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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ESCONDERIJO / Dean R. Koontz
ESCONDERIJO / Dean R. Koontz

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ESCONDERIJO

 

                                                       A POUCOS SEGUNDOS DE UMA SOLUÇÃO TRANQÜILA

 

                 “A vida é um presente que deve ser devolvido

                   e é sua posse momentânea que pode nos trazer alegria

                   É demasiado curta, isto é um fato.

                   É difícil aceitar isto, mas essa jornada terrena

                   até a escuridão final é uma viagem que chega ao fim,

                   um círculo que se fecha, obra de arte que alcança o sublime,

                   um poema com doce melodia, uma batalha que se venceu.”

                                                 LIVRO DAS LAMENTAÇÕES

 

Um mundo inteiro se estendia por trás dos contrafortes escuros das montanhas, um mundo agitado e barulhento, e no entanto para Lindsey Harrison a noite era vazia, tão oca quanto as cavidades internas de um coração frio e morto. Tiritando, ela se aconchegou sobre si própria, no banco dianteiro do automóvel Honda.

Blocos compactos de coníferas recobriam as encostas da montanha ao longo da rodovia, abrindo-se ocasionalmente para dar lugar a bordos e bétulas que erguiam para o céu seus ramos retorcidos e desfolhados pelo rigor do inverno. Ainda assim, aquela vasta floresta e as imponentes formações rochosas por onde ela se espalhava não diminuíam a impressão de vazio causada por aquela noite áspera de março. À medida que o Honda descia pela faixa escura e sinuosa do asfalto, as árvores e os rochedos iam ficando para trás como se flutuassem no ar, imagens de sonho desprovidas de substância concreta.

Fustigada sem cessar pelo vento inquieto, a neve caía em rajadas oblíquas através dos fachos de luz dos faróis do carro. Mas a própria tempestade não poderia preencher aquele vazio.

O vazio que Lindsey sentia não era externo: era no seu próprio interior. Lá fora a noite, como sempre, transbordava com o perpétuo caos da criação, e sua alma era a única coisa vazia naquilo tudo.

Olhou para Hatch. Ele estava inclinado para a frente, meio curvado sobre o volante, olhando adiante com uma expressão que poderia parecer calma e inescrutável aos olhos de qualquer outra pessoa, mas que Lindsey, depois de doze anos de casamento, podia ler com facilidade. Hatch era um excelente motorista, e não se deixava intimidar por uma estrada com mau tempo. Seus pensamentos, assim como os dela, estavam voltados com certeza para o longo fim de semana que tinham acabado de passar no lago Big Bear.

Uma vez mais os dois tinham tentado recapturar a sensação de intimidade que tinham experimentado em outros tempos; e uma vez mais haviam fracassado.

As correntes do passado ainda os aprisionavam. A morte de um filho de cinco anos tinha um peso emocional quase incalculável. Era algo que pressionava a mente o tempo todo, esvaziava seus raros momentos de exaltação, esmagava as pequenas alegrias no momento em que elas começavam a brotar. Jimmy estava morto há mais de quatro anos e meio, quase o mesmo tempo que tivera para viver, e no entanto a sua morte ainda pesava tanto quanto no dia em que ele se fora, e se assemelhava a uma lua colossal percorrendo uma órbita muito baixa, por cima de suas cabeças. Forçando a vista através do pára-brisa embaçado, no intervalo dos movimentos rítmicos com que os limpadores raspavam o vidro coberto de geada, Hatch soltou um suspiro. Olhou para Lindsey e sorriu. Era um sorriso pálido, apenas a sombra de um sorriso verdadeiro; uma contração cansada, melancólica, sem vestígio de prazer. Ele deu a impressão de que iria dizer algo, mas mudou de idéia e voltou a fixar sua atenção na estrada.

As três pistas de asfalto — uma descendo, duas subindo — começavam a desaparecer sob um lençol de neve. A estrada chegou ao fim de uma descida e se aprumou num trecho reto de curta extensão que conduzia a uma curva fechada. A despeito daquele trecho horizontal, ainda não tinham acabado de descer as montanhas de San Bernardino; mais adiante, a rodovia estadual recomeçaria a descida rumo à planície.

Quando começaram a fazer a curva, o terreno à sua volta pareceu mudar: a encosta do lado direito era mais escarpada do que antes, e do lado esquerdo, para lá do asfalto, escancarava-se uma ravina vasta e tomada pela escuridão. Balaústres de metal pintados de branco sustentavam uma grade de proteção que corria ao longo do precipício, quase invisível por entre as rajadas de neve.

Um ou dois segundos antes de terminarem de fazer a curva, Lindsey teve um pressentimento, uma sensação de perigo iminente.

— Hatch... — disse ela.

Hatch devia ter pressentido algo também, porque no instante em que ela falou ele pôs o pé no freio, reduzindo um pouco a velocidade.

Do lado de lá da curva a estrada iniciava uma descida em linha reta, e um caminhão carregado de caixas de cerveja estava parado obliquamente entre duas pistas, cerca de vinte metros à frente deles.

Lindsey tentou dizer Oh, meu Deus, mas sua voz pareceu sumir.

Era evidente que o motorista, durante um serviço de entregas para as estações de esqui, tinha sido surpreendido pela nevasca, que começara a cair poucas horas antes, mais cedo do que a meteorologia tinha anunciado. Os pneus do enorme caminhão, desprovidos de correntes protetoras, deslizavam inutilmente na camada de gelo, enquanto o motorista tentava desesperadamente aprumá-lo novamente na pista da direita para seguir adiante.

Praguejando por entre os dentes, mas sem perder a calma, Hatch retirou o pé do freio, para não derrapar.

Ao perceber o clarão dos faróis do Honda, o motorista pôs a cabeça pela janela. Através daquela distância que diminuía cada vez mais, através da escuridão e da neve, Lindsey enxergou o rosto do homem como uma pálida mancha oval com dois borrões escuros no lugar dos olhos, como se ao volante da carreta estivesse sentado algum espírito maligno... ou a Morte em pessoa.

Hatch começou a desviar o carro para a última pista à sua esquerda, a única não bloqueada pelo caminhão.

Lindsey imaginou se não haveria um outro carro subindo por aquela pista, oculto por trás do vulto maciço do caminhão. Mesmo depois de terem reduzido a velocidade, uma colisão frontal naquelas circunstâncias não lhes daria muitas chances de sobreviver.

A despeito do esforço de Hatch, o Honda começou a derrapar. A traseira foi se desviando para a esquerda, e Lindsey sentiu que se afastava cada vez mais do caminhão. Aquele movimento deslizante, escorregadio e fora de controle parecia a transição entre duas cenas de um pesadelo. Ela sentiu seu estômago se contrair num espasmo de náusea, e embora estivesse presa pelo cinto de segurança ergueu instintivamente a mão esquerda para se apoiar no painel, enquanto a direita agarrava a porta, em busca de apoio.

— Segure firme — disse Hatch, girando o volante na direção que o carro pedia, na esperança de readquirir controle.

Mas a derrapagem acabou se transformando num vertiginoso rodopio, e o Honda fez um giro de 360 graus, como se fosse um carrossel sem música: rordou... rodou... até que o caminhão ficou visível novamente. Por um instante, enquanto deslizavam ladeira abaixo, ainda rodopiando, Lindsey teve certeza de que passariam a salvo pelo outro veículo; podia ver o que havia do outro lado dele agora e percebeu que a estrada estava livre de tráfego.

E então o pára-choque dianteiro do lado de Hatch chocou-se com a traseira do caminhão. Ouviu-se um clangor de metal.

O Honda estremeceu e pareceu explodir para longe do ponto de colisão, chocando-se com violência de encontro à balaustrada de proteção. Lindsey sentiu suas mandíbulas se chocarem com força bastante para deflagrar em seus dentes fagulhas de dor que se espalharam por todo o crânio, enquanto a mão com que se apoiava no painel sofria uma torção dolorosa à altura do pulso. Ao mesmo tempo, o cinto de segurança, que a prendia diagonalmente do ombro direito ao quadril esquerdo, apertou-a com tamanha força que todo o ar que tinha nos pulmões foi expelido bruscamente.

O carro ricocheteou de encontro à balaustrada, não com força bastante para ser arremessado outra vez de encontro ao caminhão, mas o bastante para fazê-lo descrever um novo giro de 360 graus. Enquanto meio derrapavam, meio deslizavam ladeira abaixo, Hatch lutou para recuperar o domínio do carro, mas o volante girava descontroladamente, e ele gritou de dor quando a palma de suas mãos foi queimada pelo atrito da roda desgovernada.

De repente, a inclinação da ladeira pareceu ficar mais abrupta, como a rampa de um tobogã de parque de diversões. Lindsey teria gritado se tivesse fôlego bastante, mas embora o cinto de segurança tivesse afrouxado a pressão sobre seu peito, ele ainda estava percorrido por uma dor irradiante que a impedia de respirar. Num breve instante ela teve o vislumbre aterrador do Honda derrapando até a extremidade da curva mais adiante, rompendo a balaustrada e precipitando-se no vazio — e o terror provocado por essa imagem foi tão forte quanto um soco, fazendo-a arquejar e encher de ar os pulmões.

Quando o Honda concluiu seu segundo giro sobre si próprio, a sua parte lateral, do lado do motorista, chocou-se contra a balaustrada, e o carro deslizou cerca de dez ou quinze metros em contato com o gradil de ferro. Ouviu-se um rangido de ferro contra ferro, enquanto a lataria do carro ia raspando no gradil e erguendo no ar um chuveiro de fagulhas que se misturavam aos flocos da neve que caía, como se um enxame de vaga-lumes de verão tivesse passado por uma fenda no Tempo e surgido no meio da estação errada.

O carro parou por fim, com um solavanco mais brusco, ficando com a parte dianteira semi-erguida do lado esquerdo, apoiada num dos balaústres do gradil. Por um instante, o silêncio que se seguiu foi tão intenso que Lindsey sentiu-se atordoada e soltou um arquejo brusco.

Nunca antes ela tinha experimentado uma sensação de alívio tão intensa.

Então o carro começou a mover-se outra vez.

Estava inclinando-se para a esquerda. A balaustrada estava cedendo, talvez enfraquecida pela corrosão ou pela erosão do terreno onde estava fincada.

— Vamos sair daqui! — gritou Hatch, enquanto tateava freneticamente em busca do fecho de seu cinto de segurança.

Lindsey não teve tempo sequer de libertar-se do seu próprio cinto ou de agarrar a maçaneta da porta, porque nesse instante o gradil cedeu e o Honda tombou na ravina. No próprio instante em que aquilo acontecia, ela não conseguia acreditar que fosse verdade. A mente registrava a proximidade do fim, enquanto o coração teimava em considerar-se imortal. Ao longo de cinco anos ela não tinha conseguido aceitar plenamente a idéia da morte de Jimmy; como poderia aceitar em segundos a inevitabilidade de sua própria morte?

Numa avalanche confusa de balaústres de ferro e pedaços de gradil, o Honda rolou lateralmente ao longo da escarpa recoberta de gelo, até virar com as rodas para cima, quando a inclinação se tornou mais acentuada. Arquejando, o coração batendo furiosamente, sentindo a pressão dolorosa do cinto de segurança, Lindsey rezou para que o carro batesse numa árvore, num rochedo, em qualquer coisa que pudesse deter aquela queda, mas a encosta parecia desimpedida. Ela não sabia mais quantas vezes o carro tinha capotado; talvez tivessem sido apenas duas, mas noções como “acima” e “abaixo” tinham perdido todo o sentido. Sua cabeça chocou-se com o teto do carro, numa pancada que quase a nocauteou; ela não conseguiu saber se tinha sido jogada para o alto ou se o teto tinha sido amassado para dentro até atingi-la, de modo que tentou encolher-se no assento o mais possível, para que na capotagem seguinte o teto não afundasse ainda mais, partindo seu crânio. À sua frente, os faróis do carro eram como lâminas rasgando a escuridão da noite e fazendo brotar torrentes de flocos de neve. Então, o pára-brisa estilhaçou-se, cobrindo-a com minúsculos fragmentos rombudos de vidro, e de repente ela viu-se mergulhada em total escuridão. Aparentemente os faróis tinham sido danificados, e ela agora podia ver apenas as luzes do painel, que iluminavam fracamente o rosto de Hatch, coberto de suor. O carro virou mais uma vez com as rodas para cima e permaneceu assim; naquela posição invertida, começou a deslizar mais e mais para o interior daquela ravina que parecia não ter fundo, emitindo um som que parecia o de toneladas de carvão sendo despejadas através de um conduto metálico.

A treva era total e aterrorizante agora, como se ela e Hatch não estivessem ao ar livre e sim deslizando nos trilhos de uma montanha-russa situada dentro do trem-fantasma de um parque de diversões. Mesmo a costumeira fosforescência natural da neve tinha se tornado invisível. Flocos gelados chocavam-se contra o seu rosto, soprados através da abertura do pára-brisa, mas ela era incapaz de vê-los, mesmo quando eles se derretiam de encontro aos seus olhos contraídos. Lutando para controlar o pânico que a invadia, ela imaginou se teria ficado cega devido aos estilhaços de vidro.

Cegueira.

Esse era o seu maior temor. Ela era uma artista plástica. Seu talento extraía inspiração das coisas que ela observava, e suas mãos extremamente hábeis transformavam essa inspiração em arte, ajudadas pela avaliação crítica dos olhos que as guiavam. O que pode criar um pintor, se se torna cego? O que poderia ela pensar em criar um dia, caso se visse privada do sentido mais importante?

Quando ela começou a gritar, o carro atingiu o fundo e tombou mais uma vez, ficando em posição normal, com um impacto menos violento do que ela temera, e imobilizou-se quase com suavidade, como se tivesse pousado sobre um enorme travesseiro.

—      Hatch?...

A voz dela estava rouca. Depois da cacofonia de ruídos que tinha acompanhado a queda do carro até o fundo da ravina, Lindsey sentia-se meio surda, sem saber se o estranho silêncio que pairava em redor era real ou era ilusão sua.

—      Hatch?...

Olhou para a esquerda, onde ele devia estar — mas não conseguia vê-lo; não conseguia enxergar coisa alguma. Estava cega.

—      Oh, meu Deus, não. Por favor.

Sentia-se tonta também. O carro parecia estar rodando sobre si mesmo, oscilando como uma pipa erguida no ar de um dia de verão, subindo e descendo ao sabor das correntes térmicas.

—      Hatch!

Nenhuma resposta.

A tontura aumentou. O carro agitava-se e balançava cada vez mais, e Lindsey pensou que ia desmaiar. Se Hatch estivesse ferido, talvez acabasse sangrando até morrer enquanto ela estaria inconsciente e sem poder ajudá-lo.

Ela tateou às cegas e localizou o corpo do marido, encolhido sobre si mesmo no assento do motorista. A cabeça estava pendida sobre o ombro direito. Ele não se moveu quando Lindsey apalpou o seu rosto; algo quente e pegajoso cobria o lado direito do seu rosto e da testa. Sangue. Um ferimento na cabeça. Com dedos trêmulos, Lindsey tateou os lábios do marido e soltou um suspiro de alívio ao sentir o hálito quente que passava por entre seus lábios entreabertos.

Estava inconsciente, mas não morto.

Lutando contra o fecho do cinto de segurança, Lindsey começou a ouvir uma série de sons que a princípio não conseguiu identificar. Um estalo apenas audível; depois, um barulho molhado que aumentava mais e mais; e por fim um som estranho como o de alguém agitando com os dedos o líquido de uma vasilha. Por um momento ela se imobilizou, tentando identificar a origem daqueles ruídos.

Sem aviso prévio, o Honda tombou para a frente, e uma cascata de água gelada golfou através da abertura do pára-brisa, encharcando o colo de Lindsey. Ela soltou um arquejo de susto quando aquele banho ártico a enregelou até a medula dos ossos, e só então percebeu que o que sentia não era tontura. O carro estava rodando, sim. Estava flutuando na água. A queda tinha acabado num lago, ou num rio; provavelmente num rio. A superfície plácida de um lago não estaria tão ativa assim.

O choque produzido pela água gelada paralisou-a por alguns instantes e arrancou-lhe um gemido de dor, mas quando ela voltou a abrir os olhos conseguiu enxergar novamente. Os faróis do carro tinham mesmo pifado, mas as luzes dos mostradores do painel ainda estavam brilhando. Ela devia ler sofrido um ataque passageiro de cegueira histérica, em vez de algum dano físico real.

Não conseguia ver muita coisa; mas não havia muito para ser visto no fundo daquela ravina mergulhada nas trevas da noite. Cacos remanescentes do pára-brisa estilhaçado eram vagamente visíveis ao longo da moldura. Do lado de fora, a água oleosa era visível apenas por uma fosforescência prateada que permitia localizar sua superfície revolta e produzia reflexos nos blocos de gelo entrelaçados que flutuavam à deriva. As barrancas do rio estariam mergulhadas em completa escuridão se não fosse pelos fantasmagóricos farrapos de neve apegados aos rochedos, à terra e aos arbustos. O Honda movia-se pela água do rio quase como se fosse uma lancha: a água se encrespava de encontro ao capo e se partia num amplo “V”, abrindo-se para os lados como se estivesse sendo fendida pela proa de um barco, chapinhando de encontro aos vidros fechados das janelas. Estavam sendo arrastados correnteza abaixo, e mais adiante o rio com certeza iria se tornar mais turbulento, levando-os na direção de corredeiras, ou de rochas, ou coisa pior.

Num único olhar Lindsey compreendeu a gravidade da situação, mas ainda estava tão aliviada por ter recuperado a vista que mesmo aquela imagem a inundou de gratidão.

Tremendo de frio, conseguiu finalmente libertar-se das correias do cinto de segurança e agarrou Hatch novamente. O rosto dele tinha uma expressão cadavérica, à luz mortiça do painel eletrônico: olhos fundos, a pele cor de cera, os lábios descorados, o sangue escorrendo (mas, graças a Deus, não brotava aos borbotões) do ferimento na têmpora. Ela o sacudiu com delicadeza, depois com mais força, chamando-o pelo nome.

Ela sabia que não conseguiriam sair facilmente do carro enquanto ele flutuava rio abaixo, e talvez isso fosse até impossível; mas tinham que estar preparados para sair caso ele fosse detido por uma rocha ou encalhasse por alguns instantes numa das margens. Uma chance como essa talvez não durasse muito tempo.

Mas Hatch não voltava a si. Mais uma vez sem nenhum sinal prévio, o carro voltou a inclinar-se para a frente, e outra onda de água gelada jorrou para dentro através do pára-brisa; tão fria que teve um efeito semelhante ao de um choque elétrico, fazendo o coração de Lindsey perder o compasso por uma ou duas batidas, e trancando a respiração no seu peito.

A frente do carro não voltou a se erguer de dentro da água, como tinha feito da vez anterior. Estava mergulhando mais e mais, e havia cada vez menos água do rio por baixo do carro para reerguê-lo. A água continuou entrando, e logo o seu nível subia dos tornozelos de Lindsey até o meio da canela. Estavam afundando.

— Hatch! — Agora ela gritava, sacudindo-o com toda força, sem ligar para seus ferimentos.

Uma nova golfada violenta jorrou para dentro, fazendo o nível da água no interior do carro subir até o assento, e erguendo enormes bolhas de espuma que refletiam as luzes coloridas do painel e ficavam parecidas com bolas de árvore de Natal.

Lindsey ergueu os pés de dentro da água, ajoelhou-se no assento e começou a dar tapas no rosto de Hatch, tentando despertá-lo. Mas ele parecia estar mergulhado num nível de inconsciência mais sério do que o de um simples desmaio; talvez num coma tão profundo quanto uma fossa oceânica.

Com uma golfada atrás da outra, a água estava chegando ao nível do volante do carro.

Lindsey lutou desesperadamente com o cinto de segurança de Hatch, tentando desprendê-lo fosse como fosse, e mal se dando conta da dor aguda que percorreu seus dedos quando duas de suas unhas se partiram.

—      Hatch! Hatch!

A água estava agora cobrindo metade do volante, e o Honda quase cessou seu movimento para diante; estava pesado demais para ceder à pressão que a água exercia por baixo.

Hatch tinha 1,75m e pesava oitenta quilos; tinha uma estatura mediana, mas naquelas circunstâncias era o mesmo que ser um gigante. Era um peso morto, resistindo a todos os esforços de Lindsey, praticamente inarredável. Puxando, empurrando, sacudindo, cravando-lhe os dedos com todas as forças, Lindsey lutou para libertá-lo e, quando finalmente conseguiu desvencilhar seu corpo das correias do cinto, a água já cobria o painel e estava à altura do seu peito. Em Hatch, que estava encolhido sobre si mesmo, ela já chegava abaixo do queixo.

O rio estava incrivelmente gelado, e Lindsey podia sentir o calor abandonar seu corpo como se fosse sangue fluindo de uma artéria seccionada. À medida que o calor fluía para fora ia sendo substituído por um enorme frio, que percorria os músculos dela em ondas dolorosas.

Mesmo assim ela achou providencial a elevação do nível da água, porque ela tornaria o corpo de Hatch mais leve e mais fácil de manobrar; ela poderia puxá-lo do assento, retirando-o através do pára-brisa arrebentado. Pelo menos isso foi o que ela imaginou, mas quando tentou movê-lo ele parecia estar ainda mais pesado do que antes, e a água já atingia seus lábios.

—      Vamos, vamos — disse ela, furiosamente. — Vamos, Hatch, você vai se afogar, que merda!

 

Quando conseguiu finalmente conduzir seu caminhão de cerveja para fora da rodovia, a primeira providência de Bill Cooper foi transmitir um pedido de socorro pelo rádio, na faixa do cidadão. Outro caminhoneiro respondeu; tinha um telefone celular além do rádio, e prometeu chamar imediatamente as autoridades da localidade mais próxima, Big Bear.

Bill desligou o rádio, pegou uma lanterna elétrica de seis pilhas que trazia sob o assento e desceu da cabine para o meio da nevasca. O vento da noite era de um frio cortante através da sua jaqueta jeans forrada de lã, mas mesmo aquele frio não podia se comparar ao que ele sentia no estômago desde o momento em que vira o Honda derrapar ao longo da rodovia, romper o gradil e precipitar-se na ravina com seus ocupantes.

Atravessou o mais rápido que pôde a faixa escorregadia de asfalto e caminhou ao longo do acostamento até atingir o trecho em que o gradil fora destruído. Tinha a esperança de ver o Honda logo abaixo dali, preso de encontro a algum tronco de árvore. Mas não havia árvores naquela encosta — apenas um manto de neve acumulado desde as tempestades anteriores, onde eram visíveis as marcas da queda do carro sumindo na escuridão para além do alcance do facho de luz da lanterna.

Uma dolorosa aguilhoada de remorso percorreu o peito de Bill. A verdade é que ele tinha bebido, mais uma vez. Não muito. Apenas alguns goles do frasco cheio de uísque que trazia no bolso do casaco. Ao começar a subida da montanha, tinha certeza absoluta de que estava sóbrio. Agora, no entanto, essa certeza se desvanecera. Sentia-se... zonzo. E de repente pensou que tinha sido uma rematada estupidez tentar fazer uma entrega justamente na hora em que o tempo mostrava claramente que ia piorar.

Abaixo dele, o abismo tinha a aparência sobrenatural de uma cavidade sem fundo, dando a Bill a sensação de estar contemplando o local onde seria precipitado para receber seu merecido castigo, no fim da vida. Ele sentiu-se invadido e paralisado por aquela sensação de futilidade total das coisas, sensação que assalta às vezes mesmo os homens mais determinados — embora geralmente isso aconteça quando estão deitados em casa, às três horas de uma madrugada insone, contemplando o padrão aleatório das sombras projetadas no teto do quarto.

Então, a cortina da neve que caía se entreabriu por um momento e ele vislumbrou o fundo da ravina a cerca de trinta ou cinqüenta metros abaixo, não tão longe quanto ele temera a princípio. Ele passou com cuidado através da parte arrebentada do gradil, com a intenção de se arrastar pela encosta até embaixo e tentar salvar os sobreviventes, se houvesse algum. Acabou detendo-se, hesitante, na faixa de terra à beira da encosta; além de estar ainda meio tonto devido ao uísque, era-lhe impossível enxergar o local exato onde o carro poderia estar.

Lá embaixo a única coisa visível por entre a neve era uma faixa escura e serpenteante, como uma tira de pano negro, que descrevia uma série de curvas até interseccionar o rastro escuro deixado na neve pela queda do carro.

Bill piscou os olhos diante daquela visão, sem entender do que se tratava: era como se fosse uma pintura abstrata traçada no fundo da ravina. Só depois Bill lembrou-se de que havia um rio naquela área.

O carro havia mergulhado naquela correnteza escura.

Depois de um inverno em que as nevascas tinham sido anormalmente intensas, o clima havia se tornado quente há duas semanas, dando início a um vasto processo de degelo. O deslocamento de grandes massas de água ainda prosseguia, porque o frio retornara há muito pouco tempo e o rio não chegara a se congelar novamente. A temperatura daquela água devia estar um pouco acima do ponto de congelamento, e os ocupantes do carro, mesmo que sobrevivessem ao impacto e conseguissem não se afogar, certamente morreriam de frio dentro de não muito tempo.

Se eu estivesse sóbrio, pensou ele, teria dado meia-volta ao me defrontar com um mau tempo desses. Sou uma piada, um sujeito patético, um entregador de cerveja que não teve nem sequer a lealdade de beber cerveja em vez de uísque. Deus do céu.

Sim, uma piada... mas havia gente morrendo por sua causa. Bill sentiu uma golfada de vômito queimar sua garganta, mas forçou-se a engoli-la de volta.

Em desespero, ele começou a examinar a ravina em todas as direções, até perceber uma luminosidade estranha, quase sobrenatural, que parecia se deslocar lentamente ao longo do rio, à sua direita. Uma luz cor de âmbar que desaparecia e voltava a surgir através do véu dos flocos de neve que continuavam caindo. Ele imaginou que seria a claridade das luzes de dentro do Honda, o qual devia estar flutuando levado pela correnteza.

Aconchegando-se a si próprio para se resguardar do frio cortante, segurando-se aos balaústres do gradil para o caso de escorregar na neve, Bill começou a caminhar ao longo do topo da encosta, indo na mesma direção em que o carro parecia estar sendo arrastado, e tentando não perdê-lo de vista. A princípio o Honda flutuava com certa rapidez, mas essa velocidade foi se reduzindo, até que ele finalmente se imobilizou, talvez detido por alguma rocha ou mesmo pela elevação de um banco de areia no leito do rio.

A luz ia ficando cada vez mais fraca, dando a impressão de que a bateria do carro começava a se esgotar.

 

Mesmo tendo conseguido libertar Hatch do cinto de segurança, Lindsey não conseguia movê-lo da posição em que estava; talvez as roupas dele estivessem presas a algo que ela não conseguia ver, ou talvez porque ele estivesse com um dos pés preso sob o pedal do freio ou embaixo do assento.

A água já tinha subido acima do nariz de Hatch, e Lindsey não conseguia erguê-lo mais alto. Ele já estava respirando a água do rio.

Ela largou o corpo dele, esperando que o choque da entrada de água nos pulmões o despertasse, tossindo e debatendo-se, mas também pelo fato de que não tinha mais forças para continuar lutando para tirá-lo dali. O frio intenso da água minara suas energias. Com uma rapidez apavorante, suas mãos e seus pés começavam a perder toda a sensibilidade. O próprio ar que ela exalava parecia sair dos seus pulmões tão frio quanto tinha entrado, como se seu corpo não dispusesse mais de nenhum calor para aquecê-lo.

O carro havia parado de mover-se. Estava imobilizado no fundo do rio, completamente invadido pela água, exceto por uma bolha de ar remanescente no alto do teto; era naquele espaço que Lindsey projetava seu rosto, arquejando.

Ouvia a si própria emitindo gemidos de terror que pareciam vir de um animal; mas não podia evitá-lo.

A luz fantasmagórica do painel do carro começou a enfraquecer, mudando aos poucos do âmbar para um amarelo mortiço.

Uma parte de sua mente dizia-lhe para desistir, para deixar-se arrancar deste mundo e ir para um lugar melhor. Era uma voz minúscula que sussurrava: Pare de lutar... Não existe mais nada que valha a pena... Jimmy já morreu há tanto tempo, e agora é Hatch quem está morrendo ou já morreu... Desista... deixe-se levar, talvez você desperte no Céu, ao lado deles... Aquela voz possuía um apelo persuasivo, quase hipnótico.

Aquele resto de ar não duraria mais que uns poucos minutos, se tanto, e ela iria morrer dentro do carro se não tentasse sair dali imediatamente.

Hatch está morto... está com os pulmões cheios d’água, e só lhe resta ser devorado pelos peixes... Renda-se, deixe-se levar... De que adianta agora? Hatch está morto...

O ar que ela respirava estava começando a adquirir um gosto ácido, metálico. Ela conseguia respirar apenas em pequenos haustos, como se seus pulmões tivessem diminuído de tamanho.

Se ainda havia algum calor no seu corpo, ela não podia mais senti-lo. Seu estômago começou a ter contrações de náusea devido ao frio, e mesmo o vômito que lhe subia à garganta vinha gelado; cada vez que engolia era como se estivesse sorvendo um gole de neve enlameada.

Hatch está morto, está morto...

— Não — murmurou ela, numa voz áspera, raivosa. — Não. Não. Não.

A revolta começou a brotar dentro dela com a fúria de uma tempestade. Ele não podia estar morto. Quem, Hatch? Hatch, que nunca esquecia um aniversário, que lhe trazia flores sem nenhum motivo especial, que nunca perdia a paciência e nunca erguia a voz? Hatch, que sempre encontrava tempo para escutar os problemas alheios e tratá-los com simpatia, que nunca deixava de abrir a carteira quando um amigo estava em dificuldades, Hatch, cujo maior defeito era apenas tentar ser um sujeito Bom demais para com todo mundo? Não, ele não podia estar morto, não estava morto, não iria morrer, nunca. Ele corria oito quilômetros todos os dias, praticava uma dieta sem gorduras e repleta de frutas e verduras, e evitava não apenas a cafeína como até mesmo o café descafeinado. Que droga, será que isso não valia de nada? Ele se bronzeava todo verão, não fumava, nunca bebia mais do que duas cervejas ou dois copos de vinho por noite, e era descontraído o bastante para não temer doenças cardíacas provocadas pelo estresse. Será que tamanha abstinência e autocontrole não significavam nada? Será que o mundo estava tão deteriorado que não se podia mais pedir nenhum tipo de justiça? OK, tudo bem, dizem por aí que os bons morrem cedo, e sem dúvida isso tinha sido comprovado no caso de Jimmy, e Hatch ainda não tinha completado quarenta anos, era jovem de qualquer ponto de vista, OK, certo, mas também dizem muito por aí que a virtude é sempre recompensada, e havia muita virtude nele, que droga, caminhões abarrotados de virtude, e isso devia ser levado em consideração, a menos que Deus não estivesse escutando, a menos que Ele não ligasse a mínima, a menos que este mundo fosse um lugar ainda muito mais cruel do que tinha sido capaz de imaginar.

Ela recusou-se a aceitar aquilo.

Hatch. Não. Estava. Morto.

Ela inspirou um último hausto de ar, o maior que seus pulmões agüentaram; no momento em que as luzes do painel se esvaíram, deixando-a outra vez na escuridão total, ela mergulhou na água, tateou em redor para orientar-se e passou através da abertura do pára-brisa até se ver sobre o capo do carro.

Agora não estava apenas cega, mas virtualmente privada dos cinco sentidos. Não podia ouvir nada mais além das batidas violentas do seu próprio coração, porque a água absorvia todos os outros ruídos. Poderia respirar ou falar, mas sob pena de morrer afogada; e o efeito anestesiante do rio gelado sobre seu corpo a deixava com apenas uma fração do seu tato, de tal modo que ela se sentia como um espírito desencarnado, suspenso num ambiente fluido que devia ser o Purgatório, e esperando a hora do julgamento.

Tendo como certo que o rio não seria muito mais fundo do que a altura do carro, e que ela não teria que prender a respiração durante muito tempo para chegar à superfície, Lindsey tentou mais uma vez libertar o corpo de Hatch. Deitada sobre o capo do carro, ela agarrou-se com uma mão entorpecida à moldura do pára-brisa, lutando contra a tendência natural de seu corpo a subir à superfície; conseguiu enfiar o outro braço dentro do carro, tateando na escuridão total até localizar o volante e depois Hatch.

Experimentou uma sensação de calor dentro de seu corpo, mas não o tipo de calor que precisava sentir: eram os seus pulmões que começavam a queimar pela falta de oxigênio.

Agarrando entre os dedos o casaco de Hatch, ela começou a puxar com todas as suas forças — e para sua surpresa ele desprendeu-se imediatamente do assento, sem nenhum entrave, e flutuou na direção para onde ela o puxava. Ficou enganchado ao volante do carro mas apenas por um breve instante; logo soltou-se e passou através da abertura, enquanto Lindsey recuava para dar passagem ao seu corpo.

Uma dor lancinante como um ferro em brasa pulsava no peito dela. A necessidade de respirar era quase insuportável, mas Lindsey resistiu.

Quando Hatch saiu completamente do carro, Lindsey o abraçou e, agitando as pernas, tomou impulso rumo à superfície. Hatch tinha se afogado, sem dúvida, e ela estava abraçando um cadáver, mas esse pensamento macabro não lhe trouxe nenhuma repulsa. Se conseguisse tirá-lo da água, poderia tentar a respiração artificial. Embora as chances de revivê-lo fossem poucas, pelo menos era possível ter alguma esperança. Ele não estaria morto de verdade, não seria um cadáver de fato, enquanto todos os recursos não tivessem sido tentados.

Ela emergiu das águas no meio da uma rajada de vento que fez o rio parecer quase morno, em comparação. Quando o ar chegou aos seus pulmões fatigados, sua cabeça vacilou e o peito foi atravessado por uma dor quase insuportável; a segunda respiração foi ainda mais dolorosa do que a primeira.

Espadanando na água, agarrando Hatch com todas as suas forças, Lindsey engoliu água do rio e voltou a cuspi-la para fora, enquanto a correnteza batia de encontro ao seu rosto. A natureza parecia uma criatura viva, uma besta hostil e desmesurada, e ela se sentiu invadida por uma raiva irracional contra o rio e a tempestade, como se fossem entidades dotadas de consciência que estivessem se encarniçando contra ela.

Tentou orientar-se mas não era nada fácil, no meio da escuridão e do vento que uivava em redor, e sem o apoio de chão firme sob os seus pés. Quando avistou a margem do rio, vagamente luminosa em seu manto branco de neve, tentou nadar para lá com um braço apenas, enquanto rebocava Hatch com o outro; mas a correnteza era forte demais e ela não teria podido vencê-la, mesmo que nadasse com os dois braços. Ela e Hatch foram arrastados rio abaixo, afundando, voltando à superfície, chocando-se contra pedaços de galhos de árvores e blocos de gelo também arrastados pela correnteza, rumando de forma inexorável e indefesa na direção de alguma cachoeira ou algum trecho mortífero de corredeiras que estaria à espera de tudo que a correnteza do rio arrastava desde as montanhas.

 

Tinha começado a beber depois que Myra o abandonara. Não conseguia aceitar o fato de estar sem uma mulher. Sim, isso mesmo, e será que Deus Todo-Poderoso levaria em conta essa desculpa, quando chegasse a hora do seu julgamento?

Ainda segurando-se firmemente ao gradil, Bill Cooper agachou-se hesitante à borda da ravina e espreitou mais uma vez na direção do rio. Por trás da cortina formada pela neve que caía, as luzes do Honda tinham desaparecido de vez.

Bíll não se atreveu a tirar os olhos da escuridão lá embaixo para esquadrinhar a rodovia à procura de sinais da aproximação de uma ambulância. Temia olhar novamente para a ravina e não ser capaz de localizar o ponto exato onde a luz do carro tinha desaparecido; e não queria correr o risco de indicar às equipes de socorro uma direção errada nas margens do rio.

O fundo da ravina, uma nebulosa paisagem em preto e branco, não oferecia muitos pontos de referência visual.

— Vamos, vamos, cheguem logo — murmurou ele.

O vento era cortante de encontro ao seu rosto, fazendo seus olhos lacrimejarem e ensopando de neve o seu bigode; o uivo que produzia era tão forte que acabou abafando o som das sirenes dos veículos de socorro Bill os percebeu apenas quando eles fizeram a curva numa subida da colina, enchendo a noite com o brilho de suas luzes coloridas e piscantes. Ele ficou de pé agitando os braços para atrair sua atenção, mas ainda mantendo os olhos fitos na direção do rio.

Estacionaram no acostamento, por trás dele. Uma das sirenes demorou mais tempo a ser desligada, e Bill, ainda sem se virar, percebeu que eram dois veículos — provavelmente um carro de polícia e uma ambulância.

Iriam perceber o seu hálito de uísque. Não, talvez não — com todo aquele frio, e ainda mais o vento. Ele pensou que merecia morrer pelo que tinha feito—mas já que não estava ameaçado de morrer, pensou em seguida que merecia perder o emprego. Aqueles eram tempos difíceis. Tempo de recessão. Bons empregos eram difíceis de encontrar.

Os reflexos das luzes giratórias dos carros davam um ar estroboscópico à noite. A vida real tinha se transformado num filme de animação com objetos, um filme tecnicamente incompetente onde os gestos eram fragmentados e bruscos, em meio à neve que, iluminada pelas luzes vermelhas parecia uma chuva de sangue caindo de um céu mortalmente ferido.

 

Mais cedo do que Lindsey supunha, ela e Hatch foram levados pelo rio de encontro a uma formação de rochas que emergia da superfície das águas como dentes rombudos e polidos por séculos de correnteza. Acabaram entalados numa fenda suficientemente estreita para evitar que continuassem a ser arrastados rio abaixo. A água espumava e gorgolejava em volta dos dois mas com a barreira formada pelas rochas ela pôde finalmente parar de lutar contra a força da corrente, que ameaçava a todo instante afundá-los de vez. Ela se sentia flácida, os músculos cansados e respondendo com dificuldade aos seus comandos. Mal conseguia segurar a cabeça de Hatch para evitar que ela ficasse sob a água, embora isso fosse uma tarefa muito mais fácil agora que não precisava mais lutar contra a força das águas.

Não admitia largar a cabeça de Hatch, embora soubesse que mantê-la fora da água era um esforço inútil: ele já tinha se afogado. Ela não conseguia enganar a si própria e tentar pensar que ele ainda estava vivo. E a cada minuto que passava ficava mais remota a possibilidade de revivê-lo através de respiração artificial. Ainda assim, ela não se entregava. Não se entregaria. Estava espantada com a sua própria obstinação, com a sua recusa de abandonar as esperanças, quando minutos antes do acidente ela pensava que a esperança a tinha abandonado para sempre.

O frio da água a impregnara, entorpecendo não apenas o seu corpo, mas também sua mente. Ela tentou planejar uma maneira de passar do meio do rio para uma das margens, mas não conseguia se concentrar. Sentia-se como que drogada. Sabia que a sonolência era uma conseqüência natural da hipotermia, e que ceder a ela acabaria arrastando-a para um estado mais profundo de inconsciência e daí para a morte. Esforçou-se para permanecer acordada e alerta, a todo custo—mas subitamente se deu conta de que tinha fechado os olhos, começando a ceder à tentação do sono.

Uma contração de medo percorreu seu corpo inteiro, despertando em seus músculos uma reserva adormecida de energia.

Piscou os olhos; tinha as pestanas pesadas de neve que já não se derretia pelo calor do corpo. Olhou em redor, olhou ao longo da linha de pedras polidas que emergiam das águas. A margem estava a apenas uns cinco metros de distância. Se aquelas pedras pelo menos estivessem um pouco mais próximas umas das outras, ela poderia rebocar Hatch de uma para outra, até a margem, sem que a correnteza conseguisse arrastá-los de novo.

Seus olhos, no entanto, já tinham se adaptado à semi-escuridão, permitindo-lhe ver que séculos de correnteza tinham escavado uma abertura com mais de um metro de diâmetro na própria pedra onde ela se abrigava. A abertura ficava a meio caminho entre ela e a margem. Através da queda incessante da neve, ela podia ver que as águas escuras do rio se afunilavam para dentro da abertura; sem dúvida a correnteza devia explodir com tremenda força ao sair pelo lado oposto.

Lindsey sabia que estava fraca demais para conseguir atravessar aquele ponto. Ela e Hatch acabariam sendo sugados através daquela fenda, para uma morte certa.

No momento em que a perspectiva de entregar-se ao cansaço parecia mais atraente do que a daquela luta sem sentido contra as forças hostis da Natureza, ela viu umas luzes estranhas no topo da ravina, a cerca de cem metros rio acima. Estava tão desorientada e sua mente estava tão anestesiada pelo frio que a princípio aquele brilho avermelhado pareceu-lhe algo estranho, sobrenatural, como se ela estivesse erguendo os olhos na direção de uma presença divina que baixava dos espaços.

Gradualmente, ela começou a perceber que o que estava avistando eram as luzes de uma ambulância ou de um carro da polícia na rodovia lá no alto, e logo a seguir avistou os fachos de luz das lanternas, como espadas prateadas cortando a escuridão. A equipe de socorro estava descendo pela encosta, uns cem metros rio acima, no ponto onde o carro tinha encalhado.

Ela começou a gritar, mas não conseguiu emitir mais do que um sussurro. Tentou mais uma vez, com melhor resultado, mas era impossível que eles a ouvissem em meio às rajadas furiosas do vento; os fachos das lanternas continuavam esquadrinhando a mesma área da margem e das águas do rio. De súbito, ela percebeu que Hatch estava escapando novamente de suas mãos. O rosto dele estava debaixo d’água.

Como se alguém tivesse apertado um interruptor, o medo que Lindsey sentia transformou-se uma vez mais em fúria. Fúria contra o motorista do caminhão que se deixara surpreender por uma nevasca em plena montanha, fúria contra si mesma por ser tão fraca, fúria contra Hatch por alguma razão que ela era incapaz de definir, fúria contra aquele rio gelado e implacável, fúria contra o próprio Deus pela violência e falta de justiça que imperavam em Seu universo.

Lindsey descobriu que a fúria lhe dava mais forças do que o medo. Flexionou suas mãos parcialmente congeladas, agarrou Hatch com mais firmeza, puxou a cabeça dele para fora da água, e emitiu um grito de socorro que soou mais alto do que as vozes uivantes do vento. Rio acima, os fachos de luz voltaram-se todos, ao mesmo tempo, na sua direção.

 

O homem e a mulher levados pela correnteza pareciam já estar mortos. Iluminados pelas lanternas, seus rostos pareciam flutuar acima da superfície da água, brancos como fantasmas — translúcidos, irreais, perdidos.

Lee Reedman, um xerife do condado de San Bernardino, com experiência em resgates de emergência, penetrou na correnteza para tentar trazê-los de volta, segurando-se de encontro às pedras que sobressaíam por entre a torrente revolta das águas. Estava amarrado a um fio de nylon com l,25cm de espessura, capaz de suportar uma tração de duas toneladas, atado com nó de marinheiro ao tronco maciço de um pinheiro e manobrado por dois homens na margem.

Lee tinha tirado sua parka, mas mantinha o uniforme e as botas. Nadar numa correnteza como aquela seria mesmo impossível, de modo que ele não temia que as roupas o atrapalhassem; por outro lado, mesmo encharcadas elas ajudariam a protegê-lo da água gelada, tornando mais lenta a perda de calor do seu corpo.

Depois de estar no rio por mais de um minuto, no entanto, quando estava a meio caminho da pedra onde o casal se refugiava, Lee começou a sentir como se ampolas de sorvete tivessem sido injetadas na sua corrente sangüínea. Pensou que mesmo que tivesse entrado nu na correnteza não poderia sentir mais frio do que já estava sentindo.

Teria preferido esperar pela Equipe de Emergência do Inverno que estava a caminho, homens com experiência em localizar pessoas isoladas por avalanches e em resgatar esquiadores descuidados que acabavam caindo entre dois paredões de gelo. Aqueles homens dispunham de vestimentas com isolamento térmico, além de equipamento mais adequado. Mas a situação era desesperada demais para permitir uma tal espera: aquelas pessoas no rio certamente não resistiriam até a chegada dos especialistas.

Lee chegou a uma abertura entre as rochas, com pouco mais de um metro de largura, onde as águas convergiam com uma força espantosa, como se sugadas por um aspirador gigantesco. Ele sentiu que seus pés perdiam o apoio, mas os homens na margem não deixaram a corda ceder, mantendo-a retesada e liberando-a aos poucos, no mesmo ritmo do seu avanço. Lee não foi arrastado através da fenda, mas ainda assim ficou alguns instantes abaixo da superfície, engolindo uma água tão gelada que fez seus dentes latejarem de dor; mas acabou agarrando-se à rocha com firmeza e conseguiu transpor aquela abertura.

Um minuto depois, arquejante e tremendo de frio dos pés à cabeça, Lee chegou ao ponto onde estava o casal. O homem estava inconsciente, mas a mulher se achava alerta. Os fachos de luz das lanternas incidiam sobre seus rostos, perdiam a mira, voltavam a localizá-los; os dois tinham uma aparência terrível. A pele da mulher estava enrugada pelo frio e totalmente descolorida, a tal ponto que a fosforescência natural dos ossos parecia brilhar através da sua carne, revelando a caveira por baixo da pele do rosto. Tinha os lábios tão brancos quanto os dentes; além do seu cabelo preto, ensopado, a única coisa escura sobre ela eram os olhos, tão fundos quanto os olhos de um cadáver e invadidos pela dor da morte próxima. Naquelas circunstâncias ele não podia adivinhar sua idade nem mesmo com quinze anos de margem de erro, nem poderia dizer se ela era feia ou atraente; o que podia ver, no primeiro olhar, era que estava nos limites da própria resistência, apegando-se à vida por pura força de vontade.

— Segure o meu marido — disse ela, empurrando o corpo inconsciente do homem para os braços de Lee. A voz dela era aguda, e suas cordas vocais falhavam continuamente. — Ele levou uma pancada na cabeça, precisa de socorro, vamos, vamos, que droga!

A raiva dela não incomodou Lee. Ele sabia que não era dirigida contra ele, e que aquilo estava dando à mulher forças para resistir.

— Segure-se. Vamos sair daqui todos juntos — disse ele, erguendo a voz sobre o ulular do vento e o barulho encachoeirado do rio. — Não se debata, não tente se segurar nas rochas nem apoiar seus pés no fundo. Eles nos puxarão mais facilmente se ficarmos apenas boiando. Ela pareceu compreender.

Lee virou-se para a margem. Uma lanterna brilhou de encontro ao seu rosto, e ele gritou:

— Pronto! Agora!

Os homens na margem do rio começaram a puxar a corda, enquanto ele rebocava o homem desmaiado e a mulher.

 

Após ser retirada da água, Lindsey teve momentos alternados de lucidez e inconsciência. Durante algum tempo teve a sensação de estar vivendo no interior de um videoteipe, e que de vez em quando alguém apertava o botão fast forward, projetando-a numa cena totalmente diferente após um breve intervalo onde ela percebia apenas o chuvisco prateado de uma imagem fora doar.

Enquanto ela estava deitada, arquejando, na margem do rio, um jovem paramédico com a barba cheia de manchas de neve ajoelhou-se ao seu lado e dirigiu sobre seus olhos a luz de uma espécie de caneta com uma pequena lâmpada na extremidade, checando suas pupilas.

—      Está me ouvindo? — perguntou ele.

—      Claro. Onde está Hatch?

—      Pode me dizer seu nome?

—      Onde está meu marido? Ele precisa de socorro urgente.

—      Estamos cuidando dele. Responda: Sabe me dizer seu nome?

—      Lindsey.

—      Muito bem. Está com frio?

Parecia uma pergunta estúpida, mas só então ela percebeu que não se sentia mais gelada. Na verdade, um calor levemente desagradável estava se espalhando pelas extremidades do seu corpo. Não era o calor penetrante e doloroso produzido pelo fogo. Era, em vez disso, como se as mãos e os pés dela tivessem sido mergulhados num fluido cáustico que ia aos poucos dissolvendo sua pele e deixando expostos todos os seus nervos. Ela sabia, sem que ninguém tivesse que dizer-lhe, que a sua impossibilidade de sentir o ar frio da noite era um indício de deterioração física...

Fast forward...

Estava sendo levada numa padiola. Os homens estavam caminhando ao longo da margem do rio. Com a cabeça colocada para a parte da frente da padiola, ela podia olhar de frente para o homem que a segurava pela outra extremidade. A neve que cobria o chão refletia um pouco da luz das lanternas, mas aquela vaga luminosidade era apenas suficiente para revelar os contornos do rosto do homem, e para dar aos seus olhos um brilho inquietante.

Todo em preto e branco como um desenho feito a carvão, estranhamente silencioso, cheio de mistério e de movimentos que se assemelhavam aos de um sonho, aquele lugar e aquele momento envolviam Lindsey como se fossem pesadelo. Ela sentia que as batidas de seu coração se aceleravam, enquanto olhava de baixo para cima na direção daquele homem sem rosto. Seu medo ganhou os contornos ilógicos de um sonho, e de súbito ela teve a certeza de que estava morta e que os vultos que conduziam a padiola não eram seres humanos, mas carregadores de defuntos que a estavam levando até o bote no qual ela cruzaria o rio Estige até a terra dos mortos e dos condenados...

Fast forward...

Agora ela estava atada à padiola por uma porção de correias, inclinada quase verticalmente, e a padiola estava sendo puxada para o alto através de cordas, por pessoas que ela não conseguia avistar. Dois homens a acompanhavam, um de cada lado da maca, escalando com esforço a encosta onde suas pernas se afundavam na neve até os joelhos, mas ajudando-a a ser içada e cuidando para que ela não virasse de lado.

Estava começando a entrar na região iluminada pelas luzes vermelhas e piscantes. Quando aquela claridade púrpura a rodeou por completo, ela começou a ouvir as vozes cheias de urgência dos homens, sobrepondo-se ao ruído de estática dos rádios dos carros. Quando ela sentiu o cheiro forte da fumaça do escapamento dos carros, percebeu que ia sobreviver.

A poucos segundos de uma solução tranqüila, pensou.

Embora à beira de um delírio causado pela exaustão, mesmo confusa e estonteada, Lindsey estava lúcida o bastante para se inquietar diante daquele pensamento e da ansiedade subconsciente que ele revelava. A poucos segundos de uma solução tranqüila? A única coisa da qual ela tinha estado a poucos segundos de distância era a morte. Será que ela estava ainda tão deprimida pela morte de Jimmy que, mesmo depois de cinco anos, a sua própria morte podia significar um alívio do peso daquela dor?

Nesse caso, por que não me deixei levar pelo rio?, pensou ela. Por que simplesmente não cedi?

Hatch, é claro. Hatch precisava dela. Ela tinha se sentido pronta a abandonar este mundo, na esperança de ir para um lugar melhor. Mas não podia tomar a mesma decisão em nome de Hatch, e naquelas circunstâncias deixar-se morrer teria significado sacrificá-lo também.

Com um ruído áspero e um sacolejo final, a maca foi puxada por sobre a borda da ravina e depositada no chão do acostamento, ao lado de uma ambulância. Neve avermelhada continuava caindo sobre o rosto dela.

Um paramédico com o rosto avermelhado pelo frio e com belos olhos azuis inclinou-se sobre ela.

—      Você vai ficar boa.

—      Eu não queria morrer — disse Lindsey.

Na verdade não estava respondendo ao homem. Estava argumentando consigo mesma, tentando dizer a si própria que a tristeza pela perda do filho não tinha, afinal, se transformado numa infecção emocional crônica que a levara a desejar a morte. Sua auto-imagem não incluía absolutamente a palavra “suicida” e ela estava chocada e cheia de repulsa em descobrir, depois de ser submetida a tamanha tensão, que esse tipo de impulso podia fazer parte dela.

A poucos segundos de uma solução tranqüila...

—      Eu queria morrer? — disse ela.

— Você não vai morrer — tranqüilizou-a o paramédico, enquanto ele e outro homem desatavam as correias presas aos suportes laterais da padiola, para poder, assim, transferi-la para dentro da ambulância. — O pior já passou agora. O pior certamente já passou.

 

Meia dúzia de carros da polícia e veículos de socorro estavam estacionados ao longo de duas das pistas da rodovia. A terceira pista estava reservada ao tráfego que subia e descia a montanha, com guardas fardados controlando a passagem dos veículos. Lindsey observou um grupo de pessoas que a observavam fascinadas através dos vidros de um jipe Wagoneer, mas eles logo desapareceram por entre um redemoinho de neve e jatos de fumaça lançados pelo cano de escape, que rapidamente se cristalizavam em contato com o ar frio do lado de fora.

A ambulância tinha acomodações para dois pacientes. Os enfermeiros colocaram Lindsey numa maça sobre rodas que foi presa a dois ganchos na parte esquerda, para impedi-la de deslizar para o lado durante as curvas. Hatch foi colocado numa maça idêntica do lado oposto.

Dois paramédicos entraram depois deles na parte traseira e puxaram as portas, trancando-as pelo lado de dentro. Ao se moverem, suas roupas de nylon com isolamento térmico produziam um som rascante, uma série de pequenas fricções que pareciam ser amplificadas eletronicamente naquele espaço tão apertado.

Com um uivo lamentoso da sirene, a ambulância começou a se mover. Os paramédicos equilibravam-se sem dificuldade durante os sacolejos do carro, valendo-se de uma longa experiência.

Colocando-se lado a lado no estreito espaço entre as maças, os dois se voltaram na direção de Lindsey. Seus nomes estavam bordados no bolso das jaquetas: David O’Malley e Jerry Epstein. Com uma curiosa combinação de frieza profissional e preocupação sincera, os dois começaram a trabalhar nela, trocando informações médicas um com o outro num tom frio e objetivo, enquanto falavam com ela com uma entonação simpática, encorajadora.

Essa dicotomia em seu comportamento contribuiu para alarmar Lindsey ainda mais, em vez de tranqüilizá-la, mas ela estava demasiado fraca e desorientada para poder expressar seu temor. Sentia-se irritantemente frágil. Enfraquecida. Lembrou-se de uma pintura surrealista, Este Mundo e o Outro, que executara no ano anterior, onde a figura central era um acrobata de circo andando na corda bamba e acometido de insegurança. Agora, a consciência era o estreito fio onde ela própria tentava se manter equilibrada. Qualquer esforço para falar com os paramédicos não podia ser mantido por mais de uma ou duas palavras, sob pena de abalar seu equilíbrio e precipitá-la numa queda sem fim.

Embora ela tivesse a mente enevoada demais para poder entender por completo o que os dois homens diziam, ela captou o bastante para perceber que estava com hipotermia, talvez até choque devido ao frio excessivo; e que eles se preocupavam com o seu estado. A pressão sangüínea estava muito baixa. Ritmo cardíaco lento e irregular. Respiração lenta, em haustos muito curtos.

Talvez aquela solução tranqüila ainda fosse possível,

Se ela quisesse de fato.

Sentia-se numa posição ambivalente. Mesmo que tivesse subconsciente-mente desejado a morte desde o funeral de Jimmy, não tinha agora por ela nenhuma atração especial — embora também não achasse essa possibilidade totalmente indesejável. O que tivesse de lhe acontecer, que acontecesse; naquele estado em que se via, com suas emoções tão entorpecidas quanto os seus cinco sentidos, não se preocupava muito com seu próprio destino. A hipotermia desligava seu instinto de conservação com a mesma eficácia narcotizante de uma embriaguez alcoólica.

Então ela teve um breve vislumbre, por entre os médicos agachados ao seu lado, do corpo de Hatch estendido na outra padiola, e de súbito a preocupação por ele produziu um impacto que a despertou daquela espécie de transe em que se achava. Ele estava tão pálido. Mas não estava apenas branco: era uma tonalidade doentia, acinzentada. O rosto dele estava virado em sua direção, com os olhos cerrados, a boca ligeiramente entreaberta; era como se um fogo intenso e fugaz o tivesse queimado por dentro, não deixando nada entre a pele e os ossos a não ser as cinzas da carne consumida.

— Por favor — disse ela. — Meu marido...

Ela ficou surpresa ao ouvir a própria voz... um som áspero, como o coaxar de uma rã.

—      Você primeiro — disse O’Malley.

—      Não. Hatch. Ele... precisa... ajuda.

—      Você primeiro — repetiu o homem.

A firmeza dele a tranqüilizou, de algum modo. Hatch não parecia nada bem, mas certamente estava a salvo, devia ter respondido bem à ressuscitação cardiopulmonar... Estava melhor do que ela; se não fosse assim, os médicos estariam cuidando dele em primeiro lugar. Não era mesmo?

Seus pensamentos tornaram-se confusos novamente. O sentimento de urgência que a invadira por alguns instantes voltou a se desvanecer. Ela fechou os olhos.

 

Depois...

No torpor hipotérmíco em que estava mergulhada, Lindsey percebia as vozes ao seu redor como uma espécie de acalanto, desprovido de melodia mas obedecendo a um ritmo. Mas o que a mantinha desperta eram as agulhadas cada vez mais dolorosas que sentia nas extremidades do corpo e os gestos bruscos dos médicos, que estavam amontoando de ambos os lados de seu corpo objetos que pareciam pequenos travesseiros. Fossem o que fossem — almofadas térmicas, alimentadas a eletricidade ou a reações químicas, ela imaginou —, irradiavam um agradável calor, muito diferente da dolorosa sensação de queimadura que ela experimentava nos pés e nas mãos.

—      Hatch precisa ser aquecido — disse ela, com voz pastosa.

—      Ele está bem. Não se preocupe — disse Epstein. Seu hálito se condensava em pequenas nuvens de vapor a cada frase que pronunciava.

—      Ele está frio.

—      Está bem assim. Precisamos que ele continue desse jeito.

O’Malley interveio:

—      Mas não demais, Jerry. Nyebern não vai querer receber um picolé. Cristais de gelo se formam nos tecidos, e ele pode ter lesão cerebral.

Epstein voltou-se para a pequena janela entreaberta que separava a parte traseira da boléia do carro. Ergueu a voz para o motorista:

— Mike, aumente o aquecedor, só um pouquinho.

Lindsey ficou pensando quem poderia ser Nyebern, e sentiu um pouco de alarme diante das palavras “lesão cerebral”. Mas estava esgotada demais para poder se concentrar melhor e extrair maiores significados do que ouvia.

Sua mente começou a vaguear, deixando emergir uma série de imagens da infância, mas eram tão estranhas e distorcidas que provavelmente ela tinha deslizado através da fronteira entre a consciência e o sono, onde seu inconsciente podia distorcer suas recordações e dar-lhes aparência de pesadelo.

...ela via a si própria, aos cinco anos de idade, brincando num prado que ficava por trás de sua casa Os contornos irregulares do terreno eram familiares, mas alguma influência maligna tinha se infiltrado em sua mente e alterado alguns detalhes, como a corda grama, que agora era negra como os pêlos de uma aranha. As pétalas das flores eram negras também, como estames vermelhos que pareciam pesadas gotas de sangue...

...ela se via aos sete anos, no playground da escola, à luz do crepúsculo, mas sozinha — como nunca tinha ficado ali, em toda a sua vida. Em redor dela estavam os brinquedos de sempre: os balanços, gangorras e tobogãs, projetando sombras retorcidas de encontro à luz alaranjada daquele final de tarde. Aqueles mecanismos de brincadeira pareciam agora estranhamente ameaçadores. Erguiam-se com um ar malévolo, como se a qualquer instante pudessem começar a mover-se, rangendo, produzindo um clangor de metal, com uma fosforescência azul brilhando ao longo de suas bordas enquanto saíam à caça de sangue para lubrificar suas juntas, como robôs-vampiros feitos de alumínio e aço...

 

A intervalos regulares Lindsey escutava um grito estranho e remoto, como o lamento de algum animal enorme e misterioso. Depois de um certo tempo, mesmo em sua condição semidelirante, ela percebeu que aquele som não se originava de sua imaginação, nem tampouco era distante: vinha exatamente de cima de sua cabeça. Não era nenhum animal tampouco: era a sirene da ambulância, acionada apenas de vez em quando para pedir passagem em meio ao tráfego rarefeito daquelas estradas cobertas de neve.

A ambulância deteve-se mais cedo do que ela esperava, mas talvez isso fosse porque sua percepção do tempo estava em descompasso com seus outros sentidos. Epstein escancarou a porta de trás do veículo, enquanto O’Malley desafivelava as correias que prendiam a padiola.

Quando a retiraram, Lindsey ficou surpresa ao constatar que não estava num hospital em San Bernardino, como tinha esperado, e sim no estacionamento diante de um pequeno shopping center. Àquela hora tardia, o local estava praticamente deserto, a não ser pela ambulância e, surpreendentemente, por um enorme helicóptero que tinha pintadas na parte lateral uma enorme cruz vermelha e as palavras SERVIÇO DE AMBULÂNCIA AÉREO.

A noite ainda estava fria, e o vento continuava a uivar. Estavam agora abaixo da linha da nevasca, embora tivessem chegado apenas ao sopé da montanha, ainda muito longe de San Bernardino. O chão estava limpo de neve, e as rodas metálicas da padiola rangiam ritmicamente enquanto Epstein e O’Malley a empurravam rumo ao helicóptero e aos dois homens que estavam parados à espera.

O motor do helicóptero estava ligado, emitindo um barulho contido, cheio de expectativa.

A simples presença daquele veículo e a sensação de extrema urgência que ele deixava transparecer foram como um raio de sol que dissolveu parcialmente o nevoeiro espalhado pela mente de Lindsey. Ela percebeu que tanto ela quanto Hatch deviam estar em pior situação do que julgara a princípio, porque somente um caso extremamente crítico poderia justificar um socorro tão dispendioso e insólito. E certamente estariam sendo levados para um lugar mais distante do que San Bernardino — talvez para algum centro médico provido da última palavra em equipamentos para socorro de emergência. No momento em que a consciência disso brotou em sua mente, ela desejou que voltasse a se dissipar o quanto antes, deixando-a mergulhar de novo na quietude que aquele nevoeiro mental acarretava.

Quando os enfermeiros do helicóptero começaram a transferir a padiola para dentro do veículo, um deles gritou por sobre o ruído do motor:

—      Mas ela está viva!

—      Ela não está bem—-respondeu Epstein.

—      Sim, sim, parece mal paca — replicou o outro —, mas ainda está viva. Nyebern está esperando um corpo.

—      É o outro — disse O’Malley.

—      O marido — disse Epstein.

—      Vamos pegá-lo agora — completou O’Malley.

Lindsey teve consciência de que uma informação importantíssima tinha sido revelada ao longo dessas breves frases, mas não conseguiu perceber claramente do que se tratava. Ou talvez ela simplesmente não quisesse perceber.

Os homens a levaram para o espaçoso compartimento traseiro do helicóptero e a transportaram para uma padiola presa à parede interna; enquanto afivelavam em redor dela as correias que a fixavam sobre o colchão de vinil, ela deixou-se mergulhar mais uma vez naquelas recordações da infância que surgiam contaminadas de medo:

...tinha nove anos, e brincava com o cachorro, Boo, mas quando ele lhe trouxe de volta a bola de borracha e a deixou cair aos seus pés, não era mais uma bola. Era um coração pulsante, com artérias e veias dilaceradas. E pulsava, mas não porque estivesse vivo, e sim porque uma massa informe de vermes e de insetos fervilhava no interior de seus compartimentos apodrecidos...

 

O helicóptero levantou vôo. O seu movimento, talvez por causa dos fortes ventos, lembrava menos o de uma aeronave do que o de um barco enfrentando um mar encapelado. O estômago de Lindsey teve contrações de náusea.

Um enfermeiro curvou-se sobre ela, com o rosto oculto pela sombra, e aplicou um estetoscópio ao seu peito.

Do outro lado da cabine, o outro enfermeiro gritava alguma coisa de encontro a um microfone enquanto examinava Hatch; talvez não estivesse se dirigindo ao piloto, e sim a um médico no hospital que certamente estaria à espera deles. Os rotores do aparelho pareciam fatiar suas frases em breves fragmentos, transformando sua voz numa sucessão irregular de graves e agudos, como a voz de um adolescente nervoso.

— ...concussão no crânio sem maior gravidade... nenhum ferimento mortal... causa aparente da morte... possivelmente... afogamento...

No lado oposto da cabine, próximo aos pés da padiola onde estava Hatch, a porta corrediça estava entreaberta alguns centímetros, e Lindsey percebeu que a outra porta do lado oposto também não estava totalmente cerrada, o que criava uma corrente de ar gelado no interior do aparelho. Isso também explicava por que o ruído do vento e das hélices era tão ensurdecedor lá dentro.

Por que deixavam que aquilo ficasse tão frio? O enfermeiro que atendia Hatch continuava a gritar no transmissor: — ...boca a boca... ressuscitador mecânico... O2 e CO2 sem resultados. .. epinefrina ineficaz...

O mundo real estava se tornando demasiado real, mesmo entrevisto através do seu delírio. Ela não estava gostando daquilo. As paisagens distorcidas dos sonhos, apesar das horríveis mutações que sofriam, eram mais atrativas do que o interior daquela ambulância aérea, talvez porque inconscientemente ela tinha pelo menos um mínimo de controle sobre os pesadelos, um controle que não possuía sobre os acontecimentos reais.

...estava no baile de formatura, dançando nos braços de Joey Delvecchio, o seu namorado daquela época. Estavam sob um dossel de fitas de papel colorido; ela estava recoberta de reflexos de luz azul, branca e amarela, que brilhavam como lantejoulas, reflexos produzidos pela esfera coberta de fragmentos de espelhos que girava por sobre o salão. A música que tocava era a música dos bons tempos, dos tempos em que o rock-and-roll ainda não tinha começado a perder a alma, tempos anteriores à disco-music e ao hip-hop, quando Elton John e The Eagles estavam no auge, quando os Isley Brothers ainda gravavam, os tempos dos Doobie Brothers, de Stevie Wonder, de Neil Sedaka fazendo o seu retorno triunfal, quando a música ainda estava viva, quando todo mundo e todas as coisas estavam intensamente vivas, quando o mundo era cheio de esperanças e de possibilidades que agora tinham sumido para sempre. Eles estavam dançando devagar ao som de uma canção de Freddy Fender que a banda local conseguia reproduzir com competência, e ela estava invadida por uma sensação de felicidade e de bem-estar—até o momento em que ergueu a cabeça do ombro de Joey e ao fitá-lo não viu o rosto de Joey, mas as feições apodrecidas de um cadáver, com dentes amarelos aparecendo por entre os lábios enegrecidos, a carne cheia de manchas e de feridas, e olhos injetados de sangue vazando um líquido fétido por entre as rachaduras provocadas pelo apodrecimento. Ela gritou e tentou afastar-se dele, mas tudo que conseguiu foi continuar dançando, ao som das frases melodiosas de Before the Next Teardrop Falls, e percebendo que estava vendo Joey como ele iria ser dali a poucos anos, depois de morrer na explosão do acampamento dos fuzileiros americanos no Líbano. Sentiu que a morte começava a passar do corpo frio de Joey para o dela, e soube que precisava romper aquele abraço antes que aquela onda mortal a invadisse. Mas quando olhou em redor à procura de alguém que pudesse ajudá-la, percebeu que Joey não era a única pessoa morta entre os dançarinos. Sally Ontkeen, que dali a oito anos iria morrer de overdose de cocaína, deslizava pela pista em adiantado estado de decomposição nos braços de seu namorado, que sorria para ela como se não percebesse nada. Jack Winslow, a estrela de futebol da escola, que menos de um ano depois iria morrer num acidente ao dirigir embriagado seu automóvel, passou dançando ao lado deles com sua garota; seu rosto estava tumefato, a pele vermelha com manchas verdes, e seu crânio estava fendido do lado esquerdo, do modo como ficara após o acidente. Ele disse algo na direção de Lindsey e Joey, numa voz áspera que não pertencia a Jack Winslow mas a alguma criatura recém-saída de um cemitério, com as cordas vocais reduzidas a superfícies ressequidas que ainda conseguiam dizer: “Que noite! Cara, que noite esta, hem?”

Lindsey estremeceu dos pés à cabeça, e não apenas por causa do vento frio que penetrava com ruído pelas portas entreabertas do helicóptero.

O enfermeiro, ainda com o rosto mergulhado em sombras, estava tirando sua pressão sangüínea. Ela estava com o braço esquerdo para fora das cobertas; as mangas do suéter e da blusa tinham sido arregaçadas, expondo a pele nua. A borracha do esfigmomanômetro estava enrolada em torno do seu bíceps e presa firmemente com uma faixa de velcro.

Seus tremores eram tão pronunciados que, aos olhos do enfermeiro, deviam parecer os espasmos musculares que acompanham as convulsões. Ele apanhou uma pequena placa de borracha numa bandeja próxima e começou a inseri-la em sua boca, para evitar que Lindsey acabasse mordendo a língua ou sufocando-se com ela.

Lindsey empurrou de volta a mão dele.

—      Eu vou morrer — disse.

Aliviado em perceber que ela não estava tendo convulsões, o homem disse:

—      Não, você não está tão mal. Fique tranqüila. Vai ficar boa.

Ele não tinha entendido. Impaciente, ela insistiu:

—      Todos nós vamos morrer.

Era esse o significado das suas recordações distorcidas pelo sonho. A morte a acompanhava desde o dia em que ela nascera, sempre ao seu lado, uma companheira constante; algo que ela nunca tinha compreendido antes da morte de Jimmy, cinco anos antes, e que não tinha aceitado até aquela noite, quando a morte lhe arrebatara Hatch.

Seu coração pareceu contrair-se dentro do peito como um punho cerrado. Uma nova espécie de dor começou a invadi-la, uma dor diferente das outras que tinha experimentado, e muito mais profunda. A despeito do terror e do delírio e da exaustão, de tudo quanto ela tinha usado até então como escudos contra a terrível insistência da realidade, a verdade finalmente a atingiu de cheio, e ela não pôde fazer outra coisa senão aceitá-la. Hatch estava morto.

Hatch tinha se afogado. O socorro tinha chegado tarde demais. Hatch tinha ido embora para sempre.

...ela tinha vinte e cinco anos, e estava deitada de encontro às almofadas em sua cama na ala da maternidade do hospital St. Josephs. A enfermeira lhe estendia um pequeno volume embrulhado em lençóis... seu bebê, seu filho, James Eugene Harrison, que ela tinha carregado no ventre por nove meses mas não tinha visto ainda, que ela amava de todo o coração mas ainda não tinha tocado. Sorrindo, a enfermeira ajeitou o bebê nos braços de Lindsey, e ela ergueu a franja do lençol, bordada de cetim. Então ela viu no interior do lençol um pequeno esqueleto, com órbitas vazias no crânio, e com os pequenos ossos dos dedos meio curvados, no gesto característico dos recém-nascidos... Jimmy tinha nascido já com a morte dentro de si, como todas as outras pessoas, e em menos de cinco anos o câncer iria levá-lo embora. A pequena boca do bebê-esqueleto abriu-se, num grito longo, lento, silencioso...

 

Lindsey podia ouvir as hélices do helicóptero cortando o ar noturno; mas percebeu que não se encontrava mais dentro do veículo. Estava sendo empurrada na padiola ao longo de um pátio aberto, na direção de um enorme edifício cheio de janelas acesas. Pensou que devia saber o que era aquilo, mas não conseguia pensar com clareza, e de fato ela não se importava em saber o que era aquilo, ou onde ela estava, ou por que razão a levavam para ali.

Mais à frente, uma porta abriu-se de par em par, revelando um espaço iluminado por uma luz cálida e amarelada e as silhuetas de vários homens e mulheres. Depois, Lindsey penetrou naquela área de luz, por entre as silhuetas... um longo saguão... uma sala com cheiro de álcool e desinfetantes... as silhuetas aos poucos se transformavam em pessoas com rostos, e depois outros rostos começavam a surgir... vozes suaves, mas falando com um tom de urgência... mãos que a agarravam, que a erguiam no ar... já não estava na padiola, e sim numa cama... a cama se inclinava para trás, deixando sua cabeça num nível abaixo do resto do corpo... bips ritmados e cliques que eram emitidos por algum tipo de aparelhagem eletrônica...

Ela desejou que fossem todos embora e a deixassem sozinha, em paz. Fossem embora dali, e pronto. Desligassem a luz quando saíssem. Deixassem-na na escuridão. Precisava de silêncio, tranqüilidade, paz.

Um odor desagradável de amônia invadiu suas narinas. Queimava a mucosa, fazendo seus olhos lacrimejarem e se abrirem, contra a sua vontade.

