellie, e isso nunca mudará.

 

Ellie: Não! Por favor... oh, North, por favor!

 

North: Fique quietinha. (Afasta os flocos, revelando os seios dela.) Viu como é bonita? E tão linda que quase não agüento olhar para você.

 

Ellie: Estou inchada, parecendo uma leitoa. Tudo me dói, e me sinto velha, mesmo não sendo.

 

North: (Pegando uma luva de banho e ternamente acariciando-a com ela, a mão escondida pela espuma, quando sobe em direção aos seios.) Não está velha aqui, nem aqui, muito menos aqui.

 

CORTE PARA: Reação de Ellie. Ela fica obviamente excitada. Sorri, e seu sorriso é lindo. Ellie é tão bonita quanto North afirma.

 

North: (Continuando com suas carícias.) Minha linda. Minha Ellie.

 

Ellie: (Respirando de modo ofegante.) Ainda sou?

 

North: Claro que é. Sempre será. Eu já disse, e isso nunca mudará. Nem quando você ficar velha.

 

CLOSE up: Ellie e North beijam-se, cada vez com mais paixão. De repente, o banheiro fica cheio de vapor espesso.

 

CÂMERA: Vira-se para baixo, para focalizar a água da banheira, movimentada pela mão de North, cada vez mais agitada

 

- Corte1 - A voz de Michael Caputo rasgou o silêncio da cena. - Grande tomada! Podem parar. Preciso ir me masturbar!

 

Entretanto, Will e Suzanne não pararam. Os técnicos deixaram as câmeras funcionando, e logo teriam um filme que poderiam vender a algum show sensacionalista de televisão.

 

Will e Suzanne pareciam não notar nada do que acontecia a sua volta. Ela saíra da banheira, nua, sem nenhuma vergonha, e estava rindo, puxando o cinto dele. Will levantou-a nos braços e, com a boca sobre a dela, em um beijo que ninguém veria em Pnmrose, levou-a para o seu trailer. Entraram, e ele fechou a porta com o pé.

 

O lobisomem de Perth.

 

- O que vai acontecer agora? - perguntou Will. As filmagens de Pnmrose haviam terminado, só faltando editar e copiar o filme.

 

Ele estava andando com Suzanne pela campina empoeirada. Não pretendera envolver-se com ela, mas, como dizem, ”acidentes acontecem”. Suzanne era, de fato, uma das mulheres mais bonitas do mundo, e Will sempre gostara de ter o melhor.

 

- Eu volto para a Califórnia, e você volta a ser o sr. Maggie Bradford - ela respondeu.

 

Will pestanejou, aborrecido. As palavras o haviam machucado.

 

- E sobre o que aconteceu aqui, entre nós?

 

- Nós nos divertimos bastante, não é? Você é bom, Will. Um dos melhores.

 

- Um dos? - Ele soltou uma risada escarnecedora. - Além de linda, você é muito engraçada.

 

Suzanne também riu.

 

- Sou. Tenho miolos, Will. Oh, meu querido! Já tive os melhores: atores, atletas, campeões de esqui. Mas você é muito bom. Não precisa se preocupar.

 

Ele pressentiu a chegada de antigos demônios. Arrancados de seu sono, eles começaram a subir da boca de seu estômago para o cérebro, cravando-lhe as garras. Como ele odiava perder! Não suportava o fracasso!

 

- O filme vai me transformar num astro - ele disse, lutando para manter a voz calma. - Então, não serei mais o ”sr. Maggie Bradford”.

 

- Fui eu quem o transformou num astro - Suzanne Purcell declarou. - Não esqueça isso. Mas não deve deixar esse negócio louco afetar você. Pode afetar, sabia?

 

Acabe com ela. Mas não agora. Vá com calma, Will. Vá devagar. Aprendeu uma grande lição no Rio.

 

Ele ficou em silêncio. Pouco depois, voltaram para o hotel.

 

- Uma última vez? - Will propôs. Suzanne riu, estendendo-lhe a mão.

 

- Ah, agora você entendeu o espírito da coisa. No seu quarto ou no meu?

 

- No seu. Vamos brincar com os seus brinquedos.

 

Suzanne Purcell não tinha idéia de como afundara naquele horror. Sentia-se como se estivesse tendo uma experiência extracorporal.

 

No momento em que entrara no quarto, Will a golpeara por trás. Não que ela pudesse dizer o que acontecera primeiro. Sentira uma pancada forte entre as omoplatas. Então, o felpudo carpete azul parecera subir de encontro a seu rosto. Ela batera no chão e desmaiara.

 

E acordara daquele jeito!

 

Ele a amarrara com as cordas de pular, que ela usava para fazer exercícios. Amordaçara-a com o sutiã que ela estivera usando e mais uma corda.

 

E a colocara na banheira.

 

Foi então que as coisas começaram a ficar ruins. Inacreditavelmente ruins. Ele cortou os dois pulsos dela e ficou observando o sangue escorrer pela banheira e descer pelo ralo.

 

Ficou sentado, vendo-a sangrar!

 

Suzanne debatia-se, tentando livrar-se das cordas, e soltava sons estranhos, abafados. Tentava gritar, mas a mordaça era apertada demais. Por fim, decidiu implorar, usando os olhos.

 

- Ora, vejam - ele finalmente disse. - Você quer falar. Talvez queira retirar os comentários desagradáveis que fez lá fora. Estou certo, Suzy? Como vê, também tenho miolos.

 

Ela concordou, movendo a cabeça o melhor que podia. Estava perdendo muito sangue, começando a ficar tonta, como se fosse desmaiar.

 

- Sei que não é um suicídio autêntico, mas parece. E, de qualquer maneira, ver uma pessoa morrer é fascinante. Você nem imagina. Estou assombrado, observando os seus olhos neste momento. Mil pensamentos passam pela sua mente, certo? Você não consegue acreditar que a grande Suzanne Purcell está morrendo. É algo louco demais, certo? Sua vida não pode acabar assim, certo? Tudo isso aparece nos seus olhos, Suzanne. É fantástico!

 

De repente, Will parou de falar.

 

Ficou apenas olhando-a, vendo-a esvair-se em sangue. Parecia mesmo um suicídio. Como o do pai.

 

Quando Michael Caputo foi ao hotel de Suzanne, na manhã seguinte, tinha a intenção de despedir-se dela e desejar-lhe uma boa viagem de volta para casa. E a esperança de que, talvez, tivesse sorte.

 

Suzanne não atendeu o telefone. E não respondeu, quando ele bateu na porta.

 

Por fim, ele decidiu chamar o gerente.

 

Drogas, pensou. Que inferno! Por que quase todas as mulheres bonitas tinham de ser malucas?

 

Encontrou Suzanne nua e com os pulsos cortados, inconsciente, mas ainda viva. Estava algemada na cama. Levaria seis meses, para que ela pudesse trabalhar em outro filme. E os dose-ups nunca mais seriam os mesmos.

 

Suzanne jurou a Caputo, e depois à polícia, que não fora Will que fizera aquilo com ela. Recusou-se a dizer qualquer outra coisa. Recusou-se a denunciar o agressor.

 

Não disse mais nada a ninguém.

 

Will a deixara completamente apavorada. E ela sabia que ele era capaz de matar, de fazer qualquer coisa.

 

                                                        O LADO ESCURO DA LUA

 

Não sou assassina.

 

Nunca matei ninguém.

 

Pelo menos, fora isso que eu começara a repetir para mim mesma sem parar.

 

Quando chegamos à porta do tribunal, todos os olhares estavam voltados para mim, e fiquei sem poder respirar. Achei que estava enlouquecendo. Talvez esteja.

 

Policiais da prisão, assim como minha fiel equipe de advogados, me rodearam, aprisionando-me em um cerco que provocava claustrofobia. Lembrei-me de como me sentira no espaço exíguo sob o alpendre da casa em West Point. Todas as histórias de horror pareciam estar se reunindo em minha mente.

 

Chovia a cântaros, e centenas de pessoas, a maioria carregando guarda-chuvas pretos, embora houvesse alguns azuis e vermelhos, tinham se aglomerado diante do prédio para ver, nem que fosse de relance, a assassina famosa.

 

O que acabava comigo era saber que meus filhos também me veriam daquele jeito, algemada, exibindo meu A escarlate.

 

Entramos e subimos a escada para chegar à sala onde o juiz André w Sussman nos esperava. Era um homem alto, com mais ou menos um metro e noventa e cinco de altura, barba grisalha e espessa, que ele deixara crescer desordenadamente. Devia ter seus quarenta e cinco anos e lembrava um rabino. Bom sinal. Devia ser justo.

 

E tudo o que eu queria era que me julgassem com justiça. Ao estilo americano, certo?

 

O juiz Sussman segurava a pasta preta, de aparência solene, que continha a acusação de assassinato contra mim. Meus advogados tinham me dito o que esperar, mas eu nunca me acostumaria com aquelas coisas.

 

O que estou fazendo aqui, em nome de Deus? Como isso pode estar acontecendo comigo?

 

Eu não era a vilã, mas a vítima. Como podia estar sendo julgada por homicídio?

 

Os representantes da imprensa que cobririam o julgamento já se encontravam na sala. Vários desenhistas, não apenas um, estavam a postos, prontos para desenhar versões da minha aparência naquele dia. Que coisa mais artística!

 

Fiquei de pé, diante do banco, ao lado de Nathan Bailford, chefe da minha equipe de advogados. Aquilo não podia estar acontecendo. Nada parecia real.

 

- Bom dia - o juiz cumprimentou em tom educado, como se eu estivesse ali para pagar uma multa por ter estacionado em local proibido.

 

Ou violado a lei municipal de Bedford, que obrigava os moradores a manter a grama das calçadas aparada, ao longo do meio-fio.

 

- Bom dia, meritíssimo.

 

Fiquei surpresa por ser capaz de falar com firmeza, de pronunciar as palavras, de ser educada também.

 

O juiz ergueu a pasta preta para que eu pudesse vê-la.

 

- Sra. Bradford, tenho aqui a acusação enviada pelo grande júri. Já a leu? - perguntou.

 

Falava com simplicidade, como se eu fosse uma criança acusada de ter cometido um erro grave.

 

- Já li, sim, meritíssimo.

 

- Teve tempo de discuti-la com o dr. Bailford e os outros advogados?

 

- Sim, nós a discutimos.

 

- Compreende a acusação que é feita contra a senhora? Compreende que está sendo acusada de ter assassinado seu marido, Will Shepherd?

 

- Li o documento. Compreendo que sou acusada de homicídio.

 

Ele aprovou com um gesto de cabeça, como se eu fosse uma boa aluna, ou, no caso, uma boa ré.

 

- Confessa-se culpada, ou alega inocência? Olhei-o nos olhos. Sabia que isso não fazia diferença,

 

mas tive necessidade de agir assim. Não sou culpada declarei. Sou 66 inocente.

Nova York. Central Park. Fazia quase um ano que eu me casara com Will.

 

- Maggie, você consegue ver alguma coisa? Eu não vejo nada. árvores demais neste parque desgraçado - ele reclamou.

 

Estávamos, com Jennie, acomodados na penumbra da limusine. Will acendeu um cigarro nervosamente, e a luz do fósforo, azul e dourada, iluminou-lhe o rosto. Então, passou a mão nervosamente pelos cabelos loiros e cacheados.

 

Como ele está pálido, pensei. Cansado. Amedrontado. Revive novamente a Copa do Mundo. Precisa provar alguma coisa, esta noite. Bem, acho que posso compreender isso.

 

- O que estão fazendo lá na frente, no começo desta maldita fila interminável? - perguntou.

 

- Não consigo ver - respondi. - Suponho que estejam tirando pedestres do caminho.

 

- Viu? O seu filme já está fazendo sucesso - Jennie comentou, querendo animá-lo.

 

A limusine estava parada, o motor desligado, no Columbus Circle, uma das entradas do parque. Era o quinto veículo na fila de Rolls-Royce e Lincoln que levavam autoridades, o produtor/diretor do filme e os atores.

 

Por fim, os carros começaram a mover-se, descendo para o lado sul do parque. Logo, passávamos pela Seventh Avenue e atravessávamos a Fifty-fourth Street, em direção ao cinema Ziegfeld, onde aconteceria a estréia mundial de Primrose.

 

O nervosismo de Will aumentava a cada minuto. Notei que sua mão estava suada, quando a segurei em um gesto de conforto. Assim que acabou de fumar, acendeu outro cigarro. Não fumava muito, mas naquela noite parecia não poder parar. Estava descontrolado.

 

- Vai dar tudo certo - afirmei.

 

- Tudo certo?! Dentro de quinze minutos, os críticos vão me ver na tela, com nove metros de altura, em total evidência, dizendo: Amanhecer é um lindo nome para a sua egüinha, Ellie. Cuide dela, garota, como cuidaria de um filho. É só uma história, Will. E é o que as pessoas querem, para escapar da vida real por algum tempo.

 

- Os críticos de Nova York, não. Eles vão perceber que o filme é uma merda, que eu sou um canastrão, e aí... puf! Lá se foi minha curta carreira de ator.

 

- De jeito nenhum! - protestou Jennie.

 

- De todos os jeitos - Will replicou, finalmente brincando.

 

A limusine parou. Dedos gordos e peludos começaram a bater na janela. Reconheci o rosto gordo e peludo colado no vidro e soltei a trava da porta.

 

- Parece que não é só você que está nervoso - cochichei.

 

- Caputo! - Will exclamou, sorrindo, quando o diretor entrou e apertou o corpo volumoso no assento.

 

- Vão nos apedrejar - Caputo declarou em tom lamentoso. - Eu sei que vão. O meu instinto nunca falha. Sou do Brooklyn, e quem vem de lá tem o instinto aguçado.

 

Ele estava tão comicamente infeliz, que tive de rir.

 

- O público espera muito desse filme - observou Caputo. - E é só o que pode fazer, sabendo que custou cinqüenta milhões. Mas Will e eu sabemos que vão ver merda. Merda australiana, ainda por cima.

 

Will riu do humor sombrio do diretor, embora o seu não estivesse melhor.

 

- Onde está sua esposa? - perguntei. - Parece que ela teve tanto sucesso quanto eu, tentando acalmar o marido.

 

- Eleanor está no carro aí da frente, com minha santa mãe. Nenhuma das duas consegue me agüentar, quando fico assim. Chutaram-me para fora do meu próprio carro! Por isso eu vim para o seu. Alguém tem que me levar até o cinema!

 

Abri a porta da limusine e desci, puxando Jennie.

 

- Aonde você vai? - perguntou Will.

 

- Para o carro de Michael, ficar com a mãe dele e Eleanor. Vocês, artistas, merecem ficar sozinhos.

 

Eu e Jennie voltamos para junto de Will quando chegamos ao cinema. Passamos sob os fachos dos holofotes, pela multidão que gritava, pelos repórteres, pelos executivos do estúdio e, finalmente, nos sentamos nos lugares de honra.

 

Jennie e eu nunca havíamos comparecido a uma estréia mundial. Era realmente algo divertido. Todo mundo parecia vestido de modo inadequado, suntuoso demais. Os homens usavam smokings ou ternos escuros, e as mulheres, vestidos de noite... para assistir a um filme!

 

Após mais ou menos quinze minutos de espera, o filme começou, os letreiros rodando na tela. WILL SHEPHERD. Lá estava o nome dele, tão grande quanto o de Suzanne Purcell. Mesmo antes de aparecer o título, a platéia aplaudiu, e ouvi Will gemer, mas não poderia dizer se fora de prazer ou de medo.

 

Logo no início, fui envolvida pelo encanto das imagens. Nestor Keresty descobrira beleza em uma paisagem do ”oeste americano” onde eu não vira nada, e sua arte estava viva na tela.

 

Will, ou melhor, North, pegou a egüinha recém-nascida e levou-a para sua jovem esposa. Notei, com satisfação, que Suzanne Purcell parecia mais perto dos trinta do que dos dezenove. Will, então, recitou sua fala, aquela que lhe causara tanta apreensão.

 

A platéia ficou em silêncio. Não se ouviu nenhum riso, nem mesmo abafado.

 

Will, então, relaxou, ajeitando-se na poltrona a meu lado. Jennie olhou para ele, erguendo os polegares.

 

- Viu? - cochichou. - Eu não disse? O filme tinha pouco mais de duas horas de duração.

 

Era ágil, bonito, sentimental e romântico. Eu estava gostando, até que North aproximou-se de Ellie, na banheira, e começou a lavá-la.

 

Will olhava para Suzanne do mesmo modo que olhava para mim, quando fazíamos amor. Não parecia que os dois estavam apenas representando. Havia desejo nos olhos de Will, luxúria. A mão dele ficou escondida sob os flocos de espuma, mas percebi o que ele estava realmente fazendo, só pelo jeito como movia o braço.

 

Senti um aperto no coração. Falta de ar. Precisei ficar muito ereta em minha poltrona.

 

Eles dormiram juntos, pensei.

 

Uma dor surda espalhou-se por todo meu corpo. Lembrei-me dos rumores publicados pela imprensa e de como Will negara tudo.

 

Foram amantes também na vida real. Oh, por favor, que isso seja mentira!

 

Forcei-me a olhar para Will. Ele mantinha os olhos fixos na tela, a boca entreaberta, revivendo a situação!

 

Quando a cena de amor, que me pareceu interminável, acabou, Will inclinou-se para mim e beijou-me no rosto.

 

- Eu estava representando, Maggie - afirmou baixinho. - Sei o que está pensando, mas não é nada disso. Talvez eu seja mesmo ator.

 

Suspirei, respirei fundo, começando a me sentir um pouco melhor. Sim, talvez Will fosse um bom ator, afinal.

 

A festa para comemorar a estréia de Primrose foi no andar de cima do Russian Tea Room, na Fifty-seventh Avenue. Mais de cem pessoas apertaram a mão de Will e disseram-lhe que ele era um ator magnífico. Ele não conhecia nenhuma delas e recebia seus elogios com um gesto distraído de cabeça.

 

Não estava ali, mas em outro lugar, procurando o pai e a mãe. Seus fantasmas, ele sabia, não perderiam um acontecimento tão grandioso quanto aquele.

 

Era o Rio de Janeiro outra vez. Ele estava perdendo em grande estilo, novamente. Reconhecera todos os sinais do desastre. E percebera que ainda não aprendera a aceitar a derrota.

 

Um dos relações-públicas de Caputo entrou correndo no salão, por volta de onze e meia, chamando a atenção dos presentes. Aquele era o momento que todos esperavam.

 

- Um sucesso! - o homem gritou, abanando uma cópia do New York Times. - Um delírio! Bem, quase.

 

Entregou o jornal, já aberto na seção de entretenimento, a Caputo. Então, ficou no meio da multidão que cercara o produtor-diretor para ouvi-lo ler a crítica.

 

- ”Michael Lenox Caputo, o mestre das bombas arrasa-quarteirão, o único entre nossos atuais diretores que ainda pode produzir um filme absorvente, até mesmo arrebatador, superou-se com Primrose, que, sem dúvida, será um dos maiores sucessos de bilheteria desta temporada.”

 

Os ouvintes irromperam em aplausos, principalmente os executivos do estúdio, e a banda que fora contratada para animar a festa tocou Viva o Chefe. Caputo continuou a ler em silêncio, ignorando o barulho, e então, quando o silêncio se fez novamente, jogou o jornal para um lado.

 

- A modéstia me impede de ler o resto - declarou. - Vocês todos terão seus exemplares pela manhã. Agora, vamos comemorar bebendo. Nós merecemos!

 

Os garçons começaram a servir champanhe caro.

 

O jornal, que aterrissara em uma das mesas perto da entrada, foi esquecido por todos, menos por Will, que o apanhou com fingida displicência, começando a ler o artigo. Imaginava por que motivo Caputo não o lera em voz alta até o fim.

 

Localizou o próprio nome quase que imediatamente.

 

Caputo foi maravilhosamente recompensado pela atriz principal, Suzanne Purceü, que irradia inocência e ao mesmo tempo sensualidade, e que, nas cenas de amor, consegue ser tanto uma mulher amadurecida, que se sente bem com seu apetite sexual, quanto uma jovenzinha de dezenove anos, o que não é, na vida real. O ator principal, porém, o ex-esportista Will Shepherd, fica muito melhor em um campo de futebol do que nas planícies do Texas, tão lindamente fotografadas. Ele trata a mulher como se ela fosse uma comida gostosa, não mais importante do que uma fatia de bolo. Os dois ficam maravilhosos, despidos da cintura para cima, mas quando o sr. Shepherd precisa mesmo representar, qualquer emoção gerada pelo desejo sexual desintegra-se em um trejeito da boca, em um sorriso forçado, em lágrimas de glicerina aplicadas por um maquilador, não naquelas verdadeiras, produzidas pelo coração, algo que ele parece não ter. O sr. Shepherd não devia ter abandonado a carreira de atleta tão precipitadamente.

 

Will parou de ler, virando-se para olhar os convidados. Sentia-se frenético, à beira da loucura. Correu os olhos pelo salão, procurando Maggie com desespero. Viu-a ao lado de Caputo, rindo de alguma coisa que ele dissera.

 

Que ela se foda.

 

Era para ser a minha salvação, minha alma gêmea. Suas canções me prometeram isso.

 

Mas ela disse que eu estava maravilhoso no filme.

 

Mentiu.

 

Amaldiçoada.

 

Vaca!

 

Jogou o jornal no chão e saiu do salão. Desapareceu na noite. Receava estar enlouquecendo, ou já ter ficado louco. Precisava ouvir os aplausos da multidão, sentir seu amor absoluto, mas não havia nada disso para ele naquele lugar.

 

Entrou na Seventh Avenue e começou a correr. Logo, corria a toda velocidade. No entanto, ainda não ouvia aplausos, não via amor em parte alguma.

 

O lobisomem de Nova York.

 

Will continuava desaparecido depois de dois dias, e eu tinha a impressão de que meu coração explodiria a qualquer momento. As crianças também estavam em pânico.

 

Winnie Lawrence saiu comigo à procura dele, e fomos a todos os hospitais de Nova York e região. Telefonamos para as pessoas com quem ele pudesse ter saído da festa, mas ninguém tinha a mínima idéia de onde Will estaria.