Um homem de guarda-pó branco estava segurando algo de encontro ao seu nariz e olhando com curiosidade bem dentro de seus olhos. Quando ela começou a tossir e soluçar devido ao cheiro, ele afastou o objeto e o entregou a uma enfermeira morena, com uniforme branco. O cheiro pungente logo desapareceu.

Lindsey se apercebeu do movimento que havia em redor, rostos que se aproximavam, olhavam para ela e logo desapareciam. Ela sabia que era o centro das atenções, um objeto de intensa curiosidade, mas não se incomodava, não conseguia se incomodar. Era mais parecido com um sonho do que todos os sonhos que já tivera no passado. Uma maré suave feita de vozes subia e baixava em redor, pulsando ritmicamente, como o ruído compassado das ondas arrebentando-se numa praia:

—      ...palidez acentuada na epiderme... cianose nos lábios, unhas, pontas dos dedos, lobos das orelhas...

—      ...pulso fraco, acelerado... respiração rápida e curta...

—      ...pressão sangüínea tão baixa que não consigo ler...

—      Aqueles idiotas não lhe deram tratamento imediato?

—      Claro que sim. O tempo todo.

—      Mais oxigênio, mais CO2. Rápido.

—      Epinefrina?

—      Sim, pode preparar.

—      Epinefrina? E se ela tiver lesões internas? Você não sabe se ela está tendo uma hemorragia.

— Foda-se, vamos arriscar.

Alguém colocou a mão sobre seu rosto, como se quisesse sufocá-la. Lindsey sentiu que algo era introduzido em suas narinas e por um instante não conseguiu respirar. O mais curioso é que não se importava com isso. Então, jatos de ar frio e seco foram projetados em seu nariz, parecendo fazer seus pulmões se expandirem.

Uma mulher loura, jovem, toda vestida de branco, inclinou-se sobre ela, ajustou o inalador e deu um sorriso vitorioso.

—      Muito bem, querida. Está melhor agora?

A mulher era bonita, etérea, com uma voz estranhamente musical, e a luz por trás dela parecia envolvê-la num halo dourado. Uma aparição celestial. Um anjo. Respirando com dificuldade, Lindsey disse:

—      Meu marido morreu.

—      Está tudo bem, querida. Relaxe e respire fundo, o mais fundo possível. Tudo vai ficar bem.

—      Não, não, ele morreu — disse Lindsey. — Morreu, foi embora para sempre. Não minta para mim. Anjos nunca mentem.

Do outro lado da cama, um homem também vestido de branco estava esfregando um algodão embebido em álcool na parte interna do seu braço, na junção do cotovelo. O líquido era gelado.

Lindsey fitou o anjo e repetiu:

—      Morreu. Foi embora.

Com uma expressão de tristeza, o anjo assentiu com um gesto de cabeça. Seus olhos azuis estavam cheios de amor, como convém aos olhos de um anjo.

—      Sim, querida, ele se foi. Mas pode ser que desta vez isso não tenha sido o fim de tudo.

A morte era sempre o fim de tudo. Como poderia ser de outra forma? Uma agulha foi cravada sem seu braço.

—      Desta vez — estava dizendo o anjo —, desta vez há uma chance. Temos um programa especial aqui, um que...

Uma outra mulher invadiu o quarto, excitada, falando alto.

—      Nyebern está aqui! — disse. — Acabou de chegar.

Ouviu-se um suspiro coletivo de alívio, quase que um murmúrio de aplauso, percorrendo todas as pessoas dentro do quarto.

—      Estava jantando no Marina Del Rey quando foi localizado — continuou ela. — Deve ter dirigido como um louco para chegar aqui tão depressa.

— Está vendo, querida? — disse o anjo, voltando-se outra vez para Lindsey. — Existe uma chance. Ainda existe uma chance. Vamos orar.

E daí?, pensou Lindsey com amargura. Orações nunca funcionaram, pelo menos comigo. Eu não espero milagres. Os mortos continuam mortos, e os vivos apenas esperam a hora de juntar-se a eles.

 

O setor de emergência do Hospital Geral do Condado de Orange havia preparado uma sala de operações para receber o corpo de Hatchford Benjamin Harrison, de acordo com orientações que o Dr. Jonas Nyebern deixara arquivadas nos escritórios do Projeto Médico de Ressurreição. A equipe entrou em ação desde o momento em que os paramédicos de San Bernardino anunciaram pelo rádio que estavam de posse de uma vítima de acidente: um homem afogado em água gelada e que havia sofrido apenas ferimentos sem maior gravidade, o que o tornava o paciente ideal para o projeto Nyebern. No momento em que o helicóptero-ambulância descia no heliporto do hospital, à parafernália de equipamentos eletrônicos da UTI já havia se somado o equipamento do grupo de ressurreição.

O tratamento não teria lugar numa sala de cirurgia comum, onde o espaço restrito das instalações não permitiria cuidar de Harrison em meio ao fluxo normal de pacientes. Jonas Nyebern era um cirurgião cardiovascular, e sua equipe cirúrgica era de alto nível; mas os procedimentos de ressurreição raramente incluíam intervenções cirúrgicas. Somente a descoberta de alguma grave lesão interna poderia levá-los a abrir o corpo de Harrison. A utilização de uma sala de cirurgia era mais uma questão de conveniência do que de necessidade.

Quando Jonas entrou no setor cirúrgico, após passar pela desinfecção, a equipe do Projeto já estava toda à sua espera. O destino tinha privado Nyebern da mulher e do casal de filhos, deixando-o sem família; além disso, uma timidez inata sempre o tinha impedido de fazer amigos em outros círculos que não aqueles determinados pela sua atividade profissional, de modo que os membros daquela equipe não eram apenas seus colegas, mas as únicas pessoas no mundo com as quais ele se sentia inteiramente à vontade, e as únicas que tinham importância especial para ele.

Helga Dorner estava parada junto ao painel de instrumentos à sua esquerda, mergulhada na semi penumbra produzida pelas lâmpadas de halogênio que iluminavam a mesa de operação. Ela era uma enfermeira extremamente competente, com um rosto largo e um corpo musculoso que lembrava um pouco o daquelas corredoras soviéticas saturadas de esteróides anabolizantes, mas seus olhos e suas mãos eram tão delicados quanto os de uma Madona pintada por Rafael. Os pacientes geralmente a temiam logo ao primeiro contato; depois passavam a respeitá-la, e acabavam adorando-a.

Com a solenidade que lhe era típica em momentos como aquele, Helga não sorriu, limitando-se a fazer um gesto de polegar erguido quando Jonas olhou em sua direção.

Junto à máquina de reciclagem sangüínea estava Gina Delilo, uma enfermeira e técnica em cirurgia de trinta anos de idade que, por alguma razão, gostava de esconder sua extraordinária competência e senso de responsabilidade por trás de uma aparência irreverente e de um rabo-de-cavalo que a faziam parecer uma figurante dos filmes de festinhas na-praia que tinham sido muito populares décadas atrás. Como os demais membros da equipe, Gina vestia o uniforme verde do hospital e tinha o gorro de algodão amarrado à cabeça, ocultando seus cabelos louros; mas era possível ver um par de meias cor-de-rosa despontando acima das botas de pano que cobriam seus sapatos.

Ladeando a mesa de operação estavam o Dr. Ken Nakamura e a Dra. Kari Dovell, do corpo médico do hospital; ambos tinham clínicas particulares bem-sucedidas na cidade. Ken era um desses casos raros de talento em dose dupla, sendo detentor de especialização tanto em medicina interna quanto cm neurologia. A experiência cotidiana com as fraquezas da psicologia humana levava alguns médicos a procurarem refúgio na bebida, e outros a endurecerem seus corações a ponto de se tornarem emocionalmente isolados de seus pacientes; Ken usava como principal arma de defesa um senso de humor às vezes inquietante, mas em última análise sadio. Kari, uma especialista de primeira linha em medicina pediátrica, era dez centímetros mais alta do que o l,70m de Ken, e magra como um caniço, enquanto ele era um tanto corpulento; mas tinha o riso tão pronto quanto o dele. Às vezes, no entanto, Jonas percebia uma espécie de profunda tristeza em seus olhos e chegava a pensar que dentro dela estava encravado um cisto de solidão, tão profundamente que nenhuma amizade poderia prover um escalpelo longo e afiado o bastante para poder extirpá-lo.

Jonas olhou seus quatro colegas, um por um, mas nenhum deles disse uma palavra. Um silêncio inquietante pairava naquela sala sem janelas.

Todos os membros da equipe tinham uma aparência estranhamente passiva, como se não estivessem muito interessados no que estava para acontecer. Mas seus olhos mostravam exatamente o contrário: eram os olhos de um grupo de astronautas agrupados no compartimento de saída de um ônibus espacial, prontos para dar um passeio do lado de fora da espaçonave: brilhando de excitação, de deslumbramento, cheios de espírito de aventura — e tingidos por uma sombra de medo.

Havia outros hospitais com equipes de emergência hábeis o bastante nas técnicas de ressurreição para dar aos pacientes uma chance razoável de recuperação nas situações mais graves; mas o Hospital Geral do Condado de Orange era um dos três centros em todo o sul da Califórnia que podiam se gabar de manter um projeto com verbas especiais e tecnologia de ponta destinado a maximizar as chances de sucesso em trabalhos de reanimação daquele tipo. Harrison iria ser o 459 paciente a ser atendido durante os quatorze meses de instalação do projeto, mas o modo como tinha morrido fazia dele o mais interessante de todos. Afogamento, seguido de uma hipotermia rapidamente induzida. Afogamento significava lesões físicas relativamente pequenas; e o resfriamento rápido do corpo significava que a deterioração das células, logo após a morte, tinha tido seu ritmo drasticamente reduzido.

Na maioria das vezes, Jonas e sua equipe haviam recebido pacientes vitimados por derrames, ataques cardíacos, asfixia por obstrução da traquéia ou overdose de drogas. Em geral, tais pacientes tinham sofrido lesões cerebrais irreversíveis antes ou durante o momento de morrer, bem antes de terem sido entregues aos cuidados do Projeto Ressurreição — o que reduzia suas chances de serem trazidos de volta em perfeitas condições, E entre aqueles que tinham morrido de trauma violento de um tipo ou de outro, alguns estavam tão gravemente feridos que não podiam ser salvos mesmo após as técnicas de ressurreição terem surtido efeito. Outros foram ressuscitados e mantidos em condições estáveis, apenas para acabar sucumbindo devido a infecções secundárias que rapidamente evoluíam para choque tóxico. Três deles ficaram mortos por um tempo tão longo que, depois de ressuscitados, as lesões cerebrais se revelaram severas demais para que eles pudessem recuperar a consciência, e, em outros casos, eram demasiado extensas para permitir que pudessem voltar a levar uma vida normal.

Com uma súbita angústia e uma pontada de remorso, Jonas pensou nas suas falhas até então, nas vidas restituídas de forma incompleta, nos pacientes cm cujos olhos ele pudera ver a dolorosa consciência de sua patética condição...

—      Desta vez vai ser diferente.

A voz de Kari Dovell era suave, quase um sussurro, mas foi o bastante para arrancar Jonas de seu devaneio.

Jonas assentiu com um gesto de cabeça. Sentia uma notável afeição por aquelas pessoas. Era mais por causa deles do que por si próprio que ele desejava alcançar um resultado que fosse um sucesso completo, indiscutível.

—      Vamos em frente — disse ele.

No instante em que sua voz soou, as portas da sala de operação abriram-se de par em par, e dois enfermeiros entraram, empurrando o corpo morto do homem sobre uma padiola. Com gestos rápidos e eficientes, eles transferiram o corpo para a mesa de operação, tratando-o com mais cuidado e mais respeito do que teriam empregado em outras circunstâncias; saíram logo em seguida.

A equipe começou a trabalhar antes mesmo dos enfermeiros deixarem a sala. Com presteza e com grande economia de movimentos, cortaram com tesouras as roupas que restavam sobre o cadáver, deixando-o totalmente despido, e afixaram nele os sensores para leitura de eletrocardiograma, eletroencefalograma e uma placa adesiva para leitura digital de temperatura.

Segundos valiam ouro. Minutos não tinham preço. Quanto mais tempo aquele homem permanecesse morto, menor a chance de trazê-lo de volta com sucesso.

Kari Dovell ajustou os controles do eletrocardiógrafo, aumentando o contraste da imagem. Para efeito da gravação que estavam fazendo de todo o procedimento médico, disse em voz alta o que todos podiam ver:

—      Linha contínua. Sem pulsação cardíaca.

—      Nenhuma onda alfa, nem beta—disse Ken Nakamura, confirmando a ausência de toda atividade elétrica no cérebro do paciente.

Tendo apertado a faixa de borracha de um esfigmomanômetro no braço direito do paciente, Helga forneceu a leitura que todos já esperavam:

—      Nenhuma pressão sangüínea.

Gina ficou parada ao lado de Jonas, monitorando a leitura do termômetro digital.

—      Temperatura do corpo, oito graus,

—      Muito baixa! — exclamou Kari, e os seus olhos verdes se arregalaram de surpresa ao se voltarem para o cadáver. — E deve ter aumentado uns seis graus desde que ele foi retirado daquele rio. Aqui dentro está frio... mas não tanto assim.

O termostato da sala estava ajustado para dezoito graus, para encontrar um ponto ideal entre o bem-estar da equipe de ressuscitação e a necessidade de evitar que a temperatura do cadáver subisse rápido demais.

Erguendo os olhos para Jonas, Kari disse:

— Tudo bem com o frio, queremos que ele permaneça assim; mas não tanto. E se o tecido cerebral se congelar e ele acabar sofrendo lesões nas células cerebrais?

Ao examinar os dedos dos pés e das mãos do cadáver, Jonas ficou quase encabulado ao ouvir sua própria voz dizendo:

—      Não há sinal de vesículas...

—      Isto não prova coisa alguma — disse Kari.

Jonas sabia que ela tinha razão. Todos eles sabiam. Não houvera tempo suficiente para a formação de vesículas na carne gelada dos dedos e dos artelhos, antes da morte do homem. Mas, que diabo, Jonas não tinha a intenção de desistir de tudo antes mesmo de começar.

—      Mesmo assim — disse — não há sinais de necrose...

—      Porque o paciente inteiro está necrosado — disse Kari, que não queria dar o braço a torcer. Às vezes ela parecia tão desajeitada quanto um pássaro pernalta que, embora capaz de voar com desenvoltura, sentia-se deslocado ao pousar na terra. Mas em outros momentos, como agora, ela tirava partido de sua altura, projetando uma sombra atemorizante, olhando de cima para baixo para seu antagonista com um olhar de preste-atenção-ou-arranco-seus-olhos-com-meu-bico. Jonas era alguns centímetros mais alto do que Kari, de modo que ela não podia olhá-lo de cima para baixo; mas poucas mulheres eram capazes de olhá-lo assim, quase ao mesmo nível, e o efeito era equivalente.

Jonas olhou para Ken, em busca de apoio.

O neurologista não estava nem um pouco preocupado.

— É verdade que a temperatura do corpo pode ter caído abaixo do nível de congelamento depois da morte, e depois subido um pouco, no caminho para cá... e não há como ter certeza disso. Você sabe, Jonas. A única coisa sobre esse cara de que podemos estar certos é que ele está mais morto do que Elvis Presley.

— Se ele está com temperatura de apenas oito graus agora — disse Kari.

Todas as células do corpo humano consistem acima de tudo de água. A porcentagem de água difere nas células do sangue, dos ossos, da pele, do ligado; mas existe sempre mais água do que qualquer outra coisa. E quando essa água se congela, ela se expande. Ponha uma garrafa de soda num freezer para esfriá-la depressa; deixe-a lá por demasiado tempo, e tudo que você irá encontrar serão cacos de vidro e pedaços de soda congelada. Do mesmo modo, as paredes das células — de todas as células do corpo — se rompem quando a água dentro delas é congelada.

Ninguém daquela equipe tinha intenção de reviver Harrison se tivesse certeza de que estaria trazendo de volta uma pessoa seriamente prejudicada. Nenhum médico, independentemente de sua ânsia de curar, estaria disposto a enfrentar e derrotar a morte apenas para ter nas mãos um paciente consciente mas sofrendo de lesões cerebrais irreversíveis, ou um que poderia ser mantido “vivo” apenas em coma profundo e com a ajuda de aparelhos.

Jonas sabia que sua principal fraqueza como médico era a extensão do ódio que votava à morte. Era um ódio que não o abandonava em momento algum. Em momentos como aquele, esse ódio dava lugar a uma fúria contida que podia afetar seus julgamentos. Qualquer morte de um paciente era encarada por ele como uma afronta pessoal. Ele tendia sempre a errar pelo lado do otimismo—levando a cabo ressurreições que podiam ter conseqüências mais trágicas se bem-sucedidas do que em caso de fracasso.

Os outros quatro membros da equipe entendiam essa fraqueza também. E o olhavam agora, cheios de expectativa.

Se a sala de operações tinha estado envolta num silêncio tumular até então, agora estava tão silenciosa quanto o vácuo entre as estrelas remotas, onde Deus, caso existisse algum, formava seu julgamento a respeito de suas criaturas indefesas.

Jonas estava agudamente consciente dos preciosos segundos que se escoavam.

O paciente estava na sala de operações há menos de dois minutos—mas dois minutos poderiam representar uma diferença fundamental.

Sobre a mesa, Harrison estava tão morto quanto um ser humano poderia estar. Sua pele adquirira um tom acinzentado, os lábios e unhas tinham uma tonalidade cianosada e azul, a boca estava entreaberta como numa exalação eterna. Sua carne estava totalmente desprovida da tensão interna que revelava a existência de vida.

Ainda assim, a não ser pelo ferimento de cinco centímetros na têmpora direita, um arranhão no queixo e raladuras nas palmas das mãos, ele estava aparentemente intacto. Tinha excelentes condições físicas para um homem de 38 anos: dois quilos acima do seu peso ideal, se tanto; ossos sólidos; musculatura bem definida. Deixando de lado o que pudesse ter acontecido às suas células cerebrais, ele parecia um candidato ideal a um processo de ressurreição.

Dez anos antes, um médico na posição de Jonas teria se guiado pelo Limite de Cinco Minutos, considerado até então o maior intervalo de tempo que um cérebro humano podia suportar sem oxigenação antes de sofrer lesões irreparáveis. Durante a última década, no entanto, à medida que a medicina de ressurreição fora se tornando um campo de pesquisas fervilhante de novas descobertas, o Limite de Cinco Minutos tinha sido superado com tamanha freqüência que aos poucos foi perdendo a validade. De posse de novas drogas que atuavam eficientemente no resgate de radicais livres, de máquinas capazes de resfriar e aquecer o sangue humano, de doses maciças de epinefrina e outros recursos, os médicos já eram capazes de ultrapassar o Limite de Cinco Minutos e resgatar de volta alguns pacientes clinicamente mortos. E a hipotermia — o resfriamento do cérebro, para impedir a degeneração química das células após a morte — era capaz de estender ainda mais o intervalo entre a morte do paciente e uma ressurreição bem-sucedida. Vinte minutos já se tornara um intervalo rotineiro. Trinta ainda permitia alimentar esperanças. Já havia registros de ressurreições após intervalos de 45 minutos. Em 1988, no Utah, uma garota de dois anos tinha sido retirada de um rio gelado e trazida de volta à vida sem nenhuma lesão cerebral aparente, depois de ter permanecido morta por pelo menos 66 minutos; e fazia menos de um ano que uma mulher de vinte anos da Pensilvânia tinha sido ressuscitada em perfeitas condições, uma hora e dez minutos após ser dada como morta.

Os outros quatro membros da equipe continuavam com os olhos fitos em Jonas.

A morte, repetiu ele para si mesmo, não passa de apenas um estado patológico como tantos outros.

A maioria dos estados patológicos podia ser revertida com um tratamento adequado.

Estar morto era uma coisa. Estar morto e praticamente congelado era outra.

Jonas virou-se para Gina.

—      Ele está morto há quanto tempo? — perguntou.

Uma das funções de Gina era servir de ligação, via rádio, com os paramédicos que socorriam as vítimas, e registrar todas as informações que pudessem ser de utilidade para a equipe durante o processo de ressurreição. Ela olhou o relógio — um Rolex com uma espalhafatosa pulseira cor-de-rosa, combinando com suas meias — e respondeu, sem sequer parar para fazer as contas:

—      Sessenta minutos, mas é aproximado. Eles não sabem exatamente quanto tempo ele ficou debaixo d’água antes de ser retirado. Pode ser um pouco mais do que isso.

—      Ou um pouco menos — disse Jonas.

Enquanto Jonas se preparava para tomar a decisão final, Helga rodeou a mesa e postou-se ao lado de Gina. As duas começaram a apalpar o braço esquerdo do cadáver à procura da veia principal, para o caso de Jonas decidir levar adiante o processo de ressurreição. A localização de vasos sangüíneos na carne frouxa de um cadáver não era uma tarefa fácil, e nem mesmo a aplicação de um torniquete de borracha podia ajudar, já que não havia pressão sangüínea.

—      Ok — disse Jonas. — Vamos em frente.

Olhou em redor para os rostos de Ken, Kari, Helga, Gina, dando a cada um a oportunidade de questioná-lo. Depois consultou seu Timex de pulso e prosseguiu:

—      São nove e doze, segunda-feira à noite, dia 4 de março. O paciente, Hatchford Benjamin Harrison, está morto... mas pode ser recuperado.

Nenhum dos membros da equipe demonstrou a menor hesitação depois de Jonas dar o sinal de partida, independentemente das dúvidas que pudessem ter experimentado até então. Tinham o direito — e o dever — de analisar com Jonas todas as possibilidades, enquanto este se preparava para a decisão f’inal; mas a partir do momento em que esta decisão era anunciada, eles iriam empregar todo o seu conhecimento, todo o seu talento e suas habilidades para demonstrar que aquela decisão estava correta e que aquele homem podia ser recuperado.

Deus do céu, pensou Jonas, espero estar fazendo a coisa certa.

Gina já inseria uma agulha para retirar o sangue da veia que ela e Helga tinham acabado de localizar. Juntas elas ligaram e ajustaram a máquina encarregada de retirar todo o sangue do corpo de Harrison e aquecê-lo devagar até a temperatura normal. Uma vez aquecido, o sangue seria bombeado de volta para o corpo do paciente através de um tubo inserido numa veia da coxa.

Iniciado este processo, outras tarefas mais urgentes exigiam a atenção da equipe. Os sinais vitais de Harrison, até então nulos, tinham de ser monitorados até acusar as primeiras respostas ao tratamento. Também era preciso examinar que tipo de primeiros socorros tinha sido ministrado pelos paramédicos, para determinar se a dose de epinefrina — o hormônio estimulador do coração —- tinha sido suficiente ou se seria necessário aplicar um pouco mais. Enquanto isso, Jonas empurrava um carrinho sobre rodas repleto de medicamentos preparados por Helga antes da chegada do corpo, e calculava a quantidade e o tipo de ingredientes necessários para um “coquetel” químico capaz de resgatar os radiciais livres e retardar as lesões dos tecidos do cérebro.

—      Sessenta e um minutos — disse Gina, informando a equipe sobre o tempo estimado de morte do paciente. — Puxa vida. É bastante tempo para se estar batendo papo com os anjos. Trazer isto aqui de volta não vai ser fácil, rapaziada.

—      Nove graus — anunciou Helga com solenidade, registrando a temperatura do corpo, que se elevava lentamente para se igualar à temperatura ambiente da sala.

A morte é apenas mais um tipo de estado patológico, repetiu Jonas para si mesmo, uma vez mais. Estados patológicos geralmente podem ser revertidos.

Com seus dedos longos e delicados, Helga estava colocando uma toalha cirúrgica de algodão sobre os órgãos genitais do paciente, e Jonas entendeu que ela não estava apenas fazendo uma concessão ao pudor, mas praticando um gesto de delicadeza que exprimia uma nova atitude para com Harrison. Um homem morto não tem pudor. Um homem morto não requer delicadeza. O gesto de Helga era uma maneira de dizer que acreditava na volta daquele homem ao mundo dos vivos, acreditava no seu retorno para junto dos seus irmãos e irmãs do mundo inteiro, e que daquele momento em diante ele tinha de ser tratado com carinho e atenção, e não apenas como se fosse um simples caso de ressurreição em potencial.

 

A relva e o mato rasteiro chegavam até os seus joelhos. Aquele tinha sido um inverno mais chuvoso do que habitual, e o mato estava verde e luzidio. Uma brisa fria soprava através dos campos. De vez em quando, morcegos ou pássaros noturnos passavam por sobre sua cabeça ou faziam um vôo rasante nas proximidades, momentaneamente atraídos como se tivessem reconhecido nele um predador, um semelhante; mas logo subiam de volta aos espaços, percebendo o terrível grau de diferença existente entre eles.

Ele parou em atitude de desafio e fitou as estrelas cintilantes por entre as nuvens pesadas que se deslocavam devagar rumo ao leste no céu de final de inverno. Ele acreditava que o universo era o reino da morte; um lugar onde a vida era um fenômeno tão raro que chegava a ser uma anomalia, um lugar onde os espaços vazios se alternavam com planetas desertos — um atestado não dos poderes criativos de Deus, mas da esterilidade de sua imaginação e do triunfo das forças das trevas que se opunham a Ele. Das duas realidades que coexistiam naquele mundo — vida e morte — a vida era a menor e a mais inconseqüente. Os cidadãos do mundo dos vivos tinham sua existência limitada a anos, meses, semanas, dias, horas. Mas os habitantes do mundo dos mortos eram eternos.

Ele vivia na fronteira entre os dois mundos.

Odiava o mundo dos vivos, onde nascera. Desprezava as encenações que compunham a vida dos vivos — seus valores, suas atitudes, sua moral, suas pretensas virtudes. A hipocrisia das relações humanas, onde o altruísmo era louvado em público e o egoísmo às ocultas, deixava-o ao mesmo tempo divertido e enojado. Qualquer ato de bondade parecia ser praticado com um olho nas recompensas futuras que poderiam acarretar.

Seu maior desprezo — e às vezes sua maior fúria — era reservado para as pessoas que falavam de amor e que diziam experimentar esse sentimento. Ele sabia que o amor era como todas as outras virtudes proclamadas pelos pais, pelos professores e pelos padres. Não existia. Era uma farsa, um meio de controlar outras pessoas, um embuste.

O que ele almejava, em vez disso, era a escuridão e a estranha antivida do mundo dos mortos, ao qual ele pertencia mas para onde não podia retornar ainda. Seu lugar era entre os malditos. Sentia-se à vontade apenas entre aqueles que desprezavam o amor, entre os que sabiam que o único propósito da existência era a busca do prazer. O ego era tudo. Conceitos como “erro” e “pecado” não tinham o menor sentido.

Quanto mais ele fitava as estrelas por entre as nuvens, mais brilhantes elas pareciam, até que cada um daqueles pontos de luz no vazio parecia perfurar seus olhos. Cansados daquela fixidez, seus olhos se encheram de lágrimas, e ele abaixou a vista para o chão. Mesmo à noite, a terra dos vivos era demasiado brilhante e clara para criaturas como ele. Ele não precisava de tanta luz para enxergar. Sua visão tinha se adaptado à escuridão uniforme do mundo dos mortos, às catacumbas do Inferno. Para olhos como os dele, a luz não era apenas supérflua: era um incômodo e, às vezes, uma verdadeira tortura.

Mantendo os olhos afastados do céu, ele caminhou de volta pela relva, na direção do caminho pavimentado, cheio de rachaduras. Seus passos ecoavam naquele vazio que um dia tinha reverberado ao som das vozes e dos risos de multidões de pessoas; mas se ele quisesse poderia deslocar-se tão silenciosamente quanto um gato que sai em busca de uma presa.

As nuvens se abriram e a luminosidade da lua jorrou por entre elas, fazendo-o contrair os olhos. Em volta dele, as ruínas da estrutura que lhe servia de esconderijo projetavam sombras angulosas e distorcidas, sombras que a olhos estranhos pareceriam lúgubres, mas que para ele desenhavam-se no pavimento como se pintadas com tinta luminosa.

Ele retirou um par de óculos escuros do bolso de sua jaqueta de couro, e os colocou. Melhor assim.

Hesitou por um instante, enquanto decidia o que fazer pelo resto da noite. Na verdade só tinha duas opções para as horas restantes antes do nascer do sol: ficar na companhia dos vivos ou na companhia dos mortos. Desta vez a escolha era ainda mais fácil do que em outros dias. No estado de espírito em que se encontrava, seria muito melhor voltar para os mortos.

Caminhou ao longo de uma sombra projetada pela lua, cujo formato lembrava uma enorme roda dentada partida em duas, e encaminhou-se para o interior úmido e abafadiço da estrutura de cimento onde guardava os mortos. A sua coleção.

 

— Sessenta e quatro minutos — disse Gina, consultando seu Rolex de pulseira cor-de-rosa. — Isto aqui pode acabar dando problemas.

Jonas não podia acreditar que o tempo estivesse passando tão depressa, fugindo, fugindo, muito mais rápido do que o usual, como se o continuum espaço-tempo estivesse sofrendo algum estranho tipo de aceleração. Mas era sempre assim naquelas ocasiões em que a diferença entre a vida e a morte podia ser medida em termos de minutos e segundos.

Ele olhou para o sangue que fluía no interior do tubo transparente da máquina de exsanguinação: mais azul do que vermelho. Um corpo humano médio contém cerca de cinco litros de sangue. Antes que a equipe de ressurreição tivesse terminado seu trabalho, os cinco litros de sangue de Harrison teriam sido repetidamente reciclados, aquecidos e filtrados.

Ken Nakamura estava parado diante de um painel luminoso, estudando o Impas de raios X do crânio e do tórax e sonogramas corporais tirados durante o trajeto na ambulância aérea, ao longo de seu vôo a quase trezentos quilômetros por hora da base de San Bernardino até o hospital, em Newport Beach. Kari estava inclinada sobre o rosto do paciente, examinando seus olhos através de um oftalmoscópio, procurando indícios de excesso de pressão pelo acúmulo de fluidos no cérebro.

Ajudado por Helga, Jonas encheu uma porção de seringas com doses de diversos neutralizadores de radicais livres. As vitaminas E e C eram eficazes no resgate dessas moléculas e possuíam a vantagem de ser substâncias naturais, mas ele também tinha a intenção de administrar a Harrison neutralizadores químicos.

Radicais livres são moléculas instáveis que ricocheteiam em alta velocidade através do corpo humano, causando reações químicas que provocam danos na maioria das células com as quais entram em contato. As teorias mais recentes sustentam que são elas as responsáveis pelo envelhecimento do corpo, o que explica por que substâncias como as vitaminas E e C estimulam o sistema imunológico e proporcionam, quando usadas a longo prazo, uma aparência mais jovem e níveis mais altos de energia. Os radicais livres são um efeito colateral de processos metabólicos costumeiros e estão sempre presentes no corpo humano. Mas quando o corpo vê-se privado de sangue oxigenado por um período muito longo, mesmo que protegido pela hipotermia, formam-se enormes aglomerados de radicais livres, em quantidade muito superior à que o organismo está habituado a controlar em condições normais. Quando o coração recomeça a funcionar, essas moléculas destrutivas são impelidas ao longo do corpo pela circulação sangüínea até atingir o cérebro, onde podem ter um efeito devastador.

As vitaminas e demais neutralizadores químicos iriam combater esses radicais livres antes que eles pudessem causar qualquer dano irreversível... ou pelo menos era isto que Jonas esperava.

Ele instalou as seringas em diversas aberturas ao longo do tubo de alimentação endovenosa aplicado à coxa do paciente, mas não começou a injetar o líquido.

— Sessenta e cinco minutos — disse Gina.

Era muito tempo para se estar morto, pensou Jonas.

Era quase o tempo recorde para uma ressurreição bem-sucedida.

A despeito do ar refrigerado, Jonas sentiu o suor porejando no seu couro cabeludo, por sob os fios ralos de cabelo. Nunca podia evitar esse tipo de envolvimento emocional. Alguns dos seus colegas viam com desaprovação a excessiva empatia que ele demonstrava para com casos desse tipo; achavam que era preciso manter uma perspectiva imparcial, através de um distancia¬mento profissional entre o médico e seus pacientes. Mas nenhum paciente era apenas um paciente. Cada um deles era um ser humano, alguém de quem outras pessoas precisavam, alguém amado e querido. Jonas tinha a nítida consciência de que cada possível fracasso iria prejudicar não apenas uma pessoa, mas traria dor e sofrimento a toda uma rede de amigos e parentes. Mesmo quando tratava de alguém como Hairison, a respeito de quem não tinha virtualmente nenhuma informação, ele não podia deixar de imaginar todas as demais vidas que se interligavam à vida daquele homem, e se sentia tão responsável por ele quanto se se tratasse de alguém que conhecesse intimamente.

—      O cara parece estar bem — disse Ken, erguendo os olhos das chapas de raios X e sonogramas. — Nenhum osso fraturado, nenhuma lesão interna.

—      Esses sonogramas foram tirados depois da morte dele — observou Jonas. — Eles não mostram órgãos em funcionamento.

—      Certo. Vamos tirar outros depois que ele for reanimado, para ter certeza. Mas até agora parece estar tudo bem.

Endireitando o corpo após examinar os olhos do homem morto, Kari Dovell disse:

—      É possível que haja alguma concussão, mas é difícil ter certeza.

—      Sessenta e seis minutos.

—      Cada segundo é importante. Todo mundo pronto? — disse Jonas, mesmo já sabendo a resposta.

O ar refrigerado não podia alcançar sua cabeça devido ao gorro cirúrgico, mas o suor em seu corpo cabeludo era frio como gelo. Pequenos calafrios percorriam seu corpo.

Aquecido a 39 graus, o sangue já fluía ao longo do tubo de plástico transparente, entrando no corpo de Harrison através de uma veia da coxa, impelido ritmicamente pela pulsação artificial da máquina.

Jonas pressionou até a metade do embolo das três seringas, introduzindo doses maciças de neutralizadores de radicais livres no fluxo de sangue que se escoava através do tubo. Esperou menos de um minuto, e empurrou os êmbolos até o fim.

Helga já tinha preparado outras três seringas, de acordo com suas instruções. Ele removeu as seringas vazias das aberturas do tubo e colocou as cheias, sem injetar seu conteúdo.

Ken já tinha deslocado para perto do paciente a máquina portátil de desfibrilação. Depois que o corpo de Harrison fosse reanimado, caso o seu coração começasse a acusar fibrilação — pulsação errática ou desordenada — poderia ser reconduzido a um ritmo normal pela aplicação de choques elétricos. Essa seria uma estratégia de último recurso, no entanto, pois desfibrilações bruscas poderiam também ter um efeito prejudicial num paciente que, recém-reanimado após morte clínica, encontrava-se num estado excepcionalmente frágil.

Consultando o termômetro digital, Karin disse:

—      Temperatura do corpo subiu para apenas treze graus.

—      Sessenta e sete minutos — disse Gina.

—      Está indo devagar demais — disse Jonas.

—      Calor externo?

Jonas hesitou.

—      Vamos em frente — disse Ken.

—      Treze graus e meio — disse Kari.

—      Muito devagar — disse Helga. — Desse modo já terão se passado uns oitenta minutos até que ele esteja aquecido o bastante para que seu coração volte a bater.

Almofadas térmicas tinham sido colocadas sob o lençol da mesa de operação, antes mesmo do paciente ter sido trazido para a sala. Estavam alinhadas ao longo de sua espinha dorsal.

—      OK — disse Jonas.

Kari acionou o interruptor que ligava as almofadas térmicas.

— Cuidado — advertiu Jonas.

Kari ajustou os controles de temperatura.

Tinham que aquecer o corpo, mas fazê-lo depressa demais poderia acarretar uma série de problemas. Cada ressurreição era uma caminhada na corda bamba.

Jonas voltou a segurar as seringas inseridas no tubo endovenoso, administrando doses adicionais de vitamina E e C e neutralizadores químicos.

O paciente continuava imóvel e pálido. Lembrava a Jonas uma figura em tamanho natural, no interior de alguma antiga catedral: o corpo deitado de um Cristo, esculpido em mármore branco, recriado pelo artista sob a forma de um cadáver em decúbito dorsal, como Ele devia ter ficado antes da ressurreição mais bem-sucedida de todos os tempos.

As pálpebras de Harrison tinham sido erguidas por Kari Dovell para o exame oftalmoscópico, de modo que seus olhos pareciam estar fitando o teto, sem expressão. Gina estava pingando lágrimas artificiais sobre eles para garantir que o globo ocular não ficasse ressecado; ao mesmo tempo, cantarolava baixinho Little Surfer Girl. Ela era uma fã dos Beach Boys.

Não era possível perceber nenhuma expressão de choque ou de medo nos olhos do cadáver, como seria de se esperar. Em vez disso, tinham uma expressão quase que de paz, como se estivessem contemplando algo maravilhoso. Harrison tinha a expressão de alguém que, no momento da morte, tivesse avistado algo capaz de arrebatar seu espírito.

Ao terminar a aplicação das gotas, Gina olhou o relógio.

— Sessenta e oito minutos.

Jonas sentiu um impulso repentino de mandá-la calar a boca, como se o tempo pudesse parar, desde que ela não estivesse anunciando a passagem de cada minuto.

O sangue continuava a pulsar ao longo dos tubos da máquina.

— Dezesseis graus e meio. — A voz de Helga era áspera, como se ela estivesse censurando o homem morto pela lentidão com que seu corpo se reaquecia.

A linha luminosa do eletrocardiógrafo continuava horizontal, inalterada.

A do eletroencefalógrafo também.

— Vamos, reaja — disse Jonas, a voz tensa. — Vamos lá, rapaz.

 

Ao entrar de volta no museu dos mortos ele não utilizou uma das portas superiores e sim a depressão formada no terreno pelo leito seco de um pequeno lago, onde três gôndolas ainda jaziam abandonadas no piso de concreto cheio de rachaduras. Eram modelos com capacidade para dez passageiros, e tinham sido arrancadas há muito tempo dos trilhos metálicos onde haviam navegado em círculo, guiadas por correntes, repletas de gente alegre. Mesmo à noite, e usando óculos escuros, ele podia ver que essas gôndolas não ostentavam as proas esguias das gôndolas de Veneza, com seus sinuosos pescoços de cisne; em vez disso, exibiam gárgulas de olhar malévolo esculpidas na madeira, pintadas em cores berrantes — monstros que em outras épocas podiam ter inspirado medo, mas que agora estavam estragados pelo tempo, rachados, e com a pintura descascando. Os portões do lago, que antigamente se abriam com suavidade para dar passagem às gôndolas, estavam com o motor inutilizado. Um deles jazia aberto há muitos anos; o outro estava fechado, pendendo apenas das dobradiças corroídas pela ferrugem. Ele passou através do portão aberto e entrou numa galeria muito mais escura do que a noite lá fora.

Retirou os óculos escuros. Não precisava mais deles.

Também não precisava de uma lanterna. Ali, onde um homem comum se veria totalmente cego, ele enxergava com facilidade.

O canal de concreto ao longo do qual as gôndolas se moviam antigamente tinha um metro de profundidade e dois e meio de largura.

Um canal mais estreito, ao longo de sua parte central, continha o rústico mecanismo movido a correntes de metal — uma longa série de ganchos de ferro com quinze centímetros de altura, que se engatavam nos anéis de ferro presos ao fundo das gôndolas. Quando o mecanismo entrava em funcionamento, os ganchos ficavam ocultos debaixo d’água, dando a ilusão de que as gôndolas navegavam soltas. Agora, vistas à distância, naquele ambiente carregado de sombras, pareciam uma longa fileira de vértebras ao longo da espinha de algum imenso animal pré-histórico.

É assim o mundo dos vivos, pensou ele: enganoso, repleto de ardis. Por baixo dessa superfície tranqüila, há mecanismos monstruosos movendo forças ocultas.

Ele penetrou mais na construção. A inclinação do piso ao longo do canal era quase imperceptível de início, mas ele já passara por ali inúmeras vezes antes.

Por cima dele, ao longo de cada parede do canal, corriam passarelas de concreto com mais de um metro de largura. As paredes do canal eram pintadas de preto por dentro, para absorver os reflexos luminosos e contribuir para criar aquele número ingênuo de ilusionismo levado a cabo diante do público.

A intervalos regulares as passarelas se alargavam, formando nichos que em alguns casos tinham as dimensões de um quarto em tamanho natural. Na época em que o túnel-do-terror estava em funcionamento, aqueles nichos eram ocupados por painéis em tamanho natural que tinham por objetivo divertir, atemorizar, ou as duas coisas ao mesmo tempo: os painéis mostravam fantasmas e duendes, espectros e monstros, loucos homicidas de machado em punho curvados sobre o corpo decapitado de suas vítimas. Em um desses nichos maiores, surgia um cemitério repleto de zumbis ameaçadores; em outro, um enorme disco-voador, de aparência convincente, de onde desembarcavam alienígenas com enormes mandíbulas de tubarão. Aquelas figuras se moviam como robôs, erguendo-se, fazendo caretas ameaçadoras e ameaçando os espectadores com vozes gravadas em fita magnética, repetindo eternamente as cenas curtas para as quais tinham sido programados, com as mesmas frases de ameaça e os mesmos grunhidos.

Não; não eternamente. Tinham sumido após a falência do parque, levados embora pelos oficiais de justiça, pelos representantes dos credores e pelos marginais que pilhavam o parque abandonado. Nada era eterno. Exceto a morte.

A cerca de trinta metros depois das portas de entrada, ele alcançou o fim da primeira seção do mecanismo que impelia as gôndolas. O piso do túnel, que vinha num declive quase imperceptível, agora começava a declinar bruscamente, a um ângulo de 35 graus, sumindo na escuridão. Era naquele ponto que as gôndolas costumavam se desprender dos ganchos de ferro e, com uma guinada capaz de revirar pelo avesso o estômago de qualquer um, mergulhavam de vez na piscina, espadanando água em todas as direções, encharcando os passageiros da parte da frente e provocando gargalhadas naqueles mais afortunados — ou mais espertos — acomodados na parte traseira.

Não sendo um homem igual aos outros, e possuindo certos poderes especiais, ele podia enxergar boa parte da rampa descendente, mesmo numa treva tão profunda, embora sua percepção não alcançasse até o fundo. Tinha a visão noturna dos felinos, mas dentro de certos limites. Num raio de três a cinco metros, podia ver as coisas tão claramente quanto se estivesse em plena luz, do dia; a partir daí os objetos tornavam-se indistintos, fora de foco, sombrios, até que numa distância de dez a quinze metros a treva voltava a absorvê-los.

Mantendo o corpo inclinado para trás, a fim de equilibrar-se ao longo da descida íngreme, ele penetrou na parte mais recôndita do túnel-do-terror naquele parque de diversões abandonado. Não tinha receio do que poderia encontrar ali embaixo. Nada podia amedrontá-lo. Afinal de contas, ele era ma is mortal e mais selvagem do que qualquer dos possíveis perigos do mundo que o cercava.

Antes de ter percorrido metade da distância até a câmara inferior, ele começou a sentir o odor da morte. Subia até ele levado pelas correntes de ar frio. Aquele odor o excitava. Nenhum perfume, por mais sofisticado, mesmo espalhado sobre a garganta suave de uma bela mulher, era capaz de excitá-lo tanto quanto aquele cheiro peculiar, adocicado, da carne em decomposição.

 

Sob a luz das lâmpadas de halogênio, as superfícies de aço inoxidável, ou esmaltadas de branco, magoavam os olhos, fazendo com que a sala de cirurgia se assemelhasse a uma paisagem do Ártico, repleta de formas geométricas polidas pelo brilho pálido do sol de inverno. A sala parecia estar mais fria, como se o calor que penetrava aos poucos no corpo daquele homem estivesse expulsando o frio de dentro dele, fazendo cair a temperatura ambiente. Jonas Nyebern foi percorrido por um calafrio.

Helga verificou o termômetro digital que estava afixado ao corpo de Harrison.

—      Temperatura do corpo, vinte graus.

—      Setenta e dois minutos — disse Gina.

—      Vamos lá, pessoal, rumo à fama — disse Ken. — Nosso nome na História da Medicina, no Livro Guiness dos Recordes, sem falar nas entrevistas na TV, livros, filmes, camisetas com nossa foto, chapéus promocionais! jardins decorativos podados para reproduzir nossos rostos... 

— Já houve casos de cães trazidos de volta depois de noventa minutos — lembrou Kari.

— Sim — disse ele —, mas eram cães. Além do mais, voltaram com defeito. Corriam atrás de ossos e enterravam automóveis.

Gina e Kari riram baixinho, e a piada quebrou um pouco a tensão entre todos, menos com Jonas. Ele era incapaz de relaxar um só momento durante um processo de ressurreição, mesmo sabendo que era possível um médico, uma vez ultrapassado determinado limite de tensão, começar a produzir abaixo do seu ponto ideal. Ele admirava o modo como Ken era capaz de aliviar o acúmulo de tensão nervosa, em benefício do paciente; mas era incapaz de fazer o mesmo no meio de uma batalha. — Vinte e um graus. Vinte e um e meio.

Era uma batalha. A morte era o adversário: hábil, poderoso e infatigável. Para Jonas, a morte não era apenas um estado patológico, nem o destino inevitável de todas as criaturas vivas, mas uma entidade real que percorria o mundo; talvez não fosse o vulto mítico envolto numa capa negra e com uma caveira por sob o capuz, mas era uma presença real, a Morte com M maiúsculo.

—      Vinte e dois graus.

—      Setenta e três minutos — disse Gina.

Jonas introduziu mais neutralizadores de radicais livres no sangue que corria através do tubo transparente.

Ele pensou na sua crença na Morte como uma força sobrenatural, dotada de vontade própria e de consciência; pensou na sua certeza de que ela percorria o mundo em forma corporal, e que estava ali na sala de cirurgia, naquele mesmo instante, protegida por um manto de invisibilidade; e imaginou que tudo isso iria parecer aos seus colegas uma tola superstição. Podia até mesmo ser encarada como sinal de desequilíbrio mental ou loucura incipiente. Mas Jonas estava certo de sua própria sanidade. Afinal, sua crença na Morte se baseava em provas concretas. Ele vira o inimigo quando tinha apenas sete anos de idade; ouvira sua voz, olhara dentro de seus olhos e respirara seu hálito fétido, sentira o toque gelado daqueles dedos no seu rosto.

—      Vinte e três graus e meio.

—      Estejam prontos — disse Jonas.

A temperatura do paciente se aproximava daquele limite a partir do qual a reanimação poderia se dar a qualquer momento. Kari encheu uma seringa hipodérmica com epinefrina, e Ken ativou a máquina de desfibrilação, para começar a carregá-la. Gina abriu a válvula de um tanque contendo uma mistura de oxigênio e dióxido de carbono, preparada especialmente para processos como aquele; checou a máscara do pulmão artificial para ver se estava tudo OK.

—      Vinte e quatro graus. Vinte e quatro e meio.

Gina olhou o relógio.

—      Estamos aos... setenta e quatro minutos.

 

No final da rampa descendente, ele penetrou num aposento cavernoso, tão vasto quanto um hangar. Tempos atrás, a pouca imaginação do designer do parque de diversões tinha se esforçado para criar ali uma réplica do inferno, com tubulações de gás produzindo chamas por entre enormes rochas falsas, feitas de concreto, que se elevavam por toda parte.

O gás tinha sido cortado, muito tempo atrás. O inferno agora vivia numa escuridão total... menos para ele.

Caminhou devagar ao longo do piso de concreto, que era dividido ao meio por um canal serpenteante por onde se estendia o mecanismo das correntes. As gôndolas tinham navegado por ali, singrando um lago de água que era levado a parecer um lago de fogo através de truques de iluminação e de jatos dágua borbulhante que criavam a ilusão de óleo fervente. À medida que caminhava, ele saboreou o odor da carne em decomposição, que crescia mais a cada segundo.

Antes, uma dúzia de demônios mecanizados erguiam-se ali, abrindo imensas asas de morcego, olhando para baixo com olhos ameaçadores que varriam as gôndolas e seus passageiros com inofensivos jatos de laser. Onze daqueles bonecos tinham sido levados para algum outro parque ou vendidos como sucata. Por alguma razão, no entanto, um deles havia ficado para trás — um silencioso e imóvel aglomerado de metal coberto de ferrugem, envolto em panos roídos pelas traças, tendo em seu interior mecanismos emperrados e sujos de graxa. Ele continuava inclinado do alto de uma escada em espiral cavada na falsa rocha, próximo ao teto, uma criatura mais patética do que ameaçadora.

Ao passar por aquela grotesca figura mecânica, ele pensou: Eu sou o único demônio que este lugar já conheceu ou virá a conhecer. Esse pensamento lhe trouxe prazer.

Meses atrás, ele tinha parado de designar a si próprio pelo seu nome de batismo, adotando o nome de uma criatura que lera certa vez num livro sobre satanismo. Vassago. Um dos três mais poderosos príncipes-demônios do Inferno, que deviam homenagens apenas a Sua Majestade Satânica Vassago. Gostava daquele som. Quando o pronunciava em voz alta, aquele nome rolava pela sua língua tão fluentemente que era como se nunca tivesse usado outro.

— Vassago.

No denso silêncio daquele recinto subterrâneo, o som ecoou de volta até ele, reverberando nas rochas de concreto: Vassago.

 

— Vinte e sete graus.

—      Já era para ter começado — disse Ken.

De olho nos monitores, Kari disse:

—      Linha contínua. Nenhum bipe.

Seu pescoço longo e esguio era tão delicado que Jonas podia ver o pulsar acelerado de sua carótida.

Ele baixou os olhos até o pescoço do homem imóvel na mesa de cirurgia. Nenhuma pulsação.

—      Setenta e cinco minutos — anunciou Gina.

—      Se der tudo certo a partir de agora, já estamos com um recorde — disse Ken. — Vai ser terrível... vamos ter que comemorar, beber horrores, vomitar nos sapatos, fazer um papelão.

—      Vinte e oito graus.

Jonas sentia-se tão frustrado que não conseguia dizer nada — temendo conseguir apenas soltar um palavrão ou um simples rosnado de raiva impotente. Tinha seguido corretamente todos os passos, mas estavam perdendo a batalha. Ele detestava perder. Detestava a Morte. Detestava as insuficiências riu medicina moderna, todas as precariedades do conhecimento humano, e suas próprias limitações.

—      Vinte e oito graus.

De súbito, o homem arquejou.

Jonas teve um sobressalto, e seus olhos fitaram os monitores. A tela de eletrocardiograma mostrava movimentos espasmódicos no coração do paciente.

—      Lá vamos nós — disse Kari.

 

As figuras mecânicas dos condenados ao inferno, que no auge das atividades do parque somavam mais de uma centena, tinham sumido dali juntamente com os demônios; com elas desapareciam os gritos de agonia e de dor que emitiam através dos alto-falantes baratos instalados em suas bocas. Aquele recinto desolado, no entanto, não estava totalmente vazio de almas penadas, só que agora abrigava dentro de si algo mais apropriado do que bonecos mecânicos: a coleção de Vassago.

No centro do salão, Satã estava postado em toda a sua majestade, uma figura aterradora e colossal. A estátua maciça do Príncipe das Trevas em pessoa estava colocada no centro de um poço circular com cerca de seis metros de diâmetro. Seu vulto não aparecia de corpo inteiro; mas do umbigo até a ponta de seus chifres ele media dez metros de altura. Quando o parque de diversões estava em funcionamento, a escultura monstruosa ficava instalada no interior de um poço com oito metros de profundidade, oculta sob as águas do lago, de onde emergia a intervalos regulares, com a água escorrendo do seu corpo, mostrando os enormes olhos fulgurantes, movendo as mandíbulas, rangendo os dentes aguçados, mostrando a língua bífída e bradando com voz estentórea o clássico aviso “Abandonai toda esperança, vós que aqui entrais...”, para depois emitir uma gargalhada malévola.

Quando garoto, Vassago fizera inúmeras vezes aquele percurso, no interior das gôndolas; no tempo em que ainda pertencia totalmente ao mundo dos vivos, antes de ter começado a fazer parte do mundo onde existia agora — a região fronteiriça entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Naquele tempo, sentira terror diante daquele Satã mecanizado, terror principalmente devido àquela risada aterradora. Se agora, inesperadamente, aquele mecanismo pudesse superar os anos e anos de corrosão e trazer o monstro novamente de volta à vida, Vassago não se deixaria impressionar: já tinha idade e experiência suficientes para saber que Satã era incapaz de rir.

Parou junto à base da enorme figura de Lúcifer e a examinou com um misto de escárnio e admiração. Sim, aquilo era ridículo, um monstro de trem-fantasma capaz apenas de fazer criancinhas urinarem de medo e de dar a garotas adolescentes um motivo para soltar gritinhos histéricos e se abrigar nos braços dos namorados. Mas ele era forçado a admitir que havia uma certa inspiração naquela figura. O desenhista não tinha optado pela tradicional imagem de Satã como um sedutor de almas atormentadas — de rosto magro, nariz adunco e lábios finos, o cabelo luzidio penteado para trás, o queixo pontudo terminando num cavanhaque caprino. Em vez disso, ali estava uma Besta digna desse nome: parte réptil, parte inseto, parte humanóide, repulsivo a ponto de impor respeito, familiar a ponto de parecer verdadeiro e alienígena a ponto de inspirar terror. Anos e anos de poeira, umidade e mofo tinham-no coberto com uma camada que atenuava as cores berrantes da pintura e lhe conferiam algo da autoridade dos deuses de pedra do Antigo Egito, encontrados em templos cobertos pela areia, por trás das dunas remotas do deserto.    

Embora não tivesse idéia de como poderia ser a verdadeira aparência de Lúcifer, e admitindo que o Pai da Mentira deveria ser muito mais aterrador e apavorante do que aquela caricatura, Vassago considerava aquele monstro de plástico e espuma suficientemente impressionante para ocupar o centro da existência secreta que ele mantinha ali naquele refúgio. Na base da estátua, sobre o chão de concreto do lago agora vazio, ele tinha arrumado a sua coleção — em parte para seu próprio prazer e divertimento, em parte à guisa de oferenda para o deus do medo e da dor.

Os corpos nus e apodrecidos de sete mulheres e três homens estavam ali dispostos, como se fossem dez estranhas estátuas de um Miguel Ângelo perverso, exibidos num museu de horrores.

 

Um único arquejo curto, um breve espasmo dos músculos cardíacos, uma reação nervosa involuntária que sacudiu seu braço direito e fez os dedos de sua mão se contraírem como as patas recurvas de uma aranha nas contorções da morte: foram esses os únicos sinais de vida exibidos pelo paciente antes de voltar à postura inerte e silenciosa dos mortos.

—      Vinte e oito graus e meio — disse Helga.

Hesitante, Ken Nakamura perguntou:

—      Desfibrilação?...

Jonas abanou negativamente a cabeça.

—      O coração não está fibrilando. Não está batendo, absolutamente. Melhor esperar.

Kari tinha uma seringa em punho.

—      Mais epinefrina?

Jonas voltou a fitar os monitores.

—      Espere — disse. — Não adianta trazê-lo de volta apenas para precipitar um ataque cardíaco por excesso de medicação.

—      Setenta e seis minutos — disse Gina com a voz ofegante, e percorrida por uma excilação juvenil, como se estivesse anunciando a marcha do placar de uma partida de vôlei de praia.

—      Vinte e nove graus.

Harrison arquejou de novo. Seu coração disparou, fazendo corcovear por várias vezes a linha brilhante do monitor cardíaco. Todo o seu corpo começou a tremer. Em seguida aquietou-se, e a linha voltou a ser horizontal.

Ken Nakamura olhava para Jonas cheio de expectativa, segurando com cuidado os pólos negativo e positivo da máquina desfíbriladora.

—      Trinta graus — anunciou Helga. — Faixa térmica adequada... e ele está tentando voltar.

Jonas sentiu uma gota de suor descer ao longo de sua têmpora, rápida como uma centopéia, seguindo depois a curva do queixo. Estavam entrando na parte mais difícil, quando tinham de dar ao paciente uma chance de se recobrar por si próprio, sem desgastá-lo mais ainda com as técnicas artificiais de reanimação.

Um terceiro surto de atividade cardíaca começou a ser registrado pelos aparelhos, numa série de tremores mais curta do que a anterior, e sem o acompanhamento de atividade pulmonar. Nenhuma contração muscular era visível. Harrison permanecia frouxo e gelado sobre a mesa.

—      Ele não vai conseguir sozinho — disse Kari Dovell.

—      Vamos perdê-lo — concordou Ken.

—      Setenta e sete minutos — disse Gina.

Não tinham sido quatro dias no túmulo como Lázaro, antes que Cristo o chamasse de volta, pensou Jonas; mas ainda assim era tempo demais para alguém estar morto.

—      Epinefrina — disse ele.

Kari estendeu-lhe a longa seringa hipodérmica e, sem perda de tempo, ele aplicou a dose através das mesmas aberturas do tubo endovenoso por onde tinha administrado os neutralizadores de radicais livres.

Ken ergueu as placas negativa e positiva da máquina de desfibrilação e tomou posição ao lado do paciente, pronto para administrar-lhe um choque elétrico, se necessário.

Mas nesse instante a dose maciça de epinefrina, um poderoso hormônio extraído das glândulas supra-renais de reses e de ovelhas, e chamado por alguns especialistas em ressurreição de “suco reanimador”, atingiu o organismo de Harrison, produzindo um choque tão intenso quanto qualquer choque elétrico que Ken Nakamura fosse capaz de administrar-lhe. O bafo fétido da morte explodiu para fora de seus pulmões; ele arquejou como se ainda estivesse prestes a afundar no rio gelado, seu corpo foi percorrido por violentos espasmos e seu coração começou a bater acelerado, como o coração de uma lebre que dispara pelo campo com uma raposa no seu encalço.

 

Vassago arrumara cada uma das peças de sua coleção macabra com um cuidado mais do que casual. Aquilo não era apenas um grupo de dez cadáveres jogados descuidadamente sobre o chão de concreto. Ele não apenas respeitava a morte, mas também a amava, com um ardor semelhante à paixão de Beethoven pela música ou à fervorosa devoção de Rembrandt pela pintura. A morte, afinal de contas, era a dádiva que Satã trouxera para os habitantes do Jardim, uma dádiva disfarçada de algo mais belo; ele era o Distribuidor da Morte, e aqueles seus domínios eram o reino da morte eterna. Qualquer corpo tocado pela morte era para ser visto com a mesma reverência que um católico devoto dedica à Eucaristia. Assim como estes acreditam que seu Deus está presente e vivo no interior daquela delgada fatia de pão-não-fermentado, da mesma forma o rosto do Deus impiedoso de Vassago podia ser visto por toda parte, nas formas da carne apodrecida e decomposta. O primeiro corpo depositado aos pés da enorme imagem de Satã era o de Jenny Purcell, uma garçonete de 22 anos que durante algum tempo tinha trabalhado no turno da noite de uma lanchonete que reproduzia os ambientes da década de 50, e cuja vitrola automática tocava Elvis Presley e Chuck Herry, Lloyd Price e The Platters, Buddy Holly, Connie Francis e os Everly Brolhers. Quando Vassago entrou lá certa noite e pediu uma cerveja e um hambúrguer, Jenny achou atraente aquele homem jovem todo vestido de preto, usando óculos escuros à noite e sem fazer a menor menção de tirá-los no sentar. Seu rosto de bebê parecia ainda mais interessante devido à linha resoluta do queixo e à leve contorção dos lábios, que lhe dava um toque de crueldade; com aquele cabelo negro caindo sobre a testa, ele parecia uma versão jovem de Elvis. “Como é seu nome?”, perguntou Jenny, e ele disse: Vassago, ao que ela retrucou: “Perguntei seu primeiro nome.” E ele disse: “É isso, o nome todo, primeiro e último”; o que provavelmente a deixou intrigada e deu asas à sua imaginação, porque ela perguntou: “Ah, quer dizer como Cher, que só usa um nome... ou Sting, ou Madonna...” Ele a encarou através dos óculos e disse: “É, sim... algum problema?...” Não. Por ela, problema nenhum. Na verdade ela estava sentindo atração por ele. Achou que ele era “diferente”... mas só mais tarde iria acabar descobrindo o quanto ele era diferente.

Tudo na figura de Jenny lembrava-lhe uma prostituta barata; portanto, depois de matá-la com um estilete enfiado entre as costelas até perfurar seu coração, ele a instalou numa posição adequada a uma mulher promíscua. Após despi-la por completo, ele a colocou sentada, com as pernas abertas e os joelhos dobrados; amarrou seus pulsos delicados aos tornozelos, para mantê-la naquela posição. Depois, usou uma peça de corda para puxar sua cabeça para a frente, forçando-a numa posição em que ela jamais conseguiria ficar quando viva, brutalmente dobrada sobre seu próprio ventre; e amarrou as cordas às coxas, deixando Jenny a contemplar perpetuamente a fenda entre suas pernas, para não esquecer dos seus pecados.

Jenny tinha sido a primeira peça de sua coleção. Morta há cerca de nove meses, toda atada de cordas como um presunto pendurado na despensa, ela estava agora murcha, ressequida, uma carcaça mumificada, que não tinha mais atrativos para os vermes ou outros agentes da decomposição. E não exalava mais o mau cheiro que tinha quando viva.

Na verdade, naquela posição, enrolada como uma bola sobre si própria à medida que era ressecada pelo tempo, ela lembrava tão pouco um ser humano que era difícil pensar nela como alguém que um dia fora uma pessoa viva, e assim era igualmente difícil pensar nela como uma pessoa morta. Assim, a morte parecia não estar presente em seus despojos. Para Vassago, ela havia cessado de ser um cadáver e se tornara simplesmente um objeto curioso, uma coisa impessoal que bem poderia ter sido sempre inanimada. Em resultado disso, embora ela tivesse sido o primeiro item de sua coleção, tinha agora muito pouco interesse para ele.

Ele era fascinado unicamente pela Morte e pelos mortos. Os vivos lhe despertavam interesse apenas na medida em que carregavam a madura promessa da morte no seu interior.

 

O coração do paciente oscilava entre uma leve e uma forte taquicardia, ou seja, de 120 a mais de 230 pulsações por minuto, uma condição passageira provocada pela ação conjunta da epinefrina e da hipotermia. Só que aquilo não estava parecendo uma condição passageira. A cada vez que o ritmo das pulsações diminuía, não retornava ao ritmo anterior, e a cada nova aceleração o eletrocardiograma mostrava uma arritmia crescente, que poderia ter como única conseqüência uma parada cardíaca.

Jonas já não transpirava, e estava mais calmo agora que a decisão de enfrentar a Morte tinha sido tomada e a batalha estava em curso. — Vamos dar-lhe uma sacudida — disse ele. Ninguém teve dúvidas sobre a quem se destinava a ordem, e Ken Nakamura aplicou sobre o peito de Harrison as placas metálicas dos pólos da máquina de desfibrilação. A descarga elétrica fez o corpo do paciente se arquear violentamente sobre a mesa, e o recinto foi percorrido pelo som de um pilão de aço chocando-se contra um sofá de couro — wham!

Jonas olhou para o eletrocardiógrafo, enquanto Kari interpretava em voz alta os saltos da bolinha luminosa ao longo da tela:

— Duzentos por minuto ainda, mas agora o ritmo está voltando... firme... sim, firme...

Ao mesmo tempo, o eletroencefalógrafo exibia ondas alfa e beta dentro dos parâmetros normais para um homem inconsciente.

— Sinais de atividade pulmonar auto-suficiente — disse Ken.

— OK — decidiu Jonas. — Vamos ajudá-lo a respirar. Quero que ele tenha bastante oxigênio para as células cerebrais.

Gina imediatamente pôs a máscara de oxigênio sobre o rosto de Harrison.

—      Temperatura do corpo, trinta e dois graus — anunciou Helga.

Os lábios do paciente ainda estavam azulados, mas suas unhas já tinham perdido essa coloração ameaçadora.

Da mesma forma, seu tônus muscular estava parcialmente restaurado. Sim carne já não tinha a flacidez da carne morta, e à medida que a sensibilidade retornava às extremidades do seu corpo, após seu quase congelamento, as dolorosas agulhadas em suas terminações nervosas produziam uma série de tremores e espasmos em seus membros.

Seus olhos moviam-se de um lado para outro sob as pálpebras cerradas, num sinal evidente de sono com sonhos.

—      Cento e vinte batidas por minuto — disse Kari — e diminuindo... ritmo perfeito agora... muito firme.

Gina consultou seu relógio de pulso e deixou escapar a respiração, num uuufa! cheio de assombro.

—      Oitenta minutos.

—      Que filho da mãe — disse Ken em tom meditativo. — Bateu o recorde por dez minutos.

Jonas hesitou apenas durante um breve instante antes de olhar para o relógio de parede e fazer em voz alta o registro oficial para a gravação em fita:

—      Paciente ressuscitado com sucesso às nove horas e trinta e dois minutos da noite de segunda-feira, quatro de março.

Seguiu-se um murmúrio de mútuas congratulações, acompanhado por sorrisos de alívio, o mais próximo que eles se permitiam chegar do grito uníssono de vitória que poderia se fazer ouvir num campo de batalha propriamente dito. O que os detinha não era a modéstia, mas o seu conhecimento da verdadeira condição de Harrison. Eles tinham vencido a batalha contra a Morte, mas o paciente ainda não recuperara a consciência. Enquanto ele não despertasse, e a sua atividade mental pudesse ser medida e avaliada, haveria sempre o risco de que ele tivesse sido reanimado apenas para levar uma vida de angústia e de frustração, com seu potencial tragicamente mutilado por uma lesão cerebral irreversível.

 

Deliciando-se com o pungente aroma da morte, e sentindo-se totalmente em casa dentro da escuridão do subterrâneo, Vassago caminhou ao longo da fileira de corpos que compunha a sua coleção e que rodeava cerca de um terço da base da colossal estátua de Lúcifer.

Entre as vítimas masculinas, havia um que fora apanhado ao trocar um pneu baixo num trecho deserto da Ortega Highway, durante a noite. Outro tinha adormecido dentro do carro, no estacionamento de uma praia. O terceiro abordara Vassago num bar, em Dana Point. Não tinha sequer sido uma abordagem gay: era apenas um sujeito bêbado, desesperado, solitário... e imprudente.

Nada nas outras pessoas irritava Vassago mais do que a carência sexual e a excitação. Ele não se interessava mais por sexo, e não violentara nenhuma das mulheres que matara. Sua raiva e sua angústia, despertadas pela simples percepção da sexualidade alheia, não resultavam da inveja; ele não sentia sua impotência como uma maldição ou mesmo como um fardo imerecido. Não: ele estava feliz por se ver livre da luxúria e do desejo. Desde que se tornara um habitante do mundo fronteiriço entre a vida e a morte, e desde que tinha aceitado as promessas simbolizadas no túmulo, ele não lamentava a perda da sua capacidade de sentir desejo. Ele não tinha certeza do motivo por que a simples idéia de sexo era o bastante para causar-lhe um acesso de fúria, ou por que uma piscadela convidativa ou uma minissaia ou um suéter modelando um par de seios podiam incitá-lo à tortura e ao homicídio; mas ele suspeitava de que era porque sexo e vida eram duas coisas tão intimamente interligadas. Depois do instinto de conservação, o impulso sexual, segundo todas as pessoas, era a mais poderosa das motivações humanas. Através do sexo, a vida se reproduzia. E como ele odiava a vida em todas as suas incontáveis manifestações, porque a detestava com tal intensidade, era natural que votasse ao sexo um ódio semelhante.

Ele preferia matar mulheres porque elas, mais do que os homens, eram aprisionadas pela sociedade a exibir seu apelo sexual, com o auxílio de maquilagem, batom, perfumes provocantes, roupas indiscretas e comportamento coquete. Além disso, era do ventre das mulheres que novas vidas brotavam, e Vassago tinha jurado a si mesmo destruir a vida sempre que lhe fosse possível. Das mulheres vinha aquela coisa que ele mais desprezava em si mesmo: aquela centelha de vida que ainda crepitava dentro dele próprio e que o impedia de transferir-se de vez para a terra dos mortos, que era seu lugar legítimo.

Das outras seis mulheres que faziam parte de sua coleção, havia duas ex donas de casa, uma jovem advogada, uma secretária médica e duas universitárias. Ele tinha arrumado cada um dos corpos de modo correspondente a sua personalidade, seu espírito, e de acordo com as fraquezas da pessoa que o habitara; além disso, ele tinha um talento considerável para decoração de cadáveres, fazendo uso brilhante de uma grande variedade de adereços; mas havia uma daquelas peças cujo resultado final lhe agradava mais do que todas as outras juntas.

Ele deteve-se diante dela.

Fitou-a com intensidade em meio às trevas, deliciando-se com sua criação...

Margaret...

Ele a vira pela primeira vez durante uma de suas intermináveis caminhadas noturnas, num bar mal-iluminado perto do campus universitário, onde ela estava bebericando uma Coca-Cola Diet — ou porque ainda não tinha idade suficiente para beber com os amigos ou porque era mesmo abstêmia. Ele suspeitou que esta última hipótese estaria mais perto da verdade.

Ela parecia estranhamente pouco à vontade no meio da fumaça e do vozerio reinantes no bar. Observando-a do lado oposto do recinto, avaliando suas reações ao que os amigos diziam e a sua linguagem corporal, Vassago percebeu que ela era uma garota tímida fazendo um enorme esforço para se integrar à turma, mesmo sabendo no fundo que aquele não era o seu ambiente. O barulho da conversa estimulada pelo álcool, o tinido dos copos, a música ensurdecedora de Madonna, Michael Jackson ou Michael Bolton na vitrola automática, o cheiro de cerveja e de fumaça de cigarro, o odor do suor dos rapazes em plena azaração... nada disso parecia tocá-la. Estava sentada ali no bar mas parecia manter-se à parte, sem que nada parecesse atingi-la, cheia de uma energia misteriosa possivelmente maior do que a de todas as pessoas que superlotavam aquele recinto.      

Era uma pessoa tão cheia dessa energia vital que parecia emitir uma espécie de irradiação. Vassago quase não conseguiu acreditar que o sangue viscoso e comum do resto da humanidade fosse o mesmo que se movia no interior de suas veias. Era como se o coração dela bombeasse, em vez de sangue, a essência destilada da própria vida.

Aquilo o atraiu. Seria fantástico ter o privilégio de extinguir uma chama de vida tão brilhante quanto aquela.

Para saber onde ela morava, ele a seguiu depois do bar. Durante os dois dias seguintes ele percorreu o campus, colhendo informações sobre ela com a diligência de um estudante preparando-se para um exame de fim de semestre.

Ela se chamava Margaret Ann Campion. Vinte anos, fazendo o curso de graduação em música. Tocava piano, flauta, clarinete, violão e praticamente qualquer instrumento que lhe ocorresse estudar. Era a aluna mais conhecida e mais admirada do curso de música, e todos viam nela um grande talento para composição. Era essencialmente uma garota tímida, mas tinha tomado a decisão de quebrar um pouco essa barreira, de modo que a música não era seu único interesse. Fazia parte da equipe de atletismo e era a segunda atleta mais rápida do grupo, além de ter grande espírito de competição; escrevia sobre cinema e música para o jornalzinho da faculdade; e participava das atividades da igreja batista.

Sua impressionante vitalidade era evidente não apenas na alegria com que escrevia e executava música, nem na aura quase espiritual que Vassago tinha percebido naquela primeira noite no bar, mas também em sua aparência física. Era extraordinariamente bonita, com o corpo de uma estrela de Hollywood e o rosto de uma santa. Pele macia. Ossatura perfeita no rosto. Lábios grossos, uma boca generosa, um sorriso angelical. Olhos azuis e límpidos. Vestia-se de modo discreto, numa tentativa de disfarçar o contorno arredondado dos seios, a cintura delgada, a firmeza das nádegas e as linhas firmes e longas de suas pernas. Mas Vassago tinha certeza de que, quando a despisse, iria constatar que ela era de fato aquilo que ele tinha percebido logo naquele primeiro encontro: uma mulher com imensa capacidade reprodutora. uma fornalha ardente de vida onde mais cedo ou mais tarde uma outra vida, de brilho incomparável, acabaria sendo gestada e dada à luz. Ele decidiu que ela deveria morrer.

Decidiu que precisava fazer seu coração parar e depois ficar abraçado ao corpo dela durante horas, sentindo a vida irradiar-se para sempre, abandonando seu corpo até deixá-la fria e inerte.

Aquele crime seria o bastante, pensou ele, para lhe conceder a passagem definitiva para além da zona fronteiriça onde ele vivia, deixando-o penetrar na (erra dos mortos e dos condenados, o seu lugar de origem, e para onde ele ansiava retornar.