 

Recordei tudo o que ele me contara sobre a final da Copa do Mundo, no Rio, e sua confissão de como ficara desapontado. Alguma coisa acontecera lá que o modificara.

 

Eu lera a crítica do New York Times, naturalmente, assim que percebera que Will deixara a festa. Cheia de raiva, imaginara o mal que o artigo fizera a ele, como o magoara. Já passara por aquilo. Sofrerá por causa de críticas maldosas, algumas merecidas, outras não.

 

Mais um grande fracasso de Will. Fracassos demais a seu ver.

 

Eu também sabia o que era sentir-se assim e queria estar com ele para dar-lhe apoio. Mas como podia ajudá-lo, se não o encontrava? Para onde teria ido?

 

No terceiro dia, liguei para Barry e pedi-lhe que fosse a minha casa.

 

- Estou um pouco descontrolada - confessei, quando ele chegou. - Acho que deveria fazer mais do que estou fazendo. Mas o quê?

 

- Will vai voltar - Barry afirmou. - Deixou algo muito bom aqui. Não se esqueça disso.

 

- Você sempre me superestima e subestima Will. Ele pode ter se matado, Barry. O pai dele suicidou-se.

 

- Pessoas como Will não se matam - declarou Barry.

 

- Ele sabe o que está fazendo.

 

- Como pode dizer isso? Você não o conhece! Não sabe como algumas coisas o afetam.

 

Barry deu de ombros. Não acreditava que Will pudesse cometer suicídio. E, de certo modo, nem eu. Will voltaria. Ele me amava. Amava meus filhos. Tinha de voltar.

 

- Imagino-me encontrando-o numa vala qualquer

 

- confidenciei. - Não é porque a polícia não o encontrou que...

 

- A polícia não o encontrou porque ele não quer ser encontrado - Barry me interrompeu. - Entendo que é uma situação difícil, Maggie, mas você está exagerando. Ele deve ter se metido numa farra muito boa e voltará quando acabar.

 

Will seria capaz de fazer isso? De repente, senti medo, achando que podia não saber tudo a respeito dele, como julgava. Eu não estivera com ele, no Rio. Não sabia que demônios o haviam possuído. Que demônios o estariam possuindo agora?

 

Como ele podia simplesmente desaparecer?

 

Uma imagem cruzou minha mente, e vi Will e Allie cavalgando Fleas no terreno aos fundos da minha casa. Will tinha de voltar. Era inconcebível que não voltasse.

 

E ele voltou.

 

Acordei com o toque familiar de seus dedos afagando meu rosto, depois meus cabelos. Will estava no quarto! Eu conhecia muito bem aquele modo de ele me tocar. Meu coração saltou no peito, e abri os olhos, assustada.

 

- Will... - consegui murmurar, sentindo a boca seca.

 

Empurrei a mão dele e saí da cama. Encarei-o, dominada pela fúria que fora se acumulando durante o tempo em que ele estivera fora.

 

- Onde esteve? Por que não telefonou? Oh, Deus, Will! Acha que pode desaparecer e depois simplesmente voltar, como se nada tivesse acontecido?

 

Havia algo diferente nos olhos dele, naquela noite. Algo muito estranho. Apesar de sutil, a diferença não me escapou. Will parecia outra pessoa.

 

Usava calça esporte e camiseta preta. Os cabelos estavam revoltos, como que soprados pelo vento. Nas faces e no queixo havia a sombra da barba de um, dois dias.

 

Ele sorriu para mim do jeito que, tenho certeza, sorria para todas as mulheres a quem deixava com raiva e de cujo perdão precisava. Senti vontade de gritar, de esmurrá-lo.

 

- Estive em Londres. Fui visitar minha tia Vannie, que foi uma segunda mãe para mim. Mas não a encontrei. Ela viajou com tia Eleanor. Então,, voltei.

 

Claro. Voltou para outra mãe. Para mim!

 

- Desculpe, Maggie. Eu não devia ter feito isso. Devia ter telefonado, pelo menos. Mas você não faz idéia de como aquela maldita estréia me deixou arrasado. Não pode imaginar o que passa pela minha cabeça.

 

Não, eu não podia. Não podia e não queria. Mas tentei ser paciente e compreensiva. Talvez, minha tentativa tenha sido exagerada.

 

Will começara a usar óculos escuros de duzentos dólares, quase que o tempo todo, mesmo à noite e dentro de casa. Chamava essa mania de ”fase de estrela de cinema”.

 

Usava qualquer tipo de desculpa para sair. Na verdade, tinha medo de ficar perto de Maggie e das crianças. Talvez não os amasse mais, não sentisse mais o que desejava sentir, mas também não queria fazer-lhes mal.

 

Ele não queria fazer-lhes mal.

 

Em uma tarde ensolarada, foi a Nova York em seu Mercedes conversível. Sentia-se vazio, como se não houvesse nada, absolutamente nada, dentro dele. Falara com o irmão, pela manhã, mas, claro, Palmer não lhe dera nenhuma ajuda, porque não queria mais saber dele.

 

Will queria acabar com aquilo tudo, talvez num espetacular acidente de automóvel. Dirigia o Mercedes a mais de cento e cinqüenta por hora, na estreita e sinuosa Saw Mill. Mas era um motorista hábil demais para causar uma colisão. Tinha reflexos perfeitos. Ou, talvez, ele não quisesse de fato morrer. Não, ainda.

 

Por que haveria de querer?

 

Primrose estava estourando como sucesso de bilheteria. Era um absurdo, mas o filme alcançara o primeiro lugar na lista dos mais vistos e ficara lá durante semanas. Mais absurdo ainda: Will estava sendo apontado como o próximo Clint Eastwood, ou Harrison Ford. Que idiotice! Hollywood dava-lhe enjôos com aquela previsão amadorística da preferência popular.

 

Em uma única semana, ele recebera mais de cem roteiros repugnantes para ler. Por fim, selecionara outro best-seller, um texto de terror psicológico chamado Sinos de Vento. E negociara um contrato de quatro milhões de dólares, adiantados.

 

O início das filmagens estava marcado para aquele dia, e o diretor era um inglês, o famoso Tony Scott. O filme iria ser outro sucesso, ninguém duvidava. Tinha todos os ”ingredientes”.

 

Will tinha certeza de que seria outro lixo comercial. Sabia o que era bom e o que não era. Sabia que estava enganando o mundo e que isso seria descoberto, mais cedo ou mais tarde.

 

O que ele não podia tolerar, porém, eram as críticas. Porque diziam a verdade, porque os críticos tinham razão. Ele era um ator de merda.

 

Não, não podia mais suportar essa situação.

 

Não podia mais suportar quem era, Will Shepherd, uma agonizante lenda viva, ex-artilheiro miraculoso, o ”incrível bonitão”, ”o sr. Maggie Bradford”.

 

Assim que chegou a Nova York e viu as placas indicando a Broadway e a rua 242, Will pisou fundo no acelerador e tornou a passar de cento e cinqüenta.

 

O trânsito estava ruim, e ele dançava na pista, passando de uma faixa para outra, provocando buzinadas furiosas.

 

Não quero mais ser Will Shepherd, pensou, manobrando o volante com apenas uma das mãos. Com um dedo só. Olhe, mamãe, sem as mãos!

 

Não quero mais viver assim. Não posso.

 

Era isso o que meu pai estava pensando, quando afundou na piscina a primeira vez?

 

Ele estava afundando. Indo para baixo, para baixo, para baixo, na água fria e escura. Não era tão ruim morrer afogado.

 

Foi como Will Shepherd, que ele começou a noite no Red Lion Inn, em Greenwich Village. Como Will Shepherd, consumiu sete uísques. Grande! Como Will Shepherd, estava contando para uma platéia inebriada, seu maior triunfo no futebol, quando ainda usava o uniforme do Manchester United.

 

Como estava pagando bebidas para todo mundo, a platéia o ouvia com atenção, absorvendo cada uma de suas palavras.

 

- Will! Will! Will! - um dos homens entoou. Um inglês, provavelmente um verdadeiro fã.

 

- O Flecha Loira! - Will gritou de volta, a voz carregada de uma ironia que nenhum deles pareceu captar.

 

- O Bunda Loira! - alguém berrou, atrás do ajuntamento. Will parou no meio de sua história. Viu que era um punk, usando jeans e colete de couro pretos, bancando o macho. Fulminou o idiota com um olhar.

 

Lixo europeu, pensou. Vamos ver no que dá.

 

O punk abriu caminho, seguido por dois amigos. Will viu tatuagens nos braços deles: falcões e águias.

 

- O Bunda Fedida - o que o insultara antes rosnou, parando diante dele, enquanto os espectadores recuavam.

 

Seu sotaque parecia alemão.

 

- Fresco - um dos amigos acrescentou. - Bicha inglesa.

 

Alemão, sem dúvida.

 

A raiva, que vinha tentando escapar de dentro de Will havia dois dias, explodiu em um rugido. Ele soltou uma torrente de palavrões.

 

O ”lixo europeu” deu um passo à frente, provocador, chamando Will com um gesto.

 

- Venha me pegar, bundão. Venha, senhor. Já Era. De onde o punk tirara a corrente que segurava, Will não podia imaginar. Mas isso não tinha importância. Atirou-se sobre o alemão.

 

O Flecha Loira lançou-se com fúria cega. Queria briga. Qualquer uma servia.

 

Will saiu do Red Lion com alguns cortes e hematomas. Nada grave. Nada fatal.

 

Lembrou-se de que o esperavam em um estúdio de cinema.

 

Que se fodam. Esse terror psicológico foi muito melhor.

 

Então, houve uma série de explosões luminosas junto de um armazém abandonado, perto da Hudson Street. Uma gangue começou a espancá-lo, mas ele não sabia por quê.

 

Foi alguma coisa que eu disse, caras?

 

Will só tinha consciência da intensa dor que os pontapés deles lhe causavam na cabeça, no estômago, nas virilhas, nas costelas, da agonia que cada golpe provocava em seu cérebro.

 

Castigo, pensou, caindo no chão.

 

Estou sendo castigado pelos meus crimes, pelos pecados, pela minha vida inteira.

 

Prenderam-no pelos braços e pernas. Ele não podia mover um músculo. Seu rosto foi esmagado contra o concreto áspero da calçada. Sangue escorreu-lhe do nariz. Então, ele foi erguido pelas pernas, como se fosse carne em um gancho de açougue.

 

E, de fato, foi martelado como um bife. Socado, chutado, golpeado com coronhadas. Achou que nem um único osso ficara inteiro em todo seu corpo. De modo estranho, porém, a dor era bem-vinda. Dava-lhe a certeza de que estava vivo.

 

O mundo, de repente, começou a girar loucamente, descontrolado, todo líquido e vermelho. Will sentiu que estava caindo em um buraco negro.

 

Fora largado em uma rua de Nova York. Para morrer.

 

Não era tão terrível assim.

 

Ele só seguia as pegadas do pai. Sempre soubera que teria um fim violento.

 

Will Shepherd encontrou a morte nas ruas de Nova York.

 

Estranho, esquisito, mas sua última visão foi a do cachorro que ele matara, tantos anos atrás. Ele amara aquele cão.

 

Tinha de ser um pesadelo. Não podia ser outra coisa. Eu não estava acordada, estava?

 

A polícia de Manhattan foi a minha casa por volta de meia-noite. Um policial deu a notícia educadamente, mas seu tato e suas boas maneiras não puderam aliviar minha dor. Precisei me sentar, antes que caísse. Achei que iria desmaiar, ou vomitar. Estava em estado de choque.

 

Por fim, consegui telefonar para Winnie Lawrence. Ele morava perto, e logo saímos para ir ao hospital St. Vincent, em Nova York.

 

Deixaram-me ver Will só por alguns instantes. Ele estava dormindo, sedado, o rosto envolto por uma grossa camada de gaze. Horrível.

 

Eu me sentia como se estivesse sonhando. Fosse o que fosse que estivesse vendo, não podia ser real. O que acontecera com o homem com quem eu me casara, a quem amava? Aquela pessoa cruelmente espancada não podia ser Will!

 

Na sala de espera, Winnie e eu fomos abordados pelo detetive Nicolo, o policial que fora a Bedford levar a notícia. Mas eu não queria falar com ninguém, não queria ver ninguém.

 

- O sr. Shepherd está bastante machucado, mas a situação parece pior do que realmente é - Nicolo observou. - Os médicos disseram que ele ficará no hospital por duas semanas. Sinto muito, sra. Bradford. Não sabemos como aconteceu, nem quem são os culpados. Nenhuma testemunha se apresentou.

 

- Ele ia começar um filme ontem - Winnie Lawrence informou.

 

- Se o filme for Rocky 5, ele está com sorte. - O detetive sorriu. - Vai estar perfeito para o papel.

 

- Meu Deus! - Winnie gemeu, caminhando para um telefone público.

 

Nicolo virou-se para mim. Era parecido com Al Pacino, mas tinha um nariz curvado e maior. Usava os cabelos brancos e lisos penteados para trás.

 

- Pode pensar num motivo para a agressão, sra. Bradford? Sabe com quem ele esteve ontem à noite?

 

- Lamento, detetive, mas não sei. Estou fora de mim. Desculpe - murmurei, contendo as lágrimas.

 

Nicolo estalou a língua, olhando-me com compaixão.

 

- Quer dizer que ontem à noite ele não estava em casa com a senhora?

 

- Ele saiu à tarde, mas iria voltar. Não voltou.

 

O que o detetive está insinuando? Por que estou protegendo Will?, perguntei-me Porque ele é meu marido e eu o amo.

 

- Vai ser difícil descobrir quem o espancou - Nicolo comentou, guardando um caderninho preto que tirara do bolso quando começara a conversar comigo. - Se o sr. Shepherd não souber descrevê-los, não poderemos fazer nada. Voltarei assim que ele for capaz de falar e ficarei em contato com a senhora.

 

Apertou minha mão e afastou-se, pedindo-me para telefonar, caso eu tivesse alguma informação.

 

Winnie voltou para junto de mim, muito agitado.

 

- Vão substituir Will - informou. - Disseram que não será possível esperar até que se recupere. Que diabo aconteceu com ele?

 

Dei de ombros, sentindo-me entorpecida e gelada. Para mim, a notícia dada por Winnie não fora boa, nem má. Havia algo assustador em minha mente. Eu não sabia quem meu marido era.

 

- Ele vai ficar arrasado por causa do filme - Winnie comentou.

 

- Não sei. - Uma onda de tristeza me invadiu, aumentando meu cansaço. - Talvez fique aliviado.

 

Voltei para Bedford com Winnie Lawrence. Como sempre, a sra. Leigh, minha empregada, estava em casa com as crianças. Felizmente, todos ainda dormiam quando cheguei.

 

Eu não queria contar-lhes o que acontecera com Will. Não saberia explicar. Eu mesma não compreendia.

 

Amava Will, mas talvez ele me enganasse. Talvez fosse um bom ator quando queria. Eu pensara que poderia ajudá-lo, que estava ajudando. Minha mãe cometera o mesmo erro com relação a meu pai. Oh, Deus, eu não sabia o que pensar. Queria subir ao sótão e, outra vez, apenas escrever canções.

 

Fiquei sentada no escritório, olhando para fora. O sol surgira e pássaros pipilavam em toda parte. Mas, dentro de minha cabeça, apenas imagens desagradáveis flutuavam. Imagens ruins. Lembrei-me de um filme com Julia Roberts, Dormindo com o Inimigo. Eu me sentia como se estivesse nele, ou quem sabe fosse outro, ou, ainda, eu podia estar sonhando.

 

Por favor, que isso seja um sonho. Não conheço meu marido. Como isso é possível? O que Will está fazendo a si mesmo? O que está fazendo a todos nós?

 

Allie entrou no escritório, procurando-me. Fiz o melhor que pude para fingir que nada de errado estava acontecendo.

 

- Fiquei esperando, esperando, esperando, que você se levantasse e viesse me ver - eu disse, batendo no colo, convidando-o a sentar-se ali.

 

Ele correu para mim, atirando-se em meus braços. Abracei-o e beijei-o. Ele fez a mesma coisa comigo. Nem imaginava como aquilo era importante para mim, no momento.

 

Eu me sentia como se fosse começar a gaguejar de novo, meu peito parecia que iria cair, de tão pesado. Mas, mesmo assim, adorei manter Allie abraçado a mim. Fazíamos aquilo todas as manhãs, desde que ele nascera. Não acredito que tenhamos falhado um único dia.

 

De repente, meu menininho virou-se para me olhar bem dentro dos olhos.

 

- O que é, mamãe? - perguntou. - O que aconteceu?

 

Mais tarde, naquela manhã, voltei ao lúgubre hospital, no centro de Nova York. Deixaram-me ver Will. Ele estava sentado na cama, ainda tonto, tomando suco através de um canudinho.

 

A parte do rosto não tapada por bandagens estava roxa, os olhos não passavam de horríveis aberturas estreitas, os lábios inchados pareciam ter sido mordidos por um enxame inteiro de abelhas. Tinha a aparência de um daqueles pobres homens que dormiam nas calçadas, por toda a cidade. Meu marido parecia um deles.

 

Will estendeu a mão em minha direção, quando entrei. Meu coração enterneceu-se. Não pude evitar.

 

- Maggie...

 

Não peguei a mão dele. Odiei negar-lhe aquele gesto de carinho, mas tinha de fazer isso. Fiquei em pé ao lado da cama, olhando-o.

 

- Maggie... me perdoe. Por favor, me perdoe.

 

- Como posso perdoá-lo, Will?

 

Ele começou a chorar como um garotinho. Enrolou-se feito uma bola, em posição fetal, sempre chorando. Estava tão patético, parecia tão horrivelmente sozinho, que fiquei imaginando o que estaria acontecendo com ele.

 

Meu coração quase se partiu, mas não estendi a mão para confortá-lo.

 

Daquela vez, não pude.

 

Apenas maus pensamentos passavam pela mente de Will, desde que ele voltara para casa. Mas no hospital acontecera a mesma coisa.

 

Irritava-o o fato de Maggie ainda ser uma grande estrela, e ele, uma nulidade. Mas, o que mais o enfurecia era notar que ela estava feliz. Maggie, Jennie e Allie formavam uma unidade que se bastava a si mesma. Não precisavam dele. Seguiam adiante sozinhos, maravilhosamente bem.

 

Maus pensamentos. Constantemente. De manhã, ao meio-dia, à tarde, mas especialmente à noite.

 

Como o desejo de que Allie sofresse um acidente, quando os três saíssem para cavalgar.

 

Ou pensamentos a respeito da bonita Jennie. Ali, havia muito o que fantasiar. Bem, Jennie tratava-o com carinho. Porém, era igual aos outros, não era? Todos o queriam, mas só até descobrirem quem era ele realmente.

 

Palmer era tão mau quanto os outros, talvez pior. Seu próprio irmão, e estava extorquindo dinheiro dele, chantageando-o com alguns segredos inofensivos. Mas Palmer sempre fora um desgraçado, um imprestável.

 

Maggie era o problema maior, e Will não sabia o que fazer com ela.

 

Mas não deixava de ter um bocado de pensamentos maus a seu respeito.

 

Havia numerosas possibilidades. Nenhuma delas muito agradável.

 

Quais, por exemplo?

 

se eu me matasse, como meu pai?

 

E se eu fosse um pouco mais longe?

 

E se... e se... e se...

 

Observem bem agora, por favor. E tentem ouvir cada palavra, cada detalhe.

 

Foi aqui que a viagem começou a ficar perigosa de verdade, onde comecei a questionar seriamente minha sanidade. Só de pensar nisso, fico tensa, insegura e com o estômago enjoado.

 

Sou culpada? A assassina, como dizem? Ou a vítima?

 

- Preciso ir para San Francisco, Will - avisei, algumas semanas após o ”incidente” em Nova York.

 

Ele ainda agia de modo estranho, mas se comportava bem com Jennie e Allie, de modo que eu não tinha muito do que me queixar.

 

- O quê? - ele perguntou, mal desviando os olhos da televisão.

 

Nos últimos tempos, sempre parecia mergulhar profundamente em tudo o que fazia. Às vezes, quando eu falava com ele, Will dava a impressão de estar a milhares de quilômetros de distância, fora do mundo.

 

Eu não entendia o que se passava. Como poderia? Era como se houvesse uma parede invisível entre nós.

 

- Convidaram-me para fazer um show beneficente no Candlestick Park, e aceitei - expliquei. - Preciso voltar a cantar, Will. Estou afastada há muito tempo.

 

Ele desligou a televisão e virou-se para me encarar. Estivera assistindo a um jogo, usando, como sempre, camiseta e short, o que me fazia pensar que ele imaginava estar no banco de reservas, esperando ser chamado para jogar a qualquer momento. Continuava em ótima forma física, como se ainda jogasse.

 

- Não vai perguntar se quero ir junto, Maggie?

 

- Acho melhor ir sozinha. Barry também irá e...

 

- Aquele asno.

 

- E vamos lançar o disco o mais cedo possível, depois que eu fizer o show - concluí.

 

Não tinha a menor intenção de me estender em explicações sobre meus planos, nem de dizer o que realmente desejava, que era: ”Pelo menos eu aviso, quando viajo”.

 

- Então, decidiu ir à Califórnia e me diz isso assim, como se não fosse nada demais.

 

O rosto dele estava ficando vermelho, os olhos arregalados tinham uma expressão de loucura. Qualquer dia desses ele vai explodir, pensei.

 

- O que você pensa que eu sou? - ele perguntou em tom furioso. - Um miserável empregado doméstico? É isso, Maggie?

 

- Não sei de onde tirou essa idéia. O que está acontecendo com você? Pode, por favor, me explicar?

 

- Sou eu que digo aonde você vai e aonde não vai! Entendeu?

 

De repente, foi como se eu ouvisse Phillip falando. O tom de voz era quase o mesmo. Mas consegui permanecer calma, pelo menos aparentemente.

 

- Não, não é - repliquei. - Você pode tomar decisões a respeito da sua vida, não da minha.

 

Will levantou-se da poltrona e veio na minha direção. Não me movi. Ele parou bem perto e ficou me olhando com raiva e suspeita.

 

Não gostei do olhar, da ameaçadora linguagem corporal. Nunca o vira daquele jeito. Fiquei com medo.

 

Ele ergueu amão para mim. Com um rugido, deu-me um tapa em um lado do rosto. Com as costas da mão, bateu na outra face, com tanta força que cambaleei para trás. Foi como se duas explosões abalassem meu cérebro.

 

Eu não podia acreditar naquilo! Will nunca me batera, nunca sequer erguera a mão contra mim, nunca me ameaçara.

 

- Você não vai para San Francisco! - Ele berrou - Não vai me abandonar, sua vagabunda!

 

Ergueu o braço para me agredir novamente, mas não desferiu o golpe. Deixou o braço pender ao longo do corpo, como se houvesse se arrependido, ou recobrado a razão, quase se tornando outra pessoa.

 

- Tudo bem -• disse. - Vá para San Francisco, Maggie. Não me importo com o que você faça ou deixe de fazer.

 

Comecei a tremer dos pés à cabeça. Mas não me permitiria chorar. O tremor aumentou, sacudindo-me toda. Meus braços e pernas estavam inúteis, sem força.

 

- vou levar Allie e Jennie - informei, mal podendo pronunciar as palavras e sem conseguir encará-lo. - Não poderá nos impedir de ir, por isso, nem tente.

 

Agressões.

 

Ele me batia.

 

Esta não pode ser eu.

 

A letra de minha própria canção soava em minha mente, enquanto eu olhava pela janela oval do jato. Meus olhos subiam pela encosta de uma montanha de nuvens brancas como a neve. Junto de mim, Allie dormia, a cabeça loira apoiada em meu colo. Em sua poltrona, no outro lado do corredor, Jenme ouvia alguma coisa pelos fones de ouvido.

 

Os dois não sabiam de meus problemas com Will e estavam muito contentes por viajar comigo. Principalmente Allie, que sempre queria estar perto de mim. Éramos tão apegados, nós três, que havíamos criado uma sigla: JAM. Jennie, Allie e Maggie. Nunca a modificamos para incluir a inicial do nome de Will.

 

Quando desembarcamos, notei os olhares e os cumprimentos de pessoas completamente estranhas. Algumas aproximaram-se para pedir autógrafos, quase nos atropelando em sua ânsia, e várias me tocaram, como se esse contato tivesse o poder de transformá-las em celebridades.

 

Celebridade!

 

Elas não sabiam o que realmente significa ser famoso, estar sempre na mira de curiosos!

 

Havia um fax de Will esperando por mim no Hotel] Four Seasons:

 

BOA SORTE, MEU PÁSSARO MELODIOSO. PERDOE AS TRANSGRESSÕES DE SEU WILL. POR FAVOR, ME PERDOE. VOLTE DEPRESSA COM AS CRIANÇAS. EU TE AMO. SEMPRE AMEI, SEMPRE VOU AMAR.

 

Amassei o papel. Sempre, Will? De fato.

 

Barry, Jennie, Allie e eu voávamos em um grande helicóptero Bell, vermelho e prateado. Abaixo de nós, brilhavam as luzes do Candlestick Park e estendiam-se as águas escuras da baía.

 

Eu usava meu traje habitual, blusa solta, em estilo camponesa, saia comprida, sapatos sem salto, para não ficar nem um centímetro mais alta do que já era.

 

Estava pronta para a apresentação? Não sabia, mas tinha de tentar. Queria tentar.

 

Em menos de uma hora, eu estaria fazendo um show realmente importante, o primeiro depois de quase três anos de afastamento. As redes de televisão haviam mandado suas equipes, pois aquilo era notícia, certo? Notícia importante.

 

Naquela noite seria gravado um disco ao vivo. Mais de quinhentas mil pessoas haviam procurado ingressos, mas o lugar oferecia menos de oitenta mil lugares.

 

Porém, no momento, continuávamos no helicóptero, fechados, uma família em sua privacidade: eu, meus filhos, meu melhor amigo. Era melhor do que estar lá embaixo, pensei.

 

- Por favor, não vamos aterrissar - pedi.

 

Barry ergueu uma sobrancelha, espantado, então fez uma careta. Pôs a mão em concha sobre a boca, como se estivesse falando em um microfone.

 

- Derrubem Maggie Bradford! - ordenou. - Derrubem Peter Pan!

 

- Estou falando sério. Não podemos ficar aqui até amanhã? Estou ficando um pouco tonta.

 

- E o combustível? - Jennie argumentou.

 

- Podemos pedir que reabasteçam o helicóptero no ar. Como fazem com os bombardeiros. Não vai ser legal?

 

- Vamos ficar com fome - observou Allie, sempre pensando em comida.

 

- Quando trouxerem o combustível, poderão trazer sanduíches também. Não há problema.

 

Jennie riu. Ela gostava quando eu começava a dizer bobagens.

 

- Estou com fome agora - Allie, o membro mais prático da JAM, informou.

 

- Já vamos pousar - Barry disse a ele. - Não ligue para o que sua mãe diz. Lá no parque, podemos comprar salsichas, daquelas boas, de pura carne. Hummmm... que gostoso!

 

De repente, fui envolvida por uma onda de tristeza e medo.

 

- Não sei se vou conseguir - disse. - Verdade, Barry. Não estou brincando.

 

Ele pegou minha mão.

 

- Medo da platéia. Vá lá com esse medo. Use-o a seu favor.

 

- E mais do que isso. Estou me sentindo tão bem aqui, tão segura! Lá embaixo é perigoso. Primeiro os fãs, depois...

 

- Depois Will - ele completou.

 

Eu não contara a Barry que brigara com Will e que ele me batera, mas o meu amigo me conhecia bem, adivinhara que havia algo errado.

 

- É a vida - murmurei.

 

Ok, eu vendera quase vinte milhões de discos e ganhara onze prêmios Grammy.

 

Mas ainda podia ter medo, não podia?

 

Meu estilo de cantar era de confissão, de pessoa para pessoa, certo? Então, eu podia me confessar agora. Só precisava aparecer diante de toda aquela gente e ser eu mesma. Ser, antes de tudo, eu mesma.

 

O problema era que eu estava começando a me sentir a antiga Maggie. A que existira em West Point. A garota que rompia em lágrimas porque não conseguia parar de gaguejar, quando tinha de responder a alguma pergunta na escola.

 

Sabia exatamente o que a platéia esperava: que eu fosse contundente, mas também sincera. Que minhas canções fossem sucintas e cativantes, influenciadas por todos os gêneros: rock, Broadway, clássico, artístico francês. Isso, na superfície. Por baixo, precisavam ser complexas e psicologicamente verdadeiras.

 

Eu sabia disso tudo, quando entrei no imenso palco, em San Francisco, quando olhei para todos aqueles rostos expectantes.

 

Então, por que estava com tanto medo de não conseguir cantar? Não, não era medo, mas um pavor que ameaçava me deixar paralisada.

 

Sentei-me ao piano e, à brisa fria que vinha da baía, comecei a cantar.

 

Quase consegui terminar a primeira canção.

 

Então, desabei.

 

Com toda aquela gente me observando. Com meus filhos me olhando dos bastidores.

 

Agressões.

 

Ele me batia.

 

Esta não pode ser eu.

 

Comecei a gaguejar. Gaguejar! Algo que não fazia havia muitos anos, que lutara tanto para superar.

 

Não pude mais cantar.

 

Por fim, virei-me para falar com a multidão.

 

- Não estou me sentindo bem. Desculpem. Comecei a ter taquicardia e a ficar tonta. Achei que

 

iria cair do banco do piano.

 

Então, Jennie, Barry, Allie e dois músicos correram para mim. Ajudaram-me a deixar o palco. Eu mal podia andar.

 

- Coitadinha da mamãe - Allie não parava de repetir. - Coitadinha, está doente.

 

Will sempre fora uma criatura noturna. E agora, mais do que nunca, precisava sair à noite e ficar vagueando.

 

O lobisomem de Bedford.

 

Ele forçou o BMW preto ao máximo, durante aproximadamente quinhentos metros, correndo pela Greenbriar. Saíra da alameda de três pistas de sua casa, seguindo para a entrada seguinte, a do Lake Club, marcada por dois pilares de pedra de três metros de altura. Um pouco à frente, um muro baixo, feito da mesma pedra, cercava toda a propriedade.

 

Will passou entre os pilares e estacionou em uma vaga perto de um portão no muro. Desceu e abriu o portão. Percorreu uma trilha que levava aos fundos do clube, até uma porta de serviço praticamente invisível para quem não a estivesse procurando.

 

Dentro do prédio, o silêncio era quase tangível, e a atmosfera sugeria dignidade e privilégio. Will pensou no silêncio das catedrais e dos bancos europeus. Passou por mesas de bilhar, pelo escuro salão de fumar, então parou diante de uma porta e bateu. Esperou um pouco, tornou a bater.

 

Abriram. Will piscou, ofuscado, quando a luz lhe agrediu os olhos. Então, viu os painéis de mogno, o longo balcão de carvalho do bar, os abajures Tiffany, os quadros renascentistas pendurados nas paredes.

 

Os homens agrupados no bar observaram-no entrar. Então, quando viram que era Will, cumprimentaram-no.

 

Peter O’Malley encontrava-se entre eles. Fizera amizade com Will, ali no Lake. E por que, não? Afinal, os dois tinham algo em comum: Maggie. Ela os aproximara.

 

E tornara-se freqüente assunto de conversa entre eles. Peter sonhava em derrubá-la.

 

Naquela noite, ambos participariam de uma reunião muito especial.

 

Uma vez por mês, às vezes duas, depois que o clube fechava, vários sócios iam ali para entregar-se a um tipo diferente de diversão. Reunir-se para uma atividade socialmente inaceitável e, com toda a certeza, politicamente incorreta. Era o jeito que os todo-poderosos tinham de soltar a pressão acumulada. Eles não podiam conseguir aquilo em casa com ”as esposas”.

 

O salão estava iluminado pela luz dourada e vermelha do fogo na grande lareira de pedra. Will chamava-o de ”fogo do inferno”, dizendo que era o que a maioria deles devia esperar, quando morresse.

 

Em pé, diante da lareira, seis moças enfileiravam-se de forma mais ou menos ordenada. Jovens e lindas. A pele nua e os longos cabelos brilhavam à claridade das chamas.

 

A mais velha aparentava vinte anos no máximo, e a mais jovem, dezesseis. Todas tinham os olhos vendados por máscaras pretas, dessas que as pessoas usam para dormir, porque não podiam, de modo algum, ver os sócios, nem conhecer a localização do clube.

 

O exclusivo Lake Club de Bedford, pensou Will. Pura fachada, como tudo o mais.

 

Mais tarde, quando chegou a hora, ele escolheu uma das moças. Alta, loira, lembrava Jennie.

 

Acho que, no fundo do coração, eu já sabia que meu casamento com Will terminara. E que o rompimento definitivo era apenas uma questão de tempo. O que seria muito bom, primeiro para as crianças, depois para mim e, finalmente, para Will. Eu não queria magoá-lo. Apenas deixá-lo.

 

Ele estava em casa para nos receber, quando chegamos. E parecia ter voltado a ser o Will que eu conhecera. Ficou radiante com nossa volta, louco de alegria. Mostrou-se sinceramente preocupado com o que acontecera comigo em San Francisco, e expliquei que tivera um pequeno colapso nervoso. Ele afirmou que conhecia muito bem o pavor de enfrentar uma platéia. Acreditei.

 

Prometeu que não haveria mais ataques de raiva, brigas, nem desaparecimentos. O medo de ser abandonado levara-o ao desespero. Will entrara novamente em contato com os seus sentimentos.

 

Ouvi tudo o que ele tinha para dizer. Mas ouvi apenas as palavras. Já tomara minha decisão. Will me mostrara, embora rapidamente, uma faceta de sua personalidade com a qual eu não saberia lidar, nem conviver.

 

Uma calma inquieta caiu sobre a casa de Bedford.

 

Às vezes, também com Phillip as coisas ficavam calmas.

 

Eu colocara tudo em ordem, o melhor que pudera, aconselhando-me com Nathan Bailford e cuidando dos aspectos legais da separação. Só precisava de mais um dia ou dois, antes de conversar com Will.

 

Ao mesmo tempo em que fizera tudo aquilo, começara a ir a um bom psiquiatra, na vizinha Tarrytown. Fiquei, como os jornais diriam mais tarde, ”sob cuidados médicos”, seja lá o que isso signifique.

 

Então, algo inesperado aconteceu. Recebi um telefonema da escola de Jennie. Pediam que eu fosse lá imediatamente, porque se tratava de assunto importante.

 

O departamento administrativo da Bedford Hills Academy funcionava em um prédio pequeno, em estilo vitoriano, que mais parecia uma hospedaria campestre. Quando entrei, apressada, alunos e funcionários me reconheceram, mas tentaram não ficar me olhando. Acenei para as crianças que conhecia e até para algumas que nunca vira.

 

Subi a escada correndo, parando em um dos banheiros só o tempo suficiente para pentear os cabelos, passar batom e fazer uma pausa, para ter certeza de que estava com aparência normal.

 

Iria falar com o dr. Henry Follett, diretor da escola, e não queria parecer diferente das outras mães de alunos. Por alguma razão, meu nervosismo era grande, embora eu não acreditasse que algo de grave pudesse estar acontecendo com Jennie.

 

O gabinete do dr. Follett era pequeno, mas agradável, com uma grande janela com vista para o campus. Por todos os lados havia flâmulas da escola, bandeiras, troféus de campeonatos, fotos de Follett com alunos ou autoridades locais.

 

Ele era um homem amável, de seus cinqüenta anos, compacto e elegante. Imaginei que tivesse senso de humor, embora naquele momento seu sorriso fosse apenas educado. Mas ele tinha um aperto de mão firme, e seus olhos eram gentis.

 

Eu não sabia por que fora chamada. Estava ocupada, cuidando de meu problema com Will, quando recebera o telefonema, e largara tudo para ir à escola. A tensão, de tão forte, deixara minhas costas, estômago e pescoço endurecidos.

 

- É sobre Jennie - ele preludiou, assim que me sentei diante de sua grande e atravancada escrivaninha.

 

- Imaginei isso. Ela se envolveu em algum tipo de encrenca? - perguntei, tentando não demonstrar como me sentia por dentro.

 

Tinha de ser forte por Jennie. E iria ser.

 

- Não tenho certeza. Percebeu alguma coisa diferente em sua filha?

 

Eu não notara nada de muito estranho no comportamento de Jennie, embora ela estivesse na adolescência, uma idade difícil.

 

- Ela parece estar bem - respondi. - Um pouco rebelde, às vezes, polemista, e imita Butthead e Beavis pela casa, para me irritar.

 

- Age de modo normal, então? Não ficou doente ou deprimida, ultimamente? Não se mostrou infeliz?

 

Abanei a cabeça, confusa e preocupada. Aonde ele queria chegar? Eu via Jennie todos os dias, embora ela tivesse sua vida, seus amigos. Em minha opinião, a melhor coisa que uma mãe podia fazer pela filha adolescente era darlhe um espaço razoável, onde ela pudesse crescer. Espaço e amor.

 

- Não, ela não ficou doente. O que está acontecendo, dr. Follett? Por favor, diga por que me chamou aqui.

 

Ele tamborilou os dedos no tampo da mesa.

 

- Neste semestre, ela faltou à escola dezessete dias. A notícia teve o efeito de uma bomba. De repente, fiquei toda gelada.

 

- Faltou? Dezessete dias? - repeti.

 

- Exatamente. Não apareceu.

 

- Meu Deus! Eu não sabia! Acredito no que está me dizendo, mas isso não é próprio de Jennie.

 

- Realmente, não é - ele concordou. Pegou alguns papéis, que me entregou. Boletins e diversos bilhetes de justificação de faltas. - A assinatura é sua?

 

Examinei os boletins e os bilhetes, segurando-os com mãos trêmulas.

 

- É meu nome, mas não a minha assinatura. Outra bomba.

 

- A caligrafia é de Jennie?

 

- Não posso afirmar. Pode ser.

 

Minha cabeça girava. Aquilo fora algo totalmente inesperado. Jennie nunca me dera motivo algum de preocupação.

 

- Achamos que ela tentou falsificar sua assinatura - o dr. Follett disse, tirando-me de minhas reflexões.

 

- Jennie não faria uma coisa dessas. Mas era óbvio que fizera.

 

- Tem certeza? Quem foi, então?

 

Meu cérebro parecia rodar vertiginosamente.

 

- Não tenho a mínima idéia - murmurei.

 

De súbito, fiquei com raiva de Jennie. Nós duas sempre havíamos confiado uma na outra. Eu sempre achara tempo para ela, por mais ocupada que estivesse.

 

- O sr. Shepherd, talvez? - o diretor sugeriu.

 

- Não. Como é padrasto de Jennie, poderia simplesmente assinar. Não precisaria falsificar minha assinatura. Além disso, esta não é a letra dele.

 

- Olhe o último boletim. A senhora viu as notas? Olhei e fiquei com vontade de chorar. Muitos ”sete” e

 

”seis”, e Jennie sempre tirara dez em todas as matérias. Será que, por ela ser tão boa estudante, eu deixara de prestar atenção em suas notas?

 

- Sra. Bradford, Jennie é uma das melhores alunas da Bedford Hills Academy. Então, de repente, começa a faltar e a ter notas baixas. Baixas para ela, pelo menos.

 

Isso, às vezes, acontece no último ano do colegial, quando o jovem já foi aceito por uma universidade e acha que merece um descanso. Mas Jennie está no segundo, justamente quando suas notas deveriam ser as melhores possíveis.

 

- Eu sei, e Jennie também sabe - afirmei.

 

Não imaginava o que podia ter acontecido. Fora apanhada totalmente desprevenida. Achava que Jennie não sabia da situação entre mim e Will, mas talvez soubesse. As crianças têm muita intuição para certas coisas.

 

O dr. Follett levantou-se e me estendeu a mão.

 

- Todos nós, aqui da escola, amamos Jennie. Se descobrir alguma coisa, sra. Bradford, me telefone, por favor. Não é a primeira vez que isso acontece com um aluno, e nós sabemos consertar as coisas.

 

Apertei-lhe a mão e saí. Iria procurar Jennie, porque ela faltara às aulas naquele dia também.

 

No estacionamento da escola, entrei no carro e fiquei imóvel, esperando que meu corpo parasse de tremer.

 

Meu mundo, mais uma vez, parecia estar desmoronando.

 

Jennie chegou em casa às três e meia, carregando a mochila cheia de livros, com ar inocente. Convidei-a para sair de carro comigo.

 

Fomos à reserva Pound Ridge, onde a natureza era preservada, bem no centro de Westchester. Por volta das quatro, estávamos subindo em direção a uma antiga torre de vigia contra incêndios, no alto de uma colina. Do topo, podia-se ver o braço de mar de Long Island e até mesmo o distante perfil de Nova York, ao sul.

 

Jennie, naturalmente, quis saber por que estávamos fazendo aquilo. Pedi-lhe para esperar.

 

Tudo a seu tempo, minha queridinha, pensei.

 

Andávamos em silêncio, pois eu não sabia por onde começar. Estávamos ofegantes, quando alcançamos o topo, e eu me sentia otimista e toda maternal, mas também zangada e magoada. Como as canções que escrevia. Canções verdadeiras, tiradas da vida, certo?

 

- Fui falar com o diretor Follett - comecei por fim. Pronto, fora dada a partida.

 

Jennie estivera olhando para mim, mas quando ouviu essas palavras, virou o rosto, permanecendo calada.

 

- Ele disse que as suas notas estão baixando - prossegui. - E que você tem faltado à escola.

 

- Odeio ir à escola - ela declarou em tom irritado e desafiador. - É muito chato.

 

Estava muito diferente, mostrando seu lado pior, algo que eu raramente via.

 

- Você não pensava assim - observei.

 

- Mas agora penso. Não ensinam nada que valha a pena aprender. Os professores de lá não são muito inteligentes.

 

- Então, parou de freqüentar as aulas - comentei. - Muito interessante, Jennie. Uma revelação e tanto. Posso saber o que faz, quando falta à escola?

 

- Nada. Mas ”nada” é melhor do que aquelas aulas.

 

- Aonde vai? Em casa é que você não fica.

 

- Como pode saber? Fica trancada naquele seu escritório quase o dia todo!

 

Ela estava sendo completamente injusta, mas eu mantive a calma.

 

- Eu saberia, se você estivesse em casa - ponderei. - Eu te amo, Jennie. Se estiver com algum problema, pode...

- Ninguém se importa com ninguém - ela me interrompeu. - Não finja que se importa comigo. E não me venha com condescendência.

 

Mesmo sem tocá-la, eu podia captar a tensão que a dominava. E percebia o enorme esforço que fazia para falar. Quando aquilo tudo começara a acontecer? Como? Por quê?

 

- Eu te amo - repeti com voz não muito firme. - Você é a coisa mais preciosa da minha vida. Sempre foi.

 

Ela, então, perdeu a compostura.

 

- Não diga isso! - gritou. - Não diga que me ama, mamãe! Eu não mereço!

 

Eu mal podia falar, tentando não chorar, reprimindo os soluços que me comprimiam o peito.

 

- Por quê? Amo você de verdade, Jennie. Por que não devo dizer?

 

- Você não pode me amar! Nem me conhece! Precisou de uma coisa dessas para prestar atenção em mim. Notas baixas! Quem se importa?

 

Por fim, curvei a cabeça e comecei a chorar. Julgara poder lidar com qualquer situação que surgisse entre nós, mas não estava preparada para aquilo.

 

De repente, Jennie jogou-se em cima de mim, me abraçando e escondendo o rosto em meu pescoço. Senti suas lágrimas quentes, seu corpo trêmulo.

 

- Não posso dizer o que está acontecendo - soluçou. - Acho que não sei. Tenho quinze anos, e tudo parece um pouco maluco. Alguma novidade nisso? - Sufocou uma risada. - Meu Deus, mamãe, seu corpo todo está tremendo!

 

Sentamo-nos no chão e ficamos abraçadas por muito, muito tempo. Uma brisa fria começou a soprar, e coloquei meu suéter nos ombros de Jennie.

 

Meu bebê, pensei. Minha amiga de tantos anos! Minha doce filhinha.