Margaret cometeu o erro de descer sozinha até a lavanderia do edifício onde morava, às onze da noite. Muitos daqueles apartamentos eram alugados a pessoas com boas condições financeiras e, como o conjunto habitacional ficava próximo do campus da Universidade da Califórnia, em Irvine, muitos estudantes se juntavam em grupos de dois ou de três para dividir um aluguel, Essa vizinhança amistosa, o fato de estar num lugar seguro e cheio de gente conhecida, e a abundância de iluminação distribuída por entre a paisagem e a parte interna dos prédios — tudo tinha se combinado para dar-lhe uma falsa sensação de segurança.

Quando Vassago entrou na lavanderia, Margaret começava a colocar a roupa suja numa das máquinas de lavar. Ela o olhou com um sorriso de surpresa mas sem qualquer receio aparente, embora ele estivesse todo vestido de preto e usando óculos escuros em plena noite.

Provavelmente ela imaginou que ele não passava de um estudante que se vestia de modo excêntrico para alardear seu espírito rebelde e sua superioridade intelectual. Todo campus universitário estava cheio de tipos assim, já que é sempre muito mais fácil vestir-se como um intelectual rebelde do que realmente sê-lo.

—      Oh, desculpe — disse ele. — Pensei que não tinha ninguém aqui.

—      Tudo bem — disse Margaret. — Vou usar somente uma máquina, e as outras duas estão desocupadas.

—      Não, obrigado, já lavei minha roupa. É que... — Ele olhou em redor.

— Quando cheguei no meu quarto e esvaziei o cesto vi que estava faltando uma meia. Não sei se ficou na máquina de lavar ou na secadora. Desculpe incomodar.

O sorriso dela se alargou, talvez porque estivesse achando engraçado que aquele pseudo James Dean todo vestido de preto e com ar de rebelde sem causa pudesse falar de um modo tão educado, e mais ainda... pudesse ser capaz de lavar suas próprias roupas e de sair em busca de meias desaparecidas.

Mas a essa altura ele já estava ao lado dela. Bateu-lhe no rosto — dois socos rápidos e demolidores que a jogaram inconsciente ao chão, onde ela desmoronou sobre o piso de vinil como se fosse uma pilha de roupas sujas largada por alguém.

Quando recobrou a consciência, estava no interior do inferno mecânico, na parte subterrânea do túnel-do-terror abandonado. Ao perceber que estava nua sobre o chão de concreto, praticamente cega naquela escuridão total, e com os pés e as mãos amarrados, ela não tentou negociar para salvar a própria vida, como algumas das outras tinham feito. Não ofereceu a ele o próprio corpo, não fingiu sentir-se excitada pela crueldade dele ou pelo domínio absoluto que ele assumira sobre ela. Não lhe ofereceu dinheiro, nem tentou afirmar que o compreendia e que simpatizava com ele, num esforço patético para convertê-lo de algoz em amigo. Não gritou, não chorou, não gemeu, não o amaldiçoou. Era diferente das outras, porque encontrou esperança e conforto numa série infindável de preces murmuradas numa voz calma, cheia de gravidade. Mas em momento algum ela rezou pedindo para ser libertada de seu raptor e levada de volta para o mundo de onde tinha sido arrancada — como se ela já soubesse que a morte era inevitável. Em vez disso, rezou para que sua família tivesse forças para suportar sua perda, para que Deus cuidasse de suas duas irmãs mais novas, e para que até mesmo seu assassino pudesse contar com a a graça e a misericórdia divinas.

Vassago começou aos poucos a odiá-la. Ele sabia que amor e misericórdia não existiam, não passavam de palavras vazias. Nunca sentira amor: nem depois de ter se tornado um ser da zona fronteiriça entre a vida e a morte, nem quando ainda pertencia ao mundo dos vivos. Mesmo assim, de vez em quando fingira amar alguém — o pai, a mãe, uma garota — para obter o que queria, e sempre tinha conseguido enganá-los. Acreditar que o amor pudesse existir em outras pessoas, quando ele mesmo não o sentia, teria sido um erro fatal. Afinal de contas, as relações humanas não passam de um jogo, e o que distingue um bom jogador de um jogador incompetente é a sua capacidade de enxergar através das mentiras do oponente.

Para mostrar a ela que não se deixaria iludir, e que o Deus em que ela acreditava era um Deus impotente, Vassago recompensou suas preces com uma morte lenta e dolorosa. Até que, afinal, ela gritou. Mas eram gritos que não o satisfaziam, porque não passavam de sinais de sofrimento físico; neles não havia nenhum sinal de terror, raiva ou desespero.

Ele tinha pensado que iria gostar mais dela depois de vê-la morta, mas mesmo então percebeu que continuava a odiá-la. Por alguns minutos apertou o corpo da moça de encontro ao seu, sentindo o seu calor se dissipar lentamente. Mas o avanço gelado da morte através de sua carne não chegou a ser tão excitante quanto havia imaginado. Ela morrera sem ver abalada a sua fé na vida eterna, privando assim Vassago da satisfação de ver nos seus olhos o medo pela aproximação da morte. Ele empurrou seu corpo flácido para o lado, com uma careta de repulsa.

Agora, duas semanas depois que Vassago terminara seu trabalho, Margaret Campion estava ajoelhada numa posição perpétua de oração, no chão do inferno subterrâneo, como a mais recente peça da sua coleção. Ela permanecia com o corpo ereto, amarrada a uma barra de aço que ele havia chumbado num buraco no chão de concreto. Nua, estava com as costas voltadas para a enorme estátua de Lúcifer. Embora em vida ela tivesse sido uma batista, um crucifixo estava agora preso em suas mãos, porque Vassago considerava a imagem de um crucifixo mais interessante do que a de uma simples cruz; ele estava virado de cabeça para baixo, com a cabeça de Cristo, coroada de espinhos, virada para o chão. A cabeça de Margaret tinha sido cortada e novamente costurada no pescoço com uma precisão obsessiva. Embora seu corpo estivesse dando as costas a Satã, seu rosto estava virado na direção dele, sem fitar o crucifixo que segurava de forma irreverente em suas mãos. Sua posição simbolizava a hipocrisia e satirizava sua crença pretensiosa na fé, no amor, na vida eterna.

Vassago não extraíra do assassinato de Margaret tanto prazer quanto o que tinha obtido através do que fizera depois ao seu cadáver; mas ainda assim estava satisfeito em tê-la conhecido. Sua obstinação, sua estupidez e sua auto-ilusão tinham feito com que sua morte acabasse sendo menos divertida do que ele havia imaginado, mas pelo menos a aura que ele percebera em torno dela, naquele primeiro encontro no bar, finalmente se dissipara. A única energia que se abrigava agora em seu corpo era o da miúda multidão de vermes que fervilhava dentro dela, consumindo sua carne e prestes a reduzi-la a uma carcaça ressequida como a de Jenny, colocada na extremidade oposta da coleção.

Enquanto ele examinava o corpo de Margaret, uma sensação familiar começou a brotar dentro dele, até se transformar numa verdadeira compulsão. Ele voltou as costas aos corpos enfileirados e refez seu caminho ao longo do vasto salão, indo na direção da rampa que conduzia ao túnel de entrada. Normalmente, o trabalho de selecionar uma nova aquisição, matá-la e colocá-la numa posição esteticamente satisfatória era o bastante para deixá-lo saciado por pelo menos um mês. Mas depois de menos de duas semanas ele começava a sentir a compulsão de procurar uma nova vítima para seu próximo sacrifício.

Meio a contragosto, ele subiu de volta a rampa, afastando-se do cheiro purificante de carne morta, e mergulhando num ar poluído pelos odores da vida, como um vampiro que precisa ir à caça entre os vivos, embora prefira a companhia dos mortos.

 

Às 10:30, quase uma hora depois de ter sido ressuscitado, Harrison permanecia inconsciente. A temperatura de seu corpo estava normal. Os sinais vitais estavam em ordem. E embora os padrões de suas ondas cerebrais alfa e beta indicassem um homem em sono profundo, nada havia neles que pudesse indicar algo tão grave quanto um estado de coma.

Depois que Jonas declarou que o paciente já não corria riscos imediatos e podia ser transferido para um apartamento no quinto andar, Ken Nakamura e Kari Dovell decidiram ir para casa. Deixando Helga e Gina fazendo companhia ao paciente, Jonas acompanhou o neurologista e a pediatra até o lavatório, e em seguida até a porta que dava acesso ao estacionamento reservado ao pessoal do corpo médico. Conversaram sobre Harrison e sobre as medidas que teriam que tomar a partir da manhã seguinte, mas durante a maior parte do tempo eles limitaram-se a conversas casuais sobre a política interna do hospital e fofocas sobre os amigos, como se não tivessem acabado de ser protagonistas num milagre diante do qual tudo o mais devesse parecer irrelevante.

Por trás da porta de vidro, a noite era fria e inóspita. A chuva começara a cair. Poças d’água já se formavam em cada depressão do pavimento, refletindo o brilho das luzes do estacionamento; pareciam espelhos despedaçados ou milhares de cacos prateados de vidro amontoados uns sobre os outros.

Kari inclinou-se para Jonas e deu-lhe um beijo no rosto, abraçando-o por um momento. Deu a impressão de querer dizer alguma coisa, mas parecia não encontrar as palavras. Então voltou a se endireitar, ergueu a gola do casaco e saiu caminhando através da chuva e do vento.

Ken Nakamura demorou-se um pouco após a partida de Kari.

— Já deve ter percebido que vocês dois dão certo um com o outro — comentou ele.

Jonas acompanhou com os olhos, através da porta de vidro por onde as gotas de chuva escorriam, a mulher que se afastava a passos rápidos na direção do seu carro. Estaria mentindo se dissesse que nunca tinha olhado Kari como mulher. Embora alta, magra e dotada de uma formidável presença, ela era também feminina. Às vezes ele ficava maravilhado diante da delicadeza de seus pulsos ou diante da graciosidade de seu pescoço, semelhante ao de um cisne, e que parecia quase não ser capaz de suportar o peso da cabeça. Intelectual e emocionalmente, ela era mais forte do que parecia. Se não fosse assim, não poderia ter suplantado os obstáculos que certamente encontrara no longo de sua carreira médica, numa profissão ainda dominada pelos homens, para os quais, em alguns casos, o machismo era menos um traço de caráter do que uma profissão de fé.

Ken prosseguiu:

—      Bastaria dizer uma palavra a ela, Jonas.

—      Ainda não estou livre para isso — respondeu ele.

—      Você não pode guardar luto por Marion eternamente.

—      São apenas dois anos.

—      Sim, mas você vai ter que voltar à vida normal, mais cedo ou mais tarde.

—      Não por enquanto.

—      E quando? Nunca mais?

—      Não sei.

Lá fora, Kari Dovell tinha acabado de entrar no seu automóvel.

—      Ela não vai esperar por você a vida toda — disse Ken.

—      Boa noite, Ken.

—      Oh, claro. Entendi o recado.

—      Ótimo.

Com ar pesaroso mas sorridente, Ken abriu aporta, deixando entrar uma rajada de ar frio que espalhou gotas reluzentes de chuva ao longo do piso cinzento, e desapareceu na noite.

Jonas girou nos calcanhares e retornou, ao longo de uma série de corredores, até o elevador. Subiu ao quinto andar.

Não tinha sido necessário avisar a Ken e Kari que ele passaria a noite no hospital. Eles sabiam que esse era o seu hábito após cada reanimação aparentemente bem-sucedida. Para eles, a medicina de ressuscitação era um novo e fascinante campo de atividade, um interessante complemento profissional ao seu trabalho; uma maneira de ampliar seu conhecimento profissional e manter suas mentes flexíveis. Cada sucesso que obtinham era profundamente gratificante, uma lembrança de qual tinha sido a sua primeira motivação ao escolher a carreira médica: a de curar. Mas para Jonas era muito mais do que isto. Cada reanimação era uma batalha a mais que tinha sido ganha ao longo da sua guerra interminável contra a Morte, não apenas um ato de cura mas um ato de desafio, um punho irado erguido diante do rosto do Destino. A medicina de ressuscitação era seu amor, sua paixão, era sua própria definição como pessoa, sua única razão para levantar da cama de manhã e continuar vivendo, num mundo que, de outra forma, tinha se tornado difícil de suportar — sem sentido, sem alegria.

Ele submetera projetos e propostas a meia dúzia de universidades, oferecendo-se para lecionar em seus cursos de medicina em troca da instalação de uma unidade de pesquisa de técnicas de ressuscitação, sob seu comando, e para a qual se oferecia a contribuir com uma parte razoável do investimento inicial. Jonas era conhecido e respeitado tanto como cirurgião cardiovascular quanto como um especialista em reanimação, e acreditava que em breve alcançaria seus objetivos. Mas estava impaciente. Já não se dava por satisfeito com a mera supervisão de reanimação de pacientes. Queria estudar os efeitos daqueles breves intervalos de morte clínica sobre as células humanas, pesquisar os mecanismos dos radicais livres e de seus neutralizadores, testar suas próprias teorias, e descobrir novas maneiras de evitar a Morte naqueles sobre quem ela já estabelecera sua jurisdição.

No quinto andar, na seção das enfermeiras, ele foi informado de que Harrison tinha sido levado para o 518. Era uma enfermaria semiparticular, mas a grande quantidade de leitos disponíveis no hospital garantia que Harrison poderia permanecer sozinho ali durante o tempo que fosse necessário.

Quando Jonas entrou no 518, Helga e Gina estavam terminando de instalar o paciente na cama mais afastada da porta, perto da janela açoitada pela chuva. Harrison tinha sido vestido numa bata do hospital e estava ligado a um eletrocardiógrafo com uma unidade de telemetria, através da qual sua pulsação cardíaca seria transmitida a um monitor colocado na sala das enfermeiras. Um frasco cheio de um fluido claro estava pendurado num suporte ao lado da cama e conectado a um tubo plástico endovenoso afixado ao seu braço esquerdo, o qual já exibia uma série de marcas deixadas por outras injeções endovenosas aplicadas pelos paramédicos naquela mesma noite. O fluido contido no frasco era uma solução de glicose misturada a um antibiótico destinado a evitar a desidratação e manter o organismo do paciente a salvo de uma das muitas infecções que poderiam pôr a perder todo o trabalho da equipe de ressuscitação. Helga tinha penteado o cabelo de Harrison e estava terminando de guardar o pente na gaveta da mesinha-de-cabeceira; Gina aplicava um lubrificante sob as pálpebras dele para evitar que elas ficassem pregadas aos globos oculares, uma ocorrência freqüente com pacientes em estado comatoso que passavam longos períodos de tempo sem abrir os olhos ou sequer piscar, e que ainda por cima sofriam às vezes de diminuição de secreção das glândulas lacrimais.

—      O coração está regular como um metrônomo — disse Gina ao avistar Jonas. — Tenho o palpite de que antes do fim da semana o rapaz vai estar dançando, jogando golfe, fazendo o que bem entender. — Ela afastou com um gesto maquinai as mechas de cabelo que lhe caíam sobre a testa. — É um cara de sorte.

—      Vamos devagar — disse Jonas com cautela; sabia muito bem como a Morte costumava provocá-los, fingindo que batia em retirada e em seguida voltando à carga de surpresa e invertendo o resultado de uma batalha que parecia ganha.

Quando Gina e Helga se despediram e foram para casa, Jonas desligou todas as luzes. Iluminado apenas pelo reflexo das luzes fluorescentes do corredor e pelo brilho esverdeado da tela do monitor cardíaco, o quarto 518 ficou povoado por sombras.

E pelo silêncio também. O sinal de áudio do eletrocardiógrafo tinha sido desligado, e o aparelho mostrava apenas os saltos rítmicos e regulares da bolinha luminosa, deixando um rastro esmaecido enquanto percorria horizontalmente a pequena tela. Os únicos ruídos que se ouviam eram o gemido distante do vento do lado de fora e o tamborilar ocasional da chuva nas vidraças.

Jonas ficou parado ao pé da cama, olhando para Harrison. Mesmo tendo salvado a vida daquele homem, pouco sabia a respeito dele. Tinha 38 anos, l,70m e 72 quilos. Cabelo castanho, olhos castanhos. Excelentes condições físicas.

Mas e quanto à pessoa no interior daquele corpo? Hatchford Benjamin Harrison seria um homem bom? Honesto? Digno de confiança? Fiel à sua esposa? Seria um homem razoavelmente a salvo da inveja e da cobiça, capaz de sentir piedade, cônscio da distância entre o certo e o errado?

Ele tinha um bom coração?

Ele amava alguém? No calor da luta pela reanimação de um corpo, quando cada segundo era vital e havia coisas demais para serem feitas num curto espaço de tempo, Jonas nunca se atrevia a pensar sobre o principal dilema ético com que se defrontava cada médico que assumia o papel de reanimador, porque pensar naquilo poderia fazê-lo hesitar, prejudicando o paciente. Depois de tudo terminado, no entanto, havia tempo para dúvidas, para meditações... Embora todo médico tivesse um compromisso moral e a obrigação profissional de salvar vidas sempre que possível, será que todas essas vidas mereciam ser salvas? Se a Morte punha suas garras sobre um homem mau, não seria mais prudente — e eticamente mais justo — deixar que o levasse consigo?

Se Harrison fosse um homem mau, qualquer ato que viesse a cometer após deixar o hospital seria, em parte, responsabilidade de Jonas Nyebern. A dor que Harrison viesse a causar a outras pessoas lançaria também uma sombra sobre a alma de Jonas.

Por sorte, essa questão parecia não se aplicar no presente caso, Harrison, pelo que Jonas fora informado, era um cidadão decente, um comerciante respeitado no ramo de antigüidades; sua esposa era uma pintora de certa reputação, cujo nome era familiar a Jonas. Uma artista certamente tinha que ser uma pessoa sensível, perceptiva, capaz de ver o mundo com mais clareza do que as pessoas comuns. Não era assim? Se ela viesse a se casar com um homem mau acabaria percebendo e não continuaria casada com ele. No presente caso, tudo levava a crer que aquela vida que ele acabara de salvar de fato merecia ser salva.

Jonas desejou que seus atos fossem sempre tão corretos quanto naquela ocasião.

Virou as costas para a cama e caminhou dois passos na direção da janela. Cinco andares abaixo estendia-se o pátio de estacionamento quase deserto. Os postes de iluminação projetavam sua luz sobre as poças dágua, que, devido à chuva incessante que as salpicava, pareciam borbulhar em ebulição — como se um fogo subterrâneo estivesse consumindo o asfalto.

Ele podia ver o local onde o carro de Kari Dovell estivera estacionado, e olhou naquela direção por longo tempo. Tinha uma grande admiração por Kari. Também a achava atraente. Às vezes sonhava com ela, e esses sonhos lhe produziam uma surpreendente sensação de bem-estar. Admitia que mais de uma vez sentira desejo por ela, e achava agradável pensar que ela também poderia sentir o mesmo em relação a ele. Mas ele não precisava dela. Não precisava de nada além do seu trabalho, da satisfação ocasional em poder derrotar a Morte, e...

—      Tem... alguma coisa... lá fora...

A primeira palavra interrompeu o fluxo de pensamentos de Jonas, mas a voz, era tão débil e apagada que ele não percebeu de imediato a sua origem. Virou-se, olhando na direção da porta que permanecia aberta; mas a voz não vinha do corredor. Somente no final da frase ele percebeu que era Harrison quem falava.

A cabeça do paciente estava voltada na direção de Jonas, mas seus olhos localizavam-se na janela.

Caminhando rapidamente para junto da cama, Jonas deu uma rápida olhadela para o eletrocardiógrafo e viu que o coração de Harrison estava batendo depressa, mas, graças a Deus, num ritmo regular.

—      Tem alguma coisa... lá fora — repetiu Harrison.

Reparando bem, seus olhos não pareciam estar focalizados na janela propriamente dita ou em alguma outra coisa próxima, mas num ponto indefinido situado à distância, no meio da noite chuvosa.

—      É só a chuva — disse Jonas, em tom tranqüilizador.

—      Não.

—      Uma chuva de inverno. Só isso.

—      Uma coisa ruim — sussurrou Harrison.

Passos apressados soaram no corredor, e uma jovem enfermeira irrompeu no quarto. Seu nome era Ramona Perez; Jonas a conhecia. Era uma jovem competente e dedicada.

—      Oh, Dr. Nyebern, que bom que está aqui. O coração dele, na unidade de telemetria...

—      Sim, eu sei, estava acelerado. Tudo bem, ele apenas acordou de repente.

Ramona aproximou-se da cama e acendeu a lâmpada acima dela, iluminando melhor o paciente.

Harrison estava ainda com os olhos voltados na direção da janela, como se não se apercebesse das presenças de Jonas e da enfermeira. Numa voz mais baixa do que antes, cheia de um enorme cansaço, ele repetiu:

—      Tem uma coisa lá fora.

Seus olhos vacilaram, pesados de sono, e fecharam-se quase no mesmo instante.

—      Sr. Harrison, pode me ouvir? — perguntou Jonas.

O paciente não respondeu.

O eletrocardiógrafo mostrou uma rápida desaceleração de suas batidas cardíacas; de 140 para 120 e logo para cem batidas por minuto.

—      Sr. Harrison?...

Noventa batidas por minuto. Oitenta.

—      Dormiu de novo — disse Ramona.

—      Pelo menos parece.

—      Está só dormindo — disse ela. — Não há possibilidade de que esteja em coma.

—      Nenhuma. — concordou Jonas.

—      Mas ele falou! Pôde entender o que ele disse?

—      Mais ou menos, mas não tenho certeza — disse Jonas, inclinando-se sobre a cama para examinar as pálpebras do homem adormecido, que exibiam os tremores característicos dos globos oculares movimentando-se por baixo delas. Sono com movimentos rápidos dos olhos; Harrison estava sonhando.

Do lado de fora, a chuva de repente começou a cair muito mais forte do que antes, O vento também aumentou de intensidade e fustigou a janela. Ramona disse:

—      As palavras que ele falou eram muito claras.

—      Sim; a língua não estava presa. E ele falou frases completas.

—      Então ele não sofreu afasia — disse ela. — Que maravilha.

Afasia, a completa incapacidade de falar ou de entender linguagem falada ou escrita, era uma das mais devastadoras formas de lesão cerebral resultante de doença ou de ferimentos. Uma vez afetado por ela, um paciente ficava reduzido à comunicação por meio de gestos, e muitas vezes as limitações dessa forma de comunicação acabavam por arremessá-lo numa depressão profunda, da qual muitos não voltavam a emergir. Harrison, evidentemente, estava livre desse perigo. Se também tivesse escapado ao risco de paralisia, e se não houvesse muitos “buracos” na sua memória, ele tinha excelentes chances de poder se levantar em breve daquela cama e retomar sua vida normal.

—      Não vamos tirar nenhuma conclusão prematura — disse Jonas. — Nem vamos criar falsas esperanças. Ele ainda tem um caminho longo pela frente. Mas seria bom você anotar em seu relatório que ele voltou à consciência pela primeira vez às... às onze e trinta, duas horas depois da ressurreição.

Harrison estava murmurando baixinho em pleno sono. Jonas voltou a inclinar-se sobre a cama e pôs o ouvido próximo aos lábios do paciente, que mal se moviam. As palavras eram quase inaudíveis e pareciam ser emitidas através da simples exalação do ar dos pulmões de Harrison. Era como uma voz espectral ouvida através de um aparelho de rádio, transmitida por uma emissora situada do outro lado do mundo e que, tipos ser refletida de forma inesperada numa alta camada atmosférica, se filtrasse através de uma enorme distância e do mau tempo, chegando por fim ao seu receptor dotada de um tom misterioso e profético, apesar de já quase Ininteligível.

— O que ele está dizendo? — perguntou Ramona.

Com o uivo do vento ressoando lá fora, Jonas não podia perceber o bastante para ter certeza, mas teve a impressão de que Harrison estava repetindo as mesmas palavras que dissera antes: “Tem alguma coisa lá fora.”

E naquele mesmo instante o vento uivou com mais força, e a chuva bateu tão forte de encontro à janela que por um momento pareceu a ponto de despedaçar a vidraça.

 

Vassago gostava da chuva. Naquela noite, as nuvens pesadas tinham se aglomerado no céu, não deixando nenhuma abertura por onde o brilho da lua pudesse se filtrar. A chuva também ajudava a embaçar a claridade dos postes de iluminação e dos faróis dos carros que passavam, bem como dos anúncios de néon. De um modo geral, tudo contribuía para abrandar a claridade da noite do condado de Orange, tornando possível que ele dirigisse de modo mais confortável do que conseguiria apenas com o uso de óculos escuros.

Tinha se deslocado rumo oeste a partir de seu esconderijo, depois rumo norte ao longo da costa, à procura de um bar onde as luzes não fossem muito fortes e onde pudesse haver uma ou outra mulher para avaliação. Muitos bares fechavam na segunda-feira, e outros não pareciam muito movimentados àquela hora, já próximo da meia-noite.

Finalmente ele encontrou um lugar em Newport Beach, junto à rodovia do Pacífico. Era uma boate elegante, com um toldo recobrindo um trecho da calçada, uma fileira de minúsculas lâmpadas brancas circulando o teto, e um letreiro que anunciava: “DANÇA DE QUARTA A SÁBADO — JOHNNY WILTON’ S BIG BAND”. Newport era a cidade mais afluente do país, com a maior marina de iates particulares do mundo, de modo que qualquer estabelecimento que se propusesse a ter uma freguesia abastada acabava conseguindo. A partir do meio da semana, provavelmente haveria um manobreiro disponível num local como aquele, o que não era bom para os seus planos, já que um manobreiro era uma testemunha em potencial; mas numa segunda-feira chuvosa não havia nenhum.

Estacionou na parte lateral da boate e, mal desligou a ignição, aquilo tomou conta de seu corpo. Sentiu como se tivesse recebido um choque elétrico não muito forte, mas contínuo. Seus olhos se reviraram, e por um momento ele achou que estava sofrendo convulsões, porque não conseguia respirar, nem engolir. Um gemido involuntário escapou por entre seus lábios. O ataque durou apenas dez ou quinze segundos e terminou com três palavras que pareceram ressoar no interior de sua cabeça: Tem... alguma coisa... lá fora... Não tinha sido apenas um pensamento aleatório produzido por um curto-circuito das sinapses em seu cérebro; aquilo veio a ele com o som claro de uma voz, com o timbre e a inflexão de palavras faladas, e não apenas formuladas mentalmente. Mas não era sua própria voz, e sim uma voz estranha. Ele teve uma sensação quase asfixiante da presença de outra pessoa ali, no interior do carro, como se um espírito tivesse rompido as cortinas que separavam dois mundos e viesse fazer-lhe uma visita; uma presença estranha, real apesar de invisível. Então, o episódio terminou de modo tão abrupto como tinha começado.

Ele permaneceu sentado durante algum tempo, esperando que acontecesse novamente.

A chuva martelava o teto do carro.

O carro emitiu uns estalidos e assobios à medida que o motor esfriava.

O que quer que tivesse sido aquilo, havia passado.

Ele tentou entender o que ocorrera. Será que aquelas palavras — Tem alguma coisa lá fora — eram um aviso, uma premonição psíquica? Uma ameaça? A quem poderiam estar se referindo?

Do lado de fora do carro, não parecia haver nada de excepcional naquela noite. Somente a chuva. E a bendita escuridão. Os reflexos distorcidos das luzes elétricas e dos anúncios luminosos reluziam no pavimento molhado, sobre as poças dágua e na enxurrada que descia ao longo da sarjeta nas calçadas. Tráfego pouco intenso fluía ao longo da rodovia do Pacífico, mas,,, até onde ele podia enxergar, não havia nenhum pedestre à vista... e ele enxergava tão bem quanto um gato.

Depois de algum tempo, concluiu que entenderia aquele episódio quando chegasse o momento adequado. Não adiantava de nada ficar quebrando a cabeça a respeito daquilo. Se era uma ameaça, fosse qual fosse sua origem, não chegava a preocupá-lo; ele era incapaz de sentir medo. Esta era a melhor coisa para quem, como ele, tinha abandonado o inundo dos vivos, mesmo tendo que ficar provisoriamente prisioneiro da zona fronteiriça entre a vida e a morte: nada naquele mundo poderia ameaçá-lo.

Ainda assim, aquela voz interior tinha sido uma das experiências mais estranhas de toda a sua vida. E não era por falta de experiências estranhas que pudessem servir de termo de comparação.

Saiu do seu Camaro prateado, bateu a porta e caminhou na direção da porta da boate. A chuva estava fria. As frondes das palmeiras, açoitadas pelo vento, chocalhavam como um saco cheio de ossos.

 

Lindsey Harrison estava também no quinto andar, num quarto situado no fim do corredor principal, na extremidade oposta ao do seu marido. O quarto estava imerso em escuridão quando Jonas entrou e se aproximou da cama; não havia nem sequer o brilho esverdeado de um monitor cardíaco. O vulto da mulher mal era visível.

Jonas imaginou se devia despertá-la, e teve uma surpresa quando ela falou:

—      Quem é?...

—      Pensei que estivesse dormindo — disse ele.

—      Não estou conseguindo dormir.

—      Não lhe deram um sedativo?

—      Não adiantou.

Assim como no quarto onde o marido dela estava, a chuva fustigava furiosamente a janela. Jonas podia ouvir o ruído torrencial da água que jorrava de uma calha de alumínio nas proximidades, na parte externa do prédio.

—      Como está se sentindo? — perguntou.

—      Como acha que estou?

Ela tentou impor um tom de raiva às suas palavras, mas estava demasiado exausta e deprimida.

Jonas abaixou o gradil lateral da cama e sentou no colchão ao lado dela. Estendeu a mão, pressupondo que os olhos dela estivessem mais acostumados à escuridão do que os seus.

—      Me dê sua mão.

—      Porquê?

—      Meu nome é Jonas Nyebern. Sou médico. Quero lhe falar sobre seu marido, e acho que talvez seja melhor se você me deixar pegar na sua mão.

Ela ficou em silêncio.

—      Vamos, vamos, faça o que estou pedindo — insistiu ele.

Embora a mulher imaginasse que seu marido estava morto, Jonas preferia não lhe dar de imediato a notícia de sua ressurreição. Sabia por experiência própria que boas notícias desse tipo podem ser tão chocantes quanto más notícias; tinham que ser dadas com muito cuidado e muita atenção. Lindsey estava delirando ao dar entrada no hospital, devido ao choque e à exposição ao frio, mas essa condição tinha sido amenizada com aquecimento e medicação. Já fazia algumas horas que ela estava de posse de suas faculdades, tempo bastante para absorver a noção de que o marido estava morto e para começar a se adaptar à idéia dessa perda. Embora mergulhada numa dor profunda e longe de ter se acostumado totalmente àidéia da viuvez, ela havia encontrado nessa gradual adaptação um ponto de apoio no abismo em que caíra, um compromisso com a realidade—e era esse ponto de apoio que ele tinha a obrigação de retirar agora.

Além do mais, ele teria podido ser bem mais objetivo se tivesse apenas notícias inequivocamente boas para lhe dar. Mas ele não podia prometer que o marido seria de novo a mesma pessoa que era antes do acidente; não podia garantir que ele não guardaria marcas daquela experiência e recomeçaria sem problemas a vida de antes. Precisaria de muitas horas, talvez muitos dias, para examinar e avaliar as condições gerais de Harrison, antes de poderem fazer algum tipo de prognóstico quanto às suas chances de total recuperação. Talvez ele ainda tivesse pela frente semanas ou meses de terapia física e ocupacional, sem nenhuma garantia de cura definitiva.

Jonas permaneceu com a mão estendida até que ela estendeu a sua, num gesto hesitante.

Num ritual longamente amadurecido e praticado, ele começou a explicar para ela os princípios básicos da medicina de ressuscitação. Quando ela começou a perceber por que motivo ele tinha vindo até ali para lhe dar explicações sobre um assunto tão hermético, seus dedos apertaram a mão dele com uma força inesperada.

 

No quarto 518, Hatch estava mergulhado numa torrente de sonhos maus, que não passavam de imagens desconexas misturando-se umas às outras sem sequer estabelecer o ilógico fio narrativo que em geral dá forma aos pesadelos. Neve fustigada pelo vento. Uma enorme roda-gigante que às vezes surgia enfeitada com festivas gambiarras de luzes e outras vezes às escuras e desconjuntada, numa noite batida pela chuva. Bosques de árvores negras e retorcidas, com todas as folhas arrancadas pela ventania. Um caminhão carregado de engradados de cerveja, atravessado diagonalmente numa rodovia coberta de gelo. Um túnel com chão de concreto que se inclinava numa rampa até sumir numa escuridão profunda, uma escuridão onde alguma coisa desconhecida fazia seu coração disparar de pavor. Seu filho Jimmy, deitado muito pálido sobre os lençóis de uma cama de hospital, morrendo de câncer. Água, gelada e profunda, impenetrável à vista como tinta negra, estendendo-se de horizonte a horizonte, sem nenhuma fuga possível. Uma mulher nua, com a cabeça totalmente virada para trás, as mãos crispadas sobre um crucifixo...

De vez em quando ele percebia a presença de uma figura misteriosa e sem rosto, nas franjas das imagens geradas pelo sonho, vestida de negro e movendo-se com tanta harmonia em meio às sombras que ele próprio parecia ser uma delas. Outras vezes, ele não fazia parte da cena, mas parecia ser o ponto de vista através do qual a cena era observada, como se Hatch estivesse olhando com os olhos de alguém — olhos que contemplavam o mundo com a frieza calculista, impiedosa e faminta de um rato de cemitério.

Num dado momento, o sonho começou a adquirir uma certa continuidade narrativa, e Hatch se viu correndo ao longo da plataforma de uma estação de trens, tentando alcançar um vagão que começava a acelerar, afastando-se. Através de uma das janelas do vagão ele avistou Jimmy, muito pálido e de olhos fundos, devastado pela doença; ele vestia a bata do hospital e olhava com expressão triste na direção de Hatch, enquanto erguia um braço muito magro e acenava... adeus, adeus, adeus. Hatch corria e tentava desesperadamente agarrar a barra vertical do lado da porta do vagão, mas o trem aumentava de velocidade, até que ele foi ficando para trás, enquanto o vagão se afastava. O rosto de Jimmy foi ficando cada vez mais distante e indistinto até sumir por completo quando o vagão foi diminuindo e desaparecendo numa espécie de vácuo aterrador que existia para além da plataforma da estação, uma espécie de vazio tenebroso de cuja existência só agora Hatch se apercebia. Então, um outro trem de passageiros começou a se aproximar da direção oposta, clackety-clack, clackety-clack, e ele viu com surpresa Lindsey sentada junto a uma das janelas, olhando para fora, com uma expressão vazia no rosto. Ele gritou — “Lindsey!!!” — mas ela não pareceu ouvi-lo ou perceber sua presença; parecia estar numa espécie de transe, de modo que ele começou a correr novamente, tentando saltar para dentro do vagão, que no entanto ia se afastando, clackety-clack, clackety-clack, do mesmo modo que o vagão de Jimmy. “Lindsey!” A mão dele estava a apenas alguns centímetros de distância da barra de metal, e os degraus que davam acesso ao vagão estavam tão próximos, tão próximos... De súbito a barra de metal e os degraus desapareceram, e o trem não era mais um trem. Com a estranha fluidez das metamorfoses que acontecem num sonho, o trem transformou-se numa montanha-russa num parque de diversões, dando início a um de seus percursos. Clackety-clack. Hatch correu até o fim da plataforma sem conseguir saltar para dentro do carrinho ocupado por Lindsey, e a viu afastar-se velozmente, escalando a primeira subida do longo trajeto cheio de curvas. Então o último carrinho da montanha-russa passou ao lado dele; era o derradeiro, mesmo por trás daquele que conduzia Lindsey. Dentro dele havia um único passageiro. Um vulto vestido de negro — em torno do qual amontoavam-se sombras, como corvos pousados sobre o muro de um cemitério — estava sentado na parte da frente do carrinho, a cabeça pendida, o rosto escondido pelos cabelos que caíam para diante e lhe encobriam as feições como o capuz de um monge. Clackety-clackl Hatch gritou na direção de Lindsey, avisando-a para olhar para trás e ter cuidado com aquilo que a seguia no outro carro, pedindo-lhe para se segurar bem e para ter cuidado, pelo amor de Deus, segure-se bem! Como uma longa lagarta, o comboio de carros metálicos alcançou por fim a parte superior da subida, fez uma pausa ali por um instante, como se o próprio tempo tivesse se detido em seu curso, e então precipitou-se ladeira abaixo, por entre um rugido de metal e um coro uníssono de gritos.

Ramona Perez, a enfermeira noturna encarregada da ala do quinto andar que Incluía o quarto 518, ficou parada junto da cama, contemplando o paciente. Preocupava-se com ele, mas ainda não sabia se deveria procurar o Dr. Nyebern.

De acordo com o monitor cardíaco, a pulsação de Harrison estava flutuando em demasia. Em geral variava numa faixa tranqüilizadora de setenta a oitenta batidas por minuto. Periodicamente, contudo, dava saltos até 140. O lado positivo da situação era o fato de que não havia nenhum sinal do arritmia.

A pressão arterial estava sendo afetada por aquelas acelerações nos batimentos, mas ele não parecia correr perigo de um derrame ou de alguma hemorragia cerebral em conseqüência de hipertensão, já que sua leitura sistólica nunca se revelava demasiado alta. Ele suava profusamente, e os círculos em torno dos seus olhos pareciam cada vez mais escuros, a ponto de dar a impressão de que ele tinha sido maquilado. A despeito dos cobertores colocados sobre seu corpo, tremia da cabeça aos pés. Os dedos de sua mão esquerda — que estava descoberta, devido ao tubo de aplicação endovenosa — sofriam espasmos ocasionais, embora não tão intensos que pudessem correr o risco de afrouxar a agulha inserida em sua veia logo abaixo da parte interna do cotovelo.

Numa voz sussurrante, ele repetia o nome de sua mulher, e havia um tom de urgência em sua voz:

— Lindsey... Lindsey... Não!...

Estava sonhando, é claro, e as coisas que acontecem num sonho podem provocar respostas fisiológicas, tanto quanto as experiências reais.

Por fim, Ramona decidiu que a aceleração cardíaca era apenas o resultado do fato de o paciente estar tendo pesadelos, e não um sinal de desestabilização cardiovascular propriamente dita. Ele não corria perigo. Ainda assim, ela permaneceu ao lado da cama, por precaução.

 

Vassago sentou-se a uma mesa perto da janela, de onde se avistava a baía. Tinha parado no salão principal da boate por cerca de cinco minutos e concluíra que aquilo ali não representava um bom território de caça. A atmosfera estava toda errada. Arrependeu-se de ter pedido um drinque.

Não havia show musical ali nas segundas-feiras à noite, mas num recanto do salão um pianista tocava. Não executava as costumeiras interpretações pasteurizadas de canções dos anos 30 ou 40, nem os arranjos propositalmente banais de rocks de sucesso que contribuíam para embrutecer a mente dos freqüentadores daquele tipo de lugar; mas aplicava-se em reproduzir as melodias repetitivas de canções New Age, do tipo destinado a pessoas que acham música de elevador demasiado complexa e intelectual.

Vassago preferia música com batida pesada, música rápida e envolvente, algo que o deixasse rilhando os dentes. Desde que tinha se tornado um habitante da fronteira entre a vida e a morte, não conseguia mais ouvir com prazer a maior parte das músicas: sua estrutura demasiado ordeira acabava por irritá-lo. Suportava apenas música atonal, áspera, sem melodia. Sentia-se estimulado por mudanças bruscas de tom, acordes estridentemente dissonantes e solos de guitarra do tipo que pareciam arranhar os nervos. Gostava de padrões rítmicos discordantes e fragmentados. Excitava-se ao escutar música que trouxesse a sua mente imagens de sangue e violência.

Para Vassago, a cena que se avistava através daquela janela era tão desagradável quanto a música que o pianista estava tocando, pelo simples fato de ser bela. Barcos a vela e a motor se amontoavam nas docas particulares ao longo da marina. Estavam ancorados, as velas enroladas, os motores silenciosos, oscilando levemente sobre as águas, uma vez que a marina estava bem protegida e, apesar da chuva, o mar não se mostrava particularmente encapelado. Poucos dos ricos proprietários viviam a bordo, independentemente do tamanho ou do seu conforto, de modo que havia luzes em apenas um pequeno número de escotilhas. O brilho prateado da iluminação pública parecia transformar em mercúrio líquido a chuva que martelava os barcos, escorria como chumbo derretido ao longo dos seus mastros, empoçando-se no convés e jorrando para fora. Mas ele não tolerava a beleza, não tinha paciência para com imagens de cartão-postal cheias de composição harmoniosa: tudo aquilo lhe soava falso, soava como uma mentira tentando disfarçar a verdadeira natureza do mundo. Ele se sentia atraído, em vez disso, pela discórdia visual, pelas formas irregulares, por figuras malignas e putrescentes.

Com aquelas cadeiras macias e a suave iluminação âmbar, aquela boate era algo soft demais para um caçador como ele. Embotava seu instinto matador.

Olhou em torno, inspecionando os fregueses, tentando descobrir um alvo de qualidade, digno da sua coleção. Se encontrasse algo realmente fora de série que excitasse seu faro de colecionador, mesmo a atmosfera anestesiante naquele lugar não poderia minar suas energias.

Havia alguns homens sentados ao longo do balcão, mas não despertavam seu interesse. Os três homens que havia na sua coleção tinham sido sua segunda , quarta e quinta aquisições; tinham sido apanhados porque eram indivíduos solitários e vulneráveis, e não fora difícil para Vassago atraí-los sem despertar suspeitas. Ele não tinha nada contra matar homens, mas preferia as mulheres. Mulheres jovens. Gostava de apanhá-las antes que elas pudessem gerar mais vida.

As únicas pessoas mais jovens que havia no recinto era um grupo de quatro moças de vinte e poucos anos, que estavam sentadas junto a uma janela, três mesas depois da dele. Estavam meio embriagadas e tinham aparência frívola; curvavam-se para a frente como se estivessem trocando fofocas, falavam de modo afetado e de vez em quando desatavam em estrepitosas gargalhadas.

Uma delas era bonita o bastante para atrair o ódio de Vassago pela beleza. Tinha enormes olhos cor de chocolate e uma graça animal que lhe trazia à mente a imagem de uma corça. Ele a apelidou mentalmente de “Bambi”. Seu cabelo negro estava cortado curto dos lados, expondo a parte inferior das orelhas.

Eram orelhas excepcionais, grandes mas de formas delicadas. Vassago avaliou que poderia fazer coisas interessantes com elas e continuou a observar a moça, tentando decidir se ela estava ou não à altura de seus critérios.

Bambi falava mais do que as outras amigas e falava mais alto do que todas. Sua risada era também a mais ruidosa; parecia o zurro de um jumento. Ela era excepcionalmente atraente, mas seu falatório incessante e sua risada desagradável estragavam o efeito geral. Era mais do que evidente que ela adorava o som da própria voz.

Ela ficaria bem melhor, pensou Vassago, se alguém a tornasse surda e muda.

Um acesso de inspiração tomou conta dele, e ele se empertigou na cadeira. Se removesse as orelhas dela e as enfiasse na boca, costurando seus lábios em seguida... sim, desse modo poderia simbolizar a falha central que existia na beleza dela. Era uma visão de tal simplicidade, mas ao mesmo tempo tão poderosa, que...

— Um rum com Coca — disse a garçonete, colocando diante de Vassago um copo envolto num guardanapo de papel. — Quer que anote?

Ele virou-se para ela, piscando, confuso. Era uma mulher sólida, de meia-idade, com cabelo avermelhado. Ele podia vê-la com clareza através das lentes escuras dos óculos, mas estava tão arrebatado por aquele acesso de inspiração criadora que a princípio não percebeu quem era.

Por fim falou:

— Anotar? Oh, não, não precisa. Pago agora.     

Ao retirar do bolso a carteira, não a sentiu como uma carteira, mas como se fosse uma das orelhas de Bambi que estava apalpando. Ao deslizar seu polegar por sobre a superfície de couro, não sentiu o que de fato estava ali, e sim aquilo que esperava estar acariciando dentro de mais algum tempo: as delicadas saliências de cartilagem formando a aurícula e o pavilhão, as curvas graciosas dos canais que afunilavam as ondas sonoras na direção da membrana do tímpano...

Percebeu que a garçonete voltara a lhe dirigir a palavra, dizendo o preço da bebida, e que já era a segunda vez que o fazia. Tinha passado muito tempo acariciando a carteira; longos e deliciosos segundos mergulhados num devaneio cheio de morte e desfiguramento.

Puxou uma nota sem olhar e a estendeu para a mulher.

—      Cem dólares? — disse ela. — Não tem menor?

—      Não — disse ele com impaciência, ansioso para se ver livre dela. — É isso aí.

—      Não trago tanto troco assim comigo. Vou ter que ir ao caixa do bar.

—      Tudo bem, pode ir. Obrigado.

A mulher se afastou e ele voltou a concentrar sua atenção nas quatro moças da mesa próxima... apenas para constatar que elas estavam de pé, preparando-se para sair. Vestiam seus casacos, e duas delas já caminhavam na direção da porta.

Ele se ergueu, preparando-se para segui-las, mas imobilizou-se onde estava quando ouviu sua própria voz dizer: — Lindsey.

Ele não chamou aquele nome. Ninguém no bar o escutou. Ele foi o único a reagir, e sua reação foi de completa surpresa.

Por um momento ele hesitou, a mão apoiada sobre a mesa, a outra no espaldar da cadeira, semi-erguido. Enquanto ficou imobilizado naquela posição, as quatro moças deixaram o recinto. Bambi havia se tornado menos interessante para ele do que aquele nome Lindsey -—, de modo que ele voltou a sentar-se.

Ele não conhecia ninguém chamado Lindsey.

Ele tinha certeza de que nunca conhecera ninguém com esse nome.

Não fazia o menor sentido que de um momento para outro ele dissesse esse nome em voz alta.

Olhou pela janela, na direção da marina. Centenas de milhões de dólares consumidos para a gratificação de alguns egos estavam erguendo-se e baixando cadenciadamente de acordo com o balanço das ondas. O céu escuro parecia refletir o oceano, tão frio e impiedoso quanto a vastidão de águas que se estendia embaixo. O ar estava cheio de gotas de chuva que caíam formando milhões de riscos prateados e cinzentos, como se a natureza estivesse tentando costurar o céu e o mar um ao outro e com isso obliterar aquela delgada camada intermediária onde a vida se tornava possível. Tendo permanecido ao mundo dos vivos, depois ao mundo dos mortos, e sendo agora um dos mortos-vivos, Vassago se acostumara a ver a si próprio como o mais sofisticado dos seres, tendo passado por experiências de que nenhum outro homem nascido de mulher poderia se gabar. Tinha como certo que o mundo não poderia apresentar nada de novo aos seus olhos e não teria mais nada para lhe ensinar. E agora... aquilo. Primeiro o acesso que o dominara no automóvel: Tem alguma coisa lá fora... E agora Lindsey. As duas experiências eram diferentes, porque ele não escutara nenhuma voz em sua mente na segunda vez, e quando falara aquele nome tinha sido em sua voz normal, e não numa voz estranha. Mas os dois acontecimentos eram tão extraordinários que ele sabia que os dois deviam de estar ligados. Ao correr um olhar distraído ao longo dos barcos ancorados, da marina e da escuridão que reinava no resto da paisagem, ele sentiu que o mundo começava a parecer mais misterioso do que sempre tinha achado.

Pegou o copo e tomou um gole generoso de seu rum com Coca.

Ao pousar o copo de volta na mesa, disse:

— Lindsey.

O copo chocou-se desajeitadamente contra o tampo da mesa e quase virou, porque ele teve um sobressalto ao escutar aquilo. Não tinha dito aquele nome em voz alta para avaliar o seu som; na verdade, o nome simplesmente brotara de dentro dele, como na vez anterior, só que agora num tom um pouco sufocado e numa voz mais alta.

Interessante.

Aquele salão começou a lhe parecer um lugar levemente mágico.

Decidiu ficar por ali mais algum tempo e ver o que acontecia.

Quando a garçonete chegou trazendo o seu troco, ele disse:

—      Me dê outro drinque. — Estendeu-lhe uma nota de vinte dólares. Cobre aqui, e pode ficar com o troco.

Feliz da vida com aquela gorjeta, a mulher afastou-se.

Vassago virou-se para a janela outra vez, mas agora, em vez de olhar para a marina distante, fixou os olhos no seu próprio reflexo na superfície escura do vidro. As luzes suaves do recinto eram insuficientes para lhe dar uma imagem muito boa. Naquele espelho precário, seus óculos escuros apareciam sem nitidez, dando a impressão de dois enormes buracos escuros, como as órbitas de uma caveira. Aquela ilusão de ótica lhe deu prazer.

Num sussurro enrouquecido, baixo o suficiente para não chamar a atenção de outras pessoas, mas com mais urgência do que antes, ele disse:

—      Lindsey, não!    

Aquele impulso foi tão inesperado quanto os anteriores, mas não o inquietou. Já se adaptara com rapidez àqueles eventos inexplicáveis, e agora tentava apenas compreendê-los. Nada era capaz de surpreendê-lo por muito tempo. Afinal de contas, ele tinha ido até o Inferno e regressado de lá — tanto o Inferno verdadeiro quanto o que se ocultava no subterrâneo do parque abandonado —, de modo que nenhuma intrusão do fantástico na vida real seria capaz de causar-lhe medo ou espanto.

Pediu mais uma dose. Depois que se passou mais de uma hora sem que nada mais acontecesse, e quando a garçonete anunciou que iriam servir a, última rodada de drinques, ele saiu.

Aquela ansiedade continuava dentro dele, aquele impulso de assassinar... e de criar. Era um ardor em seu ventre que não tinha nada a ver com o rum, e uma tensão insuportável dentro do seu peito, como se no lugar do seu coração houvesse um mecanismo de relógio a que alguém tivesse dado corda até o ponto máximo, deixando-o a pique de estourar. Lamentou não ter seguido a moça com olhos de corça, aquela que apelidara de Bambi.

Será que teria deixado para remover suas orelhas quando estivesse morta, ou teria preferido fazê-lo ainda em vida?

Será que ela teria sido capaz de entender a proposta artística do seu ato de costurar os lábios dela sobre a sua boca cheia? Provavelmente não. Nenhuma das outras tinha demonstrado sensibilidade ou cultura suficientes para apreciar a singularidade do seu talento.

No estacionamento quase deserto, ele parou por algum tempo sob a chuva, deixando-se empapar por ela e extinguir um pouco do fogo de sua obsessão. Eram quase duas da manhã. Não lhe restava muito tempo para continuar caçando antes do amanhecer. Teria que retornar ao seu esconderijo sem levar nenhuma nova peça para incluir em sua coleção. Se queria dormir bem durante o dia para estar em plena forma na noite seguinte, teria que dar um jeito de apaziguar aquele impulso criativo que o dominava.

Daí a pouco, começou a tremer de frio. O calor interno de seu corpo foi dando lugar a um enorme frio. Ele ergueu uma mão, tocou o próprio rosto, listava frio, mas os dedos estavam mais frios ainda, como a mão de mármore de uma estátua de Davi que ele tinha admirado certa vez, num dos jardins do cemitério de Forest Lawn, quando fazia parte do mundo dos vivos.

Melhor assim.

Ao abrir a porta do carro, olhou em redor mais uma vez para a noite castigada pela chuva. Desta vez foi por vontade própria que disse em voz alta:

— Lindsey?...

Nenhuma resposta.

Quem quer que pudesse ser ela, ainda não tinha cruzado seu caminho.

Teria que ter paciência. Estava perplexo, e ao mesmo tempo curioso e fascinado. Mas o que quer que estivesse acontecendo teria que acontecer segundo seu próprio ritmo. Uma das virtudes dos mortos era a paciência, e embora ele ainda estivesse vivo, em parte, sabia que tinha de encontrar dentro de si próprio as forças para se equiparar ao estoicismo dos não-vivos.

 

Na manhã de terça-feira, uma hora antes do amanhecer, Lindsey não conseguia mais dormir. Todos os seus músculos e suas juntas doíam, e as poucas horas durante as quais tinha conseguido conciliar o sono não haviam contribuído muito para diminuir sua exaustão. Ela não queria mais sedativos. Incapaz de suportar uma demora tão longa, insistiu em ser levada para o quarto de Hatch. A enfermeira do horário entrou em contato com Jonas Nyebern, que continuava no hospital, e com a concordância dele colocou Lindsey numa cadeira de rodas e a conduziu para o 518.

Nyebern estava lá — o cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos. Os lençóis da cama perto da porta não estavam revirados, mas exibiam marcas, como se o médico tivesse se limitado a esticar o corpo ali uma ou outra vez ao longo da noite.

Àquela altura Lindsey já tinha aprendido o bastante sobre Nyebern — parte com ele próprio, parte com as enfermeiras — para saber que ele era uma espécie de figura lendária. Tinha sido um eficiente cirurgião cardiovascular, mas nos últimos dois anos, após perder a esposa e os dois filhos num terrível acidente, dedicara cada vez menos tempo à cirurgia e mais à medicina de ressuscitação. Seu envolvimento com aquele trabalho era demasiado intenso para poder ser considerado simples dedicação. Era algo quase obsessivo. Numa sociedade que estava lutando para emergir de três décadas de auto-indulgência e egoísmo, era fácil admirar um homem como Nyebern, tão profundamente empenhado num esforço altruísta; e todos de fato pareciam admirá-lo.

Lindsey já o admirava; afinal, ele salvara a vida de Hatch.

Com sua fadiga sendo revelada apenas pelos olhos injetados de sangue e pela cama parcialmente desfeita, Nyebern afastou num gesto rápido a cortina que protegia a cama ao lado da janela e, segurando nas alças da cadeira de rodas de Lindsey, empurrou-a para perto do marido.

A tempestade da noite anterior já tinha amainado. O sol da manhã brilhava diagonalmente através das persianas, gravando sobre a brancura dos lençóis um padrão listrado com faixas de sombra e de luz dourada.

Hatch estava deitado por baixo daquela coberta que se assemelhava à pele de um tigre; tinha apenas o rosto e um braço do lado de fora. Embora aquelas linhas paralelas também estivessem projetadas sobre o seu rosto, não conseguiam esconder sua extrema palidez. Sentada na cadeira de rodas, olhando para Hatch de um ângulo estranho através do gradil lateral da cama, Lindsey sentiu um ligeiro assomo de náusea à visão do enorme hematoma e da ferida suturada que se estendia através de sua testa. Se não fosse pela prova do monitor cardíaco ligado e pelo movimento apenas perceptível do peito de Hatch erguendo-se e baixando ao respirar, ela teria certeza de que ele estava morto.

Mas ele estava vivo, vivo, e ela sentiu um aperto no peito e na garganta, um prenuncio de lágrimas, tão infalível quanto o relâmpago é prenuncio de trovão. Aquela vontade de chorar a surpreendeu, fazendo sua respiração se acelerar.

Desde aquele instante em que o Honda tombara na ravina, durante todo o suplício físico e emocional da noite anterior, Lindsey não tinha chorado nem uma vez sequer. Ela não se vangloriava de ser estóica ou algo semelhante era o seu jeito de ser, nada mais.

Não, não... melhor riscar isso.

Era o seu jeito de ser a partir da época da longa batalha de Jimmy contra o câncer. Do dia em que o diagnóstico foi revelado até o final de tudo, o menino levara nove meses para morrer, o mesmo tempo que ela levara para formá-lo no interior do seu ventre. Durante cada um dos dias daquela morte lenta, Lindsey tinha desejado não fazer outra coisa senão se enrodilhar sobre si própria na cama e chorar, apenas deixar que as lágrimas brotassem até esgotar toda a umidade de seu corpo, ressecar, pulverizar-se em pedacinhos, c cessar de existir. Ela havia chorado, de início. Mas suas lágrimas tinham assustado Jimmy, e ela percebeu que qualquer exteriorização do que lhe acontecia no íntimo não seria outra coisa senão um processo inconsciente de atrair piedade para si própria. Mesmo quando chorava às escondidas, Jimmy adivinhava: ele sempre tinha sido sensível e perceptivo, mais do que o normal da sua idade, e a doença parecia torná-lo ainda mais consciente de tudo que se passava em redor. A teoria imunológica contemporânea dava uma importância considerável a uma atitude positiva diante do câncer, considerando o riso e a autoconfiança como armas fundamentais no combate à doença. Assim, ela tinha aprendido a reprimir seu terror diante da perspectiva de perdê-lo. Tinha lhe dado riso, amor, confiança, coragem — e todas as razões para jamais duvidar de que acabaria vencendo a enfermidade.

Quando Jimmy morreu, Lindsey tinha aprendido tão bem a reprimir as lágrimas que simplesmente não era capaz de chamá-las de volta. Desprovida da válvula de escape que o choro poderia ter lhe proporcionado, ela acabou entrando em parafuso, mergulhando num estado de profundo desespero. Perdeu peso — cinco quilos, oito, dez — até ficar pálida e emaciada. Não se dava mais o trabalho de lavar o cabelo ou cuidar da aparência ou passar as roupas. Estava convencida de que tinha falhado a Jimmy, de que o tinha levado a confiar nela, e depois não tinha sido especial o bastante a ponto de ajudá-lo a vencer a doença; portanto, começou a acreditar que não merecia o prazer proporcionado pela comida, pela boa aparência, por um livro, um filme, um pouco de música... qualquer coisa. Depois de um certo tempo, com muita paciência e muito carinho, Hatch a ajudou a ver que essa insistência em assumir a responsabilidade por um ato cego do Destino acabava sendo uma doença, tanto quanto o câncer que vitimara Jimmy.

Embora ainda incapaz de chorar, ela havia conseguido sair do poço profundo que cavara para si própria. Desde essa época, no entanto, permanecera ali, bem na borda, equilibrando-se precariamente.

Agora, aquelas primeiras lágrimas depois de tanto, tanto tempo eram surpreendentes, inquietantes. Seus olhos ardiam, queimavam. Sua visão ficou embaçada. Incrédula, ela ergueu uma mão trêmula para limpar as gotas ardentes que lhe escorriam rosto abaixo.

Nyebern puxou um lenço de papel de uma caixa sobre a mesa-de-cabeceira e o estendeu para ela.

Esse pequeno gesto de delicadeza teve sobre ela um efeito desproporcional, e ela começou a soluçar.

—      Lindsey...

A garganta de Hatch estava inflamada, depois de tudo por que tinha passado, tornando sua voz rouca, pouco mais do que um sussurro. Mas ela percebeu de imediato que fora ele, e não Nyebern, quem lhe dirigira a palavra.

Ela enxugou rapidamente os olhos com o lenço de papel e se inclinou para a frente, até que sua testa tocou a fria grade de metal da cama. O rosto de Hatch estava virado na direção dela. Seus olhos estavam abertos e pareciam lúcidos e alerta.

—      Lindsey...

Ele tinha encontrado forças suficientes para retirar a mão direita de sob as cobertas e estendê-la.

Lindsey enfiou o braço por entre as barras do gradil e segurou a mão de Hatch.

A pele dele estava seca. A palma da mão estava coberta por uma bandagem. Ele estava fraco demais, e conseguiu apenas dar um leve aperto nos dedos dela; mas sua mão estava quente, abençoadamente cálida, e estava viva.

—      Está chorando... — disse Hatch.

Sim, ela chorava mais do que nunca, uma torrente de lágrimas, mas ao mesmo tempo sorria. A dor não tinha sido capaz de libertar suas lágrimas durante aqueles cinco anos terríveis, mas finalmente a alegria tinha sido capaz de fazê-lo. Chorava de alegria, e aquilo lhe parecia uma coisa correta, uma coisa saudável. Ela sentiu que tensões longamente acumuladas dentro de si iam se afrouxando, como se antigas feridas fossem curadas, somente porque Hatch vivia, tinha morrido, mas agora estava vivo novamente.

Se um milagre não fosse capaz de libertar um coração, o que mais seria?

—      Eu te amo — disse Hatch.

A torrente de lágrimas transformou-se num dilúvio, oh, Deus, um oceano, e ela se ouviu balbuciando: “Te amo também”; a seguir sentiu que Nyebern pousava a mão no seu ombro, num gesto reconfortante, uma outra pequena delicadeza que naquele instante pareceu imensa, fazendo-a soluçar ainda mais. Mas estava rindo por entre os soluços e viu que Hatch sorria também.

— Está tudo bem — disse ele, em voz rouca. — O pior... já passou. O pior... ficou para trás... atrás de nós.

 

Durante o dia, quando se mantinha longe da luz do sol, Vassago deixava seu Camaro estacionado numa garagem subterrânea que antigamente tinha sido usada para abrigar os bondes elétricos, os carrinhos, e os caminhões usados pelas equipes de manutenção do parque. Nenhum daqueles veículos estava mais ali: todos tinham sido levados embora pelos credores. O Camaro ficava sozinho no meio daquele espaço úmido e sem janelas.

Da garagem, Vassago desceu por um largo lanço de escadas — há muitos anos que os elevadores não funcionavam — até um nível ainda mais profundo. Todo o parque de diversões tinha sido construído sobre um vasto subterrâneo, onde ficavam abrigados os postos de controle da segurança, com dezenas de monitores de vídeo capazes de mostrar cada trecho do parque; o centro de controle dos brinquedos mecânicos, espécie de ninho high-tech repleto de computadores; oficinas elétricas e carpintarias; uma lanchonete para os funcionários; armários e vestiário para as centenas de empregados que trabalhavam ali em cada um dos turnos; uma enfermaria para casos de emergência; escritórios; e muito mais.

Vassago cruzou sem hesitação a porta que levava àquele piso e continuou a descer até os níveis mais profundos das instalações. Mesmo naquela região seca do sul da Califórnia, as paredes de concreto, àquela profundidade, estavam cobertas de um limo esverdeado. Nenhum rato fugiu correndo à sua passagem; aquilo o havia surpreendido na primeira vez em que descera ali, muitos meses atrás. Nas semanas seguintes, à medida que começara a percorrer os corredores tenebrosos e os aposentos abandonados daquela imensa estrutura, nenhum rato tinha aparecido, embora ele não tivesse se incomodado em dividir o espaço com eles. Gostava de ratos. Eram comedores de carniça, viviam se divertindo no meio da podridão e agiam como funcionários zelosos limpando tudo após a passagem da morte. Talvez nunca tivessem invadido os porões daquele parque porque depois do fechamento as instalações tinham sido praticamente esvaziadas. Tudo que restava era concreto, plástico e metal — nada biodegradável que pudesse lhes servir de alimento; muita poeira, claro, e muito papel apodrecido, mas afora isso o lugar era tão deserto quanto uma estação orbital e sem nenhum interesse para roedores.

Mais cedo ou mais tarde, algum rato poderia acabar encontrando a sua coleção no Inferno subterrâneo, alimentar-se um pouco e trazer outros para banquetear-se. Então ele passaria a ter alguma companhia durante as horas em que o sol brilhava e ele ficava impossibilitado de sair.

Ao terminar de descer o quarto e último lanço de escadas, dois andares abaixo da garagem subterrânea, Vassago cruzou um portal. Aporta tinha sido arrancada, do mesmo modo que praticamente todas as outras dali, por vagabundos que vendiam a madeira mais adiante.

Começava ali um túnel com seis metros de largura. O chão era liso, com uma faixa amarela pintada ao longo da parte central, como se fosse uma rodovia — o que de certa forma era. As paredes de concreto se encurvavam para cima, formando um teto abaulado.

Parte daquele piso inferior era ocupada por depósitos que em outros tempos tinham abrigado enormes quantidades de material. Copos plásticos, embalagens de hambúrguer, caixinhas de papelão para pipocas e batatas fritas, guardanapos de papel, ketchup e mostarda em embalagens longa-vida; tudo que seria utilizado pelas várias lanchonetes espalhadas pelo parque. E material de escritório para o setor de administração. Caixas de fertilizante e latas de inseticida para a manutenção dos gramados. Tudo aquilo — e todo o restante que aquela cidade em miniatura utilizava — tinha sido removido anos atrás. Os depósitos estavam vazios.

Uma intrincada rede de túneis fazia a ligação entre os depósitos e os elevadores que conduziam o material para a parte superior, até as instalações do parque e os restaurantes. Assim, era possível fazer a entrega de mercadorias e a entrada e saída de funcionários distante das vistas dos freqüentadores do parque, evitando quebrar a ilusão que eles pagavam para experimentar. A cada trinta metros havia um número pintado nas paredes do túnel, para facilitar a orientação, e em cada interseção havia placas com setas indicando os diversos setores:

                      ß                             CASA MAL - ASSOMBRADA

             ß          RESTAURANTE DO CHALÉ ALPINO

                                             RODA DO COSMOS à

                                               MONTANHA DO PÉ - GRANDE à

 

Vassago virou à direita na esquina seguinte, depois à esquerda, depois à direita novamente. Mesmo que sua extraordinária capacidade visual não lhe permitisse enxergar no meio daquela treva impenetrável, ele teria sido capaz de seguir sem errar na direção que pretendia, pois àquela altura já conhecia as artérias ressecadas daquele parque morto tão bem quanto conhecia seu próprio corpo.

Chegou por fim a uma placa — MECANISMO DO TÚNEL DO TERROR — perto de um elevador. As portas do elevador tinham sido retiradas, assim como a própria cabine e o mecanismo de tração; teriam sido revendidos a outra firma, ou até mesmo como ferro velho. Mas o poço do elevador permanecia, descendo mais de um metro abaixo do piso do túnel e subindo para o alto ao longo de cinco andares mergulhados na escuridão, até o piso que abrigava o setor de segurança e administração, depois o piso inferior do parque propriamente dito, onde Vassago tinha instalado sua coleção, e depois o segundo c o terceiro pisos das instalações do parque.

Ele deslizou para dentro do poço vazio, deixando-se cair sobre o velho colchão que colocara ali para tornar mais confortável seu esconderijo.

Erguendo os olhos para o alto, podia discernir apenas uns dois pisos, naquele poço mergulhado em trevas. As barras enferrujadas de uma escada de serviço subiam ao longo de uma das paredes do poço, até sumirem também na escuridão.

Subindo por aquela escada até o andar inferior do parque, ele iria dar num aposento de serviço situado por trás da parede do Inferno; era por ali que se tinha acesso para fazer reparos no mecanismo condutor das gôndolas antes do parque ser desativado.

Naquele aposento havia uma porta, disfarçada na parte lateral de uma das falsas rochas de concreto, que se abria para o interior do lago, agora vazio, de onde se elevava a enorme estátua de Lúcifer.

Ele estava agora no ponto mais profundo de seu esconderijo, dois andares — e mais um metro — abaixo do Inferno. Ali se sentia em casa, pelo menos até onde isso lhe era possível. Lá fora, no mundo dos vivos, ele se movia com a segurança de quem se sentia um dos mestres secretos do Universo, mas nunca conseguia achar que estava em seu próprio ambiente.

Embora não tivesse mais medo de coisa alguma, uma corrente contínua de ansiedade percorria seu corpo cada minuto que ele passava longe dos corredores desolados e das câmaras sepulcrais do seu esconderijo.

Depois de descansar por algum tempo, ele abriu a tampa de uma caixa de plástico reforçado, coberta por dentro com isopor, onde guardava latas de cerveja não-alcoólica. Sempre tinha gostado dessa cerveja. Trazer gelo para colocar dentro do recipiente daria muito trabalho, de modo que ele sempre a bebia morna; mas não ligava.

Também guardava ali pacotes de doces e salgadinhos, caixas de manteiga de amendoim, um pacote de batatas chips, biscoitos. Depois que ele penetrara no mundo dos mortos, algo de estranho acontecera ao seu metabolismo; ele parecia ter-se tornado capaz de comer o que bem entendesse, sem que isso o fizesse aumentar ou diminuir de peso. E (por alguma razão que ele não conseguia entender) as únicas coisas que tinha vontade de comer eram aquelas de que gostava quando garoto.

Abriu uma lata de cerveja morna e tomou um gole prolongado. Rasgou um pacote de biscoitos e retirou um. Com todo cuidado, separou os dois biscoitos de chocolate, sem parti-los, e olhou a parte interior deles: o recheio branco tinha ficado todo no biscoito que ele segurava na mão esquerda. Isso queria dizer que quando ele crescesse seria rico e famoso. Se tivesse ficado no da mão direita, significaria que ficaria famoso, mas não necessariamente rico, o que queria dizer que ele poderia tornar-se inúmeras coisas, desde cantor de rock a assassino de algum presidente dos Estados Unidos. Se o recheio ficasse dividido entre as duas metades, isso queria dizer que ele teria de comer outro biscoito — ou correr o risco de não ter futuro algum.

Enquanto lambia o recheio adocicado, deixando-o dissolver-se devagar na sua língua, ficou olhando para o alto do poço do elevador, pensando como era engraçado ter escolhido o parque de diversões abandonado para lhe servir de esconderijo, quando o mundo oferecia um número tão grande de lugares escuros e desertos. Ele freqüentara aquele local algumas vezes quando garoto, na época em que o parque estava em pleno funcionamento; a última vez fora oito anos atrás, quando tinha doze anos, menos de um ano antes do parque falir e fechar as portas. Naquela noite, a noite mais especial de sua infância, ele cometera ali o seu primeiro assassinato, dando início ao seu longo romance com a morte. E agora estava de volta.

Terminou de lamber o recheio.

Comeu o primeiro biscoito. Depois, o segundo.

Pegou outro de dentro do saco.

Bebeu mais um gole de cerveja.

Pensou como seria bom estar morto. Morto de verdade. Seria o único modo de começar a existir no Outro Lado.

— Se cada desejo que há no mundo fosse uma vaca — disse em voz alta —, a gente poderia comer bife todos os dias.

Comeu o biscoito, terminou de beber a cerveja e se estendeu sobre o colchão, pronto para adormecer.

Logo dormia profundamente, e começou a sonhar. Eram sonhos estranhos, onde apareciam pessoas que ele nunca vira, lugares onde nunca tinha estado, acontecimentos que ele desconhecia. Água, em redor dele, envolvendo-o por completo. Pedaços de gelo flutuando, e a queda furiosa da neve por entre a ventania. Uma mulher numa cadeira de rodas, rindo e chorando ao mesmo tempo. Uma cama de hospital, iluminada por faixas paralelas de luz e sombra. A mulher na cadeira de rodas, rindo e chorando. A mulher na cadeira de rodas, rindo. A mulher na cadeira de rodas. A mulher.

 

                                                   DE VOLTA À VIDA

 

                         Nos campos da vida, uma colheita

                         às vezes se dá fora de estação,

                         quando pensamos que a terra está cansada

                         e não vemos razão nenhuma

                         para ir trabalhar ao romper da aurora,

                         fatigando nossos músculos.

                         O inverno veio, o outono se foi,

                         é tempo de repousar, de repousar.

                         Mas sob os campos gelados do inverno

                         esperam as sementes adormecidas das estações

                         ainda por nascer, e assim o coração

                         mantém a esperança que cura as feridas mais cruéis.

                         Nos campos da vida, uma colheita...

                                                    LIVRO DAS LAMENTAÇÕES

 

Hatch sentia como se o tempo tivesse caminhado às avessas até o século XIV e ele fosse um infiel sendo julgado por um tribunal da Inquisição.

Dois padres estavam presentes no escritório do advogado. Embora fosse de estatura apenas mediana, o padre Jiminez tinha a imponência de alguém muito mais alto, com seus cabelos negros e olhos mais negros ainda, vestindo um terno de modelo eclesiástico com colarinho romano. Estava de pé, as costas viradas para a janela. As palmeiras ondeantes e o céu azul de Newport Beach por trás dele não bastavam para iluminar a atmosfera no escritório forrado de mogno e cheio de móveis antigos onde estavam reunidos, e a silhueta de Jiminez, recortada contra a luz, parecia um vulto ameaçador. O padre Duran, ainda na casa dos vinte, provavelmente uns 25 anos mais novo do que Jiminez, era magro, com feições ascéticas e rosto pálido. Parecia absorvido no exame de uma coleção de vasos, incensários e tigelas Satsuma, do período Meiji, enfileirados nas prateleiras de um armário na extremidade oposta do escritório; mas Hatch não podia evitar o pensamento de que Duran apenas fingia interesse nas porcelanas japonesas e, na verdade, olhava sorrateiramente para ele e Lindsey, sentados num sofá Luís XVI.

Havia também duas freiras presentes, e aos olhos de Hatch elas pareciam mais ameaçadoras do que os padres. Pertenciam a uma ordem que dava preferência ao uso de hábitos imponentes e meio fora de moda; usavam toucas engomadas, e aquela moldura oval de linho branca fazia seus rostos parecerem excepcionalmente severos. A irmã Imaculada, a encarregada do Lar São Tomás para Crianças, tinha a aparência de uma enorme e negra ave de rapina pousada sobre o braço do lado direito do sofá, e Hatch não teria ficado surpreso se ela de súbito soltasse um grito agudo, levantasse vôo tatalando as longas mangas do seu hábito e, depois de esvoaçar em torno do salão, mergulhasse sobre ele com a intenção de arrancar seu nariz com uma bicada. Sua assistente executiva era uma freira um pouco mais jovem e de aparência dinâmica, que caminhava sem parar de um lado para outro e tinha um olhar mais penetrante do que um feixe de raios laser. Hatch esquecera momentaneamente seu nome e pensava nela como a Freira Sem Nome, porque algo nela lhe lembrava Clint Eastwood no papel do Estranho Sem Nome, nos velhos faroestes italianos.

Estava sendo injusto, e mais do que injusto: estava sendo irracional, devido a uma tensão nervosa. Todas aquelas pessoas no escritório do advogado estavam ali para ajudá-lo, a ele e a Lindsey. O padre Jiminez, superior da igreja de São Tomás e responsável pela maior parte da arrecadação de fundos para o orfanato dirigido pela irmã Imaculada, não era de fato mais ameaçador do que o padre interpretado por Bing Crosby em O Bom Pastor, com um ligeiro toque latino; e padre Duran parecia ser um homem tímido e de temperamento afável. E, na verdade, irmã Imaculada parecia-se tanto com uma ave de rapina quanto com uma dançarina de strip-tease, e a Freira Sem Nome tinha um sorriso permanente e espontâneo, que compensava largamente qualquer emoção negativa que alguém imaginasse ler em seu olhar penetrante. Os padres e as freiras tentavam manter acesa a conversação; eram Hatch e Lindsey, na verdade, que estavam tensos demais para se comportarem com a descontração que aquele encontro requeria.

Havia muita coisa em jogo. Era isso que deixava Hatch tenso, o que não era comum, visto que habitualmente ele era o homem mais jovial que se poderia encontrar em qualquer circunstância que não um concurso de bebedores de cerveja. Ele queria que aquele encontro transcorresse bem, porque ele e Lindsey estavam jogando ali sua felicidade, seu futuro e o sucesso de sua nova vida.

Bem, isso também não era exatamente verdade. Estava mais uma vez exagerando.

Mas não dava para evitar.

Desde que tinha sido ressuscitado, sete semanas atrás, ele e Lindsey passaram juntos por uma imensa transformação emocional. Aquela longa e sufocante maré de desespero que se abatera sobre eles após a morte de Jimmy acabara se dissipando. Perceberam que continuavam juntos apenas devido a um milagre da medicina. Não mostrar gratidão por aquela nova chance, não desfrutar integralmente o tempo extra da vida que lhes fora proporcionado teria sido uma ingratidão para com Deus e com a medicina. Mais do que isso, teria sido uma estupidez. Estava certo que tivessem lamentado a morte de Jimmy, mas houvera um momento a partir do qual haviam permitido que a dor se transformasse em autopiedade e em depressão crônica, e isso não estava certo de jeito nenhum.

Tinha sido necessária a morte e a ressurreição de Hatch, e a quase morte de Lindsey, para sacudi-los e arrancá-los daquela lamentável mania depressiva, o que acabou lhe mostrando que ele era mais obstinado do que jamais pensara. O mais importante porém é que tinham sido arrancados daquele torpor e estavam determinados agora a viver uma nova vida.

Para os dois, viver uma nova vida significava ter novamente uma criança em casa. O desejo por uma nova criança não era uma mera tentativa sentimental de recapturar algo da atmosfera de sua vida passada, nem era uma ansiedade neurótica em substituir Jimmy para poder superar o impacto de sua morte. Eles simplesmente adoravam crianças; tinham jeito para cuidar delas; e o ato de se dedicar a uma criança era para ambos extremamente gratificante.

Precisavam fazer uma adoção. Essa era a questão. A gravidez de Lindsey fora problemática, e o parto tinha sido anormalmente longo e doloroso. Jimmy nascera vivo por pouco e, logo após o parto, os médicos informaram a Lindsey que ela não seria capaz de voltar a ter filhos.

A Freira Sem Nome parou de caminhar de um lado para outro, puxou para cima a longa manga do hábito e olhou seu relógio de pulso.

—      Talvez eu deva ir ver o que está havendo com ela — disse.

—      Dê um pouco mais de tempo à criança — advertiu a irmã Imaculada calmamente. Com a mão rechonchuda ela alisou as pregas do hábito. — Se for à procura dela, ela vai achar que não confiamos na sua capacidade de cuidar de si própria. No banheiro feminino não há nada que ela não consiga usar sozinha. Aliás, duvido que tenha desejado usar o banheiro. Acho que queria apenas ficar sozinha alguns minutos antes deste encontro, para acalmar os nervos.

Virando-se para Lindsey e Hatch, o padre Jiminez disse:

—      Desculpem essa demora.

—      Está tudo bem — disse Hatch, remexendo-se no sofá. — Nós entendemos. Também estamos meio nervosos.

Suas pesquisas iniciais tinham demonstrado que um grande número — aliás, um verdadeiro exército — de casais estavam na fila à espera de crianças para adoção. Alguns já esperavam há cerca de dois anos. Depois de        cinco anos sem um filho, Hatch e Lindsey não teriam paciência para ir até o final da fila.

Sobraram-lhes apenas duas opções; a primeira delas era tentar adotar uma criança de outra raça: negra, asiática ou hispânica. A maioria dos pretendentes à adoção eram brancos, e esperavam por uma criança branca que pudesse passar como sendo sua, enquanto incontáveis órfãos de minorias étnicas viam-se condenados a passar a vida inteira em instituições, sem realizar seu sonho de pertencer a uma família. A cor da pele nada significava para Lindsey e Hatch. Ficariam felizes com qualquer criança, independente de sua origem. Mas nos últimos tempos um certo bom caratismo equivocado, em nome dos direitos civis, tinha conduzido à promulgação de uma série de leis destinadas a dificultar adoções inter-raciais, leis que a burocracia governamental teimava em cumprir com irritante fidelidade. A teoria por trás disso era a de que nenhuma criança poderia ser feliz se fosse criada fora de seu grupo étnico, o que era uma espécie de absurdo elitista — e de racismo às avessas — que sociólogos e acadêmicos formulavam sem se dar o trabalho de consultar as crianças a quem afirmavam querer proteger.

A segunda opção era adotar uma criança deficiente. O número de tais crianças na fila de adoção era muito menor do que o de crianças de minorias étnicas — mesmo incluindo-se aí as crianças consideradas tecnicamente órfãs, aquelas cujos pais estavam vivos em alguma parte, mas que tinham sido abandonadas ou entregues à igreja devido a sua deficiência. Por outro lado, embora em número mais reduzido, havia menor demanda por elas do que pelas crianças de outros grupos raciais; elas tinham a vantagem de estar naquele momento fora do raio de interesse de grupos de pressão que pudessem estar ansiosos para instituir normas “politicamente corretas” no modo de lidar com elas. Mas, sem dúvida, cedo ou tarde um batalhão de idiotas iria garantir a aprovação de leis proibindo a adoção de crianças surdas, louras e de olhos verdes por pais que não fossem também surdos, louros e de olhos verdes; mas Hatch e Lindsey tiveram a sorte de dar entrada ao seu processo antes que esse caos começasse a imperar.

Às vezes, quando Hatch pensava nos labirintos burocráticos que tivera de enfrentar seis semanas atrás ao dar início ao processo de adoção, ele sentia impulsos de retornar àquelas agências, agarrar pela garganta as assistentes sociais que tinham colocado tantos obstáculos diante deles e enfiar um pouco de bom senso pelas suas cabeças adentro. E, quem sabe, se os padres e as freiras do Lar São Tomás tivessem conhecimento desses seus impulsos, talvez ficassem mais propensos a deixar aos cuidados dele uma de suas crianças.

—      Mas, depois de tudo que passou... você não tem sofrido nenhuma sequela? Está se alimentando bem, dormindo bem?... — perguntou o padre Jiminez, numa clara tentativa de preencher com um pouco de conversa o tempo de espera até a chegada da criança; evidentemente ele não estava questionando a afirmação de Hatch, de que gozava de boa saúde.

Lindsey, cujo temperamento era mais nervoso do que o de Hatch e usualmente tinha reações mais intempestivas, replicou de imediato:

—      Hatch está no ponto mais alto da curva de recuperação, em se tratando de pacientes reanimados. O Dr. Nyebern está entusiasmado com a recuperação dele e lhe deu um atestado de saúde perfeita. Está anexado à nossa documentação.

Hatch procurou suavizar um pouco as coisas, antes que os padres e as freiras começassem a se perguntar por que razão Lindsey estava sendo tão veemente.

—      A verdade é que nunca me senti tão bem — disse. — Aliás, eu recomendaria a todo mundo uma mortezinha de vez em quando... Ajuda a descontrair e a ter uma perspectiva diferente sobre a vida.

Todos riram polidamente.

Na verdade, Hatch estava com excelente saúde. Durante os quatro dias seguintes à reanimação, ele tinha sofrido de fraqueza, tonturas, náusea, letargia e momentos de amnésia. Mas logo suas forças, sua memória e suas funções intelectuais retornaram cem por cento; fazia cerca de sete semanas que vinha levando uma vida normal.

A referência casual de Jiminez ao seu sono tinha lhe causado um certo desconforto, e provavelmente fora isso que havia despertado a reação de Lindsey. Ele não tinha sido totalmente honesto ao deixar implícito que estava dormindo bem; mas os sonhos esquisitos que vinha tendo e o estranho efeito emocional que provocavam nele não pareciam nada de mais sério, nem precisavam ser comentados ali. De fato, ele não achou que estivesse mentindo ao padre.

Estavam tão próximos de começar uma vida nova que ele não queria correr o risco de estragar tudo dizendo algo inadequado. As entidades católicas que trabalhavam com adoção de crianças eram bastante cuidadosas com tudo que faziam, mas não eram nem de longe tão lentas e burocráticas quanto as entidades públicas — principalmente quando os pretendentes à adoção eram membros respeitáveis da comunidade, como Hatch e Lindsey, e quando a criança pretendida por eles era uma criança deficiente cuja única outra opção parecia ser a vida inteira passada no orfanato. O futuro poderia começar para todos eles naquela mesma semana, contanto que não dessem motivos para que as pessoas do São Tomás, que já os viam com simpatia, pensassem em voltar atrás.

Hatch estava surpreendido com a intensidade do seu desejo de ser novamente pai. Sentia-se como se tivesse estado vivo apenas pela metade, na melhor das hipóteses, durante os últimos cinco anos. Agora, de repente, todas as energias não utilizadas durante aquela meia década pareciam estar circulando dentro dele, deixando-o mais vibrante; as cores pareciam mais vivas, os sons mais melodiosos e os sentimentos mais intensos, enchendo-o com um desejo intenso de ir, de vir, de fazer, de ver, de existir. E de ser, uma vez mais, o pai de alguém.

—      Andei pensando se poderia lhe fazer uma pergunta — disse o padre Duran para Hatch, dando as costas à coleção de porcelanas. Sua fisionomia pálida e seus traços agudos ganhavam uma dimensão mais viva graças aos olhos grandes, cheios de calor e de inteligência, parecendo ainda maiores por trás das lentes espessas dos óculos. — É uma coisa meio pessoal, por isso não sei se devo.

—      Oh, por favor — disse Hatch. — Fique à vontade.

O jovem padre continuou:

— Algumas pessoas que estiveram clinicamente mortas por um breve período de tempo, um ou dois minutos, relataram que... bem... que passaram por uma certa experiência, bastante semelhante em todos os casos...

—      A impressão de estar sendo arrastado ao longo de um túnel, com uma luz muito intensa na extremidade oposta — disse Hatch. — E uma enorme sensação de paz, como quem está finalmente voltando para casa?...

—      Sim — disse Duran, com os olhos brilhando. — É exatamente isso.

O padre Jiminez e as freiras fitavam Hatch com um novo interesse, e ele desejou poder dizer-lhes o que eles evidentemente esperavam escutar. Olhou para Lindsey sentada ao seu lado no sofá, e em seguida para os outros.

—      Sinto muito — disse —, mas nada disso aconteceu comigo.

Os ombros do padre Duran descaíram um pouco.

—      Então, o que aconteceu?

Hatch abanou a cabeça.

—      Nada; mas eu bem que gostaria. Teria sido algo... reconfortante, não é mesmo? Levando isso em conta, acho que minha morte foi um tanto tediosa. Não consigo me lembrar de coisa alguma desde o momento em que desmaiei, logo quando o carro virou, até acordar horas depois numa cama de hospital, a noite, com a chuva batendo na vidraça...

Nesse momento, a narrativa de Hatch foi interrompida pela entrada de Salvatore Gujilio, em cujo escritório estavam reunidos. Gujilio — um homem alto e corpulento — entrou no recinto como sempre o fazia: empurrando a porta, dando passos largos, batendo a porta atrás de si num gesto teatral. Com a determinação implacável de uma verdadeira força da natureza — algo como um furacão dotado de autodisciplina — ele circulou pela sala, cumprimentando um por um. Hatch não teria ficado surpreso se visse de súbito a mobília se elevando no ar e os quadros se desprendendo da parede à simples passagem do advogado: ele parecia dotado de energia bastante para fazer levitar os objetos no raio de alguns metros ao seu redor.

Sem parar de tagarelar um instante sequer, Gujilio deu um abraço de urso no padre Jiminez, trocou um vigoroso aperto de mãos com Duran e fez diante de cada uma das freiras uma reverência, com a sinceridade de um monarquista fanático cumprimentando membros da família real. Gujilio era uma dessas pessoas que se apegam às outras como se fossem duas peças de cerâmica grudadas com supercola; já no segundo encontro com Lindsey ele a tinha cumprimentado com um enorme abraço. Ela simpatizara com ele e o abraço não chegara a incomodá-la, mas depois disse a Hatch que se sentira como uma criança abraçando um lutador japonês de sumo. “Deus do céu”, disse ela, “ele me ergueu no ar!” Desta vez, ela permaneceu sentada no sofá e trocou com o advogado um simples aperto de mãos.

Hatch se ergueu e estendeu a mão direita, pronto para vê-la desaparecer dentro da mão do outro, como um pedaço de alimento atirado no interior de um caldo de cultura cheio de amebas famintas — e foi exatamente o que aconteceu. Gujilio, como sempre, tomou a mão de Hatch entre as suas, e já que cada uma delas era quase duas vezes maior do que a mão de um homem normal, Hatch na verdade não as apertou: limitou-se a deixar-se apertar.

—      Que dia maravilhoso — disse Gujilio —, um dia especial. Espero, para o bem de todos, que tudo corra às mil maravilhas.

Todas as semanas o advogado dedicava algumas horas de trabalho à Igreja de São Tomás e ao orfanato. Parecia extrair uma grande satisfação dessa tarefa de ajudar crianças deficientes a encontrar pais adotivos.

—      Regina foi ao banheiro das senhoras mas já vem — disse ele. — Parou para trocar umas palavrinhas com a recepcionista, e mais nada. Acho que ela está um pouquinho nervosa e vai se demorar até quando for possível; mas não vai ser muito.

Hatch olhou para Lindsey. Ela deu um sorriso nervoso e tomou-lhe a mão.

—      Bem, vocês entendem — disse Gujilio, com sua enorme silhueta avultando diante deles como um daqueles enormes balões coloridos das paradas do Dia de Ação de Graças. — O objetivo desta reunião de hoje é fazer com que vocês conheçam Regina, e ela conheça vocês. Ninguém vai tomar nenhuma decisão hoje, aqui. Vocês vão para casa, pensar no assunto, e amanhã ou depois de amanhã dão a sua resposta. A mesma coisa vale para ela. Ela tem um dia para pensar no assunto.

—      É um grande passo — disse o padre Jiminez.

—      Um passo enorme — concordou irmã Imaculada.

Apertando a mão de Hatch, Lindsey murmurou:

—      Nós entendemos.

A Freira Sem Nome foi até a porta, abriu-a e olhou para o corredor. Evidentemente, Regina ainda não estava à vista. Rodeando a escrivaninha, Gujilio disse:

—      Ela já está vindo, tenho certeza.

O advogado enfiou seu corpanzil na cadeira giratória por trás de sua mesa, mas era tão grande que mesmo sentado tinha quase a mesma altura de quando estava de pé. Seu escritório era totalmente mobiliado com antiguidades, e a escrivaninha era na verdade uma mesa Napoleão III, tão refinada que Hatch desejou ter uma idêntica na vitrine de sua loja. Reforçado com metal dourado, o topo da escrivaninha, feito de algum raro tipo de madeira, formava uma panóplia central com motivos musicais circundados por um friso reproduzindo uma folhagem estilizada. O conjunto inteiro se apoiava em pernas cilíndricas, onde o bronze dourado se moldava em forma de folhas de acanto, e convergiam para a parte central, onde um grande “X” com adornos de metal dourado exibia um acabamento de bronze reproduzindo a tampa de uma urna, montada sobre pés delicados. Cada vez que tinham se reunido ali, o enorme peso e o perigoso nível de energia cinética acumulado no corpo de Gujilio faziam com que a escrivaninha e todos os outros móveis parecessem extremamente frágeis, e correndo o risco constante de serem despedaçados a um movimento mais brusco. Depois de alguns minutos, no entanto, ele e a sala pareciam envolvidos por uma tal harmonia que as outras pessoas chegavam a ter a estranha impressão de que Gujilio reproduzira ali um tipo de ambiente que lhe fora familiar em outra encarnação, quando havia habitado um corpo mais magro.

A atenção de Hatch foi desviada do advogado e da escrivaninha por um som distante... um som estranho, abafado.

A Freira Sem Nome abandonou a porta e voltou a entrar na sala, às pressas, como se não quisesse ser vista, anunciando:

— Aí vem ela.

O som se repetiu mais uma vez. E outra. E outra.

Era cadenciado, e estava ficando cada vez mais alto.

Thud. Thud.

A mão de Lindsey se cerrou com mais força sobre a de Hatch.

Thud. Thud.

Era como se alguém estivesse acompanhando uma música inaudível, percutindo ritmadamente um cano de ferro sobre as tábuas do assoalho do corredor lá fora.

Perplexo, Hatch olhou para o padre Jiminez, que estava com os olhos fitos no chão, abanando a cabeça, com uma expressão indecifrável no rosto. À medida que o som foi se tornando cada vez mais alto, o padre Duran fitou com espanto a porta entreaberta que dava para o corredor, sendo imitado pela Freira Sem Nome. Salvatore Gujilio ergueu-se de sua cadeira, os olhos alarmados. As bochechas rosadas da irmã Imaculada estavam tão brancas quanto o linho da touca que lhe emoldurava o rosto.

Hatch começou a perceber um ruído arrastado entre as pancadas que se aproximavam.

Thud! Scurrrrr... Thud! Scurrrr...

À medida que os sons iam se aproximando, o efeito que produzia nas pessoas foi se tornando mais e mais intenso, até que a mente de Hatch se viu assaltada por imagens de centenas de filmes de terror: o-monstro-da-lagoa-negra arrastando-se como um caranguejo na direção de sua vítima; a-coisa-que-brotou-da-crípta rastejando pelas alamedas de um cemitério, sob o brilho redondo de uma lua cheia; o-monstro-de-outro-mundo caminhando com o auxílio de sabe-se lá que tipo de patas, aracnóides, reptilianas, forradas de cascos... THUD!

As vidraças das janelas estremeceram. Ou seria apenas a imaginação dele?

Scuuurrrrrr...

Um calafrio subiu pela sua espinha.

THUD!

Ele olhou em redor: o advogado estava com uma expressão alarmada, o padre Jiminez continuava balançando a cabeça, o jovem padre tinha os olhos excessivamente abertos, as freiras estavam pálidas. Ele voltou a fitar a porta entreaberta, tentando imaginar que tipo de deficiência física essa criança traria de nascença, meio que esperando a entrada de um vulto alto, retorcido, espantosamente semelhante ao Charles Laughton de O Corcunda de Notre Dame e um sorriso de dentes pontiagudos, levando a Irmã Imaculada virar-se para ele e dizer: “Sabe, Sr. Harrison, Regina foi deixada sob os cuidados das irmãs do São Tomás, mas não por um casal de pais como qualquer outro, mas por um laboratório onde os cientistas estão fazendo experiências genéticas realmente interessantes...”

Uma sombra cruzou o umbral.     ,

Hatch percebeu que a pressão dos dedos de Lindsey sobre os seus chegava a ser dolorosa, e que suas próprias mãos tinham as palmas úmidas de suor.

Os sons pararam diante da porta. Um silêncio de expectativa instalou-se na sala.

Devagar, impelida pelo lado de fora, a porta foi se abrindo.

Regina deu um passo para o lado de dentro, arrastando a perna direita como se fosse um peso morto: scccuuuurrrrr... E então deixou-a cair com força sobre as tábuas do assoalho: thud!

Ela parou e lançou um olhar de desafio ao redor.

Hatch teve dificuldade em acreditar que ela tinha sido a fonte daquele ruído tenebroso. Era de estatura pequena para uma garota de dez anos, um pouco mais baixa e mais delgada do que a média das crianças de sua idade. Suas sardas, seu nariz petulante e o cabelo de um ruivo profundo a desqualificavam por completo para o papel de coisa-da-cripta ou monstro-da-lagoa-negra, embora houvesse algo nos seus olhos cinzentos e solenes que Hatch não esperava encontrar nos olhos de uma criança. Uma consciência das coisas semelhante à de um adulto. Uma percepção aguçada. Mas, a não ser por aqueles olhos e por uma aura de férrea determinação, a garota parecia frágil, quase assustadoramente delicada e vulnerável.

A visão dela trouxe à memória de Hatch uma terrina de porcelana chinesa do século XVIII, ornamentada ao estilo mandarim, que ele tinha para vender em sua loja de Laguna Beach. Ao receber um leve piparote desferido com o dedo, ela emitia um tinido muito suave, lembrando a mais delicada das campânulas, e dava a impressão de que se estilhaçaria em milhares de fragmentos se sofresse uma pancada mais forte ou se fosse atirada ao chão. Mas ao examiná-la com mais vagar, pousada na base de acrílico onde estava exposta, podia-se ver os templos e as cenas de jardins pintados na sua face externa, bem como os desenhos florais que corriam ao longo de suas bordas; essas imagens possuíam uma tal finura artística e transmitiam uma tal impressão de força que só então o observador se apercebia da idade daquela peça e da enorme história que ela trazia dentro de si. E a impressão que se tinha, apesar de todas as aparências, era de que se atirada ao chão ela ricochetearia, talvez até produzindo uma rachadura na superfície com que se chocasse, mas sem sofrer o menor arranhão.

Consciente de que era dona total da situação, Regina moveu-se na direção do sofá onde Hatch e Lindsey estavam à espera, fazendo menos barulho a partir do ponto em que passou a pisar no caro tapete persa. Estava usando uma blusa branca, uma saia verde que descia até alguns centímetros abaixo de seus joelhos, meias também verdes, sapatos pretos — e na perna direita uma armação de metal que ia do tornozelo até acima do joelho, assemelhando-se a um instrumento de tortura medieval. Ela mancava de modo tão acentuado que seu tronco, à altura dos quadris, oscilava de um lado para o outro a cada passo, dando a impressão de que iria cair a qualquer instante.

A irmã Imaculada ergueu-se da sua poltrona, com uma carranca de reprovação.

—      Quer me explicar exatamente qual a razão de todo esse teatro, senhorita?

Ignorando a evidente intenção da pergunta, a menina respondeu:

—      Desculpe ter me atrasado, irmã. Mas alguns dias são mais difíceis para mim do que outros. — Antes que a freira pudesse responder, a garota voltou-se para Hatch e Lindsey, que tinham largado as mãos um do outro e ficado de pé. — Oi, meu nome é Regina. Sou uma aleijada.

Estendeu a mão. Hatch estendeu a sua também, antes de perceber que o braço e a mão direita dela também eram deformados. O braço era quase normal, somente um pouco mais fino do que o esquerdo, até a altura do pulso, onde os ossos sofriam uma estranha torção. Em vez de uma mão completa, ela possuía apenas dois dedos e um toco de polegar, que pareciam ter muito pouca flexibilidade. Apertar a mão dela era uma sensação estranha, sem dúvida, mas não desagradável.

Seus olhos cinzentos estavam fitos diretamente nos de Hatch. Tentando ler a reação dele. Ele soube de imediato que lhe seria impossível algum dia esconder daquela garota os seus sentimentos reais; e sentiu-se aliviado pelo fato de não ter sentido repulsa pela deformidade dela.

—      Que bom conhecer você, Regina — disse ele. — Sou Hatch Harrison e esta é minha mulher, Lindsey.

A garota virou-se para Lindsey e trocou também com ela um aperto de mãos, dizendo:        

—      Bem, sei que sou uma decepção. As futuras mamães ansiosas, como você, gostam de crianças mais novas, que possam aconchegar...

A Freira Sem Nome soltou um arquejo, chocada.

—      Regina, francamente!...

A irmã Imaculada parecia apoplética e incapaz de falar; dava a impressão de um pingüim subitamente congelado, a boca aberta e os olhos arregalados em protesto, atingido por um vento ártico demasiado frio até mesmo para um pássaro da Antártida.        

O padre Jiminez deixou seu posto junto à janela e veio na direção deles, dizendo:

—      Sr. e Sra. Harrison, peço desculpas pela...

—      Não há nada para ser desculpado — disse Lindsey rapidamente, sentindo, como Hatch, que a garota os estava submetendo a um teste, e que se eles tinham esperança de ser aprovados não poderiam se deixar envolver numa situação tipo adultos-contra-criança.

Regina moveu-se na direção da outra poltrona — pulando, coleando, contorcendo-se — e Hatch teve certeza de que ela estava tentando parecer muito mais desajeitada do que era de fato.

A Freira Sem Nome tocou a irmã Imaculada no ombro, e a freira mais velha voltou a sentar-se, mas mantendo a expressão de pingüim congelado. Os dois padres pegaram para si as cadeiras reservadas aos clientes do advogado, em frente à escrivaninha, e a freira mais jovem sentou-se noutra cadeira no canto da sala, de modo a ficar próxima ao grupo. Hatch percebeu que ele era a única pessoa de pé, e voltou a sentar no sofá, ao lado de Lindsey. Já que todos enfim estavam presentes, Salvatore Gujilio insistiu em servir refrigerantes — Pepsi, água mineral Perrier, ginger ale — e o fez sem pedir ajuda à secretária, trazendo tudo de um bar discretamente situado por trás de um painel de mogno num canto do gabinete. Enquanto o enorme advogado se atarefava servindo a todos, rápido e discreto apesar de sua corpulência, sem se chocar contra a mobília ou derrubar um vaso, sem nem sequer destruir as duas lâmpadas com rebuscados abajures em forma de flor, Hatch percebeu que ele deixara de ser uma figura imponente e o centro das atenções naquela sala: ele não era capaz de competir com a garota, que devia ter cerca de um quarto do seu tamanho.

Regina aceitou um copo de Pepsi oferecido por Gujilio. Enquanto o segurava, com a mão sadia, virou-se para Hatch e Lindsey.

— Muito bem — disse. — Vocês vieram até aqui para saber coisas a meu respeito, portanto acho melhor começar eu mesma dizendo algumas. A primeira delas, claro, é que eu sou uma aleijada. — Ela inclinou a cabeça para um lado e os fitou com uma expressão curiosa. — Vocês sabiam que eu era aleijada?

—      Estamos sabendo agora — disse Lindsey.

—      Quero dizer, antes de virem aqui.

—      Sabíamos que você tinha um... um tipo de problema.

—      Mutação genética — disse Regina.

O padre Jiminez soltou um suspiro pesadamente audível; a irmã Imaculada pareceu a ponto de dizer alguma coisa, olhou para Hatch e Lindsey e decidiu permanecer em silêncio.

—      Meus pais eram viciados em drogas — disse a garota.

—      Regina! — protestou a Freira Sem Nome. — Você não tem certeza, você não sabe nada sobre isso.

—      Ah, mas a gente deduz — disse a garota. — Já faz uns vinte anos que drogas ilegais são a principal causa de defeitos de nascença. Sabiam disso? Li num livro. Eu leio muito. Sou maluca por livros, Não vou dizer que sou uma verdadeira traça, acho isso meio bobo, vocês não acham? Mas se eu fosse alguma coisa assim preferiria ser uma traça do que um desses vermes de frutas. Para uma criança aleijada, gostar de livros é ótimo; as pessoas não nos deixam fazer as mesmas coisas que crianças normais fazem, mesmo que a gente tenha certeza de que pode fazê-las tão bem quanto elas; aí, os livros acabam valendo por uma outra vida. Gosto de histórias de aventuras onde os personagens vão para o pólo Norte, ou para Marte, ou Nova York... lugares assim. Gosto de histórias de mistério, e as que mais gosto são as de Agatha Christie; mas o que mais gosto são histórias sobre animais, principalmente animais falantes, como em The Wind in the Willows. Eu já tive um bicho que falava. Era um peixinho dourado, e é claro que quem falava de verdade era eu, e não ele. Eu tinha lido um livro sobre ventriloquismo e aprendi a colocar minha voz, é o maior barato. Aí, eu sentava do outro lado da sala e colocava minha voz no aquário dele. — Ela começou a fazer uma voz esganiçada, sem mover os lábios, e a voz parecia provir da Freira Sem Nome: — Oi, meu nome é Binky, o Peixinho, e se vocês tentarem me botar num sanduíche para me comer, eu cago na maionese. — Ela voltou à sua voz normal, elevando-a acima dos protestos das freiras. — Isso é outro problema com aleijados como eu. Muitas vezes a gente pode se dar o luxo de ser desbocada, porque ninguém tem coragem de nos dar umas palmadas na bunda.

A irmã Imaculada tinha uma atitude de quem estava disposta a fazer precisamente isto, mas limitou-se a murmurar algo sobre “nada de TV pelo resto da semana”.

Hatch, que no seu primeiro encontro com a freira a tinha achado tão ameaçadora quanto um pterodáctilo, não se deixou impressionar por ela naquele instante, apesar de ter registrado pelo canto do olho a intensa onda de irritação que a perpassou. Mas ele não conseguia tirar os olhos da garota.

Regina continuou a falar, mais jovial do que antes.

—      Tem outras coisas que vocês precisam saber sobre mim, além desse detalhe de ser rneio desbocada. Eu sou muito desajeitada e passo o dia mancando pra lá e pra cá feito Long John Silver... aliás, esse, sim, foi um bom livro... e eu provavelmente vou acabar quebrando muitos objetos de valor na casa de vocês. Sem querer, é claro. Vai ser uma olimpíada de destruição permanente. Será que vocês vão ter paciência para isso? Eu não gostaria de ser espancada sem dó nem piedade e depois trancada no sótão somente porque sou uma pobre aleijada que não consegue controlar seus movimentos. Esta perna aqui... ela não está tão mal assim, juro, e se eu continuar fazendo exercícios ela vai ficar até bonitinha; mas eu não tenho muita força nela, e por falar nisso também não tenho muita sensibilidade nela. — Ela cerrou a mão deformada e deu um soco tão forte na coxa direita que assustou Gujilio no momento em que ele servia um ginger ale ao padre Duran, cujos olhos fitavam magnetizados a garota. Ela deu outro soco na coxa, com tanta força que Hatch fez uma careta; e continuou: — Viu só? Carne morta. E aliás, por falar em carne... eu sou muito chata com comida. Não consigo comer carne morta. Oh, não, não estou dizendo que como animais vivos. É que eu sou vegetariana, o que provavelmente torna as coisas um pouco mais difíceis para vocês, mesmo admitindo que vocês não liguem para o fato de eu não ser um bebezinho com quem possam brincar de boneca. Minha única virtude é que sou muito, muito inteligente... sou praticamente um gênio. Mas até isso chega a ser um problema para certas pessoas. Eu sou esperta demais para minha idade, de modo que não me comporto exatamente como uma criança, e...

—      Você sem dúvida está se comportando como uma, agora — disse a irmã Imaculada, satisfeita por conseguir encaixar um pequeno golpe.

Mas Regina a ignorou.

—      ...e o que vocês querem, na verdade, é uma criança, uma coisinha engraçada e ignorante que vocês possam exibir para todo mundo, possam se divertir vendo como ela cresce e aprende as coisas; ao passo que eu já cresci e aprendi minhas coisas por minha própria conta. Coisas intelectuais, claro. Ainda não tenho nem peitinhos... Também não gosto muito de TV; nem pensem que vou participar daquelas noites-felizes quando a família fica reunida vendo algum programa. E sou alérgica a gatos, caso vocês tenham algum. E sou muito cabeça-dura... coisa que muita gente acha insuportável numa pirralha de dez anos. — Ela fez uma pausa, bebericou a Pepsi, sorriu para eles. — Pois é. Acho que é mais ou menos isso.

—      Ela nunca é assim — grunhiu o padre Jiminez, mais para si mesmo ou para Deus do que para Hatch e Lindsey. Sorveu de um só gole metade de sua Perrier, como se fosse uísque.

Hatch virou-se para Lindsey. Os olhos dela estavam brilhantes. Ela não parecia saber o que dizer, de modo que ele virou-se para a menina.

—      Bem, acho que o mais correto seria eu falar um pouco sobre nós — disse.

Pondo seu copo de lado, a irmã Imaculada fez menção de erguer-se, dizendo:

—      Francamente, Sr. Harrison, não permito que...

Com um gesto apaziguador, Hatch a fez sentar-se novamente.

—      Não, não, está tudo bem. Regina está um pouco nervosa, e...

—      Nem tanto — disse a garota.

—      Ora, claro que está — disse Hatch.

— Não, não estou.

—      Um pouco nervosa — insistiu Hatch —, tanto quanto eu e Lindsey também estamos. Não é nada de mais. — Ele sorriu para a garota da maneira mais sincera que conseguiu. — Ora, vamos ver... Passei minha vida inteira interessado em antiguidades. Gosto de coisas que perduram, que têm personalidade própria; e eu tenho minha loja de antiguidades, com dois empregados. É assim que ganho a vida. Eu também não gosto muito de televisão, ou de...

—      Que diabo de nome é Hatch? — interrompeu a garota, dando uma risadinha como se achasse aquele nome engraçado demais para ser nome de alguém, exceto, talvez, de um peixinho dourado.

—      Meu primeiro nome completo é Hatchford.

—      Continua engraçado.

—      A culpa é da minha mãe — disse Hatch. — Ela sempre achou que meu pai ia ficar rico e subir de classe social, e ela achava que Hatchford era um típico nome de milionário: Hatchford Benjamin Harrison. A única modificação para melhor que esse nome poderia ter era, talvez, Hatchford Benjamin Rockefeller.

—      E ele? — perguntou Regina.

—      Ele quem?

—      Seu pai. Ficou rico, afinal?

Hatch deu uma explícita piscadela para Lindsey e disse:

—      Ih, parece que caímos nas mãos de uma caçadora de fortunas.

—      Olha, se vocês fossem mesmo ricos eu levaria isso em consideração — disse a garota.

A irmã Imaculada deixou um ar represado nos pulmões escapar sibilante por entre os dentes; a Freira Sem Nome reclinou-se na cadeira e fechou os olhos com ar resignado. O padre Jiminez ficou de pé e, fazendo um gesto enérgico para Gujilio, foi na direção do bar com a intenção de encontrar algo um pouco mais forte do que Pepsi, Perrier ou ginger ale. Mas, já que nem Hatch nem Lindsey davam mostras de sentir-se ofendidos com a atitude da garota, nenhum deles se sentia autorizado a interromper a entrevista ou mesmo voltar a repreendê-la

—      Receio que nós não sejamos ricos — disse Hatch. — Temos uma vida confortável. Não nos falta nada. Mas também não temos um Rolls-Royce, e não usamos pijamas feitos de caviar.

Um brilho divertido passou pelos olhos da garota, mas ela logo o reprimiu. Virando-se para Lindsey, perguntou:

—      E você?

Lindsey piscou os olhos. Pigarreou.

—      Oh, bem, eu sou artista. Eu pinto.

—      Como Picasso?

—      Não naquele estilo, mas sou uma artista, sim, como ele.

—      Certa vez vi uma pintura que mostrava um grupo de cachorros jogando pôquer — disse a menina. — Foi você quem pintou aquilo?

—      Não, receio que não — disse Lindsey.

—      Ainda bem. Era um quadro muito estúpido. Também vi um quadro mostrando um touro e um toureiro; era feito de veludo, e as cores eram muito brilhantes. Você pinta com cores assim, sobre veludo?

—      Não — disse Lindsey. — Mas se você gosta disso, posso pintar em veludo alguma coisa que você goste, para seu quarto.

Regina franziu o rosto inteiro num esgar de desgosto.

—      Por favooooor... — disse. — Eu preferiria pendurar um gato morto na parede.

Não havia nada mais que pudesse surpreender os religiosos do São Tomás. O padre Duran desta vez chegou a sorrir, e a irmã Imaculada murmurou “gato morto”, não em desespero, mas como se concordasse que essa decoração macabra ainda seria preferível a uma pintura sobre veludo.

—      Meu estilo — disse Lindsey, tentando melhorar a própria imagem após ter feito semelhante proposta — é geralmente descrito como uma mistura de neoclassicismo e surrealismo. Sei que parece um tanto pretensioso, mas...

—      Bem, não é meu estilo predileto — disse Regina, como se tivesse a mais remota idéia do que eram tais estilos e do que poderia ser uma mistura entre os dois. — Se eu fosse morar com vocês, e se tivesse um quarto só para mim, você não ia me obrigar a pendurar um monte de quadros seus na minha parede, ia?

A inflexão com que o “seus” foi pronunciado deixava claro que ela preferiria um gato morto na parede, mesmo que os quadros não tivessem nada a ver com veludo.

—      De modo algum — garantiu Lindsey.

—      Ótimo.

—      Acha que poderia gostar de viver conosco? — perguntou Lindsey, e Hatch imaginou se aquela idéia lhe causava excitação... ou medo.

De súbito a garota ergueu-se da poltrona, o corpo oscilando perigosamente assim que ficou de pé, como se de um instante para outro ela fosse tombar para a frente. Hatch também se ergueu, pronto para segurá-la se fosse necessário, mesmo desconfiando de que tudo aquilo era uma pequena encenação.

Quando ela se reequilibrou, pousou o copo já vazio na mesinha de centro e disse:

—      Tenho que fazer xixi. Tenho uma bexiga muito frouxa. Acho que são os meus genes mutantes. Nunca consigo me segurar. O tempo inteiro acho que vou acabar fazendo xixi nos lugares mais inconvenientes, como aqui no gabinete do Sr. Gujilio; isso é outra coisa que vocês têm que pensar, antes de querer me levar para morar na sua casa. Vai ver que a casa de vocês é cheia de preciosidades, já que vocês mexem com antiguidades, e arte, e tudo o mais; a casa cheia de coisas caras e lá vou eu me arrastando e caindo e arrebentando tudo, ou pior: lá estou eu, incapaz de controlar minha bexiga justamente quando estiver sentada numa dessas mobílias bem caras... Vocês iam me despachar de volta para o orfanato, e eu, que sou muito sentimental, ia acabar subindo no telhado e me jogando lá de cima. Nenhum de nós ia querer que isso acontecesse. Olha... prazer em conhecê-los.

Ela saiu mancando ao longo do tapete persa até deixar o aposento: scccuuurrrr... THUD. Era uma cena levada a cabo com o mesmo talento com que ela executara o número de ventriloquismo. Sua cabeleira ruiva oscilava de um lado para o outro enquanto ela se afastava, e brilhava como uma labareda.

Ficaram todos em silêncio, escutando o ruído dos passos da garota sumindo ao longe. A certa altura, ela pareceu cambalear e chocar-se com a parede, produzindo um ruído surdo; talvez tivesse se machucado, mas logo prosseguiu corajosamente seu caminho, scurrr... thud!

—      Ela não tem nenhum problema com a bexiga — disse o padre Jiminez, sorvendo um gole de um líquido âmbar em seu copo. Parecia ter trocado a Perrier por um bourbon. — Isso não faz parte dos problemas dela.

—      Ela não é assim — disse o padre Duran, piscando os olhos redondos como se eles tivessem sido atingidos por fumaça. — É uma criança maravilhosa. Sei que depois disto vocês não vão acreditar, mas...

—      E ela anda muito melhor do que aquilo — disse a Freira Sem Nome.

—      Não sei o que houve com ela.

—      Eu sei — disse a irmã Imaculada. Ela passou a mão sobre o rosto, num gesto fatigado. Seus olhos estavam tristes. — Dois anos atrás, quando ela tinha oito, encontramos um casal de pais adotivos para ela. Um casal na faixa dos trinta anos, a quem os médicos tinham informado de que nunca poderiam ter filhos. Eles se convenceram de que adotar uma criança deficiente seria algo especial, para todos eles. Bem... duas semanas depois que Regina foi viver com eles, quando estavam ainda na fase experimental de pré-adoção, a mulher engravidou. De repente, eles iam ter um bebê... e a adoção de Regina deixou de ser uma idéia tão atraente.

—      E eles simplesmente a trouxeram de volta? — perguntou Lindsey. —   Depositaram-na na porta do orfanato e foram embora? Que coisa horrível.

—      Não posso julgá-los — disse a irmã Imaculada. — Talvez eles tenham percebido que não teriam amor bastante para dar ao seu próprio filho e a Regina ao mesmo tempo; nesse caso, fizeram a coisa certa. Regina não merecia viver numa casa onde a cada minuto de cada dia ela iria saber que estava em segundo plano, que era menos amada do que a outra criança, que era uma espécie de intrusa. Seja como for... ela ficou arrasada com essa rejeição. Precisou de muito tempo para reconquistar a auto-estima. E acho que agora ela não está disposta a correr um novo risco.

Ficaram todos em silêncio.

O sol brilhava do lado de fora das janelas. As palmeiras ondeavam preguiçosamente. Por entre as árvores, era possível ter rápidos vislumbres de Fashion Island, o misto de shopping center e bloco de escritórios em cujo perímetro o escritório de Gujilio estava situado.

—      Às vezes — prosseguiu a freira — uma única experiência negativa basta para desencorajá-los, quando são muito sensíveis. Eles simplesmente se recusam a tentar de novo. Temo que isso esteja acontecendo com Regina. Ela veio até aqui decidida a colocar vocês à distância, e abortar a entrevista; e acho que conseguiu, de um modo muito peculiar.

—      É como alguém que passou a vida inteira na cadeia — disse o padre Jiminez. — Quando ganha liberdade condicional, o sujeito fica de início todo entusiasmado, mas aí começa a perceber que a vida do lado de fora não é tão fácil quanto ele pensava. Aí, ele comete um crime qualquer, só para ser mandado de volta à prisão. A vida na prisão pode ser limitada e insatisfatória... mas é algo seguro, algo que ele já conhece.

Salvatore Gujilio voltou a circular pela sala, recolhendo os copos vazios. Continuava a ser um homem enorme sob qualquer critério de julgamento, mas mesmo depois da saída de Regina ele não dominava mais o ambiente como de início. Sua presença tinha sido definitivamente reduzida pela comparação com aquela garota franzina, de olhos cinza e nariz petulante.

—      Sinto muito, muito mesmo — disse a irmã Imaculada, pousando uma mão confortadora no ombro de Lindsey. — Vamos tentar outra vez, querida. Vamos voltar à estaca zero e colocar vocês em contato com outra criança; desta vez, garanto que vai ser a criança certa.

 

Lindsey e Hatch deixaram o escritório de Salvatore Gujilio às 3:10 daquela tarde de quinta-feira. Tinham combinado não fazer nenhum comentário sobre a entrevista até a hora do jantar, dando tempo a si próprios para analisar o encontro e examinar suas reações. Nenhum dos dois queria tomar uma decisão baseada em primeiras impressões, nem queriam influenciar o outro a partir delas — para depois se arrepender.

Claro que não tinham imaginado, nem de longe, que o encontro fosse transcorrer daquela forma. Lindsey estava ansiosa para falar a respeito. Partia do pressuposto de que a decisão já havia sido tomada, de que a garota tinha se encarregado de tomar a iniciativa e que não adiantaria tentar reverter a escolha dela. Mas tinham concordado em esperar, e, como Hatch não parecia disposto a quebrar o trato, ela também manteve a boca fechada.

Ela ia ao volante do seu novo carro esporte, um Mitsubishi vermelho. Hatch estava sentado ao lado, de óculos escuros, o braço direito apoiado na janela do carro, tamborilando com os dedos ao som do rock tocado pelo rádio, Please Mister Postman com The Marvelettes.

Passaram pelas últimas enormes tamareiras enfileiradas ao longo da Newport Center Drive e viraram à esquerda rumo à rodovia do Pacífico, seguindo ao longo de muros cobertos por trepadeiras, na direção do sul. Era um dia cálido de final de abril, mas não demasiado quente, e mostrava um daqueles céus intensamente azuis, que, ao se aproximar a hora do crepúsculo, vão adquirindo uma luminosidade elétrica que lembra a de alguns céus dos quadros de Maxfield Parrish. O tráfego estava fluente ao longo da rodovia, e o oceano brilhava como uma grande extensão de tecido azul debruado de ouro e prata.

Uma calma euforia se irradiava através do corpo de Lindsey, e isso já durava sete semanas. Era uma alegria pelo simples fato de estar viva, algo que as crianças geralmente experimentam mas que os adultos perdem durante o processo de crescimento. Ela também a tinha perdido, sem perceber. Mas havia sido um contato bastante imediato com a morte para lhe trazer de volta aquela joie de vivre da juventude.

 

Mais de dois andares abaixo do Inferno, nu por baixo do lençol que recobria seu colchão amassado e coberto de manchas, Vassago passava as horas do dia mergulhado num sono profundo. Em geral, seu sono era povoado por sonhos onde apareciam imagens de carne torturada e ossos partidos, sangue e bile, visões de crânios humanos. Às vezes ele sonhava com multidões imensas retorcendo-se em agonia num chão enlameado, sob um céu tenebroso; e ele caminhava no meio desses corpos como um príncipe infernal caminharia por entre a malta anônima dos condenados à maldição eterna.

Naquele dia, contudo, os sonhos que ocupavam sua mente eram estranhos e se destacavam apenas pela banalidade. Uma mulher de olhos escuros e cabelos escuros, ao volante de um carro vermelho, vista da posição de um observador sentado no banco dianteiro, ao lado dela. Palmeiras. Buganvílias rubras. O oceano banhado de luz.

 

A Harrison Antigüidades ficava no extremo sul de Laguna Beach, na rodovia do Pacífico. Estava instalada numa elegante construção de dois andares em estilo Art Déco, que produzia um interessante contraste com as peças de mobília expostas na vitrine, a maioria das quais eram dos séculos XVIII e XIX.

Glenda Dockridge, assistente de Hatch e gerente, estava ajudando Lew Booner, o faz-tudo da loja, a limpar a poeira dos móveis em exposição. Numa grande loja de antiguidades, a limpeza da poeira é uma tarefa semelhante à pintura da ponte de Golden Gate: quando se chega ao final, está na hora de retornar ao começo e fazer tudo de novo. Glenda estava de bom humor por ter acabado de fechar duas boas vendas: uma escrivaninha Napoleão III laqueada em negro, com enfeites de bronze dourado e painéis com motivos japoneses; e, para o mesmo freguês, uma mesa italiana do século XIX, em forma de polígono, com elaboradas incrustações em marchetaria. Tinha sido um excelente negócio, principalmente levando-se em conta que ela trabalhava em troca de salário e mais uma comissão sobre as vendas.

Hatch passou a examinar a correspondência do dia, responder algumas cartas e examinar um par de pedestais de roseira, do século XVIII, com incrustações de jade em forma de dragões, que tinha acabado de chegar. Enquanto isso, Lindsey ajudou Glenda e Lew a terminar a limpeza. Em seu novo estado de espírito, até aquele tipo de tarefa acabava sendo um motivo de prazer. Dava-lhe a chance de apreciar os detalhes dos móveis—as volutas do acabamento de uma lâmpada de bronze, os meticulosos entalhes da perna de uma mesa, as delicadas perfurações e pinturas à mão nas bordas de um conjunto de porcelanas inglesas do século XVIII. Enquanto pensava na história e na significação cultural de cada peça que ajudava a limpar, Lindsey percebeu que essa sua nova atitude tinha algo de zen.

 

Quando o sol começou a se pôr, Vassago foi despertando, sentindo a proximidade da noite. Sentou-se sobre o colchão, naquele arremedo de túmulo onde morava. Sentia-se invadido por uma sede de morte, uma ânsia incontida de matar.

A derradeira imagem que guardava de seus sonhos era a da mulher no carro vermelho. Ela não estava mais no carro, e sim num aposento que ele não conseguia enxergar direito, parada diante de uma peça de mobília chinesa, limpando-a com um pano. Ela se virava — como se ele lhe houvesse dirigido a palavra — e sorria.

Seu sorriso era tão radiante, tão cheio de vida, que Vassago tinha impulsos de esmagar seu rosto com um martelo, arrebentar seus dentes, estilhaçar sua mandíbula, tudo isso para que lhe fosse impossível tornar a sorrir de novo.

Tinha sonhado com ela duas ou três vezes durante as últimas semanas. A primeira vez, ela estava numa cadeira de rodas, rindo e chorando ao mesmo tempo.

Voltou a rebuscar na memória, mas não conseguia lembrar daquele rosto em conexão com coisa alguma. Imaginou quem poderia ser ela e por que motivo aparecia em seus sonhos.

Do lado de fora, já era noite. Ele podia senti-lo. Um enorme manto negro que trazia ao mundo uma amostra do que seria a morte, no final de todos os dias, por mais brilhantes e ensolarados.

Ele vestiu-se e deixou seu esconderijo.

 

Às sete horas daquela noite de início da primavera, Lindsey e Hatch estavam no Zov’s, um pequeno mas bem freqüentado restaurante em Tustin. A decoração era quase toda em preto e branco, com enormes janelas e grandes espelhos. Os garçons, todos amigáveis e eficientes vestiam-se também de preto e branco, combinando com o ambiente. A comida que era servida ali era uma experiência sensorial tão rica que aquele recinto monocromático parecia recoberto de cores vivas.

O nível de ruído era alto o bastante para ser acolhedor, mas sem incomodar. Eles não precisavam erguer a voz para se dirigir um ao outro, e sentiam-se como se aquele murmúrio indistinto que perpassava pelo salão servisse como uma cortina entre sua mesa e as demais, resguardando sua privacidade. Durante os dois primeiros pratos servidos — lulas, sopa de feijão preto — falaram apenas de assuntos triviais. Mas quando foi trazido o prato principal — peixe-espada, para ambos — Lindsey não conseguiu mais se conter.

— Muito bem — disse ela —, tivemos o dia inteiro para pensar no assunto. Nenhum de nós interferiu enquanto o outro formava sua opinião. Então, vamos ver. O que achou de Regina?

—      O que você achou dela?

—      Você primeiro.

—      Por que eu?

—      E por que não? — retrucou Lindsey.

Hatch respirou fundo, hesitou apenas um instante e largou de vez:

—      Fiquei louco por ela.

Lindsey sentiu-se como se fosse dar um salto no ar e fazer uns passos de dança, como fazem os personagens dos desenhos animados quando querem expressar uma felicidade incontida; a alegria e a excitação que sentiu naquele instante eram mais intensos e mais vivos do que as alegrias comuns da vida real. Ela tinha esperado aquela reação da parte de Hatch, mas não sabia o que ele iria dizer, não tinha a menor idéia, porque o encontro daquela tarde tinha sido tão... bem, a única palavra adequada seria “assustador”.

—      Oh, meu Deus — disse Lindsey. — Eu acho que a amo. Ela é tão doce.

—      Ela é dura de roer.

—      Estava representando.

—      Sim, estava representando para nós, mas por isso mesmo é dura de roer. Tem que ser. A vida não lhe deu muita chance de escolha.

—      Mas ela é uma doçura.

—      Muito — concordou ele. — Não estou dizendo que ela me chocou. Eu a achei admirável, adorável.

—      Tão inteligente.

—      Fazendo tanta força para parecer desagradável — disse Hatch — e aquilo só fazia torná-la ainda mais linda.

—      Pobre criança. Estava com medo de ser rejeitada mais uma vez, e resolveu assumir a ofensiva.

—      Quando a ouvi se aproximando pelo corredor, imaginei que fosse algo como...

—      Godzilla! — exclamou Lindsey.

—      Por aí. E o que você achou de Binky, o peixinho falante?...

—      Aquele que caga na maionese? — disse ela.

Os dois dispararam na gargalhada, e algumas pessoas em redor viraram-se na sua direção, fosse devido ao riso, ou talvez porque escutaram o que Lindsey tinha dito; isso fez com que os dois rissem ainda mais.

—      Ela vai ser uma complicação — disse Hatch sorrindo.

—      Vai ser um amor, isso sim.

—      Não é assim tão simples.

—      Vai, sim, vai ser.

—      Há um problema.

—      Qual é?

Hatch hesitou.

—      E se ela não quiser vir conosco? — disse.

O sorriso de Lindsey pareceu ter sido congelado.

—      Ela vai querer — disse ela por fim. — Claro que vai.

—      Pode ser que não.

—      Hatch, não seja negativo.

—      Só estou dizendo que devemos estar preparados para algum desapontamento.

Lindsey sacudiu a cabeça, num gesto obstinado.

—      Não, não. Vai dar tudo certo. Tem que dar. Já tivemos toda a nossa cota de má sorte, de tempos ruins. Merecemos coisa melhor agora. A roda girou, e vamos formar uma família outra vez. A vida vai ser boa, vai ser linda. O pior ficou para trás.

 

Naquela noite de quinta-feira, Vassago resolveu desfrutar das mordomias de um quarto de motel.

Em geral, ele usava como toalete o matagal da parte traseira do parque abandonado. Também se lavava todas as noites com o auxilio de uma garrafa de água e sabão líquido. Barbeava-se com uma navalha, um creme de barbear em aerosol e um pedaço de espelho que tinha achado no parque.

Quando chovia à noite, ele gostava de tomar banho de chuva ao ar livre, deixando a água correr sobre seu corpo. Se a chuva era acompanhada de relâmpagos, ele procurava o ponto mais alto das passagens pavimentadas, na esperança de receber as boas graças de Satã e ser levado de vez para o mundo dos mortos, graças a uma descarga fulminante de eletricidade. Mas a estação chuvosa do sul da Califórnia já estava praticamente finda e com certeza só recomeçaria em dezembro. Se durante esse período ele se tornasse merecedor de retornar ao mundo dos mortos, seu veículo de libertação do detestável mundo dos vivos teria que ser outra coisa bem diversa de um raio.

Uma vez por semana, às vezes duas, ele alugava um quarto de motel para usar o chuveiro e se arrumar com um pouco mais de cuidado do que lhe era possível nas condições primitivas do seu esconderijo, embora higiene não fosse algo importante para ele. A sujeira exercia sobre ele uma poderosa atração. O ar e a água do reino de Hades, para onde ele sonhava em retornar, eram contaminados por todos os tipos de sujeira. Mas ele tinha de transitar por entre os vivos, para poder caçá-los e assim construir a coleção que lhe traria a readmissão ao reino dos mortos; e havia certas convenções a que era preciso obedecer, a fim de não atrair uma atenção indesejável sobre sua pessoa. Entre os vivos, o que predominava era um relativo grau de limpeza.

Vassago sempre utilizava o mesmo motel, o Blue Skies, um motel sujo e malconservado na extremidade sul de Santa Ana, onde o recepcionista, um sujeito eternamente de barba por fazer, só aceitava pagamento à vista e em dinheiro; mas não pedia documentos e nunca olhava os fregueses nos olhos, como se tivesse medo do que poderia acabar vendo ou do que os outros poderiam ver. A área fervilhava de prostitutas e traficantes de drogas. Vassago era um dos poucos indivíduos que não iam ali na companhia de alguma das prostitutas. Ficava durante uma ou duas horas apenas, e isso era mais ou menos a permanência média dos outros fregueses; e passava tão despercebido quanto os outros que, grunhindo e suando, faziam a cabeceira da cama chocar-se ritmicamente de encontro à parede dos quartos vizinhos.

Ele não teria conseguido viver ali o tempo todo: tinha uma consciência aguda da presença daquelas prostitutas atracando-se com os homens em trepadas frenéticas, e aquilo o deixava cheio de raiva, ansiedade e náusea, ao testemunhar a urgência dos desejos e a intensa atividade dos vivos. Naquela atmosfera, era impossível para ele descansar e pensar com clareza, mesmo que aquele clima geral de loucura e perversão fosse algo que o atraía quando ainda fazia parte do mundo dos vivos.

Nenhum outro motel ou casa de pensão teria sido seguro. Iriam pedir-lhe algum tipo de identificação. Além disso, ele conseguia se fazer passar por um dos vivos, desde que seus encontros com eles fossem meramente casuais. Qualquer recepcionista de motel ou administrador de pensão que o encontrasse repetidamente e o observasse com um pouco mais de interesse logo iria perceber que ele era diferente, de um modo indefinível mas perturbador.

De qualquer modo, para evitar atrair as atenções sobre si, ele preferia concentrar suas atividades no parque abandonado, As autoridades que viessem à sua procura teriam mais dificuldade para encontrá-lo ali do que em qualquer outro local. Mais do que isto, o parque lhe proporcionava solidão, a calma de um cemitério e áreas de escuridão total para onde ele podia escapar durante as horas do dia, quando seus olhos excessivamente sensíveis não podiam suportar o brilho do sol.

Os motéis eram suportáveis, mas somente entre o crepúsculo e o nascer do dia.

Naquela noite agradavelmente quente de quinta-feira, ao sair da portaria do Blue Skies empunhando a chave do seu quarto, ele percebeu um carro que lhe pareceu familiar: um Pontiac parado numa área sombria do estacionamento, para lá do último quarto, e virado de frente para o escritório, em vez de na direção dos quartos, como os demais. Aquele mesmo carro estava ali no domingo passado, a última vez em que Vassago tinha utilizado o Blue Skies. Havia um homem por trás do volante, recostado, como se estivesse apenas passando o tempo enquanto esperava a chegada de alguém. Era o mesmo que estivera ali na noite de domingo, o rosto oculto pela escuridão e pelo reflexo das luzes no pára-brisa do veículo.

Vassago guiou o Camaro até a vaga número 6, quase na metade da longa estrutura em forma de L; estacionou na frente do quarto, e entrou. Levava consigo apenas uma muda de roupas — pretas, como as que estava usando.

Uma vez no interior do quarto, não acendeu as luzes. Nunca o fazia.

Durante algum tempo ficou parado com as costas apoiadas na porta, pensando no Pontiac e no homem por trás do volante. Poderia muito bem ser um vendedor de drogas que fazia seus negócios sem sair do carro. O número de traficantes que freqüentava aquela vizinhança era ainda maior do que o número de baratas que infestavam as paredes do velho motel. Mas onde estariam os fregueses dele, com seus olhares nervosos e seus maços de notas ensebadas?

Vassago jogou em cima da cama as roupas que trouxera, pôs os óculos escuros no bolso da jaqueta de couro e entrou no minúsculo banheiro. O cheiro de desinfetante displicentemente derramado aqui e ali não era suficiente para eliminar os odores biológicos que se fundiam numa desagradável mistura.

Um retângulo de luz mortiça indicava a localização de uma janela na parede, ao lado do chuveiro. Vassago abriu a porta do boxe, que produziu um som rascante ao deslizar ao longo do trilho enferrujado, e deu um passo para dentro. Se a janela fosse fixa, ou se houvesse uma barra vertical dividindo-a em duas, seu plano teria ido por água abaixo. Mas quando ele a forçou, ela girou rangendo nas dobradiças. Agarrando-se à borda, ele içou o corpo para cima, contorceu-se até passar o tronco para o lado de fora, e num instante deixava-se cair de pé sobre o piso do estreito beco de serviço situado na traseira do motel.

Fez uma pausa, o tempo suficiente para repor os óculos escuros. A uma certa distância, uma lâmpada de vapor de sódio projetava um brilho amarelado que fez seus olhos arderem como se tivessem sido atingidos por poeira bem fina. Os óculos reduziram aquele clarão a uma vaga luminosidade ambar, e ele pôde enxergar de novo.

Caminhou direto, até a extremidade do bloco; virou à direita ao chegar à esquina, e depois à direita novamente, rodeando o motel. Passou ao largo da barra menor do L formado pelo prédio e caminhou pela varanda coberta, em frente aos últimos apartamentos, até estar por trás do Pontiac.

Naquele instante, o motel estava totalmente silencioso. Ninguém entrava ou saía dos quartos.

O homem ao volante estava sentado com o braço para fora da janela. Se tivesse olhado pelo espelho retrovisor, talvez tivesse visto Vassago se aproximando, mas sua atenção estava voltada para o quarto número 6, na outra ala do prédio.

Vassago abriu a porta num repelão, e o homem, que tinha todo o seu peso apoiado sobre ela, tombou para o lado de fora. Vassago bateu-lhe no rosto, usando o cotovelo como se fosse um aríete; melhor do que um soco, mas o golpe não pegou de cheio como ele pretendia. O homem ficou tonto mas ainda consciente, e cambaleou para fora do carro, tentando atracar-se com Vassago. Era evidente que tinha muitos quilos acima de seu peso ideal, o que o tornava lento; Vassago o tornou mais lento ainda com uma joelhada no meio das pernas. O homem caiu ao chão de joelhos, como se estivesse rezando, e Vassago recuou o bastante para desferir um pontapé que o atirou para um lado. Aproximou-se e chutou-o de novo, desta vez na cabeça. O sujeito ficou ali, frio como o piso de cimento onde estava estendido.

Ouviu-se um arquejo de susto; Vassago virou-se a tempo de ver uma loura de cabelo frisado, vestindo minissaia, ao lado de um sujeito de meia-idade com um terno vagabundo e usando uma peruca barata. Estavam saindo de um dos quartos mais próximos e tinham os olhos fitos no homem caído no chão. Vassago os encarou de frente até que eles recuaram para dentro do quarto e bateram apressadamente a porta.

O homem desmaiado pesava muito, mais de cem quilos, mas Vassago conseguiu erguê-lo. Empurrou-o para dentro do carro até que ele ficou instalado no assento dianteiro, no banco da direita; a seguir, sentou-se ao volante, ligou o motor e afastou-se do Blue Skies.

Vários quarteirões mais à frente, entrou num conjunto habitacional construído há mais de trinta anos e cujas casas mostravam sinais de decadência. Antigos lauréis indianos e árvores de coral flanqueavam as calçadas, dando um ar elegante às ruas, apesar do visível declínio do lugar. Ele estacionou o Pontiac junto do meio-fio. Desligou o motor e apagou as luzes.

Como não havia nenhum poste de luz aceso nas proximidades, ele tirou os óculos escuros e revistou o homem desacordado. Num coldre atravessado por dentro do paletó, ele trazia um revólver, carregado. Vassago guardou a arma.

O estranho conduzia duas carteiras nos bolsos. A primeira e maior delas continha trezentos dólares em dinheiro, que Vassago confiscou de imediato. Também trazia cartões de crédito, fotos de pessoas desconhecidas, um recibo de lavanderia, um cartão de “Compre Dez e Leve Um de Graça” de uma loja de iogurte congelado, uma carteira de motorista que identificava o homem como sendo Morton Redlow, de Anaheim, e outras coisas miúdas. A segunda carteira era mais fina, e não era uma carteira de verdade, e sim uma capa de couro contendo em seu interior uma licença de Redlow para trabalhar como detetive particular, e outra licença para conduzir uma arma não ostensivamente.

No porta-luvas, Vassago encontrou algumas barras de doce e um romance policial de bolso. No console entre os bancos dianteiros, achou goma de mascar, balas de hortelã, mais doce, e um mapa da região do condado de Orange, editado pela Thomas Brothers.

Estudou o mapa durante algum tempo, depois ligou o motor e pôs o carro em movimento. Seguiu na direção de Anaheim, rumo ao endereço que constava da carteira de motorista de Redlow.

Quando estavam mais ou menos na metade do caminho, Redlow começou a gemer e se agitar, como se estivesse voltando a si. Segurando o volante com a mão esquerda, Vassago empunhou pelo cano o revólver e golpeou o homem na cabeça. Redlow ficou quieto novamente.

 

Uma das cinco crianças que dividiam com Regina a mesa do refeitório era Carl Cavanaugh, que tinha oito anos de idade e demonstrava isso o tempo inteiro. Era paraplégico e se movia em cadeira de rodas, o que já parecia ser um problema suficiente; mas ele conseguia tornar sua vida ainda pior pelo fato de ser aquilo que se poderia chamar um perfeito pestinha.

Assim que a mesa foi posta, Carl disse:

— Adoro sexta-feira à tarde, sabem por quê? — Sem dar aos demais uma chance de demonstrar desinteresse, completou: — Porque na quinta à noite o jantar é sempre feijão e sopa de ervilhas, e aí na sexta à tarde a gente peida que é uma beleza!

As outras crianças soltaram grunhidos de desagrado, Regina simplesmente o ignorou.

Pestinha ou não, Carl tinha razão: o jantar da quinta-feira, no Lar São Tomás para Crianças, era sempre sopa de ervilhas, presunto, feijão verde, batatas em molho de ervas, e como sobremesa um quadrado de geléia de frutas com creme de leite. Às vezes as freiras tomavam um cálice a mais de xerez ou simplesmente ficavam impacientes depois de tantos anos de batina; e quando elas perdiam o controle numa quinta-feira, era possível que o jantar oferecesse milho em vez de feijão verde, ou, se elas estavam realmente passando dos limites, talvez um par de biscoitos de baunilha junto com a geléia.

O cardápio daquela quinta-feira não apresentava surpresas, mas Regina não teria se importado — talvez até nem reparasse — se ele incluísse filé-mignon ou, ao contrário, bosta de vaca. Ela provavelmente não teria notado a presença de um pastel de carne em seu prato, embora certamente não ficasse incomodada se ele viesse substituindo o feijão verde: ela detestava feijão verde. Gostava de presunto. Tinha mentido ao dizer aos Harrison que era vegetariana, com a esperança de que eles vissem nessa questão de dieta um motivo a mais para rejeitá-la sem maiores delongas — melhor que fosse logo, assim de cara, do que mais tarde, quando iria doer muito mais. Enquanto ela comia, sua atenção não estava na comida nem na conversa dos outros garotos em redor da mesa, e sim no encontro daquela tarde no escritório do Sr. Gujilio.

Ela havia estragado tudo.

Alguém devia construir um dia um Museu de Cagadas Famosas, somente para que ela pudesse ter uma estátua ali num lugar de destaque, para que as pessoas viessem de todas as parte do mundo, da França, do Japão, do Chile, apenas para vê-la. Viriam garotos de escola, classes inteiras trazidas pela professora, para estudá-la e aprender o que não fazer e como não agir. Os pais iriam apontar para a estátua e fazer ameaças aos filhos: “Toda vez que vocês pensarem que estão sendo muito espertos, lembrem-se dela e pensem que vocês também podem acabar assim, uma figura ridícula e digna de pena, exposta ao riso e aos insultos de todos.”

Foi somente quando já tinham transcorrido dois terços da entrevista que ela percebeu que os Harrisons eram pessoas especiais. Provavelmente nunca iriam tratá-la tão mal quanto os Infames Dotterfields, o casal que depois de aceitá-la e levá-la para casa tinha precisado de apenas duas semanas para rejeitá-la, já que iam ter seu próprio bebê — um filho de Satã, com certeza, que iria nascer para destruir o mundo inteiro, principalmente os próprios Dotterfields, queimando-os vivos com uma labareda produzida pelos seus olhinhos de porco. (Hum-hummm. Desejando a desgraça do próximo. Um pensamento é tão grave quanto uma ação. Lembre-se disto na hora da confissão, Regina.) De qualquer modo, os Harrisons eram diferentes; algo que ela tinha começado a perceber muito lentamente (que grande cagada!) e só tivera certeza quando o Sr. Harrison fez aquela piada sobre pijamas de caviar, mostrando que tinha senso de humor. Mas àquela altura ela já estava tão envolvida com a própria representação que não tinha sido mais possível parar de ser antipática (de ser idiota, de ser imbecil); não tinha achado uma maneira de apagar tudo e recomeçar do princípio. Aquela altura, provavelmente, os Harrisons estariam tomando uma bebedeira para comemorar o fato de terem escapado por um fio; ou talvez estivessem de joelhos em alguma igreja, chorando de alívio e rezando um rosário atrás do outro, agradecendo à Nossa Senhora por ter vindo em seu socorro e evitado que adotassem no escuro aquela garotinha estúpida. Que merda. (Puxa. Vulgaridade. Mas não tão grave quanto dizer o nome de Deus em vão. Valeria a pena mencionar no confessionário?)

Apesar de não ter o menor apetite, e apesar das piadas sem graça de Carl Cavanaugh, ela comeu todo o seu jantar, mas apenas porque as policiais de Deus — as freiras — não a deixariam levantar da mesa enquanto não deixasse o prato limpo. A fruta que acompanhava a geléia de limão era pêssego, o que bastava para transformar a sobremesa num verdadeiro suplício. Ela não conseguia entender como é que alguém era capaz de imaginar que pêssego e limão pudessem combinar. Tudo bem, todo mundo sabe que freiras não entendem mesmo de muita coisa, mas afinal ela não estava exigindo que as freiras soubessem que tipo raro de vinho se deve servir com assado de filé de ornitorrinco, pelo amor de Deus! (Desculpe, Deus.) Abacaxi e geléia de limão, tudo bem. Pêra e geléia de limão, OK. Mesmo bananas e geléia de limão não tinha nada de mais. Mas colocar pêssego numa geléia de limão era, na opinião dela, o mesmo que retirar as passas de um pudim de arroz e substituí-las por pedaços de melancia. Pelo amor de Deus! (Desculpe, Deus.) Ela conseguiu comer a sobremesa recorrendo ao truque de dizer a si mesma que poderia ser bem pior: as freiras podiam ter servido rato morto em calda de chocolate... embora não tivesse a menor idéia do motivo por que as freiras serviriam logo isso. Ainda assim, imaginar algo bem pior do que o que teria que enfrentar era um truque que sempre funcionava, uma técnica de auto-sugestão que ela já tinha usado muitas vezes antes. Daí a pouco a detestável geléia tinha sumido por inteiro, e ela estava livre para deixar o refeitório.

Depois do jantar, a maioria das crianças ia para a sala de recreação, para jogar Monopólio e outros jogos, ou então à sala de TV para assistir qualquer bobagem que fosse ao ar naquele horário; mas ela voltou para o seu quarto, como de costume. Passava a maioria das noites lendo. Mas não naquela noite. Tinha acertado que passaria aquela noite inteira se lamentando e lembrando a si mesma sua posição como a pessoa mais burra e idiota do mundo (ainda bem que estupidez não era pecado), para nunca mais esquecer de como tinha sido imbecil, e lembrar a si mesma de nunca mais fazer um papel tão ridículo.

Cruzando os corredores ladrilhados com quase a mesma rapidez de uma criança com duas pernas sadias, ela lembrou-se de como tinha cambaleado no escritório do advogado, e enrubesceu. No seu quarto, que dividia com uma garota cega chamada Winnie, ela se jogou sobre a cama, olhando para o teto, enquanto recordava o modo deliberadamente desajeitado como tinha se erguido da cadeira diante dos Harrisons. Seu rosto ficou ainda mais vermelho, e ela o cobriu com as mãos.

— Regina — disse baixinho, dentro da concha formada pelas mãos —, você é a criatura mais cagona que existe neste mundo. — Mais um item na lista para a próxima confissão; além de mentir e enganar os outros, e de dizer o nome de Deus em vão: o uso repetido de vulgaridades. — Que merda, que merda, que merda. (Ih, vai ser uma looooonga confissão.)

 

Quando Redlow recuperou a consciência, havia tantas dores diferentes espalhadas pelo seu corpo que elas absorveram de imediato toda a sua atenção. Tinha uma dor de cabeça tão forte que se fosse entrevistado num comercial de TV eles teriam que abrir uma nova fábrica de aspirinas para atender ao súbito aumento da demanda. Um dos seus olhos estava inchado e quase totalmente fechado. Seus lábios estavam partidos e inchados, meio dormentes, mas davam a impressão de ter crescido. O pescoço doía, o estômago estava muito machucado, e seus testículos latejavam tanto, devido à joelhada que tinham levado, que a simples idéia de ficar de pé e andar fez com que uma onda violenta de náusea o invadisse.