 

No entanto, eu não sabia como confortá-la, como tornar as coisas mais leves para nós duas. Estava me culpando, naturalmente. Tentara desesperadamente ser uma supermãe, mas não fora o bastante.

 

Nunca é.

 

Fazia um calor extemporâneo na manhã seguinte, e passei uma hora abençoada, trabalhando no jardim atrás da piscina. Momentos de solidão, o sol em minhas costas, trabalho físico. Tudo exatamente como o médico recomendara. Comecei a melhorar e tentei ordenar os pensamentos em uma linha reta. A situação com Will piorava cada vez mais. Jennie apresentara problemas na escola. Eu tivera uma péssima experiência em San Francisco. Era muita coisa ao mesmo tempo, e eu achava que não estava me saindo muito bem.

 

De repente, houve uma explosão no bosque logo abaixo da minha propriedade.

 

Parei de cavar, de pensar, de respirar, totalmente atenta ao que se passava em volta. E apavorada.

 

Uma segunda explosão veio de trás da espessa cercaviva que limitava meu terreno, mas eu não conseguia ver nada.

 

Tiros de revólver? Oh, meu Deus!

 

Levantei-me rapidamente e corri a toda velocidade em direção ao grupo de árvores, com um grito entalado na garganta.

 

Oh, Deus amado, o que aconteceu?

 

Entrei no bosque, indo para o ponto de onde os tiros haviam partido. Meu coração martelava loucamente, e uma dor aguda correu por meu peito.

 

Era o instinto que me impulsionava. Eu nem pensara em gritar por ajuda. De qualquer modo, a quem chamaria?

 

Tiros? Perto da nossa casa? Por quê?

 

Pedras e ervas espinhentas feriam meus tornozelos, enquanto eu continuava a correr. Não houve mais tiros. Apenas um silêncio desolado e assustador. Por fim, cheguei a uma clareira.

 

Parei quando vi Will segurando uma espingarda.

 

Ele se virou e me olhou como se minha presença ali fosse algo absurdo.

 

- O que está fazendo? - consegui perguntar.

 

- Praticando tiro ao alvo - ele respondeu, fazendo um gesto para indicar algumas latas de cerveja e refrigerante enfileiradas em cima de uma tora. - Quer tentar, Maggie?

 

Endereçou-me seu melhor sorriso de North Downing, o personagem de Prirnrose.

 

- Estou ficando muito bom nisso. Habilidade nata, parece. Grande pontaria.

 

Phillip também tinha armas, e eu usara uma delas para matá-lo. Lembrei-me do sangue escuro que lhe escorrera da boca, de sua expressão horrorizada, tornei a ouvir seu grunhido de surpresa, quando a bala fatal cravou-se em seu corpo.

 

- Jogue essa espingarda fora! - gritei. - Não quero armas na minha casa, nem mesmo perto. Livre-se disso!

 

Will olhou-me friamente, mas depois sorriu.

 

- Nossa casa - corrigiu. - Mas você é quem manda, Maggie. Se a espingarda a deixa perturbada, me desfarei dela. Não confia em você mesma no que diz respeito a armas, não é? Eu compreendo.

 

Aquele seria o dia. O dia que eu não poderia ter adivinhado que aconteceria, que nunca esperara.

 

Depois de uma noite de insônia, saí de casa ao alvorecer, usando um roupão atoalhado e minhas alpargatas mais velhas. Meus longos cabelos estavam embaraçados, cheios de nós. Rezei para que ninguém me visse daquele jeito, que não houvesse nenhum repórter espiando pelas frestas da cerca.

 

Imaginei que o ar fresco poderia me fazer bem, dar-me uma nova energia, e fui até o muro de pedra, baixo e meio escalavrado, que separava minha propriedade do terreno do Lake Club. As alpargatas esmagavam com força desafiadora as folhas caídas e plantas rasteiras. Gaios-azuis e tordos faziam algazarra, voando entre as copas das árvores altas.

 

- Calem o bico! - ralhei.

 

Nesse momento, fiquei atônita ao ouvir outra voz humana.

 

- Quem está aí? - gritei. - Olá! Quem é?

 

  1. C. Frazier, o jardineiro-chefe do Lake, apareceu saindo de uma campina que pertencia ao clube. Ele sempre andava pelo extenso terreno, de modo que de vez em quando nos topávamos. Eu sabia que estava se encontrando com a sra. Leigh, minha empregada, que o achava um bom homem. ”Sim, e homens bons estão cada vez mais raros”, eu ficava tentada a dizer a ela.

 

- Bom dia, sra. Bradford. Foi a senhora que encomendou um dia tão lindo? - ele brincou.

 

Parecia não ter uma única preocupação na vida. E por que teria? Seu trabalho era cuidar do extenso terreno do clube, e tudo estava na mais perfeita ordem.

 

- Pensei que fosse você que estivesse controlando o tempo hoje, J. C. - respondi.

 

- Não. Só cuido do chão. Acredito que a senhora é encarregada de coisas mais altas. E que belo trabalho fez hoje! Céu azul até onde a vista pode alcançar.

 

Ali ficamos, conversando por cima do muro coberto de musgo. J. C. provavelmente sabia mais segredos sobre os moradores de Bedford do que qualquer outra pessoa, mas sua discrição era tão responsável por sua permanência no emprego quanto sua eficiência como jardineiro. Assim, falamos de flores e do verão que se aproximava. Bate-papo inofensivo, que me fez esquecer meus problemas, pelo menos por alguns momentos.

 

Lembrei-me de algo que estivera querendo comentar com alguém do clube. Algo que acabara por esquecer, talvez com medo de abordar o assunto.

 

- Às vezes, tarde da noite, vejo luzes acesas no clube - comecei. - Uma, duas horas da madrugada.

 

  1. C. pensou por um instante, então abanou a cabeça.

 

- Desculpe, sra. Bradford, mas isso não é possível.

 

- Eu vejo! - insisti. - Tenho certeza.

 

- Não, não pode ser, senhora. Acho que está enganada. O clube fecha às onze. Sempre. Essa é uma regra de ouro.

 

Pensei em continuar argumentando, mas desisti. Se J. C., mesmo sabendo de alguma coisa, não queria falar, não falaria.

 

Em um gesto cortês de despedida, ele tocou no boné azul, onde estava escrito ”New York Giants”.

 

- Preciso voltar ao trabalho. Tenho muita coisa para fazer. Que seu dia seja muito agradável, sra. Bradford.

 

Observei-o caminhar para o prédio principal do clube.

 

Estranho, pensei. Como é possível ele não saber das luzes acesas de madrugada? E por que mentiria para mim?

 

Por fim, voltei para casa, decidida a falar com Will sobre a separação. Isso tinha de ser feito, por mais doloroso que fosse para nós dois. E por que protelar? O dia era aquele.

 

Jennie e Allie estavam na cozinha, tostando pão, os dois já vestidos. Jennie parecia disposta a ir à escola, o que me agradou.

 

- Will já levantou? - perguntei, tentando dar um tom normal à voz, como se nada de anormal estivesse acontecendo.

 

- Acabou de sair, mamãe - Jennie informou. - Disse que precisava ir à cidade tratar de negócios e que voltaria lá pelas quatro horas.

 

Gemi, desconsolada. Will quase nunca saía de casa tão cedo. A sorte não estava me ajudando. O dia era para ser aquele.

 

Will não voltou às quatro horas, como prometera.

 

E ainda não chegara quando nos sentamos para jantar, às sete e meia. Nem às dez, quando subimos para dormir. Também não telefonou para avisar que chegaria tarde ou que não voltaria para casa.

 

Fiquei deitada, com as luzes apagadas, mas não consegui fechar os olhos. Estava me culpando, mesmo sabendo que não havia motivo para isso. Era verdade que Will fora incrivelmente romântico e sensível no início de nosso relacionamento, mas depois desligara-se de mim por completo.

 

Eu imaginava que ele podia estar tendo um caso com outra mulher, ou talvez mais de uma. Suponho que essa idéia não deveria me incomodar, mas incomodava.

 

Não sei a que horas adormeci.

 

- Merda! Que inferno!

 

Os impropérios de Will me acordaram. Ele estava em casa. No quarto.

 

Vi-o parado perto da porta, examinando o dedão do pé. Dera uma topada, andando no escuro.

 

Bem feito!

 

A luz do corredor entrava pela porta entreaberta, iluminando-lhe o corpo, mas seu rosto estava na sombra.

 

Ele se virou a fim de olhar para mim, e eu fingi que dormia. Prendi a respiração, tomada de ansiedade. Depois de alguns instantes, ele saiu do quarto na ponta dos pés, puxando a porta atrás de si desajeitadamente. A porta bateu com força. O que significava aquilo? Mais uma de suas brincadeiras estúpidas? Que fosse para o inferno!

 

Olhei para o mostrador luminoso do relógio na mesinha-de-cabeceira: 12:45.

 

Onde Will ficara até aquela hora? Talvez eu devesse me levantar e falar com ele, aproveitando o fato de as crianças estarem dormindo.

 

Saí da cama, andei até a janela e olhei para fora. Então, vi Will. Aonde iria? O que pretendia fazer?

 

Vesti o roupão e saí do quarto. O corredor estava às escuras. Antes de descer, Will apagara a lâmpada fraca que eu deixava acesa por causa de Allie.

 

Desci a escada correndo.

 

As luzes da sala de estar e do escritório estavam apagadas. Não ouvi nenhum barulho, não vi nenhum movimento. Mas senti que havia alguma coisa errada. Por que Will apagara todas as luzes?

 

Só escuridão e silêncio em todos os outros cômodos do andar de baixo. E a sra. Leigh não se encontrava em seu quarto! Então, lembrei que era sua noite de folga.

 

Voltei para o pé da escada e olhei para cima. Nada. Aparentemente, Will não voltara para dentro de casa.

 

Comecei a subir os degraus. Estava na metade da escada, quando vi algo encostado na parede. Meu coração quase parou, minhas pernas amoleceram.

 

A espingarda! Will a deixara no meio da escada!

 

Comecei a ouvir um barulho estranho dentro da cabeça, e minha mente tornou-se um caos. Nada daquilo fazia sentido para mim.

 

O que estava acontecendo? Will voltara para o andar de cima? O que planejava fazer com a espingarda? Onde escondera a arma, até aquele momento?

 

Comecei a correr escada acima. Cheguei ao último degrau e parei. No fim do corredor, uma réstia de luz escapava por baixo de uma porta.

 

A porta do quarto de Jennie! Eu não vira a luz quando descera pouco antes.

 

De repente, fiquei aterrorizada com a idéia de que Will pudesse estar lá dentro.

 

Ele vai seqüestrar as crianças!, pensei.

 

Corri de volta e peguei a espingarda. Tornei a subir. Pelo menos, quem estava com a arma, agora, era eu, não Will.

 

Ele estará planejando matar todos nós?, conjeturei. Pessoas com a mente perturbada fazem coisas assim. Não seria o primeiro caso.

 

Tive uma visão do passado. Phillip!

 

A espingarda devia estar armada, pronta para disparar.

 

Eu não tinha certeza, porque não entendia muito de armas. Na verdade, não entendia quase nada. Corri pelo corredor e abri a porta de Jennie com violência. Fiquei fora de mim com o que vi.

 

Hoje é o dia! Oh, Jesus Cristo.

 

Não atire nele, Maggie! Não faça isso! Não!, uma voz gritava em minha cabeça, ensurdecedora.

 

Jennie, em seu pijama branco, curtinho, estava na cama, as longas pernas completamente expostas. De olhos fechados, respirava normalmente. Havia um copo de leite pela metade em cima da mesinha-de-cabeceira.

 

Captei todos os detalhes, embora ainda não compreendendo a situação.

 

Horrível. Horrível demais.

 

Will, parado aos pés da cama, usava calça caqui e camisa esporte. Como ele se vestira para ir à reunião de negócios em Nova York? Não podia ter ido com aquelas roupas.

 

O que estava fazendo no quarto de Jennie?

 

- Maggie! - ele me chamou em tom calmo, assumindo sua personalidade de ator. - Pensei que estivesse dormindo. Estava fingindo?

 

Meu coração batia com tanta força e tão depressa, que eu não conseguia respirar direito.

 

- O que veio fazer no quarto de Jennie? - perguntei, arquejando. - O que está acontecendo aqui?

 

Jennie, de repente, sentou-se na cama, esfregando os olhos, assustada.

 

- Mamãe? Will? O que foi? Aconteceu alguma coisa? E essa arma? Mamãe!

 

Will sorriu, observando a cena. Sua expressão era a mais maldosa e assustadora que eu já vira. Ele se transformara em uma pessoa que eu não conhecia.

 

O que estava fazendo no quarto de Jennie? Eu sabia o quê.

 

- Jennie e eu íamos nos divertir um pouco - ele disse. - Quer juntar-se a nós? Num ménage à trois?

 

Ménage à trois? Fiquei tão horrorizada e atônita, que perdi a capacidade de falar. Paralisada, sentia a pulsação disparada, a mente implodindo.

 

Will e Jennie? Oh, Deus! Não!

 

Ergui a arma, apontando-a para ele, sem me importar com as conseqüências.

 

Mas não pude puxar o gatilho. Não pude. Não pude!

 

- Saia desta casa e não volte nunca mais - ordenei em tom firme.

 

Will passou por mim e saiu do quarto correndo. Pelo som de seus passos na escada, deduzi que descia os degraus de dois em dois. Ria estrondosamente, como um personagem de filme de terror.

 

Fui atrás dele levando a arma, que atrapalhava meus movimentos. Não pretendia atirar. Só queria ter certeza de que Will iria embora. Que desapareceria de nossas vidas. Para sempre.

 

Ele saiu pela porta da frente, e eu o persegui. No começo enxerguei mal, distinguindo apenas o contorno escuro das árvores, mas ouvia os passos de Will, percebendo que ele se dirigia para os fundos da casa.

 

Corri, tombei para a frente e bati um joelho no chão. Aparei a queda com uma das mãos.

 

Não estava mais ouvindo os passos de Will!

 

Levantei-me e fiquei ouvindo, alerta como nunca estivera, tentando captar o menor som. Totalmente apavorada. Talvez estivesse entrando em estado de choque, porque sentia o corpo todo gelado. Não podia esquecer que vira Will no quarto de Jennie. Não podia esquecer a expressão que vira nos olhos de minha filha.

 

Tudo permaneceu em silêncio. Eu não ouvia mais os movimentos de Will. Onde ele estaria? Fazendo o quê?

 

A lua desapareceu atrás de uma cortina de nuvens, aumentando a escuridão.

 

Refleti que não devia ficar lá fora, que precisava voltar para dentro de casa. Will podia ter me enganado e voltado para o quarto de Jennie.

 

Eu não sabia o que fazer. Permaneci imóvel, indecisa, olhando em volta, tentando ver alguma coisa nas trevas que me cercavam.

 

Lembrei-me de quando me escondera sob o alpendre da casa de West Point. Meu pesadelo fechara-se em um círculo completo.

 

Silêncio.

 

Escuridão.

 

Frio.

 

Eu estava tremendo incontrolavelmente.

 

- Sua puta mentirosa e intrometida! Você me enganou!

 

Com um rugido, Will atacou-me por trás. As mãos fortes tentavam agarrar meu pescoço. Reagi, livrando-me. Ele me bateu no rosto com tanta força, que caí de joelhos. Tentei me levantar. Não consegui.

 

Will ergueu a perna e girou-a. Atingiu-me no lado do peito com um pontapé vigoroso, e senti minhas costelas partirem-se. A dor foi aguda e intensa, e não posso descrever o terror que experimentei.

 

Tombei no chão duro e frio.

 

A espingarda disparou, e o barulho foi mais alto que meus gritos, mais alto do que o estrondo de um trovão.

 

Rolei, ficando de bruços, então tudo desapareceu, quando perdi a consciência sobre as folhas frias e úmidas.

 

Eu não sei.

 

Eu não sei!

 

Honestamente, não sei o que aconteceu naquela noite sinistra de dezessete de dezembro. Atirei em Will? Atraío para fora de casa e matei-o? Dizem que foi o que fiz. Sou culpada de homicídio? De dois assassinatos? E, se matei duas vezes, por que não mataria três?

 

As pessoas estão certas quando me chamam de assassina? De viúva-negra de Bedford?

 

Talvez eu tenha enlouquecido. Tudo leva a crer que sim. Mas isso me parece tão pavoroso, tão injusto!

 

A vida, porém, nem sempre é justa.

 

Acordei em minha cama, com o rosto enterrado no travesseiro, uma dor torturante perfurando meu lado esquerdo. Tinha a sensação de que haviam me batido com uma pá de ferro. Tudo, dentro de minha cabeça, parecia estar se estilhaçando ruidosamente.

 

Não podia fugir das imagens de violência e horror que me assaltavam.

 

Quem disparara a espingarda?

 

Jennie!, pensei de repente. Preciso ir à procura de Jennie. E de Âllie.

 

Ouvia um rumor de vozes, que em princípio julguei estar em minha cabeça. Mas, então, percebi que vinha de fora.

 

Por que havia gente falando alto no jardim de minha casa? O que, em nome de Deus, estava acontecendo?

 

Minhas pálpebras pesavam de um modo que não era natural. E os olhos doíam, como que cortados por uma navalha. Minhas costelas estavam sendo dilaceradas por outro tipo de dor, pontadas agudas e contínuas.

 

Forcei-me a abrir os olhos, então fechei-os depressa. A luz era brilhante demais. Quem acendera a luz?

 

Ouvi passos na escada. Will!

 

Tentei me sentar, mas não pude.

 

Um lampejo amarelo e flamejante cruzou meus olhos fechados como um relâmpago, como um ousado gráfico da MTV.

 

Abri os olhos novamente.

 

Vi, mas de modo confuso, um negro forte, de terno escuro, camisa branca e gravata. Ele estava de pé ao lado da cama, olhando para mim. Parecia ter dois metros e dez de altura. Os óculos de armação de osso eram pequenos demais para seu rosto enorme.

 

Ele me encarava com uma expressão estranha. O que fazia no meu quarto? Ou eu estava em um hospital? De fato, o quarto parecia mais o de um hospital do que o meu.

 

- É Maggie Bradford? - ele perguntou.

 

Tentei mover a cabeça numa afirmativa, tentei entender o que estava acontecendo, tentei descobrir onde me encontrava. Talvez tudo não passasse de uma lembrança qualquer.

 

- Encontramos a senhora lá fora e a trouxemos para cá - o homem explicou, passando uma espécie de distintivo diante dos meus olhos.

 

Uma insígnia dourada e azul.

 

- Sou Emmett Harmon, chefe de polícia de Bedford - ele se apresentou.

 

A voz solene ribombou dentro de minha cabeça. Chefe de polícia de Bedford?

 

Oh, meu Deus! O que aconteceu? Onde estão Jennie e Allie?

 

- O que está fazendo aqui? - murmurei, sentindo a garganta seca e dolorida. - Por favor, onde estão meus filhos?

 

- Maggie Bradford, a senhora está presa pelo assassinato de seu marido, Will Shepherd. A senhora tem o direito de ficar em silêncio.

 

                                                                   TENTATIVA & ERRO

 

Norma Breen?

 

- Eu mesma. Com quem estou falando?

 

- Meu nome é Barry Kahn. !

 

- Não diga! Nossa! O cantor Barry Kahn?

 

- O próprio.

 

- Acho o senhor o máximo! Adoro as suas músicas! Posso ajudá-lo em alguma coisa?

 

- Precisamos da sua ajuda, sim.- ”Precisamos?” ’’

 

- Nathan Bailford e eu.

 

- Nathan? Faz tempo que não o vejo. Como ele está?

 

- De trabalho até as orelhas, defendendo Maggie Bradford.

 

- É, eu soube que ele pegou a causa. Tarefa dura.

 

- Gostaríamos de contratá-la para a nossa equipe. Na-than diz que é a melhor detetive que ele conhece.

 

- Sou boa, de fato. Mas que diferença isso pode fazer? O caso não é daqueles de abrir, tornar a fechar, pronto, acabou? Pelo menos, é o que tenho ouvido.

 

- Não pensamos assim. E Nathan acha que pode ser tudo, menos um caso de ”abrir e tornar a fechar”.

 

- Ouvindo-o, quase acredito. A mídia divulgou que ela acabou com o filho da puta, estourando-lhe os miolos.

 

- Não é tão simples assim, acredite. Como é? Está interessada em descobrir o que realmente aconteceu?

 

- Ele estava comendo outra mulher?

 

- Provavelmente. Nunca saberemos ao certo. Mas Maggie não o mataria por causa disso.

 

- Ele batia nela?

 

- Pelo que sei, bateu uma vez. Não, desculpe. Duas vezes. Ela também não o mataria por isso. Maggie é uma boa pessoa. Como mostra nas suas canções.

 

- Então, por que ela mataria o marido?

 

- É para descobrir essa resposta que queremos contratá-la. Não temos certeza absoluta de que ela o matou.

 

- Precisam de algo para defendê-la, ou querem os fatos?

 

- Precisamos de algo para defendê-la.

 

- Ah, obrigada pela sinceridade. Gosto de ver isso num cantor famoso.

 

- Mas temos certeza de que os fatos providenciarão a defesa. Maggie não é uma assassina.

 

- Só de maridos, parece. Ela não matou o primeiro?

 

- Nunca ficou provado. Maggie não foi julgada. No início, foi acusada de assassinato em segundo grau, mas a acusação foi retirada.

 

- E o amante? Patrick O’Malley?

 

- Morreu de infarto.

 

- Pensei que ela tivesse confessado que o matou.

 

- A polícia alega que o que eles conseguiram eqüivale a uma confissão. Mas Maggie estava totalmente desorientada quando a prenderam. Pode entender isso, não?

 

- A imprensa já a está julgando. E, nesse julgamento, ela vai perder. Matou o primeiro marido com uma pistola, o segundo com uma espingarda, e o amante num barco.

 

- Olhe, se não quer pegar o trabalho...

 

- Eu não disse isso.

 

- Aceita, então?

 

- Por você, Barry Kahn. Houve uma pausa.

 

- Deus a abençoe, srta. Breen - Barry murmurou por fim.

 

- Pode me chamar de Norma.