Gradualmente, ele foi lembrando do que lhe acontecera. Aquele bastardo o tinha pegado de surpresa. Então, percebeu também que não estava caído no estacionamento do motel, e pela primeira vez em todo aquele episódio sentiu medo.

Não estava simplesmente sentado numa cadeira. Estava amarrado a ela. Cordas passavam pelo seu tronco e sua cintura, prendendo-o ao encosto; e também suas coxas estavam amarradas ao assento. Seus braços estavam amarrados aos braços da cadeira junto ao cotovelo e também à altura dos pulsos.

A dor tinha embotado seu raciocínio, mas agora o medo o colocou em alerta total.

Semicerrando o olho direito, que estava intacto, e tentando abrir um pouco mais o esquerdo, ele examinou a escuridão. Por um instante imaginou que estaria dentro de um dos quartos do Blue Skies; afinal, estivera lá pouco tempo atrás, numa ronda para ver se pegava alguma pista do tal garoto. Mas logo reconheceu sua própria sala de visitas. Não podia ver grande coisa. As luzes estavam todas apagadas. Mas ele vivia naquela casa há dezoito anos e podia identificar facilmente a disposição das janelas fracamente iluminadas pelas luzes de fora, as formas sombrias da mobília, sombras por entre sombras de intensidade diferente; e aquele odor sutil mas único, o odor de sua própria casa, algo que ele podia identificar com a mesma presteza com que um lobo identifica o odor de sua toca.

Só que naquela noite ele não se sentia nem um pouco lobo. Sentia-se como um coelho, tremendo de medo ao perceber que seu papel agora era o de caça, não de caçador.

Por alguns segundos chegou a pensar que estava ali sozinho, e começou a forçar as cordas. Então, uma sombra se ergueu do meio das outras sombras e veio na sua direção.

Ele não podia ver mais do que a silhueta do seu adversário, e mesmo esta parecia se dissolver por entre as silhuetas dos objetos inanimados ou parecia mudar de feição como se ele fosse uma criatura polimórfica, capaz de assumir uma enorme variedade de aparências. Ele soube de imediato que era o tal rapaz; pressentiu a diferença, a estranheza que tinha percebido nele desde a primeira vez que tinha posto os olhos sobre o bastardo, naquele domingo, quatro noites atrás, no motel Blue Skies.

—      Está confortável, Sr. Redlow?

Durante os últimos três meses, desde que começara a investigar aquele rapaz estranho, Redlow tinha começado a sentir uma enorme curiosidade a respeito dele, tentando adivinhar quais eram suas intenções, quais eram seus desejos, quais eram seus pensamentos. Depois de mostrar fotografias dele a um número incalculável de pessoas, e depois de passar ele próprio longas horas examinando as mesmas fotos, ele tinha desenvolvido uma curiosidade especial em saber como seria a voz do rapaz, a voz que acompanhava aquele rosto simpático mas que por alguma razão provocava arrepios. Mas o som da voz naquele instante não correspondeu à sua expectativa; ela não era fria nem metálica como a voz de uma máquina disfarçada em ser humano, nem era o grunhido gutural de uma besta feroz. Em vez disso era uma voz doce, persuasiva, com um timbre que reverberava agradavelmente nos ouvidos.

—      Sr. Redlow... está me escutando?

Mais do que qualquer coisa, foi a educação e a formalidade do seu modo de falar que desconcertaram Redlow.

—      Espero que me desculpe por ter sido tão rude, senhor, mas na verdade não tive alternativa.

Nada naquela voz indicava que o rapaz pudesse estar zombando dele ou sendo sarcástico. Era apenas um rapaz que tinha sido ensinado a tratar os mais velhos com consideração e respeito, um hábito de que não conseguia se libertar mesmo em circunstâncias como aquela. O detetive foi invadido por um pânico primitivo e supersticioso, como se descobrisse estar diante de uma entidade capaz de imitar a forma dos seres humanos, mas sem nada em comum com a humanidade.

Falando com dificuldade por entre os lábios rachados, Morton Redlow disse:

—      Quem é você, e que diabo quer comigo?

—      Você sabe quem sou eu.

—      Não tenho a menor idéia. Você me atacou por trás. Não vi nada. O que... você é um morcego ou coisa parecida? Por que não acende a luz?

O rapaz ainda era uma sombra negra, e essa sombra moveu-se mais para perto, até ficar a apenas um ou dois metros da cadeira.

—      O senhor foi contratado para me espionar.

—      Fui contratado para seguir um cara chamado Kirkaby. Leonard Kirkaby. A mulher pensa que ele tem uma amante. E tem mesmo. Ele traz a secretária dele ao Blue Skies toda quinta-feira para dar uma rapidinha.

—      Estou achando isso meio difícil de acreditar, senhor. O Blue Skies é para sujeitos sem grana e prostitutas baratas, e não para homens de negócios e suas secretárias.

—      Sei lá. Vai ver que gosta de lugares vagabundos. Vai ver que ele gosta de pensar que a secretária é uma prostituta barata. Quem pode saber? Mas você não é Kirkaby, tenho certeza... eu conheço a voz dele. E ele não é tão jovem assim, e além do mais é um tonei de banha. Ele não conseguiria jamais me nocautear.

O rapaz ficou quieto por algum tempo, de pé, fitando Redlow. Aí começou a andar de um lado para outro. No escuro. Sem esbarrar nos móveis. Parecia um gato inquieto, só que seus olhos não brilhavam.

Por fim, ele parou.

—      Então, senhor, isso é tudo que tem para me dizer? Que tudo não passou de um engano?

Redlow sabia que sua única chance de continuar vivo era convencer o rapaz daquela mentira... de que um sujeito chamado Kirkaby estava dando umas escapadas com a secretária e que a mulher dele precisava de provas para exigir o divórcio. Ele só não sabia que tom de voz usar para tornar a história mais convincente. Ao lidar com a maioria das pessoas, Redlow era dotado de uma intuição certeira sobre o modo correto de contar uma mentira e torná-la plausível. Mas aquele garoto era diferente. Ele não devia pensar e reagir como uma pessoa normal.

Redlow decidiu bancar o durão.

—      Olhe aqui, seu porra, eu gostaria muito de saber mesmo quem é você ou de poder reconhecer sua cara, porque assim que a gente se encontrasse em outra situação você ia levar um corretivo.

O rapaz ficou calado algum tempo, digerindo aquilo tudo. Depois disse:

—      OK, acredito no senhor.

Redlow sentiu um enorme alívio e relaxou os músculos do corpo; mas isto fez com que seus ferimentos voltassem a doer, e ele retesou-se novamente.

—      É uma pena — continuou o rapaz —, mas o senhor não serve para minha coleção.

—      Coleção?

—      Não há vida bastante no senhor.

—      Do que diabo está falando?

—      O senhor está acabado.

A conversa estava tomando um rumo que Redlow não conseguia entender, e isso o deixava pouco à vontade.

—      Desculpe, não quero ofendê-lo, mas está ficando meio velho para esse tipo de trabalho.

E por acaso eu não sei?, pensou Redlow. Ele percebeu que, a não ser por alguns instantes, logo ao recobrar os sentidos, em momento algum ele tinha procurado forçar as cordas que o prendiam. Poucos anos atrás, ele estaria forçando-as disfarçadamente, o tempo inteiro, tentando afrouxar seus nós. Agora, estava passivo.

—      O senhor é um homem musculoso, mas engordou bastante. Traz uma arma consigo, mas seus reflexos são lentos. Pela sua licença de motorista, fiquei sabendo que tem cinqüenta e quatro anos. Por que continua nesse tipo de trabalho?

—      É tudo que me resta — disse Redlow; e estava alerta o bastante para se surpreender com sua própria resposta. Sua intenção tinha sido a de dizer: “É a única coisa que sei fazer.”

—      Oh, claro, dá para ver isso — disse o rapaz, inclinando-se sobre ele na escuridão. — O senhor se divorciou duas vezes, não tem filhos, e no momento não vive com ninguém. Provavelmente não vive com uma mulher há vários anos. Desculpe, mas andei remexendo nas suas coisas enquanto estava desacordado, mesmo sabendo que não era uma coisa correta. Sinto muito. Eu só queria conhecer o senhor melhor, saber o que foi que o meteu nesta história.

Redlow não respondeu, porque não tinha a menor idéia sobre o rumo que as coisas estavam tomando. Tinha medo de dar a resposta errada e acender o estopim do rapaz. Aquele filho da mãe era louco, tinha que ser louco. E ninguém sabe o que pode enfurecer um psicopata de um instante para outro. Pelo jeito, o rapaz tinha sido submetido a algum tipo de análise ao longo dos anos, e agora estava querendo ele próprio analisar Redlow, por motivos que talvez nem ele mesmo soubesse explicar. Talvez fosse melhor deixá-lo falar à vontade, descontrair.

—      É por causa de dinheiro, Sr. Redlow?

—      Está querendo saber se eu ganho dinheiro com isto?

—      Foi o que perguntei, senhor.

—      Ganho o bastante.

—      Mas não guia um carro novo, nem se veste muito bem.

—      Não estou a fim de aparecer — disse Redlow.

—      Não quero lhe ofender, mas esta casa também não vale muita coisa.

—      Talvez não, mas a hipoteca está paga.

O rapaz estava parado diante dele, quase a tocá-lo, e a cada pergunta se inclinava um pouco mais para a frente, como se pudesse ver seu rosto naquela escuridão total e estivesse examinando atentamente seus tiques faciais à medida que o interrogava. Estranho. Mesmo no escuro Redlow podia sentir o rapaz mais próximo, cada vez mais próximo.

—      A hipoteca está paga — repetiu o rapaz, pensativo, — Então esta é sua única razão para continuar a trabalhar, para continuar vivo? Poder dizer que pagou a hipoteca de uma espelunca como esta aqui?

Redlow teve um impulso de mandá-lo se foder, mas de repente a estratégia de bancar o durão não lhe pareceu mais uma boa idéia.

—      Quer dizer que a vida se resume a isto, Sr. Redlow? Não existe mais nada? É por isso que vocês acham a vida uma coisa lão preciosa, e se apegam tanto a ela? É por isso que vocês, os adoradores da vida, fazem tanto esforço para continuar vivendo?... Para amontoar uma porção de trastes, e poder dizer que estão ganhando, na hora de cair fora do jogo? Sinto muito, mas não consigo entender. Não consigo mesmo.

O coração do detetive estava batendo rápido, muito rápido, martelando dolorosamente de encontro às costelas machucadas. Ele não tinha cuidado bem do coração durante todos aqueles anos... hambúrgueres demais, cigarros demais, cerveja e uísque demais. O que que aquele maluco estava tentando fazer... assustá-lo até provocar-lhe um enfarte?

—      Imagino — prosseguiu o rapaz — que deve ter alguns clientes que não querem deixar registros do fato de que o contrataram, e portanto pagam em dinheiro vivo. Será que esta minha dedução está correta?

Redlow pígarreou com dificuldade e tentou fazer com que a voz não revelasse muito medo.

—      Oh, claro. Alguns.

—      E, para sair do jogo ganhando, o senhor certamente não depositaria esse dinheiro num banco, para evitar impostos.

O rapaz estava agora tão próximo que Redlow podia sentir o seu hálito. Por algum motivo ele esperava que aquele hálito fosse fétido, desagradável. Mas ele era adocicado... como se o rapaz tivesse estado comendo chocolates no escuro,.

—      Então... então imagino que deve ter um bom pé-de-meia escondido aqui, em alguma parte da casa. Correto?

Uma onda cálida de esperança diminuiu os calafrios gelados que vinham sacudindo o corpo de Redlow nos últimos minutos. Se a questão era dinheiro, ele podia resolvê-la. Fazia sentido. Agora ele podia entender as motivações do rapaz, e a partir daí podia preparar uma estratégia para ainda estar vivo quando aquela noite chegasse ao fim,

—      Sim — disse. — Tenho algum dinheiro aqui. Pode levar. Pode levar, mas vá embora. Na cozinha... na cozinha tem uma lata de lixo, forrada por dentro com um saco plástico. Levante o saco... está cheio de lixo. Por baixo dele, tem um embrulho de papel pardo, no fundo da lata. É dinheiro.

Alguma coisa áspera e fria tocou a bochecha direita do detetive na escuridão, fazendo-o encolher-se,

—      É um alicate — disse o rapaz, e Redlow sentiu as pequenas mandíbulas de metal fincando-se na sua carne.

—      O que que você está fazendo?...

O rapaz torceu o alicate.

Redlow soltou um grito de dor.

—      Pare, pare, ai, pare com isso, porra!

O rapaz parou e afastou o alicate.

—      Desculpe —- disse ele —, mas espero que entenda que se não houver dinheiro nessa lata de lixo, vou ficar chateado. Vou pensar que se mentiu para mim sobre isso deve ter mentido em todo o restante.

—      O dinheiro está lá — disse Redlow, prontamente,

—      Mentir é feio, senhor. Não é uma coisa direita. Gente decente não diz mentiras, não é isso que nos ensinam?

— Vá, pode olhar — disse Redlow, em desespero, — Está lá, juro.

O rapaz afastou-se, cruzando a porta que dava para a sala de jantar. Seus passos suaves continuavam ressoando através da casa desde os ladrilhos da cozinha. Houve um ruído metálico quando o saco de lixo foi puxado para fora da lata, fazendo-a retinir de encontro ao piso.

Encharcado de suor, Redlow sentiu as gotas descerem em grossos filetes pela sua pele quando os passos do rapaz se aproximaram, de volta à sala. Seu vulto ressurgiu, uma sombra escura silhuetada de encontro ao retângulo vagamente acinzentado de uma janela,

—      Como é que pode enxergar? — murmurou o detetive, angustiado ao perceber um tom levemente histérico na própria voz, num momento em que precisava manter todo o autocontrole. Oh, sim... estava ficando velho. — O que... o que você está usando? Óculos noturnos, aquelas coisas do exército? Como diabos conseguiu botar as mãos em coisas desse tipo?

Ignorando as perguntas de Redlow, o rapaz disse:

—      Não preciso de muita coisa; somente um pouco de comida e umas mudas de roupas. O único dinheiro que consigo é quando adquiro uma peça para minha coleção, e mesmo assim é apenas o que ela estiver levando consigo. Às vezes não é muita coisa, apenas alguns dólares. Isto aqui vai me ajudar bastante. Puxa, se vai. Acho que vai me manter até que eu possa retornar... retornar ao lugar de onde vim. Sabe de onde vim, Sr. Redlow?

O detetive não respondeu. O rapaz tinha se agachado, abaixo do nível do peitoril da janela, e estava invisível. Redlow forçava os olhos, tentando perceber alguma coisa na escuridão, tentando perceber algum movimento ou alguma forma naquela direção.

—      Sabe de onde vim, Sr. Redlow? — repetiu o rapaz.

Redlow ouviu uma peça de mobília sendo empurrada para o lado. Talvez a mesinha perto do sofá.

—      Vim do Inferno — disse o rapaz. — Passei algum tempo lá. E quero voltar. Que tipo de vida tem levado, Sr. Redlow? Será que quando eu chegar de volta no Inferno vou encontrá-lo por lá?

—      O que está fazendo? — disse Redlow.

—      Procurando uma tomada — disse o rapaz, empurrando com violência algum outro móvel. — Ah, aqui está.

—      Tomada? — disse Redlow, inquieto. — Para quê?

Um ruído arrepiante cortou a escuridão: zzzzzzrrrrrrrrr...

—      O que é isso? — insistiu ele.

—      Só testando.

—      Testando o quê?

—      O senhor tem uma porção de porcelanas, faqueiros e utensílios de cozinha lá dentro, Acho que se liga muito nesse negócio de cozinhar, não é mesmo? — O rapaz estava novamente de pé, silhuetando de encontro à moldura acinzentada da janela. — Isso de cozinhar... começou a se interessar por isso antes do seu segundo divórcio ou é uma coisa mais recente?

—      O que é isso que está testando? — repetiu Redlow.

O rapaz aproximou-se.

—      Tem mais dinheiro — disse Redlow, quase fora de si. Estava novamente ensopado em suor. Corria pelo seu corpo como se ele estivesse debaixo de um chuveiro entreaberto. — No quarto principal. — O garoto voltou a inclinar-se sobre ele, uma forma misteriosa, não-humana. Parecia ser mais escuro do que tudo o mais ao seu redor, uma espécie de buraco negro com formato humano, mais negro do que a própria treva. — D-d-dentro do armário — continuou o detetive. — Existe um p-p-piso de madeira... — De repente, ele notou que sua bexiga estava completamente cheia, a ponto de estourar. Tinha inchado como um balão, em apenas alguns segundos. — T-tire os sapatos e as outras coisas, e lev-v-vante as tábuas da parte de t-trás. — Ia se urinar todo, dentro de mais alguns instantes. — Tem uma caixa... trinta mil dólares. Pode levar. Leve, por favor. Leve, mas vá embora.

—      Obrigado, mas o caso é que eu não preciso. O que tenho aqui já é o bastante. Mais do que bastante.

—      Oh, meu Deus, Deus, me ajude — disse Redlow, e teve uma pungente certeza de que aquela era a primeira vez que se dirigia a Deus, ou mesmo que pensava nele, em décadas.

—      Vamos conversar um pouco a respeito de quem o contratou, Sr. Redlow.

—      Eu já lhe disse que...

—      Sim, mas eu estava mentindo quando disse que acreditei.

Zzzzzzzrrrrrrr.

—      O que é isso? — disse Redlow.

—      Só testando.

—      Testando o que, caralho?!

—      Hum... funciona bem.

—      O quê?! O que é isso que você tem aí?!...

—      Uma faca — disse o rapaz. — Daquelas elétricas, de cortar carne.

 

Depois do jantar, Hatch e Lindsey voltaram para casa por uma rota diferente da habitual. Em vez de pegar a via expressa, optaram pela estrada da costa ao sul de Newport Beach, e vieram escutando a K-Earth 101.1 FM, cantando em voz alta velhos sucessos como New Orleans, Whispering Bells e Califórnia Dreaming. Ela nem se lembrava mais da última vez em que tinham cantado junto com o rádio, embora nos velhos tempos costumassem fazer isso o dia inteiro. Quando Jimmy tinha três anos, sabia de cor toda a letra de Pretty Woman. Aos quatro anos, era capaz de cantar Fifty Ways to Leave Your Lover sem errar uma linha sequer. Pela primeira vez em cinco anos, Lindsey conseguiu lembrar de Jimmy e continuar cantando.

Moravam em Laguna Niguel, ao sul de Laguna Beach, do lado oeste das colinas que margeiam a orla; privados da vista do mar, mas desfrutando da brisa marinha que amenizava o calor do verão e o frio do inverno. O bairro, como a maioria dos conjuntos habitacionais do sul do condado, era tão meticulosamente planejado que dava a impressão de ter sido desenhado por engenheiros militares. Mas as curvas graciosas das ruas, os postes metálicos de iluminação pintados de verde, os arranjos bem-cuidados de palmeiras, jacarandás e fícus-benjamins, e as impecáveis áreas verdes cobertas por faixas coloridas de flores — tudo era tão agradável à vista e ao espírito que aquela impressão subliminar de ordem não chegava a ser incômoda.

Sendo artista, Lindsey acreditava que as mãos dos homens e das mulheres eram tão capazes de criar coisas belas quanto a própria Natureza, e que a disciplina era algo fundamental na criação da verdadeira arte, porque a finalidade da arte era revelar os sentidos ocultos por trás do caos aparente da vida. Assim, ela era capaz de entender a intenção das pessoas que tinham urbanizado aquela área, trabalhando horas sem conta para coordenar a criação de um ambiente visual que previa até o desenho das grades de metal a serem colocadas nas tampas de esgoto.

A casa onde moravam desde a morte de Jimmy era em estilo italiano-mediterrâneo — assim como o resto da vizinhança — com quatro quartos de dormir e uma sala de leitura, coberta de estuque em cor creme, e com telhado em estilo mexicano. Dois grandes fícus ladeavam a entrada principal. As luzes de Malibu revelavam canteiros de petúnias colocados de frente para moitas de azaléias cobertas de flores vermelhas. No momento em que Hatch colocou o carro na garagem, estavam terminando os últimos compassos de You Send Me.

Enquanto Lindsey tomava banho, Hatch acendeu a lareira, que utilizava gás e troncos de madeira; e, quando ele próprio saiu do chuveiro, ela tinha acabado de servir duas doses de Baileys Irish Cream com gelo. Sentaram diante do fogo, repousando os pés sobre uma larga otomana que combinava com o sofá.

A mobília da casa era em estilo moderno com linhas suaves e tons naturais, fazendo um agradável contraste com as inúmeras peças antigas e com as pinturas de Lindsey, ao mesmo tempo em que servia como uma espécie de moldura para elas.

O sofá era imenso e confortável, ideal para longas conversas e, como ela descobriu pela primeira vez, também excelente para duas pessoas ficarem abraçadas. Para sua surpresa, os abraços logo se transformaram em beijos, daí evoluindo para carícias mais profundas, como se os dois fossem um casal de adolescentes, Deus do céu. Ela se sentiu arrebatada pela paixão, coisa que não lhe acontecia há anos.

Suas roupas foram caindo lentamente, como numa série de fusões numa cena de filme, até que os dois se viram completamente nus sem sequer entenderem o que estava se passando. E logo estavam outra vez nos braços um do outro, movendo-se juntos num ritmo suave, banhados pela luz avermelhada das chamas. O modo espontâneo e não-premeditado como eles passaram dessa suavidade inicial para um ritmo mais urgente e arquejante estabelecia um contraste flagrante com as cópulas que tinham experimentado desde a morte de Jimmy — mecânicas, e executadas como que por obrigação; Lindsey quase chegou a acreditar que aquilo não passava de um sonho, um sonho alimentado por cenas eróticas de filmes de Hollywood. Mas quando ela deslizou suas mãos pelos músculos das costas de Hatch, pelos seus ombros e seus braços, e quando ergueu os quadris para receber cada uma de suas arremetidas, e quando alcançou o orgasmo, uma, duas vezes, e sentiu-o afrouxar dentro de si perdendo a dureza do aço e deixando nela apenas o seu fluido quente, ela estava lucidamente certa de que não era um sonho. Na verdade, ela estava abrindo os olhos por fim, depois de um longo sono mergulhado na penumbra, e agora, depois daquela descarga de energias, sentia-se plenamente desperta pela primeira vez em muitos anos. O verdadeiro sonho tinha sido a vida real na última meia década; um pesadelo que felizmente chegara ao fim.

Deixando as roupas espalhadas pelo chão diante da lareira, subiram para o andar de cima, e fizeram amor mais uma vez, agora na imensa cama chinesa do seu quarto; desta vez com menos urgência e mais ternura, enquanto murmuravam palavras de carinho que pareciam reproduzir a letra e a melodia de uma canção cheia de suavidade. Agora, o ritmo mais lento permitia que ambos experimentassem melhor as texturas delicadas da pele um do outro, a maravilhosa flexibilidade dos músculos, a firmeza dos ossos, a delicadeza dos lábios e o bater sincopado dos dois corações. Quando as sucessivas ondas de êxtase cresceram e abateram-se entre os dois, na calma e no silêncio que se seguiram as palavras “Eu te amo” eram desnecessárias, mas ainda assim soavam como música aos ouvidos de ambos, e foram recebidas com carinho. Aquele dia de abril, desde o raiar das primeiras luzes da aurora até o momento em que se deixaram vencer pelo sono, tinha sido um dos melhores de toda a sua vida. Por ironia, a noite que se seguiu acabou sendo uma das piores da vida de Hatch — uma noite tão estranha, tão assustadora.

 

Às onze da noite Vassago tinha encerrado seu trabalho sobre Redlow e se livrara do corpo de modo satisfatório. Retornou ao Blue Skies dirigindo o Pontiac do detetive, tomou o demorado banho de chuveiro que tinha sido a razão inicial de sua ida até ali, vestiu roupas limpas e abandonou o motel com a firme intenção de nunca mais retornar àquele local. Se Redlow o tinha rastreado até ali, o motel não era mais seguro.

Dirigiu o Camaro ao longo de alguns quarteirões e o abandonou numa rua lateral, por entre enormes armazéns decadentes, num local onde podia ficar durante semanas até ser roubado ou rebocado pela polícia. Há cerca de um mês vinha usando aquele carro, roubado a uma das mulheres que acrescentara à sua coleção. Tinha trocado sua placa algumas vezes, substituindo-a por placas que roubava nos estacionamentos durante a madrugada.

Depois de voltar a pé para o motel, voltou a partir, dirigindo o Pontiac de Redlow. Não era um carro tão sexy quanto o Camaro prateado, mas achou que poderia ser-lhe útil por umas duas semanas.

Rumou para uma boate neo-punk chamada Rip It, em Huntington Beach, e chegando lá estacionou na parte mais escura. Achou uma maleta de ferramentas na mala do carro, e com uma chave de fenda e um par de alicates removeu a placa do Pontiac, trocando-a pela de um Ford cinzento e descon-juntado, parado a certa distância. Depois, levou o Pontiac até a outra extremidade do estacionamento e deixou-o ali.

Uma névoa aproximava-se, vindo do oceano, carregada com um cheiro enjoativo de maresia e morte. Palmeiras e postes telefônicos desapareciam como se aquele nevoeiro os corroesse, e as lâmpadas da iluminação pública se transformavam em manchas fantasmagóricas de luz boiando nas trevas.

Dentro, a boate estava do jeito que ele preferia. Suja, escura e invadida por um barulho ensurdecedor. Um cheiro de fumaça, suor e cerveja derramada impregnava o ar. Os músicos castigavam as cordas das guitarras com mais força do que qualquer banda que ele já tivesse ouvido, injetando pura raiva em cada acorde, retorcendo a melodia com guinchos de mutante, pisando e repisando aqueles ritmos elementares com selvageria e fúria, executando cada canção a um volume tão alto que, com o auxílio dos enormes amplificadores, o som deixava as janelas de vidro do recinto trepidando, e quase fazia sangrar os olhos de Vassago.

A multidão estava cheia de energia, e claramente sob o efeito de todo tipo de droga; muitos tinham aparência de bêbados, a maioria aparência perigosa. Quase todos usavam roupas pretas, de modo que Vassago passava quase despercebido. E ele não era o único que usava óculos escuros. Alguns dos fregueses, tanto homens quanto mulheres, eram skinheads, e alguns usavam o cabelo cortado em forma de pequenas pontas espetadas; mas nenhum deles exibia as espalhafatosas cabeleiras coloridas e das cristas-de-galo tingidas em cores vivas que tinham caracterizado os punks da primeira leva. Na pista de dança apinhada, as pessoas pareciam jogar-se umas de encontro às outras, esbarrar, apalpar-se umas às outras, mas era evidente que ninguém ali tinha assistido aulas num estúdio de Arthur Murray ou assistido Soul Train.

A madeira do balcão era cheia de riscos, manchas e nódoas. Vassago apontou com o dedo para uma fila de Corona, uma das seis marcas de cerveja em exposição nas prateleiras. Pagou e recebeu a garrafa sem que uma só palavra fosse trocada entre ele e o barman. Ficou ali parado, bebendo e examinando a multidão.

Muito poucos dos fregueses estavam conversando, tanto os que se enfileiravam ao longo do balcão quanto os que estavam sentados nas mesas ou de pé junto às paredes. A maior parte deles exibia rostos silenciosos e ar sombrio, não porque a música massacrante dificultasse o diálogo, mas porque representavam a nova onda de juventude alienada: pessoas ressentidas e desconfiadas não apenas com a sociedade em geral, mas também umas em relação às outras. Estavam convencidos de que nada importava a não ser a auto-satisfação, e que não valia a pena falar sobre nada, porque eles eram a derradeira geração de um mundo que marchava para a destruição, um mundo sem futuro.

Vassago conhecia outros bares do gênero, mas este era um dos dois únicos na região do condado de Orange e Los Angeles — a área que os executivos costumam chamar de Southland — que podiam ser considerados autênticos. Muitos dos outros atraíam pessoas que queriam apenas fazer um pouco de pose, assim como muitos dentistas e técnicos em contabilidade gostam de calçar botas de couro, jeans desbotados, camisas xadrez e chapelões, para ir nos fins de semana aos bares country e imaginar-se cowboys. No Rip It, não havia fingimento nos olhos de ninguém, e cada pessoa que passava encarava as demais com um ar de desafio, tentando decidir se estava a fim de sexo ou de violência, e qual das duas coisas aquela outra pessoa poderia lhe proporcionar. Se fosse uma questão de escolher uma ou outra coisa, a maioria teria preferido violência.

Havia uns poucos que estavam à procura de algo que transcendesse o sexo e a violência, mas sem uma idéia muito clara do que pudesse ser. Vassago poderia ter-lhes mostrado exatamente aquilo que estavam procurando.

O problema era que ele não conseguiu ver de imediato ninguém que valesse a pena adicionar à sua coleção. Ele não era um assassino vulgar, desses que saem matando pessoas pelo simples prazer de matá-las. A mera quantidade não exercia nenhuma sedução sobre ele; era a qualidade que o atraía. Considerava-se um gourmet em matéria de morte. Se tinha que provar ser digno de um retorno ao Inferno, teria que fazê-lo através de uma oferenda excepcional, uma coleção de mortes que fosse diferente de tudo, tanto pela harmonia de seu conjunto quanto pelas características de cada elemento.

Ele tinha feito uma aquisição no Rip It três meses atrás, uma garota que insistia em dizer que se chamava Neon. No carro, quando ele tentou nocauteá-la, o primeiro golpe não surtiu efeito, e ela se defendeu com tal ferocidade que aquilo chegou a lhe produzir uma euforia. Mesmo depois, no escuro subterrâneo do parque de diversões, ela lutou desesperadamente assim que recobrou a consciência, mordendo-o repetidamente até que ele quebrou-lhe a cabeça de encontro ao piso.

Agora, enquanto terminava sua cerveja, ele avistou à distância outra mulher que lhe lembrou Neon. Fisicamente as duas eram muito diferentes, mas espiritualmente eram a mesma coisa: pessoas calejadas, revoltadas por motivos que nem elas mesmas entendiam, muito vividas para a idade que tinham, e com toda a violência potencial de uma tigresa. Neon era morena, 1,60m, cabelo escuro. Esta outra era uma loura de vinte e poucos anos, cerca de l,68m. Magra, esguia. Olhos desafiantes, da mesma tonalidade azul que uma chama de gás, e ainda assim frios. Usava uma jaqueta jeans toda rasgada por cima de um suéter preto, uma minissaia preta e botas.

Numa época em que pose contava muito mais do que inteligência, ela sabia como se comportar para produzir um máximo de impacto, Caminhava com os ombros atirados para trás e a cabeça erguida de modo quase arrogante. Sua auto-suficiência intimidava tanto quanto uma couraça com pontas de aço. Embora todos os homens da boate a fitassem com olhos de desejo, nenhum deles ousava se aproximar, porque ela parecia ser capaz de castrá-los com uma só palavra ou um só olhar.

O que atraiu a atenção de Vassago, no entanto, foi a sua poderosa sexualidade. Era do tipo que sempre atrai a atenção dos homens — ele reparou que os que o ladeavam, no balcão, não tiravam os olhos dela — e muitos não se deixariam intimidar. Ela possuía uma vitalidade selvagem que fazia Neon parecer tímida, em comparação. Quando as suas defesas fossem vencidas, ela se revelaria uma mulher sensual e repulsivamente fértil; logo poderia estar gerando uma nova vida, como uma égua parideira.

Vassago concluiu que ela possuía duas fraquezas principais. A primeira era a clara convicção de ser superior a todo mundo que encontrasse, podendo portanto se considerar intocável e segura — o mesmo tipo de convicção que em tempos mais ingênuos permitia aos reis andar no meio da rua, por entre as pessoas comuns, com a certeza absoluta de que todos abririam caminho à sua passagem ou cairiam de joelhos em atitude reverente. A segunda fraqueza era sua própria fúria, que ela parecia represar dentro de si em tal quantidade que Vassago quase podia vê-la tremeluzindo através de sua pele pálida, como uma sobrecarga de eletricidade.

Ele imaginou como poderia exibi-la em seu museu de um modo que melhor simbolizasse seus defeitos. Logo teve umas boas idéias.

Ela estava junto de um grupo de seis homens e quatro mulheres, embora não parecesse estar acompanhada por ninguém em especial. Vassago estava tentando preparar uma estratégia de aproximação quando, para sua surpresa (embora não inteiramente), foi ela quem se aproximou. Ele achou que aquele encontro era inevitável. Afinal de contas, eles dois eram as duas pessoas mais perigosas que havia no interior daquela boate.

A banda anunciou um intervalo, e o nível de decibéis no interior do recinto caiu até um ponto em que não mais seria mortal para animais domésticos; nesse momento a loura se encaminhou na direção do bar. Ela enfiou seu corpo entre Vassago e outro homem, pediu uma cerveja, pagou. Recebeu a garrafa que o barman lhe estendeu e virou-se de lado, encarando Vassago por cima do gargalo da garrafa recém-aberta, e de onde se elevavam volutas de vapor gelado.

—      Você é cego? — disse ela.

—      Tem coisas que eu não vejo, senhorita — disse ele.

Ela fez uma cara de incredulidade.

—      Senhorita?!...

Ele limitou-se a encolher os ombros.

—      Por que os óculos? — continuou ela.

—      Estive no inferno.

—      Hum. E isso quer dizer o quê?

—      O Inferno é frio. Escuro.

—      E então? Por que os óculos?

—      Lá a gente aprende a ver as coisas em escuridão total.

—      E... é um papo furado muito interessante.

—      E eu agora tenho os olhos sensíveis à luz.

—      Um papo furado muito diferente.

Ele não respondeu.

Ela bebeu um pouco de cerveja, sem tirar os olhos dele. Vassago gostou do modo como os músculos de sua garganta se moviam a cada gole.

Depois de um momento, ela voltou a falar.

—      Você joga sempre esse tipo de papo ou é uma coisa que inventou agora?

Ele encolheu os ombros novamente.

—      Você estava me olhando — continuou ela.

—      E daí?

—      Tem razão. Todos esses babacas daqui ficam me olhando o tempo todo.

Vassago estava examinando seus olhos, tão azuis. Teve a idéia de que poderia extraí-los e colocá-los de novo nas órbitas, só que virados para dentro, como se ela estivesse fitando o interior do próprio crânio. Um comentário sobre o seu narcisismo.

 

No sonho, Hatch estava conversando com uma loura, uma loura belíssima, mas com uma expressão desdenhosa no rosto. Sua pele era suave como porcelana e seus olhos eram como gelo luzidio refletindo um céu claro de inverno. Estavam parados junto ao balcão de algum bar que ele nunca tinha visto antes. Ela o fitava por cima de uma garrafa de cerveja que segurava e levava à boca como se estivesse segurando um falo. O modo como ela aplicava a boca à garrafa e lambia devagar a abertura podia ser lido como um convite erótico... e como uma ameaça. Ele não conseguia escutar o que ela falava e distinguia apenas umas poucas palavras que ele próprio estava dizendo: “...estive no Inferno... frio, escuro... sensíveis à luz...” A loura olhava diretamente para ele, e Hatch não tinha dúvida de que era ele quem estava falando com ela, e no entanto aquela não parecia ser a sua voz. De repente, olhou os olhos dela com mais atenção e antes de perceber o que estava fazendo viu-se puxando um canivete e apertando a mola, fazendo a lâmina saltar. A mulher parecia não sentir nenhuma dor, na verdade parecia já estar morta, porque não esboçou nenhuma reação quando, num golpe rápido com a lâmina, ele arrancou o seu olho esquerdo de dentro da órbita. Segurando-o na ponta dos dedos, ele o recolocou no lugar, com a parte cega virada para fora e a íris azul para o lado de dentro...

Hatch sentou-se na cama. Não conseguia respirar. O coração batia descompassadamente. Jogou as pernas para fora da cama e conseguiu pôr-se de pé, invadido por um impulso de sair correndo... de fugir de alguma coisa. Mas tudo que conseguiu foi ficar ali, arquejante, sem saber para onde correr, sem saber onde poderia achar um abrigo, ficar em segurança.

Tinham adormecido com o abajur ligado na mesa-de-cabeceira, e uma toalha jogada por cima dele, para suavizar as luzes enquanto faziam amor. Havia iluminação bastante no quarto para ele distinguir Lindsey, deitada de lado sobre os lençóis revoltos.

Estava tão imóvel que bem poderia estar morta. Hatch teve um medo insano de tê-la assassinado. Com um canivete.

Então, ela mexeu-se e resmungou alguma coisa em pleno sono.

Ele teve um calafrio. Olhou para suas mãos, que tremiam.

Vassago ficou tão encantado com sua súbita inspiração que teve um forte impulso de arrancar os olhos da mulher ali mesmo, no bar, à vista de todos. Mas se conteve.

—      E então? — disse a loura, tomando mais um gole de cerveja. — O que você quer?

—      O que eu quero da vida?

—      O que quer de mim.

—      O que você acha?...

—      Humm... acho que quer uma transa rápida — disse ela,

—      Mais do que isso.

— Uma casa e um casal de filhos? — retrucou ela com sarcasmo.

Ele não respondeu logo. Aquela garota era uma caça diferente e não ia ser fácil atraí-la. Ele não queria correr o risco de dizer a coisa errada e deixá-la escapar. Pediu outra cerveja, bebeu lentamente.

Quatro músicos da banda reserva subiram no palco. Iam tocar enquanto a banda principal descansava. Logo, logo, qualquer diálogo ia ser novamente impossível. Mais do que isso: quando a música recomeçasse, o nível de energia do ambiente voltaria a se elevar e acabaria superando a energia que fluía entre ele e a loura. E ela talvez não ficasse mais acessível à sugestão de que saíssem juntos.

Finalmente, ele respondeu à pergunta que ela fizera, plantando cuidadosamente uma mentira quanto às suas intenções.

—      Existe alguma pessoa que você quisesse ver morta?

—      Claro. Todo mundo tem alguém assim.

—      Quem é essa pessoa?

—      Metade das pessoas que conheço.

—      Quero dizer alguém especial.

Ela começou a perceber qual era a sugestão velada que ele estava fazendo. Deu mais um gole na cerveja e voltou a esfregar os lábios e a língua de encontro ao gargalo da garrafa.

—      Hummm... isso é um jogo ou coisa parecida?

—      Só se quiser assim, senhorita.

—      Você é um cara estranho, sabia?

—      Não é disso que você gosta?

—      Talvez você seja da polícia.

—      Acha mesmo?

Ela o fitou com intensidade, embora não fosse capaz de ver mais do que uma imagem difusa dos seus olhos, por trás das lentes escuras.

—      Não — disse por fim. — Você não é polícia coisa nenhuma.

—      Sexo não é o começo ideal.

—      Ah, não é?

—      O melhor couvert é a morte. Primeiro brinca-se de matar, um pouco. Depois brinca-se de trepar. Você não pode imaginar como pode ser divertido.

Ela não respondeu.

A banda estava apanhando as guitarras, ligando os amplificadores. Ele disse:

—      Essa pessoa especial, que você gostaria de ver morta... é um cara?

—      Sim.

—      Mora perto daqui? Dá para ir de carro?

—      De carro, uns vinte minutos.

—      Então vamos lá.

Os músicos estavam afinando os instrumentos, embora esse cuidado pudesse parecer supérfluo, em vista do tipo de música que iriam executar. Sabiam apenas que tinham de escolher o repertório certo e tinham que tocar bem, porque aquele era o tipo de boate onde o público não hesitaria em começar um quebra-quebra se a banda não fosse do seu agrado.

Por fim, a loura disse:

—      Tenho um pouco de PCP aqui. Quer tomar um pouco?

—      Pó-de-anjo? Acaba com as minhas veias.

—      Está de carro?

—      Vamos.

Na saída, ele abriu a porta e deixou-a passar primeiro. Ela soltou uma gargalhada.

—      Puxa, você é um filho da puta muuuito estranho.

 

O relógio digital na cabeceira marcava 1:28 da manhã. Hatch dormira apenas umas duas horas, mas agora sentia-se totalmente desperto e sem a menor vontade de voltar para a cama.

Além do mais, estava com a boca ressecada. Sentia-se como se tivesse comido areia. Precisava beber alguma coisa.

A luz produzida pelo abajur coberto com uma toalha era bastante para ele se movimentar pelo quarto sem receio de acordar Lindsey. Ele foi até o armário e abriu silenciosamente sua gaveta; tremendo, retirou dali um suéter e o enfiou no tronco. Estava usando apenas as calças do pijama, mas sabia que vestir o paletó do pijama não seria suficiente para aquecê-lo.

Abriu a porta do quarto e saiu para o corredor. Deu uma rápida olhada na direção de Lindsey, que continuava dormindo. Estava linda naquela luz difusa, o cabelo negro espalhado sobre o travesseiro, o rosto descontraído, os lábios ligeiramente entreabertos, uma das mãos sob o queixo. Aquela visão, mais do que o suéter, o fez sentir-se aquecido. Ele pensou então nos anos que tinham perdido, deixando-se abater pelo sofrimento; e o medo residual deixado pelo pesadelo diluiu-se em meio a uma onda de remorso. Ele fechou a porta silenciosamente atrás de si.

O corredor do andar de cima estava cheio de sombras, mas alguma luz se elevava através das escadas, vinda do saguão no andar térreo. No trajeto do sofá para o quarto de dormir, eles não tinham se dado o trabalho de apagar as luzes.

Como um casal de adolescentes insaciáveis... Ele sorriu àquele pensamento.

Enquanto descia as escadas, voltou a lembrar do pesadelo que tivera, e seu sorriso desapareceu.

A loura. O canivete. O olho.

Tinha sido tão real.

No pé da escada ele parou, e escutou. O silêncio que reinava na casa não era normal. Ele bateu com os nós dos dedos de encontro ao balaústre da escada, só para produzir algum som. O ruído pareceu mais fraco do que seria normal. E o silêncio que se seguiu pareceu ainda mais opressivo.

— Puxa vida, você ficou assustado com esse sonho — disse ele em voz alta, e o som de sua própria voz lhe trouxe a segurança de volta.

Seus pés descalços produziram um leve ruído sobre as tábuas de carvalho que formavam o piso do saguão, e mais ainda nos ladrilhos de cerâmica da cozinha. Ele sentia a sede aumentando cada vez mais; foi até a geladeira, abriu uma lata de Pepsi, inclinou a cabeça para trás e, fechando os olhos, sorveu um grande gole.

Só que não sentiu gosto de Pepsi, e sim de cerveja.

Franzindo a testa, ele abriu os olhos e olhou para a lata de Pepsi, mas não era mais uma lata. Era uma mini cerveja, da mesma marca que ele estava bebendo no sonho: Corona; nem ele nem Lindsey bebiam Corona. Quando punham cerveja na geladeira, o que era uma coisa rara, era sempre Heineken. O medo começou a percorrê-lo, como vibrações sendo transmitidas através de um fio.

Então ele reparou que os ladrilhos da cozinha tinham desaparecido. Ele continuava descalço, mas agora de pé sobre um chão de cascalho. Os pedregulhos feriam as solas dos seus pés com arestas pontiagudas.

Seu coração disparou furiosamente, enquanto olhava em redor da cozinha, num impulso desesperado de convencer a si próprio de que estava em sua própria casa e que o mundo não se desviara ao longo de alguma estranha ultradimensão. Seu olhar correu ao longo dos armários de vidoeiro, pintados de branco; o granito escuro do balcão da pia; a pia metálica, a face reluzente do forno de microondas embutido... olhou para aquilo e fez um esforço mental para que o pesadelo retrocedesse. Mas o chão de cascalho permanecia. Ele ainda estava segurando uma Corona na mão direita. Virou-se na direção da pia, para passar um pouco de água fria no rosto, mas a pia havia desaparecido. Metade da cozinha tinha desaparecido, substituída pela visão de uma boate de beira de estrada, um pátio de estacionamento cheio de carros, e...

...e não havia mais cozinha alguma. Tinha sumido por completo. Ele estava a céu aberto, numa noite de abril, com uma névoa espessa refletindo o brilho vermelho de um letreiro em néon em algum ponto às suas costas. Estava caminhando ao longo de um pátio de estacionamento com chão de cascalho, com carros estacionados numa longa fila. Não estava mais descalço, e sim usando botas negras, com solas de borracha.

Ouviu a voz de uma mulher dizendo:

—      Meu nome é Lisa. E o seu?

Ele virou a cabeça e viu a mulher loura. Ela vinha caminhando lado a lado com ele, ao longo do estacionamento.

Em vez de responder no mesmo instante, ele ergueu a Corona até a boca, sorveu o derradeiro gole e, ao largar a garrafa vazia no chão, disse...

—      Meu nome é...

Ele tossiu, engasgado, enquanto a Pepsi derramava-se espumando da lata caída no chão, molhando seus pés descalços. O cascalho tinha desaparecido. Uma poça escura de Pepsi-Cola se espalhava sobre os ladrilhos de cerâmica da cozinha de sua casa.

Dentro do carro de Redlow, Lisa disse a Vassago para pegar a rodovia de San Diego na direção sul. Ele seguiu primeiro rumo leste, ao longo de ruas cobertas pelo denso nevoeiro, e quando alcançou a pista de acesso à rodovia Lisa havia tirado da bolsa algumas cápsulas de PCP, que eles engoliram juntamente com o resto da cerveja que ela trouxera.

PCP ou pó-de-anjo era um tranqüilizante animal que ingerido por seres humanos tinha o efeito exatamente inverso, provocando nas pessoas acessos de fúria destrutiva. Vassago pensou que seria interessante observar o efeito daquela droga em Lisa, que parecia ter uma mente semelhante à de uma serpente e para quem o conceito de moralidade parecia ser algo totalmente estranho. Ela dava a impressão de ver o mundo através de um véu de ressentimento e de ódio incessante; seu senso de poder pessoal e seu complexo de superioridade não bastavam para deixá-la a salvo de impulsos autodestrutivos, e ela era repleta de uma energia psicótica tão comprimida que parecia a ponto de explodir a qualquer instante. Vassago imaginou que com a ajuda do PCP, ela poderia atingir extremos de violência muito gratificantes, tempestades de fúria sanguinolenta cuja visão poderia deixá-la tremendamente excitado.

—      Onde é que a gente está indo? — perguntou ele, depois que pegaram a rodovia rumo ao sul. Os faróis do carro penetravam com dificuldade na névoa; era como se o mundo em redor tivesse sido obliterado e eles fossem capazes de inventar qualquer paisagem à sua frente, qualquer futuro. Tudo que imaginassem poderia ganhar corpo dentro daquela névoa e surgir diante deles.

—      El Toro — disse ela.

—      É onde ele mora?

—      Sim.

—      Quem é ele?

—      Precisa saber o nome?

—      Não, moça. Quero saber por que quer vê-lo morto.

Ela o examinou por alguns instantes. Gradualmente, um sorriso se alargou pelos seus lábios, como uma ferida aberta na carne por uma faca que se movesse em câmera lenta. Seus dentes muito brancos pareciam ter pontas aguçadas, como os dentes de uma piranha.

— Você é mesmo capaz, não é? — disse ela. — Você é capaz de ir até lá e matar o cara, só para me levar para a cama.

—      Não — disse Vassago. — Só para me divertir. É como eu lhe disse...

—      Primeiro brincar de matar, depois brincar de trepar — completou ela.

Vassago precisava fazer com que ela continuasse falando, e sentindo-se à vontade.

—      Ele mora em apartamento ou numa casa? — perguntou.

—      Faz diferença?

—      Muito mais fácil entrar numa casa, e os vizinhos ficam mais longe.

—      É uma casa — disse ela.

—      Por que você quer que ele morra?

—      Ele estava a fim de mim, eu não estava a fim dele, e ele achou que mesmo assim podia fazer o que lhe dava na telha.

—      Não deve ter sido fácil... com você.

Os olhos dela estavam mais frios do que nunca.

—      Ele levou uns pontos no rosto, depois da história toda.

—      Mas conseguiu o que queria?

—      Era muito maior do que eu.

Ela afastou os olhos e passou a encarar a estrada à frente.

Uma brisa tinha se erguido do oeste, e o nevoeiro não estava mais se espalhando placidamente pela paisagem noturna. Ele revoluteava ao longo da rodovia como fumaça escapando de uma enorme fogueira, como se toda a orla marítima estivesse em chamas, com cidades inteiras sendo consumidas e desabando em ruínas carbonizadas.

Vassago continuou fitando o perfil da loura e pensando como seria bom poder seguir com ela até El Toro, e ver até que ponto ela podia mergulhar em sangue para se vingar de alguém. Então ele poderia convencê-la a vir até o seu esconderijo e se entregar, de livre e espontânea vontade, para sua coleção. Ela ansiava pela morte, quer soubesse disso ou não. Ela lhe ficaria grata pelos doces momentos de dor que a conduziriam ao mundo dos malditos. Com aquela pele pálida quase luminosa em contraste com as roupas negras, e cheia de um ódio tão intenso que parecia se irradiar de seu corpo, ela seria uma visão incomparável caminhando por entre a coleção de Vassago, rumo ao seu destino, e aceitando calmamente o golpe final, num sacrifício voluntário que a mandaria de volta para o Inferno.

Mas ele sabia que aquilo não passava de uma fantasia; ela não seria capaz de morrer por causa dele, mesmo sendo atraída pela morte. Morreria apenas por si mesma, quando concluísse que a morte era seu último desejo.

No momento em que ela percebesse as verdadeiras intenções dele, iria reagir violentamente. Seria muito mais difícil de dominar do que Neon e poderia produzir estragos muito maiores. Vassago preferia levar cada nova aquisição ainda viva para o interior do seu museu e extrair a vida de seus corpos sob o olhar malévolo da estátua de Lúcifer. Mas ele soube logo que desta vez, com Lisa, não poderia se permitir esse luxo. Ela não seria fácil de subjugar fisicamente, mesmo que ele a atingisse com um golpe inesperado. E se ele perdesse a vantagem proporcionada pelo ataque de surpresa, ela seria uma adversária temível.

Ele não estava preocupado com a possibilidade de se machucar. Nada podia amedrontá-lo, inclusive a dor física. Na verdade, cada pancada que ela acertasse em seu corpo, cada corte que ela abrisse na sua carne, seria apenas fonte de mais emoção, de mais prazer.

O problema é que ela era forte, e talvez fosse forte o bastante para escapar dele — e esse risco ele não poderia correr. Não achava que ela fosse denunciá-lo à polícia: ela vivia numa subcultura que via os policiais com desprezo e com sarcasmo e os evitava com ódio. Mas se ela lhe escapasse ele perderia para sempre a chance de acrescentá-la à sua coleção. E estava convencido de que aquela energia perversa que havia dentro dela poderia ser a oferenda final que garantiria sua readmissão no Inferno.

—      E aí? — disse ela, ainda olhando para diante, através do nevoeiro, através do qual o Pontiac se precipitava a uma velocidade suicida. — Já está batendo?...

—      Um pouco — disse ele.

—      Não estou sentindo nada. — Ela abriu a bolsa e começou a remexer no seu interior, examinando os frascos e envelopes que conduzia. — Precisa de alguma coisa para aumentar o efeito.

Enquanto ela se distraiu à procura de alguma outra cápsula, Vassago segurou o volante com a mão esquerda e enfiou a direita embaixo do seu assento, onde tinha escondido o revólver de Morton Redlow. Lisa só ergueu os olhos quando sentiu o cano do revólver encostado às suas costelas. Se ela chegou a entender o que estava acontecendo, não demonstrou surpresa. Vassago disparou duas vezes, matando-a quase instantaneamente.

 

Hatch usou toalhas de papel para limpar a bebida derramada no chão da cozinha. Quando finalmente se inclinou sobre a pia para lavar as mãos, ainda estava trêmulo, mas não tanto quanto instantes atrás.

O terror, que por alguns minutos chegara a dominá-lo por completo, acabou cedendo algum espaço à curiosidade. Hesitante, ele tocou a borda da pia de aço inoxidável, e depois a torneira metálica, como se temesse que elas se evaporassem ao contato dos seus dedos. Tentou entender como era possível que um sonho continuasse, mesmo depois da pessoa despertar. A única explicação (uma que ele se recusava a aceitar) era insanidade.

Abriu a torneira, ajustou os jatos de água quente e água fria, molhou as mãos no sabão líquido e começou a lavar as mãos, bem devagar, enquanto olhava através da janela sobre a pia, que dava para o pátio traseiro. Só que... tinha sumido. Em vez do pátio, Hatch avistou uma rodovia. O vidro da janela tinha se transformado num pára-brisa. O asfalto, envolto num denso nevoeiro e visível apenas devido aos fachos paralelos de dois faróis, deslizava velozmente em sua direção, como se a casa estivesse se movendo a quase cem quilômetros por hora. Hatch sentiu uma presença a seu lado, onde não deveria existir nada mais além do forno da cozinha. Girando a cabeça, ele viu a loura remexendo dentro da bolsa. Percebeu que ele próprio estava segurando algona mão direita, algo mais sólido do que a espuma do sabão, e ao abaixar os olhos viu o revólver...

...e a cozinha eclipsou-se por completo: ele estava ao volante de um carro em disparada, ao longo de uma rodovia coberta pelo nevoeiro, apertando o cano de um revólver de encontro às costelas daquela mulher loura. Cheio de horror, ele percebeu, no momento em que ela ergueu os olhos para fitá-lo, seu dedo apertando o gatilho uma vez, duas vezes. Ela foi arremessada para o lado pelo duplo impacto, enquanto o estrondo ensurdecedor dos tiros ressoava no interior do carro.

 

Vassago jamais poderia ter previsto o que aconteceu.

O revólver devia estar carregado com cartuchos extremamente poderosos, porque os dois tiros atravessaram o corpo de Lisa com mais violência do que ele tinha imaginado, arremessando-a de encontro à porta do carro. Fosse porque a porta não estava bem trancada ou porque um dos tiros a atravessou por completo e atingiu o trinco, mas o fato é que a porta se abriu com o impacto. Uma poderosa rajada de vento entrou no Pontiac, com o uivo de um animal ferido, e Lisa foi sugada para fora, perdendo-se na escuridão. Ele pisou no freio e ergueu os olhos para o retrovisor; o carro rabeou para um lado e para outro, enquanto ele vislumbrava o corpo da loura rolando no asfalto e sumindo lá atrás.

Pensou em parar e voltar de ré para recolher o cadáver, mas mesmo àquela hora da madrugada havia tráfego ao longo da rodovia. Ele avistou dois pares de faróis aproximando-se lá atrás, a menos de um quilômetro de distância, duas meras manchas de luz no nevoeiro, porém mais brilhantes a cada momento que passava. Aquele dois motoristas alcançariam o local onde Lisa tinha caído antes que ele pudesse recolhê-la.

Tirando o pé do freio, pisou no acelerador e jogou o carro para a esquerda, e depois numa guinada rápida para a direita, fazendo com que a porta aberta batesse e fechasse. Ela ficou trepidando de encontro à moldura, mas não voltou a se abrir; talvez o trinco continuasse parcialmente intacto.

A visibilidade tinha caído para no máximo trinta metros à frente, mas Vassago voltou a acelerar a cem quilômetros por hora, cruzando como uma bala os turbilhões de névoa. Dois retornos após, ele deixou a rodovia e diminuiu a marcha. Pegando as ruas laterais, se afastou daquela área tão depressa quando pôde, obedecendo aos limites de velocidade; qualquer policial que o detivesse não deixaria de notar o sangue espalhado pelo assento e pelo vidro da janela do carro.

Pelo retrovisor, Hatch viu o corpo da mulher rolando, desconjuntado, sobre o asfalto da rodovia, sumindo no nevoeiro. Então, por um breve instante, viu seu próprio reflexo, do nariz até a testa. Estava usando óculos escuros... ao volante de um carro, em plena noite. Não. Ele não estava usando aquilo. Era o motorista do carro que os usava; o reflexo daquele espelho mostrava um rosto diferente do seu. Embora tivesse a sensação de estar ao volante, ele percebeu que isso não era verdade, porque mesmo naquele rápido vislumbre viu que os olhos por trás das lentes escuras eram... estranhos... perturbados... e totalmente diferentes dos seus próprios olhos. E então...

...ele estava novamente diante da pia da cozinha, arquejante, e tendo espasmos, como se quisesse vomitar. Do lado de fora da janela, via-se apenas o pátio traseiro da casa, quase indistinto em meio ao nevoeiro e à escuridão da noite.

—      Hatch?...

Assustado, ele virou-se.

Lindsey estava parada no umbral da porta, vestida num roupão de banho.

—      Você está bem?...

Limpando as mãos ensaboadas no suéter, ele tentou responder, mas o terror havia paralisado sua voz. Ela correu na sua direção.

—      Hatch!

Ele a abraçou com força e sentiu-se aliviado ao apertá-la de encontro a si, como se precisasse apenas daquilo para que as palavras finalmente pudessem escapar.

—      Eu a matei! — arquejou. — Ela foi jogada para fora do carro, oh meu Deus do céu, e o corpo dela saiu rolando pelo asfalto, como... como uma boneca quebrada.

 

A pedido de Hateh, Lindsey preparou um bule de café. O aroma familiar serviu como um antídoto para a estranheza daquela noite. Mais do que qualquer outra coisa, o cheiro de café restabeleceu um senso de normalidade que acalmou os nervos de Hatch. Beberam o café sentados na mesa onde tomavam o desjejum, na extremidade da cozinha.

Hatch insistiu em baixar a persiana, cobrindo a janela que dava para o pátio traseiro.

—      Tenho a impressão... de que tem alguma coisa lá fora. Não quero que aquilo fique olhando para nós.

Ele não conseguiu explicar o que era “aquilo”.

Após terminar de contar tudo que ocorrera desde que despertou do pesadelo — a loura, o canivete, o olho arrancado — Lindsey teve uma única explicação para aquilo tudo.

—      Não importa o que você sentiu naquela hora — disse ela —, mas o fato é que não podia estar totalmente acordado quando levantou da cama. Foi um momento de sonambulismo. Você só acordou de fato quando entrei na cozinha e chamei seu nome.

—      Eu nunca fui sonâmbulo — disse ele.

Ela tentou brincar.

—      Nunca é tarde para arranjar problemas.

—      Não, não me convence.

—      Então, qual é sua explicação?

—      Não tenho nenhuma.

—      Então foi sonambulismo.

Ele fitou a xícara de porcelana que segurava com ambas as mãos, como se fosse uma cigana tentando ler o futuro nos reflexos da luz sobre a superfície escura do líquido.

—      Você já sonhou que era outra pessoa?

—      Acho que sim.

Ele a fitou.

—      Não se trata de “achar”. Você já viu um sonho através dos olhos de alguém totalmente estranho? Lembra de algum sonho específico, que possa me contar?

—      Bem... não. Mas certamente deve ter acontecido, uma vez ou outra. Só que não lembro. Os sonhos são como fumaça... eles se desfazem tão depressa. Não se pode lembrar um sonho por muito tempo.

—      Vou lembrar deste pelo resto da minha vida — disse Hatch.

Voltaram para a cama, mas nenhum dos dois conseguiu conciliar o sono novamente. Talvez fosse por causa do café, Lindsey pensou que ele teria pedido café justamente para afugentar o sono, fugir ao pesadelo. Se era assim, bem... tinha funcionado.

Estavam deitados de rosto para cima, fitando o teto. De início, Hatch não quis desligar a lâmpada da mesinha-de-cabeceira, embora essa relutância tivesse se revelado apenas na ligeira hesitação que teve ao apertar o interruptor. Ele parecia uma criança já grande o bastante para distinguir os medos verdadeiros dos medos imaginários, mas que ainda não aprendera a evitar estes últimos; uma criança que tem medo dos monstros que podem estar escondidos debaixo da cama, mas que tem vergonha de confessá-lo. Agora, com a luz apagada e apenas o brilho distante das lâmpadas da rua atravessando a fresta por entre as cortinas, a ansiedade dele tinha contaminado Lindsey. Ela começou a imaginar que algumas das sombras no teto se moviam, com formas de morcego, de lagarto, de aranha... sombras que pareciam cheias de ameaça e de intenções malévolas.

Ficaram conversando em voz baixa, durante longo tempo, sobre nada em especial. Ambos sabiam sobre o que precisavam conversar, mas tinham medo. Era algo diferente das sombras monstruosas do teto e das ameaças escondidas debaixo da cama; era um medo real. Lesão cerebral.

Desde o dia em que despertara no hospital após a ressurreição, Hatch vinha tendo pesadelos de uma nitidez inquietante. Não acontecia todas as noites. Acontecia de ele dormir um sono tranqüilo três ou quatro noites seguidas. Mas agora estavam se tornando mais freqüentes, a cada semana, e sua intensidade também aumentava cada vez mais.

Não era sempre o mesmo sonho, mas continha elementos semelhantes. Violência. Imagens horríveis de corpos nus, apodrecidos, contorcendo-se em posições estranhas. Os sonhos sempre se desenrolavam do ponto de vista de um homem estranho, sempre a mesma figura misteriosa; como se Hatch fosse um espírito que invadisse o seu corpo, mas fosse incapaz de controlar suas ações e se limitasse a acompanhá-lo. Em geral, os sonhos começavam ou acabavam — às vezes começavam e acabavam — no mesmo cenário: um conjunto de edifícios estranhos e outras construções que ele não conseguia identificar, todas às escuras e visíveis apenas como uma série de silhuetas recortadas contra o céu noturno. Ele também via salões cavernosos e labirintos de corredores de concreto que de alguma forma ele conseguia discernir, apesar da inexistência de janelas ou de iluminação artificial. Ao contar os sonhos a Lindsey, ele sempre admitia que aquele ambiente lhe era vagamente familiar, mas nunca conseguia reconhecê-lo por completo, até porque o que conseguia enxergar era muito pouco.

Até aquela noite, eles tinham tentado se convencer de que aquilo era um problema passageiro. Hatch estava cheio de pensamento positivo, como sempre. Pesadelos não eram um problema incomum. Todo mundo tem pesadelos. Na maioria das vezes são produzidos pelo estresse. Reduza o estresse, e os pesadelos desaparecerão.

Mas eles não desapareciam. E agora tinham tomado uma nova e inquietante feição: sonambulismo.

Ou talvez ele estivesse começando a sofrer alucinações, quando acordado, com as mesmas imagens que tinham perturbado seu sono.

Um pouco antes da aurora, Hatch estendeu a mão por baixo do lençol e segurou a de Lindsey, murmurando:

—      Eu vou ficar bom. Não foi nada. Foi só um sonho.

—- A primeira coisa que você vai fazer de manhã é ligar para Nyebern —      disse ela, sentindo o coração afundar como uma pedra numa poça dágua. —       Ele pediu para que o avisássemos se aparecesse qualquer sintoma de...

—      Ora, isto não é sintoma de nada — disse Hatch, tentando manter um tom jovial na voz.

—      Sintomas físicos ou mentais — disse ela. Temia por ele... e por ela própria, caso houvesse algo de errado com o marido.

—      Fiz todos os testes, a maioria mais de duas vezes. O resultado foi perfeito. Não tenho lesão cerebral.

—      Se é assim, não tem com que se preocupar, não é mesmo? Não tem motivo para não ligar para Nyebern.

—      Se houvesse alguma lesão cerebral, ela teria se manifestado desde logo — disse ele. — Lesões assim não são uma coisa residual, que só se manifesta depois de algum tempo.

Ficaram calados por um instante.

Ela não conseguia mais imaginar que criaturas ameaçadoras rastejavam ao longo das sombras no teto. Os medos imaginários tinham se evaporado no momento em que ela dissera em voz alta o nome do perigo real que teriam de enfrentar.

—      E Regina? — disse ela, passado algum tempo.

Ele avaliou a questão por segundos.

—      Acho que podemos levar a coisa adiante — disse por fim. — Preencher a papelada, e tudo o mais... supondo que ela queira viver conosco, é claro.

—      E... e se você tiver algum problema? Se isso aí piorar?

—      Vai demorar alguns dias até que possamos deixar tudo pronto e trazê-la para casa. A essa altura, já teremos o resultado dos exames médicos e tudo o mais. Tenho certeza de que vai dar tudo certo.

—      Você parece muito descontraído.

—      Claro. Estresse mata.

—      E se Nyebern disser que alguma coisa está errada...

—      Se for realmente necessário, pedimos um adiamento ao pessoal do orfanato. A questão é: se eu disser a eles amanhã que estou tendo algum tipo de problema e não posso assinar os papéis de imediato, podem começar a mudar de idéia a nosso respeito. Podem acabar nos rejeitando, e não teremos outra chance com Regina.

Aquele tinha sido um dia perfeito, desde a reunião no escritório de Sal vatore Gujilio até a hora em que tinham feito amor diante da lareira, e depois na sua enorme cama de casal chinesa. O futuro parecera tão radiante, e os dias piores pareciam definitivamente perdidos no passado. Lindsey estava perplexa em ver como eles eram subitamente forçados a enfrentar uma nova crise.

— Oh, meu Deus... — disse ela. — Hatch, eu te amo tanto.

Dentro da escuridão, ele deslizou para junto dela e tomou-a nos braços. Durante muito tempo, mesmo depois do raiar do dia, os dois ficaram abraçados, sem dizer nada, porque tudo já havia sido dito.

Mais tarde, após tomarem um banho de chuveiro e se vestirem, os dois desceram para a cozinha e tomaram o café da manhã. Costumavam ouvir rádio todos os dias, durante o desjejum, uma estação só de notícias. Foi justamente ali que ouviram a respeito de Lisa Blaine, a mulher loura assassinada com dois tiros e atirada para fora de um carro em movimento na rodovia de San Diego, na noite anterior — exatamente na mesma hora em que Hatch, de pé naquela mesma cozinha, teve a visão do gatilho sendo puxado duas vezes e o corpo rolando pelo asfalto enquanto o carro se afastava.

 

Por motivos que não conseguia entender, Hatch se sentiu forçado a ver o trecho da rodovia onde a mulher tinha sido encontrada morta,

—      Talvez me dê algum palpite — foi a única maneira como pôde explicar.

Sentou-se ao volante do seu novo Mitsubishi vermelho e partiram na direção norte pela rodovia da orla marítima. Depois rumaram para oeste, até o South Coast Plaza Shopping Mall, onde entraram na rodovia de San Diego rumo ao sul. Hatch queria chegar ao local do crime vindo na mesma direção seguida pelo assassino da noite anterior.

Por volta das 9:15, o rush já tinha decrescido consideravelmente, mas na maioria das pistas ainda havia retenções. Avançaram num ritmo irregular na direção do sul, no meio de uma nuvem de poluição causada pelos canos de descarga, da qual o ar-condicionado do carro felizmente os poupava.

O nevoeiro marinho que dominara a orla durante a noite anterior já tinha se dissipado. As árvores se agitavam suavemente na brisa da primavera, e os pássaros descreviam vertiginosas trajetórias em arco de encontro ao céu sem nuvens, intensamente azul. Não parecia de modo algum um dia em que alguém pudesse estar com o pensamento voltado para a morte.

Passaram a saída para o MacArthur Boulevar, depois o Jamboree, e a cada giro dos pneus Hatch sentia os músculos do pescoço e ombros ficarem mais tensos. Estava possuído pela estranha sensação de que de fato percorrera aquele mesmo caminho na noite passada, quando o fog tinha impedido a visão do aeroporto, dos hotéis, dos edifícios de escritórios e das colinas marrons à distância... embora na verdade tivesse passado a noite em casa.

—      Eles estavam indo para El Toro — disse ele; era um detalhe que não tinha lembrado até aquela altura. Ou talvez tivesse percebido somente agora, devido a alguma espécie de sexto sentido.

—      Talvez ela morasse lá... ou ele.

Franzindo a testa, Hatch respondeu:

—      Não... não acho.

Enquanto avançavam devagar ao longo das pistas congestionadas, ele começou a recordar não apenas os detalhes do sonho, mas a sensação, aquela atmosfera cortante de violência prestes a explodir.

Suas mãos deslizaram no volante: estavam úmidas. Ele as secou de encontro à camisa.

—      Acho que de certo modo... — disse — ...ela era tão perigosa quanto ele. A loura.

—      O que quer dizer?

—      Não sei. Foi a sensação que tive na hora.

Os raios do sol se refletiam nas filas intermináveis de veículos que fluíam rumo norte e rumo sul em dois rios intermináveis feitos de aço, cromo e vidro. Do lado de fora, a temperatura andava na casa dos trinta graus, mas Hatch estava gelado.

Surgiu uma placa anunciando que a próxima saída seria a do Culver Boulevard, e Hatch inclinou-se ligeiramente mais para a frente. Segurando o volante com a mão esquerda, enfiou a direita embaixo do assento.

—      Foi aqui que ele pegou a arma... retirou-a... a mulher estava procurando alguma coisa na bolsa...

Ele não teria ficado surpreso se de fato encontrasse uma arma embaixo do assento de seu próprio carro, tão nítida era sua lembrança da maneira fluida como sonho e realidade tinham se misturado, se separado e misturado outra vez ao longo da noite anterior. E por que não agora, mesmo à luz do dia? Deu um suspiro de alívio quando constatou que o espaço embaixo do seu banco estava vazio.

—      A polícia — disse Lindsey.

Hatch estivera tão mergulhado na lembrança dos acontecimentos do seu pesadelo que não entendeu de imediato o que a mulher tinha dito. Então avistou as viaturas da polícia paradas do lado da rodovia.

Havia alguns policiais curvados para a frente, examinando atentamente o asfalto e o mato rasteiro ao longo do acostamento. Era evidente que estavam ampliando as buscas, tentando descobrir algum outro indício, algo que pudesse ter caído do carro do assassino juntamente com 0 cadáver da loura, antes dele ou depois.

Hatch notou que todos os policiais usavam óculos escuros, tal como ele e Lindsey. O sol estava extremamente intenso naquela manhã.

Mas o assassino também usara óculos escuros, quando olhou no espelho retrovisor. Por que estaria usando aqueles óculos numa noite de nevoeiro tão espesso, por Deus do céu?

Óculos escuros à noite, numa noite de fog, era algo mais do que afetação ou excentricidade. Era algo... anormal.

Hatch ainda se sentia como se segurasse na mão direita uma arma imaginária, retirada de sob o assento. Mas como estavam se movendo muito mais lentamente do que o carro da noite anterior, ainda não haviam atingido o ponto onde a arma tinha sido disparada.

O tráfego àquela altura estava pára-choques com pára-choques, não porque aquela hora do rush estivesse mais congestionada do que de hábito, mas porque os motoristas diminuíam a marcha para observar o trabalho da polícia. Era o que os repórteres de rádio chamavam de “engarrafamento de curiosos”.

—      Ele ia pisando fundo — disse Hatch.

—      Numa noite de nevoeiro.

—      E de óculos escuros.

—      Idiota — disse Lindsey.

—      Não, não. Esse cara é esperto.

—      Pois a mim parece um idiota.

—      Ele não sente medo. — Hatch tentou mais uma vez colocar-se de novo na pele do homem cujo corpo tinha habitado durante o pesadelo. Não era fácil. Havia alguma coisa naquele criminoso que lhe parecia totalmente não-humana e resistia teimosamente a uma análise. — É um sujeito frio...dentro dele tudo é muito frio, e escuro. Ele não pensa como eu ou você. — Hatch lutou para encontrar palavras adequadas para descrever a sensação que lhe produzia a mente do assassino. — Sujo. — Balançou a cabeça. — Não estou querendo dizer que ele não toma banho ou coisa desse tipo. É como se... como se ele estivesse contaminado. — Deu um suspiro e desistiu. — De qualquer modo, é um sujeito totalmente sem medo. Nada pode atemorizá-lo.

Ele acredita que nada no mundo pode fazer-lhe mal. Mas no caso dele não se trata de imprudência, porque... porque de certo modo ele tem razão.

—      O que quer dizer com isso? Que ele é invulnerável?

—      Não. Não exatamente. Mas nada que se possa fazer tem importância para ele.

Lindsey cruzou os braços sobre o peito, aconchegando-se.

—      Você faz com que ele pareça... não-humano.

Naquele momento, a busca policial se concentrava no trecho de cerca de quatrocentos metros ao sul da saída para o Culver Boulevard. Quando Hatch ultrapassou aquele ponto, o trânsito começou a fluir mais rapidamente.

A arma imaginária em sua mão direita parecia assumir consistência real a cada momento. Ele quase podia sentir o frio do aço de encontro à palma da mão.

Quando apontou o revólver fantasma para Lindsey e olhou para ela, ela fez uma careta de desagrado. Ele a viu com clareza, mas ao mesmo tempo podia ver, na memória, o rosto da loura no momento em que ela ergueu os olhos da bolsa, sem tempo sequer para esboçar uma reação de surpresa.