 

Ela pôde ouvir o suspiro de alívio que Barry deixou escapar e imaginou a tensão que o dominava. Admirou sua lealdade à amiga, mesmo sendo ela chamada de ”viúva-negra de Bedford”, e provavelmente culpada dos crimes que lhe imputavam.

 

A maioria das pessoas ainda não sabia o motivo do conflito entre sérvios e croatas, mas o julgamento de Maggie Bradford seria assistido em todo o mundo. Repórteres e equipes de televisão acorreram, vindos de todos os lugares, não só dos Estados Unidos, como da Europa, da América do Sul, da Ásia e, possivelmente, até da Lua. O ajuntamento de representantes da imprensa era tão grande quanto Norma Breen antecipara, como se aquilo fosse a posse de um presidente. Com uma diferença: o desespero pela história ”de dentro” era muito mais frenético.

 

Jesus Cristo, é um julgamento por assassinato, ela pensou. Seja qual for o desfecho, não vai mudar o mundo.

 

E daí, se Maggie Bradford matou um marido ou dois? A maioria deles merece mesmo morrer.

 

Ela entrou com seu empoeirado Camaro amarelo na rua Clarke, em Bedford, e passou lentamente pelo regurgitante tribunal, pela segunda vez naquela manhã.

 

Uma procissão de guarda-chuvas pretos, capas de vinil, sacolas de comida da Boston Chicken e da Dunkin’Donuts alongava-se pela rua principal, indo além da farmácia Hamilton, da banca de jornais Willie’s e da nova biblioteca pública. O lento desfile virava para a rua Charles e continuava por mais cinco quarteirões.

 

Que bagunça! Parecia uma área de desastre! Ônibus de turistas enfileiravam-se, estacionados nas ruas Millar e Grant. Eram aqueles ônibus escolares, amarelos, e as placas indicavam que vinham de lugares com nomes estranhos, como Pittsfield e Catawba. Era começo de dezembro, e a neve já se anunciava no ar gelado.

 

”Maggie e Will: Uma Doce e Amarga Tragédia Amorosa.” Aquela era a manchete do dia. Frases similares saíam do rádio do carro de Norma, até mesmo uma assim: ”Três faltas. Ela está expulsa”.

 

Engraçadinha. Norma gostou dessa. Finalmente, alguém mostrava um pouco de senso de humor a respeito daquele caso feio que, no momento, era seu emprego.

 

A detetive-chefe da defesa odiava publicidade, não queria ficar famosa e nem mesmo rica. E aquela multidão de repórteres correndo atrás dela interferia em seu trabalho. No entanto, ela entrara naquilo sabendo o que a esperava. Maggie Bradford era uma estrela. Uma parte do público a condenara, julgando-a culpada, e a outra a declarara inocente como um cordeirinho.

 

E Norma?

 

Oh, diabo, ainda não sei o que pensar. Maggie não está mesmo em seu juízo perfeito. O que declarou à polícia chega muito perto de uma confissão. Uma prova que vai impressionar.

 

Seu passe amarelo, ostensivamente colado no pára-brisa, permitiu-lhe entrar com o carro no estacionamento coberto do tribunal. O local já estava cheio de veículos oficiais, viaturas da polícia e carros particulares, pertencentes aos advogados de ambas as partes e seus assistentes.

 

O Mercedes azul do juiz Andrew Sussman encontrava-se na vaga privativa, ao lado da porta dos fundos do tribunal, e o Porsche prateado de Nathan Bailford, parado um pouco além, era o carro que qualquer universitário adoraria dirigir para paquerar garotas em um fim de semana.

 

E foi Nathan quem caminhou ao encontro de Norma, enquanto ela arrastava o corpo ligeiramente obeso para fora do Carnaro.

 

Ele fez um gesto, indicando a multidão aglomerada diante do estacionamento.

 

- E hoje só vão selecionar os jurados - comentou. - Imagine o que isso vai virar quando o julgamento começar de fato.

 

- Como está sua cliente? - perguntou Norma. Visitara a acusada várias vezes, nas últimas semanas,

 

e surpreendera-se com sua atitude realista, embora distante. Maggie não se negava a responder ao que lhe perguntavam, mas também não se esforçava para ajudar.

 

Haviam dito a Norma que ela estava confusa. A opinião da detetive era outra: Maggie Bradford estava sofrendo de depressão.

 

- Continua na mesma - respondeu Nathan. - Não mudou quase nada desde a noite do crime. Não existem altos e baixos. Só baixos. - Olhou para Norma, ansioso. - Alguma novidade do seu lado?

 

- Nada, ainda. Mas há muitas bolas soltas no ar. Às vezes me sinto como o bobo da corte. Ha, ha.

 

Ela não contou ao advogado que havia aspectos do caso que a intrigavam demais. Nada específico ainda, apenas fatos que não se encaixavam, ou que não resistiam a um exame minucioso.

 

O que parecia claro era que, se Maggie atirara no primeiro marido, fizera isso porque fora obrigada. E, se atirara em Will Shepherd, também chegara àquele extremo porque fora forçada. Mas pelo que, ou por quem, era um ponto que continuava obscuro.

 

Mas haviam sido dois homicídios, esse era o problema. Um poderia ser explicado por insanidade temporária, legítima defesa, revolta contra contínuas agressões. Mas dois?

 

Norma voltaria ao local do crime, à tarde, para procurar mais informações, alguma pista que pudesse seguir.

 

Devia existir algo de fundamental importância que ela ainda não encontrara. Tinha de existir!

 

Merda. Há alguma coisa muito errada nisso tudo.

 

Em Palm Springs, o sol da Califórnia, sol meio enevoado de deserto, rosado como polpa de grapefruit, deslizava por cima dos topos rochosos das montanhas. Os raios oblíquos lançavam seu brilho na piscina e no pátio de ladrilhos vermelhos que a cercava.

 

Peter O’Malley pôs de lado o exemplar do dia anterior do New York Times. Tirou os óculos ray-ban de lentes espelhadas, colocou-os numa mesinha de ferro e olhou para o cintilante lençol azul da água da piscina.

 

Sua mente também estava cintilando. Na superfície da água, sobrepondo-se ao reflexo da casa, ele quase podia ver o rosto de Maggie Bradford. Como vira pela televisão, na noite anterior. Rosto pálido, olheiras fundas. Ela parecia um zumbi, e ele sentira o coração saltar de alegria ao vê-la naquela situação.

 

Bem feito, maldita!

 

Tarde da noite, ouvira gravações dela, pelo rádio do carro. Odiava aquela voz, que literalmente o destruíra. As músicas de Maggie estavam tocando em todas as rádios, naturalmente, e um disc-jockey apelidara-a de ”pássaro engaiolado”.

 

Bem, aquela voz não seria ouvida por muito mais tempo. Não pelo rádio. Quem ouviria as canções de uma assassina condenada? E, certamente, não na sala da diretoria da empresa de seu pai.

 

Ele tornou a pôr os óculos, pegou o bloco de papel e a caneta que levara para a piscina, e começou a escrever uma carta que, acreditava, garantiria a condenação de Maggie Bradford.

 

O que se faz se recebe, minha querida. Agora, você vai ter o que merece. Pode acreditar no que digo. Seu ”caso” com os O’Malley ainda não acabou.

 

Todos os que entravam em contato com Dan Nizhinski, promotor de justiça da comarca de Westchester, tinham a mesma reação: achavam-no bom demais para ser verdadeiro, perfeito para o papel que desempenhava.

 

Primeiro, sua aparência. Ele tinha um metro e oitenta e três, cabelos loiros, raleando no topo, mas compridos nos lados. O rosto, um tanto castigado, fazia-o parecer ter mais do que seus trinta e seis anos, mas as linhas ao redor dos olhos azul-claros, muito brilhantes, davam-lhe um ar malicioso que, entre os jurados, cativava as mulheres e fazia os homens considerá-lo um amigo.

 

Segundo, seu comportamento no tribunal. Sempre ereto como uma régua, ganhava a confiança dos jurados, ao mesmo tempo em que os mantinha a uma certa distância, para que o olhassem com reverência. ”Estou lhes dizendo a verdade”, ele parecia afirmar. ”Confiem em mim. Por mais espantosas que possam ser as revelações, elas se baseiam em fatos.”

 

Naquele momento, porém, estava à vontade, com os pés em cima da escrivaninha, falando com os assistentes sobre o julgamento.

 

- Não há dúvidas quanto aos fatos - declarou, pelo que devia ser a décima vez. - Ela admitiu que atirou nele. Entregou a arma do crime à polícia, com quem colaborou mais do que com os próprios advogados, parece. Tal comportamento não é raro em casos de homicídio. Mas...

 

Fez uma pausa teatral.

 

- Mas essa mulher tem dinheiro suficiente para comprar a melhor assistência legal e os melhores recursos de investigação - prosseguiu. - Nathan Bailford em pessoa fará a inquirição. Tem mais experiência na área criminalista, onde conseguiu sua grande reputação, do que na empresarial. E contrataram Norma Breen para as investigações. Se existir alguma justificativa para o crime, ela a encontrará. Só que não existe nenhuma, inferno! Nenhuma!

 

Fez outra pausa, essa para controlar a emoção.

 

- A única alegação que poderão usar será a de legítima defesa. Dirão que Maggie Bradford defendeu-se de um ataque de Will Shepherd e que, se ela não o matasse, ele a mataria. Bem, eu direi que isso é conversa mole, e quando terminarmos nosso trabalho, o júri também estará dizendo isso. A desculpa de legítima defesa me dá enjôo. Trata-se de Maggie Bradfordl Ela não podia ter procurado à polícia, denunciado o marido? Por que não o fez? Tinha medo dele? Essa explicação pode ter funcionado no caso do primeiro marido, mas quero que o diabo me carregue se funcionará agora. Ela é uma superestrela! Qualquer polícia, no mundo todo, teria lhe dado proteção, se ela houvesse pedido. Esposa espancada? Meu rabo!

 

Uma terceira pausa, um gole de café.

 

Os outros três homens em seu gabinete conheciam seu jeito e estavam acostumados com seus melodramas. Também sabiam como ele era bom na profissão e o que o julgamento de Maggie Bradford significava para a sua carreira.

 

- Dois maridos, dois assassinatos - Dan Nizhinski continuou. - Isso é causar distensão muscular no longo braço da coincidência, como S. J. Perelman disse uma vez. Se não bastasse, há um terceiro homem morto na vida de Maggie Bradford. Aquele a quem ela, supostamente, mais amou. Patrick O’Malley, o amante com quem estava morando, morreu de infarto num barco. Foi mesmo infarto? A autópsia confirmou que sim. Mas não sabemos o que o provocou. Maggie Bradford é uma assassina desnaturada, fria, que, até essa última vez, agiu com uma esperteza igual ao do próprio diabo.

 

Mais uma pausa.

 

- Agora a pegamos. Ela é culpada? Nunca tive tanta certeza de uma coisa como tenho disso em toda a minha vida. - Nizhinski finalizou, olhando para os assistentes.

 

- Alguma pergunta, filhotes, ou ficaram mudos de deslumbramento? Conseguem nos imaginar perdendo a causa? Eu não consigo.

 

Não sou uma conhecedora de prisões e não quero ser, mas se a casa de detenção de mulheres de Bedford Hills for ”uma das mais luxuosas”, fico com muita pena das coitadas encarceradas em outra qualquer. É horrível, principalmente quando se é inocente, mas, mesmo não sendo, esse não pode ser o jeito certo de reabilitar alguém. Tenho plena certeza de que não é.

 

Fico sozinha em uma cela porque sou uma ”estrela”. Sozinha, faço exercícios e como a péssima comida. Mas fiz amizade com uma mulher, também acusada de ter matado o marido. A triste ironia é que, no caso de nós duas, não se trata de falsa acusação.

 

Estou rodeada por dependentes de drogas, ladras, membros de gangues, incendiárias e algumas assassinas. Jennie me visita algumas vezes por semana, e sempre fico ansiosa por vê-la. Disseram a Allie que eu viajei, recomendando-lhe que obedecesse à sra. Leigh. Sinto tanto a falta deles, que nem consigo escrever sobre isso.

 

Quando penso na minha meiga menina, em meu querido menino, sinto o coração rasgar-se. A dor é tanta, que me dobro, tentando aliviá-la. Não é que eu sinta pena de mim mesma. O fato é que simplesmente não posso viver sem meus filhos.

 

Não posso cair aos pedaços por amor a eles.

 

Terminei essa anotação um pouco antes de as luzes se apagarem, ontem à noite. Parece que estou me lamentando, mas não estou. Não sou do tipo que fica choramingando. Nem mesmo aqui, trancada nesta prisão.

 

Faltam seis horas para o início do julgamento. O que acontecerá? Qual será o veredicto? Não faço idéia. Nada, zero, nenhuma pista.

 

Depois da apresentação das provas, estarei mais perto da verdade? vou, por fim, saber o que realmente aconteceu? Quem me dirá o que está tão escondido no meu coração, que nem eu mesma posso ver?

 

Vocês estarão mais perto da verdade? Contei-lhes tudo até agora. O que acham? Têm certeza? Estou dizendo a verdade, ou sou apenas outra celebridade mentirosa?

 

Vocês têm certeza do que pensam sobre mim?

 

Quando os problemas aparecem, eu simplesmente os resolvo a tiros? Matar é minha única arma? Tenho a tendência a me envolver com monstros?

 

Sou um monstro?

 

Lá vamos nós!

 

- Está pronta, sra. Bradford? Tudo vai acabar bem, verá. Vamos, agora. Queremos levá-la para dentro do tribunal o mais rapidamente possível. Para isso, precisamos da sua ajuda. Mantenha a cabeça baixa e não pare de andar.

 

- Farei o melhor que puder, Bill.

 

- Eu sei.

 

Mais precauções. De Nova York, haviam mandado um guarda especialmente treinado para cuidar de situações iguais àquela. Um profissional. Sua função será a de supervisionar o trabalho dos outros guardas que me protegerão das investidas da imprensa.

 

Ele me guiará para dentro do prédio, ficará sentado perto de mim, depois me conduzirá de volta à prisão, o mais rápido e do modo mais fácil que puder. Chama-se Bill Seibert. Um homem afável de verdade. Tem boas maneiras e gênio calmo.

 

Senti-o me empurrar gentilmente por trás e tropecei de leve, ao sair da viatura. Um ótimo começo, não? Eu até já podia ver as manchetes dos jornais: ”Maggie tropeça logo no primeiro dia”.

 

Entrei em uma confusão de corpos humanos pressionados uns contra os outros, luz cegante de refletores de televisão e uma avalanche de perguntas. Você o matou? Como se sente? Escreveu alguma música na prisão? Como são as suas companheiras? Você canta para elas?

 

Deixem-me em paz!

 

O nível de estupidez e vulgaridade era muito mais alto do que eu poderia ter imaginado. Tive a impressão de que iria vomitar. Minhas pernas não tinham firmeza, enquanto eu tentava andar. As algemas em meus pulsos me faziam sentir culpada.

 

- Apenas me acompanhe - Bill Seibert instruiu. - Não pare, por motivo algum. Não fale com ninguém, sra. Bradford.

 

Fiz o que ele mandara. Confiava em sua eficiência.

 

Patrulheiros estaduais, com seus chapéus de cowboy, mal conseguiam conter a multidão. Ouvi algumas vaias, mas também aplausos. A cena toda deixou-me completamente tonta. A última vez em que me vira no meio de tanta confusão fora em San Francisco, algo que não era exatamente o que eu queria lembrar, no momento.

 

Mãos estendiam-se através da barreira policial, tentando me agarrar.

 

Não me toquem. Deixe-me paz! Não sou nada de vocês.

 

A idéia da mão de um estranho me tocando deu-me vontade de gritar. Mas contive o impulso. Guardei tudo dentro de mim.

 

Felizmente, a maior parte da multidão barulhenta e desordenada ficou para fora, quando a grande porta de carvalho se fechou.

 

De repente, vi-me no vestíbulo de teto muito alto do tribunal. Funcionários, policiais, na maioria idosos, e autoridades municipais ficaram me olhando como se eu fosse uma alienígena acabada de chegar do espaço. Nas paredes brancas que ladeavam a escadaria de mármore, vi as infalíveis fotos em preto e branco. Bandeiras, a americana, a estadual e a da cidade, pendiam de seus suportes dourados. Era tudo incrivelmente estranho.

 

Barry e Nathan correram para mim. Nathan apertou minha mão, e Barry beijou-me no rosto. Acompanharam-me à sala de julgamento, que se encontrava lotada. Tudo era irreal. Barry e Nathan eram irreais também.

 

Comecei a me sentir fisicamente doente, achando que iria vomitar. Parecia que o alvoroço assustador que havia lá fora penetrara na sala como um gás letal. Todos os presentes viraram-se para mim, como que obedecendo a um único comando. Pessoas comuns. Escritores famosos olhavam-me da galeria.

 

Que coisa horrível!

 

Lutei para manter a cabeça erguida, aparentando inocência. Sentei-me à mesa da equipe de defesa, ao lado de Nathan. Barry acomodou-se entre os espectadores, no lugar reservado para ele na primeira fila.

 

Segurei-me na mesa com as duas mãos, procurando apoio. Estava tremendo, gelada, sentindo-me muito solitária.

 

Olhei em volta, procurando meus filhos. Mas, naturalmente apenas Jennie estava lá. Eu sabia que não levariam Allie. Acenamos uma para a outra, e ela começou a chorar.

 

Tudo tão estranho e louco. Tudo tão errado.

 

- Silêncio! Todas as pessoas neste tribunal, ligadas ao caso quarenta e quatro, ouvirão e serão ouvidas. Presidindo, o meritíssimo juiz Andrew Sussman - entoou o oficial de justiça.

 

Era seu grande momento no palco. Todos os olhares fixaram-se nele. ,

 

Ótimo. Pararam de olhar para mim.

 

O julgamento estava começando.

 

Meu julgamento. Por assassinato.

 

Tão esquisito quanto um carro de cinco rodas!, Norma Breen disse a si mesma. Essa gente tem um parafuso frouxo na cabeça! São todos loucos! As coisas não batem. Nisso tudo falta uma peça, que está perdida em algum lugar.

 

Como podia ser que, um único tiro, disparado quando Maggie Bradford estava caindo, fora suficiente para matar aquele desgraçado do marido dela? Mas fora, não? Não havia muita dúvida quanto a isso.

 

Ela olhava pela centésima, ou, talvez, milionésima vez, as fotos do local do crime, tiradas pela polícia, logo depois que o corpo de Will Shepherd fora encontrado.

 

O cadáver estava de bruços.

 

Que azar, Will! Ou você planejou esse azar? Atirou em si mesmo, seu filho da puta infeliz? Foi esse o seu jogo?

 

Ele tentara fugir, isso ficara óbvio pelas pegadas. Maggie perseguira-o, e os dois haviam lutado. A bala entrara na cabeça de Will, que tombara para a frente.

 

Fim da história, fim de Will Shepherd.

 

Começo do mistério que Norma tentava desvendar.

 

Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Havia alguma coisa que não encaixava. Algum detalhe que lhe escapava. Mas, diabo, o que era?

 

Qual era a peça que estava faltando naquele maldito quebra-cabeça?

 

Ela teria de tentar outras coisas. Pedir alguns favores. Manter todas aquelas bolas no ar. Mas encontraria algo que devolveria a liberdade a Maggie Bradford.

 

Para quê? Para ela voltar a matar?

 

Ironia das ironias, pensei. O promotor público adora minhas músicas. Pelo menos, adorava.

 

Eu conhecera Dan Nizhinski em uma festa, na casa de Nathan Bailford. Ele estava lá com a esposa, uma mulher de aparência comum, que usava enormes óculos de aros ovais e nada de maquilagem. Lembro-me de ter imaginado como um homem tão atraente casara-se com uma mulher tão sem graça, mas gostei muito dela, quando tivemos chance de conversar. Os dois afirmaram que eram grandes fãs meus. Hurra!

 

Bem, eu não estava mais gostando de Dan Nizhinski. Ele era alto e muito assustador. Dirigia-se aos jurados como um professor querido falando diante de uma turma de bons alunos.

 

- Ele é bom nisso - cochichei para Nathan.

 

- Nós também somos - ele respondeu, mas sua confiança não transbordou para me atingir.

 

O júri era constituído de uma secretária de empresa de pouco mais de vinte anos, uma diretora de escola, duas donas de casa, duas aposentadas, um coronel reformado do Exército, um escritor freelance, dois comerciantes, um balconista de uma concessionária Ford e um ator, ”atualmente desempregado”.

 

Seis homens, seis mulheres. De meios diferentes. Através do poder de Deus, eles me dariam a liberdade. Pelo menos eu tinha essa esperança.

 

Meu grande fã, Dan Nizhinski, estava de novo falando de mim. Mas não exatamente fazendo-me elogios.

 

- Os senhores terão provas de que a ré, Maggie Bradford, planejou o assassinato de seu marido, Will Shepherd, por um período de várias semanas.

 

Pausa.

 

- Verão que esse assassinato premeditado foi cometido de um modo particularmente frio, quando Will corria para salvar a vida, quando tentava escapar!

 

Mais uma pausa.

 

- Descobrirão que Will Shepherd não era um marido perfeito, mas seus defeitos, fossem quais fossem, não justificam o crime. Provas esmagadoras, em grande número, lhes serão apresentadas, e não haverá nenhuma dúvida, na mente dos senhores, como não há na minha, de que Maggie Bradford é culpada de homicídio de primeiro grau e deve ser punida com todo o rigor da lei.

 

Dan Nizhinski caminhou para o seu lugar, à mesa da promotoria, então parou e retornou para junto dos jurados, como se houvesse acabado de lembrar-se de alguma coisa que devia dizer a eles. Eu. porém, poderia jurar que ele ensaiara muitas vezes aquele movimento e o discurso.

 

- Mais uma coisa. Esqueci de dizer que essa assassina com quem estamos lidando não é uma mulher comum.

 

- Protesto, meritíssimo! - Nathan Bailford gritou, levantando-se. - O promotor rotulou minha cliente! Ela não é ”assassina”.

 

- Negado.

 

- O nome dessa mulher é Maggie Bradford - prosseguiu Dan Nizhinski. - Um nome conhecido em todo o país. Ela não é a pessoa que os senhores vêem pela televisão. A televisão mostra imagens, não a verdade. Maggie não é tão doce quanto sua voz, tão sedutora quanto suas músicas, tão sensível e bondosa quanto sugerem as letras que escreve.