—      Aqui. Foi justamente aqui. Dois tiros, tão depressa quanto... quanto consegui puxar o gatilho. — Hatch estava tremendo, porque a sensação de violência era mais fácil de captar do que a impressão maligna causada pelo criminoso. — Fez dois buracos enormes no corpo dela. — Ele podia ver tudo com uma clareza aterradora. — Meu Deus, foi horrível. — Estava totalmente mergulhado na cena. — O modo como a carne dela se abriu. E o som... parecia um trovão, parecia o fim do mundo. — O gosto amargo de ácido estomacal subiu até sua garganta. — Ela foi jogada para o lado, com o impacto... de encontro à porta. Morreu na hora, mas a porta se abriu. Ele não imaginava que a porta fosse se abrir. Ele queria a mulher para si, queria levá-la para fazer parte de sua coleção; mas num instante ela sumiu, desapareceu na noite, rolando no asfalto como se fosse uma coisa.

Arrebatado pela recordação do pesadelo, ele enfiou o pé no freio do mesmo modo como o assassino tinha feito.

Um carro, depois outro, depois um terceiro os ultrapassaram de ambos os lados, rabeando, com os pneus cantando no asfalto; passaram como relâmpagos de metal cromado e de vidro refletindo a luz do sol, enquanto os motoristas buzinavam com alarde, mal evitando a colisão.

Sacudindo os ombros como se quisesse se livrar daquela lembrança, Hatch acelerou outra vez, emparelhando com o fluxo do tráfego. Percebeu que as pessoas dos outros carros olhavam na sua direção.

Não se incomodou com essa curiosidade, porque agora, como se fosse um cão de caça, tinha por fim seguido a pista certa. Não que fosse exatamente uma pista olfativa que estivesse seguindo. Era algo indefinível que o atraía para a frente, talvez vibrações psíquicas, uma perturbação no éter produzida pela passagem do assassino assim como a barbatana de um tubarão corta a superfície do mar, só que o éter não tinha voltado a se fechar sobre si mesmo com a mesma presteza da água.

—      Ele pensou em voltar para recolher o corpo — disse Hatch. — Mas viu que não ia adiantar, de modo que seguiu em frente. — Percebeu que sua voz soava baixa e áspera, como se estivesse contando em voz alta segredos dolorosos demais para serem revelados.

—      Então — disse Lindsey — eu entrei na cozinha, e você estava lá, emitindo sons como se estivesse sufocando. E segurando a borda da pia, como se fosse arrebentá-la. Pensei que estava tendo um ataque do coração...

—      Ele ia a toda velocidade — continuou Hatch, acelerando um pouco mais. — Cem, cento e vinte, mais ainda, querendo afastar-se dali antes que os carros que vinham atrás avistassem o corpo.

Lindsey percebeu que ele não estava simplesmente especulando sobre o que o criminoso tinha feito.

—      Você está lembrando mais do que havia no sonho — disse. — Já passamos do ponto onde entrei na cozinha e o acordei.

—      Não estou lembrando — disse ele com voz rouca.

—      Então, o que é?

—      Estou sentindo.

—      Agora?

—      Sim.

—      Como?

—      Não sei. De algum modo. — Ele não conseguia explicar melhor do que isto. — De algum modo — repetiu, os olhos fitando a faixa de asfalto estendida sobre aquela imensa área, e que parecia mais escura a cada instante, como se o assassino projetasse uma sombra maior do que ele próprio, uma sombra que permanecia no local horas depois de ele próprio ter passado por ali. — Cem... cento e vinte... quase cento e trinta por hora, e conseguindo enxergar no máximo trinta metros adiante. — Se houvesse tráfego mais intenso àquela hora, o assassino poderia ter provocado uma colisão de proporções aterradoras. — Ele não pegou a primeira saída da rodovia, ele queria ir mais longe ainda... foi em frente, em frente...

Quase não conseguiu reduzir a velocidade a tempo de pegar a saída para a estrada estadual 133, que se transformava na estrada do canyon rumo a Laguna Beach. No derradeiro momento ele pisou no freio e jogou o volante para o lado direito; o Mitsubishi derrapou um pouco quando entraram na estadual, mas Hatch logo reduziu a velocidade e recuperou controle total sobre o carro.

—      Foi aqui que ele saiu? — disse Lindsey.

—      Sim.

Hatch pegou a nova estrada que havia do lado direito.

—      Ele foi para Laguna?

—      Eu... não sei. Acho que não.

Ele parou num cruzamento marcado por um sinal de PARE. Pôs o carro no acostamento. A sua frente estendia-se o campo aberto, com as colinas recobertas por vegetação irregular. Se ele seguisse em frente no cruzamento, estaria rumando para Laguna Canyon, onde os projetos imobiliários ainda não tinham conseguido lotear os terrenos e construir seus conjuntos habitacionais. Quilômetros de matagal e de árvores esparsas ladeavam a estrada do canyon até Laguna Beach. Mas o criminoso também poderia ter virado para a direita ou para a esquerda. Hatch olhou em todas as direções, procurando... procurando os sinais invisíveis que o haviam guiado até ali.

Depois de um momento, Lindsey perguntou:

—      Não sabe para onde ele foi depois daqui?

—      O Esconderijo.

—      Hã?

Hatch piscou os olhos, sem saber por que escolhera justamente aquela palavra.

—      Ele voltou para seu esconderijo... debaixo da terra.

—      Debaixo da terra? — Com olhos perplexos, Lindsey esquadrinhou a paisagem em redor.

—      ...na escuridão.

—      Você quer dizer que ele foi para um lugar subterrâneo?

—      ..frio... e silencioso...

Hatch permaneceu sentado, os olhos fitos naquela encruzilhada, enquanto outros carros passavam nesta ou naquela direção. Tinha chegado ao fim da trilha. O assassino não estava ali; isso ele sabia, mas não fazia idéia de para onde o outro podia ter seguido. Não estava captando mais nada — exceto, que coisa esquisita, o gosto de chocolate de biscoitos Oreo, tão intenso como se ele tivesse acabado de morder um.

 

Em Laguna Beach, sentados à mesa do The Cottage, eles fizeram um lanche que serviu como desjejum reforçado: batatas fritas, ovos, bacon e torradas com manteiga. Desde sua morte e ressurreição, Hatch deixara de se preocupar com coisas como seu nível de colesterol ou os possíveis efeitos a longo prazo da inalação de fumaça de cigarro no ambiente. Ele imaginou que chegaria o dia em que esses pequenos perigos voltariam a parecer grandes, e ele iria novamente se preocupar em manter uma dieta rica em frutas e legumes, reclamar dos fumantes que soltavam baforadas em sua direção e abrir uma garrafa de vinho com aquela mistura de deleite e de preocupação quanto às conseqüências negativas do uso do álcool. Naquele momento, entretanto, ele estava aproveitando a vida, sem se preocupar muito com a perspectiva de voltar a perdê-la — e esse era um dos motivos pelos quais ele estava tão determinado a não permitir que os pesadelos e a morte daquela loura desconhecida pudessem jogá-lo de novo na depressão.

A comida tinha sobre ele um efeito tranqüilizante. Cada bocado de ovo mexido servia para acalmar ainda mais seus nervos.

—      Muito bem — disse Lindsey, que encarava seu prato com muito menos disposição do que o marido. — Mas vamos supor que houve alguma lesão cerebral, afinal de contas, mas muito pequena. Tão insignificante que não foi acusada pelos testes. Nada sério a ponto de provocar paralisia ou problemas com a fala, coisas desse tipo. Na verdade, por um incrível golpe de sorte, por uma chance tipo uma em um bilhão, essa lesão teve um efeito estranho e, em última análise, benéfico. Ela provocou algumas novas conexões em seu tecido cerebral ou coisa que o valha... e você tornou-se paranormal.

—      Bobagem.

—      Porquê?

—      Eu não sou paranormal.

—      E que nome você dá a isso?

—      E mesmo que fosse “paranormalidade”, eu não diria que é algo benéfico.

Como já passava bastante da hora habitual do desjejum, o restaurante não estava muito cheio. As mesas mais próximas deles estavam vazias, e eles podiam discutir os acontecimentos daquela manhã sem o temor de que alguém pudesse escutar a conversa; ainda assim, Hatch de vez em quando relanceava um olhar desconfiado em redor.

Nos dias imediatamente após sua ressurreição, o hospital tinha fervilhado de jornalistas, e após receber alta os repórteres tinham praticamente montado um acampamento diante de sua casa. Afinal de contas, ele tinha passado mais tempo morto do que qualquer outra pessoa, o que lhe garantia muito mais do que os quinze minutos de fama que Andy Warhol preconizara para as pessoas do futuro, numa América obcecada pelo conceito de celebridade. Mas ele nada fizera para merecer essa fama. Ele não a desejava. Não tinha lutado contra a morte até vencê-la, e sim Lindsey, Nyebern e a equipe de ressurreição. Ele era um indivíduo amante da privacidade e se dava por satisfeito em ter o respeito tranqüilo dos negociantes de antigüidades que constituíam seu universo profissional. Na verdade, se a única pessoa a respeitá-lo fosse Lindsey, se ele fosse famoso apenas aos olhos dela, e pelo fato de ser um bom marido, isso seria o bastante. Assim, recusou-se terminantemente a falar com a imprensa, até convencer a todos de que o melhor a fazer seria deixá-lo em paz e ir à procura de algum bode de duas cabeças — ou equivalente — que lhe garantisse as manchetes nos jornais ou uma notícia entre dois intervalos comerciais para vender desodorante.

Agora, se ele revelasse a alguém que tinha ressuscitado com algum tipo de estranho poder que o punha em contato com a mente de um assassino psicopata... enxames de jornalistas iriam chover novamente sobre ele. E isso era uma perspectiva intolerável. Seria mais fácil enfrentar uma praga de abelhas africanas, ou uma procissão de Hare Krishnas, balançando sininhos à sua porta e com os olhos opacos de tanta transcendência espiritual.

—      Se não for alguma função paranormal — insistiu Lindsey —, então que pode ser?

—      Não sei.

—      Isso não é resposta.

—      Talvez passe. Talvez nunca mais aconteça de novo. Pode ser uma casualidade.

—      Você não acredita nisso.

—      Bem... pretendo acreditar.

—      Temos que enfrentar isso, Hatch.

—      Porquê?

—      Para entender o que está havendo.

—      Porquê?

—      Não fique perguntando “por quê?” como uma criança de cinco anos.

—      Porquê?

—      Hatch, estou falando sério. Uma mulher foi assassinada. Talvez ela não seja a primeira Talvez não seja a última.

Hatch pousou o garfo sobre o prato quase vazio e bebeu um generoso gole de suco de laranja para ajudar as batatas fritas a descer.

—      Tudo bem — disse ele, pousando o copo na mesa. — É uma espécie de visão paranormal, do mesmo jeito que aparece nos filmes. Mas também é mais do que isso. É algo que dá arrepios.

Ele fechou os olhos, tentando encontrar um termo de comparação. Quando a idéia finalmente lhe ocorreu, abriu os olhos de novo e olhou em redor, para ter certeza de que as mesas próximas ainda não tinham sido ocupadas.

Voltou a fitar o prato: havia ainda um resto de ovos mexidos, mas já estavam frios. Ele suspirou.

— Muito bem — disse. — Sabe aqueles casos de gêmeos idênticos, separados logo após o nascimento e criados por duas famílias totalmente diversas, a milhares de quilômetros de distância? E que, apesar disso, acabam levando vidas praticamente iguais?

—      Já ouvi falar. E daí?

—      Mesmo criados à distância, em ambientes totalmente distintos, eles acabam seguindo carreiras profissionais semelhantes, atingem o mesmo nível de renda, casam-se com mulheres parecidas, chegam até a dar os mesmos nomes aos seus filhos. É uma coisa incrível. E mesmo quando eles não sabem que têm um irmão gêmeo, mesmo que cada um deles pense que era filho único quando foi adotado, eles percebem a presença um do outro a quilômetros de distância, embora não saibam o quê ou quem estão sentindo. Existe uma ligação entre eles que ninguém consegue explicar, nem mesmo os geneticistas.

—      E o que tem isso a ver com você?

Ele hesitou, enquanto voltava a pegar no garfo. Preferiria recomeçar a comer, em vez de falar naquele assunto. Comer era mais tranqüilo. Mas Lindsey não ia deixar que ele escapasse com tanta facilidade. Os ovos mexidos estavam gelados àquela altura. Não iam mais servir de tranqüilizantes. Ele pousou o garfo outra vez.

—      Às vezes — disse —, eu vejo através dos olhos desse sujeito, quando estou dormindo, e ultimamente isso tem acontecido até quando estou desperto. E é, sim, como essas visões paranormais que aparecem nos filmes classe B. Mas ao mesmo tempo também sinto essa... essa ligação, que não consigo explicar ou descrever, não importa o quanto você insista.

—      Está querendo dizer que ele pode ser seu irmão gêmeo, algo assim?

—      Não, de modo algum. Acho que ele é bem mais novo do que eu... deve ter vinte, vinte e um anos. E não há nenhum laço consanguíneo. O que existe é uma espécie de vínculo, como essa coisa mística dos irmãos gêmeos, como se eu e esse cara partilhássemos alguma coisa, como se tivéssemos algo profundo em comum.

—      Como o quê?

—      Não sei. Gostaria de saber. — Hatch fez uma pausa e resolveu dizer a verdade por inteiro. — Ou, para ser sincero... preferiria não saber.

Mais tarde, depois que a garçonete retirou os pratos e lhes trouxe café preto bem forte, Hatch disse:

— Não existe a menor possibilidade de que eu procure a polícia e me ofereça para ajudar em alguma coisa... se é isso que você está pensando.

—      É uma questão de consciência, e...

—      E, de qualquer modo, não sei de nada que possa ajudá-los.

Lindsey soprou a xícara fumegante.

—      Você sabe que ele estava guiando um Pontiac.

—      Não sei nem sequer se pertencia a ele.

—      E a quem poderia pertencer?

—      Podia ser roubado.

—      Você “sentiu” isso também?

—      Sim. Mas não sei qual é a aparência dele, nem seu nome ou onde mora, nada que possa ser útil.

—      E se mais tarde você chegar a perceber algum desses detalhes? Se ficar sabendo de algo que possa ajudar a polícia?

—      Posso dar um telefonema anônimo.

—      Eles levariam essa informação mais a sério se você fosse lá pessoalmente.

Hatch sentia-se agredido pela intrusão daquele psicopata desconhecido em sua vida. Essa invasão o deixava irritado, e ele temia mais a própria raiva do que o homem desconhecido, ou o lado sobrenatural da situação, ou mesmo a perspectiva de uma lesão cerebral. Ele temia ser arrastado até uma situação-limite e acabar descobrindo que o temperamento brutal de seu pai tinha passado para ele e estava ali, adormecido, esperando apenas um estímulo para se revelar.

—      É um caso de homicídio — disse finalmente. — Eles levam a sério qualquer tipo de denúncia, mesmo anônima. Não vou deixar que ponham meu nome nas manchetes de jornal outra vez.

Do restaurante, eles cruzaram a cidade na direção da Harrison Antiguidades, onde Lindsey tinha um estúdio no andar de cima, além do que mantinha em casa. Quando ela estava pintando, mudanças de ambiente de vez em quando ajudavam a inspiração.

Durante o trajeto, o oceano banhado pela luz do sol era visível por entre alguns dos edifícios à sua direita. Enquanto Hatch guiava, Lindsey insistiu no mesmo ponto que vinham discutindo durante a refeição; ela sabia que o único defeito sério da personalidade de Hatch era uma certa tendência a deixar que as coisas se resolvessem por si mesmas. A morte de Jimmy tinha sido a única coisa negativa, em toda a vida, que ele não tinha sido capaz de racionalizar, minimizar e pôr de lado. E mesmo nesse caso ele procurara reprimir a dor, em vez de enfrentá-la — e por isso mesmo a dor tinha tido a chance de crescer. Se ela desse tempo a Hatch, e não seria preciso muito, ele começaria a descartar a importância do que havia acabado de acontecer-lhe.

—      Você precisa ver Nyebern, mesmo assim — disse ela.

—      É, parece que sim.

—      Parece, não. Com certeza.

—      Se houve alguma lesão cerebral, e se isso é a origem dessa minha... paranormalidade, você mesma disse que é uma lesão benigna.

—      Pode ser degenerativa, ir piorando.

—      Não creio — disse ele. — Tirando isso, sinto-me ótimo.

—      Você não é médico.

—      OK — disse ele, parando no sinal vermelho diante da passarela que conduzia à praia. — Vou ligar para ele. Mas temos uma reunião marcada com Gujilio para hoje à tarde.

—      Se Nyebern não estiver muito ocupado, você pode ser atendido independentemente de horário.

 

O pai de Hatch tinha sido um homem tirânico, de temperamento brutal e língua ferina, que maltratava a mulher e impunha disciplina ao filho através da aplicação de doses regulares de zombaria grosseira, sarcasmo corrosivo ou de simples ameaças. Sua ira podia ser deflagrada pelo menor estímulo ou mesmo por estímulo nenhum, porque ele no fundo gostava de sentir-se enraivecido e vivia procurando pretextos para tal. Ele acreditava que seu destino era o de nunca ser feliz — e procurava confirmar isso tornando miserável a vida das pessoas que o cercavam.

Hatch temia ter herdado esse temperamento mau, quase homicida; por isso, ou talvez pelo simples fato de já ter tido problemas demais na vida, ele se condicionara deliberadamente a ser tão descontraído quanto seu pai era tenso, tão tolerante quanto seu pai era de mentalidade estreita, tão generoso quanto seu pai era ressentido, tão determinado a absorver os golpes da vida quanto seu pai era disposto a devolver todos os golpes, inclusive os imaginários. Em vista disso, ele era o homem mais gentil que Lindsey já conhecera, anos-luz à frente de todos ou como quer que isso pudesse ser medido — jardas, braças, pedaços. Às vezes, no entanto, Hatch costumava fechar os olhos a coisas desagradáveis que precisavam ser enfrentadas, por não querer correr o risco de despertar alguma emoção negativa que pudesse ser semelhante à raiva e à paranóia que ele testemunhara no pai.

O sinal passou de vermelho para verde, mas três moças iam atravessando a rua na direção da areia, carregando seus apetrechos de praia. Hatch não se limitou a esperar que elas atravessassem: acompanhou-as com um sorriso apreciativo, observando o modo como elas preenchiam seus biquínis.

—      Retiro o que disse — falou Lindsey.

—      O quê?

—      Eu estava pensando em como você é um homem gentil, gentil até demais, mas evidentemente você é também um crápula repulsivo.

—      Oh, o que é isso? Um crápula até simpático.

—      Bem, vou ligar para Nyebern assim que chegarmos na loja.

Hatch conduziu o carro na encosta que subia a colina, até a parte principal da cidade, depois do velho Laguna Hotel.

—      OK — disse ele. — Mas eu com certeza não vou dizer a ele que estou virando paranormal de uma hora para outra. Nyebern é um bom sujeito, mas ele não é capaz de ouvir isso e ficar quieto. Quando eu menos esperar, minha foto vai estar na capa do National Enquirer. Além do mais, não sou paranormal ou pelo menos não o sou totalmente. Na verdade, não sei o que que eu sou... além de um crápula repulsivo.

— E o que você vai dizer-lhe?

—      Vou contar-lhe alguma coisa sobre os sonhos, o bastante para ele perceber como são perturbadores e me mandar fazer todos os testes necessários. Isso é o suficiente?

—      Espero que sim.

 

Na escuridão sepulcral do esconderijo, Vassago dormia nu, enroscado sobre si mesmo, no colchão manchado e cheio de protuberâncias. E via a luz do sol, a areia, a praia, e três garotas de biquíni que passavam à sua frente, vistas através do pára-brisa de um automóvel vermelho.

Estava sonhando e sabia que estava sonhando, o que era uma sensação estranha. Ele deixou-se levar por ela.

Viu ao mesmo tempo a mulher. Olhos escuros, cabelos escuros; a mesma mulher com quem tinha sonhado no dia anterior, quando ela estava sentada ao volante daquele mesmo carro. Ela havia aparecido em outros sonhos, e numa das vezes estava sentada numa cadeira de rodas, rindo e chorando ao mesmo tempo.

Ele a achou mais atraente do que as garotas em seus biquínis minúsculos, porque ela possuía uma vitalidade fora do comum. Era radiante. Através dos olhos daquele homem desconhecido que guiava o carro, Vassago sentia que aquela mulher já se sentira a pique de aceitar a morte, que tinha hesitado às bordas da autodestruição, fosse pela ação ou pelo simples fato de deixar-se levar...

...água; ele sentiu a presença de um espaço invadido pela água, gelada e sufocante, sentiu-se escapando por um fio...

...mas ela recusara a sepultura, e depois daquilo tinha se sentido mais cheia de vida do que nunca, mais energética, mais radiante. Ela havia enganado a morte. Renegado o demônio. Vassago a odiou por isso, porque era a serviço da morte que ele encontrara um sentido para a própria existência.

Tentou estender a mão e tocá-la, usando o corpo do homem que dirigia o carro. Mas falhou. Era apenas um sonho. Sonhos não podem ser controlados. Se tivesse podido tocá-la, faria com que ela se arrependesse de ter recusado aquela morte por afogamento, uma morte tão tranqüila.

 

Quando se mudou para a casa dos Harrisons, Regina quase chegou a pensar que morrera e fora transportada para o Paraíso, exceto pelo fato de ter um banheiro só para si, e ela não acreditava que no Paraíso alguém pudesse ter um banheiro exclusivo, já que no Paraíso os banheiros certamente não seriam necessários. Não que as pessoas no Paraíso vivessem eternamente com prisão de ventre ou que fizessem suas necessidades em público, pelo amor de Deus (perdão, Deus); porque ninguém em seu juízo perfeito pensaria em ir para o Paraíso se este fosse o tipo de lugar onde é preciso se preocupar o tempo inteiro com o próprio comportamento. É só que no Paraíso, certamente, todas as preocupações da vida terrena deveriam estar eliminadas para sempre. As pessoas nem mesmo teriam um corpo no Paraíso; provavelmente seriam umas esferas de energia mental, uma espécie de balões cheios de um gás dourado e brilhante, flutuando por entre os anjos, cantando hinos de louvor a Deus — o que, pensando bem, seria uma cena mais do que esquisita, aqueles balões brilhantes, todos cantando... mas o fato é que em matéria de excreção o máximo que haveria seria cada balão deixar sair um pouquinho de gás de vez em quando, um gás que inclusive nem sequer cheiraria mal, seria algo como o incenso das igrejas ou perfume.

Seu primeiro dia na casa dos Harrisons começou numa tarde de segunda-feira, 29 de abril, uma data que iria recordar para sempre, porque eles foram tão maravilhosos. Eles nem sequer mencionaram a razão pela qual deixaram que ela escolhesse entre o quarto de dormir do andar de cima e a saleta no térreo que poderia ser adaptada para servir de quarto.

—     Um detalhe a favor desta saleta — disse a Sra. Harrison — é a vista. Melhor do que a vista que se tem do quarto de cima.

Ela conduziu Regina até a enorme janela, que se abria para um roseiral bordejado por uma faixa de enormes samambaias. E a vista era uma beleza.

—      E você ainda teria todas estas estantes — continuou ela. — Você pode enchê-las de livros pouco a pouco, já que adora livros.

Embora eles não tivessem feito nenhuma alusão nesse sentido, tinham um certo receio de que ela tivesse problemas com a escada. Mas ela não ligava para escadas. Na verdade, gostava de escadas, adorava escadas, comia escadas todos os dias no café da manhã. No orfanato, eles a tinham confinado no andar térreo até os oito anos de idade, quando ela descobriu que tinha sido alojada ali por causa daquela armação de metal em volta de sua perna e da mão deformada — o que a fez exigir imediatamente sua transferência para o terceiro andar. As freiras se recusaram a considerar o pedido, de modo que ela produziu um ataque de nervos. Mas as freiras sabiam como lidar com tais ataques, de modo que ela mudou sua tática para Sarcasmo Devastador. Acontece que as freiras não se deixavam devastar com facilidade, de modo que recorreu a uma greve de fome, até que elas resolveram ceder às suas exigências e fazer um teste. Desde aquela data, ela vivia no terceiro andar do orfanato sem nunca ter utilizado o elevador. Quando preferiu o quarto do andar de cima na casa dos Harrisons, antes mesmo de vê-lo, nenhum dos dois tentou dissuadi-la ou pareceu ficar conjeturando “se ela seria capaz”; os dois nem mesmo piscaram. Ela os amou por isso.

A casa era fantástica — paredes em cor creme, com vigas pintadas de branco, mobília moderna misturada com antiguidades, porcelanas e vasos chineses, tudo perfeito. Quando eles a levaram de aposento em aposento, Regina começou a se sentir tão desajeitada quanto tinha alegado ser, durante a reunião no escritório do Sr. Gujilio. Procurou mover-se com um cuidado exagerado, temendo a qualquer instante acertar o cotovelo em alguma preciosidade e dar início a uma reação em cadeia que se espalharia por todo o aposento, e depois no aposento ao lado, e dali para o resto da casa, com cada um daqueles tesouros tombando e derrubando o mais próximo, como os dominós daqueles concursos internacionais onde se disputa quem derruba um número maior de pedras; porcelanas de duzentos anos fazendo-se em cacos, mobília antiga desmoronando em lascas e estilhas, até que ela e os Harrisons se vissem de pé no meio de um montão de destroços e escombros, e uma gigantesca nuvem de poeira se elevando daquele local onde minutos antes existira uma mansão cuja decoração deveria valer uma verdadeira fortuna.

Ela estava tão segura de que isso acabaria acontecendo que começou a remexer na sua imaginação, enquanto ia de aposento em aposento, para encontrar algo de espirituoso para dizer quando a catástrofe começasse ou então quando o derradeiro vaso de cristal caísse ao chão devido ao desmantelamento da mesinha que um dia pertencera ao primeiro rei da França.

“Ooopa” parecia não ser algo muito apropriado, assim como “Meu Deus do céu!” — uma vez que eles imaginavam ter adotado uma boa garota católica, e não uma herege de boca suja (perdão, Deus). O mesmo valia para “alguém me empurrou”, porque seria uma mentira, e uma mentira equivale a um bilhete de ida para o Inferno, embora ela já desconfiasse que estava destinada ao Inferno, de qualquer modo, se levasse em conta a maneira como ela não conseguia deixar de usar o nome do Senhor em vão e pensar vulgaridades.

É... ela não parecia destinada a se transformar num balão cheio de gás dourado. 

Por toda a casa as paredes exibiam quadros, e Regina notou que as pinturas mais bonitas tinham todas a mesma assinatura no canto inferior direito: Lindsey Sparling. Mesmo uma idiota como ela era capaz de perceber que o nome Lindsey não poderia ser uma mera coincidência, e Sparling devia ser o nome de solteira da Sra. Harrison. Aquelas eram as pinturas mais estranhas e mais belas que Regina já tinha visto; algumas eram tão brilhantes e cheias de boas sensações que tornava-se impossível não sorrir ao contemplá-las; outras eram sombrias e meditativas. Ela gostaria de poder passar um longo tempo diante delas, como que para embeber-se de cada uma, mas temia que o Sr. e a Sra. Harrison acabassem imaginando que ela era uma bajuladora hipócrita, fingindo interesse pelos quadros apenas para se desculpar pelas piadas que fizera no escritório do Sr. Gujilio acerca de pinturas sobre veludo.

Bem ou mal, conseguira percorrer a casa toda sem destruir nenhum objeto, e o último aposento que visitaram foi o seu quarto.     

Era maior do que qualquer quarto de dormir do orfanato, e ainda por cima ela não teria que dividi-lo com ninguém. As janelas tinham persianas em estilo tropical; a mobília incluía uma escrivaninha e uma cadeira no canto do quarto, uma estante, uma poltrona com um descanso para os pés, mesas-de-cabeceira com lâmpadas de pedestal — e uma cama absolutamente inacreditável. 

— É de 1850, mais ou menos — disse a Sra. Harrison, enquanto Regina deslizava a mão de leve sobre a cama.         

—      É inglesa — completou o Sr. Harrison. — Mogno, com decoração pintada à mão em várias camadas de laca.

Nos pés da cama havia suportes laterais; na enorme cabeceira, as rosas eram pintadas num vermelho e amarelo brilhantes e as folhas num verde tão intenso que pareciam estar vivas; não porque simplesmente contrastassem com a madeira de um escuro profundo, mas porque pareciam tão luzidias e orvalhadas que ela teve a impressão de que se encostasse o nariz seria capaz de aspirar o perfume das pétalas.

A Sra. Harrison disse:

—      Pode ser que ela pareça um pouco antiga demais para uma garota, um tanto pomposa...

—      Claro, claro — disse o Sr. Harrison. — Se for o caso, podemos levá-la para a loja, vendê-la, e enquanto isso você escolheria uma coisa mais ao seu gosto, mais moderna. Isto aqui, na verdade, era usado como um simples quarto de hóspedes.

—      Não, não — disse Regina rapidamente. — Gosto dela, verdade. Posso continuar com ela... quer dizer, mesmo sendo uma coisa cara?

—      Oh, não é tão cara assim — disse o Sr. Harrison. — E é claro que você pode continuar com ela, se quiser.

—      Ou pode se desfazer de qualquer coisa de que não goste — disse a Sra. Harrison.

—      Menos de nós dois, é claro — disse o Sr. Harrison.

—      Oh, sim — disse a Sra. Harrison. — Sinto muito, mas nós viemos junto com a casa.

O coração de Regina pulsava com tanta força que ela mal conseguia respirar. Felicidade. E medo. Tudo estava tão maravilhoso! — mas é claro que aquilo não poderia durar. Nada que fosse tão bom poderia durar por muito tempo.

Uma das paredes do quarto era coberta por portas espelhadas que deslizavam lateralmente; a Sra. Harrison fez uma das portas correrem, revelando um armário embutido. Era o maior armário do mundo. Talvez uma pessoa precisasse de um armário daquele tamanho, no caso de ser uma estrela de cinema ou no caso de ser um daqueles homens a respeito dos quais ela lera, homens que de vez em quando gostam de vestir roupas de mulher, de modo que precisariam de espaço para roupas masculinas e femininas. Mas era algo muitíssimo maior do que ela precisava; ali cabiam dez vezes mais roupas do que as que ela possuía.

Constrangida, ela olhou de esguelha para os dois velhos baús que tinha trazido com ela do São Tomás. Eles continham tudo que ela possuía no mundo. Pela primeira vez em sua vida percebeu que era pobre. Era engraçado, não ter percebido isto antes, sendo uma órfã que não chegara a herdar absolutamente nada. Bem... nada, a não ser uma perna defeituosa e uma mão torta onde faltavam dois dedos.

Como se pudesse ler os seus pensamentos, a Sra. Harrison anunciou:

—- Agora vamos às compras.

Rumaram para o South Coast Plaza Mall. Os Harrisons compraram para ela uma quantidade despropositada de roupas, livros, tudo que ela quis. Regina ficou receosa de que eles estivessem fazendo uma despesa grande demais e tivessem que passar um ano inteiro comendo apenas feijão para equilibrar o orçamento — ela não gostava de feijão —, mas nenhum deles pareceu entender suas indiretas sobre as virtudes da frugalidade. A única maneira de detê-los foi fingir que a perna tinha começado a doer.

Do shopping foram jantar num restaurante italiano. Ela já tinha comido fora duas vezes, mas sempre numa lanchonete fast-food, onde as crianças do orfanato recebiam todas rações idênticas de hambúrgueres e batatas fritas. Mas aquele era um restaurante de verdade, e havia tanta coisa para observar em redor que ela mal conseguia se concentrar na comida, participar da conversa e admirar o lugar ao mesmo tempo. As cadeiras não eram feitas de plástico rígido, e o mesmo se aplicava aos talheres. Os pratos não eram de papel nem de isopor; e as bebidas vinham em copos de verdade; isso certamente significava que os fregueses de restaurantes como aquele não eram tão desajeitados quanto os fregueses de lanchonetes, e era possível colocar objetos frágeis em suas mãos. As garçonetes não eram adolescentes, e elas traziam a comida até a mesa, em vez de entregá-la por trás de um balcão. E ninguém era obrigado a pagar coisa alguma antes de comer!

Mais tarde, de volta à casa dos Harrisons, Regina desfez as malas, escovou os dentes, vestiu seu pijama, retirou o aparelho ortopédico e deitou-se. Logo em seguida, os Harrisons vieram desejar-lhe boa-noite. O Sr. Harrison sentou-se na beira da cama e disse que a princípio tudo poderia parecer-lhe meio estranho, até mesmo perturbador, mas que logo iria se sentir em casa; depois beijou-a na testa e disse: “Tenha bons sonhos, princesa.” A Sra. Harrison veio logo depois e também sentou na beira da cama. Falou durante algum tempo sobre todas as coisas que iriam fazer juntas nos dias seguintes. Depois beijou-a no rosto e disse: “Boa noite, querida”; e apagou a luz antes de sair.

Regina jamais ganhara um beijo de boa-noite, de modo que não soube o que responder. Algumas das freiras do orfanato eram carinhosas e gostavam de dar-lhe abraços de vez em quando, mas nenhuma delas costumava beijá-la. Nas recordações mais remotas de Regina, um piscar da luz do dormitório era o sinal para que todas estivessem na cama dentro de quinze minutos, e quando as luzes eram apagadas cada criança tinha que se aconchegar e adormecer por conta própria. Agora, ela ouvira boa-noite duas vezes e recebera dois beijos, tudo numa noite só, e ficara tão surpreendida que não conseguira beijar os dois — o que, só agora ela percebia, era o que devia ter feito.

—      Você sempre estraga tudo, Regina — disse em voz alta.

Deitada naquela cama magnífica, com as rosas pintadas na cabeceira parecendo flutuar na escuridão, ela podia imaginar muito bem a conversa que eles estariam tendo naquele mesmo instante, no seu quarto de dormir.

“Ela lhe deu um beijo de boa-noite?”

“Não. E em você?”

“Também não.”

“Que garota mais fria.”

“Talvez ela seja psicopata. Ou satânica.”

“Sei. Como aquele garoto do filme A Profecia.”

“Sabe o que está me preocupando?”

“Ela pode nos matar a facadas enquanto dormimos.”

“Vamos esconder todas as facas da cozinha.”

“Melhor esconder as ferramentas também.”

“Você está com o revólver na mesa-de-cabeceira?”

“Sim, mas um revólver não deve adiantar nada contra ela.”

“Graças a Deus temos um crucifixo.”

“Vamos dormir em turnos alternados, OK?”

“E amanhã de manhã a mandamos de volta ao orfanato.”

— Estraga tudo — repetiu ela. — Que merda! — Suspirou. — Desculpe, Deus. — De mãos postas em atitude de prece, ela começou a murmurar baixinho: — Querido Deus, se você convencer os Harrisons a me darem outra chance, nunca direi “merda” novamente e prometo que serei uma pessoa mais decente. — Aquilo não parecia ser um bom negócio do ponto de vista de Deus, de modo que ela tentou outros argumentos: — Vou manter minha média “A” na escola, nunca mais colocarei geléia de fruta na pia de água benta e vou pensar seriamente em ser freira. — Ainda não bastava. — E vou comer feijão.

Isso devia ser suficiente. Deus certamente tinha orgulho de um produto como o feijão: afinal de contas, tinha criado tantas variedades dele. A recusa de Regina em comer qualquer uma dessas variedades — feijão preto, mulatinho, manteiga, cavalo, fradinho — sem dúvida nenhuma já tinha chamado a atenção do Paraíso, onde devia estar registrado no Grande Livro de Insultos à Divindade: Regina, dez anos de idade, considera que Deus fez uma grande besteira ao inventar o feijão.

Ela bocejou. Sentia-se melhor quanto aos Harrisons e acreditava que suas relações com Deus pareciam estar bem encaminhadas. O problema, agora, era a sua dieta...

Mas acabou adormecendo.

 

Enquanto Lindsey lavava o rosto, escovava os dentes e escovava o cabelo no banheiro, Hatch sentou-se na cama, folheando o jornal do dia, que não tivera tempo de ler pela manhã. Costumava ler primeiro a página de ciências, onde estavam aquelas que eram as verdadeiras notícias do mundo atual. Depois ia até a página de variedades e lia suas tiras de quadrinhos favoritas, antes de ir para o primeiro caderno, onde as façanhas dos políticos eram tão aterrorizantes e ridículas como sempre.

Foi na página três que ele viu a pequena notícia a respeito de Bill Cooper, o motorista do caminhão de cerveja cujo veículo tinha se atravessado na estrada da montanha, naquela fatídica noite de março.

Dois dias depois de sua ressurreição, Hatch ficara sabendo que o motorista tinha sido indiciado por estar dirigindo embriagado: a percentagem de álcool no seu sangue era mais do dobro do índice necessário para ser punido com a prisão. George Glover, o advogado pessoal de Hatch, chegou a perguntar se ele queria processar o motorista ou a companhia transportadora para a qual ele trabalhava, mas Hatch não tinha uma índole litigiosa. Além do mais, ele detestava a perspectiva de se ver enredado no mundo insípido e espinhoso das questões judiciais. Estava vivo; e isso era tudo que importava. O motorista seria acusado por dirigir bêbado, independentemente do envolvimento de Hatch, e para ele isso já era punição suficiente.

Tinha recebido desde então duas cartas de William Cooper, a primeira delas quatro dias após a ressurreição. Era uma carta aparentemente sincera, apesar de confusa e obsequiosa, e parecia pedir desculpas e uma espécie de absolvição pessoal; havia sido entregue no hospital, durante o período em que Hatch estava entregue à fisioterapia. “Pode me processar, se quiser”, escreveu Cooper, “eu mereço. Posso pagar tudo que exigir, embora eu não seja um homem de muitas posses. Mas, não importa o que o senhor venha a lazer, espero que encontre no seu coração generoso um modo qualquer de me perdoar. Se não fosse pela genialidade do Dr. Nyebern e de seus maravilhosos assistentes, o senhor estaria morto a esta hora, e eu ficaria com isto em minha consciência pelo resto da vida,” Ele prosseguia nesse tom ao longo de quatro páginas, em caligrafia apertada e às vezes quase ilegível.

Hatch mandou em resposta um bilhete curto, assegurando a Cooper que não pretendia processá-lo e que não guardava nenhuma animosidade contra ele. Também aconselhava o outro a procurar o auxílio de grupos que combaliam o alcoolismo, se é que ainda não o havia feito.

Algumas semanas depois, quando Hatch já tinha voltado para casa, e depois que o frenesi da mídia em torno dele já ultrapassara o ponto máximo, uma segunda carta de Cooper chegou às suas mãos. Hatch ficou perplexo ao ver que ele pedia sua ajuda para conseguir seu emprego de volta, após ter sido demitido em função do que sucedera. “Tudo bem”, dizia Cooper, “eu já tinha sido pego duas vezes dirigindo bêbado, mas nas duas vezes foi nas minhas horas de folga e em meu próprio carro, não no caminhão da firma. Mas agora perdi o emprego e eles estão querendo cancelar minha carteira de motorista, e isso vai complicar minha vida. Quer dizer, como é que vou conseguir outro emprego se não tiver minha carteira? O que quero é somente o seguinte: pela sua carta tão educada, o senhor provou que é um cavalheiro e um bom cristão. Pois bem, se puder testemunhar a meu favor, isso será de uma grande ajuda para mim. Quer dizer, no final das contas o senhor não morreu, e de fato acabou conseguindo muita publicidade na história toda, e isso é capaz de ter até ajudado no seu negócio de antiguidades.”

A primeira reação de Hatch foi de perplexidade, e logo em seguida de uma irritação fora do comum. Mas limitou-se a arquivar a carta, sem lhe conceder resposta. Na verdade, fez o possível para afastar da mente aquele assunto, temeroso ao ver o quanto aquilo o enfurecia cada vez que lembrava do fato.

Agora, de acordo com a notícia na página 3 do jornal, tinha havido um pequeno erro de pormenor técnico no relatório dos policiais, e o advogado de Cooper conseguira anular todas as acusações contra ele. A notícia fazia um resumo em três linhas narrando todo o incidente e se referia a Hatch como “o atual detentor do recorde de morte mais longa antes de uma ressurreição bem-sucedida”, como se ele tivesse organizado toda aquela via-crucis com o único objetivo de entrar na edição seguinte do Livro Guiness dos Recordes.

Outras informações no texto da matéria fizeram Hatch praguejar em voz alta e dar um pulo da cama. Cooper anunciava que iria processar seus ex-patrões por demissão sem justa causa, esperando obter de volta seu antigo emprego ou pelo menos uma polpuda indenização. “Sofri muitas humilhações nas mãos dos meus ex-patrões”, dizia ele aos repórteres, evidentemente recitando de memória um texto preparado pelos advogados. “Devido a isso, acabei sendo vítima de problemas de saúde devido ao estresse. E o próprio Sr. Harrison me escreveu uma carta dizendo que eu não tinha a menor culpa no que aconteceu naquela noite.”

A raiva fez Hatch dar um salto e ficar de pé no meio do quarto. Tinha o rosto afogueado, e seu corpo tremia dos pés à cabeça.

Muito engraçado. O sacana estava tentando conseguir o emprego de volta, usando como aval o bilhete que Hatch lhe enviara por mera polidez; aquilo era uma distorção completa do que Hatch de fato escrevera no bilhete. Era desonesto; era inescrupuloso.

— Mas é preciso muita cara de pau! — exclamou ele, por entre os dentes cerrados.

Atirando no chão os demais cadernos do jornal, ele agarrou a página com a notícia sobre Cooper e rumou para fora do quarto, descendo a escada de dois em dois degraus. Na saleta do andar térreo, jogou o jornal em cima da escrivaninha, abriu com violência a porta corrediça do arquivo e puxou a gaveta do alto, onde guardava as pastas com sua correspondência.

Tinha guardado as cartas manuscritas de Cooper e, embora o motorista não usasse papel timbrado, ele lembrava claramente que o homem tinha colocado o endereço para resposta, além do número de seu telefone, em ambas as cartas. Estava tão descontrolado que retirou a pasta errada, praguejou, colocou-a de volta, até encontrar a pasta correta — NEGÓCIOS DIVERSOS — e a abriu sobre a escrivaninha. Enquanto folheava o seu conteúdo, outras cartas deslizaram por entre os papéis, esvoaçando até pousar no chão, junto aos seus pés.

A segunda carta de Cooper trazia um número de telefone cuidadosamente escrito à mão no alto da folha. Hatch deixou a pasta em cima da escrivaninha e dirigiu-se para o telefone, colocado sobre uma pequena mesa ao lado .

Suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia ler o número, de modo que ele pousou a carta sobre um bloco de anotações, embaixo do cone de luz projetado por uma lâmpada de pedestal.

Apertou os botões do número de William Cooper, preparando mentalmente o que iria dizer.

A linha estava ocupada.

Ele pressionou o polegar sobre o botão que cortava a ligação, esperou o sinal de linha e tentou outra vez. Ocupado.

—      Filho da puta!

Hatch bateu o fone com toda força, mas acabou erguendo-o de novo até o ouvido, porque não tinha outra coisa a fazer para desabafar aquela pressão emocional. Chamou mais uma vez, usando o botão de rediscagem automática. A linha continuava ocupada, é claro, porque não se passara mais do que meio minuto desde a sua primeira tentativa. Ele bateu o fone com tanta força que quase arrebentou o aparelho.

Uma parte de sua mente estava admirada pela violência de sua própria reação, a infantilidade de tudo aquilo. Mas a outra parte estava além do seu controle, e a consciência de estar fora de si não contribuía nem um pouco para que ele se forçasse a recuperar a calma.

—      Hatch?...

Ergueu os olhos surpreso ao ouvir o seu nome, e viu Lindsey, vestindo roupão de banho, parada no umbral da porta que separava a saleta do saguão. Franzindo a testa, ela perguntou:

—      Alguma coisa errada?...

—      Errada? — repetiu ele, sentindo sua fúria aumentar de modo irracional, como se de algum modo ela estivesse mancomunada com Cooper, como se ela estivesse apenas fingindo não estar a par dos últimos acontecimentos.

— Vou dizer a você o que está errado. Deixaram esse sacana do Cooper escapar da justiça! O filho da puta me mata, me joga para fora da porra da estrada e me mata, e depois arma uma jogada para escapar da justiça, e ainda tem a cara de pau de usar a carta que lhe mandei para conseguir seu emprego de volta! — Ele agarrou a folha amassada de jornal e a estendeu para ela, num gesto quase acusatório, como se ela já soubesse o que havia ali. — Pegar de volta seu maldito emprego... para poder atirar algum outro idiota para fora da estrada e matá-lo também!

Com uma expressão confusa e preocupada, Lindsey entrou na saleta.

—      Ele escapou da justiça? Mas como?

—      Uma “tecnicalidade”. Gostou dessa? Um dos policiais soletrou uma palavra errada no relatório ou coisa equivalente. E aí o cara sai livre. Livre!

—      Querido, fique calmo...

—      Calmo? Ficar calmo?! — Ele agitou novamente a folha de jornal diante do rosto dela. — Sabe o que mais diz aqui? Esse cara vendeu sua história a esse jornaleco, este aqui, que ficou semanas infernizando minha vida por uma entrevista, e eu me recusei a falar com eles. Pois agora o tal bêbado dá uma entrevista a eles e fala sobre...

Hatch estava tão furioso que havia gotas de saliva e espuma em seus lábios, ao falar; ele alisou a folha do jornal, localizou a notícia, leu em voz alta:

— “...a via-crucis emocional que atravessou, e o seu papel crucial no esforço de resgate que acabou salvando a vida do Sr. Harrison.” Qual foi o papel que ele teve no meu salvamento? Só porque usou o rádio do seu caminhão para pedir socorro? Ora, ele nem precisaria ter feito isso, se não tivesse nos jogado naquele rio. Agora, o cretino não apenas vai ter sua carteira de motorista de volta, como provavelmente vai ser readmitido no emprego, e ainda por cima vai ganhar um monte de dinheiro com essa história toda! Se eu pudesse botar minhas mãos nesse filho da puta eu o mataria, ah, eu mataria sim.

—      Você não está falando sério — disse Lindsey, com uma expressão chocada.

—      Melhor acreditar que estou. Que cara mais irresponsável, mais mercenário. Eu bem gostaria de dar uns chutes na sua cabeça, para incutir algum bom-senso nela, e depois atirá-lo dentro dum rio gelado...

—      Querido, fale baixo...

—      Ora que merda, não venha me mandar falar baixo em minha própria...

—      Você vai acordar Regina.

Não foi a menção do nome da garota que o arrancou daquele acesso de fúria cega, mas a visão de seu próprio reflexo na porta espelhada do armário, do lado de Lindsey. Porque na verdade ele não viu a si mesmo. Por um breve instante, enxergou um rapaz com cabelos negros e revoltos caindo sobre a testa, óculos escuros, roupa inteiramente negra. Ele sabia que estava fitando o assassino, mas ao mesmo tempo parecia que o assassino era ele. Naquele instante, os dois eram uma só pessoa. Aquela idéia aberrante e a imagem daquele rapaz estranho duraram apenas um ou dois segundos, e logo Hatch estava novamente fitando seu próprio reflexo.

Menos aturdido pela alucinação do que por aquela momentânea confusão de identidades, Hatch continuou com os olhos cravados no espelho, e o que via agora o chocou tanto quanto a rápida visão do assassino. Ele tinha uma aparência apoplética. Seu cabelo estava em desalinho, o rosto vermelho e contorcido pela raiva, e seus olhos estavam... selvagens. Estava parecido com seu pai. Aquilo era inadmissível, era insuportável.

Não conseguia lembrar-se da última vez em que estivera tão furioso. Na verdade, nunca havia se sentido daquela forma. Até então, julgava-se incapaz de explosões descontroladas e dos sentimentos que podiam conduzir a elas.

—      Eu... — gaguejou — eu não sei o que houve.

Jogou para o lado a folha amarrotada de jornal; ela bateu na beirada da escrivaninha e caiu ao chão com um barulho áspero e roçagante, que evocou de súbito em sua mente uma imagem brusca e vivida...

...folhas secas, cor de ferrugem, sendo arrastadas pela brisa ao longo de um piso rachado de cimento, num parque de diversões abandonado, em ruínas...

...e por um momento ele estava lá, com o matagal brotando do chão pelas rachaduras no asfalto, as folhas secas sendo levadas pelo vento, a lua brilhando por entre as estruturas metálicas de uma montanha-russa abandonada. E no instante seguinte ele estava de novo na saleta de sua casa, tomado por uma vertigem e apoiando-se à escrivaninha.

—      Hatch?

Ele piscou os olhos na direção de Lindsey, sem conseguir falar.

—      Hatch, alguma coisa errada? — disse ela, vindo rapidamente ao seu encontro. Ela tocou seu braço, num gesto hesitante, como se temesse que aquele contato pudesse fazê-lo explodir em pedaços, ou talvez como se temesse que ele respondesse àquele gesto com um rompante de agressividade e violência.

Ele pôs os braços em volta dela e abraçou-a com toda força,

—      Lindsey, desculpe, não sei o que aconteceu, não sei o que é isso comigo.

—      Está tudo bem,

—      Não, não está. Eu estava tão... tão furioso.

—      Você se aborreceu. É normal.

—      Desculpe — repetiu ele, sentindo-se infeliz.

Mesmo que para Lindsey aquilo não tivesse passado de um acesso banal de irritação, ele sabia que tinha sido mais do que aquilo — alguma coisa estranha, uma raiva fora do normal. Ódio em estado puro, psicose. Ele sentiu-se como se estivesse balouçando à beira de um precipício, com apenas os calcanhares apoiados em solo firme.

 

Aos olhos de Vassago, o monumento de Lúcifer projetava uma enorme sombra, mesmo no meio da escuridão mais absoluta, mas mesmo assim ele ainda era capaz de se deleitar com a visão dos cadáveres em suas posições degradantes. Ele sentia-se arrebatado pela colagem orgânica que tinha criado, pela visão daquelas formas humilhadas e pelo mau cheiro que exalavam. Sua audição não podia se comparar em acuidade à sua visão noturna, mas ele acreditava que não eram totalmente imaginários os ruídos suaves e úmidos de decomposição que o embalavam do mesmo modo que os acordes de Beethoven embalavam um amante da música.

Quando ele começou a ser invadido pela raiva, ele não soube o motivo. Era uma espécie de raiva contida, a princípio, meio fora de foco. Ele abriu seu espírito àquele sentimento, desfrutando-o, alimentando-o, fazendo-o crescer.

A imagem de um jornal cruzou sua mente, num rápido vislumbre. Ele não pôde enxergá-lo com clareza, mas soube que era alguma coisa naquela página que tinha causado sua raiva. Ele apertou as pálpebras, como se isso pudesse ajudá-lo a discernir as palavras impressas.

A visão passou, mas a raiva permaneceu. Ele a estimulou, do mesmo modo como um homem alegre consegue forçar uma gargalhada a ser mais longa do que o natural, pelo simples fato daquele som lhe dar uma sensação agradável. Palavras brotaram de seus lábios: — Mas é preciso muita cara de pau!

Ele não tinha idéia da origem daquela exclamação, assim como não tinha idéia do motivo por que mencionara o nome “Lindsey” naquele restaurante de Newport Beach, semanas atrás, quando aquelas experiências estranhas tinham começado.

Ele se sentiu de repente tão tomado pela fúria que girou nos calcanhares, dando as costas à sua coleção, e saiu caminhando através do salão enorme, subindo a rampa ao longo da qual as gôndolas tinham um dia deslizado, e saindo para o ar livre, onde o brilho da lua o obrigou a recolocar seus óculos escuros. Não conseguiu ficar parado. Tinha que andar, andar. Saiu caminhando através das alamedas abandonadas, sem saber o que ou quem estava procurando, curioso a respeito do que poderia acontecer em seguida.

Imagens truncadas passavam por sua mente em rápidos flashes, sem que nenhuma delas durasse o bastante para permitir uma contemplação mais acurada: o jornal, uma saleta cheia de livros, um arquivo de papéis, uma carta manuscrita, um telefone... Ele andava cada vez mais depressa, girando à direita ou à esquerda para enveredar por outras avenidas ou para cruzar os becos que separavam os edifícios arruinados, numa busca infrutífera por uma conexão qualquer que pudesse dizer-lhe algo sobre a origem daquelas imagens que surgiam e se desvaneciam no interior de sua mente.

Ao passar pela montanha-russa, o brilho pálido do luar filtrava-se através do labirinto entrecruzado de armações metálicas, refletindo-se nos trilhos com tal intensidade que aquelas duas faixas paralelas de aço pareciam trilhos de gelo. Quando Vassago ergueu os olhos para contemplar aquela estrutura monolítica, e subitamente misteriosa, outra exclamação irritada brotou de dentro dele:

— ...atirá-lo dentro de um rio gelado!

Uma mulher, em algum lugar, disse: querido, fale baixo.

Embora ele soubesse que aquela frase tinha sido pronunciada por ele mesmo, como uma espécie de trilha sonora acompanhando aquelas visões fragmentárias, ele girou sobre si próprio, olhando em redor. E ela estava lá. Vestindo um roupão de banho. Parada no umbral de uma porta que não poderia estar ali, um umbral e uma porta sem paredes de nenhum dos dois lados. Do lado esquerdo da porta, do lado direito, e acima dela, havia apenas a noite escura, e o parque abandonado e silencioso. Mas dentro da moldura da porta, e por trás da mulher que estava ali parada, surgia algo que parecia o saguão de uma residência, uma pequena mesa com um vaso de flores, uma escada de madeira que descrevia uma curva, levando ao andar de cima.

Era a mulher que até então ele só vira em seus sonhos, primeiro numa cadeira de rodas, e ultimamente num carro esporte vermelho, numa estrada banhada pelo sol. Vassago deu um passo na direção dela, que disse: você vai acordar Regina.

Ele deteve-se, não porque temesse acordar Regina, fosse quem diabo fosse, e não porque não quisesse pôr suas mãos naquela mulher, como desejava (ela era tão cheia de vida...); mas porque naquele instante ele percebeu a existência de um enorme espelho, do lado esquerdo daquela porta que parecia saída da vinheta de abertura do Além da Imaginação; um espelho da altura de uma pessoa, que flutuava impossivelmente em pleno ar. E ali ele viu seu reflexo, só que não era ele próprio, e sim um homem que ele nunca tinha visto antes, da sua altura, mas aparentando o dobro de sua idade, um homem esbelto e de boa aparência, com o rosto contorcido de fúria.

A expressão de fúria deu lugar a uma de choque e de repulsa, e num gesto sincronizado Vassago e o homem viraram o rosto para a mulher parada à porta.   

—      Lindsey. Desculpe — disse Vassago.

Lindsey. O nome que ele tinha falado três vezes naquele restaurante em Newport Beach.      

Até então, não lhe ocorrera ligar aquele nome à mulher anônima que vinha aparecendo em seus sonhos mais recentes.       

—      Lindsey — repetiu ele.        

Desta vez falou por sua própria intenção, em vez de estar apenas repetindo o que o homem no espelho dizia, e isso pareceu romper o encanto.

O espelho e a imagem do homem desconhecido explodiram em um bilhão de estilhaços, assim como o umbral da porta e a mulher de olhos escuros.

O parque voltou a ser dominado pelos sussurros mansos da noite e pelo brilho imóvel da lua. Vassago estendeu a mão na direção do ponto onde a mulher tinha estado parada.     

—      Lindsey.   

Ele sentiu um desejo intenso de tocá-la. Era tão cheia de vida.

—      Lindsey.   

Ele desejou poder rasgar o seu peito, retirar seu coração pulsante e segurá-lo nas mãos em concha, até que o seu bater ritmado fosse ficando mais lento... mais lento... até cessar de todo. Ele queria estar segurando o coração dela quando a vida se esvaísse por completo e a morte se apossasse dele.

A crise de fúria de Hatch se dissipou tão depressa quanto surgira. Ele amassou as folhas do jornal e as atirou na cesta de papéis ao lado da escrivaninha, sem olhar de novo para a notícia a respeito do motorista. Cooper era um sujeito patético, autodestrutivo, e iria receber um castigo qualquer, cedo ou tarde; e seria certamente algo bem pior do que qualquer coisa que Hatch pudesse fazer contra ele.

Lindsey juntou as cartas que tinham ficado espalhadas pelo chão, em frente ao arquivo, e guardou-as na pasta com a etiqueta NEGÓCIOS DIVERSOS.

A carta de Cooper continuava na mesinha, ao lado do telefone. Quando Hatch a apanhou, olhou para o endereço manuscrito na parte superior, junto ao número do telefone, e voltou a experimentar um pouco da irritação de minutos atrás. Mas era apenas uma sombra da sensação anterior e logo se desvaneceu. Ele entregou a carta a Lindsey, que a guardou na pasta junto com as outras, guardando tudo no arquivo.

 

De pé ao luar, à sombra da montanha-russa, sentindo a brisa da noite, Vassago esperou por mais visões.

Estava intrigado com tudo que vinha acontecendo; mas não demais. Ele viajara para o Além. Sabia que existia um outro mundo, separado deste por uma película muito delgada. Desse modo, eventos sobrenaturais não o deixavam assombrado.

Quando começava a pensar que aquele episódio enigmático tinha se encerrado, uma nova visão cruzou sua mente. Viu uma folha de papel escrita à mão. Papel branco, pautado. Tinta azul. No alto da página havia um nome escrito. William X. Cooper. E um endereço na cidade de Tustin.

“Atirá-lo dentro de um rio gelado”, murmurou Vassago, e de algum modo pressentiu que William Cooper era o objeto daquela fúria irracional que o acometera quando estava no subterrâneo, admirando sua coleção, e que de algum modo parecia ser uma ligação entre ele e aquele homem que avistara no espelho. Ele tinha acolhido e estimulado aquela raiva, porque queria saber sua origem e de que modo ele era capaz de senti-la, mas também porque a raiva era uma espécie de fermento para a massa-de-pão da violência... e esse era o seu pão de cada dia.

Da montanha-russa ele desceu direto para a garagem subterrânea. Dois carros estavam ali à espera.

O Pontiac de Morton Redlow estava estacionado na extremidade mais distante da garagem, num trecho completamente às escuras. Vassago não tornara a utilizá-lo desde a quinta-feira anterior, a noite em que matara Redlow e a loura. Embora ele confiasse que o fog daquela noite lhe garantisse uma cobertura ideal, havia sempre a possibilidade de que alguma testemunha tivesse visto a mulher na hora da queda e pudesse reconhecer o carro.

Ele estava ansioso para retornar à terra da noite eterna e da maldição infinita, para se reunir aos seres de sua própria espécie, mas não queria ser morto a tiros pela polícia enquanto sua coleção não estivesse completa. Ele temia que, se morresse com a sua oferenda ainda inacabada, podia ser considerado ainda indigno do Inferno e ser remetido de volta mais uma vez ao mundo dos vivos para iniciar uma outra coleção.

O segundo carro era um Honda cinza-pérola que pertencia a uma mulher chamada Renata Desseux, que ele tinha abatido com uma pancada na cabeça, no estacionamento de um shopping na noite de sábado, dois dias após oi fracasso com a loura. Em vez da neo-punk chamada Lisa, ela se tornara a aquisição mais recente para sua galeria.

Ele havia removido e atirado fora as placas do Honda, substituindo-as por placas roubadas de um velho Ford na periferia de Santa Ana. Além do mais, aquela região estava tão infestada por automóveis Honda que ele se sentia seguro e anônimo ao volante daquele. Ligou o carro e deixou a área do parque abandonado, afastando-se das colinas pouco povoadas a leste da cidade, descendo na direção daquele tapete faiscante de luzes que se estendia lá embaixo, perdendo-se no sentido do norte e do sul, até onde a vista podia alcançar.

A colmeia urbana. A civilização. Seu campo de caça.

O maior aliado de Vassago, em sua implacável busca de peças para sua coleção, sem chamar a atenção da polícia, era a própria imensidão do sul da Califórnia: milhares de quilômetros quadrados, dezenas de milhões de pessoas, mesmo sem contar com os condados de Ventura ao norte e San Diego ao sul. Três de suas vítimas tinham sido escolhidas em diferentes comunidades ao redor de Los Angeles, duas de Riverside e o resto do condado de Orange, e todos esses desaparecimentos tinham se dado ao longo de vários meses. Entre as centenas de registros de pessoas desaparecidas nesse período, suas poucas aquisições não iriam afetar as estatísticas o bastante para alarmar o público ou chamar a atenção das autoridades.

Outro aspecto positivo era o fato de que os últimos anos do século e do milênio eram uma época de inconstância. Pessoas mudavam com freqüência de emprego, de residência, de amigos, de cônjuge, com pouca ou nenhuma preocupação de manter uma continuidade em suas vidas. Em resultado disso, era cada vez menor o número de pessoas capazes de perceber o desaparecimento de alguém e de se preocupar a ponto de procurar as autoridades. Além do mais, crescia o número de pessoas que, tendo desaparecido, eram descobertas muito tempo depois, vivendo por escolha própria uma vida totalmente diversa da anterior. Um jovem executivo trocava a rotina massacrante da vida corporativa por um trabalho como crupiê em Reno ou Las Vegas, e uma jovem mãe de família, esgotada pelo esforço de lidar com as crianças ou com um marido imaturo, podia ser achada depois trabalhando como garçonete numa daquelas cidades, servindo drinques e fazendo números de topless. Pessoas que fugiam movidas por uma decisão repentina e inesperada e procuravam ocultar suas vidas passadas como se uma existência normal de classe média fosse algo tão vergonhoso quanto uma vida com antecedentes criminais. Outros desaparecidos eram encontrados, tempos depois, completamente entregues aos mais diversos tipos de vício, vivendo em hotéis imundos e infestados de ratos, hotéis que viviam de alugar quartos por períodos semanais para legiões de viciados de olhar mortiço. Sendo aquilo a Califórnia, muitos desaparecidos eram encontrados um dia fazendo parte de comunidades religiosas em Marin ou no Oregon, adorando algum novo deus ou alguma nova manifestação de um deus antigo ou simplesmente algum indivíduo de olhos chamejantes que se dizia deus.

Era uma época diferente, uma época que desprezava a tradição. Nela, qualquer um podia escolher o estilo de vida que lhe conviesse. Inclusive Vassago.

Se ele tivesse deixado cadáveres pelo caminho, alguém poderia ter estabelecido conexão entre as mortes, baseando-se nas semelhanças entre as vítimas ou no método de assassinato. A polícia iria descobrir que havia um assassino à solta, um assassino de rara eficiência e esperteza; e iria designar uma equipe especial para caçá-lo.

Mas os únicos corpos que ele não tinha levado para o seu Inferno subterrâneo eram o do detetive e o da loura. Nenhuma ligação poderia ser estabelecida entre os dois, pois tinham morrido de forma totalmente diversa. Além do mais, o corpo de Redlow talvez levasse semanas para ser encontrado.

A única ligação possível entre Redlow e Lisa, a neo-punk, eram o revólver dele, que disparara os dois tiros fatais, e o carro, de onde ela caíra. O carro estava escondido em lugar seguro na garagem do parque abandonado; o revólver estava guardado no isopor onde Vassago guardava seus salgadinhos e bebidas, no fundo do poço do elevador, dois andares abaixo do nível do chão. E ele não tinha a menor intenção de usá-lo de novo.

Estava sem arma alguma quando, depois de guiar rumo norte durante um bom tempo, chegou ao endereço que tinha lido naquela carta manuscrita em sua visão. William X. Cooper, fosse ele quem fosse — e admitindo que existisse de fato — morava num conjunto habitacional de boa aparência chamado Palm Court. O nome do lugar e o número estavam gravados numa placa de madeira cheia de ornamentos, iluminada por um spot de luz amarelada e cercada pelas palmeiras que o próprio nome anunciava.

Vassago passou devagar diante do conjunto, virou à direita na esquina seguinte e estacionou a dois quarteirões de distância. Não queria que alguém se lembrasse de ter visto um Honda estacionado em frente ao prédio. Ele não pretendia matar o tal Cooper sem mais nem menos; primeiro queria conversar, fazer algumas perguntas... principalmente sobre a tal mulher de cabelos e olhos escuros, chamada Lindsey. Mas estava pisando em terreno desconhecido e precisava tomar todas as precauções possíveis. E a verdade é que nos últimos tempos ele tinha matado quase todas as pessoas com quem chegara a trocar algumas palavras.

 

Depois de fechar a gaveta do arquivo e apagar a lâmpada da mesinha, Hatch e Lindsey subiram para o andar superior e pararam diante do quarto de Regina para certificar-se de que ela estava dormindo. Caminharam pé ante pé até a cama; a luz do corredor entrava pela porta entreaberta, deixando ver a garota mergulhada em sono profundo. Tinha a mão fechada apoiada de encontro ao queixo e respirava com regularidade por entre os lábios entreabertos. Se estava sonhando, eram sonhos agradáveis.

Hatch sentiu uma pontada no coração ao contemplá-la. Ela parecia tão desesperadamente jovem. Não conseguia imaginar que ele próprio tivesse um dia sido tão jovem quanto Regina, porque juventude, para ele, significava inocência. Tendo sido criado por um pai colérico e opressor, ele fora forçado muito cedo a abrir mão de sua própria inocência trocando-a por um domínio intuitivo de psicologia, capaz de fazê-lo conviver com aberrações emocionais e sobreviver numa casa onde o rancor e a disciplina brutal eram as conseqüências dos erros mais inocentes e dos pequenos equívocos. Ele sabia que Regina não podia ser tão delicada quanto parecia, porque a vida lhe dera razões de sobra para desenvolver uma alma calejada e um coração cheio de defesas.

Por mais calejados que os dois pudessem ser, entretanto, tanto ele quanto a garota eram vulneráveis. Naquele momento, para falar a verdade, Hatch sentia-se mais vulnerável do que Regina. Se ele pudesse escolher entre as deficiências da garota — a perna atrofiada, a mão retorcida e defeituosa — e as deformações que poderiam ter se incrustado em regiões profundas de sua mente, ele optaria sem hesitar pelos defeitos físicos dela. Depois de suas experiências mais recentes, inclusive aquela escalada de fúria inexplicável, Hatch não se sentia mais com pleno controle sobre si próprio. E desde seu tempo de garoto, tendo o tempo todo diante de seus olhos o exemplo amedrontador de seu próprio pai, nada lhe causava mais medo do que a possibilidade de perder o autocontrole.

Não vou lhe falhar, prometeu ele em silêncio, olhando a criança adormecida.

Olhou para Lindsey, a quem devia a vida duas vezes, tanto antes quanto depois de morrer. Silenciosamente, fez a mesma promessa: não vou falhar a você.

Imaginou se aquelas eram promessas que seria capaz de cumprir.

Mais tarde, em seu quarto de dormir, com as luzes apagadas, deitados lado a lado na cama, Lindsey disse:

—      Os resultados dos outros exames devem ser entregues a Nyebern amanhã.

Hatch havia passado a maior parte do sábado no hospital, fornecendo amostras para exames de sangue e de urina, submetendo-se a exames de raios X e ultra-sonografia. A certa altura, viu-se preso a um tal número de eletrodos que achou-se parecido com a criatura que o Dr. Frankenstein, nos velhos filmes de terror, tinha energizado através de pipas empinadas durante uma tempestade cheia de relâmpagos.

—- Falei com Nyebern hoje — disse ele a Lindsey. — Disse que está tudo bem. Tenho certeza de que os outros exames também vão dar negativos. O que quer que esteja acontecendo comigo, não tem nada a ver com lesões físicas ou mentais devido ao acidente ou à minha... morte. Estou com saúde. Estou ótimo.

—      Queira Deus que sim.

—      Sinto-me superbem.

—      Mesmo?

—      Sim, tenho certeza. — Ficou pensando como conseguia mentir à esposa com tanta naturalidade. Talvez porque fosse uma mentira sem intenção de feri-la ou de fazer-lhe mal, apenas tranqüilizá-la para que dormisse em paz.

—      Te amo — disse Lindsey.

—      Também te amo.

Em poucos minutos — pouco antes da meia-noite, de acordo com o relógio na mesa-de-cabeceira — ela estava dormindo, ressonando profundamente.

Hatch não conseguia conciliar o sono, preocupado com o que o futuro lhe reservava... e quanto futuro teria pela frente. Pensou em encontrar o Dr. Nyebern com expressão sombria, deprimida, trazendo-lhe más notícias sobre alguma sombra suspeita detectada neste ou naquele lóbulo cerebral, um bloco de células mortas, uma lesão, um cisto, um tumor maligno. Alguma coisa mortal. Inoperável. E que só poderia piorar.

Sua autoconfiança se restabelecera pouco a pouco desde os acontecimentos da quinta-feira à noite e sexta de manhã, quando sonhara com o assassinato da loura e, no dia seguinte, tinha seguido a pista do assassino até a estrada 133, saindo da rodovia de San Diego. O fim de semana que se seguiu foi totalmente normal; e o dia seguinte, o da chegada de Regina, tinha sido delicioso. Então... ele vira a notícia de jornal com a entrevista de Bill Cooper e perdera o controle.

Não falara a Lindsey sobre o fato de ter visto o reflexo do estranho no espelho da saleta. Desta vez ele não poderia mais fingir que tivera um acesso de sonambulisrno e que estivera meio dormindo, meio acordado. Estava completamente desperto, o que significava que aquela imagem no espelho deveria ser algum tipo de alucinação. Uma mente sadia, sem lesões, não sofre alucinações. Hatch não desejara partilhar com ela seu próprio medo, porque sabia que com a chegada dos novos resultados dos exames, no dia seguinte, teriam bastante com que se preocupar.

Incapaz de pegar no sono, ele começou a pensar na matéria do jornal, ainda que a contragosto. Tentou afastar Bill Cooper de seus pensamentos, mas voltava a ele o tempo todo, naquela espécie de obssessão de quem experimenta com a ponta da língua um dente dolorido. Era quase como se ele estivesse sendo forçado a pensar no motorista de caminhão, como se algum enorme ímã mental estivesse puxando inexoravelmente seus pensamentos naquela direção. Daí a pouco, para seu pânico, aquela irritação inexplicável começou a crescer lentamente de dentro dele. Pior do que isso: ao mesmo tempo, a fúria e a sede de violência explodiram nele de forma tão intensa que precisou cerrar os punhos e manter os braços rígidos junto ao corpo, cerrando os dentes com toda força para não deixar escapar um uivo bestial.

 

Examinando as caixas de correspondência na entrada do conjunto de apartamentos, Vassago ficou sabendo que William Cooper morava no 28. Caminhou ao longo de uma alameda até alcançar a parte lateral do prédio, que era adornada com palmeiras, fícus e samambaias; o local era iluminado demais para seu gosto, mas ele logo chegou à escada de incêndio externa, que dava acesso ao segundo andar. Era um edifício longo, com dois andares apenas, e uma longa varanda que corria em toda a sua extensão, diante dos apartamentos.

Não havia ninguém à vista. Palm Court estava silencioso e em paz.

Passava alguns minutos da meia-noite, mas havia luzes acesas no apartamento de Cooper. Vassago podia escutar o som baixo de uma televisão.

A janela do lado direito da porta estava coberta com persianas. As plaquetas não estavam totalmente cerradas; ele conseguiu avistar uma cozinha iluminada apenas por uma lâmpada de baixa voltagem.

Do lado esquerdo da porta, uma janela maior dava para a sala de visitas do apartamento, fornecendo dali uma vista ampla para o pátio. As cortinas não estavam totalmente cerradas. Através da brecha entre elas, Vassago viu um homem afundado num sofá, com as pernas estendidas para a frente, diante da televisão. Sua cabeça estava inclinada para um lado, o rosto virado para a janela, e ele parecia adormecido. Um copo contendo dois dedos de um líquido dourado estava colocado ao lado de uma garrafa de uísque Jack Daniels pela metade, sobre uma mesinha do lado. Um pacote de salgadinhos de queijo havia caído de cima da mesinha, espalhando os tira-gostos amarelos por sobre o carpete verde.

Vassago olhou para a esquerda, depois para a direita, examinou o pátio em todas as direções. Ninguém.

Tentou fazer deslizar a janela da sala, mas ou estava trancada por dentro ou demasiado enferrujada. Foi para o lado direito, na direção da janela da cozinha, mas ao passar diante da porta deteve-se e, sem muita esperança, experimentou a maçaneta. A porta estava destrancada. Ele a abriu devagar, entrou e trancou-a atrás de si.

O homem no sofá — Cooper, provavelmente — nem se mexeu quando Vassago puxou com cuidado as cortinas, tapando toda visão através da janela envidraçada. Ninguém que passasse pela varanda poderia olhar para dentro.