 

Pausa.

 

- Os senhores devem separar a imagem de Maggie Bradford como cantora, compositora, estrela, da verdadeira Maggie Bradford, a mulher sentada diante de nós, acusada de um crime hediondo. Não se deixem enganar por imagens, não fiquem fascinados pela fama da ré, não se iludam só porque essa mulher escreve sobre coisas boas de modo tão convincente. A Maggie Bradford real teve acesso a uma arma. A Maggie Bradford real soube como puxar um gatilho. A Maggie Bradford real não pensou muito, antes de tirar a vida de outra pessoa. Por quê? Porque achou que podia fazer tudo o que quisesse. Afinal, é uma estrela.

 

Nova pausa.

 

- Bem, quando uma estrela cai, explode ao atingir a atmosfera. Então, se apaga. Para Maggie Bradford, os senhores, membros do júri, são a atmosfera. E, como defendem a justiça, representam a justiça, ela nunca mais voltará a brilhar. Não pode voltar a brilhar!

 

Nathan Bailford levantou-se e, com uma paixão que não ficava nada a dever à do promotor, fez um esboço da defesa. Durante os discursos dos dois homens, senti-me como se eles estivessem falando de outra pessoa. O desligamento que eu experimentara por muito tempo, depois que fora acusada de ter matado Will, retornara.

 

- O promotor público pintou um quadro que mostra uma assassina fria - Nathan disse em um murmúrio áspero. - Um quadro assustador e, talvez, acurado, se estivesse falando de uma verdadeira assassina. Mas não é verdadeiro, porque se referia a Maggie Bradford. Os senhores constatarão isso quando ouvirem os depoimentos dos amigos e colegas dela, quando ouvirem o que ela própria tem a dizer.

 

Endireitei-me na cadeira e, rapidamente, escrevi um bilhete para Barry: ”Decidimos que eu não iria depor, e não vou!”.

 

Ele respondeu: ”Ótimo. Então, diga-nos por que matou Will”.

 

Eu: ”Não. Também não posso fazer isso”.

 

Dissera vezes sem conta que não queria depor. Que não podia! Tinha minhas razões para permanecer calada e não falaria, nem que por isso passasse o resto da vida na cadeia.

 

Sr. Shepherd?

 

Ele mesmo.

 

Meu nome é Norma Breen, sr. Shepherd, e estou telefonando de Nova York. O senhor provavelmente não sabe quem sou...

 

- Oh, sei, sim. Está investigando o assassinato de meu irmão. As notícias sensacionalistas dão manchetes aqui também. Posso ajudá-la em alguma coisa?

 

- Entre os pertences de seu irmão, encontrei um bilhete que o senhor lhe mandou. Um bilhete muito simples, por isso achei estranho que ele o tenha guardado. Diz: ”Foda-se, Will”. Pode me dizer a que se referia? E por que seu irmão optou por guardá-lo?

 

Houve um breve silêncio.

 

- Acho que posso. Ele queria que eu fosse seu sócio num empreendimento. Eu estava nos Estados Unidos, na ocasião, e ele me convidou para ir a sua casa. Eu disse ”não” com aquele bilhete.

 

- E era essa a linguagem que usava com seu irmão?

 

- Era a única linguagem que ele entendia. Não éramos muito apegados. Meu irmão era um canalha, um louco. Não era minha pessoa favorita, devo acrescentar.

 

Norma sabia que os dois irmãos não se davam bem. Mesmo assim...

 

- Compreendo que isso deva ser difícil para o senhor, mas poderia me dizer por que não gostava dele?

 

Palmer Shepherd riu.

 

- Tem bastante tempo? E uma história muito comprida.

 

- Terei bastante tempo, se o senhor achar que a sua história pode ajudar.

 

- Não vejo de que modo o que tenho para dizer pode se relacionar com o julgamento. A esta altura, já deve saber que tipo de homem ele era, srta. Breen. Mas eu poderia pegar um avião e ir até aí para conversarmos. Na verdade, sinto muita compaixão por Maggie Bradford. Não pode imaginar quanta.

 

- É muita bondade sua. Com certeza o chamarei, se achar que é necessário.

 

- Ótimo. Meu oferecimento é sincero. Maggie até pode ter acabado com ele, mas o que me surpreende é que ninguém tenha feito isso antes.

 

- É capaz de imaginar que motivo ela poderia ter para matá-lo?

 

- Não sei coisa alguma sobre o casamento deles, porque me mantive distanciado de propósito. Mas Will era o próprio demônio, srta. Breen. Will era mau. Com toda a franqueza, acho que quem o matou prestou um grande favor ao mundo. Acredito nisso de coração.

 

O julgamento prosseguiu muito lentamente. Um dia exaustivo após o outro, semana após semana.

 

No exaustivo vigésimo dia, depois dos depoimentos de várias testemunhas, fui levada de volta à prisão. Barry e Na-than, então, foram me visitar. Quase me recusei a recebê-los.

 

Sabia que eles iriam voltar a me pressionar para que desse uma explicação, ou fornecesse um álibi, coisas que eu não podia fazer. Sabia também que os dois se preocupavam com o fato de o julgamento não estar se desenrolando de modo favorável para nós.

 

- Diga o que sabe sobre Palmer - Barry pediu, quando nós três nos encontrávamos na pequena sala usada apenas para reuniões daquele tipo.

 

Fiquei um pouco confusa, achando estranho aquele seu jeito de iniciar nossa conversa. Palmer Shepherd? Por quê?

 

- O que tem ele? Claro, é irmão de Will, mas só o vi duas vezes. Os dois não eram unidos. No meu casamento, Palmer me deu os pêsames.

 

- Você sabe se Palmer era apegado às tias?

 

- Não tanto quanto Will. Minhas palavras saíram apressadas, talvez em um tom que dizia algo mais. Barry me olhou atentamente, então seus olhos tornaram-se tristes e distantes.

 

- Maggie, você sabia do que houve entre Vannie e Will? - perguntou. - Por que não nos disse? Por que tivemos de saber pelo irmão dele?

 

A raiva, longamente reprimida, subiu à tona. Eu precisava deixar um pouco dela escapar.

 

- Eu não sabia de nada! Apenas devo ter suspeitado de alguma coisa. Barry, o que está tentando fazer comigo?

 

Ele me olhou de modo firme.

 

- Diga a verdade, Maggie. Vannie esteve na sua casa alguma vez?

 

- Só para assistir ao casamento. Você a viu lá, Barry - respondi, lembrando-me claramente da mulher. - A irmã mais nova da mãe de Will... muito atraente. Acho que Will nunca se conformou com o abandono da mãe.

 

- Suponho que não - concordou Nathan. - Will levou alguma mulher estranha à casa de vocês?

 

- Nunca. Acha que eu permitiria? Essas perguntas não fazem sentido, Nathan.

 

- Mais uma coisa. Will nunca tentou nada audacioso em casa? Precisa confiar em nós, Maggie. Não pode guardar segredos. Não a esta altura do julgamento.

 

Hesitei, mas só por um instante. Não estava gostando do rumo que a conversa tomara.

 

- Não tenho nada para contar - respondi. - Por que esconderia alguma coisa de vocês?

 

Barry irritou-se.

 

- Está mentindo - acusou. - Que inferno, Maggie! Você quer acabar comigo?

 

Eu estava mesmo mentindo. Não tenho esse costume, mas não havia outra saída.

 

- Eu juro... - murmurei.

 

- O que Will fez, Maggie? - Barry perguntou, quase gritando.

 

Veias pulsavam em seu rosto e no pescoço. Eu nunca o vira tão furioso.

 

Por favor, Barry, não faça isso comigo!

 

Ele empalideceu subitamente. Fechou os olhos. Então, depois de alguns instantes, tornou a abri-los, e vi que estavam cheios de lágrimas.

 

- Claro - murmurou.

 

Fitou-me com tanta ternura e compaixão, que senti um aperto doloroso no peito.

 

- Oh, meu Deus, claro que foi isso! - ele exclamou. - Will estava dando em cima de Jennie, não é?

 

Levantei-me e chamei a carcereira.

 

- Leve-me de volta para a minha cela. Quero sair daqui imediatamente!

 

Ela veio me buscar, e eu a acompanhei.

 

Eu não diria mais uma única palavra a Barry, nem ao meu advogado. Não queria, não podia arrastar Jennie para aquela sujeira.

 

- A promotoria chama Peter O’Malley.

 

Senti o sangue fugir de meu rosto quando ouvi aquelas palavras. Mas já estava me acostumando à sensação constante de ansiedade e medo. Já estávamos no vigésimo nono dia, e os depoimentos das testemunhas continuavam, a maioria contra mim.

 

Apesar das centenas de vigorosas objeções da defesa, o juiz Andrew Sussman permitira que Nizhinski apresentasse provas a respeito da morte de Phillip. Agora, o promotor pretendia cavar o maior número de informações que pudesse sobre a morte de Patrick O’Malley.

 

Não conseguiria grande coisa. O máximo que ele podia fazer era insinuar que eu fora responsável. Mas eu sabia que era isso o que Peter queria.

 

Tomando uma decisão muito estranha, o juiz mandou que os espectadores saíssem, impedindo-os de assistir àquele depoimento. O fato era que Peter concordara em depor só depois que seu advogado convencera o juiz a conceder-lhe privacidade.

 

Eu não entendia aquilo. De que Peter desejava proteger-se?

 

Mas, muito depressa, eu compreenderia.

 

Seu depoimento durou uma eternidade, interrompido a todo instante por objeções dos meus advogados, de modo que é difícil lembrar de tudo. Mas, em resumo, foi mais ou menos como vou contar. É sócio de um clube de campo chamado Lake, sr. O’Malley?

 

- Sou.

 

- O clube fica em Bedford Hills? Na estrada Greenbriar?

 

- Fica.

 

- Quantos sócios tem?

 

- Cerca de quinhentos.

 

- As atividades são aquelas da maioria dos clubes de campo: golfe, tênis, natação, jantares e bailes?

 

- Exatamente.

 

- No entanto, o Clube Lake oferece algo mais, não é verdade?

 

- Oferece, apenas para algumas pessoas.

 

- Algo reservado para um pequeno número de sócios?

 

- Correto.

 

- O senhor é um desses sócios?

 

- Fui um deles.

 

- Quem mais pertence ao grupo?

 

- Homens importantes, na maioria.

 

- O que é que o clube oferece a essas pessoas?

 

- Um lugar para reunirem-se. Nas reuniões, os sócios discutem finanças, política, coisas assim.

 

- E depois, quando as discussões terminam, o que esses homens fazem?

 

- Divertem-se. Nem sempre, porém. Só de vez em quando.

 

- Entendo. Pode dizer que tipo de diversão é oferecido?

 

- Sexo, quase sempre.

 

- Pode ser mais específico?

 

- Mocinhas e, às vezes, também rapazes são levados ao clube.

 

- Moças e rapazes prostitutos?

 

- Eu não os chamaria assim.

 

- Eles vão lá para divertir os sócios. São pagos para isso? >

 

- São.

 

- Uma rosa chamada por outro nome... O senhor reside em Bedford Hills, sr. O’Malley? Não. Moro em Manhattan, ou na costa oesfcè.

 

- No entanto, é sócio do Lake.

 

- Sou.

 

- Participou de alguma dessas festas dadas tarde da noite, no clube?

 

- Participei.

 

- Como conseguiu entrar no grupo restrito, sr. O’Malley?

 

- Meu pai, Patrick O’Malley, era importante no clube. Fui aceito como sócio quando ele morreu, e como participante desse grupo.

 

- Ele também participava dessa atividade exclusiva?

 

- Participava.

 

- Quer dizer, dormia com mocinhas.

 

- Dormia.

 

- Patrick O’Malley teve um relacionamento com Maggie Bradford?

 

- Durante muito tempo. Dois anos, talvez.

 

- E o senhor tem um meio-irmão, filho de seu pai com Maggie Bradford?

 

- Tenho. Todos eles moravam juntos.

 

- Diria que Patrick O’Malley e Maggie Bradford estavam apaixonados um pelo outro?

 

- Pelo menos, era o que meu pai dizia.

 

- Ele não deixou de ser sócio do Lake nesse período?

 

- Não.

 

- Continuou a dormir com mocinhas?

 

- Isso eu não sei.

 

- A sra. Bradford sabia dessas ”diversões” e que seu pai participara delas?

 

- Sabia.

 

- Como sabe disso?

 

- A sra. Bradford tinha fotos de meu pai com garotas.

 

- Tinha fotos?

 

- Encontrei-as no quarto dela, isto é, no quarto dos dois, depois que meu pai morreu. Ajudei a reunir os documentos dele.

 

- Eram fotos pornográficas?

 

- Muito. Meu pai com duas garotas...

 

- Não precisa entrar em detalhes. Não agora. As fotografias estavam em poder da sra. Bradford?

 

- Estavam.

 

- O que ela pensava a respeito?

 

- Não sei. Ela nunca me disse.

 

- O que o senhor pensa?

 

- É sempre um choque para um filho ver o pai daquele jeito.

 

- Naturalmente. Mas, surpreso, o senhor não ficou.

 

- Não.

 

- Agora diga, sr. O’Malley, como foi que seu pai morreu.

 

- Não sei.

 

- Não sabe? Como é possível?

 

- Morreu num barco. Supostamente, de infarto.

 

- Supostamente? Estava sozinho no barco?

 

- Não. A sra. Bradford estava com ele.

 

- Mais ninguém?

 

- Não. Quando a guarda-costeira encontrou o barco, a sra. Bradford disse aos homens como foi que meu pai morreu.

 

Acreditaram nela? É evidente.

 

- O senhor conhecia Will Shepherd?

 

- Conhecia.

 

- Diria que eram amigos?

 

- Amigos, sim, mas apenas socialmente.!

 

- Mas o senhor tinha negócios com ele.

 

- Tinha.

 

- Will Shepherd era sócio do Clube Lake?

 

- Era.

 

- E do ”clube dentro do clube”?

 

- Também.

 

- Participava das ”diversões”?

 

- Sem dúvida.

 

- Maggie Bradford sabia?

 

Peter CMalley hesitou, mexeu-se na cadeira, então olhou diretamente para mim.

 

- Sim, ela sabia. Provavelmente, foi por isso que o matou.

 

Como eu disse, houve centenas de objeções durante o depoimento de Peter, mas foi o que contei que ficou gravado em minha mente e, tenho certeza, na dos jurados também.

 

Eu estava perdendo.

 

Estava perdendo tudo o que amava, tudo o que tinha importância para mim.

 

Naquela noite, logo depois do jantar, Norma Breen foi me visitar na prisão. Tornara-se uma das pessoas com quem eu mais gostava de conversar. Tínhamos quase a mesma idade, nós duas vínhamos da classe trabalhadora, de modo que uma compreendia a outra muito bem.

 

É Maggie, detesto dizer isso, mas não gosto das suas músicas - foi seu prelúdio naquela visita.

 

Era seu jeito curioso de dizer ”olá”.

 

- Cachorra - resmunguei, sorrindo para ela.

 

Só Norma conseguia me fazer rir. Era, de fato, minha amiga.

 

- Não. Cachorra é você, que não me ajuda a fazer o meu trabalho. Que, ironicamente, é tentar tirar você deste zoológico.

 

Eu ainda sorria. Ela também, embora o assunto fosse terrivelmente sério. Ninguém agüenta ficar terrivelmente sério por tanto tempo, tantas horas, tantos dias, meses a fio.

 

- Norma, detesto dizer isso, mas não gosto do jeito que está fazendo o seu trabalho - declarei, imitando-a.

 

- Duro demais, não é? Muito cheio de farpas. Estendi a mão sobre a mesa, pousando-a sobre a dela. Norma era solteira, disponível, mas, provavelmente por causa dos vinte quilos de excesso de peso, os homens a ignoravam. Cometiam um erro. Um grande erro.

 

- O que tem na cabeça hoje, meu bem? - perguntei, sabendo que ela não parava de pensar, de tecer conjeturas.

 

- Gostaria de falar com você a respeito dessa sua mania de mártir. Por falar nisso, odeio aquela tal de madre Teresa de Calcutá. Pare de bancar a mártir, Maggie.

 

- Mas eu sou uma mártir - afirmei. - Foi o que tive de me tornar, ainda pequena, para que a minha família me amasse. Não posso evitar de ser assim.

 

Norma virou a mão e segurou a minha, apertando-a com força.

 

- Eu amo você, Maggie. Aprendi a amar num tempo muito curto. Muitas outras pessoas a amam. Você é uma porra de uma mulher adorável.

 

Dei uma gargalhada, meu humor mais negro emergindo.

 

- Todos me amam, menos meus maridos - observei.

 

- Já pensou que pode ter escolhido dois canalhas só para poder continuar no seu papel de mártir? Como você mesma disse, não pode evitar. Só que pode, Maggie! Pode evitar e ajudar a si mesma.

 

Suspirei profundamente. Sabia aonde Norma queria chegar. Eu estava cansada de ouvir Barry e Nathan martelando naquela mesma tecla, mas, de repente, vindo de outra mulher, o som me pareceu um pouco diferente.

 

- Não, não posso - disse por fim. - Boa tentativa, Norma, mas não me convenceu. Não posso envolver Jennie.

 

- Pode, sim - ela insistiu, e, de repente, lágrimas começaram a tombar de seus olhos.

 

Nunca chorara na minha frente. Nunca perdera o controle, nunca baixara a guarda.

 

Então, estávamos ambas soluçando, as mãos entrelaçadas, chorando abertamente, como se tivéssemos nove anos.

 

- Falei com Jennie, Maggie. Ela mandou dizer que vocês duas precisam conversar e que a conversa será uma continuação daquela em Pound Ridge. Disse que você lhe deve isso.

 

Norma Breen foi, pela última vez, à casa de Maggie, em Bedford Hills. Estava convencida de que perdera um detalhe importante. Que todos haviam perdido. O que poderia ser, em nome de Deus?

 

Mildred Leigh recebeu-a e ofereceu-lhe uma xícara de café. Allie estava brincando na sala de estar, e Norma ficou satisfeita com a oportunidade de falar à vontade com a empregada. Ainda não entrevistara a sra. Leigh como deveria. Podia ser que, naquele dia, conseguisse obter alguma informação útil.

 

- Sei que já deve ter contado muitas vezes a mesma coisa, sra. Leigh - Norma começou -, mas poderia

 

,_ me dizer tudo o que aconteceu no dia do crime? A senhora estava aqui?

 

- Até as seis e meia. Depois saí, porque era minha noite de folga. - A empregada corou. - Fui me encontrar com o sr. Frazier e só voltei na manhã seguinte. Cheguei aqui e encontrei a polícia e a imprensa. Então fiquei sabendo que Maggie estava sendo acusada de uma coisa que jamais faria.

 

Ela parece orgulhosa de si mesma, Norma refletiu. Dá para entender. Está falando de seus quinze minutos de fama.

 

- Aconteceu algo fora do normal enquanto a senhora estava aqui? - perguntou. - Qualquer coisa de que se lembre pode ajudar Maggie. Diga tudo o que lhe passar pela cabeça.

 

- Foi um dia igual aos outros. Não, não aconteceu nada diferente. Nada de que me lembre. Foi isso também o que eu disse à polícia.

 

- Maggie e o sr. Shepherd não brigaram? Não tiveram nenhum desentendimento?

 

- Eles mal se viram. O sr. Shepherd ficou em Nova York quase o dia todo. Não, não ouvi nenhuma briga.

 

- Conte-me o que eles fizeram. Qualquer coisa que lhe venha à lembrança, sra. Leigh.

 

- Bem, Maggie ficou no escritório, como sempre. Acho que escrevendo as suas canções. Saiu algumas vezes, para falar com as crianças. Ela e Allie adoram brincar juntos.

 

- E o sr. Shepherd?

 

- Ele voltou da cidade, mas não sei a que horas. À noite, vi-o saindo do clube. Ele estava voltando para casa.

 

Norma ficou momentaneamente confusa.

 

- A senhora estava no clube? O que foi fazer lá?

 

- J.C. Frazier mora lá, no lado oposto do prédio principal, atravessando o pátio de estacionamento.

 

- Sabe por que o sr. Shepherd foi ao clube naquela noite?

 

- Não, senhora. Só o vi passando pela casa do sr. Frazier.

 

- Que horas eram?

 

- Cerca de dez, dez e meia.

 

- Viu-o apenas rapidamente?

 

- Isso mesmo. J.C. e eu tínhamos coisas melhores para fazer do que ficar olhando o sr. Will Shepherd.

 

- Com certeza.

 

O que Will estaria fazendo no clube, naquela noite?, Norma perguntou-se. Não combinava com o que Maggie lhe contara.

 

- Acha que ele podia estar lá por causa de uma daquelas festas que acontecem tarde da noite? - indagou.

 

A sra. Leigh olhou-a com ar conspirador.

 

- J.C. lhe contou? A senhora sabe daquelas farras?

 

- Claro que sei. Notou que roupas o sr. Shepherd usava?

 

- Estava escuro. A única coisa que sei é que ele estava levando a espingarda.

 

Norma sentiu os pêlos finos dos braços eriçarem-se.

 

- A espingarda? Tem certeza?

 

- Eles praticam tiro, no clube. Com alvo móvel, num terreno que fica depois do campo de golfe. O sr. Shepherd sempre ia lá.

 

- Mas não foi no dia em que o mataram. A sra. Leigh suspirou.

 

- Já lhe disse. Ele ficou em Nova York quase o dia todo. Saiu muito cedo, o que não era seu costume.

 

- Contou tudo isso à polícia? - perguntou Norma.

 

A empregada assentiu com um gesto de cabeça.

 

- Tudo o que estou lhe contando agora.

 

- Também contou que viu o sr. Shepherd deixar o clube, levando a espingarda?

 

- É claro.

 

Acabaram de tomar o café.

 

- Obrigada, sra. Leigh. Ajudou bastante.

 

- Foi um prazer. Está vendo aquele menininho ali? - A sra. Leigh apontou para Allie. - Ele é um amor e adora a mãe. Todos nós queremos que Maggie volte para casa. Sentimos muito a sua falta.