Depois de verificar que a cozinha, a sala de jantar e a sala de visitas estavam desertas, Vassago moveu-se silenciosamente até o banheiro e os dois quartos de dormir, um dos quais não estava mobiliado e parecia funcionar como uma espécie de depósito. Comprovou que o homem sobre o sofá se encontrava sozinho.

Na cômoda do quarto ele avistou uma carteira e um molho de chaves. Na carteira havia 58 dólares, que ele recolheu, e uma carteira de motorista em nome de William X. Cooper. A fotografia da carteira era do homem na sala, alguns anos mais moço... e sóbrio.

Retornou à sala com a intenção de acordar Cooper e ter um diálogo informativo com ele. Quem é Lindsey? Onde ela mora?

Mas quando foi se aproximando do sofá uma torrente de raiva começou a brotar dentro dele, uma coisa demasiado súbita e sem motivo para que ele imaginasse ser espontânea; sentiu-se como se fosse um aparelho de rádio humano, captando emoções de outras pessoas. E o que estava recebendo naquele instante era a mesma fúria que o atacara inexplicavelmente quando admirava sua coleção, cerca de uma hora atrás. Assim como fizera antes, ele se abriu diante daquela emoção, recebeu-a, amplificou sua corrente com o auxílio de seu próprio suprimento de ódio, imaginando se começaria a receber visões, como acontecera da vez anterior. Mas desta vez, enquanto estava de pé, olhando o vulto adormecido de William Cooper, a raiva ardeu com inesperada intensidade, transformando-se numa fúria insensata, e ele perdeu completamente o autocontrole. Estendendo a mão, ele agarrou pelo gargalo a garrafa de Jack Daniels pousada na mesinha junto ao homem adormecido.

 

Deitado na cama, o corpo inteiramente rígido e retesado, Hatch apertava os pulsos com tanta força que mesmo suas unhas bem aparadas se enterravam na palma das mãos; ele tinha o tempo inteiro a sensação apavorante de que sua mente estava sendo invadida. Aquele acesso de raiva tinha sido semelhante ao gesto de alguém que abre uma porta apenas o bastante para espiar através da fresta, mas isso permite que alguém do outro lado se jogue contra ela, arrancando-a das dobradiças. Uma coisa sem nome estava se apossando dele, uma força sem forma e sem feições, uma coisa feita de ódio e de fúria. Era como um tufão, um tornado, algo além das dimensões meramente humanas, e ele sabia que era um vaso pequeno demais para conter toda aquela fúria que estava sendo bombeada para dentro dele. Sentiu que ia explodir, estilhaçando-se todo como se fosse, não um homem, mas um boneco de vidro.

 

A garrafa de uísque atingiu o lado da cabeça do homem com um impacto tão violento que soou quase como um tiro de arma de fogo. Uísque e estilhaços de vidro voaram em todas as direções, espalhando-se pelo aposento, retinindo de encontro ao aparelho de TV, a mobília, as paredes. O ar se encheu com o cheiro aveludado de malte do uísque, mas misturado a ele havia o cheiro de sangue, porque um lado do rosto de Cooper estava cortado e machucado, sangrando copiosamente.

O homem não estava mais apenas dormindo; tinha despencado num nível mais profundo de inconsciência.

Vassago ficou segurando apenas o gargalo partido, que terminava em três pontas irregulares e agudas, gotejando uísque, e lembrando aos seus olhos as presas brilhantes e peçonhentas de uma cobra. Num gesto rápido, mudou a posição de segurar o gargalo, voltando a parte quebrada para baixo; erguendo aquela arma tosca sobre a cabeça, ele desferiu um golpe brusco, soltando ao mesmo tempo um arquejo feroz, e os dentes de vidro da serpente mergulharam no rosto de William Cooper.

 

A raiva vulcânica que explodiu dentro de Hatch não se assemelhava a nada que ele já tivesse experimentado em toda a sua vida, era algo muito além dos acessos de raiva por que seu pai tinha passado. Na verdade, não era algo que ele pudesse ter feito surgir de dentro de si próprio, assim como ninguém seria capaz de fabricar ácido sulfúrico dentro de um recipiente de papel: o recipiente seria dissolvido pela própria substância que se propunha conter. Um fluxo de lava incandescente em alta pressão jorrou numa golfada de dentro dele, algo tão quente que ele quis gritar, e tão quente que ele sequer teve tempo de gritar. Sua consciência ardeu, crepitou e extinguiu-se, e ele tombou numa escuridão abençoadamente sem sonhos, onde já não existiam o ódio nem o terror.

 

Vassago percebeu que estava gritando, possuído por um júbilo selvagem, inarticulado. Depois de doze, quinze, vinte golpes, a arma de vidro estava praticamente destruída, e finalmente, num gesto relutante, ele abriu os dedos contraídos e deixou o gargalo da garrafa tombar sobre o carpete. Rosnando, ele se arremessou contra o sofá, jogando-o para o lado e fazendo o cadáver do homem tombar sobre o chão. Agarrando a mesinha, ele a arremessou contra a TV, onde Humphrey Bogart estava sentado numa sala de tribunal militar, brincando com um par de esferas de rolimã em suas mãos ásperas e falando alguma coisa sobre morangos. A TV implodiu, e Bogart transformou-se numa chuva de estilhaços brilhantes, cuja visão desencadeou em Vassago um novo frenesi destrutivo. Ele derrubou com um pontapé uma mesinha, arrancou dois quadros da parede, despedaçando o vidro e as molduras, varreu com um gesto uma porção de bibelôs de cerâmica enfileirados ao longo de uma prateleira. Pelo seu gosto, teria continuado arrebentando o apartamento de ponta a ponta, tirando cada prato de dentro dos armários da cozinha e quebrando-os no piso, reduzindo todos os copos e garrafas da casa a cacos, retirando a comida do refrigerador e jogando-a contra as paredes, agarrando as peças menores da mobília e martelando-as de encontro às outras até fazer todas elas em pedaços; mas se deteve bruscamente ao escutar o som de uma sirene, distante a princípio, mas aproximando-se cada vez mais, até que o significado daquele som conseguiu penetrar aos poucos na névoa espessa de frenesi assassino que obscurecia seus pensamentos. Correu na direção da porta, mas recuou, pensando que àquela altura devia haver pessoas no pátio ou olhando pelas janelas. Deixou a sala de visitas e foi na direção do quarto de dormir: puxando as cortinas da janela, avistou logo abaixo o teto da garagem, que corria ao longo da parte traseira do prédio. Um beco, ladeado por um muro de tijolos, ficava do lado oposto. Ele destrancou a janela, ergueu a parte inferior, esgueirou-se através da abertura, e logo deixava-se cair sobre o teto da garagem, rolando até a beirada e deixando-se cair sobre o piso de cimento, aterrissando sobre os pés, como um felino. Seus óculos escuros caíram no chão, mas ele os recolheu e os colocou novamente no rosto. Correu para a esquerda, rumo à parte traseira do prédio, ouvindo agora o som da sirene muito, muito alto, e muito próximo. Ao se aproximar do muro de três metros de altura que fechava os fundos do prédio, atirou-se contra ele, galgando-o com a mesma facilidade de uma aranha de pernas longas subindo ao longo de uma superfície irregular qualquer; e num instante tinha sumido, correndo ao longo do beco dos fundos de outro edifício, ao longo de uma garagem semelhante à que ele acabava de deixar para trás. Fugiu por entre os prédios, encontrando por puro instinto o caminho no meio daquele labirinto de becos e passagens, até emergir na mesma rua onde tinha estacionado e a apenas meio quarteirão de distância do Honda cinza-pérola. Entrou no carro, ligou o motor e afastou-se dali tão calmamente quanto pôde, suando e respirando com tanta força que logo embaçou os vidros do carro. Aspirando profundamente a mistura de odores de uísque, sangue e suor, ele sentiu-se tremendamente excitado, e tão gratificado por aquela explosão de violência que não se conteve e esmurrou várias vezes o volante, enquanto dirigia, deixando escapar gargalhadas agudas de prazer que tinham um travo de histeria.

Durante algum tempo guiou ao acaso, entrando de uma rua para outra sem nenhuma idéia de para onde seguir. Depois que passou o acesso de riso, ele orientou-se e rumou mais ou menos na direção do sul e do leste, de volta ao esconderijo.

Se William Cooper podia ter proporcionado alguma pista de como encontrar a mulher chamada Lindsey, esta pista agora estava eliminada para sempre. Vassago não se preocupou. Não sabia o que estava sucedendo com ele, e porque Cooper, ou Lindsey, ou o homem no espelho tinham sido colocados em contato com ele através de meios sobrenaturais. Sabia apenas que se confiasse no seu deus das trevas tudo aquilo mais cedo ou mais tarde iria se esclarecer.

Estava começando a imaginar se o Inferno o teria deixado retornar propositalmente, mandando-o de volta ao mundo dos vivos a fim de entrar em contato com determinadas pessoas que o deus das trevas queria ver mortas. Talvez ele não tivesse sido raptado do Inferno, afinal de contas, mas mandado de volta à vida, numa missão de destruição cujo sentido ia agora se revelando aos poucos. Se fosse este o caso, ele estava satisfeito em se tornar o instrumento da poderosa divindade das trevas em cuja companhia ele sonhava estar novamente; e ficou a esperar com ansiedade qual a próxima tarefa que lhe seria designada.

Pouco antes do amanhecer, depois de várias horas de um sono profundo em que sua consciência pareceu totalmente obliterada, Hatch despertou e a princípio não conseguiu saber onde estava. Por um momento pareceu boiar num mar de incerteza, mas logo sentiu-se lançado de volta pelas ondas na praia da memória: estava em seu quarto de dormir, com Lindsey adormecida e respirando suavemente ao seu lado, e a luz cinzenta da manhã filtrando-se por entre as persianas como uma poeira prateada.

Ao recordar a inexplicável e monstruosa crise de fúria que o acometera durante a noite, com força paralisante, seu corpo se retesou de medo. Tentou lembrar até onde aquela fúria o impelira, em que tipo de ato violento ela havia culminado, mas sua mente estava em branco. Pareceu-lhe que tinha simplesmente desmaiado, como se aquela raiva anormalmente intensa houvesse sobrecarregado os circuitos de sua mente e derretido um ou dois fusíveis.

Tinha desmaiado... ou sofrido uma crise de amnésia? Havia uma enorme diferença entre as duas coisas. Se desmaiara, então passara a noite inteira na cama, exausto, como uma pedra que se enterra no fundo do mar. Mas se sofrera uma crise de amnésia, ficando consciente mas sem saber o que estava fazendo, uma espécie de “branco” psicótico, sabe Deus o que poderia ter feito durante a noite.

De repente, sentiu que Lindsey poderia estar correndo um sério perigo.

Com o coração martelando de encontro às costelas, ele sentou na cama e olhou para ela. A luz do amanhecer era ainda muito débil para mostrá-la com clareza. Era apenas um vulto sombrio recortando-se de encontro aos lençóis.

Ele estendeu a mão para o interruptor da lâmpada de cabeceira, mas hesitou. Tinha medo do que poderia ver.

Eu nunca faria mal a Lindsey, nunca, pensou ele em desespero.

Mas ele lembrava muito bem que por um instante, naquela mesma noite, ele não tinha sido mais ele próprio. Sua raiva contra Cooper parecia ter aberto uma porta dentro dele, deixando penetrar ali algum monstro informe que vagava pela escuridão.

Tremendo, ele conseguiu por fim apertar o botão. A luz da lâmpada revelou que Lindsey dormia pacificamente, sorrindo, tranqüila como sempre.

Com enorme alívio, ele desligou a lâmpada — e então lembrou-se de Regina, e a onda de ansiedade ergueu-se novamente dentro dele.

Ridículo. Ele não faria mal a Regina, tampouco. Ela era apenas uma criança indefesa.

Ele não conseguia parar de tremer, pensando.

Deslizou para fora da cama sem acordar a esposa. Apanhou seu roupão de banho que estava jogado sobre uma cadeira, vestiu-o e deixou o quarto em silêncio.

Descalço, caminhou pelo corredor, onde um par de clarabóias deixava entrar largas faixas da luz do amanhecer, e seguiu até a porta do quarto de Regina. De início caminhou depressa, mas logo foi diminuindo o passo; o medo tornava suas pernas pesadas como se estivesse usando um par de botas de ferro.

Em sua mente, formou-se a imagem de uma cama de mogno escuro, com flores pintadas, coberta de sangue, os lençóis rubros e encharcados. Por alguma razão, teve a noção absurda de que iria encontrar a garota com o rosto encravado de cacos de vidro. A estranha nitidez dessa imagem o convenceu de que ele tinha, sem dúvida alguma, praticado alguma atrocidade contra ela durante um ataque de amnésia.

Quando entreabriu a porta e olhou para dentro do quarto, viu que Regina dormia tão tranqüilamente quanto Lindsey, na mesma posição em que ele a tinha visto na noite anterior, quando ele e Lindsey tinham vindo até ali dar uma espiada antes de se deitar. Nada de sangue. Nada de cacos de vidro.

Engolindo em seco, ele fechou novamente a porta e retornou pelo corredor, parando debaixo da primeira clarabóia. Ficou algum tempo ali sob o facho de luz pálida da aurora, olhando para o alto através dos vitrais, como se esperasse ver uma explicação escrita em letras enormes no próprio céu.

Nenhuma explicação apareceu. Ele permaneceu confuso e ansioso.

Pelo menos Lindsey e Regina estavam bem, não haviam sido tocadas por... por qualquer presença que tivesse entrado em contato com ele durante a noite anterior.

Lembrou-se de um velho filme de vampiros que vira muito tempo atrás, no qual um velho e encarquilhado padre advertia uma jovem mulher de que os vampiros não podem entrar numa casa a menos que sejam convidados — mas eles eram tão hábeis e persuasivos que acabavam convencendo até as pessoas mais precavidas a fazerem aquele convite fatal.

De algum modo, um vínculo qualquer se formara entre Hatch e aquele psicopata que matara a jovem punk loura chamada Lisa. Ao não reprimir o acesso de raiva que tivera contra William Cooper, Hatch fortalecera esse vínculo. Sua raiva fora a chave que abrira a porta. Cedendo à raiva, ele acabara fazendo um convite semelhante àquele contra o qual o padre havia prevenido a jovem mulher no filme. Ele não conseguia explicar por que sabia que aquilo era verdade; mas sabia, com certeza, sabia disso até a medula dos ossos. E daria tudo para entender por que era assim.

Sentiu-se perdido.

Pequeno, e impotente, e aterrorizado.

E embora Regina e Lindsey tivessem atravessado aquela noite sem sofrer nada, ele agora sabia, mais do que nunca, que elas estavam correndo grande perigo. Um perigo que aumentava a cada dia. A cada hora.

 

Antes do dia começar a clarear, naquela manhã de 30 de abril, Vassago tomou um banho, usando garrafas de água mineral e sabonete líquido. Quando os primeiros raios de sol começaram a surgir no céu, ele já tinha se refugiado com toda segurança na parte mais oculta do seu esconderijo. Deitado no seu colchão, olhando para o alto através do poço do elevador, ele comeu devagar um pacote de biscoitos enquanto bebia cerveja morna; depois comeu mais dois pacotes de salgadinhos.

O assassinato era sempre uma coisa tremendamente satisfatória. Pressões internas enormes eram liberadas com cada golpe mortal que ele desferia. Mais do que isso: cada assassinato era um ato de rebelião contra todas as coisas tidas como sagradas, contra os mandamentos, as leis, as regras, os irritantes e ridículos sistemas de comportamento empregados pelos seres humanos para manter a ficção de que a vida era algo precioso e cheio de significado. Não. A vida era algo sem valor e sem sentido. Nada importava,” a não ser as sensações e a gratificação dos desejos, algo que apenas os seres fortes e livres tinham a capacidade de entender. Depois de cada crime, Vassago se sentia tão livre quanto o vento e mais poderoso do que uma máquina de aço.

Até uma certa noite quando tinha doze anos de idade — uma noite especial, gloriosa — ele fizera parte daquelas massas escravizadas, abrindo caminho lentamente através da vida, seguindo as regras da chamada civilização, mesmo que elas não fizessem sentido aos seus olhos. Fingia amar sua mãe, seu pai, sua irmã e todos os parentes, embora não sentisse por eles mais do que o que sentiria por qualquer estranho com quem cruzasse numa rua. Em criança, quando já era grande o bastante para começar a pensar nessas coisas, imaginava se havia algo de errado com ele, se havia algum elemento faltando em sua personalidade. Via a si próprio jogando aquele jogo que eles chamavam de amor, empregando estratégias de falsa afeição e de bajulação desavergonhada, e ficava abismado em ver como os outros se deixavam convencer — porque ele conseguia perceber a insinceridade em sua própria voz, podia sentir o componente de fraude que havia em cada gesto e estava consciente da mentira escondida por trás de seus sorrisos de afeto. Então, um belo dia, ele subitamente começou a perceber um laivo de falsidade nas vozes dos outros e nos seus rostos, e só então entendeu que eles também nunca tinham conhecido nem o amor nem nenhum dos nobres sentimentos que uma pessoa civilizada, segundo eles próprios, devia cultivar: altruísmo, coragem, piedade, humildade e todo o resto daquele insuportável catecismo. Eles também estavam fingindo. Depois, concluiu que a maior parte deles, mesmo os adultos, nunca alcançara aquele grau de percepção das coisas, e permaneciam sem perceber que todo mundo era exatamente como eles próprios. Cada pessoa imaginava que era única, que algo faltava dentro dela, e que o melhor que tinha a fazer era entrar no jogo... ou deixar-se descobrir e sofrer o ostracismo, sendo vista pelos demais como algo menos que um ser humano. Deus havia tentado criar um mundo cheio de amor, e falhara, e ordenara a suas criações que fingissem ter atingido a perfeição que ele fora incapaz de lhes conferir. Percebendo essa verdade espantosa, Vassago dera o seu primeiro passo na direção da liberdade. Numa noite de verão, quando tinha apenas doze anos, finalmente entendera que para ser livre, completamente livre, tinha que agir de acordo com o que acabara de descobrir, tinha de começar a viver de modo diferente do resto da humanidade, levando em consideração apenas o seu próprio prazer. Tinha de estar disposto a exercer sobre as outras pessoas o poder que ele possuía pelo simples fato de conseguir entender a verdadeira essência deste mundo. Naquela noite, aprendeu que a capacidade de matar sem remorsos era a mais pura forma de poder, e que o exercício desse poder era o maior de todos os prazeres...

Naqueles dias, antes de morrer e ressurgir dos mortos, antes de adotar o nome do príncipe-demônio Vassago, o nome que lhe tinham dado e que usara durante toda a vida era Jeremy. Seu melhor amigo tinha sido Tod Ledderbeck, o filho do Dr. Sam Ledderbeck, um ginecologista que Jeremy, quando queria provocar Tod, chamava de “charlatão das rachas”.

Naquela manhã do início de junho, a Sra. Ledderbeck levara Jeremy e Tod ao Mundo da Fantasia, o fantástico parque de diversões que, contra todas as expectativas, começava a se tornar um sério concorrente à Disneylândia. Situava-se nas colinas, poucas milhas a leste de San Juan Capistrano, um pouco fora de mão — assim como a Magic Mountain tinha sido fora de mão antes de acabar sendo rodeada pelos subúrbios de Los Angeles e, como a própria Disneylândia, parecera estar situada no meio do nada, ao ser construída no terreno de uma fazenda próxima à obscura cidade de Anaheim. O parque havia sido construído com capital japonês, o que causou preocupação àquelas pessoas que achavam que os japoneses iam acabar um dia comprando o país inteiro, e também circulavam boatos de que havia dinheiro da Máfia envolvido no negócio, o que tornava o parque ainda mais misterioso e atraente. Mas, finalmente, o que importava era que a atmosfera do local era perfeita, os brinquedos fantásticos, e a comida de lanchonete ideal para qualquer criança viciada em comida de lanchonete. O Mundo da Fantasia foi o lugar que Tod escolheu para passar o seu 12º aniversário, na companhia de seu melhor amigo, livre da vigilância dos pais desde a manhã até as dez da noite; e Tod geralmente acabava conseguindo o que queria, porque era um bom garoto e todo mundo gostava dele; ele sabia exatamente como jogar o jogo.

A Sra. Ledderbeck os deixou em frente ao portão principal e gritou, enquanto eles saíam correndo do carro:

—      Pego vocês aqui às dez horas, aqui mesmo! Quero todos dois aqui às dez em ponto!

Depois de comprar os ingressos e penetrar no parque, Tod disse:

—      Onde você quer ir primeiro?

—      Não sei. Onde você quer?

—      Vamos no Escorpião.

—      Sim!

—      Vamos lá!

E os dois partiram em disparada, rumo à área norte do parque, onde ficavam os enormes trilhos do Escorpião — “A Montanha-Russa com Ferrão!”, segundo os anúncios da TV —, erguendo-se em linhas sinuosas de encontro ao céu azul. O parque não estava cheio ainda, e não precisaram abrir caminho entre multidões de gente vagarosa. Seus tênis ressoavam de encontro ao asfalto, enquanto eles corriam pela alameda, e cada estalo das solas de borracha de encontro ao pavimento era como um grito de liberdade. Subiram no Escorpião, gritando e assobiando enquanto ele mergulhava com estrondo ao longo da rampa, virava de cabeça para baixo, escalava os trilhos e mergulhava novamente. Quando a corrida acabou, eles correram para a rampa de embarque e recomeçaram tudo.

Naquela época, Jeremy já amava a velocidade. Os mergulhos e as guinadas bruscas das máquinas do parque, capazes de revirar o estômago de qualquer um, eram um substituto infantil para a violência pela qual ele já ansiava de maneira obscura. Depois de duas corridas no Escorpião, e tendo ainda pela frente tantas outras engenhocas para correr, voar, disparar, subir, mergulhar e tudo o mais, Jeremy estava se sentindo eufórico.

Mas Tod estragou o dia quando eles vinham cruzando o portão de saída da montanha-russa, após sua segunda corrida. Ele passou o braço em redor dos ombros de Jeremy e disse:

— Puxa, isso é o melhor aniversário que alguém podia querer... eu e você, e ninguém mais.

Aquela amizade, como toda amizade, era falsa. Uma ilusão. Uma fraude. Jeremy odiava toda aquela falsidade açucarada, mas Tod parecia deleitar-se nela. “Meu melhor amigo... irmãos de sangue... eu e você contra o resto do mundo...”

Jeremy não sabia que hipótese o irritava mais: que Tod ficasse o tempo todo martelando na tecla de melhores amigos, imaginando que Jeremy era capaz de engolir toda aquela baboseira ou que o próprio Tod fosse idiota o bastante para achar que tudo aquilo era verdade. Em tempos mais recentes, Jeremy começara a desconfiar que certas pessoas jogavam tão bem o jogo da vida que nem chegavam a suspeitar que se tratava de um simples jogo. Eles enganavam até a si mesmos com sua conversa sobre amizade, amor e compreensão mútua. E Tod estava cada vez mais parecendo ser um desses idiotas.

Para Jeremy, ser o melhor amigo de alguém era simplesmente uma maneira de forçar essa pessoa a fazer por você coisas que de outro modo ela não faria nem em um milhão de anos. A amizade era também uma espécie de pacto de defesa mútua, uma maneira de juntar forças contra a multidão de pessoas anônimas eternamente dispostas a pisar no pescoço de qualquer um e tornar-lhe tudo o que tinha. Todo mundo sabia que amizade era apenas isso, mas ninguém se atrevia a dizer a verdade, muito menos Tod.

Mais tarde, após saírem da Casa Mal-Assombrada, seguindo para outra atração chamada o Monstro do Pântano, eles pararam junto a um quiosque que vendia sorvetes com calda de chocolate e nozes. Sentaram-se em cadeiras de plástico, diante de uma mesinha de plástico, embaixo de um guarda-sol vermelho, tendo atrás de si uma cerca viva de acácias e cascatas artificiais. Ficaram ali saboreando os sorvetes, e a princípio tudo estava perfeito, mas Tod tinha que estragar tudo.

—      É ótimo vir ao parque sem os adultos, não é? — disse ele com a boca cheia de sorvete. — A gente pode tomar sorvete antes do almoço, como agora. Ora que diabo, a gente pode almoçar sorvete, se quiser, e depois tomar sorvete de novo, e não tem ninguém por perto para ficar falando bobagens sobre perder o apetite ou ficar doente.

—      É ótimo — concordou Jeremy.

—      Vamos sentar aqui e tomar sorvete até vomitar.

—      Vamos. Mas não vamos desperdiçar o sorvete.

—      Como assim?

—      Quando a gente vomitar — disse Jeremy —, é melhor não vomitar o sorvete no chão. Vamos vomitar em cima de alguém.

—      Isso mesmo! — gritou Tod, pegando a deixa imediatamente. — Alguém que mereça. Alguém que seja totalmente vomitável.

—      Como aquelas garotas — disse Jeremy, indicando duas belas adolescentes que iam passando. Usavam shorts brancos e blusas leves em cores brilhantes, e estavam tão certas de sua beleza que dava vontade de vomitar, mesmo que você não tivesse comido nada e não conseguisse produzir mais do que contrações no estômago.

—      Ou aqueles velhotes ali — disse Tod, apontando um casal idoso que comprava sorvete.

—      Não, eles não — disse Jeremy. — Aqueles dois têm cara de quem acabou de levar uma vomitada na cabeça. 

Tod achou aquilo tão hilariante que se engasgou com o sorvete. Em alguns aspectos, Tod era um cara legal.

—      Engraçado, esse sorvete — disse ele, depois que o engasgo passou.

—      O quê? — perguntou Jeremy, mordendo a isca.  

—      Eu sei que o sorvete é feito de leite, que vem das vacas. E o chocolate é feito do cacau, que é uma planta. Mas essas nozes parecem pedaços de cérebro. Será que eles moem cérebros humanos para colocar no sorvete?

Bem, com certeza o velho Tod era um sujeito legal em muitas coisas.

Mas quando os dois estavam em plena gargalhada, e se sentindo ótimos, ele se inclinou sobre a mesa, passou a mão de leve pela cabeça de Jeremy e disse:

—      Jer, eu e você vamos ser amigos para sempre, vamos ser amigos até eles nos darem de comer aos vermes, não é mesmo?

Ele acreditava. Sim, acreditava naquilo, estava enganando a si próprio. Era um cara tão estupidamente sincero que Jeremy teve vontade de vomitar nele.

Em vez disso, Jeremy disse:

—      O que você vai fazer agora... me dar um beijo na boca?

Sorrindo, sem perceber a impaciência e a hostilidade na voz do outro, Tod respondeu:

—      Não, vou dar um beijo na bunda de sua avó.

—      Na bunda da sua avó.

—      Minha avó não tem bunda.

—      Não? E ela senta em cima de quê?

—      Em cima da sua cara.

Saíram correndo na direção do Monstro do Pântano, fazendo piadas um com o outro durante todo o caminho. O brinquedo era desajeitado, um tanto rústico, mas exatamente por isso era mais divertido ainda. Durante algum tempo, Tod voltou a ser um sujeito legal para se divertir.

Mais tarde, no entanto, após deixarem o pavilhão da Batalha Espacial, Tod começou a se referir a eles dois como “os dois melhores pilotos de foguete do universo”, o que deixava Jeremy meio constrangido, por ser uma coisa tão estúpida e infantilóide. Também o irritava porque no fundo não passava de uma maneira diferente de dizer “nós somos amiguinhos, somos coleguinhas, somos parceiros”. Rumavam novamente para o Escorpião, e no momento em que ele deixou a estação, Tod dizia: “Isto aqui não é nada, é um passeio de domingo para os dois melhores pilotos de foguete do universo”; ou então estavam entrando na fila para o Mundo dos Gigantes, e Tod passava o braço nos ombros de Jeremy e dizia: “Ora essa, os dois melhores pilotos de foguete do universo podem enfrentar um gigante qualquer, não é mesmo?”

Jeremy sentia impulsos de dizer: Olhe aqui, seu babaca, a única razão de sermos amigos é meu pai e o seu trabalharem em profissões parecidas, e é só por isso que nós dois andamos juntos. Detesto essa história de passar o braço no meu ombro, então é melhor tirá-lo daí já. Vamos dar umas risadas juntos e ficar nisso, OK?

Mas não disse nada, claro — porque um bom jogador nunca admite que aquilo ali não passa de um jogo. Se você deixar que os outros jogadores percebam que você não liga a mínima para as regras e as normas, eles não vão mais deixar que você continue jogando. Vá para a prisão. Direto para a prisão. Não passe por aqui. Não se divirta.

Mais ou menos às sete da noite, após comerem todos os lanches disponíveis e estarem prontos para vomitar torrencialmente sobre alguém, se fosse o caso, Jeremy já estava tão entediado com aquela história de “pilotos do espaço” e tão furioso com a afetividade açucarada de Tod, que mal podia esperar pelas dez horas, quando a Sra. Ledderbeck viria buscá-los de carro.

Estavam na Centopéia, disparando ao longo de um dos trechos do trajeto que ficavam totalmente às escuras, quando Tod fez mais uma referência aos melhores pilotos do espaço, e Jeremy decidiu matá-lo. No instante em que aquela idéia passou como um relâmpago pela sua mente, ele soube que teria de matar seu “melhor amigo”. Era exatamente aquilo. Se a vida era um jogo cujo livro de regras tinha um número de páginas incalculável, então era um jogo absolutamente sem graça—a menos que você descobrisse uma maneira de violar as regras e conseguir permanecer jogando. Qualquer jogo acabava sendo tedioso se jogado de acordo com as regras: monopólio, rummy, beisebol... Mas se você conseguia executar uma jogada proibida, trapacear nas cartas sem ser flagrado ou mudar o resultado dos dados enquanto o outro sujeito estava distraído, então um jogo tedioso podia se tornar excitante. E no jogo da vida, cometer um assassinato e sair limpo era a maior excitação que podia haver.

Quando a Centopéia parou, com um rangido estridente, na plataforma de desembarque, Jeremy disse:

—      Vamos dar outra volta.

—      Claro — disse Tod.

Partiram em disparada pelo corredor de saída, para dar a volta e entrar novamente. Durante o dia a afluência de pessoas tinha aumentado, e a fila de espera para cada brinquedo demorava cerca de vinte minutos.

Quando saíram do pavilhão da Centopéia, o céu já estava escuro ao leste, de um azul profundo por sobre suas cabeças, e alaranjado a oeste. O crepúsculo chegava mais cedo e durava mais tempo no Mundo da Fantasia que na parte oeste da região, porque entre o parque e o mar distante estendiam-se as cordilheiras que tapavam o sol. Aquelas cordilheiras eram agora silhuetas negras de encontro ao horizonte alaranjado, como decorações de Dia das Bruxas fora da época.

Com a aproximação da noite, o Mundo da Fantasia assumira uma outra fisionomia, muito mais festiva. Todos os brinquedos e construções estavam decorados com gambiarras de luzes coloridas. Luzes brancas em pisca-pisca davam uma aparência estonteante às arvores, enquanto um par de enormes holofotes fazia movimentos sem sincronia ao longo das encostas nevadas da Montanha do Pé-Grande, uma enorme construção artificial. O néon brilhava por toda parte, em todas as tonalidades de cor que o néon pode oferecer, e na Ilha Marciana jatos coloridos de laser eram disparados aleatoriamente na direção do céu, como se estivessem combatendo um ataque de espaçonaves. O vento trazia o cheiro de pipoca e de amendoim torrado e fazia farfalhar as longas fileiras de bandeirolas penduradas por toda parte. De cada pavilhão emergia o som de música em estilos diferentes e das épocas mais diversas, enquanto puro rock-and-roll estrondeava no dancing ao ar livre situado na extremidade sul do parque, enquanto de alguma outra direção chegavam os ecos remotos de uma orquestra executando números de swing. Pessoas riam e falavam alegremente, e nas engrenagens dos brinquedos mecânicos ouvia-se gente gritando o tempo todo no auge da excitação.

—      Vamos de piloto-suicida agora — disse Jeremy, quando ele e Tod alcançaram resfolegantes o fim da fila de entrada na Centopéia.

—      Isso mesmo! — disse Tod. — Piloto-suicida!

A Centopéia era basicamente uma montanha-russa em recinto fechado, como a Montanha Espacial na Disneylândia, com a diferença de que em vez de subir e descer rodeando uma área circular, ela disparava ao longo de uma série de túneis, uns iluminados, outros não. A barra de segurança, colocada à frente dos passageiros, era apertada o bastante para oferecer segurança, mas um garoto delgado e ágil podia contorcer o corpo o bastante para se esgueirar por baixo dela, primeiro a barriga, depois as pernas; em seguida saltar por cima e postar-se à sua frente, agarrando-a atrás de si ou passar os dois braços sobre ela, prendendo-se com a parte interna dos cotovelos; isso era o estilo “piloto-suicida”.

Era uma proeza estúpida e perigosa, o que Jeremy e Tod sabiam muito bem. Mas já tinham feito aquilo uma ou duas vezes, afinal de contas — se não na Centopéia, em brinquedos de outros parques. Brincar de piloto-suicida aumentava a excitação do passeio em mil por cento, especialmente naqueles túneis totalmente às escuras, onde era impossível avistar o que vinha em seguida.

—      Pilotos do espaço! — gritava Tod, enquanto eles estavam a meio caminho na longa fila da Centopéia; e oferecia as mãos espalmadas para Jeremy bater um high-five em saudação, o que ele fazia, embora se sentindo como um garoto idiota. — Nenhum piloto do espaço tem medo de bancar o piloto-suicida, certo?

—      Certo — dizia Jeremy.

Finalmente, os dois passaram a porta principal e entraram no pavilhão. Gritos agudos soavam na direção em que os vagões que acabavam de partir ruidosamente rumo à escuridão dos túneis.

De acordo com uma lenda — uma lenda repetida por todos os garotos que freqüentam parques de diversões com esse tipo de brinquedos — um garoto tinha morrido fazendo piloto-suicida na Centopéia, porque era alto demais. O teto dos túneis era elevado em todos os trechos bem iluminados, mas todos diziam que havia um único ponto, num dos trechos escuros, em que o teto era rebaixado —fosse porque tubos de ar-condicionado passavam naquele trecho, fosse porque os engenheiros haviam convencido o construtor a colocar ali um suporte extra, fosse porque o arquiteto era maluco, De qualquer modo, esse tal garoto alto acabou tendo a cabeça esmagada de encontro a essa parte rebaixada do teto, sem nem sequer saber o que lhe aconteceu. Sua cabeça foi pulverizada instantaneamente, e todos os idiotas desprevenidos que vinham nos vagões de trás levaram um banho de sangue, pedaços de cérebro e dentes partidos.

Jeremy não acreditava nisso nem por um instante. Um parque como o Mundo da Fantasia não tinha sido construído por arquitetos com bosta de vaca na cabeça. Eles certamente sabiam que os garotos cedo ou tarde conseguiriam passar por sob a barra de segurança, porque nada neste mundo era inteiramente à prova de garotos, e teriam tido o cuidado de manter o teto alto em toda a extensão do trajeto. A lenda também dizia que aquela parte rebaixada ainda existia do mesmo modo numa das seções do túnel, com manchas de sangue e pedaços de cérebro secos grudados na superfície... o que era totalmente idiota.

O perigo real para quem fizesse piloto-suicida, de pé no vagão, era o de cair para fora do carro quando este desse uma guinada brusca para um dos lados ou acelerasse inesperadamente. Jeremy calculava que deveria haver pelo menos seis ou oito curvas especialmente perigosas no trajeto da Centopéia, curvas onde Tod Ledderbeck poderia facilmente ser projetado do carro... com um mínimo de ajuda externa.

A fileira de vagões começou a se mover lentamente para diante, aproximando-se deles.

Jeremy não estava nem impaciente nem temeroso. À medida que iam se aproximando da plataforma de embarque, ele ficava mais excitado e ao mesmo tempo mais confiante. Suas mãos nem sequer tremiam. Não sentia o medo gerando borbulhas em sua barriga. Ele simplesmente queria fazer aquilo.

A plataforma de embarque era construída de modo a reproduzir uma caverna com imensas estalactites e estalagmites. Estranhas criaturas de olhos brilhantes chapinhavam nas águas turvas de lagoas sinistras e caranguejos mutantes e albinos se arrastavam pelas praias, erguendo enormes pinças desajeitadas na direção das pessoas na plataforma, fazendo movimentos de ameaça; mas suas patas não eram longas o bastante para poder proporcionar-lhes algum tipo de refeição.

Cada trem tinha seis vagões, e cada vagão levava duas pessoas. Os vagões eram pintados como se fossem os segmentos do corpo de uma centopéia: o primeiro deles tinha uma enorme cabeça de inseto, com mandíbulas articuladas e enormes olhos pretos multifacetados; não uma simples pintura, mas uma cabeça verdadeiramente monstruosa. O último vagão exibia um ferrão curvo que parecia pertencer mais a um escorpião do que ao traseiro de uma centopéia. Partiam dois trens de cada vez, o segundo logo atrás do primeiro, e os dois disparavam para dentro do túnel com apenas alguns segundos de intervalo; toda a operação era controlada por computador, o que eliminava qualquer risco de que os dois trens se chocassem.

Jeremy e Tod estavam entre os doze passageiros que os funcionários acomodaram no primeiro trem.

Tod queria ir no vagão da frente, mas eles não conseguiram. Aquela seria a melhor posição para fazer o piloto-suicida, porque tudo iria acontecer com eles antes de todos: cada mergulho nas trevas, cada jato de vapor gelado das aberturas nas paredes, cada investida através das portas vaivém para as luzes brilhantes. Além disso, parte do prazer em ser piloto-suicida era o exibicionismo, e o vagão da frente era o palco ideal para isso, com os passageiros dos outros cinco vagões sendo uma platéia cativa, nos trechos iluminados. Com o primeiro vagão já ocupado, eles correram para o último. Ir no último carro era a melhor alternativa, se não era possível ir no primeiro: os gritos dos passageiros que iam à frente, em cada manobra brusca e cada ziguezague dos trilhos, aumentava o suspense e estimulava a adrenalina. Na verdade, fazer piloto-suicida no meio do trem era algo que não tinha muita graça.

As barras de segurança desceram automaticamente, quando todos os doze passageiros estavam instalados a bordo. Um funcionário caminhou ao longo da plataforma, fazendo uma inspeção visual para se certificar de que estava tudo em ordem.

Jeremy estava aliviado pelo fato de não terem ficado no vagão da frente, onde teriam dez testemunhas às suas costas. Na escuridão sepulcral dos trechos não-iluminados do túnel, ele não seria capaz de enxergar sua própria mão a cinco centímetros de seus olhos, portanto era improvável que alguém pudesse vê-lo empurrar Tod para fora do vagão. Mas esta seria sua maior violação das regras em todos os tempos, e ele não estava disposto a correr riscos desnecessários. Agora, todas as possíveis testemunhas estavam numa posição segura, à frente deles, olhando para diante; e não poderiam olhar para trás facilmente, uma vez que os bancos dos vagões tinham encostos altos, para servir de apoio à cabeça durante as acelerações mais bruscas.

Quando o funcionário terminou de checar as barras de segurança, voltou-se e fez um sinal para o operador, que estava sentado diante de um painel de controle instalado numa formação rochosa à entrada do túnel.

—      E lá vamos nós — disse Tod.

—      Lá vamos nós — concordou Jeremy.

—      Pilotos do espaço! — gritou Tod.

Jeremy trincou os dentes.

—      Pilotos do espaço! — repetiu Tod.

Que diabo. Uma vez a mais ou a menos não vai fazer diferença, pensou Jeremy e berrou:

—      Pilotos de espaço!

O trem não largava da plataforma com aquele balanço meio desajeitado, típico das montanhas-russas. Um tremendo jato de ar comprimido o projetava para diante em alta velocidade, como uma bala disparada através do cano de uma arma de fogo, com um whoooooshhhhl que chegava a doer nos ouvidos.

Eles sentiram-se esmagados de encontro ao encosto dos bancos, quando passaram como um relâmpago pelo operador e mergulharam na boca negra do túnel.

Escuridão total.

Naquele tempo ele tinha apenas doze anos. Ainda não havia morrido. Ainda não descera ao Inferno. Não tinha regressado. Na escuridão, ele era tão cego quanto qualquer outra pessoa, tão cego quanto Tod.

Então, eles passaram com ruído por uma porta de vaivém e penetraram num longo trecho iluminado e ascendente, de início em alta velocidade, mas diminuindo aos poucos até irem praticamente se arrastando. De ambos os lados dos trilhos, eram ameaçados por enormes lesmas esbranquiçadas do tamanho de um ser humano, que se erguiam e guinchavam em sua direção através de bocas arredondadas e cheias de dentes pontudos que giravam como as lâminas de uma máquina de triturar lixo. Aquela subida tinha a altura de um edifício de seis ou sete andares, num ângulo bastante inclinado, e durante todo o trajeto havia monstros mecânicos que piavam, balbuciavam, rosna-am e guinchavam na direção do trem; todos eram pálidos e pegajosos, com olhos brilhantes ou então olhos que não passavam de buracos escuros — o tipo de criaturas que você imaginaria que deve existir muitos quilômetros abaixo da superfície da terra... se você não tiver o menor conhecimento sobre ciência.

Essa primeira rampa ascendente era o trecho em que os pilotos-suicidas tinham que se posicionar. Havia outras rampas parecidas no restante do trajeto, mas nenhuma delas era tão extensa, nenhuma proporcionava um período tão longo de tranqüilidade para se poder executar com êxito a manobra de passar por baixo da barra de segurança.

Jeremy se contorceu, espremendo-se de encontro ao banco do vagão, mas aos poucos conseguiu puxar o corpo para cima, centímetro por centímetro; mas Tod a princípio não se moveu.

—      Vamos, bunda-mole — disse Jeremy. — A gente tem que estar em posição antes da descida.

Tod parecia inseguro.

—      Se nos pegarem, eles nos expulsam do parque.

—      Eles não vão nos pegar.

No final da corrida, o trem atravessaria um último trecho de escuridão, onde os passageiros tinham uma chance de se acalmar um pouco antes da chegada. Naqueles últimos segundos, antes de emergirem novamente na falsa caverna de onde tinham partido, era possível se esgueirar de volta por baixo da barra de segurança e instalar-se outra vez no assento. Jeremy sabia que poderia fazê-lo; não estava preocupado com a possibilidade de ser surpreendido. E Tod também não precisava se preocupar com isso, porque àquela altura Tod estaria morto e nunca mais precisaria se preocupar com coisíssima alguma.

—      Não quero ser expulso do parque porque fiz piloto-suicida — disse Tod, enquanto o trem já alcançava a metade do trajeto ascendente na rampa. — Foi um dia tão legal, e ainda faltam umas duas horas até mamãe vir nos pegar.

Ratos albinos, mutantes, chiavam e mostravam os dentes para eles nas rochas de ambos os lados da passagem.

—      OK — retrucou Jeremy, enquanto continuava a forçar o corpo por baixo da barra de ferro. — Você é mesmo um filhinho-da-mamãe.

—      Eu não sou filhinho-da-mamãe — disse Tod, em tom defensivo.

—      Ora, claro que é.

—      Não sou.

—      Quando as aulas recomeçarem, em setembro, você vai entrar para o Clube das Jovens Donas de Casa, vai aprender a cozinhar, bordar toalhinhas de mesa, fazer arranjos de flores...

—      Você é um escroto, sabia disso?

—      Oooooh, você partiu meu coração — disse Jeremy, no instante em que conseguiu libertar as pernas de sob a barra de segurança, e pôr-se de cócoras sobre o assento do vagão. — Vocês garotas sabem mesmo ferir os sentimentos da gente.

—      Seu... crepazóide.

O trem continuava escalando a rampa, com o clangor metálico e os rangidos típicos dos trens de montanha-russa, um som que já bastaria para fazer o coração bater mais rápido e o estômago dar voltas.

Jeremy saltou por cima da barra de segurança e ficou de pé no estreito espaço vazio à frente dela, olhando para diante. Olhou para Tod por cima do ombro. Ele continuava sentado, carrancudo, no mesmo lugar. Não estava preocupado em saber se Tod viria juntar-se a ele ou não. Decidira matá-lo, e se isso não fosse possível, ali no Mundo da Fantasia, no dia do aniversário dele, poderia fazê-lo em outro lugar, mais cedo ou mais tarde. O simples fato de estar planejando aquilo já era bastante divertido. Era como aquela canção do comercial de ketchup na TV, onde se dizia que o molho era tão espesso que parecia levar horas para sair da garrafa: ex-pec-ta-tiüiii-va... Se tivesse que esperar alguns dias ou mesmo algumas semanas por outra boa chance para matar Tod, isso tornaria o crime ainda mais divertido. Assim, ele não insistiu mais e limitou-se a olhar para Tod com uma expressão de sarcasmo. Ex-pec-ta-tiiii-va...

—      Eu não estou com medo — disse Tod.

—      Eu sei.

—      Eu só não quero estragar o dia.

—      Claro.

—      Crepazóide! — disse Tod.

Jeremy retrucou:

—      Piloto de foguete porra nenhuma!

O insulto teve um efeito imediato. Tod estava tão envolvido na sua ilusão de amizade que era possível atingi-lo: bastava insinuar que ele não sabia como um verdadeiro amigo devia se comportar. A expressão de seu rosto largo e franco revelou não apenas uma enorme mágoa, mas um súbito desespero que surpreendeu Jeremy. Talvez Tod entendesse de fato o que era a vida; talvez ele soubesse que ela não passava de um jogo brutal onde cada jogador se concentrava apenas no objetivo egoísta de ser o vencedor, e talvez o velho Tod vivesse assustado com isso, e estivesse apenas se agarrando a uma derradeira esperança — o conceito de amizade. Se o jogo pudesse ser jogado com um ou dois companheiros, em parceria, se o mundo inteiro estava contra o seu time, isso era algo tolerável, muito melhor do que o mundo inteiro contra ele só. Tod Ledderbeck e seu melhor amigo Jeremy, contra o resto da humanidade, era algo ligeiramente romântico e aventureiro, mas Tod Ledderbeck sozinho, certamente, era uma perspectiva que lhe provocava um desarranjo intestinal.

Sentado por trás da barra de segurança, Tod primeiro pareceu ferido, e depois assumiu uma expressão resoluta. A indecisão deu lugar à ação, e Tod começou a mexer-se rápido, espremendo-se furiosamente por baixo da barra de ferro.

— Vamos, vamos logo — disse Jeremy. — Estamos quase em cima.

Tod deslizou sob a barra, saltou por cima dela, e logo estava de pé ao lado de Jeremy, no estreito espaço destinado às pernas dos passageiros. Durante a passagem, prendeu o pé na barra, e quase caiu do vagão.

Jeremy o agarrou pelo braço e o ajudou a equilibrar-se. Aquele não era o lugar certo para Tod cair. Estavam se movendo muito devagar, e no máximo ele sofreria alguns arranhões.

Por fim estavam os dois, lado a lado, os pés plantados firmemente no assoalho do vagão, as costas apoiadas na barra de ferro e os braços curvados para trás, segurando a barra com toda força; sorriam um para o outro, enquanto o vagão alcançava a parte superior da rampa. O trem passou ruidosamente entre as portas de vaivém e penetrou em mais um trecho não iluminado. Os trilhos corriam horizontalmente agora, apenas o tempo necessário para aumentar um pouco mais a tensão dos passageiros. Ex-pec-ta-tiiii-va... Quando Jeremy não podia mais prender a respiração, o vagão da frente precipitou-se na rampa de descida, e as pessoas começaram a gritar na escuridão. Então, um após o outro, seguiram-se o segundo, o terceiro, o quarto vagão...

— Pilotos do espaço! — gritaram Jeremy e Tod em uníssono.

...e o último vagão do trem seguiu os outros naquele mergulho quase vertical, aumentando de velocidade a cada segundo. O vento passava zunindo por eles, jogando seus cabelos para trás. Então veio uma guinada brusca para a direita, quando eles menos esperavam, numa inclinação ascendente que revirou seus estômagos, depois outra curva para a direita, os trilhos inclinados fazendo o peso dos carros cair todo para um lado só, e mais rápido, mais e mais, depois um trecho em linha reta e uma nova inclinação, onde a velocidade projetou o trem mais alto do que em qualquer outro trecho, a marcha diminuindo aos poucos até chegar no alto, mais devagar, mais de-va-gaaaar... Ex-pec-ta-tiii-va... O trem cruzou novamente a borda e eles mergulharam para baixo, e mais, e mais, e maaaaaais, com tal rapidez e tal empuxo que Jeremy sentiu como se seu estômago tivesse sido arrancado e ficado lá para trás, deixando um buraco no meio de seu corpo. Ele sabia o que vinha mais adiante, mas ainda assim ficou sem respiração. O trem fez um looping completo, ficando de cabeça para baixo. Ele fincou os pés no chão com toda força e agarrou a barra de segurança atrás de si como se quisesse que sua carne se fundisse ao metal, porque sentiu como se fosse se desprender do carro, caindo verticalmente sobre o trecho por onde tinham acabado de passar e rachando a cabeça nos trilhos. Ele sabia que a força centrípeta o manteria no lugar, mesmo ele estando de pé, numa posição proibida, mas o que ele sabia não fazia diferença: o que sentimos sempre tem mais peso do que o que sabemos; a emoção importa mais do que o intelecto. De repente tinha passado o loop, irrompendo com um estrondo através de mais uma porta de vaivém, que dava acesso a mais uma subida iluminada, onde a tremenda velocidade que os conduzia seria bastante para levá-los ao topo, e depois a um novo mergulho e a nova série de manobras e guinadas bruscas.

Jeremy olhou para Tod.

O velho piloto do espaço estava ligeiramente esverdeado.

— Não vai ter mais loops — gritou Tod por sobre o clangor das rodas do trem. — O pior já passou.

Jeremy explodiu numa gargalhada. Pensou: O pior está vindo por aí, babaca. E para mim está vindo a melhor parte. Ex-pec-ta-tiii-va... Tod riu, também, mas certamente por outra razão. Quando chegaram ao topo da segunda subida, os vagões atravessaram uma terceira porta de vaivém, mergulhando-os novamente na treva — e Jeremy sentiu um arrepio, porque pensou que Tod Ledderbeck acabara de ver a luz pela última vez em sua vida. O trem sacolejava para a esquerda e para a direita, e por fim chegou ao topo, e mergulhou mais uma vez, descrevendo uma nova seqüência de quedas e parafusos.

Durante todo aquele tempo, Jeremy sentia a presença de Tod ao seu lado. Seus braços nus roçavam um no outro de vez em quando, e seus ombros se chocavam quando o vagão jogava mais bruscamente para o lado. Cada contato provocava uma descarga de intenso prazer através de Jeremy, eriçava os cabelos da sua nuca, deixava sua pele toda arrepiada. Ele sabia que naquele instante detinha um poder absoluto sobre o outro garoto, o poder da vida e da morte, e ele era diferente de todos os outros indivíduos bunda-moles do mundo, porque ele não tinha medo de usar esse poder.

Esperou por um trecho próximo ao fim da corrida, onde ele sabia que o sacolejar ondeante do vagão iria deixar os pilotos-suicidas no maior grau de instabilidade. Nessa altura, Tod estaria se sentindo mais confiante — o pior já passou — e seria mais fácil pegá-lo de surpresa. A chegada ao lugar escolhido foi anunciada por um dos truques mais inesperados da Centopéia — um giro completo em 360 graus, em alta velocidade, com os vagões inclinados para um lado, quase na horizontal; terminado esse giro, os vagões voltariam à posição normal, e entrariam numa série de seis “colinas” sucessivas, não muito altas, mas colocadas uma imediatamente após a outra, de modo que o trem iria se mover como uma minhoca, num trajeto sobe-des-ce-sobe-desce-sobe-desce, até a derradeira porta de vaivém, que daria acesso à enorme caverna onde se situavam as plataformas de embarque e desembarque.

O trem começou a se inclinar para um lado. Entraram no giro em 360 graus.

Os vagões giravam a toda velocidade, quase na horizontal. Tod tentou permanecer em posição reta, mas acabou pendendo na direção de Jeremy, que estava na parte de dentro do vagão, enquanto este se inclinava para a direita. O velho piloto do espaço estava berrando a plenos pulmões, feliz da vida, tentando aproveitar ao máximo aqueles derradeiros instantes, agora que o pior já tinha passado.

Ex-pec-ta-tiii-va...

Jeremy calculou que já haviam percorrido um terço do círculo.

Metade...

Dois terços...

Os trilhos começaram a se endireitar, os vagões diminuindo sua luta contra a gravidade.

Num salto brusco, que quase cortou a respiração de Jeremy, o trem alcançou a primeira das seis colinas e arremessou-se para o alto.

Ele largou a barra de segurança com a mão direita, a do lado oposto a Tod.

O trem mergulhou para baixo.

Ele cerrou com força o punho direito.

Mal atingiu o ponto mais baixo, o trem voltou a elevar-se bruscamente, até alcançar o topo da segunda colina.

Jeremy girou o corpo, desferindo um soco com toda a força de que era capaz, confiando em seu instinto para acertar em cheio o rosto de Tod.

O trem mergulhou.

O punho de Jeremy acertou em cheio, bem no meio do rosto do outro garoto, e ele sentiu o nariz do outro se achatando.

O trem voltou a disparar para o alto, enquanto Tod gritava, embora isso não fizesse a menor diferença em meio aos gritos histéricos dos outros passageiros.

Talvez, por uma fração de segundo, Tod pensasse que seu rosto tinha se chocado de encontro ao lendário trecho rebaixado do teto, que teria decapitado um garoto muito tempo atrás; em pânico, largaria a barra de segurança. Pelo menos era isso que Jeremy esperava, de modo que no instante em que seu soco acertou o piloto do espaço, quando o trem começou a descer a terceira inclinação, ele próprio largou a barra de ferro e agarrou seu melhor amigo, sacudindo-o de um lado para o outro, com toda força de que era capaz. Sentiu que Tod reagia e tentava agarrar seu cabelo, mas livrou a cabeça com uma sacudidela brusca, ergueu o joelho, atingindo o quadril do outro... ...o trem começou a subir a quarta ladeira...

...e Tod foi arremessado por sobre a borda do vagão, sumindo nas trevas, como se tivesse desaparecido no vácuo sideral, Jeremy quase tombou junto com ele, mas tateou freneticamente na escuridão até que sua mão encontrou a barra de segurança, agarrando-a...

...o vagão precipitou-se rugindo na descida seguinte...

...Jeremy acreditou ter escutado um derradeiro grito de Tod e depois um choque surdo quando ele atingiu a parede do túnel e tombou nos trilhos por onde o trem tinha acabado de passar, embora pudesse ter sido apenas sua imaginação...

.. .enquanto o trem escalava a quinta subida com um sacolejar que deixou Jeremy prestes a vomitar...

...e Tod estava morto lá atrás, na escuridão, ou talvez apenas atordoado, semiconsciente, tentando ficar de pé...

...houve o mergulho na descida e Jeremy foi sacudido para a frente e para trás, quase largou a barra de ferro, e num instante pareceu flutuar outra vez, quando o trem escalou a sexta colina...

...e se não estava morto ainda, Tod talvez estivesse começando a perceber que o segundo trem estava a caminho...

...e mais um mergulho final, e o trem disparou para diante, rumo ao derradeiro trecho horizontal do percurso.

Assim que sentiu o trem de volta em terra firme, Jeremy enfiou-se rapidamente por trás da barra de segurança, colocando primeiro a perna esquerda, depois a direita.

A última série de portas emergiu da escuridão. Por trás da última delas, estava a caverna de entrada e saída; ele não podia deixar os funcionários perceberem que ele vinha fazendo piloto-suicida.

Fez um derradeiro e frenético esforço para passar seus quadris no espaço estreito entre a barra de segurança e o banco do vagão. Na verdade, não era tão difícil; dava mais trabalho sair de sob a barra do que voltar para a posição original.

Irromperam através da porta de vaivém — wham! — até que o trem foi diminuindo gradualmente de velocidade rumo à plataforma de desembarque, cerca de trinta metros atrás do local onde haviam embarcado. Havia gente amontoada na plataforma de embarque, a maioria com os olhos fitos no trem, no momento em que este emergiu do túnel. Por um instante Jeremy temeu que alguém apontasse um dedo acusador em sua direção e gritasse: “assassino!”

No momento em que o trem parou ao lado da plataforma de desembarque, luzes vermelhas de emergência começaram a piscar em toda a caverna, indicando a direção da saída. Dos alto-falantes camuflados entre as rochas artificiais começou a brotar uma voz computadorizada:

—      A Centopéia teve que fazer uma parada de emergência. Todos os passageiros, por favor, permaneçam em seus lugares.

No momento em que o trem parou de todo, a barra de segurança destravou automaticamente, e Jeremy ficou de pé e, apoiando a mão na parte lateral do carro, saltou para a plataforma.

—      Por favor... todos os passageiros permaneçam em seus lugares até que os funcionários os conduzam para a saída...

Os funcionários uniformizados que havia na plataforma trocavam olhares irresolutos, sem entender o que tinha acontecido.

—      Todos os passageiros, favor permanecer em seus lugares...

Da plataforma, Jeremy olhou para trás na direção do túnel, por onde tinha acabado de sair. O segundo trem estava justamente cruzando a porta de vaivém.

—      As demais pessoas queiram se encaminhar com calma até a saída mais próxima...

O trem que se aproximava, contudo, não deslizava sobre os trilhos como o outro; movia-se de um modo curiosamente irregular, balançando, como se fosse descarrilar de um instante para o outro.

Com um sobressalto, Jeremy avistou aquilo que estava preso às rodas dianteiras do trem, erguendo-as dos trilhos. Outras pessoas na plataforma deviam ter visto o mesmo, ao mesmo tempo, porque no mesmo instante começaram a gritar, não os gritos previsíveis de puxa-vida-que-loucura-que-acabamos-de-passar que se ouviam em todo o restante do parque, mas gritos de horror e de náusea.

—      Todos os passageiros, favor permanecer em seus lugares...

O trem veio balançando e sacolejando até se deter na plataforma. Alguma coisa pendia da enorme boca de inseto que decorava a frente do primeiro vagão, alguma coisa agarrada entre as mandíbulas. Eram os restos mortais do velho piloto do espaço... e um lanche suculento para um monstro de boca enorme como a Centopéia.

—      As demais pessoas queiram se encaminhar com calma até a saída mais próxima...

—      Não olhe, garoto — disse um funcionário, em tom paternal, pegando Jeremy pelos ombros e virando-o de costas para aquela visão terrível. — Pelo amor de Deus... vá embora daqui, rápido.

Àquela altura, os funcionários tinham se refeito do choque o suficiente para começarem a guiar a multidão para as portas de saída, indicadas por setas luminosas e vermelhas. Percebendo que estava trêmulo de excitação, sorrindo como um idiota, e demasiado eufórico para poder desempenhar o papel de inconsolável-melhor-amigo-do-finado, ele se juntou à multidão que se espremia em pânico rumo à saída, aos empurrões e cotoveladas.

Uma vez ao ar livre, ele viu que lá fora, em plena noite, as luzes coloridas continuavam piscando e os fachos de laser voltavam a se entrecruzar na direção do céu, e arco-íris de néon cintilavam em todas as direções: milhares de pessoas circulavam por entre os brinquedos, em busca de diversão, ignorando que a Morte caminhava por entre eles. Jeremy afastou-se correndo da Centopéia. Abrindo caminho por entre a multidão, evitando habilmente um esbarrão depois do outro, ele não tinha a menor idéia de para onde estava indo. Sabia apenas que precisava correr até pôr uma boa distância entre ele e o corpo destroçado de Tod Ledderbeck.

Por fim, parou junto do lago artificial, onde alguns flutuadores hovercraft zumbiam, levando e trazendo passageiros para a Ilha Marciana. Sentia-se como se ele próprio estivesse em Marte ou em algum outro planeta remoto onde a gravidade fosse menor do que a da Terra. Sentia-se leve, a ponto de flutuar, de sair boiando pelo espaço afora.

Sentou-se num banco de concreto, com as costas viradas para o lago, fitando uma passarela bordejada de flores por onde fluía uma torrente incessante de pessoas, e por fim liberou a gargalhada que vinha reprimindo dentro de si, como alguém que tampa a boca de uma garrafa de Pepsi e a agita vigorosamente. Algumas pessoas olharam para ele, e um casal chegou a se deter para perguntar se ele tinha se perdido de seus pais. A crise de riso era tão intensa que ele soluçava, e lágrimas corriam pelo seu rosto. As pessoas pensavam que ele estava chorando — um garoto de doze anos que tinha perdido de vista os pais e era delicado demais para poder suportar isso. Semelhante mal-entendido fez com que ele gargalhasse mais ainda.

Quando a risada foi amainando, ele se inclinou para diante, olhando os pés calçados de tênis, e começou a preparar o discurso que devia apresentar à Sra. Ledderbeck quando ela viesse buscá-los às dez horas — supondo que até aquela altura as autoridades do parque não tivessem identificado o corpo e contactado a família. Eram oito horas ainda. “Ele queria brincar de piloto-suicida”, ensaiou ele baixinho, fitando os tênis, “e eu tentei fazer com que desistisse, mas ele não me dava atenção, me chamou de bunda-mole quando eu disse que não iria com ele. Desculpe, Sra. Ledderbeck, Dr. Ledderbeck, mas ele falava assim de vez em quando. Ele achava que falando assim parecia mais adulto.” Até aí estava bom, mas ele ia precisar de um pouco mais de tremor na voz: “Eu não queria fazer o piloto-suicida, de modo que ele foi sozinho na Centopéia. Fiquei esperando na saída, e quando aquelas pessoas vieram correndo, e falando de um garoto todo despedaçado e sangrando, eu achei que tinha de ser ele... e eu... não sei, acho que me deu um branco. Eu não lembro mais nada.”

Os funcionários da plataforma não iriam lembrar se Tod tinha embarcado sozinho ou com outro garoto; eles lidavam com milhares de passageiros por dia, e não iriam recordar quem estava sozinho, e quem estava acompanhado de quem. “Lamento tanto, Sra. Ledderbeck, eu devia ter insistido para que ele não fizesse aquilo... Devia ter ficado ao lado dele e feito alguma coisa para impedi-lo. Eu me sinto tão estúpido, tão... tão incompetente. Como é que pude deixar que Tod fosse sozinho na Centopéia? Que espécie de melhor amigo sou eu?”

Nada mau. Precisava de um pouco mais de ensaio, e precisava ter cuidado para não exagerar na dramatização. Umas lágrimas, uma voz entrecortada. Mas nada de muitos soluços, nada de espernear.

Tinha certeza de que iria se sair bem.

Ele agora era um Mestre do Jogo.

Quando terminou de organizar mentalmente sua versão da história, olhou em redor e percebeu que estava com fome. Estava literalmente faminto, trêmulo. Foi até um quiosque-lanchonete e pegou um enorme hot-dog com tudo a que tinha direito — cebola, molho, chili, mostarda, ketchup — e o devorou, juntamente com um Crush. A fome continuava. Pediu um “sanduíche de sorvete”, onde dois biscoitos de aveia e chocolate serviam como as fatias de pão.

O lado mais visível da fome passou, mas ele ainda se sentia um tanto trêmulo por dentro. Não era medo, Era um tremor delicioso, como aquele que ele experimentava no passado sempre que olhava para uma garota e pensava em estar com ela; mas era algo indescritivelmente melhor do que aquilo. E também parecia um pouco com a sensação que ele experimentava ao longo da espinha quando passava por baixo da grade de proteção e ficava de pé na borda de um penhasco arenoso no parque de Laguna Beach, olhando lá para baixo, onde as ondas se chocavam de encontro aos rochedos, e sentia a terra cedendo devagarinho debaixo dos dedos de seus pés, debaixo do peito do pé, atingindo a metade do pé,,, enquanto ele mantinha-se alie esperava, esperava, imaginando se aquele solo traiçoeiro iria ceder subitamente e precipitá-lo lá embaixo nas rochas, antes que ele tivesse tempo de saltar para trás e agarrar a grade de proteção; mas ele esperava... e esperava...

Mas esta nova sensação era melhor do que estas duas, combinadas. E crescia a cada minuto, em vez de diminuir, uma sensação de calor interno que a morte de Tod, em vez de apaziguar, tinha estimulado.

Aquele desejo obscuro transformou-se numa necessidade imperiosa.

Ele saiu a andar pelo parque, em busca de algo que pudesse satisfazê-lo.

Estava um pouco surpreendido com o fato de o Mundo da Fantasia continuar funcionando normalmente, como se nada tivesse acontecido na Centopéia. Tinha esperado que o parque inteiro cessasse de funcionar, e não apenas um brinquedo. Agora, ele percebia que o dinheiro era mais importante do que as lamentações pela morte de um cliente. E mesmo que as pessoas que tinham visto o corpo de Tod estivessem espalhando a notícia, isso provavelmente seria encarado como apenas mais uma versão da velha lenda. O nível de alacrídade do parque não tinha diminuído nem um pouco.

Por uma vez ele se atreveu a passar nas imediações da Centopéia, embora ficasse a uma certa distância: ele não achava que seria capaz de disfarçar sua euforia pelo que tinha feito, e seu orgulho pelo novo status que tinha adquirido. Mestre do Jogo. Agora havia correntes esticadas em barras de ferro em redor de todo o pavilhão, para impedir a aproximação de quem quer que fosse. Na porta de entrada, havia uma placa anunciando FECHADO PARA CONSERTO. Certamente não estariam tentando consertar o velho Tod. O piloto do espaço estava além do alcance da técnica. Não havia nenhuma ambulância à vista, mas eles deviam pelo menos ter pensado que iriam precisar de uma; também não se via nenhum rabecão ou carros de polícia. Estranho.

Então lembrou-se de uma reportagem de TV que tinha visto certa vez sobre o Mundo da Fantasia: catacumbas intermináveis formadas por túneis de serviço subterrâneos, armazéns, centros de segurança e de operação computadorizada dos brinquedos... tudo como na Disneylândia. Para não chocar os fregueses e evitar a curiosidade da multidão, eles provavelmente estariam agora utilizando os túneis para trazer os policiais e os encarregados de transporte do corpo até o necrotério ou a delegacia.

Aquele tremor dentro de Jeremy tornou-se mais intenso. Aquele desejo. Aquele impulso incontrolável.

Ele era um Mestre do Jogo. Ninguém poderia fazer-lhe mal.

Bem que poderia dar aos policiais e aos papa-defuntos um pouco mais de ocupação, mantê-los em atividade.

Continuou andando, os olhos alerta, em busca de uma oportunidade. Acabou por encontrá-la quando menos esperava, ao entrar no mictório público masculino.

Um homem jovem, cerca de trinta anos, estava parado diante de uma pia, examinando-se no espelho, penteando sua espessa cabeleira loura, que reluzia de brilhantina. Tinha colocado sobre o tampo da pia uma porção de objetos pessoais: carteira, chaves do carro, um pequeno spray de perfumar o hálito, um pacote meio vazio de goma de mascar Dentyne (esse sujeito devia ter uma paranóia de mau hálito) e um isqueiro.

Foi o isqueiro que chamou imediatamente a atenção de Jeremy. Não era um simples isqueiro Bic, de plástico, descartável, e sim um daqueles isqueiros de aço, em forma de uma pequena fatia de pão, com uma parte superior armada sobre dobradiça, que quando puxada para fora revelava uma pedra circular e uma mecha. A luz da lâmpada fluorescente do teto, refletida na superfície cheia de curvas do isqueiro, dava-lhe um ar sobrenatural, possuído por uma radiação estranha, e que atraía o olhar de Jeremy como um farol.

Ele hesitou um momento, depois foi na direção do mictório. Quando terminou e subiu o fecho da calça, o homem louro continuava diante do espelho, dando os últimos retoques.

Jeremy sempre lavava as mãos depois de usar o banheiro, porque isso era o que as pessoas educadas faziam. Esta era uma das regras que os bons jogadores costumavam seguir.

Foi até a pia ao lado daquela onde estava o outro. Enquanto ensaboava devagar as mãos com a espuma do sabonete líquido, não conseguia tirar os olhos do isqueiro a apenas alguns centímetros de distância. Disse a si mesmo que era melhor afastar o olhar dali. O sujeito ia acabar percebendo que ele estava pensando em furtar aquela maldita coisa. Mas aqueles suaves contornos prateados continuavam magnetizando sua atenção. Ainda olhando para ele, enquanto esfregava as mãos na espuma, ele imaginou que quase podia ouvir os estalidos de um fogo devorador.

Recolocando a carteira no bolso de trás, mas deixando os demais objetos em cima da pia, o homem louro deu as costas ao espelho e foi na direção dos mictórios. Quando Jeremy estava a ponto de dar um bote sobre o isqueiro, um homem e seu filho pequeno entraram juntos no banheiro; podiam ter estragado tudo, mas entraram dentro de um dos reservados e fecharam a porta. Jeremy percebeu que aquilo era um sinal. Vá, e faça — dizia aquele sinal. Vamos logo, pegue, faça isso agora, já. Jeremy deu uma rápida olhadela na direção do homem que urinava sem pressa, pegou o isqueiro, girou nos calcanhares e saiu do banheiro, sem enxugar as mãos. Ninguém veio atrás dele.

Segurando o isqueiro com força na mão direita, ele saiu pelo parque, à procura do combustível mais adequado. Aquele desejo dentro dele era agora tão intenso que os tremores se propagavam pelo seu púbis e seu ventre e ao longo da espinha, terminando mais uma vez em suas mãos, e também nas pernas, que de tanta excitação pareciam fraquejar.

Um impulso... incontrolável.

Ao comer o último salgadinho, Vassago enrolou cuidadosamente o saco plástico vazio, formando um tubo muito fino, deu-lhe um nó sobre si mesmo até reduzir seu tamanho o máximo possível e o jogou num saco plástico de lixo que mantinha ao lado do isopor com as bebidas. Limpeza era uma das regras primordiais no mundo dos vivos.

Gostava de mergulhar nas recordações daquela noite especial, oito anos atrás, quando tinha apenas doze e se transformara para sempre; mas agora estava cansado e precisava dormir. Talvez sonhasse com aquela mulher chamada Lindsey. Talvez tivesse alguma outra visão, e essa visão pudesse lhe fornecer uma conexão que o levasse a ela, porque de alguma forma ela parecia fazer parte do seu destino; ele estava sendo arrastado na direção dela por forças que não entendia por completo, mas que respeitava. Na próxima vez não iria cometer o erro que havia cometido com Cooper. Não iria deixar que o impulso o dominasse. Primeiro faria perguntas. Quando tivesse recebido todas as respostas, e só então, faria um belo festival de sangue e mandaria outra alma se juntar às multidões infinitas que já haviam deixado este mundo insuportável.

 

Na terça de manhã, Lindsey ficou em casa para trabalhar um pouco em seu estúdio, enquanto Hatch levava Regina para a escola e dali seguia para um encontro com o encarregado de liquidação de um espólio na parte norte de Tustin, que estava recebendo ofertas para uma coleção de antigos vasos e faianças Wedgwood. Depois, ele teria uma consulta com o Dr. Nyebern para receber o resultado dos exames que tinha feito no sábado anterior. Quando ele pegasse Regina na saída e voltasse para casa, no final da tarde, Lindsey esperava ter concluído a tela em que vinha trabalhando há cerca de um mês. Esse, pelo menos, era o seu plano — mas o destino, alguns gnomos travessos e sua própria mente acabaram conspirando para sabotá-lo. Antes de mais nada, a cafeteira entrou em pane, e Lindsey teve que remexer na máquina durante uma hora até conseguir localizar e resolver o problema. Ela levava jeito para consertar eletrodomésticos, e por sorte não era um defeito demasiado sério. O fato é que Lindsey não conseguia encarar um dia de trabalho sem uma boa dose de cafeína para lhe dar um impulso inicial. Sabia que o café não lhe fazia muito bem à saúde; mas sabia também que cianureto e solução de bateria também não lhe fariam o menor bem... e ela não bebia nenhum dos dois, o que era uma prova de seu autocontrole em termos de hábitos alimentares. Deus do céu — ela era firme como uma rocha!

Quando ela finalmente conseguiu subir para seu estúdio conduzindo uma caneca de louça e uma garrafa térmica cheia, a luz que entrava pelas janelas viradas para o norte era absolutamente ideal para seus planos. Ali, tinha tudo de que precisava: tintas, pincéis, espátulas. Tinha seu armário de utilidades. Tinha seu banco graduável, seu cavalete, seu aparelho de som com pilhas de CDs de Garth Brooks, Glenn Miller e Van Halen — o que de certa forma lhe parecia a música de fundo adequada para uma artista cujo estilo era uma mistura de neoclassicismo e surrealismo. Ela só não tinha duas coisas: interesse pelo trabalho que estava finalizando e capacidade de se concentrar.