 

- Eu também quero que ela volte. Posso usar o telefone? - Norma pediu.

 

- Naturalmente. No escritório. Venha comigo.

 

- Não se incomode. Sei onde é - afirmou Norma. Teve de controlar-se para não correr, enquanto se dirigia ao escritório.

 

Barry, estou na casa de Maggie. Acho que encontrei uma pista. Pelo menos, espero ter encontrado. Não. Acho que é algo concreto mesmo.

 

Norma fechara a porta atrás de si ao entrar no escritório, mas, por cautela, cochichava, falando ao telefone.

 

- Estou ouvindo. Continue - disse Barry.

 

- Sabe aquela famosa espingarda? - Norma perguntou. - A sra. Leigh viu Will com ela na noite do crime. Ele estava saindo do Lake. Cada vez mais, o clube parece ter alguma coisa a ver com essa confusão dos infernos.

 

- Por que Will teria levado a espingarda ao clube?

 

- Foi a primeira pergunta que me fiz. - Em sua excitação, Norma ergueu a voz. - E a resposta é: ele foi ao clube buscara espingarda. Quando Maggie mandou-o livrar-se da arma, ele deve tê-la guardado lá. Ela disse que a procurou por todos os cantos da casa e não encontrou. Por quê? Porque a espingarda estava no clube. Houve uma longa pausa.

 

- Tudo bem, mas por que Will faria isso? - Barry perguntou por fim. - Ele se suicidou? Fez do seu suicídio uma peça de teatro, Norma? E isso que você está pensando? Que ele premeditou tudo para incriminar Maggie?

 

Norma foi invadida por uma onda de frustração e aturdimento.

 

- Merda, ainda não sei! - exclamou. - As coisas não estão fazendo muito sentido.

 

Nova pausa.

 

- vou lhe dizer o que sei - ela voltou a falar. - A polícia de Bedford sabe que Will foi ao clube buscar a espingarda, mas sonegou essa informação. Há algo podre no reino de Bedford, e eu vou descobrir o que, quem e por quê.

 

- Pega, Norma! 101

 

Olhei para Jennie, quando ela entrou no parlatório, e tive vontade de chorar. Mas não iria me render a esse impulso. Precisava ser forte por nós duas. Precisava ouvir o que minha filha tinha a dizer.

 

Não conseguia desviar os olhos do rosto dela. Sempre a amara muito mais do que amava a mim mesma. Todos diziam que éramos muito parecidas, só que eu não via em Jennie nenhum dos meus defeitos e fraquezas. Fisicamente, éramos de fato parecidas. Ela já estava bastante alta, com quase um metro e setenta e dois, e seus cabelos loiros eram tão compridos quanto os meus. Tínhamos os mesmos olhos.

 

Amo você, eu disse em pensamento, quando ela sentou a minha frente, no outro lado da mesa. Detestei aquela mesa que nos separava. Tinha necessidade de abraçar minha filha e de que ela me abraçasse. Eu nunca precisara tanto disso como naquele momento.

 

De repente, ela abriu um sorriso. Aquela era a minha Jennie.

 

- Tenho um recado de Norma - começou. - Mandou dizer que madre Teresa é uma farsa, um show de Lãs Vegas. Que tudo o que ela faz é por dinheiro.

 

A brincadeira me fez rir alto.

 

- Norma está tentando ajudar você, mamãe - disse Jennie, inclinando-se sobre a mesa e falando em seu tom mais adulto.

 

- Eu sei disso, Jennie. Como você está? Ela revirou os olhos, impaciente.

 

- Estou bem. Dá para acreditar? Só não posso dizer que estou ótima. - Soprou-me dois beijos. - Esses, foi Allie quem mandou. Na verdade, mandou mais de cem.

 

- Ele ainda se lembra de mim? Ela tornou a revirar os olhos.

 

- Nós o fazemos assistir às fitas de vídeo dos seus shows, para que não esqueça. Lemos as suas cartas para ele e mostramos as suas fotos. Mas eu vim aqui para falar de outra coisa. E vamos falar, mamãe.

 

- Entendo - afirmei. - E respeito sua vontade, Jennie.

 

- É um bom começo. Agora, acho que deve me fazer perguntas, porque está com certas idéias na cabeça que eu não sei direito quais são. Por isso, vamos usar o método socrático. Sorri.

 

- Não vou nem perguntar como estão as suas notas - declarei.

 

- Sou a primeira da classe. Vamos, continue assim. Não me decepcione.

 

Aquela era, sem dúvida, a pior situação, a mais difícil que eu já enfrentara. De fato, estava com certas idéias na cabeça. Mas não, não estava preparada para falar sobre elas. Talvez nunca estivesse.

 

- Acho que podemos começar pela noite do... pela noite da morte de Will - eu disse por fim.

 

- Um bom ponto para começar, o fim.

 

- Encontrei Will no seu quarto. O que ele estava fazendo lá, Jennie?

 

- Foi me dizer ”boa-noite”.

 

Havia um tom de inocência nas palavras de Jennie, que me fez ficar olhando para ela, espantada.

 

- Só isso? Jennie, você não pode mentir, nem mesmo para proteger Will, ou meus sentimentos. Estamos de acordo quanto a isso?

 

- Claro. Essa é a regra do jogo. Estamos de acordo. Agora, vamos começar a jogar.

 

- Você me dirá a verdade, e eu farei o mesmo. Direi qualquer coisa que queira saber a respeito da morte de Will.

 

Jennie fixou os olhos nos meus.

 

- Tenho algumas perguntas para lhe fazer.

 

- Primeiro eu, depois você, ok?

 

Ela moveu a cabeça em uma afirmativa.

 

- Tudo bem.

 

Eu não sabia exatamente por onde começar minhas perguntas. Então, me decidi pelo ponto mais óbvio.

 

- Will ia com freqüência ao seu quarto, dizer ”boa-noite”? As vezes. Também me levava leite morno. Dizia que a tia costumava levar-lhe chá, quando ele era pequeno e morava na Inglaterra.

 

Tive um sobressalto ao ouvir Jennie mencionar a tia de Will, mas é claro que ela não poderia adivinhar que isso me perturbaria.

 

Respirei fundo. Não tinha certeza de poder continuar com o ”jogo”. A prisão não era um lugar onde eu quisesse ter aquele tipo de conversa com Jennie.

 

Ela estendeu a mão e- pegou a minha.

 

- Posso tentar fazer com que isto fique mais fácil... para nós duas?

 

- Pode, se acha que vai conseguir - murmurei. Eu me sentia sem voz. Completamente oca. Fora da realidade.

 

- Will era muito complicado. Você sabe disso, mamãe. Acho que ele desejava realmente ser um bom pai. Ia ao meu quarto, às vezes, para conversar. Só para isso. Penso que queria provar que podia estar lá e só conversar. Ele me contava muitas coisas do tempo em que era criança e adolescente. Também sabia ouvir. Às vezes, pelo menos.

 

- Isso é verdade - concordei.

 

- Eu tinha uma paixão pecaminosa por ele, mamãe. Achava-o lindo como um deus, como Ralph Fiennes ou Mel Gibson. Pensava nele o tempo todo.

 

- Mas nunca aconteceu nada?

 

- Aquela noite, no meu quarto, Will disse a você que ele e eu íamos nos ”divertir”. Mas mentiu, mamãe. Nunca houve nada entre nós. Não precisa continuar querendo me proteger. Por favor, acredite em mim! Não aconteceu nada.

 

Peguei o rosto de Jennie entre as mãos. Queria estar ainda mais perto dela, mas aquele contato era tudo o que nos permitiam, naquele lugar horroroso.

 

- Deixe-me testemunhar a seu favor, mamãe. Por favor! Deixe-me fazer isso por você! Preciso ajudá-la, nem que seja só desta vez. Eu posso ajudar, mamãe. Nada jamais aconteceu entre mim e Will. Não precisa me proteger.

 

Norma Breen estava resmungona e impaciente, quando chegou ao Lake Country Club.

 

Aquelas malditas peças que estão faltando no quebracabeça têm de estar aqui, em algum lugar, pensava repetidamente, achando que isso se tornaria verdade, se ela fizesse a afirmação vezes suficientes.

 

Fora ao clube especificamente para falar com J.C. Frazier. O homem beirava os cinqüenta anos, tinha o rosto bronzeado de quem vivia ao ar livre, corpo esbelto e musculoso.

 

Bem, já sei que J.C. é observador, Norma refletiu, sentando-se com ele na varanda do prédio principal do Lake. Resta torcer para que seja também falante.

 

Entrou no assunto, convencendo J.C. a conferir o que ela já sabia: que havia ”festas” no clube, altas horas na noite, e que Will Shepherd participara de várias delas como convidado.

 

- Existe alguma lista de nomes? - perguntou. - Quero dizer, nomes dos homens que freqüentavam essas festas?

 

O jardineiro-chefe ergueu e baixou os ombros largos.

 

- Se existe, nunca vi. Mas duvido que fizessem uma lista.

 

- Então, diga-me alguns dos nomes. Que pessoas o senhor viu aqui, tarde da noite, quando o clube já estava fechado? Ora, J.C., diga, vamos.

 

Ele abanou a cabeça, negando.

 

- Não posso fazer isso. Se alguém descobrir que falei, perderei o emprego. Não era nem para eu saber, muito menos falar.

 

- Mas já me falou do sr. Shepherd.

 

- Estou tentando ajudá-la, só que não posso ajudar tanto quanto a senhorita gostaria.

 

- Droga! Estou investigando um assassinato! O que o senhor sabe poderia salvar a vida de Maggie Bradford!

 

J.C. mexeu-se nervosamente na cadeira. Eu sei. E por isso que estou conversando com a senhorita. Só não me peça para citar nomes. Isso eu não posso fazer!

 

Norma fuzilou-o com um olhar, o que não produziu efeito algum.

 

- Então, pelo menos me mostre onde as festas aconteceram. Deixe-me dar uma olhada.

 

- Se eu fizer isso, srta. Breen...

 

- Se não fizer, terei de intimá-lo a testemunhar no tribunal - ela ameaçou.

 

tome isso! J.C. fez uma careta.

 

- Só mostro a porta, então. Se alguém perguntar, diga que encontrou a sala sozinha.

 

- Negócio fechado. - Norma sorriu. - Leve-me até lá.

 

Os dois caminharam por uma trilha sinuosa que dava a volta no prédio, indo até os fundos, onde havia uma pesada porta de madeira que devia ser usada apenas pelo pessoal da manutenção. J.C. Frazier tinha a chave e abriu-a.

 

- Então, a entrada é por aqui, hein? - comentou Norma.

 

Era frio e escuro naquele lado do prédio. Como os corações pervertidos dos filhos da puta que vêm aqui para se divertir, ela pensou.

 

O interior, porém, era comparável ao que existia no resto do clube exclusivo. Ela e J.C. passaram por uma sala de bilhar deserta. Norma teve a impressão de que uma leve neblina flutuava no ar.

 

Entraram em um salão-bar extremamente elegante, com painéis de mogno nas paredes. Norma adivinhou que o lugar era aquele. Um clube dentro do clube. O quarto de brinquedos dos meninos ricos.

 

- Era aqui que se reuniam, então. Era aqui que faziam as suas orgias.

 

- Era, sim - J.C. resmungou, carrancudo. Norma quase podia ver os ”meninos do clube”, suas

 

roupas caras, o melhor uísque, sua pose de homens todopoderosos, suas prostitutas. Não sabia por que, mas sentia que aquela sala seria muito importante para a defesa de Maggie. Acreditava até na possibilidade de um dos sócios do clube ter matado Will Shepherd.

 

Will teria comido a esposa errada? Teria fodido um daqueles poderosos em um negócio qualquer? Na opinião de Norma, era bem possível que ele houvesse sido assassinado por algo que fizera.

 

- Sirva-se de um drinque - ela disse ao jardineirochefe do clube Lake. - Depois sente essa bunda numa poltrona. Precisamos conversar. Nós vamos conversar.

 

- Não posso.

 

Norma apontou um dedo para o homem, muito mais alto e forte do que ela.

 

- Escute, e escute bem. Maggie Bradford talvez até seja condenada, mas não vai ser porque você escondeu a verdade. Ou me conta o que sabe, ou farei com que perca o emprego e muita coisa mais. Isto é uma ameaça que eu vou cumprir.

 

J.C. Frazier andou até o bar e serviu-se de uma dose de Maker’s Mark.

 

- Escolheu bem - observou Norma. - Sirva uma dose para mim também. Depois, comece a contar quem fazia parte desse clube dentro do clube. Quero os nomes. Todos os que você sabe.

 

O jardineiro-chefe entregou-lhe o drinque, então sentaram-se ao balcão do bar apainelado. Por fim, começou a falar.

 

Quando acabou, Norma não podia acreditar no que ouvira. Simplesmente não podia acreditar. Cristo!

 

Tudo mudou, ela pensou. Meu Deus, o mundo todo ficou diferente. O inimigo dormiu. Peguei vocês, seus miseráveis! Seus nojentos! Peguei vocês!

 

Como ela cresceu, como sabe se comportar! Já é quase uma mulher, pensei, vendo Jennie caminhar em direção ao banco de testemunhas para prestar seu depoimento.

 

O rosto dela parecia brilhar. Os longos cabelos loiros cintilavam. Jennie se mostrava confiante e serena. Eu desejei poder dizer isso de mim mesma.

 

Nathan guiou-a com extremo cuidado, durante seu testemunho. Ela contou sobre Will ter ido a seu quarto, na noite fatídica. Explicou que ele estava parado aos pés da cama, olhando-a com cobiça, quando eu entrei.

 

- ”Jennie e eu íamos nos divertir um pouco. Quer juntar-se a nós? Num ménage à trois?” Foi isso o que ele disse a minha mãe. Não sei por que, mas disse - ela contou aos jurados, de um jeito que não havia como eles não acreditarem em sua sinceridade.

 

Ouvindo Jennie repetir as palavras de Will, fui dominada pela mesma raiva paralisante que me assaltara então.

 

Estou contente por ele ter morrido, pensei. E horrível, mas estou muito contente.

 

O depoimento de Jennie, pela defesa, não levou mais do que quarenta minutos. Aquele fora meu acordo com Na-than, e eu o fizera quase assinar com sangue o juramento de que não a forçaria demais.

 

Assim que terminou de falar com ela, ele foi sentar-se perto de mim. Pegou minha mão, e apertei-lhe os dedos, cheia de gratidão.

 

- Obrigada, Nathan, por ter paciência comigo - murmurei.

 

- Obrigado por confiar em mim - ele murmurou de volta.

 

Os jurados continuaram impassíveis; mesmo assim, pude notar que as mulheres pareciam ter ficado um tanto comovidas com o depoimento de Jennie.

 

Eu não matara em defesa própria, mas para defender minha filha. Agora eles sabiam. Jennie conseguira o que pretendera.

 

Infelizmente, ainda faltava a pior parte. Dan Nizhinski aproximou-se lentamente do banco de testemunhas.

 

Baleia assassina, pensei. Pronta para devorar um peixe indefeso. Nizhinski está fazendo isso para ficar famoso. É só o que o julgamento significa para ele: fama instantânea, celebridade.

 

- Srta. Bradford... Jennie - ele começou suavemente, quase em tom de quem pedia desculpas.

 

- Por favor, não me chame pelo meu primeiro nome.

 

- Jennie pediu, sustentando o olhar dele sem vacilação.

 

- O senhor não me conhece, dr. Nizhinski.

 

O promotor suspirou. Um ponto para Jennie.

 

- Tem uma grande amiga chamada Millie Steele? - ele perguntou, depois da mais breve das pausas.

 

Era duro tirar Dan Nizhinski da jogada, pensei.

 

- Tenho - respondeu Jennie, parecendo surpresa com a pergunta.

 

- É sua melhor amiga, não é? - o promotor insistiu em tom gentil.

 

Achei que ele estava sendo delicado demais.

 

Jennie hesitou, então moveu a cabeça, concordando. Eu quase via sua mente funcionando, tentando descobrir aonde ele queria chegar com aquelas perguntas.

 

- Precisa responder verbalmente, srta. Bradford - o juiz Sussman informou. - Millie Steele é sua melhor amiga?

 

Nathan Bailford levantou-se lentamente de nossa mesa.

 

- Protesto, meritíssimo. Não vejo o que a amizade da srta. Bradford com a srta. Steele possa ter a ver com este caso. Devo lembrar a todos que Jennie Bradford só tem quinze anos. O depoimento que está prestando, sem falar no julgamento, é uma experiência tremendamente penosa para ela. Não devemos prolongá-lo inutilmente.

 

- Meritíssimo, os jurados logo saberão a que levam minhas perguntas - Nathan explicou. - Não são inúteis. Trata-se de um ponto muito importante.

 

- Prossiga - concedeu Sussman. - Mas o ponto tem de ser realmente importante. Trate a testemunha com gentileza e seja rápido.

 

Nizhinski aproximou-se mais de Jennie, e eu me encolhi em minha cadeira. Não gostei nem um pouco daquela atitude e pude ver que ela também não gostara.

 

- Conversa muito com Millie Steele? Na escola? Às vezes, depois das aulas?

 

- Sim, senhor. E antes das aulas também - Jennie respondeu com um sorriso.

 

Os jurados sorriram. Mas era fácil, para mim, notar que ela estava intrigada. Para onde Nizhinski a estava guiando?

 

Cuidado, Jennie!, tive vontade de gritar.

 

- Mente para a sua amiga, srta. Bradford? Lembra-se de alguma vez ter mentido para ela?

 

- Não. Millie e eu não mentimos uma para a outra.

 

- Então, ouça o que vou dizer, Jennie. No dia treze de outubro, sua melhor amiga, Millie Steele, fez uma declaração na delegacia de Bedford Hills.

 

Nizhinski fez uma pausa e abriu a pasta grossa que tinha nas mãos. A pasta preta de couro era intimidadora pela espessura e aparência severa.

 

- Ouça o que Millie declarou - ele continuou. - ”Jennie estava apaixonada pelo padrasto. Muitas vezes ela me disse que gostaria... que gostaria... bem, de ir para a cama com ele, e que faria de tudo para seduzi-lo.”

 

Fechou a pasta com suavidade.

 

- Jennie, você disse a Millie que estava apaixonada por Will Shepherd? - indagou.

 

O que esse miserável está fazendo com ela?, pensei, sentindo o estômago contrair-se.

 

- Disse, mas... - Jennie hesitou, tentando responder à pergunta.

 

- Responda apenas ”sim” ou ”não”, por favor. Estava apaixonada por seu padrasto?

 

Ele está torturando minha filha Precisa ser detido!

 

- Nathan... - cochichei.

 

- Espere, Maggie. E escute.

 

- Sim, eu sentia paixão por Will.

 

- Tentou seduzi-lo?

 

- Não, realmente.

 

- Isso não é resposta, srta. Bradford. Tentou seduzilo? Sim ou não?

 

- Sim, de certa maneira. Foi para a cama com ele?

 

- Não! O senhor é uma pessoa horrorosa! - Jennie gritou. Não!

 

Não! Graças a Deus! Agora, deixe Jennie em paz.

 

- Então, onde fez amor com ele? Millie Steele afirma que você fez!

 

- Will e eu nunca fizemos amor!

 

- Perdão, mas é difícil de acreditar. É uma jovem muito atraente, Jennie. Will Shepherd era muito sensível a jovens bonitas. Ouvimos isso uma infinidade de vezes neste tribunal. Está me dizendo que seu padrasto a rejeitou, mesmo você atirando-se para cima dele? Não é o que a reputação de Will Shepherd nos leva a crer!

 

Jennie começou a chorar. Seus soluços eram o único som que se ouvia no recinto. Voltara a ser uma menininha.

 

- Nathan, por favor! - implorei.

 

Implacável, Dan Nizhinski chegou ainda mais perto de Jennie.

 

- Não é verdade que você era amante de Will Shepherd havia vários meses, quando ele foi assassinado? Assim, a alegação da defesa, de que sua mãe o matou para defendê-la, cai por terra. Não fica evidente que ela o matou por vingança?

 

- Eu não me atirei para cima dele! - Jennie exclamou. - Will nunca me tocou! Nunca fez nada indecente, como o senhor está fazendo agora!

 

Nizhinski recuou um passo e encarou-a.

 

- Sabe o que significa ”perjúrio”? Ela moveu a cabeça afirmando.

 

- Responda verbalmente, por favor. O estenógrafo do tribunal não pode registrar um gesto de cabeça.

 

- Sim, eu sei - ela respondeu com um fio de voz.

 

- Sabe qual é a penalidade por perjúrio?

 

- Não, de modo exato. Vai me mandar injustamente para a prisão, como fez com minha mãe?

 

- A penalidade por perjúrio pode mesmo significar cadeia, mas sua mãe não foi mandada para a prisão injustamente, srta. Bradford. Ela matou Will Shepherd porque pensou que você e ele estavam tendo um caso.

 

Nathan levantou-se impetuosamente.

 

- Protesto, meritíssimo! Protesto!

 

- Não tenho mais perguntas - declarou Dan Nizhinski, afastando-se de Jennie.

 

A sala pareceu entrar em erupção a nossa volta. Levou minutos para que as marteladas do juiz Sussman conseguissem impor silêncio.

 

Jennie foi retirada do banco de testemunhas. Estava chorando. Estendi minhas mãos, querendo tocá-la, mas, claro, não podia.

 

- Está tudo bem, mamãe - ela afirmou. - Ninguém vai nos magoar. Ninguém pode nos magoar outra vez.

 

Eu apenas desejava que aquilo fosse verdade.

 

No tribunal, Norma Breen mastigava Rolaids deliciosos, com sabor de laranja, enquanto ouvia as considerações de encerramento. Guardava um segredo, uma verdadeira bomba, e precisava morder a língua para impedir-se de revelá-lo.

 

Talvez a defesa possa virar essa bosta de julgamento de cabeça para baixo, ela pensava, sentada na última fileira. Quem sabe, apesar de todas as provas, Maggie seja absolvida. Talvez o júri consiga compreender que ela foi obrigada a matar e a absolva. Ou, pelo menos, dê o mais suave dos veredictos, a pena mais leve dentro do que a lei prescreve. Assim como Mel Gibson pode vir me convidar para sair com ele, enquanto estou aqui, com minha bunda enorme acomodada nesta cadeira. Nunca se sabe, não é?