Sua atenção foi desviada várias vezes por uma lustrosa aranha negra que explorava o canto superior direito na janela mais próxima. Ela não gostava de aranhas, mas a idéia de matá-las também lhe causava repugnância. Decidiu que a apanharia dentro de um vidro, para soltá-la no jardim depois. A aranha foi subindo de cabeça para baixo ao longo da moldura superior da janela, até atingir o canto superior esquerdo, mas logo perdeu o interesse por aquele território e marchou de volta para o canto direito, onde flexionou e exercitou as longas pernas, parecendo encontrar naquele recanto alguma qualidade agradável que só as aranhas seriam capazes de apreciar devidamente.

Lindsey voltou a atenção para a pintura. Estava quase pronta, e era um dos seus melhores quadros, necessitando apenas de uns poucos retoques.

Mas ela hesitava em abrir tubos de tinta e empunhar o pincel, porque levava suas preocupações tão a sério quanto levava sua arte. Estava preocupada com a saúde de Hatch, é claro — tanto sua saúde física quanto a saúde mental. Estava preocupada, também, com o estranho homem que tinha assassinado aquela loura e sobre a misteriosa conexão que tinha se estabelecido entre esse psicopata assassino e seu marido.

A aranha começou a descer ao longo da janela, até se refugiar no canto direito do peitoril. Depois de examiná-lo, aparentemente, com todo o equipamento sensorial dos aracnídeos, chegou à conclusão, mais uma vez, de que ele também não lhe agradava... e retornou ao ângulo superior direito.

Como tantas outras pessoas, Lindsey achava que poderes paranormais eram um assunto ideal para filmes de terror ou, na vida real, para charlatanismo. No entanto, ela havia de imediato sugerido a clarividência como uma explicação para o que tinha acontecido com Hatch. E batera ainda mais nessa tecla, quando Hatch declarou que não tinha nada de paranormal.

Agora, desviando a atenção da aranha e voltando a fitar seu quadro inacabado, cheia de frustração, ela percebia por que motivo tinha defendido com tanto entusiasmo uma explicação paranormal para aqueles fatos quando, na sexta-feira, ela e Hatch tinham seguido a pista do assassino até a estrada de Laguna Canyon. Se Hatch tivesse se tornado paranormal, cedo ou tarde ele começaria a captar impressões emitidas por todo tipo de pessoas, e portanto o laço que o unia ao assassino não seria o único. Mas se ele não era paranormal, se o laço que o unia àquele monstro era mais profundo e infinitamente mais estranho do que uma mera percepção extra-sensorial, como o próprio Hatch insistia... então os dois estavam enterrados até os joelhos em algo desconhecido. E o desconhecido era algo muito mais aterrorizante do que uma coisa que se podia descrever e definir.

Além disso, se o elo entre eles era mais misterioso e mais íntimo do que a simples captação psíquica, as conseqüências para Hatch poderiam ser psicologicamente catastróficas. Que tipo de trauma mental poderia resultar do fato de se ver, mesmo temporariamente, dentro da mente de um assassino brutal? Será que esse elo entre os dois era alguma forma de contaminação, como seria algum tipo de elo biológico? Se fosse assim, talvez o vírus da loucura pudesse ser transmitido através do éter e infectar Hatch.

Não. Isso era ridículo. Não o seu marido. Ele era um homem confiável, equilibrado, delicado, um ser humano tão sadio quanto qualquer outro que já tivesse caminhado sobre a Terra.

A aranha tinha tomado posse do ângulo superior direito da janela e estava começando a fazer uma teia.

Lindsey lembrou o acesso de raiva de Hatch na noite anterior, quando ele viu a notícia no jornal a respeito de Bill Cooper. As contorções de fúria no seu rosto. O brilho febril dos seus olhos. Ela nunca tinha visto Hatch daquela maneira. O pai dele, sim; mas nunca ele. Embora ela soubesse do temor de Hatch quanto a ter herdado algum dos traços negativos de seu pai, ela nunca tivera nenhuma indicação disso. E talvez não o tivesse visto também na noite anterior; talvez o que presenciara fosse apenas uma parte da brutalidade do próprio assassino, refluindo sobre Hatch através daquele canal que parecia existir entre os dois...

Não. Ela não tinha nada a temer vindo de Hatch. Ele era um homem bom, a melhor pessoa que ela já tinha conhecido. Ele era um poço de bondade, um poço tão cheio que toda a loucura de um assassino como aquele podia ser derramada dentro dele e acabaria se diluindo sem produzir nenhum efeito.

Um fio brilhante e sedoso começou a fluir do abdômen da aranha, enquanto o aracnídeo se atarefava naquele recanto da janela que tinha escolhido para sua toca. Lindsey abriu uma gaveta no seu armário de utilidades e, apanhando uma pequena lente de aumento, começou a observar mais de perto o trabalho da tecedeira. Suas pernas compridas eram cobertas de centenas de pêlos minúsculos que seria impossível enxergar sem a lente. Seus olhos assustadores, multifacetados, pareciam olhar em todas as direções ao mesmo tempo, e sua mandíbula irregular movia-se continuamente, como que saboreando por antecipação a primeira mosca viva a cair na rede que estava armando.

Embora Lindsey reconhecesse que aquela criatura fazia parte da natureza tanto quanto ela, e que nela não havia maldade, ainda assim teve uma reação de repulsa. Aquela era uma parte da natureza para a qual, se dependesse de sua vontade, não queria voltar sua atenção: a parte que envolvia a caça e a morte violenta, com seres que devoravam com avidez outros seres vivos. Lindsey pousou a lente de aumento no peitoril da janela e desceu as escadas em busca de um vidro vazio na despensa. Decidiu capturar logo aaranha e retirá-la do seu estúdio antes que ela se instalasse mais comodamente.

Ao chegar no pé da escada, avistou através da janela o carro do correio e foi apanhar a correspondência na caixa colocada no portão de entrada: algumas contas, a cota mínima diária de duas propagandas por mala direta e o número mais recente de Arts American.

Estava num daqueles momentos em que qualquer coisa é um bom pretexto para não trabalhar, o que nela era pouco comum, uma vez que adorava seu trabalho. Esquecendo que tinha descido as escadas em busca de um vidro para capturar a aranha, ela voltou a subir para o estúdio levando a correspondência consigo e sentou-se numa velha poltrona colocada a um canto, depois de encher uma caneca de café, e abriu o Arts American.

Percebeu o artigo a seu respeito no momento em que seus olhos bateram sobre o sumário da revista. Ficou surpresa. A revista já falara antes sobre seu trabalho, mas ela sempre sabia com antecedência que uma matéria estava prestes a ser publicada. Em geral o redator tinha duas ou três perguntas para lhe fazer, mesmo que não se tratasse de uma entrevista propriamente dita.

Então ela viu quem assinava o artigo e franziu a testa. S. Steven Honell. Percebeu de imediato que ia ser vítima de um esquartejamento público.

Honell era um novelista cuja obra de ficção era bem comentada pela imprensa e que ocasionalmente também escrevia artigos sobre artes plásticas. Era um homem na casa dos sessenta e ainda solteiro. Sendo um indivíduo fleumático, tinha decidido ainda na juventude abrir mão das vantagens de ter uma esposa e uma família, em benefício de seu trabalho literário. Para escrever bem, dizia ele, um homem deve ter a tendência para a solidão, como se dá com os monges. Em isolamento, um homem é forçado a encarar a si mesmo mais direta e mais honestamente do que é possível na balbúrdia de uma vida repleta de outras pessoas, e ao encarar a si mesmo ele pode atingir a essência profunda dos corações de todos os seres humanos. Assim, ele tinha vivido num admirável isolamento, primeiro no norte da Califórnia, depois no Novo México. Em tempos mais recentes, havia se estabelecido na faixa ocidental da parte urbanizada do condado de Orange, no fim do Silverado Canyon, uma região que consistia de uma série de colinas cobertas de mato e ravinas onde se alternavam carvalhos da Califórnia e casas rústicas de madeira.

Em setembro do ano anterior, Lindsey e Hatch tinham ido a um restaurante nessa parte do Silverado Canyon, um local que servia drinques fortes e uma excelente carne. Haviam comido numa das mesas situadas no bar, cujas paredes eram recobertas de tábuas de pinho, com colunas de calcário servindo de apoio ao teto. Um homem de cabelos brancos, parecendo ligeiramente embriagado, estava sentado ao balcão, conversando em voz alta e deitando ralação sobre literatura, arte e política. Tinha opiniões firmes e as expressava numa linguagem extremamente cáustica. Pelo modo tolerante com que o barman e os fregueses o escutavam, Lindsey percebeu que se tratava de um freqüentador habitual da casa e uma espécie de figura folclórica do local, um desses indivíduos que contam muitas histórias e sobre o qual se contam mais ainda.

Então Lindsey o reconheceu: era S. Steven Honell. Ela lera alguns dos seus escritos e havia gostado. Admirava seu desprendimento e a devoção com que se entregava a sua arte, porque ela teria sido incapaz de abrir mão do amor, do casamento e dos filhos para se dedicar à pintura, mesmo considerando que o desenvolvimento de seu talento criador era tão importante quanto o alimento que comia ou a água que bebia. Ouvindo Honell falar, ela desejou ter escolhido outro lugar para jantar com Hatch naquele dia, porque nunca mais seria capaz de ler alguma coisa escrita por aquele homem sem lembrar algumas das suas declarações maldosas sobre o trabalho ou a personalidade de seus contemporâneos no mundo das letras. A cada drinque que bebia ele se tornava mais amargo, mais sarcástico, mais entregue a seus próprios impulsos negativos; e muito mais loquaz. A bebida revelava que por trás da imagem lendária de homem taciturno o que havia era um indivíduo vulgar e tagarela; uma pessoa que quisesse fazê-lo calar a boca iria precisar de uma seringa de veterinário cheia de Demerol ou então de uma Magnum 357. Lindsey passou a comer mais depressa, decidida a dispensar a sobremesa e afastar-se da proximidade de Honell o mais depressa possível.

Então, ele a reconheceu. Por diversas vezes a fitou por sobre o ombro, piscando os olhos úmidos, e finalmente ergueu-se e aproximou-se da mesa deles, com passos vacilantes.

—      Desculpe, mas... você não é Lindsey Sparling, a pintora?

Ela sabia que Honell escrevia de vez em quando sobre artes plásticas, mas não imaginara que ele fosse capaz de reconhecê-la.

—      Sim, sou eu mesma — respondeu, esperando que ele não começasse a dizer que gostava de seus quadros e esperando também que ele não se apresentasse.

—      Gosto muito dos seus quadros — disse ele. — Não vou aborrecê-la dizendo mais do que isto.

Mas no momento em que ela se descontraiu e agradeceu, ele se apresentou; e ela teve que dizer que ela também admirava o trabalho dele, o que era verdade, embora a partir daquele dia passasse a enxergá-lo por um ângulo totalmente diferente do anterior. Ele não lhe parecia mais um homem que tinha sacrificado a possibilidade de ter uma família em troca da possibilidade de se dedicar à sua arte: parecia apenas um homem incapaz de dar amor. No seu isolamento, ele devia ter encontrado maior inspiração para criar, mas ao mesmo tempo tivera mais tempo para admirar a si mesmo e se satisfazer na contemplação de sua superioridade sobre os seus semelhantes. Ela tentou fazer com que sua antipatia não se tornasse evidente demais: elogiou com vivacidade os seus romances, mas ele pareceu sentir sua rejeição, pois logo em seguida encerrou a conversa e retornou ao seu lugar no balcão.

Durante o resto da noite, ele não voltou a olhar na sua direção. E parou de discursar para as outras pessoas em redor: dali em diante, sua atenção se concentrou prioritariamente no conteúdo de seu copo.

Agora, sentada na poltrona em seu estúdio, segurando o Arts American e fitando o nome de Honell no cabeçalho do artigo, ela sentiu o seu estômago se contrair. Ela tinha vislumbrado aquele homem num momento de embriaguez, um momento em que ele desnudara sua verdadeira personalidade muito mais do que lhe convinha. Pior ainda: ela era uma pessoa de certo renome, uma pessoa que convivia num círculo social dentro do qual cedo ou tarde entraria em contato com pessoas que também conheciam Honell. Para ele, ela representava agora uma ameaça. E uma maneira de neutralizá-la seria publicar um artigo bem escrito, mas injusto, criticando seu trabalho: assim, qualquer coisa que ela pudesse dizer contra ele depois seria atribuída ao ressentimento e não seria levada a sério. Ela sabia o que esperar daquele artigo no Arts American; e Honell não a surpreendeu. Ela nunca tinha lido antes um artigo tão mal-intencionado e ao mesmo tempo tão hábil, colocado de forma a afastar qualquer sombra de suspeita sobre animosidade pessoal por parte do crítico.

Quando terminou, ela fechou a revista e a colocou suavemente sobre a mesinha ao lado da poltrona. Não a atirou de encontro à parede oposta porque sabia que esse tipo de reação teria alegrado Honell, se ele pudesse observá-la.

Então ela disse:

— Ora, que vá para o inferno.

Apanhou a revista e atirou-a na parede, com toda força de que foi capaz. Ela bateu na parede com ruído e caiu ao chão.

A pintura era algo importante para ela. Era algo que envolvia seu intelecto, sua emoção, seu talento e sua habilidade técnica, e mesmo naquelas ocasiões em que um quadro não ficava tão bom quanto ela havia esperado, essa criação não se dava sem esforço. Havia sempre uma dose de tensão misturada em cada uma delas. E havia um componente de auto-revelação que muitas vezes ultrapassava os limites da prudência. Euforia e angústia em doses equivalentes. Um crítico tinha todo o direito de não gostar da obra de um artista, desde que seu julgamento se baseasse numa análise cuidadosa e na compreensão do que o artista estava tentando alcançar. Mas aquilo não era uma crítica legítima. Era um ataque doentio. Sua pintura era algo importante, e Honell havia espalhado sujeira sobre ela

Cheia de energia fornecida pela irritação, Lindsey ficou de pé e começou a andar de um lado para o outro. Sabia que ficar enraivecida era dar a vitória a Honell; essa era justamente a reação que ele pretendia extrair dela, com aquelas críticas impiedosas. Mas ela não conseguia evitar.

Desejou que Hatch estivesse ali, para poder dividir com ele aquela irritação: Hatch tinha sobre ela um efeito calmante superior ao de uma dose de uísque.

Sua caminhada inquieta acabou por conduzi-la à janela, onde a gorda aranha negra tinha acabado de construir uma elaboradíssima teia no ângulo superior direito. Lembrando sua intenção anterior de apanhar um vidro vazio na despensa, Lindsey tomou da lente de aumento e examinou de perto a filigrana sedosa tecida pela criatura de oito pernas, e que parecia uma minúscula rede de pescador, cintilando com uma iridescência de madrepérola. Era uma armadilha tão delicada, tão atraente. Mas aquele tear vivo que a tecera era o mais típico dos predadores: com uma força desproporcional para seu tamanho, suave, e veloz. Seu corpo bulboso brilhava como uma gota de um sangue negro e espesso, e suas mandíbulas incansáveis mastigavam o ar, como que saboreando por antecipação uma presa que ainda não aparecera. A aranha e Steven Honell eram seres da mesma espécie: uma espécie totalmente estranha para ela e que permaneceria sempre além do seu entendimento, por mais que a observasse. Ambos teciam suas teias no silêncio e na solidão. Ambos tinham invadido aquela casa à sua revelia, trazendo sua carga maligna — um através das palavras de uma revista, o outro passando por uma rachadura numa janela ou na fresta sob a porta. Ambos eram venenosos, repugnantes.

Ela pousou a lente de aumento. Não podia fazer nada contra Honell, mas pelo menos podia dar um jeito naquela aranha. Apanhou dois lenços de papel numa caixinha no armário, e com um rápido movimento colheu e esmagou a aranha e a teia ao mesmo tempo.

Amarrotou aquela pequena bola e a atirou na lata de lixo. Embora ela sempre procurasse capturar as aranhas e livrar-se delas fora de casa, desta vez não lamentou o que fizera. Na verdade, se Honell estivesse presente naquele instante, quando aquela agressão mal-intencionada ainda estava tão vivida na memória de Lindsey, ela teria a tentação de dispensar-lhe um tratamento tão rápido e violento quanto o que dedicara ao animal.

Retornou ao seu banquinho, olhou mais uma vez a pintura inacabada, e de repente teve certeza de quais os melhoramentos que ela precisava. Abriu alguns tubos de tinta e espalhou ordenadamente seus pincéis. Aquela não era a primeira vez que ela conseguia extrair motivação de um golpe injusto ou de uma mágoa pueril, e ela imaginava quantos artistas de todos os tipos também não teriam produzido suas obras pela mera determinação de esfregar o resultado na cara de detratores que tinham tentado prejudicá-los ou menosprezar seu talento.

Quando já fazia uns dez ou quinze minutos que estava trabalhando no quadro, Lindsey foi acometida por um pensamento inquietante, que trouxe de volta à sua mente as preocupações em que se debatia antes de ser distraída pelo artigo da Arts American, Honell e a aranha não eram as únicas criaturas que tinham invadido sua casa sem ser convidadas. O desconhecido assassino de óculos escuros também a invadira, de certa forma, através do misterioso contato que mantinha com Hatch. E se ele tivesse consciência da presença de Hatch, assim como Hatch tinha da presença dele? Ele poderia descobrir alguma maneira de localizar Hatch e invadir de verdade a casa deles, com a intenção de fazer-lhes um mal muito maior do que poderiam temer da parte de Honell ou daquela aranha.

 

Até então, Hatch tinha visitado Jonas Nyebern em seu consultório no Hospital Geral do condado de Orange, mas naquela terça-feira sua consulta estava marcada para o centro médico de Jamboree Road, onde o médico mantinha seu consultório particular.

A sala de espera chamava a atenção, não pelo espesso carpete cinza ou pela mobília, que era em estilo padrão, mas pelas obras de arte nas paredes.

Hatch ficou admirado e surpreendido ao se deparar com uma coleção de excelentes quadros a óleo, todos bastante antigos, reproduzindo cenas religiosas ligadas à fé católica: a paixão de São Judas, a Crucificação, a Virgem Maria, a Anunciação, a Ressurreição, e várias outras.

O mais interessante de tudo não era o fato de que aquela coleção devia valer uma fortuna. Afinal, Nyebern era um cirurgião cardiovascular extremamente bem-sucedido e vinha de uma família de recursos financeiros bem acima da média. Mas era curioso que um membro da classe médica, uma classe que vinha tomando posições públicas francamente agnósticas nas últimas décadas, escolhesse algum tipo de arte religiosa para decorar suas paredes, ainda por cima obras tão especificamente ligadas a uma fé, e que poderiam desagradar a não-católicos ou não-crentes em geral.

Quando a enfermeira pediu a Hatch que a acompanhasse na direção da sala do médico, ele descobriu que a coleção de arte se prolongava pelo corredor que servia a todo o consultório. Ele se divertiu ao ver uma bela pintura a óleo da agonia de Cristo no Getsêmani colocada ao lado de uma balança laqueada de branco e de uma tabela que relacionava o peso ideal das pessoas em relação a altura, idade e sexo.

Depois de se pesar e de ter seu pulso e sua pressão sangüínea tirados pela enfermeira, Hatch esperou por Nyebern numa pequena sala, sentado na ponta de uma mesa de exame coberta por uma longa e larga faixa de papel higiênico especial. Numa das paredes estavam pendurados um mapa anatômico do olho humano e um quadro representando a Ascensão de Cristo, onde a habilidade do artista era enorme em conferir às imagens um aspecto tridimensional, fazendo com que as figuras parecessem vivas.

Nyebern o deixou à espera durante apenas um ou dois minutos, e entrou na sala com um largo sorriso. Enquanto apertavam as mãos, o médico declarou:

—      Não vou fazer suspense, Hatch. Os exames deram todos negativos. Posso lhe passar um atestado de saúde perfeita.

Aquelas palavras não foram tão bem recebidas quanto seriam em outras circunstâncias. Hatch tinha esperado por alguma indicação que pudesse fornecer uma pista sobre seus pesadelos e sobre aquela conexão misteriosa entre ele e o homem que tinha assassinado apunk loura. Mas o resultado não chegou a surpreendê-lo. Ele já vinha pensando que as respostas que procurava não seriam muito fáceis de encontrar.

—      Seus pesadelos — prosseguiu Nyebern — são apenas isto: pesadelos. Nada mais.

Hatch não tinha falado nada a respeito da sua visão do assassinato da mulher que tinha sido depois descoberta, em carne e osso, junto a uma rodovia. Como tinha deixado claro a Lindsey, não estava nem um pouco disposto a aparecer novamente nas manchetes dos jornais, pelo menos não enquanto não tivesse visto do assassino o bastante para indicá-lo à polícia, o que era bem mais do que o breve vislumbre que ele tivera no espelho, na noite anterior; somente nesse caso ele não teria outra escolha a não ser enfrentar mais uma vez as luzes da mídia.

— Nenhuma pressão craniana — disse Nyebern. — Nenhum desequilíbrio eletroquímico. Nenhum sinal de deslocamento da glândula pineal... o que às vezes pode provocar pesadelos sérios e até mesmo alucinações durante a vigília.

E ele prosseguiu, indicando os exames um por um, metódico como sempre.

Enquanto escutava, Hatch percebeu que sempre via o médico como alguém mais velho do que ele era na realidade. Jonas Nyebern tinha algo envelhecido e um ar de gravidade que o fazia parecer muito mais idoso. Alto e esguio, ele mantinha os ombros encurvados e parecia inclinar-se um tanto como que para esconder a própria altura, o que lhe dava uma postura mais apropriada a um velho do que a um homem de sua idade, que era cinqüenta anos. De vez em quando, pairava sobre ele um ar de tristeza, como se fosse um homem que tivesse experimentado alguma grande tragédia.

Quando acabou de repassar os exames, Nyebern ergueu os olhos e sorriu novamente. Era um sorriso cálido, mas que não bastava para dissipar seu ar de tristeza.

—      Seu problema não é físico, Hatch.

—      É possível que algum detalhe tenha escapado?

—      Possível é, mas acho muito pouco provável. Nós...

—      Digamos uma lesão cerebral extremamente minúscula, algumas centenas de células, alguma coisa que não apareça nos exames mas que pode ter um efeito grave.

—      Como eu disse, muito improvável. Acho que podemos assumir, com segurança, que se trata de um problema emocional, uma conseqüência perfeitamente explicável de todo o processo traumático por que você passou. Vamos tentar um pouco de terapia convencional.

—      Psicoterapia?

—      Tem alguma objeção?

—      Não.

Exceto, pensou Hatch, o fato de que não vai funcionar. Não é um problema emocional. É uma coisa concreta.

—      Conheço um sujeito excelente, de primeira linha; você vai gostar dele — disse Nyebern, retirando uma caneta do bolso de sua bata branca e escrevendo o nome do psicoterapeuta numa folha de seu bloco de receitas.

— Vou discutir seu caso com ele e dizer a ele que você vai ligar em seguida. Está bom assim?

—      Claro. Está ótimo.

Gostaria de poder contar a história toda a Nyebern. Mas se o fizesse apenas o deixaria ainda mais convicto de que ele estava precisando de psicoterapia. Relutante, ele admitiu o fato de que nem um médico nem um psicanalista poderiam ajudá-lo. Seu problema era estranho demais para merecer tratamento convencional, fosse de que tipo fosse. Talvez o que ele precisava fosse um xamã. Ou um exorcista. Ele quase sentia que aquele assassino de óculos escuros era uma espécie de demônio que estava testando suas defesas para decidir se valia ou não a pena tentar possuí-lo de verdade.

Conversaram durante mais alguns minutos sobre assuntos leves.

Quando Hatch estava se preparando para deixar o consultório, apontou para o quadro da Ascensão de Cristo.

—      Um belo quadro.

—      Obrigado. É uma obra excepcional, não é mesmo?

—      Creio que é italiano.

—      Acertou.

—      Começo do século XVIII?

—      Acertou de novo — disse Nyebern. — Conhece bem arte sacra?

—      Não tanto. Mas tive a noção de que toda esta sua coleção era italiana e pertence toda ao mesmo período.

—      Está certo. Mais um ou dois quadros, e posso considerá-la completa.

—      É engraçado ver esses quadros aqui — disse Hatch, ficando de pé e parando diante do quadro ao lado do mapa do olho humano.

—      Sei o que quer dizer — disse Nyebern —, mas é que em casa já não disponho de espaço suficiente. Lá estou guardando a minha coleção de arte sacra moderna.

—      Há muita arte assim?

—      Não tanta. Os grande artistas de hoje em dia não se inclinam muito para a temática religiosa. A maior parte dessa arte é feita por artistas menores. Mas aqui e acolá aparece um artista que está procurando alcançar sua iluminação pessoal através desse caminho e começa a pintar esses temas antigos dando-lhes uma visão contemporânea. Vou trazer essa coleção moderna aqui para o consultório, assim que terminar esta aqui e me desfizer dela.

Hatch virou-se na direção do médico, fitando-o com interesse profissional.

—      Está pensando em vendê-la?

—      Oh, não — disse Nyebern, voltando a guardar a caneta no bolso superior da bata. Sua mão, de dedos longos como convinha a um cirurgião, ficou pousada sobre o bolso, do lado esquerdo, como se reafirmando a verdade do que ele dizia. — Pretendo doá-la. Esta será a sexta coleção de arte religiosa que eu reúno nos últimos anos e faço doação.

Hatch tinha condições de fazer uma avaliação aproximada das obras de arte que tinha visto nas paredes do consultório e ficou assombrado pelo grau de filantropia que a afirmação singela de Nyebern implicava.

—      Quem vai ser o felizardo? — perguntou.

—      Bem, geralmente é alguma universidade católica, mas em duas ocasiões foi algum outro tipo de instituição ligada à Igreja.

O cirurgião estava parado diante do quadro da Ascensão, com uma expressão vaga nos olhos, como se estivesse fitando algo para além daquela pintura, para além da parede onde ela estava pendurada, para além do mais remoto horizonte. Sua mão continuava pousada sobre o bolso onde guardara a caneta.

—      É muito generoso de sua parte — disse Hatch.

—      Não é um ato de generosidade — disse Nyebern, com uma voz distante que correspondia à expressão de seu olhar. — É um ato de expiação.

Uma afirmativa como aquela parecia convidar uma pergunta, embora Hatch temesse que isso pudesse significar uma intromissão na vida privada do médico.

—      Expiação por que motivo?

Ainda fitando a pintura, Nyebern respondeu:

—      Nunca falo sobre esse assunto.

—      Oh, não quis ser indiscreto. Pensei apenas que...

—      Talvez me fizesse algum bem falar um pouco. O que acha?

Hatch não respondeu — em parte porque percebeu que o médico mal estava escutando suas palavras.

—      Expiação — prosseguiu Nyebern. — Primeiro... por ser filho de meu pai. E depois... por ser pai do meu filho.

Hatch não conseguia imaginar como qualquer das duas coisas podia ser vista como um pecado, mas esperou, certo de que o médico iria explicar-se. Estava começando a se sentir como o personagem do antigo poema de Coleridge, que a caminho de uma festa é abordado pelo Velho Marinheiro, o qual começa a contar-lhe uma história aterrorizante da qual precisa se libertar a fim de não perder a razão.

Com os olhos sempre fitos na pintura, Nyebern continuou:

—      Quando eu tinha apenas sete anos, meu pai sofreu um surto psicótico. Ele matou a tiros minha mãe e meu irmão. Depois de ferir a mim e a minha irmã e pensar que também estávamos mortos, ele se matou.

—      Deus do céu, lamento muito — disse Hatch, e pensou no seu próprio pai e seus inesgotáveis mananciais de ódio. — Realmente sinto muito, doutor. — Mas ainda não entendia qual seria o pecado ou a culpa que Nyebern precisava expiar.

—      Certas psicoses — prosseguiu o médico — têm às vezes uma origem genética. Quando percebi sinais de comportamento sociopata em meu próprio filho, ainda muito criança, eu devia ter previsto o que estava para acontecer, devia ter tomado alguma precaução. Mas não conseguia enfrentar a realidade. Era dolorosa demais. Então, dois anos atrás, quando ele tinha dezoito anos, ele matou a irmã a facadas...

Hatch estremeceu.

— ...e depois minha esposa — concluiu Nyebern. Hatch teve o impulso de pousar a mão sobre o ombro do médico, mas conteve-se, quando percebeu que a dor de Nyebern nunca poderia ser mitigada e que estava além da capacidade de cura de um simples consolo. Embora estivesse contando uma tragédia intensamente pessoal, o médico, visivelmente, não estava buscando compaixão, nem um contato mais pessoal da parte de Hatch. De repente ele parecia fechado em si mesmo de um modo quase amedrontador. Falava sobre sua tragédia porque tinha chegado o momento de trazê-la para fora de suas trevas íntimas e examiná-la à luz mais uma vez; e ele teria falado a respeito dela com qualquer outra pessoa que estivesse ali em vez de Hatch, ou quem sabe até falaria sozinho se não houvesse mais ninguém presente.

— Quando estavam mortos — continuou Nyebern —, Jeremy pegou a mesma faca, uma faca de açougueiro, e foi até a garagem da nossa casa. Prendeu-a com a lâmina para cima, no torno da minha mesa de carpintaria; depois, ficou de pé num banco e deixou-se cair sobre a lâmina. Sangrou até morrer.

A mão direita do médico continuava pousada sobre o bolso esquerdo, mas ele não tinha mais a aparência de alguém que jurava dizer a verdade. Em vez disso, lembrava a Hatch uma pintura de Cristo com o Sagrado Coração à mostra, com sua mão delicada apontando para aquele símbolo de sacrifício e promessa de vida eterna.

Por fim, Nyebern afastou seus olhos do quadro e encarou Hatch.

—      Há quem diga que o mal é apenas uma conseqüência das nossas ações, um simples resultado de nossa própria vontade. Mas acredito que o mal é isso, e muito mais. Acredito que o mal é uma força real, uma energia de essência diferente da nossa, uma presença estranha neste mundo. Acredita nisso, Hatch?

—      Sim — disse Hatch imediatamente, para sua própria surpresa.

Nyebem baixou os olhos para o bloco de receitas que continuava segurando na mão esquerda. Baixando por fim a outra mão, arrancou a folha de cima e a entregou a Hatch.

—      O nome dele é Foster. Dr. Gabriel Foster. Tenho certeza de que ele vai poder ajudá-lo.

—      Obrigado — disse Hatch, com a voz sumida.

Nyebern abriu a porta da saleta e com um gesto cortês pediu a Hatch que fosse na frente.

Quando iam pelo corredor, ele disse:

—      Hatch?...

Hatch parou e o encarou de frente.

—      Desculpe — disse o médico.

—      Porquê?

—      Por ter explicado meu motivo para doar as pinturas.

Hatch fez um gesto com a cabeça:

—- Bem... fui eu que perguntei, não é mesmo?

—      Mas eu poderia ter sido mais breve.

—      É mesmo?

—      Eu poderia ter dito apenas: talvez eu pense que minha única maneira de entrar no céu é comprando ingresso.

Do lado de fora do edifício, no pátio de estacionamento banhado pela luz brilhante do sol, Hatch ficou sentado por um longo tempo ao volante, observando uma vespa que sobrevoava em círculos o capo vermelho do carro, certamente imaginando tratar-se de uma flor gigantesca.

Aquele diálogo no consultório de Nyebem parecia ter sido apenas um sonho estranho, e Hatch sentiu como se estivesse emergindo de um sono profundo. Teve a sensação de que a vida trágica de Jonas Nyebern tinha uma relação direta com seus próprios problemas, mas embora fizesse o possível para descobrir uma conexão foi incapaz de encontrar qualquer resposta.

A vespa esvoaçou para a esquerda, depois para a direita, mas sempre de frente para o pára-brisa, como se pudesse avistar Hatch através do vidro e estivesse sendo misteriosamente atraída por ele. Uma vez, e outra, e outra, ela voou de encontro ao vidro, foi repelida, e tentou novamente. Um vôo, e tap. Mais um vôo, e tap. Outro vôo, tap, tap. Era uma vespa incrivelmente obstinada. Hatch imaginou se ela pertenceria a uma daquelas espécies que possuem apenas um ferrão, que se quebra no instante da ferroada, causando a morte da própria vespa. Tap, mais um vôo, tap, mais outro, tap, tap, tap. Se era uma dessas vespas, será que ela percebia qual seria o resultado de tamanha persistência? Tap, um vôo, tap, tap, tap.

 

Depois de atender o derradeiro paciente do dia, uma visita de rotina de uma bela paciente de trinta anos em quem ele tinha praticado um enxerto de aorta em março, Jonas Nyebern foi para sua sala privada nos fundos do consultório e fechou a porta. Sentou-se à escrivaninha, puxou um pedaço de papel da carteira e verificou um número de telefone que preferira não incluir em sua agenda eletrônica. Puxou o aparelho mais para perto e pressionou os botões sete vezes.

Depois do terceiro toque, uma secretária eletrônica atendeu, do mesmo modo como tinha atendido suas chamadas anteriores, na véspera e na manhã daquele dia:

—      Aqui é Morton Redlow. Não estou no escritório agora. Depois do bip, por favor, deixe seu recado e seu número de telefone, e ligarei de volta o mais cedo possível.

Jonas esperou o bip e depois falou devagar:

—      Sr. Redlow, aqui é o Dr. Nyebern. Já deixei outros recados, mas creio que combinamos que eu receberia um relatório seu na sexta-feira passada ou durante o fim de semana, ao mais tardar. Por favor, ligue para mim assim que puder. Obrigado.

Pousou o fone.

Imaginou se haveria mesmo razão para estar tão preocupado.

Imaginou se teria alguma razão para não se preocupar.

 

Regina estava sentada em sua carteira durante a aula de francês da irmã Mary Margaret, cansada do cheiro deixado no ar pelo pó de giz, cansada do incômodo assento de plástico rígido onde estava acomodada, e tentando aprender a dizer: Olá, eu sou americana. Pode me dizer onde fica a igreja mais próxima onde eu possa assistir à missa de domingo? Era tudo trê cansativo.

Era ainda uma estudante da quinta série na Escola Elementar do São Tomás, porque continuar estudando ali era uma condição obrigatória em sua adoção. (Adoção experimental. Nada de definitivo ainda. Podia muito bem não dar certo. Os Harrisons podiam decidir que era melhor criar periquitos do que crianças, mandá-la de volta e comprar um passarinho. Por favor, Deus, faça com que eles percebam que o Senhor, na sua infinita sabedoria, programou as aves de tal modo que elas fazem muito cocô. Faça com que eles percebam que manter a gaiola limpa vai dar um trabalhão.) Quando concluísse o primeiro grau, ela iria para a Escola de segundo grau do São Tomás, porque o São Tomás estendia seus tentáculos em todas as direções. Além dos dois orfanatos e das duas escolas, a organização possuía ainda uma creche e um bazar de objetos usados. A paróquia funcionava como um conglomerado capitalista, e o padre Jiminez era um alto executivo, uma espécie de Donald Trump, com a diferença de que o padre Jiminez não andava acompanhado de modelos nem administrava cassinos, exceto os bingos das quermesses. (Meu Deus, aquela coisa a respeito das aves fazerem cocô — isso não teve intenção de crítica. Estou certa de que o Senhor teve razões para fazer as aves assim, espalhando cocô por toda parte, e é como o mistério da Santíssima Trindade, é uma dessas coisas que os pobres seres humanos não vão entender jamais. Não quis ofender, juro.) De qualquer modo, ela não se importava de freqüentar a escola do São Tomás, porque tanto as freiras quanto os professores leigos eram exigentes, e no final das contas aprendia-se uma porção de coisas, e ela adorava aprender.

Mas por volta da última aula daquela tarde de terça-feira, no entanto, ela estava de saco cheio de aprender, e se a irmã Mary Margaret lhe pedisse para dizer qualquer coisa em francês ela iria acabar confundindo a palavra que queria dizer “igreja” com a palavra que significava “esgoto”, o que já lhe acontecera antes, para gargalhada geral das outras crianças e enorme mortificação dela própria. (Querido Deus, lembre-se por favor que obriguei a mim mesma a rezar um rosário de penitência por essa bobagem, só para mostrar que não foi de propósito, foi engano mesmo.) Quando a campainha finalmente soou, ela foi a primeira a saltar do seu lugar e disparar porta afora, embora a maioria das crianças que estudavam na escola do São Tomás não pertencessem ao orfanato e não fossem deficientes em nenhum aspecto.

No trajeto até o armário onde guardava suas coisas, e dali para a porta de saída, ela ficou imaginando o tempo inteiro se o Sr. Harrison estaria à sua espera, como havia prometido. Ela se imaginou parada na calçada com uma multidão de outras crianças fervilhando ao seu redor, enquanto ficava olhando, olhando, incapaz de avistar o carro, e a multidão diminuía aos poucos; ela por fim ficava ali sozinha, e nem sinal do carro, e aí vinha o pôr-do-sol e logo depois anoitecia; a lua se erguia no céu e o seu relógio de pulso tiquetaqueava implacável rumo à meia-noite, e na manhã seguinte, quando as crianças estivessem de volta para mais um dia de aula, ela simplesmente voltaria a entrar com elas, sem dizer a ninguém que os Harrisons haviam desistido dela.

Ele estava lá. No carro vermelho. Na fila dos carros dos outros pais. Ele inclinou-se para abrir a porta por dentro quando a viu aproximar-se.

Quando ela acomodou-se com sua bolsa de livros e fechou a porta, ele perguntou:

—      Teve um dia duro?

—      Sim — disse ela. Sentia-se tímida, e timidez nunca tinha sido um dos seus problemas! Não era fácil essa história de fazer parte de uma família. Vai ver que nunca iria pegar o jeito.

—      As freiras, não é? — disse ele.

—      Sim — concordou ela.

—      Elas são fogo.

—      São mesmo.

—      São um prego no sapato, as tais freiras.

—      Exatamente — disse ela, balançando a cabeça em aprovação, imaginando se algum dia seria capaz de voltar a proferir frases inteiras.

Enquanto guiava para fora da escola, ele disse:

—      Aposto que se a gente colocasse qualquer uma dessas freiras num ringue, para enfrentar um campeão dos pesos-pesados... poderia ser qualquer um, até mesmo Muhammad Ali... ela o derrubaria no primeiro assalto.

Ela não pôde deixar de sorrir a essa idéia.

—      Claro! — continuou ele. — Só o Super-Homem poderia resistir a um combate com uma freira dessas. Batman? Coitado. Uma freira tamanho médio poderia limpar o chão com ele, como se fosse um pano. E poderia pegar as Tartarugas Ninjas e fazer uma sopa com elas.

—      Elas são boazinhas — disse Regina; bom, eram três palavras, o que já era alguma coisa, mas mesmo assim aquilo soou de um modo totalmente pateta. Talvez fosse melhor não dizer nada; ela não tinha muita prática desses diálogos pai-e-filha.

—      As freiras? — retrucou ele. — Oh, claro que são boazinhas. Se não fossem boazinhas, não seriam freiras. Seriam seguranças de chefões da Máfia, ou terroristas internacionais, ou membros do Congresso americano.

Ele não disparou na direção de casa, como um homem de negócios super atarefado; ao contrário, guiava devagar, como quem tivesse saído a passeio. Ela ainda não tinha andado de carro com ele o bastante para saber se era assim que ele guiava sempre, mas suspeitou que ele estava indo mais devagar do que o habitual, para que os dois pudessem passar um pouco mais de tempo juntos. Que bonito. Aquilo deixou sua garganta apertada, e os olhos um pouco úmidos. Que coisa incrível. Uma tulha de bosta de vaca seria capaz de manter um diálogo mais produtivo do que o que ela vinha mantendo até então, mas o pior é que agora ela ia desatar em prantos, o que seria um belo reforço para aquela relação. Claro que todo pretendente a pai adotivo espera fervorosamente receber uma garota muda, emocionalmente desequilibrada e portadora de deficiência — certo? Era a última moda em matéria de adoção. Bem, se ela começasse a chorar, sua sinusite iria retornar com força total, e daí a pouco seu nariz estaria gotejando como uma torneira mal fechada, o que sem dúvida iria torná-la mais simpática ainda. O Sr. Harrison ia deixar de lado sua intenção de ficar passeando e rumaria para casa a tal velocidade que teria que começar a pisar no freio um quilômetro antes, para não arrombar a garagem com o carro e sair através da porta traseira. (Por favor, Deus, me ajude. O Senhor deve ter notado que eu usei “bosta de vaca”, e não “merda de vaca”, portanto mereço um pouco de piedade.)

Ficaram conversando sobre isto ou aquilo. Na verdade, durante algum tempo, o Sr. Harrison conversou sozinho e ela limitou-se a emitir alguns grunhidos inarticulados, como se fosse uma criatura sub-humana levada a passear por um funcionário do Zoológico. Mas daí a algum tempo ela percebeu, para sua própria surpresa, que estava falando frases inteiras, vinha fazendo isso já há alguns quilômetros e estava se sentindo à vontade ao lado dele.

O Sr. Harrison perguntou o que ela pensava em ser quando crescesse, e “ela alugou o ouvido dele por um longo tempo, explicando-lhe que algumas pessoas chegavam a ganhar a vida escrevendo o tipo de livros que ela gostava de ler, e que ela vinha criando umas histórias por conta própria há um ou dois anos. Claro que era tudo ainda uma coisa boba, mas ela esperava ir melhorando com o tempo. Ela era inteligente para uma criança de dez anos e parecia mais velha do que era de fato, mas não podia esperar ter uma carreira como escritora profissional antes dos dezoito anos; dos dezesseis, com um pouco de sorte. Quando é que Christopher Pike tinha começado a publicar? Aos dezessete? Aos dezoito? Talvez já tivesse mesmo vinte, mas certamente não teria sido mais do que isso — de modo que esse era o limite que ela estabelecera para si mesma: tornar-se Christopher Pike II quando atingisse os vinte anos. Tinha um caderno cheio de idéias para histórias. Algumas dessas idéias eram bastante boas, mesmo descontando aquelas outras tremendamente infantis, como a tal sobre um porco inteligente vindo do espaço, uma história que achara fantástica na época, mas que agora lhe parecia irremediavelmente idiota. Ela ainda estava falando sobre as histórias que pretendia escrever quando entraram na estrada que levava à casa de Laguna Niguel; e o Sr. Harrison parecia mesmo interessado.

Talvez ainda não fosse tarde demais para entrar no ritmo de vida-em-família.

 

Vassago sonhava com fogo. O estalido da tampa metálica do isqueiro sendo erguida na escuridão. O ruído seco do acendedor raspando de encontro à pederneira. Uma fagulha. O vestido branco de verão de uma garota sendo envolvido pelas chamas. A Casa Assombrada ardendo como uma fornalha. Gritos enquanto aquela escuridão cuidadosamente planejada se dissolvia diante das línguas brilhantes de luz avermelhada. Tod Ledderbeck estava morto na caverna da Centopéia, e agora aquela casa de esqueletos de plástico e fantasmas de borracha enchia-se de terror verdadeiro e de morte dolorosa. Ele voltara a sonhar com aquele incêndio muitas vezes, vezes sem conta desde a noite do 12º. aniversário de Tod. Esse sonho produzia as mais belas visões e os mais belos fantasmas que passavam diante dos seus olhos durante o sono.

Mas desta vez rostos estranhos e imagens diferentes apareciam por entre as chamas. O carro vermelho, novamente. Uma garota de cabelos ruivos e com uma beleza grave, e grandes olhos cinzentos que pareciam adultos demais para sua idade. Uma pequena mão, dolorosamente retorcida, e com dois dedos faltando. Um nome, um nome que já viera antes à sua mente, um nome ecoando por entre as chamas que se retorciam, e as sombras dissolvidas pelo fogo no interior da Casa Assombrada: Regina... Regina... Regina...

 

A visita ao consultório do Dr. Nyebern tinha deixado Hatch um tanto deprimido. Primeiro porque os exames não haviam revelado nada que pudesse lançar alguma luz sobre suas estranhas experiências nos últimos tempos; e depois por causa do vislumbre que tivera sobre a torturada vida pessoal do cirurgião. Mas Regina era um remédio para a melancolia, se é que existia algum. Tinha todo o entusiasmo de uma criança da sua idade; a vida não conseguira abatê-la nem um pouco.

No trajeto do carro até a porta da casa, ela se moveu com mais facilidade e rapidez do que quando entrou no escritório de Salvatore Gujilio, mas o aparelho ortopédico, ainda assim, tornava seu caminhar mais ereto e um tanto solene. Uma borboleta com asas amarelo e azul a acompanhou durante o caminho, esvoaçando a poucos centímetros de sua cabeça, como se soubesse que o espírito da garota era muito parecido a ela própria, alguma coisa colorida e leve.

Ao descer, Regina dissera solenemente:

—      Obrigada por me trazer, Sr. Harrison.

—      Claro, foi um prazer — disse ele, com igual gravidade.

Teriam que tomar alguma providência quanto a esse detalhe do “Sr. Harrison” antes do fim do dia. Ele sentia que a formalidade era uma das defesas dela, uma forma de evitar uma aproximação excessiva, pelo receio de acabar sendo rejeitada, como tinha ocorrido durante sua primeira adoção. Mas era também um receio de dizer ou fazer a coisa errada, e destruir involuntariamente aquela perspectiva de felicidade.

Diante da porta, ele disse:

—      Ou eu ou Lindsey iremos pegar você na escola todos os dias... a menos que você tenha carteira de motorista e prefira ir e vir por conta própria.

Ela ergueu os olhos para Hatch. A borboleta estava descrevendo círculos sobre sua cabeça, como se fosse uma coroa viva ou um halo. Ela disse:

—      Isso é uma provocação, não é mesmo?

—      Bem, sim. Creio que é.

Ela enrubesceu e olhou para o lado, como se não pudesse decidir se uma tal provocação era uma coisa boa ou má. Hatch quase podia ouvir os pensamentos dela: Ele está me provocando porque acha que sou esperta ou então porque acha que sou irremediavelmente estúpida; ou algo parecido.

Durante todo o trajeto da escola até ali, Hatch tinha percebido que Regina sofria de insegurança; ela achava que conseguia disfarçar bem, mas sempre que essa insegurança a acometia isso se evidenciava em seu rosto belo e extraordinariamente expressivo. Sempre que ele percebia essas rachaduras na autoconfiança da garota, tinha vontade de colocar os braços em torno dela, abraçá-la com força, confortá-la — o que seria exatamente a coisa mais errada a fazer, porque mostraria que seus momentos de sofrimento íntimo eram totalmente visíveis aos olhos dele. Ela forçava a si mesma a ser firme, flexível e auto-suficiente. E projetava essa imagem para o mundo, como uma espécie de armadura.

— Espero que não se incomode com umas pequenas provocações de vez em quando — disse ele, enquanto enfiava a chave na porta. — É o meu jeito. Eu bem que podia me inscrever nos Provocadores Anônimos e me livrar desse vício, mas dizem que o tratamento é muito pesado. Eles nos surram com mangueiras de jardim e nos obrigam a comer feijão-fradinho.

Ele imaginou que depois que um certo tempo tivesse passado, quando ela sentisse que era amada por eles e que fazia parte daquela família, sua autoconfiança estaria tão sólida quanto ela precisava; enquanto isto, a melhor coisa que ele poderia fazer era fingir que a via exatamente como ela queria ser vista: e com cuidado, com paciência, ajudá-la a se tornar a pessoa firme e segura que ela sonhava ser.

Quando ele abriu a porta e os dois entraram, Regina disse:

—      Houve um tempo em que eu detestava feijão-fradinho, todo tipo de feijão, mas fiz um trato com Deus. Se ele me desse... uma coisa que eu queria, eu comeria feijão sem me queixar pelo resto da vida.

No saguão, fechando a porta atrás deles dois, Hatch falou:

—      Puxa, isso é que é promessa. Deus deve ter ficado impressionado.

—      Espero que sim — disse ela.

 

No sonho de Vassago, Regina movia-se banhada pela luz do sol, com uma de suas pernas apoiada num aparelho de metal; uma borboleta a sobrevoava, como se ela fosse uma flor. Uma casa flanqueada por palmeiras. Uma porta. Ela ergueu os olhos para Vassago, e seus olhos reveleram uma alma com uma vitalidade tão tremenda e um coração tão vulnerável que o coração dele próprio começou a bater acelerado, mesmo durante o sono.

Eles encontraram Lindsey no andar de cima, no quarto extra que lhe servia de estúdio de trabalho. O cavalete estava virado de costas para a porta, de modo que Hatch não podia ver a pintura. A blusa de Lindsey estava meio ensacada nos jeans, meio para fora; seu cabelo era desarrumado, havia uma mancha de tinta vermelho-ferrugem em sua bochecha esquerda, e tinha um olhar que Hatch já conhecia de muitos anos de prática: estava na derradeira fase de trabalho febril numa pintura prestes a se tornar exatamente o que ela esperava.

—      Olá, querida — disse ela para Regina. — Como foi a escola?

Regina sentiu-se atrapalhada, o que sempre acontecia quando alguém a tratava com expressões de carinho.

—      Bem... escola é escola, você sabe.

—      Bem, você parece que gosta de lá. Estou sabendo que tem ótimas notas.

Regina encolheu os ombros diante do elogio e pareceu constrangida. Reprimindo um impulso de abraçar a garota, Hatch disse a Lindsey:

—      Ela vai ser uma escritora quando crescer.

—      É mesmo? — disse Lindsey. — Que maravilha. Sabia que você gostava de livros, mas não imaginei que planejasse escrever também.

—      Nem eu — disse Regina, e de repente ela engrenou e foi em frente, sentindo que sua timidez inicial em relação a Lindsey já fora superada; as frases jorravam aos borbotões enquanto ela rodeava o cavalete para olhar a pintura quase pronta. — Foi só no Natal do ano passado, quando meu presente embaixo da árvore, no orfanato, eram seis livros. Não eram livros para crianças de dez anos, eram livros de verdade, porque leio coisas do segundo grau, coisa de quem tem quinze anos. Sou o que eles chamam de precoce. Seja como for, esses livros foram o melhor presente que já ganhei, e achei que seria tão legal se um dia uma garota num orfanato ganhasse livros meus no Natal e sentisse o que senti daquela vez... não que eu vá ser uma escritora tão boa quanto Daniel Pinkwater ou Christopher Pike. Puxa vida, esses aí estão acima de tudo, na minha opinião, eles estão ao lado de Shakespeare e Judy Blume. Mas tenho umas boas histórias para contar, e nem todas são bobas quanto aquela merda do porco-vindo-do-espaço. Epa, desculpe, eu quis dizer cocô. Quer dizer, aquela droga. Aquela droga de história de porco-vindo-do-espaço. Nem todas são como essa.

Lindsey nunca permitira que Hatch — ou qualquer outra pessoa — visse um quadro seu ainda em processo de criação; ela sempre esperava para exibi-lo somente depois de ter aplicado a última pincelada. Embora o quadro em que trabalhava no momento estivesse próximo de ser concluído, ela ainda estava em pleno trabalho — de modo que Hatch ficou surpreso quando viu que Lindsey nem sequer piscou os olhos no momento em que Regina rodeou o cavalete para apreciar a pintura. Ele decidiu que nenhuma criança, só porque tinha um narizinho lindo e cheio de sardas, teria direito a um privilégio qualquer que era negado a ele, de modo que também rodeou o cavalete para dar uma olhada.

Era um quadro extraordinariamente bom. A paisagem de fundo era um espaço cheio de estrelas, e superposto a ele havia o rosto transparente de um menino, um rosto cheio de uma beleza etérea. Não era um menino qualquer. Era Jimmy. Quando ele era vivo, Lindsey o tinha utilizado como modelo algumas vezes, mas nunca depois de sua morte... até aquela data. Era um Jimmy idealizado, e com tal perfeição que seu rosto bem poderia ser o rosto de um anjo. Seus belos olhos estavam voltados para o alto, na direção de uma luz cálida que caía sobre ele, e tinham uma expressão mais profunda do que mera alegria. Era uma expressão de êxtase. Em primeiro plano, ocupando o ponto focal do quadro, flutuava uma rosa negra, não transparente como o rosto, mas reproduzida em detalhes tão minuciosos que Hatch quase podia sentir a textura aveludada de cada uma das suas pétalas lustrosas. O talo verde da haste estava úmido de orvalho, e os espinhos estavam pintados com pontas tão agudas que Hatch quase acreditou que seria capaz de furar o dedo se os tocasse. Sobre uma das pétalas negras, brilhava uma gota solitária de sangue rubro. De uma maneira misteriosa, Lindsey tinha conferido àquela rosa flutuante uma aura quase sobrenatural, de modo que ela atraía a atenção e o olhar com uma força quase magnética. E no entanto o garoto não olhava para a rosa: olhava para o alto, na direção daquele objeto radiante que somente ele podia ver, dando a idéia de que, por mais poderosa que pudesse ser a imagem daquela rosa, ela não tinha para ele o menor interesse, em comparação com a fonte daquela luz que jorrava do alto.

Do dia da morte de Jimmy até a ressurreição de Hatch, Lindsey recusara-se a procurar abrigo junto a qualquer deus capaz de criar um mundo onde existisse a morte. Lembrou do dia em que um padre lhe sugerira a prece como um meio de encontrar a resignação e a cura do sofrimento psicológico; e a resposta de Lindsey tinha sido uma rejeição curta e seca: Preces nunca funcionam. Não espere milagres, padre. Os mortos continuam mortos, e os vivos apenas esperam o instante de juntar-se a eles. Agora, alguma coisa tinha mudado nela. A rosa negra no quadro simbolizava a morte. E ainda assim ela não exercia nenhum poder sobre Jimmy. Ele tinha ido além da morte, e ela não significava mais nada para ele. Ele se elevava acima dela. E pelo simples fato de poder conceber um quadro como aquele e executá-lo de maneira tão impecável, Lindsey descobrira um modo de finalmente dizer adeus ao garoto, um adeus sem lamentações, sem amargura, um adeus cheio de amor e com uma surpreendente aceitação da necessidade de crer em algo mais do que uma vida destinada a acabar sempre num buraco frio e escuro aberto no chão.

— É tão bonito — disse Regina, com genuína admiração. — Dá um pouco de medo... não sei por quê; mas é lindo.

Hatch ergueu os olhos da pintura e encontrou o olhar de Lindsey; tentou dizer algo, mas não conseguiu falar. Desde sua ressurreição, tanto o coração dele quanto o de Lindsey haviam experimentado um processo de renascimento, percebendo o erro que tinham cometido em perder cinco anos de vida, devotados totalmente à dor. Mas, em algum nível mais profundo, ainda não aceitavam a idéia de que a vida poderia voltar a ser tão bela quanto fora antes daquela morte; na verdade, eles ainda não tinham deixado Jimmy partir. Agora, ao cruzar seu olhar com o de Lindsey, ele soube que ela finalmente aceitara a esperança mais uma vez, sem reservas ou restrições. O peso da morte de Jimmy caiu sobre Hatch naquele instante como não o fazia há muito tempo, porque se Lindsey era capaz de fazer as pazes com Deus, ele devia fazer a mesma coisa. Tentou mais uma vez dizer alguma coisa, e mais uma vez não pôde: olhou novamente para o quadro, percebeu que ia chorar, e abandonou o estúdio.

Não sabia onde estava indo. Quase sem perceber seus próprios passos, ele desceu a escada rumo ao andar térreo, entrou na saleta que tinha oferecido a Regina para servir-lhe de quarto, abriu as portas laterais e saiu para o roseiral que ficava do lado da casa.

À luz do sol de fim de tarde, as rosas eram vermelhas, brancas, amarelas, róseas e da tonalidade da pele de um pêssego; algumas eram simples botões e outras largas do tamanho de um pires, mas nenhuma delas era negra. O ar estava cheio de sua fragrância encantadora.

Com o gosto salgado das lágrimas ainda no canto da boca, Hatch estendeu as mãos para a roseira mais próxima, com a intenção de acariciar as flores, mas deteve-se a meio caminho. Com os braços assim estendidos, ele de repente sentiu como se segurasse um peso. Não havia nada pousado sobre eles, na verdade, mas ele reconhecia aquele peso; lembrava, como se tivesse sido há apenas uma hora atrás, como estava leve o corpo de seu filho, consumido pelo câncer.

Nos derradeiros momentos antes da visita fatídica da morte, no hospital, ele retirara os fios e os tubos presos ao corpo de Jim. Erguendo o garoto da cama encharcada de suor, foi sentar-se numa cadeira perto da janela, segurando-o de encontro a si e murmurando baixinho ao seu ouvido, até que a respiração cessou de fluir através daqueles lábios pálidos e entreabertos. Até o dia de sua própria morte, Hatch lembraria com precisão o peso daquele corpo emagrecido em seus braços, os ossos pontudos com tão pouca carne para recobri-los, aquele calor terrivelmente seco que se filtrava através da pele quase translúcida pela doença, aquela fragilidade de cortar o coração.

Voltou a sentir tudo aquilo naquele instante, em seus braços estendidos, em meio ao roseiral. Erguendo os olhos para o céu de verão, ele perguntou, como se houvesse alguém que pudesse responder-lhe:

— Por quê? Ele era tão pequeno. Porra, ele era tão pequeno!

Ao falar, sentiu que aquele peso era muito maior do que tinha sido no quarto do hospital: era um fardo de mil toneladas repousando nos seus braços, porque ele não queria libertar-se dele tanto quanto imaginava. Mas, nesse instante, algo estranho aconteceu — o peso em seus braços foi pouco a pouco diminuindo, e o corpo invisível de seu filho pareceu flutuar para longe de seu abraço, como se a carne tivesse se transmutado totalmente em espírito depois de todo aquele tempo, como se Jim não necessitasse mais de conforto ou de nenhum tipo de consolo. Hatch abaixou os braços.

Talvez, daquele momento em diante, a recordação doce e amarga de um filho morto pudesse se transformar na recordação doce de um filho que tinha sido amado. E talvez, dali em diante, não fosse mais uma lembrança tão pesada no seu coração.

Ele ficou parado no meio do roseiral.

O dia estava morno. A luz do entardecer banhava todas as coisas com um reflexo dourado.

O céu estava absolutamente claro — e totalmente misterioso.

Regina perguntou se podia colocar alguns dos quadros de Lindsey em seu quarto, e havia sinceridade na sua voz. Juntas, escolheram três pinturas, pegaram alguns ganchos de pendurar quadros e os penduraram no lugar escolhido pela garota, juntamente com um crucifixo de trinta centímetros de altura que ela trouxera consigo do orfanato. Enquanto trabalhavam, Lindsey perguntou:

—      Que tal jantarmos uma pizza, num lugar absolutamente fantástico; que conheço?

—      Ótimo! — disse a garota. — Adoro pizza.

—      A pizza de lá vem com uma camada bem espessa, um montão de queijo.

—      Com pepperoni!

—      Cortado bem fininho, mas vem muito.

—      Lingüiça?

—      Claro, por que não? Mas tem certeza de que isso não vai fazer mal a uma vegetariana radical como você?

Regina corou.

—      Oh.., aquilo. Eu falei tanta merda naquele dia. Ai, meu Deus! Perdão. Quer dizer, falei tanta porralouquice. Não! Tanta bobagem.

—      Tudo bem — disse Lindsey. — Todos nós dizemos bobagens mais cedo ou mais tarde.

—      Você não diz. O Sr. Harrison não diz.

—      Acha mesmo? Espere só para ver.

Subindo num banco junto à parede oposta à cama, Lindsey bateu cuidadosamente um dos ganchos. Regina estava segurando a pintura; ao pegar o quadro das mãos da garota, Lindsey prosseguiu:

—      Escute, você pode me fazer um favor hoje à noite, quando formos jantar?

—      Claro.

—      Sei que é meio confuso para você... toda esta nova situação. Você ainda não se sente totalmente em casa, e provavelmente não vai se sentir por um longo tempo...

—      Oh, estou gostando muito daqui — protestou a garota.

Lindsey passou o arame por cima do gancho na extremidade do prego e ajustou a moldura até deixá-la bem horizontal. Depois sentou-se sobre o banquinho, o que a deixou em posição de olhar para a garota face a face. Tomou as mãos de Regina nas suas, tanto a normal quanto a mão defeituosa.

—      Eu sei — disse. — Você está gostando daqui. Mas sabemos que não é a mesma coisa que estar em sua própria casa. Não quero forçar você a coisa alguma; preferiria dar tempo ao tempo, mas... Mesmo que isto pareça um pouco cedo demais para você, será que hoje, durante o jantar, você poderia não nos chamar de Sr. e Sra. Harrison? Especialmente Hatch. Seria muito importante para ele, neste momento, se você pudesse chamá-lo pelo menos de Hatch.

A garota baixou os olhos e fitou as mãos entrelaçadas das duas.

—      Bem, eu acho que... claro... Tudo bem.

—      E sabe de uma coisa? Acho que isto é pedir a você mais do que seria justo... fazer esse pedido antes que você o conheça melhor. Mas... sabe qual seria a melhor coisa no mundo para ele, atualmente?

A garota continuava fitando suas mãos.

—      Qual? — disse ela.

—      Se alguém conseguisse chamá-lo de “papai”. Não diga “sim” ou “não” agora. Basta que pense nisso. Mas seria uma coisa maravilhosa para ele, por motivos que não tenho tempo de explicar agora. E lhe garanto uma coisa, Regina... ele é um homem muito bom. Fará qualquer coisa por você, dará a vida por você, se necessário, e nunca lhe pedirá nada em troca. Ele ficaria aborrecido comigo se soubesse que estou tendo esta conversa com você, mas na verdade tudo que estou pedindo é que pense um pouco neste assunto.

Após um longo silêncio, a garota ergueu os olhos e assentiu.

—      OK. Eu vou pensar, sim.

—      Obrigada, Regina — disse Lindsey, erguendo-se. — Vamos pendurar aquele último quadro.

Lindsey fez as medidas, marcou cuidadosamente com um lápis o ponto exato da parede e pregou mais um gancho.

Quando Regina lhe estendeu o quadro, disse:

—      É que durante toda minha vida... nunca houve ninguém que eu chamasse “mamãe” e “papai”. É uma coisa muito nova para mim.

Lindsey sorriu.

—      Eu entendo, querida. Entendo mesmo. E Hatch também, mesmo que demore algum tempo.

 

Por entre a fornalha ardente que era a Casa Assombrada, enquanto os gritos por socorro e os uivos de dor se tornavam cada vez mais altos, um estranho objeto apareceu no meio da luz das chamas. Uma rosa. Uma rosa negra. Flutuava como se um mágico, à distância, a mantivesse solta no ar. Vassago nunca vira nada mais belo do que aquilo no mundo dos vivos, no mundo dos mortos ou nos seus sonhos. Ela cintilava diante dos seus olhos e suas pétalas eram tão lisas e suaves que pareciam ter sido feitas de fatias cortadas do bloco negro de um céu vazio de estrelas. Os espinhos eram incrivelmente pontudos e pareciam agulhas de vidro. A haste verde tinha o aspecto luzidio da pele de uma serpente. Em cima de uma das pétalas, havia uma gota de sangue.

A rosa foi se desvanecendo aos poucos em meio ao seu sonho, mas daí a pouco retornou — juntamente com a mulher chamada Lindsey e a garota de cabelos avermelhados e belos olhos cinzentos. Vassago sentiu um intenso desejo de possuir as três: a rosa negra, a mulher, a garota de olhos cinzentos.

Hatch banhou-se para o jantar e, enquanto Lindsey também se preparava no banheiro, ele sentou-se na beira da cama em seu quarto de dormir e leu o artigo de S. Steven HonelI na Arts American. Ele podia dispensar sem muito esforço qualquer insulto contra si próprio, mas se alguém agredisse Lindsey ele sempre reagia com raiva. Nem mesmo conseguia ler críticas sobre o trabalho dela que ela própria admitia como justas. Lendo o artigo de Honell, e vendo o quanto era maldoso, vulgar, e em última análise estúpido, Hatch foi ficando mais irritado a cada frase que lia daquela longa diatribe que classificava toda a carreira artística de Lindsey como “um desperdício de energia”.

E, assim como acontecera na noite anterior, seu aborrecimento avolumou-se até se transformar numa erupção de fúria vulcânica. Suas mandíbulas se cerraram com tanta força que os dentes começaram a doer. A revista tremia, porque suas mãos tremiam de fúria. Sua vista ficou embaçada como se ele estivesse contemplando as coisas através de ondas tremulantes de calor, e ele teve que piscar e apertar os olhos para recuperar o foco sobre as palavras e prosseguir na leitura.

Tal como na noite anterior, ele sentiu como se sua raiva tivesse aberto uma porta, permitindo a entrada de alguém — um espírito mau que não conhecia outra coisa senão o rancor e o ódio. Ou talvez estivesse dentro dele o tempo todo, só que permanecia adormecido e tinha sido despertado pela sua irritação. Hatch sentia que não estava sozinho dentro de sua própria mente. Tinha consciência de uma presença estranha, como uma aranha caminhando pelo espaço estreito entre a parte interna de seu crânio e a superfície de seu cérebro.

Tentou jogar a revista para um lado e acalmar-se. Mas continuou lendo, porque não tinha mais controle sobre si mesmo.

 

Vassago movia-se através da Casa Assombrada, sem que o fogo o tocasse, porque já tinha planejado uma rota de fuga. Às vezes ele tinha doze anos de idade naquela cena, outras vezes tinha vinte. Mas seu trajeto era sempre iluminado pelas mesmas tochas humanas, algumas das quais já haviam tombado ao chão, transformando-se em montes que se derretiam silenciosamente sobre o chão fumegante ou que explodiam em labaredas à sua passagem.

No sonho ele levava nas mãos uma revista, aberta na página de um artigo que por alguma razão lhe causava raiva, mas que ele se sentia poderosamente impelido a ler, mesmo assim. As bordas das páginas se dobravam sobre si mesmas devido ao calor e ameaçavam pegar fogo. Nomes saltavam daquelas páginas para os seus olhos. Lindsey. Lindsey Sparling. Agora ele tinha um sobrenome para ela. Sentiu um impulso repentino de jogar a revista para um lado, dominar a respiração, acalmar-se. Mas em vez disso estimulou a própria raiva, deixou aquela doce torrente de fúria correr através de si e disse a si mesmo que precisava ver mais, saber mais. As bordas das páginas já estavam totalmente retorcidas pelo calor. Honell. Outro nome: Steven Honell. Pedaços de destroços em chamas caíam do teto sobre a página da revista. Steven S. Honell. Não... o S. vinha primeiro. S. Steven Honell. O papel inflamou-se. Honell. Um escritor. Um bar... um bar-restaurante em Silverado Canyon... Em suas mãos, a revista irrompeu em chamas que saltaram de encontro ao seu rosto...

Ele saltou para fora do sono como uma bala disparada salta para fora de seu cartucho e sentou-se no colchão, no meio da treva profunda de seu esconderijo. Totalmente desperto. Excitado. Agora sabia o bastante para chegar até a mulher.

 

Num instante o ódio lavrava como uma fogueira através de Hatch, e no instante seguinte estava extinto. Seu queixo se descontraiu, seus ombros retesados relaxaram e seus dedos se afrouxaram tão bruscamente que a revista tombou no chão aos seus pés.

Ele continuou por algum tempo sentado na beira da cama, atordoado e confuso. Olhou na direção da porta do banheiro, aliviado em perceber que Lindsey não tinha entrado no quarto enquanto ele estava... estava o quê? Em transe? Possuído?

Cheirou algo estranho, algo fora do normal... Fumaça.

Olhou para o exemplar de Arts American no chão, entre os seus pés. Apanhou-o, hesitante. Ainda estava aberto na página do artigo de Honell a respeito de Lindsey. Embora nenhum vapor se evolasse da revista, ela exalava um perceptível cheiro de fumaça. Cheiro de madeira queimada, plástico, alcatrão, borracha queimada... e algo pior. As bordas das páginas estavam enroladas sobre si próprias, como se tivessem sido expostas a uma temperatura capaz de fazer o papel entrar em combustão espontânea.

 

Quando bateram à porta, Honell estava sentado numa cadeira de balanço perto da lareira. Bebia uma dose de Chivas Regal e relia um de seus romances, Miss Culvert, que escrevera há 25 anos, quando tinha trinta anos de idade.

Todos os anos ele costumava reler cada um dos nove livros que tinha publicado, porque vivia numa perpétua competição consigo mesmo, tentando aperfeiçoar-se à medida que ficava mais velho, em vez de deixar-se deslizar mansamente para a senilidade, como a maioria dos escritores. Esse aprimoramento constante era um enorme desafio, porque ele tinha sido tremendamente bom quando era mais jovem. Cada vez que relia seus trabalhos, ficava surpreendido ao constatar que sua obra era consideravelmente mais forte do que ele próprio era capaz de lembrar.

Miss Culvert era um tratamento ficcional da vida de sua mãe, uma vida totalmente voltada para si mesma, na respeitável sociedade de alta classe média de uma cidade do interior de Illinois; e uma crítica à cultura superficial e conservadora do Meio-Oeste. E ele tinha de fato captado ali a essência da megera. Oh, se tinha. Ao reler Miss Culvert ele lembrou do horror com que sua mãe recebera o livro quando de sua primeira edição; e naquele instante decidiu que, assim que terminasse a leitura, iria reler também a sua continuação, Mrs. Towers, que tratava do casamento dela com seu pai, sua viuvez e seu segundo matrimônio. Ele ainda estava convencido de que este segundo livro causara a morte de sua mãe. Oficialmente, tinha sido um ataque cardíaco. Mas um ataque cardíaco geralmente é deflagrado por alguma coisa, e naquele caso ele sucedera de modo estranhamente coincidente com o lançamento de Mrs. Towers e a atenção que o livro recebeu por parte de toda a mídia.

Quando alguém bateu inesperadamente à porta, uma contração de aborrecimento passou através do corpo de Honell. Seu rosto se fechou numa carranca. Preferia a companhia de seus personagens à de qualquer pessoa que tivesse a idéia de fazer-lhe uma visita sem ser convidado. Ou mesmo sendo. Todas as pessoas em seus livros eram cuidadosamente definidas e delineadas, enquanto que as pessoas da vida real eram sempre... bem, eram desfocadas, opacas, incomodamente complexas.

Olhou para o relógio por sobre a lareira. Nove e dez.

Bateram novamente, desta vez com mais insistência. Provavelmente um dos vizinhos, o que era uma idéia preocupante, uma vez que seus vizinhos eram todos uns idiotas.

Pensou em não atender. Mas numa região rural como a daquele canyon, as pessoas tinham o hábito de ver a si próprias como “bons vizinhos”, e nunca como os pentelhos que eram de fato; e se ele não atendesse à porta o visitante certamente iria rodear a casa e espreitar pelas janelas, imbuído daquela preocupação provinciana com o bem-estar do outro. Deus do céu, como ele detestava aquilo. Só conseguia conviver com eles porque detestava ainda mais as pessoas das grandes cidades e tinha verdadeira repulsa por gente dos subúrbios.

Pousou a dose de Chivas e o livro, levantou-se da cadeira de balanço e foi até a porta com o firme propósito de passar uma descompostura em quem estivesse ali no pórtico. Com a sua verve, ele era capaz de deixar qualquer pessoa arrasada em menos de um minuto e não precisava de mais de dois minutos para fazê-la bater em retirada em busca de proteção. O prazer de humilhar alguém dessa forma quase serviria como uma boa compensação por aquele incômodo.

Quando afastou as cortinas que cobriam a vidraça da porta da frente, ficou surpreso ao ver que o visitante não era um de seus vizinhos — na verdade, ninguém que ele conhecesse. Era um rapaz de não mais de vinte anos, pálido como as asas das mariposas que esvoaçavam em redor da lâmpada do terraço. Vestia-se totalmente de preto e usava óculos escuros.

Honell não teve qualquer receio sobre as intenções do visitante. O canyon ficava a menos de uma hora das áreas mais populosas do condado de Orange, mas ainda assim podia ser considerado um lugar remoto, devido aos acidentes geográficos e à má condição das estradas. O crime não constituía um problema ali: assaltantes eram geralmente atraídos para as áreas mais populosas, onde as possibilidades de sucesso eram mais ricas e variadas. Além do mais, a maioria das pessoas que vivia naquela área não tinha nada que valesse a pena roubar.

Ele sentiu uma certa curiosidade por aquele rapaz pálido,

—      O que deseja? — disse, sem abrir a porta,

—      Sr. Honell?

—      Sim.

—      S. Steven Honell?

—      Sim. Vai me torturar, ou o quê?