 

Norma decidira que a melhor estratégia era esperar pelo veredicto. E, enquanto ouvia a refutação de Nathan Bailford, sentiu uma centelha de esperança acender-se em seu coração.

 

Maggie é uma boa pessoa, dirigiu-se mentalmente aos jurados. Sejam justos, tá?

 

Em sua réplica, Nathan interpretou os fatos tão habilmente, que Norma teve a impressão de que Maggie era a vítima, e Will, o assassino.

 

No entanto, o advogado de defesa não podia mudar o fato de que Will Shepherd estava morto, e Maggie Bradford, viva. Também não podia responder a uma pergunta muito importante: se não fora Maggie, quem, então, matara Will?

 

O promotor levantou-se e rotulou a defesa de Nathan de ”cortina de fumaça”. Homicídio era homicídio. Não havia outro nome. Aquele fora um assassinato motivado por uma única coisa: desejo de vingança. E, como Maggie pegara a arma e entrara com ela no quarto da filha, o assassinato fora premeditado e merecia a pena máxima. Prisão perpétua.

 

Apesar de tudo isso, há algo totalmente errado neste julgamento, ponderou Norma, falando consigo mesma.

 

Continuava inquieta, com aquela profunda sensação que a assaltara logo no início. Maggie não matara Will Shepherd. Norma estava convencida disso. Will cometera suicídio. Ameaçara matar-se durante anos, de acordo com Maggie, e até mesmo com Palmer. Aquela fora sua última e terrível vingança contra Maggie.

 

Se Maggie houvesse testemunhado, provavelmente um motivo para isso emergiria. Mas Norma concordara, embora com relutância, que tal estratégia seria um erro. Devia continuar valendo o depoimento que ela fizera à polícia, de que não sabia o que acontecera, de que nem tinha certeza de haver matado Will. Norma, porém, continuara com dúvidas e estava começando a suspeitar de tudo sobre o trabalho da defesa. De tudo.

 

Bem, era tarde demais para isso. Nathan Bailford acabou sua declaração de encerramento e sentou-se pesadamente.

 

O drama que se arrastara por quarenta e seis dias finalmente chegara ao fim.

 

Era quase impossível ler, no rosto dos jurados, o que lhes passava pela mente.

 

Contudo, Norma adivinhava que Maggie Bradford iria ser condenada por assassinato.

 

Aí, então, ela poderia soltar sua bomba, e a verdadeira exibição de fogos de artifício começaria.

 

- Sempre confiantes! Eles nem chegaram perto, fãs do esporte! Aos vencedores! A nós!

 

Dan Nizhinski reclinou-se na poltrona e tomou um grande gole de cerveja, sorrindo para seus três assistentes.

 

- Aos vencedores! - o grupo entoou.

 

- O que tivemos? - Nizhinski perguntou, como se não soubesse a resposta. - Um recorde? O mais rápido veredicto de todos os tempos num caso de assassinato?

 

- Nem tanto, mas você fez um grande trabalho, Dan - Moira Lowenstein, sua mais jovem assistente, respondeu. - Obrigou o júri a livrar-se das emoções e ver com frieza o que realmente aconteceu. Uma verdadeira façanha. Fez os jurados compreenderem que, se a absolvessem, estariam subvertendo todo o nosso sistema judiciário.

 

- Eu não conseguiria isso, se não fosse por vocês - Nizhinski declarou.

 

Mas não estava sendo sincero, e seu tom de voz implicava que ele sabia que teria sido bem-sucedido, mesmo sem nenhuma ajuda.

 

- O que pretende fazer agora, chefe? – perguntou Bob Stevens, o assistente mais íntimo, abrindo sua quarta lata de cerveja em menos de uma hora.

 

Nizhinski sorriu. Ainda estava representando. Não podia impedir-se.

 

- Para ser franco, ainda não decidi. O julgamento colocou meu nome em evidência, tenho de admitir, e isso não me fará nenhum mal.

 

- O Estado está precisando de uma boa faxina - comentou Moira.

 

Peter Eisenstadt, o mais calado dos três assistentes, lançou-lhe um olhar irônico.

 

Adivinhe quem vai para Albany, agarrada na sua calça, chefe?

 

- Decidirei na hora certa - disse Nizhinski. Não era segredo, porém, que ele pretendia candidatar-se a um cargo muito alto. - Por enquanto, vamos aproveitar o momento de glória. Ergueu a lata de cerveja. - A uma grande vitória!

 

- À vitória - os companheiros ecoaram.

 

Todos riram, beberam e congratularam-se mutuamente.

 

Então, o telefone tocou.

 

O próprio promotor ergueu o fone.

 

- Alô.

 

- Promotor Nizhinski?

 

- Ele mesmo.

 

- Kahn - o interlocutor identificou-se. - Barry Kahn. O promotor captou algo na voz do homem que o fez gelar.

 

- Norma Breen e eu estamos indo ao seu gabinete - continuou Barry Kahn. - Ela descobriu algo que deve interessá-lo.

 

Culpada.

 

Culpada.

 

A palavra soava em minha cabeça sem cessar, como uma ladainha religiosa. Não. Era mais um canto fúnebre.

 

Culpada! vou enlouquecer na prisão! Já estou meio louca.

 

Norma e Barry vieram me ver, assim que fui trazida de volta, depois do veredicto. Estavam sorridentes e cheios de segredinhos. Disseram para eu não me preocupar, que entrariam imediatamente com um recurso de apelação no Tribunal Superior e que tudo iria acabar bem.

 

Como é possível? Passar a vida na cadeia não é ”acabar bem”.

 

Eu sabia que existiam as tais de apelações, assim como sabia como funcionavam. Meu destino continuaria incerto por meses, possivelmente anos. E sabia que as chances de uma reversão eram mínimas, não importava o que pudessem dizer. Eu praticamente não tinha chance alguma.

 

Então, por que Norma estava tão esperançosa e animada? Por que Barry continuou a pressionar para eu me lembrar de tudo o que havia acontecido na noite em que matara Will, quando já repeti a mesma história centenas de vezes? Resposta simples: tentavam fazer com que eu parasse de pensar no veredicto que acabara de ouvir.

 

Culpada.

 

O A escarlate continuava gravado em meu peito.

 

Acho que nunca esperei realmente aquele desfecho. O tempo todo, tivera a esperança de sair livre. Não saí.

 

Culpada.

 

Naquela noite, fiquei acordada até duas, três horas da madrugada. Deitada, de olhos fechados, mas sem poder conciliar o sono, tentei, inutilmente, recapturar imagens perdidas de minha vida fora da prisão. Pensei em Jennie, Allie, nos shows que dera. Por fim, o cansaço venceu a frustração, e adormeci.

 

Não sonhei. Era como se houvesse caído no nada. A longa queda, para longe do estado de graça, continuava. Um abismo sem fundo.

 

Acordei assustada.

 

Uma fila cinzenta de policiais alinhava-se diante da minha cela, encabeçada pela diretora do presídio, Maureen Serra, em pessoa.

 

Olhei para o relógio.

 

Eram seis e quinze da manhã.

 

Eu não entendia o que estava havendo.

 

Pisquei, pisquei, pisquei.

 

A diretora Serra e os outros continuaram lá.

 

O que estão fazendo aqui? O que aconteceu?

 

Eu iria ser removida para outra prisão?

 

Estava mesmo acordada, via de fato o que achava que estava vendo? Talvez não. Não seria a primeira vez, naquele lugar, que eu fundia um sonho com a realidade.

 

Diretora Serra?

 

Todos esses policiais?

 

- Não é um pouco cedo? - finalmente perguntei. Lentamente, meus olhos acostumavam-se à luz crua do corredor.

 

- Por favor, sra. Bradford, vista-se - Maureen Serra pediu. - Recebemos um telefonema do tribunal. O juiz Sussman deseja vê-la em seu gabinete, imediatamente.

 

Eu sentia frio e tremia da cabeça aos pés, quando três guardas guiaram-me através do prédio do tribunal, totalmente deserto àquela hora. Não conseguia entender o que estava acontecendo. O pessoal do presídio também não entendia.

 

O que quer dizer tudo isso? Por que o juiz mandou me chamar?

 

Havia quatro pessoas no gabinete, quando cheguei. O juiz Sussman encontrava-se sentado atrás de sua grande escrivaninha de mogno. Acomodado à direita da mesa, Na-than Bailford tinha expressão sombria, mas, como sempre, emanava uma aura de pessoa bem-sucedida.

 

Barry, sentado na beirada de um sofá de couro, à esquerda, piscou para mim, mas não sorriu.

 

Norma Breen, acomodada ao lado de Barry, no sofá, usava saia verde de tweed e volumoso suéter marrom, e era a única que parecia descontraída.

 

- Olá, Maggie - ela me cumprimentou.

 

- Olá, Norma. - Olhei em volta e murmurei: - Bom dia para todos.

 

Ninguém respondeu.

 

Fui dominada por uma impressão de irrealidade, como se estivesse sonhando. Em nome de Deus, o que significava tudo aquilo?

 

Havia uma cadeira vazia perto de Sussman, e ele convidou-me a sentar, indicando-a com um gesto. Sentindo a mente anuviada, sentei-me.

 

Do lugar onde estava, tinha a mesma visão que o juiz, dos rostos de Nathan, Barry e Norma. Era como se eu houvesse passado de ré a participante de uma equipe judicial. Gostei bastante daquilo.

 

Fechos de pastas estalaram, abrindo-se. Papéis farfalharam. Tampas de copos de café foram removidas.

 

As pastas, os papéis e o café comprado em uma lanchonete qualquer fizeram-me perceber a diferença que havia entre mim e aquelas pessoas. Elas eram livres, não levavam uma vida igual a minha.

 

Ninguém ainda falara comigo, a não ser Norma. Nem mesmo Nathan Bailford. Pareciam à espera de alguém. Dan Nizhinski? Uma outra pessoa? Quem?

 

Eu queria que alguém me dissesse por que haviam me levado lá. Talvez, assim, eu conseguisse parar de tremer. Minha mente corria em disparada, torturando-me.

 

- Sra. Bradford, a srta. Breen conseguiu algumas informações surpreendentes - o juiz Sussman anunciou, finalmente falando comigo. - Só estamos esperando o promotor público. Ah, aí está ele. Entre, Dan.

 

Nizhinski entrou na sala como um toureiro adentrando a arena, ereto, expressão feroz, sem medo de nada, nem de ninguém. Pensei em uma frase de Norma sobre ele: ”Um chato de primeira”.

 

Ele olhou diretamente para Nathan Bailford, começando a andar, inquieto.

 

- Qual a finalidade desta reunião? Se acha que pode reverter o veredicto por causa de algum detalhe técnico...

 

- De forma alguma se trata de um detalhe técnico - o juiz interrompeu-o. - Conte sua história, srta. Breen. Por favor, Dan, sente-se. Acho que vai preferir estar sentado, daqui a alguns minutos.

 

Norma levantou-se vagarosamente, olhou para mim, então para Dan Nizhinski, que parará de andar e a observava desconfiado, não mais tão parecido com um toureiro confiante.

 

Quando Norma começou a falar, foi com voz segura, em tom de comando. Era sua vez de ficar sob os refletores.

 

- Você deve se lembrar, Maggie, do testemunho de Peter O’Malley durante o julgamento. Ele falou de ”festas” privativas, tarde da noite, no Lake Country Club, onde, acredito, você ia para jantar de vez em quando, como convidada. Só que você jantava no clube respeitável, naturalmente.

 

Concordei com um gesto de cabeça, ainda sem imaginar aonde Norma queria chegar.

 

- Foi lá que conheci Will - declarei. - Eu só ia como convidada, porque, sendo mulher, não podia ser sócia.

 

- Desculpe - Dan Nizhinski atalhou, impaciente. - O que isso tem a ver com o julgamento da sra. Bradford? Ela matou o marido. O júri chegou a essa conclusão e a condenou. Está tudo acabado, srta. Breen.

 

- Tem tudo a ver com o julgamento - afirmou Norma. - A nova prova revela quem participava das orgias no clube, como sócio, quem ia como convidado e também sugere que muita gente teria motivo para matar Will Shepherd. Temos prova de que o sr. Shepherd era muito indiscreto a respeito dessas festas, assim como era indiscreto sobre muitos aspectos de sua vida. Parece que houve um sórdido acobertamento da verdade no julgamento, para proteger sócios do Lake, escondendo os motivos que qualquer um deles pudesse ter para matar Will Shepherd.

 

- Então, essa prova deveria ter sido apresentada no julgamento. Agora é tarde demais. O veredicto já foi dado - declarou Nizhinski, novamente seguro como um toureiro.

 

Eu via a tensão no rosto dos quatro homens, e minha própria garganta estava apertada e seca. Meu estômago contraíra-se, endurecendo. Apenas Norma, que se arvorara em promotora, parecia calma.

 

- vou expor minha opinião, que também é a opinião do promotor geral do Estado de Nova York - ela preludiou. - Acreditamos que Maggie Bradford pode ter sido vítima de um acobertamento elaborado e perverso da verdade, do qual o chefe de polícia de Bedford tem conhecimento e que, talvez, até tenha instigado.

 

- Protesto! - gritou Dan Nizhinski.

 

- Deixe-a terminar - disse o juiz, que parecia estar apreciando a situação tanto quanto Norma.

 

- Pessoas importantes, líderes industriais e banqueiros foram protegidos contra investigações policiais - ela continuou. - Possivelmente, até contra processos criminais, aqui em Bedford.

 

Trocou um olhar com o promotor público.

 

- Por favor, dr. Nizhinski, não faça ainda essa cara de quem está passando mal - recomendou. - O negócio vai ficar muito pior!

 

Agora ela era uma atriz, uma estrela no palco. Nenhuma platéia lhe prestaria maior atenção.

 

- Tem razão num ponto, dr. Nizhinski - concedeu. - Tudo isso não teria nada a ver com o julgamento de Maggie Bradford, se não fosse por algo muito importante: o advogado de defesa de Maggie sabia desses fatos que estou relatando, mas não os usou para defender sua cliente porque não podia divulgá-los.

 

Norma fez uma pausa.

 

- Sabem por quê? Porque ele, Nathan Bailford, é um dos sócios do clube secreto!

 

Bastou um olhar para o rosto contorcido e acinzentado de Nathan, para eu saber que Norma estava certa. A aparência dele era prova de sua culpa. Meu advogado, meu amigo. Ele se levantou abruptamente, gritando, ultrajado, mas eu vi mentira atrás de suas palavras. Vi a traição em seus olhos, o egoísmo, a maldade do que ele fizera.

 

- Juiz Sussman, essas são as mentiras mais vergonhosas, as mais torpes fantasias induzidas por drogas que já ouvi. Não posso acreditar nos meus próprios ouvidos - ele gritou.

 

- Não, não são mentiras, Nathan - retrucou Norma.

 

- Tenho testemunhas: o jardineiro-chefe e dois dos porteiros do Clube Lake. Também tenho uma declaração juramentada de um sócio do ”clube dentro clube”, um dos seus amigos.

 

Apontou para ele, que recuou, como se saíssem balas de revólver do dedo dela.

 

- Que Deus... - Norma começou e interrompeu-se.

 

- Não. Que Maggie e os pobres filhos dela o perdoem. Eu não posso. Você se desgraçou, e também sua já desgraçada profissão. Ajudou a condenar uma mulher inocente. Meu Deus, Nathan, espero que o condenem a cem anos de prisão. Pode fazer isso, juiz Sussman?

 

Fiquei sentada, imóvel, as mãos segurando com firmeza os braços da cadeira. Minhas faces ardiam, e ondas de vertigem iam e vinham, ameaçando me derrubar.

 

Agüente firme, disse a mim mesma. Mantenha-se calma. Está mesmo acontecendo. Não é um sonho. Você não voltou para a cela do presídio. Continua aqui, no gabinete do juiz. Tudo é real.

 

Então, de repente, vi-me nos braços de Norma e Barry. Tremia feito louca. Nós três chorávamos.

 

- Não está sonhando, Maggie - disse Norma, como se lesse meus pensamentos. - É tudo verdade. Ficamos até muito tarde da noite com o promotor geral do Estado, do contrário teríamos avisado você do que iria acontecer.

 

Continuamos abraçados por um longo tempo. Não sei descrever direito o que se passava dentro de mim, mas sei que nunca havia experimentado um alívio tão grande. Estava fora de mim, completamente eufórica, mas tinha consciência do que acontecera.

 

- É óbvio que terei de declarar que o julgamento foi incorreto - Sussman disse a Nizhinski, sua voz penetrando minha mente alterada. - Você pode querer dar início a outro, porque nada do que ouvimos elimina o fato de que Will Shepherd foi assassinado, nem anula a declaração que a sra. Bradford fez à polícia, admitindo ter atirado nele. Ela precisará de tempo para contratar outro advogado e ter sua defesa preparada, talvez baseada numa estratégia diferente. Então, Dan, o que decide?

 

Nizhinski estivera mudo até aquele instante. Continuou calado por vários segundos.

 

- Tudo isso foi... bem, foi um choque - conseguiu dizer por fim. - Não sei que decisão vou tomar, meritíssimo. Preciso de tempo para pôr minha cabeça em ordem.

 

- Quando isso acontecer, avise-me - disse Sussman. Barry adiantou-se para falar com ele.

 

- Não sou advogado, de modo que não conheço as palavras legais, meritíssimo. Mas o senhor acha que poderia dar permissão para a sra. Bradford ir para casa?

 

Sussman virou-se para me olhar.

 

- Ela está em liberdade condicional - declarou formalmente.

 

Como disse o iogue Berra, ”foi novamente um déjà v u”. Mas tinha de ser desse jeito. Aquele era nosso sistema judiciário em toda sua glória.

 

Meses haviam passado. O segundo julgamento estava prestes a começar e provavelmente seria mais desalentador do que o primeiro. O Estado ainda me acreditava culpada de assassinato, e, porque insistia em me julgar novamente, muita gente achava que também tinha esse direito.

 

Eu ainda não me livrara do A escarlate. Minha sensação era de que grandes lascas de minha vida estavam sendo retiradas de mim a martelo e cinzel. Talvez estivessem. E eu me sentia ferida.

 

Cheguei ao tribunal com Jennie, Barry e Norma. Esses dois formavam um par esquisito, mas delicioso de ver. O que mais me surpreendia era que eles não se mostravam muito rabugentos, quando estavam juntos.

 

Assim que entramos, caminhei com firmeza para uma conhecida cadeira, à mesa da defesa. Meu novo advogado era Jason Wade, de Boston, um criminalista perito em casos de homicídio, muito prático. Eu gostava dele. Mais importante ainda: ele não era Nathan Bailford, que se tornara figura permanente em meus pesadelos.

 

Estranho, estranho, estranho demais.

 

- Maggie está com ótima aparência! - uma das espectadoras comentou bastante alto para eu ouvir.

 

Maggie. Como se nós duas fôssemos grandes amigas.

 

- Está mesmo - concordou Jennie, cochichando em meu ouvido. - Você está fantástica, mamãe.

 

Tudo entre nós voltara a ser como nos velhos tempos, só que melhor. Jennie era uma daquelas pessoas raras com quem se podia passar uma noite inteira, apenas conversando, sem ter vontade de dormir. Eu fizera isso na noite anterior. Allie ficara acordado até depois das dez, participando da conversa. A JAM estava reunida novamente.

 

O julgamento arrastou-se por onze semanas. Afinal, o dinheiro de nossos impostos estava aparecendo! As mesmas pessoas prestaram quase que os mesmos depoimentos, embora a inquirição seguisse um rumo diferente.

 

A sala de julgamentos foi se tornando cada vez mais quente, à medida que o verão progredia, mas eu não me importava com o calor, não me importava com a repetição das perguntas e respostas, a notoriedade e o constante assédio da imprensa não me incomodavam.

 

Eu queria ser declarada inocente. Mais do que tudo no mundo, queria sair do purgatório no qual vivera por tanto tempo.

 

Eu não era culpada. Tinha certeza disso.

 

Eu era inocente.

 

Daria qualquer coisa para ouvir essas palavras pronunciadas apenas uma vez.

 

Inclinei-me para a frente, a fim de não perder nenhuma das palavras que ecoavam na lotada sala de julgamento.

 

De repente, não consegui respirar bastante fundo para levar ar aos pulmões. Era como se um pano seco e embolado bloqueasse minha garganta. A claustrofobia atacava novamente.

 

Os rostos das pessoas começaram a ficar indefinidos, como que borrados. O sangue martelava em meu cérebro, e o suor ensopava-me a nuca.

 

Os doze jurados estavam entrando no recinto pela ala direita, caminhando em fila, lentamente.

 

Outra vez.

 

Haviam chegado a um veredicto.

 

Outra vez.

 

Não pude respirar, quando o presidente do júri entregou o papel dobrado ao juiz Sussman.

 

Ele leu o veredicto apenas para si mesmo, então devolveu o papel ao homem. Esse procedimento devia ser necessário, pensei, mas era cruel.

 

- Anuncie o veredicto - o juiz instruiu.

 

- Nós todos amamos você, mamãe - Jennie, sentada atrás de mim, sussurrou.

 

Norma passou um braço pelos meus ombros. Barry, da fileira de trás, afagou-me os cabelos. Minha família, meus amigos. Eu não podia nem pensar em deixá-los novamente, mas havia a possibilidade de isso acontecer.

 

Naquela manhã, a opinião do USA Today pendera para uma absolvição. As pessoas, até em Lãs Vegas e Londres, faziam apostas sobre o resultado do julgamento.

 

Minha boca parecia cheia de algodão, e um entorpecimento geral me dominava. Estava naquela sala, mas, de certa forma, era como se não estivesse.

 

O presidente do júri começou a falar. Sua voz era alta e clara, no entanto parecia muito distante, como se existisse uma parede entre o lugar onde ele estava e o resto da sala. Não se ouvia nenhum outro som.

 

- Declaramos a acusada, Maggie Bradford, inocente. Inocente.

 

Inocente.

 

Senti-me tão cansada e fraca que fui obrigada a fechar os olhos por um instante. Contudo, de modo estran